The Project Gutenberg EBook of Ensino intuitivo, by Joo Jos de Sousa Telles

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Title: Ensino intuitivo
       livro destinado s mes e paes de familia e s professoras
       e professores de instruco primria

Author: Joo Jos de Sousa Telles

Release Date: September 28, 2010 [EBook #33817]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                                           Rita Farinha (Setembro 2010)




ENSINO INTUITIVO

LIVRO DESTINADO S MES

E

PAES DE FAMILIA

E S

PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCO PRIMARIA

POR

JOO JOS DE SOUSA TELLES

Socio honorario
da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da
Sociedade Pharmaceutica Lusitana

PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCO  HISTORIA
NATURAL

LISBOA

FERREIRA, LISBOA & C.^a
132--Rua Aurea--134

1873




ENSINO INTUITIVO




ENSINO INTUITIVO

LIVRO DESTINADO S MES

E

PAES DE FAMILIA

E S

PROFESSORAS E PROFESSORES DE INSTRUCO PRIMARIA

POR

JOO JOS DE SOUSA TELLES

Socio honorario
da Sociedade das Sciencias Medicas de Lisboa, Socio honorario da
Sociedade Pharmaceutica Lusitana

PROFESSOR DE PORTUGUEZ E INTRODUCO  HISTORIA
NATURAL

LISBOA

FERREIRA, LISBOA & C.^a
132--Rua Aurea--134

1873




LISBOA

TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES
IMPRESSOR DA CASA REAL

110--Rua dos Calafates




Ill.^{mo} e Ex.^{mo} Sr. Conselheiro Jos Silvestre Ribeiro

Ha annos, ouvindo os louvores, que  intelligencia e probidade de V.
Ex.^a tecia um dos mais peregrinos talentos de Portugal, o grande poeta,
hoje Visconde de Castilho, senti irresistivel desejo de ler os escriptos
de V. Ex.^a e de o conhecer em pessoa. Dessedentei-me agradavelmente e
com muito proveito, nas numerosas paginas, que da penna de V. Ex.^a
haviam saido, umas reunidas em volumes, outras espalhadas pelos
periodicos, todas porm rescendendo suave e, digamos assim, castissimo
perfume de natural bondade e heroicas virtudes, qualidades que para mim
valem muito mais que toda a erudio, e que realam sobremodo a que v.
ex.^a possue vastissima, colhida no incessante estudo de quantos
engenhos famosos tem opulentado as sciencias, as artes e a litteratura.

J eu, havia muito, conversava com V. Ex.^a em espirito e me reputava
seu discipulo amicissimo, quando tive a boa fortuna de fallar a V. Ex.^a
e de ser por V. Ex.^a acolhido com a benevolencia, que lhe conquista a
sympathia de quantos o tratam.

Data d'esse dia a nossa amizade, confiado na qual ouso offerecer a V.
Ex.^a este livro modestissimo, que se alguma cousa vale  pela boa f
com que foi escripto.

 sympathico o assumpto; creio que  mais um brado pedindo a to
necessaria reforma do ensino infantil e primario na casa paterna e na
escola, que to pouco tem ainda de paternal. Ser perdido, como os que o
viajante extraviado soltaria no deserto, implorando o favor dos homens?
Talvez.

Incessantemente ha clamado o nosso probo amigo o Sr. Visconde de
Castilho, e nem aquella potentissima intelligencia, nem aquella phrase,
que nos faz acreditar a fabula de Orpho, nem a auctoridade d'aquella
quasi intuio do bom e do bello ha conseguido, que amanhea para as
criancinhas o dia da sua regenerao intellectual.

No serei eu mais feliz; mas dar-me-hei por bem pago do trabalho, que
puz em escrever estas paginas, se uma s me, que seja, ou um s mestre,
aproveitar os conselhos, que lhes dou, e se, quando mais no obtenha,
uma criancinha me dever algumas lagrimas de menos e algum bom
ensinamento a mais.

Associando o nome illustre e venerando de V. Ex.^a a esta obrinha, imito
o bom do Aim Martin e posso dizer a V.^a Ex.^a o que elle disse ao
mavioso Lamartine.

En vous offrant ce livre, je n'ai qu'un but, c'est de rattacher mes
paroles aux vtres, c'est d'tayer leur faiblesse de votre force, ma
raison de votre raison. Je veux qu'on dise un jour: Ceux-ci ont connu
les veritables biens, ils se rencontrrent dans la mme foi, ils
s'aimrent devant le mme Dieu.


                                                  De V. Ex.^a

                                             Admirador muito amigo

                                           Joo Jos de Sousa Telles.


Lisboa 7 de julho de 1873.




ENSINO INTUITIVO


O livro, que hoje publicmos,  uma tentativa modesta de acclimao de
uma ida excellente, que l por fra tem produzido optimos resultados.

Applaudem-na unanimes os mais insignes pedagogistas inglezes, allemes,
americanos, francezes, e belgas; e ainda que tantos homens
competentissimos em assumptos de ensino e educao nol-a no apregoassem
famosa, bastaria a simples enunciao d'ella, para que enthusiasticamente
a adoptassemos.

Antes, porm, de exprmos minudenciosamente a ida nova, e nova lhe
chammos attendendo ao pouco que se tem vulgarisado em Portugal, de
razo nos parece conversarmos amigavelmente com o leitor cerca de
alguns pontos da educao e instruco elementar.

 a educao da puericia e da juventude a mais gloriosa e ao mesmo tempo
a mais difficil obrigao, que Deus impoz ao homem e  mulher.

 luz da philosophia e da moral, a paternidade e a maternidade consistem
menos em gerar o infante, do que em desenvolver-lhe e aperfeioar-lhe
incessantemente as faculdades da alma e do corpo, at que possa cumprir
os seus deveres e arrostar as contrariedades da vida na curta, mas
trabalhosa peregrinao, que principia no bero e acaba no tumulo.

Incumbe, pois, aos paes empregar todos os meios ao seu alcance, para que
os filhos, creaturinhas imbelles, que a Providencia confiou a seus
cuidados, cheguem no mais curto espao de tempo, e pelo emprego de
processos razoaveis, amenos, e repassados de amor e ternura ao estado de
perfeio physica, intellectual e moral, que constitue o homem, tal qual
deve ser, tal qual Deus quer que elle seja, tal qual a sociedade bem
organisada o requer, para obreiro prestadio da civilisao.

Infelizmente, nem todos os paes conhecem os seus deveres; e dos que os
conhecem, muitissimos ha, que os no cumprem, ou por modo mui imperfeito
se desempenham d'elles.

D'esta ignorancia e negligencia funestissimas provem os maiores males,
que affligem a humanidade, males para os quaes a maior parte das vezes
no ha remedio.

Tratando de assumpto differente, disse um douto, que muitas descobertas
se poderiam fazer, se opportunamente perguntassemos: _Por que?_
Appliquemos o engenhoso e facil processo de Arago ao exame das causas
determinantes de alguns vicios sociaes, e convencer-nos-hemos de quo
exacta  a nossa assero.

Estamos na via publica. De toda a parte se nos apresentam creanas
esfarrapadas, semi-nuas, esqualidas, famintas, petulantes; revolvem-se
umas na lama e no p; dormem outras, tiritando,  chuva e ao vento;
estas divagam estendendo a mo asquerosa e pedindo uma esmola aos que
passam; aquellas soltam dos labios rosados palavras, que fazem enrubecer
os que as ouvem.

Chamae-as, e perguntae-lhes quem alli as deixou, flres no
esterquilinio, passarinhos implumes entre abutres esfaimados, anjos
manchando as azas na sujidade das caladas.

Responder-vos-ho: Nossas mes e nossos paes.

Ides vosso caminho, alegre, tranquillo, olhando em redor, vendo
prepassar trens sumptuosos, soberbos cavallos, mulheres elegantes,
homens felizes e descuidsos. Chega-vos aos ouvidos um echo, um gemido,
um choro infantil; olhaes...

Que vdes?

Na soleira de um portal, vestida em uns andrajos, quasi morta de fome e
de frio uma criancinha, cujas faces, em vez de serem orvalhadas pelas
lagrimas da materna alegria, e aquecidas pelos beijos fervidos da que
lhe deu a existencia, se humedecem com as lagrimas da amargura infantil.

Levantae o pobresinho, apertae-o contra o peito, osculae aquella carinha
de jasmim e rosas, e perguntae-lhe:

Anjo meu, que barbaros te deixaram aqui abandonado?

E a innocencia vos responder, no com palavras, que as no sabe ainda
articular, mas com ternissimos soluos:

Abandonou-me meu pae e minha me.

Alm vae caminho do cemiterio, a tumba, que andou de porta em porta
recolhendo os miseros, cujas familias no poderam coalhar o bastante
para o modesto funeral dos seus parentes.

Fazei-a parar; mandae que a abram; olhae para dentro.

Horror! exclamareis vs ao ver por entre os adultos exanimes, em
sacrilego desarranjo, um bando de creanas quasi esqueletos, rachiticas,
chagadas, meio apodrecidas, com signaes evidentes de terem vindo ao
mundo com o estigma da morte profundamente gravado nas frontes
innocentes.

Martyres obscuros, podereis vs dizer-lhes, para quem o mundo no teve
nem uma cora, nem uma palma; estrellas cadentes, que brilhastes um
momento e desapparecestes n'um eterno occaso; quem assim vos macerou os
corpinhos, e vos deu a beber o fel da morte ao alvorecer da vida?

E a mudez sombria d'aquellas florinhas envenenadas na hastea, e
emurchecidas antes de desabrocharem, responder:

Nossos paes e nossas mes.

Vdes aquelle peralvilho, aquelle afeminado, todo pomadas, todo
essencias, gesto insolente, olhar altivo e desdenhoso, que vae rindo e
galhofando com outros da sua ral.

Parou, fazem-lhe roda, applaudem-n'o outros taes. Que bocadinhos de oiro
estar elle a dizer?

Escutae-o.

Mfa da religio, que desconhece; insulta os sacerdotes, que acertam de
passar junto d'elle; escandalisa as donzellas; zomba dos ancios; aos
pobres, em vez de os esmolar, despede-os insolente.

Indagae como to cedo se depravou aquelle moo, que deveria estar ainda
sentado no banco da escola.

Dir-vos-ho que  incuria paterna deve elle toda a sua ruina.

Entrae no templo a presencear as augustas ceremonias, que rememoram a
angustiosa paixo e morte do grande amigo da humanidade.

Que observaes?

A turba irreverente, descomposta, sacrilega, rindo, conversando,
ostentando galas, trocando gracejos, costas para os altares, olhares
distrahidos, attitudes grosseiras e vilans.

Quantas preces saem d'aquelles labios? Que pensamentos povoam aquellas
mentes? Que piedosos affectos existem em tantos coraes?
Escandalisa-vos o desacato? Quereis saber porque na egreja esto, como
no poderiam estar na casa da opera?

Chamae de banda um dos levianos e perguntae-lhe o que lhe ho dito seus
paes da grandiosa tragedia do Calvario; do incruento sacrificio, que a
representa, da respeitabilidade do altar, do valor das preces humildes e
sinceras?

Responder-vos-ha, sorrindo:

No vos comprehendo; meus paes nunca me fallaram d'essas coisas.

Que vozearia  aquella? Porque tantos gritos, tamanho borborinho?

Ergue-se um homem mal trajado, e arenga  turba.

Poucas palavras tem dito, e j uns o applaudem phreneticos, j outros o
vituperam enfurecidos.

 o povo soberano, que usa e abusa de seus direitos. A onda encapellada
das ruins paixes sobe, sobe, invade a improvisada tribuna e derruba o
Demosthenes improvisado.

Todos fallam, todos proclamam a ida nova.

Ouamol-os.

Abaixo os padres, no precismos d'elles; abaixo a religio, que para
nada presta; acabemos com a propriedade, os ricos s querem beber-nos o
sangue; viva o communismo, grita um; viva o socialismo, que  melhor,
responde outro; nada, nada d'isso, venha a republica.

Acabemos com os tributos e seremos felizes; e o exercito para que serve?
Elimine-se o exercito.

Pedi instruco, pedi ensino facil, bom, universal, escolas primarias a
cada canto, bibliothecas populares, livros optimos ao alcance de todos
no preo e no estylo; pedi moralidade, diz com voz firme e sonora um
operario, fronte ampla, respeitaveis cans, rosto sereno, mo calejada
pelo trabalho.

Fra com o visionario brada a turba.

Que quer dizer instruco? Para que servem os livros? Para que prestam
as escolas? regouga um miseravel, em cujo rosto se retrata a ignorancia
e occiosidade; e bradando  turba, aps si a leva canada, mas no
saciada de disparatar.

Dirigi-vos ao operario honesto e prudente e informae-vos de quem sejam
aquelles doidos.

Uns infelizes, dir elle, bons coraes, ms cabeas. Pobresinhos todos;
porm mais pobres de instruco que de dinheiro, porque todos tem
aptido para o trabalho, mas a todos faltou a educao. No tiveram
paes, como eu felizmente tive, que os mandassem ensinar. A mr parte nem
ler sabem, nem fazer o seu nome. Se lhes fordes perguntar o que seja
republica, socialismo, communismo, salario, religio, exercito,  boa f
vos affirmo que no podero responder coisa que geito tenha.

Mas deixemos estes homens, nem todos maus; muitos bonissimos,
desvairados pela febre ardente de antigos e profundos padecimentos, que
buscam a verdade e o bem, como os alchimistas da idade media, por meios
absurdos e inconvenientes, mas que tem a coragem de affrontar os
perigos, de sacrificar a propria vida, e de soffrer com a resignao dos
martyres dos primeiros seculos do christianismo esses hediondos
supplicios, a que ainda hoje o mundo civilisado assiste com profunda
magoa e indignao.

Volvamos os olhos para aquell'outros.

D'onde vem?

Das enxovias.

Para onde vo?

Para o degredo.

Homens, mulheres, crianas! Deixam a patria, os amigos, as familias, os
formosos campos, onde nasceram, este co to puro, este sol to
esplendido, este clima to amoravel, este abenoado e feracissimo
torro, para irem em paizes inhospitos luctar com a morte opprobriosa,
ralados de saudades, roidos de remorsos, despreziveis aos olhos de
todos, e condemnados pela voz implacavel da propria consciencia.

Vm alli assassinos, sacrilegos, perjuros, fratercidas, patrecidas,
ladres, incendiarios; todos os crimes, todas as torpezas, todas as
infamias, o lodo asqueroso de todas as humanas miserias, as trevas da
ignorancia preversa, a lepra do grande corpo social.

Ponde os olhos n'aquelle quadro, mes e paes.

No interrogueis os que o crime despenhou; no insulteis a desgraa; no
amargureis mais aquelles coraes devastados e corroidos pelo crime,
onde poder haver ainda alguma fibra incorrupta e sensivel; mas
perguntae a vs mesmos que educao receberam aquelles miseros de seus
progenitores? que sorrisos e carinhos lhes cercaram os beros? que
palavras ouviram aquelles entes ao entrar na vida? que exemplos tiveram
para seguir? quaes as escolas, a que os mandaram? que affectos semeiaram
n'aquelles coraes? quantas vezes lhes apontaram para o co e lhes
fallaram de Deus? que noes lhes deram da verdade, da justia, da
honra, do dever? que meios empregaram para lapidarem aquelles diamantes?
que processo adoptaram para desinvolver-lhes a intelligencia?

E se no acertardes com as respostas a estas e a muitas outras
perguntas, que o caso suscita, ide-vos por essas cidades, e villas, e
aldeias, e povoados e indagae a historia de cada um d'aquelles
infelizes. Raro achareis que se prevertesse o que dos paes houvesse
recebido desvelada educao.

Mas o que  educao desvelada?

Eis o ponto importantissimo, para o qual chammos a atteno de todos.
No o desenvolveremos aqui. Assumpto  para um livro, e j larga e
proficientemente tratado por grandes mestres da sciencia de educar.

Diremos apenas, que muitos paes e mestres ha, por desgraa nossa e
d'elles, que no comprehendem nem a extenso, nem a intensidade da
palavra educar.

Para uns educar  crear,  nutrir o animal,  desenvolver-lhe o physico;
e nem sempre conforme os dictames da medicina e da hygiene.

Para outros educar  iniciar a criana nas regras mais elementares da
leitura, da escripta, da contabilidade e de uma arte ou officio.

No falta quem se vanglorie de ter educado bem, excellentemente, seus
filhos, por que lhes deu mestres de linguas antigas e modernas, de
geographia, de historia, de philosophia e de muitas outras cousas mais.

Tal se orgulha de ver o herdeiro de seu nome sair laureado de uma escola
ou academia e entrar na sociedade precedido da fama de optimo estudante.
Tal outro se julga em paz com a sua consciencia e se tem por excellente
educador, porque o mancebo, cujos primeiros estudos dirigiu, das
columnas de um jornal assombra o mundo com seus artigos, ou deleita as
turbas com versos, que reputa mais correctos e melodiosos que os de
Cames, Garrett ou Castilho.

E consistir em to pouco a sciencia difficilima de educar?

No, mil vezes no.

Que vale ao homem, a quem Deus concedeu uma certa poro de
intelligencia, susceptivel de indefinido desenvolvimento, crescer e
medrar no physico, permanecendo-lhe embryonaria a melhor das faculdades?
Que vale ao homem, que poderia elevar-se pelo estudo, pela leitura, pela
applicao das potencias da alma e vir a ser um poderoso auxiliar do
progresso da humanidade, qualquer que fosse a sua posio social, saber
apenas os primeiros rudimentos das artes de aprender, e tanto pela
superficie, que nem d'elles se possa servir, a no ser nos mais simples
usos da vida?

Quantos e quantos dos que cursaram as escolas e as academias, e n'ellas
se distinguiram, tiveram mais trabalho em debellar os erros da educao
elementar do que em arcar com as difficuldades, e segredos das sciencias
superiores?

E quantos no vem dos institutos scientificos imperfeitamente
instruidos, no por culpa dos mestres, nem d'elles mesmos, mas pela
incuria e ignorancia dos paes e dos primeiros educadores?

Todos os homens intelligentes, que tem consagrado a vida ao magisterio
superior, reconhecem e confessariam, se quizessem, que a falta de
cultivo intellectual nas edades tenras difficulta extremamente aos
estudantes a comprehenso das sciencias, e os inhabilita para tirarem
dos cursos mais bem delineados as vantagens, que d'elles poderiam obter.

D'ahi a meia sciencia, as ideas falsas, a confuso dos principios, a
impossibilidade das grandes concepes, a timidez na applicao pratica,
o desamor do estudo, que fecunda o que nas aulas se ouviu, e a propenso
para a preguia, que se contenta com o pouco cabedal adquirido e no
busca grangear mais.

Se das escolas superiores passarmos s secundarias, encontraremos as
mesmas causas produzindo os mesmos effeitos; e dir-nos-ho os
professores intelligentes e zelosos, que das mos dos paes e dos
primarios educadores, receberam a mr parte dos alumnos com os olhos do
espirito to cerrados ainda, que de todo desconheciam as verdades mais
elementares e intuitivas, os phenomenos mais simples e intelligiveis, as
relaes mais claras.

Na escola primaria, o professor instruido, que comprehenda quanto tem de
nobre e grandioso o seu ministerio, em apparencia to humilde, na
realidade to augusto; que considere na criana o homem e no homem o
futuro todo inteiro da humanidade; que abranja com a vista o largo
horisonte das criaturinhas, que o rodeiam, e que deseje dissipar as
trevas d'aquelles entendimentos com luz tenue e suave, como convem a
edades infantis, tem ainda a luctar com os defeitos da educao
domestica, que devendo ser a primeira, a mais engenhosa, a mais
insistente, e mais efficaz,  muitas vezes nulla, muitas quasi nulla e
quasi sempre deficiente.

E se o que vamos dizendo se applica em cheio  educao das faculdades
intellectuaes da puericia, que so ainda assim, as que os paes de
ordinario mais appetecem ver desenvolvidas nos filhos, outro tanto se
pde asseverar da educao physica e moral.

Conhecida a doena, urge accudir-lhe com o remedio. J o bom do
Jenuense, mestre de nossos paes, mestre de muitos de ns outros, que
hoje ensinamos e que suppmos ter alguma valia, e to injustamente
esquecido e mettido para o canto, dizia:

_Principiis obsta, sero medecina paratur, cum mala per longas invalure
moras._

Acode ao doente apenas a molestia d o primeiro rebate; que de nada lhe
prestar o remedio, tardio.

E haver remedios, que prestem para os males de que enferma a educao
elementar?

Ha, e muitos; o caso est em applicar-lh'os a tempo e judiciosamente.

No todos apontaremos aqui, porque no  este livrinho um tratado de
pedagogia, mas to smente um, que valer por muitos.

 remedio barato, condico esta que no  para desprezar; de facil
manipulao; composto de simples, que por toda a parte e a toda a hora
se acham; e por cima de tudo isto, to agradavel, que em vez de lhe
fazerem caretas, os que o devem tomar, o appetecem e pedem sequiosos e
nunca fartos de saboreal-o.

 este remedio o _Ensino intuitivo_.

