The Project Gutenberg EBook of O Primo Bazilio, by Jos Maria Ea de Queirs

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Title: O Primo Bazilio
       Episodio Domestico

Author: Jos Maria Ea de Queirs

Release Date: June 13, 2013 [EBook #42942]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                                             Rita Farinha (Junho 2013)




O PRIMO BAZILIO




PORTO: TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
Rua da Cancella Velha, 70




[Figura: Assinatura]




EA DE QUEIROZ


O PRIMO BAZILIO

EPISODIO DOMESTICO


SEGUNDA EDIO, REVISTA


[Figura]


LIVRARIA INTERNACIONAL

DE

ERNESTO CHARDRON
Porto

EUGENIO CHARDRON
Braga

1878




Porto: 1878--Typ. do A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62




O PRIMO BAZILIO




I


Tinham dado onze horas no _cuco_ da sala de jantar. Jorge fechou o
volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na
velha _voltaire_ de marroquim escuro, espreguiou-se, bocejou e disse:

--Tu no te vaes vestir, Luiza?

--Logo.

Ficra sentada  mesa, a lr _o Diario de Noticias_, no seu roupo de
manh de fazenda preta, bordado a _soutache_, com largos botes de
madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do
calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabea pequenina,
de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das
louras: com o cotovlo encostado  mesa acariciava a orelha, e, no
movimento lento e suave dos seus dedos, dous anneis de rubis miudinhos
davam scintillaes escarlates.

Tinham acabado d'almoar.

A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a
branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um
domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, mas
sentia-se fra o sol faiscar nas vidraas, escaldar a pedra da varanda;
havia o silencio recolhido e somnolento de manh de missa; uma vaga
_quebreira_ amollentava, trazia desejos de sstas, ou de sombras ffas
debaixo d'arvoredos, no campo, ao p d'agua; nas duas gaiolas, entre
as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido
monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das
chavenas sobre o assucar mal derretido, enchia toda a sala d'um rumor
dormente.

Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa
de chita, sem collete, o jaqueto de flanella azul aberto, os olhos
no tecto, pz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro
de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Evora, mais
para o sul at S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o
como uma interrupo, affligia-o como uma injustia. Que massada
por um vero d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um
cavallo d'aluguel, por esses descampados do Alemtejo que no acabam
nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um sol bao, onde os
moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo
cozido, ouvindo em redor, na escurido da noite torrida, grunhir as
varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar
no ar o bafo quente das queimadas! E s!

Tinha estado at ento no ministerio, em commisso. Era a primeira vez
que se separava de Luiza; e perdia-se j em saudades d'aquella salinha,
que elle mesmo ajudra a forrar de papel novo nas vesperas do seu
casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoos se
prolongavam em to suaves preguias!

E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se
demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do
tempo da mam: o velho guarda-loua envidraado, com as pratas muito
tratadas a gesso-cr, resplandecendo decorativamente; o velho painel a
oleo, to querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam,
n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de
cassarola e os rosados desbotados d'um mlho de rabanetes! Defronte, na
outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido  moda de 1830,
tinha a physionomia redonda, o olho luzidio, o beio sensual; e sobre a
sua casaca abotoada reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceio.
Fra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido,
grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mam affirmava-lhe
que o retrato s lhe faltava fallar. Vivera sempre n'aquella casa com
sua mi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado,
muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um dia do
lausperenne da Graa, morrera de repente, sem um ai!

Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. Fra sempre robusto,
d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros
fortes.

De sua mi herdra a placidez, o genio manso. Quando era estudante
na Polytechnica, s 8 horas recolhia-se, accendia o seu candieiro
de lato, abria os seus compendios. No frequentava botequins, nem
fazia noitadas. S duas vezes por semana, regularmente, ia vr uma
rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias
em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia
Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era engeitada,
e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma
pontinha de febre. Jorge achava-a _romanesca_, e censurava-lh'o. Elle,
nunca fra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de
Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe
_proseiro, burguez_: Jorge ria; no lhe faltava um boto nas camisas,
era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha
horror a dividas, e sentia-se feliz.

Quando sua mi morreu, porm, comeou a achar-se s: era no inverno,
e o seu quarto nas trazeiras da casa, ao sul, um pouco desamparado,
recebia as rajadas do vento na sua prolongao uivada e triste;
sobretudo  noite, quando estava debruado sobre o compendio, os ps no
capacho, vinham-lhe melancolias languidas; estirava os braos, com o
peito cheio d'um desejo; quereria enlaar uma cinta fina e dce, ouvir
na casa o frou-frou d'um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luiza, no
vero,  noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros,
pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No
inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastio, o seu intimo, o
bom Sebastio, o Sebastiarro, tinha dito, com uma oscillao grave da
cabea, esfregando vagarosamente as mos:

--Casou no ar! casou um bocado no ar!

Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados
muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um
passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do macho:
e aquelle serzinho louro e meigo veio dar  sua casa um encanto serio.

-- um anjinho cheio de dignidade!--dizia ento Sebastio, o bom
Sebastio, com a sua voz profunda de _basso_.

Estavam casados havia tres annos. Que bom que tinha sido! Elle proprio
melhorra; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando
aquella existencia facil e dce, soprava o fumo do charuto, a perna
traada, a alma dilatada, sentindo-se to bem na vida como no seu
jaqueto de flanella!

--Ah!--fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.

--Que ?

-- o primo Bazilio que chega!

E leu alto, logo:

Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio
de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. S. exc.^a que, como 
sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua
fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o
comeo do anno passado. A sua volta  capital  um verdadeiro jubilo
para os amigos de s. exc.^a que so numerosos.

--E so!--disse Luiza, muito convencida.

--Estimo, coitado!--fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma
da mo.--E vem com fortuna, hein?

--Parece.

Olhou os annuncios, bebeu um gole de ch, levantou-se, foi abrir uma
das portadas da janella.

--Oh Jorge, que calor que l vai fra, santo Deus!--Batia as palpebras
sob a radiao da luz crua e branca.

A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um
taboado baixo, cheio d'hervas altas e d'uma vegetao d'acaso; aqui,
alli, n'aquella verdura crestada do vero, largas pedras faiscavam,
batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada
no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na
brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para alm eram as
trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas,
muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava,
tornava espesso o ar luminoso.

--Cahem os passaros!--disse ella cerrando a janella.--Olha tu pelo
Alemtejo, agora!

Veio encostar-se  _voltaire_ de Jorge, passou-lhe lentamente a
mo sobre o cabello preto e annelado. Jorge olhou-a, triste j da
separao: os dous primeiros botes do seu roupo estavam desapertados;
via-se o comeo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da
camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os.

--E os meus colletes brancos?--disse.

--Devem estar promptos.

Para se certificar chamou Juliana.

Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou,
arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta
annos, era muitissimo magra. As feies, miudas, espremidas, tinham a
amarellido de tons baos das doenas de corao. Os olhos grandes,
encovados, rolavam n'uma inquietao, n'uma curiosidade, raiados de
sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de
retroz imitando tranas, que lhe fazia a cabea enorme. Tinha um _tic_
nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda,
tufado pela gomma das saias--mostrava um p pequeno, bonito, muito
apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz.

Os colletes no estavam promptos, disse com uma voz muito lisboeta, no
tivera tempo de os metter em gomma.

--Tanto lhe recommendei, Juliana!--disse Luiza.--Bem, v. Veja como se
arranja! Os colletes ho-de ficar  noite na mala!

E apenas ella sahiu:

--Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge!

Ha dous mezes que a tinha em casa, e no se podera acostumar  sua
fealdade, aos seus tregeitos,  maneira aflautada de dizer _chapieu_,
_tisoiras_, de arrastar um pouco os _rr_, ao ruido dos seus taces que
tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a cuia, o pretencioso do p,
as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos.

--Que antipathica!

Jorge ria:

--Coitada,  uma pobre de Christo!--E depois que engommadeira
admiravel! No ministerio examinavam com espanto os seus peitilhos!--O
Julio diz bem, eu no ando engommado, ando esmaltado! No 
sympathica, no, mas  aceada,  apropositada...

E levantando-se, com as mos nos bolsos das suas largas calas de
flanella:

--E, emfim, minha filha, a maneira como ella se portou na doena da tia
Virginia... Foi um anjo para ella!--Repetiu com solemnidade:--De dia,
de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, minha filha!--E
comeou a enrolar um cigarro, com a physionomia muito sria.

Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da chinella a orla do
roupo; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida,
poz-se a dizer:

--Mas emfim, se eu embirro com ella, no me importa, posso bem mandal-a
embora.

Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato:

--Se eu consentir, minha rica.  que  uma questo de gratido, para
mim!

Ficaram calados. O _cuco_ cantou meio dia.

--Bem, vou  vida--disse Jorge. Chegou-se ao p d'ella, tomou-lhe a
cabea entre as mos.

--Viborasinha!--murmurou, fitando-a muito meigamente.

Ella riu. Ergueu para elle os seus magnificos olhos castanhos,
luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras
dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice:

--Queres alguma cousa de fra, amor?

Que no viesse muito tarde.

Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo...

E sahiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barytono:

    Dio del oro,
    Del mondo signor.
    La la ra, la ra.

Luiza espreguiou-se. Que scca ter de se ir vestir! Desejaria estar
n'uma banheira de marmore cr de rosa, em agua tepida, perfumada,
e adormecer! Ou n'uma rede de sda, com as janellas cerradas,
embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: esteve a olhar
muito amorosamente o seu p pequeno, branco como leite, com veias
azues, pensando n'uma infinidade de cousinhas:--em meias de sda que
queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres
guardanapos que a lavadeira perdera...

Tornou a espreguiar-se. E saltando na ponta do p descalo, foi buscar
ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado,
veio estender-se na _voltaire_, quasi deitada, e, com o gesto
acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, comeou a lr, toda
interessada.

Era a _Dama das Camelias_. Lia muitos romances; tinha uma assignatura,
na Baixa, ao mez. Em solteira, aos 18 annos, enthusiasmra-se por
Walter-Scott e pela Escocia; desejra ento viver n'um d'aquelles
castellos escocezes, que teem sobre as ogivas os brazes da _clan_,
mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas
tapecerias, onde esto bordadas legendas heroicas, que o vento do
lago agita e faz viver: e amra Ervandlo, Morton e Ivanho, ternos
e graves, tendo sobre o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo
cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o _moderno_
que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades.
Ria-se dos trovadores, exaltra-se por Mr. de Camors; e os homens
ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de
baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixo, tendo palavras
sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o
seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra,
com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez da
paixo e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro--Julia Duprat,
Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente
amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste,
com ceias, noites delirantes, afflices de dinheiro, e dias de
melancolia no fundo d'um coup, quando nas avenidas do Bois, sob um co
pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves.

--At logo, Zizi--gritou Jorge do corredor, ao sahir.

--Olha!

Elle veio, com a bengala debaixo do brao, apertando as luvas.

--No appareas muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do
Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. V se passas pela madame
Franois que me mande o chapo. Escuta.

--Que mais, bom Deus?

--Ah! no! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances...
Mas est fechado!



Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas
da _Dama das Camelias_. E estendida na _voltaire_, com o livro cahido
no regao, fazendo recuar a pellicula das unhas, pz-se a cantar
baixinho, com ternura, a aria final da _Traviata_:

    Addio, del passato...

Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo
Bazilio...

Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios.--Fra
o seu primeiro namoro, o primo Bazilio! Tinha ella ento 18 annos!
Ninguem o sabia, nem Jorge, nem Sebastio...

De resto fra uma criancice: ella mesmo, s vezes, ria, recordando
as pieguices ternas d'ento, certas lagrimas exageradas! Devia estar
mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle--alto, delgado, um
ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e
um geito de metter as mos nos bolsos das calas fazendo tilintar
o dinheiro e as chaves! _Aquillo_ comera em Cintra, por grandes
partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio Joo de Brito,
em Collares. Bazilio tinha chegado ento d'Inglaterra: vinha muito
_bife_, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos
de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a
oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraada
abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo
havia romanzeiras, onde elle apanhava flres escarlates. A folhagem
verde-escura e polida dos arbustos de camelias fazia ruasinhas
sombrias; pedaos de sol faiscavam, tremiam na agua do tanque; duas
rlas, n'uma gaiola de vime, arrulhavam dcemente;--e, no silencio
aldeo da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom
aristocratico.

Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas
passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar,
sobre a relva pallida, com grandes descanos calados no Penedo da
Saudade, vendo o valle, as aras ao longe, cheias d'uma luz saudosa,
idealisadora e branca; as sstas quentes, nas sombras da Penha Verde,
ouvindo o rumor fresco e gottejante das aguas que vo de pedra em
pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre
a agua escura da sombra dos freixos,--e que risadas quando iam encalhar
nas hervagens altas, e o seu chapo de palha se prendia aos ramos
baixos dos choupos!

Sempre gostra muito de Cintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e
murmurosos do Ramalho lhe davam uma melancolia feliz!

Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. A mam, coitadinha,
toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria,
dormitava: Bazilio era rico, ento, chamava-lhe tia Jj, trazia-lhe
cartuchos de dce...

Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada
de papel _sangue-de-boi_ da rua da Magdalena. Que bons seres alli! A
mam resonava baixo, com os ps embrulhados n'uma manta, o volume da
_Bibliotheca das Damas_ cahido sobre o regao. E elles, muito chegados,
muito felizes no soph! O _soph_! Quantas recordaes! Era estreito e
baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por
ella, amores perfeitos amarellos e roxos sobre um fundo negro. Um dia
veio o _final_. Joo de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito,
falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas.

Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que saudades! Passou
os primeiros dias sentada no soph querido, soluando baixo, com a
photographia d'elle entre as mos. Vieram ento os sobresaltos das
cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia,
quando os paquetes tardavam...

Passou um anno. Uma manh, depois d'um grande silencio de Bazilio,
recebeu da Bahia uma longa carta, que comeava: Tenho pensado muito e
entendo que devemos considerar a nossa inclinao como uma criancice...

Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dr em duas laudas cheias
d'explicaes: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes
de ter para dous; o clima era horrivel; no a queria sacrificar, pobre
anjo; chamava-lhe minha pomba e assignava o seu nome todo, com uma
firma complicada.

Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e sentada  janella, por
dentro dos vidros, com o seu bordado de l, julgava-se desilludida,
pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas
gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano,
ao anoitecer, cantava Soares de Passos:

    Ai! adeus, acabaram-se os dias
    Que ditoso vivi a teu lado...

ou o final da _Traviata_, ou o fado do Vimioso, muito triste, que elle
lhe ensinra.

Mas ento o catarrho da mam aggravou-se; vieram os sustos, as noites
veladas. Na convalescena foram para Bellas: ligou-se alli muito com
as Cardosos, duas irms magras, estouvadas e esguias, sempre colladas
uma  outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos.
O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria
tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, _Ao
Lyrio de Bellas_:

    Sobre a encosta da collina
    Cresce o lyrio virginal...

Foi um tempo muito alegre, cheio de consolaes.

Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas cres. E um
dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio
Bazilio lhe mandra da Bahia, de cala branca e chapo _panam_,
fitou-a, encolhendo os hombros:

--E o que eu me ralei por esta figura! Que tla!

Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. Ao principio no lhe
agradou. No gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a
primeira barba, fina, rente, muito macia de certo; comeou a admirar
os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao p d'elle como
uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer
encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel,
sem receio de nada. Que sensao quando elle lhe disse: Vamos casar,
hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios,
sobre o mesmo travesseiro, ao p do seu! Fez-se escarlate. Jorge
tinha-lhe tomado a mo: ella sentia o calor d'aquella palma larga
penetral-a, tomar posse d'ella: disse que _sim_, ficou como idiota,
e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se dcemente os seus
seios. Estava noiva, emfim! Que alegria, que descano para a mam!

Casaram s oito horas, n'uma manh de nevoeiro. Foi necessario
accender luz para lhe pr a cora e o vo de tulle. Todo aquelle dia
lhe apparecia como ennevoado, sem contornos,  maneira d'um sonho
antigo--onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura
medonha d'uma velha, que estendia a mo adunca, com uma sofreguido
colerica, empurrando, rogando pragas, quando,  porta da igreja,
Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na.
Sentira-se enjoada da madrugada, fra necessario fazer-lhe ch verde
muito forte. E to canada  noite n'aquella casa nova, depois de
desfazer os seus bahus!--Quando Jorge apagou a vla, com um sopro
tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos.

Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre: pz-se a
adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas
cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis.
Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho
n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas d'amante, ajoelhava-se
aos seus ps, era muito _dengueiro_. E sempre de bom humor, com
muita graa: mas nas cousas da sua profisso ou do seu brio tinha
severidades exageradas, e punha ento nas palavras, nos modos uma
solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo
dramas, tinha-lhe dito:  homem para te dar uma punhalada. Ella que
no conhecia ainda ento o temperamento placido de Jorge acreditou,
e isso mesmo creou uma exaltao no seu amor por elle. Era o seu
_tudo_,--a sua fora, o seu fim, o seu destino, a sua religio, o
seu homem!--Pz-se a pensar, o que teria succedido se tivesse casado
com o primo Basilio. Que desgraa, hein! Onde estaria? Perdia-se em
supposies d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de
theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede,
cercada de negrinhos, vendo voar papagaios!

--Est alli a snr.^a D. Leopoldina--veio dizer Juliana.

Luiza ergueu-se surprehendida.

--Hein? A snr.^a D. Leopoldina? Para que mandou entrar?

Poz-se a abotoar  pressa o roupo. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle
que lhe tinha dito tantas vezes que a no queria em casa! Mas se j
estava na sala, agora, coitada!

--Est bom, diga-lhe que j vou.

Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua
da Magdalena, e estudado no mesmo collegio,  Patriarchal, na Rita
Pessoa, a cxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes,
o devasso, o cachetico, que fra pagem de D. Miguel. Tinha feito
um casamento infeliz com um Joo Noronha, empregado da alfandega.
Chamavam-lhe a Quebraes; chamavam-lhe tambem a Po e queijo.

Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a.
E dissera muitas vezes a Luiza: Tudo, menos a Leopoldina!



Leopoldina tinha ento vinte e sete annos. No era alta, mas passava
por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos
muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma
pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com
os olhos em alvo:  uma estatua,  uma Venus! Tinha hombros de modlo,
d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo
atravs do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades
de limo; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes
de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um
pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatao carnuda; na
pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e crado, havia signaesinhos
desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma
negrura intensa, afogados n'um fluido, muito _quebrados_, com grandes
pestanas.

Luiza veio para ella com os braos abertos, beijaram-se muito. E
Leopoldina, sentada no soph, enrolando devagarinho a sda clara
do guarda-sol, comeou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito
seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito?
Achava-a mais gorda.

Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente
os olhos, descerrando os beios gordinhos, d'um vermelho calido.

--A felicidade d tudo, at boas cres!--disse, sorrindo.

O que a trazia era perguntar-lhe a morada da franceza que lhe fazia os
chapos. E ha tanto tempo que a no via, j tinha saudades, tambem!

--Mas no imaginas! Que calor! Venho morta.

E deixou-se cahir sobre a almofada do soph, encalmada, com um sorriso
aberto, mostrando os dentes brancos e grandes.

Luiza disse-lhe a morada da franceza, gabou-lh'a; era barateira e
tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entre-abrir um pouco
as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram
de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens
tinham o mesmo tom, e n'aquella decorao sombria destacavam muito--as
molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a _Medea_ de Delacroix e
a _Martyr_ de Delaroche), as encadernaes escarlates dos dois vastos
volumes do Dante de G. Dor, e entre as janellas o oval d'um espelho
onde se reflectia um napolitano de _biscuit_ que, na console, danava a
_tarantella_.

Por cima do soph pendia o retrato da mi de Jorge, a oleo. Estava
sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete
espartilhado e secco: uma das mos, d'um livido morto, pousava nos
joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas
muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa,
macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma
cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando
vr para alm cos azulados e redondezas d'arvoredos.

--E teu marido?--perguntou Luiza, vindo sentar-se muito junto de
Leopoldina.

--Como sempre. Pouco divertido--respondeu, rindo. E, com um ar serio, a
testa um pouco franzida:--Sabes que acabei com o Mendona?

Luiza fez-se ligeiramente vermelha.

--Sim?

Leopoldina deu logo detalhes.

Era muito indiscreta, fallava muito de si, das suas sensaes, da
sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na
sua necessidade de fazer confidencias, de gozar a admirao d'ella,
descrevia-lhe os seus amantes, as opinies d'elles, as maneiras
d'amar, os _tics_, a roupa, com grandes exageraes! Aquillo era
sempre muito picante, cochichado ao canto d'um soph, entre risinhos:
Luiza costumava escutar, toda interessada, as mas do rosto um pouco
envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava to
curioso!

--D'esta vez  que bem posso dizer que me enganei, minha rica
filha!--exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente.

Luiza riu.

--Tu enganas-te quasi sempre!

Era verdade! Era infeliz!

--Que queres tu? De cada vez imagino que  uma paixo, e de cada vez me
sahe uma massada!

E picando o tapete com a ponta da sombrinha:

--Mas se um dia acerto!

--V se acertas--disse Luiza.--J  tempo!

s vezes na sua consciencia achava Leopoldina indecente; mas tinha
um fraco por ella: sempre admirra muito a belleza do seu corpo, que
quasi lhe inspirava uma attraco physica. Depois desculpava-a: era to
infeliz com o marido! Ia atraz da Paixo, coitada! E aquella grande
palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a
agua d'uma taa muito cheia, satisfazia Luiza como uma justificao
sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como
se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil,
d'episodios excitantes. S no gostava de certo cheiro de tabaco
misturado de _feno_, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava.

--E que fez elle, o Mendona?

Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio:

--Escreveu-me uma carta muito tla, que a final bem considerado era
melhor que acabasse tudo, porque no estava para se metter em camisa
d'onze varas! Que imbecil! At devo ter aqui a carta.

Procurou na algibeira do vestido: tirou o leno, uma carteirinha,
chaves, uma caixinha de p de arroz; mas encontrou apenas um programma
do _Price_.

Fallou ento do circo.--Uma semsaboria. O melhor era um rapaz que
trabalhava no trapezio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeio!

E de repente:

--Ento teu primo Bazilio chega?

--Assim li hoje no _Diario de Noticias_. Fiquei pasmada!

--Ah! outra cousa que te queria perguntar antes que me esquea. Com que
guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer
um assim.

Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais escuro.--Vem vr. Vem c
dentro.

Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o
guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com _cretones_
d'um azul pallido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com
desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas,
sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre
as bambinellas, em mesas redondas de p de gallo, plantas espessas,
Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e
forte, em vasos de barro vermelho vidrado.

Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo a Leopoldina
felicidades tranquillas. Pz-se a dizer devagar, olhando em roda:

--E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hein? Fazes bem, filha,
tu  que fazes bem!

Foi defronte do toucador, applicar p d'arroz no pescoo, nas faces:

--Tu  que fazes bem!--repetia--Mas v l uma mulher prender-se a um
homem como o meu!

Sentou-se na _causeuse_ com um ar muito abandonado; vieram as queixas
habituaes sobre seu marido: era to grosseiro! era to egoista!

--Acreditars que ha tempos para c, se no estou em casa s quatro
horas, no espera, pe-se  mesa, janta, deixa-me os restos! E depois
desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto
d'elle--ns temos dous quartos, como tu sabes-- um chiqueiro!

Luiza disse com severidade:

--Que horror! A culpa tambem  tua.

--Minha!--e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais
negros.--No me faltava mais nada seno occupar-me do quarto do homem!

Ah! era muito desgraada, era a mulher mais desgraada que havia no
mundo!

--Nem ciumes tem, o bruto!

Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o collar e o broche:

--A senhora sempre quer que engomme os colletes todos?

--Todos, j lhe disse. Ho-de ficar  noite na mala antes de se ir
deitar.

--Que mala? Quem parte?--perguntou Leopoldina.

--O Jorge. Vai s minas, ao Alemtejo.

--Ento ests s, posso vir vr-te! Ainda bem!

E sentou-se logo ao p d'ella, com um olhar que se fizera dce.

-- que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha!

--O qu? Outra paixo?--fez Luiza rindo.

A face de Leopoldina tornou-se grave.

No era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso at que tinha vindo.
Sentira-se to s em casa, to nervosa!--Vou at Luiza, vou palrar um
bocado!

E com a voz mais baixa, quasi solemne:

--D'esta vez  serio, Luiza!--Deu os detalhes. Era um rapaz alto,
louro, lindo! E que talento!  poeta!--Dizia a palavra com devoo,
prolongando o som das syllabas.-- poeta!

Desapertou devagar dous botes do corpete, tirou do seio um papel
dobrado. Eram versos.

E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas pela delicia da
sensao, leu baixo, com orgulho, com pompa:


A TI

                       _Pharol da Guia, 5 de junho._

    Quando scismo  hora do poente
    Sobre os rochedos onde brame o mar...

Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplaes
em que a via a ella, Leopoldina, _viso radiosa que deslisas leve_,
nas aguas dormentes, nas vermelhides do occaso, na brancura das
espumas. Era uma composio delambida, d'um sentimentalismo reles, com
um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando
dizia-lhe, que no era nos esplendores das salas ou nos bailes
febricitantes que gostava de a vr: era alli, n'aquelles rochedos,

    Onde todos os dias ao sol posto
    Eu vejo adormecer o mar gigante.

--Que bonito, hein!

Ficaram caladas, com uma commoosinha.

Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente:

--Pharol da Guia, 5 de junho!

Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo,
atarantada, metteu o poema no seio.

Tinha de se ir j! Fazia-se tarde, seno o outro, punha-se  mesa.
Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais
estupida!

--Adeus. At breve, no?--E agora que Jorge ia para fra, havia de vir
muito.--Adeus. Ento a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque?

Luiza foi com ella at ao patamar. Leopoldina j no fundo da escada,
ainda parou, gritou:

--Sempre te parece que guarnea o vestido d'azul, hein?

Luiza debruou-se sobre o corrimo:

--Eu assim fiz,  o melhor...

--Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque.

--Sim. Rua do Ouro. Adeus.--E com um gritinho:--Porta  direita, Madame
Franois.



Jorge voltou s cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala
a um canto:

--J sei que tiveste c uma visita.

Luiza voltou-se, um pouco crada. Estava diante do toucador j
penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas.

Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandra-a entrar...
Ficra mais contrariada! Era por causa da _adresse_ da franceza dos
chapos. Tinha-se demorado dez minutos.--Quem te disse?

--Foi a Juliana: que a snr.^a D. Leopoldina tinha estado toda a tarde.

--Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto!

Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se  janella, pz-se a sacudir
as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma
baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar
um boto d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um
pequenino corao assustado.

Luiza ia passando o seu medalho d'ouro n'uma longa fita de velludo
preto: tinha uma tremura nas mos, estava vermelha.

--O calor tem-lhes feito mal--disse.

Jorge no respondeu. Assobiou mais alto, foi  outra janella, bateu
com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e
sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem
suffocado:

--Ouve l,  necessario que deixes por uma vez de receber essa
creatura.  necessario acabar por uma vez!

Luiza fez-se escarlate.

-- por causa de ti!  por causa dos visinhos!  por causa da decencia!

--Mas foi a Juliana...--balbuciou Luiza.

--Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fra! que estavas na China!
que estavas doente!

Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braos:

--Minha rica filha,  que todo o mundo a conhece.  a Quebraes!  a
_Po e queijo_!  uma vergonha!

Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de
bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira,
o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um _gingo_
desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme
boquilha! O Pedro Camara, o bonito! O Mendona dos callos! _Tutti
quanti!_

E encolhendo os hombros, exasperado:

--Como se eu no percebesse que ella esteve aqui! S pelo cheiro! Este
horrivel cheiro de feno! Vosss foram creadas juntas, etc., tudo isso
 muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a!
Corro-a!

Parou um momento, e commovido:

--Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou no razo?

Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada:

--Tens--disse.

--Ah! bem!

E sahiu, furioso.

Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela
aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella
bisbilhoteira! De m! Para fazer sizania!

Veio-lhe ento uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a
porta:

--Para que foi voss dizer quem esteve ou quem deixou d'estar?

Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro:

--Pensei que no era segredo, minha senhora.

--Est claro que no! Tola! quem lhe diz que era segredo? E para que
mandou entrar? No lhe tenho dito muitas vezes que no recebo a snr.^a
D. Leopoldina?

--A senhora nunca me disse nada--replicou, toda offendida, cheia de
verdade.

--Mente! Cale-se!

Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi
encostar-se  vidraa.

O sol desapparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde
sem vento: pelas casas, de uma edificao velha, escuras, estavam
abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha
planta miseravel, manjarico ou cravo; ouvia-se, no teclado melancolico
d'um piano, a _Orao de uma virgem_, tocada por alguma menina, no
sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro
filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabellos muito riados,
as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a
rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando se viam passar
um homem--ou debruadas, com uma atteno idiota, faziam pingar saliva
sobre as pedras da calada.

Jorge tinha razo, coitado! pensava Luiza. Mas, tambem, que podia ella
fazer? J no ia a casa de Leopoldina, tirra o seu retrato do album
da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge,
tinham chorado ambas, at! Coitada! S a recebia de longe a longe, uma
raridade, um momento! E emfim, depois d'ella estar na sala, no a havia
d'ir empurrar pela escada abaixo!

Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, appareceu
ento ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz;
parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as
janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a _Casta Diva_! com
uma sonoridade metallica e secca, muito tremida, espalhou-se pela rua.

Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio
encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face
trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada
aberta d'um segundo andar, debruou-se a figura do Cunha Rosado, magro
e chupado, com um bon de borla, o aspecto desconsolado do doente
d'intestinos, conchegando com as mos transparentes o robe-de-chambre
ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinellas
de caa.

Na rua, a estanqueira chegou-se  porta, vestida de luto, estendendo
o seu caro viuvo, os braos cruzados sobre o chale tingido de preto,
esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo,
veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado
em repas seccas, a cara oleosa e enfarruscada, com tres pequenos meio
ns, quasi negros, chores e hirsutos, que se lhe penduravam da saia
de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se at ao
meio da rua; a pala de verniz do seu bon de pano preto nunca se
erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mos, como para ser mais
reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de
cotim branco; o calcanhar sujo da meia sahia-lhe para fra da chinella
bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo
despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas
enfurecia-o. Assobiava frequentemente a _Maria da Fonte_; e mostrava-se
nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado.

O homem do realejo tirou o seu largo chapo desabado e, tocando sempre,
ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado.
As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraa. A carvoeira
deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de
que paiz era, por que estradas tinha vindo, e quantas peas tinha o
instrumento.

Gente endomingada comeava a recolher, com um ar derreado do longo
passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas,
traziam ao collo as crianas adormecidas da caminhada e do calor:
velhos placidos, de cala branca, o chapo na mo, gozavam a frescura,
dando um giro no bairro: pelas janellas, bocejava-se: o co tomava
uma cr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a
distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo terminava, com uma
serenidade canada e triste.

--Luiza--disse a voz de Jorge.

Ella voltou-se, com um vago--hein?

--Vamos jantar, filha; so sete horas.

No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe baixo, junto 
face:

--Tu zangaste-te ha bocado?

--No! Tu tens razo. Conheo que tens razo.

--Ah!--fez elle com um tom victorioso, muito satisfeito.--Est claro,

    Quem melhor conselheiro e bom amigo
    Que o marido que a alma m'escolheu?

E com uma ternura grave:

--Minha querida filha, esta nossa casinha  to honesta, que  uma dr
d'alma vr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do _feno_, do cigarro,
e do resto!... _M, di questo no parlaremo pi, o donna mia!_  sopa!




II


Aos domingos  noite havia em casa de Jorge uma pequena reunio, uma
_cavaqueira_, na sala, em redor do velho candieiro de porcelana cr de
rosa. Vinham apenas os intimos. O Engenheiro, como se dizia na rua,
vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se ch, palrava-se. Era
um pouco _ estudante_. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava.

O primeiro a chegar era Julio Zuzarte, um parente muito afastado de
Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica.
Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos
cahidos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgio da Escla. Muito
intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era
um _tumba_. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella,
comeava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares
de doze vintens, do seu paletot coado d'alamares; e entalado na
sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes,
_furar_, subir, installar-se  larga na prosperidade! Falta de
_chance_, dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa
da provincia, com pulso livre, ter uma casa _sua_, a _sua_ creao no
quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita f nas suas faculdades,
na sua sciencia, e no se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida
e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o
aterrava; via-se l obscuro, jogando a manilha na Assembla, morrendo
de cachexia. Por isso no arredava p; e esperava, com a tenacidade
do plebeu sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escla, um
coup para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do
seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se
tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se
prolongavam mais os seus silencios hostis, roendo as unhas: e, nos dias
melhores, no cessava de ter ditos sccos, _tiradas_ azedadas--em que a
sua voz desagradavel cahia como um gume gelado.

Luiza no gostava d'elle; achava-lhe um _ar nordeste_, detestava o seu
tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calas curtas que
mostravam o elastico roto das botas. Mas disfarava, sorria-lhe, porque
Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito
talento! grande homem!

Como vinha mais cedo ia  sala de jantar, tomava a sua chavena de caf;
e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as
_toilettes_ frescas de Luiza. Aquelle parente, um _mediocre_, que
vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no
ministerio, com alguns contos de reis em inscripes--parecia-lhe uma
injustia e pezava-lhe como uma humilhao. Mas affectava estimal-o; ia
sempre s noites, aos domingos; escondia ento as suas preoccupaes,
cavaqueava, tinha pilherias,--mettendo a cada momento os dedos pelos
seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa.

s nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha
logo da porta com os braos estendidos, o seu bom sorriso dilatado.
Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria de dyspepsia
e de gazes, quella hora no se podia espartilhar e as suas frmas
transbordavam. J se viam alguns fios brancos nos seus cabellos
levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, d'uma alvura
baa e molle de freira; nos olhos papudos, com a pelle j engelhada em
redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos da
bocca uns pellos de buo pareciam traos leves e circumflexos d'uma
penna muito fina. Fra a intima amiga da mi de Luiza, e tomra aquelle
habito de vir vr a _pequena_ aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas
de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da
Encarnao.

Mal entrava, ao pr um beijo muito cantado na face de Luiza,
perguntava-lhe baixo, com inquietao:

--Vem?

--O conselheiro? Vem.

Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro Accacio, nunca
vinha aos _chs de D. Luiza_, como elle dizia, sem ter ido na vespera
ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com
gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura:

--Jorge, meu amigo, manh l irei pedir a sua boa esposa a minha
chavena de ch.

Ordinariamente acrescentava:

--E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro,
os meus respeitos a s. exc.^a Os meus respeitos a esse formoso talento!

E sahia, pisando com solemnidade os corredores enxovalhados.

Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se
um pouco com aquella _chamma_. Luiza dizia: Ora!  uma caturrice
d'ella! Viam-na crada e nutrida, e no suspeitavam que aquelle
sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio,
a ia devastando como uma doena e desmoralisando como um vicio. Todos
os seus ardores at ahi tinham sido inutilisados. Amra um official de
lanceiros que morrra, e apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois
apaixonra-se muito occultamente por um rapaz padeiro, da visinhana,
e vira-o casar. Dera-se ento toda a um co, o _Bilro_; uma criada
despedida deu-lhe por vingana rolha cozida; o _Bilro_ rebentou, e
tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro
viera de repente, um dia, pegar fogo quelles desejos, sobrepostos
como combustiveis antigos. Accacio tornra-se a sua _mania_: admirava
a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua
eloquencia, achava-o n'uma linda posio. O conselheiro era a sua
ambio e o seu vicio! Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja
contemplao demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva.
Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos
homens, e aquelle appetite insatisfeito inflammra-se com a idade.
Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda,
polida, brilhante s luzes, uma transpirao anciosa humedecia-lhe
as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida
de lhe deitar as mos, palpal-a, sentir-lhe as frmas, amassal-a,
penetrar-se d'ella! Mas disfarava, punha-se a fallar alto com um
sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gottejava-lhe nas
rscas anafadas do pescoo. Ia para casa rezar estaes, impunha-se
penitencias de muitas coras  Virgem; mas apenas as oraes findavam,
comeava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade
tinha agora pesadlos lascivos, e as melancolias do hysterismo velho!
A indifferena do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum
suspiro, nenhuma revelao amorosa o commovia! Era para com ella
glacial e polido. Tinham-se s vezes encontrado a ss,  parte, no
vo favoravel d'uma janella, no isolamento mal alumiado d'um canto
do soph,--mas apenas ella fazia uma demonstrao sentimental, elle
erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ella
julgra perceber que, por traz das suas lunetas escuras, o conselheiro
lhe deitava de revs um olhar apreciador para a abundancia do seio;
fra mais clara, mais urgente, fallra em _paixo_, disse-lhe baixo:
Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a--e de p, grave:

--Minha senhora,

    As neves que na fronte se accumulam
    Terminam por cahir no corao...

 inutil, minha senhora!

O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, muito disfarado;
ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento,
ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita,
sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mo humida, e
dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro:

--Que regalo d'homem!

Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da
capella dos ossos, quando o conselheiro entrou com o paletot no brao.
Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no seu passo
aprumado e official, veio apertar as mos ambas de Luiza, dizendo-lhe
com uma voz sonora, de _papo_:

--Minha boa snr.^a D. Luiza, de perfeita saude, no? O nosso Jorge
tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem!

Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoo entalado n'um
collarinho direito. O rosto aguado no queixo ia-se alargando at 
calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabellos
que d'uma orelha  outra lhe faziam collar por traz da nuca--e aquelle
preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho  calva; mas no
tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca.
Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha
no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo.

Fra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que
dizia--El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram
medidos, mesmo a tomar rap. Nunca usava palavras triviaes; no dizia
_vomitar_, fazia um gesto indicativo e empregava _restituir_. Dizia
sempre o nosso Garrett, o nosso Herculano. Citava muito. Era author.
E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado
com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os
Elementos genericos da sciencia da riqueza e sua distribuio, _segundo
os melhores authores_, e como sub-titulo: _Leituras do sero!_ Havia
apenas mezes publicra a Relao de todos os ministros d'estado desde
o grande marquez de pombal at nossos dias, com datas cuidadosamente
averiguadas de seus nascimentos e obitos.

--J esteve no Alemtejo, conselheiro?--perguntou-lhe Luiza.

--Nunca, minha senhora--e curvou-se.--Nunca! E tenho pena! sempre
desejei l ir, porque me dizem que as suas curiosidades so de primeira
ordem.

Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e
acrescentou com pompa:

--De resto, paiz de grande riqueza suina!

-- Jorge, averigua quanto  o partido da camara em Evora--disse Julio
do canto do soph.

O conselheiro acudiu, cheio de informaes, com a pitada suspensa:

--Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o
nos meus apontamentos. Porqu, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?

--Talvez!...

Todos desapprovaram.

--Ah! Lisboa sempre  Lisboa!--suspirou D. Felicidade.

--Cidade de marmore e de granito, na phrase sublime do nosso grande
historiador!--disse solemnemente o conselheiro.

E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.

D. Felicidade disse ento:

--Quem no era capaz de deixar Lisboa, nem  mo de Deus Padre, era o
conselheiro!

O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado,
replicou:

--Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma!

--O conselheiro--lembrou Jorge--nasceu na rua de S. Jos.

--Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada quella em que
viveu, at casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!

Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fra o seu
intimo. Eram visinhos. Accacio tocava ento rebeca, e, como Geraldo
tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo  Philarmonica da rua de
S. Jos. Depois Accacio, quando entrou nas reparties do Estado, por
escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos,
os seres joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo  estatistica. Mas
conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella
amizade vigilante; fra padrinho do seu casamento, vinha vl-o todos os
domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma
carta de felicitaes, uma lampreia d'ovos.

--Aqui nasci--repetiu, desdobrando o seu bello leno de sda da
India--e aqui conto morrer.

E assoou-se discretamente.

--Isso ainda vem longe, conselheiro!

Elle disse, com uma melancolia grave:

--No me arreceio d'_ella_, meu Jorge. At j fiz construir, sem
vacillar, no Alto de S. Joo, a minha ultima morada. Modesta, mas
decente.  ao entrar, no arruamento  direita, n'um lugar abrigado, ao
p da choa dos Verissimos amigos.

--E j compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?--perguntou Julio, do
canto, ironico.

--No o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura no quero elogios.
Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns
servios, teem outros meios para os commemorar; l teem a imprensa,
o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero
apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome--com a minha
designao de conselheiro--a data do meu nascimento e a data do meu
obito.

E com um tom demorado, de reflexo:

--No me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores:
_Orai por elle!_

Houve um silencio commovido, e  porta uma voz fina, disse:

--Do licena?

--Oh Ernestinho!--exclamou Jorge.

Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraal-o pela cintura:

--Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como est, prima Luiza?

Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos,
ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buo,
delgado, empastado em cra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas
afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos
amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com
grandes laos de fita; sobre o collete branco, a cada do relogio
sustentava um medalho enorme, d'ouro, com fructos e flres esmaltadas
em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, cr de
melo, com o cabello muito riado, o ar tisico,--e escrevia para o
theatro. Tinha traduces, dous originaes n'um acto, uma comedia em
_calembourgs_. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra
consideravel, um drama em cinco actos, a _Honra e Paixo_. Era a sua
estreia sria. E desde ento, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos
inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo
de cafs e de _cognacs_, o chapo ao lado, descrado, e dizendo a
todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixo entranhada pela
Arte--porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha
quinhentos mil reis de renda das suas inscripes. A Arte mesmo, dizia,
obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da _Honra e Paixo_
mandra fazer,  sua custa, botas de verniz para o _galan_, botas de
verniz para o _pai-nobre_! O seu nome de familia era Ledesma.

Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava
abatido! Queixou-se ento das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no,
tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forado a refazer
todo o final d'um acto! todo!

--E tudo isto--acrescentou muito exaltado--porque  um pelintra, um
parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um
abysmo!

--N'um qu?--perguntou surprehendida D. Felicidade.

O conselheiro, muito cortez, explicou:

--N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom
vernaculo, um _vortice_.--Citou: _N'um espumoso vortice se arroja..._

--N'um abysmo?--perguntaram.--Porqu?

O conselheiro quiz conhecer o _lance_.

Ernestinho, radioso, esboou largamente o enredo:--Era uma mulher
casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de
Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo!
Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas
acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o vo, conta-lhe a
catastrophe. O conde lana o seu manto aos hombros, parte, chega no
momento em que os beleguins vo levar o homem.-- uma scena muito
commovente, dizia,  de noite, ao luar!--O conde desembua-se, atira
uma bolsa d'ouro aos ps dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos,
abutres!...

--Bello final!--murmurou o conselheiro.

--Emfim--acrescentou Ernesto, resumindo--aqui ha um enredo complicado:
o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre,
arremessa todo o seu ouro aos ps do conde, e mata a esposa.

--Como?--perguntaram.

--Atira-a ao abysmo.  no quinto acto. O conde v, corre, atira-se
tambem. O marido cruza os braos, e d uma gargalhada infernal. Foi
assim que eu imaginei a cousa!

Calou-se, offegante: e, abanando-se com o leno, rolava em redor os
seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto.

-- uma obra de cunho, embatem-se grandes paixes!--disse o
conselheiro, passando as mos sobre a calva.--Os meus parabens, snr.
Ledesma!

--Mas que quer o empresario?--perguntou Julio, que escutra de p,
attonito--que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado
pelo Gard?

Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente:

--No, snr. Zuzarte,--a sua voz era quasi meiga--quer o desfecho n'uma
sala. De modo que eu--e fazia um gesto resignado--a gente tem de
condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro.
Tomei tres chavenas de caf!...

O conselheiro acudiu, com a mo espalmada:

--Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por
quem , prudencia!

--A mim no me faz mal, snr. conselheiro--disse sorrindo.--Escrevi-o em
tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. At o tenho aqui...

--Leia, snr. Ernesto, leia!--exclamou logo D. Felicidade.

Que lsse! que lsse! porque no lia?

Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E
radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado.

--Eu peo desculpa. Isto  um borro. A cousa no est ainda com todos
os FF e RR.--Fez ento voz theatral:--Agatha!...  a mulher; isto aqui
 a scena com o marido, o marido j sabe tudo...


AGATHA (cahindo de joelhos nos ps de Julio)

Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que vr, com esses
desprezos, o corao rasgado fibra a fibra!


JULIO

E no me rasgaste tu tambem o corao? Tiveste tu piedade? No.
Retalhaste-m'o! Meu Deus, eu que a julgava pura, n'essas horas em que
arrebatados...

O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chavenas. Era
Juliana, d'avental branco, com o ch.

--Que pena!--exclamou Luiza.--Depois do ch se l. Depois do ch.

Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso:

--No vale a pena, prima Luiza!

--Ora essa!  lindo!--affirmou D. Felicidade.

Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoutos d'Oeiras,
os bolos do Cc.

--Aqui tem o seu ch fraco, conselheiro--dizia Luiza.--Sirva-se,
Julio. As torradas ao snr. Julio! Mais assucar! Quem quer? Uma
torrada, conselheiro?

--Estou amplamente servido, minha prezada senhora--replicou,
curvando-se.

E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento.

Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais agora? J tem a sala...

Ernestinho, de p, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos,
explicou:

--O que o empresario quer  que o marido lhe perde...

Foi um espanto:

--Ora essa!  extraordinario! Porque?

--Ento!--exclamou Ernestinho, encolhendo os hombros,--diz que o
publico que no gosta! Que no so cousas c para o nosso paiz.

--A fallar a verdade--disse o conselheiro--a fallar a verdade, snr.
Ledesma, o nosso publico no  geralmente affecto a scenas de sangue.

--Mas no ha sangue, snr. conselheiro!--protestava Ernestinho,
erguendo-se sobre os bicos dos sapatos--mas no ha sangue!  com um
tiro.  com um tiro pelas costas, snr. conselheiro!

Luiza fez a D. Felicidade--_pst!_ e, n'um parte, com um sorriso:

--D'esses bolinhos d'ovos. So muito frescos!

Ella respondeu, com uma voz lamentosa:

--Ai, filha, no!

E indicou o estomago, compungidamente.

No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho a clemencia:
tinha-lhe posto a mo no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva:

--D mais alegria  pea, snr. Ledesma. O espectador sahe mais
alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado!

--Mais um bolinho, conselheiro?

--Estou repleto, minha prezada senhora.

E, ento, invocou a opinio de Jorge. No lhe parecia que o bom Ernesto
devia perdoar?

--Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente
pela morte! E exijo que a mates, Ernestinho!

D. Felicidade acudiu, toda bondosa:

--Deixe fallar, snr. Ledesma. Est a brincar. E elle ento que  um
corao d'anjo!

--Est enganada, D. Felicidade--disse Jorge, de p, diante
d'ella.--Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela
morte. No abysmo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso l consentir
que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia,
do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! No! Mata-a!  um
principio de familia. Mata-a quanto antes!

--Aqui tem um lapis, snr. Ledesma--gritou Julio, estendendo-lhe uma
lapiseira.

O conselheiro, ento, interveio, grave:

--No--disse--no creio que o nosso Jorge falle serio.  muito
instruido para ter idas to...

Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma
bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto
guarda-sol erriado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu:

--...To anti-civilisadoras.

--Pois est enganado, conselheiro, tenho-as--affirmou Jorge.--So as
minhas idas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto,
fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes,
encontrei minha mulher...

--Oh Jorge!--disseram, reprehensivamente.

--...Bem, supponhamos, se elle m'o viesse dizer, eu respondia-lhe o
mesmo. Dou a minha palavra d'honra, que lhe respondia o mesmo: mata-a!

Protestaram. Chamaram-lhe _tigre_, _Othello_, _Barba-Azul_. Elle ria,
enchendo muito socegadamente o seu cachimbo.

Luiza bordava, calada: a luz do candieiro, abatida pelo _abat-jour_,
dava aos seus cabellos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua
testa branca como sobre um marfim muito polido.

--Que dizes tu a isto?--disse-lhe D. Felicidade.

Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros...

E o conselheiro logo:

--A snr.^a D. Luiza diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mes de
familia:

    Impurezas do mundo no me roam
    Nem a fimbria da tunica sequer.

--Ora muito boas noites--disse,  porta, uma voz grossa.

Voltaram-se.

 Sebastio!  snr. Sebastio!  Sebastiarro!

Era elle, Sebastio, o grande Sebastio, o Sebastiarro, Sebastio
_tronco d'arvore_,--o intimo, o camarada, o _inseparavel_ de Jorge,
desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas.

Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapo molle
desabado na mo. Comeava a perder um pouco na frente, os seus cabellos
castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta.

Veio sentar-se ao p de Luiza.

--Ento d'onde vem? d'onde vem?

Vinha do Price. Rira muito com os palhaos. Houvera a brincadeira da
pipa.

O seu rosto, em plena luz, tinha uma expresso honesta, simples,
aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade
sria, adoavam-se muito quando sorria: e os beios escarlates, sem
pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel
e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de
se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e
remexendo o assucar com a colhr direita, os olhos ainda a rir, um
sorriso bom:

--A pipa tem muita graa. Muita graa!

Sorveu um gole de ch e depois d'um momento:

--E tu, maroto, sempre partes manh? No ha umas tentaesinhas d'ir
por ahi fra com elle, minha cara amiga?

Luiza sorriu. Tomra ella! Quem dera! Mas era uma jornada to
incommoda! Depois a casa no podia ficar s, no havia que fiar em
criados...

--Est claro, est claro--disse elle.

Jorge, ento, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o:

-- Sebastio! Fazes favor?

Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do
seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico.

Entraram para o escriptorio.

Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraada, tendo
em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante
em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fra de seu
av, estava ao p da janella: uma colleco empilhada de _Diarios do
Governo_, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim
escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e
sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo,
coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar.

--Sabes quem esteve ahi de tarde?--disse logo Jorge, accendendo o
cachimbo--Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein?

--E entrou?--perguntou Sebastio, baixo, correndo por dentro o pesado
reposteiro de fazenda listrada.

--Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina,
a _Po e queijo_!

E arremessando o phosphoro violentamente:

--Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma
creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo D-fundo em
troas, que passeava nos bailes, este anno, de domin, com um tenor! A
mulher do Zagallo, um devasso que falsificou uma letra!

E quasi ao ouvido de Sebastio:

--Uma mulher que dormiu com o Mendona dos callos! Aquelle sebento do
Mendona dos callos!

Teve um gesto furioso, exclamou:

--E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraa minha mulher,
respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastio, se a pilho--procurou
mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente--dou-lhe
aoutes!

Sebastio disse devagar:

--E o peor  a visinhana.

--Est claro que !--exclamou Jorge.--Toda essa gente ahi pela rua
abaixo sabe quem ella ! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios.  a
_Po e queijo_! Todo o mundo conhece a _Po e queijo_.

--M visinhana--disse Sebastio.

--De tremer.

Mas ento! estava acostumado  casa, era sua, tinha-a arranjado, era
uma economia...

--Seno! No parava aqui um dia!

Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros!
Uma visinhana a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o
trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos
repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e
conciliabulos, e opinies formadas! fulano  indecente, fulana  bebeda!

-- o diabo!--disse Sebastio.

--A Luiza  um anjo, coitada--dizia Jorge, passeando pela saleta--mas
tem cousas em que  criana! No v o mal.  muito boa, deixa-se ir.
Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas,
eram amigas, no tem coragem agora para a pr fra.  acanhamento, 
bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas
exigencias!...

E depois d'uma pausa:

--Por isso, Sebastio, em quanto eu estiver fra, se te constar que a
Leopoldina vem por c, avisa a Luiza! Porque ella  assim: esquece-se,
no reflexiona.  necessario alguem que a advirta, que lhe diga:--Alto
l, isso no pde ser! Que ento cahe logo em si, e  a primeira!...
Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a
Leopoldina apparece ao largo, tu logo:--Minha rica senhora, cuidado,
olhe que isso no! Que ella, sentindo-se apoiada, tem deciso. Seno,
acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas no tem coragem de lhe
dizer: No te quero vr, vai-te! No tem coragem p'ra nada: comeam
as mos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca...  mulher,  muito
mulher!... No te esqueas, hein, Sebastio?

--Ento havia de me esquecer, homem?

Sentiram ento o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e
clara, cantando a _Mandolinata_:

    Amici, la notte  bella,
    La luna va spontari...

--Fica to s, coitada!...--disse Jorge.

Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabea baixa:

--Todo o casal bem organisado, Sebastio, deve ter dous filhos! Deve
ter pelo menos um!...

Sebastio coou a barba em silencio--e a voz de Luiza, elevando-se com
um certo esforo aspero, nos _altos_ da melodia :

    Di c, di l, per la cit
    Andiami a transnottari...

Era uma tristeza secreta de Jorge--no ter um filho! Desejava-o tanto!
Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, j sonhava aquella
felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as
suas perninhas vermelhas, cheias de rscas, e os cabellos annelados,
finos como fios de sda; ou rapaz forte, entrando da escla com os
livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos
mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido
branco, as duas tranas cahidas, vindo pousar as mos nos seus cabellos
j grisalhos...

Vinha-lhe, s vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade
completadora!

Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano
Luiza recomeou a _Mandolinata_, com um _brio_ jovial.

A porta do escriptorio abriu-se, Julio entrou:

--Que esto vosss aqui a conspirar? Vou-me safar, que  tarde! At
 volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vr
campos, mas...

E sorriu com amargura.--_Addio! Addio!_

Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraal-o outra vez. Se quizesse
alguma cousa do Alemtejo!...

Julio carregou o chapo na cabea:

--D c outro charuto, por despedida! D c dous!

--Leva a caixa! Eu em viagem s fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!

Embrulhou-lh'a n'um _Diario de Noticias_; Julio metteu-a debaixo do
brao, e descendo os degraus:

--Cuidado com as sezes, e descobre uma mina d'ouro!

Jorge e Sebastio entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano,
torcia as guias do bigodinho, e Luiza comeava uma valsa de Strauss--o
_Danubio Azul_.

Jorge disse, rindo, estendendo os braos:

--Uma valsa, D. Felicidade?

Ella voltou-se, com um sorriso. E porque no? Em nova era fallada!
Citou logo a valsa que danra com o sr. D. Fernando, no tempo da
Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa poca: _A
Perola d'Ophir_.

Estava sentada ao p do conselheiro, no soph. E como retomando um
dialogo mais querido--continuou, baixo para elle, com uma voz meiga:

--Pois creia, acho-o com optimas cres.

O conselheiro enrolava vagarosamente o seu leno de sda da India.

--Na estao calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?

--Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestes, muito livre de
gazes... Estou outra!

--Deus o queira, minha senhora, Deus o queira--disse o conselheiro,
esfregando lentamente as mos.

Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pz-se a dizer:

--Espero que esse interesse seja verdadeiro...

Crou. O corpete flaccido do vestido de sda preta enchia-se-lhe com o
arfar do peito.

O conselheiro recahiu lentamente no soph,--e com as mos nos joelhos:

--D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero...

Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelaes de
paixo e supplicas de felicidade:

--E eu, conselheiro!...

Deu um grande suspiro, pz o leque sobre o rosto.

O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabea alta, as mos atraz
das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se:

-- alguma cano do Tyrol, D. Luiza?

--Uma valsa de Strauss--murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de ps, ao
ouvido.

--Ah! Muita fama! Grande author!

Tirou ento o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns
apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade:

--Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima 
nocivo, a estao traioeira!

E apertou-o nos braos com uma presso commovida.

D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.

--J, D. Felicidade?--disse Luiza.

Ella explicou-lhe, ao ouvido:

--J, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho
estado!... E aquelle homem, aquelle glo! O snr. Ernesto vem para os
meus sitios, hein?

--Como um fuso, minha senhora!

Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as
faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia
sobre o dorso d'um leo domado.

--Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fr a
_Honra e Paixo_ c mando um camarote  prima Luiza. Adeus! Saudinha!

Iam a sahir. Mas o conselheiro,  porta, voltando-se subitamente, com
as abas do paletot deitadas para traz, a mo pomposamente apoiada no
casto de prata da bengala que representava uma cabea de mouro, disse,
com gravidade:

--Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os
governadores civis! E eu lhe digo porqu: deve-lh'o como primeiros
funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas
peregrinaes scientificas!

E curvando-se profundamente:

--_Al rivedere_, como se diz em Italia.



Sebastio tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir
as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar.

Sebastio pozera-se ao piano, e com a cabea curvada, corria devagar o
teclado.

Tocava admiravelmente, com uma comprehenso muito fina da musica.
Outr'ora, compozera mesmo uma _Meditao_, duas _Valsas_,
uma _Ballada_: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de
reminiscencias, sem estylo.--Da cachimonia no me sahe nada--costumava
elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo--mas l com os
dedos!...

Pz-se a tocar um _Nocturno_ de Choppin. Jorge sentra-se no soph ao
p de Luiza.

--J tens prompto o teu farnelzinho!--disse-lhe ella.

--Bastam umas bolachas, filha. O que quero  o cantil com _cognac_.

--E no te esqueas de mandar um telegramma logo que chegues!

--Pudera!

--Tu d'aqui a quinze dias, vens!

--Talvez...

Ella teve um gesto amuado.

--Ah, bem! Se no vieres, vou ter comtigo! A culpa  tua.

E olhando em redor:

--Que s que vou ficar!

Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste:

--Pst, Sebastio! A _malaguenha_, faz favor?

Sebastio comeou a tocar a _malaguenha_. Aquella melodia calida, muito
arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada,
no sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite 
quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeo suspenso a um ramo, um
cantador sentado na tripea mourisca faz gemer a guitarra; em redor as
mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mos
em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela,
quente e sensual, onde tudo so braos brancos que se abrem para o
amor, capas romanticas que roam as paredes, sombrias viellas onde luz
o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem
Santissima cantando as horas...

--Muito bem, Sebastio! Gracias!

Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o
seu chapo desabado:

--Ento manh s sete? C estou, e vou-te acompanhar at ao Barreiro.

Bom Sebastio!

Foram debruar-se na varanda para o vr sahir. A noite fazia um
silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia
mortio; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca,
tinha um tom quente e dce; a luz punha nas fachadas brancas claridades
vivas, e nas pedras da calada faiscaes vidradas; uma clara-boia
reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e
instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua
branca, muito sria.

--Que linda noite!

A porta bateu, e Sebastio de baixo, na sombra:

--D vontade de passear, hein?

--Linda!

Ficaram  varanda preguiosamente, olhando, detidos pela
tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. quella
hora onde estaria elle? J em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando
monotonamente sobre um cho de tijolo. Mas voltaria breve; esperava
fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel,
trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam ento a doura do
mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco,
trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura
humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na
ara, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico
e faiscante, o mar do vero, com algum fumo de paquete que passa para
o Sul ao longe muito adelgaado. Faziam outros planos com os hombros
muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E
Jorge disse:

--Se houvesse um pequerrucho, j no ficavas to s!

Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E
via-o no seu bero dormindo, ou no collo, n, agarrando com a mosinha
o dedo do p, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento
d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o brao pela cinta
de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E no comprehendia
o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um
sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito,
da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e cr de rosa. E a vida
apparecia-lhe infindavel, d'uma doura igual, atravessada do mesmo
enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os
cobria.

--A que horas quer a senhora que a venha acordar?--disse a voz secca de
Juliana.

Luiza voltou-se:

--s sete, j lhe disse ha pouco, creatura.

Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaava.
Era bom agouro!

Jorge prendeu-a nos braos:

--Vai ficar sem o seu maridinho, hein?--disse tristemente.

Ela deixou pesar o corpo sobre as mos d'elle cruzadas, olhou-o com um
longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoo
com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braos, pousou-lhe na bocca
um beijo grave e profundo. Um vago soluo levantou-lhe o peito.

--Jorge! Querido!--murmurou.




III


Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira,
Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, no
havia de gostar, no! Mas estava to farta de estar s! Aborrecia-se
tanto! De manh, ainda tinha os arranjos, a costura, a _toilette_,
algum romance... Mas de tarde!

 hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solido parecia
alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o _seu_ toque da
campainha, os seus passos no corredor!...

Ao crepusculo, ao vr cahir o dia, entristecia-se sem razo, cahia
n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes,
as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os
seus dedos preguiosos, no movimento abandonado dos seus braos molles.
O que pensava em tolices ento! E  noite, s, na larga cama franceza,
sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites
de viuvez.

No estava acostumada, no podia estar s. At se lembrra de chamar a
tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos
era _alguem_: mas receou aborrecer-se mais ao p da sua longa figura de
viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga
sobre um nariz d'aguia.

N'aquella manh pensra em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar,
rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e
saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma
redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vasinhas finas; e
os seus braos redondinhos, um pouco vermelhos no cotovlo, descobriam
por baixo, quando se erguiam prendendo as tranas, fiosinhos louros,
frisando e fazendo ninho.

A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no
quarto um cheiro agudo de vinagre de _toilette_: os transparentes de
linho branco descidos davam uma luz baa, com tons de leite.

Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa!
Que o que tinha graa era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no
Tabaquinho, um dia, s tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e
encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoo! E  tardinha,
pelo brao d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco,
ir vr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito.
Os homens vinham s portas das lojas. Quem seria?  de Lisboa.  a do
Engenheiro.--E diante do toucador, apertando o corpete do vestido,
sorria quellas imaginaes, e ao seu rosto, no espelho.

A porta do quarto rangeu devagarinho.

--Que ?

A voz de Juliana, plangente, disse:

--A senhora d licena que eu v logo ao medico?

--V, mas no se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que  que
voss tem?

--Enjos, minha senhora, peso no corao. Passei a noite em claro.

Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia
um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos
velhos.

--Pois sim, v--disse Luiza.--Mas arranje tudo antes. E no se demore,
hein ?

Juliana subiu logo  cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas
de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do
fogo.

--Diz que sim, snr.^a Joanna--disse  cozinheira--que podia ir. Vou-me
vestir. Ella tambem est quasi prompta. Fica vossemec com a casa por
sua!

A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir,
estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos no
deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal
largo,--a loja de marceneiro do tio Joo Galho, onde trabalhava o
Pedro, o seu amante. A pobre Joanna babava-se por ele. Era um
rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de
familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico
seduzia-a com uma violencia abrazada. Como no podia sahir  semana,
mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava s; estendia ento
na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se
percebiam os paus de um veado.

Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como
azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dces. Tinha a testa curta
de pleba teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o
olhar mais negro.

--Ai!--suspirou Juliana.--A snr.^a Joanna  que a leva!

A rapariga ficou escarlate.

Mas Juliana acudiu logo:

--Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem!

Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna
dava-lhe caldinhos s horas de debilidade, ou, quando ella estava mais
adoentada, fazia-lhe um bife s escondidas da senhora. Juliana tinha
um grande medo de cair em fraqueza, e a cada momento precisava tomar
a sustancia. De certo, como feia e solteirona detestava aquelle
escandalo do carpinteiro; mas protegia-o, porque elle valia muitos
regalos aos seus fracos de gulosa.

--Fosse eu!--repetiu--dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a
ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vem uma pessoa a
morrer, e  como fosse um co.

E com um risinho amargo:

--Diz que me no demorasse no medico.  como quem diz, cura-te depressa
ou espicha depressa!

Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:

--Todas o mesmo, uma rcua!

Desceu, comeou a varrer o corredor.--Toda a noite estivera doente: o
quarto no soto, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de
tijolo cozido, dava-lhe enjos, faltas d'ar, desde o comeo do vero:
na vespera at vomitra! E j levantada s seis horas, no descanra,
limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o
estomago embrulhado!--Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais,
atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimo.

--A snr.^a D. Luiza est em casa?

Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe
pareceu estrangeirado. Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno
levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos
resplandecia.

--A senhora vai sahir--disse ela olhando-o muito.--Faz favor de dizer
quem ?

O individuo sorriu.

--Diga-lhe que  um sujeito para um negocio. Um negocio de minas.

Luiza, diante do toucador, j de chapo, mettia n'uma casa do corpete
dous botes de rosa de ch.

--Um negocio!--disse muito surprehendida--Deve ser algum recado para o
snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem ?

--Um janota!

Luiza desceu o vo branco, calou devagar as luvas de _peau de sude_
claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e
abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez _ah!_ toda escarlate.
Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio.



Houve um _shake-hands_ demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos
calados:--ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle
fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas
vieram logo, muito precipitadamente:--Quando tinha elle chegado? Se
sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella?

Chegra na vespera no paquete de Bordeus. Perguntra no ministerio:
disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a _adresse_...

--Como tu ests mudada, Santo Deus!

--Velha?

--Bonita!

--Ora!

E elle, que tinha feito? Demorava-se?

Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle
no soph muito languidamente; ella ao p, pousada de leve  beira d'uma
poltrona, toda nervosa.

Tinha deixado o _degredo_--disse elle.--Viera respirar um pouco 
velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma.
O ultimo anno passra-o em Paris. Vinha de l, d'aquella aldeola de
Paris!--Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre
o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz.

Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello
preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno
tinha o antigo ar moo, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a
mesma doura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de
perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas
bordadas nas suas meias de sda. A Bahia no o vulgarisra. Voltava
mais interessante!

--Mas tu, conta-me de ti--dizia elle com um sorriso, inclinado para
ela.--s feliz, tens um pequerrucho...

--No--exclamou Luiza rindo.--No tenho! Quem te disse?

--Tinham-me dito. E teu marido demora-se?

--Tres, quatro semanas, creio.

Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vr mais
vezes, palrar um momento, pela manh...

--Pudera no! s o unico parente, que tenho, agora...

Era verdade!... E a conversao tomou uma intimidade melancolica:
fallaram da mi de Luiza, a _tia Jj_, como lhe chamava Bazilio. Luiza
contou a sua morte, muito dce, na poltrona, sem um ai...

--Onde est sepultada?--perguntou Bazilio com uma voz grave; e
acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:--Est no nosso jazigo?

--Est.

--Hei-de ir l. Pobre tia Jj!

Houve um silencio.

--Mas tu ias sahir!--disse Bazilio de repente, querendo erguer-se.

--No!--exclamou--No! Estava aborrecida, no tinha nada que fazer. Ia
tomar ar. No saio, j.

Elle ainda disse:

--No te prendas...

--Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento.

Tirou logo o chapo; n'aquelle movimento os braos erguidos repuxaram o
corpete justo, as frmas do seio accusaram-se suavemente.

Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalar as luvas:

--Era eu antigamente quem te calava e descalava as luvas...
Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu...

Ella riu-se.

--De certo que no...

Bazilio disse ento, lentamente, fitando o cho:

--Ah! Outros tempos!

E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira ida, mal chegra, tinha
sido tomar uma tipoia e ir l: queria vr a quinta; ainda existiria o
balouo debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramancho de rosinhas
brancas, ao p do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?...

Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre
a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de
vidro; e a velha casa morgada fra reconstruida e mobilada pelo Gard.

--A nossa pobre sala de bilhar, cr d'oca, com grinaldas de
rosas!--disse Bazilio; e fitando-a:--Lembras-te das nossas partidas de
bilhar?

Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos
para elle, disse, sorrindo:

--Eramos duas crianas!

Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete:
parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:

--Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!

Ella via a sua cabea bem feita, descahida n'aquella melancolia
das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos
brancos--que lhe dera a separao. Sentia tambem uma vaga saudade
encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para
dissipar na luz viva e forte aquella perturbao. Perguntou-lhe ento
pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.

Fra sempre o seu desejo viajar--dizia--ir ao Oriente. Quereria andar
em caravanas, balouada no dorso dos camlos; e no teria medo, nem do
deserto, nem das feras...

--Ests muito valente!--disse Bazilio.--Tu eras uma maricas, tinhas
medo de tudo... At da adega, na casa do pap, em Almada!

Ella crou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea
que dava arripios! A canda d'azeite pendurada na parede alumiava com
uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de tas d'aranha,
e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli s vezes, pelos
cantos, beijos furtados...

Quiz saber ento o que tinha feito em Jerusalm, se era bonito.

Era curioso. Ia pela manh um bocado ao Santo Sepulchro; depois
d'almoo montava a cavallo... No se estava mal no hotel, inglezas
bonitas... Tinha algumas intimidades illustres...

Fallava d'ellas, devagar, traando a perna: o seu amigo o patriarcha
de Jerusalm, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas
o melhor do dia era de tarde--dizia--no Jardim das Oliveiras, vendo
defronte as muralhas do templo de Salomo, ao p a alda escura de
Bethania onde Martha fiava aos ps de Jesus, e mais longe, faiscando
immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco,
fumando tranquillamente o seu cachimbo!

Se tinha corrido perigos?

De certo. Uma tempestade de ara no deserto de Petra! Horrivel! Mas
que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua
_toilette_:--uma manta de pelle de camlo s listras vermelhas e
pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lana comprida
dos Beduinos.

--Devia-te ficar bem!

--Muito bem. Tenho photographias.

Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou:

--Sabes que te trago presentes?

--Trazes?--E os seus olhos brilhavam.

O melhor era um rosario...

--Um rosario?

--Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalm sobre
o tumulo de Christo, depois pelo papa...

Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, j todo
branquinho, vestido de branco, muito amavel!

--Tu d'antes no eras muito devota--disse.

--No, no sou muito caturra n'essas cousas--respondeu rindo.

--Lembras-te da capella de nossa casa em Almada?

Tinham passado alli lindas tardes! Ao p da velha capella morgada
havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,--e as papoulas,
quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas
pousadas...

--E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica?

--No fallemos no que l vai!

Em que queria ella ento que elle fallasse? Era a sua mocidade, o
melhor que tivera na vida...

Ella sorriu, perguntou:

--E no Brazil?

Um horror! At fizera a crte a uma mulata.

--E porque te no casaste?...

Estava a mangar! Uma mulata!

--E de resto--acrescentou com a voz d'um arrependimento
triste--j que me no casei quando devia,--encolheu os hombros
melancolicamente--acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro.

Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio.

--E qual  o outro presente, ento, alm do rosario?

--Ah! Luvas. Luvas de vero, de _peau de sude_, de oito botes. Luvas
decentes. Vosss aqui usam umas luvitas de dous botes, a vr-se o
punho, um horror!

De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se
vestiam peor! Era atroz! No dizia por ella; at aquelle vestido tinha
_chic_, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em
Paris! Que deliciosas, que frescas as _toilettes_ d'aquelle vero!
Oh! mas em Paris!... Tudo  superior! Por exemplo, desde que chegra
ainda no pudera comer. Positivamente no podia comer!--S em Paris se
come--resumiu.

Luiza voltava entre os dedos o seu medalho de ouro, preso ao pescoo
por uma fita de velludo preto.

--E estiveste ento um anno em Paris?

Um anno divino. Tinha um _appartamento_ lindissimo, que pertencera a
lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos...

E recostando-se muito, com as mos nos bolsos:

--Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!...
Dize c, tens algum retrato n'esse medalho?

--O retrato de meu marido.

--Ah! deixa vr!

Luiza abriu o medalho. Elle debruou-se; tinha o rosto quasi sobre o
peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos.

--Muito bem, muito bem!--fez Bazilio.

Ficaram calados.

--Que calor que est!--disse Luiza.--Abafa-se, hein!

Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraa. O sol deixra a varanda.
Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas.

-- o calor do Brazil--disse elle.--Sabes que ests mais crescida?

Luiza estava de p. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e
com a voz muito intima, os cotovlos sobre os joelhos, o rosto erguido
para ella:

--Mas, francamente, dize c, pensaste que eu te viria vr?

--Ora essa! Realmente, se no viesses zangava-me. s o meu unico
parente... O que tenho pena  que meu marido no esteja...

--Eu--acudiu Bazilio--foi justamente por elle no estar...

Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem:

--Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre ns...

Ella interrompeu:

--Tolices! Eramos duas crianas. Onde isso vai!

--Eu tinha vinte e sete annos--observou elle, curvando-se.

Ficaram calados, um pouco embaraados. Bazilio cofiava o bigode,
olhando vagamente em redor.

--Ests muito bem installada aqui--disse.

No estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes.

--Ah! ests perfeitamente! Quem  esta senhora, com uma luneta d'ouro?

E indicava o retrato por cima do soph.

--A mi de meu marido.

--Ah! vive ainda?

--Morreu.

-- o que uma sogra pde fazer de mais amavel...

Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguados,
e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapo.

--J? Onde ests?

--No Hotel Central. E at quando?

--At quando quizeres. No disseste que vinhas manh com o rosario?

Elle tomou-lhe a mo, curvou-se:

--J se no pde dar um beijo na mo d'uma velha prima?

--Porque no?

Pousou-lhe um beijo na mo, muito longo, com uma presso dce.

--Adeus!--disse.

E  porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se:

--Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo,
como se vai isto passar?

--Isto qu? Vrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?

Elle hesitou, sorriu:

--Imaginei que no eras to boa rapariga. Adeus. manh, hein?

No fundo da escada accendeu o charuto, devagar.

--Que bonita que ella est!--pensou.

E arremessando o phosphoro, com fora:

--E eu, pedao d'asno, que estava quasi decidido a no a vir vr!
Est de appetite! Est muito melhor! E ssinha em casa, aborrecidinha
talvez!...

Ao p da Patriarchal fez parar um _coup_ vazio; e estendido, com o
chapo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava:

--E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mos muito
bem tratadas! O p muito bonito!

Revia a pequenez do p, poz-se a fazer por elle o desenho mental de
outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que
deixra em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica;
quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas.
E as frmas redondinhas de Luiza decidiram-no:

--A ella!--exclamou com appetite:--A ella, como S. Thiago aos mouros!



Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no
quarto, atirou o chapo para a _causeuse,_ e foi-se logo vr ao
espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em
roupo, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de ps
de arroz. Foi  janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda
nas casas fronteiras. Sentia-se canada. quellas horas, Leopoldina
estava a jantar j, de certo... Pensou em escrever a Jorge para
matar o tempo, mas veio-lhe uma preguia; estava tanto calor! Depois
no tinha que lhe dizer! Comeou ento a despir-se devagar diante do
espelho, olhando-se muito, gostando de se vr branca, acariciando a
finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansao feliz.--Havia
sete annos que no via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais
queimado, mas ia-lhe bem!

