The Project Gutenberg EBook of Memoria dos feitos macaenses contra os
piratas da China, by Jos Ignacio de Andrade

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Title: Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China
       e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Maco

Author: Jos Ignacio de Andrade

Release Date: May 17, 2011 [EBook #36163]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES ***




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    *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
    texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em caso
    de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
    deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                           Rita Farinha (Maio 2011)




                               MEMORIA
                                 DOS
                          FEITOS MACAENSES
                      CONTRA OS PIRATAS DA CHINA:
                                E DA
                    ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES
                         NA CIDADE DE MACO:

                               AUCTOR

                       _JOS IGNACIO ANDRADE_.


                           SEGUNDA EDIO.


                              [Figura]


                 LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835.
                        Largo de S. Roque N. 12
                             _A C. Dias_.




                    _Rien ne peut arretr dans leurs projets nouveaux
                    Ces Portugais ardens qui volent sur les eaux,
                    O' com bien de hros guiderent leur audace!
                    Que de faits immortels ont signal leur trace!_


                                              Esmenarde, C. V. pg. 26.





                               PROEMIO.


Quanto  arriscado escrever feitos gloriosos de homens, que ainda vivem!
No s os seus inimigos, mas tambem os feridos do orgulho, ou da inveja,
saro a vociferar contra a mesma evidencia. Ha quem julgue mais
prudente calar as grandes aces dos heroes em sua vida. Mas porque se
ha de recusar este premio s pessoas, que o ganharam a risco da vida e
fazenda?[1] Por se temer a mordacidade dos _zoilos_? Eis a fraqueza, que
no tenho. Transmittindo a verdade aos vindouros, e dizendo o que
fizeram os Portuguezes dignos deste nome; se fr censurado por alguns,
louvaro outros o meu zelo.




                             INTRODUCO.


De todos os espectaculos, que a industria humana tem dado ao mundo
nenhum mais admiravel do que a navegao. Entes fracos e mortaes filhos
da terra ousaram transportar-se sobre elemento inestavel e perigoso,
levantar edificios em cima das aguas, dominar os ventos, e voar s
extremidades do mundo por baixo de Ceos desconhecidos.

Mas qual  a sorte do homem? Dotado de corao to perverso, quanto o
espirito  grande; o crime assenta-se ao lado do genio. De todas as
invenes sublimes tem os homens abusado. Dos vegetaes extraram
venenos: do ouro a moeda que tudo corrompe. As artes serviram-lhe para
multiplicarem os meios de se destruirem. A navegao , sobre tudo,
origem de mortandades; o mar tornou-se campo de carnagem; e as ondas
foram ensanguentadas pela guerra.

As duas partes do globo oriente, e occidente, terra e mar, so
igualmente o theatro das desgraas e crimes do homem: com a differena,
que dilatando as vistas e passos ao longo do continente, descobrimos
ruinas e despojos do ferro e fogo; campos e ermos incultos; porm o mar
sendo tumulo de grande parte da humanidade, nenhum vestigio offerece de
tantos estragos. Todos os dias passa o navegador com despejo por cima
das ondas, que tem engolido milhares de homens.

Quem no desejar voltar aos tempos felizes de ignorancia e parcimonia,
em que nossos avs menos grandes, porm menos criminosos, sem industria,
mas sem remorsos, viviam pobres e virtuosos, e morriam nos campos que os
tinham visto nascer.[2]

 custa das vidas portuguezas formaram os nossos antepassados um
estabelecimento na China: os nossos contemporaneos foram de novo
obrigados a ensanguentar as ondas para submetter Cam-pau-sai s leis do
imperio; e a usar prudencia consummada alm do valor, a fim de livrar
Maco da invaso britanica.==Nada ha mais proveitoso que a historia para
adquirir prudencia, (diz Jeronimo Osorio) nem mais poderoso do que ella
para despertar virtudes, mais saudavel para sanar as feridas da
republica, nem mais aprasivel para o deleitamento da vida. Mas segundo
os homens foram sempre, no crm nunca feitos, quem sahm lm do seu
engenho e posses; nem ha meio que admittam o que sobrepuja os termos de
trivial esforo, e usada industria.==Todavia os feitos exarados nesta
memoria jmais sero desmentidos; e podem despertar virtudes.

A China por ns ha muito tempo ignorada, depois inteiramente
desfigurada, e hoje melhor conhecida do que algumas provincias da
Europa,  o imperio mais antigo, extenso, e florecente do globo. Pelo
ultimo censo, feito no seculo passado, foram avaliados os seus
habitantes em duzentos milhes de almas. O rendimento annual sobe a
quinhentos milhes de cruzados. Sustenta oitocentos mil soldados, e
trezentos mil cavallos, que emprega nas armas, e correios publicos.

Ha tempo immemoriavel so os imperadores tambem pontifices do imperio;
para que as authoridades civil, e religiosa nunca se achem em conflicto.
Adoram um Deus unico; e offerecem-lhe as primicias de um campo lavrado,
todos os annos em dia solemne, por suas proprias mos. Alento exemplar 
agricultura, primeira base da independencia e prosperidade nacional.

Pela maxima da tolerancia geral seguida no oriente, admittem-se os
bonzos de todas as religies, e deixam-os espalhar os seus desvarios:
mas se chegam a amutinar o povo, so logo enforcados. Assim os toleram e
os reprimem. O imperador Cham-hi mandou gravar no frontispicio da sua
capella:==O Chang-ti no tem principio nem fim: creou e governa tudo: 
summamente bom e justo.==

Os Chinezes em geral so polidos e virtuosos. O Imperador tem uma s
mulher legitima, mas pde segundo as leis do Imperio ter grande numero
de amasias. A sorte destas  triste, por viverem encerradas. Pagam com a
privao em que vivem da sociedade, a honra de satisfazer ao imperante,
a qual devem  formosura, e no ao nascimento, que os Chinezes
desapreciam, quando no  accompanhado da virtude.

Os Colos e mandarins letrados so mais estimados no imperio do que os
militares. Entre o grande numero dos primeiros ha seis que acompanham a
crte. O colo mais antigo e de maior merito nomeia os mandarins para
todos os empregos superiores, e os manda punir se no cumprem com o seu
dever; o segundo cuida nos cultos, e dispe as ceremonias da crte; o
terceiro  o Ministro da Justia; o quarto administra a fazenda; o
quinto preside no ministerio da guerra, e determina tudo, quando 
preciso sustentala; o sexto tem a seu cargo as obras publicas.

Ha outros que deliberam com o Imperador sobre os negocios do Estado.
Alm disso tem censores publicos de officio. Em cada uma provincia ha um
Sunt (delegado imperial) com tres mandarins letrados debaixo das suas
ordens. O primeiro conhece das causas civis e criminaes; o segundo
recebe os tributos; o terceiro mantm a segurana publica. Para chegar a
ser mandarim  preciso passar por tres gros, como os nossos de
Bacharel, Licenciado, e Doutor: destes so tirados os colos.

O governo no  despotico como se pensa. Os mandarins oppem-se aos seus
decretos, quando so contrarios s leis do Estado. Querendo certo
Imperador abusar do poder, um mandarim escreveo-lhe pelo modo
seguinte:--Senhor sei que me arrisco em offender o vosso amor proprio,
mas devo preferir a morte  perda da honra: no posso deixar de vos
advertir, que o mo exemplo dado por vs ao Imperio nos lana a todos no
abysmo.--O Imperador foi generoso para no se agravar, mas no o foi
para mudar de conducta. Todos os mandarins esperaram occasio para lhe
mostrar serem dos sentimentos do primeiro.

No tinha o Imperador filhos legitimos, e pelas leis do Estado devem ser
chamados  successo do Imperio os bastardos, preferindo sempre o
primogenito. O Imperador tinha grande affeio a um dos outros:
pretendeu que o reconhecessem, com perjuizo do mais velho. Os mandarins
representaram ao Imperador a injustia que pretendia fazer: este por
isso privou alguns dos empregos. Aquelles publicaram um aviso dirigido a
todos os mandarins anexos  crte para se acharem um dia aprazado no
logar ordinario. Ahi decidiram em junta que visto o Imperador desprezar
as leis do Estado, deviam elles desistir dos seus empregos e ir para
suas casas viver como particulares: assim o executaram.

O Imperador entrou em seus deveres: mandou aos mandarins que tornassem
aos seus empregos, que estava pelo que elles entendiam. Assim obedeceram
todos  lei. Os mandarins ganharam nesta occasio honra por sua firmeza,
e o Imperador por sua prudencia.

O tribunal da historia, para tudo ser conforme,  surdo s supplicas, ou
ameaos dos imperantes. Na sala do tribunal ha um cofre, onde cada
historiador lana suas memorias sem as communicar a pessoa alguma. No
fim de cada reinado abre-se o deposito, e dos escriptos alli achados
formam os annaes do Imperio: Para conhecer o espirito deste tribunal
basta o caso seguinte:

Tai-te-song, Imperador da dynastia de Tang, rogou ao presidente do
tribunal, que lhe mostrasse as memorias que deviam formar a historia do
seu reinado. Senhor, deveis saber, que damos conta exacta dos vicios e
das virtudes dos Soberanos, e que deixariamos de ser livres se
consentissimos no que exigis--O Imperador tornou:--Pois vs que me sois
to obrigado, pretendeis levar  posteridade os meus defeitos?--Com
summa dr os escreverei, mas  tal o dever do meu emprego, que me obriga
a levar  posteridade a preteno, que hoje tivestes de mim.--

Em todos os paizes as leis punem os crimes, na China fazem mais premeiam
a virtude. A noticia de uma aco generosa, de uma virtude extremada,
assim que se divulga em qualquer provincia,  obrigado o mandarim de
policia a participala ao Imperador: este manda logo quelle subdito um
signal, que o distingue no caminho da virtude.

O certo , que os vicios e as virtudes dos povos nascem da sua
legislao: esse conhecimento deu talvez motivo a esta boa lei dos
Chinezes.--Para fecundar o germen da virtude, os mandarins participam da
gloria, ou da vergonha das aces virtuosas ou injustas commettidas em
seu governo.

A moral, a obediencia s leis, e o culto ao ente supremo, formam a
religio do Estado. O Imperador no  s pontifice, mas tambem o
primeiro orador do Imperio. Seus decretos so quasi sempre lies de
moral. Subsistem ha mais de quatro mil annos com a mesma forma de
governo, as mesmas leis e costumes, sempre estudiosos e apreciadores das
letras.

Com tudo o povo  idolatra; os letrados deistas, sem acreditarem em
revelao alguma, nem na vida eterna. Dados ao estudo das leis,
desprezam por ellas os dogmas e ritos de seus bonzos. Em verdade estes
so ignorantes, supersticiosos, credulos e ambiciosos de riquezas. A
maior parte dos Chinezes observam as seguintes maximas de Confucio.

Lembra-te que s homem, a tua natureza  fraca, podes succumbir. Afasta
de ti os obstaculos que te embaracem o caminho da virtude.

O homem bom occupa-se de suas virtudes: o mo de suas riquezas. Aquelle
trata do interesse da patria: este s no seu cuida.

Faze aos outros o que desejas te faam: eis a unica lei que te 
precisa.

O silencio  indispensavel ao sabio; este despreza sempre os rasgos da
eloquencia por inuteis; explica-se por suas aces. O ceo falla, mas por
que modo nos diz elle ser o Soberano principio de todas as cousas? O seu
movimento  a sua linguagem: creou e deu impulso  natureza, e esta como
filha sua obedece-lhe e produz.

Quando se trata da saude da patria despreza-se o perigo da vida.

O ganho do imperante avalia-se pela felicidade publica.

Estas poucas regras bastam para se fazer perfeita ida da moral Chineza.

Por morte de Afonso de Albuquerque, em 1515, succedeu-lhe no governo da
India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou
este uma esquadra de nove embarcaes commandadas por Ferno Peres de
Andrade, levar ao Imperador dos Chinezes o Embaixador Thom Pires, como
El-Rei D. Manoel lhe tinha ordenado.

Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e s pde sair
daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas no mar da China, em
Junho do mesmo anno. J os nossos sabiam, pela amisade contrahida em
Malaca, com os Chinezes, a que rumo lhe demorava Canto: foram s ilhas
visinhas daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador  crte.

Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada a
combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo Ferno Peres
de Andrade benefico e destemido, anniquillava preversos, e attrahia qual
iman os discipulos de Confucio. Largou aquelle Imperio deixando nelle as
cem trombetas da fama apregoando sua magnanimidade.


                 _Do meu arco possante
                 Hoje o famoso Andrade
                 Alvo ser: seu nome triunfante
                 No porto surgir da Eternidade._[3]


Assim que largou de Canto chegou alli Simo de Andrade, com outros:
procederam de forma, que perderam, em credito, tudo quanto Ferno Peres
tinha adquirido. Usaram to grandes violencias, que os Chinezes
resolveram tratalos como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram
os portuguezes por todos os lados. Se no fra um temporal, que abrio
caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros.

Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso
Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os
mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de
Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e no guerra; mas estes s lhe
respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os nossos
succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os recursos,
cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar largo,
deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os
portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a
memoria do immoral Simo, para serem outra vez recebidos em seus portos.

Recuperada a boa f entre as duas naes obtiveram os portuguezes, em
recompensa de servios prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de
Maco, para levantarem casas, debaixo de certas condies; mas fizeram
delle uma cidade a que deram o nome da ilha.

Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes
aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do
pirata Chang-Silau.

Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, porm a
bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas de Maco.

Em 1586 recebeu Maco o titulo de cidade do nome de Deus na China, e
todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de Evora, cujos
foros se confirmaram em 1709.

Em 1622 tendo Maco apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, foi atacado
por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 prisioneiros; os
restantes fugiram largando em nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens.

Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos
na bahia, para ajudalos; estes no duvidaram, mas exigiam o fruto de
todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito excessiva a
ambio dos inglezes.

De 1557 at 1625 foi Maco governado pelos capites de navios do Estado,
que todos os annos iam de viagem ao Japo, e faziam escala naquella
cidade. Com esses governadores teve prosperidade.

Em 1626 foi de Goa para Maco D. Francisco Mascaranhas para Governador
com o titulo de Capito Geral. Comeou no seu governo a desintelligencia
com o Senado, e a dissoluo praticada pelos Governadores. Este foi
grande assassino, grande roubador e forador cruel das mulheres e filhas
dos cidados. Levou os macaenses a tal desesperao, que o mataram, a
fim de se verem livres de to horrendo monstro.

Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclamao do Senhor D. Joo IV:
os macaenses logo romperam os grilhes de Filippe, e mandaram grande
donativo  capital do Rei legitimo.

Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a
mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por no consentir em
suas prepotencias.

Em 1726 chegou a Maco o Embaixador Alexandre Metello de Sousa Menezes,
mandado por El-Rei D. Joo V. ao Imperador da China. Os moradores
daquella cidade cooperaram muito para sustentar-se o decoro nacional
naquella embaixada.

Em 1747 foi governar Maco, Antonio Jos Telles: espantou os algozes do
Imperio Chinez por suas crueldades. Levou aquelle estabelecimento aponto
de perder-se.

Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de
nossas victorias,  situada na latitude de 22-1/4 gros ao Nrte do
Equador, e 122. ao Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos
nossos periecios; motivo talvez por que o Padre Antonio Vieira disse:
que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde no alcanou a penna de
Santo Agostinho. Tem de extenso a cidade pouco mais de uma legua. Do
lado do Norte  defendida por grossa muralha guarnecida de fortins: e do
Sul por tres fortalezas. A de S. Francisco na parte oriental da Praia
Grande; a do Bom porto na ponta occidental e a de Sant-Iago que defende
a entrada da barra: tem mais entre as primeiras duas, o forte de S.
Pedro. No centro a fortaleza do monte domina toda a cidade. Alm destas
fortalezas tem outra sobre o monte da Sr.^a da Guia, fora dos muros da
cidade. As casas so bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto 
bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas tonelladas.
Tambem podem surgir ao largo nos de 74. A povoao  de 20 mil
individuos, a maior parte Chinezes. O Governo  o Senado composto de
dois Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um Escrivo. O
Governador militar ou Capito Geral, e o Ouvidor, so chamados ao
Senado, quando ha negocios politicos, ou de fazenda. Neste caso preside
no Senado o Capito Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que 
relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez.

Os macaenses so to zelozos das suas liberdades, que at na meza das
sesses do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar isolado no
extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza dentro de uma
tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente  livre para
entrar e sair.

Sobre a meza descana um extremo da vara da Justia, e o outro fica
encostado na parede por cima da cabea do Ministro: um delles (Lazaro da
Silva Ferreira) assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a
fazer cair, e mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabea. Os Senadores
mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para
segurar assim a insignia da Justia. Outro dia o Ministro ao entrar
tocou-lhe para caindo lanala fora: ficou surpreso ao ver, que estava
segura. O Vereador do mez tirou-o do embarao dizendo:--Tributamos to
grande respeito a nossos maiores, que no podemos prescindir deste seu
costume; e presamos tanto a V. S.^a, que para no o ferir a vara da
Justia mandamo-la segurar.

Ha um Bispo, e um Batalho de naturaes de Goa, commandados por Officiaes
macaenses; guarnece as fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus
rendimentos so os direitos da Alfandega.

As minhas viagens  China deram-me occasio para conhecer os
descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do nosso captiveiro
debaixo do pezado grilho dos Filippes tivero a constancia e valor de
conservar illesos os foros nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que
logravam a amizade dos Chinezes, s tinham seus braos para se
defenderem das naes da Europa, que alli foram atacalos. A historia diz
pouco cerca dos grandes feitos macaenses daquella poca.[4] Apenas
dessas grandes aces ha hoje pintadas algumas mais notaveis na S e
Senado de Maco. Tudo o mais se tem perdido com os heres, que to
dignos eram de memoria eterna.

Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a no terem
herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam[Nota 1^a]. Fui
testimunha de feitos mui gloriosos. Os portuguezes nesta poca
mostraram-se grandes nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com
que tomaram a grande esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que
se houveram com os Chinezes e Inglezes. Salvaram Maco de nadar em
sangue; acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos.
Deixarei to nobres aces no esquecimento  maneira de nossos maiores?
No: farei diligencia para as transmittir  posteridade. Se no forem
uteis aos presentes, se-lo-ho por certo aos vindouros. No ha cousa
mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de nossos avs.
Julgo de obrigao referilas a nossos ntos.

Maco  monumento precioso da gloria portugueza. Ferno Peres de
Andrade, foi quem primeiro immortalisou os portuguezes naquella parte do
mundo. Ver-se-ha firmado pela mo dos Chinezes, que ainda temos grande
considerao naquelle imperio.

Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito
lanalos em separado; ainda que um principia antes e acaba depois do
outro. Pegaram os macaenses s mos com os piratas em 1805: A esquadra
ingleza aportou em Maco a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de
Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense,
para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23
de Novembro de 1809, e concluido to importante negocio em Abril de
1810. Para o leitor vr sem custo as grandes difficuldades, que em Maco
se venceram, dividirei, esta memoria em duas partes. Tractarei na
primeira da extinco dos piratas. Cousas ha nesta parte, que se fossem
praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por milagres, sendo
s o esforo de almas valorosas que mandaram seus braos com a penna e
espada obrar taes prodigios. Na segunda fallarei da invaso dos inglezes
em Maco, da sua e nossa conducta, assim como da politica Chineza, e do
final resultado.

Em Athenas, eram os famosos oradores quem celebravam os heroes de
Salamina; e tinham por ouvintes os Socrates e os Pericles. Eu no tenho
os mesmos talentos, e tenho juizes no menos temiveis. Mas em objecto
desta natureza a eloquencia consiste em ser sincero.




                          PRIMEIRA PARTE.


Ao valor dos Portuguezes deve o Imperio da China ver-se livre dos
piratas, que por duas vezes pertenderam dominalo. A primeira foi obra
dos Lusitanos do seculo XVI: a segunda de seus descendentes nossos
contemporaneos, a tempo que seus irmos na Patria anniquilavam as aguias
do oppressor da Europa. Depois que no seculo XVI os piratas foram
destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a pouco engrossaram
seu numero e fora de modo, que em 1805 estavam senhores de grande
esquadra, bem guarnecida de artilheria, e com perto de quarenta mil
homens de tripulao. Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua
mulher, no s herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio
da piratagem. Assim que tomou posse do commando de to grande poderio,
dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a dois parentes do
marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A
primeira e mais possante coube ao celebre _Apcha_, que depois se chamou
_Cam-pau-sai_, e onde sempre residio a viuva. _Apau-tai_ foi commandar a
segunda, composta de 130 embarcaes, e com bandeira preta.

Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e emprehendedor, depois de ter
ganhado o affecto dos seus, teve arte de dispolos a executar qualquer
empreza que imaginasse. Com effeito concebeu projecto to elevado, que
bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, quando pertendeu
tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a direco do rio Nilo,
fazendo-o desaguar no mar roxo para anniquilar desse modo os Turcos no
Egypto! Cam-pau-sai tentou coroar-se Imperador dos Chinezes, e lanar a
dynastia Tartara para o Norte da grande muralha, que a divide da China.
Comeou a fazer guerra to atroz, que no s paralisou o commercio
maritimo nas costas meredionaes do Imperio, mas tambem fazia
desembarques no continente, e arrasava todos os logares por onde
passava. Sendo a Cidade de Canto a mais rica e a mais commerciante,
quiz embaraar alli o negocio com os europeos. Para esse fim veio postar
suas foras na emboccadura do rio Tygre, e em todos os canaes que formam
as ilhas visinhas de Maco. Assombrando assim Cam-pau-sai os mares das
ilhas da China com seu poder, no se limitou a perseguir seus irmos
Chinezes, tambem se atreveu a insultar os navios da Europa.

