The Project Gutenberg EBook of Quincas Borba, by Machado de Assis

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Title: Quincas Borba

Author: Machado de Assis

Release Date: October 5, 2017 [EBook #55682]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK QUINCAS BORBA ***




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QUINCAS BORBA

DO

MACHADO DE ASSIS

RIO DE JANEIRO

B. L. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

71, Rua do Ouvidor, 71

1891





    OBRAS DO AUTOR

    Memorias Posthumas de Braz Cubas
    Quincas Borba
    Histrias sem data
    Papis avulsos
    Historias da meia noite
    Yay Garcia, romance
    Helena, romance
    Resurreio, romance
    A mo e a luva, romance
    Contos Fluminenses
    Americanas, poesias
    Phalenas, poesias
    Chrysalidas, poesias
    Tu s, tu, puro amor, comdia




QUINCAS BORBA




CAPITULO PRIMEIRO


Rubio fitava a enseada,--eram oito horas da manh. Quem o visse, com
os polegares mettidos no cordo do chambre,  janella de uma grande
casa de Botafogo, cuidaria que elle admirava aquelle pedao de agua
quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa. Cotejava
o passado com o presente. Que era, ha um anno? Professor. Que  agora?
Capitalista. Olha para si, para as chinellas (umas chinellas de Tunis,
que lhe deu recente amigo, Christiano Palha), para a casa, para o
jardim, para a enseada, para os morros e para o ceu; e tudo, desde as
chinellas at o ceu, tudo entra na mesma sensao de propriedade.

--Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa elle. Se
a mana Piedade tem casado com o Quincas Borba, apenas me daria uma
esperana collateral. No casou; ambos morreram, e aqui est tudo
commigo; de modo que o que parecia uma desgraa...




CAPITULO II


Que abysmo que ha entre o espirito e o corao! O espirito do
ex-professor, vexado daquelle pensamento, arrepiou caminho, buscou
outro assumpto, uma canoa que ia passando; o corao, porm, deixou-se
estar a bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o canoeiro,
que os olhos de Rubio acompanham, arregalados? Elle, corao, vae
dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que
no casasse; podia vir um filho ou uma filha... --Bonita canoa!--Antes
assim!--Como obedece bem aos remos do homem!--O certo  que elles esto
no ceu!




CAPITULO III


Um creado trouxe o caf. Rubio pegou na chicara, e, em quanto lhe
deitava assucar, ia disfaradamente mirando a bandeja, que era de
prata lavrada. Prata, ouro, eram os metaes que amava de corao; no
gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era materia de
preo, e assim se explica este par de figuras que aqui est na sala, um
_Mephistopheles_ e um _Fausto._ Tivesse, porm, de escolher, escolheria
a bandeja,--primor de argentaria, execuo fina e acabada. O creado
esperava tezo e serio. Era hespanhol; e no foi sem resistencia que
Rubio o acceitou das mos de Christiano; por mais que lhe dissesse
que estava acostumado aos seus creoulos de Minas, e no queria linguas
estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a
necessidade de ter creados brancos. Rubio cedeu com pena. O seu bom
pagem, que elle queria pr na sala, como um pedao da provincia, nem o
pde deixar na cosinha, onde reinava um francez, Jean; foi degradado a
outros servios.

--Quincas Borba est muito impaciente? perguntou Rubio bebendo o
ultimo golo de caf, e lanando um ultimo olhar  bandeja.

--_Me parece que si._

--L vou soltal-o.

No foi; deixou-se ficar, algum tempo, a olhar para os moveis. Vendo
as pequenas gravuras inglezas, que pendiam da parede por cima dos dous
bronzes, Rubio pensou na bella Sophia, mulher do Palha, deu alguns
passos, e foi sentar-se no _pouf_, ao centro da sala, olhando para
longe...

--Foi ella que me recommendou aquelles dous quadrinhos, quando
andavamos os tres, a ver cousas para comprar. Estava to bonita! Mas o
que eu mais gosto della so os hombros, que vi no baile do coronel. Que
hombros! Parecem de cera; to lisos, to brancos! Os braos tambem; oh!
os braos! Que bem feitos!

Rubio suspirou, cruzou as pernas, e bateu com as borlas do chambre
sobre os joelhos. Sentia que no era inteiramente feliz; mas sentia
tambem que no estava longe a felicidade completa. Recompunha de
cabea uns modos, uns olhos, uns requebros sem explicao, a no ser
esta, que ella o amava, e que o amava muito. No era velho; ia fazer
quarenta e um annos; e, rigorosamente, parecia menos. Esta observao
foi acompanhada de um gesto; passou a mo pela cara, barbeada todos
os dias, cousa que no fazia d'antes, por economia e desnecessidade.
Um simples professor! Usava suissas, (mais tarde deixou crescer a
barba toda),--to macias, que dava gosto passar os dedos por ellas...
E recordava assim o primeiro encontro, na estao de Vassouras, onde
Sophia e o marido entraram no trem da estrada de de ferro, no mesmo
carro em que elle descia de Minas; foi alli que achou aquelle par de
olhos viosos, que pareciam repetir a exhortao do propheta: Todos
vs que tendes sede, vinde s aguas. No trazia ideias adequadas ao
convite,  verdade; vinha com a herana na cabea, o testamento, o
inventario, cousas que  preciso explicar primeiro, afim de entender
o presente e o futuro. Deixemos Rubio na sala de Botafogo, batendo
com as borlas do chambre nos joelhos, e cuidando na bella Sophia. Vem
commigo, leitor; vamos vel-o, mezes antes,  cabeceira do Quincas Borba.




CAPITULO IV


Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as _Memorias
posthumas de Braz Cubas_,  aquelle mesmo naufrago da existencia,
que alli apparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma
philosophia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou,
enamorou-se de uma viuva, senhora de condio mediana e parcos meios de
vida; mas, to acanhada que os suspiros do namorado ficavam sem echo.
Chamava-se Maria da Piedade. Um irmo della, que  o presente Rubio,
fez todo o possivel para casal-os. Piedade resistiu, um pleuriz a levou.

Foi esse trechosinho de romance que ligou os dous homens. Saberia
Rubio que o nosso Quincas Borba trazia aquelle grosinho de sandice,
que um medico suppoz achar-lhe? Seguramente, no; tinha-o por homem
esquisito. , todavia, certo que o grosinho no se despegou do cerebro
de Quincas Borba,--nem antes, nem depois da molestia que lentamente o
comeu. Quincas Borba tivera alli alguns parentes, mortos j agora em
1867; o ultimo foi o tio que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubio
ficou sendo o unico amigo do philosopho. Regia ento uma escola de
meninos, que fechou para tratar do enfermo. Antes de professor, mettera
hombros a algumas emprezas, que foram a pique.

Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco mezes, perto de seis. Era
real o desvello de Rubio, paciente, risonho, multiplo, ouvindo as
ordens do medico, dando os remedios s horas marcadas, saindo a passeio
com o doente, sem esquecer nada, nem o servio da casa, nem a leitura
dos jornaes, logo que chegava a mala da Crte ou a de Ouro-Preto.

--Tu s bom, Rubio, suspirava Quincas Borba.

--Grande faanha! Como se voc fosse mo!

A opinio ostensiva do medico era que a doena do Quincas Borba iria
saindo devagar. Um dia, o nosso Rubio, acompanhando o medico at 
porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo.
Ouviu que estava perdido, completamente perdido; mas, que o fosse
animando. Para que tornar-lhe a morte mais afflictiva pela certeza...?

--La isso, no, atalhou Rubio; para elle, morrer  negocio facil.
Nunca leu um livro que elle escreveu, ha annos, no sei que negocio de
philosophia...

--No; mas philosophia  uma cousa, e morrer de verdade  outra; adeus.




CAPITULO V


Rubio achou um rival no corao do Quincas Borba,--um co, um bonito
co, meio tamanho, pello cr de chumbo, malhado de preto. Quincas
Borba levava-o para toda parte, dormiam no mesmo quarto. De manh,
era o co que acordara o senhor, trepando ao leito, onde trocavam as
primeiras saudaes. Uma das extravagancias do dono foi dar-lhe o seu
proprio nome; mas, explicava-o por dous motivos, um doutrinario, outro
particular.

--Desde que Humanitas, segundo a minha doutrina,  o principio da vida
e reside em toda a parte, existe tambem no co, e este pde assim
receber um nome de gente, seja christo ou mussulmano...

--Bem, mas porque no lhe deu antes o nome de Bernardo, disse Rubio
com o pensamento em um rival politico da localidade.

--Esse agora  o motivo particular. Se eu morrer antes, como presumo,
sobrevivirei no nome do meu bom cachorro. Ris-te, no?

Rubio fez um gesto negativo.

--Pois devias rir, meu querido. Porque a immortalidade  o meu lote
ou o meu dote, ou como melhor nome haja. Vivirei perpetuamente no meu
grande livro. Os que, porm, no souberem ler, chamaro Quincas Borba
ao cachorro, e...

O co, ouvindo o nome, correu  cama. Quincas Borba, commovido, olhou
para Quincas Borba:

--Meu pobre amigo! meu bom amigo! meu unico amigo!

--Unico!

--Desculpa-me, tu tambem o s, bem sei, e agradeo-te muito; mas a um
doente perdoa-se tudo. Talvez esteja comeando o meu delirio. Deixa ver
o espelho.

Rubio deu-lhe o espelho. O doente contemplou por alguns segundos a
cara magra, o olhar febril, com que descobria os suburbios da morte,
para onde caminhava a passo lento, mas seguro. Depois, com um sorriso
pallido e ironico:

--Tudo o que est c fra corresponde ao que sinto c dentro; vou
morrer, meu caro Rubio... No gesticules, vou morrer. E que  morrer,
para ficares assim espantado?

--Sei, sei que voce tem umas philosophias... Mas fallemos do jantar;
que hade ser hoje?

Quincas Borba sentou-se na cama, deixando pender as pernas, cuja
estraordinaria magreza se adivinhava por fra das calas.

--Que ! que quer? acudiu Rubio.

--Nada, respondeu o enfermo sorrindo. Umas philosophias! Com que desdem
me dizes isso! Repete, anda, quero ouvir outra vez. Umas philosophias!

--Mas no  por desdem... Pois eu tenho capacidade para desdenhar de
philosophias? Digo s que voc pde crr que a morte no vale nada,
porque ter razes, principios...

Quincas Borba procurou com os ps as chinellas; Rubio chegou-lh'as;
elle calou-as e poz-se a andar para esticar as pernas. Affagou o co
e accendeu um cigarro. Rubio quiz que se agazalhasse, e trouxe-lhe um
fraque, um collete, um chambre, um capote,  escolha. Quincas Borba
recusou-os com um gesto. Tinha outro ar agora; os olhos mettidos para
dentro viam pensar o cerebro. Depois de muitos passos, parou, por
alguns segundos, deante de Rubio.




CAPITULO VI


--Para entenderes bem o que  a morte e a vida, basta contar-te como
morreu minha av.

--Como foi?

--Senta-te.

Rubio obedeceu, dando ao rosto o maior interesse possivel, em quanto
Quincas Borba continuava a andar, recolhendo as ideias.

--Foi no Rio de Janeiro, comeou elle, defronte da Capella Imperial,
que era ento Real, em dia de grande festa; minha av saiu, atravessou
o adro, para ir ter  cadeirinha, que a esperava no largo do Pao.
Gente como formiga. O povo queria ver entrar as grandes senhoras nas
suas ricas traquitanas. No momento em que minha av sahia do adro
para ir  cadeirinha, um pouco distante, aconteceu espantar-se uma
das bestas de uma sege; a besta desparou, a outra imitou-a, confuso,
tumulto, minha av cahiu, e tanto as mulas como a sege passaram-lhe
por cima. Foi levada em braos para uma botica da rua Direita, veiu um
sangrador, mas era tarde; tinha a cabea rachada, uma perna e o hombro
partidos, era toda sangue; expirou minutos depois.

--Foi realmente uma desgraa, disse Rubio.

--No.

--No?

--Ouve o resto. Aqui est como se tinha passado o caso. O dono da sege
estava no adro, e tinha fome, muita fome, porque era tarde, e almora
cedo e pouco. Dalli pde fazer signal ao cocheiro; este fustigou as
mulas para ir buscar o patro. A sege no meio do caminho achou um
obstaculo e derribou-o; esse obstaculo era minha av. O primeiro acto
dessa serie de actos foi um movimento de conservao: Humanitas tinha
fome. Se em vez de minha av, fosse um rato ou um co,  certo que
minha av no morreria, mas o facto era o mesmo; Humanitas precisa
comer. Se em vez de um rato ou de um co, fosse um poeta, Byron ou
Gonalves Dias, differia o caso no sentido de dar materia a muitos
necrologios; mas o fundo subsistia. O universo ainda no parou por lhe
faltarem alguns poemas mortos em flor na cabea de um varo illustre
ou obscuro; mas Humanitas (e isto importa, antes de tudo) Humanitas
precisa comer.

Rubio escutava, com a alma nos olhos, sinceramente desejoso de
entender; mas no dava pela necessidade a que o amigo attribuia a morte
da av. Seguramente o dono da sege, por muito tarde que chegasse a
casa, no morria de fome, ao passo que a boa senhora morreu de verdade,
e para sempre. Explicou-lhe, como pode, essas duvidas, e acabou
perguntando-lhe:

--E que Humanitas  esse?

--Humanitas  o principio. Mas no, no digo nada, tu no s capaz de
entender isto, meu caro Rubio; fallemos de outra cousa.

--Diga sempre.

Quincas Borba, que no deixra de andar, parou alguns instantes.

--Queres ser meu discipulo?

--Quero.

--Bem, irs entendendo aos poucos a minha philosophia; no dia em que
a houveres penetrado inteiramente, ah! nesse dia ters o maior prazer
da vida, porque no ha vinho que embriague como a verdade. Cr-me, o
Humanitismo  o remate das cousas; e eu, que o formulei, sou o maior
homem do mundo. Olha, vs como o meu bom Quincas Borba est olhando
para mim? No  elle,  Humanitas...

--Mas que Humanitas  esse?

--Humanitas  o principio. Ha nas cousas todas certa substancia
recondita e identica, um principio unico, universal, eterno, commum,
indivisivel e indestructivel,--ou, para usar a linguagem do grande
Cames:


Uma verdade que nas cousas anda, Que mora no visibil e invisibil.


Pois essa substancia ou verdade, esse principio indestructivel  que 
Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo  o
homem. Vs entendendo?

--Pouco; mas, ainda assim, como  que a morte de sua av...

--No ha morte. O encontro de duas expanses, ou a expanso de duas
frmas, pde determinar a suppresso de uma dellas; mas, rigorosamente,
no ha morte, ha vida, porque a suppresso de uma  a condio da
sobrevivencia da outra, e a destruio no attinge o principio
universal e commum. Dahi o caracter conservador e benefico da guerra.
Suppe tu um campo de batatas e duas tribus famintas. As batatas
apenas chegam para alimentar uma das tribus, que assim adquire foras
para transpor a montanha e ir  outra vertente, onde ha batatas em
abundancia; mas, se as duas tribus dividirem em paz as batatas do
campo, no chegam a nutrir-se sufficientemente e morrem de inanio.
A paz, nesse caso,  a destruio; a guerra  a conservao. Uma das
tribus extermina a outra e recolhe os despojos. Dahi a alegria da
victoria, os hymnos, acclamaes, recompensas publicas e todos os
demais effeitos das aces bellicas. Se a guerra no fosse isso, taes
demonstraes no chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem
s commemora e ama o que lhe  aprazivel ou vantajoso, e pelo motivo
racional de que nenhuma pessoa canonisa uma aco que virtualmente a
destroe. Ao vencido, odio ou compaixo; ao vencedor, as batatas.

--Mas a opinio do exterminado?

--No ha exterminado. Desapparece o phenomeno; a substancia  a mesma.
Nunca viste ferver agua? Hasde lembrar-te que as bolhas fazem-se e
desfazem-se de continuo, e tudo fica na mesma agua. Os individuos so
essas bolhas transitorias.

--Bem; a opinio da bolha...

--Bolha no tem opinio. Apparentemente, ha nada mais contristador que
uma dessas terriveis pestes que devastam um ponto do globo? E, todavia,
esse supposto mal  um beneficio, no s porque elimina os organismos
fracos, incapazes de resistencia, como porque d logar  observao, 
descoberta da droga curativa. A hygiene  filha de podrides seculares;
devemol-a a milhes de corrompidos e infectos. Nada se perde, tudo 
ganho. Repito, as bolhas ficam na agua. Vs este livro?  _D. Quixote._
Se eu destruir o meu exemplar, no elimino a obra, que continua eterna
nos exemplares subsistentes e nas edies posteriores. Eterna e bella,
bellamente eterna, como este mundo divino e supra-divino.




CAPITULO VII


Quincas Borba calou-se de exhausto, e sentou-se ofegante. Rubio correu
a elle, levando-lhe agua e pedindo que se deitasse para descanar; mas
o enfermo, aps alguns minutos, respondeu que no era nada. Perdera
o costume de fazer discursos,  o que era. E, afastando com o gesto
a pessoa de Rubio, afim de poder encaral-a sem esforo, emprehendeu
uma brilhante descripo do mundo e suas excellencias. Misturou ideias
proprias e alheias, imagens de toda sorte, idyllicas, epicas, a tal
ponto que Rubio perguntava a si mesmo como  que um homem, que ia
morrer dalli a dias, podia tratar to galantemente aquelles negocios.

--Ande repousar um pouco.

Quincas Borba reflectiu.

--No, vou dar um passeio.

--Agora no; voc est muito canado.

--Qual! Passou.

Ergueu-se, e poz paternalmente as mos sobre os hombros de Rubio.

--Voc  meu amigo?

--Que pergunta!

--Diga.

--Tanto ou mais do que este animal, respondeu Rubio, em um arroubo de
ternura.

Quincas Borba apertou-lhe as mos.

--Bem.




CAPITULO VIII


No dia seguinte, Quincas Borba accordou com a resoluo de ir ao Rio
de Janeiro, voltaria no fim de um mez, tinha certos negocios... Rubio
ficou espantado. E a molestia, e o medico? O doente respondeu que o
medico era um charlato, e que a molestia precisava espairecer, tal
qual a saude. Molestia e saude eram dous caroos do mesmo fructo, dous
estados de Humanitas.

--Vou a alguns negocios pessoaes, concluiu o enfermo, e levo, alm
disso, um plano to sublime, que nem mesmo voc poder entendel-o.
Desculpe-me esta franqueza; mas eu prefiro ser franco com voc a sel-o
com qualquer outra pessoa.

Rubio fiou do tempo que este projecto lhe passasse, como tantos
outros; mas enganou-se. Accrescia que, em verdade, o doente parecia
estar melhorando; no ia  cama, saa  rua, escrevia. No fim de uma
semana, mandou chamar o tabellio.

--Tabellio? repetiu o amigo.

--Sim, quero registrar o meu testamento. Ou vamos la os dous...

Foram os tres, porque o co no deixava partir o amo e senhor sem
acompanhal-o. Quincas Borba registrou o testamento, com as formalidades
do estylo, e tornou tanquillo para casa. Rubio sentia bater-lhe o
corao violentamente.

--Est claro que eu no o deixo ir s para a Crte, disse elle ao amigo.

--No, no  preciso. Demais, Quincas Borba no vae, e no o confio
a outra pessoa, seno a voc. Deixo a casa como est. Daqui a um mez
estou de volta. Vou amanh; no quero que elle presinta a minha sahida.
Cuide delle, Rubio.

--Cuido, sim.

--Jura?

--Por esta luz que me allumia. Ento sou alguma creana?

--D-lhe leite s horas apropriadas, as comidas todas do costume, e os
banhos; e quando sahir a passeio com elle, olhe que no v fugir. No,
o melhor  que no saia .. no saia...

--V socegado.

Quincas Borba chorava pelo outro Quincas Borba. No quiz vel-o 
sahida. Chorava deveras, lagrimas de loucura ou de affeio, quaesquer
que fossem, elle as ia deixando pela boa terra mineira, como o
derradeiro suor de uma alma obscura, prestes a cahir no abysmo.




CAPITULO IX


Horas depois, teve Rubio um pensamento horrivel. Podiam crer que elle
proprio incitara o amigo  viagem, para o fim de o matar mais depressa,
e entrar na posse do legado, se  que realmente estava incluso no
testamento. Sentiu remorsos. Porque no empregou todas as foras, para
contel-o? Viu o cadaver do Quincas Borba, pallido, hediondo, fitando
nelle um olhar vingativo; resolveu, se acaso o fatal desfecho se dsse
em viagem, abrir mo do legado.

Pela sua parte o co vivia farejando, ganindo, querendo fugir; no
podia dormir quieto, levantava-se muitas vezes,  noite, percorria a
casa, e tornava ao seu canto. De manh, Rubio chamava-o  cama, e o
co acudia alegre; imaginava que era o proprio dono; via depois que
no era, mas aceitava as caricias, e fazia-lhe outras, como se Rubio
tivesse de levar as suas ao amigo, ou trazel-o para alli. Demais,
havia-se-lhe affeioado tambem, e para elle era a ponte que o ligava 
existencia anterior. No comeu durante os primeiros dias. Supportando
menos a sede, Rubio pde alcanar que bebesse leite; foi a unica
alimentao por algum tempo. Mais tarde, passava as horas, calado,
triste, enrolado em si mesmo, ou ento com o corpo estendido e a cabea
entre as mos.

Quando o medico voltou, ficou espantado da temeridade do doente; deviam
tel-o impedido de sair; a morte era certa.

--Certa?

--Mais tarde ou mais cedo. Levou o tal cachorro?

--No, senhor, est commigo; pediu que cuidasse delle, e chorou, olhe
que chorou que foi um nunca acabar. Verdade , disse ainda Rubio para
defender o enfermo, verdade  que o cachorro merece a estima do dono:
parece gente.

O medico tirou a largo chapo de palha para concertar a fita; depois
sorriu. Gente? Com que ento parecia gente? Rubio insistia, depois
explicava; no era gente como a outra gente, mas tinha cousas de
sentimento, e at de juizo. Olhe, ia contar-lhe uma...

--No, homem, no, logo, logo, vou a um doente de erysipella... Se
vierem cartas delle, e no forem reservadas, desejo vel-as, ouviu? E
lembranas ao cachorro, concluiu sahindo.

Algumas pessoas comearam a mofar do Rubio e da singular incumbencia
de guardar um co, em vez de ser o co que o guardasse a elle. Vinha
a risota, choviam as alcunhas. Em que havia de dar o professor!
sentinella de cachorro! Rubio tinha medo da opinio publica. Com
effeito, parecia-lhe ridiculo; fugia aos olhos extranhos, o mais que
lhe era possivel; em casa, olhava com fastio para o animal; dava-se
ao diabo, arrenegava da vida. No tivesse a esperana de um legado,
pequeno que fosse. Era impossivel que lhe no deixasse uma lembrana.




CAPITULO X


Sete semanas depois, chegou a Barbacena esta carta, datada do Rio de
Janeiro, toda do punho do Quincas Borba:



Meu caro senhor e amigo,

Voc ha de ter estranhado o meu silencio. No lhe tenho escripto
por certos motivos particulares, etc. Voltarei breve; mas quero
communicar-lhe desde j um negocio reservado, reservadissimo.

Quem sou eu, Rubio? Sou Santo Agostinho. Sei que ha de sorrir, porque
voc  um ignaro, Rubio; a nossa intimidade permittia-me dizer palavra
mais crua, mas fao-lhe esta concesso, que  a ultima. Ignaro!

Oua, ignaro. Sou Santo Agostinho; descobri isto ante-hontem; oua
e cale-se. Tudo coincide nas nossas vidas. O santo e eu passmos uma
parte do tempo nos deleites e na heresia, porque eu considero heresia
tudo o que no  a minha doutrina de Humanitas; ambos furtmos, elle,
em pequeno, umas peras de Carthago, eu, j rapaz, um relogio do meu
amigo Braz Cubas. Nossas mes eram religiosas e castas. Emfim, elle
pensava, como eu, que tudo que existe  bom, e assim o demonstra no
cap. XVI, livro VII das _Confisses_, com a differena que para elle,
o mal  um desvio da vontade, illuso propria de um seculo atrazado,
concesso ao erro, pois que o mal nem mesmo existe, e s a primeira
affirmao  verdadeira; todas as cousas so boas, _omnia bona_, e
adeus.

Adeus, ignaro. No contes a ningum o que te acabo de confiar, se no
queres perder as orelhas. Cala-te, guarda, e agradece a boa fortuna de
ter por amigo um grande homem, como eu, embora no me comprehendas. Has
de comprehender-me. Logo que tornar a Barbacena, dar-te-hei em termos
explicados, simples, adequados ao entendimento de um asno, a verdadeira
noo do grande homem. Adeus; lembranas ao meu pobre Quincas Borba.
No esqueas de lhe dar leite; leite e banhos; adeus, adeus... Teu do
corao

JOAQUIM BORBA DOS SANTOS.

Rubio mal sustinha o papel nos dedos. Passados alguns segundos,
advertiu que podia ser um gracejo do amigo, e releu a carta; mas a
segunda leitura confirmou a primeira impresso. No havia duvida;
estava doudo. Pobre Quincas Borba! Assim, as exquisitices, a frequente
alterao de humor, os impetos sem motivo, as ternuras sem proporo,
no eram mais que prenuncios da ruina total do cerebro. Morria antes
de morrer. To bom! To alegre! Tinha impertinencias,  verdade; mas
a doena explicava-as. Rubio enxugou os olhos, humidos de commoo.
Depois, veiu a lembrana do possivel legado, e ainda mais o affligiu,
por lhe mostrar que bom amigo ia perder.

Quiz ainda uma vez ler a carta, agora devagar, analysando as palavras,
desconjuntando-as, para ver bem o sentido e descobrir se realmente era
uma troa de philosopho. Aquelle modo de o descompor brincando, era
conhecido; mas, o resto confirmava a suspeita do desastre. J quasi
no fim, parou enfiado. Dar-se-hia que, provada a alienao mental do
testador, nullo ficaria o testamento, e perdidas as deixas? Rubio
teve uma vertigem. Estava ainda com a carta aberta nas mos, quando
viu apparecer o doutor, que vinha por noticias do enfermo; o agente do
correio dissera-lhe haver chegado uma carta. Era aquella?

-- esta, mas...

--Tem alguma communicao reservada...?

--Justamente, traz uma communicao reservada, reservadissima; negocios
pessoaes. D licena?

Dizendo isto, Rubio metteu a carta no bolso; o medico sahiu; elle
respirou. Escapra ao perigo de publicar to grave documento, por onde
se podia provar o estado mental de Quincas Borba. Minutos depois,
arrependeu-se, devia ter entregado a carta, sentiu remorsos, pensou em
mandal-a  casa do medico. Chamou por um escravo; quando este accudiu,
j elle mudra outra vez de ida; considerou que era imprudencia;
o doente viria em breve,--d'alli a dias,--perguntaria pela carta,
arguil-o-hia de indiscreto, de delator... Remorsos faceis, de pouca
dura.

--No quero nada, disse ao escravo. E outra vez pensou no legado.
Calculou o algarismo. Menos de dez contos, no. Compraria um pedao de
terra, uma casa, cultivaria isto ou aquillo, ou lavraria ouro. O peor 
se era menos, cinco contos... Cinco? Era pouco; mas, emfim, talvez no
passasse disso. Cinco que fossem, era um arranjo menor, e antes menor
que nada. Cinco contos... Peor seria se o testamento ficasse nullo. V,
cinco contos!




CAPITULO XI


No comeo da semana seguinte, recebendo os jornaes da corte (ainda
assignaturas do Quincas Borba) leu Rubio esta noticia em um d'elles:



Falleceu hontem o Sr. Joaquim Borba dos Santos, tendo supportado
a molestia com singular pbilosophia. Era homem de muito saber, e
canava-se em batalhar contra esse pessimismo amarello e enfesado que
ainda nos ha de chegar aqui um dia;  a molestia do seculo. A ultima
palavra delle foi que a dor era uma illuso, e que Pangloss no era to
tolo como o inculcou Voltaire... J ento delirava. Deixa muitos bens.
O testamento est em Barbacena.




CAPITULO XII


--Acabou de soffrer! suspirou Rubio.

Em seguida, attentando na noticia, viu que fallava de um homem
que tinha apreo, considerao, a quem se attribuia uma peleja
philosophica. Nenhuma alluso a demencia. Ao contrario, o final dizia
que elle delirra a ultima hora, effeito da molestia. Ainda bem! Rubio
leu novamente a carta, e a hypothese da troa pareceu outra vez mais
verosimil. Concordou que elle tinha graa; com certeza, quiz debical-o;
foi a Santo Agostinho, como iria a Santo Ambrosio ou a Santo Hilario, e
escreveu uma carta enigmatica, para confundil-o, at voltar e rir-se do
logro. Pobre amigo! Estava so,--so e morto. Sim, j no padecia nada.
Vendo o cachorro, suspirou:

--Coitado do Quincas Borba! Se pudesse saber que o senhor morreu ...

Depois, comsigo:

--Agora, que j acabou a obrigao, vou dal-o  comadre Angelica.




CAPITULO XIII


A noticia correra a cidade, o vigario, o pharmaceutico da casa, o
medico, todos mandaram saber se era verdadeira. O agente do correio,
que a lera nas folhas, trouxe em mo propria ao Rubio, uma carta que
viera na mala para elle; podia ser do finado, comquanto a lettra do
subscripto fosse outra.

--Ento afinal o homem espichou a canella? disse elle, emquanto Rubio
abria a carta, corria  assignatura e lia: _Braz Cubas._ Era um simples
bilhete:



O meu pobre amigo Quincas Borba falleceu hontem em minha casa, onde
appareceu ha tempos esfrangalhado e sordido: fructos da doena. Antes
de morrer pediu-me que lhe escrevesse, que lhe dsse particularmente
esta noticia, e muitos agradecimentos; que o resto se faria, segundo as
praxes do foro.

Os agradecimentos fizeram empallidecer o professor; mas as praxes do
foro restituiram-lhe o sangue. Rubio fechou a carta sem dizer nada;
o agente fallou de uma cousa e outra, depois sahiu. Rubio ordenou
a um escravo que levasse o cachorro de presente  comadre Angelica,
dizendo-lhe que, como gostava de bichos, l ia mais um; que o tratasse
bem, porque elle estava acostumado a isso; finalmente que o nome do
cachorro era o mesmo que o do dono, agora morto, Quincas Borba.




CAPITULO XIV


Quando o testamento foi aberto, Rubio quasi cahiu para traz.
Adivinhaes porque. Era nomeado herdeiro universal do testador. No
cinco, nem dez, nem vinte contos, mas tudo, o capital inteiro,
especificados os bens, casas na Crte, uma em Barbacena, escravos,
apolices, aces do Banco do Brazil e de outras instituies, joias,
dinheiro amoedado, livros,--tudo finalmente passava s mos do Rubio,
sem desvios, sem deixas a nenhuma pessoa, nem esmolas, nem dividas.
Uma s condio havia no testamento, a de guardar o herdeiro comsigo
o seu pobre cachorro Quincas Borba, nome que lhe deu por motivo da
grande affeio que lhe tinha. Exigia do dito Rubio que o tratasse
como se fosse a elle proprio testador, nada poupando em seu beneficio,
resguardando-o de molestias, de fugas, de roubo ou de morte que lhe
quizessem dar por maldade; cuidar finalmente como se co no fosse,
mas pessoa humana. Item, impunha-lhe a condio, quando morresse o
cachorro, de lhe dar sepultura decente em terreno proprio, que cobriria
de flores e plantas cheirosas; e mais desenterraria os ossos do dito
cachorro, quando fosse tempo idoneo, e os recolheria a uma urna de
madeira preciosa para deposital-os no lugar mais honrado da casa.




CAPITULO XV


Tal era a clausula. Rubio achou-a natural, posto que s tivesse
pensamento para cuidar na herana. Espreitra uma deixa, e sae-lhe
do testamento a massa toda dos bens. No podia acabar de crer; foi
preciso que lhe apertassem muito as mos, com fora,--a fora dos
parabens,--para no suppor que era mentira.

--Sim, senhor, lavre um tento, dizia-lhe o dono da pharmacia que
ministrara os remedios ao Quincas Borba.

Herdeiro j era muito; mas universal... Esta palavra inchava as
bochechas  herana. Herdeiro de tudo, nem uma colherinha menos. E
quanto seria tudo? ia elle pensando. Casas, apolices, aces, escravos,
roupa, loua, alguns quadros, que elle teria na crte, porque era homem
de muito gosto, fallava de cousas de arte com grande saber. E livros?
devia ter muitos livros, citava muitos delles. Mas emquanto andaria
tudo? Cem contos? Talvez duzentos. Era possvel; trezentos mesmo no
havia que admirar. Trezentos contos! trezentos! E o Rubio tinha
impetos de dansar na rua. Depois aquietava-se; duzentos que fossem,
ou cem, era um sonho que Deus Nosso Senhor lhe dava, mas um sonho
comprido, para no acabar mais.

Aqui a ideia do cachorro pde tomar p no torvelinho de ideias que iam
pela cabea do nosso homem. Rubio achava que a clausula era natural,
mas desnecessaria, porque elle e o co eram dous amigos, e nada mais
certo que ficarem juntos, para lembrar o terceiro amigo, o extincto, o
autor da felicidade de ambos. Havia, sem duvida, umas particularidades
na clausula, uma historia de urna, e no sabia que mais; mas tudo se
havia de cumprir, ainda que o co viesse abaixo... No, com a ajuda de
Deus, emendava elle. Bom cachorro! excellente cachorro!

Rubio no esquecia que muitas vezes tentra enriquecer com emprezas
que morreram em flor. Suppoz-se n'aquelle tempo um desgraado, um
caipora, quando a verdade era que mais vale quem Deus ajuda, do que
quem cedo madruga. Tanto no era impossivel enriquecer, que estava
rico.

--Impossivel, o que? exclamou em voz alta. Impossivel  a Deus peccar.
Deus no falta a quem promette.

Ia assim, descendo e subindo as ruas da cidade, sem guiar para casa,
sem plano, com o sangue aos pulos, e as ideias baralhadas. De repente,
surgiu-lhe este grave problema:--se iria viver no Rio de Janeiro, ou
se ficaria em Barbacena. Sentia cocegas de ficar, de brilhar onde
escurecia, de quebrar a castanha na bocca aos que antes faziam pouco
caso delle, e principalmente aos que se riram da amizade do Quincas
Borba. Mas logo depois, vinha a imagem do Rio de Janeiro, que elle
conhecia, com os seus feitios, movimento, theatros em toda a parte,
moas bonitas, vestidas  franceza. Resolveu que era melhor, podia
subir muitas e muitas vezes  cidade natal.




CAPITULO XVI


--Quincas Borba! Quincas Borba! eh! Quincas Borba! bradou entrando em
casa.

Nada de cachorro. S ento  que elle se lembrou de havel-o mandado
dar  comadre Angelica. Correu  casa da comadre, que era distante. De
caminho accudiram-lhe todas as ideias feias, algumas extraordinarias.
Uma ideia feia,  que o co tivesse fugido. Outra extraordinaria 
que algum inimigo, sabedor da clausula e do presente, fosse ter com a
comadre, roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse. Neste caso, a
herana... Passou-lhe uma nuvem pelos olhos; depois comeou a vr mais
claro.

--No conheo negocios de justia, pensava elle, mas parece que no
tenho nada com isso. A clausula suppe o co vivo ou em casa; mas se
elle fugir ou morrer, no se ha de inventar um co; logo, a inteno
principal... Mas so capazes de fazer chicana os meus inimigos. No
cumprida a clausula...

Aqui a testa e as costas das mos do nosso amigo ficaram em agua. Outra
nuvem pelos olhos. E o corao batia-lhe rapido, rapido. A clausula
comeava a parecer-lhe extravagante. Rubio pegava-se com os santos,
promettia missas, dez missas... Mas l estava a casa da comadre. Rubio
picou o passo; viu algum; era ella? era, era ella, encostada  porta e
rindo.

--Que figura que o senhor vem fazendo, meu compadre? Meio tonto,
jogando com os braos.




CAPITULO XVII


--Sinh comadre, o cachorro? perguntou Rubio com indifferena, mas
pallido.

--Entre, e abanque-se, respondeu ella. Que cachorro?

--Que cachorro? tornou Rubio cada vez mais pallido. O que lhe mandei.
Pois no se lembra que lhe mandei um cachorro para ficar aqui alguns
dias, descanando, a ver se... em summa, um animal de muita estimao.
No  meu. Veiu para... Mas no se lembra?

--Ah! no me falle nesse bicho! respondeu ella precipitando as palavras.

Era pequena, tremia por qualquer cousa, e quando se apaixonava,
engrossavam-lhe as veias do pescoo. Repetiu que lhe no fallasse do
bicho.

--Mas que lhe fez elle, sinh comadre?

--Que me fez? Que  que me faria o pobre animal? No come nada, no
bebe, chora que parece gente, e anda s com o olho para fra, a ver se
foge.

Rubio respirou. Ella continuou a dizer os enfadamentos do cachorro;
elle ancioso, queria vel-o.

--Est l no fundo, no cercado grande; est ssinho para que os outros
no bulam com elle. Mas o compadre vem buscal-o? No foi isso o que
disseram. Pareceu-me ouvir que era para mim, que era dado.

--Daria cinco ou seis, se pudesse, respondeu Rubio. Este no posso;
sou apenas depositario. Mas deixe estar, prometto-lhe um filho. Creia
que o recado veiu torto.

Rubio ia andando; a comadre, em vez de o guiar, acompanhava-o. L
estava o co, dentro do cercado, deitado a distancia de um alguidar
de comida. Ces, gatos, saltavam de todos os lados, c fora; a um
lado havia um gallinheiro, mais longe porcos; mais longe ainda, uma
vacca deitada, somnolenta, com duas gallinhas ao p, que lhe picavam a
barriga, arrancando carrapato.

--Olhe o meu pavo! dizia a commadre.

Mas Rubio tinha os olhos no Quincas Borba, que farejava impaciente, e
que se atirou para elle, logo que um moleque abriu a porta do cercado.
Foi uma scena de delirio; o cachorro pagava as caricias do Rubio,
latindo, pulando, beijando-lhe as mos.

--Meu Deus! que amizade!

--No imagina, sinh comadre. Adeus, prometto-lhe um filho.




CAPITULO XVIII


Rubio e o cachorro, entrando em casa, sentiram, ouviram a pessoa e
as vozes do finado amigo. Em quanto o cachorro farejava por toda a
parte, Rubio foi sentar-se na cadeira onde estivera, quando Quincas
Borba referiu a morte da av com explicaes scientificas. A memoria
delle recompoz, ainda que de embrulho e esgaradamente, os argumentos
do philosopho. Pela primeira vez, attentou bem na allegoria das tribus
famintas e comprehendeu a concluso: Ao vencedor, as batatas! Ouviu
distinctamente a voz roufenha do finado expor a situao das tribus, a
luta e a razo da luta, o exterminio de uma e a victoria da outra, e
murmurou baixinho:

--Ao vencedor, as batatas!

To simples! to claro! Olhou para as calas de brim surrado e o
rodaque cirzido, e notou que at ha pouco fora, por assim dizer, um
exterminado, uma bolha extincta; mas que ora no, era um vencedor. No
havia duvida; as batatas fizeram-se para a tribu que elimina a outra,
afim de transpor a montanha e ir s batatas do outro lado. Justamente
o seu caso. Ia descer de Barbacena para arrancar e comer as batatas da
capital. Cumpria-lhe ser duro e implacavel, era poderoso e forte. E
levantando-se de golpe, alvoroado, ergueu os braos exclamando:

--Ao vencedor, as batatas!

Gostava da formula, achava-a engenhosa, compendiosa e eloquente, alm
de verdadeira e profunda. Ideou as batatas era suas varias frmas,
classificou-as pelo sabor, pelo aspecto, pelo poder nutritivo fartou-se
antemo do banquete da vida. Era tempo de acabar com as raizes pobres e
seccas, que apenas enganavam o estomago, triste comida de longos annos;
agora o farto, o solido, o perpetuo, comer at morrer, e morrer em
colchas de seda, que  melhor que trapos. E voltava  affirmao de ser
duro e implacavel, e  formula da allegoria. Chegou a compor de cabea
um sinete para seu uso, com este lemma: AO VENCEDOR AS BATATAS.

Esqueceu o projecto do sinete; mas a formula viveu no espirito de
Rubio, por alguns dias:--Ao vencedor as batatas No a comprehenderia
antes do testamento; ao contrario, vimos que a achou obscura e sem
explicao. To certo  que a paizagem depende do ponto de vista, e que
o melhor modo de apreciar o chicote  ter-lhe o cabo na mo.




CAPITULO XIX


No esquea dizer que Rubio tomou a si mandar dizer uma missa por
alma do finado, embora soubesse ou presentisse que elle no era
catholico. Quincas Borba no dizia pulhices a respeito de padres,
nem desconceituava doutrinas catholicas; mas, no fallava nem da
egreja nem dos seus servos. Por outro lado, a venerao de Humanitas
fazia desconfiar ao herdeiro que essa era a religio do testador.
No obstante, mandou dizer a missa, considerando que no era acto da
vontade do morto, mas prece de vivos; considerou mais que seria um
escandalo na cidade, se elle, nomeado herdeiro pelo defunto, deixasse
de dar ao seu protector os suffragios que no se negam aos mais
miseraveis e avaros deste mundo.

Se algumas pessoas deixaram de comparecer, para no assistir  gloria
do Rubio, muitas outras foram,--e no da ral,--as quaes viram a
compunco verdadeira do antigo mestre de meninos. Teve lagrimas; o
vigario, quando elle lhe foi fallar  sacristia, viu-lhe ainda os olhos
vermelhos. No seriam saudades; mas a gratido tambem chora.




CAPITULO XX


Regulados os preliminares para a liquidao da herana, Rubio tratou
de vir ao Rio de Janeiro, onde se fixaria, logo que tudo estivesse
acabado. Havia que fazer em ambas as cidades; mas, as cousas promettiam
correr depressa.




CAPITULO XXI


Na estao de Vassouras, entraram no trem Sophia e o marido, Christiano
de Almeida e Palha. Este era um rapago de trinta e dous annos; ella
ia entre vinte e sete e vinte e oito. Vieram sentar-se nos dous bancos
fronteiros ao do Rubio, acommodaram as cestinhas e embrulhos de
lembranas que traziam de Vassouras, onde tinham ido passar uma semana;
abotoaram o guarda-p, trocaram algumas palavras, baixo.

Depois que o trem continuou a andar, foi que o Palha reparou na pessoa
do Rubio, cujo rosto, entre tanta gente carrancuda ou aborrecida, era
o unico placido e satisfeito. Christiano foi o primeiro que travou
conversa, dizendo-lhe que as viagens de estrada de ferro canavam
muito, ao que Rubio respondeu que sim; para quem estava acostumado a
costa de burro, accrescentou, a estrada de ferro canava e no tinha
graa; no se podia negar, porm, que era um progresso.

--De certo, concordou o Palha. Progresso e grande.

--O senhor  lavrador?

--No, senhor.

--Mora na cidade?

--De Vassouras? No; viemos aqui passar uma semana. Moro mesmo na
Corte. No teria geito para lavrador, com quanto ache que  uma posio
boa e honrada.

Da lavoura passaram ao gado,  escravatura e  politica. Christiano
Palha maldisse o governo, que introduzira na falla do throno uma
palavra relativa  propriedade servil; mas, com grande espanto seu,
Rubio no acudiu  indignao. Era plano deste vender os escravos que
o testador lhe deixra, excepto um pagem; se alguma cousa perdesse,
o resto da herana cobriria o desfalque. Demais, a falla do throno,
que elle tambem lra, mandava respeitar a propriedade actual. Que lhe
importavam escravos futuros, se os no compraria? O pagem ir ser forro,
logo que elle entrasse na posse dos bens. Palha desconversou, e passou
 politica, s camaras,  guerra do Paraguay, tudo assumptos geraes, ao
que Rubio attendia, mais ou menos. Sophia escutava apenas; movia to
smente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, ora no
interlocutor.

--Vae ficar na Crte ou volta para Barbacena? perguntou o Palha no fim
de vinte minutos de conversao.

--Meu desejo  ficar, e fico mesmo, acudiu Rubio; estou canado da
provincia; quero gozar a vida. Pde ser at que v  Europa, mas no
sei ainda.

Os olhos do Palha brilharam instantaneamente.

--Faz muito bem; eu faria o mesmo, se pudesse; por agora, no posso.
Provavelmente, j l foi?

--Nunca fui.  por isso que tive c umas idas, ao sahir de Barbacena;
ora adeus!  preciso a gente tirar a morrinha do corpo. No sei ainda
quando ser; mas hei de...

--Tem razo. Dizem que ha l muita cousa explendida; no admira, so
mais velhos que ns; mas l chegaremos; e ha cousas em que estamos a
par delles, e at acima. A nossa Crte, no digo que possa competir com
Paris ou Londres, mas  bonita, ver...

--J vi.

--J?

--Ha muitos annos.

--Ha de achal-a melhor; tem feito progressos rapidos. Depois, quando
fr  Europa...

--A senhora j foi  Europa? interrompeu Rubio, dirigindo-se a Sophia.

--No, senhor.

--Esqueceu-me apresentar-lhe minha mulher, acudiu Christiano. Rubio
inclinou-se respeitosamente; e, voltando-se para o marido, disse-lhe
sorrindo:

--Mas no me apresenta a mim? Palha sorriu tambem; entendeu que nenhum
delles sabia o nome um do outro, e deu-se pressa em dizer o seu.

--Christiano de Almeida e Palha.

--Pedro Rubio de Alvarenga; mas Rubio  como todos me chamam.

A troca dos nomes pol-os ainda mais a gosto. Sophia no interveiu,
porm, na conversa; afrouxou a redea aos olhos, que se deixaram ir
ao sabor de si mesmos. Rubio fallava, risonho, e ouvia attento as
palavras do Palha, agradecido da amizade com que o tratava um moo que
elle nunca tinha visto. Chegou a dizer-lhe que bem podiam ir juntos 
Europa.

--Oh! eu no poderei ir nestes primeiros annos, respondeu o Palha.

--Tambem no digo j; eu no irei to cedo. O desejo que me deu, quando
sahi de Barbacena, foi simples desejo, sem prazo; irei, no ha duvida,
mas l para diante, quando Deus quizer.

Palha acudiu, rapido:

--Ah! eu, quando digo que s daqui a annos, accrescento tambem que a
vontade de Deus pde ordenar o contrario. Quem sabe se daqui a mezes? A
Divina Providencia  que manda o melhor.

O gesto que acompanhou estas palavras era convicto e pio; mas, nem
Sophia o viu (olhava para os ps), nem o proprio Rubio escutou as
ultimas palavras. O nosso amigo estava morto por dizer a causa que
o trazia  capital. Tinha a boca cheia da confidencia, prestes a
entornal-a no ouvido do companheiro de viagem,--e s por um resto de
escrupulo, j frouxo,  que ainda a retinha. E porque retel-a, se no
era crime, e ia ser caso publico?

--Tenho de cuidar primeiro de um inventario, murmurou finalmente,

--O senhor seu pai?

--No; um amigo. Um grande amigo, que se lembrou de fazer-me seu
herdeiro universal.

--Ah!

--Universal. Creia que ha amigos neste mundo; como aquelle, poucos.
Aquillo era ouro. E que cabea! que intelligencia! que instruco!
Viveu doente os ultimos tempos, donde lhe veiu alguma impertinencia,
alguns caprichos. Sabe, no? rico e doente, sem familia, tinha
naturalmente exigencias... Mas ouro puro, ouro de lei. Aquillo quando
estimava, estimava de uma vez. Eramos amigos, e no me disse nada. Vae
um dia, quando morreu, abriu-se o testamento, e achei-me com tudo. 
verdade. Herdeiro universal! Olhe que no ha uma deixa no testamento
para outra pessoa. Tambem no tinha parentes. O unico parente que
teria, seria eu, se elle chegasse a casar com uma irm minha, que
morreu, coitada! Fiquei s amigo; mas, elle soube ser amigo, no acha?

--Seguramente, affirmou o Palha.

J os olhos deste no brilhavam, reflectiam profundamente. Rubio
mettera-se por um matto cerrado, onde lhe cantavam todos os passarinhos
da fortuna; regalava-se em fallar da herana; confessou que no sabia
ainda a somma total, mas podia calcular por longe...

O melhor  no calcular nada, atalhou Christiano. Nunca ser menos de
cem contos?

--Upa!

--Pois d'ahi para cima,  esperar calado. E, outra cousa...

--Creio que no menos de trezentos...

--Outra cousa. No repita o seu caso a pessoas extranhas. Agradeo-lhe
a confiana que lhe mereci, mas no se exponha ao primeiro encontro.
Discrio e caras serviaes nem sempre andam juntas.




CAPITULO XXII


Chegados  estao da Crte, despediram se quasi familiarmente. Palha
offereceu a sua casa em Santa Thereza; o ex-professor ia para a
Hospedaria Unio, e prometteram visitar-se.




CAPITULO XXIII


No dia seguinte, estava Rubio ancioso por ter ao p de si o recente
amigo da estrada de ferro, e determinou ir a Santa Thereza, 
tarde; mas foi o proprio Palha que o procurou logo de manh. Ia
cumprimental-o, ver se estava bem alli, ou se preferia a casa delle,
que ficava no alto. Rubio no acceitou a casa, mas acceitou o
advogado, um contra-parente do Palha, que este lhe indicou, como um dos
primeiros, apezar de muito moo.

-- aproveital-o, em quanto elle no exige que lhe paguem a fama.

Rubio fel-o almoar, e acompanhou-o ao escriptorio do advogado, apezar
dos protestos do co, que queria ir tambem. Tudo se ajustou.

--V jantar logo commigo, em Santa Thereza, disse o Palha ao
despedir-se. No tem que hesitar, l o espero, concluiu retirando-se.




CAPITULO XXIV


Rubio tinha vexame, por causa de Sophia; no sabia haver-se com
senhoras. Felizmente, lembrou-se da promessa que a si mesmo fizera
de ser forte e implacavel. Foi jantar. Abenoada resoluo! Onde
acharia eguaes horas? Sophia era, em casa, muito melhor que no trem
de ferro. L vestia a capa, embora tivesse os olhos descobertos; c
trazia  vista os olhos e o corpo, elegantemente apertado em um vestido
de cambraia, mostrando as mos que eram bonitas, e um principio de
brao. Demais, aqui era a dona da casa, fallava mais, desfazia-se em
obsequios; Rubio desceu meio tonto.




CAPITULO XXV


Jantou l muitas vezes. Era timido e acanhado. A frequencia attenuou
a impresso dos primeiros dias. Mas trazia sempre guardado, e mal
guardado, certo fogo particular, que elle no podia extinguir. Emquanto
durou o inventario, e principalmente a denuncia dada por alguem contra
o testamento, allegando que o Quincas Borba, por manifesta demencia,
no podia testar, o nosso Rubio distrahiu-se; mas a denuncia foi
destruida, e o inventario caminhou rapidamente para a concluso. Palha
festejou o acontecimento com um jantar em que tomaram parte, alem dos
tres, o advogado, o procurador e o escrivo. Sophia tinha nesse dia os
mais bellos olhos do mundo.




CAPITULO XXVI


--Parece que ella os compra em alguma fabrica mysteriosa, pensou
Rubio, descendo o morro; nunca os vi como hoje.

Seguiu-se a mudana para a casa de Botafogo, uma das herdadas; foi
preciso alfaial-a, e ainda aqui o amigo Palha prestou grandes servios
ao Rubio, guiando-o com o gosto, com a noticia, acompanhando-o s
lojas e leiles. s vezes, como j sabemos, iam os tres; porque ha
cousas, dizia graciosamente Sophia, que s uma senhora escolhe bem.
Rubio acceitava agradecido, e demorava o mais que podia as compras,
consultando sem proposito, inventando necessidades, tudo para ter mais
tempo a moa ao p de si. Esta deixava-se estar, fallando, explicando,
demonstrando.




CAPITULO XXVII


Tudo isso passava agora pela cabea do Rubio, depois do caf, no mesmo
logar em que o deixamos sentado, a olhar para longe, muito longe.
Continuava a bater com as borlas do chambre. Afinal lembrou-se de ir
ver o Quincas Borba, e soltal-o. Era a sua obrigao do todos os dias.
Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.




CAPITULO XXVIII


--Mas que peccado  este que me persegue? pensava elle andando. Ella 
casada, d-se bem com o marido, o marido  meu amigo, tem-me confiana,
como ninguem... Que tentaes so estas?

Parava, e as tentaes paravam tambem. Elle, um Santo Anto leigo,
differenava-se do anachoreta em amar as suggestes do diabo, uma vez
que teimassem muito. D'ahi a alternao dos monologos:

-- to bonita! e parece querer-me tanto! Se aquillo no  gostar, no
sei o que seja gostar. Aperta-me a mo com tanto agrado, com tanto
calor... No posso affastar-me; ainda que elles me deixem, eu  que no
resisto.

Quincas Borba sentiu-lhe os passos, e comeou a latir. Rubio deu-se
pressa em soltal-o; era soltar-se a si mesmo por alguns instantes
daquella perseguio.

--Quincas Borba! exclamou, abrindo-lhe a porta.

O co atirou-se fra. Que alegria! que enthusiasmo! que saltos em volta
do amo! chega a lamber-lhe a mo de contente, mas Rubio d-lhe um
tabefe, que lhe doe; elle recua um pouco, triste, com a cauda entre as
pernas; depois o senhor d um estalinho com os dedos, e eil-o que volta
novamente com a mesma alegria.

--Socega! socega!

Quincas Borba vae atraz delle pelo jardim fra, contorna a casa, ora
andando, ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas no perde o amo de
vista. Aqui fareja, alli pra a coar uma orelha, acol cata uma pulga
na barriga, mas de um salto galga o espao e o tempo perdido, e cose-se
outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que Rubio no pensa
em outra cousa, que anda agora de um lado para outro unicamente para
fazel-o andar tambem, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando
Rubio estaca, elle olha para cima,  espera; naturalmente, cuida
delle;  alguma ideia, algum projecto, sairem juntos, ou cousa assim
agradavel. No lhe lembra nunca a possibilidade de um pontap ou de
um tabefe. Tem o sentimento da confiana, e muito curta a memoria das
pancadas. Ao contrario, os affagos ficam-lhe impressos e fixos, por
mais distrahidos que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer que
o .

A vida alli no  completamente boa nem completamente m. Ha um moleque
que o lava todos os dias em agua fria, usana do diabo, a que elle se
no acostuma. Jean, o cosinheiro, gosta do co, o criado hespanhol no
gosta nada. Rubio passa muitas horas fra de casa, mas no o trata
mal, e consente que v acima, que assista ao almoo e ao jantar, que o
acompanhe  sala ou ao gabinete. Brinca s vezes com elle; fal-o pular.
Se chegam visitas de alguma ceremonia, manda-o levar para dentro ou
para baixo, e, resistindo elle sempre, o hespanhol toma-o a principio
com muita delicadeza, mas vinga-se d'ahi a pouco, arrastando-o por
uma orelha ou por uma perna, atira-o ao longe, e fecha-lhes todas as
communicaes com a casa:

--_Perro del infierno!_

Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vae ento deitar-se a um
canto, e fica alli muito tempo, calado; agita-se um pouco, at que acha
posio definitiva, e cerra os olhos. No dorme, recolhe as idas,
combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe ao longe,
muito ao longe, aos pedaos, depois mistura-se  do amigo actual, e
parecem ambas uma s pessoa; depois outras ideias...

Mas j so muitas ideias,--so ideias demais; em todo caso so ideias
de cachorro, poeira de ideias,--menos ainda que poeira, explicar o
leitor. Mas a verdade  que este olho que se abre de quando em quando
para fixar o espao, to expressivamente, parece traduzir alguma cousa,
que brilha l dentro, l muito ao fundo de outra cousa que no sei como
diga, para exprimir uma parte canina, que no  a cauda nem as orelhas.
Pobre lingua humana!

Afinal adormece. Ento as imagens da vida brincam nelle, em sonho,
vagas, recentes, farrapo d'aqui remendo d'alli. Quando accorda,
esqueceu o mal; tem em si uma expresso, que no digo seja melancolia,
para no aggravar o leitor. Diz-se de uma paizagem que  melancolica,
mas no se diz egual cousa de um co. A razo no pode ser outra
seno que a melancolia da paizagem est em ns mesmos, emquanto
que attribuil-a ao co  deixal-a fra de ns. Seja o que fr, 
alguma cousa que no a alegria de ha pouco; mas venha um assobio do
cosinheiro, ou um gesto do senhor, e l vae tudo embora, os olhos
brilham, o prazer arregaa-lhe o focinho, e as pernas voam que parecem
azas.




CAPITULO XXIX


Rubio passou o resto da manh alegremente. Era domingo; dous amigos
vieram almoar com elle, um rapaz de vinte e quatro annos, que roia as
primeiras aparas dos bens da me, e um homem de quarenta e quatro ou
quarenta e seis, que ja no tinha que roer.

Carlos Maria chamava-se o primeiro, Freitas o segundo. Rubio gostava
de ambos, mas differentemente; no era s a edade que o ligava mais
ao Freitas, era tambem a indole deste homem. Freitas elogiava tudo,
saudava cada prato e cada vinho com uma phrase particular, delicada, e
sahia de l com as algibeiras cheias de charutos, provando assim que
os preferia a quaesquer outros. Tinha-lhe sido apresentado em certo
armazem da rua Municipal, onde jantaram uma vez juntos. Contaram-lhe
alli a historia do homem, a sua boa e m fortuna, mas no entraram
em particularidades. Rubio torceu o nariz; era naturalmente algum
naufrago, cuja convivencia no lhe traria nenhum prazer pessoal nem
considerao publica. Mas o Freitas attenuou logo essa primeira
impresso; era vivo, interessante, anecdotico, alegre como um homem que
tivesse cincoenta contos de renda. Como Rubio fallasse das bonitas
rosas que possuia, elle pediu-lhe licena para ir vel-as: era doudo por
flores. Poucos dias depois appareceu l, disse que ia ver as bellas
rosas, eram poucos minutos, no se incommodasse o Rubio, se tinha que
fazer. Rubio, ao contrario, gostou de ver que o homem no se esquecra
da conversao, desceu ao jardim onde elle ficara esperando, e foi
mostrar-lhe as rosas. Freitas achou-as admiraveis; examinava-as com tal
affinco que era preciso arrancal-o de uma roseira para leval-o a outra.
Sabia o nome de todas, e ia apontando muitas especies que o Rubio no
tinha nem conhecia,--apontando e descrevendo, assim e assim, deste
tamanho (indicava o tamanho abrindo e arredondando o dedo pollegar e o
index), e depois nomeava as pessoas que possuiam bons exemplares. Mas
as do Rubio eram das melhores especies; esta, por exemplo, era rara, e
aquella tambem, etc. O jardineiro ouvia-o com espanto. Tudo examinado,
disse Rubio:

--Venha tomar alguma cousa. Que hade ser?

Freitas contentou-se com qualquer cousa. Chegando acima, achou a casa
muito bem posta. Examinou os bronzes, os quadros, os moveis, olhou para
o mar.

--Sim, senhor! disse elle, o senhor vive como um fidalgo.

Rubio sorriu; fidalgo, ainda por comparao,  palavra que se ouve
bem. Veiu o creado hespanhol com a bandeija de prata, varios licores, e
calices, e foi um bom momento para o Rubio. Offereceu elle mesmo, este
ou aquelle licor; recommendou afinal um que lhe deram como superior a
tudo que, em tal ramo, poderia existir no mercado. O Freitas sorriu
incredulo.

--Talvez seja encarecimento, disse elle.

Tomou o primeiro trago, saboreou-o devagar, depois segundo, depois
terceiro. No fim, pasmado, confessou que era um primor. Onde  que
comprara aquillo? Rubio respondeu que um amigo, dono de um grande
armazem de vinhos, o presenteara com uma garrafa; elle, porm, gostou
tanto que j encommendra tres duzias. No tardou que se estreitassem
as relaes. E o Freitas vae alli almoar ou jantar muitas vezes,--mais
vezes ainda do que quer ou pde,--porque  difficil resistir a um homem
to obsequioso, to amigo de ver caras amigas.




CAPITULO XXX


Rubio perguntou-lhe uma vez:

--Diga-me, Sr. Freitas, se me dsse na cabea ir  Europa, o senhor era
capaz de acompanhar-me?

--No.

--Porque no?

--Porque eu sou amigo livre, e bem podia ser que discordassemos logo no
itinerario.

--Pois tenho pena, por que o senhor  alegre.

--Engana-se, senhor; trago esta mascara risonha, mas eu sou triste. Sou
um architecto de ruinas. Iria primeiro s ruinas de Athenas; depois ao
theatro, ver o _Pobre das Ruinas_, um drama de lagrymas depois, aos
tribunaes de fallencias, onde os homens arruinados...