Para applical-o, diga-se j e bem alta e claramente, nem todos servem.
Em mos de ignorantes converte-se em veneno, e em vez de beneficios, s
produz males.

 indispensavel, pois, que paes e mestres, que hajam de o empregar,
possuam profundo e variado cabedal de conhecimentos.

Antes, porm, de entrarmos a dizer o que este ensino seja, convem que
nos lembremos das condices organicas, physiologicas e intellectuaes
das crianas.

 o infante um organismo em via de formao, incompleto, fransino, em
que a vida animal consiste quasi exclusivamente no movimento tumultuoso,
na expanso incessante, na assimilao continua.

Abriu os olhos ha pouco, e ainda no teve tempo de ver bem o grandioso
espectaculo da natureza, cujos protentos o deslumbram; descerraram-se-lhe
hontem os ouvidos, e por isso lhe echoam l dentro, ainda confusas, as
harmonias, os ruidos, as palavras, que mal percebe; aspira sofrego os
aromas, que rescendem as flores, mas no os distingue; sabora o nectar,
mas querer tambem provar o fl e degustar o absintho; apalpa enlevado a
pelle assetinada e suavissima das faces maternas, mas queimar-se-ha
incauto na chama da vla, que admira, sem a comprehender.

No intimo, na cabea, cujos ssos ainda se no consolidaram
completamente, no corao, que palpita violento, jorrando sangue para
todo o corpo, comeam de germinar as idas e os affectos, cuja
elaborao de hora para hora, de dia para dia, de mez para mez se
complica, e transmitte com incrivel velocidade.

So dois mundos luctando atravez do fragil envolucro, que chammos
corpo; o mundo externo, cujos variadissimos factos contempla attonito
sem suspeitar que os determinam infinitas leis, que os encadeam
reciprocamente innumeras relaes, e que sobre elle actuam
incessantemente: o mundo interior, o mundo dos sentimentos, das ideas,
dos affectos, cuja admiravel genese comea, e que ha de irromper atravez
dos sentidos, e reagir violento sobre os modificadores de fra.

A creana porque  um ente material, que tende a completar-se, carece de
muita alimentao, de muito sol, de muito e bom ar, de muito movimento,
de liberdade, e de sensaes variadas, mas suaves, que a deleitem, e que
attraiam a sua atteno.

Se todas ou algumas d'estas condices lhe faltarem vel-a-heis
extinguir-se subito, como a luz de uma vla  mingua de oxigenio; ou
estiolar-se e pender para o tumulo, onde no tardar a sumir-se, como a
planta, que germinou em solo arido e assombrado.

Como creatura intelligente e moral, necessita que lhe dirijam e
robusteam as faculdades,  proporo que se forem desenvolvendo,
ministrando-lhes objectos apropriados s foras das mesmas faculdades, e
em quantidade tal, que nem as cancem, nem as desgostem.

No desprezo d'estes principios est, a nosso ver, o primeiro e mais
funesto erro do actual systema da educao infantil.

Na maxima parte das escolas da puericia entram quotidianamente as
criancinhas faltas do indispensavel alimento, e alli se conservam largas
horas em casas estreitas sombrias e mal ventiladas, respirando ar
infecto, inhibidas de fazer os movimentos, que a sua edade
imperiosamente reclama, sem horisontes extensos e ridentes, que as
alegrem, sem nada que as encante e lhes deleite os sentidos.

O mestre, seno carrancudo e severo,  quasi sempre sufficientemente
serio e concentrado, para no lhes incutir a confiana e amr, que so
os mais suaves e ao mesmo tempo os mais fortes laos, que prendem o
discipulo ao perceptor.

Comea a lio. No ha canticos, nem musicas, nem exercicios
gymnasticos, nem historiasinhas, que alegrem aquelles coraes e
instruam aquellas mentes nas coisas, que com maior facilidade poderiam
comprehender.

Para os mais pequeninos, para aquelles que mais se lembram ainda dos
beijos maternaes e das douras da casa paterna, o triste e monotono a,
b, c, as aridas columnas do syllabario, e a empyrica taboada. Para os
mais crescidinhos, a grammatica, a historia patria, a chorographia, a
doutrina christ.

Que percebem os pobres infantes de tudo aquillo, que involuntariamente
decoram, e machinalmente repetem?

Nada, ou quasi nada.

Tomae d'entre os alumnos de uma escola o mais adiantado, o mais
estudioso, o que mais talento revele, e interrogae-o. Ouvil-o-heis
repetir o compendio, mo ou bom, com certa facilidade e elegancia; mas
se lhe perguntardes o sentido de uma palavra, a razo de um facto,
vel-o-heis crar e emudecer, porque a elle, o estudante eximio, deixaram
sempre em pouso as mais nobres faculdades da alma, excitando-lhe
apenas, e ainda assim por um processo defeituoso, a faculdade auxiliar,
a memoria.

Olhar com seriedade para a educao e instruco da infancia, e
reformal-a completamente, adequando-a s edades dos estudantinhos, e
tornando-lh'a facilima, deleitavel, e todo o ponto util,  no s
necessidade urgente, seno dever impreterivel.

O primeiro passo para esta grande reformao, que o bom senso, a
sciencia, a caridade, e o interesse de todos ns esto ha muito a pedir
a grandes brados, dar-se-ha quando os governos, os municipios, as
associaes e os particulares se resolverem a edificar casas para
escolas infants, e primarias, espaosas, alegres, agasalhadas, com o
seu jardim, meio descoberto, meio assombrado com arvoredo, tendo no
centro um pequeno lago ou tanque e aos lados alguns apparelhos e jogos
gymnasticos; quando a frequencia da escola infantil, preparo para a
primaria, fr obrigatoria; quando o ensino da infancia fr
esclusivamente confiado a mulheres intelligentes, instruidas, honestas e
amoraveis, que do corao se consagrem ao ministerio sacratissimo de
educadoras, e que a todos os discipulos, amem e acarinhem, como se
fossem todos elles seus filhos queridos; e quando finalmente o _Ensino
intuitivo_ se tornar obrigatorio e exclusivo nas escolas infants; e
obrigatorio, como auxiliar de qualquer outro, nas escolas primarias e
secundarias.

Muitos annos ho de decorrer, infelizmente, primeiro que se realizem
estes nossos alvitres. Levantar-se-ho contra elles os ramerraneiros, os
enthusiastas do passado, os indifferentes, os que no crem no
aperfeioamento humano comeado a operar na escola infantil, os que s
vem a prosperidade publica, no exercito, nas estradas, nos caminhos de
ferro, nos telegraphos electricos, nas escolas superiores, nas
academias, e nos museos, como se tudo isto no estivesse a pedir, para
ser verdadeiramente util, muita e slida instruco no povo, muita
moralidade, e muito amor ao trabalho, e como se estas indispensaveis
qualidades as podesse ter uma nao, onde no ha escolas infants, onde
as escolas primarias so pouquissimas e defeituosas, onde os methodos de
ensino so ruins, e onde os professores, muitos d'elles dignissimos e
habeis, so to vergonhosamente retribuidos, que para pobrissimamente
viverem, tm de se occupar em misteres totalmente alheios do ensino e
educao.

Muitos annos, repetimos, ho de decorrer primeiro que os exemplos da
America, generosissima com a instruco primaria, sejam imitados na
extrema Europa.

No o quer o _deficit_, exclamaro os financeiros, e applaudil-os-ho
todos os que mais ou menos manuseam o oramento do estado.

Se a indole d'este escripto o permittisse, facil nos seria impugnar esta
nefasta e incessante invocao da pobreza publica, e mostrar que em
Portugal o que falta, e muito,  verdadeiro patriotismo,  sincera
vontade de progredir,  a iniciativa individual nos arrojados
commettimentos, caracteristicos dos povos, que comprehendem os seus
deveres de membros da grande familia social e que os no pospe aos seus
interesses particulares.

Colhmos, porm, as vlas s consideraes, que todos estes assumptos
nos suggeriram, e entremos j a dizer o que seja o _Ensino intuitivo_, e
as vantagens que d'elle resultam.

Todos os que lidam com crianas tero percebido que nas primeiras idades
 o homem dominado incessante e invencivelmente pela curiosidade, ou
desejo de saber; que para saciar esta inclinao empregam os infantes
no s os olhos, mas os outros sentidos; que ao verem um objecto,
mrmente se lhes agrada, ficam diante d'elle como que absortos, com os
olhos mui abertos, s vezes quasi sem pestanejar; que se lh'o consentem,
tomam nas mosinhas o que primeiro estiveram vendo, e o apalpam, a
principio com timidez, depois com afoiteza; que o levam ao nariz, e 
bocca, e que por fim comeam de separar as partes de que se compe, se
no  inteirio.

Apoz tal exame, e s vezes simultaneamente, chovem as perguntas:

O que  isto?

Quem fez?

De que ?

Para que serve?

Quem trouxe?

Tero tambem observado os educadores, que n'estes exercicios
instinctivos, as criancinhas, em geral, no comparam, nem por
consequencia raciocinam. Fazem como as abelhas, que andam de planta em
planta, de flr em flr, colligindo os materiaes com que mais tarde ho
de fabricar o seu mel. Com a differena que as abelhas nasceram aptas
para aquella industria e nunca em vez de mel nos do outro produto; e as
criancinhas, artistas novis, mas livres e dotadas de intelligencia
perfectivel, podem pela maneira imperfeita porque as suas faculdades
intellectuaes e moraes se comearem a desenvolver, e continuarem a
exercer-se, viciar de tal arte o espirito, que de futuro ou nada possam
conhecer bem, ou s com extrema difficuldade e grande dispendio de
tempo.

Em aproveitar as naturaes tendencias da infancia e juventude, em
amenisar-lhe o comeo da extensa e espinhosa senda, que tem de percorrer
na vida, em desenvolver-lhes e aperfeioar-lhes gradual e
insensivelmente as faculdades; em enriquecer-lhes de copiosos e
variadissimos conhecimentos o espirito; em formar-lhes o corao,
desenvolvendo n'elle astuciosamente o gosto do bom, do bello e do
verdadeiro; em habilital-as o mais cedo possivel, sem a minima
violencia, para a vida pratica, deixando para tempo opportuno theorias e
systemas, para comprehender os quaes  mister intelligencia robusta, 
em que consiste o _Ensino intuitivo_.

 este ensino primeiro que tudo dos sentidos externos, os quaes 
maneira que se vo exercendo sobre os objectos, para lanarem no
espirito os germes de quantas sciencias e artes ha, se aperfeioam
insensivelmente, adquirindo cada dia mais vigor e aptido.

 pois indispensavel que os educadores procurem especialmente que as
criancinhas empreguem os sentidos, ora simultanea, ora successivamente,
nas cousas que tenham de estudar, que as vejam de perto, que as tomem
nas mos, que as cheirem, que as provem, quando no houver
inconveniente, que as dividam e recomponham, sem que se lembrem de que
esto a estudar.

Tudo servir para estes exercicios intuitivos, se o educador tiver
instruco variada e profunda. Tudo servir, por que, como disse
Jacotot: _Tudo est em tudo_.

Um gro de areia, um alfinete, uma agulha, um boto, um palito, uma
moeda de prata ou cobre, a folha de uma arvore, um bago de uva, sero
compendios to importantes como um cavallo, uma ave, um peixe, um
relogio, uma caixa de musica, ou uma machina de cozer.

Milhares de cousas baratissimas se podero apresentar aos estudantinhos
para larguissimamente os instruir; muitissimas haver em todas as casas,
taes como cadeiras, mezas, pennas, papeis de differentes qualidades,
flres, fructos, relogios, thesouras, campainhas, etc. De um sem numero
de objectos se podero obter modelos em ponto pequeno ou de madeira ou
de papelo, ou de qualquer outra substancia apropriada. Na falta
absoluta de exemplares naturaes, que so os melhores, ou de copias em
vulto, que servem perfeitamente, sendo bem feitas, empregar-se-ho com
muita vantagem estampas coloridas ou em negro. O que deve ser banido das
escolas infants  o syllabario, a taboada, o cathecismo, a grammatica,
o compendio de chorographia e o de civilidade. Da exposio, exame e
comparao das coisas ou das estampas, segundo o processo que j vamos
indicar,  que as crianas ho de ir colhendo as idas exactas e claras,
que depois sabero associar s mil maravilhas, formando espontaneamente
optimos juizos e raciocinios.

Tratando das viagens de Homero e do estudo pratico das pessoas e cousas,
que habilitou o immortal filho de Climene a compr os protentos
litterarios denominados _Iliada_ e _Odyssa_, diz Bitaub o seguinte,
que  a expresso da verdade: Os livros so uteis, mas favorecem certa
indolencia, que obsta a que o leitor observe por si mesmo; lendo, vemos
a maior parte das cousas pelos olhos dos outros, e representmos ao
nosso espirito imagens de outras imagens; se observassemos directamente
os objectos graval-os-hiamos mais profunda e claramente no espirito.
Qual  o resultado da falta de observao directa?  perdermos a
perspicacia e sagacidade indispensaveis para observar com perfeio 
fora de no as exercitarmos e de no contemplarmos a natureza,
excellente mestra, que jmais se deve despresar. Adquirem-se  verdade,
mais idas, mas imperfeitas e superficiaes, de que resultam quadros
frios e incompletos.

Todos os pedagogistas, que se teem occupado d'este systema de ensino,
encarecem o proveito que se tira da substituio dos livros de texto,
que os meninos decoram sem os entender, pelas estampas, que muito os
deleitam e que examinam attentos, colhendo das palavras do educador, a
proposito de cada uma, infinitos conhecimentos, que jmais esquecero.

 mister, porm, que as estampas sejam mui perfeitas, para que no
viciem nas crianas o gosto do bello e da verdade, e que sejam graduaes,
como tudo deve ser na educao. A regra fundamental do ensino intuitivo,
a qual nunca deve esquecer : _Caminhar do conhecido para o
desconhecido, do facil para o difficil, do commum e trivial para o menos
commum ou mais raro_.

Para realisar este preceito maximo, cujo despreso annularia o systema,
convir que os educadores no entretenham seus discipulos com objectos
tomados ao acaso, mas que sigam um processo gradual, lento e invariavel,
nunca lhes chamando a atteno para cousas, cujos componentes elles
ainda no conheam, nem lhes fazendo perguntas para responder s quaes
no estejam habilitados. Dmos alguns exemplos. Se praticarmos com
mocinhos a respeito de uma caixa de pinho, que estejam vendo, poderemos
convenientemente perguntar-lhes o feitio que tem, as partes de que se
compe, para que serve a tampa, para que esto ali as argolas e a
fechadura; poderemos interrogal-os cerca dos usos da caixa, fallar-lhes
do perigo de entalar os dedos quando a fecharmos, ou de nos ferimos se a
tampa cair sobre as nossas mos ou cabea; poderemos ainda indagar se
sabem o nome que se d aos artistas, que trabalham em madeira; mas no
lhe fallaremos do pinho, sem que elles tenham visto um pinheiro natural
ou pintado, e a respeito d'esta arvore tenham adquirido os convenientes
conhecimentos.

Se conversarmos cerca de uma moeda de prata, bom ser perguntar-lhes
como se chama aquelle dinheiro, de que  feito, que feitio tem, por que
no  quadrado, nem triangular (aqui far o professor com o giz no
quadro preto a figura do triangulo e do quadrado), o que tem n'uma e
outra face, que representa a effigie e as armas, para que serve o
dinheiro, etc., etc.; mas abster-nos-hemos de lhes dizer que a prata da
moeda  uma liga de prata e cobre, se por acaso ainda no souberem o que
 uma liga metallica, nem conhecerem o cobre.

Convm estar prevenido para um caso, que muitas vezes se deve realisar
na pratica d'este ensino. A natural prespicacia de alguns meninos e os
conhecimentos adquiridos na convivencia de seus paes e amigos ou na
leitura, se forem j ledores, habilital-os-ho a fazerem perguntas, a
que o educador no poder ou no saber responder. Quando isto acontea,
nem se enfade ou envergonhe o educador, nem illuda a curiosidade
infantil, que de tanto serve n'este systema. Se a pergunta versar sobre
assumpto, que o mestre ignore completamente ou conhea pouco, isso mesmo
declare ao estudante com toda a franqueza; se fr attinente a cousas,
para conhecer as quaes o mocinho no esteja preparado, ou que toquem em
pontos, que a decencia no permitta explanar, diga-lhe sem desabrimento,
que no  tempo ainda de saber o que pergunta.

E para que nem o credito scientifico do educador soffra detrimento, nem
os meninos se desgostem e abstenham de perguntar, bom ser que o
educador a miudo lhes mostre em phrase accommodada s suas
intelligencias, e por meio de exemplos, quo numerosos so os
conhecimentos humanos, que  impossivel que todos saibam tudo, e que,
para adquirir sciencia de bons quilates,  indispensavel ir a pouco e
pouco, e no investigar certas cousas, antes de ter adquirido noes
exactas de outras.

Para que o ensino intuitivo produsa todos os bons resultados que d'elle
se podem esperar, no basta progredir do conhecido para o desconhecido,
do simples para o composto;  indispensavel que os alumnos no conheam
o plano adoptado pelo professor, e que no percebam que o que elle lhes
vae ensinando tende a um determinado fim e se ajusta para os iniciar nas
sciencias, cujas leis e applicaes mais importantes s mais tarde tero
de estudar. Para a realisao d'este importante segredo do ensino
intuitivo, iremos ns offerecendo aos educadores em publicaes
successivas, se esta nossa tentativa merecer o favor publico, as lies
graduaes, que devero constituir um curso completo.

Recommendam os mestres d'esta especialidade, no intuito de no enfadar
os estudantes e de os conservar attentos, que cada lio no exceda
quinze ou vinte minutos. Diremos, porm, que a pratica nos tem mostrado
poder s vezes a lio prolongar-se at duas horas e mais, sem que os
estudantes se enfastiem nem deixem de attender ao que se lhes mostra e
explica. Consegue-se este resultado amenisando a pratica com
historietas, de que os meninos muito gostam, com exemplos, que elles bem
comprehendam, com a citao de proverbios, anexins, e anecdotas
consoantes ao assumpto de que se trata, e mais que tudo com o dialogo
mui cortado entre elles e o professor.

Haja sempre n'estas lies a maxima variedade apparente, tanto no
objecto do estudo como na frma, no dizer, nas concluses e at na
collocao dos objectos e dos estudantes. A monotonia, a ordem, alm de
certos limites, entristece a escola e cana os escolares. A par do
ensino das cousas andar sempre o ensino da moral, da hygiene, da
economia domestica, da religio, da organisao social, da historia, da
geographia, das bellas artes, de tudo; com preferencia do mais util; mas
sem estudos de cr, sem declamaes, nem theorias transcendentes, nem
listas de nomes de pessoas, nem datas escusadas; tudo ao de leve,
saboroso, convidativo, e nem assim em grandes dozes, nem todos os dias.

Permitta-se-nos que ponhamos aqui dois exemplos de como se dever
proceder n'estes pontos, e no os tenham na conta de ridiculos, que nada
 ridiculo, quando se trata de espedregar a estrada, que ha de precorrer
a puericia.

Estamos na escola, estudando um objecto qualquer. Ouve-se ganir um co
na rua. Logo o professor interrompe o estudo, e pergunta a um dos
escolares, se algum vir distraido, a esse se dirigir:

P.--Que  aquillo, alli, na rua?

E.-- um co a ganir, responder o estudante; e o dialogo proseguir,
pouco mais ou menos, do seguinte modo:

P.--O co est ganindo ou ladrando?

E.--Est a ganir.

P.--Quantas qualidades de sons ou vozes produzem os ces com a bocca?

E.--No percebo a pergunta.

P.--Eu me explico. Os ces no esto sempre calados...

E.--J percebo o que o senhor professor pergunta. Os ces _ladram_.

P.--E quando esto tristes, ou quando ouvem certos sons, que lhes no
agradam, ladram?

E.--No, senhor, _uivam_.

P.--E quando esto a roer um sso, e outro co ou qualquer pessoa lh'o
quer tirar, o que fazem?

E.--_Rosnam_.

P.--E se lhes batem, ou os apedrejam?

E.--Pem-se a _ganir_.

P.--Mui bem; os ces, pois, podem _ladrar_, ou _latir_, _rosnar_,
_uivar_, e _ganir_.

Aqui, se os meninos tiverem j conhecimentos de grammatica, dir o
professor como de si para comsigo, mas em voz alta: aqui temos cinco
verbos, e repetir, contando pelos dedos ou batendo com o lapis na mesa:
o verbo _ladrar_, o verbo _latir_, o verbo _rosnar_, o verbo _uivar_ e o
verbo _ganir_.

E continuar, como quem se est recordando do que aprendeu: palavras que
representam aces praticadas ou feitas pelo co.

E logo, como quem se desviou do caminho direito e a elle volve, dir ao
alumno:

P.--Tenho ouvido dizer a algumas pessoas, que o _uivo_ dos ces  de mau
agouro, isto , que um co a uivar annuncia desgraa. Ser verdade?

E.--A minha av diz que sim, que  signal de estar alguem para morrer.

