Project Gutenberg's O culto do ch, by Wenceslau Jos de Sousa de Morais

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Title: O culto do ch

Author: Wenceslau Jos de Sousa de Morais

Release Date: October 29, 2011 [EBook #37879]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DO CH ***




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    *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
    texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em caso
    de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
    deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                          Rita Farinha (Outubro 2011)




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WENCESLAU DE MORAES


O CULTO DO CH

(ILLUSTRAES DE YOSHIAKI)


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KOBE

Typographia do "Kobe Herald"

Gravuras de Got Seikd

1905




A
Vicente Almeida d'Ea,
Sebastio Peres Rodrigues,
Bento Carqueja,

isto ,  _Trindade_ benevolente, que ainda ha pouco, de to longe, me
enviou dentro das folhas de um livro--as _Cartas do Japo_,--o perfume
ineffavel da sua amizade, offereo este outro livro, exotico pela forma,
exotico pelo texto, mas no pelo sentimento de profunda gratido, que
inspirou esta primeira pagina.

Kobe, Junho de 1905.

                                                 Wenceslau de Moraes.




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O CULTO DO CH.


Falla-se do Japo; nem, francamente, devera presumir-se que eu ia
referir-me a um paiz qualquer occidental, onde a nossa raa branca
floresce.

 no Oriente, e em especial no Extremo-Oriente, que as coisas communs da
creao ou os usos e costumes triviaes da vida so susceptiveis de
merecer um tal requinte de solemnidade sentimental e de praxes de rito,
que constituam um verdadeiro culto. No espirito do europeu, despoetizado
pela chateza dos ideas da epoca, atribulado pelas multiplices exigencias
da vida, pervertido pela febre do negocio, no medram de ha muito os
cultos. Especializando a observao ao ch, havemos de convir que este
artigo de commercio, que de to longe nos vem, propositadamente
adulterado conforme o nosso gosto, no fim de contas se resume n'uma
detestavel infuso que entrou em moda no _sport_ social, simples
pretexto para repastos pelintras, para reunies banaes, para palestras
vs.

A Asia  outra coisa: a muitos propositos immersa ainda em barbarismo,
se assim se quer dizer; com mil defeitos e mil erros, que a sabia Europa
aponta a dedo e algumas vezes corrige, quando pode, com a logica dos
seus conhos de tiro rapido; o que ella retem ainda, indiscutivelmente,
esta Asia,  o caracter ancestral, nada vulgar, nada rasteiro,
palpitante de orgulhos de raa, aprazendo-se em sonhos e em chimeras,
acariciando a lenda, divinizando as coisas, prodigalizando os cultos; o
que , em todo o caso, uma maneira amavel, de ir comprehendendo a vida.

       *       *       *       *       *

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Oh, f dos velhos tempos!... Oh, santos patriarchas de to varios paizes
e to differentes seitas, tenazes campees, que fostes incutindo nos
simples a crena, a esperana, o amor,--balsamos consoladores das duras
miserias d'este mundo,--como eu vos amo, a todos!...

Meus piedosos pensamentos elevam-se n'este momento a Darum. Segundo a
tradio da gente japoneza, Darum, o grande apostolo indiano do
buddhismo, veio  China ahi pelo comeo do seculo VI da nossa era
christ, e em terras chinezas prgou em honra da verdade, illuminando o
espirito dos povos.

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Consta que, por voluntaria desistencia das ephemeras alegrias terreaes,
Darum votou-se a passar a vida de joelhos sobre o solo pedregoso,
absorto em contemplaes mysticas, sem mesmo permittir-se o simples
regalo de dormir. Tantos annos permaneceu de tal maneira, que as pernas
se lhe gastaram, claro est; e  assim, sem pernas, s com a cabea e
com o tronco, envolto n'um manto carmezim, que ainda hoje  figurado. A
imagem tronou-se querida e popular entre esta boa gente japoneza; 
mesmo um brinquedo corriqueiro entre as mositas das creanas,--os
santos e os meninos vivem sempre em boa companhia;--lembrando o tal
brinquedo o nosso _frade de sabugo_, pela teima em voltar, por mais
voltas que lhe dem,  sua postura habitual. Deve ainda saber-se que
Darum tem dado assumpto, desde remotos tempos at hoje, a pintores da
mais alta valia; Hokusai foi um d'elles, pintando um famoso Darum sobre
uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza,
empregando oitenta litros de tinta no desenho e servindo-se de cinco
vassouras  laia de pinceis; estendida a tela sobre o campo, no telhado
de um templo a turba admirava a obra e applaudia o mestre.

Mas voltmos ao que aqui mais nos interessa, respeitante ao venerando
vulto que invoquei, ajoelhado sobre as pedras. Consta mais que, em certa
noite, as palpebras se lhe cerraram de fadiga, e o bom Darum deixou-se
adormecer, para s acordar pela manh. Ento, pedindo a alguem uma
tesoira ou instrumento parecido, cortou a si proprio as palpebras
indignas e arremeou-as ao solo, n'um gesto de despeito... As palpebras,
por milagre, erraizaram, dando nascena o a um gracioso arbusto nunca
visto, que medrou mui de prompto e cujas folhas, tratadas de infuso
pela agua quente, fram um remedio precioso contra o somno e contra o
canao das vigilias. Estava conhecido o ch; tem pois na China a sua
origem, e  coisa santa, como se acava de provar. Cr quem quer; mas
devo advertir que este livro foi escripto para os crentes.

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       *       *       *       *       *

Da China, veio o ch para as terras de Nippon, mas no se sabe quando.