E Rubio ria-se; gostava daquelles modos expansivos e francos.




CAPITULO XXXI


Queres o avsso disso, leitor curioso? V este outro convidado
para o almoo, Carlos Maria. Se aquelle tem os modos expansivos
e francos,--no bom sentido laudatorio,--claro  que elle os tem
contrarios. Assim, no te custar nada vel-o entrar na sala, lento,
frio e superior, ser apresentado ao Freitas, e estender-lhe a mo,
olhando para outra parte. Freitas que j o mandou cordialmente ao
diabo por causa da demora ( perto do meio dia), corteja-o agora
rasgadamente, com grandes alleluias intimas.

Tambem podes vr por ti mesmo que o nosso Rubio, se gosta mais do
Freitas, tem o outro em maior considerao; esperou-o at agora, e
esperal-o-ia at amanh. Carlos Maria  que no tem considerao a
nenhum delles. Examinai-o bem;  um galhardo rapaz de olhos grandes e
placidos, muito senhor de si, ainda mais senhor dos outros. Olha de
cima; no tem o riso jovial, mas escarninho. Agora, ao sentar-se 
meza, ao pegar no talher, ao abrir o guardanapo, em tudo se v que elle
est fazendo um insigne favor ao dono da casa,--talvez dous,--o de lhe
comer o almoo, e o de lhe no chamar pascacio.

E, mo grado essa disparidade de caracteres, o almoo foi alegre.
Freitas devorava, com alguma pausa  certo,--e, confessando a si
mesmo que o almoo, se tivesse vindo  hora marcada (onze) talvez no
trouxesse o mesmo sabor. Agora orava pelos primeiros bocados que
acodem  fome do naufrago. Ao cabo de uns dez minutos, pde comear
a fallar; e fallou como de costume, cheio de riso, multiplicando-se
em gestos e olhares, desfiando um rosario de ditos agudos e anecdotas
picarescas. Carlos Maria ouviu a maior parte delles com seriedade,
para humilhal-o, a ponto que o Rubio, que realmente achava graa no
Freitas, j no ousava rir. Para o fim do almoo, Carlos Maria afrouxou
um tanto a gravata do espirito, expandiu-se, referiu algumas aventuras
amorosas de outros; Freitas, para lisongeal-o, pediu-lhe uma ou duas
delle mesmo. Carlos Maria estourou de riso.

--Que papel quer o senhor que eu faa? disse elle.

Freitas explicou-se; no era uma apologia, eram factos, pedia-lhe
factos; no havia inconveniente, nem ningum era capaz de suppor...

--O senhor d-se bem com a residencia aqui em Botafogo? interrompeu
Carlos Maria dirigindo-se ao dono da caza.

Freitas, interrompido, mordeu os beios, e, pela segunda vez, mandou
o moo ao diabo. Collou-se ao espaldar, teso, grave, olhando para um
painel da parede. Rubio respondeu que se dava bem, que a praia era
linda.

--A vista  bonita, mas nunca pude tolerar o mo cheiro que ha aqui,
em certas occasies, disse Carlos Maria. Que lhe parece? continuou
voltando-se para o Freitas.

Freitas desencostou-se, e disse tudo o que pensava, que um e outro
podiam ter razo;--mas insistiu em que a praia, a despeito de tudo, era
magnifica; fallou sem amo, nem vexame; fez at o obsequio de chamar a
atteno do Carlos Maria para um pedacinho de fructa que lhe ficra na
ponta do bigode.

Chegaram ao fim, era pouco mais de uma hora. Rubio, calado, recompunha
mentalmente o almoo, prato a prato, via com gosto os copos e os seus
residuos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da meza,
em vesperas de caf. De quando em quando dava um olhar  casaca do
criado. Chegou a apanhar o rosto de Carlos Maria em flagrante prazer,
quando tirava as primeiras fumaas de um dos charutos que elle mandra
distribuir. Nisto entrou o criado com uma cestinha coberta por um leno
de cambraia, e uma carta, que acabavam de trazer.




CAPITULO XXXII


--Quem  que manda isto? perguntou Rubio,

--D. Sophia.

Rubio no conhecia a lettra; era a primeira vez que ella lhe escrevia.
Que podia ser? Via-se-lhe a commoo no rosto e nos dedos. Em quanto
elle abria a carta, Freitas familiarmente descobria a cestinha: eram
morangos. Rubio leu tremulo estas linhas:



Mando-lhe estas fructinhas para o almoo, se chegarem a tempo; e, por
ordem do Christiano, fica intimado a vir jantar comnosco, hoje, sem
falta. Sua verdadeira amiga

Sophia.

--Que fructas so? perguntou Rubio fechando a carta.

--Morangos.

--Chegaram tarde. Morangos? repetiu elle sem saber o que dizia.

--No  preciso crar, meu caro amigo, disse-lhe rindo o Freitas, logo
que o criado saiu. Estas cousas acontecem a quem ama...

--A quem ama? repetiu Rubio corando deveras. Mas, pde ler a carta,
veja...

Ia mostral-a; recuou e metteu-a no bolso. Estava fra de si, meio
confuso, meio alegre; Carlos Maria deleitou-se em dizer-lhe que elle
no podia encobrir que o mimo era de alguma namorada. E no achava que
reprehender; o amor era lei universal: se era alguma senhora casada,
louvava-lhe a discrio...

--Mas pelo amor de Deus! interrompeu o amphytrio.

--Viuva? Estamos no mesmo caso, continuou Carlos Maria; a discrio
aqui  ainda um merecimento. O maior peccado, depois do peccado, 
a publicao do peccado. Eu, se fosse legislador, propunha que se
queimassem todos os homens convencidos de indiscrio nestas materias;
e haviam de ir para a fogueira, como os ros da Inquisio, com a
differena que, em vez de sambenito, levariam uma capa de pennas de
papagaio...

Freitas no podia ter-se com riso, e batia na mesa,  maneira de
applauso; Rubio, meio enfiado, acudia que no era casada nem viuva...

--Solteira ento? replicou o moo. Um casorio em breve? V, que 
tempo. Morangos de noivado, continuou pegando alguns entre os dedos.
Cheiram a alcova de donzella e a latim de padre.

Rubio no sabia mais que dissesse; afinal tornou atraz e explicou-se;
eram da senhora de um seu amigo particular. Carlos Maria piscou o olho;
Freitas interveiu dizendo que, agora, sim, senhor, estava explicado;
mas que, a principio, o mysterio, o arranjo da cestinha, o ar dos
proprios morangos,--morangos adulteros, disse elle, rindo,--todas essas
cousas davam ao negocio um aspecto immoral e peccaminoso; mas tudo
ficara acabado.

Tomaram em silencio o caf; depois passaram  sala. Rubio desfazia-se
em obsequios, mas preoccupado. Corridos alguns minutos, estava
satisfeito com a primeira supposio dos dous convivas: a de um amor
adultero; achou at que se defendera com demasiado calor. Uma vez
que no dissesse o nome de ninguem, podia ter confessado que era, em
verdade, um negocio intimo. Mas tambem podia acontecer que o proprio
calor da negativa deixasse alguma duvida no animo dos dous, alguma
suspeita... Aqui sorriu consolado.

Carlos Maria consultou o relogio; eram duas horas, ia-se embora. Rubio
agradeceu-lhe muito e muito o obsequio e pediu-lhe que repetisse;
podiam passar alguns domingos assim em boa palestra amigavel.

--Apoiado! bradou Freitas aproximando-se.

Tinha mettido meia duzia de charutos no bolso, e ao sair, disse ao
ouvido do Rubio:

--C vae a lembrana do costume; seis dias de delicias, uma delicia por
dia.

--Leve mais.

--No; virei busca-los depois.

Rubio acompanhou-os ao porto de ferro. Quincas Borba, logo que ouviu
vozes, correu do fundo do jardim e veiu saudal-os, particularmente
ao senhor; fez festas a Carlos Maria, quiz lamber-lhe a mo; o rapaz
affastou-se com repugnancia. Rubio deu um pontap no cachorro, que o
fez gritar e fugir. Afinal despediram-se todos.

--O senhor para onde vae? perguntou Carlos Maria ao Freitas.

Freitas calculou que elle iria a alguma visita para os lados de S.
Clemente, e quiz acompanhal-o.

--Vou at o fim da praia, disse.

--Eu volto para traz, tornou o outro.




CAPITULO XXXIII


Rubio viu-os ir, entrou, metteu-se na sala, e ainda uma vez leu
o bilhete de Sophia. Cada palavra d'essa pagina inesperada era um
mysterio; a assignatura uma capitulao. _Sophia_ apenas; nenhum outro
nome da familia ou do casal. _Verdadeira amiga_ era evidentemente uma
metaphora. Quanto s primeiras palavras: _Mando-lhe estas fructinhas
para o almoo_ respiravam a candidez de uma alma boa e generosa. Rubio
viu, sentiu, palpou todas essas cousas pela unica fora do instincto e
deu por si beijando o papel,--digo mal, beijando o nome, o nome dado na
pia de baptismo, repetido pela me, entregue ao marido como parte da
escriptura moral do casamento, e agora roubado a todas essas origens
e posses para lhe ser mandado a elle, no fim d'uma folha de papel...
Sophia! Sophia! Sophia!




CAPITULO XXXIV


--Por que veiu to tarde? perguntou-lhe Sophia, logo que elle appareceu
 porta do jardim, em Santa Thereza.

--Depois do almoo, que acabou s duas horas, estive arranjando uns
papeis. Mas no  to tarde assim, continuou Rubio vendo o relogio;
so quatro horas e meia.

--Sempre  tarde para os amigos, replicou Sophia em ar de censura.

Rubio cahiu em si; mas no teve tempo de emendar a mo. Deante
delle, ao p da casa, estavam sentadas em bancos de ferro umas quatro
senhoras, caladas, olhando para elle, curiosas; eram visitas de Sophia
que esperavam a vinda de um capitalista Rubio. J tinham ouvido fallar
delle. Sophia foi apresental-o a ellas. Tres d'ellas eram casadas, uma
solteira, ou mais que solteira. Contava trinta e nove annos, e uns
olhos pretos, cansados de esperar. Era filha de um major Siqueira, que
d'ahi a alguns minutos appareceu no jardim.

--O nosso Palha j me tinha fallado em Vossa Excellencia, disse
o major depois de apresentado ao Rubio. Juro que  seu amigo s
direitas. Contou-me o acaso que os ligou. Geralmente, as melhores
amizades so essas. Eu, em trinta e tantos, pouco antes da Maioridade,
tive um amigo, o melhor dos meus amigos daquelle tempo, que conheci
assim por um acaso, na botica do Bernardos, por alcunha o _Joo das
pantorrilhas_... Creio que usou d'ellas, em rapaz, entre 1801 e 1812.
O certo  que a alcunha ficou. A botica era na rua de S. Jos, ao
desembocar na da Misericordia... _Joo das pantorrilhas_... Sabe que
era um modo de engrossar a perna... Bernardes era o nome delle, Joo
Alves Bernardes... Tinha a botica na rua de S. Jos. Conversava-se alli
muito,  tarde, e  noite. Ia a gente com o seu capote, e bengalo;
alguns levavam lanterna. Eu no; levava s o meu capote... Ia-se de
capote; o Bernardes,--Joo Alves Bernardes era o nome todo delle; era
filho de Maric, mas criou-se aqui no Rio de Janeiro... _Joo das
pantorrilhas_ era a alcunha; diziam que elle andra de pantorrilhas, em
rapaz, e parece que foi um dos petimetres da cidade. Nunca me esqueci:
_Joo das pantorrilhas_... Ia-se de capote...

A alma do Rubio bracejava debaixo deste aguaceiro de palavras; mas,
estava n'um becco sem sahida por um lado nem por outro. Tudo muralhas.
Nenhuma porta aberta, nenhum corredor, e a chuva a cahir. Se pudesse
olhar para as moas viria, ao menos, que era objecto de curiosidade
de todas, principalmente da filha do major, D. Tonica; mas no podia;
escutava, e o major chovia a cantaros. Foi o Palha que lhe trouxe um
guarda-chuva. Sophia tinha ido dizer ao marido que o Rubio acabra
de chegar; d'ahi a nada estava o Palha no jardim, e saudava o amigo,
dizendo-lhe que viera tarde. O major, que explicava ainda uma vez a
alcunha do boticario, abandonou a presa, e foi ter com as moas; depois
sahiu  rua.




CAPITULO XXXV


As senhoras casadas eram bonitas; a mesma solteira no devia ter sido
feia, aos vinte e cinco annos; mas Sophia primava entre todas ellas.

No seria tudo o que o nosso amigo sentia, mas era muito. Era daquella
casta de mulheres que o tempo, como um esculptor vagaroso, no acaba
logo, e vae polindo ao passar dos longos dias... Essas esculpturas
lentas so miraculosas; Sophia rastejava os vinte e oito annos; estava
mais bella que aos vinte e sete; era de suppor que s aos trinta dsse
o esculptor os ultimos retoques, seno quizesse prolongar ainda o
trabalho, por dous ou tres annos.

Os olhos, por exemplo, no so os mesmos da estrada de ferro,
quando o nosso Rubio fallava com o Palha, e elles iam sublinhando
a conversao... Agora, parecem mais negros, e j no sublinham
nada; compem logo as cousas, por si mesmos, em lettra vistosa e
gorda, e no  uma linha nem duas, so capitulos inteiros. A boca
parece mais fresca. Hombros, mos, braos, so melhores, e ella
ainda os faz optimos por meio de attitudes e gestos escolhidos. Uma
feio que a dona nunca pde supportar,--cousa que o proprio Rubio
achou a principio que destoava do resto da cara,--o excesso de
sobrancelhas,--isso mesmo, sem ter diminuido, como que lhe d ao todo
um aspecto mui particular.

Traja bem; comprime a cintura e os seios no corpinho de l fina
cr de castanha, obra simples, e traz nas orelhas duas perolas
verdadeiras,--mimo que o nosso Rubio lhe deu pela Pascoa.

A bella dama  filha de um velho funccionario publico. Casou aos
vinte annos com este Christiano de Almeida e Palha, zango da praa,
que ento contava vinte e cinco. O marido ganhava dinheiro, era
geitoso, activo, e tinha o faro dos negocios e das situaes. Em 1864,
apezar de recente no officio, adivinhou,--no se pde empregar outro
termo,--adivinhou as fallencias bancarias.

--Ns temos cousa, mais dia menos dia; isto anda por arames. O menor
brado de alarma leva tudo.

O peior  que elle despendia todo o ganho e mais. Era dado  boa chira;
reunies frequentes, vestidos caros e joias para a mulher, adornos de
casa, mrmente se eram de inveno ou adopo recente,--levavam-lhe
os lucros presentes e futuros. Salvo em comidas, era escasso consigo
mesmo. Ia muita vez ao theatro sem gostar delle, e a bailes, em que se
divertia um pouco,--mas ia menos por si que para apparecer com os olhos
da mulher, os olhos e os seios. Tinha essa vaidade singular; decotava
a mulher sempre que podia, e at onde no podia, para mostrar aos
outros as suas venturas particulares. Era assim um rei Candaules, mais
restricto por um lado, e, por outro, mais publico.

E aqui faamos justia  nossa dama. A principio, cedeu sem vontade
aos desejos do marido; mas taes foram as admiraes colhidas, e a
tal ponto o uso accommoda a gente s circumstancias, que ella acabou
gostando de ser vista, muito vista, para recreio e estimulo dos
outros. No a faamos mais santa do que , nem menos. Para as despezas
da vaidade, bastavam-lhe os olhos, que eram ridentes, inquietos,
convidativos, e s convidativos: podemos comparal-os  lanterna de uma
hospedaria em que no houvesse commodos para hospedes. A lanterna fazia
parar toda a gente, tal era a lindeza da cr, e a originalidade dos
emblemas; parava, olhava e andava. Para que escancarar as janellas?
Escancarou-as, finalmente; mas a porta, se assim podemos chamar ao
corao, essa estava trancada e retrancada.




CAPITULO XXXVI


--Meu Deus! como  bonita! Sinto-me capaz de fazer um escandalo!
pensava Rubio,  noite, ao canto de uma janella, de costas para fra,
olhando para Sophia, que olhava para elle.

Cantava uma senhora. Os tres maridos de fra, que alli estavam de
visita, interromperam o voltarete, em atteno  cantora, e vieram
 sala, por alguns instantes; a cantora era mulher de um d'elles. O
Palha, que a acompanhava ao piano, no via o contemplao mutua da
esposa e do capitalista. No sei se todas as outras pessoas estavam no
mesmo caso. Uma dellas, sim, essa sei que os via: D. Tonica, a filha do
major.

--Meu Deus! como  bonita! Sinto-me capaz de fazer um escandalo!
continuava a pensar o Rubio, encostado  janella, de costas para fra,
com os olhos esquecidos na bella dama, que olhava para elle.




CAPITULO XXXVII


Entende-se bem que D. Tonica observasse a contemplao dos dous. Desde
que Rubio alli chegou, no cuidou ella mais que de attrahil-o. Os seus
pobres olhos de trinta e nove annos, olhos sem parceiros na terra,
indo j a resvalar do canao na desesperana, acharam em si algumas
fagulhas. Volvel-os uma e muitas vezes, requebrando-os, era o longo
officio d'elles: No lhe custou nada armal-os contra o capitalista.

O corao, meio desenganado, agitou-se outra vez. Alguma cousa lhe
dizia que esse mineiro rico era destinado pelo ceu a resolver o
problema do matrimonio. Rico era ainda mais do que ella pedia; no
pedia riquezas, pedia um esposo. Todas as suas campanhas fizeram-se sem
a considerao pecuniaria; nos ultimos tempos ia baixando, baixando,
baixando; a ultima foi contra um estudantinho pobre... Mas quem sabe se
o ceu no lhe destinava justamente um homem rico? D. Tonica tinha f em
sua madrinha, Nossa Senhora da Conceio, e investiu a fortaleza com
muita arte e valor.

--Todas as outras so casadas, pensou ella.

No tardou em perceber que os olhos de Rubio e os de Sophia caminhavam
uns para os outros; notou, porm, que os de Sophia eram menos
frequentes e menos demorados, phenomeno que lhe pareceu explicavel,
pelas cautellas naturaes da situao. Podia ser que se amassem...
Esta ideia affligiu-a; mas o desejo e a esperana mostraram-lhe que
um homem, depois de um ou mais amores, podia muito bem vir a casar.
A questo era captal-o; a ida de casar e ter familia podia ser que
acabasse de matar qualquer outra inclinao da parte delle, se alguma
houvesse.

Eil-a que redobra esforos. Todas as suas graas foram chamadas a
postos, e obedeceram, ainda que murchas. Gestos de ventarola, apertos
de labios, olhos obliquos, marchas, contra-marchas para mostrar bem a
elegancia do corpo e a cintura fina que tinha, tudo foi empregado. Era
o velho formulario em aco; nada lhe rendera at alli, mas a loteria 
assim mesmo: l vem um bilhete que resgata os perdidos.

Agora, porm,  noite, por occasio do canto ao piano,  que D. Tonica
deu com elles embebidos um no outro. No teve mais duvida; no eram
olhares apparentemente fortuitos, breves, como at alli, era uma
contemplao que eliminava o resto da sala. D. Tonica sentiu o grasnar
do velho corvo da desesperana. _Quoth the Raven_: NEVERMORE.

Ainda assim continuou a luta; chegou a conseguir que Rubio viesse
sentar-se ao p della, por alguns minutos, e tratou de dizer cousas
bonitas, phrases que lhe ficaram de romances, outras que a propria
melancholia da situao lhe ia inspirando. Rubio ouvia e respondia,
mas inquieto, quando Sophia deixava a sala, e no menos quando
tornava a ella. Uma das vezes a distraco foi excessiva. D. Tonica
confessava-lhe que tinha muita vontade de ver Minas, principalmente
Barbacena. Que taes eram os ares?

--Os ares, repetiu machinalmente o outro.

Olhava para Sophia, que estava ento em p, de costas para elle,
fallando a duas senhoras sentadas. Rubio admirou-lhe ainda uma vez
a figura, o busto bem talhado, estreito em baixo, largo em cima,
emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braada de folhas sae
de dentro de um vaso. A cabea podia ento dizer-se que era como uma
magnolia unica, direita, espetada no centro do ramo. Era isto que
Rubio mirava, quando D. Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena,
e elle repetiu a palavra della, sem lhe dar sequer a mesma frma
interrogativa.




CAPITULO XXXVIII


Rubio estava resoluto. Nunca a alma de Sophia pareceu convidar
a delle, com tamanha instancia, a voarem juntas at s terras
clandestinas, donde ellas tornam, em geral, velhas e canadas. Algumas
no tornam. Outras param a meio caminho. Grande numero no passa da
beira dos telhados...




CAPITULO XXXIX


A lua era magnifica. No morro, entre o co e a planicie, a alma menos
audaciosa era capaz de ir contra um exercito inimigo, e destroal-o.
Vede o que no seria com este exercito amigo. Estavam no jardim. Sophia
enfiara o brao no delle, para irem ver a lua. Convidra D. Tonica, mas
a pobre dama respondeu que tinha um p dormente, que j ia, e no foi.

Os dous ficaram calados algum tempo. Pelas janellas abertas viam-se
as outras pessoas conversando, e at os homens, que tinham acabado o
voltarete. O jardim era pequeno; mas a voz humana tem todas as notas, e
os dous podiam dizer poemas sem ser ouvidos.

Rubio lembrou-se de uma comparao velha, mui velha, apanhada em no
sei que decima de 1850, ou qualquer outra pagina em prosa de todos
os tempos. Essa ideia foi chamar aos olhos de Sophia as estrellas da
terra, e s estrellas os olhos do cu. Tudo isso baixinho e tremulo.

Sophia ficou pasmada. De subito endireitou o corpo, que at alli viera
pesando no brao do Rubio. Estava to acostumada  timidez do homem...
Estrellas? olhos? Quiz dizer que no caoasse com ella, mas no achou
como dar frma  resposta, sem rejeitar uma ideia que tambem era sua,
ou ento sem animal-o a ir adeante. Dahi um longo silencio.

--Com uma differena, continuou Rubio. As estrellas so ainda menos
lindas que os seus olhos, e afinal nem sei mesmo o que ellas sejam;
Deus, que as poz to alto,  porque no podero ser vistas de perto,
sem perder muito da formosura... Mas os seus olhos, no; esto aqui, ao
p de mim, grandes, luminosos, mais luminosos que o cu...

Loquaz, destemido, Rubio parecia totalmente outro. No parou alli;
fallou ainda muito, mas no deixou o mesmo circulo de ideias. Tinha
poucas; e a situao, apezar da repentina mudana do homem, tendia
antes a cerceal-as, que a inspirar-lhe novas. Sophia  que no sabia
que fizesse. Trouxera ao collo um pombinho, manso e quieto, e sae-lhe
um gavio,--um gavio adunco e faminto.

Era preciso responder, fazel-o parar, dizer que ia por onde ella no
queria ir, e tudo isso, sem que elle se zangasse, sem que se fosse
embora... Sophia procurava alguma cousa; no achava, porque esbarrava
na questo, para ella insoluvel, se era melhor mostrar que entendia,
ou que no entendia. Aqui lembraram-lhe os proprios gestos della,
as palavrinhas doces, as attenes particulares; concluia que, em
tal situao, no podia ignorar o sentido das finezas do homem. Mas
confessar que entendia, e no despedil-o de casa, eis ahi o ponto
melindroso.




CAPITULO XL


Em cima, as estrellas pareciam rir daquella situao inextricavel.

V que a lua os visse! A lua no sabe escarnecer; e os poetas, que
a acham saudosa, tero percebido que ella amou outr'ora algum astro
vagabundo, que a deixou ao cabo de muitos seculos. Pode ser at que
ainda se amem. Os seus eclypses (perde-me a astronomia) talvez no
sejam mais que entrevistas amorosas. O mytho de Diana descendo a
encontrar-se com Endymio bem pode ser verdadeiro. Descer  que  de
mais. Que mal ha em que os dous se encontrem alli mesmo no co, como
os grilos entre as folhagens c de baixo? A noite, me caritativa,
encarrega-se de velar a todos.

Depois, a lua  solitaria. A solido faz a pessoa seria. As estrellas,
em chusma, so como as moas entre quinze e vinte annos, alegres,
palreiras, rindo e fallando a um tempo de tudo e de todos.

No nego que so castas; mas tanto peor,--tero rido do que no
entendem... Castas estrellas!  assim que lhes chama Othello, o
terrvel, e Tristram Shandy, o jovial. Esses extremos do corao e do
espirito esto de accordo n'um ponto: as estrellas so castas. E ellas
ouviam tudo (castas estrellas!) tudo o que a boca temeraria de Rubio
ia entornando na alma pasmada de Sophia.O recatado de longos mezes era
agora (castas estrellas!) nada menos que um libertino. Dissereis que o
Diabo andra a enganar a moa com as duas grandes azas de archanjo que
Deus lhe poz; de repente, metteu-as na algibeira, e desbarretou-se para
mostrar as duas pontas malignas, fincadas na testa. E rindo, daquelle
riso obliquo das mos, propunha comprar-lhe no s a alma, mas a alma e
o corpo... Castas estrellas!




CAPITULO XLI


--Vamos para dentro, murmurou Sophia.

Quiz tirar o brao; mas o delle reteve-lh'o com fora. No; ir para
que? Estavam alli bem, muito bem... Que melhor? Ou seria que elle
a estivesse aborrecendo? Sophia acudiu que no, ao contrario, mas
precisava ir fazer sala s visitas... Ha quanto tempo estavam alli!

--No ha dez minutos, disse o Rubio. Que so dez minutos?

--Mas podem ter dado pela nossa ausencia...

Rubio estremeceu diante deste possessivo: _nossa_ ausencia. Achou-lhe
um principio de complicidade. Concordou que podiam dar pela _nossa_
ausencia. Tinha razo, deviam separar-se; s lhe pedia uma cousa, duas
cousas; a primeira  que no esquecesse aquelles dez minutos sublimes;
a segunda  que, todas as noites, s dez horas, fitasse o Cruzeiro,
elle o fitaria tambem, e os pensamentos de ambos iriam achar-se alli
juntos, intimos, entre Deus e os homens.

O convite era poetico, mas s o convite. Rubio, em quanto fallava, ia
devorando a moa com olhos de fogo, e segurava-lhe uma das mos para
que ella no fugisse. Nem os olhos nem o gesto tinham poesia nenhuma.
Sophia esteve a ponto de dizer alguma palavra aspera, mas engoliu-a
logo, ao advertir que Rubio era um bom amigo da casa. Quiz rir, mas
no pde; mostrou se ento arrufada, logo depois resignada, afinal
supplicante; pediu-lhe pela alma da me delle, que devia estar no
ceu... Rubio no sabia do ceu nem da me, nem de nada. Que era me?
que era ceu? parecia dizer a cara delle.

--Ai, no me quebre os dedos! suspirou baixinho a moa.

Aqui  que elle comeou a voltar a si; afrouxou a presso, sem
soltar-lhe os dedos.

--V, disse elle, mas primeiro...

Inclinava-se para beijar a mo, quando uma voz, a alguns passos, veiu
accordal-o inteiramente.




CAPITULO XLII


--Ol! esto apreciando a lua? Realmente, est deliciosa; est uma
noite para namorados... Sim, deliciosa... Ha muito que no vejo uma
noite assim... Olhem s para baixo, os bicos de gaz... Deliciosa!
para namorados... Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em
Icarahy...

Era Siqueira, o terrivel major. Rubio no sabia que dissesse; Sophia,
passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma;
respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubio
teimava em dizer que as noites do Rio no podiam comparar-se s de
Barbacena, e, a proposito disso, referira uma anecdota de um padre
Mendes... No era Mendes?

--Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou o Rubio.

O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mos presas,
a cabea do Rubio meia inclinada, o movimento rapido de ambos, quando
elle entrou no jardim; e sae-lhe de tudo isto um padre Mendes... Olhou
para Sophia; viu-a risonha, tranquilla, impenetravel. Nenhum medo,
nenhum acanhamento; fallava com tal simplicidade, que o major pensou
ter visto mal. Mas o Rubio estragou tudo. Vexado, calado, no fez
mais que tirar o relogio para ver as horas, leval-o ao ouvido, como se
lhe parecesse que no andava, depois limpal-o com o leno, devagar,
devagar, sem olhar para um nem para outro...

--Bem, conversem, vou vr as amigas, que no podem estar ss. Os homens
j acabaram o maldito voltarete?

--J, respondeu o major olhando curiosamente para Sophia. J, e at
perguntaram por este senhor; por isso  que eu vim ver se o achava no
jardim. Mas estavam aqui ha muito tempo?

--Agora mesmo, disse Sophia.

Depois, batendo carinhosamente no hombro do major,passou do jardim 
casa; no entrou pela porta da sala de visitas, mas por outra que dava
para a de jantar; de maneira que, quando chegou quella pelo interior,
era como se acabasse de dar ordens para o ch.

Rubio, voltando a si, ainda no achou que dizer, e comtudo urgia dizer
alguma cousa. Boa ideia era a anecdota do padre Mendes; o peior  que
no havia padre nem anecdota, e elle era incapaz de inventar nada.
Pareceu-lhe bastante isto:

--O padre! o Mendes! Muito engraado o padre Mendes!

--Conheci-o, disse o major sorrindo. O padre Mendes? Conheci-o; morreu
conego. Esteve algum tempo em Minas?

--Creio que esteve, murmurou o outro, espantado.

--Era filho aqui de Saquarema; era um que no tinha este olho,
continuou o major levando o dedo ao olho esquerdo. Conheci-o muito, se
 que  o mesmo; pde ser que seja outro.

--Pde ser.

--Morreu conego. Era homem de bons costumes, mas amigo de ver moas
bonitas, como se mira um painel de mestre; e que maior mestre que Deus?
dizia elle. Esta D. Sophia, por exemplo, nunca elle a viu na rua que me
no dissesse: Hoje vi aquella bonita senhora do Palha... Morreu conego;
era filho de Saquarema... E, na verdade, tinha bom gosto... Realmente,
a mulher do nosso Palha,  um primor, bella de cara e de figura; eu
ainda a acho mais bem feita que bonita... Que lhe parece?

--Parece que sim...

--E boa pessoa, excellente dona de casa; continuou o major accendendo
um charuto.

A luz do phosphoro deu  cara do major uma expresso de escarneo, ou de
outra cousa menos dura, mas no menos adversa. Rubio sentiu correr-lhe
um frio pela espinha. Teria ouvido? visto? adivinhado? Estava alli um
indiscreto, um mexeriqueiro? A cara do homem dizia que sim e que no;
em todo caso, era mais seguro crer no peior. Aqui temos o nosso heroe
como alguem que, depois de navegar cosido com a praia, longos annos,
acha-se um dia entre as ondas do alto mar; felizmente o medo tambem 
official de ideias, e deu-lhe alli uma, lisongear o interlocutor. No
hesitou em achal-o gracioso e interessante, e dizer-lhe que tinha uma
casa s suas ordens, na praia de Botafogo, numero tantos. Dava-lhe
muita honra em travar relaes com elle. Contava poucos amigos aqui: o
Palha, a quem devia grandes obsequios,--D. Sophia que era uma senhora
de rara gravidade, e mais tres ou quatro pessoas. Vivia s; podia ser
at que se retirasse para Minas.

--J?

--No digo j, mas pde ser que me no demore. Sabe que uma pessoa que
viveu toda a sua vida em um logar, custa-lhe muito a acostumar-se em
outro.

--Isso conforme.

--Sim, conforme... Mas  a regra.

--Regra ser, mas o senhor vae ser uma excepo. A crte  o diabo;
apanha-se uma paixo como se apanha uma constipao; basta uma fresta
de ar, fica-se perdido. Olhe, eu no me dava de apostar que o senhor,
antes de seis mezes, est casado...

--No viu nada, pensou Rubio.

E depois, alegre:

--Pde ser, mas tambem em Minas ha casamentos; nem l faltam padres.

--Falta o padre Mendes, acudiu rindo o major.

Rubio sorriu constrangido, no entendendo se a palavra do major era
innocente ou maliciosa. Este  que colheu as rdeas ao assumpto, e
fallou de outras cousas, do tempo, da cidade, do ministerio, da guerra,
e do marechal Lopez. E vede o contraste da occasio: esse aguaceiro,
maior que o da entrada, pareceu um raio de sol ao nosso Rubio.
Eil-o que espaneja a alma ao calor do discurso infinito do major,
intercallando alguma palavrinha, se pode, e sempre cabeceando com
applauso. E pensava outra vez que no, que elle no vira nada.

--Papae Papae est ahi? disse uma voz  porta que dava para o jardim.

Era D. Tonica; vinha chamal-o para irem embora. O ch estava na meza, 
verdade; mas no podia esperar mais, tinha dor de cabea, disse ella ao
pae, baixinho. Depois estendeu os dedos ao Rubio; este pediu-lhe que
ficasse ainda alguns minutos; o estimavel major...

--Perde o seu tempo, interrompeu o major; ella  que me governa.

Rubio offereceu-lhe a casa com instancia; exigiu at que lhe marcasse
um dia, n'aquella mesma semana, mas o major acudiu que no podia dispor
de dia certo; iria, logo que lhe fosse possivel. A vida delle era muito
trabalhosa; tinha os negocios do arsenal, que j eram muitos, e tinha
mais...

--Papae! vamos!

--Vamos. Est vendo? No posso conversar um instante. J te despediste?
Onde est o meu chapo?




CAPITULO XLIII


Ladeira abaixo, D. Tonica foi ouvindo o resto do discurso do pae, que
mudou de assumpto, sem mudar de estylo,--diffuso e derramado. Ouvia sem
entender. Ia mettida em si mesma, absorta, remoendo a noite,recompondo
os olhares de Sophia e de Rubio.

Chegaram a casa na rua do Senado; o pae foi dormir, a filha no se
deitou logo, deixou-se estar em uma cadeirinha, ao p da commoda, onde
tinha uma imagem da Virgem. No trazia ideias de paz nem de candura.
Sem conhecer o amor, tinha noticia do adulterio, e a pessoa de Sophia
pareceu-lhe hedionda. Via nella agora um monstro, metade gente,
metade cobra, e sentiu que a aborrecia, que era capaz de vingar-se
exemplarmente, de dizer tudo ao marido.

--Conto-lhe tudo,--ia pensando--ou de viva voz, ou por uma carta...
Carta no; digo-lhe tudo um dia, em particular.

E imaginando o colloquio, antevia o espanto do homem, depois o
agastamento, depois os improperios, as palavras duras que elle havia
de dizer  mulher, miseravel, indigna, vil... Todos esses nomes
soavam bem aos ouvidos do seu desejo; ella fazia derivar por elles a
propria colera; fartava-se de a rebaixar assim, de a pr debaixo dos
ps do marido, j que o no podia fazer por si mesma... Vil, indigna,
miseravel...

Durou muito tempo essa exploso de raiva interior,--perto de vinte
minutos; mas a alma canou, e tornou a si. A imaginao no podia
mais, e a realidade proxima attrahiu-lhe a vista. Olhou em volta de si,
mirou a alcova de solteira, arrumadinha com arte,--dessa arte engenhosa
que faz da chita seda e de um retalho velho uma fita, que recama,
enlaa, alegra o mais que pde a nudez das cousas, enfeita as paredes
tristes, aprimora os trastes modestos e poucos. E tudo alli parecia
feito para receber um noivo amado.

Onde li eu que uma tradico antiga fazia esperar a uma virgem de
Israel, durante certa noite do anno, a concepo divina? Seja onde
fr, comparemol-a  desta outra, que s differe daquella em no ter
noite fixa, mas todas, todas, todas... O vento, zunindo fra, nunca lhe
trouxe o varo esperado, nem a madrugada alva e menina lhe disse em que
ponto da terra  que elle mra. Era s esperar, esperar...

Agora, aquietada a imaginao e o resentimento, mira e remira a
alcova solitaria; recorda as amigas do collegio e de familia, as mais
intimas, casadas todas. A derradeira dellas desposou aos trinta annos
um official de marinha, e foi ainda o que reverdeceu as esperanas 
amiga solteira, que no pedia tanto, posto que a farda de aspirante
foi a primeira cousa que lhe seduziu os olhos, aos quinze annos...
Onde iam elles? Mas l passaram cinco annos, cumpriu os trinta e nove,
e os quarenta no tardam. Quarentona, solteirona; D. Tonica teve um
calafrio. Olhou ainda, recordou tudo, ergueu-se de golpe, deu duas
voltas e atirou-se  cama chorando...




CAPITULO XLIV


No vo crer que a dor aqui foi mais verdadeira que a colera; foram
eguaes em si mesmas, os effeitos  que foram diversos. A colera deu em
nada; a humilhao debulhou-se em lagrimas legitimas. E contudo no
faltaram a esta senhora impetos de estrangular Sophia, calcal-a aos
ps, arrancar-lhe o corao aos pedaos, dizendo-lhe na cara os nomes
crus que attribuia ao marido... Tudo imaginaes! Crede-me: ha tyrannos
de inteno. Quem sabe? Na alma desta senhora passou agora um tenue fio
de Caligula...




CAPITULO XLV


E em quanto uma chora, outra ri;  a lei do mundo, meu rico senhor;
 a perfeio universal. Tudo chorando seria monotono, tudo rindo
canativo; mas uma boa distribuio de lagrimas e polkas, soluos e
sarabandas, acaba por trazer  alma das cousas a variedade necessaria,
e faz-se o equilibrio da vida.

A outra que ri  a alma do Rubio. Escutai a cantiga alegre, brilhante,
com que ella desce o morro, dizendo as cousas mais intimas s
estrellas,--s castas estrellas,--especie de rhapsodia feita de uma
linguagem que ninguem nunca alphabetou, por ser impossivel achar um
signal que lhe exprima os vocabulos. C em baixo, as ruas desertas
parecem-lhe povoadas, o silencio  um tumulto, e de todas as janellas
debruam-se vultos de mulher, caras bonitas e grossas sobrancelhas,
todas Sophias e uma Sophia unica. Uma ou outra vez, Rubio acha que
foi temerario, indiscreto, recorda o caso do jardim, a resistencia,
o enfado da moa, e chega a arrepender-se; tem ento calefrios, fica
atterrado com a ideia de que podem fechar-lhe a porta, e cortar
inteiramente as relaes; tudo porque precipitou os acontecimentos.
Sim, devia esperar; a occasio no era propria; visitas, muitas
luzes, que ideia foi aquella de fallar de amores, sem cautellas,
desbragadamente...? Achava-lhe razo; era bem feito que o despedisse
logo.

--Fui um maluco! dizia em voz alta.

No fallava do jantar, que foi lauto, nem dos vinhos, que eram
generosos, nem da electricidade propria de uma sala em que ha senhoras,
galantes; achava-se maluco, completamente maluco.

Logo depois, a mesma alma que se accusava, defendia-se. Sophia parecia
tel-o animado ao que fez; os olhos frequentes, depois fixos, os modos,
os requebros, a distinco de o mandar sentar ao p de si,  mesa
de jantar, de s cuidar delle, de lhe dizer melodiosamente cousas
affaveis, que era tudo isso mais que exhortaes e solicitaes? E a
boa alma explicava a contradico da moa, depois, no jardim: era a
primeira vez que ouvia taes palavras, fra do gremio conjugal, e alli
perto de todos, devia tremer naturalmente; demais, elle expandira-se
muito, e precipitou tudo. Nenhuma graduao; devia ter ido p ante p,
e nunca segurar-lhe as mos com tanta fora que chegasse a molestal-a.
Em concluso, achava-se grosseiro. Voltava o receio de lhe fecharem
a porta; depois, tornava s consolaes da esperana,  analyse
das aces da moa,  propria inveno do padre Mendes, mentira de
complicidade; pensava tambem na estima do marido.. Aqui estremeceu. A
estima do marido deu-lhe remorsos. No s merecia a confiana delle,
mas accrescia certa divida pecuniaria, e umas tres lettras que Rubio
aceitou por elle.

--No posso, no devo, ia dizendo a si mesmo, no  bonito ir adeante.
Tambem  verdade que, a rigor, no sou autor de nada; ella  que, desde
muito, me anda desafiando. Pois que desafie agora! Sim,  preciso
resistir-lhe... Emprestei o dinheiro quasi sem pedido, porque elle
precisava muito e eu devia-lhe obsequios; as lettras, sim, as lettras
foi elle que me pediu que assignasse, mas no me pediu mais nada. Sei,
que  honrado, que trabalha muito; o diabo da mulher  que fez mal em
metter-se de permeio, com os lindos olhos e a figura... Que admiravel
figura, meu pae do ceu! Hoje ento estava divina. Quando o brao della
roava no meu,  meza, apezar da minha manga...

Confuso, incerto, ia a cuidar na lealdade que devia ao amigo, mas
a consciencia partia-se em duas, uma increpando a outra, a outra
explicando-se, e ambas desorientadas...

Deu por si na praa da Constituio. Viera andando  toa. Teve ideia de
ir ao theatro, mas era tarde. Ento dirigiu-se ao largo de S. Francisco
para metter-se em um tilbury e ir para Botafogo. Achou tres, que
vieram logo ao encontro delle, oferecendo os seus servios e louvando
principalmente o cavallo, um bom cavallo,--um animal excellente.




CAPITULO XLVI


O rumor das vozes e dos vehiculos acordou um mendigo que dormia nos
degros da egreja. O pobre diabo sentou-se, viu o que era, depois
tomou a deitar-se, mas accordado, de barriga para o ar, com os olhos
fitos no ceu. O ceu fitava-o tambem, impassivel como elle, mas sem as
rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem os andrajos, um ceu claro,
estrellado, socegado, olympico, tal qual presidiu s bodas de Jacob
e ao suicidio de Lucrecia. Olhavam-se n'uma especie de jogo do sizo,
com certo ar de majestades rivaes e tranquillas, sem arrogancia, nem
baixeza, como se o mendigo dissesse ao ceu:

--Afinal, no me hasde cair em cima.

E o ceu:

--Nem tu me hasde escalar.




CAPITULO XLVII


Rubio no era philosopho; a comparao que alli fez entre os seus
cuidados e os do maltrapilho apenas lhe trouxe  alma uma sombra de
inveja. Aquelle malandro no pensa em nada, disse elle comsigo; d'aqui
a pouco est dormindo, emquanto eu...

--Meu amo, entre que o animal  bom. Vamos l em quinze minutos.

Os outros dois cocheiros diziam-lhe a mesma cousa, quasi por eguaes
palavras:

--Meu amo, venha aqui e ver...

--Olhe o meu cavallinho...

--Faa favor; so treze minutos de viagem. Em treze minutos est em
casa.

Rubio, depois de hesitar ainda, deu consigo dentro do tilbury que
lhe ficava  mo, e mandou tocar para Botafogo. Ento lembrou-se
de um velho episodio esquecido, ou foi o episodio que lhe deu
inconscientemente a soluo. Uma ou outra cousa, Rubio guiou o
pensamento, com o fim de escapar s sensaes daquella noite.

La iam longos annos. Elle era ento muito rapaz, e pobre. Um dia, s
oito horas da manh, sahiu de casa, que era na rua do Cano (Sete do
Setembro), entrou no largo do S. Francisco do Paula; d'alli desceu pela
rua do Ouvidor. Ia com alguns cuidados; morava em casa de um amigo,
que comeava a tratal-o como hospede de tres dias, e elle ja o era de
quatro semanas. Dizem que os de trez dias cheiram mal; muito antes
d'isso cheiram mal os defuntos, ao menos nestes climas quentes... Certo
 que o nosso Rubio, singelo como um bom mineiro, mas desconfiado
como um paulista, ia cheio de cuidados, pensando em retirar-se quanto
antes. Pde crer-se que desde que sahiu de casa, entrou no largo de S.
Francisco, e desceu a rua do Ouvidor at a dos Ourives, no viu nem
ouviu cousa nenhuma.

Na esquina da rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um
prestito singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um
papel, a sentena. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos.
Mas, as principaes figuras eram dous pretos. Um delles, mediano,
magro, tinha as mos atadas, os olhos baixos, a cr fula, e levava uma
corda enlaada no pescoo; as pontas do barao iam nas mos de outro
preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta.
Sustentava com galhardia a curiosidade publica. Lido o papel, o
prestito seguiu pela rua dos Ourives adeante; vinha do aljube e ia para
o largo do Moura.

Rubio naturalmente ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve
como agora  escolha de um tilbury. Foras intimas offereciam-lhe o
seu cavallo, umas que voltasse para traz ou descesse para ir aos seus
negocios,--outras que fosse ver enforcar o preto. Era to raro ver um
enforcado! Senhor, em vinte minutos est tudo findo!--Senhor, vamos
tratar de outras cousas! E o nosso homem fechou os olhos, e deixou-se
ir ao acaso. O acaso, em vez de leval-o pela rua do Ouvidor abaixo
at  da Quitanda, torceu-lhe o caminho pela dos Ourives, atraz do
prestito. No iria ver a execuo, pensou elle; era s ver a marcha do
ro, a cara do carrasco, as cerimonias... No queria ver a execuo. De
quando em quando, parava tudo, chegava gente s portas e janellas, e o
porteiro dos auditorios relia a sentena. Depois, o prestito continuava
a andar com a mesma solemnidade. Os curiosos iam narrando o crime,--um
assassinato em Mata-porcos. O assassino era dado como homem frio e
feroz. A noticia dessas qualidades fez bem a Rubio; deu-lhe fora para
encarar o ro, sem deliquios de piedade. No era j a cara do crime; o
terror dissimulava a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo
da execuo. J alli havia bastante gente. Com a que vinha formou-se
multido compacta.

--Voltemos, disse elle consigo.

Verdade  que o ro ainda no subira a forca; no o matariam de
relance; sempre era tempo de fugir. E, dado que ficasse, porque no
fecharia os olhos, como fez certo Alypio deante do expectaculo das
feras? Note-se bem que Rubio nada sabia desse tal rapaz antigo;
ignorava, no s que fechra os olhos, mas tambem que os abrira logo
depois, devagarinho e curioso...

Eis o ro que sobe a forca. Passou pela turba um fremito. O carrasco
pz mos  obra. Foi aqui que o p direito de Rubio descreveu uma
curva na direco exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas
o esquerdo, tomado de sentimento contrario, deixou-se estar; lutaram
alguns instantes... Olhe o meu cavallo!--Veja,  um rico animal!--No
seja mo!--No seja medroso! Rubio esteve assim alguns segundos,
os que bastaram para que chegasse o momento fatal. Todos os olhos
fixaram-se no mesmo ponto, como os delle. Rubio no podia entender
que bicho era que lhe mordia as entranhas, nem que mos de ferro lhe
pegavam da alma e a retinham alli. O instante fatal foi realmente um
instante; o ro esperneou, contrahiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo
airoso e destro; passou pela multido um rumor grande, Rubio deu um
grito, e no viu mais nada.




CAPITULO XLVIII


Vossa Senhoria hade ter visto que o cavallinho  bom...

Rubio abriu os olhos, meio fechados, e deu com o cocheiro que sacudia
ao de leve a pontinha do chicote para espertar o animal. Interiormente
zangou-se com o homem, que o veiu tirar de recordaes antigas. No
eram bellas, mas eram antigas,--antigas e enfermeiras, porque lhe davam
a beber um elixir que de todo parecia cural-o do presente. E vae o
cocheiro empurra-o e accorda-o. Iam subindo a rua da Lapa; o cavallo,
em verdade, comia o espao como se fosse a descer.

--Este cavallo tem-me uma amizade, continuou o cocheiro, que se no
acredita. Podia contar cousas extraordinarias. Ha pessoas que at dizem
que  mentira minha; mas, no, senhor, no . Quem no sabe que cavallo
e cachorro so os animaes que mais gostam da gente? Cachorro parece que
inda gosta mais...

Cachorro trouxe  memoria de Rubio o Quincas Borba, que l devia estar
em casa,  espera delle, ancioso. Rubio no esquecia a condio do
testamento; jurava cumpril-a  risca. Convem dizer que, de envolta com
o receio de vel-o fugir, entrava o de vir a perder os bens. No valiam
affirmaes do advogado; no ha, dizia-lhe este, no ha no testamento
clausula reversivel para outrem, no caso de fuga do cachorro; os bens
no podiam sair-lhe das mos. Que lhe importava a fuga, se era at
melhor, um cuidado menos? Rubio aceitava apparentemente a explicao,
mas l ficava a duvida, o exemplo de longas demandas, a variedade das
opinies juridicas sobre uma s materia, a aco de algum invejoso ou
inimigo, e, o que resumia tudo, o terror de ficar sem nada. Dahi os
rigores da recluso; dahi tambem o remorso de ter passado a tarde e a
noute sem pensar uma s vez no Quincas Borba.

--Sou um ingrato! disse comsigo.

Emendou-se logo; mais ingrato era no ter pensado no outro Quincas
Borba, que lhe deixou tudo. Vae se no quando, teve uma ideia
extraordinaria, a de serem os dous Quincas Borbas a mesma creatura, por
effeito da entrada da alma do defunto no corpo do cachorro, menos a
purgar os seus peccados que a vigiar o dono. Foi uma preta de S. Joo
d'El-rei que lhe metteu, em creana, essa ideia de transmigrao. Dizia
ella que a alma cheia de peccados ia para o corpo de um bruto; chegou a
jurar que conhecera um escrivo que acabou feito gamb...

--Vossa Senhoria, no se esquea de dizer onde  a casa, disse-lhe
repentinamente o cocheiro.

--Pare. J passmos,  aquella.

O tilbury deu volta e foi parar  porta; Rubio pagou e desceu.




CAPITULO XLIX


O co ladrou de dentro; mas, logo que Rubio entrou, recebeu-o com
grande alegria; e por mais importuno que fosse, Rubio desfez-se em
caricias. A ida de poder estar alli o testador dava-lhe arrepios.
Subiram juntos a escada de pedra; alli ficaram por alguns instantes,
 luz do lampeo que Rubio mandra deixar acceso. Rubio era mais
credulo que crente; no tinha razes para atacar nem para defender
nada:--terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer cousa.
A vida da crte deu-lhe at uma particularidade; entre incredulos,
chegava a ser incredulo...

Olhou para o co, emquanto esperava que lhe abrissem a porta. O co
olhava para elle, de tal geito que parecia estar alli dentro o proprio
e defuncto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do philosopho,
quando examinava as cousas humanas... Novo arrepio; mas o medo, que era
grande, no era to grande que lhe atasse as mos. Rubio estendeu-as
sobre a cabea do animal, coando-lhe as orelhas e a nuca.

--Pobre Quincas Borba! Gosta de seu senhor, no gosta? Rubio  muito
amigo de Quincas Borba...

E o co movia devagar a cabea, para a esquerda e para a direita,
ajudando a distribuio das caricias s duas orelhas pendentes;
depois levantava o queixo, para que lhe coasse em baixo, e o dono
obedecia; mas ento os olhos do co, meio fechados de gosto, tinham
um ar dos olhos do philosopho, na cama, contando-lhe cousas de que
elle entendia pouco ou nada... Rubio fechava os seus. Abriram-lhe a
porta; despediu-se do co, mas com taes carinhos, que era o mesmo que
pedir-lhe que entrasse. O creado hespanhol incumbiu-se de o levar para
baixo.

--No lhe d pancadas, recommendou Rubio.

No lhe deu pancadas; mas s a descida era dolorosa, e o co amigo
gemeu por muito tempo no jardim. Rubio entrou, despiu-se e deitou-se.
Ah! tinha vivido um dia cheio de sensaes diversas e contrarias, desde
as recordaes da manh, e o almoo aos dous amigos, at aquella ultima
ideia de metempsycose, passando pela lembrana do enforcado, e por uma
declarao de amor no aceita, mal repellida, parece que adivinhada
por outros... Misturava tudo; o espirito ia de um para outro lado como
bola de borracha entre mos de creanas. Comtudo, a sensao maior era
a do amor. Rubio estava admirado de si mesmo, e arrependia-se; mas
o arrependimento era obra da consciencia, ao passo que a imaginao
no soltava por nenhum preo a figura da bella Sophia... Uma, duas,
tres horas... Sophia ao longe, os latidos do co embaixo... O somno
esquivo... Onde iam j as tres horas? Tres e meia... Emfim, depois de
muito cuidar, appareceu-lhe o somno, espremeu os classicas papoulas, o
foi um instante; Rubio dormiu antes das quatro.




CAPITULO L


No, senhora minha, ainda no acabou este dia to comprido; no
sabemos o que se passou entre Sophia e o Palha, depois que todos se
foram embora. Pde ser at que acheis aqui melhor sabor que no caso do
enforcado.

Tende paciencia;  vir agora outra vez a Santa Thereza. A sala est
ainda alumiada, mas por um bico de gaz; apagaram-se os outros, e ia
apagar-se o ultimo, quando o Palha mandou que o creado esperasse um
pouco la dentro. A mulher ia a sair, o marido deteve-a, ella estremeceu.

--A nossa festa esteve bem bonita, disse elle.

--Esteve.

--O Siqueira  um cacete, mas paciencia;  alegre. A filha no estava
mal arranjada. Viste o Ramos como devorava tudo o que se lhe poz no
prato? Tu vers que elle um dia engole a mulher.

--A mulher? disse Sophia, sorrindo.

-- gorda, concordo; mas a primeira era muito mais gorda, e creio que
no morreu, elle enguliu-a, com certeza.

Sophia reclinada no canap, ria das graas do marido. Criticaram ainda
alguns episodios da tarde e da noite; depois, Sophia, acariciando os
cabellos do marido, disse-lhe de repente:

--E voc ainda no sabe do melhor episodio da noite.

--Que foi?

--Adivinhe.

Palha ficou algum tempo calado, olhando para a mulher, a ver se
adivinhava qual tinha sido o melhor episodio da noite. No podia
acertar; acudia-lhe isto ou aquillo, nada; Sophia abanava a cabea.

--Mas ento que foi?

--No sei; adivinha.

--No posso. Dize logo.

--Com uma condio, accudiu ella; no quero zangas nem barulhos.

Palha foi ficando mais serio. Zangas? barulhos? Que diabo podia ser?
pensava elle. J se no ria; tinha s um resto de sorriso forado e
resignado. Olhou bem para ella, e perguntou-lhe o que era.

--Voc promette o que lhe disse?

--V l. Que foi?

--Pois saiba que ouvi nada menos que uma declarao de amor.

Palha empallideceu. No promettera deixar de empallidecer. Gostava da
mulher, como sabemos, at o ponto singular de publical-a; no podia
ouvir a frio a noticia. Sophia viu a pallidez, e gostou da m impresso
causada; para saboreal-a mais, inclinou o busto, soltou o cabello
atraz, que a incommodava um pouco, recolheu os grampos em um leno,
depois sacudiu a cabea, respirou largo, e pegou nas mos do marido,
que ficara de p.

-- verdade, meu velho, namoraram-te a mulher.

--Mas quem foi o patife? disse elle impaciente.

--Mau, se vamos assim, no digo nada. Quem foi? Quer saber quem foi?
Hade ouvir quietinho. Foi o Rubio.

--O Rubio?

--Nunca imaginei tanto. Parecia-me acanhado e respeitoso; fica sabendo
que no  o habito que faz o monge. De tantos homens que aqui vm, e
at rapazes solteiros, no ouvi nunca a menor cousa. Olhava para mim;
naturalmente, porque no sou feia... Para que ests andando assim de um
lado para outro? Pra, que no quero levantar a voz... Bem, assim...
Vamos ao caso. No me fez declarao positiva...

--Ah! no? accudiu vivamente o marido.

--No, mas vem a dar na mesma.

E depois de contar o que se passara no jardim, desde que alli chegaram
os dous, at que o major appareceu:

--Foi s isso, concluiu; mas  bastante para ver que se elle no disse
amor  porque no lhe chegou a lingua, mas chegou-lhe a mo, que me
apertou os dedos... S isso, e  demais. Ainda bem que te no zangas;
mas  preciso trancar-lhe a porta,--ou de uma vez ou aos poucos; eu
preferia logo, mas estou por tudo. Como achas melhor?

Mordendo o beio inferior, Palha ficou a olhar para ella a modo de
estupido. Sentou-se no canap, mas no fallou logo. Considerava o
negocio. Achava natural que as gentilezas da esposa chegassem a
captivar um homem,--e Rubio podia ser esse homem; mas confiava tanto
no Rubio, que o bilhete que Sophia mandara a este, acompanhando os
morangos, foi redigido por elle mesmo; a mulher limitou-se a copial-o,
assignal-o e mandal-o. Nunca, entretanto, lhe passou pela cabea que
o amigo chegasse a declarar amor a alguem, menos ainda a Sophia, se 
que era amor deveras; podia ser gracejo de intimidade. Rubio olhava
para ella muita vez,  certo; parece tambem que Sophia, em algumas
occasies, pagava os olhares com outros... Concesses de moa bonita!
Mas, emfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios
delles. No havia de ter ciumes do nervo optico, ia pensando o marido.
Sophia levantou-se, foi pr o leno com os grampos em cima do piano,
e deu uma olhada ao espelho para ver-se com a tranca cahida. Quando
voltou ao canap, o marido pegou-lhe na mo, rindo:

--Parece-me que te amofinaste mais do que o caso merecia. Comparar os
olhos de uma moa s estrellas, e as estrellas aos olhos, afinal de
contas  cousa que at se pde fazer  vista de todos, em familia, e
em prosa ou verso para o publico. A culpa  de quem tem olhos bonitos.
Demais, apesar do que me contas, sabes que elle  ainda matuto...

--Ento o diabo tambem  matuto, porque elle pareceu-me nada menos que
o diabo. E pedir-me que a certa hora olhasse para o Cruzeiro, afim de
que as nossas almas se encontrassem?

--Isso, sim, isso j cheira a namoro, concordou Palha; mas bem vs que
 um pedido de alma candida.  assim que as moas fallam aos quinze
annos;  assim que fallam os tolos em todos os tempos, e os poetas
tambem; mas elle nem  moa nem poeta.

--Creio que no; mas segurar-me nas mos para reter-me no jardim?

Palha teve um calefrio; a ideia do contacto das mos e da fora
empregada para reter a mulher  que o mortificava mais. Francamente, se
pudesse, era capaz de ir ter com elle, e deitar-lhe as mos ao gasnate.
Outras ideias, porm, acudiram e dissiparam o effeito da primeira; de
modo que, cuidando Sophia havel-o irritado, viu-o dar de hombros com
desprezo, e responder-lhe que effectivamente era um acto de grosseria.

--E depois, Sophia, que ideia foi essa de convidal-o a ir ver a lua,
no me dirs?

--Chamei D. Tonica para ir comnosco.

--Mas uma vez que D. Tonica recusou, devias ter achado meios e modos de
no ir ao jardim. So cousas que acodem logo. Tu  que dste occasio...

Sophia olhou para elle, contrahindo as grossas sobrancelhas; ia
responder, mas calou-se. Palha continuou a desenvolver a mesma ordem de
ideias; a culpa era della, no devia ter dado occasio...

--Mas voc mesmo no me tem dito que devemos tratal-o com attenes
particulares? Seguramente, que eu no iria ao jardim, se pudesse
imaginar o que se passou. Mas nunca esperei que um homem to pacato,
to no sei como, se tirasse dos seus cuidados para rir dizer-me cousas
esquisitas...

--Pois daqui em diante evita a lua e o jardim, disse o marido,
procurando sorrir.

--Mas, Christiano, como queres tu que lhe falle a primeira vez que elle
c vier? No tenho cara para tanto; olha, o melhor de tudo  acabar com
as relaes.

Palha atravessou uma perna sobre a outra e comeou a rufar no sapato.
Durante alguns segundos ficaram calados; cada um delles pensava em
alguma cousa. Palha cuidava na proposta de acabar com as relaes,
no que quizesse acceital-a, mas no sabia como responder  mulher,
que mostrava tanto resentimento, e se portava com tal dignidade. Era
preciso nem desapproval-a, nem aceitar a proposta, e no lhe acendia
nada. Levantou-se, metteu as mos nas algibeiras das calas, e depois
de alguns passos, parou defronte de Sophia.

--Talvez nos estejamos a incommodar com um simples effeito de vinhos.
Olha que elle no mandou o seu quinho ao vigario; cabea fraca, um
pouco de abalo, e entornou o que tinha dentro... Sim, eu no nego que
lhe possas ter causado certa impresso, como tantas outras senhoras.
Ha dias foi a um baile no Cattete, e fallou-me depois encantado das
senhoras que l vira, de uma principalmente, a viuva Mendes...

Sophia interrompeu-o:

--Porque  que no convidou essa belleza a ver o Cruzeiro?

--No jantou l, naturalmente, e no havia jardim nem lua. O que eu
quero dizer  que o _nosso amigo_ no estaria em si. Talvez se ache
a agora arrependido do que fez, envergonhado, sem saber como se hade
explicar, ou se no explicar nada...  muito possvel at que se
ausente...

--Era melhor.