P.--Essa resposta esperava eu.

Pois fiquem os meninos sabendo, que no ha agouros, e que _uivar_ um
co, ou _cantar_ um canario, ou _relinchar_ um cavallo, ou _piar_ um
mocho, ou _cacarejar_ uma gallinha, ou _miar_ um gato no tem influencia
nenhuma nos acontecimentos humanos.

E.-- minha casa vae uma velhinha, que, em ouvindo uivar um co,
descala o sapato e pe-n'o com a sola para cima, at o animal se calar.

P.--Se os ces uivarem muito em roda d'ella no inverno, andar sempre
com os ps frios.

E.--Ento a minha av mente?

P.--Mente, sem querer. Metteram-lhe uma peta na cabea, e ella acredita
uma cousa, que no  verdadeira.

E.--Ora diga-me, senhor professor, se uma pessoa estiver para morrer e
um co se puzer a _uivar_ na rua ou na escada?

P.--O doente morrer, se Deus quizer que morra; e viver, se fr da
vontade divina, que continue a viver.

E.--Mas como se explica o que aconteceu o anno passado a um visinho de
meu pap?

P.--Conte-me l essa historia tentim por tentim.

E.--Adoeceu um homem, que morava no primeiro andar do predio, em que eu
habito; veiu o medico, esteve a examinal-o, receitou, disse que a doena
no era de perigo, e sau. Minutos depois metteu-se na escada um co e
principiou a uivar.

A mulher do doente foi-se a elle, bateu-lhe com o cabo da vassoura e
pol-o na rua. Quando entrou em casa, estava o marido morto em cima da
cama.

P.--Sabe o menino o que isso foi?

E.--Eu no senhor.

P.--Pois tem pouco que saber. Foi o que se chama _uma coincidencia_. Se
 sada do medico, entrasse pela casa dentro um passarinho, dir-se-ia,
que a avesinha viera annunciar aquella desgraa; se eu por acaso batesse
 porta do doente n'aquelle instante, era eu o agoureiro.

E.--Mas o medico tinha dito, que a doena no era de perigo.

P.--E a morte repentina pressente-se horas, ou minutos antes? E no
podem os proprios medicos morrer de repente, sem que suspeitassem o que
lhes ia acontecer?

E.--Mas o co uivou!

P.--Diga-me ca o menino uma cousa. Em casa d'esse homem, que falleceu,
no tem estado mais ninguem doente?

E.--Estiveram doentes dois filhos.

P.--E a me mandou chamar medico para os tratar?

E.--Mandou, sim, senhor.

P.--E no mandou chamar um co?

E.--Ora essa! Os ces no sabem curar doenas.

P.--Mas o co, que uivou, quando o homem morreu, era mais entendido que
o medico, porque annunciou a morte, at sem vr o doente.

E.--O senhor professor est brincando! Os ces so brutos, no sabem
d'aquellas cousas.

P.--Ento como  isso? No sabem d'aquellas cousas, so brutos, e
prophetisam?

E.--Tem razo, senhor professor. Agora vejo que a minha avsinha anda
enganada.

P.--E muito, e faz mal em dizer taes patranhas. O uivo dos ces 
desagradavel aos ouvidos, aborrecivel por isso, mas no tem a minima
significao.

Aqui poder o educador dar fim ao incidente, ou continuar o dialogo,
fallando do mau costume de molestar os animaes, das qualidades do co,
da raiva e dos meios de a prevenir e curar, etc, etc.

Ao terminar a lio poder o educador convidar ou os meninos a imitarem
o relincho do cavallo, o carejo das gallinhas, o miar dos gatos, o
latido dos ces, etc.

Este exercicio que a algum fatuo parecer ridiculo, ou desnecessario, ou
ambas as cousas, tem as seguintes vantagens: alegra e distrae as
creanas, que jmais fugiro do estudo, quando elle fr recreativo,
desenvolve-lhes, e aperfeia-lhes a natural tendencia para imitarem,
exercita-lhes e robustece-lhes os orgos vocaes, e por cima de tudo no
faz mal nem  alma nem ao corpo.

Quem reparar bem no dialogo que deixmos architectado, descobrir quanto
ensinamento ha n'elle, e perceber que se pretendeu principalmente
combater uma crena erronea, mas vulgarissima.

Dmos o segundo exemplo.

Est sobre a mesa ou em cima de outro movel um ramalhete de flores, que
alli se puzra mui calculadamente.

Chegada a occasio opportuna, o professor interrompe a lio e diz:

Meus meninos, descancemos um pouco. Aqui se faz uma pausa, e todos os
rapazinhos exultam e saltam dos seus logares.

P.--J viram bem aquelle ramalhete?

E.--Ainda no, senhor.

P.--Pois vo buscal-o, para o examinarmos por mido.

E.--Eil-o aqui.

P.--De que flores se compe?

E.--De rosas, cravos, camelias, junquilhos, violetas e cedro.

Se os meninos errarem o nome das flores, ou os no souberem, ir o
professor emendando e dizendo lhes como se chamam.

P.--Menino F... (ao que mais atrazado estiver em contar) conte pelos
dedos quantas qualidades de flres ha n'este ramalhete.

E.--Rosas, _uma_; cravos, _duas_; camelias, _tres_; junquilhos,
_quatro_; violetas, _cinco_; cedro, _seis_... Ha seis qualidades de
flres.

P.--Parece-me que se enganou. Veja bem.

E.--So seis, no me enganei.

P.--E se eu lhe disser que se enganou? E enganou-se, porque no attendeu
bem. Diga-me, o cedro  flr?

E.--Tem razo; so cinco. O cedro no  flr.

P.--Est-me parecendo, que nenhum dos meninos me sabe dizer para que
serve este cedro  roda das flres.

E.--Eu no sei; eu tambem no; , ....

P.--Eu lhes digo para que elle aqui est.  para realar a belleza das
flres, para fazer um contraste agradavel  vista. Se duvidam desatem o
junco, tirem o cedro, e vero que o ramalhete perde muito da sua
formosura. (Acto continuo, o educador faz o que aconselhou e mostra o
ramo desguarnecido de verdura).

P.-- ou no  verdade, o que lhes affirmei?

E.-- verdade.

P.--Ha entre estas flres, umas que cheiram, e outras que no cheiram.

E.--As rosas, cheiram; os junquilhos, cheiram; as violetas, tambem; as
camelias  que no tem cheiro.

P.--No me lembro se j lhes disse como se denominam as substancias, que
tem cheiro?

E.--Denominam-se _odoriferas_.

P.--E as que no teem cheiro?

E.--_Inodoras_.

P.--E todas as substancias, que tem cheiro, cheiram bem?

E.--No, senhor.

P.--E todas as flres cheirosas, possuem cheiro agradavel?

E.--Nem todas.

P.--Digam-me agora outra cousa. O cheiro das flres  bom ou mau, para a
saude?

E.--No sabemos.

P.--Pois vo saber uma verdade, que jmais devem esquecer. Attendam. Ha
pessoas a quem o arma das flres incommoda e faz adoecer; causa-lhes
dres de cabea, enjos de estomago, tonturas, e outros padecimentos.
Muitas flres, e s vezes poucas, mas de cheiro forte, n'uma casa mal
ventilada, podem envenenar quem alli estiver. Dormir com flres na
alcva  muito perigoso, e sabe Deus quantas molestias este mau costume
ter originado. Por agora basta que saibam isto, para se acautelarem; em
outra occasio lhes explicarei como  que as plantas e flres alteram a
pureza do ar e o tornam doentio.

 por este theor que nos animos infantis se podem inocular conhecimentos
praticos de quantas sciencias ha, de modo que as crianas, ao sairem das
escolas, levem copia immensa de noes utilissimas para todas as
circumstancias da vida.

       *       *       *       *       *

De grande proveito nos parece que os meninos mais desembaraados na
escripta tenham um caderno onde todos os dias vo escrevendo mui
laconicamente o assumpto da lio, e o que da mesma lhes parea mais
digno de se conservar na memoria.

Evite-se, porm, que n'estes summarios, ou indices menemonicos, se
empreguem palavras escusadas e se commettam erros de grammatica.

De principio convir que o educador, ao findar a lio, ensine aos
meninos como o registro deve ser feito; depois ordenar-lhes-ha que o
redijam em suas casas, e que lh'o apresentem no dia seguinte, para ser
emendado.

E como a extrema conciso seja a melhor qualidade de taes escriptos,
aqui pmos um paradigma, para governo de educadores e educandos.

Referimo-nos ao primeiro dialogo, que atraz fica exarado.


*Registro*

_Assumpto._--Um co a ganir.

_Sons, que os ces produzem com a bocca_: Latido, uivo, rosnadura,
ganido. So substantivos. Ladrar, ou latir, uivar, rosnar, ganir.--So
verbos.

_Agouros._--No os ha.

_Vozes de differentes animaes._--Co, _ladra_; canario, _canta_;
cavallo, _relincha_; mocho, _pia_; gallinha, _cacareja_; gato, _mia_.

O _uivo dos ces_ no indica, nem pde indicar a morte de ninguem, nem
desgraa nenhuma. Se um co uiva, pouco antes de morrer alguem, este
facto  apenas uma concidencia, um accaso.

       *       *       *       *       *

O professor exigir que os meninos, nas respostas que lhe derem,
empreguem sempre phrases completas, conformes s leis grammaticaes,
simples e curtas quanto fr possivel.

       *       *       *       *       *

Reputa-se de grande utilidade n'este ensino a repetio individual e
simultanea.

 um processo excellente, para conseguir que mais fundas se gravem
certas especies no espirito dos alumnos, e para corrigir defeitos de
expresso e pronuncia. No repetir em cro se deleitam as crianas muito,
mormente se o tom das vozes no  tristonho, mas alegre, musical,
variadissimo.

       *       *       *       *       *

Ao minimo erro de regencia, de concordancia, ou de pronuncia, acudir
logo o professor com a indispensavel advertencia, e tanto mais clara e
fervorosa, quanto mais grave fr o erro. Suppunhmos que um menino diga
_somentes_ em vez de somente, _faz-le_ por faz-lhe, _traz_ por traze,
_Madanela_ por Magdalena, ou qualquer outra das infinitas corruptelas,
que deslustram a nossa lingua, e que a cada momento se nos deparam at
na conversao e escriptos dos doutos, e em documentos officiaes.

Acto continuo advertil-o-ha o professor de que tal palavra no foi bem
pronunciada, e o convidar a que a repita correctamente. Se o estudante
no atinar a emendal-a, repita-lh'a o professor cuidadosamente partida
em syllabas, acompanhando cada uma d'estas com uma pancada sobre a mesa
com o ponteiro ou com a mo. Ouvida que seja a palavra assim
pronunciada, repetil-a-ha o estudante tantas vezes, quantas seja
necessario, para que a no altere, e aps este exercicio dil-a-ha to
rapidamente como  de uso dizer-se. Se ao professor parecer conveniente,
ordenar que outros estudantes faam o mesmo exercicio individualmente,
e por fim mandar que a palavra ou phrase seja cantada pela classe
inteira, attendendo muito a que o erro, que se pretendeu emendar, se no
repita. O que fica dito crca das palavras em especial applica-se em
cheio s phrases compostas de muitas palavras.

       *       *       *       *       *

A falta de ordem e clareza no dizer  defeito grave, mas communissimo,
que tem raizes na escola primaria, e que por isso mesmo ou nunca se
perde ou s com muito trabalho se consegue extirpar. A fim de prevenil-o
e de combatel-o comece o educador dando exemplo de imperturbavel ordem
na exposio, de esmerada escolha dos termos, de grande sobriedade nos
incidentes, e de irreprehensivel rigor nas concluses; tudo isto sem
apparato, nem maneiras artificiosas, que revelem os intentos; e
esmere-se em inspirar aos que o ouvirem o gosto de bem fallar, cortando
todas as imperfeies mal apontem nos labios infants. Cabe n'este logar
uma recommendao, nunca asss repetida. Nas ruas, nas aulas, nos
theatros, nas conversaes familiares, e, quando Deus  servido, at no
parlamento, e na imprensa proferem-se a miudo palavras e phrases, que,
com quanto no sejam deshonestas, so to grosseiras e plebeas, que
nenhuma pessoa delicada as deveria empregar. Quasi sempre se ignora a
origem d'aquelles termos, muitos d'elles, diga-se a verdade, sobremodo
expressivos e por vezes engraados, mas que nem por isso deixam de ser
baixos e vis. Em evital-os seja fervorosissimo todo o educador, sem
comtudo levar o zelo at ao ponto de banir da conversao escolar as
locues pittorescas e folgazs, que alegram a linguagem, sem mareal-a.

       *       *       *       *       *

Assim como as leituras e recitaes soturnas, pesadas, substanciosas, e
extensas, aborrecem s crianas e no lhes prendem a atteno, assim a
poesia ligeira, as historias singelas, as fabulas e apologos, as
anecdotas e proloquios lhes aprazem sobremodo e de tal arte se lhes
apegam  memoria, que no mais as esquecem.

Verdade  que Voltaire arguu os fabulistas de quererem ensinar as
verdades moraes por um processo essencialmente mentiroso, pondo a fallar
animaes e plantas; e condemnou a leitura e recitao de taes composies
nas primeiras edades. Tem porem mostrado a experiencia que Esopo,
Phedro, La Fontaine e Lessing, com os seus artificios poeticos moralisam
mais, e muito mais que a _Introduco  vida devota_, que o _Flos
Sanctorum_, e que o _Thesouro de meninos_, e quantos outros escriptos,
ainda que sejam verdadeiros na essencia e correctos na frma, se ho
publicado para edificao das almas, mormente em quanto n'estas se no
ha robustecido a faculdade de raciocinar. Aproveitem-se pois d'este meio
os educadores, lendo de vez em quando  escola uma fabula, que tenha
relao com os objectos, que se estudam, e fazendo-a decorar; contando a
proposito uma anecdota, ou repetindo algum dos muitos e verdadeirissimos
rifes, de que to rica  a lingua portugueza. Dos bons poetas
nacionaes, tanto modernos como antigos, poder o educador escolher
infinita copia de versos em todos os generos, com os quaes ir
perfumando as lies e desenvolvendo na puericia o gosto da poesia, que
alarga a imaginao, modifica e reprime as ruins paixes, consola o
espirito, e o dulcifica e embalsama. Fuja, porem, como de peste, de
versos mos ou mediocres, no esquecendo jamais que _a poesia_ , no
dizer de um dos mais elegantes e profundos escriptores de Portugal, o
sr. Latino Coelho, _a grandeza e o nada; o mundo e o atomo; a gloria e a
humiliao; o triumpho e o martyrio; o genio e a loucura_.

No ensino intuitivo, a faculdade que mais cuidadosamente se deve
dirigir, desenvolver, e approximar da perfeio  a faculdade de
comparar, cujos defeitos inutilisam os esforos das faculdades, que a
antecedem, e obstam a que as superiores se exeram como  mister. So
innumeraveis e quasi sempre facillimos os processos de comparao de que
o educador poder fazer uso, desde a confrontao de dois feijes, ou de
dois alfinetes, etc., at ao estudo comparativo de duas poesias, de duas
obras de arte, do caracter de dois homens notaveis, de duas epocas
historicas. No ha palavras para encarecer os resultados, que os estudos
d'esta ordem produzem e a influencia que exercem no desenvolvimento
intellectual e moral das crianas.

       *       *       *       *       *

A par com o estudo das cousas, podem e devem marchar os exercicios
attinentes ao aperfeioamento dos sentidos externos, e os preceitos
consoantes  sua hygiene. Todos tero observado que o exercicio de
certos orgos concorre por muito para que os mesmos se apurem e tornem
cada vez mais delicados. Os homens do mar, acostumados a olhar muito ao
longe, e a buscarem a grandes distancias um objecto perceptivel, excedem
sempre em perspicacia os que teem vivido encerrados em horisontes menos
extensos.

Um musico, habituado a reger orchestras, percebe, ainda mesmo nos
cheios, se qualquer dos executantes deu uma nota errada, ou commetteo
outro erro. Cegos tem havido, que pelo apalpar distinguem nos corpos
qualidades, que pertencem ao dominio da viso, e executam trabalhos
manuaes difficeis e delicados, como aquelle cego de nascena, de que
falla o sr. dr. Centazzi na sua _Medicina_ e _Hygiene Popular_, que
existia na cidade de Faro, no Algarve, e que fazia pees, cubos, e
outras obras to perfeitas, como as dos mais habeis mestres. Dos
provadores de vinho se sabe quo facilmente reconhecem pelo paladar o
merito, idade, pureza, e proveniencia do precioso liquor.

No se deve esperar que a gymnastica dos sentidos, por mais bem dirigida
que seja na casa paterna e nas escolas infants e primarias, venha a
produzir to miraculosos resultados; mas  indubitavel, que lhes
corrigir muitos defeitos, e que de dia para dia os hade ir tornando
mais apropriados aos importantissimos fins, para que a natureza os
destinou.

Os paes em suas casas, e os professores nas escolas podero comear a
gymnastica dos sentidos pelo exame e comparao das cres. Mostraro
primeiro aos educandos o vermelho, amarello, verde, azul, preto, branco;
depois differentes gradaes de cada uma d'estas cres; em seguida as
cres de transio; apoz estas, todas as mais, que fr possivel
apresentar-lhes. A pouco e pouco lh'as iro nomeando, e fazendo notar
tudo quanto convier que elles saibam a tal respeito. Ao conhecimento das
cres poder-se-ho seguir exercicios tendentes a apurar a vista, taes
como a inspeco de objectos collocados a distancia cada vez maior; a
leitura ao longe, e a pesquiza de algumas estrellas, planetas e
constellaes, cuja posio no espao previamente se lhes tenha mostrado
no mappa.

Por meio de processos analogos se podem educar os outros sentidos,
ensinando-se ao mesmo tempo milhares de cousas.

       *       *       *       *       *

Tambem os mestres do ensino intuitivo, recommendam, que se acostumem os
meninos a lerem e a exporem elegante, exacta, e correctamente. Em
algumas escolas temos notado quo pouco os professores attendem a esta
parte do ensino, consentindo que os estudantes exponham as lies e
respondam s perguntas, que se lhes fazem, com extrema negligencia;
negligencia na pronunciao das palavras, cujos sons elementares
falseam; negligencia na declamao, que por muito precipitada, ou por
extremamente preguiosa, se torna monotona e insuportavel; negligencia
na coordenao das idas componentes dos raciocinios, e negligencia na
disposio d'estes.

Acudir com remedio a tantos defeitos  empreza ardua e enfadonha, mas de
que no ha de levantar mo o bom educador, sendo o seu primeiro e
persistente cuidado desarreigar os vicios da pronunciao, que
principalmente na crte, trazem adulteradissimo o mais elegante e
donairoso de quantos idiomas se fallam no mundo, se exceptuarmos o
italiano, ao qual, no obstante a sua nativa belleza e abundancia, no 
somenos.

Daria um livro a s enumerao das transgresses das regras orthoepicas,
que a cada momento se ouvem at em boccas de ouro; to irresistivel  a
fora dos maus exemplos! De entre as mais vulgares citaremos, para
amostra, o accrescentamento, ou paragoge de um _e_ mudo ao infinito dos
verbos, dizendo-se: _amare_, _fazere_, _comere_, _partire_, _pore_,
etc., em vez de amar, fazer, comer, partir, pr. O mesmo
accrescentamento ao final das palavras, que terminam em consoante,
proferindo-se: _sole_, _flore_, _mulhere_, _metale_, em logar de sol,
flor, mulher, metal; o emprego do _a_ grave, onde deveria soar _e_
fechado, pronunciando-se _esplho_, _panha_, _tanha_, etc., por espelho,
penha, tenha. A substituio grosseirissima de _le_ a lhe, dizendo se
_dei-le_, _mostrei-le_, _quizera-le_, em vez de dei-lhe, mostrei-lhe,
quizera-lhe; bem como o emprego de _lhe_, quando este pronome se refere
a mais de uma pessoa ou cousa, e de _lhes_, quando a referencia  a uma
s cousa ou pessoa. O emprego de _i_ em logar de _e_ em muitas palavras
taes como dedal, dedeira, deante, empenho, emprestar, que a mr parte da
gente pronuncia: _didal_, _dideira_, _diante_, ou _diente_, _impenho_,
ou _impanho_, _imprestar_.

De tanto e to damninho joio ir o educador arrancando diariamente
muitas mos cheias, desafogando a linguagem de todos quantos senes
n'ella fr descobrindo, afim de que mais tarde, quando os meninos
entrarem a estudar os segredos da elocuo, nem elles, nem os
professores tenham de perder muito tempo e muita paciencia em os
debellar. E no smente aos erros da pronunciao se ha de ir applicando
prompto e efficaz remedio, mas tambem aos gallicismos e plebeismos de
que est inada a nossa lingua, mrmente aos que respeitarem 
composio das phrases, havendo o maximo cuidado em no atordoar as
cabeas dos estudantinhos com preceitos de grammatica e consideraes
philologicas.

