Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura

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Title: As Cinzas de Camillo

Author: Visconde de Vila Moura

Release Date: December 24, 2010 [EBook #34742]

Language: Portuguese

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VISCONDE DE VILLA-MOURA


As Cinzas de Camillo




    Da regio escura vem bater-me
    na fronte uma aragem fria...
                         CAMILLO.




EDIO DA RENASCENA PORTUGUESA




O PRODUCTO LIQUIDO DESTE OPUSCULO DESTINAR-SE-H A ABRIR A SUBSCRIPO
PUBLICA PARA UM MONUMENTO A CAMILLO NO PANTHEON.


Direitos reservados




AS CINZAS DE CAMILLO




    DO AUTOR

    A Moral na Religio e na Arte, 1906.

    A Vida Mental Portugueza, 1909.

    Vida Litteraria e Politica, 1911.

    Camillo Indito, 1913 (1. milhar esgotado).


    CONTOS E NOVELLAS:

    Nova Sapho, 1912 (1. edio esgotada).

    Doentes da Belleza, 1913.

    Os Bohemios, 1914.


    Antonio Nobre (1. edio esgotada) 1915.

    Grandes de Portugal (com Antonio Carneiro), 1916.

    Fialho d'Almeida, 1917.

    Fanny Owen e Camillo, 1917.

    As Cinzas de Camillo, 1917.




VISCONDE DE VILLA-MOURA

As Cinzas de Camillo


(NOTAS E DOCUMENTOS)



EDIO DA
RENASCENA PORTUGUESA
PORTO




A

NUNO PLACIDO CASTELLO BRANCO




    Da regio escura vem bater-me
    na fronte uma aragem fria...

            CAMILLO CASTELLO BRANCO.
          --_No Bom Jesus do Monte._




Porque de novo volta a publico a ida da trasladao de Camillo para o
Pantheon, tambem de novo entendemos dever voltar ao assumpto, menos por
discutir as razes daquelles que, contra a sua derradeira vontade,
teimam em violar-lhe o jazigo, do que por esclarecer o que a tal
respeito deixou escripto.

Mas recordemos os factos. Elles so, de si, to claros que quasi nos
dispensam glossario.

Camillo suicidou-se em 1 de junho de 1890, pelas trez horas e um quarto
da tarde. No dia seguinte foi o caso conhecido do publico pelos
jornaes, bem como o destino que devia ter o seu cadaver.

Diz o _Correio da Manh_, de 4 de junho:

    PORTO, 2--O grande escriptor disparou um tiro na cabea s 3 horas
    e um quarto da tarde. Caiu logo em estado comatoso, e s 5 horas
    succumbiu. O medico Ferreira, de Santo Thirso, afirma que a bala
    fra quasi at  extremidade do lado opposto.

E em nota solta:


    Camillo pedira em tempo a Freitas Fortuna para ser enterrado no
    jazigo delle, chegando at a entregar-lhe um documento redigido
    neste sentido.[1]

De facto, no comboio do Minho das 6 horas da tarde do dia 3, chegava ao
Porto o cadaver do Romancista, acompanhado por Freitas Fortuna, desde
Famalico, esperando-o na gare, quando muito cem pessoas, informa o
_Correio da Manh_, e entre ellas Alves Mendes, Sebastio Leite de
Vasconcellos e o editor Costa Santos. De resto, o atade seguiu para a
Lapa, mal coberto por cinco coroas de flores artificiaes e sempre
acompanhado por Freitas Fortuna, por Espinho, pelo creado Manuel, mais a
cauda de dezoito carruagens arrastando a praga dos reporteres.

Alem de Alves Mendes, no comparecera mais um unico escriptor ou
artista, informa ainda o mesmo jornal!

 que mettera medo o baque da sua queda, seno o gesso que de si restava
e a que a alludida folha se refere da maneira seguinte:

    A CAMARA ARDENTE--O MORTO.

    A vasta sala, despida de sanefas e de espelhos, com o cadaver sobre
    um panno, ao meio, tinha uma solemnidade lugubre que a assemelhava a
    um templo vasio: o choro da esposa e o crepitar das luzes eram os
    unicos sons que interrompiam a funebre quietao do aposento.

    No seu fato escuro--_pardessus_ usado, _frak_ e cala preta da mesma
    fazenda, costume que vestia quando se suicidou--tons roxeados a
    cercar-lhe as narinas e os olhos, o seu perfil macerado, fortemente
    vincado de rugas, o farto bigode cahindo-lhe lasso, na bocca esse
    extranho _rictus_ que parece dar ao cadaver um riso de mofa,--o
    supremo escarneo da morte  vida. L estava elle sereno como um
    adormecido, os ps salientes, a cabelleira negra e comprida, as mos
    finas cruzadas sobre o peito, o morto, mal illuminado pelo claro de
    duas velas, parecia seguir com os olhos mal cerrados a dr da
    viscondessa que aos ps do seu ultimo leito, abysmada na orao,
    velava ssinha.[2]

Entretanto, Freitas Fortuna, longe de enjeitar o legado dos seus restos,
logo fez valer junto da familia de Camillo as declaraes em seu poder,
e sobre as quaes tambem, immediatamente, todos os interessados
concordaram, soccorrendo-as com dois novos documentos, ou tenha sido com
o _auto da sua doao, assignado por D. Anna Augusta Placido e
Visconde de S. Miguel de Seide_; e com a _declarao do legatario,
acceitando aquelle deposito no seu jazigo da Lapa, com o encargo de ahi
o conservar perpetuamente_.

Mas reproduzamos, na integra, e, por sua ordem, os preciosos documentos.


A primeira carta de Camillo sobre o assumpto:


                          Exmo. Freitas Fortuna, meu querido amigo.

    Revalido, por esta carta, o que lhe propuz com referencia ao meu
    cadaver e ao seu jazigo no cemiterio da Lapa.

    Desejo ser ali sepultado e que nenhuma fora ou considerao o
    demova de me conservar as cinzas perpetuamente na sua capella.

     natural que ninguem lhe dispute a posse dessas cinzas; receio,
    porem, que seja ainda uma fatalidade posthuma que se compraza em
    impor a violencia at aos meus restos.