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Velhas chronicas mencionam (no dizer dos entendidos n'este caso
melindroso), que em 729 da era Christ, durante uma festa religiosa de
espavento, o imperador Shomu offerecia ch a bonzos de alta gerarchia;
mas fica-se ignorando se j antes seria conhecido... Parece que um bom
abbade buddista, Dengyo Daishi, foi o primeiro que obteve a planta em
solo japonez, em 805; o ch era ento j uma beberagem favorita entre os
bonzos chinezes, que d'ella se serviam durante as vigilias prolongadas
das suas praticas nocturnas. Mais recentemente, ainda outro, bonzo,
Eisei, tendo ido  China, de l voltou, trazendo as sementes preciosas,
e no monte Sefuri, em Chikuzen, cuidou da sua sementeira. Pouco depois,
ainda mais outro bonzo (sempre os bonzos!) de nome Mioy, colhendo de
Eisei os varios segredos de cultura, novas sementes adquiriu, e em
Toga-no-o em Uji, logares visinhos de Kyoto, attentamente se entreve em
cultivar o ch; em Uji, de preferencia, fram os resultados excellentes.
Dois seculos depois, cerca de 1400, o shogun (generalissimo) Ashikawa
Yoshimitsu imprimiu vigoroso impulso s plantaces de Uji, as quaes
tanto fram prosperando, merc da riqueza do torro, que de ento at
hoje o ch d'aquelle sitio tem sido celebrado como o melhor de todo o
imperio; d'elle exclusivamente se serve o Imperador.

       *       *       *       *       *

O Japo  a terra das camelias: _camelia japonica_, l diz o latinorio
dos botanicos.

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Quando, por fins de novembro, comeam os frios e as geadas e pouco tarda
que as neves alvejem nos dorsos das montanhas, quando cessam as ultimas
florescencias dos jardins,  ento que comecam ostentando-se as bellas
flores d'esta esplendida familia das camelias. Vem primeiro as
sazankas, umas brancas, cutras roseas, de mimosissimas petalas frisadas;
seguem-se as camelias simples, sanguineas, surdindo da rama espessa de
arvores gigantes, espalhadas pelos campos; e aps vem as flores
cuidadas, de luxo, variando em innumeras formas, variando em innumeros
tons, desde o branco de leite ate ao roseo quasi negro. Ento igualmente
desabrocha a pequenina flr do ch, que tambem  uma camelia,
subtilmente perfumada, composta de cinco petalasinhas alvas contornando
e protegendo o feixe aureo dos estames.

       *       *       *       *       *

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Passando, em horas de ocio, junto dos campos de ch, dos quaes sinto
prazer em acercar-me, palestro com os aldees e aprendo noes varias,
respeitantes  delicada planta. No pode ser transplantada, nem se
multiplica por estaca ou por enxerto, s por sementeira se propaga. Os
paizes quentes, como os paizes frios, so-lhe nocivos; prospera nos
climas temperados, nos sitios lavados de ar e luz, visinhos dos cursos
de agua, convindo um ligeiro declive ao solo de cultura. Os arbustos so
dispostos em renques parallelos, de norte a sul, para que o sol lhes
bata em cheio desde pela manh at  noite; as plantas mais cuidadas
reclamam na primavera grandes toldos de palha, que abriguem das geadas
as tenras folhas dos rebentos. Durante o primeiro anno, dispensam
adubos, que depois se applicam em periodos frequentes. A guerra aos
vermes, aos insectos, exige zelos incessantes. No fim de quatro annos,
j o arbusto se presta  primeira colheita; mas so as velhas plantas,
de cem annos, de duzentos annos, as que melhor produzem.

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       *       *       *       *       *

Quem quizer tomar conhecimento com a planta de ch, nas melhores
condios de prosperidade e em mais bellas galas de aspecto pittoresco,
tem de ir at Uji, distante quinze milhas de Kyoto; escolhendo de
preferencia um dos primeiros das de maio, quando os rebentos novos
comeam vicejando, o que marca o inicio da faina da colheita. Faina e
festa: a povoao inteira acorda da sua modorra provinciana; desperta em
esperanas, em jubilos, em actividades incanaveis, para votar-se aos
cuidados da preciosa folha; dever presumir-se, em bom criterio, que a
quadra remoante da primavera em flores, com aromas nas brisas e
quenturas creadoras, constitue tambem um forte estimulo para a alegria
repentina que se pinta nos rostos de toda aquella gente.

O quadro  deveras aprazivel. Aps uma banal estao de linha ferrea,
estende-se a cidadesinha garrida, com as suas viella muito limpas e a
fila de lojinhas abarrotadas de varia mercancia. Depois segue-se o rio,
de aguas limpidas e frescas, rico de tradies de gloria; galga-se a
ponte em arco, entra-se no bairro das _chayas_, dos hoteis, em tal
quadra povoados de freguezes galhofeiros e de gentis mulheres, as
_gueishas_, que cantam ou dedilham no inseparavel _shamicen_; e vem
depois os campos, vastos campos de ch a succederem-se pelo horisonte
fra, cuidados como jardins, em longos alinhamentos de arbustos,
copados, arredondados, lembrando enormes mangericos, de delicada rama de
um verde esculro bronzeado; no azul distante, alguns famosos templos
confusamente se recortam.

