The Project Gutenberg EBook of Dom Casmurro, by Machado de Assis

This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
whatsoever.  You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
www.gutenberg.org.  If you are not located in the United States, you'll have
to check the laws of the country where you are located before using this ebook.

Title: Dom Casmurro

Author: Machado de Assis

Release Date: October 15, 2017 [EBook #55752]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO ***




Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
Literature (online soon in an extended version,also linking
to free sources for education worldwide ... MOOC's,
educational materials,...) (Images generously made available
by the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.)





DOM CASMURRO

POR

MACHADO DE ASSIS

DA ACADEMIA BRAZILEIRA

H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

RUA MOREIRA CEZAR, 71

RIO DE JANEIRO

6, RUE DES SAINTS-PRES, 6

PARIZ




I

Do titulo.

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no
trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheo de vista e
de chapo. Comprimentou-me, sentou-se ao p de mim, falou da lua e
dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os
versos pde ser que no fossem inteiramente maus. Succedeu, porm, que
como eu estava canado, fechei os olhos tres ou quatro vezes; tanto
bastou para que elle interrompesse a leitura e mettesse os versos no
bolso.

--Continue, disse eu accordando.

--J acabei, murmurou elle.

--So muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tiral-os outra vez do bolso, mas no passou
do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes
feios, e acabou alcunhando-me _Dom Casmurro._ Os visinhos, que no
gostam dos meus habitos reclusos e calados, deram curso  alcunha, que
afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anecdota aos amigos da
cidade, e elles, por graa, chamam-me assim, alguns em bilhetes: Dom
Casmurro, domingo vou jantar com voc.--Vou para Petropolis, Dom
Casmurro; a casa  a mesma da Rhenania; v se deixas essa caverna do
Engenho Novo, e vae l passar uns quinze dias commigo.--Meu caro Dom
Casmurro, no cuide que o dispenso do theatro amanh; venha e dormir
aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe ch, dou-lhe cama; s no lhe
dou moa.

No consultes diccionarios. _Casmurro_ no est aqui no sentido que
elles lhe do, mas no que lhe poz o vulgo de homem calado e mettido
comsigo. _Dom_ veiu por ironia, para attribuir-me fumos de fidalgo.
Tudo por estar cochilando! Tambem no achei melhor titulo para a minha
narrao; se no tiver outro d'aqui at ao fim do livro, vae este
mesmo. O meu poeta do trem ficar sabendo que no lhe guardo rancor.
E com pequeno esforo, sendo o titulo seu, poder cuidar que a obra
 sua. Ha livros que apenas tero isso dos seus autores; alguns nem
tanto.




II.

Do livro.

Agora que expliquei o titulo, passo a escrever o livro. Antes disso,
porm, digamos os motivos que me pem a penna na mo.

Vivo s, com um creado. A casa em que moro  propria; fil-a
construir de proposito, levado de um desejo to particular que me
vexa imprimil-o, mas v l. Um dia, ha bastantes annos, lembrou-me
reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga rua de
Matacavallos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquella outra,
que desappareceu. Constructor e pintor entenderam bem as indicaes
que lhes fiz:  o mesmo predio assobradado, tres janellas de frente,
varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a
pintura do tecto e das paredes  mais ou menos egual, umas grinaldas de
flores miudas e grandes passaros que as tomam nos bicos, de espao a
espao. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estaes, e ao centro
das paredes os medalhes de Cesar, Augusto, Nero e Massinissa, com os
nomes por baixo... No alcano a razo de taes personagens. Quando
fomos para a casa de Matacavallos, j ella estava assim decorada; vinha
do decennio anterior. Naturalmente era gosto do tempo metter sabor
classico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais  tambem
analogo e parecido. Tenho chacarinha, flres, legume, uma casuarina, um
poo e lavadouro. Uso loua velha e mobilia velha. Emfim, agora, como
outr'ora, ha aqui o mesmo contraste da vida interior, que  pacata, com
a exterior, que  ruidosa.

O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na
velhice a adolescencia. Pois, senhor, no consegui recompor o que foi
nem o que fui. Em tudo, se o rosto  egual, a physionomia  differente.
Se s me faltassem os outros, v; um homem consola-se mais ou menos
das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna  tudo. O que
aqui est , mal comparando, semelhante  pintura que se pe na barba e
nos cabellos, e que apenas conserva o habito externo, como se diz nas
autopsias; o interno no aguenta tinta. Uma certido que me desse vinte
annos de edade poderia enganar os extranhos, como todos os documentos
falsos, mas no a mim. Os amigos que me restam so de data recente;
todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto s
amigas, algumas datam de quinze annos, outras de menos, e quasi todas
creem na mocidade. Duas ou tres fariam crer nella aos outros, mas a
lingua que falam obriga muita vez a consultar os diccionarios, e tal
frequencia  canativa.

Entretanto, vida differente no quer dizer vida peor;  outra cousa.
A certos respeitos, aquella vida antiga apparece-me despida de muitos
encantos que lhe achei; mas  tambem exacto que perdeu muito espinho
que a fez molesta, e, de memoria, conservo alguma recordao doce e
feiticeira. Em verdade, pouco appareco e menos falo. Distraces raras.
O mais do tempo  gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e no durmo
mal.

Ora, como tudo cana, esta monotonia acabou por exhaurir-me tambem.
Quiz variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudencia,
philosophia e politica acudiram-me, mas no me acudiram as foras
necessarias. Depois, pensei em fazer uma _Historia dos Suburbios_,
menos secca que as memorias do padre Luiz Gonalves dos Santos,
relativas  cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas,
como preliminares, tudo arido e longo. Foi ento que os bustos pintados
nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que elles no
alcanavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da penna e contasse
alguns. Talvez a narrao me dsse a illuso, e as sombras viessem
perpassar ligeiras, como ao poeta, no o do trem, mas o do _Fausto: Ahi
vindes outra vez, inquietas sombras...?_

Fiquei to alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a penna na
mo. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande Cesar, que me incitas
a fazer os meus commentarios, agradeo-vos o conselho, e vou deitar ao
papel as reminiscencias que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que
vivi, e assentarei a mo para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos
a evocao por uma celebre tarde de Novembro, que nunca me esqueceu.
Tive outras muitas, melhores, e peores, mas aquella nunca se me apagou
do espirito.  o que vs entender, lendo.




III

A denuncia.

Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e
escondi-me atraz da porta. A casa era a da rua de Matacavallos, o mez
Novembro, o anno  que  um tanto remoto, mas eu no hei de trocar as
datas  minha vida s para agradar s pessoas que no amam historias
velhas; o anno era de 1857.

--D. Gloria, a senhora persiste na ideia de metter o nosso Bentinho no
seminario?  mais que tempo, e j agora pde haver uma difficuldade.

--Que difficuldade?

--Uma grande difficuldade.

Minha me quiz saber o que era. Jos Dias, depois de alguns instantes
de concentraro, veiu ver se havia alguem no corredor; no deu por mim,
voltou e, abafando a voz, disse que a difficuldade estava na casa ao
p, a gente do Padua.

--A gente do Padua?

--Ha algum tempo estou para lhe dizer isto, mas no me atrevia. No
me parece bonito que o nosso Bentinho ande mettido nos cantos com a
filha do _Tartaruga_, e esta  a difficuldade, porque se elles pegam de
namoro, a senhora ter muito que lutar para separal-os.

--No acho. Mettidos nos cantos?

-- um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quasi
que no sae de l. A pequena  uma desmiolada; o pae faz que no v;
tomara elle que as cousas corressem de maneira, que... Comprehendo o
seu gesto; a senhora no cr em taes calculos, parece-lhe que todos tm
a alma candida...

--Mas, Sr. Jos Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi
nada que faa desconfiar. Basta a edade; Bentinho mal tem quinze annos.
Capit fez quatorze  semana passada; so dous creanolas. No se
esquea que foram criados juntos, desde aquella grande enchente, ha
dez annos, em que a familia Padua perdeu tanta cousa; d'ahi vieram as
nossas relaes. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, voc que acha?

Tio Cosme respondeu com um Ora! que, traduzido em vulgar, queria
dizer: So imaginaes do Jos Dias; os pequenos divertem-se, eu
divirto-me; onde est o gamo?

--Sim, creio que o senhor est enganado.

--Pde ser, minha senhora. Oxal tenham razo; mas creia que no falei
seno depois de muito examinar...

--Em todo caso, vae sendo tempo, interrompeu minha me; vou tratar de
mettel-o no seminario quanto antes.

--Bem, uma vez que no perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o
principal. Bentinho ha de satisfazer os desejos de sua me. E depois
a egreja brasileira tem altos destinos. No esqueamos que um bispo
presidiu a Constituinte, e que o padre Feij governou o imperio...

--Governou como a cara d'elle! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos
rancores politicos.

--Perdo, doutor, no estou defendendo ninguem, estou citando. O que eu
quero  dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.

--Voc o que quer  um capote; ande, v buscar o gamo. Quanto ao
pequeno, se tem de ser padre, realmente  melhor que no comece a dizer
missa atraz das portas. Mas, olhe c, mana Gloria, ha mesmo necessidade
de fazel-o padre?

-- promessa, ha de cumprir-se.

--Sei que voc fez promessa... mas, uma promessa assim... no sei...
Creio que, bem pensado... Voc que acha, prima Justina?

--Eu?

--Verdade  que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus 
que sabe do todos. Comtudo, uma promessa de tantos annos... Mas, que
 isso, mana Gloria? Est chorando? Ora esta! Pois isto  cousa de
lagrimas?

Minha me assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou
e foi ter com ella. Seguiu-se um alto silencio, durante o qual estive
a pique de entrar na sala, mas outra fora maior, outra emoo... No
pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina
exhortava: Prima Gloria! prima Gloria! Jos Dias desculpava-se: Se
soubesse, no teria falado, mas falei pela venerao, pela estima, pelo
affecto, para cumprir um dever amargo, um dever amarissimo...




IV

Um dever amarissimo!

Jos Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feio monumental
s ideias; no as havendo, servir a prolongar as phrases. Levantou-se
para ir buscar o gamo, que estava no interior da casa. Cosi-me muito 
parede, e vi-o passar com as suas calas brancas engommadas, presilhas,
rodaque e gravata de mola. Foi dos ultimos que usaram presilhas no Rio
de Janeiro, e talvez neste mundo. Trazia as calas curtas para que lhe
ficassem bem esticadas. A gravata de setim preto, com um aro de ao
por dentro, immobilisava-lhe o pescoo; era ento moda. O rodaque de
chita, veste caseira o leve, parecia nelle uma casaca de cerimonia. Era
magro, chupado, com um principio de calva; teria os seus cincoenta e
cinco annos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, no aquelle
vagar arrastado dos preguiosos, mas um vagar calculado e deduzido, um
syllogismo completo, a premissa antes da consequencia, a consequencia
antes da concluso. Um dever amarissimo!




V

O aggregado.

Nem sempre ia naquelle passo vagaroso e rigido. Tambem se descompunha
em accionados, era muita vez rapido e lepido nos movimentos, to
natural nesta como naquella maneira. Outrosim, ria largo, se era
preciso, de um grande riso sem vontade, mas communicativo, a tal ponto
as bochechas, os dentes, os olhos, toda a cara, todo a pessoa, todo o
mundo pareciam rir nelle. Nos lances graves, gravissimo.

Era nosso aggregado desde muitos annos; meu pae ainda estava na
antiga fazenda de Itaguahy, e eu acabava de nascer. Um dia appareceu
alli vendendo-se por medico homeopatha; levava um _Manual_ e uma
botica. Havia ento um andao de febres; Jos Dias curou o feitor
e uma escrava, e no quiz receber nenhuma remunerao. Ento meu
pae propoz-lhe ficar alli vivendo, com pequeno ordenado. Jos Dias
recusou, dizendo que era justo levar a saude  casa de sap do pobre.

--Quem lhe impede que v a outras partes? V aonde quizer, mas fique
morando comnosco.

--Voltarei daqui a tres mezes.

Voltou dalli a duas semanas, acceitou casa e comida sem outro
estipendio, salvo o que quizessem dar por festas. Quando meu pae foi
eleito deputado e veiu para o Rio de Janeiro com a familia, elle veiu
tambem, e teve o seu quarto ao fundo da chacara. Um dia, reinando
outra vez febres em Itaguahy, disse-lhe meu pae que fosse ver a nossa
escravatura. Jos Dias deixou-se estar calado, suspirou e acabou
confessando que no era medico. Tomra este titulo para ajudar a
propaganda da nova escola, e no o fez sem estudar muito e muito; mas a
consciencia no lhe permittia acceitar mais doentes.

--Mas, voc curou das outras vezes.

--Creio que sim; o mais acertado, porm,  dizer que foram os remedios
indicados nos livros. Elles, sim, elles, abaixo de Deus. Eu era um
charlato... No negue; os motivos do meu procedimento podiam ser e
eram dignos; a homeopathia  a verdade, e, para servir  verdade,
menti; mas  tempo de restabelecer tudo.

No foi despedido, como pedia ento; meu pae j no podia dispensal-o.
Tinha o dom de se fazer acceito e necessario; dava-se por falta delle,
como de pessoa de familia. Quando meu pae morreu, a dr que o pungiu
foi enorme, disseram-me, no me lembra. Minha me ficou-lhe muito
grata, e no consentiu que elle deixasse o quarto da chacara; ao setimo
dia, depois da missa, elle foi despedir-se della.

--Fique, Jos Dias.

--Obedeo, minha senhora.

Teve um pequeno legado no testamento, uma apolice e quatro palavras de
louvor. Copiou as palavras, encaixilhou-as e pendurou-as no quarto,
por cima da cama. Esta  a melhor apolice, dizia elle muita vez. Com
o tempo, adquiriu certa autoridade na familia, certa audiencia, ao
menos; no abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, no
direi optimo, mas nem tudo  optimo neste mundo. E no lhe supponhas
alma subalterna; as cortezias que fizesse vinham antes do calculo
que da indole. A roupa durava-lhe muito; ao contrario das pessoas
que enxovalham depressa o vestido novo, elle trazia o velho escovado
e liso, cirzido, abotoado, de uma elegancia pobre e modesta. Era
lido, posto que de atropello, o bastante para divertir ao sero e 
sobremesa, ou explicar algum phenomeno, falar dos effeitos do calor e
do frio, dos polos e de Robespierre. Contava muita vez uma viagem que
fizera  Europa, e confessava que a no sermos ns, j teria voltado
para l; tinha amigos em Lisboa, mas a nossa familia, dizia elle,
abaixo de Deus, era tudo.

--Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia.

--Abaixo, repetiu Jos Dias cheio de venerao.

E minha me, que era religiosa, gostou de ver que elle punha Deus no
devido logar, e sorriu approvando. Jos Dias agradeceu de cabea. Minha
me dava-lhe de quando em quando alguns cobres. Tio Cosme, que era
advogado, confiava-lhe a copia de papeis de autos.




VI

Tio Cosme.

Tio Cosme vivia com minha me, desde que ella enviuvou. J ento era
viuvo, como prima Justina; era a casa dos tres viuvos.

A fortuna troca muita vez as mos  natureza. Formado para as serenas
funcces do capitalismo, tio Cosme no enriquecia no fro: ia comendo.
Tinha o escriptorio na antiga rua das Violas, perto do jury, que era no
extincto Aljube. Trabalhava no crime. Jos Dias no perdia as defesas
oraes de tio Cosme. Era quem lhe vestia e despia a toga, com muitos
comprimentos no fim. Em casa, referia os debates. Tio Cosme, por mais
modesto que quizesse ser, sorria de persuaso.

Era gordo e pesado, tinha a respirao curta e os olhos dorminhocos.
Uma das minhas recordaes mais antigas era vel-o montar todas as
manhs a besta que minha me lhe deu e que o levava ao escriptorio.
O preto que a tinha ido buscar  cocheira, segurava o freio, emquanto
elle erguia o p e pousava no estribo; a isto seguia-se um minuto de
descano ou reflexo. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo
ameaava subir, mas no subia; segundo impulso, egual effeito. Emfim,
aps alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as foras
physicas e moraes, dava o ultimo surto da terra, e desta vez caa em
cima do selim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que
acabava de receber o mundo. Tio Cosme accommodava as carnes, e a besta
partia a trote.

Tambem no me esqueceu o que elle me fez uma tarde. Posto que nascido
na roa (donde vim com dous annos) e apezar dos costumes do tempo,
eu no sabia montar, e tinha medo ao cavallo. Tio Cosme pegou em mim
e escanchou-me em cima da besta. Quando me vi no alto (tinha nove
annos), ssinho e desamparado, o cho l embaixo, entrei a gritar
desesperadamente: Mame! mame! Ella acudiu pallida e tremula, cuidou
que me estivessem matando, apeou-me, affagou-me, emquanto o irmo
perguntava:

--Mana Gloria, pois um tamanho destes tem medo de besta mansa?

--No est acostumado.

--Deve acostumar-se. Padre que seja, se fr vigario na roa,  preciso
que monte a cavallo; e, aqui mesmo, ainda no sendo padre, se quizer
florear como os outros rapazes, e no souber, ha de queixar-se de voc,
mana Gloria.

--Pois que se queixe; tenho medo.

--Medo! Ora, medo!

A verdade  que eu s vim a apprender equitao mais tarde, menos por
gosto que por vergonha de dizer que no sabia montar. Agora  que
elle vae namorar devras, disseram quando eu comecei as lices. No
se diria o mesmo de tio Cosme. Nelle era velho costume e necessidade.
J no dava para namoros. Contam que, em rapaz, foi acceito de muitas
damas, alm de partidario exaltado; mas os annos levaram-lhe o mais
do ardor politico e sexual, e a gordura acabou com o resto de ideias
publicas e especificas. Agora s cumpria as obrigaes do officio e
sem amor. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Uma ou outra vez
dizia pilherias.




VII

D. Gloria.

Minha me era boa creatura. Quando lhe morreu o marido, Pedro de
Albuquerque Santiago, contava trinta e um annos de edade, e podia
voltar para Itaguahy. No quiz; preferiu ficar perto da egreja em que
meu pae fra sepultado. Vendeu a fazendola e os escravos, comprou
alguns que pz ao ganho ou alugou, uma duzia de predios, certo numero
de apolices, e deixou-se estar na casa de Matacavallos, onde vivera
os dous ultimos annos de casada. Era filha de uma senhora mineira,
descendente de outra paulista, a familia Fernandes.

Ora, pois, naquelle anno da graa de 1857, D. Maria da Gloria Fernandes
Santiago contava quarenta e dous annos de edade. Era ainda bonita e
moa, mas teimava em esconder os saldos da juventude, por mais que a
natureza quizesse preserval-a da aco do tempo. Vivia mettida em um
eterno vestido escuro, sem adornos, com um chale preto, dobrado em
triangulo e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabellos, em bands,
eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez
trazia touca branca de flhos. Lidava assim, com os seus sapatos de
cordavo rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e guiando os servios
todos da casa inteira, desde manh at  noite.

Tenho alli na parede o retrato della, ao lado do do marido, taes
quaes na outra casa. A pintura escureceu muito, mas ainda d ideia de
ambos. No me lembra nada delle, a no ser vagamente que era alto e
usava cabelleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me
acompanham para todos os lados, effeito da pintura que me assombrava em
pequeno. O pescoo sae de uma gravata preta de muitas voltas, a cara
 toda rapada, salvo um trechosinho pegado s orelhas. O de minha me
mostra que era linda. Contava ento vinte annos, e tinha uma flr entre
os dedos. No painel parece offerecer a flr ao marido. O que se l na
cara do ambos  que, se a felicidade conjugal pde ser comparada 
sorte grande, elles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.

Concluo que no se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as accusou
ainda de immoraes, como ninguem tachou de m a boceta de Pandora, por
lhe ter tirado a esperana no fundo; em alguma parte ha de ella ficar.
Aqui os tenho aos dous bem casados de outr'ora, os bem-amados, os
bem-aventurados, que se foram desta para a outra vida, continuar um
sonho provavelmente. Quando a loteria e Pandora me aborrecem, ergo os
olhos para elles, e esqueo os bilhetes brancos e a boceta fatidica.
So retratos que valem por originaes. O de minha me, estendendo a flr
ao marido, parece dizer: Sou toda sua, meu guapo cavalheiro! O de meu
pae, olhando para a gente, faz este commentario: Vejam como esta moa
me quer... Se padeceram molestias, no sei, como no sei se tiveram
desgostos: era creana e comecei por no ser nascido. Depois da morte
delle, lembra-me que ella chorou muito; mas aqui esto os retratos de
ambos, sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expresso.
So como photographias instantaneas da felicidade.




VIII

 tempo!

Mas  tempo de tomar quella tarde de Novembro, uma tarde clara e
fresca, socegada como a nossa casa e o trecho da rua em que moravamos.
Verdadeiramente foi o principio da minha vida; tudo o que succedera
antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em
scena, o accender das luzes, o preparo das rabecas, a symphonia...
Agora  que eu ia comear a minha opera. A vida  uma opera, dizia-me
um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia
a definio, em tal maneira que me fez crer nella. Talvez valha a pena
dal-a;  s um capitulo.




IX

A opera.

J no tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. O desuso  que
me faz mal, accrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da
Europa, ia ao empresario e expunha-lhe todas as injustias da terra e
do ceu; o empresario commettia mais uma, e elle saa a bradar contra
a iniquidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papeis. Quando andava,
apezar de velho, parecia cortejar uma princeza de Babylonia. s vezes,
cantarolava, sem abrir a bocca, algum trecho ainda mais edoso que elle
ou tanto; vozes assim abafadas so sempre possiveis. Vinha aqui jantar
commigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me
a definio do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia
sor uma opera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabea e
replicou:

--A vida  uma opera e uma grande opera. O tenor e o barytono lutam
pelo soprano, em presena do baixo e dos comprimarios, quando no so o
soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presena do mesmo baixo
e dos mesmos comprimarios. Ha cros numerosos, muitos bailados, e a
orchestrao  excellente...

--Mas, meu caro Marcolini...

--Qu...?

E, depois de beber um gole de licor, pousou o calix, e expoz-me a
historia da creao, com palavras que vou resumir.

Deus  o poeta. A musica  de Satanaz, joven maestro de muito futuro,
que apprendeu no conservatorio do ceu. Rival de Miguel, Raphael e
Gabriel, no tolerava a precedencia que elles tinham na distribuio
dos premios. Pde ser tambem que a musica em demasia doce e mystica
daquelles outros condiscipulos fosse aborrecivel ao seu genio
essencialmente tragico. Tramou uma rebellio que foi descoberta a
tempo, e elle expulso do conservatorio. Tudo se teria passado sem mais
nada, se Deus no houvesse escripto um libretto de opera, do qual
abrira mo, por entender que tal genero de recreio era improprio da
sua eternidade. Satanaz levou o manuscripto comsigo para o inferno.
Com o fim de mostrar que valia mais que os outros,--e acaso para
reconciliar-se com o ceu--compoz a partitura, e logo que a acabou foi
leval-a ao Padre Eterno.

--Senhor, no desapprendi as lices recebidas, disse-lhe. Aqui tendes
a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes
digna das alturas, admitti-me com ella a vossos ps...

--No, retorquiu o Senhor, no quero ouvir nada.

--Mas, Senhor...

--Nada! nada!

Satanaz supplicou ainda, sem melhor fortuna, at que Deus, canado e
cheio de misericordia, consentiu em que a opera fosse executada, mas
fra do ceu. Creou um theatro especial, este planeta, e inventou uma
companhia inteira, com todas as partes, primarias e comprimarias, cros
e bailarinos.

--Ouvi agora alguns ensaios!

--No, no quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libretto;
estou prompto a dividir comtigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; della resultaram alguns desconcertos
que a audiencia prvia e a collaborao amiga teriam evitado. Com
effeito, ha logares em que o verso vae para a direita e a musica para
a esquerda. No falta quem diga que nisso mesmo est a belleza da
composio, fugindo  monotonia, e assim explicam o tercetto do Eden,
a aria de Abel, os cros da guilhotina e da escravido. No  raro que
os mesmos lances se reproduzam, sem razao sufficiente. Certos motivos
canam  fora de repetio. Tambem ha obscuridades; o maestro abusa
das massas choraes, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso.
As partes orchestraes so alis tratadas com grande pericia. Tal  a
opinio dos imparciaes.

Os amigos do maestro querem que difficilmente se possa achar obra
to bem acabada. Um ou outro admitte certas rudezas e taes ou
quaes lacunas, mas com o andar da opera  provavel que estas sejam
preenchidas ou explicadas, e aquellas desapparecam inteiramente, no se
negando o maestro a emendar a obra onde achar que no responde de todo
ao pensamento sublime do poeta. J no dizem o mesmo os amigos deste.
Juram que o libretto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o
sentido da lettra, e, posto seja bonita em alguns logares, e trabalhada
com arte em outros,  absolutamente diversa e at contraria ao drama. O
grotesco, por exemplo, no est no texto do poeta;  uma excrescencia
para imitar as _Mulheres patuscas de Windsor._ Este ponto  contestado
pelos satanistas com alguma apparencia de razo. Dizem elles que, ao
tempo em que o joven Satanaz compoz a grande opera, nem essa fara nem
Shakespeare eram nascidos. Chegam a affirmar que o poeta inglez no
teve outro genio seno transcrever a lettra da opera, com tal arte
e fidelidade, que parece elle proprio o autor da composio; mas,
evidentemente,  um plagiario.

--Esta pea, concluiu o velho tenor, durar emquanto durar o theatro,
no se podendo calcular em que tempo ser elle demolido por utilidade
astronomica. O exito  crescente. Poeta e musico recebem pontualmente
os seus direitos autoraes, que no so os mesmos, porque a regra da
diviso  aquillo da Escriptura: Muitos so os chamados, poucos os
escolhidos. Deus recebe em ouro, Satanaz em papel.

--Tem graa...

--Graa? bradou elle com furia; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro
Santiago, eu no tenho graa, eu tenho horror  graa. Isto que digo 
a verdade pura e ultima. Um dia, quando todos os livros forem queimados
por inuteis, ha de haver alguem, pde ser que tenor, e talvez italiano,
que ensine esta verdade aos homens. Tudo  musica, meu amigo. No
principio era o _d_, e o _d_ fez-se _r_, etc. Este calix (e enchia-o
novamente) este calix  um breve estribilho. No se ouve? Tambem no se
ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma opera...




X

Acceito a theoria.

Que  demasiada metaphysica para um s tenor, no ha duvida; mas a
perda da voz explica tudo, e ha philosophos que so, em resumo, tenores
desempregados.

Eu, leitor amigo, acceito a theoria do meu velho Marcolini, no s pela
verosimilhana, que  muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida
se casa bem  definio. Cantei um _duo_ ternissimo, depois um _trio_,
depois um _quatuor..._ Mas no adeantemos; vamos  primeira tarde, em
que eu vim a saber que j cantava, porque a denuncia de Jos Dias,
meu caro leitor, foi dada principalmente a mim. A mim  que elle me
denunciou.




XI

A promessa.

To depressa vi desapparecer o aggregado no corredor, deixei o
esconderijo, e corri  varanda do fundo. No quiz saber de lagrimas nem
da causa que as fazia verter a minha me. A causa eram provavelmente os
seus projectos ecclesiasticos, e a occasio destes  a que vou dizer,
por ser j ento historia velha; datava de dezeseis annos.

Os projectos vinham do tempo em que fui concebido. Tendo-lhe nascido
morto o primeiro filho, minha me pegou-se com Deus para que o segundo
vingasse, promettendo, se fosse varo, mettel-o na egreja. Talvez
esperasse uma menina. No disse nada a meu pae, nem antes, nem depois
de me dar  luz; contava fazel-o quando eu entrasse para a escola,
mas enviuvou antes disso. Viuva, sentiu terror de separar-se de mim;
mas era to devota, to temente a Deus, que buscou testemunhas da
obrigao, confiando a promessa a parentes e familiares. Unicamente,
para que nos separassemos o mais tarde possivel, fez-me apprender em
casa primeiras lettras, latim e doutrina, por aquelle padre Cabral,
velho amigo do tio Cosme, que ia l jogar s noites.

Prazos largos so faceis de subscrever; a imaginao os faz infinitos.
Minha me esperou que os annos viessem vindo. Entretanto, ia-me
affeioando  ideia da egreja; brincos de creana, livros devotos,
imagens de santos, conversaes de casa, tudo convergia para o altar.
Quando iamos  missa, dizia-me sempre que era para apprender a ser
padre, e que reparasse no padre, no tirasse os olhos do padre. Em
casa, brincava de missa,--um tanto s escondidas, porque minha me
dizia que missa no era cousa de brincadeira. Arranjavamos um altar,
Capit e eu. Ella servia de sacristo, e alteravamos o ritual, no
sentido do dividirmos a hostia entre ns; a hostia era sempre um
doce. No tempo em que brincavamos assim, era muito commum ouvir 
minha visinha: Hoje ha missa? Eu j sabia o que isto queria dizer,
respondia affirmativamente, e ia pedir hostia por outro nome. Voltava
com ella, arranjavamos o altar, engrolavamos o latim e precipitavamos
as cerimonias. _Dominus, non sum dignus..._ Isto, que eu devia dizer
tres vezes, penso que s dizia uma, tal era a golodice do padre e do
sacristo. No bebiamos vinho nem agua; no tinhamos o primeiro, e a
segunda viria tirar-nos o gosto do sacrificio.

Ultimamente no me falavam j do seminario, a tal ponto que eu suppunha
ser negocio findo. Quinze annos, no havendo vocao, pediam antes o
seminario do mundo que o de S. Jos. Minha me ficava muita vez a olhar
para mim, como alma perdida, ou pegava-me na mo, a pretexto de nada,
para apertal-a muito.




XII

Na varanda.

Parei na varanda; ia tonto, atordoado, as pernas bambas, o corao
parecendo querer sair-me pela bocca fra. No me atrevia a descer 
chacara, e passar ao quintal visinho. Comecei a andar de um lado para
outro, estacando para amparar-me, e andava outra vez e estacava. Vozes
confusas repetiam o discurso do Jos Dias:

Sempre juntos...

Em segredinhos...

Se elles pegam de namoro...

Tijolos que pisei e repisei naquella tarde, columnas amarelladas que
me passastes  direita ou  esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vs
me ficou a melhor parte da crise, a sensao de um goso novo, que me
envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e
me derramava no sei que balsamo interior. s vezes dava por mim,
sorrindo, um ar do riso de satisfao, que desmentia a abominao do
meu peccado. E as vozes repetiam-se confusas:

Em segredinhos...

Sempre juntos...

Se elles pegam de namoro...

Um coqueiro, vendo-me inquieto e adivinhando a causa, murmurou de
cima de si que no era feio que os meninos de quinze annos andassem
nos cantos com as meninas de quatorze; ao contrario, os adolescentes
daquella edade no tinham outro officio, nem os cantos outra utilidade.
Era um coqueiro velho, e eu cria nos coqueiros velhos, mais ainda que
nos velhos livros. Passaros, borboletas, uma cigarra que ensaiava o
estio, toda a gente viva do ar era da mesma opinio.

Com que ento eu amava Capit, e Capit a mim? Realmente, andava cosido
s saias della, mas no me occorria nada entre ns que fosse devras
secreto. Antes della ir para o collegio, eram tudo travessuras de
creanca; depois que saiu do collegio,  certo que no restabelecemos
logo a antiga intimidade, mas esta voltou pouco a pouco, e no ultimo
anno era completa. Entretanto, a materia das nossas conversaes era
a de sempre. Capit chamava-me s vezes bonito, moceto, uma flr;
outras pegava-me nas mos para contar-me os dedos. E comecei a recordar
esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ella
me passava a mo pelos cabellos, dizendo que os achava lindissimos.
Eu, sem fazer o mesmo aos della, dizia que os della eram muito mais
lindos que os meus. Ento Capit abanava a cabea com uma grande
expresso de desengano e melancolia, tanto mais de espantar quanto que
tinha os cabellos realmente admiraveis; mas eu retorquia chamando-lhe
maluca. Quando me perguntava se sonhra com ella na vespera, e eu
dizia que no, ouvia-lhe contar que sonhra commigo, e eram aventuras
extraordinarias, que subiamos ao Corcovado pelo ar, que dansavamos na
lua, ou ento que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, afim de
os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos
andavamos unidinhos. Os que eu tinha com ella no eram assim, apenas
reproduziam a nossa familiaridade, e muita vez no passavam da simples
repetio do dia, alguma phrase, algum gesto. Tambem eu os contava.
Capit um dia notou a differena, dizendo que os della eram mais
bonitos que os meus; eu, depois de certa hesitao, disse-lhe que eram
como a pessoa que sonhava... Fez-se cr de pitanga.

Pois, francamente, s agora entendia a emoo que me davam essas e
outras confidencias. A emoo era doce e nova, mas a causa della
fugia-me, sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Os silencios dos
ultimos dias, que me no descobriam nada, agora os sentia como signaes
de alguma cousa, e assim as meias palavras, as perguntas curiosas, as
respostas vagas, os cuidados, o gosto de recordar a infancia. Tambem
adverti que era phenomeno recente accordar com o pensamento em Capit,
e escutal-a de memoria, e estremecer quando lhe ouvia os passos. Se
se falava nella, em minha casa, prestava mais alteno que d'antes,
e, segundo era louvor ou critica, assim me trazia gosto ou desgosto
mais intensos que outr'ora, quando eramos smente companheiros de
travessuras. Cheguei a pensar nella durante as missas daquelle mez, com
intervallos,  verdade, mas com exclusivismo tambem.

Tudo isto me era agora apresentado pela bocca de Jos Dias, que me
denunciara a mim mesmo, e a quem eu perdoava tudo, o mal que dissera,
o mal que fizera, e o que pudesse vir de um e do outro. Naquelle
instante, a eterna Verdade no valeria mais que elle, nem a eterna
Bondade, nem as demais Virtudes eternas. Em amava Capit! Capit
amava-me! E as minhas pernas andavam, desandavam, estacavam, tremulas
e crentes de abarcar o mundo. Esse primeiro palpitar da seiva, essa
revelao da consciencia a si propria, nunca mais me esqueceu, nem
achei que lhe fosse comparavel qualquer outra sensao da mesma
especie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente tambem por ser a
primeira.




XIII

Capit.

De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao p:

--Capit!

E no quintal:

--Mame!

E outra vez na casa:

--Vem c!

No me pude ter. As pernas desceram-me os tres degraus que davam para
a chacara, e caminharam para o quintal visinho. Era costume dellas, s
tardes, e s manhs tambem. Que as pernas tambem so pessoas, apenas
interiores aos braos, e valem de si mesmas, quando a cabea no as
rege por meio de ideias. As minhas chegaram ao p do muro. Havia alli
uma porta de communicao mandada rasgar por minha me, quando Capit
e eu ramos pequenos. A porta no tinha chave nem taramela, abria-se
empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de
uma pedra pendente de uma corda. Era quasi que exclusivamente nossa.
Em creancas, faziamos visita batendo de um lado, e sendo recebidos
do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capit adoeciam,
o medico era eu. Entrava no quintal della com um pau debaixo do
brao, para imitar o bengalo do doutor Joo da Costa; tomava o pulso
 doente, e pedia-lhe que mostrasse a lingua.  surda, coitada!
exclamava Capit. Ento eu coava o queixo, como o doutor, e acabava
mandando applicar-lhe umas sanguesugas ou dar-lhe um vomitorio: era a
therapeutica habitual do medico.

--Capit!

--Mame!

--Deixa de estar esburacando o muro; vem c.

A voz da me era agora mais perto, como se viesse j da porta dos
fundos. Quiz passar ao quintal, mas as pernas, ha pouco to andarilhas,
pareciam agora presas ao cho. Afinal fiz um esforo, empurrei a porta,
e entrei. Capit estava ao p do muro fronteiro, voltada para elle,
riscando com um prego. O rumor da porta fel-a olhar para traz; ao dar
commigo, encostou-se ao muro, como se quizesse esconder alguma cousa.
Caminhei para ella; naturalmente levava o gesto mudado, porque ella
veiu a mim, e perguntou-me inquieta:

--Que  que voc tem?

--Eu? Nada.

--Nada, no; voc tem alguma cousa.

Quiz insistir que nada, mas no achei lingua. Todo eu era olhos e
corao, um corao que desta vez ia sair, com certeza, pela bocca
fora. No podia tirar os olhos daquella creatura de quatorze annos,
alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado.
Os cabellos grossos, feitos em duas tranas, com as pontas atadas uma 
outra,  moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros
e grandes, nariz recto e comprido, tinha a bocca fina e o queixo largo.
As mos, a despeito de alguns officios rudes, eram curadas com amor;
no cheiravam a sabes finos nem aguas de toucador, mas com agua do
poo e sabo commum trazia-as sem macula. Calava sapatos de duraque,
rasos e velhos, a que ella mesma dera alguns pontos.

--Que  que voc tem? repetiu.

--No  nada, balbuciei finalmente.

E emendei logo:

-- uma noticia.

--Noticia de qu?

Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminario e espreitar a
impresso que lhe faria. Se a consternasse  que realmente gostava de
mim; se no,  que no gostava. Mas todo esse calculo foi obscuro e
rapido; senti que no poderia falar claramente, tinha agora a vista no
sei como...

--Ento?

--Voc sabe...

Nisto olhei para o muro, o logar em que ella estivera riscando,
escrevendo ou esburacando, como dissera a me. Vi uns riscos abertos, e
lembrou-me o gesto que ella fizera para cobril-os. Ento quiz vel-os
de perto, e dei um passo. Capit agarrou-me, mas, ou por temer que
eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adeante e
apagou o escripto. Foi o mesmo que accender em mim o desejo de ler o
que era.




XIV

A inscripo.

Tudo o que contei no fim do outro capitulo foi obra de um instante.
O que se lhe seguiu foi ainda mais rapido. Dei um pulo, e antes que
ella raspasse o muro, li estes dous nomes, abertos ao prego, o assim
dispostos:

BENTO CAPITOLINA

Voltei-me para ella; Capit tinha os olhos no cho. Ergueu-os logo,
devagar, e ficmos a olhar um para o outro... Confisso de creanas,
tu valias bem duas ou tres paginas, mas quero ser poupado. Em verdade,
no falmos nada; o muro falou por ns. No nos movemos, as mos  que
se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se,
fundindo-se. No marquei a hora exacta daquelle gesto. Devia tel-a
marcado; sinto a falta de uma nota escripta naquella mesma noite, e
que eu poria aqui com os erros de orthographia que trouxesse, mas no
traria nenhum, tal era a differena entre o estudante e o adolescente.
Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias
de latim e era virgem de mulheres.

No soltmos as mos, nem ellas se deixaram cair de canadas ou de
esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao
perto, tornavam a metter-se uns pelos outros... Padre futuro, estava
assim deante della como de um altar, sendo uma das faces a Epistola e
a outra o Evangelho. A bocca podia ser o calix, os labios a patena.
Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguem apprende, e  a
lingua catholica dos homens. No me tenhas por sacrilego, leitora minha
devota; a limpeza da inteno lava o que puder haver menos curial no
estylo. Estavamos alli com o ceu em ns. As mos, unindo os nervos,
faziam das duas creaturas uma s, mas uma s creatura seraphica. Os
olhos continuaram a dizer cousas infinitas, as palavras de bocca  que
nem tentavam sair, tornavam ao corao caladas como vinham...




XV

Outra voz repentina.

Outra voz repentina, mas desta vez uma voz de homem:

--Vocs esto jogando o siso?

Era o pae de Capit, que estava  porta dos fundos, ao p da mulher.
Soltmos as mos depressa, e ficmos atrapalhados. Capit foi ao muro,
e, com o prego, disfaradamente, apagou os nossos nomes escriptos.

--Capit!

--Papae!

--No me estragues o reboco do muro.

Capit riscava sobre o riscado, para apagar bem o escripto. Padua saiu
ao quintal, a ver o que era, mas j a filha tinha comeado outra cousa,
um perfil, que disse ser o retrato delle, e tanto podia ser delle como
da me; fel-o rir, era o essencial. De resto, elle chegou sem colera,
todo meigo, apezar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em que nos
apanhou. Era um homem baixo e grosso, pernas e braos curtos, costas
abahuladas, donde lhe veiu a alcunha de Tartaruga, que Jos Dias lhe
poz. Ninguem lhe chamava assim l em casa; era s o aggregado.

--Vocs estavam jogando o siso? perguntou,

Olhei para um p do sabugueiro que ficava perto; Capit respondeu por
ambos.

--Estavamos, sim, senhor, mas Bentinho ri logo, no aguenta.

--Quando eu cheguei  porta, no ria.

--J tinha rido das outras vezes; no pde. Papae quer ver?

E sria, fitou em mim os olhos, convidando-me ao jogo. O susto 
naturalmente serio; eu estava ainda sob a aco do que trouxe a entrada
de Padua, e no fui capaz de rir, por mais que devesse fazel-o, para
legitimar a resposta de Capit. Esta, canada de esperar, desviou
o rosto, dizendo que eu no ria daquella vez por estar ao p do
pae. E nem assim ri. Ha cousas que s se apprendem tarde;  mister
nascer com ellas para fazel-as cedo. E melhor  naturalmente cedo que
artificialmente tarde. Capit, aps duas voltas, foi ter com a me,
que continuava  porta da casa, deixando-nos a mim e ao pae encantados
della; o pae, olhando para ella e para mim, dizia-me, cheio de ternura:

--Quem dir que esta pequena tem quatorze annos? Parece dezesete. Mame
est boa? continuou voltando-se inteiramente para mim.

--Est.

--Ha muitos dias que no a vejo. Estou com vontade de dar um capote
ao doutor, mas no tenho podido, ando com trabalhos da repartio, em
casa; escrevo todos os noites que  em desespero; negocio de relatorio.
Voc j viu o meu gaturamo? Est alli no fundo. Ia agora mesmo buscar a
gaiola; ande ver.

Que o meu desejo era nenhum, cr-se facilmente, sem ser preciso jurar
pelo ceu nem pela terra. Meu desejo era ir atraz de Capit e falar-lhe
agora do mal que nos esperava, mas o pae era o pae, e demais amava
particularmente os passarinhos. Tinha-os de varia especie, cr e
tamanho. A rea que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de
canarios, que faziam cantando um barulho de todos os diabos. Trocava
passaros com outros amadores, comprava-os, apanhava alguns, no proprio
quintal, armando alapes. Tambem, se adoeciam, tratava delles como se
fossem gente.




XVI

O administrador interino.

Padua era empregado em repartio dependente do ministerio da guerra.
No ganhava muito, mas a mulher gastava pouco, e a vida era barata.
Demais, a casa em que morava, assobradada como a nossa, posto que
menor, era propriedade delle. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu
n'um meio bilhete de loteria, dez contos de reis. A primeira ideia do
Padua, quando lhe saiu o premio, foi comprar um cavallo do Cabo, um
adereo de brilhantes para a mulher, uma sepultura perpetua de familia,
mandar vir da Europa alguns passaros, etc.; mas a mulher, esta D.
Fortunata que alli est  porta dos fundos da casa, em p, falando 
filha, alta, forte, cheia, como a filha, a mesma cabea, os mesmos
olhos claros, a mulher  que lhe disse que o melhor era comprar a casa,
e guardar o que sobrasse para acudir s molestias grandes. Padua
hesitou muito; afinal, teve de ceder aos conselhos de minha me, a quem
D. Fortunata pediu auxilio. Nem foi s nessa occasio que minha me
lhes valeu; um dia chegou a salvar a vida ao Padua. Escutai; a anecdota
 curta.

O administrador da repartio em que Padua trabalhava teve de ir ao
Norte, em commisso. Padua, ou por ordem regulamentar, ou por especial
designao, ficou substituindo o administrador com os respectivos
honorarios. Esta mudana de fortuna trouxe-lhe certa vertigem: era
antes dos dez contos. No se contentou de reformar a roupa e a copa,
atirou-se s despezas superfluas, deu joias  mulher, nos dias de
festa matava um leito, era visto em theatros, chegou aos sapatos de
verniz. Viveu assim vinte e dous mezes na supposio de uma eterna
interinidade. Uma tarde entrou em nossa casa, afflicto e desvairado,
ia perder o logar, porque chegara o effectivo naquella manh. Pediu a
minha me que velasse pelas infelizes que deixava; no podia soffrer
a desgraa, matava-se. Minha me falou-lhe com bondade, mas elle no
attendia a cousa nenhuma.

--No, minha senhora, no consentirei em tal vergonha! Fazer descer
a familia, tornar atraz... J disse, mato-me! No hei de confessar 
minha gente esta miseria. E os outros? Que diro os visinhos? E os
amigos? E o publico?

--Que publico, Sr. Padua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre-se que sua
mulher no tem outra pessoa... e que ha de fazer? Pois um homem...
Seja homem, ande.

Padua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns
dias, mudo, fechado na alcova,--ou ento no quintal, ao p do poo,
como se a ideia da morte teimasse nelle. D. Fortunata ralhava:

--Joosinho, voc  creana?

Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu
a pedir a minha me que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o
marido que se queria matar. Minha me foi achal-o  beira do poo, e
intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquella de parecer que ia
ficar desgraado, por causa de uma gratificao menos, e perder um
emprego interino? No, senhor, devia ser homem, pae de familia, imitar
a mulher e a filha... Padua obedeceu; confessou que acharia foras para
cumprir a vontade de minha me.

--Vontade minha, no;  obrigao sua.

--Pois seja obrigao; no desconheo que  assim mesmo.

Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido  parede,
cara no cho. No era o mesmo homem que estragava o chapo em cortejar
a visinhana, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administrao
interina. Vieram as semanas, a ferida foi sarando. Padua comeou a
interessar-se pelos negocios domesticos, a cuidar dos passarinhos, a
dormir tranquillo as noites e as tardes, a conversar e dar noticias da
rua. A serenidade regressou; atraz della veiu a alegria, um domingo,
na figura de dous amigos, que iam jogar o solo, a tentos. J elle ria,
j brincava, tinha o ar do costume; a ferida sarou de todo.

Com o tempo veiu um phenomeno interessante. Padua comeou a falar da
administrao interina, no smente sem as saudades dos honorarios,
nem o vexame da perda, mas at com desvanecimento e orgulho. A
administrao ficou sendo a hegyra, donde elle contava para deante e
para traz.

--No tempo em que eu era administrador...

Ou ento:

--Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administrao, um ou dous
mezes antes... Ora espere; a minha administrao comeou...  isto, mez
e meio antes; foi mez e meio antes, no foi mais.

Ou ainda:

--Justamente; havia j seis mezes que eu administrava...

Tal  o sabor posthumo das glorias interinas. Jos Dias bradava que
era a vaidade sobrevivente; mas o padre Cabral, que levava tudo para a
Escriptura, dizia que com o visinho Padua se dava a lico de Eliphaz a
Job: No desprezes a correco do Senhor; elle fere e cura.




XVII

Os vermes.

Elle fere e cura! Quando, mais tarde, vim a saber que a lana
de Achilles tambem curou uma ferida que fez, tive taes ou quaes
velleidades de escrever uma dissertao a este proposito. Cheguei a
pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abril-os, a
comparal-os, calando o texto e o sentido, para achar a origem commum do
oraculo pago e do pensamento israelita. Catei os proprios vermes dos
livros, para que me dissessem o que havia nos textos roidos por elles.

--Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, uns no sabemos
absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos,
nem amamos ou detestamos o que roemos; ns roemos.

No lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem
passado palavra, repeliam a mesma cantilena. Talvez esse discreto
silencio sobre os textos roidos, fosse ainda um modo de roer o roido.




XVIII

Um plano.

Pae nem me foram ter comnosco, quando Capit e eu, na sala de visitas,
falavamos do seminario. Com os olhos em mim, Capit queria saber que
noticia era a que me affligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-se
cr de cra.

--Mas eu no quero, acudi logo, no quero entrar em seminarios; no
entro,  excusado teimarem commigo, no entro.

Capit, a principio no disse nada. Recolheu os olhos, metteu-os
em si e deixou-se estar com as pupillas vagas e surtias, a bocca
entre-aberta, toda parada. Ento eu, para dar forca s affirmaes,
comecei a jurar que no seria padre. Naquelle tempo jurava muito e
rijo, pela vida e pela morte. Jurei pela hora da morte. Que a luz me
faltasse na hora da morte se fosse para o seminario. Capit no parecia
crer nem descrer, no parecia sequer ouvir; era uma figura de pau. Quiz
chamal-a, sacudil-a, mas faltou-me animo. Essa creatura que brincra
commigo, que pulra, dansra, creio at que dormira commigo, deixava-me
agora com os braos atados e medrosos. Emfim, tornou a si, mas tinha a
cara livida, e rompeu nestas palavras furiosas:

--Beata! carola! papa-missas!

