The Project Gutenberg EBook of Nocturnos, by Gonalves Crespo

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Title: Nocturnos

Author: Gonalves Crespo

Release Date: November 17, 2013 [EBook #44211]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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    *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
    texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em caso
    de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
    deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                          Rita Farinha (Novembro 2013)




NOCTURNOS




D'esta edio tiraram-se mais _trinta exemplares_ que no entraram no
mercado; sendo:

12 exemplares em papel Japo      n.^{os} 1 a 12

12 exemplares em papel Whatman      n.^{os} 13 a 24

6 exemplares em papel China      n.^{os} 25 a 30




GONALVES CRESPO


NOCTURNOS



LISBOA
_18, Rua Oriental do Passeio_
1882




_Direitos reservados_




LISBOA--Imprensa Nacional




A MINHA MULHER

MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO


  _A ti,  boa e rara e fiel amiga,
A mais sancta e a melhor das companheiras,
A ti,  flr mimosa e alma antiga,
--Doce Premio que ris ao meu canao--
A ti,  meu Conselho, estas ligeiras
Folhas que ponho a medo em teu regao._




CONFIDENZA


Perguntaste-me um dia a vida que eu levava.
            Mimosa e eburnea flr,
  Em antes de te vr; respondo-te: sonhava...
            Ouviste, meu amr?

No era bem sonhar: s vezes largo espao
            Ficava-me a sorrir
  Para os quadros que eu via em luminoso trao
            Nas tlas do porvir.

Presta-me o ouvido attento, escuta-me, querida,
            Os que me lembram mais:
  Assim, fita nos meus,  pomba estremecida,
            Os olhos teus leaes!

Olha este quadro e v: o campo alegre e franco,
            Uma aurora de abril:
  Da larga estrada  beira um campanario branco,
            O cu profundo anil.

De uma casa  janella uma creana loura,
            Loura como um trigal:
  Fiando  luz do sol que leve a sobredoura
            De aureola ideal.

Toda risos e festa a doce creatura
            Olhava para mim,
  E eu repetia a ss: alcano-te, ventura!
            Serei feliz emfim!

De um outro quadro ento recordo-me saudoso,
            E alongo os olhos meus
  Para o quadro gentil, o sonho mais gracioso,
            Que me cahiu dos cus!

Fica ao longe da vil poeira das cidades
            E do seu vo rumr,
  O palacio esquecido; s horas das trindades,
            Entremos nelle, flr!

Deixemos os jardins, as aleas, o arvoredo,
            E o oloroso pomar;
  Subamos essa escada, agora, a furto e a medo,
            Comecemos a olhar.

 vetusto o salo; em flaccida poltrona
            Repoisa e scisma alguem:
  Alguem que nos recorda a imagem da Madona,
            Grave e sizuda me.

D'esse alguem no regao um anjo se reclina
            Confiado e feliz,
  Se-lhe um arma subtil da bcca pequenina.
            Falla, no sei que diz.

 casta essa creana e pura entre as mais puras,
            Que em sonhos vi jmais;
  Tem o vago esplendr das biblicas figuras
            Dos antigos missaes.

 moa e  menina: olhar nenhum ainda
            De leve a maculou.
  Dorme no seio della o amr, a crena infinda
            Que Deus lhe confiou.

Quando ella abre, sorrindo, as palpebras franjadas,
            Ficamos a pensar
  Nos mysterios do cu, nas cousas ignoradas
            Que descobre esse olhar.

Deixa que eu me ajoelhe extasiado e mudo,
            Cego de tanta luz,
  E que tremulo beije o tpido veludo
            De seus psinhos ns!

E no cra, bem vs, a candida creana!
            Antes meiga sorri,
  E entre risos me diz, compondo a escura trana:
            Pensava agora em ti!

Porque tardaste tanto,  poeta? eu te esperava
            Na minha solido!
  Vem os segredos vr que para ti guardava
            Dentro do corao!

Concerte vossa orchestra, harmonicas espheras,
            No clico esplendor!
  Maria, essa creana,  flr das primaveras,
            Eras tu, meu amr!




O VELHINHO

A J. Cesar Machado


Aquelle que ali vae triste e canado
  E mais tremente que os juncaes do brejo.
  Foi outrora o mais bello e o mais amado
  Entre os moos do antigo logarejo.

Nas fitas d'esse labio desmaiado
  Quantas mulheres tremulas de pejo
  No sorveram os nctares do beijo
  Dos trigaes sobre o leito perfumado!

Hoje  velhinho, e falla dos francezes
  Aos rapazes da eschola, e s raparigas
  Que no canam de ouvil-o... As mais das vezes

Sobre a ponte, ssinho, ouve as cantigas
  Das que lavam no rio, e o olhar extende
  Ao sol que ao longe na agonia esplende...




ANIMAL BRAVIO

A M^{elle} Eugenia Vizeu


Preferiras um ramo caprichoso
  De escolha rara e de um concerto fino,
  Onde visses o ccto purpurino
  E os nevados jasmins do Tormentoso.

Em vez do ramo exotico e oloroso,
  Casto recreio d'esse olhar divino,
  Acceita, Eugenia, este animal felino,
  Que o meu brao subjuga vigoroso.

Tive artes de o amansar: eil-o sereno!
  Acode  minha voz, e ao meu aceno
  Como um jaguar  voz de um saltimbanco...

Vamos, sonto! a prumo! ajoelhe, prsto!
  E  doce Eugenia, do sorriso honesto,
  A fimbria oscule do vestido branco!




AD AGROS


No tardes, flr; a aldeia nos espera,
  Chovem armas dos folhudos ramos:
  Suspensa do meu brao, eia! partamos!
  Olha-nos Deus da crystallina esphera.

Nas manhs da passada primavera
  Com que delcia ethrea nos ammos!
  Iremos vr os nomes que tramos
  No rude tronco em que se enlaa a hera.

No tardes, meu amr, sei de um caminho,
  Que sobe a encosta, e vae direito ao moinho,
  Em cujas vlas bate o vento em cheio...

Seguir-nos-ho as aves namoradas,
  Que ao som das tuas infantis risadas
  Modularo seu tremulo gorgeio...




A NUVEM

De Th. Gauthier


As roupas deslaando, entra no banho
  A languida sultana enamorada:
  Livre do pente, os hombros ns lhe beija
  A longa e fina trana desatada.

Atraz dos vidros o sulto a espreita;
  E comsigo murmura: como  bella!
  Ninguem a v, ninguem! o negro eunucho
  Do harem na trre solitario vela!

--Eu a vejo, uma nuvem lhe responde
  Do sereno e alto azul illuminado:
  --Vejo-lhe os seios ns, vejo-lhe o dorso,
  --E o seu corpo de perolas colmado--

Fez-se pallido Ahmehd bem como a lua,
  E erguendo o seu kandjar de folha rara,
  Desce, e apunhala a nua favorita...
  Quanto  nuvem... no azul se dissipra...




O JURAMENTO DO ARABE

A Teixeira de Queiroz


Bas, mulher de Ali, pastra de camlas,
  Viu de noute, ao fulgor das rtilas estrellas,
  Wail, chefe minaz de barbara pujana,
  Matar-lhe um animal. Bas jurou vingana;
  Corre, clere va, entra na tenda e conta
  A um hospede de Ali a grave e inulta affronta.

Bas, disse tranquillo o hospede gentil,
  Vingar-te-hei com meu brao, eu matarei Wail.

Disse e cumpriu.

                Foi esta a causa verdadeira
  Da guerra pertinaz, horrivel, carniceira
  Que as tribus dividiu. Na lucta fratricida
  Omar, filho de Amr, perdra o alento e a vida.

Amr que lanas mil aos rudes prlios leva,
  E que em sangue inimigo, irado, os odios cva,
  Incansavel procura, e  sempre embalde, o vil
  Matador de seu filho, o trdo Muhalhil.

Uma noite, na tenda, a um moo prisioneiro,
  Recem-colhido em campo, o indomito guerreiro
  Fallou severo assim:
                      Escravo, attende, e escuta:
  Aponta-me a regio, o monte, o plaino, a gruta,
  Em que vive o traidr Muhalhil, dize a verdade;
  D-me que o alcance vivo, e  tua a liberdade!

E o moo perguntou:
                       por Allah que o juras?
  --Juro, o chefe tornou--
                      Sou o homem que procuras!
  Muhalhil  o meu nome, eu fui que espedacei
  A lana de teu filho, e aos ps o subjuguei!

E intrpido fitava o attonito inimigo.

Amr volveu:--s livre, Allah seja comtigo!




NUM LEQUE


Amar e ser amado, que ventura!
  No amar, sendo amado,  um triste horrr:
  Mas na vida ha uma noite mais escura,
   amar alguem que no nos tenha amr!




OLHOS DE JUDIA


No transparente olhar das virgens da Allemanha
  Nada um fluido subtil tam pleno de scismar,
  Que a gente cuida ouvir uma sonata extranha
  Num castello do Rheno em noites de luar.

