The Project Gutenberg EBook of Crte na aldeia e noites de inverno (Volume
I), by Francisco Rodrigues Lobo

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Title: Crte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Author: Francisco Rodrigues Lobo

Release Date: October 14, 2011 [EBook #37757]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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    *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
    texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em caso
    de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
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                                          Rita Farinha (Outubro 2011)




BIBLIOTHECA UNIVERSAL

ANTIGA E MODERNA



CORTE NA ALDEIA

E

NOITES DE INVERNO

POR

FRANCISCO RODRIGUES LOBO

VOLUME I

16.^a SERIE--NUMERO 62

[Illustration]

LISBOA
COMPANHIA NACIONAL EDITORA

Successora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDES
40--Rua da Atalaya--52

FILIAES: Praa de D. Pedro, 127, 1.^o andar, PORTO
38, rua da Quitanda. Rio de Janeiro

1890




LISBOA

TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA

309, Rua da Rosa, 309

1890




                        Em quanto est o avaro em seu thesouro
                        Cevando os olhos, dando ao pensamento
                        Materia a v cobia de mais ouro.

                                     _Primavera_, Floresta, 5.




ADVERTENCIA


A _Noticia biographica_ de Francisco Rodrigues Lobo encontram-a os
leitores  frente do volume 23.^o da _Bibliotheca Universal Antiga e
Moderna_.




CRTE NA ALDEIA

E

NOITES DE INVERNO


DIALOGO I

ARGUMENTO DE TODA A OBRA


Perto da cidade principal da Luzitania est uma graciosa aldeia, que com
egual distancia fica situada  vista do mar oceano, fresca no vero, com
muitos favores da natureza, e rica no estio e inverno com os fructos e
commodidades, que ajudam a passar a vida saborosamente; porque com a
vizinhana dos portos do mar por uma parte, e da outra com a
communicao de uma ribeira, que enche os seus valles e outeiros de
arvoredos e verdura, tem em todos os tempos do anno o que em differentes
logares costuma buscar a necessidade dos homens: e por este respeito foi
sempre o sitio escolhido para desvio da crte, e voluntario desterro do
trafego d'ella: dos cortezos, que alli tinham quintas, amigos ou
heranas, que costumam ser valhacouto dos excessivos gastos da cidade.

Um inverno em que a aldeia estava feita crte com homens de tanto preo,
que a podiam fazer em qualquer parte, se juntava a maior d'elles em casa
d'um antigo morador d'aquelle logar, que tambem o fra em outra edade da
casa dos reis, d'onde com a mudana e experiencia dos annos, fez eleio
dos montes para passar n'elles os que lhe ficavam da vida, grande acerto
de quem colhe este fructo maduro entre desenganos. Alli ora em
conversao aprazivel, ora em moderado e quieto jogo se passava o tempo,
se gosavam as noites, se sentiam menos as importunas chuvas e ventos de
novembro, e se amparavam contra os frios rigorosos de janeiro.

Entre outros homens, que n'aquella companhia se achavam, eram n'ella
mais costumados, em anoitecendo, um letrado que alli tinha um casal, e
que j tivera honrados cargos do governo da justia na cidade, homem
prudente, concertado na vida, douto na sua profisso, e lido nas
historias da humanidade: um fidalgo mancebo, inclinado ao exercicio da
caa, e muito affeioado s cousas da patria, em cujas historias estava
bem visto: um estudante de bom engenho, que entre os seus estudos se
empregava algumas vezes nos da poesia: um velho no muito rico, que
tinha servido a um dos grandes da crte, com cujo galardo se reparara
n'aquelle logar, homem de boa creao, e, alm de bem entendido,
notavelmente engraado no que dizia, e muito natural de uma murmurao
que ficasse entre o couro e a carne, sem dar ferida penetrante. Ao
senhor da casa chamavam Leonardo, e ao doutor Livio, ao fidalgo D.
Julio, ao estudante Pindaro, ao velho Solino. Fra estes havia outros de
quem em seus logares se far meno, que assim como os mais, no eram
para engeitar em uma conversao de poucas porfias.

Uma noite do novembro, em a qual j o frio no dava logar a que a
frescura do tempo convidasse ao sereno, estando ainda Leonardo  mesa,
porm no fim das iguarias, bateram  porta Pindaro e Solino, aos quaes o
velho mandou abrir com grande alvoroo e festa; porque a de o buscarem
era a que mais estimava por sua. Subiram, agasalhou-os com contentamento
e cortezia. Sentaram-se perto da mesa, e disse o senhor da
casa:--Peza-me que no viesseis mais cedo, que me poderieis acompanhar
n'este trabalho to necessario da velhice. Mas se ainda virdes na mesa
alguma cousa de vosso gosto, lanae mo d'ella, que de mistura achareis
a minha boa vontade.--Eu sei (disse Pindaro) a que tendes de me fazer
merc; mas venho ceiado e tambem Solino, a quem tive por hospede, e j a
conversao me dobrou o gosto das iguarias.--Eram ellas to boas
(respondeu Solino) que a mim me davam graa. Porm o serdes vs to
miudo nas cortezias, me deu muita pena: e j que sois to discreto, e
tanto meu amigo, d'aqui adeante emendae-vos nas ceremonias da mesa; e
adverti ao vosso moo que no acompanhe com os olhos os bccados dos
hospedes, at o estomago: porque apostarei que me contou todos os da
ceia, e anda to destro no apartar das brigas, que ainda bem no desvio
um prato do outro, quando me d xaque em ambos, e me deixa em casa
branca. E no vos parea que  isto dizer que venho faminto; que, se
assim fra, pde ser que o cumprimento do sr. Leonardo no ficra solto
e livre; antes  fazer-vos lembrana que, pois daes tambem de comer, no
tenhaes um moo Harpya, que descomponha o sabor dos manjares.--Bem sei
(respondeu Pindaro) que ainda farto no haveis de deixar de roer. O meu
moo  de uma d'estas aldeias vizinhas, ha pouco que me serve; por isso,
e por ser creado de estudante, lhe devieis perdoar o erro, e a mim o
remoque; porm a vossa condio no se sujeita a respeito nem a
desculpas.-- to saborosa a murmurao de Solino (disse Leonardo) que
tambem na mesa se pde estimar como boa iguaria: e se a eu tivera muitas
vezes, dra vida ao appetite que para as outras me falta.--Se o ella
fra (tornou Solino) em mais occasies me valra das em que a vs podeis
desejar. Mas, no tratando de vol-a offerecer, nem de a desculpar com
meu amigo; como ceiastes hoje to tarde, e no vieram mais cedo o doutor
e D. Julio?--Antes (disse o velho) me mandaram j recado, e no devem
tardar. Eu o fiz com a ceia, porque os homens de servio me no deram
logar seno a esta hora: mas ouo que batem  porta e devem ser elles.

A este tempo mandou juntamente alar a mesa, e levar a luz  escada.
Subiram o doutor e D. Julio; saudaram-se com muita alegria; e sentados
perto do fogo, disse o velho: Muito deveis ambos a Solino; porque vindo
a esta casa com Pindaro, de quem foi convidado na ceia, e tendo a minha
em estado de que se podia aproveitar de alguma cousa d'ella, vos achou
menos, e perguntou a causa da tardana; signal  este de amor e da pouca
razo com que o temos por desobrigado de toda a affeio dos
amigos.--No  Solino to descuidado do que lhe eu mereo (tornou D.
Julio) que se esquea de mim, e de quanto sentirei perder horas suas: e
pelo interesse das da conversao do doutor o tivera em menos conta se
as no desejra: e alm d'isto posso affirmar que est pago da lembrana
que teve, com a diligencia que fizemos pol-o trazer comnosco, que
voltamos pela sua porta, e eu tirei uma pedra  janella, d'onde me
disseram que ceiava com Pindaro; e cada um dos dois me fez inveja.--Ah!
sr. D. Julio (respondeu elle) to grande trovoada de cumprimentos seccos
no podia deixar de lanar pedra. Eu tenho feita a conta, e sei que no
posso pagar o que vos devo alm d'essa honra e merc, seno com a
humildade com que a todas reconheo por vossas. Dae-vos por satisfeito
de meus desejos, e de pr aqui ponto nos cumprimentos; porque no tenho
polvora mais que para a primeira salva.--J eu me quizera metter em meio
(disse o doutor) porque se vs a terdes em cortezias, no haver quem as
pague, se no fr Pindaro, que tem uma corrente to arrebatada, que no
d vau a nenhuma rethorica do mundo.--Agora (arguiu Leonardo) levastes
tres de um tiro; no me dou por seguro n'este logar, inda que  de minha
casa: porm no tendes razo contra Pindaro, que, cada vez que o ouo,
me parece um livro de cavallarias. Se elle tivera encantamentos escuros,
castellos roqueiros, cavalleiros namoradores, gigantes suberbos,
escudeiros discretos, e donzellas vagabundas, como tem palavras sonoras,
razes concertadas, trocados galantes, e periodos que levam todo o
flego, pudra pr a um canto o Amadis, Palmeirim, Clarimundo, e ainda o
mais pintado de todos os que n'esta materia escrevram: e j estive em o
persuadir que se mettesse em uma empreza semelhante: porm receio que se
me ensoberbea com a altiveza de seu estylo, e despreze aos amigos.--No
merecia eu, sr. Leonardo, a vs, nem ao doutor (disse Pindaro) que
tomasseis meus defeitos por materia de vossa galantaria: falo como sei,
e cada um se extende conforme a roupa com que se cobre. No sou to
philosopho como o doutor, to cortezo como vs, nem to engraado como
Solino, nem tenho maiores penas que a gaiola; porm se abrisse as azas
para compr livros, no houveram de ser de patranhas. Por isso fiae mais
de meus pensamentos.--Nunca o tive de vos offender (respondeu o velho)
nem me parece com razo a vossa desconfiana; nem podeis fazer to pouca
conta dos livros de cavallarias, e dos famosos auctores que os
escreveram, e que mostraram n'elles a sua boa linguagem com toda a
perfeio: a graa de tecer e historiar as aventuras, o decoro de tratar
as pessoas, a agudeza, a galantaria das tenes, o pintar as armas, o
betar as cres, o encaminhar e desencontrar os successos, o encarecer a
pureza de uns amores, a pena de uns ciumes, a firmeza em uma ausencia, e
outras muitas cousas que recreiam o animo, affeioam e apuram o
entendimento. Se vs tendes por despreso compr livros de cavallarias,
eu vos desengano que pertencem mais cousas ao bom auctor d'elles, que a
um dos lettrados philosophos ou juristas, com que desejaes do vos
parecer; porque lhe importa saber a geographia dos reinos e provincias
do mundo, para encaminhar por ellas a sua historia; ter noticia dos
nomes e cousas que usam n'aquellas partes, d'onde faz naturaes os
cavalleiros, saber estylo de crte para as mesuras, gasalhados e
cortezias, conforme as pessoas introduzidas, conhecer da justia, do
torneio e do sarau. a ordem, as leis e as gentilezas, entender da
bastarda e da gineta, o que convm para pintar o encontro, a quda, o
acerto, o dezar, o brio ou descuido de um cavalleiro, debuxar o cavallo
nas cres, concertal-o nas redeas, no pizar, no arremesso, na furia, na
destreza, nas carreiras, chaas e rodeios, e sobre o conhecimento de
todas as sciencias e disciplinas, tambem ha de ter alguma noticia dos
nigromantes antigos para os encantamentos que servem de bordo e
valhacouto aos historiadores.--Tenho por mal empregado (disse ento o
doutor) tanto cabedal em cousa de to pouco interesse, e no sou de voto
qee o auctor, que tiver as partes que vs dizeis que so necessarias
para essa composio se occupe n'ella. De que servem livros de
cavallarias fingidas? E se ha ociosos que os leiam, porque ha de haver
algum que os escreva? Ou que espere algum fructo de trabalho to
vo?--Mas que certeza to grande (tornou Leonardo) que cada um approva o
que segue, sendo assim que ninguem se contenta do que tem. Desejaveis
agora que todos os livros, e todos os homens tratassem smente da vossa
profisso e fossem juristas e philosophos. Pois ainda que eu sou
bacharel em linguagem, me atrevo a contradizer essa opinio adquirida em
latim: porque para recreao, politica e bom estylo se no deve menor
logar a estes, que aos vossos de trapaas e opinies, e outros a que
chamaes conselhos, que o do s vezes bem ruim a quem se fia de sua
leitura.

--Eu era de parecer (disse D. Julio) que poupassemos esta materia para
gastar a noite, pondo-a em maneira de disputa. E se a todos parece
assim, cada um diga sua opinio nos livros que mais lhe contentam, e das
razes que tem para os approvar; e d'este modo, ou affeioados, ou
convencidos, saberemos os que so de maior gosto, e utilidade.--A isto
(respondeu Solino) at agora estive calado contra minha natureza; porque
me houve por incapaz de fazer tero ao doutor e Leonardo: mas pois o
voto  que se jogue com toda a baralha, digo que  esta a melhor materia
que se podia escolher para passar o tempo. E j pode ser que algum dos
que aqui esto, que deseja deixar no mundo memoria de seu engenho, saiba
n'esta occasio o em que o pode empregar melhor.--Pelo que a mim toca
(disse o doutor) comecemos logo; e a vs, sr. D. Julio,  bem que demos
a mo a troco do alvitre: e no tratando dos livros divinos, nem dos
necessarios, dos de recreao nos podeis dizer quaes, e por que razes
vos contentam.--A minha inclinao em materia de livros (disse elle), de
todos os que esto presentes  bem conhecida: smente poderei dar agora
de novo a razo d'ella. Sou particularmente affeioado a livros de
historia verdadeira, e mais, que s outras, s do Reino em que vivo, e
da terra onde nasci: dos reis, e principes que teve, das mudanas que
n'elle fez o tempo e a fortuna, das guerras, batalhas, e occasies, que
n'elle houve, dos homens insignes, que pelo discurso dos annos
florecero: das nobrezas e brazes que por armas, lettras, ou privana
se adquiriram. O que me inclinou  escolha d'esta lio, foi que tive
alguma de um homem muito douto, em o que o deve desejar de ser, e
parecer o que  bem nascido; ao qual elle dizia, que o que mais convinha
que soubesse era, o appellido, que tinha, d'onde lhe veio; quem fram
seus passados, que armas lhe deixaram, a significao, e fundamento da
figura d'ellas, como se adquiriram, ou accrescentaram. Logo os reis que
reinaram na sua patria, as chronicas d'elles, os principios, as
conquistas, as emprezas, e o esforo de seus naturaes; porque falando
d'elles nas terras extranhas, ou na sua com extrangeiros, saiba dar
verdadeira informao de suas cousas. E alcanadas estas, lhe estar bem
tudo o que mais puder saber das alheias. E na verdade, nenhuma lio
pode haver que mais recreie, e aproveite, que a que sei que 
verdadeira, e por natural ao desejo dos homens deleitosa.--No  essa a
minha opinio (disse Solino) porque contra o gosto me assombram muito
cousas passadas, e andar abrindo sepulturas de gente morta. E no que
toca  verdade, certo que  conta dos enterrados se escrevem algumas
vezes to grandes mentiras, que lhes no levam vantagem os fingimentos
de historias imaginadas. E havendo um homem de ler o que no , ou o que
sabe,  to caldeado, e to batido da forja dos auctores, que mudado
traz o metal, a cr, e a natureza: estou melhor com os livros de
cavallarias, e historias fingidas, que, se no so verdadeiros, no os
vendem por esses: e so to bem inventados, que levam aps si os olhos,
e os desejos dos que os lem. E no estima um auctor matar mais dois mil
homens com a penna, para fazer valente o seu cavalleiro, com a espada,
sem estar receando os ditos das testemunhas que ficaram da batalha; que
por eguaes respeitos pende cada uma para seu cabo. Pois se  caso, em
que um historiador queira passar adeante como Ariosto, no matou mais
gente a peste grande em Lisboa, que Rodamonte nos muros de Paris.--Essa
 uma das razes, porque eu os reprovo (tornou o doutor) porque a fabula
 uma cousa falsa, que podia comtudo ser verdadeira, e acontecer assim
como se fingio. Porm a isto no do logar os livros de cavallarias, com
esses excessos, e outros encantamentos, fazendo casas, e torres de
crystal, edificios, lagos, e columnas impossiveis, pyramides de
alabastro, e casas de pedraria, cuja riqueza podia empobrecer a fortuna.
E em nossos tempos, na India Oriental, sabemos que o rei Mogor andou
muitos annos fabricando uma casa de esmeraldas, por cujo respeito se
passavam d'este Reino  nossa India as da Occidental. E emfim morreu sem
a acabar; e no ha livro de cavallarias em que qualquer cavalleiro de um
castello no acabe cousas maiores. E deixando isto,  graa, e
galantaria, comparar historias verdadeiras com patranhas
desproporcionadas, que gastam o tempo mal a quem n'ellas se occupa,
quando as outras servem de exemplo para imitar, de lembrana para
engrandecer, e de recreao para divertir. A quem no anima ler as
historias de seus passados? A quem no move o desejo de egualar a fama
que l de suas obras? O governo da paz? A ordem da guerra? O trato dos
homens? O commercio das provincias? D'onde se conserva, alcana, e sabe
seno pelas historias verdadeiras? Porque n'ellas sabe cada um
felizmente pelos successos alheios o que deve seguir. D'onde Marco
Tullio chamou  historia mestra da vida.--Vs, sr. doutor (disse Solino)
achareis isso nos vossos cartapacios: mas eu ainda estou contumaz.
Primeiramente, nas historias, a que chamam verdadeiras, cada um mente
segundo lhe convm, ou a quem o informou, ou favoreceu para mentir;
porque se no frem estas tintas,  tudo to misturado, que no ha panno
sem nodoa, nem lgua sem mu caminho. No livro fingido contam-se as
cousas como era bem que fssem, e no como succederam, e assim so mais
aperfeioadas. Descreve o cavalleiro como era bem que os houvesse, as
damas quo castas, os reis quo justos, os amores quo verdadeiros, os
extremos quo grandes, as leis, as cortezias, o trato to conforme com a
razo. E assim no lereis livro, em o qual se no destruam soberbos,
favoream humildes, amparem fracos, sirvam donzellas, se cumpram
palavras, guardem juramentos, e satisfaam boas obras. Vereis que as
damas andam pelas estradas, sem haver quem as offenda, seguras na sua
virtude propria, e h cortezia dos cavalleiros andantes. E quanto ao
retrato e exemplo da vida, melhor se colhe no que um bom entendimento
traou, e seguiu com muito tempo de estudo, que no successo, que s
vezes se alcanou por mo da ventura, sem a diligencia e engenho
metterem nenhum cabedal. No digo que os livros tenham excessos
desatinados, que no sejam semelhantes  verdade, nem os encantamentos
to escuros e desconformes, que no tenham alguma maneira de enganar o
juizo; porm os livros bem fingidos, como verdadeiros obrigam. Um
curioso em Italia (segundo um auctor de credito conta) estando com sua
mulher ao fogo lendo o Ariosto, prantearam a morte de Zerbino com tanto
sentimento, que lhe accudiu a visinhana a saber o que era. E no que
toca ao exemplo; um capito valoroso houve em Portugal, que o no teve
melhor o Imperio Romano, que com a imitao do um cavalleiro fingido,
foi o maior de seus tempos, imitando as virtudes que d'elle se
escreveram. Muitas donzellas guardaram extremos de firmeza, e
fidelidade, costumadas a lr outros semelhantes nos livros de
cavallarias. Na malicia da India tendo um capito nosso cercado uma
cidade de inimigos, certos soldados camaradas, que albergavam juntos,
traziam entre as armas um livro de cavallarias, com que passavam o
tempo. Um d'elles, que sabia menos que os mais d'aquella leitura, tinha
tudo o que ouvia lr por verdadeiro (e assim ha alguns innocentes, que
cuidam que se no pode mentir em lettra redonda) os outros ajudando a
sua simpleza lhe diziam que assim era. Veio occasio de um assalto, em
que o bom soldado invejoso, e animado do que ouvia lr, lhe pareceu
ensaio de mostrar seu valor, e fazer uma cavallaria, de que ficasse
memoria; e assim se metteu entre os contrarios com tanta furia, e os
comeou a ferir to rijamente com a espada, que em pouco espao se
empenhou de sorte, que com muito trabalho, e perigo dos companheiros, e
de outros muitos soldados, lhe ampararam a vida recolhendo-o com muita
honra, e no poucas feridas. E reprehendendo-o os amigos d'aquella
temeridade, respondeu: Ah! deixae-me, que no fiz a metade do que cada
noite ldes de qualquer cavalleiro do nosso livro. E elle d'alli adeante
o foi muito valoroso.--Muito festejaram todos o conto, e logo proseguiu
o doutor: To bem fingidas podem ser as historias, que meream mais
louvor, que as verdadeiras; mas ha poucas que o sejam; que a fabula bem
escripta (como diz Santo Ambrozio) ainda que no tenha fora de verdade,
tem uma ordem de razo, em que se podem manifestar as cousas
verdadeiras. Xenofonte querendo pintar uma republica perfeita, e
regimento politico, por modo de historia, fingiu o governo de Cyro, rei
dos Persas. D. Antonio de Guevara, em nome de um imperador romano
escreveu o que elle queria dizer em Hespanha; e outros que ainda em modo
mais extranho ensinaram aos homens, como Esopo nas suas fabulas, e Lucio
Apuleio no seu Asno d'ouro; e todos os livros que em seu genero so
bons, se podem chamar perfeitos. Resta agora que o que escreve historia
seja verdadeiro; e no ter Solino de que o reprehender n'ella. O que
compe fabulas seja verosimil, e no terei eu razo de o reprovar. O que
trata de sciencia, alegue razes. O que fala de artes, experiencia. E o
que quer ensinar principios, mostre auctoridade. E posto que eu tenha
muitas que allegar em favor da vossa opinio, sr. D. Julio, vs estaes
no caso, e todos os mais, que a historia verdadeira apascenta os doutos,
adelgaa os grosseiros, encaminha os moos, ensina os mancebos, recreia
os velhos, anima aos baixos, sustenta aos bons, castiga aos maus,
resuscita aos mortos, e a todos d fructo a sua lio. E porque esta no
seja mais comprida, diga Pindaro agora a sua opinio.

--Apostarei eu (disse Solino) que, se a Pindaro lhe armarem com poesia
levantada sobre os bons conceitos, e versos, que com serem amorosos,
sejam arrogantes, que o tomaram como passaro em visco.--Para isso (disse
o doutor) arredar-lhe as occasies, e v com declarao, que no
tratamos de poesia.--Essa condio (accudiu Pindaro) logo ao principio
ficou declarada; que como exceptuastes livros divinos, n'esse numero
devem estar os dos poetas, que mereceram este nome; e o que elles
antigamente tiveram, e ainda agora lhe do os Latinos, assim o deixa
entender. E Plato quando d'elles escreve, lhes chama divinos
interpretes dos deuzes, possuidos de espiritos celestes: d'onde Marco
Tullio tirou os louvores, com que os trata. Origenes affirma que a
poesia  uma virtude espiritual, que inspira em os poetas, e lhes enche
o animo e o entendimento de uma divina fora. Santo Agostinho lhes chama
theologos para cantarem os louvores divinos. Diziam os philosophos
antigos que, se os deuses falassem, seria em verso: trazendo exemplo do
oraculo de Apollo, e das Sibyllas. Cassiodoro diz que a poesia tomou
principio da divina escriptura. De maneira que por auctoridade de to
grandes vares, nunca os livros de poesia podem vir em competencia com
os de que at agora tratastes; que d'outro modo j estivera concluida a
differena.--O que eu vejo (tornou D. Julio) que, ainda que o doutor vos
cerrara a porta, que mettido de ilharga dissestes tudo o que cumpria a
vosso intento por junto, o quanto para mim estaes declarado; o com o
desejo de ouvir a opinio do doutor, no digo o mais que me,
parece.--Ora (respondeu elle) no quero que a essa conta fique o meu
voto s escuras; e digo, no falando em poesia, que no escolho lio de
historiadores verdadeiros, nem tenho por melhor a dos fingidos; porque
uns servem de conservar a memoria, os outros de enganar o entendimento:
e sero melhores os livros que deleitem a memoria, e a vontade, e
apurem, e levantem o entendimento, como os de recreao, que com alguma
enganosa novidade tratam de materias politicas, e engraadas: de crte,
de aldeia, e de qualquer sujeito aprazivel: e ha d'estes muito bem
recebidos, approvados, e proveitosos na republica, cuja variedade, e
doutrina  para mim lio muito saborosa.--No estou mal com essa
opinio (disse o doutor) o quasi que vs, e eu estamos em um mesmo
pensamento; seno que deixastes de declarar o que agora me fica para
dizer; porque at aqui falmos do modo de compor, e escrever livros; e
no das materias, que escriptas sero agradaveis. E deixando em duvida o
vosso parecer para se conferir com a teno; o meu , que o melhor modo
de escrever so os dialogos escriptos em prosa, com figuras
introduzidas, que disputem, e tratem materias proveitosas, politicas,
engraadas, e cheias de galanteria: sendo a primeira figura da obra o
autor d'ella; e isso que v guiando, e introduzindo as mais, que sejam
apropriadas quellas materias, de que ho de tratar entre si. E alm de
ser este estilo mais claro, mais vulgar, mais excellente, inclue em si a
lio de todos os outros modos de escrever, como o so os da historia
verdadeira, e fingida, das artes liberaes, e mecanicas; das sciencias, e
disciplinas necessarias; das profisses particulares; da razo do
governo; da vida politica ou privada. E quando este modo de escrever no
tivera por si mais que a auctoridade dos que n'elle escreveram, como foi
Plato, Xenofonte, Tullio, e outros infinitos: essa bastara para
acreditar os dialogos. Alm d'isto, eu tenho para mim que aquella 
melhor escriptura, que com mais perfeio, e viveza imita a pratica, e
conversao dos homens; porque assim como a melhor pintura  a que mais
se parece com a obra da natureza, a que quer contrafazer; assim a melhor
escriptura  a que retrata com mais semelhana o falar, e conversao
d'entre os amigos. Nos poemas tinham os poetas antigos que o mais
levantado era a tragedia pela imitao natural da pratica, com
introduco de figuras, junto com a gravidade, peso, e tristeza dos
successos tragicos. E porque tambem a variedade  a que mais costuma
enterter, e deleitar o animo dos homens, e esta  mais certa, e mais
propria nos dialogos, me parece que no gosto d'elles sero melhor
recebidos.

--Pois assim  (disse D. Julio) que a principal razo porque approvaes
os dialogos,  porque mais familiarmente se parecem com a pratica.
Desejo saber qual  mais nobre cousa, se a pratica, se a escriptura:
porque a mim me parece que  escriptura se deve o melhor logar, e que
antes merecia a pratica por se parecer com ella; o que agora encontra a
vossa opinio.--Nenhuma duvida ha (respondeu o doutor) que a pratica
seja mais nobre, mais antiga o mais excellente; porque, alm de o falar
ser operao natural dos homens, e acto em que elles fazem vantagem, e
differena a todos os animaes, a escriptura no  mais que uma escrava e
servente das palavras, e o escrever no  outra cousa mais que supprir
com um instrumento por meio da arte, e das mos o que com a voz se no
pde exprimir e alcanar com os ouvidos, ou por distancia de logar, como
quem escreve aos ausentes, ou por discurso de tempo, como quem escreve
para os vindouros. E porque nunca a escrava  to nobre como a senhora a
quem serve, em quanto escrava, nem o que substitue em logar d'outrem se
lhe pde preferir no mesmo logar; assim nunca a escriptura pde egualar
a nobreza e perfeio da pratica.--O contrario me parece a mim (replicou
o fidalgo) porque nem por a pratica ser mais antiga, e primeira que a
escriptura  mais perfeita; antes ella foi a perfeio da pratica: e
posto que seja prpria operao do homem o falar, no  n'elle menos
nobre accidente o de escrever; antes me parece mais digno o que elle
alcanou por arte, que o que adquiriu por uso: e quasi que ousaria a
dizer que  operao sua o falar, dada a respeito de haver de escrever,
pois esse  o meio de se perpetuar, sustentando no entendimento dos
presentes, e na lembrana dos futuros a memoria das cousas passadas.
Assim que nem por a primeira razo merece a pratica melhor logar, nem a
escriptura, por servente e ministra sua,  menos nobre. Porque o sol
serve de mostrar as cousas creadas, que lhe so muito inferiores, e de
dar luz e nutrimento a outras de menor qualidade, e nem por isso ellas
se lhe podem antepr. E quanto a substituir a escriptura em logar da
voz, ella o faz por to excellente maneira, que lhe tem muita vantagem;
pois o que a voz no pde exprimir juntamente em differentes logares, e
a diversas pessoas em um mesmo tempo, o faz a escriptura com grande
perfeio, podendo muitas pessoas, em differentes logares, lr em um
mesmo tempo a propria cousa: pelo que me parece que, ainda que a vossa
escolha fosse boa, no fundastes bem a razo d'ella.--Certo (disse
Leonardo) que de ambas as partes dstes to boas razes, que fica
duvidosa a melhoria. Porm concedendo  pratica a excellencia, a aco,
o modo e a graa de falar, que  uma viveza a que se no eguala outra
nenhuma lembrana; a escriptura tem tantas grandezas que parece
egualmente necessaria para a vida, pois ficava o mundo s escuras sem a
luz da dilao escripta; e s na tradico dos homens se salvaria a
memoria das cousas; e nas principaes dominaria a ignorancia com mero
imperio. Porm, deixando isto por averiguar, pois com tanta galantaria e
agudeza est tocado o que baste, quero que passemos adeante, e, por me
fazerdes merc, que me ensineis se na pratica, em voz, e na escriptura
considerada tem bom logar a nossa lingua portugueza; porque ouo de m
vontade a alguns naturaes que tratam mal d'ella e a condemnam por
grosseira e limitada.

--Uma cousa vos confessarei eu, sr. Leonardo (disse a isto D. Julio) que
os portuguezes so homens de ruim lingua, e que tambem o mostram em
dizerem mal da sua, que assim na suavidade da pronunciao, como na
gravidade e composio das palavras  lingua excellente. Mas ha alguns
nescios, que no basta que a falem mal, seno que se querem mostrar
discretos, dizendo mal d'ella: e o que me vinga de sua ignorancia,  que
elles acreditam a sua opinio; e os que falam bem desacreditam a ella e
elles.--Bravamente  apaixonado o sr. D. Julio (acudiu o doutor) pelas
cousas da nossa patria: e tem razo, que  divida que os nobres devem
pagar com maior pontualidade  terra que os creou. E verdadeiramente que
no tenho a nossa lingua por grosseira, nem por bons os argumentos com
que alguns querem provar que  essa; antes  branda para deleitar, grave
para engrandecer, efficaz para mover, dce para pronunciar, breve para
resolver, e accommodada s materias mais importantes da pratica e
escriptura. Para falar  engraada com um modo senhoril: para cantar 
suave com um certo sentimento que favorece a musica: para prgar 
substanciosa, com uma gravidade que auctorisa as razes, e as sentenas:
para escrever cartas nem tem infinita copia que damne, nem brevidade
esteril que a limite: para historias nem  to florida que se derrame,
nem to secca que busque o favor das alheias. A pronunciao no obriga
a ferir o co da bcca com aspereza, nem arrancar as palavras com
vehemencia do gargalo. Escreve-se da maneira que se l, e assim se fala.
Tem de todas as linguas o melhor: a pronunciao da latina; a origem da
grega; a familiaridade da castelhana; a brandura da franceza; a
elegancia da italiana. Tem mais adagios e sentenas que todas as
vulgares, em f de sua antiguidade. E se  lingua hebrea pela
honestidade das palavras chamaram santa, certo que no sei eu outra que
tanto fuja de palavras claras em materia descomposta quanto a nossa. E
para que diga tudo, s um mal tem, e  que pelo pouco que lhe querem
seus naturaes, a trazem mais remendada, que capa de pedinte.--Folguei
extranhamente de vos ouvir (disse Solino) por no ficar to covarde,
como at agora estava, em ouvindo murmurar da lingua portugueza; e no
ousava, ou no sabia dizer a minha opinio, a qual cuidava que me nascia
do amor que lhe tenho, e que cada um tem s suas cousas como o corvo aos
filhos, e Pindaro s suas trovas. Porm quando um homem to bem fundado
na razo como o doutor, e to auctorisado em seu parecer sustenta esta
parte, nenhuma haver j to rija, que me tire o atrevimento.--Nem a
lingua (disse Pindaro) pois no ha amizade que vos faa perder o
costume.--Perdoae-me (tornou elle) que vos feri por no perder o golpe.
E tornando ao que aqui se tratou para recordar o que comeamos,
averiguou o doutor que a melhor maneira de escrever eram os dialogos
(ficando meu direito reservado nos livros de cavallarias), tocaram-se
louvores da pratica e escriptura com muito engenho; declarou-se como a
lingua portugueza no desmerece logar entre as melhores, para n'ella se
escreverem materias levantadas, apraziveis, proveitosas e necessarias.
Que falta entre vs para que d'estas noites bem gastadas, d'estas
duvidas bem movidas, e d'estas razes melhor praticadas se faa um ou
muitos dialogos, que sem vergonha do mundo possam apparecer nas praas
d'elle  vista dos curiosos, e ainda dos murmuradores?--Tem Solino muita
razo (disse D. Julio) e se assim forem os dialogos como se podem formar
com a pratica de alguns que esto presentes, bem se auctorisar a
opinio do doutor, posto que a minha fique de vencida com a vantagem que
aqui tem a pratica das escripturas alheias. E pois se aproveitam to bem
as noites n'este logar, razo  que por meio d'elles se communiquem a
quem se aproveite da doutrina e interesse d'ellas.--Se eu no dormira
to poucas horas da passada (disse o doutor) ainda houvera de proseguir
adeante e responder a isso; mas com vossa licena me vou recolher e
amanh accudirei mais cedo.--Acompanhemos o doutor (disse o fidalgo), e
levantando-se elle, se despediram todos com muita cortezia, deixando ao
senhor da casa magoado de se acabar to depressa a conversao; que quem
sabe estimar a que  to boa, tem sentimento das horas que d'ella perde.




