POR
JERONYMO OSORIO,
BISPO DE SYLVES:
VERTIDOS EM PORTUGUEZ
PELO PADRE
FRANCISCO MANOEL DO NASCIMENTO.
TOMO I.
LISBOA. M.DCCC.IV.
NA IMPRESSÃO REGIA,
POR ORDEM SUPERIOR.
| Pag. | |
| LIVRO I. | 3 |
| LIVRO II. | 100 |
| LIVRO III. | 212 |
| LIVRO IV. | 329 |
3
BEM que eu seja do animo, integerrimo Principe D. Henrique, de que nada ha mais proveitoso que a Historia para adquirir prudencia, nem mais poderoso que ella para despertar virtudes, mais saudavel para sanear as feridas da Republica, nem mais aprazivel para o deleitamento da vida; e bem que me admoestassem meus amigos que désse com a lingua Latina lustre as façanhas dos nossos Portuguezes, muito longe me desviava deste seu desejo. Dous motivos deste meu desvio mórmente me pezavão a difficuldade de abonar o que dissesse, e o risco de ter a muitos por offendido. Que se me não acreditasse, passaria pela nota de leviano; e não contentando a ambição de muitos, me acarearia malquerenças acerbas e crueis. E vemos (segundo os homens forão sempre) que não crêm nunca feitos, que sahem além de seu engenho e posses: nem ha meio que admittão o que sobrepuja os 4termos de trivial esforço, e usada industria. Aquelles porém que á sua ambição não encravão baliza alguma, soffrem pezadamente que lhes não illustrem os seus maiores com desmesurados elogios. O que sendo já de vóga nas outras Nações, mette entre os Lusitanos em tanto perigo ás vezes o emprego de Historiador, que a tanto se arroja, quanto he o dar-se por alvo a todas as lanças. Já mais que muito o experimentou na Historia, que em vulgar compoz Damião de Góes, das cousas que com a virtude, auspicio, e increivel felicidade de teu invictissimo Pai D. Manoel se obrárão; porque dizia hum: Não adornou os merecimentos de meus Antepassados, como delles se requeria. Salpicou com manchas o lustre, dizia outro, de nosso antigo solar. Este em fim: Passou em silencio este ou aquelle feito, que fora brazão insigne para nosso appellido. E se de homem sizudo he avisar-se com o perigo alheio, este exemplo só bastára para, descorçoado de escrever, me assustar com o successo.
Achegava-se outro obstaculo, que applicado, como me pedia o meu Estado, a tratar e explicar quanto em mim fosse divinas materias, não tinha por acerto desfitar do Ceo os olhos, para os abaixar á terra com tanto desvelo, que sobrestasse nas divinas, em quanto lidasse em illustrar as humanas cousas.
Mas quanto mais empeços me atalhavão 5de emprehender o encargo historico, mais claro se mostra o animo, que sempre se me abrazou em ardentissimo obsequio de teu nome, e tua grandeza. Que quando por cartas, e não com mandos (que muito bem te coubera empregar) me obrigasses; antes, como he de tua excellente, e quasi divina brandura, amigamente me pedisses e admoestasses que de ElRei teu Pai escrevesse os feitos, e com latino modo os vingasse do esquecimento entre as estrangeiras Nações, não pude conter o animo, que esse emprego não abraçasse logo.
Muitas razões me convidavão a tanto. Primeira, que sem crime de despiedade não podia ter em pouco a tua vontade; e depois que tinha indignissimo que o nome de D. Manoel, tão grande entre os Lusitanos, não se estendesse com universo espanto por todas as Nações da fé christã.
Tambem me movia com agudo estímulo ver que não só tomava nesta Obra o pezo a feitos de homens, mas tambem a divinos. Que assim como por divino aceno foi D. Manoel alçado á real grandeza; assim tambem quanto delineou, quanto prefez, quantas façanhas a seu mando se cumprírão, á benignidade de Deos se tem de referir; e em muitas cousas admiraveis he tão visivel a Mão divina que as administrou, que entrára em suspeita de ímpio e perfido quem lhes refusasse crença.
Para maior facilidade minha servio muito 6ter já d’antes Damião de Góes tirado com muita industria, desvelo e fadiga de muitas Cartas e Memorias o que me deixou escrito, que sem vagar sobejo me fora improbo de averiguar. Tenho além disso muitas apostillas, que tirei de algumas escrituras; outras que ouvi, as quaes não deixarei em silencio.
E como pelos Livros achei, que dão aos nossos conterraneos ou já o nome de Portuguezes, ou já de Lusitanos, quero dar a razão dessa differença. Portugal, como abertamente mostra André de Rezende, homem doutissimo, vem do porto de Cale (que Cale se chamava outrora hum lugarejo ignobil, que sobre-estava ao rio Douro) como situado na emposta d’huma, e em baixo o porto de pescadores frequentado. E como para alli concorressem pelo commodo infinidade de homens, veio ao ponto de ser Cidade opulentissima, e dalli lhe veio o nome de Portugallia, que abrangeo o Reino todo.
E o Reino de Portugal contém não (como quer Paulo Jovis) pequena parte da Lusitania, mas muito grande; porque a que della cabe a Portugal, se encerra entre o Douro e Guadiana por longitude de 320$000 passos de área. Ajuntai-lhe pelo Norte a Galliza Bracarense, que limitão o Minho e Douro; e algumas Cidades além do Guadiana, que o Reino de Portugal comprehende: que não menos se achegou aos confins de Portugal, tirado á Betica 7e á Galliza, que o que da antiga Lusitania perdeo. Que se d’hum lugar com o progresso do tempo se derivou por todo o Reino o nome, que muito que de tão grande parte da Lusitania que lhe ficou, ficasse tambem o nome? Pelo que não me creio vedado usar de ambos. Mas isto de pouco monta.
O que porém aconselho e admoesto a todos que folhearem estes meus escritos, he que ponderem em seu animo quão várias, e quão fortemente admirandas cousas se concluírão no ambito de 26 annos (que he quanto ou pouco mais o que esta historia abarca): que mares, que paragens, que regiões não descubrírão: que guerras contra Reis potentissimos não acabárão com invicto esforço: que sustos não desprezárão intrepidos, para que de lá entendão, que não aos homens compete o louvor de tão grandes obras, mas (e com summa razão) a Deos, cuja presença foi clara aos nossos. E com mais clareza ainda, quando os Lusitanos de muito confiados em si, forão vencidos desses mesmos inimigos, para que advertissem que são vãos os poderes humanos, quando no adjutorio do Ceo se não escórão.
Para que pois daqui, Eminentissimo Principe, tomemos o exordio, que requer a ordem dos successos:
D. João, Rei de Portugal, segundo do nome, que languia de diuturna e lenta enfermidade, 8se transportou aos confins da Lusitania para a banda do Sul, que o Oceano limita, e tem hoje o nome Algarve, para com suas mui saudaveis caldas se restaurar da molestia. Rebentão estas aguas de viva pedreneira sobre hum valle, seis ou sete milhas ao mais arredadas do mar; e pelo acorde parecer de todos, são preferidas a quantos banhos surgem na Lusitania. Remedio, que tentado em vão, não impedio a doença de aggravar d’hum dia ao outro; não sem suspeita, que ElRei se hia minando de peçonha lenta[1], que impróvido bebêra.
Sentindo que appropinquava a morte, fez em Alvor Villa do Algarve (que muitos dão pelo Porto de Annibal) testamento, em que instituio D. Manoel seu Primo, herdeiro do Reino, que ainda quando D. João morrêra intestado, lhe caberia de direito, por ser D. Manoel filho de D. Fernando, que era irmão de D. Affonso V, e este Pai d’ElRei D. João. Como porém de sua mulher legitima não obteve D. João filhos (que morrêra em Scalabis, hoje Villa Santarem, despenhado de fogoso cavallo, o unico filho de D. Leonor, D. Affonso na flor da adolescencia), a D. Manoel tocava de necessidade a herança do Reino. Por quanto Jorge filho de D. João, dado que filho de mulher mui nobre, pelas Leis, e 9Ordenanças do Reino não podia, por bastardo, ser herdeiro.
E com summa vontade approvou D. João o que a D. Manoel por direito era devido: que o amava elle muito não tanto pela proximidade do sangue, quanto pelas virtudes, e o amar com estreita brandura, e indole régia que nelle via, e pela qual lhe accrescentava a dignidade com quanto lustre podia; além de ser irmã de D. Manoel a Rainha D. Leonor, mulher de extremada piedade, virtudes, e religião.
Acabado o testamento, e recebidos, como he dado, todos os Sacramentos, que servem a purificar o espirito, deixou D. João de modo o mundo, que naquella ultima função da vida deo claras mostras de innata virtude e piedade.
Foi varão excelso e claro, infesto aos mãos, e aos bons propicio; amante da justiça, e admiravel em todo o genero de virtudes: era arrojado e forte, e deo nas guerras não poucos exemplos de sua desteridade e egregia fortaleza: e tanta era a amplidão de seu animo, que com o corpo na patria, peregrinava com o entendimento pelo mundo universo, e muitas emprezas revolvia a miudo em seu desejo, que se immatura morte no-lo não roubára, illustrarião muito a sua fama.
Gostava tanto de homens valerosos, que muitos com o lustre de militar esforço apagavão 10manchas preteritas; e aos fracos e apoucados com tal desprezo os via, que nem por homens os tinha. Acabou que lhe temessem a severidade da vingança aquelles homens, que mui ricos passão a insolentes e ferozes; com o que vierão com este seu amparo a viver vida segura os que por seu baixo estado erão alvo das suas injurias. Sim foi author da morte de muitos Fidalgos; e a Principes seus parentes matou, por entender que lhe erão pouco sujeitos, ou porque lhe maquinavão ruina; que não pudéra, a não ter obrado assim, soster a real dignidade, nem conservar-se a vida.
Foi dotado de muito engenho, e pelas agudezas que delle contão, se dá bem a conhecer de que quilate era o seu: sobre modo sagaz em penetrar os interiores dos Soberanos, que tinha por suspeitos; mui grandioso em remunerar homens de porte, que muito affeitos a elle, tinha em varias terras, para lhe servirem de entremeio de noticias, pelos quaes colhia quanto traçavão contra elle os Reis; ao que anteparava prevenido, de maneira que nunca chegassem a prejudicallo. Pelo que os Póvos mais o amavão como a Pai, do que como a Rei o respeitavão: que Pai lhes era na vontade, com que em pró delles delineava tudo. Assim he mui celebrado este seu proloquio: Que punha menos o fito em trabalhar os homens para haver ouro, que em se servir deste para alliviar os homens ao trabalho. E 11por ter ouvido que ha hum pássaro, que com o bico rasga o peito para resgatar com seu sangue a vida a seus filhinhos, mordidos mortalmente pelas cobras, mandou pôr no brazão de suas Armas hum Pelicano, que inculcasse que pela sua grei estava elle todo devotado a dar o sangue. De todas as virtudes porém, de que o dão por adornado, nenhuma foi mais admiravel que o zelo e piedade, em que ardia pela Religião Christã; pois que nem turbulentos negocios, nem tramadas conjurações contra elle, nem vicissitudes de esquivos tempos o arredárão nunca de vagar ás cousas de Deos com activo animo. Principe foi elle, que deixou seu nome benemerito a celebrar por sempre-duradoura fama.
Logo que morreo, trouxe hum pressuroso Correio a D. Manoel a nova, que elle recebeo com tão desfeitas lagrimas, que bem se denotava nellas com quanta maior tristura recebia a morte de tão optimo Principe, tão conjuncto com elle pelo sangue, do que a ancia de lhe herdar a realeza. Achava-se então D. Manoel com 26 annos de idade, de morada em Alcacer do Sal, com a Rainha D. Leonor sua irmã, mulher do fallecido Monarca: dalli foi logo, conforme a usança de nossos Maiores, e unanime consenso, solemnemente acclamado Rei, cujas funções a seu juizo (que o tinha mui applicado, zeloso de ordem, e vigilantissimo) não erão para cumpridas 12com descuido. Assim encetou o seu reinado, instituindo mui saudaveis Leis, empenhando seu maior desvelo em convocar a Cortes os tres Estados do Reino. Pelo que partio de Alcacer do Sal, e veio a Monte-Mór, Villa d’Além-Téjo, situada n’huma altura distante de Evora, obra de vinte mil passos, donde mandou Cartas de convocação aos Grandes, aos Prelados, e Procuradores das Camaras. Alli lhe trouxerão a D. Jorge, filho, como já disse, d’ElRei defunto, que tinha então quatorze annos, a quem D. Manoel abraçou com tanta affeição, e tantas lagrimas, que facilmente dellas se via o muito amor e lealdade, que sempre consagrára a D. João. Distinguia-se na comitiva de D. Jorge, entre todos pela fama de seu esforço, e pela sua urbanidade D. Diogo de Almeida, Prior da Ordem dos Hospitaleiros em Portugal, que muito privára com ElRei defunto em authoridade e em favores. Elle o dera a seu filho para olhar por suas inclinações, e para que com tal Aio aprendesse as Artes, que convinhão a seu alto nascimento. Ajoelhando-se pois com o seu Alumno, a quem tinha pela mão, ambos cubertos de arrojado nojo, assim fallou ao novo Monarca: “ElRei D. João, vosso Irmão por affecto, se Primo por parentesco, me significou morrendo, que posto se despedia mui resignado deste mundo, hum só cuidado o magoava, que era deixar orfão e desamparado este filho 13seu: e que este desamparo sómente lho adoçava de ordinario a consideração de quão benigno Vós éreis, Senhor, quão cordialmente agradecido, e quanta quéda tinheis, quanto desejo e zelo para com todas as virtudes louvaveis em hum Rei: por tanto me ordenou que em seu nome vos pedisse e requeresse, que em pago de vos ter amado como filho, e accumulado em Vós quantas dadivas pôde, e não ter perdido huma só conjunctura de vos fazer honra, conservasseis a lembrança de tão extremada vontade, e igual a trasladasseis para com seu filho, que desvalido de todo o esteio para a vida, vos deixava encommendado, pondo bem em vosso animo o que elle houvera feito por vossos filhos, se os tivesseis, acontecendo que Vós fosseis da vida antes que elle. E tambem me deixou mandado, que a este filho seu inculcasse a miudo de sempre a V. Alteza amar e respeitar, obedecendo-lhe em tudo, e esmerando-se em que na lealdade, amor e zelo para comvosco, ninguem se lhe avantajasse. Que por quanto vos era mais proximo pelo sangue, mais lhe cabia sobrepujar a todos em affeição vossa, e em vosso acatamento, e que em nenhum acto tendente á amplidão de vossa dignidade, se deixasse de alguem vencer. Aqui concluo com o que elle me mandou que executasse; mas para cumprir com o meu emprego, 14resta entregar-vos em nome delle este filho seu, de annos como vêdes, tão acerbos, orfão de tão qualificado Pai, pelo parentesco do sangue tão chegado vosso, por infortunio seu pupillo, por seu desejo e condição vosso pedidor e servo, para que acolhendo-o á vossa sombra, pelas honras com que o accrescentardes, conheção todos quão apurado em corresponder favores, e em conservar lembrança delles he vosso animo real. O que fareis, que tal he nossa confiança, e por fazello grangeareis de todos o elogio de Principe agradecido e grandioso, e com tão insigne demonstração de probidade, prendereis a Vós com mais estreito vínculo as vontades todas.” D. Diogo de Almeida despertou com esta prática saudades taes em D. Manoel, que a resposta que se apercebia a dar-lhe, sahia entallada entre soluços, e orvalhada de lagrimas; e assim em breve substancia lhe tornou: “Que D. Jorge tomaria em seu animo o lugar de filho, e que o tinha de o honrar com mercês tantas, que dellas se entendesse quanto desejo era o seu de estender e perpetuar a memoria e nome do Senhor D. João II.” Todos os fidalgos que alli se achárão, satisfeitos do que lhe ouvírão, vierão a seus pés agradecer-lho, e lhe beijárão a mão. Temos estas cousas por não desmerecedoras de lembrança, como podendo denunciar quanta era a probidade 15de ElRei D. João; pois que a saudade que delle ficou ao seu successor, não a pôde abrandar a amplidão de taes dominios; e ao mesmo tempo quão excellente era a indole de D. Manoel, que tantas e tão improvisas riquezas, com que o brindou a herança, não podérão ensoberbecello, nem olvidallo da humana brandura. Que acaba com muitos a estranhada cobiça (entrando na indubitavel posse dos bens, que por morte de Pais lhes vierão) possão mal disfarçar com affectada tristeza o contentamento de seu animo. O qual he ainda menos refreado nas heranças de Reinos, onde maiores rendas, e poder mais amplo mettem mais vigor a derribar o animo do seu assento, se lhe não acode o reforço da virtude. Sobre tudo, quando sobrevem sceptro e coroa a quem a não espera, tão longe vai ás vezes o abalo da alma, que descahe em desamparo de razão e de sentido. Nem a D. Manoel cabião leves suspeitas de ser Monarca, que tinha diante de si os Irmãos de ElRei mais idosos que elle, tinha o Principe Affonso, que ainda então vivia, e ElRei D. João seu Pai em quadra de gerar outros, pois tinha (quando morreo) só quarenta annos. Mas todos, por altos juizos de Deos (como se persuadírão muitos) passárão da vida, para lhe legar o Reinado.
Logo que as Cortes forão congregadas, por acordo unanime dos que presentes erão, instituio ElRei varias Ordenações necessarias 16ao Reino. Tambem mandou participar a ElRei Fernando, e á Rainha Isabel, que então com summa dignidade e reputação dominavão nos Reinos de Castella e Aragão, a noticia de ter sobido ao throno. Andava por esse tempo em Castella, e cabia muito com os Monarcas desse Reino, D. Alvaro, irmão de D. Fernando de Bragança, que suspeitado de traidor, perdêra a cabeça n’hum cadafalso; e bem que não abrangesse a D. Alvaro suspeita alguma facinorosa, mal que deo fé da ignominia e morte de seu irmão, se salvou de terras de Portugal com toda a sua fazenda. Nem devêra (segundo ElRei D. João lhe comminára) assentar de modo nenhum casa em Castella; mas levado da bondade e larguezas dos Reis D. Fernando e D. Isabel, pelo muito agasalho, que a seu esforço fizerão e á sua prudencia, seus Reinos escolheo para sitio de seu voluntario degredo, soltando-se da obediencia, que devia ao rigor de ElRei D. João, com lhe deixar á sua disposição as terras, que em Lusitania possuia. Este D. Alvaro, e os filhos do Duque degollado, que depois espontaneos se lançárão em desterro, pelo mesmo Embaixador os convidou amorosamente ElRei D. Manoel a tornar á Patria, para que com mór franqueza, assim tornando, os podésse empregar com honra. Outro Embaixador mandou tambem ao Papa Alexandre VI., a tão summa dignidade proximamente erguido, que lhe prestasse 17rendimento por si, e que todo o Reino de Portugal (como a Christão Principe que elle era competia) sujeitasse ás Pontificias determinações. E para mais abono dar-lhe, pedio por Cartas ao Cardeal Portuguez Jorge da Costa, pessoa mui authorizada, que deste dever em seu nome se incumbisse: cuja fé em nome d’ElRei D. Manoel prestou publicamente em Roma o Cardeal, dando acatamento perennal ao Padre Santo, mui desvelada lealdade á Santa Igreja Romana, offerecido a combater pela pureza della cada vez que assim cumprisse. Foi mui entranhavel ao Papa este leal testemunho de Sua Alteza, a quem mandou em resposta huma Carta amabilissima, em que lhe dava os parabens de ter succedido no Reinado. Applicava-se em tanto D. Manoel a expedir os negocios do Reino, e os primeiros forão as doações, que D. João por sua morte a muitos fez, as quaes o novo Rei benignamente confirmou, bem que muitos dos que com ellas erão galardoados, mais castigo merecessem que mercês. Que mui verosimil he, que nunca da lealdade cuidárão ao Principe devida, mas sim do interesse proprio todos aquelles, que quando ElRei estava a despedir-se da vida o importunavão por obter porfiados, a que elle nunca outorgára em seu juizo são, e saude inteira. Que perfidia ha hi tão feia como esperar que as amarguras da morte opprimão a mente do Principe, para com este 18auso armar ao seu desfalecimento! e de quem com mercês os cumulára, extorquirem para a avareza o que á fidelidade era devido! Que homens tão deshumanos, que affiançados á voraz cubiça, nem della os arreda o convulso rosto do Monarca moribundo, nem justissimos estimulos da pena, nem sentimento algum da humanidade! E mais ainda quando o Rei, que em tal tribulação nada refusa, por mais injustas que sejão as demandas, já não parece que do seu dá, mas sim do alheio! Faz larguezas do que usar já lhe he vedado, deixando mais estreita ao Successor a administração da Regia munificencia, com lhe estancar a fonte, que he a real riqueza. Dá os favores, quando he incapaz de tomar o pezo ao merecimento, e de os passar á usada fieira da justiça. Qual he o homem, que na enleiada escuridez da vista, no arquejo e amiudado soluço, no suor frio dos membros, na intercadencia do angustiado espirito, póde ponderar o de que cada hum he digno? De odio crédores são, e não de taes favores esses, que quando a alma do Principe pede na agonia orações que a fortaleção, lhe applicão tão grave enfadamento, instão, apertão, e em certo modo o empuxão a que com rotas moribundas vozes estrague os cabedaes do Reino. E todavia ElRei D. Manoel, por não parecer invalidar a vontade do seu optimo Antecessor, não só os dons judiciosamente conferidos por D. João ratificou, más 19ainda os astuciosamente subtrahidos. O que concluido, se entregou todo á administração da Justiça, castigando acerbamente os Juizes, que á má fé recebêrão peitas, proporcionando mais leves penas a quem mais levemente delinquíra. Aquelles porém que sãmente, e sem sobornos exercião seus cargos, segundo seus meritos lhes deo o galardão. Tambem augmentou em numero os Julgadores, para que mais facilmente fossem as causas sentenceadas, engrossando-lhes os salarios, para que a pobreza não os necessitasse a resvallar da inteireza. Dahi mandou por todo o Reino alçadas, e homens mui reputados e justos, com larguissimos poderes para vindicarem máos feitos, e extirparem, quanto coubesse no possivel, a raiz de todos os flagicios. Passou depois ao apuramento e maneio dos tributos; porque percebeo, que por negligencia dos Almoxarifes se esvahia a substancia do Reino; que ou pela avareza dos Thesoureiros desfalcada, ou em gastos superfluos consumida, embaraçava o estado do Reino em tomar assento. Que nem se póde emprehender guerra, nem bem fundar a paz, e administrar folgadamente a justiça, onde o patrimonio real, que ha de ser o instrumento da pública bonança, particulares o trasvião, ou ElRei o estraga sem proveito.
Para que o seu animo humano abrangesse a todos, vindicou os Judeos á liberdade. Tomaremos 20de mais alto (e não será alheio do que himos tratando) o como elles cahírão na servidão, para melhor clareza deste ponto. Os Reis de Castella Fernando e Isabel, mui bem inteirados das maldades inauditas perpetradas em toda a Monarquia pelos Judeos, em odio da nossa santissima Religião, despejárão delles os seus Reinos pelos annos de 1482. Houverão alguns, que allumiados da graça do Espirito Santo, abraçárão o culto e a Fé de Christo: outros, que por não desamparar casas, terras, e outros interesses, ou vendellos a perdimento e descaso, simularão confessar a Religião Christã. Todos os mais forão expulsos e desterrados: assim dispersos, pedírão a maior quantidade delles a D. João II. acolhimento em Portugal por hum tempo limitado e requisitas condições. As principaes dellas forão, que cada Judeo pagasse a ElRei oito escudos de ouro, e dentro de certo prazo se sahirião do Reino; e que se nelle ficassem, depois de findo o aprazado tempo, perderião suas liberdades; e que ElRei a todos os que partir quizessem, lhes daria toda a franqueza de se embarcarem. Por este meio juntou ElRei D. João immenso cabedal, que tinha a summo resguardo para a passagem em Africa, e guerra acerrima, que meditava fazer aos Mouros, não tanto por ganhar renome, quanto por dilatar a Religião, e a gloria de Jesu Christo. Impedírão-lhe esta tenção varios acontecimentos 21desabridos, com que muito a fio lutou, e por ultimo a morte, que todos estes anhelos lhe soffocou. Em quanto porém viveo, se esmerou muito em soster lealmente a promessa feita aos Judeos, mandando aos que governavão nos portos de mar se houvessem de tal maneira com os Mestres dos navios, que fizessem boa passagem aos Judeos, até os desembarcar nas terras, que elles lhes designassem, não lhes fazendo, nem consentindo lhes fosse feita injúria alguma; o que muito em contrario aconteceo. Porque os Mercadores, e Arrais, que em seus navios recebião Judeos, com muitas tyrannias mui desabridamente os avexavão na viagem; e não contentes c’o preço convindo da passagem, buscavão motivos para, mal grado delles, lhes tirar mais dinheiro, e de proposito alongavão com rodeios a viagem, em ludibrio destes miseros passageiros, para lhes dar fim dos comestiveis, e os forçar a comprar-lhes o sustento, o qual a tão exorbitante custo lhes vendião, que os Judeos para o pagarem, ficavão despejados e nús, sobre os carregarem de incomportaveis affrontas, e se lograrem por força de suas mulheres e filhas; com descuido do nome Christão, que tão vilmente professavão, davão largas á brutalidade e á aleivosia. Os Judeos que tinhão ficado em Portugal, tomados de espanto de tão atrozes injúrias [que não forão tão cubertas, que por algum lado não soasse em seus 22ouvidos o voato dellas] muitos por pobreza atalhados de comprar o que relevava para a navegação no tempo prefixo, logo que este foi passado, cahírão em cativeiro; e quem queria num escravo Judeo, hia pedillo a ElRei, que, outorgando-lho, o avisava de mostrarem piedosa e branda condição; porque os Judeos não sentissem mais duro do que convinha o senhorio. Ora aconteceo isto pouco antes da morte de ElRei D. João, que [se não fora tão temporã] a opinião de todos, que a indole sua bem conhecião, era, que traçaria sua benignidade algum recurso, para todos os descativar. Nestes eixos versava a condição dos Judeos, quando ElRei D. Manoel entrou a reinar; e instruido que não de seu grado ficárão em Portugal, contra o pacto convindo, além do tempo aprazado pelo Senhor D. João, a todos deo por livres. De cuja mercê movidos os Judeos, lhe offerecêrão grande quantia de dinheiro, que elle não quiz acceitar, porque tinha assentado acarear aquella gente á devoção da Christandade com paulatinos favores.
Despachados, com muita sabedoria e uteis, estes e outros muitos negocios, applicou logo o animo á guerra de Africa. Por quanto desde que D.João I. de feliz memoria, a muito esforço e custo expugnou a mui reforçada Cidade Ceuta, assentada na orla maritima do estreito de Gibraltar, não consentírão nunca os Reis, que lhe succedêrão, interpolar a guerra 23contra os Mouriscos encetada. Já ElRei Affonso V. neto de D. João I. e Pai de D. João II. lhe tinha tomado com suas armas Tanger Cidade, e tambem Arzilla, que não longe de Tanger demóra: e morto Affonso, sempre D. João, dado que o trabalhasse mui rigorosa fortuna, e muitos e diversos cuidados o enredassem, persistio com invencivel animo a querer a guerra. Tomando estas pizadas, abraçou com igual empenho a guerra Moura: pelo que accrescentou as despezas a respeito das fortalezas e presidios Portuguezes, que proveo de guarnições mais abastadas, de vitualhas e petrechos bellicos: augmentou a paga dos soldados, deo grossas ajudas de custo aos Cabos, espertando-os com taes beneficios a peleijarem com mais valor e mais porfia. E porque estimava que na vera Christandade jaz o segredo de guerrear bem succedido [pois que Deos he quem dá o entendimento e valentia, com que as victorias se ganhão, e quem tira juizo, e força aos que determinou destruir]: além de outras recompensas, decretou que aos Sacerdotes e mais Capellães dos terços de Africa fossem applicados os dizimos de todas as páreas, que os Mouros tributarios cada anno lhe pagavão. Em quanto nestas cousas se occupava, chegão Embaixadores, que D. Fernando e D. Isabel lhe enviavão com os parabens de ter herdado o Reino, e para pedirem quizesse juntar-se com a Princeza Maria sua filha em matrimonio; 24e com muita mais instancia acabarem com elle de recolher na patria e nos despossuidos bens os filhos de D. Fernando, Duque de Bragança, que ainda vagavão no desterro. Mostrou D. Manoel aos Embaixadores ser-lhe muito acceita sua legação, e lhes disse: Que nada lhe podia ser mais grato, que tão affectuosos desejos de preclarissimos Monarcas: que sómente no que resguardava a matrimonio estava do animo a não acceitar esposa, que não tivesse antes concertado o estado de seu Reino. Isto dizia, não porque a affinidade com os Reis de Castella se lhe não affigurasse muito vantajosa, mas porque tinha grande vontade de se desposar com a Princeza D. Isabel, viuva que era do Principe D. Affonso, á qual todavia não tinha ainda descuberto o seu intento. Ácerca porém dos filhos de D. Fernando tomaria a seu cuidado dar aos Senhores Reis todo o contento. Tambem lhe foi confirmada então a nova de que D. João de Menezes, Capitão Mór de Arzilla, ganhára aos Mouros assinalada victoria.
Governava em Arzilla D. Vasco Coutinho, Conde de Borba, que accusado perante ElRei D. João, necessitou vir a Portugal justificar-se, e deixou em seu lugar a D. Rodrigo Coutinho por Capitão Mór de Arzilla em sua ausencia. Pacteava D. João II, treguas com ElRei de Fés, nas quaes como não entrassem Barraxa nem Almandarim, que entre os Mouros 25tinhão muito poderio, e não pertencião ainda ao dominio de ElRei de Fés; com as muitas lanças, que juntado tinhão, derão sobre os suburbios de Arzilla, e commettêrão sobejo estrago. Acodio D. Rodrigo com as trópas que tinha, e a peleija foi de ambas as partes bem renhida; mas mal findada para D. Rodrigo, que com muitos dos seus acabou nella, assoberbado da grande soma de inimigos. Logo que ElRei D. João teve nova desta perda, mandou a Arzilla D. João de Menezes, varão de extremada valentia, tomar o governo da Praça, e levantar com a sua presença os brios dos nossos. E ora como alguns Mouros tributarios já revéis com o nosso desastre, rejeitavão pagar o tributo, que pelos concertos com ElRei D. João lhe era devido, propoz D. João de Menezes, antes que tudo, visitar com esforçadas armas estes alterados Mouros. E para mais facil o conseguir, escreveo a Lopo de Azevedo, que então governava a Cidade Tanger, pedindo lhe mandasse alguns Cavalleiros de reforço: mandou-lhe este 50, e por Cabo delles a Pedro Leitão seu Adail, que se deo préssa a chegar naquella mesma noite ao sitio, que D. João de Menezes lhe aportava. Este, que ao sahir de Arzilla com 150 de cavallo, se unio logo com Pedro Leitão, partio em direitura contra a Aldêa, que dera a primeira nota de rebellião: e para evitar de serem presentidos, passou ordem 26aos Cavalleiros de enfiarem hum após outro a estrada em não quebrada linha; e que essa longuissima fila [tal nome tem entre soldados] caminhasse em boa ordem, precatada, e com silencio; com o que de madrugada chegou á Aldêa, para dar de sobresalto nos inimigos. Ora veio a succeder, que nessa mesma occasião Barraxa, e Almandarim com dous mui poderosos Mouros Muça e Acob vinhão accommetter armados algumas Aldêas Mouras, que erão do nosso partido: trazião sob seus pendões 2000 de cavallo, e 800 peões. D. João de Menezes para mais se inteirar desta noticia, mandou alguns Mouros dos que comsigo trazia para espias, que lhe colhessem de cilada algum dos inimigos, d’onde tirasse lingua da verdade: o que elles despejadamente fizerão, trazendo-lhe tres Mouros, que abonárão quanto elle já sabia. Por tanto decidio investir com os inimigos, dado que muitos fossem summamente adversos a esta sua resolução; porque em tal ponto libravão as cousas, que sem grande perigo de salvamento, e menoscabo de seu credito não podião recuar. Com o que teve por mais brioso ir dar assalto a gente desapercebida, que rechaçallos, quando lhe viessem ferozes no alcance; e valia mais espavorillos c’hum atrevimento, que animallos, e embravecellos c’huma retirada. Dividio subito em tres terços a sua gente, de que deo o primeiro a Pedro Leitão, composto 27dos 50 Cavalleiros que trouxera; o segundo com 30 Cavalleiros a D. João de Menezes, filho de D. Pedro, Conde de Cantanhede; e para si tomou o resto: e exhortando-os, e avisando-os do que devião fazer, guiou em busca dos Alcaides Mouros, que admirando a nossa audacia, zombavão da pouquidade. Formárão-se logo em tres corpos; mas mudando de opinião, se juntárão n’hum, para cahir de pezo sobre nós, e nos assoberbarem. Já chegão; e apenas o nosso primeiro terço vio assás de espaço para a investida, correm co’as lanças feitas ao inimigo, que tambem se não descuida. Os nossos encetárão bem o jogo; mas apertados da multidão, começavão a descahir: eis-que o sobrinho de D. João de Menezes os accommette pelo lado, e tornão a cobrar animo os nossos, mettendo o melhor de seus brios na contenda. Então julgou o Capitão Mór, que não havia mais reter-se, manda abalar as bandeiras, e com o grosso da tropa que comsigo tinha, cahe sobre os Mouros, que mal sostem o embate; depois recuão, e por fim desatão em arrancada fuga. Vão-lhe no couce os nossos, e em oito milhas de alcance fizerão nelles sobejo estrago, até que, voltárão a saquear-lhes os arraiaes. Forão muitos os cativos, que tomárão na batalha, muitos mais os mortos, grandissimo o despojo; dos nossos não faltou hum só. Foi depois D. João de Menezes com o exercito dar huma passada ás 28Aldêas rebeldes, que ajoelhadas lhe pedião perdão, e pagavão quanto pela fé dos tratados era devido: e tendo a tudo dado bom meio, voltou a Arzilla, d’onde despedio a Pedro Leitão com bom quinhão da preza. Já ElRei D. Manoel reinava, quando se commetteo esta peleija, e acertou que ganhava D. João de Menezes esta victoria ao mesmo prazo que elle mandava dar os dizimos aos Clerigos da Africa; e disso muitos ajuizárão, que mais concorrêra para vencimento della a religião de D. Manoel, que a valentia dos Portuguezes. Não tinha ElRei ainda despedido as Cortes, que na Cidade, em que as juntára, se declarou huma peste, que deo causa a lançar para outro ensejo muitos presuppostos para o bem do Reino.
No anno seguinte de 1496 do Nascimento de Jesu Christo, partio para Setuval nas vesperas da Quaresma, que já alli esperavão por elle D. Leonor, mulher de D. João II. e D. Isabel, viuva do Duque D. Fernando. Tendo desempenhado o dever de Christão, em quanto ao jejum sagrado, e celebrado a Resurreição de Nosso Senhor, tornou a empregar-se no desvelo dos negocios da Monarquia: começando por reintegrar na Patria, e nas perdidas honras a D. Jaime, filho de D. Fernando, que, como dissemos, pela morte padecida por seu pai, se passou a desterro voluntario, e com elle seu irmão D. Diniz, e 29seu tio D. Alvaro, e a D. Sancho seu primo, filho de D. Affonso, Conde de Faro, e irmão do Duque D. Fernando. E quiz ElRei que D. Sancho trocasse o titulo de Conde de Faro pelo de Conde de Odemira. Depois mandou vir do degredo todos os que em tempo de ElRei D. João tinhão sido suspeitos de traição, e foi insigne a liberalidade que usou com elles, e mais ainda com os que acima memorei. E por quanto D. João II. fizera a certas pessoas, que bem tinhão merecido do Estado, mercê de certos feudos dos desterrados, o Senhor Rei D. Manoel, porque não tivessem de queixar-se de injúria que lhes fosse infligida, com tantas mercês e dadivas os consolou, que de bom grado consentírão em serem esbulhados da possessão dos ditos bens. Magnificencia foi esta, em que muitos achárão que arguir; nem faltou quem dissesse, que era indigno honrar inconsideradamente com tantas mercês, e restituir por inteiro os bens aos filhos dos que forão enviscados da infamia de traidores. Outros havia, que não deslouvavão a liberalidade de ElRei, mas que quizerão mais modo nella. Que não era a avantajem da Republica esperdiçar em larguezas sobejas, e d’hum só momento o patrimonio real, que he a segurança dos Estados. Mas Sua Alteza não se deixou abalar com quanto lhe vinha aos ouvidos, a sobrestar nas graças que instituíra liberalizar; porque considerava que alguns dos que forão 30justiçados, não erão tão mareados de crimes, que seus nomes incorressem eterno aborrecimento dos homens: além de ser injusto pagarem os filhos os delictos de seus pais; além do muito que a esta benignidade o inclinava a incessante tristura de sua irmã D. Isabel. Que bem via elle que esta muito boa e mui prestante Senhora, depois da morte de seu marido, e exilio de seus filhos, nada vio que lhe alliviasse a saudade e pezadumes. E para mais urgencia a Senhora D. Beatriz, sua mãi, com rogos, como a Monarca, e com authoridade, como a filho, lhe instava quizesse deseliminar e fazer mercês a parentes tão conjunctos: cousa impossivel, se os não sobisse antes ao gráo de que tinhão cahido. “Não a ti só (dizia)” sobreveio a herança da Monarquia, mas a tua mãi, e a tuas irmans tambem, e a teus parentes, e a quantos em fim tinhão depositado em ti suas esperanças. E se estas nos fallecem, a quem temos de recorrer? Quem será nosso amparo? Se a nosso desejo te não inclinas, forca nos será vermos de máo grado a tua sobida ao cume da Realeza. Se nos sómente coube em quanto eras ainda homem privado deplorar nossa adversidade, agora aos queixumes daquella crueza accrescerá a injúria, que a tua mãi e mais parentes inferiste. Se pois tens em pundonor a tua pia reputação, se te move ainda a lembrança da que em seu ventre te deo vida, a seus 31peitos te deo leite, e com tanto carinho te amou sempre, toma-nos todos em teu seio, restaura a tua mãi a filha, os filhos a tua irmã, a mim meus netos, que será a mim mesma restaurar-me por inteiro: com o que tão longe escaparás á suspeita de avareza, quão precioso será o fructo da tua magnifica piedade. “Estas e outras mais razões a este sentido sua mãi dizia, com lagrimas lhas abonava a irmã, por Cartas, e por Embaixadores urgentemente lhas rogavão os Monarcas de Castella; pelo que era impossivel a ElRei já mui bom de sua natureza, não pender para a vontade de sua mãi, perpassar o peditorio de sua irmã, ou ter em pouco as rogativas de tão prestantes Soberanos. Engrandeceo tambem com dadivas, com honras muitos homens nobres, como forão D. Diogo da Silva, pessoa de extremada prudencia, e que tinha sido seu Aio. Mandou depois Pedro Correa, reputado prudentissimo na opinião geral, ao Papa Alexandre, para menear certos negocios tocantes ao estado do Reino, e trazer comsigo a Portugal o Cardeal Jorge da Costa, que, bem que de humilde familia, foi dotado de preclaro engenho, e de animo grande. Foi muito acceito á Senhora D. Catharina, filha de ElRei D. Duarte, tão virtuosa Senhora, que com ninguem quiz casamento; em cujo serviço tendo entrado por acontecimento, tanto a cativou sua probidade, e bom juizo, que poz 32o peito a accrescentallo com mais pingues beneficios, nos quaes se comportou com egregio e virtuoso descargo. Derão-lhe depois hum Bispado, e por varios lanços foi sobindo em honras, até que o Pontifice com summo agrado dos Cardeaes o recebeo no Sacro Collegio, dignidade que desempenhou com singular aviso, e em que privou e acabou muito com os Santissimos Papas. Cahio no desagrado de D. João II. logo que entrou a reinar, por lhe ser suspeito de o empecer em varios negocios, o que não impedio com tudo ao Cardeal de conservar a pezar de Sua Alteza muito authorizadamente a sua dignidade. Logo que D. João morreo, lhe pedio o Senhor D. Manoel por Cartas, que tornasse para o Reino, pela necessidade que delle tinha para a feliz administração da Monarquia; tendo-o por de tão cabal saber, e madurez de conselho. D. Jorge deo mostras de que assim o faria; mas depois que Pedro Correa entrou em Roma, mudou de sentimento, desculpando-se com a falta de forças, e co’a velhice: allegando mais que lhe não consentia o Summo Pontifice emprehender tão longa estrada. Os negocios porém de Sua Alteza concluio com presteza e lealdade summa. Lavrava em tanto pelo Reino acerrimo contagio, que era forçoso a ElRei mudar de ares, e de pousada; e como se achasse então em Torres Vedras, veio o Embaixador de Veneza dar-lhe em nome da Republica os parabens 33do Reino, que lhe coubera em successão, e offerecer-se-lhe para executar muito de grado quanto delle requeresse. Embaixada que lhe foi tão graciosa, que por suas mãos armou Cavalleiro a quem a trouxe, e com tantos presentes o despedio, que a Senhoria ora pelo reclamo de Embaixador, e ora pelo muito affecto, que as Cartas de ElRei continhão, se entregou com mais vontade a seu favor. Entrou depois D. Manoel n’huma empreza, que muitos Reis tinhão tentado antes, e por mais vezes, mas sempre em vão. He de saber, que quando a maior parte da Hespanha curvava sob o imperio e poderio dos Arabes, laborava entre elles e os Christãos guerra contínua, pullullando sempre esta da pouca fé de treguas mal travadas e mal assentes. Houve pois Varões nobres não menos prestantes em valentia, que em christandade, que fazião voto de peleijar com rematado brio pela gloria de Nosso Senhor, em quanto as forças lho consentissem; e para mais despejadamente o prefazerem, e mais folgada estrada lavrarem para o Ceo, se abstinhão do Matrimonio, despendendo a vida já em obras de religião, e já no meneio das armas, em cujo ardor tanto andavão seus animos influidos, que tinhão por bemaventuradissimos os que a morte tomava com as armas nas mãos em pró da Republica e da santissima fé de Christo. Como seguissem muitos este exemplo, varias Ordens de Cavalleiros se 34creárão, que os Reis dotárão de grossas rendas, e os Papas approvárão: dellas sahírão mui esforçados Varões, com cujas cavallerias forão os Mouros muitissimas vezes com ampla gloria do nome Christão desfeitos e affugentados. Trazião sobre o peito assinalada a Cruz de panno vermelho ou verde cozida no vestido. Florecião tambem na Hespanha ao mesmo tempo as Ordens dos Templarios e Hospitaleiros, que em Jerusalem, já tomada pelos Christãos, tinhão vindo de fundamentos iguaes. E bem que differentes fossem os Institutos e insignias destas Ordens, convinhão todas em proferir votos solemnes, e prometter publicamente a Deos de se não macular de torpeza alguma, nunca desobedecer ao Grão Mestre, nem çujar suas mãos no lodo da avareza. Ora ElRei D. Diniz (depois que Filippe formoso fez tanto, que acabou com a Ordem dos Templarios) tomou o alvitre de instituir, além das mais Ordens que já havia em Portugal, outra Ordem Militar, na qual entrassem todos os Templarios Portuguezes (que nesta Ordem dos Templarios entravão facilmente quaesquer Cavalleiros esforçados e de porte, com quanto fossem Christãos) sem perderem seus bens e suas dignidades: em conseguinte do que ordenou, que as rendas que a Ordem dos Templarios possuia em Portugal, os Templarios Portuguezes alistados em nova Milicia, as conservassem, e aos desta Milicia deo o nome 35de Cavalleiros de Christo; e para os differenciar das mais Ordens Cavalleiras, lhes mandou trazer huma Cruz branca embutida em Cruz vermelha; pedindo ao Summo Pontifice, que com a sua authoridade a confirmasse, desde então se accrescentou em bens esta Ordem, e medrou amplamente. E porque via D. Manoel quão imminente estava o perigo aos Cavalleiros desta e mais Ordens, (se contra o voto feito a Jesu Christo não enfreassem a concupiscencia, quão grande era o peccado, em que cahião, quão profundo o ferrete gravado nos provindos destes religiosos Cavalleiros; que embora fossem nobilissimos os que os gerárão, não lhes cabia menos a nota de bastardos) pedio ao Papa Alexandre desligasse os Cavalleiros Portuguezes todos do vinculo de castidade perpétua, quantos doravante se sobmettestem ao sacramento da religiosa Milicia; porque os que já estavão estreitos a voto em alguma Ordem, impossivel era relaxar-lhes o juramento com Alvarás nem Bullas. Outorgou-lho o Pontifice, e foi dalli em diante permittido aos que se alistavão nas Ordens Militares o casarem-se, menos aos Hospitaleiros de S. João, que por onde quer que vão, comsigo levão o nó da jurada castidade. Foi de muitos applaudida esta providencia, com que ElRei [ao parecer] atalhava os ruins feitos, e salvava os seus de grandes precalços de incontinencia. Quanto a mim vacillo muito, se ella não dá mais livres 36azos para as culpas, que com tanto desvelo quiz arredar: primeiramente, porque relaxações nunca forão saudaveis. Tanto mais, que mui severos nós se hão de dar a fios que deslizão, e trazellos ao seio de que fogem, se queremos que os louvaveis Institutos vinguem sempre o mesmo fructo e mesma utilidade. E tambem porque já vemos, que com os cuidados do Matrimonio vai quebrantando em grande parte aquelle antigo ardor guerreiro, que nos religiosos soldados bem lavrava. Menos despejados, e menos alegres vão, e mais cedo, e com mais ansia do que he dado se acolhem ao repouso, mal que huns apressados, e curtos dias guerreárão. E ora vimos, que quando lhes era defezo o Matrimonio, crivel he que não poucos entravão nas Ordens de Cavalleria com mais presupposto de Christandade, que sofreguidões de póstos e Commendas. Mas agora depois que as Religiões alizárão o que a muitos parecia escabrosissimo, podemos, sem sermos temerarios, suspeitar, que quantos lidão em matricular-se nestas Ordens, cobiças, e ambições os arrojão na carreira da Milicia; que tanto se colhe do desprezo da fé, que a Jesu Christo promettêrão, da violação das sagradas pertenças, homens arrojados e facinorosos apossar-se dos bens Ecclesiasticos, arrotar riquezas [destinadas a divinos empregos] e abusar dellas descomedidamente em luxurias e faustos deste mundo, homens 37que nunca vírão o rosto aos inimigos. Mas desistamos de lastimar o que remediar nos he vedado.”
Tomou logo á mão ElRei D. Manoel a deliberação de hum ponto, que então cursava em todas as práticas, e que entre os do seu mesmo Conselho foi altamente controverso. Era a Consulta, se os Judeos já expulsos pelos Reis de Castella e moradores em Portugal, tinhão de ser (como no Reinado do Senhor D. João II. fora decretado) logo despedidos, ou se lhes permittiria ElRei por sua benignidade ficarem nos lugares deste Reino, que lhes forão consignados. Requerião as Cartas d’ElRei de Castella a D. Manoel, que não consentisse morarem no seu Reino tão malvada gente, a Deos e aos homens mal querida. Materia foi esta, que ElRei teve por mui digno ponderalla; e achou em seu Conselho muitos, que sentião não nos devermos descartar d’hum povo, que o mesmo Papa não desdenhava acolher em muitas Cidades da Igreja Romana, exemplo, que muitas Cidades de Castella, que muitos Principes Catholicos não só de Italia, mas ainda na Alemanha, e na Hungria, e em outras muitas regiões da Europa tem abraçado, concedendo aos Judeos a faculdade de alli morarem, e exercerem sua industria. Que com lançallos da terra, nem por isso os desvestião da ingenita perfidia, que onde quer que os pés pozessem, deixarião pégadas de maldade: nem 38algum homem assizado se inquietava mais com a maldade feita antes neste sitio, que naquelle. Passados os Judeos em Africa (o que ninguem duvidava, apenas os lançassemos do Reino) eiscortadas todas as esperanças de sua conversão. Em quanto entre Catholicos, com a conversação e exemplo dos Christãos, e acareados de seu bom ensino, muitos abordavão á Christandade o que (huma vez entre homens eivados dos erros de Mafoma) lhe ficava desesperado. Além de ser grande desconto para a Republica trasladar esta gente aos Mouros o dinheiro, em que erão muitos delles opulentos, e as Artes, que de nós tomárão, e em que doutrinarião nossos inimigos, para depois com ellas nos talharem grandes prejuizos. Outros contrariamente discorrião, que não sem causa forão de França e varias partes da Alemanha, dos Reinos de Aragão e de Castella despejados os Judeos; mas sim porque se inteirárão aquelles Principes menos affeiçoados ao avultado das alcavallas, que á puridade da fé, que lhes hião abalando a religião da gente simples, marcando com indignissimo desacato o sacrosanto Nome de Jesu Christo, estragando com pestiferas opiniões muitos entendimentos dos que com elles communicavão, cujo contagio até lavrava já por entre os camponezes. Que nunca pessoa de juizo se confiaria de homens inimigos da Lei christã, que nenhum escrupulo fazem de passar a nossos adversarios, quantos 39segredos podem investigar, nem detrahir por peitas o nosso salvamento. Se de nossos uteis se ventilava, nada mais util occorria, que pôr longe de nós huma relé nascida para fraudes, antes que manosearem as entranhas de nossas rendas; e antes levassem fazenda, que ora possuião, que as bolsas attestadas da pública fortuna, se lha deixassem abarcar a si. Que levassem o que d’aliás trouxerão, antes que (de mais tempo ficassem no Reino) com dólos e com embustes, em que são mui mestres, arruinassem os haveres de muitas familias. Este conselho agradou a D. Manoel, que decretou logo a todos os Judeos e Mouros, que não se baptizassem, sahissem da arraia do Reino; e os que passado tal dia alli se achassem, perderião a liberdade.
Entrado o anno seguinte de 1497 ElRei D. Fernando e D. Isabel, que trazião guerra acerrima com ElRei Carlos de França, mandárão Embaixadores a Portugal a confirmar a alliança d’antes pacteada com o Senhor D. João, e lhe requerer soccorro contra ElRei Carlos. Com muito gosto de D. Manoel e de todos os que presentes erão no Conselho, se confirmárão os pactos; mas em quanto ao pedido soccorro, respondeo: Que estando em paz com Carlos, e não tendo de França recebido algum aggravo, seria mui deshonroso violar antigas allianças, quando mórmente se tratava a guerra em Paiz remoto, e nenhumas armas 40molestavão a Hespanha. Que no caso que o Francez viesse accommetter Hespanha, então pelo parentesco que entre elles havia, metteria todo o peito a reprimir a aggressão Franceza; resposta, que os Monarcas de Castella demostrárão ter-lhes sido muito acceita. Assomava em tanto o dia, em que os Judeos, que adversassem o baptismo, tinhão de exiliar-se. Já todos á porfia se davão prestes para a viagem, quando D. Manoel, que se lhe cortava o animo de correrem ás penas eternas tantos milhares de homens, traçou de dar atalho a lhes salvar se quer os filhos. Foi injusta, foi iniqua a traça, bem que nascida de louvavel presupposto. Deo ordem, que todo o filho de Judeo, que não raiasse além de quatorze annos, fosse tirado do poder do pai, para arredado de sua vista ser doutrinado na religião christã; mas não o conseguio sem grande alteração de animos. Era cousa piedosa ver arrancar os filhos do seio das mãis, arrastar, e ainda abordoar, e avergoar os pais, que estreitavão os filhinhos em seus braços: levantavão-se estendidos alaridos, e tremião os ares com as lastimas, e prantos das mulheres. Delles houve, que, turvados de indignação, os filhos nos póços affogavão: delles entrárão em tal loucura, que se derão a si mesmos morte. Aggravava-se mais a calamidade destes miseraveis, que ansiosos de Sestras passar a Africa, fartos de tanta injúria, lhes negavão os meios todos. Que 41ardia ElRei em tanto affogo de reduzir estas ovelhas ao redil da Igreja, que mettia premios para os attrahir, e insultos para obrigallos: até a licença mesma que para o embarque lhes fora dada, lha prolongavão d’hum dia a outro, para intermeiar-lhe tempo de mudar de aviso; e de tres portos, que lhe tinhão nomeado para a navegação, tolheo os dous, para que só de Lisboa se embarcassem, de modo que foi innumeravel o concurso de Judeos, que nella desaguou. Passou-se o dia decretado, e já era forçoso esbulhar da liberdade os Judeos, que não podérão navegar-se. Vencidos de tamanho infortunio, quizerão muitos professar de grado a Religião Christã, ou antes bem fingillo, que estirar a vida em tal crueza. Logo que instruidos na doutrina de Christo, forão purificados nas sagradas fontes, seus filhos lhes forão entregues, ElRei os convidou com largos premios, e huma vida assás commoda passaráõ em Portugal. Mas nem legitimo foi este procedimento, nem foi Christão. Como assim? Tu animos rebeldes, e não adjurados a isso por algum vínculo de Religião, obríga-los a crer o que affincadamente menos prézão e rejeitão? Tomares sobre ti de pôr impeço á liberdade do alvedrio, e deitar peias a desbocados entendimentos? O que nem he possivel, nem o consente o Santissimo Numen de Jesu Christo, que dos homens só requer voluntario sacrificio, não obrigado, nem 42de força: que nunca mandou violentar animos, mas affeiçoar vontades, e convidallas ao trato do véro Christianismo. E quem ha hi que se arrogue obrar nas consciencias o que o Espirito Santo só faz naquellas que não teimão resistir-lhe até o derradeiro arquejo da vida? Que elle he só quem allumia, quem acarêa, quem convida, e em fim quem traz ao gremio e confissão de Jesu Christo quantos não rejeitão tamanhos dons com desagradecida pertinacia de animo. Em conclusão, não vêdes vós quão indigno que he confiar de homens suspeitos no trato da Christandade tantos mysterios, tantas sacrosantas cousas, e symbolos tão divinos? Dar ansa de maldade inconsideradamente a quem faz jogo e mófa da disciplina christã, e macular indignamente a essencia da Religião com huma mascara que a arreméda? Todavia muitos louvárão Sua Alteza, allegando em suas razões que tomára por motivo a Religião, para que aquella gente Hebraica entrasse na vereda de salvação, tomando por abono, que se escorava, para o assim fazer, na opinião de pessoas mui acreditadas em sabedoria e christandade, e no exemplo de muitos Principes Catholicos: que nunca falta, nem faltará jámais quem ageite suas fallas, e com ellas arme á graça dos Principes. E com quanto fosse pouco justa esta acção d’ElRei, della vemos cada dia accumulados fructos, pois que os filhos desses Judeos muito enviscados e suspeitos 43de terem simulado a fé, hoje com nosso trato, familiaridade e disciplina, e talvez deslembramento da paternal nequicia, cultivão santamente a Religião de Jesu Christo, e pelos preceitos que elle deixou, moldão suas vidas. Assim que aconteceo, que huns dos Judeos passárão em Africa, e os outros que ficárão, perdêrão esse nome: mas os Mouros, que se não quizerão affastar da superstição pestifera de Mafoma, os levárão a Barberia, sem lhes ser inferida a menor molestia, como se usára com os Judeos; de modo que os Christãos, que em Africa ou em Asia estavão em poder de Sarracenos, não soffressem mais aggravo.
Começou ElRei neste anno a tratar de seu tão desejado casamento com a Princeza D. Isabel, viuva que era do Principe D. Affonso, filho d’ElRei D. João, casamento que muito cobiçava, pela grande affeição que lhe penhoravão a prudencia, e bons costumes daquella Senhora. Communicou seus intentos a D. Alvaro, irmão do Duque, que muito valia com os Reis de Castella; e que depois de lhe afiançar todos os seus serviços, partio para Hespanha, d’onde lhe escreveo, significando-lhe que os dous Monarcas não hião muito alheios de consentir no Matrimonio, que tanto appetecia: com cuja Carta se animou D. Manoel a enviar aos Soberanos Hespanhoes D. João Manoel, seu Camareiro Mór, Fidalgo 44de rara intelligencia. Foi sua enviatura mui grata aos Reis, e os concertos de tal conjugio forão devidamente confirmados: sómente a Senhora D. Isabel resistia com pervicacia a estes pactos, ora pela entranhavel saudade do seu fallecido Affonso, mágoa tão corrente nella, que desconfiava de melhora; ora pelo desabono, que se afigurava em tratar segundas vodas; em cujos termos, não havia acabar com ella que fizesse a vontade a seus Pais, ácerca deste casamento. Tanto porém forão calando os avisos e rogativas paternaes, as exhortações de homens religiosos, que lhe insinuavão cimentar-se com tal consorcio a paz de toda a Hespanha, que em fim lhes obedeceo. No entanto que ordenavão quanto cumpria para a vinda da Senhora D. Isabel em Portugal, emprehendia D. Manoel hum feito illustre por sua grandeza, e digno de sempre duradoura fama: para explicação do qual prenderemos o fio de mais longe.
D. João primeiro deste nome, Rei de Portugal, que com grande gloria resgatou o Reino da invasão dos inimigos, ganhando-lhes muitas victorias, e a quem nem a mesma velhice afrouxára d’hum só ponto o alcance de honrado nome, aprestou huma grande armada para expugnar a Cidade Ceuta, mui grande, mui opulenta, mui fortificada entre as da Mauritania, situada nas margens do Estreito de Gibraltar. Daqui nasceo occasião aos Lusitanos, 45que alli ficárão de presidio, de se irem por meio de armas estendendo; e o Infante D. Henrique seu filho, que na tomada de Ceuta mostrára insigne esforço, poz mais longe o fito das conquistas, mandando construir esquadras, que infestassem as praias Africanas, e outras barbaras regiões, que os Mouros possuem fóra do Estreito para a méta meridiana. Indo-se accendendo no desejo de explorar terras não sabidas, traçou que os Capitães de suas Armadas picassem terra sempre no mais distante; com o que veio a acontecer, que em parte pela industria de esforçados homens, parte por varios lanços e tormentas, não só bom trato de Africa da banda da Ethiopia, mas ainda immensas Ilhas do Oceano se juntárão ao imperio Lusitano. E ora quanto mais remotas erão as terras, em que abordavão as nossas náos, quanto mais maravilhas lhe dizião lá versarem, tanto mais se inflammava o animo do optimo Principe na ansia de investigar inda mais longe. Por quanto era D. Henrique varão de altos espiritos e muito assinalado nas virtudes christans, e que não trabalhava tanto em dar lustre a seu nome, quanto a divulgar a Religião de Christo, para o que nada entendeo mais proveitoso que esta navegação, com a qual podia manifestar para salvação de todos o Nome de Jesu Christo entre barbaras nações tão despegadas deste assento nosso. Para mais commodamente o praticar, 46foi residir naquella parte da Lusitania, que chamão os Algarves, na Villa de Sagres, arredada 4000 passos do Cabo de S. Vicente, e de lá mandar navios, que rompessem estradas para as terras que demorão ao Sol nascente: a morte o atalhou de tocar na méta de seu presupposto no anno de 1460, tendo de idade 67, sem deixar filhos, que nem foi casado, nem em todo o curso de sua vida cahio em torpezas. Depois de sua morte D. Affonso seu sobrinho, filho d’ElRei D. Duarte, pelas gravissimas guerras que o occupárão, não adiantou os descobrimentos além do que D. Henrique já explorára: mas quando o sceptro cahio nas mãos de D. João, filho de D. Affonso, tanto empenho e tantos cabedaes metteo na empreza, que discorrêrão sob seu auspicio nossas armadas grande lanço da Ethiopia, e forão abicar onde homens doutissimos duvidárão antigamente se podésse penetrar. E não satisfeito ainda com a noticia das regiões subjacentes ao círculo Equinocial (que assim chamão os Astrologos áquella méta da celeste plaga, que divide o Zodiaco em duas partes iguaes, pela razão que quando o Sol beija aquella Zona, ha equinocio) fez que procedendo avante, perpassassem a terras incognitas, muito além dessa região, onde o Sol dobra sobre a ultima baliza do Sul. Pelo que lhes foi forçoso, vendo-se muito affastados do Septentrião, marcarem no Ceo outras estrellas oppostas á 47guia do Norte, que lhes servissem de rumo: e levantando-se daqui émula porfia de transpôr a raia dos primeiros, os que depois delles navegavão, sempre alongando de mais em mais a mira, vierão a arrostar com o maior promontorio que no mundo se descobrio. Pois que o lado contraposto ao pôr do Sol, desde onde faz ponta até onde mais se arreda da plaga equinocial para a banda do Sul, differe hum tracto tão comprido, que orça por 35 gráos. Chamão gráo os Astrologos Latinos a huma das 360 partes, em que dividem toda esta redondeza de Ceo e terra; e para o Septentrião, tirando da Equinocial até ao seio, em que começa o Cabo, faz quasi 4 gráos, que com os 35 do outro lado, sommão ao redor de 2000 legoas. Tanta he a longura de terra, que compõe aquelle Cabo muito mais comprido da banda do Oriente. Ora forão tão cruas as tempestades, que os nossos padecêrão em dobrar o Promontorio, que a cada passo despião toda a esperança do salvamento: d’onde veio pôrem-lhe o nome de Cabo das tormentas, porque tormenta entre nós vale o mesmo que adversa tempestade. Desque dobrárão o Cabo, e bem o assinalárão, fizerão-se na volta. Logo que ao Senhor Rei D. João foi explicado o assento e longitude daquelle Promontorio, tomou dalli tanto alvoroço, que dava já por aberta e franca a estrada para a India; e commovido do feliz agouro deste acontecimento, 48lhe impoz o brazão de Boa esperança, mandando em tanto homens Hebreos e ainda Christãos, em quem conhecêra sagacidade, passar a Alexandria, e de lá á Ethiopia sobre Egypto, d’onde navegassem até á India, e tomassem lingua de homens intelligentes dos meios mais commodos de instituirem, depois de dobrado o Cabo, sua carreira para a India. E mandou outro sim apparelhar huma Armada, que fosse encetar aquella via, que tão ansioso quizera investigada; mas todos estes commettimentos lhe affogou a morte: a D. Manoel porém, que lhe havia de herdar o Reino, encommendou juntamente com o patrimonio da Realeza esta navegação a descobrir, e o Lusitano imperio a propagar. Muitos houve dos que Sua Alteza usava admittir em seu Conselho, que forcejárão dissuadillo deste pensamento, dizendo-lhe que a esperança era duvidosa, quando os perigos erão grandes e seguros, a navegação difficillima, e a India remotissima de nossos climas, pelo entremeio immensuravel de tão distantes regiões: que não havia ahi uteis, que equivalessem aos riscos e incomportaveis lidas de tão arriscadas viagens. Que considerasse que tinha de combater com o Imperador do Egypto, cognominado Sultão, poderosissimo naquellas partes do Oriente; e que quando lhe procedesse tudo a sabor de seu animo, a que encargo de inveja dos outros Principes Christãos, não hia com incrivel 49discrime sobmetter-se. Que se hia em busca de renome, ahi estava a guerra de Africa, onde o ganharia com cúmulo, se nella quizesse empenhar suas forças todas: se os lucros lhe penhoravão a vontade, quem melhor que a Ethiopia lhe acuderia com innumeraveis uteis, tirados do que já nella subjugára, ou dos alliados que já lá tinha? Estas e outras mais razões lhe davão os Conselheiros, sem podello desviar de seu proposito, que bem sabia que taes conselhos tinhão já dado a D. Henrique e a D. João II. sem lhes demover a mente de talhar pelas ondas aquella via, de que tão grandes lucros entravão depois na Lusitania, sobre estar de acordo que a desconfiança anda de parelhas c’os animos estreitos e apoucados, e que sempre grandiosas esperanças se travão de mão com magnanimas altivezes e extremadas virtudes. Pelo que prezou seguir antes o exemplo de alentados Principes, que dar assenso a homens mais que muito acautelados, receosos de quantos perigos ha. Tambem muito o movia o bom agouro, que tirava do conselho e designio de D. João II., quando antes de sua morte lhe intimava, que ás suas Armas Reaes juntasse por divisa a Esfera, em que se assinalão os círculos da região Celeste; o que já lhe denunciava no futuro, que por intervenção de D. Manoel, a quem já considerava como a herdeiro seu, alcançarião os homens com grandes utilidades e sempiterno renome o conhecimento 50de incognitas estrellas e das desviadas terras, que o Sol vê ao seu nascente e seu occaso. E finalmente o summo zelo, que tinha de dilatar a fé Catholica, não lhe consentia dar attenção alguma a esses pusillanimes: assim que chama Fernão Lourenço, pessoa desembaraçada e de não mediana conta, a quem ordena lhe aperceba, quanto antes possa, huma Armada provída de todo o necessario. Depois manda escrever a Vasco da Gama, nobre e mui esforçado Varão, de quem fiava muito ElRei; e tendo-lhe dado parte do que delle requeria, e exhortado com huma longa falla a se comportar com muita prudencia e valentia naquelle feito, lhe commetteo o governo da Armada. Encarregou-se da empreza Vasco da Gama; e depois de render a D. Manoel extremados agradecimentos, lhe pedio que nella o acompanhasse seu irmão Paulo da Gama, a quem summamente amava por suas infinitas virtudes; o que Sua Alteza mui facilmente lhe permittio. Em pouco tempo se poz de verga d’alto a Armada, fornecida de todo o necessario para tão longa viagem; e como hia mais a tomar noticias do Oriente, que a combatello, continha pouco numerosa lotação de homens. Compunha-se de quatro náos, das quaes huma hia só carregada dos bastimentos; na Capitanea entrou Vasco da Gama, seu irmão Paulo na segunda, Nicoláo Coelho na terceira, e do navio que levava os mantimentos 51hia por Capitão Gonçalo Nunes. Distava de Lisboa quatro mil passos hum Templo religioso e santo, que em honra da Santissima Virgem edificára D. Henrique, que depois perdeo o nome com a visinhança de outro mais amplo e mais magnifico, que D. Manoel mandou construir desde os alicesses á mesma immaculada Senhora. Nelle se recolheo Vasco da Gama na vespera do dia de seu embarque, empregando a noite inteira em orações e votos na companhia dos Religiosos do proximo Convento: e no dia seguinte com quantos tinhão vindo para despedir-se delle e de seus companheiros, foi com grande sequito acompanhado até aos bateis. E então não sómente os Religiosos, mas todos os mais em altas vozes e os olhos cheios de lagrimas pedião a Deos, que tão perigosa navegação lhes fosse a todos próspera e boa; e que tendo dado bom acabamento a aquelle feito, voltassem todos á Patria com salvamento; e já mesmo entre muitos se levantava tal pranto e taes lamentos, que disseras os levavão ao moimento, prorompendo nestas lastimas: “Ah miseros mortaes, onde nos arrojou tal ambição e tal cobiça! Que mais horridas justiças farião nestes coitados a terem n’algum facinoroso crime descahido! Tão longos e desmesurados mares que tem de perpassar, tão despiedadas montanhas de ondas, que tem de atravessar, e os riscos que em tantas paragens lhes estão 52a vida ameaçando! Não lhes fora mais comportavel acaballos com qualquer feição de morte, que lançallos em tal desvio da Patria n’huma campa de salgadas ondas!” Estas e outras muitas vozes a este sabor dizião, quando ainda no peito lhas representava mais maviosas o receio, em quanto o Gama, ainda que algumas lagrimas dava á sua saudade, confiado todavia no bom rosto da esperança, sobio mui despegado á Capitanea com feliz auspicio n’hum sabbado 8 de Julho do anno de 1497. Nem se quizerão arredar da praia os que assistírão á partida, que não perdessem de vista as náos, a quem próspero vento enfunava em cheio as vélas.