Flr do Guadalquivir, gloria da ardente Hespanha,
  Se dardejas, sorrindo, um teu lascivo olhar,
  O crespo, o encapellado e procelloso mar
  Dos desejos febris o corao nos banha.

Nos teus olhos porm venusta semi-deia,
  Como nas mutaes de um rapido scenario,
  Desdobram-se ante mim paizagens da Judeia...

Vejo o louro Jesus vagueando solitario,
  Vejo-o no Horto a chorar, ouo-lhe a voz na Ceia
  E escuto-lhe o gemido extremo no Calvario.




H. HEINE

NUMEROS DO INTERMEZZO

A M^{elle} Louse de Almeida e Albuquerque




I


Rosas e lirios, pombas, sol radiante,
  Tudo isso outrora, no fugaz passado,
      Eu adorei constante.

E d'esse amr, que tive immaculado
  Por lirios e aves e subtis perfumes,
  Nem j me lembro, seductra amante,
  Fonte pura de amr, que em ti resumes
  A rosa, o lirio, a pomba e o sol radiante!




II


De um lirio branco no mimoso calix
                Se eu a fosse depr
  A vaga essencia de meu peito, em breve
  Escutras no calice de neve
                Uma cano de amr.

Cano divina relembrando as ancias,
                E o languido tremr
  Daquelle beijo, em noite mysteriosa,
  Que me deram teus labios cr de rosa,
                Meu doce e casto amr!




III


 luz viva do claro sol radioso
  O lto inclina a fronte esmaecida,
  E espera a noite pensativo e ancioso.

Rompe a lua, e derrama a luz querida
                Na corolla mimosa
  Da pobre flr que se abre enlanguecida.
                Pobre flr amorosa!

Olhando o cu e a lua at parece
                Que, em desmaios de amr,
  Treme, palpita, cra e desfallece

  A scismadora e enamorada flr!




IV


      Sobre os olhos formosos
      Da minha doce amada
Rimei canes que os astros decoraram;
E embalsamei-lhe a bcca perfumada
      Em terctos graciosos.
Innumeras estancias decantaram
      Seu rsto peregrino
Que os jaspeados lirios escurece.
      Que sonto divino
Eu rendilhra com subtis lavres
Sobre o seu corao... se ella o tivesse!




V


Pozeram-te no rsto o areo vu nupcial.
  Bem sei que te perdi, mas no te quero mal.

Brilham do teu collar as pedras luminosas,
  Mas no teu corao que noites luctuosas!

Em sonhos eu desci,  misera mulher,
  s sombras da tua alma, e vi-te o padecer...

Bem sei que te perdi,  minha doce amada,
  Mas no te quero mal, s muito desgraada




VI


Sei-o; a tua vida  sem ventura,
  -nos commum esta funrea sorte.
  Ce sobre ns a mesma noite escura,
  E isto no finda sem que chegue a morte.

Se vejo nesse olhar um rir travsso,
  E em teu labio a insolencia costumada,
  E o orgulho inflar teu corao... padeo,
  E murmuro: s como eu, tam desgraada!

Bem sei que ris, mas o teu labio treme:
  Nos teus olhos azues o pranto brilha:
  Tens orgulho, e essa voz suspira e geme...
  Como ns somos desgraados, filha!




VII


      Se as flres do balsedo
Podessem ver meu peito alanceado,
Como allivio ao meu aspero degredo,
Mandar-me-hiam, das moitas do balsedo,
De seus prantos o balsamo sagrado.

      Se os rouxinoes da floresta
Soubessem quanta dr me rasga o seio,
Para espancar a minha noite msta,
Mandar-me-hiam, das sombras da floresta,
O seu mais terno e encantadr gorgeio.

      Se as estrellas do espao
Soubessem tudo quanto soffro em vida,
Para embalar d'esta alma o vil canao,
Mandar-me-hiam, dos concavos do espao,
Uma doce palavra condoda.

      E essa que sabe tudo,
O inferno e o horror da minha mocidade,
 a dona das tranas de veludo,
E das unhas rosadas... sabe tudo
E apunhla-me a vida sem piedade!




VIII


No me sabes dizer,  minha amada,
      O motivo, a razo
  Porque pendem a face desmaiada
      As rosas para o cho?

No me sabes dizer porque, no meio
      Do vasto prado em flr,
  Das violetas ce no roxo seio
      Um vu de lucto e dr?

Diz-me porque ouo a voz das cotovias
      Hoje lugubre assim?
  E porque exhalam mortes e agonias
      As urnas do jasmim?

Por que motivo o sol tam claro e puro
      De crepes se vestiu?
  Porque um sinistro pezadelo escuro
      Sobre a terra cahiu?

Bem sei eu porque vejo tudo triste
      Sem luz e sem calr...
   que tu, pomba branca, me fugiste
      Meu amr, meu amr!




IX


Disseram-te de mim feios horrres,
  De imaginarias culpas me crivaram,
  E sobre as minhas lastimaveis dres
                Um negro vu lanaram!

Distenderam os labios sacudindo
  Com grave e serio gesto a fronte, e ao cabo...
  (E acreditaste-os tu, meu anjo lindo!)
                Chamaram-me o Diabo!

O que ha de mais escuro e de mais feio
  Na minha vida, ignoram-no os sandeus,
  Tam occulto este amr vive em meu seio,
                 luz dos olhos meus!




X


Naquella manh ditosa
  O sol mandava-nos beijos;
  Do rouxinol os solfejos
  Suspiravam na amplido.

Se me lembro, ai! se me lembro
  D'esse amplexo demorado,
  Com que tu, meu lirio amado,
  Uniste-me ao corao!

Grasnava o crvo agoirento,
  As sccas folhas cahiam,
  E uns tristes raios desciam
  Da plumbea curva dos cus.

Se me lembro, ai! se me lembro
  Da fria e grave mesura
  Que, naquella tarde escura,
  Fizeste ao dizer-me--adeus!




XI


Fste fiel, no caminho
  Doloroso que eu seguia,
  Dste-me alentos, carinho,
  Meu conslo fste, e guia.

Dste-me tudo,  consorte,
  Roupa branca e at dinheiro!
  E ao partir para o extrangeiro
  Compraste-me o passaporte!

Deus t'o pague, meu amr!
  E um viver te d tranquillo!
  Mas que te no faa aquillo
  Que tu me fizeste, flr!




XII


Emquanto eu andava viajando, a minha
  Noiva gentil, o meu thesouro amado,
  Julgando que eu tardava e que no vinha,
  Fez  pressa o vestido de noivado,
  E um dia, ao p do altar, entrega anciosa
  A um ffo peralvilho a mo de esposa.

Nada no mundo a minha amada eguala;
  Nem eu sei a que a possa comparar!
  Que doce  o aroma que o seu labio exhala!
  Que gesto lindo! e que formoso olhar!
  Suspende a queixa, corao trahido,
  Deixaste o cu, do cu fste banido!




XIII


Quando morreres, filha, ao teu jazigo
  Descerei taciturno e allucinado,
  E abraando esse corpo delicado,
  No frio marmor dormirei comtigo.

E tu muda, e tu fria, e tu gelada!
  E eu nos meus braos a apertar-te ainda!
  E nas sombras daquella noite infinda
  Clamo, estremeo e morro, alma adorada!

Os mortos, alta noute, pouco e pouco
  Erguer-se-ho, ao luar, rindo e danando;
  E eu ficarei na sombra,  sonho louco!
  No teu seio de jaspe repoisando.

E quando a hora chegue em que as trombtas
  Do Juizo Final se ouvirem todas,
  No surgirs, inveja das violetas,
  Do escuro leito das eternas bdas!




XIV


      Do Norte sobre um monte,
         Alto frio e gelado,
         Um pinheiro isolado
Ergue entre o glo a merencoria fronte.

Todo tremulo, o misero deseja
  Ser a esbelta palmeira viridente
  Que em terra adusta odeia a luz ardente
  Que sobre ella o implacavel sol dardeja.




XV


Das minhas penas fiz canes aladas
  De alegre geito e jovial feio.
  Vi-as partir em doidas revoadas,
  E vi-as procurar teu corao.

Partem alegres, voltam lacrymosas,
  Perdido o fresco riso ingenuo e ldo,
  Mas do que viram guardam, silenciosas,
  O mais profundo e lugubre segredo.




XVI


Eu no posso esquecer, perdo, minha senhora,
  --Estes laos de amr custam a desatar--
  Eu no posso esquecer,  minha doce aurora,
  Que subjuguei teu corpo e essa alma singular...

Teu corpo, ai! o teu corpo esbelto, moo e branco,
  J foi meu, j foi meu... mas neste instante, flr,
  Da tua alma prescindo, e escuta, serei franco,
  Basta-me a que possuo, ah! basta, meu amr!