--...Se o no chamarmos, concluiu Palha.

--Mas para que chamal-o?

--Sophia, disse-lhe o marido, sentando-se ao p della. No quero
entrar em minudencias; digo s que no permitto que alguem te falte ao
respeito...

Houve uma pequena pausa; Sophia olhava para elle, esperando.

--No permitto, e ai d'aquelle que o fizesse, assim como ai de ti se o
consentires; sabes que sou de ferro, a este respeito, e que a certeza
da tua amizade,--ou, v logo tudo,--do amor que me tens  que me
tranquillisa. Pois bem, nada me abala relativamente ao Rubio. Cr que
o Rubio  nosso amigo, devo-lhe obrigaes...

--Alguns presentes, algumas joias, camarotes no theatro, no so
motivos para que eu fite o Cruzeiro com elle.

--Prouvera a Deus que fosse s isso! suspirou o zango.

--Que ha mais?

--No entremos em minudencias... Ha outras cousas... Fallaremos
depois... Mas fica certa que nada me faria recuar, se visse no que
contaste alguma gravidade. No ha nenhuma. O homem  um simplorio.

--No.

--No?

Sophia levantou-se; tambem no queria entrar em minudencias. O marido
pegou-lhe na mo, ella ficou de p e calada. Palha, com a cabea
reclinada nas costas do soph, olhava sorrindo, sem achar que dizer. Ao
cabo de alguns minutos, ponderou a mulher que era tarde, que ia mandar
apagar tudo.

--Bem, tornou o Palha depois de breve silencio; escrevo-lhe amanh que
no ponha aqui os ps.

Olhou para a mulher esperando alguma recusa. Sophia coava as
sobrancelhas, e no respondeu nada. Palha repetiu a soluo; e pde ser
que desta vez com sinceridade. A mulher ento com ar de tedio:

--Ora, Christiano... Quem  que te pede cartas? J estou arrependida de
haver fallado nisto. Contei-te um acto de desrespeito, e disse que era
melhor cortar as relaes,--aos poucos ou de uma vez.

--Mas como se ho de cortar as relaes de uma vez?

--Fechar-lhe a porta, mas no digo tanto; basta, se queres, aos
poucos...

Era uma concesso; Palha aceitou-a; mas immediatamente ficou sombrio,
soltou a mo da mulher, com um gesto de desespero. Depois, agarrando-a
pela cintura, disse em voz mais alta do que at ento:

--Mas, meu amor, eu devo-lhe muito dinheiro.

Sophia tapou-lhe a boca e olhou assustada para o corredor.

--Est bom, disse, no fallemos mais nisto. Verei como elle se
comporta, e tratarei de ser mais fria... Nesse caso, tu  que no deves
mudar, para que no parea que sabes alguma cousa. Verei o que posso
fazer.

--Voc sabe, cousas do negocio, algumas perdas...  preciso tapar um
buraco daqui, outro dalli... o diabo!  por isso que... Mas riamos, meu
bem; no vale nada. Sabes que confio em ti...

--Vamos, que  tarde.

--Vamos, repetiu o Palha dando-lhe um beijo na face.

--Estou com muita dor de cabea, murmurou ella. Creio que foi do
sereno, ou desta historia... Estou com muita dor de cabea...




CAPITULO LI


Banhado, barbeado, meio vestido, Palha lia os jornaes,  espera do
almoo, quando viu entrar a mulher no gabinete, um tanto pallida.

--Ests peior?

Sophia respondeu com um gesto dos labios, que tanto negava como
affirmava. Palha acreditou que, pelo dia adeante, passaria o incommodo;
a agitao da vespera, o jantar tarde... Depois, pediu que lhe deixasse
acabar de ler um artigo relativo a certo negocio da praa. Era uma
briga entre dous commerciantes, a proposito de uns saques; na vespera
escrevra um delles, hoje vinha a resposta do outro. Resposta completa,
disse elle acabando a leitura; e explicou longamente  mulher a questo
dos saques, o mecanismo da cousa, a situao dos dous adversarios,
os boatos da praa, tudo com o vocabulario technico. Sophia ouvia
e suspirava; mas para o despotismo da profisso no ha suspiros de
mulher, nem cortezia de homem. Felizmente, o almoo estava na mesa.

Ficando s, a nossa amiga, que apenas tomou um caldo, l para as duas
horas, foi sentar-se  porta de casa, no jardim. Naturalmente, voltou
a pensar no lance da vespera. No estava bem em si nem fra de si, nem
com Deus nem com o diabo. Arrependia-se de haver contado o episodio ao
marido, e ao mesmo tempo irritava-se com as tentativas de explicao
que este lhe deu. No meio das reflexes, ouviu distinctamente as
palavras do major: Ol! esto apreciando a lua? como se as folhas
as tivessem guardado, e repetido agora que a aragem comeava a
movel-as. Sophia teve um calefrio. Sequeira era indiscreto,--indiscreto
em farejar e indagar das cousas alheias; sel-o-hia ao ponto de
publical-as? Sophia considerava-se j objecto de suspeita ou de
calumnia... Formava planos. No visitaria ninguem; ou iria para fra,
para Nova Friburgo ou mais longe. A exigencia do marido em receber
o Rubio, como d'antes, era excessiva; maiormente pela causa dada.
No querendo obedecer nem desobedecer, cuidava em deixar a cidade,
pretextando o que quer que fosse.

--A culpa foi minha! suspirou ella comsigo.

A culpa eram as attenes especiaes com o homem, carinhos, lembranas,
obsequios familiares, e, na vespera, aquelles olhos to longamente
pregados nelle... Se no fosse isso... Ia-se assim perdendo em
reflexes multiplicadas. Tudo a aborrecia, plantas, moveis, uma cigarra
que cantava, um rumor de vozes, na rua, outro de pratos, em casa, o
andar das escravas, e at um pobre preto velho que, em frente  casa
della, trepava com dificuldade um pedao de morro. As cautellas do
preto boliam-lhe com os nervos.




CAPITULO LII


Nisto passou um rapaz alto, que a cortejou sorrindo e vagarosamente.
Sophia cortejou-o tambem, um pouco espantada da pessoa e da aco.

--Quem  este sujeito? pensou ella.

E entrou a cogitar donde  que o conhecia, porque, em verdade, a
cara no lhe era extranha, nem as maneiras, nem os olhos placidos e
grandes. Onde  que o teria visto? Percorreu varias casas, sem acertar
com a verdadeira; afinal pensou em certo baile,--no mez anterior,--em
casa de um advogado que fazia annos. Era isso; viu-o l, dansaram uma
quadrilha, por simples condescendencia delle, que no dansava nunca;
lembrava-se de lhe ter ouvido muitas cousas agradaveis, relativamente
 belleza da mulher, que, dizia elle, consistia principalmente nos
olhos e nos hombros. Os della, como sabemos, eram magnificos. E quasi
no tratou de outra cousa,--os hombros e os olhos;--a proposito de
uns e outros contou varias anecdotas succedidas com elle, algumas sem
interesse, mas fallava to bem! e o assumpto era to della!  verdade;
lembrava-se agora que, apenas elle a deixou, Palha veiu ter com ella,
sentou-se na cadeira, ao lado, e disse-lhe o nome do rapaz, porque
ella no ouvira bem  pessoa que lh'o apresentara era Carlos Maria,--o
proprio do almoo do nosso Rubio.

-- a primeira figura do salo, disse-lhe o marido com orgulho de vr
que se occupra tanto tempo com ella.

--Entre os homens, explicou Sophia.

--Entre as senhoras s tu, acudiu elle mirando-se no collo da mulher,
e circulando depois os olhos pela sala, com uma expresso de posse e
dominio, que a mulher j conhecia e que lhe fazia bem.

Quando acabou de recordar tudo, j iria longe o rapaz; ao menos, foi
uma interrupo na serie de tedios que lhe tomavam a alma. Tinha uma
dor nas costas, que se calra por instantes. Voltou logo, teimosa,
aborrecida; Sophia reclinou-se na cadeira e fechou os olhos. Quiz ver
se passava pelo somno, mas no pde. Os pensamentos eram to teimosos
como a dor, e ainda mais ruins que ella. De quando em quando um bater
de azas, rapido, quebrava o silencio: eram as pombas de uma casa
visinha que tornavam ao pombal. Sophia a principio abriu os olhos, umas
duas vezes; depois, acostumou-se ao rumor, e deixou-os fechados, a
ver se dormia. Passado algum tempo, ouviu passos na rua, e levantou a
cabea, suppondo que era Carlos Maria que regressava; era um carteiro
que lhe trazia uma carta da roa. Entregou-lh'a em mo. Ao sair do
jardim, tropeou o carteiro no p de um banco e caiu de bruos,
espalhando as cartas no cho. Sophia no pde conter o riso.




CAPITULO LIII


Perdoem-lhe esse riso. Bem sei que o desassocego, a noite mal passada,
o terror da opinio, tudo contrasta com esse riso inopportuno. Mas,
leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro. Os
deuses de Homero,--e mais eram deuses,--debatiam uma vez no Olympo,
gravemente, e at furiosamente. A orgulhosa Juno, ciosa dos colloquios
de Thetis e Jupiter em favor de Achilles, interrompe o filho de
Saturno. Jupiter troveja e ameaa; a esposa treme de colera. Os
outros gemem e suspiram. Mas quando Vulcano pega da urna de nectar,
e vae coxeando servir a todos, rompe no Olympo uma enorme gargalhada
inextinguivel. Porque? Senhora minha, com certeza nunca viu cair um
carteiro.

s vezes, nem  preciso que elle caia; outras vezes nem  sequer
preciso que exista. Basta imaginal-o ou recordal-o. A sombra da
sombra de uma lembrana grotesca projecta-se no meio da paixo mais
aborrecivel, e o sorriso vem s vezes  tona da cara, leve que
seja,--um nada. Deixemol-a rir, e ler a sua carta da roa.




CAPITULO LIV


Quinze dias depois, estando Rubio em casa, appareceu-lhe o marido
de Sophia. Vinha perguntar-lhe o que era feito delle? onde se tinha
mettido que no apparecia? estivera doente? ou j no cuidava dos
pobres? Rubio mastigava as palavras, sem acabar de compor uma phrase
unica. No meio disto, Palha viu que havia na sala um homem mirando os
quadros, e abafou a voz.

--Desculpe, no vi que estava com visitas, disse elle.

--Desculpar o que?  um amigo, como o senhor. Doutor, aqui est o meu
amigo Christiano de Almeida e Palha. Creio que j lhe fallei delle.
Este  o meu amigo Dr. Camacho,--Joo de Souza Camacho.

Camacho fez um signal de cabea, disse uma ou duas cousas, e quiz sair;
mas Rubio acudiu, que no, senhor, que ficasse. Eram ambos amigos; e
depois a lua no tardava a illuminar a bella enseada de Botafogo.

A lua,--outra vez a lua,--e esta phrase: _Creio que j lhe fallei
delle_, atordoaram de tal geito o recem-chegado, que no lhe foi
possivel proferir uma palavra durante algum tempo. Bom  accrescentar
que o dono da casa tambem no sabia que dissesse. Estavam os tres
sentados, Rubio no canap, Palha e Camacho em cadeiras defronte um do
outro. Camacho, que conservra a bengala na mo, pol-a verticalmente
nos joelhos, batendo no nariz e olhando para o tecto. Fra, rumor de
carros, tropel de cavallos, e algumas vozes. Eram sete horas e meia da
noite, ou mais, perto de oito. O silencio foi mais longo do que era
licito na occasio; nem Rubio nem Palha davam por elle. Camacho  que,
aborrecido, foi  janella, e exclamou dalli para os dous:

--L vem o luar entrando!

Rubio fez um gesto, Palha outro; mas quo differentes! Rubio era para
transportar-se  janella; Palha ia a agarral-o pela gola. Cedia menos
 divulgao possivel da aventura do que  lembrana da violencia com
que elle pegra nas mos da mulher para attrahil-a a si. Um e outro
contiveram-se; logo depois, Rubio, cruzando a perna esquerda sobre a
direita, voltou-se para o Palha, e perguntou-lhe:

--Sabe que vou deixal-os?




CAPITULO LV


Tudo esperava o outro, menos isto. Dahi o espanto em que se dissolveu
a colera; dahi tambem uma sombrinha de pezar, que  o que o leitor
menos espera. Deixal-os? Naturalmente ia-se embora do Rio de Janeiro;
era o castigo que a si mesmo impunha, pela aco ruim que praticra,
em Santa Thereza; logo, vexra-se, arrependera-se... No tinha cara de
apparecer  esposa do amigo... Tal foi a primeira concluso do Palha;
mas vieram outras hypotheses... Por exemplo, a paixo podia persistir,
e a sahida delle era um modo de affastar-se da pessoa amada... tambem
podia acontecer que entrasse ahi algum plano de casamento.

A ultima hypothese trouxe  physionomia do Palha um elemento novo, que
no sei como chame. Desappontamento? J o elegante Garrett no achava
outro termo para taes sensaes, e nem por ser inglez o desprezava.
V desappontamento. Misturem-lhe o espanto da noticia de separao, e
a sombrinha de pezar; no se esqueam da colera que primeiro trovejou
surdamente, e no faltar quem ache que a alma deste homem  uma colxa
de retalhos.

Pde ser; mas as colxas inteirias so to raras! O principal  que
as cores se no desmintam umas s outras,--quando no possam obedecer
 symetria e regularidade. Era o caso do nosso homem. Tinha o aspecto
baralhado  primeira vista; mas attentando bem, por mais oppostos que
fossem os matizes, l se achava a unidade moral da pessoa.




CAPITULO LVI


Mas, porque  que Rubio ia deixal-os? Que razo? Que negocio?

No dia seguinte ao do caso de Santa Thereza, acordou oppresso. Almoou
mal. No cuidou de nada; calou as chinellas africanas sem interesse,
no cuidou das cousas bellas, ou simplesmente ricas, que lhe enchiam a
casa. No pde supportar as caricias do co mais de dous minutos; to
depressa o recebeu na sala, como o mandou embora. Elle  que enganou os
criados e tornou ao amo; mas, tal foi o tabefe que recebeu na orelha,
que no repetiu os affagos: estirou-se no cho com os olhos no amigo.

Rubio estava arrependido, irritado, envergonhado. No cap. X deste
livro ficou escripto que os remorsos deste homem eram faceis, mas
de pouca dura; faltou explicar a natureza das aces que os podiam
fazer curtos ou compridos. L tratava-se daquella carta escripta
pelo finado Quincas Borba, to expressiva do estado mental do autor,
e que elle occultou do medico, podendo ser util  sciencia ou 
justia. Se entrega a carta, no teria remorsos, nem talvez legado,--o
pequeno legado que ento esperava do enfermo. No caso presente, era
uma tentativa de adulterio. Certo que elle suspirava ha muito, e
tinha impetos interiores; mas foi s a animao indiscreta da moa,
e a propria excitao do momento que o levou a fazer a declarao
repellida. Passados os vapores da noite, no era s vexame que sentia,
mas tambem remorsos. A moral  uma, os peccados so differentes.

Saltemos por cima de tudo o que elle sentiu e pensou durante os
primeiros dias. Chegou a esperar alguma cousa no domingo, um bilhete
como o do anterior,--com morangos ou sem elles. Na segunda feira estava
determinado a ir a Minas passar uns dous mezes; tinha necessidade de
restaurar a alma aos ventos de Barbacena. No contava com o Dr. Camacho.

--Deixar-nos? perguntou finalmente o Palha.

--Creio que sim; vou a Minas.

Camacho, voltando da janella, sentou-se na cadeira em que estivera
antes.

--Que Minas? disse elle sorrindo.--Deixe-se de Minas por ora; l ir
quando fr preciso, e no se demorar muito que o seja.

Palha no ficou menos admirado das palavras deste que das do outro.
Donde surgira semelhante homem, com ar de dominar o Rubio? Olhou para
elle; era pessa de estatura media, rosto estreito, pouca barba, queixo
comprido, orelhas de pavilho largo e aberto. Foi tudo o que pde
observar rapidamente. Viu tambem que a roupa era fina, sem luxo, e que
os ps no estavam mal calados. No examinou os olhos, nem o sorriso,
nem as maneiras; no chegou a reparar no principio de calva, nem nas
mos magras e cabelludas.




CAPITULO LVII


Camacho era homem politico. Formado em direito em 1844, pela faculdade
do Recife, voltara para a provincia natal, onde comeou a advogar;
mas a advocacia era um pretexto. J na academia, escrevera um jornal
politico, sem partido definido, mas com muitas ideias colhidas aqui
e alli, e expostas em estylo meio magro e meio inchado. Pessoa que
recolheu esses primeiros fructos de Camacho fez um indice dos seus
principios e aspiraes:--_ordem pela liberdade, liberdade pela
ordem;--a autoridade no pode abusar da lei, sem esbofetear-se a si
propria;--a vida dos principios  a necessidade moral das naes
novas como das naes velhas;--dai-me boas finanas, dar-vos-hei boa
politica_ (Baro Louis);--_mergulhemos no Jordo constitucional;--dai
passagem aos valentes, homem do poder; elles sero os vossos
sustentaculos, etc, etc._

Na provincia natal, essa ordem de ideias teve de ceder a outras; e
o mesmo se pode dizer do estylo. Fundou alli um jornal; mas, sendo
a politica local menos abstracta, Camacho aparou as azas e desceu
dos intermundios de Epicuro s nomeaes de delegados, s obras
provinciaes, s gratificaes,  luta com a folha adversa, e aos nomes
proprios e improprios. A adjectivao exigiu grande apuro. Nefasto,
esbanjador, vergonhoso, perverso, foram os termos obrigados, emquanto
atacou o governo; mas, logo que, por uma mudana de presidente, passou
a defendel-o, as qualificaes mudaram tambem: energico, illustrado,
justiceiro, fiel aos principios, verdadeira gloria da administrao,
etc., etc. Esse tiroteio durou tres annos. No fim delles, a paixo
politica dominava a alma do joven bacharel.

Membro da assemblea provincial, logo depois da camara dos deputados,
presidente de uma provincia de segunda ordem, onde, por natural mudana
do destino, leu nas folhas da opposio todos os nomes que escrevera
outr'ora, nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso, Camacho teve dias
grandes e pequenos, andou fra e dentro da camara, fallou, escreveu,
lutou constantemente. Acabou por vir morar na capital do imperio.
Deputado da conciliao dos partidos, viu governar o marquez de Paran,
e instou por algumas nomeaes, em que foi attendido; mas, se  certo
que o marquez lhe pedia conselhos, e usava confiar-lhe os planos que
trazia, ninguem podia affirmal-o, porque elle, em se tratando da
propria considerao, mentia sem difficuldade.

O que se pode crer  que queria ser ministro, e trabalhou por obtel-o.
Aggregou-se a varios grupos, segundo lhe parecia acertado; na camara
discorria largamente sobre materias de administrao, accumulava
algarismos, artigos de legislao, pedaos de relatorio, trechos de
autores francezes, embora mal traduzidos. Mas, entre a espiga e a
mo, est o muro de que falla o poeta; e por mais que o nosso homem
estendesse a mo do seu desejo para colhel-a, a espiga la ficava do
lado opposto, d'onde a arrancavam outras mos, mais ou menos soffregas,
ou at descuidadas.

Ha solteires na politica. Camacho ia entrando nessa categoria
melancolica, em que todos os sonhos nupciaes se evaporam com o tempo;
mas no tinha a superioridade de abandonal-a. Ninguem que organisasse
um gabinete se atrevia, ainda que o desejasse, a dar-lhe uma pasta.
Camacho ia-se sentindo cair; para simular influencia, tratava
familiarmente os poderosos do dia, contava em voz alta as visitas aos
ministros e a outras dignidades do Estado; mas nem por isso dava um
passo adeante.

No lhe faltava que comer. A familia era pequena; mulher, uma filha,
que ia nos dezoito annos, um afilhado de nove, e para isso dava
a advocacia. Mas trazia a politica no sangue; no lia, quasi no
fallava de outra cousa. De litteratura, sciencias naturaes, historia,
philosophia, artes, no se preoccupava absolutamente nada. Tambem no
conhecia grandes cousas de direito; guardava algum do que lhe dera a
academia, e mais a legislao posterior e as praticas forenses. Com
isso ia arrazoando e ganhando.




CAPITULO LVIII


Dias antes, indo passar a noite em casa de um conselheiro, viu alli
Rubio. Fallava-se da chamada dos conservadores ao poder, e da
dissoluo da camara. Rubio assistira  sesso em que o ministerio
Itaborahy pediu os oramentos. Tremia ainda ao contar as suas
impresses, descrevia a camara, tribunas, galerias cheias que no cabia
um alfinete, o discurso de Jos Bonifacio, a moo, a votao... Toda
essa narrativa nascia de uma alma simples; era claro. A desordem dos
gestos, o calor da palavra tinham a eloquencia da sinceridade. Camacho
escutava-o attento. Teve modo de o levar a um canto da janella, e
fazer-lhe consideraes graves sobre a situao. Rubio opinava de
cabea, ou por palavras soltas e approbatorias.

--Os conservadores no se demoram no poder, disse-lhe finalmente
Camacho.

--No?

--No; elles no querem a guerra, e tem de cahir por fora. Veja como
andei bem no programma da folha.

--Que folha?

--Conversaremos depois.

No dia seguinte, almoaram no _Hotel de la Bourse_, a convite de
Camacho. Este referiu ao outro que fundra, mezes antes, uma folha com
o unico programma de continuar a guerra a todo o transe... Andava muito
accesa a disseno entre liberaes; pareceu-lhe que o melhor modo de
servir ao proprio partido era dar-lhe um terreno neutro e nacional.

--E isto agora serve-nos, concluiu elle, porque o governo inclina-se 
paz. J amanh sae um artigo meu, furibundo.

Rubio ouvia tudo, quasi sem tirar os olhos do outro, comendo
rapidamente, nos intervallos em que o proprio Camacho inclinava a
cabea ao prato. Folgava de vr-se confidente politico; e, para dizer
tudo, a ideia de entrar em luta para colher alguma cousa depois, um
logar na camara, por exemplo, espanejou as azas de ouro no cerebro do
nosso amigo. Camacho no lhe fallou em mais nada; procurou-o no dia
seguinte, e no o achou. Agora, pouco depois de entrar, vinha o Palha
interrompel-os.




CAPITULO LIX


--Sim, mas eu preciso ir a Minas, teimou Rubio.

--Para que? perguntou Camacho.

E o Palha fez-lhe egual pergunta. Para que iria a Minas, salvo se era
negocio de pouco tempo. Ou j estava aborrecido da Corte?

--No, aborrecido no estou; ao contrario...

Ao contrario, gostava muito della; mas a terra natal--por menos
bonita que seja,--um logarejo,--d saudades  gente;--ainda mais
quando a pessoa veiu de l homem. Queria ver Barbacena. E Barbacena
era a primeira terra do mundo. Durante alguns minutos, Rubio pode
subtrahir-se  aco dos outros. Tinha a terra natal em si mesmo:
ambies, vaidades da rua, prazeres ephemeros, tudo cedia ao mineiro
saudoso da provincia. Se a alma delle foi alguma vez dissimulada,
e escutou a voz do interesse, agora era a simples alma de um homem
arrependido do goso, e mal accommodado na propria riqueza.

Palha e Camacho olharam um para o outro... Oh! esse olhar foi como um
bilhete de visita trocado entre as duas consciencias. Nenhuma disse
o seu segredo, mas viram os nomes no carto, e comprimentaram-se.
Sim, era preciso impedir que o Rubio sahisse; Minas podia retel-o.
Concordaram que l fosse, mas depois,--alguns mezes depois;--e talvez o
Palha fosse tambem. Nunca vira Minas; seria excellente occasio.

--O senhor? perguntou Rubio.

--Sim, eu; ha muito que desejo ir a Minas e a S. Paulo. Olhe, ha
mais de anno que estivemos vae no vae... Sophia  companheira para
estas cousas. Lembra-se quando nos encontrmos no trem da estrada de
ferro?... Vinhamos de Vassouras; mas esta ideia de Minas nunca nos
deixou. Iremos os tres.

Rubio agarrou-se s eleies proximas; mas aqui interveiu Camacho,
affirmando que no era preciso, que a serpente devia ser esmagada c
mesmo na capital; no faltaria tempo depois para ir matar saudades e
receber a recompensa... Rubio agitou-se no canap. A recompensa era,
com certeza, o diploma de deputado. Viso magnifica, ambio que nunca
teve, quando era um pobre diabo... Eil-a que o toma, que lhe agua
todos os appetites de grandeza e gloria... Entretanto, ainda insistiu
por poucos dias de viagem, e, para ser exacto, devo jurar que o fez sem
desejo de que lhe aceitassem a a proposta.

A lua estava ento brilhante; a enseada, vista pelas janellas,
apresentava aquelle aspecto seductor que nenhum carioca pde crr que
exista em outra parte do mundo. A figura de Sophia passou ao longe,
na encosta do morro, e diluiu-se no luar; a ultima sesso da camara,
tumultuosa, resoou aos ouvidos do Rubio... Camacho foi at  janella e
voltou logo.

--Mas quantos dias? perguntou elle.

--Isso  que no sei, mas poucos.

--Em todo o caso, amanh fallaremos.

Camacho despediu-se. Palha ficou ainda alguns instantes, para dizer-lhe
que seria exquisito voltar a Minas, sem que elles liquidassem as
contas... Rubio interrompeu-o. Contas? Quem lhe fallava em contas?

--Bem se v que o senhor no  homem de comercio, redarguiu Christiano.

No sou,  verdade; mas as contas pagam-se quando se podem. Entre ns,
tem sido isto. Ou, quem sabe? Seja franco; precisa de algum dinheiro?

No, no preciso. Obrigado. Tenho que propor um negocio, mas hade ser
mais demoradamente. Vim vel-o para no botar annuncios nos jornaes:
Desappareceu um amigo, por nome Rubio, que tem um cachorro...

Rubio gostou da facecia. Palha saiu e elle foi accompanhal-o at a
esquina da rua marquez de Abrantes. Ao despedir-se prometteu visital-o
em Santa Thereza, antes de ir a Minas.




CAPITULO LX


Pobre Minas! Rubio voltou para casa, sosinho, a passo lento, pensando
no modo de l no ir agora. E as palavras dos dous andavam-lhe no
cerebro, como peixinhos de ouro em globo de vidro, abaixo, acima,
rutilantes: _aqui  que se deve esmagar a cabea da cobra_;--_Sophia
 companheira para estas cousas._ Pobre Minas!

No dia seguinte recebeu um jornal que nunca vira antes, a _Atalaia._
O artigo editorial desancava o ministerio; a concluso, porm
estendia-se a todos os partidos e  nao inteira:--_Mergulhemos no
Jordo constitucional._ Rubio achou-o excellente; tratou de ver onde
se imprimia a folha para assignal-a. Era na rua da Ajuda; l foi, logo
que saiu de casa; l soube que o redactor era o Dr. Camacho. Correu ao
escriptorio delle.

Mas, em caminho na mesma rua:

--Deolindo! Deolindo! bradou angustiadamente uma voz de mulher  porta
de uma colchoaria.

Rubio ouviu o grito, voltou-se, viu o que era. Era um carro que
descia e uma creana de tres ou quatro annos que atravessava a rua.
Os cavallos vinham quasi em cima della, por mais que o cocheiro os
sofreasse. Rubio atirou-se aos cavallos e arrancou o menino ao perigo.
A me, quando o recebeu das mos do Rubio, no podia fallar; estava
pallida, tremula, e chorava. Algumas pessoas puzeram-se a altercar
com o cocheiro, mas um homem calvo, que vinha dentro, ordenou-lhe que
fosse andando. O cocheiro obedeceu. Assim, quando o pai, que estava no
interior da colchoaria, veiu fra, j o carro dobrava a esquina de S.
Jos.

--Ia quasi morrendo, disse a me. Se no fosse este senhor, no sei o
que seria do meu pobre filho.

Era uma novidade no quarteiro. Visinhos entravam a vr o que succedra
ao pequeno; na rua, creanas e moleques, espiavam pasmados. A creana
tinha apenas um arranho no hombro esquerdo, produzido pela queda.

--No foi nada, disse Rubio; em todo caso, no deixem o menino sair 
rua;  muito pequenino.

--Obrigado, acudiu o pae; mas onde est o seu chapo?

Rubio advertiu ento que perdra o chapo. Um rapazinho esfarrapado,
que o apanhra, estava  porta da colchoaria, aguardando a occasio de
restituil-o. Rubio deu-lhe uns cobres em recompensa, cousa em que o
rapazinho no cuidra, ao ir apanhar o chapo. No o apanhou seno para
ter uma parte na gloria e nos servios. Entretanto, aceitou os cobres
com prazer; foi talvez a primeira ideia que lhe deram da venalidade das
aces.

--Mas, espere, tornou o colchoeiro, o senhor feriu-se?

Com effeito, a mo do nosso amigo tinha sangue; havia um ferimento na
palma, cousa pequena, e que elle no podia saber se era obra do dente
do cavallo, se de algum ferro das correias. A verdade  que s agora
comeou a sentil-o. A me do pequeno correu a buscar uma bacia e uma
toalha, apezar de dizer o Rubio que no era nada, que no valia a
pena. Veiu a agua; emquanto elle lavava a mo, o colchoeiro correu 
pharmacia proxima, e trouxe um pouco de arnica. Rubio curou-se, atou
o leno na mo; a mulher do colchoeiro escovou-lhe o chapo; e, quando
elle sahiu, um e outro agradeceram-lhe muito o beneficio da salvao do
filho. A outra gente, que estava  porta e na calada, fez-lhe alas.




CAPITULO LXI


--Que  que tem ahi na mo? inquiriu Camacho, logo que Rubio entrou no
escriptorio.

Rubio narrou o incidente da rua da Ajuda. O advogado fez-lhe muitas
perguntas sobre a creana, os paes, o numero da casa; mas, o proprio
Rubio pz termo s respostas.

--No sabe, ao menos, o nome do pequeno?

--Ouvi chamar Deolindo. Vamos ao que importa. Venho assignar a sua
folha; recebi um numero, e quero contribuir para...

Camacho acudiu que no precisava de assignaturas. Em assignaturas,
a folha ia bem. O que ella precisava era de material typographico e
desenvolvimento no texto; ampliar a materia, pr-lhe mais noticiario,
variedades, traduco de algum romance para o folhetim, movimento do
porto, da praa, etc. Tinha annuncios, como viu.

--Sim, senhor.

--Estou com o capital quasi subscripto. Bastam dez pessoas, e j somos
oito; eu e mais sete. Faltam dous. Com mais duas pessoas est completo
o capital.

--Quanto ser? pensou Rubio.

Camacho batia com um canivete na beira da escrevaninha, calado, olhando
s furtadellas para o outro. Rubio passou uma vista  sala, poucos
moveis, alguns autos sobre um tamborete ao p do advogado, estante
com livros, Lobo, Pereira e Souza, Dalloz, _Ordenaes do reino_, um
retrato na parede, deante da escrevaninha.

--Conhece? disse Camacho apontando para o retrato.

--No, senhor.

--Veja se conhece.

--No posso saber. Nunes Machado?

--No, acudiu o ex-deputado dando  cara um ar pesaroso. No pude obter
um bom retrato delle. Vendem-se ahi umas lithographias que me no
parecem boas. No; aquelle  o marquez.

--De Barbacena?

--No, de Paran;  o grande marquez, meu particular amigo. Tentou
conciliar os partidos, e foi por isso que me achei com elle. Morreu
cedo; a obra no pde ir adeante. Hoje, se elle a quizesse, ter-me-hia
contra si. No! nada de conciliaes; guerra de morte. Havemos
de destruil-os; leia a _Atalaia_, meu bom companheiro de lutas;
recebel-a-ha em casa...

--No, senhor.

--Porque no?

Rubio baixou os olhos deante do nariz interrogativo do Camacho.

--No, senhor; sou firme, desejo ajudar os amigos. Receber a folha de
graa...

--Mas, se j lhe disse que de assignaturas vamos bem, retorquiu Camacho.

--Sim, senhor, mas no disse tambem que faltam duas pessoas para o
capital?

--Duas, sim; temos oito...

--Quanto  o capital?

--O capital  de cincoenta contos; cinco por pessoa.

--Pois entro com cinco.

Camacho agradeceu-lh'o em nome das ideias. Tinha inteno de convidal-o
para entrar com elles; era um direito adquirido pela convico, pela
fidelidade, pelo amor aos negocios publicos do seu recente amigo. Uma
vez que espontaneamente se alistou, pedia-lhe que o desculpasse...
Mostrou-lhe a lista dos outros; Camacho era o primeiro; entrava com a
folha, o material existente, as assignaturas, e o trabalho herculeo...
Ia a emendar-se, mas repetiu corajosamente: trabalho herculeo. Podia
dizer que o era, sem deslustre, nem mentira; esganou cobras, em
creana. J agora era um vicio; gostava da luta, morreria nella,
envolvido na bandeira...




CAPITULO LXII


Rubio despediu-se. No corredor passou por elle uma senhora alta,
vestida de preto, com um arruido de seda e vidrilhos. Indo a descer
a escada, ouviu a voz do Camacho, mais alta do que at ento:--Oh!
senhora baroneza!

No primeiro degro parou. A voz argentina da senhora comeou a dizer as
primeiras palavras; era uma demanda... Baroneza! E o nosso Rubio ia
descendo a custo, de manso, para no parecer que ficra ouvindo. O ar
mettia-lhe pelo nariz acima um aroma fino e raro, cousa de tontear, o
aroma deixado por ella. Baroneza! Chegou  porta da rua; viu parado um
_coup_; o lacaio, em p, na calada, o cocheiro na almofada, olhando;
fardados ambos... Que novidade podia haver em tudo isso? Nenhuma. Uma
senhora titular, cheirosa e rica, talvez demandista para matar o tedio.
Mas o caso particular  que elle, Rubio, sem saber porque, e apezar do
seu proprio luxo, sentia-se o mesmo antigo professor de Barbacena...




CAPITULO LXIII


Na rua, encontrou Sophia com uma senhora edosa e outra moa. No teve
olhos para ver bem as feies desta; todo elle foi pouco para Sophia.
Fallaram-se acanhadamente, dous minutos apenas, e seguiram o seu
caminho. Rubio parou adeante, e olhou para traz; mas as tres senhoras
iam andando sem voltar a cabea. Depois do jantar, comsigo:

--Irei l hoje?

Reflexionou muito sem adeantar nada. Ora que sim, ora que no.
Achara-lhe um modo exquisito; mas lembrava-se que sorriu,--pouco, mas
sorriu. Poz o caso  sorte. Se o primeiro carro que passasse viesse da
direita, iria; se viesse da esquerda, no. E deixou-se estar na sala,
no _pouf_ central, olhando. Veiu logo um tilbury da esquerda. Estava
dito; no ia a Santa Thereza. Mas aqui a consciencia reagiu; queria os
proprios termos da proposta: um carro. Tilbury no era carro. Devia
ser o que vulgarmente se chama carro, uma calea inteira ou meia, ou
ainda uma victoria... D'ahi a pouco vieram chegando da direita muitas
caleas, que voltavam de um enterro. Foi.




CAPITULO LXIV


Sophia deu-lhe a mo gentilmente, sem sombra de rancor. As
duas senhoras do passeio estavam com ella, em trajes caseiros;
apresentou-as. A moa era prima, a velha era tia,--aquella tia da roa,
autora da carta que Sophia recebeu no jardim das mos do carteiro, que
logo depois deu uma queda. A tia chamava-se D. Maria Augusta; tinha uma
fazendola, alguns escravos e dividas, que lhe deixra o marido, alem
das saudades. A filha era Maria Benedicta,--nome que a vexava, por ser
de velha, dizia ella; mas a me retorquia-lhe que as velhas foram algum
dia moas e meninas, e que os nomes adequados s pessoas eram cousas
de poetas e contadores de historias. Maria Benedicta era o nome da av
della, afilhada de Luiz de Vasconcellos, o vice-rei. Que queria mais?

Contaram isto ao Rubio, sem que ella se vexasse. Sophia, ou por
attenuar o caso, ou por outro motivo, accrescentou que os mais feios
nomes eram lindos, segundo a pessoa. Maria Benedicta era lindissimo.

--No lhe parece? concluiu voltando-se para Rubio.

--Deixa de caoada, prima! acudiu Maria Benedicta, rindo.

Podemos crer que a velha nem Rubio entenderam o dito,--a velha, porque
comeava a cochilar,--Rubio porque affagava um cosinho que tinham
dado a Sophia, pequeno, delgado, leve, bolioso, olhos negros, com
um guizo ao pescoo. Mas, insistindo a dona da casa, elle respondeu
que sim, sem saber o que era. Maria Benedicta deu um muchocho. Em
verdade, no era bonita; no lhe pedissem olhos que fascinam, nem
d'essas boccas que segredam alguma cousa, ainda caladas. Altinha, mos
grandes, grandes olhos attonitos quando escutavam somente, mas que
sabiam fallar, se a bocca fallava tambem,--ahi fica o principal das
feies da moa. Era natural, sem acanho de roceira; e tinha um donaire
particular, que corrigia as incoherencias do vestido.

Nascera na roa e gostava da roa. A roa era perto, Iguass. De
longe em longe vinha  cidade, passar alguns dias; mas, ao cabo dos
dous primeiros, j estava anciosa por tornar a casa. A educao foi
summaria: ler, escrever, doutrina e algumas obras de agulha. Nos
ultimos tempos (ia em dezenove annos), Sophia apertou com ella para
apprender piano; a tia consentiu; Maria Benedicta veiu para a casa da
prima, e alli esteve uns dezoito dias. No pde mais; doeram-lhe as
saudades da me e voltou para a roa, deixando consternado o professor,
que annunciou n'ella, desde os primeiros dias, um grande talento
musical.

--Oh! sem duvida, um grande talento!

Maria Benedicta riu-se quando a prima lhe contou isto, e nunca mais
pode ver a serio o homem. s vezes, no meio de uma lico, deitava a
rir; Sophia contrahia as sobrancelhas, a modo de ralho, e o pobre homem
perguntava o que era, e de si mesmo explicava que havia de ser alguma
lembrana de moa, e continuava a lico. Nem piano nem francez,--outra
lacuna, que Sophia mal podia desculpar. D. Maria Augusta no
comprehendia a consternao da sobrinha. Para que francez? A sobrinha
dizia-lhe que era indispensavel para conversar, para ir s lojas, para
ler um romance...

--Sempre fui feliz sem francez, respondia a velha; e os meia-linguas da
roa so a mesma cousa: no vivem peior que os creoulos.

Um dia accrescentou:

--Nem por isso lhe ho de faltar noivos. Pde casar, j lhe disse que
pde casar quando quizer, que eu tambem casei; e at deixar-me na roa,
sosinha, morrer como uma besta velha...

--Mame!

--No tenha pena;  s apparecer o noivo. Em apparecendo, v com elle,
e deixe-me ficar. Olha Maria Jos o que fez commigo? Vive l pelo
Cear...

--Mas se o marido  juiz de direito, ponderava Sophia.

--Torto que seja! Para mim  a mesma cousa. C fica o frangalho da
velha. Casa, Maria Benedicta, casa depressa; eu morrerei com Deus...
No terei filhos, mas terei Nossa Senhora, que  me de todos. Casa,
anda, casa!

Toda essa rabugem era calculo; tinha em mira arredar a filha do
matrimonio, excitando-lhe o terror e a piedade. Quando menos,
retardar-lh'o. No creio que revelasse esse peccado ao confessor, nem
que chegasse a entendel-o: era obra de um egoismo edoso e melindroso.
D . Maria Augusta fora longamente querida; a me era douda por ella, o
marido amou-a at o ultimo dia com a mesma intensidade. Mortos ambos,
todas as suas saudades filiaes e matrimoniaes foram postas na cabea
das duas filhas. Uma fugira-lhe, casando. Ameaada da solido, se a
outra casasse tambem, D. Maria Augusta fazia tudo o que podia por
evitar o desastre.




CAPITULO LXV


Curta foi a visita de Rubio. As nove horas levantou-se elle
discretamente, esperando qualquer palavra de Sophia, um pedido para
que ficasse ainda algum tempo, que esperasse o marido que j vinha, um
espanto que fosse: _J!_ mas nem isso. Sophia estendeu-lhe a mo, em
que elle mal pde tocar. Comtudo, a moa, durante a visita, mostrou-se
to natural, to sem azedume... No teve seguramente os olhos longos e
loquazes, como d'antes; parecia at que no houvera nada, nem bem nem
mal, nem morangos, nem lua. Rubio tremia, no achava palavras; ella
achava todas as que queria, e, se era preciso olhar para elle, fazia-o
direitamente, tranquillamente...

--Lembranas ao nosso Palha, murmurou elle de chapo e bengala na mo.

--Obrigada! Foi fazer uma visita; parece que ouo passos; hade ser elle.

No era elle; era Carlos Maria. Rubio ficou espantado de o ver alli,
mas achou logo que a presena da fazendeira e da filha explicaria tudo;
podia ser at que fossem aparentados.

--Ia saindo, quando o senhor entrou, disse-lhe Rubio depois de o ver
sentado ao p de D. Maria Augusta.

--Ah! respondeu o outro, olhando para o retrato de Sophia.

Sophia foi at  porta despedir-se do Rubio; disse-lhe que o marido
ficaria com pena de no estar em casa; mas que a visita era imperiosa.
Negocios... Iria pedir-lhe desculpa.

--Que desculpa? acudiu Rubio.

Parece que quiz dizer ainda alguma cousa; mas o aperto de mo de Sophia
e a reverencia que esta lhe fez, deram-lhe o signal de despedida.
Rubio inclinou-se, atravessou o jardim, ouvindo a voz de Carlos Maria,
na sala:

--Vou denunciar seu marido, minha senhora;  homem de muito mau gosto,
e _le mauvais got mne au crime..._

Rubio parou.

--Porque? disse Sophia.

--Tem este seu retrato na sala, continuou Carlos Maria; a senhora 
muito mais bella, infinitamente mais bella que a pintura... Comparem,
minhas senhoras.




CAPITULO LXVI


--Como elle diz aquellas cousas to naturalmente! pensou Rubio, em
casa, relembrando as palavras de Carlos Maria. Desfazer no retrato s
para elogiar a pessoa! Note-se que o retrato  muito parecido...




CAPITULO LXVII


De manh, na cama, teve um sobresalto. O primeiro jornal que abriu foi
a _Atalaia._ Leu o artigo editorial, uma correspondencia, e algumas
noticias. De repente, deu com o seu nome.

--Que  isto?

Era o seu proprio nome impresso, rutilante, multiplicado, nada menos
que uma noticia do caso da rua da Ajuda. Depois do sobresalto,
aborrecimento. Que diacho de ideia aquella de imprimir uma cousa
particular, contada em confiana? No quiz ler nada; desde que percebeu
o que era, deitou a folha ao cho, e pegou em outra. Infelizmente,
perdera a serenidade, lia por alto, pulava algumas cousas, no entendia
outras, ou dava por si no fim de vinte linhas sem saber como viera
escorregando at alli...

Ao levantar-se, sentou-se na poltrona, ao p da cama, e pegou da
_Atalaia._ Lanou os olhos pela noticia: era mais de uma columna.
Columna e tanto para cousa to diminuta! pensou comsigo. E afim de ver
como  que Camacho enchera o papel, leu tudo, um pouco s pressas,
vexado dos adjectivos e da descripo dramatica do caso.

--Foi bem feito! disse em voz alta. Quem me mandou ser linguarudo?

Passou ao banho, vestiu-se, penteou-se, sem esquecer a bisbilhotice
da folha, acanhado com a publicao de um negocio, que elle reputava
minimo, e ainda mais pelo encarecimento que lhe dera o escriptor,
como se se tratasse de dizer bem ou mal em politica. Ao caf, pegou
novamente na folha, para ler outras cousas, nomeaes do governo, um
assassinato em Garanhuns, meteorologia, at que a vista desastrada foi
cair na noticia, e leu-a ento com pausa. Aqui confessou Rubio que
bem podia crer na sinceridade do escriptor. O enthusiasmo da linguagem
explicava-se pela impresso que lhe ficou do facto; tal foi ella que
lhe no permittiu ser mais sobrio. Naturalmente  o que foi. Rubio
recordou a sua entrada no escriptorio do Camacho, o modo porque fallou;
e dahi tornou atraz, ao proprio acto. Estirado no gabinete, evocou a
scena: o menino, o carro, os cavallos, o grito, o salto que deu, levado
de um impeto, irresistivel:--Agora mesmo no podia explicar o negocio;
foi como se lhe tivesse passado uma cousa pelos olhos... Atirou-se 
creana, e aos cavallos, cego e surdo, sem attender ao proprio risco...
E podia ficar alli, embaixo dos animaes, esmagado pelas rodas, morto ou
ferido; ferido que fosse... Podia ou no podia? Era impossivel negar
que a situao foi grave... A prova  que os paes e a visinhana...

Rubio interrompeu as reflexes para ler ainda a noticia. Que era
bem escripta, era. Trechos havia que releu com muita satisfao.
O diabo do homem parecia ter assistido  scena. Que narrao! que
viveza de estylo! Alguns pontos estavam accrescentados,--confuso de
memoria,--mas o accrescimo no ficava mal. E certo orgulho que lhe
notou ao repetir-lhe o nome? O nosso amigo, o nosso distinctissimo
amigo, o nosso valente amigo...

Ao almoo, riu-se de si mesmo; achou-se mortificado em demasia.
Afinal, que tinha que o outro dsse aos seus leitores uma cousa que
era verdadeira, que era interessante, dramatica,--e, seguramente,--no
vulgar? Sahindo, recebeu alguns comprimentos; Freitas chamou-lhe S.
Vicente de Paula. E o nosso amigo sorria, agradecia, diminuia-se, no
era nada...

--Nada? replicou alguem. D-me muitos desses nadas... Salvar uma
creana com risco da propria vida...

Rubio ia concordando, ouvindo, sorrindo; contava a scena a alguns
curiosos, que a queriam da propria bocca do autor. Certos ouvintes
respondiam com proezas suas,--um que salvara uma vez um homem, outro
uma menina, prestes a afogar-se no boqueiro do Passeio, estando a
tomar banho. Vinham tambem suicidios malogrados, por interveno
do ouvinte, que tomou a pistola ao infeliz, e fel-o jurar... Cada
gloriasinha occulta picava o ovo, e punha a cabea de fra, olho
aberto, sem pennas, em volta da gloria maxima do Rubio. Tambem teve
invejosos, alguns que nem o conheciam, s por ouvil-o louvar em voz
alta. Rubio foi agradecer a noticia ao Camacho, no sem alguma censura
pelo abuso de confiana, mas uma censura molle, ao canto da bocca...
D'alli foi comprar uns tantos exemplares da folha para os amigos de
Barbacena. Nenhuma outra transcreveu a noticia; elle, a conselho do
Freitas, fel-a reimprimir nos _a pedidos_ do _Jornal do Commercio_,
interlinhada.




CAPITULO LXVIII


Maria Benedicta consentiu finalmente em apprender francez e piano.
Durante quatro dias a prima teimou com ella, a todas as horas, de
tal arte e maneira, que a me da moa resolveu appressar a volta 
fazenda, para evitar que ella acabasse aceitando. A filha resistiu
muito; respondia que eram cousas superfluas, que moa de roa no
precisa de prendas da cidade. Uma noite, porm, estando alli Carlos
Maria, pediu-lhe este que tocasse alguma cousa; Maria Benedicta fez-se
vermelha. Sophia acudiu com uma mentira:

--No lhe pea isso; ainda no tocou depois que veiu. Diz que agora s
toca para os roceiros.

--Pois faa de conta que somos roceiros, insistiu o moo.

Felizmente, fallou logo de outra cousa, do baile da baroneza do Piauhy
(casualmente, a mesma que o nosso amigo Rubio encontrou no escriptorio
do Camacho), um baile esplendido, oh! esplendido! A baroneza presava-o
muito. No dia seguinte, Maria Benedicta declarou  prima que estava
prompta a apprender piano e francez, rabeca e at russo, se quizesse.
A difficuldade era vencer a me. Esta, quando soube da resoluo da
filha, poz as mos na cabea. Que francez? que piano? Bradou que no,
ou ento que deixasse de ser sua filha; podia ficar, tocar, cantar,
fallar cabinda ou a lingua do diabo que os levasse a todos. Palha 
que a persuadiu finalmente; disse-lhe que, por mais superfluas que lhe
parecessem aquellas prendas, eram o minimo dos adornos de uma educao
de sala...

--Mas eu criei minha filha na roa e para a roa, interrompeu a tia.

--Para a roa? Quem sabe l para que cria os filhos? Meu pae
destinara-me a padre;  por isso que arranho algum latim. A senhora no
hade viver sempre; os seus negocios andam atrapalhados. Pode acontecer
que Maria Benedicta fique ao desamparo... Ao desamparo, no digo;
emquanto vivermos somos todos uma s pessoa. Mas no  melhor prevenir?
Podia ser at que, se lhe faltassemos todos, ella vivesse  larga,
s com ensinar francez e piano... Basta que os saiba para estar em
condies melhores.  bonita, como a senhora foi no seu tempo; e possue
raras qualidades moraes. Pode achar marido rico... Sabe a senhora se j
tenho alguem em vista, pessoa sria?

--Sim? Ento ella vae apprender francez, piano e namoro?

--Que namoro? Fallo-lhe de pensamentos intimos, de um plano que me
parece adequado  felicidade della e de sua me. Pois eu havia... Ora,
tia Augusta!

Palha mostrou-se to mortificado, que a tia deixou o tom aspero pelo
tom secco. Resistiu ainda; mas a noite deu-lhe bons conselhos O estado
dos seus negocios, e a possibilidade de um genro abastado fizeram
mais que outras razes. Os melhores genros da roa alliavam-se a
outras fazendas, a familias de representao e riqueza segura. Dous
dias depois acharam um _modus vivendi_: Maria Benedicta ficaria com
a prima; iriam de quando em quando  roa, e a tia tambem viria 
capital, para vel-os. Palha chegou a dizer que, logo que o estado da
praa o permittisse, arranjaria meio de liquidar-lhe os negocios e
transportal-a para aqui. Mas a isto a boa senhora abanou a cabea.

No se pense que tudo isso foi to facil como ahi fica escripto. Na
pratica, vieram os obices, amofinaes, saudades, rebellies de Maria
Benedicta. Dezoito dias depois da volta da me  fazenda, quiz ir
visital-a, e a prima acompanhou-a; estiveram l uma semana. A me, dous
mezes depois, veiu passar uns dias aqui. Sophia acostumava habilmente a
prima s distraces da cidade; theatros, visitas, passeios, reunies
em casa, vestidos novos, chapos lindos, joias. Maria Benedicta era
mulher, posto que mulher exquisita; gostou de taes cousas, mas tinha
para si que, logo que quizesse, podia arrebentar todos esses liames,
e andar para a roa. A roa vinha ter com ella, s vezes, em sonho ou
simples devaneio. Depois dos primeiros saros, quando voltava para
casa, no eram as sensaes da noite que lhe enchiam a alma, eram as
saudades de Iguass. Cresciam-lhe mais a certas horas do dia, quando
a quietao da casa e da rua era completa. Ento batia as azas para
a varanda da velha casa, onde bebia caf, ao p da me; pensava na
escravaria, nos moveis antigos, nas bonitas chinellas que lhe mandara o
padrinho, um fazendeiro rico de S. Joo d'El-rey,--e que l ficaram em
casa. Sophia no consentiu que ella as trouxesse.

Os mestres de francez e piano eram homens sabedores do officio.
Sophia teve modo de dizer-lhes em particular que a prima vexava-se
de apprender to tarde, e pediu-lhes que no fallassem nunca de tal
discipula. Prometteram que sim; o de piano apenas referiu o pedido
a alguns collegas d'arte, que lhe acharam graa, e contaram outras
anedoctas da clientela. O certo  que Maria Benedicta apprendia com
singular facilidade, estudava com afinco, quasi todas as horas, a tal
ponto que a mesma prima julgava acertado interrompel-a.

--Descana, filha de Deus!

--Deixa recobrar o tempo perdido, respondia ella rindo.

Ento Sophia inventava passeios,  toa, para fazel-a descanar. Ora um
bairro, ora outro. Em certas ruas, Maria Benedicta no perdia tempo:
lia as taboletas francezas, e perguntava pelos substantivos novos, que
a prima, algumas vezes, no sabia dizer o que eram, to estrictamente
adequado era o seu vocabulario s cousas do vestido, da sala e do
galanteio.

Mas no era s nessas disciplinas que Maria Benedicta fazia progressos
rapidos. A pessoa ajustra-se ao meio, mais depressa do que fariam
crer o gosto natural e a vida da roa. J competia com a outra, embora
houvesse nesta um desgarre, e no sei que expresso particular que,
para assim dizer, dava cr a todas as linhas e gestos da figura. No
obstante essa differena,  certo que a outra era vista e notada ao p
della, de tal geito que Sophia, que comera por louval-a em toda a
parte, no a deslouvava agora, mas ouvia calada as admiraes. Fallava
bem;--mas, quando calava, era por muito tempo; dizia que eram os seus
calunds. Contradansava sem vida, que  a perfeio desse genero de
recreio; gostava muito de ver polkar e valsar. Sophia, imaginando que
era por medo que a prima no valsava nem polkava, quiz dar-lhe algumas
lies em casa, sosinhas, com o marido ao piano; mas a prima recusava
sempre.

--Isso  ainda um bocadinho de casca da roa, disse-lhe uma vez Sophia.

Maria Benedicta sorriu de um modo to particular, que a outra no
insistiu. No foi riso de vexame, nem de despeito, nem de desdem.
Desdem, porque? Comtudo,  certo que o riso parecia vir de cima.
No menos o  que Sophia polkava e valsava com ardor, e ninguem se
pendurava melhor do hombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro
dansar, s valsava com Sophia,--dous ou tres giros, dizia elle;--Maria
Benedicta contou uma noite quinze minutos.




CAPITULO LXIX


Os quinze minutos foram contados no relogio do Rubio, que estava ao p
da Maria Benedicta, e a quem ella perguntou duas vezes que horas eram,
no principio e no fim da valsa. A propria moa inclinou-se para ver bem
o ponteiro dos minutos.

--Est com somno? perguntou Rubio.

Maria Benedicta olhou para elle de soslaio. Viu-lhe o rosto placido,
sem inteno nem riso.

--No, respondeu; digo-lhe at que estou com medo que prima Sophia se
lembre de ir cedo para casa.

--No vae cedo. J acabou a desculpa de Santa Thereza, por causa da
subida. A casa fica perto daqui.

De facto, as duas moravam agora na praia do Flamengo, e o baile era na
rua dos Arcos.

 de saber que tinham decorrido oito mezes desde o principio do
capitulo anterior, e muita cousa estava mudada. Rubio  socio do
marido de Sophia, em uma casa de importao,  rua da Alfandega, sob a
firma Palha &amp; Comp. Era o negocio que este ia propor-lhe, naquella
noite, em que achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo. Apezar de facil,
Rubio, recuou algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos de
ris, no entendia de commercio, no lhe tinha inclinao. Demais, os
gastos particulares eram j grandes; o capital precisava do regimen do
bom juro e alguma poupana, a ver se recobrava as cores e as carnes
primitivas. O regimen que lhe indicavam no era claro; Rubio no podia
comprehender os algarismos do Palha, calculos de lucros, tabellas de
preo, direitos da alfandega, nada; mas, a linguagem fallada suppria a
escripta. Palha dizia cousas extraordinarias, aconselhava ao amigo que
aproveitasse a occasio para pr o dinheiro a caminho, multiplical-o.
Se tinha medo, era outra cousa; elle, Palha, faria o negocio com John
Roberts socio que foi da casa Wilkinson, fundada em 1844, cujo chefe
voltou para a Inglaterra, e era agora membro do parlamento.

Rubio no cedeu logo, pediu prazo, cinco dias. Consigo era mais
livre; mas desta vez a liberdade s servia para atordoal-o. Computou
os dinheiros despendidos, avaliou os rombos feitos no cabedal, que lhe
deixra o philosopho. Quincas Borba, que estava com elle no gabinete,
deitado, levantou casualmente a cabea e fitou-o, Rubio estremeceu; a
ida de que naquelle Quincas Borba podia estar a alma do outro nunca se
lhe varreu inteiramente do cerebro. Desta vez chegou a ver-lhe um tom
de censura nos olhos; riu-se, era tolice; cachorro no podia ser homem.
Insensivelmente, porm, abaixou a mo e coou as orelhas ao animal,
para captal-o.

Atraz dos motivos de recusa, vieram outros contrarios. E se o negocio
rendesse? Se realmente lhe multiplicasse o que tinha? Accrescia que
a posio era respeitavel, e podia trazer-lhe vantagens na eleio,
quando houvesse de propor-se ao parlamento, como o velho chefe da casa
Wilkinson. Outra razo mais forte ainda era o receio de magoar o Palha,
de parecer que lhe no confiava dinheiros, quando era certo que, dias
antes, recebera parte da divida antiga, e a outra parte restante devia
ser-lhe restituida dentro de dous mezes.

Nenhum desses motivos era pretexto de outro; vinham de si mesmos.
Sophia s appareceu no fim, sem deixar de estar nelle, desde o
principio, ideia latente, inconsciente, uma das causas ultimas do
acto, e a unica dissimulada. Rubio abanou a cabea para expellil-a,
e levantou-se. Sophia (dona astuta!) recolheu-se  inconsciencia do
homem, respeitosa da liberdade moral, e deixou-o resolver por si mesmo
que entraria de socio com o marido, mediante certas clausulas de
segurana. Foi assim que se fez a sociedade commercial; assim  que
Rubio legalisou a assiduidade das suas visitas.

--Senhor Rubio, disse Maria Benedicta depois de alguns segundos de
silencio, no lhe parece que minha prima  bem bonita?

--No desfazendo na senhora, acho.

--Bonita e bem feita.

Rubio aceitou o complemento. Um e outro acompanharam com os olhos
o par de valsistas, que passeava ao longo do salo. Sophia estava
magnifica. Trajava de azul escuro, mui decotada,--pelas razes ditas
no cap. XXXVIII, os braos ns, cheios, com uns tons de ouro claro,
ajustavam-se s espaduas e aos seios, to acostumados ao gaz do salo.
Diadema de perolas feitias, to bem acabadas, que iam de par com as
duas perolas naturaes, que lhe ornavam as orelhas, e que Rubio lhe
dera um dia...

Ao lado della, Carlos Maria no ficava mal. Era um rapaz galhardo,
como sabemos, e trazia os mesmos olhos placidos do almoo do Rubio.
No tinha as maneiras subditas, nem as curvas reverentes dos outros
rapazes; fallava com a graa de um rei benevolo. Entretanto, se, 
primeira vista, parecia fazer apenas um obsequio quella senhora, no
 menos certo que ia desvanecido, por trazer ao lado a mais esbelta
mulher da noite. Os dous sentimentos no se contradiziam; fundiam-se
ambos na adorao que este moo tinha de si mesmo. Assim, o contacto de
Sophia era para elle como a prosternao de uma devota. No se admirava
de nada. Se um dia accordasse imperador, s se admiraria da demora do
ministerio em vir comprimental-o.

--Vou descanar um pouco, disse Sophia.

--Est canada ou... aborrecida? perguntou-lhe o braceiro.

--Oh! canada apenas!

Carlos Maria, arrependido de haver supposto a outra hypothese, deu-se
pressa em climinal-a.

--Sim, creio; porque  que estaria aborrecida? Mas eu affirmo que 
capaz de fazer me o sacrificio de passear ainda algum tempo. Cinco
minutos?

--Cinco minutos.

--Nem mais um que seja? Pela minha parte, passearia a eternidade.

Sophia abaixou a cabea.

--Com a senhora, note bem.

Sophia deixou-se ir com os olhos no cho, sem contestar, sem concordar,
sem agradecer, ao menos. Podia no ser mais que uma galanteria, e as
galanterias  de uso que se agradeam. J lhe tinha ouvido outr'ora
palavras analogas, dando-lhe a primazia entre as mulheres deste mundo.
Deixou de as ouvir durante seis mezes,--quatro que elle gastou em
Petropolis,--dous em que lhe no appareceu. Ultimamente  que tornou a
frequentar a casa, a dizer-lhe finezas daquellas, ora em particular,
ora  vista de toda a gente. Deixou-se ir; e ambos foram andando
calados, calados, calados,--at que elle rompeu o silencio, notando-lhe
que o mar defronte da casa della, batia com muita fora, na noite
anterior.

--Passou l? perguntou Sophia.

--Estive l; ia pelo Cattete, j tarde, e lembrou-me descer  praia do
Flamengo. A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e
a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava commigo? Entretanto, eu
quasi que ouvia a sua respirao...

Sophia tentou sorrir; elle continuou:

--O mar batia com fora,  verdade, mas o meu corao no batia menos
rijamente;--com esta differena que o mar  estupido, bate sem saber
porqu, e o meu corao sabe que batia pela senhora.