Em quanto estas cousas se passavão assim, chega a D. Manoel a nova, que os Reis de Castella tinhão prompto com a competente dignidade quanto se requeria para as nupcias da Princeza D. Isabel: pelo que de Cintra, Villa situada nas fraldas do Monte da Lua, sua residencia então, se põe de partida para Evora, onde manda lhe venhão fazer comitiva muitos fidalgos principaes, em quanto a Rainha D. Isabel vem com sua filha D. Isabel a Valença de Alcantara, Villa que entésta com os limites de Portugal. Não pôde ElRei D. Fernando achar-se alli presente, que lho tolhia a enfermidade de seu filho o Principe D. João, que tinha a deshumano então desamparallo; por tanto repartírão os deveres entre si, vindo 53ella acompanhar a noiva, e elle ficando em Salamanca velando no Principe molesto. Foi porém acordado entre ambos, que logo que ao Principe D. João apontassem melhoras, partiria ElRei D. Fernando para Valença a condecorar a voda; e por quanto a tardança della hia além do que podia facilmente comportar a ansiedade d’ElRei D. Manoel, escreveo este á Rainha de Castella, que com muito gosto, se a ella lhe aprazia, passaria a Valença para receber a sua Esposa: disto deo a Rainha aviso a D. Fernando, que lhe respondeo não poder despartir-se do lado de seu filho, cuja vida pela gravidade da doença laborava em ultimo discrime: que se D. Manoel queria vir a Valença; lho não impedisse; que lhe insinuasse todavia de trazer pouco sequito, e differir para tempos mais faustos toda a demonstração de grandes regozijos. Deo logo a Rainha a saber a D. Manoel, que viesse quando bem lhe fosse do agrado: nem elle poz demora em se pôr a caminho para Valença, onde a Rainha encerrou no peito a nova que lhe veio da morte de seu filho, por evitar pezadume ao genro. Este com tudo veio a sabello, e foi pedir á Rainha sua sogra lhe permittisse partir para Portugal, e levar comsigo a sua nova Esposa, antes que nos ouvidos lhe tocasse a triste noticia: e logo se foi a Evora, onde lhe deo parte da morte do Principe seu irmão, que ella mui agramente deplorou. Toda 54a Hespanha com esta morte trajou luto e nojo, principalmente os Póvos de Aragão e Castella, vendo sem prole masculina os Reis, e sem esperança della: só lhes ficava com sinaes de prenhez a Princeza viuva D. Margarida, filha do Imperador Maximiliano, então Soberano da Pannonia superior, que hoje intitulão Austria. Mas ainda a tenue esperança que lhes ficava de que com o parto da Princeza viuva não passaria o Reino a Principes estranhos, dentro de poucos dias (mal parindo esta) lhes foi cortada: o que foi causa de recahir em D. Isabel por direito a herança do Principe D. João seu irmão, que de todas as irmans era a mais alta em annos. Não cessava em tanto D. Manoel com grão desvelo de cuidar na governança do seu Reino, applicando-se a restabelecer os foraes, direitos e immunidades, cuja posse fora com certas condições outorgada aos Póvos; e em abalizar os confins das Provincias, das Cidades e Lugares para atalhar demandas e assentar os fóros de cada Cidade, porque soubesse cada huma ao justo seus limites. Achando-se a Rainha pejada, vierão Suas Altezas a Lisboa, onde recebêrão Cartas dos Reis de Castella, em que lhes significavão o abortivo de sua nora, e lhes insinuavão de se pôrem á estrada para a Hespanha, para receberem a obediencia dos Póvos, como legitimos herdeiros da Monarquia; e ElRei que via quão necessária lhe era aquella 55jornada, convocou novamente as Cortes, e nellas instituio varias Leis, que lhe parecêrão acertadas. Logo no anno seguinte, que foi o de 1498, partírão de Lisboa no primeiro de Abril, acompanhados sómente de 300 de cavallo, porque lhes pedírão os Monarcas Hespanhoes, que cerceassem de sua comitiva, para evitar dissensões, que entre Castelhanos e Portuguezes de levissimas causas trivialmente se levantão em semelhantes congressos de seus Reis. Levavão todavia mui fidalgas pessoas comsigo, e entre ellas a D. Jorge, filho d’ElRei D. João, em quem (posto que menino) se cravavão os olhos de toda a gente, que despertada com a parecensa do filho, celebravão o nome de seu Pai com gratos elogios. Todos hião de luto, para denotar naquelle traje lugubre a tristeza, que pela morte do Principe nos animos lhes morava. Apenas entrárão nos confins de Castella, lhes veio ao encontro o Duque de Medina Sidonia, cuberto tambem de nojo, que logo que os avistou, se apeou do cavallo, e lhes foi beijar as mãos: o mesmo fazião os mais Principes, e quantos vinhão distintos por sua nobreza ou dignidades. Por todas as Cidades e Villas era pasmoso o concurso e celebridade dos que vinhão a vêllos, e com vivas e parabens denunciavão a alegria, que de sua vinda concebião; nem attentavão os homens ricos e poderosos nos sumptuosos gastos, que a seu respeito prodigavão. Chegados 56a Toledo, sahio-lhes ao encontro D. Fernando, e a ambos muito amorosamente abraçou, como o pedia a razão de tamanho parentesco. Os mais principaes da Cidade os aguardávão á porta, para com respeitosas palavras e profundas reverencias, e mais demonstrações usadas em Hespanha, lhes renderem sujeição e homenagem. E como hia já entardecendo, os conduzírão ao Templo debaixo d’hum palio de ouro: dalli depois de terem feito oração, se partírão aos Paços, onde D. Isabel os recebeo com tanto contentamento, que demostrava ter com a vinda delle, despedido de seu animo toda a pena, que pela morte de seu filho nelle entrára. ElRei D. Fernando tendo fallado com agrado a todos os nossos, fez a D. Jorge o mais honrado acolhimento. E não tolerando os Reis de Castella interpôr muitos dias, derão-se o cuidado de atalhar demoras ao cumprimento da obra, para que forão as Cortes convocadas, e seu Genro e Filha alli chegados. Pelo que no Domingo seguinte forão D. Manoel e sua Esposa encaminhados á Sé, e o mesmo Duque de Medina Sidonia á ilharga delle a pé com a mão nas rédeas do cavallo, e á esquerda delle o Senhor de Frias, exercitava igual emprego á Rainha Portugueza; e do mesmo modo servia a D. Fernando o Condestavel, e á sua Esposa o Duque de Alva. Disse a Missa o Arcebispo de Toledo com rara devoção e ceremonia; e logo que acabou 57o Officio da Igreja, se ergueo D. Fernando e sua Mulher, ElRei tomando o Genro pela mão, e D. Isabel a Filha, e vão sentallos em riquissimas e mui altas cadeiras para este acto preparadas, tomando para si outras de ilharga. Os Procuradores das Cidades tomárão tambem assento, pelo termo d’ha longas eras determinado na Hespanha: os Grandes forão occupando seus lugares á ventura, sem offensa de direitos particulares, porque os tinha amigavelmente admoestado D. Fernando, que não altercassem precedencias; porque lhe seria de muito pezadume, que fosse alterado, por intempestivas disputas de assentos, hum acto, em que elle desejava a maior harmonia de animos. Estando todos em silencio, se levantou hum muito erudito Jurisconsulto, reputado bom Orador, o qual fez huma falla mui esclarecida, que expunha as avantajens da paz, o ocio e remanso de toda a Hespanha, dilatação do Imperio, e outros uteis, que daquella união de Reinos denunciavão provir. Exhortou depois os Grandes, e as Cidades, a que amassem á porfia os Senhores D. Manoel, e sua Esposa, que como vião erão os herdeiros de seus Soberanos; que como a taes os respeitassem e servissem em tudo com eximia lealdade; esperando muito, que sendo (como sabião) tão extremados em reaes virtudes, não dissemelharião dos Reis, a quem tinhão de succeder, no tempo que o supremo Senhor lhes tinha 58lá talhado. Depois voltando-se a D. Manoel e sua Esposa, lhes advertia que fittassem o espirito no encargo de que se incumbião; pois era de seu dever attentar pelo Povo, amparar a innocencia, tolher a maldade, ter salvo o Reino, desviallo de perigos, conservallo inteiro, e ainda accrescentallo em proveitos e abastanças. Tanto que assim perorou, veio hum Bispo com hum Missal, e aberto lhe assentou no meio huma Cruz de ouro, e apresentou-a aos Principes herdeiros, dizendo-lhes que pozessem nella as mãos; e seguindo com palavras as que o Bispo lhes hia adiantando, se obrigárão com santissimo Juramento a administrarem justiça aos Póvos, conservarem as franquezas da Republica, e pôrem todo o seu desvelo no bem commum. Logo tomou o Condestavel das mãos do Prelado o livro, e sobre elle jurou reconhecer D. Manoel e D. Isabel por véros e legitimos herdeiros de seus Reis e Senhores, a quem e a cujo mando guardaria inteira obediencia, e por cuja grandeza e dignidade com animo leal peleijaria; e foi seguindo a tomar o mesmo juramento aos demais Senhores e Procuradores das Cidades, que todos por sua ordem vinhão chegando a beijar as mãos dos Principes, a quem juravão lealdade. Sómente os Cidadãos de Toledo se negárão a esta homenagem: e não será fóra de razão contar o porque faltárão a este dever os Toletanos; que daqui se colherá por quão leves 59incidentes, se o mal se não atalha logo com prudencia, se costumão levantar nos Reinos turbulentos disturbios.
Houve de antigas eras em Hespanha entre Burgos e Toledo (duas Cidades, que demostravão preferir-se a todas as mais) summa altercação, asseverando os de Burgos de firmeza ser a sua Cidade a Metropole de Castella: e reclamando os de Toledo para esta o principado da Hespanha. Foi demanda esta, que nunca pôde ser julgada, nem acabar-se por algum meio com huma dellas, que remittisse á outra hum átomo do seu direito; e era muito arriscado cada vez que os Reis tinhão de ajuntar as Cortes, não se tomassem de mãos os que dessas Cidades vinhão punir por seus direitos. Pelo que Affonso XI. quando as convocou em Compostella, para arredar esta dissensão, disse ao Congresso (antes que houvesse menção de tal debate): “Sei que os Toletanos de mui boa mente cumprírão com as ordens: fallem os de Burgos.” Este dito de Monarca os socegou, tendo-se huns e outros por preferidos: os Toletanos porque ElRei os nomeou primeiro; e os de Burgos porque derão o primeiro parecer. Maxima foi esta, que os Reis de Castella continuárão a seguir, cada vez que juntárão Cortes. Todavia os de Toledo por evitar debate, o não quizerão fazer naquelle acto; mas apenas sahírão da Igreja, e antes que entrassem os Reis nos Paços 60do Arcebispo, onde lhes estava adereçado o banquete, vindo alli mesmo na rua a encontrar-se com D. Manoel e com a Rainha sua Esposa, lhes beijárão submissamente as mãos. Despedidas as Cortes, D. Fernando se dispoz a partir para Aragão com sua mulher, seu genro, e sua filha, para que como em Castella tinhão feito, prestassem os Grandes daquelle Reino obediencia e fé. A jornada que fizerão foi ella tal, que lhes vinha ao encontro, por onde quer que passavão, immensa gente em bandos, desmostradoras de incrivel alegria, os Donatarios, e Camaras bastantes os provião de quanto relevava para a régia pompa e vitualha. Chegárão a Çaragoça no primeiro de Junho, onde forão recebidos pelos usos daquella Cidade com solemnissimo fausto e sobejas ceremonias: e tanto que derão alguns dias ao repouso da jornada, fez D. Fernando que sem demora déssem os de Çaragoça como a Castelhanos, juramento de fidelidade a D. Manoel e á nova Rainha, o que os Çaragoçanos recusárão, se primeiro não viessem os de Valença e Barcelona, em cumprimento dos fóros de suas Cidades. Instou D. Fernando todavia, que não havia que esperar por elles, quando estavão certos, que em seu tempo e lugar compririão com o seu dever; que era escusada a demora em ponto tão arredado de dúvida; mas respondêrão-lhe, que não era elle de tão facil solução, que não compadecesse consultallo. 61Que nada vacillavão em dar sua homenagem, mas que só a maneira e condição della os retrahia. Que para mais commodamente consultarem, carecião da vinda dos outros deputados; porque a causa commum, communs avisos a sostivessem. Que se porém levava em gosto, que desde logo jurassem fé e homenagem, o farião de vontade, se D. Manoel e sua Esposa acceitassem a condição, que apenas entrassem na posse do Reino, lhes restituirião sem demora as immunidades e fóros, que aos Póvos de Aragão retirára D. Fernando. Ao que este respondeo, que nenhum caso o dobraria a remittir-lhes o que por seus demeritos exorbitantes lhes fora subtrahido, quando mórmente delle tão aveza e injuriosamente abusado tinhão. Nestas alterações, e não com tenue desagrado dos Reis, tres mezes se consumírão. Entre as muitas causas, que mediavão no dissentimento, não abalava pouco os animos dos Monarcas o dizerem os Çaragoçanos, que sempre fora brazão dos Aragonenezes não serem sujeitos a feminil imperio; e que se ElRei morria sem prole masculina, lhes era franco nomear em Cortes hum Rei, que por suas virtudes merecesse o throno. E ora os Çaragoçanos desvelados pela liberdade, passavão armas de encuberto em certas casas, se fortalecião de todos os lados, tinhão conferencias entre si ácerca da commum utilidade, e nada trascuravão, por melhor se assegurar 62de seus direitos. Mas estes desasocegos todos applacou-os a Senhora D. Isabel, dando á luz hum filho no dia 25 de Agosto, a quem derão o nome de Miguel, com cujo nascimento entrou o Avô em tão desmesurado contentamento, que lhe trasbordava em gritos, com que se dava os parabens, e a todos de ter hum Neto, herdeiro de todas as Hespanhas. Como porém todas as cousas humanas sejão mudaveis e transitorias, e summas alegrias disparão em tristissimo acabamento, este eximio regozijo dos Reis, estas congratulações dos Principes, estes applausos dos Cidadãos fenecêrão em acerbissimo nojo. Que a Senhora D. Isabel enfermava d’ha muito antes do parto; e quanto mais se este avisinhava, maiores symptomas indicava de molestias: e logo que allumiada foi de seu filho varão, em tanta copia lhe sobreveio hum fluxo de sangue, e tanto com elle lhe desfallecêrão as forças, que nos braços de seu Pai entregou o ultimo alento. Foi Princeza, em quem lustrou singular denotação de modestia, probidade, religião e prudencia, de que em aquelle ultimo acto da vida nos deixou claros abonos, dizendo e testemunhando cousas, de que bem colher se póde quão pouco desta miseravel vida, e quão muito da eterna cogitava. Seu enterramento foi com muitas lagrimas de todos acompanhado. ElRei D. Manoel logo que prefez suas exequias, e deo cumprimento a seus legados testamentarios, se partio 63para Portugal, despedindo-se, e como arrancando-se com muita dor de D. Fernando e D. Isabel. Nem podia a aquelle despedimento faltar renovação de acerbo pranto, quando a huns sobia ao animo, que filha tinhão perdido, e memorava D. Manoel ser viuvo d’huma Esposa ornadissima de todas as virtudes. Muitos Grandes o acompanhárão até Portugal.
E ora como de jornada pousasse na Villa de Aranda, que o Douro banha, mandou ao Papa Alexandre Embaixadores, que o exhortassem a attentar pelas cousas da Igreja: que andavão os costumes estragados, apagada a ansia da Religião, solto o despejo dos flagicios, e vendidas a indignos as cousas mais sagradas: que na Cidade, onde morárão a santidade e o Christianismo, tinhão levantado officinas á preversidade e á insolencia: que ardia a Igreja Romana em descarada infamia, e vergava para o despenho o pondonor Catholico. Por tanto lhe pedia e instava, e pelo Sangue de Jesu Christo lhe requeria pozesse atalho á maldade, decepasse a devassidão, reprimisse a avareza, ungisse os relaxados costumes com mais severa disciplina, désse honra a seu tão digno posto, reduzisse com exemplos, de suas virtudes o Rebanho Christão, que tão desgarrado hia do trilho da santidade. Mandava por Embaixadores a D. Rodrigo de Castro, D. Henrique Coutinho e D. Fernando Coutinho, pessoas de mui nobre qualidade, e 64mui qualificada prudencia, a quem deo ordem que se communicassem com o Embaixador, que ElRei D. Fernando pelo mesmo motivo mandava a Roma, segundo com elle D. Manoel o tinha concertado em Çaragoça. Logo que despedio os Embaixadores a jornadas contadas, voltou a Portugal, entrando em Lisboa no dia 13 de Outubro, onde foi inteirado pelas Cartas de D. Fernando e D. Isabel, que com summo consentimento dos Reinos de Aragão e de Castella fora seu filho D. Miguel declarado Principe legitimo e herdeiro de ambos aquelles Estados, e lhe fora prestada universal e pública fidelidade; e que assim lhe pedião, pelo muito que convinha á tranquillidade daquelles Reinos, semelhantemente o fizesse D. Manoel em Portugal. No anno seguinte, que foi o de 1499, para romper demoras, chamou a Cortes, que sem difficuldade se juntárão. Então requer de todos, que promettão obediencia e fé a seu unico filho D. Miguel para todo sempre, ora que Deos como a seu legitimo successor o suba ao throno daquelle Reino. E todavia as Cortes, antes de prestar homenagem, requerêrão de D. Manoel, que em nome de seu filho, e com juramento o abonasse, que nunca os Almoxarifados, nem Governos, nem Capitanías de Fortalezas d’aquém e d’além mar pertencentes ao dominio de Portugal, em nenhum tempo, nem sob condição alguma, serião dadas a quem não fosse Portuguez nativo: 65o que facilmente lhes concedeo D. Manoel. Neste presupposto prestárão fé a D. Miguel, dado que ausente, e D. Manoel assinou de sua propria letra o acto de promessa, confirmando este instrumento público de sempiterna memoria. Nisto conclue o que por este anno se passou na Lusitania. Quanto ao de fóra, os Embaixadores que D. Manoel mandára a Roma, tanto que lá entrárão, communicão, como lhes fora incumbido, com Garci-Lasso, Embaixador de D. Fernando, todo o amago da Embaixada; e depois de o terem bem deliberado, vão ter com o Pontifice, a quem em nome dos dous Monarcas humildemente pedem, rogão, instão queira com a applicação ao Christianismo, e severidade de castigos apagar o incendio de tantos flagicios. Nem só huma vez com vozes francas o requerem delle, mas a miudo lhe instão e urgem, e até com actos públicos abonão seu requerimento, para que fosse claro a todos que nada omittírão os Reis de Hespanha do que relevava para esteio da resvalante Igreja. E algum tanto fructificárão no Papa estes avisos, que dalli em diante governou menos devassamente os seus Estados, dando demonstração que lhe não fora desabrida a advertencia. Nem passárão muitos dias, que não mandasse a D. Manoel hum Nuncio com ricos presentes, por elle bentos com muita solemnidade; e estes dons consistião n’huma espada, e n’huma gorra, que ElRei recebeo 66com mui grata vontade, e despedio o Nuncio grandiosamente satisfeito, declarando por Carta ao Pontifice, que seria (como delle o dever da Religião lho requeria) mui fervoroso em seu obsequio. Nos 11 de Julho desse mesmo anno recebeo as primeiras novas da exploração das Indias, sob seus auspicios encetada: á qual tornaremos de seu principio, para dar clareza ao feito.
Logo que desancorou de Lisboa, poz Vasco da Gama o rumo nas Ilhas fortunadas: depois tomou para a de Sant-Iago, que he na face da Ethiopia, e de lá (como vinha nos prégos) poz a prôa no Oriente, ao qual mandou chegar as náos de sua conserva; e entradas que forão n’huma grande enseada, mandou colher as vélas e deitar ancoras ao fundo. Depois disse a Nicoláo Coelho, que cozendo-se mais com a terra, descobrisse algum rio, onde podessem fazer aguada: pois havia já tres mezes de consumidos na viagem pelo rigor das tormentas, pelo que hião mui faltos de agua. Foi o Coelho, em seguimento das ordens, inquirindo a praia, até que acertou com a fóz d’hum rio, cujas aguas erão doces, e as ribanceiras de mui verde arreio; do que deo parte a Vasco da Gama, que sem demora fez sinal de velejar para aquelle sitio, e nelle se prover de agua e de lenha: tambem alli pescárão grandes fócas, que são lá mui bastos, e sua carne lhes foi refresco. E ora tinha 67o Gama por documento, que em qualquer terra que aportasse, tirasse nota dos costumes e instituições da gente della: pelo que encommendou a certos homens, que por força, ou manha lhe houvessem á mão algum daquelles moradores, para delle tirar lingua do que desejava descortinar. Estes lhe trouxerão dos naturaes da terra de vária côr, crespo e curto o cabello, e de tal linguagem, que nenhum da companha instructos em muitas linguas da Ethiopia, lha comprehendeo. Nada menos o Gama os acolheo com boa sombra, os vestio, e prendeo, com os dons que mais parecêrão contentar-lhes, por ver se assim convidavão outros tambem a vir. Erão estes dons cascaveis, alguns velorios e outros deste jaêz. Seguio-se grande privança entre esta gente e os nossos, trazendo os Ethiopes dos fructos e carnes, com que a terra lhes acodio, bem necessarias para o sustento, que os nossos resgatavão com fatos de mui vil preço e tenuissimas zarandalhas, que estes homens tinhão por de gran valia; mas destruia toda esta convivencia o desatino de hum só homem. Que como se houvesse entranhado muito em familiaridade com elles, pedio licença a Vasco da Gama de adentrar até suas intimas pousadas; e como elles o levasssem comsigo, lhe matárão hum grande fóca para (a seu juizo) o regalarem lauta e opulentamente; mas elle que de taes carnes de banquete tomava enjôo, voltou logo e vinha recolhendo-se 68ás náos. Elles porém mui humanamente o vinhão acompanhando; e o nosso que vacillava se o tiravão ao supplicio, ou se tanto cerco de comitiva vinha por cortezia e honra [antes o susto lhe pintava o animo dos lances mais tristonhos]; tanto que avisinhou com a praia, pedio soccorro a grandes gritos aos nossos, que corrêrão a acodir-lhe; o que vendo os da terra, derão a fogir. Tinha o Gama desembarcado com os mais Capitães, para mais seguramente tomar naquellas paragens da linha a altura do Sol; e como os que fugírão, não sabião qual era a intenção dos nossos em vir áquellas regiões, se amparárão nos bosques, onde tinhão deposto as suas armas. E ora as armas de que muito se servião, erão chuças com pontas de corno tão aguçadas, que despedidas com rijeza de braço, não abrião menos ferida, que agudissimos arremessões bem sacudidos. Discorrendo pois os nossos pela praia sem suspeita do menor risco, arrancão os outros do enfurnado mato, cahem de impeto nos nossos, ferem muitos e entre elles a Vasco da Gama n’huma perna. Retirárão-se os nossos mais rapidos do que cuidavão, com cujo feito ficou infesta aquella aguada, pela temeridade d’hum imprudente. Pozerão a aquella enseada o nome de Santa Helena, e ao rio o de Sant-Iago, porque era de uso dos nossos descubridores dar ás terras, ilhas, e ribeiras desconhecidas os nomes dos Santos, que 69erão célebres nos dias que as avistavão. Levárão ancoras dalli e corrêrão para o Sul, porfiados a montar o Cabo de boa esperança: porfia, em que realçou muito o esforço do Capitão Vasco da Gama, porque erão cruelissimos os mares, frigidissimos e contrarios os ventos, as brumas e os temporaes continuos, sendo sempre naquellas partes em tempos certos muito horriveis e muito para temer, quando o Sol allumia a quadra Septentrional; e mais para quem nunca palpára aquellas ondas, do que concebêrão tal susto, que toda a confiança de salvamento rejeitavão. Que taes hião as vagas assomadas, que ora parecião as náos romper as nuvens, ora roçar no leito do profundo. Accrescia a este mal, que não podião canjar avante. Deixavão-se ir com as vélas ferradas á mercê dos ventos, fazendo bordos, por não perder caminho, esperando entre embates de maré o fim das tempestades. A cada sóta que dava o tempo, vinhão todos pôr-se á roda do Gama a pedir-lhe, e requerer-lhe não quizesse dar acabamento com tão horrendo genero de morte a si e a tantos, a seu credito encommendados. Que não cabia em suas forças lutar contra taes ondas: que cedesse á tormenta, e antes que a sorvesse o mar, deixasse a Armada tornar á Patria. E como elle recusasse com segurança de animo o requerido, conjurárão alguns de lhe dar morte. Soube-o elle por indicios de seu irmão Paulo da Gama; e pondo 70toda a cautela no desvio, poz a ferros Mestres e Pilotos, encarregando-se elle mesmo da incumbencia do Piloto Mór. Depois de ter em fim por muitos dias sostido com valor sem québra o pezo dos temporaes, e o da perfidia, virou o tempo, tomou com os mais Capitães a ponta do Cabo, que com summa alegria começárão a dobrar em 20 de Novembro, pelo conceito em que estavão que huma vez vencido, vencidos erão todos os obstaculos de chegarem felizmente aonde pretendião. Hião navegando sempre terra terra, para melhor se deleitarem com a vista de sua situação e fertilidade, extensos e abastecidos matos, innumeraveis rebanhos de gado miudo, e armentios, e a cada passo vagarem copiosas Cafilas de gente. Ora são mui semelhantes em côr e especie estes homens aos que na enseada de Santa Helena vimos: o seu fallar he como de soluços; andão nús, e trazem n’hum estojo de páo as partes naturaes; usão de flautas, em que modulão não mui fóra de consonancia. Construem choças com adôbes cozidos ao Sol, ou tambem de simples terra, que cobrem depois com colmo, ou com enfileiradas leivas. Gastárão cinco dias em vingar até á testeira do Promontorio, que deixão de ré em 25 de Novembro, encurvando a carreira para o Norte. Do ultimo seio do Cabo, que jaz contra o Levante, demora a 220$000 passos huma angra, que os nossos dizem aguada de S. Braz: 71são terras grossas, que sustentão corpulentissimos elefantes, muitos e mui nedios touros, de que os moradores usão como de jumentos, impondo-lhes ceirões. No centro da angra está hum ilheo, onde os nossos abicárão para fazer aguada; e alli vírão huma desmesurada copia de fócas em cardumes; e erão elles tão ferozes e tão sanhudos, que arremetião c’os mareantes. Tambem vírão certos passaros, que os indigenas daquelles sitios chamão sotilicarios, do tamanho de adens, implumes por todo o corpo, e as azas como as dos morcegos: não voão, que não podem; mas abrindo ao vento as azas como de pergaminho, disferem velocissima carreira. Alli comprárão carnes; e feita boa aguada, partírão della. Cahio sobre elles no dia 8 de Dezembro horroroso vendaval inopinado, que os arredou mui longe da vista de terra, á qual se vierão apropinquando, logo que a borrasca amainou; que não estando ainda assás descuberto aos nossos o theor de navegar naquelles mares, cuidavão muito em não se discingirem della. Vírão então humas ilhetas, que pouco mais de 230$000 passos se desvião da em que fizerão sua derradeira aguada: e erão ellas amenissimas, altissimos os arvoredos, viçosissimas as campinas, sem quantia os gados, que erravão por seus pastios. Tudo estava em remanso, o ancoradouro tão profundo, que podião quasi as náos beijar em terra, e do alto dellas gozar de contemplalla. 72Torneando pois toda aquella praia, avistárão em dez de Janeiro do anno seguinte grandissimo concurso de homens e mulheres, que por alli versavão: elles erão todos fulos de côr como quantos em aquellas terras morão, de boa estatura, e formoso talhe. Assim mandou logo Vasco da Gama pôr em terra as prôas; e a hum que bem sabia as linguas, que em seu nome fosse cortezmente saudar e presentear o Regedor daquelle Povo. Foi elle mais graciosamente agasalhado, e com os bens que dá o clima despedido. Era esta gente mais tratavel que as outras, vivendo mais ao abastado: ornavão os pulsos com braceletes de bronze, e de bronze erão os cintos das cabeças. Trazião punhaes com guardas de estanho, não mui toscamente lavrados, e as bainhas erão de marfim. Aqui deixou Vasco da Gama dous degradados, que tomassem fé dos costumes e culto dos habitantes. Que levava na Armada dez sentenceados, a quem commutárão a pena de morte em desparzillos o General pelos póvos que bem julgasse, para se inquirirem daquellas terras e tomarem prática de seus costumes e instituições.
Partidos dalli, entrárão em 15 de Janeiro pela embocadura d’hum caudaloso rio, cujas margens se ensombravão com enlaçados troncos de copadas arvores, vergando de fructos: a terra era hervosa e aprazivel. Aqui lançárão ancoras para indagarem no dia seguinte (porque 73hia em gráo declive o Sol) o theor daquelles sitios. Vírão pela manhã muitos dos da terra, quasi da mesma côr e traje, virem em bateis demandar as náos; e logo que as abordárão, sobirem sem a menor desconfiança; com o que os nossos os acolhêrão liberalmente com manjares e bebidas. Nenhum porém dos nossos lhes comprehendia o idioma: com acenos sómente denotavão o que quizerão exprimir. Tres dias passados, vierão quatro homens principaes daquelle Povo saudar Vasco da Gama e contemplarem a nossa Armada, e vinhão elles mais decentemente cubertos: assim Vasco da Gama os convidou com iguarias, que lhes mandou servir, e os presenteou com roupas de seda, com o que elles parecêrão não mediocremente satisfeitos. Mas nem ainda destes se pôde colher indicio algum, por onde suspeitassemos quão perto, ou quanto distantes ainda estivessemos da India. Hum todavia nos disse em máo Arabigo, que ás praias, d’onde elle viera poucos dias antes, e que não erão por longo trato arredadas daquelle porto, aportavão frequentemente iguaes navios em grandeza e feitio ao que nos nossos via. Os nossos tanto que tal lhe ouvírão, entrárão em esperanças de que em breve computo de dias darião vista da India: com o que se moveo Vasco da Gama a dar a este rio o nome dos Bons Sinaes, e n’huma das ribanceiras delle cravou huma columna de pedra com huma 74Cruz gravada e com a insignia d’ElRei D. Manoel. O que elle fazia assim em todos os Portos, que mais opportunos imaginava, para mais diuturnamente conservarem a gloria do nome Christão, e os padrões do preclarissimo Soberano: para o que lhe forão carregadas nos navios muitas destas columnas. Mandou porém que aquella terra fosse illustrada com o nome de S. Rafael; e nella deixou tambem dous daquelles condemnados, que, como dissemos, remírão a vida com o desterro. Daqui, logo que adobou as náos, e tratou os enfermos, mandou pôr de verga d’alto, levar ancoras, e fazer-se á véla aos 24 de Fevereiro. No primeiro de Março descubrírão quatro ilhas nem muito longe delles, nem por largos mares entre ellas separadas. D’huma dellas vio Nicoláo Coelho arrancar sete caravélas, e vir direitas a elles; e os que nellas vinhão conhecendo pela bandeira do mastro grande a Capitanea, voltão a ella as prôas; e feitos mais ao perto, erguendo grandes alaridos, saudárão os nossos em Arabigo. Alli mandou Vasco da Gama a Nicoláo Coelho, cuja náo era a mais pequena, que fosse em direitura da ilha, d’onde vírão largar as caravélas. Partio Coelho diante, sondando sempre, e bem examinado o fundo do ancoradouro, vierão pouco a pouco seguindo-o as outras. Entretanto as caravélas ladeão as nossas náos, e com a consonancia de seus anafins e outros musicos instrumentos, 75regalão os nossos mareantes, e a grandes vozes lhes dão os prolfaças de sua chegada a aquellas praias. Erão estes homens de côr baça, mas mui bem apessoados, trajavão opas de seda, ornavão as cabeças com toucas foteadas de finissimo algodão listado de ouro: cingião alfanjes ao lado, e arrodelavão-se de broqueis. Ao entrar pelas nossas náos nos saudárão em Arabigo, a que cortezmente respondêrão os que esta lingua bem sabião. Vasco da Gama lhes mandou pôr banquete, cujas iguarias elles não rejeitárão; e em quanto se refazem, lhes pergunta o nosso Capitão, que nome tinha a ilha, qual era sua Religião e seu governo. Ao que respondem, que a ilha tinha por nome Moçambique, que o Povo adorava os idolos, que boa parte della era habitada de mercadores Sarracenos: que pertencia a ilha a ElRei de Quiloá, que nella tinha hum Xeque mui authorizado de sua pessoa, e que apenas se acharia por aquellas partes mais frequentado emporio. Que dalli sahião náos a mercadejar na Arabia, na India, e outras partes do Universo, d’onde tornavão com innumeraveis carregações. Dizem-lhe, que por aquella altura demorava Sofála, diante quem os nossos perpassárão, terra mui abundosa de ouro: e por ultimo, que distancia hia dalli a Calecut. Erguião as mãos ao Ceo os nossos, quando isto ouvião, davão graças ao Omnipotente, imaginando ter já vencido mui grande 76parte de seus trabalhos. Jaz esta ilha na região, que antigamente appellidavão Egesimba, 16 gráos além da linha para a banda do Sul. São negros os que a habitão, e a terra he insalubre, em razão de apaulada: as casas em que morão, são de terra, cubertas com palha enfeixada: a opportunidade porém que ella abre ao commercio, faz que venhão alli de toda a parte fazer tráfico os navios. Os Arabios erão quem nella então mais florecião em riquezas e poder. Servião-se de paráos não juntos com prégos de ferro, mas com grossos tórnos de páo, passados nos buracos da madeira, calefetando-lhes as juntas com estôpa, que tirão de cordas feitas de folhas de Palmeira. São estas palmas, ou coqueiros arvores altissimas, copadas de mui largos abanos de folhas agudissimas e mui longas, com que seus extensos ramos bem cubertos, causão amenissima sombra: dão humas nozes de grandeza desmesurada, a que chamamos cocos; e para a navegação se valião de certos instrumentos maritimos, que os Pilotos nomeão Agulhas, cuja fórma não julgo desacertado descrevella, para clareza dos que não cursão as bordas do mar.
He huma como boceta de madeira redonda e plana, de dous ou tres dedos de altura: tem no centro hum espigão fixo agudissimo na ponta, menos alto que o vaso. Põe-se-lhe em cima huma regra de ferro primorosamente fabricada, 77delgada e estreita, compassada com a grandeza do vaso, de sorte porém que não iguale com o diametro delle. No meio desta regra entra a ponta do espigão n’hum concavo, ou funil fechado que a acapélla, e de tal modo nelle suspensa se balança em movimentos iguaes, que todos os angulos que faz são semelhantes. Cobre-se esta boceta com hum vidro, que hum fio de arame segura em redondo, e impede a regra de sacodir-se do espigão e cahir fóra. Ora sendo tal a virtude do iman, que não só tire a si o ferro, mas faça ainda que huma parte delle busque o Norte, outra dê contra o Sul, e assim communique ao ferro a sua mesma virtude: daqui vem, que quando as farpas desta regra ou flécha, que hão de fitar o Norte, forão tocadas e esfregadas com o iman, concebão a mesma direcção, e ficando suspensas de modo que possão mover-se em todo o sentido, sempre pela propensão que o iman lhe deo, apontará o pólo arctico. Succedia daqui, que os mareantes advertidos por este instrumento, ainda mesmo quando mais alto se emmaravão, e quando mais ennuveado e brusco estava o Ceo, sabião pelo theor do Septentrião marcar o rumo. A esta regra ou flécha, pela parecensa que com huma agulha tem, chamárão Agulha de marear. E como depois he muito facil ao engenho humano ajuntar ao que com agudeza se inventou, imaginárão outra fórma para mais 78ao justo saberem tomar rumo no decurso da navegação. De humas varinhas de ferro compõem huma figura equilátera, mas de angulos dissemelhantes á maneira de rhombo. Pela parte superior lhe grudão huma carta redonda, e outra igual pela inferior; e dando-lhe a hum dos angulos agudos toda a força do iman, o armão de sorte, que hum indica o Septentrião, e o angulo contrario o Meio-dia: hum dos dous obtusos lhes fica ao Levante, e outro ao Poente. O diametro da Carta não sobra ao diametro da figura. A Carta tem no centro hum como-embigo de bronze afunilado, tal como o que, dissemos se fabríca no meio da flécha da outra agulha de marear. Passa por este embigo a ponta do espigão, e tem a Carta suspendida; e assim não só faz as vezes da flécha que mencionamos, mas expõe tambem á vista todos e quantos rumos de ventos investem com o navio: porque na Carta de cima ha o Septentrião, o Austro, o Oriente, e o Occidente, e entre estes quatro todos os mais ventos intermedios mui apuradamente decifrados. Ficava-lhe hum senão a este instrumento. Quando, alvorotadas as ondas, a náo arfava da prôa á pôpa, ou jogava de bombordo a estibordo, cozia-se a agulha com o fundo, e não tinha franca a pontaria ao Norte. Engenhosamente atinárão com o atalho do mal. Cingírão c’hum nastro de bronze o vaso pela soborda: sahem-lhe do cinto dous pólos de 79aço, que se enfião em dous buracos d’outro círculo maior externo, mas pouco distante do círculo interior. Ora são estes dous eixos dispostos de geito, que se se prolongassem por dentro do vaso, lhe servirião de diametro, e vão servir de pólos ao círculo exterior, para que em torno delles libre. Deste círculo exterior sahem em igual distancia duas outras pontas, que entrão no âmago da circumferencia interna da caixa que encerra todo este engenho. São tambem contra postas as duas pontas, que prolongadas como as outras, se cortarião no centro em angulos rectos. Como esta máquina tem o fundo de grosso bronze, o pezo faz que em nada toque; e por mais embatida que seja, não muda de sitio. Suspensa e móbil a hum tempo, firme em seu proprio pendor, por tal theor de engenho, que entre os mais desamparados balanços do navio se conserva sempre em seu dever. Assim conseguem, que nenhum lance tolha a este instrumento o fito, com que sempre derrota para o Septentrião. Destas agulhas de marear se valião já aquelles Arabes, e tambem de cartas, por cujas linhas alli bem traçadas, conhecessem apuradamente as paragens daquellas maritimas regiões. Tinhão tambem Quadrantes, com que observavão a altura do Sol, e quanto cada paragem dista do círculo equinocial. Tão adiantados estavão em muitos segredos da navegação, que pouco premio cedião aos Portuguezes, 80na intelligencia e meneio das cousas maritimas. Conversavão mui graciosamente com os nossos, porque os crião Mahometanos dos que demorão lá para a Mauritania. Vasco da Gama os prendeo com dadivas, e os encarregou de alguns mimos em nome seu para o Xeque da ilha, que tinha por nome Zacoeja: que logo que se inteirou dos seus de com quanta affabilidade tinhão sido recebidos, e vio os presentes que lhe erão mandados, teve por seu mui cumprido dever ir visitallos. Pelo que sem demora se lançou huma cabaia floreada de ouro, e poz no cinto hum mui luzido e bem gemmado alfanje, e hum precioso e esplendido punhal, e com boa comitiva de homens armados, se pôz em caminho das náos, e em tanto resoavão por toda a parte os timbales e os anafins. Mas antes que elle as abordasse, tinha Vasco da Gama mandado retirar, e não ser vistos todos os doentes, vestir-se e armar-se á nossa usança todos os sadios e bem dispostos, e derramallos pela tolda e ao portaló. Por quanto estava mui de acordo a se não confiar em fé de Mouros, e prevenir acautelado e com dissimulo quantas ciladas lhe pudessem urdir. Veio depois esperar Zacoeja ao portaló, para alli o receber; e tanto que elle com os seus teve sobido, o nosso Capitão o saudou, a que elle respondeo c’hum benevolo abraço. Sentados todos, seguio-se agradavel conversação, e depois manjares e vinho, que Vasco da Gama 81lhes mandou pôr diante, que elles com festivo semblante comem, e não ha hi superstição de Mafoma, que lhes tolha esgotarem com desafogo as taças. Zacoeja perguntava se erão Mouros, ou Turcos; bem capacitado que seguião as leis de Mahomet. Tambem quiz saber de que armas usavão nas peleijas, e se trazião comsigo alguns livros da seita Mafamede, que com gosto os verião, se alli fossem. Vasco da Gama lhes respondeo, que do ultimo Occidente vinhão buscar aquellas paragens, e usavão taes armas como via carregados os que em roda delle estavão, que além dessas, empregavão tambem aquellas peças de artilheria, capazes não só de desbaratar legiões de homens, mas de demolir e arrazar segurrissimos Castellos. Que de bom grado lhe mostraria os livros da Religião que seguia, quando tivesse tomado alguns dias de repouso. Que levava o fito na India, pelo que lhe pedia alguns homens entendidos naquella navegação, para lhe servirem de guias até Calecut. Que assim fazendo, elle Vasco da Gama tal cuidado se daria, que a Zacoeja lhe não pezasse da mercê que lhe fizesse. Zacoeja lho prometteo assim, e no dia seguinte veio visitar o nosso Capitão, trazendo comsigo dous Pilotos, com quem Vasco da Gama se concertou por certa quantia de ouro, que o levarião a Calecut. E ora parecia naquellas occasiões tão bem assentada a familiaridade entre huns e outros 82com reciprocos presentes, que a não crião perturbavel a successo algum que interviesse. Acertou porém que Zacoeja rastreou ser o Gama Christão e os Companheiros, com cujo alcance toda aquella amizade se converteo em odio acerbo. Desde logo lhe começou a traçar perfidias, a maquinar-lhe perdição, e a excogitar por todos os cabos de que geito lhe poderia tomar as náos, ou dar-lhas ao fogo. Já obravão de máo modo com os nossos, augmentando-lhes tudo de preço, assanhando á mão tenente em arruidos os indigenas contra os nossos. Finalmente hum dos Pilotos, que Zacoeja trouxera, descubrio ao Capitão as ciladas, que Zacoeja lhe tecia, e o outro, que tinha ido a terra, nunca mais se deixou avistar dos Lusitanos. Aconteceo tambem que alguns dos nossos, indo a terra fazer aguada e lenha, forão accommettidos de sete almadias, a que logo os nossos acodírão; e dando impetuosamente nelles, a tiros de bésta os derrotárão. Fez este caso com que os nossos se passassem logo a huma ilha, que 4$000 passos lhe fica defronte, e de lá á ilha de Quilôa, d’onde não podendo ir avante, porque os forçavão a recuar os tempos contrarios, recorrêrão á primeira ilha, onde com receio de insidias se transpassárão. Alli accorreo a elles hum Arabio com hum filho, pedindo encarecidamente a Vasco da Gama os recolhesse na sua náo, para os desembarcar em alguma paragem, d’onde mais 83facilmente tornassem á Méca, patria de ambos: e Vasco da Gama lhes perguntou, que mister exercitavão, Mareantes, lhe respondêrão. Logo que isto lhe ouvio, de mui boa sombra o recebeo o Gama, e com dous Pilotos taes, bem abonado se dava de ir com sua carreira a cabo. Além de que n’huma das sedições de Moçambique contra os nossos açuladas, tinha Paulo da Gama tomado á força hum homem, que não parecia lerdo na arte nautica. Nem nesse lance tinhão os nossos além de tres náos, porque a quarta que trazia as vitualhas, como estas erão gastas, mandára Vasco da Gama queimalla poucos dias antes. Dalli pois, logo que o vento lhes foi favoravel, levárão ancoras, disferírão vélas em demanda de Quilôa, onde todavia não foi possivel ás náos de entrar, ou já que os ventos os repellissem da ilha, ou que houvesse erro na derrota; ou bem que o Piloto de Moçambique, que se aprestava a acabar-lhes as vidas, por dolo lhes commettia nova carreira. Já lhes dizia, que tomassem Mombaça, Cidade onde (com grande aleive) lhes persuadia serem pela maior parte Christãos os moradores, onde mais que em nenhuma acertaria com sitio opportuno para guarecer e restaurar os seus doentes. Que muita parte dos que com Vasco da Gama se embarcárão, erão naquelle tempo mortos de differentes molestias, e os poucos que escapárão, attenuados de grave quebrantamento. Assenta-se 84Mombaça n’huma alta e descuberta rócha, no seio d’huma abra, onde as ondas vão bater fronteiras, quando na fóz entrão a alterar-se, e de lá quando recuão, se partem em dous esteiros, com que abração ambos os lados da Cidade, e como a Peninsula a despégão do continente. Tinha no porto huma fortaleza bem fornida, crespa de artilheria, lanças e outras armas, valentissimo presidio dentro, e vigiada de desvelada sentinéla. He o terreno grosso em hortaliças, fructos e searas, rebanhos de gado miudo e armentio, e aguas saborosas: e he alli o Ceo mui temperado. Os homens alli vivem muito ao polido, e edificão suas moradas a nosso modo, rebocando-lhes as paredes com estuques de varias cores. Aqui veio pois Vasco da Gama na intenção de passar alguns dias no seu porto, em que regalasse os seus doentes com os fructos e refrescos da terra. Ainda as náos não tinhão bem lançado ferro, que vírão huma grande barca abordar a Capitanea, e trazia obra de cem pessoas, vestidas á Turquesca, com seus alfanjes e rodéllas, e entre elles quatro, que pela apparente dignidade e trajo de suas personagens, se avantajavão aos outros; e como todos pretendessem subir, lho vedou Vasco da Gama, menos a aquelles quatro, e ainda quiz que depozessem antes suas armas. Subírão estes, e qualificárão muito a prudencia do nosso Capitão, em não consentir se lhe chegassem 85de perto com armas, homens que elle não conhecia; e convidados grandiosamente a comer, elles o fizerão e tratárão de se affeiçoar os nossos com muitas mostras de amizade, concluindo com dizer-lhes, tivera ElRei por aquelles dias novas seguras da sua vinda, e estava mui alvoroçado de concertar intimidade com elles. Ao que Vasco da Gama deo respostas de graciosa benevolencia, e egregia cortezanía. No dia seguinte lhe mandou ElRei Embaixadores, que em seu nome comprimentassem a Vasco da Gama, e em dom lhe levassem refrescos para os soldados, trabalhados da viagem. E mais lhe dizião, ser a Cidade mui opulenta, e mui abastecida de todas aquellas cousas, em busca das quaes navegavão muitos á India: que de sua vontade lhes era ElRei muito inclinado, e que nada havia ahi tão difficil, que a seu respeito não promettesse fazer. Pedião tambem a Vasco da Gama se avisinhasse da Cidade, entranhando-se mais no seio do porto, para que mais facil fosse vir ElRei a vê-los, como muito desejava: aqui Vasco da Gama denotou assim cumprir, e lhes deo em refens dous dos degredados, de que acima fallamos, com recado para ElRei. Este lhes fez gracioso e festivo acolhimento, e deo ordem a seus criados, que lhes fossem mostrar a situação e formosura da Cidade, e á volta lhes faz alarde de quantas sortes de aromas se vem fazer emprego na India, e de tudo o que 86alli vírão, lhes faz mimo, para que o possão mostrar a Vasco da Gama, e encarecer-lhe quão util lhe era mais tratar com hum Rei amigo, que confiar a vida a tão perigosa navegação. Com este recado tornárão os degredados aos navios; e Vasco da Gama tão pasmosa alegria dalli cobrou, que no dia seguinte mandára içar as ancoras e fazer-se á véla para a Cidade. Como porém a sua náo corresse mais ligeira compellida do tezo da maré, e hia mais avante do que era acertado, elle que se receava de algum baixo, em que viesse a soffrer, mandou colher as vélas logo, e deitar ancoras ao fundo; e fez sinal aos mais navios que fizessem o mesmo, e sem demora. De cuja acção tomados de repentino susto os Pilotos de Moçambique, se arrojão precipitados ao mar; e fugindo, e nadando, se acolhem em certas barcas, que não longe delles erão. Que suspeitárão das ancoras, que contra seu conceito lançadas vírão, ser descuberta a sua trama: e (como logo foi sabido) tinha ajustado ElRei com os que frequentemente vinhão da sua parte com recados, engasgassem em tal paragem as nossas náos, onde facilmente fossem espedaçadas ou cativas. Em tanto vociferava o Gama aos das barcas, que lhe restituissem os seus Pilotos; mas elles com pouco caso de seus gritos, puzerão os Pilotos em terra. Então o nosso Capitão, que de sua conjectura, de alguns indicios do Piloto Arabio, e 87muitos outros sinaes, deo fé do grandissimo perigo, de que tinha por divino amparo sido livre, ergueo suas mãos ao Ceo. Todavia mandava ElRei de noite e muito ao callado, em barcas e bateis, homens, que com machadas lhe cortassem as amarras; e sem o muito desvelo, que o Gama punha nas vigias, e em obviar as insidias daquelle Rei preverso, alli correrião os nossos extremado risco em suas vidas. Derão dalli á véla depois de dous dias serem passados (que não lhes foi dado despachar-se mais presto); e dirigindo sua carreira para Melinde, cativárão hum Zambuco de Mouros, quatorze dos quaes sómente conservou prezos o Gama, dando liberdade a todos os mais. E como percebesse no Arrais, que era hum delles, visos de gravidade, que denotavão hum homem authorizado, lhe fez varias perguntas, ás quaes todas, como varão sizudo, respondeo com verdade e com prudencia.
Indo assim navegando a Lusitana Armada, no dia em que a familia Christã celebra a Resurreição do Salvador, surgio ante Melinde. Jaz situada esta Cidade n’huma planice; cingem-na em roda jardins e hortas de multiplice verdura: abunda em arvoredos, e entre elles muitos limoeiros, cujas flores espargem de mui longe suavissimo cheiro. São seus contornos ferteis e abastados não sómente em gados, mas em toda a caça de pé e de altaneria: 88as casas de mui boa cantaria bem assoalhadas, bem rebocadas, bem artezoadas. A gente adora os idolos, e são em o culto delles miudamente supersticiosos: os habitantes negros e de pello retorcido; são quanto a seus corpos mui bem apessoados; involvem as cabeças com turbantes de tecidos algodões; nús pelo demais corpo até o embigo; lanção delle até meia perna certos saiotes de seda. Na guerra usão de cimitarras e broqueis, de lanças, de arco e settas: incrivelmente se pavoneão de os terem por esforçados e guerreiros. Não fica perto da Cidade o ancoradouro, porque toda aquella costa he espinhada de rochedos, e exposta a frequentes trovoadas e ventanias, o que obrigou Vasco da Gama a surgir hum tanto longe da Cidade. O Mouro Piloto cativo no Zambuco, mal que entendeo que pelo perigo ameaçado em Mombaça, desconfiava o nosso Capitão d’ElRei de Melinde, se offereceo a ir por enviado e tirar indicios de seu animo; e instou mais com lhe dizer, que havia naquelle porto quatro náos das partes da India, em que vinhão passageiros Christãos do Oriente, que abraçarião com ansia partirem com elle para a India, tendo dado boa conclusão a seus negocios; companhia esta, que lhe facilitaria summamente a sua derrota. Vasco da Gama, que lhe não dava muita fé, considerando todavia o pouco que se perdia em palpar aquella venida, mandou deitar o Mouro n’huma 89ilhasinha fronteira de Melinde, d’onde este se passou n’hum barquinho, que de lá veio á Cidade; e posto ante ElRei, dá grandes louvores á nossa gente, quanto erão humanos e fieis: quanto desejo tinha o Capitão e mais companha de entrar em sua amizade; e que era muito de seu engrandecimento ferir pacto de amiga alliança com taes homens. Era ElRei já idoso, e mui clemente e pacifico de sua compleição, pelo que mandou a Officiaes de sua casa, que em seu nome fossem saudar Vasco da Gama, e lhe levassem dadivas de cousas comestiveis, como carneiros, e frutas de toda a casta. Com reciprocos presentes os remunerou o Gama, esmerando-se em lhes não ceder em bizarria e trato. Mandou tambem encostar os navios mais á terra, e vir a elles os Christãos Indianos, que com ver-nos concebêrão incrivel contentamento, e nos advertírão de muitas cousas mui proveitosas á conservação da vida, e segurança da viagem. Posto que ElRei tinha extremo desejo de ver as nossas náos, os incommodos da molestia e dos muitos annos lhe tolhêrão o conseguillo; assim veio seu filho, que em vez delle regía já seu Reino, e o acompanhou até ás náos grande sequito de homens nobres: e vinha elle custosamente adornado de todas as insignias Reaes, resoando em toda a comitiva os anafins e os atabales. Para mais cortezmente o receber, desceo Vasco da Gama a huma bem toldada 90lancha, á qual, para o prevenir, com despejado salto se lançou o Principe, dando-lhe estreitissimos abraços, como se de longa amizade, e familiar conhecimento se tratárão. Sentados todos, começárão gostosissima prática, e em toda ella o Principe nenhum resabio demostrou de homem inculto, antes representava engenho e prudencia digna da sua qualidade. Olhava para o Gama com hum certo assombro; contemplava o feitio das nossas náos, e com muitos sinaes dava a entender quanta affeição o penhorava pelos nossos. Então he que Vasco da Gama lhe fez presente de todos os Mouros que cativára; o que o Principe acceitou em grande mercê, e o animou a pedir-lhe que viesse visitar seu Pai, que elle lhe deixaria em refens dous filhos seus. E como negasse o Gama poder cumprir com sua vontade, lhe pedio ao menos deixasse vir com elle dous de sua companhia. Facilmente lhe forão outorgados; e no dia seguinte na mesma lancha se aproximou mais da praia para contemplar a formosura da Cidade; e nesta segunda visita o Principe se não descuidou de obsequio algum, que podésse demostrar quão summamente nos era inclinado, até que por ultimo nos fez mimo d’hum peritissimo Piloto Guzarate, cuja patria banha o Rio Indo, requerendo sómente por graça a promessa de que quando por alli voltasse, receberia a bordo hum Embaixador, que fosse a Portugal tratar santissimo concerto 91de amizade com o seu preclarissimo Soberano.
Despedio dalli o Gama a 22 de Abril: e bem que talhassem derrota para o Nascente, descahião sempre sobre Norte, de sorte que em poucos dias cortárão por baixo do arco do Equinocio, e vírão com grão prazer estrellas, que por muitos mezes se lhe escondêrão. Fitão nas duas Ursas, e no Horizonte a saudosa vista, e nas mais estrellas, que compõem espreita virola ao Polo Arctico. Vão atravessando com ventos de servir a campina de aguas, que no mais intimo de seu retiro, lava grande parte da Ethiopia, Arabia e Caramania. Chega em fim o dia 20 de Maio, em que descortinão terra manifesta e levantada, que o Piloto desconheceo, pela nevoa que sobreveio; mas passados dous dias, atinou com as montanhas do termo de Calecut, e veio logo correndo ao Capitão pedir-lhe boas alviçaras de tão fausto annúncio, que elle não só, e mui cumuladas as deo; mas tambem muitas graças a Nosso Senhor, recebendo em sua affeição os conjurados, que mandou soltar: e tanta foi a alegria em que entrou, que semelhava recolher já os fructos dos arduos trabalhos, que em tão longa e difficil peregrinação tinha soffrido. Ancorárão aquelle dia nessa mesma paragem, que 2$000 passos dista de Calecut: nem tardárão a vir logo embarcações: perguntão estes muito, e sem conto são os outros forçados a responder. 92Quiz primeiro que tudo pelos seus linguas saber Vasco da Gama, onde então se aposentava ElRei, para o que mandou a Calecut hum degredado, que apenas pôz pés em terra, se lhe apinhou grande turba em roda delle, vendo-o trajado tanto ao desconhecido, e começárão a inquirillo d’onde vinha, onde nascêra, que cousa o trazia alli, que tormenta o lançára naquellas praias. Nem elle os comprehendia, nem os outros lhe atinavão c’o sentido do seu fallar. Já tanto o abafava a circumfusa multidão, que cuidava ainda fluctuar sobre o mar salgado, embatido daqui e dalli, até que se affrontou com dous Mercadores de Tunes. Estes ficárão muito espantados, quando pelo traje conhecêrão que das Hespanhas vinha; e hum delles, que Monçaide se dizia, lhe perguntou em Hespanhol, de que sitio de Hespanha elle era; ao que respondeo, que de Portugal. Quando tal lhe ouvio Monçaide, convidou-o para casa, onde lhe deo refeição, e o inteirou do muito trato, que tivera com os Portuguezes, quando ElRei D. João mandava lá comprar de que prover seus armazens, todas as quaes cousas elle lhe aprestava com zelo e probidade: por fim lhe disse, que o levasse comsigo ao Capitão; e assim vierão logo ambos em demanda das náos. Monçaide saudou Vasco da Gama em Castelhano, a quem este acolheo benigno; e depois de muitas práticas d’hum lado e d’outro proferidas, 93o avisou o Mouro de muitas circumstancias; e a tudo quanto o Gama lhe perguntou, respondeo elle de sorte, que facil era de perceber quão prudente, e curioso elle era: e rematou, dizendo, que para quanto o Gama quizesse usar de seu prestimo, o desempenharia, como o devia hum homem de honra. Tambem lhe certificou, que mui grata fôra a ElRei de Calecut a sua chegada, pelo muito que lhe contenta o commercio com gentes estrangeiras; por quanto seu Imperio, dado que dilatado seja, e muitos Reis lhe paguem páreas, mais se sustenta das Alfandegas, que de dizimas das terras. No dia que se seguio mandou o nosso Capitão dous homens da sua comitiva com Monçaide a ElRei, que então assistia em Pandarane, lugar dalli arredado 2$000 passos; os quaes tanto que admittidos forão, dizem que ElRei de Portugal, movido da fama de sua dignidade e grandeza, enviava hum de seus Generaes, que em seu nome travasse com elle contrato de perpétua amizade, e lhe désse lealdade do gosto, com que cumpriria quanto soubesse ser de seu agrado; e que este mesmo General pedia ao Monarca permissão de vir á sua presença. Respondeo-lhes ElRei, que mui jucunda lhe fôra a chegada do General Lusitano, e que não cahiria na falta de ter em pouco a boa vontade de tão preclaro Soberano: que elle poria seu cuidado, que dentro em breve podésse o General ser presentado: 94que por ora só lhe incumbia, que mandasse chegar a Armada para junto de Pandarane; porque o porto, em que elle ancorava, era naquella sazão mui occasionado e perigoso, e para o fazer mais a seu salvo, lhe mandou hum Piloto mui prático naquellas costas. Alguns dias se tinhão volvido, quando veio ter com o Gama hum homem principal, que daquellas gentes era Julgador. Chama-se entre elles este Magistrado hum Catual. ElRei o mandára alli para lhe conduzir com muito obsequio o nosso General. Este encommendou a Armada a seu irmão Paulo da Gama, a quem, e a Nicoláo Coelho incumbio, que no caso que lhe acontecesse empreza ao revés de seu presupposto, abnegassem desvelar-se por elle, revirassem á Patria sem demora, com a noticia da descuberta navegação. Que nem convinha, que por lhe quererem dar frustrado auxilio, perecessem todos, e se esvaecesse o fructo de tantas lidas: nem elle podia evitar aquella prática com ElRei, sem faltar ao que o Senhor D. Manoel lhe prescrevêra. Que ao perigo da sua vida se não esquivava, com tanto que a sua morte podésse a ElRei, e á Republica render os serviços, que lhes erão devidos. E porque não ficassem as náos desprovídas de guarnição, sómente doze homens levou de sua comitiva. Tanto que abicou na praia, por ordem do Catual o tomárão aos hombros n’hum palanquim, e o Catual tambem em outro, 95forão caminhando com todos os demais a pé. Hião d’hum lado e d’outro acompanhados de immensos homens nobres, a que elles chamão Naires. Dalli forão até huma Villa, onde depois de bem jantarem, entrárão em paráos, que os estavão esperando; e navegando á mercê do rio, aportárão n’hum sitio, onde com outros palanquins os aguardava copiosa quantia de gente. Deste lugar forão conduzidos pelo Catual a hum Templo delles muito venerado, que pela opinião que o Gama tinha de andarem muitos Christãos derramados por aquellas partes, assentou ser Templo Christão: tanto mais, que a magnificencia delle, e sua vastidão o confirmavão nella, além de outros sinaes, que lhe não parecêrão de principio desemelharem muito dos Templos da Religião Romana. Ao entrar do Templo, vierão a elles quatro Varões da cinta para cima nús, e que della até aos pés deixavão cahir cabaias. Cada hum delles trazia do hombro direito tres fios a tiracóllo sobre o quadril esquerdo, e debaixo deste braço com hum nó atados. Com aguas de lustração aspergírão os nossos, e a cada hum davão hum pó de madeira de suavissimo cheiro pizada, para com elles persignarem as frontes. Pelas paredes do Templo estavão debuxadas muitas Imagens, e no meio delle se erguia em fórma circular hum Oratorio, a que se subia por quantiosa escadaria, e tinha de bronze a porta, que muito estreita 96era. Dentro delle pousava, contra a parede fronteira á porta, huma Estatua, cuja fórma não podérão distinguir os nossos, por ser tão escuro o sitio, que esquivo a todo o raio do Sol, apenas algum clarão de escaça luz, lhe penetrava. Nem lhes foi aos nossos permittido lá entrar, que para os Ostiarios sós e Sacerdotes se descerrava. Quatro Ostiarios destes chegando perto da Estatua, e applicando-lhe hum dedo, clamão por duas vezes Maria: logo o Catual, com todos os de seu sequito, se estendem por terra com os braços em cruz. Dahi erguem-se e fazem oração á sua usança. Os nossos que imaginavão, que era pedir amparo á Virgem Mãi de Deos, lanção-se de joelhos e orão como entre nós se costuma a Deos e a Nossa Senhora, que os cubra com a sua graça. Sahindo deste Templo, se forão a outro de não menor sumptuosidade, e delle aos Paços d’ElRei: mas tão apinhado era o concurso da gente, que se os Naires bem ordenados e armados, que diante e detrás acompanhavão, nos não abrissem caminho com as espadas desembainhadas, não se nos desempacharia nunca a passagem até ElRei. Neste entanto retinia tudo com a toada das flautas, e clangor das charamelas. Entravamos pelos porticos de Palacio, eis-que sahem a receber Vasco da Gama os Grandes, que entre elles tem nome de Caimaes; e apontando na Sala, onde ElRei os esperava, veio a nós hum ancião 97com huma tóga de seda, que lhe descia quasi até aos pés, que sahindo da sala, deo hum abraço ao nosso Capitão. Era este homem o Maioral dos Brachmanes, mui cabido com ElRei e muito authorizado. Mandando passar diante a comitiva, elle depois com o Gama, a quem levava pela mão, lhes hia no couce. Era a sala assás vasta, e tinha beijados com a parede muitos assentos de madeira, lavrados com primor, e collocados de maneira, que huns mais altos que outros em sobrepostas fileiras, davão arremedos d’hum theatro. O pavimento se cubria de alcatifas de matizada seda, e das paredes pendião tapizes tambem de seda entremeados de ouro. ElRei se recostava n’huma camilha mui formosa, e com muito adorno armada: cingia a cabeça com huma touca de seda broslada de ouro e preciosas pedras: trajava huma roupa tambem de seda, tomada no peito com muito ouro afivelado. Das orelhas lhe pendião pingentes de inestimavel preço: dos anneis, que nas mãos e nos pés lhe rodeavão, reluzião as pedras com brilho sem igual. Era ElRei de avultado talhe, e de tão senhoril semblante, que bem representava a magestade de sua realeza. Vasco da Gama o saudou á nossa usança, e ElRei lhe disse, que chegasse mais perto delle, e tomasse o mais proximo assento; e mandou tambem sentar os outros Lusitanos. Logo ordenou, que trouxessem agua ás mãos, com que as lavassem e refrescassem, 98como tambem variadas frutas, e com que os nossos applacassem o cançaço e a sede. Finalmente indagou qual era a Embaixada, que em nome d’ElRei D. Manoel vinha trazer-lhe; o que Vasco da Gama recusou, não sendo usança dos Portuguezes expôr ao vulgo dos ouvidos mandados do Soberano, que confiar aos Reis só compete. Por tanto, se queria que elle desempenhasse o seu dever, despedisse o congresso, e o ouvisse acompanhado unicamente daquelles poucos, a quem usava commetter os seus segredos. ElRei comprazendo com o pedido, o mandou passar a hum camarim mais formosamente adereçado, onde elle entrou depois com o Maioral dos Brachmanes e mui pequeno sequito. Então o Gama lhe fez a falla, cuja substancia he tal: Que D. Manoel, Rei de Portugal, era hum Principe mui abalizado em virtude e em dignidade, ambicioso de grandes emprezas, e ardentissimo na ansia de muito investigar. Que tinha em seu animo bem assentado tratar allianças com os Reis, que muito sobrelevassem em dignidade e vastidão de estados, nada havendo mais efficaz para liar vontades, que a semelhança; o que mais sobresahia nos Reis, cuja dignidade orçava mui de perto com a divina. E ora como lhe noticiassem das grandezas da India, e se inteirasse da fama, que por todo o Universo corria de quão estendido era o imperio de Calecut, e quanto seu Monarca esclarecido 99era, não menos pela vastidão de sua real authoridade, que pela riqueza de seus dominios, começára a accender-se em desejos de sua amizade. Que levado desta vontade o mandára a elle, porque requeresse d’ElRei de Calecut prezasse tanto sua confederação e amizade, quanto elle cumpriria com seus intentos, se quizesse firmar pactos de amiga lealdade. Que não duvidasse lhe procedessem daquelles concertos (se tivessem lugar) para hum e outro imperio multiplicados lucros. Que comsigo tinha Cartas d’ElRei D. Manoel, com que lhe abonasse ser mui fiel em quanto lhe dissera. Ao que ElRei brevemente respondeo, que mui grata lhe seria a alliança com tão preclaro Principe; que muito de seu grado faria quanto entendesse podia manifestar o lugar, em que o prezava de irmão seu. Tendo assim fallado, encarregou o Catual de conduzir o Gama ao aposento que lhe era aprestado, e os mais em casa de seus hospedes. Tres dias não sahio de casa o nosso Capitão. Antes porém que eu exponha o mais que se seguio, não será alheio dizer hum pouco qual era a situação daquelle Estado, e quaes os costumes e instituições daquellas gentes.
[1] Ou differente motivo occulto nas Historias.
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HE a India toda a região que se abaliza ao Occidente com as terras dos Paropamissadares, da Arachosia e Gedrosia: pelo Oriente tocão suas ultimas arraias com a China. O monte Imáo, que he hum pedaço do Caucaso, a limita ao Norte, e o Indico Oceano a lava pela banda do Sul. Reparte-se ella em India áquém do Ganges, que começa nos contornos, que lhe demorão ao Poente, e se estende até ao Ganges; e deste vai a outra entestar com as fronteiras da China. Tomão os nossos mais ao estreito varias vezes o nome India, chamando sómente India aquella mesopotamia, que encerrão dous grandissimos rios, Indo e Ganges. Ora esta região inteira chamão Indostão os que a habitão. Corre-lhe ao Occaso o Indo, e o Ganges pelo Nascente, rompendo ambos do monte Imáo ao Septentrião, em quasi igual intervallo hum do outro. São mui caudalosos e despenhados; e por muitas 101terras, que com suas voltas entre-regão, vão engrossando com varios rios que nelles entrão, de maneira que quando se avisinhão do Oceano, já podem, nas espadoas carregar com alterosas náos. Ao embocar no Oceano, abre cada hum larguissima enseada. Dalli vai a terra correndo para o Sul em mui comprido trato; aqui se aperta, alli se alarga, té que fenece no Promontorio, que os Indios chamão Comorim, que alli fórma hum angulo agudo. Descobre de praia desde a fóz do Indo até á ponta do Cabo Comorim perto de 900$000 passos de longitude, e de latitude entre as embocaduras dos dous rios ao redor de 700$000 passos; e dalli começa pouco a pouco a se ir estreitando. A ponta extrema do Cabo, que (como dissemos) se endereça ao Sul, dista da Linha, pela parte Septentrional, 7 gráos, que fazem o computo de 490$000 passos. São estas plagas maritimas habitadas, tanto as do Poente, quanto as do Levante, e essas que o Oceano banha, por muitas e diversas Nações. A região com tudo que resguarda o Occidente, occupava-a no tempo que os nossos portárão em seus confins, em grande parte huma gente, que tem nome Malabares. Muitos Régulos alli reinavão, mas quasi todos erão avassallados ao Imperador de Calecut, e lhe pagavão páreas. Suas Alfandegas lhe rendião mais que as rendas de tão vasto imperio, porque era então Calecut o mais célebre emporio da 102India, a quem concorrião os Mercadores; e além de abundar o Reino em muitos generos nativos nelle, lhe vinhão muitos outros de differentes terras. São miserrimos taes Póvos com a superstição de falsos deoses que os avexa, e de que tem muitos templos. Tem em grande acatamento seus Sacerdotes, que appellidão Brachmanes, em quem assentão depositada a sciencia das cousas divinas e humanas; nem Rei lhes sóbe ao throno, que não seja em suas maximas doutrinado. Em tempo de guerra podem os Brachmanes discorrer seguramente por áquém e além, que corre entre elles não haver ahi mais inexpiavel culpa, que o tocar-lhes, quando não seja como o requer a reputação, que tem de Santos. Os tres fios, que do hombro direito lhes pendem no lado esquerdo, designão tres differenças na Divina essencia. Crêm que encuberto em especie humana descêra Deos ao mundo, para o resgatar da calamidade eterna, mysterios, que provavelmente bebêrão de antiquissimos Christãos. Cultivão as Mathematicas e a Filosofia: disfarção a Religião com refinada astucia, para lhes servir de capa hypocrita a infinidade de embelecos enormes. Os outros Malabares enfronhados em suas doutrinas, adorão monstruosos idolos. Nos 22 de Agosto festejão certa solemnidade, em que os meninos armados de arcos, atirão tenuissimas settas contra seus camaradas, e os mancebos arremessões huns contra outros, de que muitos 103morrem gravissimamente feridos; e tem por mui ditosos os que deste geito acabão, porque entendem que vão de salto ao Ceo passar a vida com os Deoses. Ha entre elles muitos anniversarios e mui sagrados, em que á vista de celebrados concursos de gente, dão fim a suas vidas. Começão seu anno no mez de Setembro, mas não tem dia assinalado para o começarem. Consultão primeiro Astrologos e Agoureiros, e da hora que os taes prognosticão fausta e feliz, principião solemnemente o anno. Os que as raias transpozerão já dos 15 annos, envolvem nesse dia o rosto, e tapão os olhos de modo que nada vejão, e assim se deixão por mão de meninos levar aos templos, onde se achão varias Estatuas de Deoses: alli despindo as vendas dos olhos, empregão subito a vista nos objectos contrapostos: se acertão antes que tudo com a imagem do Deos, que mais a ponto venerão, certos estão lhes será próspero aquelle anno. São vedados aos Nobres os casamentos, para que os não empachem de dar-se de contínuo ás armas; póde porém cada hum ter muitas concubinas, com tanto que sejão de sua qualidade, que he grande crime entre elles misturar-se com mulher, que nobre não seja. Ellas tambem, com tanto que elles sejão da nobreza, podem acceitar quantos amantes forem do seu agrado. Nenhuns ciumes entre elles lavrão, e á volta huns dos outros, sem contenda e ainda sem murmurio 104tomão praça. Mas se algum se junta com mulher mecanica, ás espadas perece dos outros nobres, como tambem as mulheres nobres passão pela mesma pena, se quebrantárão a lei. Não nomeão seus filhos no testamento por herdeiros, que ignorão quem lhes deo o ser, chamando á herança os filhos de suas irmans. Vivem de ordenados d’ElRei, por cujo Estado se arrojão intrepidos a todos os riscos da vida. Andão nús até á cintura, e della até ás pernas se cobrem com saiotes: nem podem de armas na guerra servir-se antes que ElRei, a quem dão jurada lealdade, os arme com as insignias militares. Desde a puericia começão a menear as armas, e ficão com muito acatamento e observancia aos Mestres, de quem houverão o ensino da milicia. São mui esforçados nas peleijas, e mórmente famigerados por sua ligeireza. Tem por manchada a fidalguia, e cuja sua parentéla, se lhes tocou homem não nobre, injúria para elles tão insigne, que só com a morte do desgraçado, que nelles deo de encontro, se resgata. Por cuja causa estes mecanicos vão sempre gritando quando caminhão; porque os Nobres presentindo-os pelo clamor de virem perto, os mandem desviar do caminho, e assim evitem os Nobres a macula indelevel, e os mecanicos a morte. Nem os crimes lá mareão a nobreza, nem a virtude abrange a dar lustre a escuro nascimento; tem todos de passar pela condição necescessariamente 105que seus avós exercêrão. E tal vai a separação entre os artifices e obreiros, que nem pactear casamentos podem officios entre si desemelhantes: que o filho de alfaiate não esposará filha de çapateiro, nem aprenderá arte diversa da que deo de comer a seu pai: e deste modo he que nas demais artes, para as ter sempre no mesmo ponto, guardão a mesma praxe que lhes veio dos antepassados. Travão huns com outros certa confraternidade, liando-se com esconjuros, que, se á falsa fé for morto hum delles, todos os mais affrontem a morte em sua vingança; d’onde procede, que não só quando lhes matão os Monarcas, mas ainda quando lhes privão da vida hum de seus socios, os que lhe sobrerestão, transcurando a humanidade, se mettem pelas espadas, correm pelas labaredas, nem ha forças armadas que os amedrontem, ou que não ponhão peito a concluir com os que aos camaradas derão fim, quando tivessem de os despedaçar mil mortes. Não empregão em sua escritura papel nem pergaminho, mas com hum ponteiro assinalão as letras em folhas de arvores silvestres, que chamão palmeiras, por huma certa parecença que com ellas tem. Nestes livros assim compostos conservão por longo tempo a memoria de antigas eras. Cortão e igualão no tamanho muitas folhas destas, em que encommendão á escritura seus annaes, e cousas que mereção rememoradas. Furão as folhas pelas pontas; e 106para as encadernar, furão da mesma sorte duas taboas aplainadas. Postas as folhas em sua ordem entremeadas das sobreditas planchas, passão pelos furos seus cordeis, com que as juntão e apertadamente atão, e com o que dos cordeis sobeja pelas extremidades ambas, as vão rodeando e cobrindo de nós. Quando os querem ler, affroxão os nós e desembaração as folhas, como erão d’antes. Muitas mais cousas se podérão dizer ácerca de seus costumes, que por ora deixamos, quando outras mais urgentes nos estão chamando.
