The Project Gutenberg EBook of Poesias, by Antnio Augusto Soares de Passos

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Title: Poesias

Author: Antnio Augusto Soares de Passos

Release Date: June 13, 2012 [EBook #39992]

Language: Portuguese

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POESIAS




POESIAS

POR

A. A. SOARES DE PASSOS


QUINTA EDIO


*PORTO*

EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR
Caldeireiros, 18 e 20

1870




TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31




A CAMES


Ai do que a sorte assignalou no bero
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus s geraes envia
Dizendo: vae, padece,  teu fadario,
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas no v que essa chamma abrazadora
Que o cerca d'esplendor, tambem devora
          Seu peito solitario.


Pairar nos cos em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glorias,
E vr passar quaes sombras illusorias
Essas imagens de fulgor divino:
Taes so vossos destinos,  poetas,
Almas de fogo que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Cames, tal foi na terra
          Teu misero destino.


A cruz levaste desde o bero  campa:
Esgotaste a amargura at s fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo genio a desventura.
Combateste com ella como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalavel magestade
          Lhe resiste segura.


Foste grande na dr como na lyra!
Quem soube mais soffrer, quem soffreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos ps cahiste da viso querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flr de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
          Jmais colheste em vida.


Sob a couraa que cingiste ao peito
Do peito ancioso suffocaste a chamma,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o naufrago arremessa
Sobre inhospita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou  vida,
          E s injurias da sorte.


De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, t o mar profundo
Conspirados achavas em teu damno.
Ave canora em solido gemendo,
Tiveste o genio por algoz ferino:
Teu alento immortal era divino,
          Perdeste em ser humano:


Indicos valles, solides do Ganges,
E tu,  gruta de Macau, sombria,
Vs lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
D'esses hymnos que o tempo no consome.
Foi l, n'essa rocha solitaria,
Que o vate desterrado e perseguido,
 patria ingrata, que lhe dera o olvido,
          Deu eterno renome.


Cantemos! disse, e triumphou da sorte.
Cantemos! disse, e recordando glorias,
Sobre o mesmo theatro das victorias,
Bardo guerreiro, levantou seus hymnos.
Os desastres da patria, a sua quda
Temendo j no meditar profundo,
Quiz dar-lhe a voz do cysne moribundo
          Em seus cantos divinos.


E que sentidos cantos! d'Ignez triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pde o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta;
No brado heroico da guerreira tuba
O valor portuguez sa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
          Inda hoje o mundo espanta!


Mas ai! a patria no lhe ouvia o canto!
Da patria e do cantor findava a sorte:
Aos dous juraram perdio e morte,
E os dous juntaram na manso funerea...
Ingratos! ao que alando a voz do genio
Alm dos astros nos erguera um solio,
Decretaram por louro e capitolio
          O leito da miseria!


Ninguem o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
Dae esmola a Cames, dae-lhe um abrigo!
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovidio, Tasso, estranhos cysnes,
Vs que sorvestes do infortunio a taa,
Vinde depr as c'ras da desgraa
          Aos ps do cysne luso!


Mas no tardava o derradeiro instante...
O raio ardente que fulmina a rocha,
Tambem a flr que n'ella desabrocha,
Cresta, passando, co'as ethereas lavas:
Que scena! em quanto ao longe a patria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De misero hospital n'um pobre leito,
          Cames, tu expiravas!


Oh! quem me dera d'esse leito  beira
Sondar teu grande espirito n'essa hora,
Por saber, quando a mgoa nos devora,
Que dr pde conter um peito humano;
Palpar teu seio, e n'esse estreito espao
Sentir a immensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento
          Nas ondas do oceano!


O amor da patria, a ingratido dos homens,
Natercia, a gloria, as illuses passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pallido rosto j pendido;
E a patria, oh! e a patria que exaltras
N'essas canes d'inspirao profunda,
Exhalando comtigo moribunda
    Seu ultimo gemido!


Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procella que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presagio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os pe a nado,
E esquecido de si morre abraado
          Aos restos do naufragio:


Assim, da patria que baixava  tumba,
Em cantos immortaes salvando a gloria,
E entregando-a dos tempos  memoria,
Como em gigante pedestal segura:
Patria querida, morreremos juntos!
Murmurou em accento funerario,
E envolvido da patria no sudario
          Baixou  sepultura.


Quebrando a louza do feral jazigo,
Portugal resurgiu, vingando a affronta,
E inda hoje ao mundo sua gloria aponta
Dos cantos de Cames no eterno brado;
Mas do vate immortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa em vo procura
          Seu tumulo ignorado.


Nenhuma pedra ou inscripo ligeira
Recorda o gran cantor... porm calemos!
Silencio! do immortal no profanemos
Com tributos mortaes a alta memoria.
Cames, grande Cames, foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perda:
Que valem mausolus ante a cora
          De tua eterna gloria?




O OUTOMNO


Eis j do livido outomno
Pesa o manto nas florestas;
Cessaram as brandas festas
Da natureza lou.
Tudo aguarda o frio inverno;
J no ha cantos suaves
Do montanhez, e das aves,
Saudando a luz da manh.


Tudo  triste! os verdes montes
Vo perdendo os seus matizes,
As veigas os dons felizes,
Thesoiro dos seus casaes;
Dos crestados arvoredos
A folha scca e myrrhada,
Cahe ao spro da rajada,
Que annuncia os vendavaes.


Tudo  triste! e o seio triste
Comprime-se a este aspecto;
No sei que pezar secreto
Nos enluta o corao.
 que nos lembra o passado
Cheio de vio e frescura,
E o presente sem verdura
Como a folhagem do cho.


Lembra-nos cada esperana
Pelo tempo emmurchecida,
Mil aureos sonhos da vida
Desfeitos, murchos tambem;
Lembram-nos crenas fagueiras
Da innocencia d'outra idade,
Mortas  luz da verdade,
Creadas por nossa me.


Lembram-nos doces thesoiros
Que tivemos, e no temos;
Os amigos que perdemos,
A alegria que passou;
Lembram-nos dias da infancia,
Lembram-nos ternos amores,
Lembram-nos todas as flres
Que o tempo  vida arrancou.


E depois assoma o inverno,
Que lembra o glo da morte,
Das amarguras da sorte
Ultima gota fatal...
 por isso que estes dias
Da natureza cadente,
Brilham n'alma tristemente
Como um cyrio funeral.


Mas animo! aps a quadra
De nuvens e de tristeza,
Despe o luto a natureza,
Revive cheia de luz:
Aps o inverno sombrio,
Vem a florea primavera,
Que novos encantos gera,
Nova alegria produz.


Os arvoredos despidos
Se revestem de folhagem;
Ao spro da branda aragem
Rebenta no campo a flr;
Tudo ao vl-a se engrinalda,
Tudo se cobre de relva,
E as avesinhas na selva
Lhe cantam hymnos d'amor.


Animo pois! como  terra,
Tambem  nua existencia,
Vem, aps a decadencia,
s vezes tempo feliz;
E a vida gelada, esteril,
Que o spro da morte abala,
Desperta cheia de gala,
Cheia de novo matiz.


Animo pois! e se acaso
Nosso destino inclemente,
Em vez de jardim florente,
Nos aponta o mausolo;
Se a primavera do mundo
J morreu, j no se alcana,
Tenhamos inda esperana
Na primavera do co!




O NOIVADO DO SEPULCHRO

BALLADA


Vae alta a lua! na manso da morte
J meia noite com vagar soou;
Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte
S tem descano quem alli baixou.


Que paz tranquilla!... mas eis longe, ao longe
Funerea campa com fragor rangeu;
Branco phantasma, semelhando um monge,
D'entre os sepulchros a cabea ergueu.


Ergueu-se, ergueu-se!... na amplido celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cypreste,
O mocho pia na marmorea cruz.


Ergueu-se, ergueu-se! com sombrio espanto
Olhou em roda... no achou ninguem...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou alm.


Chegando perto d'uma cruz alada,
Que entre os cyprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se, e com a voz magoada
Os eccos tristes acordou assim:


Mulher formosa que adorei na vida,
E que na tumba no cessei d'amar,
Porque atraias desleal, mentida,
O amor eterno que te ouvi jurar?


Amor! engano que na campa finda,
Que a morte despe da illuso fallaz:
Quem d'entre os vivos se lembrra ainda
Do pobre morto que na terra jaz?


Abandonado n'este cho repousa
Ha j tres dias, e no vens aqui...
Ai quo pesada me tem sido a lousa
Sobre este peito que bateu por ti!


Ai quo pesada me tem sido! e em meio,
A fronte exhausta lhe pendeu na mo,
E entre soluos arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixo.


Talvez que rindo dos protestos nossos,
Goses com outro d'infernal prazer;
E o olvido, o olvido cobrir meus ossos
Na fria terra, sem vingana ter!


--Oh nunca, nunca! de saudade infinda
Responde um ecco suspirando alm...
Oh nunca, nunca! repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braos tem.


Cobrem-lhe as frmas divinaes, airosas,
Longas roupagens de nevada cr;
Singela c'ra de virgineas rosas
Lhe cerca a fronte d'um mortal pallor.


No, no perdeste meu amor jurado:
Vs este peito? reina a morte aqui...
 j sem foras, ai de mim, gelado,
Mas inda pulsa com amor por ti.


Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
Da sepultura, succumbindo  dr:
Deixei a vida... que importava o mundo,
O mundo em trevas sem a luz do amor?


Saudosa ao longe vs no co a lua?
--Oh vejo, sim... recordao fatal!
--Foi  luz d'ella que jurei ser tua,
Durante a vida, e na manso final.


Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
Hoje o sepulchro nos reune emfim...
Quero o repouso do teu frio leito,
Quero-te unido para sempre a mim!


E ao som dos pios do cantor funereo,
E  luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulchral mysterio
Foi celebrado, d'infeliz amor.


Quando risonho despontava o dia,
J d'esse drama nada havia ento,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mo.


Porm mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado p,
Dous esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados n'um sepulchro s.




DESEJO


Oh! quem nos teus braos podra ditoso
          No mundo viver,
Do mundo esquecido no languido goso
          D'infindo prazer.


Sentir os teus olhos serenos, em calma,
          Fallando d'alm,
D'alm! d'uma vida que sonha minha alma
          Que a terra no tem.


Eu dera este mundo, com tudo o que encerra,
          Por tal galardo:
Thesouros, e glorias, os thronos da terra,
          Que valem, que so?


A sde que eu tenho no morre apagada
          Com tal aridez:
Podsse eu ganhal-os, e iria seu nada
          Depr a teus ps.


E s desejando mais doce victoria,
          Dizer-te: eis-aqui
Meu sceptro e sciencia, thesouros e gloria:
          Ganhei-os por ti.


A vida, essa mesma daria contente,
          Sem pena, sem dr,
Se um dia embalasses, um dia smente,
          Meu sonho d'amor.


Isenta do lao que ao mundo nos prende,
          A vida que val?
A vida  s vida se o amor n'ella accende
          Seu doce fanal.


Aos mundos que eu sonho podsse eu comtigo,
          Voando, subir;
Depois, que importava? depois no jazigo
          Sorrira ao cahir.




BOABDIL

ULTIMO REI MOURO DE GRANADA


De Granada nas torres j se ergue
O pendo de Castella temido;
Boabdil, o rei mouro vencido,
Deixa a terra em que ha pouco reinou.
Do Padul s alturas chegado,
Fez parar o seu timido bando,
E o corcel andaluz volteando
Taes adeuses  patria mandou:


Ai Granada, l ficas entregue
Para sempre aos guerreiros de Christo!
Quem teus fados houvera previsto,
 sultana de tanto poder?
Acabou-se o dominio dos crentes
N'este solo to bello de Hespanha;
No ha fora de heroica faanha
Que nos possa das ruinas erguer.


De Toledo, de Cordova, e Murcia,
De Jan, de Baza, e Sevilha,
Eras tu,  gentil maravilha,
Que inda as glorias fazias lembrar.
E perdemos-te,  flr do occidente,
Do Xenil  princeza formosa!
E curvamos a fronte orgulhosa
Ns, os filhos valentes d'Agar!


Deus o quiz! nossa raa punindo
Fez baixar o seu anjo da morte,
E das iras d'Allah no transporte
Baqueou nossa altiva nao!
Nossos odios civis nos perderam,
N'este abysmo fatal nos lanaram,
E nem mesmo o valor nos deixaram
De morrermos com nosso pendo.


 guerreiros das eras passadas,
Vencedores da Hespanha descrida,
L n'esse eden feliz da outra vida,
Vossas faces cobri de rubor!
Este brao que ousou vossos louros
Arrastar ante os ps de Fernando,
No ousou n'este peito nefando
Embeber um punhal vingador!


Deshonrado, do throno banido,
Que me resta por sorte futura?
Uma vida cobarde e obscura
No paiz em que outr'ora fui rei...
Nunca, nunca! o destino contrario
D'alm-mar nosso bero me aponta:
L irei resgatar-me da affronta,
L dos bravos a morte haverei.


Para sempre adeus pois,  Granada!
Adeus, muros, e torres vermelhas
Que brilhaes como vivas centelhas
Nas verduras de tanto jardim!
Adeus, paos e fontes d'Alhambra!
Adeus, altas, soberbas mesquitas!
E vs, thronos das luas proscriptas,
 Comares,  forte Albaicim!


Para sempre, ai, adeus! t  morte
Vivers n'este peito,  Granada!
Mas debalde,  manso adorada,
Que estes olhos jmais te ho de vr...
Acabou-se o dominio dos crentes
N'este solo to bello de Hespanha;
No ha fora de heroica faanha
Que nos possa das ruinas erguer.


Disse, e o pranto nas faces corria
Do rei mouro, dos seus que restavam.
Longe ao longe as trombetas soavam
Em Granada j feita christ:
Era o canto d'alegre triumpho
Em redor dos pendes de Fernando;
Era o grito d'Allah desterrando
Das Hespanhas os crentes do Islm.




CANO


Que noite d'encanto!
Que lucido manto!
Que noite! amo tanto
Seu mudo fulgor!
Oh! vem,  donzella;
No temas,  bella,
Que  noite s vela
Quem sonha d'amor.


A luz infinita
Dos astros, crepita,
Arqueja e palpita,
Serena a brilhar:
Assim o teu seio,
De casto receio,
De timido enleio,
Costuma pulsar.


A lua, qual chamma,
Que os seios inflamma,
Fanal de quem ama,
Desponta no co;
E a nitida fronte
Retrata na fonte,
E estende no monte
Seu candido vo.


E a fonte murmura
Por entre a verdura,
E ao longe d'altura
L desce a gemer:
Que sons, que folguedos!
Parece aos rochedos
Dizer mil segredos
D'infindo prazer.


Silencio! o trinado
L solta enlevado,
Das noites o amado,
Da selva o cantor;
E o hymno que enta
No bosque resa,
E ao longe reva
Gemendo d'amor.


O facho da lua
Co'a sombra fluctua,
Avana e recua
No cho do jardim;
Nas azas da aragem,
Que agita a folhagem,
Recende a bafagem
Da rosa e jasmin.


Que noite d'encanto!
Que lucido manto!
Que noite! amo tanto
Seu mudo fulgor!
Oh! vem,  donzella;
No temas,  bella,
Que  noite s vela
Quem sonha d'amor.




 PATRIA

AO MEU AMIGO A. C. LOUSADA

(1852)


                      Esta  a ditosa patria minha amada.
                                           Cames--_Lus._


Esta  a ditosa patria minha amada!
Este o jardim de matizadas flres,
Onde os cos com a terra abenoada
Rivalisam nas galas e primores.


Este o paiz das tradies brilhantes,
Onde cresceu a palma da victoria,
Onde o mar conta s praias sussurrantes
Longinquos feitos d'extremada gloria.


Esta a nao de laureada frente,
Esta a ditosa patria minha amada!
Ditosa e grande quando foi potente,
Hoje abatida, sem poder, sem nada.


Patria minha, que tens, que em desalento
Vergas a fronte que alterosa erguias?
Porque fitas o glido moimento,
Perdida a fora dos antigos dias?


Que fizeste do genio destemido
Com que domavas esse mar profundo,
E sorrias das vagas ao rugido,
Ignotas praias descobrindo ao mundo?


Onde est esse vasto capitolio
De tuas glorias, o soberbo oriente,
L onde erguida em triumphante solio
Empunhavas teu sceptro refulgente?


Ento eras tu grande! os reis da terra
Derramavam-te aos ps os seus thesouros;
O mar saudando teus pendes de guerra,
Gemia ao pso de teus verdes louros.


Ento de lanas e d'heroes cercada,
Avassallando a India e a Africa ardente,
A cada golpe da valente espada
Mais uma palma te adornava a frente.


Ento prostradas mil hostis phalanges,
Retumbava o fragor de teus combates
Desde as praias de Ceuta alm do Ganges,
Fazendo estremecer o Nilo e Euphrates.


Ento eras tu grande! hoje esquecida,
Um ecco apenas de teu nome sa;
Nos braos da victoria adormecida,
Perdeste o sceptro e a magestosa c'ra.


Os fortes pulsos entregaste aos laos
Da tyrannia e rude fanatismo,
E descahidos os potentes braos,
Caminhaste sem foras ao abysmo.


Um livro apenas te ficou,  triste,
Por epitaphio da passada gloria;
Tudo o mais acabou, j nada existe
De tanto resplendor, mais que a memoria.


Das quinas os pendes j no revoam,
Aguias altivas, sujeitando os mares;
Teus gritos de victoria, ai! j no soam
Na Lybia e nos gangeticos palmares.


Naes obscuras quando o mundo inteiro
J tuas glorias aprendido tinha,
Vendo apagado teu ardor guerreiro,
Arrancaram teu manto de rainha.


E repartindo entre ellas seus pedaos,
E soltando depois feroz risada,
Disseram ao passar, cruzando os braos:
Oh! como essa nao jaz aviltada!


E teus heroes nas tumbas inquietos,
Vendo insultadas tuas altas glorias,
Agitaram seus frios esqueletos,
Despedaando as lapides marmoreas.


E cada qual das pregas do sudario,
Erguendo a dextra que empunhra a lana,
De p sobre o jazigo funerario,
Com torva indignao bradou: vingana!


Debalde! ao vrem sem valor as quinas,
Elles murmuram nas geladas campas:
Tu, quem sabe? ditosa te imaginas,
E em tua historia mil baldes estampas.


Nao que dormes do sepulchro  borda,
Ergue-te, surge como outr'ora ovante!
Teu genio antigo, teu valor recorda,
E aprende n'elle a caminhar vante!


Se longos annos d'oppresso funesta
Te pesaram na fronte hoje abatida,
No seio de teus filhos inda resta
Fogo bastante para dar-te vida.


Longe da senda que gerou teu damno,
Desata o vo por espaos novos;
E o ardor que te levou alm do oceano,
Alm te levar dos outros povos.


Ah! possa, possa ainda a meiga aurora
D'esse dia feliz brilhar-me pura!
Possa esta lyra, que teus males chora,
Dar-te cantos de gloria e de ventura!


Mas ah! se negra pagina sombria
Tens de volver em teus crueis fadarios,
Se o archanjo das ruinas ha de um dia
Pairar sobre os teus restos solitarios:


Terra da minha patria, ouve o meu brado,
Se inda da vida me restar o alento,
Tu que foste meu bero idolatrado,
S minha tumba em teu final momento!




ROSA BRANCA


Eu amo a rosa branca das campinas,
A branca rosa que ao soprar do vento
Languida verga para o cho pendida.


Como a rosa dos valles, pura e bella
Nos campos da existencia ella floria,
Como a rosa dos valles que inda envolta
No orvalho da manh, desdobra o calix
Ao sol nascente, perfumando as auras.
A idade das paixes mal despontava
Em seu meigo horisonte. Estava ainda
No declinar da melindrosa infancia,
D'essa quadra feliz em que a existencia
 sonho encantador, em que os momentos
Se deslizam na vida como as aguas
De brando arroio, humedecendo os prados.
Mas quo formosas j, quo seductoras,
Por entre as graas da mimosa infancia,
As graas juvenis lhe transluziam!


Com as socias da infancia ao vl-a s tardes
Vagando em seu jardim, vs a dissereis
A aucena viosa entre as boninas,
Ou, entre os lumes da siderea noite,
A estrella da manh. E, todavia,
Ignorava o poder de seus encantos:
No mundo que a cercava, outras imagens,
Outros amores no sonhava ainda,
Alm de sua me que a idolatrava,
De seu pequeno irmo, de suas flres.


E eu amava aquelle anjo como se amam
Os sonhos d'innocencia d'outra idade,
Ou como essas vises, que nos enlevam,
De mundos d'harmonia a que aspiramos.