Fiquei aturdido. Capit gostava tanto de minha me, e minha me della,
que eu no podia entender tamanha exploso.  verdade que tambem
gostava de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira,
cousa bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaa da
separao; mas os improperios, como entender que lhe chamasse nomes to
feios, e principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os
seus? Que ella tambem ia  missa, e tres ou quatro vezes minha me 
que a levou, na nossa velha sege. Tambem lhe dera um rosario, uma cruz
de ouro e um livro de _Horas..._ Quiz defendel-a, mas Capit no me
deixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em voz to alta que tive
medo fosse ouvida dos paes. Nunca a vi to irritada como ento; parecia
disposta a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabea...
Eu, assustado, no sabia que fizesse; repetia os juramentos, promettia
ir naquella mesma noite declarar em casa que, por nada neste mundo,
entraria no seminario.

--Voc? Voc entra.

--No entro.

--Voc ver se entra ou no.

Calou-se outra vez. Quando tornou a falar, tinha mudado; no era ainda
a Capit do costume, mas quasi. Estava seria, sem afflico, falava
baixo. Quiz saber a conversao da minha casa; eu contei-lh'a toda,
menos a parte que lhe dizia respeito.

--E que interesse tem Jos Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim.

--Acho que nenhum; foi s para fazer mal.  um sujeito muito ruim; mas,
deixe estar que me ha de pagar. Quando eu fr dono da casa, quem vae
para a rua  elle, voc ver; no me fica um instante. Mame  boa de
mais; d-lhe atteno de mais. Parece at que chorou.

--Jos Dias?

--No, mame.

--Chorou porque?

--No sei; ouvi s dizer que ella no chorasse, que no era cousa de
choro... Elle chegou a mostrar-se arrependido, e saiu; eu ento, para
no ser apanhado, deixei o canto e corri para a varanda. Mas, deixe
estar, que elle me paga!

Disse isto fechando o punho, e proferi outras ameaas. Ao relembral-as,
no me acho ridiculo; a adolescencia e a infancia no so, neste ponto,
ridiculas; e um dos seus privilegios. Este mal ou este perigo comea
na mocidade, cresce na madurera e attinge o maior gro na velhice. Aos
quinze annos, ha at certa graa em ameaar muito e no executar nada.

Capit reflectia. A reflexo no era cousa rara nella, e conheciam-se
as occasies pelo apertado dos olhos. Pediu-me algumas circumstancias
mais, as proprias palavras de uns e de outros, e o tom dellas. Como eu
no queria dizer o ponto inicial da conversa, que era ella mesma, no
lhe pude dar toda a significao. A atteno de Capit estava agora
particularmente nas lagrimas de minha me; no acabava de entendel-as.
Em meio disto, confessou que certamente no era por mal que minha me
me queria fazer padre; era a promessa antiga, que ella, temente a Deus,
no podia deixar de cumprir. Fiquei to satisfeito de ver que assim
espontaneamente reparava as injurias que lhe sairam do peito, pouco
antes, que peguei da mo della e apertei-a muito. Capit deixou-se ir,
rindo; depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Tinhamos chegado
 janella; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas,
parou em frente e perguntou:

--Sinhsinha, qu cocada hoje?

--No, respondeu Capit.

--Cocadinha t boa.

--V-se embora, replicou ella sem rispidez.

--D ca! disse eu descendo o brao para receber duas.

Comprei-as, mas tive de as comer ssinho; Capit recusou. Vi que, em
meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto pde
ser perfeio como imperfeio, mas o momento no  para definies
taes; fiquemos em que a minha amiga, apezar de equilibrada e lucida,
no quiz saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrario, o
prego que o preto foi cantando, o prgo das velhas tardes, to sabido
do bairro e da nossa infancia:

     Chora, menina, chora,
     Chora, porque no tem
             Vintem,

a modo que lhe deixra uma impresso aborrecida, Da toada no era;
ella a sabia de cr e de longe, usava repetil-a nos nossos jogos da
puericia, rindo, saltando, trocando os papeis commigo, ora vendendo,
ora comprando um doce ausente. Creio que a lettra, destinada a picar
a vaidade das crianas, foi que a enojou agora, porque logo depois me
disse:

--Se eu fosse rica, voc fugia, mettia-se no paquete e ia para a Europa.

Dito isto, espreitou-me os olhos, mas creio que elles no lhe disseram
nada, ou s agradeceram a boa inteno. Com effeito, o sentimento era
to amigo que eu podia excusar o extraordinario da aventura.

Como vs, Capit, aos quatorze annos, tinha j ideias atrevidas,
muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram s atrevidas
em si, na pratica faziam-se habeis, sinuosas, surdas, e alcanavam o
fim proposto, no de salto, mas aos saltinhos. no sei se me explico
bem. Supponde uma concepo grande executada por meios pequenos.
Assim, para no sair do desejo vago e hypothetico de me mandar para
a Europa, Capit, se pudesse cumpril-o, no me faria embarcar no
paquete e fugir; estenderia uma fila de canoas daqui at l, por
onde eu, parecendo ir  fortaleza da Lage em ponte movedia, iria
realmente at Bordos, deixando minha me na praia,  espera. Tal era
a feio particular do caracter da minha amiga; pelo que, no admira
que, combatendo os meus projectos de resistencia franca, fosse antes
pelos meios brandos, pela aco do empenho, da palavra, da persuaso
lenta e diuturna, e examinasse antes as pessoas com quem podiamos
contar. Rejeitou tio Cosme; era um boa-vida; se no approvava a
minha ordenao, no era capaz de dar um passo para suspendel-a. Prima
Justina era melhor que elle, e melhor que os dous seria o padre Cabral,
pela autoridade, mas o padre no havia de trabalhar contra a egreja; s
se eu lhe confessasse que no tinha vocao....

--Posso confessar?

--Pois, sim, mas seria apparecer francamente, e o melhor  outra cousa.
Jos Dias....

--Que tem Jos Dias?

--Pde ser um bom empenho.

--Mas se foi elle mesmo que falou....

--No importa, continuou Capit; dir agora outra cousa. Elle gosta
muito de voc. No lhe fale acanhado. Tudo  que voc no tenha medo,
mostre que ha de vir a ser dono da casa, mostre que quer e que pde.
D-lhe bem a entender que no  favor. Faa-lhe tambem elogios; elle
gosta muito de ser elogiado. D. Gloria presta-lhe atteno; mas o
principal no  isso;  que elle, tendo de servir a voc, falar com
muito mais calor que outra pessoa.

--No acho. no, Capit.

--Ento v para o seminario.

--Isso no.

--Mas que se perde em experimentar? Experimentemos; faa o que lhe
digo. D. Gloria pde ser que mude de resoluo; se no mudar, faz-se
outra cousa, mette-se ento o padre Cabral. Voc no se lembra como
 que foi ao theatro pela primeira vez, ha dous mezes? D. Gloria no
queria, e bastava isso para que Jos Dias no teimasse; mas elle queria
ir, e fez um discurso, lembra-se?

--Lembra-me; disse que o theatro era uma escola de costumes.

--Justo; tanto falou que sua me acabou consentindo, e pagou a entrada
aos dous.... Ande, pea, mande. Olhe; diga-lhe que est prompto a ir
estudar leis em S. Paulo.

Estremeci de prazer. S. Paulo era um fragil biombo, destinado a ser
arredado um dia, em vez da grossa parede espiritual e eterna. Prometti
falar a Jos Dias nos termos propostos. Capit repetiu-os, accentuando
alguns, como principaes; e inquiria-me depois sobre elles, a ver se
entendera bem, se no trocara uns por outros. E insistia em que pedisse
com boa cara, mas assim como quem pede um copo de agua a pessoa que
tem obrigao de o trazer. Conto estas minucias para que melhor se
entenda aquella manh da minha amiga; logo vir a tarde, e da manh
e da tarde se far o primeiro dia, como no Genesis, onde se fizeram
successivamente sete.




XIX

Sem falta.

Quando voltei a casa era noite. Vim depressa, no tanto, porm, que no
pensasse nos termos em que falaria ao aggregado. Formulei o pedido de
cabea, escolhendo as palavras que diria e o tom dellas, entre secco
e benevolo. Na chacara, antes de entrar em casa, repeti-as commigo,
depois em voz alia, para ver se eram adequadas e se obedeciam s
recommendaes de Capit: Preciso falar-lhe, _sem falta_, amanh;
escolha o logar e diga-me. Proferi-as lentamente, e mais lentamente
ainda as palavras _sem falta_, como para sublinhal-as. Repeti-as ainda,
e ento achei-as seccas de mais, quasi rispidas, e, francamente,
improprias de um creanola para um homem maduro. Cuidei de escolher
outras, e parei.

Afinal disse commigo que as palavras podiam servir, tudo era dizel-as
em tom que no offendesse. E a prova  que, repetindo-as novamente,
saram-me quasi supplices. Bastava no carregar tanto, nem adoar
muito, um meio termo. E Capit tem razo, pensei, a casa  minha, elle
 um simples aggregado... Geitoso , pde muito bem trabalhar por mim,
e desfazer o plano de mame.




XX

Mil padre-nossos e mil ave-marias.

Levantei os olhos ao ceu, que comeava a embruscar-se, mas no foi para
vel-o coberto ou descoberto. Era ao outro ceu que eu erguia a minha
alma; era ao meu refugio, ao meu amigo. E ento disse de mim para mim:

--Prometto rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se Jos Dias
arranjar que eu no v para o seminario.

A somma era enorme. A razo  que eu andava carregado de promessas
no cumpridas. A ultima foi de duzentos padre-nossos e duzentas
ave-marias, se no chovesse em certa tarde de passeio a Santa Theresa.
No choveu, mas eu no rezei as oraes. Desde pequenino acostumara-me
a pedir ao ceu os seus favores, mediante oraes que diria, se elles
viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e  medida que
se amontoavam iam sendo esquecidas. Assim cheguei aos numeros vinte,
trinta, cincoenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo
de peitar a vontade divina pela quantia das oraes; alm disso, cada
promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a divida antiga.
Mas vo l matar a preguia de uma alma que a trazia do bero e no a
sentia attenuada pela vida! O ceu fazia-me o favor, eu adiava a paga.
Afinal perdi-me nas contas.

--Mil, mil, repeti commigo.

Realmente, a materia do beneficio era agora immensa, no menos que a
salvao ou o naufragio da minha existencia inteira. Mil, mil, mil.
Era preciso uma somma que pagasse os atrazados todos. Deus podia
muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem
muito dinheiro.... Homem grave,  possivel que estas agitaes de
menino te enfadem, se  que no as achas ridiculas. Sublimes no eram.
Cogitei muito no modo de resgatar a divida espiritual. No achava
outra especie em que, mediante a inteno, tudo se cumprisse, fechando
a escripturao da minha consciencia moral sem _deficit._ Mandar
dizer cem missas, ou subir do joelhos a ladeira da Gloria para ouvir
uma, ir  Terra-Santa, tudo o que as velhas escravas me contavam de
promessas celebres, tudo me acudia sem se fixar de vez no espirito.
Era muito duro subir uma ladeira de joelhos; devia feril-os por fora.
A Terra-Santa ficava muito longe. As missas eram numerosas, podiam
empenhar-mo outra vez a alma....




XXI

Prima Justina.

Na varanda achei prima Justina, passeando de um lado para outro. Veiu
ao patamar e perguntou-me onde estivera.

--Estive aqui ao p, conversando com D. Fortunata, e distra-me. 
tarde, no ? Mame perguntou por mim?

--Perguntou, mas eu disse que voc j tinha vindo.

A mentira espantou-me, no menos que a franqueza da noticia. No  que
prima Justina fosse de biocos; dizia francamente a Pedro o mal que
pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; mas, confessar que
mentira  que me pareceu novidade. Era quadragenaria, magra e pallida,
bocca fina e olhos curiosos. Vivia comnosco por favor de minha me, e
tambem por interesse; minha me queria ter uma senhora intima ao p de
si, e antes parenta que extranha.

Passemos alguns minutos na varanda, alumiada por um lampio. Quiz
saber se eu no esquecera os projectos ecclesiasticos de minha me, e
dizendo-lhe eu que no, inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha  vida
de padre. Respondi esquivo:

--Vida de padre  muito bonita.

--Sim,  bonita; mas o que pergunto  se voc gostaria de ser padre,
explicou rindo.

--Eu gsto do que mame quizer.

--Prima Gloria deseja muito que voc se ordene, mas ainda que no
desejasse, ha c em casa quem lhe metta isso na cabea.

--Quem ?

--Ora, quem! Quem  que hade ser? Primo Cosme no , que no se importa
com isso; eu tambem no.

--Jos Dias? conclui.

--Naturalmente.

Enruguei a testa interrogativamente, como se no soubesse nada. Prima
Justina completou a noticia dizendo que ainda naquella tarde Jos Dias
lembrra a minha me a promessa antiga.

--Prima Gloria pde ser que, em passando os dias, v esquecendo a
promessa; mas como ha de esquecer se uma pessoa estiver sempre, nos
ouvidos, zs que dars, falando do seminario? E os discursos que elle
faz, os elogios da egreja, e que a vida de padre  isto e aquillo, tudo
com aquellas palavras que s elle conhece, e aquella affectao...
Note que  s para fazer mal, porque elle  to religioso, como este
lampio. Pois  verdade, ainda hoje. Voc no se d por achado... Hoje
de tarde falou como voc no imagina.

--Mas falou  toa? perguntei, a ver se ella contava a denuncia do meu
namoro com a visinha.

No contou; fez apenas um gesto como indicando que havia outra cousa
que no podia dizer. Novamente me recommendou que no me dsse por
achado, e recapitulou todo o mal que pensava de Jos Dias, e no era
pouco, um intrigante, um bajulador, um especulador, e, apezar da casca
de polidez, um grosseiro. Eu, passados alguns instantes, disse:

--Prima Justina, a senhora era capaz de uma cousa?

--De qu?

--Era capaz de... Supponha que eu no gostasse de ser padre... a
senhora podia pedir a mame...

--Isso no, atalhou promptamente; prima Gloria tem este negocio firme
na cabea, e no ha nada no mundo que a faa mudar de resoluo; s
o tempo. Voc ainda era pequenino, j ella contava isto a todas as
pessoas da nossa amizade, ou s conhecidas. L avivar-lhe a memoria,
no, que eu no trabalho para a desgraa dos outros; mas tambem,
pedir outra cousa, no peo. Se ella me consultasse, bem; se ella me
dissesse: Prima Justina, voc que acha? a minha resposta era: Prima
Gloria, eu penso que, se elle gosta de ser padre, pde ir; mas, se no
gosta, o melhor  ficar. E o que eu diria e direi se ella me consultar
algum dia. Agora, ir falar-lhe sem ser chamada, no fao.




XXII

Sensaes alheias.

No alcancei mais nada, e para o fim arrependi-me do pedido: devia
ter seguido o conselho de Capit. Ento, como eu quizesse ir para
dentro, prima Justina reteve-me alguns minutos, falando do calor e da
proxima festa da Conceio, dos meus velhos oratorios, e finalmente de
Capit. No disse mal della; ao contrario insinuou-me que podia vir a
ser uma moa bonita. Eu, que j a achava lindissima, bradaria que era
a mais bella creatura do mundo, se o receio me no fizesse discreto.
Entretanto, como prima Justina se mettesse a elogiar-lhe os modos, a
gravidade, os costumes, o trabalhar para os seus, o amor que tinha a
minha me, tudo isto me accendeu a ponto de elogial-a tambem. Quando
no era com palavras, era com o gesto de approvao que dava a cada
uma das asserses da outra, e certamente com a felicidade que devia
illuminar-me a cara. No adverti que assim confirmava a denuncia de
Jos Dias, ouvida por ella,  tarde, na sala de visitas, se  que
tambem ella no desconfiava j. S pensei nisso na cama. S ento senti
que os olhos de prima Justina, quando eu falava, pareciam apalpar-me,
ouvir-me, cheirar-me, gostar-me, fazer o officio de todos os sentidos.
Ciumes no podiam ser; entre um pirralho da minha edade e uma viuva
quarentona no havia logar para ciumes.  certo que, aps algum
tempo, modificou os elogios a Capit, e at lhe fez algumas criticas,
disse-me que era um pouco trefega e olhava por baixo; mas ainda assim,
no creio que fossem ciumes. Creio antes... sim... sim, creio isto.
Creio que prima Justina achou no espectaculo das sensaes alheias uma
resurreio vaga das proprias. Tambem se goza por influio dos labios
que narram.




XXIII

Prazo dado.

--Preciso falar-lhe amanh, sem falta; escolha o logar e diga-me.

Creio que Jos Dias achou desusado este meu falar. O tom no me sairia
to imperativo como eu receiava, mas as palavras o eram, e o no
interrogar, no pedir, no hesitar, como era proprio da creana e do
meu estylo habitual, certamente lhe deu ideia de uma pessoa nova e de
uma nova situao. Foi no corredor, quando iamos para o ch; Jos Dias
vinha andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha me
e a prima Justina. Lia cantado e compassado. Os castellos e os parques
saam maiores da bocca delle, os lagos tinham mais agua e a abobada
celeste contava alguns milhares mais de estrellas centelhantes. Nos
dialogos, alternava o som das vozes, que eram levemente grossas ou
finas, conforme o sexo dos interlocutores, e reproduziam com moderao
a ternura e a colera.

Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me elle:

--Amanh, na rua. Tenho umas compras que fazer, voc pde ir commigo,
pedirei a mame.  dia de lico?

--A lico foi hoje.

--Perfeitamente. No lhe pergunto o que ; affirmo desde j que 
materia grave e pura.

--Sim, senhor.

--At amanh.

Fez-se tudo o melhor possivel. Houve s uma alterao: minha me achou
o dia quente e no consentiu que eu fosse a p; entrmos no omnibus, 
porta de casa.

--No importa, disse-me Jos Dias; podemos apear-nos  porta do Passeio
Publico.




XXIV

De me e de servo.

Jos Dias tratava-me com extremos de me e attenes de servo. A
primeira cousa que conseguiu logo que comecei a andar fora, foi
dispensar-me o pagem; fez-se pagem, ia commigo  rua. Cuidava dos meus
arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha hygiene e
da minha prosodia. Aos oito annos os meus pluraes careciam, alguma vez,
da desinencia exacta, elle a corrigia, meio serio para dar autoridade
 lico, meio risonho para obter o perdo da emenda. Ajudava assim
o mestre de primeiras lettras. Mais tarde, quando o padre Cabral me
ensinava latim, doutrina e historia sagrada, elle assistia s lices,
fazia reflexes ecclesiasticas, e, no fim, perguntava ao padre: No
 verdade que o nosso joven amigo caminha depressa? Chamava-me um
prodigio; dizia a minha me ter conhecido outr'ora meninos muito
intelligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a
minha edade, possuia j certo numero de qualidades moraes solidas. Eu,
posto no avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio;
era um elogio.




XXV

No Passeio Publico.

Entrmos no Passeio Publico. Algumas caras velhas, outras doentes ou s
vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vae da porta ao
terrao. Seguimos para o terrao. Andando, para me dar animo, falei do
jardim:

--Ha muito tempo que no venho aqui, talvez um anno.

--Perde-me, atalhou elle, no ha tres mezes que esteve aqui com o
nosso visinho Padua; no se lembra?

-- verdade, mas foi to de passagem...

--Elle pediu a sua me que o deixasse trazer comsigo, e ella, que  boa
como a me de Deus, consentiu; mas oua-me, j que falamos nisto, no 
bonito que voc ande com o Padua na rua.

--Mas eu andei algumas vezes...

--Quando era mais joven; em creana, era natural, elle podia passar por
creado. Mas voc est ficando moco, e elle vae tomando confiana. D.
Gloria, afinal, no pode gostar disto. A gente Padua no  de todo m.
Capit, apesar daquelles olhos que o diabo lhe deu... Voc j reparou
nos olhos della? So assim de cigana obliqua e dissimulada. Pois,
apesar delles, poderia passar, se no fosse a vaidade e a adulao.
Oh! a adulao! D. Fortunata merece estima, e elle no nego que seja
honesto, tem um bom emprego, possue a casa em que mra, mas honestidade
e estima no bastam, e as outras qualidades perdem muito de valor com
as ms companhias em que elle anda. Padua tem uma tendencia para gente
rles. Em lhe cheirando a homem chulo  com elle. No digo isto por
odio, nem por que elle fale mal de mim e se ria, como se riu, ha dias,
dos meus sapatos acalcanhados...

--Perdo, interrompi suspendendo o passo, nunca ouvi que falasse mal
do senhor; pelo contrario, um dia, no ha muito tempo, disse elle a um
sujeito, em minha presena, que o senhor era um homem de capacidade e
sabia falar corno um deputado nas camaras.

Jos Dias sorriu deliciosamente, mas fez um esforo grande e fechou
outra vez o rosto; depois replicou:

--No lhe agradeo nada. Outros, de melhor sangue, me tem feito o favor
de juizos altos. E nada disso impede que elle seja o que lhe digo.

Tinhamos outra vez andado, subimos ao terrao, e olhmos para o mar.

--Vejo que o senhor no quer seno o meu beneficio, disse eu depois de
alguns instantes.

--Pois que outra cousa, Bentinho?

--Neste caso, peo-lhe um favor.

--Um favor? Mande, ordene, que ?

--Mame...

Durante algum tempo no pude dizer o resto, que era pouco, e vinha de
cr. Jos Dias tornou a perguntar o que era, sacudia-me com brandura,
levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim, ancioso tambem, como
a prima Justina na vespera.

--Mame qu? Que  que tem mame?

--Mame quer que eu seja padre, mas eu no posso ser padre, disse
finalmente.

Jos Dias endireitou-se pasmado.

--No posso, continuei eu, no menos pasmado que elle, no tenho geito,
no gsto da vida de padre. Estou por tudo o que ella quizer; mame
sabe que eu fao tudo o que ella manda; estou prompto a ser o que fr
do seu agrado, at cocheiro de omnibus. Padre, no; no posso ser
padre. A carreira  bonita, mas no  para mim.

Todo esse discurso no me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente,
peremptorio, como pde parecer do texto, mas aos pedaos, mastigado,
em voz um pouco surda e timida. No obstante, Jos Dias ouvira-o
espantado. No contava certamente com a resistencia, por mais acanhada
que fosse; mas o que ainda mais o assombrou foi esta concluso:

--Conto com o senhor para salvar-me.

Os olhos do aggregado escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se,
e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da proteco no se
mostrou em nenhum dos musculos. Toda a cara delle era pouca para a
estupefaco. Realmente, a materia do discurso revelra em mim uma alma
nova; eu proprio no me conhecia. Mas a palavra final  que trouxe um
vigor unico. Jos Dias ficou aturdido. Quando os olhos tornaram s
dimenses ordinarias:

--Mas que posso eu fazer? perguntou.

--Pde muito. O senhor sabe que, em nossa casa, todos o apreciam. Mame
pede muita vez os seus conselhos, no ? Tio Cosme diz que o senhor 
pessoa de talento...

--So bondades, retorquiu lisonjeado. So favores de pessoas dignas,
que merecem tudo... Ahi est! nunca ninguem me ha de ouvir dizer nada
de pessoas taes; porque? porque so illustres e virtuosas. Sua me
 uma santa, seu tio  um cavalheiro perfeitissimo. Tenho conhecido
familias distinctas; nenhuma poder vencer a sua em nobreza de
sentimentos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho,
mas  s um,-- o talento de saber o que  bom e digno de admirao e
de apreo.

--Ha de ter tambem o de proteger os amigos, como eu.

--Em que lhe posso valer, anjo do ceu? No hei de dissuadir sua me
de um projecto que , alm de promessa, a ambio e o sonho de longos
annos. Quando pudesse,  tarde. Ainda hontem fez-me o favor de dizer:
Jos Dias, preciso metter Bentinho no seminario.

Timidez no  to ruim moeda, como parece. Se eu fosse destemido, 
provavel que, com a indignao que experimentei, rompesse a chamar-lhe
mentiroso, mas ento seria preciso confessar-lhe que estivera  escuta,
atraz da porta, e uma aco valia outra. Contentei-me de responder que
no era tarde.

--No  tarde, ainda  tempo, se o senhor quizer.

--Se eu quizer? Mas que outra cousa quero eu, seno servil-o? Que
desejo, seno que seja feliz, como merece?

--Pois ainda  tempo. Olhe, no  por vadiao. Estou prompto para
tudo; se ella quizer que eu estude leis, vou para S. Paulo...




XXVI

As leis so bellas.

Pela cara de Jos Dias passou algo parecido com o reflexo de uma
ideia,--uma ideia que o alegrou extraordinariamente. Calou-se alguns
instantes; eu tinha os olhos nelle, elle voltara os seus para o lado da
barra. Como insistisse:

-- tarde, disse elle; mas, para lhe provar que no ha falta de
vontade, irei falar a sua me. No prometto vencer, mas lutar;
trabalharei com alma. Devras, no quer ser padre? As leis so bellas,
meu querido... Pde ir a S. Paulo, a Pernambuco, ou ainda mais longe.
Ha boas universidades por esse mundo fra. V para as leis, se tal 
a sua vocao. Vou falar a D. Gloria, mas no conte s commigo; fale
tambem a seu tio.

--Hei de falar.

--Pegue-se tambem com Deus,--com Deus e a Virgem Santissima, concluiu
apontando para o ceu.

O ceu estava meio enfarruscado. No ar, perto da praia, grandes passaros
negros faziam giros, avoaando ou pairando, e desciam a roar os ps,
na agua, e tornavam a erguer-se para descer novamente. Mas nem as
sombras do ceu, nem as dansas fantasticas dos passaros me desviavam
o espirito do meu interlocutor. Depois de lhe responder que sim,
emendei-me:

--Deus far o que o senhor quizer.

--No blaspheme. Deus  dono de tudo; elle , s por si, a terra e
o ceu, o passado, o presente e o futuro. Pea-lhe a sua felicidade,
que eu no fao outra cousa... Uma vez que voc no pde ser padre, e
prefere as leis... As leis so bellas, sem desfazer na theologia, que
 melhor que tudo, como a vida ecclesiastica  a mais santa... Porque
no ha de ir estudar leis fra daqui? Melhor  ir logo para alguma
universidade, e ao mesmo tempo que estuda, viaja. Podemos ir juntos;
veremos as terras estranjeiras, ouviremos inglez, francez, italiano,
hespanhol, russo e at sueco. D. Gloria provavelmente no poder
acompanhal-o; ainda que possa e v, no querer guiar os negocios,
papeis, matriculas, e cuidar de hospedarias, e andar com voc de um
lado para outro... Oh! as leis so bellissimas!

--Est dito, pede a mame que me no metia no seminario?

--Pedir, peo, mas pedir no  alcanar. Anjo do meu corao, se
vontade de servir  poder de mandar, estamos aqui, estamos a bordo.
Ali! voc no imagina o que  a Europa; oh! a Europa...

Levantou a perna e fez uma pirueta. Uma das suas ambies era tornar 
Europa, falava della muitos vezes, sem acabar de tentar minha me nem
tio Cosme, por mais que louvasse os ares e as bellezas... No contava
com esta possibilidade de ir commigo, e l ficar durante a eternidade
dos meus estudos.

--Estamos a bordo, Bentinho, estamos a bordo!




XXVII

Ao porto.

Ao porto do Passeio, um mendigo estendeu-nos a mo. Jos Dias passou
adiante, mas eu pensei em Capit e no seminario, tirei dous vintens do
bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse
a Deus por mim, afim de que eu pudesse satisfazer todos os meus desejos.

--Sim, meu devoto!

--Chamo-me Bento, accrescentei para esclarecel-o.




XXVIII

Na rua.

Jos Dias ia to contente que trocou o homem dos momentos graves,
como era  rua, pelo homem dobradio e inquieto. Mexia-se todo,
falava de tudo, fazia-me parar a cada passo deante de um mostrador
ou de um cartaz de theatro. Contava-me o enredo de algumas peas,
recitava monologos em verso. Fez os recados todos, pagou contas,
recebeu alugueis de casa; para si comprou um vigesimo de loteria.
Afinal, o homem tezo rendeu o flexivel, e passou a falar pausado, com
superlativos. No vi que a mudana era natural; temi que houvesse
mudado a resoluo assentada, e entrei a tratal-o com palavras e gestos
carinhosos, at entrarmos no omnibus.




XXIX

O imperador.

Em caminho, encontrmos o imperador, que vinha da Escola de Medicina.
O omnibus em que iamos parou, como todos os vehiculos; os passageiros
desceram  rua e tiraram o chapeu, at que o coche imperial passasse.
Quanto tornei ao meu logar, trazia uma ideia fantastica, a ideia de ir
ter com o imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a interveno. No
confiaria. esta ideia a Capit. Sua Majestade pedindo, mame cede,
pensei commigo.

Vi ento o imperador escutando-me, reflectindo e acabando por dizer que
sim, que iria falar a minha me; eu beijava-lhe a mo, com lagrimas. E
logo me achei cm casa,  espera, at que ouvi os batedores e o piquete
de cavallaria;  o imperador!  o imperador! toda a gente chegava s
janellas para vel-o passar, mas no passava, o coche parava  nossa
porta, o imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroo na visinhana:
O imperador entrou em casa de D. Gloria! Que ser? Que no ser?
A nossa familia saa a recebel-o; minha me era a primeira que lhe
beijava a mo. Ento o imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou
entrando,--no me lembra bem, os sonhos so muita vez confusos,--pedia
a minha me que me no fizesse padre,--e ella, lisongeada e obediente,
promettia que no.

--A medicina,--porque lhe no manda ensinar medicina?

Uma vez que  do agrado de Vossa Majestade...

--Mande ensinar-lhe medicina;  uma bonita carreira, e ns temos aqui
bons professores. Nunca foi  nossa Escola?  uma bella Escola. J
temos medicos de primeira ordem, que pdem hombrear com os melhores de
outras terras. A medicina  uma grande sciencia; basta s isto de dar
a saude aos outros, conhecer as molestias, combatel-as, vencel-as... A
senhora mesma ha de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doena
era fatal, e elle no tinha cuidado em si...  uma bonita carreira;
mande-o para a nossa Escola. Faa isso por mim, sim? Voc quer,
Bentinho?

--Mame querendo.

--Quero, meu filho. Sua Majestade manda.

Ento o imperador dava outra vez a mo a beijar, e saa, acompanhado de
todos ns, a rua cheia de gente, as janellas atopetadas, um silencio de
assombro; o imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto
de adeus, dizendo ainda: A medicina, a nossa Escola. E o coche partia
entre invejas e agradecimentos.

Tudo isso vi e ouvi. No, a imaginao de Ariosto no  mais fertil
que a das creanas e dos namorados, nem a viso do impossivel precisa
mais que de um recanto de omnibus. Consolei-me por instantes, digamos
minutos, at destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos
dos meus companheiros.




XXX

O Santissimo.

Ters entendido que aquella lembrana do imperador cerca da medicina
no era mais que a suggesto da minha pouca vontade de sair do Rio de
Janeiro. Os sonhos do accordado so como os outros sonhos, tecem-se
pelo desenho das nossas inclinaes e das nossas recordaes. V que
fosse para S. Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito
tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanas a Capit.

--Parece que vae sair o Santssimo, disse alguem no omnibus. Ouo um
sino; , creio que  em Santo Antonio dos Pobres. Pare, Sr. recebedor!

O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao brao do
cocheiro, o omnibus parou, e o homem desceu. Jos Dias deu duas voltas
rapidas  cabea, pegou-me no brao e fez-me descer comsigo. Iriamos
tambem acompanhar o Santissimo. Effectivamente, o sino chamava os
fieis quelle servio da ultima hora. J havia algumas pessoas na
sacristia. Era a primeira vez que me achava em momento to grave;
obedeci, a principio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos
pela caridade do servio que por me dar um officio de homem. Quando o
sacristo comeou a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido;
era o meu visinho Padua, que tambem ia acompanhar o Santissimo. Deu
comnosco, veiu comprimentar-nos. Jos Dias fez um gesto de aborrecido,
e apenas lhe respondeu com uma palavra secca, olhando para o padre,
que lavava as mos. Depois, como Padua falasse ao sacristo, baixinho,
approximou-se delles; eu fiz a mesma cousa. Padua solicitava do
sacristo uma das varas do pallio. Jos Dias pediu uma para si.

--Ha s uma disponvel, disse o sacristo.

--Pois essa, disse Jos Dias.

--Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Padua.

--Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu Jos Dias; eu j c
estava. Leve uma tocha.

Padua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara,
tudo isto em voz baixa e surda. O sacristo achou meio de conciliar a
rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pallio
que cedesse a vara ao Padua, conhecido na parochia, como Jos Dias.
Assim fez; mas Jos Dias transtornou ainda esta combinao. No, uma
vez que tinhamos outra vara disponivel, pedia-a para mim, joven
seminarista, a quem esta distinco cabia mais direitamente. Padua
ficou pallido, como as tochas. Era pr  prova o corao de um pae. O
sacristo, que me conhecia de me ver alli com minha me, aos domingos,
perguntou de curioso se eu era devras seminarista.

--Ainda no, mas vae sel-o, respondeu Jos Dias piscando o olho
esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.

--Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pae de Capit.

Pela minha parte, quiz ceder-lhe a vara; lembrou-me que elle costumava
acompanhar o Santissimo Sacramento aos moribundos, levando uma tocha,
mas que a ultima vez conseguira uma vara do pallio. A distinco
especial do pallio vinha de cobrir o vigario e o sacramento; para tocha
qualquer pessoa servia. Foi elle mesmo que me contou e explicou isto,
cheio de uma gloria pia e risonha. Assim fica entendido o alvoroo
com que entrra na egreja; era a segunda vez do pallio, tanto que
cuidou logo de ir pedil-o. E nada! E tornava  tocha commum, outra
vez a interinidade interrompida; o administrador regressava ao antigo
cargo... Quiz ceder-lhe a vara; o aggregado tolheu-me esse acto de
generosidade, e pediu ao sacristo que nos puzesse, a elle e a mim, com
as duas varas da frente, rompendo a marcha do pallio.

Opas enfiadas, tochas distribuidas e accesas, padre e ciborio promptos,
o sacristo de hyssope e campainha nos mos, saiu o prestito 
rua. Quando me vi com uma das varas, passando pelos fieis, que se
ajoelhavam, fiquei commovido. Padua roa a tocha amargamente.  uma
metaphora, no acho outra frma mais viva de dizer a dr e a humilhao
do meu visinho. De resto, no pude miral-o por muito tempo, nem ao
aggregado, que, parallelamente a mim, erguia a cabea com o ar de ser
elle proprio o Deus dos exercitos. Com pouco, senti-me canado; os
braos caam-me, felizmente a casa era perto, na rua do Senado.

A enferma era uma senhora viuva, tisica, tinha uma filha de quinze ou
dezeseis annos, que estava chorando  porta do quarto. A moa no era
formosa, talvez nem tivesse graa; os cabellos caam despenteados, e
as lagrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. No obstante, o total
falava e captivava o corao. O vigrio confessou a doente, deu-lhe a
communho e os santos oleos. O pranto da moa redobrou tanto que senti
os meus olhos molhados e fugi. Vim para porto de uma jannela. Pobre
creatura! A dor era communicativa em si mesma; complicada da lembrana
de minha me, doeu-me mais, e, quando emfim pensei em Capit, senti um
impeto de soluar tambem, enfiei pelo corredor, e ouvi alguem dizer-me:

--No chore assim!

A imagem de Capit ia commigo, e a minha imaginao, assim como lhe
attribuira lagrimas, ha pouco, assim lhe encheu a bocca de riso agora;
vi-a escrever no muro, falar-me, andar  volta, com os braos no ar;
ouvi distinctamente o meu nome, de uma doura que me embriagou, e a
voz era della. As tochas accesas, to lugubres na occasio, tinham-me
ares de um lustre nupcial... Que era lustre nupcial? No sei; era
alguma cousa contraria  morte, e no vejo outra mais que bodas. Esta
nova sensao me dominou tanto que Jos Dias veiu a mim, e me disse ao
ouvido, em voz baixa:

--No ria assim!

Fiquei serio depressa. Era o momento da saida. Peguei da minha vara; e,
como j conhecia a distancia, e agora voltavamos para a egreja, o que
fazia a distancia menor,--o peso da vara era mui pequeno. Demais, o sol
c fora, a animao da rua, os rapazes da minha edade que me fitavam
cheios de inveja, as devotas que chegavam s janellas ou entravam nos
corredores e se ajoelhavam  nossa passagem, tudo me enchia a alma de
lepidez nova.

Padua, ao contrario, ia mais humilhado. Apesar de substituido por mim,
no acabava de se consolar da tocha, da miseravel tocha. E comtudo
havia outros que tambem traziam tocha, e apenas mostravam a compostura
do acto; no iam garridos, mas tambem no iam tristes. Via-se que
caminhavam com honra.




XXXI

As curiosidades de Capit.

Capit preferia tudo ao seminario. Em vez de ficar abatida com a
ameaa da larga separao, se vingasse a ideia da Europa, mostrou-se
satisfeita. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial:

--No, Bentinho, deixemos o imperador socegado, replicou; fiquemos por
ora com a promessa de Jos Dias. Quando  que elle disse que falaria a
sua me?

--No marcou dia; prometteu que ia ver, que falaria logo que pudesse, e
que me pegasse com Deus.

Capit quiz que lhe repetisse as respostas todas do aggregado, as
alteraes do gesto e at a pirueta, que apenas lhe contra. Pedia o
som das palavras. Era minuciosa e attenta; a narrao e o dialogo, tudo
parecia remoer comsigo. Tambem se pde dizer que conferia, rotulava e
pregava na memoria a minha exposio. Esta imagem  por ventura melhor
que a outra, mas a optima dellas  nenhuma. Capit era Capit, isto ,
uma creatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda
o no disse, ahi fica. Se disse, fica tambem. Ha conceitos que se devem
incutir na alma do leitor,  fora de repetio.

Era tambem mais curiosa. As curiosidades de Capit do para um
capitulo. Eram de varia especie, explicaveis e inexplicaveis, assim
uteis como inuteis, umas graves, outras frivolas; gostava de saber
tudo. No collegio onde, desde os sete annos, apprendera a ler, escrever
e contar, francez, doutrina e obras de agulha, no apprendeu, por
exemplo, a fazer renda; por isso mesmo, quiz que prima Justtina lh'o
ensinasse. Se no estudou latim com o padre Cabral foi porque o padre,
depois de lh'o propr gracejando, acabou dizendo que latim no era
lingua de meninas. Capit confessou-me um dia que esta razo accendeu
nella o desejo de o saber. Em compensao, quiz apprender inglez com
um velho professor amigo do pae e parceiro deste ao slo, mas no foi
adeante. Tio Cosme ensinou-lhe gamo.

--Anda apanhar um capotinho, Capit, dizia-lhe elle.

Capit obedecia e jogava com facilidade, com atteno, no sei se diga
com amor. Um dia fui achal-a desenhando a laps um retraio; dava os
ultimos rasgos, e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido.
Era o de meu pae, copiado da tela que minha me tinha na sala e que
ainda agora est commigo. Perfeio no era; ao contrario, os olhos
sairam esbogalhados, e os cabellos eram pequenos circulos uns sobre
outros. Mas, no tendo ella rudimento algum de arte, e havendo feito
aquillo de memoria em poucos minutos, achei que era obra de muito
merecimento; descontai-me a edade e a sympathia. Ainda assim, estou
que apprenderia facilmente pintura, como apprendeu musica mais tarde.
J ento namorava o piano da nossa casa, velho traste inutil, apenas
de estimao. Lia os nossos romances, folheava os nossos livros de
gravuras, querendo saber das ruinas, das pessoas, das campanhas, o
nome, a historia, o lograr. Jos Dias dava-lhe essas noticias com certo
orgulho de erudito. A erudio deste no avultava muito mais que a sua
homoepathia de Cantagallo.

Um dia, Capit quiz saber o que eram as figuras da sala de visitas. O
aggregado disse-lho summariamente, demorando-se um pouco mais em Cesar,
com exclamaes e latins:

--Cesar! Julio Cesar! Grande homem! _Tu quoque, Brute?_

Capit no achava bonito o perfil de Cesar, mas as aces citadas por
Jos Dias davam-lhe gestos de admirao. Ficou muito tempo com a cara
virada para elle. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que
dava a uma senhora uma perola do valor de seis milhes de sestercios!

--E quanto valia cada sestercio?

Jos Dias, no tendo presente o valor do sestercio, respondeu
enthusiasmado:

-- o maior homem da historia!

A perola de Cesar accendia os olhos de Capit. Foi nessa occasio
que ella perguntou a minha me porque  que j no usava as joias do
retrato; preferia-se ao que estava na sala, com o de meu pae; tinha um
grande collar, um diadema e brincos.

--So joias viuvas, como eu, Capit.

--Quando  que botou estas?

--Foi pelas festas da Coroao.

--Oh! conte-me as festas da Coroao!

Sabia j o que os paes lhe haviam dito, mas naturalmente tinha para
si que elles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas.
Queria a noticia das tribunas da Capella Imperial e dos sales dos
bailes. Nascera muito depois daquellas festas celebres. Ouvindo falar
varias vezes da Maioridade, teimou um dia em saber o que fora este
acontecimento; disseram-lh'o, e achou que o imperador fizera muito
bem em querer subir ao throno aos quinze annos. Tudo era materia s
curiosidades de Capit, mobilias antigas, alfaias velhas, costumes,
noticias de Itaguahy, a infancia e a mocidade de minha me, um dito
daqui, uma lembrana dalli, um adagio d'acol...




XXXII

Olhos de ressaca.

Tudo era materia s curiosidades de Capit. Caso houve, porm, no qual
no sei se apprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. 
o que contarei no outro capitulo. N'este direi smente que, passados
alguns dias do ajuste com o aggregado, fui ver a minha amiga; eram dez
horas da manh. D. Fortunata, que estava no quintal, nem esperou que eu
lhe perguntasse pela filha.

--Est na sala penteando o cabello, disse-me; v devagarzinho para lhe
pregar um susto.

Fui devagar, mas ou o p ou o espelho traiu-me. Este pde ser que no
fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a
um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de lato, pendente da
parede, entre as duas janellas. Se no foi elle, foi o p. Um ou outro,
a verdade  que, apenas entrei na sala, pente, cabellos, toda ella
voou pelos ares, e s lhe ouvi esta pergunta:

--Ha alguma cousa?

--No ha nada, respondi; vim ver voc antes que o padre Cabral chegue
para a lico. Como passou a noite?

--Eu bem. Jos Dias ainda no falou?

--Parece que no.

--Mas ento quando fala?

--Disse-me que hoje ou amanh pretende tocar no assumpto; no vae
logo de pancada, falar assim por alto e por longe, um toque. Depois,
entrar em materia. Quer primeiro ver se mame tem a resoluo feita...

--Que tem, tem, interrompeu Capit. E se no fosse preciso alguem para
vencer j, e de todo, no se lhe falaria. Eu j nem sei se Jos Dias
poder influir tanto; acho que far tudo, se sentir que voc realmente
no quer ser padre, mas poder alcanar...? Elle  attendido; se,
porm...  um inferno isto! Voc teime com elle, Bentinho.

--Teimo; hoje mesmo elle ha de falar.

--Voc jura?

--Juro! Deixe ver os olhos, Capit.

Tinha-me lembrado a definio que Jos dera delles, olhos de cigana
obliqua e dissimulada. Eu no sabia o que era obliqua, mas dissimulada
sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capit deixou-se fitar e
examinar. S me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei
extraordinrio; a cr e a doura eram minhas lhe deu outra ideia
do meu intento; imaginou que era um pretexto para miral-os mais de
perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados nelles, e  isto
attribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal
expresso que...

Rhetorica dos namorados, d-me uma comparao exacta e poetica para
dizer o que foram aquelles olhos de Capit. No me acode imagem capaz
de dizer, sem quebra da dignidade do estylo, o que elles foram e me
fizeram. Olhos de ressaca? V, de ressaca.  o que me d ideia daquella
feio nova. Traziam no sei que fluido mysterioso e energico, uma
fora que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia,
nos dias de ressaca. Para no ser arrastado, agarrei-me s outras
partes visinhas, s orelhas, aos braos, aos cabellos espalhados pelos
hombros; mas to depressa buscava as pupillas, a onda que saa dellas
vinha crescendo, cava e escura, ameaando envolver-me, puxar-me e
tragar-me. Quantos minutos gastmos naquelle jogo? S os relogios do
ceu tero marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas
pendulas nem por no acabar nunca deixa de querer saber a durao das
felicidades e dos supplicios. Ha de dobrar o gozo aos bemaventurados
do ceu conhecer a somma dos tormentos que j tero padecido no inferno
os seus inimigos; assim tambem a quantidade das delicias que tero
gozado no ceu os seus desaffectos augmentar as dores aos condemnados
do inferno. Este outro supplicio escapou ao divino Dante; mas eu no
estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um
tempo no marcado, agarrei-me definitivamente aos cabellos de Capit,
mas ento com as mos, e disse-lhe,--para dizer alguma cousa,--que era
capaz de os pentear, se quizesse.

--Voc?

--Eu mesmo.

--Vae embaraar-me o cabello todo, isso, sim.

--Se embaraar, voc desembaraa depois.

--Vamos ver.




XXXIII

O penteado.

Capit deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos
cabellos, colhi-os todos e entrei a alisal-os com o pente, desde a
testa at s ultimas pontas, que lhe desciam  cintura. Em p no dava
geito: no esquecestes que ella era um nadinha mais alta que eu, mas
ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.

--Senta aqui,  melhor.

Sentou-se. Vamos ver o grande cabelleireiro, disse-me rindo.
Continuei a alisar os cabellos, com muito cuidado, e dividi-os em duas
pores eguaes, para compor as duas trancas. No as fiz logo, nem assim
depressa, como podem suppr os cabelleireiros de officio, mas devagar,
devagarinho, saboreando pelo tacto aquelles fios grossos, que eram
parte della. O trabalho era atraplhado, s vezes por desaso, outras
de proposito, para desfazer o feito e refazel-o. Os dedos roavam na
nuca da pequena ou nas espaduas vestidas de chita, e a sensao era
um deleite. Mas, emfim, os cabellos iam acabando, por mais que eu os
quizesse interminaveis. No pedi ao ceu que elles fossem to longos
como os da Aurora, porque no conhecia ainda esta divindade que os
velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteal-os por
todos os seculos dos seculos, tecer duas tranas que pudessem envolver
o infinito por um numero innominavel de vezes. Se isto vos parecer
emphatico, desgraado leitor,  que nunca penteastes uma pequena, nunca
puzestes aos mos adolescentes na joven cabea de uma nympha... Uma
nympha! Todo eu estou mythologico. Ainda ha pouco, falando dos seus
olhos de ressaca, cheguei a escrever Thetis; risquei Thetis, risquemos
nympha; digamos somente uma creatura amada, palavra que envolve todas
as potencias christs e pags. Emfim, acabei as duas tranas. Onde
estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste
pedao de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranas, uni-as por um
lao, retoquei a obra, alargando aqui, achatando alli, at que exclamei:

--Prompto!

--Estar bom?

--Veja no espelho.

Em vez de ir ao espelho, que pensaes que fez Capit? No vos esqueaes
quo estava sentada, de costas para mim. Capit derreou a cabea, a tal
ponto que me foi preciso acudir com as mos e amparal-a; o espaldar
da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ella, rosto a rosto,
mas trocados, os olhos de um na linha da bocca do outro. Pedi-lhe que
levantasse a cabea, podia ficar tonta, machucar o pescoo. Cheguei a
dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razo a moveu.

--Levanta, Capit!

No quiz, no levantou a cabea, e ficmos assim a olhar um para o
outro, at que ella abrochou os labios, eu desci os meus, e...

Grande foi a sensao do beijo; Capit ergueu-se, rapida, eu recuei
at  parede com uma especie de vertigem, sem fala, os olhos escuros.
Quando elles me clarearam, vi que Capit tinha os seus no cho. No
me atrevi a dizer nada; ainda que quizesse, faltava-me lingua. Preso,
atordoado, no achava gesto nem impeto que me descolasse da parede e me
atirasse a ella com mil palavras callidas e mimosas... No mofes dos
meus quinze annos, leitor precoce. Com dezesete, Des Grieux (e mais era
Des Grieux) no pensava ainda na differena dos sexos.




XXXIV

Sou homem!

Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capit compoz-se
depressa, to depressa que, quando a me apontou  porta, ella
abanava a cabea e ria. Nenhum laivo amarello. nenhuma contraco de
acanhamento, um riso espontaneo e claro, que ella explicou por estas
palavras alegres:

--Mame, olhe como este senhor cabelleireiro me penteou; pediu-me para
acabar o penteado, e fez isto. Veja que tranas!

--Que tem? acudiu a me, transbordando de benevolencia. Est muito bem,
ninguem dir que  de pessoa que no sabe pentear.

--O que, mame? Isto? redarguiu Capit desfazendo as tranas. Ora,
mame!

E com um enfadamento gracioso e voluntario que s vezes tinha, pegou
do pente e alisou os cabellos para renovar o penteado. D. Fortunata
chamou-lhe tonta, e disse-me que no fizesse caso, no era nada,
maluquices da filha. Olhava com ternura para mim e para ella. Depois,
parece-me que desconfiou. Vendo-me calado, enfiado, cosido  parede,
achou talvez que houvera entre ns algo mais que penteado, e sorriu por
dissimulao...

Como eu quizesse falar tambem para disfarar o meu estado, chamei
algumas palavras c de dentro, e ellas acudiram de prompto, mas de
atropello, e encheram-me a bocca sem poder sair nenhuma. O beijo de
Capit fechava-me os labios. Uma exclamao, um simples artigo, por
mais que investissem com fora, no logravam romper de dentro. E todas
as palavras recolheram-se ao corao, murmurando: Eis aqui um que no
far grande carreira no mundo, por menos que as emoes o dominem...

Assim, apanhados pela me, ramos dous e contrarios, ella encobrindo
com a palavra o que eu publicava pelo silencio. D. Fortunata tirou-me
daquella hesitao, dizendo que minha me me mandra chamar para a
lico de latim; o padre Cabral estava  minha espera. Era uma saida;
despedi-me e enfiei pelo corredor. Andando, ouvi que a me censurava as
maneiras da filha, mas a filha no dizia nada.

Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas no passei a sala da
lico; sentei-me na cama, recordando o penteado e o resto. Tinha
estremees, linha uns esquecimentos em que perdia a consciencia de
mim e das cousas que me rodeavam, para viver no sei onde nem como.
E tornava a mim, e via a cama, as paredes, os livros, o cho, ouvia
algum som de fra, vago, proximo ou remoto, e logo perdia tudo para
sentir smente os beios de Capit... Sentia-os estirados, embaixo dos
meus, egualmente esticados para os della, e unindo-se uns aos outros.
De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de
orgulho:

--Sou homem!

Suppuz que me tivessem ouvido, porque a palavra saiu em voz alta, e
corri  porta da alcova. No havia ninguem fra. Voltei para dentro,
e, baixinho, repeti que era homem. Ainda agora tenho o co aos meus
ouvidos. O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo no o teve maior,
descobrindo a America, e perdoai a banalidade em favor do cabimento;
com effeito, ha em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e
um sol de Outubro. Fiz outros achados mais tarde; nenhum me deslumbrou
tanto. A denuncia de Jos Dias alvoroara-me, a lico do velho
coqueiro tambem, a vista dos nossos nomes abertos por ella no muro do
quintal deu-me grande abalo, como vistes; nada disso valeu a sensao
do beijo. Podiam ser mentira ou illuso. Sendo verdade, eram os ossos
da verdade, no eram a carne e o sangue della. As proprias mos
tocadas, apertadas, como que fundidas, no podiam dizer tudo.

--Sou homem!

Quando repeti isto, pela terceira vez, pensei no seminario, mas como
se pensa em perigo que passou, um mal abortado, um pesadelo extincto;
todos os meus nervos me disseram que homens no so padres. O sangue
era da mesma opinio. Outra vez senti os beios de Capit. Talvez abuso
um pouco das reminiscencias osculares; mas a saudade  isto mesmo;  o
passar e repassar das memorias antigas. Ora, de todas as daquelle tempo
creio que a mais doce  esta, a mais nova, a mais comprehensiva, a que
inteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho, vastas e numerosas,
doces tambem, de varia especie, muitas intellectuaes, egualmente
intensas. Grande homem que fosse, a recordao era menor que esta.




XXXV

O protonotario apostolico.

Enfim, peguei dos livros e corri  lico. No corri precisamente; a
meio caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde, e podiam
ler-me no semblante alguma cousa. Tive ideia de mentir, allegar uma
vertigem que me houvesse deitado ao cho; mas o susto que causaria
a minha me fez-me rejeital-a. Pensei em prometter algumas dezenas
de padre-nossos; tinha, porm, outra promessa em aberto e outro
favor pendente... No, vamos ver; fui andando, ouvi vozes alegres,
conversavam cuidadosamente. Quando entrei na sala, ninguem ralhou
commigo.

O padre Cabral recebera na vespera um recado do internuncio; foi
ter com elle, e soube que, por decreto pontificio, acabava de ser
nomeado protonotario apostolico. Esta distinco do papa dera-lhe
grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina
repetiam o titulo com admirao; era a primeira vez que elle soava aos
nossos ouvidos, acostumados a conegos, monsenhores, bispos, nuncios,
e internuncios; mas que era protonotario apostolico? O padre Cabral
explicou que no era propriamente o cargo da curia, mas as honras
delle. Tio Cosme viu exalar-se no parceiro de voltarete, e repetia:

--Protonotario apostolico!

E voltando-se para mim:

--Prepara-te, Bentinho; tu pdes vir a ser protonotario apostolico.

Cabral ouvia com gosto a repetio do titulo. Estava em p, dava alguns
passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta. O tamanho do titulo
como que lhe dobrava a magnificencia, posto que, para ligal-o ao nome,
era demasiado comprido; esta segunda reflexo foi tio Cosme que a fez.
Padre Cabral acudiu que no era preciso dizel-o todo, bastava que lhe
chamassem o protonotario Cabral. Subentendia-se apostolico.

--Protonotario Cabral.

--Sim, tem razo; protonotario Cabral.

--Mas, Sr. protonotario,--acudiu prima Justina para se ir acostumando
ao uso do titulo,--isto o obriga a ir a Roma?

--No, D. Justina.

--No, so s as honras, observou minha me.

--Agora, no impede,--disse Cabral, que continuava a reflectir,--no
impede que nos casos de maior formalidade, actos publicos, cartas
de cerimonia, etc., se empregue o titulo inteiro: protonotario
apostolico. No uso commum, basta protonotario.

--Justamente, assentiram todos.

Jos Dias, que entrou pouco depois de mim, applaudiu a distinco, e
recordou, a proposito, os primeiros actos politicos de Pio IX, grandes
esperanas da Italia; mas ninguem pegou do assumpto; o principal da
hora e do logar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando a mim
do receio, entendi que devia comprimental-o tambem, e este applauso
no lhe foi menos ao corao que os outros. Bateu-me na bochecha
paternalmente, e acabou dando-me frias. Era muita felicidade para uma
s hora. Um beijo e frias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo,
porque tio Cosme, sacudindo a barriga, chamou-me peralta; mas Jos Dias
corrigiu a alegria:

--No tem que festejar a vadiao; o latim sempre lhe ha de ser
preciso, _ainda que no venha a ser padre._

Conheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a semente lanada 
terra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos da familia.
Minha me sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza, mas respondeu
logo:

--Ha de ser padre, e padre bonito.

--No esquea, mana Gloria, e protonotario tambem. Protonotario
apostolico.

--O protonotario Santiago, accentuou Cabral.

Se a inteno tio meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do
titulo com o nome, no sei bem; o que sei  que quando ouvi o meu
nome ligado a tal titulo, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a
vontade aqui foi antes uma ideia, uma ideia sem lingua, que se deixou
ficar quieta e muda, tal como d'ahi a pouco outras ideias... Mas
essas pedem um capitulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre
de latim falou algum tempo da minha ordenao ecclesiastica, ainda
que sem grande interesse. Elle buscava um assumpto alheio para se
mostrar esquecido da propria gloria, mas era esta que o deslumbrava na
occasio. Era um velho magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns
defeitos tinha; o mais excelso delles era ser guloso, no propriamente
gloto; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa cosinha,
se era simples, era menos pobre que a delle. Assim, quando minha me
lhe disse que viesse jantar, afim de se lhe fazer uma saude, os olhos
com que acceitou seriam de protonotario, mas no eram aposlolicos. E
para agradar a minha me novamente pegou em mim, descrevendo o meu
futuro ecclesiastico, e queria saber se ia para o seminario agora, no
anuo proximo, e offerecia-se a falar ao senhor bispo, tudo marchetado
do protonotario Santiago.




XXXVI

Ideia sem pernas e ideia sem braos.

Deixei-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar na
aventura da manh. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e at com
latim. Ao cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo  casa visinha,
agarrar Capit, desfazer-lhe as tranas, refazel-as e concluil-as
daquella maneira particular, bocca sobre bocca.  isto, vamos, 
isto... Ideia s! ideia sem pernas! As outras pernas no queriam correr
nem andar. Muito depois  que sairam vagarosamente e levaram-me 
casa de Capit. Quando alli cheguei, dei com ella na sala, na mesma
sala, sentada na marqueza, almofada no regao, cosendo em paz. No me
olhou de rosto, mas a furto e a medo, ou, se preferes a phraseologia
do aggregado, obliqua e dissimulada. As mos pararam, depois de
encravada a agulha no panno. Eu, do lado opposto da mesa, no sabia que
fizesse; e outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim gastmos
alguns minutos compridos, at que ella deixou inteiramente a costura,
ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ella, e perguntei se a me havia
dito alguma cousa; respondeu-me que no. A bocca com que respondeu era
tal que cuido haver-me provocado um gesto de approximao. Certo  que
Capit recuou um pouco.

Era occasio de pegal-a, puxal-a e beijal-a... Ideia s ideia sem
braos! Os meus ficaram caidos e mortos. No conhecia nada da
Escriptura. Se conhecesse,  provavel que o espirito de Satanaz me
fizesse dar a lingua mystica do _Cantico_ um sentido directo e natural.
Ento obedeceria ao primeiro versiculo; Applique elle os labios,
dando-me o osculo da sua bocca. E pelo que respeita aos braos, que
tinha inertes, bastaria cumprir o vers. 6.o do cap. II:
A sua mo esquerda se pz j debaixo da minha cabea, e a sua mo
direita me abraar depois. Vedes ahi a chronologia dos gestos. Era s
executal-a; mas ainda que eu conhecesse o texto, as attitudes de Capit
eram agora to retrahidas, que no sei se no continuaria parado, foi
ella entretanto, que me tirou daquella situao.




XXXVII

A alma  cheia de mysterios.

Padre Cabral eslava esperando ha muito tempo?

--Hoje no dei lico; tive frias.

Expliquei-lhe o motivo das frias. Contei-lhe tambem que o padre Cabral
falara da minha entrada no seminario, apoiando a resoluo de minha
me, e disse delle cousas feias e duras. Capit reflectiu algum tempo,
e acabou perguntando-me se podia ir comprimentar o padre,  tarde, em
minha casa.

--Pde, mas para que?

Papae naturalmente ha de querer ir tambem, mas  melhor que elle v 
casa do padre;  mais bonito. Eu no, que j sou meia moa, concluiu
rindo.

O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troa comsigo mesma, uma
vez que, desde manh, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graa,
e, para dizer tudo, quiz provar-lhe que era moa inteira. Peguei-lhe
levemente na mo direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e
tremulo. Era a ideia com mos. Quiz puxar as de Capit, para obrigal-a
a vir atraz dellas, mas ainda agora a aco no respondeu  inteno.
Comtudo, achei-me forte e atrevido. No imitava ninguem; no vivia com
rapazes, que me ensinassem anecdotas de amor. No conhecia a violao
de Lucrecia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do
padre Pereira e eram patricios de Poncio Pilatos. No nego que o final
do penteado da manh era um grande passo no caminho da movimentao
amorosa, mas o gesto de ento foi justamente o contrario deste. De
manh, ella derreou a cabea, agora fugia-me; nem  s nisso que os
lances differiam; em outro ponto, parecendo haver repetio, houve
contraste.

Penso que ameacei puxal-a a mim. No juro, comeava a estar to
alvoroado, que no pude ter toda a conscincia dos meus actos; mas
concluo que sim, porque ella recuou e quiz tirar as mos das minhas;
depois, talvez por no poder recuar mais, collocou um dos ps adeante
e o outro atraz, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou
a reter-lhe as mos com fora. O busto afinal canou e cedeu, mas a
cabea no quiz ceder tambem, e, caida para traz, inutilisava lodos
os meus esforos, porque eu j fazia esforos, leitor amigo. No
conhecendo a lico do _Cantico_, no me acudiu estender a mo esquerda
por baixo do cabea della; demais, este gesto suppe um accordo de
vontades, e Capit, que me resistia agora, aproveitaria o gesto para
arrancar-se  outra mo e fugir-me inteiramente. Ficmos naquelle luta,
sem estrepito, porque apesar do ataque e da defesa, no perdiamos a
cautela necessaria para no sermos ouvidos l de dentro; a alma  cheia
de mysterios. Agora sei que a puxava; a cabea continuou a recuar, at
que canou; mas ento foi a vez da bocca. A bocca de Capit iniciou um
movimento inverso, relativamente  minha, indo para um lado, quando
eu a buscava do lado opposto. Naquelle desencontro estivemos, sem que
ousasse um pouco mais, e bastaria um pouco mais...

Nisto ouvimos bater  porta e falar no corredor. Era o pae de Capit,
que voltava da repartio um pouco mais cedo, como usava s vezes.
Abre, Nanata! Capit, abre! Apparentemente era o mesmo lance da
manh, quando a me deu comnosco, mas s apparentemente; em verdade,
era outro. Considerai que de manh tudo estava acabado, e o passo de D.
Fortunata foi um aviso para que nos compuzessemos. Agora lutavamos com
as mos presas, e nada estava sequer comeado.

Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno; era a me
que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que no tive tempo
de soltar as mos da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tental-o, mas
Capit, antes que o pae acabasse de entrar, fez um gesto inesperado,
pousou a bocca na minha bocca, e deu de vontade o que estava a recusar
 fora. Repito, a alma  cheia de mysterios.




XXXVIII

Que susto, meu Deus!

Quando Padua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas,
Capit, em p, de costas para mim, inclinada sobre a costura, como a
recolhel-a, perguntava em voz alta:

--Mas, Bentinho, que  protonotario apostolico?

--Ora, vivam! exclamou o pae.

--Que susto, meu Deus!

Agora  que o lance  o mesmo; mas se conto aqui, taes quaes, os
dous lances de ha quarenta annos,  para mostrar que Capit no se
dominava s em presena da me; o pae no lhe metteu mais medo. No
meio de uma situao que me atava a lingua, usava da palavra com a
maior ingenuidade deste mundo. A minha persuaso  que o corao no
lhe batia mais mais nem menos. Allegou susto, e deu  cara um ar meio
enfiado; mas eu, que sabia tudo, vi que era mentira e fiquei com
inveja. Foi logo falar ao pae, que apertou a minha mo, e quiz saber
porque a filha falava em protonotario apostolico. Capit repeliu-lhe
o que ouvira de mim, e opinou logo que o pae devia ir comprimentar o
padre em casa delle; ella iria  minha. E colligindo os petrechos da
costura, enfiou pelo corredor, bradando infantilmente:

--Mame, jantar, papae chegou!




XXXIX

A vocao.

Padre Cabral estava naquella primeira hora das honras em que as
minimas congratulaes valem por odes. Tempo chega em que os
dignificados recebem os louvores como um tributo usual, cara morta,
sem agradecimentos. O alvoroo da primeira hora  melhor; esse estado
da alma que v na inclinao do arbusto, tocado do vento, um parabm
da flora universal, traz sensaes mais intimas e finas que qualquer
outro. Cabral ouviu as palavras de Capit com infinito prazer.

--Obrigado, Capit, muito obrigado; estimo que voc goste tambem. Papae
est bom? E mame? A voce no se pergunta; essa cara  mesmo de quem
vende saude. E como vamos de rezas?

A todas as perguntas, Capit ia respondendo promptamente e bem.
Trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. No entrou com a
familiaridade do costume, deteve-se um instante  porta da sala, antes
de ir beijar a mo a minha me e ao padre. Como dsse a este, duas
vezes em cinco minutos, o titulo de protonotario, Jos Dias, para se
desforrar da concurrencia, fez um pequeno discurso em honra ao corao
paternal e augustissimo de Pio IX.

--Voc  um grande _prosa_, disse tio Cosme, quando elle acabou.

Jos Dias sorriu sem vexame. Padre Cabral confirmou os louvores do
aggregado, sem os seus superlativos; ao que este accrescentou que
o cardeal Mastai evidentemente fra talhado para a tira desde o
principio dos tempos. E, piscando-me o olho, concluiu:

--A vocao  tudo. O estado ecclesiastico  perfeitissimo, comtanto
que o sacerdote venha j destinado do bero. No havendo vocao, falo
de vocao sincera e real, um joven pde muito bem estudar as lettras
humanas, que tambem so uteis e honradas.

Padre Cabral retorquia:

--A vocao  muito, mas o poder de Deus  soberano. Um homem pde no
ter gosto  egreja e at perseguil-a, e um dia a voz de Deus lhe fala,
e elle sae apostolo; veja S. Paulo.

--No contesto, mas o que eu digo  outra cousa. O que eu digo  que se
pde muito bem servir a Deus sem ser padre, c fra; pde-se ou no se
pde?

--Pde-se.

--Pois ento! exclamou Jos Dias triumphalmente, olhando em volta de
si. Sem vocao  que no ha bom padre, e em qualquer profisso liberal
se serve a Deus, como todos devemos.

--Perfeitamente, mas vocao no  s do bero que se traz.

--Homem,  a melhor.

--Um moo sem gosto nenhum  vida ecclesiastica pde acabar por ser
muito bom padre; tudo  que Deus o determine. No me quero dar por
modelo, mas aqui estou eu que nasci com a vocao da medicina; meu
padrinho, que era coadjutor de Santa Rita, teimou com meu pae para que
me mettesse no seminario; meu pae cedeu. Pois, senhor, tomei tal gosto
aos estudos e  companhia dos padres, que acabei ordenando-me. Mas,
supponha que no acontecia assim, e que eu no mudava de vocao, o que
 que acontecia? Tinha estudado no seminario algumas materias que  bom
saber, e so sempre melhor ensinadas naquellas casas.

Prima Justina interveiu:

--Como? Ento pde-se entrar para o seminario e no sair padre?

Padre Cabral respondeu que sim, que se podia, e, voltando-se para
mim, falou da minha vocao, que era manifesta; os meus brinquedos
foram sempre de egreja, e eu adorava os officios divinos. A prova
no provava; todas as creanas do meu tempo eram devotas. Cabral
accrescentou que o reitor de S. Jos, a quem contara ultimamente a
promessa de minha me, tinha o meu nascimento por milagre; elle era
da mesma opinio. Capit, cosida s saias de minha me, no attendia
aos olhos anciosos que eu lhe mandava; tambem no parecia escutar a
conversao sobre o seminario e suas consequencias, e, alis, decorou o
principal, como vim a saber depois. Duas vezes fui  janella, esperando
que ella fosse tambem, e ficassemos  vontade, ssinhos, at acabar o
mundo, se acabasse, mas Capit no me appareceu. No deixou minha me,
seno para ir embora. Eram ave-marias, despediu-se.

--Vae com ella, Bentinho, disse minha me.

--No precisa, no, D. Gloria, acudiu ella rindo, eu sei o caminho.
Adeus, Sr. protonotario...

--Adeus, Capit.

Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala,  claro que o
meu dever, o meu gosto, todos os impulsos da edade e da occasio
eram atravessal-a de todo, seguir a visinha corredor fra, descer 
chacara, entrar no quintal, dar-lhe terceiro beijo, e despedir-me. No
me importou a recusa, que cuidei simulada, e enfiei pelo corredor;
mas, Capit que ia depressa, estacou e fez-me signal que voltasse. No
obedeci; cheguei-me a ella.

--No venha, no; amanh falaremos.

--Mas eu queria dizer a voc...

--Amanh.

--Escuta!

--Fica!

Falava baixinho; pegou-me na mo, e poz o dedo na bocca. Uma preta,
que veiu de dentro accender o lampio do corredor, vendo-nos naquella
attitude, quasi s escuras, riu de sympathia e murmurou em tom que
ouvissemos alguma cousa que no entend bem nem mal. Capit segredou-me
que a escrava desconfiara, e ia talvez contar s outras. Novamente me
intimou que ficasse, e retirou-se; eu deixei-me estar parado, pregado,
agarrado ao cho.




XL

Uma egua.

Ficando s, reflecti algum tempo, e tive uma fantasia. J conheceis as
minhas fantasias. Contei-vos a da visita imperial; disse-vos a desta
casa do Engenho Novo, reproduzindo a de Matacavallos... A imaginao
foi a companheira de toda a minha existencia, viva, rapida, inquieta,
alguma vez timida e amiga de empacar, as mais dellas capaz de engolir
campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tacito que as
eguas iberas concebiam pelo vento; se no foi nelle, foi n'outro autor
antigo, que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste
particular, a minha imaginao era uma grande egua ibera; a menor brisa
lhe dava um potro, que saa logo cavallo de Alexandre; mas deixemos
metaphoras atrevidas e improprias dos meus quinze annos. Digamos o
caso simplesmente. A fantasia daquella hora foi confessar a minha me
os meus amores para lhe dizer que no tinha vocao ecclesiastica. A
conversa sobre vocao tornava-me agora toda inteira, e, ao passo que
me assustava, abria-me uma porta de saida. Sim,  isto, pensei; vou
dizer a mame que no tenho vocao e confesso o nosso namoro; se ella
duvidar, conto-lhe o que se passou outro dia, o penteado e o resto... 




XLI

A audiencia secreta.

O resto fez-me ficar mais algum tempo, no corredor, pensando. Vi entrar
o doutor Joo da Costa, e preparou-se logo o voltarete do costume.
Minha me saiu da sala, e, dando commigo, perguntou se acompanhara
Capit.

--No, senhora, ella foi s.

E quasi investindo para ella:

--Mame, eu queria dizer-lhe uma cousa.

--Que ?

Toda assustada, quiz saber o que  que me doia, se a cabea, se o
peito, se o estomago, e apalpava-me a testa para ver se tinha febre.

--No tenho nada, no, senhora.

--Mas ento que ?

-- uma cousa, mame... Mas, escute, olhe,  melhor depois do ch;
logo... No  nada mau; mame assusta-se por tudo; no  cousa de
cuidado.

--No  molestia?

--No, senhora.

--, isso  volta de constipao. Disfaras para no tomar suadouro,
mas tu ests constipado; conhece-se pela voz.

Tentei rir, para mostrar que no tinha nada. Nem por isso permittiu
adiar a confidencia, pegou em mim, levou-me ao quarto della, accendeu
vela, e ordenou-me que lhe dissesse tudo. Ento eu perguntei-lhe, para
principiar, quando  que ia para o seminario.

--Agora s para o anno, depois das frias.

--Vou... para ficar?

--Como ficar?

--No volto para casa?

--Voltas aos sabbados e pelas frias;  melhor. Quando te ordenares
padre, vens morar commigo.

Enxuguei os olhos e o nariz. Ella afagou-me, depois quiz
reprehender-me, mas creio que a voz lhe tremia, e pareceu-me que tinha
os olhos humidos. Disse-lhe que tambem sentia a nossa separao. Negou
que fosse separao; era s alguma ausencia, por causa dos estudos; s
os primeiros dias. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e
aos mestres, e acabaria gostando de viver com elles.

--Eu s gosto de mame.

No houve calculo nesta palavra, mas estimei dizel-a, por fazer crer
que ella era a minha unica affeio; desviava as suspeitas de cima
de Capit. Quantas intenes viciosas ha assim que embarcam, a meio
caminho, n'uma phrase innocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a
mentira , muita vez, to involuntaria como a transpirao. Por outro
lado, leitor amigo, nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de
Capit, quando havia chamado minha me justamente para confirmal-as;
mas as contradices so deste mundo. A verdade  que minha me era
candida como a primeira aurora, anterior ao primeiro peccado; nem
por simples intuio era capaz de deduzir uma cousa de outra, isto
, no concluiria da minha repentina opposio que eu andasse em
segredinhos com Capit, como lhe dissera Jos Dias. Calou-se durante
alguns instantes; depois replicou-me sem imposio nem autoridade, o
que me veiu animando  resistencia. Dahi o falar-lhe na vocao que se
discutira naquella tarde, e que eu confessei no sentir em mim.

--Mas tu gostavas tanto de ser padre, disse ella; no te lembras que
at pedias para ir ver sair os seminaristas de S. Jos, com as suas
batinas? Em casa, quando Jos Dias te chamava Reverendissimo, tu rias
com tanto gosto! Como  que agora...? No creio, no, Bentinho. E
depois... Vocao? Mas a vocao vem com o costume, continuou repetindo
as reflexes que ouvira ao meu professor de latim.

Como eu buscasse contestal-a, reprehendeu-me sem aspereza, mas com
alguma fora, e eu tornei ao filho submisso que era. Depois, ainda
falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera; no me disse
as circumstancias, nem a occasio, nem os motivos della, cousas que s
vim a saber mais tarde. Affirmou o principal, isto , que a havia do
cumprir, em pagamento a Deus.

--Nosso Senhor me acudiu, salvando a tua existencia, no lhe hei de
mentir nem faltar, Bentinho; so cousas que no se fazem sem peccado, e
Deus que  grande e poderoso, no me deixaria assim, no, Bentinho; eu
sei que seria castigada e bem castigada. Ser padre  bom e santo; voc
conhece muitos, como o padre Cabral, que vive tao feliz com a irm; um
tio meu tambem foi padre, e escapou de ser bispo, dizem... Deixa de
manha, Bentinho.

Creio que os olhos que lhe deitei foram to queixosos, que ella emendou
logo a palavra; manha, no, no podia ser manha, sabia muito bem que
eu era amigo della, e no seria capaz de fingir um sentimento que no
tivesse. Molleza  o que queria dizer, que me deixasse de molleza, que
me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria, em beneficio della e para
bem da minha alma. Todas essas cousas e outras foram ditas um pouco
atropelladamente, e a voz no lhe saia clara, mas velada e esganada.
Vi que a emoo della era outra vez grande, mas no recuava dos seus
propositos, e aventurei-me a perguntar-lhe:

--E se mame pedisse a Deus que a dispensasse da promessa?

--No, no peo. Ests tonto, Bentinho? E como havia de saber que Deus
me dispensava?

--Talvez em sonho; eu sonho as vezes com anjos e santos.

--Tambem eu, num filho; mas  intil... Vamos,  tarde; vamos para a
sala. Est entendido: no primeiro ou no segundo mez do anno que vem,
irs para o seminario. O que eu quero  que saibas bem os livros que
ests estudando;  bonito, no s para ti, como para o padre Cabral. No
seminario ha interesse em conhecer-te, porque o padre Cabral fala de ti
com enthusiasmo.

Caminhou para a porta, saimos ambos. Antes de sair, voltou-se para mim,
e quasi a vi saltar-me ao collo e dizer-me que no seria padre. Este
era j o seu desejo intimo,  proporo que se approximava o tempo.
Quizera um modo de pagar a divida contrahida, outra moeda, que valesse
tanto ou mais, e no achava nenhuma.




XLII

Capit reflectindo.

No dia seguinte fui  casa visinha, logo que pude. Capit despedia-se
de tres amigas que tinham ido visital-a, Paula e Sandia, companheiras
de collegio, aquella de quinze, esta de desessete annos, a primeira
filha de um medico, a segunda de um commerciante de objectos
americanos. Estava abatida, trazia um leno atado na cabea; a me
contou-me que fora excesso de leitura na vespera, antes e depois
do ch, na sala e na cama, at muito depois da meia noite, e com
lamparina...

--Se eu accendesse vela, mame zangava-se. J estou boa.

E como desatasse o leno, a me disse-lhe timidamente que era melhor
atal-o, mas Capit respondeu que no era preciso, estava boa.

Ficmos ss na sala; Capit continuou a narrao da me, accrescentando
que passara mal por causa do que ouvira em minha casa. Tambem eu lhe
contei o que se dra commigo, a entrevista com minha me, as minhas
supplicas, as lagrimas della, e por fim as ultimas respostas decisivas:
dentro de dous ou tres mezes iria para o seminario. Que fariamos agora?
Capit ouvia-me com atteno sofrega, depois sombria; quando acabei,
respirava a custo, como prestes a estalar de colera, mas conteve-se.

Ha tanto tempo que isto succedeu que no posso dizer com segurana se
chorou devras, ou se smente enxugou os olhos; cuido que os enxugou
smente. Vendo-lhe o gesto, peguei-lhe na mo para animal-a, mas tambem
eu precisava ser animado. Caimos no canap, e ficmos a olhar para o
ar. Minto; ella olhava para o cho. Fiz o mesmo, logo que a vi assim...
Mas eu creio que Capit olhava para dentro de si mesma, emquanto que
eu fitava devras o cho, o roido das fendas, duas moscas andando e um
p de cadeira lascado. Era pouco, mas distraa-me da afflico. Quando
tornei a olhar para Capit, vi que no se mexia, e fiquei com tal medo
que a sacudi brandamente. Capit tornou c para fora e pediu-me que
outra vez lhe contasse o que se passra com minha me. Satisfil-a,
attenuando o texto desta vez, para no amofinal-a. No me chames
dissimulado, chama-me compassivo;  certo que receiava perder Capit,
se lhe morressem as esperanas todas, mas doia-me vel-a padecer. Agora,
a verdade ultima, a verdade das verdades,  que j me arrependia de
haver falado a minha me, antes de qualquer trabalho effectivo por
parte de Jos Dias; examinando bem, no quizera ter ouvido um desengano
que eu reputava certo, ainda que demorado. Capit reflectia, reflectia,
reflectia...




XLIII

Voc tem medo?

De repente, cessando a reflexo, fitou em mim os olhos de ressaca, e
perguntou-me se tinha medo.

--Medo?

--Sim, pergunto se voc tem medo.

--Medo de que?

--Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, do andar, de trabalhar...

No entendi. Se ella me tem dito simplesmente: Vamos embora! pde
ser que eu obedecesse ou no; em todo caso, entenderia. Mas aquella
pergunta assim, vaga e solta, no pude atinar o que era.

--Mas... no entendo. De apanhar?

--Sim.

--Apanhar de quem? Quem  que me d pancada?

Capit fez um gesto de impaciencia. Os olhos de ressaca no se mexiam
e pareciam crescer. Sem saber de mim, e, no querendo interrogal-a
novamente, entrei a cogitar d'onde me viriam pancadas, e porque, e
tambem porque  que seria preso, e quem  que me havia de prender.
Valha-me Deus! vi de imaginao o aljube, uma casa escura e infecta.
Tambem vi a presiganga, o quartel dos Barbonos e a Casa de Correco.
Todas essas bellas instituies sociaes me envolviam no seu mysterio,
sem que os olhos de ressaca de Capit deixassem de crescer para mim,
a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. O erro de Capit foi
no deixal-os crescer infinitamente, antes diminuir at s dimenses
normaes, e dar-lhes o movimento do costume. Capit tornou ao que era,
disse-me que estava brincando, no precisava affligir-me, e, com um
gesto cheio de graa, bateu-me na casa sorrindo, e disse:

--Medroso!

--Eu? Mas...

--No  nada, Bentinho. Pois quem  que ha de dar pancada ou prender
voc? Desculpe que eu hoje estou meia maluca; quero brincar, e...

--No, Capit; voc no est brincando; nesta occasio, nenhum de ns
tom vontade de brincar.

--Tem razo, foi s maluquice; at logo.

--Como at logo?

--Est-me voltando a dr do cabea; vou botar uma rodella de limo nas
fontes.

Fez o que disse, e atou o leno outra vez na testa. Em seguida,
acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim; mas, ainda ahi nos
detivemos por alguns minutos, sentados sobre a borda do poo. Ventava,
o ceu estava coberto. Capit falou novamente da nossa separao, como
de um facto certo e definitivo, por mais que eu, receioso disso mesmo,
buscasse agora razes para animal-a. Capit, quando no falava, riscava
no cho, com um pedao cie taquara, narizes e perfis. Desde que se
mettera a desenhar, era uma das suas diverses; tudo lhe servia de
papel e lapis. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ella no
muro, quiz fazer o mesmo no cho, e pedi-lhe a taquara. No me ouviu ou
no me attendeu.




XLIV

O primeiro filho.

--D c, deixe escrever uma cousa.

Capit olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a definio
de Jos Dias, obliquo e dissimulado; levantou o olhar, sem levantar os
olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:

--Diga-me uma cousa, mas fale verdade, no quero disfarce; ha de
responder com o corao na mo.

--Que ? Diga.

--Se voc tivesse de escolher entre mim e sua me, a quem  que
escolhia?

--Eu?

Fez-me signal que sim.

--Eu escolhia... mas para que escolher? Mame no  capaz de me
perguntar isso.

--Pois, sim, mas eu pergunto. Supponha voc que est no seminario e
recebe a noticia de que eu vou morrer...

--No diga isso!

--... Ou que me mato de saudades, se voc no vier logo, e sua me no
quizer que voc venha, diga-me, voc vem?

--Venho.

--Contra a ordem de sua me?

--Contra a ordem de mame.

--Voc deixa seminario, deixa sua me, deixa tudo, para me ver morrer?

--No fale em morrer, Capit!

Capit teve um risinho descorado e incredulo, e com a taquara escreveu
uma palavra no cho; inclinei-me e li: _mentiroso._

Era to extranho tudo aquillo, que no achei resposta. No atinava com
a razo do escripto, como no atinava com a do falado. Se me acudisse
alli uma injuria grande ou pequena,  possivel que a escrevesse tambem,
com a mesma taquara, mas no me lembrava nada. Tinha a cabea vazia.
Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguem nos pudesse ouvir ou
ler. Quem, se eramos ss? D. Fortunata chegara uma vez  porta da casa,
mas entrou logo depois. A solido era completa. Lembra-me que umas
andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro
de Santa Theresa; ninguem mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na
rua um tropel de bestas, do lado da casa o chilrear dos passarinhos
do Padua. Nada mais, ou smente este phenomeno curioso, que o nome
escripto por ella, no s me espiava do cho com gesto escarninho,
mas at me pareceu que repercutia no ar. Tive ento uma ideia ruim;
disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre no era m, e eu podia
acceital-a sem grande pena. Como desforo, era pueril; mas eu sentia a
secreta esperana de vel-a atirar-se a mim lavada em lagrimas. Capit
limitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:

--Padre  bom, no ha duvida; melhor que padre s conego, por causa das
meias roxas. O roxo  cr muito bonita. Pensando bem,  melhor conego.

--Mas no se pde ser conego sem ser primeiramente padre, disse-lhe eu
mordendo os beios.

--Bem; comece pelas meias pretas, depois viro as roxas. O que eu no
quero perder  a sua missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido
 moda, saia balo e babados grandes... Mas talvez nesse tempo a moda
seja outra. A egreja ha de ser grande, Carmo ou S. Francisco.

--Ou Candelaria.

--Candelaria tambem. Qualquer sorve, comtanto que eu oua a missa nova.
Hei de fazer um figuro. Muita gente ha de perguntar: Quem  aquella
moa faceira que alli est com um vestido to bonito?--Aquella  D.
Capitolina, uma moa que morou na rua de Matacavallos...

--Que morou? Voc vae mudar-se?

--Quem sabe onde  que ha do morar amanh? disse ella com um tom leve
de melancolia; mas tornando logo ao sarcasmo: E voc no altar, mettido
na alva, com a capa de ouro por cima, cantando... _Pater noster..._

Ah! como eu sinto no ser um poeta romantico para dizer que isto era um
duello de ironias! Contaria os meus botes e os della, a graa de um e a
promptido de outro, e o sangue correndo, e o furor na alma, at ao meu
golpe final que foi este:

--Pois, sim, Capit, voc ouvir a minha missa nova, mas com uma
condio.

Ao que ella respondeu:

--Vossa Reverendssima pde falar.

--Promette uma cousa?

--Que ?

--Diga se promette.

--No sabendo o que , no prometto.

--A falar verdade so duas cousas, continuei eu, por haver-me acudido
outra ideia.

--Duas? Diga quaes so.

--A primeira  que s se ha de confessar commigo, para eu lhe dar a
penitencia e a absolvio. A segunda  que...

--A primeira est promettida, disse ella vendo-me hesitar, e
accrescentou que esperava a segunda.

Palavra que me custou, e antes no me chegasse a sair da boca; no
ouviria o que ouvi, o no escreveria aqui uma cousa que vae talvez
achar incredulos.

--A segunda... sim...  que... Promette-me que seja eu o padre que case
voc?

Que me case? disso ella um tanto commovida.

Logo depois fez descair os labios, e abanou a cabea.

--No, Bentinho, disse, seria esperar muito tempo; voc no vae ser
padre j amanh, leva muitos annos... Olhe, prometto outra cousa;
prometto que ha de baptisar o meu primeiro filho.




XLV

Abane a cabea, leitor.

Abane a cabea, leitor; faa todos os gestos de incredulidade. Chegue a
deitar fra este livro, se o tdio j o no obrigou a isso antes; tudo
 possivel. Mas, se o no fez antes e s agora, fio que torne a pegar
do livro e que o abra na mesma pagina, sem crer por isso na veracidade
do autor. Todavia, no ha nada mais exacto. Foi assim mesmo que Capit
falou, com taes palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se
fosse a primeira boneca.

Quanto ao meu espanto, se tambem foi grande, veiu de mistura com uma
sensao exquisita. Percorreu-me um fluido. Aquella ameaa de um
primeiro filho, o primeiro filho de Capit, o casamento della com
outro, portanto, a separao absoluta, a perda, a anniquilao, tudo
isso produzia um tal effeito, que no achei palavra nem gesto; fiquei
estupido. Capit sorria; eu via o primeiro filho brincando no cho...




XLVI

As pazes.

As pazes fizeram-se como a guerra, depressa. Buscasse eu neste livro
a minha gloria, e diria que as negociaes partiram de mim; mas no,
foi ella que as iniciou. Alguns instantes depois, como eu estivesse
cabisbaixo, ella abaixou tambem a cabea, mas voltando os olhos para
cima afim de ver os meus. Fiz-me de rogado; depois quiz levantar-me
para ir embora, mas nem me levantei, nem sei se iria. Capit fitou-me
uns olhos tao ternos, e a posio os fazia to supplices, que me deixei
ficar, passei-lhe o brao pela cintura, ella pegou-me na ponta dos
dedos, e...

Outra vez D. Fortunata appareceu  porta da casa; no sei para qu,
se nem me deixou tempo de puxar o brao; desappareceu logo. Podia ser
um simples descargo de consciencia, uma cerimonia, como as rezas de
obrigao, sem devoo, que se dizem de tropel; a no ser que fosse
para certificar aos proprios olhos a realidade que o corao lhe
dizia...

Fosse o que fosse, o meu brao continuou a apertar a cintura da filha,
e foi assim que nos pacificmos. O bonito  que cada um de ns queria
agora as culpas para si, e pediamos reciprocamente perdo. Capit
allegava a insomnia, a dr de cabea, o abatimento do espirito, e
finalmente os seus calunds. Eu, que era muito choro por esse tempo,
sentia os olhos molhados... Era amor puro, era effeito dos padecimentos
da amiguinha, era a ternura da reconciliao.




XLVII

A senhora saiu.

--Est bom, acabou, disso eu finalmente; mas, explique-me s uma cousa,
porque  que voc me perguntou se eu tinha medo de apanhar?

--No foi por nada, respondeu Capit, depois de alguma hesitao...
Para que bolir nisso?

--Diga sempre. Foi por causa do seminario?

--Foi; ouvi dizer que l do pancada... No? Eu tambem no creio.

A explicao agradou-me; no tinha outra. Se, como penso, Capit
no disse a verdade, fora  reconhecer que no podia dizel-a, e a
mentira  dessas creadas que se do pressa em responder s visitas
que a senhora saiu, quando a senhora no quer falar a ninguem. Ha
nessa cumplicidade um gosto particular; o peccado em commum eguala
por instantes a condio das pessoas, no contando o prazer que d a
cara das visitas enganadas, e as costas com que ellas descem... A
verdade no saiu, ficou em casa, no corao de Capit, cochilando o
seu arrependimento. E eu no desci triste nem zangado; achei a creada
galante, appetecivel, melhor que a ama.

As andorinhas vinham agora em sentido contrario, ou no seriam as
mesmas. Ns  que eramos os mesmos; alli ficmos sommando as nossas
illuses, os nossos temores, comeando j a sommar as nossas saudades.




XLVIII

Juramento do poo.

--No! exclamei de repente.

--No qu?

Tinha havido alguns minutos de silencio, durante os quaes reflecti
muito e acabei por uma ideia; o tom da exclamao, porm, foi to alto
que espantou a minha visinha.

--No ha de ser assim, continuei. Dizem que no estamos em edade de
casar, que somos creanas, creanolas,--j ouvi dizer creanolas. Bem;
mas dous ou tres annos passam depressa. Voc jura uma cousa? Jura que
s ha de casar commigo?

Capit no hesitou em jurar, e at lhe vi as faces vermelhas de prazer.
Jurou duas vezes e uma terceira:

--Ainda que voc case com outra, cumprirei o meu juramento, no casando
nunca.

--Que eu case com outra?

--Tudo pde ser, Bentinho. Voc pde achar outra moa que lhe queira,
apaixonar-se por ella e casar. Quem sou eu para voc lembrar-se de mim
nessa occasio?

--Mas eu tambem juro! Juro, Capit, juro por Deus Nosso Senhor que s
me casarei com voc. Basta isto?

--Devia bastar, disse ella; eu no me atrevo a pedir mais. Sim, voc
jura... Mas juremos por outro modo; juremos que nos havemos de casar um
com outro, haja o que houver.

Comprehendeis a differena; era mais que a eleio do conjuge, era a
affirmao do matrimonio. A cabea da minha amiga sabia pensar claro e
depressa. Realmente, a formula anterior era limitada, apenas exclusiva.
Podiamos acabar solteires, como o sol e a lua, sem mentir ao juramento
do poo. Esta formula era melhor, e tinha a vantagem de me fortalecer
o corao contra a investidura ecclesiastica. Jurmos pela segunda
formula, e ficmos to felizes que todo receio de perigo desappareceu.
Eramos religiosos, tnhamos o ceu por testemunha. Eu nem j temia o
seminario.

**--Se teimarem muito, irei; mas fao de conta que  um collegio
qualquer; no tomo ordens.

Capit temia a nossa separao, mas acabou acceitando este alvitre, que
era o melhor. No affligiamos minha me, e o tempo correria at o ponto
em que o casamento pudesse fazer-se. Ao contrario, qualquer resistencia
ao seminario confirmaria a denuncia de Jos Dias. Esta reflexo no foi
minha, mas della.




XLIX

Uma vela aos sabbados.

Eis aqui como, aps tantas canceiras, tocavamos o porto a que nos
deviamos ter abrigado logo. No nos censures, piloto de m sorte,
no se navegam coraes como os outros mares deste mundo. Estavamos
contentes, entramos a falar do futuro. Eu promettia a minha esposa uma
vida socegada e bella, na roa ou fra da cidade. Viriamos aqui uma vez
por anno. Se fosse em arrabalde, seria longe, onde ninguem nos fosse
aborrecer. A casa, na minha opinio, no devia ser grande nem pequena,
um meio termo; plantei-lhe flres, escolhi moveis, uma sege e um
oratorio. Sim, haviamos de ter um oratorio bonito, alto, de jacarand,
com a imagem de Nossa Senhora da Conceio. Demorei-me mais nisto que
no resto, em parte porque eramos religiosos, em parte para compensar a
batina que eu ia deitar as ortigas: mas ainda restava uma parte que
attribuo ao intuito secreto e inconsciente de captara proteco do ceu.
Haviamos de accender uma vela aos sabbabos...




L

Um meio termo.

Mezes depois fui para o seminario de S. Jos. Se eu pudesse contar as
lagrimas que chorei na vespera e na manh, sommaria mais que todas
as vertidas desde Ado e Eva. Ha nisto alguma exagerao; mas  bom
ser emphatico, uma ou outra vez, para compensar este escrupulo de
exactido que me afflige. Entretanto, se eu me ativer s  lembrana da
sensao, no fico longe da verdade; aos quinze annos, tudo  infinito.
Realmente, por mais preparado que estivesse, padeci muito. Minha me
tambem padeceu, mas soffria com alma e corao; demais, o padre Cabral
achra um meio termo, experimentar-me a vocao; se no fim de dous
annos, eu no revelasse vocao ecclesiastica, seguiria outra carreira.

--As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer. Supponha que
Nosso Senhor nega disposio a seu filho, e que o costume do seminario
no lhe d o gosto que me concedeu a mim,  que a vontade divina 
outra. A senhora no podia pr em seu filho, antes de nascido, uma
vocao que Nosso Senhor lhe recusou...

Era uma concesso do padre. Dava a minha me um perdo antecipado,
fazendo vir do credor a relevao da divida. Os olhos della brilharam,
mas a bocca disse que no. Jos Dias, no tendo alcanado ir commigo
para a Europa, agarrou-se ao mais proximo, e apoiou o alvitre do Sr.
protonotario; s lhe parecia que um anno era bastante.

--Estou certo, disse elle, piscando-me o olho, que dentro de um anno a
vocao ecclesiastica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva.
Ha de dar um padre de mo cheia. Tambem se no vier em um anno...

E a mim, mais tarde, em particular:

--V por um anno; um anno passa depressa. Se no sentir gosto nenhum,
 que Deus no quer, como diz o padre, e nesse caso, meu amiguinho, o
melhor remedio  a Europa.

Capit deu-me egual conselho, quando minha me lhe annunciou a minha
ida definitiva para o seminario:

--Minha filha, voc vae perder o seu companheiro de creana...

Fez-lhe to bem este tratamento de _filha_ (era a primeira vez que
minha me lh'o dava), que nem teve tempo de ficar triste; beijou-lhe
a mo, e disse-lhe que j sabia disso por mim mesmo. Em particular
animou-me a supportar tudo com paciencia; no fim de um anno as cousas
estariam mudadas, e um anno andava depressa. No foi ainda a nossa
despedida; esta fez-se na vespera, por um modo que pede capitulo
especial. O que unicamente digo aqui  que, ao passo que nos prendiamos
um ao outro, ella ia prendendo minha me, fez-se mais assidua e terna,
vivia ao p della, com os olhos nella. Minha me era de natural
sympathico, e egualmente sensivel; tanto se doa como se aprazia de
qualquer cousa. Entrou a achar em Capit uma poro de graas novas, de
dotes finos e raros; deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias.
No consentiu em photographar-se, como a pequena lhe pedia, para lhe
dar um retrato; mas tinha uma miniatura, feita aos vinte e cinco annos,
e, depois de algumas hesitaes, resolveu dar-lh'a. Os olhos de Capit,
quando recebeu o mimo, no se descrevem; no eram obliquos, nem de
ressaca, eram direitos, claros, lucidos. Beijou o retrato com paixo,
minha me fez-lhe a mesma cousa a ella. Tudo isto me lembra a nossa
despedida.




LI

Entre luz e fusco.

Entre luz e fusco, tudo ha de ser breve como esse instante. Nem durou
muito a nossa despedida, foi o mais que pde, em casa della, na sala
de visitas, antes do accender das velas; ahi  que nos despedimos
de uma vez. Jurmos novamente que haviamos de casar um com outro, e
no foi s o aperto de mo que sellou o contracto, como no quintal,
foi a conjunco das nossas boccas amorosas... Talvez risque isto na
impresso, se at l no pensar de outra maneira; se pensar, fica. E
desde j fica, porque, em verdade,  a nossa defesa. O que o mandamento
divino quer  que no juremos _em vo_ pelo santo nome de Deus. Eu
no ia mentir ao seminario, uma vez que levava um contracto feito
no proprio cartorio do ceu. Quanto ao sello, Deus, como fez os mos
limpas, assim fez os labios limpos, e a malicia est antes na tua
cabea perversa que na daquelle casal de adolescentes... Oh! minha
doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei
na aula de S. Jos, a buscar de apparencia a investidura sacerdotal, e
antes della a vocao. Mas a vocao eras tu, a investidura eras tu.




LII

O velho Padua.

Ja agora conto tambem os adeuses do velho Padua. Logo cedo veiu  nossa
casa. Minha me disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.

--D licena? perguntou mettendo a cabea pela porta.

Fui apertar-lhe a mo; elle abraou-me com ternura.

--Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha gente creia que ficam
muitas saudades. Todos ns estimamos muito o senhor, como merece. Se
lhe disserem outra cousa, no acredite. So intrigas. Tambem eu, quando
me casei, fui victima de intrigas; desfizeram-se. Deus  grande e
descobre a verdade. Se algum dia perder sua me e seu tio,--cousa que
eu, por esta luz que me allumia, no desejo, porque so boas pessoas,
excedentes pessoas, e eu sou grato s finezas recebidas... No, eu no
sou como outros, certos parasitas, vindos de fra para desunio das
familias, aduladores baixos, no; eu sou de outra especie; no vivo
papando os jantares nem morando em casa alheia... Emfim, so os mais
felizes!

--Porque falar assim? pensei. Naturalmente sabe que Jos Dias diz mal
delle.

--Mas, como ia dizendo, se algum dia perder os seus parentes, pde
contar com a nossa companhia. No  sufficiente em importancia, mas a
affeio  immensa, creia. Padre que seja, a nossa casa est s suas
ordens. Quero s que me no esquea; no esquea o velho Padua...

Suspirou e continuou:

--No esquea o seu velho Padua, e, se tem algum trapinho que me deixe
em lembrana, um caderno latino, qualquer cousa, um boto de collete,
cousa que j lhe no preste para nada. O valer  a lembrana.

Tive um sobresalto. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus
cabellos, to grandes e to bonitos, cortados na vespera. A inteno
era leval-os a Capit, ao sair; mas tive ideia de dal-o ao pae, a filha
saberia lomal-o e guardal-o. Peguei do embrulho e dei-lh'o.

--Aqui est, guarde.

--Um cachinho dos seus cabellos! exclamou Padua abrindo e fechando o
embrulho. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dai-o
 velha, para guardal-o, ou  pequena, que  mais cuidadosa que a me.
Que lindos que so! Como  que se corta uma belleza destas? D c um
abrao! outro! mais outro! adeus!

Tinha os olhos humidos devras; levava a cara dos desenganados, como
quem empregou em um s bilhete todas as suas economias de esperanas, e
v sair branco o maldito numero,--um numero to bonito!




LIII

A caminho!

Fui para o seminario. Poupa-me as outras despedidas. Minha me
apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava. Talvez chorasse mal ou
nada. Ha pessoas a quem as lagrimas no acodem logo nem nunca; diz-se
que padecem mais que as outras. Prima Justina disfarava naturalmente
os seus padecimentos intimos, emendando os descuidos de minha me,
fazendo-me recommendaes, dando ordens. Tio Cosme, quando eu lhe
beijei a mo em despedida, disse-me rindo:

--Anda l, rapaz, volta-me papa!

Jos Dias, composto e grave, no dizia nada a principio; tinhamos
falado na vespera, no quarto delle, onde fui ver se era ainda possivel
evitar o seminario. J no era, mas deu-me esperanas e principalmente
animou-me muito. Antes de um anno estariamos a bordo. Como eu achasse
muito breve, explicou-se.

--Dizem que no  bom tempo de atravessar o Atlantico, vou indagar; se
no fr, iremos em Maro ou Abril.

--Posso estudar medicina aqui mesmo.

Jos Dias correu os dedos pelos suspensorios com um gesto de
impaciencia, apertou os beios, at que formalmente rejeitou o alvitre.

--No duvidaria approvar a ideia, disse elle, se na Escola de Medicina
no ensinassem, exclusivamente, a podrido allopatha. A allopathia
 o erro dos seculos, e vae morrer;  o assassinato,  a mentira, 
a illuso. Se lhe disserem que pde apprender na Escola de Medicina
aquella parte da sciencia commum a todos os systemas,  verdade; a
allopathia  erro na therapeutica. Physiologia, anatomia, pathologia,
no so allopathicas nem homeopathicas, mas  melhor apprender logo
tudo de uma vez, por livros e por lingua de homens cultores da
verdade...

Assim falra na vespera e no quarto. Agora no dizia nada, ou proferia
algum aphorismo sobre a religio e a familia; lembro-me deste:
Dividil-o com Deus  ainda possuil-o. Quando minha me me deu o
ultimo beijo: Quadro amantissimo! suspirou elle. Era manh de um
lindo dia. Os moleques cochichavam; as escravas tomavam a beno:
Beno, nh Bentinho! no se esquea de sua Joanna! Sua Miquelina fica
rezando por vosmec! Na rua Jos Dias insistiu nas esperanas:

--Aguente um anno; at l tudo estar arranjado.




LIV

Panegyrico de Santa Monica.

No seminario... Ah! no vou contar o seminario, nem me bastaria a isso
um capitulo. No, senhor meu amigo; algum dia, sim,  possivel que
componha um abreviado do que alli vi e vivi, das pessoas que tratei,
dos costumes, de todo o resto. Esta sarna de escrever, quando pega aos
cincoenta annos, no despega mais. Na mocidade  possivel curar-se um
homem della; e, sem ir mais longe, aqui mesmo no seminario tive um
companheiro que compoz versos, a maneira dos de Junqueira Freire, cujo
livro de frade poeta era recente. Ordenou-se: annos depois encontrei-o
no cro de S. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos.

--Que versos? perguntou meio espantado.

--Os seus. Pois no se lembra que no seminario...

--Ah! sorriu elle.

Sorriu, e continuando a procurar n'um livro aberto a hora em que tinha
do cantar no dia seguinte, confessou-me que no fizera mais versos
depois de ordenado. Foram cocegas da mocidade; coou-se, passou, estava
bom. E falou-me em prosa de uma infinidade de cousas do dia, a vida
cara, um sermo do padre X... uma vigairaria mineira...

Contrario a isso foi um seminarista que no seguiu a carreira.
Chamava-se... No  preciso dizer o nome; baste o caso. Tinha composto
um _Panegyrico de Santa Monica_, elogiado por algumas pessoas e ento
lido entre os seminaristas. Alcanou licena de imprimil-o, o dedicou-o
a Santo Agostinho. Tudo isso  historia velha; o que  mais moo  que
um dia, em 1882, indo ver certo negocio em repartio de marinha, alli
dei com este meu collega, feito chefe de uma seco administrativa.
Deixra seminario, deixra lettras, casra e esquecera tudo, menos
o _Panegyrico de Santa Monica_, umas vinte e nove paginas, que veiu
distribuindo pela vida fra. Como eu precisasse de algumas informaes,
fui pedir-lh'as, e seria impossivel achar melhor nem mais prompta
vontade; deu-me tudo, claro, certo, copioso. Naturalmente conversamos
do passado, memorias pessoaes, casos de estudo, incidentes de nada,
um livro, um verbo, um mote, toda a velha palhada saiu c fra, e
rimos juntos, e suspiramos de companhia. Vivemos algum tempo do nosso
velho seminario. Ou porque eram delle, ou porque eramos ento moos,
as recordaes traziam tal poder de felicidade que, se alguma sombra
contraria houve ento, no appareceu agora. Elle confessou-me que
perdera de vista todos os companheiros do seminario.

--Tambem eu, quasi todos; uma vez ordenados, voltaram naturalmente s
suas provincias, e os daqui tomaram vigairarias fra.

--Bom tempo! suspirou elle.

E, aps alguma reflexo, fitando em mim uns olhos murchos e teimosos,
perguntou-me:

--Conservou o meu _Panegyrico?_

No achei que dizer; tentei mover os beios, mas no tinha palavra;
afinal, perguntei:

--Panegyrico? Que panegyrico?

--O meu _Panegyrico de Santa Monica._

No me lembrou logo, mas a explicao devia bastar; e depois de
alguns instantes de pesquiza mental, respondi que por muito tempo o
conservra, mas as mudanas, as viagens...

--Hei de levar-lhe um exemplar.

Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa, com o folheto, um
velho folheto de vinte e seis annos, encardido, manchado do tempo, mas
sem lacuna, e com uma dedicatoria manuscripta e respeitosa.

--E o penultimo exemplar, disse-me; agora s me resta um, que no posso
dar a ninguem.

E como me visse folhear o opusculo:

--Veja se lhe lembra algum pedao, disse-me.

Vinte e seis annos de intervallo fazem morrer amizades mais estreitas e
assiduas, mas era cortezia, era quasi caridade recordar alguma lauda;
li uma dellas, accentuando certas phrases para lhe dar a impresso de
que achavam echo em minha memoria. Concordou que fossem bellas, mas
preferia outras, e apontou-as.

--Recorda-se bem?

--Perfeitamente. _Panegyrico de Santa Monica!_ Como isto me faz
remontar os annos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminario,
creia. Os annos passam, os acontecimentos vm uns sobre outros, e as
sensaes tambem, e vieram amizades novas, que tambem se foram depois,
como  lei da vida... Pois, meu caro collega, nada fez apagar aquelle
tempo da nossa convivencia, os padres, as lices, os recreios... os
nossos recreios, lembra-se? o padre Lopes, oh! o padre Lopes...

Elle, com os olhos no ar, devia estar ouvindo, e naturalmente ouvia,
mas s me disse uma palavra, e ainda assim depois de algum tempo de
silencio, recolhendo os olhos e um suspiro!

--Tem agradado muito este meu _Panegyrico!_




LV

Um soneto.

Dita a palavra, apertou-me as mos com as foras todas de um vasto
agradecimento, despediu-se e saiu. Fiquei s com o _Panegyrico_, e
o que as folhas delle me lembraram foi tal que merece um capitulo
ou mais. Antes, porm, e porque tambem eu tive o meu _Panegyrico_,
contarei a historia de um soneto que nunca fiz; era no tempo do
seminario, e o primeiro verso  o que ides ler:

     Oh! flr do ceu! oh! flr candida e pura!

Como e porque me saiu este verso da cabea, no sei; saiu assim,
estando eu na cama, como uma exclamao solta, e, ao notar que tinha
a medida de verso, pensei em compor com elle alguma cousa, um soneto.
A insonmia, musa de olhos arregalados, no me deixou dormir uma longa
hora ou duas; as cocegas pediam-me unhas, e eu coava-me com alma.
No escolhi logo, logo o soneto; a principio cuidei de outra frma, e
tanto de rima como de verso solto, mas afinal ative-me ao soneto. Era
um poema breve e prestadio. Quanto  ideia, o primeiro verso no era
ainda uma ideia, era uma exclamao; a ideia viria depois. Assim na
cama, envolvido no lenol, tratei de poetar. Tinha o alvoroo da me
que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com
aquelle monge da Bahia, pouco antes revelado, e ento na moda; eu,
seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como elle dissera as
suas no claustro. Decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos
lenes; francamente, achava-o bonito, e ainda agora no me parece mu:

     Oh! flr do ceu! oh! flr candida e pura!

Quem era a flr? Capit, naturalmente; mas podia ser a virtude, a
poesia, a religio, qualquer outro conceito a que coubesse a metaphora
da flr, e flr do ceu. Aguardei o resto, recitando sempre o verso,
e deitado ora sobre o lado direito, ora sobre o esquerdo; atinai
deixei-me estar de costas, com os olhos no tecto, mas nem assim vinha
mais nada. Ento adverti que os sonetos mais gabados eram os que
concluiam com chave de ouro, isto , um desses versos capitaes no
sentido e na frma. Pensei em forjar uma de taes chaves, considerando
que o verso final, saindo chronologicamente dos treze anteriores, com
difficuldade traria a perfeio louvada; imaginei que taes chaves eram
fundidas antes da fechadura. Assim foi que me determinei a compr o
ultimo verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este:

     Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnifico.
Sonoro, no ha duvida. E tinha um pensamento, a victoria ganha  custa
da propria vida, pensamento alevantado e nobre. Que no fosse novidade,
 possivel, mas tambem no era vulgar; e ainda agora no explico por
que via mysteriosa entrou n'uma cabea de to poucos annos. Naquella
occasio achei-o sublime. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro;
depois repeti os dous versos seguidamente, e dispuz-me a ligal-os pelos
doze centraes. A ideia agora,  vista do ultimo verso, pareceu-me
melhor no ser Capit; seria a justia. Era mais proprio dizer que, na
pugna pela justia, perder-se-hia acaso a vida, mas a batalha ficava
ganha. Tambem me occorreu acceitar a batalha, no sentido natural, e
fazer della a lula pela patria, por exemplo; nesse caso a flor do ceu
seria a liberdade. Esta accepo, porm, sendo o poeta um seminarista,
podia no caber tanto como a primeira, e gastei alguns minutos em
escolher uma ou outra. Achei melhor a justia, mas afinal acceitei
definitivamente uma ideia nova, a caridade, e recitei os dous versos,
cada um a sou modo, um languidamente:

     Oh! flr do ceu! oh! flr candida e pura!

e o outro com grande brio:

     Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

A sensao que tive  que ia sair um soneto perfeito. Comear bem e
acabar bem no era pouco. Para me dar um banho de inspirao, evoquei
alguns sonetos celebres, e notei que os mais delles eram facilimos;
os versos saam uns dos outros, com a ideia em si, to naturalmente,
que se no acabava de crer se ella  que os fizera, se elles  que a
suscitavam. Ento tornava ao meu soneto, e novamente repetia o primeiro
verso e esperava o segundo; o segundo no vinha, nem terceiro, nem
quarto; no vinha nenhum. Tive alguns impetos de raiva, e mais de
uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel; pde ser que,
escrevendo, os versos acudissem, mas...

Canado de esperar, lembrou-me alterar o sentido do ultimo verso, com a
simples transposio do duas palavras, assim:

     Ganha-se a vida, perde-se a batalha!

O sentido vinha a ser justamente o contrario, mas talvez isso mesmo
trouxesse a inspirao. Neste caso, era uma ironia: no exercendo a
caridade, pde-se ganhar a vida, mas perde-se a batalha do ceu. Criei
foras novas o esperei. No tinha janella; se tivesse,  possivel que
fosse pedir uma ideia  noite. E quem sabe se os vagalumes, luzindo c
em baixo, no seriam para mim como rimas das estrellas, e esta viva
metaphora no me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e
sentidos proprios?

Trabalhei em vo, busquei, catei, esperei, no vieram os versos. Pelo
tempo adeante escrevi algumas paginas em prosa, e agora estou compondo
esta narrao, no achando maior difficuldade que escrever, bem ou
mal. Pois, senhores, nada me consola daquelle soneto que no fiz. Mas,
como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas,
e as demais obras de arte, por uma razo de ordem metaphysica, dou
esses dous versos ao primeiro desoccupado que os quizer. Ao domingo, ou
se estiver chovendo, ou na roa, em qualquer occasio de lazer, pde
tentar ver se o soneto sae. Tudo  dar-lhe uma ideia e encher o centro
que falta.




LVI

Um seminarista.

Tudo me ia repetindo o diabo do opusculo, com as suas lettras
velhas e citaes latinas. Vi sair daquellas folhas muitos perfis
de seminaristas, os irmos Albuquerques, por exemplo, um dos quaes
 conego na Bahia, emquanto o outro seguiu medicina e dizem haver
descoberto um especifico contra a febre amarella. Vi o Bastos, um
magricella, que est de vigario em Meia-Ponte, se no morreu j;
Luiz Borges, apesar de padre, fez-se politico, e acabou senador do
imperio... Quantas outras caras me fitavam das paginas frias do
_Panegyrico!_ No, no eram frias; traziam o calor da juventude
nascente, o calor do passado, o meu proprio calor. Queria lel-as outra
vez, e lograva entender algum texto, to recente como no primeiro
dia, ainda que mais breve. Era um encanto ir por elle; s vezes,
inconscientemente, dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade;
creio que era quando os olhos me caam na palavra do fim da pagina, e a
mo, acostumada a ajudal-os, faziam o seu officio...

Eis aqui outro seminarista. Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era
um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mos, como
os ps, como a fala, como tudo. Quem no estivesse acostumado com
elle podia acaso sentir-se mal, no sabendo por onde lhe pegasse. No
fitava de rosto, no falava claro nem seguido; as mos no apertavam
as outras, nem se deixavam apertar dellas, porque os dedos, sendo
delgados e curtos, quando a gente cuidava tel-os entre os seus, j
no tinha nada. O mesmo digo dos ps, que to depressa estavam aqui
como l. Esta difficuldade em pousar foi o maior obstaculo que achou
para tomar os costumes do seminario. O sorriso era instantaneo, mas
tambem ria folgado e largo. Uma cousa no seria to fugitiva, como o
resto, a reflexo; iamos dar com elle, muita vez, olhos enfiados em si,
cogitando. Respondia-nus sempre que meditava algum ponto espiritual, ou
ento que recordava a lico da vespera. Quando elle entrou na minha
intimidade pedia-me frequentemente explicaes e repeties miudas,
e tinha memoria para guardal-as todas, at as palavras. Talvez esta
faculdade prejudicasse alguma outra.

Era mais velho que eu trez annos, filho de um advogado de Corityba,
aparentado com um commerciante do Rio de Janeiro, que servia de
correspondente ao pae. Este era homem de fortes sentimentos
catholicos. Escobar tinha uma irm, que era um anjo, dizia elle.

--No  s na belleza que  um anjo, mas tambem na bondade. No imagina
que boa creatura que ella . Escreve-me muita vez, hei de mostrar-lhe
as cartas della.

De facto, eram simples e affectuosas, cheias de caricias e conselhos.
Escobar contava-me historias della, interessantes, todas as quaes
vinham a dar na bondade e no espirito daquella creatura; taes eram
que me fariam capaz de acabar casando com ella, se no fosse Capit.
Morreu pouco depois. Eu, seduzido pelas palavras delle, estive quasi
a contar-lhe logo, logo, a minha historia. A principio fui timido,
mas elle fez-se entrado na minha confiana. Aquelles modos fugitivos
cessavam quando elle queria, e o meio e o tempo os fizeram mais
pousados. Escobar veiu abrindo a alma toda, desde a porta da rua at
ao fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, e uma casa assim
disposta, no raro com janellas para todos os lados, muita luz e ar
puro. Tambem as ha fechadas e escuras, sem janellas, ou com poucas e
gradeadas,  semelhana de conventos o prises. Outrosim, capellas e
bazares, simples alpendres ou paos sumptuosos.

No sei o que era a minha. Eu no era ainda casmurro, nem dom casmurro;
o receio  que me tolhia a franqueza, mas como as portas no tinham
chaves nem fechaduras, bastava empurral-as, e Escobar empurrou-as e
entrou. C o achei dentro, c ficou, at que...




LVII

De preparao.

Ah! mas no eram s os seminaristas que me iam saindo daquellas folhas
velhas do _Panegyrico._ Ellas me trouxeram tambem sensaes passadas,
taes e tantas que eu no poderia dizel-as todas, sem tirar espao ao
resto. Uma dessas, e das primeiras, quizera contal'a aqui eu latim.
No  que a materia no ache termos honestos em nossa lingua, que 
casta para os castos, como pde ser torpe para os torpes. Sim, leitora
castissima, como diria o meu finado Jos Dias, podeis ler o capitulo
at ao fim, sem susto nem vexame.

J agora metto a historia em outro capitulo. Por mais composto que este
me saia, ha sempre no assumpto alguma cousa menos austera, que pede
umas linhas de repouso e preparao. Sirva este de preparao. E isto 
muito, leitor meu amigo; o corao, quando examina a possibilidade do
que ha de vir. as propores dos acontecimentos e a copia delles, fica
robusto e disposto, e o mal  menor mal. Tambem, se no fica ento, no
fica nunca. E aqui vers tal ou qual esperteza minha; porquanto, ao ler
o que vs ler,  provavel que o aches menos cru do que esperavas.




LVIII

O tratado.

Foi o caso que, uma segunda-feira, voltando eu para o seminario, vi
cair na rua uma senhora. O meu primeiro gesto, em tal caso, devia ser
de pena ou de riso; no foi uma nem outra cousa, porquanto (e  isto
que eu quizera dizer em latim) porquanto, a senhora tinha as meias mui
lavadas, e no as sujou, levava ligas de seda, e no as perdeu. Varias
pessoas acudiram, mas no tiveram tempo de a levantar; ella ergueu-se
muito vexada, sacudiu-se, agradeceu, e enfiou pela rua proxima.

--Este gosto de imitar as francezas da rua do Ouvidor, dizia-me Jos
Dias andando e commentando a queda,  evidentemente um erro. As nossas
moas devem andar como sempre andaram, com sou vagar e paciencia, e no
este tique-tique afrancezado...

Eu mal podia ouvil-o. As meias e as ligas da senhora branqueavam e
enroscavam-se deante de mim, e andavam, caam, erguiam-se e iam-se
embora. Quando chegmos  esquina, olhei para a outra rua, e vi, a
distancia, a nossa desastrada, que ia no mesmo passo, tique-tique,
tique-tique...

--Parece que no se machucou, disse eu.

--Tanto melhor para ella, mas  impossivel que no tenha arranhado os
joelhos; aquella presteza  manha...

Creio que foi manha que elle disse; eu fiquei nos joelhos
arranhados. Dalli em deante, at o seminario, no vi mulher na rua, a
quem no desejasse uma quda; a algumas adivinhei que trazia as meias
esticadas e as ligas, justas... Tal haveria que nem levasse meias...
Mas eu as via com ellas... Ou ento... Tambem  possivel...

Vou esgarando isto com reticencias, para dar uma ideia das minhas
ideias, que eram assim diffusas e confusas; com certeza no dou nada.
A cabea ia-me quente, e o andar no era seguro. No seminario, a
primeira hora foi insupportavel. As batinas traziam ar de saias, e
lembravam-me a quda da senhora. J no era uma s que eu via cair;
todas as que eu encontrara na rua, mostravam-me agora de relance as
ligas azues; eram azues. De noite, sonhei com ellas. Uma multido de
abominaveis creaturas veiu andar  roda de mim, tique-tique... Eram
bellas, umas finas, outras grossas, todas ageis como o diabo. Accordei,
busquei afugental-as com esconjuros e outros methodos, mas to depressa
dormi como tornaram, e, com as mos presas em volta de mim, faziam
um vasto circulo de saias, ou, trepadas no ar, choviam ps e pernas
sobre a minha cabea. Assim fui at madrugada. No dormi mais; rezei
padre-nossos, ave-marias, e credos, e sendo este livro a verdade pura,
 fora confessar que tive de interromper mais de uma vez as minhas
oraes para acompanhar no escuro uma figura ao longe, tique-tique,
tique-tique... Pegava depressa na orao, sempre no meio para
concertal-a bem, como se no tivesse havido interrupo, mas certamente
no unia a phrase nova  antiga.

Vindo o mal pela manha adeante, tentei vencel-o, mas por um modo que
o no perdesse de todo. Sabios da escriptura, adivinhai o que podia
ser. Foi isto. No podendo rejeitar de mim aquelles quadros, recorri a
um tratado entre a minha consciencia e a minha imaginao. As vises
feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnaes dos
vicios, e por isso mesmo contemplaveis, como o melhor modo de temperar
o caracter e aguerril-o para os combates asperos da vida. No formulei
isto por palavras, nem fui preciso; o contracto fez-se tacitamente, com
alguma repugnancia, mas fez-se. E por alguns dias, era eu mesmo que
evocava as vises para fortalecer-me, e no as rejeitava, seno quando
ellas mesmas, de canadas, se iam embora.




LIX

Convivas de boa memoria.

Ha dessas reminiscncias que no descanam antes que a penna ou a
lingua as publique. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa
memoria. A vida  cheia de taes convivas, e eu sou acaso um delles,
comquanto a prova de ter a memoria fraca seja exactamente no me acudir
agora o nome de tal antigo; mas era um antigo, e basta.

No, no, a minha memoria no  boa. Ao contrario,  comparavel a
alguem que tivesse vivido por hospedarias, sem guardar dellas nem caras
nem nomes, e smente raras circumstancias. A quem passe a vida na
mesma casa de familia, com os seus eternos moveis e costumes, pessoas
e affeies,  que se lhe grava tudo pela continuidade e repetio.
Como eu invejo os que no esqueceram a cr das primeiras calas que
vestiram! Eu no atino com a das que enfiei hontem. Juro s que no
eram amarellas porque execro essa cr; mas isso mesmo pde ser olvido
e confuso.

E antes seja olvido que confuso; explico-me. Nada se emenda bem nos
livros confusos, mas tudo se pde metter nos livros omissos. Eu, quando
leio algum desta outra casta, no me afflijo nunca. O que fao, em
chegando ao fim,  cerrar os olhos e evocar todas as cousas que no
achei nelle. Quantas ideias finas me acodem ento! Que de reflexes
profundas! Os rios, as montanhas, as egrejas que no vi nas folhas
lidas, todos me apparecem agora com as suas aguas, as suas arvores,
os seus altares, e os generaes sacam das espadas que tinham ficado
na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo
marcha com uma alma imprevista.

 que tudo se acha fra de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho
as lacunas alheias; assim pdes tambem preencher as minhas.




LX

Querido opusculo!

Assim fiz eu ao _Panegyrico de Santa Monica_, e fiz mais: puz-lhe no
s o que faltava da santa, mas ainda cousas que no eram della. Viste o
soneto, as meias, as ligas, o seminarista Escobar e vrios outros. Vs
agora ver o mais que naquelle dia me foi saindo das paginas amarellas
do opusculo.

Querido opusculo, tu no prestavas para nada, mas que mais presta um
velho par de chinellas? Entretanto, ha muita vez no casal de chinellas
um como aroma e calor de dous ps. Gastas e rotas, no deixam de
lembrar que uma pessoa as calava de manh, ao erguer da cama, ou as
descalava  noite, ao entrar nella. E se a comparao no vale, porque
as chinellas so ainda uma parte da pessoa e tiveram o contacto dos
ps, aqui esto outras lembranas, como a pedra da rua, a porta da
casa, um assobio particular, um prgo de quitanda, como aquelle das
cocadas que contei no cap. XVIII. Justamente, quando contei o prgo
das cocadas, fiquei to curtido de saudades que me lembrou fazel-o
escrever por um amigo, mestre de musica, e grudal-o s pernas do
capitulo. Se depois jarretei o capitulo, foi porque outro musico, a
quem o mostrei, me confessou ingenuamente no achar no trecho escripto
nada que lhe accordasse saudades. Para que no acontea o mesmo aos
outros profissionaes que por ventura me lerem, melhor  poupar ao
editor do livro o trabalho e a despeza da gravura. Vs que no puz
nada, nem ponho. J agora creio que no basta que os preges de rua,
como os opusculos de seminario, encerrem casos, pessoas e sensaes; 
preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo, sem o que
tudo  calado e incolor.

Mas, vamos ao mais que me foi saindo das paginas amarellas.




LXI

A vacca de Homero.

O mais foi muito. Vi sairem os primeiros dias da separao, duros e
opacos, sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e
os seminaristas, e as de minha me e tio Cosme, trazidas por Jos Dias
ao seminario.

--Todos esto saudosos, disse-me este, mas a maior saudade est
naturalmente no maior dos coraes; e qual  elle? perguntou escrevendo
a resposta nos olhos.

--Mame, acudi eu.

Jos Dias apertou-me as mos com alvoroo, e logo pintou a tristeza de
minha me, que falava de mim todos os dias, quasi a todas as horas.
Como a approvasse sempre, e accrescentasse alguma palavra relativamente
aos dotes que Deus me dera, o desvanecimento de minha me nessas
occasies era indescriptivel; e contava-me tudo isso cheio de uma
admirao lacrimosa. Tio Cosme tambem se enternecia muito.

--Hontem at se deu um caso interessante. Tendo eu dito 
Excellentissima que Deus lhe dera, no um filho, mas um anjo do ceu, o
doutor ficou to commovido que no achou outro modo de vencer o choro
seno fazendo-me um daquelles elogios de galhofa que s elle sabe. No
 preciso dizer que D. Gloria enxugou furtivamente uma lagrima. Ou ella
no fosse me! Que corao amantissimo!

--Mas, Sr. Jos Dias, e a minha saida daqui?

--Isso  negocio meu. A viagem  Europa  o que  preciso, mas pde
fazer-se daqui a um ou dous annos, em 1859 ou 1860...

--To tarde!

--Era melhor que fosse este mesmo anno, mas demos tempo ao tempo. Tenha
paciencia, v estudando, no se perde nada em ir sabendo j daqui
alguma cousa; e, demais, ainda no acabando padre, a vida do seminario
 util, e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos oleos da
theologia...

Neste ponto,--lembra-me como se fosse hoje,--os olhos de Jos
Dias fulguraram to intensamente que me encheram de espanto. As
palpebras cairam depois, e assim ficaram por alguns instantes, at
que novamente se ergueram, e os olhos fixaram-se na parede do palco,
como que embebidos em alguma cousa, se no era em si mesmos; depois
despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pateo todo. Podia
comparal-o aqui  vacca de Homero; andava e gemia em volta da cria
que acabava de parir. No lhe perguntei o que  que tinha, j por
acanhamento, j porque dous lentes, um delles de theologia, vinham
caminhando na nossa direco. Ao passarem por ns, o aggregado, que os
conhecia, cortejou-os com as deferencias devidas, e pediu-lhes noticias
minhas.

--Por ora nada se pde affianar, disse um delles. mas parece que dar
conta da mo.

-- o que eu lhe dizia agora mesmo, acudiu Jos Dias. Conto ouvir-lhe
a missa nova; mas ainda que no chegue a ordenar-se, no pde ter
melhores estudos que os que fizer aqui. Para a viagem da existencia,
concluiu demorando mais as palavras, ir ungido com os santos oleos da
theologia...

Desta vez a fulgurao dos olhos foi menor, as palpebras no lhe cairam
nem as pupillas fizeram os movimentos anteriores. Ao contrario, todo
elle era atteno e interrogao; quando muito, um sorriso claro e
amigo lhe errava nos labios. O lente de theologia gostou da metaphora,
e disse-lh'o; elle agradeceu, explicando que eram ideias que lhe
escapavam no correr da conversao; no escrevia nem orava. Eu  que
no gostei nada; e logo que os lentes se foram, sacudi a cabea:

--No quero saber dos santos oleos da theologia; desejo sair daqui o
mais cedo que puder, ou j...

--J, meu anjo, no pde ser; mas pde succeder que muito antes do que
imaginamos. Quem sabe se este mesmo anno de 58? Tenho um plano feito,
e penso j nas palavras com que hei de expl-o a D. Gloria; estou certo
que ella ceder e ir comnosco.

--Duvido que mame embarque.

--Veremos. Me  capaz de tudo; mas, com ella ou sem ella, tenho por
certa a nossa ida, e no haver esforo que eu no empregue, deixe
estar. Paciencia  que  preciso. E no faa aqui nada que d logar a
censuras ou queixas; muita docilidade e toda a apparente satisfao.
No ouviu o elogio do lente? E que voc tem-se portado bem. Pois
continue.

--Mas, 1859 ou 1860  muito tarde.

--Ser este anno, replicou Jos Dias.

--Daqui a tres mezes?

--Ou seis.

--No; tres mezes.

--Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor que outro
qualquer.  combinar a ausencia de vocao ecclesiastica e a
necessidade de mudar de ares. Voc porque no tosse?

--Por que no tusso?

--J, j, no, mas eu hei de avisar voc para tossir, quando fr
preciso, aos poucos, uma tossesinha secca, e algum fastio; eu irei
preparando a Excellentissima... Oh! tudo isto  em beneficio della.
Uma vez que o filho no pde servir a egreja, como deve ser servida, o
melhor modo de cumprir a vontade de Deus  dedical-o a outra cousa. O
mundo tambem  egreja para os bons...

Pareceu-me outra vez a vacca de Homero, como se este mundo tambem 
egreja para os bons, fosse outro bezerro, irmo dos santos oleos da
theologia. Mas no dei tempo  ternura materna, e repliquei:

--Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, no ?

Jos Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:

--Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, eu ha mezes que
desconfio do seu peito. Voc no anda bom do peito. Em pequeno,
teve umas febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas ha dias em que
est mais descorado. No digo que j seja o mal, mas o mal pde vir
depressa. N'uma hora cae a casa. Por isso, se aquella santa senhora no
quizer ir comnosco,--ou para que v mais depressa, acho que uma boa
tosse... Se a tosse ha de vir de verdade, melhor  apressal-a... Deixe
estar, eu aviso...

--Bem, mas em saindo daqui no ha de ser para embarcar logo; saio
primeiro, depois cuidaremos do embarque; o embarque  que pde ficar
para o anno. No dizem que o melhor tempo  abril ou maio? Pois seja
maio. Primeiro deixo o seminario, daqui a dous mezes...

E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta, dei uma volta
rapida, e perguntei-lhe  queima-roupa:

--Capit como vae?




LXII

Uma ponta de Iago.

A pergunta era imprudente, na occasio em que eu cuidava de transferir
o embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou unico
da minha repulsa ao seminario era Capit, e lazer crer improvavel a
viagem. Comprehendi isto depois que falei; quiz emendar-me, mas nem
soube como, nem elle me deu tempo.

--Tem andado alegre, como sempre;  uma tontinha. Aquillo emquanto no
pegar algum peralta da visinhana, que case com ella...

Estou que empallideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo
todo. A noticia de que ella vivia alegre, quando eu chorava todas
as noites, produziu-me aquelle effeito, acompanhado de um bater de
corao, to violento, que ainda agora cuido ouvil-o. Ha alguma
exagerao nisto; mas o discurso humano  assim mesmo, um composto de
partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se.
Por outro lado, se entendermos que a audiencia aqui no  das orelhas,
seno da memoria, chegaremos  exacta verdade. A minha memoria ouve
ainda agora as pancadas do corao naquelle instante. No esqueas
que era a emoo do primeiro amor. Estive quasi a perguntar a Jos
Dias que me explicasse a alegria de Capit, o que  que ella fazia, se
vivia rindo, cantando ou pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra
ideia...

Outra ideia, no,--um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciume,
leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir
commigo as palavras de Jos Dias:  Algum peralta da visinhana. Em
verdade, nunca pensara em tal desastre. Vivia to nella, della e para
ella, que a interveno de um peralta era como uma noo sem realidade;
nunca me acudiu que havia peraltas na visinhana, vria idade e feitio,
grandes passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam
para Capit,--e to senhor me sentia della que era como se olhassem
para mim, um simples dever de admirao e de inveja. Separados um do
outro pelo espao e pelo destino, o mal apparecia-me agora, no s
possivel, mas certo. E a alegria de Capit confirmava a suspeita; se
ella vivia alegre  que j namorava a outro, acompanhal-o-hia com os
olhos na rua, falar-lhe-hia  janella, s ave-marias, trocariam flores
e...

E... que? Sabes o que  que trocariam mais; se o no achas por ti
mesmo, escusado  ler o resto do capitulo e do livro, no achars mais
nada, ainda que eu o diga com todas as lettras da etymologia. Mas se o
achaste, comprehenders que eu, depois de estremecer, tivesse um impeto
de atirar-me pelo porto fora, descer o resto da ladeira, correr,
chegar a casa do Padua, agarrar Capit e intimar-lhe que me confessasse
quantos, quantos, quantos j lhe dera o peralta da visinhana. No
fiz nada. Os mesmos sonhos que ora conto no tiveram, naquelles tres
ou quatro minutos, esta logica de movimentos e pensamentos. Eram
soltos, emendados e mal emendados, com o desenho truncado e torto,
uma confuso, um turbilho, que me cegava e ensurdecia. Quando tornei
a mim, Jos Dias conclua uma phrase, cujo principio no ouvi, e
o mesmo fim era vago: A conta que dar de si. Que conta e quem?
Cuidei naturalmente que falava ainda de Capit, e quiz perguntar-lh'o,
mas a vontade morreu ao nascer, como tantas outras geraes dellas.
Limitei-me a inquirir do aggregado quando  que iria a casa ver minha
me.

--Estou com saudades de mame. Posso ir j esta semana?

--Vae sabbado.

--Sabbado? Ah! sim! sim! Pea a mame que me mande buscar sabbado!
Sabbado! Este sabbado, no? Que me mande buscar, sem falta.




LXIII

Metades de um sonho.

Fiquei ancioso pelo sabbado. At l os sonhos perseguiam-me, ainda
accordado, e no os digo aqui para no alongar esta parte do livro. Um
s ponho, e no menor numero de palavras, ou antes porei dous, porque
um nasceu de outro, a no ser que ambos formem duas metades de um s.
Tudo isto  obscuro, dona leitora, mas a culpa  do vosso sexo, que
perturbava assim a adolescencia de um pobre seminarista. No fosse
elle, e este livro seria talvez uma simples pratica parochial, se eu
fosse padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma encyclica, se papa, como
me recommendra tio Cosme: Anda l, meu rapaz, volta-me papa! Ah!
porque no cumpri esse desejo? Depois de Napoleo, tenente e imperador,
todos os destinos esto neste seculo.

Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar os peraltas da
visinhana, vi um destes que conversava com a minha amiga ao p da
janella. Corri ao logar, elle fugiu; avancei para Capit, mas no
estava s, tinha o pae ao p de si, enxugando os olhos e mirando um
triste bilhete de loteria. No me parecendo isto claro, ia pedir a
explicao, quando elle de si mesmo a deu; o peralta fra levar-lhe a
lista dos premios da loteria, e o bilhete saira branco. Tinha o numero
4004. Disse-me que esta symetria de algarismos era mysteriosa e bella,
e provavelmente a roda andra mal; era impossivel que no devesse ter
a sorte grande. Emquanto elle falava, Capit dava-me com os olhos
todas as sortes grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com
a bocca. E aqui entra a segunda parte do sonho. Padua desappareceu,
como as suas esperanas do bilhete. Capit inclinou-se para fra,
eu relancei do olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe nas mos,
resmunguei no sei que palavras, e accordei ssinho no dormitorio.

O interesse do que acabas de ler no est na materia do sonho, mas nos
esforos que fiz para ver se dormia novamente e pegava nelle outra vez.
Nunca dos nuncas poders saber a energia e obstinao que empreguei em
fechar os olhos, apertal-os bem, esquecer tudo para dormir, mas no
dormia. Esse mesmo trabalho fez-me perder o somno at  madrugada.
Sobre a madrugada, consegui concilial-o, mas ento nem peraltas, nem
bilhetes de loteria, nem sortes grandes ou pequenas,--nada dos nadas
veiu ter commigo. No sonhei mais aquella noite, e dei mal as lices
daquelle dia.




LXIV

Uma ideia e um escrupulo.

Relendo o capitulo passado, acde-me uma ideia e um escrupulo. O
escrupulo  justamente de escrever a ideia, no a havendo mais
banal na terra, posto que daquella banalidade do sol e da lua, que
o ceu nos d todos os dias e todos os mezes. Deixei o manuscripto,
e olhei para as paredes. Sabes que esta casa do Engenho Novo, nas
dimenses, disposies e pinturas,  reproduco da minha antiga casa
de Matacavallos. Outrosim, como te disse no capitulo II, o meu fim
em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida, o que alis no
alcancei. Pois o mesmo succedeu quelle sonho do seminario, por mais
que tentasse dormir e dormisse. Donde concluo que um dos officios do
homem  fechar e apertar muito os olhos, a ver se continua pela noite
velha o sonho truncado da noite moa. Tal  a ideia banal e nova que
eu no quizera pr aqui, e s provisoriamente a escrevo.

Antes de concluir este capitulo, fui  janella indagar da noite por que
razo os sonhos ho de ser assim to tenues que se esgaram ao menor
abrir de olhos ou voltar de corpo, e no continuam mais. A noite no
me respondeu logo. Estava deliciosamente bella, os morros pallejavam
de luar e o espao morria de silencio. Como eu insistisse, declarou-me
que os sonhos j no pertencem  sua jurisdico. Quando elles moravam
na ilha que Luciano lhes deu, onde ella tinha o seu palacio, e donde os
fazia sair com as suas caras de varia feio, dar-me-hia explicaes
possiveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram
aposentados, e os modernos moram no cerebro da pessoa. Estes, ainda que
quizessem imitar os outros, no poderiam fazel-o; a ilha dos sonhos,
como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, so agora
objecto da ambio e da rivalidade da Europa e dos Estados-Unidos.

Era uma alluso s Fillipinas. Pois que no amo a politica, e ainda
menos a politica internacional, fechei a janella e vim acabar este
capitulo para ir dormir. No peo agora os sonhos de Luciano, nem
outros, filhos da memoria ou da digesto; basta-me um somno quieto e
apagado. De manh, com a fresca, irei dizendo o mais da minha historia
e suas pessoas.




LXV

A dissimulao.

Chegou o sabbado, chegaram outros sabbados, e eu acabei affeioando-me
 vida nova. Ia alternando a casa e o seminario. Os padres gostavam de
mim, os rapazes tambem, e Escobar mais que os rapazes e os padres. No
fim de cinco semanas estive quasi a contar a este as minhas penas e
esperanas; Capit refreou-me.

--Escobar  muito meu amigo, Capit!

--Mas no  meu amigo.

--Pde vir a ser; elle j me disse que ha de vir c para conhecer mame.

--No importa; voc no tem direito de contar um segredo que no  s
seu, mas tambem meu, e eu no lhe dou licena de dizer nada a pessoa
nenhuma.

Era justo, calei-me e obedeci. Outra cousa em que obedeci s suas
reflexes foi, logo no primeiro sabbado, quando eu fui  casa della,
e, aps alguns minutos de conversa, me aconselhou a ir embora.

--Hoje no fique aqui mais tempo; v para casa, que eu l vou logo. 
natural que D. Gloria queira estar com voc muito tempo, ou todo, se
puder.

Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia
deixar de citar um terceiro exemplo, mas os exemplos no se fizeram
seno para ser citados, e este  to bom que a omisso seria um crime.
Foi  minha terceira ou quarta vinda  casa. Minha me depois que lhe
respondi s mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam,
os estudos, as relaes, a disciplina, e se me doia alguma cousa, e
se dormia bem, tudo o que a ternura das mes inventa para canar a
paciencia de um filho, concluiu voltando-se para Jos Dias:

--Sr. Jos Dias, ainda duvida que saia daqui um bom padre?

--Excellentissima...

--E voc, Capit, interrompeu minha me voltando-se para a filha do
Padua que estava na sala, com ella,--voc no acha que o nosso Bentinho
dar um bom padre?

--Acho que sim, senhora, respondeu Capit cheia de convico.

No gostei da convico. Assim lh'o disse, na manh seguinte, na
quintal della, recordando as palavras da vespera, e lanando-lho em
rosto, pela primeira vez, a alegria que ella mostrra desde a minha
entrada no seminario, quando eu vivia curtido de saudades. Capit
fez-se muito sria, e perguntou-me como  que queria que se portasse,
uma vez que suspeitavam de ns; tambem tivera noites desconsoladas, e
os dias, em casa della, foram to tristes como os meus; podia indagal-o
do pae e da me. A me chegou a dizer-lhe, por palavras encobertas, que
no pensasse mais em mim.

--Com D. Gloria e D. Justina mostro-me naturalmente alegre, para que
no parea que a denuncia de Jos Dias  verdadeira. Se parecesse,
ellas tratariam de separar-nos mais, e talvez acabassem no me
recebendo... Para mim, basta o nosso juramento de que nos havemos de
casar um com outro.

Era isto mesmo; deviamos dissimular para matar qualquer suspeita, e ao
mesmo tempo gosar toda a liberdade anterior, e construir tranquillos o
nosso futuro. Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte,
ao almoo; minha me, dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que
mo havia en de abenoar o povo  missa, contou que, dias antes,
estando a falar de moas que se casam cedo, Capit lhe dissera: Pois a
mim quem me ha de casar ha de ser o padre Bentinho; eu espero que elle
se ordene! Tio Cosmo riu da graa, Jos Dias no dessorriu, s prima
Justina  que franziu a testa, e olhou para mim interrogativamente. Eu,
que havia olhado para todos, no pude resistir ao gesto da prima, e
tratei de comer. Mas comi mal; estava to contente com aquella grande
dissimulao de Capit que no vi mais nada, e, logo que almocei, corri
a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astucia. Capit sorriu de
agradecida.

--Voc tem razo, Capit, conclu eu; vamos enganar toda esta gente.

--No ? disse ella com ingenuidade.




LXVI

Intimidade.

Capit ia agora entrando na alma de minha me. Viviam o mais do tempo
juntas, falando de mim, a proposito do sol e da chuva, ou de nada;
Capit ia l coser, s manhs; alguma vez ficava para jantar.

Prima Justina no acompanhava a parenta naquellas finezas, mas no
tratava de todo mal a minha amiga. Era assaz sincera para dizer o mal
que sentia de alguem, e no sentia bem de pessoa alguma. Talvez do
marido, mas o marido era morto; em todo caso, no existira homem capaz
de competir com elle na affeio, no trabalho e na honestidade, nas
maneiras e na agudeza de espirito. Esta opinio, segundo tio Cosme,
era posthuma, pois em vida andavam s brigas, e os ultimos seis mezes
acabaram separados. Tanto melhor para a justia della; o louvor dos
mortos  um modo de orar por elles. Tambem gostaria de minha me, ou
se algum mal pensou della foi entre si e o travesseiro. Comprehende-se
que, de apparencia, lhe dsse a estima devida. No penso que ella
aspirasse a algum legado; as pessoas assim dispostas excedem os
servios naturaes, fazem-se mais risonhas, mais assiduas, multiplicam
os cuidados, precedem os famulos. Tudo isso era contrario  natureza
de prima Justina, feita de azedume e de implicancia. Como vivesse de
favor na casa, explica-se que no desestimasse a dona e calasse os seus
resentimentos, ou s dissesse mal della a Deus e ao diabo.

Caso tivesse resentimentos de minha me, no era uma razo mais para
detestar Capit, nem ella precisava de razes supplementares. Comtudo,
a intimidade de Capit fel-o mais aborrecivel  minha parenta. Se a
principio no a tratava mal, com o tempo trocou de maneiras e acabou
fugindo-lhe. Capit, attenta, desde que a no via, indagava della e
ia procural-a. Prima Justina tolerava esses cuidados. A vida  cheia
de obrigaes que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de os
infringir deslavadamente. Demais, Capit usava certa magia que captiva;
prima Justina acabava sorrindo, ainda que azedo, mas a ss com minha
me achava alguma palavra ruim que dizer da menina.

Como minha me adoecesse de uma febre, que a pz s portas da morte,
quiz que Capit lhe servisse de enfermeira. Prima Justina, posto que
isto a aliviasse de cuidados penosos, no perdoou  minha amiga a
interveno. Um dia, perguntou-lhe se no tinha que fazer em casa;
outro dia, rindo, soltou-lhe este epigramma: No precisa correr tanto;
o que tiver de ser seu s mos lhe ha de ir.




LXVII

Um peccado.

J agora no tiro a doente da cama sem contar o que se deu commigo. Ao
cabo de cinco dias, minha me amanheceu to transtornada que ordenou me
mandassem buscar ao seminario. Em vo tio Cosme:

--Mana Gloria, voc assusta-se sem motivo, a febre passa...

--No! no! mandem buscal-o! Posso morrer, e a minha alma no se salva,
se Bentinho no estiver ao p de mim.

--Vamos assustal-o,

--Pois no lhe digam nada, mas vo buscal-o, j, j, no se demorem.

Cuidaram fosse delirio; mas, no custando nada trazer-me, Jos Dias
foi incumbido do recado. Entrou to atordoado que me assustou. Contou
particularmente ao reitor o que havia, e recebi licena para ir a casa.
Na rua, iamos calados, elle no alterando o passo do costume,--a
premissa antes da consequencia, a consequencia antes do concluso,--mas
cabisbaixo e suspirando, eu temendo ler no rosto delle alguma noticia
dura e definitiva. S me falra na doena, como negocio simples; mas
o chamado, o silencio, os suspiros podiam dizer alguma cousa mais. O
corao batia-me com fora, as pernas bambeavam-me, mais de uma vez
cuidei cair...

O anceio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a
saber. Era a primeira vez que a morte me apparecia assim perto, me
envolvia, me encarava com os olhos furados e escuros. Quanto mais
andava aquella rua dos Barbonos, mais me aterrava a ideia de chegar a
casa, de entrar, de ouvir os prantos, de ver um corpo defuncto... Oh!
eu no poderia nunca expr aqui tudo o que senti naquelles terriveis
minutos. A rua, por mais que Jos Dias andasse superlativamente
devagar, parecia fugir-me debaixo dos ps, as casas voavam de um e
outro lado, e uma corneta que nessa occasio tocava no quartel dos
Municipaes Permanentes resoava aos meus ouvidos como a trombeta do
juizo final.