Calecut toma quasi o meio e não mui arredada do mar, daquella plaga maritima, que pouco acima descrevemos; nem fica conjuncto com a Cidade o porto, em que as náos podem abrigadas ancorar. A Cidade he em si grande; mas as casas não fazem ilhas, antes estremes humas de outras, pejão larguissemos terrenos com espaçosas quintas e jardins. Os unicos Paços d’ElRei são de pedra lavrada; aos vassallos, dado que riquissimos, vedão as leis sumptuosos aposentos. A terra he fertil e abundante de tudo o que para a vida se requer. Era naquelle tempo este Rei o mais avantajado em poder e cabedaes de todos os Reis daquelles contornos: e tal era o estado de Calecut, quando os Portuguezes alli surgírão. O Catual tres dias depois conduzio o Gama a ElRei, a quem elle entregou as Cartas, que trazia e os presentes, que a ElRei parecêrão 107mui somenos: ao que Vasco da Gama acudio, que não era de estranhar não fossem elles mui convindos a Sua Magestade, não tendo ElRei D. Manoel por mui abonado o feliz conseguimento daquella navegação. Que por ora o presente mais precioso e digno que lhe podia offerecer, era a amizade de tão grande Senhor. Que náos virião de Portugal cada anno, se uteis lhe enchião olhos, carregadas de mui preciosas mercancias, que lucrosos direitos lhe grangeassem. Que por ultimo lhe encarecia não mostrasse a Sarracenos as Cartas, que de D. Manoel lhe dava; mas a outros interpretes as desse a ler; que já Monçaide o avisára e convencêra, que lhe tramavão perdição e morte. Leo pois Monçaide, e explicou as Cartas a ElRei, que ao despedir do Gama lhe encommendou de se premunir de summa vigilancia contra as astucias dos Sarracenos, por cuja confidencia lhe rendeo Vasco da Gama immensas graças, e desde aquelle dia entrou em casa com animo de se recolher ás náos, apenas o podesse. Em tanto entrão os Sarracenos a consultar entre si, a conjurar em nossa perda, a ir ter com os domesticos e validos de ElRei, cançallos com peditorios, peitallos com ganancias, adjurallos que não dêm credito a homens malfeitores; que o Gama era hum despiedado e feroz Corsario, que por todas as praias, em que achou hospitalidade, deixou estampado o ferrete de seus latrocinios. Que com a mascara 108do negocio vinha especular a terra, que depois destruiria com grossa ruina. Que era por ora descuidado fogo, mas que apagallo convinha, antes que reduzisse todo o Reino a brazas. Com estas e outras vozes davão bateria aos ouvidos de ElRei; huns por odio do nome Christão, e delles por medo de serem expulsos daquellas regiões com a nossa presença, ou dellas não tirarem tão grossos lucros, tentavão tudo o que podesse induzir a nossa perdição. O Catual porém com dadivas o acareavão a que com calumnias e máos feitos tratasse em todo o modo destruir-nos. ElRei, que era de indole mudavel e leviana, vacillava, vergando ora a hum sentimento, e ora a outro. Se dos nossos dava acabamento, ou por comprazer hum tanto com os Sarracenos, nos mandava pôr em custodia, receava a mácula de aleivosia; se nos deixava partir, temia o desabrimento daquelles Arabios, por cuja industria via medrar as suas rendas. Elles ultimamente por nada deixarem por intentado, forão em turba ter com ElRei, a quem hum (ao que dizem) mais assinalado em affouteza e manha de palavras, fallou nestas sentenças.
“Tanto, invictictissimo Rei, temos de ti bem merecido, que de razão e de justiça nos cabe ser de tua benignidade bem acceitos. Quanto seja o sobro, que com nosso trafico e mercancias temos accumulado a tuas rendas, tão manifesto he já, que nem lembrallo 109necessita. Consulta os teus Almoxarifes; pergunta-o aos teus Feitores, computa os teus registros, e apurarás com verdade, que nunca fomos inuteis a teus estados. Sem contar que este nosso zelo nos vem já como ingenito de nossos antepassados, que d’ha muitos seculos celebrárão, como se sua patria forão, estas tuas terras, e sempre com extrema lealdade e acatamento venerárão os Reis de Calecut. Esta harmonia de animos tambem aliada por antigos e reciprocos deveres, estas tão grandes utilidades, trabalhárão com summo empenho estes hospedes facinorosos desalmados, que ha pouco aqui chegárão, desatalla, e pela raiz a destruirem, se tu a seus projectos não pões atalho. Nem ha que pasmar se por suspeitas os não penetras; que hum animo lealmente regio, que da sua candura e fé ajuiza os mais, não ha ahi dobrallo a crer, que outrem lhe maquine perdição. Além de não conheceres que homens estes são, nem seus costumes, como nós por longas e muitas experiencias os temos investigado e conhecido; e muitas outras nações, que nunca os offendêrão, a quem elles aguilhoados de ambição sómente, e por cubiça de abranger muito, acarretárão estrago, e ruina. E crê-lo-has, que para encetar commercio com os teus, vierão elles de tão longinquas terras, atravessando taes perigos de vida! Tal se não crêa. Más 110piratas são, que querem abusar da tua benignidade para destruição de muitos, e para isso te entregárão fingidas Cartas, ou he de ambição sobeja o Rei que os aqui mandou, e mais lhes encommendou, que examinassem a situação desta Cidade, que a ferir alliança comtigo. Não forão estas as artes, com que os Reis da Lusitania accommettêrão differentes Cidades de Africa? E boa parte da Ethiopia não a usurpárão elles com iguaes dolos? A quem não são patentes as injúrias graves, que estes ladrões infligírão na sua derrota a tantas Nações? Investírão com armas a Moçambique, tingírão de sangue o porto de Mombaça, cativando em sua viagem navios e pessoas. Que farão estes homens, quando mais reforçados se virem: elles, que agora tão attenuados e pobres, nada contellos póde, que não retumbe em suas obras sua indole cruel e importuna? Assim se queres salvar os cabedaes de teus Reinos, faze que taes facinorosos pereção; soffrão merecido supplicio, se são piratas; e se hum poderosissimo Rei aqui os manda, morrão, porque com a morte destes, que em tuas mãos estão, córtes aos mais Lusitanos a confiança de intentar esta carreira. Facilmente se atalha o mal, quando inda he tenro, mas mal robusto e inveterado, não se extirpa sem grandissimas fadigas. Agora pois em quanto he tempo, obvía esta 111maldade, corta esta ansia de dominar, segura com bom presidio os teus Estados. Se nada he mais abhorrivel que a crueldade, não ha hi tambem bastião tão fortalecido para repulsar os perigos, como a sagacidade e saudavel desconfiança. Que mercancias nos trouxerão elles? Por ahi dizem, que tão tenues ellas são, que bem dão a demostrar qual sua pobreza seja. E como se esperançar que venhão enriquecer teu Reino com mercadorias de alto preço homens, que em sua patria lutão com tão doméstica escacez? Que direi dos presentes, que em nome de seu Soberano te vierão offertar? Em verdade julgar não sei se inculcão mais declarado riso, ou mais pezado insulto. Imaginou por ventura esse Rei, que com mentirosos elogios sobem ás estrellas, presentear hum desses Régulos da Ethiopia, tão pobre e tão sem sizo, que se deixasse enredar com pouquidades taes em seus embelecos? Como ludibriar assim a dignidade d’hum poderosissimo Soberano? Sondar sua docilidade? Menos prezar sua sabedoria? Poderás dizer-nos, que toda esta accusação libra no odio, que ha entre nós e entre os Christãos. Confesso que entre nós e huma gente que nos he infesta, ha perpetuo renhimento: mas no presente lance, não tanto nos attributa a nossa, quanto a tua utilidade. Que nós necessariamente, se os Christãos entrão em tua amizade, 112temos de mudar porto e buscar outro emporio, em que nosso commercio labore desafogado; sem termos de ti maior queixume perante os outros Reis, a quem não desagradará nossa arribada, que haveres proferido forasteiros a conhecidos, e gente suspeita a homens bem provados. Em quanto ao accrescentamento de nosso tráfico, por qualquer parte que formos, faremos nosso negocio com não menor lucro talvez, nem menos prompto consummo. Tu porém se com promptidão não acodes por teu imperio (Deos dissipe o máo agouro), em poucos annos muito o receio, terás de peleijar com muito risco teu, não só pelo estado de teu Reino e soberania, mas ainda pela tua mesma vida, com esta avarenta, ambiciosa Nação, em guerreiras refregas muito porfiada.”
Com estes e outros razoamentos lidavão aquelles Arabios em determinar ElRei a desbaratar-nos, e tomar-nos (se podésse) as nossas náos: em quanto o Gama, que destes e de muitos outros máos feitos contra a sua vida, acareados estava-se sobre aviso, e que descortinava com acerto não haver ahi que demorar mais tempo, tomou de madrugada o caminho de Pandarane com tanta ansia quanta pôde, porque lhe não fosse pelo Catual impedida sua rota. Além de que, tinha antes de pôr pé em terra, elle ordenado, que todos os dias lhes tivessem as lanchas promptas na praia, 113porque a ellas se amparasse em qualquer perigo que lhe urdissem os Sarracenos; que nesse tempo nada menos instavão, recolhião armas, accendião contra nós todos aquelles, com quem podião ter entrada. Já lavrava nelles o odio de maneira, que se ensaiavão a pôr o ferro em nossas pessoas, quando souberão que tinha partido Vasco da Gama: com o que se affligírão muito e acabárão com ElRei désse modo a retrahillo de sua fugida; e ElRei levado de suas razões, mandou o Catual que detivesse o Gama. Para assim o fazer, correo com gran presteza a Pandarane, onde tratou a toda a força de reprezallo, e com o disfarce de serviço, forcejava em o despir de todo o amparo, dizendo-lhe, que elle estava muito a seu cuidado, e mui certo de alcançar de ElRei quanto lhe pedisse; mas que o não podia por agora, em quanto não saneasse o animo do Çamorim, mui chagado de sinistras opiniões, dando-lhe bem a entender, com que projecto vierão os nossos aportar naquellas praias; e que bom seria mandar chegar mais á terra a Armada, entregar-lhes as vélas e os lémes, como em abono, e se certificasse assim ElRei de sua completa lealdade. Mas com nenhuma condição mostrou consentir o Gama, bem que por isso tivesse de passar pelos maiores tormentos até perder a vida. Segundo o que, escreveo logo a seu Irmão, a quem, não obstante lho ter d’antes assim mandado, avisava, 114que se visse ser elle longamente daquella gente perfida reteudo, désse á véla e voltasse a Portugal com as novas a D. Manoel do como franqueárão o caminho para a India: que elle nada em quanto á vida o sobresaltava; só tinha em receio, que o fructo de tantas fadigas se malograsse. Elle neste em meio lutava com o Catual; este a armar-lhe tramas, e o Gama a desfazellas; altercação esta, em que affundírão dous dias sem proveito algum; até que convierão em tirar das náos as mercancias a terra, com Feitores que as vigiassem; as quaes entregues, deixou então o Catual a Vasco da Gama ir para bordo da sua Capitanea, d’onde mandou dar parte a ElRei das aleivosias, que o Catual lhe fizera; e que se dalli partia, seus enganosos feitos a tanto o obrigavão. ElRei prometteo informar-se de tudo, e que se achava o Catual criminoso, o castigaria de sorte, que aprendesse d’então em diante a usar lealdade: e em quanto ás fazendas, lhe encommendava que as mandasse ir á Capital, onde subirião de preço; no que o Gama concordou, e á custa do mesmo Rei forão carregadas para Calecut. No entretanto chegadas as náos mais junto da Cidade, mandava o Capitão dous ou tres homens cada dia a Calecut, para todos conhecerem bem o sitio da Cidade. Da parte dos moradores della não tinhão os nossos de que se queixar, e da sua parte Vasco da Gama demostrava (quanto nelle era) grandes 115desejos de paz e de amizade. Pedio tambem por pessoas, que mandou ao Çamorim, lhe fosse permittido para maior estreiteza de alliança, deixar hum Portuguez em Calecut, que feitorizasse o commercio d’ElRei D. Manoel. ElRei, ou já que não atinasse em que librava aquelle ficar do Feitor em Calecut, ou já que suspeitasse querer ir-se o Gama sem pagar despachos, se escandalizou bastante com o requerimento, e lhe enviou desabrida resposta. Vasco da Gama então reparando quão avêssa era do que elle pedia, a resposta que lhe fora dada, assentou não travar huma só falla de mais sobre este ponto com tão leviano Monarca; e o Çamorim, que ainda mais azedamente se agastou com esse silencio, mandou metter em prizão os dous feitores Portuguezes, que o Gama com a fazenda pozéra em Calecut, e as mercadorias em vigilante sobr’olho. Pedia o Gama a ElRei, que lhe fossem restituidos os homens e as fazendas, e ElRei porfiava nada menos em sua sem-razão. Tanto porém que isto foi claro ao Gama, deo por firme usar da força, para obter direito. Combate a primeira náo, que entra pela barra, cativa-lhe seis pessoas das mais gradas, com 19 servos, e deixa ir os outros livres, e faz-se depois á véla, sem todavia se afastar muito da terra, esperando que o Çamorim para haver os seus, lhe entregaria os Portuguezes e as mercancias. Logo o Çamorim lhe expedio gente a dizer-lhe, que 116altamente estranhava semelhante feito de lho reter fidalgos da sua casa sem razão alguma, não tendo delles recebido desagrado. Que não soltaria os Portuguezes, que comsigo tinha, sem lhes dar Cartas para ElRei D. Manoel seu Irmão, os quaes despacharia em continente com Cartas, e com donativos. Estas promessas induzírão Vasco da Gama a approximar-se de Calecut, e no dia seguinte chegárão os Portuguezes e trazião as Cartas para ElRei D. Manoel: com elles vinha quem dissesse ao Capitão, que se elle queria deixar na Cidade quem beneficiasse o negocio d’ElRei de Portugal, elle tomava sobre si lhe fosse feito com muita utilidade sua. Que as mercadorias lhas não mandava, na confiança de poder desbaratallas a preço mais sobido, o homem, a quem elle Gama désse incumbencia. Tornou-lhe o Gama, que mudava de pensamento, e que não queria deixar pessoa alguma em Calecut; e que assim não lhe restituia os seus criados, sem lhe remetter em continente as fazendas. No dia seguinte vem Monçaide á náo mui turbado de animo, e conta que os Sarracenos andavão amotinados, maquinavão perfidias, assanhavão com calumnias o espirito do Çamorim em perda nossa, o que elle pelo trato de alguns dias, que comnosco houvera, fora, em summo transe de sua vida, escapando por esmo de suas mãos, e que em quanto estivesse em Calecut, o não poderia de modo algum 117defender das ciladas de gentes tão improbas. Pelo que lhe pedia, e o adjurava, que o passasse em Portugal: que pouca ansia lhe davão, os bens, que lhe ficavão em Calecut. Com muito agrado o tomou sob sua sombra o Gama, que o trouxe á Lusitania, onde se baptizou, e em todo o proceder de sua vida deo provas de homem honrado, e Christão sincero. Nesse mesmo dia lhe mandou ElRei sete barcas carregadas co’as fazendas, que o Gama requeria; mas este, que intentava trazer a Portugal os prisioneiros com preferencia ás mercadorias, pretextou que tantas erão as mentiras, com que atélli fora illudido, que em ninguem tinha já fé; sobre ter averiguado que lhe não trazião por inteiro toda a fazenda, que desembarcára em Calecut; nem tinha por ora vagar de tomar computo das parcéllas que faltavão. Por tanto não descativaria aquelles Malabares, para os levar a Portugal, e lhe serem testemunhas perante o preclarissimo Monarca, por quem entendesse que sem-razões o seu Capitão e Legado tinha padecido em Calecut, pela affeição que elle Çamorim empregava naquelles malvadissimos Arabios. Isto disse, e mandou dar fogo á artilheria, para os espavorir a todos e os affugentar dalli. Affronta foi esta, que muito indignou o Çamorim, mas que despicar não pôde, por quanto em razão do máo tempo toda a sua Armada era varada em terra. Como porém ao Gama 118falecião ventos de servir, e não podia descartar-se daquellas paragens com a velocidade que queria, armou ElRei 60 navios mercantes, que esquipou de homens e de armas para ir accommetter as nossas náos. Veio em tanto hum subito temporal, que desbaratou a Armada inimiga; e como o vento nos não era desfavoravel, nos perdêrão de vista em breve espaço os Malabares de Calecut: e o Gama do primeiro porto em que pôde surgir, escreveo ao Çamorim, dando-lhe conta das ciladas, que lhe assestárão os de Mafamede e dos embustes, com que o Catual o trahíra; e que essa fora a razão de o não ter saudado na despedida. O que todavia não seria caso de lhe não ser elle sempre muito devoto, e se empenhar muito com ElRei D. Manoel a dar cumprimento de muita efficacia e mui bom grado a quanto fosse a bem de sua dignidade. Que não se dessocegasse sobre os criados que lhe cativára, por quanto lhe abonava pôr seu desvelo em que tornassem incolumes e honrados á sua Patria. Esta Carta confiou elle d’hum criado dos prezos, que mandou pôr em terra.
Dalli poz a prôa n’humas pequenas ilhas; e antes que a ellas aportasse, foi sua Armada investida por oito náos, sete das quaes poz em fugida, e só tomou huma carregada de vitualhas de todo o genero e tambem de fructas. Todas estas náos pertencião a hum pirata por nome Timoja, homem fragoeiro e mui temido 119de quantos navegavão por aquelles mares. Daquelles ilhéos tomou o Gama rumo para a ilha d’Anchediva, que demora por 4$000 passos do continente, para alli espalmar como podésse as náos quebrantadas de prolixa contenda com as ondas. Como quer que concorressem de toda a parte para os ver muitas pessoas, veio entre ellas hum, que era criado muito privado de certo Senhor, que imperava n’huma ilha não mui distante daquelles sitios. Esta ilha se chamava Goa, e Sabayo o Senhor della, homem de grandes animos, prudente nas artes de governo e dos exercitos, que assalariava muitos soldados, e acareava a si convidados de largos pagamentos, todos os que conhecia em armas esforçados. Este valído pois, como dissemos, veio ter com o Gama, e em nome do Sabayo mui politicamente o saudou em lingua Italiana; e seguio, dizendo, que movido de sua fama o Sabayo, o proveria de tudo o que visse lhe faltava. Pelo que se vitualhas lhe falecião, ou armas, ou dinheiro, não hesitasse em lho pedir, que seu Amo não se refusaria aos officios de bom Principe e de bom Amigo. Maravilhado o Gama do gesto deste homem, da formosura de sua frase Italiana e do bom aviso, com que respondia a proposito a quanto lhe perguntavão, lhe inquirio qual era sua Patria, que elle disse ser na Italia; e que indo á Grecia com seus pais, o cativarão corsarios na viagem, e de 120desastre em desastre viera a miseria tal, que, perdidas as esperanças de revinda, lhe foi forçoso servir hum Principe Mahometano. Do muito que manhosamente hia inquirindo, e indagando com mais fina curiosidade do que cabia, e de se desviar da prática incetada, como distrahido por outros pensamentos, para tornar ao primeiro presupposto, suspeitou o Gama que era espia, que não para o saudar, mas com fito de investigar alli viera. Firme neste receio, mandou arrebatar delle e dar-lhe fortissimos tratos, cuja violenta dor lhe fez confessar, que era Sarmata de nação, de fé Judia, que andava no serviço do Sabayo, e por mandado seu vinha especular nossas náos, que soldados havia nellas, e as armas de que usavão; porque pozera em seu animo preparar huma Armada, com que viesse destruir-nos. Logo que isto comprehendeo o Gama, se partio dalli; nem quiz dar liberdade ao Judeo, que baptizado depois, tomou o nome de Gaspar da Gama, e foi de egregio prestimo a ElRei D. Manoel em varias incumbencias. Partido daquella ilha o Gama, continuou a traçada via, mas tardio e incommodado de porfiadas calmarias. Atravessados aquelles largos mares, descahio para as regiões austrinas da Ethiopia sobre Egypto, e surgio diante da Cidade Magadaxo, que por saber que era possuida por Sarracenos, lhe deo hum rijo varejo de artilheria, com que lhe abalou boa parte 121dos muros, e as náos, que achou no porto, dellas affundou, e taes rombos fez ás mais, que as atalhou de poderem navegar. Ao sahir de lá, encontrou com oito navios Sarracenos, que vierão accommettello; mas virou logo sobre elles, e com breve combate os poz em fuga; mas não lhe foi no alcance, por lhe faltar o vento. Entrou por fim na barra de Melinde, onde foi com muita amizade agazalhado pelo Principe, que lhe acudio com muitos refrescos para os soldados, quebrantados de trabalho e de gravissima doença. Demorou-se alli cinco dias sómente (que receava escapar-lhe a monção de dobrar o Cabo, em razão do Inverno, que apontava), e fez-se logo á véla, tanto que recolheo na sua Capitanea o Embaixador, que ElRei de Melinde mandava a D. Manoel. E por quanto a náo de Paulo da Gama, alquebrada de velhice, e desconjunta em muitas partes do costado, fazia agua em demasia, e tambem porque para marear tres navios e defendellos, falecia de marinheiros e soldados, lhe mandou lançar fogo, tomando seu irmão comsigo, e repartindo com Nicoláo Coelho a soldadesca e marinhagem, de que a este deo boa parte, ficando elle com o resto. Aos 26 de Fevereiro veio á ilha de Zanzibar, ilha abastada e fertil, mui amena pelas suas frequentes fontes e copados bosques, grossa de gados, e obra de 24$000 passos afastada do continente, e que entre as suas 122muitas arvores produz sem cultura nas devezas altissimos limoeiros, de cujas flores, quando os ventos vão brandos, são perfumados de suavissimo cheiro, segundo dizem, ainda os sitios mais remotos. O Principe daquella ilha, dado que sequaz de Mafamede, agazalhou todavia o Gama com agrado, e o presenteou com viandas e fructas. Indo depois na demanda de Moçambique, entrou na aguada de S. Braz, onde se proveo de agua e lenha, e matou muita veação. Nos outros portos, em que tinha deixado degredados, não lhe consentírão de entrar os ventos contrarios. Aos 27 de Maio dobrou o Cabo da boa esperança, e de lá com vento favoravel veio com suas náos surgir á ilha de Sant-Iago, d’onde forão dispersos os dous Capitães por huma tormenta. Nicoláo Coelho poz o rumo direito a Lisboa, e Vasco da Gama navegou para a ilha Terceira; por quanto seu irmão Paulo da Gama, mui acabado de porfiada molestia, consumido quasi d’huma tysica, não podia soffrer em sorte alguma o balanço dos mares. Logo que elle alli feneceo sua vida, e lhe forão todas as exequias concluidas, Vasco da Gama se deo préssa a sahir da ilha, para dar cabo ao caminho que lhe restava; e entrou pela barra de Lisboa no anno de 1499.
Já nesse tempo de Nicoláo Coelho tinha ouvido ElRei tudo quanto lhes succedêra na viagem, nas terras da India, e outras mais. E 123estes homens voltados da India, os vião os outros com hum certo assombro, e como resuscitados do outro mundo: muitos faltavão na conta dos que partírão; doenças gravissimas os riscárão della. De 148, que forão com o Gama, 55 sós tornárão; e ainda estes pela mór parte trabalhados e mal-convalescidos. Foi o Gama acolhido por ElRei com muitos louvores, e ennobrecido com muitas honras, titulos, e riquezas, quaes por tão preclara façanha elle os merecia. Tambem Nicoláo Coelho foi accrescentado em honras, e todos os mais, segundo seu merecimento e dignidade, mui bem galardoados.
Determinou-se ElRei D. Manoel no tempo corrente transferir para a Villa da Batalha os ossos do Senhor D. João II., que jazião na Cathedral de Silves do Reino dos Algarves: a qual Villa veio a ser assim chamada, em razão da mui renhida batalha, que D. João I., Rei de Portugal, venceo contra D. João, Rei de Castella, filho de D. Henrique, não mui longe do sitio, em que tem assento a Villa da Batalha. D. João I. alli fundou hum sumptuoso Templo em honra de Maria Santissima; e ordenou, que no Convento, que a esse fim apegou á Igreja, assistissem Religiosos da Regra de S. Domingos, que celebrassem Missas e doutrinassem os povos daquelles contornos, escolhendo tambem nelle seu jazigo. Nem só elle, mas tambem seus filhos, e ElRei Affonso 124V., e Affonso filho de João II., e outros mais Principes Lusitanos, alli forão sepultados. Para que pois fossem lá tambem enterrados os residuos de D. João II., partio D. Manoel para o Algarve com o Senhor D. Jorge, filho d’ElRei D. João, e muitos outros Varões prestantes em nobreza e em virtude. Aberto o sepulcro, achárão inteiro o corpo d’ElRei D. João, e como ficou em memoria, respirando suavissimo cheiro, que muito admirou a todos; por quanto passava de quatro annos, que naquelle moimento fora posto. Muitos accrescentavão, que em testemunho de sua eximia santidade lhe permittíra Deos obrar alli alguns milagres. Foi dalli transferido com tão solemne pompa, e honrado com tal concurso e acompanhamento de pessoas, até ser collocado na sepultura, que de nada se descuidou D. Manoel do com que podesse demostrar publicamente o zelo, com que respeitava a memoria de D. João II. Este zelo porém não o deslembrava do que punha nas cousas da India, e na segunda Armada, que preparava para as terras do Sol nascente. E como tinha firme em seu espirito nada emprehender sem tomar auspicio da sua muito santa Religião, naquelle mesmo sitio, em que o Infante D. Henrique edificára huma Ermida em louvor da Sacratissima Virgem, se dispoz a levantar hum Templo muito mais magnifico e muito mais amplo, de que lançou logo os fundamentos, e o 125consagrou á memoria da mesma Soberana Virgem, que venerava com singular devoção; e mandou que aquelle sitio (atélli rastello) fosse em diante chamado Belém, em semelhança daquella Cidade, em que Christo nasceo para redempção do genero humano. E para o Convento convocou mui religiosas pessoas, que professavão seguir o Instituto de S. Jeronymo, a quem confiou o cuidado da Igreja, e Officios della, rogarem a Deos por nós, e instruir na santa Religião os mareantes, e chatins, que alli de varias partes acodem. Este Templo o escolheo de logo para seu jazigo. Tambem n’hum morro, que circumdão as ondas do Oceano, não longe do Templo da banda do Poente, edificou huma Fortaleza mui bem petrechada, que vedasse entrada na fóz do porto de Lisboa a todos os navios, que pelos sinaes convindos entre os maritimos, não denunciassem vir de paz. Compunha-se de 13 náos a Armada que mandou, levava soldados 1$500, hia artilhada e guerreira em summo gráo com as muitas peças e munições. Deo-lhe por Capitão a Pedro Alvares Cabral, de cujo esforço confiava muito, incumbe-lhe mórmente de fundar (quanto coubesse em suas posses) amizade com ElRei de Calecut, e lhe requeresse consentimento de edificar huma Fortaleza perto da Cidade, amparados da qual podessem os Lusitanos desviar a vida de ferocidade de seus inimigos, e traficar sem risco. Que se 126porém visse o animo do Çamorim tão esquivo de nós, que repudiasse todo o concerto de alliança, não duvidasse então commetter-lhe guerra. Mandou-lhe mais, que fizesse caminho por Melinde (a poder ser), e significasse a ElRei quão agradavel lhe fora sua Embaixada, e por seu respeito faria com muito agrado quanto lhe fosse da sua parte requerido. Forão de ordem sua nesta Armada cinco Religiosos Franciscanos de grande opinião de virtude, para residirem em Calecut, no caso em que os pactos se ferissem, e alli ministrarem os Sacramentos aos Portuguezes, que por causa de commercio naquella Cidade fossem, e instituirem no Catecismo os Pagãos, que quizessem entrar na nossa santa fé. Deo-lhes por Guardião a Fr. Henrique, homem de singular religião e piedade, que depois pela santidade de sua vida foi Bispo de Ceuta. Partio Cabral com toda a sua Armada a 9 de Março do anno de 1500.
Seguio-se a esta occurrencia despachar D. Manoel com novos titulos ao Senhor D. Jorge, filho de D. João II., e lhe dar por mulher a D. Beatriz, filha do Duque de Bragança (de quem já dissemos), Senhora de rara excellencia. Tambem nomeou Condestavel a D. Affonso, seu sobrinho, filho de D. Jaime, seu irmão, que á mão tenente matára ElRei D. João II. E D. Affonso era bastardo; dado que sua mãi fora fidalga muito principal, que namorada 127da eximia gentileza de D. Jaime, no tempo em que elle andava pela Castella, empenhou seu mais vivo cuidado em desfrutar sua affeição. Neste mesmo anno de 1500 de nossa redempção levou a morte o Principe D. Miguel, filho de D. Manoel, e da Senhora D. Isabel, e orçava elle já pelos dous annos. Mas ElRei D. Fernando e D. Isabel Rainha de Castella, trabalhárão por liar a si ElRei D. Manoel com novos nós de affinidade, desejando muito dar-lhe por Esposa sua filha D. Maria: o que entendido por D. Manoel, de muito bom grado annuio a seus desejos. Nem havia ahi casamento, que ou já pela nobreza da prosapia, ou já pelo avultado dote, ou ainda pela demonstração de virtudes egregias, melhor a hum e outro conviesse; que era D. Maria hum traslado perfeito de modestia, de brandura, e de bondade. Mas como este Matrimonio, em razão da affinidade pelo de D. Isabel contrahida, tinha contra si os Canones Pontificios, pedírão ao Papa dispensasse nas Leis, porque não fosse a Religião obstaculo a hum casamento, que tantos uteis tinha de produzir aos Reinos das Hespanhas. Impetrada a faculdade do Pontifice, forão as nupcias celebradas. Posto porém que a nova desposada fosse muito de seu peito por sua insigne virtude, não pôde toda esta sua affeição desviallo do desejo que lhe lidava na alma de correr sobre as pégadas de seus Maiores, passando em 128Africa a impôr guerra aos Mouros. Muitos houverão no Conselho, que forcejárão pelo arredar desta opinião, dizendo-lhe que não era cargo d’hum Rei capitanear exercitos, mas sim imperar aos Capitães, sobre não ter para domar toda a Mauritania proporcionadas tropas, dado que para fazer-lhes guerra bastassem as que confiasse de seus valentes Generaes. Que não competia á sua dignidade passar em Mourama sem levar comsigo exercitos, com que sobmettesse todo aquelle continente sob seu dominio. Accrescia, que não deixava filho que o herdasse, se qualquer desastre lhe désse a guerra. Nem quizesse, influido na fama, pôr o Reino na arésta do precipicio. Que a fama perduravel d’hum Monarca no amor de seus conterraneos se abaliza, e não se lança a emprehender peleijas despidas de utilidade pública. Achegavão os prantos de sua mulher, que lhe obtestava não désse que murmurar a muitos com aquelle subito apartamento, e interpretar appetites de a deixar, os que elle cobria com capa de conquistas. Que muito mais comportavel lhe fora não ser com elle desposada, que depois de o ser, ver-se delle tão subito destituida: sendo huma alvitre da reflexão, e indicio de desabrimento a outra. Além destes queixumes, tratava com seus Pais por cartas, que arredassem D. Manoel de taes intentos; não que ella impedisse seu marido que fosse a aquella guerra, mas que pugnava 129com toda a ansia guardasse a ida para outro ensejo. Com estes e outros argumentos combatião os Conselheiros e a Rainha por demudallo de seu presupposto: mas elle nada menos persistia, e aprestava a guerra com grande affincamento. Mandou que o exercito se alistasse com gran presteza, e se preparasse a Armada. Consistia o exercito em 26$000 infantes, e 6$000 de cavallo com 800 homens de armas, confiando facilmente vir a cabo de seu proposito com este guerreiro corpo.
No meio desta concebida e quasi encetada campanha, eis se levantão repetidos boatos, que Bajazeto, Imperador dos Turcos, preparára huma grande Armada para destruir todas as ilhas e Cidades da Grecia, que pertencião ao imperio e senhorio dos Venezianos. Estes que souberão pelas noticias quão formidaveis forças se alistavão contra elles, não confiando poderem sós aparar tamanho embate de guerra, pedírão por seus Embaixadores auxilio a todos os Reis Christãos, e entre elles a D. Manoel. Rogárão tambem ao Papa, que intercedesse com ElRei de Portugal, para que com a Armada, que já tinha de tudo prompta, quizesse valer á Republica; pelo que o Summo Pontifice deo aos Embaixadores Venezianos, que com este peditorio da Republica vinhão a D. Manoel, Cartas, em que lhe recommendava não tivesse em pouco o requerimento de Veneza. Por quanto aquelle discrime 130commum a toda a Republica Christã, com todas as forças juntas dos Christãos merecia rechaçado. E considerasse com quanta ufania aquelle inimigo perennal do nome de Christo, investiria com a Italia, e de lá com a França e com a Hespanha, se conseguisse o fim de seu proposito. Que facilmente podia sobrestar na guerra de Africa; mas que perdida a opportunidade de rebater aquelle infortunio, não havia recuperalla. Que mais louvavel era e mais preclaro desembargar do perigo os seus amigos, que illo commetter a seus contrarios. Que muitos Principes da Italia se abalavão em soccorro dos Venezianos; mas que não poderião acudir-lhes tão presto, quanto o vulto do perigo o demandava. Que elle D. Manoel tinha sua Armada já de tudo apercebida, e sem algum estorvo de poder lançar sobre si toda a gloria de ter salvado Veneza. Que só fallecia a promptidão, a qual não cahia nas posses dos outros Principes, em razão do embaraço de suas cousas. Que attentasse qual gloria lhe resultaria de ter escorado em tão ameaçada quéda a Republica Veneziana, elle que tantos mares e terras tinha de permeio, quando tantos Potentados visinhos della a desamparavão! E por ultimo, que em tomar parte naquella guerra, não só daria clara demonstração de sua humanidade e valentia, mas ainda de sua devoção religiosa, que ficaria conservada em recommendação perpétua. Persuadido destas razões, 131e inclinado a compadecimento pelas Cartas do Pontifica, respondeo D. Manoel benignamente aos Embaixadores, promettendo-lhes que era este hum dever seu, a que de nenhum modo elle faltaria: pelo que mandou, que de toda a Armada cerceassem trinta náos, e com quanta mais brevidade coubesse no possivel as provessem de biscouto, e mais mantimentos necessarios para tão longa navegação. E por quanto desfalcada assim a Armada, mal podia, segundo sua dignidade, commetter guerra aos Mouros, como debuxado tinha, a lançou para outros tempos: por ora fez com todo o seu animo pendor no adjutorio, que aos Venezianos enviava.
Em quanto com muito zelo tudo isto se executa, chega D. João de Menezes, que ElRei, depois de ganhar a victoria contra Baraxa e Almandarim, mandára vir a Portugal, d’onde foi despedido para Arzilla com o accrescentamento de 150 Cavalleiros no anno 1501; por quanto pela maneira, com que guerreavamos em Africa, raras vezes peleijava a infanteria: assim de Cavalleiros erão quasi todos os terços, que lá mandavão os nossos Reis. Era nesse tempo Governador de Tanger D. Rodrigo de Castro: e como D. João de Menezes, entrado em Arzilla, lhe pedião as mãos travar-se com os Mouros e dar-lhes desbarato; como se não via, com gente bastante para a empreza que meditava ser a seu geito 132concluida, convidou por Cartas a D. Rodrigo a tomar parte na facção. Juntas então as duas tropas, derão n’huns grandes aduares, e investírão c’os Mouros de sobresalto. A maior parte dos quaes entrada de pavor, poz pés em fuga; muitos (nada menos) por conservar no extremo lance da vida decóro ao brio, asperamente peleijárão, ficando muitos mortos, e cento e oitenta prisioneiros. Cinco dos nossos Cavalleiros, que vírão sete dos Mouros, que se lhes escoavão com cinco mulheres, lhes forão no seguimento. Os Mouros, posto que a pé, por terem na briga perdido seus cavallos, se preparavão todavia a ter-lhes cara com muito denodo. Passou-se entre huns e outros hum jogo de lançadas mui renhido, e que durou além do que era de crer entre tão poucos combatentes. Varárão-nos os Mouros tres cavallos, e todos os Cavalleiros nos ferírão; mas os nossos não deixárão algum com vida. Hum delles, que mettia todas as posses neste ultimo trespasso, tanto dava desconsolo á sua esposa, que entre as outras era posta, que exclamava neste piedoso dizer: “Assim, querido meu, terei olhos para ver como cruelissimamente te matão? e eu lagrimas só darei á tua morte sem esta minha vida te dar por companheira? Que prazer póde ficar-me, se tu morres?” Isto dizendo, arremessa-se por entre as nossas espadas, e a hum Cavalleiro, que com o seu esposo batalhava a pé, porque 133lhe tinhão morto o cavallo, cinge pela arca do corpo e tão estreitamente o fez, que este soltar-se della não podia; e pouco falleceo, que o esposo della lhe não tirasse a vida, visto não poder menear o braço da espada; mas accorrêrão os outros, que se tinhão desimpedido de seus contrarios, e com a morte deste findou o combate. Cahírão por terra estes sete Mouros; mas de maneira, que ainda no ultimo arranco denunciavão seu egregio esforço. Foi grande a preza, e copiosos os gados, armentios e cavallos, que cativárão. Vindo já os Capitães Mores de volta com o exercito para as Cidades, d’onde tinhão sahido; e além de 4$000 passos dos Aduares, o Alcaide d’huma Villa muito fortificada, que chamão Alcacerquibir, veio com 1$200 de cavallo sobre os nossos, e accommetteo co’a retaguarda, que Menezes capitaneava. Os nossos em ordem de batalha, com a preza no centro, vinhão caminhando como quem punha o fito em defender-se das correrias dos Mouros, e não em offendellos; pelo que pouco se adiantavão, ainda que os Mouros com escaramuças os picavão. Este era o modo de peleijarem.
Os Mouros com as lanças feitas corrião sobre os nossos; e logo continuando a carreira, se recolhião; sobrevinhão-lhes outros assim correndo a repetir o assalto. Os nossos, lançando atrás os broqueis, aparavão as lançadas; revirando a vista, cuidavão em guarnecer 134as ancas de seus ginetes; quando porém os apertavão mais azedamente os inimigos, arremessavão-se a elles com os cavallos. Mas vierão huma vez tão ferozes, que Menezes com huma parte das tropas arremetteo contra elles, e lhes poz tão pezado ferro, que 50 delles mordêrão a poeira varados de nossas lanças. Reparando porém os Mouros no vagar, com que em razão da preza caminhavamos, fizerão conselho de peleijar comnosco em batalhão formado; pelo que cessando nas correrias, seus Capitães os mettem em ordem de batalha. Nem Menezes lhes hia em contrario; antes fez alto, e mandou dizer a D. Rodrigo de Castro, que estava de animo de tentar o combate; que se elle o achava acertado, voltasse com os seus á retaguarda, para darem sobre os inimigos em esquadrão cerrado. Respondeo-lhe D. Rodrigo, que não era de bom General aventurar sem necessidade alguma aos caprichos da fortuna facções grangeadas com muita prudencia. Que muitos azares havia na guerra; e que a arrogancia dos Capitães estragava feiamente o que fora felizmente começado. Que os inimigos erão muitos, e os nossos podião, recolhendo-se muito a seu seguro, recusar, se quizessem, huma arriscada peleija. Que o valeroso General acceitava batalha a commodo seu, não a gosto do inimigo. Que a preza era assás avultada; que não faltava hum só dos nossos; que não destruisse com má determinação 135o que tão egregiamente se emprehendêra. Nem Menezes achou desarrazoado este conselho. E ora os Mouros, em quanto os nossos gastárão tempo em consultas, advertindo na consistencia dos nossos, crêrão que se dispunhão a carregar sobre elles; e seguros pela experiencia de varias refregas quão pezadas mãos os nossos tinhão, depois de ter bem assentado de combater comnosco, nos deixárão o campo. Então os nossos Capitães Mores, repartida a preza, se tornárão a suas casas sãos e salvos.
Não passárão muitos dias, que não fosse Menezes bem informado por hum espia Mouro, que ElRei de Féz sahíra a fazer correrias, e tomar, se podésse, a Cidade Tanger, ou talar-lhe ao menos as campinas, e fazer-nos o maior estrago possivel. Que tinha a seu mando 12$000 Cavalleiros; e se dava tal préssa em sua marcha, que não passaria correio a D. Rodrigo, antes que elle fosse contra os muros, mórmente não havendo ahi estrada, que os inimigos não tivessem pejada. Alvorotado Menezes com estas novas, manda dar fogo á artilheria, para com o estouro das balas dar a entender a D. Rodrigo o risco em que lidava. Além de que, tinha naquelles proximos dias vindo a Arzilla hum Cidadão de Tanger, e por esquecimento deixado huma cadélla sua. Manda Menezes apanhar a cadélla, e pendura-lhe do pescoço huma carta lacrada, em que dava conta de quanto o espia lhe relatára, e 136determina que logo que seja noite, a ponhão fóra de portas, e na praia a fustiguem rijamente. A cadélla escandalizada da disciplina, deo-se tal carreira por vir a casa, que antemanhã estava ás portas de Tanger; e D. Rodrigo que lêo a carta, mandou vestir as armas a toda a gente. Não tinhão acabado, que já ElRei de Féz se approximava da Cidade; e o grosso do exercito, que ante si mandára, devastava campos, rebanhava gados, punha á morte quantos homens achava desgarrados. Sahe logo D. Rodrigo de Tanger, e começa a ferir nelles; mas assoberbado da quantidade, se retirou com muito custo no fosso, que em defensão da Cidade tinha cavado; e isto fez depois de mais de duas largas horas de apertada peleija, morto já seu filho com oito mui esforçados Cavalleiros, e elle gravemente ferido no rosto d’huma lançada. Recolhidos no fosso os nossos, não os carregárão menos os Mouros, até que penetrando tambem nelle, e os nossos forcejando por entrar na Cidade, os Mouros encruecidos em nosso seguimento, envidavão todo o ardor por entrar de envolta comnosco em Tanger. D. Rodrigo, que isto advertio, víra sobre os Mouros c’huma esquadra de Cavalleiros; e com tal impeto lhes cahio sobre, que deo a todos facil recolhida. O ultimo delles, que era Lopo Martins, mui destemido Cavalleiro, entrando na Cidade, não deitou o ferrolho senão á meia porta; e quando 137todos lhe gritavão que a fechasse por inteiro, respondeo, que não esperassem delle tamanho peccado de marcar a honra dos Portuguezes com assômos de pavor. Que prompto era elle a pôr alli o ultimo arranco da vida pela defensa daquella meia porta. Nem sô o disse, mas com as obras o provou; porque accommettido ferozmente pelos Mouros, lhes aparou com grande brio o assalto, até que outros vierão em seu soccorro; e com seu esforço sacudidos os Mouros fóra das muralhas, se recolhêrão aos quarteis.
ElRei de Féz dalli a quatro dias desalojou, dando-se préssa a transladar a Arzilla o seu exercito: do que sendo Menezes informado pelas suas vigias, logo que dispoz bem o presidio da Cidade, emboscou toda a sua gente em Villa Velha, metteo em ordem Cavalleiros e Infantes, mandando-lhes que se tivessem quédos até que elle désse sinal; e que advertido este, então sahissem todos. Elle entretanto, como quem tomava fé do exercito, foi andando com sós 20 Cavalleiros até ao Rio doce, d’onde tendo descortinado a quantia dos inimigos, se vinha recolhendo para a Villa mui de acordo, e mui de passo. Neste andar vem sobre elle a cavalleria avançada dos Mouros com tanto impeto, que o fizerão (vendo-se tão perto já do sitio em que pozera os seus) voltar sobre elles o cavallo. Achava-se então com sós 4 de cavallo, que os mais tinhão corrido para 138a Villa com mais préssa que honra. Todavia 50 Cavalleiros, que o vírão ir de encontro aos Mouros, acodem com a mais possivel promptidão; e de tal pezo cahírão sobre os inimigos, que os desbaratárão com bastante mortandade delles. Os que estavão em Villa Velha, advertindo que Menezes hia mui longe em alcance dos inimigos, capacitados que não havia ahi esperar por mais sinal, se resolvem a correr em seu soccorro. Mas já nesse tempo os Mouros derramados por toda a planicie, tinhão todas as estradas tomadas. Considerava Menezes, que ElRei mandava Mouros descançados e frescos substituir os feridos e trabalhados: pelo que elle tão desacompanhado, como se via, de poder de modo algum resistir a tanto impulso de adversarios, lidava com summo empenho retirar-se aonde os seus. Nem elle o pôde conseguir sem maximo trabalho: antes em tão apertado transe lhe forão mortos alguns de seus Cavalleiros, e muitos feridos. O mesmo Menezes sahio ferido n’huma coxa. Rompeo com tudo tão brioso o exercito (que tendo-lhe atalhado todas as passagens, tratava de o tomar ás mãos), que conseguio juntar-se com os seus. De lá com toda a tropa sua tal Sant-Iago deo nos Mouros, que já dentro dos fossos peleijavão, que matando muitos, ferindo ainda mais, e cativando não poucos, despejou de Mouros a cava inteira. E pondo assim fim á peleija, entrou então na Cidade. Naquelle 139ensejo aconteceo aquelle gracioso caso, que o não foi todavia para o coitado, a quem elle aconteceo. Cavalgava pelo campo em direitura de Villa Velha hum Mouro, que a tinha por tomada; entra mui ufano e ledo, mas em troco de sua mui temporia alegria, achou desconsolado cativeiro.
Estas cousas passavão em Africa, em quanto D. Manoel trabalhava com muito zelo em que a Armada, que enviava em soccorro dos Venezianos, dentro de brevissimo prazo fosse abastecida de tudo e posta de verga d’alto, á qual deo por Almirante D. João de Menezes, filho de D. Duarte, Conde de Vianna, sogeito de extremado esforço e singular prudencia: outra Armada mais lhe deo a capitanear, que foi a dos presidios, que havião de ficar em Mazalquibir, se de passagem o podésse expugnar. Mazalquibir he hum Castello assentado na costa maritima da Mauritania Cesariana, na praia opposta á Cidade d’Orão. Prescrevêra D. Manoel em segredo a D. João de Menezes, que na expugnação deste Castello não duvidasse tentar a fortuna da guerra, com tanto que não consumisse muito tempo na facção. Desafferrou de Lisboa a Armada a 17 de Maio de 1501, e com ventos de servir, chegou sem demora D. João aos mares de Gibraltar, onde por preencher as ordens d’ElRei, foi em demanda de Mazalquibir; mas rebatião-no tanto de lá os ventos, que lhe custou 140tres dias a abicar no porto, nos quaes dias os Mouros, que rastreárão a intenção, que levavão os nossos em quererem alli tomar terra, se apercebêrão para a resistencia, juntando-se, animando-se os brios, e provendo o Castello de seguro presidio. Tomão terra por fim os nossos, dão assalto á Fortaleza, arrimão escadas, sobem á porfia aos muros: vêm que ninguem se lhes oppõe, e daqui deduzem, que os inimigos atterrados de susto se lhes occultão pelos esconderijos. Mas os inimigos, que se tinhão posto em cilada, vendo-os neste engano passear ufanos e vencedores; aproveitando a esperada occasião, derramados e nada suspeitosos de adversarios, os accommettem e despenhados os rechação. Morrêrão neste conflicto vinte dos nossos; e Menezes, que em suas instrucções levava não desperdiçar o tempo na oppugnação daquelle serro, deixando o mais da Armada, continuou seu curso com as trinta náos destinadas ao soccorro dos Venezianos. Chegou a Sardenha, onde o Governador da Ilha o recebeo com muitas honras; e tendo alli comprado comestiveis e feito aguada, partio. Não hia mui longe de Tunes, quando avistou hum grande navio mercante, acompanhado de duas náos de guerra; poz-lhe logo a prôa, e as cativou, e de volta á Sardenha, mandou pôr em terra as mercancias. Erão estas náos de Genova, e vinhão a Tunes carregadas de muita fazenda, e com ella muitos Turcos, 141Mouros, Judeos e Christãos. Restituio aos Genovezes o navio mercante e toda a carregação; deixou ir livres os Christãos e Judeos; Turcos e Mouros ficárão em guarda, e seus bens forão distribuidos pela Armada; as duas náos de guerra quiz reter comsigo, até pôr fim a aquelle combate, a que se destinava. Dalli se fez contra Italia, perpassando a Calabria e a Apulha, deixou trás si o Epiro, para entrar em Corfú, d’onde sahio a recebello a Armada dos Venezianos; e com o ruido das bombardas, e clangor dos trombetas, deo a demostrar de quanta alegria se entranhavão todos com a chegada dos nossos. A Armada Lusitana cuidou muito em lhes não ficar cedendo em obsequios. Como porém as nossas náos se não servião de remos, e havia calmaria e remanso nas marés, vierão as galés Venezianas tomallas a reboque, para as intrometter no porto. D. João de Menezes não se deixou levar de rogativa alguma dos Venezianos a desamparar a Armada; deixou todavia ir a terra todos os mais Capitães, que forão mui amigavelmente agasalhados. Para que não obstante se entenda quão arriscada que he a licença militar, quando a mais severa disciplina a não enfrêa, não será fóra do caso expôr em compendio o que os nossos militares alli commettêrão. Sendo de sua, natura altivos e insolentes os marinheiros e soldados Portuguezes, tomárão na Ilha mais confianças e liberdades do que cumpria, de 142que se escandalizavão gravemente os Gregos de indole igualmente propensa aos arruidos, e reciprocos lançavão aos Lusitanos muitos dicterios, e injúrias infindas: e foi subindo de ponto, que acelerando debates, com as armas que o repentino lance lhes offerecia, travárão briga. Accorrem os Capitães Venezianos a applacar a discordia; dá-se préssa D. João a vir a terra conter a furia dos seus; mas custou muito aos Cabos com o mando, e com a ameaça a pôr atalho a tão assanhada rixa. Setenta dos nossos pagárão com a morte o castigo de sua temeridade e insolencia. Do exercito Veneziano, e gente de Corfú morreo grande quantia, sangrada de nosso ferro: e veio a succeder assim, que a aquelles, a quem vinhão dar adjutorio, causassem não mediano prejuizo huma turba de temerarios. Não peleijámos com os Turcos, porque sabendo o Sultão, que os Reis de Hespanha e outros Principes Christãos mettião grande zelo em aprestar grandes Armadas, com que acudissem aos Venezianos, e que as Cidades, que a estes pertencião, erão mui fortalecidas, deo por esperdiçados os gastos, com que sem fruto algum construíra a Armada, e assim a mandou recolher ao porto, e aos seus soldados desistir da guerra. O General das galés Venezianas, quando tal soube, disse a D. João de Menezes, que o Senado e Povo Veneziano rendia consummadas graças ao mui preclaro Rei D. Manoel, de ter tão efficazmente 143zelado o salvamento seu, beneficio este que liava tão estreitamente a Republica, que em nenhum tempo lhe descahiria da lembrança, nem tardaria o Senado e Povo Veneziano a mandar-lhe Embaixadores, que mais claramente testificassem com quanto empenho á sua grandeza e dignidade ficavão avinculados. D. João de Menezes tendo então reparado os navios e tomado mantimentos, voltou a Portugal; e passando por varios casos de mar, chegou a Lisboa, e metteo pela barra dentro todos os vasos, que comsigo levára.
Mas Pedro Alvares Cabral, que hia em derrota da India, seguindo a mesma esteira do Gama, veio á ilha de Sant-Iago, d’onde querendo passar avante, tal tormenta se levantou, que a Armada se lhe desgarrou, e huma das náos desalvorada recuou para Lisboa. Applacada a tempestade, cuidou Cabral em recolher a si a Armada, em que achou aquella náo de menos, pelo que mandou arrear as vergas e esperar por ella dous dias: vendo porém que não apparecia, poz a prôa no Occidente. A 24 de Abril descubrírão os gageiros terra, de que todos concebêrão incrivel contentamento, não havendo nenhum dos nossos que tivesse a menor suspeita, de que lhes demorasse terra habitada de homens por semelhantes paragens. Nada menos mandou Pedro virar sobre a terra, e deo ordem ao Mestre da Capitanea fosse na lancha orçando pela praia, e registando apuradamente 144o sitio, e natureza daquelle paiz. Voltou o Mestre, e trouxe averiguado, que era amena a terra e fertil, acubertada de viçosas hervas, e altissimas arvores, vertente em copiosas aguas: que víra gente baça, de brando cabello corredio, nús de corpo, passeando pela praia com arcos e fléchas. Não satisfeito Cabral com o testemunho do Mestre, fez embarcar alguns Capitães nas lanchas armados, para que melhor indagassem o terreno. Elles perfizerão a ponto quanto Cabral lhes incumbíra, e de volta confirmárão por certo quanto o Mestre denunciado tinha. Detendo-se alli sobre as ancoras aquella noite, sobreveio tamanho temporal, que carregando na Armada, a forçou a rodear ao longo daquella costa muito embatida das ondas, e destroncada por aquelles mares, até que acertou com hum excellente porto, que Pedro Alvares mandou se chamasse dalli em diante Porto seguro. Abrigadas alli as náos, encommendou Cabral a alguns Capitães, que fossem nos bateis examinar aquelles sitios. Logo voltárão com dous pescadores, que tomárão d’hum barco; e como nenhuns dos nossos lhes podia comprehender a linguagem, por acenos e sinaes começárão a tratar com elles. Mas tão boto engenho tinhão estes Indios, tão embaçados estavão de animo, que se lhes não pôde por sinaes dar nada a perceber. O que visto por Cabral, lhes deo alguns pannos, cascaveis, anneis de latão e espelhos, 145e assim dadivados, os mandou pôr em terra. Elles mui vaidosos com taes presentes, alardeão com grande contentamento as riquezas suas, de maneira que, abalada toda a povoação de tantos encarecimentos, acudírão em chusmas com grão miudo, grande copia de farinha, e muita variedade de fructas, que tudo mui lhanamente permutavão com os nossos. Embellezavão-se nos espelhos, divertião-se com os cascaveis, altanavão-se com os braceletes, estavão fitos em nós, sem se poderem fartar de remirar cada cousa de per si. A simpleza desta gente empenhou a Pedro Alvares Cabral descer á terra, e alli á sombra de huma arvore grossissima mandar erguer hum Altar, onde com grande ceremonia se celebrasse Missa cantada, e houvesse prégação. Nem forão excluidos daquelle espectaculo os colonos daquella terra, que mudos e estupefactos entranhavão sem pestanejar no íntimo dos sentidos a santidade das ceremonias, e a harmonia do canto; e na inclinação de seus corpos mostravão-se muito entrados do nosso culto. E quando o Cabral se vinha retirando para as náos, o vierão com muito gosto acompanhando até ás lanchas: tão declaradas erão estas significações de regozijo, que com amiudados cantos, com tangêres de cornos e buzinas, com géstos de seu corpo, com settas atiradas ao ar, e as mãos apontadas para o Ceo, parecião render immensas graças a Deos, de ter 146alli trazido aquelles homens. Tão soçobrados estavão de assombro, que disseras tinhão perdido o juizo; pois muitos, em quanto Cabral vogava para a Armada, se mettião pelo mar em seu seguimento, até lhe dar a agua pelos peitos; outros hião nadando, e delles em bateis, até que agarrados com as náos, não havia modo de arrancallos dellas. Em quanto se a Armada aqui deteve a fazer aguada, a se prover de farinhas e outros mantimentos, deo á costa hum peixe, que moveo grande admiração em todos. Era da grossura de huma grande pipa, e tinha dous tantos de comprido; a cabeça e olhos do feitio dos de porco; as orelhas parecidas com as do elefante; não tinha dentes, a pelle sedeuda e crespa, e estendia huma cauda de cinco pés de longo, e tinha a pelle hum dedo de grossura. Nesta terra, que Cabral quiz appellidar Santa Cruz, e hoje se chama Brazil, mandou pôr huma columna de marmore, semelhante ás que o Gama mandava collocar em varias partes, e dalli enviou Gaspar de Lemos, hum de seus Capitães, a Portugal dar parte a ElRei D. Manoel do sitio daquellas novas terras, que eu não tenho por alheio descrever dellas algumas particularidades.
Fica ella situada para o Austro; os seus confins, que são dilatadissimos, entestão com o Perú, continente que se encerra nos dominios dos Reis de Castella. A terra he fertil e 147amena, e tão sadia de seu natural, que quasi escusa medicina alguma; por acaso alli se morre de doença, antes acabão quasi todos minados da velhice. Muitos e grandes rios a humedecem; e as fontes de agua doce e perennal que tem, são fóra de algarismo. Tem larguissimas campinas, que se tapizão de mui graciosas pastagens: seus portos são bonissimos, de mui facil embocadura, em que as náos tem grande abrigo contra os vendavaes; e não tem baixos nem restingas, em que periguem. A maior parte daquella região he empollada de montes, que abrem grandes valles; as florestas densas e sombrias; tem arvores de muita diversidade, nunca d’antes conhecidas dos nossos; entre ellas huma, da summidade de cujas folhas cortadas destilla hum genero de balsamo. O campéche, d’onde se tira a côr vermelha, com que se as lans tingem, são alli mui triviaes e muito altas. Brota além disso a terra plantas muito medicinaes, e entre ellas a herva santa, muito proveitosa para chagas, apertos de amiudado anhélito, e tambem para cancros, e para a gangrena, procedida de apodrecidas chagas e que em perdição de todo o corpo lavra contagiosa e subita: para muitas mais doenças, em que a arte medica em vão se esgota, e que ella mui prompta despede. São os homens fulos de côr, tem corredio o cabello e negro, e comprido; não tem barba, e ainda algum pello, que pelo corpo lhes aponta, com 148pinças o arrepéllão. Letras nenhumas conhecem, nenhuma Religião cultivão, nenhumas leis os ligão, nem se servem de alguns pezos ou medidas, nem ao governo de algum Rei vivem sujeitos. Quando todavia entre elles se levantão guerras, elegem hum General, que julgão por de todos o mais forte, e mais acerrimo em dar batalhas. Vulgarmente se não cobrem com traje algum, sómente os que entre elles realção por nobreza, se cingem de tecidos, de pennas de papagaio, e de aves de outras cores. Com cocares das mesmas pennas enfeitão as cabeças, e compõem braceletes, que passão por cima do cotovello. Descem-lhes estes saios de plumas do embigo até ás curvas. As mulheres deixão crescer o cabello; mas os homens o rapão desde a fronte até ao toutiço. Os que porém caprichão de garridos, furão as orelhas, os labios e os narizes, e até as faces, para as permeiarem pelos furos de pedrinhas de cores variadas. As mulheres, em vêz de pedras, se servem de miudas conchinhas, que ellas estimão a mui alto preço. Usão de arcos em suas peleijas; e com tanta arte atirão huma flécha, que a qualquer parte do corpo a que acenem, lá a empregão. Para as pontas das fléchas servem-se de espinhas de certos peixes em vêz de aço, e profundão, não obstante, com ellas tal ferida, que traspassão com o furo qualquer plancha. Vivem do que cação, comendo macacos, lagartos, cobras, ratos; 149que nenhum destes manjares os entoja. Usão de canoas compostas de cortiças de robustissimas arvores, e dellas ha, que podem trinta pessoas conter no bojo. Quando querem pescar, vão huns delles remando, e outros batendo o mar com varapáos, para amotinar o peixe, que espantadiço vem boiando á flor da agua. Então os que para tal ficão de apresto, tem cabaços grandissimos seccos e ocos descidos no mar ao revéz da corrente, e nelles vem de si mesmo encovar-se o peixe. Não semêão trigo, mas fazem pão da raiz d’huma herva do porte da beldroega; que com tudo encerra veneno tão mortifero, que morre de repente quem a come crua: mas elles pizão-na e pizada, a espremem, que gotta lhe não reste de sumo venenoso, e então a secção ao Sol, e moîda entre pedras, lhe extrahem a farinha. Os pães, que desta farinha fazem, não sómente são saudaveis, mas tem ainda mui regalado sabor. Della e de milho compõem huma bebida mui parecida com a cerveja, na qual, quando se enfrascão, o que mui de uso lhes acontece, mais que ordinarias fraudulencias e traições maquinão. Observão agouros, e são dados a empeçonhamentos. São entre elles em muita honra certos homens maléficos, a quem vão consultar nos casos duvidosos. Chamão-lhes Pages. Trazem estes na ponta d’huma setta huma cabaça com figura de homem, e cada vez que lhes dá na vontade, mettem brazas 150na cabaça e de sobrepostas hervas sahe fumo, que resfolgão pelos narizes, até bebados tremelhicarem, se espojarem, e sahirem de si. Que tem tal força aquellas hervas, que com seu fumo, como se fora sobejidão de vinho, os privão do entendimento. Logo começão a ranger os dentes, a escumar pela boca, a revirar os olhos, a ameaçar muitos de morte, e amedrontar com turbulentos esgares e meneios os circumstantes: e ninguem suspeita que sem instinto de espirito divino elles profirão tão horrendas vozes. Ora se algum dos a quem aquelle homem assim eivado agourou desastre, passou por sinistro acontecimento, logo crêm que aquelle agouro cabe reportar como em castigo. São agasalhados com summa veneração, espadanão-lhes os caminhos, cantão-lhes versos (a seu modo) acompanhados com flautas, danção-lhes bailes; trazem-lhes ao quarto moças formosas, dellas virgens, e outras já casadas; porque tem para si estes pobretes, que tudo lhes virá a seu desejo, se os tiverem ameigados. Não he dado entre elles casarem pais com filhas, nem irmãos com irmans; com as mais mulheres se conjungem indiscriminadamente, e tambem as deixão, se dellas se imaginão aggravados. Matão-nas porém, ou vendem-nas como escravas, se as apanhão em adulterio. Não os pais, mas os irmãos tem poder nas filhas, que as põem em venda quando bem lhes parece; e esta venda al não he, 151que escaimbo por outras cousas, que moeda não a tem. São mui perguiçosos para o trabalho, e mui inclinados ao jogo, e descanço: todo o tempo que não empregão na guerra, o dão aos banquetes, ao canto e dança sem theor algum. Toda a sciencia de sua dança está n’huma roda, que vai sempre saltando, e seu canto n’huma nota monotona, que não sóbe, nem desce na entoação das coplas. Alli se recitão as proezas, que na guerra acabárão, a que dão consummados elogios, e todas as canções tornão em applauso do esforço militar: o acompanhamento desta musica lho fazem elles assoviando e batendo com os pés. Andão em tanto os outros occupados a dar de beber aos dançantes, até que assoberbados do beberete caião sem sentidos. Fabricão suas casas de madeira, e as cobrem de unidos colmos, e as circumvallão de dous e de tres muros, em razão das revezadas guerras, em que de contínuo lidão. N’huma só casa (porque são mui compridas) assistem muitas familias, por quanto se amão todos fraternalmente, e com gosto arrojão sua vida a todo e qualquer risco, por acudir a cada hum daquelles, com quem vivem. Guerras nunca as emprehendem, por defender ou dilatar suas fronteiras; mas sim por pundonor, quando concebem que forão aviltados por seus convisinhos, ou qualquer outra arredada Nação. Nesse caso anciãos, que ja nas guerras esclarecêrão seus nomes quando 152moços, entrão no Conselho; e antes que deliberem, cada hum toma tanta bebida, quanta seu animo lhe pede; e logo mettem suas forças e vontades a pôr por obra quanto ácerca da guerra e da paz foi pelos velhos decretado. Escolhem, como já dissemos, por General o acerrimo em seu conceito, honra de que subito o deipojão, se em alguma occurrencia teve o menor desar de cobardia, e lhe substituem outro no seu posto. Vai o General de casa em casa convidando a todos com grandes gritos para a guerra, e avisando-os de como tem de se aviar para ella, e quanto lhes he necessária a valentia. Não só usão de arcos e fléchas, mas com espadas tambem de madeira durissima lavradas, québrão e fendem os membros dos inimigos. Tração frequentes emboscadas, e põem o ponto em accommetter de sobresalto os seus contrarios. Os prisioneiros de guerra, mórmente se velhos são, sem tardar os comem, os mais os prendem. A quantos dos seus na guerra perecêrão, fazem mui pranteados funeraes, em cuja celebração fazem o encomio de seu valor. Dão mui bem de comer a seus cativos, e até lhes dão mulheres para com elles dormirem; e quando chegão seus dias de festividade, atão com cordas hum prisioneiro de guerra, que lhes parece já bem nutrido e gordo; e antes que tudo, a sua amiga em sinal de amor lhe lança huma corda ao pescoço e arrasta ao supplicio os seus amores. Cercão-no 153depois os homens, que lhe garrotão braços, pernas e ventre, e atados a huma columna, o pintão de varias cores e o enfeitão de plumas. E para não parecerem deshumanos, lhe relaxão as prizões, e lauta e liberalmente o convidão com bebidas e manjares. Intervallo este, em que todos se põem a comer, e a se engolfar naquelle licor, de que já fallámos. Saltão depois, e cantão e danção pateando, e neste jogo mui apparatoso empregão tres dias cheios, até que, findado o triduo, desimpedido das cadeias dos pés e das mãos, o conduzem a hum subterraneo, onde mulheres e meninos o tirão pela corda, que lhe cinge o peito; o resto dos homens e mulheres lhe atirão com limões e outras fructas, e o prezo quantas dellas póde apanhar, as revíra sobre os que com ellas o magoárão. Em tanto bebe, e ao que parece, mui contente, que bebida e comer não se lhe refusa, demostrando em tudo não mediana alegria. Elles ao valentinho, e que como tal blazona, lanção injúrias e accumulão de vituperios, e lhe dizem: “Homem muito malvado e muito facinoroso, pagarás agora os males que fizeste, e vingaremos no teu sangue os manes de quantos na guerra nos morrêrão. Que temos de tirar-te a vida, despedaçar-te, e comer-te assado.” Prompto me tendes (lhes responde), que o não haveis vós com hum cobarde, que detrecte o supplicio. Sempre me portei com brio em 154meus deveres: e se de matar-me tendes, já muitos de vós ás minhas mãos morrêrão; e se de minhas carnes ides saciar-vos, já eu das carnes de muitos me saciei tambem. Tenho demais irmãos, tenho inda parentes, que certo estou não deixaráõ impunida a minha morte. E assim dizendo, vai entrando no subterraneo; e logo aquelle, sob cuja guarda estava, entra com elle no mesmo subterraneo, todo pintado pelo corpo, e o pescoço bem adereçado de plumas, vibrando em suas mãos huma desmedida catana; e vem cantando e assoviando, em quanto a esgrime. O prezo põe summo desvelo em lha arrancar das mãos; mas em quanto faz lanço a correr a esta parte, as mulheres e meninos, que nas mãos tem o cabo da corda que o amarra, o tirão a si; e se volta a outro lado, da mesma sorte as mulheres lhe dão contrario torcimento. Tão agarrado o tem alli, que não póde dar passo do lugar em que se acha; e o valente gladiador o magôa a seu salvo e o atenua a golpes de catana, até que por ultimo com hum, que á mão tenente lhe descarrega sobre a cabeça, lha fende, e os miolos lhe derrama. Corta-lhe depois as mãos; e vem logo as mulheres, que o corpo já sem vida lanção sobre o fogo, para que, queimado o pello todo, possa com mais aceio ser lavado. Aberto pelo ventre, lhe arrancão as entranhas e miudos; depois o fazem em chacina, e por não dizer mais, mordem 155mui regaladamente naquellas carnes. Outros homens ha montanhezes e silvestres, que porfiadamente guerreião comestes que habitão barracas, e se enlodão nos mesmos crimes e feridades. Nenhum delicto, senão o homicidio, he punido entre elles; mas os mesmos proximos parentes do homicida são forçados de entregallo aos que em razão de commum consanguinidade tem acção de requerer-lhe a morte. Ora estes lhe dão garrote e o enterrão; e com muitas lagrimas e carpiduras de todos os parentes, celebrão as exequias de hum e outro defunto, e dão banquete, a que assistem, depostas as inimizades, todos os parentes. Se porém por accidente algum pôde escapar o homicida, então suas filhas, ou suas irmans, ou já parentas, são entregues á serventia dos parentes do morto, com o que toda a desavença entre os dous bandos fica sepultada no olvido. Tive por arrazoado emprego descrever costumes tão selvagens e ferinos, para que entender-se possa quanta alluvião de errores investe com a misera humanidade, se destituida se acha do conhecimento das sciencias; e o que funesto inda mais he, do presidio da santa nossa fé; e se comprehenda tambem com quanta benignidade o Clementissimo Rector do Universo olhou por esta miserrima gente, quando pela arribada dos Lusitanos naquellas praias, lhes grangeou conversação e familiaridade com Christãos, e com homens religiosos 156da Companhia de Jesus, que a aquellas partes mandárão os Reis de Portugal; a doutrina dos quaes Padres affugentou as trévas dos erros, em que muitos laboravão, e porque bem inteirados affervorem seus animos no ardente zelo de Jesu Christo Optimo e Maximo, e a Deos rendão grandiosas graças com advertida vontade, reconhecendo este seu divino beneficio.