Vendo o Governo de Maco o risco em que ficava, rodeado de immensa fora
inimiga, na estao em que todos os navios da praa se achavam ausentes;
mandou a Bengalla fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto
estes no se recolhiam: porque em os piratas sabendo, no haverem navios
dentro do porto, que os fossem acommetter, chegavam quasi ao alcance da
artilheria das nossas fortalesas, para embaraarem os mantimentos, que
todos os dias entram na Cidade.

Deu-se tanta pressa  factura do brigue, que do momento em que se lanou
a quilha no Estaleiro, at sair da barra fra, s mediaram vinte e oito
dias! Quando chegou a Maco estavam os piratas tam destemidos, que o
Governo julgou ser insufficiente to pequena fora, para os afastar da
Cidade. Comprou mais o navio Arriaga, a que deu o nome de Ulises, e
mandou-o armar, abrindo-lhe uma bateria na coberta.

Assim que estas duas embarcaes comearam a bater os piratas, estes no
ousavam aproximar-se dellas. Com tudo ainda faziam damno ao commercio;
porque os nossos vasos no podiam entrar nos pequenos canaes, onde elles
o interceptavam. Alli podia a esquadra Imperial fazer-lhe algum ataque;
mas o respeito devido a Cam-pau-sai, tirava a lembrana de o
acommetterem. Passou o anno de 1806, e parte de 1807, sem que os piratas
arriscassem entrar em combate com os nossos. Esperavam achalos
separados, e em parte onde no se podessem soccorrer; no entanto iam
devastando a provincia de Canto.

Meado o anno de 1807 achou o nosso brigue em boa posio para atacalo.
Mandou uma diviso commandada por um de seus Capites mais
experimentados, que o fosse combater. Commandava o nosso brigue, o
valente e destemido _Pereira Barreto_. J nesse tempo havia adquirido
tam grande credito entre os Chinezes, que lhe chamavam o Tygre do
mar.[5] O impavido _Barreto_ tinha valor para investir com toda a
esquadra de Cam-pau-sai, quanto mais com uma de suas divises. Assim que
a julgou ao alcance da artilheria, virou sobre ella fez-lhe fogo to
vivo, e estrago to grande, que todos fugiram deixando a Capitana s
mos com o brigue. Vendo o forte _Barreto_, que a artilheria inimiga ra
de maior calibre, resolveu abordar o Ta[6]. Deve imaginar-se uma grande
lancha dando abordagem a uma No. Assim parecia o brigue junto ao Ta, e
apenas tinha um quinto da equipagem do navio inimigo. Todavia o forte
_Barreto_ dirige a sua embarcao  ppa do Ta. Quando se lhe botavam
os arpos lanaram os piratas uma bala de fogo dentro da pra do
brigue, que decerto o abrazaria, se o previdente _Barreto_ no corresse
a lanala ao mar. A este tempo unem se as embarcaes; _Barreto_  o
primeiro que trpa pelo Ta acima, e to depressa pde firmar os ps
sobre a tolda inimiga, cantou victoria:


                _Saltando a far s com lana e espada
                De quatro centos mouros despejada_[7]


_Barreto_ usava de espada colubrina, e manejava de sorte que dos setenta
homens, equipagem do brigue, os que poderam subir disseram, que chegando
acima, viram a tolda coberta de mutilados! Achou o nosso heroe to
porfiada resistencia, que todos foram mortos porm nenhum vencido, ou
aprisionado. Os que pertenderam escapar aos golpes do nosso Marte irado,
lanaram-se ao mar. O seu Chefe, vendo-se perdido desceu  camara, pegou
em sua mulher pelos cabellos, cortou-lhe a cabea com o alfange, e
sepultou-se no mar com ella.[8]

Este combate foi dado perto de Maco; _Barreto_ conduzio immediatamente
a preza ao porto. Os macaenses e muitos estrangeiros, foram logo dar o
parabem a to valente Capito, e ver o navio inimigo. Ficaram
horrorisados da carnagem, porque os piratas s se rendiam com a morte.
Haviam seculos, que j se no faziam d'estas proezas; e at nos parecia
impossivel, que no tempo de Cames, D. Loureno de Almeida fosse
bastante para debellar em uma No da Mca quatro centos mouros. Mas
ainda em nossos dias mostra o entendimento supremo, que um portuguez s
com seu brao  sufficiente para destruir em um Ta mais de 300
Chinezes.

Esta verdade precisa quasi de tanto valor para escrevela, como para
obrala, ainda sendo evidente ao escriptor; mas  qualificada pelos
habitantes de uma cidade, onde residiam subditos de varias naes. J o
nosso Diniz cantou as victorias de outro Barreto; justo  que to divino
estro sirva para immortalisar os dois.


             _Lavremos pois, oh! Musa,  gran memoria
             Com argivo buril padro sagrado:
                   Morda-se o tempo irado,
             Que ella eterna far a clara historia
             Alma que atraz da fama immenso espao
                   Corre, veja em meus hymnos
             Que em vo no sua bellicoso brao._[9]


Por feito to assombroso ficou Maco em socego. Os piratas retiraram-se
para longe, mas sempre fazendo estrago em tudo que podiam vencer. A
esquadra imperial com a noticia d'esta victoria animou-se a sair de
Canto e aproximar-se de Maco, cruzeiro que ella j no ousava fazer
com receio dos piratas. A brilhante proeza do invicto _Barreto_ fez
desapparecer das ilhas da China aquella praga devastadora: por
consequencia o Governo de Maco mandou recolher as suas embarcaes.

Sabendo-se na China, que o Sr. D. Joo VI tinha deixado Portugal para
reinar no Brazil; lembraram-se os macaenses de mandar cumprimentar o Rei
dos Lusos nas suas possesses do polo antarctico. Apromptaram o navio
Ulises, nomeando para ir saudar El-Rei, pelo Senado, ao honrado cidado
Antonio Joaquim de Oliveira Matos; e deram o commando da embarcao ao
denodado _Barreto_. Destinando-se aquella enviatura a obsequiar o Chefe
dos Lusos, pensaram no ser pequeno mimo fazer-lhe conhecer quem tanto
honrava o nome portuguez. Foi o nosso heroe recebido no Brazil, quasi da
mesma sorte que os Dias, e os Gamas, recolhendo-se de suas trabalhosas
viagens, eram recebidos pelos antigos reis portuguezes. O Sr. D. Joo VI
o elevou de primeiro Tenente a Capito de Fragata: Premiou os macaenses:
deu-lhes distinctivos, que foram assaz estimados, talvez por se
esquecerem das altas virtudes de seus maiores, que os despresavam por
bons costumes.

Affastado Cam-Pau-Sai de Maco por temer os portuguezes, no esfriou em
sua empreza. Comeou ento a proclamar a todos os do seu partido a
tyrannica oppresso, que sofria o imperio, por consentirem no thorono a
intrusa dinastia barbara. Demonstrou-lhe quo facil ra depr aquella,
restabelecer a Chineza, e fazer a cada um dos seus regulo do imperio.
Tal pericia desenvolveu na piratagem, e na persuaso, que j os seus no
duvidavam ser elle o unico capaz de restaurar a dignidade da Patria.

Andavam assim de animo affeito  guerra, quando tiveram a feliz noticia,
de j no existir em Maco o _tygre do mar_. Voaram como bando de Aores
famintos a devorar tudo quanto podiam encontrar pelas ilhas visinhas de
Maco. No esperando o Almirante Chinez aquelle infausto encontro,
cruzava afoito na bocca do Tyre. Assim que foi descoberto por
Cam-pau-sai, carregou sobre elle. Uma diviso imperial de 28 navios de
15 a 20 peas cada um, que no fugio para fazer-lhe frente, ficou
prisioneira. Soberbo com essa victoria, comeou de novo a investir as
embarcaes da Europa, e as macaenses. Nesta epoca alguns navios
Americanos se poderam escapar ao abrigo das nossas fortalezas.

Recolhendo-se de Goa o brigue do _Botelho_, Capito Manoel Jos Vianna,
foi visto dos piratas; carregaram sobre elle; mas acharam to grande
resistencia naquelle esforado Capito, que restando apenas seis homens
da sua equipagem, com elles fazia grande estrago ao inimigo. Com tudo o
fogo abrandou, pelo cansao; mas vendo Apautai, que no arreavam
bandeira, mandou abordalos. O impavido Vianna ao ver-se rodeado de
torres ambulantes e coberto de lanas, longe de esmorecer, tomou em sua
alma o espirito de Duarte Pacheco; e  imitao dos nossos _Barretos_,
quantos inimigos lhe saltavam na sua embarcao, tantos a sua espada
lanava no abysmo. Os Chinezes espantados j no o julgavam homem, mas
sim algum ente superior  especie humana. Parecia invulneravel! Com tudo
morreu no combate. Mas como? Canado de matar piratas.


                     _Cem paros torreados,
               Donde por boccas mil brota Mavorte;
                     Entre horrorosos brados_

               _Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte
               Zarguchos, flexas, que em chuveiro voam._[10]


Tal foi o combate supportado pelo Magnanimo Vianna. Com a sua morte
ganharam os piratas tal audacia, que tiveram a ousadia de passar com o
navio prisioneiro, e com a bandeira de rasto,  vista de Maco. A
sensao que fez esse triste espectaculo nos moradores daquella cidade 
inexplicavel. Juraram no s retomar a sua embarcao, mas tambem dar
aos piratas o castigo merecido. Os navios que ento se achavam no porto
capazes de tal empreza, eram o brigue do _Senado_, e o navio Belisario.
O brigue achava-se desarmado, e desaparelhado, assim como o Belisario.

Seriam nove horas da manh, quando se avistou o navio apresado; e antes
de anoitecer j os nossos iam no alcance da esquadra inimiga! Como foi
possivel obrar tanto em to pouco tempo? Tudo se deveu  generosidade
dos macaenses, e ao estimulo dado pelo incanavel Arriaga. Este digno
Ministro, honra dos togados, e columna forte da gloria nacional, no se
limitou a ser o primeiro em votar, e concorrer com meios para o
desempenho desta empreza. Pesando a importancia da cidade, e o perigo em
que ella se achava, resolveu sobre sua defeza penhorar todas as foras
sem perdoar as despezas, diligencias ou perigos. Foi com seus braos dar
exemplo aos macaenses mais distinctos, que todos trabalharam na
promptificao dos navios.

Era este varo entre os macaenses bem similhante  alma dos estoicos,
espalhada pelo universo. Estava em toda a parte. Seria preciso
eloquencia extremada e presencear todos os seus illustres feitos, para
elogiar as altas qualidades deste preclaro varo: sem isso no 
possivel apparecerem to brilhantes como foram praticados.

Por no haver ento em Maco Official de mar, que se julgasse dextro na
politica, ainda que todos sobrepujavam, no valor, deu-se o commando em
chefe ao Capito de artilheria Jos Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa.
Sustentou este invicto heroe, em toda a lucta contra os piratas, a
dignidade portugueza de modo, que bem se parecia com o primeiro Capito
Lusitano, que aportou naquelle imperio.[Nota 2^a] Theotonio da Silva
Braga, commandava o navio Belisario. Cao to grande tufo na noite
seguinte ao dia em que saram os navios, que se julgava telos
submergido.

Ao amanhecer subiro os montes, sobranceiros  cidade, anciosos por ver
seus campees; avistaram o brigue do _Botelho_, que tendo surgido em
Lanto prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do
combate, assim que o tufo soprou do Oriente, cortaram as amarras e
vieram encalhar na Taipa. Os macaenses exultaram com este successo, e
muito mais por avistarem o brigue, e o Belisario, que pela grande
pericia de seus officiaes tinha escapado  furia do tufo.

Havia tambem uma lorcha armada em guerra[11] commandada por Antonio Jos
Gonalves Caroxa: mancebo activo e destemido. Era commando de difficil
desempenho; por ser a embarcao conductora dos viveres para os nossos,
levados por entre os inimigos em frequentes combates. A fora da lorcha
constava de quatro pedreiros, um obuz de doze, e trinta homens de
tripulao. Algumas vezes aconteceu estar encorporada aos nossos navios,
quando batiam os piratas. Se o acaso permittia accalmar o vento, nessas
occasies fazia o nosso Caroxa maravilhas extremadas.

Desejava Cam-pau-sai encontralo, onde no podessem defendelo os nossos,
para mais a salvo descarregar sobre elle seu poder, e seu odio. Teve
quem lhe desse dia certo em que a lorcha havia passar por logar, onde
Cam-pau-sai podia satisfazer seus desejos. Amanheceu o dia aprasado, e o
novo _Aquilles Lusitano_ chegou ao passo, que bem pode nomear-se
Cabalo[12]. Achou-o coberto de inimigos: mas julgando urgente o
desempenho da sua commisso, tentou abrir caminho. Ainda que a sua
tripolao era toda de Chinezes, tinha a sua disciplina: julgou que isso
bastava.

Os inimigos tentaram rodealo; mas o intrepido Caroxa lanou mos ao
obuz, e como o reparo era de pio, jogava para todos os lados. Aos que
se lhe aproximavam cortava-os com metralha; e aos que estavam mais longe
passava-os com balas. Mas os navios inimigos eram tantos, que mal podia
desbaratar a todos os que lhe vinham ao alcance. Com tudo apezar de ver
a maior parte da tripolao morta, no esfriava no empenho de vencer.
No usava render-se, nem fugir; cada vez mais afouto pertendia
desembaraar o passo. Mas os restantes da tripolao vendo passar-lhe as
ballas pelo vestido, sem lhe offender o corpo, e irem matar os seus
companheiros; por que no lhes succedesse o mesmo, ousaram lanar-se a
elle, e amarralo de ps e mos. Segurando assim o homem, que lhes
parecia invulneravel, fugiram para a cidade, onde o entregram cheios de
espanto e de temor, dando por desculpa do seu arrojo, o muito que
apreciavam a existencia do seu commandante.

Os macaenses receberam o destemido Caroxa com estimao digna dos
importantes servios, que lhes fazia, e do valor com que se
immortalisava. Mas o conselheiro Arriaga sobresaa a todos. Tinha
maneiras singulares para introduzir heroismo nos homens, que destinava a
emprezas arriscadas. O sentimento lugubre, que mostrava pela morte de um
marinheiro habil, ou o elogio feito a outro que se distinguia, dava a
todos cobia de se verem acatados e elogiados por elle. Nesta occasio
um abrao dado no Caroxa, em nome da patria fortaleceu a alma deste
Lusitano de modo, que s elle em sua lorcha, com outra equipagem, se
julgava sufficiente para arrostar com todos os piratas.

Em verdade, onde as leis so respeitadas, a sociedade  livre: e os
homens sero livres em toda a parte, que houver governo justo como era
ento o de Maco. Longe de envejar a seus concidados as vantagens,
grangiadas por sua industria, cuidava com muito desvelo em augmenta-las.
No s deixava de opprimilos; mas assegurava a sua liberdade; bem
precioso ao homem, e necessario  sua ventura; to distante da licena
perigosa, como da humiliao servil. O governo providente apenas liga as
mos aos homens para no se offenderem; mas deixa-os trabalhar sem
obstaculo para a sua felicidade; sabe que a ignorancia no s deslumbra
os homens mas tambem os faz pusillanimes e desgraados: a razo e a
liberdade melhoram o corao e os faz virtuosos e resolutos.

Arriaga sabia que a justa destribuio dos premios e das penas  a
melhor aco do governo sobre o povo: servio-se destas principaes molas
do corao humano, para animar a virtude e o merito; e obrigar o
interesse particular a promover o interesse publico. O certo  que a
virtude desapparece, quando o vicio  honrado. Algumas vezes lhe ouvi eu
que os favores dados  incapacidade, so roubos feitos ao merecimento; e
as recompensas dadas a quem bem serve a patria so dividas, que o
governo paga por ella. Fui testimunha das benos, que lhe lanavam os
macaenses pelo muito que se occupava da sua ventura.--Fazia do
merecimento dos homens estimao to justa, que nem  conveniencia, nem
ao estado ficava devedor: virtude nos principes difficultosa, e nos
ministros rara[13].

Os temerarios, que tinham amarrado o invicto Caroxa, foram excluidos do
servio portuguez. Tomou nova tripolao e continuou a destruir os
piratas. Cam-pau-sai vio constantemente frustradas, quantas diligencias
fez para o tomar.

Logo que amainou o tufo, partiram os nossos em procura do inimigo.
Acharam reunidas as esquadras de Cam-pau-sai, e Apau-tai, nos canaes de
Wam-poo, em 15 de Septembro de 1809. Assim que avistaram os navios
Macaenses, suspenderam, mas os nossos carregaram sobre elles.
Cam-pau-sai empenhou-se no combate; fez entrar nelle os seus melhores
navios: mas o fogo violento das nossas embarcaes fazia-lhe tal
estrago, que saindo elles do alcance da nossa artilheria, poucas ficavam
em estado de entrar segunda vez no fogo. Com tudo cevados de raiva, e
avidos de gloria, a fim de illudir os povos do seu partido, ainda bem
uns no se tinham retirado, j outros tomavam o logar vago. No sendo o
Belisario construido para guerra to violenta, abrio com o impulso da
artilheria; tornou-se incapaz de combater: retirou-se. O invito
Alcoforado no podendo vencer fora to superior tambem se retirou, mas
deixou em cinzas muitas embarcaes inimigas.

 sempre a guerra origem fecunda de calamidades, vexames, e ruinas para
os povos. Appareceu na China o torbulento Cam-pau-sai, para estrago de
seus moradores, e vexao dos macaenses.  evidente, que o conquistador,
no  s inimigo dos povos, onde recruta; mas tambem se torna flagello
do genero humano. Sim a guerra sobrecarrega os povos de impostos, e
raras vezes o tumulto dos combates deixa ouvir as supplicas da
justia.[14]

Os macaenses tiveram nesta occasio motivo para julgar quo forte ra o
inimigo: e Cam-pau-sai a ufania de fazer retirar dois navios
portuguezes.

Apezar da perda que sofreu, ficou mais altivo, e mais assolador. Exaltou
o espirito dos Chinezes de modo, que se levantaram em Canto partidos de
descontentes. O Sunt prevendo a ruina, que ameaava o Imperio, tratou
com o Governo de Maco para reforar a esquadra portugueza, e junta com
a Chineza cruzar nos mares daquellas ilhas, afim de livrar o commercio
das duas cidades, e portos contiguos. O Governo macaense testimunha do
vexame em que se achavam os moradores da cidade, e dos gastos que tinham
feito em guerra to dilatada, mal podia convencionar com os Chinezes,
por ser a empreza mui dispendiosa. Com tudo o magnanimo Arriaga, a quem
nada parecia impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de
Canto, e fez-se a conveno seguinte:[15]

O Governo das duas provincias de Canto e Quang-si, e o de Maco,
igualmente convencidos da preciso, que tem de pr fim s invases dos
piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas
cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relaes
commerciaes, formaro uma guarda costa, combinando a fora dos dois
governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Canto, os
mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza
branca, Chu: Maco ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado,
Jos Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente
communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e
ajustaram os artigos seguintes:

1.^o Haver uma guarda costa, de seis navios portuguezes, conbinada com
uma esquadra imperial; cruzar seis mezes, desde a bocca do tygre 
cidade de Maco, a fim de embaraar que os piratas no entrem nos
canaes, que at agora tem infestado.

2.^o O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil tas para
ajudar o armamento dos navios portuguezes.

3.^o O Governo de Maco far logo cruzar os dois navios, que tem
armados, e apromptar com brevidade os quatro restantes.

4.^o Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do
cruzeiro, o qual no se estender alm dos pontos determinados.

5.^o As presas seram repartidas entre os dois Governos.

6.^o Quando a expedio finalisar sero restituidos aos macaenses os
seus antigos privilegios.

7.^o As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se
estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a
consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes. Maco
23 de Novembro de 1809.


                      Shou-Key-chi.--Arriaga.

                        Pom.--Chu--Barros.


O governo de Maco observou logo o 3.^o artigo. Arriaga entrou a
promover os aprestos dos navios restantes, mas o thesouro do Senado no
podia suprir a to grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos
grandes sommas sobre o seu credito: ento era valor de sobejo para os
negociantes, que lhe offereceram quanto possuiam[16].

Havia na cidade pouca gente para tripolar os navios se no suprissem os
prodigios obrados pela gente portugueza.


               _.....Tornando frio
               De espanto o ardor immenso do oriente,
               Que ver tanto obrar to pouca gente._


Mojateco, observando e experimentando o valor dos portuguezes em Diu,
exclamou:--So dignos de que os sirvam as outras gentes. A fortuna do
mundo est em serem poucos.--Em verdade com cem portuguezes, e sete
centos manillas e cambojas, se fez  vla a esquadra (seis dias depois
da conveno) levando por chefe o destemido Alcoforado, na galera
inconquistavel. Luiz Carlos de Miranda commandava a Pala, Anacleto Jos
da Silva o Indiano, Antonio Jos Gonalves Caroxa, o brigue do Senado,
Jos Felis dos Remedios o navio S. Miguel, Jos Alves o Belisario. Nesse
mesmo dia attacram e dispersaram os piratas, que se retiraram para mais
longe de Maco.

