Project Gutenberg's Scenas de viagem, by Alfredo d'Escragnolle Taunay

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Title: Scenas de viagem
       Explorao entre os rios Taquary e Aquidauana no districto
       de Miranda : memoria descriptiva

Author: Alfredo d'Escragnolle Taunay

Release Date: September 2, 2010 [EBook #33611]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                                           Rita Farinha (Setembro 2010)




SCENAS DE VIAGEM

EXPLORAO

entre os rios Taquary e Aquidauana no districto de Miranda.

MEMORIA DESCRIPTIVA

PELO 1^o TENENTE D'ARTILHARIA

Alfredo d'Escragnolle Taunay


Engenheiro geographo,
bacharel em bellas letras pelo Imperial collegio de Pedro II,
bacharel em mathematicas e sciencias physicas,
official da Imperial ordem da Rosa,
condecorado com a medalha de campanha
das foras do sul de Mato-Grosso e ex-ajudante da commisso
de engenheiros junto quellas foras.



RIO DE JANEIRO

Typographia--Americana--rua dos Ourives n. 19

1868




Ao Illm. e Exm. Sr.

Tenente-General Conselheiro

Polydoro da Fonseca Quintanilha Jordo

O. D. C.

O Autor




                                              Exm. Sr. General.


Tomo a liberdade de offerecer a V. Exc. estes apontamentos colhidos
n'uma viagem trabalhosa e rodeada de perigos.

Quando eu a executava, o sentimento do dever era o meio seguro para
achar menos arduas as contrariedades incessantes que me acommettio. A
esse sentimento unia-se o desejo de corresponder  espectativa de minha
familia e de meus chefes, cumprindo  risca as ordens que me havio sido
dadas.

A lembrana de V. Exc. me era presente n'aquelles momentos e desde ento
formei a resoluo de collocar debaixo de sua prestigiosa proteco
qualquer trabalho que emprehendesse sobre essa explorao.

Hoje cumpro com uma divida.

Assigno-me de V. Exc.


                             Muito respeitoso amigo e subordinado

                                 Alfredo d'Escragnolle Taunay.


Rio de Janeiro, 12 de Outubro de 1867.




PREFAO


Incumbido de uma explorao importante n'uma zona de mais de cincoenta
legoas, colhi os dados que ora apresento, procurando tomar notas
minuciosas de tudo quanto pudesse interessar e coordenando-as desde
logo, de modo que formassem com pouco custo um trabalho simples e
despido de pretenes, porm de alguma vantagem para novos e mais
habilitados exploradores, fornecendo-lhes apenas uma base para futuros
desenvolvimentos.

Coube-me a felicidade de ter para companheiro n'essa viagem, o muito
illustrado e digno engenheiro, o meu amigo Dr. Antonio Florencio Pereira
do Lago, capito d'estado-maior de 1^a classe, cujo espirito
eminentemente methodico e cultivado e cuja intelligencia, ornada dos
mais preciosos dotes da alma, vo-se tornando, felizmente para a nobre
classe a que pertence, de dia em dia mais conhecidos.

Nas crises, porm, de uma peregrinao atribulada, como a que fizemos,
vi-o desenvolver qualidades que demonstro grande energia e sangue-frio,
e que, servindo-me de proveitosa lio, tornro para mim a sua amizade
ainda mais preciosa.

Procurei tirar  minha narrativa o caracter official. Em muitas
occasies no pude livrar-me da technologia scientifica; usei d'ella,
com parcimonia, e, organisando um trabalho singelo, envidei esforos
para que fosse consciencioso e sobretudo veridico.




SCENAS DE VIAGEM




CAPITULO I


As foras destinadas s operaes no districto de Miranda, achavo-se,
desde o dia 20 de Dezembro do anno de 1865, acampadas na margem direita
do rio Taquary, occupando, desde a confluencia d'este com o rio Coxim,
uma extenso de mais de legoa.

Sobre este local existira grande controversia; uns o apresentavo como
excellente ponto de estao para os nossos soldados, dando-lhe as honras
de posio estrategica, outros, contrariando fortemente tal opinio,
fundados no conhecimento da localidade, tiravo-lhe toda a importancia
de que era revestido. Na realidade, o melhor possivel para a formao de
uma colonia, como existe desde 1862 projecto, acha-se o ponto falto de
todas as condies para ser considerado como militar, pronunciando-se a
commisso de engenheiros contra a escolha d'elle, quando fra
consultada.

Entretanto ahi passro as foras os mezes da estao pluviosa. Esta
phase do anno, determinada claramente, durante o vero, nas provincias
do interior do Brasil, comea geralmente a 8 de Setembro e vai, com mais
ou menos regularidade, at os fins de Abril. As enchentes e
trasbordamentos de rios n'uma zona baixa e plana, como a de quasi toda a
provincia de Mato-Grosso, so correspondentes a esta poca chuvosa,
formando-se, n'uma extenso importantissima, um immenso terreno alagado,
d'onde surgem, de quando em quando, alguns pontos firmes, devidos s
ondulaes dos campos. Entre o Coxim e a villa de Miranda estendio-se
ento, impedindo a passagem at a viajantes escoteiros, esses pantanaes
que, chegando em certos _corixos_ a dar nado, impossibilitavo
totalmente a marcha da expedio acompanhada por bagagem pesada e
viaturas de artilharia.

Achava-se assim, pela fora das circumstancias, detida a columna, bem
que o commandante d'ella, o bravo coronel Galvo, ardesse em desejos de
comear o trabalho de reoccupao do districto, ainda n'aquelle tempo
todo em poder do inimigo. Por isso acolheu elle pressuroso as
informaes que fornecro alguns fugitivos da villa de Miranda,
refugiados no Coxim, sobre a possibilidade de abrir uma trilha, que,
seguindo a base da serra de Maracaj, permittisse, pelo desvio dos
pantanaes, a passagem at o rio Aquidauana. Fra por ahi que se dra a
fuga d'elles, havendo encontrado to smente pequenas difficuldades.
Apressou-se pois o commando em ordenar que dous engenheiros seguissem a
reconhecer aquelles terrenos, informando sobre a praticabilidade da
viao e procedendo a uma explorao cuidadosa d'aquella fralda de
serra. Tocou-nos essa commisso sobremaneira penosa, em companhia do
capito Lago.

No dia 11 de Fevereiro fra expedida a ordem; fizemo-nos prestes e, no
dia 13, effectuou-se a nossa partida depois de melancolica despedida aos
nossos companheiros, que deixmos, com as foras, do outro lado do
Taquary, onde devio demorar-se ainda perto de tres mezes.