    D o meu amigo a estas linhas a validade de uma clausula
    testamentaria, e, sendo preciso, faa que ella valha em juizo.

    Abraa-o com extremado affecto e inexprimivel gratido o seu

                 CAMILLO CASTELLO BRANCO.

    Porto, 6 de abril de 1888.

Esta carta foi pela primeira vez patente ao publico no jornal _O
Seculo_, em 4 de julho de 1914, onde ns a publicamos para evitar
que fosse por diante a trasladao dos restos do Escriptor para Belem,
que um grupo de parlamentares, a que presidia o illustre professor sr.
Carvalho Mouro, devotadissimo admirador de Camillo--tencionava, ainda
contra a m vontade de uma parte da Camara, que, diga-se de passagem,
vergonhosamente, e sem conhecimento deste e demais documentos, logo se
deu a objectar _innocentes_ escusas,  conta duma tal jornada.

Muito antes, e incidentemente, nos veio  mo aquelle documento, quando
tambm ns--(que, ao tempo no tinhamos sequer presente a segunda carta
de Camillo a Freitas Fortuna, sobre o assumpto, alis desde muito
publicada--)[3] nos propunhamos insistir e collaborar com
todos aquelles que, seriamente, e bem de alma, se dessem a promover ou
dispor a trasladao, que j ento, valha a verdade, consideravamos
menos como homenagem necessaria  sua memoria, do que como soluo de
direito, que no de obsequio, ao repouso definitivo das suas cinzas.

Aprestara-se-nos o ensejo de ver realisadas as nossas esperanas, de par
das dos maiores admiradores de Camillo--Silva Pinto, Senna Freitas e
Ricardo Jorge, no melhor numero--quando, a proposito da deliberao da
Camara do Porto e Renascena Portuguesa que, por si, e
independentemente da discusso tragico-burlesca dos parlamentos, se
propunham levar a cabo uma tal ida,--ns fomos solicitado a ouvir dos
representantes de Camillo a sua opinio a tal respeito, isto , a
consulta-los sobre se auctorizariam ou no o levantamento dos restos do
Escriptor do seu jazigo na Lapa.

 claro, que interferi no caso particularmente, e s por acquiescer s
solicitaes dum illustre membro da Camara do Porto, tambem, ao tempo,
do corpo dirigente da Renascena Portuguesa, sociedade literaria com
sde na mesma cidade[4], e que para aquelle effeito se me
dirigiu, bem por certo por mera razo da minha idoneidade como
incondicional admirador do Romancista, mais pelo conhecimento que
porventura tivera das minhas opinies a tal respeito, desde muito,
expressas.

Ora foi a tal proposito que, conjunctamente com a resposta de Nuno
Placido Castello Branco, eu recebi a copia daquella carta, pelo punho do
Visconde de S. Miguel de Seide, com a ordem de a publicar
opportunamente, e como instruco do juizo que porventura seguissemos,
no caso da consulta que, por sua vez, elle devolvia para que sobre ella
as Corporaes interessadas resolvessem.

 claro que,  face de to obrigante documento, a sua opinio parece
ter sido uma:--nunca mais aquellas corporaes pensaram na trasladao.
E dahi tambem o silencio, feito  volta do caso, at ao momento em que
alguns deputados, alis no melhor empenho,--o mesmo que a Camara do
Porto e a Renascena Portugueza tinham tido--deliberaram voltar ao
assumpto.

Foi ento, repetimos, que, pela primeira vez, entendemos de nosso dever
publicar aquella carta, como elucidao aos promotores da inopportuna
homenagem, e to cabida ella foi que logo, avisadamente, aquelles
desistiram do seu intento, transferindo as importancias destinadas  sua
despeza para o levantamento de um monumento, infelizmente j bem
tardio, a Camillo.


Entretanto, pois que, desde que se tornou inopportuna, por no dizer
impertinente, a trasladao, parece ter crescido o numero dos devotos de
tal ida--vamos ns, hoje, que estamos de posse de todos os documentos,
ver o que,  face delles, aquella vale.

Mas antes, e por melhor firmar opinio, sigamos no traslado dos
documentos que ao assumpto se referem. Tornar-se- mais facil de ver
depois, e a melhor luz, at onde vae a teimosia dos sectarios duma ida
hoje indelicada, (e que maior crime pode cometter-se para com os mortos
do que o da indelicadeza?--) que no sectarios da melindrosa memoria
do Escriptor.


Eis a segunda carta de Camillo a Freitas Fortuna:

                  Meu presado Freitas Fortuna.

    Comeo a experimentar uma especie de affecto posthumo ao meu
    cadver.

    To pouco me apreciei na vida, to pouco cabedal fiz da minha saude,
    que j agora me quer parecer, que este amor ao que nada vale 
    retribuio devida a esta materia, que me ha-de sobreviver alguns
    annos aviventada pela engrenagem de putrefaco.

    Deste affecto extraordinario, mas no excepcional, resultou
    dizer-lhe eu, meu querido amigo, quer falando, quer escrevendo, que
    aspirava fervorosamente a ser sepultado no seu jazigo da Lapa.

    E bem certo que, para alm da campa, ha o que quer que seja que
    ainda nos prende s coisas mortaes. Sei que no seu jazigo dormem o
    somno infinito seus extremosos progenitores.

    Ambos conheci na flor da vida, no esplendor da honra, nas luctas do
    trabalho e na pujana da alegria e da felicidade.

    Ambos morreram no vigor dos annos, se podem considerar-se mortas
    _duas imagens sagradas_ que renascem na alma dum filho ao fogo da sua
    saudade, com o seu respeito filial, com as suas lagrimas represadas,
    e que os annos ainda no poderam crystallizar em glacial
    indifferena.

    Volvido um longo praso as cinzas do meu querido Freitas iro aos
    braos j cinzas tambem de seus _paes_ estremecidos.

    Se a morte tivesse expresso que no fosse aquelle mudo terror de um
    gesto que ao mesmo tempo anniquilla e grava o eterno estigma do
    silencio nos labios gelidos, s ella poderia dar-nos a sombra
    horrida e que o seu esquife baixar  perpetua unio com os
    cinerarios de seus _paes_. E eu, a essa hora, estarei  beira delles
    como testemunha silenciosa das compungidas lagrimas que lhe vi na
    face quando o corao lhas dava repassadas duma santa saudade.