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As moas de Uji estream _kimonos_ novos para o caso, arregaando as
mangas com fitas escarlates; amarram em turbante em volta dos cabellos
toalhas de cr azul e branca; e assim, esbeltas, graciosissimas, em
ranchos de dez, de doze companheiras, dirigem-se ao trabalho.  ento um
encanto para os olhos ir a gente surprehendel-as no afan do seu mister,
dispersas pelas campinas fra, como borboletas; indo de um ramo a outro
ramo, de um arbusto a outro arbusto, por vezes occultando-se entre o
verde mais denso da folhagem. Os dedos roseos, miudinhos, a escorrerem
de orvalho e multiplicando-se em gestos delicados, vo colhendo os
rebentos tenros do ch e atirando-os a grandes ceiras dispostas pelo
cho; as boccas vo sorrindo, patenteando as enfiadas alvas dos
dentinhos; os olhos esbrazeam em juvenis amores inconfessados; as vozes
unem-se s vozes, em rythmos commoventes de velhas canes locaes:

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    "Quando nasce o sol radioso
Por cima d'aquelle oiteiro,
Todas as aguas do rio
Parecem memo um brazeiro!...

    "N'estas aguas do rio d'Uji
--Ta milagrosas que so!--
Lavam-se todos os males
De que soffre o corao...

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No campo, as raparigas. Nas casas, os homens, as velhas, as creanas.
Ser rara a familia que no tenha interesses na labuta; as grandes
fabricas constituem excepo, como em todas as primitivas industrias
japonezas; em cada albergue se improvisa uma manufactura, modesta,
familial, onde todos trabalham, risonhos, palestrando. O ch 
escolhido, escaldado, posto a seccar, grelhado em fornos, enroladas as
folhas ou reduzido p, depois empacotado, guardado em latas, em caixas,
em boies; um melindroso amanho que requer mos incanaveis, dedos
prestimosos, cuidados inauditos, segredos de processo, meticulosidades
devotas que espantam os profanos, nas quaes collabora a gente toda
valida d'aquelles arredores.

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       *       *       *       *       *

Tal  a industria graciosa e tal  o ch que os japonezes bebem. Vde
agora como a civilizao occidental contrasta com os usos d'estes
asiaticos. Tem os japonezes, para l do Pacifico, um grande consumidor
do seu producto:  o _Yankee_. Tanto mimo e tanto esmero na apanha da
folha e preparoes que se succedem no bastariam para o ch que os
americanos vo beber. Vem de Uji e de outros pontos, tal como os
japonezes o preparam, para as firmas estrangeiras de Kobe e de Yokohama;
 ento submetido a novas operaes, ao sabor do fino paladar de
Nova-York e de Chicago. No so agora as camponezas, esbeltas e trajando
roupas novas, que acodem ao mister; trabalham machinas a vopor, fumegam
chamins e guincham engrenagens; e occupa-se no preparo um mundo
feminino inqualificavel, escoria das cidades, esfarrapado, piolhoso,
horripilante, que a gente v sahir das fabricas  tarde como uma leva de
mendigas, cheias de p, de pustulas, de miseria. O fabrico do ch ao
gosto americano consiste n'um segundo aquecimento em grandes fornos e na
addio de varios productos, como o p de uma certa pedra, _soopstone_,
e o azul da Prussia. Assim  expedido.

       *       *       *       *       *

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A introduco e vulgarisao do ch na terra japoneza deveu grande
incremanto uma industria desde remotos tempos exercida, mas toscamente
praticada,--a ceramica,--que havia de alcanar com o correr dos tempos
um supremo grau de perfeio como arte nacional. A conservao da
preciosa folha, exigindo escrupulos inauditos para reter o seu perfume,
marcou o ponto de partida. Foi Toshiro, um oleiro da aldeia de Seto, na
provincia de Owari, quem fabricou os primeiros boies para guardar o
ch, empregando processos que aprendera na China, respeitantes 
perfeio da pasta e dos esmaltes. Passava-se isto ha sete seculos; e 
curioso registar que _seto-mono_ (objecto de Seto)  ainda hoje o nome
consagrado para indicar qualquer artigo de ceramica.

Dos boies, passou-se gradualmente s chavenas, aos bules,  gentil e
complicada baixella que a infuso foi reclamando e o luxo pondo em moda;
e ora aqui est como a ceramica no Japo,--faiana ou porcellana,--que
attingiu requintes de arte primorissima, deveu ao ch e  agua morna os
seus melhores progressos.

       *       *       *       *       *

Quando comecram a tomar ch os japonezes, era este reduzido a um
impalpavel p e com elle se fazia a beberagem; depois veio o uso de
empregar as folhas, apenas escolhidas e passadas pelos fornos; e  esta,
ainda hoje, a maneira mais commum de preparal-o.

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No Japo, toda a gente toma ch,--ricos e pobres, nobres e
plebeus:--bebe-se na occasio das refeies e a toda a hora, a
pequeninos golos. No lar, quando entra o visitante, offerecese-lhe, aps
as reverencias, uma almofada de regalo e uma chavena de ch. O mercador,
quando quer se amavel com o freguez, serve-lhe antes de tudo uma chavena
de ch, palestra, falla da chuva e do bom tempo; s mais tarde se trata
do negocio. Nos templos famosos, em Kyoto por exemplo, o bonzo offerece
ch ao peregrino antes de lhe mostrar as reliquias e os museus. Pelos
caminhos mais agrestes, que vo serpeando pelas collinas arriba, ha
rusticos poisos espaados aqui e acol, onde o caminheiro descana
alguns minutos, bebe uma chavena de ch, troca um sorriso, deixando em
retorno um cobre sobre a esteira. Um restaurante, na pittoresca
linguagem japoneza, diz-se uma _chaya_,--que quer dizer--casa de
ch.--De sorte que a chavena de ch, que acompanha os _bons-dias_ dados
a quem chega, no constitue simplesmente uma norma rutineira, um habito
banal, tornou-se como que o symbolo da doce hospitalidade japoneza, um
rito da bonhomia d'esta gente, exercido religiosamente entre amigos,
entre estranhos tambem, porque ao estranho, que larga  porta as
sandalias, vem ao nosso lar e nos sada, deve-se ja um sorriso e a sua
parte de conforto.