As difficuldades no fornecimento de viveres durante a estada no Coxim,
reflectio-se dolorosamente na nossa matalotagem, onde s viamos, em
quantidade no muito satisfactoria, os generos da mais urgente
necessidade. No tinhamos a preteno de viajar como Nababos, nem
possibilidade para isso; mas as provises, ainda quando para uma
excurso no muito custosa, nos faltavo de todo e antolhavamos
horisontes de certo pouco risonhos. Com immensa dse de resignao, o
melhor dos provimentos para taes casos, partimos, escudados um no outro
e estribados n'esse sentimento, natural em todos e eminentemente
precioso, que constitue uma opinio philosophica, uma seita; o
optimismo. Partimos.--_Arcades ambo_, ou melhor--_milites ambo_.

Antes de deixarmos o Coxim, talvez para sempre, algumas palavras; e
sejo ellas o nosso adeos, adeos sem saudades, apezar do seu magestoso
Taquary[1], de sua verde mataria, de suas lindas garas, de seu _facies_
melancolico, de seu co puro e noites scintillantes que terio feito
surgir em ns poeticos sonhos, se o estomago--e quantas vezes!--no
reagisse dolorosamente com exigencias difficeis de satisfazer. A posio
do Coxim  pitoresca,--salutar relativamente  zona em que se ergue esse
torro--a vegetao bonita. Os terrenos patenteo superabundancia de
ara, alguma argila; so ondulados sensivelmente, elevando-se at em
outeiros que vo se unir  grande cada de Maracaj, a qual, dez a doze
legoas alm, levanta-se ao longo do caminho do rio Negro.

O aspecto phytologico no  novo: continuao dos _cerrados_ de Goyaz,
os quaes em occasio opportuna havemos procurado descrever, apresenta os
arbustos que lhes so mais communs: muitas _myrtaceas_, das quaes uma, a
_eugenia dysenterica_ (cagaiteira) quando l chegmos, curvava-se ao
peso de seus lindos fructos cr de ouro; vrias _malpighiaceas_,
avultando o _mureci_ (byrsonima verbascifolia) que tinha seu valor no
mercado improvisado do Coxim, assim como o _piqui_ (caryocar
brasiliense) de Saint-Hilaire e a _marmelada_[2] que  da familia das
_rubiaceas_. Com flres vimos uma bellissima acanthacea[3], diversas
_hyptis_ e outras labiadas que resistio ao trmino da estaco da
florescencia. Muitas melastomaceas das tribus _lavoisiera_[4] (capsulas
seccas) e _osbeckia_ (sementes cochleiformes[5]) salpicavo os prados,
formando grupos com _aratics_ (anonaceas) em monticulos, respeitados
pelas aguas, onde sempre encontravamos um _ara_ rasteiro, de folhas
largas. As _anonaceas_ ahi so muito frequentes, chegando algumas vezes
a attingirem a altura de grandes arbustos.

Junto ao rio, como sempre, a vegetao  mais abundante e luxuriante:
madeiras de construco, como _aroeiras_, _perobas_, _ips_, etc.,
muitas _figueiras_, _guanandys_[6], etc, coro as barrancas que encano
o rio.

Na passagem para o outro lado apresenta o Taquary a largura de 70
braas, ganhando em profundidade o que perde em superficie: ahi a
velocidade  diminuta;  j um curso importante que mansa e
socegadamente obedece  lei da gravidade. No ha mais o bulioso
movimento, o atirar louco, de encontro s rochas, de alvos lenes de
liquido, a precipitada corrente ao receber o Coxim, na confuso das
aguas;  a calma de quem no acha mais obstaculos que vencer; a
tranquillidade do descano. Comtudo no nado a que foro obrigados os
nossos pobres pachidermes, enfraquecidos pelas pessimas pastagens do
local, essa correnteza levou-os a percorrer a diagonal de 140 braas,
impossibilitando-nos longa viagem. N'esse dia, andmos to smente um
quarto de legoa at o ribeiro da Fortaleza, caminhando n'uma encosta
elevada, coberta por _papilionaceas_ rasteiras e mato baixo de
_aratics_.

Este tributario do Taquary rola limpidas aguas sobre cho de alvacenta
ara, e, j sobre tarde, pudemos distinctamente ver innumeros cardumes
de _pirapitangas_ e _corimbats_ subirem contra a correnteza, descendo
todos, ao alvorecer. Na margem direita uma lindissima _anonacea_, com
folhas lustrosas e ramos pendentes, attrahia as vistas, surgindo com uma
_cecropia_ (embaiba) de um grupo de _melastomaceas_ (rhexias[7]),
_solaneas_ e _aratics_.

D'este ponto comeo os terrenos baixos: a barranca abrupta do ribeiro,
na margem esquerda,  o crte alcantilado do ponto firme que se chama
Coxim; pelo outro lado no existe ribanceira; um cho plano, a modo de
lezira, com ligeiras ondulaes, se estende quasi de nivel com as aguas,
que, nas enchentes, com summa facilidade invadem grande extenso.

 noite, furioso furaco aoutou cruelmente as nossas barracas
esburacadas: a nossa comitiva muito soffreu. Os soldados, sem abrigo,
semi-ns, supportro a inclemencia do tempo; junto a um fogo extincto
que provavelmente os aquecia intencionalmente. Alm de dous camaradas,
acompanhavo-nos seis praas e um furriel do corpo de cavallaria do
coronel Dias, os quaes, achando-se transviados, desde a invaso
paraguaya e occultos em diversos pontos, quem e lm Aquidauana, poucos
dias antes se tinho espontaneamente apresentado ao commandante das
foras, que os designra para nos servirem de guias em nossos
reconhecimentos.

De alguns dos seus typos conservamos lembrana curiosa. O furriel
Salvador Rodrigues da Silva e os dous irmos Campos Leite muito ns
ajudro, e, apezar de terem sido no principio mal considerados,
desmentindo a nossa preveno contra elles, sempre dero provas de
grande dedicao e disciplina.

Comeavamos a nossa viagem debaixo das mais tristes impresses. A
incerteza que nos dominava sobre o estado da zona a percorrer, inundada
completamente,--pantanal medonho--, a approximao dos pontos occupados
pelos inimigos com a fora de proteco, em nada respeitavel, que nos
cercava, a perspectiva desanimadora de pouco fornecimento para a
excurso, no constituio motivos para que figurassemos aquella
explorao um passeio agradavel, quando de todos os lados assomavo
seno perigos, pelo menos innumeras contrariedades.