O governo de Canto, no foi activo como o dos macaenses; alm disso a
esquadra chineza nem uma s vez chegou a auxiliar os nossos. Tanto medo
tinham de Cam-pau-sai, que nem ao lado dos portuguezes se atreviam
acommettelo. O governo de Maco vendo assombrada toda a provincia de
Canto, pelo grande vulto, que faziam os piratas, resolveu despresar os
soccorros da esquadra imperial, e anniquilar s o grande poder de
Cam-pau-sai. Mandou pelo chefe Alcoforado intimar-lhe, que se entregasse
 obediencia do imperador, promettendo-lhe perdo, e gro superior na
classe mandarina.

Entraram os chefes am correspondencia: o nosso pedia ao dos piratas, que
viesse a Maco para tractarem de conveno amigavel: declarando-lhe, que
se no conviesse com elle, poria em aco todos os recursos da guerra, e
no descanaria sem exterminalo.

Campau-sai, respondeu:--Tenho presente a vossa carta: no me assusta.
Desejo fazer a paz com os portuguezes, com tanto que no entendam
comigo. Quanto a submetter-me ao imperador, jmais o farei, ainda que me
assegureis e digais o que quizerdes. S no terei duvida no que tenho
acima dito. Quando abraceis esse partido, podeis retirar-vos para Maco,
e mandai-mo dizer para no entender com os vasos portuguezes. Esta
resposta de Cam-pau-sai, firmada no dia 18 de Dezembro de 1809, foi
moderada em razo de ter sido atacado e batido pelos nossos em 11 do
mesmo mez.

Em quanto estas cousas se passavam entre Alcoforado e Cam-pau-sai, deu o
imperador amnistia a todos os piratas, que se lhe entregassem. Apau-tai
receando o valor dos nossos, julgou conveniente entregar-se. Concordou
com os principaes da sua diviso: rendeu-se com cento e trinta
embarcaes bem equipadas de homens e de armas.

Trahido Cam-pau-sai pelo amigo, que mais estimava, ficou magoado por ver
a pouca perseverana dos homens, ainda mesmo os que tem as mais intimas
relaes de interesse, parentesco e amisade; mas era tal o seu animo,
que nenhuma desgraa o intimidava. Mais atrevido ainda mandou apromptar
a esquadra do seu commando a fim de concluir seus designios.

Alcoforado aproveitou-se da cobardia de Apau-tai, attacou, e fez retirar
Cam-pau-sai. Logo depois mandou-lhe dizer, que assim como Apau-tai, o
havia abandonado, assim o fariam os outros seus companheiros; e
diminuidas assim as suas foras seria obrigado a entregar-se
prisioneiro: que era melhor capitular j, alcanando honra e interesse,
como lhe tinha promettido e affianado. A esta segunda instancia
respondeu Cam-pau-sai pelo modo seguinte.

Hontem recebi uma carta vossa mui persuasiva: conheo o desejo que
tendes de me ver em Maco: fico-vos agradecido por to singular obsequio
e estimao.

Estando sobre os mares, como no centro de um reino, no qual empunho o
sceptro do poder, e governana para todos os que me obedecem, vivo muito
occupado. No  simples negocio o governo de um reino: eis o motivo por
que no cumpro o vosso desejo.

Agora todo o meu empenho  restaurar e possuir as terras deste orbe:
assim ficaro completos os meus desejos. Digo-vos ingenuamente este  o
fim a que me proponho. Tenho muitas embarcaes, e mantimentos para
longo tempo: nada me falta. Vendo que me estimaes, por isso vos dou a
conhecer o meu projecto.

Se quizerdes emprestar-me quatro navios para fazer com elles o que me
aprouver, mais depressa restaurarei o imperio. Depois dar-vos-ei duas o
tres provincias a vosso contento. Asseguro-vos a fidelidade da minha
promessa. Se no podeis agora mandar-me os navios seja quando vos
convier.

Ha muitas pessoas, que me aconselham para render vassalagem a um
tartaro! So exortaes baldadas. Possuindo esta esquadra com a divisa
da bandeira vermelha, farei com ella os maiores esforos para restaurar
o imperio. J mandei apromptar a minha esquadra, para se dirigir  bocca
do rio tygre; a fim de bater os imperiaes. Tenho outros assumptos a
communicar-vos, porm agora no o posso fazer. Basta o conteudo desta,
para viveres na intelligencia do meu firme proposito. Dezembro 26, de
1809.

Desenganado Alcoforado de que no conseguia a entrega dos piratas sem
fuso de sangue, comeou de novo a batelos. Os nossos estavam j to
praticos nos canaes das ilhas da China, que os piratas apenas lhe
escapavam nos pequenos rios, onde os nossos vasos no podiam entrar.
Cam-pau-sai usou entreter as embarcaes portuguezas com alguns Tas, em
quanto a dextrava os seus no exercicio da artilharia, tomando por
mestres os americanos inglezes, que tinham aprisionado.

Era to sagaz e ardiloso, que nos encobria seus planos com extranho
recato. Em 21 de Janeiro de 1810, julgou-se em estado de poder vencer a
frota macaense. Pairava esta junto  ilha de Lanto, quando entraram a
levantar do oriente os piratas alinhados em divises. Nesta occasio
obrou o invicto Alcoforado to grandes prodigios, que s poderam ser
cantados antes, pelo nosso Diniz.


              _A fiel ave, que arma vigilante
                    O gro furor a Jove.
              Quando sobre os mortaes os raios chove
                    A dextra coruscante,
              To rapida ao rebanho temeroso
              No cala, a garra abrindo, das estrellas,
                   Como o varo famoso
                   Sobre as immensas velas
                   Cahe de grande ira armado
                   Treando denodado
              A fra espada, e torna em seu estrago
              O azul oceano em roxo lago._[17]


Considere-se uma laga com seis leguas de diametro, semeada de ilhas e
syrtes, onde apenas Galerno encrepava a superficie das aguas. A esquadra
portugueza constando de seis navios, sendo o maior de quatro centas
tonelladas, e o mais pequeno de 120: guarnecidos todos com 120 peas de
artilheria; e 700 homens. A esquadra inimiga, de 300 vasos, com mil e
quinhentas peas de artilheria, e mais de 20:000 homens aguerridos,
commandados por chefe valoroso e desesperado. Neste conflicto o famoso
Alcoforado, treando denodado a fra espada mandou atacar. Foi sentelha
electrica lanada no corao dos seus companheiros. Dirigiram-se os
nossos  vanguarda das columnas inimigas despresando suas hostilidades
at chegar a tiro de espingarda. Nessa distancia uma descarga de
metralha punha em fugida o navio, que a soffria. Alguns mais destemidos
arribavam para sotavento afim de metter os nossos entre dois fogos;
manobra que estes concertavam para lanar-lhes a morte por todos os
lados. O fumo mal lhes dixava vr as embarcaes portuguezas, cercadas
pelas suas. O astuto e bravo pirata, julgava que dividindo os nossos
poderia destruilos; e o chefe portuguez julgando ter Marte em cada um de
seus companheiros quiz dar a todos motivo para demonstrarem a sua
pericia e desmedido valor. Ficaram deste modo os navios macaenses no
centro de cada circulo dos piratas: assim os raios despedidos do centro
levavam  circumferencia o estrago, o horror, e a morte. As balas da
circumferencia, raras vezes acertavam no ponto central: qualquer
desmancho nas pontarias fazia com que empregassem as balas nos seus
mesmos companheiros. Todos os Commandantes portuguezes adqueriram fama
neste dia; mas ha acasos em uma batalha, que fazem uns mais distinctos
do que outros. O navio commandado por _Luiz Carlos de Miranda_, na maior
fora do combate, deu em esclho: Cam-pau-sai, vendo aquelle navio
encalhado, considerou-o em desordem; mandou carregar sobre elle, a ver
se podia principiar o seu triunfo por destruilo. Mas o denodado Miranda,
vendo perigos por todos os lados, resolveu debellar o inimigo, ou no
sar com vida do conflicto. Entre o valor e a desesperao (ultimo
sentimento das almas grandes), disse a seus companheiros:--Creio no
haver entre ns quem regeite a immortal gloria, que este feliz dia lhe
destina: assim faa cada um o seu dever. Mandou empregar a gente da
mareao nas baterias, e diffundindo o seu valor em toda a equipagem,
fez to grande estrago no inimigo, que j este no tinha animo para
acommettelo. Emquanto debellava os piratas, o fluxo das aguas tirou o
navio do esclho.

O Caroxa tambem fez cousas admiraveis. Deparou-lhe o acaso o Ta do
pagode.[Nota 3^a] Logo que assomou o deposito do erro, virou sobre elle;
e emquanto no o lanou no abismo, no descanou. O templo, os bonzos,
os idolos tudo foi submergido no orco. Esta proeza do atrevido Caroxa
lanou o espanto e o horror no espirito de todos os piratas. A vista dos
seus deuses espedaados, e levados,  discrio das aguas, tirou-lhes de
todo o animo: apenas ousaram largar as velas todas, e por entre syrtes
foram abrigar-se na bocca do rio de Hiang-san: logar onde os nossos
vazos no podiam entrar.

No ha cores asss vivas para demonstrar a sua confuso na fugida.
Cam-pau-sai medo ento as foras macaenses ainda mais pelo valor, do
que pelo seu atrevimento. Os nossos cantaram victoria! Mas incanaveis
na destruio do inimigo, no deixaram de perseguilo at  bocca do rio.
Alli formou o previdente Alcoforado apertado bloqueio a Cam-pau-sai. S
o deixou sar para entregar-se.

Cam-pau-sai resolveu entregar-se, mas uma das principaes condies ra
de ser Miguel de Arriaga fiador de tudo quanto se ajustasse no acto de
capitulao; e que s trataria com os imperiaes, estando elle presente.
Logo que o Governo de Maco recebeu esta participao do chefe
Alcoforado, remetteo-a ao Sunt, e este dirigio-a ao Imperador.

Succedeu nesta occasio um facto, que muita honra faz  memoria do
generoso Arriaga. Quando se tratava da entrega dos piratas, chegou a
Maco, um novo _Ouvidor_, e segundo a lei, Arriaga deu-lhe posse do
logar. Mas Cam-pau-sai, e os mandarins, logo que o souberam avisaram o
Governo de Maco, no poderem entrar naquella negociao com o Ouvidor
novo, mas sim com o antigo; j por saber este melhor daquelle negocio,
j porque s com elle Cam-pau-sai capitularia. O Senado e todos os
macaenses desejavam o mesmo; pois ra publica a grande reputao, que
Arriaga havia entre os Chinezes. Foi completa a vontade geral; e  s em
tes occasies, que padecendo a lei exultam os povos. O Ouvidor Peixoto
comeou no exercicio das suas funes: mas o famoso Arriaga continuou a
tractar deste importante negocio.

Em quanto os nossos bloqueavam a esquadra inimiga, e Arriaga ajustava a
capitulao com os mandarins, aconteceu outro facto, que muito honra a
memoria do invicto Alcoforado. Logo que a frota portugueza sao de
Maco, convidou elle o chefe dos piratas para entrar em Maco, e tractar
alli da sua capitulao: mas Cam-pau-sai confiado em suas foras
respondeu pela negativa como fica dito. Agora vendo-se obrigado a fazer
o que ento recusou, pedio ao nosso Alcoforado a merc de honralo com
uma visita para ter o gosto de o conhecer pessoalmente.

Alcoforado mandou apromptar um escaler para satisfazer Cam-pau-sai mas
os seus espozeram-lhe ser grande temeridade entregar-se a um pirata.
Esta lembrana foi acompanhada da responsabilidade, e isso obrigou
Alcoforado a chamar os commandantes das mais embarcaes,
communicou-lhes o convite de Cam-pau-sai, e a deliberao, que havia
tomado. Todos acordaram com os Officiaes do seu navio, menos elle, que
fallou da maneira seguinte.--Grande  meu contentamento por ver o
empenho, que fazeis para no me arriscar nesta visita; seja por
estimardes a minha existencia, ou por julgardes em mim algum prestimo.
Confesso-vos, que to grande  o vosso empenho, quanto mais firme se
torna a minha resoluo: j porque recusando este convite ficar mui
cerceada a nossa reputao j porque seria o primeiro signal de fraqueza
da esquadra Macaense: se for trada a minha boa f, tereis novo
incentivo para anniquilardes o inimigo vingando-me. Asseguro-vos que
vendo-me Cam-pau-sai, em seu navio, de corao socegado e alma firme,
tremer de vs--Todos o escutavam com atteno: e s ultimas palavras
cada um desejava ser Alcoforado: Mas a gloria de sacrificar-se pela
honra da Patria, e pela humanidade, s a ella pertencia, naquella
occasio. Despedio-se e partio para a esquadra inimiga. Assim que passou
a primeira embarcao da vanguada[Nota 4^a]:


               _Sonorosas trombetas incitavam
               Os animos alegres resonando:
               Dos_ Chinas _os bateis o mar coalhavam,
               Os toldos pelas aguas arrojando.
               As bombardas horrisonas bramavam
               Com as nuves de fumo o sol toldando._[18]


Ao chegar Alcoforado ao navio de Cam-pau-sai, veio este recebelo ao
portal, e o conduzio pela mo  camara. Alli trocram as mais apuradas
civilidades. Cam-pau-sai, estudando o modo de obsequiar o nosso heroe,
no achou outro mais capaz de lisongear a sua alma, do que offerecer-lhe
pela honra, que lhe tinha feito, a liberdade de todos os prisioneiros
europeos, que tinha em sua esquadra. O presente foi recebido com
demonstraes proprias de captivar o offerente pelas cadas da amizade.
Cam-pau-sai assegurou-lhe, ser ento o seu maior empenho no o ter por
inimigo; pois havia experimentado o valor dos portuguezes.

Demonstrou, que arriscando uma batalha, poderia ter a vantagem de sar
do bloqueio com as embarcaes mais veleiras, para onde no podessemos
incommodalo; porm que a honra daquella visita o tinha penhorado de
modo, que estava resolvido a entregar-se com toda a esquadra; vista a
promessa que lhe fizera o ministro Arriaga, de quem formava alto
conceito, e a quem de boa vontade se rendia.

Alcoforado afianou a promessa do ministro, mostrando-se pesaroso em no
depender s delle a capitulao para em tudo a fazer a contento de
Cam-pau-sai. Disse mais:--como chefe da esquadra macaense, tenho ordem
para destruir a vossa, se tentardes sar daqui: e serei obrigado a
fazelo por ser usana portugueza romper as linhas da amizade, quando
assim o urgem as precises do estado. Espero de vs no ter occasio
para rompelas. Assim o prometteu Cam-pau-sai; e o nosso Alcoforado,
levantou-se:

Lembrai-vos de como se despedio Luiz XI, quando visitou o nosso Affonso
V;[19] ajuntai-lhe os requintes das ceremonias asiaticas, e julgai da
separao destes guerreiros; no querendo ceder um ao outro a primasia
em affectos delicados. Com tudo no pde Alcoforado impedir a
Cam-pau-sai, de acompanhalo at ao escaler em que partio para a sua
frota. Ao entrar nella salvaram todos os navios, e os marinheiros
subiram s vergas para todos a um tempo lhe darem os emboras.

Em quanto os chefes se visitavam cuidava-se em Maco; no ponto, onde se
faria a entrega da esquadra inimiga, visto ser da vontade de
Cam-pau-sai, entregala aos portuguezes. Lucas Jos de Alvarenga,
governador militar daquella cidade, obstou a que os macaences tivessem
mais esse dia de triunfo. Temeu gente, que estremecia s de ouvir fallar
das faanhas portuguezas[20]. Assim foi Arriaga obrigado a concluir este
importante negocio fra de Maco.

Avisou os mondarins, _Chu_, e _Pom_, que viessem ao pagode[21]:
ajustaram alli, que o logar do congresso seria na villa de Hiang-san e
fizeram aviso aos delegados do imperador para se acharem alli em dia
aprazado. Juntaram-se os mandarins do destricto, os mandarins da crte,
e o nosso Arriaga, que foi recebido entre elles com singular distinco.

J o congresso deliberava sobre a capitulao, quando chegou de Maco a
relao do que se tinha passado entre os chefes das esquadras. A ousadia
do atrevido Alcoforado no s penhorou Cam-pau-sai, mas tambem os
mandarins, que pasmados do que ouviam, ficaram por algum tempo notando o
gesto e maneiras com que o magnanimo Arriaga captivava as suas vontades.

Tornando o congresso de novo os seus trabalhos, caminhou o negocio com
mais rapidez; pois dalli em diante estavam os mandarins quasi sempre de
accordo com o nosso ministro. Convieram em mandar a Cam-pau-sai, que
viesse com sua esquadra para Chumpin, onde elles se deviam tambem
reunir: e ordenaram ao chefe Alcoforado, que levantasse o bloqueio. As
ordens foram derigidas a Cam-pau-sai, em direitura, e a Jos Pinto
Alcoforado, pelo governador de Maco: homem pouco experiente dos
costumes chinezes, e cobarde, por isso demorou a ordem do congresso. No
dia seguinte recebendo Cam-pau-sai, a que lhe fora dirigida, levantou
ancora e principiou a velejar para fora. Alcoforado, ignorando as ordens
do congresso, e vendo a esquadra inimiga em movimento, mandou suspender
a sua, e manobrar de modo hostil. Cam-pau-sai, percebeu logo haver
desintelligencia: ordenou  sua frota, que amainasse e surgisse.
Sabendo-se no congresso da imprudencia do timido Alvarenga, dirigio-se
Arriaga a Maco para animalo, e os delegados do imperador tomaram a
resoluo de ir  esquadra portugueza certificar ao chefe o que se tinha
tractado com o ministro.

Assim que o nosso Alcaforado vio em sua embarcao dois chinezes de
cabaias amarellas, conheceu a gerarquia dos hospedes; por ser cr
privativa da familia imperial. Tractou-os com a cortezia devida 
civilidade chineza. Rogaram ao chefe portuguez, no compromettesse a
palavra de Arriaga, nem a delles, para com o chefe dos piratas, a quem
tinham mandado dizer, que velejasse para Chumpin, e a elle Alcaforado,
que o deixasse sar; que a inexperiencia do governador, no devia
embaraar a execuo dos poderes dados pelo Senado ao ministro Arriaga.

Alcoforado respondeu:--apreco muito a honra, que me fazeis--e desejo,
ainda mais, ser-vos util: porm as leis militares entre ns executam-se
sem discrepancia. Tenho ordem do governo para bater a esquadra inimiga,
se tentar sar, em quanto no houver outra em contrario, no posso
deixar de fazelo.

Os mandarins tornaram-lhe:--Homem recto e valoroso, conhecemos os
servios que tens feito ao imperio, e  tua nao: no offusques essa
gloria deixando outra vez as costas da China cobertas de piratas.
Cam-pau-sai ainda tem grandes recursos: no o irrites. Grande parte da
provincia de Chin-cheu segue o seu partido: sabes que  povoada de
homens marcantes, robustos, e denodados; a gente creada sobre as ondas 
audaz, e ardilosa; em pouco tempo equiparo outra esquadra para
obrigar-te a levantar o bloqueio; assim apezar do teu valor, e do
esforo macaense, teremos guerra eterna. Pedimos-te, pelo que mais
estimas, modefiques as ordens que tens, a fim de Cam-pau-sai no
desconfiar da nossa palavra.--Nesta occasio chegou a ordem de Maco,
por diligencia de Arriaga, para Alcoforado levantar o bloqueio, e seguir
Cam-pau-sai para Chumpin. Mui contentes ficaram os mandarins: partiram
satisfeitos para o logar do congresso, onde j acharam o nosso Arriaga.
Mandou-se nova ordem a Cam-pau-sai; no dia immediato surgio no logar
aprazado.

Mandou-se a bordo cumprimentar o chefe dos piratas, e convida-lo a
entrar no congresso, onde devia firmar a sua capitulao. Promptamente
chegou: ao entrar na salla dos congregados, conheceu por vestiario e
gesto, o nosso ministro: dirigio-se a elle e fallou desta maneira.

Grandes motivos me fazem render e tractar comvosco da minha capitulao,
para entrar na classe dos Colos, como mo promettestes pelo imperador.
Mas confesso-vos, que o principal foi conhecer o fulcro da lavanca
destruidora do meu poder. J vos vi: estou satisfeito. Devo muito 
natureza, e  minha assidua applicao; mas em tudo me acho vencido por
vs.--E virando-se para os mandarins:--Tendes por experiencia de 14
annos, quo poderoso e vigilante foi o meu sceptro: sabei agora da minha
bocca, que o valor portuguez foi quem o destruira. Aqui me tendes em
vossa presena: espero que me trateis como a homem livre, e destemido--E
tomou assento.

Disseram-lhe que para exemplo era preciso castigar alguns dos seus, que
fossem mais criminosos.--Para satisfazer a esse requisito, darei os
nomes de 14 faccinorosos, que existem na esquadra. Paguem com suas
cabeas as atrocidades que fizeram, e eu desaprovei.--Sendo este o unico
embarao que havia, concluio-se o negocio.

Cam-pau-sai declarou ter ainda uma diviso de 80 embarcaes, que antes
de vir attacar a esquadra macaense, tinha mandado para Chin-cheu receber
os tributos do anno passado; mas que por aviso seu viriam entregar-se.

Ordenadas assim as cousas principaes, tractaram da forma porque se devia
repartir a preza; visto so ser o artigo 1.^o da conveno preenchido
pelo Governo Chinez; e ter s a esquadra macaense reduzido Cam-pau-sai a
capitular.