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       *       *       *       *       *

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Na casa, nua de moveis, porem mimosa de aceios requintados, figura
sempre o brazeiro sobre a esteira, enas brazas vae fervilhando a
chaleira de ferro cheia de agua; o _bon_ (uma bandeja) est cerca,
contendo o bule, as cinco chavenas (cinco, porque? talvez por serem
cinco os dedos em cada mosinha japoneza), os cinco pires de madeira ou
de metal, o cofre de estanho contendo o ch em folhas e ainda o
pequenino recipiente em porcellana chamado _yuzamashi_, cuja ordinaria
serventia vae muito em breve conhecer-se. O sentimento artistico japonez
deprava-se naturalmente na industria de hoje, em grande parte com
destino  exportao para a Europa e para a America;  nos utensilios
communs de uso indigena, onde no intervem o modernismo, que ainda
reside o gosto esthetico, puro e inconfundivel, da gente japoneza,
revelando por si o complicado conjuncto de esmeros, de elegancias, de
chimeras, em que a alma d'este povo se deleita. No que respeita o
servio de ch,  innarravel a gentileza de todo este arsenal de
bagatelas, minusculas, dando a impresso de serem destinadas a um
banquete de bonecas!...

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A agua passa da chaleira para o _yuzamashi_, onde arrefece, pois 
preceito fazer-se o ch com agua que ferveu, mas ja no ferve;
prepara-se depois no bule a infuso, que  offerecida aos hospedes nas
pequeninas taas de fina porcellana.

Eis a singela practica e eis a modesta offerta, actos da vida intima no
poucas vizes repetidos durante cada dia, desde pela manh at  noite.
Poderiam julgar-se sem meritos que valessem do estranho um instante de
atteno e um commentario; mas no succede assim. Para a alegria dos
olhos, a simples preparao do ch imprime um relevo delicioso 
graciosidade innata na _musum_, na attitude que lhe  mais habitual, de
joelhos sobre a esteira, junto do seu brazeiro. A mimica  impressiva,
unica; privilegio d'aquella figurinha meiga e ondulante e d'aquella
buliosa mo, de finissimos contornos, da japoneza, que , em summa, a
Eva mais gentilmente pueril, mais captivantemente chimerica, mais
feminina emfim, de todas as Evas d'este mundo. Parece certo que jamais o
japonez, que ignora o beijo, haja poisado a bocca n'aquella mo que
exhibe esplendores de graa para servir-lhe o ch; o forasteiro, em
intimidade serena, pode ensaiar o galenteio se a phantasia o tenta; e
ento ver talvez, que a mosita da _musum_, reconhecida ao afago, se
conchega de encontro aos labios, se demora, como uma rola docil gulosa
de carinhos.

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       *       *       *       *       *

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O ch japonez, servido invariamente sem leite e sem assucar, que lhe
prejudicariam o aroma,  a bebida mais suavemente agradavel que possa
offerecer-se ao nosso paladar (no de todos porem, ams um paladar
sentimental, um tanto sonhador... que n'isto dos nossos orgos de sentir
ha temperamentos, aptides affectivas caracteristicas...). O _guyokur_,
por exemplo, que  o mais celebrado ch de Uji e de todo o Japo,
instilla taes subtilezas balsamicas de sabor, que mais parece um
perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alchimia conseguiu
liquifazer os aromas de flores--flores dos jardins, flores
silvestres,--transferido do olphato ao paladar a impresso do goso.
Assim  o _guyokur_; claro est que as palavras no podem traduzir
seno por comparao as emoes sentidas; e esta, a do agradoce
deliciosissimo que nos fica nos labios, persistindo, como na memoria
persiste uma reminiscencia, uma saudade,  imcomparavel...

O ch joponez tem a virtude de mitigar a sde. Assi se explica o habito
dos japonezes no beberem agua; mesmo na fora dos calores, em pleno
agosto, a chavena de ch, saboreada a goles, lhes d pleno consolo.
Aponta-se-lhe mais outros condes: excita ligeiramente o organismo,
combate o canao das vigilias, predispe ao bem estar, infiltra no
cerebro no sei que subtil embriaguez, lucida todavia, que nos torna
mais affectivos s sensaes de agrado e mais aptos s elaboraes do
pensamento

       *       *       *       *       *

[Figura]

A maneira de preparar a infuso do ch em p e a arte de servil-o
constituem a to famosa cerimonia chamada do _ch-no-yu_. Foi assim que
o uso do ch se introduzio no Japo, como uma pratica liturgica dos
frades buddhistas da seita de Daisu, exercida no proposito de
prolongares as mysticas vigilhas preceituadas; servia ao mesmo tempo de
pretexto para reunies intimas, que eram, imagina-se, um aprazivel
desenfado  proverbial monotonia do convento; sendo um meio efficaz de
estreitar laos de estima, pelas confidencias segredadas, pelos sorrisos
beatificos que se cruzavam, em quanto que a unica taa ia passando, de
mo em mo, de bocca em bocca, fraternalmente, at a esvaziar.

[Figura]

Mais tarde adoptou-se entre o povo o uso das folhas; mas o _ch-no-yu_
persistiu nas bonzarias, propagando-se tambem nos costumes profanos,
ento com um exuberante luxo de apparato, que muito apaixonou a alta
nobreza. Pelos dias que correm, ainda est em moda, sem distinco de
classes;  um habito gentil que ficou dos velhos tempos e a que todos
podem entregar-se, tido em valia pela delicadeza esthetica do scenario e
ainda no despido do prestigio ortodoxo que lhe vem da remota tradio.