DIALOGO II

DA POLICIA E ESTYLO DAS CARTAS MISSIVAS


Ficaram os amigos to affeioados  conversao d'aquella noite, que,
por fazerem a do outro dia mais comprida, acudiram a ajuntar-se logo
depois de se pr o sol; porm cada um com pejo de ser o primeiro,
passeavam em dois postos, o doutor com D. Julio, e Pindaro com Solino 
vista da casa de Leonardo, at que elle chegou  janella; e mostrando o
mesmo desejo que os quatro traziam, facilitou o receio e approvou as
horas. Subiram todos, e disse o doutor:--Pareceu-me este dia to
comprido, na esperana da noite, como aos trabalhadores que devem o
jornal.--E a mim (tornou Leonardo) a noite, depois que me deixastes, to
importuna como quem espera a manh para cousa de seu gosto: e assim no
 muito que vs viesseis to cedo, e que a mim me parea que j era
tarde.--Todas as cousas que se desejam muito (tornou D. Julio) por pouco
que se dilatem, tardam mais.--E as que se temem (proseguiu Solino) por
muito que tardem, parece que se anticipam. D'onde um disse
maravilhosamente que o que queria que a quaresma lhe parecesse breve,
devesse pagamentos para a Paschoa. Emfim chegou mais cedo este prazo que
todos desejamos: e se o senhor da casa dormiu pouco, eu apostarei que ha
algum na companhia que se desvelou mais.--No era occasio para
descuidos, (disse o doutor) e nos mancebos era demasiada desconfiana
entrar n'esta batalha desapercebidos.--Os apercebimentos (tornou o
fidalgo) podem fundir muito pouco: porque como at agora  incerta a
materia de que se deve tratar, sero sem fructo as diligencias.--
engano (replicou Solino) que nunca falta uma carta em que prender; como
um homem tem as suas apuradas e ha cousas que se levam a rasto como
corpo morto, e quando sejam bem cuidadas, nunca so mal ouvidas. E se
no, digam-n'a as olheiras com que esta manh vi a meu amigo
Pindaro.--J sei (disse Pindaro) que vdes mal: mas contra mim ainda 
peior a vossa teno que a vista; no me pagaes bem o que vos mereo,
mas  na moeda que tendes.--E na que corre (tornou elle) que o rifo de
agora diz que fazer e dizer mal, nunca se perde. No vos escandaliseis;
que tudo ha nos homens e nas cartas. Essa (disse ento D. Julio) hei eu
de partir: porque desejava muito alar por ellas; e pois o doutor falou
hontem em cartas missivas, e approvou para ellas a lingua portugueza,
nos ha de declarar o que ha de ter uma carta para ser cortez e bem
escripta.--Esse cargo (tornou o doutor) convem mais ao senhor da casa:
porque ainda que a carta consta de lettras, no  profisso de lettrado
fazel-as cortezs: e quem sabe tanto do estylo da crte como Leonardo,
pde dar lei para ellas.--Vs (respondeu elle) sois doutor em tudo, e
meu superior em todas as materias, e como tal me podeis dar o grau de
cortezo. Eu o quizera parecer na confiana, e em obedecer ao gosto
d'estes amigos. Mas para eu proseguir com auctoridade  bem que vs
comeceis a principiar a materia: dizendo, que nome  _carta_, e o seu
principio, pois me daes o cargo antes de estar apercebido para
elle.--Bem sei (lhe respondeu o doutor) que por me honrardes a mim
tomaes tudo  vossa conta; folgarei de a dar boa do que me encommendaes.

Este nome _carta_  generico, e teve origem de uma cidade do mesmo nome,
d'onde foi natural a rainha Dido, que, por o amor que tinha  sua
patria, pz  que edificou por nome _Cartago_. E porque em carta se
inventou primeiramente a maneira em que se escrevia (ou fosse papel, ou
outra cousa semelhante a elle) tomou d'ella o nome como de _Pergamo_ o
_pergaminho_.  para saber que nos primeiros tempos, quando se
inventaram as lettras, escreviam os homens nas folhas das arvores: como
ainda hoje nas da palmeira escrevem os gentios de algumas partes do
oriente: as Sybillas n'ellas escreveram suas prophecias; e assim se
chamaram a seus escriptos _folhas sybillinas_; e ainda na linguagem
portugueza se conserva alguma cousa d'esta antiguidade, pois dizemos
_folhas de papel_ sem o papel ter folhas, mas  em lembrana das
primeiras que se usaram na escriptura. Depois se escreveu em uma casca
tenra de arvores, que  o entreforro da cortia. E porque a esta
chamavam _livro_, conservam ainda agora elles o nome, e a diviso que
agora fazem os escriptores de _livro primeiro_, _segundo_, e d'ahi
adeante  o numero, porque ento deviam contar aquellas cascas. Tambem
se escreveu em o miolo de uma maneira de juncos, a que chamaram
_papiros_: d'onde aos latinos ficou o nome para o papel. Depois se
escreveu em taboas nas quaes sobre cra, com um instrumento de ferro ou
de lato, a que chamavam _estylo_, se assignavam as lettras; e do ferro
com que se escreveram, se veiu a derivar o que agora dizemos _bom_ ou
_mu_, _humilde_ ou _altivo estylo_ de escrever, passando-se por
translao a perfeio do instrumento ao concerto e policia das
palavras. D'este proprio modo se usa no nome de carta, que alcana em
genero a todo genero de papel escripto e ainda pintado. Os portuguezes
fazemos este nome particular tomando _carta missiva_ por a principal de
todas; e assim basta dizermos _carta_, sem mais declarao, para se
entender que  esta; porm nas especiaes d'ellas usam o nome com seus
attributos. E nos instrumentos judiciaes, que testemunham antiguidade,
se diz _carta precatoria, dimissoria, citatoria, de liberdade e de
venda_, e outras muitas: e ainda as de jogar, sem terem lettras, se
chamam commummente cartas. E a gente alde, conservando alguma cousa da
antiguidade, a qualquer estampa ou pintura em papel chamam _carta_. Os
latinos puzeram nome s cartas missivas _Epistola_, do verbo grego, que
quer dizer _mandar_: e _letras_, porque a carta consta d'ellas. Os
italianos deram singular e plural a este nome segundo. E na nossa lingua
a que chamam limitada, no faltou nenhuma d'estas differenas, antes
houve maior perfeio: porque a umas chamaram _cartas mandadeiras_; s
que tinham menos de papel, _escriptos_; e s cartas de Italia _lettras_,
que so as de Roma, e as de cambio; porque deviam ter o mesmo principio;
porque logo nos de Portugal mandavam os reis d'elle por lettras copiosas
doaes  s apostolica, do que conquistavam. De maneira que o nome de
carta, quanto  sua origem,  geral e commum; e entre ns particular das
cartas missivas; e pois lhe descobri o nome,  necessario, sr. Leonardo,
que lhe deis agora o ser.

--Parece-me (respondeu elle) que estou j no meio da minha obrigao
(conforme ao dito do poeta) que quem comeou, tambem tem feita a maior
parte. E passando do nome da carta aos exteriores d'ella, digo que ha de
ter: Cortezia commum, regras direitas, lettras juntas, razes apartadas,
papel limpo, dobras eguaes, chancella sutil, e sllo claro; e com estas
condies ser carta de homem da crte. E falando da cortezia (disse
Solino) que entendeis n'ella?--A cortezia (lhe respondeu elle) no
falando na leitura da carta,  o sobrescripto, o apartado da cruz, at 
primeira regra; e do principio do papel at o comeo de todas: e o
final, o nome de quem escreve, abaixo da data da carta. E porque n'isto
ha differentes costumes, e erros, me parece bem fazer de tudo
lembrana.--Nos sobrescriptos temos pouco que tratar (tornou Solino) que
depois que com a pragmatica os cercearam, no ha j _prezados_,
_magnificos_, _honrados_, e _illustrissimos_, nem os _senhores_. Ainda
(tornou Solino) ficaram alguns de rodeio que so muito para vr, e assim
o dizem elles: a cujo proposito vos hei de contar uma historia. Eu (como
todos sabeis) vejo com oculos, e (conforme a opinio de alguns) com
elles muito menos. Os dias atraz, sendo eu ainda innocente d'este
costume, me deram uma carta de um amigo, que dizia: _Para vr o senhor
Solino_: aberta ella, a lettra tal, to miuda, e embaraada, que
desmentia o sobrescripto, e por nenhuma via pude vr o que dizia. Mas
respondi n'outra lettra muito peior, e puz no sobrescripto: _Para cegar
o senhor Fuo_; ao que elle depois me respondeu, que estava pelo costume
dos presentes.--Nem todos se ho de seguir (disse o doutor) que, como
escreve o philosopho Favorino, cada um deve usar de palavras presentes,
e costumes antigos; e mais quando  uso  abuzo, que no primeiro, por
ser tal, offenderam as leis; e no segundo o reprehendem os mesmos que o
usam. Comtudo Leonardo dir o que lhe parece.--A mim respondeu elle que
a lei  boa, e a cautella escusada. Porm o sobrescripto tem mais partes
de cortezia, que essa que dissestes, ainda que  primeira vista parea
cousa to limitada. E para que comecemos em ordem; _sobrescripto _ uma
noticia vulgar da pessoa a quem se escreve, e do logar aonde lhe mandam
a carta, exprimindo-se n'elle o nome, e a dignidade, por onde  mais
conhecida, e o do logar onde n'aquelle tempo assiste. N'esta regra geral
ha uma limitao, e : Que s pessoas do grande titulo, e cargo se pode
calar, ou usar de outro modo differente esta segunda noticia; porque,
alm dos cargos declararem muitas vezes a assistencia das pessoas,
parece cortezia que as que so mui conhecidas por seu titulo, e
dignidade, basta essa, e o nome para serem buscadas. O primeiro modo ,
como se escrevessemos a N. Vice-Rei da India, A. N. General de Portugal.
O segundo como a N. Embaixador d'el-rei de Hespanha em a Crte de Roma.
E posto que estes assistam a tal tempo em villas, ou cidades
particulares, no  necessaria outra leitura no sobrescripto. No trato
aqui das cartas enviadas aos reis, de seus vassalos, porque no entram
n'esta regra as que vem dirigidas a seus conselhos particulares.--Bem
podereis (disse o doutor) metter n'esse logar a historia de um letrado
da minha profisso, que mandando uma informao  Meza do Pao, poz no
sobrescripto: _A El-Rei nosso Senhor nos seus Paos da Ribeira, junto de
Luiz Cesar_.--D'outro soldado ouvi eu contar (disse Solino) que escreveu
 India: _A. N. Vice-Rei da India, nos Paos de Goa, defronte de um
Lanceiro torto_.--Para gente to nescia (disse Leonardo) no servem
preceitos: mas em outra vejo muitas vezes sobrescriptos to miudos, e
sobejos, que pessoas muito particulares se podiam dar por afrontadas
d'elles, como : A fuo, em tal terra, em tal rua, detraz de tal parte,
defronte de tal casa, e junto a N. E s vezes  a pessoa tal, que deve
ser mais conhecida por si, que pelas confrontaes.--Dos sobejos
(atalhou Solino) no posso eu calar um, que vi ha poucos dias, de um
frade que escreveu ao seu provincial, que tinha cinco padres nossos,
como conta benta, e dizia: _Ao muito Reverendo Padre nosso, o nosso
Padre N. nosso Padre Provincial, no Convento de nosso Padre S. N. Padre
nosso_.--Por isso digo (proseguiu Leonardo) que a noticia deve ser
vulgar que nem afronte, nem lisongeie, nem sobeje, nem falte.--Mais
provavel  (disse D. Julio) que se peque nos sobrescriptos por demazia,
que por falta; porque todos dizem o nome da pessoa, e a terra para que
escrevem.--No j um (respondeu Pindaro) que escreveu: _A meu filho o
Licenciado em Salamanca, que Deus guarde_, parecendo-lhe que bastava o
grau em logar do nome. Mas que logar dareis vs aos titulos dos
sobrescriptos? Que ha alguns mais compridos que as cartas que resam o
nome, o titulo, o senhorio, o cargo, a commenda, e ainda as pretenes
da pessoa a quem se escreve.--A mim me parece (tornou Leonardo) que os
titulos  cousa conveniente, e necessaria; usados porm com moderao
conforme ao que tenho dito: que noticia vulgar  ser um homem conhecido
por o senhorio, e cargo que tem; e assim se ha de escrever de cada um o
cargo que tem. e por onde  mais conhecido. Do senhorio como: _A. N.
senhor de tal Villa_. E estando em ella: _A. N. na sua Villa N_. O que
tambem se usa nos logares, e quintas, em que cada um assiste. Do cargo:
_A fuo, do Conselho d'el-Rei, e seu Presidente da Fazenda, da
Consciencia_, etc. _A fuo Desembargador d'el-Rei nosso senhor, e seu
Ouvidor dos Aggravos_, etc. Tudo isto com a brevidade necessaria: por
que o sobrescripto, como disse, serve de noticia, e no j de adulao.
E na carta, no se permitte no sobrescripto o que se no consente no
interior; como se algum escrevesse a este Fidalgo, e lhe quizesse pr os
ttulos, que elle merece, no sobrescripto; convm a saber: _A D. Julio,
Columna da nobreza de seus passados, e gloria das esperanas de sua
patria_. Ou: _Ao Doutor Livio, honra e luz do Direito Civil, exemplo da
philosophia, e thesouro da humildade_: cousas eram estas, que d'elles se
podiam dizer: porm no so no logar do sobrescripto. E passando d'elles
adeante.

A segunda cortezia  no papel, da cruz at  primeira regra; que ha
alguns, que lhe pem os olhos muito junto com as sobrancelhas: outros,
que lhe deixam pelo meio uma estrada de coches; e pela desconformidade,
que ha entre uns, e outros, veio a ser a regra entre os eguaes, que
fique em branco a quarta parte do papel, que vem a ser no alto a
primeira dobra; e na ilharga um espao razoado, que d logar  mo para
ter a carta sem cobrir as lettras, e para se cortar, ou passar chancella
sem as offender.--E de que nasce (perguntou Pindaro) que muitos deixam
mais de meio papel em branco da ilharga, e vo a cerzir a lettra com a
cortadura da tesoura?--Esse erro, e outros muitos (respondeu elle)
nascem de mudarem alguns os servios s cousas: porque a inveno no
estava mal no seu logar, se a no fizeram servir nos alheios. Em cartas
de negocio, feitas a pessoas occupadas, que se fazem por capitulos, e
apartadas, ou perguntas sobre materias dos mesmos negocios, se deixa
egual parte do papel para responder  margem em ordem a cada uma das
cousas; e assim fica servindo para duas, uma mesma carta; mas estas no
guardam a regra, nem a cortezia das missivas. O mesmo erro ha no que
Solino primeiro apontou dos sobrescriptos: _Para vr o senhor Fuo_, que
nasceu de alguns papeis emmaados, que se passavam de ministro a
ministro com smente aquelle sobrescripto sem outra carta, e sem terem
mais de carta, que o irem cerrados, e sellados, deram occasio aos que
usam o mesmo termo nos sobrescriptos d'ellas.

--Muitos erros ha (disse D. Julio), nascidos da mesma occasio. E posto
que seja sahir um pouco fora do proposito,  to grande bugia da virtude
e da honra a vaidade, que, smente por a seguir em as apparencias,
tropea a cada passo em desatinos. Este escreveu, _Para vr_; porque N.
Ministro, ou privado escreveu assim; e veste de tal panno, porque N. de
maior qualidade o trazia; e o que este fez (pode ser por remediar o seu
frio) faz outro  imitao, e se abraza de quentura. A Hespanha se
passou o uso de vestir dos soldados de Flandres, por bizarria; e razo
tinham de imitar em outras cousas aos praticos que militam em uma praa
to ennobrecida das naes da Europa; mas o que elles faziam obrigados
do clima, e o sitio da terra, usavam os cortezos por gala, levados do
engano da verdade, os chapos de aba grande contra a neve, os
ferragoulos abotoados, e com descanos para o frio, as meias de
escarlata debaixo de botas altas contra a humidade, as solas levantadas
por detraz, para no resvalarem nos caramelos, as roupetas abertas sobre
as armas; tudo isto, e outras muitas cousas, sendo inventadas pela
necessidade, se passaram  galanteria. Deixo as cres de Rei, e da
Infante, e a historia do Mercador com el-rei D. Joo o III, que lhe
pediu que se quizesse vestir de um panno que tinha muito rico, o qual
lhe daria de graa; que com este ardil, em el-rei o vestindo, vendeu
elle a mr valia uma quantidade de peas d'aquella cr que lhe haviam
entrado n'uma partida.--No  isso smente nas cartas, e nos arrojos,
disse o doutor; que ainda passa adeante o engano. Em a crte do
imperador Carlos V, andando elle indisposto, lhe mandaram os medicos
comer borragens, por ser herva medicinal para a sua enfermidade; e
porque os fidalgos e titulares a viam de ordinario na meza imperial sem
advertirem a occasio porque se fazia, veio a valer entre elles muito, e
a fazerem mil iguarias d'aquella herva, de sorte que se semeavam tantas
nas terras onde a crte assistia, que no havia agros d'outro fructo.
Vo-se emfim as cousas mal, e s vezes so nascidas de bom
costume.--Assim  (disse Solino) que at oculos, que se inventaram para
remediar defeitos da natureza, vi eu j trazer a alguns por
galantaria.--D'essa maneira seguiu D. Julio se devia mudar para as
cartas o estillo dos papeis, que o no esto por imitarem aos validos. E
tornando  cortezia, que cousas tem mais de que tratar?

--A terceira, tornou elle,  o nome, e signal do que escreveu a carta,
que nem ha de estar to junto das lettras, que parea soffrego d'ellas,
nem no meio do papel como quem escolheu melhor logar, nem to apertado,
que fique ausente das regras, nem tanto na ponta do fim, que parea que
se amuou quelle canto; mas com um meio ordinario, como  assignar-se um
pouco abaixo das regras, mais inclinado  parte direita que  esquerda,
que  uma certa modestia, e humildade de quem escreve.--E que dizeis,
(perguntou o doutor) do acompanhamento do signal? Porque ha uns que se
nomeiam _servidor de vossa merc_ N., outros _vassallo_; outros
_captivo_, outros _seu_ N. e ha n'isto muita variedade, e
ignorancia.--Primeiramente (continuou Leonardo) _servidor_ j se passou
das cartas para os retretes: _servo_ para os matos, e _captivo_ para os
comprimentos refinados em a pratica; _creado_, era termo bem creado, e
_seu_  descortezia: e por fugir d'esta, e de alguns extremos, o mais
seguro  escrever cada um o seu nome sem mais leitura.--No sejaes to
estreito nas licenas(disse Solino) que deitaes a perder cartas que s
pelos comprimentos do signal merecem fama. Um homem escrevendo a sua
propria mulher, se assignou _vosso servo N._, e ella o fazia tal na
mesma ausencia. O outro, de que contam vulgarmente, porque corria nos
signaes o _menor creado de vossa merc N._, escrevendo a sua mulher se
assignou _o menor marido vosso N._, e a senhora devia de ter mais vares
que a Samaritana. De uma gentil dama sei eu (disse Pindaro) que
escrevendo a um seu galante se assignou _sua N._, e elle lendo a carta,
voltou para um amigo com que estava, e disse _sempre temi esta nova_; e
perguntando-lhe o outro que era? Respondeu _sua N., e  principio de
vero_: Outro em Coimbra, querendo-se humilhar muito aos ps de um
amigo, a que escrevia, se assignou _Antipoda de vossa merc N._--Quanto
mais galantes so essas historias (tornou Leonardo) tanto mais de
estimar  a moderao, e bom termo de no se sahir d'aquelle limite da
cortezia commum; e passando d'ella ha de ter a carta regras direitas,
que ha alguns que escrevem em escadas como figuras de solfa: lettras
juntas, e razes apartadas, com a distinco dos pontos, virgulas, e
accentos necessarios, para fazerem perfeito sentido das razes; porque
ha cortezos, que por aformosearem a lettra, e facilitarem melhor os
rasgos da penna, vo encadeando as lettras pelas cabeas, como sardinhas
de Galliza; e de maneira confundem a escriptura, que no ha tirar d'ella
o sentido verdadeiro de seu dono; e ha cartas bem notadas, que por mal
escriptas perdem reputao; o papel seja limpo para n'elle empregar sem
fastio a vista o que ha de lr, e porque paream melhor as lettras bem
ordenadas; a chancella sutil, porque ao abrir da carta a no offenda,
que alguns a fazem parecer carta rota antes de lida: dobras eguaes,
porque o concerto auctorisa as cousas, e as faz parecer melhor: o sllo
claro, assim para lustro da carta, como para guarda d'ella, pois  o
cadeado que a defende dos curiosos de saber segredos alheios.--No
corrais com tanta pressa (disse D. Julio) por essas particularidades, e
miudezas, que em algumas d'ellas tinha perguntas que fazer; mas
contentar-me-hei com as que se me offerecerem de novo sobre a materia
das armas, e tenes com que se costumam sellar as cartas; e assim
estimarei que nos digaes d'isto alguma cousa.

--As armas (respondeu elle)  a insignia que cada um tem de sua nobreza,
conforme ao appellido com que se nomeia, e com o sinete d'ellas sella as
cartas de importancia, ou com elmo, e folhagens sobre o paquife do
escudo, ou com elle em tarja, como teno; que estas como so
pensamento, e desenho particular, se abrem s vezes em redondo, ovado,
ou quadrangulo, e outras figuras, sem respeitar a do escudo. Em Portugal
 cousa muito antiga aos principes trazerem tenes, e emprezas com
lettras, e ainda as usavam misturadas nas Armas Reaes, que posto que
n'aquelle tempo no estavam to apuradas como agora, nem eram sujeitas 
arte, que d'ellas e para ellas fizeram os modernos, no lhes faltava
entendimento, e galanteria. El-rei D. Joo o I trazia na orla das Armas
uma lettra, que dizia: _Por bem_. E a rainha D. Filippa de Alancastre
sua mulher, outra que respondia a esta em Inglez que dizia: _Me
contenta_. O infante D. Fernando seu filho, o Santo, trazia uma capella
de hera com seus cachinhos, e no meio d'ella a Cruz de Aviz, de cuja
cavallaria era Mestre. O infante D. Pedro uma capella do carvalho com
suas bolotas, e no meio umas balanas, e nas Armas Reaes, no banco de
pinchar, em cada p d'alto abaixo mos, e por cima umas lettras
escriptas muitas vezes, que diziam: _Dizer_, e entre cada palavra
d'estas um ramo de carvalho com bolotas. O infante D. Joo, que foi
mestre de S. Thiago, casado com a neta do condestavel D. Nuno Alvares
Pereira, trazia uma capella de ramos de silva com cachos de amoras, com
as bolsas de S. Thiago no meio, e tres conchellas em cada uma com uma
lettra em Inglez, que dizia: _Com muita razo_. O infante D. Henrique,
Mestre na Ordem de Christo, trazia as armas do Mestrado, e de antigas de
Portugal, e ao redor um cinto largo de correia, que abroxava no cabo de
baixo, e uma fivella que fazia volta com a correia, e em Inglez a lettra
dos cavalleiros de Garrotea, que elle tambem era, e dizia: _Contra si
faz quem mal cuida_. E uma capella de carrasco, e no banco de pinchar
tres flres de lirio em cada p. El-rei D. Affonso o V trazia pintado um
mundo com esta lettra: _Conheo que no te conheci_. El-rei D. Joo II
seu filho, trazia um rodizio, com esta lettra: _Setere_: e na outra
trazia um Pelicano ferindo o peito, e dizia a lettra: _Pela lei e pela
grei_. A rainha D. Leonor sua mulher, trazia uma rede de pescar, a que
chamam rastro. El-rei D. Manoel, uma esphera com uma Cruz. A excellente
senhora, uns alforges, e nas cevadeiras pintadas as Armas de Castella
com esta lettra: _Memoria de mi derecho_. O marquez de Valena, neto do
conde D. Nuno Alvares, trazia dois guindastes, que levantavam um titulo
de pedra, com quatro lettras, cada uma por parte. E alm d'estas ha
memoria d'outras muitas, que do testemunho do uso que d'ellas havia
n'este reino.--Por certo, disse D. Julio, que estou asss contente do
fructo que colhi da minha pergunta, por saber curiosidade to notavel
dos nossos principes antigos, que para a minha natural inclinao  a
cousa de maior gosto, e interesse: e no fra menor; pois falamos de
Armas, e Tenes, e vs sois visto n'ella fazer que saibamos mais alguma
cousa atraz d'esta materia, principalmente d'onde nasceu, e teve
principio o uso dos Escudos de Armas, e das Tenes.

--Quanto  minha opinio (respondeu Leonardo)  que armas, e emprezas,
ou tenes no tiveram no seu principio a differena, que agora lhes
assignam os que d'ellas escrevem de lettras, e corpos sem lettras, com
limitaes, e regras mui apertadas. Antes me parece, que as armas eram
as insignias que os reis, e imperadores davam aos seus para ser
conhecida sua nobreza, conformando-se na figura d'ellas com a qualidade
dos successos por onde as mereceram, ou com a antiguidade do sangue
d'onde descendiam a quem as davam, e as que os mesmos reis tomavam para
si em memoria de semelhantes feitos, ou derivadas por seus antecessores.
Emprezas, ou tenes so as que os mesmos reis, principes, ou
particulares tomam, conformando as figuras, e lettras com o desenho, e
pensamento que cada um tem, para emprehender cousas altas. E d'aqui
adeante entram as regras, que depois lhe aconteceram; que, por ser um
discurso mui comprido, no tem logar em noite to breve. Alm d'estas
ha, outras armas dos reinos, provincias, republicas, e cidades, que se
devem chamar _diviza_, que tiveram principio ou das cousas de que so
mais abundantes, ou da maneira em que fram povoadas, ou adquiridas. E
no que toca ao principio das armas, Hercules foi o primeiro que trouxe
por armas a pelle do leo que matou na relva Nemea, depois da victoria
que d'elle teve, e antes d'esta victoria trazia a mesma nsignia do
porco de Erimanto, que matou em Arcadia. Jazon trouxe por armas o
Velocino de ouro, que conquistou. Thezeu o Minotauro. Ulysses, o
Paladion, e Eneas o escudo que ganhou de Ulysses na guerra de Troia:
estas eram verdadeiras armas, em memoria de valorosos feitos. E quanto
ao principio das emprezas, escreve Pauzanias, que Agamemnon trazia no
escudo a cabea de um leo de ouro, com uma lettra que dizia: _Este 
terror dos homens, e o que o traz  Agamemnon_. Antioco trazia por armas
outro leo. Heitor, dois lees de ouro em campo vermelho. Seleuco um
touro. Alexandre, um rei de ouro em seu throno em campo azul. Alcibiades
um Cupido. Lucio Papirio o Pgazo. Cezar uma aguia preta. Pompeio um
leo com uma espada empunhada. Judas Macabeu um drago vermelho em campo
de prata. Attila um aor coroado. E cada um d'estes, posto que poderam
tomar a figura das armas em significao de feitos celebrados, e
victorias adquiridas, s quizeram dar-lhe as figuras conforme ao seu
pensamento; e Cesar, ao agouro que da aguia teve. E descendo s armas
particulares dos reis, que sabemos: As do imperador  uma aguia preta de
duas cabeas em campo de ouro, em memoria da de Julio Cesar, e da unio
do Imperio Oriental, e Occidental. Armas d'el-rei de Frana so tres
flres de lirio de ouro em campo azul, que fram milagrosamente dadas a
el-rei Clodoveu. Armas d'el-rei de Portugal, os cinco escudos de azul em
cruz, em signal do vencimento que o primeiro rei D. Affonso teve dos
cinco reis mouros no campo de Ourique, e n'elles, e com elles, os trinta
dinheiros de prata, por que nosso Senhor foi vendido, em memoria da sua
Paixo, e do apparecimento que o mesmo rei vio antes da batalha: por
orla das armas sete castellos de ouro em campo vermelho, e por timbre,
um Drago coroado. Armas d'el-rei de Inglaterra, tres Leopardos de ouro
em campo vermelho: posto que d'antes tinha el-rei Arthur por armas tres
coras de ouro em campo azul. Armas d'el-rei de Hespanha, os castellos,
e lees, to conhecidos no mundo. Armas d'el-rei de Frizia, um escudo de
prata, riscado de linhas vermelhas, e atravessado com uma banda azul.
Armas d'el-rei de Jerusalem, uma cruz de ouro nos extremos, com cruzetas
do mesmo metal, e outras pelos vos dos angulos. Armas d'el-rei de
Polonia, duas aguias de prata e um homem em cima de um cavallo, do mesmo
metal. Armas d'el-rei de Irlanda, uma harpa, e uma mo que a est
tocando. Armas do Preste Joo da India, um crucifixo negro, com dois
azorragues, em campo de ouro. Deixo outros muitos, como os bastes de
Arago, as cadeias de Navarra, a rom de Granada, as bandas de ouro, e
vermelho de Malhorca, e outras que querer contar fra infinito. Tem do
mesmo modo as provincias suas armas. Primeiramente, as quatro partes, em
que o mundo se divide: Azia, tres serpentes: Africa, um elephante:
Europa, um cavallo: A America, um crocodilo: Italia tinha por armas
antigamente o cavallo: Thracia, um Marte: Persia, um arco: Scythia, um
raio: Armenia, um bode: Fenicia, um Hercules: Sicilia, uma cabea
armada: Albania, um cgado: Frizia, uma porca: Hespanha, um castello:
Luzitania, uma cidade. As Republicas tem tambem suas armas particulares:
A de Veneza, um leo com um livro nas unhas: A de Sena, uma loba: A de
Genova, um S. Jorge: A de Florena, um leo com um livro de ouro. As
Cidades, da mesma maneira: Athenas, a Coruja: Roma, a aguia: Lisboa, uma
nau com os corvos, em memoria do corpo do glorioso Martyr S. Vicente,
seu padroeiro: Coimbra, o drago, e a donzella coroada: Evora, as cabeas
das vigias: O Porto, a imagem de Nossa Senhora entre duas torres:
Leiria, uma torre entre dois pinheiros, e n'elles dois corvos. E assim
todas as outras. Porm isto  j muito tarde, e gastmos n'esta materia
mais tempo do que convinha  das cartas, em que comeamos; e porque nas
armas, e tenes nos no fique por saber algumas significaes, e
figuras de armas dos particulares senhores, e fidalgos de Portugal, que
todas fram merecidas com louvores de gloriosos feitos: deixando os
animaes, significadores de fra, braveza, e velocidade: e os planetas
de poder, antiguidade, e clareza, e outras figuras semelhantes: Banda
significa postura de taboa: Escada, o engenho por onde se cometteu
alguma obra de valor, ou difficultosa entrada, com risco da vida: faxa,
ou barra, representa victoria da batalha singular de cavalleiro a
cavalleiro, e quantas frem, tantos diremos que so os vencimentos com
que se ganharam as armas. Parte de muro, torre, ou castello, significa
ser ganhado, entrado, ou soccorrido, com esforo, e perigo da vida.
Escadas, asteas, ou pedaos de lanas, denotam subida trabalhosa, ou
defenso arriscada na mesma subida. Assim que a variedade dos corpos, ou
forma que vdes nas armas, todas nasceram de illustres faanhas, e
valorosos feitos. E todas as das empresas, e tenes, do signal claro
do animo, e pensamento de seus donos: e com umas, e outras se devem
sellar as cartas, de maneira que se divizem as figuras, e lettras
d'ellas, como tenho dito.--Vejo (disse Solino) que temos a carta
cerrada, sellada, e com sobrescripto, sem ainda sabermos nada do
principal d'ella. No vos enfadeis (respondeu elle) que na noite de
manh a abriremos, e leremos muito de vagar a estes senhores, se no
ficarem de agora cansados do sobrescripto.--Antes (disseram elles) que
s o dia seguinte lhes parecia comprido, e vagaroso. E dando fim 
conversao d'aquella noite, deram o que d'ella ficava ao repouso, que
com a moderada recreao de horas bem gastadas  mais aprazivel.