J o Ministro Arriaga tinha mostrado aos Chinezes, quo valoroso e
sensivel ra o seu corao; mas ento quiz mostrar-lhe quanto ra
liberal. De tudo quanto existia na esquadra de Cam-pau-sai, exigio a
melhor parte das bombardas: tudo o mais deixou  disposio do
Imperador. Os companheiros de Cam-pau-sai ficaram cidados chinezes;
elle Colo do Imperio; e as cabeas dos 14 criminosos, para exemplo dos
malevolos, foram espetadas em paos no istmo que devide, a cidade, da
ilha de Maco, onde ficaram at serem consumidas pelo tempo.

Concluida a capitulao, disse Cam-pau-sai, ao Conselheiro
Arriaga:--Ainda tenho um favor a pedir-vos. Pertendo ir a Maco, se me
concederes licena, para ter o gosto de ver todos os meus vencedores--O
Ministro agradeceu: e dissolveu-se o congresso, saindo todos os seus
membros cheios de alegria e admirao: Arriaga, da inexplicavel
civilidade e sciencia dos mandarins da crte, ou colos! Cam-pau-sai, da
pessoa, e do espirito de Arriaga! Os colos! de Cam-pau-sai, e de
Arriaga! Tudo lhe parecia prodigioso. Mal podiam capacitar-se de ver
livre o imperio do flagelo, que o tinha assolado em 14 annos continuos.

Assim que Arriaga entrou na cidade, tractou do triumfo dos heroes
macaenses, que ra ao mesmo tempo o seu. A caza deste illustre varo
tinha para elles a mesma considerao, que o Capitolio para os romanos.
No foi este triumfo to aparatoso no exterior como os de Cesar, ou o de
D. Joo de Castro em Goa. Mas os coraes de todos os habitantes de
Maco exultavam de prazer at alli nunco visto nem sentido.[Nota 5^a]

Em Maio chegou a Canto a noticia de no querer entregar-se a diviso
rebelde, despresando a ordem do seu antigo chefe. Avisou-se a
Cam-pau-sai da conducta dos piratas, e Pedio-se-lhe o desempenho da
palavra dada no acto da capitulao. Respondeu:--Rebellada a diviso a
primeira vez contra a minha ordem no devo mandar-lhe outra. Tenho
recurso mais prompto. Dai-me sessenta embarcaes das que foram minhas,
deixai-mas tripolar com os que j me obedeceram; e se no trouxer os
rebeldes dou a minha cabea. Lembro-me que podeis desconfiar da minha
palavra: deixarei em refens o que possuo de mais apreciavel; dois filhos
que me deu a natureza. Se sois pai, avaliareis a qualidade do penhor.

O Sunt: apezar das demonstraes de firmesa e honrada conducta de
Cam-pau-sai, recusou entregar-lhe a esquadra que elle pedia. Mandou
apromptar uma frota imperial de perto de duzentas embarcaes, e bem
equipadas com parte dos instrumentos de guerra que tinham sido de
Cam-pau-sai. Sao esta de Canto e foi encontrar o inimigo. Em pouco
tempo veio entrar em Maco fugida, e derrotada pela diviso rebelde.
Chegando esta noticia a Canto, o Sunt mandou perguntar ao Conselheiro
Arriaga, o que deveria fazer cerca do offerecimento de
Cam-pau-sai.--Que se estivesse no seu logar, tornou Arriaga, tinha
aceitado os servios de Cam-pau-sai, logo que elle os offereceu, sem lhe
tomar refens; pois esperava delle tudo quanto  proprio de honralo, e de
utilisar ao imperio.--

O Sunt com tal resposta, mandou entregar a Cam-pau-sai sessenta
embarcaes, e tudo quanto pedio. Largou o novo Almirante de Canto
deixando a todos em expectativa. Dirigio-se a Maco, onde estava tudo
prompto para recebelo. Em dia assignalado foram os commandantes da nossa
esquadra[Nota 6^a] com os bons moradores da cidade a caza do Ministro
Arriaga. Ainda bem o no tinham cumprimentado, annunciou-se a entrada de
Cam-pau-sai. Foi conduzido  Sala. Acabadas as civilidades requintadas,
segundo o costume Chinez disse:--Deus immortal, esto completos os meus
ultimos desejos, vendo e abraando heroes to sublimados--Brilhava o
jubilo no rosto de todos vendo Marte humilhado em sua presena.--Acha-se
neste circulo o valoroso commandante da Lorcha Leo? Desejo
conhecelo--Aqui me tendes respondeu o _Caroxa_. Cam-pau-sai caminhou
para elle, abraou-o: e virando-se para o Ministro disse:--Este homem
fez mais damno ao meu poder, do que toda a vossa esquadra. Eu fui
vencido: mas quem disputando a gloria aos portuguezes dirigidos por vs,
ficar victorioso. Cedo vos mostrarei como veno a outra gente.

--Tenho conhecido em vossas aces, disse Arriaga, que sois varo
assignalado. Agradeo-vos por todos o alto conceito, que de ns fazeis:
affirmo-vos ser o maior premio de nossas fadigas, ter-vos elevado 
ordem dos Colos, onde fareis a ventura da vossa patria, e as delicias
do Imperador. Imitai os vossos vencedores promptos sempre a dar a vida
pela restaurao da gloria nacional, pelos seus direitos, e pelos do seu
Monarca legitimo. Lembrai-vos de todas as aces que lhes vistes
praticar:[Nota 7^a]


             _E julgareis qual  mais excellente,
             Se ser do mundo rei, se de tal gente._[22]


Se a liberdade, a propriedade, e a segurana so as unicas linhas, que
prendem os homens  terra onde habitam, e ao rei; seno ha amor de
patria, onde no existem estas vantagens; julgue-se pelo amor dos
Portuguezes ao rei e  patria, das qualidades do Senhor D. Joo VI. Paga
o amor que lhe temos usando do seu poder, para oppr barreiras fortes, e
dar remedio s paixes dos subditos, sem que possamos conhecer as suas
proprias paixes.[23]



                   _Do vosso nome um gro Rei
                   Neste reino Lusitano
                   Se poz esta mesma lei:
                   Que diz o seu Pelicano
                   Pela lei, e pela grei_[24]


Em todo o tempo, que esteve em Maco o celebre Cam-pau-sai, foi
surprendido pelas maneiras singulares com que o obsequiou o ministro
Arriaga: mas foi obrigado a sar de Maco para em breve desempenhar a
sua commisso. Em poucos dias encontrou a diviso rebelde, a quem fez
saber que era o Almirante da esquadra imperial pela seguinte:


                            _Procclamo_.

Camaradas e amigos, sei que duvidastes da minha ordem: fizestes bem.
Lembrastes-vos sem duvida, que era falsa; ou eu ter sido obrigado pela
fora a escrevela. No: assignei-a por minha vontade. Se ainda o
duvidais, vinde ouvilo da minha bocca. Dir-vos-hei tambem os motivos,
que me fizeram render. Neste mundo ha dois caminhos a seguir, o do bem,
ou o do mal. Todos desejamos seguir o do bem, mas somos muitas vezes
lanados pelo erro em precipicios. Em outro tempo vos aconselhava eu a
seguirdes o meu partido; mas ento ainda eu no havia encetado o caminho
do bem. Hoje conheo que marchava pela estrada do erro, afastado da
vontade do maior numero. O imperio tem povoao summamente grande; e o
nosso partido a seu respeito  summamente pequeno. No podeis negar-me,
que  preciso haver desmedida ambio nos poucos, que pertendem
apossar-se do que  de muitos. No  conforme s leis do imperio, nem s
do entendimento supremo. Todos devemos concorrer para a felicidade dos
outros homens; e no caminho em que andavamos deivairados, faziamos a sua
desgraa[25]. Exposta assim a verdade a vossos olhos, espero no
duvideis abraala; e quando useis tenacidade, em vosso erro,
experimentareis pela primeira vez o meu rigor.

Os rebeldes no attenderam s rases de Cam-pau-sai: julgando-se
superiores em fora, cresceu, a sua audacia; responderam com despreso.
Cam-pau-sai dispoz os seus de tal sorte, que dando sobre os rebeldes, em
poucas horas os que no se afundaram, ficaram prisioneiros. Navegou com
elles para Maco; a fim de mostrar ao ministro Arriaga, e a todos os
macaenses, a verdade do que lhe havia dito.

Entrou alli a diviso rebelde em estado to deploravel pelo estrago
soffrido no combate, que levou muitos dias a concertar para ir a Canto.
Cam-pau-sai largando o nosso porto, dirigio-se  _bocca do tygre_. Alli
encontrou o mar cheio de embarcaes, que tinham vindo para o levar em
triumfo ao Sunt.  inexplicavel o contentamento, que o povo d'aquella
cidade teve nessa occasio. O Sunt obsequiou Cam-pau-sai de modo, que
se o imperador viesse a Canto, no haveria mais nada a fazer-lhe para
honra-lo. Dirigio  crte to grandes recommendaes cerca do novo
Almirante, que o imperador mandou, que fosse a Pekim, para ter o gosto
de velo.

Partio Cam-pau-sai; e foi dando interessante espectaculo a todas as
villas e cidades, por onde passava. Todos ambicionavam ver o chefe dos
piratas (que tanto havia assustado o throno e o imperio) tornado uma das
pessoas mais interessantes ao mesmo imperio. Assim que entrou na capital
foi apresentado ao imperador: teve com elle larga conversao: depois
houve conselho de estado, em que foi Cam-pau-sai um dos seus membros.
Emprego superior aos ministros de Estado.

Pode-se julgar por este facto, qual  a politica do Governo Chinez. J
no tinha que temer no mar; com tudo premiou Cam-pau-sai, no s para
cumprir o que havia promettido, mas tambem para se approveitar dos seus
conhecimentos e qualidades relevantes.[26]  provavel, que em quanto
elle for Conselheiro de Estado, no hajam piratas nos mares da China.
Tem adquerido to grande reputao na crte, que no s os particulares
mas tambem o Imperador o tracta com singular distinco.

Por mais que sejam plausiveis os motivos da guerra, sempre offende:
ainda custando s a vida de um homem, assim mesmo  funesta. A estatua
do vencedor  sempre banhada de lagrimas pelos vencidos. Todavia esta
guerra foi differente. Obrigados os macaenses por _Ladres_ a defenderem
as vidas e a fazenda, mediram as foras mais pelo valor, do que pelo
numero; atacaram e venceram. Castigando malvados, lanaram todos os mais
ao seio da patria, nos braos de seus irmos. Em logar de pranto de
vencidos, derramaram lagrimas de prazer trocando trabalhos e miserias
por vida socegada. Nesta guerra sempre os nossos attenderam mais 
humanidade, do que  vingana: fra do conflicto das batalhas, no
houveram crueldades.

Quando o generoso Arriaga exigio, no acto da capitulao, a melhor parte
das bombardas de Cam-pau-sai, foi com intento de presentear com ellas ao
Senhor D. Joo VI. Recolhendo-se a Maco, declarou o seu projecto no
Senado que de boa vontade assentio.

J em 1642 o senado de Maco mandra a El-Rei D. Joo IV, as bombardas
tomadas aos hollandezes, para com ellas romper de todo o jugo dos
Filippes. O mesmo senado em 1811 mandou ao Senhor D. Joo VI, a
artilheria tomada aos piratas da China, no s para mostrar-lhe a grande
fora do inimigo vencido, mas tambem para com ella debellar as falanges
de Bonaparte.

A cidade de Maco tinha perdido muitos dos seus privilegios. Os
chinezes, esquecidos do que os nossos antepassados tinham feito em
beneficio de seus maiores, j comeavam a ver os portuguezes com a mesma
indifferena, com que olhavam para os outros europeos. Mas a serie de
factos brilhantes, paraticados no espao de cinco annos, fizeram reviver
a nossa antiga reputao naquelle imperio.


                                [Figura]




                             _Nota_ (1.^a)

Lendo a pagina 253 da relao abbreviada da viagem de La-Perouse, as
falsidades alli escriptas em desabono dos Macaenses, no posso deixar de
as repelir. Comea dizendo no ter espresses para louvar o Governador
de Maco. A paginas 255 rompe:--De grande importancia seria Maco a uma
nao justa, e que tivesse firmesa e dignidade, contra o Governo Chinez,
injusto, oppressor e cobarde! Alli diz que o Governador de Maco ra
optimo, aqui o Governo Portuguez no  digno, nem justo; e o Governo
Chinez,  reputado por elle o peior do mundo!

Se La Perou-se pertendeu fallar do Governo Portuguez em relao a Maco,
tambem no foi exacto. Que mais poderia fazer El-Rei, ou os seus
delegados, do que nomear, para governar Maco, um homem, que segundo o
juizo do mesmo La Perouse, estava prompto a sacrificar-se pela honra da
nao? La Perouse, queria achar nos Macaenses firmesa, que desse a todos
os europeos liberdade para irem  China quebrar as leis do Imperio como
elle mesmo fez desembarcando pelles por contrabando. E atreve-se a dizer
que o Governo Chinez  injusto, oppressor e cobarde! Como se podero
avaliar os costumes e o caracter das naes pelo juizo de taes
escriptores? A Nao Chineza  independente; no quer ter communicao
com os Europeos; renunca a ganancia do commercio exterior pelo socego
do Imperio. Todavia Le Perou-se, e outros europeos queriam achar em
Maco homens que fossem agriolhar em Pekim o mesmo Imperador! Vesse
nesta memoria pelos judiciosos discursos dos Mandarins, quo falsas e
injustas so as invectivas de La Perouse contra os Chinezes e Macaenses.


                             _Nota_ (2.^a)

Quando louvo Ferno Peres de Andrade e outros navegadores e guerreiros,
tomo por base a justia e as suas virtudes. Jmais escreveria este
opusculo, se a guerra feita aos piratas no tivesse por fundamento a
defesa natural, e o bem estar dos povos constituidos em sociedade.

Desta guerra resultou grande beneficio  humanidade. Eu louvo s os
Portuguezes que em pocas mais felizes, para ns, se conduziram com
valor e dignidade; e os que em nossos dias os imitam. Afonso de
Albuquerque foi respeitado ainda mais pelas suas virtudes perfeitas e
pela justia, que praticava, do que pelo extremado valor.


                             _Nota_ (3.^a)

Era Cam-pau-sai to extremoso em ardiz, que no lhe escapou de enredar
os seus no fanatismo para mais devotamente chegar aos fins dos seus
designios. Logo que os interesseiros bonzos lhe afianaram o bom
resultado da empreza, lanou mo desses instrumentos do erro, que
degradam o homem para a classe dos brutos fazendo-os tirar o carro dos
conquistadores quasi sempre seus verdugos, mandou erigir-lhe um pagode
na maior embarcao, e deu o commando della ao Capito mais
experimentado para defender de todo o risco o templo dos idolos.

Aqui temos Cam-pau-sai, pescador dos mares da China feito protector dos
bonzos, e reputado seu chefe.

Deram passos to agigantados na estrada da superstituio, que j no
faziam guerra nem paz sem consultar o oraculo. Saam todos os
commandantes de seus Tas para irem quelle onde se achava o pagode
incensar os idolos, e ouvir do oraculo o que deviam fazer; isto  o que
o chefe dos piratas havia concertado com o principal dos bonzos.

Estes delirios julgados propicios aos seus intentos, eram favoraveis aos
nossos. Em quanto elles praticavam taes momisses, o valor macaense
anniquilava pagode, idolos, bonzos, e supersticiosos.


                             _Nota_ (4.^a)

Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de
eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo
de Mr. Arago, d bem a conhecer o caracter do nosso heroe.[27] Eis como
elle o pinta.

--Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.[28] Dir-te-hei o modo porque
fomos hospedados. s protestaes de amisade cheias de franqueza, a
maneiras honestas e frequente agrado,  difficil ajuntar mais polidez,
nem mais desvelo para obsequiar-nos. Desde o primeiro dia a generosidade
do Governador, mandou  nossa meza, com profuso, os manjares mais
delicados. Queria mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os
patricios dos maiores sabios do mundo.

Jantares sumptuosos, presididos pelas aafroadas bondades do paiz,
cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a galantaria, mais
franca e mais activa, faziam desapparecer as horas, que voam nas azas do
prazer.

O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua
generosa affeio: fez acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia no
lhes dar valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se Jos Pinto
Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de
conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo para Timor, pelo que
nos deu a entender, procedeu de causas politicas.[29] Ocupou-se com
desvelo em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua administrao 
doce. Os Rajaz no so aviltados pelo despotismo como succede em
Coupang. Pelo contratrio so tratados com amor.--

J, em outras ras, menores virtudes de outro Souza foram assim
cantadas.


           _Le gnreux Souza, qui sut domter l'amour
           Dans ces climats ardens o son feu nous dvore,
           Et q'aprs Scipion la vertu nomme encore._



                             _Nota_ (5.^a)

No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito cidado Jos
Baptista de Miranda e Lima as virtudes do nosso Arriaga pelo modo
seguinte:


                  sombra de frondifera oliveira,
              Por ti, ha tanto tempo, desejada,
              (Graas ao creador Omnipotente.)
              Te vejo, cara patria[N1] reclinada.
                 No pelago espaoso, que te cerca,
              Ja no vs tremular hostis pendes[N2].
              No ouves rebombar os horisontes[N3]
              Com horrorosos tiros de canhes[N4].
                De salitroso p[N5] que antes servia
              Para ao longe mandar lethaes pelouros
              Se ferreos tubos hoje tu carregas[N6],
               s por festejar c'os seus estouros.
                Centenares de Tas[N7] prenhes de tygres,
              Que ao p de ti rasgavam cruelmente[N8]
              Meninas e donzelas delicadas
              A teu Pai sujeitou[N9] o Eterno Ente.
                Teu benefico Pai, o Arriaga[N10]
              Estes tygres de Hyrcania domou
              E a frondente oliveira, que te cobre,
              Cortando mil obstaculos, plantou.
                Jmais pois riscaro da fantasia[N11]
              O nome deste Heroe da lusa gente:
              E agora, que celebras seu triumfo,
              De verde palma vai cingir-lhe a frente.
                Da victoria este emblema para ornares,
              Lindas flores procura designantes
              D'aquelles predicados appreciaveis,
              Neste filho de Lisia mui brilhantes.
                O louro girasol, que sempre segue
              O planeta, que os outros illumina[N12]
              Designa a bem notoria lealdade
              Do nosso Heroe  prole Bragantina.
                Os rubros amaranthos, que resistem
              Ao vento,  calma, ao gelo, symbolisam
              A intrepida constancia nas empresas[N13],
              Que o nome de Arriaga immortalizam.
                A candida aucena, que dispende
              Liberalmente o corceo, de que gosa
               symbolo do seu singello peito[N14],
              Emblema da sua alma generosa.
                O Lirio, que nascendo d'alta vara,
              Sendo rei da florida monarquia
              Para baixo a sublime frente inclina,
              Sua clemencia designa, e cortezia[N15].
                Das mais virtudes symbolos procura
              N'outros lindos matizes dos jardins;
              No te esqueas das rosas rubicundas,
              Dos junquilhos, dos cravos, dos Jasmins.
                De ti receba agora esta cora
              Bem que inferior ao seu merecimento;
              Em quanto outra melhor se lhe prepara
              No reino superior ao firmamento.


_Notas de Antonio Francisco de Miranda e Sousa, Deo da S de Maco._

[N1] 1.^a A patria  a cidade de Maco.

[N2] 2.^a As bandeiras vermelhas e pretas das duas columnas inimigas.

[N3] ?

[N4] 4.^a Mil e oitocentas bombardas de diversos calibres entregou
Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas.

[N5] 5.^a Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em Maco
em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos.

[N6] 6.^a Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se
celebrava o triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus
contornos, a melhor parte do povo da cidade.

[N7] 7.^a Embarcaes de guerra. Cam-pau-sai entregou 3800 homens,
Apautai 2000.

[N8] 8.^a S no canal de Hiangsan mataram mais de 15000 pessoas.

[N9] 9.^a Entrega de Cam-pau-sai  benevolencia de Miguel de Arriaga,
seu medianeiro para com o imperador da China.

[N10] 10.^a Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de Maco.

[N11] 11.^a O nome de Miguel de Arriaga ser lembrado no s na ilha de
Maco mas tambem no imperio da China, pois o Sunt o mandou gravar em
seus annaes para haver delle eterna memoria.

[N12] 12.^a Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para
dirigir o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes no
arrebatarem esta cidade  nao portugueza.

[N13] 13.^a Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns que mofaram da
empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a victoria.

[N14] 14.^a A candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao
Sunt. S o nosso Arriaga foi capaz de conciliar amizade entre aquelles
desavindos.

[N15] 15.^a Despresando difficuldades tratou sempre em Maco os mos,
com a mesma clemencia que usava para com os bons, e tudo isso nascia da
sua nobreza de corao e das altas e perfeitas virtudes que possuia.

Em recompensa de to relevantes servios o conservou El-Rei D. Joo VI,
na ouvidoria de Maco, sem limete de tempo, e d'ahi nasceram seus
imfortunios, e sua morte prematura.


                             _Nota_ (6.^a)

Entre os nossos heroes no haviam grandes patentes: a mais subida era a
do chefe, Jos Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa: Capito de
artilheria. Em verdade para obrar grandes cousas no so precisos gros
elevados. No tempo dos Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram
prodigios custosos de crer, por extraordinarios, tambem foram praticados
por homens, que sabiam honrar-se com o gro do seu nome!