O _ch-do-yu_, se pode definir-se,  a arte de preparar a infuso do ch
em p, com esses escrupulos de limpeza, com esses requintes de elegancia
de que s  capaz o japonez; sendo a bebida offerecida a alguns amigos
de eleio, a drede reunidos n'um recinto disposto para a paz do
pensamento e para o agrado dos sentidos.

Bom  dizer agora que os codigos referenets a materia to grave so
innumeros, diversas as escolas; e os grandes profissionaes, _chjin_
(homens do _ch_), de celebridade immoredoira, centenas de volumes
escreveram sobre o assumpto.

[Figura]

Tudo foi regulamentado e comporta um preceito, que no  licito
esquecer. Non tempos aureos do _ch-no-yu_ o pavilho que recebia os
hospedes era construido n'um jardin e obedecia a uma architectura
inconfundivel. No seu arranjo interno, para a cr das paredes, para a
disposio de luz, para o numero das esteiras, para a jarra com flores
ou com um ramo de arvore, havia praxes a seguir; o _kakemono_ (quadro
suspenso da parede) devia representar uma paizagem que fsse
impressionar a pupilla com carinho; ou antes uma simples sentena
escripta por um pincel de mestre calligraphico, pois nada commove tanto
a aguda sensibilidate d'esta gente como os seus caractres de estranha
construco, cada um equivalendo j a uma synthese de ideas e
predispondo, pela sentida contemplao--ora por uma desenvoltura de
trao, ora por uma ondulao de curva,--ao vago discorrer da alma
sonhadora...

O plano do jardin submettia-se a regras determinadas, pelas quaes o
engenho indigena se revelava em graas prodigiosas, aqui pelos contornos
do lago e pelas pontesinhas que o cruzavam, alem pela escolha dos
arbustos e das pedras, na inteno ingenua e amorosa de impr  vista a
illuso de uma paizagem rustica, reduzida a propores minusculas. Mais
do que isto: a alma das coisas, o que de inexplicavel e de subtil parece
emanar de um conjuncto qualquer onde os olhos se poisem,--tranquillidade
das sombras, arrogancia de um tronco, ternura das relvas...--devia
resaltar suggestivamente do jardinsinho japonez, imprimir-lhe um
caracter, uma philosophia, acordando na mentalidade dos visitantes um
sentimento de paz, de triumpho, de saudade... Claro est que as flores
de luxo, como as rosas, como as camelias, como as peonias, eram
excluidas, por improprias da inteno de quadro agreste dada  scena.

[Figura]

ra de estylo a monumental lanterna, tal como se encontra nos templos,
de pedra, tanto mais valiora quanto mais esverdeada e roida de vetustos
musgos, e espalhando pela noite vagas claridades coadas pelas suas
frestasinhas cobertas de papel; os japonezes deleitam-se em contemplar,
aps uma nevada, as amplas cupulas em unbella d'estas lanternas de
templos e de jardins, receptaculos onde a neve poisa e se demora, em
fofos vello de formas extravagantes, de deslumbrante alvura. Um outro
accessorio se encontrava, cerca do pavilho: o pedao de rocha bruta com
uma pequena cavidade cheia de agua, onde os hospedes iam lavar as mos
antes de entrarem, como em purificao liturgica.

At a linguagem empregada entre os convivas obedecia a regras de
pragmatica: os assumptos de religio ou de politica eram banidos; a
phrase devia modelar-se n'um agradavel discorrer, sem ferir melindres de
ninguem. A cortezia impunha-se: preceituava-se que o hospede proferisse
palavras de louvor pelo que via,--alfaias de servio, arranjo do
aposento, horisontes em volta,--mas sem insistencia em demasia, que
poderia parecer pouco sincera ou pelo menos importuna.

[Figura]

Variadissimos objectos devem encontrar-se no aposento, como o brazeiro,
o carvo de reserva contido n'um cestinho, a chaleira, o abano de
pennas, o cachimbo, o tabaco, o pincel, o papel e a escrevaninha. Os
artigos destinados particularmente ao ch, muitas vezes contidos n'um
estojo especial, so os seguintes: a boceta com perfumes, que antes de
tudo se lanam sobre as brazas e embalsamam o ambiente; a jarra com agua
fria e a competente colher feita de um pedao de bambu; o ch em p n'am
cofresinho de charo e a colherinha adjunta; duas taas, de barro ou de
porcellana, uma usada no vero, de cr clara, e outra escura, usada no
inverno; um curioso utensilio feito de finas lascas de bambu reunidas em
feixe, com que se agita na chavena a mistura do ch em p com a agua
morna; finalmente a tigela onde se lavam e o pedao de seda de finissimo
tecido, com que se enxugam, as peas empregadas.

 o dono da casa quem deve preparar o ch, solemnemente, prescindindo do
mais ligeiro auxilio dos criados;  elle que o offerece aos convidados.
A mo executa setenta e cinco movimentos, n'um _ch-no-yu_ havido por
singelo... e trezentos, quandorequeridas todas as formalidade ortodoxas.

[Figura]

       *       *       *       *       *

No tempo do generalismo do Imperio, chamado Toyotomi Hideyoshi, mais
conhecido na historia pelo grande Taiko-sama, quasi todos os genesaes
eram _chajin_, isto , ferventes apaixonados da ceremonia do
_ch-no-yu_. Em 1585, o proprio Taiko-sama organisou um _ch-no-yu_
colossal nas visinhanas de Kyoto, ainda hoje memorado como festa de
inigualavel esplendor: uma extenso de quinze kilometros quadrados era
occupada por innumeros kiosques, aonde os generaes preparavam o ch;
todos, nobreza e plebe, os ricos e os mendigos,--um enxame
humano!--tinham entrada; Hideyoshi visitou todos os poisos e por suas
proprias mos proparou ch, que offereceo aos chefes favoritos.