Se um menino disser: Vi hoje na _montra_ de um livreiro uma linda
estampa; accudir logo o educador: No se diz _montra_; diz-se
mostrador; e far que o mocinho repita a phrase, substituindo o termo
peregrino e escusado pela palavra portugueza. Diz outro: _Houveram_
hontem muitas festas de egreja; emendar sem demora o educador: Houve
hontem muitas festas de egreja; e convidal-o-ha a que emende o erro. Se
algum menino lhe perguntar a razo por que tal palavra ou phrase se no
deve dizer, a resposta ser regulada pela idade, intelligencia e
adiantamento do interrogante, de modo que, se elle fr pequenino e muito
novio em materias grammaticaes, s lhe dir: Essa palavra no se deve
empregar porque  estranha  nossa lingua e desnecessaria; essa phrase
no  admissivel, porque no  conforme s leis da grammatica, que  a
sciencia de bem fallar. E ahi fica o educando insensivelmente sabedor de
que a phrase, que empregou, no  boa; de qual ou quaes a devem
substituir; de que o discurso est subjeito a leis; e de que a sciencia
de fallar correctamente se chama grammatica.

Quanto mais no valer a advertencia despretenciosa, que valeria um
discurso mui chorudo de citaes e palavras latinas e gregas! Se o
pequenito, que os ha amigos de discutir e aferrados  propria opinio,
no largar voluntario a palavra, que ouvira ou lra, bom ser
convencel-o, no com argumentos scientificos, salvo se a sua
intelligencia os poder comprehender sem custo, mas por meio de um
simile. Poder-se-lhe-ha ponderar que assim como ninguem rasoavelmente
vae pedir emprestadas aos visinhos cousas de que tenha abundancia de
portas a dentro, nem vae ao mercado comprar fructa ruim, tendo-a famosa
no quintal, a bater-lhe nas vidraas, assim os portuguezes de bom juizo
e sufficiente instruco, no devem andar tomando palavras e maneiras de
dizer a estranhos, quando at para repartir com elles lhes sobram
muitas.

Para conseguir que as crianas leiam e fallem com elegancia, e n'isto
vae o segredo da perfeitissima declamao, a primeira cousa, que o
educador tem a fazer,  acostumal-as ao rhythmo, to bem aproveitado
pelo sr. Visconde de Castilho no seu _Methodo de leitura repentina_.

Por pouco que se pense na organisao de todo o apparelho vocal
(pulmes, larynge, bocca e narinas) nas relaes d'aquelles orgos e no
mechanismo da voz, facilmente se perceber, que a palavra, no que tem de
physico,  verdadeira musica, com seus sons naturaes e accidentaes, com
sua oitava, com escalas ora mais, ora menos extensas, com os seus
tempos, j breves, j longos, e at com a expresso e timbre
variadissimo, que s vibraes sonoras e musicaes, imprimem os
instrumentos.

Ora, como no ha musica, que tal se possa chamar, sem rhythmo e
expresso, claro est que a voz humana, para satisfazer s condies da
arte, e bem servir a intelligencia, de que  a melhor reveladora, e at
parte integrante, no dizer de Condillac, deve ser rhytmica e expressiva.

Para que estas duas essenciaes qualidades lhe no faltem  indispensavel
em primeiro logar, que o educador habitue os meninos a obdecerem
escrupulosamente ao compasso, na pronunciao dos sons elementares
(vozes e consonancias) na dos compostos (diphthongos e syllabas) e na
recitao das palavras, que s poder ser perfeita, quando tiverem sido
previamente divididas em tantos tempos, quantos forem seus elementos
syllabicos. Depois de bem amestrados por meio d'estes exercicios na
leitura auricular das palavras, que o educador para tal fim lhes ditar
em voz bem intelligivel, palmeando as primeiro mui vagarosamente, depois
um poucochinho mais depressa e por ultimo com o natural andamento,
passaro os meninos a _ler por cima_, como  uso dizer-se nas escolas.

Chegado a este ponto ter o educador de desvelar-se muito em supprir a
extrema penuria da orthographia, no tanto no tocante  representao
dos sons constituitivos das palavras, no que muito falta, como no que se
refere  diviso logica das oraes, s variadissimas pausas, que ha de
fazer o bom ledor e recitador perfeito; s infinitas intonaes de que
carecem as palavras, as proposies, os periodos e at um mesmo vocabulo
conforme a ida que revela[1].

Ler ou fallar sem intonaes, sem pausas, sem as devidas quantidades,
sem dar ao que se l ou falla o natural colorido, e o relevo
indispensavel, vale tanto como querer executar em um piano
miseravelmente desafinado os primores de Rossini, Donizetti, Bellini,
Meyerbeer ou Marcos Portugal.

E no obstante serem intuitivas todas estas verdades, muitissimas
pessoas ha, que as desconhecem, e muitas que, no as desconhecendo, como
que se aprazem de ler e fallar por modo tal, que provocam tedio e somno.

Daria optimo resultado, como tivemos opportunidade de mostrar
praticamente a um educador, sempre avido de se aperfeioar, e em extremo
benevolente para comnosco, a introduco nas escolas infants e
primarias, para o ensino e aperfeioamento da leitura e recitao de um
processo analogo ao adoptado pelos regentes de orchestras e bandas
marciaes no estudo das peas concertantes. Consiste elle em se
collocarem os meninos em p ou assentados, mas conservando direitos os
troncos e naturalmente levantadas as cabeas[2] em frente de estantes ou
mesas, onde estejam abertos os livros. Em logar elevado, de modo que
todos os escolares o vejam, est o educador em p, batuta na mo, olhos
no livro e olhos na turba. Primeiro l elle pausadamente em voz alta,
com todo o esmero, um periodo, marcando o compasso com a batuta,
repetindo duas ou mais vezes as palavras, que lhe parecerem mais
difficeis de pronunciar, e corrigindo sem o minimo acanhamento os
proprios descuidos. Feito este ensaio, manda ler o mesmo trecho ao
estudante mais adiantado, depois a outro e outro, reservando para o fim
os menos habeis, para que tenham tido tempo de se amestrar.

Findo que seja este segundo exercicio, e tomado algum descano, dar o
signal de atteno e mandar ler em cro, indicando sempre com a batuta,
como se estivesse regendo uma orchestra, todas as modificaes da voz,
que a leitura exigir.

A estes estudos, que bem se podem chamar de leitura coral, podem-se
accrescentar outros, excellentes para exercitar os meninos na
declamao, e mui bem acceitos do bando infantil, que consistem
primeiramente na leitura, e depois na recitao de cr, de pequenos
dialogos, fabulas, e entremezes, em que haja um cro e dois, tres, ou
mais interlocutores. Composies d'este genero facilmente se obtem, e
quando se no achem, sem muito custo as pde architectar o professor.

A par dos exercicios de leitura e recitao se pde ir cultivando a
intelligencia dos meninos, e acostumando-os a pensarem e a exprimirem-se
com certo rigor logico. Nada ha mais facil.

Umas vezes elles mesmos subministraro ao educador assumpto de molde
para os seus conselhos e advertencias, outras vezes far-lhes-ha e
educador uma pergunta ou lhes propor um problema, e nas respostas ir
notando as transgresses das leis da logica, que porventura commetterem,
nunca saindo do campo da pratica para o das theorias, nem usando da
terminologia scientifica, que nas idades tenras assusta, desgosta e no
instrue.

       *       *       *       *       *

Cerraremos estas consideraes lembrando aos educadores a vantagem de
excitar nos estudantes o amor do estudo pelo emprego de premios e
distinces.

Se no dizer de Christo Todo o que trabalha  digno de recompensa
_Dignus est enim operarius mercede sua_, qual ser a razo por que se
no hade galardoar o bom comportamento, a assiduidade no estudo, o
aceio, e o progresso dos meninos?

Se nas escolas superiores ha premios annuaes para os alumnos distinctos,
se as academias os offerecem aos sabios, que cabalmente satisfazem aos
seus programmas; se aos que triumpham nos certames das artes e da
industria se concede a meno honrosa, o _accessit_, a medalha de prata
ou a de ouro; se ha palmas e coras, e ramalhetes, e brindes para o
actor eximio, e at para o que na praa lucta com o touro embravecido,
de melhormente se devem premiar as criancinhas, para as quaes o estudo,
por mais que lh'o procuremos amenisar, hade ser sempre tarefa improba e
tediosa.

Hade porm haver na concesso das distinces e premios escolares a
maxima parcimonia e inteira justia, para que nem a prodigalidade lhes
diminua o valor, nem a parcialidade os torne, em vez de incentivo do
bem, facho de discordias, e origem de malquerenas.

E assim como a advertencia e a reprehenso se no devem fazer esperar,
commettida a falta, assim tambem se no deve demorar, nem regatear o
galardo aos que o merecerem.

Finda a semana, a cada um se dar com certa solemnidade ou o diploma, ou
a medalha, ou a estampa, ou o livro, ou o brinquedo, mas nunca gulodices
ou cousas, que os possam prejudicar.

Alm d'estes estimulos, bom ser que annualmente haja, como em muitos
collegios se usa, uma sesso publica consagrada  glorificao dos que
mais se houverem distinguido.

Ponhamos aqui ponto, no porque hajamos dito quanto se poderia
recommendar aos educadores relativamente  difficilima empresa de
iniciar as criancinhas nas sciencias e na virtude, mas porque exposto
fica o que mais lhes convem saber para o bom emprego do ensino
intuitivo, que nos proposemos vulgarisar, convencidos da sua muita
utilidade. Os exemplos que seguem, no entram no plano de ensino
intuitivo _gradual_, que, se Deus fr servido, daremos  estampa; so
to smente uma amostra, pela qual se possa fazer ida do systema.

Preferimos para estes exemplos os assumptos e objectos, que nas suas
primeiras lies trataram Braun e Mayo, insignes pedagogistas, que em
materia de educao tem prestado relevantes servios  humanidade,
adquirindo incontestavel direito a esta humilde, porm sincera
homenagem[3].

E j que fallmos de pedagogistas de tamanha nomeada, honremos aqui
tambem outro escriptor e pedagogo notavel, o sr. J. Rambosson, cuja
ultima obra, publicada em fins do anno de 1872: _A educao maternal
conforme as leis da natureza_, no inferior  to justamente
applaudida: _Educao das mes de familia_, de Aim Martin, hade
forosamente contribuir muito para a reforma do actual viciosissimo
systema de educar a infancia, do qual o sr. Rambosson diz estas to
tristes, quo verdadeiras palavras: _Il n'existe rien sous ce rapport,
ni chez nous ni ailleurs; on ne peut appeler ducation ce que se
pratique pour cet ge_.




PRIMEIRA LIO


Ao entrarem a primeira vez na escola a maior parte dos meninos receiam;
mutos d'elles temem.

Que receiam e que temem?

Receiam e temem a ausencia e desamparo temporario de suas mes e paes; o
affastamento de seus irmos e criados; o professor, que desconhecem; os
condiscipulos, que nunca viram; a casa da aula, que lhes  estranha; a
sciencia que ignoram.

Quanto mais pequeninos, mais desconfiados se apartam do ninho seu
paterno, mais desbotadas levam as faces, mais tremem e se angustiam ao
aproximarem-se do templosinho modesto e sereno, que se lhes afigura
medonho ergastulo.

Na repugnancia, que os meninos tem  escola, so quasi sempre culpados
os paes e as mes, porque, em vez de amoravelmente lhes fallarem d'ella,
de lhes mostrarem que est alli o alvorecer de todas as artes e
sciencias, de lhes dizerem que  aquella a unica porta por onde se entra
 vida publica, na qual tero, quando homens, de tomar parte, de lhes
explicarem a misso do professor e de lhes expenderem que n'elle
accrescem aos deveres de mestre os de amigo e patrono; nada d'isto
fazem, e s invocam o santo nome da escola, quando irritados pelas
travessuras das crianas, que no querem ou no sabem remediar com
brandura, bons conselhos, bons exemplos e moderadas correces,
pretendem aterrorisal-os, apontando-lhes para aquella... penitenciaria.

Como ha de amar a escola e appetecel-a, e correr para ella voluntario e
risonho o menino, a quem se no fartaram de dizer: No te aquietas?
Irs para a escola, onde te faro estar quedo, quer queiras, quer no
queiras. No aprendas agora, que o professor depois, com a palmatoria
te metter no bom caminho. Por mais que te ralhe, no te emendas, tudo
rasgas, tudo quebras; deixa-te ir para a escola;... farei queixa ao
professor, elle te por as uvas em pisa[4]. A fim de remediar estes
deploraveis vicios da educao domestica, de tranquillisar o
estudantinho, de familiarisal-o com o professor e com os alumnos e de
infiltrar-lhe n'alma o amor da escola e do estudo, adopte-se o seguinte
modelo de recepo, ou outro melhor, mas pouco mais ou menos do mesmo
padro.

Professor.[5]--Venha c, meu menino; como se chama?

Estudante.--Viriato.

P.--Viriato  o seu primeiro nome; desejo tambem saber o seu sobrenome e
appellido.

E.--Chamo-me Viriato Henrique de Oliveira.

P.--Bonito nome. Para corresponder a elle ter o menino de ser valente,
destemido, muito amante da sua patria e muito bom. Sabe porque?

E.--No, senhor.

P.--Eu lh'o explico. Viriato foi um pastor da Serra da Estrella, to
amigo da patria e dos patricios, que para impedir que os romanos os
escravisassem, largou o cajado, abandonou os rebanhos, que apascentava,
tomou armas, aggregou a si outros valentes, e por muitos annos
desbaratou os exercitos estrangeiros, envergonhando generaes aguerridos,
e grangeando fama eterna. D. Henrique foi outro militar de grandes
dotes, e que tanto se distinguiu na guerra contra os mouros, que enchiam
a Hespanha e a nossa terra, que, em premio de seu valor veiu a casar com
D. Theresa, filha de um rei mui poderoso, da qual nasceu D. Affonso
Henriques, primeiro monarcha portuguez.

E para que todo o nome do menino seja de bom agouro, at lhe pozeram o
appellido de Oliveira, que  uma arvore muito util e agradavel, symbolo
da paz, de cujos fructos, as azeitonas, se tira o azeite, que  o melhor
e mais precioso oleo, que se conhece. Mas deixemos o azeite e a
oliveira, que ainda lhe quero fazer mais perguntas.

Como se chama o seu pap?

E.--Antonio Joaquim de Oliveira.

P.--Que emprego tem elle?

E.-- militar.

P.--E o menino quer tambem ser militar?

E.--No, senhor; quero ser medico.

P.--Bom  que no sigam todos a mesma carreira; haja militares, para
defenderem a patria dos inimigos estranhos, e para manterem o socego e a
ordem, que so a primeira necessidade dos povos; e haja medicos para
curarem os doentes, e para nos ensinarem o que devemos fazer para no
enfermar. Que edade tem o menino?

E.--Nove annos.

P.--O seu pap tem mais filhos?

E.--Tem mais tres.

P.--Os filhos do seu pap e da sua mam o que so ao menino?

E.--So meus irmos.

P.--Como se chamam os seus manos?

E.--Thomaz, Clemente e Valeriano.

P.--Dos quatro qual  o mais velho?

E.-- o Thomaz.

P.--Porque  elle mais velho?

E.--Porque nasceu primeiro que os outros.

P.--Se Thomaz  o mais velho, porque nasceu primeiro que os outros, como
designar o ultimo nascido?

E.--Direi que  o mais pequeno.

P.--Melhor  dizer que  o mais novo. Onde mora o menino?

E.--Na rua da Alegria.

P.--Caspite! Quem mora na rua da Alegria no deve ser triste.

Aps esta pratica com os recem-entrados poder o professor ou professora
convidar os que souberem contar a contarem os estudantes, que estiverem
na escola, e a designar pelos nomes os que forem seus conhecidos.

P.--Menino Viriato[6] quantos condiscipulos tem aqui?

E.--No sei.

P.--No sabe, porque ainda os no contou; conte-os em voz alta.

E.--Um, dois, tres, etc.

P.--Agora, que sabemos quantos traquinas aqui esto, diga-me os nomes
dos seus conhecidos.

E.--Aquelle  Francisco; aquelle  Antonio; aquelle, que est ao p da
janella, tambem se chama Francisco, etc.

P.--Ha n'esta aula tres Franciscos, como  que os havemos de distinguir
de modo que, ao chamar um d'elles, no acudam todos tres?

E.--No sei.

P.--Nada mais facil; bastar accrescentar ao primeiro nome de cada um o
appellido da familia; teremos: Francisco de Mello; Francisco de Aguiar e
Francisco Loureiro. Quando differentes pessoas ou cousas tem o mesmo
nome,  indispensavel juntar ao nome que lhes  commum, outro, para que
as possmos designar sem confuso. Os meninos tem nas suas casas cpos
de differentes tamanhos, para differentes usos; a uns chamam cpos
_d'agua_, a outros cpos _de vinho_, a outros cpos _de liquor_. O mesmo
fazemos com a fructa. Ha muitas qualidades de pras; para distinguil-as
denominamol-as pra _parda_, pra _virgulosa_, pra _bojarda_, pra
_flamenga_, etc.

       *       *       *       *       *

Finda que seja a segunda phase d'este colloquio, tenue, mas conveniente
para desassombrar o espirito dos estudantinhos, passar o professor a
fazer-lhes outra ordem de perguntas.

P.--Como se chama, meus meninos, esta casa, onde estamos?

E.--Chama-se escola.

R.--Para que vem os meninos  escola?

E.--Para aprender.

R.--Que vem os meninos aprender?

E.--A ler, escrever e contar.

P.--Assim ; mas na escola alm de ler, escrever e contar, ensinam-se
muitas outras cousas agradaveis e uteis, as quaes todas concorrem para
tornar os meninos instruidos e virtuosos. Querel-as-heis aprender
tambem?

E.--Queremos, sim, senhor; queremos.

P.--Ha um adagio, que diz:--_O que se ha de fazer, faa-se_; sigamos o
adagio e comecemos desde j o nosso estudo, examinando os objectos, que
esto n'esta aula. (Aqui mostrar o professor aos estudantes o _quadro
preto_[7] a que muitos impropriamente chamam pedra). Qual dos meninos
tem um objecto como este em sua casa?

E.--Eu no; eu tambem no.

P.--Sabem como se chama?

E.--Chama-se _pedra_.

P.--Assim o denominam alguns, mas impropriamente. Isto no  de pedra, 
de pau,  de madeira. Ha n'esta casa alguma cousa de pedra?

E.--As hombreiras da porta e das janellas.

P.--E nada mais?

E.--As ardosias, que trouxemos para fazer contas.

P.--O menino F. respondeu muito bem; essas laminas pretas, a que
chammos ardosias ou lousas, e as pennas com que escrevemos n'ellas, so
pedaos de pedra. Querem ver a differena, que vae da pedra  madeira?
Batam com os dedos nas ardosias; agora venham aqui, e batam n'isto, a
que deram o nome de pedra. Todos percebem a differena do som.

E.-- verdade.

P.--Como chamaremos, pois, a este objecto? Eu lh'o digo.
Chamar-lhe-hemos o _quadro_, ou a _taboa_; e como esta madeira est
pintada, poderemos acrescentar ao nome quadro outro nome, indicativo da
cr, que tem.

E.--Poderemos dizer: _Quadro preto_.

P.--Mui bem. Agora dir-me-ho para que serve o quadro preto.

E.--Serve para n'elle se escrever.

P.--(Mostrando um pedao de giz). Sabeis o que  isto?

E.-- um bocado de _giz_.

P.--Para que o tenho eu aqui?

E.--Para escrever no quadro preto.

P.--De que cr  o giz?

E.-- _branco_.

P.--(Mostrando a esponja). Como se chama est'outro objecto?

E.--Chama-se--_esponja_.

P.--Para que temos aqui esta esponja?

E.--Para apagar as lettras e as figuras, que se fizeram no quadro preto.

P.--No poderiamos apagar a escripta com o leno de assoar?

E.--Poderiamos, sim, senhor; mas ficaria sujo, e sujar-nos-hia o fato.

P.--Respondeu muito bem. E porque razo no apagmos as lettras com as
mos?

E.--Porque ficariam sujas, e sujar-nos-hiam tambem o fato.

P.--Quando por qualquer motivo tivermos sujado as mos, que deveremos
fazer?

E.--Limpal-as.

P.--De quantas maneiras se limpam as mos?

E.--Esfregando-as n'um panno, ou lavando-as.

P.--Como ficam ellas mais desenxovalhadas, esfregando as n'um panno, ou
lavando-as?

E.--Lavando-as.

P.--Como se chamam as peas de roupa, de que nos servimos para enxugar
as mos depois de as termos lavado?

E.--Chamam-se--_toalhas de mos_.

P.--Trazer as mos limpas  garridice, ou necessidade e dever?

E.-- necessidade e dever.

P.--Para que  necessario trazer as mos aceiadas?

E.--Para no mancharmos aquillo em que mechermos, e para no enojar as
pessoas, que nos virem ou a quem prestarmos algum servio.

P.--A sugidade das mos prejudica a saude?

E.--No sei.