--Oh! murmurou Sophia.

Com espanto? Com indignao? Com medo? So muitas perguntas a um tempo.
Estou que a propria dama no poderia responder exactamente, tal foi o
abalo que lhe trouxe a declarao do moo. Em todo caso, no foi com
incredulidade. No posso dizer mais seno que a exclamao saiu to
frouxa, to abafada que elle mal pode ouvil-a. Pela sua parte, Carlos
Maria disfarou bem, ante os olhos de toda a sala; nem antes, nem
durante, nem depois das palavras, mostrou no rosto a menor commoo;
tinha at umas sombras de riso caustico, um riso de seu uso, quando
mofava de alguem; parecia ter dito um epigramma. Comtudo, mais de um
olho de mulher espreitava a alma de Sophia, estudava o gesto da moa,
tal ou qual acanhado, e as palpebras teimosamente cahidas.

--A senhora est perturbada, disse elle; disfarce com o leque.

Sophia machinalmente entrou a abanar-se e levantou os olhos. Viu que
muitos outros a fitavam, e empallideceu. Os minutos iam correndo, com a
mesma brevidade dos annos; os primeiros cinco e os segundos iam longe;
estavam no decimo terceiro, atraz deste iam apontando as azas de outro,
e mais outro. Sophia disse ao braceiro que queria sentar-se.

--Vou deixal-a e retiro-me.

--No, disse ella precipitadamente.

Depois, emendou-se:

--O baile est bonito.

--E t, mas eu quero levar commigo a melhor recordao da noite.
Qualquer outra palavra que oua agora ser como o coaxar das rs,
depois do canto de um lindo passaro, um dos seus passaros l de casa.
Onde quer que a deixe?

--Ao lado de minha prima.




CAPITULO LXX


Rubio cedeu a cadeira, e acompanhou Carlos Maria, que atravessou a
sala, e foi at o gabinete da entrada, onde estavam os sobretudos e
uns dez homens conversando. Antes que o rapaz entrasse no gabinete,
Rubio pegou-lhe do brao, familiarmente, para lhe perguntar alguma
cousa,--fosse o que fosse,--mas, em verdade, para retel-o comsigo, e
procurar sondal-o. Comeava a crer possivel ou real uma ideia que o
atormentava desde muitos dias. Agora, a conversao dilatada, os modos
della...

Carlos Maria no tinha noticia da longa paixo do mineiro, guardada,
mortificada, no se podendo confessar a ninguem,--esperando os
beneficios do acaso,--contentando-se de pouco, da simples vista da
pessoa, dormindo mal as noites, dando dinheiro para as operaes
mercantis... Que elle no tinha ciumes do marido. Nunca a intimidade do
casal lhe excitara os odios contra o legitimo senhor. E l iam mezes
e mezes, sem alterao do sentimento, nem morte da esperana... Mas a
possibilidade de um rival de fra veiu atordoal-o; aqui  que o ciume
trouxe ao nosso amigo uma dentada de sangue.

--Que ? disse Carlos Maria voltando-se.

Ao mesmo tempo entrou no gabinete, onde os dez homens tratavam de
politica, porque este baile,--ia-me esquecendo dizel-o,--era dado em
casa de Camacho, a proposito dos annos da mulher. Quando os dous alli
entraram, a conversao era geral, o assumpto o mesmo, e todos fallavam
para todos,--um turbilho de ditos, de pareceres, de affirmaes
diversas... Um, que era doutrinario, conseguiu dominar os outros, que
se calaram por instantes, fumando.

--Podem fazer tudo, disse o doutrinario, mas a punio moral  certa.
As dividas dos partidos pagam-se com juros at o ultimo real e at
a ultima gerao. Principios no morrem; os partidos que o esquecem
expiram no lodo e na ignominia.

Outro, meio calvo, no acreditava na punio moral, e dizia porqu;
mas um terceiro, fallou da demiso de uns collectores, e os espiritos,
meio tontos com a doutrina, tomaram p. Os collectores no tinham outra
culpa, alem da opinio; e nem ao menos se podia defender o acto com o
merecimento dos substitutos. Um destes trazia s costas um desfalque;
outro era cunhado de um tal Marques que dera um tiro de garrucha no
delegado, em S. Jos dos Campos... E os novos tenentes-coroneis?
Verdadeiros ros de policia...

--J se vae embora? perguntou Rubio ao moo, quando o viu tirar o
sobretudo d'entre os outros.

--J; estou com somno. Ajude-me a enfiar esta manga. Estou com somno.

--Mas ainda  cedo; fique. O nosso Camacho no deseja que os rapazes
saiam; quem  que hade dansar com a moas?

Carlos Maria replicou sorrindo que era pouco dado a dansas. Valsra
com D. Sophia, por ser mestra no officio; seno, nem isso. Estava
com somno; preferia a cama  orchestra. E estendeu-lhe a mo com
benignidade; Rubio apertou-lh'a, meio incerto.

No sabia que pensasse. O facto de sair, de a deixar no baile, em vez
de esperar para acompanhal-a  carroagem, como de outras vezes... Podia
ser engano delle... E pensava, recordava a noite de Santa Thereza,
quando elle ousou declarar  moa, o que sentia, pegando-lhe na bella
mo delicada... O major interrompera-os; mas porque no insistiu
elle mais tarde? Nem ella o maltratou, nem o marido percebera cousa
nenhuma... Aqui voltava a ideia do possivel rival;  certo que se
retirra com somno, mas os modos della... Rubio ia  porta do salo,
para ver Sophia, depois chegava-se a um canto ou  meza do voltarete,
inquieto, aborrecido.




CAPITULO LXXI


Em casa, ao despentear-se, Sophia fallou daquelle saro como de uma
cousa enfadonha. Bocejava, doiam-lhe as pernas. Palha discordava; era
m disposio della. Se lhe doiam as pernas  porque danra muito. Ao
que retorquiu a mulher que, se no danasse, teria morrido de tedio. E
ia tirando os grampos, deitando-os a um vaso de crystal; os cabellos
cahiam-lhe aos poucos sobre os hombros, mal cobertos pela camisola de
cambraia. Palha, por traz della, disse-lhe que o Carlos Maria valsava
muito bem. Sophia estremeceu; fitou-o no espelho, o rosto era placido.
Concordou que no valsava mal.

--No, senhora, valsa muito hem.

--Voc louva os outros porque sabe que ninguem  capaz de o desbancar.
Anda, meu vaidoso, j te conheo.

Palha, estendendo a mo e pegando-lhe no queixo, obrigou-a a olhar para
elle. Vaidoso, porque? porque  que elle era vaidoso?

--Ai, gemeu Sophia; no me machuques.

Palha beijou-lhe a espadua; ella sorriu, sem tedio, sem dor de cabea,
ao contrario daquella noite de Santa Theresa, em que relatou ao marido
os atrevimentos do Rubio.  que os morros sero doentios, e as praias
saudaveis...

No dia seguinte, Sophia acordou cedo, ao som dos trillos da passarada
de casa, que parecia dar-lhe um recado de alguem. Deixou-se estar na
cama, e fechou os olhos para ver melhor.

Ver melhor o que? No, seguramente, os morros doentios. A praia era
outra cousa. Posta  janella, dalli a meia hora, Sophia contemplava as
ondas que vinham morrer defronte, e, ao longe, as que se levantavam e
desfaziam  entrada da barra. A imaginosa dama perguntava a si mesma
se aquillo era a valsa das aguas, e deixava-se ir por essa torrente de
ideias abaixo, sem velas nem remos. Deu comsigo olhando para a rua, ao
p do mar, como procurando os signaes do homem que alli estivera, na
ante-vespera, alta noite... No juro, mas cuido que achou os signaes.
Ao menos,  certo que cotejou o achado com o texto da conversao:

A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua
casa. A senhora aposto que nem sonhava commigo? Entretanto, eu quasi
que ouvia a sua respirao... O mar batia com fora,  verdade, mas o
meu corao no batia menos rijamente; com esta differena que o mar 
estupido, bate sem saber porque, e o meu corao sabe que batia pela
senhora...

Sophia teve um calefrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se
repetindo: A noite era clara...




CAPITULO LXXII


Entre duas phrases, sentiu que alguem lhe punha a mo no hombro; era
o marido, que acabava de tomar caf e ia para a cidade. Despediram-se
affectuosamente; Christiano recommendou-lhe Maria Benedicta, que
acordara muito aborrecida.

--J de p! exclamou Sophia.

--Quando eu desci, j a achei na sala de jantar. Accordou com ideias de
ir para a roa; teve um sonho... no sei que...

--Calunds! concluiu Sophia.

E com os dedos habeis e leves concertou a gravata ao marido, puxou-lhe
a gola do fraque para deante, e despediram-se outra vez. Palha desceu
e sahiu; Sophia deixou-se estar  janella. Antes de dobrar a esquina,
elle voltou a cabea, e, na frma do costume, disseram adeus com a mo.




CAPITULO LXXIII


A noite era clara; fiquei cerca de uma hora entre o mar e a sua casa.
A senhora aposto que...

Quando Sophia pde arrancar-se de todo  janella, o relogio de baixo
batia nove horas. Zangada, arrependida, jurou a si mesma, pela alma
da me, no pensar mais em semelhante episodio. Considerou que no
valia nada; o erro foi deixar que o rapaz chegasse ao fim dos seus
atrevimentos. Verdade  que, procedendo assim, evitou algum grande
escandalo, porque elle era capaz de a acompanhar at a cadeira e
dizer-lhe o resto ao p de outras pessoas. E o resto repetia-se ainda
uma vez na memoria della, como um trecho musical teimoso, as mesmas
palavras, e a mesma voz: A noite era clara; fiquei cerca de uma
hora...




CAPITULO LXXIV


Emquanto ella repetia a declarao da vespera, Carlos Maria abria os
olhos, estirava os membros, e, antes de ir para o banho, vestir-se e
dar um passeio a cavallo, reconstruiu a vespera. Tinha esse costume;
achava sempre nos successos do dia anterior algum facto, algum dito,
alguma cousa que lhe fazia bem. Ahi  que o espirito se demorava; ahi
eram as estalagens do caminho, onde elle descavalgava o corpo, para
beber vagarosamente um golpe d'agua fresca. Se no havia successo
nenhum desses,--ou se os havia s contrarios, nem por isso as sensaes
eram desconfortativas; bastava-lhe o sabor de alguma palavra que elle
mesmo houvesse dito,--de algum gesto que fizesse, a contemplao
subjectiva, o gosto de se ter sentido viver,--para que a vespera no
fosse um dia perdido.

Na vespera figurava Sophia. Parece at que foi o principal da
reconstruco, a fachada do edificio, larga e magnifica. Carlos Maria
saboreou de memoria toda a conversao da noite, mas, quando se lembrou
da confisso de amor, sentiu-se bem e mal. Era um compromisso, um
estorvo, uma obrigao; e, posto que o beneficio corrigisse o tedio, o
rapaz ficou entre uma e outra sensao, sem plano. Ao recordar-se da
noticia que lhe deu de haver ido  praia do Flamengo, na outra noite,
no pde suster o riso, porque no era verdade. Nascera-lhe a ideia da
propria conversao; mas nem l foi nem pensara nisso. Afinal susteve
o riso, e at arrependeu-se delle; o facto de haver mentido trouxe-lhe
uma sensao de inferioridade, que o abateu. Chegou a pensar em
rectificar o que dissera, logo que estivesse com Sophia, mas reconheceu
que a emenda era peor que o soneto, e que ha bonitos sonetos mentirosos.

Depressa ergueu a alma. Viu de memoria a sala, os homens, as mulheres,
os leques impacientes, os bigodes despeitados, e estirou-se todo n'um
banho de inveja e admirao. De inveja alheia, note-se bem; elle
carecia desse sentimento ruim. A inveja e a admirao dos outros 
que lhe davam ainda agora uma delicia intima. A princeza do baile
entregava-se-lhe. Definia assim a superioridade de Sophia, posto lhe
conhecesse um defeito capital,--a educao. Achava que as maneiras
polidas da moa vinham da imitao adulta, aps o casamento, ou pouco
antes, e ainda assim no subiam muito do meio em que vivia.




CAPITULO LXXV


Outras mulheres vieram ali,--as que o preferiam aos demais homens no
trato e na contemplao da pessoa. Se as requestava ou requestra
todas? No se sabe. Algumas, v:  certo, porm, que se deleitava com
todas ellas. Taes havia de provada honestidade que folgavam de o trazer
ao p de si, para gostar o contacto de um bello homem, sem a realidade
nem o perigo da culpa,--como o expectador que se regala das paixes de
Othello, e sae do theatro com as mos limpas da morte de Desdemona.

Vinham todas rodear o leito de Carlos Maria, tecendo-lhe a mesma
grinalda. Nem todas seriam moas em flor; mas a distinco suppria
a juvenilidade. Carlos Maria recebia-as, como um deus antigo devia
receber, quieto no marmore, as lindas devotas e suas offerendas.
No borborinho geral distinguia as vozes de todas,--no todas a um
tempo,--mas s tres e s quatro.

A derradeira dellas foi a da recente Sophia; escutou-a ainda namorado,
mas sem o alvoroo do principio, porque a lembrana das outras donas,
pessoas de qualidade, diminuia agora a importancia desta. Comtudo,
no podia negar que era mui attractiva e que valsava perfeitamente.
Chegaria a amar com fora? Nisto appareceu-lhe outra vez a mentira da
praia. Levantou-se aborrecido da cama.

--Quem diabo me mandou dizer semelhante cousa?

Tornou a encarar a ideia de restabelecer a verdade; e desta vez mais
seriamente que da outra. Mentir, pensava elle, era para os lacaios e
seus congeneres.

D'ahi a meia hora, trepava ao cavallo e sahia de casa, que era na rua
dos Invalidos. Cattete adeante, veiu-lhe  ideia que a casa de Sophia
era na praia do Flamengo; nada mais natural que torcer a redea, descer
uma das ruas perpendiculares ao mar, e passar pela porta da valsista.
Achal-a-hia, talvez  janella; vel-a-hia crar, comprimental-o. Tudo
isto passou pela cabea ao rapaz, em poucos segundos; chegou a dar um
geito  redea, mas a alma,--no o cavallo,--a alma empinou--; era ir
muito depressa atraz della. Deu outro geito  redea, e continuou o
passeio.




CAPITULO LXXVI


Montava bem. Toda a gente que passava, ou estava s portas no se
fartava de mirar a postura do moo, o garbo, a tranquilidade rgia com
que se deixava ir. Carlos Maria,--e este era o ponto em que cedia 
multido,--recolhia as admiraes todas, por infimas que fossem. Para
adoral-o, todos os homens faziam parte da humanidade.




CAPITULO LXXVII


--J de p! repetiu Sophia, ao ver a prima lendo os jornaes.

Maria Benedicta teve um sobresalto, mas aquietou-se logo; dormira mal,
e accordou cedo. No estava para aquellas folias at to tarde, disse
ella, mas a outra replicou logo que era preciso acostumar-se, a vida
do Rio de Janeiro no era a mesma da roa, dormir com as galinhas e
accordar com os gallos. E depois perguntou-lhe que impresses trouxera
do baile; Maria Benedicta levantou os hombros com indifferena, mas
verbalmente respondeu que boas. Custava-lhe fallar, as palavras
sahiam-lhe poucas e molles. Sophia, entretanto, ponderou-lhe que
dansara muito, salvo polkas e valsas. E porque no havia de polkar e
valsar tambem? A prima lanou-lhe uns olhos mos.

--No gosto.

--Qual no gosta!  medo.

--Medo?

--Falta de costume, explicou Sophia.

A outra teve uma ideia, e quiz retel-a; mas a ideia escapou-lhe, a
despeito do exforo:

--No gosto que um homem me aperte o corpo ao seu corpo, e ande
commigo, assim,  vista dos outros. Tenho vexame.

Sophia tornou-se sria; no se defendeu nem continuou, fallou-lhe da
roa, perguntou-lhe se era certo o que lhe dissera Christiano, que ella
queria ir para casa. Ento a prima, que folheava os jornaes,  toa,
respondeu animadamente que sim; no podia viver sem a me.

--Mas porque? Voc no estava to contente comnosco?

Maria Benedicta no disse nada; passeou os olhos em um dos jornaes,
como se procurasse alguma cousa, trincando o beio, tremula, inquieta.
Sophia teimou em querer saber a causa daquella mudana repentina;
pegou-lhe nas mos, achou-as frias.

--Voc precisa casar, disse finalmente. Tenho j um noivo.

Era Rubio; o Palha queria acabar por ahi, casando o socio com a prima;
tudo ficava em casa, dizia elle  mulher. Esta tomou a si guiar o
negocio. Accudia-lhe agora a promessa; tinha um noivo prompto, era s
fallar.

--Quem? perguntou Maria Benedicta.

--Uma pessoa.

Crel-o-heis, posteros? Sophia no pde soltar o nome de Rubio. J uma
vez, dissera ao marido haver fallado nelle, e era mentira. Agora, indo
a fallar deveras, o nome no lhe sahiu da boca. Ciumes? Seria singular
que esta mulher, que no tinha amor quelle homem, no quizesse dal-o
de noivo  prima, mas a natureza  capaz de tudo, amigo e senhor.
Inventou o ciume de Othello e o do cavalleiro Desgrieux, podia inventar
este outro de uma pessoa que no quer ceder o que no quer possuir.

--Mas quem? repetiu Maria Benedicta.

--Direi depois, deixe-me arranjar as cousas, respondeu Sophia, e mudou
de conversa.

Maria Benedicta trocou de rosto; a boca encheu-se-lhe de riso, um
riso de alegria e de esperana. Os olhos agradeceram a promessa e o
trabalho, e disseram palavras que ninguem podia ouvir nem entender,
palavras curiosas e obscuras:

--Gosta de valsar;  o que .

Gosta de valsar quem? Provavelmente a outra. Tinha valsado tanto na
vespera, com o mesmo Carlos Maria, que bem se poderia achar na dansa
um pretexto; Maria Benedicta concluia agora que era o proprio e unico
motivo. Conversaram muito nos intervallos,  certo, mas naturalmente
era della que fallavam, uma vez que a prima tinha a peito casal-a, e s
lhe pedia que deixasse arranjar as cousas. Talvez elle a achasse feia,
ou sem graa. Uma vez, porm, que a prima queria arranjar as cousas...
Tudo isso diziam os olhos gaios da menina.




CAPITULO LXXVIII


Rubio  que no perdeu a suspeita assim to facilmente. Teve ideia de
fallar a Carlos Maria, interrogal-o, e chegou a ir  rua dos Invalidos,
no dia seguinte, tres vezes; no o encontrando, mudou de parecer.
Encerrou-se por alguns dias; o major Siqueira arrancou-o  solido. Ia
participar-lhe que se mudara para a rua Dous de Dezembro. Gostou muito
da casa do nosso amigo, das alfaias, do luxo, de todas as minucias,
ouros e bambinellas. Sobre este assumpto fallou longamente, relembrando
alguns moveis antigos. Como s elle fallasse, parou de repente, para
dizer que o achava aborrecido; era natural, faltava-lhe alli um
complemento.

--O senhor  feliz, mas falta-lhe aqui uma cousa; falta-lhe mulher. O
senhor precisa casar. Case-se, e diga que eu o engano.

Rubio lembrou-se de Santa Thereza,--daquella famosa noite da
conversao com Sophia,--e sentiu correr-lhe um frio pelas costas; mas
a voz do major no tinha nenhum sarcasmo. Tambem no lhe fallava por
interesse. A filha estava ainda qual a deixmos no capitulo XLXIII,
com a differena que os quarenta annos vieram. Quarentona, solteirona.
Gemeu-os comsigo, logo de manh, no dia em que os completou; no poz
fita nem rosa no cabello. Nenhuma festa; to smente um discurso do
pae, ao almoo, lembrando-lhe cousas de criana, anecdotas da me e da
av, um domin de baile de mascaras, um baptisado de 1848, a solitaria
de um coronel Clodomiro, varias cousas assim de mistura, para entreter
as horas. D. Tonica mal podia ouvil-o; mettida em si mesma, ia roendo o
po da solitude moral, ao passo que se arrependia dos ultimos exforos
empregados na busca de um marido. Quarenta annos; era tempo de parar.

Nada disso lembrava agora ao major. Fallou sinceramente; achou que a
casa de Rubio no tinha alma. E repetiu, ao despedir-se:

--Case-se, e diga que eu o engano.




CAPITULO LXXIX


--E por que no? perguntou uma voz, depois que o major sahiu.

Rubio, apavorado, olhou em volta de si; viu apenas o cachorro, parado,
olhando para elle. Era to absurdo crer que a pergunta viria do
proprio Quincas Borba,--ou antes do outro Quincas Borba, cujo espirito
estivesse no corpo deste, que o nosso amigo sorriu com desdem; mas, ao
mesmo tempo, executando o gesto do capitulo XLIX, estendeu a mo, e
coou amorosamente as orelhas e a nuca do cachorro,--acto proprio a dar
satisfao ao possivel espirito do finado.

Era assim que o nosso amigo se desdobrava, sem publico, deante de si
mesmo.




CAPITULO LXXX


Mas a voz repetiu:--E porque no? Sim, porque no havia de casar,
continuou elle raciocinando. Mataria a paixo que o ia comendo aos
poucos, sem esperana nem consolao. Demais, era a porta de um
mysterio. Casar, sim, casar logo e bem.

Estava ao porto, quando esta ida comeou a abotoar;--foi dalli para
dentro, subindo os degros de pedra, abrindo a porta, sem consciencia
de nada. Ao fechar a porta,  que um pulo do Quincas Borba, que o
viera acompanhando, fel-o dar por si. Onde ficara o major? Quiz descer
para vel-o, mas advertiu a tempo que acabava de o acompanhar at 
rua. As pernas tinham feito tudo; ellas  que o levaram por si mesmas,
direitas, lucidas, sem tropeo, para que ficasse  cabea to smente
a tarefa de pensar. Boas pernas! pernas amigas! muletas naturaes do
espirito!

Santas pernas! Ellas o levaram ainda ao canap, estenderam-se com elle,
devagarinho, emquanto o o espirito trabalhava a ideia do casamento. Era
um modo de fugir a Sophia; podia ser ainda mais alguma cousa.

Sim, podia ser tambem um modo de restituir  vida a unidade que
perdera, com a troca do meio e da fortuna; mas esta considerao no
era propriamente filha do espirito nem das pernas, mas de outra causa,
que elle no distinguia bem nem mal, como a aranha. Que sabe a aranha
a respeito de Mozart? Nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do
mestre. O gato, que nunca leu Kant,  talvez um animal metaphysico.
Em verdade, o casamento podia ser o lao da unidade perdida. Rubio
sentia-se disperso; os proprios amigos de transito, que elle amava
tanto, que o cortejavam tanto, davam-lhe  vida um aspecto de viagem,
em que a lingua mudasse com as cidades, ora hespanhol, ora turco.
Sophia contribuia para esse estado; era to diversa de si mesma, ora
isto, ora aquillo, que os dias iam passando sem accrdo fixo, nem
desengano perpetuo.

Rubio no tinha que fazer; para matar os dias longos e varios, ia as
sesses do jury,  camara dos deputados,  passagem dos batalhes, dava
grandes passeios, fazia visitas desnecessarias,  noite, ou ia aos
theatros, sem prazer. A casa era ainda um bom repouso ao espirito, com
o seu luxo rutilante e os sonhos que vagavam no ar.

Ultimamente, occupava-se muito em ler; lia romances, mas s os
historicos de Dumas pae, ou os contemporaneos de Feuillet, estes com
difficuldade, por no conhecer bem a lingua original. Dos primeiros
sobravam traduces. Arriscava-se a algum mais, se lhe achava o
principal dos outros, uma sociedade fidalga e rgia. quellas scenas da
crte de Frana, inventadas pelo maravilhoso Dumas, e os seus nobres
espadachins e aventureiros, as condessas e os duques de Feuillet,
mettidos em estufas ricas, todos elles com palavras mui compostas,
polidas, altivas ou graciosas, faziam-lhe passar o tempo s carreiras.
Quasi sempre, acabava com o livro cahido e os olhos no ar, pensando.
Talvez algum velho marquez defuncto lhe repetisse anedoctas de outras
eras.




CAPITULO LXXXI


Antes de cuidar da noiva, cuidou do casamento. Naquelle dia e nos
outros, compoz de cabea as pompas matrimoniaes, os coches,--se ainda
os houvesse antigos e ricos, quaes elle via gravados nos livros de
usos passados. Oh! grandes e soberbos coches! Como elle gostava de
ir esperar o Imperador, nos dias de grande gala,  porta do pao da
cidade, para ver chegar o prestito imperial, especialmente o coche
de Sua Magestade, vastas propores, fortes molas, finas e velhas
pinturas, quatro ou cinco parelhas guiadas por um cocheiro grave e
digno! Outros vinham, menores em grandeza, mas ainda assim to grandes
que enchiam os olhos.

Um desses outros, ou ainda algum menor, podia servir-lhe s bodas, se
toda a sociedade no estivesse j nivellada pelo vulgar _coup._ Mas,
emfim, iria de _coup_; imaginava-o forrado magnificamente, de que?
De uma fazenda que no fosse commum, que elle mesmo no distinguia,
por ora; mas que daria ao vehiculo o ar que no tinha. Parelha rara.
Cocheiro fardado de ouro. Oh! mas de um ouro nunca visto. Convidados de
primeira ordem, generaes, diplomatas, senadores, um ou dous ministros,
muitas summidades do commercio; e as damas, as grandes damas? Rubio
nomeava-as de cabea; via-as entrar, elle no alto da escada de um
palacio, com o olhar perdido por aquelle tapete abaixo,--ellas
atravessando o saguo, subindo os degraus com os seus sapatinhos de
setim, breves e leves,--a principio, poucas,--depois mais, e mais, e
ainda mais. Carruagens aps carruagens... L vinham os condes de Tal,
um varo guapo e uma singular dama... Caro amigo, aqui estamos,
dir-lhe-hia o conde, no alto; e, mais tarde, a condessa: Senhor
Rubio, a festa  esplendida...

De repente, o internuncio... Sim, esquecera-se que o internuncio devia
casal-os; l estaria elle, com as suas meias roxas de monsenhor, e os
grandes olhos napolitanos, em conversao com o ministro da Russia. Os
lustres de crystal e ouro allumiando os mais bellos collos da cidade,
casacas direitas, outras curvas ouvindo os leques que se abriam e
fechavam, dragonas e diademas, a orchestra dando signal para uma valsa.
Ento os braos negros, em angulo, iam buscar os braos ns, enluvados
at o cotovello, e os pares saiam girando pela sala, cinco, sete, dez,
doze, vinte pares. Ceia explendida. Crystaes da Bohemia, loua da
Hungria, vasos de Svres, criadagem lesta e fardada, com as iniciaes do
Rubio na gola.




CAPITULO LXXXII


Esses sonhos iam e vinham. Que mysterioso Prospero transformava assim
uma ilha banal em mascarada sublime? Vae; Ariel, traze aqui os teus
companheiros, para que eu mostre a este joven casal alguns feitios da
minha feitiaria. As palavras seriam as mesmas da comedia; a ilha 
que era outra, a ilha e a mascarada. Aquella era a propria cabea do
nosso amigo; esta no se compunha de deusas nem de versos, mas de gente
humana e prosa de sala. Mais rica era. No esqueamos que o Prospero de
Shakespeare era um duque de Milo; e, eis ahi, talvez, porque se metteu
na ilha do nosso amigo.

Em verdade, as noivas que appareciam ao lado do Rubio, naquelles
sonhos de bodas, eram sempre titulares. Os nomes eram os mais sonoros
e faceis da nossa nobiliarchia. Eis aqui a explicao: poucas semanas
antes, Rubio apanhou um almanack de Laemmert,e, entrando a folheal-o,
deu com o capitulo dos titulares. Se elle sabia de alguns, estava longe
de os conhecer a todos. Comprou um almanack, e lia-o muitas vezes,
deixando escorregar os olhos por alli abaixo, desde os marquezes at
os bares, voltava atraz, repetia os nomes bonitos, trazia a muitos de
cr. s vezes, pegava da penna e de uma folha de papel, escolhia um
titulo moderno ou antigo, e escrevia-o repetidamente, como se fosse o
proprio dono e assignasse alguma cousa:


Marquez de Barbacena Marquez de Barbacena Marquez de Barbacena Marquez
de Barbacena Marquez de Barbacena Marquez de Barbacena


Ia assim, at o fim da lauda, variando a lettra, ora grossa, ora miuda,
cabida para traz, em p, de todos os feitios. Quando acabava a folha,
pegava nella, e comparava as assignaturas; deixava o papel e perdia-se
no ar.

D'ahi a jerarchia das noivas. O peor  que todas traziam a cara de
Sophia;--podiam parecer-se nos primeiros instantes com alguma visinha,
ou com a moa que elle comprimentra,  tarde, na rua; podiam comear
muito magras ou gordas;--mas no tardavam em mudar de figura, encher ou
desbastar o corpo, e sobre isto vinha rutilar o rosto da bella Sophia,
com os seus mesmos olhos amotinados ou quietos. No havia fugir, ainda
casando? Rubio chegou a pensar na morte do Palha; foi em certo dia,
ao sahir da casa delle, tendo-lhe ouvido a ella uma poro de cousas
bonitas e vagas. Grande foi a sensao de ventura, posto que elle
repellisse dahi a pouco a ideia, como um ruim agouro. Dias depois,
trocadas as maneiras, tornava elle definitivamente aos seus planos.
Mais de uma vez,era o proprio Palha que o accordava daquelles sonhos
conjugaes.

--Tem onde ir hoje  noite?

--No.

--Pegue l uma entrada para o Theatro Lyrico; camarote n. 8, primeira
ordem,  esquerda.

Rubio chegava mais cedo, ia esperar por elles, e dava o brao a
Sophia. Si ella estava de bom humor, a noite era das melhores do mundo.
Si no, era um martyrio, para repetir as proprias palavras delle, ao
co, um dia:

--Vim hontem de um martyrio, meu pobre amigo.

--Case-se, e diga que eu o engano, latiu-lhe Quincas Borba.

--Sim, meu pobre amigo, accudiu elle pegando-lhe nas patas deanteiras
e collocando-as sobre os joelhos. Voc tem razo; precisa de uma boa
amiga que lhe d cuidados que no posso ou no sei dar. Quincas Borba,
voc ainda se lembra do nosso Quincas Borba? Bom amigo meu, grande
amigo, eu tambem fui amigo delle, dous grandes amigos. Se fosse vivo,
seria o padrinho do meu casamento, levantaria os brindes,--ao menos, o
de honra, aos noivos;--e seria por um copo de ouro e diamantes, que eu
lhe mandaria fazer de proposito... Grande Quincas Borba!

E o espirito de Rubio pairava sobre o abysmo.




CAPITULO LXXXIII


Um dia, como houvesse sahido mais cedo de casa, e no soubesse onde
passar a primeira hora, caminhou para o armazem. Desde uma semana que
no ia  praia do Flamengo, por haver Sophia entrado em um dos seus
periodos de sequido. Achou o Palha de luto; morrera a tia da mulher,
D. Maria Augusta, na fazenda; a noticia chegara na ante-vespera, 
tarde.

--A me daquella mocinha?

--Justo.

Palha fallou da defuncta com muitos encarecimentos; depois contou a dr
de Maria Benedicta; estava que mettia pena. Perguntou-lhe porque  que
no ia ao Flamengo, logo  noite, para ajudal-os a distrail-a? Rubio
prometteu ir.

--V,  favor que nos faz; a pobre pequena vale tudo. No imagina
que primor alli est. Boa educao, muito severa; e quanto a prendas
de sociedade, se no as teve em criana, ressarsiu o tempo perdido
com rapidez extraordinaria. Sophia  a mestra. E dona de casa? Isso,
meu amigo, no sei se em tal edade, se achar pessoa to completa.
J agora fica comnosco. Tem uma irm, Maria Jos, casada com um juiz
de direito, no Cear; tem tambem o padrinho, em S. Joo d'El-rei. A
defuncta fallava delle com elogio; no creio que elle a mande buscar,
mas ainda que mande, no a dou. J agora  nossa. No hade ser pelo que
o padrinho lhe quizer deixar em testamento que nos desfaremos della.
Aqui ficar, concluiu tirando com o dedo um pouco de poeira da gola do
Rubio.

Rubio agradeceu. Depois, como estavam no escriptorio, ao fundo, olhou
por entre as grades, e viu entrar uns fardos no armazem. Perguntou que
traziam.

--So uns morins inglezes.

--Morins inglezes, repetiu Rubio, com indifferena.

--A proposito, sabe que a casa Moraes &amp; Cunha, paga a todos os
credores, integralmente?

Rubio no sabia nada, nem se a casa existia, nem se elles eram
credores della; ouviu a noticia, respondeu que estimava muito, e
dispoz-se a ir embora. Mas o socio reteve-o ainda alguns instantes.
Estava alegre agora; parecia que no lhe morrera ninguem. Voltou a
fallar de Maria Benedicta. Tinha inteno de casal-a bem; nem ella era
moa de dar lerias a pelintras, nem se deixava ir por phantasias tolas;
era ajuizada, merecia um bom esposo, pessoa seria.

--Sim, senhor, ia dizendo Rubio.

--Olhe, murmurou de repente o socio; no se admire do que lhe vou
dizer. Creio que voc  que casa com ella.

--Eu? acudiu Rubio, espantado. No, senhor. E em seguida, para
attenuar o effeito da recusa: No nego que seja moa digna e perfeita;
mas... por ora... no penso em casar...

--Ninguem lhe diz que seja amanh ou depois; casamento no  cousa que
se improvise. O que eu digo  que tenho c um palpite. So cousas;
palpites. Sophia nunca lhe fallou neste meu palpite?

--Nunca.

-- exquisito, disse-me que lhe fallra uma vez, ou duas, no me lembro
bem.

--Pode ser, sou muito distrahido. Que queriam casar-me com a moa?

--No, que eu tinha um palpite. Mas, no fallemos mais n'isto. Demos
tempo ao tempo.

--Adeus.

--Adeus; v cedo.




CAPITULO LXXXIV


Com que ento, Sophia queria casal-o? sahiu pensando o Rubio; era
naturalmente o processo mais expedito para descartar-se d'elle.
Casal-o, fazel-o seu primo. Rubio palmilhou muita rua, antes que
chegasse a esta outra hypothese:--Talvez Sophia no se houvesse
esquecido de fallar, mas mentisse de proposito ao marido para no
dar andamento ao projecto. N'este caso o sentimento era outro. Esta
explicao pareceu-lhe logica; a alma voltou  serenidade anterior.




CAPITULO LXXXV


Mas no ha serenidade moral que corte uma polegada siquer s abas
do tempo, quando a pessoa no tem maneira de o fazer mais curto. Ao
contrario, a ancia de ir ao Flamengo,  noite, vinha tornar as horas
mais arrastadas. Era cedo, cedo para tudo, para ir  rua do Ouvidor,
para voltar a Botafogo. O Dr. Camacho estava em Vassouras defendendo um
ro no jury. No havia divertimento algum publico; festa nem sermo.
Nada. Rubio, profundamente aborrecido, trocava as pernas,  toa, lendo
as taboletas, ou detendo-se ao simples incidente de um atropello de
carros. Em Minas, no se aborrecia tanto, porque? No achou soluo ao
enigma, uma vez que o Rio de Janeiro tinha mais em que se distrahir, e
que o distrahia deveras; mas havia aqui horas de um tedio mortal.

Felizmente, ha um deus para os enojados. Accudiu  memoria de Rubio
que o Freitas,--aquelle Freitas to alegre--estava gravemente enfermo;
Rubio chamou um tilbury e foi visital-o  Praia Formosa, onde morava.
Gastou alli perto de duas horas, conversando com o doente; este
adormeceu, elle despediu-se da me,--um caco de velha,--e  porta antes
de sair:

--A senhora hade ter tido seus apertos de dinheiro, disse o Rubio;
e, vendo-a morder o beio e baixar os olhos: No se envergonhe;
necessidade afflige, mas no envergonha. Eu o que queria era que a
senhora acceitasse alguma cousa, que lhe vou deixar para acudir 
despeza; pagar um dia, se puder...

Tinha aberto a carteira, tirou seis notas de vinte mil reis, fez um
bolo de todas ellas, e deixou-lh'o na mo. Abriu a porta e saiu. A
velha, espantada, nem teve alma para agradecer; s ao rodar do tilbury,
 que correu  janella, mas j no podia ver o bemfeitor.




CAPITULO LXXXVI


Tudo aquillo saiu to expontaneamente ao Rubio, que elle s teve tempo
de reflectir, depois que o tilbury comeou a andar. Parece que chegou
a levantar a cortina do postigo; a velha ia entrando; viu-lhe ainda o
resto do brao. Rubio sentiu toda a vantagem de no estar invalido.
Reclinou-se, desabafou o peito com um grande suspiro e olhou para a
praia; logo depois inclinou-se. Na vinda, mal pudera vel-a.

--Vossa Senhoria est gostando, disse-lhe o cocheiro contente com o bom
freguez que tinha.

--Acho bonito.

--Nunca veiu aqui?

--Creio que vim, ha muitos annos, quando estive no Rio de Janeiro pela
primeira vez. Que eu sou de Minas... Pare, moo.

O cocheiro fez parar o cavallo; Rubio desceu, e disse-lhe que fosse
andando de vagar.

Em verdade, era curioso. Aquellas grandes braadas de matto, brotando
do lodo, e postas alli ao p da cara do Rubio, davam-lhe vontade de ir
ter com ellas. To perto da rua! Rubio nem sentia o sol. Esquecera o
doente e a me do doente. Assim sim,--dizia elle comsigo,--fosse o mar
todo uma cousa daquelle feitio, alastrado de terras e verduras, e valia
a pena navegar. Para l daquillo ficava a praia dos Lazaros e a de S.
Christovo. Uma pernada apenas.

--Praia Formosa, murmurou elle; bem posto nome.

Entretanto, a praia ia mudando de aspecto. Dobrava para o Sacco do
Alferes, vinham as casas edificadas do lado do mar. De quando em
quando, no eram casas, mas canoas, encalhadas no lodo, ou em terra,
fundo para o ar. Ao p de uma dessas canoas, viu meninos brincando, em
camisa e descalos, em volta de um homem que estava de barriga para
baixo. Todos elles riam; um ria mais que os outros porque no acabava
de fixar o p do homem no cho. Era um pecurrucho do tres annos;
agarrava-se-lhe  perna e ia-a estendendo at nivelal-a com o cho, mas
o homem fazia um gesto e levava pelo ar o p e o menino.

Rubio deteve-se alguns minutos deante daquillo. O sujeito,
vendo-se objecto de atteno, redobrou o exforo no brinco; perdeu
a naturalidade. Os outros meninos mais edosos detiveram-se a olhar
espantados. Mas Rubio no distinguia nada; via tudo confusamente.
Foi ainda a p durante largo tempo; passou o Sacco do Alferes, passou
a Gamboa, parou deante do cemiterio dos inglezes, com os seus velhos
sepulchros trepados pelo morro, e afinal chegou  Saude. Viu ruas
esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos
morros, beccos, muita casa antiga, algumas do tempo do rei, comidas,
gretadas, estripadas, o caio encardido, e a vida l dentro. E tudo isso
lhe dava uma sensao de nostalgia... Nostalgia do farrapo, da vida
escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o feiticeiro que
andava nelle transformou tudo. Era to bom no ser pobre!




CAPITULO LXXXVII


Rubio chegou ao fim da rua da Saude. Ia  toa com os olhos espraiados
e desattentos. Rente com elle, passou uma mulher, no bonita, nem
feia, singella sem elegancia, antes pobre que remediada, mas fresca de
feies; contaria vinte e cinco annos, e levava pela mo um menino.
Este atrapalhou-se nas pernas do Rubio.

--Que  isso, nhonh? disse a moa, puxando o filho pelo brao.

Rubio inclinara-se ao pequeno, para amparal-o.

--Muito obrigada, desculpe, disse ella sorrindo; e comprimentou-o.

Rubio tirou o chapo, e sorriu tambem. A viso da familia apoderou-se
delle outra vez.--Case-se, e diga que eu o engano!--Parou, olhou para
traz, viu ir a moa, tique-tique, e o menino ao p della, amiudando
as perninhas, para ajustar-se ao passo da me. Depois, foi andando
lentamente, pensando em varias mulheres que podia escolher muito bem,
para executar, a quatro mos, a sonata conjugal, musica sria, regular
e classica. Chegou a pensar na filha do major, que apenas sabia umas
velhas mazurkas. De repente, ouvia a guitarra do peccado, tangida pelos
dedos de Sophia, que o deliciavam, que o estonteavam, a um tempo; e l
se ia toda a castidade do plano anterior. Teimava novamente, forcejava
por trocar as composies; pensava na moa da Saude, modos to bonitos,
creancinha pela mo...




CAPITULO LXXXVIII


A vista do tilbury fez-lhe lembrar o doente da praia Formosa.

--Pobre Freitas! suspirou.

Logo depois, pensou tambem no dinheiro que deixra  me do enfermo, e
achou que fizera bem. Talvez a ideia de haver dado uma ou duas notas
de mais esvoaou por alguns segundos no cerebro do nosso amigo; elle
a sacudiu depressa, no sem se zangar consigo, e, para esquecel-a de
todo, exclamou ainda em voz alta:

--Boa velha! pobre velha!




CAPITULO LXXXIX


Como a ideia tornasse ainda, Rubio atirou-se depressa ao tilbury,
entrou e sentou-se, faltando ao cocheiro, para fugir a si mesmo.

--Dei uma caminhada grande; mas, sim, senhor, isto aqui  bonito,
 curioso; aquellas praias, aquellas ruas,  differente dos outros
bairros. Gsto disto. Heide vir mais vezes.

O cocheiro sorriu para si de um modo to particular, que o nosso Rubio
desconfiou. No atinava com o motivo do riso; talvez lhe houvesse
escapado alguma palavra que no Rio de Janeiro tivesse mo sentido;
mas repetiu-as e no descobriu nada; eram todas usadas e communs.
Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar do principio, meio
subserviente, meio velhaco. Rubio esteve a pique de o interrogar, mas
recuou a tempo. Foi o outro que reatou a conversao.

--Vossa Senhoria est ento muito admirado do bairro? disse elle. Hade
deixar que eu no acredite, sem se zangar, que no  para offender a
Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que aggrave um freguez serio; mas no
creio que esteja admirado do bairro.

--Porque? aventurou Rubio.

O cocheiro meneou a cabea para um e outro lado, e insistiu em no
crer,--no porque o bairro no fosse digno de apreo, mas porque
naturalmente j o conhecia muito, Rubio ratificou a primeira
affirmao; tinha ido alli muitos annos antes, quando esteve da outra
vez no Rio de Janeiro, mas no se lembrava da nada. E o cocheiro
ria; e,  medida que o freguez ia demonstrando, elle ia ficando mais
familiar, fazia negativas com o nariz, com os beios, com a mo.

--J sei disso, concluiu elle. Nem eu sou homem que no veja as cousas.
Vossa Senhoria pensa que no vi a maneira porque olhou para aquella
moa que passou ainda agora? Basta s isso para mostrar que Vossa
Senhoria tem faro e gsta...

Rubio, lisongeado, sorriu um pouco; mas emendou-se logo:

--Que moa?

--Que lhe dizia eu? redarguiu o homem. Vossa Senhoria  fino, e faz
muito bem; mas eu sou pessoa de segredo, e c o carro tem servido para
estas idas e vindas. No ha muitos dias trouxe aqui um bello moo,
muito bem vestido, pessoa fina,--j se sabe, negocio de rabo de saia.

--Mas eu... interrompeu o Rubio.

Mal podia conter-se; a supposio agradava-lhe; o cocheiro cuidou que
elle dissimulava a culpa.

--Olhe, eu bem digo,--continuou elle; tal qual o moo da rua dos
Invalidos. Vossa Senhoria pde ficar descanado; no digo nada; c
estou para outras. Ento, quer que eu acredite que  por gosto que uma
pessoa, que tem carro s ordens, vem andando a p desde a praia Formosa
at aqui? Vossa Senhoria veiu ao logar marcado, a pessoa no veiu...

--Que pessoa? Fui ver um doente, um amigo que est para morrer.

--Tal qual o moo da rua dos Invalidos, repetiu o homem. Esse veiu ver
uma costureira da mulher, como se fosse casado...

--Da rua dos Invalidos? perguntou Rubio, que s agora attentava no
nome da rua.

--No digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da rua dos Invalidos,
bonito, um moo de bigodes e olhos grandes, muito grandes. Oh! eu
tambem se fosse mulher, era capaz de apaixonar-me por elle... Ella no
sei d'onde era, nem diria ainda que soubesse; sei s que era um peixo.

E vendo que o freguez o escutava com os olhos arregalados:

--Oh! Vossa Senhoria no imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a
cara meia coberta por um veu, cousa papafina. A gente, por ser pobre,
no deixa de apreciar o que  bom.

--Mas... como foi? murmurou Rubio.

--Ora, como foi! Elle chegou como Vossa Senhoria, no meu tilbury,
apeou-se e entrou n'uma casa de rotula; disse que ia ver a costureira
da mulher. Como eu no lhe perguntei nada, e elle tinha vindo calado
toda a viagem, muito cheio de si, comprehendi logo a finura. Agora,
podia ser verdade, porque  mesmo uma costureira que mora na casa da
rua da Harmonia...

--Da Harmonia? repetiu Rubio.

--Mo! Vossa Senhoria est arrancando o meu segredo; fallemos de outra
cousa; no digo mais nada.

Rubio olhava attonito para o homem, que de facto se calou por dous ou
tres minutos, mas logo depois continuou:

--Tambem no ha muita cousa mais. O moo entrou; eu fiquei esperando;
meia hora depois vi um vulto de mulher, ao longe, e desconfiei logo
que ia para l. Meu dito, meu feito; ella veiu, veiu, devagar, olhando
disfaradamente para todos os lados; ao passar pela casa, no lhe digo
nada, nem precisou bater; foi como nas magicas, a rotula abriu-se por
si, e ella enfiou por alli dentro. Se eu j conheo isto. Em que  que
Vossa Senhoria quer que a gente ganhe alguma cousa mais? O preo da
tabella mal d para comer;  preciso fazer estes ganchos.




CAPITULO XC


--No, no podia ser ella, reflectiu Rubio, em casa, vestindo-se de
preto.

Desde que chegara, no pensou em outra cousa que no fosse o caso
contado pelo cocheiro do tilbury. Tentou esquecel-o, arranjando papeis,
ou lendo, ou dando estalinhos com os dedos para ver pular o Quincas
Borba; mas a viso perseguia-o. Dizia-lhe a razo que ha muitas
senhoras de boa figura, e nada provava que a da rua da Harmonia fosse
ella; mas o bom effeito era curto. Dahi a pouco, desenhava-se ao longe,
cabisbaixa, vagarosa, uma pessoa, que era nem mais nem menos a propria
Sophia, e andava, e entrava de repente pela porta de uma casa, que
se fechava logo... _Beati quorum tecta sunt peccata._ Assim rangia a
porta em mau e litteral sentido. A viso foi tal, em certa occasio,
que o nosso amigo ficou a olhar para a parede, como se alli estivesse a
rotula da rua Harmonia. De imaginao, fez uma serie de aces:--bateu,
entrou, lanou a mo ao gasnate da costureira, e pediu-lhe a verdade ou
a vida. A pobre mulher, ameaada da morte, confessou tudo; levou-o a
ver a dama, que era outra, no era Sophia. Quando Rubio voltou a si,
sentiu-se vexado.

--No, no podia ser ella.

Vestiu o collete, e foi abotoal-o deante de uma das janellas, que dava
os fundos, no momento em que uma caravana de formigas ia passando pelo
peitoril. Quantas vira passar outr'ora! Mas desta vez, nunca soube
como, pegou de uma toalha, deu dous golpes, atropellou as tristes
formigas, matando uma poro dellas. Talvez alguma lhe pareceu boa
figura e bonita de corpo. Logo depois arrependeu-se do acto; e
realmente, que tinham as formigas com as suas suspeitas? Felizmente,
comeou a cantar uma cigarra, com tal propriedade e significao, que o
nosso amigo parou no quarto boto do collete. _S... fia, fia, fia,
fia, fia, fia... S... fia, fia, fia, fia, fia..._

Oh! precauo sublime e piedosa da natureza, que pe uma cigarra viva
ao p de vinte formigas mortas, para compensal-as. Essa reflexo  do
leitor. Do Rubio no pde ser. Nem era capaz de approximar as cousas,
e concluir dellas,--nem o faria agora que est a chegar ao ultimo boto
do collete, todo ouvidos, todo cigarra... Pobres formigas mortas! Ide
agora ao vosso Homero gaulez, que vos pague a fama; a cigarra  que se
ri, emendando o texto:



Vous marchiez? J'en suis fort aise. Eh bien! mourez maintenant.






CAPITULO XCI


Soou a campainha do jantar; Rubio compoz o rosto, para que os seus
habituados (tinha sempre quatro ou cinco) no percebessem nada.
Achou-os na sala de visitas, conversando,  espera; ergueram-se todos,
foram apertar-lhe a mo, alvoroadamente. Rubio teve aqui um impulso
curioso,--dar-lhes a mo a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de si
proprio.




CAPITULO XCII


De noite, correu  praia do Flamengo. No pde fallar a Maria
Benedicta, que estava em cima, no quarto, com duas moas da visinhana,
amigas della. Sophia veiu recebel-o  porta, e levou-o para o gabinete,
onde duas costureiras faziam os vestidos de luto. O marido acabava de
chegar; ainda no descera.

--Sente-se aqui, disse ella.

Tomou conta delle; estava divina. As palavras sabiam-lhe carinhosas e
graves, entrecortadas de sorrisos amigos e honestos. Fallou-lhe da tia,
da prima, do tempo, dos criados, dos expectaculos, da falta d'agua,
de uma multido de cousas diversas, vulgares ou no, mas que passando
pela bocca da moa, mudavam de natureza e de aspecto. Rubio ouvia
fascinado. Ella, para no estar vadia, ia cosendo uns folhos; e, quando
a conversao fazia pausa, Rubio era pouco para comer-lhe as mos
ageis, que pareciam brincar com a agulha.

--Sabe que estou formando uma commisso de senhoras? perguntou ella.

--No sabia; para que?

--No leu a noticia daquella epidemia n'uma cidade das Alagoas?

Contou-lhe que ficara to penalisada, que resolveu logo organisar uma
commisso de senhoras, para pedir esmolas. A morte da tia interrompeu
os primeiros passos; mas ia continuar, passada a missa do setimo dia. E
perguntou que lhe parecia.

--Parece-me bem. No ha homens na commisso?

--Ha s senhoras. Os homens apenas do dinheiro, concluiu rindo.

Rubio, de cabea, subscreveu logo uma quantia grossa, para obrigar
os que viessem depois. Era tudo verdade. Era tambem verdade que a
commisso ia pr em evidencia a pessoa de Sophia, e dar-lhe um empurro
para cima. As senhoras escolhidas no eram da roda da nossa dama,
e s uma a comprimentava; mas, por intermedio de certa viuva, que
brilhra entre 1840 e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e
o apuro, conseguira que todas entrassem naquella obra de caridade.
Desde alguns dias no pensara em outra cousa. s vezes,  noite, antes
do ch, parecia dormir na cadeira de balano; no dormia, fechava os
olhos para considerar-se a si mesma, no meio das companheiras, pessoas
de qualidade. Comprehende-se que este fosse o assumpto principal da
conversao; mas, Sophia tornava de quando em quando ao presente amigo.
Porque  que elle fazia fugidas to longas, oito, dez, quinze dias,
e mais? Rubio respondeu que por nada, mas to commovido, que uma
das costureiras bateu no p da outra. Dahi em deante, ainda quando o
silencio era largo, cortado apenas pelo som das agulhas no merin, das
tesouradas, dos rasgados, uma e outra no perdiam de vista a pessoa do
nosso amigo, com os olhos fisgados na dona da casa.

Veiu uma visita de pesames,--um homem, director de banco. Foram chamar
logo o Palha, que desceu a recebel-o. Sophia, pediu licena ao Rubio,
por alguns segundos; ia ver Maria Benedicta.




CAPITULO XCIII


Rubio, ficando s com as duas mulheres, entrou a andar de um
lado para outro, abafando os passos, para no incommodar ninguem.
Da sala vinha uma ou outra palavra do Palha: Em todo o caso,
pode crer...--Nem a administrao de um banco  cousa de
brincadeira...--Positivamente... O director fallava pouco, secco e
baixo.

Uma das costureiras dobrou a costura, arrecadou apressadamente
retalhos, tesouras, carreteis de linha, de retroz. Era tarde; ia-se
embora.

--Dondon, espera um bocado que eu vou tambem.

--No, no posso. O senhor faz favor de dizer que horas so?

--So oito e meia, respondeu Rubio.

--Jesus!  muito tarde.

Rubio, para dizer alguma cousa, perguntou-lhe porque no esperava,
como a outra pedia.

--S espero D. Sophia, acudiu Dondon com respeito; mas o senhor sabe
onde  que esta mra? Mra na rua do Passeio. E eu vou dar com os ossos
na rua da Harmonia. Olhe que daqui  rua da Harmonia  um estiro.




CAPITULO XCIV


Sophia desceu logo, achou Rubio transtornado, fugindo com os olhos.
Perguntou-lhe o que era; elle respondeu que nada. Dondon sahiu,
o director do banco despedia-se; Palha agradecia-lhe a fineza,
estimava-lhe a saude. Onde estava o chapo? Achou-o; deu-lhe tambem o
sobretudo; e, parecendo que elle procurava outra cousa, perguntou se
era a bengala.

--No, senhor,  o guarda chuva. Creio que  este;  este. Adeus.

--Ainda uma vez, obrigado, muito obrigado, disse o Palha. Ponha o seu
chapo, est humido, no faa ceremonias. Obrigado, muito obrigado,
concluiu apertando-lhe a mo nas suas, e curvado em angulo.

Voltando ao gabinete, deu com o socio, que teimava em sair. Instou
tambem; disse-lhe que tomasse uma chicara de ch, que lhe passava logo;
Rubio recusou tudo.

--A sua mo est fria, observou o moa ao Rubio, apertando-lh'a;
porque no espera? Agua de melissa  muito bom. Vou buscar.

Rubio deteve-a; no era preciso; conhecia aquelles achaques,
curavam-se com o somno. Palha quiz mandar vir um tilbury; mas o outro
accudiu dizendo que o ar da noite lhe faria bem, e que no Cattete
acharia conduco.




CAPITULO XCV


--Vou agarral-a antes de chegar ao Cattete, disse Rubio subindo pela
rua do Principe.

Calculou que a costureira teria ido por alli. Ao longe, descobriu
alguns vultos de um e outro lado; um delles pareceu-lhe de mulher. Hade
ser ella, pensou; e picou o passo. Entende-se naturalmente que levava
a cabea atordoada: rua da Harmonia, costureira, uma dama, e todas as
rotulas abertas. No admira que, fra de si, e andando rpido, dsse
um encontro em certo homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu
desculpa; alargou o passo, vendo que a mulher tambem andava depressa.




CAPITULO XCVI


E o homem empurrado, apenas sentiu o empurro. Caminhava absorto, mas
contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o
director de banco, o que acabava de fazer a visita de pesames ao Palha.
Sentiu o empurro, e no se zangou; concertou o sobretudo e a alma, e
l foi andando tranquillamente.

Convem dizer, para explicar a indifferena do homem, que elle tivera,
no espao de uma hora commoes oppostas. Fora primeiro  casa de um
ministro de Estado, tratar do requerimento de um irmo. O ministro,
que acabava de jantar, fumava calado e pacifico. O director expoz
atrapalhadamente o negocio, tornando atraz, saltando adeante, ligando e
desligando as cousas. Mal sentado, para no perder a linha do respeito,
trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se,
pedia desculpas. O ministro fez algumas perguntas; elle, animado,
deu respostas longas, extremamente longas, e acabou entregando um
memorial. Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mo ao ministro, este
acompanhou-o at  varanda. Ahi fez o director duas cortezias,--uma em
cheio, antes de descer a escada,--outra em vo, j embaixo, no jardim;
em vez do ministro, viu s a porta de vidro fosco, e na varanda,
pendente do tecto, o lampio de gaz. Enterrou o chapu, e sahiu. Saiu
humilhado, vexado de si mesmo. No era o negocio que o affligia, mas os
comprimentos que fez, as desculpas que pediu, as attitudes subalternas,
um rosario de actos sem proveito. Foi assim que chegou  casa do Palha.

Em dez minutos, tinha a alma espanada, e restituida a si mesma, taes
foram as mesuras do dono da casa, os _apoiados_ de cabea, e um raio
de sorriso perenne, no contando offerecimentos de ch e charutos. O
director fez-se ento severo, superior, frio, poucas palavras; chegou
a arregaar com desdem a venta esquerda, a proposito de uma ideia do
Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do
ministro o gesto lento. Saindo, no foram delle as cortezias, mas do
dono da casa.

Estava outro, quando chegou  rua; dahi o andar socegado e satisfeito,
o espraiar da alma devolvida a si propria, e a indifferena com que
recebeu o embate do Rubio. L se ia a memoria dos seus rapaps; agora
o que elle rumina saborosamente so os rapaps de Christiano Palha.




CAPITULO XCVII


Quando Rubio chegou  esquina do Cattete, a costureira conversava
com um homem, que a esperara, e que lhe dou logo depois o brao; e
viu-os ir ambos, conjugalmente, para o lado da Gloria. Casados? amigos?
Perderam-se na primeira dobra da rua, emquanto Rubio ficou parado,
recordando as palavras do cocheiro, a rotula, o moo de bigodes, a
senhora de bonito corpo, a rua da Harmonia... Rua da Harmonia; ella
dissera rua da Harmonia.

Deitou-se tarde. Parte do tempo esteve  janella, matutando, charuto
acceso, sem acabar do explicar aquelle negocio. Dondon era por fora a
terceira nos amores; devia ser, tinha olhos sonsos, pensava Rubio.

--Amanh vou l, saio mais cedo, vou esperal-a na esquina; dou-lhe cem
mil ris, duzentos, quinhentos; ella hade confessar-me tudo.

Quando canou, olhou para o co; l estava o Cruzeiro... Oh! se ella
houvesse consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida de
ambos. A constellao pareceu confirmar este modo de sentir, fulgurando
extraordinariamente; e Rubio quedou-se a miral-a, a compr mil cousas
lindas e namoradas,--a viver do que podia ter sido. Quando a alma se
fartou de amores nunca desbrochados, accudiu  mente do nosso amigo que
o Cruzeiro no  s uma constellao,  tambem uma ordem honorifica.
D'aqui passou a outra srie de pensamentos. Achou genial a ideia de
fazer do Cruzeiro uma distinco nacional e previlegiada. J tinha
visto a venera ao peito de alguns servidores publicos. Era bella, mas
principalmente rara.

--Tanto melhor! disse elle em voz alta.

Era perto de duas horas quando sahiu da janella; fechou-a e foi
metter-se na cama, dormiu logo; accordou ao som da voz do creado
hespanhol, que lhe trazia um bilhete.




CAPITULO XCVIII


Rubio sentou-se na cama, estremunhado, no reparou na lettra do
sobrescripto; abriu o bilhete, e leu:


Ficamos hontem muito inquietos, depois que o senhor sahiu. Christiano
no vae l agora, porque accordou tarde, e tem de ir fallar ao
inspector da alfandega. Mande-nos dizer se passou melhor. Lembranas de
Maria Benedicta e da

Sua amiga e obrigada

Sophia.


--Diga ao portador que espere.

Dahi a vinte minutos a resposta chegou  mo do moleque que trouxera
o bilhete; foi o proprio Rubio que lh'a entregou, perguntando-lhe
como tinham passado as senhoras. Soube que bem; deu-lhe dez tostes,
recommendando-lhe que, quando precisasse alguma cousa, viesse
procural-o. O rapaz, espantado, arregalou os olhos e prometteu tudo.

--Adeus! disse-lhe benevolamente o Rubio.

E ficou parado, emquanto o portador descia os poucos degrus. Indo este
a meio do jardim, ouviu bradar o Rubio:

--Espera!

Voltou para acudir ao chamado; Rubio j tinha descido os degrus;
foram um ao outro, e pararam, calados. Correram dous minutos, sem que
Rubio abrisse a boca. Afinal, perguntou alguma cousa, se as senhoras
tinham passado bem. Era a mesma pergunta de ha pouco; o criado
confirmou a resposta. Depois, Rubio deixou vagar os olhos pelo jardim.
As rosas e as margaridas estavam lindas e frescas, alguns cravos
desabrochavam, outras flores e folhagens, begonias e trepadeiras, todo
esse pequeno mundo parecia estender os olhos invisiveis ao Rubio, e
bradar-lhe:

--Alma sem vigor, acaba de uma vez com o teu desejo; colhe-nos,
manda-nos...