DIALOGO III

DA MANEIRA DE ESCREVER, E DA DIFFERENA DAS CARTAS MISSIVAS


Mui satisfeito ficou D. Julio de ouvir a Leonardo aquella noite na
materia das armas; e quasi a escolhera antes, que a das cartas. Por
alguns particulares, que desejava saber, quiz com mo alheia, por no
parecer importuno, perguntar algumas cousas a Solino, que achou junto 
sua porta; e depois de o saudar, lhe disse: Como estaes depois da noite
de hontem.?--Como o dado (respondeu elle) que est de qualquer
ilharga.--Deveis de ficar do azar (tornou D. Julio) pois tendes to
poucos pontos, que faltaes aos da cortezia:--Fiquei (tornou elle) to
cansado das da carta de Leonardo, que lhe tomei aborrecimento, e nem
estou para vos servir, nem para o dizer, e perdoae-me.--Logo (disse o
fidalgo) no quereis continuar na conversao d'esta noite.--Se a carta
(lhe tornou Solino) ha de ser to comprida como o sobrescripto, assim o
imagino.--Pois a minha teno (proseguiu elle) era pedir-vos que na
materia das armas, que elle tocou, fizesseis hoje algumas perguntas 
minha conta sobre alguns particulares das familias d'este reino.--Vs
deveis buscar armas para me matar (disse Solino) porque das de hontem
sahi eu to escalavrado, que determinava fugir d'ella; e sei que tem
Leonardo tantos livros de armas, e geraes, que, se o tirar a terreiro,
havemos mister todo o inverno para o ouvir.--Eu me contento (respondeu
D. Julio) com saber que elle tem os livros, e assim o escuso do
trabalho:









porque n'elles lerei alguns feitos particulares dos Portuguezes
merecedores dos brazes que seus successores possuem.--Bom seria (disse
Solino) acabar as cartas antes de entrar por esses feitos, e para isso
vos irei acompanhando at a casa de Leonardo, posto que tinha outra
determinao.--Porque vs no falteis (respondeu D. Julio) quero ir mais
cedo. E com esta pratica, e outras que occorriam, foram passeando, e
entertendo o que ficava do dia, at que a sombra da noite, e uma chuva
miuda os fez recolher a casa de Leonardo, onde os amigos esperavam j
que elles chegassem; e com Pindaro outro estudante seu companheiro, por
nome Feliciano, que, vindo-o a visitar, se aproveitou da occasio em sua
companhia. Festejaram todos a Solino; e elle vendo o hospede, de novo se
lhe inclinou com mais auctoridade, e disse para os outros: Tenho inveja
 dita do senhor licenciado que veio ao abrir da carta, que cerrmos sem
elle, e com no pequeno trabalho.--No tivera eu por tal (respondeu o
estudante) antes por grande ventura, se do passado me coubera alguma
parte; e esta, que alcano agora com o consentimento d'estes senhores
por meio de meu companheiro, tenho por muito grande favor, e merc de
todos.--Essa humildade (disse Solino) est acreditando mil esperanas de
vosso entendimento; e bem sei eu que o de Pindaro sabe fazer esta
eleio dos amigos tambem, como em tudo o mais  discreto, e acertado: e
para que entendaes o logar em que vos fico, sabei que eu sou o mais
certo creado que elle tem entre os senhores presentes.

A esta cortezia respondeu Pindaro, e o estudante com as suas, at que o
doutor os despartiu, e disse a Leonardo:--Bem gastado era o tempo em
comprimentos to cortezos, e to devidos, se o desejo, que temos de
continuar a materia da noite passada, o no quizera poupar todo para
ella: e assim vos peo que me faaes merc, e a todos, de ir por
deante.--Tendes razo (tornou elle) de me aliviardes mais depressa do
cuidado, em que me mettestes. E tornando a traz, por me aproveitar dos
vossos principios, dissestes que cousa era carta na origem do seu nome,
os primeiros modos de escrever, e o como entre ns se conservou; tratei
do sobrescripto, da cortezia, das lettras, do signal, das dobras, e
sello da carta, o que bastou para todos ficardes mais enfadados, que
saudosos.

Agora, comeando a entrar na leitura das regras, saibamos que cousa 
carta missiva, ou mandadeira, e o para que foi inventada; que pela
definio de Marco Tullio, a quem todos seguem,  uma messageira fiel,
que interpreta o nosso animo aos ausentes, em que lhes manifesta o que
queremos que elles saibam de nossas cousas, ou das que a elles lhes
relevam. Tres generos de _cartas missivas_ assigna o mesmo Tullio, aos
quaes alguns costumam reduzir muitas especies d'ellas. O primeiro  das
_cartas de negocio e de cousas que tocam  vida, fazenda e estado de
cada um_, que  o para que as cartas primeiro foram inventadas; que, por
tratarem de cousas familiares, se chamaram assim. O segundo, de cartas
d'entre amigos uns aos outros, de novas e comprimentos de galantarias,
que servem de recreao para o entendimento, e de allivio e consolao
para a vida. O terceiro, de materias mais graves, e de peso, como so de
governo da republica e de matrias divinas, de advertencias a principes
e senhores e outras semelhantes. O primeiro genero se divide em cartas
domesticas, civis e mercants. O segundo em cartas de novas, de
recommendao, de agradecimento, de queixumes, de desculpa e de graa. O
terceiro, que  mais grave e levantado, contm cartas reaes em materias
de estado, cartas publicas, invectivas, consolatorias, laudativas,
persuasorias e outras, que se pagam a cada uma das que nomeei em todos
os tres generos.--E onde deixaes (disse D. Julio) as cartas amatorias ou
namoradas? que se na vossa edade no teem logar, parece que o mereciam
n'este dscurso.--Bem sei eu (tornou Solino) quem as tomra no primeiro;
mas o sr. Leonardo j no joga com essas cartas.--No me esquecia de
todo d'ellas (tornou elle), mas deixo-as para que no fim das mais sejam
melhor recebidas, e para proseguir a materia quem agora as puder apurar.

--As do primeiro genero (disse o doutor) me parecem cartas muito seccas,
que  materia esteril para que empregueis n'ella sem fructo o vosso
entendimento.--Antes (disse Leonardo) como essas foram as primeiras, e
d'ellas nasceram as leis e as regras para outras, ser razo que debaixo
d'este genero tratemos das mais, repartindo o pouco que eu soube dizer,
por os logares de cada um. E assim me parece, que como a carta que
escrevemos ao amigo sobre seu negocio; ao creado sobre as cousas da
casa; e o mercador ao outro sobre seus tratos e mercancia; um aviso e
uma relao que lhe no podemos fazer em presena, fazendo-o por meio de
uma carta, devemos usar n'ella o que na pratica costumamos que 
brevidade sem enfeite, clareza sem rodeios, e propriedade sem
metaphoras, nem translaes.--E quando (disse o doutor) faremos breves
em uma carta?--Quando (respondeu elle de tal maneira, e com tal
artificio a escrevermos, que se entendam d'ella mais cousas do que tem
de palavras.--E como pde ser? (tornou elle).--Por meio dos relativos e
subsequentes (disse Leonardo) que, sem nomear as palavras, as repetem; e
por ordem das sentenas e adagios que sem entender as cousas as
declaram; e n'isto se adeantam muito as cartas da pratica familiar, que,
se escrevem de cuidado, e tem mais tempo de se furtarem palavras para se
subentenderem razes.--E que cousa  enfeite ou affectao? (perguntou
Solino).--, disse elle, o cuidado sobejo de enfeitar as palavras com
elegancia ou por via de epithetos, ou de escolha de logar para as
syllabas fazerem melhor som aos ouvidos. E em favor d'esta opinio,
dizia um homem insigne d'este reino, e que teve n'elle os melhores
logares da republica ecclesiastica e secular, que a carta e a mulher
muito enfeitada, em certo modo eram deshonestas: e eu antes seguira este
voto, que o de alguns rhetoricos, que deram  carta missiva cinco partes
de orao, convm a saber: _saudao, exordio, narrao, petio e
concluso_: e se houvessemos de seguir o seu estylo, mudariamos de todo
o das cartas.--Nunca rhetoricos (disse o estudante) souberam escrever
cartas, se as sugeitaram s leis da orao. Mas parece que o sr.
Leonardo d a entender que na carta se no devem usar epithetos ou
adjectivos por evitar o enfeite, e sobeja elegancia d'ella: e eu tenho
que sem elles se no pde escrever.

--Os epithetos (proseguiu Leonardo) ou servem para discripo e
declarao das cousas ou para propriedade, ou para ornamento e enfeite
d'ellas. Os primeiros so necessarios nas cartas como em tudo; os
segundos menos, os terceiros escusados. Para dizer ou escrever, _um
homem douto_, _uma mulher formosa_, _um cavallo ligeiro_, _uma arvore
alta_, _um caminho comprido_, _um peito forte_, so attributos
necessarios para declarar o que queremos dizer; porque ha homem que no
 douto, mulher que  feia, e os mais. Os de propriedade como _ferro
frio_, _relva verde_, _sol claro_, _calma ardente_, _areia scca_,
_pedra dura_, estes so pouco necessarios nas cartas: e smente por
comparao ou em adagios se devem usar n'ellas, como dizendo, _ duro
como pedra_, ou _ dar em pedra dura_, ou _ malhar em ferro frio_. Os
de elegancia e ornamento, tenho eu que se ho de degradar das cartas
missivas para fra do termo d'ellas, como agora _firme soffrimento_,
_incansavel diligencia_, _solicito desejo_, _cuidadoso receio_,
_importuna lembrana_, _desusada brandura_, e outros que tem juiz de seu
fro. Assim que no digo que faltem nas cartas epithetos necessarios,
mas que se escusem os sobejos; nem se andem grangeando as palavras para
fazerem assento em o cabo da sentena, que ser ir contra a brevidade
sem enfeite ou affectao.

--Parecia-me a mim (disse Solino) que a carta breve seria a de menos
regras; e que no estava a cousa nos epithetos serem proprios ou
necessarios. Uma carta (proseguiu elle) pde ser breve, e levar
escriptas muitas

paginas de papel; porque pde tratar de tantos negocios ou cousas que as
occupem, mas estaro relatadas de modo que seja a leitura comprida, e a
carta breve.

--O segundo ponto (perguntou Pindaro) que  clareza sem rodeio, me
parece a mim que fica declarado n'essa primeira parte; pois sendo breve
a carta, e no tendo enfeite nas palavras, ser clara e sem
rodeios.--No estaes no caso (tornou elle), que posto que a clareza 
parte da brevidade, a clareza  das razes, e a brevidade das palavras:
e assim pde a carta ser breve, mas confusa; e clara sendo comprida: que
muitos para dizerem cousas querem estrada coimbr, e caminho direito;
buscam rodeios e atalhos em que se perdem, confundindo o que querem
dizer. Em uma minha doena escreveu um amigo, e dizia: _Disseram-me que
a saude de vossa merc corria perigo na inconveniencia de medicos
discrepantes no remedio dos males d'essa doena_. E fez estas trocas
onde podia dizer: _Soube que os medicos no se conformavam na cura dos
vossos males, que na duvida d'elles corria risco a vossa saude_. Outro
me escreveu ha muitos dias: _Se vossa merc no est ausente das
lembranas que suas promessas me asseguraram de haver de ter muitas
d'este seu captivo_. Havendo de dizer: _Se vos no esquece que me
promettestes de ter lembranas de mim_. E porque ainda temos logar de
tornar aos particulares das disposies das razes:

Passando ao terceiro ponto, que  _propriedade sem metaforas_, ou
_translaes_.--A propriedade (disse o doutor) era materia da noite
passada, quando falastes das letras e razes em seu logar, sem barbaria,
nem impropriedade no escrever: e como isto  parte do exterior da carta,
j hoje no tem dia.--A propriedade que vs dizeis (accudio Leonardo) 
exterior, mas muito differente a de que eu trato, e no pouco importante
ao falar, e escrever, que  a propriedade das palavras na sua propria
significao, sem serem emprestadas por via de translaes para outros
logares, que  termo que argue nobreza de linguagem; e porque fique mais
declarado, sabei que dizemos em portuguez, falando propriamente dos
nomes: _Bando de aves_, _cardume de peixes_, _rebanho de ovelhas_, _fato
de cabras_, _vara de porcos_, _alcata de lobos_, _tropel de cavallos_,
_cafila de camellos_, _rcua de cavalgaduras_, _manga de arcabuzeiros_,
_m_, ou _roda de homens_; e se, trocando isto, dissramos: _Um cardume
de aves_, ou _uma alcata de ovelhas_, ou _um fato de porcos_, seria
impropriedade, e desconcerto. Dizemos tambem nos verbos: _Chiar_ de
aves, _balar_ de gado, _grunhir_ de porcos, _ladrar_ de ces, _rinchar_
de cavallos, _bramir_ de lees, _empolar_ de mares, _encapelar_ de
ondas, _assoprar_ de ventos, etc. E se dissessemos _chiar_ de porcos,
_rinchar_ de lees, e _grunhir_ de cavallos, seria o mesmo erro. E
porque ha metaforas e translaes to uzadas e proprias, que parecem
nascidas com a mesma lingua, que como adagios andam pegadas a ella, se
devem trazer (quando forem taes) nas cartas missivas, do mesmo modo que
na pratica se costumam. Dizemos dos nomes: _folha de espada_, _lume de
espelho_, _veia de agua_, _braos de mar_, _lingua de fogo_, _lano de
muro_, _faxa de ferro_, e outras semelhantes: e nos verbos: _lanar o
cavallo_, _fazer  capa_, _quebrar a palavra_, _cuspir o pelouro_,
_arripiar a carreira_, e outras muitas: e alm d'estas to usadas, e
naturaes, que servem de propriedade  lingua portugueza, ha outras
nascidas de proverbios, ou adagios, que tem o mesmo logar, e
antiguidade, como so _furtar o corpo_, _ir vento em ppa_, _nadar
contra a agua_, _ficar em secco_, _repicar em salvo_, _tirar barro 
parede_, _etc_. E quanto a carta tiver mais d'estas, ser mais breve, e
cortez; pois, como primeiro disse, por este modo se entendem da carta
mais coisas, do que tem escripto de palavras.

Pelo contrario, usando, em logar d'estas, outras humildes, populares, ou
innovadas, ser vicio na propriedade da carta; como se nos nomes
dissessemos: _um feixe de cuidados_, _um mar de encommendas_, _um moio
de queixumes_, _um golpe de razes_; e nos verbos, como: _enfeitar o
desejo_, _tropear em cuidados_, _navegar em desconfiana_, e outras
muitas. Esta  a propriedade, de que trato, e a que me parece que se
deve usar no escrever das cartas missivas; porque no soffre o estilo
d'ellas o que em a pratica, ou em outro genero de escriptura no smente
se permitte, mas muitas vezes se deseja.

--Espero (disse D. Julio) que deis alguma limitao, ou declareis a
linguagem, que se deve usar n'este estilo das cartas; porque encontro
muitas muito mal escriptas, cujos erros, a meu ver, nascem dos homens se
canarem muito em quererem parecer singulares.--Posto que isso pertence
primeiro ao fallar, que ao escrever (respondeu Leonardo) pois, como j
disse, devemos escrever como praticamos; as palavras da carta ho de ser
vulgares, e no j populares, nem exquisitas: vulgares de modo que todos
as entendam; e ao menos, que a quem se escrevem, no sejam peregrinas: e
no j populares, que sejam termos humildes, palavras baixas, que a
cortezia no recebe: e que to pouco, em logar dos adagios, e sentenas,
tenham anexins. Tambem se deve fugir ao termo exquisito de palavras
alatinadas, ou carreteadas de outras linguas estranhas, que sempre tem o
sabor da sua origem.--Assim na linguagem, como em tudo (accudio
Feliciano) ficavamos satisfeitos, se de aquelles tres generos, em que o
senhor Leonardo dividio as cartas, dra alguns exemplos que nos
allumiaram; porque nem as regras sem elles ensinam de todo, nem se pde
perder a lio de to bom estilo. O que eu no pedira, se foram dos
vinte generos de cartas, em que um rhetorico as dividio; que, por querer
dar leis, e partes a cada uma, as confundio todas.--Em tudo (tornou
elle) vos quizera satisfazer: porm cartas mais se ho de escrever em
occasio, do que trazerem-se por exemplo; que  o porque eu lhe no dra
regra certa, nem das muitas, que ha bem escritas, se pde tirar; que
esse auctor, que vs dizeis que lhe assignou vinte generos, achar fra
d'elles infinitas cartas, bem melhor escriptas, que as com que os elle
quer auctorisar. Porm, com o presupposto de no dar preceitos:

As cartas do primeiro genero, familiares, domesticas, civis, e
mercantis, respeitam tanto a brevidade, que no podem os rhetoricos
dividil-as em partes, se no forem nas da orao; e bastava para exemplo
aquella de Cicero a Cornelio, que dizia smente:


CARTA DE CICERO A CORNELIO

"Alegrai-vos de eu no estar mal; pois terei o mesmo contentamento de
saber que estais bem."


E muito  mais para notar uma carta de Octavio Imperador para Caio Druzo
seu sobrinho, que contm bem mais coisas, e avizos que palavras, e
dizia:


CARTA DE OCTAVIO A DRUZO

"Pois estais no Illyrico, lembrai-vos que sois dos Cezares; que vos
mandou o Senado; que sois moo; meu sobrinho; e cidado Romano."


E estas, e outras semelhantes, nem tem regra, nem deixam de ser cartas.
Mas porque no s nos ajudemos das antigas, mas tambem com as nossas
faamos pestoleta; esta  breve, e domestica, que um cortezo escreveu a
seu amigo, a quem em uma ausencia deixra sua casa; e dizia:


CARTA MODERNA A UM AMIGO

"Estou to confiado no que vos mereo, e to seguro no que de vosso
animo tenho conhecido, que me no d cuidado a familia que deixei 
vossa conta; seno o trabalho, que vos dar o sustentalla: no procuro
saber d'ella mais, que novas de vossa saude; que em quanto a tiverdes,
estar sem sobresalto a minha vida."


 qual o amigo respondeu com brevidade; e dizia d'esta maneira:


RESPOSTA

"N'esta casa s vs fazeis falta; mas como sois o tudo d'ella, ainda que
sobeja a minha diligencia, lhe falta tudo. No que  servir-vos, a todos
satisfao, seno o meu desejo, que  igual s obrigaes que vos tenho.
Vivei seguro; e gozai saude; que, em quanto a tiver, porei por vossas
coisas a vida."


--No esto as cartas para desprezar (disse Solino) e para me assegurar
se a vossa memoria  archivo d'ellas, ou se as ides fingindo de repente
(ainda que isto 

menos curiosidade, que teno) hei de pedir por parte d'estes senhores
que de alguma nos deis semelhantes exemplos.--No quero (disse elle) que
acrediteis tanto o meu entendimento com mostrardes desconfiana da
memoria; mas a troco do louvor vos hei de obedecer nas que me lembrarem:
e proseguindo nas da segunda especie d'este genero, me parece carta
civil, e breve esta, que um amigo escreveu a outro, que mudava sua casa
para a terra, onde elle vivia; e dizia:


CARTA DE UM AMIGO

"Espero com grande alvoroo que venhais para esta cidade, para que com
vossa companhia viva n'ella contente, e vs desenganado de quam pouco em
si tem que me possa alegrar, seno depois que vos possuir."


A quem o amigo brevemente respondeu em outra que dizia:


RESPOSTA

"Assim como o desterro em o melhor lugar  penoso, nenhum pode haver to
esteril, que, tendo a tal amigo, no seja desejado. Vs sois a quem
busco,  fora que me contente a parte onde vos achar; que as pedras no
fazem a cidade, seno os homens: nem as commodidades da vida a
sustentam, seno os amigos."


As mercantis posto que so segundo os tratos, e negocios, e acodem mais
a elles, que ao bom termo dos comprimentos; no deixa de haver muitas
to bem escriptas, que podem ter logar entre as melhores; e ainda que
no  d'ellas uma, que eu vi h poucos dias, a darei por ser to breve,
e era esta:


CARTA MERCANTIL

"Ha nova de Cossarios no mar; e por esse respeito grande risco nas
fazendas d'essa terra: porm a valia d'ellas ser muito avantajada, se
chegarem a este porto a salvamento; se a cubia do interesse vence o
perigo das encommendas, ponde-as em ventura; que eu a terei para mim por
muito boa o vosso bom successo."


E assim no me desagradou outra, que dizia d'esta maneira:


CARTA MERCANTIL

"Com os tempos contrarios  navegao foram as occasies ao nosso trato:
que, como as mercadorias no foram requestadas de extrangeiros, esto ao
presente abatidas: enviae-me menos d'ellas para que, faltando, mais as
procurem os mercadores da terra; e n'essa vos no descuideis de fazer
emprego, mandando-me o de muito boas novas vossas."


--No me pareceu (disse o doutor) que tirasseis to boa doutrina de
materia to limitada; porque esse primeiro genero de cartas tinha eu que
no sahia de uns termos e principios, que andam escriptos no panno da
serpe, como so: _ feitura d'esta_. _Esta no  para mais_. _Uma de v.
m. me deram_. _Pela de v. m. de tantos do passado_: _Depois de me
encommendar em v. m._ E d'aqui correndo por seus capitulos _de quanto a
isto_, e _quanto a est'outro_ at topar no _a quem Deus guarde_.--Esses
principios (disse Solino) esto j muito bolorentos; mas ainda para
cartas de mais ponto tenho outros grangeados de algumas secretarias
velhas, como impresso de Torres, de que me valho nas pressas de uma boa
nota, que no so to corriqueiros.--No me atreverei eu sem esses
(disse Leonardo) a ir por deante pelo que vos hei por notificado.--Pois
assim  (disse Solino) quero obedecer, ainda que perco grande valhacouto
em os descobrir; porque sabei que  comer feito para os ronceiros d'esta
mecanica; e o mr trabalho d'ella  desencalhar a penna com a primeira
palavra: e so quatro: _Como quer que_, _Tanto que_, _Depois que_, e
_Antes que_. E sabei que no ha proposito, que saia das unhas d'estes
bilhafres; e nos capitulos de _quanto isto_ etc., se mette em logar do
_quanto_, _no que toca a tal_, e _no que toca a qual_; que, a meu vr,
era melhor o _item_, que tinhamos tomado aos latinos. Mas os notadores
de espada solta esgrimem j agora sem estes bordes
maravilhosamente.--Bons esto os principios (disse D. Julio) porm
haveis de metter a lettra em todos elles, para que nos no passem por
alto.--Antes por muito rasteiros (respondeu elle) vos ficaro entre os
ps. Porm tende tento, e vereis que so principios de parafuso e que se
encaixam, e viram para todas as partes como grimpa.


"Como quer que os meus servios montem ante vs to pouco, e a vontade
por minha seja de menos preo, etc.

"Como quer que o animo, com que sou vosso, me no deixa perder
occasies, em que vos sirva, etc.

"Tanto que soube que era cousa de vosso gosto deixar esta empreza, etc.

"Tanto que me vi desfavorecido de vossas lembranas, lancei mo do meu
atrevimento, etc.

"Depois que me apartei de vs, no soube mais de mim, que para sentir
saudades vossas, etc.

"Depois que meus males me deram logar para tomar esta penna na mo, a
empreguei em procurar novas vossas, etc.

"Antes que me desculpe de meus descudos, etc.

"Antes que vos d larga conta dos meus successos, etc."


De modo, que so como materia prima, em que moldareis tudo o que
quizerdes: porm no quero ir adeante, e tomar o tempo ao sr. Leonardo;
que o vejo entrar j por outras cartas missivas.--Antes (lhe disse elle)
tomei folego em quanto vos ouvia falar n'essas. E tratando das do
segundo genero, que so cartas de novas, a que chamam narrativas de
cumprimentos, que se dividem em cartas de agradecimento, recommendao,
desculpa, queixume e outras muitas, cartas de galantaria ou jocosas,
como chamam os latinos: Para as narrativas nos podia servir de exemplo
aquella em que o imperador Tiberio Cesar dava novas de Italia a seu
irmo Germanico, que dizia:


CARTA DE TIBERIO CEZAR A GERMANICO

"Os templos se guardam; os deuses se servem; o senado est pacifico: a
republica prospera; Roma s; a Fortuna mansa; o anno fertil; e isto, que
ha aqui em Italia, desejo que da mesma maneira gozeis em Asia."


Deixo a que Cesar escreveu a Roma, das novas de Persia, que continha s
tres palavras: _Cheguei: vi: venci._ E a de Gneu Sylvio, escrevendo as
novas da Farsalia, que dizia:


CARTA DE GNEU SYLVIO

"Cesar venceu: Pompeio morreu: Rufo fugiu: Cato se matou: acabou a
dictadura; e perdeu-se a liberdade."


E chegando a alguma, que com menos aperto faa sua relao, me no
pareceu engeitar a que Marcello escreveu ao senado romano, dando-lhe
novas da rota de Fulvio, que dizia:


CARTA DE MARCELLO AO SENADO

"Bem sei que a nova, que vos mando,  de sentimento. Fulvio Proconsul
com treze mil homens foi desbaratado e ferido. Porm no vos cause temor
este successo; que eu sou o mesmo, que, depois da batalha de Canas,
mortifiquei a soberba de Hannibal, vencedor d'ella: contra elle caminho
brevemente com o meu exercito para lhe fazer mais breve a alegria d'este
triumpho; e em vs desejo muito o mesmo animo que levo."


--Uma carta (acudiu o doutor) me escreveu os dias atraz um amigo, de
novas de Lisboa, que certo, pela brevidade, me pareceu digna d'esta
lembrana, e dizia:


CARTA MODERNA

"Esta cidade est abastada, mas descontente: o mar cheio de corsarios:
os portos de receios: o pao de requerentes; e elles de queixumes: para
os validos tudo  pouco: aos desamparados no cabe nada: do remedio de
tantos males no ha boas novas; e as minhas so que entre todos elles me
falta a vossa companhia."


--Essa (disse Leonardo) se pde ajuntar por exemplo s antigas que
relatei: e por no me empregar em outras, que seria demasiado trabalho a
todos ouvil-as, e a mim recital-as, peo-as de recommendao de alguma
pessoa ou de algum negocio, nas quaes tem mais logar a disposio e
offerecimento dos rhetoricos, encarecendo os merecimentos da pessoa ou a
importancia da causa que encommendaes, facilitando-a na condio e
vontade a quem a pedia; concluindo com a petio e offerecimento de
vossa parte: e todas estas, e ainda um exordio de sentena, que hei por
escusado, se vem em uma carta que ha pouco que li, que um rei de
Portugal antigo, escreveu ao de Frana, encommendando-lhe um fidalgo que
ia estudar a Pariz; e dizia tirada de latim, em que estava em um livro
extrangeiro:


CARTA DE EL-REI DE PORTUGAL AO DE FRANA

"Entre as virtudes e excellencias dos principes, me pareceu muito digna
de louvor a de terem particular cuidado e lembrana dos vassallos
benemeritos em seu servio, para com favores e mercs os ajudarem: e por
esta razo me pareceu que devia encommendar a vossa magestade D. Pedro
de Almeida, que por occasio de seus estudos vae a essa crte de Paris,
posto que claramente conheo que, sem recommendao minha, vae asss
encommendado pela liberalidade e brandura com que vossa magestade honra
e recebe os homens to illustres como elle . Alm do que, tem elle
tantas partes e entendimento, que no achar melhor terceiro, que a si
mesmo. Deixo seu pae D. Joo de Almeida conde de Abrantes, que com suas
singulares virtudes e claros feitos, adquiriu e conservou at  morte
muito estreita privana e amizade com meus antecessores e commigo; de
sorte que ponho em duvida se importe mais a seu filho a minha carta, se
a fama e lembrana de seu pae. De qualquer modo o encommendo muito a
vossa magestade. E de minhas cousas no offereo de novo nada; pois pela
irmandade de meus antepassados e minha, em toda a occasio deve vossa
magestade usar d'ellas, como se foram communs a ambos."


Outra achei no mesmo logar, de el-rei D. Manuel, mais breve que a
passada, que era de seu antecessor, a qual elle escreveu ao mestre de
Rhodes, encommendando-lhe um novio portuguez, que ia servir a religio
que ser para exemplo das menos enfeitadas. O gro, mestre era o cardeal
Pedro de Buzon, e dizia:


CARTA DE EL-REI D. MANUEL AO GR MESTRE DE RHODES

"Ayres Gonalves, filho de Henrique de Figueiredo, vae a tomar o habito
d'essa religio: no pareceu fra de proposito nem de humanidade,
encommendal-o a V. P. assim por sua nobreza, e ser creado de minha casa,
como pelos servios e merecimentos de seus passados com os reis meus
antecessores; e finalmente por seu bom esforo e virtude. Rogo a V. P.
que com sua costumada brandura o favorea de sorte que n'elle se
accrescente o valor e a devoo que leva: e no porei esta obrigao no
menor logar das muitas que tenho a V. P."


As cartas de agradecimento tem o campo mais largo para n'ellas se
espalhar a penna, e o entendimento; pois quem mais se obriga e encarece
o que recebe, escrever com melhor termo, no sahindo dos da carta
missiva: e j os antigos no desconheciam esta galanteria; pois Lybanio
respondendo a Demetrio, que o obrigava a que lhe pedisse, escreveu
assim:


CARTA DE LYBANIO A DEMETRIO

"No daes logar a que eu vos pea, porque me mandaes tudo. Ainda bem as
arvores no do seu fructo, quando vossos creados m'o trazem: e do que
at nos agros se sente a falta, eu a no tenho. Como me haverei n'isto?
que o lavrador, quando o tempo lhe nega a agua, ento a pede: porm, se
chove, contenta-se de vr que favoreceu o co suas esperanas."


O queixume por carta se deve fazer com toda a moderao que a urbanidade
requere: e pde n'estas servir para exemplo e lembrana a que Olympias,
me de Alexandre, respondeu a seu filho, a uma em que elle se assignava
por filho de Jupiter, que dizia:


CARTA DE OLYMPIAS A ALEXANDRE

"Muito me alegro com a victoria que alcanastes da cidade de Tyro; e com
todas vossas venturas e faanhas: porm tive por grande affronta minha
vr que vos nomeaes por filho de Jupiter na carta que d'esta nova me
escrevestes. Estimarei muito, meu filho, que aquieteis n'isso o
pensamento, e me no leveis a juizo ante a deusa Juno; que algum grande
mal me ha de ordenar, sabendo que por lettra vossa me chamaes manceba de
seu marido."


E se me no parecra um pouco enfeitada uma carta que Angelo Policiano
escreveu ao grande Loureno de Medicis, a podra pr em exemplo da
moderao de queixume, porque dizia:


CARTA DE ANGELO POLICIANO AO DUQUE DE FLORENA

"O poeta  semelhante ao cysne na brancura e suavidade, em ser
affeioado a correntes de agua e amado de Apollo. Comtudo, dizem que o
cysne no canta seno quando o vento zephiro respira. No  logo muito
que eu seja mudo tantos dias, sendo poeta vosso, se vs, que sois meu
zephiro, n'elles me faltaes."


As cartas jocosas, ou de galantaria, tem mais campo, e liberdade para se
poderem usar n'ellas alguns termos fra das limitaes das nossas
regras; porque assim em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos,
ficam desobrigados das primeiras leis. que so _brevidade sem enfeite_:
_clareza sem rodeios_: _propriedade sem metaphoras_; pois o termo da
graa e galantaria, n'isso se differena do sizudo e pontual; no
negando que ha algumas que no perdem a graa nem o sizo, como  uma que
Lybanio escreveu a Aristoneto, que dizia:


CARTA DE LYBANIO A ARISTONETO

"Onde vos achaes, sei que dizeis sempre mal de mim; eu pelo contrario
no perco occasio de dizer louvores vossos; porm quem a ambos nos
conhecer, a nenhum de ns ha de dar credito."