    No sei se esta chimera, que vagueia na regio tenebrosa e na crypta
    dos mortos amados e chorados, foi a despertadora vontade que me
    domina ha anno e meio de ser enterrado no seu jazigo.

    O meu querido Freitas Fortuna acceitou com ternura a offerta do meu
    cadaver, e d'essa arte, permittindo que eu fizesse parte da sua
    familia extincta, quiz continuar alem da vida a tarefa sacratissima
    da sua dedicao incomparavel. Bem haja, e adeus.

        Bemfica, 15 de julho de 1889.

                   Seu do corao,

             CAMILLO CASTELLO BRANCO.[5]

Esta carta foi a primeira que sobre o assumpto veio a publico, tendo
sido impressa no _Jornal da Manh_, de 3 de junho de 1890, ou tenha sido
na vespera do dia da entrada do cadaver de Camillo no mausolo-Fortuna.

Comprehende-se que, a despeito do seu texto, os admiradores do
Romancista pretendessem ainda o seu ingresso no Pantheon, porquanto no
 aquella bem frisante e incondicional, como a primeira a que se refere,
e que, durante tantos annos, foi geralmente ignorada.

Entretanto, que de ambas as cartas os interessados mais proximos,
(referimo-nos  Familia-Fortuna e  de Camillo) tinham pleno
conhecimento, prova-o no s a circumstancia de immediatamente
fazerem seguir para o cemiterio da Lapa o cadaver do Romancista, mas,
ainda mais, o facto de quasi logo as duas partes interessadas se
mutuarem as mais claras obrigaes no s para garantirem, como por
tornarem effectivo, perpetuamente, aquelle deposito.

 do teor seguinte o auto de doao do cadaver de Camillo:

    Os abaixo assignados, D. Anna Augusta Placido (Viscondessa de
    Correia Botelho) viuva, e Nuno Castello Branco (Visconde de S.
    Miguel de Seide) vimos na qualidade de esposa e filho do falecido
    sr. Camillo Castello Branco (Visconde de Correia Botelho), ambos
    residentes na freguesia de S. Miguel de Seide, do concelho de Villa
    Nova de Famalico, no districto de Braga, querendo cumprir as
    determinaes de seu amado esposo e pai, que manifestou a expressa
    vontade de ser sepultado no cemiterio da Real Irmandade de N.
    Senhora da Lapa (na cidade do Porto), no jazigo da familia do seu
    dedicado amigo Joo Antonio de Freitas Fortuna, a quem por escripto
    estipulou, que nenhuma fora ou considerao o demova de
    conservar-lhe as cinzas, perpetuamente na sua capella--; os abaixo
    assignados revalidam por este acto a entrega e doao que fizeram do
    cadaver do seu querido esposo e pae ao referido Joo Antonio de
    Freitas Fortuna, residente na rua de Cedofeita n. 986, da cidade do
    Porto, que o recebeu e acceitou com o encargo de o conservar
    perpetuamente na sepultura numero um do referido jazigo de sua
    familia, onde est, e onde deve estar _ad perpetuam_. E por isto
    conferem ao indicado Joo Antonio de Freitas Fortuna, e aos seus
    representantes, que atravez dos tempos possam vir, e forem os
    legitimos possuidores da referida capella, todos os poderes em
    direito necessarios, sem excluso alguma, e com a faculdade de
    substabelecerem, para que nunca, e sob qualquer pretexto que seja,
    possa ser retirado da indicada sepultura perpetua em que jaz o
    cadaver do sr. Camillo Castello Branco, porque tal foi a sua
    expressa vontade dele, assim como  a dos abaixo assignados, que a
    fazem boa e querem que seja sempre cumprida como disposio
    testamentaria para o que por este titulo de doao onerosa desistem
    de todos os seus direitos ao referido cadaver e outorgam sem reserva
    alguma a Joo Antonio de Freitas Fortuna e a seus legitimos
    representantes na posse do referido jazigo, a fim de que possam
    cumprir as condies estipuladas aqui, e para realizarem todos os
    actos indispensaveis ao integral cumprimento da expressa vontade de
    seu amado esposo e pae, que respeitam e cumprem, como querem que os
    seus successores ou futuros representantes a cumpram e respeitem. E
    por esta ser verdade, passam este acto de doao, que eu, Nuno
    Castello Branco, escrevo e que assignam com as testemunhas Francisco
    Correia de Carvalho, casado, proprietario da freguezia de S. Paio de
    Seide e Antonio Vaz Vieira de Napoles, solteiro da cidade de
    Guimares. S. Miguel de Seide, 10 de Junho de 1890, e
    noventa.--(Ass.) _Anna Augusta Placido, Viscondessa de Correia
    Botelho; Nuno Castello Branco, Visconde de S. Miguel de Seide;
    Francisco Correia de Carvalho e Antonio Vaz Vieira de Napoles._

    (Segue-se o reconhecimento das assignaturas por Joo Bernardo
    Correia do Amaral, em 10 de junho de 1890).

Acceitao da doao anterior, averbada por Freitas Fortuna naquelle
documento:

    Eu, Joo Antonio de Freitas Fortuna, abaixo assignado, casado e
    residente na rua de Cedofeita, n. 986 da cidade do Porto, cumprindo
    o disposto no art. 1466 do Codigo Civil portuguez, averbo neste
    documento a acceitao do cadaver do meu presado amigo o sr. Camillo
    Castello Branco (Visconde de Correia Botelho) e que me foi doado e
    entregue, e que eu aceitei com o encargo de o conservar
    perpetuamente na sepultura numero um do jazigo de minha familia,
    onde jaz, no cemiterio da Real Irmandade de N. Senhora da Lapa, e
    sob a condio de que nunca, e sob qualquer pretexto que seja, os
    descendentes de meu bom pai ou usufructuarios do indicado jazigo o
    tirem da referida sepultura ou consintam que o retirem, como se
    expoz no auto de doao supra que fez a Exma. Sra. Viscondessa de
    Correia Botelho e Exmo. Sr. Visconde de S. Miguel de Seide, esposa e
    filho do meu falecido amigo. E por ser verdade o referido aqui,
    escrevo nesta doao a respectiva acceitao, que assigno perante o
    tabellio e as testemunhas, o sr. Domingos Joaquim Machado, casado,
    negociante e morador na rua de Oliveira Monteiro e o sr. Albino
    Pinto dos Santos, solteiro, caixeiro e residente na rua Ch, ambos
    n'esta cidade do Porto.