E depois de jantar ficou junto  janella, estendida na _voltaire_, com
um livro esquecido no regao. O vento cahira, e o ar, de um azul forte
nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousra, a tarde tinha
uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava;
da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas
de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de cr
de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas.
Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma
estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixra-se ficar na
_voltaire_ esquecida, absorvida, sem pedir luz.

--Que vida interessante a do primo Bazilio!--pensava.--O que elle tinha
visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar
aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes!
Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances--a Escocia e
os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar
s bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na ara fulva; e das
cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vr
azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris
sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era
caseiro, to lisboeta!

Como seria o patriarcha de Jerusalm? Imaginava-o de longas barbas
brancas, recamado d'ouro, entre instrumentaes solemnes e rolos de
incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma
estatura real, vivia cercada de pagens, namorra-se de Bazilio.--A
noite escurecia, outras estrellas luziam.--Mas de que servia viajar,
enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita
sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? No era
melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha
abrigada, colxes macios, uma noite de theatro s vezes, e um bom
almoo nas manhs claras quando os canarios chalram? Era o que ella
tinha. Era bem feliz! Ento veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria
abraal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu
cachimbo no escriptorio, com o seu jaqueto de velludo. Tinha tudo,
elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns
olhos magnificos, terno, fiel. No gostaria de um marido com uma vida
sedentaria e caturra: mas a profisso de Jorge era interessante; descia
aos poos tenebrosos das minas, um dia aperrra as pistolas contra
uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente,
porm, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu _burnous_ branco pelas
planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando
tranquillamente os seus cavallos inquietos--davam-lhe a ida d'uma
outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do
sentimento.

Do co estrellado cahia uma luz diffusa: janellas alumiadas sobresahiam
ao longe, abertas  noite abafada: vos de morcegos passavam diante da
vidraa.

--A senhora no quer luz?--perguntou  porta a voz fatigada de Juliana.

--Ponha-a no quarto.

Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada.

-- trovoada--pensou.

Foi  sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da _Lucia_, da
_Somnambula_, o _Fado_; e parando, os dedos pousados de leve sobre
o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte:
vestiria o roupo novo de _foulard_ cr de castanho! Recomeou o
_Fado_, mas os olhos cerravam-se-lhe.

Foi para o quarto.

Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinellas, com
um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um
ar de enfermaria irritou Luiza:

--Credo, mulher! Voss parece a imagem da morte!

Juliana no respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa,
sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos:

--A senhora no precisa mais nada, no?

--V-se, mulher, v!



Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu ao quarto. Dormia em
cima, no soto, ao p da cozinheira.

--Pareo-te a imagem da morte!--resmungava, furiosa.

O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado;
o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado
como um forno; havia sempre  noite um cheiro requentado de tijolo
escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um colxo de palha
molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os
seus _bentinhos_ e a rde enxovalhada que punha na cabea; ao p tinha
preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa
fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova
de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de
remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um
jornal, a _cuia_ de retroz dos domingos. E o unico adorno das paredes
sujas, riscadas da cabea de phosphoros,--era uma lithographia de Nossa
Senhora das Dres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia
vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as
divisas de um sargento.

--A senhora j se deitou, snr.^a Juliana?--perguntou a cozinheira do
quarto pegado, d'onde sahia uma barra de luz viva cortando a escurido
do corredor.

--J se deitou, snr.^a Joanna, j. Est hoje com os azeites. Falta-lhe
o homem!

Joanna, s voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. No podia
dormir! Abafava-se! Ouf!

--Ai! e aqui!--exclamou Juliana.

Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calou
as chinellas de tapete, e foi ao quarto de Joanna. Mas no entrou,
ficou  porta; era _criada de dentro_, evitava familiaridades. Tinha
tirado a _cuia_, e com um leno preto e amarello amarrado na cabea, o
seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo;
a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta
mostrava as canellas muito brancas, muito seccas. E com o casabeque
pelos hombros, coando devagarinho os cotovlos agudos:

--Diga-me c, snr.^a Joanna--disse com a voz discreta--aquelle sujeito
demorou-se muito? Reparou?

--Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando vossemec entrou. Ouf!

Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito abertas, Joanna
coava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos  minhota
que lhe descobria os peitos. No podia parar com os persevejos! O raio
do quarto tinha ninhos! At sentia o estomago embrulhado.

--Ai!  um inferno!--disse com lastima Juliana.--Eu s adormeo com
dia. Mas ainda eu agora reparo... Vossemec tem S. Pedro  cabeceira. 
devoo?

-- o santo do meu rapaz--disse a outra. Sentou-se na cama. Ouf! E
ento tinha estado toda a noite com uma sde!...

Saltou para o cho, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi
ao jarro, pl-o  bocca, bebeu uma tarraada. A camisa justa, feita de
pouca fazenda, mostrava as frmas rijas e valentes.

--Pois eu fui ao medico--disse Juliana. E com um grande suspiro:--Ai!
isto s Deus, snr.^a Joanna! Isto s Deus!

Mas porque se no resolvia a snr.^a Juliana a ir  mulher de virtude?
Era a saude certa. Morava ao Poo dos Negros; tinha oraes e unguentos
para tudo. Levava meia moeda pelo _preparo_...

--Que isso so humores, snr.^a Juliana. O que vossemec tem, so
humores.

Juliana tinha dado dous passos para dentro do quarto. Quando se tratava
de doenas, de remedios, tornava-se mais familiar.

--Eu j me tenho lembrado... eu j me tenho lembrado de ir  mulher.
Mas, meia moeda!

E ficou a olhar, tristemente, reflectindo.

-- o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia!

Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de
duraque com ponteiras de verniz, de cordovo com lao, de pellica
com pespontos de cr, embrulhadas em papeis de sda, na arca,
fechadas--guardadas para os domingos!

Joanna censurou-a.

--Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os
arrebiques!

Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido  senhora um mez
adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo
gosto da que trazia, a desfazerem-se!

--Mas, ento!--suspirou--O meu rapaz precisou um dinheiro...

--Vossemec tambem, snr.^a Joanna, deixa-se cardar pelo homem!

Joanna sorriu.

--Ainda que eu tivesse de roer ossos, snr.^a Juliana, a ultima migalha
havia de ser p'ra elle!

Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada:

--Vale l a pena!

Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas
suas delicias. Repetiu, contrafeita:

--Vale l a pena! Perfeito rapaz--continuou--o que veio hoje vr a
senhora! Melhor que o homem!

E depois d'uma pausa:

--Ento esteve mais de duas horas?

--Tinha sahido quando vossemec entrou.

Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma
fumarada negra.

--Boa noite, snr.^a Joanna. Ainda vou rezar a minha cora.

-- snr.^a Juliana!--disse a outra d'entre os lenoes--Se vossemec
quer rezar tres salv-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado
adoentado, eu c lhe rezava tres pelas melhoras do peito.

--Pois sim, snr.^a Joanna!

Mas reflectindo:

--Olhe. Eu do peito vou melhor; d-m'as antes p'ra allivio das dres de
cabea. A Santa Engracia!

--Como vossemec quizer, snr.^a Juliana.

--Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo!

Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor molle continuo cahia
do forro; comeou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o
bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim todas as
noites, desde o comeo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam
de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto
peor. Nunca!

A cozinheira comeou a resonar ao lado. E acordada, s voltas, com
afflices no corao, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma
amargura maior!



Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mi
fra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito,
a quem chamavam na visinhana--_o fidalgo_, a quem sua mi chamava--o
snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no vero, no inverno
de manh, para a saleta onde sua mi engommava, e alli estava horas
sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando
cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era
de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento,
que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena
de velludo castanho e chapo alto branco. s seis horas levantava-se,
esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calas para cima,
e sahia, com a sua grossa bengala de cana da India debaixo do brao,
gingando da cinta. Ella e sua mi iam ento jantar na mesinha de pinho
da cozinha debaixo d'um postigo, diante do qual se balouavam, de vero
e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste.

 noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mi
fazia-lhe ch e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes
Juliana a vira chorar de ciumes.

Um dia uma visinha m, a quem ella no quizera ajudar a lavar a roupa,
enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,--gritou-lhe
que sua mi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por
ter morto o _Rei de Copas_!

Pouco tempo depois foi servir. Sua mi morreu d'ahi a mezes, com uma
doena d'utero. Juliana s uma vez tornou a vr o snr. D. Augusto,--uma
tarde, com uma opa rxa, lugubre, na procisso de Passos!

Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, mudava de amos, mas no
mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se
de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a soffrer
os repelles das crianas e as ms palavras das senhoras, a fazer
despejos, a ir para o hospital quando vinha a doena, a esfalfar-se
quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que s de
vr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar se lhe embrulhava o
estomago. Nunca se acostumra a servir. Desde rapariga a sua ambio
fra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista ou de
quinquilherias, dispr, governar, ser patra: mas, apesar d'economias
mesquinhas e de calculos sfregos, o mais que conseguira juntar foram
sete moedas ao fim d'annos: tinha ento adoecido; com o horror do
hospital fra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai!
derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas com
a cabea debaixo da roupa.

Ficou sempre adoentada desde ento, perdeu toda a esperana de se
estabelecer. Teria de servir at ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa
certeza dava-lhe uma desconsolao constante. Comeou a azedar-se.

E depois no tinha _geito_, no sabia tirar partido das casas: via
companheiras divertir-se, visinhar, janellar, bisbilhotar, sahir aos
domingos s hortas e aos retiros, levar o dia cantando, e quando as
patras iam ao theatro, abrir a porta aos derrios--e patuscar pelos
quartos! Ella no. Sempre fra embezerrada. Fazia a sua obrigao,
comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando no passeava,
encostava-se a uma janella, com o leno sobre o peitoril para no
roar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de
filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das
amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fra as historias
da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fra,
muito confidentes,--muito presenteadas tambem! Ella no podia. Era
_minha senhora isto! minha senhora aquillo!_ E cada uma no seu lugar!
Era genio.

Desde que servia, apenas entrava n'uma casa sentia logo, n'um relance,
a hostilidade, a malquerena: a senhora fallava-lhe com seccura, de
longe; as crianas tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam
chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia apparecia; punham-lhe
alcunhas--_a isca scca_, _a fava torrada_, _o saca-rolhas_;
imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos
cantos; e s tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos,
cheios d'uma saudade morrinhenta, que veem de manh quando ainda os
quartos esto escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris,
engraxar o calado.

Lentamente, comeou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste;
tinha respostadas, questes com as companheiras; no se havia de deixar
pr o p no pescoo!

As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo
d'espingardas enraivece um lobo. Fez-se m; beliscava crianas at lhe
ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em rajadas.
Comeou a ser despedida. N'um s anno esteve em tres casas. Sahia com
escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas
pallidas, todas nervosas...

A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe:

--Tu acabas por no ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do po!

O po! Aquella palavra que  o terror, o sonho, a difficuldade do pobre
assustou-a. Era fina, e dominou-se. Comeou a fazer-se uma pobre
mulher, com affectaes de zelo, um ar de soffrer tudo, os olhos
no cho. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a inquietao nervosa dos
musculos da face, o _tic_ de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe
de bilis.

A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito d'odiar: odiou
sobretudo as patras, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas,
com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas,
colericas e pacientes;--odiava-as a todas, sem differena.  patra
e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as
via sentadas:--Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via
sahir:--Vai-te, a negra c fica no buraco! Cada riso d'ellas era uma
offensa  sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu
velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos
e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham
um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o
dia em voz de falsete a _Carta adorada_! Com que gosto trazia a conta
retardada d'um credor impaciente, quando presentia embaraos na casa!
Este papel!--gritava com uma voz estridente--diz que no se vai embora
sem uma resposta! Todos os lutos a deleitavam,--e sob o chale preto,
que lhe tinham comprado, tinha palpitaes de regosijo. Tinha visto
morrer criancinhas, e nem a afflico das mes a commovera; encolhia os
hombros: Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras!

As boas palavras mesmo, as condescendencias eram perdidas com ella,
como gotas d'agua lanadas no fogo. Resumia as patras na mesma
palavra--_uma rcua_! E detestava as boas pelos vexames que soffrera
das ms. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer
duas,--e de cada vez sentira, sem saber porqu, um vago allivio, como
se uma poro do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse
desprendido e evaporado!

Sempre fra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de
um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos
comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de _soire_, de theatro,
exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de
repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapo,
olhando por dentro da vidraa com um tedio infeliz, deliciava-a,
fazia-a loquaz:

--Ai minha senhora!  um temporal desfeito!  a cantaros, est para
todo o dia! Olha o ferro!

E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz
de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguado. Qualquer carta
que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as
gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo
de andar ligeiro e surprehendedor. Examinava as visitas. Andava  busca
de um _segredo_, de um _bom segredo_! Se lhe cahia um nas mos!

Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de
petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho
avermelhado seguia avidamente as pores cortadas  mesa; e qualquer
bom appetite que repetia exasperava-a, como uma diminuio da sua
parte. De comer sempre os restos ganhra o ar aguado,--o seu cabello
tomra tons seccos, cr de rato. Era lambareira: gostava de vinho;
em certos dias comprava uma garrafa de oitenta reis, e bebia-a s,
fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco
erguida, revendo-se no p.

E nunca tivera um homem, era virgem. Fra sempre feia, ninguem a
tentra: e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, no se
offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a olhra
com desejo tinha sido um criado de cavalharia, atarracado e immundo,
de aspecto facinora: a sua magreza, a sua _cuia_, o seu ar domingueiro
tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de _bull-dog_. Causra-lhe
horror,--mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um
criado bonito e alourado, rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da _Isca
scca_! No contou mais com os homens, por despeito, por desconfiana
de si mesma. As rebellies da natureza, suffocava-as; eram _fogachos,
flatos_. Passavam. Mas faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande
consolao aggravava a miseria da sua vida.

Um dia teve, emfim, uma grande esperana. Entrra para o servio
da snr.^a D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito
doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a
inculcadeira, preveniu-a:

--Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que quer  uma enfermeira
que a soffra.  rica, no  nada apegada ao dinheiro,  capaz de te
deixar uma independencia!

Durante um anno Juliana, roda de ambio, foi a enfermeira da velha.
Que zelos! que mimos!

Virginia era muito rabugenta, a ida de morrer enfurecia-a; quanto mais
ella ralhava com a sua voz guttural, mais Juliana se fazia servial. A
velha, por fim, estava enternecida: gabava-a s pessoas que a vinham
vr, chamava-lhe a sua _providencia_. Tinha-a recommendado muito a
Jorge.

--No ha outra! no ha outra!--exclamava.

--Pois apanhaste!--dizia-lhe a tia Victoria.--Pelo menos deixa-te o teu
conto de reis.

Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu
antigo leito de pau santo, via o conto de reis  claridade morbida que
dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso.
Que faria com o dinheiro? E,  cabeceira da doente, com um cobertor
pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de
capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um
conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem!

Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o _seu_ jantar!
Mandar, emfim, a _sua_ criada! A _sua_ criada! Via-se a chamal-a,
a dizer-lhe, de cima para baixo:--Faa, v, despeje, sia!--Tinha
contraces no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe
andassem direitas! Desmazelos, ms respostas, no havia de soffrer a
criadas!--E, impellida por aquellas imaginaes, arrastava subtilmente
as chinellas pelo quarto, fallando s.--No, desmazelos, no havia de
soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter
p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! l isso, haviam de
lhe andar direitas...--A velha tinha ento um gemido mais afflicto.

-- agora!--pensava--Morre!

E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava
de certo o dinheiro, os papeis. Mas no! a velha queria beber, ou
voltar-se...

--Como se sente?--perguntava Juliana, com uma voz plangente.

--Melhor, Juliana, melhor--murmurava.

Suppunha-se sempre melhor.

--Mas a senhora tem estado desinquieta!--dizia Juliana, despeitada da
melhora.

--No--suspirava--dormi bem!

--Isso no tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite
a gemer!

Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a
si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as
manhs seguia o dr. Pinto at  porta, com os braos cruzados, a face
triste:

--Ento, snr. doutor, no ha esperana?

--Est por dias!

Queria saber os dias: dous? cinco?

--Sim, snr.^a Juliana--dizia o velho, calando as suas luvas
pretas--uns dias, sete, oito.

--Oito dias!

E como a felicidade se aproximava, j tinha de olho tres pares de
botinas que vira na vidraa do Manoel Loureno!

A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!

Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia
Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para
criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar.

Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, comeava a queixar-se
mais do corao. Vinha desilludida de tudo, tinha s vezes vontade de
morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus _ais_. Luiza achava-a
funebre.

Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge no consentiu,
estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza no podia disfarar a
sua antipathia;--e Juliana comeou a detestal-a: poz-lhe logo um
nome:--a _piorrinha_! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores:
renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixra tres contos de
reis a Jorge,--e ella, ella que durante um anno fra a enfermeira,
humilde como um co e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo,
tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das
canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Comeou a odiar a casa.

Tinha para isso muitas razes, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao
jantar no lhe davam vinho, nem sobremesa; o servio dos engommados
era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um
trabalho encher, despejar todas as manhs as largas bacias de folha:
achava despropositada aquella mania de se prem a chafurdar todos os
dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca
vira semelhante desproposito! A unica vantagem--dizia ella  tia
Victoria--era no haver pequenos; tinha horror a crianas! Alm d'isso
achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira na mo,
no  verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato
melhor de vez em quando! Por isso ficava; seno, no era ella!

Fazia no entanto o seu servio, ninguem tinha nada que lhe dizer. O
olho aberto sempre e o ouvido  escuta, j se v! E como perdera a
esperana de se estabelecer, no se sujeitava ao rigor de economisar:
por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e
satisfazia o seu vicio,--trazer o p catita. O p era o seu orgulho, a
sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino.

--Como poucos--dizia ella--no vai outro ao Passeio!

E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lanava-o muito
para fra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico,
e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de
sda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,--a
mostrar, a expr o p!




IV


Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para
uma cadeira, derreada. No se tinha nas pernas de debilidade! Desde as
duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta
na vespera at deixra cinza de tabaco por cima das mesas! A negra 
que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf!

--O caldinho ha-de estar prompto, hein!--disse, adocicando a
voz.--Tira-m'o, snr.^a Joanna, faz favor?

--Vossemec hoje est com outra cara--notou a cozinheira.

--Ai! sinto-me outra, snr.^a Joanna! Pois olhe que adormeci com dia. J
luzia o dia!

--E eu!--Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma cr de fogo a
passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago,
como quem pisava uvas n'um lagar!

--Enfartamento--disse sentenciosamente Juliana, e repetiu:

--Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me no sinto to bem!

Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na
malga branca, com um vapor cheiroso, cheio de hortalia, dava-lhe uma
alegria gulosa. Estendeu os ps, recostou-se, feliz, na boa sensao
da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas
abertas.

O sol retirra-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro,
plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor: sobre
uma tboa a um canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um p
de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteiro: esfreges
seccavam n'uma corda: e para alm alargava-se o azul vivo como um
metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes do sol,
os telhados pardos com as suas vegetaes esguias coziam no calor, e
pedaos de paredes caiadas despediam uma rebrilhao dura.

--Est de appetite, snr.^a Joanna, est de appetite!--dizia Juliana,
remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de p, com os
braos cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se:

--O que se quer  que esteja a gosto.

--Est a preceito.

Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.--E a campainha da
porta que j tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.

Juliana no se mexeu. Bafos de aragem quente entravam: ouvia-se ferver
a panella no fogo, e fra o martellar incessante da forja: s vezes o
arrulhar triste de duas rlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de
vime, punha na tarde abrazada uma sensao de suavidade.

A campainha retilintou, sacudida com impaciencia.

--Com a cabea, burro!--disse Juliana.

Riram. Joanna fra sentar-se  janella, n'uma cadeira baixa; estendia
os seus grossos ps, calados de chinellas de ourlo; coava-se
devagarinho no sovaco, toda repousada.

A campainha retiniu violentamente.

--Fra, besta!--rosnou Juliana, muito tranquilla.

Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo:

--Juliana!

--Que nem uma pessoa pde tomar a sustancia socegada! Raio de casa!
Irra!

--Juliana!--gritou Luiza.

A cozinheira voltou-se, j assustada:

--A senhora zanga-se, snr.^a Juliana.

--Que a leve o diabo!

Limpou os beios gordurosos ao avental, desceu furiosa.

--Voss no ouve, mulher? Esto a bater ha uma hora!

Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha vestido o roupo novo
de _foulard_ cr de castanho, com pintinhas amarellas!

--Temos novidade! Temol-a grossa!--pensou Juliana pelo corredor.

A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao
peito, um embrulho debaixo do brao, estava o _sujeito do negocio das
minas_!

--Aquelle sujeito de hontem!--veio dizer, toda pasmada.

--Mande entrar...

--Viva!--pensou.

Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de
jubilo:

--Est c o peralta de hontem! Est c outra vez! Traz um
embrulho!--Que lhe parece, snr.^a Joanna? Que lhe parece?

--Visitas...--disse a cozinheira.

Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou o seu caldo,  pressa.

Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rlas
continuava langoroso e debil.

--Pois, senhores, isto vai rico!--disse Juliana.

Esteve um momento a limpar os dentes com a lingua, o olhar fixo,
reflectindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luiza: o seu
olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas
da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous
ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em
bicos de ps, foi agachar-se  porta que dava para a sala, espreitou. O
reposteiro estava corrido por dentro: podia apenas sentir a voz grossa
e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor,  outra porta, ao
p da escada; poz o olho  fechadura, collou o ouvido  frincha. O
reposteiro dentro estava tambem cerrado.

--Os diabos calafetaram-se!--pensou.

Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma
vidraa. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em
seguida um silencio; e as vozes recomearam n'um tom sereno e continuo.
De repente o sujeito ergueu a falla, e entre as palavras que dizia, de
p de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: _Tu, foste tu!_

--Oh que bebeda!

Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era
Sebastio, muito vermelho do sol, com as botas cheias de p.

--Est?--perguntou, limpando a testa suada.

--Est com uma visita, snr. Sebastio!

E cerrando a porta sobre si, mais baixo:

--Um rapaz novo que j c esteve hontem, um janota! Quer que v dizer?

--No, no, obrigado, adeus.

Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se  porta, a
orelha contra a madeira, as mos atraz das costas: mas a conversao,
sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. Subiu
 cozinha.

--Tratam-se por tu!--exclamou.--Tratam-se por tu, snr.^a Joanna!

E muita excitada:

--Isto vai  vela! Caspit! assim  que eu gosto d'ellas!

O sujeito sahiu s cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a
porta, veio a correr; viu Luiza no patamar, debruada no corrimo,
dizendo para baixo, com muita intimidade:

--Bem, no falto. Adeus.

Ficou ento tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre.
Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com
olhares de lado. Mas Luiza, com um roupo de linho mais velho, parecia
serena, muito indifferente.

--Que sonsa!

Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice.

--Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!--calculava.

Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco pisados! Estudava-lhe
as posies, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,--pensou logo:

--Abriu-lhe o appetite!

E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na _voltaire_ com um ar
quebrado:

--Ficou derreada.

Luiza que nunca tomava caf, quiz n'essa tarde meia chavena, mas
forte, muito forte.

--Quer caf!--veio ella dizer  cozinheira, toda excitada.--Tudo 
grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo!

Estava furiosa.

--Todas o mesmo! Uma rcua de cabras!



Ao outro dia era domingo. Logo pela manh cedo, quando Juliana ia
para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta
para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;--e a
curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto
fechado e lacrado com o sinete de Luiza, um L gothico dentro d'uma
cora de rosas.

--Tem resposta?

--Tem.

Quando voltou s dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz
saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um
chapo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de
musgo.

Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E
pensou logo:--Temos passeata, vai ter com o gajo!

Mas durante todo o dia, Luiza em roupo no sahiu do seu quarto ou
da sala, ora estendida na _causeuse_ lendo aos bocados, ora batendo
distrahidamente no piano pedaos de valsas. Jantou s quatro horas. A
cozinheira sahiu, e Juliana pz-se a passar a sua tarde  janella da
sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a
cuia dos dias santos--e pousava solemnemente os cotovlos n'um leno,
estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os passaros chilreavam
na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno
vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas:
eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre
ou de garibaldi, os cabellos muito oleosos, faziam meia  janella,
fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do
terreno, verduras de quintaes, muros brancos davam quelle sitio um ar
adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. Havia um silencio
fatigado; e s s vezes o som distante d'um realejo, que tocava a
_Norma_ ou a _Lucia_, punha uma melancolia na tarde.--E Juliana alli
estava immovel, at que os tons quentes da tarde empallideciam, e os
morcegos comeavam a voar.

Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,--ficou pasmada de a vr
vestida toda de preto, de chapo! Tinha accendido as serpentinas na
parede, os castiaes no toucador; e sentada  beira da _causeuse_
calava as luvas devagar, com a face muito sria, um pouco esbatida de
p d'arroz, o olhar cheio de brilho.

--O vento abrandou?--disse.

--Est a noite muito bonita, minha senhora.

Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou  porta. Era D.
Felicidade, muito encalmada. Abafra todo o dia! E  noite nem uma
aragem! At tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que n'um
coup, credo, morria-se!

Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? onde
iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapo, tagarellava: uma
indigesto que tivera na vespera com umas bajes; a cozinheira que a
tinha querido comer em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a
condessa de Arruella...

Emfim, Luiza, disse, baixando o seu vo branco:

--Vamos, filha. Faz-se tarde.

Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, irem duas
mulheres ss por ahi fra, n'uma tipoia! E se uma criada ento se
demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas!

Foi  cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma
cadeira, dormitava.

Fra com o seu Pedro ao Alto de S. Joo. E toda a tarde tinham passeado
no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os
epitaphios, beijocando-se nos recantos que os chores escureciam, e
regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por
casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira...
Tarde cheia! e estava derreada da soalheira, do p, da admirao de
tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho.

O que ia, era refastelar-se para a cama!

--Credo, snr.^a Joanna, vossemec est-se a fazer uma dorminhca! Olha
que mulher! Com pouco arra! Cruzes!

Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou
a poltrona para a varanda,--e, repimpada, os braos cruzados, pz-se a
passar a noite.

O estanque ainda no se fechra, e a sua luzita lugubre como a
estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miuda da rua; as
janellas ao p estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se
dentro seres melancolicos; n'outras, onde havia vultos immoveis,
luzia s vezes a ponta d'um cigarro; aqui, alm tossia-se; e o moo do
padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra.

Juliana pozera um vestido de chita claro; dous sujeitos que estavam
 porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a
janella, para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, ento, gozou!
Tomavam-na de certo pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe
olho, diziam brejeirices... Um tinha cala branca e chapo alto, eram
janotas... E com os ps muito estendidos, os braos cruzados, a cabea
de lado, saboreava, longamente, aquella considerao.

Passos fortes que subiam a rua, pararam  porta; a campainha retiniu de
leve.

--Quem ?--perguntou muito impaciente.

--Est?--disse a voz grossa de Sebastio.

--Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem.

--Ah!--fez elle.

E acrescentou:

--Muito bonita noite!

--D'appetite, snr. Sebastio! d'appetite!--exclamou alto.

E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente:

--Recados a Joanna! No se esquea!--mostrando-se intima, madama, com
olho terno para os homens.



quella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio.

Era beneficio; j de fra se sentia o _brouhaha_ lento e monotono, e
via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa.

Entraram. Logo ao p do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito
surprehendido, exclamou:

--Que feliz acaso!

Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade.

A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se d'elle, mas se
no lhe dissessem talvez o no conhecesse! Estava muito mudado!

--Os trabalhos, minha senhora...--disse Bazilio curvando-se.

E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque:

--E a velhice! Sobretudo a velhice!

Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se at uma grande
profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado,
com tons d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques
parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz,
apertava-se, n'um empoeiramento de macadam, uma multido compacta e
escura; e atravs do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica
faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa.

Tinham ficado parados, conversando.

Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente!

E olhavam a gente que entrava: moos muito frisados, com calas cr de
flr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um
aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaado; duas meninas
de cabello riado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos
das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico
cr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma
hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge
na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaqueto e bengalo,
de chapo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous
pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado--vestidos
d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, barretinas de
lanceiro, botas  hungara, cretinos e somnambulos.

Um sujeito alto ento passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para
Luiza dous grandes olhos langorosos e prateados: tinha uma pera longa
e aguada; trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e
fumava por urna boquilha enorme que representava um zuavo.

Luiza quiz-se sentar.

Um garoto de blusa, sujo como um esfrego, correu a arranjar cadeiras;
e acommodaram-se ao p d'uma familia acabrunhada e taciturna.

--Que fizeste tu hoje, Bazilio?--perguntou Luiza.

Tinha ido aos touros.

--E que tal? Gostaste?

--Uma semsaboria. Se no fosse pelo trambolho do Peixinho tinha-se
morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma
sorte! Touros em Hespanha! Isso sim!

D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz,
quando estivera de visita em Elvas  tia Francisca de Noronha, e ia
desmaiando. O sangue, as tripas dos cavallos... Pouh!  muito cruel!

Bazilio disse, com um sorriso:

--Que faria se visse os combates de gallos, minha senhora!

D. Felicidade tinha ouvido contar,--mas achava todos esses
divertimentos barbaros, contra a religio.

E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda:

--P'ra mim no ha nada como uma boa noite de theatro! Nada!

--Mas aqui representam to mal!--replicou Bazilio com uma voz
desolada.--To mal, minha rica senhora!

D. Felicidade no respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado
d'um brilho humido, saudava desesperadamente com a mo:

--No me viu--disse desconsolada.

--Era o conselheiro?--perguntou Luiza.

--No. Era a condessa d'Alviella. No me viu! Vai muito  Encarnao,
sou muito d'ella.  um anjo! No me viu. Ia com o sogro.

Bazilio no tirava os olhos de Luiza. Sob o vo branco,  luz falsa
do gaz, no ar ennevoado da poeira, o seu rosto tinha uma frma alva
e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expresso
apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando a testa
mais pequena, davam-lhe uma graa ameninada e amorosa; e as luvas
_gris-perle_ faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante
das mos, que ella pousra no regao, sustentando o leque, com uma fofa
renda branca em torno dos seus pulsos finos.

--E tu, que fizeste hoje?--perguntou-lhe Bazilio.

Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a lr.

Tambem elle passra a manh deitado no soph a lr a _Mulher de fogo_
de Belot. Tinha lido, ella?

--No, que ?

-- um romance, uma novidade.

E acrescentou sorrindo:

--Talvez um pouco picante; no t'o aconselho!

D. Felicidade andava a lr o _Rocambole_. Tanto lh'o tinham apregoado!
Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar,
porque tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigesto.

--Soffre?--perguntou Bazilio, com um interesse bem educado.

D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o
uso do gelo.--De resto felicitava-a, porque as doenas d'estomago,
ultimamente, tinham muito _chic_. Interessou-se pela d'ella, pediu
pormenores.

D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no
olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo!

--Com o vinho, j se sabe?

--Com o vinho, minha senhora!

--E olha que talvez!--exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no
brao de Luiza, j esperanada.

Luiza sorriu, ia responder--mas viu o sujeito pallido da pera longa que
fitava n'ella os seus olhos langorosos, com obstinao. Voltou o rosto
importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera.

Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e monotono, a noite calida,
a accumulao da gente, a sensao de verdura em redor davam ao seu
corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem estar d'inercia,
envolviam-na n'uma doura emolliente de banho morno. Olhava com um vago
sorriso, o olhar frouxo; quasi tinha preguia de mexer as mos, d'abrir
o leque.

Bazilio notou o seu silencio.--Tinha somno?

D. Felicidade sorriu com finura.

--Ora, v-se sem o seu maridinho! Desde que o no tem est esta mona
que se v.

Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente:

--Que tolice! At estes dias tenho andado bem alegre!

Mas D. Felicidade insistia:

--Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraosinho est no Alemtejo!

Luiza disse, com impaciencia:

--No has-de querer que me ponha aos pulos e s gargalhadas no Passeio.

--Est bem, no te enfureas!--exclamou D. Felicidade. E para
Bazilio:--Que geniosinho, hein!

Bazilio pz-se a rir.

--A prima Luiza antigamente era uma vibora. Agora no sei...

D. Felicidade acudiu:

-- uma pomba, coitada,  uma pomba! No, l isso,  uma pomba.

E envolvia-a n'um olhar maternal.

Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,--e as meninas adiante, os
paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos.

Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao p de Luiza,--e vendo
D. Felicidade a olhar distrahida:

--Estive para te ir vr de manh--disse baixinho a Luiza.

Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferena:

--E porque no foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter
ido...

D. Felicidade quiz ento saber as horas. Comeava a enfastiar-se.
Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer
bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio no vinha, os gazes
comeavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe
a tortura da digesto. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a
multido que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada.

Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de
cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do _Fausto_.
Aquillo reanimou-a. Era um _pot-pourri_ da opera,--e no havia musica
de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr.
Bazilio?

Bazilio disse, com uma inteno, voltando-se para Luiza:

--No sei, minha senhora, depende...

Luiza olhava, calada. A multido crescera. Nas ruas lateraes mais
espaosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os
acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coado. Toda a
burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor
formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia
entalada, com a lentido espessa d'uma massa mal derretida, arrastando
os ps, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta
secca, os braos molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente,
para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor
grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que
agrada s raas mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das
festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma
nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e
nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de
luz, viam-se desconsolaes de fadiga e aborrecimentos de dia santo.

Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo
claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as
cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos
candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de vero, de
seres recolhidos. Onde? No se lembrava. O movimento ento retrahia-a;
e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da
pera longa. Debaixo do vo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em
redor d'ella gente bocejava.

D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar;
as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de
faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo
fixo e canado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou
Bazilio, e como era difficil andar lembrou--que se fossem d'aquella
semsaboria.

Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade,
deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um choro, exclamou
afflicta:

--Ai filha! Estou que arrebento!

Passava a mo no estomago, tinha a face envelhecida.

--E o conselheiro, que me dizes? Olha que j  pouca sorte! Hoje que eu
vim ao Passeio...

Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:

-- muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo.
Que elles conhecem-se, filha!

Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o porto. Era melhor tomarem
um trem.

Bazilio achava preferivel subirem a p at ao largo do Loreto. A noite
estava to agradavel! E o andar fazia bem  snr.^a D. Felicidade!

Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade
receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do caf
abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro
individuo, de cala branca, tomava placidamente o seu sorvete de
morango.

No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel
parecia dormitar; aqui e alm pontas de cigarro reluziam; sujeitos
passavam, com o chapo na mo, abanando-se, o collete desabotoado; a
cada canto se apregoava agua fresca do Arsenal; em torno do largo,
carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O co abafava,--e na
noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom bao e
pallido de uma vela de estearina colossal e apagada.

Bazilio, ao p de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!--pensava--Que
tristeza! E lembrava-lhe Paris, de vero: subia,  noite, no seu
phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem,
sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem
em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos
e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balanadas nas molas
macias; o ar em redor tem uma doura avelludada, e os castanheiros
espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam
as claridades violentas dos cafs cantantes, cheios do _brouhaha_
das multides alegres, dos _brios_ impulsivos das orchestras; os
restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz;
e, para alm, sahe das janellas dos palacetes, atravs dos _stores_
de sda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se l
estivesse!--Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para
Luiza: o seu perfil fino sob o vo branco tinha uma grande doura; o
vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma
lassido que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e
promettedor.

Veio-lhe uma certa ida, comeou a dizer: Que pena que no houvesse
em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de
perdiz e beber uma garrafa de _champagne frappe_!

Luiza no respondeu. Devia ser delicioso--pensava.--Mas D. Felicidade
exclamou:

--Perdiz, a esta hora!

--Perdiz ou outra qualquer cousa.

--Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!

Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortia: as
altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra;
e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e
subtil.

Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de
loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos
de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentao... Mas uma troa
de rapazes bebedos que descia de chapo na nuca, fallando alto, aos
tropees, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo
contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o brao,
quiz-se metter n'uma carruagem; e at ao Loreto foi explicando o seu
medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem
largar o brao de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades
da praa de Cames, um cocheiro lanou logo a sua caleche descoberta,
de p na almofada, apanhando confusamente as rdeas, com grandes
chicotadas na parelha, muito excitado, gritando:

--Prompto, meu amo, prompto!

Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem ento passou,
rondou,--e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do
sujeito da pera.

Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vr Bazilio
immovel no largo, com o seu chapo na mo: depois accommodou-se, pz
os psinhos no outro assento e balanada pelo trote largo viu passar,
calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro
de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins
adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle:
e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre
ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino,
sem cuidados, para alguma cousa de feliz que no distinguia bem! Um
grupo defronte da Escla ia tocando o _Fado do Vimioso_; aquelles sons
entraram-lhe na alma como um vento dce, que fazia agitar brandamente
muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo.

--Um suspirosinho que vai para o Alemtejo--disse D. Felicidade,
tocando-lhe o brao.

Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando
entrou em casa.

Juliana veio alumiar.--O ch estava prompto, quando a senhora
quizesse...

Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupo branco, muito fatigada,
estendeu-se na _voltaire_; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabea
pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o ch!
Chamou-a. Onde estava? credo!

Tinha descido, p ante p, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o
vestido, as saias engommadas que ella despira e atirra para cima da
_causeuse_, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa
ida, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente,
com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu
chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.--Fra abaixo dar uma
arrumadella. Era o ch? Estava prompto...

E entrando com as torradas:

--Veio ahi o snr. Sebastio, haviam de ser nove horas...

--Que lhe disse?

--Que a senhora tinha sahido com a snr.^a D. Felicidade. Como no
sabia, no disse para onde.

E acrescentou:

--Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastio... Esteve a conversar
mais de meia hora!...



Luiza recebeu, na manh seguinte, da parte de Sebastio, um ramo de
rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de
Almada, e chamavam-se rosas _D. Sebastio_. Mandou-as pr nos vasos da
sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante:

--Olhe--disse a Juliana--abra as janellas.

--Bem--pensou Juliana--temos c o melro.

O _melro_ veio com effeito s tres horas. Luiza estava na sala, ao
piano.

--Est alli o sujeito do costume--foi dizer Juliana.

Luiza voltou-se corada, escandalisada da expresso:

--Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar.

E chamando-a:

--Oua, se vier o snr. Sebastio, ou alguem, que entre.

Era o primo! O _sujeito_, as suas visitas perderam de repente para ella
todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada at ahi, cahiu,
engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!

Subiu  cozinha, devagar,--lograda.

--Temos grande novidade, snr.^a Joanna! O tal peralta  primo. Diz que
 o primo Bazilio.

E com um risinho:

-- o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo  ultima hora! O diabo tem
graa!

--Ento que havia de o homem ser seno parente?--observou Joanna.

Juliana no respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha
uma carga de roupa para passar! E sentou-se  janella, esperando. O co
baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; s vezes uma aragem
subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo.

-- o primo!--reflectia ella.--E s vem ento quando o marido se vai.
Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e  roupa branca e mais
roupa branca, e roupo novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e
olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia!

Os olhos luziam-lhe. J se no sentia to lograda. Havia alli muito
para vr e para escutar. E o ferro, estava prompto?

Mas a campainha, em baixo, tocou.

--Boa! isto agora  um fadario! Estamos na casa do despacho!

Desceu; e exclamou logo, vendo Julio com um livro debaixo do brao:

--Faz favor d'entrar, snr. Julio! A senhora est com o primo, mas diz
que mandasse entrar!

Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza.

--Est aqui o snr. Julio--disse com satisfao.

Luiza apresentou os dous homens.

Bazilio ergueu-se do soph languidamente, e, n'um relance, percorreu
Julio desde a cabelleira desleixada at s botas mal engraxadas, com
um olhar quasi horrorisado.

--Que pulha!--pensou.

Luiza, muito fina, percebeu, e crou, envergonhada de Julio.

Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano
preto mal feito--que ida daria a Bazilio das relaes, dos amigos
da casa! Sentia j o seu _chic_ diminuido. E instinctivamente, a sua
physionomia tornou-se muito reservada,--como se semelhante visita a
surprehendesse! semelhante _toilette_ a indignasse!

Julio percebeu o constrangimento d'ella, disse, j embaraado,
ageitando a luneta:

--Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de
Jorge...

--Obrigada. Sim, tem escripto. Est bem...

Bazilio, recostado no soph, como um parente intimo, examinava a
sua meia de sda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava
indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,--onde
brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi.

A affectao da attitude, o reluzir das joias irritaram Julio.

Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse:

--Eu no tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho
estado muito occupado...

Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade:

--Eu tambem no me tenho achado bem. No tenho recebido ninguem,--a no
ser meu primo, naturalmente!

Julio sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignao,
ficou a balanar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a
cala era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas.

Houve um silencio difficil.

--Bonitas rosas!--disse emfim Bazilio, preguiosamente.

--Muito bonitas!--respondeu Luiza.

Estava agora compadecida de Julio, procurava uma palavra; disse-lhe
emfim muito precipitadamente:

--E que calor!  de morrer! Tem havido muitas doenas?

--Colerinas--respondeu Julio.--Por causa das frutas. Doenas de ventre.

Luiza baixou os olhos. Bazilio ento comeou a fallar da viscondessinha
d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irm, da grande?

Aquella conversao sobre fidalgas que elle no conhecia isolava mais
Julio: sentia o suor humedecer-lhe o pescoo; procurava um dito, uma
ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro
de capa amarella.

-- algum romance?--perguntou-lhe Luiza.

--No.  o tratado do dr. Lee sobre doenas d'utero.

Luiza fez-se escarlate: Julio tambem, furioso da palavra que lhe
escapra. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D.
Raphaela Grij, que costumava ir  rua da Magdalena, que usava luneta,
e tinha um cunhado gago...

--Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.

--Com o gago?

--Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem.

--Que conversao, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga?

Julio, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca:

--Estou com pressa, no me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os
meus recados, hein?

Abaixou bruscamente a cabea a Bazilio. Mas no achava o chapo,
tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro,
topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim
desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a
vida,--transbordando agora d'ironias, de ditos, de rplicas. Devia-os
ter achatado, o asno e a tola... E no lhe acudira nada!

Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pz-se de p, e
cruzando os braos:

--Quem  este pulha?

Luiza crou muito, balbuciou:

-- um rapaz medico...

-- uma creatura impossivel,  uma especie d'estudante!

--Coitado, no tem muitos meios...

Mas no era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a
caspa! No devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu
marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!...

Passeava pela sala, excitado, com as mos nos bolsos, fazendo tilintar
o dinheiro e as chaves.

--So frescos os amigos da casa!...--continuou.--Que diabo! tu no
foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da
Magdalena.

No tivera: e pareceu-lhe que as ligaes do casamento lhe tinham
trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas
opinies, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer:

--Diz que tem muito talento...

--Era melhor que tivesse botas.

Luiza, por cobardia, concordou.

--Tambem o acho exquisito!--disse.

--Horrivel, minha filha!

Aquella palavra fez-lhe bater o corao. Era assim que elle lhe
chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:--e a campainha da
porta retiniu fortemente.

Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastio! Bazilio achal-o-hia
ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer:

--O snr. conselheiro. Mando entrar?

--De certo--exclamou.

E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca
deitadas para traz, a cala branca muito engommada cahindo sobre
sapatos de entrada abaixo, de lao.

Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso:

--J sabia que v. exc.^a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias
do nosso _high-life_. E do nosso Jorge?

Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito...

Bazilio, mais amavel, deixou cahir:

--Eu realmente no tenho a menor ida do que se possa fazer em Beja.
Deve ser horroroso!

O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mo branca onde destacava
o annel d'armas, observou:

-- todavia a capital do districto!

Mas se j em Lisboa se no podia fazer nada, e era a capital do
reino!--E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.--Morria-se
positivamente de pasmaceira!

Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pz-se a rir:

--No digas isso diante do conselheiro.  um grande admirador de Lisboa.

Accacio curvou-se:

--Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.

E com muita bonhomia:

--Conheo porm que no  para comparar aos Parizes, s Londres, s
Madrids...

--De certo--fez Luiza.

E o conselheiro continuou com pompa:

--Lisboa porm tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem
(eu nunca entrei a barra),  um panorama grandioso, rival das
Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um
Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!...

Luiza, receando citaes ou apreciaes litterarias, interrompeu-o,
perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella
e D. Felicidade, tinham esperado vl-o, e nada!

Nunca ia ao Passeio, ao domingo--declarou.--Reconhecia que era muito
agradavel, mas a multido entontecia-o. Tinha notado,--e a sua voz
tomou o tom espaado d'uma revelao,--tinha notado que muita gente,
n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da
sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e
usando as aguas de Vichy.

--Pdes fumar--disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.--Queres
lume?

Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um
vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos
pareciam mais louros, a sua pelle mais fina.

Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:

--O Passeio ao domingo  simplesmente idiota!...

O conselheiro reflectiu e respondeu:

--No serei to severo, snr. Brito!--Mas parecia-lhe que com
effeito antigamente era uma diverso mais agradavel.--Em primeiro
lugar--exclamou com muita convico, endireitando-se--nada, mas
nada, absolutamente nada pde substituir a charanga da Armada!--Alm
d'isso havia a questo dos preos... Ah! tinha estudado muito o
assumpto! Os preos diminutos favoreciam a agglomerao das classes
subalternas... Que longe do seu pensamento lanar desdouro n'essa parte
da populao... As suas idas liberaes eram bem conhecidas.--Appllo
para a snr.^a D. Luiza!--disse.--Mas emfim, sempre era mais agradavel
encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio.
Talvez no acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas!
N'esses dias, sim, ia vr por fra das grades. No por economia! De
certo no. No era rico, mas podia fazer face a essa contribuio
diminuta. Mas  que receava os accidentes!  que os receava muito!
Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana
de foguete furra o craneo.--E alm d'isso nada mais facil que cahir
uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...-- conveniente ter
prudencia--resumiu, compenetrado, limpando os beios com o leno de
sda da India muito enrolado.

Fallaram ento da estao: muita gente fra para Cintra: de resto,
Lisboa no vero era to seccante!... E o conselheiro declarou que
Lisboa s era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam
abertas as camaras e S. Carlos!

--Que estavas tu a tocar quando eu entrei?--perguntou Bazilio.

O conselheiro acudiu logo:

--Se estavam fazendo musica, por quem so... Sou um velho assignante de
S. Carlos, ha dezoito annos...

Bazilio interrompeu-o:

--Toca?

--Toquei. No o occulto. Em rapaz fui dado  flauta.

E acrescentou, com um gesto benevolo:

--Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza?

--No! Uma musica muito conhecida, j antiga: a _Filha do Pescador_, de
Meyerbeer! Tenho a letra traduzida.

Tinha cerrado as vidraas, sentra-se ao piano.

--O Sebastio  que toca isto bem, no  verdade, conselheiro?

--O nosso Sebastio--disse o conselheiro com authoridade-- um rival
dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastio?--perguntou a
Bazilio.

--No, no conheo.

--Uma perola!

Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.

--Tu ainda cantas?--perguntou-lhe Luiza, sorrindo.

--Quando estou s.

Mas o conselheiro pediu-lhe logo um trecho. Bazilio ria. Tinha medo
d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos...

O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:

--Coragem, snr. Brito, coragem!

Luiza ento preludiou.

E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas
notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona,
escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia
curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas
destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o
calor tornava mais pallida.

Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, to larga, da
cano:

    Igual ao mar sombrio
    Meu corao profundo...

Um poeta, com uma dedicao obscura, traduzira a letra no _Almanach das
Senhoras_. Luiza pela sua propria mo a tinha copiado nas entrelinhas
da musica. E Bazilio debruado sobre o papel sempre torcendo as pontas
do bigode:

    Tem tempestades, coleras,
    Mas perolas no fundo!

Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica--ou a espaos, com
um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final,
prolongada como a reclamao d'um amor supplicante, Bazilio soltou a
voz d'um modo appellativo:

    Vem! vem
    Pousar,  dce amada,
    Teu peito contra o meu...

os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significao de tanto desejo,
que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.

O conselheiro bateu as palmas.

--Uma voz admiravel!--exclamava--Uma voz admiravel!

Bazilio dizia-se envergonhado.

--No, senhor, no, senhor!--protestou Accacio, levantando-se.--Um
excellente orgo! Direi, o melhor orgo da nossa sociedade!

Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, ento ia dizer-lhes uma
modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter
preludiado uma melodia muito balanada, d'um embalado tropical, cantou:

    Sou negrinha, mas meu peito
    Sente mais que um peito branco.

E interrompendo-se:

--Isto fazia furor nas reunies da Bahia quando eu parti.

Era a historia d'uma negrinha nascida na roa, e que contava, com
lyrismos d'almanach, a sua paixo por um feitor branco.

Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua
voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o _ritornello_ choroso:

    E a negra p'ra os mares
    Seus olhos alonga;
    No alto coqueiro
    Cantava a araponga.

O conselheiro achou delicioso; e, de p na sala, lamentou a proposito
da cantiga a condio dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil
que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisao era
a civilisao! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita
confiana no imperador...

--Monarcha de rara illustrao...--acrescentou respeitosamente.

Foi buscar o seu chapo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se,
jurou que--havia muito tempo no tinha passado uma manh to completa.
De resto para elle nada havia como a boa conversao e a boa musica...

--Onde est v. exc.^a alojado, snr. Brito?

Pelo amor de Deus! Que no se incommodasse! Estava no Hotel Central.

No havia consideraes que o impedissem de cumprir o seu
dever--declarou.--Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.^a
D. Luiza bem o sabia.--Mas se necessitar alguma cousa, uma informao,
uma apresentao nas regies officiaes, licena para visitar algum
estabelecimento publico, creia que me tem s suas ordens!

E conservando na sua mo a mo de Bazilio:

--Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio
d'um ermita.

Tornou a curvar-se diante de Luiza:

--E quando escrever ao nosso viajante, que fao sinceros votos pela
prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem ! Criado de v. exc.^a!

E direito, grave, sahiu.

--Este ao menos  limpo--resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da
bocca.

Sentra-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza
aproximou-se:

--Canta alguma cousa, Bazilio!

Bazilio pz-se ento a olhar muito para ella.

Luiza crou, sorriu; atravs da fazenda clara e transparente do
vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braos;
e nos seus olhos, na cr quente do rosto havia uma animao e como uma
vitalidade amorosa.

Bazilio disse-lhe, baixo:

--Ests hoje nos teus dias felizes, Luiza.

O olhar d'elle, to avido, perturbava-a; insistiu:

--Canta alguma cousa.

O seu seio arfava.

--Canta tu--murmurou Bazilio.

E devagarinho, tomou-lhe a mo. As duas palmas um pouco humidas, um
pouco tremulas, uniram-se.

A campainha, fra, tocou. Luiza desprendeu a mo bruscamente.

-- alguem--disse agitada.

Vozes baixas fallavam  cancella.

Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapo.

--Vaes-te?--exclamou ella toda desconsolada.

--Pudera! No posso estar s comtigo um momento!

A cancella fechou-se com ruido.

--No  ninguem, foi-se--disse Luiza.

Estavam de p, no meio da sala.

--No te vs! Bazilio!

Os seus olhos profundos tinham uma supplicao dce. Bazilio pousou o
chapo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.

--E para que queres tu estar s commigo?--disse ella.--Que tem que
venha gente?--E arrependeu-se logo d'aquellas palavras.

Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o brao sobre os
hombros, prendeu-lhe a cabea, e beijou-a na testa, nos olhos, nos
cabellos, vorazmente.

Ella soltou-se a tremer, escarlate.

--Perda-me--exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.--Perda-me.
Foi sem pensar. Mas  porque te adoro, Luiza!

Tomou-lhe as mos com dominio, quasi com direito.

--No. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vr estou
doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer
por ti. Mas no tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vr rica,
feliz. No te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu
imaginas l o que aquillo ! Foi por isso que te escrevi aquella carta,
mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei!

Luiza escutava-o immovel, a cabea baixa, o olhar esquecido; aquella
voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a,
vencia-a; as mos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a
substancia das suas; e, tomada d'uma lassido, sentia-se como adormecer.

--Falla, responde!--disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mos,
procurando o seu olhar avidamente.

--Que queres que te diga?--murmurou ella.

A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado.

E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:

--Fallemos n'outras cousas!

Elle balbuciava com os braos estendidos:

--Luiza! Luiza!

--No, Bazilio, no!

E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentao, com a molleza d'uma
caricia.

Elle ento no hesitou, prendeu-a nos braos.

Luiza ficou inerte, os beios brancos, os olhos cerrados--e Bazilio,
pousando-lhe a mo sobre a testa, inclinou-lhe a cabea para traz,
beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito
profundamente; os beios d'ella entreabriram-se, os seus joelhos
dobraram-se.

Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado,
afastou o rosto, exclamou afflicta:

--Deixa-me, deixa-me!

Viera-lhe uma fora nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as
mos abertas pela testa, pelos cabellos:

--Oh meu Deus!  horrivel!--murmurou.--Deixa-me!  horrivel!

Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia:

--Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!

Elle ento tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. No
percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle no pedia mais.
Que tinha ella imaginado, ento? Adorava-a, de certo, mas puramente.

--Juro-t'o!--disse com fora, batendo no peito.

Fel-a sentar no soph, sentou-se ao p d'ella. Fallou-lhe muito
sensatamente:--Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma
amizade d'irmos, nada mais.

Ella escutava-o, esquecida.

De certo, dizia elle, aquella paixo era uma tortura immensa. Mas
era forte, dominar-se-hia. S queria vir vl-a, fallar-lhe. Seria um
sentimento ideal.--E os seus olhos devoravam-na.

Voltou-lhe a mo, curvou-se, pz-lhe um beijo cheio na palma. Ella
estremeceu, ergueu-se logo:

--No! Vai-te!

--Bem, adeus.

Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a
sda do chapo:

--Bem, adeus--repetiu melancolicamente.

--Adeus.

Bazilio disse ento com muita ternura:

--Ests zangada?

--No!

--Escuta--murmurou, adiantando-se.

Luiza bateu com o p.

--Oh que homem! Deixa-me! manh. Adeus. Vai-te! manh!

--manh!--disse elle, baixinho.

E sahiu rapidamente.

Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho
ficou surprehendida: nunca se vira to linda! Deu alguns passos calada.

Juliana arrumava roupa branca n'um gaveto do guarda-vestidos.

--Quem tocou ha bocado?--perguntou Luiza.

--Foi o snr. Sebastio. No quiz entrar; disse que voltava.



Tinha dito, com effeito, que voltava. Mas comeava quasi a
envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre com
uma visita!

Logo no primeiro dia ficra muito surprehendido quando Juliana lhe
disse: Est com um sujeito! Um rapaz novo que j c esteve hontem!
Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado
da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso,
talvez, um negocio de Jorge de certo...

Depois no domingo,  noite, trazia-lhe a partitura de _Romeu e
Julieta_, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana
lhe disse da varanda que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem,
ficou muito embaraado com o grosso volume debaixo do brao, coando
devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D.
Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem ss, n'aquelle calor de
julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria.

O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e alm, n'algum camarote,
uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de
postios, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na plata, 
larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam
com um ar encalmado e farto, limpando a espaos, com lenos de sda,
o suor dos pescoos; na geral, gente de trabalho arregalava olhos
negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente;
bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella,
um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riados, sem
cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre.

Sebastio sahiu. Onde estariam? Soube-o na manh seguinte.--Descia
o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o
seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o
bruscamente, para lhe dizer:

-- amigo Sebastio, oua c. Vi hontem  noite no Passeio a D. Luiza
com um rapaz que eu conheo. Mas d'onde conheo eu aquella cara? Quem
diabo ?

Sebastio encolheu os hombros.

--Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheo-o. N'outro
dia vi-o entrar para l. Voss no sabe?

No sabia.

--Eu conheo aquella cara. Tenho estado a vr se me recordo...--Passava
a mo pela testa.--Eu conheo aquella cara! Elle  de Lisboa. De Lisboa
 elle!

E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol:

--E que ha de novo, Sebastio?

Tambem no sabia.

--Nem eu!

E bocejando muito:

--Isto est uma pasmaceira, homem!

N'essa tarde, s quatro horas, Sebastio voltou a casa de Luiza. Estava
com o sujeito! Ficou ento preoccupado. De certo era algum negocio de
Jorge; porque no comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse,
que no fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge.
Mas devia ser grave ento--para reclamar visitas, encontros, tantas
relaes. Tinham pois interesses importantes que elle no conhecia! E
aquillo parecia-lhe uma ingratido, e como uma diminuio d'amizade.

A tia Joanna tinha-o achado macambusio.

Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio
de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido
veio inquietal-o.

Sebastio no conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da
sua mocidade. No havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional,
nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um _pandigo_ e, como
tal, passra methodicamente por todos os episodios classicos da
estroinice lisboeta:--partidas de monte at de madrugada com ricaos
do Alemtejo; uma tipoia despedaada n'um sabbado de touros; ceias
repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas
_pgas_ applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau
e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; scos bem jogados 
face attonita d'um policia; e uma profuso de gemas d'ovos nas glorias
do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia,
alm das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma danarina
allem cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha
d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separra de seu marido
depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella
mesmo em trem de praa do Rocio ao D-fundo. Mas isto bastava para
que Sebastio o achasse um _debochado_, um _perdido_; ouvira que elle
tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por
acaso, n'uma especulao, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda
na garganta, nunca fra um trabalhador; e suppunha que a posse da
fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este
homem agora vinha vr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas,
seguia-a ao Passeio...

Para que?... Era claro, para a desinquietar!

Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolao
d'estas idas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito:

-- snr. Sebastio!

Era o Paula dos moveis.

--Viva, snr. Joo.

O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com
as mos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom
grave:

-- snr. Sebastio, ha doena c por casa do snr. Engenheiro?

Sebastio todo surprehendido:

--No. Porque?

O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:

-- que tenho visto entrar para c todos os dias um sujeito. Imaginei
que fosse o medico.

E puxando o escarro:

--D'esses novos da hom[oe]opathia!

Sebastio tinha crado.

--Nada--disse.-- o primo de D. Luiza.

--Ah!--fez o Paula.--Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastio.

E curvou-se, respeitosamente.

--J temos fallatorio!--foi pensando Sebastio.

E entrou em casa, descontente.

Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construco antiga, com
quintal.

Sebastio era s. Tinha uma fortuna pequena em inscripes, terras de
lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,--o Rozegal. As
duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era
uma preta de S. Thom j do tempo da mam. A tia Joanna, a governanta,
servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastio o
menino; tinha j as tontices d'uma criana, e recebia sempre os
respeitos d'uma av. Era do Porto, do _Porto_, como ella dizia,
porque nunca perdera o seu accento minhto. Os amigos de Sebastio
chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso
muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no
alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um
vasto leno branco muito aceado, traado sobre o peito. E todo o dia
passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar
os mlhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rap de uma caixa
redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil
do Porto.

Em toda a casa havia um tom caturra e dce: na sala de visitas, quasi
sempre fechada, o vasto canap, as poltronas tinham o ar empertigado
do tempo do snr. D. Jos I, e os estofos de damasco vermelho desbotado
lembravam a pompa d'uma crte decrepita; das paredes da casa de jantar
pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleo, onde se v
invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa
desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre.
Sebastio dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha
barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda
de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro
da casa, S. Sebastio--que se torcia, cravado de settas, nas cordas que
o atavam ao tronco,  luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna,
sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro.

A casa condizia com o dono. Sebastio tinha um genio antiquado. Era
solitario e acanhado. J no latim lhe chamavam o _pelludo_; punham-lhe
rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastio, que tinha a
fora d'um gymnasta, offerecia a resignao d'um martyr.

Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente,
mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa
negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e
rubra, a coar os joelhos, o olhar vazio.

Sua mi, que era da alda e que fra padeira, muito vaidosa agora das
suas inscripes, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre
vestida de sda, carregada d'anneis, costumava dizer:

--Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criana com estudos!
Deixa l, deixa l!

A inclinao de Sebastio era pela musica. Sua mi, por conselhos da
mi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano;
logo desde as primeiras lies, a que ella assistia com enfeites de
velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes,
d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz
nasal:

--Minha rica senhora! o seu menino  um genio!  um genio! Ha-de ser um
Rossini!  puxar por elle!  puxar por elle!

Mas era justamente o que ella no queria, era puxar por elle,
coitadinho! Por isso no foi um Rossini. E todavia o velho Bentes
continuava a dizer, por habito:

--Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini!

Smente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o,
com bocejos enormes de leo enfastiado.

J ento os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastio, eram intimos.
Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar,
Sebastio era sempre o _cavallo_ nas imitaes da diligencia, o
_vencido_ nas guerras. Era Sebastio que carregava os pesos, que
offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o po,
deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre
igual, sem amos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e
permanente.

Quando a mi de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos;
habitariam a casa de Sebastio, mais larga e que tinha quintal; Jorge
queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a
dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena.

Todo aquelle plano jovial da _Sociedade Sebastio e
Jorge_--chamavam-lhe assim, rindo--desabou, como um castello de cartas.
Sebastio teve um grande pezar.

E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a
Luiza, sem espinhos, com cuidados devotos embrulhados n'um papel de
sda. Era elle que tratava dos arranjos do ninho, ia apressar os
estofadores, discutir preos de roupas, vigiar o trabalho dos homens
que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos
papeis do casamento!

E  noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar
com um sorriso as expanses felizes de Jorge, que passeava pelo quarto
at s duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz,
brandindo o cachimbo!

Depois do casamento Sebastio sentiu-se muito s. Foi a Portel visitar
um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a
existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o _Eurico_.
Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso:

--E sabes, hein? Isto agora  que  a tua casa! Aqui  que tu vives!

Mas nunca obteve de Sebastio que fosse a sua casa com uma inteira
intimidade. Sebastio batia  porta, timidamente. Corava diante de
Luiza; o antigo _pelludo_ de latim reapparecia. Jorge luctra para que
elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse cachimbo diante d'ella,
no lhe dissesse a todo o momento:--V. exc.^a, v. exc.^a--meio erguido
na cadeira.

Nunca vinha jantar seno arrastado. Quando Jorge no estava, as suas
visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de
massar!

N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna
veio-lhe perguntar pela Luizinha.

Adorava-a, achava-a um _anjinho_, uma _aucena_.

--Como est ella? viu-a?

Sebastio corou, no quiz dizer, como na vespera, que estava gente,
que no tinha entrado; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as
orelhas do _Trajano_, o seu velho perdigueiro:

--Est boa, tia Joanna, est boa. Ento como ha-de d'estar? Est optima!



quella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com
muitas queixas sobre o calor, sobre as ms estalagens, historias sobre
o extraordinario parente de Sebastio,--saudades e mil beijos...

No a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha,
que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar,
a sua ternura, deu-lhe uma sensao quasi dolorosa. Toda a vergonha
dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio
abrazar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraar, apertar! No
soph o que elle lhe dissera, com que olhos a devorra!... Recordava
tudo,--a sua attitude, o calor das suas mos, a tremura da sua voz... E
machinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordaes,
abandonando-se-lhe, at ficar perdida na deliciosa lassido que ellas
lhe davam, com o olhar languido, os braos frouxos. Mas a ida de
Jorge vinha ento outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se
bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de
chorar...

--Ah! no!  horroroso,  horroroso!--dizia s, fallando alto.--
necessario acabar!

Resolveu no receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe que no voltasse,
que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria scca e fria, no diria
_meu querido primo_, mas simplesmente _primo Bazilio_.

E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado!

Imaginava-o s, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui,
pelos declives da sensibilidade, passava  recordao da sua pessoa, da
sua voz convincente, das turbaes do seu olhar dominante, e a memoria
demorava-se n'aquellas lembranas com uma sensao de felicidade, como
a mo se esquece acariciando a plumagem dce d'um passaro raro. Sacudia
a cabea com impaciencia, como se aquellas imaginaes fossem os
ferres d'insectos importunos: esforava-se por pensar s em Jorge; mas
as idas ms voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraada, sem saber
o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar
Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que
era!--E do fundo da sua natureza de preguiosa vinha-lhe uma indefinida
indignao contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra
os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a no
seccassem, Santo Deus!

Depois de jantar,  janella da sala, ficou a relr a carta de Jorge.
Pz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do
seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns
de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo
era por elle estar fra, na provincia! Se elle alli estivesse ao p
d'ella! Mas to longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra
sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma sensao
de liberdade; a ida de se poder mover  vontade nos desejos, nas
curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma
lufada de independencia.

Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, s?--E de repente tudo
o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva
longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e
fechada, que deixa entrever, n'um relance, alguma cousa de indefinido,
de maravilhoso, que palpita e faisca.--Oh! estava douda, de certo!

Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e
espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava
para o co, desejando alguma cousa fortemente, sem saber o qu.

O moo do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons
banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a
melancolia de um gemido.

Encostou a cabea  mo com uma lassido. Mil pensamentosinhos
corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que
se queimou; lembrava-lhe sua mi, o chapo novo que lhe mandra madame
Franois, o tempo que faria em Cintra, a doura das noites quentes sob
a escurido das ramagens...

Fechou a janella, espreguiou-se; e sentada na _causeuse_, no seu
quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe
escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar
comeou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaa em
rasges largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa
e forte a ida do primo Bazilio.

As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro;
a melancolia da separao dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido
por ella!--dissera.--E no fim onde estava o mal? Elle jurra-lhe que
aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris,
o pobre rapaz, assim lh'o jurra, para a vr, uma semana, quinze dias.
E havia de dizer-lhe:--No voltes, vai-te?

--Quando a senhora quizer o ch...--disse da porta do quarto Juliana.

Luiza deu um suspiro alto como acordando. No; que trouxesse a
lamparina, mais tarde.

Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu ch,  cozinha. O lume ia-se
apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos
reflexos avermelhados.

--Hoje houve cousa, snr.^a Joanna--disse Juliana sentando-se.--Est
toda no ar! E  cada suspiro! Alli houve-a e grossa.

Joanna, do outro lado, com os cotovlos na mesa e a face sobre os
punhos, pestanejava de somno.

--A snr.^a Juliana, tambem, deita tudo para o mal--disse.

-- que era necessario ser tola, snr.^a Joanna!

Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle
bem refinado--e aquelle assucar mascavado e grosso, que punha no ch um
gosto de formigas, exasperava-a.

--Este  peor que o do mez passado! Para uma pobre de Christo tudo 
bom!--rosnou muito amargamente.

E depois d'uma pausa repetiu:

-- que era necessario ser tola, snr.^a Joanna!

A cozinheira disse preguiosamente:

--Cada um sabe de si...

--E Deus de todos--suspirou Juliana.

E ficaram caladas.

Luiza tocou a campainha em baixo.

--Que teremos ns agora? Est com as cocegas!

Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:

--Quer mais agua! Olha a mania, pr-se agora a chafurdar  meia noite!
Sempre a gente as v...

Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo
de lata:

--E diz que lhe faa manh ao almoo um bocado de presunto frito, do
salgado. Quer picantes!

E com muito escarneo:

--Sempre a gente v cousas! Quer picantes!

 meia noite a casa estava adormecida e apagada. Fra, o co
ennegrecera mais; relampejou, e um trovo secco estalou, rolou.

Luiza abriu os olhos estremunhada; comera a cahir uma chuva grossa
e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento
escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava,
descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga
claridade que vinha de fra da lamparina, seguia o tic-tac do relogio.
Espreguiou-se, e uma certa ida, uma certa viso foi-se formando
no seu cerebro, completando-se, to nitida, quasi to visivel, que
se revirou na cama devagar, estirou os braos, lanou-os em roda do
travesseiro, adiantando os beios seccos--para beijar uns cabellos
negros onde reluziam fios brancos.



Sebastio tinha dormido mal. Acordou s seis horas e desceu ao quintal
em chinellas. Uma porta envidraada da sala de jantar abria para um
terraosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e
alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para
o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de
flres, saladas muito regadas, ps de roseiras junto dos muros, um poo
e um tanque debaixo d'uma parreirita, e arvores; terminava por outro
terrao assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa
e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um
sitio recolhido, d'uma paz alde. Muitas vezes Sebastio, de madrugada,
ia para alli fumar o seu cigarro.

Era uma manh deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o co
arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas
velhas e, aqui e alm, uma nuvemzinha algodoada, mollemente enrolada,
cr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma
crystallinidade fria; passaros chilreavam de leve, com vos rapidos.

Sebastio estava debruado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala,
passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge,
o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, abafado
n'um cachenez e n'um paletot cr de pinho, com a barba grisalha
desmazelada, a crescer.

--J a p, visinho!--disse Sebastio.

O outro parou, ergueu a cabea lentamente.

--Oh Sebastio!--disse com uma voz plangente--Ando a passear os meus
leites, homem!

--A p?

--Ao principio ia na burrita at fra de portas, mas diz que me fazia
bem o passeiosito a p...

Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, de desconsolao.

--E como vai isso?--perguntou Sebastio, muito debruado para a rua,
com affecto.

O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beios brancos:

--A desfazer-se!

Sebastio tossiu, embaraado, sem achar uma consolao.

Mas o doente, com as duas mos apoiadas  bengala, uma subita radiao
d'interesse no olhar amortecido:

-- Sebastio, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias
entrar para casa do Jorge,  o Bazilio de Brito, pois no ? O primo da
mulher? o filho do Joo de Brito?

--, sim, porque?

O Cunha fez: _Ah! ah!_ com uma grande satisfao.

--Bem dizia eu!--exclamou.--Bem dizia eu! E aquella teimosa que no!
que no!...

E ento explicou com uma tagarellice subita, e cansaos de voz:

--O meu quarto  para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi
sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a
modo estrangeirado, entrar para l... todos os dias! Este  o Bazilio
de Brito! disse eu. Mas minha mulher que no! que no!... Que diabo,
homem! Eu tinha quasi a certeza... No conheo eu outra cousa!... At
elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na
ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!...

Sebastio disse vagamente:

--Pois ,  o Brito...

--Bem dizia eu!

Ficou um momento immovel, fitando o cho, e refazendo uma voz dolente:

--Pois, vou-me arrastando at casa.

Suspirou. E arregalando os olhos:

--Quem me dera a sua saude, Sebastio!

E dizendo adeus, com um gesto da mo calada de luva de casimira
escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o brao ao
ventre, o seu largo paletot cr de pinho.

Sebastio entrou preoccupado. Todo o mundo comeava a reparar, hein!
Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas,
tres horas! Uma visinhana to chegada, to maligna!...

Ao comeo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber
porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a
differente ou com outra expresso... E subia a rua devagar, sob o seu
guarda-sol, hesitando, quando um coup que descia a trote largo veio
parar  porta de Luiza.

Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto,
com um bigode levantado, trazia uma flr no peito; devia ser o primo
Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as
pernas, pz-se a enrolar o cigarro.

Ao ruido do trem o Paula postou-se logo  porta, de bon carregado, as
mos enterradas no bolso, com olhares de revs: a carvoeira defronte,
immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um
pasmo lrpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente
a vidraa. Ento o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de
sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento appareceu  porta, com a
estanqueira, de caro viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos
nas varandas de Luiza, no coup! O Paula, d'alli, arrastando as
chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma
risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi emfim estacar  sua
porta entre um retrato de D. Joo VI e duas velhas cadeiras de couro,
assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se n'um piano, a
compasso de estudo, a _Orao d'uma virgem_.

Sebastio ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza.

--Rico calor, snr. Sebastio!--observou o Paula curvando-se-- um
regalo estar  fresca!



Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com
as portadas meio cerradas, n'uma penumbra dce. Luiza tinha apparecido
de roupo branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema.

--Eu venho assim mesmo--disse ella.--No fao ceremonias.

Mas assim  que ella estava linda! Assim  que a queria
sempre!--exclamava Bazilio muito contente, como se aquelle roupo de
manh fosse j uma promessa da sua nudez.

Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. No a inquietou
com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor,
d'uma _zarzuela_ que vira na vespera, de velhos amigos que encontrra,
e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella.

O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia,
tantas as estatuas que havia nas praas, tantas as fontes sonoras
que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, sobre um
terrao classico; flres raras transbordavam de vasos florentinos;
pousando sobre as balaustradas esculpidas, paves abriam as caudas; e
ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu
vestido de velludo azul. De resto, dizia, era um terrao como o de S.
Donato, a _villa_ do principe Demidoff,--porque lembrava sempre as suas
intimidades illustres, e no se descuidava de fazer reluzir a gloria
das suas viagens.

E ella, tinha sonhado?

Luiza crou.--No, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a
trovoada, elle?

--Estava a cear no Gremio, quando trovejou.

--Costumas cear?

Elle teve um sorriso infeliz.--Cear! se se podia chamar cear ir ao
Gremio rilhar um bife corneo e tragar um Collares peonhento!

E fitando-a:

--Por tua causa, ingrata!

Por sua causa?

--Por quem, ento? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris?

--Por causa dos teus negocios...

Elle encarou-a severamente:

--Obrigado--disse, curvando-se at ao cho.

E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu
charuto.

Veio sentar-se bruscamente ao p d'ella.--No, realmente era injusta.
Se estava em Lisboa, era por ella. S por ella!

Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho
d'amor muito pequenino, assim...--Mostrava o comprimento da unha.

Riram.

--Assim, talvez.

E o peito de Luiza arfava.

Elle ento examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o
verniz que usam as _cocottes_, que lhes d um lustre polido; ia-se
apossando da sua mo, pz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o
dedo minimo, jurou que era muito dce; arranjou-lhe com um contacto
muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,--e, disse,
tinha um pedido a fazer-lhe!

Olhava-a com uma supplicao.

--Que ?

-- que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo!

Ella no respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas molles do roupo.