Vi-a uma vez, ao descahir da tarde,
No jardim assentada ao p da fonte,
Olhando o tenro irmo, que em seu regao
Depozera as boninas que ajuntra.
No regao tambem, junto das flres,
Repousava, serena dormitando,
A pomba que ella amava, e que sem medo
Viera procurar to doce ninho.
Nunca a meus olhos se mostrou to bella,
To cheia d'innocencia. D'alvas roupas
Suas frmas angelicas cingidas,
Se desenhavam, em gentil contorno,
Nas verdes murtas que o jardim ornavam:


Parecia qual cysne repousando
Entre a verdura, de seu lago  beira.
Uma rosa nevada, como as roupas,
Lhe adornava as madeixas cr da noite,
As formosas madeixas que n'essa hora
Contrastavam mais negras, e mais bellas,
Co'a leve pallidez que reflectia,
Em seu rosto adoravel e sereno,
O claro melancolico da tarde.
Com terna languidez a face meiga
Recostava na mo, curvado o brao,
Em quanto com a outra ora afagava
Sua pomba querida, ora os cabellos
Compunha ao doce infante, que, sorrindo,
Uma aps outra lhe mostrava as flres.


Ao vl-a assim formosa, ao vr o grupo
Que fazia com ella o par mimoso,
A mente arrebatada afigurou-m'a
Celeste archanjo que baixra ao mundo
A recolher as oraes da tarde,
E que o infante e a pomba achando juntos,
E a innocencia do co vendo na terra,
Dos irmos se esquecra e alli ficra.


Archanjo d'innocencia, ai foge, foge!
No te illuda este mundo onde poisaste,
Este mundo fallaz, de ti indigno,
Que tuas azas de brancura estreme


Com seu veneno talvez manche um dia.
Archanjo d'innocencia, ai foge! foge!
Procura teus irmos, reva  patria!


E fugiu, e voou. No mesmo sitio,
Uma tarde tambem junto da fonte,
A me a foi achar ssinha e triste.
A suas plantas uma rosa branca
Jazia desfolhada: era das flres
A flr que mais queria. Ao vr ao lado
A me que idolatrava, estremecra.
Pobre innocente! receiou acaso
No poder por mais tempo disfarar-lhe
Seu cruel padecer. A ardente febre
Lhe devorava o seio, e no gemia.
Mas seu dia chegava... A exhausta fronte
Lhe pendeu sem alento, e immersa em pranto,
No regao da me sumiu a face,
Que j cobria a pallidez da morte.
Tres dias depois d'este a flr mimosa
Que as grinaldas celestes invejavam,
Cahia desfolhada no sepulchro.


Eu amo a rosa branca das campinas,
A branca rosa que ao soprar do vento
Languida verga para o cho pendida.




ENFADO


Dos homens ai quem me dera
Longe, bem longe viver!
Junto de mim s quizera,
Como eu sonho, um anjo ter.
Que esse anjo surgisse agora,
E o mundo folgasse embora
Em seu nefando prazer.


Que vista! cede a innocencia
 voz do crime traidor;
Folga a devassa impudencia,
Nas faces no ha rubor.
Traz o vicio a fronte erguida,
E a virtude, sem guarida,
Geme transida de dr.


Vo ao templo da cubia,
Vo todos sacrificar:
Consciencia, f, justia,
Tudo lhe deixam no altar.
Devora-os a sde d'ouro;
O seu deus  um thesouro,
Porque o viver  gosar.


E que importa que o infante
Morra  fome, e o ancio?
Que importa que gema errante
O proletario, sem po?
Oh! que importa que o talento
Esmorea ao desalento?
Que val do genio o condo?


Proclamou-se a lei do forte:
A lei do fraco  gemer.
Ai do triste a quem a sorte
Fez entre espinhos nascer!
 um dogma a tyrannia,
A liberdade heresia,
A servido um dever.


Que tempos, que tempos estes!
Quem ha de viver assim
N'um mundo que rasga as vestes
Do justo, no seu festim?
Quem ha de? mas esperana!
Um dia foge, outro avana,
E a redempo vem no fim.


Hoje, porm, quem me dera
Longe dos homens viver!
Junto de mim s quizera,
Como eu sonho, um anjo ter.
Que esse anjo surgisse agora,
E o mundo folgasse embora
Em seu nefando prazer.




ANHELOS


Que immenso vacuo n'este peito sinto!
Que arfar eterno de revolto mar!
Que ardente fogo, que jmais extincto
Smente afrouxa para mais queimar!
Ai! esta sde que meu peito rala,
Talvez a apague mundanal prazer:
Alli ao menos poderei fartal-a,
Ou n'um lethargo sem paixes viver.


Mas d'essa taa j provei... no quero!
Quero deleites que inda no senti...
A lucta, os riscos d'um combate fero!
Talvez encantos acharei alli.


A lucta, os riscos, em aco travadas
Guerreiras hostes disputando o cho;
O sangue em jorros, o tinir d'espadas,
O fumo e o fogo do voraz canho!
Alli os gsos d'um feroz delirio,
 luz das armas, sentirei em mim,
Ou n'uma d'ellas o funereo cyrio
Que  paz dos mortos me conduza emfim.


Mas no, no quero sobre a terra escrava
A vis tyrannos immolar o irmo...
O mar, o mar, que em sua furia brava
Ninguem domina com servil grilho!


O mar, o mar! sobre escarcos revoltos
Em fragil lenho fluctuar me apraz,
Ao som das vagas e dos ventos soltos,
E das centelhas ao claro fugaz.
Alli sorrindo da feroz tormenta,
E dos abysmos que me abrir aos ps,
Dentro d'esta alma de prazer sedenta
Sublime gso sentirei talvez.


Mas o mar livre tem um leito ainda
Que os meus anhelos poder soster...
O espao, o espao! na amplido infinda
Talvez que possa o corao encher.


O espao, o espao! qual ligeiro vento
Irei lanar-me n'esse mar sem fim,
E a longos tragos aspirar o alento,
Sentir a vida que desejo em mim...
Ora aguia altiva, desprezando o solo,
O rei dos astros buscarei ento,
Ora entre as neves do gelado polo
Voarei nas azas do veloz tufo.


Mas solitario, sem cessar errante,
De que valra na amplido correr?...
A gloria, a gloria, que em painel brilhante
Me off'rece a imagem d'um maior prazer!


A gloria, a gloria! mil trophos ganhados,
Mil verdes palmas e laureis tambem;
Triumphos, c'ras e sonoros brados
Da turba-- elle!--repetindo alm...
Ento em sonhos d'uma vida infinda
Verei a chamma d'immortal pharol,
Que em meu sepulchro resplandea ainda,
Bem como a lua quando  morto o sol.


Mas no, que a inveja com a voz mentida
A luz em sombras poder tornar...
O amor, o amor, que redobrando a vida,
A vida n'outrem me far gosar!


O amor, o amor, celestial perfume
Que a mo dos anjos sobre ns verteu,
Doce mysterio que n'um s resume
Dous pensamentos aspirando ao co!
O amor, o amor, no mentiroso incenso
Que em frios labios s no mundo achei,
Mas immutavel, mas sublime e immenso
Qual em meus sonhos juvenis sonhei...


O amor! s elle poder n'esta alma
Risonhas crenas outra vez gerar,
De minha sde mitigar a calma,
E inda fazer-me reviver, e amar.




O FILHO MORTO


No povo d'alm da serra
Vai a noite em mais de meio,
E a pobre da me velava
Unindo o filhinho ao seio.


Acorda, meu filho, acorda,
Que esse dormir no  teu;
 como o somno da morte
O somno que a ti desceu.


Tarda-me j um sorriso
Nos teus labios de rubim;
Acorda, meu filho, acorda,
Sorri-te ledo p'ra mim.


Mas o infante moribundo
Em seu regao expirou;
E a me o cobriu de beijos,
E largo tempo chorou.


Em seu pequeno jazigo
Dous dias chorou tambem;
Ao terceiro o sino triste
Dobrou  morte d'alguem.


E  noite no cemiterio
Outro jazigo se via:
Era a me que ao p do filho
Na sepultura dormia.




SOCRATES


J proximo do occaso vae descendo
          O sol ao mar inquieto,
Os moribundos raios estendendo
          Nas alturas do Hymeto;
E Socrates, sentado sobre o leito,
          Inda aos alumnos falla,
No silencio geral notando o effeito
          Da razo que os abala.
A verdade sublime lhes revela
          Em palavras ignotas,
Suaves como a voz de Philomela,
          Ou do cysne do Eurotas.
Cebes, o proprio Cebes emmudece,
          Simmias j no duvida:
Nos olhos do inspirado resplandece
          Um Deus e a eterna vida!


Mas o sol expirava: era o momento
          Que Athenas decretra:
Cumpre os deuses vingar: o sabio attento
           morte se prepara.
Os discipulos tremem contemplando
          O dia j no resto;
Eis o servo dos onze entra chorando
          No carcere funesto.
O circulo cruzando, a bronzea taa
          A Socrates estende;
O philosopho a empunha com a graa
          Que nos festins resplende.
Ergamos, disse, nossa prece quelle
          Que ao longe nos convida,
Por que seja feliz por meio d'Elle
          A viagem temida.
E aproximando intrepido e sereno
          A liquida cicuta,
Como nectar a esgota, e do veneno
          Entrega a taa enxuta.


Um lamento geral, um s transporte
          Percorre em torno o bando
Dos alumnos fieis, chorando a sorte
          Do mestre venerando.
Apollodoro geme; succumbindo,
          Criton lhe corresponde;
Phdon abaixa os olhos, e carpindo
          No manto o rosto esconde.


Elle sem vacillar, elle smente,
          Sorrindo  turba anciada;
Amigos, que fazeis? um sol fulgente
          Me luz em nova estrada.
De presagios felizes rodeemos
          Os ultimos instantes!
Chore quem no tem f: ns que j crmos,
          Ns sejamos constantes!
Disse, e deixando o leito em que jazia
          Sereno move o passo,
Que o veneno lethargico devia
          Obrar pelo cansao.
Das grades se aproxima, olha o Parthnon,
          Olha os muros d'Athenas,
O Phalro, o Pireu e as que lhe acenam
          Regies so serenas;
Olha os cos, olha a terra, a luz do dia
          Expirando nas vagas,
E de harmonias taes se ergue  harmonia
          De mais ditosas plagas.
Depois, volvendo ao leito, diz a tudo
          O adeus da dspedida;
Cobre o rosto c'o manto, e aguarda mudo
          O instante da partida.


O veneno progride, e j do effeito
          Redobra a intensidade;
Dos membros se apodera, sobe ao peito,
          E o corao lhe invade.


Estremeceu! do gelido trespasse
          Era emfim a agonia...
O executor lhe descobriu a face:
          Socrates no vivia!


Triumpha, cega Athenas, ao martyrio
          O sabio condemnaste,
E d'olympicos deuses no delirio
          A razo engeitaste;
 voz do Areopgo,  voz de ferro
          Suffocaste a doutrina:
A verdade succumbe, a sombra do erro
          No mundo predomina.


Mas que estrella futura se levanta
          Rasgando a escuridade?
Que palavra resa, e o mundo espanta
          Prgando a alta verdade?
 elle,  elle, o promettido s gentes
          Na voz das prophecias!
Curvae,  geraes, curvae as frentes
          Ao verbo do Messias!




A***


Acaso s tu a imagem vaporosa
Que me sorriu nos sonhos d'outra idade,
Como a luz da manh sorri formosa
Nos espaos azues da immensidade?
s tu esse astro que minha alma anhela,
Que debalde busquei no mar da vida,
Qual busca o nauta bonanosa estrella
No meio da procella enfurecida?
Ah! se s esse ente que meu ser domina,
Se s essa estrella que meu fado encerra,
Se s algum anjo da manso divina
          Pairando sobre a terra;
J que baixaste a mim, j que a meu lado
Me apontaste sorrindo o ethereo vo,
No me deixes na terra abandonado,
          Transporta-me ao teu co!




ULTIMOS MOMENTOS DE ALBUQUERQUE

AO MEU AMIGO A. AYRES DE GOUVEIA


Companheiros, sinto a morte
Pairando j sobre mim;
Cessaram vaivens da sorte,
Deso  terra, d'onde vim...
Do calix da desventura
Eis esgotada a amargura;
No leito da sepultura
Terei descano por fim.


Terei: a campa  um asylo
Que ao impio deve aterrar,
Mas eu dormirei tranquillo
Sob a lagea tumular.
Eu... desgraado, que digo!
Nem l espero um abrigo,
Que os meus restos no jazigo
Iro talvez insultar.


Murmurando: aqui repousa
Um desleal portuguez,
Iro partir minha lousa,
Meu nome calcar aos ps:
E o guerreiro que descana
No poder, por vingana,
Brandir na dextra uma lana,
Cingir ao peito um arnez...


Quaes foram, rei, os meus crimes
Para haver tal galardo?
Por que a fronte assim me opprimes
Com a tua ingratido?
De vis intrigas cercado
Ouviste seu impio brado.
E sobre as cans do soldado
Lanaste negro baldo.


No merecia tal premio
Quem debaixo d'este co,
Da roxa aurora no gremio,
Um novo imperio te deu;
Quem  custa d'uma vida
Nas batalhas consumida,
Ante as quinas abatida
A India inteira rendeu.


Por dar-te a c'ra brilhante
Que em tua fronte reluz,
Fiz a meus ps arquejante
Cahir a opulenta Ormuz;
Malaca sentiu meu raio,
E em Ga, roto o Sabaio
Entre o sangue, entre o desmaio,
Alcei o pendo da cruz.


Ento desde o Nilo ao Ganges
Cem povos armados vi,
Erguendo torvas phalanges
Contra mim e contra ti;
Vi os filhos do deserto
Em ondas rugindo perto;
Mas com ferro em campo aberto
s suas iras sorri.


Contra as lanas portuguezas
A India luctou em vo,
Que em troca d'ouro e riquezas
Veio comprar seu grilho.
Aos golpes de meus soldados
Vi seus thronos abalados,
Vi ante mim ajoelhados
Reis d'Onor e de Sio.


Mas d'Asia no pde o ouro
Cegar-me com seu fulgor,
Porque a honra  o thesouro
Dos meus passados, senhor.
Eu quiz adornar-te a frente
C'um diadema refulgente:
Ganhei o sceptro do Oriente,
E a teus ps o fui depr.


N'esses campos de batalha
Onde audaz o conquistei,
Das armas sob a mortalha
Porque exangue no findei?
Entre os louros da victoria
Morrra ao menos com gloria;
Do teu soldado a memoria
No a manchras,  rei.


Eu desleal?! se meus brados
Podem chegar at vs,
Erguei-vos, restos sagrados
De meus extinctos avs!
Erguei-vos da campa fria,
E com sangue,  luz do dia,
Lavae a ndoa sombria
Que arrojaram sobre ns!


Eu desleal... mas ao mundo
Que vale queixas mandar?
As vozes d'um moribundo
No vo na terra eccoar...
Surge,  morte!... e vs, amigos,
Socios de tantos perigos,
Vinde... nem s inimigos
Me restam ao expirar.


No reino vos deixo um filho:
Nossos feitos lhe ensinae;
Dizei-lhe qual foi o trilho
Que em vida seguiu seu pae...
Dizei-lhe qual foi meu norte;
Mas, em quanto  minha sorte,
Oh! no lhe aponteis a morte,
A vida s lhe apontae...


E se fallardes um dia
A dom Manoel, o feliz,
Dizei-lhe que na agonia
Albuquerque o no maldiz;
Que  beira da sepultura,
Para um filho sem ventura,
Invoco sua ternura,
Se alguns servios lhe fiz.


E vs... e vs, portuguezes,
Nossa patria defendei;
Dae-lhe os peitos por arnezes,
Seja a patria vossa lei.
N'um throno que ella no tinha
Eu vol-a deixo rainha,
Mas no sei o que adivinha
Meu pensamento... no sei.


Entre as sombras do futuro,
Meu Deus! a patria em grilhes!
Pelo mar em vo procuro
Seus orgulhosos pendes...
Coberta d'amargo pranto,
L se envolve em negro manto...
L roja a face em quebranto...
Ella, a grande entre as naes!


Oh! se este brao podra
A fria lousa quebrar,
Este brao inda se ergura
Da tumba, para a salvar;
Apontando-lhe a vingana,
Inda lhe dera esperana,
E empunhando a antiga lana,
 morte a fra arrancar.


Mas eis marcado o momento
No livro d'alm dos cos...
Eis a morte... o passamento...
So findos os dias meus...
Companheiros de victoria,
De tantos dias de gloria,
Guardae... guardae na memoria,
D'Albuquerque o extremo adeus...


A morte... a morte... que anceio!
Sinto um glo sepulchral...
Abre-me,  terra, o teu seio,
Quero o repouso final...
Desce, guerreiro canado,
Desce ao tumulo gelado...
Mas a affronta... deshonrado...
India... filho... Portugal!...




A TI


Oh! quo formoso me surge o dia
L quando a noite se inclina ao mar,
Quando na aurora, que me extasia,
Teu bello rosto cuido avistar!
No sei que esp'rana jmais sentida
Ento me adeja no peito aqui;
 que na aurora sado a vida,
Outr'ora escura, sem luz, sem ti.


Correm as horas, a noite avana,
A lua brilha com meigo alvor;
Ento minha alma, que em paz descana,
Divaga em sonhos d'ignoto amor.
No vo d'estrellas, na branca lua
Meus olhos buscam olhos que eu vi,
E o pensamento longe fluctua,
E uma saudade reva a ti.


Eis que adormeo, e um anjo assoma
Todo cercado d'etherea luz;
De seus cabellos recende o aroma
Das castas rosas que o co produz.
O co me aponta, sorri-lhe a face;
Acordo, e o anjo foge d'alli;
Mas em meu peito logo renasce
Doce esperana que vem de ti.


J pela terra surgem verdores,
Auras serenas baixam do co,
As aves cantam novos amores,
Tudo se cobre d'um floreo vo;
E cos e terra, montes, paizagem,
Tudo a meus olhos, tudo sorri;
 que alli vejo s tua imagem,
E que hoje vivo mas s por ti.


Talvez que eu sinta meu pobre enleio
Passar qual brilho de luz fugaz:
Que importa? ao menos dentro em meu seio,
J morta a esp'rana, tu vivers.
Oh! sim, que os dias so mais serenos
Com tua imagem gravada alli;
T mesmo a morte custar menos,
Junto ao sepulchro pensando em ti.




INFANCIA E MORTE


 me, o que fazes? em cama to fria
No durmas a noite... saiamos d'aqui...
Acorda! no ouves a pobre Maria,
Pequena, ssinha, chorando por ti?


Porque  que fugiste da nossa morada,
Que alveja saudosa no monte d'alm?
Depois que tu dormes na terra gelada,
Quo s ficou tudo mal sabes,  me.


A nossa janella no mais foi aberta,
O fogo apagou-se na cinza do lar,
As pombas so tristes, a casa deserta,
E as flores da Virgem se vo a murchar.


Oh! vamos, no tardes... mas tu no respondes...
Em vo todo o dia meu pranto correu;
No fundo da cova teu rosto me escondes,
No ouves, no fallas... que mal te fiz eu?


Escuta! na torre de frestas sombrias
O sino da ermida comea a tocar...
Acorda! que o toque das Ave-Marias
 imagem da Virgem nos manda rezar.


A lampada exhausta de Nossa Senhora
Ficou apagada, precisa de luz:
Oh! vem accendl-a, e  Me que se adora
Alli rezaremos, e ao Filho na cruz.


Depois  costura, sentada a meu lado,
Tu has de contar-me, bem junto de mim,
Aquellas historias d'um rei encantado,
De fadas e moiras, d'algum cherubim.


A d'hontem foi triste, pois triste fallavas
De vida e de morte, d'um mundo melhor;
E o rosto cobrias, e muda choravas,
Lanando teus braos de mim ao redor.


Depois em silencio teus olhos fechaste,
To pallida e fria qual nunca te vi;
Chamei-te era dia, mas no acordaste,
E em quanto dormias trouxeram-te aqui.


Oh! vamos, no tardes, que as noites sombrias,
Sem ti a meu lado, me causam pavor;
Acorda! que o toque das Ave-Marias
Nos diz que rezemos  Me do Senhor.


Taes eram as queixas da pobre Maria...
O sino da ermida cessou de tocar...
E a me entretanto dormia, dormia;
Do somno da morte no pde acordar.


Tres dias, tres noites a filha ssinha
No adro da egreja por ella chamou...
Ao fim do terceiro j fora no tinha;
Da me sobre a campa, gemendo, expirou.




O CANTO DO LIVRE

AO MEU AMIGO ALEXANDRE BRAGA


Gema embora a terra inteira
Acurvada a iniquas leis:
Esta fronte sobranceira
Jmais de rojo a vereis.
Oh! ninguem, ninguem a esmaga,
Que eu sou livre como a vaga,
Que sacode sobre a plaga
O jugo d'altos baixeis.


Liberdade  o mote escripto
No co, na terra, e no mar!
Dil-o a fra no seu grito,
E as aves cruzando o ar;
Dil-o o vento da procella,
A vaga que se encapella,
E nos espaos a estrella
Em seu continuo gyrar.