Das mais ha tantos e to differentes exemplos, que seria aggravo a cada
uma das outras trazer aqui algumas bem escriptas. S direi que uma
especie d'ellas  narrativa, motejando do mesmo, que contam, ou das
novas que do; que no so por esse respeito pouco engraadas. Ha outra
das de disbarates, que, parecendo que se desviam nas palavras do
proposito que tomam, do a entender, como em enygma, o pensamento de
quem as escreve; e so estas graciosas com subtileza. Outra ha das de
murmurao em materias leves, como satyras menores: e umas e outras tem
a galanteria no pintar e descrever as pessoas e as cousas, com apodos
graciosos, encarecimentos desuzados, palavras facetas, phrase humilde,
accommodada sempre ao sujeito.  certo que n'isto tiveram mo particular
os portuguezes, que escreveram ao gracioso, que nem os italianos na
phrase burlesca, nem os hespanhoes no estylo picaresco os egualaram.

--No vos houvera eu de consentir esse salto (disse Solino) deixando
tantos exemplos em aberto, se no tivera pensamento de cobrar a demasia
n'outra occasio; e assim por isso, como por ser j passada tanta parte
da noite, vos peo que faaes a vontade ao sr. D. Julio com essas cartas
Reaes, de Estado e Governo, que as est desejando com a vida; pois a sua
 nadar na altura de cousas semelhantes.--Eu vos mereo (respondeu o
fidalgo) a boa opinio em que me tendes: porm egualmente me contentam
todas as cousas em que fala o sr. Leonardo: e porque sempre as ultimas
me ficam parecendo melhor que as primeiras, posso desejar esse terceiro
genero de cartas; e se d'elle tornar ao primeiro, faro o mesmo effeito
na minha satisfao.--Para responder a esse favor (tornou Leonardo)
havia mister o tempo que hei de gastar nas cartas que me ficam: e assim
ou uma ou outra cousa me havei por perdoada.

No deixou o doutor ir os cumprimentos por deante, dizendo que eram em
prejuizo de terceiro; e proseguindo Leonardo, disse:

--As cartas do terceiro genero, que, pelas materias importantes, e
differena das pessoas, so mais graves e humildes; posto que se incluem
algumas d'ellas  oratoria, aproveitando-se da elegancia e razes para
persuadir, consolar, dar louvores ou reprehender; e posto que d'estas
esto cheias as chronicas e annaes de todos os reinos, recitarei algumas
que paream menos vulgares e mais breves para exemplo, como  uma que os
consulares C. Fabricio e C. Emilio escreveram a el-rei Pyrrho sobre uma
considerao em materia de Estado, que dizia:


CARTA DE FABRICIO EMILIO A EL-REI PYRRHO

"Pelos aggravos que de vs temos recebido, o maior cuidado nosso 
fazer-vos guerra com animo inimigo e brao esforado: porm, para
exemplo commum de fidelidade, nos pareceu conservar-vos a vida, porque
com a perda d'ella nos no faltasse um contrario valoroso a quem vencer.
Nicias, vosso particular, veiu ter comnosco, pedindo-nos preo certo por
vos dar morte occulta; em que ns no consentimos, fazendo-lhe perder a
esperana de tirar fructo da sua maldade. Juntamente assentmos dar-vos
este aviso; porque, se alguma cousa acontecer, se no presuma que sahiu
do nosso conselho; e no sendo o intento d'elle pelejar por preo,
premio ou engano, vs,  falta de cautella, percaes a vida."


Tambem me no parece indigna de lembrana uma,

com que Rhodoge, me d'el-rei Dario, o reprehendia, e aconselhava na
segunda expedio contra Alexandre; que foi a que se segue:


CARTA DE RHODOGE PARA ELREI DARIO, SEU FILHO

"Deram-me novas que ajuntaveis poderosos exercitos de todas vossas
gentes e das alheias, para de novo offerecerdes batalha a Alexandre. No
sei a que effeito; pois o poder de toda a redondeza no basta para
pelejar com os deuses immortaes que a elle o favorecem. Deixae esses
pensamentos altivos; apartae-vos da vangloria d'elles, concedendo 
grandeza de Alexandre alguma cousa; que melhor  deixar o que no podeis
ter, para gosar livremente o que possuis; que, querendo dominar tudo,
ficar sem nada."


Cada um dos presentes gabou estas cartas com tanto extremo, que no
deixaram que com ellas acabasse Leonardo sua obrigao; porque (disse D.
Julio) j pelo voto de Solino, estas so as cartas, que entram na
jurisdico de minha curiosidade, no consinto que nos exemplos seja
este genero mais limitado; mrmente que d'este se tira outra doutrina
mais que a das cartas, que  a variedade das historias e occasies
d'ellas.--Eu (respondeu Leonardo) ainda tinha cabedal para ir adeante,
se as horas tornaram atrs; mas partirei (como dizem) a contenda pelo
meio, recitando uma carta, que o gr senhor dos turcos escreveu aos
amazonios; e a valorosa resposta que elles lhe mandaram: e dizia a
primeira:


CARTA DO TURCO AOS AMAZONIOS

"Se por defenso de vossa liberdade sustentreis guerra contra meu
poder, no vos tivera tanto por inimigos, como por valorosos cidados,
que pela patria, filhos, parentes e amigos punheis as vidas. Porm com
nenhuma razo me persuado que os que deixaram tantos annos governar o
reino a mulheres (como tenho ouvido) recusem agora o imperio, e governo
de homens valorosos."


E a esta carta responderam elles outra, que dizia:


RESPOSTA DOS AMAZONIOS

"Este reino das amazonas, que, como por affronta nossa nomeaes, com o
seu mesmo exemplo nos aconselha no obedecer a outrem: porque temos por
infamia e torpeza que o exforo varonil seja vencido do espirito e brao
feminino. Pelo que deveis julgar por invenciveis em armas, e dignos do
governo e principado do mundo homens, entre os quaes at as mulheres
apprenderam a reinar."


E porque com exemplos gentilicos e barbaros no d fim  conversao
d'esta noite, direi por remate uma carta que o veneravel sacerdote Beda
escreveu a Carlos Martelo, rei de Frana, e aos mais potentados
d'aquelle reino sobre a entrada dos mouros em Hespanha, que dizia:


CARTA DO VENERAVEL BEDA A CARLOS MARTELO REI DE FRANA

"Em quanto se move perigosa e cruel guerra na christandade, se apparelha
notavel ruina de toda a Europa: porque os sarracenos, occupada a Africa
e Libya, comeando de Ceita, tem conquistada toda a terra de Hespanha,
tirando a das Asturias e Cantabria. Africa, que o capito Belizario
cobrou aos romanos, e que cento e setenta annos obedeceu a seu imperio,
juntamente com a Hespanha Betica, tem tomado os mouros, fazendo-a
obedecer a seus falsos ritos, com grande ignominia e affronta do nome
christo. Que cousa pde haver mais excellente, valorosa e pia, que
contra estes inimigos de Deua tomar armas? Que fizeram os suevos, os
allemes e os mais vares do nome christo, que com to grandes
destruies tendes perseguidos? Perto esto, e sobre vossas cabeas os
sarracenos, que com soberbo jugo ameaam a toda a redondeza da terra.
N'elles tendes formosissimos reinos, grossas cidades, ricos despojos; e
vos esperam grandes triumphos da victoria: e principalmente incomparavel
premio de gloria com Christo nosso Salvador, que para to santa empreza
com continuos brados vos est chamando."


Certo, disse o doutor, que, se pudra dilatar a noite pelo interesse de
to proveitosa doutrina; mas porque n'esta se no ha de dar fim ao nosso
exercicio, fiquem algumas perguntas, que agora escuso, para outra
occasio, pois agora a no tiveram as cartas amorosas nem as de
desafios.--As primeiras (replicou Leonardo) deixei por ser improprio da
minha edade tratar d'ellas; as segundas, por me no embaraar com o
duello que est reprovado. Porm fica o campo livre para os mancebos.
Com isto se despediram dando-se boas noites: e o estudante foi
encarecendo ao companheiro o muito que o espantra vr tanta crte em
uma aldeia; que as cousas achadas onde no se esperam, so de maior
admirao, e de mais estima.




DIALOGO IV

DOS RECADOS, EMBAIXADAS E VISITAS


Amanheceu o sol to claro e gracioso, que alguns dos amigos por se
lograrem d'elle com a occasio da caa se espalharam pelos montes; mas
depois de horas de vespera visitou o estudante em companhia de Pindaro
ao doutor Livio, com quem passaram a tarde n'um seu jardim em boa
conversao, esperando a da noite, a que elles foram os primeiros que
acudiram, e se acharam em casa de Leonardo; que commummente nos
lettrados se accende melhor o desejo de saber, e no n'aquelles aos
quaes lhes custou menos. Sentaram-se  vista do fogo, que  conta dos
hospedes estava melhor ordenado; e depois de gastarem algumas palavras
de cumprimento, chegaram D. Julio e Solino a quem todos fizeram muita
festa; e, reprehendidos da pequena tardana, disse Solino:--Grande
espao ha que eu pudera gosar esta companhia, se me no detivera em
esperar resposta de um recado, que mandei ao sr. D. Julio.--E eu
(respondeu elle) se vos no encontrra, ainda no tinha entendido o
vosso moo; porque de maneira embaraou o que me mandaveis dizer, que
nem por discrio pude tirar o recado: nem vos desfaaes d'elle para os
que forem de importancia, que val a peso de ouro.

A isto se comearam todos a rir, e tornou Solino:--O meu moo, sr. D.
Julio, tem desculpa em ser nescio, porque  meu moo; que, se soubera
mais, eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como vs, esses
ho de ser discretos, pois so to bons como eu: e comtudo eu vos sei
dizer que ha aqui moo que no dar um recado o pudera fazer como ao que
l mandei, que no  dos peiores da sua ral, e j entermette de lr
carta mandadeira: mas nos recados ainda agora l por nomes, e no acerta
a nenhuma cousa.--Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um creado que
esperdia o entendimento de seu amo: mandaes um recado concertado,
discreto e cortezo: e o madrao, que o leva, muda-lhe os trastos e
desenta com uma parvoice que vos desacredita, como com os meus me tem
acontecido mil vezes.--Nos vossos no  muito (disse Solino) que daes os
recados guarnecidos de rhetorica com seus vivos de latim, que so mais
perigosos na bcca d'estes, que vidro em mo de menino: mas os meus, que
no passam de quatro palavras em linguagem corrente, e que assim os
virem do carns e me mettam em vergonha, no  desgraa? Ora prometto
que os de importancia eu mesmo os leve como aconteceu ao cortezo
ausente, que levou elle proprio a carta a sua mulher: e os que houver de
dar o meu moo, que sejam seus, por no andar remendando o burel da sua
natureza com o trabalho da minha disciplina. D'aqui por deante bcca faz
jogo: digo, que o que o meu moo disser, elle o diz, e que me no ha de
chamar por auctor das suas impertinencias.--Certo (disse Leonardo)
deixando de tratar dos meus, e vossos recados, que importam menos, e de
outros em que vae to pouco, que  uma das cousas de maior considerao
aos reis, principes, republicas, e aos grandes mandarem suas embaixadas,
visitas e recados por homens de auctoridade, discretos e bem
disciplinados, em cujas razes e procedimentos consiste muitas vezes o
bom successo do que pretendem. E assim os reis, principes e republicas
nas materias de estado; as cidades e povos nas occasies das crtes; os
senhores particulares nas visitas; devem sempre escolher homens, que no
entendimento se avantajem dos outros, porque no smente conseguem o fim
da preteno de quem os manda; mas o acreditam: e porque s vezes por
respeitos, privana e valia se antepem os menos sufficientes para estes
cargos, se deitam a perder negocios de uma republica, em que consiste a
quietao e honra d'ella.--Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o sr.
Leonardo  materia dos recados, que no ficam fra de seu logar, depois
de o terem as cartas missivas; e bem se pde fazer a noite bem
assombrada com to bom sujeito.--Desculpado estou (respondeu elle) com o
trabalho, que na de hontem cahiu  minha conta, em fugir d'elle; mas no
de approvar a vossa advertencia.

A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem a materia de mais
longe; e pediram ao doutor que, tomando-a  sua conta comeasse.--Bem
pudera usar (disse elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para
minha escusa; porm ainda que os tinha, e qualquer dos presentes mais
sufficiencia para este encargo por lhe no pr a elles ruim fro, me dou
por obrigado. Digo que _recado_  nome que entre ns tem a etymologia. A
significao  muito duvidosa, pelo modo em que usamos d'elle: porque,
se houveramos de derivar este nome do verbo italiano _recare_, que 
_trazer_; ou do verbo _recapacitare_ que  _recapacitar_ (d'onde elles
chamam _recapacitar_ ao _recado_) nunca disseramos d'elle tanto, como na
nossa lingua portugueza significamos; mas se lhe buscarmos a origem do
latim, vir mais ao nosso modo pela differena do messageiro ao que leva
recado: que o primeiro _missa gerit_, faz as cousas que lhe mandam; e o
segundo _recautus_, este  homem acautelado, que sabe o que ha de fazer
no que est  sua conta; que assim convm mais com o nosso modo de
falar, quando dizemos _homem de recado_, que quer dizer _de importancia,
posto a bom recado, que  seguro_, e _com cautella: tardar e arrecadar_,
que  levar ao fim o que comeou: porm seja uma cousa ou outra, ou
ambas, o principal recado de todos  o do embaixador; e estes so de
duas maneiras, ou o que o principe manda a outro por occasio
successiva; ou o que de ordinario assiste em sua crte, para conservao
da benevolencia e amisade que entre elles ha: estes segundos tinham os
romanos nas provincias junto  pessoa do consul, que as governava com
titulo de legados, e com elles despachava os negocios de importancia.
Mas aos primeiros chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes no
officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em nossos tempos se
aproveitaram muitos d'essa arte, sendo escolhidos para o cargo de
embaixadores.--Eu (disse Leonardo) tenho um cartapacio no pequeno de
falas e oraes de embaixadores portuguezes feitas a grandes principes,
e no pouco doutas e elegantes, como foi uma que fez o bispo D. Garcia
do Menezes ao papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei D.
Affonso V, e por capito de uma armada que elle mandava contra os turcos
em favor da egreja no anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e
outra, que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo com o
arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar obediencia por el-rei D.
Manuel no anno de mil e quinhentos e cinco: e outra, que fez o mesmo
doutor ao papa Leo, indo com Tristo da Cunha embaixador a lhe dar
obediencia com aquelle famoso ornamento, que ainda agora  dignamente
celebrado na egreja romana assim pela grande devoo d'aquelle pio e
catholico rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze,  qual o papa
respondeu em publico com uma doutissima orao de louvores do mesmo rei.
E no  este costume s dos nossos embaixadores, mas de todos os
extrangeiros, assim quando eram enviados a este reino, como a outros.
Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco de Frana a el rei D.
Manuel, que estava em Almeirim, no anno de mil e quinhentos e seis,
Monsieur de Lanjaca, governador de Avinho, lhe fez uma douta orao em
sua chegada: fra outras muitas com que pudera allegar.--D'esses
exemplos ha muitos (disse o doutor), e continuando com o que convm mais
ao fim do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo de
embaixador os homens das familias mais illustres do reino, dos illustres
os mais discretos e cortezos, d'estes os mais animosos e liberaes, dos
animosos os mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados; e so
todas estas partes to necessarias ao embaixador, que com a falta de
qualquer d'ellas ou arriscar o credito do principe, que o manda, ou o
negocio de que vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser
illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e dos illustres
d'elle, e por honra tambem do principe a que  mandado, pois ha de fazer
as partes de um, e assistir  ilharga do outro. E assim n'este reino, e
nos vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores muito chegados
em sangue s casas dos reis que os enviaram, e sahirem outros da mesma
qualidade; o que no s tem exemplo dos reis da Europa, mas da Persia,
Japo e outras remotas partes do oriente. Depois de illustre ha de ser
discreto e cortezo, porque parece que mais que todas as outras partes,
lhe est requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrio e
cortezia para tratar as cousas convenientes  sua embaixada, encobrindo,
desculpando e persuadindo o que a seu rei convm; que esta  a
differena do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o que lhe
mandam que diga: o outro dispe, ordena e conclue o que lhe encommendam
que faa: um leva o recado na lingua, outro no peito, como disse um
embaixador dos romanos aos carthaginezes na guerra de Sagunto, que
levava a paz, e a guerra dentro no peito; e assim no vindo elles no que
os romanos pediam, declarou a guerra. Alm d'isto como o embaixador  um
terceiro, e conciliador da amizade de dois principes, nenhuma cousa lhe
 mais importante, que o entendimento, e tambem o ser cortezo lhe
importa muito, pois a sua principal assistencia  no pao, e junto 
pessoa do principe, com communicao dos principaes senhores do reino; e
s vezes por esta parte sendo engraado, e acceito quelle a quem 
mandado, acaba mais facilmente os negocios e pretenes de quem o manda.
Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque nas materias que tocarem
 guerra, tregua e liga, ou confederao com seu principe, se no mostre
por sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue com seu
exemplo a que o respeitem e temam; e tambem porque na occasio em que se
offerecer ao senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com as
obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E o segundo, porque com a
magnificencia se conquistam mais vontades e animos extrangeiros, que com
qualquer outra valia, por grande que seja; e posto que esta parte a
todas as pessoas illustres  necessaria, e em todos os cargos de guerra
e officios da paz  to estimada, no de embaixador  muito mais
proveitosa para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella que
convm ao de sua embaixada, e para mover os ministros e validos, em cuja
mo ou conselho est seu negocio. Convm alm d'isto que seja o
embaixador homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e
venerao; que em outro modo o corpo pequeno em pessoas de grande logar
lhes tira muita parte do que se lhes deve. E um doutor nosso de muito
grande nome, e pequena estatura, mandou pr ao p de um retrato seu uma
lettra que dizia: _A presena diminue a fama_.

E outro do mesmo grau, e no de maior corpo, indo d'este reino com uma
embaixada a um rei asss poderoso, vendo-o elle to pequeno, lhe
perguntou motejando d'elle: "Se el-rei seu irmo tinha em seu reino
outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante cargo?" Ao que
elle respondeu valendo-se do entendimento, e animo que tinha: "Que na
corte d'el-rei seu senhor havia muitos homens do grande pessoa, e
partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que para sua magestade lhe
pareceu que elle bastava, e por isso o mandra." Finalmente  de muita
importancia ser bem acostumado, para com sua temperana, continencia, e
bom termo conservar, e acreditar o bom nome, e fama de seu rei, a honra
de sua patria, e da propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus
costumes no faa com que se diminua, e perca o respeito, liberdades, e
exempes que tem os embaixadores, como aconteceu aos da Persia, que
vieram a el-rei Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traa de
Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, no podendo soffrer sua estranha
dissoluo, mandou alguns moos de bellissima figura, que em habito de
damas os servissem  meza, levando escondidos punhaes com que se
vingassem de qualquer deshonesto acometimento dos embaixadores; que
usando de sua demasiada luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da
Persia offendido de se no guardarem com os seus as leis dos
embaixadores, mandou um poderoso exercito contra el-rei Amyntas; porm o
general d'elle sabendo como o caso passra, se retirou sem querer dar
batalha aos Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores sejam
escolhidos de sujeito acommodado aos negocios, de que ho de tratar; que
tal occasio se offerece, em que convm serem humildes; e outra, em que
 melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam de ser animosos, e
arriscados; e outras brandos, e dissimulados. Francisco Dandalo,
embaixador dos Venezianos ao Papa Clemente V para levantar o interdicto
ao Senado, contra quem estava iroso por razo das coisas de Ferrara,
esteve lanado de bruos grande espao  meza do Summo Pontifice, com
uma cadeia de ferro ao pescoo; e com tantas lagrimas, e palavras o
obrigou, que alcanou d'elle o que pedia. Este por sua grande humildade
foi chamado _co_, e por seu valor succedeu no Ducado de Veneza. Pelo
contrario Orfato Justiniano, homem de letras, e animo generoso,
embaixador do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles, que pelo mau
animo, que contra os Venezianos tinha, no fazia d'elle a conta, e
estima que seu valor merecia. Orfato lhe mostrava to pouca inclinao,
e humildade, que o rei indignado mandou fazer to baixa a porta, por
onde entrava a lhe falar, que  fora lhe fizesse dobrar o pescoo:
porm elle entendendo a teno de Fernando, entrou com as costas para
diante, e voltando-se direito na casa fez a mesma cortezia, que
costumava. Outro dia achando-se em um banquete, que o rei mandou fazer,
dando-lhe de proposito os convidados to estreito lugar que achava sua
auctoridade, deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga, que
trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar como os outros
assentos.--A mim me parece (disse Leonardo) que os attributos mais
importantes ao embaixador, e que sempre n'elle devem andar annexos, so
esforo, e entendimento, que so como dois eixos, em que se revolve o
maior peso, e substancia, das coisas do Estado; o que se colhe dos
exemplos que dissestes, e de outros muitos; porque o esforado e
entendido em nada falece, nem quillo a que seu rei o manda, nem ao que
a si mesmo deve, nem  occasio de que se pde aproveitar, como
aconteceu a Pompilio, embaixador a el-rei Seleuco, sobre conservar
amisade com os Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo o
Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava melhor; e entendendo o
Romano que aquella dilao se fundava em fraqueza, e cautela, com o
bordo que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou mettido,
dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse se havia de determinar na
resposta de sua embaixada; e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz
que lhe requeria. E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador aos
Tarentinos, lanando-lhe por desprezo sobre as roupas muitas immundicias
com grande rizada, e escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente:
Vingai-vos agora do riso  vontade, porque tendes muito que chorar
quando com vosso sangue se lavarem as nodoas d'este meu vestido.--Esses
casos (accudiu D. Julio) so da mera jurisdico do esforo, e
cavallaria; ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque o valor
do animo a tudo acode, e em nada perde ponto. E se no, vede a estimao
que fizeram os reis catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo
Fernandes de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o prior
sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou a combater valorosamente
tirando com muitos louvores d'aquella batalha feridas; e querendo-o
el-rei desviar antes, porque no convinha ao cargo que trazia, lhe
respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue, e o animo o
obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe I a Frederico Badoaro, que
os Venezianos lhe mandaram por embaixador a Genova, sendo elle principe
de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos no segundo
logar, succedeu chamar o principe a si ao duque de Saboia; e acenando ao
veneziano que lhe dsse o lugar, o que elle no quiz fazer, o principe
com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes tirar; mas
respondeu que antes havia de deixar a vida, que aquelle lugar, porque
com a morte de um particular se no fazia affronta ao Senado; mas que se
lhe faria muito grande, se dsse o lugar, que lhe era devido, a pessoa
inferior em merecimentos. E quanto  dissimulao, e soffrimento s nos
esforos costuma a achar confiana para metterem em cortezania o que
puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a Giuberto Dandalo,
embaixador dos Venezianos ao Papa Nicolau III, que j mais foi ouvido,
nem pde alcanar entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha
contra o Senado, sobre a possesso de Ancona; at que, vendo elle o
pouco que importavam suas muitas diligencias, fingio um dia, sahindo com
alegre semblante, haver-lhe fallado, e alcanado o fim do negocio a que
vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para Veneza; onde
perguntando-lhe o Senado o que passara, respondeu: "No achei o Papa em
Roma, nem quem me soubesse dizer onde o acharia."

--Mui principaes (disse o doutor) so as partes de esforo, e
entendimento no embaixador; porm tem igual necessidade de todas as
outras para representar com a nobreza a pessoa do seu rei: para com a
magnificencia adquirir as vontades dos ministros, e criados: para com a
gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado: para com o conhecimento
das coisas do Estado, e experiencia d'ellas acertar nas que se lhe
offerecessem: e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar uma
approvao na vista, de tudo o que se conhecer de suas obras. Mas porque
no parea que vou fora do em que comecei: A que os embaixadores no
levam recados,  certo, (que ainda que os seus sejam de maior confiana)
que levam por escripto muito do que ho de dizer, e do que ho de pedir,
ou conceder; porm a eleio do tempo, occasies, e palavras fica
subordinada ao seu entendimento; e para isso do os reis, e seus
conselhos supremos largas instruces, regimentos, e ordens de como se
ho de haver nas coisas os embaixadores; que so mais largas, quanto so
mais remotas as provincias, a que so enviados.--O officio (disse
Leonardo)  de tanta importancia, que nenhum outro demanda maior cabedal
de partes da natureza, e das adquiridas por experiencia: e sei-vos eu
dizer que houve n'este reino famosos homens d'esta profisso, e taes,
que, querendo nomear alguns, faria manifesto aggravo a outros muitos.
Mas se o gran-duque de Florena, vencido da eloquencia, e partes de
Hermolau Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos Venezianos)
com tantas mercs, e favores o persuadia a que ficasse em seu servio;
no faltaram outros, que sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram
maior inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum teve lugar
nos tribunaes supremos da corte de Hespanha, que para negocios
particulares de um principe d'este reino foi mandado a ella, que pela
grande satisfao, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido para os
de uma monarquia to dilatada. Mas no  de espantar que de um
embaixador e messageiro particular se fizesse um conselheiro de estado,
sendo criado da casa de um senhor, do servio do qual, como de outro
cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e vares insignes em todas as
profisses: d'onde sahiram vice-reis, e capites maiores para o Oriente,
e soldados para capites, e mestres de campo, que defenderam, e honraram
o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram Malta; fronteiros
valorosos, que se assignalaram em Africa, todos criados da mesma casa,
onde se acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem a Marte, e
engrandeam a Minerva, fazendo inveja aos mais avantajados nos
exercitos, e presidios hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e
academias mais nomeadas da Europa.