[Figura]

Relembrando o passado, justamente n'um periodo de effervescencias
guerreiras culminantes no Japo, talvez parea estranho, talvez parea
comico, que esses rudes heris de to grandes faanhas, os indomaveis
veteranos das guerras na China e na Cora, despissem armaduras, tirassem
os dois sabres da cintura, para virem votar horas chimericas a aquecer a
agua sobre brazas e a preparar o ch... Mas o contraste, por si, explica
o facto: era precisamente essa dura existencia de batalhas e de lances
sangrentos, de inclemencias de vida nomada, de longo cogitar em
extratagemas e em argucias, que impunha aos homens dirigentes a doce
tregua do _ch-no-yu_. O convivio com os partidarios e os amigos, o
desfilas do povo alegre a reverente, a verde paizagem de repoiso, a
solemnidade hypnotica dos gestos, tudo contribuia para offerecer um
curto aprazimento quella gente, que assim ia apagando da memoria os
amorgores soffridos, estretando sympathias, retemperando foras para as
proximas luctas.

       *       *       *       *       *

[Figura]

O _ch-no-yu_ attingiu depois, durante a longa paz da dynastia shogunal
dos Tokugawa, uma epocha de exaggeros faustuosos, de dissipaes
paradoxaes. Escolhiam-se as baixellas de entre objectos muitos antigos e
firmados por um nome de fabricante prestigioso, e por isso rarissimos,
preciosissimos; e estava ento em moda offerecel-os, no momento das
ruidosas despedidas, s bellas companheiras do festim, que haviam com as
suas guitarras, com as suas canes, com as suas graas profissionaes,
enfeitiando os hospedes... Sorveram-se fortunas n'este abysmo.

 de ento que se conta que um amador empregou n'um _ch-no-yu_
utensilios no valor de trinta e oito mil yens, o que passa de quatro mil
libras esterlinas; um outro adquiria por trinta mil yens um s boio de
ch!...

[Figura]

Ha cerca de tres ou quatro annos, em um leilo de Tokyo, um japonez
comprou por tres mil yens uma chavena de _ch-no-yu_; prova isto que
ainda ha devotos _chajin_ presentemente. Com effeito, se o luxo sem
limites que caracterizou o _ch-no-yu_ dos bons tempos feudaes
desappareceu para sempre com a mudana de regimen e com a mudana de
costumes, continuou todovia esta elegante pratica merecendo uma alta
estima. Hoje, os dois sexos a ella se dedicam, e pode affirmar-se que
faz parte da boa educao de uma menina, exigindo uns seis ou sete annos
a sua aprendizagem. As _gueishas_ tambem se instruem em tal culto; as
celebres danas primaveraes da cidade de Kyoto, conhecidas pela
denominao de _Miyako-odori_, so sempre precedidas do _ch-no-yu_, em
que  officiante uma das mais gentil _gueishas_ do logar; e a multido
acode, com devota deligencia, a saborear o perfumado ch.

       *       *       *       *       *

[Figura]

No me peam agora, a mim, profano na materia e viageiro fatigado de to
multiplices impresses que tenho vindo colhendo por este mundo fra, uma
opinio pessoal sobre o _ch-no-yu_. Estive uma vez,  certo, com dois
ou tres amigos, em uma das _chayas_ de mais fama da cidade de Kobe; e
Tama-Guiku (o Malmequer-Precioso) era a esplendida sacerdotiza da
cerimonia. A impresso que d'aquella noite guardo  indefinida, fugidia,
como de um vago sonho que tivesse. Ficaram-me reminiscencias indecisas
do luxo sombrio e harmonioso e do aceio extremo das coisas impregnadas
de exotismo onde poisou o meu olhar. Na meia luz do placido aposento,
amplo e silencioso como um templo, contornava-se, distante, um vulto de
mulher, de joelhos, envolta em sedas magnificas. As attences fixavam-se
especialmente, como que por attraco hypnotica, nas suas mos
finissimas, alvejando no espao como se fossem de marfim, tomando de
estranhos utensilios, preparando no sei que filtro de magia, poisando
em mimicas hieraticas, quaes mos de mystica officiante de uma religio
desconhecida. Por fim, convidado a partilhar no sacrificio, acceitava
uma taa com ch que me era offerecida e levava-a aos labios commovido,
com no sei que subitos escrupulos de apostata mal firme...

Tama-Guiku concluira. Ergueu-se, deslumbrante de graas, de atavios, de
magestade. O seu rostinho meigo illuminava-se ento da exaltao
beatifica que lhe electrizava o espirito; dirigiu sobre ns a ardencia
negra dos seus olhos, saudou-nos reverente... reverente, no porque uma
imfima cortezia sequer lhe merecessemos,--pobres occidentais
ignaros!--mas em estricta abediencia aos preceitos rituaes; e
desappareceu da scena.

       *       *       *       *       *

A proposito d'estas divagaes respeitantes ao ch e ao seu culto,
vem-me agora ao pensamento e ainda me compunge um dramatico episodio da
existencia intima japoneza, que contado me foi ha cerca de tres annos.
Vou tentar descrevel-o.

ra no fim de maio. Eu achava-me em Kobe. Um meu amigo japonez, _chajin_
apaixonado, partira para Uji, onde devia assistir a umas costumadas
reunies votadas ao _ch-no-yu_, em casa de um parente, cuja filha, a
gentilissima O-Hana, era eximia na arte; entre ns ficra combinado que
eu iria encontral-o, passadas tres semanas, em Nara, a cujos velhos
monumentos queriamos votar horas de estudo.