Dil-o tudo! mas ainda
Mais livre me creou Deus
Que os astros da altura infinda,
Os ventos, e os escarcos.
Eu tenho mais liberdade
D'esta alma na immensidade,
Pois tenho n'ella a vontade,
Tenho a razo, luz dos cos.


Eu sou livre! erguendo a fronte
Diz-m'o uma voz na amplido,
Quando de p sobre o monte
Me elevo rei da soido;
Quando alm do firmamento
Alando meu pensamento,
Solto nas azas do vento
Meu canto d'inspirao.


Eu sou livre! eis minha crena,
Nem fora contra ella val.
Que um tyranno emfim me vena:
Triumpharei por seu mal.
Triumpharei, que algemado
E diante d'elle arrastado,
Sou livre! ser meu brado
T ao momento final.


E que importa que o tyranno,
Jurando vingana atroz,
Faa erguer, sorrindo ufano,
Um cutelo  sua voz?
Minha fronte sempre erguida
Ha de encaral-o atrevida,
E s cahir abatida
Ao rolar aos ps do algoz.


Mas nunca! pois fra um preito
Dar os pulsos ao grilho.
Tenho um ferro, e n'este peito
Tenho um livre corao!
No! jmais serei captivo!
Se vencido restar vivo,
Cahirei, sorrindo altivo,
Sob o punhal de Cato!




SAUDADE


Assim, pallida lua, assim teu rosto
Fulgurava tranquillo n'essa noite
Em que o adeus lhe murmurei sentido;
Quando, aps os momentos preciosos
Em que inda pude vl-a, inda escutal-a,
Afoitando meu animo indeciso,
Sua trmula voz me disse: parte...
Em tanto que uma lagrima furtiva
Lhe escorria na face melindrosa,
Mais pallida que a tua...


                              Astro saudoso;
Astro da solido, quanto me aprazes!
Eu amo o teu silencio, amo o teu brilho,
Mais que do sol os importunos raios.
Que me importa d'esse astro a luz e a vida,
Se a luz e a vida me ficaram longe?
Se em meio do rumor que o dia espalha,
A voz no ouo que responde  minha?


Estes valles, e selvas, estes montes,
 luz do dia, so talvez formosos;
Mas no  este o ar que ella respira,
No so estes os sitios que ella encanta
Com seu mago sorriso. O dia  mudo;
Porm tu surges, solitaria amiga,
Tu vens fallar-me d'ella, astro saudoso.


Lua, d'esse aureo throno onde campeias,
Tu vs os sitios caros. Que faz ella?
Acaso, como pomba fatigada,
Repousa adormecida? Verte,  lua,
Verte-lhe em torno o perfumado alento
Que a noite rouba s orvalhadas flres.
Mas no; talvez agora em mim pensando,
Agora mesmo sobre o teu semblante
Ella fixa tambem os olhos tristes,
E nossos pensamentos, nossas vistas
Se confundem em ti. Oh! no podermos,
Adejando como elles n'esse espao,
Embora por momentos confundir-nos
Em teu regao, deslembrando a ausencia!
Ao menos, astro amigo, ordena, ordena
Que o anjo da saudade, que em ti mora,
Desa, e lhe diga o que minha alma sente.


Oh! quando solto d'importunos laos,
Demandando outros cos, hei de j livre
Vl-a, ouvil-a, fallar-lhe? Quem o sabe?


Mas tu entanto, confidente meiga,
Em cada noite vem fallar-me d'ella;
E em meu peito sombrio e solitario
Derrama, envolto no teu doce brilho,
O balsamo suave da esperana.
Assim possas tu ser, benigna deusa,
A invocada dos tristes; e se acaso
Amas tambem, se algum remoto lago
Entre floridas margens escondido
Te prende as affeies, possas tu sempre
No crystallino azul de suas aguas
Sem nuvens espelhar teu rosto ameno!




AMOR E ETERNIDADE


Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descanar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
No pde a fria tumba desunil-os.
Oh! quo saudosa a virao murmura
          No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerarias!
E o sol, ao descahir l no occidente,
          Quo bello lhes fulgura
          Nas campas solitarias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharo flres...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam tambem nossos amores!


Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lirio que ao sol posto
          Desmaia nas campinas?
Oh! vem, no perturbemos a ventura
Do corao, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de ns essa lembrana!
Mas no receies o funesto crte...
          Doce amiga, descana:
Quem ama como ns, sorri  morte.
          Vs estas sepulturas?
          Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
          A regies mais puras.
No, a chamma que o peito ao peito envia
No morre extincta no funereo glo.
O corao  immenso: a campa fria
 pequena de mais para contl-o.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espao e uma breve idade;
E o amor tem por patria o co e a terra,
          Por vida a eternidade!




O ESCRAVO


Tremes, escravo? baqueias
Entre os muros da priso?
Vergado sob as cadeias
Rojas a fronte no cho?
J da turba ao longe o grito
Pede teu sangue maldito:
Sentes, escravo proscripto,
Vacillar teu corao?


No sinto! nada perturba
Minha alegria feroz:
Nem o bramir d'essa turba,
Nem a lembrana do algoz.
Vinguei-me! nada me aterra.
Curvae-vos, homens da terra!
Contra mim jurastes guerra;
Guerra jurei contra vs.


Eu era livre sem mta
Como as ondas l no mar;
Era livre como a sta
Quando sibila no ar:
Foi vossa avidez tyranna
Que me algemou deshumana.
 minha pobre choupana!
 florestas do meu lar!


Alm, alm nas florestas,
Foi alm onde eu nasci;
Onde sem prises funestas
J venturoso vivi.
Foi dos bosques na espessura
Que eu tive amor e ternura;
Mas liberdade e ventura,
Patria, amor, tudo perdi.


Perdi tudo! alm da morte
J no me resta ninguem.
Tinha um pae: a negra sorte
Do filho soffreu tambem.
Trouxe da patria distante
O ferreo jugo aviltante,
Inda eu era tenro infante
Nos braos de minha me.


Minha me!... oh! quantas vezes
Me vinha a triste abraar,
E carpindo os seus revezes
Fitava os olhos no mar!
Seu pranto cahia ardente,
Em bagas, na minha frente;
E eu, pobre infante innocente,
Chorava de a vr chorar.


Mais tarde, quando o navio
Me trazia  escravido,
Nas praias do mar bravio
Eu a vi cahir no cho;
Via-a atravz dos espaos,
Morrendo, estender-me os braos...
Sacudi meus ferreos laos;
Mas, ai de mim! era em vo.


Perdi-a! s me restava
A virgem do meu amor,
Que a mulher que eu adorava
Quiz partilhar minha dr.
Mas tinha sua belleza
S d'um escravo a defeza...
Devia, oh raiva! ser prza
De meu infame senhor.


E eu, soberbo vezes tantas,
Curvei-me d'aquella vez:
Arrastei s suas plantas
Minha feroz altivez.
Debalde! que o vil tyranno
Escarneceu do africano;
Maldio! vaidoso, ufano,
Meu amor calcou aos ps.


-- minha, s minha a escrava:
A ti, pertence o grilho:--
Disse, e o sangue me escaldava
No fundo do corao.
Da vingana a torva imagem
Me sorriu, me deu coragem,
No meu gemido selvagem
Rugiu irado o leo.


Era noite!--negro sonho
Que d'estes olhos no sae!--
Era noite! em co medonho
Vi tua sombra,  meu pae...
Rojando um grilho pesado,
Teu espectro ensanguentado
Se ergueu sombrio a meu lado,
Sem dar um gemido, um ai...


T que alando a voz:--meu filho!
Meu filho!--bradaste emfim,
E os olhos turvos, sem brilho,
Tinhas cravados em mim...
Eu quiz lanar-me em teus braos,
Quiz cingir-te em doces laos;
Mas, fugindo aos meus abraos,
Volvias a olhar-me assim.


Foste escravo... teu destino,
Tua morte compr'hendi,
E um nome, o do assassino,
Delirando te pedi;
Mas sem attender a nada,
Erguendo a dextra myrrhada,
--Vingana!--com voz irada
Bradaste, e no mais te vi.


Sim, vingado foi teu sangue
Por este brao a final,
Que um d'elles cahiu exangue
Aos golpes do meu punhal.
Era amargo o fel da taa:
Vinguei a nossa desgraa
N'um dos tigres d'essa raa,
No sangue do meu rival.


Vinguei o meu e teu jugo!
Que importam ferreos grilhes,
O cadafalso e o verdugo,
O supplicio e as maldies?
Entre os gsos da vingana
Reluz emfim a esperana;
J no receio a lembrana
De seus cruentos baldes.


Sinto correr-me nas veias
O fogo que lhe ateei...
Quebrai-vos, duras cadeias,
Escravo no mais serei...
Sou livre! a morte o proclama
N'este peito que se inflamma...
J n'elle circula a chamma
Do veneno que eu tomei!




O ANJO DA HUMANIDADE


Era na estancia crystallina e pura,
Que alm do firmamento rutilante
Se ergue longe de ns, e est segura
Em milhes de columnas de diamante;
Jerusalm celeste onde fulgura
Do eterno dia o resplendor constante,
E onde reside a gloria e magestade
D'Aquelle que pova a immensidade.


Na manso mais recondita e profunda
A soberana Essencia o throno encerra,
D'onde a fonte de amor brota fecunda,
Os astros animando, os cos e a terra;
Um mar de luz seus penetraes circumda,
Que o proprio archanjo deslumbrado aterra,
Luz que em triangulo ardente se condensa
Quando o Eterno os oraculos dispensa.


Por toda a parte o azul e as pedrarias
Na cidade divina resplandecem;
Mil arcadas de soes, mil galerias
De brilhantes estrellas, a guarnecem;
Os anjos em lustrosas jerarchias
Nas harpas d'ouro melodias tecem,
Outros em cros adejando vam,
E d'aromas e canto o co povam.


Eis de repente nos umbraes divinos,
Sobre as azas pairando, um anjo entrava,
Parecendo de sitios peregrinos
Que s regies celestes assomava;
Cruzando o empyreo, as legies, e os hymnos,
Qual rapido luzeiro perpassava,
T que chegando ao throno do Increado,
Nos ultimos degraus ficou poisado.


Pelos eburneos hombros o cabello
Em annelladas ondas lhe cahia;
A saphira das azas sobre o glo
Das roupagens luzentes refulgia.
Mais brilhante no , no  mais bello,
Comparado com elle, o astro do dia,
Ou a estrella que brilha quando a aurora
De purpurina luz o co colora.


Ao throno augusto levantou a frente,
Mas com as azas a toldou ancioso,
No podendo soster o brilho ardente
Que despedia o fco luminoso.
A milicia dos anjos resplendente
Fixou attenta seu irmo formoso;
Os concertos pararam, e elle entanto
Assim fallou entre o geral espanto:


Eterno Ser, que as divinaes moradas
Enches de gloria em magestoso assento,
Fonte de vida e creaes variadas,
Que ds ao mundo poderoso alento;
A cujo acno tremem abaladas
As columnas do ethereo firmamento,
E cujo nome, que o universo enta,
No co, na terra, e nos abysmos sa!


Por teu mando supremo destinado
A conduzir a humana descendencia,
Desde que a mancha do cruel peccado
A fez cahir da primitiva essencia:
Venho a final, Senhor, de teu mandado
Dar-te conta fiel, apz a ausencia;
Fazer-te ouvir da humanidade os prantos,
E aguardar teus preceitos sacrosanctos.


Ordenaste-me,  Deus, que sempre attento,
Proseguisse na terra a lei sob'rana
Que rege, na amplido do firmamento,
A creao que de teu seio emana:
Essa lei de progresso e movimento
Tenho cumprido na familia humana,
Desde que ao mundo, a combater seu fado,
O desterrado do eden foi lanado.


Primeiro, sobre a terra esclarecendo
Seus duvidosos passos vacillantes;
Depois, o justo e seu baixel sostendo,
Nas aguas do diluvio sussurrantes:
De novo  terra, de pavor tremendo,
Conduzindo mais puros habitantes;
Mais tarde, junto ao bero do Messias,
Annunciando ao mundo novos dias.


Agora, sobre as ruinas d'um imperio
Outro imperio de novo edificando;
Agora, as povoaes d'um hemispherio
Sobre as d'outro hemispherio derramando;
J do teu Verbo o divinal mysterio,
Com as sanctas doutrinas, propagando;
J mostrando por fim  humanidade
Nova luz de justia, e de verdade.


Quantos velhos sophismas desterrados!
Quantos idolos falsos em ruinas!
Quantos sabios triumphos alcanados!
Quantas conquistas immortaes, divinas!
Calcando o p dos seculos passados,
O homem corre ao fim que lhe destinas;
Mas ah! Senhor, no meio da tormenta
Seu valor esmorece e desalenta.


Seu valor esmorece! tantas lidas,
Tanto luctar continuo das idades,
Tanto sangue e martyrios, tantas vidas,
Tantas ruinas d'imperios e cidades:
E o homem soffre, e as geraes perdidas
Se revolvem n'um mar de tempestades,
Sem vr luzir esse fanal jucundo
Que por teu Filho prometteste ao mundo.


Quantos males ainda! a lei sublime,
A lei d'amor que derramou teu Verbo,
Sobre a face da terra,  voz do crime,
Succumbe e morre por destino acerbo,
O ferreo jugo que as naes opprime,
Os humildes abate, ergue o soberbo,
E o rei da terra, sobre a terra escravo,
Soffre mesquinho seu eterno aggravo.


Por toda a parte, em lastimoso accento,
Se ouve gemer a humanidade afflicta.
A terra, a me commum, nega alimento
Dos filhos seus  multido proscripta:
Emquanto folga em vicios o opulento
A indigencia cruel na choa habita,
E a me, a me ao peito, em desalinho,
Aperta morto  fome o seu filhinho.


Entanto a guerra, que a ambio ateia,
Ensanguenta as campinas e as cidades;
A crua peste, que ninguem refreia,
Converte as povoaes em soledades;
D'estes males crueis a terra cheia,
Cobre-se inda de mil iniquidades;
O vicio, o crime, a corrupo devora
A pobre humanidade, como outr'ora.


Ao vr tanta miseria, o bom padece,
O mau blasphema de teu nome sancto,
A voz dos inspirados esmorece,
O futuro se envolve em negro manto...
Eu mesmo, eu mesmo, recolhendo a prece
Que a humanidade te dirige em pranto,
Subi confuso ao eternal assento,
A depr a teus ps meu desalento.


Disse, e um gemido d'afflico pungente,
Semelhante a dulcisona harmonia,
Soltou do peito, reclinando a frente
Com celeste e ideal melancholia:
Assim pendendo ao longe no occidente,
Se reclina saudoso o astro do dia;
Assim reclina a pallida aucena,
Aoitada do vento, a fronte amena.


Depois continuando:  Deus, quem ha de
Sondar mysterios que teu seio esconde!
Tuas leis divinaes, tua vontade
Cumprirei sobre a terra. Eia responde:
Os passos da mesquinha humanidade
Aonde os levarei, Senhor, aonde?
Uma voz retumbou no co radiante,
Que ao anjo respondeu, dizendo:--VANTE!




PARTIDA


Ai, adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado;
Sa a hora, o momento fadado;
 foroso deixar-te e partir.
Quo formosos, quo breves que foram
Esses dias d'amor e ventura!
E quo cheios de longa amargura
Os da ausencia vo ser no porvir!


Olha em roda estas margens virentes:
J o outomno lhes despe os encantos;
Cedo o inverno com gelidos mantos
Baixar das montanhas d'alm.
Tudo triste, sombrio, e gelado,
Ficar sem verdura nem flres:
Tal meu seio, privado d'amores,
Ficar de ti longe tambem.


No sei mesmo, no sei se o destino
Me dar que eu te abrace na volta...
Ai! quem sabe onde a vaga revolta
Levar meu perdido baixel?
Sobre as ondas, sem norte, e sem rumo,
Aoitado por ventos funestos,
Sumir por ventura seus restos
Nas voragens d'ignoto parcel.


Mas ah! longe esta ideia sombria!
Longe, longe o cruel desalento!
Apz dias d'amargo tormento
Viro dias mais bellos talvez.
D-me ainda um sorriso em teus labios,
Uma esp'rana que esta alma alimente,
E na volta da quadra florente
Eu co'as flres virei outra vez.


Mas se as flres dos campos voltarem
Sem que eu volte co'as flres da vida,
Chora aquelle que em tumba esquecida
Dorme ao longe seu longo dormir;
E cada anno que o spro do outomno
Desfolhar a verdura do olmeiro,
Lembra-te inda do adeus derradeiro,
D'este adeus que te disse ao partir!




CANTO DE PRIMAVERA


Eis surge a quadra flrida,
A quadra dos amores,
Vertendo almos fulgores
De seio juvenil.
Tudo revive ao hlito
Que a natureza aquece;
Tudo rejuvenesce
 luz do ameno abril.


Os bosques odoriferos
Se cobrem de verduras:
Nos montes e planuras
Renasce a tenra flr;
Dos perfumados zephyros
s musicas suaves
Se juntam das mil aves
Os canticos d'amor.


Salv, estao esplendida,
 luz appetecida,
Que  terra dando vida,
A tudo ds prazer!
Minha alma em doces extasis
Festeja a tua vinda,
E se ergue  luz infinda,
Manancial do ser.


D'onde,  calor benefico,
Derivas teu alento?
E d'onde o movimento
Que ds  creao?
Do fco sempre vvido
Que anima a natureza
Por toda a redondeza
Da terra, e da amplido.


Como nos campos fulgidos
Espalha essas estrellas,
Assim as flres bellas
Nos campos terreaes:
Quo bello,  Providencia,
 teu poder fecundo,
Enchendo o vasto mundo
D'alentos immortaes!


Debalde o immenso vortice
Retoma quanto gera:
Tudo se regenera
No perennal crisol,
E tudo canta harmonico
O Ser que, das alturas,
Aos glos d verduras,
s sombras novo sol.


Cantae,  aves mdulas,
Cantae em cro ledo!
Murmurios do arvoredo,
Cantae a Jehovah!
Campinas aromaticas,
Erguei-lhe os mil perfumes
Das flres em cardumes
Que a primavera d!


Abriu-se o tabernaculo
Da terra florescente;
Todo sorri fulgente,
Todo respira amor:
Resoem n'elle os canticos
De mystica harmonia,
Dizendo noite e dia:
--Hosanna ao Creador!




CATO


Como em tarde anuviada,
Em tarde de negros vos,
Para a terra contristada
Sorri o iris nos cos;
Mas quando o sol esmorece,
O iris desapparece,
Tudo  negra escurido;
O mar ruge e se encapella,
E nas azas da procella
Corre bramindo o trovo:


Tal ao sol da liberdade
Que sobre Roma luziu,
Qual iris em tempestade,
Cato  patria sorriu.
Mas esse astro que fulgente
Das aguias brilhra  frente,
Do Capitolio baixou;
E elle, o iris de bonana,
Elle, de Roma a esperana,
Com seu fulgor expirou.


Contra as iras da tormenta,
 forte, luctaste em vo:
Que pde a virtude isenta
Contra a geral corrupo?
J no luziam virtudes
Como nos seculos rudes
D'essa Roma consular;
O templo da tyrannia
A seus ministros abria
As portas de par em par.


Inda infante, viste Mario
De Roma o sangue beber;
E envolvida n'um sudario
A pobre Italia gemer.
Viste Sylla, o monstro infando,
Entre as cabeas folgando,
Qual tigre no seu festim;
E, infante, bradaste ufano:
--Dae-me um ferro, e do tyranno
Livremos a patria emfim!--


No t'o deram: que lucrava
O teu valor juvenil?
D'um tyranno outro brotava,
Nascia a guerra civil.
Enxuto de Roma o pranto,
Eis que envolto em negro manto
L surge um conspirador:
Scintilla a morte, a ruina
No punhal de Catilina,
De Catilina, o traidor.


Surge, vibora gerada
Dos vicios no lodaal!
Sobre Roma descuidada
Lana o veneno fatal!
Eia, empunha o facho ardente!
Entrega a patria innocente
Aos punhaes da tua grei!
E entre o sangue,  luz do incendio,
N'um throno de vilipendio
Vem sentar-te como rei!


Mas treme! l sa o brado
De Marco Tullio, orador.
Treme! Cato no senado
J dos teus vence o furor.
Succumbiste, algoz ferino!
Oh! mas vinga-te o destino
Que Roma jurou perder.
Cato, cobre-te de luto,
Que da Gallia j escuto
A guerra civil descer!


Gerou-a o triumvirato,
Esse monstro d'ambio;
Que as eras de Cincinnato,
Essas eras j l vo.
D'olhos fitos sobre a Italia
Eis desce o leo de Gallia,
E Arimino j tomou.
 Cezar! eil-o que assoma:
Abre-lhe as portas,  Roma,
Que s tuas portas chegou!


Eil-o parte, e j na Hespanha,
Os tres legados venceu!
S em Dyrrachio lhe ganha
A espada do gro Pompeu.
Os mortos jazem aos centos:
Sobre os seus restos sangrentos
Um homem chora:  Cato.
 elle que alli deplora
Essa guerra assoladora,
Guerra d'irmo contra irmo.