-- muito simples--acrescentou elle.--Tu vaes-me encontrar a qualquer
parte, longe d'aqui, est claro. Eu estou  espera de ti com uma
carruagem, tu saltas para dentro e _fouette_, _cocher_!

Luiza hesitava.

--No digas que no.

--Mas onde?

--Onde tu quizeres. A Pao d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim.

A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhra.

--Que tem?  um passeio d'amigos, d'irmos.

--No! isso no!

Bazilio zangou-se, chamou-lhe _beata_. Quiz sahir. Ella veio tirar-lhe
o chapo da mo, muito meiga, quasi vencida.

--Talvez, veremos--dizia.

--Dize que sim!--insistia.--S boa rapariga!

--Pois sim, manh veremos, manh fallaremos.

Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio no fallou no passeio,
nem no campo. No fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos.
Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de
Belot, _A mulher de fogo_. E sentando-se ao piano, disse-lhe canes de
_caf concerto_, muito picantes; imitava a rouquido acre e canalha das
cantoras; fel-a rir.

Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna chronica amorosa,
anecdotas, paixes _chics_. Tudo se passava com duquezas, princezas,
d'um modo dramatico e sensibilisador, s vezes jovial, sempre cheio de
delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se:
Era uma mulher distinctissima, tinha naturalmente o seu amante...

O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude
parecia ser, pelo que elle contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou
a occupao reles d'um temperamento burguez...

E quando sahiu, disse, como recordando-se:

--Sabes que estou com minhas idas de partir?...

Ella perguntou, um pouco descorada:

--Porque?

Bazilio disse, muito indifferente:

--Que diabo fao eu aqui?...

Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se:

--Adeus, meu amor...

E sahiu.

Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos
vermelhos.

Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. Queixou-se do contnuo
calor, da _scca_ de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra!

--s tu que no queres--acudiu elle. --Podiamos fazer um passeio
adoravel.

Mas tinha medo, podiam vr...

--O qu! N'um coup fechado? Com os _stores_ descidos?

Mas ento era peor que estar n'uma sala, era abafar n'uma bocta!

Mas no! Iam a uma quinta. Podiam ir s _Alegrias_,  quinta d'um amigo
d'elle que estava em Londres. S viviam l os caseiros, era ao p dos
Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam
levar gelo, champagne...

--Vem!--disse bruscamente, tomando-lhe as mos.

Ella crou.--Talvez. No domingo veria.

Bazilio conservava-lhe as mos presas. Os seus olhos encontraram-se,
humedeceram-se. Ella sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mos;
foi abrir as vidraas ambas, dar  sala uma claridade larga como
uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao p do piano, receando a
penumbra, o soph, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse
alguma cousa, porque j temia as palavras, tanto como os silencios!
Bazilio cantou a _Medj_, a melodia de Gounod, to sensual e
perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos
d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada,
como depois d'um excesso.


Sebastio tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do
Rozegal, onde trazia obras. Voltra na segunda-feira cedo, e, pelas
dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para o
terraosinho, esperava o seu almoo, brincando com o _Rolim_--o seu
gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado,
ingrato como um tyranno.

A manh comeava a aquecer; o quintal estava j cheio de sol; na agua
do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam.
Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente.

A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do almoo muito calada,
poz-se ento a dizer com a sua vozinha arrastada e minhta:

--Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios,
com umas tontices!...

--A respeito de qu, tia Joanna?--perguntou Sebastio.

--A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da
Luizinha.

Sebastio ergueu-se logo:

--Que disse ella, tia Joanna?

A velha assentava a toalha devagar com a sua mo gorducha espalmada:

--Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem no seria? Diz que  um
perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No
sabbado que estivera at quasi  noitinha. E cantou-se na sala, diz que
uma voz que nem no theatro...

Sebastio interrompeu-a, impaciente:

-- o primo, tia Joanna. Ento quem havia de ser?  o primo que chegou
do Brazil.

A tia Joanna teve um bom sorriso.

--Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz que  um perfeito
rapaz! E todo janota!

E sahindo para a cozinha, devagar:

--Eu logo vi que era parente, logo disse!...

Sebastio almoou inquieto. Positivamente a visinhana j se punha a
mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!--E, assustado,
decidiu-se logo a ir consultar Julio.

Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia
devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do brao, uma cala
branca enxovalhada, o ar suado.

--Ia a tua casa, homem!--disse Sebastio logo.

Julio estranhou a excitao desusada da sua voz.

Havia alguma novidade? Que era?

--Uma do diabo!--exclamou, baixo, Sebastio.

Estavam parados ao p da confeitaria. Na vidraa, por traz d'elles,
emprateleirava-se uma exposio de garrafas de malvasia com os seus
letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas,
amarellides enjoativas de dces d'ovos, e quques d'um castanho escuro
tendo espetados cravos tristes de papel branco ou cr de rosa. Velhas
natas lividas amollentavam-se no co dos folhados; ladrilhos grossos de
marmelada esbeiavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam
as suas crstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma
travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o
ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a
bocca escancarada: na sua cabea grossa esbogalhavam-se dous horriveis
olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma
tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaavam.

--Vamos alli para o caf--disse Julio.--Aqui na rua arde-se!

--Tenho estado apoquentado--ia dizendo Sebastio.--Muito apoquentado!
Quero fallar-te.

No caf o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a
aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada.

Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito
caiadas brilhavam com uma radiao faiscante. Por traz do balco, onde
reluziam garrafas de crystal, um criado de jaqueto, estremunhado
e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro chilreava dentro;
sentia-se o bater espaado das bolas do bilhar atravs d'uma porta de
baeta verde; s vezes o prego de um cangalheiro na rua sobresahia,
e--todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer
d'um trem travado.

Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas
melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha
tons queimados do cigarro; e das noitadas ficra-lhe uma vermelhido
inflammada nas palpebras. De vez em quando erguia preguiosamente a
cabea, atirava para o cho areado um jacto escuro de saliva, dava uma
sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar infeliz.
Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente
a cabea.

--Mas o que  ento?--perguntou logo Julio.

Sebastio chegou-se mais para elle:

-- por causa l da nossa gente. Por causa do primo--disse baixo.

E acrescentou:

--Tu vistel-o, hein?

A lembrana repentina da sua humilhao na sala de Luiza trouxe um
rubor s faces de Julio. Mas muito orgulhoso, disse seccamente:

--Vi.

--E ento?

--Pareceu-me um asno!--exclamou, no se contendo.

--E um extravagante--disse com terror Sebastio--No te pareceu, hein?

--Pareceu-me um asno--repetiu.--Umas maneiras, uma affectao, um
alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de
mulher...

E com um certo sorriso azedado:

--Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas--disse, apontando
para os botins mal engraxados--tenho muita honra n'ellas, so de quem
trabalha...

Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma pobreza, que intimamente
no cessava de o humilhar.

E remexendo devagar a sua carapinhada:

--Uma besta!--resumiu.

--Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?--disse Sebastio, baixo, como
assustado da gravidade da confidencia.

E respondendo logo ao olhar surprehendido de Julio:

--Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi.
Estiveram para casar. Depois o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de
l escreveu a romper o casamento.

Julio sorriu, e encostando a cabea  parede:

--Mas isso  o enredo da _Eugenia Grandet_, Sebastio! Ests-me a
contar o romance de Balzac! Isso  a _Eugenia Grandet_!

Sebastio fitou-o espantado.

--Ora! no se pde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra
d'honra--acrescentou vivamente.

--V, Sebastio, v, dize.

Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do
tecto sujo do fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mo
sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rpas. No bilhar vozes
altercavam.

Sebastio ento, como tomado d'uma resoluo, disse bruscamente:

--E agora vai l todos os dias, no sahe de l!

Julio afastou-se na banqueta e encarou-o:

--Tu queres-me dar a entender alguma cousa, Sebastio?

E com uma vivacidade quasi jovial:

--O primo atira-se?

Aquella palavra escandalisou Sebastio.

-- Julio!--E severamente:--Com essas cousas no se brinca!

Julio encolheu os hombros.

--Mas est claro que se atira!--exclamou.--s de bom tempo ainda! Est
claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada!

--Falla baixo--acudiu Sebastio.

Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura
funebre.

Julio baixou a voz:

--Mas  sempre assim, Sebastio. O primo Bazilio tem razo; quer o
prazer sem a responsabilidade!

E quasi ao ouvido d'elle:

-- de graa, amigo Sebastio!  de graa! Tu no imaginas que
influencia isto tem no sentimento!

Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com
abundancia:

--Ha um marido que a veste, que a cala, que a alimenta, que a engomma,
que a vela se est doente, que a atura se ella est nervosa, que tem
todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os
que vierem, sabes a lei... Por consequencia o primo no tem mais que
chegar, bater ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa 
custa do marido, e...

Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfao, enrolando
deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo.

-- optimo!--acrescentou.--Todos os primos raciocinam assim. Bazilio
 primo, logo... Sabes o syllogismo, Sebastio! Sabes o syllogismo,
menino!--gritou, dando-lhe uma palmada na perna.

-- o diabo--murmurou Sebastio cabisbaixo.

Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:

--Mas tu suppes que uma rapariga de bem...

--Eu no supponho nada!--acudiu Julio.

--Falla baixo, homem!

--Eu no supponho nada--repetiu Julio baixinho.--Eu affirmo o que elle
faz. Agora ella...

E acrescentou com seccura:

--Como  uma rapariga honesta...

--Se !--exclamou Sebastio, batendo uma punhada na pedra da mesa.

--Prompto!--cantou arrastadamente o moo.

O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia
ao balco bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua
carapinhada, encostou os cotovlos  mesa, salivou para longe, e
puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado.

Sebastio disse, ento, com tristeza:

--A questo no  por ella. A questo  pela visinhana.

Ficaram um momento calados. A altercao de vozes no bilhar crescia.

--Mas--disse Julio, como sahindo d'uma reflexo--a visinhana? Como a
visinhana?

--Sim, homem! Vem entrar para l o rapaz. Vem de tipoia, faz um
escandalo na rua. J se falla. J vieram com mexericos  tia Joanna.
Ha dias encontrei o Netto que reparou. O Cunha tambem. O homem dos
trastes, em baixo, no se faz nada que elle no d f: so umas linguas
de tremer. Ha dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem
para entrar, e foram logo conciliabulos na rua, olhadellas para a
janella, o diabo! Vai l todos os dias. Sabem que o Jorge est no
Alemtejo... Est duas e tres horas.  muito serio,  muito serio!

--Mas ella ento  tola!

--No v o mal...

Julio encolheu os hombros, duvidando.

Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herculeo, de bigode
negro, muito escarlate, sahiu bruscamente, e parando, segurando a porta
aberta, gritou para dentro:

--E fique sabendo que havia d'encontrar homem!

Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade.

O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou o caf
resfolegando, apopletico; um rapaz chupado, de jaqueto de inverno e
cala branca, seguia-o, com um ar gingado.

--O que eu devia fazer--exclamava o agigantado, brandindo o punho--era
quebrar a cara quelle pulha!

O rapaz chupado, dizia, com doura e servilismo, bamboleando-se:

--Questes no servem para nada, s Corra!

-- que sou muito prudente--berrou o herculeo.-- que me lembro que
tenho mulher e filhos! Seno bebia-lhe o sangue!

E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua.

O criado muito pallido, tremia dentro do balco; e o sujeito calvo, que
erguera a cabea, teve um sorriso de tedio, e retomou tristemente o
jornal.

Sebastio, ento, disse reflectindo:

--No te parece que seria bom avisal-a?

Julio encolheu os hombros, soltou uma baforada de fumo.

--Dize alguma cousa!--implorou Sebastio--Tu no ias fallar-lhe, hein?

--Eu?--exclamou Julio com um aspecto que repellia a ida.--Eu! Ests
doudo!

--Mas que te parece, emfim?

E a voz de Sebastio tinha quasi uma afflico.

Julio hesitou:

--Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado... Emfim, eu no sei,
meu amigo!

E pz-se a chupar o seu cigarro.

Aquelle mutismo affectou Sebastio. Disse com desconsolao:

--Homem, vim-te pedir um conselho...

--Mas que diabo queres tu?--E a voz de Julio irritava-se.--A culpa 
d'ella.  d'ella!--insistiu, vendo o olhar de Sebastio.-- uma mulher
de vinte e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que se no recebe
todos os dias um peralvilho, n'uma rua pequena, com a visinhana a
postos! Se o faz,  porque lhe agrada.

-- Julio!--disse muito severamente Sebastio.

E dominando-se, com a voz commovida:

--No tens razo, no tens razo!

Calou-se muito magoado.

Julio levantou-se.

--Amigo Sebastio, eu digo o que penso, tu fazes o que entendes.

Chamou o criado.

--Deixa--disse Sebastio precipitadamente, pagando.

Iam sahir. Mas ento o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se
para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastio um papel
enxovalhado.

Sebastio, surprehendido, leu alto, machinalmente:

O abaixo assignado, antigo empregado da nao, reduzido  miseria...

--Fui intimo amigo do nobre duque de Saldanha!--gemeu chorosamente, com
uma rouquido, o sujeito calvo.

Sebastio crou, comprimentou, metteu-lhe na mo duas placas de cinco
tostes, discretamente.

O sujeito dobrou profundamente o espinhao, e declamou com uma voz cava:

--Mil agradecimentos a v. exc.^a, snr. conde!




V


A manh estava abrazadora. Um pouco depois do meio dia, Joanna,
estirada n'uma velha cadeira de vime da ilha da Madeira que havia na
cozinha, dormitava a ssta. Como madrugava muito, quella hora da calma
vinha-lhe sempre uma quebreira.

As janellas estavam cerradas ao sol faiscante; as panellas no lume
faziam um _ron-ron_ dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia
amodorroada no amollecimento do calor torrido, quando Juliana entrou
como uma rajada, atirou para o cho, furiosa, uma braada de roupa
suja, e gritou:

--Raios me partam se no ha um escandalo n'esta casa que vai tudo raso!

Joanna deu um salto estremunhada.

--Quem quer as cousas em ordem olha por ellas!--berrava a outra com
os olhos injectados.--No  estar todo o dia na sala a palrar com as
visitas!

A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, j assustada.

--Que foi, snr.^a Juliana, que foi?

--Est com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! sangrias! Tem
peguilhado por tudo! No estou para a aturar, no estou!

E batia o p com phrenesi.

--Mas que foi? que foi?

--Diz que os collarinhos tinham pouca gomma, pz-se a despropositar!
Estou farta de a aturar! Estou farta! Estou at aqui!--bradava, puxando
a pelle engelhada da garganta.--Pois que me no faa sahir de mim! Que
me vou, e pespego-lhe na cara por qu! Desde que aqui temos homem e
pouca vergonha, boas noites!... Quem quizer que se metta em alhadas...

-- snr.^a Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!--E a Joanna apertava a
cabea nas mos.--Ai, se a senhora ouve!

--Que oua, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou farta!

Mas, de repente, fez-se branca como a cal, cahiu sobre a cadeira de
vime com as duas mos contra o corao, os olhos em alvo.

--Snr.^a Juliana!--gritou Joanna--Snr.^a Juliana! Falle!

Borrifou-a d'agua; sacudia-a, anciosamente.

--Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Est melhor? Falle!

Juliana deu um suspiro longo, d'allivio, cerrou as palpebras. E
arquejava devagarinho, muito prostrada.

--Como se sente? Quer um caldinho?  fraqueza, ha-de ser fraqueza...

--Foi a pontada--murmurou Juliana.

Ai! aquelles phrenesis matavam-na!--dizia a cozinheira, remexendo-lhe
o caldo, muito pallida tambem.--A gente tinha d'aturar os amos! Que
tomasse a sustancia, que socegasse!...

N'aquelle momento Luiza abriu a porta. Vinha em collete e saia branca.

Que barulho era aquelle?

--A snr.^a Juliana que lhe tinha dado uma cousa, quasi desmaira...

--Foi a pontada--balbuciou Juliana.

E erguendo-se, com um esforo:

--Se a senhora no precisa nada, vou ao medico...

--V, v!--disse Luiza logo. E desceu.

Juliana pz-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joanna
consolava-a baixo:--Tambem, a snr.^a Juliana arrenegava-se por
qualquer cousa. E quando a gente tem pouca saude no ha nada peor que
emphrenesiar-se...

-- que no imagina!--e abafava a voz arregalando os olhos--Tem estado
de no se poder aturar! Est-se a vestir que nem para uma partida!
Amarfanhou uns poucos de collares, atirou-os para o cho, que eu
engommava que era uma porcaria, que no servia para nada... Ai! Estou
farta!--repetia--Estou farta!

-- ter paciencia! Todos tem a sua cruz!

Juliana teve um sorriso livido, ergueu-se com um grande _ai!_,
escabichou os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao soto.

D'ahi a pouco, de luvas pretas, muito amarella, sahiu.

Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. At
ao medico era um estiro!... E estava, que lhe tremiam as pernas!...
Mas tambem, largar tres tostes para trem!...

--Pst, pst!--fez do lado uma voz dce.

Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu
sorriso desconsolado.

Que era feito da snr.^a Juliana? a dar o seu passeio, hein?

Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo d'osso.--De muito gosto--disse.--E
como ia de saude?

Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao medico...

Mas a estanqueira no tinha f nos medicos. Era dinheiro deitado 
rua... Citou a doena do seu homem, os gastos, um _rr_ de moedas. E
para que? para o vr penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro
que sempre chorava!

E suspirou. Emfim, fosse feita a vontade de Deus! E l por casa do snr.
Engenheiro?

--Tudo sem novidade.

-- snr.^a Juliana, quem  aquelle rapaz que vai agora por l todos os
dias?

Juliana respondeu logo:

-- o primo da senhora.

--Do-se muito!...

--Parece.

Tossiu, e com um comprimentosinho:

--Pois, muito boas tardes, snr.^a Helena.

E foi resmungando:

--Ora, fica-te a chuchar no dedo, lsma!

Juliana detestava a visinhana; sabia que a escarneciam, que a
imitavam, que lhe chamavam a _tripa velha_!...--Pois tambem d'ella
no haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de
carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar
guardadinho, l dentro.--Para uma occasio!--pensava com rancor,
sacudindo os quadris.

A estanqueira ficou  porta, despeitada. E o Paula dos moveis, que as
vira conversar, veio logo, deslisando subtilmente nas suas chinellas de
tapete:

--Ento a _tripa velha_ escorregou-se?

--Ai! no se lhe tira nada!

O Paula enterrou as mos nos bolsos, com tedio:

--Aquillo, a do Engenheiro besunta-lhe as mos...  ella quem leva a
cartinha, quem abre a portita de noite...

--Tanto no direi! Credo!

O Paula fitou-a com superioridade:

--A snr.^a Helena est ahi ao seu balco... Mas eu  que as conheo,
as mulheres da alta sociedade! Conheo-as nas pontas dos dedos.  uma
cambada!

Citou logo nomes, alguns illustres; tinham amantes innumeraveis: at
trintanarios! Algumas fumavam, outras _entortavam-se_. E peor! E peor!

--E passeiam por ahi, muito repimpadas de carrinho,  barba da gente de
bem!

--Falta de religio!--suspirou a estanqueira.

O Paula encolheu os hombros:

--A religio  que , snr.^a Helena! C'os padres  que !

E agitando furioso o punho fechado:

--C'os padres  uma _choldra_ viva!

--Credo, snr. Paula, que at lhe fica mal!...

E o caro amarellado da estanqueira tinha uma severidade de devota
offendida.

--Ora, historias, snr.^a Helena!--exclamou o homem com desprezo.

E bruscamente:

--Porque  que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo
l dentro!

--Oh snr. Paula! oh snr. Paula!--balbuciava a Helena, recuando,
encolhendo-se.

Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas.

--Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterraneo ter c'os
frades. E era vinhaa e mais vinhaa. E batiam o fandango em camisa!
Anda isso por ahi em todos os livros.

E erguendo-se nas chinellas:

--E os jesuitas, se vamos a isso! Sim! diga!

Mas recuou, e levando a mo  pala do bon:

--Um criado da senhora--disse com respeito.

Era Luiza que passava, vestida de preto, o vo descido. Ficaram
calados, a olhal-a.

--Que ella  muito bonita!--murmurou a estanqueira, com admirao.

O Paula franziu a testa.

--No  mau bocado...--disse. E acrescentou, com desdem:--P'ra quem
gosta d'aquillo!...

Houve um silencio. E o Paula rosnou:

--No so as saias que me levam o tempo, nem d'isto!...

E bateu no bolso do collete, fazendo tilintar dinheiro.

Tossiu, pigarreou, e ainda aspero:

--Venha de l um pataco de Xabregas.

Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus
olhos arregalaram-se indignados; n'uma das janellas de cima na casa do
Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraas abertas, a figura
enfesada do Pedro, o carpinteiro.

Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braos:

--E agora que a patra vai  vida, l est o rapazola a entender-se com
a criada!

Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna:

--Aquella casa vai-se tornando um prostibulo!

--Um qu, snr. Paula?

--Um prostibulo, snr.^a Helena!  como se dissesse um alcouce!

E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se.


Luiza ia emfim ao campo com Bazilio. Consentira na vespera, declarando
logo que era s um passeio de meia hora, de carruagem, sem se
apearem. Bazilio ainda insistiu, fallando em sombras d'alamedas,
uma merendinha, relvas... Mas ella recusou, muito teimosa, rindo,
dizendo:--Nada de relvas!...

E tinham combinado encontrar-se na praa da Alegria. Chegou tarde, j
depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o
rosto, toda assustada.

Bazilio esperava, fumando, n'um coup,  esquina, debaixo d'uma
arvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luiza entrou fechando
atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo,
esgaou-se no rufo de sda; e achou-se ao lado d'elle, muito nervosa,
offegante, com o rosto abrazado, murmurando:

--Que tolice, que tolice esta!

Mal podia fallar. O coup partiu logo a trote. O cocheiro era o
Pintos, um batedor.

--To canada, coitadinha!--disse-lhe Bazilio muito meigo.

Levantou-lhe o vo; estava suada; os seus largos olhos brilhavam da
excitao, da pressa, do medo...

--Que calor, Bazilio!

Quiz descer um dos vidros do coup.

No, isso no! Podiam vl-os! Quando passassem as portas...

--Para onde vamos ns?

E espreitava, levantando o _store_.

--Vamos para o lado do Lumiar,  o melhor sitio. No queres?

Encolheu os hombros. Que lhe importava? Ia socegando: tinha tirado o
vo e as luvas: sorria, abanando-se com o leno, d'onde sahia um aroma
fresco.

Bazilio prendeu-lhe o pulso, pz-lhe muitos beijos longos, delicados,
na pelle fina, azulada de veiasinhas.

--Tu prometteste ter juizo!--fez ella com um sorriso calido, olhando-o
de lado.

Ora! mas um beijo, no brao! Que mal havia? Tambem era necessario no
ser beata!

E olhava-a avidamente.

Os velhos _stores_ do coup corridos eram de sda vermelha, e a luz que
os atravessava envolvia-a n'um tom igual, cr de rosa e quente. Os seus
beios tinham um escarlate molhado, a lisura s d'uma petala de rosa; e
ao canto do olho um ponto de luz movia-se n'um fluido dce.

No se conteve, passou-lhe os dedos um pouco tremulos nas fontes, nos
cabellos, com uma caricia fugitiva e assustada; e com a voz humilde:

--Nem um beijo na face, um s?

--Um s?...--fez ella.

Pousou-lh'o delicadamente ao p da orelha. Mas aquelle contacto
exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluado;
agarrou-a com sofreguido, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoo,
pela face, pelo chapo...

--No! no!--balbuciava ella, resistindo.--Quero descer! Dize que pare!

Batia nos vidros; esforava-se por correr um, desesperada, magoando os
dedos na dura corra suja.

Bazilio pz-se a supplicar, que lhe perdoasse! Que doudice, zangar-se
por um beijo! Se ella estava to linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir
quieto, muito quieto...

A carruagem, ao p das portas, rolava sacudida na calada miuda; nas
terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam immoveis
na luz branca; e sobre a herva crestada o sol batia duramente n'uma
fulgurao continua.

Bazilio tinha descido um dos vidros; o _store_ corrido palpitava
brandamente; pz-se ento a fallar-lhe ternamente de si, do seu
amor, dos seus planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em
Lisboa--dizia.--No tencionava casar-se; amava-a e no comprehendia
nada melhor do que viver ao p d'ella, sempre. Dizia-se desilludido,
enfastiado. Que mais lhe podia offerecer a vida? Tinha tido as
sensaes dos amores ephemeros, as aventuras das longas viagens.
Ajuntra alguma cousa de seu,--e sentia-se velho.

Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mos:

--No  verdade que estou velho?

--No muito--e os seus olhos humedeciam-se.

Ah! estava! estava! O que lhe appetecia agora era viver para ella,
vir descanar nas douras da sua intimidade. Ella era a sua unica
familia.--Fazia-se muito _parente_.--A familia no fim de tudo  o que
ha de melhor ainda. No te incommoda que eu fume?

E acrescentou, raspando o phosphoro:

--O que ha de bom na vida  uma affeio profunda como a nossa. No
 verdade? Contento-me com pouco, de resto. Vr-te todos os dias,
conversar muito, saber que me estimas...--Por dentro do campo, 
Pintos!--gritou com fora pela portinhola.

O coup entrou a passo no Campo Grande. Bazilio ergueu os _stores_; um
ar mais vivo penetrou. O sol cahia sobre o arvoredo, traspassando-o
d'uma luz faiscante, formando no cho poeirento e branco sombras
quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto resequido e
exhausto. Na terra gretada, a herva curta, crestada, fazia tons
cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarellada.
Saloios passavam, amodorroados sobre o albardo, bamboleando as pernas,
abrigados sob os vastos guarda-soes escarlates; e a luz que vinha de
um co azul ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiao crua
as paredes muito caiadas, as aguas d'algum balde esquecido s portas,
todas as brancuras de pedras.

E Bazilio continuava:

--Vendo tudo o que tenho l fra, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em
Buenos-Ayres, talvez... No te agrada? Dize...

Ella calava-se; aquellas palavras, as promessas, a que a voz d'elle
metallica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como
a inebriao d'um licr forte. O seu seio arfava.

Bazilio baixou a voz, disse:

--Quando estou ao p de ti sinto-me to feliz, parece-me tudo to
bom!...

--Se isso fosse verdade!--suspirou ella, encostando-se para o fundo do
coup.

Bazilio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pr a sua
fortuna em inscripes. Comeou a dar-lhe provas: j fallra a um
procurador; citou-lhe o nome, um scco, de nariz agudo...

E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes:

--E se fosse verdade, dize, que fazias?

--Nem eu sei--murmurou ella.

Iam entrando no Lumiar, e por prudencia desceram os _stores_. Ella
afastou um, e, espreitando, via fra passar rapidamente, ao lado do
trem, arvores empoeiradas; um muro de quinta d'uma cr de rosa sujo;
fachadas de casas mesquinhas; um omnibus desatrellado; mulheres
sentadas ao portal,  sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido
de branco, de chapo de palha, que estacou, arregalou os olhos para as
cortinas fechadas do coup. E ia desejando habitar alli n'uma quinta,
longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das
janellas, parreiras sobre pilares de pedra, ps de roseiras, ruasinhas
amaveis sob arvores entrelaadas, um tanque debaixo d'uma tilia, onde
de manh as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao
escurecer, ella e elle, um pouco quebrados das felicidades da ssta,
iriam pelos campos, ouvindo calados, sob o co que se estrella, o
coaxar triste das rs.

Cerrou os olhos. O movimento muito lanado do coup, o calor, a
presena d'elle, o contacto da sua mo, do seu joelho, amolleciam-na.
Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito.

--Em que vaes tu a pensar?--perguntou-lhe elle baixo, muito terno.

Luiza fez-se vermelha. No respondeu. Tinha medo de fallar, de lhe
dizer...

Bazilio tomou-lhe a mo devagarinbo, com respeito, com cuidado, como
uma cousa preciosa e santa; e beijou-lh'a de leve, com a servilidade
d'um negro e a uno d'um devoto. Aquella caricia to humilde, to
tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; deixou-se cahir para
o canto do coup, rompeu a chorar...

Que era? Que tinha? Prendera-a nos braos, beijava-a, dizia-lhe
palavras loucas.

--Queres que fujamos?

As suas lagrimasinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre
aquella face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma
vibrao quasi dolorosa.

--Foge commigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo!

Ella soluou, murmurou muito doridamente:

--No digas tolices.

Elle calou-se; pz a mo sobre os olhos com uma attitude melancolica,
pensando:--Estou a dizer tolices, no ha que vr!

Luiza limpava as lagrimas, assoando-se devagarinho.

-- nervoso--disse.-- nervoso. Voltamos, sim? No me sinto bem. Dize
que volte.

Bazilio mandou bater para Lisboa.

Ella queixava-se de um ameao d'enxaqueca. Elle tinha-lhe tomado a mo,
repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe sua pomba, seu ideal. E
pensava baixo:--Ests cahida!

Pararam na praa da Alegria. Luiza espreitou, saltou depressa, dizendo:

--manh, no faltes, hein?

Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente
para a Patriarchal.

Bazilio ento desceu os vidros, e respirou com satisfao. Accendeu
outro charuto, estendeu as pernas, gritou:

--Ao Gremio,  Pintos!

Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reynaldo, que havia annos
vivia em Londres, e muito em Paris tambem, lia o _Times_ languidamente,
enterrado n'uma poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com promessa
de voltarem juntos por Madrid. Mas o calor desolava Reynaldo; achava
a temperatura de Lisboa _reles_; trazia lunetas defumadas; e andava
saturado de perfumes, por causa do cheiro ignobil de Portugal. Apenas
viu Bazilio deixou escorregar o _Times_ no tapete, e com os braos
molles, a voz desfallecida:

--E ento essa questo da prima, vai ou no vai? Isto est horrivel,
menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escocia! Vamos embora!
Acaba com essa prima. Viola-a. Se ella te resiste, mata-a!

Bazilio, que se estendera n'uma poltrona, disse, estirando muito os
braos:

--Oh! Est cahidinha!

--Pois avia-te, menino, avia-te!

Apanhou moribundamente o _Times_, bocejou, pediu soda--soda ingleza!

No havia, veio dizer o criado. Reynaldo fitou Bazilio com espanto,
com terror, e murmurou soturnamente:

--Que abjeco de paiz!


Quando Luiza entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo  porta:

--O snr. Sebastio est na sala. Tem estado um _rr_ de tempo 
espera... J c estava quando eu cheguei.

Tinha vindo com effeito havia meia hora. Quando a Joanna lhe veio
abrir, muito encarnada, com o ar estremunhado, e resmungou que a
senhora estava para fra, Sebastio ia logo descer, com o allivio
delicioso d'uma difficuldade adiada. Mas reagiu, retesou a vontade,
entrou, pz-se a esperar... Na vespera tinha decidido fallar-lhe,
avisal-a que aquellas visitas do primo, to repetidas, com espalhafato,
n'uma rua maligna, podiam compromettel-a... Era o diabo, dizer-lh'o!...
Mas era um dever! Por ella, pelo marido, pelo respeito da casa!
Era foroso acautelal-a!... E no se sentia acanhado. Perante as
reclamaes do dever, vinham-lhe as energias da deciso. O corao
batia-lhe um pouco, sim, e estava pallido... Mas, que diabo, havia de
lh'o dizer!...

E passeando pela sala com as mos nos bolsos, ia arranjando as suas
phrases, procurando-as muito delicadas, bem amigas...

Mas a campainha retiniu, um _frou-frou_ de vestido roou o corredor,--e
a sua coragem engelhou-se como um balo furado. Foi-se logo sentar ao
piano, pz-se a bater vivamente no teclado. Quando Luiza entrou, sem
chapo, descalando as luvas, ergueu-se, disse embaraado:

--Tenho estado aqui a trautear um bocado... Estava  espera... Ento
d'onde vem?

Ella sentou-se, canada. Vinha da modista--disse. Fazia um calor!
Porque no tinha entrado as outras vezes? No estava com visitas de
ceremonia! Era familia, era seu primo que viera de fra.

--Est bom, seu primo?

--Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado!
Ora, quem vive l fra!

Sebastio repetiu, esfregando devagar os joelhos:

--Est claro, quem vive l fra!

--E Jorge, tem-lhe escripto?--perguntou Luiza.

--Recebi carta hontem.

Tambem ella. Fallaram de Jorge, dos tedios da jornada, do que contava
do phantastico parente de Sebastio, da demora provavel...

--Faz-nos uma falta, aquelle maroto!--disse Sebastio.

Luiza tossiu. Estava um pouco pallida, agora. Passava s vezes a mo
pela testa, cerrando os olhos.

Sebastio de repente, teve uma deciso:

--Pois eu vinha, minha rica amiga...--comeou.

Mas viu-a ao canto do soph, com a cabea baixa, a mo sobre os olhos.

--Que tem? Est incommodada?

-- a enxaqueca que me veio de repente. J tinha tido ameaos na rua. E
com uma fora!

Sebastio tomou logo o chapo:

--E eu a massal-a!  necessario alguma cousa? Quer que v chamar o
medico?

--No! Vou-me deitar um momento, passa logo.

Que no apanhasse ar, ao menos, recommendava elle. Talvez sinapismos
ou rodellas de limo nas fontes... E em todo o caso, se no estivesse
melhor que o mandasse chamar...

--Isto passa! E apparea, Sebastio! No se esconda...

Sebastio desceu, respirou largamente; e pensava:--Eu no me atrevo,
santo Deus!... Mas  porta, ao levantar os olhos, viu no fundo escuro
da loja de carvo o vulto enorme da carvoeira, de chambre branco,
estendendo o olhar, cocando; por cima, tres das Azevedos, entre as
velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riadas n'algum
conciliabulo maligno: por traz dos vidros a criada do doutor costurava,
com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na
loja de moveis, sentiam-se as expectoraes do patriota.

--No passa um gato que esta gente no d f!--pensou Sebastio.--E que
linguas! Que linguas! Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ella manh
est melhor, digo-lhe tudo!


Estava com effeito j boa, s nove horas, no dia seguinte, quando
Juliana a foi acordar, com uma cartinha da snr.^a D. Leopoldina.

A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de
buo e olho vesgo, esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana,
beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter guardado
a resposta de Luiza n'um cabazinho que trazia no brao, traou o chale,
e muito risonha:

--Ento que ha por c de novo, snr.^a Juliana?

--Tudo velho, snr.^a Justina.

E mais baixo:

--O primo da senhora, agora; vem todos os dias. Perfeito rapaz!

Tossiram ambas, baixinho, com malicia.

--E por l, snr.^a Justina, quem vai por l?

Justina fez um aceno de desprezo.

--Um rapazola, um estudante. Fraca cousa!...

--Sempre pinga!--disse Juliana com um risinho.

A outra exclamou:

--Olha quem! o pelintra! Nem cheta!

E erguendo o olhar com saudade:

--Ai, como o Gama no ha! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca
ia que me no dsse os seus dez tostes, s vezes meia libra. Ai,
devo dizel-o, foi elle que me ajudou para o meu vestido de sda! Este
agora!...  um fedelho. Eu nem sei como a senhora supporta aquillo! E
amarellado, enfesado! Aquillo pde prestar para nada!

Juliana disse ento:

--Pois olhe, snr.^a Justina, eu agora  que comeo a considerar:  onde
se est bem,  em casas em que ha pdres! Encontrei hontem a Agostinha,
a que est em casa do commendador, ao Rato... Pois senhor, no se
imagina.  tudo o que se pde! Tudo! Annel, vestido de sda, sombrinha,
chapo! E de roupa branca diz que  um enxoval. E tudo o Couceiro,
o que est com a ama. E pelas festas sua moeda. Diz que  um homem
rasgado. Ella tambem, verdade seja, tem um trabalho: fal-o entrar pelo
jardim, e para o fazer sahir tem d'esperar...

--Ah, l no!--acudiu a Justina.--L  pela escada.

Riram baixinho, saboreando o escandalo.

--Genios...--disse Juliana.

--Ai, l isso, o nosso tem estomago--affirmou Justina.--Encontra-os na
escada, e tanto se lhe d!...

E muito affectuosamente, arranjando o chale:

--E adeusinho, que se faz tarde, snr.^a Juliana. Ella vem hoje c
jantar, a senhora. Estive toda a manh a engommar uma saia; desde as
sete!

--Tambem eu por c--disse Juliana.--Ellas  o que tem; quando ha amante
sempre ha mais que engommar.

--Deitam mais roupa branca, deitam--observou a Justina.

--As que deitam!--exclamou Juliana, com desprezo.

Mas Luiza tocou a campainha dentro.

--Adeus, snr.^a Juliana--disse logo a outra, ageitando o chapo.

--Adeus, snr.^a Justina.

Foi acompanhal-a ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito
apressada ao quarto de Luiza; estava j a p, vestindo-se, muito
alegre, cantarolando.

O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta:


Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas no
posso ir antes das seis. Convem-te?


Ficou muito contente. Havia semanas que a no via... O que iam rir,
palrar! E Bazilio devia vir s duas. Era um dia divertido, bem
preenchido...

Foi logo  cozinha dar as suas ordens para o jantar. Quando descia,
o criadito de Sebastio tocava a campainha, com um ramo de rosas, a
saber se a senhora estava melhor.

--Que sim, que sim!--gritou logo Luiza.--E para o tranquillisar, para
que elle no viesse:--Que estava boa, que at talvez sahisse...

As rosas, sim,  que vinham a proposito. Foi ella mesma pl-as nos
vasos, cantarolando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida
que se tornava interessante, cheia de incidentes...

E s duas horas, vestida, veio para a sala, pz-se ao piano a estudar a
_Medj_ de Gounod, que Bazilio trouxera, e que a encantava agora muito,
com os seus accentos suspirados e calidos.

s duas e meia, porm, comeou a estar impaciente; os dedos
embrulhavam-se-lhe no teclado.--J devia ter vindo, Bazilio!--pensava.

Foi abrir as janellas, debruar-se para a rua; mas a criada do doutor,
que costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos to sofregos
que Luiza fechou rapidamente as vidraas. Veio recomear a melodia, j
nervosa.

Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada, batia-lhe o corao. A
carruagem passou...

Tres horas j! O calor parecia-lhe maior, insupportavel; sentia-se
afogueada, foi cobrir-se de p d'arroz. Se Bazilio estivesse doente! E
n'um quarto d'hotel! S, com criados desleixados! Mas no, ter-lhe-hia
escripto n'esse caso!... No viera, no se importra! Que grosseiro,
que egoista!

Era bem tola em se affligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente!
Foi buscar um leque, e as suas mos enraivecidas sacudiram n'um
phrenesi a gaveta, que no se abriu logo, um pouca perra. Pois bem, no
o tornaria a receber! E acabava tudo!

E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa,
desappareceu! Sentiu um allivio, um grande desejo de tranquillidade.
Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar n'outro homem,
um leviano, um estroina!...

Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperao, correu ao escriptorio de
Jorge, agarrou uma folha de papel, escreveu  pressa:


                                                   Querido Bazilio.


Porque no vens? Ests doente? Se soubesses os tormentos por que me
fazes passar...


A campainha retiniu. Era elle! Amarrotou o bilhete, metteu-o no bolso
do vestido, ficou esperando, palpitante. Passos d'homem pisaram o
tapete da sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastio.

Sebastio, um pouco pallido, que lhe apertou muito as mos. Estava
melhor? Tinha dormido bem?

Sim, obrigada, estava melhor. Sentra-se no soph, muito vermelha. Mal
sabia que dizer.

Repetiu com um sorriso vago:--Estou muito melhor!--E pensava:--No me
deixa agora a casa, este massador!

--Ento, no sahiu?--perguntou Sebastio, sentado na poltrona, com o
chapo desabado nas mos.

No, estava um pouco fatigada ainda.

Sebastio passou devagar a mo pelos cabellos, e com uma voz que o
embarao engrossava:

--Tambem agora tem sempre companhia pela manh...

--Sim, meu primo Bazilio tem apparecido. Ha tanto tempo que nos no
viamos! Fomos creados de pequenos, quasi... Tenho-o visto quasi todos
os dias.

Sebastio fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a
voz:

--Eu mesmo tinha vindo para lhe fallar a esse respeito...

Luiza abriu um olhar surprehendido.

--A respeito de qu?

-- que se repara... A visinhana  a peor cousa que ha, minha rica
amiga. Repara em tudo. J se tem fallado. A criada do lente, o Paula.
At j vieram  tia Joanna. E como o Jorge no est... O Netto tambem
reparou. Como no sabem o parentesco... E como vem todos os dias...

Luiza ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado:

--Ento eu no posso receber os meus parentes sem ser
insultada?--exclamou.

Sebastio levantou-se tambem. Aquella colera subita n'ella, uma pessoa
to dce, atarantou-o como um trovo que estala n'um co claro de vero.

Pz-se a dizer, quasi anciosamente:

--Oh minha rica senhora! mas repare, eu no digo...  por causa da
visinhana!...

--Mas que pde dizer a visinhana?

A sua voz tinha uma vibrao aguda. E batendo com as mos,
apertando-as, exaltada:

--Isto  curioso! Tenho um parente unico, com quem fui creada, que no
vejo ha uns poucos d'annos, vem-me fazer tres ou quatro visitas, est
um momento, e j querem deitar maldade!

Fallava convencida, esquecendo as palavras de Bazilio, os beijos, o
_coup_...

Sebastio, acabrunhado, enrolava o chapo nas mos tremulas. E com uma
voz abafada:

--Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julio tambem...

--O Julio!--exclamou ella.--Mas que tem o Julio com isso? Com que
direito se mettem no que se passa em minha casa? O Julio!

A interveno, as decises de Julio pareciam-lhe um acrescimo
d'affronta. Cahiu n'uma cadeira, com as mos contra o peito, os olhos
no tecto.

--Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! se elle aqui estivesse, Santo Deus!

Sebastio balbuciou aniquilado:

--Era para seu bem...

--Mas que mal me pde succeder?

E erguendo-se, indo d'um movel a outro, n'uma excitao:

-- o meu unico parente. Fomos creados ambos, brincavamos juntos. Em
casa da mam, na rua da Magdalena, estava l sempre. Ia l jantar todos
os dias.  como se fossemos irmos. Em pequena trazia-me ao collo...

E amontoava detalhes d'aquella fraternidade, exagerando uns, inventando
outros ao acaso, na improvisao da colera.

--Vem aqui--acrescentava--est um bocado, fazemos musica, elle toca
admiravelmente, fuma um charuto, vai-se...

Instinctivamente justificava-se.

Sebastio estava sem ida, sem resoluo. Parecia-lhe aquella uma outra
Luiza, differente, que o assustava; e quasi curvava os hombros sob a
estridencia da sua voz, que nunca conhecera to forte, vibrando n'uma
loquacidade trapalhona.

Erguendo-se emfim, disse com uma dignidade melancolica:

--Eu entendi que era o meu dever, minha senhora.

Fez-se um silencio grave. Aquelle tom sobrio, quasi severo, obrigou-a a
crar um pouco dos seus espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraada:

--Perde, Sebastio! Mas realmente!... No, acredite, juro-lhe,
estou-lhe muito obrigada em me avisar. Fez muito bem, Sebastio!

Elle exclamou logo, vivamente:

--Para evitar qualquer calumnia d'essas linguas damnadas! Pois no 
verdade?

Justificou ento a sua interveno, com muita amizade: s vezes por uma
palavra, arma-se uma intriga, e quando uma pessoa est prevenida...

--De certo, Sebastio!--repetiu ella.--Fez perfeitamente bem em me
avisar. De certo!...

Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; e a cada momento
limpava com o leno os cantos seccos da bocca.

--Mas que hei-de eu fazer, Sebastio! Diga!

Elle commovia-se agora de a vr assim ceder, aconselhar-se; quasi
lamentava vir, com a gravidade das suas advertencias, perturbar a
alegria das suas intimidades. Disse:

--Est claro que deve vr seu primo, recebel-o... Mas emfim, sempre
 bom uma certa reserva, com esta visinhana! Eu se fosse a si
contava-lhe... explicava-lhe...

--Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastio?

--Repararam. Quem seria? quem no seria? Que vinha, que estava, o diabo!

Luiza ergueu-se impetuosamente:

--Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes lh'o tenho dito! Isto 
uma rua impossivel! No se mexe um dedo que no espreitem, que no
cochichem!

--No teem que fazer...

Houve um silencio. Luiza passeava pela sala, com a cabea baixa, a
testa franzida; e parando, olhando quasi anciosamente para Sebastio:

--O Jorge se soubesse  que tinha um desgosto! Santo Deus!

--Escusa de saber!--exclamou logo Sebastio.--Isto fica entre ns!

--Para o no affligir, no  verdade?--acudiu ella.

--Est claro! Isto fica entre ns.

E Sebastio estendendo-lhe a mo, quasi humildemente:

--Ento no est zangada commigo, hein?

--Eu, Sebastio! Que tolice!

--Bem, bem. Acredite!--e espalmou a mo sobre o peito--eu entendi que
era o meu dever. Porque emfim, a minha rica amiga no sabia nada...

--Estava bem longe!...

--De certo. Bem, adeus. No a quero massar mais.--E com uma voz
profunda, commovida:--C estou s ordens, hein!

--Adeus, Sebastio... Mas que gente! Por vr entrar o pobre rapaz tres
ou quatro vezes!...

--Uma canalha, uma canalha!--disse Sebastio, arregalando os olhos.

E sahiu.

Apenas elle fechou a porta:

--Que desafro!--exclamou Luiza--Isto s a mim!

Porque a interveno de Sebastio, no fundo, irritava-a mais que os
mexericos da visinhana! A sua vida, as suas visitas, o interior da
sua casa era discutido, resolvido por Sebastio, por Julio, por
_tutti quanti_! Aos vinte e cinco annos tinha mentores! No estava m!
E porque, Santo Deus? Porque seu primo, o seu unico parente, vinha
vel-a!...

Mas ento, de repente, emmudecia interiormente. Lembravam-lhe os
olhares de Bazilio, as suas palavras exaltadas, aquelles beijos, o
passeio ao Lumiar. A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia
declamando alto:--de certo, havia um sentimento, mas era honesto,
ideal, todo platonico!... Nunca seria _outra cousa_! Podia ter l
dentro, no fundo, uma fraqueza... Mas seria sempre uma mulher de bem,
fiel, s d'um!...

E esta certeza irritava-a ento contra os palratorios da rua! Que de
resto era l possivel, que s por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco
vezes, s duas horas da tarde, comeassem logo a murmurar, a cortar na
pelle?... Sebastio era um caturra, com terrores d'ermito! E que ida,
ir consultar Julio! Julio! Era elle, de certo, que o instigra a vir
prgar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume, inveja! Porque
Bazilio tinha belleza, _toilette_, maneiras, dinheiro!... Se tinha!

As qualidades de Bazilio appareciam-lhe ento magnificas e abundantes
como os attributos d'um deus. E estava apaixonado por ella! E queria
vir viver junto d'ella! O amor d'aquelle homem, que tinha esgotado
tantas sensaes, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como
a affirmao gloriosa da sua belleza e da irresistibilidade da sua
seduco.

A alegria que lhe dava aquelle culto trazia-lhe o receio de o perder.
No o queria vr diminuido; queria-o sempre presente, crescendo,
balouando sem cessar, diante d'ella, o murmurio languido das ternuras
humildes! Podia l separar-se de Bazilio! Mas se a visinhana, as
relaes comeavam a commentar, a cochichar... Jorge podia saber!...
quella supposio o corao arrefecia-lhe...--Sebastio tinha razo,
no fundo, era evidente!

N'uma rua pequena, com doze casas, vir todos os dias, aquelle
lindo rapaz, to elegante, agora que seu marido no estava... Era
terrivel!--Que havia de fazer, Santo Deus!...

A campainha retiniu com fora; Lepoldina entrou.

Vinha furiosa com o cocheiro: que imaginasse ella, hein! Tinha parado
ao Correio, e o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!...

--E que calor, ouf!--Atirou a sombrinha, as luvas; agitou as mos no ar
para descer o sangue, dar-lhes pallidez; e diante do toucador, compondo
ligeiramente os frisados do cabello, com uma cr na pelle, muito
espartilhada, admiravel no seu corpete couraado:

--Que tens tu, filha? Ests toda no ar!

Nada. Tinha-se zangado com as criadas...

--Ai! esto insupportaveis!--Contou as exigencias da Justina, os seus
desmazelos.--E muito agradecida ainda que ella se me no v! Quando a
gente depende d'ellas!...--E pondo p d'arroz no rosto, com uma voz
lenta:--L o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir
jantar fra com...--Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luiza, mais
baixo, com um tom alegre, muito sincero:--Mas olha, a fallar a verdade,
nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que elle coitado com a sua mezada
mal lhe chega. Disse commigo: nada, vou vr a Luiza. Tambem os homens
sempre, sempre, seccam!...--Que tens tu para jantar? No fizeste
ceremonia, hein?

E com uma ida subita:

--Tens tu bacalhau?

Devia haver, talvez. Que extravagancia! Porque?

--Ai!--exclamou--Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido
detesta o bacalhau! aquelle animal! Eu  a minha paixo. Com azeite e
alho!--Mas calou-se, contrariada.--Diabo!

--O que?

-- que hoje no posso comer alho...

E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastio,
pl-a n'uma casa do corpete. Desejava ter uma sala assim,--pensava,
olhando em redor. Queria-a de reps azul, com dous grandes espelhos, um
lustre de gaz, e o seu retrato a oleo de corpo inteiro, decotada, ao
p d'um rico vaso de flres... Sentou-se ao piano, bateu rijamente o
teclado, tocou motivos do _Barba Azul_.

E vendo Luiza entrar:

--Mandaste arranjar o bacalhau?

--Mandei.

--Assado?

--Sim.

--Gracias!--E atirou, com a sua voz mordente, a sua cano querida da
_Gran-Duqueza_:

    Ouvi dizer que meu av de vinho,
        Era um tal amador...

Mas Luiza achava aquella musica espalhafatona; queria alguma cousa
triste, dce... O fado! que tocasse o fado!...

Leopoldina exclamou logo:

--Ai, o fado novo! Tu no ouviste?  lindo! Os versos so divinos!

Preludiou, cantando com um balouar languido da cabea, o olhar erguido
e turvo:

    O rapaz que eu hontem vi
    Era moreno e bem feito...

--Tu no sabes isto, Luiza? Oh filha!  o ultimo!  de chorar!

Recomeou, com o tom muito quebrado. Era a historia rimada d'um amor
infeliz. Fallava-se nas raivas do ciume, nas rochas de Cascaes, nas
noites de luar, nos suspiros da saudade, todo o palavriado morbido do
sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava tons dolentes  voz, revirava
um olhar expirante; uma quadra sobre tudo enternecia-a; repetiu-a com
paixo:

    Vejo-o nas nuvens do co,
    Nas ondas do mar sem fim,
    E por mais longe que esteja
    Sinto-o sempre ao p de mim.

--Lindo!--suspirava Luiza.

E Leopoldina terminava com _ais_! em que a sua voz se arrastava n'uma
extenso desafinada.

Luiza, de p junto do piano, sentia o cheiro do _feno_ que ella usava;
o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso
seguia sobre o teclado os dedos ageis e magros de Leopoldina, onde
reluziam as pedras dos anneis que lhe tinha dado o Gama.

Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o
jantar na mesa!

Leopoldina declarou que vinha a cahir de fome! E a sala de jantar com
as vidraas abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul
d'horisonte onde se algodoavam nuvemzinhas muito brancas--alegrou-a:
a sala de jantar d'ella tirava-lhe at o appetite, era uma tristeza,
deitava para o saguo!

Pz-se a depenicar bagos d'uvas, a trincar bocadinhos de conserva--e
reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo:

--Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pandigo!...

E ha que tempos que no jantavam juntas! Desde quando?

--Desde o meu primeiro anno de casada--lembrou Luiza.

Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito n'esse tempo;
Jorge deixava-as ir s lojas ambas, aos confeiteiros,  Graa...
A lembrana d'aquella camaradagem levou-a s recordaes mais
distantes do collegio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o
sobrinho.--Lembras-te d'elle?

--O _Espinafre_?

_Espinafre_ ou no era no collegio o homem, o ideal, o heroe; todas lhe
escreviam bilhetes, desenhavam-lhe coraes d'onde sahia uma fogueira,
mettiam-lhe no bon muito sebento ramos de flres de papel... E quando
a Michaela foi apanhada, no cacifro dos bahs, a devoral-o de beijos!...

Luiza disse:

--Que horror!

--No que a Michaela era douda!

Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava
cheia de filhos...

--Isto  um valle de lagrimas!--resumiu Leopoldina, recostando-se.

Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na
ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer cdeas de po que
barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordaes do collegio! Que
bom tempo!

--Lembraste quando estivemos de mal?

Luiza no se lembrava...

--Por tu teres dado um beijo na Thereza, que era o meu
_sentimento_--disse Leopoldina.

Pozeram-se a fallar dos _sentimentos_. Leopoldina tivera quatro; a
mais bonita era a Joanninha, a Freitas. Que olhos! E que bem feita!
Tinha-lhe feito a crte um mez!...

--Tolices!--disse Luiza crando um pouco.

--Tolices! Porque?

Ai! era sempre com saudade que fallava dos _sentimentos_. Tinham sido
as primeiras sensaes, as mais intensas. Que agonia de ciumes! Que
delirio de reconciliaes! E os beijos furtados! E os olhares! E os
bilhetinhos, e todas as palpitaes do corao, as primeiras da vida!

--Nunca--exclamou--nunca, depois de mulher, senti por um homem o que
senti pela Joanninha!... Pois pdes crr...

Um olhar de Luiza deteve-a.--A Juliana!... Diabo! tinha-se esquecido!
Constrangia-as muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito
chato, o tic-tac metallico dos taces.

--E que foi feito da Joanninha?--perguntou Luiza.

Morrra tisica--e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doena bem
triste, no era? Mas no lhe tinha medo, ella! Batia no seio, bem
formado:

--Isto  rijo, isto  so!

Juliana sahiu, e Luiza observou logo:

--V no que fallas, filha! Tem cuidado!

Leopoldina curvou-se:

--Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razo!--murmurou.

E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovao!

--Bravo! Est soberbo!

Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado,
abrindo em lascas.

--Tu vers--dizia ella.--No te tentas? Fazes mal!

Teve ento um movimento decidido de bravura, disse:

--Traga-me um alho, snr.^a Juliana! Traga-me um bom alho!

E apenas ella sahiu:

--Eu vou ter logo com o Fernando, mas no me importa!...--Ah! Obrigada,
snr.^a Juliana! No ha nada como o alho!...

Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau d'um fio
molle d'azeite, com gravidade.--Divino!--exclamou.--Tornou a encher o
copo, achava aquillo uma pandiga.

--Mas que tens tu?

Luiza com effeito parecia preoccupada. Tinha suspirado baixo. Duas
vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta:

--Parece que tocaram a campainha, v vr.

No era ninguem.

--Quem havia de ser? No esperas teu marido, de certo.

--Ah! no!

E ento Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito
attenta, lascasinhas de bacalhau:

--E teu primo veio vr-te?

Luiza fez-se vermelha.

--Sim, tem vindo. Tem vindo varias vezes.

--Ah!

E depois d'um silencio:

--Ainda est bonito?

--No est feio...

--Ah!

Luiza apressou-se a perguntar se tinha encommendado o vestido de
xadrezinho? No. E comearam a fallar de _toilettes_, fazendas,
lojas, e preos... Depois, de conhecidas, d'outras senhoras, de
boatos--perdendo-se n'uma conversa de mulheres ss, miudinha e
divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens.

Viera o assado. Leopoldina j ia tendo uma cr quente nas faces. Pediu
a Juliana que lhe fosse buscar o leque;--e recostada, abanando-se,
declarou que se sentia como um principe! E ia beberricando golinhos de
vinho. Que boa ida, jantarem juntas!...

Apenas Juliana dispz os pratos de fruta, Luiza disse-lhe logo: que
chamaria para o caf, que podia ir. Foi ella mesmo fechar a porta da
sala, correr o reposteiro de cretone:

--Estamos  vontade, agora! Fao-me velha s d'olhar para esta
creatura! Estou morta pela vr pelas costas.

--Mas porque a no pes na rua?

Era Jorge que no queria, seno...

Leopoldina protestou. Boa! os maridos no deviam ter vontade!... Era o
que faltava!...

--E o teu, ento?--disse Luiza, rindo.

--Obrigada!--exclamou Leopoldina.--Um homem que faz quarto  parte!

De resto detestava os homens que se occupam de criadas, de roes,
d'azeites e vinagres...

--Que l o meu cavalheiro at pesa a carne!--Sorriu, com odio.--Tambem
 o que vale, seno!... Eu s d'ir  cozinha me do enjos...

Quiz deitar vinho, mas a garrafa estava vazia.

Luiza acudiu:

--Queres tu champagne?--Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um
hespanhol, um proprietario de minas.

Foi ella mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul;--e
com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as:
olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se
de saber abrir muito bem o champagne; fallava vagamente de cas
passadas...

--Em tera-feira gorda, ha dous annos!...

E toda recostada na cadeira, com um sorriso calido, as azas do nariz
dilatadas, a pupilla humida, olhava com sensualidade os globulosinhos
vivos que subiam, sem cessar, no copo esguio.

--Se fosse rica, bebia sempre champagne--disse.

Luiza no: ambicionava um coup; e queria viajar, ir a Paris, a
Sevilha, a Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos:
invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes d'assignatura, uma
casa em Cintra, cas, bailes, _toilettes_, jogo... Porque gostava do
_monte_--dizia--fazia-lhe bater o corao. E estava convencida que
havia de adorar a roleta.

--Ah!--exclamou--Os homens so bem mais felizes que ns! Eu nasci para
homem! O que eu faria!

Levantou-se, foi-se deixar cahir muito languidamente na _voltaire_, ao
p da janella. A tarde descia serenamente; por traz das casas, para l
dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amarelladas, orladas de
cres sanguineas ou de tons alaranjados.

E voltando-lhe a mesma ida d'aco, d'independencia:

--Um homem pde fazer tudo! Nada lhe fica mal! Pde viajar, correr
aventuras... Sabes tu, fumava agora um cigarrito...

O peor  que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia to mal!...

-- um convento, isto!--murmurou Leopoldina.--No tens m priso, minha
filha!

Luiza no respondeu; tinha encostado a cabea  mo: e com o olhar
vago, como continuando alguma ida:

--So tolices, no fim, andar, viajar! A unica cousa n'este mundo  a
gente estar na sua casa, com o seu homem, um filho ou dous...

Leopoldina deu um salto na _voltaire_. Filhos! Credo, que nem fallasse
em semelhante cousa! Todos os dias dava graas a Deus em os no ter!

--Que horror!--exclamou com convico.--O incommodo todo o tempo que se
est!... as despezas! os trabalhos, as doenas! Deus me livre!  uma
priso! E depois quando crescem, do f de tudo, palram, vo dizer...
Uma mulher com filhos est inutil para tudo, est atada de ps e mos!
No ha prazer na vida.  estar alli a atural-os... Credo! Eu? Que Deus
no me castigue, mas se tivesse essa desgraa parece-me que ia ter com
a velha da travessa da Palha!

--Que velha?--perguntou Luiza.

Leopoldina explicou. Luiza achava uma infamia. A outra encolheu os
hombros, acrescentou:

--E depois, minha rica,  que uma mulher estraga-se: no ha belleza de
corpo que resista. Perde-se o melhor. Quando se  como a tua amiga, a
D. Felicidade, emfim!... Mas quando se  direitinha e arranjadinha!...
Nada, minha rica! Embaraos no faltam!

Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio
tocar o final da _Traviata_; ia escurecendo; j as verduras dos
quintaes tinham uma igual cr parda; e as casas para alm esbatiam-se
na sombra.

A _Traviata_ lembrou a Luiza a _Dama das Camelias_: fallaram do
romance: recordaram episodios...

--Que paixo que eu tive por Armando em rapariga!--disse Leopoldina.

--E eu foi por d'Artagnan--exclamou ingenuamente Luiza.

Riram muito.

--Comeamos cedo--observou Leopoldina.--D-me uma gotinha mais.

Bebeu, pousou o calix--e encolhendo os hombros:

--Oh! Comeamos cedo? Comeam todas! Aos treze annos j a gente vai na
sua quarta paixo. Todas so mulheres, todas sentem o mesmo!--E batendo
o compasso com o p, cantou, no tom do fado:

    O amor  uma doena
    Que costuma andar no ar;
    S d'ir  janella, s vezes
    S'apanha a febre d'amar!

Estou hoje com uma telha!--E espreguiando-se muito languidamente:--No
fim de contas  o que ha de melhor n'este mundo: o resto  uma
semsaboria! No  verdade? Dize, tu! No  verdade?

Luiza murmurou:

--Se !--E acrescentou logo:--Creio eu!

Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a:

--Cr ella! Pobre innocentinha! Vejam o anjinho!

Foi-se encostar  janella; ficou a olhar pelos vidros o descer do
crepusculo; de repente pz-se a dizer devagar:

--Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Christo a privar-se, a
passar uma vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre,
um ar, uma soalheira, e boas noites, vai-se para o Alto de S. Joo! T
rola!

A sala agora estava um pouco escura.

--Pois no te parece?--perguntou ella.

Aquella conversa embaraava Luiza: sentia-se crar; mas o crepusculo,
as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento d'uma
tentao. Declarou todavia _immoral_ semelhante ida.

--Immoral, porque?

Luiza fallou vagamente nos _deveres_, na _religio_. Mas os _deveres_
irritavam Leopoldina. Se havia uma cousa que a fizesse sahir de
si--dizia--era ouvir fallar em deveres!...

--Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido?

Calou-se, e passeando pela sala excitada:

--E em quanto a religio, historias! A mim me dizia o padre Estevo, o
de luneta, que tem os dentes bonitos, que me dava todas as absolvies,
se eu fosse com elle a Carriche!

--Ah, os padres...--murmurou Luiza.

--Os padres qu? So a religio! Nunca vi outra. Deus, esse, minha
rica, est longe, no se occupa do que fazem as mulheres.

Luiza achava horrivel aquelle modo de pensar. A felicidade, a
verdadeira, segundo ella, era ser honesta...

--E a bisca em familia!--resmungou Leopoldina, com odio.

Luiza disse, animada:

--Pois olha que com as tuas paixes, umas atraz das outras...

Leopoldina estacou:

--O que?

--No te podem fazer feliz!

--Est claro que no!--exclamou a outra.--Mas...--procurou a
palavra; no a quiz empregar de certo; disse apenas com um tom
secco:--Divertem-me!

Calaram-se. Luiza pediu o caf.

Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; d'ahi a pouco foram para a
sala.

--Sabes quem me fallou hontem de ti?--disse Leopoldina, indo
estender-se no divan.

--Quem?

--O Castro.

--Que Castro?

--O d'oculos, o banqueiro.

--Ah!

--Muito apaixonado por ti sempre.

Luiza riu.

--Doudo, palavra!--affirmou Leopoldina.

A sala estava s escuras, com as janellas abertas; a rua esbatia-se
n'um crepusculo pardo: um ar languido e dce amaciava a noite.

Leopoldina esteve um momento calada; mas o champagne, a meia
obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar
confidenciasinhas. Estirou-se mais no divan, n'uma attitude toda
abandonada; pz-se a fallar d'elle. Era ainda o Fernando, o poeta.
Adorava-o.

--Se tu soubesses!--murmurava com um ar de extase.-- um amor de rapaz!

A sua voz velada tinha inflexes d'uma ternura calida. Luiza sentia-lhe
o halito e o calor do corpo, quasi deitada tambem, enervada; a sua
respirao alta tinha por vezes um tom suspirado: e a certos detalhes
mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como
de cocegas... Mas passos fortes de botas de taxas subiram a rua, e no
candieiro defronte o gaz saltou com um jacto vivo. Uma branda claridade
pallida penetrou na sala.

Leopoldina ergueu-se logo.--Tinha d'ir j, j, ao accender do gaz.
Estava  espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo s escuras, a
pr o chapo, buscar a sombrinha.--Tinha-lhe promettido, coitado, no
podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir s. Era to longe! Se a
Juliana podesse vir acompanhal-a...

--Vai, sim, filha!--disse Luiza.

Ergueu-se preguiosamente com um grande _ai!_ foi abrir a porta, e deu
de cara com Juliana, na sombra do corredor.

--Credo, mulher, que susto!

--Vinha saber se queriam luz...

--No. V pr um chale para acompanhar a snr.^a D. Leopoldina! Depressa!

Juliana foi correndo.

--E quando appareces tu, Leopoldina?--perguntou Luiza.

Logo que podesse. Para a semana estava com idas d'ir ao Porto vr a
tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz...

A porta abriu-se.

--Quando a senhora quizer...--disse Juliana.

Fizeram grandes _adeuses_, beijaram-se muito. Luiza disse rindo ao
ouvido de Leopoldina:--S feliz!

Ficou s. Fechou as janellas, accendeu as velas, comeou a passear pela
sala, esfregando devagar as mos. E, sem querer, no podia desprender a
ida de Leopoldina que ia vr o seu amante! O seu amante!...

Seguia-a mentalmente:--caminhava depressa de certo fallando com
Juliana; chegava; subia a escada, nervosa; atirava com a porta--e que
delicioso, que avido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tambem
ella amava--e _um_ mais bello, mais fascinante. Porque no tinha vindo?

Sentou-se ao piano preguiosamente; pz-se a cantar baixo, triste, o
fado de Leopoldina:

    E por mais longe que esteja
    Vejo-o sempre ao p de mim!...

Mas um sentimento de solido, d'abandono, veio impaciental-a. Que
scca, estar alli to ssinha! Aquella noite calida, bella e dce,
attrahia-a, chamava-a para fra, para passeios sentimentaes, ou para
contemplaes do co, n'um banco de jardim, com as mos entrelaadas.
Que vida estupida, a d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que ida ir para o
Alemtejo!

As conversas de Leopoldina e a lembrana das suas felicidades
voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe
no sangue. O relogio do quarto comeou lentamente a dar nove horas--e
de repente a campainha retiniu.

Teve um sobresalto: no podia ser ainda Juliana! Poz-se a escutar,
assustada. Vozes fallavam  cancella.

--Minha senhora--veio dizer Joanna baixo-- o primo da senhora que diz
que se vem despedir...

Abafou um grito, balbuciou:

--Que entre!

Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro
franziu-se, Bazilio entrou, pallido, com um sorriso fixo.

--Tu partes!--exclamou ella surdamente, precipitando-se para elle.

--No!--E prendeu-a nos braos.--No! Imaginei que me no recebias a
esta hora, e tomei este pretexto.

Apertou-a contra si, beijou-a; ella deixava, toda abandonada; os seus
labios prendiam-se aos d'elle. Bazilio deitou um olhar rapido, em
redor, pela sala, e foi-a levando abraada, murmurando: Meu amor! minha
filha! Mesmo tropeou na pelle de tigre, estendida ao p do divan.

--Adoro-te!

--Que susto que tive!--suspirou Luiza.

--Tiveste?

Ella no respondeu; ia perdendo a percepo nitida das cousas;
sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! no! no! Os seus olhos
cerraram-se.


Quando a campainha retiniu fortemente s dez horas, Luiza, havia
momentos, sentra-se  beira do divan. Mal teve fora de dizer a
Bazilio:

--Ha-de ser a Juliana, tinha ido fra...

Bazilio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi accender um
charuto. Para quebrar o silencio sentou-se ao piano, tocou alguns
compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, comeou a cantarolar a
aria do 3.^o acto do _Fausto_:

    Al pallido chiarore
    Del astri d'oro...

Luiza, atravs das ultimas vibraes dos seus nervos, ia entrando
na realidade; os seus joelhos tremiam. E ento, ouvindo aquella
melodia, uma recordao foi-se formando no seu espirito, ainda
estremunhado:--era uma noite, havia annos, em S. Carlos, n'um camarote
com Jorge; uma luz electrica dava ao jardim, no palco, um tom livido
de luar legendario; e n'uma altitude extatica e suspirante o tenor
invocava as estrellas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: Que lindo!
E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mez do seu casamento. Ella
estava com um vestido azul-escuro. E  volta, na carruagem, Jorge,
passando-lhe a mo pela cinta, repetia:

    Al pallido chiarore
    Del astri d'oro...

E apertava-a contra si...

Ficra immovel  beira do divan, quasi a escorregar, os braos frouxos,
o olhar fixo, a face envelhecida, o cabello desmanchado. Bazilio ento
veio sentar-se devagarinho junto d'ella.--Em que estava a pensar?

--Nada.

Elle passou-lhe o brao pela cinta, comeou a dizer que havia de
procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais  vontade; no
era mesmo prudente alli em casa d'ella...

E fallando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo
do charuto.

--No te parece que vir eu aqui, todos os dias, pde ser reparado?

Luiza ergueu-se bruscamente, lembrra-lhe Sebastio!... E com uma voz
um pouco desvairada:

--J  to tarde!--disse.

--Tens razo.

Foi buscar o chapo em bicos de ps, veio beijal-a muito, sahiu.

--Luiza sentiu-o accender um phosphoro, fechar devagarinho a cancella.

Estava s; pz-se a olhar em roda, como idiota. O silencio da sala
parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chamma avermelhada. Piscava os
olhos, tinha a bocca scca. Uma das almofadas do divan estava cahida,
apanhou-a.

E com um ar somnambulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E
j vinha com a lamparina, estava a arranjal-a...

Tinha tirado a cuia; subiu  cozinha quasi a correr. A Joanna, que
estivera dormitando, espreguiava-se com bocejos enormes.

Juliana pz-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe;
tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um
sorriso para Joanna:

--E ento a que horas veio o primo da senhora?

--Veio logo que vossemec sahiu, estavam a dar as nove.

--Ah!

Desceu com a lamparina; e sentindo Luiza na alcova despir-se:

--A senhora no quer ch?--perguntou, com muito interesse.

--No.

Foi  sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pz-se
a olhar em redor, devagar, andando com um passo subtil... De repente
agachou-se, anciosamente: ao p do divan uma cousa reluzia. Era uma
travessa de Luiza, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar
no quarto em pontas de ps, pousou-a no toucador, entre os rlos de
cabello.

--Quem anda ahi?--perguntou da alcova a voz somnolenta de Luiza.

--Sou eu, minha senhora, sou eu, estive a fechar a sala. Muito boas
noites, minha senhora!


quella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou pelas salas. Estavam
quasi desertas. Dous sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados
em attitudes lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, alm, junto a
mesinhas redondas, pessoas de cala branca mastigavam torradas com uma
satisfao placida; as janellas estavam fechadas, a noite quente, e o
calor molle do gaz abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo,
de repente, sahiu o ruido irritado de uma altercao; trocavam-se
injurias, gritava-se:--Mente! O asno  voss!

Bazilio estacou, escutando. Mas, subitamente, fez-se um grande
silencio; uma das vozes disse com brandura:

--Paus!

A outra respondeu com benevolencia:

-- o que devia ter feito ha pouco.

E immediatamente a questo rebentou de novo, estridente. Praguejavam,
diziam obscenidades.

Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de p, apoiado ao taco,
seguia com uma immobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas
viu Bazilio, veio para elle rapidamente, e muito interessado:

--Ento?

--Agora mesmo--disse Bazilio mordendo o charuto.

--Emfim, hein?--exclamou Reynaldo, arregalando os olhos, com uma grande
alegria.

--Emfim!

--Ainda bem, menino! Ainda bem!

Batia-lhe no hombro, commovido.

Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma
perna no ar, para dar com mais segurana o _effeito_, dizia com a voz
constrangida pela attitude:

--Estimo, estimo, porque essa cousa comeava a arrastar...

Tac! Falhou a carambola.

--No dou meia!--murmurou com rancor.

E chegando-se a Bazilio, a dar giz no taco:

--Ouve c...

Fallou-lhe ao ouvido.

--Como um anjo, menino!--suspirou Bazilio.




VI


Foi Juliana que na manh seguinte veio acordar Luiza, dizendo  porta
da alcova com a voz abafada, em confidencia:

--Minha senhora! Minha senhora!  um criado com esta carta, diz que vem
do htel.

Foi abrir uma das janellas, em bicos de ps; e voltando  alcova com
uma cautela mysteriosa:

--E est  espera da resposta, est  porta.

Luiza, estremunhada, abriu o largo enveloppe azul com um
monogramma--dous BB, um purpura, outro ouro, sob uma cora de conde.

--Bem, no tem resposta.

No tem resposta--foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado
ao corrimo, fumando um grande charuto, e cofiando as suias pretas.

--No tem resposta? Bem, muito bom dia.--Levou o dedo seccamente  aba
do cco, e desceu, gingando.

Perfeito homem! foi pensando Juliana, pela escada da cozinha.

--Quem bateu, snr.^a Juliana?--perguntou-lhe logo a cozinheira.

Juliana resmungou:

--Ninguem, um recado da modista.

Desde pela manh a Joanna achava-lhe o ar exquisito. Sentira-a desde
as sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraas da sala
de jantar, arrumar as louas no aparador. E com uma azafama! Ouvira-a
cantar a _Carta adorada_, ao mesmo tempo que os canarios, nas varandas
abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu
caf  cozinha no palestrou como de costume; parecia preoccupada e
ausente.

Joanna at lhe perguntou:

--Sente-se peor, snr.^a Juliana?

--Eu? Graas a Deus, nunca me senti to bem.

--Como a vejo to calada...

--A malucar c por dentro... A gente nem sempre est para grulhar.

Apesar de serem nove horas no quizera acordar a senhora. Deixal-a
descanar, coitada--disse. Foi em pontas de ps encher devagarinho a
bacia grande do banho, no quarto; para no fazer ruido, sacudiu no
corredor as saias, o vestido da vespera: e os seus olhos brilharam
avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era
o bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: Porque no vens?... Se
soubesses o que me fazes soffrer!... Teve-o um momento na mo,
mordendo o beio, o olhar fixo n'um calculo agudo; por fim tornou a
mettel-o na algibeira de Luiza, dobrou o vestido, foi estendel-o com
muito cuidado na _causeuse_.