Para no ser extenso fallei s dos macaenses, que fizeram aces
extremadas. Se mencionasse todos os que nos cinco annos da guerra contra
os piratas, obraram cousas uteis, faria mui grosso o volume; porque
muitos foram elles, e todos merecem elogio.


                             _Nota_ (7.^a)

Quando os governos no excitam os homens  gloria, os concidados tem em
pouco a estimao publica. A maior parte dos homens so como o
negociante avaro: se armam no  com esperana de immortalisar seu nome.
Unicamente sensiveis ao ganho temem, que o navio se afaste do caminho j
sulcado; por este sabem elles no haverem novas terras para descobrir.
Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal for levado a
ilha desconhecida, e obrigado a surgir, no a explore nem reconhea os
habitantes: tome agoa e largue as velas ao seu destino sem lhe importar
descobertas[30]. J no ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo,
unicamente invejosos de honras, empregos, e riquezas poucos homens
embarcam a fim de explorar a naturesa[31]. Todavia o governo de Maco
provou o muito que tinha excitado os seus concidados  gloria. Estes
para merecela, no receberam penses, arriscaram a vida e prestaram a
fazenda. Graas aos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo
desinteresse que mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques.




                             SEGUNDA PARTE.


                      INVASO DAS TROPAS INGLEZAS
                                EM MACO
                             E SUA RETIRADA.




                        PROLOGO DA SEGUNDA PARTE.


A Virtude  o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos de fazer
mal; no privar pessoa alguma das vantagens que desfructa; dar a cada um
o que  devido; e promover a felicidade dos outros em geral. O homem s
merece o nome de virtuoso se contribue para a utilidade e segurana da
sociedade.

A primeira das virtudes sociaes  a humanidade; esta pode considerar-se
o centro comum de todas as outras. Ella d aos entes da especie humana
direitos sobre o nosso corao. Sim ella tem por base a sensibilidade, e
esse sentimento dispe-nos a fazer aos outros todo o bem de que as
nossas faculdades so capazes. Seus effeitos so o amor, a beneficencia,
a liberalidade, a indulgencia, e a piedade.

Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o amor
da patria; isto , produz a necessaria affeio nacional.

A fora deve s respeitar-se como virtude; quando defende a sociedade em
que vivemos, quando se acha acompanhada de grandeza d'alma, valor, e
moderao. A actividade tambem deve entrar na ordem das virtudes
sociaes; as quaes tem por objecto o bem da sociedade devem ser efficazes
e no inertes como outras quimericas e falsas, introduzidas pela
impostura, ou fanatismo. A sociedade s agradece aces proveitosas: s
essas merecem a sua estimao e reconhecimento.

A justia  o vinculo da unio social; sustenta a balana em equilibrio
entre os membros da sociedade; remedeia os males que resultam da
differena que a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma
desigualdade ao bem geral. A justia pelas leis da equiedade e sbia
distribuio do premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e
chama  ordem os que so tentados a obrar contra os entes da sua
especie.

Taes so as disposies que a sociedade deve exigir dos seus membros;
tudo nos mostra a sua utilidade; so necessarias e invariaveis; pois tem
por fundamento a natureza e as precises constantes da especie humana.
Faltando a justia no ha ventura na sociedade; sem ella o estado social
torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem.  melhor viver s
do que rodeado de homens injustos.

A temprana  igualmente necessaria: a prudencia nasce da razo ou da
experiencia das cousas. A razo eleva o homem s causas, ensina-lhe a
estudar a sua influencia, e a prevr os effeitos. Sim, a razo compara
os objectos, e despoja-os de apparencias falsas; e aproveita-se do
preterito, e do futuro para no sar da meta conveniente na occasio
opportuna.

Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da
sociedade; o seu maior cuidado  fazer gosar os cidados, em paz e
socego, o fructo dos seus trabalhos; conservalos exemptos dos vicios
internos, e das invases externas. O Senado de Maco firme nestes
principios, e sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam
aquelle nosso estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam
esbulha-lo da sua psse, ou perturbar o socego publico.

Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador de
Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Maco, ainda que elles
diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o Senado
desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta.

Assim firme em sua resoluo, sustentou entre os Chinezes e os
britanicos a seguinte correspondencia.




                           SEGUNDA PARTE


Assim que o Almirante Drury aportou em Maco, remeteu uma intimao de
Lord Minto, a Bernardo Aleixo (Governador de Maco)[32] e mandou Robert,
(primeiro sobrecarga da companhia) em deputao ao Governador. Robert
fallou neste espirito.[33]

--Sou mandado pelo Almirante Drury participar-vos, que o seu intento 
empregar as foras do seu commando na defeza de Maco, contra os
francezes! A explicao desta medida feita a V. Exc. por Lord Minto
dispensa-me de repetir os motivos porque o Governo Britanico assim
procede.

O Almirante est disposto a conferir com vosco antes do desembarque das
tropas: com tudo  preciso que o Senado esteja tambem disposto a
cooperar com os inglezes para a segurana desta cidade e do commercio;
se o plano proposto no tiver effeito por motivo do Senado, o Almirante,
a seu pesar; ter conducta opposta.

[Nota: Setembro 11]

 para notar o ameao que faz o sobre carga na primeira entre vista!

 grato ao meu corao, tornou Bernardo Aleixo, ver o empenho que tomais
em defender as possesses lusitanas: com tudo pela intima alliana dos
nossos monarcas, pelas ordens que tenho do Sr. D. Joo VI, e pelos
tratados feitos com os Chinezes, no devo consentir no desembarque das
vossas tropas, sem ordem superior.

[Nota: Septembro 12.]

No posso duvidar, replicou Drury, da vossa franquesa nem da convico
em que estais da intimidade dos nossos monarcas: sou sensivel  situao
em que vos achaes: comtudo previno-vos, que pela grande distancia do
logar donde podeis receber ordem superior, no a tereis to cdo, como 
de meu dever cumprir o que me foi determinado por Lord Minto. Para a
concluso deste negocio desejo ter uma conferencia com vosco.

[Nota: Septembro 13.]

No s na primeira participao, mas tambem na primeira replica teve o
Senado motivo bastante para desconfiar das intenes britannicas; por
tanto officiou ao Almirante pelo modo seguinte:[34]

Suppondo-vos certo da razo que me assiste para no alterar as ordens
que tenho; devo lisongiarme da vossa persuaso tanto da lealdade no
desempenho dos meus deveres, como da certeza em que estou da intima
alliana dos nossos monarcas: assim espero que modifiqueis as instrues
de Lord Minto, em quanto no chegam ordens do Brazil, ou de Goa. Eu
tambem demorarei a participao das vossas intenes ao Governo Chinez:
intenes de dificil compreenso a povos altivos e desconfiados.

Estimarei a vossa visita, farei tudo para satisfazer-vos, menos
consentir no desembarque das vossas tropas. Terei a satisfao de
aprender com vosco o modo de tirar a estes povos o receio, que lhe ficou
em 1802, e agora renovado pela vossa preteno.[35] O Imperio da China 
o protector desta cidade ha 270 annos; nada mais  preciso para sua
defeza. Sendo a coaco origem de disturbios e conhecendo vs a nossa
razo, espero que se houver mo resultado na vossa empreza, no o
imputareis ao governo de Maco.

[Nota: Setembro 14]

No havendo resposta do Almirante at o dia 16 o Senado intimou um
protesto aos sobrecargas, e disse mais: Ser infalivel a complicao dos
negocios britanicos, se o vosso Almirante tentar contra os ajustes
feitos em 1802 pelo Senado com o Governo Chinez, para no admittir
auxilio extrangeiro.

Sabendo agora pelo Governador de Bengalla, que tendes grande parte nesta
empreza,  do meu dever segnificar-vos, que no caso no esperado, de
continuarem as mesmas instancias para a admisso das vossas tropas nesta
cidade, farei pr em execuo o que no protesto junto declaro. 
repugnante o vosso procedimento contra povos fieis e amigos da Caza de
Bragana desde a sua restaurao. Exijo que o protesto junto com a copia
desta carta seja remettido ao Almirante.

No produzindo estes escriptos o effeito desejado, o Senado enviou a
participao seguinte ao mandarim de Hiang-san. A dez de Setembro
surgiram em frente desta cidade, uma no, uma fragata, e um brigue da
nao ingleza, sendo chefe desta fora o Almirante Drury. Trouxe uma
carta de Lord Minto, que diz mandar, da parte do seu rei, antigo alliado
do nosso, soldados para defenderem esta cidade de alguma invaso
franceza. O Almirante assegura no exceder os limites de defesa; porm
como o seu desembarque nesta cidade, quebra os tractados deste governo
com a celestial dynastia, somos obrigados a fazer-vos este aviso a fim
de o levares ao Sunt, em virtude dos mesmos tractados.

O Governo de Maco, animado do ardente desejo de manter as relaes
politicas e commerciaes, que tem ligado esta cidade com os Chinezes, e
varias naes da Europa; e tendo o mesmo empenho em continuar a merecer
na opinio das naes, propria e extrangeiras, a considerao de leal e
honrado, titulo nunca recusado a este Senado: julgou preciso offerecer
ao publico a succinta e franca exposio dos factos acontecidos desde a
chegada do Almirante Drury a este porto at hoje, no protesto seguinte.

A dez de Setembro de 1808, chegou ao porto desta cidade a frota
commandada pelo almirante Drury. A 11 recebi uma carta de Lord Minto,
onde refere os desastres de Portugal; e o favor recebido, pelo nosso
Rei, de George IV, para conservar as possesses da India e China; e que
sendo esta de muita importancia para os inglezes, devia ser guarnecida
com as suas tropas. Para esse fim mandava um destacamento a esta cidade,
e pedia pelo vinculo de antiga amizade, a sua admisso e necessario
arranjo.

No mesmo acto disse, que pelos motivos da amizade expendida no deviam
obrar de modo, que destruissem a independencia, que deviam querer
segurar; nem admittia ser eu violentado a fazer o que no devo.

Esperava desta resposta alguma moderao, e mais por saberem, que os
chinezes no admittem novidades com que possam julgar menos segura a sua
independencia. Com tudo reagiram, mandando intimar pelo chefe da
companhia, que se no fossem admittidas as tropas, seria differente o
seu procedimento.

Firme nos meus principios, e na minha primeira resoluo, assegurei-lhe
a immutabilidade do meu pensar, e dos habitantes desta cidade, que
jmais deram motivo para serem invadidos e atropellados por uma nao,
que se dizia alliada: porm que a ter logar aquella intimao
ameaadora, eu me defenderia conforme o direito natural, e os limites
desta praa, que sempre fora respeitada por todas as naes costumadas a
descanar  sombra da bandeira portugueza.

Vendo que os inglezes no socegavam, e que eram baldados os esforos da
mais estudada prudencia; querendo salvar a honra, e a paz constrangida
pelo nosso mais antigo alliado; no devo demorar por mais tempo a
necessaria participao ao governo chinez. Este como protector da cidade
fundada por sua concesso em seus dominios, da qual recebe foro a seu
contento; prestar com brevidade os socorros precizos. Sou obrigado a
participar-lhe todas as circunstancias, no obstante saber quo tristes
se tornaro as suas providencias, se o almirante no cessar da sua
contumacia.

O senado tomar como hostil o procedimento que tiver por fim desembarcar
tropas inglezas nesta cidade; declara que se defender at o ultimo
extremo. Protesta contra taes procedimentos: a responsabilidade recar
sobre os aggressores. A razo anima os habitantes desta cidade, que
tanta honra e gloria tem dado  nao portugueza em sua no interrompida
posse.

[Nota: Setembro 16]

Quem no esperaria moderao nos britannicos, pela leitura daquelle
protesto? Retorquiram!--Sendo os offerecimentos liberaes de Lord Minto
rejeitados pela desleal conducta do governo macaense[36], e os esforos
da nossa parte a fim de livrar esta cidade da invaso franceza, e
querendo ns conservar boa intelligencia entre o governo chinez e a
nao britannica: somos arrastados pela inexperada conducta dos
macaenses a tomar medidas, que podem offender os chinezes; mas o senado
responder por tudo.

Achamos-nos levados ao penoso extremo de vos participar, que em breve os
soldados inglezes occuparo Mao. A nossa teno, quando chegar esse
momento,  desembarcar tambem os marinheiros, e tomar posse da cidade 
ponta de bayoneta. Consideraremos qualquer opposio como rebelio
directa. Para evitar o conflicto de soldados e marinheiros raivosos,
deve o Senado admittir j as tropas britannicas.

[Nota: Setembro 19]

Foi recebida esta intimao, quando chegava outra dos mandarins do
destricto, para no deixar o Senado, desembarcar as tropas inglezas. O
governador remetteu-a por copia ao almirante, com a seguinte carta.

Agora me foi presente a vossa intimao! Com pesar vejo nella, tratada
de infiel a conducta do governo desta cidade por no admittir, contra o
seu dever, guarnio ingleza! E que tomareis como acto hostil qualquer
resistencia da nossa parte, dando para unico remedio a tantos males,
introduzir aqui tropas britannicas! Tenho presente as rases que vos
expuz; extranho caracterisares este governo de mal intencionado no
cumprimento dos seus deveres. Confesso que da minha parte os tenho
modificado, julgando continuar assim a distincta amizade dos respectivos
monarcas. Ponderei em pleno conselho a vossa intimao: sendo bem
examinada a ultima parte em que dizeis cesser o vosso rigor,
admittindo-se um destacamento inglez, desejo saber como fareis isso sem
nos dar motivo para desconfiar das intenes britannicas; e sem que os
chinezes se offendam de to escandaloso procedimento. Posso
assegurar-vos, que elle no s ha de ser prejudicial a Maco: a
companhia ingleza soffrer tambem os seus effeitos.

No dia 20 os sobrecargas Roberts, Patlle, Brameston, Helphinstone, e
Baring dirigiram ao governador a carta seguinte.--O protesto de Vossa
Excellencia, ser apresentado ao almirante, assim como a intimao dos
mandarins. Ns sabemos o que elles so: o almirante no far caso
delles. Sendo preciso concluir este negocio com o Sunt.

 memoravel nos annaes macaenses, o dia 20 de Setembro de 1808.
Achavam-se s mos com os piratas da China, e ameaados, pelo almirante
inglez, de serem atacados  bayoneta. Mas quanto maiores eram as
adversidades, mais se engrandecia o animo dos macaenses... Assim que se
publicou no Senado a injusta, cruel, e atroz intimao da fora ingleza,
gritaram todos:--S depois de morrermos na defesa destes muros
levantados por nossos maiores, podero entrar esses barbaros, que no
podendo tomar nossas casas pela hypocrisia, tentam fazelo com ameaos. O
capito mr Jos Joaquim de Barros, ardendo em lavaredas de amor
patriotico, disse para o governador;--Irei para o logar mais arriscado,
l darei a vida na defesa do meu posto--Bernardo Aleixo, consummado em
prudencia, no soffreu ser vencido em valor. Dirigio-se ao Ministro
Arriaga, dizendo:--Honrado collega, com taes companheiros no sero
arrebatados os lares macaenses. Devemos acabar de ter contemplao com
homens, que mais parecem inimigos do que alliados. Deixo a minha
residencia da praia grande; vou tomar o meu logar na fortaleza do monte,
confiado em que ordenareis tudo para conservar o socego publico; e
fiquem todos na intelligencia, que ella no se render em quanto eu
existir.

Quem poder escrever os dons naturaes e do estudo, desenvolvidos pelo
magnanimo Arriaga neste conflicto? Soube moderar o valor exaltado que
tinha accendido nos peitos macaenses, e persuadilos, que no se offendia
em cousa alguma a honra nacional, desembarcando a tropa ingleza, com
permisso do Senado; e talvez isso desse novo realce  gloria dos
portuguezes; afianou no ser longa a demora dos inglezes em Maco.
Disse que todos sabiam ter o governo feito, quanto estava ao seu alcance
para livrar a cidade da invaso ingleza; mas que em todo esse andamento
haviam chegado os negocios a tal extremo, que a julgava necessaria para
ensinar os britanicos, pela experiencia, que os macaenses no toleram
invasores.

Socegaram os animos; deram-se todas as providencias para se effectuar o
desembarque sem disturbios. Entregaram-se as fortalezas a pessoas de
confiana. O Governador foi para a do monte: e o Capito mr para a de
S. Francisco. Commandava ento a guarnio da praa, o Senhor Jos
Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque; sempre mereceu elogios do Governo
por saber conciliar as qualidades militares com as virtudes civicas.

No dia 21 ao romper da alva desembarcaram os Capites Robertson, e
Claulfield, com plenos poderes para tractarem com o Governo de Maco,
cerca do desembarque da tropa; e levaram a Bernardo Aleixo a carta
seguinte.

Tive a honra de receber a vossa participao, diz o Almirante, em que me
informais da sabia e leal determinao do Senado, em adimittir um
destacamento inglez na defesa desta cidade.  grande o meu prazer entrar
em Maco como sincero amigo, e sem quebrar-se a antiga amizade dos
nossos monarcas. Affirmo-vos que haveis achar nas tropas britanicas,
obediencia e respeito.

Quo differente linguagem da que empregou no dia 17! Em quanto os
macaenses no cederam  tenacidade britanica, ram infieis; agora que
pareciam afrouxar na defesa dos seus direitos, so leaes e sabios!
Ver-se-ha mudarem de linguagem em pouco tempo.

No mesmo dia os delegados do Almirante, e os do Senado (Bernardo Aleixo,
e Miguel de Arriaga) convencionaram nos artigos seguintes.

1.^o As leis do paiz regero com toda a sua plenitude.

2.^o Os crimes contra os Chinezes, seguiro o julgado estabelecido.

3.^o O destacamento inglez ser subordinado ao governo desta cidade,
combinando com o Capito Robertson, em casos extraordinarios.

4.^o Nenhuma outra bandeira ser arvorada em Maco, alm da portugueza.

5.^o As munies do destacamento entraro nos armazens publicos, s
ordens do governo desta cidade. Os inglezes tero permisso para
beneficialas.

6.^o Os navios que pelas leis do paiz tem livre entrada neste porto no
sero interrompidos, nem registados pelos britanicos: e os navios
inglezes ficaro no mesmo estado em que se achavam antes desta
conveno.

Depois de assignada, o Senado far diligencia para evitar complicao
com o governo chinez. O governo de S. M. Britanica fica responsavel ao
Sr. D. Joo VI, pelas consequencias deste tractado.

Desembarcaram as tropas sem tumulto; aquartelaram-se na feitoria de
Bernardo Gomes de Lemos, e nas fortalezas da Guia, e do Bom-parto. O
Almirante requereu estes dois ultimos quarteis, para no haverem
disturbios.

Antes de desembarcar as tropas dizia, que ellas guardariam obediencia e
respeito, assim que entrou com ellas na cidade, mudou de lingoagem:
temeu logo que os britanicos insultassem os Chinezes. A inteno dos
sobrecargas e do Almirante, ra de ir pouco a pouco, escondidos na capa
da amizade, appossando-se de todas as fortalezas: e exigindo sempre, que
o Governo de Maco avisasse ao de Canto, que tudo aquillo procedia da
intima alliana entre as duas Croas de Portugal, e Gran-Bertanha.

No primeiro de Outubro, pedio o Almirante ao Senado, licena para enviar
ao Sunt o tractado feito com o Senado, antes de entrarem as tropas
inglezas em Maco. J a esse tempo o Sunt estava sciente de tudo quanto
se tinha feito em Maco.

No dia 8, comeou o almirante, com os seus, a dirigir queixas ao
governador, pelos insultos, que faziam os chinezes aos britannicos; e
dirigiram-lhe a participao seguinte.--Somos obrigados, com pezar
nosso, a representar-vos a necessidade de mettermos o nosso destacamento
na fortaleza de monte, a fim de evitar a communicao com os chinezes;
por quanto j espancaram alguns officiaes, e esta manha insultaram
outros de modo, que se no estivessem dentro dos limites do quartel,
haveria grande desordem. Se o destacamento se estabelecer na fortaleza
do monte, acabar-se-ha a ida de perigo. Asseguramos-vos a repugnancia
com que fazemos esta applicao, mas somos a isso obrigados para evitar
males, que podem envolver os nossos governos com o dos chinezes, de quem
temos ouvido dizer est fazendo grandes preparativos de guerra. Seria
bom, que assim como publicastes a ordem de Goa para receber o nosso
destacamento, fizesseis o mesmo  proclamao do vice-rei de Goa.

Os inglezes esperavam, sem duvida, achar os macaenses no estado em que
os havia descripto o capito Laperouse: e que Bernardo Aleixo no
possuia o talento e virtudes exaradas por aquelle celebre navegador nas
paginas da sua viagem. A carta seguinte tirou os inglezes da illuso em
que estavam.

No tenho duvida em passar o vosso destacamento para a fortalesa do
monte: sendo necessaria para defeza contra os francezes, est nos termos
da ordem que recebi de Goa[37]: porm sendo o motivo dessa exigencia
evitar a communicao e disputa com os chinezes, estou certo de que na
feitoria, onde se acha aquartelada, observada a disciplina que hade usar
na fortaleza, conseguir o mesmo fim sem dar logar a ciumes da parte dos
chinezes; causa sem duvida de males maiores do que pretendeis evitar: e
de mais, isso no  conforme com o tractado, que fizemos.