Fui, cheguei aos Arcos, entrei na rua de Matacavallos. A casa no era
logo alli, mas muito alm da dos Invalidos, perto da do Senado. Trez ou
quatro vezes, quizera interrogar o meu companheiro, sem ousar abrir a
bocca; mas agora, j nem tinha tal desejo. Ia s andando, acceitando o
peor, como um gesto do destino, como uma necessidade da obra humana,
e foi ento que a Esperana, para combater o Terror, me segredou ao
corao, no estas palavras, pois nada articulou parecido com palavras,
mas uma ideia que poderia ser traduzida por ellas: Mame defuncta,
acaba o seminario.

Leitor, foi um relampago. To depressa alumiou a noite, como se esvaiu,
e a escurido fez-se mais cerrada, pelo effeito do remorso que me
ficou. Foi uma suggesto da luxuria e do egoismo. A piedade filial
desmaiou um instante, com a perspectiva da liberdade certa, pelo
desapparecimento da divida e do devedor; foi um instante, menos que um
instante, o centesimo de um instante, ainda assim o sufficiente para
complicar a minha afflico com um remorso.

Jos Dias suspirava. Uma vez olhou para mim to cheio de pena que me
pareceu haver-me adivinhado, e eu quiz pedir-lhe que no dissesse nada
a ninguem, que eu ia castigar-me, etc. Mas a pena trazia tanto amor,
que no podia ser pezar do meu peccado; mas ento era sempre a morte de
minha me... Senti uma angustia grande, um n na garganta, e no pude
mais, chorei de uma vez.

--Que , Bentinho?

--Mame...?

--No! no! Que ideia  essa? O estado della  gravissimo, mas no 
mal de morte, e Deus pde tudo. Enxugue os olhos, que  feio um mocinho
da sua edade andar chorando na rua. No ha de ser nada, uma febre... As
febres, assim como do com fora assim tambem se vo embora... Com os
dedos, no; onde est o leno?

Enxuguei os olhos, posto que de todas as palavras de Jos Dias uma s
me ficasse no corao; foi aquelle _gravissimo._ Vi depois que elle s
queria dizer _grave_, mas o uso do superlativo faz a bocca longa, e,
por amor do periodo, Jos Dias fez crescer a minha tristeza. Se achares
neste livro algum caso da mesma familia, avisa-me, leitor, para que o
emende na segunda edio; nada ha mais feio que dar pernas longuissimas
a ideias brevissimas. Enxuguei os olhos, repito, e fui andando, ancioso
agora por chegar a casa, e pedir perdo a minha me do ruim pensamento
que tive. Emfim, chegmos, entramos, subi tremulo os seis degraus da
escada, e d'ahi a pouco, debruado sobre a cama, ouvia as palavras
ternas de minha me que me apertava muito as mos, chamando-me seu
filho. Estava queimando, os olhos ardiam nos meus, toda ella parecia
consumida por um volco interno. Ajoelhei-me ao p do leito, mas como
este era alto, fiquei longe das suas caricias:

--No, meu filho, levanta, levanta!

Capit, que estava na alcova, gostou de ver a minha entrada, os
meus gestos, palavras e lagrimas, segundo me disse depois; mas no
suspeitou naturalmente todas as causas da minha afflico. Entrando no
meu quarto, pensei em dizer tudo a minha me, logo que ella ficasse
boa, mas esta ideia no me mordia, era uma velleidade pura, uma aco
que eu no faria nunca, por mais que o peccado me doesse. Ento,
levado do remorso, usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas
espirituaes, e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de
minha me, e eu lhe rezaria dous mil padre-nossos. Padre que me ls,
perdoa este recurso; foi a ultima vez que o empreguei. A crise em
que me achava, no menos que o costume e a f, explica tudo. Eram
mais dous mil; onde iam os antigos? No paguei uns nem outros, mas
saindo de almas candidas e verdadeiras taes promessas so como a moeda
fiduciaria,--ainda que o devedor as no pague, valem a somma que dizem.




LXVIII

Adiemos a virtude.

Poucos teriam animo de confessar aquelle meu pensamento da rua de
Matacavallos. Eu confessarei tudo o que importar  minha historia.
Montaigne escreveu de si: _ce ne sont pas mes gestes que j'ecris; c'est
moi, c'est mon essence._ Ora, ha s um modo de escrever a propria
essencia,  contal-a toda, o bem e o mal. Tal fao eu,  medida que me
vae lembrando o convindo  construo ou reconstruco de mim mesmo.
Por exemplo, agora que contei um peccado, diria com muito gosto alguma
bella aco contemporanea, se me lembrasse, mas no me lembra; fica
transferida a melhor opportunidade.

Nem perders em esperar, meu amigo; ao contrario, acde-me agora que...
No s as bellas aces so bellas em qualquer occasio, como so
tambem possiveis e provaveis, pela theoria que tenho dos peccados e
das virtudes, no menos simples que clara. Reduz-se a isto que cada
pessoa nasce com certo numero delles e dellas, alliados por matrimonio
para se compensarem na vida. Quando um de taes conjuges  mais forte
que o outro, elle s guia o individuo, sem que este, por no haver
praticado tal virtude ou commettido tal peccado, se possa dizer isento
de um ou de outro; mas a regra  dar-se a pratica simultanea dos dous,
com vantagem do portador de ambos, e alguma vez com resplendor maior da
terra e do ceu.  pena que eu no possa fundamentar isto com um ou mais
casos extranhos; falta-me tempo.

Pelo que me toca,  certo que nasci com alguns daquelles casaes, e
naturalmente ainda os possuo. J me succedeu, aqui no Engenho Novo, por
estar uma noite com muita dr de cabea, desejar que o trem da Central
estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas
horas, ainda que morresse alguem; e no dia seguinte perdi o trem da
mesma estrada, por ter ido dar a minha bengala a um cego que no trazia
bordo. _Voil mes gestes, voil mon essence._




LXIX

A missa.

Um dos gestos que melhor exprimem a minha essencia foi a devoo
com que corri no domingo proximo a ouvir missa em S. Antonio dos
Pobres. O aggregado quiz ir commigo, e principiou a vestir-se, mas
era to lento nos suspensorios e nas presilhas, que no pude esperar
por elle. Demais, eu queria estar s. Sentia necessidade de evitar
qualquer conversao que me desviasse o pensamento do fim a que ia,
e era reconciliar-me com Deus, depois do que se passou no capitulo
LXVII. Nem era s pedir-lhe perdo do peccado, era tambem agradecer
o restabelecimento de minha me, e, visto que digo tudo, fazel-o
renunciar ao pagamento da minha promessa. Jehovah, posto que divino,
ou por isso mesmo,  um Rothschild muito mais humano, e no faz
moratorias, perdoa as dividas integralmente, uma vez que o devedor
queira devras emendar a vida e cortar nas despezas. Ora, eu no
queria outra cousa; dalli em deante no faria mais promessas que no
pudesse pagar, e pagaria logo as que fizesse.

Ouvi missa; ao levantar a Deus, agradeci a vida e saude de minha me;
depois pedi perdo do peccado e relevao da divida, e recebi a beno
final do officiante como um acto solemne de reconciliao. No fim,
lembrou-me que a egreja estabeleceu no confessionario um cartorio
seguro, e na confisso o mais authentico dos instrumentos para o ajuste
de contas moraes entre o homem e Deus. Mas a minha incorrigivel timidez
me fechou essa porta certa; receiei no achar palavras com que dizer ao
confessor o meu segredo. Como o homem muda! Hoje chego a publical-o.




LXX

Depois da missa.

Rezei ainda, persignei-me, fechei o livro de missa e caminhei para a
porta. A gente mo era muita, mas a egreja tambem no  grande, e no
pude sair logo, logo, mas devagar. Havia homens e mulheres, velhos e
moos, sedas e chitas, e provavelmente olhos feios e bellos, mas eu
no vi uns nem outros. Ia na direco da porta, com a onda, ouvindo
as saudaes e os cochichos. No adro, onde se fez claro, parei e
olhei para todos. Vi ento uma moa e um homem, que saam da egreja e
pararam; e a moa olhava para mim falando ao homem, e o homem olhava
para mim, ouvindo a moa. E chegaram-me estas palavras:

--Mas que queres?

--Queria saber della; papae pergunte.

Era sinhsinha Sancha, a companheira de collegio de Capit, que
queria noticias de minha me. O pae veiu a mim; disse-lhe que estava
restabelecida. Depois saimos, mostrou-me a casa delle, e, como eu vinha
na mesma direco, viemos juntos. Gurgel era homem de quarenta annos ou
pouco mais, com propenso a engrossar o ventre; era muito obsequioso;
chegando  porta da casa, quiz por fora que eu fosse almoar com elle.

--Obrigado; mame espera-me.

--Manda-se l um preto dizer que o senhor fica almoando, e ir mais
tarde.

--Venho outro dia.

Sinhsinha Sancha, voltada para o pae, ouvia e esperava. No era feia;
s se lhe podia notar a semelhana do nariz, que tambem acabava grosso,
mas ha feies que tiram a graa de uns para dal-a a outros. Vestia
simples. Gurgel era viuvo e morria pela filha. Como eu recusasse o
almoo, quiz que descanasse alguns minutos. No pude recusar e subi.
Quis saber a minha edade, os meus estudos, a minha f, e dava-me
conselhos para o caso de vir a ser padre; disse-me o numero do armazem,
rua da Quitanda. Emfim, despedi-me, veiu ao patamar da escada; a filha
deu-me rocommendaes para Capit e para minha me. Da rua olhei para
cima; o pae estava  janella e fez-me um gosto largo de despedida.




LXXI

Visita de Escobar.

Em casa, tinham j mentido dizendo a minha me que eu voltra e estava
mudando de roupa.

A missa das oito j ha de ter acabado... Bentinho devia estar de
volta... Teria acontecido alguma cousa, mano Cosme?... Mandem ver...
Assim falava ella, de minuto a minuto, mas eu entrei e commigo a
tranquillidade.

Era o dia das boas sensaes. Escobar foi visitar-me e saber da saude
de minha me. Nunca me visitra at alli, nem as nossas relaes
estavam j to estreitas, como vieram a ser depois; mas sabendo a razo
da minha saida, tres dias antes, aproveitou o domingo para ir ter
commigo e perguntar se continuava o perigo ou no. Quando lhe disse que
no, respirou.

--Tive receio, disse elle.

--Os outros souberam?

--Parece que sim: alguns souberam.

Tio Cosme e Jos Dias gostaram do moo; o aggregado disse-lhe que vira
uma vez o pae no Rio de Janeiro. Escobar era muito polido; e, comquanto
falasse mais do que veiu a falar depois, ainda assim no era tanto como
os rapazes da nossa edade; naquelle dia achei-o um pouco mais expansivo
que de costume. Tio Cosme quiz que jantasse comnosco. Escobar reflectiu
um instante e acabou dizendo que o correspondente do pae esperava por
elle. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, repeti-as:

--Manda-se l um preto dizer que o senhor janta aqui, e ir depois.

--Tanto incommodo!

--Incommodo nenhum, interveiu tio Cosme.

Escobar acceitou, e jantou. Notei que os movimentos rpidos que tinha e
dominava na aula tambem os dominava agora, na sala como na mesa. A hora
que passou commigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros
que possuia. Gostou muito do retrato de meu pae; depois de alguns
instantes de contemplao, virou-se e disse-me:

--V-se que era um corao puro!

Os olhos de Escobar, claros como j disse, eram dulcissimos; assim
os definiu Jos Dias, depois que elle saiu, e mantenho esta palavra,
apesar dos quarenta annos que traz em cima de si. Nisto no houve
exagerao do aggregado. A cara rapada mostrava uma pelle alva e lisa.
A testa  que era um pouco baixa, vindo a risca do cabello quasi em
cima da sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura necessaria
para no affrontar as outras feies, nem diminuir a graa dellas.
Realmente, era interessante de rosto, a bocca fina e chocarreira, o
nariz curvo e delgado. Tinha o sstro de sacudir o hombro direito, de
quando em quando, e veiu a perdel-o, desde que um de ns lh'o notou
um dia no seminario; primeiro exemplo que vi de que um homem pde
corrigir-se muito bem dos defeitos miudos.

Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos
agradassem a todos. Em casa, ficaram querendo bem a Escobar; a mesma
prima Justina achou que era um moo muito apreciavel, apesar... Apesar
de que? perguntou-lhe Jos Dias, vendo que ella no acabava a phrase.
No teve resposta, nem podia tel-a; prima Justina provavelmente no
viu defeito claro ou importante no nosso hospede; o _apesar_ era uma
especie de resalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia; ou
ento foi obra de uso velho, que a levou a restringir, onde no achra
restrico.

Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui leval-o  porta,
onde espermos a passagem de um omnibus. Disse-me que o armazem do
correspondente era na rua dos Pescadores, e ficava aberto at s nove
horas: elle  que se no queria demorar fra. Separmo-nos com muito
affecto: elle, de dentro do omnibus, ainda me disse adeus, com a mo.
Conservei-me  porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para traz, mas
no olhou.

--Que amigo  esse tamanho? perguntou alguem de uma janella ao p.

No  preciso dizer que era Capit. So cousas que se adivinham na
vida, como nos livros, sejam romances, sejam historias verdadeiras. Era
Capit, que nos espreitara desde algum tempo, por dentro da veneziana,
e agora abrira inteiramente a janella, e apparecera. Viu as nossas
despedidas to rasgadas e affectuosas, e quiz saber quem era que me
merecia tanto.

-- o Escobar, disse eu indo pr-me embaixo da janella, a olhar para
cima.




LXXII

Uma reforma dramatica.

Nem eu, nem tu, nem ella, nem qualquer outra pessoa desta historia
poderia responder mais, to certo  que o destino, como todos os
dramaturgos, no annuncia as peripecias nem o desfecho. Elles chegam a
seu tempo, at que o panno cae, apagam-se as luzes, e os espectadores
vo dormir. Nesse genero ha porventura alguma cousa que reformar, e
eu proporia, como ensaio, que as peas comeassem pelo fim. Othello
mataria a si e a Desdemona no primeiro acto, os tres seguintes seriam
dados  aco lenta e decrescente do ciume, e o ultimo ficaria s com
as scenas iniciaes da ameaa dos turcos, as explicaes de Othello e
Desdemona, e o bom conselho do fino Iago: Mette dinheiro na bolsa.
Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no theatro a charada
habitual que os periodicos lhe do, porque os ultimos actos explicariam
o desfecho do primeiro, especie de conceito, e, por outro lado, ia
para a cama com uma boa impresso de ternura e de amor:

     Ella amou o que me affligira,
     Eu amei a piedade della.




LXXIII

O contra-regra.

O destino no  s dramaturgo,  tambem o seu proprio contra-regra,
isto , designa a entrada dos personagens em scena, d-lhes as cartas
e outros objectos, e executa dentro os signaes correspondentes
ao dialogo, uma trovoada, um carro, um tiro. Quando eu era moo,
representou-se ahi, em no sei que theatro, um drama que acabava pelo
juizo final. O principal personagem era Ashaverus, que no ultimo
quadro concluia um monologo por esta exclamao: Ouo a trombeta do
archanjo! No se ouviu trombeta nenhuma. Ashaverus, envergonhado,
repetiu a palavra, agora mais alto, para advertir o contra-regra, mas
ainda nada. Ento caminhou para o fundo, disfaramente tragico, mas
effectivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer em voz surda:**
O piston! o piston! o piston! O publico ouviu esta palavra e desatou
a rir, at que, quando a trombeta soou devras, e Ashaverus bradou
pela terceira vez que era a do archanjo, um gaiato da plata corrigiu
c debaixo: No, senhor,  o piston do archanjo!

Assim se explicam a minha estada debaixo da janella de Capit e a
passagem de um cavalleiro, um _dandy_, como ento diziamos. Montava
um bello cavallo alazo, firme na sella, redea na mo esquerda, a
direita  cinta, botas de verniz, figura e postura esbeltas: a cara
no me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam
atraz; todos iam s suas namoradas. Era uso do tempo namorar a cavallo.
Rel Alencar: Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de
theatro de 1858) no pde estar sem estas duas cousas, um cavallo e uma
namorada. Rel Alvares de Azevedo. Uma das suas poesias  destinada
a contar (1851) que residia em Catumby, e, para ver a namorada no
Cattete, alugara um cavallo por trez mil reis... Trez mil reis! tudo se
perde na noite dos tempos!

Ora, o _dandy_ do cavallo baio no passou como os outros; era a
trombeta do juizo final e soou a tempo; assim faz o Destino, que  o
seu proprio contra-regra. O cavalleiro no se contentou de ir andando,
mas voltou a cabea para o nosso lado, o lado de Capit, e olhou
para Capit, e Capit para elle; o cavallo andava, a cabea do homem
deixava-se ir voltando para traz. Tal foi o segundo dente de ciume que
me mordeu. A rigor, era natural admirar as bellas figuras; mas aquelle
sujeito costumava pagar alli, s tardes; morava no antigo Campo da
Acclamao, e depois... e depois... Vo l raciocinar com um corao de
braza, como era o meu!

Nem disse nada a Capit; sa da rua  pressa, enfiei pelo meu corredor,
e, quando dei por mim, estava na sala de visitas.




LXXIV

A presilha.

Na sala de visitas, tio Cosme e Jos Dias conversavam, um sentado,
outro andando e parando. A vista de Jos Dias lembrou-me o que elle
me dissra no seminario: Aquillo emquanto no pegar algum peralta da
visinhana que case com ella.... Era certamente alluso ao cavalleiro.
Tal recordao aggravou a impresso que eu trazia da rua; mas no
seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispoz a crer
na malicia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em Jos Dias
pela gola, leval-o ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou
por hypothese; mas Jos Dias, que parra ao ver-me entrar, continuou a
andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir  casa ao p, imaginava que
Capit saisse da janella assustada e no tardasse a apparecer, para
indagar e explicar.... E os dous falavam, at que tio Cosme ergueu-se
para ir ver a doente, e Jos Dias veiu ter commigo, ao vo da outra
janella.

Ha um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre
Capit e os peraltas do bairro; agora, imaginando que vinha justamente
dizer-m'o, fiquei com medo de ouvil-o. Quiz tapar-lhe a bocca. Jos
Dias viu no meu rosto algum signal differente da expresso habitual, e
perguntou-me com interesse:

--Que , Bentinho?

Para no fital-o, deixei cair os olhos. Os olhos, caindo, viram que uma
das presilhas das calas do aggregado estava desabotoada, e, como elle
insistisse em saber o que  que eu tinha, respondi apontando com o dedo:

--Olhe a presilha, abotoe a presilha.

Jos Dias inclinou-se, eu sa correndo.




LXXV

O desespero.

Escapei ao aggregado, escapei a minha me no indo ao quarto della, mas
no escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atraz de mim.
Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me  cama, e rolava commigo,
e chorava, e abafava os soluos com a ponta do lenol. Jurei no ir
ver Capit aquella tarde, nem nunca mais, e fazer-me padre de uma vez.
Via-me j ordenado, deante d'ella, que choraria de arrependimento e me
pediria perdo, mas eu, frio e sereno, no teria mais que desprezo,
muito desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes
dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre elles.

Da cama ouvia voz della, que viera passar o resto da tarde com minha
me, e naturalmente commigo, como das outras vezes; mas, por maior que
fosse o abalo que me deu, no me fez sair do quarto. Capit ria alto,
falava alto, como se me avisasse; eu continuava surdo, a ss commigo
e o meu desprezo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no
pescoo, enterral-as bem, at ver-lhe sair a vida com o sangue....




LXXVI

Explicao.

Ao fim de algum tempo, estava socegado, mas abatido. Como me achasse
estirado na cama, com os olhos no tecto, lembrou-me a recommendao que
minha me fazia de me no deitar depois de jantar para evitar alguma
congesto. Ergui-me de golpe, mas no sa do quarto. Capit ria agora
menos e falava mais baixo; estaria afflicta com a minha recluso, mas
nem por isso me abalou.

No ceei e dormi mal. Na manh seguinte no estava melhor, estava
differente. A minha dr agora complicava-se do receio de haver ido alm
do que convinha, deixando de examinar o negocio. Posto que a cabea
me doesse um pouco, simulei maior incommodo, com o fim de no ir ao
seminario e falar a Capit. Podia estar zangada commigo, podia no
querer-me agora e preferir o cavalleiro. Quiz resolver tudo, ouvil-a e
julgal-a; podia ser que tivesse defesa e explicao.

Tinha ambas as cousas. Quando soube a causa da minha recluso da
vespera, disse-me que era grande injuria que lhe fazia; no podia
crer que depois da nossa troca de juramentos, to leviana a julgasse
que pudesse crer.... E aqui romperam-lhe lagrimas, e fez um gesto de
separao; mas eu acudi de prompto, peguei-lhe das mos e beijei-as
com tanta alma e calor que as senti estremecer. Enxugou os olhos com
os dedos, eu os beijei de novo, por elles e pelas lagrimas; depois
suspirou, depois abanou a cabea. Confessou-me que no conhecia o
rapaz, seno como os outros que alli passavam s tardes, a cavallo ou a
p. Se olhara para elle, era prova exactamente de no haver nada entre
ambos; se houvesse, era natural dissimular.

--E que poderia haver, se elle vae casar? concluiu.

--Vae casar?

Ia casar, disse-me com quem, com uma moa da rua dos Barbonos. Esta
razo quadrou-me mais que tudo, e ella o sentiu no meu gesto; nem por
isso deixou de dizer que, para evitar nova equivocao, deixaria de ir
mais  janella.

--No! no! no! no lhe peo isto!

Consentiu em retirar a promessa, mas fez outra, e foi que,  primeira
suspeita da minha parte, tudo estaria dissolvido entro ns. Acceitei a
ameaa, e jurei que nunca a haveria de cumprir: era a primeira suspeita
e a ultima.




LXXVII

Prazer das dres velhas.

Contando aquella crise do meu amor adolescente, sinto uma cousa que no
sei se explico bem, e  que as dres daquella quadra, a tal ponto se
espiritualisaram com o tempo, que chegam a diluir-se no prazer. No 
claro isto, mas nem tudo  claro na vida ou nos livros. A verdade  que
sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento, quando  certo
que elle me lembra outros que no quizera lembrar por nada.




LXXVIII

Segredo por segredo.

De resto, naquelle mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar
a alguem o que se passava entre mim e Capit. No referi tudo, mas s
uma parte, e foi Escobar que a recebeu. Quando voltei ao seminario,
na quarta-feira, achei-o inquieto; disse-me que era sua inteno ir
ver-me, se eu me demorasse mais um dia em casa. Perguntava-me com
interesse o que  que tivera, e se estava bom de todo.

--Estou.

Ouvia, espetando-me os olhos. Tres dias depois disse que me estavam
achando muito distrahido; era bom disfarar o mais que pudesse. Elle, 
sua parte, tinha razes para andar distrahido tambem, mas buscava ficar
attento.

--Ento parece-lhe....?

--Sim, voc s vezes est que no ouve nada, olhando para hontem;
disfarce, Santiago.

--Tenho motivos....

--Creio; ninguem se distrae  toa.

--Escobar....

Hesitei; elle esperou.

--Que ?

--Escobar, voc  meu amigo, eu sou seu amigo tambem; aqui no seminario
voc  a pessoa que mais me tem entrado no corao, e l fra, a no
ser a gente da familia, no tenho propriamente um amigo.

--Se eu disser a mesma cousa, retorquiu elle sorrindo, perde a graa;
parece que estou repetindo. Mas a verdade  que no tenho aqui relaes
com ninguem, voc  o primeiro e creio que j notaram; mas eu no me
importo com isso.

Commovido, senti que a voz se me precipitava da garganta.

--Escobar, voc  capaz de guardar um segredo?

--Voc que pergunta  porque duvida, e nesse caso....

--Desculpe,  um modo de falar. Eu sei que  moo serio, e fao de
conta que me confesso a um padre.

--Se precisa de absolvio, est absolvido.

--Escobar, eu no posso ser padre. Estou aqui, os meus acreditam, o
esperam; mas eu no posso ser padre.

--Nem eu, Santiago.

--Nem voc?

--Segredo por segredo; tambem eu tenho o proposito de no acabar o
curso; meu desejo  o commercio, mas no diga nada, absolutamente
nada; fica s entre ns. E no  que eu no seja religioso; sou
religioso, mas o commercio  a minha paixo.

--S isso?

--Que mais ha de ser?

Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidencia,
to escassa e surda, que no a ouvi eu mesmo; sei porm que disse uma
pessoa... com reticencia. Uma pessoa....? No foi preciso mais para
que elle entendesse. Uma pessoa devia ser uma moa. Nem cuides que
pasmou de me ver namorado; achou at natural e espetou-me outra vez os
olhos. Ento contei-lhe por alto o que podia, mas demoradamente para
ter o gosto de repisar o assumpto. Escobar escutava com interesse; no
fim da nossa conversao, declarou-me que era segredo enterrado em
cemiterio. Deu-me de conselho que no me fizesse padre. No podia levar
para a egreja um corao que no era do ceu, mas da terra; seria um mau
padre, nem seria padre. Ao contrario. Deus protegia os sinceros; uma
vez que eu s podia servil-o no mundo, ahi me cumpria ficar.

No calculas o prazer que me deu a confidencia que lhe fiz. Era como
que uma felicidade mais. Aquelle corao moo que me ouvia e me dava
razo, trazia a este mundo um aspecto extraordinario. Era um grande e
bello mundo, a vida uma carreira excellente, e eu nem mais nem menos um
mimoso do ceu; eis a minha sensao. Nota que eu no lhe disse tudo,
nem o melhor; no lhe referi o capitulo do penteado, por exemplo, nem
outros assim; mas o contado era muito.

Que voltmos ao assumpto, no  preciso dizel-o. Voltmos uma e muitas
vezes; eu louvava as qualidades moraes de Capit, materia adequada 
admirao de um seminarista, a simpleza, a modestia, o amor do trabalho
e os costumes religiosos. No lhe tocava nas graas physicas, nem elle
me perguntava por ellas; apenas insinuei a conveniencia de a conhecer
de vista.

--Agora no  possivel, disse-lhe na primeira semana, ao voltar de
casa; Capit vae passar uns dias com uma amiga da rua dos Invalidos.
Quando ella vier, voc ir l; mas pde ir antes, pde ir sempre;
porque no foi hontem jantar commigo?

--Voc no me convidou.

--Pois precisa convidar? L em casa todos ficaram gostando muito de
voc.

--Tambem eu fiquei gostando de todos, mas se  possivel fazer
distinco, confesso-lhe que sua me  uma senhora adoravel.

--No  verdade? retorqui cheio de alvoroo.




LXXIX

Vamos ao capitulo.

Com effeito, gostei de ouvil-o falar assim. Sabes a opinio que eu
tinha de minha me. Ainda agora, depois de interromper esta linha para
mirar-lhe o retrato que pende da parede, acho que trazia no rosto
impressa aquella qualidade. Nem de outro modo se explica a opinio de
Escobar, que apenas trocara com ella quatro palavras. Uma s bastava a
penetrar-lhe a essencia intima; sim, sim, minha me era adoravel. Por
mais que me estivesse ento obrigando a uma carreira que eu no queria,
no podia deixar de sentir que era adoravel, como uma santa.

E por ventura era certo que me obrigava  carreira ecclesiastica? Aqui
chego a um ponto, que esperei viesse depois, tanto que j pesquizava em
que altura lhe daria um capitulo. Realmente, no cabia dizer agora o
que s mais tarde presumi descobrir; mas, uma vez que toquei no ponto,
melhor  acabar com elle.  grave e complexo, delicado e subtil, um
destes em que o autor tem de attender ao filho, e o filho ha de ouvir
o autor, para que um e outro digam a verdade, s a verdade, mas toda a
verdade. Cabe ainda notar que esse ponto  que torna justamente a santa
mais adoravel, sem prejuizo (ao contrario!) da parte humana e terrestre
que havia nella. Basta de prefacio ao capitulo; vamos ao capitulo.




LXXX

Venhamos ao capitulo.

Venhamos ao capitulo. Minha me era temente a Deus; sabes disto, e das
suas praticas religiosas, e da f pura que as animava. Nem ignoras que
a minha carreira ecclesiastica era objecto de promessa feita quando
fui concebido. Tudo est contado opportunamente. Outrosim, sabes que
para o fim de apertar o vinculo moral da obrigao, confiou os seus
projectos e motivos a parentes e familiares. A promessa, feita com
fervor, acceita com misericordia, foi guardada por ella, com alegria,
no mais intimo do corao. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no
leite que me deu a mamar. Meu pae, se vivesse,  possivel que alterasse
os planos, e, como tinha a vocao da politica,  provavel que me
encaminhasse somente  politica, embora os dous officios no fossem nem
sejam inconciliaveis, e mais de um padre entre na luta dos partidos e
no governo dos homens. Mas meu pae morrera sem saber nada, e ella ficou
deante do contracto, como unica devedora.

Um dos aphorismos de Franklin  que, para quem tem de pagar na paschoa,
a quaresma  curta. A nossa quaresma no foi mais longa que as outras,
e minha me, posto me mandasse ensinar latim e doutrina, comeou a
adiar a minha entrada no seminario.  o que se chama, commercialmente
falando, reformar uma lettra. O credor era archi-millionario, no
dependia daquella quantia para comer, e consentiu nas transferencias de
pagamento, sem sequer aggravar a taxa do juro. Um dia, porm, um dos
familiares que serviam de endossantes da letra, falou da necessidade de
entregar o preo ajustado; est n'um dos capitulos primeiros. Minha me
concordou e recolhi-me a S. Jos.

Ora, nesse mesmo capitulo, verteu ella umas lagrimas, que enxugou sem
explicar, e que nenhum dos presentes, nem tio Cosme, mau prima Justina,
nem o aggregado Jos Dias entendeu absolutamente; eu, que estava atraz
da porta, no as entendi mais que elles. Bem examinadas, apesar da
distancia, v-se que eram saudades prvias, a magoa da separao,--e
pde ser tambem ( o principio do ponto), pde ser que arrependimento
da promessa. Catholica e devota, sentia muito bem que as promessas
se cumprem; a questo  se  opportuno e adequado fazel-as todas, e
naturalmente inclinava-se  negativa. Porque  que Deus a puniria,
negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida,
sem necessidade de lh'a dedicar _ab ovo._ Era um raciocinio tardio;
devia ter sido feito no dia em que fui gerado. Em todo caso, era uma
concluso primeira; mas, no bastando concluir para destruir, tudo se
manteve, e eu fui para o seminario.

Um cochilo da f teria resolvido a questo a meu favor, mas a f velava
com os seus grandes olhos ingenuos. Minha me faria, se pudesse,
uma troca de promessa, dando parte dos seus annos para conservar-me
comsigo, fra do clero, casado e pae;  o que presumo, assim como
supponho que rejeitou tal ideia, por lhe parecer uma deslealdade. Assim
a senti sempre na corrente da vida ordinaria.

Succedeu que a minha ausencia foi logo temperada pela assiduidade de
Capit. Esta comeou a fazer-se-lhe necessaria. Pouco a pouco veiu-lhe
a persuaso de que a pequena me faria feliz. Ento ( o final do ponto
annunciado), a esperana de que o nosso amor, tornando-me absolutamente
incompativel com o seminario, me levasse a no ficar l nem por Deus
nem pelo diabo, esta esperana intima e secreta entrou a invadir o
corao de minha me. Neste caso, eu romperia o contracto sem que ella
tivesse culpa. Ella ficava commigo sem acto propriamente seu. Era como
se, tendo confiado a alguem a importancia de uma divida para leval-a
ao credor, o portador guardasse o dinheiro comsigo e no levasse nada.
Na vida commum, o acto de terceiro no desobriga o contractante; mas a
vantagem de contractar com o ceu  que inteno vale dinheiro.

Has de ter tido conflictos parecidos com esse, e, se s religioso,
havers buscado alguma vez conciliar o ceu e a terra, por modo identico
ou analogo. O ceu e a terra acabam conciliando-se; elles so quasi
irmos gemeos, tendo o ceu sido feito no segundo dia e a terra no
terceiro. Como Abraho, minha me levou o filho ao monte da Viso,
e mais a lenha para o holocausto, o fogo e o cutello. E atou Isaac
em cima do feixe de lenha, pegou do cutello e levantou-o ao alto. No
momento de fazel-o cair, ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do
Senhor: No faas mal algum a teu filho; conheci que temes a Deus.
Tal seria a esperana secreta de minha me.

Capit era naturalmente o anjo da Escriptura. A verdade  que minha me
no podia tel-a agora longe de si. A affeio crescente era manifesta
por actos extraordinarios. Capit passou a ser a flr da casa, o sol
das manhs, o frescor das tardes, a lua das noites; l vivia horas e
horas, ouvindo, falando e cantando. Minha me apalpava-lhe o corao,
revolvia-lhe os olhos, e o meu nome era entre ambas como a senha da
vida futura.




LXXXI

Uma palavra.

Assim contado o que descobri mais tarde, posso trasladar para aqui
uma palavra de minha me. Agora se entender que ella me dissesse, no
primeiro sabbado, quando eu cheguei a casa, e soube que Capit estava
na rua dos Invalidos, com Sinhsinha Gurgel.

--Porque no vaes vel-a? No me disseste que o pae de Sancha te
offereceu a casa?

--Offereceu.

--Pois ento? Mas  se queres. Capit devia ter voltado hoje para
acabar um trabalho commigo; certamente a amiga pediu-lhe que dormisse
l.

--Talvez ficassem namorando, insinuou prima Justina.

No a matei por no ter a mo ferro nem corda, pistola nem punhal; mas
os olhos que lhe deitei, se pudessem matar, teriam supprido tudo. Um
dos erros da Providencia foi deixar ao homem unicamente os braos e
os dentes, como armas de ataque, e as pernas como armas de fuga ou de
defesa. Os olhos bastavam ao primeiro effeito. Um mover delles faria
parar ou cair um inimigo ou um rival, exerceriam vingana prompta,
com este accressimo que, para desnortear a justia, os mesmos olhos
matadores seriam olhos piedosos, e correriam a chorar a victima.
Prima Justina escapou aos meus; eu  que no escapei ao effeito da
insinuao, e no domingo, s onze horas, corri  rua dos Invalidos.

O pae de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. A filha estava
enferma; caira na vespera com uma febre, que se ia aggravando. Como
elle queria muito  filha, pensava j vel-a morta, e annunciou-me que
se mataria tambem. Eis aqui um capitulo funebre como um cemiterio,
mortes, suicidios e assassinatos. Eu anciava por um raio de luz clara e
ceu azul. Foi Capit que os trouxe  porta da sala, vindo dizer ao pae
de Sancha que a filha o mandara chamar.

--Est peor? perguntou Gurgel assustado.

--No, senhor, mas quer falar-lhe.

--Fique aqui um bocadinho, disse-lhe elle; e voltando-se para mim:  a
enfermeira de Sancha, que no quer outra; eu j volto.

Capit trazia signaes de fadiga e commoo, mas to depressa me viu,
ficou toda outra, a mocinha de sempre, fresca e lepida, no menos que
espantada. Custou-lhe a crer que fosse eu. Falou-me, quiz que lhe
falasse, e effectivamente conversmos por alguns minutos, mas to
baixo e abafado que nem as paredes ouviram, ellas que tm ouvidos. De
resto, se ellas ouviram algo, nada entenderam, nem ellas nem os moveis,
que estavam to tristes como o dono.




LXXXII

O canap.

Delles, s o canap pareceu haver comprehendido a nossa situao
moral, visto que nos offereceu os servios da sua palhinha, com tal
insistencia que os acceitmos e nos sentmos. Data dahi a opinio
particular que tenho do canap. Elle faz alliar a intimidade e o
decoro, e mostra a casa toda sem sair da sala. Dous homens sentados
nelle pdem debater o destino de um imperio, e duas mulheres a graa
de um vestido; mas, um homem e uma mulher s por aberrao das leis
naturaes diro outra cousa que no seja de si mesmos. Foi o que
fizemos, Capit e eu. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora
alli seria grande...

--No sei; a febre parece que cede... mas...

Tambem me lembra, vagamente, que lhe expliquei a minha visita  rua dos
Invalidos, com a pura verdade, isto , a conselho de minha me.

--Conselho della? murmurou Capit.

E accrescentou com os olhos, que brilhavam extraordinariamente:

--Seremos felizes!

Repeti esta palavras, com os simples dedos, apertando os della. O
canap, quer visse ou no, continuou a prestar os seus servios s
nossas mos presas e s nossas cabeas juntas ou quasi juntas.




LXXXIII

O retrato.

Gurgel tornou  sala e disse a Capit que a filha chamava por ella.
Eu levantei-me depressa e no achei compostura; mettia os olhos pelas
cadeiras. Ao contrario, Capit ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe
se a febre augmentra.

--No, disse elle.

Nem sobresalto nem nada, nenhum ar de mysterio da parte de Capit;
voltou-se para mim, e disse-me que levasse lembranas a minha me e
a prima Justina, e que at breve; estendeu-me a mo e enfiou pelo
corredor. Todas as minhas invejas foram com ella. Como era possivel que
Capit se governasse to facilmente e eu no?

--Est uma moa, observou Gurgel olhando tambem para ella.

Murmurei que sim. Na verdade, Capit ia crescendo s carreiras, as
frmas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade;
moralmente, a mesma cousa. Era mulher por dentro e por fra, mulher 
direita e  esquerda, mulher por todos os lados, e desde os ps at 
cabea. Esse arvorecer era mais apressado, agora que eu a via de dias
a dias; de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia;
os olhos pareciam ter outra reflexo, e a bocca outro imperio. Gurgel,
voltando-se para a parede da sala, onde pendia um retrato de moa,
perguntou-me se Capit era parecida com o retrato.

Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinio
provavel do meu interlocutor, desde que a materia no me aggrava,
aborrece ou impe. Antes de examinar se effectivamente Capit era
parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Ento elle disse que
era o retrato da mulher delle, e que as pessoas que a conheceram diziam
a mesma cousa. Tambem achava que as feies eram semelhantes, a testa
principalmente e os olhos. Quanto ao genio, era um; pareciam irms.

--Finalmente, at a amizade que ella tem a Sanchinha; a me no era
mais amiga della... Na vida ha dessas semelhanas assim exquisitas.




LXXXIV

Chamado.

No saguo e na rua, examinei ainda commigo se effectivamente elle
teria desconfiado alguma cousa, mas achei que no e puz-me a andar. Ia
satisfeito com a visita, com a alegria de Capit, com os louvores de
Gurgel, a tal ponto que no acudi logo a uma voz que me chamava:

--Sr. Bentinho! Sr. Bentinho!

S depois que a voz cresceu e o dono della chegou  porta  que eu
parei e vi o que era e onde estava. Estava j na rua de Matacavallos.
A casa era uma loja de loua, escassa e pobre; tinha as portas
meio-cerradas, e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e
mal vestido.

--Sr. Bentinho, disse-me elle chorando; sabe que meu filho Manduca
morreu?

--Morreu?

--Morreu ha meia hora, enterra-se amanh. Mandei recado a sua me
agora mesmo, e ella fez-me a caridade de mandar algumas flores para
botar no caixo. Meu pobre filho! Tinha de morrer, e foi bom que
morresse, coitado, mas apesar de tudo sempre doe. Que vida que elle
teve!... Um dia destes ainda se lembrou do senhor, e perguntou se
estava no seminario... Quer vel-o? Entre, ande vel-o...

Custa-me dizer isto, mas antes peque por excessivo que por diminuto.
Quiz responder que no, que no queria ver o Manduca, e fiz at um
gesto para fugir. No era medo; n'outra occasio pde ser at que
entrasse com facilidade e curiosidade, mas agora ia to contente! Ver
um defuncto ao voltar de uma namorada... Ha cousas que se no ajustam
nem combinam. A simples noticia era j uma turvao grande. s minhas
ideias de ouro perderam todas a cr e o metal para se trocarem em
cinza escura e feia, e no distingui mais nada. Penso que cheguei
a dizer que tinha pressa, mas provavelmente no falei por palavras
claras, nem sequer humanas, porque elle, encostado ao portal, abria-me
espao com o gesto, e eu, sem alma para entrar nem fugir, deixei ao
corpo fazer o que pudesse, e o corpo acabou entrando.

No culpo ao homem; para elle, a cousa mais importante do momento
era o filho. Mas tambem no me culpem a mim; para mim, a cousa mais
importante era Capit. O mal foi que os dous casos se conjugassem na
mesma tarde, e que a morte de um viesse metter o nariz na vida do
outro. Eis o mal todo. Se eu passasse antes ou depois, ou se o Manduca
esperasse algumas horas para morrer, nenhuma nota aborrecida viria
interromper as melodias da minha alma. Porque morrer exactamente ha
meia hora? Toda hora  apropriada ao obito; morre-se muito bem s seis
ou sete horas da tarde.




LXXXV

O defuncto.

Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de loua. A
loja era escura, e o interior da casa menos luz tinha, agora que as
janellas da rea estavam cerradas. A um canto da sala de jantar vi a
me chorando;  porta da alcova duas creanas olhavam espantadas para
dentro, com o dedo na bocca. O cadaver jazia na cama; a cama...

Suspendamos a penna e vamos  janella espairecer a memoria. Realmente,
o quadro era feio, j pela morte, j pelo defuncto, que era horrivel...
Isto aqui, sim,  outra cousa. Tudo o que vejo l fra respira vida, a
cabra que rumina ao p de uma carroa, a gallinha que marisca no cho
da rua, o trem da Estrada Central que bufa, assobia, fumega e passa, a
palmeira que investe para o ceu, e finalmente aquella torre de egreja,
apesar de no ter musculos nem folhagem. Um rapaz, que alli no becco
empina um papagaio de papel, no morreu nem morre, posto tambem se
chame Manduca.

Verdade  que o outro Manduca era mais velho que este,** pouco mais
velho. Teria dezoito ou dezenove annos, mas tanto lhe darias quinze
como vinte e dous, a cara no permittia trazer a edade  vista, antes a
escondia nas dobras da... V, diga-se tudo;  morto, os seus parentes
so mortos, se existe algum no  em tal evidencia que se vexe ou
da. Diga-se tudo; Manduca padecia de uma cruel enfermidade, nada
menos que a lepra. Vivo era feio; morto pareceu-me horrivel. Quando
eu vi, estendido na cama, o triste corpo daquelle meu visinho, fiquei
apavorado e desviei os olhos. No sei que mo occulta me compelliu a
olhar outra vez, ainda que de fugida; cedi, olhei, tornei a olhar, at
que recuei de todo e sa do quarto.

--Padeceu muito! suspirou o pae.

--Coitado de Manduca! soluava a me.

Eu cuidei de sair, disse que era esperado em casa, e despedi-me. O pae
perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro; respondi com a
verdade, que no sabia, faria o que minha me quizesse. E rapido sa,
atravessei a loja, e saltei  rua.




LXXXVI

Amai, rapazes!

Era to perto, que antes de tres minutos me achei em casa. Parei
no corredor, a tomar folego; buscava esquecer o defuncto, pallido
e disforme, e o mais que no disse para no dar a estas paginas um
aspecto repugnante, mas pdes imaginal-o. Tudo arredei da vista, em
poucos segundos; bastou-me pensar na outra casa, e mais na vida e na
cara fresca e lepida de Capit... Amai, rapazes! e, principalmente,
amai moas lindase graciosas; ellas do remedio ao mal, aroma ao
infecto, trocam a morte pela vida... Amai, rapazes!




LXXXVII

A sege.

Chegara ao ultimo degrau, e uma ideia me entrou no cerebro, como se
estivesse a esperar por mim, entre as grades da cancella. Ouvi de
memoria as palavras do pae de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro
no dia seguinte. Parei no degrau. Reflecti um instante; sim, podia ir
ao enterro, pediria a minha me que me alugasse um carro...

No cuides que era o desejo de andar de carro, por mais que tivesse o
gosto da conduco. Em pequeno, lembra-me que ia assim muita vez com
minha me s visitas de amizade ou de ceremonia, e  missa, se chovia.
Era uma velha sege de meu pae, que ella conservou o mais que poude. O
cocheiro, que era nosso escravo, to velho como a sege, quando me via 
poria, vestido, esperando minha me, dizia-me rindo:

--Pae Joo vae levar nhonh!

E era raro que eu no lhe recommendasse:

--Joo, demora muito as bestas; vae devagar.

--Nh Gloria no gosta.

--Mas demora!

Fica entendido que era para saborear a sege, no pela vaidade, porque
ella no permittia ver as pessoas que iam dentro. Era uma velha sege
obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro
na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair.
Cada cortina tinha um oculo de vidro, por onde eu gostava de espiar
para fra.

--Senta, Bentinho!

--Deixa espiar, mame!

E em p, quando era mais pequeno, mettia a cara no vidro, e via o
cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e
segurando a redea da outra; na mo levava o chicote grosso e comprido.
Tudo incommodo, as botas, o chicote e as mulas, mas elle gostava e
eu tambem. Dos lados via passar as casas, lojas ou no, abertas ou
fechadas, com gente ou sem ella, e na rua as pessoas que iam e vinham,
ou atravessavam deante da sege, com grandes pernadas ou passos miudos.
Quando havia impedimento de gente ou de animaes, a sege parava, e ento
o espectaculo era particularmente interessante; as pessoas paradas na
calada ou  porta das casas, olhavam para a sege e falavam entre si,
naturalmente sobre quem iria dentro. Quando fui crescendo em edade
imaginei que adivinhavam e diziam:  aquella senhora da rua de
Matacavallos, que tem um filho, Bentinho...

A sege ia tanto com a vida recondita de minha me, que quando j no
havia nenhuma outra, continumos a andar nella, e era conhecida na rua
e no bairro pela sege antiga. Afinal minha me consentiu em deixal-a,
sem a vender logo; s abriu mo della porque as despezas de cocheira
a obrigaram a isso. A razo de a guardar inutil foi exclusivamente
sentimental; era a lembrana do marido. Tudo o que vinha de meu pae
era conservado como um pedao delle, um resto da pessoa, a mesma alma
integral e pura. Mas o uso, esse era filho tambem do carrancismo que
ella confessava aos amigos. Minha me exprimia bem a fidelidade aos
velhos habitos, velhas maneiras, velhas ideias, velhas modas. Tinha o
seu museo de reliquias, pentes desusados, um trecho de mantilha, umas
moedas de cobre datadas de 1824 e 1825, e, para que tudo fosse antigo,
a si mesma se queria fazer velha; mas j deixei dito que, neste ponto,
no alcanava tudo o que queria.




LXXXVIII

Um pretexto honesto.

No, a ideia de ir ao enterro no vinha da lembrana do carro e suas
douras. A origem era outra: era porque, acompanhando o enterro no dia
seguinte, no iria ao seminario, e podia fazer outra visita a Capit,
um tanto mais demorada. Eis ahi o que era. A lembrana do carro podia
vir accessoriamente depois, mas a principal e immediata foi aquella.
Voltaria  rua dos Invalidos, a pretexto de saber de Sinhzinha Gurgel.
Contava que tudo me saisse como naquelle dia, Gurgel afflicto, Capit
commigo no canap, as mos presas, o penteado...

--Vou pedir a mame.

Abri a cancella. Antes de transpl-a, assim como ouvira da memoria a
palavra do pae do morto, ouvi agora a da me, e repeti a meia voz:

--Coitado de Manduca!




LXXXIX

A recusa.

Minha me ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro.

--Perder um dia de seminario...

Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha, e depois era gente
pobre... Tudo o que me lembrou dizer, disse. Prima Justina opinou pela
negativa.

--Voc acha que no deve ir? perguntou-lhe minha me.

--Acho que no. Que amizade  essa que eu nunca vi?

Prima Justina venceu. Quando referi o caso ao aggregado, este sorriu, e
disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente no dar ao
enterro o lustre da minha pessoa. Fosse o que fosse, fiquei amuado;
no dia seguinte, pensando no motivo, no me desagradou; mais tarde
achei-lhe um sabor particular.




XC

A polemica.

No dia seguinte, passei pela casa do defuncto, sem entrar nem
parar,--ou, se parei, foi s um instante, ainda mais breve que este em
que vol-o digo. Se me no engano, andei at mais depressa, receiando
que me chamassem como na vespera. Uma vez que no ia ao enterro, antes
longe que proximo. Fui andando e pensando no pobre diabo.

No eramos amigos, nem nos conheciamos de muito. Intimidade, que
intimidade podia haver entre a doena delle e a minha saude? Tivemos
relaes breves e distantes. Fui pensando nellas, recordando algumas.
Reduziam-se todas a uma polemica, entre ns, dous annos antes, a
proposito... Mal podeis crer a que proposito foi. Foi a guerra da
Crima.