Partio Cabral das regiões Brazilicas aos 5 de Maio, e aos 24 do mesmo mez avistárão os marinheiros huma nebrina, que lhes vinha sobre, e lhes encapotava o Ceo de escura noite; olhavão os mares que se abalavão, e se erguião em ondas, e começárão a assustar-se, e a arrear mui depressa o velame. Mas tão subito lhes carregou o temporal, que antes de poderem pairar ao perigo imminente, quatro náos forão dos furacões ferozes embatidas, desarvoradas, e tão submergidas no profundo, que hum só não escapou dos que nellas hião. Espectaculo amargoso e lamentável, além do que em palavras cabe, para os que ficárão! Ver revoltos entre os marulhos os companheiros de seus trabalhos, conjunctos pela amizade e patria natural, e inda muitos delles avinculados pelo sangue, sorvellos aquelle pégo em sua voragem enorme, e não poder acudir com soccorro algum em tamanha calamidade a homens, que fenecião em tão miserrimo soçobro! A’s sete náos, que lhes superstiverão e 157que dalli entre lagrimas se arredárão, desbaratou nova tempestade, e sô em 17 de Julho se tornárão a juntar seis da conserva, que a setima esgarrada com o vendaval, foi entrar pelo seio Arabico, d’onde tornou a Portugal com seis pessoas sómente, que as mais atormentadas de fomes, sedes e doenças, combatidas de muitos perigos e afflicções, perdêrão as vidas. Em fim as seis, depois de dobrarem o Cabo de boa esperança, avistárão huma amenissima terra espontada de arvoredos, formigada de rebanhos, que muitas crystallinas ribeiras recortavão, para a qual mandou Cabral que arribassem os navios: mas nenhum dos moradores quiz acceitar trato com os Portuguezes. De maneira, que muito carecendo os nossos de comestiveis, se partírão dalli sem nada poder conseguir daquella gente; e depois de ter discorrido toda aquella costa, acertárão com duas ilhas, que erão contra aquelle continente, e nellas estavão surtas duas náos, que apenas os que dentro dellas vinhão assentárão que eramos Lusitanos, se derão a fugir. Poz-se logo Pedro Alvares em seu alcance; mas inteirado que ellas erão de Fonteima, num Principe muito parente de ElRei de Melinde, as deixou ir livres; e sem lhe tocar em grandes quantias de ouro, que de Çofala exportavão, nem em muitas outras mercancias de subido preço. Chegando a Moçambique em 21 de Julho, fez sua aguada sem estorvo dos naturaes, 158comprou mantimentos, e provído de Piloto, que o levasse a Quilôa, diligenciou fazer-se á véla: e como não hia muito afastado da terra, via muitas ilhas mui formosas e bem agricultadas, cujo dominio supremo pertencia a ElRei de Quilôa, cujo reino se estende por 900$000 passos ao longe daquellas praias. ElRei e os Quiloenses todos seguem os preceitos de Mafamede: os habitadores parte delles são negros, parte baços; fallão Arabigo, e entendem outras linguas mais, em razão do commercio que alli lavra com muitas Nações; vestem-se á moda dos Arabes e Turcos, e vivem a la grande. Dista Quilôa de Moçambique obra de 400$000 passos: hum esteiro de mar a separa do continente; he mui povoada de arvores a ilha, e de plantas; rebentão nella frias e perennes fontes; he abastecida de grossos e muitos gados; tem nos seus matos e florestas muitos animaes para exercicio dos caçadores; a terra he fertil, e agudada de mediana cultura, se desabrócha em variadas colheitas, e differentes peixes mui saborosos se pescão nos seus mares. He a Cidade grande, e mui fornida de habitantes; as casas vastas, e com magnificencia construidas, com seus eirados, bem tapeçadas e lindamente artesoadas, recheadas de moveis differentes e em gran quantia. Suas náos não dissemelhão muito das de Moçambique; e porque lhes falta o pêz, as alcatroão com incenso bastardo. Entrado e surto 159neste porto Pedro Alvares Cabral, enviou a ElRei hum chamado Abrahemo dizer-lhe, que por mandado d’ElRei de Portugal viera a aquellas partes com recado do mesmo Senhor, e Cartas de seu punho, das quaes se podia divisar o empenho que em seu animo jazia de se juntar com elle em alliança e amizade: que elle porém não podia em nenhum modo sahir a terra, por não parecer menos prezar as ordens do seu Monarca, que lhe impedião desviar-se da Armada, para vir a conseguillo; que por tanto designasse a paragem que mais arrazoada lhe parecesse para aquella entre-falla. ElRei mui affabilmente recebeo os Enviados, e por elles mandou em resposta a Pedro Alvares, que mui grata lhe fora a sua vinda; que muitas noticias tinha já das grandezas d’ElRei D. Manoel e das virtudes que muito o ornavão, posto que por tão arredados intervallos de sitios ficasse dispartido daquellas terras o Reino seu; e que advertido dellas, mui gostosamente entraria em quaesquer pactos de reciproca amizade; e pois que não era factivel receber em terra sua embaixada, se daria modo de no dia seguinte fallar no mar com elle. Assim disse, e mandou logo hum fidalgo da sua casa com presentes a Cabral, e no dia depois se embarcou em pequenos bateis, que para esse effeito estavão apercebidos e adornados. Vinhão todos trajados de ouro ou purpura, de seda ou de algodão; cingião espadas e punhaes, 160em cujos punhos trazião engastadas preciosas pedras, que lançavão mui lustroso brilho. Davão significação de summa alegria os anafis e buzinas, que vinhão tangendo, a que os Portuguezes respondião com trombeta e tiros de artilheria, indicadores do gosto que disso tomavão. Passára ordem Pedro Alvares a todos os Capitães, que se vestissem com o mais luzimento que podéssem, o que elle tambem fez; e assim se embarcárão nas lanchas, para irem ao encontro d’ElRei e de suas embarcações. E logo que Cabral topou com ellas, saudou a ElRei como era devido, a que ElRei replicou com honraria, e dahi recebeo da mão do nosso Capitão as Cartas em Arabigo escritas, e com muito boa sombra no gesto e no semblante, ouvio a embaixada: e respondeo por fim, que o Senhor D. Manoel lhe seria sempre como Irmão seu, e poria seu cuidado, que ninguem lhe levasse vantagem no affecto para com Sua Alteza. Ficou depois entre ambos assentado, que no dia seguinte mandasse Cabral a ElRei pessoa, que com auto confirmasse a instituida amizade. Quando tudo estava assim determinado, entremettem-se os mercadores Arabios, criminando os Portuguezes de facinorosos e desalmados, admirando a simplicidade d’ElRei, que confiava a sua dignidade e Reino a piratas; e que a não pôr estorvo a suas ciladas, em poucos annos, com mascara de paz, lhe arruinarião todo o seu 161haver. Com taes práticas demudão o animo d’ElRei por modo tal, que não só revolvêrão a paz, mas irritárão contra os nossos abhorrecimento acerbo. Já ElRei fortificava a Cidade, juntava a soldadesca, distribuia atalaias, e dispunha tudo o que nas Cidades maritimas se executa, quando estão já no porto os inimigos. Pedro Alvares Cabral, que disto foi avisado por Homer, irmão d’ElRei de Melinde, que então residia em Quilôa, não deo por acertado estragar alli o tempo inutil, e endereçou sua carreira para Melinde, cujo Rei, quando tal soube, se embebeo de incrivel alegria, e deo logo promptas ordens de abastecer a Armada de todos os mantimentos e fructos, que a terra produzia. Levava o Cabral comsigo o Embaixador d’ElRei de Melinde, honrado e presenteado por D. Manoel, e as dadivas tambem que ElRei de Portugal mandava da sua parte ao de Melinde, as quaes entregou a quem no dia seguinte lhas levasse. Então ElRei de Melinde, para que o povo admirasse honra tamanha por hum Rei poderosissimo a elle feita (por quanto são aquelles Reis ambiciosissimos ácerca de semelhantes cousas, e de nenhuma outra se ufanão mais, que de se verem condecorados com mimos de grandes Monarcas), mandou logo ajaezar hum soberbo cavallo, com todos os arnezes, sélla e pendentes de ouro de obra mui prima d’entre os muitos presentes, com que d’ElRei D. Manoel fora brindado, 162e assim montado partio para o maritimo, onde já Cabral com os mais Capitães nas lanchas o esperavão. Lá depois de mutuamente se abraçarem, e terem muito pleiteado cortezias, não quiz nenhum ceder a outro em resguardos de civilidade. Bem quizera ElRei demorallo alli por longo tempo; mas Pedro Alvares não o consentio, sómente deixou em terra dous degredados, que vissem se era possivel passar por terra á Ethiopia, que fica sobre o Egypto, onde ElRei D. Manoel tinha ouvido, que reinava hum Imperador Christão, e lá indagassem os costumes, leis, e ceremonias daquella gente. Feito á véla de Melinde aos 7 de Agosto, e achando-se com ventos de servir, transpoz aquelle pégo, e foi surgir em 27 na ilha de Anchediva, onde se deteve alguns dias, para restaurar do trabalho seus soldados e marinheiros: de lá navegou para Calecut, por cuja barra entrou com a sua Armada, depois de 13 dias de sahir da ilha. O que logo que chegou á noticia do Çamorim, mandou dous Naires com hum mercador entre elles mui authorizado, daquellas partes lá por onde o Indo desemboca no Oceano (chamão Cambaya a terra, e os homens della Guzarates), que viessem a bordo, e ao Capitão em seu nome saudassem. Cabral lhos remetteo e com elles a João da Sala, homem Cavalheiro, que acompanhára Vasco da Gama no descobrimento da India; e outro sim a Gaspar da 163Gama (que tal sobrenome tomou aquelle Judeo, que andava no serviço do Sabayo, e no baptismo quiz chamar-se da Gama, em memoria do seu protector), e a mais quatro Naires dos que o Gama comsigo trouxe á Lusitania (deixando os outros como em refens), para apparecerem a ElRei vestidos já á Portugueza, de cuja vista se deo por mui contente o Çamorim. Depois de recados de huma e de outra parte, assentou ElRei, que em certos Paços, que davão sobre a praia, viria Pedro Alvares ter com elle, e expôr-lhe quanto da parte de ElRei D. Manoel quizesse. Estes Paços estavão magnificamente adereçados, e a elles se transferio ElRei acompanhado de immensa nobreza, e lhe vinhão em torno muitos dos Maioraes do Reino. Vinhão diante os musicos com charamélas, de ouro, e de prata primorosamente lavradas, que com seus bem modulados tangêres denunciavão a alegria de que ElRei vinha, ao parecer, affecto. Chegou Cabral com alguns Capitães, depois de encommendar a Armada a Sancho de Thoar, hum dos Capitães della. Logo que tomou terra, lhe vierão ao encontro muitos homens nobres, e alguns dos Grandes, que todos a pé, em quanto elle hia em liteira, lhe fizerão cortejo até á sala, que tapeçada, era de pannos de seda e ouro, e o traje de ElRei brilhava, pela quantidade de pedraria. Saudou Pedro Alvares ao Çamorim, e foi sentar-se em huma cadeira 164de prata, que junto delle estava preparada; e logo chamando o interprete Gaspar da Gama, lhe perguntou ElRei o que os amigos em familiar congresso saber desejão: Se gozava de saude, se lhe fora agradavel a viagem, se D. Manoel seu Irmão se portava sadio e bem, quando a Armada desaferrou de Lisboa. Explicadas então pelo interprete as Cartas d’ElRei de Portugal, entrárão a tratar da alliança. O Çamorim muito de sobeja vontade mais promettia, e mais dava que Cabral não requeria. Deo faculdade aos Portuguezes de negociar livremente na Cidade, e que teria cuidado que o podéssem fazer com segurança e com proveito. Designou aos nossos para esse effeito humas casas bastantemente grandes embeiçadas com a praia, em que morassem, e arrecadassem suas fazendas. E porque o Mouro, que dellas era dono, começou logo a maquinar enredos contra os nossos, fez o Çamorim doação a ElRei D. Manoel de outras maiores e mais visinhas do mar, onde os seus Feitores habitassem mais folgadamente, e com mais commodo entendessem em seus haveres. E para que ficasse em perpétua lembrança esta sua doação, a mandou lavrar em huma placa de ouro; e a Cogebecque, hum Mouro requissimo (a quem pelo ardor que demostrava para com os Portuguezes, lhe arruinárão depois toda a sua fortuna), lhe pagou mui galardoadas estas casas, que erão suas. Passou outro sim 165huma Lei, para que no tópe do edificio se pregasse huma bandeira com as Armas d’ElRei D. Manoel, que a todos désse abono de que pertencia a ElRei de Portugal, e tomaria a seu cuidado que este monumento d’hum Monarca, que lhe era tão prezado para sempre na Cidade tremolasse.
ElRei tratava nestas cousas, quando lhe veio nova que huma grandissima náo mercante desafferrára de Cochim com hum elefante ferocissimo para as peleijas, e hia de viagem para Cambaya. Informado do que, mandou pedir a Cabral, pela amizade que vinhão de pactear, fizesse preza nella, porque pertencia a pessoas, com quem estava justamente agastado. Para se inteirar porém do brio, com que os nossos accommetterião a náo, mandou alguns Mouros criados seus para olheiros do combate. Pedro Alvares encommendou o feito a hum pequeno baixel, de que era Capitão Pero de Ataíde, a quem deo por companheiros Duarte Pacheco, Vasco da Silveira, e João de Sá. Ficou ElRei muito maravilhado de ver huma só náo, que não era grande, separar-se da Armada, para ir peleijar com outra desmesurada, mui abastecida de armas, de forças de soldados e artilheria; e esperava com animo suspenso o exito da contenda. Apenas começavão os nossos a travar das armas, que a náo se lhes depara diante dos olhos. Eis logo os nossos correm sobre ella a panno solto, não 166todavia com o fito de a investir de perto, receosos de serem assoberbados das lanças, que os inimigos lhes podião arremessar das vergas altas; mas com hum permeio de mar, que désse jogo aos pelouros de pedra, de ferro, e até balas de chumbo, com que a combatião, e com que lhe matárão e ferírão muita gente, e tendo-lhe já aberto muitos rombos no navio, ora vinhão pela esquerda abalroallo, ora pela direita. Os inimigos que de primeiro parecião zombar delles, e com erguidas algazarras lhes dizião vituperios, tomárão tezamente as armas, vibrárão arremessões, e fizerão laborar sobre nós a bombardaria: mas considerando nos damnos, que de nós lhes recrescião, pozérão todo o seu salvamento na fugida. A nossa náo lhe foi sempre no alcance, até que a forçou a entrar de noite na barra de Cananor, que dista de Calecut perto de 40$000 passos para o Septentrião, onde quatro náos de Arabios estavão ancoradas. Os nossos ficárão de vigia, porque lhes não escapasse; e mal abrio a madrugada, forão sobre ella com todo o panno largo; e tanto pavor lhe mettem, que larga os navios, com quem tomára abrigo, e arranca para o mar alto; mas como o navio Portuguez se lhe avantajava de pé, tanto o embaraçou com as bombardas, que a navegárão não para onde querião os inimigos, mas sim para onde os nossos lhe fazião virar a prôa; até que por fim vencida e cativada, levando-a 167diante de si, a constrangêrão a entrar no porto de Calecut. Foi hum assombro para ElRei; e averiguou dos que se offerecêrão a presencear a batalha, de como passára o caso. Respondêrão-lhe, que nunca vírão em homens alguns igual destreza, animos mais fortes, nem denôdo maior em se affrontar com os perigos. ElRei mandou a Cabral quem delle grangeasse enviar-lhe os Varões excellentes, que naquelle combate derão melhor prova de si: que anciava de ver pessoas tão dignas de que todos os Reis os cumulassem de honrarias. A cujo peditorio satisfez Pedro Alvares. A todos engrandeceo ElRei com dadivas, e com louvores; mas mais que a todos ao Pacheco, cujo esforço, ao referir dos Arabios, que assistírão á refrega, fora mais insigne. Quanto porém elle por esta facção exaltava os Portuguezes, tanto mais pezado recresceo contra elles o perigo assestado pelo odio e inveja dos mercadores Arabios. Por quanto accrescia á vontade, que lhes tinhão de vir a cabo delles pela discordancia da Religião, o desvelado susto que lhes vinha, de que entrando muito pela graça d’ElRei, viessem a excluillos della. Assim que traçavão em tudo pôr estorvo aos nossos, que não lhes era vendida a copia de pimenta e outras especiarias, que comprar quizerão. E a esse fim forjárão tantas fraudes, e com calumnias assanhavão o animo d’ElRei, assacando aos Lusitanos a infamia de ladrões. Subião a mais com 168prometterem aos donos pelas drogas preços mais altos, comprarem tudo ás occultas, e terem-no cerrado, porque nada colhessem á mão os Portuguezes, e ElRei não se dar por sabedor, e falsear a fé já dada. Já Cabral desta perfidia desconfiava desde antes que lhe assinassem casas de morada; por quanto os refens que na náo tinha, se lançárão ao mar, e nadando fugírão para os seus; se bem que alguns se apanhárão, dos que escapárão não restituio ElRei, nem deo a Cabral devida satisfação. Do que offendido este, se mandou queixar a ElRei, de que tendo-lhe promettido que as náos Portuguezas acharião carregação dentro de vinte dias, passados erão tres mezes, que nenhuma náo tinha a sua carga, quando diante dos seus olhos os Arabios tinhão carregado as suas: o que era contra a alliança pacteada. Que precavido fora na alliança, que por preço algum se não venderia a quaesquer Nações que fossem huma só libra de pimenta, ou de gengibre, antes que os Portuguezes tivessem completa a sua carga. Que assim lhe pedia, que attentasse pela sua promessa e pelo seu real decoro. Que a elle a viagem o açodava, nem podia naquelle porto mais tempo demorar-se. ElRei, que isto soube, fingio que dessa injúria se dava por gravemente escandalizado; e disse, que a seu occulto, homens fraudolentos tinhão semelhantes flagicios commettido: e que no caso que os Sarracenos fossem 169tão confiados, e improbos, que contra suas ordens mettessem carga em seus navios, dava elle licença aos Portuguezes de baldearem as especiarias das náos dos Arabios nas suas, pagando-as como he devido aos mercadores, e carregarem assim mais presto as suas. Cabral, quando lho disserão, suspeitando malicia nesta concessão d’ElRei, e receando não quizesse com ella assanhar os animos dos Arabios, para virem a brigas, e serem os nossos opprimidos da multidão e poderio delles, e pôr depois a culpa do arruido ou já aos nossos, por terem motivado a contenda, ou já aos Arabios, porque sem ordem sua confiárão vingar-se, se comportou de maneira, que não dava a julgar o que neste caso tinha por melhor. Então metteo Aires Correa (feitor d’ElRei D. Manoel, e que ficára nas casas da feitoria) toda a sua força, para que Pedro Alvares se valesse da permissão do Çamorim, e arrancasse por violencia o que os Mouros lhe desviavão por fraude; senão succederia, que as náos Portuguezas tornarião de voluto para o Reino, e sem proveito algum se terião estragado tantas despezas; e como o Capitão Mór vacillava ainda e se continha, foi-lhe instando Aires Correa; e obtestando-lhe que não consentisse macular sua fama com nódoas de temor ou desmazello, nem privasse a Sua Alteza dos lucros que se offerecião; e veio apôs com testemunhas, e autos de protesto lavrados pelos Escrivães, 170porque fosse claro a todos, que não dependêra delle, mas sim por culpa do Capitão Mór este desfalque na fazenda real. Impellido pois Pedro Alvares Cabral das queixas e protestos de Aires Correa, para minguar hum tanto o defeito, que lhe podião intentar, assentou pôr alguma cousa por obra. Havia já algum tempo, que fóra do porto estava hum navio carregado, e tratava de desancorar, e fazer-se á véla; Cabral então por hum criado seu intimou ao Capitão delle, que não sahisse de lá, porque tinha faculdade do Çamorim de demorar as náos, que ancoravão naquellas paragens. Era o dono do tal navio hum Sarraceno riquissimo, que muito em Calecut privava com os da casa real: por tanto o Capitão e o Piloto do navio zombárão e a mais chuma das ordens de Cabral: mas este mandou aprestar e armar nas lanchas soldados e marinheiros, e que logo lhe rebocassem com cabos o navio; o que assim se fez. O Sarraceno quando tal soube, bramando de ira, chama a si parentes e amigos; expõem-lhes seu aggravo; queixa-se da injustiça e iniquidade dos nossos, e com palavras lhes encarece a indignidade da affronta; huns apôs outros lhe incitão quanto podem com razões e animo já de si azedo, e lhe inculcão que he mais honra morrer no desaggravo da affronta, que consentilla. Pelo que vão logo todos em demanda do Çamorim, gritando ser injúria indigna deixar tomar tanto 171pé a esses Christãos, que invistão com os negociantes amparados da sombra d’ElRei, e que como se já fossem de posse do Reino, violentem com ordens, ameacem gente livre, preiem náos rendidas, e ante os olhos mesmos d’ElRei fação força a homens, que vivem sob seu Real seguro. Que tal injúria menos tocava nelles, que em desdouro Real; e se logo se não vingava, virião a maquinar maiores insultos, e tornar contra elle aquellas mesmas armas. Que a sua bondade fora causa, que homens estrangeiros desconformes dos costumes da India, e destituidos de todo o amparo, tinhão em pouco hum Rei tão poderoso, e tão arrogantes se mostravão, e tão insolentes em seus mesmos dominios. Respondeo-lhes ElRei, como quem não se agastaria de qualquer ruindade, que elles exercessem em nossa perdição. Ei-los que investem com a feitoria, onde por mandado Real os nossos assistião (de tal accommettimento não cuidosos), e trazião comsigo de ronda Naires e plebeos. Correa acudio logo a dar sinal á Armada do perigo em que lutava, achando-se com menos de setenta Lusitanos, e dos Mouros juntos com os Naires paravão a 4$000. Como Cabral laborava com quartans, mandou a Sancho de Thoar, que com todas as lanchas accorresse á praia a dar adjutorio aos nossos, e recolher os que evadissem. Mas já os Mouros a fenderem a porta com machados, a descozerem as paredes com 172madeiros, a lançarem arremessões, e a pôrem tudo em prática para acabarem com os nossos, antes que lhes apontasse o soccorro. Resistião-lhes os nossos com brios esforçados; e porque que a morte lhes estava diante, peleijavão como os que querião morrer vingados. Cahio em tanto, á violencia de trabucos, huma parte da parede, e pelo desmoronado della arremettem ferozes os inimigos, matando nos Portuguezes: destes os que podérão retirar-se, formados n’huma mó, guiárão para o mar, onde já muitos dos da Armada, que vinhão soccorrellos, tinhão feito impeto nos inimigos, para com a repreza destes facilitar com pouco a recolhida dos nossos pelas lanchas. Ficárão cincoenta Portuguezes mortos e Aires Correa entre elles; vinte sós escapárão com muitas feridas, de que alguns depois morrêrão. O Guardião dos Franciscos Fr. Henrique tambem veio de lá mui mal ferido. Tinha Aires Correa levado comsigo á India seu filho Antonio Correa, menino de dez annos, que hum Cavalleiro Nuno Leitão tomou em honra defendello em semelhante perigo, e tanto o cumprio que o trouxe á praia são e salvo; mas desconfiando então podello passar á lancha, acode hum marinheiro apiedado da orfandade do infante, e tomando-o nos hombros por entre riscos mil, expondo a vida, o salvou na lancha. Este menino foi depois em mais crescida idade homem de grande esforço, e delle se contão acções 173mui memoraveis na guerra. Succedeo este infortunio por malvadissima gente perpetrado no anno 1500 de Jesu Christo; e Pedro Alvares Cabral o tomou tão magoadamente, que lhe redobrou a febre com mais furia. A morte de Aires Correa lhe custou lagrimas; sobresteve porém em dar azas á vingança na expectativa de que ElRei se desculparia com algumas coloradas razões, e reprehenderia os authores daquelle absurdo. Entendendo por fim pelo porfiado silencio delle, que não só ElRei fora sabedor, mas ainda fautor do facinoroso feito, por conselho dos Capitães da Armada accommetteo no dia seguinte com dez grandes navios Arabios, que no porto estavão; e tendo peleijado d’huma parte e d’outra com azeda porfia, abalroão por ultimo os nossos com os lenhos inimigos e com a morte de muitos delles vingão a morte dos companheiros. Mais de seiscentos morrêrão sangrados do nosso ferro. Deo-se saque ás náos, cativando esses poucos que de susto se escondêrão; e por supprir á penuria de mareantes, forão distribuidos por todos os vasos da Armada. Achárão dentro tres elefantes, que mortos e salgados, servírão de comida aos nossos, porque havia grande falta de vitualhas. Lá por noite deitárão finalmente fogo ás náos cativas, entre as quaes ardeo tambem a do Arabio, que nos urdio a queréla, que se chamava Coge em Mecide. Metteo pavor este incendio não só aos Cidadãos, 174mas ainda aos Estrangeiros, que residião em Calecut. De toda a parte concorre o povo, levantão altos alaridos, pranteão com lamentações e uivos as perdidas náos, com as mãos para os Ceos vomitão pragas: mas nenhum se dispõe á resistencia. Diante dos olhos d’ElRei tinhão sido queimados os navios; e logo que foi manhã, se pozerão as nossas náos em fórma de bombardear a Cidade com a maior ardencia que coubesse; derribárão muitas casas, matárão muitas pessoas, e em muitos sitios fizerão acerbo estrago; ElRei mesmo que vio cahir a seus pés despedaçado hum dos seus familiares, acobardado do que vio, poz todo o salvamento seu na precipitada fuga.
Acabado este feito determinou-se o Capitão Mór a passar era Cochim, pelas novas que tinha que o Rei anhelava pela amizade dos Portuguezes. Fica esta Cidade ao redor de 700$000 passos distante de Calecut para a banda do Meio-dia: réga-a hum tortuoso rio, que não longe della se mistura com o mar. Seu porto he muito bom, e segurissimo o ancoradouro para os navios; o terreno he magro e esteril, mas agradavel á vista pela verdura de suas arvores. Abunda em pimenta; mas as rendas d’ElRei são tenues, e dellas paga ainda páreas ao Çamorim. Os costumes e leis desta gente são mui parecidos com os de Calecut. Logo que Cabral entrou pela barra de Cochim, mandou a ElRei hum Indio por nome 175Miguel, que lhe désse parte de como era chegado a aquelle Reino, e juntamente rogasse lhe fosse vendida alguma pimenta e a quantidade de especiaria competente a preço arrazoado para a carga de algumas náos. Fora este Miguel homem de pasmoso desinterresse, e membro d’huma seita, a que na India dão o nome de Jóques, que tem por maxima principal terem as cousas deste mundo em singular desestima. Não possuem riqueza alguma, vivem do que mendigão, e discorrem por todas as praças públicas, para alli inculcarem no auditorio a doutrina da sua seita. Muitos delles com seus prestigios embelecão os ignorantes, abusando em proveito proprio da estulticia alheia. Mas Miguel, que singello de animo entrára nesta religião de fraudulentissimo theor, logo que lhe atinou com os embustes, a reprovou, e deo ouvidos a varões Portuguezes, que mais pura que os outros observavão Christandade, e insinuado de seus avisos, abraçou a fé Catholica. ElRei de Cochim, a quem elle saudou em nome de Cabral, e fez os encommendados requerimentos, respondeo á saudação com cordial affeição e cortezania. E dizia Miguel, que ElRei não sô folgára muito com a sua vinda, mas que ainda promettia todo o requerido com bizarria e abastança. Pelo que Pedro Alvares, pacteadas facilmente as allianças, mandou á Cidade quem presenteasse ElRei com peças de baixella de prata, e comprasse 176ao costumado valor as especiarias que se lhe deparassem. ElRei os mandou aposentar n’humas casas harto amplas, e não de todo desfortalecidas, e lhes nomeou Naires, que com armas, quando cumprisse, os defendessem. Em quanto todas estas incumbencias se administrão sob summa fidelidade d’ElRei, á medida do desejo de Cabral, chegão Embaixadores d’ElRei de Canenor e d’ElRei de Coulam, que vinhão denotar da parte cada hum do seu Monarca amizade estavel e commercio lizo com a nossa gente, e convite de carregar nos seus Reinos as nossas náos. A cada hum como era licito rendeo Cabral as graças, e se não hia aproveitar-se de seus offerecimentos, lhe era atalho a benignidade daquelle Principe, com quem já estava em auto de provimento: mas que se lhes confessava tão penhorado, como se seus valiosos offerecimentos tivera acceitos; para mostra do que, no caso de lhe falte alguma quantia da carga que tinha abalizado comprar, não rejeitaria sua boa vontade. No tempo em que as náos com muita lida e industria se carregavão, aportárão alli dous Frades Christãos, dos que imbuidos na doutrina de S. Thomé, tem conservado tégora com summa constancia por tão longos annos a Religião Christã; e vinhão pedir a Cabral, que os quizesse navegar comsigo até Portugal, para de lá poderem passar a Roma e a Jerusalem a visitar aquelles lugares, em que Christo 177e seus Discipulos residírão; o que Cabral de mui bom aspecto lhes outorgou. Erão elles daquella Cidade, que dizem Cranganor, arredada 20$000 passos de Cochim. Tomada pelas nossas náos inteira carregação, teve novas certas ElRei de Cochim, que o Çamorim de Calecut com huma Armada de vinte náos grossas e immenso numero de menores vasos se aprestava de vingar-se da matança dos seus; e o exercito, que na Armada punha, era de 15$000 homens: novas estas, que ElRei de Cochim communicou logo a Cabral por criados seus. Cabral assim que o soube, mandou pôr todos prestes para o combate, que era sua tenção medir-se com a Armada de Calecut; pelo que faz içar as vélas, e corre sobre ella; mas contrariado pelos ventos, não a pôde colher de perto. Quando porém os de Calecut vírão com que vontade os nossos sobre elles vinhão, e receando-se do impeto e fortaleza das nossas bombardas, forão de acordo de não acceitar os invites, posto que o vento os favorecia, e provocava a buscar as nossas náos. Desembargado Cabral já deste estorvo, enfiou viagem pelo rumo da Lusitania; sómente deixou em Cochim dous Portuguezes de linhagem honrada Gonçalo Gil Barbosa e Lourenço Moreno, que com certa parcella de gente nossa velassem pelos uteis de Sua Alteza. Perpassando pela costa de Cananor, o convidou o Rei daquella terra a tomar alli a carga do que lhe 178faltasse, cujo liberal convite não recusou Cabral, antes entrou em seu porto no anno da salvação 1501. Era a Cidade grande, e costumada ao bulicio de seus muitos habitadores; e huma grande enseada, que lava as abas da Metropoli, compõe della hum porto bonissimo. Toda aquella região he abundantissima de quanto conduz para o commodo da vida: o Rei della rico e independente; pouco differe dos usos e das ordenações dos outros Reis do Malabar. Aqui comprou Pedro Alvares varios quintaes de gingivre e de canélla; e como não comprou toda a quantia que lhe presentavão, cuidou ElRei ser por defeito de cabedal, e mandou por isso dizer ao Capitão Mór, que informado fora que o tinhão esbulhado em Calecut de dinheiros e fazendas, pelo que lhe faria grande gosto se quizesse servir-se do seu dinheiro com a mesma franqueza como se fora d’ElRei de Portugal. Pedro Alvares lho agradeceo muitissimo, e mostrou aos que de sua parte vinhão, grande monte de cruzados em ouro, d’onde concebesse ElRei, que não por falta de dinheiro deixava de comprar, mas sim por não abarrotar mais os navios. ElRei para confirmar mais a paz com D. Manoel, mandou com Cabral hum Embaixador seu a Portugal, que dalli partio aos 16 de Janeiro. Não hia o Cabral mui arredado da barra de Melinde, quando cativou huma náo grande bem provída de mercancias; e logo que entendeo 179que era d’hum Mouro mui possante, que assistia em Cambaia e se chamava Melicupio, donatario da terra de Baroche, lha despedio livre, e disse ao Capitão, que com ninguem tinha na India guerra senão com ElRei de Calecut, e com aquelles Arabios, que erão de Méca, pelos grandes aggravos, que de huns e outros tinha recebido. Aqui se lhe levantou hum horrivel temporal, que desarvorou a náo de Sancho de Thoar e a despedaçou n’huns baixos; a qual Cabral, logo que dado lhe foi, mandou queimar, para que della nada de prestimo viesse a mãos adversas. ElRei de Mombaça todavia conseguio por meio de seus buzios tirar do fundo com ajuda de máquinas toda a artilheria della. Cabral, que não pôde tomar Melinde, pela repugnancia dos ventos, arribou sobre Moçambique, onde radobadas as náos, mandou n’huma dellas a Sancho de Thoar descubrir ao justo o sitio de Çofala, e de lá vir na volta de Lisboa: e elle tanto que fez aguada, sem mais tardar, se poz a caminho para a patria, a que depois de varias refregas, aportou no derradeiro de Julho. A sua chegada abalou variadamente a D. Manoel; dos que escapárão sãos e salvos, lhe procedeo grande contentamento, como tambem suprema dor dos que ou já affundidos nas ondas, ou já sobraçados de perfidias perecêrão. Já neste mesmo anno tinha ElRei D. Manoel despachado outra Armada para a India; porém pequena, 180pois constava de tres náos unicas capitaneadas por João da Nova, Cavalleiro de muito esforço. E porque confiava na Armada, com que Cabral partíra no anno proximo, teria assás de forças para fundar a paz com ElRei de Calecut, ou para lhe reprimir os assômos de sua insolente ufania, cuidou que aquelle pequeno refresco de tres náos abundaria: logo porém que de Cabral se capacitou quantos embustes lhe assestárão, teve que tantas maldades pedião, para vingadas, forças maiores. Assim mandou no anno seguinte, que foi o de Christo 1502, Vasco da Gama pela segunda vez cortar aquelles mares com dez náos, e todas ellas governadas por varões esforçados, como a Capitanea, em que hia Vasco da Gama. E apôs esta Armada, logo poz outra em via, que encommendou a Vicente Sodré, pessoa muito valerosa; e lhe deo por occupação cruzar os mares da India, e fazer guerra acerrima aos Mouros, que por elles navegavão. Desaferrão estas quinze náos da enseada de Belém armadas e bastecidas a dez de Fevereiro. Nem ainda com estas Armadas se deo por satisfeito ElRei de Portugal, visto que ainda preparou outra de cinco náos, que deo a D. Estevão da Gama, primo do primeiro descubridor; e que partindo no primeiro de Abril, tomou igual derrota. Que era o animo d’ElRei vehemente, e cubiçoso de grandes feitos; e o que sóbe de ponto, affervorado na esperança 181que pozera no amparo divino, nada julgando mais conducente ao seu decóro e obrigação, que sobjugar os inimigos do nome Christão, e metter a Fé por todas as regiões do Oriente. Naquelle mesmo anno lhe deo em Lisboa o primeiro filho á luz a Rainha D. Maria, em cujo nascimento rebentou hum temporal tão bravo, quanto nunca homens de consummada velhice se lembravão terem visto. Densissimas trévas toldavão o firmamento, e erão tão amiudados os trovões e os relampagos, que ainda os que se davão por mais animosos, cobravão sobejo susto. Cahírão raios em muitos sitios, e os furacões desatinados, arrancavão arvores, as diluviosas chuvas alagavão não já as ruas, mas ondeavão dentro das moradas. Logo porém que voltou a serenidade, não sómente ElRei, senão que o povo todo se entregou a regozijos pelo nascimento do Principe, que oito dias depois recebeo baptismo, e lhe foi dado o nome de D. João. Entre os muitos Padrinhos, que ElRei D. Manoel quiz dar a seu filho, contamos a Pedro Pasqualigo, Embaixador de Veneza, que a Portugal viera com os agradecimentos da Republica, pela Armada que elle mandára em seu soccorro, onde lhe vinha encommendado certificar a Sua Alteza os laços, com que por tão singular beneficio o Senado e Povo Veneziano lhe era avinculado. Este Embaixador ElRei por suas mãos armára Cavalleiro e cumulára de infinitas dadivas; 182de cujas honras penhorado o Embaixador, quando passou em Veneza, pregoava suas raras virtudes, e conseguio que a amizade com os Venezianos travada, fosse confirmada com pactos mais seguros. Nesse mesmo dia, em que foi o baptismo de D. João, prendeo subitamente o fogo no Palacio; mas tanta gente acodio logo, que foi quasi a hum tempo visto que apagado. Tambem no mesmo anno D. Manoel juntou outra Armada para ir abater a ferocidade dos Mouros, cruzando pelos mares de Gibraltar; mas nada que mereça memoria nos veio della.
Navegava em tanto com favoravel tempo João da Nova; e tendo já passado a região subjacente ao círculo Equinocial, descahio n’huma ilha não descuberta, a que deo o titulo da Conceição, e de lá se foi a Moçambique, tendo antes mandado as náos chegar-se á terra, onde chamão a aguada de S. Braz, para renovar d’agua alli os vasos. Nessa aguada achou pendente dos ramos d’huma arvore hum pantufo usado, que lhe não pareceo alli atado por jogo; pelo que o fez desliar da arvore, e ver o que continha. Achou dentro huma carta de Pedro de Ataide, escrita de sua mão, em que avisava todo o Capitão Lusitano que alli arribasse, de esquivar o porto de Calecut, cujo Rei era mui cruel e malvado homem, que maquinava com insidias de primeiro contra os Portuguezes, e depois com força 183declarada a sua perdição. Entrando depois em Quilôa, veio ter com elle hum dos degredados que por varias partes forão derramados, que tambem lhe trouxe cartas de Cabral traçadas com igual intento. Quando dalli surgio em Melinde com suas náos, lhe individuou então ElRei todas as fraudes e perfidias, que urdíra ElRei de Calecut. De Melinde tornou a fazer aguada em Anchediva, e de lá fez viagem para Cananor, onde ElRei o recebeo com todo o agrado, de quem não quer dar praça a descuido em primores de agasalho. Alli lhe veio fallar, de mandado do Çamorim, Gonçalo Peixoto, que no ensejo em que foi morto Aires Correa, por obra de Cogebec escapou occulto a tal desastre; e vinha dizer-lhe, que o arruido em que Aires Correa perecêra, fora a occultar delle levantado pelo vulgo destinado e furioso; que seu animo nunca se desviára do zelo, que por D. Manoel tivera sempre; e que teria muito a mercê entrar elle João da Nova no seu porto, onde veria como vinha facilmente a cabo de quanto desejasse, e acharia carga, com que muito podésse accrescer a fazenda real. Depois que disse o recado do Çamorim, expoz os avisos, que Cogebec lhe enviava: Não dar nenhum credito ao mais ruim de todos os Reis, que com fingimentos de amizade empenhava todo o seu poder para dar morte a quantos Portuguezes podésse. Que quem houvesse fé a quem nunca a teve com 184alguem, mereceria pagar com a vida a imprudencia. Nada quiz João da Nova responder-lhe, nem consentir que Peixoto tornasse a Calecut; antes tomando a via de Cochim, combateo com huma náo de Calecut, que mandou esbulhar da carga e pôr-lhe o fogo. Quando os nossos vírão entrar náos Portuguezas, tal alegria lhes entrou no peito, qual fora a de serem tirados d’entre os colmilhos da morte: pois dado que ElRei mui affabilmente os tratava, e lhes dera certos Naires para sua defeza, receavão sempre muito a perfidia daquelles Arabes moradores mui frequentes de Cochim. João da Nova recebeo d’ElRei todos os bons officios, que d’hum sogeito dotado os rara probidade e boa fé se podem requerer, em cujo conseguinte João da Nova perfazendo a sabor seu quanto era da incumbencia d’ElRei D. Manoel, e carregadas quasi em cheio as náos, voltou a Cananor completar-se de outras especiarias, o que lhe foi larga e grandiosamente concedido. Ao querer sahir da barra de Cananor o advertio ElRei, que mandára o Çamorim oitenta paráos sitiar-lhe o porto, para cerrado nelle o desbaratarem, aconselhando-o juntamente de se chegar mais á terra, para o poder elle ajudar melhor com a sua gente, que não era imaginavel poder elle com sós quatro náos resistir a tamanha quantidade de inimigos. Agradeceo-lhe João da Nova como devia, exhortando-o muito a socegar o animo 185ácerca do bom successo, pois que elle tinha depositada no supremo Senhor toda a esperança da victoria, com sua ajuda mui de vontade investiria com muito maior Armada. No outro dia descortinou João da Nova impedida a barra pelos inimigos com mais de cem navios. João da Nova dispoz de sorte a Armada, que laborasse com toda a artilheria, e fez capacitar os Capitães singularmente, que toda a esperança do salvamento consistia em não se deixar forçar a combater de perto com tanta multidão; e que delineassem o theor dos tiros de maneira, que servissem com aturados pelouros os inimigos; por quanto por onde parassem os tiros entraria grandissimo desbarato. Desempenhárão os Capitães com summo desvelo o que lhes fora incumbido; o que foi causa de se peleijar da nossa parte com gran denôdo e porfia até ao pôr do Sol. Soube-se depois que os inimigos perdêrão 417 homens, afóra muitos mais tocados de balas, e náos desarvoradas, quando nós nenhum perjuizo padecemos. Os inimigos pozérão bandeira branca; mas João da Nova, que a suspeitou eivada de fraudulencia, hasteou bandeira de guerra, e mandou alegrar a peleija, nada obstante o que os inimigos perseverárão na demonstração de paz, então lhes respondeo elle içando bandeira de paz. Chega logo hum Arabio com requerimento da parte delles para lhes dar treguas aquella noite, para virem no dia seguinte a 186concerto de paz com condições taes, que aproveitassem a ambos os partidos. Respondeo-lhe João da Nova, que não consentia em treguas sem que primeiro desembargassem a embocadura do porto, e lhe deixassem o mar folgado. O que elles subito executárão. Sahio logo João da Nova da enseada, e foi-se pôr com a sua Armada sobre as ancoras fóra da entrada do porto não mui longe delle; o que tambem fez a Armada contraria, huma á vista da outra, mediando todavia entre ambas hum pequeno espaço de mar. Contra toda a lealdade mandárão os de Calecut homens a nado, que viessem furtivos cortar as amarras das nossas náos, e outros trás elles em bateis com botafogos, para os arrojarem a ellas, logo que as amarras fossem cortadas. Que se os nossos não déssem tino desta ruindade, pelo muito que se vigiavão, viria ella a ter effeito: mas os nossos não cessavão de os arredar dalli com arcabuzadas e ainda com bombardadas a quantos pressentião chegar; lida incessante, que consumio aos nossos a noite em claro. Quando os inimigos vírão que nem tramas escondidas, nem forças descubertas lhes fructificavão a seu desejo, levárão ferro; e aproveitando o vento fauoravel, se recolhêrão a Calecut. Os nossos, que se vírão despejados de tamanho risco, derão eximias graças a Deos, e sem demora alguma tomárão com infunadas vélas o caminho de Portugal. Não tinha João da Nova caminhado 187muito, quando avistando huma náo de Calecut, carregou sobre ella, a preou, tirada a fazenda, lhe deitou fogo; e dalli com prospera viagem veio dobrar o Cabo de boa esperança, e de passagem deparou com a ilha de Santa Helena, ilha não grande, mas que parece depositada alli naquelles mares por determinação divina, para refeição dos mareantes Portuguezes, que trabalhados vem da India e suas tormentas, faltos (como he de crer em navegações prolixas) de todo o provimento. Contém ella rios perennaes de aguas mui frescas, matos e florestas mui espessas, e ares, que dão saude. E depois que certo homem, de quem logo faremos menção, lhe deo cultivo, medrou em rebanhos, ovelhas, porcos, &c., abundou em fructos e legumes: d’onde vem o muito commodo, com que os nossos fazem nella aguada e lenha, e não só se deleitão com pescarias, veação e passarinhagem, mas refazem as náos de mantimento. Desta ilha com feliz viagem chegou João da Nova a Lisboa a 11 de Setembro do anno de 1502, com summo contentamento, que de tão venturosa chegada coube não só a ElRei, mas tambem á Cidade toda. Neste mesmo anno partio ElRei para Compostella a cumprir hum voto, que tinha promettido a Sant-Iago. Ao passar por Coimbra, reparando na sepultura do mui santo e mui invicto Rei D. Affonso I. (por cujo esforço forão os Mouros expulsos dos limites 188Lusitanos) pouco grandiosa em seu lavor, a mandou desfazer, e em seu lugar edificar hum magnifico e vasto moimento. O mesmo obrou com o sepulcro do Martyr S. Pantaleão, varão de muita santidade, mandando-lho lavrar com muita despeza, cumprindo nisso o testamento do Senhor D. João II. E outro sim por onde quer que passava, acudia a pupillos e viuvas, deixava dadivas e dinheiro ás Igrejas, vingava com acerrimos castigos os crimes de homens poderosos, que até áquelle tempo corrião impunidos. Ficou tres dias em Compostella, onde com singulares demonstrações de religião visitou a sepultura de Sant-Iago, liberal nos dons, que fez á sua Igreja, os augmentou ainda com huma alampada de prata, que pendurada diante do sepulcro, o allumiasse de contínuo; e era de obra singular e perfeita. Em todas as casas, em que se hospedou, deixou mil generosidades; e pelo dizer em summa, tal romaria fez, que a cada passo que dava, estampava vestigios de devoção, de liberalidade, e de real munificencia. Voltado a Lisboa, metteo incrivel alegria no peito de quantos tinhão por insupportavel a sua saudade. Logo desde a entrada do anno seguinte, poz de novo em campo os projectos de passar em Africa, para commetter guerra aos Mouros, a cujo effeito fez allistar soldados, preparar Armada, e juntar mantimentos; mas as lavouras estragadas, malográrão este 189forcejo seu: que desde a Primavera sobejas chuvas e contínuas tempestades tinhão apodrecido as searas. Seguio-se carestia de pão, e logo a fome fez pendor não só na gente pobre e mesquinha, mas ainda nos abastados. Muitos arrancavão raizes para comer, e compravão para seu sustento cousas, de que nunca imaginárão provar; de cujos alimentos nocivos, e da má qualidade do ar inficionado e corrupto, provierão gravissimas doenças. O que visto por ElRei D. Manoel, assentou, constrangido da necessidade, de abrir mão de todo o apparelho de guerra, e pôr toda a attenção em abastecer o Reino de trigos: pelo que mandou vir grande copia delles de França e de Inglaterra, com que applacasse a penuria. Mandou neste anno seis náos á India, tres das quaes commandava Affonso de Albuquerque, e as outras tres seu primo Francisco de Albuquerque. Entregou mais outra Armada a Gonçalo Coelho, com que fosse dar vista do Brazil, terras, com que acertára Pedro Alvares Cabral. Mas succedeo, que mal-atinados em terras não conhecidas, das seis náos que levava perdeo quatro quebrantadas em baixios, e só trouxe duas carregadas de páo vermelho, que alli vem como em silva, e muitos papagaios e bugios. Tambem nesse mesmo anno mandou duas náos correr as costas do Norte, a investigar o que fora feito de dous Irmãos, pessoas nobres e de não curtos brios, que reputavão 190mortos ou cativos. E o caso passou assim. Como quer que Gaspar Corte-Real fosse de egregia valentia, e lhe ardesse no peito violento amor de gloria, para transpassar aos vindouros o esplendor de seu nome com algum feito memoravel, deo por firme, que seria o indagar terras inda não avistadas. E por ter comprehendido, que quasi toda a praia, que resguarda ao Sul, com as nossas navegações estava explorada e discorrida, lançou-se a costear o Norte: pelo que á sua custa aprestou hum navio, e o proveo sobre maneira de vitualhas, armas, mareantes e soldados, e no anno 1500 partio de Lisboa, dirigindo seu curso á plaga Septentrional. Aportou a huma terra, que em razão de sua rara amenidade appellidou Terra verde. Os homens, como elle depois contava, são barbaros, e incultos, brancos de côr; mas envelhecendo, os enfusca o rigor dos frios. São levissimos na carreira, e mui certeiros no arremesso: usão de zagunchos tostados na ponta, com que atirão aos inimigos e os transpassão tão correntes como se de bom aço remontados fossem. Vestem pelles de animaes, vivem em cavernas, ou construem palhoças baixas com tectos de esteiras. Sem terem religião alguma que os retenha, são dados a agouros. Conhecem suas mulheres em legitimo matrimonio, e de seu recato e lealdade são mui desvelados, por ciosos que são de sua natureza. Corte-Real de volta 191em Portugal, como inda nelle lavrasse a esperança de conhecer muitas outras cousas, tornou no anno seguinte ás mesmas paragens, para mais largamente explorar aquella costa, e se inteirar dos costumes e instituições daquella gente. Mas que acontecimentos teve, ou de que destino fenecêra, nunca alcançar-se pôde. Seu irmão Miguel de Corte-Real, que era muito do lado d’ElRei, impellido de fraternal affecto, no anno de 1502 aprestou dous navios para ir correr aquelles sidos, e ter novas de seu irmão: mas delle não veio depois noticia. D. Manoel considerando a perda de dous homens nobres, que elle tanto prezava pela indole egregia delles, mui pezadamente a supportou; e acudindo pelo dever de bom Principe, que nada devia trascurar, para saber ao certo de que morte perecêrão, ou que prizões os reprezavão, mandou náos, que divagassem por aquelles mares; mas estas nada colher podérão ácerca de seus fados. Pelo que tendo alli morrido aquelles dous irmãos, a terra perdeo o nome de Terra verde, e acceitou o de Terra de Corte-Real. E como Vasco Eannes de Corte-Real, irmão mais velho dos outros dous e Mordomo Mór da Casa Real, tinha ainda esperanças tenues da vida de seus irmãos, tratava de seguir a mesma navegação; mas ElRei lho impedio, porque não cahisse, sem fructo algum, em semelhante azar.
Neste mesmo anno, depois que os Albuquerques 192tomárão, como dito he, com suas náos a direitura da India, convocou D. Manoel todo o Reino a Cortes, para que jurassem os Póvos a seu filho D. João, como he costume na Hespanha, por seu legitimo herdeiro, o que elles preenchêrão com unanimes vontades; e nessas mesmas Cortes se ordenárão muitas Leis proveitosas ao Povo pelos Procuradores das Camaras requeridas, acordando no mesmo Congresso huma quantia de dinheiro em Subsidio para os gastos que fazia a guerra de Africa. Depois que dobrou Vasco da Gama o Cabo de boa esperança, dividindo a sua Armada, confiou onze navios a Vicente Sodré, com que fosse a Moçambique, e lá o aguardasse; reservando sós quatro, com que hia ver Çofála, e averiguar sua situação e natureza; e com effeito o Principe daquella região o recebeo mui cortezmente, e fundárão reciproca amizade: querendo sahir da enseada huma das náos, naufragou na boca da barra, mas toda a mareação, fazenda, &c. foi passada aos outros tres navios. Partindo dalli para Moçambique, teve falla com o Principe e Regedor da Cidade; que já era despedido o Xeque, que maquinára a morte á nossa gente, e outro substituia seu posto, que tratou mui affabilmente o Gama. E ora este dera ordem a Vicente Sodré, em quanto hia de volta a Çofála, que construisse em Moçambique hum baixel dos que chamão caravéllas em Portugal, 193para o que já do estaleiro de Lisboa vinhão as madeiras condicionadas. Tal he o feitio seu. Não tem cestos de gávea, nem as vergas fazem angulos rectos com os mastros, mas pendem obliquas d’huma alça, que as segura por baixo da cabeça do mastro, e a base da véla, que he triangular, roça quasi pelas amuradas. As vergas, que se amurão aos costados do navio, são pela parte de baixo grossas como mastareos, e adelgação até ao cimo da véla. De vasos desta feição se servem na guerra maritima os Portuguezes, pelo muito ligeiros que elles são, sendo-lhes mui maneiro apontar á prôa ou á pôpa o conto destas vergas, e ainda a meio costado do navio, passallas da esquerda para a direita, ou desta para a esquerda n’hum átomo de tempo, segundo lhes faz feição, ferrar o panno ou disferillo das vergas, a que o atão pelo cêpo da entenna, com quem as vélas abrem a base do angulo; e qual lhes sopra o vento, tal lhe apresentão o bojo da véla não tardios. Todo o vento lhes faz geito, de modo que com vento de ilharga bolinão em direitura, como se forão arrazadas em pôpa, e para ir o mesmo navio em senso contrario, não tem mais que a mudar o velame, o que mui prestes se prefaz. De tal fórmo entendeo Vasco da Gama que fosse o navio fabricado, para dar caça por aquelles mares aos inimigos do nome Christão, e lhes fazer quanto mais mal podésse: e ajuntando esta 194caravélla á Armada, partio para Quilôa, onde já tinha entrado Estevão da Gama com os cinco navios de sua guarda: e assim constava a Armada de dezenove náos; por quanto a náo, que capitaneava Antonio do Campo, arremessada pelos ventos a longinquos mares, não se dava a apparecer. ElRei de Quilôa entrado de grandissimo susto, veio muito humilhado ter com o Gama, que lembrado das injúrias que nos fez, o mandou prender, e como pedia perdão, lhe deo liberdade o Gama, com a condição formal de pagar todos os annos a D. Manoel certa quantia de ouro, em sinal de tributo. Habrahem Rei de Quilôa, deixou logo em refens a Mahomet Ancon, pessoa de muita authoridade no Reino, cuja dignidade era a segunda apôs ElRei. Habrahem logo que se vio solto, não remetteo o ouro pacteado; cuidando retello assim, e segurar a morte a Mahomet Ancon, na crença que o Gama enojado desta perfidia, mandaria matar Ancon, a quem muito odiava, posto que este odio cerrado em seu animo o cobrisse elle com apparencias de amizade. Por quanto era Habrahem homem meléfico e injusto, que á traição tirára a vida ao Rei antecedente, para assim poder reinar; e a quantos sabia de brios esforçados e engenhos, trazia de olho suspeitos e aborrecidos; sobre tudo receava de Ancon qualquer infortunio. Mahomet Ancon, que avistou a perfidia de Habrahem, descubrio a 195Vasco da Gama qual era a fraude que daquelle facinorosissimo Rei tinha suspeita, e de sua bolsa pagou o ouro convindo: isto fez que o Gama o deo por livre, e se fez á véla para Melinde. Não lhe consentírão os ventos nem o mar acarneirado com a vehemencia delles, e em lugar do porto entrou n’huma enseada, que fica de Melinde 30$000 passos, onde ElRei lhe mandou hum dos degredados por nome Luiz de Moura, que alli Cabral deixára, que viesse saudallo, e perguntar-lhe se tinha necessidade de seu prestimo ou de sua fazenda. Vasco da Gama logo que se proveo de mantimentos e aguada, se transferio á India, e como quer que não fosse muito arredado já do continente, deo vista d’huma grande náo petrechada de quanto he valioso para a guerra, cuja náo era do Soldão do Egypto, e carregada de gengibre, canélla, pimenta e outras mercancias de valor: partia de Calecut para a Méca, onde hia depôr muitos, que por devoção peregrinavão ao sepulcro de Mafoma. Sobre ella carregou o Gama, e foi da parte dos Arabios e dos Egypcios maior a resistencia do que era de crer; que tanto foi o vigor que mettêrão no combate, que durou até a manhã do dia seguinte, dado que huma náo só disputava co’a nossa Armada inteira: em razão de que os nossos não querião destruilla sem a ter antes saqueado; e que elles tendo fixo morrerem na contenda, não querião acabar inultos. 196Por fim n’huma abordagem lhes passárão os Portuguezes trezentos á espada, perdoando aos meninos sómente; e apoderando-se da fazenda, lançárão fogo á náo. Encaminhou-se dahi o Gama a Cananor, onde remetteo a ElRei o Embaixador, que elle a D. Manoel enviára, e deo ordem tambem, que lhe fossem levados os presentes d’ElRei de Portugal, que grandemente o alegrárão. Sahindo de Cananor para ir a Calecut, tomou alguns paráos, em que vinhão gentes daquella Cidade, a cincoenta dos quaes mandou pôr grilhões, e entrou pelo porto com toda a sua Armada. Veio então demandallo hum Arabio com o traje e insignias dos que professão a Regra de S. Francisco; e tanto que lho trouxerão, confessou ser Mahometano, e tomára aquelle habito na desconfiança de não ser admittido em qualquer outro traje. Fora este habito d’hum daquelles Franciscanos, que perecêrão com Aires Correa. Denunciou este Arabio ao Gama, que muito ansiava ElRei de Calecut a paz e a amizade com ElRei da Lusitania, e que mui pezaroso estava do máo feito, que aquelles Arabios, a quem com todo o seu poder não sogigava, contra os Portuguezes commettêrão. O Gama lhe respondeo, que nem elle estava longe do concerto de pazes, nem alli viera com outro fim da parte d’ElRei D. Manoel, senão de com tal alliança, se possivel era, confirmar as pazes. Se pois elle tanto a desejava, désse algum 197sinal desse desejo, principiando por mandar restituir quanto no desastre de Aires Correa nos fora roubado. Depois de muitas embaixadas mandadas e recebidas, em que nada concluia o Çamorim, capacitou-se Vasco da Gama, que todo o engenho d’ElRei se occupava de fraudulencias, e não havia concordia firme de que se tratar: pelo que lhe enviou dizer, se logo e já lhe não restituião tudo, mandava despiedadamente matar em vingança de Aires Correa todos os Malabares, que tinha prezos. Não querendo ElRei tornar resposta a estas ameaças, mandou o Gama enforcar os prisioneiros, e cortados de pés e mãos, lançallos n’hum dos paráos tomados, e com huma carta em cima por declaração de guerra; e a elle e a todos, que vivião sob seu mando, ferro e fogo sem fallencia. E mandou rebocar até á praia o paráo dos cadaveres. O Çamorim, que vio a carta tão aspera e tão feroz, que soube os seus tão cruamente mortos e decepados, padeceo extrema turvação em seu animo, e toda a Cidade rebentou em lamentações. No dia seguinte mandou o Gama, logo que amanheceo, ás náos, que da vespera tinha avisinhado á terra, varejalla com porfiada artilheria. Houve muita casaria damnificada, e os Paços d’ElRei pegados com a praia destruidos, e muita gente morta.
Feito este estrago, partio para Cochim em direitura, deixando alli Vicente Sodré com 198seis náos, para infestar aquellas paragens. Logo que entrou em Cochim, vierão a elle subito os Portuguezes, que alli ficárão, expôr-lhe com quanta humanidade os tratára ElRei, e com quanta vigilancia os amparára das insidias dos Sarracenos. E ElRei por hum dos seus domesticos, que grande posto occupava junto á sua pessoa, lhe mandou logo saudação mui honrada; e com elle concertou o Gama, escolhesse ElRei o sitio que mais apto lhe parecesse, para no dia seguinte se fallarem, porque lhe queria manifestar as recommendações, que de D. Manoel trazia para elle. No intervallo lhe mandou os presentes de ouro e prata, e huma corda de ouro, que ElRei de Portugal lhe mandava. ElRei de Cochim pleitando magnificencias com D. Manoel, se esmerou nos mimos, e entre muitos, em dous braceletes de custosa pedraria, e hum grosso diamante, que tudo encommendou ao Gama entregasse em nome delle a Sua Alteza. Houve no outro dia falla com o nosso Capitão Mór, onde se derão não medianas demonstrações de reciproca amizade. Não erão passados muitos dias, que eis-chegão deputados dos Christãos, que morão na Cidade Cranganor, de cuja deputação era esta a substancia. Que graças dignas não sabião dar a Deos Optimo e Maximo por beneficio tão singular: como terem conseguido o que não havia theor de imiginallo de antes, que viessem a aquellas 199tão arredadas terras homens Christãos tão adornados de virtudes. Que se dedicavão vassallos do Senhor D. Manoel, nem querião outro Soberano conhecer no mundo: por tanto rogavão e requerião Vasco da Gama, que acceitasse suas homenagens em nome do Optimo e Invictissimo Rei de Portugal. Levantou as mãos ao Ceo o Gama; e dando-lhes esperanças de melhorar sua condição, lhes abonou seu empenho, em que todos os Capitães Portuguezes, que d’ora em diante ElRei mandasse á India, os amparassem da tyrannia de homens desalmados e das injúrias dos Sarracenos. Despedidos os Deputados, tratava o Capitão Mór fervorosamente de dar ás náos a carga competente; e no em tanto hum Brachmane, de quem muito se servia ElRei de Calecut, veio ter com o Gama acompanhado de dous mancebos, hum dos quaes era seu filho, e outro parente mui conjuncto; e vinha pedir a Vasco da Gama, que conduzisse aquelles moços a Portugal, para aprenderem a lingua Latina, a Religião Christã, nossas Leis e disciplina: e como visse o Gama inclinado a cumprir-lhe o desejo, se insinuou mais em sua confiança, desabrochou seu peito, e demostrou de claro o que de primeiro não ousava confessar. Vinha elle de mandado do Çamorim manifestar-lhe, que nada com mais ardor appetecia que conciliar paz com os Lusitanos em santissima alliança. Que prestes era não sómente a remetter-lhes 200toda a fazenda, mas ainda a lhes prestar com cumulo todos os deveres da mais solida amizade, pedindo-lhe que depozesse toda a lembrança de inimizades, e acceitasse sua satisfação. Que em quanto á carga de especiaria, em parte alguma acharia mais e a menor preço; e se quizesse guiar as náos a Calecut, daria com toda a sufficiencia provimento mui próspero a seus negocios. Quiz o Capitão Mór experimentar se por esta vez se arrependia ElRei de suas deslealdades; e assim commettendo a Armada a Estevão da Gama, e o Brachmane nella em refens, se deo préssa para Calecut com duas náos sómente; e logo que alli surgio, enviou os dous moços a ElRei, que hião e vinhão com condições do Çamorim ao Gama, e deste ao Çamorim. Nada menos tramava aleivosias este, e não cessavão os Arabios de atroar ElRei com grandes alaridas, e lhe accender o animo contra os nossos. O Çamorim, que nem lealdade professava, nem firmeza em seus propositos, e em mui pouco tinha as forças do Gama nessa hora, induzido dos clamores dos Arabios, mandou preparar quanto mais surdamente pôde trinta e quatro paráos, que de improviso déssem sobre o Gama. O que mui rapidamente se fez, vogando todos mui arrancadamente contra elle; e o Gama colhido de sobresalto, pica as amarras, e põe-se ao largo: e pareceo obra de milagre hum vento de Leste, que subito recresceo 201assás violento, quando as cousas estavão tão arriscadas; e feito á véla, nada obstante, lhe vinhão os paráos em seguimento á véla e remo. Já lhe vinhão bem perto, quando apparece Vicente Sodré com a Armada que capitaneava, por quanto o Gama aventando hum pouco aquella fraude (dado que a não julgasse tão cedo concluida), lhe mandára hum navio de aviso, por lhe apressar a vinda a Calecut. Quando o Gama se vio acompanhado de Vicente Sodré, voltou a prôa contra os inimigos, e investio tezamente com elles; tendo desarvorado algum dos paráos, e morto bastante gente, o resto da Armada dispersa e derrotada, tratou de buscar seu salvamento na fugida. Dalli partio Vasco da Gama para Cochim, tendo enforcado o Brachmane, os filhos não; que escapárão, porque antes de rever alguma nodoa da malfeitora trama, se tinhão acoutado em terra. O Çamorim, que vio dolos frustrados, frustrada a força descuberta, tratou outros meneios de agencear a ruina dos Portuguezes; pelo que escreveo a ElRei de Cochim, pedindo-lhe que lhe entregasse os Portuguezes, induzindo-o a esta maldade com largas promessas; e no caso que rejeitasse a proposta, lhe declarava os perigos a que se expunha, acompanhando tudo com féros e ameaças. Ao que respondeo ElRei de Cochim, que muito se admirava que entrasse no juizo d’hum Rei tão illustre empuxar a enganos os 202outros Monarcas; e que muito mal competia á soberana dignidade quebrantar a fé, nem trahir os que a essa fé se lhes commettião. Que assim como nada era mais realengo que a lealdade e a constante firmeza, assim nada era mais alheio de reaes costumes e reaes deveres, que a perfidia. Que com a lealdade se grangeava a fama, e com a perfidia se tisnava hum labio de desdouro, em quantos a rompião mórmente, se elles erão Reis. Por cuja razão elle não reputava por Monarca quem não cultivava lealdade. Que não fazia Reis o mando supremo, mas a virtude sim. Nem elle faria essa traição, dado que soubesse de certo, que a firme lealdade sua o esbulharia de seus dominios e poria em grande perigo a sua vida: por quanto nada prezava a pujança, nem algum prazer da vida em comparação do seu dever. Insistio nada obstante o de Calecut, e tres cartas mandou ao de Cochim sobre o mesmo assumpto, ora com galardões, que o affeiçoassem; ora com féros, que o espavorissem; mas este se affincou sempre no mesmo sentimento. Nenhuma destas propostas deo ElRei de Cochim a entender ao Gama, em quanto hião e vinhão novas, por não lhe turvar o espirito com sinistras suspeições. Mas depois que toda a esperança de sobornallo foi cortada ao Çamorim, então patenteou ao Gama com quaes trabucos combatido fora. De que o Gama lhe tornou as devidas graças, admoestando-o 203ao mesmo tempo de que nada receasse; que deixaria na India aquella Armada, com que facilmente resistisse á ferocidade do perfido Çamorim: e dahi partio para Cananor com treze náos carregadas, para se alli juntar com mais tres, que lá no porto estavão surtas a receber carga. Não estava ainda ao largo 12$000 passos de Pandarane, quando avistou vinte e nove náos bem petrechadas de armas e soldados, que ElRei de Calecut mandava a destruillo. Por conselho dos demais Capitães se preparou a combater toda essa Armada; e por quanto as náos de Vicente Sodré, de Pedro Rafael, e de Diogo Peres erão mais boiantes, as passou á primeira linha, para encetarem a peleija: o que elles desempenhárão com brio, cahindo sobre dous navios de Arabios, que vinhão na dianteira. A gente destes dous lenhos mal que vírão avisinhar-se-lhes o Gama, cortados de susto, se emborcárão nas ondas, para fugir nadando. Os nossos lanção-se d’hum salto ás lanchas, e no meio dos mares despedem da vida a trezentos dos nadantes; e o grosso da Armada, que vio rendidas as duas náos e mortos os que nellas hião, voltando as temerosas prôas, se recolhem a terra. Foi-lhes Gama no seguimento; mas por irem as náos mui carregadas, não pôde vir a effeito. Acharão os nossos nas duas náos que saqueárão hum idolo de ouro com quarenta libras de pezo, e tinha mais figura de monstro que de numen; 204luzião-lhe em lugar de olhos duas esmeraldas de grande preço, e engastado no peito hum pyropo de estranha grandeza, tão brilhante como huma braza ardente: n’hum manto de ouro se envolvia. Vasias as náos, mandou subito o Gama applicar-lhes fogo, para darem queimadas terror á Armada que fugia. Entrou depois em Cananor, onde ferio concerto com ElRei, e precaveo que nunca este com ElRei de Cochim renhisse guerra, nem conjurasse com o de Calecut era estrago delle; nem quando o Çamorim lhe commettesse guerra, em algum modo o ajudasse. O que concluido, entregou á sua fieldade os Lusitanos, que havião de administrar as incumbencias d’ElRei D. Manoel.
Aos 28 dias do mez de Dezembro de 1503 sahio de Cananor, deixando Vicente Sodré com seis náos, encarregado de desaffrontar de perigo os Reis de nossa amizade, e fazer acerrima guerra aos inimigos; e no caso que o Çamorim intentasse peleijar com o Rei de Cochim, rechaçasse das terras deste, quanto podésse, o impeto d’ElRei de Calecut. Mas que se até ao mez de Fevereiro não houvesse insulto, passasse então aos mares da Arabia, onde commettesse todo o possivel estrago naquella gente. Dada esta ordem, se foi a Moçambique fazer aguada e mantimentos; e no tomar o Cabo da boa esperança tal tormenta lhe sobreveio, que lhe desgarrou a náo, em 205que vinha Estevão da Gama, e a lançou por differente carreira. Finalmente entrou o Gama prosperamente pela barra de Lisboa no primeiro de Setembro de 1503 com doze navios carregados: e não só ElRei, mas ainda as pessoas principaes e toda a Republica concebêrão grande prazer de sua vinda. Dalli a seis dias aportou Estevão da Gama com igualmente bem succedida viagem.