Era pois explicavel o sentimento de tristeza e melancolia que nos
apertou o corao, ao recebermos os abraos de nossos collegas; e, 
noute, quando os chos longinquos repercutro o signal de _silencio_,
que atroava no acampamento do Coxim, pelas bocas metallicas de suas
muitas cornetas, alvororo-se em ns, na duvida de crises maiores, as
saudades do tempo que tinhamos passado ao lado de nossos companheiros,
se bem houvesse sido pouco invejavel. A braos com a fome, na mais
completa penuria, ahi se tinho esgotado dias penosos, angustiados at,
em que no soffrer intimo no apparecia o vislumbre de compensao, o
raio de esperana por melhores tempos. Como densas nuvens, prenhes de
tempestades, mil incommodos, prestes a desfecharem maiores males,
pesavo sobre nossos espiritos e relampagos de quando em quando
escurecio-nos as vistas. Entretanto a unio que sempre existra entre
ns, a cordialidade de convivencia, a consolao reciproca, o apoio
mutuo, fazio communs e menos sentidos os desgostos que nos acommettio,
adoavo os amargores da situao, amenisavo os espinhos do presente.
(Nota A)

Fizemos as nossas despedidas ao Coxim, do alto de um monticulo que
domina o ponto de reunio d'este com o Taquary, o qual de longe rola as
turvas aguas, at encontrar-se com o alvo contingente de seu tributario.
Demos ento as costas ao Norte, indo logo depois demandar a margem
esquerda do bello Taquarymirim, que ora afasta-se, ora approxima-se
muito do caminho.  este cortado de continuo por pequenos corregos, os
quaes, ufanos n'aquella poca, fenecem ao approximar a estao fria e
secca.

Os campos, que nos cercavo, ero cobertos de _cerrados_; vegetao
baixa, arborescente, comtudo mais vistosa que a de Goyaz. At s vezes
algum _vinhatico_[8] levanta-se alteroso, bem que retorcido e sem as
propores a que attinge nas matas do Rio de Janeiro, como demonstrao
da inferioridade de terrenos, cujas causas no ho de ser removidas to
cedo. Dos outros typos ha abundancia: muitas _myrtaceas_,
_malpighiaceas_, _bombaceas_, _anacardeas_, _terebinthaceas_ e
_dilleniaceas_, das quaes a _lixeira_[9] pareceu-nos commum a todos os
cerrados, _cassias_, _papilionaceas_, _bignoniaceas_, algumas
_melastomaceas_; entretanto predomino ahi visivelmente as _anonoceas_.
(Nota B)

Nosso pouso foi n'uma baixada viosa, coberta por verdejante tapiz de
bonita gramma, fronteiro a uma das cabeceiras do Taquarymirim e ao lado
de bellos grupos de _boritys_. Lugar encantador para um espirito
tranquillo, cheio de maravilhas para a imaginao de um poeta, fonte de
inspiraes para um adorador da natureza, no nos provocou elle mais do
que o prazer do descano, fruido depois de canativa e morosa viagem de
duas e meia legoas. Entretanto, quo bellas ero as puras aguas que
revolvio-se em caches de encontro a cabeos de rochas e, espumantes,
traavo mil caprichosas curvas?! Da singeleza magestosa e melancolica
do bority nunca se ha de fallar sobejamente. (Nota C)

N'esse mesmo lugar, que denominmos _Pouso dos Boritys_[10], existio os
vestigios de um acampamento paraguayo, formado por occasio do
prolongamento da invaso, em Abril de 1865, at o Coxim e a fazenda de
Luiz Theodoro[11]. Galhos fincados no cho e apoiados uns nos outros,
com a ramagem para cima, formavo ranchos improvisados, em que se havio
abrigado os soldados, sob a coberta do ponche estendido por cima. A
certa distancia, achava-se um cercado para a cavalhada e, pelos
arredores, estavo varios objectos de picaria, ao lado de ossadas dos
cavallos, que ero degolados,  medida que afrouxavo. A ida dos
paraguayos ao Coxim foi feita com celeridade estupenda; a artilharia
passou por lugares medonhos e, em poucos dias, completro elles uma
viagem redonda de 146 legoas, no tempo da maior inclemencia de aguas. Se
bem tivessem levado excellente cavalhada, voltro muitos dos
expedicionarios a p, pois que a peste, commum n'estas localidades,
incessantemente derribava os seus melhores animaes de sella.

Um anno depois, no mesmo mez, occupavo o acampamento dos Boritys, as
foras brasileiras, em marcha sobre os pontos em poder do inimigo e os
seus soldados, aproveitando os ranchinhos paraguayos, procuravo n'elles
substitutos s barracas que lhes faltavo.

D'ahi por diante os vestigios da passagem dos invasores torno-se cada
vez mais frequentes; as inscripes nas arvores so amiudadas, umas em
hespanhol, outras em guarany.

No corrego da Porteira, a meia legoa do pouso dos Boritys, uma d'essas
palmeiras tem o tronco coberto de disticos, infelizmente quasi todos
apagados. N'um d'elles pudemos comtudo decifrar o genero de amabilidades
que dirigio-nos os nossos visinhos republicanos. Alm da necessaria
invectiva de _infames esclavos_, lia-se--_Los brasileros non son hombres
delante de Lopez_. Mo brasileira exarra j, no meio d'esses insultos,
o contraprotesto _Morro os paraguayos_, e datra--11 de Junho de
1865.--Singular coincidencia! No dia, talvez na mesma hora em que se
escrevio, no meio dos sertes, essas palavras fatidicas, a bravura, o
canho e o patriotismo brasileiros executavo aos olhos do mundo aquella
sentena fatal. Riachuelo tinha a sua repercusso instantanea, electrica
e o grito que erguia aos ares a valente maruja do Brasil, echoava, para
assim dizer, n'aquelles longinquos e desertos pramos.

 bem comprehender a monotonia da viagem que faziamos, para avaliar a
impresso moral por ns sentida, ao acordarem-se milhares de
pensamentos, com essa approximao que abria as azas  imaginao desde
muito adormecida.


     Est Deus in nobis, agitante calescimus illo


Com muito mais animao, tocmos os animaes e, d'ahi a perto de duas
horas, entravamos na sombria coberta do ribeiro da Mata. N'esta zona os
bosques so mui viosos; os matagaes mais juntos, mais espessos; os
cerrados em menor numero; demais, a agua dos corregos  limpida e pura
at o rio Negro. Esperem os viandantes pela compensao e despeo-se de
ante-mo de tudo quanto fr agua mais ou menos potavel.