Se um dia succeder, que esse teu seio trema
  De novo juncto ao meu, hei-de insuflar-te, doudo,
  Metade da minha alma, e ento, gloria suprema!
  De ambos ns, meu amr, faremos um s todo...




XVII


 domingo: o burguez deixa os asphaltos,
            Dando o brao  burgueza;
  Procura o campo, e, ao vl-o, exclama aos saltos:
             filha, que lindeza!

E pasma do verdr febril, romantico,
            Da mrmura floresta;
  E a sua longa orelha absorve o cantico
            Da passarada em festa.

Eu que no saio, escondo a gelosia
            Com negros cortinados,
  E recebo a visita, em pleno dia,
            Dos espectros amados.

E aquelle Amr que eu vi morrer outrora.
            No meu quarto apparece!
  Senta-se ao p de mim, beija-me e chora,
            E treme e desfallece!




XVIII


Rompia a manh, rompia
  Alegre como um trinado,
  E eu ia triste e calado,
  No meio d'essa alegria,
  Por entre as flres do prado...
  Rompia a manh, rompia...

Vendo-me, as flres do prado
  Mais as rosas do silvedo
  Cochicharam em segredo...
  E erguendo os olhos, a medo,
  Num tom de voz repassado
  Da mais branda languidez:
  Como elle vae irritado,
  Os olhos fitos no cho!
  Perda por esta vez,
  No ralhes com ella, no?




XIX


Na tua face ardente e avelludada
  Encandeia-se a luz do quente Estio,
  Mas no teu corao,  minha amada,
  Habita o Inverno enregelado e frio.

Mas quem assim te v bella e formosa,
  Ver mais tarde o Inverno trvo e feio
  Nessa tua gentil face mimosa,
  E o rubro Estio no teu branco seio!




XX


No momento do _adeus_ succede que os amantes
  Se abraam, a chorar, com vozes soluantes.
  Fora,  fora partir; a mo prende-se  mo,
  E uma infinda tristesa inunda o corao.

Para ns, meu amr, nessa hora de agonia
  No houve o padecer que as almas excrucia:
  Foi grave o nosso _adeus_ e frio, e s agora
   que a Dr nos subjuga, e a Angustia nos devora.




XXI


Sonhei: de novo suspirava o vento
  Das tilias sob a cupula odorante;
  E como outrora ouvia o juramento
      Do teu amr constante.

Que protestos de amr nesse momento!
  Mas na febre dos beijos que me deste,
  Como para gravar teu juramento
      Em meus dedos mordeste!

Dona do riso alegre,  meu tormento!
  Dona de olhos azues,  minha amada!
  J me bastava o doce juramento,
      Foi de mais a dentada!




XXII


Chorei: sonhava e era comtigo, estavas
  Morta num cemiterio, fria, fria...
  E, ao despertar, senti que o pranto, em lavas,
  De meus canados olhos escorria.

Chorei: sonhava e era comtigo, rosa;
  Havias-me, sem d, abandonado:
  E, ao despertar da noite tormentosa,
  Tinha o rsto de lagrimas banhado.

Chorei: sonhava, e era comtigo,  linda!
  Dizias-me, a sorrir, como eu te adoro!
  Desperto, e logo numa angustia infinda,
  Eis-me a chorar de novo e ainda choro!




XXIII


      Batido do torvelinho
      O bosque palpita ao aoite
      Do vento outomnal;  noite.
Monto a cavallo e metto-me a caminho.

      E este inquieto pensamento,
      E esta phantasia errante
      Levaram-me nesse instante
Ao teu virgineo e candido aposento.

      Os ces ladram; nas sonoras
      Escadas assoma gente,
      E eu no marmore luzente
Fao tinir as rtilas esporas.

      No teu quarto da baunilha
      Vam clidos armas;
      Tu dormes, soltas as cmas,
E eu nos teus braos cio, minha filha!

      Solua o vento magoado:
      Diz um carvalho altaneiro:
      Cavalleiro, cavalleiro,
Suspende o teu sonhar allucinado!




XXIV


Eu enterro as canes de amr e o fel amargo
            Do meu triste sonhar:
  Quero um caixo profundo, immenso, vasto e largo;
            Depressa, ide-o buscar!

Um caixo formidando, um fretro-portento,
            Que sobreexceda e vena
  O pzo sobrehumano e o enorme comprimento
            Da ponte de Mayena.

Trazei-m'o sem demora; eu hei-de enchl-o em breve;
            Vereis a promptido.
  De Heidelberg o tonel ser pequeno e leve
            Ao p d'esse caixo.

Doze gigantes quero, o aspecto feio e rudo,
            E de um vigr sem conta,
  Que me faam lembrar Christovam, o membrudo,
            Que em Colonia se aponta.

Gigantes, balouae o fretro luctuoso!
            Vamos! agora, ao mar!
  Cova maior existe? Abysmo assim grandioso
            Difficil  de achar.

Sabeis porque eu desejo um fretro assim largo,
            De vastas dimenses?
   que enterro, infeliz, o amr, o fel amargo
            Das minhas illuses.




O MINUTE

Ao dr. Thomaz de Carvalho


Espaoso  o salo: jarras a cada canto;
  Admira-se o lavr do tecto de pu sancto.

Cadeiras de espaldar com fulvas pregarias:
  Um enorme soph: largas tapearias.

O purpureo tapete aos olhos nos revela
  Entre as garras de um tigre anciosa uma gazella.

Retratos em redor: olhemos o primeiro:
  No Tro as mos de Affonso o armaram cavalleiro.

Era Arcebispo aquelle: esta foi aafata...
  Que frescura sensual nos labios de escarlata!

Olhos revendo o azul que sobre a Italia assoma:
  Em finos caraces, a loura e ondada cma:

Collo robusto e n: cabea triumphante:
  Consta que certo rei... passemos adeante!

Este, que vs, morreu num africano areal
  Por vingana cruel do aspero Pombal.

D'esse olhar na expresso infinda e inenarravel
  Desabrocha uma dr profunda e inconsolavel.

Defronte, uma donzella, o rosto meigo e afflicto,
  Num extasis adora o pallido proscripto.

O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
  Tam cedo se desfez,  misera e mesquinha!

No burel escondeste o vio e a formusura,
  E desmaiaste, flr, no cho de uma clausura!...

Repara nos desdens do ffo conselheiro,
  Que sorridente aspira a flr de um jasmineiro!

Em canones doutor: no Pao foi bemquisto:
  Orna-lhe o peito a cruz de um habito de Christo.

Esse outro combatendo s portas de Bayona,
  Como um bravo, alcanou a rtila dragna.

Vibra flammas do olhar; cabea erecta e audaz;
  Illumina-lhe o rsto a gloria de um gilvaz.

Assistmos, ao vl-o, s pugnas carniceiras,
  E ouvimos o clangr das musicas guerreiras...

No antiquissimo espelho,  sombra das cortinas,
  Reflecte-se o primr de argenteas serpentinas.

Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
  Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.

Ao lado um cofre encerra, em amoravel ninho,
  Antiga partitura em velho pergaminho.

Uma noite extendi a musica na estante,
  E o cravo suspirou... naquelle mesmo instante

Da eburnea pallidez doentia do teclado
  Manso e manso evolou-se o arma do passado.

E vi descer do quadro a languida aafata
  Que, ao discreto pallr das lampadas de prata,

A fimbria alevantando azul do seu vestido
  O rsto acerejado, o gesto commovido,

A sorrir, deslisou graciosa no tapte,
  Danando airosamente o airoso minute...




O COVEIRO

A Alberto Braga


Elle entrou cabisbaixo e silencioso
  Na immunda tasca, e foi sentar-se a um canto;
  Deram-lhe vinho, recusou, o espanto
  Cresceu no olhar do taberneiro oleoso.

Elle era o mais antigo e o mais ruidoso
  Dos freguezes da casa: ao obsceno canto
  Ninguem prestava mais lascivo encanto
  Ao som magoado de um violo choroso.

Mas o velho sentra-se distante
  Da alegre turba, a vista lacrymante
  Mergulhada nas chammas do brazido...

Disse um da roda: espanta-me o coveiro!
  --Morreu-lhe ha pouco a filha...--distrahido
  Volveu da bisca um contumaz parceiro.




ADEUS!


Uma vez, numa camara elegante,
  De um contador no marmore de rosa,
  Entre os mil nadas feminis que exhalam
  Uns aromas subtis que nos embalam,
  Vi uma concha pallida e graciosa.

Sentira eu nella um som confuso e triste,
  Como o dos sinos em remota aldeia;
  Pobre concha! morria de saudade
  Daquella vaga e triste immensidade
  Do mar que chora na deserta areia.

Olha, querida, como nessa concha,
  Anda chorando em mim continuamente
  Essa timida voz que tu soltaste,
  Essa palavra ADEUS que murmuraste
  Aos meus ouvidos languida e tremente!