A liberdade expirava:
O corao lh'o prediz.
Roma, a livre, Roma escrava
Ia dobrar a cerviz.
No se enganou: l troveja
O fragor d'alta peleja
Em Pharsalia inda uma vez;
Pompeu vacilla e fraqueia;
A liberdade baqueia
De Julio Cezar aos ps.


Eil-a que expira, eil-a morta...
Oh que no! resurge alm!
Cato  vivo: que importa
Quanto Cezar ganho tem?
De Pharsalia aos naufragantes
Sobre as areias distantes
Da Lybia surge um fanal:
So d'elle, d'elle as bandeiras
Juntando as rotas fileiras
Para um combate final.


Mas Cezar l corre ovante,
Vence Juba e Scipio;
Tudo ante elle vacillante
Se prostra emfim: maldio!
No tarda a hora funesta:
De liberdade s resta
Dentro d'Utica um fulgor.
Inda Cato l impera:
 l que o vencido espera
As iras do vencedor.


Que venha, que ao seu aceno
Curvado no ha de vr
Aquelle rosto sereno,
Que nunca soube tremer.
Caminha, Cezar altivo,
E achars em teu captivo,
Em vez de preito, o desdem!
Sabes vencer, porm corre,
Vem saber como se morre,
Aprende a morrer tambem!


Cato, Cato, eis chegado
O momento de partir!
Com que rosto socegado
Te vejo  morte sorrir!
Antes do golpe supremo
Tu paras inda no extremo
A meditar com Plato:
Assim a aguia alterosa
D'alta penha cavernosa
Mede sublime a amplido.


E depois assim como ella,
Das nuvens rompendo o vo,
Adeja sobre a procella,
Deixa a terra, e busca o co:
Tal co'a dextra sempre ousada
Cravando no seio a espada,
Partiste d'alma os grilhes;
E d'entre os vaivens da sorte
Voaste, calcando a morte,
s ethereas regies.


Cezar vence, e ao Capitolio
L sobe triumphador;
Roma cahe do altivo solio,
Rojando aos ps d'um senhor.
Cato, o livre, expirra...
No suspiro que exhalra
A liberdade voou.
Comeava o negro imperio
Que um Caligula, um Tiberio,
Um Nero, monstro, gerou.


Elle entanto, sepultado
Nas praias junto do mar,
L dormia descanado
Sob a lagea tumular.
Alli a queixosa vaga
Vinha, rolando na plaga,
Beijar do livre a manso;
E inda fallar com saudade,
Da patria, da liberdade,
 estatua de Cato.




IMITAO DO ISLANDEZ


Um dia eu te dizia:--se roubada
Me fres, vem buscar-me--e tu no crias
Que eu podsse abraar-te inanimada,
Beijar teus olhos, tuas mos j frias.


Mas eu no te amaria, se inconstante
Te podsse esquecer na sepultura;
Desbotou-se o frescor de teu semblante,
Mas inda adoro tua imagem pura.


Apagou-se em teus labios o ar da vida,
Mas um spro immortal veio animar-te;
E tu inda s formosa, inda s querida
Ao que na terra comeou a amar-te.


No me deixes em misero abandono;
Escuta ao longe, escuta a minha prece:
Quando uma noite a virao do outomno
Gemer em nossas rochas, apparece!


E se a lua brilhar, se de passagem
Me estenderes a mo d'etherea alvura,
Eu surgirei por vr a tua imagem,
Por ouvir tua voz serena e pura.


Depois, anjo celeste, no meu seio
Repousa a fronte, aperta-me em teus braos;
Deixa que eu te acompanhe sem receio,
D'esta existencia desatando os laos.


Sobre a aurora do polo arrebatados
Vamos, no seio d'immortaes venturas,
Em nuvens d'ouro e purpura embalados,
Cantar, sonhar, dormir n'essas alturas.




 MORTE

DO MEU AMIGO LICINIO F. C. DE CARVALHO


Morreste, amigo, partiste
D'esta manso passageira!
Bem depressa da carreira
Tocaste a mta fatal!
Com a folhagem dos bosques
Gelou-te o vento do outomno,
E dormes o longo somno
Do teu leito sepulchral!


J tua mo extremosa
No aperta a mo do amigo
Que tantas vezes comtigo
Em sonhos vos delirou.
No seio da fria terra
J no me escutas nem fallas,
Contando lutos ou galas
Do teu viver que passou.


Oh! quantas vezes, immersos
N'esses intimos enleios,
Que fazem um de dous seios,
Sentimos horas fugir!
Quantas, sonhando horisontes
De poesia, amor, ou gloria,
N'uma expanso transitoria
Creamos longo porvir!


E morto jazes, ai! morto,
Sem poder de teus anhelos
Realisar os sonhos bellos,
Cruzar a vasta amplido?!
Morto sem ter dito ao mundo
A palavra augusta e sancta
Que a turba anciosa espanta,
E que  do genio o condo?!


Morto  luz da tua aurora
Sem que  luz da tua sesta
Podsses, na hora funesta,
Sorrir ao passado teu?!
Morto, ai, morto sem ter ganho
Mais lagrimas de saudade,
To doces  soledade
D'aquelle que j morreu?!


Deus! se a vida  campo ameno
Onde se vem colher flres,
Porque, do sol aos fulgores,
No se ho de as flres colher?
Se  deserto ingrato e rude,
Onde no brota uma fonte,
Porque ha de em nosso horisonte
A luz do dia nascer?


Mas dorme, descana, amigo,
Que a vida  o deserto s vezes...
Estrada de mil revezes,
E de voragens fataes...
E que  o poeta? o viajante
Que fere os ps nos abrolhos,
Em quanto levanta os olhos
s regies divinaes.


Ave estrangeira que passa
N'este clima procelloso,
Com seu canto mavioso
Levando as turbas d'apz;
Mas que chora de saudade
Por sua patria querida,
T que a final abatida
Cahe sem alento, e sem voz.


Descana! no frio leito
De teu eterno repouso,
No te ir o sol formoso
Cada manh despertar;
Mas tambem, da aurora  noite,
No calcars os espinhos
Que em teus agrestes caminhos
Verias da flr a par.


L no iro festejar-te
Ruidosos echos do mundo,
Que dizem, no som profundo,
Qual  do genio o poder;
Mas tambem tuas coras
No regars com teu pranto,
Nem a inveja em negro manto
Tua estrella ha de envolver.


Descana! que digo! surge!
Ergue-te  luz,  poeta,
E reva aonde inquieta
Te levava a inspirao!
Sonhaste mundos brilhantes,
Sonhaste amor e poesia:
No paiz do eterno dia
Vae colher teu galardo!


Vae! das plagas do desterro
Eis-te a final resgatado:
Procura regenerado
A patria que te sorri!
L ters as harmonias
Que soltam milhes d'espheras,
E florentes primaveras
Quaes no terias aqui.


L gosa! l, sacudido
Sobre a terra o terreo manto,
Desprende teu novo canto
De novos soes ao fulgor!
E, se l pde chegar-te
Esta nota de saudade,
Escuta a voz da amizade
Entre os mil hymnos do amor!




O MENDIGO


Nas torres soberbas da grande cidade
O sol desmaiado no tarda a morrer;
Recrescem as sombras: que importa? a vaidade
No manto das sombras envolve o prazer.


E o velho entretanto l sbe a montanha,
Caminha, caminha, no cimo parou:
Em frigidas gottas o rosto lhe banha
Suor copioso, que  terra baixou.


Quiz, antes da morte, nas serras distantes
Fitar inda os olhos canados da luz;
A aldeia da infancia saudar por instantes,
Depois satisfeito depr sua cruz.


Olhou, e um suspiro de vaga saudade
Juntou a seus prantos em funda mudez;
Depois, ao volver-se, topando a cidade,
Que em ebrio tumulto folgava a seus ps:


Mal hajas, cidade, que ao pobre faminto
O po da desgraa negaste cruel!
Mal hajas, mal hajas, que a terra do extincto
Talvez lhe negras,  tumba infiel!


E exhausto, e sem foras, cahiu de joelhos;
E a fronte canada firmou no bordo:
Passados instantes, os olhos vermelhos
Ao co levantava, dizendo: perdo!


Cahiam-lhe soltas no collo vergado
As longas madeixas em brancos anneis:
Que nobre semblante de rugas sulcado,
Sulcado dos annos, e mgoas crueis!


Perdo para as vozes que solta a desgraa!
Perdo para o triste, perdo,  meu Deus!
Bem hajas, que aos labios lhe roubas a taa
De fel e amarguras, abrindo-lhe os cos.


J filhos no tenho, levou-m'os a guerra;
Esposa no tenho, finou-se de dr;
Amigos no vejo na face da terra:
Que fao eu no mundo? bem hajas, Senhor!


s portas do rico bati sem alento,
Eu rico n'outr'ora, mendigo por fim:
O rico sem alma negou-me o sustento,
Aquelles que amava fugiram de mim.


Vaguei pelo mundo, nas faces myrrhadas
Colhendo os insultos que ao pobre se do;
Sem po, sem abrigo, por noites geladas
Poisei minha fronte nas lageas do cho.


Que vezes a morte chamei sem alento,
Canado dos annos, e fomes, e dr!
A morte no veio: soffri meu tormento...
S hoje me ouviste: bem hajas, Senhor!


Os homens e o mundo negaram-me os braos,
Mas tu me recolhes, tu me abres os teus...
Minha alma te busca, desprende-a dos laos...
Perdo para todos, perdo,  meu Deus!


E um ai derradeiro soltou d'anciedade,
Cahindo por terra nas urzes do cho;
Ao longe, no seio da grande cidade,
Brilhava das festas nocturno claro.




A VIDA

A MEU IRMO


Que! luctar sempre em afanosa guerra
Contra os rigores d'um feroz destino!
A cada passo lacerar as plantas
N'esta agra senda que nomeiam vida!
Correr apz um sonho, uma esperana
Que leda nos sorria, e vl-a ao cabo
Sumir-se, desfazer-se como o fumo!
Ou, se tocamos o vedado pomo,
Arrojal-o de ns, murcho e vasio!
Alcanar por um bem, mil dissabores!
Por uma hora de gso, mil de prantos!
Soffrer, sempre soffrer, no vir um dia
Em que possamos exclamar: ventura!
E  este o calix de aprazivel nectar
Que ao banquete do mundo nos convida?
 este o eden que nos prende os olhos,
E nos faz recuar ante o sepulchro?


    Nascemos: com que pena  luz do dia
Surgimos logo do materno seio!
Filhos da dr, obedecendo  origem,
Nos vagidos da infancia a annunciamos;
E ainda assim, no deslizar sereno
Dos dias infantis, a vida encanta;
A taa da existencia tem doura,
Como se o mel lhe coroasse a borda
Para mais facil nos tentar os labios.
O horisonte dos annos se dilata;
Vem a idade do amor. Que bellos sonhos
Em magico painel a vista illudem!
Um ser, que a mente em chammas divinisa,
Nosso osis feliz anima todo,
Bem como o sol anima a natureza,
Ou a rosa do valle os floreos prados.
Mas quantos podem na manh da vida
Colher a rosa de seu mago enlevo?
Quantos a estrella que adoraram crentes
Sentem passar, e desfazer-se em breve,
No luzeiro do co, porm da terra,
Metero fugaz que baixa ao solo,
E se dissipa redobrando a noite!


As illuses do amor se desvanecem:
D'esse mundo feliz o homem baqueia
E devorando a mgoa segue vante.
Prometheu afanoso, eil-o procura
Dar alma e vida s creaes que inventa,
Ai! j no bellas, mas de impura argilla.
Honras, gloria, poder, bens de fortuna,
Sciencia austera, festivaes prazeres,
A tudo se abalana, aspira a tudo,
E em tudo encontra desenganos sempre.
Ao ponto que fitra jmais chega,
Ou, se o alcana, no lhe dura o gso.


Ai do que envolto em miserandas faxas,
Embalada sentiu a pobre infancia
C'os gemidos da fome! Esse  ventura
Quasi nem ousa levantar os olhos:
Perpetuo desalento lh'os abate
 triste condio em que nascra.
Planta gerada n'um terreno esteril,
No se ergue altiva, no estende os ramos,
Vive entre espinhos, e entre espinhos morre.
Em vo se cana o triste: raras vezes
A dura terra lhe concede o premio
Do suor e das lagrimas que verte
No seio ingrato d'essa me ferina.
Um po acerbo que amassou com pranto,
 o alimento que reparte aos filhos;
E o marco do caminho a cabeceira
Onde desprende o moribundo alento.
Ai d'elle! mas no menos desditoso
O que em purpuras e ouro vendo o dia,
Ou conduzido pela mo da sorte,
Chegou aos cumes que a fortuna habita;


E, na posse dos bens que o mundo anceia,
Palpou tremendo seu medonho nada.
Este, empunhando o sceptro, empallidece
Sentindo s plantas vacillar-lhe o solio;
No fastigio da gloria aquelle geme,
Ao vr o louro que lhe cinge a frente
Pelo bafo da inveja emmurchecido.
Um as honras consegue, e as v sem preo;
Outro as riquezas, e lamenta os dias
Que mais bellos perdeu em seu alcance.
Qual, a sciencia devassando ousado,
Apz longas vigilias estremece
Da dvida ante o espectro; qual ardente
Das festas no rumor despende a vida,
E a taa do prazer lhe deixa o enfado.


Feliz aquelle que em modesta lida,
Isento da ambio e da miseria,
No regao do amor e da virtude
A vida passa. Mais feliz ainda
Se, das turbas ruidosas afastado,
 sombra do carvalho, entre os que adora,
Sente a existencia deslizar tranquilla,
Como as aguas serenas do ribeiro
Que as herdades pacificas lhe banha.
Mas, que digo! nem esse. Infindos males,
Communs a todos, seu viver no poupam.
D'um lado a crua guerra lhe sacode
O facho assolador s brandas messes;


A pallida doena, d'outro lado,
Dos entes que mais ama o vae privando;
E elle mesmo talvez, infausta prsa
D'essa serpente que nos liga  morte,
Nos eculeos da dr a vida exhaure.
E, como se estes males no bastaram,
Sua mesma virtude lhe  supplicio.
Compassivo co'a dr que os outros soffrem,
A dr alheia o atormenta ainda.
Justo, adora a justia; e, olhando em torno,
A injustia e oppresso ver reinando;
Ver a innocencia victima do crime,
A virtude humilhada, o vicio altivo,
Os prantos da miseria escarnecidos,
Por toda a parte o mal, a dr, e as queixas.
Ai d'elle, ai d'elle, se um momento pra
Na atroz contemplao de tantos males!
Ai d'elle, que turbado e confundido,
Em maldies blasphemar terrivel
Da virtude, de si, de Deus, de tudo!


No! da vida no plago agitado
Um abrigo no ha, no ha um porto
Onde possamos descanar tranquillos.
Em ns, dentro em ns mesmos, ruge irada
A tempestade que evitar queremos.
Como a serpente no crystal da lympha,
Na alma serena o soffrimento mora;
No pde o gso dos mais bellos dias
Encher o abysmo que no seio temos.
Em vo, em vo anciamos a ventura:
Somos na terra qual viajante exhausto
Que ouve o sussurro d'escondida fonte,
E morre  sde, sem poder tocal-a.


Vida, tremenda herana d'amarguras,
Eu te hei sondado nos meus proprios males,
E em meus irmos na dr, nos homens todos:
Grilho pesado que nos d o bero,
E que depmos nos umbraes da tumba.
A lucta, a mgoa, eis os teus dons funestos.
Mas d'onde a causa do soffrer eterno
Que as geraes s geraes transmittem?
Que um seculo, tombando de cansao,
Como um pso importuno lega ao outro?
D'onde o crime feroz que um tal castigo
Sobre ns attrahiu? Se um deus  justo,
Que deus, que lei, sem escutar-nos, pde
A sentena lavrar? Silencio  tudo!
Em vo, para sabl-o, em vo mil vezes
Interroguei confuso o co e a terra:
O co de bronze no me ouviu a prece,
A terra obscura no me soube o enigma.
Dos prophetas na voz, na voz dos sabios,
A dvida cruel achei smente.
Pedindo  morte a soluo da vida,
Desci s tumbas, apalpei as cinzas;
Quiz vr se um echo da gelada campa
Surgia  minha voz; mas foi debalde.
Frias ossadas, carcomidos restos
De quem soffreu tambem, s me disseram
Que tudo acaba alli. A terra, a terra,
O seio impuro dos famintos vermes:
Eis o refugio, a habitao amiga
Que apz a lucta nos espera ao cabo!


Morte, morte, bem vinda sejas sempre!
Em nome da existencia eu te sado!
Tu reinas pela dr na especie humana,
E, quem sabe? talvez n'esse universo;
O sol, o mesmo sol envolto em sombras,
Parece reflectir-te as negras azas;
E acaso  tua voz, a cada instante,
Um comta voraz fulmina um globo.
Porque inda tardas a empunhar o sceptro
Que n'este ao menos te pertence ha muito?
Ao desterrado do eden porque deixas
O resto de poder que inda te usurpa?
Eia, desprende sobre a terra as azas,
Sobre esta creao que abandonada
Talvez por seu author como imperfeita,
Qual nau perdida em tormentosos mares,
Vaga sem rumo n'esse espao ethereo!


Mas que sinistra voz! Silencio,  lyra!
No mais prosigas teu cantar blasphemo!
Fanal de salvamento, luz d'esp'rana
Que na altura do Golgotha brilhaste,
Desce  minha alma que a tristeza inunda!
Desce! de todos resumindo as dres
O calix d'Elle foi o mais acerbo.
Elle soffreu! Sofframos, e esperemos!
Depois da noite escura vem o dia:
Depois d'este desterro, a eterna patria!




DESENGANO


Vejo-a ainda! resurge a meus olhos
Como em tempos ditosos surgia,
E, qual anjo de casta poesia,
Desce s vezes n'um sonho d'amor;
Vejo-a ainda nos cos e na terra,
Nos encantos e risos da aurora,
E, se o dia nas ondas descora,
Das estrellas no meigo fulgor.


Era a luz que brilhava em minha alma,
Era o astro que em sombras luzira,
Era o fogo sagrado que a lyra
s douras d'amor acordou...
Tudo  findo; debalde nas trevas
Busco ainda seu facho luzente:
Foi apenas um astro cadente,
Metero fugaz que passou.


Pobre seio que ardente pulsaste
Embalado por falsas venturas,
O fanal que na terra procuras
Sobre a terra jmais achars.
No ha seio que entenda no mundo
Esse ardor de teus vagos anhelos;
No ha luz que em seus raios mais bellos
No te esconda uma sombra fallaz.


Que te resta? um futuro vasio
D'illuses que nutriu a esperana,
E um passado de triste lembrana
Como  triste a verdade sem vo...
Olvidar! olvidar! que ao presente,
Ai! s cabe o repouso do olvido.
Olvidar! e que em glo sumido
Seja o fogo que em chammas ardeu!


Sonho bello que esta alma illudiste,
Chamma ardente nos cos ateada,
Va, va  celeste morada!
L nasceste, do mundo no s.
E tu, lyra de languidas cordas
Que d'amor suspiraste em desleixo,
Vae, oh, vae! em silencio te deixo...
Vae, oh, vae para sempre talvez!




AGAR


De Bersab nos areaes ardentes
O desmaiado sol ia esconder-se,
E Agar, a expulsa Agar, gemendo afflicta,
Unia ao peito o moribundo filho.
O vaso d'agua que lhe dera o esposo
Esgotra-se em breve, e no deserto
Com seu pobre Ismael no descobrira,
Desde o romper do dia, a anciada fonte.
O dia declinava: eis que o infante,
Que pela mo a acompanhava exhausto,
Ardendo em sde lhe succumbe s plantas.
Ella v-o cahir, ella estremece,
E, os olhos turvos em redor lanando,
Aqui e alli correndo, busca ainda,
Mas debalde, um frescor. Emfim canada,
Ella mesma tambem, eis volve ao filho,
Prostra-se, abraa-o, com maternos beijos
Tenta anciosa prolongar-lhe a vida.


Filho, meu filho--murmurava a triste--
 sde vaes morrer! Oh! se o podsse
Adivinhar teu pae, cruel no fra;
E Sara, a propria Sara, enternecida
Emmudecra seus fataes ciumes.
Oh! no gemas, no gemas, que debalde
Invocas tua me. Ella te escuta,
Mas no pde salvar-te: dentro em pouco
Em seu regao exhalars a vida.
E hei de eu vr-te expirar? vr n'esses olhos
Sumir-se a luz do dia? e n'essas faces,
Que tantas vezes me sorriram ledas,
Vr as ancias da morte? Oh! no, no posso
Vr morrer o meu filho. Disse, e ao tronco
D'uma arvore visinha o recostava;
Depois, com tristes, vagarosos passos,
Foi n'outros sitios aguardar a morte.
Alli, ao vr o sol que esmorecia,
Desatou a chorar, e estes queixumes
Em voz convulsa murmurou ainda:


Sol do deserto, que o meu pobre filho
Vs expirando na soido alm,
Com teu suave derradeiro brilho
Beijar-lhe a face carinhoso vem!
Oh! vem, que eu triste n'essa face pura
Materno beijo nunca mais darei.
Perdi meu filho: sobre a terra dura
Correi, meus prantos, sem cessar correi!