--Tendes levantado este discurso de maneira (disse Solino) e est a
materia d'elle to altiva, que me parece que eu e Pindaro ficamos esta
noite camaro, sem nenhum de ns fazer postoleta: ainda este mau jogo me
fez o meu moo, que no cuidei que d'elle saltasseis a coisas to
differentes: folgara de saber se haveis de ficar n'esse tom, porque vos
deixarei em termo com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar
minha vida.--Ainda no tendes razo de vos queixar (respondeu elle) que
antes por me chegar pouco, e pouco aos criados, deixei muito dos
embaixadores, aps os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores,
que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes, e outras vezes a
visitas, e occasies dos principes, que no menos devem ser escolhidos
para estes cargos, buscando n'elles as partes mais necessarias que so
discrio, experiencia, e pessoa, quando no possam concorrer todas as
mais; porque a cidade, ou villa, que manda ao principe seu procurador,
ou agente, n'esse mesmo faz representao de sua sufficiencia.--De um
cidado se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado por procurador a
cortes, lhe esqueceu no caminho o que a cidade lhe encommendra, e
tornou a dormir a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que a: e
fra melhor eleio, se a mandaram a ella, pois lhe no esqueceu.--De
outro ouvi eu (respondeu Solino) que jurou por vida da sua a el-rei
Filippe I que se havia de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome
de uma cidade d'este reino: fra outras impertinencias que na pratica
disse, mais dignas de riso, que de credito. E um conheci eu, a que
cahiram as luvas, e o chapo da mo, comeando a dar o recado de uma
cidade a um principe; e levantando-as, perdeu o que queria dizer, de
maneira que nunca atinou palavra.--Estes maus successos (proseguiu o
doutor) testemunham o muito cuidado, com que se ho de eleger os homens
para taes cargos; o que no importa menos aos titulares e fidalgos, que
mandam vizitar a outros em occasies de pazes, ou parabens, por pessoas,
que saibam accommodar-se  tristeza, ou alegria que o caso requer, para
credito, e boa opino de quem os manda.--Certo (accudiu Leonardo) que
no julgar bem quanto isso releva, seno o que j se envergonhou de
ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um fidalgo que eu
tratei particularmente, ao qual, estando enojado por morte de um seu
filho, visitou da parte de um personagem um capello bem apessoado, e
disse que o senhor N. estimra muito aquella occasio para mandar
visitar a sua M. e se offerecer a seu servio. A este conto fizeram
todos muita festa. E Solino, que vio lugar aos seus, accudio logo: "No
sei se vir muito a proposito; porm tambem eu hei de dizer a minha
historia, em raso da advertencia, e cuidado que deve ter quem visita em
nome alheio; pois se v que mais desattentos, que ignorancias, os erros
d'estas materias. Uma senhora enojada por a morte de um seu irmo tomava
as visitas em uma camilha, como as mais costumam. A esta mandou visitar
outra parenta sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando na
primeira casa achou to escura que, pegando-se s paredes, esperou uma
dona que lhe servisse de moo de cego; a qual o levou por a mo at uma
porta estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou para passar
deante; a qual no alcanou to bem o degrau, que no dsse primeiro com
as queixadas na humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a guiar
a dona da mesma maneira at junto da camilha, onde o tornou a soltar:
esta pessoa, cuidando que tinha alli outra porta, por no errar o degrau
por baixo, levantou o p de maneira, que o poz nos peitos  enojada, que
dando um grande grito a fez cahir de focinhos. Muitos, que estavam na
casa, e tinham furtada a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram
to grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo o sentimento
do nojo, e cahia cada um para sua parte sem se poder valer." Como Solino
tinha graa natural no que dizia, deu muita a este conto, que foi
celebrado com riso de todos.--Se assim  (disse Solino) que nesses ha
tantos desatinos, e inadvertencias, no ha que espantar de criados
menores, que uns so por natureza to rusticos, que em nada acertam;
outros por malicia to depravados, que no querem saber seno o que  em
favor de sua maldade.--Uma questo se offerecia agora (acudiu Pindaro)
que, ainda que rasteira,  em materia proveitosa. Convem a saber se 
melhor servir-se um homem de um moo simples, e nescio; ou de um
malicioso ainda que seja esperto.--Eu estou melhor (tornou D. Julio) com
o que me engana, que com o que me enfada; porque a confiana, que fizer
do meu moo, ser segundo a opinio que d'elle tenho para me poder
enganar em pouco: e do nescio nem posso confiar em um recado as minhas
razes, nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora o que ha de
dizer, menos sabe o que lhe convm calar: alm de que  grande desgosto
andar um homem de continuo ensinando um rustico, sem proveito, que no
tomar em sua vida tinta de discrio, por mais que o cozam n'ella.--A
mim me parece outra coisa (disse Solino) em razo d'aquelle proverbio:
_Antes asno que me leve, que cavallo que me derrube_.--Pelo rifo
(respondeu Leonardo) entendo que quereis defender o vosso moo.--Se o
no fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou elle). Porm o moo nescio
no pode desacreditar com sua parvoice o entendimento de seu amo, que
no est obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso, e
esperto, nem por o ser deixa de errar peior que os outros; porque no
aprende o que convm a seu amo, seno ao intento de sua maldade; e d s
vezes por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam; e quando
no, troca as palavras ou o sentido d'ellas; muda o tempo, e a acezo do
recado; vai quando quer, e no ao tempo que vos releva; tira-vos o
credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque dizem que _qual o
amo tal o moo_; mais vos desacredita com a murmurao, do que vos
acredita com o recado; e quando vos lisonjeia,  quando vos rouba. O
simples, se no diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se com
o que d'elle fiais, e no trata de penetrar o que pretendeis; e muitas
vezes seus erros cahem em graa como as subtilezas dos outros em
damno.--Boas so essas razes (disse Feliciano) porm  dura coisa que
pelo moo nescio julguem por tal a seu amo; pois  regra de direito que
_faz por si o que manda fazer por outrem_: e se a victoria dos soldados
se attribue ao capito, os ensinos, e palavras dos moos porque se no
ho de julgar por de quem os governa, e manda? e menor damno  qualquer
dos outros, que o de um homem parecer nescio  conta do seu moo. E
sobre tudo no se ha de pintar to perverso o malicioso, que faa mal,
diga mal, e presuma mal, e seja intelligente; que os mais d'elles cantam
de quem roubam; que d'esse outro modo no  pintar criado, mas
inimigo.--E no sabeis vs (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a
maior partes d'elles o so de quem os sustenta? e assim diz a sentena
de Euripides, que no ha maior, nem peior inimigo que o criado: e
Democrito diz que o criado  coisa to necessaria, como amargosa:
Luciano diz que os criados sempre tem malicia, e traies armadas contra
seus amos.--A muitos tenho eu por inimigos (disse Feliciano) porm peior
o ser o nescio, que o que o no for; e no smente sustentar inimigo
em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo, no ha maior servido
que mandar a um nescio.--Eu tenho procurao em causa propria (disse
Solino) para acudir pelos criados, como testemunha de muitos fieis, e
verdadeiros a seus senhores: e Euripides, e os mais devem de entender, o
que disseram, dos escravos, que, como lhe temos tomada a coisa mais
principal, e mais sua, que  a liberdade, sempre nos tem odio, e nos
desejam, e procuram mal; porque a vilesa do seu animo no soffre
mostrarem valor na sujeio.--No me parece a mim essa boa razo
(accudiu o doutor) porque por dito de Seneca _nenhum escravo ha mais
vil, que o livre, que serve por sua vontade_. (No entendo n'este conto
os nobres, e honrados, que servem aos grandes por respeitos razoaveis).
E dos escravos, a que fez taes ou a ventura de guerra, ou outra
desgraa, temos os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em
que deixaram muito atraz os proprios filhos. E se no, vde se fez algum
o que o escravo de Publio Catieno. que, deixando-o o senhor por
universal herdeiro de seus bens, pela fidelidade com que o servira;
elle, por se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira em
que queimavam o corpo de seu senhor, e morreu com elle, mostrando que
estimava mais tal servido, que a vida, e as riquezas que lhe deixava.
Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de ver a seu senhor
vencido de Augusto. Euporo, escravo de Lucio Graco, que se matou sobre o
seu corpo. E um escravo de Papinio, que, vendo que os inimigos entravam
uma quinta, em que o senhor estava, para o matarem, trocou com elle o
vestido, e metteu no dedo um seu annel de preo: e deitando-o fra por
uma porta, sahiu pela outra a receber a morte, que haviam de dar a seu
senhor. E Frederico de Eveshim, escravo de Conrado Imperador, que,
sabendo que vinham para o matar, o fez sahir do pao, e se deitou na sua
cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado, o mataram: o outros
muitos escravos sem nome, que mereciam que o seu ficasse eterno por
memoria de sua fidelidade. Nem se pde esquecer aquelle grande animo de
Lazaro Cherdo, escravo, de nao Serviano, que vendo seu senhor cativo
de turcos, e depois morto, desejando vingar-lhe a morte por preo de sua
vida, fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no campo Turquesco,
e dizendo que queria fallar a Amurates, primeiro imperador d'aquelle
imperio, o matou a punhaladas; d'onde no pde fugir, mas perdeu a vida
valorosamente.--D'esses escravos (replicou Solino) no trato eu, que
mereciam ser senhores de seus senhores; como tambem houve criados que
mereciam ser servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes foi
escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava, em que sabia
servir, respondeu: que _em mandar homens livres_; por o que Xeniades o
libertou dizendo: _aqui te entrego meus filhos para que os mandes_. E
Epicteto, que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedo, escravo de
Cebes, ouvi dizer, que Plato dedicara um livro da immortalidade. Porm
a ns no nos cahiram em sorte estes escravos, seno a gente mais
barbara do mundo como  a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria da
Asia, que  da gente mais vil das provincias d'ella; que uns, e outros
tratam os portuguezes com rigoroso cativeiro n'aquellas partes,
vendendo-os para servio das minas das Indias de Hespanha como
condemnados  morte: e assim se podem estes chamar com razo inimigos
mortaes de seus senhores.--Tambem (disse o doutor) houve j n'este reino
escravos illustres de muito valor, entendimento, e sangue, conhecidos
por taes, e tratados como se estiveram em liberdade, que cativaram nas
nossas fronteiras de Africa, em cujas historias me eu no quero deter
por me no alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas, que
uns e outros representam a pessoa de quem os manda, no que toca ao
recado que do: o que a mim me parece que est bem provado com o
costume, que os antigos tinham em mandar os seus, que no fallavam por
terceira pessoa, como  o nosso uso, que dizemos _diz fuo que vos beija
as mos_; _que vos pede isto_; _vos encommenda este outro_; _vos lembra
tal coisa_: antes costumavam: _N. vos diz_, _beijo-vos as mos_,
_rogo-vos isto_, _encommendo-vos este outro_, _lembro-vos tal coisa_,
representando nas palavras a mesma pessoa que as mandava dizer; e d'esta
maneira ficava arriscado nosso amigo Solino, representando pelo seu
moo: pelo que a mim me parece que o melhor do recado  ser to breve,
que o possa dar sem erro quem o leva; e to claro, que o entenda sem
trabalho a quem se manda. E com isto, e com vossa licena me hei por
desobrigado do que n'esta materia podia dizer.--No pela minha parte
(disse D. Julio) porque deixais de fra um officio de mais habilidade
que todos os de que falastes, em cuja profisso entra a de embaixador,
agente, procurador e recadista; e ainda outros muitos, que  o do
terceiro, ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse
Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais vil, e reprovado,
que os de mais, e se empregar em materia to odiosa  Republica: porm
sem entrar no fundo d'elle, nos poder dizer alguma coisa da
superficie.--Bem sei (respondeu o doutor) que para me metter em
desconfiana levantais essa lebre; e no vos enganeis, que tanto se deve
tratar de officios viciosos para fugirem d'elles, como dos de virtude
para os seguirem, e desejarem; e posto que esse  to vil, j os romanos
deram leis  sua profisso, segundo escreve Pedro Crinito; as quaes
estavam escriptas no templo de Venus; e Licurgo, aquelle grande
legislador dos Lacedemonios, tambem lhes deu regras, e liberdades, posto
que lhe est melhor o castigo com que os nossos direitos os agasalham;
mas se ha officio de muito cabedal, e pouca honra,  o do alcoviteiro,
porque ha alguns que os no vence Tullio no fallar, Cato no dissimular,
Sallustio no persuadir, Terencio no representar, Ovidio no fingir,
Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar, Ulysses no tecer, Momo no
desdenhar; e todas as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em
afeioarem com engano vontades innocentes. E para lhe assignarmos as
partes necessarias, fra acertado pintar o avesso do embaixador, com que
s convm em ser discreto, e experimentado; porm ha de ser baixo, vil,
desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso, ingrato e soffredor de
todos os escarneos e zombarias, porque no s  de sua profisso
enganar, mas tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que seu
exercicio merece.--Muito cruel estais contra elles (tornou D. Julio) e
no tendes razo; quando vitupereis o seu officio, no vos esqueais da
grandeza das partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e
encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha, e convence como
um rhetorico: finge, disfara, e representa com figuras, espantos,
meneios, e hypocrisias nos gestos, e palavras como um commediante:
pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia toucados, e
vestidos, e trata os rostos, e feies melhor que um pintor; sabe mais
da natureza das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o falso
por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades, e achaques dos que
lisongeia, como medico; obriga, e engana no interesse, como legista;
adivinha os tempos, occasies, e vontades melhor que um astrologo. No
ha finalmente arte liberal, nem mecanica, de que se no valha, e em que
no vena a seus professores.--Ainda me parece (disse Solino) que haveis
de chegar  Celestina; que posto que o officio  do genero commum de
dois, accommoda-se melhor ao feminino. E pois de embaixadores descemos a
criados, no  de espantar que tropecemos em to ruim gente.--Parece-me
(disse o doutor) que de aposta quereis profanar a minha auctoridade; no
vos quero dar esse gosto  minha custa: e no passemos d'aqui n'esta
materia: e tambem porque  mais tarde do que parece, demos lugar a que o
senhor Leonardo se recolha.

Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando e agradecendo
cada um ao outro o que dissera; que tanto se contenta o discreto da boa
razo alheia, como o nescio da sua ignorancia propria.




DIALOGO V

DOS ENCARECIMENTOS


No perdiam tempo os da conversao em se chegarem aos interesses
d'ella: e era em todos to egual o desejo, que nem a occupao de cada
um os desencontrava; porque o gosto, em que se enleva o entendimento,
faz menores todos os respeitos ordinarios da fazenda, e familia.
Entraram  noite juntos em casa do hospede com grande alvoroo, dando
cada um no caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam de gastar
aquellas horas. Porm assentados, sem o estarem ainda no que seria,
disse D. Julio: Por certo, senhores, que estou to enleado com uma coisa
que vos quero dizer, que temo das razes e da edade faltar ao decoro que
convm ao sujeito d'ellas; porque nos mancebos as palavras de mero
louvor de uma mulher, ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e
mais facil  de presumir um engano de affeio nos meus olhos, que de
persuadir um espanto a entendimentos to levantados como os vossos.
Porm seja o que fr, e corra o meu credito o risco que ordenardes; que
com todos, os que houver, me aventuro.--Que novidade  esta, senhor D.
Julio (disse Solino), que sermo quereis fazer, que tomaes a graa, e
nos tendes pendurados a todos no desejo de vos ouvir?--Esta manh,
(proseguiu elle) porque me pareceu de caa, e por gastar n'ella o dia,
com menos cuidado do desejo da noite, me fui pr detraz da nossa serra
alongando-me para a parte do mar um grande espao de caminho; e voltando
sobre uma fonte, que nasce ao p de uma cora de penedos, coberta da
sombra de uns altos hervados, e atoeiras, cheios de verde rama como no
melhor tempo da primavera, embaraados com umas vides silvestres que os
atavam, e que ainda de todo no estavam despidas de sua folha, vi junto
a ella, e coberto com elles o mais formoso rosto, que eu imagino que
pode haver no mundo para satisfao de uns olhos afeioados: era de uma
mulher em habito de peregrina, que fiada na solido d'aquelle deserto, e
por gosar dos raios do sol, que n'aquelle logar se espalhavam, com os
toucados lanados sobre os ramos  vista da fonte concertava os
cabellos; e eram elles taes, que no smente faziam perder ao sol a
formosura, mas cobrindo outro mais formoso, que era o seu rosto,
contentavam de maneira o desejo, que no fazia muito por passar d'elles
adiante. Eu sem atinar no silencio, com que era razo que me escondesse
por lhe no ser pesado, fiquei to esquecido, que, afrouxando as redeas
ao cavallo, o deixei tropear entre os ramos, e fui sentido da formosa
peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia os cabellos se
apartaram, qual sa ferir o relampago d'entre as nuvens, me saltearam a
vista com uma luz estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de
ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos eram duas
estrellas de diamantes, em cujo fundo um verde escuro de esmeraldas
apparecia, que communicando quella formosa cr a claridade dos raios,
que despediam, roubariam as almas de quem os olhasse; e descendo d'elles
abaixo, era tudo to cheio de perfeies, que o menor logar, em que se
empregava a vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca era um
lao de todos os pensamentos amorosos; e nunca vi coisa to pequena, em
que coubessem tantas grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio,
que com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam como por
vidraa as perolas, que at ento me no descobrira o pejo, com que
ficou de haver visto. A columna, que sustentava este edificio, era um
pescoo de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues muito delgadas,
que me representaram n'aquella hora a cr do co sereno, que pela rotura
de duas nuvens brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o
circulo da sombra, com que se engastava no aspero burel da esclavina que
a romeira vestia: apeei-me eu; e n'este mesmo tempo lanou ella o
toucado sobre os cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho; mas
como as suas madeixas eram mais compridas, que a toalha branca, com que
as quiz encobrir, se mexericavam pelos extremos das pontas, que vinham a
guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe com a
cortezia, a que a modestia, e gravidade do seu rosto me obrigava; e ella
sem mostrar outro alvoroo de minha presena mais, que vestir de
escarlata a branca neve de que parecia formado, me respondeu,
perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle o caminho. Eu, que
no perdia com os olhos um s movimento dos que os seus faziam, me
pareceu tudo o que tinha visto, sombra da graa e brandura com que falou
com uma voz to fina, que penetrava o interior do corao, e to suave,
que o desfazia, e com uma modestia to grave, que no dava logar a se
prem n'ella os olhos direitamente, seno com um respeito armado de
receios. Perguntei-lhe d'onde era, para onde a, encarecendo-lhe o
perigo em que punha sua belleza de ser offendida, fiando-a de desvios
to solitarios. Mas ella despresando todos os temores, e fazendo mais
difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe pendia, que pelos trances
que  sua conta se me representavam, deu a entender muitas cousas, com
que eu perdi o accrdo, e ousadia de lhe perguntar outras, e lhe
offerecer algumas das que costumam haver mistr os que fra da sua
patria vem experimentar os males das alheias. E alm de eu estar
atalhado com sua vista, o estava ella tanto com minha presena, que
perdi o interesse de a vr, por o respeito de a no molestar: despedi-me
magoado: estou arrependido; e cubioso de a tornar a vr, de maneira que
no aparto o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram. E porque
ainda me parece que deve ser mais estranho o successo, que a traz
n'aquelles vestidos, que a novidade de sua gentileza, a que se deve todo
o cortezo tributo de vontades bem nascidas; peo ao senhor Leonardo que
por a melhor via, que lhe parecer, saiba d'esta estrangeira, que por
esta noite deve de estar na aldeia; ouvir d'ella mesma a sua historia,
e eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.--Bem
andastes, senhor D. Julio (disse o doutor) em tomar primeiro carta de
seguro para o que havieis de dizer; porque os encarecimentos d'essa
peregrina so mais pinturas vossas, que gentilesas suas; porque no ha
mulher nas obras da natureza to perfeita c na terra como a soube
fingir o vosso entendimento, ou affeio: e  conta d'ella me parecia
bem que assentassemos o retrato de belleza to sobrenatural, que em
materias de amor tudo o que reluz  ouro, e tudo o que assombra  sol; e
s com esta desculpa salvareis louvores to desacostumados.--A affeio
do que vi no posso eu negar (tornou elle) mas  vista da peregrina
dizei o que quizerdes contra minhas razes, que nas suas partes hei de
achar armas com que defenda o que disse. Leonardo se offereceu ento a
mandar fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando para Solino, que
tinha os olhos no cho, lhe disse: Vs, callaes, quereis allegar
servios ao senhor D. Julio, porque a vossa natureza no  deixar passar
esta mercadoria sem registo.--Estava agora (respondeu elle) cuidando nos
livros de cavallarias, que ha poucas noites que defendi; e desejava dar
um cavalleiro andante quella peregrina; que se uma cousa d'estas
apparecra a meu amigo Pindaro, que encantamentos no rompera, e que
poesias, e obras heroicas appareceram de novo no mundo, que alabastros,
marfins, marmores, crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por
esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este encontro mais
elegante do que se esperava; Pindaro, com sua licena, tem n'esta
materia mais direito adquirido; e no se houvera de contentar de descer
do co as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas os archanjos,
cherubins, dominaes e potestades haviam de ter logar n'elles.

--No ser fora de proposito (disse o doutor) divertirmo-nos agora com
esta materia em desconto, e recompensa das passadas; e gastar esta noite
em saber a causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que 
pensamento que j me desvelou em outra edade.--Obrigo-me eu (disse
Leonardo) que a nenhum dos presentes descontente a vossa escolha; e eu
particularmente estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do
Licenciado, que por hospede, estudioso e cortezo se lhe deve o
logar.--O meu voto (tornou Feliciano)  de pouca importancia, e o logar
devido a outrem; mas com toda a humildade acceitarei o que me derem: e
se com a minha razo ficar corrido, barato  o saber que se compra com
primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos nascidos de amor no
devem parecer estranhos (por deseguaes que sejam) a nenhum juizo
affeioado; porque o amante para pintar a formosura de uma dama, que
satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente achar nas cousas
creadas a que a compare, que lhe fique parecendo que a encarece; porque,
ainda que sejam formosas as estrellas, lhe no agradam tanto como os
seus olhos; e sendo o Sol to bello, se alegra menos com a claridade de
sua luz, que com vr o rosto de quem ama; e so de menos valia para seu
gosto e desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras, que o
riso da sua bcca e a graa da sua vista; e de no imaginar na terra um
amante cousa que se eguale ao objecto da sua affeio, d em o desvario
de a comparar aos espiritos que no alcana com o entendimento, subindo
com elle pelas gerarchias mais levantadas: a causa , porque o amor faz
as cousas to formosas a seus olhos, que leva muita vantagem  natureza
que creou umas, e outras; e a cubia e opinio, que engrandeceu a muitas
d'ellas: que at do gosto, como diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor
 saboroso; nem ha fel to amargoso, que com elle no parea suave: que
no smente com seus poderes d perfeio s cousas, mas tambem as
converte em outra substancia.--No estou contra a vossa razo (acudiu
Leonardo) mas parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes, que
todos, pouco mais ou menos, no sahem de certos limites; porque, em
descendo da pedraria, os que so menos lapidarios empeam em coral,
marfim, porfido, alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto, a
paixo de amor no havia de guardar regra certa nas palavras, e
louvores, antes encarecer sua dama com as cousas que a seu gosto e
opinio sejam mais formosas; e como as affeies so to differentes,
assim o seriam os gabos, e encarecimentos.--Para louvar (replicou
Feliciano) no ha tantos caminhos como para ter affeio; porque logo
daes com uma estrada Coimbr, que  _to bella como o Sol_, _to clara
como a Lua_, _to alva como a neve_, _to loura como o ouro_; e d'aqui
adeante.--A mim me parece bem (disse Solmo) a razo do Licenciado, que o
doutor tinha geito de metter os louvores de uma dama em exemplos
caseiros, chamando-lhe fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim,
clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e como os amantes
para encarecer se no contentam com pouco, todos chegam ao que pode ser:
todo o branco  crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde
esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos; e at as mes
dos meninos, a que naturalmente tem excessivo amor, no lhes sabem
chamar pouco: quando os tomam nos braos, logo os intitulam de _meu
duque_, _meu marquez_, _meu conde_; nas pedras _meu diamante_, e nas
flres _meu cravo_, e _minha rosa_: quanto mais louvando mulheres, a
quem todo o encarecimento fica curto, e envergonhado pela fra, com que
tem captivos os sentidos, e as potencias dos que ho de falar n'ellas. E
para concluso de tudo, diga Pindaro o que sente n'este particular.--Os
encarecimentos, de que usam os amantes (disse Pindaro) menos so seus,
que adquiridos dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os
escriptos em suas obras: porque, como retratadores das obras excellentes
da natureza, buscaram to altivos materiaes para darem vivas cres 
formosura. E no  muito que, pintando um rosto formoso da terra, lhe
accommodassem cres, e attributos celestes, quando para pintarem cousas
do mesmo co usam tantas vezes de semelhanas, e encarecimentos da
riqueza da terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos de
lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de topazios, jacintos,
e esmeraldas; e o mesmo fez pintando os paves, que no co levavam o
carro da Deusa Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano
Capella. E como a phrase poetica  a mais excellente, e levantada, e por
tal escolhida das Sibyllas, e Oraculos para usarem d'ella, tambem
fizeram os amantes a mesma eleio; entre os quaes qualquer miuda
considerao de um voltar de olhos  arco, aljava, e settas de Cupido,
com todas as mais allegorias, e transformaes que os poetas usaram.--A
verdade  (disse o doutor) que a perfeio da formosura animada se no
pode devidamente encarecer com alguma semelhana, que o no seja, porque
todas lhe ficam muito inferiores: o que declarou bem uma dama
Florentina, que perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de
mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor d'aquelle tempo;
ella, sem responder com palavras, fez que uma creada sua formosa e bem
proporcionada, despisse em si as partes, que a figura mostrava nas; e
logo  vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama, e valor que
d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico da formosura, que declara
engenhosamente este pensamento: a figura do qual era uma mulher com a
cabea mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas rodeado de um
resplendor, que o no deixava vr distinctamente; na mo direita um
lirio, e na outra um compasso; significando com a cabea mettida no co,
e no resplendor, que s com as cousas d'elle se podia encarecer, fazendo
impedimento  vista humana como raios derivados da belleza Divina; o
lirio denotando a graa das partes naturaes, porque em cr, e pureza foi
sempre symbolo da formosura; o compasso a medida, proporo, e
correspondencia dos membros, em que consiste toda a perfeio d'ella.
Mas Pindaro tudo quer attribuir  sua profisso: e n'esta parte no tem
pouca justia: porque smente na licena poetica podem entrar os
desvarios dos namorados, por serem muito eguaes o furor poetico, e o
amoroso. Porm, j que os encarecimentos esto approvados com to boas
razes, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que vivem, morrem, e
ressuscitam a cada passo, e que andam sem almas como cantaros, e sem
corao como fures, que, a meu vr,  gente que por privilegio de amor
vive exceptuada das leis da natureza.--A razo (respondeu Feliciano)  a
mesma; porque quem encarece a causa egualmente exagera os effeitos: a
pena de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivana  o maior
tormento da morte ao que ama; e um favor e brandura, que recebe em sua
affeio,  na sua estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de
viver sem alma, e sem corao, o declarou maravilhosamente um poeta
moderno, dizendo em um soneto  sua dama, da qual estava ausente, que
uma parte da alma, com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava,
entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem  outra cousa os
desvarios, e desattentos dos que amam, seno viver em certo modo fora de
si, como pareceu a Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde
o juizo; e o que eu vejo que poucos em presena da cousa amada ficam com
elle.--Tambem S. Jeronymo (accrescentou o doutor) escreve que o amor da
formosura  um esquecimento da razo; e assim chamam os poetas ao amor,
inimigo d'ella. E que maior exemplo se pode imaginar d'esta verdade e
mudana dos que amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de Lidia
acharam lanado no regao de sua amada, mudando-lhe os anneis dos dedos,
ella com a cora real na cabea, e o famoso Thebano com um sapato seu
d'ella em logar de cora? que menos esperado que o de Dionisio
Syracuzano, que por mo, e parecer de Mirta sua amiga despachava os
negocios importantes do seu reino? que mais extranho, que o de
Themistocles Atheniense, famoso capito de Grecia, que namorado de uma
dama, que captivou na guerra de Epyro, usava em uma doena, que sua
amada teve, dos mesmos remedios que lhe a ella faziam, tomando as
purgas, e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto por regalo, e
gentileza com o seu sangue d'ella? que menos crivel, que o de Lucio
Vitelio Imperador, que namorado de uma filha de um escravo seu, a quem
libertara, de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma esquinencia,
no usava outro remedio mais que um unguento que fazia de mel com o
cuspo de sua dama, imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar
sade untando com elle a garganta?--De maneira (disse Leonardo) que amor
tira os sentidos, e o juizo a quem se emprega todo em seus cuidados: e
eu tinha para mim, e ouvi sempre dizer que no podia o nescio ser bom
namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa opinio, pois os que
amam no tem entendimento.--S o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser
amante, e por isso perde o juizo nas mos de amor; que o nescio mal
poder perder n'ellas o que no tem. E falando mais ao ponto da vossa
duvida, o amante pelo ser no fica nescio, mas parece-o em muitas aces
dos sentidos, e entendimento; porque, transportado na imaginao do que
ama, se descuida de tudo o que no  sua paixo.--Extranhamente (accudiu
Solino) me contenta ouvir esta razo para desculpar commigo os maus
successos de namorados, a que no sabia to boa desculpa; que asss
grande  para esquecer cousas menores quem est fora de si: porque,
deixados esses exemplos de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e
mais notavel o desatino, com que nas mos do amor renunciaram o
entendimento; de outros de menos estofa, e mais modernos sei eu
descuidos, que podiam entrar em historia n'esta occasio, e por me
aproveitar d'ella: Eu conheci um cortezo mui empenhado em finezas de
amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama em um quarto, que
j aturava aquelle fadario todos os dias como em atafona; acertou
n'aquelle a ser mais favorecido da senhora, que de quando em quando lhe
apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado mancebo, que por
seguir a caa se esqueceu do tempo, e das horas de comer, mettendo-se
pelo certo da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que no devia
de estar to affeioado a aquella estancia como  sua costumada,
estancava muitas vezes do passeio, sem haver accordo nem espora que o
despertasse; at que uma vez, estando o amante parado com o ponto no
alvo da janella, acertou a passar um macho que levava uma rede de palha,
a que o rocim se arremessou com tanta furia, que, prendendo os copos da
brida nos laos da rede, se embaraou de maneira, que levou ao quarto
enamorado por todo o terreiro, onde se resentio do rapto, sem se poder
valer contra os couces do macho, e risada dos rapazes. Mas no  muito
padecer d'elles afrontas quem do um to mal acostumado fia sua
liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor no era armado
cavalleiro, passeava a p  vista de seu cuidado, ora com os olhos na
janella, ora com o tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a
dama, que no trazia ainda aquella affeio em abertas, e publicadas,
porque no notassem os que passavam os meneios, e esgares que o mancebo
fazia, acenando-lhe se tirou do posto passando-se a uma janella mais
pequena que cahia sobre uma esquina das mesmas casas: o galante mais com
o tento na mudana, que no caminho, com os olhos no alto, deu com a
testa um grande encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em um
monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado  parede, ficando
at os sendaes mais caiado, que cantareira d'Alfama.--A todos pareceram
os contos de Solino cheios de graa; e (disse Leonardo) sempre sahe o
amor culpado n'estes ferimentos; e no tenho por grande desar todo o que
succede  sua conta, que por isso o pintam cego, e so conhecidos por
taes os que o servem: porm a mim me parecia que quando o amante perde o
tento, e o sentido de tudo o mais, devia ficar s discreto, e avisado
para sua dama, que  o objecto em que todo se emprega; que para lhe
falar lhe sobejariam razes galantes, respostas obrigadas, termos de
subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia acho o contrario, que dos
noivos, e dos amantes se contam as primeiras parvoices.--No sei (disse
Solino) se dir agora Pindaro que tomaram isso os namorados dos poetas,
como os encarecimentos.--Os poetas (respondeu elle) no so havidos por
parvos; e quem lhes quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que
poderia ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os amantes com
affeio, como os poetas com o furor divino que os excita, aprenderiam
d'elles. Pelo que o vosso remoque no deu boa chaa: mrmente que esses
primeiros erros so de outra gerao; e nenhum parentesco tem com a
parvoice. Antes  um modo de se atalhar, e suspender um homem o seu
entendimento com muita razo; porque no pode dizer cousa, que parea
bem aos outros a primeira vez que fala com aquella a quem ama; que 
passo, onde os mais discretos o perdem.--Parece-me que est no certo meu
companheiro (disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre os outros
podiam falar sem medo, terem-no muito grande a estes primeiros
encontros; que certo me parece mais respeito que se deve  formosura,
que falta que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o verdadeiro 
que amor o apura, e engrandece; e por este respeito os Athenienses lhe
levantaram uma estatua na Academia de Palas como a sabio, e lhe
dedicaram uma escola os Samios, significando que s na de amor se
alcana com perfeio tudo, o que pelas do mundo variamente se aprende,
e com muito discurso de annos se alcana: o aviso no falar, a discrio
no escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir, a graa no
parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade no dispender, o esforo
no pelejar, a largueza no jogar, a humildade no servir, e a pontualidade
no merecer. Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao mundo as
emprezas discretas; as chimeras escuras, as idas levantadas, os motes
avizados, os versos excellentes, os enredos subtis, as cartas galantes,
as fabulas bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas tudo 
doutrina tirada das escolas de amor. E pois n'ellas se alcana tudo, no
 muito que se ache tambem um termo de falar encarecido, e levantado
sobre todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o juizo d'este
acerto se no deve fazer por homens livres d'esta paixo amorosa, se
pode haver algum, a quem no coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem
outros exemplos, fazer a eleio d'ella o sr. Julio, que em todas as
partes de crte e gentileza pode servir de espelho aos mais
apurados.--Vs me obrigaes por tantas vias (respondeu o fidalgo) que
fico desconfiado de poder pagar nem com encarecimento do que mereceis,
nem com a restituio dos louvores injustos que me daes, que s so
devidos ao vosso entendimento. E pois a victoria d'esta batalha ficou
por elle em meu favor, quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me
deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido o repouso da
noite.--Essa resoluo (disse Leonardo)  em damno de todos: e muito
mais de sentir, porque  fora nos obrigaes a que consintamos n'elle:
mas como em logar de preza trouxestes da caa empreza to difficultosa,
poupaes horas para cuidar n'ella  nossa custa.--Antes (respondeu elle)
para reformar no somno as que me desvelei na madrugada.

A isto se levantou; e os mais dando boas noites o iam seguindo, e disse
para todos Solino: O senhor D. Julio vae a sonhar com aquelle thesouro
encantado que lhe appareceu na fonte; e para este cuidado no quer
companhia; que se a communicao dos bens de amor faz muito maior a
gloria d'elles nos contentes; aos que s o esto de seu pensamento
nenhuma cousa  mais agradavel, que saudosa lembrana.




DIALOGO VI

DA DIFFERENA DO AMOR, E DA COBIA


Cada um dos amigos ao outro dia fez curiosa diligencia por saber algumas
novas da peregrina, que D. Julio tanto encarecera a noite passada; e no
achando d'ella nenhuma noticia, tiveram a historia por fingimento.
Juntaram-se s horas acostumadas  porta de Leonardo, a tempo que tambem
o fidalgo apparecia, e que o velho os vinha a esperar ao peitoril da
escada com um hospede que lhe viera, que era um clerigo de edade,
pessoa, e trajo auctorisado; que dos mais foi logo conhecido por ser
prior de uma egreja que perto d'alli ficava: sentaram-se agasalhando-o
entre si com a devida urbanidade; e depois de lhe perguntarem de sua
saude; como estavam com o desejo de tirarem a terreiro a D. Julio,
fizeram signal a Solino que comeasse; porm Leonardo no deu logar 
boa vontade que elle tinha, e se lhe adiantou na pergunta.--Bem cuidava
eu, senhor D. Julio, (disse elle) que aquella formosa peregrina era
encantada, e que foi traa do vosso entendimento fazer a todos
cavalleiros d'essa aventura; porm a mim s a encommendastes; que pela
edade pudra j estar aposentado para tal empreza; eu a tomei por vos
obedecer, e andei bem cuidadoso no seguimento d'ella, sem at agora
atinar no caminho, em que vos perdestes.--Minha foi s a desgraa
(respondeu elle) pois perdi comvosco, e com os mais o credito do que
disse, e para meu desejo a gloria do que pudra tornar a vr em sua
formosura.--Essa levantastes vs tanto sobre as estrellas (disse Solino)
que se devia de agasalhar com ellas no co, e enjeitar a pouzada d'esta
aldeia.--Parece-me (accudiu o prior) segundo o que vos ouo, que ns
podiamos mostrar o jogo; porque a occasio, que me trouxe a este logar,
e leva a Lisboa,  uma estranha peregrina que hontem appareceu na nossa
aldeia, de cujos successos, e formosura se podiam contar grandes
extremos; que j pode ser que seja a de que falaes.