CAMONEANA




I

NA EGREJA DAS CHAGAS


Ao dr. A. A. de Carvalho Monteiro


Proxima vinha a nobre Catharina
  Da porta principal da egreja, quando
  Seu olhar encontrou suave e brando
  O olhar de um moo de presena fina.

E, ao fulgr d'esse olhar ardente, inclina
  A dama o rsto, timida, crando...
  Arfa-lhe o niveo seio, palpitando,
  Em doida e extranha commoo divina.

Cames, que outro no era o moo, ardido,
  Num gesto de galan desvanecido,
  Quem vos pudra merecer! murmura.

E a dama, ao ouvil-o, languida sorria,
  Pois que em todos os tempos a ouzadia
  Ao amr nunca trouxe desventura.




II

A LEITURA DOS LUSIADAS


A Vicente Pindella


Do moo rei defronte, esbelto e cavalleiro
  Cames recita; a crte, silenciosa
  Ante a rubra exploso do cantico guerreiro,
  Admira essa Epopeia enorme e prodigiosa.

... Ruge a electrica voz do Adamastr furiosa;
  Nas amuradas canta o alegre marinheiro;
  Do Oceano  flr scintilla a esteira luminosa
  Dos pesados galees do Gama aventureiro.

Terra! grita o gageiro; e  praia melindana
  Desce douda e febril a gente lusitana
  Desfraldam-se os pendes ao claro cu do Oriente...

Da gloria ante o esplendr o olhar d'El-Rey fulgura;
  O Camara no emtanto, alma sombria e escura,
  No rei os olhos crava, e ri felinamente.




III

ANNOS DEPOIS


A Bernardo Pindella


Juncto de um catre vil, grosseiro e feio,
  Por uma noite de luar saudoso,
  Cames, pendida a fronte sobre o seio,
  Scisma embebido num pesar luctuoso...

Eis que na rua um cantico amroso
  Subitaneo se ouviu da noite em meio:
  J se abrem as adufas com receio...
  Noite de amres! que trovar mimoso!

Cames acorda, e  gelosia assma,
  E aquelle canto, como um antigo arma,
  Resuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moo e feliz, e ah! nesse instante,
  No azul viu perpassar, claro e distante,
  De Natercia gentil, o vulto amado...




ESPHYNGE

Traduco de uns versos de Alexandre Dumas
escriptos num leque
em que estava pintada uma Esphynge


Que me queres, Esphynge? O que procuras? diz-m'o:
  Se do poeta o segredo intentas penetrar,
  Desce dos annos meus ao tenebroso abysmo,
  Vers o Amr aos Vinte e aos Sessenta o Pesar.

Sim, Pesar, no de haver lanado aos quatro ventos
  Com prodiga loucura o verbo triumphante,
  A ambio, o dinheiro, os risos e os tormentos,
  E as auroras de abril que passam num instante!

Mas Pesar de sentir dentro em meu peito agora,
  Como accso vulco em glos sepultado,
  Do juvenil desejo a flamma que devora,
  E de no poder mais, amando, ser amado!




A CEIA DE TIBERIO

Ao dr. J. Frederico Laranjo


Opulento  o festim: em todo o vasto imperio
  Outro no houve egual. Capra a dissoluta,
  O retiro de amr do perfido Tiberio,

Illuminada ri. Ao longe Roma escuta
  O confuso rumr da tenebrosa orgia:
  Assim geme, assim ronca o mar em funda gruta.

Fascina, attrae, seduz, e os olhos extasia
  A imperial vivenda: a sala  deslumbrante:
  Ouro e gmmas sem fim confundem-se  porfia.

Das lampadas rebrilha o lume coruscante;
  Nos triclinios esplende a purpura escarlata,
  A fina tartaruga e o sandalo odorante.

Aos angulos da sala, em primorosa prata,
  Erotico esculptor grupos fundiu lascivos,
  Em cujos membros ns Volupia se retrata.

Resaltam da parede os satyros esquivos
  Sob o pampano alegre: as nymphas, em coras,
  Danam na riba, em flr, de arroios fugitivos.

Em marmrea piscina enroscam-se as muras,
  Dos patricios de Roma o pabulo dilecto,
  Vezes sem conto, escravo, ali rompeste as veias!

Pendem verdes festes do primoroso tecto,
  Pyrrheico ali pintra um matagal folhudo,
  E um lago crystallino, encantador, discreto.

Diana ao sol enxuga as tranas de veludo,
  Acteon espreita ancioso, e,  rapida alegria!
  Aos poucos se transforma em cervo ramalhudo.

Em Milto foi tincta a azul tapearia,
  Que nas mesas se extende e nos mosaicos dorme;
  Dos velarios se esca o arma que inebria.

A festa  no pendor: num ureo prato informe
  Eis que entra um javali, formosas gaditanas
  Danam em derredor. Ulula a grita enorme.

Jorra o vinho de Ks purpureas espadanas;
  Dos convivas na fronte enlaa-se a verbena,
  Preludiam no emtanto as frautas sicilianas.

Adoudada suspira uma cano obscena:
  Fervem beijos no ar, os seios pulam, crescem
  E desnudam-se  luz, Tiberio assim o ordena.

As matronas, ao vr o duro gesto, obedecem,
  E l passam gentis, deslisam mansamente
  Dos marmores  flr; so nuas, endoudecem!

Um retiario nervudo, e um gladiador valente
  Combatem, so lees; o pallido vencido
  Mistura o sangue rubro ao vinho rescendente.

Ora Tiberio ri... Mas subito um gemido
  Longo e triste chorou nos paos de Capra...
  Indagam: talvez fosse o gladiador ferido...

Nesse instante Jesus morria na Judeia!




TRIO DE POETAS




I

JOO DE LEMOS


Ao Visconde de Pindella


Na cidade gentil do austero estudo
  Sobranceira ao Mondego socegado,
  Em cuja riba o sinceiral folhudo
  De rouxinoes suspira gorgeiado,

Fste erguido no concavo do escudo
  Pelos moos de outrora, e celebrado
  Trovador, cavalleiro, e namorado...
  Tempo de glorias! Como passa tudo!

No emtanto s vezes, na provincia, quando
  A um dce, honesto e feminino bando
  Digo a LUA DE LONDRES, de repente

Da infancia volvo  candida simpleza,
  E ondulam na minh'alma vagamente
  Tremulas notas de fugaz tristeza.




II

JOO DE DEUS

A Anthero do Quental


Sempre que o leio, sinto-me captivo
  De um no sei qu, de infinda suavidade,
  E entram commigo uns longes de saudade,
  Que me deixam sizudo e pensativo.

Sonho: quizra, em triste soledade,
  Viver das gentes apartado e esquivo,
  E erguer-me a esse planeta primitivo
  Onde resplenda a eterna mocidade.

J o seu nome  to suave e brando,
  To eufonico, meigo e delicado,
  Que fica nos ouvidos suspirando...

Diz a lenda que vive descuidado,
  RAMOS tecendo, e FLORES emmoitando,
  Da Chymera nos seios reclinado.




III

JOO PENHA


A Augusto Sarmento


Nervoso mestre, domadr valente
  Da Rima e do Sonto portuguez,
  No te eguala a pericia de um chinez
  Na pintura de um vaso transparente.

Ha no teu verso a musica dolente
  Da guitarra andaluza, e muita vez
  Rompe em meio da extranha languidez
  O silvo estriduloso da serpente.

No VINHO E FEL traaste o escuro drama
  Em que solua e ri, na extensa gamma,
  Teu desgrenhado amr, doido e fatal...

Mas se do peito ancioso o dardo arrancas,
  Teu canto exhala as alegrias francas
  De uma rubra Kermesse colossal.




CHYMERAS

A meu tio Joo de Almeida e Albuquerque


O mar j me tentou: aspiraes fogosas
  Fizeram-me idear phantasticas viagens;
  Eu sonhava trazer de incognitas paragens
  Noticias immortaes s gentes curiosas.

Mais tarde desejei riquezas fabulosas,
  Um palacio escondido em mrmuras folhagens,
  Onde eu fosse occultar as candidas imagens
  Das virgens que evoquei por noites silenciosas.

Mas tudo isso passou: agora s me resta
  Das chymeras que tive, uma viso modesta,
  Um sonho encantador, de paz e de ventura.

 simples; uma alcva, um bero, um innocente,
  E uma esposa adorada, envolta, a negligente!
  De um longo penteadr na immaculada alvura...




ODOR DI FEMINA

A Alberto Pimentel


Era austero e sizudo; no havia
  Frade mais exemplar nesse convento;
  No seu cavado rsto macilento
  Um poma de lagrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
  Folheava o triste um livro pardacento,
  Viram-no desmaiar, cahir do assento,
  Convulso, e trvo sobre a lgea fria.

De que morrra o venerando frade?
  Em vo busco as origens da verdade,
  Ninguem m'a disse, explique-a quem pudr.