--Bem, disse finalmente Rubio; lembranas s senhoras. No se esquea
do que lhe disse; precisando de mim, venha c. Guardou a carta?

--Est aqui, sim, senhor.

-- melhor mettel-a no bolso, mas olhe no machuque.

--No machuco, no, senhor, retorquiu o criado accommodando a carta.




CAPITULO XCIX


Sahiu o moleque; Rubio ficou passeando no jardim, com as mos nos
bolsos do chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse
algumas? Era um presente natural, e at de obrigao para pagar uma
cortezia com outra. Fez mal; correu ao porto, mas j o moleque ia
longe; Rubio advertiu que o luto excluia as lembranas alegres, e
ficou tranquillo.

Seno quando, ao recomear o passeio, viu uma carta ao p de um
canteiro. Inclinou-se, apanhou-a, leu o sobrescripto... A lettra era
della, to s della; comparou-a com a do bilhete que recebera; era a
mesma. O nome era o do diabo: Carlos Maria.

--Sim, foi isso, pensou elle ao cabo de alguns minutos, o portador da
minha carta trouxe esta, e deixou-a cair.

E, mirando a carta, de um e outro lado, perguntava-lhe pelo contedo.
Oh! o contedo! Que iria alli escripto dentro daquelle papel homicida?
Perversidade, luxuria, toda a linguagem do mal e da demencia, resumidas
em duas ou tres linhas. Ergueu-a ante dos olhos, para ver se podia ler
alguma cousa; o papel era grosso; no se podia ler nada. Ao lembrar-se
que o portador, dando por falta da carta, voltaria a procural-a,
metteu-a atrapalhadamente no bolso, e correu para dentro.

Em casa, tirou-a e mirou-a outra vez; as mos hesitavam, reproduzindo
o estado da consciencia. Se abrisse a carta, saberia tudo. Lida e
queimada, ninguem mais conheceria o texto, ao passo que elle teria
acabado por uma vez com essa terrivel fascinao que o fazia penar
ao p daquelle abysmo de opprobios... No sou eu que o digo,  elle;
elle  que junta esse e outros nomes ruins, elle  que pra no meio da
sala, com os olhos no tapete, em cuja trama figura um turco indolente,
cachimbo na boca, olhando para o Bosphoro... Devia ser o Bosphoro.

--Infernal carta! rosnou surdamente, repetindo uma phrase ouvida
no theatro, algumas semanas antes; phrase esquecida, que, por uma
associao de ideias, vinha agora exprimir a analogia moral do
expectaculo e do expectador.

Teve impetos de abril-a; era s um gesto, um acto; ninguem o via,
os quadros da parede estavam quietos, indifferentes, o turco do
tapete continuava a fumar e a olhar para o Bosphoro. Contudo, sentia,
escrupulos; a carta, posto que achada no jardim, no lhe pertencia, mas
ao outro. Era como se fosse um embrulho de dinheiro; no devolveria o
dinheiro ao dono? Despeitado, metteu-a outra vez no bolso. Entre mandar
a carta ao destinatario e entregal-a a Sophia, adoptou afinal o segundo
alvitre; tinha a vantagem de poder lr a verdade nas feies da propria
autora.

--Digo-lhe que achei uma carta, assim e assim, pensou Rubio; e antes
de lhe dar a carta, vejo bem na cara della, se fica atterrada ou no.
Talvez empallidea: ento ameao-a, fallo-lhe da rua da Harmonia;
juro-lhe que estou disposto a gastar trezentos, oitocentos, mil contos,
dous mil, trinta mil contos, se tanto fr preciso para estrangular o
infame...




CAPITULO C


Nenhum dos habituados da casa compareceu ao almoo. Rubio esperou
ainda alguns minutos, chegou a mandar um criado ao porto, a ver se
vinha algum. Ninguem; teve de almoar sosinho.

Em geral, no podia supportar as refeies solitarias; estava to
affeito  linguagem dos amigos, s observaes, s graas, no menos
que aos respeitos e consideraes, que comer s era o mesmo que no
comer nada. Agora, porm, era como um Saul que precisasse de algum
David, para expellir o espirito maligno que se mettera nelle. J
queria mal ao portador da carta, porque a deixara cair; ignorar era um
beneficio. E depois, a consciencia vacillava,--ia da entrega da carta 
recusa e  guarda indefinida. Rubio tinha medo de saber alguma cousa;
ora queria, ora no queria lr nada no rosto de Sophia. O desejo de
saber tudo era, em resumo, a esperana de descobrir que no havia nada.

David appareceu emfim, entre o queijo e o caf, na pessoa do Dr.
Camacho, que voltara de Vassouras, na vespera,  noite. Como o David da
Escriptura, trazia um jumento carregado de pes, um cantaro de vinho
e um cabrito. Deixra gravemente enfermo um deputado mineiro, que
estava em Vassouras e preparou a candidatura do Rubio, escrevendo s
influencias de Minas. Foi o que lhe disse aos primeiros golos de caf.

--Candidato, eu?

--Pois ento quem?

Camacho demonstrou que no podia haver melhor. Tinha servios em Minas,
no tinha?

--Alguns.

--Aqui os tem de grande relevancia. Mantendo commigo o orgo das
ideias, tem recebido solidariamente os golpes que me do, alm dos
sacrificios que todos fazemos pelo lado pecuniario. Sobre isto, no me
diga nada. Digo-lhe que heide fazer o que puder. Demais, o senhor  a
melhor soluo da divergencia.

--Divergencia?

--Sim, o Dr. Hermenegildo, de Cattas-Altas, e o coronel Romualdo; dizem
que ambos, em caso de vaga, querem apresentar-se;  dividir os votos.

--Seguramente; mas teimam?

--Creio que no teimaro, quando eu lhes mandar d'aqui confirmao dos
chefes, porque foi uma das cousas que me lanaram  cara,  que eu no
tinha poderes; confessei que, para aquelle caso imprevisto, no; mas
que possuia a confiana dos superiores, os quaes me approvariam. Creia
que est feito. Ento que pensa? Pensa que trabalho aqui sacrificando
tempo e dinheiro, e algum talento, para no valer a um amigo, que
tantas provas tem dado de fidelidade aos principios? Oh! isso no. Ho
de ouvir-me, e adoptar o que lhes proponho.

Rubio, commovido, fez ainda outras perguntas acerca da luta e
da victoria, se eram precisas algumas despezas j, ou carta de
recommendao e pedido, e como  que se havia de ter noticias
frequentes do enfermo, etc. Camacho respondia a tudo; mas
recommendava-lhe cautella. Em politica, disse elle, uma cousa de nada
desvia o curso da campanha e d a victoria ao adversario. Comtudo,
ainda que no sahisse vencedor, tinha Rubio a vantagem de ficar com o
seu nome suffragado; e o precedente contava-se por um servio.

--Firmeza e paciencia, concluiu.

E logo em seguida:

--Eu proprio que sou, se no um exemplo de paciencia e firmeza? A minha
provincia est entregue a um grupo de bandidos; no ha outro nome
para a gente dos Pinheiros; e alem disso (digo-lhe isto com dor e em
particular) tenho amigos que me intrigam, uns ganhadores, que querem
ver se o partido me repelle e se me tomam o logar... No fallemos
disso! Ah! meu caro Rubio, isto de politica pode ser comparado 
paixo de Nosso Senhor Jesus Christo; no falta nada, nem o discipulo
que nega, nem o discipulo que vende. Coroa de espinhos, bofetadas,
madeiro, e afinal morre-se na cruz das ideias, pregado peles cravos da
inveja, da calumnia e da ingratido...

Esta phrase, cahida no calor da conversa, pareceu-lhe digna de um
artigo; reteve-a de memoria; antes de dormir, escreveu-a em uma tira de
papel. Mas, na occasio da conversa, emquanto a repetia consigo para
fixal-a, Rubio dizia que se animasse, que elle era homem para grandes
campanhas. E no fugisse de caretas.

--De caretas? Seguramente que no. Nem de papes verdadeiros, se os ha.
C os espero! Que se acautellem no dia em que subirmos! Ho de pagar
tudo. Oua-me este conselho; em politica, no se perdoa nem se esquece
nada. Quem fez uma, paga; creia que a vingana  um prazer, continuou
sorrindo; ha muita delicia... Emfim, contados os males e os bens da
politica, os bens ainda so superiores. Ha ingratos, mas os ingratos
demittem-se, prendem-se, perseguem-se...

Rubio ouvia subjugado. Camacho impunha; faiscavam-lhe os olhos. Os
anathemas brotavam-lhe como da boca de Isaias; as palmas do triumpho
verdejavam-lhe nas mos. Cada gesto parecia um principio. Quando
fallava com os braos abertos, ferindo o ar, era como se desdobrasse
um programma inteiro. Ia-se embriagando de esperanas, e tinha o vinho
alegre. De uma vez, parou deante de Rubio:

--Vamos l, deputado; ensaie um discurso, pedindo o encerramento da
discusso: _Sr. presidente..._ Vamos, diga commigo: _Sr. presidente,
peo a V. Ex..._

Rubio interrompeu-o, erguendo-se; teve uma especie de vertigem. Via-se
na camara, entrando para prestar juramento, todos os deputados de p;
e teve um calefrio. O passo era difficil. Contudo, atravessou a sala,
subiu  mesa do presidencia, prestou o juramento de estylo... Talvez a
voz lhe fraqueasse na occasio...




CAPITULO CI


Foi nesse estado que o veiu achar a noticia da morte do Freitas. Chorou
uma lagryma s escondidas; tomou a si custear as despezas do enterro,
e acompanhou o defuncto, na tarde seguinte, ao cemiterio. A velha me
do finado, quando o viu entrar na sala, quiz ajoelhar-se aos ps delle;
Rubio abraou-a a tempo de impedir-lhe o gesto. Esse acto do nosso
amigo fez grande impresso nos convidados. Um delles veiu apertar-lhe
a mo; depois a um canto, baixinho, contou-lhe a injustia da demisso
que recebera, dias antes; demisso acintosa, por causa de intrigas...

--Imagine V. Ex. que aquillo  (com perdo da palavra) um covil de
patifes...

Chegou a hora de sahir o enterro; as despedidas da me foram dolorosas;
beijos, soluos, exclamaes, tudo de mistura, e lancinante. As
mulheres no conseguiram arrancal-a dalli; foram precisos dous homens e
o emprego da fora; ella gritava e teimava por tornar ao cadaver: meu
filho! meu pobre filho!

--Um escandalo! insistia o demittido. O proprio ministro dizem que no
gostou do acto; mas V. Ex. sabe, para no desmoralisar o director...

--Pan... pan... pan... soavam os martellos surdamente, pregando o
caixo.

Rubio accedeu ao pedido que lhe faziam de pegar em uma das argolas, e
deixou o demittido. Fra, alguma gente parada; os visinhos s janellas,
debruavam-se uns sobre os outros, com os olhos cheios daquella
curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, havia o _coup_
do Rubio, que se destacava das caleas velhas. J se fallava muito
daquelle amigo do finado, e a presena confirmou a noticia. O defuncto
era agora apreciado com certa considerao.

No cemiterio, no se contentou Rubio com deitar a p de terra, acto
em que foi primeiro, por solicitao de todos; esperou que os coveiros
enchessem a cova com as suas grandes ps do officio. Tinha os olhos
humidos; acabou, saiu, ladeado pelos outros, e,  porta, com uma s
chapelada para a direita e para a esquerda, saudou a todas as cabeas
descobertas e curvas. Ao entrar no _coup_, ainda ouviu estas palavras,
a meia voz:

--Parece que  senador ou desembargador, ou cousa assim...




CAPITULO CII


Era noite entrada. Rubio vinha por alli abaixo, recordando o pobre
diabo que enterrra, quando, na rua de S. Christovo, cruzou com outro
_coup_, que levava duas ordenanas atrs. Era um ministro que ia para
o despacho imperial. Rubio pz a cabea de fra, recolheu-a e ficou
a ouvir os cavallos das ordenanas, to eguaesinhos, to distinctos,
apezar do estrepito dos outros animaes. Era tal a tenso do espirito do
nosso amigo, que ainda os ouvia, quando j a distancia no permittia
audiencia. Catrapuz... catrapuz... catrapuz...




CAPITULO CIII


Ao setimo dia da morte de D. Maria Augusta, rezou-se a missa de uso, em
S. Francisco de Paula; Rubio l foi, l viu Carlos Maria. Tanto bastou
para precipitar a devoluo da carta; tres dias depois, metteu-a no
bolso e correu ao Flamengo. Eram duas horas da tarde. Maria Benedicta
fra visitar as amigas da visinhana, que a tinham acompanhado nos
primeiros dias de afflico; Sophia estava s, vestida para sair.

--Mas, no importa, disse ella convidando-o a sentar-se; fico ou saio
mais tarde.

Rubio retorquiu que a demora era curta; vinha dar-lhe um papel.

--Em todo caso, sente-se; tambem se pde dar um papel sentado.

Estava to bonita, que elle hesitou em dizer-lhe as palavras duras
que trazia de cr. O luto ia-lhe muito bem, e o vestido parecia uma
luva. Sentada, via-se-lhe metade do p, sapato raso, meia de sda,
cousas todas que pediam misericordia e perdo. Quanto  espada daquella
bainha,--assim chama  alma um velho autor,--parecia no ter gume nem
campanhas; era uma ingenua faca de marfim. Rubio esteve a pique de
fraquear; a primeira palavra arrastou as outras.

--Que papel? perguntou Sophia.

--Um papel, que supponho grave, respondeu elle contendo-se;--no se
recorda ou no sabe que perdeu uma carta?

--No.

--Costuma escrever cartas?

--Tenho escripto algumas; mas, no me lembra se grave. Deixe ver.

Rubio tinha os olhos desvairados. No disse nem fez nada. Levantou-se
para sair, no saiu. Depois de alguns instantes de silencio e
inquietao, fallou sem raiva:

--No  segredo para a senhora que lhe quero bem. A senhora sabe disto,
e no me despede, nem me acceita, anima-me com os seus bonitos modos.
No me esqueci ainda de Santa Theresa, nem da nossa viagem no trem de
ferro, quando vinhamos os dous, com seu marido no meio. Lembra-se?
Foi a minha desgraa aquella viagem; desde aquelle dia a senhora me
prendeu. A senhora  m, tem genio de cobra; que mal lhe fiz eu? V que
no goste de mim; mas, podia desenganar-me logo...

--Cale-se, vem gente, interrompeu Sophia erguendo-se tambem e olhando
para o lado da porta.

No vinha ninguem; entretanto, podiam ouvil-o, por que a voz do
Rubio ia aquecendo e crescendo. Cresceu ainda mais. J no pleiteava
esperanas; abria e despejava a alma.

--No me importa que ouam, bradou elle; podem ouvir-me; agora digo
tudo, a senhora bota-me para fra e tudo acaba. No, no se pde fazer
soffrer assim um homem _como eu._

--Cale-se, pelo amor de Deus!

--Qual Deus! Oua-me o resto, porque eu estou disposto a no guardar
nada...

Desatinada, receiando deveras que algum criado ouvisse, Sophia levantou
a mo e tapou-lhe a boca. Ao contacto daquella epiderme querida, Rubio
perdeu a voz. Sophia retirou a mo, e dispoz-se a deixar a sala;
mas, chegando  porta, parou. Rubio caminhara at  janella, para
convalecer da exploso.




CAPITULO CIV


Sophia, depois de estar alguns segundos  escuta, tornou  sala, e
foi sentar-se com grande rumor de saias, na ottomana de setim azul,
compra de poucos dias. Rubio voltou-se, e deu com ella, abanando
reprehensivamente a cabea. Antes que elle falasse, Sophia poz o dedo
na boca, pedindo-lhe silencio; depois chamou-o com a mo; Rubio
obedeceu.

--Sente-se naquella cadeira, disse ella; e continuou, depois de o ver
sentado: Tenho razo para zangar-me com o senhor; no o fao, porque
sei que  bom, e estou que  sincero; arrependa-se do que me disse, e
tudo lhe ser perdoado.

Acabando de fallar, Sophia bateu com o leque no lado direito do
vestido para o abaixar e compr; depois levantou os braos sacudindo
as pulseiras do vidro preto; finalmente, pousou os braos sobre
os joelhos, e, abrindo e fechando as varetas do leque, aguardou
a resposta. Ao contrario do que esperava, Rubio abanou a cabea
negativamente.

--No tenho de que me arrepender, disse elle; e prefiro que me no
perdoe. A senhora ficar c dentro, quer queira, quer no; podia
mentir, mas que  que rende a mentira? A senhora  que no tem sido
sincera commigo, porque me tem enganado...

Sophia retezou o busto.

--...No se zangue; no desejo offendel-a; mas, deixe-me dizer que a
senhora  que me tem enganado, e muito, e sem compaixo. Que ame a seu
marido, v; perdoava-lhe; mas que...

--Mas que? repetiu ella espantada.

Rubio metteu a mo no bolso, tirou a carta, e entregou-lh'a. Sophia,
ao ler o nome de Carlos Maria, ficou sem pinga de sangue; elle viu-lhe
a pallidez. Dominando-se logo, perguntou o que era, que queria dizer
essa carta.

--A lettra  sua.

-- minha. Mas que diria eu aqui dentro? continuou tranquilla. Quem lhe
deu isto?

Rubio quiz referir o achado; mas entendeu ter alcanado o bastante;
cortejou-a para sair.

--Perdo, disse ella, abra o senhor mesmo a carta.

--No tenho mais nada que fazer aqui.

--Fique, abra a carta, aqui a tem; leia tudo,--dizia a moa pegando-lhe
na manga; mas, Rubio puxou violentamente o brao, foi buscar o chapo,
e sahiu. Sophia, com medo dos criados, deixou-se ficar na sala.




CAPITULO CV


To nervosa esteve durante alguns instantes, que no cuidou da carta.
Afinal, virou-a de um lado para outro, sem adivinhar o contedo; mas,
pouco a pouco, j senhora de si, lembrou-se que devia ser a circular da
commisso das Alagoas. Rasgou a sobrecarta: era a circular. Como  que
semelhante papel fora ter s mos delle? E d'onde lhe vinha a suspeita?
De si mesmo ou de fra? Correria algum boato? Foi ter com o criado que
levara a circular a Carlos Maria, e perguntou-lhe se a entregra. Soube
que no. Quando o criado chegou  rua dos Invalidos, no achou o papel
no bolso, e, com medo, no dissera nada  ama.

Sophia tornou  sala, disposta a no sair. Recolheu a carta e a
sobrecarta, para mostral-as a Rubio, afim de que elle visse bem que
no era nada; mas, provavelmente, supporia a substituio do papel.
Maldito homem! murmurou. E comeou a andar  toa.

Uma revoada de memorias entrou na alma de Sophia. A imagem de
Carlos Maria veiu postar-se ante ella, com os seus grandes olhos de
espectro querido e aborrecido. Sophia quiz arredal-o, mas no pde;
elle acompanhava-a de um lado para outro, sem perder o tom esbelto
e masculo, nem o ar de riso sublime. s vezes, via-o inclinar-se,
articulando as mesmas palavras de certa noite de baile, que lhe
custaram a ella horas de insomnia, dias de esperana, at que se
perderam na irrealidade. Nunca Sophia comprehendera o mallogro daquella
aventura. O homem parecia querer-lhe deveras, e ninguem o obrigava a
declaral-o to atrevidamente, nem a passar-lhe pelas janellas, alta
noite, segundo lhe ouviu. Recordou ainda outros encontros, palavras
furtadas, olhos calidos e compridos, e no chegava a entender que toda
essa paixo acabasse em nada. Provavelmente, no haveria nenhuma;
puro galanteio;--quando muito, um modo de apurar as suas foras
attractivas... Natureza de pelintra, de cynico, de futil.

Que lhe importava o mysterio? Era um sujeito futil. Cresceu-lhe o nojo
e o desdem. Chegou a rir-se delle; podia encaral-o sem remorsos. E
foi andando por alli fra, vingando-se do bobo,--chamava-lhe bobo,--e
fitando no ar os olhos de immaculada. Em verdade, era occupar-se de
mais com tal assumpto; comeou a maldizer do Rubio, que evocra
semelhante homem do esquecimento, por causa daquella triste circular...
Depois, tornou s primeiras lembranas, s palavras de Carlos Maria.
Se todos a achavam bella, porque no a acharia elle, que lh'o
disse? Talvez o tivesse a seus ps, se no se houvesse mostrado to
agradecida, to rasteira...

De repente, a criada, que estava na outra sala, ouvindo rumor de alguma
cousa que se quebrava, correu  de visitas, e viu a ama, sozinha, de p.

--No  nada, disse-lhe esta.

--Pareceu-me que ouvi...

Foi aquelle boneco que cahiu; apanhe os cacos.

--O chinez! exclamou a creada.

De feito, era um mandarim de porcellana, pobre diabo que estava muito
quieto, em cima de uma estante. Sophia achou-se com elle entre os
dedos, sem saber como, nem desde quando; ao cuidar na sua voluntaria
humilhao, teve um impulso--parece que raiva de si mesma,--e deu com o
boneco em terra. Pobre mandarim! no lhe valeu ser de porcellana; no
lhe valeu siquer ser dado pelo Palha.

--Mas, minha ama, como  que o chinez...

--V-se embora!

Sophia recordou todo o seu proceder diante de Carlos Maria, as
acquiescencias faceis, os perdes antecipados, os olhos com que o
buscava, os apertos de mo to fortes... Era isso; tinha-se-lhe
lanado aos ps. Depois, o sentimento foi mudando. Apezar de tudo, era
natural que elle gostasse d'ella, e a conformidade moral de ambos no
traria o abandono de um. Talvez a culpa fosse outra. Excavou razes
possiveis, algum gesto duro e frio, alguma falta de atteno para com
elle; lembrou-se que, uma vez, por medo de o receber sosinha, mandou
dizer que no estava em casa. Sim, podia ser isso. Carlos Maria era
orgulhoso; a menor desfeita pungia-o. Soube que era mentira... Essa era
a culpa.




CAPITULO CVI


...ou, mais propriamente, capitulo em que o leitor, desorientado,
no pde combinar as tristezas de Sophia com a anecdota do cocheiro.
E pergunta confuso:--Ento a entrevista da rua da Harmonia, Sophia,
Carlos Maria, esse chocalho de rimas sonoras e delinquentes  tudo
calumnia? Calumnia do leitor e do Rubio, no do pobre cocheiro, que
no proferiu nomes, no chegou sequer a contar uma anecdota verdadeira.
 o que terias visto, se lesses com pausa. Sim, desgraado, adverte
bem que era inverosimil que um homem, indo a uma aventura daquellas,
fizesse parar o tilbury deante da casa pactuada. Seria pr uma
testemunha ao crime. Ha entre o ceu e a terra muitas mais ruas do que
sonha a tua philosophia,--ruas transversaes, onde o tilbury podia ficar
esperando.

--Bem; o cocheiro no soube compr. Mas que interesse tinha em inventar
a anecdota?

Conduzira Rubio a uma casa, onde o nosso amigo, ficou quasi duas
horas, sem o despedir; viu-o sair, entrar no tilbury, descer logo e
vir a p, ordenando-lhe que o acompanhasse. Concluiu que era optimo
freguez; mas, ainda assim no se lembrou de inventar nada. Passou,
porm, uma senhora com um menino,--a da rua da Saude,--e Rubio
quedou-se a olhar para ella com vistas de amor e melancolia. Aqui  que
o cocheiro o teve por lascivo, alm de prodigo, e encommendou-lhe as
suas prendas. Se fallou em rua da Harmonia foi por suggesto do bairro
d'onde vinham; e, se disse que trouxera um moo da rua dos Invalidos,
 que naturalmente transportara de l algum, na vespera,--talvez o
proprio Carlos Maria,--ou porque l morasse,--ou porque l tivesse a
cocheira,--qualquer outra circumstancia que lhe ajudou a inveno, como
as reminiscencias do dia servem de materia aos sonhos da noite. Nem
todos os cocheiros so imaginativos. J  muito concertar farrapos da
realidade.

Resta s a coincidencia de morar na rua da Harmonia uma das costureiras
do luto. Aqui, sim, parece um proposito do acaso. Mas a culpa  da
costureira; no lhe faltaria casa mais para o centro da cidade, se
quizesse deixar a agulha e o marido. Ao contrario disso, ama-os sobre
todas as casas deste mundo. No era razo, para que eu cortasse o
episodio, ou interrompesse o livro.




CAPITULO CVII


Das reflexes de Sophia  que no ha que explicar. Todas tinham o p na
verdade. Era certo e certissimo que Carlos Maria no correspondera s
primeiras esperanas,--nem s segundas e terceiras,--porque as houve
em quadras diversas, ainda que menos verdes e bastas. Quanto  causa
disso, vimos que Sophia,  mingua de uma, attribuiu-lhe successivamente
tres. No chegou a pensar em alguns amores que elle porventura
trouxesse e lhe tornassem insipidos quaesquer outros. Seria uma quarta
causa, e talvez a verdadeira.




CAPITULO CVIII


Durante alguns mezes, Rubio deixou de ir ao Flamengo. No foi
resoluo facil de cumprir. Custou-lhe muita hesitao, muito
arrependimento; mais de uma vez chegou a sair com o proposito de
visitar Sophia e pedir-lhe perdo. De que? No sabia; mas queria ser
perdoado. Em todas as tentativas desse genero, a ideia de Carlos Maria
fazia-o recuar. De certo ponto em diante, foi o proprio lapso de tempo
que o tolheu; era exquisito apparecer l um dia, como um triste filho
prodigo, unicamente para supplicar o calor dos bellos olhos da dona da
casa. Ia ao armazem, fallar ao Palha; este, ao fim de algumas semanas,
reprochou-lhe a ausencia; e, passados dous mezes, perguntou-lhe se era
formal proposito.

--Tenho tido muito que fazer, acudiu Rubio; estas cousas politicas
tomam todo o tempo a uma pessoa. Vou l domingo.

Sophia apparelhou-se para recebel-o. Espiaria a occasio de lhe dizer
o que era a carta, jurando por todas as cousas santas, para que elle
visse que a verdade no era contra ella. Planos perdidos; Rubio no
compareceu. Veiu outro domingo, vieram outros domingos... No obstante,
Sophia remetteu-lhe um dia a subscripo para as Alagoas; elle assignou
cinco contos de ris.

-- muito, disse-lhe o socio, no armazem, quando elle lhe foi levar o
papel.

--No dou menos.

--Mas olhe que pde dar muito, sem dar tanto. Parece-lhe ento que
esta subscripo  feita entre meia duzia de pessoas? Anda nas mos de
muitas senhoras e de alguns homens; est nos mostradores das lojas, na
praa do Commercio, etc. Assigne menos.

--Como, se est escripto?

--Deste 5 pde-se fazer muito bem um 3. Tres contos j  uma boa
assignatura. Ha maiores, mas so de pessoas obrigadas pelo cargo ou
pelos milhes; o Bomfim, por exemplo, assignou dez contos.

Rubio no pode reter um risinho ironico; abanou a cabea, e no sahiu
dos cinco contos. S emendaria, escrevendo o algarismo 1 atraz,--quinze
contos,--mais que o Bomfim.

--Seguramente, que pode dar cinco, dez e quinze contos, tornou o Palha;
mas o seu capital precisa cautellas, voce est entrando muito por
elle... Repare que j lhe rende menos.

Palha era agora o depositario dos titulos de Rubio (aces, apolices,
escripturas) que estavam fechados na burra do armazem. Cobrava-lhe
os juros, os dividendos e os alugueis de tres casas, que lhe fizera
comprar algum tempo antes, a vil preo, e que lhe rendiam muito,
Guardava tambem uma poro de moedas de ouro, porque Rubio tinha a
mana de as collecionar, para a contemplao. Conhecia mais que o dono,
a somma total dos bens, e assistia aos rombos feitos na caravella, sem
temporal, mar leite. Tres contos bastavam, insistiu elle; e provou
a sinceridade pelo facto de ser justamente marido da fundadora da
commisso. Mas o Rubio no desistiu dos cinco; aproveitou a occasio
para pedir-lhe mais dez; precisava de dez contos. Palha coou a cabea.

--Voc desculpe, disse-lhe ao cabo de alguns instantes, mas para que 
que os quer? No est certo que vae perdel-os, ou arriscal-os, ao menos?

Rubio riu da objeco.

--Se eu estivesse certo de que os perdia, no vinha buscal-os. Pde ser
arriscado, mas no  sem arriscar que se ganha. Preciso delles para um
negocio,--quero dizer, tres negocios. Dous so emprestimos seguros, e
no passam de um conto e quinhentos. Os oito contos e quinhentos so
para uma empreza. Por que abana a cabea, seno sabe de que se trata?

--Por isso mesmo. Se voc me consultasse, se me dissesse que empreza e
que pessoas eram, eu veria logo se podia arriscar-se; e receio muito
que nada preste, a no ser o dinheiro que se perder. Lembra-se das
aces daquella Companhia Unio dos Capitaes Honestos? Disse-lhe logo
quo este titulo era emphatico, um modo de embair a gente, e dar emprego
a sujeitos necessitados. Voc no quiz crr, e caiu. As aces esto
por baixo, e j este semestre no ha dividendos.

--Pois venda justamente essas aces, ainda a resto de barato.
Contento-me com o solido. Ou ento d-me da caixa da nossa casa...
Passo logo por aqui, se voc quizer,--ou mande-me l a Botafogo.
Caucione umas apolices, se lhe parecer melhor...

--No, no fao nada; no dou os dez contos, atalhou fogosamente o
Palha. Basta de ceder a tudo; o meu dever  resistir. Emprestimos
seguros? Que emprestimos so esses? No v que lhe levam o dinheiro,
e no lhe pagam as dividas? Alguns sujeitos vo ao ponto de jantar
diariamente com o proprio credor, como um tal Carneiro que l vi
algumas vezes. Dos outros no sei se lhe devem tambem alguma cousa; 
possivel que sim. Vejo que  demais. Fallo-lhe por ser amigo; no dir
algum dia que no foi avisado em tempo. De que hade viver, se estragar
o que possue? A nossa casa pde cair.

--No cae, acudiu o Rubio.

--Pde cair; tudo pde cair. Eu vi cair o banqueiro Souto, em 1864.

Rubio remoia os conselhos do socio, no por serem bons nem provaveis,
mas por achar nelles uma inteno maviosa, revestida de frma cra.
Agradeceu-os de corao, mas rejeitou-os; precisava dos dez contos.
Podia ter mais tento, dalli em deante, e affirmava-lhe que seria menos
facil. De resto, possuia de sobra, tinha dinheiro para dar e vender...

--Para vender s, emendou o Palha.

E, depois de um instante:

--Bem, agora  tarde, amanh levo-lhe os dez contos. E porque os no
hade ir buscar l  nossa casa ao Flamengo? Que mal lhe fizemos ns? Ou
que lhe fizeram ellas? porque a zanga parece ser com ellas, visto que o
vejo aqui, algumas vezes. Que foi, para castigal-as? concluiu rindo.

Rubio desviou os olhos do socio, cuja falla lhe parecia afiada de
ironia,--como de pessoa que soubesse tudo, e risse delle. Quando lh'os
tornou, viu o mesmo semblante interrogativo, e respondeu:

--No me fizeram nada; l irei amanha  noite.

--V jantar.

--Jantar, no posso, tenho uns amigos em casa; vou de noite.--E
querendo rir: No as castigue, que no me fizeram nada.

--Alguem o possue, reflictiu Palha logo que elle saiu; alguem, por
inveja as nossas relaes... Tambem pde ser que Sophia lhe fizesse
alguma para arredal-o de casa...

Rubio assomou outra vez  porta; no tivera tempo de chegar  esquina.
Voltava para dizer que, precisando do dinheiro cedo, viria buscal-o ao
armazem; de noite iria ento visital-os. Precisava do dinheiro at s
duas horas da tarde.




CAPITULO CIX


Nessa noite, Rubio sonhou com Sophia e Maria Benedicta. Viu-as
n'um grande terreiro, apenas vestidas de saia, costas inteiramente
despidas; o marido de Sophia, armado de um azorrague de cinco pontas
de couro, rematando em bicos de ferro, castigava-as despiedadamente.
Ellas gritavam, pediam misericordia, torciam-se, alagadas em sangue,
as carnes cahiam-lhes aos bocados. Agora, porque razo Sophia era a
imperatriz Eugenia, e Maria Benedicta uma aia sua,  o que no sei
dizer com exactido. So sonhos, sonhos, Penseroso! exclamava um
personagem do nosso Alvares de Azevedo. Mas eu prefiro a reflexo do
velho Polonius, acabando de ouvir uma falla tresloucada de Hamlet:
Desvario embora, l tem seu methodo. Tambem ha methodo aqui, nessa
mistura de Sophia e Eugenia; e ainda ha methodo no que se lhe seguiu, e
que parece mais extravagante.

Sim, Rubio, indignado, mandou logo cessar o castigo, enforcar o
Palha e recolher as victimas. Uma dellas, Sophia, acceitou um lugar
na carruagem aberta que esperava pelo Rubio, e l foram a galope,
ella garrida e s, elle glorioso e dominador. Os cavallos, que eram
dous  sahida, eram dahi a pouco, oito, quatro bellas parelhas. Ruas e
janellas cheias de gente, flores cahindo em cima delles, acclamaes...
Rubio sentiu que era o imperador Luiz Napoleo; o cachorro ia no carro
aos ps de Sophia...

Tudo acabou sem fim, nem fracasso, Rubio abriu os olhos; talvez alguma
pulga o mordeu; qualquer cousa: Sonhos, sonhos, Penseroso! Ainda
agora prefiro o dito de Polonius: Desvario embora, l tem seu methodo!




CAPITULO CX


Rubio fez os dous emprestimos e o negocio. O negocio era uma Empreza
Melhoradora dos Embarques e Desembarques no porto do Rio de Janeiro. Um
dos emprestimos tinha por fim pagar certa conta atrazada de papel da
_Atalaia_, divida urgente. A folha estava ameaada de parar.

--Perfeitamente, disse Camacho, quando Rubio lhe foi levar o dinheiro
 casa. Muito obrigado. Veja voc como, por uma miseria desta ordem,
podia emmudecer o nosso orgo. So os espinhos naturaes da carreira. O
povo no est educado; no reconhece, no apoia os que trabalham por
elle, os que descem  arena todos os dias em defeza das liberdades
constitutionaes. Imagine, que, de momento, no dispunhamos deste
dinheiro, tudo estava perdido, cada um ia para os seus negocios, e as
ss ideias ficavam sem o seu leal expositor.

--Nunca! protestou Rubio.

--Tem razo; redobraremos de esforos. A _Atalaia_ ser como o Antheu
da fabula. De cada vez que cair, erguer-se-ha com mais vida.

Dito isto, Camacho mirou o mao de notas. Um conto e duzentos, no?
perguntou; e metteu-o no bolso do fraque. Continuou a dizer que estavam
seguros agora, a folha ia de vento em popa. Tinha algumas reformas
materiaes em vista; foi ainda mais longe.

--Precisamos desenvolver o programma, adeantar as ideias, dar um
empurro aos correligionarios, atacal-os, se fr preciso...

--Como?

--Ora, como? atacando. Atacar  um modo de dizer; corrigir.  evidente
que o orgo do partido est afrouxando. Chamo orgo do partido, porque
a nossa folha  orgo das ideias do partido; comprehende a differena?

--Comprehendo.

--Vai afrouxando, continuou Camacho apertando um charuto entre
os dedos, antes de o accender; e ns precisamos de accentuar os
principios, mas francamente, nobremente, dizendo a verdade. Creia
que os chefes precisam ouvil-a a seus proprios amigos e adherentes.
Nunca rejeitei a conciliao dos partidos, pugnei por ella, e a ideia
fundamental da _Atalaia_ foi a principio um terreno neutro. Mas
conciliao no  jogo de empulha. Para lhe dar um exemplo, na minha
provincia a gente dos Pinheiros tem o apoio do governo, unicamente para
me deslocar; e os meus correligionarios da Corte, em vez de a combater,
visto que o governo lhe d fora, que pensa que fazem? Do tambem apoio
aos Pinheiros.

--Tm ao menos alguma influencia os Pinheiros?

--Nenhuma, respondeu Camacho fechando violentamente a caixa de
phosphoros que ia a abrir. Ha um ro de policia entre elles, e ha
outro que at foi aprendiz de barbeiro. Matriculou-se,  verdade, na
Faculdade do Recife, creio que em 1855, por morte do padrinho que lhe
deixou alguma cousa, mas tal  o escandalo da carreira desse homem
que, logo depois de receber o diploma de bacharel, entrou na assembla
provincial.  uma besta;  to bacharel como eu sou papa.

Entenderam-se sobre as modificaes politicas da folha. Camacho lembrou
ao Rubio que a candidatura deste naufragara por causa justamente da
opposio dos chefes. De alguns, emendou logo. Rubio concordou; assim
lh'o tinha dito o amigo em tempo, e a lembrana avivou o resentimento
do desastre. Podia, devia estar na camara. Os taes  que o no
quizeram; mas haviam de ver, pensava Rubio tinham de amargar o mal
feito. Deputado, senador ministro, vel-o-hiam tudo, com olhos tortos
e espantados. A cabea do nosso amigo, tanto que o outro lhe pz a
faisca, foi ardendo de si mesma, no por odio, nem inveja, mas de
ambio ingenua, de cordial certeza, viso antecipada e deslumbrante
das cousas. Camacho estimou achal-o de accordo.

--A nossa gente  de egual opinio, disse elle. Creio que no faz mal
uma pequena ameaa aos amigos.

Nessa mesma noite, leu-lhe o artigo em que advertia o partido da
conveniencia de no ceder s perfidias do poder, apoiando em algumas
provincias certa gente corrupta e sem valor. Eis aqui a concluso:


Os partidos devem ser unidos e disciplinados. Ha quem pretenda
(_mirabile dictu!_) que essa disciplina e unio no podem ir ao ponto
de rejeitar os beneficios que caem das mos dos adversarios. _Risum
teneatis!_ Quem pde proferir tal blasphemia sem que lhe tremam as
carnes? Mas supponhamos que assim seja, que a opposio possa, uma ou
outra vez, fechar os olhos aos desmandos do governo,  postergao das
leis, aos excessos da autoridade,  perversidade e aos sophismas. _Quid
inde?_ Taes casos,--alis, raros,--s podiam ser admittidos quando
favorecessem os elementos bons, no os mos. Cada partido tem os seus
discolos e sycophantas.  interesse dos nossos adversarios ver-nos
afrouxar, a troco da animao dada  parte corrupta do partido. Esta 
a verdade; negal-o  provocar-nos  guerra intestina, isto  (_horresco
referens!_),  dilacerao da alma nacional... Mas, no, as ideias no
morrem; ellas so o labaro da justia. Os vendilhes sero expulsos do
templo; ficaro os crentes e os puros, os que pem acima dos interesses
mesquinhos, locaes e passageiros a victoria indefectivel dos principios
Tudo que no for isto ter-nos-ha contra si. _Alea jacta est._




CAPITULO CXI


Rubio applaudiu o artigo; achava-o excellente. Talvez pouco energico.
_Vendilhes_, por exemplo, era bem dito; mas ficava melhor _vis
vendilhes._

--Vis vendilhes? Ha s um inconveniente, ponderou Camacho.  a
repetio dos _vv._ Vis ven... Vis vendilhes; no sente que o sem fica
desagradavel?

--Mas l em cima ha _vs vis..._

--_Vae victis._ Mas  uma phrase latina. Podemos arranjar outra cousa:
vis mercadores.

--Vis mercadores  bom.

--Comtudo, _mercadores_ no tem a fora de _vendilhes._

--Ento, porque no deixa vendilhes? Vis vendilhes  forte; ninguem
repara no som. Olhe, eu nunca dou por isso. Gsto de energia. Vis
vendilhes.

--Vis vendilhes, vis vendilhes, repetiu Camacho,  meia voz. J
estou achando melhor. Vis vendilhes. Acceito, concluiu emendando. E
releu: Os vis vendilhes sero expulsos do templo; ficaro os crentes
e os puros, os que pem acima dos interesses mesquinhos, locaes e
passageiros a victoria indefectivel dos principios. Tudo que no fr
isto ter-nos-ha contra si. _Alea jacta est._

--Muito bem! disse Rubio, sentindo-se algum tanto autor do artigo.

--Parece-lhe bem? perguntou Camacho, sorrindo. Ha pessoas que ainda
me acham no estylo a frescura do meu tempo de estudante. No sei, no
digo nada; a disposio, sim,  a mesma. Hei de castigal-os; havemos de
castigal-os.




CAPITULO CXII



Aqui  que eu quizera ter dado a este livro o methodo de tantos
outros,--velhos todos,--em que a materia do capitulo era posta no
summario: De como aconteceu isto assim, e, mais assim. Ahi est
Bernardim Ribeiro; ahi esto outros livros gloriosos. Das linguas
extranhas, sem querer subir a Cervantes nem a Rabelais, bastavam-me
Fielding e Smollet, muitos capitulos dos quaes s pelo summario esto
lidos. Pegai em _Tom Jones_, livro IV, cap. I, lde este titulo:
_Contendo cinco folhas de papel._  claro,  simples, no engana a
ninguem; so cinco folhas, mais nada, quem no quer no l, e quem quer
l, para os ultimos  que o autor conclue obsequiosamente: E agora,
sem mais prefacio, vamos ao seguinte capitulo.




CAPITULO CXIII


Se tal fosse o methodo deste livro, eis aqui um titulo que explicaria
tudo: De como Rubio, satisfeito da emenda feita no artigo, tantas
phrases compoz e ruminou, que acabou por escrever todos os livros que
lra.

L haver leitor a quem s isso no bastasse. Naturalmente, quereria
toda a analyse da operao mental do nosso homem, sem advertir que,
para tanto, no chegariam as cinco folhas de papel de Fielding. Ha um
abysmo entre a primeira phrase de que Rubio era co-autor at a autoria
de todas as obras lidas por elle;  certo que o que mais lhe custou
foi ir da phrase ao primeiro livro;--deste em diante a carreira fez-se
rapida. No importa; a analyse seria ainda assim longa e fastiosa. O
melhor de tudo  deixar s isto; durante alguns minutos, Rubio se teve
por autor de muitas obras alheias.




CAPITULO CXIV


Ao contrario, no sei se o capitulo que se segue poderia estar todo no
titulo.




CAPITULO CXV


Rubio foi mantendo o proposito de no tornar a ver Sophia; pelo menos,
no ia ao Flamengo. Viu-a um dia passar de carro, com uma das damas da
commisso das Alagoas; ella inclinou-se risonha, dizendo-lhe adeus com
a mo. Elle retribuiu o comprimento, tirando o chapu, com tal ou qual
alvoroo, mas no ficou parado como lhe aconteceria d'antes; apenas
lanou um olhar ao carro que ia andando. Tambem elle foi andando,--e
pensando no lance da carta, no comprehendendo aquelle gesto de mo,
sem odio nem vexame,--como se nada houvesse entre elles. Podia ser
que o servio da commisso e a companheira que levava explicassem a
benevolencia graciosa de Sophia; mas Rubio no cogitou desta hypothese.

--Estar assim to falta de brio? perguntava elle. Pois no se lembra
da carta que achei, mandada por ella ao tal gamenho da rua dos
Invalidos?  muito;  de mais. Parece um desafio, um modo de dizer que
no faz caso, que escrever todas as cartas que quizer. Que as escreva,
mas gaste algum dinheiro em registral-as no correio;  barato...

Achou algum pico em si mesmo e riu-se. Isto, e um homem que passou
rasgando-lhe uma cortezia, tiraram-lhe o amargor das saudades, e elle
esqueceu o assumpto, para cuidar de outro, que o levava ao Banco do
Brazil.

Ao entrar no Banco esbarrou com o socio, que sabia.

--Creio que vi agora D. Sophia, disse-lhe Rubio.

--Onde?

--Na rua dos Ourives; ia de carro, com outra senhora, que no conheo.
Como tem voc passado?

--Viu-a, e no se lembrou de nada, observou Palha, sem responder 
pergunta. No se lembrou que ella faz annos, quarta-feira, depois de
amanh. No lhe peo que v jantar, no ouso tanto, seria convidal-o
a aborrecer-se; mas uma chicara de ch bebe-se depressa. Faz-me esse
favor?

Rubio no respondeu logo.

--Vou at jantar, disse finalmente. Quarta-feira? Conte commigo.
Tinha-me esquecido, confesso; mas ando com tanta cousa na cabea...
Espere por mim daqui a meia hora, no armazem.

Antes de meia hora estava l, pedindo-lhe dous contos de reis. Palha
ja no resistia ao desmoronamento do capital; e, se uma ou outra
vez, dizia alguma palavrinha frouxa, agora entregou-lhe o dinheiro
com indifferena. Rubio no tornou a casa sem comprar um magnifico
diamante, que na quarta-feira, enviou a Sophia, acompanhado de um
bilhete de visita, e duas palavras de felicitao.

Sophia estava s, no quarto de vestir, calando os sapatos, quando
a criada lhe entregou o pacote. Era o terceiro presente do dia; a
criada esperou que ella o abrisse para ver tambem o que era. Sophia
ficou deslumbrada, quando abriu a caixa e deu com a rica joia,--uma
bella pedra, no centro de um collar. Esperava alguma cousa bonita;
mas, depois dos ultimos successos, mal podia crer que elle fosse to
generoso. Batia-lhe o corao.

--O portador est ahi?

--J foi. Que cousa rica, minha ama!

Sophia fechou a caixa, e acabou de calar-se. Deteve-se algum tempo,
sentada, sosinha, recordando cousas idas, e levantou-se pensando:

--Aquelle homem adora-me.

Tratou de vestir-se; mas, ao passar por deante do espelho, deixou-se
estar alguns instantes. Comprazia-se na contemplao de si mesma, das
suas ricas formas, dos braos nus de cima a baixo, dos proprios olhos
contempladores. Fazia vinte e nove annos, achava que era a mesma dos
vinte e cinco, e no se enganava. Cingido e apertado o collete, deante
do espelho, accommodou os seios com amor, e deixou espraiar-se o collo
magnifico. Lembrou-se ento de ver como lhe ficava o diamante; tirou
o collar e pol-o ao pescoo. Perfeito. Voltou-se da esquerda para a
direita e vice-versa, approximou-se, affastou-se, augmentou a luz do
camarim; perfeito. Fechou a joia e guardou-a.

--Aquelle homem adora-me, repetiu.

--Provavelmente, elle l estar, pensou Rubio indo jantar ao Flamengo;
duvido que tenha dado melhor presente que eu.

Carlos Maria l estava, effectivamente, conversando, entre uma das
commissarias das Alagoas, e Maria Benedicta. Poucos eram os convivas;
houve proposito em escolher e limitar. No estava alli o major
Sequeira, nem a filha, nem as senhoras e os homens que Rubio conheceu
naquelle outro jantar de Santa Thereza. Da commisso das Alagoas
viam-se algumas damas; via-se mais o director do banco,--o da visita ao
ministro,--com a senhora e as filhas,--outro personagem bancario,--um
commerciante inglez, um deputado, um desembargador, um conselheiro,
alguns capitalistas, e pouco mais.

Posto que evidentemente gloriosa, Sophia esqueceu por um instante
os outros, quando viu Rubio entrar na sala e caminhar para ella.
Ou mudana, ou descostume, achou-lhe outro ar, passo firme, cabea
levantada, o avsso, em summa, do antigo gesto encolhido e diminuto.
Sophia apertou-lhe a mo com fora e sussurrou um agradecimento. 
mesa fel-o sentar ao p de si, tendo do outro lado a presidente da
commisso. Rubio olhava superiormente para tudo. A qualidade dos
convivas no lhe produziu impresso, nem o ar ceremonioso, nem o luxo
da mesa, nem o da farda dos creados, barbeados de fresco, abotoados
at  gravata branca, e trazendo nos botes estas duas letras C.P.
Nada disso o deslumbrou. O mesmo cuidado particular de Sophia, embora
lhe fosse agradavel, no o tonteava, como outrora. E da parte della
era mais apurada a atteno, e os olhos excepcionalmente meigos e
serviaes. Rubio procurou Carlos Maria; l estava entre as mesmas
moas da sala,--Maria Benedicta e a commissaria das Alagoas. Verificou
que s se occupava com ellas, no olhava para Sophia, nem esta para
elle.

--Talvez disfarcem, pensou.

Pareceu-lhe, ao levantarem-se da mesa, que trocavam um olhar,--mas o
movimento geral da reunio podia illudil-o, e Rubio no fez maior
cabedal da observao. Sophia dera-se pressa em tomar-lhe o brao. De
caminho, disse-lhe ella:

--Tenho esperado pelo senhor desde aquelle dia, e nunca mais veiu aqui.
Era meu direito exigil-o, para explicar-me. Logo fallaremos.

Rubio foi dahi a pouco para o gabinete dos fumantes, onde se fallava
de politica e voltarete. Ouviu calado, com os olhos erradios. Quando
os outros sahiram, Rubio deixou-se estar s, meio reclinado em um
soph de couro, sem pensar. A imaginao  que fazia o seu officio,
um tanto pachorrenta, agora,--talvez porque elle tivesse comido
muito. L fra iam entrando os convidados da noite; enchia-se a casa,
crescia o borborinho da conversao, sem que o nosso amigo descesse
dos seus bellos sonhos. O proprio som do piano, que fez calar todos os
rumores, no o attrahiu  terra. Mas um farfalhar de sedas, entrando no
gabinete, fel-o erguer-se do golpe, accordado.

--Ahi est, disse Sophia, recolhe-se aqui para fugir ao aborrecimento;
nem quer ouvir boa musica. Pensei que tivesse ido embora. Vim ter com o
senhor.

E sem mais demora, porque no podia perder um minuto, referiu-lhe o
que sabemos da carta achada no jardim de Botafogo; lembrou-lhe que,
antes de a abrir, pedira-lhe que elle mesmo a abrisse e lesse. Que
melhor prova de innocencia? A palavra sahia-lhe rapida, seria, digna e
commovida. Occasio houve em que os olhos se lhe tornaram humidos; ella
enxugou-os, e ficaram vermelhos. Rubio pegou-lhe na mo, e viu ainda
uma lagryma,--uma pequena lagryma,--escorregar at o canto da bocca.
Jurou ento que sim, acreditava em tudo. Que ida aquella de chorar?
Sophia enxugou ainda os olhos, e estendeu-lhe a mo agradecida.

--At j, disse ella.

O piano continuava; Rubio notou-lhe esta circumstancia. Emquanto
ouviam tocar, no viriam ter com elles.

--Mas eu  que no posso estar ausente tanto tempo, acudiu Sophia.
Demais, tenho ordens que dar. At j.

--Olhe, escute, insistiu Rubio.

Sophia parou.

--Escute; deixe-me dizer-lhe, e no sei se pela ultima vez...

--Pela ultima vez?

--Quem sabe? Pode ser que ultima. Importa-me pouco que esse homem viva
ou no, mas posso achal-o aqui alguma vez, e no me sinto disposto a
brigar.

--Hade encontral-o todos os dias. Christiano ainda lhe no disse o que
ha? Vae casar com Maria Benedicta.

Rubio deu um passo para traz.

--Casam-se, continuou ella. O facto  de admirar, porque surgiu quando
menos contavamos com isto;--ou eram muito fingidos,--ou foi cousa que
lhes deu de repente. Casam-se. Maria Benedicta contou-me uma historia,
que me foi confirmada por outra pessoa; mas, afinal, a historia 
sempre a mesma. Gostaram um do outro, e adeus. Casam-se brevemente.
Quando elle fallou a Christiano, Christiano respondeu que dependia de
mim... Como se fosse me d'ella! Consent logo, e desejo que sejam
felizes. Elle parece bom rapaz; ella  excellente creatura; ho de ser
felizes, por fora. E bom negocio, sabe? Elle est de posse de todos
os bens do pae e da me. Maria Benedicta no tem nada, em dinheiro;
mas tem a educao que lhe dei. Hade lembrar-se que, quando veiu para
minha companhia, era um bicho do matto; no sabia quasi nada; fui eu
que a eduquei. Minha tia merecia tudo, e ella tambem. Pois,  verdade,
casam-se muito breve. No os viu hoje sempre juntos? No ha ainda
participao official; mas os intimos da familia podem saber. Casam-se,
 verdade...

Para quem tinha tanta pressa, eis ahi um discurso demasiado comprido.
Sophia deu por isso um pouco tarde; repetiu a Rubio que at logo, que
fosse para a sala. O piano acabara; ouvia-se um borborinho discreto de
applauso e conversao.




CAPITULO CXVI



Iam casar? Mas como  ento que...? Maria Benedicta,--era Maria
Benedicta que casava com Carlos Maria; mas ento Carlos Maria...
Comprehendia agora; era tudo engano, confuso; o que parecia ser
com uma pessoa era com outra, e ahi est como a gente pde chegar 
calumnia e ao crime.

Assim reflexionava Rubio, saindo para a sala de jantar, onde os
copeiros adereavam a mesa da ceia. E continuou, andando ao comprido
da sala: --Ora vejam! E o Palha queria justamente casar-me com a
prima, mal sabendo que o destino lhe guardava outro noivo. No  feio
rapaz;  muito mais bonito que ella. Ao p de Sophia, Maria Benedicta
vale pouco ou nada; mas a sympathia  assim mesmo... Casam-se, e
breve... Ser de estrondo o casamento? Deve ser; o Palha vive agora um
pouco melhor...--e Rubio lanava os olhos aos moveis, porcellanas,
cristaes, reposteiros. --Hade ser de estrondo. E depois o noivo 
rico... Rubio pensou na carruagem e nos cavallos que levaria; tinha
visto uma parelha soberba, no Engenho Velho, dias antes, que estava
mesmo ao pintar. Ia fazer a encommenda de outra assim, fosse por que
preo fosse; tinha tambem de presentear a noiva. Ao pensar nella viu-a
entrar na sala.

--Prima Sophia onde est? perguntou ella ao Rubio.

--No sei; esteve aqui ha pouco.

E, como a visse disposta a ir adeante, pediu-lhe uma palavra, e que se
no zangasse. Maria Benedicta esperou; elle, sem hesitao, deu-lhe os
parabens. Sabia que ia casar... Maria Benedicta ficou muito vermelha,
e murmurou alguma cousa parecida com um pedido de no divulgar nada.
No havia ento nenhum creado alli; Rubio pegou-lhe na mo e fechou-a
entre as suas.

--Eu sou da casa, disse; a senhora merece ser feliz, e espero que seja.

Um pouco assustada, Maria Benedicta puxou a mo e libertou-a; mas, para
o no aborrecer, sorriu. No era preciso tanto; elle estava encantado.
Sabemos que a moa no era bonita. Pois estava linda,  fora de
felicidade. A natureza parecia haver posto nella as suas mais finas
ideias. Sorrindo egualmente, Rubio fallou-lhe como se fosse seu pae:

--Foi sua prima que me disse; recommendou-me segredo. No direi nada
antes do tempo. Mas que tem que diga  senhora? A senhora  boa e
merece tudo. No  preciso esconder os olhos; casar no  vergonha.
Vamos l; levante a cabea e ria.

Maria Benedicta poz nelle os olhos radiantes.

--Isso! applaudiu Rubio. Que mal ha em confessar-se a um amigo?
Deixe-me dizer-lhe a verdade; creio que a senhora ser feliz, mas
admitto que elle ainda ser mais feliz. No? Ver se no fallo verdade;
elle mesmo lhe hade dizer o que sentir, e, se fr sincero, a senhora
reconhecer que eu estou apenas prophetisando. Bem sei que no tem
balana para medir os sentimentos; emfim, o que eu quero dizer  que a
senhora  uma linda e boa creatura... V, v-se embora; se no, fico
dizendo verdades, e a senhora est corando muito...

De facto, Maria Benedicta corava de gosto, ouvindo a linguagem
de Rubio. Em casa, achra acquiescencia, nada mais. O proprio
Carlos Maria no era assim terno; gostava della com circumspeco.
Fallava-lhe da felicidade conjugal, como de uma taxa que ia receber do
destino,--pagamento devido, integral e certo. Tambem no era preciso
que lhe fallasse de outro modo, para que ella o adorasse sobre todas
as cousas deste mundo. Rubio repetiu a despedida, e ficou a olhar
para ella, como para uma filha. Viu-a ir assim, atravessar a sala,
viva e satisfeita,--to diversa do que a achra em outros tempos, e
desapparecer por uma das portas. No pode reter esta palavra:

--Linda e boa creatura!




CAPITULO CXVII


A historia do casamento de Maria Benedicta  curta; e, posto Sophia a
ache vulgar, vale a pena dizel-a. Fique desde j admittido que, seno
fosse a epidemia das Alagoas, talvez no chegasse a haver casamento;
donde se conclue que as catastrophes so uteis, e at necessarias.
Sobejam exemplos; mas basta um contosinho que ouvi em creana, e que
aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na
estrada; a dona,--um triste molambo de mulher,--chorava o seu desastre,
a poucos passos, sentada no cho. Seno quando, indo a passar um homem
ebrio, viu o incendio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era della.

-- minha, sim, meu senhor;  tudo o que eu possuia n'este mundo.

--D-me ento licena que accenda alli o meu charuto?

O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; no 
preciso estar embriagado para accender um charuto nas miserias alheias.
Bom padre Chagas!--Chamava-se Chagas.--Padre mais que bom, que assim
me incutiste por muitos annos essa ideia consoladora, de que ninguem,
em seu juizo, faz render o mal dos outros; no contando o respeito
que aquelle bebado tinha ao principio da propriedade,--a ponto de no
accender o charuto sem pedir licena  dona das ruinas. Tudo ideias
consoladoras. Bom padre Chagas!




CAPITULO CXVIII


Adeus, padre Chagas! Vou  historia do casamento. Que Maria Benedicta
gostava de Carlos Maria,  cousa vista ou presentida desde aquelle
baile da rua dos Arcos, em que elle e Sophia valsaram tanto. Vimol-a
na manh seguinte, prompta a ir para a roa; a prima apaziguou-a com a
promessa de que lhe estava arranjando um noivo. Maria Benedicta cuidou
que era o valsista da vespera, e ficou esperando. No lhe confessou
nada,--por vergonha, a principio,--e depois, por lhe no fazer perder
o effeito da novidade, quando Sophia houvesse de descobrir o nome da
pessoa. Se fallasse desde logo, podia acontecer tambem que a outra
affrouxasse na tarefa, e l se perdia a causa. No faamos caso disto;
so pequenos calculos de moa.

Sobreveiu a epidemia das Alagoas. Sophia organisou a commisso, que
trouxe novas relaes  familia Palha. Incluida entre as senhoras que
formavam uma das sub-commisses, Maria Benedicta trabalhou com todas,
mas grangeou em especial a estima de uma dellas, D. Fernanda, esposa de
um deputado. D. Fernanda tinha pouco mais de trinta annos, era jovial,
expansiva, corada e robusta; nascera em Porto Alegre, casara com um
bacharel das Alagoas, deputado agora por outra provincia, e, segundo
corria, prestes a ser ministro de Estado. A naturalidade do marido
foi o pretexto para mettel-a na commisso; e bem acertado foi, porque
ella pedia como quem manda, no tinha acanhamento nem admittia recusa.
Carlos Maria, que era seu primo, foi visital-a logo que ella chegou ao
Rio de Janeiro. Achou-a mais formosa ainda que em 1865, ultimo anno em
que a vira, e talvez fosse verdade; concluiu que o ar do sul era feito
para enrijar as pessoas, duplicar-lhe as graas, e prometteu ir l
acabar os seus dias.

--Vamos para l, que lhe arranjarei casamento, disse ella. Conheo uma
moa de Pelotas, que  um _bijou_, e s casa com moo da Crte.

--Commigo, naturalmente?

--Da Crte e de olhos grandes. Olhe que no estou brincando.  uma
guasca de primeira ordem. Tenho aqui o retrato della.

D. Fernanda abriu o album e mostrou o retrato da pessoa.

--No  feia, concordou elle.

--S?

--Sim,  bonita.

--Onde  que voc bota os seus chinellos velhos, primo?

Carlos Maria sorriu sem responder; no gostou da expresso. Quiz
passar a outro assumpto, mas D. Fernanda tornou ao casamento da amiga
de Pelotas. Mirava o retrato, coloria-o de palavra, dizendo como eram
os olhos, os cabellos, a tez; e depois fez uma pequena biographia
de Sonora. Tinha este bonito nome. O padre que a baptisou, hesitou
em dar-lh'o, apezar do respeito e influencia do pae da menina, rico
estancieiro; mas, afinal cedeu, considerando que as virtudes da pessoa
podiam levar o nome ao rol dos santos.

--Cr que ella v ao rol dos santos? perguntou Carlos Maria.

--Se casar com voc, creio.

--No me explica nada; casando com o diabo succeder a mesma cousa, e
com mais certeza, por causa do martyrio. Santa Sonora, no  feio nome,
responde bem ao sentido. Santa Sonora... Em todo caso, prima...