Por emquanto goza-se junto quelle bello ribeiro de todas as vantagens
de um excellente pouso: frescor constante, vista sempre amena de pura
lympha, bonita mataria e um pouco alm excellente pastagem para animaes.
Quem viaja pelo interior dos sertes deve penetrar-se da importancia
d'essa condio, para que o pouso merea escolha. Reduzidas, ha muito,
pela falta de milho,  simples alimentao herbacea, as nossas
cavalgaduras no apresentavo frmas para poderem figurar em torneios,
e, a no ser o receio de descahir de assumpto, fallariamos por extenso
nos nossos transes em poupal-as e nas difficuldades em que nos vimos,
logo nos primeiros dias de viagem, pela morte de uma d'ellas.

O nosso microcosmo indispensavel  vida, bem que o mais diminuto
possivel, no podia soffrer crtes e a carga, que ficava por terra pelo
afracamento de um animal, era imparcialmente repartida pelos restantes.
Curvavo-se sob o peso de cargas babylonicas, porm avanavo sempre.

Comeando j a avistar a cada de Maracaj, fomos, do ribeiro da Mata,
cortando bonitas pradarias, mais ou menos accidentadas, ornadas, de
quando em quando, por esses grupos de bella vegetao, a que chamo
_capes_[12]. Devidos  aco da humidade, so quasi sempre orlados por
fileiras de _boritys_, que misturo agradavelmente os seus leques 
folhagem to diversa das _dicotyledoneas_.

Os terrenos continuo seccos, argilo-silicosos; de vez em quando algum
atoleiro, algumas braas inundadas que fazio j termos por certo a
approximao dos to temidos pantanaes. Entretanto s os deviamos
atravessar poucas legoas quem do rio Negro e alm.... sempre.

Com uma legoa de marcha passmos o _ribeiro Claro_, que bem merece esse
nome pela alvura de suas aguas rapidas e encachoeiradas.

O desbastamento das margens concorre para que essa cr no seja alterada
pela reflexo do verde escuro das arvores. Um unico _bority_, direito
como um mastro, coroado pelas flabelladas palmas, erguia-se garboso no
seu isolamento. A sua posio especial o condemnava naturalmente aos
olhos de quem intentasse lanar um pontilho para o transito; no
escapou pois aos machados, quando nossos collegas viero preparando o
caminho para a descida da fora sobre Miranda. A utilidade artistica no
o pde salvar.

Mais alm encontrmos outra corrente de agua, ainda mais bella que as
precedentes: o _ribeiro Verde_, que corre, com velocidade consideravel,
por entre margens altas, cobertas de sombria e espessa mataria. O leito
de grandes lages, forradas de limo, e a folhagem basta, do s aguas
crystallinas a apparencia que serve para aquella denominao.

O lugar  encantador: massas liquidas de um bello verde se desliso
prestesmente, galgando as pedras desiguaes que tapeto o alveo, e
precipito-se, de um degro, n'uma bacia bastante regular, que recebe a
quda. Grandes bandos de peixinhos dourados e _pirapitangas_ brinco
entre as rochas, cortando rapidamente a correnteza, quando envolvidos no
turbilho de aguas.

A disposio de espirito necessaria para dar o devido apreo a essas
bellezas, no se achava em ns. A passagem a vo, difficultosa para os
nossos animaes de sella, tornou-se quasi impossivel para os cargueiros,
que, aos tombos e mergulhando as canastras, transpuzero,  custa de
muitos esforos, o ribeiro. E aprecie-se assim a natureza!

 noute, felizmente depois de acampados, copiosa chuva, como nos mais
dias, veio avivar-nos a lembrana de que estavamos na estao das aguas.

Malditas aguas!




CAPITULO II


A manh levantou-se serena e bella. Ao longe resplandecio de novo
verdor os prados: o ribeiro engrossado, bem que sempre limpido, rolava
bramantes caches de aguas esverdeadas e o frescor agradavel da
natureza, depois da trovoada da vespera, tornava o sitio to magicamente
aprazivel, que se ergueu, no fundo de nossas almas, um hymno de gratido
ao Creador. Entretanto, d'ahi a pouco, a reunio dos nossos animaes veio
arrancar-nos da contemplao de scena to lou e nunca se devem dar
poucas graas aos cos clementes, quando se os encontro s horas
propicias.

_Away_ pois!

Para medirmos com alguma exactido as distancias, que tinho de ser
ministradas ao commando das foras, viamo-nos obrigados a acompanhar um
dos cargueiros que nos dava a maior uniformidade de movimento. A
estimativa era a media do tempo gasto em diversas observaes, para
percorrer uma extenso medida, havendo sido tomado para unidade o
minuto, que achmos correspondente a 30 braas ,355.

A nossa qualidade official no nos permittia o pouco mais ou menos:
entretanto caminhar assim,  sobre fastidioso, em extremo canativo.
Accresce ainda a urgencia de no distrahir-se um momento, consultar a
todo instante o relogio, tomar nota das menores particularidades,
verificar qualquer parada e visar, de quarto em quarto de legoa, o rumo
magnetico, em que se marcha, para o que nos servia a excellente bussola
prismatica do capito Karter, to commoda e propria para esses
trabalhos.

Depois de 60 minutos de marcha, passmos uma matinha e, d'ahi a 30
minutos, outra, chamada do _Major_, por pertencer a um official da
guarda nacional de Minas d'esse posto, que explorra aquelles terrenos.

Prolonga-se essa matinha at a descida de uma abrupta rampa
escorregadia, que finda n'um corrego insignificante, o qual se espraia
n'um almargeal. Os pontos encharcados vo-se tornando mais frequentes:
ahi tivemos uma amostrasinha de pantanal. Durante mais de 5 minutos
seguimos uma vereda aberta no capim alto, toda coberta de agua e com um
fundo de hervas entresachadas, que tivemos algum trabalho em vencer.

Com a menor secca acaba esse alagadio, que se frma tambem logo s
primeiras chuvas, devido ao represamento, n'uma pequena extenso, de
aguas, por dous firmes de terra.

Depois de nova mata e novo charco, o terreno comea a dar mostras de
pedregoso, a levantar-se sensivelmente e afinal a subir estreitado entre
massas de rochedos at a celebre passagem do Porto de Roma.

Dous massios erguem-se ahi, cortados a pique, um fronteiro ao outro,
deixando intermedia uma estreita trilha, toda embaraada com grandes
lages e matosinhos.

No sabemos a razo de tal denominao. As difficuldades, os espinhos de
sua vereda, a aberta n'um co anilado, como se nos afigurava, quando
subiamos a encosta e viamos duas linhas sombrias destacarem-se na
abobada celeste, justificavo muito mais a especificao de _Porto do
Paraiso_. A menos de ligar-se  cidade eterna um sentimento muito
especial de religiosidade, que nunca correu naturalmente pelo espirito
de quem[13] lhe deu o nome, parece elle completamente deslocado n'estas
paragens.