Por este mesmo tempo houverão em Africa os successos seguintes. Alcacerquibir he hum Oppido na Mauritania Tingitana, não muito arredado do mar de Cadis, que o rio Lixa réga: rio, que não sendo grande, quando as chuvas o engrossão, desborda de maneira, que vai bater nos muros, e entra e corre pelas ruas. Dizem, que Almanzor, Imperador de Marrocos, edificára Alcacerquibir; e era elle Califa, nome que os Arabios Mahometas dão ao que prefaz ao mesmo tempo as vezes e encargos de Monarca e de Pontifice. Não tem os moradores della fontes, nem póços; mas cisternas, quando não bebem da agua do Lixa: o que não tolhe ser a Cidade mui visitada de mercadores bastantes, e conter muita nobreza. Florecia nella o estudo da Filosofia, e huma Escola das boas Artes, onde de toda a parte vinhão muitos sogeitos cubiçosos de cultivar o engenho. Era tambem nella célebre huma capacissima casa de Hospital, onde vinhão curar-se pobres e peregrinos gravados de 206varias enfermidades. Todo este contorno abunda em arvoredos e hortaliças, com pomares mui bem plantados. Seu terreno he tão grosso e fertil, que acode com trinta por hum. Quando Arzila por obra e valor de D. Affonso V. Rei de Portugal, foi tomada, cuidou ElRei de Féz em fortificar Alcacerquibir, abraçando-a com grossos presidios, e dando a governança della a Capitães, que fizessem amiudadas correrias sobre as raias de Arzila, o que muito impacientava a ElRei D. Manoel. Pelo que escreveo a D. João de Menezes, que, como dito he, governava Arzila, que fosse logo commetter-lhe guerra. Era nesse mesmo tempo Capitão Mór de Tangere aquelle mesmo D. João de Menezes, Conde de Tarouca, de quem acima fallámos, que fora em soccorro dos Venezianos contra o Imperador dos Turcos. Para melhor preencher o que lhe era prescrito, escreveo D. João de Menezes ao Conde de Tarouca seu parente, convidando-o a tomar parte na facção, que em seu animo preparava, e expondo-lhe o que delle requeria. O Conde sahindo de Tangere com duzentos cavallos, tomou para Arzila, onde encontrou com o Capitão Mór della, que o esperava com duzentos e cincoenta bem destemidos: juntos os dous esquadrões, vão com muito silencio até Alcacerquibir, e perto da meia noite chegão á ponte, que lhes ficava a 30$000 passos já de Arzila. Não lhes foi todavia possivel 207encubrir-se das atalaias dos inimigos; e o Alcaide de Alcacerquibir, que os presentio, mandou tocar a rebate, e os clarins a chamar a soldadesca; e ao apontar da aurora, com todas as trópas que juntára, se foi postar n’hum outeiro visinho da Cidade, a que dão nome Montanha do prazer; e lá formou a sua gente á feição Mourisca, e nos presentou assim batalha. Mandou perguntar o Conde a D. João de Menezes qual era o seu sentir ácerca do exercito inimigo. Muito bem (lhe mandou em resposta), pois nos deparão o que queriamos achar. Como ninguem recusava de peleijar, os dous Menezes ordenão as trópas, e levão bandeiras a arrostar-se com os Mouros. Estes começão a alardear ligeiras escaramuças, a desafiar os nossos, porque desmanchassem com a ansia de brigarem a ordem com que vinhão: mas vendo que ninguem se desconcertava, descem então formados pouco a pouco daquelle tezo, para virem de impeto sobre os nossos. Nós vamos logo de sobida a accommettellos. Ei-los que nos voltão costas; e nós que imos em seguimento, lhes matámos cento e oitenta ao pé das portas da Cidade, que os de dentro cortados de medo, fechão sem piedade dos que inda lhes ficavão de fóra, com o receio de que entrassemos de envolta, indo-lhes na espalda, e lhes levassemos desse impeto a Cidade. Os de fóra se apinhão desesperados, e remettem comnosco; retrava-se a batalha, 208sahem muitos dos Portuguezes da sélla, ou são feridos, leva hum golpe no rosto D. Duarte de Menezes, filho do Conde de Tarouca, e outro golpe tambem colhe a Pero Leitão; ninguem porém foi morto, porque vierão os outros acudir aos que cahírão. Então forão de parecer os dous Capitães Mores de retrahir o exercito em boa ordem; e chegando á pequena ponte, que obra de 2$000 passos dista de Alcacerquibir, lhe picou a retirada o Alcaide com novecentos cavallos. Passárão a ponte os nossos; e quando se vírão em campo largo, formados em batalha esperavão que os Mouros enfiassem a ponte, para lhes irem sobre, antes de toda a trópa ter passado. Mas elles como adivinhando-o, não commettêrão a passagem, que não vissem os nossos bem largamente ausentes della. Brotavão Mouros de todos aquelles sitios, e quanto mais hião avante os nossos, mais Mouros recrescião; e mais medrados nos avexavão ferozes, com mais confiança nos vinhão no alcance, e mais porfiados nos investião, até chegarem á segunda ponte. Já então se achava o Alcaide na tésta de mil e trezentos Cavalleiros. Ora imaginavão os inimigos que ao passar da ponte, se alvorotarião os Christãos; e revolvendo-se, perderião a bem ordenada fórma que trazião; mas ficárão enganados, porque passou a retaguarda, que os Mouros infestavão, com tão boa ordem, como tinha passado a vanguarda; e logo os dous 209Menezes, quando se vírão no raso da campina, desdobrárão as fileiras, e offerecêrão peleija aos inimigos; mas estes não ousárão cruzar a ponte, antes voltárão á Cidade, ou pelos Aduares visinhos se pousárão. Dos nossos não falleceo hum só. Não corrêrão porém muitos dias, que os nossos Menezes não tirassem a campo os Cavalleiros, para dar de subito n’huma quantia de Mouros, que morava em certos Aduares á beira do rio, mui perto de Alcacerquibir. Forão todavia estes advertidos por hum fugitivo, que trazia sua origem da Flandres Franceza, e assim desalojárão na mesma noite que o souberão. Mas ainda os Christãos matárão ao redor de cincoenta, que não podérão acolher-se, e quasi outros tantos que cativárão. Ao querer reconduzir o exercito, lhes sahírão os inimigos em grande copia; mas os Christãos hião ao mesmo tempo recolhendo-se, e fazendo face sempre formados, e matando muitos delles nas accommettidas; o que os Mouros fazião igualmente aos nossos, quando corrião sobre nós. Pero de Sousa, varão mui valeroso, esteve mui aventurado neste combate, quando mais lidava em metter os Cavalleiros em ordem, e em os defender dos inimigos. Todavia não matárão estes senão quatro dos nossos n’huma peleija tão desigual, visto o desarrazoado numero dos contrarios, e a cujo máo grado entrárão em Arzila com a sua preza. Nesse mesmo anno sabendo D. João 210de Menezes que n’hum monte a 20$000 passos de Arzila havia quantidade de mulheres mui fermosas guardadas por homens esforçadissimos, que as amavão mui ardentes, deliberou ir cativallas, para fazer mimo dellas á Rainha D. Maria. O caminho porém, que atravessava muitos Aduares, se fazia perigosissimo; para enganar pois os Mouros, partio de noite, que muito escura e tempestuosa os encubria, com duzentos Cavalleiros, desde a terceira vigia, para dar naquelle Aduar mui povoado. E lá, antes que os inimigos déssem sentido de sua chegada, mandou accender muitos archotes, que de proposito levava, para que com a claridade delles vissem os Christãos o que era apto de obrar no sobresalto dos inimigos. O clangor das trombetas, e o estrepito das armas metteo tanto pavor nos inimigos mal dispertos, que grandissima parte delles lançou a fugir. Alguns porém neste derradeiro transe da vida sustentárão corajosos a peleija, sem desmentirem hum passo do posto em que se achavão. Os prantos das mulheres, e seus lugubres lamentos, os alaridos com que os homens rompião os Ceos, acordárão do somno quantos pousavão naquelles visinhos Aduares. Com tudo como não sabião que numero era o dos Christãos, nem a grandeza daquelle repentino desastre, antes fingindo-o em seus animos mais calamitoso que elle não era, e sem terem Capitão a quem seguissem, 211não só não lhes vierão acudir; mas fugindo com filhos e mulheres, se derão préssa a salvar-se no cabeço da montanha, e embrenhar-se no mais cerrado da espessura. Os nossos dando a morte a oitenta, ou pouco mais, dos que mui pertinazes combatião, apreando cincoenta homens e as mulheres, derão saque ao Aduar sem algum estorvo. Entre as mulheres cativas algumas vinhão das que mais gabadas erão de fermosas, e em mira das quaes tinhão os nossos emprehendido tão arriscado feito; o qual concluido, se retirou D. João com o exercito; e em quanto foi noite, ninguem lhe ousou picar a retirada. Mas apenas madrugou, que gran quantia de inimigos arremetteo com elle: com tão boa ordem com tudo Menezes reconduzio a trópa, que não recebeo delles perjuizo, posto que de todos os lados lhe rebentassem perigos, em que se peleijava mui porfiadamente, e fossem muitos dos nossos feridos, muitos cavallos mortos, e elle mesmo corresse grandissimo risco de vida. Não morreo hum só Christão, e entrárão na Cidade com a preza inteira.
212
EM quanto assim succedia em Africa, começava Trimumpara, Rei de Cochim, a padecer na India violentas agitações; por quanto o Çamorim assentou de alistar gente, e juntar grande exercito, com que o esbulhasse do Reino e suas posses, em razão do tratado de amizade, que com os Portuguezes celebrára. Muitos forão no Conselho de Triumpara, que lhe persuadissem de resgatar o seu socego, e o do Reino todo com a morte de poucas pessoas estranhas de mui diversa crença e usos, e entregasse a ElRei de Calecut esses Portuguezes, que da mão de Gama acolhêra em seu real abrigo. Cujo conselho ElRei tanto o não tomou, que antes asperamente reprehendeo os que assim o persuadião. Dizendo ainda mais: que não tinha por tão maléfico o animo do Çamorim, que intentava despojallo do Reino, e tirar-lhe a vida, como o animo dos que o conselhavão a trahir sua lealdade. Que era curto 213o fio da vida, e limitado em estreitas raias o usufructo da realeza, mas sempre eterna a nódoa da perfidia: e que assim mais queria perder o Reino, e expôr a vida a desgraçadas contingencias, que arder na infamia de mal-guardados promettimentos. Neste alvoroto de espirito se achava, quando chegou a Cochim Vicente Sodré com a sua Armada; e, como lhe presentisse intenção de partir dalli, Diogo Fernandes Correa, que Vasco da Gama alli pozera para feitorizar as dependencias d’ElRei D. Manoel, lhe obtesta não queira em semelhante ensejo desamparar hum Rei amigo exposto a tão desastroso accidente pelo amor e fieldade aos Portuguezes promettida. Que tal fora o principal motivo, por que naquelles mares o deixárão com tão abastecida Armada, rebater dos amigos o impeto de seus adversarios. Que meditasse bem quão grande desdouro sobre si lançava, entregando Cidadãos seus á ferocidade de taes inimigos. Por quanto não cabia só o nome de traidor aos que contra a fé dada maquinavão a perdição dos seus, mas tambem aquelles, que nos transes atribulados recusavão de lhes valer. Respondeo-lhe o Sodré, que lhe não dera ElRei esse encarrego, mas sim de ir guerrear com quantas náos da Arabia atravessassem á India, cujas ordens elle por nenhuma razão nem occurrencia tinha de quebrantar. Ao que replicou Correa, que nem sempre se havia de attentar ao que os 214Reis mandão, mas sim ao que nas circumstancias quererião fosse feito, porque são incertos os acontecimentos, e da estranheza delles se ha de tomar o acordo. Que nunca fora da vontade de tão excellente Senhor abrir mão do salvamento d’hum Rei seu amigo, nem do de seus vassallos, e que só quando inimigos proximos lhe vagavão, hia commetter guerra a outros inimigos. Estas e outras mais razões do mesmo porte lhe dizia, tomando a testemunho a Divindade dos Ceos, e tirando público instrumento dos que presentes erão, mas que nada aproveitárão. Que teve com Vicente Sodré maior poder ou já o medo, ou já a esperança de avultadas prezas, do que teve a sua obrigação, ou o pundonor. Partindo pois para o Occidente, foi cruzar o estreito do Sino Arabico. Ora Naubeadarim, moço naturalmente discreto, e instituido na doutrina dos Brachmanes, filho da irmã d’ElRei de Calecut, e que pelas leis daquella gente era seu unico herdeiro, desapprovando a guerra, que emprehendêra seu Tio, dizem que huma vez tal prática com elle tivera. Posto que seja mais proprio a minha idade receber conselhos, que offerecellos, estimula-me todavia d’huma parte amor forçoso, e de outro o perigo ingente a manifestar o que de tão importantes cousas sinto. Que dado me sejas pela natureza Tio, me és amantissimo Pai por tua affeição innata: accrescendo de mais o muito desarranjo que me 215caberia de serem por malignos conselhos menoscabados os teus poderes; e se avisos saudaveis fundamentarem o teu Reino, tudo recahirá em ganancia minha. Por tanto te supplico respeitoso admittas em teus ouvidos esta minha falla, como de quem comtigo por natureza, por amor, e por companheiro no perigo he tão conjuncto. Se alguma cousa digo razoavel, quizera que approvasses; e se a não digo, farás o que mais a teu sabor julgares. Preparas huma guerra importantissima contra Trimumpará em sua ruina: o que não he estranho, segundo o uso tão frequente dos Reis, de pleitearem com armas seus processos; releva porém considerar qual seja desta guerra o motivo: por quanto guerras, que sem legitima razão se emprehendem, acabão muitas vezes com pessimos successos. Que ha pois? Recusou elle pagar o tributo? Entrou talando armado as tuas terras? Urdio elle em damno teu conspiração com outros? Nada disto fez. Que poderás, quando lhe moves tão poderosa guerra, pôr diante, que seja ao menos especioso a dizer? Que te tão entregou, como ordenavas, certos homens acolhidos á sombra da lealdade, homens, que pelo odio entranhavel, que aos Portuguezes tens, querias atormentar; e te queixas de que não consentio em violar (por te aprazer) o direito das Nações, e a abonada fé. Que farias a quem contra os direitos humanos e divinos commette infinitas 216maldades, se tão rigoroso te mostras contra quem nada tem por mais prezado que a lealdade sua e o seu dever? Tu com mercês honrarás os que dignos são de mór supplicio? Por certo não. Que he d’hum Rei vingar com penas a perfidia, e não conferir graças a ferocissimas façanhas. Dirás ainda, que elle ampara inimigos, de quem recebeste injúrias graves. Peço-te, por quanto comtigo valho, que tomes em boa parte o que ácerca dellas dizer te quero: que a ninguem releva tomar mais a peito que eu qualquer insulto, que contra tua magestade for por maldade de homens perpetrado. Quanto aos Lusitanos, não sinto eu que o que elles obrão, mereça grande vituperio; como homens, que brios tem, o seu dever prefazem. Magoão-se quando os offendem, combatem quando os incitão, e persistem em lavar as injúrias, que lhes inferem. Se de primeiro contra o teu Estado tivessem algum aggravo commettido, de razão os castigáras de seus máos feitos: mas nada inimigamente obrárão; antes por comprazer com teu peditorio, te cativárão e fizerão mimo de huma náo ricamente carregada. E quando mui descançados em terra estavão sob teu abrigo e lealdade, se vírão sem motivo algum aleivosamente roubados e de cruel maneira mortos. Não devem pois pagar a pena os que vingão tão barbara maldade; mas sim os que levantando a labareda de tão repentino arruido, derão causa a 217todos os males, que depois vierão. Muito ha já que toleramos o termo destes Arabios, sabemos ao claro seus embustes e maranhas, nem ignoramos quão matreiros mestres de enganos são; o que tudo perpassavel era, em quanto submissos forão. Mas hoje com as que em teu Reino riquezas accumulárão, tão altivos se fizerão, que não são de sopportar. Sacodem-se do governo, e até armão querer dar leis a tão pujante Rei, como tu és. Como andão carrancudos e ferozes? Como encostados em sua ousadia, devassão tudo? Com quanto descaramento se entremettem e forção entrada? Com que ameaças te requerem. Já tão longe se adiantão, que a ouvillos, por seus conselhos tu devias teu Reino governar. E qual he sua petição: “Dá-nos fim desta gente odiosa e mal vista.” Que ha ahi de vir? Faz ella, quando admittida, que sejais vós expulsos? Nenhumamente. Mas nossos olhos não podem soster a vista desta gente Christã; he, receamos outro sim, que as ganancias que antes lucravamos, com sua chegada diminuão. Por tanto não já humildes to pedimos, mas por nossos fóros te impellimos a que com risco de teu Reino, e infamia de assinalada baixeza, contentes o melindroso enojo de nossos olhos, e nossa desmesurada avareza, que com nenhumas riquezas se completa. E concluem com dizer, que he mui conveniente á salvação commum extirpar das Comarcas Indicas 218esta Nação em armas poderosa. Mas ainda quero que acabes com esses poucos homens, que são com Trimumpará, acabas tu d’hum golpe com toda a geração Portugueza? Não por certo. Antes assanharás mais violentos os que depois vierem. E se elles tão valentes são, como estes Arabios apregoão, quando te advertem do mal, que delles deves recear, e do terror de suas armas, com que te assustão; melhor mui certamente será para ti, e para teu socego tomallos por amigos, que por inimigos, e esses agastados. Que bem acontece ás vezes trocarem-se inimigos acerrimos em mui constantes amigos: que hum e outro effeito mana da mesma fonte da esforçada virtude. O meu receio he, que com as mesmas riquezas, que por seu esforço te arrancarem, vão augmentar as d’ElRei de Cochim, e muitos então insultem a teus desastres. Nem eu duvido, que Armadas grandissimas venhão a estas praias devastar as propriedades daquelles, com quem estão aggravados, pelas injúrias que delles recebêrão. Esse o motivo, por que tenho por mui dignos de odio estes Arabios, e antes que tudo pelas forças que mettem para lançarem tão preclaro Monarca, e tão apto a imperiaes poderes nesta fraudulencia, e a desamparar-te de tua lealdade e do teu dever. E por qual razão? Pelo seu entranhavel odio, e pela sua avareza. Sem contar que tanto os entufa o seu orgulho, que pretenderião que por 219seus alvitres se administrasse o Estado; sem contar que diante dos teus olhos commettêrão aggravo tal, que imprimio na tua fama hum indigno ferrete de sempiterno desabono. Que não ha-de ninguem crer, que a tão desmedida maldade se atreverião elles sem connivencia tua. E por ultimo elles forão os authores, que egregios e esforçados varões, com cujo fiel adjutorio poderás ampliar as riquezas do teu imperio, se convertessem com grande risco teu, teus inimigos. Pelo que meu sentir he, que desta guerra te descartes, e assentes pazes com os Lusitanos, que sabem guardar fé e boa justiça, e que como corra fama, resguardão como santas da amizade as leis, e tem de uso dar o devido pago aos inimigos: e quanto ao prejuizo, que os Arabios lhe causárão, tu lho resarças. Porque isto receio eu, que do contrario redundem nestes contornos, por conselhos de malvados, immensos infortunios, agouro que o Ceo de nós arrede. Em huma e outra fortuna sei eu bem que me terás por companheiro, como de mim o requer a minha lealdade e o meu dever; que não recuso derramar a vida pela tua soberania e por teu obsequio. Assentei que era obrigação minha explanar-te o que sentia; aos Deoses rogo, que approvem tudo o que a bem julgues seja feito.
E bem que muitas vezes insistisse, nunca pôde demover ElRei de seu presupposto. Em tanto Trimumpará juntava seus soldados, aprestava 220com summo desvelo tudo o que era necessario para pairar aos perigos da guerra. Como porém montavão tanto os poderes do Çamorim, e muitos apreciavão em menos a fortuna d’ElRei de Cochim (ao que dizião) decahida, se achegavão á d’ElRei de Calecut e com tanta ansia desamparavão a causa do de Cochim, que não poucos dos vassallos deste se encostárão ao Çamorim, entre elles os dous Caimaes de Chirabipila e de Cambalão e o Senhor d’huma ilha fronteira de Cochim. Com grande exercito chegou ElRei de Calecut a Repelim, que fica a 16$000 passos da capital de Cochim. Então os Lusitanos vão a Trimumpará, pedindo-lhe não tome a seus hombros por amor delles tão pezada guerra; que elle se irião a Cananor e lá esperarião pela Armada. ElRei lhes disse: Que se admirava muito, que a homens tão esforçados, tão unidos com elle em prolongada amizade, podésse entrar na mente recearem o poder dos inimigos, ou desconfiarem da sua fidelidade. Que ficassem, e tivessem por seguro, que tinhão de passar todos pela mesma fortuna: que elle por respeito d’ElRei D. Manoel peleijaria até o ultimo arquejo da sua vida. Nomeou por General de seu exercito a Naramuhim, filho de sua irmã, e que lhe havia de succeder no Reino, e que era hum moço mui valeroso na opinião commum; e o mandou com 5$500 homens defender a paragem, por onde imaginavão 221passar os de Calecut, que era invadiavel nas altas marés, e servia de arraias aos dous Reinos; mas dava na baixamar váo a ElRei de Calecut no sitio, por onde elle se dispunha a entrar em Cochim. Logo que alli chegou o Çamorim com o seu exercito, mandou passar o váo aos corredores, que não só não o podérão conseguir, mas que alli perdêrão muitos dos seus. No dia seguinte enviou ao váo com muita escolhida soldadesca o Caimal de Repelim, que dalli desalojasse Naramuhim, para folgadamente passar com o resto do exercito; e para melhor o conseguir, manda pôr na parte inferior do esteiro, onde elle era mais profundo, muitos paráos artilhados, que fizessem abrigo á sua gente, e servissem os nossos com frechadas. Todavia Naramuhim renovou o combate com mais vigor, e a maior numero de inimigos tirou a vida. Em todos os recontros se valia elle muito dos conselhos de Lourenço Moreno, pessoa mui destimida, e que com os poucos Lusitanos, que com elle erão, denodadamente o ajudava. E dado que os inimigos investião a miudo aquelle passo, sempre com a perda dos mais aventureiros, rechaçados erão. Derramados em fim pelas Aldeias, que erão do dominio de ElRei de Cochim, empenhavão todo o zelo seu em devastar o mais que podião as possessões da gente de Cochim, mas por toda a parte os obviava Naramuhim, ou já em pessoa, ou já por seus 222Capitães; e rebatendo-lhes o impeto com a morte de muitos inimigos, sahio com a victoria. Capacitado o Çamorim, que a força aberta nada aproveitava a seu intento, voltou-se para a astucia, e assim com pingues dadivas e promessas, o fez peitar por hum mandatario seu, porque baldasse do soldo devido os soldados o pagador mór de Cochim; onde era uso pagallos dia por dia. O pagador subornado assim; fingindo-se doente, recolheo-se logo á Cidade, e publicou que viessem lá ter com elle todos os soldados, que quizessem receber seu pagamento; de que resultou virem muitos á Corte, sem Naramuhim os poder reter. Ora o pagador demorava d’hum dia a outro as pagas, e os inimigos sobrestavão em tentar o váo, para darem mais descuido aos de Cochim; e quando ElRei de Calecut vio os soldados assim dispersos, e menos applicados á defensa os que ficavão, mandou subito chegar os paráos, e com arremessões e com pelouros varejar os inimigos, em quanto se apressava o seu exercito a passar o váo, e romper a grande força as tranqueiras de Naramuhim. Executão com gran presteza os soldados o que lhes ordenava ElRei, que os estava vendo. Tudo o que se abbreviou naquella noite, porque por seus espias e pela nota do pagador mór soube o Çamorim estar menos guardado o porto, pelo desfalque de muitos soldados e seguridade dos outros. Accorreo Naramuhim; 223mas não podendo soster o impeto de tão grosso exercito, alli acabou bravamente peleijando cravado de muitas settas: igual successo tiverão dous moços parentes seus, dado que antes de morrerem tivessem feito seu dever de homens valentes. Houve grande mortandade, e forão muitos os feridos, e mui gravemente d’huma parte e d’outra; e a batalha que começára ante-manhã, acabou com a tarde. Os de Calecut forão ferozmente no alcance dos fugitivos de Cochim, e não desistírão do seguimento senão quando a noite lho impedio. Muito se atribulou Trimumpará em seu animo á chegada da noticia deste desastre: mas todavia quiz lançar o ultimo dado. Pelo que formou hum corpo de todas as trópas que pôde juntar, e foi dar batalha ao inimigo: e o acontecimento desta guerra foi o que usa ser, quando poucos e esses tomados de medo e desfalecidos, vão por desesperação brigar com sobeja copia de adversarios arrogantes na confiança do vencimento. Desta maneira Trimumpará derrotado, se recolheo a huma ilha, onde quiz que tambem passassem os Portuguezes, que com elle andavão, a quem conservou tanta lealdade, depois de infortunio tal por seu respeito sopportado, quanta se por seu adjutorio fôra defendido de todo o desabrimento da sua desgraça. Ainda alli lhe mandou o Çamorim propostas de lhe restituir tudo, se lhe elle entregava os Portuguezes, que tinha em seu poder. 224A que elle respondeo, que lhe podião tirar o Reino, e ainda a vida, mas que a lealdade não. Irritado mais acerbamente desta resposta ElRei de Calecut, mandou sem demora lançar o fogo á Cidade, e dahi cuidar no assalto da ilha: mas pela sua situação e pela natureza, era ella tão fortalecida, que com as pequenas trópas, que ElRei Trimumpará lhe metteo dentro, se podia facilmente defender. E por essa razão empenhando-se o Çamorim em expugnallo, foi deste empenho pela valentia dos sitiados, com não mediana perda rebatido. Vinha chegando o Inverno; mas antes de levantar o cerco e partir para Cochim, fortaleceo o campo com estacadas e fossos, deixou dentro guarnição, e sahio com animo de continuar o assédio, logo que apontasse a Primavera. Como depois da morte de Naramuhim menos prezassem muitos a decadencia de Trimumpará, não só lhe fallírão á lealdade, mas ainda a de que nos erão devedores: entre elles dous Milanezes, que tiverão indulto d’ElRei D. Manoel para virem com Vasco da Gama, na segunda viagem que fez á India; que deslembrados da fé, transfugírão para o Çamorim, e nos causárão muito prejuizo. Mas quanto avulta mais sua facinorosa perfidia, dando-se por Christãos, mais preclara se ostenta a boa fé daquelle Rei pagão, chegando a tanto, que por conservar com summo zelo homens pouco conhecidos, que nenhuma referencia 225com elle tinhão de parentesco, religião, nem leis, quiz ser despossuido de seu Reino, esbulhado de suas riquezas, e arrostar-se com os extremos riscos da vida. Rarissimo exemplo por certo de fé, de probidade, recommendavel aos seculos eternos.
Navegava em tanto Vicente Sodré para a Arabia; e costeando Cambaya, se encontrou com cinco navios de Arabios de preciosa carregação, que elle combateo, saqueou, e lhes lançou fogo; e passou ás ilhas, que pouco distão do Cabo Guardafu, perto da fóz do seio Arabico. Chamão-se estas ilhas Curia Muria; e ainda que habitadas por Sarracenos, nos recebêrão elles com muito agasalho, e tudo o que para a vida se requer a commodo preço nos vendêrão. Erão gentes de lavoura, mui diversos de inclinações guerreiras; e porque vírão que a náo de Pero de Ataíde varava em terra, para sem socego a calafetarem e brearem (por alquebrada e fazer muita agua), vem ter com os nossos e avisallos, que se não demorem naquella paragem; que o mez de Maio com rijissimos Nortes lhes varejaria á praia, e lhes despedaçaria os navios, o que lhes seria impossivel de evitar sua perdição, se aguardassem o tempo dos furacões. Vicente Sodré desprezou o aviso; e contra as protestações repetidas, que os Mouros lhe fizerão e os mais Capitães da Armada, que lhe instavão, e que lhe dizião, que não era o conselho para rejeitar; 226tanto mais que nenhuma difficuldade padecia; podendo mui commodamente dar abrigo ás náos na outra costa da ilha, que resguarda o Meio-dia; que a mudança de ancoradouro se podia fazer sem perigo; e que a paragem, em que estavão os homens mui praticos daquellas costas, affirmavão com juramento ser muito perigosa: Vicente Sodré porfiou em seu proposito. Offendidos desta obstinação Pero Rafael, Fernando Rodrigues Bardace, e Diogo Peres, Capitães de tres navios, se desviárão delle antes do primeiro de Maio, trasladando-se á contra-costa da ilha. E Sodré ficando na sua náo com o animo mui despejado e solto de cuidado, se levanta de subito hum tufão do Norte, que lhe arrimou as náos na praia, e lhas desconjuntou, sobrevindo-lhe tão grossas vagas, que quasi todos os que nelles vinhão perecêrão, sem escapar Vicente Sodré nem seu irmão Braz Sodré, que ambos as ondas submergírão, e seus cadaveres na praia vomitárão. Que pareceo juizos de Deos, acabar Sodré de semelhante; mas nem ainda da preza que tomára, não se poder colher hum só resquicio, por quanto aboiando cordagens, mastros, petrechos das náos despedaçadas, toneis, planchas, vindo á arêa, nenhum ouro da preza, nenhum móvel de preço, nem cofres, em que vinha riquissima baixélla, jámais appareceo. Os outros Capitães, que tinhão esquivado a tormenta, logo que ella applacou, 227tornárão ao sitio, d’onde se tinhão separado dos Sodrés; e achando alli Pero de Ataíde, e os seus, que por estarem varados em terra, se salvárão, o elegêrão por General no posto de Vicente Sodré. E consultado o que melhor cumpria, abonárão que pois os Sodrés forão galardoados de sua perfidia, nada lhes era mais christãmente digno de applicar a divindade, nem illustre para seus nobres appellidos, que reconduzir á India as suas náos, e ir dar soccorro a Trimumpará, e aos Lusitanos, que com elle ficárão: e dado que ainda fosse Inverno, nenhum perigo os atalhava para ir apagar aquella mácula do nome Lusitano. Forão porém obrigadas as náos a arribarem á ilha de Anchediva, pelos ventos contrarios, e alli passar o resto do Inverno, não podendo al fazer, e guiar a Cochim, apenas apontasse a Primavera.
Neste anno houve ElRei D. Manoel da Senhora D. Maria huma filha, a quem poz o nome de Isabel, que depois casou com o Imperador Carlos V. Foi Senhora de egregia formosura, e de muitas virtudes adornada, que tanto aspirava sempre á grandeza de alto estado, que constantemente affirmava não ter de desposar-se com Principe, que não fosse pre-excelso entre os Christãos. E indo este anno em seu acabamento, convocou ElRei hum Capitulo dos Cavalleiros da Ordem de Christo na Villa de Thomar, onde esta Ordem tem 228hum vasto e magnífico Templo, e nelle Religiosos da mesma Ordem pios e exemplares: neste Capitulo com muito acerto instituio varias ordenanças a ella pertencentes, e reformou com mais severa disciplina varios relaxamentos de costumes. Neste mesmo anno falleceo o Summo Pontifice Alexandre VI., a quem succedeo Pio, que pouco tempo se logrou desta summa preeminencia; e em seu posto entrou Julio, de nação Lombardo, com unanime consentimento dos Cardeaes. Entrado o anno seguinte, mandou o Senhor D. Manoel muitos sujeitos de recommendavel religião a huma parte da Ethiopia, que chamão Congo, para que melhor do que no principio o forão, doutrinassem aquella gente. Fica o Congo além da plaga subjacente ao círculo equinocial, arredada della para o Sul por sete gráos: e tem este Reino larguissimos confins. O modo porém, com que este Reino entrou no redil da Igreja Catholica, requer ser repellido de mais longe, para que melhor se entenda com que singular acerto ElRei D. Manoel inclinou o seu desejo á catequização daquella gente.
ElRei D. João II. cravando todo o seu intento na manifestação das regiões maritimas da Ethiopia, para abrir por ahi corrente para a India, aconteceo que no anno do Senhor 1484 hum Cavalleiro de animo determinado; por nome Diogo Cão, que por seu mando discorria as costas da Ethiopia, deparou com 229a fóz d’hum rio mui caudal e rapidissimo, em cuja largueza, e profundura, elle atentando, tirou por tino, que muitas gentes relevava, que em suas ribas tivessem assentada pousada e contubernio. E ora querendo penetrar pelo rio acima, vio hum pouco adiantado muitos homens semelhantissimos no cabello e na côr aos demais Ethiopes, que tantas vezes víra: e estes sem se turvar de medo, nem da estranheza de gente desconhecida, davão de si apparencias admiraveis de mansidão e brandura, quando se vião com os nossos. Como Diogo Cão mandasse com elles pessoas práticas fallar-lhes em varias linguas da Ethiopia, nenhum se entendeo com sua linguagem; por acenos sómente começárão a tratar com elles, e por acenos demostravão haver hum Rei naquellas partes mui rico e apotentado; e huma Cidade Real, onde tinha seus aposentos, algumas jornadas dalli distantes; o que sabido por Diogo Cão, os convidou com mimos e promessas a levarem comsigo alguns da sua companhia com presentes para ElRei, e dons que aquella gente préza, segundo colhido havia: e abalizou aos que enviava tempo fixo, para a elle tornarem com apuradas relações. E por quanto tardárão em dobro do que Diogo Cão presuppozera, levando ancora, trouxe comsigo á Lusitania quatro dos que frequentavão mais seu bordo; e erão elles homens nobres, dotados de agudo engenho, e tão bem com elles 230se houve em lhes ensinar a lingua Portugueza, que quando forão diante d’ElRei, já nella muitas cousas explicavão. Muito se contentou D. João com a comprehensão destes Ethiopes, e lhes deo muitas prendas e galardões; incumbindo a Diogo Cão se désse préssa a tornar áquellas paragens, levando comsigo aquelles homens e suas dadivas para ElRei, e cuidasse em inclinallo a adorar Jesu Christo, Senhor e Creador de toda a natureza. Tornou Diogo Cão ao sitio que deixára, e mandou hum dos nobres Ethiopes ter com o seu Rei, e em nome seu pedir-lhe lhe remettesse os Portuguezes que lá erão, porque elle sem demora lhe entregasse os que com elle vinhão; que tendo de ir mais avante, como pelo seu Rei lhe era encommendado, pouco tardaria a voltar, e então viria demandallo, e expôr-lhe a vontade d’ElRei D. João. ElRei lhos mandou entregar por hum dos seus Capitães, que alli mesmo de Diogo Cão recebeo os tres, que vinhão com as dadivas, que d’ElRei de Portugal para elle trazião. Estas dadivas, e os louvores continuos, com que os recem-vindos vassallos lhe exaltavão a magnificencia e valor d’ElRei D. João, começárão a picar-lhe vivamente a affeição para com ElRei de Portugal; e quando Diogo Cão, examinadas com desvelo aquellas outras costas, alli tornou, salvou demoras, para se ver incontinenti com o Rei Ethiope, que mui honradamente o recebeo. 231Perguntava-lhe muitas cousas ácerca do Estado de Sua Alteza, dos usos, leis, e costumes dos Lusitanos; informava-se da Religião Christã, e pouco a pouco se lhe hia affeiçoando. Despedio todavia a Diogo Cão, e com elle hum dos que já comsigo trouxera a Lisboa, e se chamava Zacuto, com titulo de Embaixador, encarregado de encarecer quanto podésse ao Senhor D. João, e lhe protestar pelo Deos que adorava de lhe mandar Sacerdotes a aquelle seu Reino, com cuja doutrina podessem todos vir no conhecimento do verdadeiro Deos. Com o Embaixador Zacuto e alguns outros mancebos nobres, que o Rei mandava a Portugal, para que lá se baptizassem, e seus engenhos cultivassem, partio Diogo Cão, e veio presentar a D. João II. grande cogia de marfim, varias esteiras, e vestes lavradas de folhas de palmeira em nome d’ElRei de Congo. Incrivelmente se alegrou ElRei D. João com esta nova, descortinando assim aberta a porta á propagação ampla do Evangelho naquelles sitios. Demorou-se o Embaixador com os demais mancebos mais de dous annos, para melhor se inteirarem da lingua Portugueza, e dos usos da Christandade. Quando já todos tinhão professado a nossa Santa Fé, e erão purificados na fonte do Baptismo, D. João mandou preparar tres náos ás ordens de Gonçalo de Sousa, varão de insigne fidalguia, em que fosse o Embaixador, e os outros mancebos nobres. 232Mandou tambem com elles Sacerdotes de abonada santidade com vasos sagrados, paramentos, e outras insignias christans, capazes de conferir os Sacramentos de expiação, e instruir nas disciplinas da piedade Catholica aquelles infieis. Já quando sahírão da barra de Lisboa, onde lavrava poderosamente a peste, hião muitos das equipagens ervados della, e della morrêrão na carreira, como tambem Gonçalo de Sousa, cujo lugar tomou Ruy de Sousa, seu mui proximo parente. Chegadas as náos ao porto denotado, e desembarcados os que tinhão de visitar ElRei, com tantos cantares, e tantas demonstrações de extremo regozijo, os agasalhárão todos, que parecião alegrar-se com elles até as selvas e arvoredos. O primeiro que se alistou nas bandeiras de Christo foi hum Tio d’ElRei de Congo, que dominava larguissimas terras, e quiz tomar o nome de D. Manoel, por ter ouvido que havia em Portugal hum Principe primo d’ElRei, ornado de mui superiores virtudes, motivo, por que queria chamar-se como elle; e com tanto zelo abraçou a doutrina da Religião, que assás denunciava terem os resplandores do Ceo esclarecido o entendimento. Por mandado expresso d’ElRei sahírão a receber os nossos os Generaes de Congo acompanhados de grandes copias armadas a uso da terra, que toda resoava com tangeres de tympanos e trombetas, e canticos de homens. Chegados diante d’ElRei, 233como a tal Ruy de Sousa o saudou, e elle a seu uso e maneira acolheo honradissimamente a Ruy de Sousa. Este logo que lhe expoz a substancia de sua embaixada, ElRei de Congo com palavras demostradores de summa amizade agradecendo ElRei D. João, pedio a Ruy de Sousa, que lhe fossem mostradas, e deixasse expôr á vista dos que alli erão, as sagradas vestimentas, e mais peças tocantes ao culto da Religião, tiradas de seus envoltorios. Então foi o contemplallas huma por huma, recebellas com acatamento, admirallas com vehemencia, e fixar a vista nos Religiosos. Quando porém foi alçada a Cruz, todos que presenceavão, vendo que os nossos se lançavão a dous joelhos por terra, fizerão o mesmo. Não podia fartar-se ElRei de mirar peça por peça, e perguntar que uso tinhão, e com tanta memoria tenazmente retinha quanto os Religiosos lhe dizião, que depois mui distintamente os explicava á Rainha. Ficou dalli assentado, que se edificaria huma Igreja: e posto de longes Provincias do Reino vinhão as pedras de construcçao, tal presteza se derão, em razão do ardentissimo zelo d’ElRei, e gentio sem conto que alli empregava seu trabalho, se começou a edificar, que em brevissimo computo se vio concluida, e lhe foi dado o nome de Santa Cruz. Tendo vindo no entanto huma noticia, que os habitadores d’huma ilha, que jaz no lago que o Zayra fórma, tinhão levantado 234obediencia, e com suas correrias causado não mediano estrago nas Comarcas visinhas, dispoz-se ElRei a ir em pessoa rebater-lhes o impeto e castigar-lhes a audacia. Mas quiz antes de partir expiar-se na sagrada fonte e alistar-se na milicia de Christo: o mesmo fizerão tambem varios fidalgos juntamente com a Rainha. Chamárão-se ElRei e a Rainha João e Leonor, pela chamma de affeição, que pelos nossos excellentes Soberanos os abrazava. Rui de Sousa lhe remetteo huma bandeira assinalada com huma Cruz, admoestando-o a que nella e na virtude daquella Cruz confiasse ganhar victoria dos inimigos. ElRei escorando na confiança do nome Christão, desbaratou do primeiro impeto os rebeldes, e deo fim á guerra mais presto do que era de imaginar-se; e voltando á Corte, despedio Rui de Sousa com muitos sinaes de amizade. Este porém não só lhe deixou Ministros para os Sacramentos, mas tambem homens, que viandassem por aquellas terras, explorassem aquelle grande lago, que acima dissemos, e averiguassem a situação do Reino, sua extensão, e usos daquella gente. Depois de Rui de Sousa ter partido, chegou o primogenito d’ElRei das fronteiras, onde guerreava com os arraianos, e vinha á Corte ver seu Pai, onde tratou de se purificar com as aguas do baptismo das antigas máculas, tomando o nome de D. Affonso, em obsequio do filho d’ElRei D. João, e com elle quizerão 235muitos fidalgos abraçar a fé Catholica. De todas as partes concorrião póvos a lavar-se neste Sacramento, para lograrem da luz Celestial, com o que se augmentava de dia em dia o numero dos Christãos, e os que erão acceitos, se glorificavão com indisivel contentamento. A tão saudaveis principios de subita conversão repugnava todavia com grão debatimento o sempiterno adversario do genero humano; e para lhes pôr estorvo, instigou Panso Aquitimo, outro filho d’ElRei, que aborrecia os ritos da Christandade, a desviar seu Pai do zelo da nossa fé. Pregoava como indigno desacato desamparar os institutos dos maiores, esbulhar os altares das imagens dos Deoses, e violar os templos atélli tão venerandos. Accrescia mais, que ElRei mui de seu máo grado consentia que os Religiosos lhe vedassem as concubinas, permittindo-lhe sómente o caso da Rainha legitima; e que todas essas mulheres vendo-se destituidas do trato com ElRei, e decahidas das honras, em que se vírão, por ellas mesmas, e pelos Grandes do Reino sollicitavão ElRei, e forcejavão affincadamente por despegallo de sua opinião. Vinhão depois os Agoureiros e empeçonhadores, que entre elles forão mui venerados, os quaes propunhão ameaças dos Deoses, e denunciavão crueis castigos aos que desgarrassem da Religião antiga: e como D. Affonso empecia com grande esforço ás malignas tentativas desta gente impura, 236ella excitou contra elle o odio mui acerbo do Monarca, e em tal embuste o lançárão, que se persuadio que seu filho lhe tramava ciladas: pelo que o degradou aos ultimos confins do Reino. E quanto cedeo ao outro malvado filho seu, tanto cerceou de zelo ácerca da Religião Christã; mas logo que os aleives descubertos forão, restaurou a D. Affonso ao antigo gráo de honra com accrescentados cabedaes. Ora este allumiado de instincto divinal, promulgou nas terras, que seu Pai lhe confiára, pena de morte contra quem conservasse em sua casa idolo algum de seu enganadissimo paganismo, ou em algum lugar o adorasse. Esta promulgação amotinou muita gente, e muitos se conjurárão com seu irmão contra elle; e seu Pai o mandou vir para o admoestar, a não abrir porta a tumultos, e desistir deste sentimento. Elle com dizer, que innumeraveis negocios o atalhavão, evitou vir á Corte, nem abrogar o decreto, o que deo causa a muitos de passar delle a seu irmão. Em tanto seu Pai já quebrantado de velhice, pezado de enfermidades, inclinava a despedir-se da vida, e muitos informavão D. Affonso da decadencia d’ElRei, e o convidavão a vir resistir á malignidade de seu irmão, que juntava trópas para se apossar do Reino; mas elle até ser inteirado da morte de seu Pai, não ousou abalar da fronteira. Logo porém que soube ser este fallecido, entrou (como sua Mãi lhe tinha encommendado) 237de noite na Cidade; e convocados no dia seguinte os Grandes, em quem mais confiança tinha, e n’huma curta planicie, que entestava com o Palacio, lhes fez huma falla, em que com muito sizo lhes expoz o direito, que de herança lhe vinha; a bondade, com que por seus vassallos, e allegando a obediencia, que de juro lhe devião, os exhortou á lealdade, e a cada hum cumprir com seu dever. Elles logo em boa hora e ventura o saudão Rei, e com grandes clamores, e alvoradas de instrumentos musicos lhe dão os prolfaças da magestade e soberania do Reino. Seu irmão apenas o soube, da grande soldadesca, que comsigo tinha, fez duas trópas, com que veio direitamente contra D. Affonso, que então se achava com hum minguado terço de guerreiros, a quem dando grandes alvoroços da victoria, avisou com tudo, que mui firmemente crendo que o celestial amparo faltar-lhes não podia, assentassem que poucos, mas confiados em Jesu Christo, bastavão para derrotar facilmente numerosissimos exercitos. E alli mesmo aguardou a seu irmão, que com grande impeto correo sobre elle, e tão apinhadas vinhão pelo ar as settas, que semelhavão a huma nuvem; tal era a sombra que fazião. D. Affonso bravamente peleijava; mas no soccorro de Deos toda a sua confiança tinha posta; e por essa razão clamava a grandes vozes por Deos, e Sant-Iago (que sabia assim usarem 238os Hespanhoes em suas guerras), e estes gritos erão por elle com muita ansia repetidos. Não falseou Deos sua esperança; que subito os inimigos cortados de temor, voltárão costas; e a vanguarda, que recuou primeira com embate, que deo no segundo corpo do exercito, o desordenou e o empuxou na fuga: e seu irmão, querendo desatentado de susto embrenhar-se nos matos, cahio n’hum cêpo (que assim chamão hum engenho adaptado a tomar as féras bravias), e alli ficou prezo elle e mais o General, que comsigo trazia, pela grande opinião que tinha de seu valor. Este General vendo-se apreado, mandou dizer a ElRei, que não pedia lhe perdoasse a morte, que tinha por merecida; mas que pelo supremo Deos que adorava, lhe intercedia o não remettesse ao supplicio, sem antes se fazer Christão. Que desta vida curta sitiada de innumeraveis miserias, nenhumamente curava; e que em summo gráo temia ser excluso da que para sempre ha de durar: accrescentando ao peditorio, não ser possivel vencerem e derrotarem tão poucos homens tão insigne multidão de trópas; mas que elle víra hum grosso de Cavalleiros cruzados pelos peitos, e que tanto resplandor de si lançavão na peleija, que deslembravão os olhos, o que lhe fez cobrar descorçoamento e deixar o campo. Por tanto duvidava, que sô a divindade de Jesu Christo era para com fé summa se adorar, e com sempiterno obsequio se celebrar. 239D. Affonso lhe satisfez não sómente ao que pedia, mas ainda lhe conservou a vida, e de seu zelo e valentia se servio em varias occasiões. O Irmão d’ElRei ora já das feridas que recebeo naquella desatinada quéda, ora já de mágoa, morreo em poucos dias; e o que mais he de entristecer, morreo na pertinacia de seus impios e malvados erros, sem que valesse razão alguma a arredallo delles. D. Affonso assegurado na posse de seu Reino, muitas victorias com favor da Divindade ganhou aos inimigos; e com tanto zelo cultivava a Religião Christã, que nunca empregava mais tempo em dirigir os negocios, que em incitar seus subditos ao culto da piedade Catholica. Tinha outrosim frequentes conferencias com o povo, em que lhe fallava da justiça, da piedade, da severidade do juizo Divino, do galardão da vida eterna, da disciplina Christã, e dos exemplos dos Santos Varões, que suas pégadas seguião. Em quanto desfructou vida, conteve perpetuamente o Reino nos officios da piedade Christã com singular encomio da probidade e da justiça. ElRei D. Manoel inteirado do grande ardor, com que a Religião lavrava naquellas partes, elle que por indole, por zelo, por doutrina se abrazava na dilatação da Fé, fazia por dar remate e coroa ao que D. João seu Primo tão venturosamente principiára: e por isso no anno 1504 mandou aquellas terras homens letrados nas santissimas 240sciencias, conspicuos no exercicio da Religião; e muitos Mestres nas Artes liberaes, que abrissem escolas, onde instruissem meninos: e tambem deo por bom mandar igualmente com elles obreiros primos de varias artes e officios. E para mais arreigar aquella gente na recem-vinda fé, fez que carregassem nos navios vestimentas sagradas, dellas de seda, e algumas com ouro; muitos livros, que constassem da Doutrina Christã, e theor dos Sacramentos, da Vida de Jesu Christo, e exemplos das Vidas dos Santos, e calices tambem de prata para as Missas, e Cruzes do mesmo metal, thuribulos e mais cousas necessarias, assim para transmittir a disciplina de Jesu Christo, como para as mais ceremonias da Igreja. Ajuntou tambem tenças e sustentação com munificencia e largueza para os Sacerdotes, e mais pessoas encommendadas de vaguear por aquellas regiões; e dado que nesta incumbencia despendia grosso cabedal, nenhum fructo, nenhum emolumento para si, com que podéssem engrossar os seus thesouros, mas sómente os eternos e divinos com inflammado desejo se propunha. Logo que estes Religiosos sujeitos aportárão aquellas costas com os sagrados dons, que ElRei enviava, acudio subito aquella gente em bando innumeravel para os tomar sobre seus hombros; e quantos vinhão, com olhos de acatamento olhavão aquelles Religiosos como varões baixados do Ceo. ElRei de Congo 241os acolheo com extrema amizade, e deprecou a ElRei D. Manoel por tamanho comprazimento, sempiterna bemaventurança: e muitos vinhão á porfia de todo o Reino assentar-se no registro do Salvador, para purificados na fonte da graça, incetar novo theor de vida. E por quanto nem os Sacerdotes entendião a lingua da terra, nem o vulgo desta a lingua Lusitana, lhes servia ElRei de interprete; e o que os nossos dizião (que tinha sufficientemente aprendido o Portuguez), lho declarava em práticas, que lhes fazia. ElRei D. Manoel entreveio por cartas, que mandasse seus filhos a Portugal, que elle tomaria á seu cuidado serem instruidos no Latim não sómente, mas em todas as mais altas Sciencias: d’onde aconteceo, que não só os Principes, mas muitos mancebos nobres vierão a Lisboa, e aprendêrão todas as Artes, que competem a gente não vulgar, fazendo ElRei D. Manoel os gastos de sua vivenda. Destes houve, que applicados com fervor ás Divinas Letras, aggregárão ao redil da Igreja, quando voltárão á Ethiopia, muitos infieis com seus sermões e exemplos de virtude. Em fim obra foi de D. Manoel o acabamento de tão preclara empreza. Neste anno, bem deliberado a não intervallar ao desejo da conservação da India, aprestou grande Armada, a que deo por Capitão Mór Lopo Soares de Alvarenga; mas do que elle na India obrou, n’outro lugar fallaremos, que releva dizermos 242antes o que os Albuquerques lá fizerão. Partio Affonso de Albuquerque de Lisboa, oito dias antes que Francisco de Albuquerque podésse desancorar: este porém chegou á India primeiro que elle, e com duas náos sómente velejou para Anchediva, a cuja ilha chegou juntamente Nicoláo Coelho, que da outra náo era Capitão; e o da terceira náo, que era Pero Vasques da Veiga, ou as ondas, ou algum incendio o consumio desgraçadamente, ou qualquer outro infortunio, qual nunca se soube ao certo. De Pero de Ataíde e dos outros Capitães, que alli achou, comprehendeo Albuquerque como os Sodrés tinhão perecido, e ElRei de Cochim despossuido do Reino pelos poderes do Çamorim; o que sabido, não deo cabe a demoras; e a despeito do Inverno e sua sanha, partio para Cananor com aquelles seis baixeis, quatro que com Pero de Ataíde ancoravão em Anchediva, e os dous de sua conserva. ElRei de Cananor lhe contou mais largamente o desastrado successo de Trimumpará, suas perdas e trabalhos. De Cananor arrancou mui expedito para aportar a Vaipi, ilha adjacente a Cochim, onde Trimumpará ainda residia: e os nossos ao avistar dos navios, cobrárão incrivel alvoroço; ElRei mesmo se não pôde refrear, e voz em grita: Portugal, Portugal, corre a abraçar os Capitães. Em recompensa os nossos com grande clamor o excitão logo a cobrar esperanças de se restaurar 243na antiga magestade; e os Naires de Calecut, que erão de presidio em Cochim, de medrosos desalojão subito da Cidade. Já nesse tempo Duarte Pacheco, que de Lisboa partíra com Affonso de Albuquerque, tinha lançado ferro naquellas praias, e se juntára com Francisco de Albuquerque. Este depois dos elogios, que deo á fieldade de Trimumpará, e gratulação da parte d’ElRei D. Manoel, como o visse desprovido, e embaraçado vehementemente com a penuria de moeda, do cabedal d’ElRei de Portugal lhe deo (além de outras dadivas e presentes) dez mil cruzados: dadiva que a todos deixou em grande espanto, e que a Trimumpará foi muito grata, em razão da estreiteza dos tempos; e por quanto os Reis da India, dado que de sua natureza sejão altivos e arrogantes, e muitas riquezas possuão, contentão-se com mui tenue comestivo, e resguardão muito ao dinheiro. Quando a fama deste donativo se derramou, pasmárão os convisinhos Reis, pasmou o Çamorim. No mesmo dia Francisco de Albuquerque (que em negocios de tamanho porte não gostava de procrastinar) trasladou Trimumpará a Cochim, e alli em nome d’ElRei D. Manoel o assentou na posse da Cidade e de todo o Reino; e por não consentir que entorpecessem no ocio os seus soldados, nem o vigor se roborasse nos inimigos, investio com outra ilha, tambem fronteira a Cochim, cujo senhor deixára ElRei 244de Cochim para passar ao de Calecut; e dando de sobresalto nos inimigos, os decepou, e matando muitos delles, queimando algumas Villas e Aldeias, virou logo sobre Cochim. No dia seguinte correo a outra ilha dos dominios de Trimumpará, cujo Donatario tambem cahíra no mesmo crime de rebellião; e tinha elle tres mil esforçados guerreiros postos em armas, e muitos paráos de Calecut bem petrechados, que rodeavão a ilha para acudir com soccorro. Aqui distribuio Albuquerque os seus Capitães de sorte, que Pacheco investisse por mar com os paráos, que Antonio do Campo, Nicoláo Coelho, e Pero de Ataíde peleijassem na vanguarda com os inimigos. Pacheco arrancou vóga contra os paráos, destes desarvorou, e os mais poz em fugida, e muitos dos adversarios levou a ferro e fogo. Os outros Capitães no primeiro remettimento desbaratão os inimigos, arrancão a tranqueira, que guardava os Paços do Principe, entrão em Palacio, e dentro delle matão o Principe, e deitão fogo ao edificio, e nesse mesmo dia voltão depois de ganharem a victoria. Forão na manhã seguinte a outra ilha chamada Repelim os navios todos, porque tambem o senhor della tinha igual crime commettido, e que avisado pelo receio, por evitar o supplicio dos outros traidores, se ladeava de grandes forcas para a resistencia: dous mil Naires seguião suas bandeiras. Veio pois presentar-se na praia para nos impedir o desembarque. 245D’huma parte e d’outra se peleijou valentemente; mas por fim os inimigos forão forçados a se valer da fuga para salvar-se da morte; e os nossos os perseguírão até á metropoli da ilha; e o Principe della, que vio o derradeiro aperto, juntou os fugitivos destroços; e formando como pôde nova haste, valerosamente combateo. Restaura-se a batalha, e mui acerrima foi e mui renhida, té que em fim nos voltárão costas os contrarios. Depois de alancearem muitos, e despenharem da ilha ao mar o resto, derão-na os nossos a sacco aos soldados de Trimumpará. Saqueada a ilha, mandou Albuquerque lançar fogo e deixar em cinza Villas e Aldeias; o que assim cumprido, veio ter Affonso de Albuquerque com ElRei, que mui satisfeito era já de tão venturosos acontecimentos, e lhe pedio faculdade de edificar huma fortaleza, em que os Lusitanos podessem rechaçar todo o perigo, que os adversarios lhes intentassem, e mais facilmente o estado delle Trimumpará defendessem da feridade do Çamorim. Mui facilmente lho outorgou ElRei, e demais lhe disse, que a vida que possuia, que a recuperada dignidade, e o fortalecello contra os arrojos de tão preverso inimigo, a elle Albuquerque, a seu clarissimo Rei, e ao esforço dos Portuguezes, reputava ser devido o agradecimento. Além de que, se lhe parecia a elle a edificação da fortaleza util a ElRei D. Manoel, queria sobre si tomar 246elle a despeza. Com isto se fez escolha d’hum sitio mui accommodado para ella, que era huma ária sobranceira ao mar, onde elle mais se estreita, e d’onde cada vez que ElRei de Calecut intentasse commetter combate ás náos, podessem os nossos folgadamente lhe vedar a entrada. Aos 27 dias do mez de Setembro de 1503 se lançárão os alicesses, e acudia á obra por mandado de Trimumpará infinda quantidade de gente: os Lusitanos mesmos se não valião das escusas da nobreza, nem dos annos para isentar-se do trabalho, dado que ElRei lidasse em arredallos da fadiga. Gastados erão quatro dias já no lavor da fortaleza, quando em Cochim entrou Affonso de Albuquerque, que dando mais mãos e mais fervor á obra, galgou ás ameias, e foi de todo concluida. Seguio-se ter elle conselho com os demais Capitães, e partir com elles e alguns soldados de Trimumpará a certos póvos pertencentes ao Caimal de Repelim, que (como dito he) de Trimumpará se rebellára; ficavão elles a vinte mil passos de Cochim, e não distantes da beira do rio, quando monta a preamar. Dão os nossos em lanchas e pequenos vasos de subito sobre os inimigos; a muitos matão, e os demais desbaratão e affugentão, e vão talando e destruindo quanto encontrão. Com o estrago se estende tambem rapidamente a noticia delle pelos contornos, e a grandes gritos se derrama, que vai tudo em gran derrota. D’huns a 247outros vai passando o clamoroso sobresalto, de maneira que n’humas partes por corredores que lá forão com a noticia, n’outras pelo grito successivo passado como de éco a éco, em pouco tempo se aggregou numeroso corpo. Erão mais de seis mil os Naires, que accorrêrão repentinamente em seu soccorro: então os nossos começárão pouco a pouco, mas sem perder a fórma, a ir cedendo. Vinhão-lhe sobre e mui ferozes os inimigos, e lhes davão grande cançaço, por quanto não só de longe com lanças e arremessos, mas já peleijavão a talho de espada; e se não fora a boa ordenança, em que souberão conter-se, terião os nossos muita mortandade; e como os baixeis não ficavão longe, e não houve desmancho na fórma da retirada, todos (não sem grande trabalho e risco de vida) se recolhêrão ás lanchas e navios. Todavia Duarte Pacheco não achando a sua lancha (que temerariamente os seus tinhão arredado do sitio), esteve em grande transe, porque se apinhou em roda della tão grossa coroa de inimigos, que o acabarião, antes que viessem soccorrello. Mas como elle era resoluto e forte, com o brio que lhe era natural, lhes rebateo o impeto, até que os Albuquerques avistando o perigo, em que elle estava, corrêrão a franqueallo. Assim recolhidos todos, se fizerão na volta de Cochim. Ferírão-nos oito homens na refrega, nenhum foi morto: dos inimigos morreo grandissima copia, 248cativamos-lhes no rio sete paráos e quinze lhes queimámos. Na noite seguinte (que o ardor que lavrava nos Capitães, não consentia repouso nos soldados) se mettêrão nas lanchas e outras embarcações para ir destruir outras Aldeias do Caimal de Repelim. Tomou para si a vanguarda Affonso de Albuquerque; e como os inimigos estavão de vigia e sobre as armas, formão-se em continente, e mui agramente nos resistem; alli nos matão dous homens e nos ferem vinte. Este caso inopinado embaraça a Affonso de Albuquerque, que não vê theor de resistir a tal poderio de soldados, nem de se retirar a salvo: portou-se todavia como fazello deve hum animo de prova, peleijou valente, até que appareceo o dia, e os outros Capitães chegárão, sustendo o impeto dos contrarios até lhe vir soccorro. Francisco de Albuquerque com os outros Cabos se lanção das lanchas á praia, e com rapidez incrivel entrão no sitio, em que começára o recontro: com este refresco tal brio recresceo nos nossos, que puzerão os inimigos em fugida; a maior parte delles bem sangrada foi de nosso ferro, e deitámos fogo ás Aldeias: nem findou aquelle dia sem irem accommetter outra ilha por nome Cambalão, onde derão morte a mais de 700 homens; e não satisfeitos ainda, entrando por outras terras pertencentes ao dominio d’ElRei de Calecut, fizerão estrago no povo, e devastação grandissima nas fazendas; 249sobrevindo porém 6$000 homens para lhes conter o impeto, forão rechaçados de máo gésto. Entretanto Duarte Pacheco venceo e poz em fuga 34 paráos do Çamorim, que vedavão o porto de Cochim aos mercadores; e como depois destes prejuizos causados aos inimigos, os mercadores não se affoutassem a acudir a Cochim com a pimenta e outras especiarias, pareceo bem a Affonso de Albuquerque ir a Coulão e lá carregar tres navios. Era esta Cidade populosissima antigamente naquellas paragens, e de grande opulencia; mas depois que os commerciantes começárão a frequentar Calecut, e engrossar esta em riquezas, declinou grandemente Coulão de seu poder. Fica ella a 48$000 passos de Cochim voltada para o nascer do Sol; sua navegação pelo rio acima he segurissima, excepto quando em suas gargantas d’huma e d’outra margem do rio põem embuscadas os inimigos, por ser mui profundo e juntar suas aguas com as aguas que lhe traz a maré, que o monta, faz que seu ancoradouro he optimo. Suas moradas, pagódes, religião, costumes e leis, são quasi os mesmos que já dissemos erão os dos mais Malabares. A gente he mui usada á guerra, pela que continuamente trazem com ElRei de Narsinga. Por quanto bem que o Reino de Narsinga occupe em grande trato a costa da India, que respeita o Sol nascente, como se estende muitissimo, vem ainda abarcar em seus 250limites, confins do Sol poente. A maior parte do anno a passa ElRei nas Cidades mediterraneas, deixando Coulão confiada a homens de abonada lealdade. Toda essa região he tambem habitada de Christãos, que de S. Thomé tem a santa crença, e que em tanta variedade de tempos, mudança de reinados, adversos azares e incidentes, com fé sempre invencivel e constante a conservárão. Ha na Cidade hum Templo antiquissimo, que he tradição entre elles ter sido edificado pelo Apostolo S. Thomé, cujo corpo jaz sepultado na costa de Narsinga n’huma mui venerada não só dos Christãos, mas ainda dos Mouros e Pagãos. E he fama constante, que pelos merecimentos do Santo Varão obra a Divindade alli muitos milagres; e muitas pessoas, que em gravissimas enfermidades e outras afflicções imploravão sua ajuda, forão miraculosamente aliviados, e despedidos de grandissimos soçobros. No tempo, em que Affonso de Albuquerque aportou a Coulão, meneava não lerdamente o governo huma Rainha viuva em nome de seu filho, que não tinha ainda idade competente: e foi mui honradamente recebido pelos Maioraes da Cidade, que em nome da Rainha se prestárão a dar-lhe comprazimento em tudo. Pelo que carregando a seu grado as náos, e concluido concertos de amizade, e entregues á lealdade régia os Portuguezes, que para bem de commercio alli ficavão em nome d’ElRei D. 251Manoel, veio de volta a Cochim. Em quanto estas cousas se passavão, ElRei de Calecut considerando na fraude, em que o lançárão as insinuações dos Arabios, com muito segredo, porque estes lha não estorvassem, assentou instituir alliança com os Lusitanos, a cuja resolução e a mais brevemente concluilla o impellião as boas razões de Naubeadarim, que, como dito he, constava propender egregiamente para a Nação Portugueza por affecto de seu animo. Estas forão as condições do tratado: Que serião desarmadas incontinente todas as náos, que para fazer guerra aos Portuguezes, ou a seus amigos, tinhão lançado ao mar: Que serião restituidas todas as fazendas d’ElRei D. Manoel, que no arruido, em que Aires Correa foi morto, os Arabios, e seus outros socios tinhão desbaratado; e que por ellas ElRei de Calecut pagaria em tempo determinado certa quantia de pimenta: Que não daria faculdade aos Mouros de navegar na Arabia. E pedia mais Francisco de Albuquerque, que dous Milanezes, que tinhão transfugido para elle Çamorim, lhe fossem remettidos. Este unico artigo recusou ElRei de Calecut, por ter por grandissima baixeza entregar homens, que se tinhão livrado na sua lealdade; o mais tudo concedeo. Isto assim determinado, partio Naubeadarim para Cranganor, para lá mandar pezar grande parte da pimenta, e a facultar a Duarte Pacheco, que por ordem de Francisco 252de Albuquerque alli viera a recebella. Succedeo neste interim, que quando Pacheco tinha mandado metter nas náos boa parte da pimenta, navegou para Cranganor carregado de pimenta hum navio, que era de ElRei de Calecut. Como viessem dar parte disso a Diogo Fernandes Correa, mandou este sem ordem de Francisco de Albuquerque, que lhe trouxessem o navio a Cochim. Os que estavão no navio, que se vírão prisioneiros, clamão contra esta indignidade, quando ha huma paz solemnemente celebrada entre ElRei de Portugal e o Çamorim, e que apezar da paz já feita, os Portuguezes tomem cativos á forca de armas os Ministros d’ElRei de Calecut e seus criados, e saqueem a pimenta d’ElRei. Além de que, aquella pimenta a mandava ElRei de Calecut a Cranganor para ser entregue aos Portuguezes em desconto da promessa real. Que não quizessem por força extorquir das mãos dos Officiaes d’ElRei e com tanta offensa delle o que sem injúria de ninguem logo tinhão de receber. Mas nada obstante, porfia mui tenazmente Diogo Fernandes no determinado aggravo, e cativa o navio com seis Naires mortos e muitos mais feridos. Dos nossos não poucos sahírão feridos da batalha, de sorte que nos custou muito sangue huma pequena quantia de pimenta, que com violencia e injustiça lhes roubámos. Naubeadarim logo que o soube, requereo de Francisco de Albuquerque 253désse satisfação ao Çamorim: por quanto fora quebrantada a alliança, e gravemente offendido o animo d’ElRei, e hum campo aberto aos que anciavão baralhar a paz, de temerariamente levantar cruelissima guerra: além de ser feissimo para Portuguezes incorrerem elles mesmos nas maldades, que lidavão por vingar nos outros. E se pareceo justo moverem elles guerra ao Rei de Calecut, por não ter querido desaggravallos, castigando os que tão máo feito commettêrão na morte de Aires Correa, e no desbarato da real fazenda, e dar assim satisfação a ElRei D. Manoel, porque ficaria não vingado igual insulto, quando por Lusitanos perpetrado? Porque não daria a ElRei de Calecut qualquer satisfação, com que lhe apaziguasse o animo irritado de injúria tão atroce? Mórmente hum Rei tão mudavel e colérico, tão apaixonado dos Sarracenos, que induzido de suas fallas, sem de nós ter recebido aggravo, nos inferíra todos os destroços, que tinhamos padecido. Que não teria elle por bem causar-no, quando sentisse da sua parte a justiça da guerra contra nós? Estas e outras muitas razões deste theor, que Naubeadarim lhe repetia, desprezou Francisco de Albuquerque. Este crime escureceo todos os louvores, que tinha grangeado. Foi maldade nelle menos prezar a fé dos tratados? foi cobardia em não hum insensato, hum temerario? Deliberou-se o Çamorim, levado de gravissima cólera, 254a renovar a Armada, a alistar guerreiros, para intentar guerra a ElRei de Cochim e aos Portuguezes: e Trimumpará que o soube, entrou a pedir instantemente a Francisco de Albuquerque, que lhe deixasse guarnição tal, que podésse rebater de suas terras o impeto das forças d’ElRei de Calecut; porque seria cousa indigna, que Lusitanos destituissem de amparo hum Rei, que pelo zelo da Nação Lusitana estava no caso de se ver opprimido de huma guerra tão grave, como aquella ameaçava ser. Francisco de Albuquerque tudo prometteo; mas nada preencheo como era devido, porque huma só náo deixou com duas caravélas, cuja fórma descrevemos já, e mais hum pequeno baixel, e cem soldados, que com 50, que já com elle erão, montavão a 150 Portuguezes, que ficavão para sopportar o encargo de tão formidavel campanha. Tinhão por Capitão Duarte Pacheco, que com summo gosto se encarregou da Praça, e que poria a vida, se necessario fosse, pela gloria de Jesu Christo, e por obsequio d’ElRei D. Manoel. Chegou neste tempo de Coulão Affonso de Albuquerque, e depois partio de Cochim com Francisco de Albuquerque para Cananor, onde soube por cartas de Rafael Reinei, feitor da pimenta, que lá lhe havia de mandar entregar Naubeadarim, que grandissima guerra se aprestava; o que tambem lhe indicavão outras cartas de Cogebique, de quem já fizemos menção, 255e do muito que favoneava a Nação Lusitana. De Cranganor passárão ao maritimo de Calecut, d’onde enviárão ao Çamorim dizer, que lhes remettesse os Portuguezes, que em seu poder retinha, cuja proposta rejeitou elle; e assim tomárão o caminho de Portugal. Affonso de Albuquerque entrou em Lisboa em 17 de Julho de 1504; Francisco de Albuquerque e Nicoláo Coelho não se sabe de que maneira perecêrão: nunca mais delles se soube, nem escapou quem désse noticia de sua morte. Pedro de Ataíde, espedaçando-se-lhe n’hum banco a náo, salvou-se em terra, e com parte dos que com elle hião, passou a Moçambique, onde falleceo; a outra recolheo-se a Melinde. Quasi no tempo em que estas cousas acontecêrão, foi embatido de mui rijos temporaes o Capitão Antonio de Saldanha, que ElRei D. Manoel enviára de Lisboa, depois da partida dos Albuquerques, com tres náos, para infestar os mares, que demorão entre o derradeiro Cabo da Ethiopia, chamado Guardafu, e o seio Arabico. Hum dos Capitães de sua conserva Diogo Fernandes Pereira, separado das outras náos por huma tormenta, foi surgir a Melinde, e de lá foi ter a Socotorá, ilha atélli desconhecida dos nossos, não muito despegada do seio Arabico, pelo Indico Oceano, onde assentou de invernar. Por ignorancia do Piloto não seguio Saldanha igual carreira, antes foi dar a huma ilha chamada S.Thomé, 256que fica debaixo da Linha; e ao sahir della tal tempestade lhe sobreveio, que hum dos Capitães Rui Lourenço Ravasco se lhe perdeo de vista. Indo na intenção de montar o Cabo de boa esperança, o Piloto, que já cuidava tello dobrado, nesciamente o metteo n’huma enseada, que por quanto elle alli fez aguada, se chama a Aguada do Saldanha. E Ravasco, que muito antes que elle tinha costeado o Cabo, foi navegando a Moçambique, e de lá a Quilôa, onde vinte dias esperou por Antonio de Saldanha; e vendo que tardava além de seu presupposto, se fez á véla para a ilha Zanzibar, de que já fizemos menção. Esta ilha fica longe de Mombaça para o Poente 80$000 passos, e entre ella e o continente ha hum braço de mar; mas tão estreito, que nenhum navio póde por alli passar, que não seja facilmente visto e da ilha, e da terra firme. Em torno desta ilha costeou Ravasco dous mezes; tomou em varias occasiões, além de 20 náos dos Zanzibares carregadas de muitas mercadorias, que seus donos resgatárão, segundo o preço que elle dizia. A injustiça de Ravasco ateou gravissimo despeito naquella gente, e alheou de nós os animos de muitos, que tinhamos trato de amizade c’os naturaes da ilha. Mandou o Maioral della dizer a Ravasco, que muito se maravilhava dos fóros, que tomava hum Capitão Portuguez, cuja Nação (tinha elle ouvido) respeitava religiosamente 257os tratados, de saltear tão ferozmente os bens daquella ilha affeiçoada aos Lusitanos. Que do mais que levado tinha, não curava; sómente as armas e as bombardas, que nos navios erão, lhe restituisse, e com o resto se ficasse. Mas Ravasco não só se não rendeo a tão justo peditorio, que antes lhe tornou mui aspera e mui injuriosa resposta: e deste novo aggravo escandalizado o Principe, armou alguns paráos pequenos, com que peleijasse com Ravasco. Mas Gomes Carrasco e outro soldado por nome Lourenço Feio, por mandado do Capitão, antes que os paráos se ordenassem e sahissem, saltão na lancha (como a náo não podia chegar a terra), e com armas e artilheria vogão contra os paráos, quatro dos quaes rendem, e os mais põem em fugida; matão-lhes alguma gente, e nella o filho do Principe da ilha. Este vendo que nem por legitimo direito, nem por armas podia alcançar a sua demanda, antes que aquelle mal corresse em perdição da ilha toda, propondo o sentimento de prejudicado nos bens e na morte de seu filho, commetteo pazes a Ravasco, e acceitou a condição de pagar com titulo de tributo a ElRei D. Manoel certa quantia de ouro em cada hum anno. Concertada deste modo a paz, partio Ravasco para Melinde; e como havia renhida guerra entre os Reis de Melinde e de Mombaça, nessa occasião Ravasco para assustar o de Mombaça, surgio com sua náo no 258porto desta Cidade, e alli cativou peleijando dous navios alterosos mercantes e tres outros mais pequenos. Entre os prisioneiros, que nas náos rendérão, entravão 12 Arabios, por sua nobreza e cabedaes mui qualificados na sua Cidade, que se chamava Brava, e distava de Mombaça 400$000 passos; e estavão alli aguardando por outra náo carregada de muita fazenda de grande preço. Depois de se resgatarem por dinheiro, sujeitárão a sua Cidade, debaixo de fé jurada, que elles e os mais Cidadãos serião d’ora em diante sob poder d’ElRei D. Manoel: e igualmente lhe assinalou Ravasco o tributo em ouro, que a D. Manoel havião de pagar cada anno. Firmados os pactos, appareceo a náo por que esperavão, em que Ravasco não tocou, nem permittio que nenhum outro aggravasse os alliados. Em tanto veio ancorar a Mombaça Antonio de Saldanha com tres navios, que de viagem cativára. ElRei considerando estas náos como huma especie de Armada, receando prejuizo das armas Lusitanas, encetou pazes com o de Melinde; e Saldanha navegando para á India, arribou ás ilhas de Canacan e de Anchediva; e o que depois fez, em outro lugar o contaremos.