--A desconfiana do governo chinez tem augmentado pela occupao das
fortalezas da Guia, e Bom-parto com tropas britanicas. Assim acrescer
mais em prejuizo do commercio das duas naes, que na unio, com os
chinezes tem igual parte nesta cidade. A nao britanica no consentir
em plano algum, que destrua esta unio: e a mim no  permittido
admittir defeza opposta  lealdade, que este governo tem  constituio
do imperio, seu protector; e com direito sobre o territorio a que chama
parte do mesmo imperio.

Ainda que  forte a razo que me assiste, maior ser o meu pesar, quando
parea falta de condescendencia da minha vontade prompta em reconhecer
os servios de S. Magestade Britanica, ao S. D. Joo VI. Elles exigem,
que espereis a resposta do governo chinez, aos artigos da nossa
conveno, que no pode alterar-se para no sermos obrigados a fazer
outra participao. Sera agora passo arriscado, pelo escrupulo dos
Chinezes cerca das intenes britanicas. O Senado j mais deixar de
cooperar no que for util  nao britanica. Agora mesmo acaba de pedir
aos mandarins do districto, providencias para evitar, que os chinezes
insultem os vossos officiaes.

Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei  ordem de Goa. Tambem
fiz publicar a proclamao segundo o costume deste governo. Vivei na
intelligencia, que no esconderei o que vos possa interessar, no
offendendo o decro desta cidade.

De 3 a 14 de Outubro recebeu o Senado varios avisos do Mandarin de
Hiang-san, aos quaes o procurador, Jos Joaquim de Barros, respondeu
neste espirito.--Eu o procurador da Cidade de Maco, mandarim de
Hao-king, remetto-vos toda a nossa correspondencia com os inglezes, a
fim de conheceres a verdade. O Senado remetteu ao Almirante todas as
vossas chapas, (avisos) nestas circunstancias  o que podemos fazer.--

O mandarim respondeu:--Pelo que respeita s cartas do Almirante, ainda
que as tenho feito interpretar, no posso entender o seu verdadeiro
sentido: espero que o declarareis ao portador desta para minha
intelligencia. A ordem do Vice-Rei de Ga no prevalece contra os
tractados existentes do Governo celestial com o vosso Rei. Em quanto ao
desasocego dos moradores chinezes em Maco, depende de vs: fazei com
que os inglezes tornem para os seus navios, todos ficaro em perfeita
quietao.--

[Nota: Outubro.]

No dia 16 remetteu outro aviso.

--Sei que fra apresentada a minha carta aos inglezes para sarem de
Maco, e que responderam terem vindo para defenderem Maco dos
francezes, visto no o poder agora fazer o vosso Rei; e que para sarem
precisam que venham soldados portuguezes!

 inegavel ser Maco territorio da China, assim como ter-vo-lo concedido
a celestial dynastia, attendendo a virdes de to longe, e quererdes
repousar neste Imperio. Ha perto de tres seculos, no s vos tracta sem
differena de seus povos, mas tambem como filhos enchendo-vos de
beneficios.[38] Os francezes no costumam insultar as terras deste
imperio: quando usassem agora commetter essa injustia, os inglezes
deviam lembrar-se, que temos mandarins de letras e de armas e poderoso
exercito para defender-vos, sendo preciso. Exponde estas verdades ao
Almirante, e aos sobrecargas, e intimai-lhe de minha parte que embarquem
o seu destacamento sem demora.--

No dia 17 sabendo o mesmo mandarim, que os Chinezes emigravam de Maco
assustados pelo ameao da guerra, mandou outra chapa ao procurador,
offerecendo-lhe tropas para auxiliar os portuguezes, e animar os
Chinezes a fazerem o trato do costume, para no soffrerem os habitantes
da cidade por falta de alimentos.

(18 de Outubro.)--Mostrei a vossa chapa de hontem ao Almirante (tornou o
procurador ao mandarim) assegurou-me ir a Canto ultimar este negocio
com o Sunt. Desejo que vos empenheis no bom tractamento para com elle,
visto ir encarregado de negocio to importante.

No mesmo dia 17, recebeu o Governador a carta seguinte (dos
sobrecargas).--Capacitesse V. Exc.^a da grande importancia, que  para
as duas naes Portugueza e ingleza, accommodar em breve a
desintelligencia, que reina entre ns e os Chinezes. A viagem do
Almirante a Canto, dirige-se a esse fim; mas  preciso que os seus
intentos sejam sincenramente narrados ao Sunt. S o padre Rodrigo o
pode fazer como desejamos; assim rogamos a V. Exc. faculdade para elle
acompanhar o Almirante. O Governador concedeu a licena pedida.

Quando em Maco se esperava que fossem diminuidas as calamidades,
augmentaram. Assim o demonstram os sobrecargas na carta seguinte: basta
meditala com reflexo para se conhecerem as intenes britanicas.

--Soubemos esta manha--ter chegado de Bombaim outro destacamento. O
Almirante ordena que desembarque immediatamente. Rogamos a V. Exc., que
mande fazer os arranjos necessarios para esse fim. Alcanaremos grandes
vantagens se persuadires os chinezes, que so tropas mandadas pelo vosso
Rei; e que desembarcadas estas embarcaro as que se acham em terra. Para
dar mais fora a esta lembrana pode V. Exc. mandar entrar os navios com
bandeira portugueza. As objeces dos chinezes so de pouca entidade.
Para este segundo desembarque, escusa V. Exc. pedir-lhe venia. Pedimos
licena para manifestar a V. Exc. o escandaloso procedimento de alguns
macaenses infieis ao Senhor D. Joo VI; pois enviam aos mandarins
representaes desfavoraveis aos britanicos. Da sua m conducta nascem
os inconvenientes, que temos soffrido. Se V. Exc. no d remedio a tam
grande mal, o Almirante enviar para o Brazil as pessoas suspeitas.[39]
Esta carta demonstra bem a proteco levada pelos inglezes a Maco. 1.^o
soberba, 2.^o falsidades, 3.^o arrogancia fraudulenta, 4^o calumnias,
5.^o despotismo horrivel. Bernardo Aleixo usando da sua consumada
prudencia, respondeu nestes termos.

(Outubro 21.)--Dizeis ter ordem do Almirante para desambarcar tropas
novamente chegadas! E desejais, que eu d a entender aos chinezes, virem
da parte do Sr. D. Joo VI! Nenhuma duvida teria no seu desembarque, se
as circunstancias decorridas depois que desembarcaram as primeiras no
tivessem de dia em dia complicado mais este negocio com os mandarins.
Effeituando-se este segundo desembarque antes de conferir o Almirante
com o Sunt, pode transtornar o negocio, e ser funesto ao commercio, j
suspenso em Canto. Accresce ter eu agora recebido, cerca dessa tropa,
protesto, que devo tomar em muita considerao. Esta cidade tem soffrido
muito com a vossa expedio; e a meu cargo est vigiar por seus
interesses. No me consta haver aqui morador algum infiel  Caza de
Bragana, apesar de ser dever meu cuidar nessa indagao.

(Outubro 21.)--No mesmo dia, escreveu o mandarin de Hiang-san, ao
procurador de Maco, neste espirito.--Consta-me chegarem ahi mais tropas
inglezas; jmais deveis permittir o seu desembarque. Duvidamos muito dos
seus intentos. Se o consentirdes darei parte ao Sunt, de que faltais ao
vosso dever.

(Outubro.)--De 21 a 28 houveram disturbios entre os inglezes e os
chinezes. O procurador representou aos mandarins, que no tinha leis por
onde castigasse os chinezes em casos taes; e que para isso exigia
providencias.--Aquelles tornaram. No so precisas leis para castigar
crimes, que jmais devem existir neste imperio. Embarquem os inglezes,
tudo fica remediado.--No davam resposta,  exigencia de providencias.

(Outubro.)--Em 29 escreveram os sobrecargas ao Governador:--Sabemos com
certeza no serem as partecipaes de V. Exc. (cerca do auxilio
britanico) expostas ao Sunt como deviam; antes sim pelo contrario.
Rogamos a V. Exc. lhe declare o justo procedimento do governo britanico,
e que esta declarao seja remettida ao Almirante para elle mesmo a
entregar ao Sunt. Extranhamos a repugnancia de V. Exc. em seguir o
exemplo do Vice-Rei de Goa, isto , animar os portuguezes contra os
nossos inimigos. Se os moradores desta cidade fossem assim admoestados,
desejariam o nosso auxilio em logar de o aborrecer.--

(Outubro 30.)--Entre as difficuldades, que vos apresentei, tornou
Bernardo Aleixo, foi uma a complicao com os chinezes. Tenho
conhecimento do systema do seu governo por longa experiencia adquirida
na pratica; sei os vinculos que os unem a esta cidade; e por isso previ
o mo resultado da vossa empreza. Falleivos com franqueza, fui
considerado como desaffecto aos vossos projectos. Em 20 do mez passado
desclarasteis (ainda que pouco favoravel ao exercicio do meu emprego)
ser qual quer opposio do governo chinez, desembaraada pelo Almirante
com o Sunt; agora vejo depender deste governo a ultimao do negocio.

O Senado trabalha para que no sejam reputados sinistros os fins da
vossa expedio: se tem havido desconfiana nos mandarins, no 
motivada por este governo; pois tem patenteado com franqueza a sua
correspondencia entre vs e os chinezes.

J vos disse, e agora o repito: dos macaenses, nem um s deixa de
respeitar a caza de Bragana, costumada a encher esta cidade de
beneficios em honra do seu governo, e gloria de seus moradores. Porm
como no lhe seja vedado amar a tranquillidade publica do seu paiz, no
deve extranhar-se a cada um chorar a sua desgraa: sem blasfemar da
causa, aborrece os effeitos.

Os pais de familias lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das
amas chinezas--que se retiram. Os infelizes que tem na labutao diaria
o seu recurso, lastimam-se pela escacez e carestia dos generos
alimentares. Os mais abastados lastimam-se por ver chegar o tempo de
fazerem suas negociaes, e terem ainda as mercadorias empatadas por
falta de gyro, ha cincoenta dias. At os navios esto ainda por fabricar
 mingua de artifices, que tambem fugiram. Os empregados publicos vendo
parar o commercio, lastimam-se por saberem, que delle tira o estado
rendimento para pagar-lhes. Os mesmos habitantes chinezes, dados ao
commercio, tem emigrado e levado at o mais inferior dos seus trastes.
Isto era de esperar de homens pacificos ao verem apparatos de guerra.
Alm disso ameaados pelos mandarins, que julgam a constituio do
imperio atacada pela vossa imprudencia.

 vista do exposto no admira haverem descontentes, que deplorem a sua
desgraa, e aspirem ao socego deste fiel estabelecimento, que ha 252
annos tem sempre respeitado as ordens do seu monarcha. Julgai por este
quadro se um tal povo necessita de proclamaes para ser fiel ao Rei a
quem adora?

Assim que esta carta foi remetida, mandou o Senado ao procurador, que
exigisse do mandarim de Hiang-san, o motivo da queixa dos Inglezes; o
que fez pelo modo seguinte.--O chefe da companhia ingleza accusa-vos de
no teres enviado as minhas chapas ao Sunt, ou que mandando-as lhes
viciastes o texto. No posso crer teres procedimento alheio do vosso
emprego e caracter. Espero que immediatamente apresenteis os originaes
ao Sunt: eu envio as copias ao almirante para as conferir com elle, e
ficar desse modo illesa a vossa reputao.

Os sobrecargas responderam  carta de trinta pelo modo seguinte:--A
vossa carta encheu de magoa os nossos coraes pelas circunstancias em
que se acham os habitantes de Maco; tudo nasceu da conducta do Senado:
se adoptasse o nosso systema, no teria agora de vr essas lastimas. Os
macaenses julgaram a proposito tomar medidas contra a nossa expedio; e
fizeram repetidas instancias ao governo chinez, pedindo soccorro contra
os hostis procedimentos britannicos: o excessivo ciume dos chinezes, e o
manejo do Senado motivaram todos os males.--Em verdade dissemos, que o
almirante removeria todos os obstaculos em Canto; assim aconteceria se
o governo de Maco se unisse cordialmente com o almirante.

Os esforos que V. Ex.^a promette fazer em suas applicaes ao governo
chinez, so para ns de grande importancia. Sabemos que ho-de produzir
bom affeito. Estamos persuadidos, que s o governo de Maco pode remover
as presentes difficuldades e miserias.

Grande documento  este para augmentar, se  possivel, a honra dos
macaenses, pelo valimento que tem com os chinezes. No principio da
carta, invectivam os sobrecargas aos macaenses; no fim pedem-lhe
misericordia! Era tal a ambio, ou a impudencia daquelles bretes, que
diziam em face ao governo de Maco serem motivadas as calamidades
daquella cidade pela ignorancia dos chinezes, e manejo do Senado! Quem
no v provir tudo da tenacidade dos sobrecargas em quererem apossar-se
daquelle nosso estabelecimento? Quem poder capacitar-se de ser aquelle
empenho unicamente sustentado para guardar Maco aos portuguezes? Em
pouco sair o almirante da illuso em que o tinham os sobrecargas.

O ultimo paragrafo desta carta merece particular atteno: O governador
despresou as argucias do primeiro, e respondeu ao segundo.--Vejo a
necessidade que tendes de novo recurso deste governo ao de Canto: O
Senado j enviou uma chapa ao mandarim do destricto, da qual se vos
remette copia, e de toda a nossa correspondencia com os chinezes, a
vosso respeito. Fao isto para ver se acabam as vossas desconfianas.

Nesta intelligencia e com o mesmo desvelo (posto que at agora equivoco)
farei novas representaes ao governo chinez sempre que me indiqueis a
forma de applacar a tormenta, que vos ameaa, pela desconfiana dos
mandarins superiores.

 vista do corpo disforme, que tomou este negocio, quem no esperaria
moderao nos sobrecargas? A carta seguinte mostra o contrario!

[Nota: (Novembro 3.)]

--Pertendem ainda quebrar as leis do imperio, introduzindo e
descarregando navios britannicos em Maco.--Em virtude de ordens do
almirante, dizem elles, participamos a V. Ex.^a que mande apromptar
armazens para depositar nelles os generos vindos em nossas embarcaes.
Esta medida nasce da oppoo que os chinezes fazem ao auxilio dado por
ns a esta cidade. Esperamos que V. Ex.^a no recuse os seus extremosos
esforos em nosso beneficio, vendo que os sacrificios do governo de
Maco so bagatela em comparao dos que temos soffrido pelo embargo do
commercio britannico (em Canto) s por usarmos a generosidade de
querermos dar segurana a esta cidade: Assim esperamos a ordem para a
descarga, sem dilao.

No tenho duvida em prestar a minha condescendencia  vontade do
almirante, respondeu Bernardo Aleixo, com tudo sou forado a dizer o que
sendo publico, admira ser por vs ignorado. As leis deste paiz s
admittem navios estrangeiros no caso de mera hospitalidade, segundo o
direito das gentes. Applica-se aos navios de entrada e sada de Canto,
at poderem seguir o seu destino. Achando-se em iguaes circunstancias,
qualquer navio da companhia, no haver duvida na sua admisso; porm se
a descarga, que se pertende fazer em Maco provem da opposio dos
chinezes ao commercio britannico, tenho grande embarao no cumprimento
do meu desejo.

Os tractados desta cidade, com o governo chinez, permittem s
carregaes neste porto vindas em navios portuguezes, ou hespanhoes; se
o commercio inglez est prohibido em Canto, como o poderei admittir em
Maco, sendo dominio chinez, smente aforado aos portuguezes debaixo de
certas condies, que vs, dizendo auxiliar, pretendeis romper?

Accresce no haver logar para to grandes carregaes: por falta de
gyro, acham-se todos os armazens cheios de generos vindos na mono
ultima. Dizeis que so grandes os vossos sacrificios, e os nossos
bagatela! Os sacrificios, neste sentido, no devem considerar-se pelo
valor das riquezas: por perderes muito no se segue, que no sejam
maiores os nossos sacrificios perdendo tudo. Lanais as culpas das
vossas perdas sobre ns, e que faremos a vosso respeito? O tempo far
justia ao nosso procedimento[40].

Agora (apezar de tudo)  tal o meu desvelo em vos servir, que se algum
navio se acha em estado de tornar indispensavel a sua descarga, ter os
soccorros necessarios como se pratica entre povos civilisados; sem
offensa dos laos domicilarios e privativos, sustentados pelo esforo e
gloria da Nao Portugueza.

Em todo o mez de Novembro houveram disturbios entre os chinezes e os
britannicos: aquelles no s maltractavam estes, encontrando-os nas
ruas, mas tambem lhe apedrejavam as janallas. Por mais que o procurador
do Senado exigisse providencias dos mandarins, a resposta ra sempre a
mesma.--Siam os britannicos da cidade, e tudo ficar em socego.--Quando
os inglezes estavam mais teimosos em descarregar os seus navios em
Maco, baixou a seguinte admoestao do Sunt aos sobre-cargas.

Sobre-cargas da companhia ingleza, sabei que a virtude do nosso
Imperador se manifesta como o co, abrange tudo: considerando elle que
os reinos da Europa se tem mostrado, ha muito tempo, obedientes e
politicos, concedeu aos europeos licena para negociar em Canto;
reputando-vos como individuos da mesma familia. Vs o tendes
experimentado, e sabeis, que nunca foi concedido ficardes permanentes na
China. Logo no devieis trazer navios cheios de soldados, nem
desembarcalos contra as leis do imperio. Maco  cidade edificada em
terreno chinez: a dynastia passada concedeu aos portuguezes
estabelecerem-se alli; a presente, em virtude da sua antiga posse,
deixou-os ficar como d'antes; porm debaixo de certas condies. A
nenhuns outros europeos se concedeu privilegio semilhante! Como
pertendeis vs agora persistir em Maco? Dizeis recear venham os
francezes insultar os macaenses! Nunca se attreveram a pertubar as
terras deste imperio: e quando venham com muito socego os esperaremos;
vindo desfalecidos, e sendo poucos contra muitos, sem batalha ficaro
vencidos. Tero a sorte da carne na banca do cosinheiro. Dizeis ser
amigos dos Portuguezes e que viesteis ajudalos contra os francezes!
Porque no obrasteis este excesso de amizade la na Europa, ou porque no
os esperais fora das ilhas da china para os baterdes quando cheguem? No
 justo estares em Maco quebrantando as leis do imperio, e dissolvendo
a unio mutua, que deve existir em todos os seus dominios: desse modo
perdeis o direito, que haveis  nossa benevolencia. Por ventura no
sabeis o que vos  interessante? Podereis existir sem commercio? Por
certo no: pois quanto mais depressa embarcardes os soldados, mais cedo
se vos abriro as Alfandegas. Se retardares o seu embarque, no tereis
communicao com a terra. Ponderai bem o que vos proponho, e no me
incommodeis com mais peditorios.--

Em quanto o governo de Maco pedia aos mandarins do districto, que o
ajudassem a sanear as feridas abertas pelos inglezes, nas leis do
imperio, a fim de no se irritar contra elles o Sunt, chegou outra
chapa deste, pelo mandarim de Hiangsan, em que dizia:--

Eu o Governador das duas provincias de Canto e Kuansi, fao saber ao
mandarin de Hiang-san, que da entrada dos soldados inglezes em Maco,
so culpados os seus moradores; pois deviam tela embaraado. Mas
examinando o seu antigo, e moderno procedimento, achei serem sempre
gratos aos nossos Imperadores; por esse motivo tolro o erro commettido.

cerca dos navios inglezes, j consultei o Kuam-pu, a fim de lhes
permittir descarga, e poderem negociar. Pelo que pertence aos soldados,
dei parte ao Imperador; eis a sua resposta:--Se os inglezes tiverem a
ousadia de presistirem em sua teima, lanaios fora com o nosso
exercito.--Em poucos dias elle marchar sobre Maco: no entanto
recommendai aos portuguezes a segurana da fortaleza do monte. Adverti
ao Procurador, que no se fie desses inglezes.

Como estes no fossem promptos na execuo das ordens do Sunt,
augmentou-se a soberba e desconfiana chineza de modo, que julgaram
tambem sermos culpados no insulto commettido pelos inglezes.
Desembarcarem estes as tropas j no ra a maior offensa: o que mais
ferio o orgulho chinez, foi no obedecerem logo ao mando do Imperador.
Tomaram os mandarins calor to ardente, que no deixavam passar um dia
sem repetirem intimaes para que os inglezes sassem de Maco: eis o
seu espirito.

Senhor Procurador, esses inglezes entrando em Maco apossaram-se das
igrejas e das fortalezas! Em pouco tomaro vossas cazas possuidas ha
seculos; depois tirar-vos-ho mulheres e filhos: no podemos soffrer tam
grande offensa. Marcham oitenta mil homens sobre os campos de Ma.
(proximos  cidade de Maco) afim de os anniquilar. Despresaram a graa
feita pelo Sunt; soffrero o peso da fora, que marcha contra elles.
Esses inglezes sendo homens no tem corao humano; conhecem os males
que tem feito, e no se arrependem! Desejamos que todos vivam em paz, e
somos obrigados a mandar um exercito receando, que nem um s inglez
escape  morte! Fazei-lhe conhecer estas verdades, e perguntai-lhe se
ainda querem teimar contra a justia, que os ameaa.--O procurador
respondeu:--

--Tenho apresentado as mais essenciaes das vossas chapas aos sobrecargas
inglezes; no despresam as graas do Sunt; acham-se promptos para
retirar-se; mas no o podem fazer de repente. Os inglezes vieram com
designio de nos auxiliar assim julgo ser mal fundada a vossa
desconfiana. No precisamos do vosso exercito; viria fazer maior damno
 cidade. Sabeis quaes so as leis que regem este nosso estabelecimento:
no deve entrar nelle, nem mesmo aproximar-se s muralhas desta cidade
tropa chineza, sem que a pessa, e  cousa, que ainda me no veio 
lembrana. No  justo imitares aos inglezes: estes diziam vir-nos
auxiliar; trouxeram-nos incommodos e perdas.--

 notavel a prudencia e a generosidade do Senado macaense para com os
inglezes, quando estes s lhe dirigiam offensas! Ao mesmo tempo enviaram
os sobrecargas a Bernardo Aleixo a carta seguinte.