Haviam decorrido apenas uns tres dias, quando do tal sujeito recebi um
bilhete, pouco mais ou menos n'estes termos:--"Pode seguir para Nara,
onde me encontrar. Falhou o _ch-no-yu_. O-Hana suicidou-se. Pesava
sobre ella uma desdita igual  pobre Hichi da lenda..."--

Ora, eu conhecia O-Hana; e a lenda, que por signal constitue o thema de
uma notavel pea de theatro, no me era de todo estranha.

       *       *       *       *       *

Vamos por partes. A lenda  como segue.

No sei ha quantos seculos e nem sei em que logar,--nem importa
sabel-o,--havia em certa rua dois estabelecimentos de negocio, dos que
se chamam _Yaoya_ em lingua do paiz, onde se vemdem variadas
provises,--fructos, legumes, hortalias, ovos, peixe e muitas coisas
mais.--Defrontavam um com o outro. N'um, habitava certo casal com uma
filha unica, O-Hichi; n'outro, um outro casal com um s filho, Kichisa.
Quiz a mofina sorte que se enamorassem um do outro.

Mofina sorte? Sim, embora,  primeira vista, no seja o caso concebivel,
quando se saiba que ambos eram jovens, gentis e animados de doces
enternecimentos amorosos. Eu me explico todavia. Os velhos codigos
nipponicos, ainda hoje respeitados, impem aos filhos o preceito de
herdarem o appellido de seus paes; o filho mais velho herda a mais o
encargo de chefe de familia, com a administrao dos bens e a
superintendencia no culto piedoso devido aos parentes fallecidos.  por
este processo que as genealogias no offerecem mysterios e as familias
se eternizam, conservando religiosamente o mesmo appellido durante
seculos sem conto; cessando apenas no caso excepcional de todos os
descendentes acabarem, consanguineos ou no, pois  de uso corrente
chamar ao lar, por adopo, filhos alheios. O filho unico pode
certamente casar, e a esposa recebe o appellido do marido. A filha unica
pode igualmente casar e ento o esposo recebe o appellido da mulher.
Est-se agora percebendo como para O-Hichi e Kichisa o problema se
complicava em demazia, por serem ambos filhos unicos. Um meio s se
apresentava, o de uma das familias adoptar um filho estranho, sobre quem
recahissem os encargos de uma supposta primogenitude. Mas o alvitre era
quasi impraticavel, por aquelles tempos feudaes que iam correndo,
dependendo da sanco suprema do daimy, que a negaria, por ser o caso
novo; sem j contar com o orgulho revoltado dos paes da noiva, ou dos
paes do noivo, da familia emfim que, para evitar de ser extincta,
tivesse de investir um filho alheio nos deveres que competem ao
legitimo.

[Figura]

 certo que as duas familias se oppozeram com toda a vehemencia a taes
amores, e a casa se transformou para O-Hichi em duro encerro e a estima
dos seus em aggresses continuas. Foi ento que a pobre _musum_,
captiva n'uma alcova, desesperada, louca de amores, meditou em pr fogo
ao seu lar de tormentos, na crena de que as chammas lhe trariam a
liberdade e o ensejo de reunir-se quelle a quem votara todo o seu
affecto. Errou porem nos calculos, como succede tantas vezes quando se
tem quinze annos e o pensamento voja no mundo das chimeras: descoberto
o seu crime apenas posto em pratica, foi trazida  justia da cidade e
condemnada  morte.

[Figura]

Vem agora a proposito narrar um pormenor curioso, que  de toda a
tragedia o que mais me enternece. A misera seguia, conforme o estylo,
pelas ruas populosas, amarrada ao dorso de uma besta, para ignominia
propria e para lico do povo; mais tarde seria executada. A meio da
jornada expiatoria, os seus longos cabellos soltos, como at ento eram
usados, cahiam-lhe em desalinho sobre a fronte, cheios da poeira dos
caminhos, escorrendo de suor, fustigando-lhe as faces. Ento, ou porque
quizesse poupar-se a um tormento a mais, ou--quem sabe?--por um resto de
garridice deminia, viram-n'a rasgar com os bellos dedos tremulos um
pedao da seda carmezim do forro do vestido, com quem amarrou junto 
nuca, erguendo os braos, esses pobres cabellos... A idea pareceu
graciosa s raparigas, que se iam juntando em grupos curiosos para
observarem o cortejo; e desde ento as japonezas comearam de usar
aquelle enfeite, que persiste at hoje e a que chamam
_kikidashi_--litteralmente: farrapo--em memoria de O-Hichi, a triste
namorada de Kichisa...

[Figura]

       *       *       *       *       *

Mas vamos depressa ao fim da historia.

Quando em Nara deparei com o meu amigo japonez, o triste fim de O-Hana
esclareceu-se em breve.

Havia em Uji duas familias abastadas, Fukumoto e Yamaguchi, possuindo as
mais bellas culturas de ch d'aquelles campos. Os Fukumoto juravam que o
seu ch ra o melhor de todo o Imperio, e os Yamaguchi diziam do seu ch
a mesma coisa; eram no fim de contas uns caturras, professando um supino
orgulho do seu nome e um culto pelo mister a que se davam; alem d'isto,
ou por isto, pouco affeioados entre si, confirmando a justia d'aquelle
ditado portuguez, com curso em todas as longitudes do planeta... _dos
officiaes do mesmo officio_.