P.--Prejudica, e muito; em primeiro logar porque obsta  transpirao,
isto ,  sada da agua e suor, que continuamente esto atravessando a
pelle; em segundo logar porque, indo com as mo sujas aos olhos,
poderemos inflamal-os e originar doenas, que ou nos enfraqueam a vista
ou nos acarretem a cegueira. Quantas vezes ao dia deveremos lavar as
mos?

E.--Quantas fr necessario.

P.--Acertadamente responderam; mas no ser escusado dizer-lhes que
invariavelmente as devem lavar pela manh, ao erguerem-se da cama; antes
e depois do almoo, jantar e ceia, ou de qualquer outra refeio; ao
sair e entrar em casa; afra as outras vezes, que o aceio o exigir.
Passemos a outro assumpto. (Apontando para o cavallete.) Qual dos
meninos me saber dizer o nome d'aquelle objecto?

Silencio.

P.--Menino Carlos, no sabe como se chama aquillo?

E.--No, senhor.

P.--Pedrinho, tambem no sabe como se chama aquella geringona?[8]

E.--Chama-se _cavallete_.

P.--Acertou. Agora digam todos commigo: Ca-va-lle-te[9].

E.--Ca-va-lle-te.

P.--Agora ho de dizer esse nome, sem separarem as syllabas.

E.--Cavallete.

P.--Para que serve aquelle cavallete?

E.--Serve para sustentar o quadro preto.


Resumo

A casa, onde estamos, chama-se escola. Na escola aprende-se a ler,
escrever, contar, a doutrina christ, desenho, canto, e mil outras
cousas uteis e agradaveis, que o professor nos vae ensinando pouco e
pouco, as quaes todas concorrem para que sejamos bons e instruidos,
qualidades estas indispensaveis a qualquer homem. Ha na escola diversos
objectos, e entre elles o _quadro preto_, a _esponja_, o _giz_ e o
_cavallete_. No quadro preto escreve-se com giz. Serve a esponja para se
apagar o que se escreveu no quadro, e o cavallete para sustentar o mesmo
quadro.


Reflexes

Meus meninos, attendei bem ao que vou dizer-vos, e no o esqueaes. Pode
a casa da escola ser convidativa, a mobilia e utensilios bons, os
compendios famosos, o professor sabio, zeloso e habil, e o methodo de
ensino excellente, e no obstante todas estas invejaveis condies, os
estudantes no utilisarem nada, com detrimento proprio e de seus paes,
por falta de assidua frequencia e de estudo.

So incalculaveis os prejuizos, que resultam das repetidas faltas 
escola. Os meninos, que faltam, no s no se adiantam, mas perdem o que
aprenderam, desgostam e entibiam o professor, introduzem a desordem na
aula, e incitam os collegas com o exemplo, a que procedam do mesmo modo.

Evitae, pois, todos estes males, no faltando  escola sem causa
justificavel, e estudando aqui e em vossas casas, isto , attendendo ao
que o professor vos disser, meditando nas suas palavras, e lendo ou
decorando o que vos mandarem que leiaes ou decoreis. No se pode ser
instruido, sem estudar. Os meninos estudiosos grangeiam a estima das
pessoas de bem, e tornam-se dignos da proteco divina.




SEGUNDA LIO

A ESCOLA


P.--Meus meninos, fallmos outro dia do quadro preto, das ardozias, do
giz, da esponja, da toalha de mos, e do cavallete; desejo que me
nomeeis agora mais alguns utensilios da escola... Como se chama isto?
(Indicando a mesa).

E.--Chama-se _mesa_.

P.--De que  feita esta mesa?

E.--De madeira.

P.--Todas as mesas so de madeira?

E.--No, senhor; algumas so de pedra.

P.--E no as ha feitas de outras materias?

E.--No sei.

P.--Nunca viram mesas de metal?

E.--Lembro-me agora de tel-as visto de ferro.

P.--E no s de madeira, de pedra e de ferro se podem fazer; todas as
materias solidas e duras se prestam  construco d'este movel. Como se
chama esta parte da mesa? (Indicando a parte superior).

E.--_Taboa_ da mesa.

P.--Como se chama est'outra? (Indicando a parte sobre que assenta a
taboa).

E.--Chama-se _aro_.

P.--Vinde aqui e dizei-me, que nome tem estas especies de caixas
(Mostrando as gavetas) que esto sobre a taboa da mesa, e que eu puxo
para fra e torno a esconder (abrindo e fechando as gavetas).

E.--Essas especies de caixas chamam-se _gavetas_.

P.--Para que servem as gavetas?

E.--Para guardar diversos objectos?

P.--Estas peas de metal, que as gavetas aqui tem embebidas na madeira,
como se denominam?

E.--_Fechaduras._

P.--Para que servem estas fechaduras?

E.--Para fechar as gavetas?

P.--Porque razo fecho eu as gavetas d'esta mesa, quando saio da aula?

E.--No sei.

P.--Porque ha meninos, que commettem a indiscripo de as abrir e de
mecher no que n'ellas est, praticando uma aco feia ...

E.-- mu abrir uma gaveta?

P.--Se a gaveta  de nosso uso, ou se nos  permittido abril-a e tocar
no que l est, no commettemos falta nenhuma em a abrir; mas se  de
outrem, ou se nos prohibiram abril-a,  aco muito feia e m o
descerral-a, sem licena, excepto em caso de necessidade. E j que
estamos a fallar de gavetas, dizei-me, que deve fazer um menino bem
educado, quando na sua presena se abre uma gaveta?

E.--No sei.

P.--Deve abster-se de olhar para l e de estar a observar o que ella
contem. Dizei-me, com que se abrem as fechaduras?

E.--Com as _chaves_.

P.--Olhae para aqui... Metto a chave n'esta fechadura dou-lhe volta e
vejo sair uma pea de ferro, chata e larga.

E.-- verdade.

P.--Como se chama essa pea?

E.--_Lingueta._

P.--Sabeis porque lhe pozeram o nome de lingueta?

E.--No sabemos.

P.--Soletrae a palavra lingueta, e talvez deis no vinte.

E.--Lin-gue-ta.

P.--As duas primeiras syllabas d'essa palavra no vos trazem  memoria
outra palavra muito conhecida?

E.--Trazem, sim, senhor; a palavra lingua.

P.--Reparae agora se ha alguma similhana entre a lingua do homem e dos
outros animaes e a parte da fechadura, que estamos observando.

E.--Ha, sim, senhor.

P.--Em que?

E.--A lingua  chata e a lingueta tambem; a lingua  comprida, como a
lingueta; a lingua est preza na bocca d'onde sae s vezes, e a lingueta
est egualmente presa no interior de uma caixa da qual a chave a faz
sair.

P.--Difficilmente se poderia responder melhor  minha pergunta. Tomem
d'aqui exemplo os outros meninos. A explicao que o menino F. me deu
prova-me que elle observa as cousas com atteno e compra umas com as
outras, o que muito concorre para que se nos desenvolva a intelligencia;
ou que, se alguem lhe tinha ensinado isto, se no esqueceu do que lhe
haviam dito, o que tambem  muito para louvar[10].

E.--A mim ninguem me tinha ensinado a resposta.

P.--Tanto melhor, porque deu prova de que medita no que v; que vr as
cousas superficialmente  quasi o mesmo que no as vr: Continuemos a
estudar a mesa. Reparem n'estas quatro columnas (mostrando os ps da
meza) sobre as quaes assenta a taboa, o aro e as gavetas.

E.--So os _ps_ da meza.

P.--Porque se lhes chama ps?

E.--Porque sustentam o resto da mesa,  maneira dos ps do homem e dos
animaes, que sustentam o resto do corpo.

P.--Todas as mesas tem quatro ps?

E.--Nem todas; umas tem um s p, outras quatro, outras seis, e podem
ter mais.

P.--Quaes so as mais firmes, isto , menos subjeitas a cairem, as de
um, ou as de quatro ps?

E.--As de quatro ps.

P.--Para que servem os bancos?

E.--Para nos assentarmos.

P.--De que so feitos esses bancos?

E.--De madeira.

P.--No poderiam ser feitos de outra materia?

E.--Poderiam ser de ferro, ou de pedra.

P.--Porque no poriam aqui bancos de pedra?

E.--Porque so mais caros, que os de pau.

P.--E s por isso  que os no pozeram aqui?

E.-- porque so muito pezados; no poderiamos mudal-os de um logar para
outro.

P.--No haver outro motivo para preferir os bancos de pau aos de pedra?

E.--No sei.

P.--Menino F... queira responder  minha pergunta?

E.--No sei.

P.--Aquelle estudantinho, que alm est a gesticular,  que nos vae
satisfazer a curiosidade; vamos, menino G... deite a barra adiante aos
seus collegas, revelando-nos o motivo porque os bancos de pedra,  parte
o serem pesados e caros, no so adoptados nas nossas casas e nas aulas?

E.--Parece-me que  por serem muito frios.

P.--Por causa da frialdade da pedra so os bancos d'aquella materia no
s incommodos, seno muito prejudiciaes  saude. Passemos a outro
assumpto. J vos ponderei que  muito mau faltar  aula, no estar
attento ao que diz o professor, e no estudar. Desejo que me digaes
agora o que acontece aos estudantes, que no vem ao principio da aula, e
que entram aqui uma hora, ou hora e meia, depois de terem comeado os
nossos trabalhos?

E.--No podem seguir bem as lies.

P.--Que dever, pois, fazer, relativamente a este ponto, um estudante
applicado, e que deseje adiantar-se?

E.--Dever entrar na aula  hora marcada para o comeo do estudo.

P.--Diga-me menino L... que cousas deve o estudante trazer sempre para a
escola?

E.--Uma ardozia, uma penna de pedra, um lapiz, uma penna de ao, e os
livros.

P.--E que lhe acontecer, se lhe esquecer alguma ou algumas d'estas
cousas?

E.--No poder tirar da lio o fructo, que deve tirar.

P.--Qual ser a razo porque alguns meninos chegam muitas vezes  aula
sem os objectos, que lhes so indispensaveis?

E.--A razo d'essa falta  ou por que se esquecem de os tomar ao sair de
casa, ou por que, saindo com pressa, os no acham, e lhes falta o tempo
para procural-os.

P.--Ha meio de evitar aquelle esquecimento, e de fazer com que os
objectos, que devem trazer para a aula, se lhes deparem facilmente?

E.--Ha, sim, senhor. Bastar que os meninos ponham a ardozia, o lapis, e
os livros em um logar certo.

P.--Que nome daremos a um menino, que pe uma cousa aqui, outra alli,
outra acol, e que depois se no lembra dos logares onde as poz?

E.--_Desarranjado._

P.--E ao que suja e rasga os livros, e deita borres na escripta, e por
cima das mesas, e se apresenta com a cara e os dedos enxovalhados?

E.--_Porco ou enxovalhado._

P.--Deve o professor consentir que os meninos rasguem os livros, que
salpiquem de tinta as paredes e as mesas, que tragam sujas as mos e
cara, e o fato cheios de nodoas?

E.--No, senhor.

P.--Porque?

E.--Porque estragar os livros, ou as paredes, ou qualquer cousa, sem
necessidade,  aco muito feia, assim como no andar limpo.

P.--E ser apenas aco muito feia? No ser uma especie de roubo feito
aos paes e aos mestres, aos quaes muitas vezes  em extremo penoso
custear as despezas, a que os filhos e discipulos os obrigam?

E.-- de certo.

P.--Que devem, pois, fazer os meninos a quem se recommenda, que sejam
arranjados e aceiados?

E.--Devem obedecer.

P.--E que merecem os que no fazem caso das advertencias de seus paes e
mestres?

E.--Merecem castigo.

P.--E de que so dignos os que estudam bem, e obedecem aos seus
superiores, procurando em tudo conformar-se com os seus conselhos e
preceitos?

E.--So dignos de estima e de premio.

P.--Respondeu com muito acerto. Por hoje basta de conversao. Antes,
porm de nos separarmos quero repetir-lhes um conselho muito prudente de
um grande mestre. Decorem-n'o e sigam-n'o, se querem ser methodicos e
arranjados. Eil-o:

_Logar certo para cada cousa, e cada cousa no seu logar_.




TERCEIRA LIO

OS CONDISCIPULOS


P.--Recommendei-lhes outro dia, meus meninos, que no faltassem  aula,
que viessem  hora marcada no regulamento, que se no esquecessem de
trazer os livros, e mais objectos necessarios para as suas lies, que
se acostumassem a ser arranjados, methodicos, e desenxovalhados, e que
tivessem o maior cuidado em no estragar os objectos de seu uso. No so
to poucos os deveres dos meninos; e como para bem os cumprirem 
indispensavel conhecel-os, vamos hoje conversar em outro assumpto, que
muito lhes interessa. Comearei perguntando-lhes como se denominam, em
geral, os meninos, que frequentam ao mesmo tempo uma aula?

E.--Denominam-se _condiscipulos_.

P.--O encontrarem-se quasi todos os dias, estarem muito tempo juntos,
lerem pelos mesmos livros, aprenderem com o mesmo professor, terem com
pequenas differenas, a mesma idade, e trabalharem para conseguir o
mesmo resultado, concorrer para que os condiscipulos formem uma especie
de familia ou irmandade, cujo pae espiritual  o professor?

E.--Certamente.

P.--Se os condiscipulos, como affirmaes, so quasi irmos, parece-me que
devem tratar-se de maneira differente do que se tratam os meninos, que
nem so parentes, nem condiscipulos.

E.--Sem duvida.

P.--J que to expeditamente confirmaes a minha opinio, fazei merc de
me dizer como se devem tratar os condiscipulos.

E.--Devem tratar-se com delicadeza, bondade e amisade.

P.--Optimamente, sr. estudantinho; mas como eu no quero deixar por
mentiroso o rifo, que diz: As palavras so como as cerejas, peo-lhe
me indique quaes actos de delicadeza ho de praticar os condiscipulos;
de certo no quereis que elles deem excellencia uns aos outros, ou se
sadem com salamaleks,  maneira dos turcos.

E.--Ho de cumprimentar-se quando se encontrarem em qualquer parte, e 
entrada e sada da aula; no ho de bater uns nos outros, nem rasgar ou
sujar os vestidos; no ho de usar nas suas conversas de palavras feias;
se a qualquer tiver esquecido o livro, a lousa, a penna, ou qualquer
outro objecto deve-se-lhe emprestar aquillo de que carecer.

P.--Muito bem. E ser delicado o menino que despresar o collega, por
elle ser feio, ou aleijado, ou tartamudo, ou vesgo, ou coixo?

E.--No, senhor.

P.--Ser delicado o menino, que pozer alcunhas a seus condiscipulos, ou
que lhes lanar em rosto o serem filhos de pessoas pobres, ou no
trajarem  moda, com elegancia, e esmero?

E.--No, senhor.

P.--Se ao mesmo tempo chegarem ao pote, para beber, dois meninos
grosseiros, que acontecer?

E.--Por-se-ho a ralhar, querendo cada qual ser o primeiro que beba.

P.--Se um dos meninos fr delicado e o outro grosseiro?

E.--O delicado ou se affastar, para que o outro mate a sede em primeiro
logar, ou encher o copo e lh'o offerecer.

P.--E se ambos forem delicados?

E.--No sei o que devam fazer.

P.--Menino F., responda  minha pergunta.

E.--Se ambos forem bem criados, dever o mais pequeno encher o copo e
offerecel-o ao mais velho.

P.--Mas pode acontecer que ambos tenham a mesma idade, ou que um no
saiba a do outro.

E.--Nesse caso o mais delicado antecipar-se-ha a obsequiar o outro.

P.--Respondeu com muito juizo. Que dever fazer um menino delicado, se
ao lanche, um condiscipulo lhe pedir um damasco, uma pra, ou qualquer
outra cousa, que lhe no faa falta?

E.--Deve dar-lh'a.

P.--E pedir-lhe outra cousa em paga?

E.--No, senhor.

P.--Do que temos estado a dizer conclue-se, que a delicadeza consiste
no s em evitar tudo quanto possa desgostar os outros, mas tambem na
pratica de quanto honestamente lhes possa ser agradavel.--Desejo, porm,
que me digaes se delicadeza e bondade so o mesmo.

E.--No, senhor.

P.--Como assim?

E.--Pode uma pessoa ser delicada e no ser boa; pode tratar os outros
muito bem, mas no proceder assim por virtude, e to somente por genio,
elegancia, ou astucia.

P.--Para que possmos ter um menino em conta de bom o que  necessario?

E.-- necessario que elle no faa nenhuma aco m.

P.--Quando  que as nossas aces so ms?

E.--Quando offendem a Deus, ou ao proximo.

P.--Dizeis muito bem; mas para que este ponto se aclare bastante, fazei
favor de me indicar algumas aces que reputeis ms.

E.--So ms aces no crer em Deus, no o amar, e no o temer; no
cumprir as ordens dos nossos superiores; mentir, levantar falsos
testemunhos; desprezar os pobres, e no os soccorrer; indagar das vidas
alheias; furtar; comer e beber mais do que  preciso.

P.--E ser mandrio, no estudar bem as lies  aco ba, ou m?

E.-- m.

P.--Porque?

E.--Porque, no estudando, desobedecemos a nossos paes e mestres.

P.--Como se chama a aco torpissima de tirar a alguem uma cousa s
escondidas.

E.--Chama-se furto.

P.--E como se denomina o desgraado, que furta?

E.--Denomina-se ladro.

P.--Que merecem os ladres, estima ou desprezo?

E.--Desprezo e castigo.

P.--E no ser quasi ladro um menino, que, mandriando, obriga seus paes
a fazerem despeza excessiva para o educarem, e que prejudica a familia,
em beneficio da qual deveriam reverter as quantias, que os paes consomem
inutilmente com o preguioso?

E.--, sim, senhor.

P.--Por consequencia merece desprezo e castigo o mu estudante.

E.--Certamente.

P.--Se na escola houver estudantes pobresinhos e estudantes abastados,
que devem estes fazer relativamente quelles?

E.--Tratal-os muito bem.

P.--O bom tratamento de que fallaes consistir somente em os admittirem
 sua companhia na aula e na rua, e em praticarem com elles
delicadamente, ainda que no andem bem trajados; ou consistir tambem em
auxilial-os, obtida licena dos paes e mestres, para que lhes no faltem
cousas indispensaveis, taes como o lapis, papel, compendios, etc., para
comprar as quaes lhes no chegar o dinheiro.

E.--Parece-me que  dever dos estudantes endinheirados proteger em tudo
os que o no so, e at repartir com elles o _lunch_, e a merenda, por
isso que os collegas se devem amar como irmos.

P.--Muito bem. E o amor fraternal dos collegas permittir que andem a
fazer queixas uns dos outros?

E.--No, senhor.

P.--Que dever fazer um bom collega quando outro commetter uma pequena
falta.

E.--Deve advertil-o de que no fez bem, e aconselhal-o a que se emende.

P.--E se um estudante quizer commetter um crime, ou praticar uma aco
m, ou se tiver delinquido, e se mostrar obstinado em no se emendar, o
que dever fazer o collega?

E.--Se no poder evitar o mal, nem conseguir que o menino, que o
praticou, trate de se corrigir, cumpre-lhe avisar o professor.

P.--Em voz alta, diante de todos, com acrimonia, e maneiras hostis, ou
em particular, e por modo, que no aggrave o delinquente?

E.--Em particular e sem azedume.

P.--Se o professor perguntar a um estudante quem commetteu certa falta
ou maldade, e o estudante interrogado souber quem foi, que dever fazer?

E.--Dizer a verdade.

P.--Quando tal acontea, ficar mal ao estudante implorar a clemencia do
professor para o collega?

E.--No, senhor; antes lhe ficar muito bem.

P.--Disse ainda agora um dos meninos que deviam os collegas ser amigos.
A amisade  um sentimento mui delicado e nobre, e por isso mesmo mui
raro. Umas vezes nasce do parentesco e convivencia intima, tal  a que
aos filhos consagram os paes, e a estes os filhos, tal a dos avs e
netos, e a dos tios e sobrinhos; outras vezes provm da sympathia,
augmenta com a camaradagem, principalmente entre pessoas de indoles
similhantes, e fortifica-se pela troca reciproca de servios
desinteressados e honestos. Mas, assim como nem tudo o que luz  ouro,
assim nem toda a convivencia, posto que deleitavel, extremosa, e at
util, se pde considerar amizade verdadeira.

E.--Em que consiste, pois, a verdadeira amizade?

P.--Em duas ou mais pessoas se estimarem reciproca e honestamente, como
cada uma a si propria se estima.

E.--Em vista do que dizeis, devem ser mui poucos os verdadeiros amigos;
porque eu, no obstante ser ainda muito creana, tenho notado que quasi
todas as pessoas gostam mais de si, que dos outros.

P.--Rarissimos so,  verdade, e por isso mesmo quem teve a felicidade
de encontrar um, deve cuidar muito de o no perder.

E.--E o que nos acontecer, se nunca tivermos um amigo verdadeiro?

P.--Seremos menos felizes do que seriamos, se o tivessemos.

E.--Vs, sr. professor, sois muito feliz.

P.--Por que me consideraes muito feliz?

E.--Porque tendes muitos amigos.