--A situao em que nos achamos  triste: temos recommendao do
Almirante para evitar hostilidades e fazer tudo quanto possa
reconciliar-nos com os chinezes. Se esta recommendao for confirmada
aos manderins, por V. Exc. por certo diminuir o seu rigor para com os
inglezes.

Nos maiores conflictos apparecia em publico o Magnanimo Arriaga e dava
socego a todos. Offereceu-se para convencionar com os mandarins, sobre a
retirada da espedio britanica sem efuso de sangue, donde resultou o
tratado seguinte.

Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, e
o commandante das foras britanicas com os sobrecargas da selecta
companhia, desejando retirar o destacamento inglez, decorosamente,
ajustaram:

1.^o O Ministro Arriaga tractar com os mandarins cerca da retirada das
foras britannicas, ficando o commercio inglez no mesmo estado em que se
achava, antes da sua entrada nesta cidade.

2.^o Exigindo este negocio a cooperao do Almirante, Miguel de Arriaga
ir a Wampo-o, para se concluir alli do modo mais vantajoso ao vinculo
das tres naes.

3.^o Concluido este negocio cessar a prohibio de mantimentos para
sustento dos inglezes.

4.^o Os mandarins faro suspender immediatamente a marcha das tropas
chinezas dirigidas a esta cidade.

[Nota: (Dezembro 11.)]

A presente conveno mostra a confiana, que o Ministro Arriaga tinha em
domar o orgulho e o rigor dos mandarins. Parece impossivel, que s a
politica a firmesa de caracter, e a urbanidade de um homem pudesse
conter a justia chineza, sustentada por 80 mil homens! A carta seguinte
dirigida a Bernardo Aleixo, d bem a conhecer o dominio que Arriaga
tinha na vontade dos mandarins.

(Dezembro 11)--Depois que assignmos a conveno esta manh, fui ao
pagode, onde me esperavam os mandarins: tive larga discusso com elles a
fim de soltar difficuldades proprias a uma nao escrupulosa e
desconfiada; todavia consentiram em tudo o que lhes propuz. Alm disso
capaciteios das boas intenes britannicas (apezar de terem sido ms
para ns); naquella intelligencia asseguraram-me ficar o commercio
inglez no mesmo p e systema antigo--Despedidos os mandarins; tornou
Arriaga  cidade contente por ter concluido negocio to espinhoso por
meios to honrosos para a nao portugueza, como lisongeiros para o
negociador.

Sabendo o mandarin de Hiang-san, que o novo governador Lucas Jos de
Alvarenga, instava pela posse do seu emprego, remetteu ao procurador a
chapa seguinte.

--Da entrada dos inglezes at hoje, tem o antigo governador dirigido bem
este negocio; agora constame, que o successor insta para tomar posse e
que o Sr. Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o pretende fazer: no 
conveniente: os inglezes entraram no tempo do seu governo, nelle devem
sar. Sabemos que o novo governador veio em navio inglez; quem nos
assegura no ter elle correspondencia com esses homens? No  justo nem
conveniente tomar elle agora posse do governo. Em casos extraordinarios
nem sempre podem seguir-se as leis ordinarias: quando os inglezes sarem
de Maco e ficarem todos em socego, far-se-ha tudo segundo a lei e os
costumes.

[Nota: (Dezembro 11 de 1808.)]

No mesmo dia partio Miguel de Arriaga, no brigue do Senado, para
Wam-poo. Em 24 horas chegou a bocca do rio Tygre: logo que da no se
avistou suspendeu esta e veio ao encontro do brigue. Em 14 de Dezembro,
j de volta fez Arriaga, a participao seguinte a Bernardo
Aleixo.--Assim que cheguei  falla da no, fiz saber ao almirante, qual
era a minha commisso: respondeu ter j ordenado o embarque das tropas,
e que desejava ser grato s officiosas declaraes anteriormente feitas
pelo governo de Maco; pois eram veridicas e rasoaveis. Recebeu-me com a
civilidade propria de sua pessoa: disse que esperava do governo de Moco
o bom servio de remover qualquer difficuldade, que de novo apparecesse.
Despedi-mo-nos com as mesmas ceremonias da entrada, e no querendo elle
ceder veio acompanhar-me ao portal.

Logo que o ministro Arriaga concluio a sua negociao com o almirante,
dirigio-lhe o governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria a carta
seguinte.

(Dezembro de 1808.)--Os officios de V. S., de 11 e 14, manifestam o
grande trabalho, que teve na conferencia com os mandarins: Pelo contexto
dos mesmos se conhece a excessiva applicao e desvelo com que V. S.,
alm dos limites ordinarios, se empenhou em acalmar, com heroico
patriotismo, a cruel revoluo que ameaava esta cidade.

Com o seu grande zelo e reconhecido talento, fez V. S. o mais importante
servio  patria.  fora de to efficazes e singulares deligencias
_devem os inglezes_ fazer a sua retirada sem effuso de sangue, e os
macaenses o socego da cidade.

(Dezembro de 1808.)--No dia 16 comeou a retirar-se o destacamento
britannico; depois de se effeituar o embarque de tudo quanto lhe
pertencia, cuidaram logo os sobrecargas em obter licena para
desembarcar as suas mercadorias em Canto. No 1.^o de Janeiro expedio o
Sunt a chapa seguinte.

--Qu-Hiung-Kuang, Sunt (vice-rei) de Canto, faz saber a todos os
europeos, que por desembarcarem soldados inglezes em Maco jmais se
lhes devia permittir commerciar neste imperio. Com tudo lembrando-nos
que o seu rei offerecera tributo ao nosso imperador, relevamos a
offensa, que nos fizeram pela sua entrada em Maco. Agora depois de
enviarem os soldados s suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos,
perdo com muita humildade, a fim de se lhes permittir commerciar neste
imperio. Conhecendo a misericorda do nosso imperador, cedi s suas
repetidas supplicas, deixando que desembarquem as mercadorias, e possam
vendelas nesta cidade. Devem receber esta graa como um beneficio
extraordinario. Assim mostramos, que as leis chinezas tem enfraquecido
com o tempo: no futuro havero medidas mais rigorosas. Daqui em diante
se algum europeo se atrever a quebrar as leis do imperio ser lanado
fora para sempre.

Assim ficram os inglezes no mesmo estado em que se achavam antes de
tentarem invadir Maco; perdendo a companhia enormes sommas dispendidas
naquella empreza.

Tendo demonstrado com os sobrecargas desistiram della, farei ver agora o
motivo porque atentaram.

A grande influencia de Bonaparte na peninsula, obrigou El-Rei D. Joo
VI, a fechar os portos aos inglezes: esta medida fez julgar aos bretes,
que Bonaparte se apossaria de Portugal, assim como o tinha feito da
maior parte da Europa.

Considirando-nos debaixo do jugo do novo Filippe, seu inimigo, seu
inimigo, como havia sido o antigo, praticaram a lio tomada dos
hollandezes; isto  pretenderam apossar-se do que ainda tinhamos no
Oriente.

Sendo os nossos estabelecimentos da Asia, interessantes aos inglezes,
no lhes convm possuilos outra nao, que no seja a portugueza, j
pela sua antiga alliana, j por no a temerem. Avisaram os agentes da
companhia, para guardarem as terras, que nos pertenciam naquella parte
do mundo, a fim de no serem tomadas pelos francezes; na esperana de
que voltando Portugal  sua independencia, tudo ficaria como dantes; e
se no podesse livrar-se do jugo francez, herdarem elles o que haviamos
ainda no Oriente. Eis o motivo porque os inglezes invadiram Goa, e
Maco, cidades que immortalisaram sempre o nome portuguez.

Accresce a estes successos da Europa, o desejo, que tinham os
sobrecargas inglezes de possuirem um estabelecimento na China; julgavam
desairoso ao seu poder, haverem os portuguezes na China o que os
britannicos no podiam alcanar. Sendo ricos espalharam dinheiro na
feira de Canto, esperando que havendo alguma desintelligencia entre os
portuguezes e os chinezes, estes os preferissem.

Os lusos soffrem grande critica pelo que praticaram nas suas conquistas
em seculos tenebrosos; com tudo so menos culpados do que os inglezes;
por quanto estes no so menos violentos em seculo mais illustrado.
Veja-se no quadro seguinte a differena de ambio e despotismo das duas
naes.

--Existe no Oriente imperio immenso, com mais de 100 milhes de homens
de castas, cres, e raas differentes:  a India ingleza. A Soberania
no pertence  nao; exemplo unico na historia do mundo;  propriedade
de uma companhia de negociantes! Viram-se os cartiginezes enriquecidos
pelo commercio, conquistaram a Sicilia e a Hespanha; mas a republica, o
corpo inteiro da nao, foi quem adquerio pelas armas importantes
possesses. Em tempos modernos, a companhia hollandeza adquirio grande
esplendor; mas os seus estabelecimentos nas costas da Asia, eram
armaes fortificadas, e no colonias.

A companhia ingleza sem perder o commercio dos portos de mar, estendeu o
seu dominio a mais de trezentas leguas pelo interior das terras. As
regies mais ferteis e mais ricas do globo pertencem-lhe como fardos de
fazenda amantoados em seus armazens. O chefe, e delegados, ostentam luxo
asiatico, e reinam com orgulho.

Especulaes mercantis elevaram este thesouro de nova especie, que
subsiste sem ser mantido como os outros pela gloria dos Principes,
respeito dos povos, ou pelo tempo que tolra e consagra nefandas
usurpaes.

As authoridades de to grandes dominios, podem dizer-se, que so
vendidas em leilo, o mais vil inglez, em tendo algumas livras e
comprando aces da companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem
fortalezas, nos, e mais de cem mil soldados; alm disso pode vir e
dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do Gro-Mogol,
o do Teppo-Sail, e ameaado algumas vezes o Sofi da Persia e Grande
Lama[41]!

Os portuguezes combateram na India os sectarios de Mafoma livrando desse
modo a seus pacificos habitantes do captiveiro turco; os inglezes
servem-se dos braos sarracenos para agrilhoar os mal fadados bramas.

Assim v-se que se nessa poca tenebrosa os lusitanos obraram prodigios
na India, vingando sobre os turcos os males que lhe haviam soffrido em
nossa terra, hoje no desmerecemos na ordem dos nossos maiores; por
quanto o Sunt disse:--Nenhuns outros europeos alcanaro (por merito)
os privilegios concedidos aos portuguezes.--Os sobrecargas confessaram,
que s o Governo de Maco podia remover as difficuldades e miserias (que
elles tinham motivado): o Almirante Drury tambem disse:--Estou muito
obrigado ao governo de Maco pelas suas declaraes anteriores; por
quanto eram veridicas e justas.--Taes declaraes confirmam a dignidade
do caracter Luzitano, em todos os tempos e logares.

Sabendo-se em Londres a conducta daquelles sobrecargas, foram outros
nomeados: chegando a Maco esconderam o que se havia passado alli em
1808, e fallaram do que viram praticar em 1809, pelo modo seguinte.--As
patrioticas applicaes e desvelos dos macaenses, adquiriram a esta
cidade muitas vantagens; ao governo portuguez gloria; e a todas as
naes commerciantes a liberdade dos mares da China[42]. Os povos
chinezes congratulam-se com a extinco do inimigo que por mais de 20
annos os havia opprimido, por serem as foras maritimas do imperio
insufficientes para destruilo.--

Accrescentarei o que os sobrecargas no poderam escrever: no foi menor
a vantagem de Maco e a gloria da nao portugueza, lanar fora daquella
cidade as tropas inglezas, que della se pertendiam apossar.

Vendo uma memoria do Sr. Lucas Jos de Alvarenga, Governador que fra de
Maco, sou obrigado a contestala para desagravar os macaenses das
offensas que alli lhes derige aquella triste e miseravel jactancioso.

Imprimio a sua memoria no Rio de Janeiro em 1828, e diz que lhe dera
motivo a isso outra impressa em Lisboa em 1824; por se achar nella o seu
nome inglorio. Sendo eu quem a escreveu, devo mostrar a razo de no
fallar em louvor do Sr. Lucas.

Sa de Maco para Lisboa em janeiro de 1808, e o Sr. Lucas entrou
naquella cidade em Setembro do mesmo anno. Tornei a Maco em Novembro de
1810, j elle tinha saido dalli em Abril desse anno. Querendo recolher
factos sobre a extinco dos piratas, a fim de completar o meu opusculo,
tomeios das actas do Senado, e das pessoas conspicuas daquella cidade.
Haviam em to pouca conta este cavalheiro, que no se atreveram a
confiar-lhe o governo das armas seno depois de fazerem retirar as
tropas inglezas, como fica demonstrado, no officio do mandarim de
Hiang-san.

O Sr. Lucas, a pag. 4 da sua memoria diz serem verdadeiros os factos
lanados na que se imprimira em Lisboa; isto , 1.^o O zelo e a
actividade do Ministro Arriaga; 2.^o o valor das pessoas empregadas na
esquadra; 3.^o a existencia dos tractados; 4.^o a entrega dos piratas
5.^o a invaso e a retirada das tropas inglezas; mas offende-se do
silencio guardado a seu respeito; e julga haver nesse procedimento algum
misterio.

Assim julga o Sr. Lucas no haver exactido nesta memoria por no fallar
na sua entrada em Maco, no dia da sua sada, e talvez naquelle em que
fra encontrado na S vestido com trajos de mulher. Confesso no ter
fallado do Sr. Lucas para no ennodoar um escripto consagrado s
virtudes Luso-Macaenses, com a irregular conducta de tal governador.

Como fallaria em louvor de um individuo desprezado no s pela sua
conducta, mas tambem pela sua cobardia? O Sr. Lucas por fraco obstou ao
mais glorioso triunfo que podiamos obter em recompensa de tantas e to
longas fadigas: obstou que o chefe dos piratas se entregasse com toda a
sua esquadra no porto de Maco. Destas e outras aces do Sr. Lucas
devia eu fallar, se escrevesse a historia de Maco, mas eu apenas me
encarreguei de levar  posteridade dois factos dessa historia, a
destruio dos piratas, e o desembarque e retirada das tropas
britanicas. No fazendo o Sr. Lucas cousa boa digna de notar-se, julguei
fazer merc ao Sr. Lucas, deixando-o no escuro em que alli se lanou.

Sendo este opusculo destinado a louvar as aces dos Luso-Macaenses, no
devia apparecer entre elles um brasileiro empenhado em fazer o contrario
do que os outros praticavam. Como se fallaria em louvor de um
governador, cuja administrao foi tempo de martyrio para os macaenses,
no s pela falta de caracter do Sr. Lucas, mas tambem pela grande
rapina do ouvidor Peixoto?

 verdade innegavel ser tudo quanto alli se praticou de maravilhoso,
devido ao genio extenso e luminoso de Miguel de Arriaga. Assim o provam
as actas do Senado, as cartas de Cam-pau-sai, as de Bernardo Aleixo, e o
hymno cantado na presena dos bons Macaenses, pelo benemerito cidado
Jos Baptista de Lima, no dia em que estes celebraram o triumfo de
Miguel de Arriaga pela extinco dos piratas.

Quando fallei, em 1824, na 1.^a parte desta memoria, cerca do bom
governo Macaense referime  sua frma e aos annos em que influio nelle
Miguel de Arriaga, e Bernardo Aleixo. Agora vejo, com admirao, o Sr.
Lucas arrogar a s os louvores de outros, quando elle ainda nem ao menos
tinha visto Maco!

O Sr. Lucas diz, a paginas 23 de sua memoria:--Sei em ultima analyse que
no sei nada, e no sou nada--e a paginas 7 diz:--Tendo eu sido autor de
todos os negocios publicos e mui particularmente este, sera bastante
para dar ida do objecto contestado, e da falta de exactido da memoria
impressa em 1824, do espirito, conhecimentos, e fins com que foi
escripta.--

O homem que no  nada, e no quer nada pretende roubar a gloria dos que
foram alguma cousa; contestar com falsidades, documentos legaes e
autenticos. Confessa a veracidade dos factos impressos nesta memoria, e
censura o seu autor por no lhe dar a elle o que pertencia a outros! Eis
a falta de exactido encontrada pelo Sr. Lucas: dahi nasce a sua
desconfiana cerca do espirito, conhecimentos e fins com que ella fra
escripta.

Pde viver certo de que o espirito foi patriotico; os conhecimentos
extrados, parte das actas do Senado, parte adquerida na presena dos
factos; e os fins limitaram-se no gosto de levar  posteridade os factos
macaenses.

Arriaga, Bernardo Aleixo, Pereira Barreto, Alcoforado, e outros muitos
empregados naquella empreza, j o mundo os havia perdido quando tive a
honra de publicar pela imprensa as suas virtudes e proezas; o Sr. Lucas
no sendo nada e no querendo nada, esperou que elles morressem para
denegrir no s as proezas, mas tambem as virtudes daquelles vares
illustres!

--No posso deixar passar semelhante expresso, diz o Sr. Lucas a pag.
11, por conter noes erroneas e falsas em perjuizo da honra e da gloria
que me provem do resultado de todos os brilhantes feitos na poca
smente do meu governo, e cujo brilhantismo principiou com a minha
chegada e acabou com a minha retirada!--

Ainda seno vio maior jactancia. O Sr. Lucas chega aponto de alterar a
frma do governo s a fim de roubar a gloria que no lhe pertence.

 elle mesmo quem confessa, apesar do roubo que pretende fazer, a
paginas 42 da sua memoria, no ter influencia no governo.--O Senado, diz
elle, projectou mandar a galera Ulises ao Rio de Janeiro, afim de
cumprimentar El-Rei; oppuz-me; com tudo a galera proseguio--Assim
destroe o mesmo Sr. Lucas as suas argucias.

Em quasi todas as paginas da sua memoria lanou argumentos
contra-producentes.--Chegaram os piratas pela sua quantidade e fora,
diz elle a paginas 43, a dominar os canaes de Wampo-o; ento por
circunstancias, apesar das ordens superiores que me embaraavam a
fazelo, expedi ordens em Setembro de 1809 para serem batidos. O Sr.
Lucas, em seus improvisos desacredita os mesmos a quem pretende elogiar.
As ordens superiores referem-se ao Vice-Rei de Goa: porque motivo daria
este ordem para no se atacar os piratas? Estaria comprado por elles?
Que mais  preciso para saber-se que o Sr. Lucas no cooperara cousa
alguma para a destruio dos piratas, elle mesmo confessa que fra
obrigado a mandar ordens para serem batidos os piratas?

Em verdade o Senado, de quem Arriaga ra a alma, foi quem o obrigou a
mandar aquella ordem; logo fica demonstrado pelo mesmo Sr. Lucas, que o
brilhantismo daquella poca no lhe pertence, pois at para expedir a
ordem para serem batidos os piratas foi obrigado pelo Senado.

 certo, diz elle a pag. 46, que um dia depois que recebi parte do
commandante da esquadra, em que dava por verificada a entrega de
Cam-pau-sai, partio Arriaga para a bocca do rio Tygre, dizendo r a
negocio particular, e  certo que indo, esteve com o cabea dos piratas;
e  certo tambem que este logo se retirou com toda a sua esquadra; e que
a entrega se no fez, quando a parte do commandante (Alcoforado) a dava
por verificada!--

Que mais se poderia dizer em desabono do Sr. Lucas, do que elle mesmo
escreveo? Pois quem diz fizera tudo, no sabendo nada! Quem diz que o
brilhantismo de Maco principiara com a sua chegada alli, e acabara com
a sua retirada, confessa que tendo uma esquadra vencedora debaixo das
suas ordens, deixara fugir o inimigo depois de se ter j entregado?
Ento a quem comprou Arriaga na sua viagem  bocca do rio Tigre, ao
Chefe da esquadra portugueza, ou ao chefe dos piratas? Compraria ambos?
Tudo aquillo  falso; mas quando fosse verdadeiro, provaria que ra
Miguel de Arriaga quem predominava em Maco.

Os documentos improvisados pelo Sr. Lucas; e o Officio dirigido ao
Vice-rei, so partos do seu estro, quando se achava dominado pelo furor
de elogiar-se. O enviado inglez, no Rio de Janeiro, servio-se delles
para desacreditar Arriaga, e Bernardo Aleixo na opinio de El-Rei; mas
este desmascarou a intriga, premiou os macaenses, e castigou o Vice-rei,
por ter mandado a Maco o Sr. Lucas, que desde ento j mais obteve
emprego algum.

Este cavalheiro alm de pretender a gloria alheia, deixa ver na sua
memoria o azedume com que a escrevra! Tentou deprimir os macaenses, e
denegrio a sua estirpe. Um brasileiro jmais deve fallar em desabono
cerca de colonias povoadas por degradados; por quanto assim que Pedro
Alves Cabral descobrio -----File: 0166.png---\\\\\\-----o Brazil
despejaram-se as masmorras de Portugal. Quando nossos maiores chegaram a
edificar uma cidade no imperio chinez, os criminozos de todo o reino
eram diminutos para domar a sanha dos butecudos e tupinambas nos sertes
do Brazil.