Enfim, mais tarde, sentindo o _cuco_ dar horas, decidiu-se a ir dizer a
Luiza, com uma voz meiga:

--So dez e meia, minha senhora!

Luiza, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bazilio: No
pudera--escrevia ele--estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava.
Mal dormira! Erguera-se de manh muito cdo para lhe jurar que estava
louco, e que punha a sua vida aos ps d'ella. Compozera aquella prosa
na vespera, no Gremio, s tres horas, depois de alguns _robbers_
d'_whist_, um bife, dous copos de cerveja e uma leitura preguiosa da
_Illustrao_. E terminava, exclamando:--Que outros desejem a fortuna,
a gloria, as honras, eu desejo-te a ti! S a ti, minha pomba, porque
tu s o unico lao que me prende  vida, e se manh perdesse o teu
amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existencia
inutil!--Pedira mais cerveja, e levra a carta para a fechar em casa,
n'um enveloppe com o seu monogramma, porque sempre fazia mais effeito.

E Luiza tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a
primeira vez que lhe escreviam aquellas sentimentalidades, e o seu
orgulho dilatava-se ao calor amoroso que sahia d'ellas, como um corpo
resequido que se estira n'um banho tepido: sentia um acrescimo de
estima par si mesma, e parecia-lhe que entrava emfim n'uma existencia
superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto
differente, cada passo conduzia a um extase, e a alma se cobria d'um
luxo radioso de sensaes!

Ergueu-se d'um salto, passou rapidamente um roupo, veio levantar os
transparentes da janella... Que linda manh! Era um d'aquelles dias
do fim d'agosto em que o estio faz uma pausa; ha prematuramente, no
calor e na luz, uma certa tranquillidade outonal; o sol cahe largo,
resplandecente, mas pousa de leve; o ar no tem o embaciado canicular,
e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais
livremente; e j se no v na gente que passa o abatimento molle da
calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha
dormido a noite d'um somno so, continuo, e todas as agitaes, as
impaciencias dos dias passados pareciam ter-se dissipado n'aquelle
repouso. Foi-se vr ao espelho; achou a pelle mais clara, mais fresca,
e um enternecimento humido no olhar;--seria verdade ento o que dizia
Leopoldina, que no havia como uma maldadesinha para fazer a gente
bonita? Tinha um amante, ella!

E immovel no meio do quarto, os braos cruzados, o olhar fixo, repetia:
Tenho um amante! Recordava a sala na vespera, a chamma aguada das
velas, e certos silencios extraordinarios em que lhe parecia que a
vida parra, em quanto os olhos do retrato da mi de Jorge, negros na
face amarella, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura.
Mas Juliana entrou com um taboleiro de roupa passada. Eram horas de se
vestir...

Que requintes teve n'essa manh! Perfumou a agua com um cheiro de
_Lubin_, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava
por ser rica! Queria as bretanhas e as hollandas mais caras, as
mobilias mais apparatosas, grossas joias inglezas, um coup forrado
de setim... Porque nos temperamentos sensiveis as alegrias do corao
tendem a completar-se com as sensualidades do luxo: o primeiro erro
que se installa n'uma alma at ahi defendida, facilita logo aos outros
entradas tortuosas;--assim, um ladro que se introduz n'uma casa vai
abrindo subtilmente as portas  sua quadrilha esfomeada.

Subiu para o almoo, muito fresca, com o cabello em duas tranas, um
roupo branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janellas, porque
apesar de no estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais
frescura! E, vendo que lhe esquecera o leno, correu a buscar-lhe um,
que perfumou com agua de colonia. Servia-a com ternura. Viu-a comer
muitos figos:

--No lhe vo fazer mal, minha senhora!--exclamou quasi lacrimosamente.

Andava em redor d'ella com um sorriso servil, sem ruido: ou defronte da
mesa, com os braos cruzados, parecia admiral-a com orgulho, como um
sr precioso e querido, todo seu, a _sua ama!_ O seu olhar esbugalhado
apossava-se d'ella.

E dizia consigo:

--Grande cabra! Grande bebeda!

Luiza, depois de almoo, veio para o quarto estender-se na _causeuse_,
com o seu _Diario de Noticias_. Mas no podia lr. As recordaes
da vespera redemoinhavam-lhe n'alma a cada momento, como as folhas
que um vento d'outono levanta a espaos d'um cho tranquillo: certas
palavras d'elle, certos impetos, toda a sua maneira d'amar... E ficava
immovel, o olhar afogado n'um fluido, sentindo aquellas reminiscencias
vibrarem-lhe muito tempo, dcemente, nos nervos da memoria. Todavia a
lembrana de Jorge no a deixava; tivera-a sempre no espirito, desde
a vespera; no a assustava, nem a torturava; estava alli, immovel mas
presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se elle
tivesse morrido, ou estivesse to longe que no podesse voltar, ou a
tivesse abandonado! Ela mesmo se espantava de se sentir to tranquilla.
E todavia impacientava-a ter constantemente aquella ida no espirito,
impassivel, com uma obstinao espectral; punha-se instinctivamente a
accumular as justificaes: No fra culpa sua. No abrira os braos a
Bazilio voluntariamente!... Tinha sido uma _fatalidade_: fra o calor
da hora, o crepusculo, uma pontinha de vinho talvez... Estava douda,
de certo. E repetia comsigo as attenuaes tradicionaes: no era a
primeira que enganra seu marido; e muitas era apenas por vicio, ella
fra por paixo... Quantas mulheres viviam n'um amor illegitimo e eram
illustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E elle amava-a
tanto!... Seria to fiel, to discreto! As suas palavras eram to
captivantes, os seus beijos to estonteadores!... E emfim que lhe havia
de fazer agora? _J agora_!...

E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escriptorio. Logo ao entrar o seu
olhar deu com a photographia de Jorge--a cabea de tamanho natural,--no
seu caixilho envernizado de preto. Uma commoo comprimiu-lhe o
corao; ficou como _tolhida_--como uma pessoa encalmada de ter
corrido, que entra na frieza d'um subterraneo; e examinava o seu
cabello frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas
encruzadas que reluziam por cima. Se elle soubesse matava-a!... Fez-se
muito pallida. Olhava vagamente em redor o casaco de velludo de
trabalho dependurado n'um prego, a manta em que elle embrulhava os ps
dobrada a um lado, as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa
ao fundo, e o ptesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... Matava-a
de certo!

Aquelle quarto estava to penetrado da personalidade de Jorge, que lhe
parecia que elle ia voltar, entrar d'ahi a bocado... Se elle viesse
de repente!... Havia tres dias que no recebia carta--e quando ella
estivesse alli a escrever ao seu amante, n'um momento o _outro_ podia
apparecer e apanhal-a!... Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro
s chegava s cinco horas; e depois elle dizia na ultima carta que
ainda se demorava um mez, talvez mais...

Sentou-se, escolheu uma folha de papel, comeou a escrever, na sua
letra um pouco gorda:


                                         _Meu adorado Bazilio_.


Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um _palpite_ de que
elle vinha, ia entrar... Era melhor no se pr a escrever, talvez!...
Ergueu-se, foi  sala devagar, sentou-se no divan; e, como se o
contacto d'aquelle largo soph e o ardor das recordaes que elle lhe
trazia da vespera lhe tivesse dado a coragem das aces amorosas e
culpadas, voltou muito decidida ao escriptorio, escreveu rapidamente:


No imaginas com que alegria recebi esta manh a tua carta...


A penna velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudil-a, como
lhe tremia um pouco a mo, um borro negro cahiu no papel. Ficou
toda contrariada, pareceu-lhe aquillo um _mau agouro_. Hesitou um
momento,--e coando a cabea, com os cotovlos sobre a mesa, sentia
Juliana varrer fra o patamar, cantarolando a _Carta adorada_. Emfim,
impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miudos--e
atirou-os para um caixo de pau envernizado com duas argolas de metal,
que estava ao canto junto  mesa, onde Jorge deitava os rascunhos
velhos e os papeis inuteis: chamavam-lhe o _sarcophago_; Juliana, de
certo, descuidra-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de
papelada.

Escolheu outra folha, recomeou:


                                         _Meu adorado Bazilio_.

No imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manh, ao
acordar. Cobri-a de beijos...


Mas o reposteiro franziu-se n'uma prega molle, a voz de Juliana disse
discretamente:

--Est alli a costureira, minha senhora.

Luiza, sobresaltada, tinha tapado a folha de papel com a mo.

--Que espere.

E continuou:


...Que tristeza que fosse a carta e que no fosses tu que alli
estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em to pouco tempo te
apossaste do meu corao, mas a verdade  que nunca deixei de te amar.
No me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu
desejo a tua estima, mas  que nunca deixei de te amar e ao tornar
a vr-te, depois d'aquella estupida viagem para to longe, no fui
superior ao sentimento que me impellia para ti, meu adorado Bazilio.
Era mais forte que eu, meu Bazilio. Hontem, quando aquella maldita
criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bazilio, fiquei
como morta; mas quando vi que no, nem eu sei, adorei-te! E se tu
me tivesses pedido a vida dava-t'a, porque te amo, que eu mesma, me
estranho... Mas para que foi aquella mentira, e para que vieste tu?
Mau! tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas no posso, meu
adorado Bazilio!  superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou
tua, que te perteno corpo e alma, parece-me que te amo mais, se 
possivel...


--Onde est ella? Onde est ella?--disse uma voz na sala.

Luiza ergueu-se, com um salto, livida. Era Jorge! Amarrotou
convulsivamente a carta, quiz escondel-a no bolso,--o roupo no tinha
bolso! E desvairada, sem reflexo, arremessou-a para o _sarcophago_.
Ficou de p, esperando, as duas mos apoiadas  mesa, a vida suspensa.

O reposteiro ergueu-se,--e reconheceu logo o chapo de velludo azul de
D. Felicidade.

--Aqui mettida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu,
filha, ests como a cal...

Luiza deixou-se cahir no _fauteuil_, branca e fria, disse com um
sorriso canado:

--Estava a escrever, deu-me uma tontura...

--Ai! Tonturas, eu!--acudiu logo D. Felicidade-- uma desgraa, a cada
momento a agarrar-me aos moveis, at tenho medo d'andar s. Falta de
purgas!

--Vamos para o quarto!--disse logo Luiza.--Estamos melhor no quarto.

Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe.

Atravessaram a sala: Juliana comeava a arrumar. Luiza, ao passar, viu
na pedra da _console_, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza: era
da vespera, do charuto d'_elle_! Sacudiu-a--e ao erguer os olhos, ficou
pasmada de se vr to pallida.

A costureira vestida de preto, com um chapo de fitas rxas, esperava
sentada  beira da _causeuse_, com um olhar infeliz e o seu embrulho
nos joelhos; vinha provar o corpete d'um vestido composto; assentou,
pregou, alinhavou, fallando baixo, com uma humildade triste e uma
tossinha scca ; e apenas ella sahiu, de leve, com o seu andar de
sombra, o chale tinto muito cingido s omoplatas magras,--D. Felicidade
comeou logo a fallar d'_elle_, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no
Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera fallar! Fizera-lhe uma
cortezia muito scca, por demais, e tic-tic por alli fra, que se diria
que ia fugido! Que te parece? Ai! aquellas indifferenas matavam-na. E
no as comprehendia, no, realmente no as comprehendia...

--Porque emfim--exclamava--eu bem me conheo, no sou nenhuma criana,
mas tambem no sou nenhum caco! Pois no  verdade?

--Certamente--disse Luiza distrahida. Lembrava-lhe a carta.

--Olha que aqui onde me vs com os meus quarenta, decotada, ainda
valho! O que so hombros e collo  do melhor!

Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu:

--Do melhor! Tomaram-no muitas novas!

--Creio bem--concordou Luiza, sorrindo vagamente.

--E elle tambem no  nenhum rapazinho novo...

--No...

--Mas muito bem conservado!--E os olhos luziam-lhe--Para fazer ainda
uma mulher muito feliz!

--Muito...

--Um homem d'appetecer!--suspirou D. Felicidade.

E Luiza, ento:

--Tu esperas um instantinho! Vou l dentro e volto j.

--Vai, filha, vai.

Luiza correu ao escriptorio, direita ao _sarcophago_. Estava vazio! E a
carta d'ella, Santo Deus!

Chamou logo Juliana, aterrada.

--Voss despejou o caixo dos papeis?

--Despejei, sim, minha senhora--respondeu muito tranquillamente.

E com interesse:

--Porqu, perdeu-se algum papel?

Luiza fazia-se pallida.

--Foi um papel que eu atirei para o caixo. Onde o despejou voss?

--No barril do lixo, como  costume, minha senhora; imaginei que nada
servia...

--Ah! deixe vr!

Subiu rapidamente  cozinha.

Juliana, atraz, ia dizendo:

--Ora esta! Pois ainda no ha cinco minutos! O caixo estava mais
cheio... Andei a dar uma arrumadella no escriptorio... Valha-me Deus,
se a senhora tem dito...

Mas o barril do lixo estava vazio. Joanna tinha-o ido despejar abaixo
n'aquelle instantinho; e vendo a inquietao de Luiza:

--Porqu, perdeu-se alguma cousa?

--Um papel--disse Luiza, que olhava em redor, pelo cho, muito branca.

--Elle iam uns poucos de papeis, minha senhora--disse a rapariga--eu
deitei tudo ao despejo.

--Podia ter ficado algum cahido por fra, snr.^a Joanna--lembrou
timidamente Juliana.

--V vr, v vr, Joanna--acudiu Luiza com uma esperana.

Juliana parecia afflicta:

--Jesus, Senhor! Eu podia l adivinhar! Mas para que no disse a
senhora...?

--Bem, bem, a culpa no  sua, mulher...

--Credo, que at se me est a embrulhar o estomago... E  cousa de
importancia, minha senhora?

--No,  uma conta...

--Valha-me Deus!...

Joanna voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luiza agarrou-o,
leu:--... o diametro do primeiro poo de explorao...

--No, no  isto!--exclamou toda contrariada.

--Ento foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, no est mais nada.

--Viu bem?

--Esquadrinhei tudo...

E Juliana continuava, desolada:

--Antes queria perder dez tostes! Uma assim! Eu, minha senhora, podia
l adivinhar...

--Bem, bem!--murmurou Luiza descendo.

Mas estava assustada, sentia mesmo uma suspeita indefinida...
Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na vespera a Bazilio, e que
mettera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto,
agitada.

D. Felicidade tirra o chapo, acommodra-se na _causeuse_.

--Tu desculpas, hein?--fez Luiza.

--Anda, filha, anda! Que ?

--Perdi uma conta--respondeu.

Foi ao guarda-vestidos, achou logo o bilhete na algibeira... Aquillo
serenou-a. A carta tinha ido para o lixo de certo. Mas que imprudencia!

--Bem, acabou-se!--disse, sentando-se resignada.

E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:

--Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas v l! Olha que  segredo.

Luiza ficou logo sobresaltada.

--Tu sabes--continuou D. Felicidade, devagar, com pausas--que a minha
criada, a Josepha, est para casar com o gallego... O homem  de ao p
de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que tem uma virtude
para fazer casamentos que  uma cousa milagrosa... Diz que  o mais que
ha... Em deitando a sorte a um homem,--o homem entra-lhe uma tal paixo
que se arranja logo o casamento, e  a maior felicidade.

Luiza tranquillisada, sorriu.

--Escuta--acudiu D. Felicidade--no te ponhas j com as tuas cousas...

No seu tom grave havia um respeito supersticioso.

--Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas,
outros que no faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim
toda a sorte de ingratido... Em a mulher deitando o encanto, os homens
comeam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e esto pelo
beio... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo...

--De deitar uma sorte ao Conselheiro!--exclamou Luiza.

--Que te parece?

Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou.
Contou outros casos: um fidalgo que deshonrra uma lavadeira; um
homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma _bebeda_...
Em todos a _sorte_ operra d'um modo fulminante, produzindo um amor
subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se
estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a p, a cavallo,
na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e
humildes como escravos acorrentados...

--Mas o gallego--continuava ella muito excitada--diz que para ir 
terra, fallar  mulher, levar o retrato do Conselheiro,  necessario o
retrato d'elle, o meu,  necessario o meu, ir fallar, voltar--quer sete
moedas!...

--Oh D. Felicidade!--fez Luiza reprehensivamente.

--No me digas, no venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos...

E erguendo-se:

--Mas so sete moedas! Sete moedas!--exclamou, arregalando os olhos.

Juliana appareceu  porta, e muito baixinho, com um sorriso:

--A senhora faz favor?

Chamou-a para o corredor, em segredo:

--Esta carta. Que vem do htel.

Luiza fez-se escarlate.

--Credo, mulher! no  necessario fazer mysterios!

Mas no entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lapis,
escripta  pressa:


Meu amor--dizia Bazilio--por um feliz acaso descobri o que
precisavamos, um ninho discreto para nos vrmos... E indicava a rua, o
numero, os signaes, o caminho mais perto. ... Quando vens, meu amor?
Vem manh. Baptisei a casa com o nome de _Paraiso_: para mim, minha
adorada,  com effeito o paraiso. Eu espero-te l desde o meio dia:
logo que te aviste, deso.


Aquella precipitao amorosa em arranjar o _ninho_--provando uma paixo
impaciente, toda occupada d'ella--produziu-lhe uma dilatao dce
do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle _Paraiso_ secreto, como n'um
romance, lhe dava a esperana de felicidades excepcionaes; e todas as
suas inquietaes, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente
sob uma sensao calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta.

Voltou ao quarto, com o olhar risonho.

--Que te parece, hein?--perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua ida
occupava tyrannicamente.

--O que?

--Achas que mande o homem a Tuy?

Luiza encolheu os hombros; veio-lhe um tedio de taes enredos de
bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga
romantica achava repugnante aquelle sentimentalismo senil.

--Tolices!--disse com muito desdem.

--Oh filha! no me digas, no me digas!--acudiu desolada D. Felicidade.

--Bem, ento manda, manda!--fez Luiza, j impaciente.

--Mas so sete moedas!--exclamou D. Felicidade, quasi chorosa.

Luiza poz-se a rir.

--Por um marido? Acho barato...

--E se a sorte falha?

--Ento  caro!

D. Felicidade deu um grande _ai!_ Estava muito infeliz, n'aquella
hesitao entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da
economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa:

--Deixa l, filha! No ho-de ser necessarias bruxarias!...

D. Felicidade ergueu os olhos ao co.

--Vaes sahir?--perguntou melancolicamente.

--No.

D. Felicidade propoz-lhe ento que viesse com ella  Encarnao.
Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furunculo! E viam a armao
da igreja para a festa, estreava-se o frontal novo, um primor!

--E estou tambem com vontade de ir rezar uma estaosinha, para
alliviar c por dentro--ajuntou, suspirando.

Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vr altares alumiados, ouvir o ciciar
de rezas no cro, como se os requintes devotos dissessem bem com as
suas disposies sentimentaes. Comeou a vestir-se depressa.

--Como tu ests gorda, filha!--exclamou D. Felicidade admirada,
vendo-lhe os hombros, o collo.

Luiza diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente,
contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a
pelle branca e fina.

--Redondinha--disse, namorando-se.

--Redondinha? Vaes-te a fazer uma bola!

E acrescentou, tristemente:

--Tambem com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos,
sem cuidados...

--Vamos l, minha rica--disse Luiza--que as tristezas no te tem feito
emmagrecer...

--Pois sim, pois sim! Mas...--e parecia desolada, como curvada sob as
suas proprias ruinas--c por dentro  uma desgraa, estomago, figado...

--Se a mulher de Tuy faz o milagre, pe tudo isso como novo!

D. Felicidade sorriu, com uma duvida desconsolada.

--Sabes que tenho um chapo lindo?--exclamou de repente Luiza--No
viste? Lindo!

Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de
myosotis.

--Que te parece?

-- um primor!

Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas
azues.

--D frescura--fez D. Felicidade.

--No  verdade?

Pl-o com muito cuidado, toda sria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse
havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem...

Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: achava to delicioso
viver, sahir, ir  Encarnao, pensar no seu amante!... E toda no ar,
procurava pelo quarto as chavinhas do toucador.

Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia vr! Sahiu
correndo, tontinha, cantarolando:

    Amici, la notte  bella...
    La ra la la...

Quasi topou com Juliana, que varria o corredor.

--No deixe de engommar a saia bordada para manh, Juliana!

--Sim, minha senhora. Est em gomma!

E seguindo-a com um olhar feroz:

--Canta, piorrinha, canta, cabrasinha, canta, bebedasinha!...

E ella mesma, tomada subitamente d'um jubilo agudo, atirou vassouradas
rapidas, soltando na sua voz rachada:

    Alm d'manh termina a campanha,
        P-o-o-or aqui se diz...
    Se tal fr verdade, se no fr patranha...

E com um espremido emphatico:

    Se-e-rei bem feliz!

Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastio e Julio passeavam
em S. Pedro de Alcantara.

Sebastio estivera contando a sua scena com Luiza, e como desde ento
a sua estima por ella crescera. Ao principio escabrera-se, sim...

--Mas teve razo! Assim de surpreza, ouvir uma d'aquellas! E eu levei a
cousa mal, fui muito  bruta...

Depois, coitadinha, concordra logo, mostrra-se muito desgostosa, toda
zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... At tinha as lagrimas nos
olhos.

--Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao primo, dizer o que se
passava... Que te parece?

--Sim--disse vagamente Julio.

Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto
terreo cavava-se, com uma cr mais biliosa.

--Ento achas que fiz bem, hein?

E depois d'uma pausa:

--Que ella  uma senhora de bem s direitas! s direitas, Julio!

Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar
de trovoada: grossas nuvens pesadas e pardas iam-se accumulando,
ennegrecendo para o lado da Graa por traz das collinas: um vento
rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas folhas das arvores.

--De maneira que agora estou descanado--resumiu Sebastio.--No te
parece?

Julio encolheu os hombros com um sorriso triste:

--Quem me dera os teus cuidados, homem!--disse.

E fallou ento com amargura nas suas preoccupaes.--Havia uma semana
que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escla,
e preparava-se para elle. Era a sua taboa de salvao, dizia: se
apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientella podia vir, e a
fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza
da sua superioridade no o tranquillisava--porque emfim em Portugal,
no  verdade? n'estas questes a sciencia, o estudo, o talento so
uma historia, o principal so os padrinhos! Elle no os tinha--e o seu
concorrente, um semsaboro, era sobrinho d'um director geral, tinha
parentes na camara, era um colosso! Por isso elle trabalhava a valer,
mas parecia-lhe indispensavel metter tambem as suas cunhas! Mas quem?

--Tu no conheces ninguem, Sebastio?...

Sebastio lembrava-se d'um primo seu, deputado pelo Alemtejo, um
gordo, da maioria, um pouco fanhoso. Se Julio queria, fallava-lhe...
Mas sempre ouvira dizer que a Escla no era gente de empenhos e de
intriga... De resto tinham o conselheiro Accacio...

--Uma besta!--fez Julio--Um parlapato! Quem faz l caso d'aquillo?
O teu primo, hein! O teu primo parece-me bom!  necessario alguem que
falle, que trabalhe...--Porque acreditava muito nas influencias dos
empenhos, no dominio dos personagens, nas docilidades da fortuna
quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado
d'ameaa:--Que eu hei-de-lhes mostrar o que  saber as cousas,
Sebastio!

Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastio interrompeu-o:

--Ella ahi vem.

--Quem?

--A Luiza.

Passava com effeito, por fra do Passeio, toda vestida de preto,
s.--Respondeu  cortezia dos dous homens com um sorriso, _adeusinhos_
da mo, um pouco corada.

E Sebastio immovel, seguindo-a devotamente com os olhos:

--Se aquillo no respira mesmo honestidade! Vai s lojas... Santa
rapariga!


Ia encontrar Bazilio no _Paraiso_ pela primeira vez. E estava muito
nervosa: no pudera dominar, desde pela manh, um medo indefinido que
lhe fizera pr um vo muito espsso, e bater o corao ao encontrar
Sebastio. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, multipla,
impellia-a, com um estremecimentosinho de prazer.--Ia, emfim, ter
ella propria aquella aventura que lra tantas vezes nos romances
amorosos! Era uma frma nova do amor que ia experimentar, sensaes
excepcionaes! Havia tudo--a casinha mysteriosa, o segredo illegitimo,
todas as palpitaes do perigo! Porque o apparato impressionava-a mais
que o sentimento; e a _casa_ em si interessava-a, attrahia-a mais que
Bazilio! Como seria? Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de
Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli uma correnteza de
casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, n'uma quinta, com
arvoredos murmurosos e relvas ffas; passeariam ento, com as mos
enlaadas, n'um silencio poetico; e depois o som d'agua que cahe nas
bacias de pedra daria um rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas
era n'um terceiro andar,--quem sabe como seria dentro? Lembrava-lhe um
romance de Paulo Fval em que o heroe, poeta e duque, frra de setins e
tapearias o interior d'uma choa; encontra alli a sua amante; os que
passam, vendo aquelle casebre arruinado, do um pensamento compassivo
 miseria que de certo o habita--em quanto dentro, muito secretamente,
as flres se esfolham nos vasos de Svres e os ps ns pisam Gobelins
veneraveis! Conhecia o gosto de Bazilio,--e o _Paraiso_ de certo era
como no romance de Paulo Fval.

Mas no largo de Cames reparou que o sujeito de pera comprida, o do
Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinao de gallo; tomou logo
um coup. E ao descer o Chiado, sentia uma sensao deliciosa em ser
assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo
desdem os que passavam, no movimento da vida trivial--em quanto ella ia
para uma hora to romanesca da vida amorosa! Todavia  maneira que se
aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contraco d'acanhamento, como um
plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um
palacio. Imaginava Bazilio esperando-a estendido n'um divan de sda: e
quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, no
achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle
devia ter conhecido mulheres to bellas, to ricas, to educadas no
amor! Desejava chegar n'um coup seu, com rendas de centos de mil reis,
e ditos to espirituosos como um livro...

A carruagem parou ao p d'uma casa amarellada, com uma portinha
pequena. Logo  entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada,
de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a
cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma
janella com um gradeadosinho d'arame, parda do p accumulado, coberta
de teias d'aranha, coava a luz suja do saguo. E por traz d'uma
portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um bero, o chorar doloroso
d'uma criana.

Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo:

--To tarde! sbe! Pensei que no vinhas. O que foi?

A escada era to esguia, que no podiam subir juntos. E Bazilio,
caminhando adiante, d'esguelha:

--Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido
da rua...

Empurrou uma cancella, fl-a entrar n'um quarto pequeno, forrado de
papel s listras azues e brancas.

Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada,
feita de remendos juntos de chitas differentes: e os lenoes
grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente
entreabertos...

Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraada. E os seus olhos, muito
abertos, iam-se fixando--nos riscos ignobeis da cabea dos phosphoros,
ao p da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta
entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde
se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma
tunica azul fluctuante, espalhava flres voando... Sobre tudo uma larga
photographia, por cima do velho canap de palhinha, fascinava-a: era um
individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar,
o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de calas brancas, com as
pernas muito afastadas, pousava uma das mos sobre um joelho, e a outra
muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do
caixilho, como sobre a pedra d'um tumulo, pendia d'um prego de cabea
amarella, uma cora de perpetuas!

--Foi o que se pde arranjar--disse-lhe Bazilio.--E foi um acaso: 
muito retirado,  muito discreto... No  muito luxuoso...

--No--fez ella, baixo.--Levantou-se, foi  janella, ergueu uma ponta
da cortininha de cassa fixada  vidraa: defronte eram casas pobres: um
sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta;  entrada d'uma lojita
balouava-se um ramo de carqueja ao p d'um mao de cigarros pendente
d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada embalava
tristemente no collo uma criana doente que tinha crostas grossas de
chagas na sua cabecinha cr de melo.

Luiza mordia os beios, sentia-se entristecer. Ento ns de dedos
bateram discretamente  porta. Ella assustou-se, desceu rapidamente o
vo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de _ss_ mellifluos,
ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, suas chavesinhas...

--Bem, bem!--disse Bazilio apressado, batendo com a porta.

--Quem ?

-- a patra.

O co pozera-se a ennegrecer; j a espaos grossas gtas de chuva se
esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais
melancolico.

--Como descobriste tu isto?--perguntou Luiza, triste.

--Inculcaram-m'o.

Outra gente, ento, tinha vindo alli, amado alli? pensou ella. E a
cama pareceu-lhe repugnante.

--Tira o chapo--disse Bazilio, quasi impaciente--ests-me a fazer
afflico com esse chapo na cabea.

Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi pl-o no canap de
palhinha, desconsoladamente.

Bazilio tomou-lhe as mos, e attrahindo-a, sentando-se na cama:

--Ests to linda!--Beijou-lhe o pescoo, encostou a cabea ao peito
d'ella. E com a vista muito quebrada:

--O que eu sonhei comtigo esta noite!

Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E
immediatamente bateram  porta, com pressa.

--Que ?--bradou Bazilio furioso.

A voz cheia de _ss_ explicou que esquecera um cobertor na varanda que
estava a seccar. Se se encharcasse, que perdio!...

--Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!--berrou Bazilio.

--D-lhe o cobertor...

--Que a leve o diabo!

E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus hombros ns,
abandonava-se com uma vaga resignao, entre os joelhos de
Bazilio--vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.

Assim um _yacht_ que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca
vai encalhar, ao partir, nos lodaaes do rio baixo; e o mestre
aventureiro que sonhava com os incensos e os almiscares das florestas
aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros
dos esgotos.


Apenas Luiza comeou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem,
vai ter com o _gajo_!

E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de
baixeza que corria a abrir a porta, alvoroada, quando Luiza voltava
s cinco horas. E que zelo! Que exactides! Um boto que faltasse, uma
fita que se extraviava, e eram mil perdes, minha senhora, desculpe
por esta vez, muitas lamentaes humildes. Interessava-se com devoo
pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar...

Todavia, desde as idas ao _Paraiso_, o seu trabalho augmentra: todos
os dias agora tinha d'engommar; muitas vezes era preciso ensaboar 
noite collares, rendinhas, punhos, n'uma bacia de lato, at s onze
horas. s seis da manh, mais cedo, j estava com o ferro s voltas.
E no se queixava, at dizia a Joanna:

--Ai!  um regalo vr assim uma senhora aceada!... Que as ha! credo!
No, no  por dizer, mas at me d gosto. Depois, graas a Deus, agora
tenho saude, o trabalho no me assusta!

No tornra a resmungar da patra. Affirmava mesmo  Joanna
repetidamente:

--A senhora! ai,  uma santa! Muito boa d'aturar... No a ha melhor!

O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, da contraco amarga.
s vezes, ao jantar ou  noite, costurando calada ao p de Joanna, 
luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe
n'uma dilatao jovial.

--A snr.^a Juliana tem o ar de quem est a pensar em cousas boas...

--A malucar c por dentro, snr.^a Joanna!--respondia com satisfao.

Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com tranquillidade do
vestido de sda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes
do doutor. Disse apenas:

--Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista!

J outras vezes revelra por palavras vagas a ida d'uma abundancia
proxima. Joanna at lhe dissera:

--A snr.^a Juliana espera alguma herana?

--Talvez!--respondeu seccamente.

E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela manh a via arrebicar-se,
perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando,
sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo
d'estourar! Odiava-a pelas _toilettes_, pelo ar alegre, pela roupa
branca, pelo _homem_ que ia vr, por todos os seus regalos de senhora.
A cabra! Quando ella sahia ia espreitar, vl-a subir a rua, e
fechando a vidraa com um risinho rancoroso:

--Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se
ha-de!

Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias s duas horas. Na
rua j se dizia que a do Engenheiro tinha agora o seu S. Miguel.

Apenas ella dobrava a esquina o conciliabulo juntava-se logo a
cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o peralta. Onde
seria?--era a grande curiosidade da carvoeira.

--No htel--murmurava o Paula.--Que nos hteis  escandalo bravio. Ou
talvez--acrescentava com tedio--n'alguma d'essas possilgas da baixa!

A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era to apropositada!

--Vacca solta lambe-se toda, snr.^a Helena!--rosnava o Paula.--So
todas o mesmo!

--Menos isso!--protestava a estanqueira--Que eu sempre fui uma mulher
honesta!

E ella?--reclamava a carvoeira--ninguem tinha que lhe dizer!

--Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sdas! 
uma cambada. Eu  que o sei!--E acrescentava gravemente:--No povo ha
mais moralidade. O povo  outra raa!--E com as mos enterradas nos
bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabea baixa,
o olhar cravado no cho.--Se !--murmurava--Se !--Como se estivesse
positivamente achando as pedrinhas da calada menos numerosas que as
virtudes do povo!


Sebastio, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas,
ficou aterrado quando, ao voltar, a Joanna lhe deu as grandes
novidades: que a Luizinha agora sahia todos os dias s duas horas,
que o primo no voltra; a Gertrudes  que lh'o dissera; no se fallava
na rua n'outra cousa...

--Ento a pobre senhora nem sequer pde ir s lojas, aos seus
arranjos!--exclamou Sebastio.--A Gertrudes  uma desavergonhada, e
nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os ps. Vir com
esses mexericos!...

--Cruzes! Olha o destempero!--replicou muito escandalisada a tia
Joanna.--Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na
rua! Que ella at a defende, at ella  que a defende! At se esteve
a queixar que se falla! que se falla! Boa!--E a tia Joanna sahiu,
resmungando:--Olha o destempero, credo!

Sebastio chamou-a, aplacou-a:

--Mas quem falla, tia Joanna?

--Quem?--E muito emphaticamente:--Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua!

Sebastio ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se
punha a sahir todos os dias, uma senhora, que quando estava Jorge no
sahia do buraco! A visinhana que murmurra das visitas do outro,
naturalmente comeava a commentar as sahidas d'ella! Estava-se a
desacreditar! E elle no podia fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra
scena? No podia.

Procurou-a. No lhe queria de certo tocar em nada, ia s vl-a. No
estava. Voltou d'ahi a dous dias. Juliana veio-lhe dizer  cancella,
com o seu sorriso amarellado: Foi-se agora mesmo, ha um instantinho.
Ainda a apanha  Patriarchal. Emfim, um dia encontrou-a ao principio
da rua de S. Roque. Luiza pareceu muito contente em o vr:--Porque se
tinha demorado tanto em Almada? Que desero!

Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella?

--Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho
estado muito s. Nem Julio, nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade
 que tem apparecido s vezes de fugida. Est agora sempre mettida na
Encarnao... Isto gente devota!--E riu.

Ento aonde ia?

A umas comprasitas,  modista depois...--E apparea agora, Sebastio,
hein?

--Hei-d'apparecer.

-- noite. Estou to s! Tenho tocado muito,  o que me vale  o piano!

N'essa mesma tarde Sebastio recebeu uma carta de Jorge. Tens visto a
Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem
carta d'ella. De resto est preguiosa como uma freira; quando escreve
so quatro linhas porque est o correio a partir. Vai dizer ao correio
que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar s, que
todos a abandonaram, que tem vivido como n'um deserto. V se lhe vaes
fazer companhia, coitada, etc.

No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito
vermelha, com os olhos estremunhados, de roupo branco. Tinha chegado
muito canada de fra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar,
adormecera sobre a _causeuse_... Que havia de novo? E bocejava.

Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de Julio; e ficaram
calados. Havia um constrangimento.

Luiza ento accendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova musica
que estudava, a _Medj_ de Gounod; mas havia uma passagem em que se
embrulhava sempre; pediu a Sebastio que a tocasse, e junto do piano,
batendo o compasso com o p, acompanhava baixo a melodia, a que a
execuo de Sebastio dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois,
mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica para o lado, veio sentar-se
no soph, dizendo:

--Quasi nunca tco! Esto-se-me a enferrujar os dedos!...

Sebastio no se atrevia a perguntar pelo primo Bazilio. Luiza no lhe
pronunciou sequer o nome. E Sebastio, vendo n'aquella reserva uma
diminuio de confiana ou um resto persistente de despeito, disse que
tinha d'ir  Associao Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado.

Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietao differente. s
vezes era a tia Joanna que lhe dizia  tarde: A Luizinha l sahiu hoje
outra vez! Por este calor, at pde apanhar alguma! Credo! Outras era
o conciliabulo dos visinhos, que avistava de longe, e que de certo
estavam a cortar na pelle da pobre senhora!

Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a _aria da Calumnia_ no _Barbeiro
de Sevilha_: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um
passaro, subindo n'um crescendo aterrador at estalar como um trovo!

Dava agora voltas para no passar na rua, diante do Paula e da
estanqueira: tinha vergonha d'elles! Encontrra o Teixeira Azevedo, que
lhe perguntra:

--Ento o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz fica por l!

E aquella observao trivial aterrou-o.

Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julio. Encontrou-o no
seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e
esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de caf ao
p, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro;
ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia
livros abertos;--e um cheiro relentado sahia do desmazlo das cousas.
A janella de peitoril dava para o saguo, d'onde vinha o cantar
estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos.

Julio, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiou-se, enrolou um
cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era
bonito! Para que soubesse o snr. Sebastio!

--De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia
receber ahi um dinheiro e no veio. D c uma libra.

E immediatamente comeou a fallar da these. A cousa sahia!

Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitao paternal, e, muito
satisfeito, na abundancia de confiana que d a excitao do trabalho,
com grandes passadas pelo quarto:

--Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes em Portugal, Sebastio!
Hei-de-os deixar de bocca aberta! Tu vers!

Sentou-se, pz-se a numerar as folhas escriptas, assobiando. Sebastio,
ento, com timidez, quasi vexado de perturbar com as suas preoccupaes
domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo:

--Pois eu vim-te fallar por causa l da nossa gente...

Mas a porta abriu-se com fora, e um rapaz de barba desleixada, e olhar
um pouco doudo, entrou; era um estudante da Escla, amigo de Julio;
e quasi immediatamente os dous recomearam uma discusso que tinham
travado de manh, e que fra interrompida s onze horas, quando o rapaz
d'olhar doudo descra a almoar  Aurea.

--No, menino!--exclamava o estudante exaltado.--Estou na minha! A
medicina  uma meia sciencia, a physiologia  outra meia sciencia! So
sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio
da vida!

E cruzando os braos diante de Sebastio, bradou-lhe:

--Que sabemos ns do principio da vida?

Sebastio, humilhado, baixou os olhos.

Mas Julio indignava-se:

--Ests desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou
contra o Vitalismo, que declarou contrario ao espirito scientifico.
Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos
no so as mesmas que governam os corpos vivos-- uma heresia
grotesca!--exclamava.--E Bichat que a proclama  uma besta!

O estudante, fra de si, bradou--que chamar a Bichat uma besta era
simplesmente d'um alarve.

Mas Julio desprezou a injuria, e continuou, exaltado nas suas idas:

--Que nos importa a ns o principio da vida? Importa-me tanto como
a primeira camisa que vesti! O principio da vida  como outro
qualquer principio: um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente!
No podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os
fins, mysterios! So causas primarias com que no temos nada a fazer,
nada! Podemos batalhar seculos, que no avanamos uma pollegada. O
physiologista, o chimico, no tem nada com os principios das cousas;
o que lhes importa so os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas
causas immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto
rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos--n'uma pedra, como n'um
desembargador! E a physiologia e a medicina so sciencias to exactas
como a chimica! Isto j vem de Descartes!

Travaram ento um berreiro sobre Descartes. E immediatamente, sem que
Sebastio attonito tivesse descoberto a transio, encarniaram-se
sobre a ida de Deus.

O estudante parecia necessitar Deus para explicar o universo. Mas
Julio atacava Deus com clera: chamava-lhe uma hypothese safada,
uma velha caturrice do partido miguelista! E comearam a assaltar-se
sobre a questo social, como dous gallos inimigos.

O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre
a mesa, o principio da authoridade! Julio berrava pela anarchia
individual! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, Jouffroy
romperam em personalidades. Julio, que dominava pela estridencia da
voz, censurou violentamente ao estudante--as suas inscripes a seis
por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de
proprietario que vinha de comer na Aurea!

Olharam-se, ento, com rancor.

Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas
palavras sobre Claude Bernard, e a questo recomeou, furiosa.

Sebastio tomou o chapo.

--Adeus--disse baixo.

--Adeus, Sebastio, adeus--disse promptamente Julio.

Acompanhou-o ao patamar.

--E quando quizeres que eu falle a meu primo...--murmurou Sebastio.

--Pois sim, veremos, eu pensarei--disse Julio com indifferena, como
se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustia.

Sebastio foi descendo as escadas, pensando: No se lhe pde fallar em
nada, agora!

De repente veio-lhe uma ida: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se
com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era
uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais
habilidade mesmo...

Decidiu-se logo, tomou um trem, foi  rua de S. Bento.

A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa:

--Pois no sabe?

--No.

--Ai! at admira!

--Mas o que?

--A senhora! Uma desgraa assim! Torceu um p na Encarnao, deu uma
quda. Tem estado muito mal, muito mal.

--Aqui?

--Na Encarnao. Nem pde sahir. Est com a snr.^a D. Anna Silveira.
Uma desgraa assim! E est n'um phrenesi!

--Mas quando foi?

--Antes d'hontem  noite.

Sebastio saltou para o trem, mandou bater para casa de Luiza.

A D. Felicidade, doente, na Encarnao! Mas ento Luiza podia bem sahir
todos os dias! Ia vl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!...

A visinhana no tinha que rosnar! Ia vr a pobre doente!...

Eram duas horas quando a parelha estacou  porta de Luiza. Encontrou-a,
que descia a escada, vestida de preto, de luva _gris perle_, com um vo
negro.

--Ah! suba, Sebastio, suba! Quer subir?

Parra, nos degraus, com uma crzinha no rosto, um pouco embaraada.

--No, obrigado. Vinha dizer-lhe... No sabe? A D. Felicidade...

--O qu?

--Torceu um p. Est mal.

--Que me diz?

Sebastio deu os pormenores.

--Vou j l.

--Deve ir. Eu no posso ir, no entram homens. Coitada! Diz que
est mal.--Acompanhou-a at  esquina da rua, offereceu-lhe mesmo
a tipoia:--E muitos recados, que tenho pena de a no vr!... Pobre
senhora! E diz que est n'um phrenesi!

Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando a graa da sua
figura, esfregava as mos satisfeito.

Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos
os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario
que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as
Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manh, subir a rua,
dissessem:--L vai fazer companhia  doente! Santa senhora!

O Paula estava  porta da loja--e Sebastio com uma ida subita,
entrou. Estava-se estimando de se sentir to fecundo em expedientes,
to habil!

Deitou um pouco o chapo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o
painel que representava D. Joo VI:

--Quanto quer vossemec por isto,  snr. Paula?

O Paula ficou surprehendido:

--O snr. Sebastio est a brincar?

Sebastio exclamou:

--A brincar?--Fallava muito srio! queria uns quadros para a sala
d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre
um papel escuro.--Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem!

--Desculpe, snr. Sebastio... Pois n'esse caso ha por ahi alguns
paineis a calhar.

--Este D. Joo VI agrada-me. Quanto custa isto?

O Paula disse, sem hesitar:

--Sete mil e duzentos. Mas  obra de mestre.

Era uma tla desbotada de tom defumado, onde uns restos de face
avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre
um fundo sombrio. Um vermelho bao indicava o velludo de uma casaca
de crte: a pana saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E
a parte mais conservada da tla era, ao lado sobre um coxim, a cora
real--que o artista trabalhra com uma minuciosidade enthusiasta, ou
por preoccupao d'idiota, ou por adulao de cortezo.

Sebastio achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preo escripto por
traz, n'uma tirinha de papel; espanejou a tla com amor; indicou as
bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de
moveis, que tinham a consciencia nas palmilhas; jurou que o retrato
pertencera ao pao de Queluz, e ia atacar as questes publicas--quando
Sebastio disse resumindo:

--Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta.

--Leva uma rica obra!

Sebastio agora olhava em redor. Queria fallar do p torcido de D.
Felicidade, e procurava uma transio. Examinou umas jarras da India,
um trem; e avistando uma poltrona de doente:

--Aquillo  que era bom para a D. Felicidade!--exclamou logo--aquella
cadeira! Boa cadeira!

O Paula arregalou os olhos.

--Para a D. Felicidade Noronha--repetiu Sebastio.--Para estar
deitada... Pois no sabia, homem? Partiu um p, tem estado muito mal.

--A D. Felicidade, a amiga _de c_?--e indicou com o pollegar a casa do
Engenheiro.

--Sim, homem! Quebrou um p na Encarnao. At l ficou. A D. Luiza vai
para l fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ella para l...

--Ah!--fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa:--Mas eu ainda a
vi entrar _para c_ ha-de haver oito dias.

--Foi antes d'hontem.--Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando
muito umas gravuras:--De resto a D. Luiza j ia todos os dias 
Encarnao, mas era para vr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve
mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado uma vida d'enfermeira.
No sahe da Encarnao! E agora  a D. Felicidade. No  m massada!

--Pois no sabia, no sabia--murmurava o Paula, com as mos enterradas
nos bolsos.

--Mande-me o D. Joo VI, hein?

--s ordens, snr. Sebastio.

Sebastio foi para casa. Subiu  sala; e atirando o chapo
para o soph: Bem, pensou, agora ao menos esto salvas as
apparencias!--Passeou algum tempo com a cabea baixa; sentia-se triste;
porque o ter conseguido, por um acaso, justificar aquelles passeios
para com a visinhana, fazia-lhe parecer mais cruel a ida de que os
no podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam
findar por algum tempo, mas _os seus_?... Queria achal-os falsos,
pueris, injustos: e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua
rectido estavam sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que
devia! E com um gesto triste, fallando s, no silencio da sala:

--O resto  com a sua consciencia!

N'essa tarde, na rua, sabia-se j que a D. Felicidade de Noronha
torcera um p na Encarnao, (outros diziam quebrra uma perna), e
que a D. Luiza no lhe sahia da cabeceira... O Paula declarra com
authoridade:

-- de boa rapariga,  de muito boa rapariga!

A Gertrudes do doutor foi logo,  noitinha, perguntar  tia Joanna,
se era verdade da perna quebrada. A tia Joanna corrigiu: era o p,
torcera o p! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao ch, que a D.
Felicidade dra uma queda que ficra em pedaos.--Foi na Encarnao,
acrescentou. Diz que anda tudo l n'uma roda viva. A Luizinha at l
tem dormido...

--Pieguices de beatas!--rosnou com tedio o doutor.

Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a dias, o Teixeira Azevedo
(que apenas comprimentava Luiza), tendo-a encontrado na rua de S.
Roque, parou, e com uma cortezia profunda:

--Desculpe vossencia. Como vai a sua doente?

--Melhor, agradecida.

--Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por
este calor  Encarnao...

Luiza corou.

--Coitada! No lhe falta companhia, mas...

-- de muita caridade, minha senhora--exclamou com emphase--Tenho-o
dito por toda a parte.  de muita caridade. Um criado de vossencia!

E afastou-se commovido.


Luiza fra logo, com effeito, vr D. Felicidade. Tinha uma luxao
simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o p em compressas
d'arnica, cheia de terror de perder a perna, passava o dia rodeada
d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e
debicando petiscos.

Apenas alguem entrava para a vr, redobrava d'exclamaes e de queixas;
vinha logo a historia miuda, incidentada, prolixa da desgraa: ia a
descer, a pr o p no degrau; escorregra; sentiu que ia a cahir; ainda
se sustentou, e pde dizer: Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a
dr no foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre!

Todas as senhoras concordavam que era realmente um milagre.
Olhavam-na compungidas, e iam ao cro alternadamente prostrar-se, e
pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha!

A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade uma consolao,
deu-lhe melhoras; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber
noticias d'_elle_, sem poder fallar d'_elle_!

E nos dias seguintes, apenas ficava s no quarto com Luiza, chamava-a
logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto?
Sabia d'_elle_?--A sua afflico era que o Conselheiro no soubesse
que ella estava doente, e no lhe podesse dar aquelles pensamentos
compassivos--a que o seu p tinha direito, e que seriam um conforto
para o seu corao! Mas Luiza no _o_ vira--e D. Felicidade, remexendo
a chsada, exhalava suspiros agudos.

s duas horas Luiza sahia da Encarnao--e ia tomar um trem ao Rocio:
para no parar  porta do _Paraiso_ com espalhafato de tipoia,
apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida com
a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso
de prazer.

Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa: para no se
enfastiar, s, tinha trazido para o _Paraiso_ uma garrafa de cognac,
assucar, limes--e com a porta entreaberta fumava, fazendo _grogs_
frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem
querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da
proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma criana,
uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente uma cadellinha que
comeava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles,
impacientava-se. Mas um _frou-frou_ de vestido roava a escada--e os
tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor
dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar
em casa s cinco horas, e era um estiro depois! Entrava um pouco
suada, e Bazilio gostava da transpiraosinha tepida que havia nos seus
hombros ns.

--E teu marido?--perguntava elle.--Quando vem?

--No falla em nada.--Ou ento:--No recebi carta, no sei nada.

Parecia ser aquella a preoccupao de Bazilio, na alegria egoista da
posse recente. Tinha ento caricias muito extaticas; ajoelhava-se aos
ps d'ella; fazia voz de criana:

--Lili no ama Bibi...

Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino.

--Lili adora Bibi!...  douda por Bibi!

E queria saber se pensava n'ella, o que tinha feito na vespera. Fra ao
Gremio, jogra uns _robbers_, viera para casa cedo, sonhra com ella...

--Vivo para ti, meu amor, acredita!

E deixava-lhe cahir a cabea no regao, como sob uma felicidade
excessiva.

Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos de gsto, de
_toilette_: pedira-lhe que no trouxesse postios no cabello, que no
usasse botinhas de elastico.

Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; obedecia-lhe,
amoldava-se s suas idas:--at affectar, sem o sentir, um desdem pela
gente virtuosa, para imitar as suas opinies libertinas.

E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio no se dava ao
incommodo de se constranger; usava d'ella, _como se a pagasse_!
Acontecera uma manh escrever-lhe duas palavras a lapis que no podia
ir ao _Paraiso_, sem outras explicaes! Uma occasio mesmo no foi,
sem a avisar--e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou
pela fechadura, esperou palpitante--e voltou muito desconsolada,
quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar.

No aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento.
Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua
casa, passar a noite: viria Sebastio, o Conselheiro, D. Felicidade
quando estivesse melhor: era uma alegria para ella, e depois dava s
suas relaes um ar mais parente, mais legitimo.

Mas Bazilio pulou:

--O qu! ir cabecear de somno com quatro caturras... Ah! no!...

--Mas conversa-se, faz-se musica...

--_Merci!_ Conheo-a, a musica das _soires_ de Lisboa! A valsa do
_Beijo_ e o _Trovador_. Safa!

Depois duas ou tres vezes fallra de Jorge com desdem. Aquillo
offendera-a.

Ultimamente mesmo, quando ella entrava no _Paraiso_, j no tinha a
delicadeza amorosa de se levantar alvoroado: sentava-se apenas na
cama, e tirando preguiosamente o charuto da bocca:

--Ora viva a minha flr!--dizia.

E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os
hombros, de exclamar:--Tu no percebes nada d'isso! Chegava a ter
palavras cruas, gestos brutaes. E Luiza comeou a desconfiar que
Bazilio no a estimava,--apenas a desejava!

Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com elle, romper se fosse
necessario. Mas adiou, no se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz,
o seu olhar dominavam-na; e accendendo-lhe a paixo tiravam-lhe a
coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida ento que
o adorava: o que lhe dava tanta exaltao no _desejo_, se no era a
grandeza do _sentimento_?... Gozava tanto,  porque o amava muito!...
E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este
raciocinio subtil.

Elle tinha s vezes uma seccura aspera de maneiras, era verdade; certos
tons de indifferena, era certo... Mas n'outros momentos, quantas
denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... Amava-a
tambem, no havia duvida. Aquella certeza era a sua justificao. E
como era o Amor que os produzia, no se envergonhava dos alvoroos
voluptuosos com que ia todas as manhs ao _Paraiso_!

Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia
tambem apressada o Moinho de Vento.

--D'onde vinha voss?--perguntra-lhe em casa.

--Do medico, minha senhora, fui ao medico.

Queixava-se de pontadas, palpitaes, faltas d'ar.

--Flatos! flatos!


Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manh; depois
apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito
espartilhada no seu vestido de merino, de chapo e sombrinha, vinha
dizer a Joanna:

--At logo, vou ao medico.

--At logo, snr.^a Juliana--dizia a cozinheira radiante.

E ia logo fazer signal ao carpinteiro.

Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando para o largo do
Carmo ia  ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro
andar a sua intima amiga, a tia Victoria.

Era uma velha que fra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella,
n'uma placa de metal, com letras negras: Victoria Soares,
inculcadeira. Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais
complicada, muito tortuosa.

Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes
do tecto encardido, alumiada por duas tristes janellas de peito. Um
vasto soph occupava quasi a parede do fundo: fra de certo de reps
verde, mas o estofo coado, comido, remendado, tinha agora, sob largas
nodoas, uma vaga cr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos
melancolicos; a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavra, dormia todo
o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fra
salvo d'um incendio. Sobre o soph pendia a lithographia do senhor D.
Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima,
entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho
empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore.
Ao entrar via-se logo, junto da janella fronteira  porta, a uma mesa
coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de sda
com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouva, o escripturario!

O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido--em que se sentia
a cavalharia, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas
matronas de capote e leno, face gordalhufa e buo; cocheiros com
o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa de riscadinho:
pesados gallegos cr de greda, de passadas retumbantes e frmas lrpas:
criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo
d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos.

Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguo,--por
cuja portinha verde se viam s vezes desapparecer dorsos respeitaveis
de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos.

Em certas occasies, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas:
velhas fallavam baixo, com gestos mysteriosos: uma altercao mal
abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam a
chorar; e, impassivel, o snr. Gouva escrevinhava os seus registos,
arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva.

A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido
rxo,--ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro,
tirando a cada momento da algibeira rebuados de avenca para o catarrho.

A tia Victoria era uma grande utilidade, tornra-se um centro! A
criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o
seu _despacho_. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava
as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. Gouva as
correspondencias amorosas ou domesticas dos que no tinham ido 
escla; vendia vestidos em segunda mo; alugava casacas; aconselhava
collocaes, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de
partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou
despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Victoria.
Tinha alm d'isso muitas relaes, infinitas condescendencias:
celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho
d'uma sopeira gordita e nova: era ella quem inculcava as serventes s
mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a
tia Victoria tem mais manhas que cabellos!

Mas, ultimamente, apesar dos seus afazeres, apenas Juliana
entrava--levava-a para o quarto nas trazeiras, fechava a porta, e
havia para meia hora!

E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava
depressa para casa; e mal entrava:

--A senhora ainda no voltou, snr.^a Joanna?

--Ainda no.

--Est na Encarnao. Coitada! no tem m cruz, ir aturar a velha!
E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem!
Espairecer!

Joanna era de certo espessa e obtusa; alm d'isso a paixo animal pelo
rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a snr.^a Juliana andava
muito derretida pela senhora: disse-lh'o mesmo um dia:

--Vossemec agora, snr.^a Juliana, parece mais na bola da senhora!

--Na bola?

--Sim, quero dizer, mais aquella, mais...

--Mais apegada  senhora?

--Mais apegada.

--Sempre o estive. Mas ento! s vezes a gente tem os seus repentes...
Que olhe, snr.^a Joanna, no se acha melhor que aqui. Senhora de muito
bom genio, nada de exquisitices, nenhumas prises... Ai,  dar louvores
ao co de estarmos n'este descano.

--E !

A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla:
Luiza sahia todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava;
a sua antipathia por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma
pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus
passeios, ruminava. Joanna, muito livre, muito s em casa, regalava-se
com o carpinteiro. No vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnao,
inundava-se d'arnica. Sebastio fra para Almada vigiar as obras. O
Conselheiro partira para Cintra, dar umas ferias ao espirito, tinha
elle dito a Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden. O snr.
Julio, o doutor, como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As
horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana,
um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito
de toda a casa, exclamou para Joanna:

--No se pde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas!

E acrescentou, com uma risadinha:

--E eu ao leme!




VII


Por esse tempo, uma manh que Luiza ia para o _Paraiso_, viu de repente
sahir d'um portal, um pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura
azafamada d'Ernestinho.

--Por aqui, prima Luiza!--exclamou elle logo muito surprehendido.--Por
estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre!

Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca todas deitadas para
traz, e agitava com excitao um rolo grosso de papeis.

Luiza ficou um pouco embaraada; disse que viera fazer uma visita a uma
amiga.--Oh! elle no conhecia, tinha chegado do Porto...

--Ah, bem! bem! E que  feito, como tem passado? Quando vem o
Jorge?--Desculpou-se logo de a no ter ido vr; mas  que no tinha uma
migalha livre! De manh a alfandega,  noite os ensaios...

--Ento sempre vai?--perguntou Luiza.

--Vai.

E enthusiasmado:

--E como vai! Um primor! Mas que trabalho, que trabalho!--Agora vinha
elle de casa do actor Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de
Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes do terceiro
acto: _Maldio, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem, arcarei brao a
brao com a sorte.  lucta!_ Era uma maravilha! Vinha tambem de lhe dar
parte que alterra o monologo do segundo acto. O empresario achava-o
longo...

--Ento contina a implicar, o empresario?

Ernestinho fez uma visagem d'hesitao.

--Implica um bocado...--E com um rosto radioso:--Mas est delirante!
Esto todos delirantes! Hontem me dizia elle: Lesminha...  o nome
que me do por pandiga. Tem graa, no  verdade? Dizia-me elle:
Lesminha, na primeira representao cahe ahi Lisboa em peso! Voss
enterra-os a todos!  bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o
folhetinista da _Verdade_. No conhece?

Luiza no se lembrava bem.

--O Bastos, o da _Verdade_!--insistia elle.

E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao individuo:

--Ora no conhece outra cousa!--Ia descrever-lhe as feies, citar-lhes
as obras...

Mas Luiza, impaciente, para findar:

--Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei!

--Pois  verdade, vou a casa d'elle.--Tomou um tom compenetrado:--Somos
muito amigos,  muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...--E
apertando-lhe muito a mo:--Adeusinho, prima Luiza, que no posso
perder um momento. Quer que a v acompanhar?

--No,  aqui perto.

--Adeus, recados ao Jorge!

Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atraz
d'ella.

--Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei?

Luiza abriu muito os olhos.

-- condessa,  heroina!--exclamou Ernestinho.

--Ah!

--Sim, o marido perda-lhe, obtem uma embaixada, e vo viver no
estrangeiro.  mais natural...

--De certo!--disse vagamente Luiza.

--E a pea acaba, dizendo o amante, o conde de Monte Redondo: _E
eu irei para a solido morrer d'esta paixo funesta!_  de muito
effeito!--Esteve um momento a olhal-a, e bruscamente:--Adeus, prima
Luiza, recadinhos ao Jorge!

E abalou.

Luiza entrou no _Paraiso_ muito contrariada. Contou o encontro a
Bazilio. Ernestinho era to tolo! Podia mais tarde fallar n'aquillo,
citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto...

E tirando o vo, o chapo:

--No, realmente  imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor no
vir tanto. Pde-se saber...

Bazilio encolheu os hombros, contrariado:

--Se queres no venhas.

Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente:

--Obrigada!

Ia a pr o chapo, mas elle veio prender-lhe as mos, abraou-a,
murmurando:

--Pois tu fallas em no vir! E eu, ento? Eu que estou em Lisboa por
tua causa...

--No, realmente dizes s vezes cousas... tens certos modos...

Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos.

--Ta, ta, ta! Nada de questes! Perda. Ests to linda...

Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella scena.
No--pensava--j no era a primeira vez que elle mostrava um
desprendimento muito secco por ella, pela sua reputao, pela sua
saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente. Que as ms linguas
fallassem, que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para
que?... Porque emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos... As suas
palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... J no
tinha aquelles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda n'uma
caricia palpitante, nem aquella abundancia de sensao que o fazia
cahir de joelhos com as mos tremulas como as d'um velho!... J se
no arremessava para ella, mal ella apparecia  porta, como sobre uma
presa estremecida!... J no havia aquellas conversas pueris, cheias de
risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois
da hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude dce, com
o sangue fresco, a cabea deitada sobre os braos ns!--Agora! trocado
o ultimo beijo, accendia o charuto, como n'um restaurante ao fim do
jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatorio dar
uma penteadella no cabello com um pentesinho d'algibeira! (O que ella
odiava o pentesinho!) s vezes at olhava o relogio!... E em quanto
ella se arranjava no vinha, como nos primeiros tempos, ajudal-a,
pr-lhe o collarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta d'ella,
despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus hombros antes que
o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros,--ou sentado, com um ar
macambuzio, bamboleava a perna!

E depois positivamente no a respeitava, no a considerava... Tratava-a
por cima do hombro, como uma burguezinha, pouco educada e estreita,
que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a
cabea alta, fallando no espirito de madame de tal, nas _toilettes_
da condessa de tal! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos
fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia, Deus me perde, parecia que
lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Immediatamente
lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge,
para quem ella era de certo a mais linda, a mais elegante, a mais
intelligente, a mais captivante!... E j pensava um pouco que
sacrificra a sua tranquillidade to feliz a um amor bem incerto!

Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais frio, explicou-se
abertamente com elle. Direita, sentada no canap de palhinha, fallou
com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: Que percebia bem
que elle se aborrecia, que o seu grande amor tinha passado, que era por
tanto humilhante para ella verem-se n'essas condies, e que julgava
mais digno acabarem...

Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade; sentia um estudo,
uma affectao n'aquellas phrases; disse muito tranquillamente,
sorrindo:

--Trazias isso decorado!

Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um movimento desdenhoso
dos labios.

--Tu ests douda, Luiza?

--Estou farta! Fao todos os sacrificios por ti, venho aqui todos os
dias, comprometto-me, e para que? Para te vr muito indifferente, muito
seccado...

--Mas, meu amor...

Ella teve um sorriso d'escarneo.

--_Meu amor!_ Oh! so ridiculos esses fingimentos!

Bazilio impacientou-se.

--J isso c me faltava, essa scena!--exclamou impetuosamente. E
cruzando os braos diante d'ella:--Mas que queres tu? Queres que te
ame como no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre
diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu corao, mas
no tem gestos de tenor, aqui d'el-rei que  frio, que se aborrece,
 ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que
declame, que revire os olhos, que faa juras, outras tolices?...

--So tolices que tu fazias...

--Ao principio!--respondeu elle brutalmente.--J nos conhecemos muito
para isso, minha rica.

E havia apenas cinco semanas!

--Adeus!--disse Luiza.

--Bem. Vaes zangada?

Ella respondeu, com os olhos baixos, calando nervosamente as luvas:

--No.

Bazilio pz-se diante da porta, e estendendo os braos:

--Mas s razoavel, minha querida. Uma ligao como a nossa no  o
duetto do _Fausto_. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os
sacrificios necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que diabo
queres tu mais? Porque te queixas?

Ella respondeu com um sorriso ironico e triste:

--No me queixo. Tens razo.

--Mas no vs zangada, ento.

--No...

--Palavrinha?

--Sim...

Bazilio tomou-lhe as mos.

--D ento um beijinho em Bibi...

Luiza beijou-o de leve na face.

--Na boquinha, na boquinha!--E ameaando-a com o dedo, fitando-a
muito:--Ah geniosinho! Tens bem o sangue do snr. Antonio de Brito,
nosso extremoso tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!--E
sacudindo-lhe o queixo:--E vens manh?

Luiza hesitou um momento:

--Venho.

Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio
logo dizer-lhe, muito quisilada: que a Joanna tinha sahido s quatro
horas, no tinha voltado, o jantar estava por acabar...

--Onde foi?

Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho.

Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto
de piedade desdenhosa.

--Ha-de lucrar muito com isso. Boa tla!--disse.

Juliana olhou-a espantada.

--Est bebeda!--pensou.

--Bem, que se lhe ha-de fazer?--exclamou Luiza.--Esperarei...

E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito:

--Que egoista, que grosseiro, que infame! E  por um homem assim que
uma mulher se perde!  estupido!

Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde ao principio! O que
so os amores dos homens! Como teem a fadiga facil!

E immediatamente lhe veio a ida de Jorge! _Esse_ no! Vivia com
ella havia tres annos--e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo,
dedicado. Mas o _outro_! Que indigno! _J a conhecia muito!_ Ah! estava
bem certa agora, nunca a amra, elle! Quizera-a por vaidade, por
capricho, por distraco, para ter uma mulher em Lisboa!  o que era!
Mas amor? Qual!

E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se, interrogou-se...
Imaginou casos, circumstancias: se elle a quizesse levar para longe,
para Frana, iria? No! Se por um acaso, por uma desgraa enviuvasse,
antevia alguma felicidade casando com elle? No!

Mas ento!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e
se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o
seu corao vazio. O que a levra ento para elle?... Nem ella sabia;
no ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e morbida de ter um
amante, mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico... E
sentira-a por ventura, essa felicidade, que do os amores illegitimos,
de que tanto se falla nos romances e nas operas, que faz esquecer
tudo na vida, affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca! Todo o
prazer que sentira ao principio, que lhe parecera ser o amor--vinha
da novidade, do saborzinho delicioso de comer a ma prohibida, das
condies do mysterio do _Paraiso_, d'outras circumstancias talvez, que
nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro!

Mas que sentia d'extraordinario _agora_? Bom Deus, comeava a estar
menos commovida ao p do seu amante, do que ao p de seu marido! Um
beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres annos!
Nunca se seccra ao p de Jorge, nunca! E seccava-se positivamente ao
p de Bazilio! Bazilio, no fim, o que se tornra para ella? era como
um marido pouco amado, que ia amar fra de casa! Mas ento, valia a
pena?...

Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque emfim, ella e
Bazilio estavam nas condies melhores para obterem uma felicidade
excepcional: eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a
difficuldade... Porque era ento que quasi bocejavam?  que o amor
 essencialmente perecivel, e na hora em que nasce comea a morrer.
S os comeos so bons. Ha ento um delirio, um enthusiasmo, um
bocadinho do co. Mas depois!... Seria pois necessario estar sempre a
_comear_, para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E
apparecia-lhe ento nitidamente a explicao d'aquella existencia de
Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana,
abandonando-o como um limo espremido, e renovando assim constantemente
a flr da sensao!--E, pela logica tortuosa dos amores illegitimos, o
seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo!

Logo no dia seguinte pz-se a dizer comsigo que era bem longe o
_Paraiso_! Que massada, por aquelle calor, vestir-se, sahir! Mandou
saber de D. Felicidade por Juliana, e ficou em casa, de roupo branco,
preguiosa, saboreando a sua preguia.

N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: que ainda se demorava, mas
que a sua viuvez comeava a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua
casinha, na sua alcovinha?...

Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma
compaixo terna por Jorge, to bom, coitado! um indefinido desejo de o
vr e de o beijar, a recordao de felicidades passadas perturbaram-na
at s profundidades do seu sr. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe
que tambem j estava farta de estar s, que viesse, que era estupida
semelhante separao... E era sincera n'aquelle momento.

Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe veio trazer uma carta
do hotel. Bazilio mostrava-se desesperado: ...Como no vieste, vejo
que ests zangada; mas  de certo o teu orgulho, no o teu amor que te
domina: no imaginas o que senti quando vi que no vinhas hoje. Esperei
at s cinco horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem
estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante
do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor... Vem manh.
Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou d'abandonar
os meus interesses, as minhas relaes, os meus gostos, e enterrar-me
aqui em Lisboa, etc.

Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de
querer. Aquillo era verdade. Porque estava elle em Lisboa? Por ella.
Mas se reconhecia agora,--que o no amava, ou to pouco! E depois
era vil trahir assim Jorge, to bom, to amoroso, vivendo todo para
ella. Mas se Bazilio realmente estivesse to apaixonado!... As suas
idas redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas por ventos
contradictorios. Desejava estar tranquilla, que a no perseguissem.
Para que voltra aquelle homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os
seus pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa trapalhada.

E na manh seguinte estava na mesma hesitao. Iria, no iria? O
calor fra, a poeirada da rua faziam-lhe appetecer mais a casa!
Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma
moeda de cinco tostes. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, sem vontade,
seccada,--tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que
do as expanses da reconciliao...

Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde e de joelhos, achou-o
com a testa franzida e muito aspero.

--Luiza, parece incrivel, porque no vieste hontem?

Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava, teve um grande
despeito e um medo maior; a sua concupiscencia receou perder aquelle
lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vr
libertar-se aquella escravasinha docil. Resolveu portanto, a todo o
custo, chamal-a ao rego. Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a
attrahir, decidiu ser severo para a castigar.--E acrescentou:

-- uma criancice ridicula. Porque no vieste?

Aquelle modo enraiveceu-a:

--Porque no quiz.

Mas emendou logo:

--No pude.

--Ah!  essa a maneira por que respondes  minha carta, Luiza?

--E tu,  esse o modo com que me recebes?

Olharam-se um momento, detestando-se.

--Bem, queres uma questo? s como as outras.

--Que outras?

E toda escandalisada:

--Ah!  de mais! Adeus!

Ia sahir.

--Vaes-te, Luiza?

--Vou.  melhor acabarmos por uma vez...

Elle segurou o fecho da porta rapidamente.

--Fallas serio, Luiza?

--De certo. Estou farta!

--Bem. Adeus.

Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente.

Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula:

--Ento,  para sempre? Nunca mais?

Luiza parou, branca. Aquella triste palavra _nunca mais_ deu-lhe uma
saudade, uma commoo. Rompeu a chorar.

As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia to dolorida, to
fragil, to desamparada!...

Bazilio cahiu-lhe aos ps: tinha tambem os olhos humidos.

--Se tu me deixares, morro!

Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A
excitao dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixo;
e foi uma manh deliciosa.

Ella prendia-o nos braos ns, pallida como cra, balbuciava:

--No me deixas nunca, no?

--Juro-t'o! Nunca, meu amor!

Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma ida de certo
acudiu-lhes--porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou:

--Se podesses aqui passar a noite!

Ella disse aterrada, quasi supplicante:

--Oh! no me tentes, no me tentes...

Bazilio suspirou, disse:

--No,  uma tolice. Vai.

Luiza comeou a arranjar-se,  pressa. E de repente, parando, com um
sorriso:

--Sabes tu uma cousa?

--O que, meu amor?

--Estou a cahir com fome! No almocei nada, estou a cahir!

Elle ficou desolado:

--Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...

--Que horas so, filho?

Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado:

--Sete!

--Ai, Santo Deus!

Punha o chapo, o vo, atrapalhadamente:

--Que tarde! Jesus! Que tarde!

--E manh, quando?

-- uma.

--Com certeza?

--Com certeza.

Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da
escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:

--Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo!

Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.

--Que  aquillo?

Elle sorriu, levou-a pela mo junto da barra de ferro, e destampando o
cesto, com uma cortezia grave:

--Provises, festins, bacchanaes! No dirs depois que tens fome!

Era um _lunch_. Havia sandwichs, um _pt de foie gras_, fruta, uma
garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo.

-- brilhante!--disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer.

--Foi o que se pde arranjar, minha querida prima! J v que pensei em
si!

Pz o cesto no cho, e vindo para ella com os braos abertos:

--E tu pensaste em mim, meu amor?

Os olhos d'ella responderam--e a presso apaixonada dos seus braos.

s tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo
sobre a cama; a loua tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a
Luiza muito estroina, adoravel--e ria de sensualidade, fazendo tilintar
os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de _champagne_.
Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em
beijos, em toda a sorte de gestos buliosos. Comia com gula; e eram
adoraveis os seus braos ns movendo-se por cima dos pratos.

Nunca achra Bazilio to bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito
conchegado para aquellas intimidades da paixo; quasi julgava possivel
viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor
permanente, e _lunchs_ s tres horas... Tinham as pieguices classicas:
mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos;
bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,--e elle quiz-lhe
ensinar ento a verdadeira maneira de beber _champagne_. Talvez ella
no soubesse!

--Como ?--perguntou Luiza erguendo o copo.

--No  com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe _champagne_ por
um copo. O copo  bom para o Collares...

Tomou um gole de _champagne_, e n'um beijo passou-o para a bocca
d'ella. Luiza riu muito, achou divino, quiz beber mais assim. Ia-se
fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.

Tinham tirado os pratos da cama; e sentada  beira do leito, os seus
psinhos calados n'uma meia cr de rosa pendiam, agitavam-se, em
quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovlos sobre o regao, a
cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graa languida d'uma
pomba fatigada.

Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter
tanto _chic_, tanta _queda_? Ajoelhou-se, tomou-lhe os psinhos entre
as mos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas to feias,
com fechos de metal, beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e ento
fez-lhe baixinho um pedido. Ella crou, sorriu, dizia: no! no!--E
quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mos, toda escarlate,
murmurou reprehensivamente:

--Oh Bazilio!

Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinra-lhe uma sensao nova:
tinha-a na mo!

S s seis horas se desprendeu dos seus braos. Luiza fez-lhe jurar
que havia de pensar n'ella toda a noite:--no queria que elle sahisse;
tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E j no patamar voltava,
beijava-o, louca, repetia:

--E manh mais cedo, sim? para estarmos todo o dia.

--No vaes vr a D. Felicidade?

--Que me importa a D. Felicidade! No me importa ninguem! Quero-te a
ti! s a ti!

--Ao meio dia?

--Ao meio dia!


Quanto lhe pezou  noite a solido do seu quarto! Tinha uma impaciencia
que a impellia a prolongar a excitao da tarde, agitar-se. Ainda quiz
lr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre
o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vr a noite,--estava tepida e
serena. Chamou Juliana:

--V pr um chale, vamos a casa da snr.^a D. Leopoldina.

Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande
demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada:

--A senhora foi p'ra o Porto!

--P'ra o Porto!

Sim. Demorava-se quinze dias.

Luiza ficou muito desconsolada. Mas no queria voltar, o seu quarto
solitario aterrava-a.