Consta que um bibliophilo comprra
  O livro estranho e que, ao abril-o, achra
  Uns dourados cabellos de mulher...




EM CAMINHO DA GUILHOTINA

 Senhora Condessa de Sabugoza


A _viuva Capet_ vae ser guilhotinada.

  Ora naquelle dia o povo de Pariz
  Formidavel, brutal, colerico, feliz,
  Erguera-se ao primeiro alvr da madrugada.

No caminho traado ao funebre cortejo
            O povo redemoinha;
  Que todos sentem n'alma o tragico desejo
  De ver como Sanso degolla uma rainha.

Da carreta em redor ondeiam os soldados;
            De cima dos telhados
  Da rua, dos portaes, dos muros, dos balces
  Chovem sobre a rainha as vis imprecaes.

Ella comtudo altiva erecta e desdenhosa
            Olha tranquillamente
  Para o revolto mar da plebe tumultuosa.

E emquanto aquelle povo inquieto e repulsivo
  Anceia por ouvir o grito convulsivo
            E o derradeiro arranco
  D'essa mulher, e ri abominavelmente,
  Um homem s, o algoz, vae triste e reverente.

Pde nascer ao p da forca um lirio branco.

A carreta parou. Desce a rainha. Nisto
            Viram-se uns braos ns
  Erguerem para o ar,  flr da multido,
  Uma loura creana, alegre como a luz,
            Suave como o Christo,
  A quem talvez faltando em casa a enxerga e o po,
  A me quizera dar aquella distraco.

No primeiro degru da escura guilhotina
            A rainha de Frana
  Ergueu o olhar e viu essa gentil creana
  Levar a mo  flr da bcca pequenina,
  E atirar-lhe, a sorrir, um beijo doce e honesto...

E ella que fra audaz, heroica e resoluta,
  E ouvira, com desdem, da plebe a injuria bruta,
  Ante a esmola infantil, graciosa, d'esse gesto,
  Chorou.
      Chorou, emfim! A infame succumbiu!
  De entre o povo uma voz selvatica rugiu.




A VIUVA

 Senhora D. Margarida Street


Fra de portas vive.  silenciosa
  A modesta vivenda em que ella habita,
  Ali correu-lhe a vida bonanosa,
  Ali golpeou-lhe os seios a desdta.

Raro de quando em quando uma visita
  Novas lhe traz da vida tumultuosa,
  E ella sorrindo a furto, descuidosa,
  No azul os olhos em silencio fita.

Ssinha e triste a pallida viuva,
  Por essas noites de invernia e chuva,
  A um honesto e feminil labor se entrega.

E, alta noite, levanta, em dr sepulta,
  O olhar, que fixa, e demorado prega
  No eterno Ausente que num quadro avulta.




FLR DO PANTANO

A Bulho Pato


 pequenina e sria,
  E tem o gesto grave
  Da filha de um burgrave,
  A candida Valeria.

No ha flr mais suave,
  De essencia mais ethrea,
  E abriu-lhe a vida a chave
  Do Vicio e da Miseria!

Na sua loura cma
  Nunca passou o arma
  Dos beijos maternaes.

 credula Ignorancia,
  Esconde quella infancia
  O nome vil dos paes!




A RESPOSTA DO INQUISIDR

A meu tio Luiz de Almeida e Albuquerque


I

A sala em que medita El-Rey  silenciosa,
  Apainelada e fria, o largo reposteiro
  Ondula brandamente  aragem preguiosa.

II

 cathedra real um Christo sobranceiro
  Msto, livido, n, ferido e ensanguentado
  Exhala sobre o seio o alento derradeiro.

III

El-Rey medita e scisma: o seu olhar turbado,
  O seu obliquo olhar, o seu olhar de fra,
  Vibra irrequieta luz, parece allucinado.

IV

Nisto  porta assomou a calva fronte austera
  De um velho, e logo atraz um pagem que murmura:
  Eis o monge, Senhor, que Vossa Alteza espera!

V

Curvra, ao entrar, o monge a tremula estatura:
  Mos dispostas em cruz no largo peito ancioso,
  E humilhada a cerviz na ascetica postura.

VI

E comtudo esse frade humilde e respeitoso,
  De olhos fitos no cho, to fragil como um vime,
  Na presena de um rei, de um Cesar poderoso,

VII

 fanatico e audaz; com mo de bronze opprime
  O Solio, a Egreja, o Lar, e os coraes dos crentes;
  Flagella a sombra e o amr, condemna a luz, e o crime!

VIII

Quando elle vae passando, as timoratas gentes
  Benzem-se com pavr e param de improviso
  As canes juvenis nas aleas rescendentes.

IX

Nunca nos labios seus florira o alegre riso,
  Tem cem annos, jamais beijra uma creana,
  E cr subir, talvez, morrendo, ao Paraizo!

X

Na Hespanha, no Per, em Napoles, na Frana
  Paira como o sinistro espirito do Mal,
  O negro inquisidr, feroz como a Vingana.

XI

Sisto quinto, o cruel, fizera-o cardeal,
  E a Hespanha pde ver com assombroso espanto
  Juncto do rei-panthera o inquisidr-chacal.

XII

E Philippe dizia ao monge no entretanto:
  Sentinella da Lei, piedoso inquisidr,
  Tu que fallas com Deus e s padre, e s bom, e s sancto

XIII

Arranca-me este pezo, afasta-me este horrr!
  Ah! diz'-me, cardeal, se  um vil, se  um precito
  O rei que  justo e mata o filho que  traidr...

XIV

E mais no disse o rei, trvo, sombrio e afflicto.
  No emtanto o inquisidr erguendo imperturbavel
  O seu hediondo olhar das lageas de granito,

XV

Assim tornou com voz vibrante e formidavel:
  -- principe, e apontava o livido Jesus,
  --Para acalmar dos cus a colera implacavel

XVI

--O Eterno fez morrer seu filho numa cruz!--




FERVET AMOR

Ao dr. Antonio Candido


D para a crca a estreita e humilde cella
  D'essa que os seus abandonou, trocando
  O calr da familia ameno e brando
  Pelo claustro que o sangue esfria e gela.

Nos flores manuelinos da janella
  Papeiam aves o seu ninho armando,
  Vem-se ao longe os trigos ondulando...
  Maio sorri na pradaria bella.

Zumbe o insecto na flr do rosmaninho:
  Nas gistas pousa a abelha bria de gso:
  Zunem bezouros e palpita o ninho.

E a freira scisma e cra, ao vr, ancioso,
  Do seu ctre virgineo sobre o linho
  Um par de borboletas amoroso.




NA ALDEIA

A Christovam Ayres


Duas horas da tarde. Um sol ardente
  Nos clmos dardejando, e nos eirados.
  Sobreleva aos sussurros abafados
  O grito das bigornas estridente.

A taberna  vazia; mansamente
  Treme o loureiro nos humbraes pintados;
  Zumbem  porta insectos variegados
  Envolvidos do sol na luz tremente.

Fia  soleira uma velhinha: o filho
  No cu mal acordou da aurora o brilho,
  Sahiu para os canaos da lavoura.

A nra lava na ribeira, e os netos
  Ao longe correm semi-ns, inquietos,
  No mar ondeante da sera loura.




ESTUDANTINA


Acorda, minha Thereza,
  Descerra a janella tua!
  Espalha-se a luz da lua
  Pela poetica deveza...
  Entre os sinceiros da margem
  Murmura o claro Mondego,
  A noite corre em socgo...
  Acorda, minha Thereza!

No dorme quem tem amres,
  E o teu postigo  cerrado!
  Deixa o leito perfumado,
  E o travesseiro de flres,
  Se queres que eu acredite,
   minha pallida amiga,
  Nas palavras da cantiga:
  No dorme quem tem amres!

Por isso eu vlo cantando,
  E esta guitarra suspira,
  E o meu corao delira
  Mal vem a lua apontando...
   que,  noite, lirio branco,
  Os astros guardam segredo
  Dos beijos dados a medo...
  Por isso eu vlo cantando...

Quero vr-te, como outrora
  Nesse postigo inclinada,
  Conversando enamorada
  At ao raiar da aurora...
  Um leno posto no liso
  Dos teus hombros jaspeados,
  Os cabellos destranados...
  Quero vr-te como outrora.

No te assustes, Julieta,
  Que a manh te encontre ainda
  Bebendo a cano infinda
  Que solua o teu poeta.
  Cantar de entre os loureiros
  Uma alegre cotovia,
  Mal venha rompendo o dia...
  No te assustes, Julieta!

Mas dorme a branca Thereza,
  Cerrada a janella sua;
  Espalha-se a luz da lua
  Pela poetica deveza...
  Entre os sinceiros da margem,
  Murmura e corre o Mondego,
  Que tristeza e que socgo!
  Ai! dorme, dorme, Thereza!