    Porto, 16 de junho de 1890 e noventa. (Ass.) _J. A. de Freitas
    Fortuna, Domingos Joaquim Machado e Albino Pinto dos Santos_[6].


    (Reconhecimento feito pelo tabellio Edmundo Maia Campos Silva).

Eis os documentos. Vejamos, em seguida, o mais dos imaginaveis
argumentos a oppor-lhes, por concluir, de vez, pelo seu nenhum valor.

Em primeiro logar, tem-se affirmado que ao Estado pertence escolher a
forma e o logar destinados a melhor consagrar os mortos.

O que vale dizer que os restos dum homem illustre so para o Estado,
como para os que assim pensam, menos do que os da gente humilde que,
alem daquelle, tem por si o direito de escolher o logar do seu
definitivo repouso.

Ora eu no sei at que ponto se tem avanado em materia de regalias
publicas, a ponto de chegarmos, pelo _controle_ do Estado--a possuir
tudo, caminhando da liberdade do homem  escravido dos seus restos!

O que se conclue  que a doutrina corrente , mais ou menos, a
seguinte:--ha um Pantheon, e  preciso colleccionar ali todos os
notaveis, ainda que, como no caso de Camillo, elle tenha repugnado aos
escolhidos.

Dest'arte, se volve afinal o Pantheon num forado museu de ossos, por
no dizer num extravagante collegio de memorias, para onde os mais
notaveis esqueletos tero fatalmente de ser conduzidos, e, se preciso
for, expropriados, em razo da propria utilidade da sua gloria!

Ainda mais:--para os que de tal maneira pensam, os grandes homens no
ficariam devidamente venerados fra do recinto que o Estado lhes confere!

Nisto, a nosso ver, o erro.

 uma scisma quasi grosseira, embora vulgar, suppor que os outros tem
valor smente quando lho concedamos, ou, melhor, quando, ostensivamente,
lho memoremos!

Quando, pelo contrario, o seu valor est unicamente com elles e com a
sua obra, para alem de todas as honras e premios officiaes que se lhes
decrete.

E, assim, quem curar manh de saber, por aferir do valor de Camillo,
se elle pertenceu ou no s Academias da sua terra?

De egual arte, tambem os seus ossos no crescem pelo facto de de lhos
semearmos nos Jeronymos, ou no casaro de Santa Engracia, embora natural
fosse que para qualquer dos dois monumentos a Nao os conduzisse, se,
melhor e mais correctamente, lhe no pertencesse zelar a sua derradeira
vontade.

Mais. Entre ns, nem sequer ha ainda seno uma indicao de Pantheon. Os
Jeronymos so abrigo casual dos grandes, poucos, que ali repousam. De
resto o futuro Pantheon de Portugal ser o sempre novo e j lendario
templo de Santa Engracia!

Porque foi para ahi que a primeira assembla do regimen mandou que a
Nao os fizesse conduzir, de par de outros que o tempo fosse
glorificando[7].

O Pantheon de S. Vicente, privilegio da Casa de Bragana, est cheio a
tal ponto, que do exame das suas arcas, a esmo ahi postas, mais d ao
visitante a ida dum casual deposito de mortos desarrumados, do que dum
templo de sua sagrao.

Sob a nave, cheia de sombras do intimo podredoiro, entre velludos, mais
um monto de coras e gales velhos, descansam os reis assassinados,
cujas figuras comeam de desapparecer na nevoa que lhes tolda o crystal
dos caixes, cerrando-os, providencialmente, ao espectaculo da sua
decomposio em publico.

Tem um ar de pateo lugubre a extranha galeria, cujos silencios so para
o espectador como que compassos do grande carnaval historico a seguir, e
que as duas sombras-phantasmas dos ultimos reis parecem ainda reflectir
do gesso mysterioso das suas torturadas mascaras emblematicas.

A um canto repousa D. Pedro II, to impresso da sua urna que esta se lhe
ajusta como um caixilho, donde, distante e bolorenta, surde, agora,
serena, a sua face larga, formando o todo como que uma reproduco
daguerreotypica dos seus derradeiros e infelizes annos de exilado!

Ali espera, desde muito, a guia de marcha para o Brazil, onde, de facto,
sempre lhe quedou a alma.

De resto, mais nada ha que sirva a marcar verdadeira piedade, ou
grandeza; tudo ahi inculca o entrudo lugubre das ultimas cerimonias e
honras officiaes, hoje tambem, no geral, negadas ou podres, como o mais
das flores e presentes funerarios que, ao acaso, ahi restam.

Afinal um lixo caro, tudo o que para ali juntaram  volta das urnas do
mesquinho Pantheon real!

E, entretanto,--ver-se-h mais tarde, e  razo duma melhor verdade--ahi
velam algumas das maiores memorias que Portugal tem tido, mau grado a
herana que as assombra.


Effectivamente, ha entre ns alguns monumentos funerarios de
indiscutivel valor, mas esses no esto em S. Vicente.

Esto em Santa Cruz de Coimbra, nos Jeronymos, em Alcobaa, na
Batalha,--emfim espalhados por toda a parte onde uma disposio de
ultima vontade, seno a propria devoo dos povos, os fez erigir, nunca
pela ida dum publico dormitorio de mortos, adrede obrigado a officiosas
memorias.

 ver o que se passou com Garrett que, apesar de ter acautelado o seu
natural e carinhoso desejo de repousar no cemiterio de S. Joo, ao lado
de seus filhos, foi primeiramente sepultado nos _Prazeres_ e, depois,
dahi, transferido para Belem!

O que significa, a nosso ver, nunca um precedente a seguir, mas,
pelo contrario, uma lamentavel indelicadeza da parte da Nao que para
ali o trasladou, sem que ao menos reflectisse na maneira por que seria
no s justo, mas at naturalissimo faze-lo!