--Voc tem raa de judeu; cale-se, interrompeu ella. Recusa ento a
minha guasca? continuou indo pr o album no seu logar.

--No recuso; deixe-me ir indo com o meu celibato, que  meio caminho
do ceu.

D. Fernanda soltou uma gargalhada.

--Deus de misericordia! Voc acredita mesmo que vae para o ceu?

--J c estou, ha vinte minutos. Pois que  esta sala, tranquilla,
fresca, to longe da gente que anda l fra? Aqui conversamos os
dous, sem ouvir blasphemias, sem aturar espiritos aleijados, tisicos,
escrophulosos, insupportaveis, o proprio inferno, em summa. Aqui  o
ceu,--ou um pedao do ceu; uma vez que ns cabemos nelle, vale pelo
infinito. Conversamos de Santa Sonora, de S. Carlos Maria e de Santa
Fernanda, que, para contrastar com S. Gonalo, fez-se casamenteira das
moas. Onde  que ha outro ceu como este?

--Em Pelotas.

--Pelotas fica to longe! suspirou elle estendendo as pernas e pondo os
olhos no lustre da sala.

--Est bom,  s a primeira investida; darei outras, at voc acabar de
querer.

Carlos Maria sorriu e olhou para as borlas cahidas do cordo de seda
que ella trazia  cintura, atado por um lao frouxo; ou para ver
as borlas, ou para notar a gentileza do corpo. Viu bem, ainda uma
vez, que a prima era uma bella creatura. A plastica levou-lhe os
olhos,--o respeito os desviou; mas, no foi s a amizade que o fez
demorar ainda alli, e o trouxe novamente quella casa. Carlos Maria
amava a conversao das mulheres, tanto quanto, em geral, aborrecia
a dos homens. Achava os homens declamadores, grosseiros, canativos,
pesados, frivolos, chulos, triviaes. As mulheres, ao contrario, no
eram grosseiras, nem declamadoras, nem pesadas. A vaidade nellas ficava
bem, e alguns defeitos no lhes iam mal; tinham, ao demais, a graa e
a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava elle, ha sempre
alguma cousa que extrahir. Quando as achava insipidas ou estupidas,
tinha para si que eram homens mal acabados.

Entretanto, as relaes de D. Fernanda e Maria Benedicta iam-se
estreitando. Esta, alm de acanhada, andava triste por aquelle tempo;
foi justamente a disparidade de caracter e de situao que as prendeu
uma  outra. D. Fernanda possuia, em larga escala, a qualidade da
sympathia; amava os fracos e os tristes, pela necessidade de os
fazer ledos e corajosos. Contavam-se della muitos actos de piedade e
dedicao.

--A senhora que tem? perguntou ella um dia  amiguinha. Quasi nunca ri,
anda sempre com os olhos espantados, pensando...

Maria Benedicta, respondeu que no tinha nada, que era o seu modo; e
sorria dizendo isto, por simples condescendencia. Fallou tambem na
perda da me, como uma das causas de suas melancolias. D. Fernanda
entrou a leval-a a toda parte, a trazel-a para jantar, a dar-lhe
logar no camarote, se ia ao theatro; e graas a isso, e ao seu
genio galhofeiro, sacudiu da alma da moa os corvos aborrecidos que
l avoejavam. Costume e affeio depressa as fizeram intimas. No
obstante, Maria Benedicta continuou a calar o seu mysterio.

--Seja qual fr o mysterio, pensou um dia D. Fernanda, acho que o
melhor  casal-a com o Carlos Maria; a Sonora que espere.

--Voc precisa casar, Maria Benedicta, disse-lhe dalli a dous dias,
da manh, na chacara, em Matta-cavallos; Maria Benedicta tinha ido ao
theatro com ella, e passra l a noite.--No quero estremecimentos;
precisa casar e hade casar... Desde antehontem que estou para lhe dizer
isto, mas estas cousas falladas em sala ou na rua, no tem fora. Aqui
na chacara  differente. E se voc tem animo de trepar commigo um
pedao do morro, ento  que ficaremos hem. Vamos?

--Est fazendo calor...

-- mais poetico, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocs s tem agua nas
veias. Pois fiquemos aqui neste banco. Sente-se; assim, eu fico aqui
ao p, armada, para tudo. Casa ou morre. No me replique. Voc no 
feliz,--continuou mudando o tom; por mais que faa, eu vejo que voc
passa a vida sem gosto. Venha c, diga-me com franqueza, tem inclinao
a alguem? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa.

--No tenho.

--No? Pois  justamente o que nos serve. No precisa pr escriptos no
corao; conheo um bom inquilino.

Maria Benedicta voltou-se de todo para ella, com os labios entreabertos
e os olhos escancarados. Parecia receiar da proposta ou anciar por
ella. D. Fernanda, no atinando com o verdadeiro estado da amiga,
pegou-lhe na mo primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De fora que
amava a alguem, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessal-o,
instava, rogava,--intimaria, se preciso fosse. A mo de Maria Benedicta
esfriara, os olhos cavavam o cho, e, por alguns instantes, nenhuma
dellas disse nada.

--Vamos, falle, repetiu D. Fernanda.

--No tenho que dizer.

D. Fernanda fazia gestos de incredulidade; apertava-a cada vez mais,
passou-lhe a mo pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe
baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse sua propria me.
E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabea
ao hombro, acarinhava-a com a outra mo. Tudo, tudo, queria saber
tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria buscal-o  lua,--fosse
onde fosse,--excepto no cemiterio; mas, se estivesse no cemiterio,
dar-lhe-hia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em poucos
dias. Maria Benedicta ouvia agitada, palpitante, no sabendo por onde
escapasse,--prestes a fallar, e calando a tempo, como se defendesse o
seu pudor. No negava, no confessava,--mas, como tambem no sorria, e
tremia de commoo, era facil adivinhar meia verdade, ao menos.

--Mas ento no sou sua amiga, no tem confiana em mim? Faa de conta
que sou sua me.

Maria Benedicta pouco mais resistiu; gastra as foras e sentia a
necessidade de revellar alguma cousa. D. Fernanda escutou-a commovida.
O sol vinha j lambendo as cercanias do banco, no tardou que lhes
trepasse aos sapatos,  barra dos vestidos e aos joelhos; mas nenhuma
deu por elle. O amor as absorvia; a exposio de uma tinha para a
outra um enlevo raro. Era uma paixo no sabida, no compartida, no
adivinhada; paixo que ia perdendo de indole e de especie para se
converter em adorao pura. A principio, quando ella via a pessoa
amada, passava por dous estados mui diversos,--um que no podia
definir, alvoroo, tonteira, pancadas no corao, quasi um desmaio; o
segundo era de contemplao. Agora era quasi que s este. Tinha chorado
muito, comsigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a
ambio das suas esperanas. Mas no perderia nunca a certeza de que
elle era superior a todos os demais homens, um ente divino, que, ainda
no fazendo caso della, mereceria sempre ser adorado.

--Bem, disse D. Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao
essencial, que  no ficar penando  ta. No, queridinha, isto de
adorar a um homem que no faz caso da gente,  poesia. Deixe-se de
poesia. Olhe que s voc perde no negocio, por que elle casa com outra,
os annos passam, a paixo monta na garupa delles, e um dia, quando voc
menos pensar, accorda sem amor nem marido. E quem  esse barbaro?

--Isso no digo, respondeu Maria Benedicta, levantando-se do banco.

--Pois no diga, acudiu D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a
sentar nos seus joelhos. A questo principal  casar;--no podendo ser
com esse, ser com outro.

--No, no caso.

--S com elle?

--Nem sei se com elle, respondeu Maria Benedicta, depois de alguns
instantes. Gsto delle, como gsto de Deus, que est no ceu.

--Virgem Santissima! Que blasphemia! Duas blasphemias, menina; a
primeira  que no se deve amar a ninguem como a Deus,--a segunda  que
um marido, ainda sendo mo, sempre  melhor que o melhor dos sonhos.




CAPITULO CXIX


Um marido, ainda mo,  sempre melhor que o melhor dos sonhos.

A maxima no era idealista; Maria Benedicta protestou contra ella.
Pois no era melhor sonhar que chorar? Os sonhos acabam ou alteram-se,
emquanto que os mos maridos podem viver muito.--A senhora falla
assim, concluiu Maria Benedicta, porque Deus lhe destinou um anjo...
Olhe, l vem elle.

--Deixe estar que hade ter tambem o seu anjo; conheo um magnifico para
voc; todos os anjos me procuram.

Theophilo, marido de D. Fernanda, que as vira a distancia, veiu ter com
ellas; trazia na mo um diario amarrotado. No saudou a hospede; foi
direito  mulher.

--Voc quer saber o que me fizeram, Nannan? disse elle com os dentes
cerrados. Sahiu hoje o meu discurso do dia 5. Veja esta phrase; eu
tinha dito: _Na duvida abstem-te,  o conselho do sabio._ E puzeram:
_Na divida obstem-te..._  insuportavel! Nota que tratava-se justamente
de um credito do ministerio da marinha, allegando-se no debate que
muitas despezas estavam feitas. De modo que pode parecer chulice da
minha parte;  como se aconselhasse o calote. Em todo caso,  disparate.

--Mas voc no leu as provas?

--Li, mas o autor  o menos apto para as ler bem. _Na divida
abstem-te_, continuou elle com os olhos na folha. E bufando:--Isto s
com...

Estava consternado. Era homem de talento, de gravidade e de trabalho;
mas, naquelle instante, todas as grandes obras, os mais temerosos
problemas, as batalhas mais decisivas, as revolues mais profundas, o
sol e a lua, e todas as constellaes, e todas as alimarias, e todas
as geraes humanas, valiam menos que a troca de um _u_ por um _i._
Maria Benedicta olhava para elle sem entendel-o. Cuidava padecer a
maior tristura; mas alli estava outra to grande como a sua, e muito
mais afflictiva. Assim, a melancolia roaz de uma pobre creatura era
tanto como um erro typographico. Theophilo, que s ento deu por ella,
estendeu-lhe a mo; estava fria. Ninguem finge as mos frias; devia
padecer deveras. Instantes depois, atirou a folha ao cho, com um gesto
violento, e foi-se embora.

--Mas, Theophilo, emenda-se amanh, disse-lhe D. Fernanda,
levantando-se.

Theophilo, sem voltar atraz, deu de hombros, desesperado. A mulher
correu a elle; a amiga seguiu-a espantada. Ficou s o banco, j agora
livre dellas, recebendo em cheio os raios do sol, que no ama nem faz
discursos. D. Fernanda levou o marido para um gabinete, e,  fora de
beijos, consolou-o daquelle golpe. Ao almoo, j elle sorria, ainda que
de um sorriso pallido; a mulher, para desvial-o da preoccupao, fallou
do plano de casar Maria Benedicta, e havia de ser com um deputado, se
existisse na camara algum solteiro, qualquer que fosse a opinio. Podia
ser governista, opposicionista, ambas as cousas, ou nada,--contanto que
fosse marido. Sobre este thema fez algumas reflexes, vivas, lepidas,
que encheram o tempo e destinavam-se a matar a lembrana da troca de
lettras. Pia creatura! Theophilo, entendendo a mulher, ia-se fazendo
alegre, e fallava tambem da conveniencia de casar Maria Benedicta.

--O peor, acudiu a mulher olhando para a amiga,  que ella ama a
alguem, cujo nome no quer dizer.

--Nem  preciso, atalhou o marido enxugando os beios; v-se bem que
ella gsta de teu primo.




CAPITULO CXX


No domingo seguinte, D. Fernanda foi  egreja de Santo Antonio dos
Pobres. Acabada a missa, viu surgir do movimento dos fieis que se
comprimentavam entre si, ou saudavam o altar, nada menos que o primo,
erecto, risonho, gravemente trajado, estendendo-lhe a mo.

--Veiu tambem  missa? perguntou espantada.

--Vim.

--Vem sempre?

--Nem sempre, muitas vezes.

--Francamente, no esperava tanta devoo em voc. Os homens so,
em geral, uns impios. Theophilo no pisa na egreja, a no ser para
baptisar os filhos. Voc ento  religioso?

--No posso responder com certeza; mas tenho horror  banalidade, que
 dizer mal da religio. E basta; vim  missa, no vim confessar-me;
agora vou conduzil-a  casa, e, se me offerecer almoo, almoarei com
vocs. Salvo se quizerem vir almoar commigo;  nesta rua, como sabe.

--Iria eu s, se pudesse ser, para lhe dar uma noticia muito comprida.

--Vamos ento devagar, disse Carlos Maria  porta da egreja,
offerecendo-lhe o brao. E dous passos adeante:--Noticia importante?

--Importante e deliciosa.

--Querem ver que Deus, sempre misericordioso, vae levar para si o nosso
querido Theophilo, deixando aqui ao desamparo a mais gentil de todas
as viuvas... No precisa fazer essa cara, prima; deixe estar o brao.
Vamos  noticia. Chegou a moa de Pelotas, aposto?

--No direi o que , se voc me no jurar ouvir seriamente.

--Seriamente.

D. Fernanda confessou-lhe que hesitava em casal-o com a patricia de
Pelotas; no queria remorsos; descobrira aqui alguem que tinha ao
primo um immenso amor. Carlos Maria sorriu, iniciou um gracejo, mas a
noticia esporeou-lhe o espirito. Immenso amor? Immenso amor, paixo
violenta, confirmou a prima, accrescentando que talvez a definio j
no coubesse bem ao actual sentimento da pessoa, Agora era uma adorao
quieta e calada. Tinha chorado por elle noites e noites, emquanto
as esperanas lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo a
confidencia de Maria Benedicta. Restava s o nome; Carlos Maria quiz
sabel-o, ella negou-lh'o. No podia revellal-o. Para que dar-lhe o
gosto de saber quem era que o adorava, se no corria ao encontro da
alma della? Melhor era deixal-a no mysterio. J no chorava agora;
modesta e desambiciosa, perdera as esperanas de ser amada, e, com o
tempo ficou apenas uma devota, mas uma devota sem par, que nem sequer
esperava ser ouvida ou agraciada um dia por um olhar benevolo do seu
deus querido.

--Prima, voc...

--Eu que?...

Carlos Maria concluiu dizendo que a advogada era digna da causa.
Realmente, se essa moa o adorava a tal ponto, era justo e natural que
a prima se interessasse por ella com tanto calor. Mas porque no dizer
o nome?

--Agora no digo; pode ser que algum dia... Mas, voc comprehende que
me custaria muito casal-o com a minha patricia, sabendo que outra
pessoa o ama tanto. E dahi bem pode ser que esta de c no padea
muito, se o vir casado. Sim, senhor, parece absurdo, mas  preciso
conhecel-a; digo que, uma vez que voc seja feliz,  capaz de abenoar
a bella rival.

--J no  romantismo,  mysticismo, redarguiu Carlos Maria depois
de alguns passos, com os olhos no cho. No est nas cordas do nosso
tempo. Tem alguma prova de semelhante estado da alma?

--Tenho... A sua casa  aquella, no? perguntou D. Fernanda parando.

--.

--Bonito predio, e solido.

--Muito solido.

Uma, duas, tres, quatro... Sete janellas. O salao vae de ponta a ponta?
Bem bom para um baile.

E andando:

--Eu, se tivesse aqui uma casa maior que a minha, daria um grande
baile, antes de voltar para o Rio Grande. Gosto de festas. Os meus
dous filhos no me do grande trabalho. A proposito, ando com ideia de
metter o Lopo no collegio; onde acharei um bom collegio?

Carlos Maria pensava na devota incognita. Estava longe, muito longe
do ensino e seus estabelecimentos. Que bom que era sentir-se um deus
adorado, e adorado  maneira evangelica, mettida a devota no aposento,
fechada a porta, em secreto, no nas synagogas,  vista de todos. E
teu pae que v o que se passa em secreto te dar a paga. (S. MATHEUS,
VI, 6). Oh! elle daria a paga, se soubesse quem era. Casada, sera?
No, no podia ser, no iria confessal-o a ninguem; viuva ou solteira,
antes solteira. Cheirava-lhe a solteira. Em que aposento se fechava
para resar, para evocal-o, choral-o e abenoal-o? J nem teimava pelo
nome; mas o aposento, ao menos.

--Onde acharei um bom collegio? repetiu D. Fernanda.

--Collegio? No sei; estou pensando na desconhecida. Comprehende bem
que uma pessoa que me adora, em silencio, sem esperanas,  objecto de
alguma atteno. Alta ou baixa?

--Maria Benedicta.

Carlos Maria estacou o passo.

--Aquella moa...? No  possivel. Tenho-lhe fallado muitas vezes, e
nunca descobri nada. Achei-a sempre fria. Hade ser engano. Ouviu-lhe o
meu nome?

--No, por mais que lhe pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o
santo, mas que milagre! Gabe-se de ser adorado como ninguem... De quem
 aquella casa?

--Voc costuma exagerar as cousas, prima; pde no ser tanto. Adorado
como ninguem? E de que modo soube que era eu?

--Theophilo foi o primeiro que descobriu; ella, dizendo-se-lhe isto,
ficou como uma pitanga. Negou-o ainda depois, commigo; e desde esse dia
no voltou l a casa.

Tal foi o inicio dos amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado
em silencio, e toda a preveno se converteu em sympathia. Comeou a
vel-a, saboreou a confuso da moa, os medos, a alegria, a modestia,
as attitudes quasi implorativas, um composto de actos e sentimentos
que eram a apotheose do homem amado. Tal foi o inicio, tal o desfecho.
Assim os vimos, naquella noite dos annos de D. Sophia, a quem elle
dissera antes cousas to doces. So assim os homens; as aguas que
passam, e os ventos que rugem no so outra cousa.




CAPITULO CXXI


--Bem, vae casar, tanto melhor! pensou Rubio.

Entre aquella noite e o dia do casamento, Rubio apanhou no ar algumas
olhadas de Sophia, suspeitas de tentao; Carlos Maria, se lhe
correspondeu, foi antes por polidez que outra cousa. Rubio concluiu
que o caso era fortuito; lembrava-se ainda da lagrima de Sophia, na
noite dos annos, quando lhe explicou a historia da carta.

Oh! boa lagrima inesperada! Tu, que bastaste a persuadir um homem,
podes no ser explicavel a outros, e assim vae o mundo. Que importa
que os olhos no fossem costumados ao choro, nem que a noite parecesse
exaltar sentimentos mui diversos da melancolia? Rubio a viu cair;
ainda agora a v de memoria. Mas a confiana de Rubio no vinha s da
lagrima, vinha tambem da presente Sophia, que nunca fora to solicita
nem to dada com elle. Parecia arrependida de todo o mal causado,
prestes a sanal-o, ou por affeio tardia, ou pelo proprio malogro da
primeira aventura. Ha delictos virtuaes, que dormem. Ha operas remissas
na cabea de um maestro, que s esperam os primeiros compassos da
inspirao.




CAPITULO CXXII


--Ainda bem que se casa! repetiu o Rubio.

No se demorou o casamento: tres semanas. Na manh do dia aprazado,
Carlos Maria abriu os olhos com algum espanto. Era elle mesmo que ia
casar? No havia duvida; mirou-se ao espelho, era elle. Relembrou os
ultimos dias, a marcha rapida dos successos, a realidade da affeio
que tinha  noiva, e, emfim, a felicidade pura que lhe ia dar. Esta
derradeira ideia enchia-o de grande e rara satisfao. Ia-as ruminando
ainda, a cavallo, no passeio habitual da manh; desta vez escolhera o
bairro do Engenho Velho.

Posto se achasse costumado aos olhos admirativos, via agora em toda
a gente um aspecto parecido com a noticia de que elle ia casar. As
casuarinas de uma chacara, quietas antes que elle passasse por ellas,
disseram-lhe cousas mui particulares, que os levianos attribuiriam 
aragem que passava tambem, mas que os sapientes reconheceriam ser nada
menos que a linguagem nupcial das casuarinas. Passaros saltavam de um
lado para outro, pipilando um madrigal. Um casal de borboletas,--que
os japes tm por symbolo da fidelidade, por observarem que, se pousam
de flor em flor, andam quasi sempre aos pares,--um casal dellas
acompanhou por muito tempo o passo do cavallo, indo pela cerca de
uma chacara que beirava o caminho, volteando aqui e alli, lepidas e
amarellas. De envolta com isto, um ar fresco, ceu azul, caras alegres
de homens montados em burros, pescoos estendidos pela janella fra das
diligencias, para vel-o e ao seu garbo de noivo. Certo, era difficil
crer que todos aquelles gestos e attitudes da gente, dos bichos e das
arvores, exprimissem outro sentimento que no fosse a homenagem nupcial
da natureza.

As borboletas perderam-se em uma das moitas mais densas da crca.
Seguiu-se outra chacara, despida de arvores, porto aberto, e ao fundo,
fronteando com o porto, uma casa velha, que encarquilhava os olhos sob
a forma de cinco janellas de peitoril, canadas de perder moradores.
Tambem ellas tinham visto bodas e festins; o seculo ja as achou verdes
de novidade e de esperana.

No cuideis que esse aspecto contristou a alma do cavalleiro. Ao
contrario, elle possuia o dom particular de remoar as ruinas e viver
da vida primitiva das cousas. Gostou at de ver a casa velhusca,
desbotada, em contraste com as borboletas to vivas de ha pouco.
Parou o cavallo; evocou as mulheres que por alli entraram, outras
galas, outros rostos, outras maneiras. Porventura as proprias sombras
das pessoas felizes e extinctas vinham agora cumprimental-o tambem,
dizendo-lhe pela bocca invisivel todos os nomes sublimes que pensavam
delle. Chegou a ouvil-as e sorrir. Mas uma voz estridula veiu
mesclar-se ao concerto;--um papagaio, em gaiola pendente da parede
externa da casa: Papagaio real, para Portugal; quem passa? Currup,
pap. Grrrr... Grrrrr... As sombras fugiram, o cavallo foi andando.
Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas
contrafaces da pessoa humana, dizia elle.

--A felicidade que _eu lhe der_ ser assim tambem interrompida?
reflexionou andando.

Cambaxirras voaram de um para outro lado da rua, e pousaram cantando
a sua falla propria; foi uma reparao. Essa lingua sem palavras era
intelligivel, dizia uma poro de cousas claras e bellas. Carlos Maria
chegou a ver naquillo um symbolo de si mesmo. Quando a mulher, aturdida
dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio, elle a faria erguer
aos trillos da passarada divina, que trazia em si, ideias de ouro,
ditas por uma voz de ouro. Oh! como _a tornaria_ feliz! J a antevia
ajoelhada, com os braos postos nos seus joelhos, a cabea nas mos e
os olhos nelle, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada.




CAPITULO CXXIII


Ora bem, aquelle quadro, na mesma hora em que apparecia aos olhos da
imaginao do noivo, reproduzia-se no espirito da noiva, tal qual.
Maria Benedicta, posta  janella, fitando as ondas que se quebravam
ao longe e na praia, via-se a si mesma, ajoelhada aos ps do marido,
quieta, contricta, como  mesa da communho para receber a hostia da
felicidade. E dizia comsigo: Oh! como _elle me_ far feliz! Phrase e
pensamento eram outros, mas a attitude e a hora eram as mesmas.




CAPITULO CXXIV


Casaram-se; tres mezes depois foram para a Europa. Ao despedir-se
delles, D. Fernanda estava to alegre como se viesse recebel-os de
volta; no chorava. O prazer de os ver felizes era maior que o desgosto
da separao.

--Voc vae contente? perguntou a Maria Benedicta, pela ultima vez,
junto  amurada do paquete.

--Oh! muito!

A alma de D. Fernanda debruou-se-lhe dos olhos, fresca,
ingenua,cantando um trecho italiano,--porque a suberba guasca
preferia a musica italiana,--talvez esta aria da _Lucia: O' bell'alma
innamorata._ Ou este pedao do _Barbeiro_:



Ecco ridente in cielo Gi spunta la bella aurora.






CAPITULO CXXV


Sophia no foi a bordo, adoeceu e mandou o marido. No vo crer que
era pezar nem dor; por occasio do casamento, houve-se com grande
discrio, cuidou do enxoval da noiva e despediu-se della com muitos
beijos chorados. Mas ir a bordo pareceu-lhe vergonha. Adoeceu; e,
para no desmentir do pretexto, deixou-se estar no quarto. Pegou de
um romance recente; fora-lhe dado pelo Rubio. Outras cousas alli
lhe lembravam o mesmo homem, teteias de toda a sorte, sem contar
joias guardadas. Finalmente, uma singular palavra que lhe ouvira, na
noite do casamento da prima, at essa veiu alli para o inventario das
recordaes do nosso amigo.

--A senhora  j a rainha de todas, disse-lhe elle em voz baixa; espere
que ainda a farei imperatriz.

Sophia no pode entender esta phrase enigmatica. Quiz suppor que era
uma alliciao de grandeza para tornal-a sua amante; mas a vaidade
que essa ideia trazia fel-a excluir desde logo. Rubio, posto no
fosse agora o mesmo homem encolhido e timido de outros tempos, no se
mostrava to cheio de si que lhe pudesse attribuir to alta presumpo.
Mas que era ento a phrase? Talvez um modo figurado de dizer que a
amaria ainda mais. Sophia acreditava possivel tudo. No lhe faltavam
galanteios; chegou a ouvir aquella declarao de Carlos Maria,
provavelmente ouvira outras, a que deu somente a atteno da vaidade.
E todas passaram; Rubio  que persistia. Tinha pausas, filhas de
suspeitas; mas as suspeitas iam como vinham.

_Il mrite d'tre aim_, leu Sophia na pagina aberta do romance,
quando ia continuar a leitura; fechou o livro, fechou os olhos, e
perdeu-se em si mesma. A escrava que entrou d'ahi a pouco, trazendo-lhe
um caldo, suppoz que a senhora dormia e retirou-se p ante p.




CAPITULO CXXVI


Entretanto, Rubio e Palha desciam do paquete para a lancha e tornavam
ao ces Pharoux. Vinham cuidosos e calados. Palha foi o primeiro que
abriu a bocca:

--Ando ha tempos para dizer-lhe uma cousa importante, Rubio.




CAPITULO CXXVII


Rubio accordou. Era a primeira vez que ia a um paquete. Voltava com a
alma cheia dos rumores de bordo, a lufa-lufa das gentes que entravam
e sahiam, nacionaes, estrangeiros, estes de varia casta, francezes,
inglezes, allemes, argentinos, italianos, uma confuso de linguas,
um capharnaum de chapos, de malas, cordoalha, sophs, binoculos a
tiracollo, homens que desciam ou subiam por escadas para dentro do
navio, mulheres chorosas, outras curiosas, outras cheias de riso, e
muitas que traziam de terra flores ou frutas,--tudo aspectos novos. Ao
longe, a barra por onde tinha de ir o paquete. Para l da barra, o mar
immenso, o co fechado e a solido. Rubio renovou os sonhos do mundo
antigo, creou uma Atlantida, sem nada saber da tradico. No tendo
noes de geographia, formava uma ida confusa dos outros paizes, e
a imaginao rodeava-os de um nimbo mysterioso. Como no lhe custava
viajar assim, navegou de cr algum tempo, n'aquelle vapor alto e
comprido, sem enjo, sem vagas, sem ventos, sem nuvens.




CAPITULO CXXVIII


--A mim? perguntou Rubio depois de alguns segundos.

--A voc, confirmou o Palha. Devia tel-a dito ha mais tempo, mas
estas historias de casamento, de commisso das Alagoas, etc.,
atrapalharam-me, e no tive occasio; agora, porm, antes do almoo...
Voc almoa commigo.

--Sim, mas que ?

--Uma cousa importante.

Dizendo isto, tirou um cigarro, abriu-o, desfiou o fumo com os dedos,
enrolou a palha outra vez, e riscou um phosphoro, mas o vento apagou o
phosphoro. Ento pediu ao Rubio que lhe fizesse o favor de segurar o
chapo, para poder accender outro. Rubio obedeceu impaciente. Bem pde
ser que o socio, esticando a espera, quizesse justamente fazer-lhe crer
que se tratava de um terremoto; a realidade viria a ser um beneficio.
Puxadas duas fumaas:

--Estou com meu plano de liquidar o negocio; fallaram-me ahi para uma
casa bancaria, logar de director, e creio que acceito.

Rubio respirou.

--Pois sim; liquidar j?

--No, l para o fim do anno que vem.

--E  preciso liquidar?

--C para mim, . Se a historia do banco no fosse segura, no me
animaria a perder o certo pelo duvidoso; mas  segurissima.

--Ento no fim do anno que vem soltamos os laos que nos prendem...

Palha tossiu.

--No, antes, no fim deste anno.

Rubio no entendeu; mas o socio explicou-lhe que era util desligarem
j a sociedade, afim de que elle ssinho liquidasse a casa. O banco
podia organizar-se mais cedo ou mais tarde; e para que sujeitar o outro
s exigencias da occasio? Demais, o Dr. Camacho affirmava que, em
breve, Rubio estaria na camara, e que a queda do Itaborahy era certa.

--Seja o que fr, concluiu;  sempre melhor desligarmos a sociedade com
tempo. Voc no vive do commercio; entrou com o capital necessario ao
negocio,--como podia dal-o a outro ou guardal-o.

--Pois sim, no tenho duvida, concordou o Rubio.

E depois de alguns instantes:

--Mas diga-me uma cousa, essa proposta traz algum motivo occulto? 
rompimento de pessoas, de amizade... Seja franco, diga tudo...

--Que caraminhola  essa? redarguiu o Palha. Separao de amizade, de
pessoas... Mas voc est tonto. Isto  do balano do mar. Pois eu, que
tenho trabalhado tanto por voc, eu que o fao amigo dos meus amigos,
que o trato como um parente, como um irmo, havia de brigar  toa?
Aquelle mesmo casamento de Maria Benedicta com o Carlos Maria devia ser
com voc, bem sabe, se no fosse a sua recusa. A gente pde romper um
lao sem romper os outros. O contrario seria desproposito. Ento todos
os amigos de sociedade ou de familia so socios de commercio? E os que
no forem commerciantes?

Rubio achou excellente a razo, e quiz abraar o Palha. Este
apertou-lhe a mo satisfeitissimo; ia vr-se livre de um socio, cuja
prodigalidade crescente podia trazer-lhe algum perigo. A casa estava
solida; era facil entregar ao Rubio a parte que lhe pertencesse, menos
as dividas pessoaes e anteriores. Restavam ainda algumas daquellas que
o Palha confessou  mulher, na noite de Santa Thereza, cap. L. Pouco
tinha pago; geralmente era o Rubio que abanava as orelhas ao assumpto.
Um dia, o Palha, querendo dar-lhe  fora algum dinheiro, repetiu o
velho proverbio: Paga o que deves, v o que te fica. Mas o Rubio,
gracejando:

--Pois no pagues, e v se te no fica ainda mais.

-- boa! redarguiu o Palha rindo e guardando o dinheiro no bolso.




CAPITULO CXXIX


No havia banco, nem logar de director, nem liquidao; mas, como
justificaria o Palha a proposta de separao, dizendo a pura verdade?
Dahi a inveno, tanto mais prompta, quanto o Palha tinha amor aos
bancos, e morria por um. A carreira daquelle homem era cada vez mais
prospera e vistosa. O negocio corria-lhe largo; um dos motivos da
separao era justamente no ter que dividir com outro os lucros
futuros. Palha, alm do mais, possuia aces de toda a parte, apolices
de ouro do emprestimo Itaborahy, e fizera uns dous fornecimentos para a
guerra, de sociedade com um poderoso, nos quaes ganhou muito. J trazia
apalavrado um architecto para lhe construir um palacete. Vagamente
pensava em baronia.




CAPITULO CXXX


--Quem diria que a gente do Palha nos trataria deste modo? J no
valemos nada. Excusa de os defender...

--No defendo, estou explicando; ha de ter havido confuso.

--Fazer annos, casar a prima, e nem um triste convite ao major, ao
grande major, ao impagavel major, ao velho amigo major. Eram os nomes
que me davam; eu era impagavel, amigo velho, grande e outros nomes.
Agora, nada, nem um triste convite, um recado de boca, ao menos, por
um moleque: Nhanh faz annos, ou casa a prima, diz que a casa esta s
suas ordens, e que vo com luxo. No iriamos; luxo no  para ns. Mas
era alguma cousa, era recado, um moleque, ao impagavel major...

--Papae!

Rubio, vendo a interveno de D. Tonica, animou-se a defender
longamente a familia Palha. Era em casa da major, no j na rua Dous de
Dezembro, mas na dos Barbonos, modesto sobradinho. Rubio passava, elle
estava  janella, e chamou-o. D. Tonica no teve tempo de sair da sala,
para dar, ao menos, uma vista d'olhos ao espelho; mal pde passar a mo
pelo cabello, compr o lao de fita ao pescoo e descer o vestido para
cobrir os sapatos, que no eram novos.

--Digo-lhe que pde ter havido confuso, insistiu Rubio; tudo anda por
l muito atrapalhado com esta commisso das Alagoas.

--Lembra bem, interrompeu o major Siqueira; porque no metteram minha
filha na commisso das Alagoas? Qual! Ha j muito que reparo nisto;
antigamente no se fazia festa sem ns. Ns ramos a alma de tudo.
De certo tempo para c comeou a mudana; entraram a receber-nos
friamente, e o marido, se pode esquivar-se, no me falla na rua. Isto
comeou ha tempos; mas antes disso sem ns  que no se fazia nada. Que
est o senhor a fallar de confuso? Pois se na vespera dos annos della,
j desconfiando que no nos convidariam, fui ter com elle ao armazem.
Poucas palavras, por mais que lhe fallasse em D. Sophia; disfarava.
Afinal disse-lhe assim: Hontem, l em casa, eu e Tonica estivemos
discutindo sobre a data dos annos de D. Sophia; ella dizia que tinha
passado, eu disse que no, que era hoje ou amanh. No me respondeu,
fingiu que estava absorvido em uma conta, chamou o guarda-livros, e
pediu explicaes. Eu entendi o bicho, e repeti a historia; fez a mesma
cousa. Sahi. Ora o Palha, um p-rapado! J o envergonho. Antigamente:
major, um brinde. Eu fazia muitos brindes, tinha certo desembarao.
Jogavamos o voltarete. Agora est nas grandezas; anda com gente fina.
Ah! vaidades deste mundo! Pois no vi outro dia a mulher delle, n'um
_coup_, com outra? A Sophia de _coup!_ Fingiu que me no via, mas
arranjou os olhos de modo que percebesse se eu a via, se a admirava.
Vaidades desta vida! Quem nunca comeu azeite, quando come se lambusa.

--Perdo, mas os trabalhos da commisso exigem certo apparato.

--Sim, acudiu Siqueira,  por isso que minha filha no entrou na
commisso;  para no estragar as carruagens...

--Demais, o _coup_ podia ser da outra senhora, que ia com ella.

O major deu dous passos, com as mos atraz, e parou deante de Rubio.

--Da outra... ou do padre Mendes. Como vae o padre? Boa vida,
naturalmente.

--Mas, papae, pde no haver nada, interrompeu D. Tonica. Ella sempre
me trata bem, e quando estive doente no mez passado, mandou saber pelo
moleque, duas vezes...

--Pelo moleque! bradou o pae. Pelo moleque! Grande favor! Moleque, vae
alli  casa daquelle reformado e pergunta lhe se a filha tem passado
melhor; no vou, porque estou lustrando as unhas! Grande favor! Tu no
lustras as unhas! tu trabalhas! tu s digna filha minha! pobre, mas
honesta!

Aqui o major chorou, mas suspendeu de repente as lagrimas. A filha,
commovida, sentiu-se tambem vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da
familia, poucas cadeiras, uma meza redonda velha, um canap gasto; nas
paredes duas lithographias encaixilhadas em pinho pintado de preto,
um era o retrato do major em 1857, a outra representava o _Veronez em
Veneza_, comprado na rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho da filha
transparecia em tudo; os moveis reluziam de asseio, a meza tinha um
panno de crivo, feito por ella, o canap uma almofada. E era falso que
D. Tonica no lustrasse as unhas; no teria o p nem a camura, mas
acudia-lhes com um retalho de panno todas as manhs.


CAPITULO CXXXI

Rubio tratou-os com sympathia. No continuou a defender a gente Palha,
para no desesperar o major, e fallou do exercito. Pouco depois,
despediu-se, promettendo, sem convite, que l iria jantar um dia
destes.

--Jantar de pobre, acudiu o major; se puder avisar, avise.

--No quero banquetes; virei quando me der na cabea.

Despediu-se. D. Tonica, depois de ir at o patamar, sem chegar  frente
por causa dos sapatos, foi  janella para vel-o sair.




CAPITULO CXXXII


Logo que Rubio dobrou a esquina da rua das Mangueiras, D. Tonica
entrou e foi ao pae, que se estendera no canap, para reler o velho
_Saint-Clair das ilhas ou os desterrados da ilha da Barra._ Foi o
primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de vinte annos;
era toda a bibliotheca do pae e da filha. Siqueira abriu o primeiro
volume, e deitou os olhos ao comeo do cap. II, que j trazia de cr.
Achava-lhe agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes
desgostos: Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e bebamos
de uma vez; eis o brinde que vos proponho.  saude dos bons e valentes
opprimidos, e ao castigo dos seus oppressores. Todos acompanharam
Saint-Clair, e foi de roda a saude.

--Sabe de uma cousa, papae? Papae compra amanh latas de conserva,
_petit-pois_, peixe, etc. e ficam guardadas. No dia em que elle
apparecer para jantar, pe-se no fogo,  s aquecer, e daremos um
jantarzinho melhor.

--Mas eu s tenho o dinheiro do teu vestido.

--O meu vestido? Compra-se no mez que vem, ou no outro. Eu espero.

--Mas no ficou ajustado?

--Desajusta-se; eu espero.

--E se no houver outro do mesmo preo?

--Hade haver; eu espero, papae.




CAPITULO CXXXIII


Ainda no disse,--porque os capitulos atropellam-se debaixo da
penna,--mas aqui est um para dizer que, por aquelle tempo, as relaes
de Rubio tinham crescido em numero. Camacho puzera-o em contacto com
muitos homens politicos, a commisso das Alagoas com varias senhoras,
os bancos e companhias com pessoas do commercio e da praa, os theatros
com alguns frequentadores e a rua do Ouvidor com toda a gente. J ento
era um nome repetido. Conhecia-se o homem. Quando appareciam as barbas
e o par de bigodes longos, uma sobre-casaca bem justa, um peito largo,
bengala de unicornio, e um andar firme e senhor, dizia-se logo que era
o Rubio,--um ricao de Minas.

Tinham-lhe feito uma lenda. Diziam-n'o discipulo de um grande
philosopho, que lhe legra immensos bens,--um, tres, cinco mil contos.
Extranhavam alguns que elle no fallasse nunca de philosophia, mas a
lenda explicava esse silencio pelo proprio methodo philosophico do
mestre, que consistia em ensinar smente aos homens de boa vontade.
Onde estavam esses discipulos? Iam  casa delle, todos os dias,--alguns
duas vezes, de manh e de tarde; e assim ficavam definidos os
comensaes. No seriam discipulos, mas eram de boa vontade. Roiam fome,
 espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do amphytrio. Entre
os antigos e os novos, houve tal ou qual rivalidade, que os primeiros
accentuaram bem, mostrando maior intimidade, dando ordens aos criados,
pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o costume os
fez supportaveis entre si, e todos acabaram na doce e commum confisso
das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, tambem os novos
lhe deviam dinheiro, ou em especie,--ou em fiana no alfaiate, ou
endosso de lettras, que elle pagava s escondidas, para no vexar os
devedores.

Quincas Borba andava ao collo de todos. Davam estalinhos, para vel-o
saltar, alguns chegavam a beijar-lhe a testa; um delles, mais habil,
achou modo de o ter  mesa, ao jantar ou almoo, sobre as pernas, para
lhe dar migalhas de po.

--Ah! isso no! protestou Rubio  primeira vez.

--Que tem? retorquiu o comensal. No ha pessoas extranhas.

Rubio reflectiu um instante.

--Verdade  que est ahi dentro um grande homem, disse elle.

--O philosopho, o outro Quincas Borba, continuou o conviva, circulando
o olhar pelos novatos, para mostrar a intimidade das relaes entre
elle e Rubio; mas, no logrou sosinho a vantagem, por que os outros
amigos da mesma ra, repetiram, em coro:

-- verdade, o philosopho.

E Rubio explicou aos novatos a alluso ao philosopho, e a razo do
nome do co, que todos lhe attribuiam. Quincas Borba (o defuncto) foi
descripto e narrado como um dos maiores homens do tempo,--superior aos
seus patricios. Grande philosopho, grande alma, grande amigo. E no fim,
depois de algum silencio, batendo com os dedos na borda da mesa, Rubio
exclamou:

--Eu o faria ministro de Estado!

Um dos convivas exclamou, sem convico, por simples officio:

--Oh! sem duvida!

Nenhum daquelles homens sabia, entretanto, o sacrificio que lhes
fazia o Rubio. Recusava jantares, passeios, interrompia conversaes
apraziveis, s para correr a casa e jantar com elles. Um dia achou meio
de conciliar tudo. No estando elle em casa s seis horas em ponto,
os criados deviam pr o jantar para os amigos. Houve protestos; no,
senhor, esperariam at sete ou oito horas. Um jantar sem elle no tinha
graa.

--Mas  que posso no vir, explicou Rubio.

Assim se cumpriu. Os convivas ajustaram bem os relogios pelos da casa
de Botafogo. Davam seis horas, todos  mesa. Nos dous primeiros dias
houve tal ou qual hesitao; mas os criados tinham ordens severas. s
vezes, Rubio chegava pouco depois. Eram ento risos, ditos, intrigas
alegres. Um queria esperar, mas os outros... Os outros desmentiam o o
primeiro; ao contrario, foi este que os arrastou, tal fome trazia,--a
ponto que, se alguma cousa restava, eram os pratos. E Rubio ria com
todos.




CAPITULO CXXXIV


Fazer um capitulo s para dizer que, a principio, os convivas, ausente
o Rubio, fumavam os proprios charutos, depois do jantar,--parecer
frivolo aos frivolos; mas os considerados diro que algum interesse
haver nesta circumstancia em apparencia minima.

De facto, uma noite, um dos mais antigos lembrou-se de ir ao gabinete
de Rubio; l fra algumas vezes, alli se guardavam as caixas de
charutos, no quatro nem cinco, mas vinte e trinta de varias fabricas
e tamanhos, muitas abertas. Um criado (o hespanhol) accendeu o gaz.
Os outros convivas seguiram o primeiro, escolheram charutos e os que
ainda no conheciam o gabinete admiraram os moveis bem feitos e bem
dispostos. A secretria captou as admiraes geraes; era de ebano, um
primor de talha, obra severa e forte. Uma novidade os esperava: dous
bustos de marmore, postos sobre ella, os dous Napolees, o primeiro e o
terceiro.

--Quando veiu isto?

--Hoje ao meio dia, respondeu o criado.

Dous bustos magnificos. Ao p do olhar aquilino do tio, perdia-se no
vago o olhar scismatico do sobrinho. Contou o criado que o amo, apenas
recebidos e collocados os bustos, deixara-se estar grande espao em
admirao, to deslembrado do mais, que elle pode miral-os tambem, sem
admiral-os.--_No me dicen nada estos dos pcaros_, concluiu o criado
fazendo um gesto largo e nobre.




CAPITULO CXXXV


Rubio protegia largamente as lettras. Livros que lhe eram dedicados,
entravam para o prelo com a garantia de duzentos e trezentos
exemplares. Tinha diplomas e diplomas de sociedades litterarias,
coreographicas, pias, e era juntamente socio de uma Congregao
Catholica e de um Gremio Protestante, no se tendo lembrado de um
quando lhe fallaram do outro; o que fazia era pagar regularmente as
mensalidades de ambos. Assignava jornaes sem os ler. Um dia, ao pagar o
semestre de um, que lhe haviam mandado,  que soube, pelo cobrador, que
era do partido do governo; mandou o cobrador ao diabo.




CAPITULO CXXXVI


O cobrador no foi ao diabo; recebeu o preo do semestre, e, como
possuia a observao natural dos cobradores, resmungou na rua:

--Ora aqui est um homem que detesta a folha e paga. Quantos a adoram e
no pagam!




CAPITULO CXXXVII


Mas-- lance da fortuna!  equidade da natureza!--os desperdicios do
nosso amigo, se no tinham remedio, tinham compensao. J o tempo
no passava por elle como por um vadio sem ideias. Rubio,  falta de
ideias, tinha agora imaginao. Outr'ora vivia mais dos outros que de
si, no achava equilibrio interior, e o ocio esticava as horas, que no
acabavam mais. Tudo ia mudando; agora a imaginao, que, a relampagos,
lhe apparecia ultimamente, tendia a pousar um pouco. Sentado na loja do
Bernardo, gastava toda uma manh, sem que o tempo lhe trouxesse fadiga,
nem a estreiteza da rua do Ouvidor lhe tapasse o espao. Repetiam-se
as vises deliciosas, como a das bodas (Cap. LXXXI) em termos a que
a grandeza no tirava a graa. Houve quem o visse, mais de uma vez,
saltar da cadeira e ir at  porta ver bem pelas costas alguma pessoa
que passava. Conhecel-a-hia? Ou seria alguem que, casualmente, tinha as
feies da creatura imaginaria que elle estivera mirando? So perguntas
de mais para um s capitulo; basta dizer que uma dessas vezes nem
passou ninguem, elle proprio reconheceu a illuso, voltou para dentro,
comprou uma teteia de bronze para dar  filha do Camacho, que fazia
annos, e ia casar em breve, e saiu.




CAPITULO CXXXVIII


E Sophia? interroga impaciente a leitora, tal qual Orgon: _Et
Tartuffe?_ Ai, amiga minha, a resposta  naturalmente a mesma,--tambem
ella comia bem, dormia largo e fofo,--cousas que, alis, no impedem
que uma pessoa ame, quando quer amar. Se esta ultima reflexo  o
motivo secreto da vossa pergunta, deixai que vos diga que sois muito
indiscreta, e que eu no me quero seno com dissimulados.

Repito, comia bem, dormia largo e fofo. Chegra ao fim da commisso
das Alagoas, com elogios da imprensa; a _Atalaia_ chamou-lhe o anjo
da consolao. E no se pense que este nome a alegrou, posto que
a lisongeasse; ao contrario, resumindo em Sophia toda a aco da
caridade, podia mortificar as novas amigas, e fazer-lhe perder em
um dia o trabalho de longos mezes. Assim se explica o artigo que a
mesma folha trouxe no numero seguinte, nomeando, particularisando e
glorificando as outras commissarias--estrellas de primeira grandeza.

Nem todas as relaes subsistiram, mas a maior parte dellas estavam
atadas, e no faltam  nossa dona o talento de as tornar definitivas. O
marido  que peccava por turbulento, excessivo, derramado, dando bem a
ver que o cumulavam de favores, que recebia finezas inesperadas e quasi
immerecidas. Sophia, para emendal-o, vexava-o com censuras e conselhos,
rindo:

--Voc esteve hoje insupportavel; parecia um criado.

--Christiano, fique mais senhor de si, quando tivermos gente de fra,
no se ponha com os olhos fra da cara, saltando de um lado para outro,
assim com ar de criana que recebe doce...

Elle negava, explicava ou justificava-se; afinal, concluia que sim,
que era preciso no parecer estar abaixo dos obsequios; cortezia,
affabilidade, mais nada...

Justo, mas no vs cahir no extremo opposto, acudiu Sophia; no vs
ficar casmurro...

Palha era ento as duas cousas; casmurro, a principio, frio, quasi
desdenhoso, fallando pouco, apenas respondendo. Mas, ou a reflexo, ou
o impulso inconsciente, restituia ao nosso homem a animao habitual,
e com ella, segundo o momento, a demasia e o estrepito. Sophia  que,
em verdade, corrigia tudo. Observava, imitava. Necessidade e vocao
fizeram-lhe adquirir, aos poucos, o que no trouxera do nascimento nem
da fortuna. Ao demais, estava naquella edade mdia em que as mulheres
inspiram egual confiana s sinhsinhas de vinte e s sinhs de
quarenta. Algumas morriam por ella; muitas a cumulavam de louvores.

Foi assim que a nossa amiga, pouco a pouco, espanou a atmosphera.
Cortou as relaes antigas, familiares, algumas to intimas que
difficilmente se poderiam dissolver; mas a arte de receber sem calor,
ouvir sem interese e despedir-se sem saudade, no era das suas menores
prendas; e uma por uma, se foram indo as pobres creaturas modestas, sem
maneiras, nem vestidos, amizades de pequena monta, de pagodes caseiros,
de habitos singelos e sem elevao. Com os homens fazia exactamente o
que o major contara, quando elles a viam passar de carruagem,--que era
sua,--entre parenthesis. A differena  que j nem os espreitava para
saber se a viam. Acabara a lua de mel da grandeza; agora torcia os
olhos duramente para outro lado, conjurando, de um gesto definitivo, o
perigo de alguma hesitao. Punha assim os velhos amigos na obrigao
de lhe no tirarem o chapo. Como eram poucos, foi breve a empreza.




CAPITULO CXXXIX


Rubio ainda quiz valer ao major, mas o ar de fastio com que Sophia o
interrompeu foi tal, que o nosso amigo preferiu perguntar-lhe se, no
chovendo na seguinte manh, iriam sempre passear  Tijuca.

--J fallei a Christiano; disse-me que tem um negocio, que fique para
domingo que vem.

Rubio, depois de um instante:

Vamos ns dous. Sahimos cedo, passeamos, almoamos l; s tres ou
quatro horas estamos de volta...

Sophia olhou para elle, com tamanha vontade de acceitar o convite, que
Rubio no esperou resposta verbal.

--Est assentado, vamos, disse elle.

--No.

--Como no?

E repetiu a pergunta, porque Sophia no lhe quiz explicar a negativa,
alis, to obvia. Obrigada a fazel-o, ponderou que o marido ficaria
com inveja, e era capaz de adiar o negocio s para ir tambem. No
queria atrapalhar os negocios delle, e podiam esperar oito dias.
O olhar de Sophia acompanhava essa explicao, como um clarim
acompanharia um padre-nosso. Vontade tinha, oh! se tinha vontade de ir
na manh seguinte, com Rubio, estrada acima, bem posta no cavallo,
no scismando  toa, nem poetica, mas valente, fogo na cara, toda
deste mundo, galopando, trotando, parando. L no alto, desmontaria
algum tempo; tudo s, a cidade ao longe e o ceu por cima. Encostada
ao cavallo, penteando-lhe as crinas com os dedos, ouviria Rubio
louvar-lhe a affouteza e o garbo... Chegou a sentir um beijo na nuca...




CAPITULO CXL


Pois que se trata de cavallos, no fica mal dizer que a imaginao de
Sophia era agora um corsel brioso e petulante, capaz de galgar morros
e desbaratar mattos. Outra seria a comparao, se a occasio fosse
differente; mas corsel  o que vae melhor. Traz a ideia do impeto, do
sangue, da disparada, ao mesmo tempo que a da serenidade com que torna
ao caminho recto, e por fim  cavallaria.




CAPITULO CXLI


--Est dito, vamos amanh, repetiu Rubio, que espreitava o rosto
acceso de Sophia.

Mas o corsel viera fatigado da carreira, e deixou-se estar somnolento
na cavallaria. Sophia era j outra; passara a vertigem da empreza,
o ardor sonhado, o gosto de subir com elle a estrada da Tijuca.
Dizendo-lhe Rubio que fallaria ao marido para que a deixasse ir ao
passeio, redarguiu sem alma:

--Est tonto! Fica para o domingo que vem!

E fixou os olhos no trabalho de linha que fazia,--frioleira  o
nome,--emquanto Rubio voltava os seus para um trechosinho de jardim
mofino, ao p da saleta de trabalho onde estavam. Sophia, sentada no
angulo da janella, ia meneando os dedos. Rubio viu em duas rosas
vulgares uma festa imperial, e esqueceu a sala, a mulher e a si. No
se pde dizer, ao certo, que tempo estiveram assim calados, alheios
e remotos um do outro. Foi uma criada que os accordou, trazendo-lhes
caf. Bebido o caf, Rubio concertou as barbas, tirou o relogio e
despediu-se. Sophia, que espreitava a sabida, ficou satisfeita, mas
encobriu o gosto com o espanto.

--J!

--Preciso de fallar a um sujeito antes das quatro horas, explicou
Rubio. Estamos entendidos; passeio de amanh gorado. Vou mandar
desavisar os cavallos. Mas ser certo no domingo que vem?

--Certo, certo, no posso affirmar; mas resolvendo-se em tempo
o Christiano, creio que sim. Sabe que meu marido  o homem dos
impedimentos.

Sophia acompanhou-o at  porta, estendeu-lhe a mo indifferente,
respondeu sorrindo alguma cousa chocha, tornou  salinha em que
estivera,--ao mesmo angulo,--da mesma janella. No continuou logo o
trabalho, poz uma perna sobre outra, fazendo descer, por habito, a saia
do vestido, e lanou uma olhada ao jardim, onde as duas rosas tinham
dado ao nosso amigo uma viso imperial. Sophia no viu mais que duas
flores mudas. Fitou-as, no obstante, algum tempo; em seguida, pegou
da frioleira, trabalhou um pouco, deteve-se outro pouco, deixando as
mos no regao; e voltou  obra, outra vez, para tornar a deixal-a. De
repente, levantou-se e atirou as linhas e a _navette_  cestinha de
junco, onde guardava os seus pretextos de trabalho. A cesta era ainda
uma lembrana de Rubio!

--Que homem aborrecido!

Dalli foi encostar-se  janella, que dava para o jardim mofino,
onde iam murchando as duas rosas vulgares. Rosas, quando recentes,
importam-se pouco ou nada com as coleras dos outros; mas, se definham,
tudo lhes serve para vexar a alma humana. Quero crer que este costume
nasce da brevidade da vida. Para as rosas, escreveu Fontenelle, o
jardineiro  eterno. E que melhor maneira de ferir o eterno que mofar
das suas iras? Eu passo, tu ficas; mas eu no fiz mais que florir
e aromar, servi a donas e a donzellas, fui lettra de amor, ornei a
botoeira dos homens, ou expiro no proprio arbusto, e todas as mos e
todos os olhos me trataram e me viram com admirao e affecto. Tu no,
 eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu affliges-te! a tua
eternidade no vale um s dos meus minutos.

Assim, quando Sophia chegou  janella que dava para o jardim, ambas
as rosas riram-se a petalas despregadas. Uma dellas disse que era bem
feito! bem feito! bem feito!

--Tens razo em te zangares, formosa creatura, acrescentou, mas hade
ser comtigo, no com elle. Elle que vale? Um triste homem sem encantos,
pde ser que bom amigo, e talvez generoso, mas repugnante, no? E tu,
requestada de outros, que demonio te leva a dar ouvidos a esse intruso
da vida? Humilha-te,  suberba creatura, porque s tu mesma a causa do
teu mal. Tu juras esquecel-o, e no o esqueces. E  preciso esquecel-o?
No te basta fital-o, escutal-o, para desprezal-o? Esse homem no diz
cousa nenhuma,  singular creatura, e tu...

--No  tanto assim, interrompeu a outra rosa, com a voz ironica
e descanada; elle diz alguma cousa, e dil-a desde muito, sem
desapprendel-a, nem trocal-a;  firme, esquece a dor, cr na esperana.
Toda a sua vida amorosa  como o passeio  Tijuca, de que vocs
fallavam ha pouco: Fica para o domingo que vem! Eia, piedade ao
menos; s piedosa,  bonissima Sophia! Se hasde amar a alguem, fra do
matrimonio, ama-o a elle, que te ama e  discreto. Anda, arrepende-te
do gesto de ha pouco. Que mal te fez elle, e que culpa lhe cabe se s
bonita? E quando haja culpa, a cesta  que a no tem, s porque elle a
comprou, e menos ainda as linhas e a _navette_ que tu mesma mandaste
comprar pela criada. Tu s m, Sophia, s injusta...




CAPITULO CXLII


Sophia deixou-se estar ouvindo, ouvindo... Interrogou outras plantas,
e no lhe disseram cousa diferente. Ha desses acertos maravilhosos.
Quem conhece o solo e o sub-solo da vida, sabe muito bem que um trecho
de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, so ricos de ideias
ou de sentimentos, quando ns tambem o somos, e que as reflexes de
parceria entre os homens e as cousas compem um dos mais interessantes
phenomenos da terra. A expresso: Conversar com os seus botes,
parecendo simples metaphora,  phrase de sentido real e directo. Os
botes operam synchronicamente comnosco; formam uma especie de senado,
commodo e barato, que vota sempre as nossas moes.


CAPITULO CXLIII

Fez-se o passeio  Tijuca, sem outro incidente mais que uma queda
do cavallo, ao descerem. No foi Rubio que cahiu, nem o Palha, mas
a senhora deste, que vinha pensando em no sei qu, e chicoteou o
animal com raiva; elle espantou-se e deitou-a em terra. Sophia cahiu
com graa. Estava singularmente esbelta, vestida de amazona, corpinho
tentador de justeza. Othello exclamaria, se a visse: Oh! minha bella
guerreira! Rubio limitara-se a isto, ao comear o passeio: A senhora
 um anjo!.




CAPITULO CXLIV


--Fiquei com o joelho dorido, disse ella entrando em casa e coxeando.

--Deixa ver.

No quarto de vestir, Sophia levantou o p sobre um banquinho e
mostrou ao marido o joelho pisado; inchra um pouco, muito pouco, mas
tocando-lhe, fazia-a gemer. Palha, no querendo machucal-a, chegou-lhe
a pontinha dos beios apenas.

--Fiquei descomposta quando cahi?

--No. Pois com um vestido to comprido... Mal se pde ver o bico do
p. No houve nada, acredita.

--Jura que no?

--Que desconfiada que voc , Sophia! Juro por tudo o que ha mais
sagrado, pela luz que me allumia, por Deus Nosso Senhor. Ests
satisfeita?

Sophia ia cobrindo o joelho.

--Deixa ver outra vez. Creio que no ser nada de maior; bota um pouco
de qualquer cousa. Manda perguntar  botica.

--Est bom, deixa-me ir despir, disse ella forcejando por descer o
vestido.

Mas o Palha baixara os olhos do joelho at ao resto da perna, onde
pegava com o cano da bota. De feito, era um bello trecho da natureza.
A meia de seda dava ideia clara da perfeio do contorno. Palha, por
graa, ia perguntando  mulher se se machucra aqui, e mais aqui,
e mais aqui, indicando os logares com a mo que ia descendo. Se
apparecesse um pedacinho desta obra-prima, o co e as arvores ficariam
assombrados, concluiu elle em quanto a mulher descia o vestido e tirava
o p do banco.

--Pde ser, mas no havia s o co e as arvores, disse ella; havia
tambem os olhos do Rubio.

--Ora, o Rubio!  verdade; elle nunca mais teve aquellas ideias de
Santa Thereza?

--Nunca; mas, emfim, no me agradaria... Jura de verdade, Christiano?

--O que voc quer  que eu v subindo de sagrado em sagrado, at 
cousa mais sagrada. Jurei por Deus; no bastou. Juro por voc; est
satisfeita?

Pieguices de lascivo. Sahiu finalmente do quarto da mulher e foi para
o seu. Aquelle pudor medroso e incredulo de Sophia fazia-lhe bem.
Mostrava que ella era sua, totalmente sua; mas, por isso mesmo que
elle a possuia, considerava que era de grande senhor no se affligir
com a vista casual e instantanea de um pedao occulto do seu reino. E
lastimava que o casual tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a
fronteira; as primeiras villas do territorio, antes da cidade machucada
pela queda, dariam ideia de uma civilisao sublime e perfeita. E
ensaboando-se, esfregando a cara, o collo e a cabea na vasta bacia
de prata, escovando-se, enxugando-se, aromando-se, Palha imaginava o
pasmo e a inveja da unica testemunha do desastre, se este fosse menos
incompleto.




CAPITULO CXLV


Foi por esse tempo que Rubio poz em espanto a todos os seus amigos.
Na tera-feira seguinte ao domingo do passeio (era ento Janeiro de
1870) avisou a um barbeiro e cabelleireiro da rua do Ouvidor que o
mandasse barbear a casa, no outro dia, s nove horas da manh. L foi
um official francez,--chamado Lucien, creio eu,--que entrou para o
gabinete de Rubio, segundo as ordens dadas ao criado.

--Uhm!... rosnou Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubio.

Lucien parou  porta do gabinete, e comprimemtou o dono da casa; este,
porem, no viu a cortezia, como no ouvira o signal do Quincas Borba.
Estava em uma longa cadeira de extenso, ermo do espirito, que rompera
o tecto e se perdera no ar. A quantas leguas iria? Nem condor nem aguia
o poderia dizer. Em marcha para a lua,--no via c em baixo mais que
as felicidades perennes, chovidas sobre elle, desde o bero, onde o
embalaram fadas, at  praia de Botafogo, aonde ellas o trouxeram, por
um cho de rosas e bogaris. Nenhum revez, nenhum mallogro, nenhuma
pobreza;--vida placida, cosida de goso, com rendas de superfluo. Em
marcha para a lua!