Manduca vivia no interior da casa, deitado na cama, lendo por
desfastio. Ao domingo, sobre a tarde, o pae enfiava-lhe uma camisola
escura, e trazia-o para o fundo da loja, donde elle espiava um palmo da
rua e a gente que passava. Era todo o seu recreio. Foi alli que o vi
uma vez, e no fiquei pouco espantado; a doena ia-lhe comendo parte
das carnes, os dedos queriam apertar-se; o aspecto no attrahia, de
certo. Tinha eu de treze para quatorze annos. Da segunda vez que o vi
alli, como falassemos da guerra da Crima, que ento ardia e andava nos
jornaes, Manduca disse que os alliados haviam de vencer, e eu respondi
que no.

--Pois veremos, tornou elle. S se a justia no vencer neste mundo, o
que  impossivel, e a justia est com os alliados.

--No, senhor, a razo  dos russos.

Naturalmente, iamos com o que nos diziam os jornaes da cidade,
transcrevendo os de fra, mas pde ser tambem que cada um de ns
tivesse a opinio do seu temperamento. Fui sempre um tanto moscovita
nas minhas ideias. Defendi o direito da Russia, Manduca fez o mesmo ao
dos alliados, e o terceiro domingo em que entrei na loja tocmos outra
vez no assumpto. Ento Manduca propoz que trocassemos a argumentao
por escripto, e na tera ou quarta-feira recebi duas folhas de papel
contendo a exposio e defesa do direito dos alliados, e da integridade
da Turquia, concluindo por esta phrase prophetica:

Os russos no ho de entrar em Constantinopla!

Li-a e metti-me a refutal-a. No me recorda um s dos argumentos que
empreguei, nem talvez interesse conhecel-os, agora que o seculo est
a expirar; mas a ideia que me ficou delles  que eram irrespondiveis.
Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. Fizeram-me entrar na alcova, onde
elle jazia estirado na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos.
Ou gosto da polemica ou qualquer outra causa que no alcano, no me
deixou sentir toda a repugnancia que saa da cama e do doente, e o
prazer com que lhe dei o papel foi sincero. Manduca, pela sua parte,
por mais nojosa que tivesse ento a cara, o sorriso que a accendou
dissimulou o mal physico. A convico com que me recebeu o papel e
disse que ia ler e responderia  que no tem palavras nossas nem
alheias que a digam de todo e com verdade; no era exaltada, no era
ruidosa, no tinha gestos, nem a molestia os permittiria, era simples,
grande, profunda, um goso infinito de victoria, antes de saber os meus
argumentos. Tinha j papel, penna e tinta ao p da cama. Dias depois
recebi a rplica; no me lembra se trazia cousas novas ou no; o calor
 que crescia, e o final era o mesmo:

Os russos no ho de entrar em Constantinopla!

Trepliquei, e dahi continuou por algum tempo uma polemica ardente, em
que nenhum de ns cedia, defendendo cada um os seus clientes com fora
e brio. Manduca era mais longo e prompto que eu. Naturalmente a mim
sobravam mil cousas que distrahiam, o estudo, os recreios, a familia,
e a propria saude, que me chamava a outros exercicios. Manduca, salvo
o palmo de rua ao domingo de tarde, tinha s esta guerra, assumpto da
cidade e do mundo, mas que ninguem ia tratar com elle. O acaso dera-lhe
em mim um adversario; elle, que tinha gosto  escripta, deitou-se ao
debate, como a um remedio novo e radical. As horas tristes e compridas
eram agora breves e alegres; os olhos desapprenderam de chorar, se por
ventura choravam antes. Senti esta mudana delle nas proprias maneiras
do pae e da me.

--No imagina como elle anda agora, depois que o senhor lhe escreve
aquelles papeis, dizia-me o dono da loja, uma vez,  porta da rua. Fala
e ri muito. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papeis delle,
entra a indagar da resposta, e se demorar muito, e que pergunte ao
moleque, quando passar. Emquanto espera, rel jornaes e toma notas. Mas
tambem, apenas recebe os seus papeis, atira-se a lel-os, e comea logo
a escrever a resposta. Ha occasies em que no come ou come mal; tanto
que eu queria pedir-lhe uma cousa,  que no os mande  hora do almoo
ou de jantar...

Fui eu que cancei primeiro. Comecei a demorar as respostas, at que no
dei mais nenhuma; elle ainda teimou duas ou tres vezes depois do meu
silencio, mas no recebendo contestao alguma, por fadiga tambem ou
por no aborrecer, acabou de todo com as suas apologias. A ultima, como
a primeira, como todas, affirmava a mesma predico eterna:

Os russos no ho de entrar em Constantinopla!

No entraram, effectivamente, nem ento, nem depois, nem at agora.
Mas a predico ser eterna? No chegaro a entrar algum dia? Problema
difficil. O proprio Manduca, para entrar na sepultura, gastou tres
annos de dissoluo, to certo  que a natureza, como a historia, no
se faz brincando. A vida delle resistiu como a Turquia; se afinal
cedeu foi porque lhe faltou uma alliana como a anglo-franceza, no se
podendo considerar tal o simples accordo da medicina e da pharmacia.
Morreu afinal, como os Estados morrem; no nosso caso particular, a
questo  saber, no se a Turquia morrer, porque a morte no poupa a
ninguem, mas se os russos entraro algum dia em Constantinopla; essa
era a questo para o meu visinho leproso, debaixo da triste, rota e
infecta colcha de retalhos...




XCI

Achado que consola.

 claro que as reflexes que ahi deixo no foram feitas ento, a
caminho do seminario, mas agora no gabinete do Engenho Novo. Ento,
no fiz propriamente nenhuma, a no ser esta: que servi de allivio um
dia ao meu visinho Manduca. Hoje, pensando melhor, acho que no s
servi de allivio, mas at lhe dei felicidade. E o achado consola-me;
j agora no esquecerei mais que dei dous ou tres mezes de felicidade
a um pobre diabo, fazendo-lhe esquecer o mal e o resto.  alguma
cousa na liquidao da minha vida. Se ha no outro mundo tal ou qual
premio para as virtudes sem inteno, esta pagar um ou dous dos meus
muitos peccados. Quanto ao Manduca, no creio que fosse peccado opinar
contra a Russia, mas, se era, elle estar purgando ha quarenta annos
a felicidade que alcanou em dous ou tres mezes,--donde concluir (j
tarde) que era ainda melhor haver gemido smente, sem opinar cousa
nenhuma.




XCII

O diabo no  to feio como se pinta.

Manduca enterrou-se sem mim. A muitas outros aconteceu a mesma cousa,
sem que eu sentisse nada, mas este caso affligiu-me particularmente
pela razo j dita. Tambem senti no sei que melancolia ao recordar a
primeira polemica da vida, o gosto com que elle recebia os meus papeis
e se propunha a refutal-os, no contando o gosto do carro... Mas o
tempo apagou depressa todas essas saudades e resurreies. Nem foi s
elle; duas pessoas vieram ajudal-o, Capit, cuja imagem dormiu commigo
na mesma noite, e outra que direi no capitulo que vem. O resto deste
capitulo e s para pedir que, se alguem tiver de ler o meu livro com
alguma atteno mais da que lhe exigir o preo do exemplar, no deixe
de concluir que o diabo no  to feio como se pinta. Quero dizer...

Quero dizer que o meu visinho de Matacavallos, temperando o mal com
a opinio anti-russa, dava  podrido das suas carnes um reflexo
espiritual que as consolava. Ha consolaes maiores, de certo, e uma
das mais excellentes  no padecer esse nem outro mal algum, mas a
natureza  to divina que se diverte com taes contrastes, e aos mais
nojentos ou mais afflictos acena com uma flr. E talvez saia assim a
flr mais bella; o meu jardineiro affirma que as violetas, para terem
um cheiro superior, ho mister de estrume de porco. No examinei, mas
deve ser verdade.




XCIII

Um amigo por um defuncto.

Quanto  outra pessoa que teve a fora obliterativa, foi o meu collega
Escobar que no domingo, antes do meio dia, veiu ter a Matacavallos. Um
amigo suppria assim um defuncto, e tal amigo que durante cerca de cinco
minutos esteve com a minha mo entre as suas, como se me no visse
desde longos mezes.

--Voc janta commigo, Escobar?

--Vim para isto mesmo.

Minha me agradeceu-lhe a amizade que me tinha, e elle respondeu com
muita polidez, ainda que um tanto atado, como se carecesse de palavra
prompta. J viste que no era assim, a palavra obedecia-lhe, mas o
homem no  sempre o mesmo em todos os instantes. O que elle disse, em
resumo, foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada
educao; no seminario todos me queriam bem, nem podia deixar de ser
assim, accrescentou. Insistia na educao, nos bons exemplos, na doce
e rara me que o ceu me deu... Tudo isso com a voz engasgada e tremula.

Todos ficaram gostando delle. Eu estava to contente como se Escobar
fosse inveno minha. Jos Dias desfechou-lhe dous superlativos, tio
Cosme dous capotes, e prima Justina no achou tacha que lhe pr;
depois, sim, no segundo ou terceiro domingo, veiu ella confessar-nos
que o meu amigo Escobar era um tanto mettidio e tinha uns olhos
policiaes a que no escapava nada.

--So os olhos delle, expliquei.

--Nem eu digo que sejam de outro.

--So olhos reflectidos, opinou tio Cosme.

--Seguramente, acudiu Jos Dias, entretanto, pde ser que a senhora D.
Justina tenha alguma razo. A verdade  que uma cousa no impede outra,
e a reflexo casa-se muito bem  curiosidade natural. Parece curioso,
isso parece, mas...

--A mim parece-me um mocinho muito serio, disse minha me.

--Justamente! confirmou Jos Dias para no discordar della.

Quando eu referi a Escobar aquella opinio de minha me (sem lhe contar
as outras naturalmente) vi que o prazer delle foi extraordinario.
Agradeceu, dizendo que eram bondades, e elogiou tambem minha me,
senhora grave, distincta e moa, muito moa... Que edade teria?

--J fez quarenta, respondi eu vagam ente por vaidade.

--No  possivel! exclamou Escobar. Quarenta annos! Nem parece trinta;
est muito moa e bonita. Tambem a alguem ha de voc sair, com esses
olhos que Deus lhe deu; so exactamente os della. Enviuvou ha muitos
annos?

Contei-lhe o que sabia da vida della e de meu pae. Escobar escutava
attento, perguntando mais, pedindo explicao das passagens omissas ou
s escuras. Quando eu lhe disse que no me lembrava nada da roa, to
pequenino viera, contou-me duas ou tres reminiscencias dos seus tres
annos de edade, ainda agora frescas. E no contavamos voltar  roa?

--No, agora no voltamos mais. Olhe, aquelle preto que alli vae
passando,  de l. Thomaz!

--Nhonh!

Estavamos na horta da minha casa, e o preto andava em servio;
chegou-se a ns e esperou.

-- casado, disse eu para Escobar. Maria onde est?

--Est soccando milho, sim, senhor.

--Voc ainda se lembra da roa, Thomaz?

--Alembra, sim, senhor.

--Bem, v-se embora.

Mostrei outro, mais outro, e ainda outro, este Pedro, aquelle Jos,
aquelle outro Damio...

--Todas as lettras do alphabeto, interrompeu Escobar.

Com effeito, eram differentes lettras, e s ento reparei nisto;
apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes,
distinguindo-se por um appellido, ou da pessoa, como Joo Fulo, Maria
Gorda, ou de nao como Pedro Benguella, Antonio Moambique...

--E esto todos aqui em casa? perguntou elle.

--No, alguns andam ganhando na rua, outros esto alugados. No era
possivel ter todos em casa. Nem so todos os da roa; a maior parte
ficou l.

--O que me admira  que D. Gloria se acostumasse logo a viver em casa
da cidade, onde tudo  apertado; a de l  naturalmente grande.

--No sei, mas parece. Mame tem outras casas maiores que esta; diz
porm que ha de morrer aqui. As outras esto alugadas. Algumas so bem
grandes, como a da rua da Quitanda...

--Conheo essa;  bonita.

--Tem tambem no Rio Comprido, na Cidade-Nova, uma no Cattete...

--No lhe ho de faltar tectos, concluiu elle sorrindo com sympathia.

Caminhmos para o fundo. Passmos o lavadouro; elle parou um instante
ahi, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexes a proposito
do asseio; depois continumos. Quaes foram as reflexes no me lembra
agora; lembra-me s que as achei engenhosas, e ri, elle riu tambem. A
minha alegria accordava a delle, e o ceu estava to azul, e o ar to
claro, que a natureza parecia rir tambem comnosco. So assim as boas
horas deste mundo. Escobar confessou esse accordo do interno com o
externo, por palavras to finas e altas que me commoveram; depois, a
proposito da belleza moral que se ajusta  physica, tornou a falar de
minha me, um anjo dobrado, disse elle.




XCIV

Ideias arithmeticas.

No digo o mais, que foi muito. Nem elle sabia s elogiar e pensar,
sabia tambem calcular depressa e bem. Era das cabeas arithmeticas
de Holmes (2+2=4). No se imagina a facilidade com que elle sommava
ou multiplicava de cr. A diviso, que foi sempre uma das operaes
difficeis para mim, era para elle como nada: cerrava um pouco os olhos,
voltados para cima, e sussurrava as denominaes dos algarismos: estava
prompto. Isto com sete, treze, vinte algarismos. A vocao era tal que
o fazia amar os proprios signaes das sommas, e tinha esta opinio que
os algarismos, sendo poucos, eram muito mais conceituosos que as vinte
e cinco letras do alphabeto.

--Ha lettras inuteis e lettras dispensaveis, dizia elle. Que servio
diverso prestam o _d_ e o _t_? Tem quasi o mesmo som. O mesmo digo do
_b_ e do _p_, o mesmo do _s_, do _c_ e do _z_, o mesmo do _k_ e do
_g_, etc. So trapalhices calligraphicas. Veja os algarismos: no ha
dous que faam o mesmo officio; 4  4, e 7  7. E admire a belleza com
que um 4 e um 7 formam esta cousa que se exprime por 11. Agora dobre 11
e ter 22; multiplique por egual numero, d 484, e assim por deante.
Mas onde o perfeio  maior  no emprego do _zero._ O valor do _zero_
, em si mesmo, nada; mas o officio deste signal negativo  justamente
augmentar. Um 5 ssinho  um 5; ponha-lhe dous 00,  500. Assim, o que
no vale nada faz valer muito, cousa que no fazem as letras dobradas,
pois eu tanto _approvo_ com um _p_ como com dous _pp._

Criado na orthographia de meus paes, custava-me a ouvir taes
blasphemias, mas no ousava refutal-o. Com tudo, um dia, proferi
algumas palavras de defesa, ao que elle respondeu que era um
preconceito, e accrescentou que as ideias arithmeticas podiam ir ao
infinito, com a vantagem que eram mais faceis de menear. Assim que,
eu no era capaz de resolver de momento um problema philosophico ou
linguistico, ao passo que elle podia sommar, em tres minutos, quaesquer
quantias.

--Por exemplo... d-me um caso, d-me uma poro de numeros que eu no
saiba nem possa saber antes... olhe, d-me o numero das casas de sua
me e os alugueis de cada uma, e se eu no disser a somma total em
dous, em um minuto, enforque-me!

Acceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe escriptos em um
papel os algarismos das casas e dos alugueis. Escobar pegou no papel,
passou-os pelos olhos afim de os decorar, e emquanto eu fitava o
relogio, elle erguia as pupillas, cerrava as palpebras, e sussurrava...
Oh! o vento no  mais rpido! Foi dito e feito; em meio minuto
bradava-me:

--D tudo 1:070$000 mensaes.

Fiquei pasmado. Considera que eram no menos de nove casas, e que os
alugueis variavam de uma para outra, indo de 70$000 a 180$000. Pois
tudo isto em que eu gastaria tres ou quatro minutos,--e havia de ser
no papel,--fel-o Escobar de cr, brincando. Olhava-me triumphalmente,
e perguntava se no era exacto. Eu, s por lhe mostrar que sim, tirei
do bolso o papelinho que levava com a somma total, e mostrei-lh'o; era
aquillo mesmo, nem um erro: 1:070$000.

--Isto prova que as ideias arithmeticas so mais simples, e portanto
mais naturaes. A natureza  simples. A arte  atrapalhada.

Fiquei to enthusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que no
pude deixar de abraal-o. Era no pateo; outros seminaristas notaram a
nossa effuso; um padre que estava com elles no gostou.

--A modestia, disse-nos, no consente esses gestos excessivos; pdem
estimar-se com moderao.

Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e
propoz-me viver separados. Interrompi-o dizendo que no; se era
inveja, tanto peor para elles.

--Quebremos-lhe a castanha na bocca!

--Mas...

--Fiquemos ainda mais amigos que at aqui.

Escobar apertou-me a mo s escondidas, com tal fora que ainda me
doem os dedos.  illuso, de certo, se no  effeito das longas horas
que tenho estado a escrever sem parar. Suspendamos a penna por alguns
instantes...




XCV

O papa.

A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de Jos Dias no lhe
quiz ficar atraz. Na primeira semana disse-me este em casa:

--Agora  certo que voc vae sair j do seminario.

--Como?

--Espere at amanh. Vou jogar com elles que me chamaram; amanh, l
no quarto, no quintal, ou na rua, indo  missa, conto-lhe o que ha. A
ideia  to santa que no est mal no santuario. Amanh, Bentinho.

--Mas  cousa certa?

--Certssima!

No dia seguinte revelou-me o mysterio. Ao primeiro aspecto,
confesso que fiquei deslumbrado. Trazia uma nota de grandeza e de
espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. Era no
menos que isto. Minha me, ao parecer delle, estava arrependida do que
fizera, e desejaria ver-me c fra, mas entendia que o vinculo moral da
promessa a prendia indissoluvelmente. Cumpria rompel-o, e para tanto
valia a Escriptura, com o poder de desligar dado aos apostolos. Assim
que, elle e eu iriamos a Roma pedir a absolvio do papa... Que me
parecia?

--Parece-me bem, respondi depois de alguns segundos de reflexo. Pde
ser um bom remedio.

-- o unico, Bentinho,  o unico! Vou j hoje conversar com D. Gloria,
exponho-lhe tudo, e podemos partir daqui a dous mezes, ou antes...

--Melhor  falar domingo que vem; deixe-me pensar primeiro...

--Oh! Bentinho! interrompeu o aggregado. Pensar em que? Voc o que
quer... Digo? no se amofina com o seu velho? Voc o que quer 
consultar a uma pessoa.

Rigorosamente, eram duas pessoas, Capit e Escobar, mas eu neguei a ps
juntos que quizesse consultar ninguem. E que pessoa, o reitor? No era
natural que lhe confiasse tal assumpto. No, nem reitor, nem professor,
nem ninguem; era s o tempo de reflectir, uma semana, no domingo daria
a resposta, e desde j lhe dizia que a ideia no me parecia m.

--No?

--No.

--Pois resolvamos hoje mesmo.

--No se vae a Roma brincando.

--Quem tem bocca vae a Roma, e bocca no nosso caso  a moeda. Ora,
voc pde muito bem gastar comsigo... Commigo, no; um par de calas,
tres camisas e o po dirio, no preciso mais. Serei como S. Paulo,
que vivia do officio emquanto ia prgando a palavra divina. Pois eu
vou, no prgal-a, mas buscal-a. Levaremos cartas do internuncio e
do bispo, cartas para o nosso ministro, cartas de capuchinhos...
Bem sei a objeco que se pde oppr a esta ideia; diro que  dado
pedir a dispensa c de longe; mas, alm do mais que no digo, basta
reflectir que  muito mais solemne e bonito ver entrar no Vaticano,
e prostrar-se aos ps do papa o proprio objecto do favor, o levita
promettido, que vae pedir para sua me ternissima e dulcissima a
dispensa de Deus. Considere o quadro, voc beijando o p ao prncipe
dos apostolos; Sua Santidade, com o sorriso evangelico, inclina-se,
interroga, ouve, absolve e abenoa. Os anjos o contemplam, a Virgem
recommenda ao santissimo filho que todos os seus desejos, Bentinho,
sejam satisfeitos, e que o que voc amar na terra seja egualmente amado
no ceu...

No digo mais, porque  preciso acabar o capitulo, e elle no acabou o
discurso. Falou a todos os meus sentimentos de catholico e de namorado.
Vi a alma alliviada de minha me, vi a alma feliz de Capit, ambas em
casa, e eu com ellas, e elle comnosco, tudo mediante uma pequena viagem
a Roma, que eu s geographicamente sabia onde ficava; espiritualmente,
tambem, mas a distancia que estaria da vontade de Capit  que
no. Eis o ponto essencial. Se Capit achasse longe, no iria; mas
era preciso ouvil-a, e assim tambem a Escobar, que me daria um bom
conselho.




XCVI

Um substituto.

Expuz a Capit a ideia de Jos Dias. Ouviu-me attentamente, e acabou
triste.

--Voc indo, disse ella, esquece-me inteiramente.

--Nunca!

--Esquece. A Europa dizem que  to bonita, e a Italia principalmente.
No  de l que vm as cantoras? Voc esquece-me, Bentinho. E no
haver outro meio? D. Gloria est morta para que voc saia do seminario.

--Sim, mas julga-se presa pela promessa.

Capit no achava outra ideia, nem acabava de adoptar esta. De caminho,
pediu-me que, se acaso fosse a Roma, jurasse que no fim de seis mezes
estaria de volta.

--Juro.

--Por Deus?

--Por Deus, por tudo. Juro que no fim de seis mezes estarei de volta.

--Mas se o papa no tiver ainda soltado a voc?

--Mando dizer isso mesmo.

--E se voc mentir?

Esta palavra doeu-me muito, e no achei logo que lhe replicasse.
Capit metteu o negocio  bulha, rindo e chamando-me disfarado.
Depois, declarou crer que eu cumpriria o juramento, mas ainda assim
no consentiu logo; ia ver se no haveria outra cousa, e eu que visse
tambem por meu lado.

Quando voltei ao seminario, contei tudo ao meu amigo Escobar, que
me ouviu com egual atteno e acabou com a mesma tristeza da outra.
Os olhos, de costume fugidios, quasi me comeram de contemplao. De
repente, vi-lhe no rosto um claro, um reflexo de ideia. E ouvi-lhe
dizer com volubilidade:

--No, Bentinho, no  preciso isso. Ha melhor,--no digo melhor,
porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo,--mas ha cousa que
produz o mesmo effeito.

--Que ?

--Sua me fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, no ? Pois bem,
d-lhe um sacerdote, que no seja voc. Ella pde muito bem tomar a si
algum mocinho orpho, fazel-o ordenar  sua custa, est dado um padre
ao altar, sem que voc...

--Entendo, entendo,  isso mesmo.

--No acha? continuou elle. Consulte sobre isto o protonotario; elle
lhe dir se no  a mesma cousa, ou eu mesmo consulto, se quer; e se
elle hesitar, fala-se ao Sr. bispo.

Eu, reflectindo:

--Sim, parece que  isso; realmente, a promessa cumpre-se, no se
perdendo o padre.

Escobar observou que, pelo lado economico, a questo era facil; minha
me gastaria o mesmo que commigo, e um orpho no precisaria grandes
commodidades. Citou a somma dos alugueis das casas, 1:070$000, alm dos
escravos...

--No ha outra cousa, disse eu.

--E saimos juntos.

--Voc tambem?

--Tambem eu. Vou melhorar o meu latim e saio; nem dou theologia. O
proprio latim no  preciso; para qu no commercio?

--_In hoc signo vinces_, disse eu rindo.

Sentia-me pilherico. Oh! como a esperana alegra tudo. Escobar sorriu,
parecendo gostar da resposta. Depois ficmos a cuidar de ns mesmos,
cada um com os seus olhos perdidos, provavelmente. Os delle estavam
assim, quando tornei de longe, e agradeci de novo o plano lembrado; no
podia havel-o melhor. Escobar ouviu-me contentissimo.

--Ainda uma vez, disse elle gravemente, a religio e a liberdade fazem
boa companhia.




XCVII

A saida.

Tudo se fez por esse teor. Minha me hesitou um pouco, mas acabou
cedendo, depois que o padre Cabral, tendo consultado o bispo, voltou a
dizer-lhe que sim, que podia ser. Sa do seminario no fim do anno.

Tinha ento pouco mais de dezesete... Aqui devia ser o meio do livro,
mas a inexperiencia fez-me ir atraz da penna, e chego quasi ao fim
do papel, com o melhor da narrao por dizer. Agora no ha mais que
leval-a a grandes pernadas, capitulo sobre capitulo, pouca emenda,
pouca reflexo, tudo em resumo. J esta pagina vale por mezes, outras
valero por annos, e assim chegaremos ao fim. Um dos sacrificios
que fao a esta dura necessidade  a analyse das minhas emoes dos
dezesete annos. No sei se alguma vez tiveste dezesete annos. Se
sim, deves saber que  a edade em que a metade do homem e a metade
do menino formam um s curioso. Eu era um curiosissimo, diria o meu
aggregado Jos Dias, e no diria mal. O que essa qualidade superlativa
me rendeu no poderia nunca dizel-o aqui, sem cair no erro que acabo de
condemnar; a analyse das minhas emoes daquelle tempo  que entrava
no meu plano. Posto que filho do seminario e de minha me, sentia
j, debaixo do recolhimento casto, uns assomos de petulancia e de
atrevimento; eram do sangue, mas eram tambem das moas que na rua ou da
janella no me deixavam viver socegado. Achavam-me lindo, e diziam-m'o;
algumas queriam mirar de mais perto a minha belleza, e a vaidade  um
principio de corrupo.




XCVIII

Cinco annos.

Venceu a razo; fui-me aos estudos. Passei os dezoito annos, os
dezenove, os vinte, os vinte e um; aos vinte e dous era bacharel em
direito.

Tudo mudra em volta de mim. Minha me resolvera-se a envelhecer;
ainda assim os cabellos brancos vinham de m vontade, aos poucos e
espalhadamente; a touca, os vestidos, os sapatos rasos e surdos eram
os mesmos de outr'ora. J no andaria tanto de um lado para outro. Tio
Cosme padecia do corao e ia descanar. A prima Justina apenas estava
mais edosa. Jos Dias tambem, no tanto que me no fizesse a fineza
de ir assistir  minha graduao, e descer commigo a serra, lepido e
vioso, como se o bacharel fosse elle. A me de Capit fallecera, o pae
aposentra-se no mesmo cargo em que quiz dar demisso da vida.

Escobar comeava a negociar em caf depois de haver trabalhado quatro
annos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. Era opinio de
prima Justina que elle affagra a ideia de convidar minha me a
segundas nupcias; mas, se tal ideia houve, cumpre no esquecer a grande
differena de edade. Talvez elle no pensasse em mais que associal-a
aos seus primeiros tentamens commerciaes, e de facto, a pedido meu,
minha me adeantou-lhe alguns dinheiros, que elle lhe restituiu,
logo que poude, no sem este remoque: D. Gloria  medrosa e no tem
ambio.

A separao no nos esfriou. Elle foi o terceiro na troca das cartas
entre mim e Capit. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. As
relaes que travou com o pae de Sancha estreitaram as que j trazia
com Capit, e fel-o servir a ambos ns, como amigo. A principio,
custou-lhe a ella acceital-o, preferia Jos Dias, mas Jos Dias
repugnava-me por um resto de respeito de creana. Venceu Escobar; posto
que vexada, Capit entregou-lhe a primeira carta, que foi me e av
das outras. Nem depois de casado suspendeu elle o obsequio... Que elle
casou,--adivinha com quem,--casou com a boa Sancha, a amiga de Capit,
quasi irm della, tanto que alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta
a sua cunhadinha. Assim se formam as affeies e os parentescos, as
aventuras e os livros.




XCIX

O filho  a cara do pae.

Minha me, quando eu regressei bacharel quasi estalou de felicidade.
Ainda ouo a voz de Jos Dias, lembrando o evangelho de S. Joo, e
dizendo ao ver-nos abraados.

--Mulher, eis ahi o teu filho! Filho, eis ahi a tua me!

Minha me, entre lagrimas:

--Mano Cosme,  a cara do pae, no ?

--Sim, tem alguma cousa, os olhos, a disposio do rosto.  o pae, um
pouco mais moderno, concluiu por chalaa. E diga-me agora, mana Gloria,
no foi melhor que elle no teimasse em ser padre? Veja se este peralta
daria um padre capaz.

--Como vae o meu substituto?

--Vae indo, ordena-se para o anno, respondeu tio Cosme. Has de ir ver a
ordenao; eu tambem, se o meu senhor corao consentir.  bom que te
sintas na alma do outro, como se recebesses em ti mesmo a sagrao.

--Justamente! exclamou minha me. Mas veja bem, mano Cosme, veja se no
 a figura do meu defuncto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre
achei que te parecias com elle, agora  muito mais. O bigode  que
desfaz um pouco...

--Sim, mana Gloria, o bigode realmente... mas  muito parecido.

E minha me beijava-me com uma ternura que no sei escrever. Tio
Cosme, para alegral-a, chamava-me doutor, Jos Dias tambem, e todos em
casa, a prima, os escravos, as visitas, Padua, a filha, e ella mesma
repetiam-me o titulo.




C

Tu sers feliz, Bentinho!

No quarto, desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro
da lata, ia pensando na felicidade e na gloria. Via o casamento e a
carreira illustre, emquanto Jos Dias me ajudava calado e zeloso.
Uma fada invisivel desceu alli, e me disse em voz egualmente macia e
callida: Tu sers feliz, Bentinho; tu vaes ser feliz.

--E porque no seria feliz? perguntou Jos Dias endireitando o tronco e
fitando-me.

--Voc ouviu? perguntei eu erguendo-me tambem, espantado.

--Ouvi o que?

--Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz?

-- boa! Voc mesmo  que est dizendo...

Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada; naturalmente as
fadas, expulsas dos contos e dos versos, metteram-se no corao da
gente e falam de dentro para fra. Esta, por exemplo, muita vez a ouvi
clara e distincta. Ha de ser prima das feiticeiras da Escocia: Tu
sers rei, Macbeth!--Tu sers feliz, Bentinho! Ao cabo,  a mesma
predico, pela mesma toada universal e eterna. Quando voltei do meu
espanto, ouvi o resto do discurso de Jos Dias:

--... Ha de ser feliz, como merece, assim como mereceu esse diploma
que alli est, que no  favor de ninguem. A distinco que tirou em
todas as materias  prova disso; j lhe contei que ouvi da bocca dos
lentes, em particular, os maiores elogios. Demais, a felicidade no 
s a gloria,  tambem outra cousa... Ah! voc no confiou tudo ao velho
Jos Dias! O pobre Jos Dias est ahi para um canto,  caj chupado,
no vale nada; agora so os novos, os Escobares... No lhe nego que 
moo muito distincto, e trabalhador, e marido de truz; mas, **enfim, velho
tambem sabe amar...

--Mas que ?

--Que ha de ser? Quem  que no sabe tudo?... Aquella intimidade de
visinhos tinha de acabar nisto, que  verdadeiramente uma beno do
ceu, porque ella  um anjo,  um _anjissimo_... Perdoe a cincada,
Bentinho, foi um modo de accentuar a perfeio daquella moa. Cuidei
o contrario, outr'ora; confundi os modos de creana com expresses de
caracter, e no vi que essa menina travssa e j de olhos pensativos
era a flr caprichosa de um fructo sadio e doce... Porque  que no
me contou tambem o que outros sabem, e c em casa est mais que
adivinhado e approvado?

--Mame approva devras?

--Pois ento? Temos falado sobre isso, e ella fez-me o favor de pedir a
minha opinio. Pergunte-lhe o que  que eu lhe disse em termos claros
e positivos; pergunte-lhe. Disse-lhe que no podia desejar melhor nora
para si, boa, discreta, prendada, amiga da gente... e uma dona de casa,
que no lhe digo nada. Depois da morte da me, tomou conta de tudo.
Padua, agora que se aposentou, no faz mais que receber o ordenado e
entregal-o  filha. A filha  que distribue o dinheiro, paga as contas,
faz o rol das despezas, cuida de tudo, mantimento, roupa, luz; voc
j a viu o anno passado. E quanto  formosura voc sabe melhor que
ninguem...

--Mas, devras, mame consultou o senhor sobre o nosso casamento?

--Positivamente, no; fez-me o favor de perguntar se Capit no daria
uma boa esposa; eu  que, na resposta, falei em nora. D. Gloria no
negou e at deu um ar de riso.

--Mame sempre que me escrevia, falava de Capit.

--Voc sabe que ellas se do muito, e por isso  que sua prima anda
cada vez mais amuada. Talvez agora case mais depressa.

--Prima Justina?

--No sabe? So contos, naturalmente; mas emfim, o doutor Joo da Gosta
enviuvou ha poucos mezes, e dizem (no sei, o protonotario  que me
contou) dizem que os dous andam meio inclinados a acabar com a viuvez,
entre si, casando-se. Ha de ver que no ha nada, mas no  fora de
proposito, comquanto ella sempre achasse que o doutor era um feixe de
ossos... S se ella  um cemiterio, commentou rindo; e logo serio: Digo
isto por gracejo...

No ouvi o resto. Ouvia s a voz da minha fada interior, que me
repetia, mas j ento sem palavras: Tu sers feliz, Bentinho  E a voz
de Capit me disse a mesma cousa, com termos diversos, e assim tambem
a de Escobar, os quaes ambos me confirmaram a noticia de Jos Dias
pela sua propria impresso. Emfim, minha me, algumas semanas depois,
quando lhe fui pedir licena para casar, alm do consentimento, deu-me
egual prophecia, salva a redaco prpria de me: Tu sers feliz, meu
filho!




CI

No ceu.

Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor pegue em si, morto
de esperar, e v espairecer a outra parte; casemo-nos. Foi em 1865,
uma tarde do maro, por signal que chovia. Quando chegmos ao alto da
Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos, o ceu recolheu a chuva e
accendeu as estrellas, no s as j conhecidas, mas ainda as que s
sero descobertas daqui a muitos seculos. Foi grande fineza e no foi
unica. S. Pedro, que tem as chaves do ceu, abriu-nos as portas delle,
fez-nos entrar, e depois de tocar-nos com o baculo, recitou alguns
versiculos da sua primeira epistola: As mulheres sejam sujeitas a seus
maridos... No seja o adorno dellas o enfeite dos cabellos riados ou
as rendas de ouro, mas o homem que est escondido no corao.... Do
mesmo modo, vs, maridos, co-habitai com ellas, tratando-as com honra,
como a vasos mais fracos, e herdeiras comvosco da graa da vida....
Em seguida, fez signal aos anjos, e elles entoaram um trecho do
_Cantico_, to concertadamente, que desmentiriam a hypothese do tenor
italiano, se a execuo fosse na terra; mas era no ceu. A musica ia com
o texto, como se houvessem nascido juntos,  maneira de uma opera de
Wagner. Depois, visitmos uma parte daquelle logar infinito. Descana
que no farei descripo alguma, nem a lingua humana possue frmas
idoneas para tanto.

Ao cabo, pde ser que tudo fosse um sonho; nada mais natural a um
ex-seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escriptura.  verdade
que Capit, que no sabia Escriptura nem latim, decorou algumas
palavras, como estas, por exemplo: Sentei-me  sombra daquelle que
tanto havia desejado. Quanto s de S. Pedro, disse-me no dia seguinte
que estava por tudo, que eu era a unica renda e o unico enfeite que
jamais poria em si. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre
as mais finas rendas deste mundo.




CII

De casada.

Imagina um relogio que s tivesse pendulo, sem mostrador, de maneira
que no se vissem as horas escriptas. O pendulo iria de um lado para
outro, mas nenhum signal externo mostraria a marcha do tempo. Tal foi
aquella semana da Tijuca.

De quando em quando, tornavamos ao passado e divertiamo-nos em
relembrar as nossas tristezas e calamidades, mas isso mesmo era um modo
de no sairmos de ns. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de
namorados, os annos da adolescencia, a denuncia que est nos primeiros
capitulos, e riamos de Jos Dias, que conspirou a nossa desunio, e
acabou festejando o nosso consorcio. Uma ou outra vez, falavamos em
descer, mas as manhs marcadas eram sempre de chuva ou de sol, e ns
espervamos um dia encoberto, que teimava em no vir.

No obstante, achei que Capit estava um tanto impaciente por descer.
Concordava em ficar, mas ia falando do pae e de minha me, da falta de
noticias nossas, disto e daquillo, a ponto que nos arrufmos um pouco.
Perguntei-lhe se j estava aborrecida de mim.

--Eu?

--Parece.

--Voc ha de ser sempre creana, disse ella fechando-me a cara entre
as mos e chegando muito os olhos aos meus. Ento eu esperei tantos
annos para aborrecer-me em sete dias? No, Bentinho; digo isto porque
 realmente assim, creio que elles pdem estar desejosos de ver-nos e
imaginar alguma doena, e, confesso, pela minha parte, que queria ver
papae.

--Pois vamos amanh.

--No; ha de ser com tempo encoberto, redarguiu rindo.

Peguei-lhe no riso e na palavra, mas a impaciencia continuou, e
descemos com sol.

A alegria com que poz o seu chapo de casada, e o ar de casada com
que me deu a mo para entrar e sair do carro, e o brao para andar
na rua, tudo me mostrou que a causa da impaciencia de Capit eram os
signaes exteriores do novo estado. No lhe bastava ser casada entre
quatro paredes e algumas arvores; precisava do resto do mundo tambem.
E quando eu me vi embaixo, pisando as ruas com ella, parando, olhando,
falando, senti a mesma cousa. Inventava passeios para que me vissem,
me confirmasses e me invejassem. Na rua, muitos voltavam a cabea
curiosos, outros paravam, alguns perguntavam: Quem so? e um sabido
explicava: Este  o doutor Santiago, que casou ha dias com aquella
moa, D. Capitolina, depois de uma longa paixo de creanas; moram na
Gloria, as familias residem em Matacavallos. E ambos os dous:   uma
mocetona!




CIII

A felicidade tem boa alma.

Mocetona  vulgar; Jos Dias achou melhor. Foi a unica pessoa c de
baixo que nos visitou na Tijuca, levando abraos dos nossos e palavras
suas, mas palavras que eram musicas verdadeiras; no as ponho aqui para
ir poupando papel, mas foram deliciosas. Um dia, comparou-nos a aves
criadas em dous vos de telhado contiguos. Imagina o resto, as aves
emplumando as azas e surtindo ao ceu, e o ceu agora mais largo para
poder contel-as tambem. Nenhum de ns riu; ambos escutavamos commovidos
e convencidos, esquecendo tudo, desde a tarde de 1858.... A felicidade
tem boa alma.




CIV

As pyramides.

Jos Dias dividia-se agora entre mim e minha me, alternando os
jantares da Gloria com os almoos de Matacavallos. Tudo corria bem.
Ao fim de dous annos de casado, salvo o desgosto grande de no ter um
filho, tudo corria bem. Perdera meu sogro,  verdade, e o tio Cosme
estava por pouco, mas a saude de minha me era boa; a nossa excellente.

Eu era advogado de algumas casas ricas, e os processos vinham chegando.
Escobar contribuira muito para as minhas estras no fro. Interveiu com
um advogado celebre para que me admitisse  sua banca, e arranjou-me
algumas procuraes, tudo espontaneamente.

Demais, as nossas relaes de familia estavam previamente feitas;
Sancha e Capit continuavam depois de casadas a amizade da escola,
Escobar e eu a do seminario. Elles moravam em Andarahy, aonde queriam
que fossemos muitas vezes, e, no podendo ser tantas como desejavamos,
iamos l jantar alguns domingos, ou elles vinham fazel-o comnosco.
Jantar  pouco. Iamos sempre muito cedo, logo depois do almoo, para
gozarmos o dia compridamente, e s nos separavamos s nove, dez e onze
horas, quando no podia ser mais. Agora que penso naquelles dias de
Andarahy e da Gloria, sinto que a vida e o resto no sejam to rijos
como as Pyramides.

Escobar e a mulher viviam felizes; tinham uma filhinha. Em tempo ouvi
falar de uma aventura do marido, negocio de theatro, no sei que actriz
ou bailarina, mas se foi certo, no deu escandalo. Sancha era modesta,
o marido trabalhador. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava
no ter um filho, replicou-me:

--Homem, deixa l. Deus os dar quando quizer, e se no der nenhum 
que os quer para si, e melhor ser que fiquem no ceu.

--Uma creanca, um filho  o complemento natural da vida.

--Vir, so fr necessrio.

No vinha. Capit pedia-o em suas oraes, eu mais de uma vez dava
por mim a rezar e a pedil-o. J no era como em creana; agora pagava
antecipadamente, como os alugueis da casa.




CV

Os braos.

No mais, tudo corria bem. Capit gostava de rir e divertir-se, e, nos
primeiros tempos, quando iamos a passeios ou espectaculos, era como
um passaro que saisse da gaiola. Arranjava-se com graa e modestia.
Embora gostasse de joias, como as outras moas, no queria que eu lhe
comprasse muitas nem caras, e um dia affligiu-se tanto que prometti no
comprar mais nenhuma; mas foi s por pouco tempo.

A nossa vida era mais ou menos placida. Quando no estavamos com a
familia ou com amigos, ou se no iamos a algum espectaculo ou sero
particular (e estes eram raros) passavamos as noites  nossa janella
da Gloria, mirando o mar e o ceu, a sombra das montanhas e dos navios,
ou a gente que passava na praia. s vezes, eu contava a Capit a
historia da cidade, outras dava-lhe noticias de astronomia; noticias
de amador que ella escutava attenta e curiosa, nem sempre tanto que no
cochillasse um pouco. No sabendo piano, apprendeu depois de casada, e
depressa, e dahi a pouco tocava nas casas de amizade. Na Gloria era uma
das nossas recreaes; tambem cantava, mas pouco e raro, por no ter
voz; um dia chegou a entender que era melhor no cantar nada e cumpriu
o alvitre. De dansar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um
baile; os braos  que... Os braos merecem um periodo.

Eram bellos, e na primeira noite que os levou ns a um baile, no creio
que houvesse eguaes na cidade, nem os seus, leitora, que eram ento de
menina, se eram nascidos, mas provavelmente estariam ainda no marmore,
donde vieram, ou nas mos do divino esculptor. Eram os mais bellos da
noite, a ponto que me encheram de desvanecimento. Conversava mal com
as outras pessoas, s para vel-os, por mais que elles se entrelaassem
aos das casacas alheias. J no foi assim no segundo baile; nesse,
quando vi que os homens no se fartavam de olhar para elles, de os
buscar, quasi de os pedir, e que roavam por elles as mangas pretas,
fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro no fui, e aqui tive o apoio
de Escobar, a quem confiei candidamente os meus tedios; concordou logo
commigo.

--Sanchinha tambem no vae, ou ir de mangas compridas; o contrario
parece-me indecente.

--No ? Mas no diga o motivo; ho de chamar-nos seminaristas. Capit
j me chamou assim.

Nem por isso deixei de contar a Capit a approvao de Escobar. Ella
sorriu e respondeu que os braos de Sanchinha eram mal feitos, mas
cedeu depressa, e no foi ao baile; a outros foi, mas levou-os meio
vestidos de escomilha ou no sei qu, que nem cobria nem descobria
inteiramente, como o sendal de Cames.




CVI

Dez libras esterlinas.

J disse que era poupada, ou fica dito agora, e no s de dinheiro
mas tambem de cousas usadas, dessas que se guardam por tradio, por
lembrana ou por saudade. Uns sapatos, por exemplo, uns sapatinhos
rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do p e principio da
perna, os ultimos que usou antes de calar botinas, trouxe-os para
casa, e tirava-os de longe em longe da gaveta da commoda, com outras
velharias, dizendo-me que eram pedaos de creana. Minha me, que tinha
o mesmo genio, gostava de ouvir falar e fazer assim.

Quanto s puras economias de dinheiro, direi um caso, e basta. Foi
justamente por occasio de uma lico de astronomia,  praia da Gloria.
Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. Uma noite perdeu-se em
fitar o mar, com tal fora e concentrao, que me deu ciumes.

--Voc no me ouve, Capit.

--Eu? Ouo perfeitamente.

--O que  que eu dizia?

--Voc... voc falava de Sirius.

--Qual, Sirius, Capit. Ha vinte minutos que eu falei de Sirius.

--Falava de... falava de Marte, emendou ella apressada.

Realmente, era de Marte, mas  claro que s apanhra o som da palavra,
no o sentido. Fiquei serio, e o impeto que me deu foi deixar a sala;
Capit, ao percebel-o, fez-se a mais mimosa das creaturas, pegou-me na
mo, confessou-me que estivera contando, isto , sommando uns dinheiros
para descobrir certa parcella que no achava. Tratava-se de uma
converso de papel em ouro. A principio suppuz que era um recurso para
desentadar-me, mas d'ahi a pouco estava eu mesmo calculando tambem, j
ento com papel e lapis, sobre o joelho, e dava a differena que ella
buscam.

--Mas que libras so essas? perguntei-lhe no fim.

Capit fitou-me rindo, e replicou que a culpa de romper o segredo era
minha. Ergueu-se, foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas, na
mo; eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as
despezas.

--Tudo isto?

--No  muito, dez libras s;  o que a avarenta de sua mulher poude
arranjar, em alguns mezes, concluiu fazendo tinir o ouro na mo.

--Quem foi o corretor?

--O seu amigo Escobar.

--Como  que elle no me disse nada?

--Foi hoje mesmo.

--Elle esteve c?

--Pouco antes de voc chegar; eu no disse para que voc no
desconfiasse.

Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente commemorativo,
mas Capit deteve-me. Ao contrario, consultou-me sobre o que haviamos
de fazer daquellas libras.

--So suas, respondi.

--So nossas, emendou.

--Pois voc guarde-as.

No dia seguinte, fui ter com Escobar ao armazem, e ri-me do segredo de
ambos. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escriptorio
contar-me tudo. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capit)
tinha-lhe falado naquillo por occasio da nossa ultima visita a
Andarahy, e disse-lhe a razo do segredo.

--Quando contei isto a Sanchinha, concluiu elle, ficou espantada: Como
 que Capit pde economisar, agora que tudo est to caro?--No sei,
filha; sei que arranjou dez libras.

--V se ella apprende tambem.

--No creio; Sanchinha no  gastadeira, mas tambem no  poupada; o
que lhe dou chega, mas s chega.

Eu, depois de alguns instantes de reflexo:

--Capit  um anjo!

Escobar concordou de cabea, mas sem enthusiasmo, como quem sentia no
poder dizer o mesmo da mulher. Assim pensarias tu tambem, to certo
 que as virtudes das pessoas proximas nos do tal ou qual vaidade,
orgulho ou consolao.




CVII

Ciumes do mar.

Se no fosse a astronomia, no descobriria eu to cedo as dez libras
de Capit; mas no  por isso que torno a ella,  para que no cuides
que a vaidade de professor  que me fez padecer com a desatteno de
Capit e ter ciumes do mar. No, meu amigo. Venho explicar-te que tive
taes ciumes pelo que podia estar na cabea de minha mulher, no fra
ou acima della.  sabido que as distraces de uma pessoa pdem ser
culpadas, metade culpadas, um tero, um quinto, um decimo de culpadas,
pois que em materia de culpa a graduao  infinita. A recordao
de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se
deleitem com a imaginao delles. No  mister peccado effectivo e
mortal, nem papel trocado, simples palavra, aceno, suspiro ou signal
ainda mais miudo e leve. Um anonymo ou anonyma que passe na esquina da
rua faz com que mettamos Sirius dentro do Marte, e tu sabes, leitor,
a differena que ha de um a outro na distancia e no tamanho, mas a
astronomia tem dessas confuses. Foi isto que mo fez empallidecer,
calar e querer fugir da sala para voltar. Deus sabe quando;
provavelmente, dez minutos depois. Dez minutos depois, estaria eu outra
vez na sala, ao piano ou  janella, continuando a lico interrompida:

--Marte est a distancia de...

To pouco tempo? Sim, to pouco tempo, dez minutos. Os meus ciumes eram
intensos, mas curtos; com pouco derrubaria tudo, mas com o mesmo pouco
ou menos reconstruiria o ceu, a terra e as estrellas.

A verdade  que fiquei mais amigo de Capit, se era possivel, ella
ainda mais meiga, o ar mais brando, as noites mais claras, e Deus mais
Deus. E no foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram
isto, nem o sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia,
mas as cautelas que Capit empregou para o fim de descobrir-me um dia
o cuidado de todos os dias. Escobar tambem se me fez mais pegado ao
corao. As nossas visitas foram-se tornando mais proximas, e as nossas
conversaes mais intimas.




CVIII

Um filho.