Timor  o unico presidio que temos alm da Taprobana. S Cames, pelo
respeito devido ao genio, obteve ficar em Maco servindo o emprego de
Juiz dos orfos naquella cidade, rica pela salubridade do clima, pelos
alimentos, pela forma do seu governo, e pelas virtudes de seus
moradores.

O Sr. Lucas no escreveu para fornecer  historia cousas proprias a
fazer os homens melhores; pertendeu injuriar os macaenses com despreso
da razo e da justia. As providencias que ele diz foram a Maco em
1783, so impoliticas e desconcertadas: que outra cousa se poderia
esperar de dois theologos no governo de um reino? (Martinho de Mello, e
um frade) vises, argucias, e fogueiras.

Fallava Martinho de Mello, naquella poca, dos incontestaveis direitos
que tem a cora de Portugal sobre Maco! Que dir o imperador da China,
a quem pagamos fro? Mas quando assim fosse, quem sustentou ha perto de
300 annos esses direitos? Degradados? Por certo no. Martinho de Mello
era to hospede na historia daquelle paiz, que ignorava haver um decreto
feito em 31 de Agosto de 1629, que prohibe a qualquer degredado, que
alli se refugie, servir os encargos da cidade, e mesmo de eleger para
elles.

--O Senado de Maco, composto de degradados que para alli se refugiam,
diz Martinho de Mello, ou de outros similhantes, ignorantissimos em
materia de governo, no lhe importa cousa alguma que diga respeito a o
decoro nacional, nem ao incontestavel direito da soberania, que Portugal
tem quelle importante dominio!--

Fallar assim a povos residentes na China, no  s grande impolitica mas
tambem supina ignorancia das materias de governo. Graas aos generozos
macaenses, que despresando as invectivas dos sejanos, tem sempre
concorrido para tudo quanto  decoroso e interessante a Portugal. O
procedimento daquelle ministro deixa ver que elle tinha mais carencia de
luzes e de virtudes, do que os homens a quem offendeu.

Nem Martinho de Mello, nem o Sr. Lucas (da viola) jmais poderiam fazer
as proezas que em todos os tempos obraram os illustres macaenses. Thomaz
Vieira, natural de Maco, sendo governador daquella cidade em 1627,
vendo-a sitiada pelos hollandezes, armou seis pequenas embarcaes e foi
accommettelos. Abordou uma grande no, que tomou, fazendo horrivel
mortandade no inimigo; os restantes fugiram deixando triumfante o
denodado Vieira.

Os macaenses sempre honraram e prestaram a Portugal, j fazendo despezas
avultadas com os nossos embaixadores ao imperador da China, j mandando
generosos presentes  capital do reino luso, j derramando o proprio
sangue a fim de limpar as costas da China de piratas, j na defeza dos
muros levantados por seus maiores.

Os governadores exigentes das providencias, que alli mandou Martinho de
Mello, eram similhantes aos que desolaram Maco em 1626, 1709, 1747, e
mesmo ao Sr. Lucas seu elogiador aprol da tyrannia. Para se avaliar dos
homens que pedem taes providencias, bastar ler a carta seguinte do
Conde de S. Vicente. Tem por objecto responder a El-Rei D. Afonso V,
sobre o oitavo que mandava receber, de todos os rendimentos
particulares; tributo imposto em 1666 pelo vice-rei Antonio de Mello e
Castro.

--Sr.: a India ve-se de muito longe, e ouve-se mui tarde: assim no me
espanto da frma com que muitas ordens se expedem, nem do mal com que
outros se guardam[43]. J um grande ministro disse:--A jurisdico dos
Reis de Portugal apenas chega a Santarem; dahi para cima tudo  dos
corregedores--Na India a dos vice-reis no chega a tanto; o mais  dos
capites das fortalezas! Os gentios no tem fazendas, os canarins apenas
cultivam para comer; assim no ha de quem se receba esse oitavo. Das
pedras no se tira mel. Vossa Magestade deve mandar  India quem lhe
faa desses impossiveis, que eu no sei mais do que chorar as miserias,
que vejo. Se isto vai de mim, venha outro; se nasce dos povos, tenha
Vossa Magestade delles piedade. Goa 26 de Janeiro de 1668.

Se todos os vice-reis fallassem deste modo aos imperantes, no riam a
Maco aquellas offenas em logar de providencias; os povos seriam
felizes, os portuguezes respeitados, e os Alvarengas mais commedidos.

Julgo ter dito quanto basta para fazer arrepender o Sr. Lucas de querer
arrogar asi a honra, que no lhe pertence, e de ser ingrato aos
macaenses que tanto lhe soffreram. Para o Sr. Lucas avaliar, com mais
conhecimento de causa, o espirito e fins com que fora escripta esta
memoria, ahi lhe remetto a copia fiel de uma carta que dirigi ao Senado
de Maco em 1826, assim como a sua resposta.


                _Carta dirigida ao Senado de Maco._

Senhores, ainda que separado de vs ha doze annos pela distancia immensa
da Europa  China, o meu espirito esteve sempre comvosco. Havendo no
corao o germen de todas as virtudes, e recebido da natureza alma docil
s suas impresses, jmais poderia esquecer-me das sublimes qualidades
que possuis. Deviam ser escriptas por outro Andrade como Jacinto Freire,
mas tivesteis a desventura de viverdes em seculo diminuto em escriptores
capazes de dar vida s proezas dos heroes.

--Grandes e magnificos foram sem duvida os feitos dos athenienses; mas
quanto a mim, diz Salustio, menores do que a fama. Havendo alli muitos e
grandes escriptores, as proezas dos athenienses foram celebradas no
mundo pelas maiores. Assim o valor dos que as fizeram passa por tal,
qual nos seus exagerados escriptos o figuraram esses preclaros
engenhos[44]--Em nosso tempo no acontece o mesmo; para o mundo saber
das vossas proesas na carreira da gloria servio-se da minha tosca penna.

O livro que vos offereo  pequeno em volume, porm grande em seu
objecto: basta conter os grandes feitos que praticasteis na extinco
dos piratas. Na segunda parte que ficou a imprimir-se em Lisboa ainda
alcanasteis mais gloria. Na primeira realam os vencedores de
Cam-pau-sai, na segunda brilha o Senado com a expulso dos inglezes.
Porm no  elle a mesma cousa, o Leal Senado de Maco, e os cidados
macaenses? Nesse tempo luctuoso viviam todos animados do mesmo espirito;
a todos se ouvia a mesma voz:--Morrer, dizeis, ou mostrar que
descendemos dos Castros e dos Almeidas.--

Desculpai, Srs., se desafio a vossa mgoa recordando-vos os illustres
collegas, que por longa serie de annos regeram com vosco esta cidade.
Julgo-os com direito  minha lembrana e aos vossos elogios. Porque
motivo usaro os oradores celebrar s os poderosos? Por que no louvam
elles as pessoas abalisadas em merito e virtudes? Se  preciso celebrar
sempre os grandes, porque no se lembram tambem dos homens que foram
uteis? No ser digno de louvor o magistrado que usando da espada de
Astra, por muitos annos, o fez com tanta prudencia, que no ferio
cidado algum? Magistrado que havia corao to sensivel e humano, que
no se limitando em fazer a paz e a ventura de uma cidade, pretendia
abranger com esses dons  maior parte do mundo? Que abrazado no sancto
amor da patria, empenhava quanto possuia para engrandecela e
glorificala? Em fim o varo forte que assaltado por intrigas e calumnias
de ingratos, capazes de enfraquecer o espirito de Zeno, as supportava de
animo tranquillo? Vs sabeis que Miguel de Arriaga possuio estas
sublimes qualidades.

Quem, Senhores, deixar de louvar o illustre Jos Joaquim de Barros,
quando nesse mesmo recinto, agitando-se a questo se deviam, ou no ter,
accesso os inglezes, exclamou.--Voto que no se deixem entrar; desse-me
o lugar mais arriscado para defendelo; se a fortuna me for adversa,
gostoso darei a vida em honra da Patria[45].

Qual de vs, macaenses, nessa crise perigosa houve differentes
sentimentos? Todos repulsasteis o inimigo por modo singular e
extraordinario.

Do monumento consagrado  vossa memoria, offereci um exemplar ao Sr. D.
Joo VI; dizendo-lhe que certo de em parte alguma depositar melhor as
proezas macaenses do que em suas reaes mos, alli lhe entregava feitos
praticados em dias, bem similhantes aos do feliz tempo em que os
lusitanos pelo caminho da virtude subiram ao templo da immortalidade.
Fiquei satisfeito por saber depois, que El-Rei aprecira o livro, onde
se acham exaradas as proezas macaenses; porm ser completo o meu gosto
se as julgardes levadas  posteridade por maneira digna de vs.

Em verdade, Senhores,  preciso ser estupido para no admirar o vosso
animo, e barbaro para com o vosso exemplo no sentir o estimulo da
virtude. Coimbra, Mattos, Limas, e outros, possuiram virtudes perfeitas:
serviram por mais de trinta annos os encargos desta cidade por modo, que
nem Focio, ou Aristides o fez melhor em Athenas[46].

Macaenses, se os louvores provm de interesse, devem despresar-se; se a
lisonja tenta enganar os poderosos, deve temer-se; porm quando a
admirao tributa homenagem  virtude deve estimar-se.

Assevero-vos que nesse opusculo liguei sempre a minha alma s vossas
aces; se lhes faltam pensamentos animados, por mingua de genio, tem o
grito da verdade, unico preciso para immortalisar-vos.


                             _Resposta._

O Senado recebeo com satisfao a vossa memoria, por ver nella
immortalisados os feitos macaenses, na estinco dos piratas, que
infestavam o nosso arquipelago. Em verdade vs ornasteis o vosso e o
nosso quadro com as flores e bellesas de Cames e dos Andrades. O Senado
no perder occasio, em que vos possa ser util em reconhecimento de to
precioso presente.

_Cartorio do Senado, 16 de Novembro de 1826_


                                  FIM.



Notas:

[1] Sacrifico a minha vida e fortuna  vossa (dizia Cicero ao povo
Romano); s exijo em recompensa conserveis a memoria dos meus servios

                                                  _Catilinaria IV._

[2] M. Thomas.

[3] Diniz Ode XV.

[4] O reprehensivel descuido dos nossos auctores agora o pagamos por
castigo, ignorando os nossos proprios successos; e sujeitando-nos a
crr, e a estimar delles smente aquella pequena parte, que nos quizeram
contar os inimigos, mais obrigados da dr, que da verdade.

                                                  _D. F. M. C. 26._

[5] Era este Illustre Varo de mediana altura, reforado, largo de
ombros, mui cabelludo e tinha olhos amarellos.

[6] Navio de 20 bombardas com 300 homens.

[7] _Cames, C. X. Est 82_

[8] Por estas aces heroicas, ainda que barbaras, pode julgar-se o
valor dos inimigos que tinhamos a vencer.

[9] Ode XI. Epodo 4

[10] Ode XV. Dinis.

[11] Embarcao de 20 tonelladas.

[12] Cames, C. X. Est. 12 e 13.

[13] Jacintho F. de Andrade.

[14] Cam-pau-sai flagelou as provincias meridionaes do Imperio com
repetidos tributos; e saques aos remissos.

[15] Foi mui reprehensivel o modo porque obrigaram Arriaga a dacontas do
dinheiro, que seus inimigos divulgavam ter elle levado dos cofres
publicos, em sua administrao; sabendo-se em Maco, os sacreficios que
elle tinha feito em honra da Nao e a bem daquella cidade. Graas
eternas sejam dadas  sua memoria. Alm de no dever nada aos cofres
publicos, (como mostrou a Commisso nomeada para lhe tomar contas) ficou
sendo credor de 11 contos de ris; o que foi publico nas gazetas de
Maco.

[16] Com especialidade F. A. P. Thovar e Felis Jos Coimbra.

[17] Diuiz Ode 34

[18] Cames, Canto 2, Est. 100.

[19] Duarte Nunes de Leo, C. dos reis de Portugal.

[20] L. J. de Alvarenga, queixa-se do mysterioso silencio guardado a seu
respeito nesta memoria. No fim della direi qual foi o mysterio.

[21] No suburbio da cidade.

[22] Cames, Canto 1. Est X.

[23] Este paragrafo foi composto no dia 9 de Maio de 1824; dia em que o
Senhor D. J. VI proclamou aos portuguezes de bordo da Nao Windsor
Castle; tomou aquelle asilo para escapar aos malevolos que o tinham
cercado desde o dia 30 de Abril.

[24] S de Miranda.

[25] Allud e a uma maxima de confucio.

[26] O Imperador observou a seguinte maxima de Confucio.--Respeitos que
te levam vantagem por natureza.

[27] Promenade autour du monde, em 1817, 1818, 1819, 1820, Carta 68.

[28] Cidade portugueza na ilha de Timor. Procedia este contentamento por
terem sado de Coupang, cidade hollandeza na parte occidental da mesma
ilha aonde Arago e seus companheiros foram mal recebidos.

[29] Duarte Pacheco, depois de fazer prodigios na Asia, a inveja, a
calumnia e a intriga trouxeram-o da Africa a Lisboa em ferros.
Albuquerque, de-pois de immortalisar a nao a que pertencia, foi
victima das mesmas furias. No admira ter Alcoforado em premio de seus
ma-Portantes servios o governo da pestilente ilha de Timor, onde morreu
na flor da idade.

[30] Como estariam hoje os brazileiros se Pedro Alves Cabral levasse
taes ordens.

[31] Vede se esses homens que prestaram servios, para terem patria,
recusaram as enormes penses com que pertendem inchar!

[32] No protesto de Bernardo Aleixo se ver o espirito da intimao.

[33] Esta correspondencia foi extrahida, por integra, do Senado, mas 
dada aqui em espirito.

[34] O Governador ra o orgo do Senado.

[35] J em 1802 quizeram os Inglezes abusar dos nossos tractados com o
governo Chinez.

[36]  notavel o modo civl e urbano do governo de Maco, e as maneiras
asperas de Roberts, etc. companhia.

[37] Tinha chegado na antevespora ordem de Goa para entrarem os inglezes
em Maco!

[38] Note-se como fallam os mandarins a nosso respeito. Eis o que
prometti na introduco da primeira parte.

[39] Admira no dizer que os mandaria para Botany-bay.

[40] Bernardo Aleixo apelou para o tempo: esse inflexivel juiz dos
homens e das cousas j castigou os seus detractores.

[41] M. de Levis.

[42] Juizo dos sobrecargas, mandado a Londres.

[43]  boa resposta s providencias de Martinho de Mello.

[44] Verso do Sr. J. V. B. Feio.

[45] Varo septuagenario.

[46] Cato o censor, no possuio to grande somma de virtudes perfeitas,
como havia o benemerito cidado Felis Jos Coimbra.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+----------------------+---------------------------+
  |          |      Original        |         Correco         |
  +----------+----------------------+---------------------------+
  |#pg.    8| Chang-ti             | Cham-hi(*)                |
  |#pg.   12| Tai-te-sang          | Tai-te song(*)            |
  |#pg.   12| qualqner             | qualquer                  |
  |#pg.   13| natueza              | natureza                  |
  |#pg.   14| Abuquerque           | Albuquerque               |
  |#pg.   17| fizero della        | fizero delle(*)          |
  |#pg.   18| cidadados           | cidados                  |
  |#pg.   19| periecios            | periecos                  |
  |#pg.   25| 1585                 | 1805(*)                   |
  |#pg.   26| Ciadde               | Cidade                    |
  |#pg.   29| bribue               | brigue(*)                 |
  |#pg.   29| Bareto               | Barreto                   |
  |#pg.   31| argino               | argivo(*)                 |
  |#pg.   35| Com paros           | Cem paros(*)             |
  |#pg.   36| illultres            | illustres                 |
  |#pg.   37| aubiram              | subiro(*)                |
  |#pg.   37| tinha                | tinho(*)                 |
  |#pg.   42| Wam-pao              | Wam-poo(*)                |
  |#pg.   44| para ser             | por ser(*)                |
  |#pg.   44| mais                 | mui(*)                    |
  |#pg.   45| formaram             | formaro(*)               |
  |#pg.   46| 8^o                  | 3^o(*)                    |
  |#pg.   51| fuso                | effuso(*)                |
  |#pg.   56| espedadaados        | espedaados               |
  |#pg.   56| os velas             | as velas                  |
  |#pg.   58| Officiciaes          | Officiaes                 |
  |#pg.   64| a a honra            | a honra                   |
  |#pg.   65| mercantes            | marcantes(*)              |
  |#pg.   65| a Chum-pin           | para Chumpin(*)           |
  |#pg.   67| alguns do seus       | alguns dos seus           |
  |#pg.   74| snummameute          | summamente                |
  |#pg.   75| Cam-paui-sai         | Cam-pau-sai               |
  |#pg.   79| pala honra           | pela honra                |
  |#pg.   83| nommme               | nomme                     |
  |#pg.   87| Virtudes             | virtudes que possuia(*)   |
  |#pg.   87| fazia                | faria(*)                  |
  |#pg.   88| habitautes           | habitantes                |
  |#pg.   88| tome a agua          | tome agoa(*)              |
  |#pg.   88| Gragas               | Graas                    |
  |#pg.   91| as quaes tem         | as que tem(*)             |
  |#pg.   91| reconhcimento        | reconhecimento            |
  |#pg.   96| pessoas              | posseses(*)              |
  |#pg.   96| Septemero            | Septembro                 |
  |#pg.   98| vosas tropas         | vossas tropas             |
  |#pg.  101| qu o                | quo                      |
  |#pg.  103| a tractada           | tratada(*)                |
  |#pg.  105| presidente           | Ministro(*)               |
  |#pg.  105| lares                | os lares(*)               |
  |#pg.  106| nos macaenses        | nos peitos macaenses(*)   |
  |#pg.  106| a persuadilos        | e persuadilos(*)          |
  |#pg.  106| por misso           | permisso(*)              |
  |#pg.  106| e afianou           | afianou(*)               |
  |#pg.  106| Francico             | Francisco                 |
  |#pg.  107| quebar-se            | quebrar-se(*)             |
  |#pg.  109| enentrarem           | entrarem                  |
  |#pg.  110| qnanto               | quanto                    |
  |#pg.  110| tortaleza            | fortaleza                 |
  |#pg.  112| amim                 | a mim                     |
  |#pg.  112| A inda               | Ainda                     |
  |#pg.  114| respoderam           | responderam               |
  |#pg.  114| cencedido            | concedido                 |
  |#pg.  114| virtudes             | virdes(*)                 |
  |#pg.  117| fraududulenta        | fraudulenta               |
  |#pg.  117| horririvel           | horrivel                  |
  |#pg.  117| da consumada         | da sua consumada(*)       |
  |#pg.  119| foi uma complicao  | foi uma a complicao(*)  |
  |#pg.  122| om elle             | com elle                  |
  |#pg.  123|       o 1.  acaba no ponto final(*)            |
  |#pg.  130| obedecer             | obedecerem(*)             |
  |#pg.  133| Winistro             | Ministro                  |
  |#pg.  133| innlezes             | inglezes                  |
  |#pg.  143| miseraravel          | miseravel                 |
  |#pg.  143| em Lx.a impressa     | impressa em Lisboa(*)     |
  |#pg.  144| o Prezidente         | o Ministro(*)             |
  |#pg.  147| de que este espirito | de que o espirito(*)      |
  |#pg.  147| adquerida            | adqueridos(*)             |
  |#pg.  148| frma                | frma                     |
  |#pg.  149| que elle             | que o Sr. Lucas(*)        |
  |#pg.  149| cooperarem           | cooperara(*)              |
  |#pg.  149| do que a sua mesma   | elle mesmo                |
  |          | confisso de que fra|   confessa que fra(*)    |
  |#pg.  151| encontrado           | entregado(*)              |
  |#pg.  151| o Chefe              | ao Chefe(*)               |
  |#pg.  151| prova                | provaria(*)               |
  |#pg.  152| butucudos Tupinambas | butecudos e tupinambas(*) |
  |#pg.  152| e o Arcebispo        | e um frade(*)             |
  |#pg.  153| e mesmo eleger       | e mesmo de eleger(*)      |
  |#pg.  155| Afonso V.            | Afonso VI. (*)            |
  |#pg.  155| que outros guardam   | com que outros se         |
  |          |                      |   guardam(*)              |
  |#pg.  158| Julgo-vos            | Julgo-os(*)               |
  |#pg.  161| neste apuzento       | neste opusculo(*)         |
  |          |                      |                           |
  |#nota   15| oomo                 | como                      |
  |#nota   17| 24                   | 34(*)                     |
  |#nota   36| civi                | civl                     |
  +----------+----------------------+---------------------------+


(*) Correces efectuadas com base na errada da obra original.

Foram mantidas as variaes das palavras "La Perouse", "Le Perou-se",
"La Perou-se"...

Na pgina 85, no existe ponto 3//nota 3.

A pontuao foi corrigida de acordo.
Exemplo: colocao de pontos finais em vez de vrgulas no final de frases.





End of the Project Gutenberg EBook of Memoria dos feitos macaenses contra os
piratas da China, by Jos Ignacio de Andrade

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LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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     https://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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