Lucien relanceou os olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a
secretria, e sobre ella os dous bustos de Napoleo e Luiz Napoleo.
Relativamente a este ultimo, havia ainda, pendentes da parede, uma
gravura ou lithographia representando a _Batalha de Solferino_, e um
retrato da imperatriz Eugenia.

Rubio tinha nos ps um par de chinellas de damasco, bordadas a ouro;
na cabea, um gorro com borla de seda preta. Na bocca, um riso azul
claro.




CAPITULO CXLVI


--_Monsieur..._

--Uhm! repetiu Quincas Borba, de p nos joelhos do senhor.

Rubio voltou a si e deu com o barbeiro. Conhecia-o por tel-o visto
ultimamente na loja; ergueu-se da cadeira, Quincas Borba latia, como a
defendel-o contra o intruso.

--Socega! cala a boca! disse-lhe Rubio; e o cachorro foi, de orelha
baixa, metter-se por traz da cesta de papeis. Durante esse tempo,
Lucien desembrulhava os seus apparelhos.

--_Monsieur veut se faire raser, n'est-ce pas? Pourquoi donc a-t-il
laisser crotre cette belle barbe? Apparemment que c'est un voeu
d'amour? J'en connais qui ont fait de pareils sacrifices; j'ai mme t
confident de quelques personnes aimables..._

--Justamente! interrompeu Rubio.

No entendera nada; posto soubesse algum francez, mal o comprehendia
lido--como sabemos,--e no o entendia fallado. Mas, phenomeno
curioso, no respondeu por impostura; ouviu as palavras, como se
fossem comprimento ou acclamao; e, ainda mais curioso phenomeno,
respondendo-lhe em portuguez, cuidava fallar francez.

--Justamente! repetiu. Quero restituir a cara ao typo anterior; 
aquelle.

E, como apontasse para o busto de Napoleo III, respondeu-lhe o
barbeiro pela nossa lingua:

--Ah! o imperador! Bonito busto, em verdade. Obra fina. O senhor
comprou isto aqui ou mandou vir de Paris? So magnificos. L est o
primeiro, o grande; este era um genio. Se no fosse a traio, oh!
os traidores, v o senhor? os traidores so peiores que as bombas de
Orsini.

--Orsini! um coitado!

--Pagou caro.

--Pagou o que devia. Mas no ha bombas nem Orsini contra o destino de
um grande homem, continuou Rubio. Quando a fortuna de uma nao pe
na cabea de um grande homem a coroa imperial, no ha maldades que
valham... Orsini! um bobo!

Em poucos minutos, comeou o barbeiro a deitar abaixo as barbas do
Rubio, para lhe deixar somente a pera e os bigodes de Napoleo III;
encarecia-lhe o trabalho; affirmava que era difficil compor exactamente
uma cousa como a outra, E  medida que lhe cortava as barbas, ia-as
gabando.--Que lindos fios! Era um grande e honesto sacrificio que
fazia, em verdade...

--Seu barbeiro, voc  pernostico, interrompeu Rubio. J lhe disse o
que quero; ponha-me a cara como estava. Alli tem o busto para guial-o.

--Sim, senhor, cumprirei as suas ordens, e ver que semelhana vae sair.

E zs, zs, deu os ultimos golpes s barbas de Rubio, e comeou a
rapar-lhe as faces e os queixos. Durou longo tempo a operao; o
barbeiro ia tranquillamente rapando, comparando, dividindo os olhos
entre o busto e o homem. s vezes, para melhor cotejal-os, recuava dous
passos, olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que se
virasse de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto.

--Vae bem? perguntava Rubio.

Lucien pedia-lhe com um gesto que se calasse, e proseguia. Recortou a
pera, deixou os bigodes, e escanhoou  vontade, lentamente, amigamente,
aborrecidamente, adivinhando com os dedos alguma pontinha imperceptivel
de cabello no queixo ou na face, para no o consentir, nem por
suspeita. s vezes Rubio, canado de estar a olhar para o tecto,
emquanto o outro lhe aperfeioava os queixos, pedia para descanar.
Descanando, apalpava o rosto e sentia pelo tacto a mudana.

--Os bigodes  que no esto muito compridos, observava.

--Falta arranjar-lhe as guias; aqui trago os ferrinhos para encurval-os
bem sobre o labio, e depois faremos as guias. Ah! eu prefiro compor dez
trabalhos originaes a uma s copia.

Volveram ainda dez minutos, antes que os bigodes e a pera fossem bem
retocados. Emfim, prompto. Rubio deu um salto, correu ao espelho, no
quarto, que ficava ao p; era o outro, eram ambos, era elle mesmo, em
summa.

--Justamente! exclamou tornando ao gabinete, onde o barbeiro, tendo
arrecadado os apparelhos, fazia festas ao Quincas Borba.

E indo  secretria, abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil
ris, e deu-lh'a.

--No tenho troco, disse o outro.

--No precisa dar troco, acudiu Rubio com um gesto soberano; tire o
que houver de pagar  casa, e o resto  seu.




CAPITULO CXLVII


Ficando s, Rubio atirou-se a uma poltrona, e viu passar muitas
cousas sumptuosas. Estava em Biarritz ou Compigne, no se sabe
bem; Compigne, parece. Governou um grande Estado, ouviu ministros
e embaixadores, dansou, jantou,--e assim outras aces narradas em
correspondencias de jornaes, que elle lera e lhe ficaram de memoria.
Nem os ganidos de Quincas Borba logravam espertal-o. Estava longe e
alto. Compigne era no caminho da lua. Em marcha para a lua!




CAPITULO CXLVIII


Quando desceu da lua, ouviu os ganidos do cachorro e sentiu frio nos
queixos. Correu ao espelho e verificou que a differena entre a cara
barbada e a cara lisa era grande mas que, assim lisa, no lhe afiava,
mal. Os comensaes chegaram  mesma concluso.

--Est perfeitamente bem! Ha muito que devia ter feito isso. No  que
as barbas grandes lhe tirassem a nobreza do rosto; mas, assim como est
agora, tem o que tinha, e mais um tom moderno...

--Moderno, repetiu o amphytrio.

Fra, egual espanto. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto
lhe ia melhor que o anterior. Uma s pessoa, o Dr. Camacho, posto
julgasse que os bigodes e a pera ficavam muito bem no amigo, ponderou
que era de bom aviso no alterar o rosto, verdadeiro espelho da alma,
cuja firmeza e constancia devia reproduzir.

--No  por lhe fallar de mim, concluiu; mas, nunca me hade ver a
cara de outro modo.  uma necessidade moral da minha pessoa. Minha
vida, sacrificada aos principios,--porque eu nunca tentei conciliar
principios, mas homens,--minha vida, digo,  uma imagem fiel da minha
cara, e vice-versa.

Rubio ouvia com seriedade, e acenava de cabea que sim, que devia ser
assim por fora. Sentia-se ento imperador dos francezes, incognito,
de passeio; descendo  rua, voltou ao que era. Dante, que viu tantas
cousas extraordinarias, affirma ter assistido no inferno ao castigo
de um espirito florentino, que uma serpente de seis ps abraou de
tal modo, e to confundidos ficaram, que afinal j se no podia
distinguir bem se era um ente unico, se dous. Rubio era ainda dous.
No se misturavam nelle a propria pessoa com o imperador dos francezes.
Revesavam-se; chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era s Rubio,
no passava do homem do costume. Quando subia a imperador, era s
imperador. Equilibravam-se, um sem outro, ambos integraes.




CAPITULO CXLIX


--Que mudana  essa? perguntou Sophia, quando elle lhe appareceu no
fim da semana.

--Vim saber do seu joelho; est bom?

--Obrigada.

Eram duas horas da tarde. Sophia acabava de vestir-se para sair, quando
a criada lhe fora dizer que estava alli Rubio,--to mudado de cara que
parecia outro. Desceu a vel-o curiosa; achara-o na sala, de p, lendo
os cartes de visita.

--Mas que mudana  essa? repetiu ella. Rubio, sem nenhuma ideia
imperial, respondeu que suppunha ficarem-lhe melhor os bigodes e a pera.

--Ou estou mais feio? concluiu.

--Est melhor, muito melhor.

E Sophia disse comsigo que talvez fosse ella a causa da mudana.
Sentou-se no soph, e comeou a enfiar os dedos nas luvas.

--Vae sahir?

--Vou, mas o carro ainda no veiu.

Cahiu-lhe uma das luvas. Rubio inclinou-se para apanhal-a, ella fez a
mesma cousa, ambos pegaram na luva, e teimando em levantal-a, succedeu
que as caras encontraram-se no ar, e bateram uma na outra. Pangloss, se
tem assistido ao episodio, emendaria a sua theoria dos narizes, que,
segundo elle, foram feitos para uso dos oculos, quando a verdade  que
foram destinados a impedir o encontro casual e involuntario das bocas
de um e de outro sexo. Assim succedeu aqui. O nariz della bateu no
delle, e as boccas ficaram intactas para rir, como riram.

--Machuquei-a?

--No! eu  que lhe pergunto...

E riram outra vez. Sophia calou a luva, Rubio fitou-lhe um p que
se mexia disfaradamente, at que o criado veiu dizer que a carruagem
chegra. Ergueram-se, e ainda uma vez riram.




CAPITULO CL


Teso, descoberto, o lacaio abriu a portinhola do _coup_, quando Sophia
assomou  porta. Rubio offereceu a mo para ajudal-a a entrar, ella
acceitou o obsequio e entrou.

--Agora, at...

No pde acabar a phrase; Rubio entrra aps ella e sentra-se-lhe ao
lado; o lacaio fechou a portinhola, trepou  almofada, e o carro partiu.




CAPITULO CLI


To rpido foi tudo, que Sophia perdeu a voz e o movimento; mas, ao
cabo de alguns segundos:

--Que  isto?... Senhor Rubio, mande parar o carro.

--Parar? Mas a senhora no me disse que ia sair e esperava por elle?

--No ia sair com o senhor... No v que... Mande parar...

Desatinada, quiz ordenar ao cocheiro que parasse; mas a ideia de um
possivel escandalo fel-a deter-se a meio caminho. O _coup_ entrara na
rua Bella da Princeza. Sophia novamente pediu a Rubio que advertisse
na inconveniencia de irem assim,  vista de Deus e de todo mundo,
Rubio respeitou o escrupulo, e propoz que descessem as cortinas.

--Eu acho que no faz mal que nos vejam, explicou Rubio; mas, fechando
as cortinas, ninguem nos v. Se quer?

Sem aguardar resposta, desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram
os dous a ss, porque, se de dentro podiam ver uma ou outra pessoa que
passasse, de fra ninguem os via. Ss, completamente ss, como naquelle
dia em que s mesmas duas horas da tarde, em casa d'ella, Rubio lhe
lanou em rosto os seus desesperos. L, ao menos, a moa, estava livre;
aqui dentro do carro fechado, no podia calcular as consequencias.

Rubio, entretanto, accommodra as pernas e no dizia nada.




CAPITULO CLII


Sophia encolhera-se muito ao canto. Podia ser extranheza da situao,
podia ser medo; mas era principalmente repugnancia. Nunca esse homem
lhe fez sentir tanta averso, asco, ou outra cousa menos dura, se
querem, mas que se reduzia  incompatibilidade,--como direi que no
aggrave os ouvidos?-- incompatibilidade da epiderme. Onde iam os
sonhos de ha poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a ss, 
Tijuca, subiu com elle a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras
de adorao, e sentiu um beijo na nuca. Onde iam essas imaginaes?
Onde iam os olhos fixos e grandes, as mos amigas e longas, os ps
inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericordia? Tudo
esqueceu, tudo desappareceu, agora que ambos se achavam deveras ss,
insulados pelo carro e pelo escandalo.

E os cavallos continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando
lentamente o carro, pelas pedras da rua Bella da Princeza. Que faria
ella chegando ao Cattete? iria  cidade com elle? Pensou em seguir
para a casa de alguma amiga deixal-o-hia dentro, diria ao cocheiro que
se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquella agonia,
atravessaram-lhe o cerebro algumas memorias banaes, ou extranhas
 situao, como a noticia de um roubo de joias lida de manh nos
jornaes, a ventania da vespera, um chapo. Afinal fixou-se em um s
cuidado. Que lhe ia dizer o Rubio? Viu que elle continuava a olhar
para a frente, calado, com o casto da bengala no queixo. No lhe
ficava mal a attitude, tranquilla, sria, quasi indifferente; mas ento
para que se metteu no carro? Sophia quiz romper o silencio; por duas
vezes moveu nervosamente as mos; quasi que a irritou a quietao do
homem, cuja aco s podia ser explicada pela paixo antiga e violenta.
Depois, imaginou que elle proprio estaria arrependido, e disse-lh'o em
bons termos.

--No vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu elle,
voltando-se. Quando a senhora disse que era mu irmos assim,  vista do
publico, abaixei as cortinas. No concordei, mas obedeci.

--Chegamos ao Cattete, atalhou ella; quer que o leve a casa? No
podemos ir juntos para a cidade.

--Podemos andar  ta.

--Como?

-- ta, os cavallos vo andando e ns vamos conversando, sem que nos
ouam nem adivinhem...

--Pelo amor de Deus! no me falle assim, deixe-me, saia do carro, ou eu
saio aqui mesmo, e o senhor toma conta d'elle. Que  que quer dizer?
Bastam poucos minutos... Olhe, j dobramos para o lado da cidade; mande
ir para Botafogo, vou deixal-o a porta de casa...

--Mas eu sahi ha pouco de casa, vou para a cidade. Que mal ha em
levar-me at l? Se  para que no nos vejam, como foi com as cortinas,
apeio-me, em qualquer logar,--na praia de Santa Luzia, por exemplo,--do
lado do mar...

--O melhor  descer aqui mesmo.

--Mas porque no iremos at a cidade?

--No, no pde ser. Peo-lhe por tudo que lhe for mais sagrado! No
faa escandalo; vamos, diga-me o que  preciso para obter uma cousa to
simples? Quer que me ajoelhe aqui mesmo?

Apezar da estreiteza do espao, ia dobrando os joelhos; mas Rubio
deu-se pressa em fazel-a sentar-se outra vez.

--No  preciso que se ajoelhe, disse com brandura.

--Obrigada; peo-lhe ento por Deus, por sua me, que est no ceu...

--Deve estar no ceu, confirmou Rubio. Era uma santa senhora! As mes
so sempre boas; mas daquella, ninguem que a conheceu poder dizer
outra cousa seno que era uma santa. E prendada, como poucas. Que
dona de casa! Hospedes, para ella, tanto fazia cinco como cincoenta,
era a mesma cousa, cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou fama. Os
escravos davam-lhe o nome de _Sinh Me_, porque era, realmente, me
para todos. Deve estar no cu!

--Bem, bem, atalhou Sophia. Pois faa-me isto por amor de sua me; faz?

--Isto que?

--Apeiar-se aqui mesmo?

--E ir a p para a cidade? No posso.  scisma sua; ninguem nos v. E
depois estes seus cavallos so magnificos. J reparou como atiram as
patas, lentamente, pls... pls... pls... pls...

Canada de pedir, Sophia calou-se, cruzou os braos e coseu-se ainda
mais, se era possivel, ao cantinho do carro.

--Agora me lembro, pensou ella; mando parar  porta do armazem do
Christiano; digo-lhe o modo por que este homem se introduziu no
_coup_, os pedidos que lhe fiz o as respostas que me deu. Antes isso
que fazel-o apear mysteriosamente em qualquer rua.

Entretanto, Rubio estava quieto. De vez em quando volvia no dedo o
annel de brilhante,--um solitario explendido. No olhava para ella,
no lhe dizia nem pedia nada. Iam como um casal de aborrecidos. Sophia
comeava a no entender que razo o teria levado a entrar no carro.
Necessidade de transporte no podia ser. Vaidade, tambem no; fechra
as cortinas,  sua primeira queixa de publicidade. Nenhuma palavra
amorosa,--uma alluso remota que fosse, a medo, cheia de venerao e
supplica. Era um inexplicavel, um monstro.




CAPITULO CLIII


--Sophia... disse de repente Rubio; e continuou com pausa:--Sophia,
os dias passam, mas nenhum homem esquece a mulher que verdadeiramente
gostou delle, ou ento no merece o nome de homem. Os nossos amores no
sero esquecidos nunca,--por mim, est claro, e estou certo que nem por
ti. Tudo me dste, Sophia; a tua propria vida correu perigo. Verdade 
que eu te vingaria, minha bella. Se a vingana pde alegrar os mortos,
terias o maior prazer possivel. Felizmente, o meu destino protegeu-nos,
e pudemos amar sem peias nem sangue...

A moa olhava espantada.

--No te espantes, continuou elle; no nos vamos separar; no, no
te fallo de separao. No me digas que morrerias; sei que havias
de chorar muitas lagrymas. Eu no,--que no vim ao mundo para
chorar,--mas nem por isso a minha dor seria menor; ao contrario, as
dores guardadas no corao doem mais que as outras. Lagrymas so boas
porque a pessoa desabafa. Querida amiga, fallo-te assim, porque 
preciso termos cautella; a nossa insaciavel paixo pde esquecer esta
necessidade. Temos facilitado muito, Sophia; como nascemos um para o
outro, parece-nos que estamos casados, e facilitamos. Ouve, querida,
ouve, alma da minha alma... A vida  bella! a vida  grande! a vida 
sublime! Comtigo, porm, que nome haver que lhe possa dar? Lembras-te
da nossa primeira entrevista?

Rubio disse esta ultima palavra, querendo pegar-lhe na mo. Sophia
recuou a tempo; estava desorientada, no entendia e tinha medo. A voz
delle crescia, o cocheiro podia ouvir alguma cousa... E aqui uma ideia
terrivel a abalou: talvez o intento de Rubio fosse justamente fazer-se
ouvir, para obrigal-a pelo terror,--ou ento para que a abocanhassem.
Teve impeto de atirar-se a elle, gritar que lhe acudissem, e salvar-se
pelo escandalo.

Elle, baixinho, depois de certa pausa:

--A mim lembra-me, como se fosse hontem. Tu chegaste de carro, no
era este; era um carro de praa, uma calea. Desceste medrosa, com
o veu pela cara; tremias como varas verdes... Mas os meus braos te
ampararam... O sol daquelle dia devia ter parado, como quando obedeceu
a Josu... E comtudo, minha flor, aquellas horas foram compridas como
diabo, no sei porque; a rigor, deviam ser curtas. Era talvez porque
a nossa paixo no acabava mais,no acabou, nem hade acabar nunca...
Em compensao, no vimos mais o sol; ia cahindo para o outro lado das
montanhas, quando a minha Sophia, ainda medrosa, sahiu para a rua, e
pegou de outra calea. Outra ou a mesma? Creio que foi a mesma. No
imaginas como fiquei; parecia tonto, beijei tudo em que havias tocado;
cheguei a beijar a soleira da porta. Creio que j te contei isto. A
soleira da porta. E estive quasi, quasi a ir de rastos, beijar os
degros da escada... No o fiz, recolhi-me, fechei-me para que se no
perdesse o teu cheiro; violeta, se bem me recordo...

No, no era possivel que o intuito de Rubio fosse fazer crer ao
cocheiro uma aventura mentirosa. A voz era to sumida que Sophia mal
podia escutal-a; mas, se lhe custava a entender as palavras, no
chegava a comprehender o sentido dellas. A que vinha aquella historia
no succedida? Quem quer que a ouvisse, acceitaria tudo por verdade,
tal era a nota sincera, a meiguice dos termos e a verosimilhana dos
pormenores. E elle continuou suspirando as bellas reminiscencias...

--Mas que caoada  essa? atalhou finalmente Sophia.

No lhe respondeu o nosso amigo;--tinha a imagem deante dos olhos, no
ouviu a pergunta, e foi andando. Citou-lhe um concerto de Gottschalk.
O divino pianista melodiava ao piano; elles ouviam, mas o demonio da
musica levou os olhos de um para outro, e ambos esqueceram o resto.
Quando a musica cessou, as palmas romperam, e elles accordaram. Ai
tristes! accordaram com o olhar do Palha em cima delles, um olho de
ona brava. Nessa noite cuidou que elle a matasse.

--Senhor Rubio...

--Napoleo, no; chama-me Luiz. Sou o teu Luiz, no  verdade, galante
creatura? Teu, teu... Chama-me teu;--o teu Luiz, o teu querido Luiz.
Ai, se tu soubesses o gosto que me ds quando te ouo essas duas
palavras: Meu Luiz! Tu s a minha Sophia,--a doce, a mimosa Sophia
da minha alma. No percamos estes momentos; vamos dizer nomes ternos;
mas, baixo, baixinho, para que os malandros da almofada do carro no
escutem. Para que hade haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse
por si, a gente fallava  vontade, e iria ao fim da terra...

J ento iam costeando o Passeio Publico; Sophia no deu por isso.
Olhava fixamente para Rubio; no podia ser calculo de perverso, nem
lhe attribuia mofa... Delirio, sim,  o que era; tinha a sinceridade da
palavra, como pessoa que v ou viu realmente as cousas que relata.

-- preciso pol-o fra daqui, pensou a moa. E, apparelhando-se de
coragem:--Onde estaremos ns? perguntou-lhe.  occasio de separar-nos.
Veja do lado de l; onde estamos? Parece que  o convento; estamos no
largo da Ajuda. Diga ao cocheiro que pre; ou, se quer, pode apear-se
no largo da Carioca. Meu marido...

--Vou nomeal-o embaixador, disse Rubio. Ou senador, se quizer. Senador
 melhor; ficam os dous aqui. Embaixador que fosse, no consentiria
que tu o acompanhasses, e as ms linguas... Tu sabes a opposio que
soffro, as calumnias... Ah! ruim gente! Convento da Ajuda, disseste?
Que tens tu com elle? Queres ser freira?

--No; digo que j passamos o convento da Ajuda. Vou deixal-o no largo
da Carioca, Ou vamos at o armazem de meu marido?

Sophia tornou a apegar-se ao segundo alvitre; no se faria suspeita ao
cocheiro, provaria melhor a sua innocencia ao Palha, narrando-lhe tudo,
desde a entrada inesperada no carro at o delirio. E que delirio era
esse? Sophia pensou que o motivo podia ser ella propria, e esta ideia
fel-a sorrir de piedade.

--Para que? disse Rubio. Vou apeiar-me aqui mesmo,  mais seguro. Para
que hade elle desconfiar de ns e maltratar-te? Posso castigal-o, mas
sempre me ficaria o remorso do mal que elle te causaria. No, linda
flor amiga; o vento que se atrevesse a tocar em tua pessoa, acredita
que eu mandaria pr fora do espao, como um vento indigno. Tu ainda no
conheces bem o meu poder, Sophia; anda, confessa.

Como Sophia no confessasse nada, Rubio chamou-lhe de bonita, e
offereceu-lhe o solitario que tinha no dedo; ella, porm, comquanto
amasse as joias e tivesse a intuio dos solitarios, recusou
medrosamente a offerta.

--Comprehendo o escrupulo, disse elle; mas no perdes por isso, porque
hasde receber outra pedra ainda mais bella, e pela mo de teu marido.
Far-te-hei duqueza. Ouviste? O titulo  dado a elle, mas tu  que s
a causa. Duque... Duque de que? Vou ver um titulo bonito; ou ento
escolhe tu mesma, porque  para ti, no  para elle,  para ti, minha
mimosa. No  preciso escolher j, vae para casa e pensa. No te vexes;
manda-me dizer o que achares mais bonito, e fao lavrar immediatamente
o decreto. Tambem podes fazer outra cousa: escolhe, e diz-me no nosso
primeiro encontro, no logar do costume. Quero ser o primeiro que te
chame duqueza. Querida duqueza... O decreto vir depois. Duqueza da
minha alma!

--Sim, sim, disse ella desvairamente, mas avisemos o cocheiro que nos
leve at a casa de Christiano.

--No, apeio-me aqui... Pra! pra!

Rubio ergueu as cortinas, e o lacaio veiu abrir a portinhola. Sophia,
para tirar toda a suspeita a este, pediu novamente ao Rubio que fosse
com ella  casa do marido; disse-lhe que este precisava fallar-lhe, com
urgencia. Rubio olhou um pouco espantado para ella, para o lacaio e
para a rua; e respondeu que no, que iria depois.




CAPITULO CLIV


Apenas separados, deu-se em ambos um contraste.

Rubio, na rua, voltou a cabea para todos os lados, a realidade
apossava-se delle e o delirio esvaia-se. Andava, estacava deante de
uma loja, atravessava a rua, detinha um conhecido, pedia-lhe noticias
e opinies; exforo inconsciente para sacudir de si a personalidade
emprestada.

Ao contrario, Sophia, passado o susto e o espanto, mergulhou no
devaneio; todas as referencias e historias mentirosas de Rubio como
que lhe davam saudades,--saudades de que?--saudades do ceu, que  o
que dizia o padre Bernardes do sentimento de um bom christo. Nomes
diversos relampejavam no azul daquella possibilidade. Quanto pormenor
interessante! Sophia reconstruiu a calea velha, onde entrou rapida,
donde desceu tremula, para esgueirar-se pelo corredor dentro, subir
a escada, e achar um homem,--que lhe disse os mimos mais appetitosos
deste mundo, e os repetiu agora, ao p della, no carro, mas no era,
no podia ser o Rubio. Quem seria? Nomes diversos relampejavam no azul
daquella possibilidade.




CAPITULO CLV


Espalhou-se a nova da mania de Rubio. Alguns, no o encontrando nas
horas do delirio, faziam experiencias, a ver se era verdadeiro o boato;
encaminhavam a conversao para os negocios de Frana e do imperador.
Rubio resvalava ao abysmo, e convencia-os.




CAPITULO CLVI


Passaram-se alguns mezes, veiu a guerra franco-prussiana, e as crises
de Rubio tornaram-se mais intensas e menos espaadas. Quando as malas
da Europa chegavam cedo, Rubio sahia de Botafogo, antes do almoo, e
corria a esperar os jornaes; comprava a _Correspondencia de Portugal_,
e ia lel-a no Carceler. Quaesquer que fossem as noticias, dava-lhes
o sentido da victoria. Fazia a conta dos mortos e feridos, e achava
sempre um grande saldo a seu favor. A quda de Napoleo III foi para
elle a captura do rei Guilherme, a revoluo de 4 de Setembro um
banquete de bonapartistas.

Em casa, os amigos do jantar no se mettiam a dissuadil-o. Tambem
no confirmavam nada, por vergonha uns dos outros; sorriam e
desconversavam. Todos, entretanto, tinham as suas patentes militares,
o marechal Torres, o marechal Pio, o marechal Ribeiro, e acudiam pelo
titulo. Rubio via-os fardados; ordenava um reconhecimento, um ataque,
e no era necessario que elles sahissem a obedecer; o cerebro do
amphytrio cumpria tudo. Quando Rubio deixava o campo de batalha para
tornar  mesa, esta era outra. J sem prataria, quasi sem porcellana
nem crystaes, ainda assim apparecia aos olhos de Rubio rgiamente
esplendida. Pobres gallinhas magras eram graduadas em faises; picados
triviaes, assados de m morte traziam o sabor das mais finas iguarias
do co e da terra. Os comensaes faziam algum reparo, entre si,--ou ao
cosinheiro,--mas Lucullo ceiava sempre com Lucullo. Toda a mais casa,
gasta pelo tempo e pela incuria, tapetes desbotados, mobilias truncadas
e descompostas, cortinas enxovalhadas, nada tinha o seu actual aspecto,
mas outro, lustroso e magnifico. E a linguagem era tambem diversa,
rotunda e copiosa, e assim os pensamentos, alguns extraordinarios, como
os do finado amigo Quincas Borba,--theorias que elle no entendera,
quando lh'as ouvira outr'ora, em Barbacena, e que ora repetia com
lucidez, com alma,--s vezes, empregando as mesmas phrases do
philosopho. Como explicar essa repetio do obscuro, esse conhecimento
do inextricavel, quando os pensamentos e as palavras pareciam ter ido
com os ventos de outros dias? E porque todas essas reminiscencias
desappareciam com a volta da razo?




CAPITULO CLVII

A compaixo de Sophia,--explicado o mal do Rubio pelo amor que elle
lhe tinha,--era um sentimento medio, no sympathia pura nem egoismo
ferrenho, mas participando de ambos. Uma vez que evitasse alguma
situao identica  do _coup_, tudo ia bem. Nas horas em que Rubio
estava lucido, escutava-o e fallava-lhe com interesse,--at porque
a doena, dando-lhe audacia nos momentos de crise, dobrava-lhe a
timidez nas horas normaes. No sorria, como o Palha, quando Rubio
subia ao throno ou commandava um exercito. Crendo-se autora do mal,
perdoava-lh'o; a ida de ter sido amada at  loucura, sagrava-lhe o
homem.




CAPITULO CLVIII


--Porque no o tratam? perguntou uma noite D. Fernanda, que alli o
conhecera no anno anterior; pde ser que se cure.

--Parece que no  cousa grave, acudiu o Palha; tem desses accessos,
mas assim mansos, como viu, ideias de grandeza, que passam logo; e
repare que, fra daquillo, conversa perfeitamente. Comtudo, pde ser...
Que acha V. Ex.?

Theophilo, o marido de D. Fernanda, respondeu que sim, que era possivel.

--Que fazia elle, ou que faz agora? continuou o deputado.

--Nada, nem agora nem antes. Era rico,--mas gastador. Conhecemol-o
quando veiu de Minas, e fomos, por assim dizer, o seu guia no Rio de
Janeiro, aonde no voltara desde longos annos. Bom homem. Sempre com
luxo, lembra-se? Mas, no ha riqueza inexgotavel, quando se entra pelo
capital; foi o que elle fez. Hoje creio que tenha pouco...

--Podia salvar-lhe esse pouco, fazendo-se nomear curador, em quanto
elle se trata. No sou medico, mas pde ser que esse seu amigo fique
bom.

--No digo que no. Realmente,  pena... D-se com todos e presta seus
servios. Sabe que esteve para ser nosso parente? Pois no! quis casar
com Maria Benedicta.

--A proposito de Maria Benedicta, interrompeu D. Fernanda, ia-me
esquecendo que trago uma carta della para mostrar  senhora; recebi-a
hontem. J ha de saber que, em breve, esto de volta? Est aqui.

Entregou a carta a Sophia, que a abriu sem enthusiasmo, e a leu com
tedio. Era mais que uma vulgar carta transatlantica, era um deposito
moral, uma confisso intima e completa de pessoa feliz e agradecida.
Contava os mais recentes episodios da viagem, desordenadamente, porque
os viajantes eram sobrepostos a tudo, e as mais bellas obras do homem
ou da natureza valiam menos que os olhos que as miravam. s vezes,
um incidente de hospedaria ou de rua comia mais papel e trazia mais
interesse que outros, pela razo de pr em relevo as qualidades do
marido. Maria Benedicta amava tanto ou ainda mais que no primeiro
dia. No fim, a medo, em _post-scriptum_, pedindo que o no dissesse a
ninguem, confessava que era me.

Sophia dobrou o papel, no j com tedio, seno com despeito, e por dous
motivos que se contradizem; mas a contradico  deste mundo. Cotejada
aquella carta com as que recebera de Maria Benedicta, dir-se-hia
que ella era apenas uma conhecida, sem outro lao de sangue ou de
affecto; e, comtudo, no quereria ser confidente d'aquella felicidade
cochichada do outro lado do oceano, cheia de minucias, de adjectivos,
de exclamaes, do nome de Carlos Maria, dos olhos de Carlos Maria, dos
ditos de Carlos Maria, finalmente do filho de Carlos Maria. Parecia
acinte, e quasi fazia crer na complicidade de D. Fernanda.

Habil, sabendo domar-se a tempo, Sophia dissimulou o despeito, e
restituiu sorrindo a carta da prima. Quiz dizer que, pelo texto, a
felicidade de Maria Benedicta devia estar intacta como a levara daqui,
mas a voz no lhe passou da garganta. D. Fernanda  que se incumbiu da
concluso:

--V-se bem que  feliz!

--Parece que sim.




CAPITULO CLIX


Se a manh seguinte no fosse chuvosa, outra seria a disposio de
Sophia. O sol nem sempre  official de boas ideias; mas, ao menos,
permitte sahir, e a troca do expectaculo muda as sensaes. Quando
Sophia acordou j a chuva cahia grossa e continua, e o co e o mar era
tudo um, to baixas estavam as nuvens, to espessa era a cerrao.

Tedio por dentro e por fra. Nada em que espraiasse a vista e
descanasse a alma. Sophia metteu a alma em um caixo de cedro,
encerrou a este no caixo de chumbo do dia, e deixou-se estar
sinceramente defuncta. No sabia que os defunctos pensam, que um enxame
de noes novas vem substituir as velhas, e que elles saem criticando
o mundo como os expectadores saem do theatro criticando a pea e os
actores. A defuncta sentiu que algumas noes e sensaes continuavam
a vida. Vinham de mistura, mas tinham um ponto de partida commum,--a
carta da vespera e as recordaes que lhe trouxe de Carlos Maria.

Em verdade, cuidra ter arredado para longe essa figura aborrecida, e
eil-a que reapparecia, que sorria, que a fitava, que lhe sussurrava ao
ouvido as mesmas palavras do vadio egoista e enfatuado, que a convidou
um dia  valsa do adulterio e a deixou sosinha no meio do salo. 
volta dessa vinham outras; Maria Benedicta, por exemplo, um caco de
gente, que ella foi buscar  roa para lhe dar lustre de cidade, e que
esqueceu todos os beneficios para s se lembrar das suas ambies. E
D. Fernanda tambem, madrinha dos seus amores, que de caso pensado,
trouxera na vespera a carta de Maria Benedicta com o _post-scriptum_
confidencial. No advertiu que o prazer da amiga bastava a explicar
o esquecimento da parte reservada da carta; menos ainda indagou se
a natureza moral de D. Fernanda comportava essa supposio. Vieram
assim outras ideias e imagens, e tornaram as primeiras, e todas se iam
ligando e desligando. Entre ellas, appareceu uma lembrana da vespera.
O marido de D. Fernanda, envolvera Sophia em um grande olhar de
admirao. Ella, em verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido
sublinhava admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e
o relevo delicado das cadeiras;--era _foulard_, cr de palha.

--Cr de _palha_, accentuou Sophia rindo, quando D. Fernanda o elogiou,
pouco depois de entrar; cr de _palha_, como uma lembrana deste senhor.

No  facil dissimular o prazer da lisonja; o marido sorriu cheio de
vaidade, procurando ler nos olhos dos outros o effeito daquella prova
minuciosa de amor. Theophilo elogiou tambem o vestido, mas era difficil
miral-o sem mirar tambem o corpo da dona; d'alli os olhos compridos
que lhe deitou, sem concupiscencia,  certo, e quasi sem reincidencia.
Pois essa lembrana da vespera, um gesto sem convite, uma admirao
sem desejo, veiu metter-se de permeio agora, quando Sophia cuidava na
maldade da outra.

Carlos Maria, Theophilo... Outros nomes relampejavam no co daquella
possibilidade, como ficou expresso no cap. CLIV. E vieram todos agora,
porque a chuva continuava a cair e o co e o mar estavam ainda unidos
pela mesma cerrao. Vieram todos esses nomes, com os proprios sujeitos
correspondentes, e at vieram sujeitos sem nomes,--os adventicios e
ignorados,--que uma s vez passaram por ella, cantaram o hymno da
admirao e receberam o obolo da boa vontade. Porque no reteve algum
de tantos, para ouvil-o cantar e enriquecel-o? No  que os obolos
enriqueam a ninguem, mas ha outras moedas de maior valia. Porque no
reteve um de tantos nomes elegantes, e at egregios? Essa pergunta sem
palavras correu-lhe assim pelas veias, pelos nervos, pelo cerebro, sem
outra resposta mais que a agitao e a curiosidade.




CAPITULO CLX


Nisto, a chuva cessou um pouco, e um raio de sol logrou romper o
nevoeiro,--um desses raios humidos que parecem vir de olhos que
choraram. Sophia cuidou que ainda podia sair; estava inquieta por vr,
por andar, por sacudir aquelle torpor, e esperou que o sol varresse a
chuva e tomasse conta do ceu e da terra; mas o grande astro percebeu
que a inteno della era constituil-o lanterna de Diogenes, e disse ao
raio humido: Volta, volta ao meu seio, raio casto e virtuoso; no vs
tu conduzil-a aonde o seu desejo a quer levar. Que ame, se lhe parece;
que responda aos bilhetes namorados,--se os recebe e no queima,--no
lhe sirvas tu de archote, luz do meu seio, filho das minhas entranhas,
raio, irmo dos meus raios...

E o raio obedeceu, recolhendo-se ao foco central, um pouco espantado do
temor do sol, que tem visto tantas cousas ordinarias e extraordinarias.
Ento o veu de nuvens fez-se outra vez espesso, e mais escuro, e a
chuva tornou a cahir em grandes bategas.




CAPITULO CLXI


Sophia resignou-se  recluso. J agora tinha a alma to confusa
e diffusa como o expectaculo exterior. Todas as imagens e nomes
perdiam-se no mesmo desejo de amar.  justo dizer que ella, quando
regressava desses estados de consciencia vagos e obscuros, tentava
fugir-lhes e guiava o espirito para diverso assumpto; mas succedia-lhe
como aos que tm somno e forcejam por velar: os olhos fecham-se de
cada vez que espertam, e tornam a espertar para se fecharem outra vez.
Afinal, deixou a vista da chuva e do nevoeiro; estava canada, e para
repousar, foi abrir as folhas do ultimo numero da _Revista dos Dous
Mundos._ Um dia, no melhor dos trabalhos da commisso das Alagas,
perguntra-lhe uma das elegantes do tempo, casada com um senador:

Est lendo o romance de Feuillet, na _Revista dos Dous Mundos?_

--Estou, acudiu Sophia;  muito interessante, No estava lendo, nem
conhecia a _Revista_; mas, no dia seguinte, pediu ao marido que a
assignasse; leu o romance, leu os que sahiram depois, e fallava de
todos os que lra ou ia lendo. Abertas as folhas daquelle numero,
e acabada uma novella, Sophia recolheu-se ao quarto e atirou-se 
cama. Passra mal a noute, no lhe custou pegar no somno,--profundo,
largo e sem sonhos,--excepto para o fim, em que teve um pesadelo.
Estava deante da mesma parede de cerrao daquelle dia, mas no mar,
 proa de uma lancha, deitada de bruos, escrevendo com o dedo na
agua um nome--_Carlos Maria._ E as lettras ficavam gravadas, e para
maior nitidez, tinham os sulcos de espuma. At aqui nada havia que
atordoasse, a no ser o mysterio; mas  sabido que os mysterios dos
sonhos parecem factos naturaes. Eis que a parede da cerrao se rasga,
e nada menos que o proprio dono do nome apparece aos olhos de Sophia,
caminha para ella, toma-a nos braos e diz-lhe muitas palavras de
ternura, analogas s que ella, alguns mezes antes, ouvira ao Rubio. E
no a afligiram, como as d'este; ao contrario, escutou-as com prazer,
meia cahida para trs, como se desmaiasse. J no era lancha, mas
carruagem, onde ella se ia com o primo, mos presas, namorada de uma
linguagem de ouro e sandalo. Tambem aqui no ha que atterre. O terror
veiu quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados a cercaram,
mataram o cocheiro, arrancaram as portinholas, apunhalaram Carlos Maria
e deitaram o cadaver ao cho. Depois, um delles, que parecia ser o cabo
de todos, tomou o lugar do defuncto, tirou a mascara e disse a Sophia
que se no assustasse, que elle a amava cem mil vezes mais que o outro.
Logo em seguida, pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo
humido de sangue, cheirando a sangue. Sophia soltou um grito de horror
e acordou. Tinha ao p do leito o marido.

--Que foi? perguntou elle.

--Ah! respirou Sophia. Gritei, no gritei?

Palha no respondeu nada; olhava  ta, pensava em negocios. Ento um
receio assaltou a mulher, se haveria effectivamente fallado, murmurado
alguma palavra, um nome qualquer,--o mesmo que escrevera na agua. E
logo, espreguiando os braos para o ar, fel-os cahir sobre os hombros
do marido, cruzou as pontas dos dedos na nuca, e murmurou meia alegre,
meia triste:

--Sonhei que estavam matando voc.

Palha ficou enternecido. Havel-a feito padecer por elle, ainda que em
sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento
particular, intimo, profundo,--que o faria desejar outros pesadelos,
para que o assasinassem aos olhos della, e para que ella gritasse
augustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.




CAPITULO CLXII


No dia seguinte, o sol appareceu claro e quente, o ceu limpido, e o ar
fresco. Sophia metteu-se no carro e saiu a visitas e a passeio para
desforrar-se da recluso. J o proprio dia lhe fez bem. Vestiu-se
cantarolando. O trato das senhoras que a receberam em sua casa,--e
das que achou na rua do Ouvidor, a agitao externa, as noticias
da sociedade, a boa feio de tanta gente fina e amiga, bastaram a
espancar-lhe da alma os cuidados da vespera.




CAPITULO CLXIII


Assim, pois, o que parecia vontade imperiosa reduzia-se a velleidade
pura, e, com algumas horas de intervallo, todos os maos pensamentos
se recolheram s suas alcovas. Se me perguntardes por algum remorso
de Sophia, no sei que vos diga. Ha uma escala de resentimento e de
reprovao. No  s nas aces que a consciencia passa gradualmente
da novidade ao costume, e do temor  indifferena. Os simples peccados
de pensamento so sujeitos a essa mesma alterao, e o uso de cuidar
nas cousas affeioa tanto a ellas,--que, afinal, o espirito no as
estranha, nem as repelle. E nestes casos ha sempre um refugio moral na
iseno exterior, que , por outros termos mais explicativos, o corpo
sem macula.




CAPITULO CLXIV


Um s incidente affligiu Sophia naquelle dia puro e brilhante,--foi um
encontro com Rubio. Tinha entrado em uma livraria da rua do Ouvidor
para comprar um romance; em quanto esperava o troco, viu entrar o
amigo. Rapidamente voltou o rosto o percorreu com os olhos os livros
da prateleira,--uns livros de anatomia e de estatistica;--recebeu o
dinheiro, guardou-o, e, de cabea baixa, rapida como uma flexa, saiu
 rua, e enfiou para cima. O sangue s lhe socegou, quando a rua dos
Ourives ficou para traz. No podia adivinhar que Rubio a no tinha
visto, sequer; nem podia saber que, no a vendo embora, no sahisse
logo, no a conhecesse, no corresse a aggarral-a, a dizer-lhe algum
desvario.

Dias depois, indo a entrar em casa de D. Fernanda, deu com elle no
saguo. Cuidou que subisse, e dispoz-se a subir tambem, ainda que
receiosa; mas Rubio descia, apertaram-se as mos familiarmente, e
despediram-se at  tarde.

--Elle vem aqui muitas vezes? perguntou Sophia a D. Fernanda, depois de
lhe contar o encontro do saguo.

--Esta  a quarta vez, quarta ou quinta; mas s da segunda vez
appareceu delirando. Das outras  como viu agora, socegado, e at
conversador. Ha nelle sempre alguma cousa que mostra no estar
completamente bem. No reparou nos olhos, um pouco vagos?  isso; no
mais, conversa bem. Creia, D. Sophia; aquelle homem pode sarar. Porque
no faz com que seu marido tome isto a peito?

--Christiano tem projecto de o mandar examinar e tratar; mas, deixe
estar que eu o apresso.

--Sim, falle-lhe. Elle parece ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha.

--Ter-lhe-ha dito alguma inconveniencia no delirio, a meu respeito?
pensou Sophia. Convir revellar-lhe a verdade?

Concluiu que no; o proprio mal do Rubio explicaria as
inconveniencias. Prometteu que apressaria o marido, e, nessa mesma
tarde expoz o negocio ao Palha, approvando a ideia de tentar a cura.
Era uma grande _amolao_, redarguiu este. E perguntou que interesse
tinha D. Fernanda em tornar quelle negocio. Que o tratasse ella
mesma! Era uma atrapalhao ter de cuidar do outro, de o acompanhar,
e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que
ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Dr. Theophilo. Um
aborrecimento de todos os diabos.

--J ando com grande carga sobre mim, Sophia. E depois como hade ser?
Havemos de trazel-o para casa? Parece que no. Mettel-o onde? Em alguma
casa de saude... Sim, mas se no puderem acceital-o? No heide mandal-o
para a Praia Vermelha... E as responsabilidades? Voc prometteu que me
falaria?

--Prometti, e affirmei que voc faria isto, respondeu Sophia sorrindo.
Talvez no custe tanto como parece.

Sophia insistiu ainda, A compaixo de D. Fernanda tinha-a impressionado
muito; achou-lhe um qu distincto e nobre, e advertiu que se a outra,
sem relaes estreitas nem antigas com Rubio, assim se mostrava
interessada, era de bom tom no ser menos generosa.




CAPITULO CLXV


Tudo se fez socegadamente. Palha alugou uma casinha na rua do Principe,
cerca do mar, onde metteu o nosso Rubio, alguns trastes e o cachorro
amigo. Rubio acceitou a mudana sem desgosto, e, desde que lhe tornou
o delirio, com enthusiasmo. Estava nos seus paos de S. Cloud.

No succedeu assim aos amigos da casa, que receberam a noticia da
mudana como um decreto de exilio. Tudo na antiga habitao fazia
parte delles, o jardim, a grade, os canteiros, os degraus de pedra,
a enseada. Traziam tudo de cr. Era entrar, pendurar o chapeu, e ir
esperar na sala. Tinham perdido a noo da casa alheia e do obsequio
recebido. Depois, a visinhana. Cada um daquelles amigos do Rubio
estava affeito a ver as pessoas do logar, as caras da manh e as da
tarde, alguns chegavam a comprimental-as, como aos seus proprios
visinhos. Paciencia! iriam agora para Babylonia, como os desterrados de
Sio. Onde quer que estivesse o Euphrates, achariam salgueiros em que
pendurassem as harpas saudosas,--ou mais propriamente, cabides em que
puzessem os chapos. A differena entre elles e os prophetas  que, ao
cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos, e os tangeriam
com a mesma graa e fora; cantariam os velhos hymnos, to novos como
no primeiro dia, e Babel acabaria por ser a mesma Sio, perdida e
resgatada.

--O nosso amigo precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha,
em Botafogo, na vespera da mudana. Ho de ter reparado que no anda
bom; tem suas horas de esquecimento, de transtorno, de confuso, vae
tratar-se, por emquanto  preciso que descance. Arranjai-lhe uma casa
pequena, mas pde ser que, ainda assim, passe para um estabelecimento
de saude.

Ouviram attonitos. Um delles, o Pio, voltando a si mais depressa que os
outros, respondeu que ha mais tempo se devia ter feito aquillo; mas,
para fazel-o, era preciso ter influencia decisiva no animo de Rubio.

--Muitas vezes lhe disse, por boas maneiras, que era indispensavel
consultar um medico, por me parecer que tinha alguma cousa no
estomago... Era um modo de desviar o sentido, comprehende? Mas elle
respondia sempre que no tinha nada, diggeria bem...--Mas come menos,
dizia-lhe eu; ha dias em que no come quasi nada; est mais magro,
um pouco amarello... Comprehende que no podia dizer-lhe a verdade.
Cheguei a fallar a um medico, meu amigo; mas o nosso bom Rubio no o
quiz receber.

Os outros quatro iam confirmando de cabea toda aquella inveno; era o
mais que se lhes podia pedir e tudo o que lhes consentia o atordoamento
do golpe. Acabaram perguntando o numero da nova casa, para irem saber
delle. Pobre amigo! Quando se arrancaram dalli, e se despediram uns
dos outros, deu-se um phenomeno com que no contavam;  que elles
mesmos mal podiam separar-se. No que os ligasse amizade nem estima;
o proprio interesse os fazia antipathicos. Mas o costume de se verem
todos os dias, ao almoo e ao jantar,-- mesma mesa, como que os tinha
fundido uns nos outros; a necessidade os fez supportaveis, o tempo os
tornou mutuamente precisos. Em resumo, eram os olhos de cada um que
iam padecer com a ausencia das caras de uso, do gesto, das soias,
dos bigodes, da calva, dos sestros particulares, do modo de comer,
de fallar e de estar dos companheiros. Era mais que separao, era
desarticulao.




CAPITULO CLXVI


Rubio notou que elles no o acompanharam  casa nova, e mandou-os
chamar; nenhum veiu, e a ausencia encheu de tristeza o nosso
amigo,--durante as primeiras semanas. Era a familia que o abandonava.
Rubio procurou recordar se lhes fizera algum mal, por obra ou por
palavra, e no achou nada.




CAPITULO CLXVII


--Conversei com o homem; achei-lhe ideias delirantes. Comquanto
no seja alienista, acho que pde ficar bom... Mas quer saber uma
descoberta interessante?

--Cr que fique bom? disse D. Fernanda, sem attender  pergunta do Dr.
Falco.

Era deputado o Dr. Falco, deputado e medico, amigo da casa, varo
sabedor, sceptico e frio. D. Fernanda tinha-lhe pedido o favor de
examinar o Rubio, pouco depois que este se transportou para a casa da
rua do Principe.

--Sim, creio que fique bom, desde que seja regularmente tratado. Pde
ser que a doena no tenha antecedentes na familia. Mande ver um
especialista. Mas no quer saber a minha interessante descoberta?

--Qual ?

--Talvez tenha parte na molestia uma pessoa sua conhecida, respondeu
elle sorrindo.

--Quem?

--D. Sophia.

--Como assim?

--Elle fallou-me della com enthusiasmo, disse-me que era a mais
esplendida mulher do mundo, e que a nomera duqueza, por no poder
nomeal-a imperatriz; mas que no brincassem com elle, que era capaz de
fazer como o tio, divorciar-se e casar com ella. Conclui que ter tido
paixo pela moa; mas pode ser alguma cousa mais. Falla della com tal
intimidade, Sophia para aqui, Sophia para alli... Desculpe-me, mas eu
creio que os dois se amaram...

--Oh! no!

--D. Fernanda, creio que se amaram. Que admira? Eu mal a conheo;
a senhora parece que no a conhece ha muito tempo, nem viveu na
intimidade della. Pde ser que se tivessem amado, e que alguma paixo
violenta... Supponhamos que ella o mandasse pr fra de casa... 
verdade que tem a mania das grandezas; mas tudo se pde juntar...

D. Fernanda no olhava para elle, vexada de lhe ouvir aquella
supposio; evitava discutil-a pelo melindre do assumpto. Achava a
suspeita sem fundamento, absurda, inverosimil; no chegaria a crer
naquelle amor espurio, ainda que o ouvisse ao proprio Rubio. Um
desvairado, em summa. Quando o no fosse,  ainda provavel que lhe no
desse f. Sim, no lhe daria f. No podia crer que Sophia houvesse
amado aquelle homem, no por elle, mas por ella, to correcta e pura.
Era impossivel. Quiz defendel-a; mas, apezar da intimidade do Dr.
Falco, recuou segunda vez do assumpto, e repetiu a pergunta de ha
pouco:

--Parece-lhe ento que elle pode ficar bom?

--Pde, mas no basta o meu exame. A senhora sabe que, nestas cousas, 
melhor um especialista.

Pouco depois, saindo  rua, Falco sorria da resistencia de D. Fernanda
em acceitar a sua hypothese. Com certeza, houve alguma cousa, dizia
elle comsigo; boa cara, e, si no  um petimetre,  apessoado, e tem
fogo nos olhos. Com certeza... E repetia algumas phrases de Rubio,
evocava o gesto e a modulao terna da voz com que fallava de Sophia,
e cada vez mais se lhe ia aggravando a suspeita, Com certeza... Era
j impossivel que se no tivessem amado; a opposio de D. Fernanda
parecia-lhe ingenua,--se no era antes um recurso para desconversar e
no tocar na materia. Havia de ser isso...

Neste ponto, sem querer, o deputado estacou. Uma suspeita nova
assaltara-lhe o espirito. Apoz alguns instantes rapidos, abanou a
cabea voluntariamente, como a desmentir-se, como a achar-se absurdo,
e foi andando. Mas a suspeita era teimosa, e a que occupa deveras o
interior do homem, no faz caso da cabea nem dos seus gestos. Quem
sabe se D. Fernanda no suspirou tambem por elle? Essa dedicao
no seria um prolongamento de amor, etc.? E assim foram nascendo
perguntas, que achavam no intimo do Dr. Falco resposta affirmativa.
Resistiu ainda, era amigo da casa, tinha respeito a D. Fernanda,
conhecia-a honesta; mas,--ia pensando,--bem podia ser que um sentimento
occulto, recatado,--quem sabe at se provocado pela mesma paixo da
outra...? Ha dessas tentaes. O contagio da lepra corrompe o mais puro
sangue; um triste bacillo destre o mais robusto organismo.

Pouco a pouco, as velleidades de resistencia foram cedendo  noo da
possibilidade, da probabilidade e da certeza. Em verdade, tinha noticia
de algumas obras de caridade de D. Fernanda; mas aquelle caso era novo.
Essa dedicao especial a um homem que no era familiar da casa, nem
velho amigo, nem parente, adherente, collega do marido, qualquer cousa
que o fizesse participe da vida domestica, pelas relaes, pelo sangue
ou pelo costume no era explicavel sem algum motivo secreto. Amor,
seguramente; curiosidade de mulher honesta, que pde descambar no vicio
e no remorso. Aquella teria recuado a tempo; ficou-lhe a sympathia
morbida... E d'ahi, quem sabe?




CAPITULO CLXVIII


E d'ahi, quem sabe? repetiu o Dr. Falco na manh seguinte. A noite
no apagara a desconfiana do homem. E d'ahi quem sabe? Sim, no seria
s sympathia morbida. Sem conhecer Shakespeare, elle emendou Hamlet:
Ha entre o co e a terra, Horacio, muitas cousas mais do que sonha a
vossa v _philanthropia_. Alli andou dedo de amor. E no chasqueava
nem lastimava nada. J disse que era sceptico; mas, como era tambem
discreto, no transmittiu a ninguem a sua concluso.




CAPITULO CLXIX


A volta de Carlos Maria e da mulher interrompeu as preoccupaes de
D. Fernanda, relativamente a Rubio. Esta foi a bordo recebel-os,
conduziu-os  Tijuca, onde um velho amigo da familia de Carlos Maria
alugra e trastejra uma casa, por ordem delle. Sophia no foi a bordo;
mandou o _coup_ esperal-os no caes Pharoux, mas D. Fernanda j alli
tinha uma calea, que os levou, e mais a ella e ao Palha. De tarde,
Sophia foi visitar os recem-chegados.

D. Fernanda no cabia era si de contente. As cartas de Maria Benedicta
os davam por felizes; ella no poude ler desde logo nos olhos e nas
maneiras do casal a confirmao do escripto. Pareciam satisfeitos.
Maria Benedicta no reteve as lagrimas, quando abraou a amiga, nem
esta as suas, e ambas se apertaram como duas irms de sangue. No
dia seguinte, quando puderam fallar a ss, D. Fernanda perguntou a
Maria Benedicta se ella e o marido eram felizes, e, sabendo que sim,
pegou-lhe nas mos e fitou-a longamente sem achar palavra. No logrou
mais que repetir a pergunta:

--Vocs so felizes?

--Somos, respondia Maria Benedicta.

--No sabe que bem me faz a sua resposta. No  s porque eu teria
remorsos, se vocs no tivessem a felicidade que eu imaginei dar-lhes,
mas tambem por que  bem bom ver os outros felizes. Elle gosta de voc
como no primeiro dia?

--Creio que mais, porque eu o adoro.

D. Fernanda no entendeu esta palavra. _Creio que mais, por que eu o
adoro!_ Era verdade, a concluso no parecia estar nas premissas; mas
era o caso de emendar outra vez Hamlet: Ha entre o co e a terra,
Horacio, muitas cousas mais do que sonha a vossa v _dialectica_.
Pobre D. Fernanda! No conhecia o poeta, e provavelmente no se
conhecia a si, que era ainda o meio mais seguro de decifrar a palavra
obscura de Maria Benedicta. Esta comeou a contar-lhe a viagem, a
desfiar as suas impresses e reminiscencias; e, como o marido viesse
ter com ellas, pouco depois, recorria  memoria delle para preencher as
lacunas.

--Como foi, Carlos Maria?

Carlos Maria lembrava, explicava, ou rectificava, mas sem interesse,
quasi impaciente. Adivinhra que Maria Benedicta acabava de confiar 
outra as suas venturas, e mal podia encobrir o effeito desagradavel que
isto lhe trazia. Para que dizer que era feliz com elle, se no podia
ser outra cousa? E porque divulgar os seus carinhos e palavras, as suas
misericordias de deus grande e amigo?

A volta ao Rio de Janeiro foi uma condescendencia sua. Maria Benedicta
queria ter aqui o filho; o marido cedeu,--a custo, mas cedeu. A custo,
por que?  difficil explical-o, no menos que entendel-o. Relativamente
 maternidade, Carlos Maria tinha ideias pessoaes e singulares,
reconditas, no confiadas a ninguem. Achava impudica a natureza em
fazer da gestao humana um phenomeno publico, franco s vistas,
crescente at ao aleijo, suggestivo at ao desrespeito. D'ahi vinha
o desejo da solido, do mysterio e da ausencia. Viveria de boamente
os ultimos tempos no interior de uma casa unica, posta no alto de um
morro, vedada ao mundo, donde a mulher baixasse um dia com o filho nos
braos e a divindade nos olhos.

No fez sobre isto nenhuma proposta  mulher. Teria de discutir, e
elle no gostava de discutir; preferia ceder. Maria Benedicta tinha
naturalmente o sentimento contrario: considerava-se a si mesma um
templo divino e recatado, em que vivia um deus, filho de outro deus.
A gestao ia cheia de tedios, de dores, de incommodos que ella
occultava o mais que podia ao marido; mas tudo isso dava maior preo
 creaturinha futura. Acolhia o mal com resignao,--se no  que o
agasalhava com alegria,--uma vez que era a condio da vinda do fructo.
Fazia cordialmente o officio da especie. E repetia sem palavras a
resposta de Maria de Nazareth: Eu sou a serva do Senhor; faa-se em
mim a sua vontade.




CAPITULO CLXX


--Voc que tem? perguntou Maria Benedicta ao marido, logo que ficaram
ss.

--Eu? Nada. Porque?

--Parecia estar aborrecido.

--No, no estava aborrecido.

--Estava, sim, insistiu ella.

Carlos Maria sorriu, sem responder. Maria Benedicta j lhe conhecia
esse sorriso especial, inexpressivo, sem ternura nem censura,
superficial e pallido. No teimou em querer saber, mordeu os beios e
retirou-se.

No quarto, durante algum tempo, no cuidou de outra cousa que no fosse
aquelle sorriso descorado e mudo, signal de algum aborrecimento, cuja
culpa no podia ser seno ella. E percorria toda a conversao, todos
os gestos que fizera, e no achava nada que explicasse a frieza, ou o
que quer que era de Carlos Maria. Talvez ella se mostrasse excessiva
nas palavras; era seu costume, se estava contente, pr o corao nas
mos e distribui-lo a amigos e a extranhos. Carlos Maria reprovava essa
generosidade, porque dava um ar de sorte grande ao seu estado moral
e domestico, e porque lhe parecia banal e inferior. Maria Benedicta
recordava-se que, em Paris, na colonia brazileira, sentira mais de uma
vez esse effeito de suas expanses, e reprimira-se. Mas D. Fernanda
estaria no mesmo caso? No era a autora da felicidade de ambos?
Rejeitou essa hypothese, e tratou de ver outra. No a achando,--voltou
 primeira, e, segundo lhe succedia sempre, deu razo ao marido. Em
verdade, por mais intima e grata que fosse, no devia contar  boa
amiga as minucias da vida; era leviandade sua...

Nauseas vieram interrompel-a neste ponto das reflexes. A natureza
lembrava-lhe uma razo de Estado--a razo da especie,--mais instante e
superior aos tedios do marido. Ella cedeu  necessidade; mas, poucos
minutos depois, estava ao p de Carlos Maria, contornando-lhe o pescoo
com o brao direito. Elle, sentado, lia uma revista ingleza; pegou-lhe
na mo, pendente sobre o peito, e acabou a pagina.

--Voc me perdoa? perguntou a mulher, quando o viu fechar o folheto.
Daqui em diante vou ser menos tagarella.

Carlos Maria pegou-lhe nas duas mos, sorrindo e respondeu com a
cabea que sim. Foi como se lanasse uma onda de luz sobre ella; a
alegria penetrou-lhe a alma. Dir-se-hia que o proprio feto repercutiu a
sensao e abenoou o pae.