O casal Fukumoto tinha um filha unica, O-Hana; o casal Yamaguchi tinha
um unico filho, Naotar. Este era um perfeito rapazola, amavel,
intelligente, segundo affirma quem o viu. O-Hana era uma _musum_ em
plena flr da vida, educada em todos as gentis prendas do seu sexo.
Ninguem como ella desprendia suavissimos sons do _koto_, a harpa
nacional; nenhumas mos se mostravam to habeis de pinheiro ou de lirios
floridos trazidos do jardim; no _ch-no-yu_ era incomparavel.

[Figura]

[Figura]

Eu vi O-Hana uma s vez, nos parques de Kyoto, quando em peregrinao
primaveral se vae contemplar,  luz da lua, a celebre cerejeira de
Guion, toda vestida de pequeninas petalas.

O-Hana ra uma d'essas japonezinhas embebidas de enlevo e de exotismo,
taes como vs as conheceis dos leques, dos biombos. Isto basta,  falta
de melhor, para definir-lhe o vulto em miniatura, esguio e ondulante,
coberto de sedas preciosas; e para imaginar-lhe o rosto pallido em forma
de pevide de melo, os olhinhos cerrados, os finos traos das
sobrancelhas em viez, a boquinha sorridente, rubra, lembrando uma
cereja, e o penteado... o penteado colossal como uma enorme borboleta de
azeviche, que lhe houvesse pousado, de azas abertas, sobre a nuca. Ria,
curvava-se em mesuras, em meneios, agitando no ar as descommunaes mangas
do _kimono_; e l ia seguindo o seu caminho entre um bando de amigas,
antes ziquezagueando, a passos miudinhos, indcisos, sem intuito. E eu
ia pensando que alli estava, em carne e osso, a companheira
deliciosissima, anjo de graas e fada de sorrisos, para quem podesse
offerecer-lhe--japonez claramente,--uma casinha de papel em extremos de
limpeza, com duas esteiras sobre o cho, um bule com ch, um prato com
confeitos, uma jarra com ramos vicejantes; e  frente o
jadinsinho,--bambus tufados, azaleas em flor, pedras musgosas, o
pequinono lago, onde peixes vermelhos nadassem pachorrentos e rs
coaxassem em noites estivaes...--

[Figura]

O-Hana e Naotar amaram-se.. No se sabe porque. Porque eram ambos
jovens, visinhos, conhecidos; e em circunstancias semelhantes a
juventude attrahe a juventude...

Quando esta inclinao foi conhecida, as duas familias irromperam em no
dissimulados azedumes. O casamento era impossivel. Se a adopo de um
filho alheio podia resolver em theoria o problema, quem vinha
sujeitar-se ao sacrificio? Os Yamaguchi? Os Fukumoto? Mas nem uns nem
outros, com os diabos!... Os nomes das duas familias, procedentes de uma
linhagem to remota que em vo se tentaria investigar-lhes a origem,
gosavam em todo o Imperio de um prestigo inconfundivel, conquistado
durante annos sem conto pela pobidade mercantil dos seus negocios, pela
excellencia do ch da sua lavra, pela nobre chientela nos castelos;
podendo apenas pr-se em duvida, se o ch dos Yamaguchi preferival ao
ch dos Fukumoto. Ora,--merc de um capricho de estouvados,--investir,
por uma adopo do acaso, um estranho na posse de tal nome, e ungil-o
dos nobres encargos que competem a um futuro chefe de familia--Fukumoto
ou Yamaguchi,--nem por brincadeira se propunha!... Que O-Hana e Naotar
se casassem, intendia-se; era esse mesmo o seu dever, de perpetuar pela
prole os nomes dos avs; mas confiassem no bom tacto dos paes, que
saberiam escolher-lhes noivos do seu agrado e em condies de no virem
parturbar a paz das familias e ferir o amor das tradies.

[Figura]

Muito bem. Quando os dois namorados se convenceram da impossibilidade de
viverem um para outro, tiveram certa noite uma furtiva entrevista 
beira do Ujigawa, a pittoresca ribeira, que ento serpeava em grande
cheia de aguas, resultado das ultimas chuvas copiosas. Deram-se as mos,
parece; sorriam-se um para o outro; no se sabe o que segredaram entre
si, porque ninguem esta alli para os ouvir...

Quando, ao romper do dia, as moas de Uji seguiam para a apanha do ch,
em ranchos galhofeiros, quedaram-se de repente junto ao rio, cheias do
espanto, de pavor, vendo a boiar dois corpos detidos na maranha dos
juncos, rigidos, lividos, mortos, porem sorrindo ainda e dando-se ainda
as mos...

       *       *       *       *       *

.....................................................................

"N'estas aguas do rio d'Uji,
--To milagrosas que so!--
Lavam-se todos os males
De que soffre o corao...

[Figura]

[Figura]




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+-----------------------+---------------------------+
  |          |       Original        |         Correco         |
  +----------+-----------------------+---------------------------+
  |#pg.  19 | do outros             | de outros                 |
  |#pg.  23 | ama norma             | uma norma                 |
  |#pg.  24 | ua industria          | na industria              |
  |#pg.  24 | a modernismo          | o modernismo              |
  |#pg.  26 | da flores             | de flores                 |
  |#pg.  33 | exteuso              | extenso                  |
  |#pg.  33 | homeus                | homens                    |
  |#pg.  37 | desappaeceu           | desappareceu              |
  |#pg.  38 | appelldo              | appellido                 |
  |#pg.  39 | dos familias          | das familias              |
  |#pg.  39 | umo supposta          | uma supposta              |
  |#pg.  45 | pela excellencias     | pela excellencia          |
  |#pg.  45 | nobre encargos        | nobres encargos           |
  +----------+-----------------------+---------------------------+





End of the Project Gutenberg EBook of O culto do ch, by 
Wenceslau Jos de Sousa de Morais

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CULTO DO CH ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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