Porque, no presente caso, era bem facil conciliar o desejo dos
admiradores do dramaturgo com a vontade por elle expressa.

Bastava ver do seu intento, no documento a que alludimos e donde
resulta, bem patente, a unica razo daquelle seu desejo.

De facto, o que se v da carta de Garrett a D. Jeronyma Deville,
publicada por Francisco Gomes de Amorim, e em que se exprime a indicao
do seu jazigo no cemiterio de S. Joo-- sobretudo o proposito, ali
bem declarado, de repousar junto de seus filhos.

Ora, se a Nao tinha de sua vontade transferi-lo para os Jeronymos--de
seu dever tinha tambem faze-lo acompanhar dos restos daquelles; e, desta
forma, o seu preito seria, bem de certo, maior; e, alem de tudo, no
revestiria a indelicadeza que assim foi.

Mais: visto que so necessarios exemplos, sirva-nos ainda, de norma o
que de justo se tem resolvido, l fra, em casos semelhantes, e
sobretudo em Frana, que de seu brio tem quasi sempre casar ao proposito
do seu agradecimento publico para com os grandes vultos nacionaes a
maior atteno, e, mais ainda, o maior melindre de delicadeza para
com os seus designios, quando no com os seus caprichos.

Por uma razo equivalente quella que consta da carta de Garrett est no
Pantheon madame Zola, junto de Zola; e madame Berthelot, junto de
Berthelot, mortos no mesmo dia.

Isto, sim;  simples e  delicado. E, comtudo, no consta que por tal
motivo tenha havido desavena entre os grandes ali memorados.

Pelo contrario, Balzac, talvez por negligencia, seno por odio da mesma
burguezia que to desapiedadamente elle escalpellou,--est na
Pre-Lachaise!

E, no entanto, quem o julga menor por isso?

Onde quer que seja, dalgum modo continuar a rir; e, se nesse mundo
que fica para alem do que elle foi, ha logar para reflexes  sua Obra,
o mais que lhe acudir , decerto, a sua mesma approvao plena por tudo
quanto escreveu, ou seja a consciencia do acerto com que traou o perfil
moral dos que, de momento, lhe so obstaculo  porta do Pantheon!

E dahi, quem sabe? Talvez que ainda um motivo de valor explique a sua
estada no Pre-Lachaise, que, effectivamente, para o caso, no significa
menos que o templo de Santa Genoveva!

Porque, repetimos,  inferior aferir da grandeza dum artista, pela
estima do logar onde elle repousa.

Em Frana, ha casos de escrupulo, no genero, por vezes,
extraordinarios! Assim, em 1885, foi profanada a Egreja de Santa
Genoveva, unicamente para que nella entrasse Victor Hugo![8]

E, contrariamente, por motivo da confisso catolica de Pasteur, no foi
este para aquelle templo, mas para o seu proprio Instituto, onde jaz
guardado em capella propria.

Ahi est a maneira correcta de proceder para com um dos maiores da raa
latina, e a quem, a Frana dispensou da _prova_ do Pantheon!

Tambm, quando da morte de John Ruskin, um dos grandes artistas
inglezes do seculo XIX, estylista to singularmente notavel, como um dos
mais eloquentes escriptores da Natureza, a Inglaterra offereceu a sua
familia o logar que, para elle, a Nao tinha reservado em Westminster.
Pois a familia, recusando um tal offerecimento, bem decerto em atteno
 ultima vontade do Artista, preferiu sepulta-lo na aldeia de Coniston,
perto da escola das creanas do povoado, para quem tambem elle, no dizer
de Robert de la Sizeranne, havia composto os seus canticos.

A sua morte, informa este publicista, que teve logar a 20 de janeiro de
1900, entre os rochedos e os bosques de Brantwood,  beira dum dos mais
bellos lagos da Inglaterra, foi o fim proprio da sua vida: em
perfeita simplicidade e em discreta belleza. Elle no teve junto de si
mais do que dois ou tres de seus discipulos e alguns camponezes. O
offerecimento de um tumulo em Westminster, a maior honra que a nao
ingleza pode tributar a um seu filho, foi recusada por sua familia; e,
na celebre Abbadia real, coisa alguma recorda Ruskin, a no ser o seu
medalho, em bronze, collocado no _Pantheon dos Poetas_, ao lado do
busto de Walter Scott.


Finalmente, acaso Shakespeare, est em Westminster?

No est; ahi figura elle, simplesmente, em monumento, cercado
doutros marmores, porventura espalhados  sua roda, como que a
marcar-lhe o Tempo.

Elle? quem sabe! talvez, unicamente, a sombra falsa do seu nome, mais o
resto da sua lenda[9].


Presumivelmente jaz em Stratford, no cro de uma velha Egreja gothica,
perto de um rio escuro, o Avon, e, como que, ao acaso, guardado pela
esguia escolta das suas arvores.

Indica-o ao viajante, mais do que o monumento, ultimamente ali
levantado, uma pedra que mal sobresai da parede, com uma
quadra-aviso, que geralmente lhe  attribuida.

 uma quadra curiosa, que vale a pena ler e, por desventura, esqueceu
lavrar na sepultura de Camillo, onde, j agora, se torna necessario
esculpir a clausula testamentaria do Romancista cerca da sua sepultura.

Eis a quadra:

    Good friend, for Jesus'sake, forbear,
    To dig the dust enclosed here.
    Blessed be he that spares these stones,
    And curst be he that moves my bones.

 _E amaldioado seja o que revolver os meus ossos_! gritou
Shakespeare, ou a tradio por si.

E tal defeza bastou a que jmais se destampasse o mysterioso jazigo!


Emfim, pois que eram precisos exemplos, ahi ficam os maiores, a que
poderiamos juntar outros, da regeio de Pantheons--sem que os paizes a
que aquelles notaveis pertenceram, descessem, algum dia, a obrigar as
suas memorias a um pariato de cinzas que, por clausula testamentaria, ou
circumstancias casuaes, podesse tomar-se como violencia.