CAPITULO CLXXI


--Perfeitamente! Assim  que eu os quero ver! bradou uma voz do lado da
varanda.

Maria Benedicta affastou-se rapidamente do marido. A varanda, que
communicava para a sala, por tres portas, tinha uma destas aberta.
Dalli viera a voz; dalli espiava e ria a cabea de Rubio. Era a
primeira vez que o viam. Carlos Maria, sem se levantar, olhava para
elle, serio, esperando. E a cabea ria, com os seus fartos bigodes de
ponta de agulha, mirando um e outro, e repetindo:

--Perfeitamente! assim  que eu os quero ver!

Rubio entrou, estendeu-lhes a mo, que elles acceitaram sem carinho,
disse muitas phrases de admirao e louvor a Maria Benedicta, ella to
galante, elle to galhardo; notou que ambos tivessem o nome de Maria,
especie de predestinao, e acabou noticiando a quda do ministerio.

--Caiu o ministerio? perguntou involuntariamente Carlos Maria.

--No se falla em outra cousa na cidade. Vou abancar-me, sem pedir
licena, j que no me offerecem cadeira, continuou elle, sentando-se,
tirando a bengala que trazia debaixo do brao e firmando as mos sobre
ella. Pois  verdade, o ministerio pediu demisso. Vou organisar outro.
Ha de entrar o Palha, o nosso Palha,--seu primo Palha,--e o senhor
tambem, se lhe d gosto, ser ministro. Preciso de um bom gabinete,
todo gente amiga e forte, capaz de dar a vida por mim. Hei de chamar
o Morny, o Pio, o Camacho, o Rouher, o major Sequeira. A senhora
lembra-se do major? Creio que fica com a guerra; no conheo homem mais
apto para os negocios militares.

Maria Benecdicta, aborrecida e impaciente, andava pela sala,  espera
que o marido mandasse alguma cousa; este disse-lhe com os olhos que se
fosse embora; ella no aguardou outro gesto, pediu licena ao hospede
e retirou-se. Rubio, depois que ella sahiu, elogiou-a novamente,--uma
flor, disse elle; e emendou-se rindo: duas flores, creio que ha alli
duas flores. Nosso Senhor as abenoe! Carlos Maria estendeu-lhe a mo
em ar de despedida.

--Meu caro senhor...

--Posso incluil-o no ministerio? perguntou Rubio.

No ouvindo resposta, entendeu que sim e prometteu-lhe uma boa pasta. O
major iria para a guerra, e o Camacho para a justia. No os conhecia
acaso? Dous grandes homens, Camacho ainda maior que o outro. E
obedecendo a Carlos Maria, que ia andando na direco da porta, Rubio
retirava-se sem se sentir; mas no sahiu to prompto. Na varanda, antes
de descer os degros, referiu vrios factos da guerra. Por exemplo,
tinha restituido a Allemanha aos allemes; era bonito e politico. J
havia dado Veneza aos italianos. No precisava mais territorio; as
provincias do Rheno, sim, mas havia tempo de as ir buscar.

--Meu caro senhor... insistiu Carlos Maria estendendo-lhe a mo.

Despediu-o e fechou a porta; Rubio proferiu ainda algumas palavras
e desceu os degros. Maria Benedicta, que os espreitava do fundo,
veiu ter com o marido, reteve-o pela mo, e ficou a ver o Rubio que
atravessava o jardim. No ia direito, nem appressado, nem calado;
detinha-se, gesticulava, apanhava um galho secco, vendo mil cousas
no ar, mais galantes que a dona da casa, mais galhardas que o dono.
Da vidraa miravam o nosso amigo, e, em certo lance grotesco, Maria
Benedicta no pde suster o riso; Carlos Maria, porm, olhava placido.




CAPITULO CLXXII


--Mas se a quda do ministerio  verdadeira disse ella, sabe voc quem
est ministro?

--Quem? perguntou Carlos Maria com os olhos.

--Seu primo Theophilo. A prima contou-me que elle andava com suas
esperanas, e foi por isso que ficou este anno na Corte. Desconfiou,
ou j se falava na sahida do ministerio; talvez desconfiasse. No me
lembra bem o que ella me disse; mas parece que entra.

--Pode ser.

--Olha, l sahiu Rubio; mas no, parou, est olhando para cima, espera
talvez a diligencia ou o carro. Elle tinha carro. L vae andando...




CAPITULO CLXXIII


--Com qu, o Theophilo est ministro! exclamou Carlos Maria.

E, depois de um instante:

--Creio que dar um bom ministro. Voc queria ver-me tambem ministro?

--Se voc gostasse, que remedio?

--De maneira que, por teu voto, no o era? perguntou Carlos Maria.

--Que heide responder? pensou ella, escrutando o rosto do marido.

Elle, rindo:

--Confessa que me adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenana
de ministro.

--Justamente! exclamou a moa, lanando-lhe os braos aos hombros.

Carlos Maria affagou-lhe os cabellos, e murmurou serio:--Bernadotte foi
rei, e Bonaparte imperador. Voc queria ser a rainha-me da Suecia?

Maria Benedicta no entendeu a pergunta nem elle a explicou. Para
explical-a seria mister dizer que possivelmente trazia ella no seio
um Bernadotte; mas esta supposio significava um desejo, e o desejo
uma confisso de inferioridade. Carlos Maria espalmou outra vez as
mos sobre a cabea da mulher, com um gesto que parecia dizer: "Maria,
tu escolheste a melhor parte..." E ella pareceu entender o sentido
d'aquelle gesto.

--Sim! sim!

O marido sorriu e tornou  revista ingleza. Ella, encostada  poltrona,
passava-lhe os dedos pelos cabellos, muito ao de leve e caladinha para
no perturbal-o. Elle ia lendo, lendo, lendo. Maria Benedicta foi
attenuando a caricia, retirando os dedos aos poucos, at que sahiu
da sala, onde Carlos Maria continuou a ler um estudo de Sir Charles
Little, M. P., sobre a famosa estatueta de Narciso, do Museu de Napoles.




CAPITULO CLXXIV


Quando Rubio foi  casa de D. Fernanda,  tardinha, ouviu do criado
que no podia subir. A senhora estava incommodada; o senhor estava com
ella; parece que esperavam o medico. O nosso amigo no teimou, e sahiu.

Era o contrario; era o senhor que estava doente, e a senhora que o
acompanhava; mas o criado no podia trocar o recado que lhe deram.
Outro criado desconfiou,  certo, que o doente fosse elle e no ella,
porque o vira entrar abatido. Em cima, no quarto delles, havia algum
rumor de vozes, ora alto, ora baixo, com intervallos de silencio. Uma
criadinha, que subira p ante p, desceu dizendo que ouvira lastimar-se
o amo; provavelmente a senhora estava perdida. Em baixo, um palavrear
surdo, ouvidos compridos, conjecturas; notavam que de cima no pedissem
agua, qualquer remedio, um caldo, ao menos. A meza posta, o criado
engravatado, o cozinheiro orgulhoso e ancioso... Justamente, um dos
melhores jantares!

Que era? Theophilo tinha ainda o gesto abatido com que entrou;
estava sentado em um canap, sem collete, olhos fixos. Ao p delle,
sentada tambem, segurando-lhe uma das mos, D. Fernanda pedia-lhe que
socegasse, que no valia a pena. E inclinava-se para ver-lhe o rosto,
chamava-o para si, queria que elle encostasse a cabea ao hombro
della...

--Deixa, deixei, murmurava o marido.

--No vale a pena, Theophilo! Pois agora um ministerio...? Valer tanto
um cargo de pouco tempo, cheio de desgostos, insultos, trabalhos, para
que? No  melhor a vida tranquilla? V que haja injustia; creio que
sim, voc tem servios; mas ser tamanha perda assim? Anda, querido,
socega; vamos jantar.

Theophilo mordia os beios, puxando uma das soias. No ouvira nada
do que a mulher dissera, nem exhortaes nem consolaes. Ouvia
as conversas da noite anterior e daquella manh, as combinaes
politicas, os nomes lembrados, os recusados e os acceitos. Nenhuma
combinao o incluiu, posto que elle fallasse com muita gente cerca do
verdadeiro aspecto da situao. Era ouvido com atteno por uns, com
impaciencia por outros. Uma vez, os oculos do organisador pareceram
interrogal-o,--mas foi rapido o gesto e illusorio. Theophilo recompunha
agora a agitao de tantas horas e logares,--lembrava os que o olhavam
de esguelha, os que sorriam, os que trariam a mesma cara que elle.
Para o fim j no fallava; as ultimas esperanas estalavam-lhe nos
olhos como lamparina de madrugada. Ouvira os nomes dos ministros,
fora obrigado a achal-os bons; mas que fora no lhe era precisa para
articular alguma palavra! Receiava que lhe descobrissem o abatimento
ou despeito, e todos os seus esforos concluiam por accentual-os ainda
mais. Empallidecia, tremiam lhe os dedos.




CAPITULO CLXXV


--Anda, vamos jantar, repetiu D. Fernanda.

Theophilo deu um golpe no joelho, com a mo aberta, e levantou-se,
dizendo palavras soltas e raivosas, andando de um lado para outro,
batendo o p, ameaando. D. Fernanda no pde vencer a violencia
daquelle novo accesso, esperou que fosse curto, e foi curto; Theophilo
chegou-se a uma poltrona, sacudiu a cabea e cahiu outra vez prostrado.
D. Fernanda pegou de uma cadeira e sentou-se ao p delle. Os olhos
com que lhe fallou no tinham a doura captiva e dependente de Maria
Benedicta, para quem o marido era tudo debaixo do sol. No era bem a
esposa que fallava, mas uma creatura humana que via padecer outra.

--Tens razo, Theophilo; mas  preciso ser homem. s moo e forte, tens
ainda futuro, e talvez grande futuro. Quem sabe se, entrando agora no
ministerio, no perderias mais tarde? Entrars em outro. s vezes, o
que parece desgraa  felicidade.

Theophilo apertou-lhe a mo agradecido.

-- perfidia,  intriga, murmurava elle, olhando para ella; eu conheo
toda essa canalha. Si eu contasse a voc tudo, tudo... Mas para que?
Prefiro esquecer... No  por causa de uma miseravel pasta que estou
aborrecido, continuou elle depois de alguns instantes. Pastas no
valem nada. Quem sabe trabalhar e tem talento pde zombar das pastas,
e mostrar que  superior a ellas. A maior parte dessa gente, Nanan,
no me chega aos calcanhares. Disso estou certo e elles tambem. Sucia
de intrigantes! Onde acharo mais sinceridade, mais fidelidade, mais
ardor para a luta? Quem trabalhou mais na imprensa, no tempo do
ostracismo? Desculpam-se; dizem que os gabinetes j vem organisados de
S. Christovo... Ah! eu quizera fallar ao Imperador!

--Theophilo!

--Eu diria ao Imperador: Senhor, Vossa Magestade no sabe o que  essa
politica de corredores, esses arranjos de camarilha. Vossa Magestade
quer que os melhores trabalhem nos seus conselhos, mas os mediocres 
que se arranjam... O merecimento fica para o lado.  o que lhe heide
dizer um dia; pde ser at que amanh...

Calou-se. Depois de longa pausa, ergueu-se e foi ao gabinete de
trabalho, que ficava ao p do quarto; a mulher acompanhou-o.

Era j escuro, accendeu o bico de gaz, e circulou pelo gabinete os
olhos velados de melancholia. Havia alli quatro largas estantes
cheias de livros, de relatorios, de oramentos, de balanos do
Thesouro. A secretria estava em ordem. Tres armarios altos, sem
portas, guardavam os manuscriptos, notas, lembranas calculos,
apontamentos, tudo empilhado e rotulado methodicamente;--_creditos
extraordinarios,--creditos supplementares,--creditos de
guerra--creditos de marinha,--emprestimo de 1868,--estradas de
ferro,--divida interna,--exercicio de 61-62,--de 62-63,--de 63-64,
etc._ Era alli que trabalhava de manh e de noite, som mando,
calculando, recolhendo os elementos dos seus discursos e pareceres
porque era membro de tres commisses parlamentares, e trabalhava
geralmente por si e pelos seis collegas; estes ouviam e assignavam. Um
delles, quando os pareceres eram extensos, assignava-os sem ouvir.

--Homem, voc  mestre e basta, dizia-lhe, d c a penna.

Tudo alli respirava atteno, cuidado, trabalho assiduo, meticuloso e
util. Da parede, em ganchos, pendiam os jornaes da semana, que eram
depois tirados, guardados e finalmente encadernados semestralmente,
para consultas. Os discursos do deputado, impressos e brochados em-4
enfileiravam-se em uma estante. Nenhum quadro ou busto, adereo, nada
para recrear, nada para admirar;--tudo secco, exacto, administrativo.

--De que vale tudo isto? perguntou Theophilo  mulher, aps alguns
instantes de contemplao triste. Horas canadas, longas horas da noite
at madrugada, s vezes... No se dir que este gabinete  de homem
vadio; aqui trabalha-se. Voc  testemunha que eu trabalho. Tudo para
que?

--Consola-te trabalhando, murmurou ella.

Elle, acerbo:

--Ruim consolao! No, no, acabo com isto, passo a ignorar tudo.
Olha, na camara, todos me consultam, at os ministros--porque sabem que
eu applico-me deveras s cousas da administrao. Que premio? Vir para
c, em maio, applaudir os novos senhores?

--Pois no applaudas nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres
fazer-me um obsequio? Vamos  Europa, em maro ou abril, e voltemos
d'aqui a um anno. Pede licena  camara, d'onde quer que estejamos,--de
Varsovia, por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsovia, continuou
sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as mos. Diga que
sim; responda que  para eu escrever hoje mesmo para o Rio Grande, o
vapor sae amanh. Est dito; vamos a Varsovia?

--No brinques, Nanan, que isto no  objecto de brincadeira.

--Falo seriamente. J ha muito tempo que ando para propor a voc uma
viagem, a ver se descana desta papelada infernal.  demais, Theophilo!
Voc mal se pode arranjar depois para uma visita. Passeio,  raro.
Quasi no conversa. Os nossos filhos mal veem seu pae, porque aqui no
se entra quando voc trabalha...  preciso descanar; peo-lhe um anno
de repouso. Olhe que  serio. Vamos para a Europa em maro.

--No pode ser, balbuciou elle.

--Porque no?

No podia ser. Era convidal-o a sahir da propria pelle. Politica valia
tudo. Que tambem houvesse politica l fora, sim; mas que tinha elle
com ella? Theophilo no sabia nada do que ia por fora, excepto a nossa
divida em Londres, e meia duzia de economistas. Comtudo, agradeceu 
mulher a inteno da proposta:

--Tu s ba.

E um sentimento vago de esperana restituia  voz do deputado
a brandura que perdera naquella grande crise moral. Os papeis
sopravam-lhe animo. Toda aquella massa de estudos apparecia-lhe como a
terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. No tardaria a grelar;
o trabalho teria a recompensa; um dia mais tarde ou mais cedo, o grelo
brotaria e a arvore daria fructos. Era justamente o que a mulher havia
dito por outras palavras directas e proprias; mas s agora  que elle
via a possibilidade da colheita. Lembrou-se das exploses de colera,
de indignao, de desespero, das queixas de ha pouco, ficou vexado.
Quiz rir, e fel-o mal. Ao jantar e ao caf entreteve-se com os filhos,
que naquella noite recolheram-se mais tarde. Nuno, que j andava no
collegio, onde ouvira falar da mudana de gabinete, disse ao pae que
queria ser ministro.

Theophilo ficou serio.

--Meu filho, disse elle, escolhe outra cousa, menos ministro.

--Diz que  bonito, papae; diz que anda de carro com soldado atraz.

--Pois eu te dou um carro.

--Papae j foi ministro?

Theophilo tentou sorrir e olhou para a mulher, que aproveitou a
occasio para mandar deitar os filhos.

--J, j fui ministro, respondeu o pae beijando a testa ao Nuno; mas
no quero mais,  muito feio, d trabalho. Tu has de ser capello.

--Que  capello?

--Capello  cama, respondeu D. Fernanda; vae dormir, Nuno.




CAPITULO CLXXVI


Ao almoo, no dia seguinte, Theophilo recebeu uma carta por uma
ordenana.

--Ordenana?

--Sim, senhor, diz que vem da parte do Sr. presidente do conselho.

Theophilo abriu a carta, com a mo tremula. Que podia ser? Tinha lido
nos jornaes a relao dos novos ministros; o gabinete estava completo.
No havia divergencia de nomes. Que podia ser? D. Fernanda, defronte do
marido, procurava ler-lhe no rosto o texto da carta. Via uma claridade;
percebeu que a boca soffreava um sorriso de satisfao,--de esperana,
ao menos.

--Diga que espere, ordenou Theophilo ao creado.

Foi ao gabinete, e tornou minutos depois com a resposta. Sentou-se
 mesa, calado, dando tempo a que o creado entregasse a carta 
ordenana. Desta vez, como estava prevenido, ouviu as patas do cavallo,
e logo depois a galope, rua fra e sentiu-se bem.

--L, disse elle.

D. Fernanda leu a carta do presidente do conselho; era um pedido para
ir falar-lhe s duas horas da tarde.

--Mas ento o ministerio...?

--Est completo, deu-se pressa em dizer o deputado; os ministros esto
nomeados.

No acreditava de todo o que dizia. Imaginava alguma vaga da ultima
hora, e a necessidade urgente de a preencher.

--Hade ser alguma conferencia politica, ou talvez queira conversar
sobre o oramento,--ou incubir-me algum estudo.

Dizendo isto, para illudir a mulher, sentiu a probabilidade das
hypotheses, e outra vez se abateu; mas, tres minutos depois, as
borboletas da esperana volteavam deante delle, no duas, nem quatro,
mas um turbilho, que cegava o ar.




CAPITULO CLXXVII


D. Fernanda esperou, cheia de ancias, como se o ministerio fosse
para ella, e lhe viesse dar qualquer gosto, que no fosso amargo o
complicado. Uma vez, porm, que satisfizesse o marido, tudo iria pelo
melhor. Theophilo tornou s cinco horas e meia. Pelo aspecto reconheceu
que vinha satisfeito. Correu a apertar-lhe as mos.

--Que ha?

--Pobre Nanan! Ahi vamos com a trouxa s costas. O marquez pediu-me
instantemente que acceitas-se uma presidencia de primeira ordem. No
podendo metter-me no gabinete, onde tinha logar marcado, desejava,
queria e pedia que eu partilhasse a responsabilidade politica e
administrativa do governo, assumindo uma presidencia. No podia, em
nenhum caso, dispensar o meu prestigio (so palavras delle), e espera
que na camara acceite o logar de chefe de maioria. Que dizes?

--Que arranjemos a trouxa, respondeu D. Fernanda.

--Achas que podia recusar?

--No.

--No podia. Voc sabe, no se podem negar servios destes a um governo
amigo; ou ento deixa-se a politica. Tratou-me muito bem o marquez;
eu j sabia que era homem superior; mas que risonho e affavel! no
imaginas. Quer tambem que comparea a uma reunio intima, os ministros
e alguns amigos, poucos, meia duzia. Confiou-me j o programma do
gabinete, em reserva...

--Quando sahimos?

--No sei; heide estar com elle amanh,  noite. A reunio  amanh s
oito horas... Mas no te parece que fiz bem, acceitando?

--De certo.

--Sim; se recusasse censurar-me-hiam, e com razo. Em politica,
a primeira cousa que se perde  a liberdade. Agora voc  que se
quizesse, podia ficar; daqui a cinco mezes,--ou quatro,--abrem-se as
camaras; mal terei tempo de chegar e olhar.




CAPITULO CLXXVIII


D. Fernanda acceitou a proposta; no interrompia a educao do filho;
era uma separao de quatro mezes. Theophilo partiu d'ahi a dias. Na
manh do dia do embarque, logo cedo, foi despedir-se do gabinete de
trabalho. Deitou os ultimos olhos aos livros, relatorios, oramentos,
manuscriptos, a toda essa parte da familia, que s tinha lingua e
interesse para elle. Havia atado os papeis e os folhetos para que se
no extraviassem, e fez  mulher grandes recommendaes. Parado no
centro, circulou a vista pelas estantes, e dispersou a alma por todas
ellas. Despedia-se assim dos seus santos e amigos, com verdadeiras
saudades. D. Fernanda, que estava ao p delle, no viveu alli mais que
os dez minutos da despedida. Theophilo viveu muitos annos.

--Deixa estar, eu cuidarei delles, eu mesma os espanarei todos os dias.

Theophilo deu-lhe um beijo... Outra mulher recebel-o-hia meia triste,
por ver que elle amava tanto os livros que parecia amal-os mais que a
ella. Mas D. Fernanda sentiu-se venturosa.




CAPITULO CLXXIX


Rubio, desde o dia da crise ministerial, no tornou  casa de D.
Fernanda; nada soube, nem da presidencia, nem do embarque de Theophilo.
Vivia entre o co e um creado, sem grandes crises, nem longos repousos.
O creado fazia o servio irregularmente, comia gratificaes, e
recebia, a miudo, o titulo de marquez. Ao demais, divertia-se. Quando
lhe dava ao amo para conversar com as paredes, o creado corria a
espial-o; assistia ao dialogo, porque o Rubio incumbia-se das palavras
dellas, respondendo como se houvessem feito alguma pergunta. De noite,
ia  palestra com os amigos da visinhana.

--Como vae o gira?

--O gira vae bem. Hoje convidou o cachorro para cantar; o cachorro
ladrau muito, e elle gostou que se pellou, mas assim um gosto de
figuro. Elle, quando est de pancada, parece que  como quem governa o
mundo. Ainda hontem, almoando, fallou para mim: Marquez Raymundo...
quero que tu .. e embrulhou o resto, que no entendi nada. No fim
deu-me dez tostes.

--Voc guardou logo...

--Ora!

Quando Rubio voltava do delirio, toda aquella fantasmagoria palavrosa
tornava-se, por instantes, uma tristeza calada. A consciencia, onde
ficavam rastos do estado anterior, forcejava por despegal-os de si. Era
como a ascenso dolorosa que um homem fizesse do abysmo, trepando pelas
paredes, arrancando a pelle, deixando as unhas, para chegar a cima,
para no cahir outra vez e perder-se. Ia ento  visita dos amigos, uns
novos, outros velhos, como a gente do major e a do Camacho, por exemplo.

Este, desde algum tempo, era menos conversado. A mesma politica no
lhe dava materia aos discursos de outr'ora. No escriptorio, quando via
Rubio assomar  porta, fazia um gesto de impaciencia, que soffreava
logo; o outro notava essa mudana, e perdia-se em conjecturas, se lhe
sahira alguma offensa, por descuido--ou se comeava a aborrecel-o.
E para desfazer o tedio ou o resentimento, fallava macio, risonho,
abrindo longas pausas respeitosas,  espera que elle dissesse qualquer
cousa. Em vo appellava para o marquez de Paran, cujo retrato
continuava a pender da parede; repetia os nomes que lhe ouvira,--o
grande marquez! o estadista consummado! Camacho ia apoiando de cabea,
e escrevendo sem parar, consultando os autos e os praxistas, Lobo,
Coelho da Rocha, citando, riscando, pedindo-lhe desculpa. Tinha um
libello que dar naquelle dia. Interrompia-se para ir  estante.

--Com licena...

Rubio arredava as pernas para deixal-o passar; elle tirava um volume
das Ordenaes do Reino, e folheava, folheava, pulando adiante,
voltando atraz, atoa, sem buscar nada, unicamente para o fim de
despedir o importuno; mas o importuno ia ficando, por isso mesmo, e
entreolhavam-se disfarados. Camacho tornava ao libello. Para ler,
sentado, inclinava-se muito  esquerda, donde lhe vinha a luz, dando as
costas ao Rubio.

--Aqui  escuro, aventurou Rubio um dia.

E no ouviu resposta, to attento parecia o advogado na leitura
dos autos. Realmente, pde ser importunao, pensou o nosso amigo.
Espreitava-lhe o rosto duro e serio, o gesto com que pegava da penna
para continuar o interminavel libello. Vinte minutos mais de silencio
absoluto. No fim desse prazo, Rubio viu-o deixar a penna, retesar o
busto, esticar os braos e passar as mos pelos olhos. Disse-lhe com
interesse:

--Canado, no?

Camacho fez um gesto afirmativo, e preparou-se para continuar; ento o
nosso homem levantou-se e aproveitou o intervallo para dizer adeus.

--Voltarei, quando estiver menos atarefado.

Estendeu lhe a mo; Camacho segurou-lh'a ao de leve, e tornou ao papel.
Rubio desceu a escada, aturdido, magoado com a frieza do seu illustre
amigo. Que lhe teria feito?




CAPITULO CLXXX


Daquella vez, teve a fortuna de encontrar o major Sequeira.

--Ia agora mesmo  sua casa, disse-lhe; vae para l?

--Vou; mas j no estamos na mesma casa; mudamo-nos para os Cajueiros,
rua da Princeza...

--Seja onde for, vamos.

Rubio precisava de um pedao de corda que o atasse  realidade, porque
o espirito sentia-se outra vez presa da vertigem. Entretanto, fallou
com tanto acerto e propriedade, que o major o achou em pleno juizo, e
disse-lhe:

--Sabe que tenho uma grande noticia que lhe dar?

--Vamos a ella.

--Ha de ser quando chegarmos.

Chegaram. Era uma casa assobradada; D. Tonica veiu abrir-lhes a
cancella. Trazia um vestido novo e brincos.

--Olhe bem para ella, disse o major pegando na filha pelo queixo.

D. Tonica recuou envergonhada.

--Estou olhando, respondeu Rubio.

--No se v logo que  uma pessoa que vae casar?

--Ah! parabns!

-- verdade, vae casar. Custou, mas acertou. Achou por ahi um noivo,
que a adora, como todos elles; eu, quando fui noivo, adorei a minha
defuncta, que foi urna cousa nunca vista... Vae casar. Arranjou um
noivo. Custou, mas acertou. Pessoa seria, meia edade; vem aqui passar
as noites. De manh, quando passa para a repartio, creio que bate na
janella, ou ella j o espera; eu finjo que no percebo...

D. Tonica dizia com a cabea que no, mas sorrindo de modo que parecia
dizer que sim. Estava to buliosa! Nem se lembrava j que requestra
o Rubio, que este fora uma das ultimas, e por fim a ultima das suas
esperanas. Tinham entrado na sala; D. Tonica foi  janella, voltou,
cabea alta, andando atoa, reconciliada com a vida.

--Boa pessoa, repetiu o major, boa creatura... Tonica, vae buscar o
retrato... Anda, vae buscar o teu noivo...

D. Tonica foi buscar o retrato. Era uma photographia; representava um
homem de meia edade, cabello curto, raro, olhando espantado para a
gente, cara chupada, pescoo fino e paletot abotoado.

--Que lhe parece?

--Muito bem.

D. Tonica recebeu o retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou
logo os olhos, e deixou-se estar sentada, emquanto a imaginao saiu
a esperar o Rodrigues. Chamava-se Rodrigues. Era mais baixo que
ella,--cousa que o retrato no dava,--e empregado em uma repartio do
ministerio da guerra. Viuvo, com dons filhos, um que estava no batalho
dos menores, outro que era tuberculoso,--doze annos,--condemnado 
morte. Que importa? Era o noivo; todas as noites, ao recolher se, D.
Tonica ajoelhava-se ante a imagem de Nossa Senhora, sua madrinha,
agradecia-lhe o favor e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava j com
um filho; havia de chamar-lhe Alvaro.




CAPITULO CLXXXI


Rubio escutou calado um discurso do major. O casamento era dalli a
mez e meio; o noivo tinha que perfazer os arranjos da casa, no era
capitalista, vivia do ordenado e recorrera a emprestimos. A casa era
a mesma e no exigia trastes novos nem ricos; mas, ha sempre algumas
necessidades... Em summa, dalli a mez e meio, ou pelo menos, cinco
semanas, estariam unidos pelos santos laos do matrimonio.

--E fico eu livre do trambolho, concluiu o major.

--Oh! protestou Rubio.

A filha ria-se; estava acostumada s graas do pae, e to disposta 
alegria que nada a vexava; ainda mesmo que o pae se referisse aos seus
quarenta annos passados no lhe daria grande golpe. Todas as noivas tm
quinze annos.

--Ver como elle ha de procural-a depois, com saudades disse Rubio a
D. Tonica.

--Qual! Talvez eu me case tambem!

Rubio levantou-se repentino, e deu alguns passos; o major no viu a
expresso do rosto, no percebeu que o espirito do homem ia talvez
descarrilhar, e que elle mesmo o presentia. Disse-lhe que se sentasse,
e contou-lhe os seus tempos de casado e de campanha. Quando chegou 
narrao da batalha de Monte-Caseros, com as marchas e contra-marchas
proprias do seu discurso, tinha deante de si Napoleo III. Calado a
principio, Rubio proferiu algumas palavras de applauso, fallou de
Solferino, de Magenta, prometteu ao Sequeira uma condecorao. Pae
e filha entre-olharam-se; o major disse que vinha muita chuva. Com
effeito, escurecera um pouco. Era melhor que Rubio fosse, antes de
cahir agua; no trouxera guarda-chuva, o delle era velho e unico...

--Ahi vem o meu coche, redarguiu Rubio tranquillamente.

--No vem, foi esperal-o no Campo. No vs dahi o coche, Tonica?

D. Tonica fez um gesto vago e sem vontade. No queria mentir, mas
tinha medo, e desejava que Rubio sahisse. Da casa era impossivel ver
o Campo da Acclamao. J ento o pae pegava no Rubio pelo brao e o
encaminhava para a porta.

--Volte amanh, depois, quando quizer.

--Mas porque no heide esperar aqui at que venha o coche? perguntou
Rubio. A imperatriz no pde apanhar chuva...

--A imperatriz j foi.

Fez mal. Eugenia fez muito mal. General... Para que hade o senhor ficar
sempre em major? General, vi o retrato do seu genro; quero dar-lhe o
meu. Mande s Tulherias. Onde est o coche?

--Est no Campo, esperando.

--Mande chamal-o.

D. Tonica, que estava  janella, disse para dentro:

--L vem Rodrigues.

E tornou a olhar para a rua, inclinando-se, sorrindo, emquanto na sala
o pae continuava a guiar o Rubio para a porta, sem violencia, mas
tenaz. Este parava, reprehendia:

--General, sou seu imperador!

--De certo, mas acompanhe-me Vossa Majestade...

Tinham chegado  porta; o major abriu a cancella, justamente quando
o Rodrigues punha o p na soleira. D. Tonica entrou para receber o
noivo, mas a porta estava atravancada com o pae e Rubio. Rodrigues
tirou o chapeo, mostrando o cabello, aspero e grisalho; tinha nas faces
chupadas umas pintinhas de sarda, mas o riso era bom e humilde,--mais
humilde ainda que bom,--e, no obstante a trivialidade do gesto
e da pessoa, era agradavel. Os olhos no mostravam o espanto da
photographia; este effeito provinha da emphasis que elle poz em todo o
corpo, afim de que o retrato _saisse bonito._

--Este senhor  o meu futuro genro, disse o major a Rubio. No 
verdade que viu no Campo um coche e um esquadro de cavallaria?
perguntou ao Rodrigues, piscando um olho.

--Parece que sim, senhor.

--Pois ento? continuou Sequeira, voltandp-se para Rubio. V, v,
dobre a rua de S. Loureno, e caminhe direito para o Campo. Adeus, at
amanh.

Rubio desceu tres degros,--eram cinco--e parou deante do
recem-chegado, fitou-o alguns instantes e declarou que estimava muito
conhecel-o, que fosse bom esposo e bom genro. Como se chamava?

--Joo Jos Rodrigues.

--Rodrigues. Heide mandar-lhe uma fitinha aqui para a casaca.  o meu
presente de nupcias. Lembre-me, Sequeira.

Sequeira pegou-lhe no brao para fazel-o descer os dons ltimos
degros, e pol-o na rua.

--No Campo, dizes tu?

--No Campo.

--Adeus.

Da rua, ainda Rubio olhou para as janellas, com os dedos no chapo,
afim de comprimentar D. Tonica; mas D. Tonica estava na sala, onde
Rodrigues acabava de entrar, fresco e delicioso, como a primeira rosa
de vero.




CAPITULO CLXXXII


Rubio no cuidou mais do coche nem do esquadro de cavallaria. Foi
dar comsigo abaixo, andou por varias ruas, at que subiu pela de S.
Jos. Desde o pao imperial, vinha gesticulando e fallando a alguem
que suppunha trazer pelo brao, e era a imperatriz. Eugenia ou Sophia?
Ambas em uma s creatura,--ou antes a segunda com o nome da primeira.
Homens que iam passando, paravam; do interior das lojas corria gente
s portas. Uns riam-se, outros ficavam indifferentes; alguns, depois
de verem o que era, desviavam os olhos para poupal-os  afflico que
lhes dava o expectaculo do delirio. Uma turba de moleques acompanhava
o Rubio, alguns to proximos, que lhe ouviam as palavras. Creanas
de toda a sorte vinham juntar-se ao grupo. Quando elles viram a
curiosidade geral, entenderam dar voz  multido, e comeou a surriada:

-- gira!  gira!

Esse vozear chamou a atteno de outras pessoas, muitas janellas
dos sobrados comearam a abrir-se, appareceram curiosos de ambos os
sexos e todas as edades, um photographo, um estofador, tres e quatro
figuras juntas, cabeas por cima de outras, todas inclinadas, espiando,
acompanhando o homem, que fallava  parede, com o seu gesto cheio de
grandeza e de obsequio.

-- gira!  gira! berravam os vadios.

Um delles, muito menor que todos, apegava-se s calas de outro,
taludo. Era j na rua da Ajuda. Rubio continuava a no ouvir nada;
mas, de uma vez que ouviu, suppoz que eram acclamaes, e fez uma
cortezia de agradecimento. A surriada augmentava. No meio do rumor,
distinguiu-se a voz de uma mulher  porta de uma colchoaria:

--Deolindo! vem para casa, Deolindo!

Deolindo, a creana, que se aggarrava s calas da outra mais velha,
no obedeceu; pde ser que nem ouvisse, tamanha era a grita, e tal a
alegria do pecurrucho, clamando coma vozinha miuda:-- gira!  gira!

--Deolindo!

Deolindo tratou de esconder-se entre os outros, para escapar s vistas
da me que o chamava; esta, porm, correu ao grupo, e arrancou-o de l.
Em verdade, era pequeno de mais para andar em tumultos de rua.

--Mame, deixa eu vr...

--Qual vr! anda!

Metteu-o em casa, e ficou  porta, a olhar para a rua. Rubio estacara
o passo; ella pde vel-o bem, com os seus gestos e fallares, o peito
alto, e uma barretada que deu em volta.

--Os malucos teem graa, s vezes, disse ella sorrindo a uma visinha.

Os rapazes continuavam a bradar e a rir, e Rubio foi andando, com
o mesmo cro atraz de si. Deolindo,  porta da loja, vendo o grupo
alongar-se, pedia chorosamente  me que o deixasse ir tambem, ou ento
que o levasse. Quando perdeu as esperanas, enfeixou todas as energias
em um s gritosinho esganiado:

-- gira!




CAPITULO CLXXXIII


A visinha riu-se. A me riu-se tambem. Confessou que o filho era uma
pstesinha, um endiabrado, que no socegava; no podia perdel-o de
vista. Qualquer distraco, estava na rua. E isto desde pequenino;
tinha ainda dons annos, quando escapou de morrer em baixo de um carro,
alli mesmo; esteve por um fio. Se no fosse um homem que passava,
um senhor bem vestido, que acudiu depressa, at com perigo de vida,
estaria morto e bem morto. Nisto o marido, que vinha pela calada
opposta, atravessou a ma, e interrompeu a conversao. Trazia o senho
carregado, mal comprimentou a visinha, e entrou; a mulher foi ter com
elle. Que era? O marido contou a surriada.

--Passou por aqui, disse ella.

--No conheceste o homem?

--No.

O marido cruzou os braos e ficou a olhar, fixo, calado. A mulher
perguntou-lhe quem era.

-- aquelle homem que nos salvou o Deolindo da morte.

A mulher teve um calefrio.

--Viste bem? perguntou.

--Perfeitamente. Se eu j o tinha encontrado outras vezes, mas ento
no estava assim. Coitado! E a molecada berrava atraz delle. Qual! no
ha policia nesta terra.

O que lhe doia  mulher no era tanto o mal do homem, nem ainda a
surriada; mas a parte que teve nesta o filho,--a mesma creana que o
homem salvara da morte. Realmente, como podia o menino reconhecel-o,
nem saber que lhe devia a vida? Doia-lhe o encontro, a coincidencia.
Afinal, contentou-se de pr todas as culpas em si. Se tivesse tido mais
cuidado, o pequeno no haveria sahido, e no entraria na troa. Tremia
de quando em quando, e estava inquieta. O marido pegou na cabea do
filho, e deu-lhe dous beijos.

--Voc viu a scena toda? perguntou  mulher.

--Vi.

--Eu ainda quiz dar o brao ao homem, e trazel-o para aqui; mas, tive
vergonha; os moleques eram capazes de dar-me uma vaia. Desviei o rosto,
porque elle podia conhecer-me. Coitado! Nota que no parecia ouvir
nada, e seguia satisfeito, creio que at ria... Que triste cousa que 
perder o juizo!

A mulher pensava na travessura do filho; no a referiu ao marido, pediu
 visinha que no alludisse a ella, e, de noite, s pregou olho tarde.
Mettera-se-lhe em cabea que, annos depois, o filho endoudecia, era
castigado pela mesma troa, e que ella cuspia para o cu, indignada,
blasphemando.




CAPITULO CLXXXIV


Duas horas depois da scena da rua da Ajuda chegou Rubio  casa de
D Fernanda. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco, e os
claros no se preenchiam; os tres ultimos juntaram os seus adeuses em
um berro unico e formidavel. Rubio continuou sosinho, mal percebido
pelos moradores das casas, porque a gesticulao diminuia ou mudava de
feitio. No fallava para o lado da parede,  supposta imperatriz; mas
era ainda imperador. Caminhava, parava, murmurava, sem grandes gestos,
sonhando sempre, sempre, sempre, envolvido naquelle veo, atravez do
qual todas as cousas eram outras, contrarias e melhores; cada lampio
tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feio de resposteiro.
Rubio seguia direito  sala do throno, para receber um embaixador
qualquer, mas o pao era interminavel, cumpria atravessar muitas salas
e galerias, verdade  que sobre tapetes,--e por entre alabardeiros,
altos e robustos.

Das gentes que o viam e paravam na rua, ou se debruavam das janellas,
muitas suspendiam por instantes os seus pensamentos tristes ou
enfastiados, as preoccupaes do dia, os tedios, os resentimentos,
este uma divida, outro uma doena, desprezos de amor, vilanias de
amigo. Cada miseria esquecia-se, o que era melhor que consolar-se; mas
o esquecimento durava um relampago. Passado o enfermo, a realidade
empolgava-os outra vez, as ruas eram ruas, porque os paos sumptuosos
iam com Rubio. E mais de um tinha pena do pobre diabo; comparando
as duas fortunas, mais de um agradecia ao ceu a parte que lhe
coube,--amarga, mas consciente. Preferiam o seu casebre real ao alcaar
phantasmagorico.




CAPITULO CLXXXV


Rubio foi recolhido a uma casa de saude. Palha esquecera a obrigao
que Sophia lhe impoz, e Sophia no se lembrou mais da promessa
feita  rio-grandense. Cuidavam ambos de outra casa, um palacete em
Botafogo, cuja reconstruco estava prestes a acabar, e que elles
queriam inaugurar, no inverno, quando as camaras trabalhassem, e toda
a gente houvesse descido de Petropolis. Mas agora a promessa foi
cumprida; Rubio deu entrada no estabelecimento, onde ficou occupando
uma sala e um quarto especiaes, recommendado pelo Dr. Falco e pelo
Palha. No resistiu a nada; acompanhou-os com satisfao, e entrou
nos seus aposentos, como se os conhecesse desde muito. Quando elles
se despediram, dizendo que j voltavam, Rubio convidou-os para uma
revista militar, no sabbado.

--Pois sim, sabbado, assentiu Falco.

--Sabbado  bom dia, continuou Rubio. No faltes, duque de Palha.

--No falto, disse o Palha andando.

--Olha, mandar-te-hei um dos meus coches, novo em folha;  preciso que
tua mulher pouse o seu lindo corpo, onde ninguem ainda ousou sentar-se.
Almofadas de damasco e velludo, arreios de prata e rodas de ouro; os
cavallos descendem do proprio cavallo que meu tio montava em Marengo.
Adeus, duque de Palha.




CAPITULO CLXXXVI


--Para mim,  claro, sahiu pensando o Dr. Falco, aquelle homem foi
amante da mulher deste sujeito.




CAPITULO CLXXXVII


L ficou o homem. Quincas Borba tentra entrar na carruagem que levou
o amigo, e porfiou em acompanhal-a, correndo; foi necessaria toda a
fora do criado para aggarral-o, contel-o e trancal-o em casa. Era a
mesma situao de Barbacena; mas a vida, meu rico senhor, compe-se
rigorosamente de quatro ou cinco situaes, que as circumstancias
variam e multiplicam aos olhos. Rubio pediu instantemente que lhe
mandassem o co. D. Fernanda, alcanado o consentimento do director,
cuidou de satisfazer o desejo do doente. Quiz escrever a Sophia, mas
foi ella propria ao Flamengo.




CAPITULO CLXXXVIII


--Mando ver,  aqui perto, propz Sophia.

--Vamos ns mesmas. Que tem? J pensei em uma cousa. Valer a pena
conservar a casa prompta e alugada, quando a cura pde prolongar-se?
Melhor  deixal-a, vender os trastes e apurar o que houver.

Foram a p do Flamengo  rua do Principe; tres a quatro minutos.
Raymundo estava na rua, mas viu gente  porta e veia abril-a.
O interior da casa tinha a feio do abandono, sem a fixidez e
regularidade das cousas, que parecem conservar um resto da vida
interrompida; era o abandono do desmazelo. Mas, por outro lado, o
transtorno dos moveis da sala exprimiam bem o delirio do morador, suas
idas tortas e confusas.

--Elle foi muito rico? perguntou D. Fernanda a Sophia.

--Tinha alguma cousa, respondeu esta, quando chegou de Minas; mas
parece que estragou tudo. Olhe, levante o vestido que o cho parece que
no se varre ha um seculo.

No era s o cho; os trastes tinham a crosta da incuria. Nem por isso
o creado explicava nada; olhava, escutava, e, baixinho, assobiava uma
polka do dia. Sophia no lhe perguntou pelo asseio; estava morta por
sahir daquella immundicie, dizia a si mesma, e tinha vontade de
fallar no co, que era o principal motivo da visita; mas, no queria
mostrar interesse por elle nem pelo resto. A trivialidade daquillo tudo
no lhe dizia nada ao espirito nem ao corao; a lembrana do alienado
no a ajudava a supportar o tempo. De si para si achava a companheira
singularmente romantica ou affectada. Que Bobagem! ia pensando, sem
desconcertar o sorriso approvador com que acudia a todas as observaes
de D. Fernanda.

--Abra aquella janella, disse esta ao creado; tudo cheira a mofo.

--Oh! insupportavel! acudiu Sophia, respirando com asco.

Mas, apezar da exclamao, D. Fernanda no se resolveu a sahir. Sem
que nenhuma recordao pessoal lhe viesse daquella miseravel estancia,
sentia-se presa de uma commoo particular e profunda, no a que d
a ruina das cousas. Aquelle expectaculo no lhe trazia um thema de
reflexes geraes, no lhe ensinava a fragilidade dos tempos, nem a
tristeza do mundo; dizia-lhe to somente a molestia de um homem, de um
homem que ella mal conhecia, a quem fallra algumas vezes. E ia ficando
e olhando, sem pensar, sem deduzir, mettida em si mesma, dolente e
muda. Sophia no ousava articular nada, com receio de ser desagradavel
a to conspicua dama. Tinham ambas os vestidos apanhados, para evitar a
macula da poeira; mas Sophia accrescentou a essa precauo a agitao
viva, continua e impaciente da ventarola, como pessoa que suffocasse
naquella atmosphera. Chegou a tossir algumas vezes.

--E o cachorro? perguntou D. Fernanda ao creado.

--Est preso no quarto, l dentro.

--V buscal-o.

Quincas Borba appareceu. Magro, abatido, parou  porta da sala,
estranhando as duas senhoras, mas sem latir; mal erguia os olhos
apagados. Chegou a dar meia volta ao corpo na direco do interior da
casa, quando D. Fernanda fez uns estalinhos com os dedos; elle parou,
agitando a cauda.

--Como  mesmo que se chama? perguntou a D. Fernanda.

--Quincas Borba, respondeu o criado, rindo, com a voz arrastada. Tem
nome de gente. Eh! Quincas Borba! vae l! a senhora est chamando.

--Quincas Borba! vem c! Quincas Borba! repetiu D. Fernanda.

Quincas Buba acudiu ao chamado, no pulando, nem alegre. D. Fernanda
inclinou-se, fallou-lhe, perguntou-lhe pelo amigo, se estava longe, se
queria ir vel-o. Assim mesmo inclinada, interrogava o creado sobre o
trato do co.

--Agora come, sim, senhora; logo que meu amo sahiu, no queria comer
nem beber;--eu at pensei que estivesse damnado.

--Come bem?

--Come pouco.

--Procura pelo senhor?

--Parece que procura, respondeu Raymundo tapando o riso com a mo; mas
eu tranquei elle no quarto, para no fugir. J no chora; a principio
chorava muito, que at me accordava... Era preciso eu bater com um
cacete na porta e gritar, para elle socegar...

D. Fernanda coava a cabea do animal, cujos olhos, de mortos que eram,
tornaram-se languidos. Era o primeiro affago depois de longos dias
de solido e desprezo. Quando D. Fernanda cessou de acaricial-o, e
levantou o corpo, elle ficou a olhar para ella, e ella para elle, to
fixos e to profundos, que pareciam penetrar no intimo um do outro.
A sympathia universal, que era a alma desta senhora, esquecia toda
a considerao humana deante daquella miseria obscura e prosaica,
e estendia ao animal uma parte de si mesma, que o envolvia, que o
fascinava, que o atava aos ps della. Assim, a pena que lhe dava
o delirio do senhor, dava-lhe agora o proprio co, como se ambos
representassem a mesma especie. E sentindo que a sua presena levava ao
animal uma sensao boa, no queria prival-o do beneficio.

--A senhora est-se enchendo de pulgas, observou Sophia.

D. Fernanda no a ouviu. Continuou a mirar os olhos meigos e tristes do
animal, at que este deixou cahir a cabea e entrou a farejar a sala.
Sentira o cheiro do senhor. A porta da rua estava aberta; elle teria
fugido por ella, se Raymundo no acudisse a prendel-o. D. Fernanda deu
algum dinheiro ao creado para que o fosse lavar e conduzir  casa de
saude, recommendande-lhe o maior cuidado, que o levasse ao collo, ou
preso por um cordo. Nesta parte acudiu tambem Sophia, ordenando que a
procurasse antes, em casa.




CAPITULO CLXXXIX


Sahiram. Sophia, antes de por o p na rua, olhou para um e outro lado,
espreitando se vinha alguem; felizmente, a rua estava deserta. Ao ver
se livre da possilga, Sophia readquiriu o uso das boas palavras, a
arte maviosa e delicada de captar os outros, e enfiou amorosamente o
brao no de D. Fernanda. Fallou-lhe de Rubio e da grande desgraa da
loucura; fallou tambem do palacete de Botafogo. Porque no ia com ella
ver as obras? Era s lanchar um pouco, e partiriam immediatamente.




CAPITULO CXC


Sobreveiu um successo que distrahiu D. Fernanda do Rubio; foi o
nascimento de uma filha de Maria Benedicta. Ella correu  Tijuca,
encheu de beijos a me e a creana, deu a mo a beijar a Carlos Maria.

--Sempre exuberante! exclamou o joven pae, obedecendo.

--Sempre seccarro! retorquiu ella.

Apesar da resistencia do primo, D. Fernanda acompanhou a convalescena
de Maria Benedicta, to cordial, to boa, to alegre, que era um
encanto conserval-a em casa. A felicidade d'aqui fel-a esquecer a
desgraa d'acol; mas, convalescida a recente me, D. Fernanda acudiu
ao enfermo.




CAPITULO CXCI


Conto restituil-o  razo no fim de seis ou oito mezes. Vae muito bem.

D. Fernanda mandou a Sophia esta resposta do director da casa de saude,
e convidou-a a irem ver o enfermo, se achasse que no lhes ficava mal.
Que mal pde haver? respondeu Sophia em um bilhete. Mas eu  que no
teria animo de vel-o; foi to nosso amigo, que no sei se poderia
supportar a vista e a conversao do pobre homem. Mostrei a carta a
Christiano, que me declarou ter liquidado os bens do Sr. Rubio: apurou
tres contos e duzentos.




CAPITULO CXCII


--Seis mezes, oito mezes passam depressa, reflexionou D. Fernanda.

E elles vieram vindo, com os successos s costas,--a queda do
ministerio, a subida de outro em maro, a volta do marido, a discusso
da lei dos ingenuos, a morte do noivo de D. Tonica, tres dias antes de
casar. D. Tonica espremeu as ultimas lagrymas,--umas de amizade, outras
de desesperana,--e ficou com os olhos to vermelhos, que pareciam
doentes.

Theophilo, que merecera do novo gabinete a mesma confiana do antigo,
teve parte copiosa nos debates da sesso parlamentar. Camacho declarou
pela sua folha que a lei dos ingenuos absolvia a esterilidade e os
crimes da situao. Em Outubro, Sophia inaugurou os seus sales de
Botafogo, com um baile, que foi o mais celebre do tempo. Estava
deslumbrante. Ostentava, sem orgulho, todos os seus braos e espaduas.
Ricas joias; o collar era ainda um dos primeiros presentes do Rubio,
to certo  que, neste genero de atavios, as modas conservam-se mais.
Toda a gente admirava a gentileza daquella trintona fresca e robusta;
alguns homens faltavam (com pena!) das suas virtudes conjugaes, da
profunda adorao que ella tinha ao marido.




CAPITULO CXCIII


No dia seguinte ao baile, D, Fernanda accordou tarde. Foi ao gabinete
do marido, que j devorara cinco ou seis jornaes, escrevera dez cartas
e rectificava a posio de alguns livros nas estantes.

--Recebi esta carta, ha pouco, disse elle.

D. Fernanda leu-a; era do director da casa de saude; noticiava que
Rubio, desde tres dias, desapparecera, no tendo podido ser encontrado
por mais esforos que houvessem empregado a policia e elle. Tanto mais
me espanta esta fuga, concluia a carta, quanto que as melhoras eram
grandes, e podia contar que, em dous mezes, o poria inteiramente bom.

D. Fernanda ficou consternada; alcanou do marido que escrevesse ao
chefe de policia e ao ministro da justia, pedindo-lhes que ordenassem
as mais severas pesquizas. Theophilo no tinha o menor interesse no
achado nem na cura de Rubio; mas quiz servir  mulher cuja bondade
conhecia, e, porventura, gostava de cartear-se com os homens da alta
administrao.




CAPITULO CXCIV


Como achar, porm, o nosso Rubio nem o cachorro, se ambos haviam
partido para Barbacena? Oito dias antes, Rubio escrevera ao Palha que
lhe fosse fallar; este acudia  casa de saude, viu que elle raciocinava
claramente, sem a menor sombra de delirio.

--Tive uma crise mental, disse-lhe Rubio; agora estou bom,
perfeitamente bom. Peo-lhe que me ponha fra daqui. Creio que
o director no se oppor. Entretanto, como quero deixar algumas
lembranas  gente que me tem servido, e servido tambem ao Quincas
Borba, veja se me pde adiantar cem mil ris.

Palha abriu a carteira sem hesitao, e deu-lhe o dinheiro.

--Vou tratar de o fazer sair, disse elle; mas, provavelmente so
precisos alguns dias (estava em vesperas do baile); no se afflija por
isso; daqui a uma semana est na rua.

Antes de sair, falou ao director, que lhe deu boas noticias do enfermo.
Uma semana  pouco, disse elle; para pl-o bom, bom, preciso ainda uns
dous mezes. Palha confessou que o achra so; em todo caso, mandava
quem sabia, e se fossem necessarios seis ou sete mezes mais, no
precipitasse a alta.




CAPITULO CXCV


Rubio, logo que chegou a Barbacena e comeou a subir a rua que ora se
chama de Tiradentes, exclamou parando:

--Ao vencedor, as batatas!

Tinha-as esquecido de todo, a formula e a allegoria. De repente, como
se as syllabas houvessem ficado no ar, intactas, aguardando alguem
que as podesse entender, uniu-as, recompoz a formula, e proferiu-a
com a mesma emphasis daquelle dia em que a tomou por lei da vida e da
verdade. No se lembrava inteiramente da allegoria; mas, a palavra
deu-lhe o sentido vago da luta e da victoria.

Subiu, acompanhado do co, e foi parar defronte da egreja. Ninguem
lhe abriu a porta; no viu sombra de sacristo. Quincas Borba, que
no comia desde muitas horas, collava-se-lhe s pernas, cabisbaixo,
esperando. Rubio voltou-se, e do alto da rua estendeu os olhos abaixo
e ao longe. Era ella, era Barbacena; a velha cidade natal ia-se-lhe
desentranhando das profundas camadas da memoria. Era ella; aqui
estava a egreja, alli a cadeia, acol a pharmacia, donde vinham os
medicamentos para o outro Quincas Borba. Sabia que era ella, quando
chegou; mas,  medida que os olhos se derramavam, as reminiscencias
vinham vindo, escassas, mais numerosas, em bando. No via ninguem;
uma janella, a esquerda, parecia ter alguem que espiava. Tudo o mais
deserto.

--Talvez no saibam que cheguei, pensou Rubio.




CAPITULO CXCVI


Subito, relampejou; as nuvens amontoavam-se s pressas. Relampejou mais
forte, e estalou um trovo. Comeou a choviscar grosso, mais grosso,
at que desabou a tempestade. Rubio, que aos primeiros pingos, deixara
a egreja, foi andando rua abaixo, seguido sempre do co, faminto e
fiel, ambos tontos, debaixo do aguaceiro, sem destino, sem esperana de
pouso ou de comida... A chuva batia-lhes sem misericordia. No podiam
correr, porque Rubio temia escorregar e cahir, e o co no queria
perdel-o. A meia rua, acudiu  memoria do Rubio a pharmacia, voltou
para traz, subindo contra o vento, que lhe dava de cara; mas ao fim
de vinte passos, varreu-se-lhe a ideia da cabea; adeus, pharmacia!
adeus, pouso! J se no lembrava do motivo que o fizera mudar de rumo,
e desceu outra vez, e o co atraz, sem entender nem fugir, um e outro
alagados, confusos, ao som da trovoada rija e continua.




CAPITULO CXCVII


Vagaram sem destino. O estomago de Rubio interrogava, exclamava,
intimava; por fortuna, o delirio vinha enganar a necessidade com os
seus banquetes das Tulherias. Quincas Borba  que no tinha egual
recurso. E toca a andar acima e abaixo. Rubio, de quando em quando,
sentava-se no lagedo, e o co trepava-lhe s pernas, para dormir a
fome; achava as calas molhadas, e descia; mas tornava logo a subir,
to frio era o ar da noite, j noite alta, j noite morta. Rubio
passava-lhe as mos por cima, resmungando algumas palavras magras.

Se, apezar de tudo, Quincas Borba conseguia adormecer, accordava logo,
porque Rubio levantava-se e punha-se outra vez a descer e subir
ladeiras. Soprava um triste vento, que parecia faca, e dava arrepios
aos dois vagabundos. Rubio andava de vagar; o proprio canao no lhe
permittia as grandes pernadas do principio, quando a chuva cabia em
bategas. As paradas eram agora mais frequentes. O co, morto de fome e
de fadiga, no entendia aquella odyssa, ignorava o motivo, esquecera
o logar, no ouvia nada, seno as vozes surdas do senhor. No podia
ver as estrellas, que j ento rutilavam, livres de nuvens. Rubio
descobriu-as; chegara  porta da egreja, como quando entrou na cidade;
acabava de sentar-se e deu com ellas. Estavam to bonitas, reconheceu
que eram os lustres do grande salo e ordenou que os apagassem. No
pde ver a execuo da ordem; adormeceu alli mesmo, com o co ao p
de si. Quando accordaram de manh, estavam to juntinhos que pareciam
pegados.




CAPITULO CXCVIII

--Ao vencedor, as batatas! exclamou Rubio quando deu com os olhos na
rua, sem noite, sem agua, beijada do sol.




CAPITULO CXCIX


Foi a comadre do Rubio, que o agasalhou e mais ao cachorro, vendo-os
passar defronte da porta. Rubio conheceu-a, aceitou o abrigo e o
almoo.

--Mas que  isso, seu compadre? Como foi que chegou assim? Sua roupa
est toda molhada. Vou dar-lhe umas calas de meu sobrinho.

Rubio tinha febre. Comeu pouco e sem vontade. A comadre pediu-lhe
contas da vida que passra na Crte, ao que elle respondeu que levaria
muito tempo, e s a posteridade a acabaria. Os sobrinhos de seu
sobrinho, concluiu elle magnificamente,  que ho de ver-me em toda
a minha gloria. Comeou, porm, um resumo. No fim de dez minutos, a
comadre no entendia nada, to desconcertados eram os factos e os
conceitos; mais cinco minutos, entrou a sentir medo. Quando os minutos
chegaram a vinte, pediu licena e foi a uma visinha dizer que Rubio
parecia ter virado o juizo. Voltou com ella e um irmo, que se demorou
pouco tempo e saiu a espalhar a nova. Vieram vindo outras pessoas, s
duas e s quatro, e, antes de uma hora, muita gente espiava da rua.

--Ao vencedor, as batatas! bradava Rubio aos curiosos. Aqui estou
imperador! Aa vencedor, as batatas!

Esta palavra obscura e incompleta era repetida na rua, examinada, sem
que lhe dessem com o sentido. Alguns antigos desaffectos do Rubio
iam entrando, sem ceremonia, para gosal-o melhor; e diziam  comadre
que no lhe convinha ficar com um doudo em casa, era perigoso; devia
mandal-o para a cadeia, at que a autoridade o remettesse para outra
parte. Pessoa mais compassiva lembrou a conveniencia de chamar o doutor.

--Doutor para que? acudiu um dos primeiros. Este homem est maluco.

--Talvez seja delirio de febre; j viu como est quente?

Angelica, animada por tantas pessoas, tomou-lhe o pulso, e achou-o
febril. Mandou vir o medico,--o mesmo que tratara o finado Quincas
Borba. Rubio conheceu-o tambem; respondeu-lhe que no era nada.
Capturra o rei da Prussia, no sabendo ainda se o mandaria fuzilar
ou no; era certo, porm, que exigiria uma indemnisao pecuniaria
enorme,--cinco billies de francos.

--Ao vencedor, as batatas! concluiu rindo.




CAPITULO CC


Poucos dias depois morreu... No morreu subdito nem vencido. Antes
de principiar a agonia, que foi curta, poz a coroa na cabea,--uma
coroa que no era, ao menos, um chapeo velho ou uma bacia, onde os
espectadores palpassem a illuso. No, senhor; elle pegou em nada,
levantou nada e cingiu nada; s elle via a insignia imperial, pesada
de ouro, rtila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforo que
fizera para erguer meio corpo no durou muito; o corpo cahiu outra vez;
o rosto conservou porventura uma expresso gloriosa.

--Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...

A cara ficou sria, porque a morte  sria; dous minutos de agonia, um
tregeito horrivel, e estava assignada a abdicao.




CAPITULO CCI


Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu tambem, ganiu
infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto
na rua, tres dias depois. Mas, vendo a morte do co narrada em
capitulo especial,  provvel que me perguntes se elle, se o seu
defuncto homonymo  que d o titulo ao livro, e porque antes um que
outro,--questo prenhe de questes, que nos levariam longe... Eia!
chora os dous recentes mortos, se tens lagrimas. Se s tens riso,
ri-te!  a mesma cousa. O Cruzeiro, que a linda Sophia no quiz fitar,
como lhe pedia Rubio, est assaz alto para no discernir os risos e as
lagrimas dos homens.

FIM








End of the Project Gutenberg EBook of Quincas Borba, by Machado de Assis

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or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or
additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any
Defect you cause.

Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of
computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
from people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
www.gutenberg.org Section 3. Information about the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
volunteers and employees are scattered throughout numerous
locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
date contact information can be found at the Foundation's web site and
official page at www.gutenberg.org/contact

For additional contact information:

    Dr. Gregory B. Newby
    Chief Executive and Director
    gbnewby@pglaf.org

Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment. Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements. We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
state visit www.gutenberg.org/donate

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations. To
donate, please visit: www.gutenberg.org/donate

Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
freely shared with anyone. For forty years, he produced and
distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
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facility: www.gutenberg.org

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