--Vamos um bocado at alli abaixo, Juliana. A noite est to bonita!

--Rica, minha senhora!

Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos
de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo
foram logo para o _Hotel Central_.

Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de
repente, atirar-se-lhe aos braos, vr as suas malas... Aquella ida
fazia-a arfar. Entraram na praa de Cames. Gente passeava devagar; sob
a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos;
bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraas, de portas de lojas
destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas
em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes.

Ento um sujeito com um chapo de palha passou to rente d'ella, to
intencionalmente que Luiza teve medo.--Era melhor voltarem--disse.

Mas ao meio da rua de S. Roque o chapo de palha reappareceu, roou
quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella.

Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage
do passeio; de repente, ao p de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapo
de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao
pescoo:

--Aonde mora,  menina?

Agarrou aterrada o brao de Juliana.

A voz repetiu:

--No se agaste, menina, aonde mora?

--Seu malcriado!--rugiu Juliana.

O chapo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores.

Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se
cahir na _causeuse_, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pr-se
a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda,
desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manh: o
_lunch_, o _champagne_ bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios
libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser
tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe
Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o
rosto entre as mos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se.


Mas na manh seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga
vergonha de todas as suas tolices da vespera, e como a sensao
indefinida, palpite ou presentimento, de que no devia ir ao _Paraiso_.
O seu desejo, porm, que a impellia para l vivamente, forneceu-lhe
logo razes: era desapontar Bazilio, a no ir hoje no devia voltar, e
ento romper... Alm d'isso a manh muito linda attrahia para a rua:
chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma
frescura lavada e dce.

E s onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do
conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol
fechado, a cabea alta.

Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:

--Que encontro verdadeiramente feliz!...

--Como est, Conselheiro? Ditosos olhos que o vem!

--E v. exc.^a, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto!

Passou-lhe  esquerda com um movimento solemne, pz-se a caminhar ao
lado d'ella.

--Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excurso?

--De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe
ralhar...

--Estive em Cintra, minha querida senhora.--E parando:--No sabia? O
_Diario de Noticias_ especificou-o!

--Mas depois de vir de Cintra?

Elle acudiu:

--Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido
na compilao de certos documentos que me eram indispensaveis para o
meu livro...--E depois d'uma pausa:--Cujo nome no ignora, creio.

Luiza no se recordava inteiramente. O Conselheiro ento expz o
titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era
a DESCRIPO PITORESCA DAS PRINCIPAES CIDADES DE PORTUGAL E SEUS MAIS
FAMOSOS ESTABELECIMENTOS.

-- um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V.
exc.^a quer ir a Bragana: sem o meu livro  muito natural (direi, 
certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu
livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito
solido d'instruco, e tem ao mesmo tempo o prazer.

Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu vo branco.

--Est hoje muito agradavel!--disse ella.

--Agradabilissimo! Um dia creador!

--Que bom fresco aqui!

Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dce circulava entre as
arvores mais verdes; o cho compacto, sem p, tinha ainda uma ligeira
humidade; e, apesar do sol vivo, o co azul parecia leve e muito remoto.

O Conselheiro ento fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala
de jantar tinha havido 48 graus  sombra! 48 graus!--E com bonhomia,
querendo logo desculpar a sala d'aquella exagerao canicular:--Mas 
que est exposta ao sul! faamos essa justia! Est muito exposta ao
sul. Hoje porm est verdadeiramente restaurador.

Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava.
E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo
que ainda no era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio
inglez.--Muito preferiveis aos suissos!--acrescentou com ar profundo.

Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro,
Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De
resto--pensava--tinha tempo, tomaria um trem...

Foram encostar-se s grades. Atravs dos vares viam, descendo n'um
declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com
uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do
valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga,
onde a espaos branquejavam pedaos da rua areada. Do lado de l
erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo
uma luz forte que fazia faiscar as vidraas: por traz iam-se elevando
no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros
sombrios, a cantaria da Encarnao de um amarello triste, outras
construces separadas, at ao alto da Graa coberta d'edificios
ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres
d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de Frana, mais para
alm, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira
verde-negra d'arvoredo.  direita, sobre o monte pellado, o castello
assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada
de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com
angulos bruscos at s duas pesadas torres da S, d'um aspecto abbacial
e secular. Depois viam um pedao do rio, batido da luz: duas velas
brancas passavam devagar: e na outra banda,  base de uma collina baixa
que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma
povoaosinha d'um branco de cr luzidio. Da cidade um rumor grosso e
lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos
carros de bois, a vibrao metallica das carretas que levam ferraria, e
algum grito agudo de prego.

--Grande panorama!--disse o Conselheiro com emphase.--E encetou logo o
elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como
entrada, s Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fra
outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisao fosse to
m, e a edilidade to negligente!

--Isto devia estar na mo dos inglezes, minha rica senhora!--exclamou.

Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que era
uma maneira de dizer. Queria a independencia do seu paiz; morreria por
ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... S ns,
minha senhora!--E acrescentou com uma voz respeitosa:--E Deus!

--Que bonito est o rio!--disse Luiza.

Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo:

--O Tejo!

Quiz ento dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas
brancas, amarellas, esvoaavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um
rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre
a cabea dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os macios e as
moitas de dhalias, passaros pousavam.

Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades to
altas...

--Por causa dos suicidios!--acudiu logo o Conselheiro.--E
todavia, segundo a sua opinio, os suicidios em Lisboa diminuiam
consideravelmente; attribuia isso  maneira severa e muito louvavel
como a imprensa os condemnava...

--Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa  uma fora!

--Se fossemos andando...?--lembrou Luiza.

O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flr, reteve-lhe
vivamente o brao:

--Ah, minha rica senhora, por quem ! os regulamentos so muito
explicitos! No os infrinjamos, no os infrinjamos!--E acrescentou:--O
exemplo deve vir de cima.

Foram subindo, e Luiza pensava:--Vai para casa, larga-me ao Loreto.

Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora
depois do meio dia! J Bazilio esperava!

Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo,
esperando.

--Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro!

--J agora quero acompanhal-a, se v. exc.^a m'o permitte. De certo no
sou indiscreto?

--Ora essa! De modo nenhum.

Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote.

O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapo.

-- o presidente do conselho. No viu? Fez-me um signal de
dentro.--Comeou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar;
vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!--E ia de certo
fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres,
erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou 
porta da igreja, e sorrindo:

--Vou aqui fazer uma devoosinha. No o quero fazer esperar. Adeus,
Conselheiro, apparea.--Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mo.

--Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que no se demora
muito. Esperarei, no tenho pressa.--E com respeito:--Muito louvavel
esse zelo!

Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de p debaixo do cro,
calculando:--Demoro-me aqui, elle cana-se d'esperar e vai-se! Por
cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia
uma luz velada, igual, um pouco fsca. E as architecturas caiadas,
a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra
davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da
capella, os frontaes rxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um
rxo mais escuro, e sob o docel cr de violeta os ouros do Throno. Um
silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de
joelhos, com um balde de zinco ao p, esfregava o cho com uma rodilha,
discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales
tingidos, curvavam-se, aqui e alm, diante d'um altar: e um velho, de
jaqueta de saragoa, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma
molopa lugubre; via-se a sua cabea calva, as tachas enormes dos
sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero.

Luiza subiu ao altar-mr. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre
rapaz! Perguntou ento, timidamente, as horas a um sacristo que
passava. O homem ergueu a sua face cr de cidra para uma janela na
cupula, e olhando Luiza de lado:

--Vai indo p'ra as duas.

Para as duas! Era capaz de no esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio
de perder a sua manh amorosa, um desejo aspero de se achar no
_Paraiso_ nos braos d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens
trespassadas d'espadas, os Christos chagados,--cheia de impaciencias
voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de
Bazilio!... Mas demorou-se, queria fatigar o Conselheiro, deixal-o
ir. Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.--Viu-o
logo  porta, direito, com as mos atraz das costas, lendo a pauta dos
jurados.

Comeou immediatamente a louvar a sua devoo. No entrra porque no
quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de
religio era a causa de toda a immoralidade que grassava...

--E alm d'isso  de boa educao. V. exc.^a ha-de reparar que toda a
nobreza cumpre...

Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com
aquella linda senhora, to olhada. Mesmo, ao passar por um grupo,
curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo:

--Est um dia apreciavel!

E offereceu-lhe bolos  porta do Baltreschi. Luiza recusou.

--Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas.

A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar
de no fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha
vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar,
infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar.

Sem razo, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois
d'hesitar pediu gravatas de _foulard_ a um caixeiro louro e jovial.

--Brancas? de cr? de riscas? com pintinhas?

--Sim, verei, sortidas.

No lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e
olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava
incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa...

No era nada; o ar  que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro,
muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia
tomar agua de flr de laranja... Desciam ento a rua Nova do Carmo,
e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fra muito polido: no
se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou
exemplos.

Mas vendo-a calada:

--Ainda soffre?

--No, estou bem.

--Temos dado um delicioso passeio!

Foram ao comprido do Rocio, at ao fim. Voltaram, atravessaram-no
em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a
rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma ida,
uma occasio, um acontecimento--e o Conselheiro, grave a seu lado,
dissertava. A vista do theatro de D. Maria levra-o para as questes
da arte dramatica: tinha achado que a pea do Ernestinho era talvez
demasiado forte. De resto s gostava de comedias. No que se no
enthusiasmasse com as bellezas d'um _Frei Luiz de Sousa_! mas a sua
saude no lhe permittia as agitaes fortes. Assim por exemplo...

Mas Luiza tivera uma ida, e immediatamente:

--Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.

O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mo,
com a voz rapida:

--Adeus, apparea, hein?--E precipitou-se para o portal do Vitry.

Subiu at ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados:
parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou  porta... A
figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das
secretarias.

Chamou um trem.

--A quanto puder!--exclamou.

A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do _Paraiso_. Figuras
pasmadas appareceram  janella. Subiu, palpitante. A porta estava
fechada--e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dce da patra
segredou:

--J sahiu. Ha-de haver meia hora.

Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo
do coup, rompeu n'um chro hysterico. Correu os _stores_ para se
esconder; arrancou o vo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias
inesperadas, Ento veio-lhe um desejo phrenetico de vr Bazilio! Bateu
nos vidros desesperadamente, gritou:

--Ao Hotel Central!

Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos
sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em
espedaar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente
o mal com estremecimentos de sensualidade!

A parelha estacou, resvalando  porta do hotel. O snr. Bazilio de
Brito no estava, o snr. visconde Reynaldo, sim.

--Bem, para casa, para onde eu disse!

O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril,
insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que
lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe
uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe
viesse  cabea!...

 porta no tinha troco para o cocheiro. Espere!--disse, subindo
furiosa--Eu lhe mandarei pagar!

--Que bicha!--pensou o cocheiro.

Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a to vermelha, to
excitada.

Luiza foi direita ao quarto: o _cuco_ cantava tres horas. Estava tudo
desarrumado; vasos de plantas no cho, o toucador coberto com um lenol
velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um leno amarrado na
cabea, varria tranquillamente, cantarolando.

--Ento voss ainda no arrumou o quarto!--gritou Luiza.

Juliana estremeceu quella colera inesperada.

--Estava agora, minha senhora!

--Que estava agora vejo eu!--rompeu Luiza.--So tres horas da tarde e
ainda o quarto n'este estado!

Tinha atirado o chapo, a sombrinha.

--Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...--disse Juliana.

E seus beios faziam-se brancos.

--Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem voss com isso? A
sua obrigao  arrumar logo que eu me levante. E no querendo, rua,
fazem-se-lhe as contas!

Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados:

--Olhe, sabe que mais? no estou para a aturar!

E arremessou violentamente a vassoura.

--Sia!--berrou Luiza--Sia immediatamente! Nem mais um momento em casa!

Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a
voz rouca:

--Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer!

--Joanna!--bradou Luiza.

Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana
descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:

--A senhora no me faa sahir de mim! A senhora no me faa perder a
cabea!--E com a voz estrangulada atravs dos dentes cerrados:--Olhe
que nem todos os papeis foram p'ra o lixo!

Luiza recuou, gritou:

--Que diz voss?

--Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu
aqui!--E bateu na algibeira, ferozmente.

Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no cho,
junto  _causeuse_, desmaiada.




VIII


A primeira impresso, mal acordada, de Luiza foi que duas figuras,
que no conhecia, estavam debruadas sobre ella. Uma, a mais forte,
afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore do
toucador, despertou-a. Sentiu ento uma voz dizer abafadamente:

--Est muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.^a Juliana?

--De repente.

--Eu vi-a entrar to afogueada...

Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do
rosto:

--Est melhor, minha senhora?

Abriu os olhos, a percepo nitida das cousas foi-lhe voltando; estava
estendida na _causeuse_, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no
quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovlo, devagar,
com um olhar errante, vago:

--E a outra?...

--A snr.^a Juliana? Foi-se deitar. Tambem se no achava bem. Foi de vr
a senhora, coitada... Est melhorzinha?

Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe
parecia oscillar brandamente:

--Pde ir, Joanna, pde ir--disse.

--A senhora no precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem...

Luiza, s, pz-se a olhar em roda, espantada. Estava j tudo arrumado,
as janellas cerradas. Uma luva ficra cahida no cho: ergueu-se, ainda
tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente,
como somnambula, pl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello;
achava-se mudada, com _outra_ expresso como se fosse _outra_; e o
silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario.

--Minha senhora--disse a voz timida de Joanna.

--Que ?

-- o cocheiro.

Luiza voltou-se, sem comprehender:

--Que cocheiro?

--Um cocheiro; diz que a senhora que no tinha troco, que o mandou
esperar...

--Ah!

E como a uma luz de gaz que salta subitamente e alumia uma decorao,
viu, n'um relance, toda a sua desgraa!

Ficou to tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda:

--Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...--balbuciava.

Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a _causeuse_:

--Estou perdida!--murmurou, apertando as mos na cabea.

Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a
intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge,
o espanto dos seus amigos, a indignao d'uns, o escarneo dos outros;
e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma
fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror.

Que lhe restava?--Fugir com Bazilio!

Aquella ida, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente,
trespassou-a--como a agua d'uma inundao que subitamente alaga um
campo.

Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam to felizes em Paris, no
seu _appartamento_ da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! No levaria
malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as
joias da mam... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastio
para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de
riscadinho azul--ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe,
n'outras cidades...

--Se a senhora quer vir jantar...--disse Joanna  porta do quarto.

Tinha posto um avental branco, e acrescentou:

--A snr.^a Juliana est deitada, diz que est com a dr, no pde
servir  mesa.

--J vou.

Tomou apenas uma colhr de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e
erguendo-se:

--Que tem ella?

--Diz que  uma dr muito forte no corao.

Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, ento! E com uma
esperana perversa:

--V vr, Joanna, v vr como est!

Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dr! Iria logo ao
quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E no teria
medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver...

--Est mais descanada, minha senhora--veio dizer a Joanna--diz que
logo que se levanta. Ento a senhora no come mais nada? Credo!

--No.

E entrou para o quarto, pensando:--de que serve estar a imaginar
cousas? S me resta fugir.

Decidiu-se logo a escrever a Sebastio; mas no pde acertar com outras
palavras alm do comeo, no alto, n'uma letra muito trmula: _Meu
amigo!_

Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella no voltasse, nem
 tarde, nem  noite--as criadas, a _outra_, a infame! iriam logo a
Sebastio. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum
accidente, correria  Encarnao, depois  policia, esperaria n'uma
angustia at de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanas
de a vr chegar, decepes aterradas,--at que telegrapharia a Jorge!
E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao
ruido offegante da machina, para um destino novo!...

Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraa!
O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro
paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer _crochet_, e
partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas
consolaes do luxo, em alcovas de sda, com um camarote na Opera!...
Era bem tola em se affligir! Quasi fra uma felicidade aquelle
desastre! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraar da
sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria
sempre uma timidez maior para a reter!

E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria s d'um homem;
no teria de amar em casa e amar fra de casa!

Veio-lhe mesmo a ida de ir ter immediatamente com Bazilio, acabar com
aquillo por uma vez. Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas
escuras, a noite, e os bebedos...

Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenos, alguma roupa
branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, ps
d'arroz, algumas joias que tinham pertencido  mam... Quiz levar as
cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo,
no gaveto do guarda-vestidos. Espalhou-as no regao; abriu uma, d'onde
cahiu uma florzinha scca; outra que tinha, na dobra, a photographia
de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que no estavam completas! Tinha
_sete_: _cinco_ bilhetes curtos, e _duas_ cartas--a primeira que elle
lhe escrevra, to terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as...
Faltava, com effeito, a _primeira_, e _dous_ bilhetes! Tinha-lh'as
roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva
de subir ao soto, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!...
Que lhe importava, por fim!--E deixou-se cahir na _causeuse_,
aniquilada--Que ella tivesse uma, duas, todas--era a mesma desgraa!

E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o
chapo, um chale-manta...

O _cuco_ cantou dez horas. Entrou ento na alcova; pz o castial
sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de
fusto branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fra ella que bordra
aquella coberta de _crochet_ no primeiro anno de casada: no havia uma
malha que no correspondesse a uma alegria. Jorge s vezes vinha vl-a
trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe
baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodo grosso! Alli dormira
com elle tres annos: o seu lugar era de l, do lado da parede... Fra
n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante
semanas elle no se deitra--a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a
dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dces
que lhe faziam to bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena:
dizia-lhe: isso vai passar, manh ests boa, vamos passear. Mas o
seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou ento pedia-lhe:
Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!... E ella
queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que
voltava, lhe refrescava o sangue!

Nos primeiros dias da convalescena era elle que a vestia; ajoelhava-se
para lhe calar os sapatos, embrulhava-a no roupo, vinha estendel-a na
_causeuse_, sentava-se ao p d'ella a lr-lhe romances, desenhar-lhe
paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle,
no tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar
por ella--seno elle! Adormecia sempre com as mos nas suas, porque
a doena deixra-lhe um vago medo dos pesadlos da febre; e o pobre
Jorge, para a no acordar, alli ficava com a mo presa, horas, sem se
mover. Deitava-se vestido n'um colxosito ao p d'ella. Muitas vezes,
acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de
certo, porque ella ento estava salva! o medico, o bom dr. Caminha,
tinha-o dito: Est livre de perigo, agora  refazer esse corpinho. E
Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mos do
velho,--tinha-as coberto de beijos!

E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar
alli na alcova--visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe,
com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E
elle alli estaria, n'aquella casa s, chorando, abraado a Sebastio.
Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas
chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle!
Dormiria alli _s_! J no teria ninguem para o acordar de manh com um
beijinho, passar-lhe o brao pelo pescoo, dizer-lhe: _ tarde, Jorge!_
Tudo acabra para ambos. Nunca mais!--Rompeu a chorar, de bruos sobre
a cama...

Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se
aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados
afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina.

--A snr.^a Juliana--disse--levantou-se um momento, mas diz que ainda
est mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora no precisa mais nada?

--No--disse da alcova.

Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.


Juliana em cima no dormia. A dr passra-lhe--e agitava-se sobre o
enxergo, com o diabo da espertina! como tantas outras noites, nas
ultimas semanas. Porque desde que apanhra a carta no _sarcophago_
vivia n'uma febre; mas a alegria era to aguda, a esperana to larga
que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado
d'ella! Desde que Bazilio comera a vir a casa, tivera logo um
palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez!
A primeira satisfao fra n'aquella noite em que achra, depois
de Bazilio sahir s dez horas, a travssinha de Luiza cahida ao p
do soph. Mas que exploso de felicidade, quando, depois de tanta
espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no _sarcophago_!
Correu ao soto, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da
cousa arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma
perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho:

--Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus!

E que havia de fazer _quillo_?--foi ento a sua inquietao. Ora
pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella
o dinheiro? No; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaas
de a publicar, extorquir-lhe _um rr_ de libras por meio d'outra
pessoa, j se v, e ella  capa! E em certos dias em que a figura, as
_toilettes_, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas
de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lr o papel, pl-a mais rasa
que a lama, vingar-se da cabra!

Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo que para
a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota. Comera
ento o lento trabalho de lh'a apanhar! Fra preciso muita finura,
muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cra, paciencia
de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a
lido com a tia Victoria--que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em
que Bazilio lhe dizia: Hoje no posso ir, mas espero-te manh s
duas; mando-te essa rosinha, e peo-te que faas o que fizeste  outra,
trazel-a no seio, porque  to bom quando vens assim, sentir-te o
peitinho perfumado!... A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar  sua
velha amiga, a Pdra, a Pdra gorda, que estava na saleta.

A Pdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal
cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mos nas
ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeiro de trombone:

--Essa  das boas, tia Victoria! Essa  de mestre. No, isso merece ir
para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo!

A tia Victoria, ento, disse muito seriamente a Juliana:

--Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso j pdes fallar d'alto.
 esperar a occasio. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a
fartar para ella no desconfiar, e o olho lerta. Tens o rato seguro,
deixa-o dar ao rabo!

E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito
comsigo--aquelle gozo de a ter na mo, a Luizinha, a senhora, a
patroa, a _piorrinha_! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar,
comer bem--e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga,
que eu c t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso.
Sentia-se vagamente _senhora da casa_. Tinha alli fechada na mo a
felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patres! Que desforra!

E o futuro estava certo! _Aquillo_ era dinheiro, o po da velhice. Ah!
tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma _Salv-rainha_ de
graas a Nossa Senhora, mi dos homens!

Mas agora, depois d'aquella _scena_ com Luiza--no podia ficar de
braos cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa,
pr-se em campo, fazer _alguma cousa_. O que? A tia Victoria  que
havia de dizer...

Logo pela manh s sete horas, sem tomar o seu caf, sem fallar a
Joanna, desceu devagar, sahiu.

A tia Victoria no estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr.
Gouva, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava,
dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os _bons dias_ em
redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos.

Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que
estava sentada no canap, depois de ter dado um sorriso a Juliana,
continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos:

--Pois no imagina, snr.^a Anna, no faz ida!  uma desgraa!  todas
as noites como um carro. s vezes at acordo com o barulho que elle faz
a fallar s, a tropear na escada... Eu, do que tenho mais medo,  que
o demonio adormea com a luz e haja um fogo. Ah!  de todo!

--Quem?--perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario,
que fallava de p a um criado alto, de suias e gravata branca
enxovalhada.

--O Cunha, o filho do meu patro.  uma desgraa!

--Piteireiro, hein?--disse o rapazola, enrolando o cigarro.

--Um horror! Eu pela manh nem posso entrar no quarto, que  um
cheiro... A mi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz j esteve para ser
posto fra do emprego. Ai! no estou nada contente, nada contente!

--Pois olhe que por l tambem ha desgosto grande--disse, baixando a
voz, a do chale de quadrados.

Os dous homens aproximaram-se.

--O senhor--continuou ella com gestos aterrados-- um desafro com a
cunhada!... A senhora sabe, e aquillo so questes de dia e de noite!
As duas irms andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dres da
rapariga, a mulher pe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal!

--E ento se a gente tem l o seu descuido--disse o da gravata branca
com indignao-- aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli!

--L a sua gente  socegada, snr. Joo--observou a picada das bexigas.

-- boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas,
apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes  uma santa
gente, a verdade  a verdade! E come-se bem!

E voltando-se para o trintanario, batendo-lhe no hombro, com uma voz
que o admirava e que o invejava:

--Mas isto sim! Isto  que  leval-a!

O rapazola sorriu com satisfao:

--Ora! so mais as vozes do que as nozes!

--V l, mostra l--disse o da gravata branca tocando-lhe com o
cotovlo--mostra l!

O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaando a
blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro.

--Muito bonito! Rica prenda!--disseram as duas mulheres.

--Suor do meu rosto--fez elle, acariciando o queixo.

O da gravata branca indignou-se:

--Ora seu marto!--E baixo para as raparigas:--Suor do seu rosto,
hein!-- o seraphim da patra, uma senhora da alta que aquillo so tudo
sdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa
mulher, recebe d'estas lembranas, um relogio d'um par de moedas--e
ainda falla!

O rapazola disse ento, enterrando as mos na algibeira:

--E se quizer agora, ha-de largar a corrente!

--Ha-de-lhe custar muito!--exclamou o da gravata branca.--Uma gente que
tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros
 d'ella!

--Mas muito agarrada!--disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o
cigarro ao canto da bocca:--Estou com ella ha dous mezes, e ainda se
no desabotoou seno com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu,
como quem diz, um dia passo-lhe o p!--E cofiando o cabello para a
testa:--No faltam mulheres! e das que tem _Dom_!

Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no brao; e
vendo Juliana:

--Ol! por c! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis.
Bons dias, snr.^a Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por c o
alfenim! Entra c p'ra dentro, Juliana! Eu j venho, meus pombinhos, 
um instante!

Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguo:

--E ento, que ha de novo?

Juliana pz-se a contar longamente a _scena_ da vespera, o desmaio...

--Pois minha rica--disse a tia Victoria--o que est feito, est feito;
no ha tempo a perder;  mos  obra! Tu vaes ao Brito, ao htel, e
entendes-te com elle.

Juliana recusou-se logo: no se atrevia, tinha medo...

A tia Victoria reflectiu, coando o ouvido; foi dentro, cochichou com o
tio Gouva, e voltando, fechando a porta do quarto:

--Arranja-se quem v. Tens tu as cartas?

Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim
escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com
desconfiana.

--Tens medo de largar os papeis, creatura?--exclamou offendida a
velha.--Arranja-te tu, ento arranja-te tu...

Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!...

--A pessoa--disse a tia Victoria--vai manh  noite fallar com o
Brito, e pede-lhe um conto de reis!

Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava
a brincar!

--Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi no tinha mal
nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem--ainda
hontem a vi com uma pequerrucha que tem--pagou trezentos mil reis. E em
bellas notas. Pagou-os o janota, j se sabe, foi o janota que pagou. Se
fosse outro, no digo, mas o Brito!  rico,  um man-rtas, cahe logo...

Juliana, muito branca, agarrou-lhe o brao, tremula:

--Oh tia Victoria, dava-lhe um crte de sda.

--Azul! at j te digo a cr!

--Mas o Brito  homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas,
se lhe faz alguma!

A tia Victoria fitou-a, com desdem:

--Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando l algum tolo? Nem as
cartas vo, o que vai  uma copia! Olha quem! O melro que l ha-de ir!

E depois de reflectir um momento:

--Tu vai-te para casa...

--No, l isso no volto...

--Tambem tens razo. At vr em que param as modas, vem c dormir.
Jantas c hoje; tenho uma rica pescada...

--Mas no haver perigo, tia Victoria, se o Brito vai  policia...

A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada:

--Olha, vai-te, que me ests a emphrenesiar! Policia! Qual policia!
Essas cousas levam-se l  policia... Deixa a cousa commigo! Adeus--e
s quatro para jantar, hein!

Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis! _Era o conto de
reis_ que voltava, o que j um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe
vinha agora cahir na mo, com um tlin-tlin de libras e um _frou-frou_
de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas
differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella
venderia! um marido ao seu lado, s horas da ca! pares de botinas das
boas, das _chics_. Onde poria o dinheiro? No Banco? No; no fundo da
arca--para estar mais seguro, mais  mo!

Para passar a sua manh, comprou uma quarta de rebuados, e foi-se
sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando
j a sua vida rica, julgando-se j senhora; mesmo fez olho a um
proprietario pacifico e rubicundo--que se afastou escandalisado!

quella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:--
hoje!--foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel
contrahiram-lhe o corao. Comeou depois a vestir-se, muito nervosa
com a ida de vr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, no
almoar, sahir p ante p s onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel,
quando a voz de Joanna disse  porta do quarto:

--A senhora faz favor?

Comeou logo a contar, muito espantada, que a snr.^a Juliana tinha
sahido de manh, ainda no voltra, estava tudo por arrumar...

--Bem, arranje-me o almoo, eu j vou...--Que allivio para ella!

Calculou logo que Juliana deixra a casa. Para que? Para lhe armar
alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar
Bazilio no _Paraiso_.

Foi  sala de jantar, bebeu um gole de ch, de p,  pressa.

--A snr.^a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?--veio dizer Joanna
assombrada.

Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente:

--Depois se saber...

Era hora e meia, foi pr o chapo. O corao batia-lhe alto, e
apesar do terror de vr entrar Juliana, no se decidia a sahir;
sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou
emfim.--Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte
a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupo
estava cahido aos ps da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete
felpudo...--Que desgraa! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos
pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album,
tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de
marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a
porta, desceu a escada correndo.

 Patriarchal passava um _coup de praa_. Tomou-o, mandou-o ir ao
_Hotel Central_.

O snr. Brito sahira logo de manh cedo, disse o porteiro muito
azafamado. De certo algum paquete chegra, porque entravam bagagens,
fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro;
passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouo
do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um
desejo de viagens, do ruido nocturno das _gares_  claridade do gaz, da
agitao alegre das partidas nas manhs frescas, sobre o tombadilho dos
paquetes!

Deu ao cocheiro a adresse do _Paraiso_. E  maneira que o trem
trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa,
se esbatiam, se dissipavam n'um horisonte abandonado.  porta d'um
livreiro julgou entrevr Julio; debruou-se pela portinhola,
precipitadamente; no o avistou, teve pena: ia-se sem vr um amigo da
casa! Todos agora, Julio, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe
pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que
repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastio, to bom!
Nunca mais lhe ouviria tocar a sua _Malaguenha_!

Ao fim da rua do Ouro o _coup_ parou n'um embarao de carroas,
e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o
banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que tinha uma paixo por ella:
um rapazito rto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous
pollegares nas algibeiras do collete branco, dizia graas ao rapaz, com
um desdem ricao, dardejando olhadellas sobre Luiza, atravs dos seus
oculos d'ouro. Ella, pelo canto do olho, observava-o: tinha uma paixo
por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre
panudo, a perninha curta. A lembrana de Bazilio atravessou-a, a sua
linda figura!...--e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o vr.

O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado 
esquina, gente descia apressada, de calas brancas, vestidos leves,
vinda de Belem, de Pedrouos; preges cantavam.--Todos alli ficavam nas
suas familias, nas suas felicidades, s ella partia!

Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla--uma senhora casada com um
velho, illustre pelos seus amantes. Parecia gravida; e adiantava-se
devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo
arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta cr de pinho,
uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de
lavradeira, empurrava um carrinho de mo onde um bb se babava. E
a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas
fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella;
era rica, dava _soires_...--O que  o mundo!--pensava Luiza.

O trem parou  porta do _Paraiso_, era meio dia. A portinha em cima
estava fechada: e a patra appareceu logo, ciciando que sentia
muitissimo, mas s o senhor  que tinha a chavesinha, se a senhora
quizesse descanar... N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio
appareceu galgando os degraus.

--At que emfim!--exclamou abrindo a porta.--Porque no vieste
hontem?...

--Ah! se tu soubesses...

E, agarrando-lhe os braos, cravando os olhos n'elle:

--Bazilio, sabes, estou perdida!

--Que ha?

Luiza atirra o sacco de marroquim para o canap, e, d'um folego,
contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas,
a _scena_ no quarto...--O que me resta  fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu
disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe
aquelle sacco, com o necessario, lenos, luvas... hein?

Bazilio com as mos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as
chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras.

--Isso s a ti!--exclamou.--Que douda! Que mulher!--E muito
excitado:--Isso  l questo de fugir? Que ests tu a fallar em fugir?
 uma questo de dinheiro. O que ella quer  dinheiro.  vr quanto
quer, e pagar-se-lhe!

--No, no!--fez Luiza--No posso ficar!--Tinha uma afflico na voz.
A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo
podia fallar, Jorge saber: estava perdida, no tinha coragem de voltar
para casa!--No sinto um momento de descano, em quanto estiver em
Lisboa. Partimos hoje, sim? Se no pdes, manh. Eu vou para algum
hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me esta noite. Mas, manh vamos.
Se elle sabe, mata-me, Bazilio! Sim, dize que sim!--Agarrra-se a elle,
procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle.

Bazilio desprendeu-se brandamente:

--Ests douda, Luiza, tu no ests em ti! Pde l pensar-se em fugir!
Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com
os telegraphos!  impossivel! Fugir  bom nos romances! E depois, minha
filha, no  um caso para isso!  uma simples questo de dinheiro...

Luiza fazia-se branca, ouvindo-o.

--E alm d'isso--continuou Bazilio, muito agitado, pelo quarto--eu
no estou preparado, nem tu! No se foge assim. Ficas desacreditada
para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, deixa de
ser a snr.^a D. Fulana,  a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma
concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar?
Queres ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te  febre amarella?
E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas
bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? O
teu caso  simplicissimo. Entendes-te com essa creatura, d-se-lhe um
par de libras, que  o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada,
respeitada como d'antes--smente mais acautelada! Aqui est!

Aquellas palavras cahiam sobre os planos de Luiza, como machadadas que
derrubam arvores. s vezes a verdade que ellas continham atravessava-a
irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume
frio. Mas via n'aquella recusa uma ingratido, um abandono. Depois
de se ter installado, pela imaginao, n'uma segurana feliz, longe,
em Paris--parecia-lhe intoleravel ter de voltar para casa, de cabea
baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que
entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre as
mos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que
servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo!
E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a
rondar!

Ficra calada, como perdida n'uma reflexo vaga; e de repente erguendo
a cabea, com um olhar brilhante:

--Ento, dize!...

--Mas estou-te a dizer, filha...

--No queres?

--No!--exclamou Bazilio com fora.--Se tu ests douda, no estou eu!

--Oh! pobre de mim, pobre de mim!

Deixou-se cahir no soph, tapou o rosto com as mos. Soluos baixos
sacudiam-lhe o peito.

Bazilio sentou-se ao p d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e
impacientavam-no.

--Mas, santo nome de Deus, escuta-me!

Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto:

--Para que dizias ento, tantas vezes, que seriamos to felizes, que se
eu quizesse...

Bazilio ergueu-se bruscamente:

--Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo n'um wagon, vir para
Paris, viver commigo, ser a minha amante?

--Sahi de casa p'ra sempre, ahi est o que eu fiz!

--Mas vaes voltar p'ra casa!--exclamou elle, quasi com colera.--Por que
havias de tu fugir? por amor? ento deviamos ter partido ha um mez, no
ha razo agora para irmos. Para que, ento? Para evitar um escandalo?
com um escandalo maior, no  verdade? um escandalo irreparavel,
medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!--Tomou-lhe as mos,
com muita ternura:--Tu imaginas que eu no seria feliz em ir viver
comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O
escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a
mulher vai-se pr a fallar? O seu interesse  safar-se, desapparecer;
sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves falsas.
A questo  pagar-lhe.

Ella disse, com uma voz lenta:

--E o dinheiro, onde o tenho eu?

--Est claro que o dinheiro tenho-o eu!--E depois de uma pausa:--No
muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...--Hesitou,
disse:--se a creatura quizer duzentos mil reis, do-se-lhe!

--E se no quizer?

--Que ha-de ella querer, ento? Se roubou a carta  para a vender! No
 para guardar um autographo teu!

Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto exasperado. Que
pretenso querer vir com elle para Paris, embaraar-lhe para sempre
a sua vida! E que despeza to tola, dar um 'rr de libras a uma
ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada nos papeis
sujos, a criada, a chave falsa do gaveto dos vestidos--parecia-lhe
soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar:

--Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. Mas pelo amor
de Deus, no faas outra; no estou para pagar as tuas distraces a
trezentos mil reis cada uma!

Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto.

--Se  uma questo de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio!

No sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia...
No o aceitaria d'elle!

Bazilio encolheu os hombros:

--Ests-te a dar ares, onde o tens tu?

--Que te importa?--exclamou.

Bazilio coou a cabea, desesperado. E tomando-lhe as mos, com uma
impaciencia reprimida:

--Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu no tens
dinheiro.

Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o brao:

--Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe tu, arranja tudo. Eu
no a quero tornar a vr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu!

Bazilio recuou vivamente, e batendo com o p:

--Ests douda, mulher! Se eu lhe fallo, ento pede tudo, ento pede-me
a pelle! Isso  comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te!

--Nem isso me fazes?

Bazilio no se conteve:

--No! c'os diabos, no!

--Adeus!

--Tu ests fra de ti, Luiza!

--No. A culpa  minha--dizia, descendo o vo com as mos tremulas--eu
 que devo arranjar tudo!

E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a por um brao.

--Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? no podemos romper assim!
Escuta...

--Fujamos ento, salva-me de todo!--gritou ella, abraando-o
anciosamente.

--Caramba! Se te estou a dizer que no  possivel!

Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O coup esperava-a.

--Para o Rocio--disse.

E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar
convulsivamente.


Bazilio sahiu do _Paraiso_ muito agitado. As pretenses de Luiza, os
seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no
tanto, que tinha quasi vontade de no voltar ao _Paraiso_, calar-se, e
_deixar correr o marfim_! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem
a amar appetecia-a: era to bem feita, to amorosa, as revelaes do
vicio davam-lhe um delirio to adoravel! Um conchegosinho to picante
em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicao! Ao entrar no
hotel, disse ao seu criado:

--Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que v ao meu quarto.

Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um
calix de cognac, e estirou-se no soph. Ao p, na jardineira, tinha o
seu _buvard_ com um largo monogramma em prata sob a cora de conde,
caixas de charutos, os seus livros--_Mademoiselle Giraud ma femme_,
_La vierge de Mabille_, _Ces Frippones! Memoires secrtes d'une femme
de chambre_, _Le chien d'arrt_, _Manuel du chasseur_, numeros do
_Figaro_, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo.

E soprando o fumo do charuto, comeou a considerar, com horror, a
situao! No lhe faltava mais nada seno partir para Paris, com
aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua
vida to arranjadinha, e patatrs! embrulhar tudo, porque  menina
lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro!
No fim, toda aquella aventura desde o comeo fra um erro! Tinha sido
uma ida de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal.
Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor
e o _b[oe]uf  la mode_ do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar
a patria ao inferno!... Mas no idiota! Os seus negocios tinham-se
concluido,--e elle, burro, ficra alli a torrar em Lisboa, a gastar uma
fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para qu? Para uma
d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine!

Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era
agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o
adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava
tudo! No, realmente, o mais razoavel era safar-se!

A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto
Paraguay; a grandeza da especulao trouxera a formao d'uma
companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros
francezes queriam resgatar as aces brazileiras, que eram um
_empecilho_, formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio
um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com
alguns brazileiros, e comprra as aces habilmente. A prolongao
d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbao na sua vida
pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha
passar o p!

A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou--afogueado, de lunetas
azues, furioso.

Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um
paiz de negros. Tivera a estupida ida de ir visitar uma tia--que o
fizera logo membro d'uma associao para no sei que diabo de que
creche, e que lhe prgra moral! Tambem que ida de collegial--ir
visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse
repugnancia, eram as ternuras de familia!

--E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho at ao jantar!

--Sabes o que me succede?--disse Bazilio, erguendo-se.

--O qu?

--Imagina. O caso mais estupido.

--O marido apanhou-te?

--No, a criada!

--_Shocking!_--exclamou Reynaldo com njo.

Bazilio contou miudamente o caso. E cruzando os braos diante d'elle:

--E agora?

--Agora  safar-te!

E levantou-se.

--Onde vaes tu?

--Vou ao banho.

Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle...

--No posso!--exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.--Vem tu c
abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua!

Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez.

Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade
na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou,
deleitando-se no seu conforto:

--Ento cartinha apanhada nos papeis sujos!

--No, Reynaldo, mas francamente estou embaraado; que achas tu que eu
faa?

--As malas, menino!

E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro:

--Ahi est o que  fazer amor s primas da Patriarchal Queimada!

--Oh!--fez Bazilio, impaciente.

--Oh qu?--E, coberto de flocos d'espuma, com as mos apoiadas ao
rebordo de marmore da tina:--Pois tu achas isso decente, uma mulher
que toma a cozinheira por confidente, que lhe est na mo, que perde a
carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se
quer safar--isso  l amante, isso  l nada! Uma mulher que, como tu
mesmo disseste, usa meias de tear!

--Meu rico,  uma mulher deliciosa!

O outro encolheu os hombros, descrente.

Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou
episodios lascivos.

O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons
macios de leite; a exhalao da agua tepida augmentava o calor morno; e
um cheiro fresco de sabo e agua de Lubin adoava o ar.

--Bem! ests pelo beio--resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se.

Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposio
grotesca.

--Mas dize, ento, queres ficar-lhe agarrado s saias ou queres
desembaraar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade!

--Eu--disse logo Bazilio, chegando-se  tina, baixo--se me podesse
desembaraar decentemente...

--Oh desgraado! tens uma occasio divina! Ella sahiu como uma bicha,
dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, que vendo que ella deseja
romper, no a queres importunar, e partes. Os teus negocios esto
concluidos, no  verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que
sim. Bem, ento s decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna!

E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabea,
pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica.

--Mas tambem--disse Bazilio--deixal-a agora n'aquella atrapalhao com
a criada! No fim  minha prima...

Reynaldo agitou os braos, com hilaridade.

--Esse espirito de familia  optimo! Vai l, idiota, dize-lhe que s
obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de
notas na mo.

-- brutal...

-- caro!

Bazilio disse ento:

--Olha que tambem  uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela
criada...

Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo:

--Esto a estas horas a esgadanharem-se uma  outra!

Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava
confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se no tivesse
esquecido de _frapper_ o champagne!

Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde,
a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com
effeito a ralhar, a descompr-se? Que _pulhice_ que era tudo aquillo!
Positivamente devia partir.

--Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa?

--Um telegramma! No ha nada como um telegramma! Telegrapha j ao teu
homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que , que te
mande logo este despacho: Parta, negocios maus, etc.  o melhor!

--Vou fazel-o--disse Bazilio erguendo-se, muito decidido.

--E partimos manh?--gritou Reynaldo.

--manh.

--Por Madrid?

--Por Madrid.

--_Salero!_--Pz-se de p, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e
com movimentos aduncos de magricella saltou para fra, embrulhou-se
no roupo turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente,
ajoelhou-se, tomou-lhe um p entre as mos, seccou-lh'o com precaues,
pz-se respeitosamente a calar-lhe a meia de sda preta com
ferradurinhas bordadas.


Na manh seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater
discretamente  porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa--desde o
desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente:

--Est alli o primo da senhora.

Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de _robe de chambre_, e tinha
os olhos vermelhos de chorar; pz n'um instante um pouco de p d'arroz,
alisou o cabello, entrou na sala.

Bazilio, vestido de claro, sentra-se melancolicamente no mcho do
piano. Trazia um ar grave, e, sem transio, comeou a dizer:--que
apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo
como d'antes. Viera porque n'aquelle momento no se podiam separar
sem algumas explicaes, sobretudo sem resolver definitivamente o caso
da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas:

--Porque eu vejo-me forado a sahir de Lisboa, minha querida!

Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso.
Bazilio acrescentou logo:

--Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim
tenho de partir... Se fossem s os meus interesses!--Encolheu os
hombros com desdem.--Mas so interesses d'outros... E aqui est o que
eu recebi esta manh.

Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a
sua mo fazia tremer o papel.

--L, peo-te que leias!

--Para que?--fez ella.

Mas leu baixo: Venha, graves complicaes. Presena absolutamente
necessaria. Parta j.

Dobrou o papel, entregou-lh'o.

--E partes, hein?

-- foroso.

--Quando?

--Esta noite.

Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mo:

--Bem, adeus.

Bazilio murmurou:

--s cruel, Luiza!... No importa! Em todo o caso ha um negocio que 
necessario terminar. Fallaste  mulher?

--Est tudo arranjado--respondeu ella, franzindo a testa.

Bazilio tomou-lhe a mo, e quasi com solemnidade:

--Minha filha, eu sei que s muito orgulhosa, mas peo-te que digas a
verdade. Eu no te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe?

Ella retirou a mo, e com uma impaciencia crescente:

--Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!...

Bazilio parecia muito embaraado, estava mesmo um pouco pallido: emfim,
tirando uma carteira da algibeira, comeou:

--Em todo o caso  possivel,  natural (ns no sabemos com quem
lidamos),  natural que haja outras exigencias...--Abriu a carteira,
tomou um sobrescripto pequenino e cheio.

Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio.

--Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece
bom deixar-te algum dinheiro.

--Tu ests doudo?--exclamou ella.

--Mas...

--Tu queres-me dar dinheiro?--A sua voz tremia.

--Mas emfim...

--Adeus!--E ia sahir da sala, indignada.

--Luiza, pelo amor de Deus! Tu no me comprehendeste...

Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar:

--Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas no, no  necessario. Estou
nervosa,  o que ... No prolonguemos mais isto... Adeus...

--Mas sabes que volto, dentro de tres semanas...

--Bem, ento nos veremos...

Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios
passivos e inertes.

Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito;
disse-lhe baixo, pondo muita paixo na voz:

--Nem um beijo me queres dar?

Nos olhos de Luiza passou um ligeiro claro; beijou-o rapidamente, e
recuando:

--Adeus.

Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro:

--Adeus!--E da porta, voltando-se, com melancolia:--Escreve-me ao
menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22.

Luiza chegou-se  janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao
cocheiro, saltar para o coup, fechar com fora a portinhola, sem um
olhar para as janellas!

O trem rolou. Era o n.^o 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado
no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.--Elle partia alegre,
levando as recordaes romanescas da aventura: ella ficava, nas
amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!

Veio-lhe um sentimento pungente de solido e de abandono. Estava s, e
a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da
densa noite, erriada de perigos!

Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no soph: viu ao p o
sacco de marroquim, que preparra na vespera para fugir: abriu-o,
pz-se a tirar lentamente os lenos, uma camisinha bordada,--encontrou
a photographia de Jorge! Ficou com ella na mo, contemplando o seu
olhar leal, o seu sorriso bom.--No, no estava no mundo s! Tinha-o
a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!--E
collando os beios ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos,
atirou-se de bruos, lavada em lagrimas, dizendo:--Perda-me, Jorge,
meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma!


Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente:

--A senhora no lhe parece que seria bom ir saber da snr.^a Juliana?

--Mas onde quer voss ir saber?--perguntou Luiza.

--Ella s vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os
lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem
no mandar recado desde hontem pela manh... Cousa assim! Eu podia ir
saber...

--Pois bem, v, v.

Aquella desappario brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava,
que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo,
longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabea,
terrivelmente...

Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim s
em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que quella hora Bazilio
em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se
no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando
leval-o-hia para sempre! Porque no acreditava na demora de tres
semanas, um mez! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar
sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separao, e
sangrava dolorosamente!

Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou
que seria Joanna de volta, foi abrir com um castial,--e recuou vendo
Juliana, amarella, muita alterada.

--A senhora faz favor de me dar uma palavra?

Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando,
furiosa:

--Ento a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina
que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim?

--Que , mulher?--fez Luiza, petrificada.

--Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar
em nada?--berrou.

--Oh mulher, pelo amor de Deus!...

A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se.

Mas depois de um momento, mais baixo:

--A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa
era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou canada
de trabalhar, e quero o meu descano. No ia fazer escandalo, o que
desejava  que elle me ajudasse... Mandei ao htel esta tarde... O
primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes,
para o inferno! E o criado ia  noite com as malas. Mas a senhora
pensa que me logram?--E retomada pela sua colera, batendo com o punho
furiosamente na mesa:--Raios me partam, se no houver uma desgraa
n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal!

--Quanto quer voss pelas cartas, sua ladra?--disse Luiza, erguendo-se
direita, diante d'ella.

Juliana ficou um momento interdicta.

--A senhora ou me d seiscentos mil reis, ou eu no largo os
papeis!--respondeu, empertigando-se.

--Seiscentos mil reis! Onde quer voss que eu v buscar seiscentos mil
reis?

--Ao inferno!--gritou Juliana.--Ou me d seiscentos mil reis, ou to
certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lr as cartas!

Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada.

--Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto?

Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.

--A senhora diz bem, sou uma ladra,  verdade, apanhei a carta no
cisco, tirei as outras do gaveto.  verdade! E foi para isto, para
m'as pagarem!--E traando, destraando o chale, n'uma excitao
phrenetica:--No que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito,
estou farta! V buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos!
Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez,
estafo-me a trabalhar, de madrugada at  noite, em quanto a senhora
est de panria!  que eu levanto-me s seis horas da manh--e  logo
engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora est muito regalada em
valle de lenoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo
com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja,
suja, quer ir vr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por
baixo, e c est a negra, com a pontada no corao, a matar-se, com o
ferro na mo! E a senhora, so passeios, tipoias, boas sdas, tudo o
que lhe appetece--e a negra? A negra a esfalfar-se!

Luiza, quebrada, sem fora de responder, encolhia-se sob aquella colera
como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma
violencia da sua voz. E as lembranas das fadigas, das humilhaes,
vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira.

--Pois que lhe parece?--exclamava.--No que eu cmo os restos e a
senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma
gota de vinho, quem m'o d? Tenho de o comprar! A senhora j foi ao
meu quarto?  uma enxovia! A persevejada  tanta que tenho de dormir
quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de
desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada!
A criada  o animal. Trabalha se pdes, seno rua, para o hospital.
Mas chegou-me a minha vez--e dava palmadas no peito, fulgurante de
vingana.--Quem manda agora, sou eu!

Luiza soluava baixo.

--A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu no
lhe quero mal, minha senhora, certamente que no! Que se divirta, que
goze, que goze! O que eu quero  o meu dinheiro. O que eu quero  o meu
dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto
me rache, se eu no fr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos,
 visinhana toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura!

Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaos:

--Mas d-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui
tem os papeis, e o que l vai, l vai, e at lhe levo outras. Mas o
meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este
instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca
se torna a abrir!--E deu uma palmada na bocca.

Luiza erguera-se devagar, muito branca:

--Pois bem--disse, quasi n'um murmurio--eu lhe arranjarei o dinheiro.
Espere uns dias.

Fez-se um silencio--que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo
no quarto como que se tornra mais immovel. Apenas o relogio batia o
seu _tic-tac_, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma
luz avermelhada, e direita.

Juliana tomou a sombrinha, traou o chale, e depois de fitar Luiza um
momento:

--Bem, minha senhora--disse, muito secca.

Voltou as costas, sahiu.

Luiza sentiu-a bater a cancella com fora.

--Que expiao, Santo Deus!--exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada
de novo em lagrimas.

Eram quasi dez horas quando Joanna voltou.

--No pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe
d'ella.

--Bem, traga a lamparina.

E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo:

--A mulher tem arranjo, est mettida por ahi com algum sucio!


Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria
os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma
punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia
d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez
duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas
era o mesmo!

A noite estava quente, e na sua inquietao a roupa escorregra, apenas
lhe restava o lenol sobre o corpo. s vezes a fadiga readormecia-a
d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montes
de libras reluzirem vagamente, maos de notas agitarem-se brandamente
no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras comeavam a
rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um cho liso, e as notas
desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou
ento era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e
comeava a tirar do chapo, a deixar-lhe cahir no regao libras, moedas
de cinco mil reis, peas, muitas, muitas, profusamente: no conhecia o
homem: tinha um chin vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que
lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar
por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que no findava, e
que comeava a estreitar-se, a estreitar-se, at que era como uma fenda
por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando
sempre contra si o monto de libras que lhe punha frialdades de metal
sobre a pelle na do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua
miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de
amargura. Quem lhe poderia valer?--Sebastio! Sebastio era rico, era
bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de
Jorge:--Empreste-me seiscentos mil reis.--Para qu, minha senhora?
E podia l responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu
amante. Era l possivel! No, estava perdida. Restava-lhe ir para um
convento.

A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto:
atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao
acaso com um gancho; e de costas, com a cabea sobre os braos ns,
pensava amargamente no romance de todo aquelle vero,--a chegada de
Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao _Paraiso_...

Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas
do wagon!

E ella alli, na agonia!

Atirou o lenol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura
da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia.

Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da
manh gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela
janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao p sahia um
martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.--Aquella
alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. No se havia de
abandonar a uma desesperana inerte... Que diabo! Devia luctar!

Vieram-lhe esperanas, ento. Sebastio era bom, Leopoldina tinha
expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto
podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana
desappareceria, Jorge voltaria!--E, alvoraada, via perspectivas de
felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente.

Ao meio dia veio o criadito de Sebastio: o senhor tinha chegado
d'Almada, desejava saber como a senhora estava.

Correu ella mesma  porta; que pedia ao snr. Sebastio, que viesse logo
que podesse!

Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastio... No fim era o
que lhe restava: contar ella tudo a Sebastio, ou que a outra contasse
tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer
que fra s uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio,
alm d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E
Sebastio era to amigo d'ella!

Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e s
o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez,
quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer...
Preparra phrases, explicaes, uma historia de galanteio, de cartas
trocadas; e estava com a mo no fecho da porta, a tremer. Tinha medo
d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe
dsse mau humor, entrou.

Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera
to recto, e a sua barba to sria!

--Ento que ? precisa alguma cousa?--perguntou-lhe elle depois das
primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo.

Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo:

-- por causa de Jorge!

--Aposto que no lhe tem escripto?

--No.

--Esteve muito tempo sem me escrever tambem.--E rindo:--Mas hoje recebi
duas cartas por atacado.

Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fra
sentar-se no soph; olhava-o com o corao aos pulos, e as suas unhas
impacientes raspavam devagarinho o estfo.

-- verdade--dizia Sebastio, revolvendo o mao de papeis.--Recebi
duas, falla em voltar, diz que est muito seccado...--E estendendo uma
carta a Luiza:--Pde vr.

Luiza desdobrra-a, e comeava a lr; mas Sebastio, estendendo a mo
precipitadamente:

--Perdo, no  essa!

--No, deixe vr...

--No diz nada, so negocios...

--No, quero vr!

Sebastio, sentado  beira da cadeira, coava a barba, olhando-a, muito
contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa:

--O qu?--A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza
irritada.--Realmente!...

--So tolices, so tolices!--murmurava Sebastio, muito vermelho.

Luiza pz-se ento a lr alto, devagar:

Sabers, amigo Sebastio, que fiz aqui uma conquista. No  o que se
pde chamar uma princeza, porque  nem mais nem menos que a mulher
do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este
seu criado. Deus me perde, mas desconfio at que me leva apenas um
vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno
Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!--Que
graa!--murmurou Luiza, furiosa.--Receio muito que se repita commigo
o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito
em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como ,  lindissima. E
tenho medo que succeda algum fracasso  minha pobre virtude...

Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastio com um olhar terrivel.

--So brincadeiras!--balbuciou elle.

Ella seguiu, lendo: Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De
resto, o meu successo no pra aqui: a mulher do delegado faz-me um
olho dos diabos!  de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora
para Belem, conheces? e d-se ares de morrer de tedio, na tristeza
provinciana da localidade. Deu uma _soire_ em minha honra, e em minha
honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo--Luiza fez-se
escarlate--e uma queda do diabo...

--Est doudo!--exclamou ella.--E aqui tens o teu amigo feito um D.
Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa
provincia fra! O Pimentel recommenda-se...

Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando
a carta a Sebastio:

--Muito bem, diverte-se!--disse com uma voz sibilante.

--So l cousas que se tomem a serio! No deve tomar a serio...

--Eu!--exclamou ella.--Acho muito natural at!

Sentou-se, comeou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D.
Felicidade, de Julio...

--Trabalha muito agora para o concurso--disse Sebastio.--Quem no
tenho visto  o Conselheiro.

--Mas, quem  essa gente Gamacho, de Belem?

Sebastio encolheu os hombros--e com um ar quasi reprehensivo:

--Ora realmente tomou a serio...

Luiza interrompeu-o:

--Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu.

Sebastio teve um alvoroo d'alegria.

--Sim?

--Foi para Paris, no creio que volte.--E depois d'uma pausa, parecendo
ter esquecido Jorge, e a carta:--S em Paris est bem... Estava no
ar p'ra partir.--Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do
vestido:--Precisava casar, aquelle rapaz.

--P'ra assentar--disse Sebastio.

Mas Luiza no acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de
cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido.

Sebastio era d'opinio que s vezes socegavam, e eram homens de
familia...

--Teem mais experiencia--disse.

--Mas um fundo leviano--observou ella.

E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embarao.

--Eu a fallar a verdade--disse ento Luiza--estimei que meu primo
partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhana...
Ultimamente mesmo quasi que o no vi. Esteve ahi hontem, veio
despedir-se, fiquei surprehendida...

Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas
trocadas--mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar,
distanciar as suas relaes com Bazilio. Acrescentou mesmo:

--Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio 
egoista, pouco affeioado... De resto a nossa intimidade nunca foi
grande...

Calou-se bruscamente, sentiu que se enterrava.

Sebastio lembrva-se ouvir-lhe dizer que tinham sido creados ambos de
pequenos; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe
a prova maior de que no houvera nada. Quasi se queria mal pelas
duvidas, que tivera, to injustas!...

--E volta?--perguntou.

--No me disse, mas no creio. Em se pilhando em Paris!

E com a ida da carta, de repente:

--Ento o Sebastio  confidente de Jorge?

Elle riu:

--Oh minha senhora! pois acredita...

--E a mim quando me escreve, que se aborrece, que est s, que no
supporta o Alemtejo...--Mas vendo Sebastio olhar o relogio:--O que,
j?  cedo.

Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle.

Luiza quiz retel-o. No sabia para qu--porque a cada momento sentia
a sua resoluo diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se
absorve no seu leito. Pz-se a fallar-lhe das obras d'Almada.

Sebastio comera-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis
fariam as restauraes necessarias: mas depois umas cousas tinham
trazido outras--e, dizia, est-se-me tornando um sorvedouro!

Luiza riu, foradamente.

--Ora, quando se  proprietario e rico!...

--Isso sim! Parece que no  nada: mas uma pintura n'uma porta, uma
janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e
l se vo oitocentos mil reis... Emfim!...

Levantou-se, e despedindo-se:

--Eu espero que aquelle vadio se no demore muito...

--Se a estanqueira der licena...

Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella ida. Deixar-se namorar
pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo,
tinha confiana n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe
a estanqueira prendendo-o nos braos detraz do balco, ou Jorge
beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher
do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razes
que provavam irrecusavelmente a traio de Jorge: estava ha dous
mezes fra! sentia-se canado da sua viuvez! encontrava uma mulher
bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!...
Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, que
viesse immediatamente, ou que partia ella!--Entrou no quarto, muito
excitada. A photographia de Jorge, que ella tirra na vespera do sacco
de marroquim, ficra no toucador. Pz-se a olhal-a: no admirava que o
namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que
lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da
mais pequena cousa--separava-se, recolhia-se a um convento, morria de
certo, matava-o!...

--Minha senhora--veio dizer Joanna-- um gallego com esta carta. Est 
espera da resposta.

Que espanto! Era de Juliana!

Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriada de erros
d'orthographia, dizia:




                                                 Minha senhora.

Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve attribuir tanto 
minha desgraa como  falta de saude, o que s vezes faz que se tenham
genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faa o servio
como d'antes--ao qual creio que a senhora no pde oppr-se, terei
muito gosto em ser agradavel na certeza que nunca mais se fallar em
tal at que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. Prometto fazer
o meu servio, e desejo que a senhora esteja por isto pois que  para
bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem os seus
repentes, e com isto no cano mais e sou

                                          Serva muito obediente

                                                 a criada

                                        _Juliana Couceiro Tavira_.


Ficou com a carta na mo, sem resoluo. A sua primeira vontade foi
dizer--no! Tornar a recebel-a, vl-a, com a sua face horrivel, a cuia
enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra,
e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, ser servida por ella! No!
Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o
que faria! Estava nas mos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu
castigo... Hesitou ainda um momento:

--Que sim, que venha,  a resposta.


Juliana veio com effeito s oito horas. Subiu p ante p para o
soto, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto
dos engommados, onde Joanna sentada n'um tapete costurava,  luz do
petroleo.

Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera?
o que tinha acontecido? porque no dra noticias?--Juliana contou que
fra a uma visita a uma amiga,  calada do Marquez d'Abrantes, e que
de repente lhe dera um flato, e a dr... No quiz mandar dizer, porque
imaginra que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama...

Quiz saber ento o que tinha feito a senhora, se sahira, quem
estivera...

--A senhora tem andado a modo incommodada--disse Joanna.

-- do tempo--observou Juliana.--Tinha trazido a sua costura, e ambas
caladas continuaram o sero.

s dez horas Luiza ouviu bater devagarinho  porta do quarto. Era
_ella_, de certo!

--Entre...

A voz de Juliana disse muito naturalmente:

--Est o ch na mesa.

Mas Luiza no se decidia a ir  sala, com medo, horror de a vr! Deu
voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha
justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito,
disse:

--Quer que v pr a lamparina, minha senhora?

Luiza fez que _sim_ com a cabea, sem a olhar.

Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto
a cama, cerrado as portas, quasi em pontas de ps:

--A senhora no precisa mais nada?--perguntou.

--No.

--Muito boa noite, minha senhora.

E no houve outra palavra mais.

--Parece um sonho!--pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.--Esta
creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me
torturar, para me roubar!--Como se achava ella, Luiza, n'aquella
situao? Nem sabia. As cousas tinham vindo to bruscamente, com a
precipitao furiosa d'uma borrasca, que estala! No tivera tempo de
raciocinar, de se defender: fra embrulhada: e alli estava, quasi sem
dar f, na sua casa sob a dominao da sua criada! Ah! se tivesse
fallado a Sebastio! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro...
Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os
trapos, e a cuia!...--Jurou a si propria fallar a Sebastio, dizer
tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais!

D'ahi a pouco, quebrada da agitao do dia, adormecera--e sonhava que
um estranho passaro negro lhe entrra no quarto, fazendo uma ventania,
com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao
escriptorio, gritando: Jorge! Mas no via nem livros, nem estante,
nem mesa:--havia uma armao reles de loja de tabaco, e por traz do
balco, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bella mulher de frmas
robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida
de voluptuosidade e os olhos afogados em paixo:--Brejeiros ou de
Xabregas?--Fugia ento de casa indignada, e, atravs de successos
confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os
palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam
ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluando a Bazilio a
traio de Jorge. E Bazilio, saltitando em volta d'ella com requebros
de palhao, repenicava uma viola, e cantava:

    Escrevi uma carta a Cupido
    A mandar-lhe perguntar
    Se um corao offendido
    Tem obrigao de amar!

--No tem!--gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de
papel.--E tudo se obscurecia de repente nos largos vos circulares que
fazia Juliana com as suas azas de morcego.




IX


Juliana voltra para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria.

--Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, no ha que vr, o passaro
fugiu-nos! Suspira, bem pdes suspirar que o dinheiro grosso foi-se!
Quem podia l adivinhar que o homem desarvorava! No, l isso pdes
tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta...

--Tambem me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Victoria!

A velha encolheu os hombros:

--No lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle
lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento--tu no ganhas
nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem
tens a consolao de fazeres a sizania. E isto  se as cousas correrem
pelo melhor, porque pdes muito bem ficar mas  em lenoes de vinagre
com alguma carga de pau que elles te mandem dar.--E vendo um gesto
espantado de Juliana:--J no era o primeiro caso, minha rica, j no
era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo
vem nos jornaes!

Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque
emfim o que restava de tudo aquillo? O medo de D. Luiza: esse  que
l estava sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse  que era
necessario tirar partido...

--Tu voltas para l--dizia-- espera que ella cumpra o que prometteu.
Se te d o dinheiro, bem... Seno tem-l'a em todo o caso na mo, ests
de dentro da praa, sabes o que se passa, pdes-lhe apanhar muita
cousa...

Mas Juliana hesitava.--Era difficil viverem debaixo das mesmas telhas
sem haver uma questo por d c aquella palha.

--No te diz uma palavra, tu vers...

--Mas tenho medo...

--De que?--exclamava a tia Victoria. Ella no era mulher para a
envenenar, no  verdade? Ento? Quem a nada se arriscava nada
ganhava.--Isto  se queres--acrescentou--seno trata de te arranjar
n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu
vaes vr, se no te convm, safas-te...

Juliana decidiu ir, a vr.

E reconheceu logo, que aquella finoria da tia Victoria tinha carradas
de razo.

Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastio tinha ido para Almada,
outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa
d'elle uma manh, atirar-se-lhe ao ps, contar-lhe _tudo_, _tudo_,
supportava Juliana, reflectindo:-- apenas por dias!--Por isso no lhe
disse uma palavra. Para que? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pl-a
fra, no  verdade? Em quanto o no podesse fazer, era aguentar e
calar. At que Sebastio voltasse...

No entretanto evitava vl-a. Nunca a chamava. No sahia da alcova de
manh, sem a ter sentido fra no quarto encher o banho, sacudir os
vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos no
levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no
quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge--s
vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a volta de Sebastio, e
preparando a sua historia.

Juliana, uma manh, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto
o regador cheio d'agua.

--Oh minha senhora! porque no chamou?--exclamou, quasi escandalisada.

--No tem duvida--disse Luiza.

Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta:

--Oh minha senhora!--disse muito offendida--isto assim no pde
continuar. A senhora parece que tem medo de me vr, credo! Eu
voltei para fazer o meu servio como d'antes... Verdade, verdade,
naturalmente, sempre espero que a senhora faa o que prometteu... E
l largar as cartas no largo, sem ter seguro o po da velhice. Mas
o que se passou foi um repente de genio, e j pedi perdo  senhora.
Quero fazer o meu servio... Agora se a senhora no quer, ento saio,
e--acrescentou com uma voz secca--talvez seja peor para todos!...

Luiza, muito perturbada, balbuciou:

--Mas...

--No, minha senhora--cortou Juliana severamente--aqui a criada sou eu.

E sahiu, empertigada.

Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo!

Ento, para a no irritar comeou, d'ahi por diante, a chamal-a, a
dizer:--Traga isto, traga aquillo,--sem a olhar.

Mas Juliana fazia-se to servial, era to calada, que Luiza pouco a
pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio _de
deixar-se ir_, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella
difficuldade. E no fim de tres semanas as cousas tinham entrado nos
seus eixos--dizia Juliana.

Luiza j gritava por ella do quarto, j a mandava a recados fra:
Juliana chegava a ter s vezes migalhas de conversao:--Est um calor
de morrer... A lavadeira tarda...--Um dia arriscou esta phrase mais
intima:--Encontrei a criada da snr.^a D. Leopoldina.

Luiza perguntou:

--Ainda est para o Porto?

--Ainda se demora um mez, minha senhora...

De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, e Luiza, depois
de tantas agitaes, abandonava-se com gozo  satisfao d'aquelle
descano. Ia s vezes vr D. Felicidade  Encarnao, que j se
levantava. E esperava sempre Sebastio, mas sem impaciencia, quasi
contente por vr adiado o momento terrivel de lhe dizer: escrevi a um
homem, Sebastio!

Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro.

Uma tarde Luiza ficra mais tempo  janella da sala de jantar; deixra
cahir o livro no regao, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que
d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago.
Pensava vagamente em Bazilio, no _Paraiso_... Sentiu passos, era
Juliana.

--Que ?

A mulher cerrra a porta, e vindo junto d'ella, baixo:

--Ento a senhora ainda no decidiu nada?

Luiza sentiu como uma pancada no estomago.

--Ainda no pude arranjar nada...

Juliana esteve um momento a olhar para o cho:

--Bem--murmurou, por fim.

E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto:

--Isto quando o senhor voltar  que so os ajustes de contas!


Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha
pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angustias estremeceram
de novo quella ameaa--assim uma rajada subita pe em convulso um
arvoredo. Devia, pois, fazer _alguma cousa_ antes que elle chegasse!
Justamente Jorge escrevera-lhe, que no se demoraria, que a avisaria
pelo telegrapho... Desejava, agora, que do ministerio o mandassem
fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma
catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!...

Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe as suas
palavras muito srias, n'aquella noite, quando Ernestinho contra o
final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um
convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de
ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente...

O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a ida nitida do seu
marido; imaginava um _outro_ Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo
o seu caracter bom, to pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio,
tomou a caixa das pistolas, fechou-a n'um bah de roupa velha, e
escondeu a chave!...

Uma ida amparava-a: era que apenas Sebastio viesse d'Almada, estava
salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi
receava saber _que elle tivesse chegado_,--tanto a confisso da verdade
lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, ento, que lhe veio
uma lembrana--escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe
o orgulho, como a lenta infiltrao da agua faz a uma parede; e todos
os dias comeou a achar uma razo, _mais uma_, para se dirigir quelle
infame: fra seu amante, j sabia todo o caso das cartas, era o seu
unico parente... E no teria de dizer a Sebastio! J s vezes
pensra que no aceitar dinheiro de Bazilio fra uma fanfarronada
bem tola! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco
confusa, pedia-lhe _seiscentos mil reis_. Foi ella mesmo leval-a ao
correio, sobrecarregando-a de estampilhas.

N'essa tarde, por acaso, Sebastio, que chegra d'Almada, veio vl-a.
Recebeu-o com alegria, feliz _por no ter de lhe contar_... Fallou da
volta de Jorge; alludiu mesmo ao primo Bazilio,  pouca vergonha da
visinhana...

--No--disse-- a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge.

Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta,
no seu caminho para Frana, como se a sua mesma vida fosse dentro
d'aquelle sobrescripto entregue ao acaso dos trens e  confuso das
viagens! Chegra a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um
carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a
tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de
beijos, e o enveloppe, trazendo a sua salvao e o seu descano,
comeava a rolar para baixo, pela Frana e pela Navarra, soprando como
um monstro e apressando-se como um proprio.

No dia em que a resposta _devia_ chegar, levantou-se mais cedo,
agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro.
Via-se j a expulsar Juliana, a soluar de alegria!... Mas s dez e
meia comeou a estar nervosa: s onze chamou Joanna, que fosse saber
se o carteiro passra.

--Diz que sim, minha senhora, que j passou.

--Canalha!--murmurou, pensando em Bazilio.

Talvez, todavia, no tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda,
mas desconsolada, j sem f. Nada! Nem na outra manh, nem nas
seguintes! O infame!

Veio-lhe ento a ida da loteria--porque insensivelmente a esperana
tornra-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas
de cautelas. Apesar de no ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as
debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula que tinha sobre a commoda,
na alcova. _No se perdia nada!_ Examinava-as todos os dias, sommava os
algarismos a vr se davam _nove_, _noves fra_, _nada_, ou um numero
par--que  de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do
santo levando-a a pensar de certo na proteco inesperada do co, fez
uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!...

Sahiram brancas--e ento desesperou de tudo; abandonou-se a uma inaco
em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar,
quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os
casos de suicidios, de fallencias, de desgraas--consolando-se com a
ida de que nem s ella soffria, e que a vida em redor, na cidade,
fervilhava de afflices.

s vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se ento
de novo a abrir-se com Sebastio; depois pensava que seria melhor
escrever-lhe; mas no achava as palavras, no conseguia arranjar uma
historia racional; vinha-lhe uma cobardia; e recahia na sua inercia,
pensando: manh, manh...

Quando, s, no seu quarto, se chegava por acaso  janella, punha-se
a imaginar o que diria a visinhana, quando se soubesse!
Condemnal-a-hiam? Lamental-a-hiam? Diriam--Que desavergonhada?
Diriam--Coitadinha? E por dentro da vidraa seguia, com um olhar
quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso
da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! Como elles
todos gritariam:--Bem diziamos ns! Bem diziamos ns! Que desgraa!
Ou ento via de repente Jorge, terrivel, fra de si, com as _cartas_ na
mo; e encolhia-se como se j estivesse sob a colera dos seus punhos
fechados.

Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de
Juliana--espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental
branco. Que tencionava ella? Que preparava ella? s vezes vinha-lhe uma
onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia
ao pescoo, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre d'ella, era
uma mosquinha!

Justamente, n'uma d'essas manhs, Juliana entrou no quarto--com o
vestido de sda preto no brao. Estendeu-o na _causeuse_, e mostrou
a Luiza, na saia, ao p do ultimo folho, um rasgo largo que parecia
feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse 
costureira.

Luiza lembrava-se bem, rasgra-o uma manh no _Paraiso_ a brincar com
Bazilio!

--Isto  facil d'arranjar--dizia Juliana, passando de leve a mo
espalmada sobre a sda, com a lentido d'uma caricia.

Luiza examinava-o, hesitando:

--Elle tambem j no est novo... Olhe, guarde-o p'ra voss!

Juliana estremeceu, fez-se vermelha:

--Oh minha senhora!--exclamou--Muito agradecida!  um rico
presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...--E a voz
perturbava-se-lhe.

Tomou-o nos braos, com cuidado, correu logo  cozinha. E Luiza, que a
seguira p ante p, ouviu-a dizer toda excitada:

-- um rico presente,  o que ha de melhor. E novo! Uma rica
sda!--Fazia arrastar a cauda pelo cho, com um _frou-frou_. Sempre o
invejra: e tinha-o agora, era o _seu_ vestido de sda!-- de muito boa
senhora, snr.^a Joanna,  d'um anjo!

Luiza voltou ao quarto, toda alvoroada; era como uma pessoa perdida de
noite, n'um descampado--que de repente, ao longe, v reluzir um claro
de vidraa! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! Comeou logo
a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido rxo,
roupas brancas, o roupo velho, uma pulseira!


D'ahi a dous dias--era um domingo--recebeu um telegramma de Jorge:
Parto manh do Carregado. Chego pelo comboio do Porto s 6. Que
sobresalto! Voltava, emfim!

Era nova, era amorosa--e no primeiro momento todos os sustos, as
inquietaes desappareceram sob uma sensao d'amor e de desejo, que a
inundou. Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,--e j pensava na
delicia do seu primeiro beijo!...

Foi-se vr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia
um pouco fatigada... E a imagem de Jorge apparecia-lhe ento muito
nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, o cabello
to annelado! Que estranha cousa! Nunca lhe appetecra tanto vl-o. Foi
logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria
um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia
e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos.

Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, fl-a estremecer. Que
faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros
dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia,
chamou-a.

Juliana entrou, com o vestido de sda novo, movendo-se cuidadosamente:

--Quer alguma cousa, minha senhora?