Neste anno de 1504 no mez de Outubro o Condestavel D. Affonso, sobrinho de D. Manoel por seu irmão D. Jaime, de quem acima fallámos, abatido de grave molestia, 259falleceo da vida na flor da adolescencia, deixando huma filha unica, que foi Senhora de rara formosura, e singular em virtudes, que depois casou com D. Pedro, Duque de Villa-Real, muito esforçado Varão. Tambem pelo mesmo tempo deixou a vida mortal Isabel, Rainha de Castella, acompanhada de agudas saudades, e copiosas lagrimas de toda a Hespanha: por quanto fora esta Rainha de animo tão eminente, de tão especial prudencia, e de tantos dotes de bondade e religião enriquecida, que seu nome merece depositar-se em perpétua lembrança. No ultimo de Dezembro do mesmo anno pario a Rainha D. Maria huma filha formosissima, que foi baptizada com o nome de sua Avó D. Beatriz, e casou depois com Carlos, Duque de Saboia, como logo diremos. Neste mesmo anno houverão grandes e amiudados terremotos, muitos edificios forão destocados, e a terra se abateo em muitas partes, e n’outras se fendeo horrendamente. Deixavão os homens suas moradas, e nem ousavão avisinhar-se das montanhas, receosos que as casas esbroando-se sobre elles, ou os montes abalados de seu assento os assoberbando, não morressem de miseravel morte: retiravão-se aos campos e planicies, aposentando-se em barracas. Todas estas desgraças acontecião no Reino, em quanto D. João de Menezes em Africa commettia hum feito não indigno de memoria.
260
Ha huma Cidade bem nomeada na Mauritania, a qual Larache se nomêa, que fica 20$000 passos além de Arzila, e do rio Zilia, que desemboca no Oceano, he regada; e tinhão os Mouros tomado cinco náos Portuguezas, que então ancoravão no porto de Larache. Soube-o Menezes, e muito lhe travou no animo; pelo que tratou de investir com o porto e reconduzir as náos. Havia na fóz do Zilia huma torre bem fortificada pela natureza e pela arte com armas e pelouros, e bem atalaiada pelas sentinélas; e servia de couto a quantos piratas sahião daquella região a fazer prezas. D. João de Menezes cogitou comsigo como poderia passar a barra e entrar no ancoradouro, sem perigo que da torre parecia sobrestar-lhe. Depois de o ter deliberado e resolvido em seu conceito, succedeo avistar elle cinco fustas e huma galera irem de derrota para a banda do Poente; o que bem advertido por elle, mandou vigias por terra e outros por mar, que especulassem á risca a carreira que levavão; e vierão dizer, que todas enfiárão a barra de Larache, e varavão em terra, de maneira porém, que a galera ficava pouco arredada da agua. Bem informado disto, manda subito preparar quatro caravélas, chama a si os soldados, que conhecia mais capazes de expedir aquelle feito; e levando ancora de noite, vai em demanda de Larache, e entra ao amanhecer pela fóz do rio. Accorrem os Mouros, 261dão fogo ás bombardas, disparão enormes pelouros, e trabalhão a toda a força de empecer que os nossos entrem; mas Menezes, que esperava a jusante da maré, logo que a sentio ganhar impulso, tapessa os costados d’huma das náos com cobertores de lã, com saccas, que tambem de lã mandára encher; e atravessando contra a pontaria da terra, porque aparasse as balas, faz passar as outras caravélas ao abrigo desta até montar o porto. Os Mouros em tanto com settas, dardos, e tiros de funda rijamente os avexavão; porém D. João muito a seu máo grado delles, penetrou até ao seio com toda a sua Armada. E como o rio por caudaloso e pelos accrescimentos da preamar era então profundo, podérão mui bem os nossos entestar com as margens; e logo os que para a facção estavão ordenados, saltão em terra, e mettem todo o empenho em lançar fachos á galéra, com que pegasse fogo: e os Mouros pelo contrario acodem de toda a parte para o impedir. Trava-se atroz peleija; e d’huma parte e d’outra por longo tempo acerrimos combatem, té que finalmente mortos muitos dos inimigos, recuando já bastantes gravemente feridos, pozerão-se os mais em declarada fugida, e os nossos no alcance. Mas D. João de Menezes não consentio que fossem mais avante, porque o seu proposito era queimar a galéra, como logo mandou; e as cinco fustas com dous navios longos, e huma náo 262Portugueza (que as tinhão já varado em terra) forão logo postas de nado; os tres outros vasos Portuguezes como não foi possivel desvarallos, deitou-lhes fogo, e ardêrão com a galéra. Concluido este feito a seu sabor, vendo Menezes que concorria grande bando de Mouramas, e que a maré lhe era favoravel, porque já começava a baixar e arredar-se das ribanceiras, se recolheo sem prejuizo. Hum homem só se perdeo nesta contenda; e tendo sahido do porto de Arzila com sós quatro navios, entrou com doze. Atemorizou altamente os inimigos esta audacia e actividade do Capitão Mór, de vir no intimo de seu porto tão fortemente presidiado, entre guarnições, que davão por tão seguras, arrojadamente investillos, queimar-lhes os reus baixeis, e com tão poucas náos maquinar n’huma Cidade tão fortificada estrago tal e tal ruina. Não os affligia tanto a morte de tanta gente, nem a perda dos navios, quanto o avultado da emprehendida façanha, porque receavão que aos nossos não recrescessem os brios com o bom successo d’huma audacia venturosa, bem que ao parecer pouco considerada, e com elles se abalançassem a maiores emprezas. D. Manoel, quando esta nova recebeo, demostrou muito contentamento, e honrou a D. João de Menezes com os louvores devidos a seu esforço, sagacidade e industria. Mas elle que não deixava resvalar occasião alguma de bem obrar, 263excogitou novo destroço daquelles inimigos.
Ha huma montanha, que se diz Farrobo, que eu suspeito ser membro do menor Atlante, arredada de Arzila 20$000 passos, corre-lhe pela falda hum rio, que nas cheias de Inverno incha tanto em cabedal, que não consente váo: fiados nisso os inimigos, invernavão descançados nos aduares, que em grande copia salpicão a montanha, e alli apascentão grandissimos rebanhos e armentios. Ora Menezes no interior de seus aposentos, porque não fosse divulgado, mandou construir duas barcas, cujo prestimo não podérão adivinhar os mesmos carpinteiros que as lavravão, e a quem commettêra segredo, e erão acommodadas no pezo, ao que hum possante jumento póde carregar sobre o costado. Acabadas ellas, não aguardou mais que apontar-lhe huma noite bem chuvosa, e bem revolta de tempestade; e acolhendo huma da feição que a elle desejava, mandou dar o sinal para a designada correria. Admirão-se todos, que com hum máo tempo tal oução a trombeta, quando em tão desatada chuva emmudece todo o clangor de guerra; posto que suspeitem não caber temeridade em Capitão tão avisado, e com tanto uso de peleijas. Juntão-se todos armados, e o seguem sem a menor repugnancia, nem lhe perguntarem qual era seu pensamento, ou aonde se encaminhava. Erão os que elle levou comsigo acima de 220 Cavalleiros, a quem 264quando lhe pareceo acertado, descubrio qual era sua deliberação, quão factivel era a empreza, e o que delles todos requeria, advertindo aos que hesitassem ácerca do commettimento, que podião retirar-se a suas casas; por quanto elle mais affoutamente affrontaria qualquer facção com poucos, mas esses esforçadissimos, que com muitos que de todos os perigos se receão. Nenhum porém se esqueceo tanto de seu brio, que voltasse rédeas ao cavallo. Logo que chegárão ao que tendo assoberbado as margens, allagava muito mais campo do que tinhão presumido, fez pousar na borda as barcas, que os jumentos transportárão; e logo encommendou a hum de seus criados por nome Fernando de Freitas, que tomando nos dentes a ponta d’huma corda, atravessasse o rio a nado até montar huma pequena empolla de terra, que além do leito do rio, onde elle mais rapido discorre, se levanta acima da agua. Esta corda prendia já n’huma das barcas, pelo que apenas elle traspassou o alveo do rio, chegou á terra alta, e de lá vingou á margem opposta, tirou facilmente a si a barca; da mesma sorte tirou sem susto a segunda pela corda que á primeira estava atada. Quando huma e outra barca seguras pelas cordas de ambas as margens do rio, e que tirando d’huma banda a corda, que relaxavão da outra as barcas, facilmente hião e vinhão á vontade, segundo o requeria a travéssa do rio, tirão as 265séllas aos cavallos, e postas nas barcas, entrão nellas os Cavalleiros, levando de mão os cavallos pela rédea a nado; e logo que huns apôs outros tiverão todos atravessado a corrente, juntos na ribanceira opposta séllão de novo os cavallos, montão, e no silencio da noite vão seguindo Menezes por alagados e lamarentos pauis traspassados de prolixa e grossa chuva, e os cavallos com agua pelo peitoral. D. João de Menezes, que conhecia todos os reconcavos daquelles sitios, fez alto com toda a sua gente n’hum lugar mui a geito para embuscada, na intenção em que hia de cahir sobre os aduares, e lhes fazer o maior damno possivel. Apenas amanheceo, descêrão os montanhezes aos campos da planicie (que já era applacada a tormenta), huns a verem as suas searas, outros a levar a pasto os seus rebanhos, e delles a caçarem. Não queria ainda assim Menezes sahir de seu escondrijo, em quanto não avistasse tanta abundancia de gente, quanta elle queria colher de subito. Mas succedeo, que dous caçadores entrassem na selva da cillada; com o que lhe foi forçoso sahir a descuberto, e assim investio feramente com os que achou, cativou muitos, matou bastantes, fez grande preza, e reconduzio a salvamento o seu exercito: e chegado ao rio, fórça a passallo a nado as rebanhadas rezes, e depois nas barcas pelo mesmo theor que na passada noite, e mais folgadamente ainda, atravessárão 266os Cavalleiros a corrente, entrando em Arzila pela tarde, com grande admiração dos que nella ficárão; que não capacitar-se que n’huma noite assim tempestuosa vadeassem o rio, nem que vadeado este, escapassem á multidão dos inimigos callejados nas peleijas, quando mórmente era tão difficil a tornada; e que bastava cortarem-lhes as cordas das duas barcas.
Em quanto estas cousas se obravão na Lusitania, e na Africa, Trimumpará na India, e os Portuguezes, que com elle erão, com grandes guerras se vião attribulados. Por quanto ElRei de Calecut allistava, como deixamos dito, soldados com muita ansia, e juntava grandissima Armada, antes que os Albuquerques se encaminhassem para Portugal. Pacheco ao separar-se delles em Cananor, tomou a via de Cochim, onde ElRei vendo quão escassa guarnição os nossos lhe deparavão, e por amiudadas noticias sabendo ser tão copioso o exercito dos inimigos, que nem com arrazoadas forças pairar-lhe era possivel, inteirado ao mesmo tempo que não só os mercadores Arabios, por cuja via entravão de ordinario os trigos em Cochim; mas ainda que muitos dos Cidadãos tratavão de fugir do Reino, e não poucos passarem da banda do Çamorim, inteiramente desesperou de salvamento. Accrescia mais imaginar elle não ser possivel que Pacheco pozesse em seu animo provar o azar da guerra com tão pequeno terço, sendo mais 267para imputar a temeridade e a loucura, e com razão, do que a virtude o zelo, com que elle intentasse restaurar com baldadas armas empreza descorçoada ou já perdida. D’onde lhe veio cahir na opinião, que Francisco de Albuquerque o enganára. “Como assim (dizia ElRei) me não deixaria elle, que o podia, mais reforçado adjutorio, se fossem valiosas e do peito as suas promessas?” Pelo que se deo por zombado e ser esse o galardão de sua fé, de sua extremada constancia. Ansiado com taes considerações, vai ter com Duarte Pacheco, e com lagrimas conjurando os deoses, pede que lhe descubra qual he seu pensamento. Que tanto merecêra bem dos Portuguezes, que se elles em fraudulencia o arrojassem, lhe ficava perpétua causa de queixar se delles: “Nem peço eu (dizia lastimado) auxilio em tão deploravel estado, só que me não enganes te requeiro; porque no caso que abertamente me córtes as esperanças de ajudar-me, meios excogitarei de evitar total ruina. Já entretido de falsa confiança, não resguardo por em quanto he tempo, esquivada esta aberta de salvamento, em vão lamentarei depois meus infortunios, que nunca acabarei comigo de me capacitar te deixassem na India os Albuquerques para resguardo meu; mas sim para os negocios d’ElRei D. Manoel. Como de tantas náos que tinhão, de tanta soldadesca, te encarregarem só de tres 268náos, e ainda essas claudicando de algum reparo, e soldados tão poucos, se tivessem a peito de lhe valer? Nesses poucos navios e poucos soldados assás presidio deixárão, se tens de retirar-te a Coulão ou Cranganor, quando mais soçobrado com o pezo me vires das peleijas; mas se te incumbírão de rechaçar de minhas fronteiras o arrojo d’hum potentissimo Monarca, onde estava o seu juizo? Assim pelo Deos que adoras, te peço e te conjuro me não deixes no engano; mas antes me declares se tens na minha tribulação de soccorrer-me, ou se tens de te ir daqui, por esquivar a sobranceira calamidade.” A semelhante falla ardeo rijamente de cólera Pacheco, e mui menencorio se demostrou com ElRei por tão assinalada affronta. Que erão taes razões de homem, que duvidava de sua fieldade, maior desdouro que esse não póde pôr ferrete no brio d’hum Varão honrado. Respondeo-lhe, que a boa fé lhe fora sempre mais prezada que a vida; e não tinha que se queixar dos Albuquerques, que para abater o orgulho d’hum desacisado e facinoroso Rei, considerárão ser bastante o presidio que deixárão; nem está a victoria na multidão temerária e mal instructa, mas no conselho sim e na vigilancia de poucos. Além de que, a entrada no Reino de Cochim, separado do de Calecut por hum rio e hum braço de mar, era mui estreita e tal, que com 269pouca gente podia contra infinito grosso de inimigos ser guardada. E por ultimo, que tanto era o poder de Jesu Christo, supremo Senhor, que com hum só aceno, quando lhe apraz, derrota exercitos de adversarios; nem ha ahi poderes humanos, que possão lutar com os divinos; e que elle tinha como certo, que lhes não falleceria Deos com seu amparo. Assim que tomasse animo, que elle por si apparelhado era a peleijar até o ultimo arquejo da vida pelo seu estado e realeza, e tinha tão boa confiança no exito daquella guerra, que se preparava não só a vencer ElRei de Calecut, mas a brevemente levallo agrilhoado a Portugal. Este razoamento avivou o animo descorçoado de Trimumpará, e o allumiou com salvas esperanças. Sahindo de lá, mandou chamar os Arabios, que em posses e authoridade sobre-levavão aos outros, e os admoestou, que se não turvassem de receio algum, nem tomassem a resolução de deixarem hum lugar, em que tão commodamente vivêrão até então; e com muitos argumentos, que lhes allegou, lidou por lhes persuadir, que nenhumamente desconfiassem da victoria. E concluio por fim com ameaçallos mui atrocemente quantos por perfidia se separassem de Trimumpará, ou por covardia tratassem de fugir. Que elle publicamente o abonava, que o crime dos que cuidassem em desamparar a Cidade, não ficaria sem castigo: que nenhum imaginasse podello enganar, por 270quanto estaria sempre de vigia, e poria estorvo a todos os forcejos, e taes atalaias poria a todas as sahidas, que nem por mar, nem por terra algum lhe podésse escapar. Que assim quem quizesse bem á sua vida, demorasse onde estava e detestasse conselhos marcados de deshonra e de ignominia: quando não, tivessem por seguro haverem de se despedir da vida em acerbissimo supplicio. Estes ultimos periodos da sua falla, quando proferia as ameaças, soltou elle com voz tão azeda e tão terrivel, que a todos grandemente abalou de susto, que lhe chammejavão os olhos, e o semblante parecia abrazeado, e despedir das faces assômos de furor. Ao que responderão, que cumpririão com seus deveres, e que de nenhuma sorte darião a ElRei motivos de queixume, em quanto a perfidia de sua parte. E succedeo com isto depôrem, parte por medo e parte por tenção, as deliberações, que frequentes traçavão de desamparar Cochim. Duarte Pacheco discorria pelo rio, aqui punha atalaias, lá circundava com quantos póstos lhe era possivel, todas as sahidas por mar e por terra, porque a ninguem sobisse a audacia de intentar fugir do Reino. Acontecendo que trouxessem perante elle quatro pescadores, que contra suas ordens se affoutárão a ir pescar, elle tomando-a por motivo quererem fugir, gritando rijamente ordena, que bem amarrados os levem á ilha, e alli os enforquem. Logo 271que ElRei o soube, lhe pedio que perdoasse áquelles coutados homens; mas Pacheco lhe replicou, que muito o maravilhava n’hum Rei prudente a negligencia em punir tão atróz delicto; que quando a Republica perigava, não com descuidos, mas com severidade e firmeza se havia de governar. Que com o castigo daquelles culpados se fundamentava a disciplina, como com o perdão daria assás á ousadia dos que assim se quizessem evadir. Que da sua parte nunca consentiria em arriscar a salvação d’hum Reino inteiro, e a dignidade régia, pela inconsiderada clemencia do Soberano. Deo com tudo escondidamente a entender a ElRei por hum mensageiro fiel, que não tinha intenção de dar morte áquelles homens; que se usára aquellas ameaças, o fizera na consideração de infundir terror nos mais, para os conter em seus deveres. Os que porém elle fingio mandar enforcar, passados á ilha, traspassados de noite á Cidade, forão encubertos nos Paços d’ElRei, porque ninguem suspeitasse, que só amedrontados forão por fingimento. Nem Pacheco se dava por satisfeito com defender desveladamente a metropoli, se não fazia juntamente bastante estrago aos inimigos; e para o conseguir, transpunha a miudo o rio e assaltava as arraias de Repelim e outras terras comarcans; queimava Aldeias, matava os moradores, e com incrivel rapidez investia com muitos póvos quasi á mesma hora. Para reprimir-lhe 272os insultos, tirou mais prestes o Çamorim a campo o seu exercito, e se aproximou de Repelim; e nesse meio tempo foi Pacheco informado da gente, que ElRei de Calecut comsigo trazia, por cartas de Rodrigo Reinel, que lhas escrevia já gravemente abatido da doença, de que pouco depois falleceo. Espalhada esta noticia, começárão em Cochim a amotinar-se, e os perfidos Arabios solicitavão já a muitos a desertar; mas o medo de Pacheco, bem que a guerra os assustasse muito, bastou para contellos. He Cochim pela parte, por onde tinha devir o inimigo, olhando para o Septentrião, cortado por frequentes esteiros, que compõem quantidade de ilhas: e ora a passagem de soldadesca de humas ilhas a outras he muito empeçada; porém nem os esteiros dão váo para passar a pé, nem os frequentes baixos consentem accommodado transito a navios; e investir por mar com Armadas a Cidade de Cochim, era tambem mui difficultoso, pela estreiteza do porto. Tentar o váo, que o Çamorim passara já, quando sacudio Trimumpará do Reino, lhe parecia muito perigoso, porque bem se lembrava quanto damno alli recebêra, que seria muito maior agora, quando ás posses d’ElRei de Cochim accrescião os reforços dos Lusitanos. Fica situada não longe de Repelim huma ilha, que se chama Cambalão, que lhe demora mais ao nascente, cujo Principe, como dissemos, levantára 273obediencia de Trimumpará. Facil parecia atravessar della ao Reino de Cochim, e o váo não mal vadeavel para a soldadesca; pelo que se transferio lá ElRei de Calecut com a sua Armada e todo o exercito, para expugnado o váo, e além passada a trópa, desbaratar a gente de Cochim e a Portugueza. Mas Pacheco empenhava todas as suas posses pelo atalhar na passagem; e para no em tanto lhe manifestar quão pouco caso fazia do poder do Çamorim, n’huma noite atravessou com alguns terços até Repelim; e entrando no povoado, descoseu com o ferro pelos inimigos, delles dormidos a somno solto, delles acordados, e lançou fogo aos edificios. Accorrêrão muitos soldados, quando elle tocava já a recolher depois da empreza feita, e lhe picárão a retirada; mas os nossos lhe pairárão briosamente a investida, e airosos, e a salvamento se livrárão delles, menos oito, que voltárão feridos. Apparelhava-se o Çamorim a avisinhar-se do váo; então Pacheco distribuio assim os Lusitanos, deixou 25 na náo grande, governados por Diogo Pereira, Mestre da náo, a qual estava petrechadissima de armas, bombardas, e munições de guerra, encarregando-os de defender a Cidade e a fortaleza das correrias dos inimigos. Deixou na fortaleza 30 homens de presidio, com ordem de obedecer a Diogo Fernandes Correa; e na caravéla mandou entrar 26, a quem deo por Cabo Pero Rafael; 274e porque a outra caravéla estava a concertar, artilhou em lugar della dous pequenos vasos; hum, que deo a Diogo Peres com 23 soldados; outro, que reservou para si, em que metteo 22 homens, entre os quaes era hum moço por nome Simão de Andrada, que já nesse tempo dava grandes demonstrações de militar esforço. Constava pois de 71 soldados todo o exercito, que nos tres navios hia combater: todos porém antes de sahir da Cidade, tinhão com a confissão e arrependimento expiado as suas culpas, como a nossa Religião santissima requer, e maravilhosamente roborados com o celestial banquete, onde á gente Christã se dá o sacratissimo Corpo de Jesu Christo. Apôs O qual, se obrigárão todos com juramento, que nenhum consentiria em si desdouro, nem por medo algum recuaria, nem rejeitarião morrerem huns pela defensão dos outros, nem se renderião cativos, nem finalmente se salvarião na fugida; mas morrerião como honrados, ou tornarião decorosos com a victoria. Animados com estes promettimentos e cheios de confiança, embarcão nos navios; e alongando-se da fortaleza, chegão ao sitio, onde ElRei na praia os esperava. Este vendo ir Pacheco tão denodado combater com innumeraveis inimigos, se banhou em mares de alegria; mas quando considerou depois que toda a sua esperança estribava em 70 homens, entrou a se affligir e a attribular-se; vinha de mais o condoimento, 275que mui entranhavelmente o magoava de ver correr aquelles homens á ruina, que ante os olhos deparada tinhão: e quanto mais animosos e arrojados os via, como quem nenhum perigo os affrontava, mais delles se compadecia, tendo por incomportavel remetter a hum funesto destroço tão abonada valentia. Pelo que com muitas lagrimas intercedeo com Pacheco, que desistisse do começado; por quanto já elle mesmo descartára de si toda a expectativa de defender o Reino; que assim, lhe pedia não quizesse com sua morte e daquelles Portuguezes, que amava como a seus irmãos, preencher o cúmulo do inevitavel imminente desbarato. Que elle se dava já por extremamente satisfeito, porque nelles víra, que nem com a morte offerecida diante dos seus olhos, se arredavão hum só passo do seu dever, e que a perda de homens taes lhe seria tão penosa como a do seu Reino. Bem que fosse mui grande o animo de Pacheco, esta piedade d’ElRei o embrandeceo, e custou-lhe a conter as lagrimas; cuidou todavia em acoroçoallo, admoestando-o a que não lançasse a vista á pouquidade dos guerreiros, mas a Divindade do Ceo; pois que indo aos adversarios, nada escorava nas forças humanas, mas confiava tudo das Divinas. Que Jesu Christo, Filho do Supremo Deos, que os Christãos confessão por Senhor dos Ceos e da terra, manifestaria a sua presença na batalha, e derrotaria 276os inimigos c’hum aceno de seu poder. E logo confiou a ElRei o que lhe convinha então dispôr dos unicos 5$000, que lhe ficárão; que os mais apenas vírão a guerra urdir-se, transfugírão para os contrarios: acceitou sómente 500 homens, cujos Capitães forão Candagora e Frangora, que passavão por mui destemidos, além de dous Caimaes, aos quaes todos ElRei ordenou fizessem sem a menor dúvida quanto Pacheco lhes prescrevesse. Partio Pacheco com os seus soldados na noite de 16 de Março do anno do Senhor 1504; favorecido pela maré, montou o rio, que desagua no porto de Cambalão, a cujo váo chegou ante manhã, antes que alli viessem os de Calecut; e lhe pareceo acertado, em quanto era ausente o inimigo, fazer algum estrago nos seus alliades; pelo que endireitou a Repelim. Havia no porto de Repelim obra de 800 besteiros com alguns homens, que sabião servir-se de arcabuzes; os quaes, para empecer que os nossos entrassem na ilha, accorrem, e acerrimos peleijão com settas, pelouros, e arremessões; mas com bombardadas facilmente os rechassamos, e pomos pé em terra. Quando os que tinhamos affugentado nos alcançárão mais arredados dos navios, voltão apinhados sobre nós; e durante meia hora, foi d’huma e d’outra parte bem peleijada a contenda; por fim rebatemos o inimigo, e o pozemos em fugida, deixando no campo da batalha muitos mortos. 277O povoado, que levavamos na mira, foi logo abrazado, e delle rebanhámos bastantes bois para vitualha, cujos, quando os Naires, que erão comnosco, vírão degollar, se derão por não meanmente offendidos: que he vedado entre elles ferir hum boi, e sacrilegio comer-lhe a carne. Os nossos, que receavão mais a fome, que o escandalo delles, pouco caso fazião das parvoices de sua religião. Nesse mesmo dia mandou ElRei de Cochim outros 500 soldados a Pacheco, nos quaes todos este mui pouco se fiava; porque toda sua esperança no amparo de Jesu Christo tinha posto, e apôs elle no esforçado animo dos Portuguezes. Veio no dia seguinte o Çamorim com o seu exercito, cujo computo era este.
Bertacorol Rei de Fanos vinha com 4$000 homens: Cantanambar, Rei de Bipur e de Cucurram, Reinos situados ás faldas da montanha, que resguarda ao Oriente de Narsinga, 12$000: ElRei de Cotagam, que fica ao Norte, e demora entre Calecut e Cranganor, não arredada das serras, trazia 18$000 sob suas bandeiras: Currinacuil Rei de Curiga, Cidade que fica entre Cranganor e Panane, 3$000, e todos estes Reis se distinguião por suas bandeiras, e fórma de exercito, e erão tributarios a ElRei de Calecut. Os que Naubeadarim, e outros Senhores capitaneavão, hião além de 20$000, e entre elles alistados muitos Arabios, cujas trópas totaes passavão 278da quantia de 5$000, não contando nesta soldadesca a que hia na Armada de 160 navios de remo, que o Çamorim tinha esquipado, entrando neste numero 76 paráos, cujos costados tinhão os Milanezes guarnecido de larguissimas saccas recheadas de algodão, para empapar o arrojo das bombardadas. Tinhão mais estes Milanezes fabricado immensa copia de artilheria, e inventado muitos engenhos de guerra, com que mais facilmente opprimissem os nossos: que por conselho delles vinhão diante dos outros 20 paráos atracados com cadeias de ferro, aos Capitães dos quaes tinhão incumbido de accommetter a caravéla, e com quanta rapidez podessem a harpeassem com unhas de ferro. Vinhão nesta Armada 12$000 guerreiros, de que era General Naubeadarim. Mandou outro sim ElRei de Calecut, por conselho dos Milanezes, levantar hum reparo, e assentar sobre n’huma noite tão alta torre, que podessem os soldados com fléchas encravar os nossos, e percallos com amiudada multidão de pelouros differentes. Duarte Pacheco atracou a caravéla, que não era arredada grande intervallo d’hum dos navios, com huma amarra talingada de cadeias de ferro, para não poder ser cortada, ao navio, e este a outro navio pela mesma maneira, pejando assim com os tres baixeis quasi toda a largura do rio. Nisto chegou a Armada, que pelos mares que lavão as praias septentrionaes das ilhas navegava. Os 279inimigos com a immensidade que elles erão, com o clangor das trombetas, seus dissonantes alaridos, rutilar das armas aos raios do Sol, que deslumbravão com o brilho, e ultimamente com os roncos reduplicados das bombardas, com que retremia a terra, tal horror entranhárão nos soldados de Cochim, que fugírão todos de repente. Frangor e Candagor, dous invictos Capitães seus, unicos não se abalárão, e nas náos permanecêrão; e Pacheco os reteve comsigo, não porque nelles pozesse a menor fiança, mas porque fossem espectadores do combate, que os inimigos encetárão com grande impeto, arremessando por mar e terra balas e zargunchos, tudo parecia arder em labaredas, o fumo se encapotava á luz do dia. Os nossos não atinavão em como resistir á Armada, nem como anteparar ás lanças, que como em nuvens da terra sobre elles sacudião. Não que lhes minguassem os brios para a resistencia, ou para saberem morrer honrados; pois quanto mais crescião em força os inimigos, mais robustos, mais affoutos desprezavão os perigos, como se vio nos primeiros paráos, que desbaratárão. Mas quando chegárão os 20 (que já apontámos) atracados com cadeias, recrescendo nos Lusitanos a fadiga, de tal sorte peleijavão por entre a saraiva de pelouros, que nem tempo de respirar tomavão: tão cançados se vião já, que nem de pé se podião soster. Já havião algumas horas, que o combate 280proseguia, quando Pacheco manda assestar hum enorme basilisco contra os adversarios, e huma apôs outra grossissimas bombardadas no amago dos paráos, os desatracárão de sorte, que arrombárão quatro e os obrigárão a retirar-se. Succedem-lhes outros, logo que a batalha restabelecem; mas os nossos tendo-lhes desarvorado 8, e derramado 13, com o desbarato destes amainárão os inimigos no tesão da accommettida. O Caimal de Repelim, que era hum dos do soccorro, vem com a Armada sobre os nossos já atenuados de sobejo cançaço, e o Çamorim forceja com o exercito formado passar o váo, e com suas armas soçobrar-nos. Então mais que atélli se peleijou azedamente de maneira, que o rio corria já vermelho com o sangue; e o Caimal de Repelim vozeava, que com harpéos sogigassem a caravéla, e entrassem cruamente com os nossos; e já admoestando, já despedindo ameaças, lidava por conseguillo. Mas debalde, porque os inimigos que de terra peleijavão, forão finalmente rotos e affugentados; retirou-se a Armada, e o combate com bastante pasmo de todos, deo fim pela tarde. Dos nossos alguns feridos houve, ninguem pereceo; os inimigos deixárão mais de 1$300 mortos. Fez-se a batalha (como Pacheco em sua confiança tinha) com Divinas forças; por quanto consta, que sendo muitos dos nossos feridos rijamente com pelouros de ferro, outro incommodo 281não recebêrão, senão a nodoa d’huma leve contusão: porque bem se manifestasse, que os nossos arrodelados do amparo Divino, com nenhumas lanças podião ser feridos. Quando lhe derão parte do bom exito da batalha, não cabia em si ElRei de Cochim de gosto, inesperado de sorte, que mandou logo o Principe successor do Reino com muitos parabens a Pacheco pela victoria. Os Portuguezes, dado que bem quebrantados de sobejo trabalho, não levantárão mão da lida; porque incessantemente refizerão os navios, e a outra caravéla já restituida ao seu antigo vigor, veio juntar-se com os outros vasos; e como por aviso dos Agoureiros o Çamorim differia o dia do combate, Pacheco não consentindo descanço, se transmetteo a Gambalão, onde talou searas e arvoredos, abrazou Aldeias, deo morte a homens, e acareou não mediocres prezas; e com quanto em alguns lugares pretendêrão malograr-lhas os presidios dos inimigos, elle se sahio sempre com victoria. Para bom acabamento das quaes expedições se servio sempre, como excellente Capitão que era, de presteza e de industria não sómente, mas tambem de bom conselho. Posto que ElRei de Calecut ardesse por se vingar, não affoutou com tudo apresentar batalha antes do dia aprazado pelos Agoureiros; e succedeo, que o dia que estes assinalárão, fosse o em que com summa celebridade e contentamento toda a Republica Christã 282renova a memoria de Jesu Christo resurgido de entre os mortos. A Armada, com que o inimigo intentava naquelle dia a empreza, vinha muito medrada em náos, porque se compunha ella de 100 paráos, de 100 náos grossas, e 80 vasilhas menores, que amiudadamente lhe chegavão accreseimos de Calecut. A quantidade de soldados, que nas náos vinha, passava de 15$000; e para mais facilmente conseguir o intento em cheio, mandou o Çamorim hum de seus Capitães a Cochim com 70 paráos, que combatesse com a náo, que alli ficára para de guarda da Cidade, ou ao menos para acarear Pacheco a defendella; que distrahindo-nos assim as forças, tinha elle que mais presto nos concluiria com a guerra. Tinhão já os paráos sobido de noite, por não serem sentidos, pelo braço de mar, que entra no rio, até á Cidade; e este braço de mar he tal, que toda a Armada mui facilmente póde navegar por elle até Cochim. ElRei de Calecut todavia, ou já porque receasse a estreiteza do esteiro, ou que tivesse por menos cabo da sua dignidade deixar aquelle sitio, ou já (como eu mais creio) porque Deos nos acodia, estando tanto por nós, ermo de boa prudencia, o não quiz executar. Apenas os paráos investírão com a náo, mandou subito ElRei de Cochim hum mensageiro a Pacheco, que o informasse do risco, que corria aquella náo; cuja nova deo muito enleio a Pacheco, 283porque bem via a que fim se endereçava aquelle assalto: obrigado porém da necessidade, resolveo ir-lhe em soccorro. Pelo que a toda a préssa com huma caravéla e hum navio pequeno á vontade da maré, veio ter a Cochim, onde só de vê-lo chegar, fugírão de repente os inimigos; e correndo, se recolhêrão em Repelim. Pacheco não quiz ir-lhe no alcance, nem entrar na náo, nem fallar a alguem; mas como a maré montava, e com ella o vento (como a miudo acontece) se mudasse, com a mesma brevidade com que veio se apressou na volta. Quando chegou ao passo de Cambalão, estavão as cousas no ultimo aperto, por quanto a caravéla que alli ficára para defensa, era crivada de rombos, desarvorada de tudo, e as saccas de algodão desmanteladas: da mesma sorte os bateis, destroçadas as amuradas, estragados os repairos, corrião grandissimo perigo: os inimigos por mar e terra, apertavão acerrimos com os Portuguezes. Bem que estes não relaxavão na ansia de combaterem, antes quanto mais de toda a parte azedamente os commettião, mais esforçados os rechaçavão. Era tal ponto libravão os nossos interesses, quando Pacheco chegou ao passo; e carregando nos inimigos pela retaguarda com sobeja valentia, este desmaginado assalto os enleou. Ora os Lusitanos, que defronte peleijavão, dobrando de coragem, tão rijos porfiárão, que os adversarios descorçoados d’hum combate 284entre dous fogos, se entregárão á fugida, deixando perdidos 19 paráos, e 290 soldados mortos, sem que nem hum dos nossos perdesse a vida. E para melhor se declarar, que toda esta guerra foi meneada pela dextra do Poder Divino, ficou bem averiguado, forão muitos dos nossos molestados com pelouros mui fortemente nos peitos, na cabeça, nos braços, e em differentes partes do corpo, sem que se seguisse morte, quando mui bem se vio que as balas vinhão com tanta força disparadas, que depois do embate que fazião no corpo, no relance com delle cuspião, hião despedaçar grossos repairos, e descozer mui promptamente quantas máquinas lhes oppunhão. O Çamorim com tudo não podendo avezar-se com tão alto discredito, ordenou logo que se adereçasse a Armada, para vir expugnar segunda vez os nossos. Pacheco incumbe a todos, que atirem lança, nem disparem bombarda, nem soltem voz algum, sem que elle dê o sinal de peleija; com o que imaginárão os inimigos, reparando no silencio dos nossos, que retalhados de feridas, e desalentados de medo, tinhamos rejeitado inteiramente a esperança de tornarmos ao combate. Assim erguem alaridas, e com incrivel rapidez por mar e terra desordenados correm ás nossas embarcações, e começavão já a vir mui perto. Eis-que Pacheco toca o sinal. Saltão subito os nossos, despedem vozerias, disparão balas, e arremessões 285sacodem; já se vem muitos paráos destroçados, estes que desatracão, aquelles rompem, e os mais trasmalhão, muitos descartão-se alli da vida. Os que remanescem, altamente se espantão de verem sãos e possantes peleijar tão duros os homens, que davão por golpeados de feridas; e muito maiormente, quando advertião em tão avultoso estrago. Pelo que, dado que aos olhos d’ElRei se debatia a contenda, não foi tão poderosa a vergonha, ou o respeito, que lhes tolhessem a fugida; no que reparando o Caimal de Repelim, recolhe os fugidios; e tornando a compôr a Armada, vem de assalto aos nossos, de maneira porém que não chegasse de mui perto, assentando metter campo em meio no combate. O que vendo ElRei, lhe applica asperas palavras, increpadoras de froxidão e covardia, com muitos outros opprobrios, que lhe arrojava. Chama Naubeadarim, e lhe insinua que sem tardança alguma invista c’os Lusitanos, e destrua com impetuoso accommettimento homens assoberbados de tão prolixos trabalhos. Encarrega-se Naubeadarim da empreza, e toma a via para o váo, lidando romper os nossos, que tão valentes lhe resistírão, que não sómente lhe reprimírão o impeto, mas ainda os pozérão todos em fugida; e indo-lhes nas pégadas, fizerão nelles grande mortandade. Destruírão-lhes mais de 20 paráos, e mais de 600 homens lhes matárão. ElRei desconfiado 286de passar, mandou desmontar as peças, que artilhavão o Castello de madeira, e abalar o exercito; e Pacheco, que longo espaço lhe foi na esteira, ficando-lhe finalmente de ré, desceo a terra, para ir queimar duas populosissimas Aldeias, e na hora decima era já tornado ao váo. Tanto tempo durára o prelio encetado ao romper da madrugada! Tomadas poucas horas de repouso, o informárão os atalaias, que não longe dalli jazia hum Lugar frequentado por certo de immensidade de povo, mas minguado agora, cuja nova lhe deo azas para assaltar os seguros e descuidados moradores, muitos dos quaes matou; e deitando fogo aos edificios, se vinha recolhendo, quando os inimigos, que forão derramados, se ajuntão, e cerrados vem sobre elle. Mas Pacheco tendo-lhes sangrado ou morto grossa parte delles, desbaratou o resto, e o poz em fuga. Nos quaes feitos nada me maravilhão as victorias; pasmão sim o callejado de Varão tal, a rapidez, a diligencia. Nenhuma lida o quebrantava, nenhuns empeços o detinhão, nenhum perigo de vida o estorvava de amedrontar os inimigos. De volta por esta vez ao passo de Cambalão, deparárão-se-lhe os Officiaes e Guardas d’ElRei de Cochim com manjares e fructas das que a terra dá, de que elle e seus soldados fizerão bom repasto. Já nesse tempo se arrependia o Çamorim da entreprehendida guerra, a anhelava depois de despedir em grosso 287numero as suas trópas, voltar a Calecut, conselho este, que Naubeadarim muito approvava. Mas o Caimal de Repelim, e os Arabios, que com elle erão na consulta, e os dous Milanezes, contrastavão este presupposto, dizendo a ElRei, que lhe não era salvo neste ensejo levantar mão d’huma empreza, em que não só librava seu real decoro, mas sim a vida. Que se antes de concluir este feito se retirava, incorreria não sómente no desdouro, que lhe marcaria a fama, senão que tambem tornaria estes seus inimigos ferozes e infestos, e com difficuldade summa os rebateria dalli em diante das raias de Calecut. Que se podião não emprehender facções sem grande desar da magestade; mas abrir mão dellas quando emprehendidas, se não fazia sem grande desabono, sem grande mácula de deshonra. Além de que, não havia ahi desesperar de atravessar o váo, quando hum sitio só fora tentado, havendo tantos outros, por onde vadeallo mui facil era ao exercito. Nem longe dalli era o váo de Palignar tão enlodado, que quem lidasse pelo vadear, com muito custo desatolaria os pés cravados na profunda vasa; e toda emaranhada de abrolhos e de silvedos a ribanceira d’além do váo; e com tudo seria facil, como esperavão, atravessallo, porque seus baixios impedião penetrarem lá nossas náos. Já meditavão ir passar o mesmo váo, que atravessára ElRei de Calecut, quando (como dissemos) 288veio opprimir Trimumpará; mui confiados em que Pacheco acudiria tarde, supposta a presteza, com que tinhão de accommetter, nem poderia juntar forças capazes de resistir á passagem d’ElRei. Isto assim assentado, partírão dos alojamentos. De primeiro imaginárão os exploradores, que ElRei de Calecut desesperando da victoria, se tornava; mas como vissem que guiava ao váo de Polignar, de repente derão a Pacheco a nova. Outros exploradores mais vierão noticiar-lhe, que andavão na ilha de Arraú 500 soldados de Calecut, que mui contentes cortavão selvas, sinal entre elles de victoria; e como esta ilha não distava dalli muito, a ella se tranferio ligeiro com 200 soldados de Cochim (que muitos tinhão voltado já, e remido a culpa com o perdão), e alguns poucos Portuguezes, que repartio em dous troços; hum, que deo a Pedro Rafael; e outro, que para si guardou. Tratárão os inimigos de lhe resistir, mas forão pela mór parte mortos, e 50, que cativos mandou a ElRei de Cochim. E por quanto não parecia já necessario ficar Pacheco alli mais tempo em guarda daquelle váo, nem permittia a grandeza do perigo deixar a passagem livre, que os inimigos demandavão, passou com promptidão as náos a outro sitio 2$000 passos arredado daquelle váo, e he chamado Palurte, opportuno para qualquer transito. Tendo alli lançado ferro, informação lhe, veio que ElRei 289de Calecut deliberára passar o váo no dia seguinte, primeiro de Maio: então se determinou Pacheco montar com os navios pequenos até lá, e deixou os grandes com seus Capitães no váo, em que ora estavão surtos, nada duvidando que os adversarios commettessem num e outro passo. Antes porém que dalli partisse, mandou cortar e queimar as arvores daquella parte da ilha, que ficava fronteira ás náos, porque não os tomassem os inimigos como anteparo, occultando-se detrás dessas naturaes tranqueiras, por não serem alcançados da artilheria das náos, que pouco arredadas humas das outras podião juntar-se para reciproca defensa por meio dos calabres, e estorvar o váo. Resguardava como grande commodo nestes apertos não se poderem os dous váos passar ao mesmo tempo; porque quando havia preamar no váo de Palignar, erão tão altas as aguas, que não dava pé; e para os navios hum tanto grossos nem na agua baixa, nem na jusante abria accesso. E ora onde as nossas náos ancoravão, dava passagem quando a maré enchia, mas nunca na vasante: e succedia assim, que quando se podia vadear o passo de Palignar, não se podia o de Palurte; e pelo contrario, quando o váo de Palurte dava transito facil aos peões, o de Palignar com a força e crescimento das aguas negava ser dos soldados vadeado; Pacheco, que o tinha bem observado, acudia, segundo os ensejos com desvelado soccorro, 290ora a este, ora áquelle vão a Palurte no fluxo da agua, e ao refluxo a Polignar. Indo pois em demanda do váo de Polignar, declarou aos Capitães, que deixou de guarda em Palurte, o que requeria delles que fizessem, e com que sinal lho farião a saber, no caso que necessitassem de seu soccorro. Então encommendou a todos o bom termo, o decoro, e o zelo da Fé Christã, dizendo-lhes que a peleija, que se lhes encetava, seria muito mais crua e mais difficil; mas que elle bem sabia a que homens fallava, homens, a quem nenhum vulto de perigo descorçoava; antes quanto mais medonha trazia a carranca, mais os brios lhes animava. Que muito confiassem naquelle perigo, que lhes vinha sobranceiro, lhes não faltaria a mesma Divindade de Christo, que tão presente lhes fora nas demais batalhas; por quanto a possança do Supremo Senhor, marcos não ha que a abalizem, nem humanas forças que a atalhalla valhão, nem multidão sem conto que a reprezem. Concluio com dizer-lhes, que tomasse cada hum sua refeição, porque no dia seguinte muito receio tinha podessem gostar d’outras iguarias, que das que no fructo de invencivel esforço andão encerradas. Estas ordens são executadas; tomão seu repasto, e dispostas as vigias, vão descançar, sem com tudo se descuidarem de implorar quanto ao possivel o divino adjutorio. Ao primeiro luzir da manha estava Pacheco já no 291váo, d’onde descortinava o Principe de Cochim postado na praia com 600 soldados, mandado alli por ElRei, para defender o passo; por quanto esperava Pacheco, que o Çamorim tentasse o váo; e como vio que elle se não abalava, que a maré Crescia, o sitio se allagava, e o váo por si se defendia, veio de volta ás náos, e em todos os póvos de ao redor, onde podia fazer invasão, commettia estrago e mortes. O que continuava a fazer tanto de noite, como de dia, fosse o tempo sereno, ou tudo andasse revolto com tormentas. Vião-no ao baixar da maré no Palignar; e logo que montava, em Palurte, sem deixar nunca hum dos dous váos sem guarda; por quanto no mais profundo collocado tinha os navios mais grossos, e no outro, a saber, no Palignar os menores vasos. Tendo sabido das espias, que ElRei tinha resoluto dar no dia seguinte assalto com poder ingente ao váo de Palurte, aprestou com gran desvelo quanto julgou necessario para o defender. Antes de amanhecer vierão a elle Christovão Zuzarte, e Simão de Andrade, que com dous navios pequenos tinhão seu posto no Palignar, offerecer-se para a peleija. Que como o váo abundava de agua, não havia porque perder tão formosa occasião de ganhar honra e claro nome, e que quando a maré declinasse logo a Palignar. Raiou a alva, e os inimigos que já alli erão chegados, varejavão acerrimos da 292praia com a artilheria a Armada Lusitana. A Armada de Calecut começou a dar mostra de si, e compunha-se ella de 250 baixeis. Vendo-a Pacheco ainda arredada, atinou em maquinar maneira, com que embaraçasse com menor risco o impulso de tamanha guerra. Pelo que mandou que os bateis arrancassem vóga para a praia, onde logo disse aos soldados, que descessem, e remetteo com elles ás tranqueiras dos inimigos, que mui rijamente resistírão no principio; mas por fim huns alli acabárão, outros fugírão, e as peças que não podémos arrastar á praia, encravámos com grossos prégos pelo ouvido junto á culatra, onde se accende a escorva. Este feito assim velozmente concluido, voltou prestes para a Armada. Já se vinha a Armada dos contrarios achegando, servindo as nossas náos com huma saraiva de pelouros, e o com o horrifico estrepito de todo o genero de arremessos vinha estrugindo. Ordenou Pacheco acachaparem-se, e não tugirem, até que elle não désse o sinal para a peleija: com o que os inimigos tiverão por medo e descorçoamento o que era astucia. Abrião o combate 40 paráos bem atracados huns com outros para derrotar os nossos. Deo Pacheco sinal, quando vio que era tempo: logo a alarida, em que rompemos, o clangor das trombetas, o fragor das bombardas, derão a ver que denodo lavrava nos guerreiros Lusitanos. Tendo-se de huma e de outra parte 293bem renhidamente debatido com canhões de bronze, horrendas trévas procedidas do fumo da polvora, ennevoou os olhos de todos, e se teceo hum escuro tão cerrado, que não se via Ceo, nem terra. O que se via era hum incendio terrifico despedido das bocas chammejantes dos trabucos. Os primeiros, que os pelouros desunírão e decepárão, forão os paráos dos inimigos: mas a estes despedaçados substituio logo outros de refresco o Caimal de Repelim. Vacillava a victoria; cerravão os contrarios comnosco de mais perto, e não já com balas tão sómente, mas com dardos, settas, lanças, e todo o genero de arremessões nos combatião. Como porém nenhum dos Portuguezes cahíra morto, e dos inimigos cahião infinitos, e as aguas corrião já tingidas de sangue, começárão a ceder os inimigos. Mas o Caimal para armar á graça do Çamorim com alguma facção insigne ante a sua vista, remetteo duas vezes a passar o váo; mas ambas com ignominia sua, e morte de sua gente, lhe foi repulsa a tentativa. Em quanto estes successos aqui passavão, chega Candagora a informar Pacheco d’hum perigo (ao que parecia) grande: que Naubeadarim com hum reforçado terço se apressava para Palignar, e ElRei sobre suas pizadas com grande ansia de ganhar o váo. Respondeo-lhe Pacheco, que descançasse ácerca desse risco, por quanto estava ainda o váo tão cumulado de aguas, que bastassem a atalhar 294o impeto dos inimigos; e que hiria em seu soccorro, quando o pedisse a occasião. E a sim continuou no combate, em quanto julgou que a maré cheia impedia a passagem. Logo que a vio minguar bastante, correo a resistir a Naubeadarim; e tanto esforço poz em lhe rebater o impulso, que dado que Naubeadarim, tendo ElRei presente, e que o admoestava rijamente á peleija, traçava atravessar até á fronteira margem, forçado lhe foi retroceder. ElRei o increpava, e o soçobrava de affrontas, dizendo-lhe não ser digno de soster o decóro de Principe quem na froxidão, na cobardia tanta parecença tinha com o Caimal de Repelim, pois que diante delle mesmo tinhão ambos n’hum e n’outro recuado vergonhosamente do combate. Irritado Naubeadarim com mais vehemencia por estas reprehensões do Tio, dispoz-se a lavar com a presentanea morte aquella conceituada mácula de desbrio. Acompanhado de mais de 10$000 homens, forceja novamente de romper pelo váo. Fortissimamente por certo espaço de tempo se batalhou de parte a parte, até que finalmente os inimigos vexados de muitos soçobros, se lançárão a fugir. Não se soube ao certo quantas náos, nem quanta gente perdeo o inimigo nestes accommettimentos já n’hum, já n’outro váo: consta que forão muitos. As nossas embarcações ficárão arrombadas, muitos repairos desfalcados ou perdidos, e feridos tambem alguns 295dos Portuguezes. Em tanto andava a peste muito ateada no arraial dos inimigos; o que arredou por hum tempo o animo d’ElRei da guerra infelizmente apercebida, até que o mal cessasse de lhe matar a gente. O que foi mui proveitoso aos nossos: porque cuidárão em refazer os navios, juntar grande quantia de armas, e de arremessos, e proverem com grande vigilancia a se aviarem de tudo, para a guerra ser mais rijamente debatida. Antes que tudo tinha já Pacheco cravado puas em estacas e abrolhado assim o lodo daquelle váo, para nellas se espinharem os que commettessem vadeallo; mas como pela molleza do lodo entrárão mais profundas do que competia, ficárão tão baixas, que nenhum mal fazião a quem passava. Agora na mais rasa baixamar encravou Pacheco páos tostados no lodo com mui apontados bicos, bem amarrados pelo fundo, para não os poderem arrancar, e nelles se enfiarem os inimigos, e com acerbissimas dores nem caminhar avante, nem alli poderem firmar pé. ElRei de Calecut chama em tanto os Brachmanes, e os avisa que consultem os deoses, e delles saibão o dia de renovar batalha, e tomar dos Lusitanos a vingança de tantos insultos. Que estavão os Brachmanes desgostados com ElRei, pelos ter crivado de maldições, e tratado de fementidos e malvados, que lhe tinhão preconizado victoria, e em vez della lhe vierão innumeraveis perdições. Respondêrão-lhe 296os Brachmanes, que os deoses estavão coléricos contra elle, e que serião desastrados todos os seus successos, em quanto não apaziguasse os Numes: que começasse por construir-lhes huma Capella, em que homens religiosos podessem offerecer-lhes sacrificios. ElRei tendo feito esse voto, então lhe promettêrão em nome dos seus deoses a victoria, e aprazão dia para a batalha. Muitos de entre elles, que tinhão desertado de Trimumpará, convidados de suas prosperidades, voltão a sujeitar-se-lhe, e máo grado de Pacheco, obtem perdão. O Çamorim, que não se queria fraudar do fruto daquelle dia pelos Brachmanes denunciado, mui diligente obedeceo á religião. Esta foi a ordenança, com que procurar-nos veio. Vinhão diante tres mil homens destemidos, que escoltavão 30 peças de bronze rodando sobre suas carretas; seguia-se a vanguarda commandada por Naubeadarim, e se compunha de 12$000 homens; apôz elle o Caimal de Repelim com igual computo, e na retaguarda ElRei capitaneando 15$000. Esperava em tanto no váo de Pelignar tão quantiosas trópas, Pacheco com dous sós navios, e nelles 40 Portuguezes. Os de Calecut, que antecedião o exercito, assentárão a artilheria fronteira ao sitio, em que erão surtos os navios; e para desalojar dalli Pacheco, lhe despedião balas enormes; e elle para os assegurar ainda mais, se conteve hum pouco. Mas arrancando para terra de improviso 297com os baixeis, meneou galhardamente o varejo dos pelouros, o que se executou com tanta pericia e desenvoltura, que aterrados os inimigos, se forão embrenhar n’huma basta floresta. Como a peleija assim se travava, accommetteo Naubeadarim o váo, e com grandissimos esforços tratou de o vadear, os nossos com balas de chumbo e pedaços de ferro quadrados, como cubos ou dados de jogar calcados nos arcabuzes, disparados na violencia da polvora, ferião gravissimamente a muitos, e com os falcões e pedreiros não poucos; mas como ainda a maré baixasse, Pacheco receoso não désse em secco o navio em que viera, declinou hum pouco, ordenou a Christovão Zuzarte, cuja embarcação não demandava tanta agua, e convinha mais ao váo, que ficasse em quanto podésse naquelle porto; que elle apenas a maré crescesse, logo como necessario era voltaria. Continuou todavia a combater com o mesmo ardor que d’antes, e a impedir não menos duramente que Zuzarte, que não era longe, os inimigos de encetar o váo. Havia alli hum sitio fortificado pela natureza, e por huma tranqueira, em que estavão os soldados, que ElRei de Cochim mandára de soccorro, para reprimirem os inimigos, no caso que forçassem o váo; mas elles vírão apenas as trópas de Calecut entradas na agua, que de repente fogem. Não era com elles o Principe de Cochim; e hum Brachmane, 298por quem Pacheco o mandára chamar tanto fez com sua maldade e perfidia, que elle não póde chegar a tempo; e mais fez, que esperou que tudo succedesse a bom prazer do Çamorim, para lhe significar o recado. E ora a maior parte dos que tinhão de defender aquelle posto, militavão á ordem d’hum dos traidores, que se rebellárão d’ElRei de Cochim, e tinhão sido restituidos á sua graça: porque nenhumamente se fiava nelles, quiz Pacheco informar o Principe de volta n’huma sóta que a guerra deo, para que acudisse alli com mais reforçada guarnição. Deste escandalo dos desertores o avisou Zuzarte a altos gritos; mas o fragor das armas era tanto, e a vozeria da gente, que o não pôde ouvir Pacheco. Já nesse tempo se achava no váo o Caimal de Repelim, que vinha nas espaldas de Naubeadarim, e ElRei que apôz elle vinha, trabalhava com toda a ansia de seu espirito a franquear a passagem. Pacheco, que pelas reaes insignias o conheceo, lhe mandou assestar huma bombarda: lançou subito a bala aos pés dilacerados dous dos seus intimos domesticos, de que tal susto cobrou ElRei, que se poz em retirada, recommendando todavia a Naubeadarim e ao Caimal de Repelim, que instassem forçosos e porfiados. Elles com vergastas sacudião os dianteiros a vadearem até a riba fronteira, e ainda com as espadas ameaçavão e tambem os que se não despejavão no 299que lhes era ordenado; pelo que huns a outros se empuxavão, e huns a outros se empecião. Quando porém tocárão nos abrolhos, entrárão muitos a cahir altamente feridos pelas plantas dos pés: então foi o clamor e o pranto, e as dolorosas lastimas que se ouvião. Acamados huns sobre os outros, e as baterias dispostas nos navios, que não perdião tiro em tanta pinha de guerreiros, fazendo estrago ingente. Começão a turbar-se os inimigos, forçando-se debalde a recuar, o que negavão-lhes as dores dos pés; muitos quizerão de amedrontados retirar-se, mas as espadas os esporavão a apressar avante os passos. Assim passavão as cousas de combates, quando desatão por outro sitio hum bando com machados, atravessão o váo sem debate, e vão romper a tranqueira e occupar o lugar, que tinhão desamparado os de Cochim. Aqui tal vendo, tudo Pacheco deo por perdido; não perdeo todavia a confiança, que chegando-se ao navio de Zuzarte, se lançou nelle e disse a Zuzarte, que embarcasse no seu, que por ser de maior bordo, não podia tanto avisinhar-se da terra. Vendo-se então mais no centro do transito, começou a rechaçar os adversarios com dardos e pelouros. Chegou porém Naubeadarim, que inteirou de modo o jogo, que então parecia começar-se. Apertavão os inimigos com mais ansia, e se apinhavão por metterem no meio os nossos: já com as mãos reprezavão muitos os remos da embarcação, 300para que dalli se não meneasse. Pacheco neste caso considerando o seu total destroço, recorreo com grandes vozes ao amparo Divino, e com effeito vio como lhe acudio logo o favor da Divindade. Entra a crescer mais rijamente a maré, e a cubrir de aguas a passagem. Cobrão córage os nossos, e põem forças no remo para navegarem o baixel. Debatia a contenda com chuças, lanças, arremessões, e até com páos tostados; mas quanto mais crescião as aguas em cobrimento do váo, tanto os nossos se restauravão em vigor, e mais acres, e mais vehementes pugnavão por se desenvolver do meio dos inimigos. Quando com grandes abastanzas de jusante redundava a maré, teve termo o combate, o mais azedo que naquella guerra houvera. Tendo-se Pacheco desembargado da multidão de contrarios, se foi ter com Zuzarte, que naquella refrega tinha executado preclaras façanhas de militar esforço. Já que os baixeis podião folgadamente navegar, tiverão ambos por acertado empregar a artilheria, que homens não erão elles, que deixassem passar por alto occasião alguma, que lhe o tempo offerecesse. Assim disparão as bombardas contra os inimigos, que pejavão o sitio junto do váo; a muitos matão, e aos mais obrigão a embrenhar-se no mato. Nesse dia ElRei de Calecut quebrantado de desesperação, mui acerbamente lastimou a sua deshonra, em não poder com tão numerosa 301soldadesca despejar 40 Portuguezes do váo; e ao ir-se daquelle lugar, levado em seu palanquim para outro lugar, que não ficava longe do váo mais profundo, Pero Rafael lhe mandou apontar hum não mediano falcão, de cujo tiro lhe cahírão aos pés despedaçados tres dos seus familiares, e com seu sangue o borrifárão. Tanto se atribulou de pavor, que saltando em terra, commetteo a pé o caminho, correndo a se salvar dalli. Durou a batalha desde o apontar da manhã até á hora nona quasi; nella perdeo o Çamorim tantas náos, tantos soldados, quantos nunca em combate comnosco perdêra nunca; dos nossos, bem que accommettidos com settas, chuças, lanças, e pelouros sem numero hum só homem não pereceo. D’onde bem se reconhece, que Mão Divina entrava nesta guerra toda; que só Deos póde com hum aceno seu destruir os inimigos, elle que nunca nas pressas desamparou os seus: e todo aquelle, a quem isto pareça incrivel, esse não os homens, mas o mesmo Deos desfalca da gloria que lhe compete, e mostra não reconhecer de quantas posses he senhora a vera Religião. Aquelles porém que não são totalmente estranhos na vera Christandade, e que em si experimentárão as graças da presentissima Divindade, entenderáõ de plano, que obras muito maiores podem perpetrar os que depozerem no auxilio de Christo firme esperança, maiormente nos combates, que por 302gloria sua emprehendidos forem. E ora muito relevava ser assim n’hum tempo mais que tudo, em que o nome de Jesu Christo não era ainda acatado entre aquelles pagãos, para por aquelles milagres virem mais facilmente os homens ao conhecimento de Deos, e lançarem os Lusitanos com roboradas forças os cimentos d’hum imperio, por meio do qual podessem as gentes, que demorão ao Sol nascente ser esclarecidas pelos resplandores da celeste disciplina; o que (como vemos) se verificou depois, e mais manifestamente esperamos virá a ser com o tempo. Pacheco advertindo-se desembaraçado de tamanho perigo, e os inimigos desbaratados, cumpridas graças rendeo a Deos; appareceo então o Principe de Cochim, a quem Pacheco mostrou máo rosto, e como a homem timido, desertor e pouco zeloso em guardar lealdade, o reputou indigno de sua falla. O que o Principe tomou muito em mal, e se justificou, e asseverou com juramento, que não por culpa sua, mas do iniquissimo Brachmane não parecêra na batalha, que não quizera dar-lhe o recado senão quando visse o nome Portuguez apagado por obra d’ElRei de Calecut. Acceitou Pacheco a satisfação, e traspassou todo o erro a ElRei seu Tio, que tão malvados homens recebêra na sua graça: que nunca Varão sizudo se confia em quem huma vez lhe foi traidor. Por quanto constava ter nascido o principio daquella fuga dos que erão 303estipendiados pelo Principe de Mangate, que por desmesurada e flagiciosa maldade se tinha separado d’ElRei de Cochim. Pacheco tendo despedido o Principe, passou ás náos, onde o veio visitar ElRei de Cochim, e com extremadas significações de gosto lhe deo os parabens de tão insigne victoria; e então Pacheco se lhe queixou da fugida dos soldados, rebatendo a culpa daquelle máo feito sobre o Principe de Mangate, dando-lhe por aviso, que usasse de suas regalias, desfazendo-se (quando lhe não quizesse dar morte) de vassallo tão dissoluto e tão perverso, mandando-o com o seu prestimo ao Çamorim: que nenhum perigo era mais para recear, que o que vinha urdido por hum traidor; por ser peçonha encuberta e interior, que mata primeiro que se lhe anteveja o remedio. Que nunca o real poder assenta bons alicesses no presidio de gente preversa, antes frequentemente se destroe; que por essa razão folgaria altamente se ladeasse ElRei de Calecut da guarnição de taes sujeitos, para mais facilmente ser esbulhado de seu throno, e pagar a pena de suas más obras. Gastada boa parte do dia nestas e n’outras conversações, voltou ElRei para Cochim, e Pacheco zelou em dar refeição aos Portuguezes das suas immensas fadigas. Nesse tempo ElRei de Calecut avexava com todos os opprobrios e maldições os seus, culpando-os de que por sua froxidão não conseguíra dar acabamento 304inteiro dos Portuguezes. O Caimal de Repelim para de alguma sorte o applacar, pois que com forças o não podia, com manha se dava a maquinar máo fim a todos os nossos: começando por subornar alguns de Cochim por dinheiro, de lançar morta peçonha nas fontes, d’onde os nossos bebião; depois se applicou com muito fervor, a que nos envenenassem o pão da munição. Tanto que Pacheco o soube, cada dia mandava abrir novos poços, d’onde os Portuguezes tirassem agua desenganada; por quanto he terra baixa, e abunda em agua, como são quasi todas que confinão com o mar: e proveo mui desvelado não comprassem comida alguma, que o vendedor não gostasse primeiro della. Como estas astucias nada valêrão ao Caimal de Repelim, excogitou passar no silencio da noite o exercito emboscado a Cochim, e parte delle lançar fogo á Cidade, em quanto a outra cahisse sobre nós desapercebidos: mas a todas estas ciladas acudio Pacheco com o seu desvelo e diligencia: e ao mesmo tempo fortificava o váo com huma cava, levantava bastiões, apparelhava petrechos, com que ameaçava a ElRei de Calecut de ser sua destruição; dava continuos sobresaltos aos inimigos, e atravessava a miudo ao continente, onde exercia estragos sem conto nos contrarios: nem rios, nem esteiros deixava quedos. Tomou algumas náos, que com a artilheria dellas deo a ElRei de 305Cochim; e para disfarçar que se não hiria tão cedo daquelle passo, mandou á beira delle edificar humas casas, e em roda dellas abrir hum fosso, para o qual declinou a agua do rio, que o enchesse. Enfadado o Çamorim com estas bravatas, poz em sua mente reiterar a passagem do váo; mas no entanto mandava a Armada fazer destroço no que fosse de Cochim, e a cada passo nos viamos em peleija com elles, e com muito prejuizo seu os obrigavamos a fogir; e Pacheco querendo contender com 18 paráos, foi de improviso rodeado de 34 outros paráos, que esta vão de emboscada; perigo este, que fortemente o abalou, por quanto lhes tinha ido ao encontro sem ter primeiro averiguado o numero dos vasos. Fizerão todavia os nossos em tal soçobro mui preclaras acções, e por fim os inimigos nos voltárão costas, e tornámos ao váo com quatro paráos, muita artilheria, e varias outras cousas que aprezámos. ElRei de Calecut, posto que tivesse em seu animo voltar contra os nossos com grande poder de gente, desfez-lhe esta intenção a peste, que segunda vez lavrou em seus estados: trabalhava com tudo ora com força descuberta, ora com ciladas, ansioso de destruir Pacheco. Mas este com seu engenho e sagacidade lhe atalhava a força occulta, e com seu esforço guerreiro a descuberta, conseguindo de suas Armadas muitas victorias. Chegou em fim o tempo, em que ElRei de Calecut 306meditava vir sobre nós com muitissimas trópas. Capitaneava o Caimal de Repelim o primeiro esquadrão, e grande soma de camponezes com enxadões, machados, e outros instrumentos rusticos, com que applainar caminhos, abrir fossos, levantar parapeitos, em que podésse com segurança cavalgar baterias, e defendella facilmente podessem de nós. Seguia-se logo ElRei com 30$000 homens e numerosa artilheria: vinhão por mar muitas e ingentes armadilhas estopadas e alcatroadas, para abrazar as nossas náos, quando preciso fosse: vinhão mais 110 paráos esquipados de tudo, delles liados com cadeias, e outros soltos, 100 galés, e 80 barcas de passagem fechavão o couce da Armada. O que porém animava mais a confiança do Çamorim erão certos castellos, que por industria d’hum Sarraceno de Repelim, que viandado tinha por longes terras, homem mui cabal em peleijas, forão deste modo construidos. Dous paráos desarvorados, hum do outro arredados o intervallo d’huma curta lança: dous madeiros lançados hum de prôa a prôa, outro de poppa a poppa, os seguravão com fortes cavilhas, por lhes tolher de separar-se; lançados sobre estes em quadrado hião outros dous madeiros, e com grossas planchas sobrepostas formavão hum solhado. Levantavão-se aos quatro cantos quatro vigotas de 14 pés de alto, para sustentar outro madeiramento, ficando tambem tapadas 307as quatro faces com barrotes e taboado, que valião quatro paredes, tudo tão bem atarracado e bem cavilhado, bem junto e encavado, que parecia não poderem summas forças deslocallos. Assentárão sobre tudo algumas traves, que déssem mais firmeza e mais solidez á obra; e este ultimo andar soalhado de grades e travessões, era assás vasto no maior castello, para que nelle podéssem folgadamente menear-se e combaterem 40 homens. Desta mesma feição erão mais 8 castellos não tamanhos, que cavalgados em 16 paráos, lhe vinhão de comitiva, cujas máquinas tinhão sido feitas, para que quando a maré vasasse, impellidos os paráos pelas poppas, e chegados ás náos Portuguezas, lhes ficassem os castellos a cavalleiro, e os soldados das ameias delles nos arrojassem dardos e fogachos. Ao ver engenhos taes nenhum dos inimigos houve, que da victoria duvidasse: Pacheco porém lhes achou o contraposto seguinte. Mandou atracar com cadeias de ferro quatro mastos de 80 pés de comprido, de sorte que fizessem hum quadrado equilateral, e pouco affastado das prôas dos navios, o mandou segurar com seis ancoras, tres contra a enchente e tres contra a vasante, na intenção de lançar este estorvo ás quilhas inimigas, quando quizessem aproximar-se, e porque seus castellos não viessem perto das nossas náos. Pero Rafael cortou alguns mastos, que encravou no sobrado das náos como columnas, 308e em vez de capiteis, huns quasi-cestos de gávea, onde seis homens podéssem servir os inimigos com lanças e pelouros. Cada capitel ou césto emparelhava pela altura com a dos castellos, que vinhão sobre paráos; por quanto fora Pacheco informado pelas espias não só do feitio das máquinas, mas das medidas dellas, e até lhes penetrára no que em seus animos cogitavão. Vinha o exercito por terra caminhando com desentoados alaridos e estrepito de guerreiros instrumentos, influindo vãos terrores capazes de descorçoar de susto homens bisonhos no trato da milicia. Mas em quanto elles soltavão estes ocos receios, cuidava Pacheco em lhes apontar outros mais massiços; que já na ilha de Arraul, pela parte que as vagas do mar a lambem, não longe das nossas náos tinha desembarcado, e fez quanto pôde por encetar o primeiro corpo de exercito do Çamorim; precavendo-se porém, que a multidão o não rodeasse, e opprimisse, depois de fazer algum prejuizo nos contrarios, se retirou ás náos sem perda. Durava ainda esta correria, quando ElRei de Calecut avisado da audacia deste homem, começou a arder em furiosa cólera, assentando não era para soffrer-se tamanha contumelia, qual elle por tal feito julgava ter-lhe sido imposta: por tanto incumbe seus Capitães lhe tragão Pacheco maneatado, para lhe acabar a vida nos tormentos. Corrêrão elles a dar effeito com summa 309diligencia ao que lhes fora incumbido; mas Pacheco não tão sómente se não deixou levar, que ainda antes de recolher-se ás náos não poucos deixou sem vida. Nasceo o Sol neste intervallo; e a maré, que já descia, empuxava a inimiga Armada contra os Portuguezes. Primeiramente as máquinas inflammadas empeçando nos mastos ancorados (como deixamos dito), subito parárão, pelo que nenhum damno nos fizerão, antes nos davão hum certo alivio não mediano; pois em quanto o lavrava o incendio, não ousárão os inimigos avisinhar-se de nós. Desempachados então deste susto vão, veio chegando a Armada, apenas o incendio se apagou. O castello, que dissemos mais alteroso e