AS ONDINAS

H. HEINE

Ao Visconde de Castilho II


Na praia tranquilla murmuram sonoras
      As ondas do mar.
  E, ao dce das aguas murmrio palreiro,
  Na areia dormita gentil cavalleiro
       luz do luar.

As bellas ondinas emergem das grutas
        De vivo coral,
  Accrrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
  O moo que julgam devras dormindo
        No argenteo areal.

Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
        As mos de setim.
  E aquella, com gesto divino, gracioso,
  Nos ares levanta do joven formoso
        O aureo telim.

Ess'outra, que lavas, que fogo no vibram
        Seus olhos de anil!
  Debrua-se e arranca-lhe a rtila espada,
  Nos copos brilhantes se apoia azougada,
        Travessa e gentil.

A quarta, saltando, retoua, lasciva,
        Do moo em redor;
  Suspira mansinho, de manso murmra:
  Podsse eu em vida gosar a ventura
        Do teu fino amr!

A quinta rebeija-lhe as mos, enlevada
         Num sonho feliz,
  E a sexta, com tremula e dce esquivana,
  Perfuma-lhe a bcca, formosa creana!
         Com beijos subtis...

E o moo, fingindo que dorme tranquillo,
         No quer acordar.
  E deixa que o abracem as bellas Ondinas,
  E languido gosa caricias divinas
          luz do luar...




NO JOGO DAS CANNAS

A Camillo Castello Branco


Em garbosos corceis da Arabia cavalgando
  Entram na larga arna os prceres luzidos;
  Corusca a pedraria, e esplendem, fluctuando,
  Dos cocres a pluma e a sda dos vestidos.

A quadrilha gentil dos Tavoras ardidos,
  Com os lacaios da Trre um prlio simulando,
  Tera galhardamente; o apparatoso bando
  Deixa os olhos da turba em extase embebidos.

Nas janellas do pao  toda a fidalguia:
  Que jocundo prazer, que risos, que alegria!
  Espectaculo augusto, e nobre, e singular!

O sexto Affonso applaude: emtanto, maliciosa,
  Maria de Nemours, sorrindo, a incestuosa!
  No cunhado, subtil, poisa o lascivo olhar...




NUNCA EU TE LSSE, BALLADA!


Suspende a dura sentena
  Que de teus labios ouvi.
  E ergue do cho os quebrados
  Teus negros olhos magoados,
  Quando me acerco de ti.

Ergueste-os, encantadra!
  Mas antes do teu perdo,
  Attende-me, e ouve, senhora,
  Com todo o teu corao.

Escuta:
        A um rei namorado
  Sincera e fiel amante,
  Ao morrer, tinha deixado,
  De antigo affecto em penhor,
  Cinzelada taa de ouro
  Do mais subido valor.

O rei preferia a tudo
  Aquella doce lembrana
  Que lhe trazia os armas
  De umas fluctuantes cmas,
  E de uns labios de veludo,
  Que elle beijra em creana.

Toda a vez que elle bebia
  Por esse vaso sagrado,
  Uma extatica alegria
  Como flr ideal sorria
  No seu turvo olhar canado.

Um dia sentiu-se o pobre
  Mais triste, velho e abatido,
  Abraou-se commovido
   taa, o tremulo amante:

E as lagrimas, uma a uma,
  Deslisaram nesse instante
  Nos rudes flcos de espuma
  Da longa barba fluctuante.

Naquella hora de agonia,
  Chamou seus filhos e herdeiro,
  Deu-lhes tudo o que possuia,
  Ouro, palacios, riquezas,
  O seu castello roqueiro,
  E as suas largas devezas.

Dividiu tudo, contente;
  A taa guardou smente.

Sentindo fugir-lhe a vida,
  Manda o triste convidar
  Seus pares, filhos e herdeiro
  Para um festim derradeiro
  No castello sobranceiro
  s verdes aguas do mar...

Em meio da festa, o velho
  Ergueu a taa e, sorrindo,
  Embebido o olhar no infindo,
  Um frouxo canto soltou...

E mal o canto findra,
  No leito da onda amara
  A taa de ouro lanou...

Eram profundos ciumes
  Os d'esse rei namorado,
  Que no fosse alguem beber
  Por esse vaso sagrado,
  E viesse a conhecer
  Os cariciosos perfumes
  Que o tinham embriagado...

Hontem,  tarde, beijando-a
  De teu labio a viva rosa,
  Lembrou-me a historia singela
  D'essa ballada amorosa;
  E dentro em mim de repente
  Tam extranha dr senti,
  Que num impeto demente
  De teu labio humido e ardente
  Com trvo aspecto fugi!

Lembrou-me, cabea louca!
  Que se eu acaso morresse,
  Talvez um outro sorvesse
  Os beijos da tua bcca...

E no azul indefinido,
   minha piedosa anmona!
  Cuidei ouvir o gemido
  Da moribunda Desdemona...

Ai, desavisado amr!
  Perda, sombra adorada!
  Nunca eu te avistasse, flr!
  Nunca eu te lsse, ballada!




A NEGRA

Ao dr. A. A. da Fonseca Pinto


Teus olhos,  robusta creatura,
       filha tropical!
  Relembram os pavres de uma escura
      Floresta virginal.

s negra sim, mas que formosos dentes,
        Que perolas sem par
  Eu vejo e admiro em rubidos crescentes
        Se te escuto fallar!

Teu corpo  forte, elastico, nervoso.
        Que doce a ondulao
  Do teu andar, que lembra o andar gracioso
        Das onas do serto!

As languidas sinhs, gentis, mimosas,
        Desprezam tua cr,
  Mas invejam-te as formas gloriosas
        E o olhar provocadr.

Mas andas triste, inquieta e distrahida;
        Foges dos cafesaes,
  E no escuro das mattas, escondida,
        Soltas magoados ais...

Nas esteiras,  noite, o corpo estiras
        E, com ancias sem fim,
  Levas aos seios ns, beijas e aspiras
        Um candido jasmim...

Amas a lua que embranquece os mattos,
         negra jurity!
  A flr da laranjeira, e os niveos cctos
        E tens horrr de ti!...

Amas tudo o que lembre o _branco_, o rosto
        Que viste por teu mal,
Um dia que sahias, ao sol psto,
        De um verde taquaral...




MATER DOLOROSA

A Rangel de Lima


Quando se fez ao largo a nave escura
  Na praia essa mulher ficou chorando,
  No doloroso aspecto figurando
  A lacrymosa estatua da amargura.

Dos cus a curva era tranquilla e pura:
  Das gementes alcyones o bando
  Via-se ao longe, em circulos, voando
  Dos mares sobre a crula planura.

Nas ondas se atufra o sol radioso,
  E a lua succedra, astro mavioso,
  De alvr banhando os alcantis das fragas...

E aquella pobre me, no dando conta
  Que o sol morrra, e que o luar desponta,
  A vista embebe na amplido das vagas...




AS PRIMEIRAS LAGRIMAS DE EL-REY

A M. Pinheiro Chagas


I

O principe morrra, e logo os cortezos,
  Em prantos derredor do mortuario leito,
  Erguem a voz em grita aos ceus levando as mos.

II

El-Rey, Joo segundo, a fronte sobre o peito,
  Contempla dos brandes  luz ensanguentada
  O filho, e a dr lhe avinca o grave e duro aspeito.

III

E eis que, a um gesto do rei, a turba consternada
  A pouco e pouco se, reina o silencio, apenas
  Cortado pelo uivar longinquo da nortada.

IV

Sobre o filho curvado, immerso em cruas penas,
  Aquelle rei sinistro, energico e tigrino,
  Tinha na frouxa voz modulaes serenas.

V

E o filho inerte e mudo! ento num desatino
  Deixou-se El-Rey car, ao acaso, num escabllo
  E quedou-se a pensar no seu atroz destino.

VI

Um enorme, um confuso e bronzeo pesadlo
  Cau-lhe sobre o enfrmo espirito enluctado,
  E o suor inundou-lhe as barbas e o cabello.

VII

Talvez que o triste visse, em sonho allucinado,
  Do duque de Vizeu o espectro vingativo
  Apontando-lhe, a rir, o Infante inanimado.

VIII

E escutasse a feroz imprecao que altivo
  No cadafalso, outrra, o duque de Bragana
  s faces lhe cuspiu com gesto convulsivo.

IX

Subito ergue-se o rei, e para o leito avana,
  E uma lagrima ento, embalde reprimida,
  Das barbas lhe cahiu no rosto da creana...

X

A vez primeira foi que El-Rey chorou em vida.




O CURA SANCTA CRUZ

CONTO DE A. DAUDET

Ao dr. Sousa Martins


O implacavel carlista, o Cura Sancta Cruz,
  Que em nome do seu rei, e em nome de Jesus,
  Da Navarra febril leva do sul ao norte
  O odio, a perseguio, o incendio, o estrago, a morte.