--O snr. Jorge volta amanh...--disse Luiza.

E suspendeu-se; o corao batia-lhe fortemente.

--Ah!--fez Juliana.--Bem, minha senhora.

E ia sahir.

--Juliana!--fez Luiza, com a voz alterada.

A outra voltou-se, surprehendida.

E Luiza batendo com as mos, n'um movimento supplicante:

--Mas voss ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar,
esteja certa!...

Juliana acudiu logo:

--Oh minha senhora! Eu no quero dar desgostos a ninguem. O que eu
quero  um bocadinho de po para a velhice. Da minha bocca no ha-de
vir mal a ninguem. O que peo  senhora  que se fr da sua vontade e
me quizer ir ajudando...

--L isso, sim... O que voss quizer...

--Pois pde estar certa que esta bocca...--E fechou os labios com os
dedos.

Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem
tormentos, com o _seu_ Jorge! Abandonou-se ento toda  deliciosa
impaciencia de o vr. Era singular--mas parecia-lhe que o amava
mais!...--E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana,
poderia pouco a pouco preparar Sebastio... Quasi se sentia feliz.

De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha;

--A snr.^a Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta
preciso de sahir, tambem! se a senhora lhe no custasse ficar s...

--No! Fico, que tem? V, v!

E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os taces no corredor, fechar com
ruido a cancella.

Ento de repente uma ida deslumbrou-a, como a fulgurao d'um
relampago:--ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as
cartas!

Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao soto, devagar,
escutando, com o corao aos saltos. A porta do quarto de Juliana
estava aberta; vinha de l um cheiro de mofo, de rato e de roupa
enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma luz triste, de
tarde escura; e por baixo, encostada  parede, ficava a arca! Mas
estava fechada! De certo! Desceu correndo, veio buscar o seu mlho
de chaves... Sentia uma vergonha,--mas se achasse as cartas! Aquella
esperana dava-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcoolico.
Comeou a experimentar as chaves; a mo tremia-lhe; de repente a
lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu a tampa, estavam alli,
talvez! E ento, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as
cousas uma por uma, pondo-as em cima do colxo:--o vestido de merino;
um leque com figuras douradas, embrulhado em papel de sda; velhas
fitas rxas e azues, passadas a ferro; uma pregadeira de setim cr
de rosa, com um corao bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro,
intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado;
tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde
se exhalava um cheiro de madeira e de folhas de ma camoeza. Entre
duas camisas estava um mao de cartas atadas com um nastro... Nenhuma
era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'alda, inintelligivel e
amarellada! Que raiva! E ficou a olhar para a arca vazia, de p, com os
braos tristemente cahidos.

Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada.
Era um gato, que com passos leves, vadiava pelo telhado.--Tornou a
repr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,--mas
lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro.
Nada! Impacientou-se ento; no se queria ir sem ter gasto toda a
esperana; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amollentada do
enxergo, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada!
Nada!

Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D.
Felicidade.

--s tu! Como ests tu? Entra.

Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sahira na vespera da
Encarnao: o p s vezes ainda lhe fazia mal: mas graas a Deus estava
escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita!

Entraram no quarto. Escurecia, Luiza accendeu as velas.

--E como me achas tu, hein?--perguntou D. Felicidade, pondo-se diante
d'ella.

--Um bocadito mais pallida.

Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou o p calado n'um
sapato largo, obrigou Luiza a apalpal-o... Que uma consolao lhe
restava:  que toda a Lisboa a fra vr! Graas a Deus! Toda a Lisboa,
o que ha de melhor em Lisboa!

--E tu esta semana--acrescentou--nem appareceste! Pois olha que te
cortaram na pelle...

--No pude, filha. O Jorge chega manh, sabias?

--Ah sua brejeira! Viva! Est esse coraosinho aos pulos!--E disse-lhe
um segredinho.

Riram muito.

--Pois eu--continuou D. Felicidade sentando-se--arranjei-te hoje a
partida. Encontrei esta manh o Conselheiro, que me disse que vinha.
Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que
sahi! E um bocado adiante dou com o Julio: diz que tambem vinha!...--E
com uma voz desfallecida:

--Sabes? tomava uma colherinha de dce...


Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a Julio, que se tinham
encontrado na escada, dizendo-lhes a rir:

--Hoje sou eu o guarda-porto!

D. Felicidade, na sala, para disfarar a perturbao que lhe deu o
espectaculo amado da pessoa d'Accacio, comeou, fallando muito, a
censural-a por deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas...

--E se te achares incommodada, filha, se te dr alguma cousa?

Luiza riu. No era affecta a fanicos...

Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse:

--Tem continuado a soffrer dos dentes, D. Luiza?

Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!--exclamou logo D.
Felicidade. Julio declarou que raras vezes vira uma dentio to
perfeita.

O Conselheiro apressou-se a citar:

    Em labios de coral, perolas finas...

E acrescentou:

-- verdade, mas a ultima vez que tive a honra d'estar com D. Luiza,
viu-se to repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr
chumbal-o ao Vitry!

Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a
Joanna, ia abrir...

-- verdade--continuou o Conselheiro--tinhamos feito um delicioso
passeio, quando de repente D. Luiza empallidece, e parece que a dr era
to urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca...

A proposito de dres, D. Felicidade, que estava anciosa por interessar,
commover o Conselheiro, comeou a historia do seu p: disse a queda,
o milagre de no ter morrido, as visitas assiduas de condessas e
viscondessas, o susto em toda a Encarnao, os cuidados do bom dr.
Caminha...

--Ai! soffri muito!--suspirou, com os olhos no Conselheiro, para
provocar uma palavra sympathica.

Accacio, ento, disse com authoridade:

-- sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, no procurar o apoio
do corrimo.

--Mas podia ter morrido!--exclamou ella. E voltando-se para
Julio:--Pois no  verdade?

--N'este mundo morre-se por qualquer cousa--disse elle enterrado n'uma
poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde
para ser atropellado por um trem: destinra o domingo para se dar _um
feriado_, e fizera um grande passeio pela circumvallao...--Ha mais
d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do
seu convento!--acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza
do cigarro sobre o tapete.

O Conselheiro quiz saber ento o assumpto da these: de certo muito
momentoso!... E apenas Julio lhe disse: Sobre physiologia, snr.
Conselheiro, Accacio observou logo, com uma voz profunda:

--Ah! physiologia! Deve ser ento de grande magnitude! E presta-se mais
ao estylo ameno.

Queixou-se, tambem, de vergar ao peso dos seus trabalhos
litterarios...

--Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que no sejam infructiferas as
nossas vigilias!

--As suas, snr. Conselheiro, as suas!--E com interesse:--Quando nos d
o seu novo trabalho? Ha sofreguido em o vr!

--Ha alguma sofreguido--concordou o Conselheiro com seriedade.--Ha
dias me dizia o snr. ministro da justia (esse robustissimo talento),
ha dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: D-nos depressa o seu
livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que
elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro,
no serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar!

--Muito bem, muito bem, Conselheiro!

--E--acrescentou--dir-lhes-hei, aqui em familia, que o nosso ministro
do reino me deixou entrevr n'um futuro no remoto, a commenda de S.
Thiago!

--J lh'a deviam ter dado, Conselheiro!--exclamou Julio,
divertindo-se.--Mas n'este desgraado paiz... J a devia ter ao peito,
Conselheiro!

--Ha que tempos!--exclamou com fora D. Felicidade.

--Obrigado, obrigado!--balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expanso do
seu jubilo offereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de
rap a Julio.

--Tomarei para espirrar--disse elle.

Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposio benevola: o trabalho e as
altas esperanas que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu
azedume: parecia at ter esquecido a sua humilhao, quando encontrra
alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou,
perguntou-lhe por elle.

--Partiu para Paris, no sabiam? ha que tempos!

D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha
ido deixar bilhetes de visita a ambos--o que encantra D. Felicidade,
e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!--exclamava
ella. E Accacio affirmou com authoridade:

--E uma voz de barytono, digna de S. Carlos.

--E muito elegante!--disse D. Felicidade.

--Um _gentleman_!--resumiu o Conselheiro.

Julio, calado, bambaleava a perna. Agora, quelles elogios, o seu
despeito renascia; lembrava a seccura cortante de Luiza, n'aquella
manh, as _poses_ do outro. No resistiu a dizer:

--Um pouco sobrecarregado nas joias e nos bordados das meias. De resto
 moda no Brazil, creio...

Luiza crou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de
Bazilio.

D. Felicidade ento, perguntou por Sebastio: no o via havia um
seculo; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saude, s vl-a.

-- uma grande alma--disse com emphase o Conselheiro.--Todavia
censurava-o um pouco por no se occupar, no se tornar util ao seu
paiz.--Porque emfim--declarou--o piano  uma bonita habilidade, mas no
d uma posio na sociedade.--Citou ento Ernestinho, que, posto que
dando-se  arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se grave),
segundo todas as informaes, um excellente empregado aduaneiro...

Que fazia elle, Ernestinho?--perguntaram.

Julio tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a _Honra e Paixo_ ia d'ahi
a duas semanas, j se estavam a imprimir os cartazes, e na rua dos
Condes j lhe no chamavam seno o _Dumas filho portuguez_! E o pobre
rapaz cr-se realmente um _Dumas filho_!

--No conheo esse author--disse com gravidade o Conselheiro--posto que
me parea, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos
_Tres Mosqueteiros_ e outras obras de imaginao!... Mas, de resto,
o nosso Ledesma  um esmerado cultor da arte dos Corneilles! No lhe
parece, D. Luiza?

--Sim--disse ella com um sorriso vago.

Parecia preoccupada. Fra j duas vezes ao relogio do quarto vr as
horas: quasi dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o ch?
Ella mesmo foi pr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. Quando
voltou  sala notou um silencio enfastiado...--Queriam que fosse
tocar?--perguntou.

Mas D. Felicidade que olhava, ao p de Julio, as gravuras do Dante,
illustrado por G. Dor, que elle folheava, com o volume sobre os
joelhos, exclamou, de repente:

--Ai que bonito! que ? Muito bonito! Viste, Luiza?

Luiza aproximou-se.

-- um caso d'amor infeliz, snr.^a D. Felicidade--disse Julio.--
a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.--E explicando o
desenho:--Aquella senhora sentada  Francesca: este moo de guedelha,
ajoelhado aos ps d'ella, e que a abraa,  seu cunhado, e, lamento ter
de o dizer, seu amante. E aquelle barbaas, que l ao fundo levanta o
reposteiro e saca da espada,  o marido que vem, e zs!--E fez o gesto
de enterrar o ferro.

--Safa!--fez D. Felicidade, arripiada--E aquelle livro cahido o que ?
Estavam a lr?...

Julio disse discretamente:

--Sim... Tinham comeado por lr, mas depois...

    Quel giorno pi no vi leggiomi avante,

o que quer dizer:--_E ns no lemos mais em todo o dia!_

--Pozeram-se a derriar--disse D. Felicidade com um sorriso.

--Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo a mesma confisso de
Francesca, este moo, o da guedelha, o cunhado,

    La bocca me bacci tutto tremante,

o que significa:--_A bocca me beijou tremendo todo_...

--Ah!--fez D. Felicidade, com um olhar rapido para o Conselheiro.--
uma novella?

-- o Dante, D. Felicidade--acudiu com severidade o Conselheiro--um
poema epico classificado entre os melhores. Inferior, porm, ao nosso
Cames! Mas rival do famoso Milton!

--Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as
mulheres!--exclamou ella. E voltando-se para o Conselheiro:--Pois no 
verdade?

--Sim. D. Felicidade, repetem-se l fra com frequencia essas
tragedias domesticas. O desenfreamento das paixes  maior. Mas entre
ns, digamol-o com orgulho, o lar  muito respeitado. Assim eu, por
exemplo, em todas as minhas relaes em Lisboa, que so numerosas,
graas a Deus, no conheo seno esposas modlos.--E com um sorriso
cortezo:--De que  de certo a flr a dona da casa!

D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava encostada 
cadeira d'ella, e batendo-lhe no brao:

--Isto  uma joia!--disse com amor.

--E de resto--acudiu o Conselheiro--o nosso Jorge merece-o. Porque,
como diz o poeta:

    Seu corao  nobre, e a fronte altiva
    Revela-lhe da alma a pura essencia.

Aquella conversao impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando
D. Felicidade exclamou:--Dize c, ento no se toma hoje ch n'esta
casa?

Luiza foi outra vez  cozinha. Disse a Joanna que viesse ella mesma
com o ch.--E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito
atarantada, entrou com o taboleiro.

--E a Juliana?--perguntou logo D. Felicidade.

--Sahiu, coitada--explicou Luiza--tem andado doente...

--E anda-te ento por fra at estas horas?... Boa! At desacredita uma
casa...

O Conselheiro tambem achava imprudente:

--Porque emfim as tentaes so grandes n'uma capital, minha senhora!

Julio exclamou, rindo:

--No, se aquella  tentada, descreio para sempre e totalmente, dos
meus contemporaneos.

--Oh snr. Zuzarte!--acudiu o Conselheiro, quasi severamente--referia-me
a outras tentaes: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas,
appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres...

Mas D. Felicidade no podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de
Judas, tinha ar de ser capaz de tudo...

Luiza defendeu-a: era muito servial, muito boa engommadeira, muito
honesta...

--E anda-te pela rua at s onze da noite!... Credo! Fosse commigo!

--E creio--observou o Conselheiro--que tem uma doena mortal. No 
verdade, snr. Zuzarte?

--Mortal. Um aneurisma--respondeu Julio, sem levantar os olhos do
Dante.

--Ainda para mais!--exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz:--Tu
o que deves fazer  descartar-te d'ella! Uma criada com uma doena
d'essas! Que at lhe pde arrebentar a vir dar um copo d'agua  gente.
Cruzes!

O Conselheiro apoiava:

--E s vezes, que embaraos com a authoridade!

Julio fechou o Dante, e disse:

--Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas um dia a creatura cahe-lhes
redonda no cho.--E sorveu um gole de ch.

Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova complicao se formava
para a torturar... Pz-se a dizer que era to difficil arranjar
criadas...

L isso era, concordaram.

Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais
atrevidos! E em se lhes dando confiana! E que immoralidade!...

--Muitas vezes  culpa das amas--disse D. Felicidade.--Fazem das
criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se
as donas da casa...

As mos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma
voz affectadamente risonha:

--E o Conselheiro, que tal de criados?

Accacio tossiu:

--Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa
em contas...

--E que no  feia--acudiu Julio.--Assim me pareceu uma vez que fui 
rua do Ferregial...

Uma vermelhido espalhra-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade
fitava-o anciosamente, com a pupilla chammejante. Accacio, ento, disse
com severidade:

--Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte.

Julio ergueu-se e enterrando as mos nos bolsos, jovialmente:

--Foi um grande erro abolir a escravatura!...

--E o principio da liberdade?--acudiu logo o Conselheiro--E o principio
da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a
liberdade  um bem maior.

Alargou-se ento em consideraes; fulminou os horrores do trafico,
lanou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os
plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da _Charles et Georges_:
dirigia-se exclusivamente a Julio, que fumava, cabisbaixo.

D. Felicidade fra-se sentar ao p de Luiza, e muito inquieta,
fallando-lhe ao ouvido:

--Tu conheces a criada do Conselheiro?

--No.

Ser bonita?

Luiza encolheu os hombros.

--No sei que me diz o corao, Luiza! Estou a abafar!

E em quanto Accacio, de p, perorava para Julio, D. Felicidade ia
murmurando a Luiza as queixas da sua paixo.

Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O que ella soffrera, l
por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!--E a outra
sem vir! Oh que vida a sua!

Foi  cozinha dizer a Joanna:

--Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella no pde tardar;
aquillo a mulher achou-se peor!

Mas j passava de meia noite, j Luiza estava deitada, quando a
campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia.

A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da cama, subiu descala
 cozinha. Joanna, estirada para cima da mesa, resonava ao p do
candieiro de petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fl-a pr
de p, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a
pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfao:

--J est tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito
bonito! Do melhor, snr.^a Joanna, do melhor!

Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto
agitou-a.--Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja.
Era uma gala: joias faiscavam sobre seios mimosos, condecoraes
reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moo,
immovel n'uma attitude rigida e hieratica, sustentava na mo a esphera
armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias
como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas d'esculptura,
fazendo tropear a multido dos cortezos vestidos como valetes de paus.

Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e
toda nervosa via diante de si na vasta plata susurrante, fileiras de
olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva
do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, sobresahia, rodeada
como uma flr d'um vo amoroso d'abelhas. No palco oscillava a vasta
decorao d'uma floresta; ella notava sobretudo,  esquerda, um
carvalho secular, d'uma arrogancia heroica--cujo tronco tinha a vaga
configurao d'uma physionomia, e se parecia com Sebastio.

Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D.
Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia _o Jornal do
Commercio_ torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha de amor!
salta-me essa maravilha! Ento a orchestra, onde os olhos dos musicos
reluziam como granadas e as suas cabelleiras se erriavam como montes
d'estopa, tocou com uma lentido melancolica o fado de Leopoldina; e
uma voz aspera e canalha cantava em falsete:

    Vejo-o nas nuvens da tarde,
    Nas ondas do mar sem fim,
    E por mais longe que esteja
    Sinto-o sempre ao p de mim.

Luiza achava-se nos braos de Bazilio que a enlaavam, a queimavam:
toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente
como o sol e dce como o mel: gozava prodigiosamente: mas, por entre os
seus soluos, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco,
sem pudor, os delirios libertinos do _Paraiso_! Como consentia ella?

O theatro n'uma acclamao immensa bradava: Bravo! Bis! bis! Lenos aos
milhares esvoaavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os
braos ns das mulheres lanavam com um gesto ondeado ramos de violetas
dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou
como um _bouquet_ a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um
phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando
rapidamente a calva, atirou-lh'a, com um berro de dr e de gloria! O
contraregra gania:--Agradeam! Agradeam! Ella curvava-se, os seus
cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado,
seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a
graa d'um toureiro e a destreza d'um _clown_!

Subitamente, porm, todo o theatro teve um _ah_! d'espanto.
Fez-se um silencio ancioso e tragico; e todos os olhos, milhares
d'olhos attonitos se fitavam no pano de fundo, onde um caramancho
arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas.
Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se
adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mo; e
a lamina reluzia--menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e
curvando-se, disse com uma voz graciosa:

--Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas
senhoras, e meus senhores--agora  commigo! Reparem n'este trabalhinho!

Caminhou ento para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o
tablado; agarrou-lhe os cabellos, como um mlho d'herva que se quer
arrancar; curvou-lhe a cabea para traz; ergueu d'um modo classico o
punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: e balanando o corpo, piscando
o olho, cravou-lhe o ferro!

--Muito bonito!--disse uma voz--Rico trabalho!

Era Bazilio que fizera entrar nobremente na plata o seu phaeton!
Direito na almofada, com o chapo ao lado, uma rosa na sobrecasaca,
continha com a mo negligente a inquietao soberba dos seus cavallos
inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das
suas vestes sacerdotaes, vinha o patriarcha de Jerusalm!--Mas Jorge
arrancra o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam at 
ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a
rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ella deitra-se,
expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastio: ento, como
a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes,
macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou
sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas
deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella
via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, vermelho e
forte, correr, alastrar-se, fazendo poas aqui, ribeirinhos tortuosos
alm. E ouvia a plata berrar:

--O author! Fra o author!

Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; agradecia soluando; e,
s cortezias, saltava aqui, acol--para no sujar no sangue da prima
Luiza os seus sapatinhos de verniz...

Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:--l, como vai
isso?--Parecia-lhe de Jorge. D'onde vinha? Do co? da plata? do
corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir,
acordou-a. Sentou-se na cama.

--Bem, deixe ahi--disse a voz de Jorge.

Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaados, n'um longo abrao,
os beios collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete
horas.




X


N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam d'almoar, como na
vespera da partida d'elle. Mas agora no pesava a faiscante inclemencia
da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; j
passavam no ar certas frescuras outonaes; havia uma pallidez meiga
na luz;  tardinha j sabiam bem os paletots; e tons amarellados
comeavam a envelhecer as verduras.

--Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!--disse Jorge,
estirando-se na _voltaire_.

Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro,
e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos d'um bello relatorio;
crera amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as
soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos d'hospedaria; e
alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida,
soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,--porque
tinha cortado a barba! Fra a grande admirao de Luiza, quando o viu.
Elle explicra, com humilhao e melancolia, que tivera um furunculo no
queixo, com o calor...

--Mas que bem te fica!--tinha ella dito--que bem que te fica!

Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de loua da China, muito
antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos
magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em
casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito
decorativamente nas prateleiras do guarda-loua: e em bicos de ps,
com a larga cauda do seu roupo estendida por traz, a massa loura do
cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas--parecia a Jorge
mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira
tanto os braos.

--A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo,
lembras-te?

--Lembro--disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um
prato.

--E  verdade--perguntou Jorge de repente--teu primo? Vistel-o? Veio
vr-te?

O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos.

--Sim, veio--disse Luiza, depois d'um silencio--esteve ahi umas poucas
de vezes. Demorou-se pouco...

Abaixou-se, abriu o gaveto do guarda-loua, esteve a remexer nas
colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso,
vermelha, sacudindo as mos:

--Prompto!

E foi sentar-se nos joelhos de Jorge.

--Como te fica bem!--dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um
modo ardente. Quando se atirra aos seus braos n'aquella madrugada,
sentira como abrir-se-lhe o corao, e um amor repentino revolver-lh'o
deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o
servir, de o apertar nos braos at lhe fazer mal, de lhe obedecer com
humildade; era uma sensao multipla, de uma doura infinita, que a
traspassra at s profundidades do seu sr. E passando-lhe um brao
pelo pescoo, murmurava com um movimento d'uma adulao quasi lasciva:

--Ests contente? Sentes-te bom? Dize!

Nunca lhe parecera to bonito, to bom; a sua pessoa depois d'aquella
separao dava-lhe as admiraes, os enlevos d'uma paixo nova.

-- o snr. Sebastio--veio dizer Juliana toda risonha para Jorge.

Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor
gritando:

--Aos meus braos! aos meus braos, scelerado!


D'ahi a dias, uma manh que Jorge sahira para o ministerio, Juliana
entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz
muito amavel:

--Eu desejava fallar  senhora n'uma cousa.

E comeou a dizer,--que o seu quarto em cima no soto era peor que
uma enxovia; que no podia l continuar; o calor, o mau cheiro, os
persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim,
desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus.

O _quarto dos bahus_ tinha uma janella nas trazeiras; era alto e
espaoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os
paletots velhos, e veneraveis bahus do tempo da av, de couro vermelho
com pregos amarellos.

--Ficava alli como no co, minha senhora!

E... aonde se haviam de pr os bahus?

--No meu quarto, em cima.--E com um risinho:--Os bahus no so gente,
no soffrem...

Luiza disse um pouco embaraada:

--Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge.

--Conto com a senhora.

Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge a ambio da pobre de
Christo, elle deu um salto:

--O qu? Mudar os bahus? Est douda!

Luiza ento insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera
para a casa! Enterneceu-o. No, elle no imaginava, ninguem imaginava
o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos
passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fra l
ha dias, e ia tombando para o lado...

--Santo Deus! Mas isso  o que minha av contava das enxovias
d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bahus
no soto.

Quando Juliana soube o _favor_:

--Ai, minha senhora,  a vida que me d! Deus lh'o pague! Que eu no
tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles.

Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, trazia os beios
um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma
irritabilidade morbida: os ps nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos
cuidados, muitos cuidados!...

Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a Luiza, se fazia o
favor d'ir ao quarto dos bahus. E l, mostrando-lhe o soalho velho e
carunchoso:

--Isto no pde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira
seno, no vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro no importunava a
senhora, mas...

--Bem, bem, eu arranjarei--disse Luiza com uma voz paciente.

E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manh em que os
esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar attonito a Luiza o que era
aquillo, rolos d'esteira no corredor?

Ella pz-se a rir, pousou-lhe as mos sobre os hombros:

--Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o
soalho estava podre. At a queria pagar, e que eu lh'a descontasse
nas soldadas. Ora por uma ridicularia...--E com um gesto
compassivo:--Tambem so creaturas de Deus, no so escravas, filho!

--Magnifico! E que no tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudana
foi essa, tu que a no podias vr?

--Coitada!--fez Luiza--reconheci que era boa mulher. E como estive
to s, dei-me mais com ella. No tinha com quem fallar, fez-me muita
companhia. At quando estive doente...

--Estiveste doente?--exclamou Jorge espantado.

--Oh! tres dias, s--acudiu ella--uma constipao. Pois olha que dia e
noite no se tirou d'ao p de mim.

Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse _na doena_, e Juliana
desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao
quarto:

--Eu disse ao snr. Jorge que voss me tinha feito muito boa companhia
n'uma doena...--E o seu rosto abrazava-se de vergonha.

Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade:

--Fico entendida, minha senhora! Pde estar socegada!

Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do caf, voltou-se para
Juliana, e com bondade:

--Parece que voss fez boa companhia  snr.^a D. Luiza.

--Fiz o meu dever--exclamou, curvando-se com a mo no peito.

--Bem, bem--fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sahir da sala meteu-lhe
na mo meia libra.

--Palerma!--rosnou ella.

Foi n'essa semana que comeou a queixar-se a Luiza, que a roupa e os
vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam... Estava-se-lhe a estragar
tudo! Se ella tivesse dinheiro, no vinha com aquelles pedidos 
senhora, mas... Emfim uma manh declarou terminantemente que precisava
uma commoda.

Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos
do bordado:

--Uma meia commoda?

--Se a senhora quer fazer o favor, ento uma commoda inteira...

--Mas voss tem pouca roupa--disse Luiza. Comeava a installar-se na
humilhao e j regateava as condescendencias.

--Tenho, sim, minha senhora--replicou Juliana--mas vou agora
completar-me!

A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia
de felicidade para Juliana! No se fartava de lhe saborear o cheiro
da madeira nova! Passava a mo, com a tremura d'uma caricia, sobre
o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de sda, _e
comeou a completar-se_!


Foram semanas d'amargura para Luiza.

Juliana entrava no quarto todas as manhs, muito comprimenteira,
comeava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa:

--Ai! estou to falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar...

Luiza ia s suas gavetas cheias, cheirosas, e comeava melancolicamente
a pr  parte as peas mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha
tudo s duzias, com lindas marcas, _sachets_ para perfumar; e aquellas
dadivas dilaceravam-n'a como mutilaes! Juliana por fim j pedia com
seccura, com direito:

--Que bonita que  esta camisinha!--dizia simplesmente.--A senhora no
a quer; no?

--Leve, leve!--dizia Luiza sorrindo, por orgulho, para no se mostrar
violentada.

E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira,
inchada d'alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa,
desfazendo as duas letras de Luiza, marcando regaladamente as suas, a
linha vermelha, enormes--_J. C. T.,_--Juliana Couceiro Tavira!

Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, de roupa branca estava como
um ovo.

--Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir...

E Luiza comeou a _vestil-a_.

Deu-lhe um vestido roxo de sda, um casaco de casimira preta,
com bordados a _soutache_. E receando que Jorge estranhasse as
generosidades, transformava-as para elle as no reconhecer: mandou
tingir de castanho o vestido, ella mesmo por sua mo pz uma guarnio
de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!--Como acabaria tudo
aquillo, Santo Deus?

Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo:

--Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos.

D. Felicidade,  noite, tambem notou:

--Que _chic_! Nem uma criada do pao!

--Coitada! cousas que ella aproveita...

Prosperava, com effeito! No punha na cama seno lenoes de linho.
Reclamra colxes novos, um tapete para os ps da cama, felpudo! Os
_sachets_ que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra
das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janella, apanhadas com
velhas fitas de sda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre
dourados! Emfim um dia santo, em lugar da _cuia_ de retroz, appareceu
com um _chignon_ de cabello!

Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as  bondade da
senhora, e resentia-se de ser esquecida. Um dia mesmo, que Juliana
estrera uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito:

--Para umas tudo, para outras nada!...

Luiza riu, acudiu:

--Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas.

Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianas tambem, ter ouvido
_alguma cousa_ a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar
contente e amiga, deu-lhe dous lenos de sda, depois dous mil reis
para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou licena para
sahir  noitinha _a casa d'uma tia_...

A Joanna ia por toda a parte fallando da senhora, que era um anjo.
Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do
quarto novo, dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com
indignao, que alli positivamente havia marosca. Mas Juliana uma
tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas.

--Ora! dizem que tenho isto e aquillo. No  tanto! Tenho as minhas
commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia
e de noite, sem arredar p... Por mais que faam no me pagam, que
arruinei a minha saude!

Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia
agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta!

E, pouco a pouco, a casa do Engenheiro teve para os criados da
visinhana a vaga seduco d'um paraiso: dizia-se que as soldadas
eram enormes, havia vinho  discrio, recebiam-se presentes todas as
semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! Cada um invejava
aquella pechincha. Pela inculcadeira, a fama da casa do Engenheiro
alargou-se. Creou-se uma legenda.

Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se
para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros,
governantas, cocheiros, guarda-portes, ajudantes de cozinha... Citavam
as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando
certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um
cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio.

--Estranho caso!--dizia Jorge, pasmado--disputam-se a honra de me
servir! Imaginaro que me sahiu a sorte grande?

Mas no dava muita atteno quella singularidade. Vivia ento muito
occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao
meio dia, voltava s seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras,
fatigado, berrando pelo jantar, radiante.

Contou o _caso_, todavia, rindo, um domingo  noite. O Conselheiro
observou logo:

--Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro
saudavel, n'uma casa sem escandalos, sem questes de familia, toda
virtude,  natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma
posio to agradavel.

--Somos os amos ideaes!--disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de
Luiza.

A casa, com effeito, tornava-se agradavel. Juliana exigira que o
jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como
era boa cozinheira vigiava os foges, provava, ensinava pratos  Joanna.

--Esta Joanna  uma revelao--dizia Jorge--v-se-lhe crescer o
talento!...

Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pelle,
colxes macios, saboreava a vida: o seu temperamento adora-se
n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria,
fazia o seu servio com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza
andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham
resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, muito aceada,
d'uma pacatez d'abbadia. At o gato engordava.


E no meio d'aquella prosperidade--Luiza definhava-se. At onde iria a
tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a
por vezes com um olhar to intensamente rancoroso, que receava que ella
se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita,
cantarolando a _Carta adorada_, dormindo em colxes to bons como os
seus, pavoneando-se na _sua_ roupa, reinando na _sua_ casa! Era justo,
justos cos?

s vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braos, blasphemava,
debatia-se na sua desgraa, como nas malhas d'uma rde; mas, no
encontrando nenhuma soluo, recahia n'uma melancolia aspera--em que o
seu genio se pervertia. Seguia com satisfao a amarellido crescente
das feies de Juliana; tinha esperanas no aneurisma: no rebentaria
um dia, o demonio?

E diante de Jorge tinha de a elogiar!

A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manh sahia e fechava a cancella,
logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma,
devagar, como grandes vos espessos que se abatem lugubremente; no
se vestia ento at s quatro, cinco horas, e com o roupo solto, em
chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto.
Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se
n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de
certo a alguma resoluo melodramatica,--se a no retivesse, com a
fora d'uma seduco permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava
agora, immensamente! Amava-o com cuidados de mi, com impetos de
concubina... Tinha ciumes de tudo, at do ministerio, at do relatorio!
Ia interrompl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da mo, reclamar
o seu olhar, a sua voz; e os passos d'elle no corredor davam-lhe o
alvoroo dos amores illegitimos...

De resto ella mesma se esforava por desenvolver aquella paixo,
achando n'ella a compensao ineffavel das suas humilhaes. Como
lhe viera _aquillo_? Porque sempre o amra, de certo, reconhecia-o
agora,--mas no tanto, no to exclusivamente! Nem ella sabia.
Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa
pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um
_capricho_. Um capricho por seu marido! No lhe parecia rigorosamente
casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz,
prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso!

Ao principio a ida do _outro_ pairava constantemente sobre este amor,
pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas
pouco a pouco esquecra-o tanto, o _outro_--que a sua recordao,
quando por acaso voltava, no dava mais amargor  nova paixo, que um
torro de sal pde dar s aguas d'uma torrente. Que feliz que seria--se
no fosse a _infame_!


Era a _infame_ que se sentia feliz! s vezes s no seu quarto, punha-se
a olhar em redor com um riso d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de
sda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extatica;
e debruada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a
roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da
_Piorrinha_!--murmurava, afogada em jubilo.

--Ai! estou muito bem!--dizia ella  tia Victoria.

--Que duvida que ests! A carta no te rendeu um conto de reis, mas
olha que te trouxe um par de regalos. E  que ha-de ser uma pingadeira:
ha-de ser a boa pea de linho, o bom adereo, boas moedas... E ainda
muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a!

Mas j havia pouco que _cardar_. E lentamente Juliana comeou a pensar,
que agora o que devia era _gozar_. Se tinha bons colxes--para que se
havia de levantar cdo? Se tinha bons vestidos--porque no havia d'ir
espairecer para a rua? Toca a tirar partido!

Uma manh que estava mais frio deixou-se ficar na cama at s nove
horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira.
Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dr. D'ahi a dous
dias Joanna, s dez horas, veio dizer baixo a Luiza:

--A snr.^a Juliana ainda est na cama, est tudo por arrumar.

Luiza ficou aterrada. O qu? Teria de soffrer os seus desmazelos, como
soffrera as suas exigencias?

Foi ao quarto d'ella:

--Ento voss levanta-se a estas horas?

--Foi o que me recommendou o medico--replicou muito insolente.

E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de
servir ao almoo. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse o servio por
ella: era por pouco tempo, a pobre creatura andava to adoentada!
E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um
vestido.

Juliana depois, sem pedir licena, comeou a sahir. Quando voltava
tarde, para o jantar, no se desculpava!

Um dia Luiza no se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a
calar as luvas pretas:

--Voss vai sahir?

Ella respondeu, muito atrevidamente:

-- como v. Fica tudo arrumado, tudo o que  minha obrigao.--E
abalou, batendo os taces.

Ora, no lhe faltava mais seno estar a constranger-se por causa da
_Piorrinha_!

Joanna comeava a resmungar: passa a sua vida na rua a snr.^a Juliana,
e eu  que aguento...

--Se voss estivesse doente, tambem ninguem lhe ia  mo--acudia Luiza,
afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe
mesmo vinho e sobremesa.

Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava
succumbida.--Como acabaria tudo aquillo?

Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves.

Para sahir mais cedo fazia apenas o essencial. Era Luiza que acabava
d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoo, que
levava para o soto roupa suja que ficava pelos cantos...

Um dia Jorge que entrra s quatro horas, viu por acaso a cama por
fazer. Luiza apressou-se a dizer que Juliana sahira, mandra-a ella 
modista.

D'ahi a dias, eram seis horas, ainda no tinha voltado para servir ao
jantar. Tinha ido  modista... explicou Luiza.

--Mas se a Juliana  unicamente para ir  modista, ento toma-se outra
criada para fazer o servio da casa--disse elle.

quellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas
rolaram-lhe pela face.

Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza no se dominou, rompeu
n'um choro nervoso, hysterico.

--Mas que , minha filha, que tens? Zangaste-te?...

Ella no podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de
_toillette_, beijou-a muito.

S quando o choro acalmou  que ella pde dizer, com uma voz soluada:

--Fallaste-me to seccamente, e eu estou to nervosa...

Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas--mas ficou
inquieto.

J ento lhe notra certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma
irritabilidade nervosa... Que seria?

Para que Jorge no tornasse a surprehender os desleixos, Luiza comeou
a completar todas as manhs os arranjos. Juliana percebeu logo; e
muito tranquillamente decidiu-se a deixar-lhe de cada vez mais com
que se entreter. Ora no varria, depois no fazia a cama; emfim uma
manh no vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que
Joanna no descesse, no a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando
veio ensaboar as mos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava
morrer!... A que tinha chegado!...

D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a
varrer a sala.

--Que eu o faa--exclamou--que tenho s uma criada, mas tu!...

A Juliana tinha tanto que engommar...

--Ai! no lhe tires servio do corpo, que no t'o agradece. E ainda se
ri por cima! Se a pes em maus costumes!... Que aguente, que aguente!

Luiza sorriu, disse:

--Ora, por uma vez na vida!


A sua tristeza augmentava cada dia.

Refugiava-se ento no amor de Jorge como na sua unica consolao. A
noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; no via a
sua cara medonha; no a receava; no tinha de a elogiar; no trabalhava
por ella! Era _ella mesma_, era Luiza, como d'antes! Estava na sua
alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir,
conversar, ter at appetite! E trazia com effeito s vezes marmelada e
po para o quarto--para fazer uma casinha!

Jorge estranhava-a. Tu de noite s outra, dizia. Chamava-lhe
_ave nocturna_. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braos
ns, o collo n, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava,
chalrava--at que Jorge lhe dizia:

--Passa da uma hora, filha!

Despia-se ento rapidamente, cahia-lhe nos braos.

Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manh, tudo lhe
parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com
repugnancia--entrando no seu dia como n'uma priso.

Perdra agora toda a esperana de se libertar! s vezes ainda lhe
vinha, como um relampago, a vontade de contar tudo a Sebastio, tudo.
Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraar Jorge, rirem ambos,
e irem fumar o seu cachimbo, e elle to cheio sempre d'admirao por
ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao
primeiro homem que encontrasse--que ir a Sebastio, ao intimo de Jorge,
ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a
criada roubou-m'a! No, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias,
e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! s vezes reflectia,
pensava:--Mas com que conto eu?--No sabia. Com o acaso, com a morte
de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que
vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de
tenebroso onde se afundaria!

Por esse tempo Jorge comeou a queixar-se que as suas camisas andavam
mal engommadas. A Juliana positivamente perdia a mo. Um dia mesmo
zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada:

--Isto no se pde vestir, est indecente!

Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com
os beios tremulos, desculpou-se: a gomma era m, fra j trocal-a,
etc.

Apenas, porm, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a
porta e poz-se a gritar--que a senhora sujava _um rr_ de roupa, o
senhor _um rr_ de camisas, que se no tivesse alguem que a ajudasse
no podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil!

--E no estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se
quer  arranjar quem me ajude.

Luiza disse simplesmente:

--Eu a ajudarei.

Tinha agora uma resignao muda, sombria, aceitava tudo!

Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio
dizer--que se a senhora passasse, ella engommava. Seno, no!

Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pz um roupo, e, sem
uma palavra, foi buscar o ferro.

Joanna ficou attonita.

--Ento a senhora vai engommar?

--Ha uma carga, e a Juliana s no pde aviar tudo, coitada!

Installou-se no quarto dos engommados,--e estava laboriosamente
passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapo.

--Voss vai sahir?--exclamou Luiza.

-- o que eu vinha dizer  senhora. No posso deixar de sahir.--E
abotoava as luvas pretas.

--Mas as camisas, quem as engomma?

--Eu vou sahir--disse a outra seccamente.

--Mas, com os diabos, quem engomma as camisas?

--Engomme-as a senhora! Olha a sarna!

--Infame!--gritou Luiza. Atirou o ferro para o cho, sahiu
impetuosamente.

Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluos. Pz-se logo a tirar o
chapo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da
rua bater com fora. Veio ao quarto, viu o roupo de Luiza arremessado,
a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se  policia? Procurar
o marido? C'os diabos! Fra estupida, com o genio! Arrumou depressa
o quarto, foi-se pr a engommar, com o ouvido  escuta, muito
arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse
a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da
casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posio! Safa!


Luiza sahira, como louca. Na rua da Escla um coup passava, vazio:
atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina.
Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vl-a, precisava d'ella,
sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma ida, um meio de se
vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia--era agora
menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhaes. Vinham-lhe
idas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um
prazer delicioso em a vr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando
d'agonia, largando a alma!

Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito
tempo do puxo da sua mo febril.

A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor:

-- a snr.^a D. Luiza, minha senhora,  a snr.^a D. Luiza!

E Leopoldina despenteada, com um roupo escarlate de grande cauda,
correu estendendo os braos:

--s tu! Que milagre  este? Eu levantei-me agora! Entra c p'ra o
quarto. Est tudo desarranjado, mas no importa. Mas que  isto, que 
isto?

Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de
vinagre de _toilette_; a Justina tirava  pressa uma bacia de lato,
com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira
tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena
com um fundo de ch cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o
transparente, dizendo:

--Ora graas a Deus que honras esta casa, minha fidalga!...

Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de
lagrimas:

--Que ? Que tens tu? Que succedeu?

--Um horror, Leopoldina!--exclamou, apertando as mos.

A outra foi fechar a porta, rapidamente.

--Ento?

Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada.

--A Juliana apanhou-me umas cartas!--disse emfim por entre
soluos.--Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me
martyrisado... Quero que me digas, v se te lembras... Estou como
douda. Sou eu que fao tudo em casa... Morro, no posso!--E as lagrimas
redobravam.

--E as tuas joias?

--Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer?

Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os
braos:

--Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, d vinte libras!...

Luiza murmurava, limpando os olhos:

--Que expiao esta, Santo Deus, que expiao!

--Que diz a carta?

--Horrores! Estava douda...  uma minha, duas d'elle.

--De teu primo?

Luiza disse sim, com a cabea, lentamente.

--E elle?

--No sei! Est em Frana, nunca me respondeu.

--Pulha! Como t'as apanhou, a mulher?

Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre.

--Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso 
medonho!

E Leopoldina pz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do
roupo escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam
procurar um meio, um expediente... Murmurava:

--A questo  de dinheiro...

Luiza, prostrada no soph, repetia:

--A questo  de dinheiro!

Ento Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella:

--Eu sei quem te dava o dinheiro!...

--Quem?

--Um homem.

Luiza ergueu-se, espantada:

--Quem?

--O Castro.

--O d'oculos?

--O d'oculos.

Luiza fez-se muito crada:

--Oh Leopoldina!--murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente:

--Quem t'o disse?

--Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendona. Sabes que eram unha e carne. Que
te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez.

--Que horror!--exclamou Luiza subitamente indignada.--E tu propes-me
semelhante cousa?--O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas,
dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!--Tirou o chapo,
violentamente, com as mos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e
com passos rapidos pelo quarto:--Antes fugir, ir para um convento, ser
criada, apanhar a lama das ruas!

--No te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te
emprestasse o dinheiro, desinteressadamente...

--Acreditas tu?

Leopoldina no respondeu: com a cabea baixa, fazia girar os anneis nos
dedos.

--E quando fosse outra cousa?--exclamou de repente--Era um conto de
reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz!

Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras--dos seus
proprios pensamentos, talvez!

-- indecente!  horrivel!--dizia.

Ficaram caladas.

--Ah! fosse eu!...--disse Leopoldina.

--Que fazias?

--Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro!

--Isso s tu!--exclamou Luiza, arrebatadamente.

Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de p d'arroz.

Mas Luiza atirou-lhe os braos ao pescoo:

--Perda-me, perda-me! estou douda, no sei o que digo!...

Comearam ambas a chorar, muito nervosas.

--Tu zangaste-te!--dizia Leopoldina cortada de soluos.--Mas  p'ra
teu bem.  o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro...
Fazia tudo. Acredita!

E abrindo os braos, indicando o seu corpo com um impudor sublime:

--Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o manh!

Ns de dedos bateram  porta.

--Quem ?

--Eu--disse uma voz rouca.

-- meu marido. O animal ainda hoje no despegou de casa... No posso
abrir. Logo.

Luiza limpava os olhos,  pressa, punha o chapo.

--Quando voltas?--perguntou Leopoldina.

--Quando puder, seno escrevo-te.

--Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar...

Luiza agarrou-lhe o brao:

--E d'isto, nem palavra.

--Douda!


Sahiu. Foi subindo devagar at ao largo de S. Roque. A porta da igreja
da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho
d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo
d'entrar. No sabia para qu; mas parecia-lhe que depois da excitao
apaixonada em que vibrra, o fresco silencio da igreja a calmaria.
E depois sentia-se to infeliz que se lembrou de Deus! necessitava
alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar
ao p d'um altar, persignou-se, rezou o _Padre-Nosso_, depois a _Salve
Rainha_. Mas aquellas oraes, que ella recitava em pequena, no a
consolavam; sentia que eram sons inertes que no iam mais alto no
caminho do co que a sua mesma respirao; no as comprehendia bem,
nem se applicavam ao seu _caso_: Deus por ellas, nunca poderia saber o
que ella pedia, alli, prostrada na afflico. Quereria fallar a Deus,
abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes,
como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias to longe,
que o alcanassem? Estaria elle to perto, que a ouvisse? E ficou
ajoelhada, os braos molles, as mos cruzadas no regao, olhando as
velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha
rosada e redonda d'um menino Jesus!

Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella no dirigia, que se
formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuao d'um fumo que se
eleva. Pensava no tempo to distante, em que, por melancolia e por
sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mam vivia
ento; e ella, com o corao quebrado--quando o _outro_, Bazilio, lhe
escrevera, rompendo--procurava dissipar a sua tristeza nas consolaes
da devoo. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fra por esse tempo
professar a Frana: e ella s vezes lembrava-se de partir tambem,
ser irm de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou
viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria
sido--d'esta agora to alvoroada de clera, e to carregada de
peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre
arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia,
talvez, paiz que ella sempre amra desde as suas leituras de Walter
Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe,
n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos,
esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um
co saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som
festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos
cortam  tarde o ar n'um vo triangular. Alli viveria entre as monjas
d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de
lords de _clans_ convertidos a Roma: leria livros dces e cheios das
cousas do co: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar
nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas
escutaria o som distante da _bagpipe_, que vai tristemente tocando o
pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do
murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas
escuras cahem de rocha em rocha!

Ou ento seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma
boa provincia portugueza. Alli os tectos so baixos; as paredes caiadas
faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no
vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que do azeite para o
convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma
pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a
ferradura: matronas cochicham ao p da roda; um carro chia na estrada
empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras
gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores.

Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno  hora do cro,
bebendo copinhos de licr de rosa no quarto da madre-escriv, copiando
receitas de dces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as
andorinhas cantar  beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita,
com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre
abbadessa a historia edificante da sua santa morte...

Um sacristo, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de
passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram.
Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste.

Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante
e baixa:

--A senhora por quem  perde, que depois estava douda! Estava com
a cabea perdida, no tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais
afflicta...

Luiza no respondeu, entrou na sala. Sebastio que vinha jantar, tocava
a serenata de D. Juan--e apenas ella appareceu:

--D'onde vem, to pallida?

--Debilidade, Sebastio, venho da igreja...

Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mo:

--Da igreja!--exclamou--Que horror!




XII


Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o Diario do Governo publicou a
nomeao do conselheiro Accacio ao _grau de cavalleiro da ordem de S.
Thiago_, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, s obras
publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes...

Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram,
felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraar um por
um, n'uma presso nervosa e commovida, cahiu no soph, exhausto, e
murmurou:

--No o esperava to cedo da real munificencia! No o esperava to
cedo!--E acrescentou, pondo a mo espalmada sobre o peito:--Direi como
o philosopho: Esta condecorao  o melhor dia da minha vida!

E convidou logo Jorge, Sebastio e Julio para um jantar na
quinta-feira, um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio,
para festejarem a regia graa.

--s cinco e meia, meus bons amigos!

Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza,
eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfrego, na
sala do Conselheiro. Um vasto canap de damasco amarello occupava a
parede do fundo, tendo aos ps um tapete onde um chileno roxo caava ao
lao um bufalo cr de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons
cr de carne, e cheia de corpos ns cobertos de capacetes, representava
o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um
piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia
o intervallo das duas janellas. Sobre uma mesa de jogo, entre dous
castiaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o
objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de
18 peas!

O Conselheiro recebeu-os, com o _habito_ de S. Thiago sobre a lapella
do _frac_ preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho.
Era picado das bexigas, tinha a cabea muito enterrada nos hombros;
quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode
pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava
uma bocca medonha cheia de dentes pdres; fallava pouco, esfregava
sempre as mos, concordava em tudo; havia n'elle o ar d'um deboche
banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio do
reino, illustre pela sua boa letra.

D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do
_Seculo_. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto
reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom
official: trazia ainda no queixo o p d'arroz, que lhe pozera momentos
antes o barbeiro; e a mo, que escrevia tanta banalidade e tanta
mentira, vinha aperreada n'uma luva nova, cr de gema d'ovo!

--Estamos todos!--disse com jubilo o Conselheiro. E
curvando-se:--Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais  vontade
no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu
_Sanctus Sanctorum_!

N'uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de
duas janellas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio,
estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os
lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas
do Conselheiro, pousado sobre a _Carta Constitucional_ ricamente
encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a _carta regia_ que o
nomera Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma
mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhes,
tendo no alto da cabea uma cora de perpetuas--que ao mesmo tempo o
glorificava e o chorava.

Julio pozera-se logo a examinar a livraria.

--Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!--disse com
orgulho o Conselheiro.

Mostrou-lhe a _Historia do consulado e do imperio_, as obras de
Delille, o _Diccionario da conversao_, a ediosinha bojuda da
_Encyclopedia Roret_, o _Parnaso lusitano_. Fallou dos seus trabalhos;
e acrescentou que, vendo alli reunidas pessoas de to subida
illustrao, desejaria muito lr-lhes algumas das provas que estava
revendo do seu novo livro--_Descripo das principaes cidades do reino
e seus estabelecimentos_, para ouvir a opinio d'elles, desassombrada e
severa!

--Se no acham massada...

--Prazer, Conselheiro! prazer!

Escolheu ento como mais propria para dar ida da importancia do
trabalho a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio
da saleta, de p, com as folhas na mo, e, com uma voz cheia, gestos
pausados, leu:

--...Reclinada mollemente na sua verdejante collina, como odalisca
em seus aposentos, est a sabia Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os
ps, segredando-lhe d'amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no
bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus
melancolicos trilos. Quando vos aproximaes pela estrada de Lisboa,
onde outr'ora uma bem organisada _mala-posta_ fazia o servio que o
progresso hoje encarregou  fumegante locomotiva, vdel-a branquejando,
coroada do edificio imponente da Universidade, asylo da sabedoria. L
campa a torre com o sino, que em sua folgaz linguagem a mocidade
estudiosa chama _a cabra_. Para alm logo uma copada arvore vos attrahe
as vistas:  a celebrada _arvore dos Dorias_, que dilata seus seculares
ramos no jardim d'um dos membros d'esta respeitavel familia. E avistaes
logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus innocentes
recreios, os briosos moos, esperana da patria, ou requebrando
galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e
frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais arduos de seus
bem elaborados compendios...

--Est a spa na mesa--veio dizer uma criada, de avental branco, muito
nutrida.

--Muito bem, Conselheiro, muito bem!--disse logo o Savedra do _Seculo_,
erguendo-se.-- admiravel!

Declarou para os lados com authoridade: que o estylo era digno d'um
Rebello ou d'um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em
Portugal d'uma obra daquelle quilate... E pensava baixo: Grandissima
cavalgadura!... O que era a sua apreciao generica de todas as obras
contemporaneas--exceptuando os seus artigos no _Seculo_.

--Que lhe pareceu, meu bom amigo?--perguntou baixo o Conselheiro
a Julio, passando-lhe a mo sobre o hombro.--Mas uma opinio
desaffrontada, meu Zuzarte!

--Snr. Conselheiro--disse Julio com uma voz profunda--tenho-lhe
inveja!--E as suas lunetas escuras fixavam-se com uma preoccupao
crescente n'um chale-manta pardo, que a um canto cobria
cuidadosamente, a julgar pelas saliencias, altas pilhas de livros. Que
seria?--Tenho-lhe inveja!--repetiu--E outra cousa, Conselheiro, no se
me dava de lavar as mos.

Accacio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se discretamente. Julio,
sempre curioso, observou, surprehendido, duas grandes lithographias
aos lados da cama--um _Ecce Homo_! e a _Virgem das sete Dres_. O
quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu ento a gavetinha
da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado
das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e
teve a consolao de verificar,--que havia sobre o travesseiro duas
fronhasinhas chegadas d'um modo conjugal e terno!

Apenas elle sahiu do quarto, limpando as unhas com o leno, o
Conselheiro conduziu-os  sala de jantar, dizendo, jovialmente:

--No esperem o festim de Lucullo:  apenas o modesto passadio d'um
humilde philosopho!

Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia das travessas
de dce; havia _creme_ crestado a ferro d'engomar, um prato _d'ovos
queimados_, aletria com as iniciaes do Conselheiro desenhadas a canella.

-- um grande dia para Sebastio!--disse Jorge.

O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastio, esfregando as mos, com
um riso na face amarella:

-- c dos meus, hein? Gosta do bello dce! Tambem me pllo, tambem me
pllo!...

Houve ento um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa
muito quente, agitavam os longos canudos brancos e molles do macarro.

O Conselheiro disse:

--No sei se gostaro da sopa. Eu adoro o macarro!

--Gosta do macarro?--acudiu o Alves.

--Muito, meu Alves. Lembra-me a Italia!--E acrescentou:--Paiz que
sempre desejei vr. Dizem-me que as suas ruinas so de primeira ordem.
Pde ir trazendo o cozido, snr.^a Philomena...--Mas detendo-a, com um
gesto grave:--Perdo, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe?  um
pargo.

Houve uma hesitao, Jorge disse:

--O cozido talvez.

E o Conselheiro com affecto:

--O nosso Jorge opina pelo cozido.

--Tambem estou pela sua!--exclamou o Alves Coutinho, voltado para
Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:--O cozidinho!

E o Conselheiro que julgava do seu dever dar  conversao nobreza e
interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa:

--Dizem-me que  muito liberal a constituio da Italia!

Liberal! Segundo Julio, se a Italia fosse liberal, devia ter ha muito
expulso a coronhadas o papa, o sacro collegio, e a sociedade de Jesus!

O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolencia do amigo Zuzarte para
o chefe da Igreja.

--No--explicou--que eu seja um sectario do _Syllabus_. No que eu
queira vr os jesuitas enthronisados no seio da familia! Mas--e a sua
voz tornou-se profunda--o respeitavel prisioneiro do Vaticano  o
vigario de Christo! Meu Sebastio, sirva o arroz!

No havia que estranhar aquellas opinies catholicas do Conselheiro,
ia observando Julio, porque tinha duas imagens de santos pendentes 
cabeceira da cama...

A calva d'Accacio fez-se rubra. O Savedra do _Seculo_ exclamou com a
bocca cheia:

--No o sabia carola, Conselheiro!

Accacio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e
acudiu:

--Eu peo ao meu Savedra que no tire d'esse facto illaes erradas.
Os meus principios so bem conhecidos. No sou ultramontano, nem fao
votos pelo restabelecimento da perseguio religiosa. Sou liberal.
Creio em Deus. Mas reconheo que a religio  um freio...

--Para os que o precisam--interrompeu Julio.

Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu,
devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio:

--No o precisamos ns de certo, que somos as classes illustradas. Mas
precisa-o a massa do povo, snr. Zuzarte. Seno veriamos augmentar a
estatistica dos crimes.

E o Savedra do _Seculo_, erguendo as sobrancelhas, com a physionomia
muito sria:

--Pois olhe que diz uma grandissima verdade.--Repetiu a maxima,
modificando-a:--A religio  um brido!--Fazia com o gesto o esforo de
conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava.

O Conselheiro continuava, explicando:

--Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas lithographias ou
gravuras, allusivas ao mysterio da Paixo, tem o seu lugar n'um quarto
de cama, e inspiram de certo modo sentimentos christos. No  verdade,
meu Jorge?

Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face accesa n'uma
jovialidade libertina:

--Eu, n'um quarto de dormir, as unicas pinturas que admitto so uma
bella nympha na, ou uma bacchante desenfreada!

--Isso, isso!--bradou o Alves Coutinho. A bocca dilatava-se-lhe
n'uma admirao sensual.--Este Savedra! Este Savedra!--E baixo para
Sebastio:--Tem um talento! Tem um talento!

O Conselheiro voltou-se para Julio, e puxando o guardanapo para o
estomago:

--Espero que no sejam esses os paineis immoraes, que se vem no seu
gabinete d'estudo.

Julio emendou:

--No meu cubiculo. Ah! no, Conselheiro! Tenho apenas duas
lithographias--uma  um homem sem pelle para representar o systema
arterial, o outro  o mesmo individuo igualmente sem pelle para se vr
o systema nervoso.

O Conselheiro teve com a sua mo branca um vago gesto enojado, e
exprimiu a opinio--que na medicina, alis uma grande sciencia! havia
cousas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos theatros
anatomicos, os estudantes d'idas mais avanadas levavam o seu desprezo
pela moral at atirarem uns aos outros, brincando, pedaos de membros
humanos, ps, coxas, narizes...

--Mas  como quem mexe em terra, Conselheiro!--disse Julio, enchendo o
copo-- materia inerte!

--E a alma, snr. Zuzarte?...--exclamou o Conselheiro. Fez um gesto
de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquella palavra
suprema, abriu para Sebastio um sorriso cortez e protector:

--E que diz o nosso bondoso Sebastio?

--Estou a ouvir, snr. Conselheiro.

--No d ouvidos a estas doutrinas!--Com o garfo mostrava a figura
biliosa de Julio.--Mantenha a sua alma pura. So perniciosas. Que o
nosso Jorge (o que  de lamentar n'um homem estabelecido e empregado do
Estado) tambem vai um pouco para estas exageraes materialistas!

Jorge riu; affirmou que _sim_, que tinha essa honra...

--Ento o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de
mathematica, acredite que ha almas que vivem no co, com azinhas
brancas, tunicas azues, e tocando instrumentos?

O Conselheiro acudiu:

--No, instrumentos no!--E como appellando para todos:--No creio que
tivesse fallado em instrumentos. Os instrumentos so uma exagerao.
So, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario...

Ia fulminar a doutrina ultramontana--mas a snr.^a Philomena
collocou-lhe diante a travessa com a perna de vitella assada.
Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade,
foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na
applicao d'uma funco grave. Ento Julio, pousando os cotovlos
sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou:

--E o ministerio, cahe ou no cahe?

Sebastio ouvira dizer no vapor d'Almada, de tarde, que a situao
estava firme.

Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beios e declarou que em duas
semanas estavam em terra. Nem aquelle escandalo podia continuar! No
tinham a mais pequena ida de governo. Nem a mais leve! Assim, por
exemplo, elle...--E metteu as mos nos bolsos, firmando-se nas costas
da cadeira--Elle tinha-os apoiado, no  verdade? E com lealdade.
Porque era leal! Sempre o fra em politica! Pois bem, no lhe tinham
despachado o primo recebedor d'Aljustrel, tendo-lh'o promettido! e nem
lhe tinham dado uma satisfao. Assim no era possivel fazer politica!
Era uma colleco de idiotas!

Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua
commisso no ministerio; e elle o que queria era estar quieto ao seu
cantinho...

O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo buchas de po.

--Eu que caiam, ou que fiquem--disse Julio--que venham estes, ou que
venham aquelles... Obrigado, Conselheiro--e recebeu o seu prato de
vitella--...-me inteiramente indifferente.  tudo a mesma podrido! O
paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma _choldra_: e esperava
breve que, pela logica das cousas, uma revoluo varresse a porcaria...

--Uma revoluo!--fez o Alves Coutinho, assustado, com olhares
inquietos para os lados, coando nervosamente o queixo.

O Conselheiro sentra-se, e disse, ento:

--Eu no quero entrar em discusses politicas, s servem para dividir
as familias mais unidas, mas s lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa,
os excessos da Communa...

Julio recostou-se, e com uma voz muito tranquilla:

--Mas onde est o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns
banqueiros, alguns padres, alguns proprietarios obesos, e alguns
marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...--E fazia o gesto d'afiar
a faca.

O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquella
sahida sanguinaria.

O Savedra porm interpoz-se, com authoridade:

--Eu no fundo sou republicano...

--E eu--disse Jorge.

--E eu--fez o Alves Coutinho, j inquieto.--Contem-me a mim tambem!

--Mas--continuou o Savedra--sou-o em principio. Porque o principio 
bello, o principio  ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?--E voltava
para todos os lados a sua face balofa.

--Sim, na pratica!--exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo.

--A pratica  impossivel!--declarou o Savedra. E encheu a bocca de
vitella.

O Conselheiro ento resumiu:

--A verdade  esta: o paiz est sinceramente abraado  familia real...
No acha, meu bom Sebastio?--Dirigia-se a elle, como proprietario e
possuidor d'inscripes.

Sebastio, interpellado, crou, declarou que no entendia nada de
politica; havia todavia factos que o affligiam; parecia-lhe que os
operarios eram mal pagos; a miseria crescia; os cigarreiros, por
exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com familia,
era triste...

-- uma infamia--disse Julio, encolhendo os hombros.

--E ha poucas esclas...--observou timidamente Sebastio.

-- uma torpeza!--insistiu Julio.

O Savedra calava-se, occupado com o alimento; tinha desabotoado
a fivela do collete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma cr
d'enfartao, e sorria vagamente, inchado.

--E os idiotas de S. Bento?...--exclamou Julio.

Mas o Conselheiro interrompeu-o:

--Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa.  mais digno de portuguezes
e de subditos fieis.

E voltando-se logo para Jorge, quiz saber como ficra a interessante D.
Luiza?

Estava um pouco adoentada havia dias--disse Jorge.--Mas no era nada,
mudana d'estao, um bocadito d'anemia...

O Savedra pousando o copo, e comprimentando:

--Tive o prazer de a vr passar este vero quasi todas as manhs por
minha casa--disse.--Ia para os lados d'Arroios. s vezes de trem, s
vezes a p...

Jorge pareceu um pouco surprehendido; mas o Conselheiro ia dizendo
quanto lhe pezava no ter o prazer de a vr partilhar d'aquelle modesto
repasto; como celibatario porm... no tendo uma esposa para fazer as
honras...

--E  o que eu admiro, Conselheiro--observou Julio-- que tendo uma
casa to confortavel, no se tenha casado, no se tenha dado o conchego
d'uma senhora...

Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado.

--So graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades
d'um chefe de familia--considerou elle.

Mas emfim--disseram-- o estado mais natural. E depois, que diabo, s
vezes havia de se sentir s! E n'uma doena! Sem contar a alegria que
do os filhos!...

O Conselheiro objectou: os annos, as neves da fronte...

Tambem ninguem lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze
annos! No, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que
tivesse attractivos, cuidados de interior... Era mesmo moral.

--Porque emfim, Conselheiro, a natureza,  a natureza!--disse Julio
com malicia.

--Ha muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixes.

Ora qual! era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! era
impossivel que o Conselheiro, apesar dos seus cincoenta e cinco, fosse
indifferente a uns bellos olhos pretos, a umas frmasinhas redondas!...

O Conselheiro crava. E o Savedra declarou, com um circumloquio
pudico--que nenhuma idade se eximia  influencia de Venus. Toda a
questo  nos gostos--disse:--aos quinze annos gosta-se d'uma matrona
cheia, aos cincoenta d'um fructosinho tenro... Pois no  verdade,
amigo Alves?

O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a lingua.

E o Savedra continuou:

--Eu, a minha primeira paixo foi uma visinha, mulher d'um capito de
navios, mi de seis filhos, e que no cabia por aquella porta. Pois
senhores, fiz-lhe versos, e a excellente creatura ensinou-me um par de
cousas agradaveis... Deve-se comear cedo, no  verdade?--E voltou-se
para Sebastio.

Quizeram ento saber as opinies de Sebastio--que se fez escarlate.

Por fim, muito solicitado, disse com timidez:

--Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimal-a toda a
vida...

Aquellas palavras simples produziram um curto silencio. Mas o Savedra,
reclinando-se, classificou uma tal opinio de burgueza; o casamento
era um fardo; no havia nada como a variedade...

E Julio expz dogmaticamente:

--O casamento  uma formula administrativa, que ha-de um dia
acabar...--De resto, segundo elle, a femea era um ente subalterno; o
homem deveria aproximar-se d'ella em certas pocas do anno (como fazem
os animaes, que comprehendem estas cousas melhor que ns), fecundal-a,
e afastar-se com tedio.

Aquella opinio escandalisou a todos, sobretudo o Conselheiro que a
achou d'um materialismo repugnante.

--Essas femeas para quem  to severo, snr. Zuzarte--exclamava
elle--essas femeas so nossas mes, nossas carinhosas irms, a esposa
do Chefe do Estado, as damas illustres da nobreza...

--So o melhor bocadinho d'este valle de lagrimas--interrompeu com
fatuidade o Savedra, dando palmadinhas sobre o estomago. Dissertou
ento sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito p;
no havia nada como um psinho catita! E a todas preferia a mulher
hespanhola!

O Alves votava pelas francezas: citava algumas do Caf Concerto,
creaturas de fazer perder a cabea!...--E injectavam-se-lhe os olhos.

O Savedra disse com um trejeito hostil:

--Sim, para um bocado de can-can... Para o can-can no ha como as
francezas... Mas muito chupistas!

O Conselheiro affirmou ageitando as lunetas:

--Viajantes instruidos teem-me afianado que as inglezas so notaveis
mes de familia...

--Mas frias como esta madeira--disse o Savedra, batendo no
mesa.--Mulheres de glo!--E reclamava hespanholas! Queria fogo! Queria
_salero_! Tinha o olho brilhante do vinho; a comida accendia-lhe o
sentimento!

--Uma bella _gaditana_, hein, amigo Alves?

Mas em presena dos dces que a snr.^a Philomena dispz sobre a mesa,
o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastio,
discutia gulodices. Indicava as especialidades: Para os folhados, o
Cc! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o largo de S.
Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os
olhos:

--Porque--dizia--o docinho e a mulherzinha  o que me toca c por
dentro a alma.

Era: todo o tempo que no dedicava ao servio do Estado, dividia-o, com
solicitude, entre as confeitarias e os lupanares.

Savedra e Julio discutiam a imprensa. O redactor do _Seculo_ gabava a
profisso de jornalista--quando a gente, j sabe, tem alguma cousa de
seu; mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, no  verdade? Depois
as entradas nos theatros, a influencia nas cantoras. Sempre se  um
bocado temido...

E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da
convivencia, dizia a Jorge:

--Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre
amigos, todos de reconhecida illustrao, discutir as questes mais
importantes, e vr travada uma conversao erudita?... Parecem
excellentes os ovos.

A snr.^a Philomena, ento, com solemnidade, veio collocar-lhe ao p uma
garrafa de champagne.

O Savedra pediu logo para a abrir, porque o fazia com muito _chic_.
E apenas a rolha saltou, e, no silencio que creou a ceremonia, se
encheram os copos, o Savedra, que ficra de p, disse:

--Conselheiro!

Accacio curvou-se, pallido.

--Conselheiro,  com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, 
saude d'um homem, que--e arremessando o brao, deu um puxo ao punho
da camisa com eloquencia--pela sua respeitabilidade, a sua posio, os
seus vastos conhecimentos,  um dos vultos d'este paiz.  sua saude,
Conselheiro!

--Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro!

Beberam com ruido. Accacio, depois de limpar os beios, passou a mo
tremula pela calva, levantou-se commovido, e comeou:

--Meus bons amigos! Eu no me preparei para esta circumstancia. Se o
soubesse d'antemo, teria tomado algumas notas. No tenho a verbosidade
dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lagrimas me vo embargar a
voz...

Fallou ento de si, com modestia: reconhecia, quando via na capital
to illustres parlamentares, oradores to sublimes, to consummados
estylistas, reconhecia que era um Zero!--E com a mo erguida formava
no ar, pela juno do pollegar e do indicador, um 0: um _zero_!
Proclamou o seu amor  patria: que manh as instituies ou a familia
real precisassem d'elle--e o seu corpo, a sua penna, o seu modesto
peculio, tudo offerecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu
sangue pelo throno!--E, prolixo, citou o _Eurico_, as instituies da
Belgica, Bocage e passagens dos seus prologos. Honrou-se de pretencer 
Sociedade Primeiro de Dezembro...--N'esse dia memoravel--exclamou--eu
mesmo illumino as minhas janellas, sem o luxo dos grandes
estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera!

E terminou dizendo:--No esqueamos, meus amigos, como portuguezes, de
fazer votos pelo illustrado monarcha, que deu s neves da minha fronte,
antes de descerem ao tumulo, a consolao de se poderem revestir com
o honroso habito de S. Thiago! Meus amigos,  familia real!--e ergueu
o copo-- familia modlo, que sentada ao leme do Estado, dirige,
cercada dos grandes vultos da nossa politica, dirige...--Procurou
o fecho; havia um silencio ancioso--dirige...--Atravs das lunetas
negras, os seus olhos cravavam-se,  busca da inspirao, na
travessa d'aletria--dirige...--Coou a calva, afflicto; mas um
sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrra a phrase; e estendendo o
brao:--...dirige a barca da governao publica com inveja das naes
visinhas!  familia real!

-- familia real!--disseram com respeito.

O caf foi servido na sala. As velas d'estearina punham uma luz
triste n'aquella habitao fria; o Conselheiro foi dar corda  caixa
de musica; e, ao som do cro nupcial da _Lucia_, offereceu em redor
charutos.

--E a snr.^a Adelaide pde trazer os licres--disse  Philomena.

Viram ento apparecer uma bella mulher de trinta annos, muito branca,
de olhos negros, e frmas ricas, com um vestido de merino azul,
trazendo n'uma bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa
de cognac e o frasco de curao.

--Boa moa!--rosnou com o rosto acceso o Alves Coutinho.

Julio quasi lhe tapou a bocca com a mo. E fallando-lhe ao ouvido,
olhando o Conselheiro, recitou:

    No ouses, temerario, erguer teus olhos
    Para a mulher de Cesar!

E em quanto se bebia o curao, Julio p ante p dirigiu-se ao
escriptorio, e foi erguer a ponta do chale-manta pardo que tanto o
preoccupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas,--as
obras do Conselheiro, intactas!

Quando Jorge entrou, s onze horas, Luiza j deitada lia, esperando-o.

Quiz saber do jantar do Conselheiro.

Excellente, contou Jorge, comeando a despir-se. Gabou muito os vinhos.
Tinha havido _speechs_... E de repente:

-- verdade, onde ias tu a Arroios?

Luiza passou devagar as mos sobre o rosto para lhe cobrir a alterao.
Disse bocejando ligeiramente:

--A Arroios?

--Sim. O Savedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que
te via passar todos os dias para l, de trem e a p.

--Ah!--fez Luiza, depois de tossir--ia vr a Guedes, uma rapariga que
andou commigo no collegio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes!

--Silva Guedes!...--disse Jorge reflectindo--Imaginei que estava
secretario geral em Cabo-Verde!

--No sei. Estiveram ahi um mez no vero. Moravam a Arroios. Ella
estava doente, coitada: eu ia l s vezes. Mandava-me pedir para ir l.
Pe essa luz fra, est-me a fazer impresso.

Queixou-se ento que toda a tarde estivera exquisita. Sentia-se fraca,
e com uma pontinha de febre...


E nos dias seguintes no se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente
de peso na cabea, mal estar... Uma manh mesmo ficou de cama. Jorge
no sahiu, inquieto, querendo j mandar chamar Julio. Mas Luiza
insistiu que no era nada, um bocadito de fraqueza, talvez...

Foi tambem a opinio de Juliana, em cima na cozinha.

--Que aquella senhora  fraca; alli ha cousa do peito--disse com
importancia.

Joanna que estava debruada sobre o fogo, acudiu logo:

--O que ella ,  uma santa!...

Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho:

--A snr.^a Joanna diz isso como se as outras fossem uma peste.

--Que outras?

--Eu, vossemec, a mais gente...

Joanna sempre remexendo nas panellas sem se voltar:

--Olhe, outra no encontra vossemess, snr.^a Juliana! Uma senhora que
lhe deixa fazer tudo o que quer, e faz ella mesma o servio! N'outra
dia andava a despejar as aguas.  uma santa!

Aquelle tom hostil de Joanna exasperou-a; mas conteve-se; apesar da
sua _posio_ na casa, dependia d'ella para os caldinhos, os bifes,
os petiscos; tinha diante d'ella a vaga timidez respeitosa das
constituies franzinas pelos corpos possantes; pz-se a dizer com uma
voz tortuosa, ambigua:

--Ora!--so genios! Gosta d'arrumar. Ah, l isso deve-se dizer, 
senhora de muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. s vezes
basta-lhe vr um bocadinho de p, agarra logo no espanador...  genio.
Tenho visto outras assim...--E punha a cabea de lado, franzindo os
beios.

--O que ella ,  uma santa--repetiu a Joanna.

-- genio! Est sempre n'uma labutao. Eu nunca sio sem deixar tudo
n'um brinco. Pois senhores, nunca est satisfeita. At n'outro dia, l
em baixo a passar a roupa... Eu ia a sahir, pois tirei logo o chapo,
e no consenti... Olhe, quer que lhe diga? falta de cuidados, no ter
filhos... Que ella no lhe falta nada...

Calou-se, remirou o p, e com satisfao:

--Nem a mim--disse reclinando-se na cadeira.

A Joanna pz-se a cantarolar. No queria questes. Mas ultimamente
achava tudo aquillo muito fra dos eixos, a Juliana sempre na rua, ou
mettida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo
ao Deus dar, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emmagrecer! No,
alli havia cousa! Mas o seu Pedro que ella consultra, disse-lhe com
finura, retorcendo o buo:--Ellas l se entendem! Trata tu de gozar,
e no te importes com a vida dos outros. A casa  boa, toca a tirar
partido!

Mas Joanna sentia l por dentro a crescer-lhe uma embirrao pela
snr.^a Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto,
pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; no se recusava a
fazer-lhe o servio, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora;
mas, qu, tinha-lhe birra! O que a consolava era a ida de que um
piparote desfazia aquella magricella! e ia tirando partido da casa,
tambem. O Pedro tinha razo...