O sitio  sobremaneira agreste e sombrio.

Salvador Rosa, nas fragosidades da Calabria, no encontraria melhor typo
para seu modo artistico. Um salteador, de arcabuz ao lado, dominando o
caminho, outro estirado sobre uma rocha lisa,  espreita, transportario
a scena para aquellas serranias e nem faltavo, para completo da cr
local, os _agaves_ (pita[14]), que surgio por entre as fendas, nem a
_figueira_ tenaz, a qual, agarrada s asperezas da pedra, estirava
grossos ramos sobre a senda.

Os paraguayos fizero rolar as carretas de artilharia por essa passagem
difficultosissima, que obrigou, para o transito das foras, a um prvio
trabalho, feito pelos engenheiros.

Considerado debaixo do ponto de vista scientifico, o Porto de Roma 
uma aberta praticada pelas aguas em rochas metamorphicas. Todos os
rochedos dos lados e leito da trilha, so de grs argiloso concreto. A
verdade tornou-se-nos bem patente, quando, depois de margearmos um
pequeno pantanal, subimos o monticulo fronteiro ao alcantil do Porto.
Ao longe divisavamos uma serie de montes encadeados, que trazio na
superficie diversas linhas continuadas parallelas, as quaes, segundo
parece-nos, mostro as differentes alturas a que tocro as aguas de um
antigo lago geologico, que outr'ora aquella bacia encerrou.

Nos cumulos que foro cobertos de todo e depois rapidamente deixados
pela massa liquida, apresento-se eroses profundas e crtes a prumo,
como os que acabavamos de apreciar.

A mesma disposio de rochedos acha-se no Lageadinho, onde acampmos
n'esse dia (16) junto a um fio de agua que se deslisava por sobre um
cho de pedras, indo de quda em quda, perder-se na varzea proxima.

Procuravamos sempre seguir os pousos que as foras, pelas nossas
recommendaes, devessem escolher: assim proporcionavamos, de antemo,
as marchas e attendiamos s conveniencias dos acampamentos futuros.

Do ribeiro Verde ao Lageadinho tinhamos caminhado duas legoas e um
quarto, e, pela natureza do terreno e impedimentos com que se podio
contar, era marcha j penosa. Soubemos comtudo, ao depois, que, por ter
seccado aquelle lagrimal, contra as informaes que haviamos colhido,
prolongra-se ella uma legoa alm.

No Lageadinho a abundancia de guabirobas (eugenias) forneceu-nos
excellentes fructosinhos. Entre todas faremos especial meno da
_guavyra_[15], cujo fructo assucarado tem sabor mais agradavel e menos
adstringente que o ara de cora e  sobretudo muito maior em dimenso.

 um arbusto baixo, de folhas largas, tronco pardacento claro.

Diversas especies de guabirobas ahi se vio, umas do tamanho de plantas
fruticulosas, outras frutescentes; umas com fructos miudinhos
amarellados, outras com bagas maiores, d'aquella cr ou ainda,
esverdeadas.

 tarde, como de costume, cahio copiosa chuva. Amainou promptamente.
Depois d'ella, descambou o sol por traz de nuvens rxas, orladas de
fimbrias de ouro e prata, que, por largo tempo, atirro lindos reflexos
sobre as campinas, at se confundirem com os pallidos clares da lua, a
qual illuminou, com baa luz, os negros penhascos, portaes d'aquella
entrada colossal, com que defrontavamos.

Deixando o Lageadinho, fomos, com tres e meia legoas, acampar junto ao
corrego da Volta, atravessando sempre campos virentes, cortados ora por
fios de agua alimentados pelas chuvas, ora por matasinhas e capes que
vo apparecendo mais frequentemente,  medida que raleo os cerrados.

Tinhamos dividido a extenso a viajar. Ao meio dia, depois de duas
legoas, descanmos junto ao corrego, chamado do Castelhano, por ter ahi
sido, segundo nos dissero os soldados, fuzilado um official paraguayo
na occasio da excurso ao Coxim.

Repousmos debaixo da folhosa coberta de uma lixeira (dilleniacea[16]),
para comermos um pseudo-jantar, em nada conforme s regras de
Berchoux[17].


           .... tu, Tityre, lentus in umbr, etc.


Tambem os gastronomos nunca imaginro a possibilidade de figurar em
idyllios, sobretudo a modo dos nossos, e tal vida no comporta
exigencias culinarias.

N'esses casos, quanto mais simples o manjar, tanto mais aturavel. Assim
um pedao de carne, fisgada n'um espeto de po, um pouco de sal, frmo
um _churrasco_ appetitoso que se come com grande gosto, quando o
acompanho algumas colheres de farinha.

No Coxim, comiamos pura e simplesmente o churrasco: o habito custra-nos
a adquirir, mas o organismo accommodra-se.

Com a tarde, continumos viagem, percorrendo mais lgoa e meia at uma
matinha que o j citado corrego da Volta atravessa. Obrigados pela
noute, armmos barracas.... _Suadentque cadentia sidera somnos_.
Infelizmente nuvens de mosquitos se alvororo ao derredor dos ouvidos,
perturbando as doces consequencias de um somno reparador, ao passo que
imprecaes de continuo levantavo-se do grupo dos nossos camaradas, a
despeito da fogueira colossal que havio preparado. Assim pois,
decidimos nunca mais acampar dentro de matas, abandonando alm d'isso
aquelle modo de viajar que, sobre no dar o descano preciso aos
animaes, fatiga-os com excesso pelo facto de receberem cargas e serem
descarregados quatro vezes seguidamente.

Reunida a nossa recovagem, dmos, no dia seguinte, comeo  viagem
habitual, passando, d'ahi a hora e quarto, o bonito corrego do Perdigo,
assim chamado, do nome de um sertanejo que levantra uma choupana junto
 sua margem esquerda.

Muitas e bonitas macabas[18] domino o baixo matagal que as crca,
vencendo-as em altura um grupo de _boritys_, cujos fructos attrahio
innumeros bandos de arras, umas todas azues[19], outras de papo
vermelho[20] ou amarello alaranjado[21].

A mais que modesta habitao de Perdigo no escapou  furia
incendiadora dos paraguayos, ficando como vestigios os esteios
carburetados. Ainda sobrevivio  invaso do mato alguns restos de
cultura e poucos ps de quingombs (hibiscus esculentus), e algodoeiros
(gossypium), entre aboboreiras e ps de melancia (cucurbita citrullus)
resistio ao abandono.