sobre os paráos vinha, tanto que tocou nos mastos, e não pôde mais navegar, necessariamente parou, e dalli nos combateo com grandissimas balas, e pelouros tambem e chumbo; os nossos com artilheria varejavão furiosamente os primeiros paráos, que erão perto dos castellos, e alguns delles destroçárão. Pacheco mandou assestar contra o castello huma assás grande bombarda, que chamamos camelo, e disparar sobre elle: bem que fosse horrendo o tiro, ficou todavia o castello inteiro. Vendo os inimigos que nada obstante o castello de lado algum desfalecia, cerravão mais affoutamente com os nossos, mais rijamente instavão, mais desenvoltamente jubilavão, levantando alaridos, significadores de 310summo contentamento. O que vendo os outros castellos, mais atrevidos passavão áquelle sitio. Tanto era o poder de lanças, que os inimigos nos atiravão, que por entre as trévas, que o fumo tecia, e os incendios medonhos da artilheria, o que só ver-se e discernir podia erão settas em feixes, e pelouros em saraiva. Aqui Pacheco hum pouco attribulado de animo, voltou os olhos ao Ceo, e com grande voz, porque todos o ouvissem: “Oh Summo Regedor do Ceo (diz), bem sei que os peccados, que commettido tenho, grandissimos castigos requerem; peço-te não menos defiras tua vingança para tempos, em que a tua honra, e a gloria de teu santissimo Nome não padeça.” Disse, e mandou apontar o camelo, e dar-lhe segundo fogo; despedida a bala com fragor grandissimo, desmembrou grande parte do castello, arrojando no mar os homens que o guarnecião. Era de ver os nossos erguer as mãos ao Ceo, celebrar o Nome de Jesu Christo, reconhecer alli presente a Divindade, e resistir mais denodados ao inimigo. Finalmente o tal castello tiros de bala o desfizerão. Restavão nada obstante os outros castellos; e os que nelles erão, contendião com summo esforço desbaratar os nossos: como porém não podião vir a perto, lá de longe e sem cessar nos atiravão innumeraveis pelouros, e multidão de arremessões. Nenhuma lança nossa cahia em vão nos adversarios; 311muitos delles cahião mortos, muitos paráos ou rotos ou affundados. Em quanto assim se peleijava no mar, investio ElRei de Calecut mui poderosamente com o váo, e traçou passar á outra ribeira; mas Christovão Zuzarte, e Simão de Andrade, que andavão em bateis, e Lourenço Moreno, que peleijava sobre paráos de Cochim, mettêrão todas suas posses por lhes resistirem; e o Principe de Cochim com mil de seus soldados, que defendião a tranqueira, mostrou grande intrepidez e força. Todos se portárão de modo, que não só impedírão o transito dos inimigos, mas fizerão nelles bastante estrago. Consta que esta refrega fora mais crua e mais atróz do que as passadas, e nella perdêra o inimigo muitos baixeis, e muita quantidade de gente morta. A peleija começada ao romper do dia finalizou com a tarde; e a maré sobindo com violencia, cubrio de agua o váo, lançou os castellos para contrario sitio, com o que foi necessario a todos depôr as armas. Dos nossos houve alguns feridos, nenhum morto. Passada esta batalha, houverão alguns dias de descanço, e nelles veio de visita a Pacheco ElRei de Cochim, mui contentes elogios dar-lhe, e dispensar aos nossos mui solícito refeição de iguarias e fructos daquelle clima. O Çamorim desconfiado já da victoria, e ansiando fortemente voltar aos seus Paços, havendo muitos importunos, que lhe requeressem accommetter de 312novo os Lusitanos, tentar o ultimo dado da guerra, depois de tantos destroços padecidos, os assaltou ainda. Mas como os nossos ufanos com a victoria, peleijassem mais briosos, e os inimigos já descorçoados pelas passadas perdas, entrassem decadentes, e timidos na batalha, acontecia, que com mais facilidade fossem destruidos, e a Armada rota por muitas partes, se retirou do jogo. ElRei de Calecut agastado contra seus agoureiros, que como denunciadores do conceito dos deoses, lhe tinhão fraudulentos inculcado firme confiança na victoria, abominando delles, levantou os arraiaes. Mas nem assim cessou de tramar insidias a Pacheco, com intentos de perecello; descubertas porém, fez Pacheco fustigar rijamente alguns desses traidores com varas, e depois acaballos com o derradeiro supplicio: e mettendo-se de permeio muita fidalguia de Cochim, e pedindo affincadamente a Pacheco, que lhes perdoasse, elle os remetteo a ElRei, para que delles dispozesse o que mais acertado visse. ElRei de Calecut vendo agora que nada lhe sahíra a bem de quanto pensamenteado tinha, odiando a vida desdourada com tamanho aggravo, abdicou o Reino, pondo na real cadeira a Naubeadarim, e se foi recolher n’hum templo e casas consagradas á devoção, para empregar o resto de sua vida no culto dos seus deoses. Nada menos o estimulava por cartas, e por recados a renovar 313a renovar a guerra sua mãi, mulher de feroz condição. Dizendo não ser soffrivel consternar-se de animo por modo, que inteiramente depozesse a esperança de se vingar: que mais valia beber mil mortes, que deixar sem vingança tamanho descredito. Que aquella sua devoção apparente mais abonava timidez, que piedade: e se queria recommendar-se na reputação dos homens, e restituir-se no perdido decóro, caminhasse destemido, e denotasse a seus adversarios, que nenhum caso o podia torcer de seus pensamentos. Aguilhoado destas razões, sahio ainda a restaurar peleija; mas todos os Reis e Principes, que o tinhão acompanhado, vendo tão mal-paradas as cousas do Çamorim, não havia maneira de reduzillos a participar com elle a guerra; e mesmo tinhão muitos já tratado pazes com Trimumpará, e com Pacheco. Quebrantado, e com as esperanças perdidas, se recolheo de novo no mosteiro. Em fim durante cinco mezes, com trabalhos grandissimos concluio Pacheco esta guerra cuberto de insigne renome. Nella, como depois se verificou, perdeo o inimigo parte nas peleijas, parte de doenças 19$000 homens, sem contar a grande multidão de baixeis. Guerreados estes combates, e assentada a paz com muitos Principes, foi Pacheco informado, que Coulão fora em revolta, e que os Sarracenos, não se capacitando que os Portuguezes se tirassem das mãos dos inimigos, conspirárão a 314perda dos que em Coulão ficárão, e por astucias delles fora hum dos Lusitanos morto. Pelo que pardo Pacheco para Coulão, privou-se porém de castigar os homicidas, por não levantar grande discordia na Cidade em prejuizo grandissimo dos nossos, pedio com tudo aos Maioraes da Cidade continuassem no antigo concerto, pelo qual era precavido, que nenhuma náo carregaria especiarias, em quanto as embarcações Portuguezas não tivessem a bordo arrazoada carregação; que elle no porto via náos Sarracenas carregadas, em quanto as d’ElRei D. Manoel estavão boiantes. Ao que respondem, succedêra isso não de bom grado seu, mas de importunidade de confiados Sarracenos, arduos de reprimir em razão de seus opulentissimos cabedaes. Assim Pacheco de beneplacito dos Magnates, pagos os Sarracenos do custo da fazenda, fez baldear logo nas náos d’ElRei o que nas náos delles era já carregado. Depois se fez á véla; e dando hum gyro por aquella plaga Indiana, tomou de volta alguns navios, e fez algumas prezas. Tão grande era a fama de sua valentia, e de tanto medo delle erão traspassados Reis, Senhores, e Piratas, que ninguem ousava resistir a suas armas. Todas estas acções obrou elle até ao primeiro do mez de Setembro daquelle anno, que foi o de 1504: no qual tempo Lopo Soares, de quem antes fizemos menção, chegou á India com huma Armada 315de 13 vasos, e foi inteirado pelas cartas, que Pero de Ataíde antes da sua morte deixára escritas em Moçambique, da grande guerra, que elle imaginava nos faria ElRei de Calecut; o que tambem lhe significou ElRei de Melinde, quando as náos alli aportárão. Essa foi a causa, por que poz tanta diligencia na viagem até chegar á ilha Anchediva, onde encontrou Antonio de Saldanha, e Rui Lourenço, que nella tinhão invernado. E como já naquellas regiões principiasse a Primavera, partindo para Cananor, alli soube d’ElRei, e de Gonçalo Barbosa, feitor d’ElRei D. Manoel, com mais certeza as proezas de Pacheco. No dia seguinte ao em que affectuosamente fallára com ElRei de Cananor, veio ter com elle hum Arabio, e mais hum moço Portuguez com cartas dos Lusitanos alli cativos desde o tempo de Cabral, cuja substancia era em summa: Que ElRei de Calecut diminuíra e enfraquecêra muito seu poder com esta guerra emprehendida mal acertadamente, reprovada por todos, em razão de tantissimos estragos (como succede aos mal avisados, que só sabem attentar por suas cousas, escarmentados da temeridade). Que os Magnates da Cidade lhes advertírão, que escrevessem aos Capitães Portuguezes, no caso de quererem pazes com ElRei de Calecut, ser esta a occasião mais oportuna. Que o Rei de agora detestára sempre a passada guerra, por ser de indole benigna, 316e mui constante em guardar fidelidade, Fenecião as cartas com pedir-lhes e obtestar-lhe, que abraçasse o conselho pacífico, porque com elle podião não sómente vir grandes uteis aos Portuguezes, mas ainda serem libertados elles de miserrimo cativeiro. Tendo Lopo Soares lido as cartas, despedio o Sarraceno, e quiz reter comsigo o moço Portuguez; mas este repugnou constantemente, dizendo, que nunca se sujeitaria a tamanho desdouro, qual fora, se por medo da morte ou da escravidão, contra a promessa que dera, offerecesse motivo, não tornando, de cortarem os fios da vida aos Christãos, que já no entanto ficavão prezos. Lopo Soares os despedio ambos, e se fez á véla para Calecut; e como lançasse alli ferro, os Maioraes da Cidade o presenteárão logo com variadas iguarias, e muita diversidade de fructo em sinal de amizade; o que tudo rejeitou, dando por sua razão não dever, antes da paz feita, acceitar nada: que nunca inimigas dadivas contentárão adversarios. Veio depois Cogebique, o Mouro, de quem contámos tão egregiamente benemerito dos Lusitanos. Vinhão com elle dous cativos Portuguezes, e então he que começárão a tratar de paz. Pedião os Magnates, que esperasse pela chegada d’ElRei, que não tardaria quatro dias. Respondeo-lhes Soares, que não consentiria na paz, sem que primeiro lhe fossem entregues os Portuguezes e os dous fugitiyos de Milão; 317e nisto persistio. Quanto aos Lusitanos, facilmente lhe fora satisfeito; mas os Milanezes não vião maneira de satisfazer ao que requeria sem enorme nequicia; por quanto tinhão por acção mui torpe entregar ao supplicio, contra a promettida fé, homens que nella se tinhão confiado. Tenho para mim, que com quanta mais justiça estes Magnatas se portavão, tanto mais era digno de reprehensão; que punha mais affinco em castigar dous estrangeiros desertores, que em grangear a tantos Cidadãos a liberdade. Accrescião mais certos visos de torpissimo temor em porfiar tão obstinado em tal requerimento, como se depois de tão prostradas as forças dos inimigos, coubesse ainda traçar-nos grandes desastres dous unicos homens. Como blazonaria vinganças na perfidia, quaes ella requer, quem nos inimigos, com quem trata alliança, demanda quebrantamento de fé? E por mais não allegar, devendo a guerra haver-se com os inimigos pelos uteis dos conterraneos, mais se ha de fitar o intento em salvar os Cidadãos, que em acabar com os inimigos. Soares, que não attentava pelo tanto, desvelando-se nada pela vida dos Lusitanos, nem pelo estado e condição de Cogebique, que por amor dos Portuguezes corria discrime summo, abalou com bombardas a Cidade e lhe derrotou muitos edificios. Partindo logo para Cochim, visitou ElRei, e em nome do Senhor D. Manoel lhe agradeceo a lealdade, 318e o convidou com os amplos reaes presentes; mandando dous Capitães, Pedro de Mendonça, e Vasco de Carvalho, que com suas náos segurassem toda aquella costa, que deriva até ao porto de Calecut, a nossos amigos e alliados, infestando-a a nossos contrarios; encarregando a Affonso Lobo da Costa, a Pedro Affonso de Aguilar, a Lionel Coutinho, e a Rui d’Abreu fossem a Coulão, e carregassem seus navios da especiaria, que Pacheco por sua industria e seu trabalho tinha junto, e o feitor lhes havia de entregar. Pacheco logo que vio a seu gosto carregados os navios, voltou a Cochim, onde Soares o cumulou de tantos elogios, quanto ao parecer de todos dignissimo delles era. Aqui chegou correio a Soares, que a Cidade Cranganor lealissima aos de Calecut, levantára armas, e os burguezes todos se amotinavão: que já Maimame seu General, esquipára 80 paráos, e 5 navios, e por terra guiava Naubeadarim potente exercito, que de dia em dia engrossava em forcas. Tudo o que se fazia na intenção de que apenas sahisse da barra de Cochim a Armada Lusitana, sobreviessem devastar o Reino: por quanto ideavão passar suas trópas pelo váo de Paliporto, que tinhão por mais commodo. Conhecidos estes aprestos, pareceo bem a Soares por acordão dos mais Capitães, investir subito Cranganor, para desluzir todos os arrojos dos improvidos inimigos. Assim 319com 15 lanchas, 25 paráos, e 1 caravéla partem na mudez da noite, levando nestes vasos 1$000 nos nossos, e 1$000 de Cochim, que erão cubertos em Paliporto pelo Principe de Cochim com 800 Cochineses. Já caminhão cheios de gozo, e confiança ao aprasado sitio, o Principe por terra, e os nossos Capitães por mar. Já põe Soares na linha dianteira a Tristão da Silva, a Antonio Saldanha, a Pero Affonso d’Aguilar, a Affonso da Costa, e a Vasco de Carvalho. Tomava-lhes então o passo Maimam e seus dous filhos em duas possantes náos travadas mui fortemente com cadeias de ferro, e estavão estas náos bem bastecidas de artilheria, petrechos, e gran copia de arremessões e soldadesca para o combate, se preciso fosse. Contra ellas arrancão os nossos cinco Capitães, que guiavão a primeira linha: resistem-lhes com incrivel esforço e brio Maimam e seus filhos, de maneira que sua resistencia fez que a peleija se demorasse mais do que cada hum tinha em sua opinião. Morrem por fim Maimam e tambem seus filhos: logo soldados e marinheiros por outro lado aos mares se arremessão, com o que aos demais Capitães trivial foi sem renhida briga desbaratar os mais paráos, e pô-los em fugida. Ganhada a peleija maritima, poiárao em terra os nossos Capitães a sua gente, a que tambem juntou a sua o Principe de Cochim. Appareceo-lhes diante o exercito de Naubeadarim, e 320a batalha, que logo seguio, foi d’huma parte e de outra com muita coragem peleijada, até que cahindo muitos dos inimigos, aos demais tanto medo se lhes encarnou, que em tropel acudião espavoridos á Cidade, onde depositavão de si todo o cuidado de a defenderem. Por tanto com a mesma rapidez, com que emboscavão por huma porta, despedião por outra; e os nossos, que os aquecião no alcance, entrando de envolta com elles na Cidade, com faches, que lhe arrojavão, a derão a arder. Que são as casas pela mór quantia compostas de madeira, cubertas de folhas de palma, que bebem sófregas a chamma. Lavrava o incendio, consumião-se os edificios, e lançavão de si os Christãos, que alli medrosos se escondérão: estes vem pedir, que atalhem os nossos a fogueira, que não prenda nos sacros Templos, em que elles santificavão seus mysterios. Mettêrão-se hombros ao empenho; mas por mais diligencia que despregárão, não podérão tolher as chammas de consumir muitas moradas dos Christãos; as dos Arabios e dos Judeos, que o fogo não encetára, servírão ao repentino saque. No mesmo fogo ardêrão os navios e os paráos. A artilheria, armas e mais munições, que nos podião servir, forão carregadas na nossa Armada. Concluidas estas determinações, tornou Soares a Cochim com os outros Capitães. Ora como de Cranganor temos por varias vezes feito menção, avisado 321parece algum pouco fallar de sua situação, grandeza, e numero de gentes, que nella morão, e quem erão estes habitadores Christãos, quaes seus costumes, e suas leis. Dista (como já dissemos) Cranganor de Cochim 16$000 passos para o Norte. Banha-a hum rio, que junto della corre; o que fazendo varios seios, vai desaguar no mar Indiano. A Cidade era grande, e frequentada de muitas Nações, por ser ella emporio mui celebrado; ser Cidade livre, e regerem-na Magistrados legitimos por eleição do povo no cargo nomeados, ficava com tudo no amparo d’ElRei de Calecut, e seu partido seguia de boamente em qualquer guerra que se levantasse. Desta lealdade se desviou porém, quando entendeo quanto nossas armas tinhão abatido seus poderes. Habitão nella, além dos nacionaes, muitas outras gentes, que da Arabia e d’outras terras vem alli mercadejar. Os indigenas dados ao culto pagão, são iguaes em costumes aos demais Malaios. Os Templos, que os Christãos alli tem, não admirão pela elegancia, porque tambem são elles mui escaços de bens: cada sete dias tem hum Domingo, como entre nós, em que acodem á Igreja para assistir aos Sacrificios, e ouvirem as prégações. O seu Prelado supremo tem sua Sede nos montes septentrionaes mui arredados do mar, lá para a região, que Chaldêa se appellida, e com 12 Cardeaes, 2 Patriarcas, e muitos Bispos compõem hum Conselho; 322que decreta em todas as concernencias da Religião, e ao qual se sujeitão quantos Christãos vivem por aquellas plagas Orientaes. Tosquião-se lá os Sacerdotes de geito, que lhes appareça no alto da fronte huma cabelluda cruz: e para a Missa fazem uso de vinho de passas. Quando chegão á Eucaristia, todos recebem o Corpo de Christo na especie de pão e na bebida do sagrado calis: ninguem porém ousa vir á divina meza sem lavar pela confissão os enxovalhos das culpas. Nem tambem outorgão ás crianças o baptismal lavacro antes do quadragesimo dia depois de nados, senão só em caso de imminente perigo de vida. Se alguem cahe em doença grave, vai o Sacerdote visitallo, porque fião muito das orações delle, que alivião a alma do doente. Ao entrar na Igreja se persignão como nós com a agua benta, e guardão com os mortos os mesmos ritos, e com os mesmos Officios os enterrão: mas depois os parentes e os affins dão hum banquete, e oito dias passão em convites dedicados á honra dos enterrados, celebrando memorias suas, e rogando a Deos pela sua eterna salvação. Perdem seus dotes as viuvas, que antes de volver hum anno sobre o marido morto, casão. Tem muito respeito á santa Biblia em Syriaco, que elles chamão Chaldeo, e ha Interpretes della, que vão pelas praças públicas dar apurada intelligencia aos que se juntão para ouvilla. Observão estreitamente o 323jéjum da Quaresma e Advento, e todas as festas e solemnidades, que usamos, as cumprem com muita devoção e apparato, e o computo do anno com seu dia intercalar como o nós enxerimos nos bissextos, mui desveladamente observão. Fazem dia santo o primeiro de Julho, em honra de S. Thomé, não só para Christãos, mas até para os naturaes da terra, que nada contrahírão da santa Christandade. Tambem tem Conventos de Frades, e claustradas virgens em separados aposentos, todos os quaes guardão pureza com muito desempenho de probidade, de abstinencia e religião: os Sacerdotes porém tem suas mulheres. Se porém lhes morre a primeira, se esquivão ao diante a todo o matrimonio; e este para todos he indissoluvel em todos os casos, só o corta a morte d’hum dos conjuges. Estas leis, estes costumes desde as eras de S. Thomé, primeiro Apostolo, que a estas Nações evangelizou, recebêrão com muita devoção e zelo, e com o mesmo o continuárão até os nossos dias os Christãos não só de Cranganor, mas muitos outros, que demorão por aquellas Indias. O corpo do Santo jaz sepultado em Meliapur, Cidade pertencente ao Reino de Narsinga, e resplandece com muitos milagres. No tempo em que Martim Affonso de Sousa, mui valeroso Cavalleiro, Viso-reinava na India por ElRei D. João III., lhe trouxerão humas pranxas de bronze, e entalhadas nellas certas letras 324de tão avoengada escuridão, que ninguem atinava com o sentido dellas. Até que trouxerão hum Judeo entendido em muitas linguas, com suas luzes de antiquario, que com difficuldade decifrou as letras em parte gastas de velhice, em parte encadeadas, e em idioma mal corrente. Tudo quanto continhão era em substancia o Alvará de doação, pelo qual o Rei, que então era, outorgava a S. Thomé certa área de terra nelle limitada para a edificação d’hum Templo. E pois que deste insigne Varão menção fizemos, não tenho por desacertado apontar aqui outro testemunho antigo ácerca do mesmo Apostolo, que em seu moimento se encontrou. Pelos annos de 1562 mandou o Bispo de Cochim ao Cardeal D. Henrique hum documento authentico, em que se encerrava hum successo merecedor de historica lembrança. Na Cidade, que Meliapur dissemos se chamava, e agora desque os Portuguezes começárão a frequentalla, tomou o nome de S. Thomé, havia sobre hum tezo edificada huma Ermida, no mesmo sitio (ao que os moradores affirmão), em que o Santo por seus inimigos fora alanceado. Por solemne instituição se juntavão lá os Fieis todos os oito dias antes do Natal, ao sacrificio da Missa; e havia 14 annos já que alli se descubríra hum relevo de Cruz em marmore, assombrada pelo alto com a figura de huma pomba, e assentava a Cruz o seu pé n’huma certa especie de 325hervas, que parecião longemente se estenderem; tanto o pé, como o topo da hastea, e os dous braços da travéssa fenecião em flor de lirio. Cubria tudo pelo alto e como que o defendia e pelos lados, hum arco talhado na mesma pedra e nelle certa escritura, que ninguem podia ler. Com o trabalho de muitas pessoas collocárão a dita lapide como retablo, que era assás grande sobre o Altar. Sobresahião na cruz humas nodoas de sangue mui distintas; eis-que aconteceo hum dia, estando juntos os Christãos para celebrar na Ermida a saudação, que o Anjo fez á Santissima Virgem, aconteceo (digo), que quando o Celebrante começava o Evangelho, foi-se a Cruz vestindo de negra côr; e cahindo della incrivel copioso licor, foi-se depois a côr negra transmudando em azul; e naquelles lugares malhados com sangue, reluzia huma viva côr de rosa. Caso este, que se continuou pelos seguintes annos; e o que mais admirava era não succeder aquelle portento n’outro dia, excepto este. Por algum tempo parou aquelle, para todos, assombroso caso: até que no anno de 1561 congregados na mesma Ermida os Christãos com a mesma pompa e celebridade no dia em que a Cruz sohia destillar, em quanto o Sacrificio durava, em começando o Sacerdote o Evangelho (tambem causava pasmo, que não fizesse a Cruz mudança, menos de se entrar a ler o Evangelho), de repente se cubrio 326a Cruz de manchas pretas, brilhantes todavia; e coalhando-se mais humas sobre outras, ennegreceo: e reluzia de maneira, que a disseras vernizada. Entrou logo a borbulhar d’orvalhosas gottas, que engrossando pouco a pouco, banhárão toda a Cruz de copiosissimo licor. Foi continuando com muitas lagrimas, e amiudados soluços o Sacerdote o Sacrificio, até que subindo-se ao Altar, ensopou os Corporaes na humidade da Cruz, e estes parecião embebidos em sangue fresco. Levantavão as mãos ao Ceo o Regedor da Cidade, e quantos em grande numero erão alli juntos, imploravão a Divindade de Jesu Christo, pedião perdão de suas culpas, abalando em si mais ardente fervor de devoção. A Cruz principiou então (destillada já a mór força do licor) a resplandecer com maior lustre, e a sobresahir nella a côr sanguinea mais ao claro. Com este milagre se lançou o Regedor da Cidade, e o Paroco principal a investigar com mais desvelo quem lhes interpretasse a sentença daquellas letras. Dizem os Cidadãos, que havia no Reino de Narsinga hum Bramane muito sabedor entre os mais Bramanes em toda a doutrina e erudição, intelligente em varias linguas: a este procurão sem demora, e lhe perguntão se aquellas letras comprehendia; e elle responde, que ellas erão a Escritura antiga, de que usavão os Sapientes; tal fora porém o descuido dos homens, que o entendimento dellas inteiramente 327decahíra; e ainda a lingua mesma, em que estavão estampadas, mui poucos a conhecião. Encommendavão ao Bramane, que ao Altar subisse; mas elle que tinha por grande sacrilegio devassar com os pés lugar, em que se operavão Divinos Sacrificios, resistia. Subio com tudo bem a seu máo grado, e foi lendo as letras, cada huma das quaes (disse elle) desempenhava funções de dez outras, e de 15, e de 20. Ora a substancia destas se cifrava assim: “No reinado de Sagam veio mandado a estas regiões pelo Filho de Deos, de quem era discipulo Thomé, Varão divino, para aquellas gentes doutrinar na noticia de Christo. Alli edificou hum Templo, e obrou grandes maravilhas, até que estando, affincado em geolhos ante aquella Cruz, desfazendo-se em rogativas a Deos, certo Bramane com huma lança o traspassára, e a dita Cruz alli ficára tingida com o sangue do santissimo Doutrinador, deixada em perenne lembrança.” Téqui o conteúdo na Escritura. O que lhe deo maior abono, foi vir alli outro interprete da mesma Seita, muitissimo velho, e de sitios mui arredados, pessoa de grande opinião de saber, que a summa das taes letras explanou na mesma substancia. Hum traslado da Cruz, entalhado em taboa de igual madeira á de que foi construida a Igreja, tenho eu em meu poder com públicos instrumentos de certificação de muitas, 328que a averiguárão, e com argumentos taes, que impossivel he agora duvidar dos testificados feitos do divino Apostolo. Tive por bem entrançar nesta historia estes casos, para que melhor se entenda quão illustres monumentos do illustre S. Thomé conservão estes Christãos Indianos.
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EM quanto hião na India os successos que apontámos, apparelhava ElRei D. Manoel poderosa Armada, que lá mandasse; e nella a D. Francisco de Almeida, varão de singular valor, com o titulo de Viso-Rei e supremo governo em todo o Oriente. E por quanto queria em parte lançar lá os alicesses d’hum Imperio; e por outra parte evitar perigos de vida aos Portuguezes, que alli mercadejavão, e sobroço aos Reis alliados, em razão da inclinação que demostrassem pelo nome Lusitano, assentou pôr na India tal Capitão, que com sua industria, lealdade, e vigilancia o conseguisse. Neste anno, que foi o de 1505, mandou a Roma Diogo de Sousa, e a Diogo Pacheco, assinalado Jurisconsulto, e Orador mui abalizado, que em seu nome prestassem obediencia ao Papa Julio II., que com summo consentimento dos Cardeaes subíra a aquella excelsa dignidade, e lhe pedissem que pois 330as guerras, que sostinha em Africa, se não guerreavão sem grandes despezas, concedesse do thesouro da Igreja algumas indulgencias aos que voluntarios concorressem para ellas com suas esmolas. Tambem pela mesma sazão veio ter com D. Manoel Fr. Mauro, Religioso Franciscano de mui acreditada reputação, que por então era Guardião do Convento de Monte-Sião em Jerusalem. Tinha esta sua visita por motivo, que o Soldão d’Egypto e da Syria, molestado das graves offensas, que nas cousas de sua competencia tinhão os Portuguezes commettido, dera a este Fr. Mauro cartas para o Summo Pontifice, encarregando-o que pela authoridade e religião, de que era revestido, voltasse o Papa Julio do bordo que elle desejava. O que vinha contendo nas cartas era: Que dos Reis de Hespanha muitos aggravos tinha recebido, por quanto Fernando de Aragão invadíra com exercitos a Andalusia; e dos Sarracenos, que a possuião, huns matára cruamente, outros esbulhados de suas fazendas, forçára a desterrarem-se; e os que nella ficárão, com durissima dominação opprimia violento; e o que mais grave se sentia, era o obrigallos pela força a abraçarem a Lei Christã: Que nem entre Christãos, nem entre Mahometanos era permittido constranger alguem a detestar a Religião, em que fora criado: Que lhe não era possivel dissimular o estrago, e insulto perpetrado contra o direito commum, 331nem as injúrias infligidas á Religião: Que ElRei de Portugal com suas Armadas infestava a India, prejudicando, e aggravando os que da Arabia e do Egypto a ella navegavão, não escapando as náos mesmas do Soldão de ser rendidas e queimadas: Que nenhum direito o consentia; pois não podião os Lusitanos dizer, que desaggravavão insultos a elles offerecidos: antes por obra, e cruezas delles derivavão para outros portos muitos dos direitos, que elle arrecadava: Que até á hora presente tivera elle Soldão muito a ponto, que aos Christãos habituados na Syria ou no Egypto, os que alli negociavão, ou peregrinavão ao santo Sepulcro, se não désse vexação alguma. Mas que se os Reis de Hespanha continuassem a molestar assim a gente Mahometana, então lhe seria forçoso maquinar ás Nações Christans toda a perdição, e acerrima vingança ás injúrias recebidas. Que daria morte a quantos Christãos se encontrassem por seus dominios, que lhes demoliria as Igrejas, e até o santo Sepulcro, e daria traça, com que o nome Christão fosse apagado de seu Imperio: Que outro sim tinha em seu animo, em desaffronta de taes delictos, aprestar poderosissima Armada, com que gravissimos damnos acareasse a muitas regiões da Europa; advertindo o Papa Julio, que se quizesse atalhar supplicios e morte a numerosissimos Christãos, conservar os Templos, que ainda pela Asia e pelo Egypto 332estavão em pé, resguardar o santo Sepulcro, e repellir de muitos confins da Republica Christã a devastação e incendio, tratasse com D. Manoel, que não mandasse mais Armadas á India: sem o que não se esquivaria a Europa de sobejas mortandades. Logo que Julio taes cartas recebeo de Fr. Mauro, por elle mesmo mandou traslados dellas a ambos os Reis de Hespanha, e por outras suas lhes requeria, que resposta tinha de enviar ao Soldão. A que Fernando lhe deo não podémos alcançar; mas a de D. Manoel hia nesta substancia. “Vi, Santissimo Padre, as cartas, que de Vós me trouxe Fr. Mauro, e com ella a copia da do Soldão, em que se queixa de aggravos, que aos Mouros Granadinos fizera o Senhor Rei D. Fernando, a quem, como a amantissimo venero e honro, como tambem dos damnos, que em gravissimos termos argúe terem dos Portuguezes padecido na India os Sarracenos. E nisso sem querer dá maior vangloria ao nome nosso, em mostrar quanto cada qual de nós he infesto aos Sarracenos. Que fazer póde hum Principe Christão de mais apto, nem de mais formoso para sua perduravel gloria, de que envidar todo o affincamento seu em arrancar a pestifera e nefanda superstição de Mafamede, e delir o nome d’hum facinoroso usurpador? Arremette-nos depois com ameaças, e com barbara soberba e crueldade 333nos alardea terrores, como se os que peleijamos pela Fé espavoridos de atrocidades de palavra, desistiriamos logo da emprehendida facção, e da causa da santissima Religião, que abraçado temos. Dar-lhe-ha meu sogro, o invictissimo Fernando, resposta mui conforme ás proezas tão preclaras por elle concluidas, mui conforme a seu valor e sabedoria. O que eu desde já sei he, que nunca lhe metteráõ tanto medo as barbaras ameaças do inimigo, que se arrependa de sempiterno renome, que adquirio com libertar a Hespanha da Arabica tyrannia. De mim posso affirmar, Santissimo Padre, que a minha maior angustia he não ter acudido o tyranno Soldão com mais pezada somma de queixumes, de que estimulado então rompesse em mais minaces termos, em vingança dos recebidos prejuizos, de maneira que aos que por valentias quebrantar não pôde, cuidasse em intimidallos com mal-baratados feros. Que quando nós propendemos em romper ás nossas Armadas o caminho para a India, e investigar regiões desmaginadas de nossos Maiores, foi com animo de ir decepar a cabeça da seita Mahometana, d’onde tão más obras infestissimo o demonio verteo pela redondez da terra, e para acabar d’huma vez com aquella Méca situada na Arabia, e onde jaz o moimento de Mafoma, com estrago de Lusitanas armas. 334Se porém não condisse atéqui o succésso com o desejo, muito o sentimos; mas ainda nos acena a esperança, ajudada do Summo Deos, que alguma hora o conseguiremos; para o que já com sua industria e valor lanção os Portuguezes as primeiras pedras. Para quando esses baluartes de Mafamede forem derrocados e esparzidos, e essa terra, que tamanho monstro sustentou, e que inda hoje taes reliquias tem no collo, for talada e destruida, guarde elle essas ôcas ameaças, então urre de cólera o barbaro Soldão; e não agora, que tão leve o arranhárão. Quanto á assolação a ferro e fogo na Europa, a ruina do santo Sepulcro, e carnificina de Christãos, não ha sisudamente que recear das quiméras de seu vasio dizer: que não he para hum inimigo avaro consentir em agorentar direitos, que com a peregrinação christã lhe avultão, e os grandes uteis, que lhe provém de frequentação nossa, se os lugares santos demolíra: nem he elle tão desassisado, que fazendo esse aggravo a toda a Republica Christã, queira assanhar contra si os animos de todos, e convertellos de suas reciprocas dissensões em seu proprio damno e ruina. Que só he a affronta e deslustre commum juntar animos discordantes, e metter esporas no castigo de soberbissimos aggressores. Que não se deslembra tanto a gente Catholica da sua santissima Religião, 335nem de seu antigo pundonor, que deixe sem castigadora vingança tão descomposto insulto. Pelo que não duvido, que se tal estrago o Soldão commette, todos os Christãos ora mancebos, ora velhos acudiráõ de todo o mundo, a vingar com estreitissimas vontades desacato semelhante. Elle que bem o percebe, não será tão louco, que armar queira contra si e seus interesses tamanho desastre. Muito me lastíma, que nossos Principes Catholicos com as discordias suas déssem aberta a tantas soberbias do tyranno, que ouse atrózmente ameaçar com feros a aquelles; que seu imperio, que seu nome tão facilmente desbaratar podião. Pelo que, Santissimo Padre, não só encommendo e admoesto, mas ainda supplico e rogo huma empreza digna da virtude de hum Papa, digna de seu saber e zelo, digna de quem nesse lugar prefaz em amplidade e santidade as vezes de Jesu Christo, que he trazer á concordia com essa sacrosanta authoridade os Principes desavindos, e levarem com bem congraçados animos suas bandeiras á Asia, e á Africa, e lá derribarem de seu estado o inimigo, que não seu proprio esforço, mas o descuido dos Christãos tornárão insolente; e rasparem inteiramente dos annaes do mundo o nome de Mafamede. O que fazendo, illustre estrada vos franqueareis para os Ceos, e encommendareis á eterna lembrança o nome 336vosso. Que já do Pontifice Alexandre, cuja Sede occupais, alguns Principes Christãos juntamente comigo a grande instancia o requerêrão: e talvez que então não houve effeito, por vos guardar Deos este assumpto de immortal louvor e gloria. Em quanto á resposta, que por cartas nos pedis notada para o Soldão, nisso conhece a humanissima vontade, e plenidão de affecto vossa, ácerca da qual nos desempenharemos com o religioso obsequio, zelo e veneração, que vos he devido. Que nos não cabe prescrever á vossa intelligencia, nem á do gravissimo Collegio dos Cardeaes, o que se ha de responder ao Soldão; mas descubrir-vos unicamente qual seja o nosso pensamento, e o que no animo revolvemos. Para vo-lo dar pois a entender, digo: Que homem sou eu, a quem nenhumas ameaças, nenhuns terrores, nenhumas difficuldades arredaráõ de vir ao cabo, do que huma vez emprehendi; pelo que todas hei de atezar as cordas do engenho, a quebrantar com a mais disferida guerra, e humilhar a ousadia desse ferino e insolente adversario. Rogo a Jesu Christo Nosso Senhor, que com seu divino espirito robore o entendimento de Vossa Santidade, para que sempre governe como téqui a Igreja Catholica com grande gloria sua.” Com esta carta, e muitos mimos e presente, despedio ElRei D. Manoel a Fr. Mauro; e este 337com outra, que tambem recebeo d’ElRei D. Fernando, partio para Roma, e de lá com cartas do Pontifice Romano tornou para o Soldão; o qual dellas colheo muito, bem que não com feros, mas com valor requeria peleijar com o Lusitano. Cuidou por tanto em apparelhar huma grossa Armada (de que depois fallaremos), com que prostrasse na India os Portuguezes. Chegou neste anno Soares a Lisboa; e posto que d’ElRei e de toda a Nobreza bem agasalhado fosse, todos os olhos com incrivel admiração se empregavão em Duarte Pacheco, que com elle vinha: por quanto com muitos louvores exalçavão até ás estrellas a despedição, com que se houvera na guerra, a grandeza de animo nos perigos, a constancia e soffrimento nos trabalhos, e a ventura no concluimento das batalhas. ElRei mandou, que em seu nome houvessem orações, e foi em Procissão desde a Sé com muita pompa até o Convento de S. Domingos. Com elle hião todos os de sua Casa, e a seu lado hia o Pacheco, para que vissem todos como Sua Alteza honrava o merito. Entrados na Igreja, D. Diogo Ortiz, Bispo de Viseu, homem mui perito nas santas Escrituras, e bem fallante, fez hum aceado Discurso, em que afformoseou com mui nobres periodos suas admirandas proezas; por hum modo todavia, que á maior gloria do Senhor, pia e santamente, como justo era, as arrogava todas. Não satisfeito 338ainda ElRei D. Manoel, escreveo a quasi todos os Principes Christãos cartas recamadas de louvores devidos ás façanhas de Pacheco, para que seu nome em toda a Christandade com resonante gloria se espalhasse. Para que porém entendamos quão falsarias são as humanas confianças, não será desacerto cifrar aqui quaes forão os galardões, com que por ultimo pagos forão os serviços de tão valerosissimo Varão. Entendendo ElRei, que Pacheco ficára muito atenuado, por ter consumido em guerras o pouco que possuia, e que da India só comsigo trouvera (capitaneando com esforço e ventura tão guerreadas peleijas) egregio renome, o nomeou Governador de S. Jorge da Mina, Cidade da Ethiopia, donde sóhe vir muito ouro a Portugal, para que em tal governo olhasse por seus interesses. Mas como andassem ateadas nelle as invejas de muitos, estas crestárão sua probidade e honra por modo, que o accusárão de ter defraudado a ElRei de grandissima quantia de ouro, e de muitos outros crimes, e máos feitos. Pelo que mandou Sua Alteza lho trouxessem com ferros aos pés a Portugal, onde lançado n’hum calabouço miserrimamente jouve, até que examinados com mais apuramento os capitulos, sahio claro, que os delictos que os inimigos lhe imputarão, erão em parte falsas, e em parte leves. Então he que o despejárão dos grilhões, e lhe restituírão as honras, sem com tudo o proverem 339da recompensa merecida por tão inclyta virtude: assim viveo indigente vida. Tanto póde o que máos insinuárão nos ouvidos dos Reis, inda os mais extremados, que os desvião muitissimas vezes de acudir com os dons devidos á virtude, que he aonde mais reluz a grandeza do real elogio. Nesse mesmo anno reformou ElRei muito nas Ordenações antigas, muito accrescentou; e em quanto ás rendas, muitos bons Decretos publicou, e poz muito desvelo em demarcar os prédios destinados ao serviço de casas Religiosas, de peregrinos, e de Hospitaes. Quasi por esses dias levantou, com licença d’ElRei huma fortaleza João de Sequeira sobre o Cabo de Guer, na região da Ethiopia, appellidada Gadanabar, a qual depois, como a não podésse conservar, cedeo a ElRei, que lhe retribuio com magnificencia regia o trabalho e despezas, que alli pozera. Veio depois o mez de Outubro, em que accommetteo a Lisboa hum ar pestifero, que levou da vida a muitos, e a D. Manoel lhe foi forçoso retirar-se a Almeirim. Estava nessa occasião em Arzila Francisco Pereira Pestana, fidalgo mui valente, que grandes mostras de seu brio dera já em mui arriscados combates: ora tendo havido de D. João de Menezes (que como dissemos governava então Arzila) 70 Cavalleiros, se foi com elles a hum Aduar, que ficava no topo d’hum monte mui levantado. Sahio de noite, para se ir pôr de embuscada 340á vista do Aduar. Vierão sahindo, apenas amanheceo, os montesinos do lugar com seus rebanhos e armentios ao pasto: então he que lhes deo o Pestana de sobresalto, os affugentou; e rebanhando comsigo as rezes todas, poz-se com a preza em direitura de Arzila. Eis-que os Mouros apupando d’huns a outros, como usão para sinal, appellidárão todo o contorno; com o que acudírão muitos Cavalleiros, que se pozérão em rapido seguimento do Pestana; que como podia lhes quebrava o ardimento, indo sempre recolhendo-se á fortaleza; e ás vezes voltando-se a elles de galope, para com estas investidas os avagarar. Tinha já andado 8 milhas, e ainda até a Arzila lhe faltavão 4; e como os inimigos o avexavão muito, se sobio com os seus a hum outeiro; e os inimigos, que suspeitárão cilada, no costado avesso do outeiro estacárão. Ficava-lhes aos nossos desempeçado o caminho para folgadamente se retirarem; e o farião: quando Diogo Viegas, mui valente Cavalleiro, que na companhia vinha, a grandes brados começou a incitar a todos, que déssem sobre os Mouros. “Vamos (bradava), vamos a estes perros, que nos não aparão a saltada.” Pestana, que de seu genio era assomado e iroso, accendeo-se e mui desabridas palavras lhe soltou, e entre outros baldões o de andar vestido de canhamaço: “E tão desasizado és, que tal conselho dês a quem tão entendido sabes 341na arte da peleijar?” Do que rindo, lhe tomou o Viegas: Este caçote de canhamaço te parecerá bem presto ser de aço e do mais fino. Irritado o Pestana de seu fallar: “Agora o veremos (lhe responde) se és tão valente. Partamos, camaradas, avancemos do inimigo.” Assim se arremessão todos aos Mouros, que tal não esperando, cobrárão medo, e fugírão derrotados; ficárão oitenta mortos, e trinta cativos. Em quanto ardia a peleija, deitou Pestana os olhos a Viegas, que com tanto valor se despejava, que era grande admiração ao mesmo Pestana: de sorte, que rematada a batalha, se lhe poz diante, dizendo-lhe ajoelhado: “Valentissimo Varão, desculpa a minha temeridade, e dá-me bastonadas, se assim te apraz: que bem merecidas são pancadas em quem não dá tino de teu valor. Ora te digo em verdade, que se tivesse sob minha bandeira seis Cavalleiros como tu, não receára entrar por Constantinopla, e deitar em ferros o Grão Turco.” Muito alegres por fim, e de bom acordo, tornárão a Arzila com toda a preza, que era assás avultada.
Engrossava em Lisboa em tanto a peste de dia em dia; e indo já lavrando por Santarem, temerosos muitos, que em razão da visinhança, prendesse no Palacio, foi-lhe forçoso a ElRei dar-se préssa a sahir delle, e acolher-se a Abrantes, Villa situada áquém do Téjo 342n’hum levantado morro. E como a Rainha viesse prenhe, e mui perto do parto, nella aos 3 de Março de 1506 foi allumiada com hum Principe, a quem chamárão Luiz, em cuja pessoa se demostrárão summa valentia, engenho, humanidade, e fé christã; de maneira seus louvores sobírão, que de muito era tido por merecedor do imperio do mundo. E bem que em toda a disciplina de esforçado guerreiro, e na arte de General fosse egregiamente instructo, e na sciencía do governo e outras liberaes sobresahisse e admirasse a todos a virtude, que nelle mais esclareceo, foi o ardentissimo zelo da Religião, em que tanto se abrazava, que sua alma bem que aposentada ainda no corpo peregrinava quasi de contínuo pelo Ceo. No anno que vamos correndo se apparelhou por mandado d’ElRei huma Armada para a India, em que hia por Capitão Tristão da Cunha. Tambem em Lisboa se amotinou por esse tempo o vulgacho; e tal foi o desatino e furia alli erguida, que a pique estiverão os Judeos todos, recentemente como dissemos, convertidos, de indignamente perecerem. O caso succedeo assim. Tinhão pouco antes chegado a Lisboa muitos navios mercantes da Belgia Franceza e da Alemanha, e a Cidade se achava mui nua de Burguezes, por se terem della retirado em razão do contagio; muitos dos que todavia tinhão ficado, se juntárão em 19 de Abril na Igreja de S. 343Domingos para os Officios Divinos. Ha na Igreja da parte esquerda huma Capella com a invocação do Senhor Jesus, mui devota, e mui frequentada pelo entranhavel acatamento dos Fieis. Assenta sobre o respaldo do Altar hum Crucifixo, em cuja chaga do Lado engasta hum crystal, que a cobre: e ora como pozessem nella os olhos muitas pessoas, e com elles a imaginação, e vissem sahir della hum luzeiro, entrárão a bradar: Grande milagre! pois que a Divindade Celeste se representava alli com tão pasmosos sinaes. Hum daquelles Hebreos, que pouco havia se alistárão nas bandeiras do Baptismo, negava a altos gritos haver milagre; que nem n’hum lenho secco cabia poder fazello; e bem que muita gente duvidasse do milagre, nunca convinha em tal occasião, nem a tal sujeito empregar suas palavras e affinco em desmaginar hum Judeo a gente, que tão encarnado tinha nos sentidos semelhante illusão. A multidão, que naturalmente he dessisuda e assomada, eivada agora com vislumbres de Religião, entrou a bramar de ouvir hum Christão denegar credito a hum milagre. Tratão-no de aleivoso, e malvado Judeo, traidor á Fé, cruel e deshorado inimigo, dignissimo de todos os tormentos e da morte. Forão crescendo sobre elle os vituperios de toda a parte; e tanto se escandece a cólera naquella mó de povo, que arremettem com o homem, travão-lhe dos cabellos, levão-no 344de rastos, e atormentando-o até o rocio, que espairece o Convento, e alli cruelissimamente morto, o despedação: erguem subito huma fogueira, onde arremessão os troços do cadaver. Accorreo a tal motim toda a gentalha, á qual hum Frade fez huma prégação accommodada a despertar vinganças da Religião. Com a mui azeda exhortatoria, a multidão que de seu natural toma subito furor, disparou em vehemente feridade. Tinhão já dous Frades alçado hum Crucifixo, e empuxado a plebe com altos gritos a matanças; e alternando como em choro, bradavão: “Heresia, heresia. Dai cabo della, que he maldita. Extingui esta gente abominavel.” Pojão em terra, vindos das náos, Francezes e Alemães, e se entremêão c’os Lusitanos já cevados na despiedosa chacina. Consta que computavão a 500 homens os que emprehendêrão o facinorosissimo destroço. Atravessados de ruindade e desatino, se arremessão a investir ferina e brutamente com os miseros Judeos, degollão, apunhalão, e ainda palpitantes e com vida os arrojão nas labaredas. Que naquelle mesmo rocio, em que o primeiro ardêra pelo aggravo, que sentíra o povo delle, roncavão já para taes cruezas amiudados incendios, por quanto com muito regozijo e préssa escravos, e gente do mais vil jaez acarretavão lenhas, a que não desfallecem chamas para a perfeição de tamanho desmandamento. 345Quebrarião corações de bravias gentes os prantos lamentosos das mulheres, as magoadissimas súpplicas dos homens, e os maviosissimos clamores tão geraes. Mas tão despidos andavão de humano os enfrascados naquelle morticinio, que sem perdoar nem a idade, nem a sexo, com antolhos para taes resguardos, algozavão por maneira, que naquelle dia forão mortos e queimados além de 500 pessoas dos Hebreos. E como o boato daquella carnificina se espalhasse no dia seguinte pelas aldeias do termo, vierão dellas mais de mil facinorosos verdugos aggregar-se ao bando dos malfeitores da Cidade: com o que refrescou a morte e justiças. E em razão de toda a familia Judaica se ter de temerosos escondido em casa, lhes arrombavão portas, e entravão dentro a degollar, como carniceiros, homens e mulheres e as donzellas mesmas, esmigalhando contra as paredes as criancinhas, tirando pelos pés huns mortos, outros espirando, para os lançarem nas fogueiras, e muitos mesmo cortados sómente de feridas, consumião nellas vivos. Tal embaçamento se apoderou então daquella miserrima gente e de seus sentidos, que nem lamentar seus mortos conseguião, nem deplorar seus infortunios. Os homisiados nem soltar ousavão huma só voz, despedir hum só gemido, ao ver arrebatar-se-lhes os filhos, os parentes para o supplicio. Tanto os desmaiára o susto, que dos mortos 346dessemelhavão os vivos! Saqueavão-lhes em tanto as casas os desalmados, e punhão em montes ouro, prata, e preciosos móveis; e se naquelle dia não morrêrão mór quantidade, foi pela ansia que se davão os Francezes em roubar e acarretar a preza para os seus navios. Chegou a tal ponto a furia daquelles sacrilegos, que devassavão os Templos sem respeito algum a Deos, e delles arrancavão os velhos, os meninos, e donzellas, que aos Altares se acolhêrão, que com as imagens dos Santos se abraçavão, e que piedosamente imploravão o amparo de Jesu Christo: logo alli brutamente lhes davão morte, ou vivos ao fogo os arrojavão. Muitos, que só pela cara, ou qualquer outra parecença jizavão pelo Judaismo, corrêrão risco de morte, e outros a padecêrão por esse unico presupposto: e ainda varios ante de lhe averiguarem se tinhão com os Hebreos connexão alguma, forão com pancadas, e com golpes desfigurados. Muitos encontrando com inimigos seus, e appellidando-os de Judeos, em seu sangue ensopavão as ferinas espadas, sem lhes dar azo a refutarem o falso aleive. Não tinhão os Magistrados affouteza tal, que ousassem atalhar o furor da multidão. Houve com tudo honestos Cidadãos, que abrigárão, que defendêrão os Judeos, que a elles se amparavão, subtrahindo-os a mortes cruelissimas, e pondo-os em seguro. Morrêrão todavia além de mil em tal estrago: e já tornavão no dia 347seguinte os malfeitores desatinados a renovar a carniceria; mas não achavão a quem matassem; que quasi quantos tocavão á gente Hebrea, se tinhão posto em cobro, fugidos huns, e encubertos outros em casa de pessoas piedosas. Fizerão com tudo algumas justiças das costumadas: em tudo morrêrão nos tres dias ao redor de dous mil Judeos. Sobre tarde entrárão na Cidade acompanhados de soldadesca dous fidalgos mui illustres Aires da Silva, e Alvaro de Castro, Regedores da Casa da Supplicação e Desembargo, e com sua vinda acalmou o destroço. Por quanto Francezes e Alemães com sobejo saque se recolhêrão logo a seus bordos; e dando á véla, fugírão para suas terras a todo o curso. Logo que D. Manoel ouvio a nova de tão insignes desacordos, ateou-se-lhe tão violenta cólera, que despachou subito a Diogo de Almeida, e a Diogo Lobo com suprema alçada a Lisboa, e que déssem a execrandos feitos exemplar castigo. Grão numero de culpados pagárão com as vidas a pena de seu desatino e crueldade; e os Frades, que arvorárão o Crucifixo, e encommendárão taes ferezas, degradados antes com muita solemnidade de suas Ordens, pois erão Sacerdotes, os enforcárão e queimárão. Os que forão lentos em comprimir a furia popular, forão huns multados em dinheiro, outros em honras: e a Cidade desfalcada em muitas prerogativas.
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Assim volvião em Portugal os negocios, em quanto á India navegava D. Francisco de Almeida. Tinha tomado a monção tão tarde, que em parte pelos temporaes, e em parte pelas calmarias, a muito custo dobrou o Cabo de boa esperança, por se encontrar com o Inverno, que nessa quadra por alli se assanha. E tambem porque enganados e transviados os Pilotos, se enfiárão pelo Sul mais longe do que convinha, e por essa razão lhes erão lá curtissimos os dias, andando-lhes o Sol mui ausente para as plagas do Septentrião: e ainda lhos encurtava mais a espessa nebrina, os destampados chuveiros, e as cargas de neve, que por seu insupportavel frio incommodavão por demasia os nossos. Dobrárão em fim o Cabo em 20 de Junho; e dobrado elle, mandou D. Francisco orçar mais junto a terra a Armada; mas em 2 de Julho tão grossa tempestade lhe veio repentina, que os mares acapellavão os navios. Por cabo applacadas mais as ondas, descahindo para além das costas da Ethiopia, foi a Armada surgir no porto de Quilôa, d’onde o Viso-Rei mandou saudar por alguns dos seus o Rei daquella terra, que accusado de sua propria consciencia e maldades commettidas, tinha na noite d’antes desamparado a Cidade. Ficára porém Mahomet Ancon, de quem fizemos já menção. A elle accorrêrão os soldados da guarnição, para que os dirigisse a rechaçar da Cidade e muros della o impeto 349dos nossos. D. Francisco, que não via vir de terra nem ElRei a visitallo, nem mandar-lhe satisfação deste descuido, suspeitou logo delle como tão malvado, e picaro maquinação de hostilidades. Pelo que assentou em investir com a Cidade; e como a maré que enchia, batesse já nas paredes dos edificios, tirou por 500 homens de brio; a vanguarda dos quaes composta de 200 soldados, confiou de seu filho, mui valente mancebo; e outros 300 guardou comsigo. Já nesse tempo cortado de pavor, tinha Mahomet fugido da Cidade. Entrou pois desaffogadamente nella o Viso-Rei; mas de que ninguem lhe tolhesse a entrada, desconfiou que houvessem ciladas encubertas, para cahir sobre os nossos entretidos no esbulho, e dispersos por sobeja seguridade: pelo que parando alli, mandou seu filho que se adiantasse com muito tento, e averiguando e não consentindo que os soldados se desmandassem. Havia na Cidade extrema solidão, ficárão nella poucos, e esses tão entranhados de modo, que nem acordo tomavão para fugir, nem para ficarem. Por mandado de Almeida se juntou n’huma grande casa a preza toda, e com muita equidade se distribuio entre os soldados, de que o General tirou para si huma só flécha. Dahi cuidou em edificar huma fortaleza perto da praia, em lugar conveniente e d’onde repulsar podésse os accommettimentos dos inimigos. Em quanto a fortaleza hia subindo, mandou 350dizer por hum mensageiro a Mahomet Ancon e aos mais habitadores, que tinhão de que dar graças a Deos de se verem vingados, e livres da dominação do cruel e perfido tyranno, pelos auspicios e singular benignidade do Optimo e Potentissimo Rei D. Manoel. Advertindo-os tambem, que considerassem nas fraudes, nas insidias, flagicios, e injúrias gravissimas, que tinhão soffrido daquelle injusto malfeitor: o que ao revéz seria d’ora em diante, em que os governarião com singular equidade, em que cada qual conservaria seu direito contra a malevolencia, perfidia, e assômo de tal homem. Que elle se empenharia a que fortalecidos pelas armas Portuguezas, rebatessem facilmente todos os aggravos de seus inimigos: e por lhes dar mais confiança, no por vir queria nomear-lhes por Monarca a Mahomet Ancon, de quem e de cuja bondade e fé, como tambem de sua real prudencia tinhão mui abonada experiencia. Que viessem pois pactear alliança c’huma amicissima Nação, e desfructarem seus haveres a seu sabor. Com gosto foi a nova acceita, e com faustos vivas trazem jubilosos a Mahomet n’hum formosissimo cavallo campeando. Então Almeida em nome d’ElRei de Portugal o investio da soberania, coroando-o de sua mão, cobrando sómente delle hum toleravel tributo em cada anno; e jurando Mahomet mui fielmente de ser para sempre sujeito ao Senhor D. Manoel, e nunca 351faltar á pontualidade do tributo concertado.
Entre estes acontecimentos chegárão a D. Francisco de Almeida dous Capitães, Gonçalo de Paiva, e Fernão Bermudes, que elle mandára a Moçambique para explorar de que animo estava o Xeque da ilha ácerca dos Lusitanos, e se por cartas, que nella os nossos em tal carreira tivessem deixado, se podésse rastrear o que se passava pela India. Davão os Capitães por nova, que na ilha tudo estava socegado; e mostrárão cartas de Francisco de Albuquerque, e Lopo Soares por elles encommendadas ao Xeque de partida para Lisboa, notadas todas de prósperas noticias. E ora aconteceo, que o novo Rei Mahomet vindo, segundo a usança, a saudar a D. Francisco de Almeida, lhe pedio mui reverente mandasse soltar os Arabios, que prisioneiros tinha; o que mui voluntario lhe concedeo o Viso-Rei; e Mahomet, quando summamente lho agradecia, interpoz outro requerimento de mór primor, dizendo: “Muita amizade e conversação, firmadas em santissima alliança, tive eu com Alfudail, o Rei de Quilôa, que este tyranno insidiosamente matou, depois de o despedir do Reino. Que se Alfudail vivêra ainda, certo estava eu em lhe ceder a realeza; por quanto homem sou, em quem prevalece a fé e o dever a quantas reaes riquezas ha: mas pois da vida he desfalcado, te peço e supplíco me outorgues convidar 352seu filho a que venha herdar de mim o Reino. Tenho (assim he) filhos, que a meu parecer não são todavia indignos de reinar; se porém meus filhos preferir para a successão do Reino, aos filhos do Monarca defunto, com quem mui estreitamente vivi, affigurar-se-me-ha ter contrahido perpétua nódoa de ignominia, que não só me deslustre, mas que a toda a minha posteridade seja opprobrio. Pelo que antes quero deixar a meus filhos hum transumpto de honra e de fidelidade, que testar-lhes amplissimo patrimonio.” Causou assombro grande semelhante pedir; que reparavão os nossos, em que homem cevado em doutrinas de Mafoma, cultivasse tal pundonor em amizade, com tanta alteza de animo desprezasse reaes dominios, e tão francamente antepozesse as obrigações devidas para com seu amigo morto á affeição de seus filhos. Todos á competencia o exalçavão, e pelo unico motivo de querer transpôr de seus proprios ao filho de Alfudail o Reino, o canonizavão dignissimo de reinar. Chamárão pois o Principe, e por ordem de Almeida se incumbio aos Cidadãos jurarem de acceitarem por seu Rei aquelle real mancebo, morto que fosse Mahomet.
Tudo assim assentado, nomeou o Viso-Rei por Capitão da fortaleza a Pedro Ferreira Fogaça, a quem mui miudamente prescreveo quanto era importante para a guarda della: de 353lá se fez á véla, e em quatro dias embocou a barra de Mombaça, tendo mandado diante a sondar o porto Gonçalo de Paiva. Trazia este comsigo dous Pilotos Arabios, que conhecião e erão mui praticos naquella entrada: e em quanto prefazião as ordens, foi chegando á torre; os que alli erão de presidio varejavão-lhe a náo com pedrisco de balas, a que elle respondia, abalando a torre com mais grossa artilheria. E como succedesse que huma bombarda nossa désse no paiol da sua polvora, ou que algumas faiscas cahissem sobre materia facil de atear-se, erguêrão-se labaredas, e os soldados do presidio amedrontados, desamparão a torre, para se acolherem fugidos á Cidade. Concluido este feito, e bem sondada a profundez da enseada, veio Gonçalo de Paiva dizer a D. Francisco, que não havia perigo de baixos; e assim mandou o Viso-Rei a Armada tomar ancoradouro defronte da Cidade. De lá enviou hum dos Pilotos advertir ElRei, que não viera alli com animo guerreador, mas antes que seus navios entrárão no porto de Mombaça com o fito de attentarem por sua dignidade e salvamento. Que tanta era a virtude e benignidade d’ElRei D. Manoel, que gozavão de melhor condição os que se lhe avassallavão, que quantos sujeitos erão a leis dos mais poderosos Imperadores. Tanto mais, que desajudados de amparo de outrem, lhes seria mui custoso e mui arriscado resistirem 354sós a seus contrarios. Que abrigados da sombra e pujança de tão bom Monarca, lhes fora mui facil descartar de suas cousas todo o aggravo de inimigos. Nem seria deslustroso a ElRei de Mombaça sujeitar-se a hum Soberano, a quem na Africa e nas Indias pagavão páreas. Se porém assim o fizesse, o teria sempre em conta de fidelissimo Monarca, e alliado de D. Manoel seu Amo, e nada omittiria do que tocasse á sua dignidade e segurança. Mas no caso de o não fazer assim, que lhe seria forçoso violentallo a que acceite o dominio d’hum Optimo Rei, e nelle viva mais affortunada vida. Com este recado partio o Piloto Arabio; mas os Mombacezes não consentírão que saltasse em terra. “Que se nella (dizião) punha os pés, o espedaçavão. Arreda-te, e já, daqui; e vai denunciar ao Lusitano, que atéqui o houve com as mulheres de Quilôa, e que agora com homens valentissimos o tem de haver. Que venha experimentallo, e sentirá então, que por grão desastre seu trouxera ao porto de Mombaça a Armada sua.” Apenas soube tal o Viso-Rei, que logo naquella noite mandou a João da Nova com mais outro Capitão, que tornassem algum dos moradores, do qual colhesse os intentos d’ElRei, e quaes trópas o guarnecião. Pojárão elles mui surdamente praia, e subito arrebatão hum homem, que se achou ser hum dos criados particulares d’ElRei, 355e prezo o navegárão a D. Francisco. Muito assustado lhe deo conta, que sabendo ElRei de Mombaça estar Quilôa tomada pelos Portuguezes, além dos soldados que já tinha, tomára mais 4$000 circumvisinhos a seu soldo, e esperava ainda por outros 2$000. Que tinha mui reforçada artilheria, e estava tão petrechado de tudo, que confiava rechaçar de seus muros e de sua Cidade exercitos mais poderosos que o nosso. Nem por isso desistio Almeida de investir com a Cidade. Pelo que mandou diante no dia seguinte a seu filho D. Lourenço com outros Capitães, que quantos tomassem terra, e com arremessões de fogo incendiassem a parte da Cidade, que olha contra a praia; o que elles tão rapidos exercêrão, que inda os contrarios não acudião a resistir-lhes, quando as chammas lhes comião já as casas. Vem já então impetuosos bandos arremeter com os nossos, que lhes fazem valeroso rechaço: enlea-se a peleija, em que acabão 70 inimigos, e 2 sómente nossos. Reparte-se em dous cuidados a Cidade, que d’huma banda os chamava o grande vulto do incendio, que pedia atalho, porque tudo não perecesse; d’outra parte os Portuguezes, com quem competia batalhar. Tanto porém medrou a fogueira, que de lhe não poder soster a quentura, foi relevante aos nossos embarcar-se mais que de passo nas lanchas, e acoutar-se nos navios. No dia seguinte antes de 356amanhecer o Viso-Rei poiou em terra as trópas; e tanto aclarava as trévas da noite o incendio que durava ainda, que se podia distinguir na praia não haver lá inimigos, que estorvassem o desembarque. Temendo-se porém de alguma cilada, não quiz D. Francisco assaltar a Cidade antes de luz clara. D. Lourenço, como seu pai lho ordenára, se tinha transferido a outra parte della, que havia de investir, e onde não havia muralhas, que o rompente lhe impedissem. Arremetêrão pois com a gente armada, que pejava as ruas; e como estas erão estreitas, as casas altas com eirados, porque em lugar de telhados são por cima rasas e com parapeitos, delles e das janellas os cubrião de pedradas e arremessos, de maneira que se vião os nossos atalhados, e sem poder ir no seguimento dos inimigos, que hião cedendo. Usar da artilheria grossa nem miuda não podião, que lho vedava a estreiteza das ruas; pelo que alguns dos nossos remettem ás portas das casas, arrombão-nas, québrão gonzos e ferrolhos, trepão andares, e a gran risco surgem pelos eirados: e como as casas são tão juntas, que se prendem huns eirados a outros, varrem de gente toda aquella ilha de casas, de maneira que folgão a passagem aos nossos da rua. Como porém os inimigos tivessem alluido as paredes d’huma das casas, atravancou-se-lhes com os destroços a rua. D. Lourenço de Almeida tomára a dianteira, 357e vinha na retaguarda João da Nova; mas co’as pedras e caliça, que se atravessárão entre ambos, ficárão tão arredados huns dos outros, que se não podião ajudar. Aqui entrou de novo a granizar das janellas e eirados tal cerração de tiros e arremessos, que se vírão os nossos em grandissimo perigo, e forão obrigados a romper por outras casas, e saltando destas a aquellas, e matando aqui muitos, acolá rebolcando-os dos altos eirados, desmanchárão o perigo, que os atribulava. D. Lourenço, que entendeo o sobroço em que estavão os do presidio, acudio lá a soccorrellos, a tempo já que se tinhão desempeçado delle; e assim juntando-se huns a outros, guiárão as trópas a Palacio, onde já se achava Pedro Bermudes, a quem o Viso-Rei confiára a guarda. Delle souberão então como D. Francisco d’Almeida mui cavalleirosamente derrotára os inimigos até penetrar em Palacio, e com que pavor estremecido ElRei se fora da Cidade. Foi D. Lourenço buscar seu pai, que n’huma das ruas peleijava mui brioso c’hum troço de bastos inimigos, com o impeto com que nelles carregou, pozerão pés em fuga, e com carreira incrivel se embrenhão nos cerrados matos, onde se escondêra ElRei. Os nossos depois de refeitos hum pouco do cançaço, saqueão a Cidade, onde não foi grande a preza, porque tinhão os inimigos mudado para as brenhas a maior e mais preciosa parte de 358seu haver. Achárão com tudo muitas armas e trabucos; e pela conta se achou terem morrido nesta rota 1$500 dos contrarios, e além de 2$000 cativos, 200 dos quaes sómente, e esses os mais principaes e mulheres estremadas deixou ficar o Viso-Rei, dando liberdade a todos os demais. Faltárão só dos nossos 5, e entre elles Fernão d’Eça, de nobilissimo nascimento, a quem atravessára o pé huma setta hervada: houverão muitos feridos. Por ordem de Almeida se deitou novo fogo á Cidade.
Negocios taes entretinhão o Viso-Rei, quando se veio a elle Vasco Gomes de Abreu, cuja náo com a tormenta se desgarrára da mais conserva; e então fizerão derrota para Melinde, mas tanto arribárão de sua via por força de correntes, que vierão a dar n’huma enseada, que dista 24$000 passos de Melinde; e nessa enseada se encontrou D. Francisco com mais duas náos tambem alli arribadas com a tempestade. D’huma dellas era Capitão Lopo Chanóca, e da outra João Homem, Varão mui singular pelas forças corporaes, e do animo; mais habil todavia nas artes de soldado, que nas de General. E ora como desejasse muito o Almeida ver a ElRei, fez com tudo o máo tempo que não podendo sahir da Armada, o enviasse saudar, e presentear com as dadivas do Senhor D. Manoel: ao que ElRei de Melinde respondeo, mandando seu irmão com muitos refrescos e outros dons, e com 359recado do muito que sentia ser privado de sua conversação. Daqui partírão para Anchediva, a cuja ilha abicárão em 13 de Setembro do dito anno de 1505, e lá por cartas de Gonçalo Gil Barbosa, encommendadas para o primeiro Commandante, que de Portugal alli chegasse, foi informado, que tinha já grande copia de especiaria junta, que podésse muitos navios carregar; e que se esperava ainda por 3 náos da Arabia, provídas de abastada mercancia: que se algumas náos nossas andassem naquella ilha a corso, lhes não podião escapar. Sabendo isto o Viso-Rei, despedio a João Homem, que fosse dar parte de sua chegada por Cochim, Cananor, e Coulão, e avisasse os Feitores d’ElRei a pôrem sua industria em achegar á praia as fazendas, de que as náos se havião de carregar. Encommendou a Lopo Chanóca, e a Gonçalo de Paiva guardassem aquellas costas com tal desvelo, que lhes não perpassassem de vista as náos, que se esperavão. E elle cuidou em lançar os alicesses da fortaleza n’hum sitio pouco distante do mar; e quando os abrião, derão c’humas paredinhas assinaladas de muitas cruzes negras, e vermelhas, o que deo a suspeitar, que fora antigamente aquella ilha frequentada de Christãos. Ajudada de muitas mãos, medrou em pouco tempo a obra a subida altura, que fidalgos á volta de peões sem isenção laboravão nella. Chegou em tanto Manoel Peçanha, que D. 360Francisco de Almeida encarregou de parte da Armada antes de dobrar o Cabo de boa esperança; com elle vinha Antão Vaz; e Gonçalo Vaz de Goes ficára em Quilôa, porque assim lho mandára o Viso-Rei; e Lucas da Affonseca invernou em Moçambique; Lopo Sanches com toda a sua companha soçobrado dos mares perecéra, e 5 unicos, que do naufragio sobrestárão, meio-mortos os recolheo Pero Barreto em seu navio. Capitães estes forão do troço da Armada, que commandára Manoel Peçanha, de quem soube Almeida, que Habraemo, o tyranno que elle despojára do Reino, tratára de armar ciladas, em que désse morte a ElRei Mahomet. Que para melhor urdir sua traição, mandára hum homem mui valente, que com cores de amizade se insinuasse na conversação de Mahomet, e que este ao querer matallo, lhe varára o braço com huma agomia; mas que não fora mortal a ferida, e que o traidor fora colhido ás mãos, e pagára a pena de seu delicto atormentado e morto. Não tardárão muitos dias o Chanóca e Paiva a entrar com prêa de navios, e entre elles muitos de Arabios: nos quaes zambucos se comprehendia hum bergantim, que trazia hum Portuguez, por quem Barbosa mandava ao Viso-Rei cartas, dizendo-lhe ter já entrado em Calecut huma daquellas tres náos, que lhe apontára virem da Arabia; que as duas porém ainda as esperavão. Que na náo, que 361já surgíra no porto, sabia que vinhão quatro Venezianos enviados pelo Imperador do Egypto, que Soldão nomeão artifices de peças de artilheria, que lhos tinha assim pedido o de Calecut por cartas. Rezavão mais as noticias, que o dito Soldão aprestava contra nós grandissima Armada, e em Calecut com muita diligencia se incumbião a prover a guerra. Segundo estas novas, determinou Almeida a Chanóca e Paiva tornassem a atalaiar aquelles mares, e cruzallos mui diligentes, que se lhes não esquivassem as outras duas náos, em quanto elle preparava huma galé real, cuja madeira trouxera de Portugal já lavrada, e a guarneceo de remeiros Arabios cativos, dando-lhe por Capitão a João Serrão, juntando-lhe mais dous bergantins, hum dos quaes governava Simão Martins, e o outro Diogo Dias, que aquelle mar guarecessem de invasão de adversarios.