Quando o teu facho resurgir no oriente,
Tudo na terra sentir prazer;
E l nos campos de Mambr virente
Mais bella a rosa te ver nascer:
S elle em sombras d'uma noite escura
Adormecido ficar, bem sei.
Perdi meu filho: sobre a terra dura
Correi, meus prantos, sem cessar correi!


Por mim no choro, que infeliz escrava
Meus tristes dias findarei aqui:
Ai! choro aquelle que no mundo amava,
Choro meu filho que expirando vi.
Maternos mimos, filial ternura,
Lembrae-me os tempos que feliz gosei!
Perdi meu filho: sobre a terra dura
Correi, meus prantos, sem cessar correi!


Oh! quem dissera nos passados dias
Em que ao meu collo te cerquei d'amor,
Oh! quem dissera que a morrer virias
N'este deserto, sem achar frescor?
Emmurcheceste, j no tens verdura,
Mimoso arbusto que gentil criei!
Perdi meu filho: sobre a terra dura
Correi, meu prantos, sem cessar correi!


Tantas esp'ranas, que o Senhor gerra
Na escrava humilde, findaro assim.
Foi mais feliz a gerao de Sara:
Cruel destino s me coube a mim.
Em vo, em vo me prometteu futura
Longa progenie: sem ninguem fiquei.
Perdi meu filho: sobre a terra dura
Correi, meus prantos, sem cessar correi!


Quem,  meu filho, n'este solo ardente,
Quem no jazigo te vir deitar?
Dizer-te:--dorme--e, reclinando a frente
No teu sepulchro, sobre ti chorar?
Eu no, que em breve n'esta plaga obscura
Tambem j morta como tu serei.
Perdi meu filho: sobre a terra dura
Correi, meus prantos, sem cessar correi!


Aves agrestes que me ouvis as queixas,
Com tristes vozes o seu fim chorae!
Brizas do ermo, suspirae-lhe endeixas!
Astros da noite, seu dormir velae!
Velae-o todos, que a final ventura
Que vos reservo nem sequer terei.
Perdi meu filho: sobre a terra dura
Correi, meus prantos, sem cessar correi!


    Mas Deus! que viu ella,
    Que um ai desprendeu?
    Que pomba to bella
    No manto do co!
    Que pennas de prata,
    D'azul, d'escarlata,
    O espao retrata
    Sereno, sem vo!


     anjo voando!
    Que brilho que tem!
    Que vos ondulando
    De pura cecem!
    Que anneis de cabello
    Nos hombros de glo,
    No collo to bello
    Cahindo ao desdem!


    Descendo, descendo,
    J perto chegou;
    E a pobre tremendo
    Calada ficou;
    E o anjo sorria
    Com doce magia,
    E  terra descia,
    Na terra poisou.


    E em roda mil lumes
    De brilho sem fim
    Lanava, e perfumes
    De nardo e jasmim;
    E a voz argentina,
    Suave, divina,
    Soltou peregrina,
    Fallando-lhe assim:


O que fazes, Agar, porque choras?
Nada temas, no tens que temer:
Se o teu filho perdido deploras,
Esses prantos converte em prazer.


Do deserto chegou seu gemido
s alturas que habita o Senhor:
Surge, surge, e teu filho querido
Vae ao longe buscar sem temor!


Surge, surge, recobra a esperana,
Que as promessas cumpridas sero!
O teu filho, o Senhor t'o afiana,
Ser pae d'uma grande nao.


Gloria a Deus que no co ouve as mgoas
De quem soffre na terra a carpir!
Eis um jorro de limpidas aguas:
Ide n'ellas a sde extinguir!


E, assim dizendo, lhe mostrava perto
Uma fonte escondida entre verduras,
Como nunca se vira no deserto,
De to grato frescor, d'aguas to puras.


Depois, batendo as esmaltadas pennas,
Deixou na terra um luminoso trao;
E, agitando seu manto d'aucenas,
Sumiu-se ao longe na amplido do espao.


Erguendo aos cos a radiosa fronte,
A pobre me ao Senhor Deus louvava;
E, enchendo o vaso no crystal da fonte,
Com elle ao filho a salvao levava.




MARIA, A CEIFEIRA

(IMITAO DE UHLAND)


Bons dias, Maria: da lida do prado
Nem mesmo te afastam cuidados d'amor.
Se ao fim de tres dias m'o deixas ceifado,
A mo de meu filho te quero propr.


Promessa  do rico, soberbo rendeiro:
Maria, oh! quo ledo seu peito bateu!
Seus olhos brilharam, seu brao ligeiro
Mais forte nas messes a foice moveu.


Soou meio dia: que ardente seccura!
J todos demandam a fonte, o pinhal;
Smente nos ares a abelha murmura:
Maria no pra, que  sua rival.


O sol esmorece, bateram trindades;
Debalde o visinho lhe grita: bastou!
Zagaes e ceifeiros se vo s herdades:
Maria, co'a foice, lidando ficou:


O orvalho desliza; desponta a seu turno
A estrella no espao, na selva o cantor:
Maria, insensivel ao bardo nocturno,
A foice incansavel agita ao redor.


Os dias e as noites assim por taes modos,
Nutrida d'amores, mal sente passar.
Tres dias findaram; oh! vinde vr todos
Maria ditosa d'esp'rana a chorar.


Bons dias, Maria: j tudo ceifado!
Lidaste devras: a paga has de ter.
Emquanto a meu filho, foi graa o tratado:
Quo loucos e simples o amor nos faz ser!


Tal disse, e passava... no peito constante,
Ai pobre Maria, que transe cruel!
Teu corpo formoso tremeu vacillante,
E exhausta cahiste, ceifeira fiel.


Um anno a coitada, ssinha comsigo,
Vivendo de fructos, vagou sem fallar...
No prado mais verde cavae-lhe o jazigo:
Ceifeira como esta jmais heis de achar.




O FIRMAMENTO

AO MEU AMIGO J. S. DA SILVA FERRAZ


Gloria a Deus! eis aberto o livro immenso,
          O livro do infinito,
Onde em mil letras de fulgor intenso
          Seu nome adoro escripto.
Eis de seu tabernaculo corrida
Uma ponta do vo mysterioso:
Desprende as azas remontando  vida,
Alma que anceias pelo eterno gso!


Estrellas que brilhaes n'essas moradas,
          Quaes so vossos destinos?
Vs sois, vs sois as lampadas sagradas
          De seus umbraes divinos.
Pullulando do seio omnipotente,
E sumidas por fim na eternidade,
Sois as faiscas de seu carro ardente
Ao rolar atravs da immensidade.


E cada qual de vs um astro encerra,
          Um sol que apenas vejo,
Monarcha d'outros mundos como a terra
          Que formam seu cortejo.
Ninguem pde contar-vos: quem podra
Esses mundos contar a que daes vida,
Escuros para ns qual nossa esphera
Vos  nas trevas da amplido sumida?


Mas vs perto brilhaes, no fundo accsas
          Do throno soberano:
Quem vos ha de seguir nas profundezas
          D'esse infinito oceano?
E quem ha de contar-vos n'essas plagas
Que os cos ostentam de brilhante alvura,
L onde sua mo sostem as vagas
Dos soes que um dia rompero na altura?


E tudo outr'ora na mudez jazia,
          Nos vos do frio nada:
Reinava a noite escura; a luz do dia
          Era em Deus concentrada.
Elle fallou! e as sombras n'um momento
Se dissiparam na amplido distante!
Elle fallou! e o vasto firmamento
Seu vo de mundos desfraldou ovante!


E tudo despertou, e tudo gyra
          Immerso em seus fulgores;
E cada mundo  sonorosa lyra
          Cantando os seus louvores.
Cantae,  mundos que seu brao impelle,
Harpas da creao, fachos do dia,
Cantae louvor universal quelle
Que vos sustenta, e nos espaos guia!


Terra, globo que geras nas entranhas
          Meu ser, o ser humano,
Que s tu com teus vulces, tuas montanhas,
          E com teu vasto oceano?
Tu s um gro d'areia arrebatado
Por esse immenso turbilho dos mundos
Em volta de seu throno levantado
Do universo nos seios mais profundos.


E tu, homem, que s tu, ente mesquinho
          Que soberbo te elevas,
Buscando sem cessar abrir caminho
          Por tuas densas trevas?
Que s tu com teus imperios e colossos?
Um tomo subtil, um froixo alento:
Tu vives um instante, e de teus ossos
S restam cinzas que sacode o vento.


Mas ah! tu pensas, e o gyrar dos orbes
           razo encadeias;
Tu pensas, e inspirado em Deus te absorbes
          Na chamma das ideias:
Alegra-te, immortal, que esse alto lume
No morre em trevas d'um jazigo escasso!
Gloria a Deus, que n'um tomo resume
O pensamento que transcende o espao!


Caminha,  rei da terra! se inda s pobre,
          Conquista aureo destino,
E de seculo em seculo mais nobre
          Eleva a Deus teu hymno!
E tu,  terra, nos floridos mantos
Abriga os filhos que em teu seio geras,
E teu canto d'amor reune aos cantos
Que a Deus se elevam de milhes d'espheras!


Dizem que j sem foras, moribunda,
          Tu vergas decadente:
Oh! no, de tanto sol que te circumda
          Teu sol inda  fulgente.
Tu s joven ainda: a cada passo
Tu assistes d'um mundo s agonias,
E rolas entretanto n'esse espao
Coberta de perfumes e harmonias.


Mas ai! tu findars! alm scintilla
          Hoje um astro brilhante;
manh eil-o treme, eil-o vacilla,
          E fenece arquejante:
Que foi? quem o apagou? foi seu alento
Que extinguiu essa luz j fatigada;
Foram seculos mil, foi um momento
Que a eternidade fez volver ao nada.


Um dia, quem o sabe? um dia, ao pso
          Dos annos e ruinas,
Tu cahirs n'esse vulco accso
          Que teu sol denominas;
E teus irmos tambem, esses planetas
Que a mesma vida, a mesma luz inflamma,
Attrahidos emfim, quaes borboletas,
Cahiro como tu na mesma chamma.


Ento,  sol, ento n'esse aureo throno
          Que fars tu ainda,
Monarcha solitario, e em abandono,
          Com tua gloria finda?
Tu findars tambem, a fria morte
Alcanar teu carro chammejante:
Ella te segue, e prophetiza a sorte
N'essas manchas que toldam teu semblante.


Que so ellas? talvez os restos frios
          D'algum antigo mundo,
Que inda referve em borbotes sombrios
          No teu seio profundo.
Talvez, envlta pouco a pouco a frente
Nas cinzas sepulchraes de cada filho,
Debaixo d'elles todos de repente
Apagars teu vacillante brilho.


E as sombras poisaro no vasto imperio
          Que teu facho alumia;
Mas que vale de menos um psalterio
          Dos orbes na harmonia?
Outro sol como tu, outras espheras
Viro no espao descantar seu hymno,
Renovando nos sitios onde imperas
Do sol dos soes o resplendor divino.


Gloria a seu nome! um dia meditando
          Outro co mais perfeito,
O co d'agora a seu altivo mando
          Talvez caia desfeito.
Ento, mundos, estrellas, soes brilhantes,
Qual bando d'aguias na amplido disperso,
Chocando-se em destroos fumegantes,
Desabaro no fundo do universo.


Ento a vida, refluindo ao seio
          Do fco soberano,
Parar concentrando-se no meio
          D'esse infinito oceano;
E, acabado por fim quanto fulgura,
Apenas restaro na immensidade--
O silencio aguardando a voz futura,
O throno de Jehovah, e a eternidade!




TRISTEZA


Extingue-se o anno, so findos os dias
Que os valles encheram de prvida luz;
O inverno c'roado de nevoas sombrias,
Seus pallidos glos  terra conduz.


O rio em torrentes inunda as campinas,
As veigas perderam seu floreo matiz,
Pesada tristeza reveste as collinas,
E as selvas que ha pouco sorriram gentis.


Em tudo a meus olhos avulta uma imagem
De triste abandono, de mystica dr:
Apraz-me este luto que veste a paizagem,
Apraz-me esta scena d'extincto verdor.


Como estas campinas outr'ora florentes,
Meus dias formosos floriram tambem;
Como ellas agora, meus dias cadentes,
Despidos de encantos, j vio no tem.


Quo rico de gsos o tempo corria!
Quo triste o presente, quo pobre ficou!
S resta a saudade, qual vaga harmonia
Que uma harpa nocturna de longe soltou.


Mas essa que vale perdida a esperana?
Que vale um passado que j no  meu?
 flr desbotada que importa a lembrana
Da aurora suave que aroma lhe deu?


Um dia outra quadra mais bella e mais pura
Vir de boninas ornar os vergeis;
Mas vs,  meus tempos d'amor e ventura,
Sois findos p'ra sempre, jmais voltareis.


Sondando o futuro, minha alma conhece
Que os ermos do mundo j rosas no tem:
J tudo succumbe, j tudo fenece,
O sol da ventura, e a esp'rana tambem.


T mesmo em meu peito vacilla agitada
A chamma da vida perdendo o calor;
Meus dias declinam qual luz desmaiada
Que doira as montanhas com tibio fulgor.


Se tudo, ah! se tudo findou no passado,
Se as trevas se estendem nos cos do porvir,
Que esperas, minha alma? do livro do fado
So negras as folhas: s resta partir.


Ao longe, quem sabe? sulcando as alturas,
Jardins mais formosos vers na amplido,
De flres eternas, d'eternas verduras
Que os glos da terra jmais seccaro.


Temendo os rigores do outomno visinho,
As aves adejam buscando outros cos:
Tu s,  minh'alma, qual ave sem ninho,--
Procura outros climas, rasgando os teus vos!




A ME E A FILHA


--Filha, filha, que linda alvorada!
Anda vr este sol a nascer:
Ha tres dias que gemes deitada,
Mas j hoje sorris de prazer.


--Oh! que sonhos d'encantos divinos!
Tudo em roda luzia em fulgor,
E mil anjos cantavam seus hymnos
Em jardins d'aucenas em flr.


Era longe dos olhos humanos,
N'uma terra mui longe d'aqui...
Oh! que mundo to livre d'enganos!
Oh! que vida que n'elle vivi!

       *       *       *       *       *

--Olha o sol que to bello se esconde
Nas montanhas sombrias d'alm...
To calada, to triste! responde,
Que tens tu, minha filha, meu bem?


Vou na patria d'eternos amores,
Vou ao longe ditosa viver,
Mas, no seio de mundos melhores,
Ai! no te hei de a meu lado j vr!
Eis um anjo que desce os espaos...
Que harmonias! que brilho sem fim!
Me, oh me, d-me ainda os teus braos...
J no soffro, no chores por mim.




O MOSTEIRO DA BATALHA


Pulsemos a lyra, que alm se levanta
Padro de victoria que immenso reluz!
Um templo e altares  Me sacrosancta;
Um templo, um poema que altivo descanta
Grandezas da patria nos atrios da cruz.


Grandezas da patria quem traz  memoria
Que o peito no sinta d'orgulho bater?
Pulsemos a lyra! do livro da historia
Volvamos as folhas, que a musa da gloria
Em nuvens ethereas sentimos descer!

       *       *       *       *       *

Eis j d'Aljubarrota nas campinas
Se encontraram as hostes contendoras.
D'aqui tremulam portuguezas quinas:
D'alm as castelhanas invasoras.
D'aqui  Joo primeiro, cuja lana
A cora defende e a patria cara:
D'alm o estranho rei, pedindo a herana
Da princeza Beatriz que desposra.


Refulge o sol nas armas, os cavallos
Rincham fogosos escarvando a terra;
D'um lado e d'outro os chefes a intervallos
Correm as alas animando  guerra.
Pouco avultam as hostes portuguezas:
Tremendo  de Castella o podero;
Mas quem  patria negar proezas
D'alto valor, e generoso brio!


A vespera  do dia consagrado
 Assumpo gloriosa de Maria;
Os olhos levantando, o rei soldado:
Senhora, exclama, nosso esforo guia!
Se vencermos, um templo magestoso
Te erguerei sobre o campo da batalha!
Diz, e esporeando seu corcel fogoso
Brios em todos com a voz espalha.


Soam trombetas; o signal  dado;
Fluctuam soltos os pendes na frente:
--Sam Tiago!--brada o castelhano ousado;
--Sam Jorge e vante!--a portugueza gente.
Rdeas soltando os esquadres galopam,
E do em cheio com furor insano,
Como torrentes que no val se topam,
Ou como as ondas no revolto oceano.


Retine o ferro, a multido se agita;
As hachas d'armas, os broqueis lampejam;
Pies, ginetes, com medonha grita,
N'um mar de sangue em turbilho pelejam.
O sol j desce a mergulhar no oceano,
E inda referve a encarniada lida;
Eis redobra d'esforo o lusitano,
E o estrangeiro leva de vencida.


Foge o rei castelhano espavorido;
Fogem os seus em debandada solta;
Persegue-os Joo primeiro, e destemido
A gosar do triumpho ao campo volta.
J se erigem trophos, j resplandece
O co da patria c'o fulgor da gloria;
Faltava o monumento que dissesse:
--Foi aqui! eis o campo da victoria!

       *       *       *       *       *

    E eil-o ahi que se levanta
    Com magestosa grandeza,
    D'aquella gentil proeza
    Sublime recordao;
    Eil-o ahi aos cos erguido,
    Como um colosso gigante
    Apontando ao caminhante
    O sitio da grande aco.


    Altos porticos, lavores
    D'ostentosa architectura,
    Corucheus d'immensa altura
    Roando a fronte nos cos;
    Dentro, a nobre magestade
    Do sanctuario profundo,
    Onde, extincta a voz do mundo,
    S lembra o passado, e Deus.


    Sobre os gothicos pilares
    Brilham tremulos fulgores,
    Que das vidraas de cres
    Entorna a mystica luz.
    Tudo cala, mas, se o orgo
    Por entre as naves resa,
    Tudo se anima, e aprega
    O sancto Verbo da cruz.


    Ento a mente se enleva
    Nas torrentes de harmonia
    Que da abobada vasia
    Retumbam pela amplido;
    E, abrazada nos fulgores
    Dos vivos, sagrados lumes,
    Sobre as azas dos perfumes
    Reva  etherea manso.


    Se tudo cahe em silencio,
    Cahe em si mesma, e medita,
    Recordando a data escripta
    N'esses gothicos umbraes.
    Pensa ento nos heroismos,
    E crenas da meia idade,
    Combatendo a escuridade
    D'aquelles tempos feudaes.


    Pensa nos vultos heroicos
    Dos antigos cavalleiros,
    E em nossos feitos guerreiros
    Pela patria e pela cruz;
    Pensa na grande victoria
    Que nos fez independentes,
    E que aos olhos dos presentes
    N'esse moimento reluz;


    Pensa n'um povo pequeno,
    Mas esforado e guerreiro,
    Triumphando do estrangeiro
     voz do rei popular;
    Pensa no Mestre valente;
    E sua sombra gigante
    Parece s vezes distante
    Entre as columnas vagar.


    E pensa tambem no artista,
    N'esse architecto inspirado
    Que um poema sublimado
    Alli traou a cinzel;
    Que cego da luz dos olhos
    Accendeu a luz do engenho,
    E consummou seu empenho,
    Ao grande assumpto fiel.


    E Affonso Domingues surge
    N'esse padro sobranceiro
    Ao lado de Joo primeiro,
    Seu immortal fundador;
    Reis ambos: um pelo bero
    Que lhe deu sua nobreza;
    Outro, rei pela grandeza
    Do seu genio creador.


    L dormem! um rodeado
    Dos brazes da sua gloria,
    Como depois da victoria,
    Sob a tenda a descanar;
    Outro  sombra d'esses tectos
    Em campa singela e nua,
    Como querendo a obra sua
    D'alm da tumba guardar.

       *       *       *       *       *

E l dormem tambem outros que a morte
Juntou  sombra do logar sagrado,
D'infantes e de reis alta cohorte,
Servindo de cortejo ao rei soldado.


Reunidos emfim no cho funereo,
Fernando, Pedro, e Henrique, os tres infantes;
Henrique, o sabio audaz que outro hemispherio
Primeiro abriu aos lusos navegantes.


Duarte e Joo segundo descanando
D'altas victorias na manso tranquilla;
Affonso quinto c'os laureis sonhando
D'Alcacer, Tanger, e da forte Arzilla.


E no spro do vento que perpassa,
E lhes roa nas frias sepulturas,
Parecem murmurar em voz escassa,
E agitar suas ferreas armaduras.


E l quando o luar pelas janellas
Lhes esca nas lapidas marmoreas,
Talvez erguidos se recostam n'ellas
A fallar entre si de nossas glorias.