Pois nem todo isso me matava a sde de um filho, um triste menino
que fosse, amarello e magro, mas um filho, um filho proprio da minha
pessoa. Quando iamos a Andarahy e viamos a filha de Escobar e Sancha,
familiarmente Capitsinha, por differenal-a de minha mulher, visto
que lhe deram o mesmo nome  pia, ficavamos cheios de invejas. A
pequena era graciosa e gorducha, faladeira e curiosa. Os paes, como
os outros paes, contavam as travessuras e agudezas da menina, e ns,
quando voltavamos  noite para a Gloria, vinhamos suspirando as nossas
invejas, e pedindo mentalmente ao ceu que nol-as matassem...

... As invejas morreram, as esperanas nasceram, e no tardou que
viesse ao mundo o fructo dellas. No era escasso nem feio, como eu j
pedia, mas um rapago robusto e lindo.

A minha alegria quando elle nasceu, no sei dizel-a; nunca a tive
egual, nem creio que a possa haver identica, ou que de longe ou
de perto se parea com ella. Foi uma vertigem e uma loucura. No
cantava na rua por natural vergonha, nem em casa para no affligir
Capit convalescente. Tambem no caa, porque ha um deus para os paes
novos. Fra, vivia com o espirito no menino; em casa, com os olhos, a
observal-o, a miral-o, a perguntar-lhe donde vinha, e porque  que eu
estava to inteiramente nelle, e varias outras tolices sem palavras,
mas pensadas ou deliradas a cada instante. Talvez perdi algumas causas
no fro por descuido.

Capit no era menos terna para elle e para mim. Davamos as mos um
ao outro, e, quando no olhavamos para o nosso filho, conversavamos
de ns, do nosso passado e do nosso futuro. As horas de maior encanto
e mysterio eram as de amamentao. Quando eu via o meu filho chupando
o leite da me, e toda aquella unio da natureza para a nutrio e
vida de um ser que no fra nada, mas que o nosso destino affirmou
que seria, e a nossa constancia e o nosso amor fizeram que chegasse a
ser, ficava que no sei dizer nem digo; positivamente no me lembra, e
receio que o que dissesse me saisse escuro.

Escusai minucias. Assim que, no  preciso contar a dedicao de minha
me e de Sancha, que tambem foi passar com Capit os primeiros dias e
noites. Quiz rejeitar o obsequio de Sandia; respondeu-me que eu no
tinha nada com isso; tambem Capit, em solteira, fora tratal-a  rua
dos Invalidos.

--No se lembra que o senhor foi l vel-a?

--Lembra-me; mas Escobar...

--Eu virei jantar com vocs, e s noites sigo para Andarahy; oito dias,
e est tudo passado. Bem se v que voc  pae de primeira viagem.

--Tambem voc; onde est a segunda?

Usavamos ento estas graas em familia. Hoje, que me recolhi  minha
casmurrice, no sei se ainda ha tal linguagem, mas deve haver. Escobar
cumpriu o que disse; jantava comnosco, e ia-se  noite. Sobre tarde
desciamos  praia ou iamos ao Passeio Publico, fazendo elle os seus
calculos, eu os meus sonhos. Eu via o meu filho medico, advogado,
negociante, metti-o em varias universidades e bancos, e at acceitei a
hypothese de ser poeta. A possibilidade de politico foi consultada, e
cri que me saisse orador, e grande orador.

--Pde ser, redarguia Escobar; ninguem diria o que veiu a ser
Desmosthenes.

Escobar acompanhava muita vez as minhas creancices; tambem interrogava
o futuro. Chegou a falar da hypothese de casar o pequeno com a filha.
A amizade existe; esteve toda nas mos com que apertei as de Escobar,
ao ouvir-lhe isto, e na total ausencia de palavras com que alli
assignei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo
corao, que batia com grande fora. Acceitei a lembrana, e propuz
que os encaminhassemos a este fim, pela educaro egual e commum, pela
infancia unida e correcta.

Era minha ideia que Escobar fosse padrinho do pequeno; a madrinha devia
ser e seria minha me. Mas a primeira parte se trocou por interveno
do tio Cosme, que, ao ver a creana, disse-lhe entre outros carinhos.

--Anda, toma o beno a teu padrinho, velhaco.

E, voltando-se para mim:

--No desisto do favor; e ha de ser depressa o baptisado, antes que a
minha doena me leve de vez.

Contei discretamente a anecdota a Escobar, para que elle me
comprehendesse e desculpasse; riu-se e no se magoou. Fez mais, quiz
que o almoo do baptisado fosse na chacara delle, e foi. Eu ainda
tentei espaar a cerimonia a ver se tio Cosme succumbia primeiro 
doena, mas parece que esta era mais de aborrecer que de matar. No
houve remedio seno levar o menino  pia, onde se lhe deu o nome de
Ezequiel; era o de Escobar, e eu quiz supprir deste modo a falta de
compadrio.




CIX

Um filho unico.

Ezequiel, quando comeou o capitulo anterior, no era ainda gerado;
quando acabou era christo e catholico. Este outro  destinado a fazer
chegar o meu Ezequiel aos cinco annos, um rapago bonito, com os seus
olhos claros, j inquietos, como se quizessem namorar todas as moas da
visinhana, ou quasi todas.

Agora, se considerares que elle foi unico, que nenhum outro veiu, certo
nem incerto, morto nem vivo, um s e unico, imaginars os cuidados que
nos deu, os somnos que nos tirou, e que sustos nos metteram as crises
dos dentes e outras, a menor febricula, toda a existencia commum das
creanas. A tudo acudiamos, segundo cumpria e urgia, cousa que no era
necessario dizer, mas ha leitores to obtusos, que nada entendem, se se
lhes no relata tudo e o resto. Vamos ao resto.




CX

Rasgos da infancia.

O resto come-me ainda muitos capitulos; ha vidas que os tem menos, e
fazem-se ainda assim completas e acabadas.

Aos cinco e seis annos, Ezequiel no parecia desmentir os meus sonhos
da praia da Gloria; ao contrario, adivinhavam-se nelle todos as
vocaes possiveis, desde vadio at apostolo. Vadio  aqui posto no
bom sentido, no sentido de homem que pensa e cala; mettia-se s vezes
comsigo, e nisto fazia lembrar a me, desde pequena. Assim tambem,
agitava-se todo e instava por ir persuadir s visinhas que os doces que
eu lhe trazia eram doces devras; no o fazia antes de farto d'elles,
mas tambem os apostolos no levam a boa doutrina seno depois de a
terem toda no corao. Escobar, bom negociante, opinava que a causa
principal desta outra inclinao, talvez fosse convidar implicitamente
as visinhas a egual apostolado, quando os paes lhe trouxessem doces; e
ria-se da propria graa, e annunciava-me que o faria seu socio.

Gostava de musica, no menos que de doce, e eu disse a Capit que lhe
tirasse ao piano o prgo do preto das cocadas de Matacavallos...

--No me lembra.

--No diga isso; voc no se lembra daquelle preto que vendia doce, s
tardes...

--Lembro-me de um preto que vendia doce, mas no sei mais da toada.

--Nem das palavras?

--Nem das palavras.

A leitora, que ainda se lembrar das palavras, dado que me tenha lido
com atteno, ficar espantada de tamanho esquecimento, tanto mais que
lhe lembraro ainda as vozes da sua infancia e adolescencia; haver
olvidado algumas, mas nem tudo fica na cabea. Assim me replicou
Capit, e no achei treplica. Fiz, porm, o que ella no esperava;
corri aos meus papeis velhos. Em S. Paulo, quando estudante, pedi a
um professor de musica que me transcrevesse a toada do prgo; elle
o fez com prazer (bastou-me repetir-lh'o de memoria), e eu guardei o
papelinho; fui procural-o. D'ahi a pouco interrompi um romance que ella
tocava, com o pedacinho de papel na mo. Expliquei-lh'o; ella teclou as
dezeseis notas.

Capit achou  toada um sabor particular, quasi delicioso; contou ao
filho a historia do prgo, e assim o cantava e teclava. Ezequiel
aproveitou a musica para pedir-me que desmentisse o texto dando-lhe
algum dinheiro.

Fazia de medico, de militar, de actor e bailarino. Nunca lhe dei
oratorios; mas cavallos de pau e espada  cinta eram com elle. J no
falo dos batalhes que passavam na rua, e que elle corria a ver: todas
as creancas o fazem. O que nem todas fazem  ter os olhos que esta
tinha. Em nenhuma vi as ancias de gosto com que assistia  passagem da
tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores.

--Olha, papae! olha!

--Estou vendo, meu filho!

--Olha o commandante! Olha o cavallo do commandante! Olha os soldados!

Um dia amanheceu tocando corneta com a mo; dei-lhe uma cornetinha de
metal. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo, gravuras de batalhas que
elle mirava por muito tempo, querendo que lhe explicasse uma pea
de artilharia, um soldado cado, outro de espada alada, e todos os
seus amores iam para o de espada alada. Um dia (ingenua edade!)
perguntou-me impaciente:

--Mas, papae, porque  que elle no deixa cair a espada de uma vez?

--Meu filho,  porque  pintado.

--Mas ento porque  que elle se pintou?

Ri-me do engano e expliquei-lhe que no era o soldado que se tinha
pintado no papel, mas o gravador, e tive de explicar tambem, o que era
gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capit, em summa.

Taes so os principaes rasgos da infancia: mais um e acabo o capitulo.
Um dia, na chacara de Escobar, deu com um gato que tinha um rato
atravessado na bocca. O gato nem deixava a presa, nem via por onde
fugisse. Ezequiel no disse nada, deteve-se, acocorou-se, e ficou
olhando. Ao vel-o assim attento, perguntmos-lhe de longe o que era;
fez-nos signal que nos calassemos. Escobar concluiu:

--Vo ver que  o gato que apanhou algum rato. Os ratos continuam a
infestar-me a casa, que  o diabo. Vamos ver.

Capit quiz tambem ver o filho; acompanhei-os. Effectivamente, era
um gato e um rato, lance banal, sem interesse nem graa. A unica
circumstancia particular era estar o rato vivo, esperneando, e o meu
pequeno enlevado. De resto, o instante foi curto. O gato, logo que
sentiu mais gente, dispoz-se a correr; o menino, sem tirar-lhe os olhos
de cima, fez-nos outro signal de silencio; e o silencio no podia
ser maior. Ia dizer religioso, risquei a palavra, mas aqui a ponho
outra vez, no s por significar a totalidade do silencio, mas tambem
porque havia naquella aco do gato e do rato alguma cousa que prendia
com ritual. O unico rumor eram os ultimos guinchos do rato, alis
frouxissimos; as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. Um tanto
aborrecido, bati palmas para que o gato fugisse, e o gato fugiu. Os
outros nem tiveram tempo de atalhar-me, Ezequiel ficou abatido.

--Ora, papae!

--Que foi? A esta hora o rato est comido.

--Pois sim, mas eu queria ver.

Os dous riram-se; eu mesmo achei-lhe graa.




CXI

Contado depressa.

Achei-lhe graa, e no lh'a nego ainda agora, apesar do tempo passado,
dos successos occorridos, e da tal ou qual sympathia ao rato que acho
em mim; teve graa. No me pesa dizel-o; os que amam a natureza como
ella quer ser amada, sem repudio parcial nem excluses injustas, no
acham nella nada inferior. Amo o rato, no desamo o gato. J pensei
em os fazer viver juntos, mas vi que so incompativeis. Em verdade,
um roe-me os livros, outro o queijo; mas no  muito que eu lhes
perdoe, se j perdoei a um cachorro que me levou o descano em peores
circumstancias. Contarei o caso depressa.

Foi quando nasceu Ezequiel; a me estava com febre, Sancha vivia ao p
della, e tres ces na rua latiam toda a noite. Procurei o fiscal, e foi
como se procurasse o leitor, que s agora sabe disto. Ento resolvi
matal-os; comprei veneno, mandei fazer tres bolas de carne, e eu mesmo
inseri nellas a droga. De noite, sa; era uma hora; nem a doente, nem
a enfermeira podiam dormir, com a bulha dos ces. Quando elles me
viram, afastaram-se, dous desceram para o lado da praia do Flamengo, um
ficou a curta distancia, como que esperando. Fui-me a elle, assobiando
e dando estalinhos com os dedos. O diabo ainda latiu, mas fiado nos
signaes de amizade, foi-se calando, at que se calou de todo. Como
eu continuasse, elle veiu a mim, devagar, mexendo a cauda, que  o
seu modo de rir delles; eu tinha j na mo as bolas envenenadas, e ia
deitar-lhe uma dellas, quando aquelle riso especial, carinho, confiana
ou o que quer que seja, me atou a vontade; fiquei assim no sei como,
tocado de pena e guardei as bolas no bolso. Ao leitor pde parecer
que foi o cheiro da carne que remetteu o co ao silencio. No digo
que no; eu cuido que elle no me quiz attribuir perfidia ao gesto, e
entregou-se-me. A concluso  que se livrou.




CXII

As imitaes de Ezequiel.

Tal no faria Ezequiel. No comporia bolas envenenadas, supponho, mas
no as recusaria tambem. O que faria com certeza era ir atraz dos ces,
a pedrada, at onde lhe dessem as pernas. E se tivesse um pau, iria a
pau. Capit morria por aquelle batalhador futuro.

--No sae a ns, que gostamos da paz, disse-me ella um dia, mas papae
em moo era assim tambem; mame  que contava.

--Sim, no sair maricas, repliquei; eu s lhe descubro um
defeitosinho, gosta de imitar os outros.

--Imitar como?

--Imitar os gestos, as modos, os altitudes; imita prima Justina, imita
Jos Dias; j lhe achei at um geito dos ps de Escobar e dos olhos...

Capit deixou-se estar pensando e olhando para mim, e disse afinal que
era preciso emendal-o. Agora reparava que realmente era vezo do filho,
mas parecia-lhe que era s imitar por imitar, como succede a muitas
pessoas grandes, que tomam as maneiras dos outros; e para que no fosse
mais longe...

--Tambem no vamos mortifical-o. Sempre ha tempo de corrigil-o.

--Ha, vou ver. Voc tambem no era assim, quando se zangava com
alguem...

--Quando me zangava, concordo; vingana de menino.

--Sim, mas eu no gosto de imitaes em casa.

--E naquelle tempo gostavas de mim? disse eu batendo-lhe na face.

A resposta do Capit foi um riso doce de escarneo, um desses risos que
no se descrevem, e apenas se pintaro; depois estirou os braos e
atirou-m'os sobre os hombros, to cheios de graa que pareciam (velha
imagem!) um collar de flores. Eu fiz o mesmo aos meus, e senti no
haver alli um esculptor que nos transferisse a altitude a um pedao de
marmore. S brilharia o artista,  certo. Quando uma pessoa ou um grupo
saem bem, ninguem quer saber de modelo, mas da obra, e a obra  que
fica. No importa; ns saberiamos que eramos ns.




CXIII

Embargos de terceiro.

Por falar nisto,  natural que me perguntes se, sendo antes to cioso
della, no continuei a sel-o apesar do filho e dos annos. Sim, senhor,
continuei. Continuei, a tal ponto que o menor gesto me affligia, a mais
intima palavra, uma insistencia qualquer: muita vez s a indifferena
bastava. Cheguei a ter ciumes de tudo e de todos. Um visinho, um par
de valsa, qualquer homem, moo ou maduro, me enchia de terror ou
desconfiana. E certo que Capit gostava de ser vista, e o meio mais
proprio a tal fim (disse-me uma senhora, um dia)  ver tambem, e no ha
ver sem mostrar que se v.

A senhora que me disse isto cuido que gostou de mim, e foi naturalmente
por no achar da minha parte correspondencia aos seus affectos que
me explicou daquella maneira os seus olhos teimosos. Outros olhos
me procuravam tambem, no muitos, e no digo nada sobre elles, tendo
alis confessado a principio as minhas aventuras vindouras, mas eram
ainda vindouras. Naquelle tempo, por mais mulheres bonitas que achasse,
nenhuma receberia a minima parte do amor que tinha a Capit. A minha
propria me no queria mais que metade. Capit era tudo e mais que
tudo; no vivia nem trabalhava que no fosse pensando nella. Ao theatro
iamos juntos; s me lembra que fosse duas vezes sem ella, um beneficio
de actor, e uma estra de opera, a que ella no foi por ter adoecido,
mas quiz por fora que eu fosse. Era tarde para mandar o camarote a
Escobar; sa, mas voltei no fim do primeiro acto. Encontrei Escobar 
porta do corredor.

--Vinha falar-te, disse-me elle.

Expliquei-lhe que tenha saido para o theatro, donde voltra receioso de
Capit, que ficra doente.

--Doente de que? perguntou Escobar.

--Queixava-se da cabea e do estomago.

--Ento, vou-me embora. Vinha para aquelle negocio dos embargos...

Eram uns embargos de terceiro; occorrera um incidente importante, e,
tendo elle jantado na cidade, no quiz ir para casa sem dizer-me o que
era, mas j agora falaria depois...

--No, falemos j, sbe; ella pde estar melhor. Se estiver peor,
desces.

Capit estava melhor e at boa. Confessou-me que apenas tivera uma
dor de cabea de nada, mas aggravra o padecimento para que eu fosse
divertir-me. No falava alegre, o que me fez desconfiar quo mentia,
para me no metter medo, mas jurou que era a verdade pura. Escobar
sorriu e disse:

--A cunhadinha est to doente como voc ou eu. Vamos aos embargos.




CXIV

Em que se explica o explicado.

Antes de ir aos embargos, expliquemos ainda um ponto que j ficou
explicado, mas no bem explicado. Viste que eu pedi (cap. CX) a um
professor de musica de S. Paulo que me escrevesse a toada daquelle
prgo de doces de Matacavallos. Em si, a materia  chocha, e no vale
a pena de um capitulo, quanto mais dous; mas ha materias taes que
trazem ensinamentos interessantes, seno agradaveis. Expliquemos o
explicado.

Capit e eu tinhamos jurado no esquecer mais aquelle prgo; foi em
momento de grande ternura, e o tabellio divino sabe as cousas que se
juram em taes momentos, elle que as registra nos livros eternos.

--Voc jura?

--Juro, disse ella estendendo tragicamente o brao.

Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mo; estava ainda no seminario.
Quando fui para S. Paulo, querendo um dia relembrar a toada, vi que a
ia perdendo inteiramente; consegui recordal-a e corri ao professor, que
me fez o obsequio de a escrever no pedacinho de papel. Foi para no
faltar ao juramento que fiz isto. Mas has de crer que, quando corri aos
papeis velhos, naquelle noite da Gloria, tambem me no lembrava j da
toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento, e este  que foi o
meu peccado; esquecer, qualquer esquece.

Ao certo, ninguem sabe se ha de manter ou no um juramento. Cousas
futuras! Portanto, a nossa constituio politica, transferindo o
juramento  affirmao simples,  profundamente moral. Acabou com um
peccado terrivel. Faltar ao compromisso  sempre infidelidade, mas a
alguem que tenha mais temor a Deus que aos homens no lhe importara
mentir, uma vez ou outra, desde que no mette a alma no purgatorio. No
confundam purgatorio com inferno, que  o eterno naufragio. Purgatorio
 uma casa de penhores, que empresta sobre todas as virtudes, a juro
alto e prazo curto. Mas os prazos renovam-se, at que um dia uma ou
duas virtudes medianas pagam todos os peccados grandes e pequenos.




CXV

Duvidas sobre duvidas.

Vamos agora aos embargos... E porque iremos aos embargos? Deus sabe o
que custa escrevel-os, quanto mais contal-os. Da circumstancia nova que
Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse ento, isto , que no
valia nada.

--Nada?

--Quasi nada.

--Ento vale alguma cousa.

--Para reforar as razes que j temos vale menos que o ch que voc
vae tomar commigo.

-- tarde para tomar ch.

--Tomaremos depressa.

Tommos depressa. Durante elle, Escobar olhava para mim desconfiado,
como se cuidasse que eu recusava a circumstancia nova por forrar-me a
escrevel-a; mas tal suspeita no ia com a nossa amizade.

Quando elle saiu, referi as minhas duvidas a Capit; ella as desfez
com a arte fina que possuia, um geito, uma graa toda sua, capaz de
dissipar as mesmas tristezas de Olympio.

--Seria o negocio dos embargos, concluiu; e elle que veiu at aqui, a
esta hora,  que est impressionado com a demanda.

--Tens razo.

Palavra puxa palavra, falei de outras duvidas. Eu era ento um poo
dellas; coaxavam dentro do mim, como verdadeiras rans, a ponto de me
tirarem o somno algumas vezes. Disse-lhe que comeava a achar minha me
um tanto fria e arredia com ella. Pois aqui mesmo valeu a arte fina de
Capit!

--Ja disse a voc o que ; cousas de sogra. Mamesinha tem ciumes de
voc; logo que elles passem e as saudades augmentem, ella torna a ser o
que era. Em lhe faltando o neto...

--Mas eu tenho notado que j  fria tambem com Ezequiel. Quando elle
vae commigo, mame no lhe faz as mesmas graas.

--Quem sabe se no anda doente?

--Vamos ns jantar com ella amanh?

--Vamos... No... Pois vamos.

Fomos jantar com a minha velha. J lhe podia chamar assim, posto
que os seus cabellos brancos no o fossem todos nem totalmente, e o
rosto estivesse comparativamente fresco; era uma especie de mocidade
quinquagenaria ou do ancianidade viosa,  escolha... Mas nada de
melancolias; no quer falar dos olhos molhados,  entrada e  saida.
Pouco entrou na conversao. Tambem no era differente da costumada.
Jos Dias falou do casamento e suas bellezas, da politica, da Europa
e da homeopathia, tio Cosme das suas molestias, prima Justina da
visinhana, ou de Jos Dias, quando este saa da sala.

Quando voltmos,  noite, viemos por alli a p, falando das minhas
duvidas. Capit novamente me aconselhou que esperassemos. Sogras
eram todas assim; l vinha um dia e mudavam. Ao passo que me falava,
recrudescia de ternura. Dalli em deante foi cada vez mais doce commigo;
no me ia esperar  janella, para no espertar-me os ciumes, mas quando
eu subia, via no alto da escada, entre as grades da cancella, a cara
deliciosa da minha amiga e esposa, risonha como toda a nossa infancia.
Ezequiel s vezes estava com ella; ns o havamos acostumado a ver o
osculo da chegada e da saida, e elle enchia-me a cara de beijos.




CXVI

Filho do homem.

Apalpei Jos Dias sobre as maneiras novas de minha me; ficou
espantado. No havia nada, nem podia haver cousa nenhuma, tantos eram
os louvores incessantes que elle ouvia  bella e virtuosa Capit.

--Agora, quando os ouo, entro tambem no cro, mas a principio ficava
envergonhadissimo. Para quem chegou, como eu, a arrenegar deste
casamento, era duro confessar que elle foi uma verdadeira beno do
ceu. Que digna senhora nos saiu a creana travessa de Matacavallos! O
pae  que nos separou um pouco, em quanto no nos conheciamos, mas tudo
acabou em bem. Pois, sim, senhor, quando D. Gloria elogia a sua nora e
comadre...

--Ento mame?...

--Perfeitamente!

--Mas, porque e no nos visita ha tanto tempo?

--Creio que tem andando mais achacada dos seus rheumatismos. Este anno
tem feito muito frio... Imagine a afflico della, que andava o dia
inteiro; agora  obrigada a estar quieta, ao p do irmo, que l tem o
seu mal...

Quiz observar-lhe que tal razo explicava a interrupo das visitas,
e no a frieza quando iamos ns a Matacavallos; mas no estendi to
longe a intimidade do aggregado. Jos Dias pediu para ver o nosso
prophetasinho (assim chamava a Ezequiel) e fez-lhe as festas do
costume. Desta vez falou ao modo biblico (estivera na vespera a folhear
o livro de Ezequiel, como soube depois), e perguntava-lhe: Como vae
isso, filho do homem? Dize-me, filho do homem, onde esto os teus
brinquedos? Queres comer doce, filho do homem?

--Que filho do homem  esse, perguntou-lhe Capit agastada.

--So os modos de dizer da Biblia.

--Pois eu no gosto delles, replicou ella com aspereza.

--Tem razo, Capit, concordou o aggregado. Voce no imagina como a
Biblia  cheia de expresses cruas e grosseiras. Eu falava assim para
variar... Tu como vaes, meu anjo? Meu anjo, como  que eu ando na rua?

--No, atalhou Capit; j lhe vou tirando esse costume do imitar os
outros.

**--Mas tem muita graa; a mim, quando elle copia os meus gestos,
parece-me que sou eu mesmo, pequenino. Outro dia chegou a fazer um
gesto de D. Gloria, to bom que ella lhe deu um beijo em paga. Vamos,
como  que eu ando?

--No, Ezequiel, disse eu, mame no quer.

Eu mesmo achava feio tal sstro. Alguns dos gestos j lhe iam ficando
mais repetidos, como o das mos e ps de Escobar; ultimamente, at
apanhara o modo de voltar da cabea deste, quando falava, e o de
deixal-a cair, quando ria. Capit ralhava. Mas o menino era travesso,
como o diabo; apenas comemos a falar de outra cousa, saltou ao meio
da sala, dizendo a Jos Dias:

--O senhor anda assim.

No podemos deixar de rir, eu mais que ninguem. A primeira pessoa que
fechou a cara, que o reprehendeu e chamou a si foi Capit.

--No quero isso, ouviu?




CXVII

Amigos proximos.

J ento Escobar deixra Andarahy e comprra uma casa no Flamengo, casa
que ainda alli vi, ha dias, quando me deu na gana experimentar se as
sensaes antigas estavam mortas ou dormiam s; no posso dizel-o bem,
porque os somnos, quando so pesados, confundem vivos e defunctos, a
no ser a respirao. Eu respirava um pouco, mas pde ser que fosse do
mar, meio agitado. Emfim, passei, accendi um charuto, e dei por mim no
Cattete; tinha subido pela rua da Princeza, uma rua antiga...  ruas
antigas!  casas antigas!  pernas antigas! Todos ns ramos antigos, e
no  preciso dizer que no mu sentido, no sentido de velho e acabado.

Velha  a casa, mas no lhe alteraram nada. No sei at se ainda tem
o mesmo numero. No digo que numero  para no irem indagar e cavar
a historia. No  que Escobar ainda l more nem sequer viva; morreu
pouco depois, por um modo que hei de contar. Emquanto viveu, uma vez
que estavamos to proximos, tinhamos por assim dizer uma s casa, eu
vivia na delle, elle na minha, e o pedao de praia entre a Gloria e
o Flamengo era como um caminho de uso proprio e particular. Fazia-me
pensar nas duas casas de Matacavallos, com o seu muro de permeio.

Um historiador da nossa lingua, creio que Joo de Barros, pe na boca
de um rei barbaro algumas palavras mansas, quando os portuguezes lhe
propunham estabelecer alli ao p uma fortaleza; dizia o rei que os
bons amigos deviam ficar longe uns dos outros, no perto, para se no
zangarem como as aguas do mar que batiam furiosas no rochedo que elles
viam dalli. Que a sombra do escriptor me perdoe, se eu duvido que o
rei dissesse tal palavra nem que ella seja verdadeira. Provavelmente
foi o mesmo escriptor que a inventou para adornar o texto, e no fez
mal, porque  bonita; realmente,  bonita. Eu creio que o mar ento
batia na pedra, como  seu costume, desde Ullysses e antes. Agora
que a comparao seja verdadeira  que no. Seguramente ha inimigos
contiguos, mas tambem ha amigos do perto e do peito. E o escriptor
esquecia (salvo se ainda no era do seu tempo) esquecia o adagio:
longe dos olhos, longe do corao. Ns no podiamos ter os coraes
agora mais perto. As nossas mulheres viviam na casa uma da outra, ns
passavamos as noites c ou l conversando, jogando ou mirando o mar.
Os dous pequenos passavam dias, ora no Flamengo, ora na Gloria.

Como eu observasse que podia acontecer com elles o que se dera entre
mim e Capit, acharam todos que sim, e Sancha accrescentou que at j
se iam parecendo. Eu expliquei:

--No;  porque Ezequiel imita os gestos dos outros.

Escobar concordou commigo, e insinuou que alguma vez as creanas que
se frequentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. Opinei de
cabea, como me succedia nas materias que eu no sabia bem nem mal.
Tudo podia ser. O certo  que elles se queriam muito, e podiam acabar
casados, mas no acabaram casados.




CXVIII

A mo de Sancha.

Tudo acaba, leitor;  um velho truismo, a que se pde accrescentar
que nem tudo o que dura dura muito tempo. Esta segunda parte no acha
crentes faceis; ao contrario, a ideia de que um castello de vento dura
mais que o mesmo vento de que  feito, difficilmente se despegar
da cabea, e  bom que seja assim, para que se no perca o costume
daquellas construces quasi eternas.

O nosso castello era solido, mas um domingo... Na vespera tinhamos
passado a noite no Flamengo, no s os dous casaes inseparaveis, como
ainda o aggregado e prima Justina. Foi ento que Escobar, falando-me 
janella, disse-me que fossemos l jantar no dia seguinte; precisavamos
falar de um projecto em familia, um projecto para os quatro.

--Para os quatro? Uma contradana.

--No. No s capaz de adivinhar o que seja, nem eu digo. Vem amanh.

Sancha no tirava os olhos de ns durante a conversa, ao canto da
janella. Quando o marido saiu, veiu ter commigo. Perguntou-me de que
 que falaramos; disse-lhe que de um projecto que eu no sabia qual
fosse; ella pediu-me segredo, e revelou-me o que era: uma viagem 
Europa dalli a dous annos. Disse isto de costas para dentro, quasi
suspirando. O mar batia com grande fora na praia; havia ressaca.

--Vamos todos? perguntei por fim.

--Vamos.

Sancha ergueu a cabea e olhou para mim com tanto prazer que eu,
graas s relaes della e Capit, no se me daria beijal-a na testa.
Entretanto, os olhos de Sancha no convidavam a expanses fraternaes,
pareciam quentes e intimativos, diziam outra cousa, e no tardou que se
afastassem da janella, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A
noite era clara.

Dalli mesmo busquei os olhos de Sancha, ao p do piano; encontrei-os
em caminho. Pararam os quatro e ficaram deante uns dos outros, uns
esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam. Tal se d
na rua entre dous teimosos. A cautela desligou-nos; eu tornei a
voltar-me para fra. E assim posto entrei a cavar na memoria se a
alguma vez olhra para ella com a mesma expresso, e fiquei incerto.
Tive uma certeza s,  que um dia pensei nella, como se pensa na bella
desconhecida que passa**; mas ento dar-se-hia que ella adivinhando...
Talvez o simples pensamento me transluzisse c fra, e ella me fugisse
outr'ora irritada ou acanhada, e agora por um movimento invencivel...
Invencivel; esta palavra foi como uma beno de padre  missa, que a
gente recebe e repete em si mesma.

--O mar amanh est de desafiar a gente, disse-me a voz de Escobar, ao
p de mim.

--Voc entra no mar amanh?

--Tenho entrado com mares maiores, muito maiores.--Voc no imagina o
que  um bom mar em hora bravia.  preciso nadar bem, como eu, e ter
estes pulmes,--disse elle batendo no peito, e estes braos; apalpa.

Apalpei-lhe os braos, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta
confisso, mas no posso supprimil-a; era jarretar a verdade. Nem s
os apalpei com essa ideia, mas ainda senti outra cousa: achei-os mais
grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; accresce que sabiam
nadar.

Quando samos, tornei a falar com os olhos  dona da casa. A mo della
apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume.

A modestia pedia ento, como agora, que eu visse naquelle gesto de
Sancha uma sanco ao projecto do marido e um agradecimento. Assim
devia ser, mas um fluido particular que me correu todo o corpo desviou
de mim a concluso que deixo escripta. Senti ainda os dedos de Sancha
entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem
e de peccado. Passou depressa no relogio do tempo; quando cheguei o
relogio ao ouvido, trabalhavam s os minutos da virtude e da razo.

**--...Uma senhora deliciosissima, concluiu Jos Dias um discurso que
vinha fazendo.

--Deliciosissima! repeti com algum ardor, que moderei logo,
emendando-me: Realmente, uma bella noite!

--Como devem ser todas as daquella casa, continuou o aggregado. C
fra, no; c fra o mar est zangado; escute.

Ouvia-se o mar forte,--como j se ouvia de casa,--a ressaca era
grande, e, a distancia, viam-se crescer as ondas. Capit e prima
Justina, que iam adeante, detiveram-se n'uma das voltas da praia, e
fomos conversando os quatro; mas eu conversava mal. No havia meio de
esquecer inteiramente a mo de Sancha nem os olhos que trocmos. Agora
achava-lhes isto, agora aquillo. Os instantes do diabo intercalavam-se
nos minutos de Deus, e o relogio foi assim marcando alternativamente
a minha perdio e a minha salvao. Jos Dias despediu-se de ns
 porta. Prima Justina dormiu em nossa casa; iria embora, no dia
seguinte, depois do almoo e da missa. Eu recolhi-me ao meu gabinete,
onde me demorei mais que de costume.

O retrato de Escobar, que eu tinha alli, ao p do de minha me,
falou-me como se fosse a propria pessoa. Combati sinceramente os
impulsos que trazia do Flamengo; rejeitei a figura da mulher do
meu amigo, e chamei-me desleal. Demais, quem me affirmava que
houvesse alguma inteno daquella especie no gesto da despedida e nos
anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Sancha
e Capit eram to amigas que seria um prazer mais para ellas irem
juntas. Quando houvesse alguma inteno sexual, quem me provaria que
no era mais que uma sensao fulgurante, destinada a morrer com a
noite e o somno? Ha remorsos que no nascem de outro peccado, nem tem
maior durao. Agarrei-me a esta hypothese que se conciliava com a
mo de Sancha, que eu sentia de memoria dentro da minha mo, quente e
demorada, apertada e apertando...

Sinceramente, eu achava-me mal entre um amigo e a attraco. A timidez
pde ser que fosse outra causa daquella crise; no  s o ceu que d as
nossas virtudes, a timidez tambem, no contando o acaso, mas o acaso
 um mro accidente; a melhor origem dellas  o ceu. Entretanto, como
a timidez vem do ceu, que nos d a compleio, a virtude, filha della
, genealogicamente, o mesmo sangue celestial. Assim reflectiria, se
pudesse; mas a principio vaguei  ta. Paixo no era nem inclinao.
Capricho seria ou qu? Ao fim de vinte minutos era nada, inteiramente
nada. O retrato de Escobar pareceu falar-me; vi-lhe a altitude franca e
simples, sacudi a cabea e fui deitar-me.




CXIX

No faa isso, querida.

A leitora, que  minha amiga e abriu este livro com o fim de descanar
da cavatina de hontem para a valsa de hoje, quer fechal-o s pressas,
ao ver que beiramos um abysmo. No faa isso, querida; eu mudo de rumo.




CXX

Os autos.

Na manh seguinte accordei livre das abominaes da vespera;
chamei-lhes allucinaes, tomei caf, percorri os jornaes e fui
estudar uns autos. Capit e prima Justina sairam para a missa das
nove, na Lapa. A figura de Sancha desappareceu inteiramente no meio
das allegaes da parte adversa, que eu ia lendo nos autos, allegaes
falsas, inadmissiveis, sem apoio na lei nem nas praxes. Vi que era
facil ganhar a demanda; consultei Dalloz, Pereira e Souza...

Uma s vez olhei para o retrato de Escobar. Era uma bella photographia
tirada um anno antes. Estava de p, sobrecasaca abotoada, a mo
esquerda no dorso de uma cadeira, a direita mettida ao peito, o olhar
ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade.
A moldura que lhe mandei pr no encobria a dedicatoria, escripta
embaixo, no nas costas do carto: Ao meu querido Bentinho o seu
querido Escobar 20-4-70. Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos
daquella manh, e espancaram de todo as recordaes da vespera.
Naquelle tempo a minha vista era boa; eu podia lel-as do logar em que
estava. Tornei aos autos.




CXXI

A catastrophe.

No melhor delles, ouvi passos precipitados na escada, a campainha soou,
soaram palmas, golpes na cancella, vozes, acudiram todos, acudi eu
mesmo. Era um escravo da casa de Sancha que me chamava:

--Para ir l... sinh nadando, sinh morrendo.

No disse mais nada, ou eu no lhe ouvi o resto. Vesti-me, deixei
recado a Capit e corri ao Flamengo.

Em caminho, fui adivinhando a verdade. Escobar metteu-se a nadar, como
usava fazer, arriscou-se um pouco mais fra que de costume, apesar do
mar bravio, foi enrolado e morreu. As canoas que acudiram mal puderam
trazer-lhe o cadaver.




CXXII

O enterro.

A viuva... Poupo-vos as lagrimas da viuva, as minhas, as da outra
gente. Sai de l cerca de onze horas; Capit e prima Justina
esperavam-me, uma com o parecer abatido e estupido, outra enfastiada
apenas.

--Vo fazer companhia a pobre Sanchinha; eu vou cuidar do enterro.

Assim fizemos. Quiz que o enterro fosse pomposo, e a affluencia dos
amigos foi numerosa. Praia, ruas, praa da Gloria, tudo eram carros,
muitos delles particulares. A casa, no sendo grande, no podiam l
caber todos; muitos estavam na praia, falando do desastre, apontando
o logar em que Escobar fallecra, ouvindo referir a chegada do morto.
Jos Dias ouviu tambem falar dos negocios do finado, divergindo alguns
na avaliao dos bens, mas havendo accordo em que o passivo devia ser
pequeno. Elogiavam as qualidades de Escobar. Um ou outro discutia
o recente gabinete Rio Branco; estavamos em Maro de 1871. Nunca me
esqueceu o mez nem o anno.

Como eu houvesse resolvido falar no cemiterio, escrevi algumas linhas e
mostrei-as em casa a Jos Dias, que as achou realmente dignas do morto
e de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando
as palavras, e confirmou a primeira opinio; no Flamengo espalhou a
noticia. Alguns conhecidos vieram interrogar-me:

--Ento, vamos ouvil-o?

--Quatro palavras.

Poucas mais seriam. Tinha-as escripto com receio de que a emoo me
impedisse de improvisar. No tilbury em que andei uma ou duas horas, no
fizera mais que recordar o tempo do seminario, as relaes de Escobar,
as nossas sympathias, a nossa amizade, comeada, continuada e nunca
interrompida, at que um lance da fortuna fez separar para sempre duas
creaturas que promettiam ficar por muito tempo unidas. De quando em
quando enxugava os olhos. O cocheiro aventurou duas ou tres perguntas
sobre a minha situao moral; no me arrancando nada, continuou o seu
officio. Chegando a casa, deitei aquellas emoes ao papel; tal seria o
discurso.




CXXIII

Olhos de ressaca.

Emfim, chegou a hora da encommendao e da partida. Sancha quiz
despedir-se do marido, e o desespero daquelle lance consternou a todos.
Muitos homem choravam tambem, as mulheres todas. S Capit, amparando
a viuva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria
arrancal-a dalli. A confuso era geral. No meio della, Capit olhou
alguns instantes para o cadaver to fixa, to apaixonadamente fixa, que
no admira lhe saltassem algumas lagrimas poucas e caladas...

As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as della; Capit enxugou-as
depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou
de caricias para a amiga, e quiz leval-a; mas o cadaver parece que
a retinha tambem. Momento houve em que os olhos de Capit fitaram o
defuncto, quaes os da viuva, sem o pranto nem palavras desta, mas
grandes e abertos, como a vaga do mar l fra, como se quizesse tragar
tambem o nadador da manh.




CXXIV

O discurso.

--Vamos, so horas...

Era Jos Dias que me convidava a fechar o atade. Fechmol-o, e eu
peguei n'uma das argolas; rompeu o alarido final. Palavra que, quando
cheguei  porta, vi o sol claro, tudo gente e carros, as cabeas
descobertas, tive um daquelles meus impulsos que nunca chegavam 
execuo: foi atirar  rua caixao, defuncto e tudo. No carro disse a
Jos Dias que se calasse. No cemiterio tive de repetir a cerimonia
da casa, desatar as correias, e ajudar a levar o feretro  cova. O
que isto me custou imagina. Descido o cadaver  cova, trouxeram a cal
e a p; sabes disto, ters ido a mais de um enterro, mas o que no
sabes nem pde saber nenhum dos teus amigos, leitor, ou qualquer outro
extranho,  a crise que me tornou quando vi todos os olhos em mim,
os ps quietos, as orelhas attentas, e, ao cabo de alguns instantes
de total silencio, um sussurro vago, algumas vozes interrogativas,
signaes, e alguem, Jos Dias, que me dizia ao ouvido:

--Ento, fale.

Era o discurso. Queriam o discurso. Tinham jus ao discurso annunciado.
Machinalmente, metti a mo no bolso, saquei o papel e li-o aos
trambolhes, no todo, nem seguido, nem claro; a voz parecia-me entrar
em vez de sair, as mos tremiam-me. No era s a emoo nova que me
fazia assim, era o proprio texto, as memorias do amigo, as saudades
confessadas, os louvores  pessoa e aos seus meritos; tudo isto que
eu era obrigado a dizer e dizia mal. Ao mesmo tempo, temendo que me
adivinhassem a verdade, forcejava por escondel-a bem. Creio que poucos
me ouviram, mas o gesto geral foi de comprehenso e de approvao.
As mos que me deram a apertar eram de solidariedade; alguns diziam:
Muito bonito! muito bem! magnifico! Jos Dias achou que a eloquencia
estivera na altura da piedade. Um homem, que me pareceu jornalista,
pediu-me licena para levar o manuscripto e imprimil-o. S a minha
grande turvao recusaria um obsequio to simples.




CXXV

Uma comparao.

Priamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mo daquelle
que lhe matou o filho. Homero  que relata isto, e  um bom autor, no
obstante contal-o em verso, mas ha narraes exactas em verso, e at
mau verso. Compara tu a situao de Priamo com a minha; eu acabava de
louvar as virtudes do homem que recebera defuncto aquelles olhos... E
impossivel que algum Homero no tirasse da minha situao muito melhor
effeito, ou quando menos, egual. Nem digas que nos faltam Homeros,
pela causa apontada em Cames; no, senhor, faltam-nos,  certo, mas 
porque os Priamos procuram a sombra e o silencio. As lagrimas, se as
tm, so enxugadas atraz da porta, para que as caras appaream limpas
e serenas; os discursos so antes de alegria que do melancolia, e tudo
passa como se Achilles no matasse Heitor.




CXXVI

Scismando.

Pouco depois de sair do cemiterio, rasguei o discurso e deitei os
pedaos pela portinhola fra, sem embargo dos esforos de Jos Dias
para impedil-o.

--No presta para nada, disse-lhe eu, e como posso ter a tentao de
dal-o a imprimir, fica j destruido de uma vez. No presta, no vale
nada.

Jos Dias demonstrou longamente o contrario, depois elogiou o enterro,
e por ultimo fez o panegyrico do morto, uma grande alma, espirito
activo, corao recto, amigo, bom amigo, digno da esposa amantissima
que Deus lhe dera...

Neste ponto do discurso, deixei-o falar ssinho e peguei a scismar
commigo. O que scismei foi to escuro e confuso que no me deixou tomar
p. No Cattete mandei parar o carro, disse a Jos Dias que fosse buscar
as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa; eu iria a p.

--Mas...

--Vou fazer uma visita.

A razo d'isto era acabar de scismar, e escolher uma resoluo que
fosse adequada ao momento. O carro andaria mais depressa que as
pernas; estas iriam pausadas ou no, podiam afrouxar o passo, parar,
arrepiar caminho, e deixar que a cabea scismasse  vontade. Fui
andando e scismando. Tinha j comparado o gesto de Sancha na vespera e
o desespero daquelle dia; eram inconciliaveis. A viuva era realmente
amantissima. Assim se desvaneceu de todo a illuso da minha vaidade.
No seria o mesmo caso de Capit? Cuidei de recompr-lhe os olhos, a
posio em que a vi, o ajuntamento de pessoas que devia naturalmente
impr-lhe a dissimulao, se houvesse algo que dissimular. O que aqui
vae por ordem logica e deductiva, tinha sido antes uma barafunda de
ideias e sensaes, graas aos solavancos do carro e s interrupes de
Jos Dias. Agora, porm, raciocinava e evocava claro e bem. Conclui de
mim para mim que era a antiga paixo que me offuscava ainda e me fazia
desvairar como sempre.

Quando cheguei a esta concluso final, chegava tambem  porta de
casa, mas voltei para traz, e subi outra vez a rua do Cattete. Eram
as duvidas que me affligiam ou a necessidade de affligir Capit com
a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas; andei largo
espao, at que me senti socegar, e endireitei para casa. Batiam oito
hora n'uma padaria.




CXXVII

O barbeiro.

Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a
rabeca e no tocava inteiramente mal. Na occasio em que ia passando,
executava no sei que pea. Parei na calada a ouvil-o (tudo so
pretextos a um corao agoniado), elle viu-me, o continuou a tocar. No
attendeu a um freguez, e logo a outro, que alli foram, a despeito da
hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras  navalha. Perdeu-os sem
perder uma nota; ia tocando para mim. Esta considerao fez-me chegar
francamente a porta da loja, voltado para elle. Ao fundo, levantando
a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma
moa trigueira, vestido claro, flr no cabello. Era a mulher delle;
creio que me descobriu de dentro, e veiu agradecer-me com a presena o
favor que eu fazia ao marido. Se me no engano, chegou a dizel-o com
os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a
mulher, sem ver freguezes, grudava a face ao instrumento, passava a
alma ao arco, e tocava, tocava...

Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei a porta da loja e
vim andando para casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas sem
estrepito. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar
ligado a um momento grave da minha vida, ou por esta maxima, que os
compiladores, pdem tirar daqui e inserir nos compendios de escola.
A maxima  que a gente esquece devagar as boas aces que pratica,
e verdadeiramente no as esquece nunca. Pobre barbeiro! perdeu duas
barbas naquella noite, que eram o po do dia seguinte, tudo para ser
ouvido de um transeunte. Suppe agora que este, em vez de ir-se embora,
como eu fui, ficava  porta a ouvil-o e a namorar-lhe a mulher; ento
 que elle, todo arco, todo rabeca, tocaria desesperadamente. Divina
arte!




CXXVIII

Punhado de successos.

Como ia dizendo, subi as escadas sem estrepito, empurrei a cancella,
que estava apenas encostada, o dei com prima Justina e Jos Dias
jogando cartas na saleta proxima. Capit levantou-se do canap e veiu
a mim. O rosto della era agora sereno e puro. Os outros suspenderam
o jogo, e todos falmos do desastre e da viuva. Capit censurou a
imprudencia de Escobar, e no dissimulou a tristeza que lhe trazia a
dor da amiga. Perguntei-lhe por que no ficra com Sancha aquella noite.

--Tem l muita gente; ainda assim offereci-me, mas no quiz. Tambem lhe
disse que era melhor vir para c, e passar aqui uns dias comnosco.

--Tambem no quiz?

--Tambem no.

--Entretanto, a vista do mar ha de ser-lhe penosa, todas as manhs,
ponderou Jos Dias, e no sei como poder...

--Mas, passa; o que  que no passa? atalhou prima Justina.

E como em torno desta ideia, comeassemos uma troca de palavras,
Capit saiu para ir ver se o filho dormia. Ao passar pelo espelho,
concertou os cabellos to demoradamente que pareceria affectao, se
no soubessemos que ella era muito amiga de si. Quando tornou trazia
os olhos vermelhos; disse-nos que, ao mirar o filho dormindo pensra
na filhinha de Sancha, e na afflico da viuva. E, sem se lhe dar das
visitas, nem reparar se havia algum criado, abraou-me e disse-me que,
se quizesse pensar nella, era preciso pensar primeiro na minha vida.
Jos Dias achou a phrase lindissima, e perguntou a Capit porque 
que no fazia versos. Tentei metter o caso  bulha, e assim acabmos a
noite.

No dia seguinte, arrependi-me de haver rasgado o discurso, no que
quizesse dal-o a imprimir, mas era lembrana do finado. Pensei em
recompl-o, mas s achei phrases soltas, que uma vez juntas no tinham
sentido. Tambem pensei em fazer outro, mas era j difficil, e podia ser
apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemiterio. Quanto a
recolher os pedacinhos de papel deitados  rua, era tarde; estariam j
varridos.