O que levra aquelle pobre fugitivo da sociedade a procurar to remotos
sertes, pisados a vez primeira pela planta de seu p, abandonando os
povoados, alheio a todo o resto do mundo, vivendo vida de exilado? Fra
a necessidade para, por tal preo, obter a impunidade, ou o espirito
melancolico de retiramento? Ainda ahi no se achou em salvo: os
invasores paraguayos topro a trilhada que elle abrira e o expulsro
de seus dominios pacificos e incontestados.

Hoje aquella trilha  caminho muito seguido, dando passagem contnua a
viajantes, carros e lotes de animaes, de modo que o anachoreta Perdigo
deve procurar novos desertos onde v a gosto _placat omnia mente
tueri_, na phrase de Lucrecio.

Do corrego do Perdigo, levou-nos a trilha, depois de 41 minutos de
marcha,  mata que intitulmos das _Jas_[22], pelos incessantes pios
que denunciavo ahi a presena d'aquellas aves.  uma gallinacea, do
tamanho de um frango, sem cauda, de cr pardacenta clara: anda
commummente em terra, dando, como a perdiz, um vo horisontal e pouco
prolongado: a carne  alva e muito delicada.

O seu pio comea por uma nota destacada e alta, a que succedem, com
intervallo de dous a tres segundos, tres outras rapidas e mais baixas.

N'essa mata havio os paraguayos deixado uma barcaa (nota D), que
vinho puxando desde o rio Aquidauana, para os casos de passagens de
rios: media 45 palmos de comprimento e 4 de boca.

Achando-se em bom estado, com mui pequenas reparaes, podia
perfeitamente servir para as foras, quando chegassem  margem direita
do rio Negro.

N'esse dia fomos, sem chuva, acampar, depois de 2-{1/4} legoas de
marcha, perto do corrego _Fundo_, que obrigou-nos  parada pelo estado
atoladio de suas margens, posto que a quantidade de boritys no
tornasse difficil o lanamento de um pontilho, para nos dar segura
passagem.

Entre o capim crescia ahi uma linda _orchidea_ terrestre cuja flr de um
rxo suave, apresentava a massa pollinica pulverulenta, caracter
particular  tribu das _neottias_ de Lindley.

Reconhecemos tambem nos campos uma _scrophularinea_ de flr esverdeada,
e uma _bignoniacea_, com caule um tanto sarmentoso, a qual expandia
lindas flres, cr _solferino_ (carmesim ligeiramente roxeado) que vimos
depois com admirao nos pantanaes, como adiante o diremos.

Nos cerrados repetem-se os typos com frequencia: mangabeiras (hancornia
speciosa, Gomez) com suas candidas flres hypocrateriformes, muitas
myrtaceas, _lixeiras_, grandes e pequenas[23] (dilleniaceas), etc., etc.
Entretanto o aspecto de todos elles  muito mais vistoso, continuando a
predominar em numero os _aratics_ (anonaceas).

Na margem esquerda do rio Negrinho, a tres legoas do corrego Fundo, as
quaes constituro a marcha do dia 18, acampmos debaixo de magnifica
cpa de folhudas arvores, formando um excellente pouso, se no fossemos
atormentados pelos muitos _mosquitos_, _muricas_ ou _pernilongos_.

Obrigava as vistas uma bella figueira, com volumoso tronco, ao lado de
uma _pitombeira_[24], que deu-nos excellentes fructinhos, e a cujos ps
florescia uma_ cof[oe]a_ ostentando, nas suas flres azues, um brilho
metallico muito especial.

O rio Negrinho, entre margens sempre umbrosas, vai perto confundir suas
aguas com as do rio Negro, trasbordando com extrema facilidade, depois
de algumas chuvas e inundando as cercanias. Perto d'elle, haviamos
atravessado algumas braas de pessimo transito, pois que o caminho vara
por um aguaal com fundo lodoso. A cr sombria do capim, a tarde que
descahia depois de um dia toldado de nuvens e chuvoso, os comoros
pardacentos de cupins, tornavo aquella natureza tristonha e melancolica
em extremo.

O rio Negrinho no dava commodo vo: passmos por cima de uma pinguela
natural que a quda de um grosso madeiro formra, transportando as
nossas cargas s costas.

Depois de legoa e meia, feita em terrenos j bastante encharcados, s
vezes por extensos almargeaes[25], outras por matas, em que existem
bastantemente os _aucurys_ (palmeiras de folha estreita) chegmos ao
_Potreiro_, onde um grande rancho de palha abrigou-nos contra a chuva,
que comeava a cahir e promettia dever de durar.

O Potreiro  um vallesinho, fechado quasi circularmente, por dous ramos
da serra de Maracaj, a qual vinhamos avistando, havia mais de dez
legoas.

Era ahi que se fazia a reunio do gado, pertencente ao cidado Alves
Ribeiro, com destino ao acampamento do Coxim e cuja obteno, pela falta
de cavalhada, ia se tornando cada vez mais custosa.

O lugar  insalubre, em razo da humidade que ressumbra constantemente
do solo: por isso a estada n'esse ponto, prolongada por mais de mez, foi
extremamente nociva s foras, sobretudo quando as aguas, em Maio,
contra a expectao, attingiro ao maximo crescimento, nos pantanaes.

No Potreiro organismos os trabalhos, que deviamos enviar ao commandante
das foras: tramos o caminho topographicamente, acompanhando-o uma
ligeira memoria descriptiva, que marcava os pousos e os lugares, onde se
tornavo precisos alguns melhoramentos.

O caminho, como j o havemos feito sentir,  uma simples trilha. De
natureza argilo-silicosa (poca terciaria), pde ser considerado secco,
com excepo de alguns pontos, que serio facilmente transpostos. Com
excluso do Porto de Roma, proximidades do Lageadinho, margens de
corregos e ribeires, os declives so sempre bons.

Refazendo-nos de foras e tomando proviso de carne, deixmos o Potreiro
no dia 26 de Fevereiro, para dirigirmo-nos  passagem do rio Negro, onde
comeava a vereda, que dizio ter sido deixada por alguns fugitivos de
Miranda.

Ahi nascio tambem as incertezas; dominava a indeciso. Sem guia, iamos
correr risco de uma explorao que nos parecia, como realmente o foi,
penosissima, cheia de perigos e sobretudo infructifera.