Com esta nova se mostraram os amigos mui alvoroados, e D. Julio
contente; e Leonardo respondeu ao prior:--No imaginei que tinha tanto
bem junto com o de vos ter n'esta casa; affirmo-vos que, se ella no
fra vossa, no poderieis pagar melhor a pouzada, que com to boas
novas: pelo que vos peo que as no dilateis, contando-nos mui
particularmente d'essa peregrina, que tem to obrigados os desejos dos
que aqui estamos, como agora pendurados os olhos, e ouvidos do que nos
haveis de dizer.--Hontem  tarde (proseguiu o prior) a tempo que j o
sol se a encobrindo com as azas da noite, andava eu continuando com a
obrigao da reza  vista da egreja; veiu fazer orao  porta d'ella, e
d'alli ter commigo uma mulher em habito de romeira; que se a minha vida
merecera a Deus que mandasse a algum anjo falar comigo, podera imaginar
que ella o seria; porque a sua belleza passava os limites do
encarecimento humano, e com uma voz, que respondia bem  honestidade do
seu rosto, e  humildade do seu trajo, me falou (posto que em lingua
estrangeira) de modo que se deixava entender mui sem trabalho:
perguntou-me se acharia gasalhado em algum hospital, ou casa de caridade
d'aquella terra, em que passasse a noite, e pela manh guia de confiana
para ir ter  cidade, offerecendo que n'ella pagaria bem a quem a
encaminhasse. Eu, que no merecimento de sua vista achei que era pouco
tudo o que lhe podia offerecer, fiquei enleado; porm lhe disse:
Senhora, esta terra  muito pequena; e para o que vs representaes,
outra maior me parecera limitada. Eu, posto que sacerdote, e d'esta
edade, tenho em minha casa uma irm viuva, e sobrinhas, que vos sabero
servir melhor que as naturaes da aldeia; fazei-me merc de aceitardes a
pousada, qual ella , e,  conta do que faltar ao que vs mereceis,
supprir a vontade que  muito grande. Ella me deu as graas do
offerecimento com poucas palavras, mostrando que o acceitava: vim com
ella a minha casa, onde foi agasalhada, e servida com grande gosto, pelo
que as moas tinham de se estarem revendo nas graas da sua belleza.
Depois da ca, em que a peregrina fez pouco damno, lhe pedimos nos
contasse a causa de sua peregrinao, e como sem companhia viera ter ao
nosso logar: e ella mudando a cr em um suspiro, entre algumas lagrimas,
e com to discretas razes, que as no saberei eu agora referir com a
perfeio propria (posto que algumas palavras eram de linguagem alheia)
contou o seguinte:

Na ilha de Irlanda, e na cidade de Dublin principal de seus estados, no
maior enleio, e dissenso dos principes d'ella, que com a differena, e
variedade das erradas seitas de Inglaterra, a cujo rei obedecem, vinham
em total ruina, e destruio d'aquella provincia, nasci de generosos
paes, to mimosa dos afagos, e enganos da fortuna em meu principio,
quanto depois a senti esquiva, e deshumana em minhas desgraas. No
tiveram meus progenitores outro fructo, em que empregassem o amor
paternal, (que faziam notavel excesso  qualidade de seu sangue) mais
que a mim, que com esta boa sorte era invejada de todas as de minha
edade, e pertendida dos mais illustres mancebos de toda Irlanda. No
melhor de meus tenros annos, que a estes costuma morder sempre por
varios modos a inveja venenosa da dura parca, de uma arrebatada
enfermidade perdeu minha me a vida; e eu como ainda na minha no
provara outros males, senti este primeiro com grande pena: mas como a
sorte m'o ordenara para ensaio de novas desgraas, depois de me ter
encetado o soffrimento; em poucos mezes depois perdi meu pae, e senhor,
a quem muito amava, e fiquei mettida entre parentes cubiosos de minha
herana, e amantes fingidos, que obrigados das riquezas d'ella me
procuravam por esposa. Tinha eu a todos, os que me offereciam, pouca
vontade; e grande obrigao de tomar estado conveniente aos respeitos de
minha nobreza. E como os favores, em que me creei, me ensinaram a ser
altiva (que este  um dos grandes damnos que faz a prosperidade) puz o
pensamento em quem com despreso, e ingratido castigou minha arrogancia:
havia n'aquella mesma cidade um principe, mui chegado por descendencia
ao sangue real de Bretanha, cheio de muitas graas da natureza; que,
ainda que me era muito desegual por nascimento, tinha to poucos bens da
fortuna, que fazia eu no meu dote confiana para o pretender. Alcanou
elle d'isto alguns signaes, que teve em pouco; no advertindo que a
vontade de uma dama sempre pe em divida a um espirito generoso, que
conhece o preo d'ellas. Succedeu pois que, tendo eu j de minha
preteno poucas esperanas, o elegeram os da ilha de Lister, Ragrim, e
das mais da parte oriental de Irlanda, por capito de uma armada de
corsarios, afim de fazerem uma preza muito importante no mar Oceano: e
como s vezes o castigo dos maus intentos  a mesma fortuna, (posto que
outras como cega os favorece) se perdeu esta armada com uma tormenta, na
qual a maior parte da gente pereceu; e a que ficou do miseravel
naufragio se salvou em uma enseada, onde foi captiva de um turco
corsario, que a levou a Argel, e alli por o pouco segredo dos seus ficou
o seu general conhecido por quem era; e como o sangue, d'onde descendia,
junto ao cargo que levava, o faziam de mr preo para os que o
captivaram, ficou impossibilitado o seu resgate, e elle sem remedio
n'aquella priso alguns annos: at que a necessidade, e aprto d'ella me
aconselharam que de novo emprehendesse o de que com seus despresos
desconfiara, mandando-lhe offerecer liberalmente meu dote para resgate
de sua liberdade. E elle com o desejo d'ella, e obrigado d'esta
lembrana, tendo por menores grilhes os que de novo lhe punha, que os
que elle trazia, aceitou a offerta, e me mandou em satisfao um
escripto, em que me jurava por sua esposa. Puz eu, sem mais cautella, em
execuo o meu intento, perdendo a affeio s muitas riquezas, que
tinha, pela honra e contentamento, que d'aquelles desposorios esperava.
Tornou livre  sua patria, e mudou de improviso a teno que fingira
para alcanar o remedio  custa do meu engano. Estranhou-lhe o mundo
esta crueldade: e os meus vendo-me sem dote, e sem marido, e, o que o
havia de ser, to ingrato, e na opinio de todos to culpado, me levaram
a o demandar por justia nos tribunaes supremos, onde, depois de
convencido, me foi julgado por devedor, e por esposo. Mas como a minha
vontade no era que elle o fsse contra a sua, esperei o tempo mais
conveniente para a declarar. Obrigado emfim da justia, e, depois
d'ella, rendido aos conselhos dos principaes parentes que o tratavam; o
dia, em que se havia de desposar comigo, cumprindo por sentena a
palavra que me tinha dado, antes de lhe dar a mo, metti na sua um papel
em logar da minha, que era quitao plenaria de tudo o que por elle
dra, e juntamente do que elle com tanta ingratido recusara, escolhendo
para castigo de minha altiveza a humildade da religio mais apertada.
Fez isto em toda a ilha grande espanto; e eu com o resto, que do meu
dote ficra, aborrecendo a patria como a madrasta, determinei logo
buscar em reino alheio segura morada. E porque a fama da religio
portugueza, e da famosa cidade de Lisboa, onde muitas religiosas do
illustre sangue de Bretanha vivem santamente em clausura, me trazia mais
affeioado o desejo; mandei por alguns mercadores de confiana o maior
cabedal do que possuia a quem at  minha chegada o detivesse; e eu como
tive a certeza de este dote mais necessario estar seguro, fugindo s
affrontas, e odio de meus naturaes, me embarquei com o mais que me
ficava; e com prospero vento tomei porto em Galiza, e visitei a casa, e
sepultura do glorioso apostolo Santiago; d'onde caminhando por terra,
livre j dos enredos de minha ventura, no pude escapar  cobia dos
criados que me acompanhavam; que esquecidos da f que me deviam, e pouco
affeioados da catholica que professava  sua vista com tanta firmeza,
me roubaram as joias, o dinheiro que trazia, deixando-me n'estes desvios
desamparada. Senti mais esta derradeira desgraa, por ser a que me tomou
com a paciencia quasi rendida aos trabalhos da viagem, que venceram o
descostume e fraqueza femenina; e tambem por me achar to s na confuso
d'estes caminhos: porm se pelos que parecem to errados me quer Deus
guiar ao mais seguro, eu ponho em suas mos o soffrimento: e por elle,
senhor, vos peo como a ministro seu que em tudo pareceis, que, ainda
que vos d cuidado, me mandeis d'aqui em companhia de confiana, at
onde d'aquellas bemaventuradas religiosas seja conhecida; que  sua
vista poderei logo satisfazer a diligencia: a vs pagar o co este
trabalho, e a estas senhoras o amor com que favorecem o meu desamparo;
que a maior consolao, que devem ter os perseguidos da sorte,  saber
que a todo o tempo, que se acolherem a Deus, acham n'elle brandura; e
que tem  sua conta pagar largamente as boas obras, que no decurso de
seus trabalhos receberam.

Esta historia contou a peregrina com os olhos cheios de agua, com que
orvalhava de quando em quando as rosas do seu rosto; e a nenhum dos que
alli estavam faltaram lagrimas. Eu lhe disse: Senhora, se o estado que
buscaes com tanto desejo, no fra melhor que o que vos roubou a
ventura, muito era para sentir a que vos offende. Porm como o caminho
dos que Deus escolhe  to differente do que seguem aquelles que lhe vo
fugindo; no podeis n'este ter maior seguro, que saber que vos acompanha
nos trabalhos presentes, e vos ha de dar o galardo e premio de todos: e
para que eu tenha n'elles alguma parte de merecimento, me offereo ao
remedio dos que ficam at tomardes logar n'essa clausura. Lisboa  terra
grande; e a muita confuso da gente e trafego d'ella a faz embaraada; e
vs  razo que com a decencia e commodidade, que vossa pessoa e
qualidade requer, vos deis a conhecer. Pelo que, se quizerdes descanar
com estas minhas parentas, e ja criadas vossas n'esta aldeia, eu irei 
cidade, e procurarei servir-vos com todo o cuidado. Isto me agradeceu a
estrangeira com muito boas palavras, mostrando tambem nas cres do rosto
signaes de obrigao. E hoje, antes da minha partida, me fez uma
lembrana do que por sua parte havia de perguntar. No caminho me atalhou
a jornada uma occasio forosa, que me fez passar a noite to perto de
casa como vdes, mas com o maior interesse que podia esperar: pois, alm
das mercs do senhor Leonardo, goso a conversao de tantos amigos e
senhores, que  fim, a que se podiam dirigir outras jornadas
maiores.--J agora (disse D. Julio) no sero to culpados meus
extremos; pois nos que disse o senhor prior da peregrina ficam
acreditados; e passam as suas obras tanto adiante das minhas palavras,
que deixa a sua egreja e familia para por a servir no que eu nem ainda
me soube offerecer: e contou ao prior o como encontrara, andando  caa,
a mesma estrangeira, e o que n'aquella conversao tinha passado sobre
os louvores, com que elle quizera pintar sua formosura.--Nenhuns lhe
podieis dar (proseguiu elle) que no ficassem os maiores encarecimentos
devendo muito  verdade: e o maior espanto, que eu achei nos de sua
gentileza, foi que, sendo ella tal, houvesse um homem bem nascido, que
sobre obrigaes to forosas a despresasse.--Isso (tornou D. Julio) no
tenho eu por espanto; que d'esse modo se costuma vingar a sorte da
naturesa, quando na perfeio de suas obras a no pode egualar: mais se
me representa a mim que seria o homem nobre, e sem entendimento, como ha
muitos, pois fugiu de tantos e to poderosos attributos, como eram
formosura, riqueza, magnificencia, cortezia, e humanidade, todos
empregados em seu favor.--E a mim (acodiu Solino) me pareceu ingrato,
mas discreto, fugindo o jugo de uma mulher que lhe ficava sendo duas
vezes senhora, uma pelos poderes naturaes de sua belleza, e outra por a
divida, e preo de seu resgate.--O meu voto  (disse Pindaro) mui
differente; antes julgo que o que o homem aceitou por necessitado, veiu
a enjeitar por cubioso, vendo que se dispendera com sua liberdade o
dote que dourava as perfeies de sua esposa; que nunca deixara de o
ser, se fra to rica como no principio, em que o libertou; porque a
cobia e o amor so grandes competidores.--No me descontentam as
opinies (disse Leonardo) mas j que vos entalastes entre esses dois
inimigos do socego humano, seja a questo e a materia da conversao da
noite  conta d'elles. E perguntou ao doutor, qual dos dois  mais
poderoso, e obriga os homens a maiores extremos?

--Se houvessemos de dar credito (respondeu o doutor)  experiencia, e
tomar os successos do mundo por argumento, com poucas porfias se
manifestar a verdade da vossa pergunta: mas tratando primeiro das
razes, vejamos em que se parecem, e os poderes em que os antigos
igualaram o amor, e a cubia; que de ambos deixaram jeroglificos, e
figuras. Pintaram pois ao amor menino, formoso, com os olhos tapados,
despido, com azas nos hombros, e armado de arco e settas: menino, por
facil e fagueiro; formoso, porque a belleza  o objecto dos amantes;
despido, porque se no pde encobrir; cego, porque no v, nem conhece a
razo; com azas nos hombros, por ligeiro, e mudavel; armado, por forte,
poderoso e cruel. A cubia pintaram-a mulher, despida, com os olhos
tapados, e azas nos hombros. Despida, pela facilidade com que por seus
effeitos se descobre; cega, porque no v nenhum respeito humano em
raso do que deseja: com azas pela velocidade com que segue aquelle
objecto, que debaixo da especie de proveito se lhe representa. Assim que
s nas armas, e no sexo feminino achamos na pintura differena: porm se
considerarmos os effeitos da cubia, ou foi que na pintura de mulher as
quizeram cifrar todas, ou que lhes faltou lugar para tantas armas;
porque se amor  forte e poderoso, e vence a tudo, como disse o poeta; o
mesmo confessa que a todos os extremos fra, e obriga a sede do ouro
aos humanos; se a amor como a poderoso o fingiram Deus cruel, como diz o
poeta Seneca; no s a cubia  Deus do avarento e cubioso, mas o mesmo
ouro que deseja, como d'elles disse um doutor santo; se lhe chamam cruel
pelos damnos que no mundo fizeram seus poderes, mais reinos assolados,
cidades destruidas, e damnos immortaes se fizeram no mundo por cubia,
que por amor: e antes de chegar aos exemplos, com que se pde provar
esta verdade, vejamos em seu nascimento que coisa seja amor humano; e o
que  cubia. A elle chamaram muitos auctores furor; e este definio
maravilhosamente um doutor grego, que disse que amor era um desejo
irracional, que facilmente se emprega, e com grande difficuldade se
perde. E da cubia escreve outro mais moderno, que  um appetite fra da
medida certa, que ensina a razo; que no tem modo, nem fim.  certo que
cada um d'elles podia trocar com o outro esta definio, sem ficar
enganado; porque o mesmo  excesso de um desejo irracional, que appetite
fra dos limites da raso: e o mesmo ser leve em se empregar, e
deixar-se com difficuldade, que no ter modo, nem fim. Mas posto que na
pintura, e nascimento os podiamos igualar, os effeitos da cubia so com
mais fora, e vehemencia, que os do amor; porque, se faz cego o amante
para perder o lume da razo, todavia no o faz vil, antes o engrandece:
e o cubioso  cego para no vr razo, nem honra, e para se abaixar a
todas as infamias, a que se sujeita o interesse: se o pintam despido
para se no poder encobrir, com mais vergonhosas mostras se pinta a
cubia: o que na mesma pintura de mulher est declarado. Se  ligeiro o
amor para se empregar, com tudo busca sempre a formosura como objecto
seu, e obra a que honrou a mesma natureza: e a cubia se emprega nas
mais humildes e indignas coisas da terra, como d'ellas possa tirar
fructo o cubioso: que a Tito cheirava bem o dinheiro que cobrava das
immundicias de Roma; e no que so atrevimentos e ousadias, muito atraz
ficaram os amantes dos cubiosos. Romper as entranhas da terra, e chegar
 vista do inferno por tirar ouro: descer ao fundo do mar por buscar
perolas, descobrir novas regies, soffrer climas estranhos, e barbaras
gentes para adquirir commercios, obras foram de cubia, e no de amor,
como tambem o foi a navegao, que na empreza do Velocinio d'ouro
comeou: e se amor  cruel, muito menos o parece nas obras que a cubia,
pois elle ao amante offende com suavidade amorosa, e aos estranhos com
animo compassivo tanto mais nobre, quanto elle o  mais, que a cubia,
que mata no mundo mais homens em um s dia, que o amor em muitos annos.
Assim que a meu ver em competencia, ella tem mais poderes, e na
semelhana se parece tanto com o amor, que  elle mesmo; mas com tal
differena, que elle ama a formosura humana, e a cubia a riqueza.

--No consinto (disse o prior) que o vosso entendimento faa to grande
aggravo ao amor, como  igualar com elle a cubia: porque quando em
poderes tenham grande semelhana, na nobresa e nascimento tem muito
maior desegualdade; que posto que o amor considerado como appetite
carnal seja excesso de um desejo fra da razo; significado como
affeio humana,  uma fora que ajunta, ou deseja unir duas vidas em
uma, a do amante e da coisa amada, e  este amor to natural a todos,
que  defeito e torpeza no saber amar, como diz S. Chrysostomo. E pelo
contrario Aristoteles chamou a cubia desejo fra da natureza. O amor
nasce to nobremente, que tem por objecto a belleza humana, e os dotes
naturaes mais excellentes como so graa, juizo, parecer, e perfeio: e
assim diz S. Agostinho, que amamos coisas boas, porm com amor mal
intencionado. E a cubia como  vicio do entendimento, e appetite
preternatural, sempre  mal nascida, e inclinada a coisas baixas. Assim
que sejam os poderes, e as pinturas quo parecidas quizerdes; so as
naturezas de ambos mui differentes.--Parece-me, senhor doutor (disse
Feliciano) que aquella razo ha de achar muitos votos contra o vosso,
porm eu por me pegar ao melhor parado, nem quero ir contra elle, nem
hei de encontrar o do senhor prior, antes ajudado da doutrina de ambos
accrescentarei o meu pouco, mettendo-me entre to boas partes pela de
amor; e digo que posto que elle e a cubia sejam semelhantes no poder,
no que  amar so em tudo deseguaes, porque no se ama a coisa que pelo
que , e por amor de si propria se no ama; e menos se pde amar a que
se no conhece: e assim seria erro chamar amor ao do cubioso, que se
emprega em coisas que por si no merecem amor, e em outras, de que no
tem nenhum conhecimento: amar a uma pessoa, que obriga e sujeita a nossa
vontade;  ter-lhe amor por qual ella , e por essa a desejamos unir
comnosco, por natural appetite: mas empregar a affeio no dinheiro, e
no ouro, que no amamos pelo que , seno pelo que com elle se alcana,
no pde ser amor. E menos o ser amar o que ainda no conhecemos, como
faz o cubioso a muitas coisas, que no vio, pelo interesse que d'ellas
espera. E no tratando ainda de que o amor no se considera s no que
ama, seno tambem na coisa amada; e que falta correspondencia, sendo
essa insensivel: o amor todo se emprega no interesse dos sentidos; e
este falta em todos elles ao cubioso: porque, se a sua temerosa cr o
cativara, nem d'essa o deixa usar o seu cativeiro. D'onde veio dizer o
poeta Horacio que o ouro para os avaros no tinha cr, porque o enterram
segunda vez, pois por essa e por seu nascimento lhe podem chamar
desenterrado: nem com a voz deleita os ouvidos, nem com a suavidade do
cheiro recrea, nem com o tacto agrada, nem com o gosto satisfaz. Diga-o
Midas, que o pediu aos Deozes por dom: e como lhe ficou por mantimento,
perecia na abundancia do que tanto desejara. Diga-o Pithio, o qual deu a
el-rei Dario o platano e videira de ouro: o gosto, que achou na ceia que
sua mulher lhe ordenra: o qual com sua demasiada cubia no dava lugar
aos seus cidados de se empregarem em outro trabalho mais, que em
beneficiar as minas do ouro, em cuja ruina muitos d'elles miseravelmente
pereciam: pelo que, vendo as matronas da cidade tanto damno, foram
juntas pedir  mulher de Pithio que, compadecendo-se de to grande mal,
rogasse por ellas a seu marido, pedindo-lhe que dsse aos seus melhor
tratamento: e ella, a quem no faltava entendimento, nem piedade,
conhecendo que era vo vencer com rogos a sua cobia, ordenou a Pithio
uma ceia esplendida em um dia de festa; na qual todas as eguarias, que
lhe deu, eram formadas de ouro. Alegrou-se muito com ellas na primeira
vista, e com a magnificencia do apparato, com que lhas apresentavam:
porm quando pelo discurso do banquete no viu nenhuma de que podesse
comer, perguntou pelas eguarias verdadeiras, confessando d'aquellas que
eram fingidas. Como (respondeu ento a sabia matrona) queres que te
apresente outra comida, se s no cuidado da que tens deante occupas a
todos teus vassallos, pois se no lavram os campos, nem se cultivam as
arvores, nem se pescam os rios, nem se caam as aves, nem se criam os
animaes, pelo exercicio continuo de tirar ouro? Contenta-te tambem com o
fruto d'elle por mantimento. E com este ardil emendou em alguma parte
sua demasia.

Bem parece que entendia esta verdade Halaono imperador da Tartaria, que
vencendo, em Baldaco, o Califa mestre da seita Mahometica, que era o
mais poderoso rico, que ento havia no mundo, vendo que, por se no
ajudar de suas riquezas, e as no despender em soldo, no tivera
resistencia contra o exercito dos Tartaros; depois de captivo o mandou
metter em uma camara entre o ouro e joias preciosas, que antes tinha,
sem lhe mandar dar outro mantimento, dizendo que d'aquelle comesse  sua
vontade: e assim entre a grande abundancia de suas riquezas o miseravel
Califa morreu de fome.

Pois se o ouro por si no pde satisfazer ao gosto, nem deleitar sentido
seno com o engano do que com elle alcana, como pde ser capaz de amor?

--Vs (disse Pindaro) temestes ao doutor; porm no o seguistes: e eu
ajudado do vosso receio, e da sua auctoridade, me hei de valer da
primeira opinio que propoz, e  que o amante e o cubioso no differem
mais no amor, que no emprego d'elle; e para isto me fundo em uma opinio
moderna, que tem por si muitas auctoridades antigas; e  que nenhuma
pessoa ama mais a outra, que a si mesma, nem pde ter amor a outro, se
primeiro se no amar a si; e do amor que se tem, nasce o desejar e amar
as coisas a que se affeioa, e inclina mais a sua natureza: amo isto,
porque me parece bem, e o quero unir a mim, pelo que me quero, e desejo
tudo o que me agrada e satisfaz por meu respeito; e por isso chamaram ao
amigo uma alma em dois corpos, e, como diz o proverbio, _o amigo  outro
eu_; quero-lhe tudo o que para mim quero, e amo-o como a minha alma
unida com a sua. E Aristoteles diz que o amigo se hade egualar no amor
com o que cada um tem a si: logo tanto quer e deseja o amante o objecto
da belleza, em que se emprega, como o cubioso o ouro, que quer para si.
E quanto  objeco de que o ouro seno ama pelo que , seno pelo que
vale, e por o que com elle se compra e alcana, os vossos mesmos
exemplos diro por mim o contrario; que o cubioso, e avaro antes
perder a vida, que resgatal-a com o ouro, a que quer mais que a ella; e
antes perece  fome, que satisfazel-a com dispender o que tem em mais
estima que a fartura; que para elle  mr damno gastar, que todos os
outros; como Lucilo conta de um avarento chamado Hermones, que, sonhando
uma noite que gastara certa quantidade de dinheiro, foi tanta a sua
paixo e dr, que, cuidando que era verdade, se afogou. E assim diz S.
Jeronymo que tanta necessidade tem o cubioso do que possue, como do que
lhe falta, pois lhe falta animo para usar d'elle: e diz n'outro lugar
que s a avareza e cubia fez no mundo pobres, porque asss o  mais,
que todos, o que tudo deseja; e possuindo mendiga, e padece como se lhe
faltra. Logo certo  que o ouro ama o cubioso, e no j o que com elle
se compra; pois o no quer para comprar, seno para o possuir. E
respondendo  deleitao dos sentidos, que o amor humano offerece, e na
cubia falta, ousarei a dizer que o ouro, ainda enterrado, parece melhor
ao cubioso, que ao amante a formusura que appetece; e que  mais suave
a seus ouvidos o rumor, e tinido do dinheiro, que a brandura de todos os
requebros, e galanterias namoradas; e que nenhum gosto para elle  egual
com o que tem de tocar, tratar, e revolver-se entre o mesmo dinheiro: o
que se pde ver com grande admirao n'aquelle afamado cubioso o
Imperador Caligula, que, depois que a muitos obrigou que o instituissem
por herdeiro, aos quaes, depois de testarem, fez matar com peonha
(rindo-se de haver homem que quizesse viver mais depois de haver
testado) atraz de em sua casa instituir publica mancebia de todos os
vicios, de que tirava um copioso tributo, se lanava despido entre o
dinheiro, que d'estas infames obras procedia; e, dando sobre elle mil
voltas, tinha em menos conta todas as outras delicias, que os homens a
preo do dinheiro procuravam. Certo  logo que o ouro ama, e a elle
quer, e com elle se deleita o avaro e cubioso; que, se o desejra para
o empregar em o que com elle se alcana, perdera o primeiro nome, e
podera merecer o de rico, prudente, e liberal: porque o ouro, e as
riquezas, como diz S. Leo Papa, no so boas de si, nem ms; mas o bom
ou mau uso d'ellas engrandece, ou desacredita a quem as possue: e assim
no  rico o que muito tem, seno o que com o que tem se contenta: e no
ha maior pobreza, que, por empregar o desejo em um baixo metal, que sem
bom uso no presta, deixarem os homens o muito que com sua valia poderam
adquirir.

--Todos (disse Solino) deram sua pancada a esta lebre; Leonardo, que a
levantou, deixou-se ficar no covil; e eu fiquei atrs dos galgos sem dar
um brado; farei muito, se agora quizer desmanchar o bemdito de todos.
Comtudo a minha opinio  que quanto tendes feito na grandeza e poderes
da cubia  errado, e que se haviam de attribuir ao ouro, e no a ella.
E tratando da pintura, em que a embaraastes, e quizestes assemelhar com
o amor, tenho por mui errada a declarao d'ella: e posto que seja
contradizer a to grandes entendimentos, a hei de explicar ao meu modo,
que me parece que a pintaram os antigos: mulher por sua fraqueza; pois 
tal, que se rende a qualquer pequeno, e vil interesse; despida como
desavergonhada, por quo sem respeito, nem moderao se atreve a
commetter qualquer infamia; com azas por a ligeireza, com que se
arremessa a qualquer preza como ave de rapina; cega por pedinte,
mendiga, e importuna: e se isto no , venho a presumir que a fingiram
com o rosto de mulher, e as pennas de ave como a harpia, que na
etymologia propria do seu nome manifesta o roubo e condio do cubioso:
e assim como a harpia damna, e descompe todos os manjares a que chega,
assim a cubia estraga e corrompe toda as virtudes: pelo que me parece
que nenhum parentesco tem com amor, que na nobreza  to desegual, e
pelos louvores de sua excellencia to conhecido. O a que se podera
voltar a nossa porfia, e arguir mil historias extremadas,  a tratar dos
poderes do ouro, e da valia do interesse, que j nos tempos antigos, e
no prezente de agora pde tanto, que obrigou a dizer a um auctor que
esta  a verdadeira edade do ouro, porque s elle senhoreia os animos
dos homens. E viera isto mais ao proposito da vossa peregrina, que com
elle e sua formosura no pde vencer a um corao ingrato.--A mim me
parece (respondeu Leonardo) que vs tinheis mui boa razo se a no
guardareis para to tarde: porm em a noite d'amanh se lhe far
justia; que n'esta  raso que se d ao hospede lugar conveniente para
o repouso, pois ha de ir  cidade e voltar no mesmo dia.--Por no mandar
em casa alheia (disse o prior) no defendo a minha parte; mas prometto,
se voltar a horas que possa passar a noite to bem como esta, de a no
perder.

Ento se levantaram os mais e se despediram; e o prior gastou muitas
palavras em manifestar a Leonardo a inveja que tivera d'aquella
companhia: ao que elle respondeu com a que a todos fazia com a vista da
peregrina, que lhe ficra em casa; que posto que a boa conversao 
manjar da alma, a vista de uma estranha formosura, que rouba as de
todos, tem muito maior poder sobre o desejo.




DIALOGO VII

DOS PODERES DO OURO E DO INTERESSE


No mesmo tempo, em que os amigos se juntaram para o seu costumado
exercicio, se apeava o prior no pateo de Leonardo; que o desejo que lhe
causara a noite do dia d'antes, o fez tornar mais cedo da cidade. Foi
recebido com alegria: e depois de lhe perguntarem do bom successo de sua
jornada, lhe disse Solino:--Agora vejo que roubou a ventura a empreza
d'aquella peregrina ao sr. D. Julio: pois a deu a quem a deixa de vr
por nos ouvir.--Antes vereis (respondeu o prior) quo poderoso  o ouro,
que at para ouvir falar n'elle deixo a propria casa, e n'ella a vista
de to extremada formosura.--No sois vs (acudiu Leonardo) o primeiro
que a deixastes por ouro, nem usaes n'esta occasio como avarento, pois
que vindes com esse titulo de cobia enriquecer a todos, e a esta
casa.--Vs (respondeu elle) me individaes para me empobrecer com a merc
e cortezia que me fazeis; de maneira que sempre o meu erro  dourado
para contentar os cobiosos, quando parea a Solino culpa deixar a vista
da minha hospeda pelo interesse da vossa conversao.--No  s elle o
que vos accusa (disse D. Julio) antes eu de a vs deixardes me queixo,
ainda que de a acompanhardes tinha ciumes.--S esses faltavam (tornou
Solino) para a conversao ficar de ouro e de azul; mas se d'este se
batera moeda, nenhum de ns se queixra de pobre, porque a dos
comprimentos  a mais corrente de todas. Porque o maior mal que o avaro
faz ao ouro,  impedir-lhe a corrente com a priso em que o encerra,
podendo com elle at s prises fazer agradaveis e formosas, que para
isso imagino que se inventaram as cadeias e grilhes de ouro, que d'elle
servem para ornato, e dos outros metaes para castigo.--No me
descontenta essa razo (disse Leonardo), porque se ao ouro quando sahe
da mina, antes de o prem em seus quilates, chamam os artifices _ouro
bruto_, quanto com mais razo merece este nome o que o avarento tem
escondido e fechado? E a este proposito me cabe contar uma historia que
li esta manh; e se fr sobejo, pelo que callei a noite passada, se pde
descontar o que agora disser.

Houve em Italia, em um dos mais conhecidos logares d'ella, um honrado
pae de familia, nobilissimo por gerao, rico de bens procedidos da
herana e nobreza antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes,
e graas da natureza, e to liberal do que possuia, que mais parecia
dispenseiro das riquezas, que carcereiro d'ellas. Teve este em sua
mocidade um filho to industrioso e experto nos negocios de mercancia,
que ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o qual elle
guardava com to solicito cuidado, como costumam os que com cobia e
trabalhos o adquiriram: e era notavel espanto aos naturaes verem em um
velho a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a avareza e
tenacidade de velho. O pae, que o via responder to mal a suas
inclinaes, e que j com a edade e continuao de gastar largo, estava
menos rico, muitas vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que
conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de seus passados; e
no degenerasse d'elles, por seguir a villeza do interesse: que usasse
das riquezas como nobre, e favorecesse a velhice de quem o crera, e
honrasse aos pequenos irmos que tinha; que fosse proveitoso aos amigos
e parentes; benigno aos pobres e se no captivasse ao trabalho de
enthesourar riquezas sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar
a um avarento  cuidado vo, nenhum effeito faziam os paternos rogos em
sua m natureza. Succedeu que o senado d'aquella republica por a
nobreza, e pessoa do mancebo, e pela industria e sagacidade que
mostrava, o elegeram em companhia de outros para ir com uma embaixada a
Roma ao Summo Pontifice. Depois de sua partida, vendo o pae occasio ao
que havia muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves falsas,
com que entrou na camara do filho; e abriu os cofres em que aquelle
inutil thesouro estava depositado; e com a brevidade que o desejo lhe
pedia, vestiu a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libr a seus
creados; comprou ricas armaes e baixellas; encheu a estrebaria de
cavallos formosos; fez esmolas a muitos pobres; acudiu em occasies a
parentes e amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata e ouro que
o filho com muitas vigilias ajuntra da maneira em que elle, quando
florescia em riquezas usava d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos
em que antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo na mesma
ordem em que o filho o deixra, tornou a fechar os cofres e as casas
como d'antes. Tornou depois o filho da sua embaixada: e os pequenos
irmos o foram esperar  entrada da cidade vestidos custosamente, e com
o magnifico apparato de que ento usavam. Vendo-se o irmo rodeado
d'elles ficou confuso; e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram to
ricos vestidos, e to formosos cavallos. Ao que elles com uma
simplicidade innocente responderam que seu pae e senhor vivia com
differente largueza da que d'antes tinha; e que outros trajos e cavallos
de maior preo lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae, nem a
ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado em que a deixra: e
como n'esta mudana se lhe no aquietava o corao, foi-se com muita
pressa aonde o tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e
vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que elle os deixra, se
aquietou, porque no dava logar a mais vagarosa experiencia a pressa com
que os companheiros o chamavam, e o senado o esperava. Depois que deu
fim a aquella obrigao (que a elle no pareceu que fosse to custosa)
fechando-se devagar no seu aposento, abriu as arcas e os saccos, em que
lhe parecia que estava a sua bemaventurana; e vendo o engano da areia e
seixos que dentro tinham, comeou a gritar com grandes lamentaes e
brados. A que primeiro, que todos, acudiu o generoso velho,
perguntando-lhe que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? Ai de
mim (disse elle) que me roubaram as riquezas, que com tantos trabalhos,
e em to largo discurso de annos tinha grangeadas. Como  possivel que
te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres e saccos cheios,
que parece que no podiam tirar nada d'elles, nem elles levarem mais? Ai
triste de mim (tornou o filho) que o de que elles esto cheios, no  do
ouro e prata, com que os deixei; que no tem agora mais que pedras e
areia sem proveito. A isto respondeu o generoso pae, sem no rosto fazer
mudana: Ah! enganado filho! que importava para ti que estes saccos
estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te
no deixava fazer nas obras differena d'ella? Cessaram os brados, mas
no j o sentimento do filho com esta resposta; que a mim me pareceu
digna de ser contada entre as mais celebres do mundo.

--Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por maravilhosa para
o nosso intento; e andou muito bem o pae de cumprir em vida o testamento
do filho; porque, como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro faz boa,
seno quando morre, porque deixa o que tem a quem possa usar d'elle.--E
o mesmo (disse Feliciano) escreveu que para ninguem o avarento  bom: e
para si peior que para todos; pois nem dispende, nem se aproveita: e
n'este sentido me parece maravilhosa a allegoria d'aquella engenhosa
fabula de Midas, que, pedindo aos deuses, como cobioso, que tudo o que
tocasse se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na grande abundancia
do que pedira. E quando a necessidade o fez mudar a petio forado do
mal, que como bem procurra, lhe mandaram que se fosse lavar ao rio
Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer estanque, pondo em
suas douradas areias, para communicar a todos, o que Midas s para si
queria ter usurpado.--Bem se representou em Midas (accrescentou Pindaro)
um cobioso no pedir e em se no aproveitar: que por isso disse Seneca
que mais facilmente se atreveria a alcanar da fortuna que dsse, que de
um cobioso que no pedisse. Mas deixemol-os a elles com seu engano, e
falemos nos poderes do ouro, que  o para que Solino nos convidou a
noite passada.--Como  certo (disse elle) que para o ouro todos se
convidam de boa vontade, e vs, pela que tendes a este metal, parece que
estivestes de ponto sobre a materia.--No a apontei (respondeu Pindaro)
por esse respeito, mas por me contentar da que escolhestes; e  desgraa
minha que para os outros levantaes d'ouros, e para mim de espadas.--Eu
me quero metter entre ellas (acudiu D. Julio) e se assim parecer aos
mais, diga Solino todos os males do ouro, pois tem boa mo para dizer
mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos disserem ficar logar
aos mais de darem suas razes.--Errastes, sr. D. Julio (disse o doutor),
que para Solino dizer mal no sentido que vs quereis, ha de dizer bem do
ouro, e Pindaro os males.--Dou-me por vencido, respondeu elle:--E eu por
obrigado (disse Pindaro) a obedecer. Todos festejaram a eleio; e
ordenando que fosse o primeiro, comeou d'esta maneira!

Se as causas so pelos effeitos conhecidas, e elles testemunham a
excellencia ou maldade d'ellas, qual o foi de maiores males e damnos na
redondeza, e metteu aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro, a
quem com muita razo podiam todos chamar _peste do mundo_? E posto que
os notaveis exemplos das destruies e ruinas que n'elle fez, podiam
tomar mais tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero comear
primeiro de seu nascimento, para que mostrem os seus arriscados
principios os desastrados successos para que a malicia humana o
descobriu. E no desprezando o que diz Plinio to doutamente, que no
contentes os homens com o que a superficie da terra produzia para sua
recreao e mantimento, a formosura das arvores, a diversidade dos
fructos, a belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte
das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram desentranhar do centro
d'ella os segredos que a benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas
entranhas dos montes, e nas arterias occultas dos penedos; e subindo
como arvore da profunda raiz, d'onde comea, vae espalhando os ramos em
desegual medida, convertendo o sol com seus poderes aquella materia
disposta e propinqua, at que chega a ser ouro, e se demonstra por
duvidosos signaes na face da terra; que logo d'aquella emprenhido se
mostra triste, dando por indicios da riqueza que encerra, herva
descrada, delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve, secco e sem
proveito; e at as aguas, que por entre as veias descem, sahem cruas e
com sabor pesado. Espreitando estes signaes a industria humana, entra
fazendo guerra ao profundo, caminhando por debaixo dos montes
sustentados em columnas da mesma terra, deixando a vista do sol e das
estrellas, pondo as vidas ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes
o opprimem, que tanto a nossa sede fez cruel  benigna terra, que parece
menor temeridade tirar do fundo do mar perolas e aljofar, que do seu
seio o inimigo ouro, que ainda ento o no  mais que nas esperanas.
Depois de tirado com to custosas diligencias, sahindo como parto de
venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas, com o fogo se aparta,
apura o aperfeioa. ficando menos apto para o servio dos homens, na
cultivao dos campos e arvoredos, e mais apparelhado para sua
destruio e ruina: porque ou se lavra para ostentaes e demasias da
vaidade, ou se bate e cunha em moeda, cujo preo tyrannisa os poderes e
graas da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez em si
estanque de todos os commercios do mundo, no qual, antes que elle
apparecesse, se trocavam as cousas umas por outras, com uma composio e
trato mais conforme e obrigado  necessidade e commodos da vida que aos
roubos da cobia, maldades da avareza e sobejides da vaidade; e
apoderou-se tanto de tudo o que na terra havia, que veiu a ser preo at
da liberdade dos homens contra o direito natural, em que viviam. Foram
crescendo seus atrevimentos: e se antes de sahir do centro da terra
comeou a matar homens, sahindo d'ella se levantou contra o co, fazendo
guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo a vara das mos
 justia: e deitado em sua balana perverteu o fiel de sua egualdade.
Diga-o Commodo imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos
deseguaes, remiu a preo de ouro, vendendo por elle publicamente no s
a pena dos delictos, mas os proprios logares dos julgadores. Cerrou os
olhos  misericordia, para no se compadecer dos affligidos: como se viu
no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada Jerusalem, os
moradores, que opprimidos da fome se sahiam da cidade com licena sua,
enguliam primeiro uma pequena moeda de ouro, para que na passagem o
pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo esta astucia, a dois mil,
que em dois dias sahiram da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem
do bucho a moeda, por no esperarem que com o termo commum da natureza
d'ahi a pouco espao a lanassem fra: assim que aquella pequena
quantidade de ouro, qual de finissima peonha, lhes tirou a vida.
Derribou a columna, e quebrou os braos  fortaleza, atados com as
prises de seu interesse: diga-o Ulysses que por elle vendeu a Priamo o
corpo de Heitor Troyano; e Aulo Posthumio, que a preo de ouro deixou a
empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella. Desterrou do mundo a
fidelidade; pois por elle vendia Nicias aos romanos a vida de el-rei
Pyrrho seu senhor: Demonica a cidade de Efezo a Bresso capito francez,
que de industria a afogou com peso de ouro: Tarpeia Romana, a entrada do
Capitolio aos Sabinos, que do mesmo modo com o peso de ouro e dos
escudos a acabaram. Depravou a piedade, e venerao que os antigos
tinham aos mortos, no perdoando a suas sepulturas, como el-rei Dario,
enganado com o letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei seu
successor se visse em necessidade, abrisse aquella sepultura, e acharia
um thesouro: elle confiado creu o letreiro, revolveu a pedra; e achou
outro que dizia: _Se no foras cobioso, no andaras desenterrando os
mortos._ Os romanos desenterraram os mortos de Corintho para lhes
tirarem a moeda que tinham por costume metter comsigo na sepultura; para
o que  mais notavel aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono, de
Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae se mandra enterrar
com as insignias reaes de ouro, abriu uma noite secretamente a
sepultura, e, depois de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe
appareceu S. Joo Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava
enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe mandou em castigo do
atrevimento que commettera, que mais no entrasse n'aquella sua egreja:
e assim querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi pelo mesmo
santo lanado fra. O ouro sustenta e favorece a todos os peccados
capitaes, a soberba com suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas
de Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio, o theatro de
Nero, as casas de Clodio, e todos os mais excessos da vangloria d'elle
nasceram. A avareza n'elle como em materia propria se conserva e
accrescenta; por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir
de casa por no dar certas moedas de ouro s mulheres que o sahiam a
receber como era costume d'aquelle reino, como conta Plutarcho. Nero
despojava por este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos
mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que era to avaro, que
se levantava de noite a furtar a rao a seus proprios cavallos; e sendo
achado pelo estribeiro s escuras no furto, o aoutou cuidando que era
dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro se cria, pois a
fora d'elle corrompe a pudicicia, como os antigos engenhosamente
significram na fabula de Danae, a quem Jupiter enganou convertido em
chuva de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os incestos de
Caligula, as luxurias de Heliogbalo, os adulterios de Julio Cesar; pois
s a perola com que conquistou a Servilia, me de Bruto, lhe custou
seiscentos sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis estragos e
homicidos no mundo. Pygmalion matou a seu cunhado Sichueu por lhe roubar
o thesouro que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de quem era
tutor, por lhe roubar a herana das riquezas que esperava. As demazias e
sordidezas da gula, a delicia e sobejido dos manjares com elle se
compram.--Das mezas de Clepatra, das hortas e banquetes de Luclo, dos
manjares e convites de Heliogbalo elle tem a culpa. A venenosa inveja
n'elle, como em seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa
das manilhas de ouro de Adrasto entregou  morte Amfiarau seu marido; e
Julio Cesar invejoso das riquezas da Luzitania, se fez salteador das
cidades d'ella. A preguia e descuido sobre o ouro descana e se
aquieta: elle fez preguiosa e muda a lingua de Demsthenes com o preo
que lhe deram por no orar: e o symbolo e jeroglifico da preguia foi o
kagado, por o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais
difficuldade e tardana se abala, que um rico? E se a diligencia cahiu
em sorte  pobreza, pois a necessidade foi inventora das artes e
subtilezas; o peso do ouro entorpece os sentidos empregados todos
n'aquella materia: e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o afogou
no mar para apprender a philosophia. Pitaco e Anacarso no acceitaram a
Cresso o que lhes mandava: Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o
que lhe dra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso d'elle que lhe
traziam.

Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que mereciam este nome;
e um veneno mortifero para a vida humana: e se muitos a perderam indo em
seus alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas, em
que elle se cria, por remotos climas entre irracionaes Ethiopes
feneceram; no esto seguros do mesmo damno os que dentro em suas casas,
e fechado em seus cofres o possem. E fazendo pausa em seus males (que
para os contar todos fra infinito) s um bem tem o ouro, que eu no
quero deixar  conta dos louvores de Solino, que  o que os Gregos
declararam n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz: _O de que serve
ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem_; pois no toque d'elle,
como em um espelho de desenganos,  conhecido: e se elle d'esta minha
invectiva se houver por aggravado, vingana lhe tem dado a ventura at
ao que de seus males me fica por dizer.

Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a pratica de Pindaro; e o
prior a gabou de bem ordenada, e elegante; e gastaram n'isto algumas
razes, tendo os olhos em Solino, que comeando a falar com engraadas
mostras os obrigou a silencio, e disse:

--Posto que eu podera dizer do ouro, como a raposa de Ezopo das uvas, a
que no chegava; nem quero tomar to humilde vingana de quem me foge,
nem (como alguns costumam) dizer mal de meu proprio desejo: a empreza 
facil, e s no muito, que ha para dizer d'ella, difficultosa: porm se a
copia aos discretos empobrece, (como um d'elles disse) no pode ser que
a do ouro faa effeito to desegual; pois que n'elle consiste toda a
riqueza. Bem o posso invocar como poderoso, e desejar ao menos uma bcca
de ouro, de que sahiram dignamente os seus louvores; mas  to inimigo
do que lhe quero, que, por me offender a mim, fugra d'elles. E
comeando do nascimento d'este desejado metal, que quanto mais queremos
culpar engrandecemos: Nasce (como Pindaro disse) nas entranhas dos
montes, porque at a mesma natureza nos ensinou a fazer d'elle thesouro,
pondo tantos muros da terra, para o defender, para que tambem a
difficuldade e rareza lhe d maior valia. Logo sahindo da mina, onde se
cria, e provado no fogo, em que se apura, comea a fazer competencia com
sua formosa cr s mais bellas obras da natureza. O mais nobre dos
planetas, que  o sol, dourado nos apparece, e o seu luzente carro com
raios de ouro allumia a terra: o fogo, mais nobre e poderoso dos
elementos, da sua cr se veste; o arco celeste, que nas tempestades da
terra nos assegura, perfilado de ouro se descobre; as nuvens ao pr do
sol, da sua cr guarnecem os horisontes. As rosas brancas e encarnadas,
os lirios roxos, e azues, as cecens brancas, os bem-me-queres, e as
boninas com uma roza dourada no meio se guarnecem, e enfeitam para os
olhos dos homens; os fructos das arvores, quando chegam  sua desejada
perfeio, e as searas na fertilidade de suas espigas se tornam de ouro:
e as mais formosas creaturas humanas, com as cabeas douradas, mostram
sua belleza; e a esta imitao trazem os principes, e monarchas do mundo
o ouro sobre a cabea; os reis e imperadores nas coras, os papas nas
thiaras, os bispos nas mitras, e as matronas illustres nos toucados, ao
pescoo, sobre o peito, e pendurado das orelhas, nos dedos, e nos
braos, fazendo voluntarias prises de sua formosura. No culto divino
elle orna e aformosea os templos sagrados, as cruzes, imagens,
retabulos, calices, patenas, lampadas, e castiaes; com elle se adornam
os tectos, frizos, columnas, pedestaes, e todos os ornamentos, e
vestiduras da egreja. Batido em moeda  preo, e resgate das cousas de
maior valia, sem que n'elle se comeasse o trato, e commercio do
dinheiro: pois antes que o cunhassem de ouro, o houve de prata, cobre, e
lato: assim que, sem prejudicar a seus louvores o mal que usam d'elle
os avarentos, lhe podiamos com razo chamar formosura do mundo; ornato,
e guarnio de todas as virtudes. A humildade carregada de ouro se
inclina mais, e  mais formosa, como foi a de Primislau primeiro rei de
Bohemia; que no maior poder de sua riqueza, e senhorio, mandava trazer
ante si as alparcas de pastor com que se creara, mandando que andassem
em morgado a seus descendentes para antidoto contra a soberba da
dignidade real. E deixando exemplos estrangeiros, a nossa rainha Santa
Izabel, o nosso infante D. Fernando, a nossa infante D. Sancha, D.
Branca, e D. Joanna, e o condestavel D. Nuno Alvares Pereira, bem
douraram com sua grandeza, e poder a virtude da humildade. Com o ouro se
exercita, e pe em pratica a liberalidade, que sem elle parecera virtude
sem mos; que mal as tivera Marco Antonio triumviro para aquelle excesso
de magnificencia, que usou com um amigo, se o no tivera: porque,
mandando-lhe dar pelo seu thesoureiro vinte cinco mil escudos, parecendo
ao avarento creado que aquella largueza nascia da ignorancia de seu
senhor, lhe mostrou aquella quantidade de dinheiro sobre uma meza,
dizendo lhe que aquillo era o que mandava dar. Mas o romano por
desmentir a malicia do thesoureiro (que entendeu logo) lhe disse:
Fizeste bem de me avisar; que no cuidei que dava to pouco: pelo que
sobre estes accrescenta outros vinte cinco mil; e d-lhe cincoenta. O
mesmo, e quasi pelo mesmo modo, ouvi que acontecera a um principe de
Hespanha com seu pae, mandando dar a uma moa humilde trinta mil
cruzados. E vindo aos nossos exemplos: bem dourou e engrandeceu a
liberalidade com seus poderes o nosso primeiro rei D. Affonso Henriques,
que nas terras, que conquistava, edificou mais egrejas ricas, que Paos
Reaes, e casas pobres: bem o seguiram os mais de seus descendentes em
differente modo. D. Pedro o justioso com os pobres, que at a manga do
brao direito mandava fazer mais larga, e comprida, para alcanar a
todos no fazer mercs, como o mesmo rei dizia. Seu filho el-rei D. Joo
o I, foi to liberal com os vassallos que o serviram, que deixara sem
patrimonio a cora, se el-rei D. Duarte seu filho no fizera a lei
mental, com que limitou sua largueza. El-rei D. Manuel com os poderes de
sua riqueza, e a magnificencia de sua condio assombrou as naes
extranhas, e ao nome portuguez fez mais honrado. A castidade mais
excellente, e formosa parece guarnecida de ouro, que nos humildes trajos
da pobreza; e por isso foi to louvada em Scipio, que poderoso, rico, e
vencedor, quando entrando Carthago lhe offereceram captiva uma formosa
dona, e bem nascida, em logar de gosar d'ella a mandou honradamente
acompanhada a seu marido com o resgate, que por sua liberdade lhe
offereciam. No faltou esta excellencia em muitas donzellas do sangue
real d'este reino, que, deixando riquissimos dotes da ventura,
offereceram a Deus este da natureza. E se  celebrado el-rei D. Affonso
o Casto em Hespanha, no desmerecia este nome o rei portuguez, que
persuadido de seu valoroso animo, e errado conselho, perdeu a vida nos
campos africanos. A paciencia quanto  mais louvavel e excedente no
poderoso rico, que no miseravel, em quem no tem execuo a ira, nem a
vingana. Rico e poderoso no mundo era Filippe, rei de Macedonia, que
perguntando aos embaixadores athenienses o que lhe queriam, respondeu
com inconsideravel liberdade um d'elles, que _vl-o sem vida_; e elle
voltando aos outros com muita brandura disse: _Dizei aos Athenienses que
mais modesto  quem soffre essas palavras, que os sabios de Athenas, de
quem elles se prezam_. E se contam d'el-rei D. Affonso I, rei de
Napoles, que, sabendo que um creado seu dizia mal d'elle, lhe fez muitas
mercs, com que elle obrigado disse depois de suas obras mil louvores; e
o rei avisado d'isto disse: _Folgo que esteja em minha mo dizerem bem
de mim_: tambem houve rei em Portugal que em muitas occasies usou o
mesmo termo, como se ver da chronica d'el-rei D. Joo o II, e de muitas
memorias do III, no esquecendo a paciencia d'el-rei D. Diniz com seu
filho, e a d'el-rei D. Pedro, sendo principe, com seu pae. A temperana
medida por vasos de ouro, e ainda  vista d'elle,  mais estimada: como
a de Curio, que com o ouro dos Samnitas deante no deixou a panella de
couves, e nabos que cozinhava; antes respondeu aos que lh'o traziam, que
no era necessario a quem com to humildes viandas se sustentava. A
sobriedade, e temperana nos nossos reis naturaes  to louvada, que de
mui poucos sabemos que bebessem vinho, e de nenhum que comesse
demasiado: e tanto pareceu isto bem s naes extrangeiras, que a
imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte de Portugal, e mulher de
Frederico III, Imperador de Allemanha, no tendo gerao, e averiguando
os medicos que por a frialdade d'aquella provincia no concebia, porm
que, se bebesse vinho, teriam filhos; ella no consentio no remedio: e
Frederico disse que antes queria sua mulher esteril, que mal acostumada.
A caridade, subida sobre columnas de ouro, se levanta sobre as
estrellas; e ainda nos que sem lume da F a conheceram, com o poder do
ouro a sustentaram: como Cimon Atheniense, poderoso, e rico, que mandava
abrir as portas aos jardins e pomares, que tinha para que entrassem
livremente os necessitados a colher seus fructos: mandava aos seus que,
achando algum velho mal vestido trocassem com elle os seus para o
melhorarem; dava todos os dias banquete publico aos que mendigavam pela
cidade: e aos pobres de qualidade sustentava com esmolas secretas. No
fram n'isto os nossos reis e principes portuguezes inferiores, como o
testemunham os varios hospitaes, mosteiros, casas de caridade, e santos
costumes, que deixaram n'este reino, para agasalhar peregrinos,
sustentar, e vestir pobres, e curar enfermos e feridos: no que fram,
entre os outros, insignes os reis D. Affonso I, D. Joo I, II, e III, e
o insigne cardeal e devoto rei D. Henrique.  diligencia com muita razo
lhe calram os antigos esporas douradas, pois o duro estorvo da
pobreza, como pintou Alciato, impede as azas e limita os passos 
diligencia. Com ouro e com os poderes d'elle conquistaram Alexandre, e
Cesar em mui limitados annos a redondeza: o nosso rei D. Diniz com os
poderes d'elle accrescentou em seu reino quarenta e quatro villas com
castellos, e fortalezas; izentou a Ordem de S. Thiago de Portugal; e
instituio a de Christo; e fez os primeiros estudos de Coimbra. E os reis
D. Joo, e D. Manuel descobriram, e ganharam para a Fe as terras do
Oriente com tanta inveja, como espanto das naes extrangeiras. De
maneira que, se os avarentos, que usam mal do ouro e das riquezas,
guerream com elle contra as virtudes, nenhuma cousa ha que tanto como
elle as engrandea e alevante. E se os cubiosos na sua conquista perdem
tantas vidas, muitas mais se compram, e resgatam a preo d'elle. E
deixando o balsamo de ouro, to admiravel nas feridas, o ouro potavel,
to celebrado dos distilladores nas enfermidades; qual risco da vida,
qual perigo ou necessidade d'ella, qual oppresso ou captiveiro no
remio o ouro? Elle faz a formosura das cidades, a belleza dos edificios,
a fortaleza dos exercitos, a bizarria dos trajos, a galanteria das
crtes: com elle se alcanam n'ellas as honras, dignidades, titulos, e
privanas, e at os louvores e as mesmas graas da natureza: todos o
buscam, o desejam, e o conquistam: e ainda os outros metaes se querem
converter n'elle por meio de alquime; os animaes se rendem  sua
formosura; pois no ha caa mais certa que a que se toca com lao de
ouro, nem melhor pescaria que a que se alcana com anzol d'elle: e  to
grande a fra de seus poderes, que se atreveu a dizer um auctor, que na
maior furia de um leo, de um tigre, e de outra qualquer fra, se lhe
lanarem moedas de ouro deante, amansaro com ellas sua braveza. E
passando por todas as cousas da terra sua valia, podem os ricos subir ao
co por escadas de ouro, e dar-lhe com elle assalto e bataria, pondo as
balas e settas d'este metal nas mos da caridade. E de elle se subir em
tanta altura nasce ficar de mim to longe, como est de ser digno de
seus louvores meu humilde talento, que, se fra de to illustre metal,
tudo alcanara.

A todos pareceu extremada a orao de Solino, posto que alguns a
esperavam menos grave, e mais engraada: e assim lhe disse
Leonardo:--Parecestes-me esta noite mais orador insigne, que murmurador
galante. Folgo que, errando eu a eleio, acertasseis vs tambem os
louvores.--No vos agradeo (respondeu elle) os que me daes; por quanto
d'antemo vos vingastes d'elles. Porm se quereis vr em outrem com
gravidade o que de mim esperaveis como satyra e agudeza, pois os bens e
males do ouro esto encetados; diga o senhor prior agora os poderes do
interesse, que no successo da sua peregrina achar largo campo para esta
materia.--Essa  mui larga (disse o prior) e so passadas muitas horas
da noite; e eu me no escusara com ellas, se no imaginara que todas as
verdades, que cahem sobre este sujeito, ho de parecer murmurao.
Porque dizer que o interesse tudo vence, e a tudo alcana,  sentena
antiga, e experiencia moderna; porm, se particularisar os modos e
termos, com que batalha, ser ir com os dedos aos olhos de muitos. Se
disser que o interesse quebrou muitos sceptros reaes, quem se defender
d'elles? Se affirmar que torce, e derriba varas da justia, quantas se
viraro para castigar-me? Se ousar a dizer que profana as leis, e
offende a immunidade das egrejas, temo que at na minha me neguem a
entrada. Se contar que  carta de seguro de salteadores, couto de
homicidas, torre do facinorosos, e merecimento de descuidados, quantos
se levantaro contra minha verdade? S direi em um conto breve o que de
sua valia se pode presumir na necessidade; e ser julgar pelas unhas o
leo, e pela pisada de Hercules a medida de sua grandeza.

Um homem curioso, bem intencionado, e no mal entendido, andou alguns
annos na milicia do Oriente: e vindo d'elle a este reino para se
despachar, trouxe entre algumas cousas de menos valia, que curiosidade,
umas imagens de santos, e anjos de marfim, maravilhosamente obrados. E
depois de entrar em seu requerimento, deu conta a um amigo, pratico nas
cousas da crte, do estado de seus negocios; aconselhou-o elle como
convinha e buscando entre o movel, que trouxera, pea que podesse
offerecer a um ministro, com quem tinha intelligencia, lhe inculcava
aquelles santos de marfim, que o tinham muito affeioado.--Como (disse
elle) no trouxestes da India algum pagode, ou idolo de ouro d'esses
gentios?--Para que? lhe perguntou o pouco esperto requerente.--Ah,
respondeu o amigo, que para o que vs pretendeis, e c se costuma, _Mais
podem diabos de ouro, que anjos de marfim_. E assim no me parece que
est mal o dito vulgar do povo, _que o interesse  diabo_. E pois o
tempo  to curto, seja isto uma cifra do que se pode dizer de seus
poderes; que so to grandes, que a mim me tiram a liberdade de falar,
contra o desejo que tenho de vos obedecer. E sendo elles taes, e o ouro
o principal interesse de todos, mui bem lhe cabem com os males, que
Pindaro d'elle disse, os louvores com que Solino o celebrou fazendo a
differena smente no uso d'elle. Que se Santo Agostinho lhe chamou
enfermidade da soberba, fraqueza das virtudes, materia de trabalhos,
perigo do possuidor, senhor insoffrivel, e escravo atraioado; Santo
Ambrosio, lao do demonio; S. Chryzostomo, escola dos vicios, e doena
da alma; e se d'elle nasceu a Cresso a soberba, a Heliogbalo e
Sardanpalo a luxuria, a Nero a crueldade, a Cmmodo e Vitelio a gula:
se por elle Polycrates morreu na forca, Cresso na fogueira, Crasso
degolado, Heliogbalo arrastrado, e outros ricos tiveram fins
semelhantes; no teve a culpa o ouro, seno a m avareza de quem o
possuia, ou a cubiosa sede do que o desejava; pois elle nos animos
livres no impede o caminho das virtudes, antes lhes d foras, lustre e
grandeza: como em um Constantino Magno, que enriqueceu a egreja Romana;
um Carlos IV, que comprou com elle a vida; um Emmanuel, que honrou o
nome Portuguez, o dilatou a f catholica pelo Oriente; um Loureno de
Medicis, que honrou Florena: um Leonardo Lauredano, que libertou
Veneza; um Carlos Brugi, que soccorreu a esterilidade de Flandres; e
outros muitos, que o souberam dispender valorosamente. De maneira que
n'elle est a condemnao ou justificao, a morte ou a vida de quem o
possue ou deseja. Para o que eu acho extremada aquella historia, que
toca Auzonio poeta em um seu epigramma. E  que um homem desesperado com
uma paixo, que teve, se hia enforcar em um logar secreto, levando
comsigo o barao, em que havia de deixar a vida. Succedeu que com a
fora que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se lhe
descobrio um thesouro; a cuja vista mudou logo o pensamento: e, levando
o que achara, deixou em seu logar o barao que trazia. Vindo depois o
que alli o escondera, e achando-o menos, e em seu logar a tentao de
sua desventura, fez, porque perdera um thesouro, o que o outro deixou de
fazer porque o achara: de modo que a um deu a vida o ouro, a outro matou
a avareza d'elle.--Com to boa historia (accudiu D. Julio levantando-se)
 razo que vamos satisfeitos, e deixemos ao senhor prior bem
agazalhado, posto que pelo interesse de sua conversao deixara eu
muitos dos que os outros desejam; porque se a opinio dos cubiosos deu
preo ao ouro e pedraria,  conversao dos sabios o no pode tirar a
mesma ventura.




DIALOGO VIII

DOS MOVIMENTOS, E DECORO NO PRATICAR


Foi-se o prior da casa de Leonardo em apparecendo o dia: e n'ella em
vindo a noite se ajuntaram os amigos, sentindo grandemente a falta
d'aquelle que os deixara. Foi essa a primeira cousa, de que trataram: e
entre outras disse Feliciano:--Por todas as razes se devia desejar a
conversao de to discreto, e douto cortezo, como  o prior, em todo o
tempo, mas n'este das noites do inverno muito mais: e n'ellas encher
elle muito bem o seu logar; porque, alm de saber e auctorisar o que diz
com o fundamento das lettras e curiosidade que tem,  muito composto e
engraado no que fala: e por extremo me pareceu bem aquelle modo de
encarecer negando na materia do interesse, e o descrever com brevidade
nas historias.--Quanto mais ouvirdes d'elle (lhe respondeu Leonardo) vos
parecer melhor. E sabei que, antes de trazer aquelles habitos parecia
muito bem nos de crte; e que debaixo dos compridos pode ainda dar
lies d'ella a muitos de capa e espada.--Parte  o falar bem (accudiu
D. Julio) que leva tudo aps si: e no consiste este bem s nas razes
discretas e palavras escolhidas, seno no bom modo e graa de as dizer:
o que eu comparo a uma cousa escripta de boa ou ruim lettra; que a boa
aformosea, e d ser, cr, e graa ao que ldes; e a ruim desconcerta,
empea, e afeia as razes, sendo todas umas: e no faltaro mui perto
exemplos d'esta verdade.--Fujamos das comparaes para a doutrina (disse
Pindaro) e melhor fra ser essa a materia, em que se gastra este
sero.--Ainda vos ficaram sobejos do passado (tornou Solino) pois vos
adeantaes da companhia: porm eu a quero fazer ao vosso voto, se ha de
ir aos mais.--Nem a mim me descontenta (disse Leonardo) se o doutor nos
abrir o caminho.--Sempre (respondeu elle) me mandaes deante como os
frades menores nas procisses; quero-os tambem imitar na obediencia:
porm lembro-vos que so duas materias as que tocou o sr. D. Julio,
convm a saber, a graa, e composio do rosto e corpo no falar, e o
concerto das palavras, e discrio das razes.--Essa diviso parece
escusada (disse Leonardo) porque a graa no se aprende, nem se pode
alcanar por arte, pois  mero dom da natureza--Todas as cousas d'ella
(tornou o doutor) se aperfeioam e melhoram com a arte: e, para saberdes
logo esta verdade, tomarei  minha conta o em que vos parece que ha
menos que dizer; e fique  vossa a demazia.