Alli lhe mandou commetter alliança e paz por seus Embaixadores ElRei de Onor (dista a Cidade de Onor 32$000 passos de Anchediva). Nesta Cidade se achava então o pirata Timoja, de quem fizemos já menção, que inclinado a concertar ajustes com Almeida, intermeava com ElRei de Onor nesta alliança. O Viso-Rei recebeo suas homenagens, e delles soube que não longe dalli ficava a fortaleza de Cincatura, mui bem munida, e pertencente ao Rei de Decan, e que o Governador 362della era pago pelo Sabayo, que como dissemos dominava em Goa. Tinha ElRei de Onor amiudadas guerras com o Sabayo. D. Francisco disse a seu filho D. Lourenço, que fosse sondar a altura do porto, e este com os Capitães que lhe derão, se foi á fóz do rio, que corre ao pé da fortaleza, e achou beber 30 pés de sonda, e 50 mais adiante. Vio que a fortaleza assentava sobre hum tezo, e que os soldados della apenas avistárão nossas lanchas: tinhão accorrido á praia, que orçarião por 1$000, e mui bem armados: sómente vinhão 8 de cavallo, e entre elles hum era o Capitão da fortaleza. Levantárão os nossos bandeira de paz, e o Capitão logo que a vio, se encaminhou a D. Lourenço, e com elle ferio pazes; presenteando a D. Francisco com abandosas fructas, e outros refrescos, com que seus soldados refizessem as forças. Passados depois nove dias, mandou Embaixadores ao Viso-Rei, para com maior solemnidade celebrar alliança.
Ainda o Viso-Rei não tinha sahido de Anchediva, quando os nossos avistárão huma náo grande, que levava cavallos de Persia. Embarcão nas lanchas, e arremetem com ella; os Persas e Arabios, que nella erão, descem á sua lancha pelo portalô contrario, e salvão-se em terra. Dera a náo em secco, de maneira que a não podião os nossos trazer a reboque; e levantou-se além disso tempestade tal, que andavão já em grande transe as lanchas Portuguezas. 363Dos cavallos, que na náo vinhão, e erão 19, já 9 erão nas lanchas embarcados; e como as vagas lançassem os nossos para terra, e os Arabios habitadores della concorressem de toda a parte, os nossos lhe rogárão, que tivessem alli em deposito os cavallos, até que a tormenta fosse applacada. Tomárão os Arabios cargo dos cavallos, e os nossos entre grossos perigos se recolhêrão a Anchediva; e logo que passou a tempestade, voltárão a traspassar os cavallos; mas respondêrão-lhes os Arabios, que delles se apossára ElRei de Onor. Acudio subito o Viso-Rei a mandallo avisar, que observasse mais escrupulosamente os tratados e allianças, e lhe restituisse em continente os cavallos. Respondeo-lhe todavia de modo, que dava a perceber que aquella gente medía a pontualidade nos ajustes mais pela vara do interesse, que pela da lealdade: e a ponto tal, que lhes arredava a miudo os animos da consideração de perigos conseguintes. O que visto, deixando a Manoel Peçanha com pequeno presidio em Anchediva, poz a prôa em Onor; e tendo embocado o rio, que lava as praias da Cidade, poz o fito em devastar aquella região, e lançar fogo ás náos alli ancoradas. Os Arabios, que se achárão naquelle porto; promettêrão a D. Francisco de Almeida, que acabarião com ElRei de Onor, que lhe désse satisfação; e essa promessa fez que D. Francisco demorasse mais hum dia, e nesse em tanto 364se transferírão os moradores de noite aos montes visinhos com quanta fazenda podérão levar comsigo. Já lá estava ElRei. Então mandou o Almeida a seu filho incendiar quantos alli paravão. Como os montes, a que ElRei se acoutou, não erão dalli distantes, e de lá visse o grande transe, em que vião as náos todas, mandou-lhes 4$000 soldados de soccorro. Lavrava furioso o incendio já nas náos, já na Cidade; e para que não podessem os inimigos apagallo com sua industria, mandou o Viso-Rei a D. Lourenço, que accommettesse os que vinhão dar adjutorio. Vinhão elles porém em tão boa ordem, que não erão faceis de affugentar, porque formavão a vanguarda os abroquelados, e detrás delles os besteiros, que cubertos com as rodélas dos primeiros, ferião a seu salvo os nossos. Vacillava a peleija; mas eis-que os nossos remettem com impeto, e levão-os de fugida; mas Almeida, que os vio tão cevados no alcance, mandou tocar a recolher. Suspeitárão os inimigos, que de medrosos nos retiravamos á Armada: fórmão-se e vem de pinha cahir-nos sobre a retaguarda. Aqui foi o recebellos os nossos bem ordenados, por evitarem desarranjo, e embarcarem-se. Morrêrão na refrega muitos dos contrarios, queimárão-se-lhes 14 náos, e a Cidade quasi que toda ardeo: perdemos hum só homem, e o Viso-Rei ficou ferido no pollegar da mão direita. Logo por Embaixadores que vierão 365pedio ElRei pazes, a que Almeida respondeo não ter assás de vago para encetar tratados e allianças, que enviaria quanto antes seu filho com poderes para os conferir e confirmar. E partio para Cananor.
Neste mesmo espaço João Homem, como lho o Viso-Rei mandára, foi por onde era necessario, dando aviso de sua chegada e seu governo; e voltando sobre Coulão, soube de Antonio de Sá, feitor d’ElRei, que tanto tinhão os Arabios importunado, que lhe fora denegada a carga de especiaria devida pelos ajustes. Estavão então no porto 34 navios Sarracenos; e podérão elles tanto, que pretendião se lhes désse tanta carga quanta elles quizessem, antes que as náos Portuguezas nenhuma recebessem; quando estava pacteado, que huma libra de especiaria se não daria aos Sarracenos, que não se déssem por completas as náos Lusitanas. Aqui he que João Homem, que de seu natural era assomado, e que nunca em vida se temeo de nada, se foi aos navios Sarracenos e os despio de vélas e de lémes, que entregou a Antonio de Sá, dizendo-lhe: “Agora carregarás a teu gosto as náos; e comminando-lhe tambem, que em nenhum modo restituisse a aquelles perros e desleaes vélas nem lémes, que não estivessem estivadas as nossas náos; o que Antonio de Sá prometteo assim cumprir.” Partindo dalli João Homem, apanhou na viagem duas náos 366de Sarracenos, que mui amarrados lançou nos porões das náos rendidas, e para as governar, poz em cada huma dellas tres marinheiros, que não podia cercear-se de mais; e porque por terem vento de servir, imaginou que mui bem com elles farião sua carreira. Já hia á vista do Viso-Rei, e entrava pelo porto, quando eis-que de repente os Sarracenos d’huma dellas se desvencilhão improvisos de seus nós, matão os marinheiros; e virando as vélas, se perdem levemente da vista. Muito agastamento deo a Almeida este successo; teve a João Homem por indigno de capitanear facção alguma; mas tantos forão os rogos, que atalhado delles, lhes não tirou o governo da náo. Antes que dalli se fosse, edificou todavia por conselho de Gonçalo Gil Barbosa huma fortaleza; por quanto lhe advertia este, que taes erão as perfidias dos Sarracenos, e tantas as tramas, que tecião aos Portuguezes, que não seria poderoso ElRei de Cananor, ainda quando muito o quizesse de salvar da perdição aos nossos. Assentou então o Viso-Rei não largar a fortaleza, que lhe não tivesse dado o fim que desejava. Recebeo lá novas, que o Embaixador d’ElRei de Narsinga vinha da parte de seu amo comprimentallo. Mas antes que desta embaixada informemos o leitor, será de sizo dar-lhe breve conta da situação e grandeza do Reino de Narsinga.
Fica este Reino naquella parte da India 367áquém do Ganges, que contesta com o Sol nascente, e he mui chegado pelo Sul e seus sertões ás terras comarcans de Goa, demorando para o Occidente; e com as gentes destas partes traz porfiada guerra. He Reino mui vasto: de muitas Cidades engastado; abunda em pesca, em caça baixa e de veação, muitos gados e armentios. Padecem cruelissima superstição os Póvos, dado que conheção hum Deos unico, de quem crêm a suprema Potestade em todo o creado. Edificão Templos muito custosos, e os alfaião, como aos mais Templos da India, de estatuas de monstros disformissimos, e lhes rendem divinos cultos, fazendo grande veneração dos Brachmanes e de suas mulheres, que presidem a todos os actos religiosos. Tem mais outra classe de homens muito acatados, que são os Bancanes, aos quaes pende do pescoço hum ovo de pedra furado, por onde passão tres fios: a significação do tal ovo dizem elles que encerra a sua suprema Divindade, e por essa causa grangeão muito respeito. Chama-se Tambarane essa pedra tão religiosamente venerada. Abstem-se elles de carnes e pescados: só huma vez na vida casão, e suas mulheres, quando os maridos morrem, se enterrão junto delles vivas; as que porém desposão os outros homens, se lanção n’huma fogueira vivas depois da morte dos maridos, ajuntando-se-lhes para a ceremonia grande sequito de familia, que com muitos cantares e elogios as 368engrandecem. Todos os setimos dias são de guarda, e este he o que nós appellidamos sexta feira; e afóra deste ha muitos dias no decurso do anno, que elles pela religião ha muito alli plantada, celebrão com hymnos e sacros estabelecidos ritos. Crêm ser immortal a alma, e que por divino acerto ha premios deparados para bons, e castigo para máos. São baços, mas primorosos em seu aceio, e dados a amores, e por elles entre si se dilacerão. Quem provoca outrem a desafio, pede campo a ElRei, onde se lhe permitta combater com seu contrario; e se são pessoas com opinião de valentia, vai ElRei assistir, e dá huma cadeneta de ouro ao vencedor, que tem de para sempre a defender, se não quer despossuir-se do brazão e honra da adquirida gloria. Que he permittido a qualquer o disputar-lhe, por armas a dignidade e merito da dita cadeneta; por quanto esta compete ao vencedor, e se despede de quem se deixou vencer: nem ha juizo de armas entre guerreiros; que os artifices mesmos o pleiteão sobre a excellencia de seus misteres. Chama-se Bimagá a Metropoli deste Reino, que tem de circuito 4$000 passos, e se cinge com muitas muralhas; contém vastas moradas, e mui sumptuosos Templos, e he habitada e cheia de apinhados moradores. Tem de recheio muitas mercancias, que de todas as partes a ella concorrem: os Mercadores, que da Persia e da Arabia alli 369vem por mar, não pagão direitos; todos os mais os pagão. ElRei compra os cavallos aos Mercadores; guarda para si os que bem lhe contentão, e os mais vende-os, ou dá de presente. Seu Palacio he vastissimo e edificado a muito custo, com amenissimos jardins, e tanques de pesca em innumeraveis cardumes. Quando ElRei sahe he sempre rodeado de muitissima soldadesca, e com tanto acatamento he venerado pelos seus, que orça já por superstição: ornão-lhe a meza mui esquisitas iguarias, e seu corpo reluz sempre com pommadas, com ouro, e pedrarias. Nunca tem mulher primaria, que sobreleve das mais; sim tem numero grandissimo de amigas, que entre as familias nobilissimas se lhe escolhem. Se ElRei morre, accende-se huma fogueira de cheirosissimos lenhos, onde se traz o real cadaver, e alli se lanção tambem todas as suas concubinas, os de sua familia, e quantos o servião ou com elle adquirírão privança e nome, e com tanta ansia de arderem se arremessão á fogueira, que parece que naquella sociedade de morte, com que acompanhão o Soberano, librão a maior honraria. Tem os Reis de Narsinga justiça igual para todos, e dão seguridade e franquia a todo o Mercador. Ha muitos e mui grandes fidalgos; mas com açoutes ou morte são punidos, se algum aggravo commettêrão, que se não permitte alli a prepotencia a posses nem nobreza. Ajuntão os 370Monarcas grandissimos thesouros, nem consentem desfalcar os que seus Maiores lhes deixárão, se os não constrange necessidade urgente, tendo-o por nefaria cousa. Pelo que possuem, muito ouro e muito diamante; que como naquellas regiões se arrancão os de maiores quilates, tem delles amuados cúmulos. Entretem muitos soldados, a quem dão cavallos, e cada dia se lhes dá de Palacio ração para elles e para seus cavallos; e os que huma vez assentão praça, não podem sem real licença sahir das raias do Reino. A infanteria não tem numero. Muitas mais cousas, se podião noticiar do Reino de Narsinga, de seus usos, da opulencia de seus Reis, de seu luxo e magnificencia, que por servir á concisão e theor, a que nos cingimos, deixamos por demoradas.
Movido da fama, que por suas proezas tinhão os nossos grangeado pela India, o Rei que então governava, determinou travar amizade com o Viso-Rei, e ajustar com elle pactos; por tanto mandou a Almeida hum Embaixador com cartas, e presentes, e cuidado de as passar em seu nome a ElRei D. Manoel. Recebeo-o Almeida com muitas honras; e tendo lido as cartas, que nada mais erão que credenciaes, lhe ouvio sua embaixada, cujo sentido em summa era assim: “Que ElRei de Narsinga procurava com grande ansia e ardor fundar federação com ElRei D. Manoel; por quanto lhe encostára tão agudos 371estimulos a fama de suas admiraveis virtudes, que nada mais ardentemente appetecia, que liar estreitissima amizade com hum Principe de tão preclaras prendas, para cuja fama não desejava maior abono que quanto os Portuguezes naquelles poucos annos obrado tinhão na India. Que não podia induzir seu animo que hum Rei, que em tão valentes homens imperava, não sobrepujasse em singular e quasi divina virtude, e fosse muito digno de que todos os Reis do mundo universo ás invejas o amassem e tudo a seu saber lhe desejassem. Que muito de vontade cumpriria com todas as suas posses no tocante a sua dignidade; nem consentiria que outro Rei algum se lhe avantajasse em vulto de amizade e zelo. E que se não dava de rosto a matrimonios, lhe offerecia voluntaria a Princeza sua filha, de mui formoso semblante e custosamente dotada, para que as vodas della com o Principe D. João, filho de D. Manoel, firmassem em maior base as allianças. Tanto e não mais continha a embaixada. Mandava mais ElRei dous collares de preciosissima pedraria, e dous anneis com gemmas de muito valor, e vestidos de ouro e seda, que tudo queria se remettesse a D. Manoel pelo primeiro aviamento de navios.”
Recebeo Almeida com grão contentamento esta embaixada, presenteando com muitas 372dadivas a quem lha trouxe, e em nome de Sua Alteza a ElRei de Narsinga escreveo mui honrados comprimentos, abonando em sua fé, que remetteria a D. Manoel os seus presentes, esmerando-se muito em capacitallo, que custaria a encontrar quem mais empenhado fosse em corresponder á sua amizade. Veio logo em suas lanchas para terra apenas despedio o Embaixador, e junto á praia n’hum palmar ordenou que lhe levantassem huma tenda, para receber nella a visita d’ElRei de Cananor; e passadas entre hum e outro muito amigaveis práticas, pedio Almeida a ElRei lhe outorgasse assentar alli huma fortaleza, que juntamente abrigasse os nossos de importunos Mouros, e segurasse os da Cidade de assaltos e correrias de inimigos. Satisfez ElRei a seu pedido, e começou a fortaleza a galgar com tanta préssa, que em poucos dias sobrançava muito; tanto mais, que Gil Barbosa lhe abríra os alicesses com a dissimulação que não era fortaleza, mas sómente huma grande casa, onde morasse mais á larga, que receava que o nome de fortaleza não lhe damnasse os começos, quando ainda não tinha o Almeida, em achando a occasião, obtido d’ElRei a graça de construilla. Poz-se á fortaleza o nome de Santo Angelo, e deo-se a Capitanía della a Lopo de Brito com 150 homens de presidio.
Trouxerão em tanto ao Viso-Rei novas da morte de Antonio de Sá, que (como dissemos) 373era em Coulão Feitor d’ElRei D. Manoel. Por quanto depois que João Homem mais valeroso que prudente, tirou vélas e lémes aos Mouros, e as deo a guardar a Antonio de Sá, até que as náos d’ElRei fossem inteiramente carregadas; e partindo, foi ter com D. Francisco de Almeida, assanhados os Mouros da affronta, declarárão mais violentos o odio já d’antes contra os Lusitanos concebido: e para se vingarem mais a salvo, aguçavão os Burguezes a tomar quinhão na queréla. “Esperai (dizião elles) que homens de assomada ambição e temerarios, quando medrados em cabedaes, amparem vossas franquezas, e observem com summa pontualidade a fé que derão. Vêde-los, quão poucos são, despegados de todo o auxilio dos seus, como ousão; como na vossa Cidade, aos olhos de vós todos, nos despojárão de nossas vélas, nossos lémes, a nós vossos alliados e amigos tão antigos; a nós Mercadores sinceros, de quem recebeis cada anno tanto proveito, com tanto baldão nos avexárão, e nem que forão já assentados dominantes deste Reino, como tyrannos abusárão da vossa paciencia. Quando esta injúria insigne contra nós-outros commettêrão, que cuidais vós que elles fizerão? Declararem-se por muito insolentes senhores vossos. Que fizerão elles sendo tão poucos, e em terra estranha, nos dominios d’hum Principe excellente, 374na face de tão frequentes Cidadãos, o que ElRei mesmo, senhor desta communidade, não inclinaria sua idéa a pôr por obra por consideração alguma. Assim que este desacato não a nós foi inferido por atrevidissima gente; mas sim a vós, que não o emprehendêrão por molestar-nos, mas sim por tentear o vosso soffrimento; que se vós aparais deshonra semelhante, não só a vossa liberdade, mas ainda os mesmos bens viráõ tirar-vos.” Com taes fallas affogueão o povo para o crime, e arremetem com o Sá, que com doze Companheiros (que não havia alli mais) se acoutárão na Igreja de Nossa Senhora, onde se preparárão, para mui denodados lhes resistirem; e com tanto brio rebatêrão a furia aos inimigos, que se não deixárão facilmente romper; e elles que vírão, que sem muita perda sua se não podia levar de assalto a Igreja, cercando-a de muita lenha, e pondo-lhe fogo, os queimárão dentro della. Estava então no porto Pero Rafael, que não podendo acudir a seus camaradas em caso tão mal esperado e mal previsto, se foi vingar em 5 náos, queimando-as sobre suas ancoras, e se fez á véla para Cochim, para ir contar a Almeida, que ahi encontrou, o succedido. Almeida mandou sem demora a seu filho, quanto mais prestes podésse, entrasse com a Armada em Coulão, e lançasse fogo a quantas náos no surgidouro achasse; e tanta rapidez se poz 375no negocio, que antes que os Sarracenos tal suspeitassem, já as bandeiras Lusitanas apparecião, e já ardião dos inimigos 27 navios. A João Homem todavia por castigo de sua temeridade, lhe tirou o Viso-Rei a Capitanía da náo: e tendo dado complemento a estas cousas, passou a terra, onde foi mui honradamente saudado por ElRei de Cochim.
Já porém não reinava o Rei, que tanto a sua vida e seu imperio arriscára pela conservação dos Portuguezes; porque levado de devoção, se desfizera do Reino, e para cuidar de sua salvação, entrára de morada n’hum Pagode entre elles mui affamado em santidade, deixando de mui sua vontade o Reino a Nambeadara, filho de sua Irmã, que lhe cabia assim pelas leis daquella gente. Almeida, que deo por frivolo presentear com algum dom hum Rei, que conceituára ter em nada o Reino, e todas as reaes riquezas, de quantas dadivas para elle trazia fez mimo ao Sobrinho, bem que devidas á amizade e lealeza do Tio: mui determinado, que a quem coubera o Reino em patrimonio, lhe assentaria como herança legitima o premio, que vinha para a constancia a valentia. Pelo que mandou levantar hum tablado de mediana altura cuberto de alcatifas e mui custosas tapeçarias, e lá para que de todos fosse visto, o collocou n’huma cadeira, e lhe fez huma falla, em que lhe confortava o animo com esperança de mais affortunada 376condição; dizendo-lhe, que ElRei D. Manoel por seus relevantes meritos e pela rara lealdade d’ElRei Trimumpará, lhe queria fazer honras grandissimas, e não o tratar sómente por alliado e por amigo, mas que o desejava ser: e que por quanto Trimumpará fora de aviso tal, que renunciára em vida, a tudo o que os homens muito prézão, todos estes seus desejos era bem que passassem a quem no seu lugar entrava; e que essa era a razão, por que elle em nome d’ElRei D. Manoel o prendava com aquella coroa de ouro. Deo-lhe depois sua palavra, que no amparo d’ElRei D. Manoel ficaria para sempre, da mão do qual para si e seus herdeiros recebia a realeza, e o desapressava do imperio e posses d’ElRei de Calecut, obrigando seu pundonor a rechaçar todo o impeto de seus inimigos. Tambem lhe dava franco bater e cunhar toda a sorte de moeda; e o não ser sujeito a ninguem, antes possuir com tão justo titulo a realeza, como podião os maiores Monarcas punir por seus imperios.
ElRei rendeo então summa gratidão ao Senhor Rei D. Manoel, e prestou fé de ficar avinculado a Sua Alteza, e nenhum combate recusar em pró de sua dignidade. Almeida lhe assentou então sobre a cabeça a coroa de ouro, que na mão tinha; ao que se seguio huma alvorada das charamélas, e ElRei de Cochim mui satisfeito da coroa e outras dadivas recebidas, se recolheo aos seus Paços. O Viso-Rei 377cuidou com muito zelo em carregar as 8 náos, que havião de partir logo para Portugal. Os Capitães dellas seguindo sua viagem, deparárão no primeiro de Fevereiro de 1506 com huma terra desconhecida, de immensa longura, comada de muitas e apinhadas florestas, e grossissima de gados; vírão mais 10 bateis remados por gente baça, cabello retorcido, nús os corpos, armados de arco e fléchas, que demandavão a náo, de que era Capitão Fernão Soares. Sobírão pelo costado 25 delles, onde forão com boa sombra agasalhados, fartamente convidados com comeres, e pannos para se cobrirem: mas não se lhes entendia o idioma, só por acenos inculcavão seus conceitos. Alegres na apparencia se despedírão; e arredados da náo hum tanto, quizerão com frechadas galardoar-nos o agasalho, a que os nossos retrocárão com bombardas: e Fernão Soares, que os vio perto da náo, em que hia por Capitão Rui Freire, como não estava longe da sua, lhe gritou que apanhasse alguns delles. Tomou 28. Como hião discorrendo aquelle maritimo, acertárão com hum rio, em que fizerão aguada: alli os naturaes feitos n’hum bando, arremettêrão com os nossos, que se recolhêrão ás lanchas; e vindo para as náos, azedamente dellas com a artilheria os ferírão de sorte, que muitos alli morrêrão, e os mais fugírão. Sinaes experimentárão os Portuguezes, por onde atinassem que nada tinha de hospedeira 378aquella gente. De primeiro nunca tiverão por ilha aquella terra; mas depois que perlongárão aquellas praias, e perpassárão a orla do promontorio, conhecêrão então ao claro ser a ilha, que se chamou já Madagascar, que nós chamámos de S. Lourenço, e fica ella em fronte ás terras de Egesimba, situada para o nascente. Entrou nesse anno, que era o de 1506, a Armada no porto de Lisboa aos 24 de Maio.
Diremos agora o que succedeo em Çofala na Ethiopia, e a quem dão o nome de Egesimba. No anno de 1505 cuidou ElRei D. Manoel, depois que D. Francisco de Almeida partio de Lisboa, em aprestar outra Armada, de que deo o governo a Francisco da Nhaia, e constava esta de 6 náos. Hum dos Capitães della João Leite, indo correndo pelas costas da Ethiopia, querendo com hum anzol puxar hum dourado a si, cahio no mar, e nunca mais surgio; outro Capitão saltando em terra para fazer carnagem para o navio, embrenhando de sobejo pela terra dentro, matárão-no os naturaes della, e a muitos de sua companha; partidos elles de lá, depois de lhe substituirem o posto, e endireitando para o Cabo de boa esperança, tanto carregárão para o Sul, que se lhes coalhava a agua; e era tanta a neve e o granizo, que lhe entorpecião os corpos, e traspassados de agudo frio, nem abalar-se podião de donde estavão. Finalmente passado o 379Cabo, e tomando para o Norte, avistárão os marinheiros costas de Çofala; e como as náos grandes não podião entrar no porto, mandou quatro pequenas, com que surgio no seio delle. O Rei daquella região era hum cégo de 70 annos; mas que antes de cegar, grandes honras nas batalhas grangeára. He a Cidade acastellada sem ser grande, as moradas magnificas, tapeçadas de sedas, e muradas de tecidos espinheiros. Çufe se chamava o Rei, que com muita cortezia e affabilidade acolheo a Francisco da Nhaia, e lhe deo sua fé de cumprir mui de seu grado com tudo o que fosse d’ElRei D. Manoel. Estava rodeado de infinda soldadesca, e esta Moura de côr baços e nús até o embigo, cingião alfanges com punhos de marfim, e o resto do corpo cachavão com pannos de seda e de algodão, e com voltas desses estofos volteados, repassados, e retorcidos, foteavão as cabeças. Depois de mui assinaladas amizades, pedio Nhaia a ElRei a permissão de erguer huma fortaleza, que elle esperava fosse mui venturosa para ElRei mesmo, a qual lhe foi mui facilmente concedida. Logo que Nhaia se despedio d’ElRei, privava, Mouro Abexim, que muito com ElRei privava, e cujo nome era Acóte, veio dar-se a Nhaia por amigo, e informallo da qualidade daquellas terras, e dos usos da gente dellas. Cuidou logo Nhaia na fortaleza, e com tanta diligencia incumbio nelle, que em poucos mezes 380a arrazoada altura a fez galgar, e despedio então alguns para a India, e outros para Quilôa, ficando só na fortaleza com as trópas, que assentou bastarem; e para a acabar de todo, empregava com muito affinco os naturaes. E como ora os Sarracenos o tomassem muito em mal, forão ter com ElRei, e acautelallo contra as cavillações de semelhantes malfeitores, que com o manto de amizade cobrem a perdição e ruina, que lhes maquinão. “Com que fins (dizião) levantão elles huma fortaleza em teus dominios, senão para medrar em posses, e te lançar daqui, esbulhar-te de teus cabedaes e teus poderes? Não forão estas as artes, com que desapossárão a ElRei de Quilôa? Não tem elles destruido com inauditas maldades a muitos Potentados da India? Não deixão elles estampadas por onde quer que passão as pégadas do latrocinio e fraude? Opprime-os, se és avisado, antes que forças cobrem, porque embalde te não cances depois a arredar esta peste de ti e dos vassallos teus.”
Aguilhoado de razões taes aquelle Régulo, juntou ás escondidas huma trópa, a quem assinalou certo dia para a empreza; mas Acóte denunciou logo a Nhaia os aprestos mal intencionados; e Nhaia, como convinha, se preparou a rechaçar devida e agramente os inimigos. Estes, segundo estava determinado, arrancão impetuosos contra a fortaleza, atirão 381garrochões de fogo, e com quantas máquinas podem abalroão ás muralhas. No em tanto Acóte entrava pela fortaleza com cem homens de adjutorio. Foi renhido o combate; mas tantos botes de lança, tantos tiros lhes empregámos, que os contrarios ganhárão pelos pés; e os nossos, que lhes não consentem follego de recobrar-se do susto, lhes repizão as pégadas, e tão perto lhes vão das costas, que entrão com elles de envolta no cercado, onde o Régulo tinha seus aposentos, e lhos vão devassando até á camara, onde elle se abrigava; e que vendo-se alcançado dos nossos, elle ainda que velho e defraudado da vista, não desbotou de brios naquelle trance derradeiro, antes despedia azagaia sobre azagaia contra os nossos, que como vinhão muito bastos, nenhuma era baldia. Ficárão alguns dos nossos feridos das azagaias, e entre elles o Capitão Nhaia com huma pelo pescoço; o que vendo Manoel Fernandes, que alli era Feitor por ElRei D. Manoel, arremessa-se ao Régulo, e lhe destronca a cabeça. Morto ElRei, ordena o Nhaia aos nossos, que todo o mal césse, e se perdoe a toda a Republica, querendo com esta demonstração de clemencia attrahir a si os moradores, que tendo visto abonos já do esforço nosso, descubrissem tambem em seus desastres o clarão de nossa humanidade. Tendo-o assim completo, cuidou Nhaia na governança daquelle povo, e ornar com digno premio a Acóte, 382que tão bizarramente se portára naquella refrega. Por tanto em nome d’ElRei D. Manoel o creou Rei, e fez que os Cidadãos mui de seu grado lhe déssem obediencia. Acóte de sua parte prestou fé e lealdade para sempre de cumprir com quanto ElRei D. Manoel, e seus Capitães lho prescrevessem. Como porém o clima daquella região nos fosse nocivo, e que os vapores pantanosos com as seccas e ardentissimos sóes accommettessem os corpos, tal quebrantamento se derramou pelos membros dos Portuguezes, que cahião, e morrião minados daquella feia e podrissima contagião, a qual abrangeo tambem e matou o Nhaia, cujo lugar substituio por consentimento de todos Manoel Fernandes.
Soube por essa occurrencia o Viso-Rei de Cide Barbudo, e de Manoel Coresma, dous Capitães, que ElRei D. Manoel mandára á India, que Pero da Nhaia fallecêra de doença, e os motins que havia na Cidade de Quilôa pelo Rei Mahomet Anconi morto á falsa fé, aleivosia que assim ordenára ElRei Tirendicunto, parente de Habraemo. Tudo isto souberão elles em sua viagem, quando hião perpassando as costas daquella região; porque os mandára ElRei D. Manoel, para que lhe trouxessem novas de Francisco de Albuquerque, e Pero de Mendoça, que alli tinhão perecido, no caso que desmergulhassem em alguma praia. Mandou Almeida logo a Nuno Vaz Pereira 383por Capitão Mór para Çofala, e de viagem apaziguasse Quilôa agitada com disturbios, em razão da morte d’ElRei, e aos authores della, a ser possivel, castigasse. Não será desviarmo-nos do trilho, se algum tanto dizemos da situação destes lugares.
Já desde as eras de Homero consta, que a separavão em duas aquella parte de Africa, que Ethiopia os Gregos intitulão: huma, que Homero versifica pertencer ao nascente; e outra ao occaso; e as ultimas balizas d’huma e outra Ethiopia, que por longissimo trato de terra para o Austro se prolongão, o Oceano as circumfunde. Péga a Ethiopia Occidental com o contorno de Africa, que o mar do estreito lava; e disferindo de lá para o Sul, vai abranger quasi o quinto gráo da méta equinocial, e vai depois dobrando para o nascer do Sol, e se alarga por grande espaço para a raiz do Cabo da boa esperança. Dalli se vai tão longamente desdobrando para o Sul, que transpõe a Linha para além de 35 gráos austrinos: vem procurar depois o Oriente, e avisinhar-se novamente á Linha, affrontando-se com o Norte, até beijar com o seio Arabico, e c’o Promontorio Praso, onde do Sol nascente olha contra a Arabia: e fecha-se aquelle intimo ser com a Cidade dos Heróes. E assim comprehende a Ethiopia mais de meia Africa inteira: e he esta região em partes fertil, e abundosa de searas, gados e armentios, e mui retalhada 384de rios, e em partes deserta e inculta, aspera e despida de tudo. Ha nella grandissima discrepancia não só nas linguas, mas ainda nos costumes; que delles ha hi brandos e caroaveis, com quéda para todo o theor humano; delles porém ferinos em cruelissimas maneiras. Aquella parte não menos que resguarda o Sol que nasce, começa na quebrada que faz aquelle compridissimo Promontorio, e dalli por varias entradas e corcovas vai entestar com a Ethiopia de sobre Egypto. Contém a Ethiopia muitissimos elefantes, de que levão os mercadores infinitos quintaes de marfim a muitas outras regiões do Universo: córtão-na ramaes de veias de ouro e prata, e he em varios sitios abastadissima de outros innumeraveis generos. São seus calores mui mal sãos aos nossos, e mortiferas febres os arredão de todas essas conveniencias; e a morte, que com seus terrores se lhes põe diante, lhes tolhe tirarem mais copiosos uteis da Ethiopia, dado que tantas forças tenha a avareza para com muitos, que lhes desvie o juizo da consideração da morte, não havendo ahi espectro, que mais feia catadura offereça. Ora nesta parte da Ethiopia, além do Cabo de boa esperança, que fenece no Oceano austral, fica hum vastissimo imperio chamado o Benomotapa, a quem, antes de por aquellas costas passarem os Portuguezes, pagavão sem repugnancia páreas todos os Reis daquelles contornos; e passa além da imaginação 385o ouro, de que as taes Provincias são betadas, sem contar o que dos rios e lagôas tirão, e o que cada anno muitos Reis pagão de tributo a ElRei Benomotapa. Não usão de imagens nos Templos; crêm n’hum só Deos, Creador do Universo; os paramentos para o culto não varião do traje usual dos mais Ethiopes; são além de crença supersticiosos no acatamento de seus Reis. As duas principaes insignias da realeza são hum pequeno enxadão com seu cabo de marfim, e duas azagaias tambem curtas, para encommendar com o enxadão a cultura da terra a seus vassallos, porque de froxos e perguiçosos se não esquivem á lavoura, e empuxados da fome se não lancem a roubos. Huma das azagaias o inculca por vingador inexoravel de máos feitos; e a outra por via de armas e valentia rechaçador de externas aggressões. Em sua casa se crião os filhos dos Reis, que lhe pagão páreas, para que a educação lhes insinue amor e lealdade para com seu Soberano, e para com taes refens conter seus Pais na obediencia devida. Anda sempre acompanhado de numeroso exercito, ainda que haja summa paz assentada em firmes alicesses com todos aquelles Póvos comarcãos; mas porque tem avaliado que nada rompe mais guerras de fóra, que o aprestar-se na paz a poder commetter guerra aos outros Reis. Vão de sua parte todos os annos domesticos e privados seus levar o lume novo aos 386Monarcas e outros Senhores seus feudatarios, para que destes o tomem os que lhes são sujeitos. A ceremonia com que se faz he esta. Aponta a hum Palacio de qualquer destes Principes o Embaixador: logo se apagão os fógos todos; então o Embaixador accende novo lume, e deste novo se accendem os outros por todas as casas Cidadans; e quem rejeita assim fazello, tratado he de revel e de traidor, e como tal justiçado com penas de lésa magestade; e se he poderoso o desertor e perfido, contra elle em sua captura e perdição parte hum exercito. Isto quanto á Ethiopia, em cujo abrangimento jaz Çofala.
Quanto ao estado da India, o Viso-Rei, que se negava a estragar tempo, mandou a seu filho D. Lourenço com huma Armada de 9 navios ás ilhas Maldivas, que surgem ao redor de 70 leguas de Cochim, e são em grande quantia separadas humas das outras por esteiros; e que estivesse alérta ácerca das náos Mouriscas, que atravessão de Leste ao Oeste, para que as rendesse, e lhas trouxesse a Cochim. Mas tão impetuosas erão as correntes, que D. Lourenço esgarrou inteiramente do rumo que levava, e foi acertar c’huma pouco arredada do Cabo Comorim. Alguns tem que esta he a Taprobana, de que falla Ptolomeo, mais os que mais apurão, querem que a vera Taprobana seja a Samatra, assim dita dos naturaes, e demora fronteira de Malaca. Ptolomeo 387a esta, de que tratamos, chama Cori, em respeito do nome, que assim tem o Cabo Indico, contra quem ella he situada: Ceilão, a dizem os que nella morão. He longa de Norte a Sul quasi 120 leguas, e 75 na sua mór largura. Ilha he por maravilha fertil, com recheio de toda a casta de fructos, alcatifada de hervas e plantas de recendente cheiro, que sem cultura alli produz a natureza: tem matos de limoeiros, e outras fructas saborosissimas e cheirosas. Tem sobre tudo a canella em muita sobra; tem muitas preciosas pedras, que desentranhão de asperissimos penedos; pescão infinidade de perolas mui affamadas por sua côr e brilho: as manadas de elefantes não tem conto. Dividia-se a ilha em sete Reinos, hum dos quaes sobrepujava muito aos outros seis em amplidão e riquezas, cujo Rei assistia em Columbo, Cidade grande e Capital do Reino. Do centro da ilha surge huma alta serra, cujas fraldas são circundadas de lagôas; do cume da serra espiga ainda hum agudo rochedo, que contém hum manancial perenne de excellente agua vertente. Tambem perto do manancial jaz hum grosso penedo, e nelle estampada huma pêgada humana, e corre em tradição de pais a filhos, que a calcára alli Adão, abalançando-se a sobir ao Ceo. Hum tanto mais atrás vê-se huma Capella, onde os romeiros visitão dous nascimentos com grandissima superstição, por passar entre elles serem os jazigos 388dos dous troncos, de quem procede a geração humana; e tão altamente lavra essa opinião destes insulanos, que até Sarracenos e outros idolatras vem de romagem alli. Vai tão a pique o costado desta serra, que nem ainda trepar com as mãos por elle he dado; valem-se de escadas que encostão, e cadeias que pendurão. Entrando pela ilha, foi D. Lourenço ancorar com a sua Armada no porto de Gabalicão; e logo que ElRei o soube, mandou de seus Paços, que não distavão muito, hum Embaixador com presentes a pedir-lhe pazes, ao qual D. Lourenço de Almeida mui affabilmente recebeo, e representeou com mimos, que entendeo lhe fossem gratos; e para ratificar ajustes, mandou Paio de Sousa, fidalgo de sua companha, que sendo conduzido a Palacio, deparou com o Rei apparatosamente magnifico: pois com quanto fosse ainda de dia, o resplendor da pedraria, que em si trajava, e o clarão das tóchas que estavão ardendo, despedião outro luzente dia, que imaginava ElRei que esse luzeiro lhe dignificava a presença. Foi Paio de Sousa mui honorificamente recebido, e toda a sua comitiva, e passárão os concertos sem o minimo obstaculo; sendo as condições, que pagaria elle Rei a Portugal cada anno 250$000 libras de canélla, e D. Manoel o acolheria em sua protecção e resguardo, mandando a seus Capitães, que guardem seus portos e Cidades maritimas de 389correrias e investimento de inimigos. O que tudo acordou D. Lourenço, no caso que assim aprouvésse ao Viso-Rei. Fez com tudo ElRei, que aos Lusitanos se entregasse a canélla pacteada: tanto estava elle entrado de susto, que para consolidar os ajustes, os da terra não corrião assás, e a gosto seu para o desempenho. Tambem deo consentimento ao filho do Viso-Rei para encravar alli hum padrão com armas de Portugal, em abono da posse, que ElRei D. Manoel tomava da ilha: o que sendo completo, veio em busca de seu Pai a Cochim; e este o despachou para Anchediva, cujo forte avitualhasse, e cujos mares vigiasse. Tambem despedio Manoel Peçanha para Cananor a ajudar Lourenço de Brito a erguer e amunicionar a fortaleza, que alli estava edificando.
Na correnteza destes negocios veio ter com D. Lourenço de Almeida hum Italiano natural de Bolonha, por nome Luiz Wartoman, que tendo peregrinado grão parte do Universo, curioso de sabedoria, finalmente entrára em Calecut no traje de Mercador da Arabia. E foi a causa, que como em quanto assistíra em Calecut, ouvia por toda a Cidade discursar sobre os Portuguezes, fingindo que não conhecia tal gente, se informára de sua passagem á India, de sua religião e seus costumes. E como os Mahometanos lhe inculcassem que erão huma Nação dada a roubos e piratarias, e por aquelles sitios tinhão assinalado seus estragos; 390demostrando o Bolonhez escandalizado do que ouvia, disse então: “Descredito he supportardes tão longo prazo as audacias, e correrias desses cossarios, que muito ha devêrão raspados ser da redondeza.” Tendo por decurso de dias acareado a confiança dos melhor acreditados com o Monarca, investigou suas determinações, e com que fim instruia tal quantia de náos, e de que soccorros se ladeava para perdição dos Portuguezes. Subio-lhe dalli mesmo certa esperança de se desempeçar com cedo dessa detestavel companhia, e frequentação da gente de Mafamede, pela chegada dos Lusitanos: e tanto fez, que communicou esta sua tenção com os Milanezes, exhortando-os a deixarem Calecut, e a se abrigarem entre nós. “Christãos somos (respondêrão elles); mas que os espavoria de se retirarem para entre Christãos, a consciencia de maldades contra elles commettidas.” Luiz Wartoman tratou de acoroçoallos, promettendo-lhes empenhar-se, que não fosse o feito seu tomado em aleivosia por contra Christãos obrado: o que entre elles concertado, lançou mão do primeiro ensejo que se lhe deparou, para se ver com o Almeida; e nessa carreira acertou com D. Lourenço. Então lhe deo parte da gente que alistava ElRei de Calecut, e dos navios que apparelhava: tambem lhe noticiou quão pezarosos estavão os Milanezes de seu delicto, e a muitissima ansia, com que 391voltarião aos Portuguezes, se lhes fosse perdoado; acreditando mui vivamente a D. Lourenço a presteza que o caso pedia. Por quanto fundião elles infinidade de peças para o Camorim, e delles em muito seu máo grado aprendião infinitos a fundillas. Louva-o D. Lourenço, e mui prendado, e mais alentado com promessas o despede para seu Pai, que tendo ouvido Luiz Wartoman, o mandou com cartas para o filho, que se apercebesse para a guerra, e elle tornasse a Calecut; e dando aos Milanezes sua palavra, lhos trouxessem a Cochim. Com muitissima alegria recebêrão os Milanezes a nova. Já se dispunhão para a fugida; mas tendo-lhes sido malsinada a intenção, forão apanhados e mortos de cruelissima maneira. O Bolonhez apenas do perigo mortal fugindo, se salvou.
Punha-se em tanto prompta a Armada de Calecut composta de 80 grandes vasos e de paráos 124, abastadissima de armas, e trabucos, de immensa gente, e munições muitissimas; e com sós 11 náos partio a accommettellas D. Lourenço. Levava comsigo 800 soldados Portuguezes, gente de desempenho, e mui bem armada: tambem se quiz acompanhar de trópa Indiana, dado que de pouca firmeza. Erão chegados á costa de Cananor, quando se rompeo d’hum e d’outro lado a briga com dissonantes vozerias, retintim de trombetas; o amiudado disparar da artilheria, que 392tremia o mar e a terra, atroando os horrisonos rembombos, até que por fim vierão as náos a se apertar humas a outras com harpéos. D. Lourenço distinguindo a capitanea inimiga, se arroja impetuoso a ella; e ainda que por muitas vezes o harpéo a não ferrou, vindo por fim a seguralla, foi mui travado alli o jogo; todavia saltou D. Lourenço na náo adversa, seguírão-no Filippe Rodrigues, João Homem, Fernão Peres de Andrada, Vicente Pereira, e Rui Pereira com outras pessoas de grande valentia. Havia nessa capitanea bons 600 soldados, que lidavão por vender caras tão arriscadas vidas, até que mortos muitos, cativos outros, e os mais lançando-se a nado para salvar as vidas, foi rendida a náo, e D. Lourenço foi dalli acudir com opportuno auxilio a Nuno Vaz Pereira. Este ousou ir investir com a sua pequena embarcação huma náo adversa de mui alto bordo, e por meio de harpéo se atracou com ella: nada era mais factivel que a náo grande espedaçar a outra com as balroadas, além de ser tão grossa a nuvem de settas, e outros arremessões, que se vião os nossos, posto que acerrimos peleijassem, assoberbados de tiros, e a pique de serem mortos. Com a chegada porém de D. Lourenço foi esta náo sobjugada, e dos 500 homens que nella vinhão, só escapárão com vida os que a confiárão á destreza do nadar. Entre as náos da Armada inimiga havia muitas 393mercantes, que estribavão na grandeza e forças das reaes; assim logo que vírão derrotadas as duas que dissemos, entrárão a desconfiar do bem sortido da peleija; e nessa idéa tanto que nos vírão bem travados na refrega, e que lhes não podiamos avexar a fuga, fazem á véla, e huns apertárão com a barra de Calecut, outros seguírão folgadamente sua viagem para onde tinhão o fito. As náos que ficárão com arremessos, com bombardas humas de bronze, outras de ferro, combatião, abalroavão, e já em muitas partes se meneavão lanças, e ainda espadas; tão de perto hia o conflicto. Virão-se então os nossos em grande perigo, porque a cada hum de nossos lenhos rodeavão muitos dos inimigos; mas por fim bem debatido o pleito por huns e outros, fugírão os contrarios com mortandade de 3$000 dos seus, dez náos a pique com muitos mais paráos; tomamos-lhes duas bandeiras reaes, e 9 náos de alto bordo, e o despojo foi riquissimo. Dos nossos só 6 morrêrão na peleija.
Acabado este feito a bel prazer, partio D. Lourenço para Cananor, onde ElRei com grande demonstração de alegria, e com não mediana admiração do seu valor o recebeo. Neste intermedio como entendesse o Cabayo, Maioral de Goa, que o Çamorim juntára grossa Armada, e que os nossos para lhe ir dar batalha, desafferrárão do forte de Anchediva, não quiz que lhe escoasse hum lanço (ao que 394elle julgava) tão comesinho para huma boa sorte. Pelo conselho pois de certo Portuguez (dos degredados livres de morte sob condição de investigarem terras incognitas), que abjurára a Fé Catholica, mandou a Anchediva huma Armada de 60 vasos, que nos expugnasse a fortaleza, e ao tal degredado nomeou por Cabeça daquelle feito, e se chamava Antonio Fernandes, que tendo sido Carpinteiro de seu officio, serviamo-nos delle nos concertos dos navios; mas depois da nefanda abjuração, mudou com a religião o nome, e Abedellá se intitulava. Apenas com sua Armada surgio diante da fortaleza de Anchediva, começou logo a combatella; mas Manoel Peçanha, que alli era Capitão, lhe resistio tão esforçado, que o destroço dos inimigos foi mui grande; e tal, que aquelle máo homem levantou o cerco, e se foi para Goa com muita perda, muita gente morta, e sobejo descredito seu. Colhendo daqui D. Francisco de Almeida a nenhuma utilidade daquella fortaleza, e a ilha ser-lhe de pouco lucro, e que pela distancia em que ficava de Cochim, se não podia defender sem despezas exorbitantes, e riscos grandes; e outro sim, que sendo poucas as trópas que comsigo tinha, não podia sem prejuizo derramallas, por acordo de todos os Capitães a mandou arrasar. Pelo que o fez assim executar por seu filho D. Lourenço, que lá despedio com huma Armada; o qual recolhendo, 395como lhe fora incumbido, ao Peçanha com os soldados do presidio, arrasada a fortaleza, voltou para Cochim.
Quasi pelos tempos que isto succedia na India, veio de Flandres a Hespanha ElRei Filippe, filho do Imperador Maximiliano, e genro de D. Fernando e de D. Isabel, tendo-se casado com D. Joanna, filha desses dous Monarcas, a quem pela morte do Principe D. João e de sua irmã, que primeiro casada com o Principe D. Affonso, filho de D. João II., se desposou viuva delle com ElRei D. Manoel, lhe vinha de juro o Reino em patrimonio. Assim Filippe apenas soube que a Rainha D. Isabel sua sogra fallecêra desta vida, deo-se diligencia a vir quanto antes em Hespanha empossar-se da herança. Logo que ElRei D. Manoel alcançou que elles tinhão desembarcado na Corunha, razões de parentesco e visinhança de Dominios, lhe insinuárão despedir sem demóra Embaixadores, que levassem em seu nome os prolfaças de sua vinda, e lhes prestassem fé real, de que em tudo quanto competisse a sua dignidade e contentamento prefaria os deveres de amantissimo cunhado. Foi por Embaixador Diogo Lobo, Barão de Alvito, a que não só os dous Principes acolhêrão com distintas honras, e muitas mercês, com que o despedírão, se não tambem muitos comprimentos para ElRei, e offerecimentos para tudo o que a Sua Alteza comprisse. Neste tempo emprehendeo 396D. Manoel huma facção, merecedora de perduravel memoria, dado que nunca surtisse o effeito, que tão baldado lhe desejou. Que estava vendo os Principes Christãos estimulados com assanhadissimos rancores digladiarem-se huns a outros em grande prejuizo de todos, retalhar-se a communidade christã, e medrarem de dia em dia as posses dos infieis por nossas quebrantadas e desunidas forças, por nossa furia e desatino nosso. Que estava receando lavrasse aquelle mal, e em perdição do nome catholico rompesse, não lhe acudindo a horas com remedio. Tudo na mente revolvia, e mórmente o magoava no vivo ver em mãos de Agarenos a santa casa de Jerusalem, tão feiamente olvidada dos Principes Christãos, e todos os desastres, que sobrevinhão á Christandade, interpretava-os como castigos de tão despiedoso descuido, e que só com agigantados brios e virtudes se desaggravaria a Religião por desleixamentos e perguiças profanada. Ansiado com taes cuidados, tratou de enviar a Julio Summo Pontifice, e para ella escolheo Duarte Galvão, do Conselho de Sua Alteza. Consistia a embaixada, em que os Principes da Christandade em damno da Religião, contendião entre si sobre retalhos de dominios, em quanto o poder do Imperador Turco, e as forças do Soldão avultavão, ameaçando o rebanho de Jesu Christo. Que se a cubiça de renome os impellia a peleijar, ahi estava 397o sepulcro de Nosso Senhor, que os convidava com as palmas da Palestina, e com enchentes de honra a cada hum desses Principes, a quem cahia abalar-se á vista de tão imminentes riscos, e ir reprimir o arrojo dos inimigos contra os Christãos, ainda quando se lhes affrontára por diante a morte. Se desejo de augmentar as possessões os inflammava, porque não punhão os olhos e o animo nas opimas regiões da Asia e do Egypto, refeitas em riquezas tantas? Por Jesu Christo Nosso Senhor rogava pois ao Papa Julio, que envidasse todo o zelo seu, todo o seu esforço e industria, toda a sua meditação e desvelo em arrancar discordias, que conciliasse a paz, e persuadindo os Principes Christãos a acabar com o nome de Mafamede, grangeassem gloria tal, que nenhuns seculos a podéssem delir. Elle de si promettia todo o poderio de suas forças para essa empreza, e offerecia de vontade arriscar em tão preclaro empenho a vida. Tudo o que assim por cartas, como por seus Embaixadores D. Manoel infructuosamente debateo, que estavão os Principes com animos quasi ferinos, e tão desviados do pensamento de tal calamidade, em razão de suas turbulentas discordias, que huns em seu sentido desprezárão a proposta, e outras a tiverão em ludibrio. Neste mesmo anno mandou ElRei D. Manoel edificar hum castello em Africa na ilha de Mogador sobre a costa do Sul, para 398que dalli podéssem os nossos dar mais frequentes assaltos aos Mouros da fronteira costa; e a traça desta edificação a deo Sua Alteza a Diogo de Azambuja, esforçado Cavalleiro, que muitos lauros tinha merecido por suas acções guerreiras. Muito trabalho todavia, e muitos combates custou aos nossos a fabricação do dito castello, porque de todos os cantos lhes rebentavão Mouros a descompor-lhes a obra, e se vião a todo o instante precisados a menear com a mesma mão agora a trolha, agora a lança.
No anno seguinte, que foi o de 1507 da nossa redempção, cuidou ElRei D. Manoel em pôr promptas 14 náos, que em diversas partidas desafferrárão de Lisboa, porque hião dando á véla á medida que erão prestes: nenhuma dellas chegou com tudo nesse anno á India. Vasco Gomes de Abreu, hum dos Capitães que ElRei escolhêra, hia provído no governo de Çofala; e tendo perpassado a costa de Ethiopia, ordenou ao Capitão João Chanóca, cujo navio era incrivelmente veleiro, tomasse a dianteira, e que os mais o seguirião: mas descuidos do Capitão o derão á costa, e o despedaçárão, e a gente se salvou a nado, parte da qual cahindo em mãos de crueis barbaros, foi lançada em calabouços, d’onde Portuguezes, que discorrião por aquellas costas, os resgatárão depois com dinheiro. Ora Rodrigo Soares, hum dos Capitães, topou com huma 399náo, que sahia da Arabia, em que vinhão 500 homens, com a qual teve porfiado debate de armas, até que por fim a rendeo, e passou os Mouros á espada. Tres Capitães de outras náos se submergírão com ellas, e todas as mais que sahírão, vierão invernar no porto. Então na India os Mouros tendo averiguado que careciamos dos annuaes soccorros, acorçoárão seus animos, e tomárão firmeza, assentando ser agora o tempo proprio de acabar com a gente Portugueza; e por tanto avisão e exhortão a ElRei de Calecut, que não desperdice a occasião de tão preclaro feito, que os Ceos lhe offerecião. Accrescia mais, que lhe prognosticavão naquelle anno huma grande victoria os Agoureiros, e que os Sacerdotes e os Brachmanes, como aguilhoados dos Oraculos divinos, lhe contavão cousas, que lhe accendião esperanças de insignes proezas. Entrou o Çamorim em preparos diligentes de petrechos de guerra; mas tudo vinha aos ouvidos do Viso-Rei, pelas espias, e pelos fugitivos; e para lhes dar a entender que lhe não fazião falta as Armadas do Reino, rapidamente aprestou duas, huma das quaes entregou a Manoel Peçanha, constando de 3 galés reaes, 2 náos de carga, e hum paráo, com que amparasse de assalto de inimigos os navios, que de Cochim fazião derrota para Coromandel; a outra que era de 12 vasos, e encommendou a seu filho D. Lourenço, para com ella guardar aquellas costas. 400Nesta Armada hia hum Capitão Gonçalo Vaz de Goes, que não se achando com mantimento bastante, entrou em Cananor para se refazer de trigo: ao sahir dalli para se juntar com D. Lourenço quanto antes podésse, avistou huma náo de Mouros, que vinha de Cananor, a quem com muita ferocidade investio, nem os Mouros repugnárão; por quanto se davão por alliados, e mostravão cartazes, que fazião fé de confederação comnosco, dados por Lourenço de Brito, que, como dito he, governava a fortaleza de Cananor. Porque passa como lei, que todos os que navegão o mar da India, desque os Lusitanos o começárão a sulcar, e a ter por lá fortalezas, não o possão fazer livremente, que não mostrem permissão assinada por algum Capitão Portuguez, ou Governador de fortaleza, que depois de bem apurar a fidelidade do Commandante da embarcação, e na permissão allegue a alliança, sem a qual he franco aos nossos Capitães tomallos, tirar-lhes suas fazendas, a liberdade, e ainda a vida. Como pois os Sarracenos mostrassem o cartaz, em que fiados commettião as ondas, Gonçalo Vaz de Goes ou que o cegasse a avareza, ou que barbara feridade o conselhasse, ou que Mouros lhes crescessem odio e sanha ao vê-los, exclamou serem falsos ou forçados os cartazes, que elle os tinha de sciencia certa por inimigos do nome Christão, e maquinadores da ruina dos Portuguezes, valendo-se 401das maiores traições e aleivosias, e agora pagarião tão enormes delictos. E assim lhes saqueou a náo, e a desgraçadissima gente della, que a fé dos homens implorava, e a Divina, cozem-os todos n’huma das vélas, e arrombando com pelouros o esbulhado navio, o metteo a pique. Feito foi não sómente deshumano e cruel contra o direito das gentes, contra todo o theor da humanidade nefaria e flagiciosamente executado; mas ainda em razão do tempo e arriscadas circumstancias, temerario, e influido só pelo furor e desatino. Que não sendo fundamentado ainda então o Lusitano imperio na India, cruzando aquelles mares nós com tão singelos exercitos, competia muito abrangermos com abonos de probidade e mansidão o que com forças vedado era: que não ha ahi na vida escora mais reforçada, que o bom credito; e n’hum tempo, em que todas as nossas raizes erão tanto a flor da terra, na opinião de nossa boa fé se affincava todo o pendor de nosso salvamento. Pela razão que assim como a reputação da lealdade e doçura acarêa os animos de todos os mortaes a ser benevolos, assim lhes atêa o odio e os esporea a vingativos a infame aleivosia e a crueldade. O que mui provado ficou pelas consequencias, que dalli em diante nunca o nome Portuguez despio de si aquella mancha odiosa e abominavel áquelles póvos. O Viso-Rei se desabrio muito com o feito, desabonando do 402posto a Gonçalo Vaz de Goes, nem o admittio mais á sua familiaridade.
Morrêra nesse espaço ElRei de Cananor, e o que succedeo em seu lugar infesto o animo tinha contra nós, por quanto por obra d’ElRei de Calecut subíra ao throno. E ora havia em Cananor hum Mouro por nome Maméle, que passava por ser em cabedaes e renome o Maioral dos Sarracenos, que naquellas terras assistião, e o Capitão da náo, que Goes affundíra, era filho de sua irmã. Tanto que o Maméle soube serem-lhe saqueadas as fazendas, que na náo hião, e esta a pique, e o parente tão chegado submergido e os outros todos com tanta crueldade, veio direito a Lourenço de Brito estimulado de pena, e a grandes gritos se lastimava da injúria que lhe fora feita. “Tu foste (lhe dizia) quem nos entregaste, quem nos induziste no engano; por ti perdi a minha náo, perdi o meu cabedal, fiquei orfão de meu tão prezado sobrinho; por teu máo coração, por tua perfidia. Como seria possivel, se a tua assinatura fosse valiosa e sincera, que hum homem Portuguez, hum Capitão de alto bordo commettesse injúria tão ferina contra nós todos, e tal destruição imaginasse contra homens conterraneos nossos?” Jurava Lourenço de Brito, que não cabia nelle fraudulencia tal; mas o Mouro não admittia satisfação, antes assim como era em lagrimas correntes, e em pungentes 403furias assanhado, arranca para o Paço alcançado de mulheres, filhos, e parentes dos que forão com tal crueza mortos. Ei-los que com vivos lugubres levantão até ao Ceo clamores, alvorotão para ElRei os braços, implorão sua potestade, demandão acerrimos justiça, obtestando-o que castigue como he razão tão facinorosa gente. A que elle respondeo, que poria seu cuidado em o assim fazer. Então praticando com Maméle, lhe insinuou que lhe não descontentaria vingarem-se elles pelo modo que podéssem; assim logo que Maméle sahio de lá, se poz a escrever aos Mouros, que mercadejavão em Calecut, a injúria que lhe fora feita; e as noticias subírão logo ao Çamorim. Este mandou subito a ElRei de Cananor quem lhe azedasse o animo em nome seu, e lhe promettesse, que para o que fosse perdição nossa, não lhe falleceria com adjutorio; e que viria a acontecer, que juntando ambos as forças, e assoberbando com ellas a nação Portugueza, conseguissem apagar da Asia sua lembrança. ElRei de Cananor recebendo este recado, envidou todos os pensamentos no exicio dos Lusitanos, guardando no animo todavia occulto de principio quanto maquinava. Foi entretanto abrindo huma cava muito larga desde huma ponta da praia até á outra, que lhe servia a despegar da Cidade a fortaleza, ficando esta no angulo da praia, de que a cava fazia a base: e tudo com o manto 404de querer fortificar a Cidade. Havia hum poço não longe da fortaleza, de que bebia o presidio della: este poço intentava mettello áquém da cava o inimigo, porque huma vereda estreita, que cortava da cava á fortaleza, mandava já ElRei tomalla com muralhas e bastiões, para atalhar aos nossos a vinda ao poço, e os acabar á sede. Mas o Principe, successor do Reino, deo tudo a saber ao Governador, e tambem o informou de que ElRei de Calecut, além de outras munições, mandára ao de Cananor 24 peças de artilheria de bronze, com que alluisse a fortaleza, e que lhe promettêra de mais 30$000 homens de soccorro. Rendeo Lourenço de Brito agradecimentos ao Principe, e que se empenhava a capacitallo que não assentára em ingratos os seus favores. Começou a refrear os seus de irem desacautelados á Cidade já inimiga, e onde suas vidas podião incorrer perigo. Despedio quem fosse ao Viso-Rei com a nova do risco, em que ficava; e este enviou a D. Lourenço com armas e soldados, com vitualhas á fortaleza, e reforçalla de modo, que mais facil aturasse o sitio; o que elle cumprio com muita diligencia. O Brito, que entendeo que em lhe tolhendo a agua, tinhão de morrer todos, fortificou todo o espaço desde a fortaleza até ao poço, com tranqueira e cava, abarcando de mar a mar as duas praias; accrescentando-lhe huma ponte levadiça, que da tranqueira 405beijava no poço. Foi depois levantando varios bastiões, e galgando artilheria nelles, para varejar delles o inimigo, no caso de lhe querer vedar o poço.
Logo ElRei colheo por estas obras, que lhe rompêrão o segredo; pelo que descartado o fingimento, cuidou em bater a fortaleza. Teria então 40$000 homens abarracados, delles trópas suas, e outros, soccorro já chegado de Calecut, as quaes logo tirou a campo, e veio investir a tranqueira; e tal vinha o impeto dos inimigos, que custava muito suor e sangue aos nossos em sostello. O principal debate, e o mais ferido entre nós e os inimigos, foi ácerca da agua, porque pugnavão esses que nenhuma facilidade tivessem os Lusitanos de a tirar; e estes porque lhes era forçoso havella, a tiros e a lançadas, e muito sangue custava a quem beber queria. Os nossos nada obstante, por conselho de Thomaz Fernandes, famoso arquitecto, abrírão da fortaleza huma mina até ao poço; e com tal silencio a abrírão, que não derão os contrarios advertencia; fez depois abarrotar hum pouco acima da fóz da mina hum soalho, que atravancou de madeiros, e sobre elles entulhos e lenhas, com que impedio que os de Cananor lhes empeçonhentassem as aguas; e por fim derrocando as bordas do poço, as alhanou de terra, em fórma que não podésse o inimigo desmanchar-lhe o madeiramento; e conseguio assim, que muito 406a despeito delles tivessemos abastado de beber. ElRei que vio esta astucia baldada, deo-se a combater mais agramente a tranqueira; e como lhe morrião muitos no accommettimento, para o fazer mais a seu salvo, compoz huma tranqueira ambulante de saccas cheias de lã e cairo, que empapassem os pelouros; mandando retirar o exercito, e vedar todo o combate, em quanto ellas se aprestavão. Lourenço de Brito, que considerou motivos a aquella retirada, excogitou meio de atinar com as cautelas do inimigo, e houve hum carpinteiro, que inventou hum cêpo, que foi posto fronteiro da porta da tranqueira, cuberto ao deleve de ramas e de terra. Mandou o Brito 40 homens sahir da tranqueira, com apparencia de guiarem para a Cidade; os adversarios logo que os avistárão, arremettem com elles; trava-se insensivelmente a briga, vem sobre elles mais desenvoltos os inimigos, até que se encrava no cêpo o Capitão, que vinha diante. Aqui apertão mais travados com elles os Portuguezes, e ajuntão-se-lhes outros, que saltárão da tranqueira, que os vão rechaçando desapercebidos do caso; e tendo-lhes ido hum pouco no alcance, ao sinal aprazado se recolhem, arrecadando o Capitão, que cahíra na trapaça, e trazendo-o ao Governador, que por elle se inteirou dos designios, que ElRei tivera para acalmar a expugnação. Além de que o Principe hereditario descubríra a má tenção d’ElRei, 407poz hum da sua comitiva, que n’huma lancha carregada de mantimentos mandára alta noite, dar parte ao Governador, com o que se preparárão os nossos para a defeza.
Concluidos os aprestos, dispoz ElRei o exercito pela fórma seguinte. Mandou enfileirar de sorte as saccas por diante da vanguarda, que ao abrigo dellas podéssem os soldados avisinhar-se da muralha; vinhão depois os besteiros e arcabuzeiros, e mais gente de outras armas; e detrás ElRei com o pezo do exercito, escorando os avançados. As bombardas da fortaleza, dado que jogassem grossissimas balas já de ferro, já de pedra, embaçando nas saccas, nenhum prejuizo causavão aos inimigos; o que bem advertido por elles, crescêrão em brios, e taes e tão ruidosas gritarias desfechárão, que nem quando houvessem dado fim á guerra. Renovou-se no dia seguinte com mais ferocidade o assalto; mas acordou-se Brito em mandar vir huma serpe, de que atélli se não servíra, e que disparava pelouros de muito maior calibre; e ao dar-lhe fogo o artilheiro, foi a sacca pelos ares. Então foi o amiudar os tiros, e descozer a tranqueira movediça, de sorte que já a nossa artilheria toda grande e pequena jogava a tiro empregado, e a destruição era sem medida em gentes já nuas de anteparo. Nessa noite veio hum Castelhano, Guadalaxara de seu appellido, pedir a Brito 150 homens de sua escolha, com que 408fosse amedrontar o campo dos inimigos; e tendo-lhos outorgado, na quarta véla da noite, que succedeo ser de chuva, e de céga escuridade, quando os inimigos o imaginavão menos, em razão de quão poucos sabião sermos, alertão ao retinir das charamélas, e de nossos desentoados alaridos; aqui transferem huns deste somno ao outro, acolá degollão os inda mal despertos, e aos mais salva-os a fugida. Ao raiar da aurora, senhores do arraial conduzírão á fortaleza espolio não mediano: hum desattento só desfigurou tão formosa aventura. Ficava pegada ao forte huma ilha de casas, que ao abrigo da artilheria delle evitára o insulto dos inimigos; continhão em si bastantes mercadorias, muitas e preciosas alfaias, e as vitualhas para alimento do presidio; descuidou-se hum rapaz ao ir deitar-se de apagar a luz, que descahindo no sobrado, pegou na madeira secca, e ateado daquella casa o incendio, prendeo nas mais, que sendo tambem de taboado cubertas de folha de palma, e humas contiguas a outras, todas ardêrão n’huma mesma chamma. Ainda que nellas muitissimas cousas se consumírão de alto preço, o que mais ansiou ao Governador, foi a perda dos mantimentos, a maior parte dos quaes comeo o fogo, e desfallecia a esperança, em quanto vigorava o Inverno, de virem de parte alguma. Pelo que forçados forão a comer de primeiro (tanta era a fome!) gatos, depois ratos, e 409até lagartos. Então vio o Governador, que era lanço de affouta empreza, e mandou hum cunhado seu com 30 homens de intrepidez, e mão activa, que désse de sobresalto nos contrarios, e visse modo de abarcar do campo mal vigiado algum alimento: mas elles arremettendo aos nossos, ferírão muitos, golpeárão o rosto do cunhado, que hia por Capitão, e tambem as pernas de geito, que nem passo dar podia, muito arriscado a ficar em poder dos inimigos. Houve com tudo hum moço de 25 annos, por nome João Gregorio, que o tirou da pinha delles, e o salvou na fortaleza. Quatro naquelle conflicto dos nossos perecêrão. Foi em tanto informado ElRei por escravos fugidos, que era gravissima a fome, que se padecia; d’onde colheo não preterivel a occasião d’hum feito bem traçado, que era pôr huma emboscada em adequado sitio, e lançar duas vaccas a pastar nas abas da nossa tranqueira; que logo que forão dos nossos avistadas, sem mais ordem de Capitão (que outro superior não conhecião se não a fome), se baqueão em baixo do muro. Cahem sobre elles os da cilada; mas tão valentes se despejárão, os nossos, que antes de sobrevir maior auxilio, tinhão recolhido bem a pezar dos inimigos pela porta da muralha as duas vaccas, que com suas carnes os alimentárão por alguns dias. Acabadas ellas, forçoso vinha morrer, ou entregar-se; mas no maior transe lhe acudio Deos 410com sua divina mercê; empollando-se os mares com tal poderio de ventos, que rebentavão na praia altos como serras, desprenhando-se em seu marulho de formosas lagostas, cujo cardume foi tal, que delle quebrantárão todos a fome, e os doentes recuperárão saude, e ainda lhes sobrou, com que aliviassem o Inverno.
Vinha já apparecendo a Primavera, e á primeira sota que o mar désse, esperava-se subsidio; e ElRei de Cananor, que mui bem o pressentia, determinou-se a experimentar se com todas as forças empenhadas levaria o muro e a fortaleza, antes que apontasse o soccorro de Cochim. Preparou pois huma grossa Armada, e nella dous castellos mais alterosos, que os com que ElRei de Calecut cuidou destruir Duarte Pacheco; o que tudo soou nos ouvidos de Brito, pelo recado diligente do mesmo Principe, em que lhe encommendava muito resguardasse a parte do mar, porque por ella se havia mórmente accommetter a fortaleza. Teria ElRei sob seus pendões 50$000 soldados, por quanto diligenciára varios achegamentos; e logo que tudo foi disposto, como levava intuito de investir os Portuguezes por mar e terra, vogou de força arrancada toda a marinharia daquella banda castellos, e tudo, em quanto por terra vinha o exercito impetuoso contra os muros. D’huma e d’outra parte forão com muito destroço rebatidos, e 411muitas náos quebradas; que fora mui batalhada a briga desde o nascer do Sol até seu occidente, em que parece que não só lidárão forças humanas, mas tambem divinas; porque tendo morrido por infinidade os inimigos, dos nossos não morreo hum só. No dia seguinte Lourenço de Brito ordenou, que descavalgassem das canhoeiras do forte muitos sagres e camellos, e os transmudassem para a tranqueira, porque dalli, segundo disse, varejassem com grossissimos pelouros a Cidade. Já estavão derrocados muitos edificios, e entre elles a Mesquita, onde muitos se juntavão a fatigar com rogos a Mafoma, a que viesse em seu abrigo; e medrava nelles a tal ponto o susto Cidadãos e forasteiros, que forão todos a ElRei, que commettesse pazes aos Lusitanos, sem o que despedião-se logo todos dalli. E o que os affervorava mais era ver a Armada de Tristão da Cunha, que já chegava, para acudir com soccorro aos nossos, se viessem a mór aperto. Assim se accelerou a paz com certos artigos, e com a condição mórmente que só então seria valiosa, quando o Viso-Rei D. Francisco de Almeida a authenticasse. As acções, que Tristão da Cunha obrou em sua viagem até ancorar em Cananor com sua Armada, n’outro lugar as relataremos.
NOTAS DE TRANSCRIÇÃO
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