CAPITULO III


A nossa verdadeira misso ia ter principio. Verificar a possibilidade de
uma passagem, at o Aquidauana, no tempo das aguas, quando os pantanaes
se torno intransitaveis, seguir, ao longo da serra de Maracaj, uma
pretendida senda, que fugitivos havio aberto; observar a natureza dos
terrenos e os obstaculos que pudessem impedir a descida das foras nos
mezes de Abril e Maio, continuar ainda mais a explorao at o rio
Aquidauana, cuja margem esquerda estava occupada pelo inimigo, apromptar
os meios de passagem para aquelle rio, era o nosso programma, vasto e
brilhante, importando no pequena responsabilidade, mas cuja boa
execuo principalmente dependia de meios, que no nos tinho sido
ministrados. Oito soldados nos acompanhavo e, d'esses, nenhum tinha
conhecimento da tal passagem, alis com raes, smente para onze dias,
e armados com fuzis de pederneira, nos quaes as balas s entravo
partidas!

Um unico machado era propriedade nossa particular.

As chuvas que no cessavo, cahindo de continuo fortes rajadas, havio
arruinado, quasi totalmente, a carne preparada no Potreiro, de modo que,
de l, partimos com as provises meio esgotadas, confiados apenas no
muito gado que vaguea pelos campos, por onde deviamos passar. Iamos
viajar  ta, esperanados em que nosso bom fado nos facilitasse caminho
e alimento.

Era muito exigir.

No procuravamos, nem mereciamos a terra de Promisso; nunca nos guiou
portanto a nuvem de fogo, nunca nos cahio o mann de Jehovah.

Desde a sahida do Potreiro, comprehendemos as difficuldades que nos
esperavo, e foro desde logo se complicando.

As terras, j nimiamente baixas, apresentavo grandes extenses
completamente alagadas, a que se seguio matas de _aucurys_ (nota E),
onde a humidade continua mantinha o terreno ennatado, sempre lodacento,
que nos custou boas horas para vencer.

A trilha ia, alm de tudo, tornando-se cada vez mais apagada: as
_taquaras_, nos cerrados, cruzavo-se emmaranhadas, deixando apenas
passagem para pedestres; nas varzeas, a agua j era muita e as abertas
indecisas.

Viagem fadigosa, em que se descarregavo incessantemente os cargueiros,
vencendo depois de um dia completo de marcha, legoa e meia to smente!

Quasi ao cahir a noute, acossados logo dos mosquitos, entravamos na mata
do rio Negro, quando nos deteve os passos uma _corixa_ (nota F), fonte
de novas contrariedades.

Esta _corixa_ dava nado em toda sua extenso, obrigando-nos a fazer
_pelotas_, que devio transportar nossas cargas. Nada mais expedito: um
couro bem secco, levantado nas quatro pontas, que se ligo por cordeis
ou tiras, recebe os pesos que, so solidamente amarrados, de modo a
formarem um systema immovel, em cima do qual assenta-se o passageiro,
como melhor puder. Depois de lanada  agua com todo o cuidado, atira-se
um nadador  frente da pelota, levando entre os dentes a cordinha que a
guia, ao passo que um segundo ajuda a mantel-a na boa direco,
empurrando-a de quando em quando.

A impresso que recebe o viajante bisonho, ao sentir-se em to singular
embarcao,  profunda; parece-lhe que, a lodo momento, o fragil bte
improvisado vai submergindo-se pouco a pouco e que a agua invade por
todos os lados.

Entretanto depois passavamos, com perfeita tranquillidade, no as mansas
aguas de corixas, mas a forte correnteza de rios caudalosos, em pelotas
que levavo para mais de seis arrobas: tal era a confiana que nos
inspirava a pericia natatoria dos irmos Campos Leite, homens preciosos
para esse servio e incansaveis.

O tempo que haviamos gasto na transposio d'essa corixa, fez com que
chegassemos, com a noute j fechada,  margem direita do rio Negro, e,
muito depois de ns os animaes de carga e camaradas.

A lua veio ento esclarecer a nossa posio, que podia, por momentos,
tornar-se muito critica.

De nivel com a margem, corria furioso o rio, parecendo dever trasbordar
e invadir o terreno, em que contavamos passar a noute; e a rapidez das
aguas, a mataria baixa, com vestigios recentes de uma d'essas temiveis
cheias, no pouco nos inquietavo.

Entretanto imaginmos expedientes, que, salvando-nos momentaneamente,
no nos promettio agradavel perspectiva: soltar os animaes, suspender
as canastras e mais objectos nas arvores mais altas, procurando ns
mesmos refugio na rama extrema.

Tivemos crueis momentos de anxiedade.

Por isso, com prazer immenso, indescriptivel, ouvimos um dos soldados
gritar: o rio est baixando!

Corremos todos a examinal-o.

A descenso das aguas era, na realidade, sensivel aos olhos: em breve,
deixro meio palmo descoberto, minutos depois, dous palmos e, d'ahi a
pouco, meia braa. A facilidade, com que se davo essas oscillaes,
demonstro a proximidade das cabeceiras: com effeito, a pouca distancia
ficava a serra, d'onde procedem as nascentes do rio.

 hora em que nos recolhemos, elle baixra mais de braa e, no dia
seguinte, as margens estavo barrancosas, como o so normalmente.

O rio Negro apresenta ahi 20 a 30 braas de largura: a velocidade  de 3
a 4 palmos por segundo, profundidade de 10 a 12, no fazendo vo em
parte alguma. Depois de um curso muito irregular por terrenos
empantanados, recebe o Tabco, e, ora entre margens, ora espraiando-se
pelos campos, vai ter ao rio Paraguay.

As suas proximidades so perigosas pelos paes, que com elle visinho:
as febres intermittentes, paludosas e outras graves enfermidades
origino-se ahi dos miasmas deleterios, produzidos pela aco solar
sobre os depositos vegetaes que as enchentes atiro nos campos e
abandono, quando d-se o escoamento das aguas.

Na etiologia da molestia, que grassou na fora e a dizimou, depois da
sua estada junto ao rio Negro, a--paralysia dos membros inferiores ou
paraplegia--, devem ser assignalados o ar humido e vapores corruptos,
que, por mais de mez, respirro aquelles que se achro debaixo de sua
perniciosa influencia.

O cho, sobre que assentava o acampamento geral, era uma verdadeira
_turbeira_: com poucos palmos de profundidade, tiravo os soldados,
junto s barrancas, agua, de poas d'onde sahio pos, que, seccados,
servio para alimentar o fogo de suas modestas cosinhas.

Mais tarde fallaremos, com algum desenvolvimento, n'essa enfermidade,
que roubou-nos tantos companheiros, n'um curto intervallo de tempo.

Passmos o rio Negro em pelotas, e, s 10 horas do dia 26 de Fevereiro,
achavamo-nos na sua margem esquerda, n'uma estreita trilha que devia-nos
guiar, sempre em _rumo certo_, asseverra-nos na vespera, _seriamente_,
um indio do Potreiro.