Dormi em paz,  chefes do passado,
Heroico fundador, prole valente;
Dormi em paz no tumulo calado
Recordando os laureis da vossa gente.


Enchei em roda os penetraes divinos
De vossos gloriosos esplendores;
E se tendes poder sobre os destinos,
Defendei-os do tempo e seus furores.


Que as geraes passando reverentes
Possam, volvendo as paginas da historia,
Largas eras saudar, curvando as frentes,
Esse padro d'immoredoura gloria!




DESALENTO


Canado, ai! j canado quando a vida
Em flr nascente desabrocha ao mundo!
Quando a esperana, d'illuses vestida,
Sorri a todos n'um porvir jucundo!


Alma que gemes em lethal quebranto,
Desprende as azas nos vergeis celestes!
Amor, gloria, prazer, dae-me inda o encanto
Que nos dias passados j me dstes!


Mas que  o amor da terra? luz divina
Que mal desce do co logo se apaga;
Candida rosa que o tufo inclina,
Que o tempo e a morte desfolhando esmaga.


Doces imagens que em ditoso enleio
Cerquei outr'ora d'illuso infinda,
O que  feito de vs? ai! n'este seio
Viveis apenas, se viveis ainda.


E tu, que s tu,  gloria? um som que passa,
E de seculo em seculo retumba,
Mas que a frigida lousa no traspassa
De quem j dorme na calada tumba.


Astro que brilha e queima, espectro ovante
Que a desgraa acompanha, e o genio illude:
Vs o sabeis, Cames, e Tasso, e Dante,
Vs que gemeis ainda no atade.


Que  o gso, o prazer? fumo d'incenso
Que embriaga um momento, e se evapora;
Que  o saber, a sciencia? espao immenso
Em que a verdade mal reluz na aurora.


Que  este mundo que eu sonhei to bello?
Profundo abysmo de tormenta escura;
Que  pois a vida? um fadigoso anhelo
Que levamos do bero  sepultura.


A morte! oh! se alm d'ella o porto amigo
Nos surgisse a final ledo e formoso!
Se n'esses mundos da esperana abrigo
Despontasse outro sol mais bonanoso!


Mas quem sabe da morte? o ouvido attento
No silencio das campas nada escuta;
E Socrates no diz se um novo alento
Achou, bebendo a gelida cicuta.


Senhor, Senhor, porque vim eu ao mundo,
E qual  sobre a terra o meu destino,
De mim que homem geraste, e que no fundo
D'este valle d'angustia rro sem tino?


Infeliz de quem nasce! a ave que gyra,
A fera, o tronco, o verme que rasteja
Tambem nasceu, mas esse a nada aspira,
Ou se aspirou alcana o que deseja.


E o homem nasce, pensa, e aspira ancioso
s illuses que a mente lhe depara,
E a cada passo lhe esmorece o gso,
E acha s trevas onde luz sonhra.


E caminha, e caminha, e sem alento
Cahe abysmado no seu terreo leito,
Onde apz a fadiga e o soffrimento
A lousa sepulchral lhe esmaga o peito.


Aqui, de dr um plago profundo;
Alm, os vermes da feral jazida;
Senhor, Senhor, porque vim eu ao mundo?
Porque do nada me chamaste  vida?




CONSOLAO


Quando nas trevas de minha alma afflicta
A procella da dr mais se encapella,
E o desalento, a dvida, e a descrena
Co'as negras azas me escurece o dia,
A ti,  Deus, a ti com mais esforo,
Atravs do infinito onde te escondes
Busco elevar-me, demandando auxilio;
E tu, Senhor, descendo a quem te chama,
Fulguras entre as sombras, e a tormenta
Que dentro d'alma rebramia fera,
Vae pouco e pouco serenando as iras.

       *       *       *       *       *

    Bem hajas! quem te procura
    Jmais te procura em vo:
    Tu desces, e a noite escura
    Se volve em doce claro;
    Tu desces, e a luz da esp'rana,
    Como estrella de bonana,
    Brilha no mar da afflico.


    A vida  triste: no mundo
    Soffremos at morrer;
    Mas, Senhor, quem sonda a fundo
    Mysterios do teu poder?
    A vida  triste, mas breve;
    E o futuro que se eleve,
    Eterno, immenso ha de ser.


    Mundos e mundos no espao
    Vo rolando  tua voz,
    Prsos em mystico lao
    N'esses jardins sobre ns;
    E tudo canta  porfia
    Aquella grande harmonia
    Que ensinam teus anjos ss.


    Tudo folga: s na terra
    Ha de o homem padecer?
    Acaso to pouco encerra
    Seu fado? no pde ser.
    Se o homem foi obra tua,
    N'este mar em que fluctua
    Ha de um porto emfim haver.


    Bem hajas! a dr e o pranto
    Vem de ti, do teu amor;
    So crysol augusto e sancto
    Que nos apura em fulgor;
    So a chamma, o fogo intenso
    Que nos ergue como incenso,
    E a teus ps nos vae depr.


    Tu sabes porque sombria
    Vaga a noite na amplido,
    Porque a terra se anuvia,
    E ruge irado o tufo:
     que o dia segue a noite,
    E das procellas no aoite
    Se esconde a florea estao.


    Bem hajas, Senhor, bem hajas!
    O teu poder nos conduz;
    Se de luto um dia trajas,
    Outro dia alm reluz.
    N'este gyro sempiterno,
    Vem o estio apz o inverno,
    E apz as sombras a luz.


    Bem hajas! feliz no mundo
    Quem tua face entrev,
    E d'este abysmo profundo
    Se ergue nas azas da f!
    Feliz quem sorrindo s vagas,
    De olhos fitos sobre as plagas,
    Espera, confia, e cr!




O BUSSACO


Oh! salve irmo do Libano,
Que altivo ergues a fronte,
Monarcha d'estas serras,
Senhor da solido!
Salve, gigante cupula,
Que ostentas no horisonte,
Erguida sobre as terras,
A cruz da redempo!


Em teus agrestes pincaros
O homem vive e sente
Mais longe d'este mundo,
Mais proximo dos cos:
Por isso, nos seus extasis,
O monge penitente
Aqui meditabundo
Se erguia aos ps de Deus.


Por largo tempo o cantico
Do pobre cenobita
Soou na ermida rude
Da tua solido:
Hoje o silencio lugubre
Smente n'ella habita,
Silencio d'atade
Em funebre manso.


Porm se os coros mysticos
Findaram sua reza,
Se a voz do sancto hosanna
Em ti j feneceu;
Tu vives, e inda incolume
Ao Deus da natureza,
Calada a voz humana,
Descantas o hymno teu.


Oh! como s bello erguendo-te
 luz do novo dia,
Que os mantos de verdura
Te banha de fulgor!
Quando o gemer dos zephyros,
Das aves a harmonia,
Acordam na espessura
Louvando o Creador!


Mas quanto mais esplendido
Sers quando a tormenta,
Sublime, rugidora,
Eu teu regao cahe!
Quando de mil relampagos
Teu cume se apresenta
C'roado, como outr'ora
O fulgido Sinai!


Quando os tufes indomitos,
Rugindo nas escarpas,
Se abraam s torrentes
Com horrido fragor!
Depois, em negro vortice,
Desferem nas mil harpas
De teus cedros ingentes
Um cantico ao Senhor!


Tu s grandioso; o animo
Que a ss aqui medita
Recolhe altas imagens
De sancta inspirao.
Oh! porque veio turbida
A guerra atroz, maldita,
Soltar n'estas paragens
As vozes do canho?


D'um lado eram as bellicas
Hostes de Bonaparte;
Do outro heroico e ufano
O povo portuguez:
A liberdade e a patria
Ergueu seu estandarte,
E a historia do tyranno
Contou mais um revez.


Tudo passou: sumiram-se
Vencidos, vencedores;
T mesmo do gigante
Soou a hora fatal:
S tu, sorrindo impavido
Do tempo e seus furores,
Inda ergues arrogante
Teu vulto colossal.


E cada vez que fulgido
Renasce o novo dia,
De nova luz te banhas,
Despindo os negros vos;
E dizes, em teu jubilo,
Ao sol que te alumia:
--O rei d'estas montanhas
Sada o rei dos cos.


Depois, ao vl-o pallido
Nas vagas do horisonte,
Pareces ao mar vasto
Dizer com altivez:
--Em teu regao,  pelago,
Tu lhe sumiste a fronte:
Avana, que de rasto
Virs beijar-me os ps!




A FONTE DOS AMORES


Eis os sitios formosos onde a triste
Nos dias d'illuso viveu ditosa;
Eis a fonte serena, e os altos cedros
Que os segredos d'amor inda lhe guardam.
Oh! quantas vezes, solitaria fonte,
Apz longo vagar por esses campos
Do placido Mondego, n'estas margens
A namorada Ignez veio assentar-se,
E ausente de seu bem carpir saudosa,
_Aos montes e s hervinhas ensinando
O nome que no peito escripto tinha!_
E quantas, quantas vezes no silencio
D'esta grata soido viste os amantes,
Esquecidos do mundo e a ss felizes,
Nos extasis da terra os cos gosando!


Pobre infeliz Ignez! breves passaram
Os teus dias d'amor e de ventura.
Ao regio moo o corao rendras,
E o que em todos  lei, em ti foi crime.
Eis do barbaro pae, do rei severo,
Se arma a dextra feroz, eil-o que aos sitios
Onde habitava amor conduz a morte.
Distante de teu bem, ao desamparo,
Ai! no podste conjurar-lhe as iras.
Debalde aos ps d'Affonso lacrimosa
Pediste compaixo; debalde em ancias
Abraando os filhinhos innocentes,
Os filhos de seu filho, a natureza
Invocaste e a piedade: a voz dos impios,
Dos vis algozes, te abafou as queixas,
E o cego rei te abandonou aos monstros.
Eil-os a ti correndo, eil-os que surdos
Aos ais, aos rogos que tremendo soltas,
No palpitante seio crystallino,
Que tanto amou, oh barbaros! os ferros,
Os duros ferros com furor embebem.
Prostrada, agonisante, os doces filhos
Por derradeira vez unes ao peito,
E de teu Pedro murmurando o nome,
Aos innocentes abraada expiras.


Inda, infeliz Ignez, inda saudosos
Estes sitios que amavas te pranteiam.
As aves do arvoredo, os echos, brizas,
Parecem murmurar a infanda historia;
Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte,
A fonte dos amores, dos teus amores,
Como que em som queixoso inda repete
s margens, e aos rochedos commovidos,
Teu derradeiro, moribundo alento.




A UM THEATRO ACADEMICO


Abrindo sepulchros, rasgando mysterios,
Quem mortos gelados levanta de p?
Quem varre co'as azas as cinzas d'imperios,
E os vultos heroicos anima, quem ?


Quem tira do nada uma frma divina?
Quem finge uma imagem de negro terror?
Quem ergue virtudes, e o crime fulmina?
Quem risos excita, quem prantos de dr?


--O genio do drama e o genio da scena!--
So elles que traam, em vo d'illuses,
D'amor, de ciume, de riso, e de pena
O jogo travado, fallando s paixes.


So elles unidos que em chamma inquieta
Sentiu Gil Vicente na fronte escaldar?
So elles que o bardo da terna Julieta,
E a fronte de Talma vieram c'roar.


So elles, mancebos, que em nuvens de flres
A senda apontaram que afoitos seguis,
De palmas e c'ras, de magos fulgores,
Mas senda d'espinhos; c'o genio condiz.


Em nobre fadiga, que os ocios despreza,
D'acerbos estudos assim descanaes!
Foi bello o designio, difficil a empreza:
Quem logra nas artes repouso jmais?


Que importa? na lucta se provam alentos,
Smente na lucta se colhem laureis;
Aos peitos ardentes, de gloria sedentos,
Reluz a bonana por entre os parceis.


vante! e que o genio das artes potente
O fogo das artes vos possa trazer!
Que em scenas de prantos o pranto rebente,
Que em scenas alegres se gose o prazer!


As artes e as letras nasceram amigas:
s aras das duas incensos levae,
E aos louros colhidos em sabias fadigas,
Os louros do palco viosos juntae!




N'UM ALBUM


Do soffrimento o archanjo lamentoso
Sobre a face do mundo estende o brao:
Um diadema offertava, e pavoroso:
Para o que mais soffreu! gritou no espao.


Eis logo immensa turba se atropella,
Todos querem ganhar a prenda infausta;
Mas nenhum dos que chegam por obtl-a
Mostrava a taa da amargura exhausta.


Afastae-vos! lhes brada o genio esquivo,
Nenhum tocou do soffrimento a meta:
Tu, s tu mereceste o premio altivo;
Ergue a fronte, cora-te, poeta!




VISO DO RESGATE

AO MEU AMIGO ALEXANDRE BRAGA


E eu achei-me assentado solitario
Junto d'um grande mar triste e sombrio,
Cujas ondas d'aspecto funerario,
Se agitavam, qual trmulo sudario
Sobre um cadaver macilento e frio.


E eu era triste! sepulchraes gemidos
Me vinham d'essas ondas tormentosas;
Seu fragor penetrava em meus ouvidos,
Como o arfar de mil peitos opprimidos
Em duros transes d'afflices penosas.


E por cima na abobada do mundo
Um vo de nuvens se estendia bao;
Rebramava o trovo rouco e profundo,
E o mar lhe respondia gemebundo,
E a tristeza reinava em todo o espao.


E um suor frio me escorreu na fronte,
Como o orvalho na cruz d'um cemiterio;
E de meus prantos desatou-se a fonte,
E eu pedi ao Senhor que do horisonte
Me tirasse esta nuvem de mysterio.


E o Senhor deu ouvidos a meu rogo,
Pois vi descer a mim do firmamento
Um facho ardente de celeste fogo,
Que as trevas de meus olhos varreu logo,
Qual varre as nuvens um tufo violento.


E eu vi tudo! esse mar de ondas sombrias
Era um mar de naes que se agitava;
E eu conheci que em leito d'agonias,
Chorando em vo seus miserandos dias,
Aquella multido gemia escrava.


Alli o fraco de pavor transido
Arrastava grilhes aos ps do forte;
O perverso ostentava o rosto erguido,
E o justo era qual pombo foragido
Que nas garras do aor encontra a morte.


O mendigo nos atrios do opulento
Pedia amparo, e maldies colhia;
O filho do trabalho, sem alento,
Comprava o escasso po ao avarento
A troco dos andrajos que despia.


E entre as garras da fome devorante
O mancebo luctava enfraquecido,
O velho desmaiava agonisante,
E a me sem foras apertava o infante
Ao peito como a urze resequido.


E um espectro medonho e ensanguentado
Por entre aquelles povos divagava,
Brandindo um ferro com medonho brado;
E o cho que elle pisava era abysmado
Como em torrentes d'incendida lava.


 que esses povos, como iradas feras,
Ao seu brado feroz se levantavam;
E a matana era tanta, que disseras
Vr um circo de hyenas e pantheras
Que entre as garras crueis se espedaavam.


E no meio de tudo em alto monte
Se erguia um throno de rubins accesos,
No qual um anjo, coroada a fronte,
Dominava soberbo esse horisonte
De povos algemados e indefesos.


E no semblante d'esse archanjo ardente
O dedo do Senhor estava escripto;
E eu pude lr-lhe na sombria frente,
Gravadas em caracter refulgente,
As sinistras palavras:--_s maldito!_


E outro archanjo de negras armaduras
De joelhos aos ps se lhe inclinava;
E, infausto mensageiro d'amarguras,
Na sinistra empunhava algemas duras,
Na dextra ferrea urna sustentava.


E offertando-lhe a urna com respeito,
Lhe dizia com voz assustadora:
Anjo do mal que o homem tens sujeito,
N'este vaso de dr recebe o preito
Das lagrimas crueis que o mundo chora.


Eis o penhor fiel que a tyrannia
Por mim, seu anjo, te conduz s plantas.
Os humanos resistem noite e dia,
Mas o lao do amor no concilia
As suas turbas, que feroz supplantas.


Mal haja o Christo que o amor ensina!
Seu vil reinado succumbiu na terra.
Triumpha, anjo do mal, reina e domina,
E mil flagellos s naes fulmina,
De crimes, divises, de luto e guerra!


E o archanjo brandindo o sceptro ardente
Sorria com feroz perversidade:
E ao longe murmurava um som fremente,
Como o rugido d'um volco latente,
Ou a voz de longinqua tempestade.


E eu cedi ao vaivem de minhas mgoas,
Como ao spro do vento a fragil hera,
T que uma voz, como a das grandes agoas,
De minhas penas abrandando as frgoas,
Me bradou aos ouvidos:--_cr e espera!_

       *       *       *       *       *

    E subito uma aurora
    Serena, refulgente,
    Das trevas do oriente
    Desfez os negros vos;
    Lavrou, como um incendio,
    Nas sombras horrorosas,
    E alfim cobriu de rosas
    A cupula dos cos.


    E um astro despontando
    Na franja do horisonte,
    Alou a meiga fronte
    Coberta d'aurea luz:
    Sobre elle campeando
    Cercada d'alta gloria,
    Promessa de victoria,
    Brilhava a eterna cruz.


    E logo ardente nuvem,
    Relampagos soltando,
    Baixou do co voando
    No carro dos troves;
    Bem como de trombeta
    Soltava estranho accento,
    E prestes como o vento
    Rolou sobre as naes.


    E n'ella a gloria immensa
    Do Deus que o mundo adora
    Brilhava como outr'ora
    No tpo do Sinai;
    E o grito da trombeta
    Dizia em som de guerra:
    --Surgi, povos da terra,
    N'um s vos ajuntae!--


    E o throno do mau anjo
    Tremeu nos fundamentos,
    E eu vi passar nos ventos
    O espirito de Deus;
    Seu brado erguia os povos,
    Bem como a tempestade
    Do mar na immensidade
    Levanta os escarcos.

       *       *       *       *       *

E as turbas procellosas remoinharam,
Como as areias que o tufo agita;
E alando todas pavorosa grita,
Com laos fraternaes se colligaram.


E emquanto erguiam seus pendes de guerra,
Eis que as azas batendo nas alturas,
Cingidos de brilhantes armaduras,
Dous archanjos pairaram sobre a terra.


Cobriam-lhes as frmas delicadas
Escudos e couraas diamantinas,
Aureos elmos as frontes peregrinas,
Nas dextras empunhando igneas espadas.


E eu vi-os, como soes relampejantes,
Adejarem velozes sobre a terra,
Brandindo irados, em signal de guerra,
As terriveis espadas flammejantes.


T que chegando o instante do resgate,
Fitando os povos que os olhavam mudos,
Bateram co'as espadas nos escudos,
Bradando s multides:--eia ao combate!

       *       *       *       *       *

    E os povos ao brado,
    Qual mar agitado
    Fervendo em caches,
    Erguiam-se fortes
    Em densas cohortes,
    Em mil turbilhes;
    E  guerra corriam,
    E feros bramiam
    Quaes feros lees.


    Corriam, chegaram,
    E o throno cercaram
    Do anjo do mal;
    Mas elle!--maldito!--
    Das luctas o grito
    Soltra fatal;
    Na mo, qual espectro,
    Luzia-lhe um sceptro
    De lume infernal.


    Com furia sombria,
    Da vil tyrannia
    Ao anjo acenou,
    E o prompto ministro
    Seu mando sinistro
    Fiel acceitou;
    E eis rapido logo
    As armas de fogo
    Medonhas tomou.


    E enormes serpentes
    Vermelhas, ardentes,
    Soltou pelo cho;
    Das ferreas escamas
    Sahiam-lhes chammas
    De torvo claro;
    Cada uma nos povos
    Saltava em corcovos
    D'horrenda viso.


    Os povos, que as viam,
    Debalde investiam
    Seus gyros mortaes:
    Crueis lavaredas
    Abriam veredas
    s serpes fataes;
    E a turba d'exangue
    Cahia do sangue
    Nos rios caudaes.


    Mas n'isto ligeiros
    Os anjos guerreiros,
    No ar inda ento,
    Baixaram luzentes,
    Quaes astros cadentes,
     terrea manso;
    E aos anjos malvados
    Correram irados
    Com voz de trovo.


    E todos, aladas
    As igneas espadas
    Brandiram a par;
    Cada uma semelha
    Luzente centelha
    Cruzando no ar;
    Semelha no embate
    A onda que bate
    Na rocha do mar.


    Seus olhos vibravam,
    Seus gritos soavam
    Em echos d'horror;
    As turbas rugiam,
    As armas tiniam
    Com novo rancor;
    O carro da guerra
    Rolava na terra
    Com torvo fragor.


    At que um rebombo
    Soou, como tombo
    Ruidoso e fatal
    De penha que d'alto
    Desaba, e d'um salto
    Retumba no val:
    Era alto ruido
    Do throno abatido
    Do genio do mal.


    E logo infinitos
    Ouvi ledos gritos,
    E ouvi maldies;
    E soltos aos ventos
    Vi centos e centos
    D'ovantes pendes;
    Vi feitos pedaos
    Algemas, e laos,
    E ferreos grilhes.