E, entretanto, jmais a Frana ou a Inglaterra renegaram do culto quasi
fanatico em que tem os seus _immortaes_; e, sobretudo, aquelles que por
si bastariam a affirmar, mais do que o prestigio dos seus paizes--o
valor das respectivas raas.


Derivando daquelles casos, ou antes apprendendo da attitude de taes
nacionalidades,--se assim  preciso!--ahi temos, naturalmente, indicado
o que ao Estado, ou melhor ao povo portuguez,--pertence resolver, cerca
de Camillo, e sempre de accordo com a sua memoria.

Levante o Povo portuguez, (ponhamos sempre de parte, em questo de
preito a artistas, os _representativos_!)--uma estatua a marcar, de
direito, nos Jeronymos, o logar que, de facto, elle no quiz occupar, 
maneira do que se fez em Westminster para o grande tragico de Stratford,
e deixemos que os seus restos descansem na Lapa!

Tambem ns, repetimos, emquanto nos foi desconhecido o mais da
documentao acima expressa, pugnmos pelo seu ingresso nos Jeronymos.

Como de egual arte,--lembrando a pagina, por certo, mais dolorosa da
vida litteraria de Camillo--uma das que abrem a _Correspondencia
epistolar_ entre o Romancista e Vieira de Castro, e onde aquelle allude
a D. Anna Placido, contrahindo para com ella, publicamente, o voto das
suas inhumaes em commum jazigo--eu me recordra de quanto seria
natural e proprio  memoria das suas conjunctas tragedias a approximao
da que lhe fra companheira e suave cumplice!

Esta pagina  a mesma em que responde a Vieira de Castro, quando este,
numa exploso de amizade, lhe denunciou o que os seus inimigos, ao
tempo, propalavam para melhor o ferirem.

Formra-se uma atmosphera de malquerena contra Camillo, e, como sempre
em taes casos, a m vontade dos seus inimigos deu-se a jogar com um
abjecto romance, adrede disposto a pr de seu lado a chamada moral
burgueza--ou seja o estalo mais infame que ainda se inventou para
avaliar sensibilidades!

Ento, a tal proposito lhe contou Vieira de Castro o que, a seu
respeito, se espalhra pelas praas, e, por sua vez, elle reproduz da
maneira seguinte:

--Que eu, confidente e depositario das cartas que uma senhora casada
escrevera a um homem ausente, ameara essa senhora de revelar ao marido
a culpa indicada nas cartas, se ella continuasse a repellir-me; e
que a senhora ameaada, aceitando metade da minha infamia transigira com
a proposta.


Ora a tal ensejo escreveu Camillo aquella pagina, que, j agora,
reproduziremos, na parte final, alis menos como seu desaggravo--por
desnecessario, do que por ver o que, ao tempo, pensava do natural
destino das suas cinzas:


Meus amigos e meus inimigos! se, por violencias de uma paixo brutal,
exacerbada pela embriaguez, eu resvalasse  infamia de forar a
resistencia da derradeira mulher na escala das perdidas--Deus sabe quem
so as perdidas!--; ao despertar desse infernal aturdimento com a
consciencia do meu crime, matar-me-hia com asco de mim proprio.

No regao dessa senhora, to cruelmente aviltada, tenho dous filhos. 
para meus filhos que eu escrevo esta pagina que me pareceu at hoje
impossivel.

Receio que elles ainda tenham de ver a serpente da calumnia a rojar-se
na sepultura de seu pae. Sinto-me no cabo da vida; e tenho maior pejo da
posteridade que dos meus contemporaneos. Quero que estas crianas saibam
deste livro que o prego affrontoso aos calumniadores foi escripto
quando ainda viviam as pessoas que podiam desmentir-m'o.

_No punhado de minhas cinzas ho de estar as de sua me_--esta levantada
alma que ainda no verteu uma lagrima na voragem que lhe devorou os
respeitos do mundo, e a perfida riqueza com que seus perdoaveis paes a
violentaram sem d de sua innocencia e formosura dos dezoito annos.


_No punhado de minhas cinzas ho de estar as de sua me!_

Ahi est o que me seduzia a pugnar pela approximao das duas urnas.

Afinal, parece que a mesma fatalidade que os reuniu, os dispersou!

Nas cartas finaes de Camillo a Freitas Fortuna, cerca das suas cinzas,
ha uma alluso unica a D. Anna Placido.

E, ainda na sua declarao de 22 de novembro de 1886, prevenindo o
suicidio, a recorda, pensando afflictivamente no mau acaso de que ella o
antecipe na morte!

......................................................................

    _A me destes dois desgraados,_ escreve elle, _no promette longa
    vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existencia at ver Anna
    Placido morta infallivelmente me suicidaria. No deixarei cahir
    sobre mim essa enorme desventura, a maior, a incomprehensivel 
    minha grande comprehenso de Desgraa._[10]

Assentemos, pois, para l de todo o raciocinio, e perto, unicamente, da
vontade de Camillo, no que a seu respeito, e a proposito do destino dos
seus restos, elle, deliberadamente, dispoz, e importa que, em bem da
sua memoria, ns todos acatemos.

Eu creio que dos documentos transcriptos resulta bem expressa a
violencia da trasladao!

A sua extraordinaria figura est acima do fetichismo publico que, por
capricho, intentasse a macabra canseira de lhe remexer ou espreitar a
ossada.

Alem de que aos poderes publicos impende guarda-la. Isto sim,  de seu
cargo!

E se, effectivamente,  consciencia nacional,--para l do susto
romantico do enrdo dos seus livros e do odio herdado da gerao
anterior contra elle, j chegou o culto devido pelo sacrificio dos
quarenta annos da sua escravido litteraria, alis nelle to
extranhamente batida de desgraa,--no se exasperem os seus devotos que
no tem pouco em que empregar a admirao, por exprimirem todo o
reconhecimento que lhe devem!

Assim, por exemplo, no falando j nos monumentos a erigir-lhe--que
esforo no lhes ser necessario para apartarem das escolas esses
manuaes de mentira que por l correm--e substitui-los por livros de
excerptos seus, para que delles resulte no corao dos futuros homens o
documento vivo da sua grande alma!

Esta seria, de facto, a primeira, a grande tarefa.