P.--Quem vos disse que tenho muitos amigos?

E.--Ninguem; mas tenho visto que pelas ruas uns vos cortejam,
tirando-vos o chapu, outros vos dizem adeus com a mo, outros vos
tratam por tu, muitos vos abraam e param a fallar comvosco.

P.--Como estaes enganado! Esses todos, com pouquissimas excepes,
sabeis o nome que merecem? Eu vol-o digo--_conhecidos_.--Se eu casse de
cama, quantos viriam acompanhar-me? se eu estivesse preso, quantos iriam
suavisar-me a solido do carcere? se eu tivesse fome, quantos
repartiriam commigo as suas spas? se eu tivesse a desgraa de commetter
um crime, quantos no dia seguinte se desbarretariam ao passar por
mim?... Conhecidos, indifferentes, amigos do theatro, do baile, do
passeio, que desapparecem, quando o verdadeiro amigo mais se approxima
de ns, nos dias sombrios e luctuosos da desgraa, e das tribulaes.

E.--Como  ento que fallaes e mostraes to bonito modo a homens, que de
nada vos prestam? No seria melhor desprezal-os?

P.--No se deve desprezar ninguem. Quem no pde beber por uma taa de
ouro, ou de crystal, ha de quebrar o copo de vidro ou o pucaro humilde
de barro? Para os conhecidos, caridade e delicadeza; para os amigos, os
affectos todos do corao.

E.--Se vos no enfado, far-vos-hei ainda uma pergunta.

P.--Quantas quizerdes.

E.--De que traa nos havemos de servir para grangear amigos verdadeiros?

P.--Um sabio, a quem fizeram igual pergunta, respondeu: _Se quizeres ser
amado, ama_. A semente da amisade  a sympathia, ou reciproca
inclinao, gerada, ou da analogia das indoles e estados, ou de certas
qualidades, que mal se pde dizer quaes sejam, mas que parecem attrair
umas para as outras as pessoas, que as tem.

E.--De maneira que, se eu entrar n'uma casa e me agradar de uma pessoa,
que no conhea, ainda que no seja da minha idade, nem bonita, e sentir
para ella inclinao, poderei dizer que _sympathizei_ com ella.

P.--De certo.

E.--Mas s vezes tambem succede o contrario; olha a gente para um homem
ou para uma senhora, e posto que nem sejam feios, nem desastrados,
experimenta certa repugnancia em tratal-os.

P.--A essa repugnancia se d o nome de _antipathia_.

E.--Quando pois, sympathisarmos com alguem, poderemos contar com um
verdadeiro amigo?

P.--Nem sempre.  vossa pergunta respondeu ha muito tempo um escriptor
portuguez dos mais eruditos, chamado Antonio de Sousa de Macedo, cujas
obras vos recommendo desde j para quando fordes maiorzinhos. Ouvi o que
elle a tal respeito escreveu. D'entre os mesmos em que se acham
sympathias, se deve fazer distinco, antes de trabalhar pelos fazer
amigos, por que nem todos sero convenientes.

Suetonio diz de Augusto, que os _escolhia_ com vagar, e os conservava
constantemente. Devem-se preferir os de _melhor juizo_, _bons costumes_,
_valor_, _sinceridade_, e _ba fama_. Nem com o _nescio_, diz o
ecclesiastico, nem com o _mau_, diz santo Agostinho, nem com o _pouco
verdadeiro_, diz Aristoteles, pde haver amizade.

E.--So essas as qualidades que devem ter os amigos, e muito folgo de
que to claramente nol-as expozesse esse auctor portuguez, cujo nome
citastes; mas quando se nos depare alguem com todos esses requisitos,
que deveremos fazer para lhe captivarmos a amizade?

P.--Seja tambem Macedo quem vos responda. Diz elle: Feita a eleio, a
communicao e conversao faz os amigos, concordando nos ditos, e nas
aces (suppondo que tudo ha de ser honesto e judicioso) e para a facil,
sincera, e agradavel concordia, contribue especialmente a sympathia, a
qual, accrescentou um sabio, se deve ajudar com algum beneficio, feito
graciosamente, sem ser rogado, nem depois publicado.

E.--Algum beneficio?

P.--No fiqueis ahi pensando que os beneficios, que penhoram a amizade,
sejam to smente mimos e presentes de cousas, que se merquem nas lojas,
ou de fructas e manjares; boas so essas provas de amizade, mas no so
as unicas, nem as mais apreciaveis. Por beneficios deveis entender
tambem, os conselhos prudentes, os exemplos dignos de imitao, a
companhia na doena, e nas tribulaes, o ensino fraternal e at a
reprehenso suave das faltas e defeitos.


Resumo

Os condiscipulos so quasi irmos, filhos espirituaes do professor.
Devem ser delicados, bons, e amigos. Devem cumprimentar-se  entrada e
sada da aula e sempre que se encontrarem. Devem prestar uns aos outros
todos os servios, que puderem. Os estudantes pobres, defeituosos, mal
vestidos merecem, sendo bons, tanta estima e considerao, como os
abastados, sos, e tafues. Nem sombra de alcunhas, principalmente
allusivas a quaesquer deformidades, ou imperfeies do corpo ou do
espirito. Se nos pedirem cousa, que possamos emprestar ou ceder,
emprestemol-a, ou cedamol-a, sem exigir paga, nem agradecimento.
Delicadeza no  bondade. Toda a aco contraria  lei de Deus, ou s
leis humanas, quando estas no offendem aquella,  m.

O mandrio merece castigo e desprezo. Desde a aula deve o rico ajudar o
pobre.--Se algum estudante fizer maldades advirtam-n'o os que as
presenciarem; mas no as divulguem. Quando um estudante praticar aces
indignas, e admoestado pelos condiscipulos, se no emendar, recorra-se
ao professor, dizendo-lhe em particular, e sem aggravar o mal, quanto
baste para que elle proceda como fr de justia.  prova de delicadeza e
bondade de corao implorar misericordia para os que estiverem em risco
de ser castigados. Nunca se deve mentir; a mentira  a torpeza das
torpezas.

So amigas duas pessoas que reciproca e honestamente se estimam como
cada uma d'ellas se estima a si propria. Ha amizade verdadeira, e
falsa.--Nem todos os que parecem amigos, o so; no se deve confundir o
amigo com o conhecido. Amar  o meio de grangear amigos. A amizade nasce
da sympathia; mas nem todos com quem sympathismos podem ser nossos
amigos. As qualidades que dever ter um amigo, so: bom juizo, bons
costumes, valor, sinceridade, ba fama. No deve ser nescio, nem mau,
nem mentiroso. Para o grangear bastar a communicao e conversao,
auxiliadas por obsequios desinteressados.


Reflexes

 finda a nossa palestra de hoje. Temos dito muitas cousas, mas no
basta fallar;  indispensavel fugir do mal e praticar o bem. Muito falla
o papagaio, mas que faz tamanho palrador? Come o que lhe deitam no
comedouro, e nas horas vagas vae roendo a gaiola. Ninguem dir com
verdade, que seja muito para se imitar a tal ave palreira. Palavras,
leva-as o vento, dil-o o rifo, e no mente. Para vos no parecerdes com
aquelle animalzinho inutil, amae-vos muito uns aos outros; auxiliae-vos
fraternalmente, cumpr  risca todas as vossas obrigaes, e lembrae-vos
a cada momento de que os homens do futuro, os paes de familia, os
mestres, os escriptores, os ministros, os deputados, os juizes, os
sacerdotes, os militares, os medicos, os pharmaceuticos, os advogados,
os artistas, os negociantes, os industriaes, os lavradores haveis de ser
vs, e de que para profisses to variadas, to nobres, to difficeis e
de tantissima responsabilidade, vos deveis desde j preparar, estudando
e praticando todas as virtudes, para que, chegada que seja a hora de
entrardes na vida activa e de servirdes a civilisao, que exige
obreiros intelligentes e honrados, possaes cabalmente desempenhar os
vossos deveres.




QUARTA LIO

VIDRO[11]


Escolheu o professor Mayo o vidro para assumpto da primeira lio do
ensino intuitivo, ou de objectos, por lhe parecerem as qualidades d'este
corpo mais perceptiveis aos nossos sentidos, que as de qualquer outro.
Aconselha o mesmo professor que fiquem os meninos defronte do quadro
preto, onde se ho de ir escrevendo os resultados de suas observaes; e
que o pedao de vidro v passando de mo para mo, para que cada um dos
estudantes individualmente o examine. O tomar cada menino o fragmento de
vidro em suas mos e o il-o observando com atteno , como atraz
observmos, ponto de grande importancia para o bom resultado do ensino.
Diz a este proposito o excellente pedagogista Mayo o seguinte: D'este
modo cada individuo, dos que compem a aula, se v obrigado a exercitar
as suas faculdades sobre o objecto, que se lhe apresenta; servindo as
perguntas, que depois lhes faz o professor, para que elles revelem suas
idas, e para a emenda d'estas, se forem erroneas.

P. (Mostrando um bocado de vidro)--Que  isto, que eu tenho na mo?

E.-- um bocado de vidro.

P.--Vamos soletrar a palavra _vidro_.

(_Feita esta advertencia, escreve o professor no quadro preto a palavra
vidro, dividida em duas syllabas_; pronunca alto e bom som, em primeiro
logar as lettras _v-i-d-r-o, acompanhando a pronunciao de cada uma
d'ellas de uma pancada com o ponteiro no quadro, ou de uma palmada; e
pronunca depois as duas syllabas mui distinctamente. Em seguida repetem
os estudantes primeiro individualmente, e depois em cro, aquella
soletrao, at que a saibam correctamente fazer_.)

P.--Todos vs examinastes este vidro; e que notastes n'elle? Que podeis
dizer que ?

(Pe-se esta pergunta em logar de: Quaes so as suas propriedade? porque
 muito provavel que a principio no entendam os meninos o sentido da
palavra propriedade; mas applicando-a repetidas vezes o professor s
respostas que os estudantes derem, em pouco tempo se acostumaro a ella
e lhe percebero o sentido).

E.-- brilhante.

P. (Depois de ter escripto no quadro a palavra propriedade, escreve
por baixo:  brilhante).--Pegae-lhe; apalpae-o. (Dever o professor
dirigir aos estudantes perguntas conducentes a pr-lhes successivamente
em aco os differentes sentidos).

E.-- frio. (Escreve-se esta resposta no quadro por baixo da outra
qualidade).

P.--Tornae a pegar no vidro, e comparae-o com este fragmento de esponja,
com que limpmos o quadro, e dizei-me o que notastes no vidro. (O
intento do professor ao fazer esta pergunta, deve ser conseguir que os
estudantes observem a lisura, contrapondo esta propriedade  sua
opposta, a aspereza de outra substancia; meio de demonstrao que
muitas vezes se poder empregar).

E.-- lizo;  duro.

p.--Ha na aula outro objecto de vidro?

E.--Ha sim senhor; os vidros das vidraas.

P.--Olhae pelas vidraas, e dizei-me o que vdes.

E.--Vemos o jardim.

P. (Fechando as portas da janella)--Olhae agora e dizei-me o que vdes.

E.--Agora no podemos vr nada.

P.--Porque  que no vdes nada?

E.--Porque atravez das portas no se pde vr nada.

P.--Que differena notaes entre as portas e o vidro?

E.--Notmos que atravez das portas nada podemos vr, e que atravez do
vidro vmos o jardim.

P.--Podeis dizer-me alguma palavra, que indique essa qualidade, que tem
o vidro?

E.--No, senhor.

P.--Eu vol-a digo. Tomae sentido, para que vos no esquea. 
_transparente_. D'aqui por diante que ida fareis d'um corpo, se vos
disserem que  transparente?

E.--Que se pode vr atravez d'elle.

P.--Respondestes muito bem. Lembraes-vos de alguma cousa que seja
transparente?

E.--A agua.

P.--Que aconteceria se eu deixasse cair no cho este pedao de vidro?

E.--Quebrar-se-ia.

P.--E se da rua atirassem pedras  janella?

E.--Quebrar-se-iam os vidros.

P.--Sabeis como se chamam os corpos, que tem esta qualidade, ou
propriedade de se partirem, quando caem n'um corpo duro, ou quando se
lhes bate?

E.--No, senhor.

P.--Chamam-se _quebradios_, ou _frageis_,--Dizei-me, se deixassemos
cair a porta da janella ou se contra ella atirassemos uma pedra, que
succederia?

E.--Ficaria inteira.

P.--E se eu lhe batesse muito de rijo com outro corpo durissimo?

E.--Quebrar-se-ia.

P.--A madeira  quebradia, ou fragil?

E.--No, senhor.

P.--Deveremos chamar frageis a todas as substancias, que podermos
quebrar?

E.---No, senhor; _frageis_ diremos s aquellas, que se quebrarem com
facilidade.

P.--Para que serve o vidro? que prestimo tem?

E.--Serve para as janellas.

P.--Que vantagem ha em pr vidraa nas janellas?

E.--Ter as casas abrigadas do vento, da chuva, da poeira, e das moscas.

P.--Parece-me que, fechando-se as portas das janellas, no entrariam
pelas casas dentro, nem moscas, nem poeira, nem chuva, nem vento.

E.--Mas cerradas as portas das janellas, ficariam as casas s escuras, e
no poderiamos vr para fra.

P.--Muito bem. Dizei-me porque razo no tira o vidro a claridade s
casas, nem obsta a que se vejam os objectos que esto fra?

E.--Porque  _transparente_.

P.--No ha outros objectos de vidro?

E.--Ha cpos, garrafas, castiaes, espelhos, tinteiros, etc.

 provavel, diz o professor Mayo, que na primeira lio no occorram aos
meninos outras qualidades; mas estas ss, escriptas no quadro preto,
constituiro um bom exercicio de soletrao. Devem-se depois apagar; e
se os estudantes j souberem escrever, podero exercitar a memoria e
repetir a lio, escrevendo-as de novo nas ardosias.




QUINTA LIO

CAOUTCHOUC--GOMMA ELASTICA--BORRACHA[12]


Escolheu o professor Mayo esta substancia para objecto da segunda lio,
para que os meninos observem as qualidades, ou propriedades, que os
physicos denominam _opacidade_, _elasticidade_, e _inflammabilidade_.

P.[13]--Que  isto? (Mostrando um bocado de caoutchouc).

E.-- um bocado de _borracha_.

P.--Parece-se com o vidro?

E.--Em nada.

P.--Ponde esse pedacinho de _borracha_ diante dos olhos e olhae para
mim... Vdes-me?

E.--No, senhor.

P.--Se nas janellas, em vez de vidros, estivessem laminas de borracha,
que aconteceria?

E.--Ficariam as casas s escuras, e no poderiamos vr para fra.

P.--Sabeis como se chama a qualidade, que tem a _borracha_ de no deixar
vr atravez de si, como o vidro?

E.--No, senhor.

P.--Chama-se _o-pa-ci-da-de_. Repet commigo esta palavra.

E.--_O-pa-ci-da-de._

P.--Vou escrevel-a; olhae attentamente. (O professor escreve no quadro
preto: _Propriedades ou qualidades da borracha_--_O-pa-ci-da-de_).
Menino F., como chamareis aos corpos, que tem opacidade?

E.--_Opacos._

P.--Ponde diante dos olhos a lousa, que ahi tendes, e olhae para mim.
Vdes-me?

E.--No, senhor.

P.--Porque me no vdes, quando entre mim e vs est um bocado de lousa?

E.--Porque a lousa  _opaca_.

P.--Menino G., dizei-me se est alguem ali n'aquelle quarto.

E.--Eu vou vr. (Levantando-se).

P.--No vos levanteis; olhae d'ahi, do vosso logar.

E.--D'aqui no posso vr.

P.--Porque no podeis vr d'ahi o que se passa n'aquelle quarto?

E.--Porque se mette de permeio a parede.

P.--E se a parede fosse de vidro, poderieis ver para dentro d'aquella
casa?

E.--Veria de certo, porque o vidro  transparente; mas a parede no .

P.--Como diremos que  a parede, attendendo a que nos tira a vista das
cousas, que esto para alm d'ella?

E.--Diremos que  opaca.

P.--A borracha pde facilmente cortar-se com a thesoura. Vou cortar umas
tiras, para os meninos fazerem uma brincadeira. Eil-as: Tomem estas
tirinhas de borracha, segurem-n'as pelas extremidades e puxem-n'as, como
quem quizesse esticar uma linha... Basta, basta; agora larguem-n'as de
um lado... Que vistes?

E.--A borracha deu de si, estendeu, estendeu; e, logo que a largmos,
voltou ao primitivo comprimento.

P.--Tomem agora este bocado de vidro, e puxem-n'o bem.

E.--No d de si; no estende.

P.--Temos, pois, que a borracha, sendo puxada, estende, e logo que a
soltam volta  primeira; e que o vidro, por mais que o puxem, no d de
si. Porque ser isso?

E.--Provavelmente  por que a borracha tem alguma qualidade, que ns
ignormos.

P.--Como  que a ignoram, se acabam de a observar?! O que os meninos
ignoram  o nome que essa propriedade tem.

E.--Podeis-nos dizer como se chama?

P.--Chama-se _e-las-ti-ci-da-de_. Repeti commigo este nome:

E.--_E-las-ti-ci-da-de._

P.--Reparae; vou escrevel-o no quadro preto, por baixo do nome da outra
qualidade da borracha, por baixo da palavra... (Tapando com a mo a
palavra no quadro).

E.--_Opacidade._

P.--Muito bem; no se esqueceram.

(Escreve) Aqui est: _Elasticidade_. Tomae outra vez as tirinhas de
borracha; e em vez de puxal-as, torcei-as entre os dedos, que se chamam
_pollegar_ (Mostra o dedo pollegar) e est'outro (Mostra o indicador),
que se chama _indicador_... Agora largae-as. Que observaes?

E.--Destorcem-se por si.

P.--Menino A... por que  que se destorcem por si essas tirinhas de
borracha?

E.--Provavelmente, pela mesma qualidade, pela qual ainda agora
estenderam e encolheram, ficando do comprimento, que tinham, antes de as
estarmos a puxar.

P.--Assim . Dizei-me agora o que  isto? (Mostrando uma pla)

E.--Isso  uma pla de brincar.

P.--Porque ser que todos os meninos gostam de jogar a pla?

E.-- porque as plas saltam muito, e ns temos de correr atraz d'ellas,
caio aqui, acol me levanto.

P.--Sabeis de que so feitas as plas?

E.--So feitas de borracha[14].

P.--Porque no fazem as plas de barro, ou de folha de Flandres, ou de
pau, ou de cortia?

E.--Porque se fossem feitas d'essas materias no saltariam.

P.--Que ha, pois, nas plas de borracha, que as faz andar aos pulos?

E.--No sabemos.

P.--E se eu lhes disser, que sabem? Pensem, meditem. Atiro esta pla ao
cho, ella bate no sobrado, achata-se, immediatamente toma a primitiva
frma, a frma de bola, ou de esphera, como dizem os sabios, e eil-a a
pular.

E.--J sabemos porque as plas de borracha saltam, e as outras no. 
por causa da _elasticidade_.

P.--Acertastes. N'aquelle retomar a frma de esphera ou bola
immediatamente depois de se ter achatado ao bater no cho,  que est a
elasticidade. Outra pergunta cerca d'esta qualidade. Dizei-me, se vos
occorre, o nome com que podemos designar os corpos, que tem
elasticidade.

E.--Podem chamar-se _elasticos_.

P.--Assim . Reparae agora no que vou mostrar-vos. (O professor acende
uma vla). Temos aqui um rolosinho de ferro (Mostra-o), um rolosinho de
barro (Mostra-o), este pedao de pederneira (Mostra-o), e um fragmento
de borracha. Pego no rolo de ferro pelo cabo de madeira, para me no
queimar, chego-o  luz, como vedes, mas elle fica no mesmo estado. Pego
no rolo de barro, que no tem cabo de madeira, por que no aquece to
depressa como o ferro, chego-o  luz e nada de novo; com a pederneira
acontece o mesmo. Ide agora ver o que succede ao approximar da luz um
fragmento de borracha. Tomae sentido, porque me haveis de dizer o que
virdes. Por cautela, em vez de tomar a borracha com os dedos, pego-lhe
com a thesoura. Atteno. (O professor chega a borracha  luz, e apenas
ella se inflammar, affasta-a da vla, e a colloca por cima de um vaso,
que tenha agua, evitando que lhe caia derretida nas mos). Que vistes?

E.--Vimos a borracha incendiar-se e arder com chamma mui intensa e
clara.

P.--S isso observastes?

E.--E derreter-se.

P.--Nada mais?

E.--Mais nada.

P.--No prestastes bastante atteno. Vou repetir a experiencia.
(Repete-a). Dizei-me se vistes mais alguma cousa?

E.--A borracha derretida cair em pingos sobre a agua, que est n'esse
vaso.

P.--Exactamente. Esta qualidade da borracha  mui differente das outras
duas: _elasticidade_ e _opacidade_.

E.--Certamente.

P.--Sabeis como se chama?

E.--No sabemos. Fazei merc de nol-o dizer.