Nessa clara manh risonha do Natal,
  Tendo sobre o uniforme a veste clerical,
  Na montanha, ao ar livre,  luz do sol, diz missa
   guerrilha que o escuta extatica e submissa.

Como um rebanho vil, a um lado, os prisioneiros
  Ouvem-no, a tiritar, cheios de um medo atroz:
  Olham-se mutuamente os trvos companheiros,
  E murmuram: meu Deus, o que ser de ns?

Porque emfim toda a vez que o sanguinario Cura
  Se volta, e o _oremus_ diz, segundo o ritual,
  Da sacra vestimenta avultam na brancura
  De pistolas um jogo e a frma de um punhal.

Quando afinal chegou o instante, a occasio
  Em que a missa termina, o Cura, erguendo um brao,
  Grave traou no ar e na mudez do espao
  O clemente signal da paz e do perdo.

A missa terminra.

            O Cura nesse dia
Como sentisse n'alma uns raios de alegria,
  De bondade e de amor, foi-se direito ao bando
  Dos captivos, e assim fallou circumvagando
  A vista em derredor: _Hermanos, viva Dios!_

Corre ahi que sou mu, fanatico e feroz...
  Pois em breve ides ver como se engana, quem
  Diz que eu sou o anti-Christo e que abomino o bem.
  Como  dia de festa e  dia de Natal,
  Dou-vos a liberdade, e no vos quero mal!

Mas haveis de primeiro, e isto, prompto e sem custo
  De joelhos beijar o pavilho augusto
  De El-Rey nosso senhor...
                      E mandou desfraldar
  O carlista pendo, branco como o luar...

Todos logo  porfia atiram-se por terra
  E um grito: Viva El-Rey! echoou de serra em serra.

No emtanto um prisioneiro, um moo imberbe ainda,
  Firme ficou de p, e olhava com infinda
  Expresso de desdem a extranha vilania...
  Braos postos em cruz, e intrepido sorria.

E tu? surprezo disse e transtornado o Cura.
  --Padre, volveu-lhe o esbelto joven, com brandura,
  --Mata-me! aqui me tens! rio-me d'esse panno!
  --Ao teu rei no me curvo... Eu sou republicano...--

O Cura um acno fez; formou-se um peloto:
  Vamos! inda uma vez, viva D. Carlos!

                                        --No!--

E havia nessa voz tamanha heroicidade
  E uma energia tal, que uns longes de piedade
  Scintillaram no olhar do trvo guerrilheiro.

Muito bem, morrers: mas dize-me primeiro,
  O que desejas tu? Queres beber, fumar?...

--Padre, se vou morrer, quero-me confessar...
  Ouvir-te-hei! disse o Cura, e, ao acaso, num granito
  Assentou-se.

      O captivo, olhos no cho, contrito
  Os joelhos dobrou... Nesse fugaz instante
  Elle viu, elle viu, num sonho lacrymante,
  A sua infancia, o lar, o tecto de seus paes,
  Os choupos do seu rio, os placidos cases:
  Viu a noiva gentil, a egreja, os arvoredos
  E os parentes e irmos, socios de seus brinquedos.

Ah! quem pde esquecer o seu paiz natal!
Ah! quem pde esquecer a beno maternal!

Em distancia a guerrilha os dous observa... Ento
  Emquanto o padre escuta attento o prisioneiro,
  Subito uma descarga estoira na amplido.
  Tremem a serra e o val, treme o desfiladeiro.

s armas! o inimigo! a sentinella brada.
  De golpe ergue-se o Cura, e  jldra amotinada
  Va, d ordens, clama, emquanto as balas chovem.
Nisto viu que inda estava ajoelhado o joven!
Pra.
      Que fazes tu? indaga em tom severo
  --Padre, diz a creana, a absolvio espero--

E em meio da febril convulso da batalha,
  Emquanto rompe e rasga os ares a metralha,
  Viu-se o Cura depois de abenoar, ligeiro,
  A fronte juvenil do heroico prisioneiro,
  Pegar de uma clavina, e dando um passo ao lado,
  Varar tranquillamente o craneo do soldado.




A VENDA DOS BOIS

Ao dr. J. de Vasconcellos Gusmo


I

O velho entrra triste: ao p, juncto do lar,
  Estava a companheira, absrta, a meditar.

--Mulher, a f perdi, fallei a toda a gente,
  E ninguem me valeu!--E ella com voz tremente:
      Dize-me, e o brazileiro?
      --Esse foi o primeiro.

--Bat, fui ter com elle  casa do jantar.
  Expliquei-lhe ao que vinha... entrou a gracejar:
  Com que ento voc quer _livrar_ o seu rapaz?...
      Visinho, to mal faz!
  Deixe-me ir cada qual  sorte e ao seu destino!
  Seu filho  um moceto valente e muito digno
  De servir o paiz...

            --E descascava um fructo...
  --Desatei a chorar... --Homem no seja bruto!
  A farda no  morte...
                      --E disse mais e mais
  --Cousas de quem no sabe a dr de uns tristes paes!

E emquanto o velho punha a vista lacrymosa
  Nos brazidos, a voz da me afflicta e anciosa
  Perguntou: e o prior?
            --Negou, negou tambem!--
      A angustiada me
  Retorcia o avental com mo febril, ardente.

No silencio da noite ento distinctamente,
      Um profundo mugido,
      Triste como um gemido,
  Longo e longo chorou no lugubre aposento...

      Entreolharam-se os dois...
Nisto acde  mulher um estranho pensamento...
      Temos ainda os bois!
  Vendamol-os! E ria...
            O entristecido olhar
  Do velho lavrador de lagrymas nublou-se.
      E entrou a suspirar:
      --Vender os infelizes!
  --Uns pobres animaes, a quem s mingoa a fala
  --Para serem Christos! Parece que me estala
  --No peito o corao... Vender os infelizes!...
  --Pois seja assim, mulher! Farei o que tu dizes...


II

            Vinha rompendo a aurora
  Risonha, virginal, feliz como um noivado,
  Das aves  compita o tremulo trinado
  Entre as balsas gorgeava. Era em descano a nra.

No emtanto o lavrador, tremente e vacillante
  Como um ladro nocturno, ou como um namorado,
  Abriu, de par em par, as portas do curral.
            Subito nesse instante
  Volveram para a entrada os bois o olhar leal,
            Bondoso, humano e franco.

            Que festiva alegria
  O frequente menear das caudas traduzia
  Resvalando em seu forte e musculoso flanco!

            O velho antigamente
  Tinha sempre, ao chegar, uma palavra amiga,
            Um dicto, uma cantiga,
  A que sempre um mugido alegre respondia.
  Mas naquella manh, silenciosamente,
            Fatal como o dever
  O velho foi buscar, a um canto, uma correia,
            E lanou-a a tremer
  Dos anafados bois s pontas recurvadas.

E sahiram os tres.
                      Nos concavos da aldeia
  Choviam as canes das aves namoradas.


III

No ces ha o moirejar das fabricas ruidoso;
            Feroz e discordante
  Juncta-se  voz humana o arfar estrepitante
  Dos valentes pulmes das machinas inglezas.

            Em novellos, ancioso,
  Golpham as chamins o denso e o escuro fumo
            Que ascende e toma o rumo
  Do claro e vasto azul, vazio de tristezas.

Como um cetceo ingente, encarvoado e feio
            Um enorme Vapr
            De outros avulta em meio.
  Em seu largo convez a marinhagem canta
  E na faina febril as ancoras levanta.

Naquella espessa nu, um velho, um lavradr
  Entre a faina do ces, fita o dolente olhar...
   que ali dentro vo os bois, o seu amr...
            E quella magoa intensa
            E inenarravel dr
  Responde a descuidosa e gelida indifferena
  Dos Homens, e dos Cus, e do profundo Mar...




AO RABEQUISTA
EUGENIO DEGREMONT

Recitada na noite de 25 de fevereiro de 1876
no theatro de S. Joo do Porto


Vde-o!  to creana!  mes, olhae-o!
  Como  vivo o fulgor e ardente o raio
            Que vibra nesse olhar!
  Faz gosto vel-o assim to pequenino
  Enlevado nos sons do violino
            A sonhar, a sonhar...

E ao passo que a sua alma vae sonhando,
  Vo-se ante nossos olhos desdobrando
            Quadros a mil e mil.
  A rabeca suspira? Assim amenas
  So na longinqua roa as cantilenas
            Das moas do Brazil.

Vibra rispidos sons? E logo ouvimos
  Curvar o vento da floresta os cimos
            Com ruidoso fragr...
  E uivam pintadas onas e as araras
  Roam, fugindo, as tremulas taquaras,
            E crocita o condr.

Enterrados nas humidas pastagens
  Mugem raivosos bufalos selvagens,
            E por entre os saraes
  Pula a panthera; os jacars astutos
  Choram, fingindo lacrymosos lutos
            Nos fulvos areaes.