Juliana com effeito, agora, no se constrangia. Depois da scena da
roupa, assustra-se, porque, emfim, o escandalo podia-lhe fazer
perder a _posio_; durante alguns dias no sahiu, foi cuidadosa: mas
quando viu Luiza resignar-se, abandonou-se logo, quasi com fervor,
s satisfaes da preguia e s alegriasinhas da vingana. Passeava,
costurava fechada no seu quarto, e a _Piorrinha_ que se arranjasse!
Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas apenas elle sahia! Que
desforra! s vezes estava varrendo ou arrumando--e, mal o sentia fechar
a cancella, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a panriar. L
estava a _Piorrinha_, para acabar!

Luiza, no entanto, passava peor: tinha de repente, sem razo, febres
ephemeras; emmagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge.

Ella explicava tudo pelo _nervoso_.

--Que ser, Sebastio?--era a pergunta incessante de Jorge. E
lembrava-se com terror que a mi de Luiza morrera d'uma doena de
corao!

Na rua, pela cozinheira, pela tia Joanna, sabia-se que a do Engenheiro
ia mal. A tia Joanna jurava que era a solitaria. Porque emfim,
uma pessoa a quem no faltava nada, com um marido que era um anjo,
uma boa casa, todos os seus commodos--e a esmorecer, a esmorecer...
Era a bicha! No podia ser seno a bicha! E todos os dias lembrava
a Sebastio que se devia mandar chamar o homem de Villa Nova de
Famalico, que tinha o remedio para a bicha.

O Paula explicava d'outro modo.

--Alli anda cousa de cabea--dizia, franzindo a testa, com o ar
profundo.--Sabe o que ella tem, snr.^a Helena?  muita dse de novellas
n'aquella cachimonia. Eu vejo-o de pela manh at  noite de livro na
mo. Pe-se a lr romances e mais romances... Ahi teem o resultado:
arrazada!

Um dia Luiza de repente, sem razo, desmaiou; e quando voltou a si
ficou muito fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo
buscar Julio: encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o
dia seguinte, e sentia clicas.

Durante todo o caminho no deixou de fallar excitadamente da sua
these, do escandalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem
injustos,--arrependido agora de no ter mettido mais cunhas!

Depois de ter examinado Luiza veio dizer, furioso, a Jorge:

--No tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! Tem anemia, o que todos
temos. Que passeie, que se distria. Distraces e ferro, muito
ferro... E agua fria, agua fria p'ra cima d'aquella espinha!

Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, deblaterando toda a
tarde contra o paiz, amaldioando a carreira medica, injuriando o seu
concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge.

Luiza tomava o ferro, mas recusava as distraces; fatigava-a
vestir-se, aborrecia-lhe ir ao theatro... Depois, logo que viu Jorge
preoccupar-se do seu estado, quiz affectar fora, alegria, bom humor; e
aquelle esforo abatia-a, extraordinariamente.

--Vamos para o campo, queres tu?--dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a
esmorecida.

Ella, receando complicaes possiveis, no aceitava; no se sentia
bastante forte, dizia: onde estava mais confortavel que em casa? Depois
as despezas, os incommodos...

Uma manh, que Jorge voltra a casa inesperadamente, encontrou-a
em _robe-de-chambre_, com um leno amarrado na cabea, varrendo,
lugubremente.

Ficou  porta attonito:

--Que andas tu a fazer? andas a varrer?

Ella crou muito, atirou logo a vassoura, veio abraal-o.

--No tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava
aborrecida, alm d'isso faz-me bem,  um exercicio.

Jorge,  noite, contou a Sebastio aquella tolice, de se andar a
esfalfar...

--Uma pessoa que est to fraca, minha senhora...--observou
reprehensivamente Sebastio.

Mas no! dizia ella, achava-se bem melhor! At agora andava muito
melhor...

Todavia, quasi no fallou n'essa noite, curvada sobre o seu _crochet_,
um pouco pallida: e os seus olhos s vezes erguiam-se com uma fadiga
triste, sorrindo silenciosamente, d'um modo desconsolado.

Pediu a Sebastio que tocasse algum cousa do _Requiem_ de Mozart.
Achava to lindo! Gostava que lh'o cantassem na igreja quando ella
morresse...

Jorge zangou-se. Que mania de fallar em cousas ridiculas!

--Mas ento, no  possivel que eu morra?...

--Pois bem, morre e deixa-nos em paz!--exclamou elle furioso.

--Que bom marido!--dizia ella sorrindo a Sebastio.--Deixou cahir
o _crochet_ no regao, pediu-lhe ento os _Dezeseis compassos da
Africana_. Escutava, com a cabea apoiada  mo: aquelles sons
entravam-lhe na alma com a doura de vozes mysticas que a chamavam;
parecia-lhe que ia levada por ellas, se desprendia de tudo o que era
terrestre e agitado, se achava n'uma praia deserta, junto ao mar
triste, sob um frio luar--e alli, puro espirito, livre das miserias
carnaes, rolava nas ondulaes do ar, tremia nos raios luminosos,
passava sobre as urzes nos sopros salgados...

A melancolica attitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge:

-- Sebastio, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba Azul,
o Pirolito, o diabo? Seno, se querem melancolia, eu comeo com o
canto-cho!

E cantou, com um tom funebre:

    _Dies ir[ae], dies illa
    Solvunt s[ae]cula in favilla!..._

Luiza riu-se:

--Que doudo! Nem pde a gente estar triste...

--Pde!--exclamou Jorge.--Mas ento venha a bella tristeza, venha a
tristeza completa.--E com uma voz medonha entoou o _Bemdito_!

--Os visinhos ho-de dizer que estamos doudos, Jorge--acudiu ella.

-- justamente o que ns estamos!--E entrou no escriptorio, atirando
com a porta.

Sebastio bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo:

--Ento que idas so essas? Que melancolia  essa?

Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de
sympathia; ia talvez dizer-lhe tudo n'uma exploso de dr, mas Jorge
sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o
seu _crochet_.


No domingo seguinte,  noite, conversava-se na sala. Julio contra o
seu concurso. Em resumo, estava contente: tinha fallado duas horas bem,
com preciso, com lucidez.

O dr. Figueiredo dissera-lhe que devia ter amenisado um bocado mais...

--Litteratos!--fazia Julio, encolhendo os hombros, com desprezo.--No
podem fallar cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as
flres da primavera e o facho da civilisao!

--O portuguez tem a mania da rhetorica...--disse Jorge.

N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta.

--Oh!  do Conselheiro!

Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava de no poder vir,
como promettera na vespera, partilhar do excellente ch de D. Luiza.
Um trabalho urgente retinha-o  banca do dever. Pedia lembranas aos
nossos Sebastio e Julio, e affectuosos respeitos  interessante D.
Felicidade.

Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a
arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado
com um dedo a _Perola d'Ophir_; e emfim, no se dominando, pediu baixo
a Luiza que fossem para o quarto, tinha um segredo...

Apenas entraram, fechando a porta da sala:

--Que me dizes  carta d'elle?

--Os meus parabens--disse Luiza, rindo.

-- o milagre!--exclamou D. Felicidade--j  o milagre a fazer-se!--E
mais baixo:--Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego!

Luiza no comprehendia.

--O homem a Tuy,  mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle.
Partiu ha uma semana: a mulher naturalmente j comeou a enterrar-lhe
as agulhas no corao...

--Que agulhas?--perguntou Luiza attonita.

Estavam de p, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz
mysteriosa:

--A mulher faz um corao de cera, colla-o ao retrato do Conselheiro,
e durante uma semana  meia noite crava-lhe uma agulha benta com o
preparo que ella tem, e faz as oraes...

--E dste o dinheiro ao homem?

--Oito moedas.

--Oh D. Felicidade!

--Ai! no me digas. Que j vs! Que mudana! D'aqui a uns dias,
baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o
permitta! Que aquelle homem traz-me douda. De noite,  cada sonho! At
ando em peccado mortal! e so suores! Mudo de camisa tres e quatro
vezes!

E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua
pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello.

--No me achas mais magra?

--No.

--Ai estou, filha, estou!--E mostrou o corpete lasso.

J fazia planos. Iria passar a _lua de mel_ a Cintra... Os olhos
afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico.

--Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe duas velas accesas, de
dia e de noite...

Mas de repente a voz afflicta de Joanna bradou da escada da cozinha:

--Minha senhora! Minha senhora, acuda!

Luiza correu, Jorge tambem, que ouvira na sala o grito. Juliana estava
estendida no soalho da cozinha, desmaiada!

--Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente!--exclamava Joanna, muito
branca, a tremer.--Tombou p'ra o lado de repente...

Julio tranquillisou-os logo: era uma syncope, simples.
Transportaram-na para a cama. Julio fez-lhe esfregar violentamente
com uma flanella quente as extremidades,--e, mesmo antes que Joanna
atarantada, em cabello, corresse  botica por um antispasmodico,
Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram  sala, Julio
disse, enrolando o cigarro:

--No vale nada. So muito frequentes, estas syncopes, nas doenas
de corao. Esta  simples. Mas  o diabo, s vezes tem um caracter
apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a
effuso de sangue no cerebro  muito pequena, mas emfim, sempre
desagradavel.--E accendendo o cigarro:--Esta mulher um dia morre-lhes
em casa.

Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as mos nos bolsos.

--Sempre o tenho dito--acudiu D. Felicidade, baixando a voz,
assustada.--Sempre o tenho dito.  desfazerem-se d'ella.

--Alm d'isso o tratamento  incompativel com o servio--disse
Julio.--Emfim, mesmo a engommar roupa se pde tomar digitalis ou
quinino; mas  que o verdadeiro tratamento  o repouso,  a absoluta
excluso da fadiga. Que ella um dia se zangue ou que tenha uma manh de
canceira, e pde ir-se!

--E vai adiantada a doena?--perguntou Jorge.

--Pelo que ella diz j tem a difficuldade asthmatica, oppresses, uma
dr aguda na regio cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades--o
diabo!

--Olha que espiga!--murmurou Jorge, olhando em roda.

-- pl-a na rua!--resumiu D. Felicidade.

Quando ficaram ss, s onze horas, Jorge disse logo a Luiza:

--Que te parece esta, hein?  necessario descartarmo-nos da creatura.
No quero que me morra em casa!

Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos, comeou a
dizer, que no se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a
rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia
collocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o p
n'um terreno traioeiro.--Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que
ella fosse viver algures...

Jorge, depois d'um silencio, respondeu:

--No tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se v, que se
arranje!

Dez ou doze libras!--pensou Luiza com um sorriso infeliz.--E  beira
do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida
saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas
pela afflico, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas...


Porque, emfim, a _crise_ tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir
a creatura, ella no podia, sem provocar um espanto e uma explicao,
dizer a Jorge: no quero que ella sia, quero que ella aqui morra! E
Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luiza no
a defendia, no a reclamava,--vingar-se-hia! Que havia de fazer?

Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitao. Juliana muito fatigada,
ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na
_voltaire_,  janella da sala de jantar, lia machinalmente o _Diario
de Noticias_, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da
pagina, lhe deu um sobresalto: Parte alm d'manh para Frana o
nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda &
C.^a S. exc.^a retira-se dos negocios da praa, e vai estabelecer-se
definitivamente em Frana, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente
uma valiosa propriedade.

O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia
Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro
momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma
desconsolao de o vr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a
Portugal, o Castro!... E de repente uma ida atravessou-a, que a fez
vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.--Se na vespera da
partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era
horrivel! Nem pensar em tal!...

Mas pensou--e sentia-se toda fraca contra uma tentao crescente, que
se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas.  que ento estava
salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para
longe!

E elle, o homem, tomaria o paquete! No teria de crar diante d'elle;
o seu segredo ia para o estrangeiro, to perdido como se fosse para o
tumulo!--E, alm d'isso, se o Castro tinha uma paixo por ella, era bem
possivel que lhe emprestasse, sem condies!...

Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira do seu roupo as
notas, o ouro... Porque no?--Porque no? E vinha-lhe um desejo ancioso
de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios...

Voltou ao quarto. Pz-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge
que se vestia... A presena d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir
a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas
palavras intencionaes!... Que horror!--Mas j subtilisava. Era por
Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de _saber_! Era
para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas...

Durante todo o almoo esteve calada. O rosto sympathico de Jorge
enternecia-a; o _outro_ parecia-lhe medonho, odiava-o j!...

Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia  janella; o sol parecia-lhe
adoravel, a rua attrahia-a.--Porque no? Porque no?

A voz de Juliana, muito aspera, fallou ento nas escadas da cozinha; e
aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente.

Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.--E chegou toda
esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque.

Encontrou-a vestida, esperando o almoo. E tirando immediamente o
chapo, installando-se no soph, explicou muito claramente a Leopoldina
a sua resoluo. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado ou dado,
queria o dinheiro!... Estava n'uma afflico, devia valer-se de
tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo d'uma vingana
d'ella... Queria dinheiro, alli estava!

--Mas assim de repente, filha!--disse Leopoldina, pasmada do seu olhar
decidido.

--O Castro vai-se manh. Vai para Bordeus, para o inferno! 
necessario fazer alguma cousa, j!

Leopoldina lembrou escrever-lhe.

--O que quizeres... Eu aqui estou!

A outra sentou-se devagar  mesa, escolheu uma folha de papel, e, com o
dedinho no ar, a cabea de lado, comeou a escrevinhar.

Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resoluo teimosa,
que a presena de Leopoldina fortificava! Divertia-se, aquella,
danava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura a
minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! no voltaria para casa sem levar
na algibeira em boas libras o resgate, a salvao! Ainda que tivesse
de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhaes, dos
sustos, das noites cortadas de pesadlos!... Queria saborear a vida,
que diabo! o seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o corao
contente!

--V l--disse Leopoldina, lendo:


                                               Meu caro amigo.

Desejo absolutamente fallar-lhe.  um negocio grave. Venha logo que
possa. Talvez me agradea. Espero-o at s tres horas, o mais tardar.

Com toda a estima

                                                   Sua amiga

                                                 _Leopoldina_.


--Que te parece?

--Horrivel! Mas est bem... Est muito bem! Risca-lhe o _talvez me
agradea_.  melhor.

Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem.

--E agora vou almoar, que me no tenho nas pernas.

A sala de jantar dava para um saguo estreito. As paredes estavam
cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes
semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. Um
armario, no angulo da parede, servia de guarda-loua. As cadeiras de
palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia
nodoas do caf da vespera.

--D'uma cousa pdes tu ter a certeza--dizia Leopoldina, bebendo
grandes goles de ch-- que o Castro  um homem p'ra um segredo!...
Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca no sahe
uma palavra. L n'isso  perfeito... Olha que foi o amante da Videira
annos! e nem ao Mendona, que  o seu intimo, disse uma palavra. Nem
uma alluso!  um poo.

--Que Videira?--perguntou Luiza.

--Uma alta, de nariz grande, que tem um _landau_.

--Mas passa por uma mulher to sria...

--J tu vs!--E com um risinho:--Ai ellas passam, passam. L passar,
passam. A questo  conhecer-lhes os pdres, minha fidalga!

E barrando de manteiga grandes fatias de po, pz-se a fallar
complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o _sudario_:
citava nomes, especialidades, as que depois de terem feito o diabo,
gastam, n'uma devoo tardia, o resto d'uma velha sensibilidade; que
 por onde ellas acabam, algumas  pelas sacristias! As que, canadas
de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu fracasso
n'uma estao em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito
pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes
chamar _mam_! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor,
refugiam-se nas precaues da libertinagem... Sem contar as senhoras
que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito
supplementar!--Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas
tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que
ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a tola, tivera s
a sinceridade! E em quanto ellas conservavam as suas relaes, convites
para _soires_, a estima da crte,--ella perdera tudo, era apenas a
Quebraes!...

Aquella conversao enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio
parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o
seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o to pouco visivel quasi o
julgava j justificado.

Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma
forte immoralidade geral, onde as resistencias, os orgulhos se
amollecem, se enlanguecem,--como os musculos n'uma estufa fortemente
saturada de exhalaes mornas.

--Este mundo  uma historia--disse Leopoldina erguendo-se e
espreguiando-se.

--E teu marido onde est?--perguntou Luiza no corredor.

Fra p'ra o Porto. Estavam  vontade, podiam commetter crimes!

E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canap, com o cigarrinho
_laferme_ na bocca, comeou tambem a queixar-se.

Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, achava tudo seccante;
queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos
os poros do seu corpo...

--E o Fernando, ento?--disse distrahidamente Luiza, que a cada momento
se aproximava da janella.

--Um idiota!--respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de
saciedade e de desprezo.

No, realmente tinha vontade d'outra cousa, no sabia bem de qu!
s vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braos com um
tedio molle). Eram to semsabores todos os homens que conhecia! to
corriqueiros todos os prazeres que encontrra! Queria uma outra vida,
forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar--ser mulher d'um
salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em quanto ao Fernando,
o amado Fernando dava-lhe nauseas! E outro que viesse seria o mesmo.
Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus!

E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada:

--Aborreo-me! Aborreo-me!... Oh cos!

Ficaram um momento caladas.

--Mas, que se lhe ha-de dizer, a esse homem?--perguntou de repente
Luiza.

Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiosa:

--Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, ou seiscentos mil reis...
Que se lhe ha-de ento dizer? Que se lhe paga.

--Como?

Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto:

--Em affecto.

--Oh! s horrivel!--exclamou Luiza, exasperada.--Vs-me aqui
desgraada, meia douda, dizes que s minha amiga, e ests a rir, a
escarnecer...--A sua voz tremia, quasi chorava.

--Mas tambem que pergunta to tola! Como se lhe ha-de pagar?... Tu no
sabes?

Olharam-se um momento.

--No, eu vou-me embora, Leopoldina!--exclamou Luiza.

--No sejas criana!

Um trem parou na rua. A Justina appareceu. No encontrra o snr. Castro
em casa, estava no escriptorio. Fra l, disse que vinha immediatamente.

Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapo na mo.

--No--disse Leopoldina, quasi escandalisada--tu agora no me deixas
aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer?

-- horrivel!--murmurou Luiza com uma lagrima nas palpebras, deixando
cahir os braos, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha,
muito infeliz!

-- como quem toma oleo de ricino--disse a outra com um gesto cynico.
E acrescentou, vendo o horror de Luiza:--Que diabo! onde  que est a
deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede...

N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou.

--Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!--supplicou Luiza, erguendo
as mos para ella.

A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para
todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como
procurando uma ida, uma resoluo ou um recanto para se esconder!
Botas d'homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina ento
disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar as palavras na alma, uma
a uma:

--Lembra-te que d'aqui a uma hora pdes estar salva, com as tuas cartas
na algibeira, feliz, livre!

Luiza pz-se de p com uma deciso brusca. Foi pr ps d'arroz, alisou
o cabello,--e entraram na

Ao vr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. Curvou-se, com
os ps pequeninos muito juntos, inclinando a cabea grossa, onde os
cabellos muito finos alourados j rareavam.

Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna curta fazia parecer quasi
pansudo, o medalho do relogio pousava com opulencia. Trazia na mo
um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus retorcendo os
braos. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em
pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico.
E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, bancario, amigo da
Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto.

Com que! Era necessario mandal-o chamar, para que se lhe pozesse a
vista em cima,--comeou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a
Luiza sua intima, sua amiga de collegio:

--Que tem feito, porque no tem apparecido?

O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braos, e batendo com o chicote
nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida...

--Sempre  verdade? Deixa-nos?

O Castro curvou-se:

--Alm d'amanh. No _Orenoque_.

--Ento d'esta vez os jornaes no mentiram. E com demora?

--_Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum._

Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem to estimado, que se podia
divertir tanto!--Pois no  verdade?--disse voltando-se para Luiza,
para a tirar do seu silencio embaraado.

--Com certeza--murmurou ella.

Estava sentada  beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E
os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos,
incommodavam-na.

Leopoldina reclinra-se no soph e ameaando-o com o dedo erguido:

--Ah! Ahi n'essa ida p'ra Frana anda historia de saias!

Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo.

Mas Leopoldina no achava as francezas bonitas--o que era  que tinham
muito _chic_, muita animao...

O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a estroinice! Ah!
conhecia-as bem! Emfim, l como mes de familia no dizia. Mas para uma
ca, para um bocado de _can-can_ no havia outras...--Affirmava-o com
convico, pois, como os burguezes da sua roda, avaliava doze milhes
de francezas por seis prostitutas de Caf Concerto,--que tinha pago
caro e enfastiado immenso!

Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe _estroina_!

Elle sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode:

--Calumnias, calumnias...--murmurava.

E Leopoldina voltando-se para Luiza:

--Comprou uma quinta magnifica em Bordeus, um palacio!...

--Uma choupana, uma choupana...

--E naturalmente vai dar festas magnificas!...

--Modestos chs, modestos chs...--dizia, repoltreando-se.

E riam ambos d'um modo muito affectado.

O Castro curvou-se ento para Luiza:

--Tive o gosto de vr v. exc.^a ha tempos, na rua do Ouro...

--Creio que tambem me lembro--respondeu ella.

E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais  beira do soph,
e depois de sorrir:

--Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe.

Castro inclinou-se. O seu olhar no deixava Luiza, percorria-a com
atrevimento, palpava-a.

--Aqui est o que . Eu vou direita s cousas, sem preambulos.--E teve
outro risinho.--Aqui a minha amiga est n'um grande apuro, e precisa um
conto de reis.

Luiza acudiu com a voz quasi sumida:

--Seiscentos mil reis...

--Isso no importa--disse Leopoldina com uma indifferena
opulenta--estamos a fallar com um millionario! A questo  esta: quer o
meu amigo fazer o favor?

O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada,
ambigua:

--Certamente, certamente...

Leopoldina ergueu-se logo:

--Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira  espera. Deixo-os fallar
do negocio.

E  porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaando-o com o dedo,
a voz muito alegre:

--Que o juro seja pequeno, hein?

E sahiu, rindo.

O Castro disse logo a Luiza, curvando-se:

--Pois minha senhora, eu...

--A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou n'uma grande afflico de
dinheiro. E dirijo-me a si... So seiscentos mil reis... Procurarei
pagar, o mais depressa...

--Oh minha senhora!--fez o Castro com um gesto generoso. Comeou ento
a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus
embaraos... Lamentava que a no tivesse conhecido ha mais tempo...
Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!...

Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi pousar o chicote na
jardineira, veio sentar-se no soph junto d'ella. Vendo o seu ar
embaraado, pediu-lhe que no se affligisse. Valia l a pena por
questes de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora
nova, to interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle.
Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam,
eram indiscretos...--E fallando tinha-lhe tomado a mo; o contacto
d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o
respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirra a mo; e Castro
abrazado--com uma verbosidade um pouco rouca, promettia _tudo_, _tudo
o que ella quizesse_!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o
pescoo muito branco.

--Seiscentos mil reis..., o que quizer!...

--E quando?--disse Luiza muito perturbada.

Elle via-lhe o seio arfar--e sob a irrupo d'um desejo brutal:

--J!

Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a
face.

Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'ao.

Mas o Castro escorregra sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe
sofregamente os vestidos:

--Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos que tenho uma paixo
por si. Escute!--Os seus braos tremulos subiam; envolviam-na, e o que
sentia das suas frmas inflammava-o.

Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mos, recusava-se.

--O que quizer! Mas oua!--balbuciava elle puxando-a violentamente para
si. A concupiscencia brutal dava-lhe uma respirao de touro.

Ento, com um puxo desesperado s saias, ella soltou-se, e recuando
afflicta:

--Deixe-me! Deixe-me!

O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braos
abertos, rompeu para ella.

Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou
instinctivamente de sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte
chicotada na mo.

A dr, a raiva, o desejo enfureceram-no.

--Seu diabo!--rosnou, rangendo os dentes.

Ia-se arremessar. Mas Luiza ento, erguendo o brao, revolvida por
uma clera phrenetica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos
braos, pelos hombros--muito pallida, muito sria, com uma crueldade
a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar
aquella carne gorda.

O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braos diante da
cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de
porcelana oscillou, desequilibrou-se, rolou no cho, com estilhaos de
loua, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira.

--Ahi est! V?--disse Luiza toda a tremer, apertando ainda
convulsivamente o chicote.

Leopoldina ao barulho correu, do quarto.

--Que foi? Que foi?

--Nada, estavamos a brincar--disse Luiza.

Atirou o chicote para o cho, sahiu da sala.

O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapo; e fixando
terrivelmente Leopoldina:

--Agradecido! Conte commigo quando quizer!

--Mas que foi? Que foi?

--At  vista!--rugiu o Castro.--E indo apanhar o chicote, sacudindo-o
ameaadoramente para o quarto, onde Luiza entrra:

--Grande bebeda!--murmurou com rancor.

E sahiu, atirando com as portas.

Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no quarto a pr o chapo,
com as mos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita.

--Chegou-me c uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas--disse ella.

Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada.

--Bateste-lhe?...--E de repente desatou a rir, convulsivamente.--O
Castro d'oculos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar
uma coa!--Atirou-se para cima da _chaise-longue_, rolou-se;
suffocava.--At j tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma
casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a
chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!...

--O peor foi o candieiro--disse Luiza.

Leopoldina ergueu-se, de salto.

--E o azeite! Ai que agouro!--Correu  sala. Luiza veio encontral-a
diante da nodoa escura, com os braos cruzados, como se visse, toda
pallida, catastrophes avisinharem-se.--Que agouro, Santo Deus!

--Deita-lhe sal depressa.

--Faz bem?

--Quebra o agouro.

Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa:

--Ai! Nossa Senhora permitta que no haja nada mau! Mas que caso este,
que caso este! E agora, filha?

Luiza encolheu os hombros.

--Eu sei c! Soffrer!...




XIII


N'essa semana, uma manh, Jorge, que se no recordava que era dia de
gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia.
Joanna  porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella
em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto,
surprehendeu Juliana commodamente deitada na _chaise-longue_, lendo
tranquillamente o jornal.

Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou:

--Peo desculpa, tinha-me dado uma palpitao to forte...

--Que se pz a lr o jornal, hein?...--disse Jorge, apertando
instinctivamente o casto da bengala.--Onde est a senhora?

--Deve estar p'ra a sala de jantar--disse Juliana, que se pz logo a
varrer, muito apressada.

Jorge no encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto
dos engommados, despenteada, em roupo de manh, passando roupa, muito
applicada e muito desconsolada.

--Tu ests a engommar?--exclamou.

Luiza crou um pouco, pousou o ferro.--A Juliana estava adoentada,
juntra-se uma carga de roupa...

--Dize-me c, quem  aqui a criada e quem  aqui a senhora?

A sua voz era to aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou:

--Que queres tu dizer?

--Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei
a ella l em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lr o jornal.

Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, comeou a
remexer, a desdobrar, a sacudir com a mo tremula...

--Tu no pdes fazer ida do que aqui vai por fazer--ia dizendo.--
a limpeza, so os engommados,  um servio. A pobre de Christo tem
estado doente...

--Pois se est doente que v p'ra o hospital!

--No, tambem no tens razo!

Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na
sua _chaise-longue_, exasperou-o:

--Dize c, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella!

--Ah! se ests com esse genio!--fez Luiza com os beios tremulos, uma
lagrima j nas palpebras.

Mas Jorge continuava, muito zangado:

--No, essas condescendencias ho-de acabar por uma vez! Vr aquelle
estafermo, com os ps p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se
nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o
servio, ah! no!  necessario acabar com isso. Sempre desculpas!
sempre desculpas! Se no pde que arreie. Que v p'ra o hospital, que
v p'ra o inferno!

Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluando.

--Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras?

Ella no respondia, n'um grande pranto.

--Porque choras, filha?--perguntou elle, com uma impaciencia commovida,
chegando-se a ella.

--Para que me fallas tu assim?--dizia, toda soluante, limpando os
olhos.--Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O
que me sabes dizer so cousas desagradaveis.

--Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te l nada
desagradavel!--E abraou-a, ternamente.

Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluos:

--Ento  algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato
das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A
mulher tem estado doente! Em quanto se no arranja outra,  necessario
fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!...

--Ests a dizer tolices, filha. No ests em ti. Eu o que no quero 
que te cances!

--P'ra que dizes ento que tenho medo d'ella?--E as lagrimas
recomeavam.--Medo de qu? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que
desproposito!

--Pois bem, no digo. No se falla mais na creatura. Mas no
chores... V, acabou-se!--Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a
dcemente:--V, deixa o ferro agora. Vem! Que criana que tu s!


Por bondade, por considerao com os nervos de Luiza, Jorge durante
alguns dias no fallou na creatura. Mas pensava n'ella; e aquelle
estafermo, com os ps para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as
madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite
em que ella desmaira, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava
aquillo estranho, irritante!... Como estava fra de casa todo o dia, e
diante d'ella Juliana s tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes
de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas
intimidades de ama a criada, se tornra necessaria e estimada. Isso
augmentava a sua antipathia. E no a disfarava.

Luiza vendo-o s vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia!
Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptra de fallar
d'ella com uma venerao ironica; chamava-lhe _a illustre D. Juliana,
a minha ama e senhora_! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se
espantado: Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa to perfeita!
Tinha gracejos que gelavam Luiza.

--A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom?

Luiza agora, diante d'elle, j nem se atrevia a fallar a Juliana com um
modo natural; temia os sorrisos malignos, os partes:--Anda, atira-lhe
um beijo, conhece-se na cara que ests com a vontade de lh'o atirar!
E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se _independente_,
comeou na sua presena, a fallar a Juliana com uma dureza brusca,
muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava  voz inflexes d'um
rancor postio.

Juliana, muito fina, tinha percebido _tudo_, e supportava, calada.

Queria evitar toda a questo que a perturbasse no seu conchego.
Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que no podia dormir com
afflices asthmaticas, punha-se a pensar com terror--se fosse expulsa
d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital!

Tinha por isso medo de Jorge.

--Elle est morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de
mim--dizia ella  tia Victoria--mas no lhe hei-de dar esse gosto, ao
boi manso!

E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomear a fazer todo o
servio, com zelo, apparentemente; e todavia s vezes no podia,
vencida pela doena; tinha flatos que a faziam cahir n'uma cadeira,
arquejando, com as mos no corao. Mas reagia. Uma occasio mesmo
vendo Luiza a passar um espanejador pelos _consoles_ da sala, zangou-se:

--A senhora faz favor de se no metter no meu servio? Eu ainda posso!
Ainda no estou na cova!

Consolava-se ento com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava
sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e
vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha  noite.

--Com o meu corpo o pago--dizia ella a Joanna--que trabalho como uma
negra! Arrazo-me!

Um dia, porm, que Jorge se irritra mais com a figura amarellada de
Juliana, e que estava nervoso, ao achar  noite o jarro vazio e o
lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente:

--No estou para aturar estes desleixos! Irra!--gritou.

Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana.

Jorge mordeu o beio, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco
tremula:

--Perdo! esquecia-me que a pessoa de Juliana  sagrada! eu mesmo vou
buscar agua!

Luiza ento zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques,
era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava
de paixo a Juliana? Se a conservava  porque era uma boa criada. Mas
se ella se tornava a causa de maus humores, de questes, se elle lhe
ganhra tamanho odio, bem, ento que se fosse! Era uma scca aquella
ironia constante...

Jorge no respondeu.

E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo no podia
durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo
o momento ditinhos, alluses, ah, no! era de mais! Bastava! Elle
comeava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma
chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que
mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento,
se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle
martyrio reles, s picadinhas, medonho e grotesco!

--Que tens tu?--perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta.

--Espertina.

--Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!--E voltou-se,
enrolando-se commodamente na roupa.


Ao outro dia Jorge levantra-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso,
o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de
vestido foi  sala de jantar--eram dez horas--e voltou a dizer a Luiza,
com uma cortezia profunda, espaando as palavras:--que no estava a
mesa posta! que as chavenas do ch da vespera estavam ainda por lavar!
e que a snr.^a D. Juliana, a illustre snr.^a D. Juliana, tinha sahido,
a seu passeio!

--Eu disse-lhe hontem  noite que me fosse ao sapateiro...--comeou
Luiza, que vestia o seu roupo.

--Ah, perdo!--interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.--Esquecia-me
outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdo!

Luiza acudiu logo:

--No. Tens razo. Tu vers!  preciso pr um cbro...

Subiu logo  cozinha, desesperada:

--Voss porque no pz a mesa, Joanna, se a outra sahiu?

Mas a rapariga no ouvira sahir a snr.^a Juliana! Imaginra que estava
p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora  que queria fazer tudo!...

Quando Joanna trouxe o almoo d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se 
mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes
com um sorriso mudo para ir buscar uma colhr, o assucareiro. Luiza
via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada;
a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mo; com os olhos baixos
espreitava Jorge s furtadellas, e o seu silencio torturava-a.

--Tu fallaste hontem que ias jantar fra hoje...

--Vou--disse seccamente. E acrescentou:--Graas a Deus!

--Ests de bom humor!...--murmurou ella.

--Como vs!

Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarar
uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras
confundiam-se, sentia pular o corao. De repente a campainha tocou.
Era a outra, de certo!

Jorge, que se ia erguer, disse logo:

--Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...

E ficou de p, junto  mesa, aguando devagar um palito.

Luiza, a tremer, levantou-se tambem:

--Eu vou-lhe fallar...

Jorge reteve-a pelo brao, e tranquillamente:

--No, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...

Luiza recahiu na cadeira, muito pallida.

Os taces de Juliana soaram no corredor. Jorge aguava tranquillamente
o seu palito.

Luiza ento voltou-se para elle, e batendo as mos, afflicta:

--No lhe digas nada!...

Elle fixou-a, assombrado:

--Porque?

Juliana n'este momento abriu o reposteiro.

--Ento que desaforo  este, sahir e deixar tudo por
arrumar?--disse-lhe Luiza logo, erguendo-se.

Juliana, que vinha sorrindo, estacou  porta, petrificada: apesar da
sua amarellido, uma vaga cr de sangue espalhou-se-lhe nas feies.

--No lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigao
 estar em casa pela manh...--Mas o olhar de Juliana, que se cravava
n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mos
tremulas.--Deite agua n'este bule, v.

Juliana no se mexeu.

--Voss no ouviu?--berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada 
mesa, que fez saltar a loua.

--Jorge!--gritou Luiza, agarrando-lhe no brao.

Mas Juliana fugira da sala, correndo.

--E logo, na rua!--exclamou Jorge.--Faze-lhe as contas, e que se v.
Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vr, desfao-a! At que
emfim! Chegou-me a minha vez!

Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando  sala:

--E que se v hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias
que a trago aqui atravessada. P'ra a rua!


Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida!
estava perdida! Uma multido d'idas, todas extremas e insensatas,
redemoinhava no seu cerebro como um monto de folhas seccas n'uma
ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de
no ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas
que Juliana lhe entregava, lendo: _Meu adorado Bazilio!_ Ento uma
cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia
supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!...
E Jorge depois? Diria que a Juliana chorra, se atirra de joelhos!
Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era
ardente--convencel-o-hia!

Juliana no estava no quarto. Subiu  cozinha; estava l, sentada,
com os olhos chammejantes, os braos nervosamente cruzados, n'uma
raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e
mostrando-lhe o punho, berrou:

--Olhe que a primeira vez que voss me torna a fallar como hoje, vai
aqui tudo raso n'esta casa!

--Cale-se, sua infame!--gritou Luiza.

--Voss manda-me calar, sua p...!--E Juliana disse a palavra.

Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez
cahir, com um gemido, sobre os joelhos.

--Mulher!--bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a
pelos braos.

Juliana, assombrada, fugiu.

-- Joanna!  mulher! que desgraa, que escandalo!--exclamava Luiza com
as mos apertadas na cabea.

--Racho-a!--dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como
brazas--racho-a!

Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como
a cal, repetindo, toda a tremer:

--O que voss foi fazer, mulher! o que voss foi fazer!

A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de
vermelho, remexia furiosamente as panellas.

--E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a!

Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia 
banda, as dedadas escarlates na face, medonha.

--Ou aquella desavergonhada vai j p'ra a rua--gritou ella--ou eu
vou-me pr l em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe
tudo!...

--Pois mostre, faa o que quizer!--disse Luiza, passando, sem a olhar.

Fra uma desesperao, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar
por uma vez!...

Sentia ento como um allivio doloroso, em vr o fim do seu longo
martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que
tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdra e as
humilhaes a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo
immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que
n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em
si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo
que foi pisado por uma multido, sobre a lama. No valia a pena
luctar por uma vida to vil. O convento seria j uma purificao, a
morte uma purificao maior...--E onde estava elle, o homem que a
desgrara? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando,
governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli,
estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse,
nem uma palavra de resposta; nem a julgra digna do meio tosto da
estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima,
n'aquelle _coup_:--Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria  sombra das
suas saias! O infame! J tinha talvez no bolso o bilhete da passagem!
Em quanto ella fra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra
um lindo collo--ento bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou,
soffreu--ah! no, isso no! s um bello animal que me ds um grande
prazer--perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura
dolorida que precisa consolaes, talvez uns poucos de centos de mil
reis--ento boas noites, c vou no paquete! Oh que estupida que  a
vida! Ainda bem que a deixava!

Foi-se encostar  janella. Estava um dia muito azul, muito dce. O
sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes
brancas, sobre a calada. E havia no ar uma suavidade avelludada.
O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se  porta do estanque.
Ento, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram
felizes n'aquella manh de rosas, s ella soffria, pobre d'ella! E
ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima
na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a
esquina,--e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que
trazia o seu sacco ao hombro.

Ia-se embora!--pensou Luiza.--Mandava pr fra os bahus! E depois?
Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal!
Santo Deus!--E parecia-lhe vr Jorge apparecer no quarto, livido, com
as cartas na mo!...

Veio-lhe um terror allucinado: no queria perder o seu marido, o seu
Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta
da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um
convento! No, c'os diabos!

Foi direita ao quarto de Juliana.

--Vem vr se lhe levo alguma cousa?--gritou logo a outra furiosa.

Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo cho botinas
embrulhadas em jornaes velhos.

--E ainda c me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres
pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as
minhas contas!...

--Escute, Juliana, no se v.--Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas
saltaram-lhe dos olhos.

Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de
duraque em cada mo.

-- mandar aquella desavergonhada embora, e est tudo acabado!--E com
uma voz aguda, batendo as solas das botinas:--Fica tudo como d'antes,
na paz do Senhor!

Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a
chorar! expulsava a _outra_! e no perdia os seus commodos!

-- pr a bebeda na rua!  pl-a na rua!

Luiza curvou os hombros, foi  cozinha devagar; os degraus da escada
pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e
limpando os olhos:

--Joanna, venha c, escute, voss no pde continuar na casa...

A rapariga ficou a olhar para ella, espantada.

--O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a
arrepender-se.  a criada mais antiga. O senhor estima-a muito...

--Ento a senhora manda-me embora? Ento a senhora manda-me embora?

Luiza insistiu, baixo, envergonhada:

--Foi um repente, tem estado a pedir perdo...

--Eu foi para defender a senhora!--exclamou a rapariga, abrindo os
braos, afflicta.

Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar:

--Bem, Joanna, no estejamos com mais. Eu  que sou a dona da casa...
Vou-lhe fazer as contas.

--Olha que pago este!--gritou Joanna, ento, desesperada. E com uma
resoluo, batendo o p:--Pois o senhor  que ha-de dizer! Eu vou dizer
tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora no
tem razo!...

Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga,
teimosa na sua justia, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um
terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as
fontes nas mos abertas:

--Que expiao! Que expiao, Santo Deus!

De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braos, e
fallando-lhe junto do rosto:

--Joanna, v-se pelo amor de Deus, v-se! No diga nada. Despea-se
voss!--E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de
joelhos, diante da cozinheira, soluando:--Pelas cinco chagas de
Christo, v, Joanna, minha rica Joanna, v. Peo-lhe eu, Joanna! Pelo
amor de Deus!

A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente.

--Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora!

--Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Voss bem v... No
chore... Espere...

Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas
economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mo,
dizendo-lhe baixo:

--Faa uma trouxa, eu manh lhe mandarei o bahu.

--Sim, minha senhora--soluava a rapariga, babada de dr--sim, minha
rica senhora!

Luiza veio deixar-se cahir de bruos sobre a sua _chaise-longue_, n'um
choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror,
piedade a Deus!

Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente  porta:

--Ento em que ficamos?

--A Joanna vai-se. Que quer mais?

--Que sia j!--disse a outra imperiosamente.--Que o jantar o fao eu.
Por hoje, j se v!

As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva.

--E a senhora agora oua!

O tom de Juliana era to insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida.

E Juliana, ameaando-a, d'alto, com o dedo erguido:

--E a senhora agora  andar-me direita, seno eu lh'as cantarei!...

E voltou as costas, batendo os taces.


Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto;
mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se
movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam
pretenciosamente.

Ento tirou o roupo violentamente, passou um vestido sem apertar o
corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapo
para a cabea despenteada, sahiu, desceu a rua tropeando nas saias,
quasi a correr.

O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar  porta de
Sebastio, e veio dizer  estanqueira:

--Em casa do Engenheiro ha novidade!

E ficou plantado  porta com os olhos cravados para as janellas
abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas
immoveis.

--O snr. Sebastio?--perguntava Luiza  rapariguita sardenta, que
correra a abrir a porta.

E ia entrando pelo corredor.

--Na sala--disse a pequena.

Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e
correndo para elle, apertando as mos contra o peito, n'uma voz
angustiosa e sumida:

--Sebastio, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou
perdida!

Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto
manchado, o chapo mal posto, a afflico do olhar:

--Que ? Que ?

--Escrevi a meu primo--repetiu, com os olhos cravados n'elle,
anciosamente--a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida!

Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe.

Sebastio amparou-a, levou-a meio desmaiada para o soph de damasco
amarello. E ficou de p, mais descrado que ella, com as mos nos
bolsos do seu jaqueto azul, immovel, estupido.

De repente correu fra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao
acaso. Ella abriu os olhos, as suas mos errantes apalparam em redor,
fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o brao do canap, com o
rosto escondido nas mos, rompeu n'um choro hysterico.

O seu chapo cahira. Sebastio apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as
flres, pl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos
ps debruar-se junto d'ella:

--Ento! ento!--murmurava. E as suas mos tocando-lhe de leve o brao,
tremiam como folhas.

Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mo, endireitou-se
devagar no soph, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluos.

--Desculpe, Sebastio, desculpe--dizia.--Bebeu ento um gole d'agua,
ficou com as mos no regao, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas
silenciosas cahiam sem cessar.

Sebastio foi fechar a porta--e vindo ao p d'ella, com muita doura:

--Mas ento? Que foi?

Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam
febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabea, toda
humilhada:

--Uma desgraa, Sebastio, uma vergonha!--murmurou.

--No se afflija! No se afflija!

Sentou-se ao p d'ella, e baixo, com solemnidade:

--Tudo o que eu puder, tudo o que fr necessario, aqui me tem!

--Oh Sebastio!...--exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde;
e acrescentou:--Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho
soffrido, Sebastio!

Esteve um momento com os olhos cravados no cho; e agarrando-lhe
o brao de repente, com fora, as palavras romperam abundantes e
precipitadas, como os borbulhes d'uma agua comprimida que rebenta.

--Apanhou-me a carta, no sei como, por um descuido meu! Ao principio
pediu-me seiscentos mil reis. Depois comeou a martyrisar-me... Tive
de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus
lenoes, dos finos. Era a dona da casa. O servio quem o faz sou
eu!... Ameaa-me todos os dias,  um monstro. Tudo tem sido baldado,
boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois no 
verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais
magra, at o Sebastio reparou. A minha vida  um inferno. Se Jorge
soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho
como uma negra. Logo pela manh a limpar e varrer. s vezes tenho de
lavar as chicaras do almoo. Tenha piedade de mim, Sebastio, por quem
, Sebastio! coitada de mim, no tenho ninguem n'este mundo.

E chorava, com as mos sobre o rosto.

Sebastio, calado, mordia o beio; duas lagrimas rolavam-lhe tambem
pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar:

--Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me no disse ha mais
tempo?

-- Sebastio, podia l! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas no
pude, no pude!

--Fez mal!...

--Esta manh o Jorge quiz pl-a fra. Embirra com ella, percebe os
desmazelos. Mas no desconfia de nada, Sebastio!...--E desviou os
olhos, muito escarlate.--Escarnecia-me s vezes por eu parecer to
apaixonada por ella... Mas esta manh zangou-se, mandou-a embora.
Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me...

--Santo Deus!--murmurava Sebastio assombrado, com a mo sobre a testa.

--Talvez no acredite, Sebastio, sou eu que fao os despejos!...

--Mas merece a morte, essa infame!--exclamou batendo com o p no cho.

Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mos nos bolsos,
os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao p d'ella, e
tocando-lhe timidamente no brao, muito baixo:

-- necessario tirar-lhe as cartas...

--Mas como?

Sebastio coava a barba, a testa.

--Ha-de-se arranjar--disse, por fim.

Ella agarrou-lhe a mo:

--Oh Sebastio, se fizesse isso!

--Ha-de-se arranjar.

Esteve um momento calculando--e com o seu tom grave:

--Eu vou-me entender com ella...  necessario que ella esteja s em
casa... Podiam ir ao theatro, esta noite.

Levantou-se lentamente, foi buscar o _Jornal do Commercio_, sobre a
mesa, olhou os annuncios:

--Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde...  o _Fausto_... Podiam
ir vr o _Fausto_...

--Podiamos ir vr o _Fausto_--repetiu Luiza, suspirando.

E ento, muito chegados, ao canto do soph, Sebastio foi-lhe dizendo
um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa.

Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro...
Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao _Hotel
Gibraltar_... E a Joanna? A Joanna deixra a casa. Bem. s nove horas,
ento, Juliana estaria s.

--V como tudo se arranja?--disse elle, sorrindo.

Era verdade... Mas daria a mulher as cartas?

Sebastio tornou a coar a barba, a testa:

--Ha-de dar--disse.

Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vr na sua face honesta,
uma alta belleza moral. E de p diante d'elle, com uma melancolia na
voz:

--E vai fazer isso por mim, Sebastio, por mim, que fui to m mulher...

Sebastio crou, respondeu encolhendo os hombros:

--No ha ms mulheres, minha rica senhora, ha maus homens,  o que ha!

E acrescentou logo:

--Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao
p do palco...

Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapo, descia o vo com
pequeninos soluos tristes, que voltavam a espaos.

No corredor encontraram a tia Joanna com os braos abertos; beijou
muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava!
era a flr do bairro!

--Est bom, tia Joanna, est bom--disse Sebastio, afastando-a
brandamente.

Ora que no fosse mettedio! J l a tinha tido mais de meia hora,
tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim  que elle devia ter uma
mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma aucena!

Luiza corava, embaraada.

E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade?

--Est bom, basta, tia Joanna!--fez Sebastio impaciente.

--Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!...

Luiza sorriu; lembrou-se ento de repente que no tinha por quem mandar
os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel.

Sebastio fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse,
elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna--mais
prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete
para Jorge; e, como apesar das suas afflices, se lembrou com terror
de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um _P.
S._, no bilhete para ella: o melhor  vires de preto, e no fazeres
grande _toilette_. Nada de decotes nem de cres claras.


Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de
Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das
escadas da cozinha dizia para cima, ameaadoramente:

--Torne eu a apanhal-a, que no me sahe viva das mos, sua bebeda!

--Bufa! bufa!--gritou de cima Juliana--mas vai-te indo para o olho da
rua!

Luiza escutava mordendo os beios. Em que se convertera a sua casa! Uma
praa! Uma taberna!

--Se eu t'apanho!--rosnava a Joanna descendo.

--Rua! rua, sua porca!--gania a Juliana.

Luiza ento chamou a rapariga:

--Joanna, no procure casa, venha por aqui alm d'amanh--disse-lhe
baixo.

Juliana em cima cantava a _Carta adorada_, com um jubilo estridente.

E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, que estava o
jantar na mesa.

Luiza no respondeu. Esperou que ella subisse  cozinha, correu  sala
de jantar, trouxe po, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se
no quarto;--e alli _jantou_, a um canto da jardineira.

s seis horas um trem parou  porta. Devia ser Sebastio! Foi ella
mesma abrir, em bicos de ps. Era elle, animado, vermelho, com o chapo
na mo: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito...

--E isto...

Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.

--Oh Sebastio!--murmurou ella, com um reconhecimento commovido.

--E carruagem, tem?

--No

--Eu c mando. s oito, hein?

E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se
humedecia. Foi  janella do quarto vl-o sahir.--Que homem! pensava. E
cheirava as violetas, voltava o ramo na mo, sentia tambem um prazer
dce na proteco d'elle, nos seus cuidados.

Ns de dedos bateram  porta do quarto:

--Ento a senhora no quer jantar?--disse a voz impaciente de Juliana,
de fra.

--No.

--Mais fica!


D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla,
vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereo d'esmeraldas.

--Ento que  isto? Que estroinice  esta, vamos a saber?--disse logo,
muito alegre, a excellente senhora.

Um capricho!--O Jorge tinha jantado fra, ella sentira-se to s!...
Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. No pudera resistir... Tinham de o
ir buscar pelo _Hotel Gibraltar_.

--Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!...
E estive p'ra no vir--disse, sentando-se, com pancadinhas muito
satisfeitas nas pregas do vestido.--Apertar-me depois de jantar!
Felizmente, no tinha comido quasi nada!

Quiz ento saber o que ia. O _Fausto_? Ainda bem! De que lado era a
frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois
estava mais longe d'aquella noitada de theatro!...--E erguendo-se
passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bands,
ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia.

Uma carruagem parou  porta.

--O trem!--disse, toda risonha.

Luiza calando as luvas, j com a capa, olhava em redor: o corao
batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. No lhe faltava nada?
perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o leno?

--Ai! o meu ramo!--exclamou Luiza.

Juliana ficou espantada quando a viu vestida _p'ra theatro_. Foi
alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente:

--No tem mesmo vergonha n'aquella cara!--rosnou.

O trem j rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos
vidros:

--Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! No posso ir sem leque!
Pare, cocheiro!

--Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!--fez Luiza impaciente.

Aquellas agitaes abalavam a digesto comprimida de D. Felicidade;
felizmente, como ella dizia, arrotava! Graas a Deus, louvada seja
Nossa Senhora, que podia arrotar!

Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se
gesticulava, destacavam s portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza;
os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir
de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos
criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa  portinhola, gozava a
claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfao
que viu o guarda-porto do _Gibraltar_, de cales vermelhos, vir com o
bon na mo,  portinhola.

Perguntaram por Jorge.

E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos
derramavam uma luz dce. D. Felicidade, muito curiosa da vida
d'hotel, reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa;
depois n'uma senhora que lhe pareceu estabanada, e que descia,
vestida de _soire_, mostrando o p calado n'um sapato redondo de
setim branco: e sorria de vr sujeitos roarem-se pelo trem, lanando
para dentro olhares gulosos.

--Esto a arder por saber quem somos.

Luiza calada apertava nas mos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no
alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito
magrissimo, de chapo ao lado, as mos nos bolsos d'umas calas muito
estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam,
gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mo de Jorge,
fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro,
obrigou-o muito sriamente a aceitar outro charuto,--e pondo o chapo
mais ao lado foi conversar com o guarda-porto.

Jorge correu  portinhola do trem, rindo:

--Ento que extravagancia  esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o
divorcio!

Parecia muito jovial. Smente tinha pena de no estar vestido...
Ficaria atraz no camarote.--E para as no amarrotar subiu para a
almofada.




XV


Passava das oito horas quando o trem parou em S. Carlos. Um gaiato,
que tossia muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete,
precipitou-se a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de
contentamento, sentindo a cauda do vestido de sda arrastar sobre o
tapete esfiado do corredor das frisas.

O pano j estava levantado. Era  luz diminuida da rampa, a decorao
classica d'uma cella d'alchimista; embrulhado n'um roupo monastico,
com uma abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto
cantava, desilludido das sciencias, pousando sobre o corao a mo
onde reluzia um brilhante. Um cheiro vago de gaz extravasado errava
subtilmente. Aqui e alm tosses expectoravam. Havia ainda pouca gente.
Entrava-se.

Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza cochichavam, com
gestosinhos de recusa, olhares supplicantes:

--Oh D. Felicidade, por quem !

--Se estou aqui muito bem...

--No consinto...

Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior alteando o peito. Luiza
ficra atraz calando as luvas; em quanto Jorge arrumava os agasalhos,
furioso com o chapo que j duas vezes rolra.

--Tem banquinho, D. Felicidade?

--Obrigada, c o sinto.--E remexeu os ps.--Que pena no se vr a
familia real!

Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os altos penteados
medonhos, enchumaados de postios; peitilhos de camisas branquejavam.
Sujeitos entravam para as cadeiras devagar, com um ar gasto e intimo,
compondo o cabello. Conversava-se baixo. Ao fundo da plata havia um
rumor desinquieto entre moos de jaqueto; e  entrada, sob a tribuna,
viam-se, n'um apparato militar, correames polidos de municipaes, bons
carregados de policias; e reluzindo  luz, punhos de sabres.

Mas na orchestra correram fortes estremecimentos metallicos, dando um
pavor sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um ruido
de folhas de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles
ergueu-se ao fundo, escarlate, lanando a perna com um ar charlato,
as duas sobrancelhas arrebitadas, uma barbilha insolente, _un bel
cavalier_; e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor, as duas
plumas vermelhas do gorro oscillavam sem cessar d'um modo fanfarro.

Luiza chegra-se para a frente; ao ruido da cadeira, cabeas na plata
voltaram-se, languidamente; pareceu de certo bonita, examinaram-na;
ella, embaraada, pz-se a olhar para o palco muito sria:--por traz
de vos sobrepostos que se levantavam, n'uma affectao de viso,
Margarida appareceu fiando o linho, toda vestida de branco; a luz
electrica, envolvendo-a n'um tom cr, fazia-a parecer de gesso muito
caiado; e D. Felicidade achou-a to linda que a comparou a uma santa!

A viso desappareceu n'um tremulo de rebecas. E depois d'uma aria,
Fausto, que ficra immovel ao fundo do palco, debateu-se um momento
dentro da tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido de
cr de lilaz, coberto de ps d'arroz, compondo o frisado do cabello. As
luzes da rampa subiram: uma instrumentao alegre e expansiva resoou:
Mephistopheles, apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego atravs da
decorao. E o pano desceu rapidamente.

As platas ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um
pouco affrontada abanava-se. Examinaram ento as familias, algumas
_toilettes_; e sorrindo concordaram que estava do mais fino.

Nos camarotes conversava-se sobriamente; s vezes uma joia brilhava,
ou a luz punha tons lustrosos d'aza de corvo nos cabellos pretos onde
alvejavam camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os vidros
redondos dos binoculos moviam-se devagar, picados de pontos luminosos.

Na plata, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi deitados namoravam
com languidez; ou de p, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos
_dilettanti_, de leno de sda, tomavam rap, caturravam; e D.
Felicidade interessava-se por duas hespanholas de verde, que na
superior immobilisavam, n'uma affectao casta, os seus corpos de
lupanar.

Um collega de Jorge magrinho e janota entrou ento no camarote: parecia
animado, e perguntou logo se no sabiam o grande escandalo? No. E o
engenheiro, com gestos vivos das suas mosinhas caladas n'umas luvas
esverdeadas, contou que a mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha
fugido!...

--P'ra o estrangeiro?

--Qual!--E a voz do engenheiro tinha agudos triumphantes.--Ahi  que
estava o bonito. P'ra casa d'um hespanhol que morava defronte!... Era
divino! De resto--e a sua voz tornou-se grave--estava enthusiasmado com
o baixo!

E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou calado, extenuado
do que dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com
um _Sim, senhor!_ familiar, ou um _Ento que  feito?_ amigavel.

Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro sahiu, em bicos de
ps. E o pano ergueu-se devagar na alegria da kermesse, cheia de uma
luz branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no pano de fundo,
n'alguma collina do Rheno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma
pipa, o barrigudo e folgazo rei Cambrinus ria enormemente, erguendo,
na sua attitude de taboleta gothica, a vasta caneca emblematica da
cerveja germanica. E estudantes, judeus, reitres e donzellas, nas suas
cres vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico e somnambulo,
aos compassos largos da instrumentao festiva.

A walsa ento desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia,
em espiraes suaves que ondeavam e fugiam: Luiza seguia os psinhos
das danarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias
tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de
vagos discos de cambraia.

--Que bonito!--murmurava ella, com uma felicidade no rosto.

--D'appetite--affirmava D. Felicidade, revirando os olhos.

Certas agudezas delicadas dos flautins enterneciam Luiza; e a casa,
Juliana, as suas miserias, tudo lhe parecia recuado, no fundo d'uma
noite esquecida.

Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos
aduncos e rapaces, cantou o _Dio del oro_. A sua voz arremessada
affirmava, n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas da
instrumentao passavam sonoridades claras e tilintantes d'um remexer
sofrego de thesouros; e as notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e
secco, como martelladas triumphantes cunhando o divino ouro!

Luiza ento viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar
negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do
conselheiro Accacio,--que comprimentava, promettendo generosamente, com
a mo espalmada, a sua visita proxima.

Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente por terem
escolhido aquella noite: a opera era das melhores e estava gente muito
fina. Lamentou ter perdido o primeiro acto;--ainda que no gostasse
extremamente da musica, apreciava-o por ser muito philosophico. E,
tomando da mo de Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os
titulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os
litteratos.--Ah! conhecia bem S. Carlos! Havia dezoito annos!

D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que no podessem
vr o camarote real: a rainha, como sempre, estava adoravel.

Sim? Como estava?

--De velludo. No sabia se rxo, se azul escuro. Affirmar-se-hia, e
viria dizer...

Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz de Luiza comeando
logo a explicar--que aquella (Siebel, colhendo flres no jardim de
Margarida) posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis por
mez...

--Mas apesar d'estes ordenades morrem quasi sempre na miseria--disse
com reprovao.--Vicios, cas, orgias, cavalgadas...

A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar,
desfolhando o malmequer da legenda, caracterisada de virgem, com
as duas longas tranas louras. Scismava, fallava s, amava: a dce
creatura sente em volta de si o ar pesado, e quereria bem que sua mi
voltasse!

Os olhos de Luiza encheram-se ento de melancolia, com a saudosa
ballada do rei de Thule; aquella melodia dava-lhe a vaga sensao d'um
pallido paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios, longe,
no Norte, junto a um mar gemente--ou de tristezas aristocraticas,
scismadas n'um terrao, sob a sombra d'um parque...

Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo:

--Agora  que ! Reparem. Agora  o ponto capital.

De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se,
garganteando; apertava nas mos o collar, extasiada; punha os brincos
com denguices delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um canto
trinado, d'uma crystallinidade aguda--entre o vago susurro da admirao
burgueza.

O Conselheiro disse discretamente:

--Bravo! Bravo!

E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da opera! Era alli que se
via a fora das cantoras...

D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse alguma cousa na
garganta. Preoccupava-se tambem com as joias. Seriam falsas? Seriam
d'ella?

-- p'ra a tentar, no  verdade?

-- um drama allemo--disse-lhe baixo o Conselheiro.

Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha; Fausto e Margarida
perdiam-se nas sombras cumplices do jardim aphrodisiaco,--e o
Conselheiro observou que todo aquelle acto era um pouco fresco.

D. Felicidade murmurou-lhe--entre reprehensiva e extatica:

--Quantas scenas no ter tido assim, magano!

O Conselheiro fitou-a, indignado:

--O qu, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia!

Luiza fez-lhe _chut_, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido;
uma facha de luz electrica enchia o jardim d'um vago luar azulado, onde
os macios arredondados se recortavam em pastas escuras; e Fausto e
Margarida enlaados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante
o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances
d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; o tenor
esforava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o
olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos,
o canto subia para as estrellas...

    Al pallido chiarore
    Dei astri d'oro.

Mas o corao de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente
sentada no divan, na sua sala, ainda tomada dos soluos do adulterio,
e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano
aquella aria--_Al pallido chiarore dei astri d'oro_. D'essa noite tinha
vindo toda a sua miseria!--e subitamente, como longos vos funebres
que descem e abafam, as recordaes de Juliana, da casa, de Sebastio,
vieram escurecer-lhe a alma.

Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria?

--Ests incommodada?--perguntou-lhe Jorge.

--Um pouco.

Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua
janellinha. Fausto corre. Enlaam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e
o roncar dos rebeces--o pano desceu, pondo uma reticencia pudica...

D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos?
neve? A excellente senhora hesitou; o _chic_ da neve attrahia-a, mas
cohibiu-se com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao p de
Luiza, e ficou a olhar, vagamente canada; havia um susurro lento;
bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando, de fra,
fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se
ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o
Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina...

-- a minha ca em dia de S. Carlos--disse.

Voltou d'ahi a pouco, limpando os beios ao leno de sda, ter com
Jorge que fumava no pequeno patamar junto  entrada das cadeiras:

--Veja isto, Conselheiro--disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a
parede--que escandalo!

Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes
figuras obscenas: e alguem, prudente e amigo da clareza, ajuntra por
baixo as designaes sexuaes com uma boa letra cursiva.

E Jorge, revoltado:

--E passam por aqui senhoras! Vem, lem! Isto s em Portugal!...

O Conselheiro disse:

--A autoridade devia intervir de certo...--Acrescentou com
bonhomia:--So rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta
distraco...--E sorrindo, recordando-se:--Uma occasio mesmo, o conde
de Villa Rica, que tem graa, muita graa, insistiu commigo, dando-me o
charuto, para que eu fizesse um desenho...--E mais baixo:--Eu dei-lhe
uma lio severa. Tomei o charuto...

--E fumou-o?

--Escrevi.

--Uma obscenidade?

O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade:

--Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppe...?--E acalmando-se:--No,
tomei o charuto e escrevi com mo firme: HONRA AO MERITO!

Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Luiza incommodada
no quiz sentar-se  frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu
lugar--defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento
feliz, de um gozo requintado. Estavam _ambos_, alli, como noivos! O
seu peito abundante arfava: via-se a sahirem, mais tarde, de brao
dado, entrarem n'um _coup_ estreito, pararem  porta da casa conjugal,
pisarem o tapete da alcova... Tinha um suor  raiz dos cabellos--e
vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao
gaz, sentia um reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que,
quella hora, no fundo da Galliza, estava cravando agulhas n'um corao
de cera!...

Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o
chapo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade
empallideceu: seria alguma dr? Santo Deus! J murmurava baixo uma reza.

Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triumphante:

--D'azul escuro!

Abriram grandes olhos, sem comprehender.

--Sua magestade a rainha! Tinha promettido verifical-o, cumpri-o!

E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza:

--Lamento que se esconda n'esse recanto, D. Luiza! Na sua idade! Na
flr dos annos! Quando tudo na vida  cr de rosa!

Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A cada momento olhava
o relogio. Sentia-se doente: os ps arrefeciam-lhe, uma vaga febre
fazia-lhe a cabea pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana,
em Sebastio, cortado de palpites, de esperanas, de terrores... E via,
sem comprehender, a multido de soldados vestidos de cres mipartidas,
com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada,
erguendo uma poeira subtil no tablado mal regado. Um cro vigoroso
resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres allemes,
celebrando a alegria das excurses victoriosas pelos paizes do vinho,
e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os
seus olhos seguiam um barbaas corpulento, que, por cima dos gorros
quadrados dos bsteiros, balanava monotonamente um largo quadrado de
paninho--a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro!

Mas ento ergueu-se um rumor no fundo da plata. Vozes duras
altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se
rapidamente em bicos de ps na palhinha das cadeiras. Quatro policias
e dous municipaes appareceram  porta do fundo; e depois d'uma troa,
de risadas, foram levando um moo livido, que cambaleava,--e o lado
esquerdo do seu jaqueto de pellucia estava todo vomitado!

Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco,
acotovellado pela sahida festiva dos reitres e dos populares; e no
palco deserto, tendo  direita um portico oscillante de cathedral e 
esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, com uma longa
pera,  beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha:--mas Luiza
no o escutava. Pensava com o corao confrangido: que far a esta hora
Sebastio?


Sebastio, s nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do
gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario
de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente,
engelhada como uma ma raineta, levou-o ao quarto escolastico, onde
o snr. commissario estava a cozer uma grande constipao: encontrou-o
com um gabo pelos hombros, os ps embrulhados n'um cobertor, tomando
_grogs_ quentes, e lendo o _Homem dos tres cales_. Apenas Sebastio
entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle
os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou:

--Estou com um diabo d'uma constipao ha tres dias, que me no quer
largar...--E rosnou algumas pragas, passando a mo magra e nodosa sobre
uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho
dava ferocidade.

Sebastio lamentou-o muito: no admirava com a estao que ia!...
Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido.

--Eu, se isto no despega--disse o commissario
rancorosamente--atiro-lhe manh p'ra dentro com meia garrafa de
genebra; e se no fr por bem, ha-de ir  fora... E que ha de novo?

Sebastio tossiu, queixou-se d'andar tambem adoentado, e chegando a
cadeira para ao p do primo Vicente, pondo-lhe a mo sobre o joelho:

-- Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra me acompanhar c p'ra
uma cousa, s p'ra metter medo, s p'ra fazer que uma pessoa restitua o
que tirou, tu davas ordem, hein?

--Ordem p'ra qu?--perguntou lentamente o Vicente com a cabea baixa,
os olhinhos avermelhados em Sebastio.

--Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar.  s p'ra se mostrar.  um
caso exquisito... P'ra metter medo... Tu sabes que eu no sou capaz...
 p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo...

--Roupas? Dinheiro?

E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos
dedos magros, muito queimados do cigarro.

Sebastio hesitou:

--Sim. Roupas, cousas...  p'ra no haver escandalo... Tu percebes...

O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o:

--Um policia p'ra se mostrar...

Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa:

--No  cousa de politica?

--No!--fez Sebastio.

O commissario embrulhou mais os ps no cobertor, rolou em redor os
olhos, ferozmente:

--Nem toca com gente grauda?

--Qual!

--Um policia p'ra se mostrar...--ruminava o Vicente.--Tu s um homem de
bem... D c aquella pasta de cima da commoda.

Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando a luneta no nariz,
meditou com a mo em garra sobre a testa:

--O Mendes... Serve-te o Mendes?

Sebastio, que no conhecia o Mendes, acudiu logo:

--Sim, quem quizeres.  s p'ra se mostrar...

--O Mendes.  um homemzarro.  serio, foi da Guarda.

Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas
vezes; cortou os _tt_, seccou-a  chamin do candieiro; e dobrando-a
com solemnidade:

-- segunda diviso!

--Obrigado, Vicente.  um grande favor... Obrigado. E agasalha-te,
homem! E no te esquea: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de
S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. No queres nada,
hein?

--No. D uma placa ao Mendes.  serio, foi da Guarda!

E acavallando as lunetas retomou o _Homem dos tres cales_.

Sebastio d'ahi a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava
militarmente, com os braos um pouco arqueados, encaminhava-se
para casa de Jorge. No tinha ainda um plano definido. Calculava
naturalmente que Juliana vendo, quella hora da noite, o policia com o
seu terado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a
costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois?
Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brazil, ou dar-lhe
quinhentos mil reis para ella se estabelecer longe, na provincia...
Veria. O essencial era aterral-a!


Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas viu subir, atraz
de Sebastio, o policia, fez-se muito amarella, exclamou:

--Credo! Que temos ns?

Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella
erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia.

-- snr.^a Juliana, faa favor d'accender luz na sala--disse Sebastio,
tranquillamente.

Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto.

-- senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores no esto em casa. Eu se
soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito!

--No  nada--disse Sebastio, abrindo a porta da sala--tudo em paz!

Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina--que fez
sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a
pallida face do retrato da mi de Jorge, um reflexo de espelho.

-- snr. Mendes, sente-se, sente-se!

O Mendes collocou-se  beira da cadeira com a mo na cinta, o terado
entre os joelhos, muito soturno.

--Esta  que  a pessoa--disse Sebastio, indicando Juliana, que ficra
 porta da sala, attonita.

A mulher recuou, livida:

-- snr. Sebastio, que brincadeira  esta?

--No  nada, no  nada...

Tomou-lhe o candieiro da mo, e tocando-lhe no brao:

--Vamos l dentro  sala de jantar.

--Mas que ?  alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que
desconchavo!

Sebastio fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre
a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de
vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente os
dedos, e parando bruscamente diante de Juliana:

--D c umas cartas que roubou  senhora...

Juliana teve um movimento para correr  janella, gritar.

Sebastio agarrou-lhe o brao, e fazendo-a sentar com fora sobre uma
cadeira:

--Escusa d'ir  janella gritar, a policia j est dentro de casa. D c
as cartas, ou p'ra a enxovia!

Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo
do rancho, a enxerga nas lages frias...

--Mas que fiz eu?--balbuciava--que fiz eu?

--Roubou as cartas. D-as p'ra c, avie-se.

Juliana sentada  beira da cadeira, apertando desesperadamente as mos,
rosnava por entre os dentes cerrados:

--A bebeda! A bebeda!

Sebastio, impaciente, pz a mo no fecho da porta.

--Espere, seu diabo!--gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o
rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mo no peito, tirou
uma carteirinha. Mas de repente batendo com o p, n'um phrenesi:

--No! no! no!

--Diabos me levem se voss no fr dormir  enxovia!--Entre-abriu a
porta.-- snr. Mendes!

--Ahi tem!--gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle
os punhos:--Raios te partam, malvado!

Sebastio apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era
de Luiza; leu a primeira linha: _Meu adorado Bazilio_; e muito pallido
guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu ento a porta:
a possante figura do Mendes estava na sombra.

--Est tudo arranjado, snr. Mendes,--a voz tremia-lhe um pouco--no lhe
quero tomar mais tempo.

O homem fez uma continencia, calado: quando Sebastio, no patamar, lhe
resvalou na mo uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse,
com uma voz pegajosa:

--E para o que quizer, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da
Guarda. No se incommode v. s.^a s ordens de v. s.^a Minha mulher
e filhos agradecem. No se incommode v. s.^a O sessenta e quatro, o
Mendes, que foi da Guarda!

Sebastio fechou a cancella, voltou  sala de jantar. Juliana ficra
n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente:

--A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi voss que arranjou a armadilha!
Tambem voss dormiu com ella!...

Sebastio, muito branco, dominava-se.

--V pr o chapo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. manh mandar
buscar os bahus...

--Mas o homem ha-de saber tudo!--berrou ella.--Este tecto me rache
se eu no lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que
recebia, onde ia vr o homem. Deitava-se com ella na sala, at os
pentes lhe cahiam na balburdia. At a cozinheira lhes sentia o alarido!

--Cale-se!--bradou Sebastio com uma punhada na mesa, que fez tremer
toda a loua no aparador, e esvoaar os canarios. E com a voz toda
tremula, os beios brancos:--A policia tem o seu nome, sua ladra! 
menor palavra que voss diga vai para o Limoeiro, e pela barra fra.
Voss no roubou s as cartas; roubou roupas, camisas, lenoes,
vestidos...--Juliana ia fallar, gritar.--Bem sei--continuou elle
violentamente--deu-lh'os ella, mas  fora, porque voss a ameaava.
Voss arrancou-lhe tudo.  roubo.  d'Africa!--E o que  dizer ao snr.
Jorge, pde ir dizer. V. Veja se elle a acredita. Diga! So algumas
bengaladas que leva por esses hombros, ladra!

Ella rangia os dentes. Estava apanhada! _Elles_ tinham tudo por si, a
policia, a Boa-Hora, a cada, a Africa!... E ella--nada!

Todo o seu odio contra a _Piorrinha_ fez exploso. Chamou-lhe os nomes
mais obscenos. Inventou infamias.

-- que nem as do Bairro-Alto! E eu--gritava--sou uma mulher de bem,
nunca um homem se pde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve raio
nenhum que me visse a cr da pelle. E a bebeda!...--Tinha arremessado o
chale, alargou anciosamente o collar do vestido.--Era um desaforo por
essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia!  o pago que me do!
Os diabos me levem se eu no fr para os jornaes. Vi-a eu abraada ao
janota, como uma cabra!

Sebastio a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por
aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus
olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante:

--V, ponha o chapo, e p'ra a rua!

Juliana ento allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas,
veio para elle, e cuspiu-lhe na cara!

Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para
traz, levou com ancia as mos ambas ao corao, e cahiu para o lado,
com um som molle, como um fardo de roupa.

Sebastio abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma rxa
apparecia-lhe aos cantos da bocca.

Agarrou no chapo, desceu as escadas, correu at  Patriarchal. Um
_coup_ vazio passava; atirou-se para dentro, mandou a todo o que
dr, para casa de Julio; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em
chinellas, sem collarinho.

-- caso de morte,  a Juliana--balbuciava muito pallido.

E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar dos caixilhos,
contava confusamente que entrra em casa de Luiza, que achra Juliana
muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar,
de repente, tombra p'ra o lado!

--Foi o corao. Estava p'ra dias--disse Julio, chupando a ponta do
cigarro.

Pararam. Mas Sebastio desorientado, ao sahir, fechra a porta! E
dentro s a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu.

--Ento nem se vai a uma passeadinha ao Dfundo, meus fidalgos?--disse
o homem, mettendo a gorgeta na algibeira.

Mas vendo-os atirar com a porta:

--Tambem no  gente d'isso--rosnou com desprezo, batendo a parelha.

Entraram.

No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a Sebastio pavoroso.
Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com
fortes pancadas do corao, esperava ainda que ella estivesse apenas
adormecida n'um desmaio simples, ou j de p, pallida e respirando!

No. L estava como a deixra, estendida na esteira, com os braos
abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulso das pernas
arregara-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias
de riscadinho cr de rosa e as chinellas de tapete; o candieiro de
petroleo, que Sebastio esquecera ao p sobre uma cadeira, punha tons
lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra;
e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina,
tinham uma vaga nevoa, como cobertos d'uma ta d'aranha diaphana. Em
redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos
de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do _cuco_ palpitava sem
descontinuar.

--Julio apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mos, disse:

--Est morta com todas as regras.  necessario tiral-a d'aqui. Onde  o
quarto?

Sebastio, pallido, fez signal com o dedo que era por cima.

--Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.--E como Sebastio no se
movia:--Tens medo?--perguntou rindo.

Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era como quem agarrava uma
boneca! Sebastio, com um suor  raiz dos cabellos, levantou o cadaver
por debaixo dos braos, comeou a arrastal-o, devagar. Julio adiante
erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da
marcha do _Fausto_. Mas Sebastio escandalisou-se, e com uma voz que
tremia:

--Largo tudo, e vou-me...

--Respeitarei os nervos da menina!--disse Julio curvando-se.

Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia a Sebastio d'um
peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver
soltou-se, rolou. E Sebastio sentia aterrado alguma cousa que lhe
batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho.

Estenderam-na na cama; Julio, dizendo que se deviam seguir as
tradies,--pz-lhe os braos em cruz e fechou-lhe os olhos.

Esteve um momento a olhal-a:

--Feia besta!--murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha
enxovalhada.

Ao sahir examinou, admirado, o quarto:

--Estava mais bem alojada que eu, o estafermo!

Fechou a porta, deu volta  chave:

--_Requiescat in pace_--disse.

E desceram, calados.

Ao entrar na sala, Sebastio, muito pallido, pz a mo no hombro de
Julio:

--Ento achas que foi o aneurisma?

--Foi. Enfureceu-se, estourou.  dos livros...

--Se no se tivesse zangado hoje...

--Estourava manh. Estava nas ultimas... Deixa em paz a creatura. Est
comeando a esta hora a apodrecer, no a perturbemos.

Declarou ento, esfregando as mos com frio, que comia alguma cousa.
Achou no armario um pedao de vitella fria, uma garrafa meia de
Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto:

--Ento sabes a novidade, Sebastio?

--No.

--O meu concorrente foi despachado!

Sebastio murmurou:

--Que ferro!

--Era previsto--disse Julio com um grande gesto.--Eu ia fazer um
escandalo, mas...--e teve um risinho--amansaram-me! Estou n'um posto
medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso!

--Sim?--fez Sebastio.--Homem, ainda bem, parabens. E agora?

--Agora, roel-o!

De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. O posto medico no
era mau... Em definitiva, a situao melhorra...

--Mas mesquinha, mesquinha! No sio do atoleiro...

Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. Era um bco
sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha
nascido p'ra isso!

Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mo, a voz
cortante, expoz um plano de ambio:--O paiz est a preceito para um
intrigante com vontade! Esta gente toda est velha, cheia de doenas,
de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! tudo isto est pdre
por dentro e por fra! o velho mundo constitucional vai a cahir aos
pedaos... Necessitam-se homens!

E plantando-se diante de Sebastio:

--Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado at aqui com
_expedientes_. Quando vier a revoluo contra os _expedientes_, o paiz
ha-de procurar quem tenha os _principios_. Mas quem tem ahi principios?
Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, vicios secretos,
dentes postios; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver
tres patuscos que se dem ao trabalho de estabelecer meia duzia de
principios srios, racionaes, modernos, positivos, o paiz tem se atirar
de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne de
me pr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um d'estes. Nasci p'ra
isso! E secca-me a ida de que em quanto outros idiotas, mais astutos
e mais previdentes, ho-de estar no poleiro a reluzir ao sol, _al
hermoso sol portugus_, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a
receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum
desembargador caduco.

Sebastio calado pensava na outra, morta em cima.

--Estupido paiz, estupida vida!--rosnou Julio.

Mas uma carruagem entrou na rua, parou  porta.

--Chegam os principes!--disse Julio. Desceram logo.

Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastio, abrindo a porta,
bruscamente:

--Houve c grande novidade!

--Fogo?--gritou Jorge voltando-se aterrado.

--A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma--disse a voz de Julio da
sombra da porta.

--Oh c'os diabos!--E Jorge atarantado procurava  pressa na algibeira
troco para o cocheiro.

--Ai, eu j no entro!--exclamou logo D. Felicidade, mostrando 
portinhola a sua larga face envolvida n'uma manta branca.--Eu j no
entro!

--Nem eu!--fez Luiza, toda tremula.

--Mas para onde queres que vamos, filha?--exclamou Jorge.

Sebastio lembrou que podiam ir para casa d'elle. Tinha o quarto da
mam, era s pr lenoes na cama.

--Vamos, sim! Vamos, Jorge!  o melhor!--supplicou Luiza.

Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao vr
aquelle grupo junto  lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado,
muito contrariado, consentiu.

--Diabo da mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar,
D. Felicidade...

--E a mim, que estou em chinellas!--acudiu Julio.

D. Felicidade lembrou ento, como christ, que era necessario alguem,
para velar a morta...

--Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!--exclamou Julio, entrando
logo para a carruagem, batendo com a portinhola.

Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religio! ao menos pr
duas velas, mandar chamar um padre!...

--Largue, cocheiro!--berrou Julio, impaciente.

A carruagem deu a volta. E D. Felicidade  portinhola, apesar de Julio
que a puxava pelos vestidos, gritava:

-- um peccado mortal!  uma irreverencia! Ao menos duas velas!

O trem partiu a trote.

Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem...

Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, quella hora? Que beatice! Estava
morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez
camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?...

--Ento, Jorge, ento!...--murmurava Sebastio.

--No,  de mais!  vontade de crear embaraos, que diabo!

Luiza baixava a cabea: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a
fechar a porta da casa, ella foi descendo a rua pelo brao de Sebastio.

--Estourou de raiva--disse-lhe elle baixinho.

Toda a rua Jorge resmungou. Que ida, irem dormir agora fra de casa!
Realmente era levar muito longe as mariquices...!

At que Luiza lhe disse, quasi chorando:

--V se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge!

Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastio, para a socegar,
propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana.

--Era talvez melhor--murmurou Luiza.

Chegaram  porta de Sebastio. O _frou-frou_ do vestido de sda de
Luiza, quella hora, na sua casa, dava uma commoo a Sebastio: a mo
tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia
para fazer ch; tirou elle mesmo os lenoes dos bahs, apressado, feliz
d'aquella hospitalidade. Quando voltou  sala, Luiza estava s, muito
pallida, ao canto do soph.

--Jorge?--perguntou elle.

--Foi ao seu escriptorio, Sebastio, escrever ao parocho para
o enterro...--E com os olhos brilhantes, n'uma voz sumida e
assustada:--Ento?

Sebastio tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a
sofregamente--e com um movimento brusco, tomou-lhe a mo, e beijou-lh'a.

Mas Jorge entrava, sorrindo.

--Ento agora est mais descanada, a menina?

--Inteiramente--disse ella, com um suspiro de allivio.

Foram tomar ch. Sebastio contou a Jorge, corando um pouco, a
maneira como entrra em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fra
despedida, e fallando, exaltando-se, zs, de repente, cahira para o
lado morta...

E acrescentou:

--Coitada!

Luiza via-o mentir, olhando-o com adorao.

--E a Joanna?--perguntou Jorge, de repente.

Luiza, sem se perturbar, respondeu:

--Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licena p'ra ir vr uma tia
que est muito mal, p'ra os lados de Bellas... Diz que volta manh...
Mais uma gota de ch, Sebastio...

Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia--e ninguem velou a morta.




XVI


Luiza passou a noite s voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou
assustado da frequencia do seu pulso e do calor secco da pelle.

Elle mesmo, muito nervoso, no pudera dormir.

O quarto, onde se no accendera luz havia muito, tinha uma frialdade
deshabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e
a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho trem do
seculo passado com o seu espelho embaciado davam,  luz bruxuleante
da lamparina, um sentimento triste de convivencias extinctas. O
achar-se alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber
porque, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma
alterao brusca--e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a
sua existencia, desde essa noite, comearia a correr entre aspectos
differentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraa, e uivava
encanado na rua.

Pela manh, Luiza no se pde levantar.

Julio, chamado  pressa, tranquillisou-os:

-- uma febresita nervosa. Quer socego, no vale nada. Foi o medosinho
d'hontem, hein?

--Sonhei toda a noite com ella--disse Luiza.--Que tinha resuscitado...
Que horror!

--Ah! pde estar socegada... E j a aviaram, a mulher?

--O Sebastio l anda com a massada--disse Jorge.--E eu vou dar uma
vista d'olhos.

Na rua j se sabia a morte da _tripa-velha_.

A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas,
com os olhos avermelhados da paixo da aguardente, era conhecida
da snr.^a Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol,  porta do
estanque:

--Muito que fazer agora, snr.^a Margarida, hein?

--Bastante, bastante, snr.^a Helena--disse a amortalhadeira com a voz
um pouco rouca.--No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha,
com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir...

A snr.^a Margarida tinha predileces artisticas. Gostava d'um bonito
corpo de dezoito annos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar,
enfeitar... Entrouxava  m cara a gente velha. Mas com as raparigas
novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o _chic_
d'uma flr, d'um lao; trabalhava com os requintes ajanotados d'uma
modista do sepulchro.

A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana,
os favores dos patres, as tafularias d'ella, os luxos do quarto
tapetado... A snr.^a Margarida dizia-se banzada. E para quem iria
agora tudo aquillo?--perguntavam.--A _tripa-velha_ no tinha parentes...

--Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!--disse a amortalhadeira,
traando o chale com tristeza.

--Como vai ella, a pequena?...

--Aquillo vai mal, snr.^a Helena. Aquella cabea douda!--E exhalando
a sua dr com loquacidade:--Deixar o brazileiro que a trazia nas
palminhas... E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come tudo,
que j lhe arranjou um filho, e que a derra com pau... Mas ento, as
raparigas so assim... Vo atraz do palmo de cara... Que elle  bonito
rapaz! Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, snr.^a
Helena.--E entrou na casa compungidamente.

O padre j chegra tambem. Estava na sala com Sebastio, que conhecia
d'Almada, e fallava de lavoura, d'enxertos, das regas, n'uma voz
grossa--passando, com um gesto lento da sua mo cabelluda, o leno
enrolado por debaixo do nariz. As janellas em toda a casa estavam
abertas ao sol muito dce. Os canarios chilreavam.

--E estava ha muito tempo na casa, a defunta?--perguntou o padre, a
Jorge que passeava pela sala, fumando.

--Ha quasi um anno.

O padre desdobrou lentamente o leno, e sacudindo-o, antes de se assoar:

--A sua senhora ha-de sentir muito...  um tributo universal!...

E assoou-se, com estrondo.

A Joanna, ento, de chale e leno, appareceu, em bicos de ps. Soubera
pelos visinhos que a Juliana arrebentra, que os senhores estavam em
casa do snr. Sebastio. Vinha de l. Luiz mandra-a entrar no quarto.
Quando a viu doente, a sua rica senhora, lagrimejou muito. Luiza
disse-lhe--que agora estava tudo como d'antes, podia voltar...

--E oua, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... que esteve em
Bellas, com a tia...

A rapariga fra logo buscar a trouxa e vinha installar-se--um pouco
assustada da morte em casa.

D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente  porta.

Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario n'aquelle transe! E
tirando e pondo rapidamente o bon, raspando o p, dizia com a sua voz
catarrhosa:

--Lamento a desgraa, lamento a desgraa! Todos somos mortaes...

--Bem, bem, snr. Paula, no  necessario nada--disse Jorge.--Obrigado!

E fechou bruscamente a cancella.

Estava impaciente por se desembaraar d'aquella estopada: e mesmo
como o enfastiavam as martelladas espaadas dos homens pregando o
caixo, em cima, chamou a Joanna:

--Diga a essa gente que se avie. No vamos ficar aqui toda a vida!

A Joanna foi logo dizer que o senhor estava n'um phrenesi! Tinha-se
feito j intima da snr.^a Margarida. A amortalhadeira fra mesmo com
ella  cozinha para tomar uma sustanciasinha. Como o lume estava
apagado, contentou-se com sopas de po em vinho.

--Sopinha de burro--dizia, fazendo estalar a lingua.

Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo
de sardinha secca! E pondo um olhar complacente nas bellas frmas
de Joanna:--A menina, no. A menina tem-me o ar de ter muito bom
corpo...--E parecia calcular como talharia a mortalha para aquellas
linhas robustas.

Joanna disse escandalisada:

--Longe v o agouro, cruzes!

A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando a voz:

--Tem-me passado pela mo muita gente fina, minha menina. Mais uma
gotinha de vinho, faz favor?  do Cartaxo, no?  muito avelludado!
rica gota!

Emfim, com grande satisfao de Jorge, s quatro horas os homens
desceram o caixo. A visinhana estava pelas portas. O Paula mesmo, por
fanfarronada, disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando:

--Boa viagem!

Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna:

--E voss no tem medo de ficar aqui s?

--Eu no, meu senhor. Quem vai no volta!

Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro,
e batia-lhe o corao de alegria de terem a casa por sua at de
manh, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do
divan da sala.

Jorge voltou com Sebastio para casa, e apenas entrou no quarto, onde
Luiza estava deitada:

--Tudo prompto--disse, esfregando as mos.--L vai para o Alto de S.
Joo, devidamente acondicionada. _Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum!_

A tia Joanna, que estava  cabeceira de Luiza, acudiu:

--Ai, quem l vai, l vai... Mas boa mulher, no era ella!

--Era um bom estafermo--disse Jorge.--Esperemos que a esta hora esteja
a ferver na caldeira de Pero Botelho. No  verdade, tia Joanna?

--Jorge!--fez Luiza reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo
dous padre-nossos por alma.

Foi tudo o que a terra deu na sua morte quella que ia rolando a essa
hora, ao trote de duas velhas eguas, para a valla dos pobres, e que
fra na vida Juliana Couceiro Tavira!


No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram mesmo, com grande
desconsolao da tia Joanna, em voltar para casa. Sebastio no dizia
nada, mas quasi desejava secretamente que uma convalescena a retivesse
alli semanas indefinidas. Ella parecia to agradecida! Tinha olhares
to reconhecidos, que s elle comprehendia! E era to feliz tendo-a
alli e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia sobre o
jantar; andava pelos corredores e pela sala, com respeito, quasi em
bicos de ps, como se a presena d'ella santificasse a casa; enchia
os vasos de camelias e de violetas; sorria beatamente ao vr Jorge, 
sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma cousa
de bom acalental-o como um manto acolchoado e macio; e j pensava que
quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza
de ruina!

Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa.

Luiza ficou muito agradada com a criada nova. Fra Sebastio que a
arranjra. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos
bonitos e pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna; e foi logo
correndo dizer a Joanna que morria pela senhora! tinha uma carinha
d'anjo! que linda que era!

Jorge logo n'essa manh mandou os dous bahus de Juliana  tia Victoria.

Luiza, quando elle sahiu  tardinha, fechou-se no quarto, com a
carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precauo, accendeu
uma vela, e queimou as cartas. As mos tremiam-lhe; e via, com os
olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua escravido irem-se,
dissiparem-se n'um fumo alvadio! Respirou completamente! Emfim! E fra
Sebastio, aquelle querido Sebastio!

Foi ento  sala,  cozinha, vr a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua
vida cheia de doura: abriu todas as janellas; experimentou o piano;
rasgou mesmo em pedaos, por superstio, a musica da _Mdj_, que lhe
dera Bazilio; conversou muito com a Marianna; e saboreando o seu caldo
de gallinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade:

--Que bem que vou passar agora!--pensava.

Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu,
deitou-lhe os braos ao pescoo, e com a cabea no hombro d'elle:

--Estou to contente hoje! E se tu soubesses,  to boa rapariga a
Marianna!


Mas n'essa noite a febre voltou. Julio, de manh, achou-a peor.

--Crescimentos...--disse descontente.

Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou
toda surprehendida de vr Luiza doente; e debruando-se sobre ella,
disse-lhe logo ao ouvido:

--Tenho que te contar!

Apenas Jorge e Julio sahiram, desabafou, sentada aos ps da cama,--com
uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto
da indignao:

Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandra a
Tuy, o grande ladro, tinha escripto  Gertrudes,  criada, que no
estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudra de
povoao; que elle no queria saber mais d'esse negocio e que at o
achava exquisito; que offerecia o seu prestimo em Tuy,--tudo isto n'uma
boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,--e do dinheiro
nem palavra!

--Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu se no fosse pela vergonha,
ia direita  policia... Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o
Conselheiro no se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lanou a
sorte!...--Porque se j no acreditava na honestidade dos gallegos, no
perdera a f no poder das bruxas.

Que ella no era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe
onde estaria agora a mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece,
hein?

Luiza encolheu os hombros: muito abafada na roupa, as faces escarlates,
cerravam-se-lhe os olhos n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade
aconselhou-lhe vagamente um suadouro, suspirando; e como Luiza no
lhe podia dar consolaes, sahiu para ir  Encarnao desabafar com a
Silveira.

N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera. Jorge, inquieto,
vestiu-se  pressa, s nove horas da manh, foi buscar Julio. Descia a
escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia,
tossindo o seu catarrho.

--Cartas?--perguntou Jorge.

--Uma p'ra a senhora--disse o homem.--Ha-de ser p'ra a senhora...

Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza, vinha de Frana.

--De quem diabo  isto?--pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e sahiu.

D'ahi a meia hora voltava com Julio, n'um trem.

Luiza dormitava, amodorrada.

-- preciso cautela... Vamos a vr...--murmurou Julio, coando devagar
a cabea, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente.

Receitou e ficou para almoar com Jorge. Estava um dia frio e pardo.
A Marianna, abafada n'um casabeque, servia, com os dedos vermelhos,
inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a
nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando n'alma.

A que se podia attribuir semelhante febre? dizia, muito desconsolado.
To extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor...

--Estas febres veem por tudo--replicou Julio, partindo tranquillamente
uma torrada.--s vezes por uma corrente d'ar s vezes por um desgosto.
Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que
esteve p'ra fallir, e que viveu, coitado, durante dous mezes em
torturas. Ha duas semanas, por um golpe de fortuna,--a velhaca s vezes
tem d'estes caprichos,--arranjou todos os seus negocios, viu-se livre.
Pois senhor, desde ento tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com
symptomas disparatados... O que ?  que a excitao nervosa abateu, e
a felicidade trouxe-lhe uma revoluo no sangue. Pde muito bem dar 
casca. Faz ento a fallencia geral, a grande, aquella em que o crdor 
implacavel, saca  vista, e... _per omnia s[ae]cula!_

Ergueu-se, e accendendo o cigarro:

--Em todo o caso um repouso absoluto.  necessario ter-lhe o espirito
em algodo em rama. Nada de palestra, nada de phrases, e se tiver sde,
limonada. At logo!

E sahiu, calando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia
ao Posto Medico.

Jorge voltou  alcova: Luiza ainda dormitava. Marianna sentada ao p
n'uma cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, no tirava de
Luiza os seus grandes olhos vagamente espantados.

--Tem estado muito inquieta--murmurou.

Jorge apalpou a mo de Luiza que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a
devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janella, defronte da
alcova.--E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras de
Julio: so febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do
negociante, recordava aquelle estado de abatimento e de fraqueza de
Luiza que o preoccupra tanto, ultimamente, to inexplicavel! Ora,
tolices! Desgosto de qu? Em casa de Sebastio estivera to animada!
Nem a morte da outra lhe fizera abalo!--De resto acreditava pouco nas
_febres de desgosto_! Julio tinha uma medicina litteraria. Pensou
mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha...

Ao metter a mo no bolso, ento, os seus dedos encontraram uma
carta; era a que o carteiro lhe dera, de manh, para Luiza. Tornou a
examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que ha
nos cafs ou nos restaurantes; no conhecia a letra; era d'homem, vinha
de Frana... Atravessou-o um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se,
atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro.

Voltou  alcova. Luiza permanecia na sua modorra: a manga do chambre
arregaada descobria o brao mimoso, com a sua pennugem loura; a
face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no
adormecimento das palpebras finas; um annel do cabello cahira-lhe
sobre a testa, e pareceu a Jorge adoravel e tocante com aquella cr,
a expresso da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam
achar linda, desejal-a, dizer-lh'o, se podessem... Para que lhe
escreviam de Frana, quem?

Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre a mesa irritava-o: quiz
lr um livro, atirou-o logo impaciente; e poz-se a passear, torcendo
muito nervoso o forro das algibeiras.

Agarrou ento a carta, quiz vr, atravs do papel delgado do enveloppe;
os seus dedos, mesmo irresistivelmente, comearam a rasgar um angulo do
sobrescripto. Ah! No era delicado aquillo!... Mas a curiosidade, que
governava o seu cerebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com
uma tentao persuasiva:--Ella estava doente, e podia ter alguma cousa
urgente; se fosse uma herana? depois ella no tinha segredos, e ento
em Frana! Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira
por engano. E se a carta contivesse o segredo d'aquelle desgosto, do
_desgosto_ das theorias de Julio!... Devia abril-a ento para a curar
melhor!

Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mo. N'um relano
avido devorou-a. Mas no comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se;
chegou-se  janella, releu devagar:


                                           Minha querida Luiza.

Seria longo explicar-te, como s antes d'hontem em Nice--d'onde
cheguei esta madrugada a Paris--recebi a tua carta, que pelos carimbos
vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como j l vo dous
mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher,
e que no precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda
um telegramma e tens-l'o ahi em dous dias. Vejo pela tua carta que no
acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. s
bem injusta. A minha partida no te devia ter tirado, como tu dizes,
_todas as illuses sobre o amor_, porque foi realmente quando sahi de
Lisboa que percebi quanto te amava, e no ha dia, acredita, em que me
no lembre do _Paraiso_. Que boas manhs! Passaste por l por acaso
alguma outra vez? Lembras-te do nosso _lunch_? No tenho tempo para
mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero vr-te, porque sem ti
Lisboa  para mim um desterro.

Um longo beijo do

                                               Teu do C.

                                              _Bazilio_.


Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o
para cima da mesa, disse alto:

--Sim, senhor! bonito!

Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, com os olhos vagos, os
beios a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:--de
repente arremessou o cachimbo que despedaou um vidro da janella, bateu
com as mos desvairado, e atirando-se de bruos para cima da mesa,
rompeu a chorar, rolando a cabea entre os braos, mordendo as mangas,
batendo com os ps, louco!

Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ella  alcova de Luiza.
Mas a lembrana das palavras de Julio immobilisou-o: que esteja
socegada, nada de phrases, nenhuma excitao! Fechou a carta n'uma
gaveta, metteu a chave na algibeira. E de p, a tremer, com os olhos
raiados de sangue, sentia idas insensatas alumiarem-lhe bruscamente
o cerebro, como relampagos n'uma tormenta--matal-a, sahir de casa,
abandonal-a, fazer saltar os miolos...

A Marianna bateu ligeiramente  porta, disse-lhe que a senhora o
chamava.

Uma onda de sangue subiu-lhe  cabea; fitava Marianna, estupido,
batendo as palpebras:

--J vou--disse com a voz rouca.

Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto
manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou
o cabello: e ao entrar na alcova, ao vl-a, com os seus grandes olhos
dilatados onde a febre reluzia, teve de se agarrar  barra do leito,
porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento.

Mas sorriu-lhe:

--Como ests?

--Mal--murmurou ella debilmente.

Chamou-o para ao p de si com um gesto muito fatigado.

Elle veio, sentou-se sem a olhar.

--Que tens?--disse ella chegando o rosto para elle.--No te
afflijas.--E tomou a mo que elle pousra  beira do leito.

Jorge, com um repello secco, sacudiu a mo d'ella, ergueu-se
bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal;
ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza,
arrastando-se, n'uma lamentao:

--Porque, Jorge? Que tens?...

Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma
angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente.

Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mos, aos soluos.

--Que  isto?--exclamou a voz de Julio  porta da alcova.

Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar.

Julio levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braos diante
d'elle:

--Tu ests doudo? Pois tu sabes que ella est n'um estado d'aquelles, e
vaes-te pr a fazer-lhe scenas de lagrimas?

--No me pude conter...

--Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lh'a
por outro? Ests doudo!

Estava realmente indignado. Interessava-se por Luiza como doente.
Desejava muito cural-a; e sentia uma satisfao em exercer o dominio
de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido
sempre uma attitude dependente; mesmo agora ao sahir, no se esquecia
de offerecer negligentemente um charuto a Jorge.


Jorge foi heroico durante toda essa tarde. No podia estar muito
tempo na alcova de Luiza, a desesperao trazia-o n'um movimento
contradictorio; mas ia l a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe
a roupa com as mos tremulas; e como ella dormitava, ficava immovel a
olhal-a feio por feio, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com
para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando
ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e
amava-a mais desde que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal e
perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se alli entre as
paredes estreitas, como um animal n'uma jaula. Releu a carta infinitas
vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem
cessar: Como tinha sido? Onde era o _Paraiso_? Havia uma cama? Que
vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava?

Foi relr todas as cartas que ella lhe escrevra para o Alemtejo,
procurando descobrir nas palavras symptomas de frieza, a data
da traio! Tinha-lhe odio ento, voltavam-lhe ao cerebro idas
homicidas--esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber laudano!
E depois immovel, encostado  janella, ficava esquecido n'um scismar
espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que
dra com ella, palavras que ella dissera...

s vezes pensava--seria a carta uma _mistificao_? Algum inimigo
d'elle podia tel-a escripto, remettido para Frana. Ou talvez Bazilio
tivesse _outra_ Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o
enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea
que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais
cruel. Mas como fra? como fra? Se podesse saber a verdade! Tinha a
certeza que socegaria, ento! Arrancaria de certo do seu peito aquelle
amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um
convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... Mas quem
saberia?... Juliana!

Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias d'ella por
Juliana, os moveis, o quarto, as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar
a cumplicidade! Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E
estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita!

Sebastio, como costumava, veio  noitinha. No havia ainda luzes, e,
apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma
vela, tirou a carta da gaveta.

--L isto.

Sebastio ficra assombrado ao vr o rosto de Jorge. Olhava a carta
fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia
cobriu-lhe o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibrao onde
elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre
a mesa, sem uma palavra.

Jorge disse ento:

--Sebastio, isto p'ra mim  a morte. Sebastio, tu sabes alguma cousa.
Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade!

Sebastio abriu devagar os braos e respondeu:

--Que te hei-de eu dizer? No sei nada!

Jorge agarrou-lhe as mos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar
anciosamente:

--Sebastio, pela nossa amizade, pela alma de tua mi, por tantos annos
que temos passado juntos, Sebastio, dize-me a verdade!...

--No sei nada. Que hei-de eu saber?

--Mentes!

Sebastio disse apenas:

--Podem-te ouvir, homem!

Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas mos, com passadas pelo
escriptorio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante
de Sebastio, quasi supplicante:

--Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem?

Sebastio respondeu devagar, os olhos fixos na luz:

--Vinha o primo s vezes, ao principio. Quando a D. Felicidade esteve
doente, ella ia vl-a... O primo depois partiu... No sei mais nada.

Jorge esteve um momento a olhar Sebastio, com uma fixidez abstracta.

--Mas que lhe fiz eu, Sebastio? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz
eu p'ra isto? Eu, que a adorava, quella mulher!

Rompeu a chorar.

Sebastio ficra de p junto  mesa, estupido, aniquilado.

--Foi talvez uma brincadeira, apenas...--murmurou.

--E o que diz a carta?--gritou Jorge, voltando-se n'uma colera,
sacudindo o papel.--Este _Paraiso_! _As boas manhs_ l passadas!  uma
infame!...

--Est doente, Jorge--disse apenas Sebastio.

Jorge no respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastio, immovel,
fatigava a vista contra a chamma da luz. Jorge ento fechou a carta na
gaveta, e tomando o castial com um tom de lassido lugubre e resignado:

--Queres vir tomar ch, Sebastio?

E no tornaram mais a fallar na carta.


N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto
estava impassivel, d'uma serenidade livida.

Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza.

A doena, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se:
eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julio estava tranquillo.

Jorge passava os seus dias ao p d'ella. D. Felicidade vinha
ordinariamente pelas manhs: sentava-se aos ps da cama, e ficava
calada, com uma face envelhecida; aquella esperana na mulher de Tuy
to subitamente destruida abalra-a como um velho edificio a que se
tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruina; e s se animava quando
o Conselheiro apparecia pelas tres horas a saber da nossa formosa
enferma. Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom
profundo, conservando o chapo na mo, sem querer entrar na alcova, por
pudor:

--A saude  um bem que s apreciamos quando nos foge!

Ou:

--A doena serve para aquilatarmos os amigos.

E terminava sempre:

--Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo refloriro nas faces de sua
virtuosa esposa!...

De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergo sobre o cho; mas apenas
cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava lr:
comeava um romance, mas nunca ia alm das primeiras linhas; esquecia
o livro, e com a cabea entre as mos punha-se a pensar: era sempre a
mesma ida--_como_ tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente,
com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a,
desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a vr aqui e
alm, escrevendo-lhe; mas depois? Viera j a comprehender que o
dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os
surprehendido? possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstruco
dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se
arremessava sofregamente. Ento comeava a recordar os ultimos mezes
desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrra amante, e que
ardor punha nas suas caricias... Para que o enganra ento?

Uma noite, com precaues de ladro, rebuscou todas as gavetas d'ella,
esquadrinhou os vestidos, at as dobras da roupa branca, as caixas de
collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava vazio; nem o
p d'uma flr secca! s vezes punha-se a fitar os moveis no quarto,
na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios
do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado aos
ps d'ella, acol, sobre o tapete? Sobretudo o divan to largo, to
commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa,
como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham
sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava
sobretudo eram aquellas palavras--o _Paraiso_, _as boas manhs_...

Luiza ento j dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os
crescimentos desappareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que
pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario
vestil-a, trazel-a amparada para a _chaise-longue_: e no dispensava
Jorge, queria-o alli, ao p, com exigencias de criana! Parecia receber
a vida dos seus olhos, a saude do contacto das suas mos. Fazia-lhe
lr o jornal pela manh, e vir escrever para ao p d'ella. Elle
obedecia, e mesmo aquellas instancias eram para a sua dr como caricias
consoladoras.  porque o amava de certo!

Sentia ento, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se
a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes!
E, estendida na _chaise-longue_, Luiza, contente, percorria
antigos volumes da _Illustrao franceza_, que lhe mandra o
Conselheiro,--onde, segundo elle lhe dissera, podia, ao mesmo
tempo que se divertia com os desenhos, adquirir noes uteis sobre
importantes acontecimentos historicos; ou, com a cabea reclinada,
saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da
_outra_, das amarguras do _passado_.

Uma das suas alegrias era vr entrar a Marianna com o seu jantarzinho
disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava
muito o calix de vinho do Porto, que Julio recommendra; quando Jorge
no estava, fazia longas conversaes com Marianna, palrando baixo,
consolada, e lambendo colherinhas de gelatina.

s vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois
a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar foras;  volta
comearia a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala;
porque queria occupar-se muito da casa, viver recolhida; elle no
voltaria ao Alemtejo, no sahiria de Lisboa, no  verdade? E a sua
vida seria d'ahi por diante d'uma doura continua e facil.

Mas Luiza s vezes achava-o macambusio. Que tinha? Elle explicava
pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos,
dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para
o velar!... Mas no adoeceria, no? E fazia-o sentar ao p de si,
passava-lhe a mo pelos cabellos, com o olhar quebrado, porque com as
foras que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso.
Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraado!

Luiza, s comsigo, tinha outras resolues. No tornaria a vr
Leopoldina, e frequentaria as igrejas. Sahia da doena com uma vaga
sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadlos de
que lhe ficra uma indistincta ida aterrada, vira-se s vezes n'um
lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braos, do meio
de chammas escarlates: frmas negras giravam com espetos em braza, um
rugido d'agonia subia para a mudez do co: e j lhe tocavam o peito
linguas de fogueiras, quando alguma cousa de dce e d'ineffavel de
repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, que a
tomava nos braos; e ella sentia-se elevar, apoiando a cabea contra
o seio divino, que a penetrava d'uma felicidade sobrenatural; via as
estrellas de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensao deixra-lhe
como uma recordao saudosa do co. E aspirava a ella, nas debilidades
da convalescena, esperando ganhal-a pela pontualidade  missa, e pela
repetio de coras  Virgem.

Emfim uma manh veio  sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge,
 janella, olhava para a rua--quando ella o chamou, e sorrindo:

--Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan--disse.--Podia-se tirar,
no te parece?

Jorge sentiu uma pancada no corao: no pde responder logo; disse,
emfim, com esforo:

--Sim, parece...

--Estou com vontade de o tirar--disse ella sahindo da sala, arrastando
tranquillamente a longa cauda do seu roupo.

Jorge no pde destacar os olhos do divan. Veio mesmo sentar-se n'elle;
passava a mo sobre o estofo s listras; e sentia um prazer doloroso em
verificar _que fra alli_!

Principira a vir-lhe agora uma especie de resignao sombria; quando
a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros
tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella
tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que havia de crear a
sangue frio uma infelicidade perpetua? Mas quando a via com os seus
movimentos languidos estender-se na _chaise-longue_, ou ao despir-se
mostrar a brancura do seu collo--e pensava que aquelles braos
tinham enlaado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama
alheia--vinha-lhe uma onda de clera bruta, precisava sahir para a no
esganar!

Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, comeou a
queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes d'ella, ento, as
interrogaes mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz--por se
sentir amado, agora que se sabia trahido!

Um domingo emfim Julio deu licena a Luiza para se deitar mais tarde,
e fazer  noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na
sala, ainda um pouco pallida e fraca,--mas, como disse o Conselheiro,
restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade!

Julio que veio s nove horas achou-a _como nova_. E abrindo os braos,
no meio da sala:

--E que me dizem  novidade?--exclamou--A pea do Ernesto teve um
triumpho!...

Assim tinham lido nos jornaes. O _Diario de Noticias_ dizia mesmo que
o author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo,
recebera uma formosa cora de louros. Luiza declarou logo que queria
ir vr!

--Mais tarde, D. Luiza, mais tarde--acudiu com prudencia o
Conselheiro.--Por ora  conveniente evitar toda a commoo forte. As
lagrimas que no deixaria de derramar, conheo o seu bom corao,
podiam produzir uma recahida. No  verdade, amigo Julio?

--De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero
convencer-me por meus olhos...

Mas o ruido d'uma carruagem, lanada a trote largo, que parou  porta,
interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente.

--Aposto que  o author!--exclamou elle.

E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca,
precipitou-se na sala: ergueram-se com ruido, abraaram-no: mil
parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras:

--Bem vindo o festejado author! Bem vindo!

Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas
do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o
peito alto, enfunado d'orgulho; e movia a cabea, sem cessar, como n'um
agradecimento instinctivo a multides applaudidoras.

--Aqui estou! aqui estou!--disse.

Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou
que os ultimos ensaios de apuro no lhe tinham deixado um momento para
vir vr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante de seu,
mas devia voltar s dez horas para o theatro: at nem mandra a tipoia
embora...

Contou ento largamente o triumpho. Ao principio tivera grandes
colicas. Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas
apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto--e como o disse!
haviam de vr, uma cousa sublime!--os applausos romperam. Tinha
agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de
palmas... Elle viera ao palco, arrastado; no queria, mas obrigaram-no,
a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O
Savedra do _Seculo_ tinha-lhe dito: o amigo  o nosso Shakspeare! O
Bastos da _Verdade_ tinha affirmado: s o nosso Scribe! Houve uma ca.
E tinham-lhe dado uma cora.

--E serve-lhe?--acudiu Julio.

--Perfeitamente; um bocadinho larga...

O Conselheiro disse com authoridade:

--Os grandes authores, o famigerado Tasso, o nosso Cames so sempre
representados com as suas respectivas coras.

-- o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma--acudiu Julio, erguendo-se e
batendo-lhe no hombro-- que se faa retratar de cora!...

Riram.

E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu leno perfumado:

--O snr. Zuzarte no dispensa o seu epigrammasinho...

-- a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes
victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito!

--Eu no sei!--disse Luiza muito risonha-- uma honra p'ra a familia!...

Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a
cora, como se tivesse direito a usal-a...

E Ernestinho voltando-se logo para elle:

--Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei  esposa...

--Como Christo...

--Como Christo--confirmou Ernestinho, com satisfao.

D. Felicidade approvou logo:

--Fez muito bem! At  mais moral!

--O Jorge  que queria que eu dsse cabo d'ella--disse Ernestinho,
rindo tolamente.--No se lembra, n'aquella noite...

--Sim, sim--fez Jorge, rindo tambem, nervosamente.

--O nosso Jorge--disse com solemnidade o Conselheiro--no podia
conservar idas to extremas. E de certo a reflexo, a experiencia da
vida...

--Mudei, Conselheiro, mudei--interrompeu Jorge.

E entrou bruscamente no escriptorio.

Sebastio, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava s escuras.

--Aquelles idiotas no se calaro? No se iro?--disse elle
abafadamente, agarrando o brao de Sebastio.

--Socega!

--Oh Sebastio! Sebastio!--E sua voz tremia, com lagrimas.

Mas Luiza, da sala, gritou:

--Que conspirao  essa ahi dentro s escuras?

Sebastio appareceu logo, dizendo:

--Nada, nada. Estavamos l dentro...--E acrescentou baixo:--O Jorge
est fatigado. Est adoentado, coitado!

Notaram, quando elle voltou--que tinha com effeito o ar exquisito.

--No, realmente no me sinto bom, estou incommodado!

--E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito--disse o
Conselheiro erguendo-se.

Ernestinho que no se podia demorar, offereceu logo ao Conselheiro e a
Julio--a sua carruagem, que era um caleche, se iam para a baixa...

--Que honra--exclamou Julio olhando Accacio--irmos na tipoia do Grande
Homem!

E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram.

No meio da escada Julio parou, e cruzando os braos:

--Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos
de Portugal desde 1820. A Litteratura--e comprimentou Ernestinho--e o
Constitucionalismo!--e curvou-se para o Conselheiro.

Os dous riram, lisongeados.

--E o amigo Zuzarte?

--Eu?--E baixando a voz:--At ha dias um revolucionario terrivel. Mas
agora...

--O qu?

--Um amigo da ordem--gritou com jubilo.

E desceram, contentes de si e do seu paiz, para se metterem na tipoia
do Grande Homem!




XVII


Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde no tinha apparecido nos
ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presena dos conhecidos
ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que _todo o mundo sabia_; nos
olhares mais naturaes via uma inteno maligna, e nos apertos de mo
mais sinceros uma ironica presso de pezames; as carruagens mesmo que
passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao _rendez-vous_,
e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do _Paraiso_. Voltou
mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao
entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a _Mandolinata_!

Estava-se a vestir.

--Como ests tu?--perguntou, pondo a um canto a sua bengala.

--Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...

Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.

--E tu?--perguntou-lhe ella.

--P'ra aqui ando--disse to desconsoladamente que Luiza pousou o pente,
e com os cabellos soltos veio pr-lhe as mos nos hombros, muito
carinhosa:

--Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! No s
o mesmo! s vezes ests com uma cara de ro... Que ? Dize.

E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados.

Abraou-o. Insistia, queria que dissesse tudo  sua mulherzinha.

--Dize. Que tens?

Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resoluo violenta:

--Pois bem, digo-te. Tu agora ests boa, pdes ouvir... Luiza! vivo
n'um inferno ha duas semanas. No posso mais... Tu ests boa, no 
verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!

E estendeu-lhe a carta de Bazilio.

--O que ?--fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mo.

Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a.
Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braos sem
poder fallar, levou as mos  cabea com um gesto ancioso como se se
sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os
joelhos, ficou estirada no tapete.

Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que
Joanna corresse a chamar Sebastio; e ficou, como petrificado, junto
ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os
espartilhos da senhora.

Sebastio veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar;
apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella:

--Luiza, ouve, falla! No, no tem duvida. Mas falla. Dize, que tens?

Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos
sacudiam-lhe o corpo. Sebastio correu a buscar Julio.

Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mos
pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas
faces.

Um trem parou. Julio appareceu esbaforido.

--Achou-se mal de repente... V, Julio. Est muito mal!--disse Jorge.

Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julio
fallou-lhe, tomando-lhe o pulso.

--No, no, ninguem!--murmurou ella, retirando a mo. Repetiu com
impaciencia:--No, vo-se, no quero...--As suas lagrimas redobravam.
E como elles sahiam da alcova para a no excitar contrariando-a,
ouviram-na chamar:--Jorge!

Elle ajoelhou-se ao p da cama, e fallando-lhe junto do rosto:

--Que tens tu? No se falla mais em tal. Acabou-se. No estejas doente.
Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, no me importa. No quero saber,
no.

E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mo na bocca:

--No, no quero ouvir. Quero que estejas boa, que no soffras! Dize
que ests boa! Que tens? Vamos manh para o campo, e esquece-se tudo.
Foi uma cousa que passou...

Ella disse apenas com a voz sumida:

--Oh! Jorge! Jorge!

--Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes?

--Aqui--disse ella, e levava as mos  cabea.--De-me!

Elle ergueu-se para chamar Julio, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e
devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto,
estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio
de perdo.

--Oh! minha pobre cabea!--gritou ella.

As fontes latejavam-lhe, e uma cr ardente, scca, esbrazeava-lhe o
rosto.

Como era habituada a enxaquecas, Julio traquillisou-os; recommendou um
socego immovel e sinapismos de mostarda aos ps,--at que elle voltasse.

Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de
sustos, suspirando s vezes.

Eram ento quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova
tinha uma luz lugubre.

--No ha-de ser nada...--dizia Sebastio.

Luiza agitava-se no leito, apertando as mos na cabea, torturada pela
dr crescente, cheia de sde.

Marianna acabava d'arrumar em pontas de ps, vagamente assombrada
d'aquella casa, onde s vira desgosto e doena: mas s o pousar subtil
dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o
craneo.

Julio no tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella
inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella
luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a
cabea.

Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito
quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dres penetrantes
que a dilaceravam. S de vez em quando sorria para Jorge com uma
expresso d'afflico serena e muda.

Julio fez logo pr tres travesseiros, para lhe conservar a cabea
alta. Fra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de ps, com
cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o _tic-tac_
monotono. Ella comeava agora a murmurar sons canados, e a voltar-se
com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um
modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo
sinapismo; mas no o sentia. Pelas nove horas comeou a delirar; a
lingua tornra-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo.

Julio fez logo applicar na cabea compressas d'agua fria. Mas o
delirio exacerbava-se.

Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento--onde os nomes
de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois
debatia-se, esgaava a camisa com as mos; e, arqueando-se, os seus
olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia.

Socegava mais; dava risadinhas d'uma doura idiota; tinha gestos
lentos sobre o lenol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um
gozo tepido: depois comeava a respirar anciosamente, vinham-lhe
expresses torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e
nos colxes, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se ento a apertar a
cabea phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de
pedras, que tivessem piedade d'ella!--e fios de lagrimas corriam-lhe
pelo rosto. No sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os ps ns
ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre
adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de
palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o
conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta,
maldizia Juliana--ou ento dizia palavras d'amor, enumerava sommas de
dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julio,
s criadas: tinha um suor  raiz dos cabellos--e quando ella, um
momento, julgando-se no _Paraiso_ e nas exaltaes do adulterio, chamou
Bazilio, pediu _champagne_, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da
alcova allucinado, foi para a sala s escuras, atirou-se para o divan a
soluar, arrepellou-se, blasphemou.

--Est em perigo?--perguntou Sebastio.

--Est--disse Julio.--Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas
malditas febres cerebraes...

Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado,
esguedelhado.

E Julio tomando-o pelo brao, levando-o para fra:

--Ouve l,  necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabea.

Jorge olhou-o com um ar estupido:

--O cabello?--E agarrando-lhe os braos:--No, Julio, no, hein?
Pde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello no! No! Isso
no, pelo amor de Deus! Ella no est em perigo. P'ra qu?

Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a aco da agua!

--manh, se fr necessario. manh! Espera at manh... Obrigado,
Julio, obrigado!

Julio consentiu, contrariado. Fazia ento humedecer constantemente
as compressas da cabea, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava
muito o travesseiro, foi Sebastio que se collocou  cabeceira da cama,
toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava
lentamente; tinham jarros fra da varanda, na sala, para dar  agua uma
frialdade gelada. O delirio alta noite acalmra um pouco. Mas o seu
olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas
um ponto negro.

Jorge, sentado aos ps da cama, com a cabea entre as mos, olhava
para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doena assim,
quando ella tivera a pneumonia: e melhorra! At ficra mais linda,
com tons de pallidez que lhe adoavam a expresso! Iriam para o campo
quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria  noite no
omnibus, e vl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um
vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos
sobresaltado: e no lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia
dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova,
no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluo
sacudia-o, e recahia na sua immobilidade.

Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita,
extinguiam-se.

Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os
caixilhos da vidraa. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua.
No chovia; a calada seccava. O ar tinha uma vaga cr d'ao. Tudo
dormia: e uma toalha, esquecida  janella das Azevedos, agitava-se ao
vento frio, silenciosamente.

Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia
muito vagamente os sinapismos, mas a dr de cabea no cessava.
Comeou a agitar-se--e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julio, ento,
determinou que se lhe rapasse o cabello.

Sebastio foi acordar um barbeiro na rua da Escla--que veio logo, com
um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo comeou
a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras,
devagar, com as mos molles da gordura das pomadas.

Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaos
mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranas,
destruidas s tesouradas; e com a cabea nas mos recordava certos
penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham
desmanchado nas alegrias da paixo, tons com que brilhavam  luz...
Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o
ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de
sabo, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou
Sebastio baixo:

--Dize-lhe que se avie! Esto-me a matar a fogo lento!  de mais. Que
ande depressa!

Foi  sala de jantar, errou pela casa: a manh fria clareava;
erguera-se vento, que ia levando, aos pedaos, nuvens d'um tom alvadio.

Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a
mesma lentido molle; e tomando o seu chapo desabado, sahiu em bicos
de ps, murmurando n'um tom funerario:

--Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que no seja nada...

O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:--e Luiza cahiu n'uma
somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios
como a lamentao interior da vida vencida.

Jorge tinha ento dito a Sebastio que desejava chamar o doutor
Caminha. Era um medico velho que tratra sua mi, e que curra Luiza da
pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservra uma admirao
agradecida por aquella reputao antiquada; e agora a sua esperana
voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presena como pela
appario d'um santo.

Julio condescendeu logo. At estimava! E Sebastio desceu correndo,
para ir a casa do dr. Caminha.

Luiza, que sahira um momento do seu torpr, sentiu-os fallar baixo. A
sua voz extincta chamou Jorge:

--Cortaram-me o cabello...--murmurou tristemente.

-- para te fazer bem--disse-lhe Jorge, quasi to agonisante como
ella.--Cresce logo. At te vem melhor...

Ella no respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos
dos olhos.

Devia ser a sua ultima sensao: a prostrao comatosa ia-a
immobilisando, apenas a sua cabea rolava n'um movimento dce e
vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansao triste;
a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual
lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que comeavam no
a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodo.

Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu
to mal: e ella que a vinha buscar para irem  Encarnao, talvez s
lojas! Tirou logo o chapo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar
as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compr a cama--porque
no havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto: e muito
corajosamente animava Jorge.

Uma carruagem parou  porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou
atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se
muito do frio;--e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que
pz dentro do chapo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um
passo cadenciado, acamando com a mo as suas repas grisalhas j muito
colladas ao craneo pela escova.

Julio e elle ficaram ss na alcova.

No quarto os outros esperavam calados, ao p de Jorge, pallido como
cra, com os olhos vermelhos como carves.

--Vai-se-lhe pr um caustico na nuca--veio dizer Julio.

Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a
calar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo:

--Vamos a vr com o caustico. No est bem... Mas ha ainda peor. E eu
volto, meu amigo, eu volto.

O caustico foi inutil. No o sentia, immovel e branca, com as feies
crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como
vibraes fugitivas.

--Est perdida--disse Julio baixo a Sebastio.

D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos.

--P'ra qu?--resmungou Julio impaciente.

Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado
mortal; e chamando Jorge para o vo da janella, toda tremula:

--Jorge, no se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos...

Elle murmurava como assombrado:

--Os sacramentos!

Julio chegou-se bruscamente, e quasi zangado:

--Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra qu? Ella nem ouve, nem
comprehende, nem sente.  necessario deitar-lhe outro caustico, talvez
ventosas, e  o que ! Isso  que so os sacramentos!

Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, comeou a chorar.
Esqueciam Deus, e em Deus  que est o remedio!--dizia, assoando-se com
estrondo.

--Pelo que Deus faz por mim...--exclamou Jorge, sahindo do seu torpr.
E batendo as mos, como revoltado por uma injustia:--Porque realmente,
que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!...

Julio ordenra outro caustico. Havia agora na casa um movimento
allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem
pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluava pelos
cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para
rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o
doutor Barral.

E Luiza no entanto estava immovel; uma cr macilenta ia-lhe dando s
faces tons cavados e rigidos.

Julio extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de po.
Lembraram-se ento que desde a vespera no tinham comido, e foram 
sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa,
e ovos. Mas no achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava
rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na
borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha.

Depois d'um momento pousou devagarinho a colhr, desceu ao quarto.
Marianna estava sentada aos ps do leito: Jorge disse-lhe que fosse
servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos,
tomou uma das mos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte:

--Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. No estejas assim, faze por
melhorar. No me deixes n'este mundo, no tenho mais ninguem!
Perda-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. No me ouve, meu
Deus!

E olhava-a anciosamente. Ella no se movia.

Ergueu ento os braos ao ar n'uma desesperao allucinada.

--Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!--E arremessava a
sua alma para as alturas:--Ouve, meu Deus! Escuta-me! S bom!

Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre!
Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o leno que
lhe envolvia a cabea desarranjra-se, via-se o craneo rapado, d'uma
cr ligeiramente amarellada. Pz-lhe ento a mo na testa, hesitando,
com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para
fra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando
pausadamente as luvas.

--Doutor! Est morta! Veja. No falla, est fria...

--Ento! Ento!--disse elle--Nada de barulho, nada de barulho!

Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibrao
expirante d'uma corda.

Julio veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram
inuteis.

--J as no sente--disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos.

--Se se lhe dsse um copo de cognac?...--lembrou de repente Julio. E
vendo o olhar espantado do doutor:--s vezes estes symptomas de coma
no querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: podem ser apenas
a inaco da fora nervosa exhausta. Se a morte  irremediavel no
se perde nada; se  apenas uma depresso do systema nervoso, pde-se
salvar...

O doutor Caminha, com o beio descahido, oscillava incredulamente a
cabea:

--Theorias!--murmurou.

--Nos hospitaes inglezes...--comeou Julio.

O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo.

--Mas se o doutor lsse...--insistiu Julio.

--No leio nada!--disse o doutor Caminha com fora--tenho lido de mais!
Os livros so os doentes...--E curvando-se, com ironia:--Mas se o meu
talentoso collega quer fazer a experiencia...

--Um copo de cognac ou d'aguardente!--pediu Julio  porta.

E o doutor Caminha sentou-se commodamente para gozar o fracasso do
talentoso collega.

Levantaram Luiza; Julio fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram
ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o
relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o
doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das
extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapo comeou a calar
as luvas.

Jorge foi com elle at  porta:

--Ento, doutor?--disse, agarrando com uma fora desvairada o brao.

--Fez-se o que se pde--disse o velho, encolhendo os hombros.

Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas
vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percusso medonha no corao.
Debruou-se no corrimo, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os
olhos; Jorge pz as mos para elle, com uma anciedade humilde:

--Ento no  possivel mais nada?

O doutor fez um gesto vago, indicou o co.

Jorge voltou para o quarto, encostando-se s paredes. Entrou na alcova,
atirou-se de joelhos aos ps da cama, e alli ficou com a cabea entre
as mos n'um soluar baixo e continuo.

Luiza morria: os seus braos to bonitos, que ella costumava acariciar
diante do espelho, estavam j paralysados; os seus olhos, a que a
paixo dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob
a camada ligeira d'uma pulverisao muito fina.

D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma lamparina a uma gravura
de Nossa Senhora das Dres, e de joelhos rezavam.

O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario.

A campainha, ento, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a
figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as
suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente:

--Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe!

Explicou que encontrra por acaso o bom doutor Caminha, que lhe
contra a fatal occorrencia! Mas muito discretamente no quiz
entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente
o cotovlo sobre o joelho, a testa sobre a mo, dizendo baixo a D.
Felicidade:

--Continue as suas oraes. Deus  imperscrutavel em seus decretos.

Na alcova, Julio estivera tomando o pulso de Luiza; olhou ento
Sebastio, fez-lhe o gesto d'alguma cousa que va e desapparece...
Aproximaram-se de Jorge, que no se movia, de joelhos, com a face
enterrada no leito:

--Jorge--disse baixinho Sebastio.

Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos,
as olheiras escuras.

--V, vem--disse Julio. E vendo o espanto do seu olhar:--No, no est
morta, est n'aquella somnolencia... Mas vem.

Elle ergueu-se, dizendo com mansido:

--Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado.

Sahiu da alcova.

O Conselheiro levantou-se, foi abraal-o com solemnidade:

--Aqui estou, meu Jorge!

--Obrigado, Conselheiro, obrigado.

Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preoccupar-se
com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as
pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os,
passando-os d'uma das mos para outra, e disse com os beios a tremer:

--Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha!

Tornou a entrar na alcova. Mas Julio tomou-lhe o brao, queria-o
afastar do leito. Elle debatia-se dcemente; e, como uma vela ardia
sobre a mesinha ao p da cabeceira, disse, mostrando-a:

--Talvez a incommode a luz...

Julio respondeu commovido:

--J no a v, Jorge!

Elle soltou-se da mo de Julio, foi debruar-se sobre ella; tomou-lhe
a cabea entre as mos com cuidado para a no magoar, esteve a olhal-a
um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro,
outro, e murmurava:

--Adeus! Adeus!

Endireitou-se, abriu os braos, cahiu no cho.

Todos correram. Levaram-no para a _chaise-longue_.

E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto fechava os olhos de
Luiza, o Conselheiro, com o chapo sempre na mo, cruzava os braos, e
oscillando a sua calva respeitavel, dizia a Sebastio:

--Que profundo desgosto de familia!




XVIII


Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as criadas, foi para casa de
Sebastio.

N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio, muito abafado,
descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julio, que vinha de vr um
doente na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luiza, do
enterro, da afflico de Jorge.

--Pobre rapaz! Aquillo  que  soffrer!--disse Julio compadecido.

--Era uma esposa modlo!...--murmurou o Conselheiro.

De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastio, mas no
podra vr o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia
profundamente.

E acrescentou:

--Ultimamente lia eu que aos grandes golpes succedem sempre somnos
prolongados. Assim, por exemplo, Napoleo depois de Waterloo, depois do
grande desastre de Waterloo!

E passado um momento, continuou:

-- verdade. Fui vr o nosso Sebastio... Fui mostrar-lhe...--E
interrompendo-se, parando:--Porque eu entendi que era o meu dever
dedicar um tributo  memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, e no
me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, porque quero saber a sua
opinio conscienciosa e desassombrada.

Julio tossiu, e perguntou:

-- um necrologio?

-- um necrologio.

E o Conselheiro, apesar de no achar proprio, na sua posio, o entrar
em cafs publicos, lembrou a Julio que poderiam descanar um momento
no Tavares, se no estivesse muita gente, e elle poderia lr-lhe a
produco.

Espreitaram.

Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados defronte dos seus
cafs, com os chapos na cabea, apoiados a bengalas de cana da India.
O moo dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala
estreita.

--Ha um silencio propicio--disse o Conselheiro.

Offereceu um caf a Julio; e tirando ento do bolso uma folha de papel
pautado, murmurou:--Infeliz senhora!--Inclinou-se para Julio, e leu:


NECROLOGIO

 MEMORIA DA SNR.^a D. LUIZA MENDONA DE BRITO CARVALHO


        Rosa d'amor, rosa purpurea e bella,
    Quem entre os goivos te esfolhou na campa?


-- do immortal Garrett!--E continuou com uma voz lenta e lugubre:

... Mais um anjo que subiu ao co! Mais uma flr pendida na tenra
haste que o vendaval da morte, em sua inclemente furia, arremessou mal
desabrochada para as trevas do tumulo...

Olhou Julio para solicitar a sua admirao, e vendo-o curvado a
remexer o seu caf, proseguiu com entonaes mais funerarias:

--Detende-vos, e olhai a terra fria! Alli jaz a casta esposa to cedo
arrancada s caricias do seu talentoso conjuge. Alli sossobrou, como
baixel no escarco da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgaz
natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu
lar! Por que soluaes?

--Um caf,  Antonio!--bradou a voz rouca de um sujeito grosso, de
jaqueto, que se sentou ao p, pondo com ruido a bengala sobre a mesa e
deitando o chapo para o cachao.

O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz:

--...No soluceis! Que o anjo se no pertence  terra pertence ao
co!...

--O s Guedes esteve j por ahi?--perguntou a voz rouca.

O criado disse de traz do balco, limpando com uma rodilha as travessas
de metal:

--Ainda no, snr. D. Jos!

--...Alli--continuou o Conselheiro--seu espirito, librando-se nas
candidas azas, enta louvores ao Eterno! E no cessa de pedir ao
Omnipotente mercs e favores para derramar sobre a cabea do dilecto
esposo, que um dia, no duvideis, a encontrar nas regies celestes,
patria das almas de to subido quilate...--E a voz do Conselheiro
aflautava-se para indicar aquella ascenso paradisiaca.

--E hontem  noite esteve c, o s Guedes?--insistiu o sujeito de
jaqueto com os cotovlos sobre a mesa, fumando como uma chamin.

--Esteve tarde. L pelas duas horas.

O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo: por traz dos
vidros da luneta escura fusilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas
de author interrompido. Mas proseguiu:

--...E vs,  almas sensiveis, vertei as lagrimas, mas vertendo-as,
no percaes de vista que o homem deve curvar-se aos decretos da
Providencia...

E interrompendo-se:

--Isto  para dar coragem ao nosso pobre Jorge!--Continuou:--...da
Providencia. Deus conta mais um anjo, e a sua alma brilha pura...

--Esteve com a pequena, o s Guedes?--fez o sujeito, quebrando no
marmore da mesa a cinza do charuto.

O Conselheiro suspendeu-se pallido de raiva:

--Deve ser pessoa da mais baixa extraco--rosnou com odio.

E o criado erguendo a vozinha fina detraz do balco:

--Nada, no; tem vindo agora com uma hespanhola d'ahi de cima da rua.
Uma magrinha, com o cabello riado, uma capa vermelha...

--A Lola!--acudiu o outro com satisfao. E espreguiou-se com
voluptuosidade  recordao da Lola.

O Conselheiro agora apressava-se:

... E de resto, o que  a vida? Uma rapida passagem sobre o orbe, e um
vo sonho de que acordamos no seio do Deus dos Exercitos, de que todos
somos indignos vassallos.

E com esta phrase monarchica o Conselheiro terminou.

--Que lhe parece, com franqueza?

Julio sorveu o fundo da chavena, e collocando-a devagar no pires,
lambendo os beios:

-- para imprimir?

--Na _Voz Popular_, com tarjeta preta.

Julio coou convulsivamente a caspa, e erguendo-se:

--Est muito bom. Muito bom, Conselheiro!

E Accacio procurando o troco para o moo:

--Creio que est digno d'ella, e de mim!

E sahiram calados.

A noite estava muito escura: erguera-se um nordeste frio: gotas de
chuva tinham cahido. Ao Loreto, Julio parou subitamente; e exclamou:

--Ai esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? A D. Felicidade
recolhe-se  Encarnao.

--Ah!

--Disse-m'o agora. Eu fui justamente vl-a antes de ir vr um doente 
rua da Rosa. Estava com uma febresita. Cousa de nada... A commoo; o
susto! E deu-me parte: recolhe-se manh  Encarnao.

O Conselheiro disse:

--Sempre conheci n'aquella senhora idas retrogradas.  o resultado das
manobras jesuiticas, meu amigo!--E ajuntou com a melancolia do liberal
descontente:--A reaco levanta a cabea!

Julio tomou familiarmente o brao do Conselheiro, e sorrindo:

--Qual reaco!  por sua causa, ingrato...

O Conselheiro estacou:

--Que quer o meu nobre amigo insinuar?

--Sim, homem! No sei como diabo descobriu uma cousa grave...

--O que? Acredite...

--O que eu tambem descobri, seu magano! Que o Conselheiro tem duas
travesseirinhas na cama, tendo s uma cabea... Disse-m'o ella!--E
rindo muito, dizendo-lhe _adeus_! _adeus!_ desceu rapidamente a rua do
Alecrim. O Conselheiro ficou immovel, no largo, de braos cruzados,
como petrificado.--Que infeliz senhora! Que funesta paixo!--murmurou
emfim. E acariciou o bigode, com satisfao.

Como tinha de passar a limpo o _Necrologio_ apressou-se a entrar
em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as
responsabilidades de prosador distrahiram-no das preoccupaes
d'homem; e at s onze horas a sua bella letra cursiva e burocratica
desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglez, no
silencio do seu _Sanctus Sanctorum_. Terminava quando a porta rangeu,
e a Adelaide, com um chale forte pelos hombros, veio dizer, n'uma voz
constipada:

--Ento hoje no se faz nn?

--No tardo, minha Adelaide, no tardo!

E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe ento que o final no era
commovente: queria terminar por uma exclamao dolorosa, prolongada
como um _ai!_ Meditou, com os cotovlos sobre a mesa, a cabea entre os
dedos muito abertos: Adelaide ento, chegando-se devagar, passou-lhe a
mo pela calva: aquelle dce roar amoroso fez de certo saltar a ida
como uma faisca, porque tomou rapidamente a penna, e acrescentou:

--Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dr suffoca-me!

Esfregou as mos com orgulho. Repetiu alto n'um tom plangente:

--Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dr suffoca-me!--E passando o
brao concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou:

--Est de fazer sensao, minha Adelaide!

Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fra bem preenchido e digno: da
manh certificra-se com regosijo no _Diario do Governo_, que a familia
real passava sem novidade; cumprira o dever d'amigo, acompanhando
Luiza aos Prazeres n'uma carruagem da Companhia; a alta das inscripes
assegurava-lhe a paz da sua patria; compozera uma prosa notavel;
a sua Adelaide amava-o! E de certo se deliciou na certeza d'estas
felicidades, que contrastavam tanto com as imagens sepulchraes que a
sua penna revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar:

--A vida  um bem inestimavel!--E acrescentar como bom
cidado:--Sobretudo n'esta era de grande prosperidade publica!

E entrou no quarto com a cabea erecta, o peito cheio, os passos
firmes, erguendo alto o castial.

A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava canada da constipao
e--de uma hora de ternuras, que tivera  tardinha, com o louro e meigo
Arnaldo, caixeiro da _Loja da America_.


quella hora dous homens desciam d'uma carruagem  porta do Hotel
Central: um trazia uma _ulster_ de xadrez, o outro uma longa pellia.
Um omnibus quasi ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens.

Um criado allemo, que conversava em baixo com o porteiro,
reconheceu-os logo, e tirando o cco:

--Oh snr. D. Bazilio! Oh snr. visconde!

O visconde Reynaldo, que batia os ps nas lages, rosnou de dentro da
sua pellia:

-- verdade, aqui estamos outra vez na possilga!

Mas quella hora?

--A que horas queria voss que chegassemos? s horas da tabella,
talvez! Doze horas d'atrazo, essa bagatella! Em Portugal  quasi nada...

--Houve algum transtorno?--perguntava o criado com solicitude,
seguindo-os pela escada.

E Reynaldo, pisando com um p nervoso o esparto do corredor:

--O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre!
Abjecto paiz!...--E desabafava a sua clera com o criado: tel-a-hia
desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis:--Ha
um anno que a minha orao  esta: Meu Deus, manda-lhe outra vez o
terromoto! Pois todos os dias leio os telegrammas a vr se o terromoto
chegou... e nada! Algum ministro que cahe, ou algum baro que surge.
E de terremoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador s minhas
preces... Protege o paiz! To bom  um como outro!--E sorria, vagamente
reconhecido a uma nao, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilherias.

Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou--que no havia
seno um salo e uma alcova com duas camas, no terceiro andar--a clera
de Reynaldo no conheceu restrices:

--Ento havemos de dormir no mesmo quarto? Voss pensa que o snr. D.
Bazilio  meu amante, seu devasso? Est tudo cheio? Mas quem diabo
se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros?  justamente o que me
espanta!--E encolhendo os hombros com rancr.-- o clima,  o clima
que os attrahe! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima
pestifero. No ha nada mais reles de que um bom clima!...

E no cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto o criado  pressa,
sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um
frango frio e Bourgogne.

Reynaldo vinha vender a ultima propriedade, e acompanhra Bazilio que
voltava a terminar o seccante negocio da borracha. E no cessava de
rosnar soturnamente de dentro da pellia:

--Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro!

Bazilio no respondia. Desde que chegra a Santa Apolonia, recordaes
do _Paraiso_, da casa de Luiza, de todo aquelle romance do vero
passado, comeavam a voltar, a attrahil-o, com um encanto picante. Fra
encostar-se  vidraa. Uma lua fria, livida, corria agora entre grossas
nuvens cr de chumbo: s vezes uma grande malha luminosa cahia sobre a
agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreaes desenhavam-se
na obscuridade diffusa: e algum fanal de navio tremeluzia friamente.

--Que far ella a esta hora?--pensava Bazilio.--Naturalmente,
deitava-se... Mal sabia que elle estava alli, n'um quarto do Hotel
Central...

Cearam.

Bazilio levou a garrafinha de cognac para a cabeceira da cama: e com a
cara coberta de p d'arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos
sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma
lassido confortavel.

--E manh estou-te d'aqui a vr--disse Reynaldo.--Vaes-te logo metter
com a prima!

Bazilio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo tecto; certas
recordaes das bellezas d'ella, do seu temperamento amoroso,
trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade: espreguiou-se.--Que
diabo!--disse-- uma linda rapariga! Vale immenso a pena!--Bebeu mais
um calice de cognac, e d'ahi a pouco dormia profundamente. Era meia
noite.

quella hora Jorge acordava, e sentado n'uma cadeira, immovel, com
soluos canados que ainda o sacudiam, pensava n'ella. Sebastio, no
seu quarto, chorava baixo. Julio, no Posto Medico, estendido n'um
soph, lia a _Revista dos Dous Mundos_. Leopoldina danava n'uma
_soire_ da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as
nuvens e agitava o gaz dos candieiros ia fazer ramalhar tristemente uma
arvore sobre a sepultura de Luiza.


D'ahi a dous dias pela manh Bazilio, no Rocio, procurava, com o olhar
em redor, um _coup_ decente. Mas o Pintos, avistando-o de longe,
lanou logo a parelha. C est o Pintos, meu amo! Parecia encantado de
tornar a vr o snr. D. Bazilinho, e apenas elle lhe disse:

--L acima,  Patriarchal,  Pintos!

--A casa da senhora? Prompto, meu amo.--E endireitando-se na almofada,
bateu.

Quando a tipoia parou  porta de Jorge--o Paula sahiu para a rua, a
estanqueira correu de dentro do balco, a criada do doutor debruou-se
logo na janella. E immoveis arregalavam os olhos.

Bazilio tocra a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o
charuto, tornou a puxar o cordo com fora.

--As janellas esto trancadas, meu amo--disse o Pintos.

Bazilio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a
casa tinha um aspecto mudo.

Bazilio dirigiu-se ao Paula:

--Os senhores que alli moram, esto p'ra fra?

--J no moram--disse o Paula soturnamente, passando a mo sobre o
bigode.

Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonao funebre.

--Onde vivem agora ento?

O Paula escarrou, e cravando em Bazilio um olhar desolado:

--V. s.^a  o parente?

Bazilio disse sorrindo:

--Sou o parente, sou.

--Ento no sabe?

--O qu, homem de Deus?

O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabea:

--Pois sinto dizer-lh'o. A senhora morreu.

--Que senhora?--perguntou Bazilio. E fez-se muito branco.

--A senhora! A senhora D. Luiza, a mulher do snr. Carvalho, o
Engenheiro... E o snr. Jorge est em casa do snr. Sebastio. Alli ao
fim da rua. Se v. s.^a l quer ir...

--No!--fez Bazilio com um gesto rapido da mo. Os beios tremiam-lhe
um pouco.--Mas que foi?

--Uma febre! Rapou-a em dous dias!

Bazilio dirigiu-se ao _coup_ devagar, com a cabea baixa. Olhou mais
uma vez para a casa; fechou com fora a portinhola. O Pintos _bateu_
p'ra a Baixa.

O Paula ento aproximou-se do estanque:

--No lhe fez muita mssa! Fidalgos! Canalha!--murmurou.

A estanqueira disse lamentosamente:

--Pois eu no sou parenta, e todas as noites lhe rezo dous padre-nossos
por alma...

--E eu!--suspirou a carvoeira.

--Ha-de-lhe isso servir de muito!--rosnou o Paula, afastando-se.

Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquellas mortes na rua
traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres!
e todas as noites lia a _Nao_ que lhe emprestava o Azevedo,
repastando-se com rancor d'artigos devotos, que o exasperavam, o
impelliam para o atheismo; e o descontentamento das cousas publicas
inclinava-o para a communa. Como elle dizia, achava tudo uma _porcaria_.

Foi de certo sob este sentimento que, voltando  porta do estanque,
disse s visinhas com um ar lugubre:

--Sabem o que isto ? Sabem o que tudo isto ?--Fazia um gesto que
abrangia o universo. Fitou-as d'um modo irado, e rosnou esta palavra
suprema:

--Um monte d'estrume!


Ao descer a rua do Alecrim, Bazilio viu o visconde Reynaldo  porta do
hotel _Street_. Mandou parar o Pintos, e saltando do _coup_:

--Sabes?

--O qu?

--Minha prima morreu.

O visconde Reynaldo murmurou polidamente:

--Coitada!...

E foram descendo a rua, de brao dado, at ao Aterro. O dia estava
glorioso; um friosinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado
de sol, as casas, os galhos das arvores, os mastros das faluas, as
mastreaes dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons
sobresahiam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um
metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a
cr do leite; e ao fundo as collinas faziam na pulverisao da luz uma
sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam.

E os dous passeando devagar, iam fallando de Luiza.

O visconde Reynaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que
se tinha deixado morrer por um tempo to lindo!--Mas em resumo, sempre
achra aquella ligao absurda...

Porque emfim fossem francos: que tinha ella? No queria dizer mal da
pobre senhora que estava n'aquelle horror dos Prazeres, mas a verdade
 que no era uma amante _chic_; andava em tipoias de praa; usava
meias de tear; casra com um reles individuo de secretaria; vivia numa
casinhola, no possuia relaes decentes; jogava naturalmente o quino,
e andava por casa de sepatos d'ourello; no tinha espirito, no tinha
_toilette_... que diabo! Era um trambolho!

--Para um ou dous meses que eu estivesse em Lisboa...--resmungou
Bazilio com a cabea baixa.

--Sim, p'ra isso talvez. Como hygiene!--disse Reynaldo com desdem.

E continuaram calados, devagar. Riram-se muito d'um sujeito que passava
governando atarantadamente dous cavallos pretos:--Que phaeton! Que
arreios! Que estylo! S em Lisboa!...

Ao fundo do Aterro voltaram; e o visconde Reynaldo passando os dedos
pelas suias:

--De modo que ests sem mulher...

Bazilio teve um sorriso resignado. E, depois d'um silencio, dando um
forte raspo no cho com a bengala:

--Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine!

E foram tomar Xerez  _Taverna Ingleza_.


     Setembro 1876--Setembro 1877.


FIM




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+-------------------------+---------------------------+
  |          |        Original         |         Correco         |
  +----------+-------------------------+---------------------------+
  |#pg.  84 | Luzia                   | Luiza                     |
  |#pg. 130 | arrebitanto             | arrebitando               |
  |#pg. 155 | com ha-de d'estar?      | como ha-de d'estar?       |
  |#pg. 190 | p dos portas           | p das portas             |
  |#pg. 194 | enternciam-no           | enterneciam-no            |
  |#pg. 209 | Lepoldina               | Leopoldina                |
  |#pg. 215 | lacas                   | lascas                    |
  |#pg. 263 | concialibulo            | conciliabulo              |
  |#pg. 267 | Luzinha                 | Luizinha                  |
  |#pg. 316 | dsesperadamente         | desesperadamente          |
  |#pg. 328 | eperana                | esperana                 |
  |#pg. 333 | batendo-lho             | batendo-lhe               |
  |#pg. 337 | de de p                | de p                     |
  |#pg. 404 | Leolpodina              | Leopoldina                |
  |#pg. 404 | prodigiosomente         | prodigiosamente           |
  |#pg. 425 | Sabastio               | Sebastio                 |
  |#pg. 427 | engmomados              | engommados                |
  |#pg. 430 | Leolpodina              | Leopoldina                |
  |#pg. 456 | apparer                 | apparecer                 |
  |#pg. 457 | Julo                   | Julio                    |
  |#pg. 457 | ao ouvindo              | ao ouvido                 |
  |#pg. 472 | cous                   | cousa                     |
  |#pg. 477 | as palavra              | as palavras               |
  |#pg. 482 | quizessse               | quizesse                  |
  |#pg. 494 | voltou dizer            | voltou a dizer            |
  |#pg. 507 | apaixonado              | apaixonada                |
  |#pg. 512 | d'aqulla                | d'aquella                 |
  |#pg. 521 | susurrro                | susurro                   |
  |#pg. 558 | illsues                | illuses                  |
  +----------+-------------------------+---------------------------+

No existem os captulo XI e XIV nesta obra:
No havendo interrupo na paginao respeitmos a ordem da obra original.

A pgina 525 surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter
a ordem (aps verificao que no se tratava de uma pgina fora de stio).





End of Project Gutenberg's O Primo Bazilio, by Jos Maria Ea de Queirs

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMO BAZILIO ***

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1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation information page at www.gutenberg.org


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at 809
North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887.  Email
contact links and up to date contact information can be found at the
Foundation's web site and official page at www.gutenberg.org/contact

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit www.gutenberg.org/donate

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit:  www.gutenberg.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For forty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