    Vi thronos cahidos,
    Vi sceptros partidos
    Rolarem no p;
    Vi aureos emblemas,
    Vi mil diademas
    Calcados sem d;
    Vi povos diversos,
    Outr'ora dispersos,
    Unidos n'um s.

       *       *       *       *       *

Vi a terra j livre d'anciedade
Rasgar altiva seu funereo manto;
Vi os homens  voz da liberdade
Surgirem fortes do lethal quebranto.


Vi-os, tecendo fraternaes abraos,
Sem odios, sem rancor, e sem vinganas
Estreitarem d'amor serenos laos,
Unidos em sublimes allianas.


E eu louvei o Senhor! j no reinava
O anjo do mal co'a tyrannia fera:
Seu throno demolido semelhava
D'apagado volco torva cratera.

       *       *       *       *       *

Coberto de mantos de pura saphra
Que dia to ledo brilhava sem vos!
A estrella formosa que aos homens surgra
Reinava em triumpho no campo dos cos.


Seu facho divino cercado de rosas
Vertia no mundo torrentes de luz,
E o mundo coberto de galas formosas
Saudava n'esse astro do Golgotha a cruz.


Dos valles, dos montes, da terra, e dos mares,
Sahiam murmurios de paz e d'amor,
Co'a voz dos humanos soando nos ares
Em cantos infindos d'infindo louvor.


Batendo serenos as azas douradas,
Os anjos formosos pairavam no co,
Qual nitido bando de pombas nevadas
Cruzando os espaos n'um dia sem vo.


Nem elmos agora, nem malhas luzentes
Cobriam dos anjos as frmas gentis:
De branco trajados, seus vos innocentes
Ondeavam tremendo nas auras subtis.


Cahiam-lhes soltos os longos cabellos
No collo, nos hombros d'alvura lou,
Seus rostos ornando, mais puros, mais bellos
Que a estrella argentina da rosea manh.


Traziam poisadas nas candidas frentes
Grinaldas singelas de casta cecem,
E as harpas eburneas tangiam cadentes,
C'roadas de rosas e lirios tambem.


Um cro celeste voando em cardumes
Seguia os archanjos com doces canes;
E todos lanando na terra perfumes
Assim descantavam por sobre as naes:


O ARCHANJO DO CHRISTIANISMO


Salve, dia que meigo fulguras
Despontando no mundo sem vo!
Salve, estrella d'amor e venturas
Que resurges formosa no co!


Pura e bella surgras outr'ora,
Densa nevoa cobriu tua luz;
Pura e bella resurges agora,
Vem reinar sobre os homens,  cruz!


Vem remil-os da negra maldade,
Vem na face do mundo luzir,
Vem trazer-lhes a luz da verdade,
Que o Messias lanou no porvir!


Era o anjo das trevas maldito,
Quem do mundo rega as naes;
Foi o Verbo, o Messias predicto,
Que desceu a partir seus grilhes.


Novas crenas brotando dos labios
Revelou em seu Pae um Deus s,
E, caladas as vozes dos sabios,
Falsos deuses cahiram no p.


Viu as gentes sepultas no crime,
E eis que armado d'augusta misso
Deu lies de virtude sublime,
D'innocencia, d'amor, e perdo.


Ensinou a brandura ao tyranno,
Ao soberbo dos justos a lei;
Ao avaro bradou:--s humano!
E ao perverso e ao impio:--tremei!


Deu ao fraco palavras de vida,
Deu ao triste consolos na dr,
Deu a todos a esp'rana perdida
D'outro reino de paz e d'amor.


E cumprindo do mundo a sentena
No tormento da cruz expirou;
Mas com sangue d'um Deus sua crena
Sobre a terra gravada ficou.


Do Calvario, librado nas pennas,
A mil povos com ella voei;
Mil coras teci d'aucenas,
Com que tantos martyrios ornei.


Foi ento... d-me queixas,  lyra,
D-me notas de fundo pezar...
Christo,  Christo, a calumnia, a mentira,
Ai! ousaram teu Verbo ultrajar.


Teus ministros, sem f na verdade,
Renegaram da sancta misso,
E entregaram a lei da igualdade
Aos tyrannos,  voz da ambio.


Logo o facho sangrento da guerra
Accenderam com impio furor,
E em teu nome cobriram a terra
D'exterminio, de sangue, e d'horror.


D'ouro e sangue mantendo seus vicios
Teus preceitos calcaram no p;
E mil scenas de horrendos supplicios
Ostentaram ao mundo sem d.


Ento eu  celeste morada
D'entre os homens voando subi,
E a teus ps com a fronte curvada
Largas eras,  Christo, gemi.


Mas das trevas no pde o combate
Apagar o teu astro de luz:
Aos captivos, signal do resgate,
Eil-o surge brilhante na cruz.


Povos, povos, seccae vosso pranto!
Levantae-vos do leito da dr!
Terra, enta de novo o teu canto,
Doce canto de paz e d'amor!


Da maldade, dos odios, da guerra,
Para sempre o reinado morreu.
Paz aos homens na face da terra!
Gloria a Deus nas alturas do co!


CRO DOS ANJOS


Hosanna! hosanna! signal de victoria,
A cruz do resgate j brilha s naes;
Hosanna! e se eleva nos cantos de gloria
Dos anjos, dos homens, de mil geraes!


O ARCHANJO DA LIBERDADE


Bem vindo sejas, bonanoso dia,
Que ao mundo trazes a perdida luz!
Bem vindo sejas! teu fulgor lhe envia
No facho eterno que as naes conduz!


Assim de galas e esplendor vestida
 voz do Eterno a creao rompeu;
E a liberdade se ligou  vida,
No mar, na terra, na amplido do co.


--Vivei, sois livres, caminhae vante!--
O Eterno disse, e me entregou a lei;
Seu dedo a terra me apontou distante,
E eu das alturas com prazer baixei.


E a lei dos mundos vim gravar na selva,
No leo das brenhas, e no aor do ar,
No cedro altivo, na modesta relva,
Nas bravas ondas do revolto mar.


No ser humano, d'entre os mais acceito,
Gravei mais fundo o universal condo,
E d'entre as azas lhe verti no peito
Viva centelha d'immortal claro.


Ento, qual fumo d'abrazado incenso,
Voou da terra festival louvor;
E a natureza, no seu gyro immenso,
Pulsou de vida, liberdade e amor.


Mais ai! que o homem de seus dons celestes
No altar dos vicios holocausto fez;
Rasgou impuro da innocencia as vestes,
Calcou tyranno seus irmos aos ps.


Tomando o ferro de cruel verdugo
Fartou com sangue mil crueis paixes;
Impz ao fraco seu tyranno jugo,
E o fraco s plantas lhe arrastou grilhes.


Ento a terra suspendeu seus hymnos,
A luz do dia se turvou no co,
E esta harpa triste, nos umbraes divinos,
Aos ps do Eterno desde ento gemeu.


De negras sombras se toldra o mundo,
Mas eis que os tempos eram findos j;
Eis que uma estrella de fulgor jucundo,
Sorrindo  terra, alumiou Jud.


Em vo; s hoje triumphar devia
Esse astro immenso de serena luz:
Eis surge, eis surge do resgate o dia,
Brilhando aos homens sobre a eterna cruz.


Povos, sois livres, enxugae o pranto!
Do leito amargo do penar surgi!
Terra, modla teu festivo canto,
Que o novo dia j reluz em ti!


D'um Deus o sangue resgatou a affronta:
Quebrae a taa da agonia e dr!
Novo porvir s geraes desponta
De liberdade, de ventura e amor.


Eterna gloria ao que desceu  terra!
Eterna gloria do universo ao Rei!
Que o fraco exalta, que o soberbo aterra,
Que impe aos orbes e s naes a lei!


CRO DOS ANJOS


Hosanna! hosanna! seu nome infinito
Refulge de gloria, qual astro sem vo,
Na luz da verdade, no Verbo predicto,
No mar, nos abysmos, na terra, e no co!

       *       *       *       *       *

E subindo atravs do espao immenso
O cro--hosanna, hosanna--repetia,
Entre nuvens d'azul, d'ouro, e d'incenso,
E entre notas d'angelica harmonia.


Entanto eu com a face unida  terra
Do novo dia o resplendor saudava,
E sobre o campo da passada guerra
Ao Senhor dos exercitos orava.




VERSES D'OSSIAN




AO SOL

(FRAGMENTO DO POEMA DE CARTHON)


 tu que rolas n'esse campo ethereo,
Semelhante ao broquel dos meus passados,
D'onde vem os teus raios, sol brilhante?
D'onde recebes tua luz eterna?
Tu despontas solemne e magestoso;
As estrellas se escondem quando passas,
A lua fria e pallida mergulha
Nas vagas do occidente; e tu caminhas
Solitario nos cos. Quem na carreira
Te pde acompanhar? Os altos robles
Baqueiam das montanhas, e ellas mesmas
Sob o pso dos annos se arruinam;
O oceano ora se eleva, ora se abaixa;
A propria lua na amplido fenece:
S tu caminhas sempre, e sempre o mesmo,
E de tanto fulgor te vangloras!
Quando a borrasca entenebrece o mundo,
Quando rolam troves, e adeja o raio,
Tu olhas d'entre as nuvens sobranceiro,
E sorris da tormenta! Mas debalde
Olhando Ossian procuras, que os teus raios
Ossian no mais ver, quer teus cabellos
Em nuvens orientaes flammejem soltos,
Quer descendo os espaos estremeas
s portas do occidente. Sol, um dia
Talvez como eu sers; talvez, quem sabe?
Dos annos teus acabars o gyro,
E insensivel  voz da madrugada,
Em tuas nuvens ficars dormindo.
Mas folga, folga entanto magestoso
No verdor de teus annos: a velhice
 solitaria e triste;  semelhante
Ao claro melancholico da lua
Quando brilha entre nuvens, quando o norte
Reva na planicie, e o caminhante
Pra convulso e de pavor transido.




COLMA

(FRAGMENTO DOS CANTOS DE SELMA)


Era em Selma e nas festas. Comeava
Dos bardos o cantar: eis se adianta
D'olhos fitos no cho, banhada em pranto,
A doce, a amavel Minona. Os cabellos
Lhe ondeavam soltos ao soprar da briza
          Que vinha das montanhas.
As almas dos heroes se enterneceram
          Mal que as primeiras notas
De seu canto dulcissimo soaram.
Muitas vezes o tumulo de Slgar,
E o tumulo de Colma tinham visto,
Da triste Colma abandonada s queixas
Na collina deserta. Um dia Slgar
Promettra de vir e no viera;
Em torno d'ella j descia a noite:
          Ouvi da triste Colma
          A queixa solitaria:


 noite! ssinha no monte elevado
Dos ventos ruidosos escuto o bramir...
Sombria a torrente sussurra a meu lado...
Em triste abandono me  doce carpir.
Descobre-te,  lua, refulge brilhante!
Estrellas formosas, mostrae-vos tambem!
Guiae os meus passos ao sitio distante,
Onde ora canado repousa o meu bem!


 Slgar,  chefe dos montes valente,
Quebraste a promessa que em balde te ouvi...
O tronco, os rochedos, a voz da torrente
So estes,  Slgar, mas faltas aqui...
Deixei por seguir-te na dr abysmados
O irmo que estremeo, meu pae que olvidei:
So velhos os odios dos nossos passados,
Mas eu,  meu Slgar, jmais te odiei.


A lua calada fulgura na selva,
Nas aguas, nas rochas, com doce claro...
Quem jaz em distancia dormindo na relva?
s tu,  meu Slgar? s tu, meu irmo?
Fallae, meus amigos: immoveis, deitados,
Porque inda em silencio me no respondeis?
Ai mortos! ai mortos! em sangue banhados!
E tintos de sangue seus ferros crueis!


Mataste,  meu Slgar, o irmo de minha alma!
E tu, doce amigo, tu jazes tambem!
Perdi-vos: s resta chorar-vos sem calma...
Como eu vos amava no ama ninguem.
Tu eras formoso nas tuas collinas:
Elle era terrivel das luctas no ardor.
Quem vossas espadas guiou assassinas?
Quem pde inspirar-vos da morte o furor?


Mas, ai! j no ouvem meus longos gemidos...
Na terra gelada gelados esto...
Fallae d'entre as nuvens, phantasmas queridos,
Que as vossas palavras medonhas no so!
No monte sombrio que alm se divisa,
Dizei-me a caverna que triste habitaes!...
Calados! calados! nem spro da briza,
Nem voz da tormenta me traz os seus ais!


Sentada no monte, c'os olhos absortos,
Espero chorando do dia o raiar.
Erguei-lhes as tumbas, amigos dos mortos,
E n'ellas a Colma guardae um logar!
Passou de meus dias o sonho to ledo,
Passou para sempre! no mais viverei...
Ao p da torrente que banha o rochedo,
Oh! dae-me o repouso d'aquelles que amei!


De noite, na serra batida dos ventos,
Meu triste phantasma de p surgir,
E ao som da rajada soltando lamentos,
No meio das nuvens gemendo errar.
Ao longe o viandante nos bosques perdido
Ouvindo-lhe as queixas ter compaixo;
As queixas, o pranto de Colma sentido
Chorando os amigos que mortos j so.


Tal foi, tal foi,  Minona, o teu canto,
Doce filha de Trman. Tristes eram
Nossas almas por Colma, e em nossas faces
Deslisavam as lagrimas em fio.




FINGAL

(CANTO PRIMEIRO)


Assentado de Tura junto aos muros
Estava Cuthullin, perto do tronco
De folhas rumorosas. Tinha a lana
Encostada ao rochedo, e aos ps o escudo.
No poderoso Crbar meditava,
N'esse heroe que vencra: eis lhe apparece
Mran, filho de Fithil, sentinella
Do procelloso oceano. Ergue-te, disse,
Ergue-te,  Cuthullin! Eu vi ao largo
Os navios do norte. Numerosos
Os inimigos so; muitos os bravos
Do potente Swran.
                         Sempre tremes,
Sempre,  filho de Fithil, lhe responde
O bellicoso chefe, e assim augmentas
As foras do inimigo. Fngal era,
Fngal, rei dos desertos, que o soccorro
Traz a Erin dos ribeiros.


                         Vi seu chefe,
Replca Mran, qual rochedo avulta!
Como um pinho sem rama  sua lana!
Como a lua nascente o seu escudo!
Assentado na praia semelhava
Nuvem que pousa no calado serro!
--Muitos,  rei de heroes, muitos, lhe disse,
Nossos guerreiros so. Chamam-te o forte,
Mas os fortes em guerra no tem conta
Junto s muralhas da nublosa Tura.--
Com estrondoso assento semelhante
Ao da vaga na rocha, elle me brada:
--Resistir-me quem ousa? Os mais valentes
Aos meus golpes succumbem. S podra
Fngal, o rei de Selma, elle smente,
Meu impeto arrostar. J combatemos
Uma vez em Malmor. Com nossas plantas
Volviamos a terra; as duras rochas
Despegadas cahiam; as torrentes
Recuavam de susto murmurando.
Tres dias combatemos; os guerreiros
Nos olhavam ao longe, e estremeciam.
Diz Fngal que cedi, que o rei do oceano
Cahiu por terra ao quarto: o rei do oceano
Resistiu sempre firme! Ceda-lhe hoje
O torvo Cuthullin! ceda ao que  forte
Como as tormentas de seu patrio bero!--


Oh! no, lhe torna o chefe; a nenhum homem
Cuthullin ceder, mas ha de em campo
Triumphar ou morrer! Toma esta lana:
Parte,  filho de Fithil, vae com ella
Bater de Semo no sonoro escudo!
De Tura  porta vl-o-has suspenso.
Sua voz estridente  voz de guerra:
Ho de ouvil-a os heroes e obedecer-me.


Partiu. Bateu no escudo. Espavorida
Tremeu na selva a cora; em torno os montes,
Os concavos rochedos retumbaram.
Dos ingremes penhascos saltam logo
Curach, e Cnnal de sanguinea lana.
Bate de Grgal o ancioso peito;
O filho de Favi deixa a caada;
 o escudo da guerra! brada Rnnar;
De Cuthullin a lana! brada Lgar,
Empunha,  Clmar, a soante espada!
Ergue-te,  Puno, temeroso chefe!
Deixa,  Cairbar, o ramoso Cromla!
Eth, aproxima-te;  planicie desce
Das torrentes de Lena! Os alvos peitos
Mostra,  Cathol, atravessando o plaino
Sussurrante de Mora; os peitos alvos
Como as espumas que arremessa a vaga
Aos rochedos de Cthon!
                         Eis os chefes!
Eil-os soberbos dos antigos feitos!
Inflammados recordam as proezas,
As glorias do passado. Os olhos torvos
Chammejantes revolvem, procurando
Inimigos da patria. As mos valentes
Descanam nas espadas. Cada vulto
Lampeja armado de brunido ferro.
Brilhantes so os chefes da batalha
Co'as armas de seus paes! Sombrios, torvos
Os seguem seus heroes, como a caterva
De pluviosas nuvens segue os igneos
Meteros do co. Por todo o campo
Resa o estrondo d'armas, e d'envolta
Os uivos dos mastins; de quando em quando
Rompem cantos de guerra, e o alarido
Se repercute no fragoso Cromla.
Sobre o plaino de Lena esto postados
Como a nevoa do outomno sobre o outeiro,
A movedia nevoa tenebrosa
Que aos cos levanta a retalhada fronte.


Filhos dos valles, Cuthullin exclama,
Caadores do gamo, eu vos sado!
Uma nova caada nos convida:
O inimigo se adianta como as vagas
Que se arrojam sombrias sobre a costa.
Combateremos ns, filhos da guerra,
Ou cederemos nossa Erin viosa
Aos filhos de Lochlin? Responde,  Cnnal,
Tu primeiro entre os homens, tu que partes
Os escudos na guerra! J mais vezes
Com Lochlin pelejaste: empunhar queres
A lana de teu pae?
                         De ha muito sabes,
O chefe lhe responde, se nas guerras
Minha lana fulgura. Seu deleite
 ferir nos combates,  banhar-se
No sangue d'inimigos. Mas se o brao
Arde por combater, sereno o peito
 pela paz d'Erin.  tu na guerra
De Cormac o primeiro, observa ao longe
A frota de Swran. So mais densos
Os seus mastros na costa do que os juncos
Na laga de Lego. Os seus navios
So florestas nublosas, cujos troncos
Cedem a espaos ao soprar do vento.
Os seus chefes guerreiros no tem conta.
Cnnal  pela paz. O proprio Fngal
Evitra a peleja, elle que sabe
Dispersar os heroes como dispersa
O vento os sons de Colna quando a noite
Carregada de nuvens cobre o outeiro.


Ah! foge, homem de paz, foge! lhe brada
Clmar, filho de Matha. Vae, regressa
Aos teus montes calados onde a lana
Jmais brilha na guerra! Vae, acossa
O veado do Cromla! com teus dardos
Fere a cora de Lena! Tu, em tanto,
Tu,  filho de Semo, d'esta guerra,
 arbitro supremo, abate o orgulho
Dos filhos de Lochlin! Suas fileiras
Rompe atrevido! Que nenhum navio
Das regies da neve ouse de novo
Galgar as ondas d'Inistor sombrias!
Negros ventos d'Erin, rugi! Erguei-vos,
 turbilhes de Lara! Que entre as nuvens
Me espedacem as iras dos phantasmas
Se ha prazer para Clmar como a guerra!


Quando,  filho de Matha, lhe responde
Cnnal com lenta voz, quando me viste
Aos combates fugir? Embora obscuro
Seja o nome de Cnnal, sempre  guerra
C'os amigos corri, sempre dos fortes
O triumpho ajudei. Mas a ti fallo,
A ti, filho de Semo, e tu me escuta.
Ametade das terras e presentes
D em troca da paz, at que Fngal
Aporte s nossas praias. Mas se a guerra
Desejas antes, minha lana e espada
Erguerei satisfeito! os inimigos
Correrei a affrontar! e como sempre
Brilhar o meu animo na lucta!


Eu, tornou Cuthullin, amo o som d'armas
Como a voz do trovo acompanhado
Dos chuveiros do estio. Vossas tribus
Ide pois ajuntar para que eu possa
Vr os filhos da guerra. Que elles passem
Brilhantes como o sol antes que o vento
Accumulando as nuvens remurmure
Nos carvalhos de Mrven. Mas que  feito
Dos amigos que eu tinha? Onde os que ajudam
Meu brao nos perigos? Onde pras,
 Cathba d'alvo peito? Onde te escondes,
Nuvem da guerra, varonil Duchmar?
Tu, Fergus, onde ests? porque me deixas
No dia da tormenta? Eil-o que chega!
Fergus, filho de Rossa, tu primeiro
No prazer dos festins, brao da morte,
Vens de Malmor acaso? vens correndo
De tuas serras como leve gamo?
Salve, filho de Rossa! que tristeza
Assombra a alma da guerra?
                         Quatro pedras,
Responde o chefe, a sepultura cobrem
Do valoroso Cathba; e j na terra
Dorme tambem o varonil Duchmar.
Tu eras para Erin, eras,  Cathba,
Como um raio do sol! e tu, Duchmar,
Como a nevoa do Lano que no outomno
Rola sobre a planicie, e leva a morte
A viventes sem conta!  Morna,  bella
Entre as mais bellas, socegado  o somno
Que dormes junto  rocha! Eis-te cahida
Entre as sombras da morte, como a estrella
Que se esvae no deserto, e o caminhante
Deixa saudoso de seu raio esquivo.