P.--Chama-se _in-flam-ma-bi-li-da-de_, ou propriedade de arder com
chamma. Bom ser que repitaes commigo o nome d'esta qualidade, ou
propriedade da borracha, para que vos no esquea.

E.--_In-flam-ma-bi-li-da-de._

P.--Vou escrever este nome, que nada tem de pequeno, sob o das outras
qualidades. Qual de vs  capaz de me dizer como chamaremos aos corpos,
que chegados a uma luz, arderem com chamma?

E.--Sou eu.

P.--Dizei pois.

E.--Os corpos, que ardem com chamma, denominam-se _inflammaveis_.

P.--O ferro, o barro, a pederneira, so inflammaveis?

E.--No, senhor; mas a borracha , e muito.

P.--Podeis dizer-me a cr da borracha?

E.--_Negra._

P.--Vou escrever o nome d'essa qualidade no quadro preto (Escreve).
Dizei-me, meus meninos, se vos lembra alguma cousa, bastante vulgar, 
qual a borracha se assemelhe no s na cr, mas principalmente na
grossura, na consistencia, na impresso que nos faz, quando a apertmos
e revolvemos entre os dedos.

E.--Assemelha-se ao couro.

P.--Muito bem. O que provavelmente no sabeis  como se nomeiam as
substancias analogas ao couro.

E.--No sabemos.

P.--Dizem se _co-ri-a-ce-as_. Repet pausadamente esta palavra.

E.--_Co-ri-a-ce-as_.

P.--Menino B...; vejo que estaes passando as cabeas dos dedos por cima
d'esse bocado de borracha, e esse acto to simples accordou-me o desejo
de vos fazer uma pergunta. Quando passmos a mo, ou smente as cabeas
dos dedos por cima de diversos corpos, sentimos a mesma impresso?

E.--No, senhor; umas vezes  agradavel a impresso, que sentimos;
outras vezes, desagradavel.

P.--Podereis dar-me exemplo de uma e outra?

E.--Correndo a mo por cima de um panno de l grosseiro, ou por uma
taboa, que no esteja aplanada, sinto impresso desagradavel; correndo-a
por sobre uma folha de papel de peso, ou por um vidro bem polido, tenho
uma impresso agradavel.

P.--Sabeis que nome se d aos corpos, quando a sua superficie  como a
do panno de l grosseiro, e da taboa no aplanada?

E.--Diz-se que so _asperos_.

P.--E quando a superficie dos corpos  como a do papel fino, ou de peso,
e a do vidro?

E.--Diz-se que so _lisos_, ou _macios_.

P.--A borracha  aspera, ou macia?

E.-- _macia_.

P.--Ficmos pois, sabendo, que a borracha  _opaca_, _elastica_,
_inflammavel_, _negra_, _coriacea_, e _macia_. Mais uma pergunta, e
dmos por terminada a nossa palestra.

Tem a borracha algum prestimo?

E.--Serve para apagar os traos, que o lapis deixou no papel, para fazer
plas e outros objectos.




SEXTA LIO

COURO


Nesta lio pretende o professor Mayo dar aos meninos ida das seguintes
propriedades, ainda por elles no estudadas: _flexibilidade_, _cheiro_,
_impermeabilidade  agua_; e recordar-lhes algumas, j estudadas a
proposito da borracha.

P.--Tomae, meus meninos, este corpo (Dando-lhes s mos um bocado de
couro), examinae-o, e dizei-me se sabeis o que ?[15]

E.-- um pedao de couro.

P.--Recordae-vos do que dissemos hontem a respeito da borracha, e
dizei-me se o couro tem com ella alguma parecena.

E.--Tem, sim, senhor; e bastante.

P.--Muito prazer me darieis se fizesseis favor[16] de me dizer porque se
parecem esses dois corpos, que em realidade so mui differentes.

E.--Dissemos que se parecem, porque ambos so _opacos_, _coriaceos_ e
_macios_.

P.--E no vos enganastes; mas o couro tem outras qualidades, que
podereis descobrir, se o observardes com atteno.

E.--(Hesitam, e ficam-se a olhar para o professor).

P.--Se os olhos me no illudem, todos vs tendes nariz; ora, pois,
servi-vos d'elle, consultae-o.

E.--(Cheirando o couro). Tem _cheiro_.

P.--Assim . Menino C..., dizei-me se todos os corpos tem cheiro?

E.--No, senhor; o vidro, e a loua, no tem cheiro.

P.--Lembra-vos alguma substancia, que tenha cheiro?

E.--Lembram-nos muitas: o ch, o caf, a manteiga, o vinagre.

P.--Quando uma substancia exhala cheiro proprio, como diremos que ?

E.--_Cheirosa._

P.--_Cheirosas_ dizemos as que tem cheiro proprio ou alheio. Por
exemplo: se deitarmos no leno de assoar algum arma, tal como agua de
Colonia, ou almiscar, ficar o leno _cheiroso_; no obstante no ter
cheiro seu, proprio. Se porm uma substancia  dotada de cheiro, bom ou
mau, como o ch ou o petroleo, melhor lhe chamaremos: _odorifera_.

E.--Pelo que dizeis, o couro  _odorifero_.

P.--De certo. Digam todos em cro esse nome.

E.--_O-do-ri-fe-ro._

P.--Continuemos a examinar o couro. Alm, est o menino F... a dobrar
aquelle pedao, provavelmente para vr se o pde partir em dois. Vejamos
o que elle nos diz da sua experiencia.

E.--Dobra-se, mas no se parte.

P.--E acontece o mesmo a todos os corpos?

E.--No, senhor; ha bem pouco tempo parti eu uma regoa de madeira, por
querer dobral-a.

P.--Qual ser a palavra com que possmos representar a qualidade, que
tem o couro, de se dobrar sem se partir?

E.--(Silencio.)

P.--Pensae no caso, e lembrae-vos de que ha palavras parecidas umas com
as outras, ou parentas. Por exemplo: bondade e bom; maldade e mau;
aquentar e quente; rasgar e rasgado.

E.--J sabemos, como deveremos chamar aos corpos, que se dobram
facilmente, sem se quebrarem ou partirem.

P.--Que esperaes, para nos dar esse alegro.

E.--Chamar-lhes-hemos _dobradios_.

P.---Deram no vinte; mas eu sei outro nome, que quer dizer o mesmo, mas
que  mais afidalgado, e por isso menos vulgar. Vou escrevel-o no
quadro, e soletral-o-ho os que sabem ler. (Escreve no quadro preto, na
columna onde esto indicadas as outras qualidades).

E.--(Em alta voz) _Fle-xi-vel_.

P.--Qual dos meninos  capaz de me dizer o nome da qualidade, ou
propriedade em virtude da qual so _flexiveis_ alguns corpos?

E.--Deve chamar-se _flexibilidade_.

P.--Muito bem respondeu o menino G... No se esqueam os outros do que
lhe ouviram, e fiquem sabendo que, quando qualquer corpo se dobra, como
o couro, e como elle se no quebra ou rasga,  porque tem
_flexibilidade_. Se no temesse canal-os, ainda lhes havia de fazer
mais perguntas a respeito d'este corpo, que pelos servios, que nos
presta, bem merece, que nos entretenhmos com elle.[17]

E.--Podeis continuar, senhor professor, que no estmos canados.

P.--J que assim o quereis, famos uma experiencia. Tomem quatro
meninos este leno pelas quatro pontas e estendam-n'o, mas no muito.
Outro menino deite-lhe em cima uma pouca d'agua. (Os meninos executam o
que o professor lhes manda). Que observaes?

E.--O leno molha-se.

P.--E que mais acontece?

E.--A agua atravessa o leno e cae no sobrado.

P.--Ponde agora este bocado de papel mata-borro sobre o leno,
deitae-lhe por cima mais agua, e vde o que succede.

E.--Molha-se tambem o papel e deixa passar a agua.

P.--Espremei o leno, e dizei-me o que observaes.

E. (Espremendo o leno)--Escorre a agua, que o leno tinha em si, e este
fica menos molhado.

P.--Fazei com este bocado de couro o que fizestes com o leno; isto ,
estendei-o horisontalmente, e deitae-lhe agua por cima.

E.--A agua no pode atravessar o couro; no cae no cho.

P.--Entornae a agua, e vde se o couro ficou ensopado.

E.--No ficou, no, senhor.

P.--Sabeis porque assim acontece?

E.--No sabemos.

P.--No se ensopa na agua, porque essa  uma das suas qualidades, ou
propriedades. De um corpo, que a agua no atravessa, diremos que 
_impermeavel_  agua.

E.--Fazeis merc de repetir esse nome, que no percebemos bem.

P.--Vou escrevel-o no quadro preto, para que o leiam, e repetil-o-hemos
depois com muito vagar. (Escreve).

E.---_Im-per-me-a-vel._

P.--Relanceae os olhos pelos objectos, que esto n'esta aula, e dizei-me
se haver entre elles algum, que seja _impermeavel_  agua.

E.--O vidro.

P.--Porque dizeis que  impermeavel  agua o vidro?

E.--Porque a agua no o atravessa.

P.--Podereis convencer-me com algum exemplo de que a agua no atravessa
o vidro?

E.--Bastar olhar para esse cpo, que est cheio de agua, e que no a
deixa sair atravez das suas paredes.

P.--Gostei muito da vossa resposta, que revela muito siso, e me prova
que vos ides acostumando a comparar. E porque sois espertos e amigos de
saber, vos perguntarei mais, se o barro de que  feita aquella bilha,
que alem tenho, para me arrefecer a agua, tambem  impermeavel?

E.--No sabemos.

P.--Se a examinarem attentamente, sabel-o-ho logo. Ora ide buscal-a
para aqui.

E.--Esta bilha no , como o couro e vidro, impermeavel.

P.--Dizei antes, o barro d'esta bilha, ou o barro, de que esta bilha 
feita, no  _impermeavel_. Reparae, que uma cousa  o objecto, o movel,
o corpo, que vemos, e outra cousa a materia, de que o objecto, o movel,
ou o corpo  formado. Que  isto? (O professor mostra uma bola de cra).

E.-- uma bola.

P.--Bola ou esphera; mas de que?

E.--De cra.

P.--(Transformando a bola de cra em um cilindro)--E isto, que ?

E.--Um rolo.

P.--Certamente;  um rolo ou cilindro; mas de que?

P.--De cra.

P.--(Dando  cra a forma cubica)--O rolo foi-se; isto, que ?

E.--Um dado de jogar.

P.--Vistes, que com a mesma materia, a _cra,_ formei tres corpos: uma
bola ou sphera; um rolo ou cilindro; e um dado de jogar ou cubo, os
quaes eu poderia ter feito de tres materias differentes, por exemplo: de
cra, de barro e de madeira. Acostumae-vos pois, desde agora, a
distinguir nos corpos a materia de que so feitos, da maneira porque
ella est limitada, ou, o que vem a ser o mesmo, da sua configurao.
Mas, tornando  _permeabilidade_ do barro d'esta bilha, desejo que me
esclareaes, dizendo-me o fundamento, que tendes, para asseverar, que 
permeavel.

E.--Dissemos que no era impermeavel, porque, estando vazia, se conserva
secca, e pouco depois de se lhe deitar agua humedece por fra,
provavelmente, porque a agua passa atravez de suas paredes.

P.--Assim . Tende paciencia, meus meninos, de escutar mais uma pergunta
com a qual porei termo  nossa palestra. Quizera me dissesseis se o
couro serve para alguma cousa.

E.--Serve para capas de livros; para forrar bahus e malas; para fazer
botas, sapatos, corras, luvas, sellins, e arreios para cavallos.

P.--Bravo! Quem respondeu com tanto acerto, tem direito a ir brincar.




SETIMA LIO

UM LIVRO


Examinando miudamente um livro, ficaro os estudantes conhecendo as
differentes partes de que elle se compe, seus nomes e usos; e
adquiriro as primeiras e elementarissimas noes cerca do papel, da
typographia, e dos algarismos romanos e arabes.

       *       *       *       *       *

P.--Meninos, como se chama isto? (O professor mostra aos estudantes um
livro encadernado.)

E.--Chama-se _livro_.

P.--Todos vs tendes um livro?

E.--Temos, sim, senhor.

P.--Pegae, pois, nos vossos livros, e preparae-vos para uma palestra,
que vos ha de ser muito agradavel.

E.--Vamos ler?

P.--No, senhores; vamos conversar a respeito do livro, como conversmos
cerca do vidro, da borracha e do couro.

E.--Quereis que escrevmos a palavra livro?

P.--V escrevel-a no quadro preto o menino H.

E.--(Escreve), _Li-vro_.

P.--Talvez no tenhaes notado, que assim como ha grupos de pessoas
aparentadas, que constituem familias, e que mais ou menos se parecem
umas com as outras; assim ha grupos de palavras to similhantes, que se
no pde desconhecer, que so muito chegadas entre si, e como que
parentas.

E.--Ainda no tinhamos reparado em tal.

P.--Prestae atteno ao que eu vou escrever no quadro preto (O professor
escreve umas por baixo das outras as palavras do exemplo, separando com
o hyphen o radical de cada uma) _Pomb-o_, _pomb-a_, _pomb-inho_,
_pomb-inha_, _pomb-al_, _pomb-alinho_.

Todas estas palavras formam uma familia[18].

_Cas-a_, _cas-inha_, _cas-o_, _cas-aro_, _cas-eiro_, _ca-sal_,
_cas-alinho_, _cas-aleiro_, _cas-ara_, _cas-ebre_ (Todos estes nomes
sejam escriptos uns por baixo dos outros, ao lado dos nomes do primeiro
exemplo, e mui claramente pronunciados  proporo que se forem
escrevendo). Aqui tendes outra familia.

_Carr-o_, _carr-inho_, _carr-ete_, _carr-eta_, _carr-etilha_,
_carr-ocim_, _carr-uagem_, _carr-oa_, _carr-oada_, _carr-eto_,
_carr-etada_, _carr-eteiro_, _carr-eto_, _carr-iagem_, _carr-icoche_,
_carr-oceiro_, _carr-oar_, _carr-il_, _carr-omato_. Outra familia e no
pequena.

Se bem attenderdes, percebereis, que as palavras do primeiro grupo
comeam todas pelas lettras _pomb_; as do segundo pelas lettras _cas_; e
as do terceiro pelas lettras _carr_.

As primeiras--_pomb_--representam a ida--pombo; as
segundas--_cas_--representam a ida--casa; as terceiras--_carr_--a
ida--_carro_.

Agora que estaes iniciados n'este segredo, podereis dizer-me se a
palavra--_livro_--tem algumas parentas?

E.--Tem uma parenta.

P.--Fazei favor de me dizer qual .

E.--A palavra _livrinho_.

P.--S essa?

E.--Tem outra parenta, que  _livrete_.

P.--Procurae bem, que achareis mais.

E.--_Livraria_.

P.--No sabeis o nome, que se d, por desprezo, a um livro pequeno e
mau?

E.--Chama-se-lhe _livreco_.

P.--Como denominaes os homens, que negoceiam em livros?

E.--_Livreiros_.

P.--Fazei favor de me repetir os nomes de que se compe a familia, cujo
pae  a palavra livro.

E.--_Livro_, _livrinho_, _livrete_, _livraria_, _livreco_, _livreiro_.

P.--Muito bem. Agora se vos no custar muito, dizei-me qual  a parte,
que em todas essas seis palavras sa, quando as pronuncimos, e se v,
quando as escrevemos, constante e inalteravel.

E.-- o principio.  _livr_.

P.--Menino B, escrevei essas lettras no quadro preto.

E.--_Livr._

P.--Olhando para aquellas lettras, que vos lembra?

E.--Lembra-me um livro.

P.--Fique-vos pois de memoria, que ha muitas palavras, que se podem
dividir em duas partes; e que a primeira d'ellas, que figura em todos os
membros da familia, lembra a ida da cousa, claramente representada no
termo, de que a familia toda procede.

Que figura tem este livro? (O professor mostra um livro.)

E.-- quadrado.

P.--Quadrado no  elle;  _quadrilatero_.

Repeti, partida em syllabas, esta palavra.

E.--_Qua-dri-la-te-ro_.

P.--Agora de uma s vez.

E.--Quadrilatero.

P.--Sabeis o que quer dizer a palavra quadrilatero?

E.--No, senhor.

P---Quer dizer: Figura de quatro lados, ou superficie fechada por quatro
linhas.

Reparae para a figura que vou desenhar no quadro preto. (O professor
traa um parallelogrammo, retangulo, um quadrado e um losango) Todas
estas figuras so quadrilateros; mas apenas esta (Aponta o quadrado) se
pde chamar quadrado[19]. Tenho aqui sobre a mesa uns poucos de pedaos
de papel, vinde c, e escolhei um que seja quadrado.

E.--Eil-o.

P.--Muito bem. Agora desenhe o menino A. no quadro preto um quadrado.

E.--(Desenhando). Aqui est desenhado.

P.--Como chamareis a esses riscos, que formam o quadrado?

E.--_Linhas._

P.--Sabeis que outro nome se d s linhas, quando so direitas como
essas, que ahi desenhastes?

E.--No, senhor.

P.--D-se-lhes o nome de _linhas rectas_. Todos esses quadrilateros so
formados de linhas rectas.

Olhae agora para os vossos livros, e dizei-me como se chama a sua parte
externa, a parte de fra.

E.--Chama-se _capa_.

P.--Por que lhe dariam esse nome?

E.--Talvez pela analogia, que tem com a capa ou capote, que usam homens
e mulheres.

P.--Mas a capa dos livros no tem gla, nem cabeo, nem roda, como 
uso terem os nossos capotes.

E.--Certo  que nada d'isso tem; mas reveste o livro, e o resguarda,
como o capote resguarda o fato; que lhe fica por baixo.

P.--Respondestes optimamente. Dizei-me se as capas dos livros tem todas
a mesma consistencia.

E.--No, senhor; umas so duras e grossas; outras, delgadinhas e molles.

P.--Assim . De que materia fazem as capas dos livros, quando duras e
grossas?

E.--De _papelo_.

P.-- verdade; mas noto, que sendo o papelo aspero e feio, as capas dos
livros so macias e bonitas. Sabereis explicar-me a razo d'isto?

E.-- porque revestem o papelo de papel de cres, de panno, ou de couro
pintado.

P.--Bravo! muito bem. Como se denominam os artistas, que fazem as capas
dos livros e lh'as pem?

E.--_Encadernadores_.

P.--Como se diz que est um livro, a que o encadernador poz uma capa
consistente, como a d'estes, que temos nas mos?

E.--Diz-se que est _encadernado_.

P--E quando um livro est apenas coberto com uma capa de papel, como
este, que vos mostro?

E.--Diz-se que est _brochado_.

P.--Se um artista se empregar exclusivamente em brochar livros, como lhe
chamaremos?

E.--No sei.

P.--Chamar-lhe-hemos _brochador_.

E.--Os encadernadores no so tambem livreiros?

P.--_Livreiro_  a pessoa, que negoceia em livros, que os compra e
vende. Ha, porm, individuos, que exercem ambas as industrias, isto ,
que compram e vendem lvros, e que os encadernam.

Continuemos a examinar o nosso livro, e em primeiro logar fazei obsequio
de me indicar o nome d'esta parte (O professor indica a lombada).

E.--No sei como se chama.

P.--Chama-se _lombo_, ou _lombada_.

E.--Porque dariam a esta parte to estrambotica denominao?

P.--Provavelmente em consequencia de ter certa analogia de frma e
posio com as costas ou lombo do homem.

E.--Tenho notado, que  a lombada a parte, que os encadernadores mais
esmeradamente aformoseam. Porque ser?

P.--Admira-me no vos occorrer a razo d'isso! Porque ser, menino B.?

E.--Eu no sei.

P.--Dizei antes: No sei.  preciso no abusar do _eu_ e do _tu_. Muito
mais elegante, conciso e energico  dizer: No sei, no quero, no
posso, do que: Eu no sei, eu no quero, eu no posso.

Menino C, porque motivo adornam os encadernadores as lombadas dos livros
mais do que o resto da capa?

E.--No sei.

P.--Respondei, menino M.

E.--Enfeitam mais as lombadas, se me no engano, por ser a parte, que
mais se v, quando os livros esto na estante.

P.--Assim . Examinae o lombo do vosso livro e dizei-me o que notaes?

E.--Traos e adornos dourados.

P.--Mais nada?

E.--Lettras, tambem douradas.

P.--Que dizem essas lettras?

E.--Motta--Quadros de historia.

P.--Aos dizeres, que os livros tem na parte superior do lombo, que nome
se d?

E.--_Titulo_.

P.--A palavra Motta, que est ahi a dizer?

E.--O nome do auctor.

P.--E as outras?

E.--O assumpto.

P.--Vede a lombada d'est'outro livro. Tem to poucos dizeres, como a
d'esse, por onde habitualmente ledes?

E.--No, senhor; tem mais.

P.--Que mais tem?

E.--Uma lettra de conta.

P.--De que palavra nos deveremos servir, para designar o que chamaes
lettra de conta?

E.--No sei.

P.--O menino, que souber responder  minha pergunta, responda.

E.--No se deve dizer lettras de conta, mas _algarismos_.