Mas no vale a pena forar o Tempo. Demais que o Tempo chega sempre na
altura devida!

Ns,  que s vezes, por nos darmos a impresso de que tambem governamos
fra delle, pretendemos deslocar a sua justia. Afinal, erro de humanos;
mais nada!

Emfim, Camillo poude sempre dizer como Liszt:--tenho tempo, esperarei...

Que importa, pois, que sejamos ns ou outros os que definitivamente o
sagremos?

O que importa  termos a certeza de que a sua memoria venceu ha muito.
De resto, tambem o facto da sua capella, na Lapa, ser modesta, nada
representa. Deixemos os grandes mausoleos para os _seus brazileiros_;
estes sim, precisam delles.

Camillo no, pois que  j to grande,--embora o vejamos ainda
crescer, dia a dia, na consciencia publica, que elle, mais a sua memoria
surgem bem dali, como da mais exigua brochura da sua obra.

 que  de seu privilegio, como, em geral, de todos os grandes artistas,
a mesma ubiquidade milagrosa dos grandes santos.

Tanto maiores so, melhor cabem em toda a parte--ainda nos mais humildes
templos...


Ancde, 1 de outubro de 1917.




    [1] Vid. _O Romance do Romancista_ por Alberto Pimentel.

    [2] Vid. ob. cit.

    [3] Obr. cit.

    [4] O distincto poeta snr. Jaime Corteso.

    [5] O Romance do Romancista por Alberto Pimentel.

    [6] Esta doao, com o respectivo averbamento de acquiescencia s
    suas clausulas por parte do donatario, hoje na posse da viuva de
    Freitas Fortuna,--a Sra. D. Isabel Maria da Conceio Ribeiro da
    Silva Santos (a quem tambem pertence o jazigo da Lapa, onde esto os
    restos de Camillo)--foi pela primeira vez presente a publico, pelo
    jornal a _Republica_, de 29 de setembro de 1916.

    Por este novo documento, de par dos restantes que apresentamos, se
    confirma a razo que nos assistia, quando, mezes antes, acudimos
    pelas cinzas de Camillo, publicando o principal documento, agora
    juntamente com aquelle reimpresso, na _Republica_.

    [7] A tal proposito insere o _Diario de Noticias_ de 8 de maro do
    corrente anno, a seguinte noticia:

    PANTHEON NACIONAL

    O snr., ministro da guerra vae dar as ordens necessarias para se
    concluirem, com a maior brevidade, as obras no edificio do antigo
    deposito de fardamentos, para ser para ali transferida a oficina de
    manufactura de calado que foi provisoriamente instalada no edificio
    de Santa Engrancia, que por lei foi destinado a Pantheon Nacional.

     de crer que dentro de tres mezes o snr. architecto Ades Bermudes
    possa proseguir nos trabalhos de adaptao daquelle grandioso
    edificio ao Fim que por lei lhe foi destinado.

    Donde se prova que successivos governos, depois de decretado o
    afeioamento do edificio de Santa Engracia a Pantheon Nacional, para
    ali ordenaram que fosse installada uma industria de calado, embora,
    em seu dizer, provisoriamente, porventura at que a multido de
    immortaes que se lhe destina, deixe de precisar da installao!

    O que no consta, contra as previses do _Diario de Noticias_, e
    lettra do decreto,  que o snr. Ades Bermudes tenha proseguido nos
    to esperados trabalhos de adaptao do grandioso edificio ao fim
    que, por lei, lhe foi destinado...

    [8] Em 1830 foi transformada a Egreja de Santa Genoveva em Pantheon
    Nacional. Depois, em 1851, voltou a ser egreja, at que, com a
    entrada de Hugo, foi, de novo secularizada.

    [9] Effectivamente, no  facil averiguar, com preciso, o mais da
    trajectoria da vida de Shakespeare, e, sobretudo, os episodios
    finaes da sua morte e inhumao,--ainda pelo estudo dos quatro mil
    volumes que, a seu respeito, a curiosidade dos eruditos de todas as
    nacionalidades accumulou.

    Tentar falar ou escrever cerca de Shakespeare, diz Lewis Theobald,
     entrar num espaoso e magnifico edificio, por um corredor estreito
    e tenebroso.

    O que mais delle se apura  que colheu obscuramente a sua obra da
    mesma razo anonyma que o prendeu  Terra.

    Como, de egual arte,  assente que o homem mais querido e admirado
    que ainda houve, foi tambem, at ha pouco, um dos mais
    maltratados:--_O poeta maldito_--eis a maneira por que J. Richepin
    com a maior justeza, o indica! (Vid. A TRAVERS SHAKESPEARE,
    conferences faites  _l'Universit des Annales_.)

    Pope, no prefacio definitivo da sexta edio do _in-folio_ de 1623,
    considera-o um mero cortezo da plebe.

    Voltaire chamou-lhe grosseiro e barbaro, impossivel de se fazer
    ouvir pela mais desprezivel gente da Frana ou de Italia--em
    derradeira analyse, um _selvagem bebado_!

    O reconhecimento publico do genio do grande tragico iniciou-o o
    romantismo allemo, sobretudo pelos estudos de Lessing, Goethe,
    Schiller, Herder e Schlegel. Em Frana, apparece pela primeira vez
    bem tratado nos trabalhos de Stal e Chateaubriand.

    Revelado o seu genio, comearam os criticos a hesitar sobre a
    idoneidade do Auctor.

    A muitos pareceu, de momento, pouco conforme com to prodigiosa
    obra, o mais intimo da sua historia.

    Sigamos ns, comtudo, este fio biographico,--tambem o mais
    geralmente acceito como verdadeiro.

    Shakespeare nasceu em Stratford-on-Avon, em 1564, e era filho de um
    negociante de lans, homem de medianos recursos e grande familia.

    Estudou primeiras lettras numa escola publica (_Grammar School_,
    escola secundaria) da terra da sua naturalidade, onde casou, aos
    dezoito annos, com Anna Hathaway, de quem teve trs filhos.

    Foi depois para Londres, onde, successivamente, parece ter sido moo
    de theatro, ponto, comediante, e mais tarde empresario, liquidando,
    finalmente, em burguez, na sua terra, onde morreu em 1616, no dia em
    que completou 52 annos.