Primeiramente no movimento, e graa do falar, chamou Marco Tullio
_eloquencia do corpo_: e Quintiliano disse que com todas as partes
d'elle se ha de ajudar a pratica. E posto que esta doutrina parece que
convinha ento aos oradores, como agora aos prgadores, uns e outros
praticam, e em todo o tempo  necessaria: e assim pintaram alguns o
jeroglifico da rhetorica com uma mo aberta, outra cerrada.--Muito
contraria me parece essa lio (disse D. Julio)  policia da crte, onde
 regra que o homem ha de falar com a lingua, e ter quieto o corpo e as
mos.--Eu concertarei essa regra com as minhas (replicou o doutor), que
o homem no falar nem ha de parecer estatua, nem bonifrate: e logo vereis
que o que quero dizer  o mesmo, em que vos quereis anticipar. O
primeiro instrumento da pratica  a voz: e, para essa ser engraada no
falar, ha de ter estas propriedades, _Ser clara, branda, cheia, e
compassada_: porque a voz escura confunde as palavras, a aspera e secca
tira-lhes a suavidade; a muito delgada e feminina faz impropria a aco
do que fala; a muito apressada empea e revolve as razes, que por si
podem ser muito boas: no trato das que a natureza inhabilitou para esta
perfeio, como  a voz do gago, do cicioso, e do rustico grosseiro: mas
na do cortezo tomara eu estes attributos; porque ha alguns que falam
com a voz to mettida por dentro, que deixam as palavras para si, e os
ouvintes s escuras, que lhes  necessario estar espreitando o que lhes
querem dizer: e outros, que pronunciam com tanta aspereza, que espinham
as orelhas dos que escutam; e outros, que falam to apressadamente, que
parece que levam esporas na lingua.--Entre vozes (disse Solino) tambem
eu hei de soltar a minha: e no que  a voz cheia, que dizeis, quizera
saber a differena; porque eu tenho que ainda  peor a muito grossa que
a feminina: porque ha homem que, quando fala, mais parece tom de baixo,
que espirito de voz. E egualmente aborrece vr um homem com um rosto
como uma peneira, muito versudo da barba e sobrancelhas, sahir com voz
de frauta muito exprimida.--O meio (respondeu o doutor) em todas as
cousas  a perfeio d'ellas: e se estaes bem lembrado, tambem deixei de
fora a voz grosseira, como a quem a natureza privou da graa no falar.
Depois da voz, os olhos do muito espirito s razes: porque, como elles
so as janellas d'alma, por elles se communica vida s palavras: e assim
ho de ser claros, alegres e moviveis: porque os muito intensos, e
extendidos entristecem; os muito apertados e franzidos movem a desprezo;
os muito abertos, pasmados, e sahidos para fora, fazem temor; e posto
que os olhos, por risonhos, nunca perdem a graa, parece que nas
praticas graves, e de importancia, no ho de ser muito
chocalheiros.--N'isso tendes vs muita razo (disse D. Julio) que ha
homens. que do olhado ao que falam: porm no vos esqueaes das
sobrancelhas.--Tambem a aco do falar toma muito d'ellas (tornou o
doutor) porque franzidas fazem carranca, e mostram que fala um homem com
melancholia; baixas representam tristeza, ou vergonha; muito arqueadas
significam espanto; e levantadas alegria. E no menos convm a
composio da barba, que fincada nos peitos mostra desconfiana ou
porfia; e posta no ar vangloria: e o pescoo, que nem se ha de ter to
levantado que faa soberba nas palavras, nem to baixo, que parea que
no pode com a cabea; a qual no ha de estar to firme, que parea que
a espetaram n'elle; nem se hade quebrar para todas as partes como
grimpa. Da mesma maneira a bcca ha de ser quieta quando fala, sem estar
mordendo beios, nem torcendo-se, nem inchando com as palavras; nem com
o riso se ha do mostrar to descuidada, que as entorne pelos cantos; nem
to apertada, que offenda a boa pronunciao e graa d'ellas; no que vae
mais  lingua portugueza, que a outras muitas: porque sabemos que todas
as naes orientaes naturalmente opprimem a voz na garganta quando
falam, como os Indianos, Persas, Assyrios, e Chaldeus: e todos os
Mediterraneos referem as palavras aos padares da lingua, como fazem os
Gregos, Frygios e Asiaticos: e todos os occidentaes, como os Francezes,
Italianos, e Hespanhoes, mastigam as palavras entre os dentes, e as
pronunciam na ponta da lingua: posto que em alguns logares, conquistados
outro tempo dos Africanos, ficaram usos e palavras, que ainda obrigam a
sua pronunciao; mas os que esto mais izentos d'ella so os
Portuguezes, como aqui na primeira noite da nossa conversao se tocou.
Alm d'estas partes do rosto tem o movimento do corpo o seu logar: que
pode parecer airoso, quando fala, mostrando as materias sobre que fala
nos contos, historias, graas ou galanterias, no representando o que
diz com meneios de comediante, nem com modestia e compostura sobeja, mas
com uma boa sombra, e um termo no persuadir assocegado, no relatar mais
ligeiro, no arguir esperto, no desculpar ou defender-se mui brando; nem
fazer badallos dos ps quando fala assentado, bolindo sempre: nem estar
com os olhos n'elles quando passeia. Sobre todos os mais gestos ou
aces, que tenho tocado, se ajuda a pratica do movimento das mos, que
ha de ser com um leve ar e compostura, com que o discreto favorece as
palavras que diz, no falando com ambas ellas, nem chegando com alguma
perto da vista dos ouvintes; e guardando estas e outras advertencias
semelhantes, pode fazer um homem uma agradavel gentileza no praticar,
emendando algumas faltas da natureza, ou favorecendo com o cuidado as
graas, que ella lhe dotou: no tratando dos incuraveis, a que j no
possam valer estes remedios; mas dos que  falta d'elles, e com o largo
discurso de maus costumes se vieram a fazer incuraveis.--Parece que daes
a entender, senhor doutor, (disse Pindaro) que ha mais algumas
advertencias, que podem ser de importancia n'esta materia: e, para a
tratar de fundamento, no  razo que fiquem de fora.--Para essas e para
o mais, que tenho dito (respondeu elle), nomearei alguns vicios, que so
contra o bom termo da pratica; que, reprovados n'ella, acreditaro as
minhas opinies, a que eu no posso nem quero dar nome de preceitos,
posto que so fundadas em os melhores dos que d'esta materia escreveram.


O primeiro  _escutar-se um homem a si proprio quando fala, por se
contentar do que diz_.

O segundo _repetir outra vez o que tem dito, com os olhos nos ouvintes,
para que lh'o gabem_.

O terceiro _deter-se tanto nas palavras como que as vae pezando, e
compondo para as dizer_.

O quarto _ir-se arrimando a bordes para que lhe accudam em tanto as
palavras_.

O quinto _ir  mo ao que quer responder, por querer falar tudo_.

O sexto _bracejar muito, e dar grandes risadas a seus proprios ditos_.

O setimo _borrifar as palavras com o humidade da bcca, por falar com
vehemencia_.


--Vs (accudiu Solino) formastes aqui uns sete peccados mortaes contra a
discrio, e cortezania, que no merecer n'ella ter graa quem n'elles
estiver culpado. Cada um dos presentes examine sua consciencia, porque
receio que falaes de proposito contra alguem.-- to m a vossa natureza
(lhe tornou o doutor) que quer perverter a minha boa teno, e d'estes
peccados contra a policia tirar outros que offendam a amisade: vale-me
porm ser a vossa conhecida. E proseguindo a materia dos vicios, os tres
primeiros nascem do amor proprio que cada um tem a suas cousas, a que os
gregos chamaram _Filaucia_: os quatro seguintes, ou da ignorancia, ou do
descostume e falta de doutrina cortez. Escutar-se um homem, quando
fala,  de quem bem lhe parece o que diz: e posto que o vicio  natural,
tem ruim patria; que o homem, que se escuta,  lisongeiro de si mesmo, e
elle se paga por si de suas palavras, vendo-se e enfeitando-se n'ellas
como em espelho, conforme os proverbios antigos, que _a cada um parece o
seu formoso_; e outro, que _no ha melhor musico que cada um a si
mesmo_; e que _a cada um contenta o seu rosto, a sua arte, e cheira bem
o seu suor_.--Outro (disse Solino) me parece a mim melhor que todos
esses, porque os declara; e  que _quem se contenta a si contenta a um
grande nescio_; que no pode deixar de o ser o que do seu engano se
satisfaz. E no achareis discreto d'esse feitio, que no caia nos tres
primeiros laos: porque so encadeados uns com outros: e em se escutando
um homem a si, o veres ir encarecendo as palavras com as sobrancelhas,
enchendo com ellas a bcca, e pronunciando-as com muito
cuidado.--D'esses disse Horacio (accudiu Pindaro) que _falavam empolas_;
 est muito bem o nome  inchao das suas palavras. Mas o segundo
vicio, que  da repetio, parece menor erro; porque o que  bem dito se
pode repetir, conforme ao que disse o poeta; e s ser a culpa quando o
dito no fr acertado.--Essa estimao no ha de ser feita por seu dono
(respondeu Solino), nem elle pode pr o preo a suas palavras, cuidando
que fala ouro; em obras alheias, referidas por outrem, tem logar essa
desculpa; e no se podem servir d'ella os que com os olhos, e com a
repetio do que disseram, esto puxando por vs a que lh'as gabeis, e
vos contenteis  fora da sua razo; e mettem de quando em quando um
_entendeis-me? estaes commigo? digo bem? que vos parece? no sei se me
declaro_. De maneira que, para encarecerem o seu aviso, fazem dos outros
nescios. E com este cahem logo no terceiro, que  deter-se muito em cada
palavra, soltando-as por compasso, dilatando uma da outra, porque se no
peguem: e  vicio, que far ser aborrecivel a todo o mundo a quem o tem;
e at  mesma discrio far importuna este mau uso d'ella. E mais  mui
certo andar annexa esta boa parte a uma fala de doente mui molle; que
tudo junto vem a ser um xarope de semsaboria, que no ha quem o leve. O
quarto no entendo bem, porque no sei ao que chama _bordo_ o
doutor.--Sabei (disse elle) que os arrimos, a que se pega ou encosta o
que fala, quando as palavras lhe canam, se chamam _bordes_, e so de
duas maneiras: uns que pertencem, ou para melhor dizer, que so
impertinencias nas aces do falar; e outros nas palavras: os primeiros
so mais culpaveis que os segundos, porque ha um que no sabe praticar
comvosco sem vos estar desabotoando, ou alimpando o coto, e arrancando
a frisa do vestido: outro, que a cada palavra vos pega do cinto, ou
travando-vos do brao vos molesta: e ainda ha alguns to desatinados,
que vos do com a mo nos peitos a cada cousa que dizem: e outros que,
se deixam de entender com quem praticam, o ho comsigo, no estando
quietos com as mos; esgravatando os dentes, ou bolindo nos narizes e
falando, tirando cabellos da barba, e mordendo as unhas; e outros vicios
semelhantes, que servem como uns espaos e reclamos, a que lhe acodem as
palavras. Os segundos so mettidos na mesma pratica com alguns, que em
cada palavra d'ella mettem um _diz_, _assim que digo_, _tal e qual_,
_sim senhor_, _vae vem_, _ento_, _seno quando_, _espere vossa merc_,
_assim que senhor_, _estaes commigo_; e outros muitos, fora os que vs
apontastes no vicio da repetio, que so bordes da primeira
classe.--Certo (disse Feliciano) que tem muita razo o doutor em dizer
que este vicio e os dois, que se seguem, nascem do descostume, e falta
da doutrina cortez: porque eu alcancei ainda por condiscipulo um
estudante, que na opinio dos mais no era tido por o que falava peior,
que, por o grande odio, que tinha aos bordes, inventou um modo
excellente para os desterrar da conversao dos amigos, com que tratava
de ordinario; e foi um jogo de no menor engenho, que utilidade; e pelo
exercicio d'elle se perdeu at a semente dos bordes entre aquelles
amigos.--No vos esqueam (disse Leonardo) os termos de to bom jogo,
que j pode ser que occupemos com elle uma noite, mais bem empregada, do
que o remedio ser necessario para os presentes, porque no so dos
homens limitados, que se apegam a estes encostos: e se quereis
conhecel-os, ouvi-lhes contar uma historia, e metter-vos-ho n'ella mais
bordes, do que tem de palavras.--O quinto vicio (proseguiu o doutor) 
incomportavel; porque ha homens to sfregos de falarem tudo; que
atalham as palavras ao que lhes comea a responder, querendo anticipar
com o seu entendimento a teno alheia.--Esses taes (disse Solino) falam
a duas mos, porque querem que v tudo por elles. E como me acho entre
esses, por no pedir por merc que me ouam uma palavra, deixo o feito
sem parte; e como ficam falando  reveria, desfao as suas sentenas com
uma bochecha de agua.--Esses faladores so como cigarras, que atram, e
no deleitam (disse D. Julio) e  sentena mui approvada entre cortezos
que tres cousas no ha de haver entre elles demasiadas, _sobeja parola,
comprida porfia, e grande rizada_; porque _quem muito fala d'elle damna_
(como diz o rifo) _e com quem aporfia no disputes; e onde ha muito
riso ha pouco siso_; que todos estes pertencem  conversao.--Essa
terceira parte (proseguiu o doutor)  do sexto vicio, que  bracejar
quando fala, e festejar com risadas seus proprios ditos o que se quer
vender por discreto. E assim vereis alguns, que falam s pancadas; e se
acharem um pulpito deante, o faro em pedaos, como se a policia podra
soffrer o desassocego e inquietao da sua esgrima. As risadas, alm de
arguirem falta de entendimento, so mais impertinentes quando um homem
festeja seus proprios ditos; que, para terem galanteria, elle, que os
diz, ha de ficar sisudo; e os que o ouvem, risonhos. E assim os
engraados de nossos tempos que conhecemos, e outros, que deixaram esse
nome, sabiam festejar moderadamente as graas alheias, e dissimular o
riso nas suas, fazendo menos caso d'ellas.--Duas cousas (disse D. Julio)
se me offerecem para vos perguntar n'essa materia: e seja a primeira,
que moderao se ha de usar no riso, com que um homem festeja o conto ou
graa do que falla deante d'elle?--Os homens (respondeu o doutor) no
ho de ser to sevros que nunca riam como Cato Censorino, Anaxagoras,
e Scrates: nem como Marco Crasso, que rio uma s vez na vida; pois 
definio e differena do homem _ser animal racional_, e a sua propria
paixo  _ser rizivel_: porm no menos se ha de guardar de ser
desentoado nas risadas; que, para n'isto haver uma moderao politica,
lhe buscaram os antigos muitas differenas: e deixando o riso Jonio,
Megarico, Sardonio, e Synclusio, dos quaes falam tantos auctores gregos,
e latinos; colhida d'elles a melhor doutrina, no ha de rir o homem com
a bcca aberta que d grande tom ao riso, nem com os beios apertados,
como costumam os que tem cieiro n'elles; nem smente mostrando os
dentes, que a estes chamaram os latinos _riso de cavalgaduras_; nem com
um riso molle e affeminado, como era o Jonio; mas com uma boa sombra e
graa na bcca e no ar do rosto, com que se mostre, agradecido do que
escuta. E se esta resposta vos satisfaz, bem podeis continuar com a
segunda pergunta.--Ainda que as minhas (tornou elle) no fssem muito a
proposito, com o interesse de vossa doutrina ficariam desculpadas, como
ser esta: Se na graa, que outrem conta, em que eu a no acho, sou
obrigado em primor cortezo a me mostrar risonho? Obrigado  o cortezo
(respondeu o doutor) a se mostrar agradavel aos com quem se pratica: e
no o poderia ser quando seccasse o riso na occasio, em que outrem
mette cabedal para o provocar a elle; que seria mettel-o em
desconfiana.--Eu me dou por satisfeito (disse o fidalgo) e j agora
podereis passar ao setimo erro; em que ha pouco que discorrer segundo me
parece; que nao  mais que um descuido e desattento dos que, mostrando o
fervor do animo com que falam, borrifam com humidade o que dizem, e s
vezes a quem os escuta.--No cuido eu (disse Feliciano) que so esses os
de que trata o proverbio, que _falam fontes de prata_.--Antes (tornou
Solino) lhes chamara eu _homens que falam frescos_ que nem uma manh de
abril deixa tao orvalhado um campo do boninas, como elles a roda dos que
os esto ouvindo; e para estas immundicias houvera de ter a discrio um
Almotac da limpeza.--Desterrados pois (continuou o doutor) da
conversao estes sete inimigos d'ella, parecer um homem cortezo aos
que o escutarem, falando agradavelmente nas palavras as leis que agora
lhe der o senhor Leonardo: que posto que a verdadeira discrio seja
natural, nenhum dos dons da natureza deixa de receber beneficio da arte,
da continuao e dos costumes.--Muito depressa vos quereis desobrigar
(respondeu Solino) e eu ainda esperava que passasseis pela minha porta,
dando algum toque na murmurao, como dstes no riso: que tambem estes
preceitos so fra das palavras.--O riso sim (lhe tornou elle), mas no
o murmurar; que  culpa que no se attribue  pratica, posto que alguns
digam que sem esse sal a mais discreta  pouco saborosa: e  porque ha
muitas cousas, que no queremos dizer, e folgamos em extremo de as
ouvir. Assim que o que murmura ordinariamente agrada a gostos alheios de
gente ociosa, com risco proprio. Porm, por fazer as pazes comvosco,
entrarei em contendas, de que estou desobrigado, tocando na murmurao
engraada; e para lhe dar logar, a metterei no meio de uma sentena
excellente, que diz que _dos animaes bravos a peior mordedura  a do
praguento_; e _dos mansos a do lisongeiro_. O praguejar  maldade, o
lisongear traio, o motejar levemente galantaria: o discreto nem ha de
morder, nem lamber; porm picar levemente, e com arte,  graa da
conversao. Para o que, deixando auctoridades, exemplos, preceitos, e
cousas infinitas, que podero levar grande tempo: o cortezo, quando
arguir para graa, ha de considerar tres cousas: o que fala, com quem, e
deante de quem. O primeiro por fugir de materia em que o presente
desconfie: o segundo por no motejar com quem no saiba pesar e conhecer
as galantarias: o terceiro por no falar graas, de que, algum dos
ouvintes se envergonhe: porque de outro modo, sendo a graa pesada,
perderia o nome. No falo do murmurar de ausentes, que em todo o modo me
parece culpavel. E bem podiam servir para lei d'estas galantarias as
vossas, que a todos agradam, e que, se aos ouvintes no fazem fastio,
to pouco aos offendidos causam queixume.--Lembra-me (disse Pindaro) que
no quinto vicio condemnastes o querer um homem falar tudo: e no dstes
regra aos que falam pouco.--Seria (respondeu o doutor) por me conformar
com uma sentena, que diz: _Aos que pouco falam, poucas leis lhes
bastam_. Alm d'isto at agora no tratei dos louvores do silencio, nem
da verdade d'aquelle dito: _Asss sabe o que no sabe; se calar sabe_. E
o outro, que: _O nescio calando, parece-se com o discreto_. Falo smente
da maneira de praticar entre os amigos, onde as palavras no tem mais
que estas duas medidas, que so _falar a tempo_, e _a proposito_: a
tempo, porque nem em todos se pode dizer tudo o que  bem dito.

Nas comidas se ha de fugir falar em cousas que enojem o estomago, e
offendam ao gsto, ainda que em outros logares podem dar muito. Entre
enojados no dizer graas, ou contos, que desautorisem a tristeza, e
provoquem a riso. Entre enfermos no contar historias, que causem temor
ou desconfiana em seus males. Entre ecclesiasticos guardar-se de coisas
que saibam a lascivia, e profanidade. A proposito; porque ha muitos, que
se desviam do principio da pratica, de maneira que do primeiro salto vo
parar a Flandres; outros, que em tudo querem metter uma historia que
sabem, contar uma nova que lhes veiu, um dito que ouviram, um sonho que
sonharam; e pela deleitao, que tomam de contar coisas proprias, perdem
o decro, com que ho de escutar as alheias, e o tento do que elles
mesmos respondem: e tambem me a mim parece que me vou mettendo nas que
no so minhas; que me fizeram passar os termos de maneira, que nem a
meu amigo ficou tempo para continuar com a segunda parte d'este
discurso.--Vs dizeis tudo to bem (tornou Leonardo) que se perde pouco
no que eu havia de accrescentar, quanto mais, que o que se dilata no se
tira; e j manh terei cuidado, ou espao de cuidar no que hei de
dizer, por no cahir no terceiro peccado de ir compondo as palavras com
o vagar que enfastia.--Em casa cheia (disse Solino) de pressa se faz a
ca; e em entendimento to rico, como o vosso, nem de cousas, nem de
palavras pode haver pobreza: guarde-vos Deus de uns meus senhores, que
as pedem fiadas aos livros de cavallarias, com suas sentenas de cabo de
capitulo, que se se lhe atravessa um escarro de um dos ouvintes,
varreu-lhes toda a prgao da memoria, e vo com a pratica em muletas
at tomarem assento com muito trabalho seu, e de quem os escuta.--Hora,
no o dmos to grande ao senhor Leonardo (disse D. Julio) que hoje o
no deixemos dormir, pois manh o havemos de despertar; que as duas
noites passadas foram de hospede, e a conversao dos que so de mais
gsto, roubam melhor o tempo; e comtudo. a parte que se tira ao repouso,
sempre faz falta,

Comearam-se os outros a levantar, e o velho ainda os deteve em p
dizendo:--O senhor D. Julio em tudo tem teno de me fazer mercs; porm
esta no  das em que fico devendo mais: porque antes quizera poupar o
tempo do somno para viver, que o da vida para dormir. E se  verdade que
na conversao de to bons amigos s se vive, qual posso eu ter melhor,
que, fazendo estas noites mais compridas, alargar a minha edade? que
sentena  antiga, que _o tempo, em que dormimos, perdemos da vida_:
pelo que chamaram ao somno _imagem da morte_.




DIALOGO IX

DA PRATICA, E DISPOSIO DAS PALAVRAS


Ia crescendo o gosto d'aquelles amigos com o exercicio de to proveitosa
conversao, de tal maneira, que nenhum perdia o sentido das materias,
que ficavam tocadas, para se armarem de razes, contos, e exemplos, com
que cada um mostrasse aos outros sua sufficiencia. N'aquella porm da
pratica vulgar ficou Leonardo muito atalhado, assim por ser cousa em que
tudo pende de opinies incertas; como porque o doutor lhe cortara a
urdidura, com que havia de ir tecendo o seu discurso, desejava mudar o
proposito a outra cousa, que viesse mais ao seu; mas como aquelle era o
de todos, no via caminho de o desviar. Veiu pois a noite do outro dia,
e com ella os companheiros mui alvoroados; aos quaes elle festejou com
a mesma alegria; e logo, depois que se assentaram, lhes disse: Se hei de
falar verdade, eu estou to carregado com o officio que de novo me
dstes, que me no atrevo a dar boa conta d'elle; porque todas as que
fiz para me dispr a isso, me sahiram erradas: e me parece to
difficultoso falar de cuidado, e ordenadamente na materia em que se ha
de praticar na lingua portugueza, que me hei de chamar ao engano, e o
maior de todos foi darem-me espao para temer, quando eu cuidei que o
tomava para me prevenir.--Em vs (disse D. Julio)  gentileza esse
receio; e ainda que fsse fingido, eu o tenho por a primeira regra de
falar bem, pois ensinaes aos discretos a no falarem com sobeja
confiana; e pela que eu tenho de vossa discrio, s em uma cousa
achara difficuldade, que  prdes em regras, e preceitos, o que tendes
por natural, e por costume; que servieis mais para exemplo de quem vos
ouve, que para mestre dos que no podem comprehender a vossa
doutrina.--Se com titulo de me fazerdes merc (respondeu elle) quereis
que desconfie, mais facil vos ser isso, que a mim o acertar: mas, para
que no erre no principal, digo que no posso fazer escola de falar bem,
mormente entre cortezos to discretos, que cada um me poder dar
preceitos para o ser: mas se disser em algumas cousas a minha opinio,
fao-o para com as razes dos que a contradisserem aprender a
acertar.--Parece-me (disse Solino) que as melhores duas lies para os
discretos so essas primeiras, _receio_, e _humildade_. E passando
adiante, comeae j a descobrir essa rhetorica, nova  lingua
portugueza.--Por escusar (tornou elle) uma muito comprida; e dilatada em
preceitos, e limites, que  fora se ho-de misturar com os da latina; e
por evitar a largueza da arte, e poupar a paciencia dos ouvintes para
outras noites, accudirei brevemente a alguns vicios da lingua
portugueza, no fugindo dos termos da latina, nem levando-os a elles por
fundamento, mas fazendo-o n'estas cinco advertencias:


_Falar vulgarmente, com propriedade._
_Fugir da prolixidade._
_No confundir as razes com a brevidade._
_No enfeitar com curiosidade as palavras._
_No descuidar com a confiana._


--Certo (disse o doutor) que me parece essa uma rhetorica abreviada, que
podia servir a todas as linguas: porque a confuso dos muitos preceitos
e figuras, que lhe attribuem os mestres d'esta arte, se podem
comprehender debaixo d'esses cinco muito bem achados. E pois Solino
chamou aos meus vicios sete peccados contra a discrio, podia chamar a
estes preceitos os cinco sentidos d'ella. E tratando do primeiro, como
entendeis _falar vulgarmente com propriedade_, que em parte me parece
que o vulgar no guarda muitas vezes o respeito ao proprio? --Falar
vulgarmente (respondeu Leonardo  qual os melhores falem, e todos
entendam sem vocabulos estrangeiros, nem esquisitos, nem innovados, nem
antigos, e desusados: seno communs, e correntes, sem respeitar origens,
derivaes, nem etymologias; que a linguagem mais pende do uso, que da
razo: e por isso se chama lingua materna, porque nas mulheres, que
menos sahem da patria, se corrompe menos o uso do falar commum, posto
que ellas saibam pouco da razo de seus principios. E d'isto, e do falar
com propriedade, tenho dito na pratica que tivemos sobre as cartas
missivas; o que no ser necessario repetir agora de novo, mas smente
dar mostra de que estes dois termos se no encontram: que se o falar
proprio,  com palavras naturaes, e menos figuras da rhetorica, para
ornamento d'ellas; e no usar dos tropos de allegorias, metaforas,
translaes, antonomazias, antifrazes, ironias, enigmas, e outras
muitas; isso se usa na pratica vulgar para se tratarem livremente as
palavras proprias, pois smente algumas translaes, antonomazias, e
ironias se acham n'ella; e mui raramente outras figuras: e posto que
n'isto me detenha mais do que determinava, me hei de embaraar com estas
trs figuras. _Translao_  figura quando passamos as palavras de uma
cousa a outra, porm com uma semelhana conveniente, como quando dizemos
_uma fonte de sabedoria_, _um po de lettras_, _um rio de ouro_, _um
thesouro de partes_, ou _de graas_. Esta figura se costuma usar para um
de quatro effeitos, ou para evitar palavras deshonestas, ou para
abreviar razes compridas, ou por accudir  pobresa da linguagem, ou por
aformosear e enfeitar a pratica. No primeiro modo faz officio mui
necessario, que  dar a entender, por palavras alheias, cousas que sam
mal por o seu nome proprio, como dizer: _uma mulher que usa mal de sua
formosura_; _que se vende a preo_; _que se entrega a Venus_; _que serve
o seu gsto_. _Um homem affeioado a ramos_; _perdido por Bacco_;
_esquecido de si_. Tambem, para abreviar razes,  de muita utilidade na
pratica, como quando dizemos, _ficou em secco_, _deitou azar_, _torceu a
orelha_, _deu cinco_. Os outros dois modos me parecem na pratica
sobejos, e culpaveis: o primeiro, porque sempre se ha de fugir n'ella o
enfeite, e ornamento das palavras: e o outro, porque no faltam na
lingua portugueza as necessarias para cada um declarar o que lhe convm
dizer. A figura da _Antonomazia_ se usa algumas vezes na conversao:
posto que s nas pessoas, ou partes do mesmo reino ser mais aceite.
Entre ns, quando nomeamos _o Poeta_, se entender Luiz de Cames, _o
Historiador_, Joo de Barros: _o Duque_, o de Bragana: _o Marquez_, o
de Villa Real: _a Cidade_, a de Lisboa: _a Coutada_, a de Almeirim; e
outras semelhantes cousas, s quaes a grandeza deu superioridade das
outras do mesmo nome. A _Ironia_, mais que todas,  propria na
conversao, pois consiste mais na graa, riso, ou dissimulao do que
fala, que nas palavras: esta se considera em duas maneiras, a primeira
tirando a propriedade s cousas; a segunda, furtando o sentido s
razes; uma  mero escarneo; a outra dissimulada subtileza. A primeira,
quando do fraco dizemos que  um Hercules: do louco, que  um Cato: do
miseravel, que  um Alexandre: e da mulher pouco casta, que  uma
Helena. A segunda, como se disseramos: _Nunca lhe cahiu a lana da mo_
ao que a no tomou n'ella: _no lhe chegou ninguem com a espada_,
falando do que fugiu: _nunca pediu nada_, falando do que furta: _paga
mais do que deve_, entendendo o que paga por justia. No que pertence s
figuras me parece que basta esta lembrana. E as palavras, que se devem
escusar para falar vulgarmente, no ho de ser estrangeiras, nem
esquisitas, nem innovadas, nem to antigas, que se perdesse j o uso
d'ellas. Das primeiras teem muita culpa os estudantes, e lettrados, que
introduziram as latinas na conversao, fazendo a linguagem de
misturas.--Essa culpa (respondeu o doutor)  dos mancebos que como no
praticar no teem a madureza, que s costuma a ensinar a experiencia,
cuidam que se melhoram em falar escuro, e elegante, fazendo na prosa
accentos de musica, ou medidas de poesia.--Muitos lettrados sei eu
(disse Solino) que no so moos, e n'isso o querem parecer, que falam
uma linguagem como sereia, mulher at aos peitos, e ametade peixe; e so
homens, a que no escapa por nenhuma via o verbo no cabo; e sendo a
nossa lingua de muito bom metal, lhe misturam tanta liga, que perde
muito de seus quilates.--No tenho por grande erro (acudiu Pindaro)
quando a conversao  entre doutos, usar de algumas palavras tiradas do
latim, quando forem melhores que as com que nos podiamos declarar em
portuguez: antes creio que, se isto se fra introduzindo, viera a nossa
lingua pouco a pouco a se apparentar com ella, e ficar to polida, e
apurada como a toscana.--E essa (tornou Leonardo) que fructo tirou do
parentesco, se no foi chamarem-lhe alguns auctores _brra da lingua
latina_?--O caso  (disse Solino) que vs devieis ser affeioado 
phrase de um cirurgio de Coimbra do nosso tempo, que por ella se fez
famoso, que disse  moa de um ferido, a quem curava: _Traga-me um panno
corpulento, para fricar os labios d'esta cicatrice._ E a um rustico, que
vinha esmechado, respondeu que no tinha mais lesa que a superficie da
fronte; e tendo palavras com outro, lhe disse que o aniquilaria, se
dissesse alguma cousa em vilipendio de sua dignidade. E certo que tenho
raiva, sabendo que a lingua portugueza no  manca, nem aleijada, vr
que a faam andar em muletas latinas os que a haviam de tratar
melhor.--Ha outros (proseguiu Leonardo) que nem com isso se contentam; e
andam buscando palavras muito esquisitas, que por termos mui escuros
significam o que querem dizer. Como um que se queixava de sua dama, que
de ciosa andava inquirindo os escrutinios do seu pensamento. E outro a
um barbeiro disse, que lhe rubricra a parede com a sangria.--Alguns
(disse o doutor) conheci eu culpados n'esse modo impertinente de falar,
que por taes eram reprovados: porm o uso das palavras innovadas no
achei ainda entre os portuguezes, como os hespanhoes e italianos. Nem
tenho por grande vicio aproveitar de algumas antigas, muito bem usadas
em outro tempo, e desterradas, sem razo, na nossa edade.--No faltam
(respondeu Leonardo) curiosos, que por acharem pobre a lingua, ou por
elles o estarem de seus vocabulos, fazem alguns ao seu modo: como um
lettrado, que querendo auctorisar umas casas para certa occasio, disso:
_ necessario que as paredes d'este domicilio sejam alreadas, e que o
fato uzivel fique retendo nas ultimas d'elle_. E outro disse de um
navegante, _que fra felice, se no fortuneara tanto no exito da
viagem_. E ao que dizeis das palavras antigas, posto que em algum tempo
fssem boas, no o ficam sendo na parte em que se perdeu o uso d'ellas;
pois, como j disse, esse s  o fundamento e razo das palavras: e
assim, no diremos _leixou_, _trouve_, _dixe_, _ca_, _sicais_, _acram_,
_leidisse_, e outros vocabulos de que usaram auctores gravissimos de
cujos escriptos podemos aprender a perfeio da lingua portugueza. E
bastou o contrario uso para n'esta parte poderem seguir os que agora
escrevem, e falam bem.--Com uma s razo (accudiu Solino) condemnra eu
a toda essa turba dos que no falar querem parecer singulares, e  que
no falam para que os entendam melhor, seno para que pasmem d'aquella
sua estranha eloquencia e galanteria. E haveis de saber que  lano
muito certo, que os que se contentram com saber pouco do latim, falam
mais alatinado, para que os ouvintes cuidem que o sabem: e assim como
virdes cirurgio, ou boticario, que acabou a grammatica na quinta
classe, ponde-lhe abrolho, que o no tirareis com vinte galgos  estrada
do falar commum e se me esperardes estudante de philosophia em grade de
freiras, vereis uma linguagem meada de logica, que vos no entendereis
com o sentido d'ella. E dos que falam pela tempera velha, eu o no
consentira, seno em homens de barba larga, penteada sobre os peitos,
com carapua redonda, e pelote de abas pregadas, que vos conte historias
d'el-rei D. Manuel, e dos infantes em Almeirim, e de quando D. Rodrigo
de Almeida tomou por compadre a Villa de Condeixa, do filho que alli lhe
nasceu, em tempo do bispo D. Jorge. Porem nos vestidos justos de agora,
e barbinhas turquescas tiradas pela fieira, e tintas sobre branco,
palavras d'aquelle tempo parecem remendo de outra cr.


FIM DO 1.^o VOLUME




INDICE


Advertencia      5

Dialogo I--Argumento de toda a obra      7

Dialogo II--Da policia e estylo das cartas missivas      22

Dialogo III--Da maneira de escrever, e da differena
das cartas missivas      35

Dialogo IV--Dos recados, embaixadas e visitas      54

Dialogo V--Dos encarecimentos      70

Dialogo VI--Da differena do amor e da cobia      81

Dialogo VII--Dos poderes do ouro e do interesse      95

Dialogo VIII--Dos movimentos e decoro no praticar      110

Dialogo IX--Da pratica e disposio das palavras      121




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+-----------------------+---------------------------+
  |          |       Original        |         Correco         |
  +----------+-----------------------+---------------------------+
  |#pg.  67 | os proprio filhos     | os proprios filhos        |
  |#pg.  91 | totos                 | todos                     |
  |#pg. 118 | descuido)             | descuido                  |
  +----------+-----------------------+---------------------------+





End of the Project Gutenberg EBook of Crte na aldeia e noites de inverno
(Volume I), by Francisco Rodrigues Lobo

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CRTE NA ALDEIA E NOITES DE ***

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