P.--Muito bem. Se temos palavra apropriada para indicar os signaes
representativos dos numeros, evitemos um rodeio.

Que algarismo tem esse livro na lombada?

E.--O algarismo 2.

P.--Para que pozeram ahi o algarismo 2?

E.--Para indicar que este livro  o segundo volume da obra.

P.--Exactamente.

E.--Todas as obras constam de dois volumes?[20]

P.--No se riam da pergunta do menino S.; ninguem nasce ensinado, e quem
no pergunta fica ignorando muitas cousas. Agora conversemos ns, menino
S. Ha obras completas em um volume, e d'essas tendes exemplo nos
Quadros de historia portugueza; tambem as ha em dois, tres, quatro e
at em dez, vinte e mais volumes. Quando uma obra principia e acaba no
mesmo volume no  necessario pr-lhe nem externa nem internamente
nenhum algarismo; se principia n'um volume e contina e acaba n'outro,
marca-se externamente o primeiro com o algarismo 1 e o segundo com o
algarismo 2; se a obra se estende por tres ou quatro volumes, pe-se na
lombada do primeiro o algarismo 1, na do segundo o algarismo 2, na do
terceiro 3, na do quarto 4, etc.

Menino H., para que serve o titulo do livro escripto na lombada?

E.--Para facilmente darmos com elle sem ser necessario abril-o.

P.--Como se nomeiam estas partes da capa dos livros? (Pondo o dedo nos
cantos.)

E.--_Cantos da capa_.

P.--Abri os vossos livros e dizei-me como se chamam essas laminas de
papel, que a capa envolve e resguarda?

E.--Chamam-se _folhas_.

P.--Esse nome applica-se a muitas cousas: folhas de arvores, folhas de
espadas, folhas de papel, folhas de serra, folhas de madeira, folhas das
mangas do jaleco, etc.

Explicae-vos, pois, de modo, que todos fiquem sabendo a quaes folhas
alludis.

E.--A nenhuma das que citastes. As folhas, que estamos vendo, so folhas
do livro.

P.--Cada uma folha de livro tem duas faces; sabeis que nome se lhes
costuma dar?

E.-- costume chamar-lhes _paginas_.

P.--A primeira e ultima folha dos livros, nas quaes nada ha escripto, e
que s vezes so de papel pintado, como se chamam?

E.--No sei.

P.--Qual de vs outros me pde responder?

(Silencio).

P.--Chamam-se _guardas_, porque esto ali, como que para defenderem as
folhas impressas da aco da poeira, dos insectos e das impurezas dos
ledores menos aceiados.

Ha tambem nos livros _ante-rsto_ e _rsto_. Fazei merc de m'os
indicar.

E.--O _ante-rosto_ deve de ser esta folha escripta s de um lado, e que
diz apenas: Quadros de historia portugueza o _rosto_ deve de ser a
folha, que se segue immediatamente ao ante-rosto, tambem s de um lado
escripta.

P.--Que significam essas duas palavras: _ante-rsto_?

E.--Parece-me que querem dizer: folha, que antecede a do rsto.

P.--Exactamente. Sabeis que outro nome se d  folha do rsto?

E.--_Frontispicio_.

P.--Desejava saber por que ao frontispicio chamam tambem, rsto. Se
algum de vs me poder esclarecer, far-me-ha muito obsequio, satisfazendo
o meu desejo.

E.--Eu no sei; no sei; eu tambem no.

P.--Parece-me que no ha de ser necessario irmos a Coimbra, para
explicar similhante bagatella.

E.--Bagatella!?

P.--Ides ver se o , ou no. Como se chama esta parte do nosso corpo?
(Apontando o rsto).

E.--_Cara_.

P.--No tem outro nome?

E.--_Semblante_.

P.--No tem outro nome?

E.--_Face_.

P.--No tem ainda outro nome?

E.--Ah! Chama-se _rosto_.

P.--Que quiz dizer esse ah!?

E.--J sabemos porque ao frontispicio dos livros se chama tambem rsto.

P.--Se sabeis, dizei-m'o.

E.--Chamam-lhe rsto, por que em a gente olhando para aquella folha,
logo conhece o livro, como conhece uma pessoa, em lhe vendo a cara.

P.--Para conhecer um livro, isto , para saber de que trata, parece-me
que no  indispensavel examinar-lhe o rsto; bastar ler o titulo, ou
ante-rsto.

E.--No  exactamente o mesmo, para tomar conhecimento de um livro, ler
o titulo ou o ante-rsto, ou o rsto, porque este indica muitas mais
cousas, que aquelles.

P.--Dizei quaes so.

E.--O titulo da obra por extenso, o nome todo do auctor, a typographia,
a terra onde foi impresso e at o anno.

P.--Bravo! bravo! sr. estudante, muito bem. As vossas respostas
animam-me. Dizei-me se o papel, de que so feitos os livros,  uma
substancia natural, isto , que se encontre feita, como se encontra a
pedra, a agua, a madeira, o barro, a areia, ou se  um producto da arte,
quero dizer, feito pelo homem.

E.-- producto da arte.

P.--J alguem vos disse de que  fabricado o papel.

E.--No, senhor.

P.--Quereis saber?

E.--Se queremos....

P.--Fabrica-se de trapos de linho, canamo, e algodo.

E.--De trapos?!

P.--Sim, de trapos.

E.--Eu pensava que os trapos no prestavam para nada!

P.--Qual  a cousa, que no tem algum prestimo? Os trapos, que vs
despresaveis, e tinheis em conta de nada, so uma riqueza, e prestam
grandissimo servio  industria, s artes, s sciencias e  moral. So
um instrumento indirecto do progresso da humanidade.

E.--Como se faz o papel?

P.--No posso agora satisfazer a vossa louvavel curiosidade.  muito
complexo o seu fabrco para que vol-o possa expor de modo, que d'elle
fiqueis fazendo perfeita ideia; em vs tendo mais alguns conhecimentos
eu vol-o indicarei por miudo.

E.--O papel  todo da mesma qualidade?

P.--No ; e aqui tendes a prova (O professor mostra  escola papel de
imprimir, papel de escrever, de filtrar, de embrulho, de seda, pintado,
etc. e vae indicando os nomes de cada um). So de differentes tamanhos
estas folhas. A grandeza de cada uma indica-se pela palavra _formato_, a
qual tambem se emprega para representar a grandeza dos livros e jornaes.

E.--Para que tem este livro na parte inferior da pagina do rsto a
palavra _Lisboa_?

P.--J se disse que  para mostrar a terra em que foi impresso.

E.--Os livros so impressos?

P.--No se riam os meninos, que sabem uma cousa, quando outro, que a
ignora, se quer illustrar, e pede que lh'a ensinem.

Ha livros escriptos de mo, como este (Mostra um livro, ou caderno
manuscripto) e muitos existem nas bibliothecas; dizem-se _manuscriptos_.
Actualmente, porm, a maioria, a quasi totalidade dos livros so
_impressos_ isto , so feitos com estas lettras de metal, a que
chammos _typos_. Eil-os. (O professor toma um componedor, poder ser
dos que usam os compositores de bilhetes de visita e compe algumas
palavras). Vou compor uma linha, para que vejaes, como se compoem os
livros.

E.--E isto (Apontando o componedor) como se chama?

P.--_Com-po-ne-dor_.

E.--Ha de ser necessario molhar essas lettrinhas em tinta; quereis que
vamos buscar o tinteiro?

P.--A tinta, de que se servem para imprimir, no  a de que usmos para
escrever.  feita com outras materias muito differentes, e chama-se
_tinta de impresso_. Aqui tenho um bocadinho n'esta caixa. Com esta
_bala_ mlho os typos; ides vr como as palavras ficam impressas no
papel (O professor executa o que vae dizendo). Estou fazendo de
typographo.

E.--_Typographo_? O que quer isso dizer?

P.--Typographo  o artista, que se occupa em juntar os typos uns aos
outros, para formar as palavras, e estas entre si, para fazer as linhas,
e as linhas para completar as paginas, e as paginas para concluir uma
_folha de impresso_.

E.--_Folha de impresso_ no  o mesmo que a folha de um livro?

P.--_Folha de impresso_  isto. (Mostra uma folha de impresso).

E.--Os livros so impressos como vs agora imprimistes essa linha?

P.--No, meu menino; nas _typographias_ ha apparelhos para imprimir, aos
quaes chamamos _prlos_.

E.--Fallastes em _typographias_; o que  typographia?

P.-- a officina onde se compem e imprimem livros, jornaes, e outros
papeis. Tambem se chama _imprensa_?

E.--Estou vendo sr. professor, que no  s na lombada que os livros tem
algarismos, tambem os tem no alto das paginas.

P.--Resta saber para que elles ahi foram postos.

E.--Foram aqui postos para com facilidade se poder achar e indicar
qualquer passagem do livro.

P.--Para concluirmos este intertenimento, far-lhes-hei mais uma
pergunta. Como todas as cousas tem nome  provavel que tambem o tenham
essas pores em branco, que cercam, em cada pagina, a parte central
impressa; qual ser elle?

E.--Estas pores das paginas chamam-se _margens_.

P.--Optimamente.

       *       *       *       *       *

Dos poucos exemplos, que ahi ficam expostos, podero inferir a utilidade
e attractivos do ensino intuitivo as pessoas, que d'elle no tenham
ainda conhecimento. Cerrando este livro, que escrevemos com sincero
desejo de servir a educao e instruco, devemos declarar, porque  de
justia que assim o famos, que na Escola normal do sexo masculino, em
Marvilla, de que foi director e professor o intelligente e laborioso sr.
Luiz Filippe Leite, com cuja amizade nos honrmos, se ensinou muito e
bem pelo methodo intuitivo, que em mos to habeis como as do sr. Leite
e seu irmo o sr. Pedro Leite, de certo produziu optimos resultados, de
que sentimos no poder dar aqui minuciosa noticia.




INDICE



                                                                      Pag.

Carta do auctor ao Ex.^{mo} Sr. Conselheiro Jos Silvestre Ribeiro       5
O Ensino intuitivo                                                       9
Primeira lio                                                          60
Segunda lio                                                           72
Terceira lio                                                          79
Quarta lio                                                            92
Quinta lio                                                            97
Sexta lio                                                            106
Setima lio                                                           113






Obras  venda na loja de livros de Ferreira, Lisboa & C.^a, 132, rua do
Ouro, 134, Lisboa


    O PAE NOVO, commentario ou interpretao das dez _Eclogas_ ou
    _Bucolicas_ de Publio Virgilio Maro, 1 vol. br.      1$000

    NATIVIDADE (J. A. C. da)--Fundamento de analyse grammatical e de
    estylo, e de composio de themas, 1 vol. br.      650

    SYNOPSES e apontamentos grammaticaes para facilitar a analyse das
    oraes aos alumnos de instruco primaria e aos do 1.^o anno de
    portuguez, 1 vol. cart.      200

    TAVARES (H.)--Principios geraes de arithmetica, e systema metrico, 1
    vol. br.      60

    DIAS (J. A.)--Synopse das religies e seitas etc., 1 vol. br.      500

               --Nova Grammatica franceza, 2.^a edio br.      300

               --Novissima Grammatica ingleza, 1 vol. br.      480

    BALMES (D. Jayme)--Elementos de Logica, 1 vol. br.      300

    METHODO ZABA para o estudo da Historia Universal, com mappa
    chronologico, chave e taboa de exercicio, 1 vol. br.      200

    MARAL A. DE CARVALHO--Problemas de Algebra, 1 vol. br.      500

    CHAGAS (M. P.)--Portuguezes illustres, 2.^a edio, 1 vol. br.      200

    FRADESSO DA SILVEIRA (J. H.)--Estudos, 1 vol. br.      500

    Neste volume agrupou o auctor, oito interessantes artigos em que se
    expem as questes mais momentosas da estadistica; como instruco
    primaria e professional, associaes de soccorros, exposies,
    fazenda, etc. etc.

    M. M.--Exercicios de cacographia portugueza, br.      100

    MACEDO (J. Tavares de)--Elementos de Orthographia portugueza,
    br.      80

    BAPTISTA (A. M.)--Algumas consideraes sobre as diversas frmas
    comparativas e superlativas da lingua portugueza, br.      80




 VENDA
NA MESMA LIVRARIA


132--RUA AUREA--134


    Telles (J. J. de Sousa)--Annuario portuguez scientifico, litterario
    e artistico---1863, broch.      1$000

    Simes (Dr. Augusto Filippe)--Erros e preconceitos da educao
    physica, 1 vol. _charp._ broch.      400

    Noirlieu (Abbade Martinho)--Biblia da mocidade, historia do antigo e
    novo testamento. Approvada pelo conselho geral de instruco
    publica, para uso das escolas, 1 vol. _cart._      240

    Barata (Antonio Francisco)--Estudos da lingua portugueza, 2.^a
    edio accrescentada e conforme ao programma official de portuguez,
    br.      350

    Fradesso da Silveira--(J. H.) Compendio do novo systema legal de
    pesos e medidas, 4.^a edio, broch.      240

    Guedes (J. R.)--Curso de physica elementar. Nova edio, 3 vol., com
    gravuras, broch.      2$400

    Guedes (J. R.)--Curso de historia natural elementar, 1 vol., com
    gravuras, broch.      1$500

    Lopes (J. J.)--Taboada methodica dos rudimentos de arithmetica,
    broch.      200

    Rodrigues (J. Julio)--Mineralogia, 1. vol. broch.      200

    Vidal (A. A. de Pina)--Curso de meteorologia, 1 vol. broch.      600

    Viale (A. J.)--Novo epitome de historia de portugal, adoptado pelo
    conselho geral de instruco publica, 1 vol. broch.      200


Lisboa--Typ. Universal--1873




Notas:


[1] cerca d'este assumpto, bem como de muitos outros pontos da
linguagem portugueza consulte-se a _Orthographia portugueza e misso dos
livros elementares_, correspondencia official relativa ao Iris
Classico pelo sr. Conselheiro Jos Feliciano de Castilho Barreto e
Noronha. Edio do Rio de Janeiro. N'este livro, que  um verdadeiro
thesouro de ba doutrina, esplende a intelligencia e erudio de um dos
escriptores nacionaes, que mais honram as nossas lettras. Pena  que
poucos em Portugal conheam obra de tanto merito.

[2] Temos visto muitas vezes nas escolas estarem as crianas a ler com
os livros nos joelhos, o tronco recurvado e a bocca quasi perpendicular
ao horisonte. Aquella postura prejudica a saude, difficulta a emisso da
voz, cana em pouco tempo o ledor, e no o deixa vr os acenos do
mestre, tendentes a dirigil-o no andamento, pausas, intonaes, etc.

[3] Braun Exercices par intuition, ou Questionaire a l'usage des ecoles
gardiennas, etc. Bruxelles--1865.

C. Mayo--Lecciones sobre objetos destinados para nios de cinco a ocho
aos, traducidas del orijinal ingls. Madrid--1849.

Foi nosso primeiro intento trasladar para este livro _ipsis verbis_ as
primeiras lies dos dois afamados professores; por motivos, porm, que
escusado  expor, resolvemos tomar d'ellas apenas os liniamentos,
redigindo-as a nosso modo.

[4] Expresso popular e grosseira, que vale tanto como: Elle te
castigar severamente.

[5] N'estes primeiros exercicios vo as respostas, que provavelmente os
estudantinhos daro aos professores; nos outros, as respostas
poder-se-ho deduzir das _Exposies_, que anteporemos a cada exercicio.
Como estes livrinhos no so exclusivamente para os professores, os
quaes de certo possuem sufficiente cabedal de conhecimentos, mas para
mes, paes, e outros educadores menos preparados para o ensino,
pareceu-nos de muita conveniencia subministrar-lhes os indispensaveis
subsidios nas _Exposies_, as quaes dispensaro, at certo ponto o
estudo nos livros dos assumptos dos exercicios.

[6] O dialogo aqui traado para um, dever ser ampliado e sustentado com
todos os estudantes, que tiverem entrado ao mesmo tempo, havendo o maior
disvelo em tornal-o quanto possivel deleitavel e variado.

[7] Parece  primeira vista mui pequeno o prestimo do _quadro preto_
n'uma aula, e na realidade  muito util. Convem que todas as aulas de
meninos e meninas o tenham; e que d'elle se sirvam amiudadas vezes
professores e discipulos para os exercicios de soletrao, orthographia,
analyse, arithmetica, desenho, etc.

[8] No se estranhe o emprego da palavra geringona. As creancinhas so
faceis de contentar; alegram-se e riem com o simples emprego de palavras
menos triviaes, e proseguem mais contentes no estudo. Se ao
explicar-lhes as regras elementares da syntaxe o professor lhes der o
seguinte exemplo: O sol  brilhante, escrevem-n'o e analysam-n'o sem
enthusiasmo; se o professor lhes disser: O gato  manhoso, riem,
alegram-se e atiram-se  analyse da orao de muito boa vontade. Ainda
que estas e outras particularidades do ensino infantil paream aos
sabios puras insignificancias, no as desprese o mestre, que tiver a
peito o progresso dos pequeninos.

[9] Dividimos a palavra cavallete sem attender  regra orthographica,
que manda repartir as consoantes dobradas pelas duas syllabas, para no
falsearmos a pronunciao; se assim no fizessemos, teriamos:
Ca-val-le-te, que se no diz, nem poderia razoavelmente dizer-se.

[10] Desculpe-se-nos que insistamos em aconselhar aos mestres, que no
sejam avaros de louvores, quando os estudantes os merecerem.  um grande
incitamento o applauso para o que o recebe e para os que o presenceiam.

[11] Novamente declarmos que estas lies no so traduzidas, mas quasi
exclusivamente nossas.

[12] Todos estes nomes se do  substancia, de que nas aulas se servem
para apagar os traos, que o lapis deixa no papel. Aos meninos ser
conveniente indical-a pelo nome de _borracha_, porque  o mais
commummente usado. Mais tarde se lhes dir que nem este, nem o de _gomma
elastica_ se deveriam empregar. Como hoje se usa muito do caoutchouc
vulcanisado, tenham os professores a cautela de apresentarem para a
lio, o escuro, isto , o que no est combinado com enxofre.

[13] Esta lio vem apenas apontada no livro do professor Mayo.

[14] Quasi todos os objectos, que eram feitos de caoutchouc simples, so
agora fabricados com a mesma substancia _vulcanisada_, isto  combinada
com certa quantidade de enxofre, e por tanto differente na cr, no
cheiro, e em outras propriedades do caoutchouc extreme. Se algum menino
reparar na differena e fizer pergunta a tal respeito, dir-lhe-ha o
professor o bastante para esclarecel-o, attendendo ao que atraz
recommendmos, que no se trate a fundo de cousas para entender as quaes
as crianas no estejam preparadas.

[15] Esta lio vem apenas indicada no livro do professor Mayo.

[16] Recommendam Madame Marie Pape Carpentier e outros pedagogistas, que
se tratem as criancinhas com toda a delicadeza, que em vez de se lhes
ordenar que faam uma cousa, se lhes pea por favor que a executem, e
que, se lhes agradea com urbanidade o terem satisfeito os nossos
pedidos. Este modo de proceder com os pequeninos tem tres grandes
vantagens: desenvolve nos meninos o sentimento da propria dignidade,
captiva a sua benevolencia, e acostuma-os a serem delicados.

[17] No  para desprezar, no ensino das crianas, este innocente meio
de lhes excitar a curiosidade, tenteando ao mesmo tempo o prazer, ou
enfado, de que estejam tomadas.

[18] O fim d'este exemplo no  ensinar philologia s criancinhas, mas
il-as habituando a distinguir nas palavras as radicaes, cujo valor
mais tarde percebero. O termo familia tome-se como synonimo de
aggregado de palavras em que a ida representada pela radical  a mesma.

[19] No se define o quadrado, porque os estudantes no sabem ainda o
que seja angulo, e menos o que seja angulo recto.

[20] A lettra E, inicial de estudante, no est n'estas lies indicando
um s e sempre o mesmo estudante; mas o estudante, a que o professor
julga conveniente dirigir-se.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+-----------------------+-------------------------------+
  |          |      Original         |      Correco                |
  +----------+-----------------------+-------------------------------+
  |#pg.   20| Jenuense              | Genuense*                     |
  |#pg.   20| dizia                 | relembrava a regra de Ovidio* |
  |#pg.   31| cujos componente      | cujos componentes             |
  |#pg.   45| lahios                | labios                        |
  |#pg.   51| _impanho imprestar_   | _impanho_, _imprestar_        |
  |#pg.   52| o que emende          | a que emende                  |
  |#pg.   58| comportamente         | comportamento                 |
  |#pg.   85| praticular            | particular                    |
  |#pg.  112| cubica                | cubica)                       |
  |          |                       |                               |
  |#nota   14| ontras                | outras                        |
  +----------+-----------------------+-------------------------------+

* corrigido de acordo com notas/erratas fornecidas no livro.





End of Project Gutenberg's Ensino intuitivo, by Joo Jos de Sousa Telles

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENSINO INTUITIVO ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
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increasing the number of public domain and licensed works that can be
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($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
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particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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