Soluou a rabeca? Ouvi, formosas,
  So os negros soltando as lastimosas
            Canes do seu paiz;
  Sem familia, sem patria, sem amres,
  Ninguem mitiga o fel daquellas dres,
            Triste raa infeliz!

Agora, como em namorado anceio,
  Sae da rabeca um languido gorgeio
            Que enleva o corao.
  E a saudade repinta-nos ao vivo
  Dos sabis o cantico lascivo
            Nas sombras do serto.

Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
  Com meu olhar de prantos no enxuto,
             creana gentil,
  Que em vez de perseguir as borboletas
  Vens batalhar no meio dos atletas
            E honrar o teu Brazil!

No presumas, porm, prodigio das creanas!
  Que basta o fogo, o estro, a viva inspirao;
   mister trabalhar, sem isso nada alcanas;
  A gloria chamars, ser-te-ha o appello em vo.

Pois que! tu cuidars, creana, porventura
  Que sem luctar, soffrer, sem horridos tormentos
  O artista poderia erguer aos quatro ventos
  A Epopa, o Drama, a Estatua, a Partitura?

Vamos, trabalha pois  meu precoce artista,
  Dos precipicios ri, vinga-me o barrocal!
  Para o profundo azul estende a larga vista.
  Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!




AS VELHAS NEGRAS

A M.^{me} Aline de Gusmo


As velhas negras, coitadas,
  Ao longe estam assentadas
  Do batuque folgaso.
  Pulam creoulas faceiras
  Em derredor das fogueiras
  E das pipas de alcatro.

Na floresta rumorosa
  Esparge a lua formosa
  A clara luz tropical.
  Tremeluzem pyrilampos
  No verde-escuro dos campos
  E nos concavos do val.

Que noite de paz! que noite!
  No se ouve o estalar do aoite,
  Nem as pragas do feitor!
  E as pobres negras, coitadas,
  Pendem as frontes canadas
  Num lethargico torpr!

E scismam: outrora, e d'antes
  Havia tambem descantes,
  E o tempo era tam feliz!
  Ai! que profunda saudade
  Da vida, da mocidade
  Nas mattas do seu paiz!

E ante o seu olhar vazio
  De esperanas, frio, frio
  Como um vu de viuvez,
  Resurge e chora o passado
  --Pobre ninho abandonado
  Que a neve alagou, desfez...--

E pensam nos seus amres
  Ephemeros como as flres
  Que o sol queima no serto...
  Os filhos, quando crescidos,
  Foram levados, vendidos,
  E ninguem sabe onde esto.

Conheceram muito dono:
  Embalaram tanto somno
  De tanta sinh gentil!
  Foram mucambas amadas,
  E agora inuteis, curvadas,
  Numa velhice imbecil!

No emtanto o luar de prata
  Envolve a collina e a matta
  E os cafeses em redor!
  E os negros, mostrando os dentes,
  Saltam lepidos, contentes,
  No batuque estrugidor.

No espaoso e amplo terreiro
  A filha do Fazendeiro,
  A sinh sentimental,
  Ouve um primo recem-vindo,
  Que lhe narra o poema infindo
  Das noites de Portugal.

E ella avista, entre sorrisos,
  De uns longinquos paraisos
  A tentadra viso...
  No emtanto as velhas, coitadas,
  Scismam ao longe assentadas
  Do batuque folgaso...




O RELOGIO

No album de Eduardo Burnay


Eburneo  o mostradr: as horas so de prata,
  L-se a firma Breguet por baixo do gracioso
  Rendilhado ponteiro; a tampa  enorme e chata:
  Nella o esmalte produz um quadro delicioso.

Rapara: eis um salo: casquilho malicioso
  Das festas cortess o mimo a flr, a nata,
  Juncto a um cravo sonoro a alegre voz desata.
  Uma fidalga o escuta ebria de amr e gso.

Rasga-se ampla a janella: ao longe o olhar descobre
  O correcto jardim e o parque extenso e nobre.
  As nuvens no alto cu fluctuam como espumas,

Da paizagem no fundo, em lago transparente,
  Onde se espelha o azul e o laranjal frondente,
  Um cysne  luz do sol estende as niveas plumas.




A MORTE DE D. QUICHOTE

Ao Conde de Sabugosa


Rto o escudo, sem lana, a cta escalavrada,
  Ssinho, abandonado e  ta como um cego,
  Do crepusculo  luz dolente e immaculada
  Entra na sua aldeia o altivo heroe Manchego.

O tenue fumo se do clmo das herdades,
  Riem ao p da fonte as frescas raparigas,
  E  clara vibrao sonora das trindades
  Junctam-se brandamente as vozes e as cantigas.

E o audaz Campeador, o Justiceiro, o Forte,
  Que andra pelo mundo a combater os mus,
  Defendendo a Mulher, desafiando a Morte,
  Do paterno casal sentou-se nos degrus.

Nos joelhos fincando o cotovlo agudo
  E no punho cerrado a fronte reclinando,
  Quedou-se largo espao, illacrymavel, mudo,
  Para o inutil passado os olhos alongando...

E ali, na dce paz da sua alegre aldeia,
  Sentiu que o avassallava uma tristeza infinda,
  Quando esta voz se ouviu: morreu-te a Dulcina,
  Missionario do Bem, tua misso  finda!

E elle a ouvir e a scismar! A trefega sobrinha
  Beija-o, falla-lhe, ri, abraa-o, mas o Here
  Dest'arte lhe volveu A morte se avisinha,
  Levae-me para o leito! E ouvil-o pena e de.

Do leito  cabeceira o Bacharel e o Cura
  Tentam resuscitar-lhe os sonhos e as chymeras;
  Pintam-lhe o negro Mal triumphante,  amargura!
  O fraco aos ps do forte, o bom lanado s fras...

Contam-lhe o frio horror dos carceres sem luz.
  Que nas trres feudaes pompeava o velho Crime.
  Que os crescentes do Islam tinham vencido a Cruz,
  Que a Injustia era a Lei... Ento feroz, sublime.

Inquieto, semi-n, sinistro, o cavalleiro
  Bradou como um trovo: Enverguem-me a loriga!
  Sellem-me o Rocinante,  Sancho,  escudeiro,
  Traze-me a lana, prsto! e a minha espada amiga!

Tinha em brazas o olhar, e truculento o aspeito,
  E vibrava em redr a imaginaria lana...
  Logo depois cahiu do respaldar do leito,
  Morto: tendo no labio um riso de creana!




INDICE


A minha mulher                         1
Confidenza                             3
O velhinho                             8
Animal bravio                         10
Ad agros                              12
A nuvem                               14
O juramento do arabe                  16
Num leque                             19
Olhos de Judia                        20
Numeros do Intermezzo:
  I                                   24
  II                                  25
  III                                 26
  IV                                  28
  V                                   29
  VI                                  30
  VII                                 32
  VIII                                34
  IX                                  36
  X                                   38
  XI                                  40
  XII                                 42
  XIII                                44
  XIV                                 46
  XV                                  47
  XVI                                 48
  XVII                                50
  XVIII                               52
  XIX                                 54
  XX                                  55
  XXI                                 56
  XXII                                58
  XXIII                               60
  XXIV                                62
O minute                             65
O coveiro                             70
Adeus!                                72
Camoneana:
  A egreja das Chagas                 76
  A leitura dos Lusiadas              78
  Annos depois                        80
Esphynge                              83
A ceia de Tiberio                     85
Trio de poetas:
  Joo de Lemos                       90
  Joo de Deus                        92
  Joo Penha                          94
Chymeras                              97
Odor di femina                        99
Em caminho da guilhotina             101
A viuva                              104
Flr do pantano                      106
A resposta do inquisidr             108
Fervet amor                          112
Na aldeia                            114
Estudantina                          116
As Ondinas                           119
No jogo das cannas                   122
Nunca eu te lsse, ballada           124
A negra                              129
Mater dolorosa                       132
As primeiras lagrimas de El-Rey      134
O Cura Sancta Cruz                   137
A venda dos bois                     142
Ao rabequista Eugenio Degremont      147
As velhas negras                     151
O relogio                            155
A morte de D. Quichote               157




TERMINOU-SE A IMPRESSO

NOS PRELOS DA

IMPRENSA NACIONAL DE LISBOA

a 6 de maro de 1882

[Figura]


_18, Rua Oriental do Passeio_
LISBOA




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+-----------------------+---------------------------+
  |          |       Original        |         Correco         |
  +----------+-----------------------+---------------------------+
  |#pg.  30 | V                     | VI                        |
  |#pg.  50 | XVI                   | XVII                      |
  +----------+-----------------------+---------------------------+

Identificmos a duplicao de ttulos em numerao romana.
Rectificmos mantendo a ordenao crescente, nomeadamente nos casos
referidos acima.





End of the Project Gutenberg EBook of Nocturnos, by Gonalves Crespo

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOCTURNOS ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
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Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
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works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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