Inventariei as lembranas de Escobar, livros, um tinteiro de bronze,
uma bengala de marfim, um passaro, o album de Capit, duas paizagens
do Paran e outras. Tambem elle as possuia de minha mo. Vivemos
assim a trocar memorias e regalos, ora em dia de annos, ora sem razo
particular. Tudo isso me empanava os olhos... Vieram os jornaes do
dia: davam noticia do desastre e da morte de Escobar, os estudos e
os negocios deste, as qualidades pessoaes, a sympathia do commercio,
e tambem falavam dos bens deixados, da mulher e da filha. Todo isso
foi na segunda feira. Na tera-feira foi aberto o testamento, que me
nomeava segundo testamenteiro; o primeiro logar cabia  mulher. No
me deixava nada, mas as palavras que me escrevera em carta separada
eram sublimes de amizade e estima. Capit desta vez chorou muito; mas
compoz-se depressa.

Testamento, inventario, tudo andou quasi to depressa como aqui vae
dito. Ao cabo de pouco tempo, Sancha retirou-se para a casa dos
parentes no Paran.




CXXIX

A D. Sancha.

D. Sancha, peo-lhe que no leia este livro; ou, se o houver lido at
aqui, abandone o resto. Basta fechal-o; melhor ser queimal-o, para lhe
no dar tentao e abril-o outra vez. Se, apesar do aviso, quizer ir
at o fim, a culpa  sua; no respondo pelo mal que receber. O que j
lhe tiver feito, contando os gestos daquelle sabbado, esse acabou, uma
vez que os acontecimentos, e eu com elles, desmentimos a minha illuso;
mas o que agora a alcanar, esse  indelevel. No, amiga minha, no
leia mais. V envelhecendo, sem marido nem filha, que eu fao a mesma
cousa, e  ainda o melhor que se pde fazer depois da mocidade. Um dia,
iremos daqui at a porta do ceu, onde nos encontraremos renovados, como
as plantas novas, _come piante novelle_,

                Rinovalatte di novelle fronde.

O resto em Dante.




CXXX

Um dia...

Porquanto, um dia Capit quiz saber o que  que me fazia andar calado
e aborrecido. E propoz-me a Europa, Minas, Petropolis, uma serie de
bailes, mil desses remedios aconselhados aos melancolicos. Eu no
sabia que lhe respondesse; recusei as diverses. Como insistisse,
repliquei-lhe que os meus negocios andavam mal. Capit sorriu para
animar-me. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem, e at
l as joias, os objectos de algum valor seriam vendidos, e iriamos
residir em algum becco. Viveriamos socegados e esquecidos; depois
tornariamos  tona da agua. A ternura com que me disse isto era de
commover as pedras. Pois nem assim. Respondi-lhe seccamente que
no era preciso vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido.
Ella propoz-me jogar cartas ou damas, um passeio a p, uma visita a
Matacavallos; e, como eu no acceitasse nada, foi para a sala, abriu o
piano, e comeou a tocar; eu aproveitei a ausencia, peguei do chapo e
sa.

... Perdo, mas este capitulo devia ser precedido de outro, em que
contasse um incidente, occorrido poucas semanas antes, dous mezes
depois da partida de Sancha. Vou escrevel-o; podia antepl-o a este,
antes de mandar o livro ao prlo, mas custa muito alterar o numero dos
paginas; vae assim mesmo, depois a narrao seguir direita at o fim.
Demais,  curto.




CXXXI

Anterior ao anterior.

Foi o caso que a minha vida em outra vez doce e placida, a banca do
advogado rendia-me bastante, Capit estava mais bella, Ezequiel ia
crescendo. Comeava o anno de 1872.

--Voc j reparou que Ezequiel tem nos olhos uma espresso exquisita?
perguntou-me Capit. S vi duas pessoas assim, um amigo de papae e o
defuncto Escobar. Olha, Ezequiel; olha firme, assim, vira para o lado
de papae, no precisa revirar os olhos, assim, assim...

Era depois de jantar; estavamos ainda  mesa, Capit brincava com
o filho, ou elle com ella, ou um com outro, porque, em verdade,
queriam-se muito, mas  tambem certo que elle me queria ainda mais a
mim. Approximei-me de Ezequiel, achei que Capit tinha razo; eram os
olhos de Escobar, mas no me pareceram exquisitos por isso. Afinal
no haveria mais que meia duzia de expresses no mundo, e muitas
semelhanas se dariam naturalmente. Ezequiel no entendeu nada, olhou
espantado para ella e para mim, e afinal saltou-me ao collo:

--Vamos passear, papae?

--Logo, meu filho.

Capit, alheia a ambos, fitava agora a outra borda da mesa; mas,
dizendo-lhe eu que, na belleza, os olhos de Ezequiel saam aos da me,
Capit sorriu abanando a cabea com um ar que nunca achei em mulher
alguma, provavelmente porque no gostei tanto das outras. As pessoas
valem o que vale a affeio da gente, e  dahi que mestre Povo tirou
aquelle adagio que quem o feio ama bonito lhe parece. Capit tinha meia
duzia de gestos unicos na terra. Aquelle entrou-me pela alma dentro.
Assim fica explicado que eu corresse  minha esposa e amiga e lhe
enchesse a cara de beijos; mas este outro incidente no  radicalmente
necessario  comprehenso do capitulo passado e dos futuros; fiquemos
nos olhos de Ezequiel.




CXXXII

O debuxo e o colorido.

Nem s os olhos, mas as restantes feies, a cara, o corpo, a pessoa
inteira, iam-se apurando com o tempo. Eram como um debuxo primitivo
que o artista vae enchendo e colorindo aos poucos, e a figura entra a
ver, sorrir, palpitar, falar quasi, at que a familia pendura o quadro
na parede, em memoria do que foi e j no pde ser. Aqui podia ser e
era. O costume valeu muito contra o effeito da mudana: mas a mudana
fez-se, no  maneira de theatro, fez-se como a manh que aponta
vagarosa, primeiro que se possa ler uma carta, depois l-se a carta na
rua, em casa, no gabinete, sem abrir as janellas; a luz coada pelas
persianas basta a distinguir as lettras. Li a carta, mal a principio e
no toda, depois fui lendo melhor. Fugia-lhe,  certo, mettia o papel
no bolso, corria a casa, fechava-me, no abria as vidraas, chegava a
fechar os olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta, a lettra
era clara e a noticia clarissima.

Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminario e do Flamengo
para se sentar commigo  mesa, receber-me na escada, beijar-me no
gabinete de manh, ou pedir-me  noite a beno do costume. Todas
essas aces eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me
no descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular
ao mundo, no podia fazel-o a mim, que vivia mais perto de mim que
ninguem. Quando nem me nem filho estavam commigo o meu desespero
era grande, e eu jurava matal-os a ambos, ora de golpe, ora devagar,
para dividir pelo tempo da morte todas os minutos da vida embaada
e agoniada. Quando, porm, tornava a casa e via no alto da escada a
creaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e differia o
castigo de um dia para outro.

O que se passava entre mim e Capit naquelles dias sombrios, no se
notar aqui, por ser to miudo e repetido, e j to tarde que no
se poder dizel-o sem falha nem canceira. Mas o principal ir. E o
principal  que os nossos temporaes eram agora continuos e terriveis.
Antes de descoberta aquella m terra da verdade, tivemos outros de
pouca dura; no tardava que o ceu se fizesse azul, o sol claro e o mar
cho, por onde abramos novamente as velas que nos levavam s ilhas e
costas mais bellas do universo, at que outro p de vento desbaratava
tudo, e ns, postos  capa, esperavamos outra bonana, que no era
tardia nem dubia, antes total, proxima e firme.

Releva-me estas metaphoras; cheiram ao mar e  mar que deram morte ao
meu amigo e comboro Escobar. Cheiram tambem aos olhos de ressaca de
Capit. Assim, posto sempre fosse homem de terra, conto aquella parte
da minha vida, como um marujo contaria o seu naufragio.

J entre ns s faltava dizer a palavra ultima; ns a liamos, porm,
nos olhos um do outro, vibrante e decisiva, e sempre que Ezequiel vinha
para ns no fazia mais que separar-nos. Capit propoz mettel-o em um
collegio, donde s viesse aos sabbados; custou muito ao menino acceitar
esta situao.

--Quero ir com papae! Papae ha de ir commigo! bradava elle.

Fui eu mesmo que o levei um dia de manh, uma segunda feira. Era no
antigo largo da Lapa, perto da nossa casa. Levei-o a p, pela mo, como
levra o atade do outro. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a
cada passo, se voltaria para casa, e quando, e se eu iria vel-o...

--Vou.

--Papae no vae!

--Vou sim.

--Jura, papae!

--Pois sim.

--Papae no diz que jura.

--Pois juro.

E l o levei e deixei. A ausencia temporaria no atalhou o mal, e toda
a arte fina de Capit para fazel-o attenuar, ao menos, foi como se
no fosse; eu sentia-me cada vez peor. A mesma situao nova aggravou
a minha paixo. Ezequiel vivia agora mais fra da minha vista; mas a
volta delle, ao fim das semanas, ou pelo descostume em que eu ficava,
ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhana, era a
volta de Escobar mais vivo e ruidoso. At a voz; dentro de pouco, j
me parecia a mesma. Aos sabbados, buscava no jantar em casa e s
entrar quando elle estivesse dormindo; mas no escapava ao domingo, no
gabinete, quando eu me achava entre jornaes e autos. Ezequiel entrava
turbulento, expansivo, cheio de riso e de amor, porque o demo do
pequeno cada vez morria mais por mim. Eu, a falar verdade, sentia agora
uma averso que mal podia disfarar, tanto a ella como aos outros. No
podendo encobrir inteiramente esta disposio moral, cuidava de me
no fazer encontradio com elle, ou s o menos que pudesse; ora tinha
trabalho que me obrigava a fechar o gabinete, ora saa ao domingo para
ir passear pela cidade o arrebaldes o meu mal secreto.




CXXXIII

Uma ideia.

Um dia,--era uma sexta feira,--no pude mais. Certa ideia, que
negrejava em mim, abriu as azas e entrou a batel-as de um lado para
outro, como fazem as ideias que querem sair. O ser sexta-feira creio
que foi acaso, mas tambem pde ter sido proposito; fui educado no
terror daquelle dia; ouvi cantar balladas em casa, vindas da roa e
da antiga metropole, nas quaes a sexta-feira era o dia de agouro.
Entretanto, no havendo almanaks no cerebro,  provavel que a ideia
no batesse as azas seno pela necessidade que sentia do vir ao ar e
 vida. A vida  to bella que a mesma ideia da morte precisa de vir
primeiro a ella, antes de se ver cumprida. J me vs entendendo; l
agora outro capitulo.




CXXXIV

O dia de sabbado.

A ideia saiu finalmente do cerebro. Era noite, e no pude dormir, por
mais que a sacudisse de mim. Tambem nenhuma noite me passou to curta.
Amanheceu, quando cuidava no ser mais que uma ou duas horas. Sai,
suppondo deixar a ideia em casa; ella veiu commigo. C fra tinha a
mesma cr escura, as mesmas azas trepidas, e posto avoasse com ellas,
era como se fosse fixa; eu a levava na retina, no que me encobrisse as
cousas externas, mas via-as atra vez della, com a cr mais pallida que
de costume, e sem se demorarem nada.

No me lembra bem o resto do dia. Sei que escrevi algumas cartas,
comprei uma substancia, que no digo, para no espertar o desejo de
proval-a. A pharmacia falliu,  verdade; o dono fez-se banqueiro, e
o banco prospera. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha
alegria como se acabasse de tirar a sorte grande, ou ainda maior,
porque o premio da loteria gasta-se, e a morte no se gasta. Fui a
casa de minha me, com o fim de despedir-me, a titulo de visita. Ou de
verdade ou por illuso, tudo alli me pareceu melhor nesse dia, minha
me menos triste, tio Cosme esquecido do corao, prima Justina da
lingua. Passei uma hora em paz. Cheguei a abrir mo do projecto. Que
era preciso para viver? Nunca mais deixar aquella casa, ou prender
aquella hora a mim mesmo...




CXXXV

Othello.

Jantei fra. De noite fui ao theatro. Representava-se justamente
_Othello_, que eu no vira nem lera nunca; sabia apenas o assumpto,
e estimei a coincidencia. Vi as grandes raivas do mouro, por causa
de um leno,--um simples leno!--e aqui dou materia  meditao dos
psychologos deste e de outros continentes, pois no me pude furtar 
observao de que um leno bastou a accender os ciumes de Othello e
compor a mais sublime tragedia deste mundo. Os lenos perderam-se, hoje
so precisos os proprios lenes; alguma vez nem lenes ha, e valem
s as camisas. Taes eram as ideias que me iam passando pela cabea,
vagas e turvas,  medida que o mouro rolava convulso, e Iago distilava
a sua calumnia. Nos intervallos no me levantava da cadeira; no queria
expr-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quasi todas
nos camarotes, emquanto os homens iam fumar. Ento eu perguntava a
mim mesmo se alguma daquellas no teria amado alguem que jazesse agora
no cemiterio, e vinham outras incoherencias, at que o panno subia e
continuava a pea. O ultimo acto mostrou-me que no eu, mas Capit
devia morrer. Ouvi as supplicas de Desdemona, as suas palavras amorosas
e puras, e a furia do mouro, e a morte que este lhe deu entre applausos
freneticos do publico.

--E era innocente, vinha eu dizendo rua abaixo;--que faria o publico,
se ella devras fosse culpada, to culpada como Capit? E que morte lhe
daria o mouro? Um travesseiro no bastaria; era preciso sangue e fogo,
um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a p,
e o p seria lanado ao vento, como eterna extinco...

Vaguei pelas ruas o resto da noite. Ceei,  verdade, um quasi nada,
mas o bastante para ir at  manh. Vi as ultimas horas da noite e
as primeiras do dia, vi os derradeiros passeadores e os primeiros
varredores, as primeiras carroas, os primeiros ruidos, os primeiros
albores, um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais
voltar. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. No
tornaria a contemplar o mar da Gloria, nem a serra dos Orgos, nem a
fortaleza de Santa-Cruz e as outras. A gente que passava no era tanta,
como nos dias communs da semana, mas era j numerosa e ia a algum
trabalho, que repetiria depois; eu  que no repetiria mais nada.

Cheguei a casa, abri a porta devagarinho, subi p ante-p, e metti-me
no gabinete; iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso, fiquei em
mangas de camisa, e escrevi ainda uma carta, a ultima, dirigida a
Capit. Nenhuma das outras era para ella; senti necessidade de lhe
dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi
dous textos. O primeiro queimei-o por ser longo e diffuso. O segundo
continha s o necessrio, claro e breve. No lhe lembrava o nosso
passado, nem as lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe s de
Escobar e da necessidade de morrer.




CXXXVI

A chicara de caf.

O meu plano foi esperar o caf, dissolver nelle a droga e ingeril-a.
At l, no tendo esquecido de todo a minha historia romana, lembrou-me
que Cato, antes de se matar, leu e releu um livro de Plato. No tinha
Plato commigo; mas um tomo truncado de Plutarcho, em que era narrada
a vida do celebre romano, bastou-me a occupar aquelle pouco tempo, e,
para em tudo imital-o, estirei-me no canap. Nem era s imital-o nisso;
tinha necessidade de incutir em mim a coragem delle, assim como elle
precisra dos sentimentos do philosopho, para intrepidamente morrer. Um
dos males da ignorancia  no ter este remedio  ultima hora. Ha muita
gente que se mata sem elle, e nobremente expira; mas estou que muita
mais gente poria termo aos seus dias, se pudesse achar essa especie de
cocaina moral dos bons livros. Entretanto, querendo fugir a qualquer
suspeita de imitao, lembra-me bem que, para no ser encontrado ao p
de mim o livro de Plutarcho, nem ser dada a noticia nas gazetas com a
da cr das calas que eu ento vestia, assentei de pl-o novamente no
seu logar, antes de beber o veneno.

O copeiro trouxe o caf. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a
mesa onde ficra a chicara. J a casa estava em rumores; era tempo
de acabar commigo. A mo tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a
droga embrulhada. Ainda assim tive animo de despejar a substancia
na chicara, e comecei a mexer o caf, os olhos vagos, a memoria em
Desdemona innocente; o espectaculo da vespera vinha intrometter-se na
realidade da manh. Mas a photographia de Escobar deu-me o animo que me
ia faltando; l estava elle, com a mo nas costas da cadeira, a olhar
ao longe...

--Acabemos com isto, pensei.

Quando ia a beber, cogitei se no seria melhor esperar que Capit e o
filho saissem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto,
entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o
entrar e correr a mim bradando:

--Papae! papae!

Leitor, houve aqui um gesto que eu no descrevo por havel-o
inteiramente esquecido, mas cr que foi bello e tragico.
Effectivamente, a figura do pequeno fez-me recuar at dar de costas na
estante. Ezequiel abraou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos ps,
como querendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia, puxando-me:

--Papae! papae!




CXXXVII

Segundo impulso.

Se eu no olhasse para Ezequiel,  provavel que no estivesse aqui
escrevendo este livro, porque o meu primeiro impeto foi correr ao caf
e bebel-o. Cheguei a pegar na chicara, mas o pequeno beijava-me a mo,
como de costume, e a vista delle, como o gesto, deu-me outro impulso
que me custa dizer aqui; mas v l, diga-se tudo. Chamem-me embora
assassino; no serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo
impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se j tomra
caf.

--J, papae; vou  missa com mame.

--Toma outra chicara, meia chicara s.

--E papae?

--Eu mando vir mais; anda, bebe!

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a chicara, to tremulo que quasi a
entornei, mas disposto a fazel-a cair pela guela abaixo, caso o sabor
lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o caf estava frio... Mas no
sei que senti que me fez recuar. Puz a chicara em cima da mesa, e dei
por mim a beijar doudamente a cabea do menino.

--Papae papae! exclamava Ezequiel.

--No, no, eu no sou teu pae!




CXXXVIII

Capit que entra.

Quando levantei a cabea, dei com a figura de Capit deante de mim.
Eis ahi outro lance, que parecer de theatro, e  to natural como o
primeiro, uma vez que a me e o filho iam  missa, e Capit no saa
sem falar-me. Era j um falar secco e breve; a mr parte das vezes, eu
nem olhava para ella. Ella olhava sempre, esperando.

Desta vez, ao dar com ella, no sei se era dos meus olhos, mas Capit
pareceu-me livida. Seguiu-se um daquelles silencios, a que, sem mentir,
se pdem chamar de um seculo, tal  a extenso do tempo nas grandes
crises. Capit recompoz-se; disse ao filho que se fosse embora, e
pediu-me que lhe explicasse...

--No ha que explicar, disse eu.

--Ha tudo; no entendo as tuas lagrimas nem as de Ezequiel. Que houve
entre vocs?

--No ouviu o que lhe disse?

Capit respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. Eu creio que
ouvira tudo claramente, mas confessal-o seria perder a esperana do
silencio e da reconciliao; por isso negou a audiencia e confirmou
unicamente a vista. Sem lhe contar o episodio do caf, repeti-lhe as
palavras do final do capitulo.

--O que? perguntou ella como se ouvira mal.

--Que no  meu filho.

Grande foi a estupefaco de Capit, e no menor a indignao que
lhe succedeu, to naturaes ambas que fariam duvidar as primeiras
testemunhas de vista do nosso fro. J** ouvi que as ha para varios
casos, questo de preo; eu no creio, tanto mais que a pessoa que me
contou isto acabava de perder uma demanda. Mas, haja ou no testemunhas
alugadas, a minha era verdadeira; a propria natureza jurava por si, e
eu no queria duvidar della. Assim que, sem attender  linguagem de
Capit, aos seus gestos,  dr que a retorcia, a cousa nenhuma, repeti
as palavras ditas duas vezes com tal resoluo que a fizeram afrouxar.
Aps alguns instantes, disse-me ella:

--S se pde explicar tal injuria pela convico sincera; entretanto,
voc que era to cioso dos menores gestos, nunca revelou a menor sombra
de desconfiana. Que  que lhe deu tal ideia? Diga,--continuou vendo
que eu no respondia nada,--diga tudo; depois do que ouvi, posso ouvir
o resto, no pde ser muito. Que  que lhe deu agora tal convico?
Ande, Bentinho, fale! fale! Despea-me d'aqui, mas diga tudo primeiro.

--Ha cousas que se no dizem.

--Que se no dizem s metade; mas j que disse metade, diga tudo.

Tinha-se sentado n'uma cadeira ao p da mesa. Podia estar um tanto
confusa, o porte no era de accusada. Pedi-lhe ainda uma vez que no
teimasse.

--No, Bentinho, ou conte o resto, para que eu me defenda, se voc acha
que tenho defesa, ou peo-lhe desde j a nossa separao: no posso
mais!

--A separao  cousa decidida, redargui pegando-lhe na proposta. Era
melhor que a fizessemos por meias palavras ou em silencio; cada um iria
com a sua ferida. Uma vez, porm, que a senhora insiste, aqui vae o que
lhe posso dizer, e  tudo.

No disse tudo; mal pude alludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe
o nome. Capit no poude deixar de rir, de um riso que eu sinto
no poder transcrever aqui; depois, em um tom juntamente ironico e
melancolico:

--Pois at os defunctos! Nem os mortos escapam aos seus ciumes!

Concertou a capinha e ergueu-se. Suspirou, creio que suspirou, emquanto
eu, que no pedia outra cousa mais que a plena justificao della,
disse-lhe no sei que palavras adequadas a este fim. Capit olhou para
mim com desdem, e murmurou:

--Sei a razo disto;  a casualidade da semelhana... A vontade de
Deus explicar tudo... Ri-se?  natural; apesar do seminario, no
acredita em Deus; eu creio... Mas no falemos nisto; no nos fica bem
dizer mais nada.




CXXXIX

A photographia.

Palavra que estive a pique de crer que era victima de uma grande
illuso, uma phantasmagoria de allucinado; mas a entrada repentina de
Ezequiel, gritando:--Mame! mame!  hora da missa! restituiu-me
 consciencia da realidade. Capit e eu, involuntariamente, olhmos
para a photographia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez
a confuso della fez-se confisso pura. Este era aquelle; havia por
fora alguma photographia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno
Ezequiel. De bocca, porm, no confessou nada; repetiu as ultimas
palavras, puxou do filho e sairam para a missa.




CXL

Volta da egreja.

Ficando s, era natural pegar do caf e bebel-o. Pois, no, senhor;
tinha perdido o gosto  morte. A morte era uma soluo; eu acabava de
achar outra, tanto melhor quanto que no era definitiva, e deixava
a porta aberta  reparao, se devesse havel-a. No disse _perdo_,
mas _reparao_, isto , justia. Qualquer que fosse a razo do acto,
rejeitei a morte, e esperei o regresso de Capit. Este foi mais
demorado que de costume; cheguei a temer que ella houvesse ido  casa
de minha me, mas no foi.

--Confiei a Deus todas as minhas amarguras, disse-me Capit ao voltar
da egreja; ouvi dentro de mim que a nossa separao  indispensavel, e
estou s suas ordens.

Os olhos com que me disse isto eram embuados, como espreitando um
gesto de recusa ou de espera. Contava com a minha debilidade ou com
a propria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro,
mas falhou tudo. Acaso haveria em mim um homem novo, um que apparecia
agora, desde que impresses novas e fortes o descobriam? Nesse caso era
um homem apenas encoberto. Respondi-lhe que ia pensar, e fariamos o que
eu pensasse. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito.

No intervallo, evocra as palavras do finado Gurgel, quando me
mostrou em casa delle o retrato da mulher, parecido com Capit. Has
de lembrar-te dellas; se no, rel o capitulo, cujo numero no ponho
aqui, por no me lembrar j qual seja, mas no fica longe. Reduzem-se
a dizer que ha taes semelhanas inexplicaveis... Pelo dia adeante, e
nos outros dias, Ezequiel ia ter commigo ao gabinete, e as feies
do pequeno davam ideia clara das do outro, ou eu ia attentando
mais nellas. De envolta, lembravam-me episodios vagos e remotos,
palavras, encontros e incidentes, tudo em que a minha cegueira no
poz malicia, e a que faltou o meu velho ciume. Uma vez em que os fui
achar ssinhos e calados, um segredo que me fez rir, uma palavra
della sonhando, todas essas reminiscencias vieram vindo agora, em tal
atropello que me atordoaram... E porque os no esganei um dia, quando
desviei os olhos da rua onde estavam duas andorinhas trepadas no fio
telegraphico? Dentro, as minhas outras andorinhas estavam trepadas no
ar, os olhos enfiados nos olhos, mas to cautelosos que se desenfiaram
logo, dizendo-me uma palavra amiga e alegre. Contei-lhes o namoro
das andorinhas de fra, e acharam-lhe graa; Escobar declarou que,
para elle, seria melhor se as andorinhas, em vez de trepadas no fio
de arame, estivessem  mesa do jantar cosidas. Nunca comi os ninhos
dellas, continuou, mas devem ser bons, se os chins os inventaram. E
ficmos a tratar dos chins e dos classicos que falaram delles, emquanto
Capit, confessando que a aborreciamos, foi a outros cuidados. Agora
lembrava-me tudo o que ento me pareceu nada.




CXLI

A soluo.

Aqui est o que fizemos. Pegmos em ns e fomos para a Europa,
no passear, nem ver nada, novo nem velho; parmos na Suissa. Uma
professora do Rio-Grande, que foi comnosco, ficou de companhia a
Capit, ensinando a lingua materna a Ezequiel, que apprenderia o resto
nas escolas do paiz. Assim regulada a vida, tornei ao Brazil.

Ao cabo de alguns mezes, Capit comera a escrever-me cartas, a que
respondi com brevidade e sequido. As della eram submissas, sem odio,
acaso affectuosas, e para o fim saudosas; pedia-me que a fosse ver.
Embarquei um anno depois, mas no a procurei, e repeti a viagem com o
mesmo resultado. Na volta, os que se lembravam della, queriam noticias,
e eu dava-lh'as, como se acabasse de viver com ella; naturalmente as
viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo, e enganar a
opinio. Um dia, finalmente...




CXLII

Uma santa.

Entenda-se que, se nas viagens que fiz  Europa, Jos Dias no foi
commigo, no  que lhe faltasse vontade; ficava de companhia a tio
Cosme, quasi invalido, e a minha me, que envelheceu depressa. Tambem
elle estava velho, posto que rijo. Ia a bordo despedir-se de mim, e
as palavras que me dizia, os gestos de leno, os proprios olhos que
enxugava eram taes que me commoviam tambem. A ultima vez no foi o
bordo.

--Venha...

--No posso.

--Est com medo?

--No; no posso. Agora, adeus, Bentinho, no sei s me ver mais;
creio que vou para a outra Europa, a eterna...

No foi logo; minha me embarcou primeiro. Procura no cemiterio de S.
Joo Baptista uma sepultura sem nome, com esta unica indicao: _Uma
santa._  ahi. Fiz fazer essa inscripo com alguma difficuldade. O
esculptor achou-a exquisita; o administrador do cemiterio consultou o
vigario da parochia; este ponderou-me que as santas esto no altar e no
ceu.

--Mas, perdo, atalhei, eu no quero dizer que naquella sepultura est
uma canonisada. A minha ideia  dar com tal palavra uma definio
terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida. Tanto 
assim que, sendo a modestia uma dellas, desejo conserval-a postuma, no
lhe escrevendo o nome.

--Todavia, o nome, afiliao, as datas...

--Quem lhe importar com datas, filiao, nem nomes, depois que eu
acabar?

--Quer dizer que era uma santa senhora, no?

--Justamente. O protonotario Cabral, se fosse vivo, confirmaria aqui o
que lhe digo.

--Nem eu contesto a verdade, hesito s na formula. Conheceu ento o
protonotario?

--Conheci-o. Era um padre-modelo.

--Bom canonista, bom latinista, pio e caridoso, continuou o vigrio.

--E possuia algumas prendas de sociedade, disse eu; l em casa sempre
ouvi que era insigne parceiro ao gamo...

--Tinha muito bom dado! suspirou lentamente o vigario. Um dado de
mestre!

--Ento, parece-lhe...?

--Uma vez que no ha outro sentido, nem poderia havel-o, sim, senhor,
admitte-se...

Jos Dias assistiu a estas diligencias, com grande melancolia. No fim,
quando saimos, disse mal do padre, chamou-lhe meticuloso. S lhe achava
desculpa por no ter conhecido minha me, nem elle nem os outros homens
do cemiterio.

--No a conheceram; se a conhecessem, mandariam esculpir _santissima._




CXLIII

O ultimo superlativo.

No foi o ultimo superlativo de Jos Dias. Outros teve que no vale
a pena escrever aqui, at que veiu o ultimo, o melhor delles, o mais
doce, o que lhe fez da morte um pedao de vida. J ento morava
commigo; posto que minha me lhe deixasse uma pequena lembrana, veiu
dizer-me que, com legado ou sem elle, no se separaria de mim. Talvez a
esperana delle fosse enterrar-me. Correspondia-se com Capit, a quem
pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel; mas Capit ia adiando a
remessa de correio a correio, at que elle no pediu mais nada, a no
ser o corao do joven estudante; pedia-lhe tambem que no deixasse de
falar a Ezequiel no velho amigo do pae e do av, destinado pelo ceu
a amar o mesmo sangue. Era assim que elle preparava os cuidados da
terceira gerao; mas a morte veiu antes de Ezequiel. A doena foi
rapida. Mandei chamar um medico homeopatha.

--No, Bentinho, disse elle; basta um allopatha; em todas as escolas se
morre. Demais, foram ideias da mocidade, que o tempo levou; converto-me
 f de meus paes. A allopathia  o catholicismo da medicina...

Morreu sereno, aps uma agonia curta. Pouco antes ouviu que o ceu
estava lindo, e pediu que abrissemos a janella.

--No, o ar pde fazer-lhe mal.

--Que mal? Ar  vida.

Abrimos a janella. Realmente, estava um ceu azul e claro. Jos Dias
soergueu-se e olhou para fra; aps alguns instantes, deixou cair a
cabea, murmurando: Lindissimo! Foi a ultima palavra que proferiu neste
mundo. Pobre Jos Dias! Porque hei de negar que chorei por elle?




CXLIV

Uma pergunta tardia.

Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste
mundo, mas no  provavel. Tenho-me feito esquecer. Mro longe e saio
pouco. No  que haja effectivamente ligado as duas pontas da vida.
Esta casa do Engenho Novo, comquanto reproduza a de Matacavallos,
apenas me lembra aquella, e mais por effeito de comparao e de
reflexo que de sentimento. J disse isto mesmo.

Ho de perguntar-me por que razo, tendo a propria casa velha, na mesma
rua antiga, no impedi que a demolissem e vim reproduzil-a nesta. A
pergunta devia ser feita a principio, mas aqui vae a resposta. A razo
 que, logo que minha me morreu, querendo ir para l, fiz primeiro
uma longa visita de inspeco por alguns dias, e toda a casa me
desconheceu. No quintal a aroeira e a pitangueira, o poo, a caamba
velha e o lavadouro, nada sabia de mim. A casuarina era a mesma que eu
deixara ao fundo, mas o tronco, em vez de recto, como outr'ora, tinha
agora um ar de ponto de interrogao; naturalmente pasmava do intruso.
Corri os olhos pelo ar, buscando algum pensamento que alli deixasse, e
no achei nenhum. Ao contrario, a ramagem comeou a sussurrar alguma
cousa que no entendi logo, e parece que era a cantiga das manhs
novas. Ao p dessa musica sonora e jovial, ouvi tambem o grunhir dos
porcos, especie de troa concentrada e philosophica.

Tudo me era extranho e adverso. Deixei que demolissem a casa, e,
mais tarde, quando vim para o Engenho Novo, lembrou-me fazer esta
reproduco por explicaes que dei ao architecto segundo contei em
tempo.




CXLV

O regresso.

Ora, foi j nesta casa que um dia, estando a vestir-me para almoar,
recebi um carto com este nome:

     EZEQUIEL A. DE SANTIAGO

--A pessoa est ahi? perguntei ao criado.

--Sim, senhor; ficou esperando.

No fui logo, logo; fil-o esperar um dez ou quinze minutos na sala.
S depois  que me lembrou que cumpria ter certo alvoroo e correr,
abraal-o, falar-lhe na me. A me,--creio que ainda no disse que
estava morta e enterrada. Estava; l repousa na velha Suissa. Acabei de
vestir-me s pressas. Quando sa do quarto, tomei ares de pae, um pae
entre manso e crespo, metade Dom Casmurro. Ao entrar na sala, dei com
um rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado na parede.
Vim cauteloso, e no fiz rumor. No obstante, ouviu-me os passos, e
voltou-se depressa. Conheceu-me pelos retratos e correu para mim. No
me mexi; era nem mais nem menos o meu antigo e joven companheiro do
seminario de S. Jos, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo, e,
salvo as cores, que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. Trajava 
moderna, naturalmente, e as maneiras eram differentes, mas o aspecto
geral reproduzia a pessoa morta. Era o proprio, o exacto, o verdadeiro
Escobar. Era o meu comboro; era o filho de seu pae. Vestia de luto
pela me; eu tambem estava de preto. Sentmo-nos.

--Papae no faz differena dos ultimos retratos, disse-me elle.

A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancezado. Expliquei-lhe
que realmente pouco diferia do que era, e comecei um interrogatorio
para ter menos que falar e dominar assim a minha emoo. Mas isto mesmo
dava animao  cara delle, e o meu collega do seminario ia resurgindo
cada vez mais do cemiterio. Eil-o aqui, deante de mim, com egual riso
e maior respeito; total, o mesmo obsequio e a mesma graa. Anciava por
ver-me. A me falava muito em mim, louvando-me extraordinariamente,
como o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido.

--Morreu bonita, concluiu.

--Vamos almoar.

Se pensas que o almoo foi amargo, enganas-te. Teve seus minutos de
aborrecimento,  verdade; a principio doeu-me que Ezequiel no fosse
realmente meu filho, que me no completasse e continuasse. Se o rapaz
tem saido  mae, eu acabava crendo tudo, tanto mais facilmente quanto
que elle parecia haver-me deixado na vespera, evocava a meninice,
scenas e palavras, a ida para o collegio...

--Papae ainda se lembra quando me levou para o collegio? perguntou
rindo.

--Pois no hei de lembrar-me?

--Era na Lapa; eu ia desesperado, e papae no parava, dava-me cada
puxo, e eu com as perninhas.... Sim, senhor, acceito.

Estendeu o copo ao vinho que eu lhe offerecia, bebeu um gole, e
continuou a comer. Escobar comia assim tambem, com a cara mettida no
prato. Contou-me a vida na Europa, os estudos, particularmente os de
archeologia, que era a sua paixo. Falava da antiguidade com amor,
contava o Egypto e os seus milhares de seculos, sem se perder nos
algarismos; tinha a cabea arithmetica do pae. Eu, posto que a ideia
da paternidade do outro me estivesse j familiar, no gostava da
resurreio. s vezes, fechava os olhos para no ver gestos nem nada,
mas o diabrete falava e ria, e o defuncto falava e ria por elle.

No havendo remedio seno ficar com elle, fiz-me pae deveras. A ideia
de que pudesse ter visto alguma photographia de Escobar, que Capit por
descuido levasse comsigo, no me acudiu, nem, se acudisse, persistiria.
Ezequiel cria em mim, como na me. Se fosse vivo Jos Dias, acharia
nelle a minha propria pessoa. Prima Justina quiz vel-o, mas estando
enferma, pediu-me que o levasse l. Conhecia aquella parenta. Creio que
o desejo de ver Ezequiel era para o fim de verificar no moo o debuxo
que por ventura houvesse achado no menino. Seria um regalo ultimo;
atalhei-o a tempo.

--Est muito mal, disse eu a Ezequiel que queria ir vel-a, qualquer
emoo pde trazer-lhe a morte. Iremos vel-a, quando ficar melhor.

No fomos; a morte levou-a dentro de poucos dias. Ella descana no
Senhor ou como quer que seja. Ezequiel viu-lhe a cara no caixo e no a
conheceu, nem podia, to outra a fizeram os annos e a morte. No caminho
para o cemiterio, iam-lhe lembrando uma poro de cousas, alguma rua,
alguma torre, um trecho de praia, e era todo alegria. Assim acontecia
sempre que voltava para casa, ao fim do dia; contava-me as recordaes
que ia recebendo das ruas e das casas. Admirava-se que muitas destas
fossem as mesmas que elle deixra, como se as casas morressem meninas.

Ao cabo de seis mezes, Ezequiel falou-me em uma viagem  Grecia, ao
Egypto, e  Palestina, viagem scientifica, promessa feita a alguns
amigos.

--De que sexo? perguntei rindo.

Sorriu vexado, e respondeu-me que as mulheres eram creaturas to
da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruina de trinta
seculos. Eram dous collegas da universidade. Prometti-lhe recursos,
e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. Commigo disse que
uma das consequencias dos amores furtivos do pae era pagar eu as
archeologias do filho; antes lhe pagasse a lepra.... Quando esta ideia
me atravessou o cerebro, senti-me to cruel e perverso que peguei no
rapaz, e quiz apertal-o ao corao, mas recuei; encarei-o depois, como
se faz a um filho de verdade; os olhos que elle me deitou foram ternos
e agradecidos.




CXLVI

No houve lepra.

No houve lepra, mas ha febres por todas essas terras humanas, sejam
velhas ou novas. Onze mezes depois, Ezequiel morreu de uma febre
typhoide, e foi enterrado nas immediaes de Jerusalem, onde os dous
amigos da universidade lhe levantaram um tumulo com esta inscripo,
tirada do propheta Ezequiel, em grego: Tu eras perfeito nos teus
caminhos. Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho da
sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro que elle levava;
pagaria o triplo para no tornar a vel-o.

Como quizesse verificar o texto, consultei a minha Vulgata, e achei que
era exacto, mas tinha ainda um complemento: Tu eras perfeito nos teus
caminhos, _desde o dia da tua creao._ Parei e perguntei calado:
Quando seria o dia da creao de Ezequiel? Ninguem me respondeu. Eis
ahi mais um mysterio para ajuntar aos tantos deste mundo. Apesar de
tudo, jantei bem e fui ao theatro.




CXLVII

A exposio retrospectiva.

J sabes que a minha alma, por mais lacerada que tenha sido, no
ficou ahi para um canto como uma flor livida e solitaria. No lhe dei
essa cr ou descr. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem amigas
que me consolassem da primeira. Caprichos de pouca dura,  verdade.
Ellas  que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposio
retrospectiva, e, ou se fartam de vel-a, ou a luz da sala esmorece. Uma
s dessas visitas tinha carro  porta e cocheiro de libr. As outras
iam modestamente, _calcante pede_, e, se chovia, eu  que ia buscar um
carro de praa, e as mettia dentro, com grandes despedidas, e maiores
recommendaes:

--Levas o catalogo?

--Levo; at amanh.

--At amanh.

No voltavam mais. Eu ficava  porta, esperando, ia at  esquina,
espiava, consultava o relogio, e no via nada nem ninguem. Ento, se
apparecia outra visita, dava-lhe o brao, entravamos, mostrava-lhe
as paizagens, os quadros historicos ou de genero, uma aquarella,
um pastel, uma _gouache_, e tambem esta canava, e ia embora com o
catalogo na mo....




CXLVIII

E bem, e o resto?

Agora, porque  que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a
primeira amada do meu corao? Talvez porque nenhuma tinha os olhos
de ressaca, nem os de cigana obliqua e dissimulada. Mas no  este
propriamente o resto do livro. O resto  saber se a Capit da praia
da Gloria j estava dentro da de Matacavallos, ou se esta foi mudada
naquella por effeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach,
se soubesse dos meus primeiros ciumes, dir-me-hia, como no seu cap. IX,
vers. 1: No tenhas ciumes de tua mulher para que ella no se metta a
enganar-te com a malicia que apprender de ti. Mas eu creio que no,
e tu concordars commigo; se te lembras bem da Capit menina, has de
reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.

E bem, qualquer que seja a soluo, uma cousa fica, e  a summa das
summas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e
o meu maior amigo, to extremosos ambos e to queridos tambem, quiz o
destino que acabassem juntando-se e enganando-me.... A terra lhes seja
leve! Vamos  _Historia dos suburbios._


FIM




INDICE

    Capitulo I         Do titulo
             II        Do livro
             III       A denuncia
             IV        Um dever amarissimo!
             V         O aggregado
             VI        Tio Cosme
             VII       D. Gloria
             VIII       tempo!
             IX        A opera
             X         Acceito a theoria
             XI        A promessa
             XII       Na varanda
             XIII      Capit
             XIV       A inscripo
             XV        Outra voz repentina
             XVI       O administrador interino
             XVII      Os vermes
             XVIII     Um plano
             XIX       Sem falta
             XX        Mil padre-nossos e mil ave-marias
             XXI       Prima Justina
             XXII      Sensaes alheias
             XXIII     Prazo dado
             XXIV      De me e de servo
             XXV       No Passeio Publico
             XXVI      As leis so bellas
             XXVII     Ao porto
             XXVIII    Na rua
             XXIX      O imperador
             XXX       O Santissimo
             XXXI      As curiosidades de Capit
             XXXII     Olhos de ressaca
             XXXIII    O penteado
             XXXIV     Sou homem!
             XXXV      O protonotario apostolico
             XXXVI     Ideia sem pernas e ideia sem braos
             XXXVII    A alma  cheia de mysterios
             XXXVIII   Que susto, meu Deus!
             XXXIX     A vocao
             XL        Uma egua
             XLI       A audiencia secreta
             XLII      Capit reflectindo
             XLIII     Voc tem medo?
             XLIV      O primeiro filho
             XLV       Abane a cabea, leitor
             XLVI      As pazes
             XLVII     A senhora saiu
             XLVIII    Juramento do poo
             XLIX      Uma vela aos sabbados
             L         Um meio termo
             LI        Entre luz e fusco
             LII       O velho Padua
             LIII      A caminho!
             LIV       Panegyrico de Santa Monica
             LV        Um soneto
             LVI       Um seminarista
             LVII      De preparao
             LVI       O tratado
             LIX       Convivas de boa memoria
             LX        Querido opusculo
             LXI       A vacca de Homero
             LXII      Uma ponta de Iago
             LXII      Metades de um sonho
             LXIV      Uma ideia e um escrupulo
             LXV       A dissimulao
             LXVI      Intimidade
             LXVI      Um peccado
             LXVII     Adiemos a virtude
             LXIX      A missa
             LXX       Depois da missa
             LXXI      Visita de Escobar
             LXXII     Uma reforma dramatica
             LXXIH     O contra-regra
             LXXIV     A presilha
             LXXV      O desespero
             LXXVI     Explicao
             LXXVII    Prazer das dres velhas
             LXXVIII   Segredo por segredo
             LXXIX     Vamos ao capitulo
             LXXX      Venhamos ao capitulo
             LXXXI     Uma palavra
             LXXXII    O canap
             LXXXIII   O retrato
             LXXXIV    Chamado
             LXXXV     O defuncto
             LXXXVI    Amai, rapazes
             LXXXVII   A sege
             LXXXVIII  Um pretexto honesto
             LXXXIX    A recusa
             XC        A polemica
             XCI       Achado que consola
             XCII      O diabo no  to feio como se pinta
             XCIII     Um amigo por um defuncto
             XCIV      Ideias arithmeticas
             XCV       O papa
             XCVI      Um substituto
             XCVII     A saida
             XCVIII    Cinco annos
             XCIX      O filho  a cara do pae
             C         Tu sers feliz, Bentinho!
             CI        No ceu
             CII       De casada
             CIII      A felicidade tem boa alma
             CIV       As pyramides
             CV        Os braos
             CVI       Dez libras esterlinas
             CVII      Ciumes do mar
             CVIII     Um filho
             CIX       Um filho unico
             CX        Rasgos da infancia
             CXI       Contado depressa
             CXII      As imitaes de Ezequiel
             CXIII     Embargos de terceiro
             CXIV      Em que se explica o explicado
             CXV       Duvidas sobre duvidas
             CXVI      Filho do homem
             CXVII     Amigos proximos
             CXVIII    A mo de Sancha
             CXIX      No faa isso, querida
             CXX       Os autos
             CXXI      A catastrophe
             CXXII     O enterro
             CXXIII    Olhos de ressaca
             CXXIV     O discurso
             CXXV      Uma comparao
             CXXVI     Scismando
             CXXVII    O barbeiro
             CXXVIII   Punhado de successos
             CXXIX     A D. Sancha
             CXXX      Um dia
             CXXXI     Anterior ao anterior
             CXXXII    O debuxo e o colorido
             CXXXIII   Uma ideia
             CXXXIV    O dia de sabbado
             CXXXV     Othello
             CXXXVI    A chicara de caf
             CXXXVII   Segundo impulso
             CXXXVIII  Capit que entra
             CXXXIX    A photographia
             CXL       Volta da egreja
             CXLI      A soluo
             CXLII     Uma santa
             CXLIII    O ultimo superlativo
             CXLIV     Uma pergunta tardia
             CXLV      O regresso
             CXLVI     No houve lepra
             CXLVII    A exposio retrospectiva
             CXLVIII    bem, e o resto?






End of the Project Gutenberg EBook of Dom Casmurro, by Machado de Assis

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DOM CASMURRO ***

***** This file should be named 55752-8.txt or 55752-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/5/5/7/5/55752/

Produced by Laura Natal Rodriguez & Marc D'Hooghe at Free
Literature (online soon in an extended version,also linking
to free sources for education worldwide ... MOOC's,
educational materials,...) (Images generously made available
by the Bibliotheca Nacional Digital Brasil.)

Updated editions will replace the previous one--the old editions will
be renamed.

Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
law means that no one owns a United States copyright in these works,
so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
States without permission and without paying copyright
royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
of this license, apply to copying and distributing Project
Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm
concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive
specific permission. If you do not charge anything for copies of this
eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook
for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports,
performances and research. They may be modified and printed and given
away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks
not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the
trademark license, especially commercial redistribution.

START: FULL LICENSE

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full
Project Gutenberg-tm License available with this file or online at
www.gutenberg.org/license.

Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project
Gutenberg-tm electronic works

1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or
destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your
possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound
by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the
person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph
1.E.8.

1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement. See
paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm
electronic works. See paragraph 1.E below.

1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the
Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
works in the collection are in the public domain in the United
States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
United States and you are located in the United States, we do not
claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
displaying or creating derivative works based on the work as long as
all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting
free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm
works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily
comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when
you share it without charge with others.

1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
in a constant state of change. If you are outside the United States,
check the laws of your country in addition to the terms of this
agreement before downloading, copying, displaying, performing,
distributing or creating derivative works based on this work or any
other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no
representations concerning the copyright status of any work in any
country outside the United States.

1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear
prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work
on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the
phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed,
performed, viewed, copied or distributed:

  This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
  most other parts of the world at no cost and with almost no
  restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it
  under the terms of the Project Gutenberg License included with this
  eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the
  United States, you'll have to check the laws of the country where you
  are located before using this ebook.

1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is
derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
contain a notice indicating that it is posted with permission of the
copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
the United States without paying any fees or charges. If you are
redistributing or providing access to a work with the phrase "Project
Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply
either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm
trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
posted with the permission of the copyright holder found at the
beginning of this work.

1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
any word processing or hypertext form. However, if you provide access
to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format
other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official
version posted on the official Project Gutenberg-tm web site
(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain
Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the
full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works
provided that

* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
  the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
  you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
  to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has
  agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
  Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
  within 60 days following each date on which you prepare (or are
  legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
  payments should be clearly marked as such and sent to the Project
  Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
  Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg
  Literary Archive Foundation."

* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
  you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
  does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
  License. You must require such a user to return or destroy all
  copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
  all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm
  works.

* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
  any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
  electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
  receipt of the work.

* You comply with all other terms of this agreement for free
  distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than
are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The
Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm
trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm
electronic works, and the medium on which they may be stored, may
contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
cannot be read by your equipment.

1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from. If you
received the work on a physical medium, you must return the medium
with your written explanation. The person or entity that provided you
with the defective work may elect to provide a replacement copy in
lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
or entity providing it to you may choose to give you a second
opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
without further opportunities to fix the problem.

1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO
OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of
damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
violates the law of the state applicable to this agreement, the
agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
remaining provisions.

1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in
accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm
electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
Defect you cause.

Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of
computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
from people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
www.gutenberg.org



Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
volunteers and employees are scattered throughout numerous
locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
date contact information can be found at the Foundation's web site and
official page at www.gutenberg.org/contact

For additional contact information:

    Dr. Gregory B. Newby
    Chief Executive and Director
    gbnewby@pglaf.org

Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment. Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements. We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
state visit www.gutenberg.org/donate

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations. To
donate, please visit: www.gutenberg.org/donate

Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
freely shared with anyone. For forty years, he produced and
distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search
facility: www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.