    Eis a mais vulgar das suas biographias.

    Ha outras mais complicadas, e, comtudo, acceites por alguns dos
    devotos do mytho shakespeariano.

    Segundo uns, o verdadeiro Shakespeare, teria sido lord Rutland;
    como, para outros, elle foi lord Southampton, tambem havido, no
    consenso do maior numero, como aquelle a quem o Poeta deveu a
    apresentao que o introduziu na complicada e brutal crte de
    Elisabeth.

    Ainda, segundo alguns, elle foi lord Pembroke; como, finalmente,
    para o maior numero dos que teimaram em lhe dar uma proveniencia
    notavel, o proprio chanceller Francisco Bacon!

     de menos interesse e improprio s medidas duma nota a reproduco
    dos argumentos em que se firmam as differentes hypotheses;
    assentemos, porem, em que nenhuma dellas vae alem de conjectura

    O auctor do _Lord Rutland est Shakespeare_, M. Clestin Demblon,
    conclue as mais extraordinarias observaes cerca do falso
    Shakespeare.

    Assim, segundo este auctor, elle comeou por seduzir a noiva, a quem
    s desposou, ameaado de morte pela familia della, e a quem
    empobreceu, gastando-lhe o dote; depois foi vagabundo e engajador de
    soldados; fra salteador de estrada; e, mais tarde, protegido por
    lord Rutland e Southampthon, chefe de cavalharia, contra regra do
    theatro, etc.

    De resto, affirma ainda, elle no sabia sequer assignar o seu nome,
    que emprestra a Rutland, e este fazia escrever no final das peas,
    e que, por punhos diversos, apparece tambem differentemente
    orthographado (Shaxpere, Shagsbere, etc.).

    Quer dizer, o ordinario e baixo _Shagsbere_  nem mais, nem menos do
    que um personagem dos dramas de Rutland--o seu Falstaff, cynico e
    crapuloso, bebado e usurario, de quem o lord usava o nome por firmar
    as peas, que considerava abaixo da sua notoria prosapia!

    Ah! com que opportunidade, lidos estes phantasticos passos do genial
    poeta maldito, nos veem  memoria as palavras que, da sua alma,
    elle passou para a bocca de Macbeth:

    A vida! mas se a vida no  mais do que uma historia, contada por
    um tolo furioso e que no significa coisa alguma...

          *      *      *      *      *

    Emfim, sahimos a custo dos multiplices enredos da sua vida, pela
    unica porta aberta ao mais dos criticos--a da sua Arte, instruida da
    sua primeira tradio, tambem a unica verosimil.

    Quanto s extravagancias possiveis e at provaveis, antes da ida
    definitiva para Stratford,--mais do que o conhecimento das suas
    ficcionarias biographias, nos esclarece a historia da crte de
    Elisabeth, com todo o seu enredo extranho. Jean Richepin, cujos
    estudos em parte resumimos, no desenvolvimento da presente nota, no
    s frisa a influencia daquella crte, na obra do Poeta, como
    conclue, a proposito do seu caracter e Arte o seguinte:

    --A Arte e a moralidade esto sobre dois planos differentes, dois
    planos que se no confundem, em boa verdade. Que de tempos a tempos
    estejam de accordo, simulando juntar-se sobre um plano unico,--eis o
    que pode succeder e encantar-nos.

    ..................................................................

    Mas se os dois planos se mantm separados que fazer? Eu desejaria,
    de certo, que elle (Shakespeare) tivesse sido, ao mesmo tempo, um
    homem honesto, o grande artista, um bom pae, bom marido; mas, nem
    por isso, deixo de preferir que elle tenha sido o contrario de tudo
    aquillo e nos tenha dado uma bella obra.

    O que vale concluir pela necessidade de admittir Shakespeare, tal
    como nos surge  primeira luz, liquidando a sua aventura dramatica
    pelo regresso a Stratford, onde parece ter vivido os ultimos cinco
    annos, longe do theatro das suas maiores faanhas pessoaes, como dos
    seus dramas--porventura viciento e avaro, como no-lo pintam,
    distrahido no seu novo papel de rico, e, no entanto, sempre, de
    alguma forma, lembrado das suas antigas relaes e vida de scena,
    como  positivo e se v ainda do proprio testamento, em que
    contemplou dois camaradas.

    Assim chegamos, naturalmente, e ainda guiado pela lenda, at  morte
    do Poeta, na sua terra de origem, afinal tambem a mesma onde,
    porventura, a seu desejo, foi inhumado e, de direito,  que
    descanse.

    Isto, mau grado as lamentaes de Irving, quando, ao visitar o seu
    tumulo, entre os velhos monumentos da nobreza, que o rodeiam,
    notava, com mgoa, o seu desenho mais do que modesto!

    (Confrontem-se J. Richepin, ob. cit.; Oeuvres dramatiques de William
    Shakespeare, traduction par Georges Duval; W. Irving; e Garrick.).

    [10] Vid. _Camillo Indito_ annotado.




INDICE DAS ILLUSTRAES

                                                        Pag.

Retrato de Camillo por Antonio Carneiro. . . . . . . . .  9

Retrato de D. Anna Augusta Placido . . . . . . . . . . . 17

Ultimo retrato de Camillo feito na Unio . . . . . . . 33

Busto de Camillo por Diogo de Macedo . . . . . . . . . . 41

Projecto de monumento a Camillo por Teixeira Lopes . . . 49

O Jazigo de Camillo na Lapa. . . . . . . . . . . . . . . 65




_DESTA EDIO FEZ-SE UMA TIRAGEM ESPECIAL DE QUATRO EXEMPLARES EM PAPEL
WHATMAN, NUMERADOS E RUBRICADOS PELO AUCTOR._




ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTE OPUSCULO AOS DOZE DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DE
MIL NOVECENTOS E DEZESETE, NA TYPOGRAPHIA DA RENASCENA PORTUGUESA,
SITA  RUA DOS MARTYRES DA LIBERDADE NA CIDADE DO PORTO.




NO PRELO:

_Camillo Indito_ annotado, 2. milhar.

_Fanny Owen e Camillo_, 2. edio.







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     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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