Ah! conta-nos, lhe diz de Semo o filho,
Conta-nos, Fergus, como foram mortos
Os guerreiros d'Erin. Cahiram ambos
Em combate de heroes? Dize-nos, Fergus,
Porque  que a terra nos esconde os fortes?


Cathba, lhe torna o chefe, cahiu morto
Aos golpes de Duchmar; cahiu junto
Do roble das torrentes. Exultando
O fero vencedor foi ter com Morna
 caverna de Tura.--Amavel filha
Do valente Cormac, elle lhe disse,
Porque saudosa no fragoso serro,
Na caverna da rocha venho achar-te?
O ribeiro murmura; a arvore annosa
Geme ao spro do vento; o lago  turvo;
Negras as nuvens que no co revam!
Mas tu s como a neve da planicie;
Como o vapor do Cromla  teu cabello,
Como o vapor do Cromla quando brilha
Aos raios do poente! So teus peitos
Como os lisos rochedos que se avistam
De Branno dos ribeiros; so teus braos
Como as alvas columnas espalhadas
Pelas salas de Fngal!--
                         --D'onde inquieta,
Lhe diz a virgem de formosas tranas,
D'onde vens,  Duchmar, tu dos homens
O mais torvo e sombrio? Carregado
Trazes o rosto, e ensanguentada a vista.
Descobriu-se o inimigo? Que noticias
Trazes tu l do mar?--
                         -- da montanha
Que eu venho, elle responde; da montanha
Dos escuros veados. Tres cahiram
Traspassados por mim; tres foram mortos
Por meus ageis lebreus. Um d'elles tinha
Magestosa a cabea, e os ps movia
Ligeiros como o vento. Amo-te,  bella!
Para ti o matei: no m'o regeites!--


--Ah! foge, homem sinistro! ella lhe torna.
Carregado e terrivel tens o rosto,
E duro o peito como rocha dura!
Tu,  filho de Trman, tu,  Cathba,
s meu unico amor! s a meus olhos
Como um raio de sol em tempestade!
Oh! dize-me se o viste, o joven bello
Na serra dos seus gamos, pois ha muito
Que n'este sitio o espero!--
                         --E largo tempo
O esperras,  Morna, elle responde!
Olha esta espada nua: aqui o sangue
De Cathba ainda escorre. Cahiu junto
Da torrente de Branno: sobre o Cromla
Lhe erguerei o sepulchro. Volta os olhos,
Volta-os para Duchmar:  seu brao
Forte como a tormenta.--
                         --Morto, exclama
Em desespro a angustiada virgem,
Morto o filho de Trman! nos seus montes
Extincto o joven de nevado peito!
O primeiro em caadas, o inimigo
Dos guerreiros do oceano! Eu te detesto,
 Duchmar cruel! D-me essa espada!
N'esse barbaro ferro quero ao menos
Vr o sangue de Cathba!--
                         --Elle movido
De suas queixas, lhe confia a espada,
E ella no peito varonil lh'a embebe.
Bem como se despenha a ribanceira
Da torrente da serra, elle baqueia.
Na agonia mortal estende  virgem
A mo convulsa, e diz: Por ti fui morto
No verdor de meus annos. Sinto a espada
Fria, ai, fria no peito! Meu cadaver
Entrega  bella Moina: eu era o sonho
Das noites d'essa virgem. Compassiva
Meu sepulchro ha de erguer; e ha de o meu nome
Cantar o caador. Mas vem do peito,
Oh! vem tirar-me este gelado ferro!--
De lagrimas banhada acode a virgem,
O agudo ferro extrahe, e eil-o que a furto
O crystallino seio lhe atravessa.
Vacillando ella cahe; o sangue em ondas
Lhe tinge os braos niveos, a madeixa
Desgrenhada lhe roja; e na caverna
Seus extremos gemidos echoaram.


Paz, disse Cuthullin, paz e descano
s almas dos heroes! Sublimes foram
Seus feitos de valor! Que elles me cerquem
Pairando sobre as nuvens! que eu lhes veja
As guerreiras figuras! Ento forte
Nos perigos serei; ser meu brao
Como o fogo do co! E tu,  Morna,
Sobre um raio da lua me apparece!
s horas do descano quero vr-te
Quando em paz estiver, quando cessarem
Os tumultos da guerra. Mas as hostes
Ordenae, meus amigos, e marchemos
Para a guerra d'Erin! Tomae por norte
Meu carro de batalha! extasiae-vos
Ao rumor do seu curso! Eia, a meu lado
Tres lanas collocae! De meus cavallos
O galope segui! Que eu possa afoito
Com meus socios contar quando esta espada
Relampejar nas sombras da peleja!


Como espumea torrente que se arroja
Do tenebroso Cromla, quando rola
O trovo pelos cos, e a escura noite
Impera na montanha, quando os rostos
Dos lividos phantasmas apparecem
Nas fendas da borrasca; assim furiosa,
Vasta, e medonha se arremessa a turba
Dos guerreiros d'Erin. Na frente avana
O valoroso chefe, semelhando
A baleia do oceano acompanhada
Do marulho das ondas, ou torrente
Que arrasta as aguas atravs dos campos:
Aos filhos de Lochlin chega o ruido
Como o surdo rumor da tempestade:
No pesado broquel bate Swran
Chamando o filho d'Arno. Que sussurro
Lhe diz,  este que nos montes sa,
Semelhante ao zumbido que levantam
Os insectos da tarde? Acaso descem
Os guerreiros d'Erin? Rugem acaso
Os ventos na floresta?  assim que s vezes
Elles soam no Grmal quando querem
Das minhas vagas aoitar o dorso.
Sobe j, filho d'Arno, sobe ao monte,
E estende a vista pelo escuro plaino.


Partiu. Em breve regressou tremendo.
Em torno os olhos revolvia inquieto;
O corao lhe palpitava ancioso;
As palavras a custo proferia
Cortadas, vagarosas. Surge, disse,
Surge,  filho do oceano, altivo chefe
Dos escuros broqueis! Eu vi a negra
Caudalosa torrente da batalha!
As movedias foras numerosas
Dos guerreiros d'Erin! J temeroso
Como a chamma da morte se aproxima
De Cuthullin o bellicoso carro!
Na parte posterior  recurvado
Como a vaga ante a rocha, ou como a nevoa
Doirada pelo sol. So embutidos
De pedraria os lados, e resplendem
Como em torno da barca ondas nocturnas.
 de polido teixo fabricado
O comprido timo; e o liso assento
D'osso branco e macio. Tem os bordos
Recheados de lanas, e no fundo
O degrau dos heroes. Diante do carro,
 dextra parte, relinchando avulta
O d'amplas crinas, largos peitos, forte,
Agil, fero cavallo da montanha.
Estrondoso galopa; a crina esparsa
Pelo pescoo, os turbilhes imita
Do vapor que se estende pelas rochas.
 de brancas espadoas, e chamado
Sulin-Siffada. Do outro lado, o esquerdo,
Resfolga ardente o d'elevado collo,
De raras crinas, duros ps, ligeiro
Filho da serra, saltador ginete.
Tem por nome Dursnnal entre os filhos
Da guerra procellosa. Os duros freios
Entre frocos d'espuma resplandecem.


Cheias de pedraria as finas redeas
Batem no collo dos frises soberbos,
Que ligeiros resvalam na planicie
Como o vapor nos paludosos valles.
Seu rapido galope  como a fuga
Do trepido veado, e irresistivel
Como a descida da aguia sobre a prsa.
Dentro do carro se divisa armado
De rijas peas o valente chefe.
Chama-se Cuthullin, progenie illustre
De Semo, rei das taas. Tem crado
O bello rosto como este arco liso.
Sob as negras arcadas dos sobr'olhos
As pupillas azues amplas revolve.
Como uma chamma lhe fluctua a coma
Quando se inclina ao manejar a lana.
Ah! foge, rei do oceano! Elle se adianta
Como vasta procella que rugindo
Corre ao longo do val!
                         Fugir? e quando
Fugir me viste? respondeu Swran.
Quando medroso se esquivou meu brao
 batalha das lanas? Quando,  chefe
D'alma pequena, recuei eu nunca
Em frente do perigo? Eu j do Grmal
Encarei as tormentas quando as ondas
Espumavam raivosas; j das nuvens
Arrostei os combates: hei de agora
Ante um homem tremer? Oh no; nem Fngal
Me podra assombrar. Eia ao combate,
 valentes guerreiros! Rodeae-me
Como turbidas aguas! Cercar vinde
De vosso rei o chammejante gladio!
A firmeza mostrae das nossas rochas,
D'essas montanhas que a tormenta encaram,
E oppe ao vento os pinheiraes sombrios!


Como duas procellas que no outomno
Correndo oppostas de diversos montes
Se avisinham medonhas, assim torvos
Uns contra os outros os heroes correram.
Como duas torrentes que  planicie
D'altas rochas descendo as bravas ondas
Encontram restrugindo, assim ruidosa,
Fera, e terrivel se encontrou a gente
De Lochlin e Inisfail. Chefe com chefe,
Homem com homem se travou em lucta.
O ferro bate no sonoro ferro;
Abrem-se os capacetes; jorra o sangue;
As cordas zumbem nos polidos arcos;
Atravessando o espao as frechas voam;
As lanas descem como a luz que doira
Os vos da noite em alongadas curvas.
Como o rumor do oceano quando as vagas
Encapella raivoso, como o extremo
Rebramar do trovo, assim resa
O fragor do combate. Quando mesmo
Para a lucta cantar alli viessem
De Cormac os cem bardos, ao estrago
Dos cem bardos a voz no bastaria.
Muitas foram as mortes, muito o sangue
De heroes valentes n'esse cho vertido.


Chorae, filhos do canto, chorae morto
O nobre Sithallin! Que de Fiona
Os suspiros resoem na planicie
Do seu Ardan querido! Ambos cahiram
Como dous gamos do deserto aos golpes
Do potente Swran. Na refrega
Elle rugia dominando as hostes
Como o espirito fero da tormenta
Que entre as nuvens campeia, e olha em triumpho
O nauta que sossobra. Nem ocioso,
Chefe da ilha das neves, foi teu brao!
Muitos,  Cuthullin,  morte dste!
Era o teu gladio como o fogo ethereo
Que incendeia as montanhas, e fulmina
Os ncolas do val. Calcando os mortos
Relinchava Dursnnal; e no sangue
Galopava Siffada. Todo o campo
Destroado deixavam, como as selvas
Ficam no Cromla quando passa o vento
Carregado d'espiritos da noite.


Sobre a rocha dos ventos chora afflicta,
 virgem d'Inistor! Inclina s ondas
A formosa cabea, tu mais bella
Que o espirito da serra quando s vezes
Do meio dia sobre um raio desce
Ao silencio de Morven! Teu amigo,
O teu joven amigo j no vive!
Pallido vacillou, cahiu extincto
De Cuthullin sob a tremenda espada!
Nunca mais teu amor em valentia
 grandeza dos reis ha de elevar-se.
Trnar, o bello Trnar cahiu morto,
 virgem d'Inistor! Debalde o chamam
Seus ces uivando: no solar s vem
Seu espectro vagar. Pende na sala
Desarmado o seu arco, e no aposento
Dos seus veados, o silencio reina!


Como rolam mil vagas contra a rocha,
Taes arremettem de Lochlin as hostes.
Como o rochedo vagas mil affronta,
Taes lhes resistem as d'Erin seguras.
 pavorosa grita que resa
O tinido das armas se reune.
 cada heroe como um pilar de nevoa;
Sua espada na dextra  como um raio.
De lado a lado todo o campo sa
Semelhando a fornalha onde retumbam
Na vermelha bigorna cem martellos.
Quem so esses que tetricos pelejam
Na campina de Lena? Quem so esses
Que duas nuvens na figura imitam,
Cujas espadas sem cessar lampejam?
Em derredor os montes espantados,
Os rochedos medrosos estremecem,
Quem so elles seno d'Erin o chefe,
Seno o filho do oceano? Pelo campo
Co'a vista inquieta os acompanham sempre
Seus guerreiros anciosos. Mas a noite
Os envolve nas sombras, e crescendo
 batalha terrivel pe remate.


Do emmaranhado Cromla sobre a encosta
Depositra Dorglas o veado
Que ao romper da manh fra colhido,
Estando ainda na montanha as hostes,
Eis ajuntam a lenha cem mancebos,
Dez guerreiros accendem a fogueira,
E trezentos escolhem lisas pedras:
O fumo do banquete sobe aos ares.
O poderoso espirito concentra
Cuthullin meditando, e recostado
 lana refulgente a voz dirige
Ao filho das canes encanecido,
A Crril d'outros tempos. Devo acaso
Do banquete gosar, e ha de isolado
Longe do gamo das montanhas suas,
Longe das festas dos sales ruidosos,
O chefe de Lochlin ficar na praia?
Vae,  Crril annoso; vae levar-lhe
Amigaveis palavras. Annuncia
Ao que as ondas ruidosas nos trouxeram
Que vae dar Cuthullin o seu banquete.
Venha ouvir o murmurio dos meus bosques
Pelas sombras da noite, pois gelado
Sussurra o vento nas espumeas vagas.
Venha gosar os tremulos accentos
Da harpa melodiosa; escutar venha
O louvor dos heroes!
                         Obedecendo
Parte o velho cantor, e em tom benigno
Dos escuros broqueis diz ao monarcha:
Acorda,  rei das selvas, eia acorda!
D'entre as pelles da caa te levanta!
Na alegria das taas, no banquete
Do principe d'Erin vem tomar parte!
Como o sinistro sussurrar do Cromla
Antes da tempestade, elle responde:
Quando mesmo, Inisfail, as tuas virgens
Me estendessem os braos cr de neve,
E descobrindo os palpitantes seios
Os amorosos olhos me lanassem,
Firme n'este logar, como so firmes
As rochas de Lochlin, ficra ainda!
N'este logar esperarei que o brilho
Da matutina luz venha chamar-me
De Cuthullin  morte. Eu amo o spro
Dos ventos de Lochlin! Elles cruzaram
Os espaos do mar! Elles me fallam
No zumbir das enxarcias, e me trazem
Minhas verdes florestas  lembrana;
As florestas do Grmal, que eu ouvia
Rugir ao seu befejo, quando a lana
Do javali na caa manejava.
Oh! vae: que o torvo Cuthullin me ceda
O throno de Cormac, ou em torrentes
Correr das montanhas  planicie
De seus guerreiros o espumoso sangue!


Funestos so, diz Crril d'outros tempos,
Os ditos de Swran!--Sim, funestos,
Responde Cuthullin, lhe ho de ser elles.
Mas ergue a voz,  Carril, e reconta
Os feitos do passado. Com teus cantos
Nos abrevia a noite; em ns desperta
O gso da tristeza. Heroes infindos,
E mil virgens amantes ho passado
Na terra d'Inisfail. Doces resam
Os cantos do infortunio que se elevam
Nas rochas d'Albion quando emmudece
O rumor da caada, e s vozes d'Ossian
Se casa o murmurio das correntes.


No tempo que passou, comea o bardo,
Os guerreiros do oceano a Erin vieram.
Numerosos baixeis galgando as ondas
Aportaram d'Erin s mansas praias.
Os filhos d'Inisfail se levantaram
Dos escuros broqueis sustando a raa.
Militava no exercito Carbar,
Dos homens o primeiro, e o joven Grdar,
De garbosa figura. Desde muito
Que entre si contendiam pela posse
Do immaculado touro que mugia
Na campina de Golbum; desde muito
Que a morte viam nos agudos ferros.
Contra os filhos do mar um tempo unidos
Combateram a par, venceram juntos.
Quem na montanha possuia a gloria
De Carbar e Grdar? Mas, oh pena!
Porque mugia o immaculado touro
Na campina de Golbum? Mal que o viram
De novo a sanha lhes brotou nos peitos.


Sobre as margens do Lbar combateram:
Grdar cahiu sem vida. Ento Carbar
Caminhou para o valle onde Brassolis,
Sua irm formosissima, entoava
O canto da tristeza. Ella narrava
As faanhas de Grdar, o mancebo
De seu intimo affecto; ella chorava
Seus perigos no campo, e sua volta
Esperava com ancia. O branco seio
Lhe transluzia sob as roupas leves
Como a lua entre nuvens; e mais doce
Era seu canto que os gemidos da harpa.
Em seu bem adorado tinha a mente,
E seus olhos gentis fallavam d'elle.
--Quando virs emfim?--ella dizia;
--Quando virs,  poderoso em guerras?--


--Guarda, lhe diz o irmo, guarda,  Brassolis,
Este escudo sangrento: vae fixal-o
Da minha sala no elevado tecto.
 o escudo de Grdar!--Mal que o ouve
A donzella estremece, e a cr perdendo,
Sem tino, eil-a que parte. Envolto em sangue
Na planicie de Cromla v o amante,
E junto d'elle, vacillando, expira.
 este, Cuthullin,  este o sitio
Em que repousam ambos! Estes cedros
Lhes brotaram nas campas, e saudosos
Do furor das tormentas os defendem.
Formosa era Brassolis na planicie!
Elegante era Grdar na montanha!
Ho de os cantos dos bardos memoral-os,
E ao remoto porvir levar seus nomes!


Suave  tua voz, suave,  Crril,
Diz o chefe d'Erin. So apraziveis
Os contos do passado, como o orvalho
Da amena primavera quando brilha
Pelos campos o sol e a nuvem leve
Reva nas collinas. Ao som da harpa
Celebra o meu amor, a luz serena
Da solitaria estrella de Dunscaith.
Canta a gentil Bragela, a terna esposa
Que saudosa deixei na ilha das nevoas.
Que fazes, doce amiga? acaso elevas
Sobre a rocha escarpada a bella fronte,
E meus navios descobrir procuras?
O mar se agita ao longe: a branca espuma
Por minhas vlas tomars acaso.
Recolhe-te que  noite, amor querido:
Em teu cabello o vendaval murmura.
Aos meus paos festivos te recolhe,
E pensa em outros dias. Aos teus braos
No poderei voltar sem que serene
A tormenta da guerra. Falla,  Cnnal,
Falla-me d'armas s: quero as saudades
De meu seio expulsar, quero esquecl-a.


Dos guerreiros do oceano te acautela,
Responde o lento Cnnal. Sem demora
Manda escoltas nocturnas que vigiem
O campo do inimigo. Sou de voto,
 Cuthullin, que a pelejar no vamos
Sem que Fngal, dos homens o primeiro,
Aporte s nossas praias, sem que brilhe
Como os raios do sol em nossos campos.


Sobre o escudo d'alarma bate o chefe,
E o nocturno esquadro se pe em marcha.
O restante do exercito no campo
Ao sereno da noite se adormece.
Dos derradeiros mortos os espectros
Divagavam em torno e fluctuavam
Entre as nuvens sombrias. Longe, ao longe
Por sobre a escura solido de Lena
Funereas vozes murmurar se ouviam.


FIM




INDICE


                                                         PAG.

A Cames                                                   5
O Outomno                                                 12
O Noivado do Sepulchro                                    16
Desejo                                                    20
Boabdil                                                   22
Cano                                                    26
 Patria                                                  29
Rosa branca                                               34
Enfado                                                    38
Anhelos                                                   41
O Filho Morto                                             45
Socrates                                                  47
A***                                                      51
Ultimos momentos d'Albuquerque                            52
A ti                                                      59
Infancia e Morte                                          61
O Canto do Livre                                          64
Saudade                                                   67
Amor e Eternidade                                         70
O Escravo                                                 72
O Anjo da humanidade                                      78
Partida                                                   85
Canto de Primavera                                        87
Cato                                                     90
Imitao do Islandez                                      98
 Morte do meu amigo Licinio F. C. de Carvalho           100
O Mendigo                                                105
A Vida                                                   108
Desengano                                                116
Agar                                                     118
Maria, a ceifeira                                        125
O Firmamento                                             127
Tristeza                                                 134
A Me e a Filha                                          137
O Mosteiro da Batalha                                    139
Desalento                                                147
Consolao                                               150
O Bussaco                                                154
A Fonte dos Amores                                       159
A um Theatro Academico                                   162
N'um album                                               164
Viso do Resgate                                         165
Verses d'Ossian:
          Ao sol                                         187
          Colma                                          189
          Fngal                                         193





End of Project Gutenberg's Poesias, by Antnio Augusto Soares de Passos

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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
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work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation information page at www.gutenberg.org


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at 809
North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887.  Email
contact links and up to date contact information can be found at the
Foundation's web site and official page at www.gutenberg.org/contact

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit www.gutenberg.org/donate

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit:  www.gutenberg.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For forty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

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