O tal aborigene no professava os principios de Epaminondas: entretanto,
ainda n'aquelle dia, davamos  sua assero toda a f, a estimavamos
valiosa,


          N'aquelle engano d'alma, ledo e cego,
          Que a fortuna no deixa durar muito.


Fomos acampar junto  serra que, a 500 braas do rio, ergue-se empinada;
e ahi aproveitmos o sol para seccar as nossas roupas, que tinho-se
ensopado em diversos mergulhos de canastra, nos alagadios.

Diante de ns abrio-se os campos alm, com cerrados ao longe;  nossa
direita, havia um matosinho com olhos d'agua, e,  esquerda,
levantava-se uma serrania elevada, cujos cabeos mais proximos
reflectio ao sol, grandes quebradas vermelho-rubras, confundindo-se os
mais afastados, n'uma linha continua, com o azul do co.

A serra de _Maracaj_[26] percorre a direco constante, media de N. N.
E. a S. S. O., desde perto do Piquiry at as ramificaes na republica
do Paraguay e na provincia do Paran. Interrompida de quando em quando,
s vezes seguida, e com alturas diversas, destaca ramos, que correm, ou
parallelamente, ou ainda perpendicularmente, como o vimos no Potreiro.

A sua estructura geologica  de grs argiloso, compacto em certos
pontos; tendo soffrido a aco de aguas, manifestada, em muitos lugares,
pelas extensas linhas parallelas, como j o haviamos observado na serra
da Cabelleira, em Goyaz, e em todos os serrotes do caminho do Coxim.

 evidente que o lago, cuja existencia parece-nos[27] to claramente
patenteada, tomava propores de mediterraneo,  vista da extenso
occupada, e o estudo comparativo das diversas alturas, que se noto
n'essas differentes cadas, deve trazer resultados interessantes, dando
certeza scientifica n'esta curiosa questo.

A serra de Maracaj no foi, de certo, resultado de erupo, mas sim de
levantamento, devido a algum terremoto, das camadas da regio que a
cerca, e que apresenta os mesmos typos geologicos.

A vegetao acompanha as dobras e declives da serra at o topo: s os
pedaos de desaggregao acho-se desnudados.

O aspecto que esses pontos apresento,  quasi sempre regular: ora, so
crtes a pique, ora, frmas abauladas; algumas vezes,  semelhana de
arcos com irradiaes, outras, traos continuados e dispostos
parallelamente: a cr  visivelmente de barro, a disposio schistosa.

Existe controversia sobre o nome que deva ter essa cada de montanha:
para uns  a serra de Amambahy[28], para outros, de Maracaj. Parece-nos
que o primeiro nome s pde convir  sua parte meridional, quando d
nascimento ao rio d'aquelle nome, antes de penetrar no territorio da
republica e de estender os seus braos para as provincias do Paran e
Rio-Grande do Sul, a cujo systema oreographico vo pertencer.

No primeiro pouso junto  serra, verificmos que o nosso ultimo pedao
de carne estava arruinado: comemos comtudo um saboroso churrasco de
queixada, morto na vespera, cujos restos foro devorados pelos nossos
camaradas.

Embaidos com esperanas no muito gado, no consideravamos ento o perigo
de nossa situao e adormecemos com a doce persuaso, que em breve
concluiriamos aquella peregrinao.

No dia seguinte (27) puzemo-nos em marcha, encontrando, logo ao sahir,
tres a quatro trilhas, que levavo para direces mui differentes.

Seguindo, ao acaso, por uma d'ellas, fomos esbarrar n'um pantanal:
tomando outra, de volta ao ponto de partida, fomos ter a um matagal
impenetravel. Comprehendemos ento, que ero ellas formadas pelas
pisadas do gado, que deviamos s confiar na bussola, e, quanto nos fosse
possivel, ir cortando sempre a rumo sul.

Essa marcha, canativa para nossos animaes e sobretudo para os homens
que nos acompanhavo de p, no pde prolongar-se por muito tempo, pela
grande quantidade de _sap_ cortante (anatherium bicorne) e _cragoats_
(bromelia spinosa).

Esbarrmos de novo com uma mata fechada de _mimosaceas_ espinhosas, que
foi necessario rodear, depois de perdermos muito tempo.

Logo depois atravessmos uma campina, coberta por gramineas mui
rasteiras, na qual gastmos mais de uma hora, pela natureza do cho
ffo, em que se atolavo os animaes. Observmos que, n'aquellas
pradarias perfidas, no se nota o rasto de nenhum animal, e que, por
instincto, procuro sempre desviar-se d'ellas, percorrendo uma fita mais
solida, intermedia entre o campo e os bosques, que bordo a fralda da
serra.

Essa zona, alm de difficultosa, a unica viavel, offerece desvios mui
longos, voltas muito extensas, de modo que, para marcharmos um quarto de
legoa, na boa direco S., faziamos tres quartos, virando quasi sempre
para L., mas raras vezes a O.

A viagem, assim em zig-zag, tornava-se muito monotona; pois que, tomando
ponto de referencia em alguns dos cabeos da serra, sempre os viamos na
mesma posio em que os tinhamos observado.

Desanimados, sem rta certa nem esperana de a encontrarmos, acampmos,
quasi ao anoitecer, n'uma varzea, no muito humida, despida de arvores,
a que chamo _barreiro_.

So campos salinos, em que se frmo poas de agua notavelmente salgada,
com sabor muito apreciavel para os animaes, que ahi se reunem, em grande
quantidade, no s mammiferos como aves.

Uma graminea pardacenta, muito baixa, que parece vegetar com
difficuldade, algumas _synanthereas_, espalhadas aqui e acol, e poucos
ps de _mimosas_, constituem o aspecto botanico d'esses barreiros. s
vezes tambem apparece uma bignoniacea, o _para-tudo_[29], principalmente
para os lados do Apa e norte da republica do Paraguay.

N'esse barreiro vimos innumeras pgdas de gado. Ao longe mugio rezes,
acordando em ns a esperana de fazer caada proveitosa, pois que
confiavamos na certeza dos tiros de nossos soldados.


            Desejos sempre vos, reaes s dres!


D'ahi a horas, voltro os caadores, cabisbaixos, merencorios: nenhuma
pontaria acertra. O gado, bravio em extremo, fugia apenas presentia
qualquer vulto e sua obteno, por arma de fogo, tornava-se to
difficil, quanto a de qualquer animal das selvas. Refreando as redeas 
appetencia, que se havia despertado ao som dos tiros, para melhores
occasies, passmos a noite, impacientes pela manh. Entretanto esse
primeiro dia devia de ser o resumo de toda a nossa viagem.

A narrativa de infelicidades sempre uniformes no pde de certo affectar
seno uma frma descriptiva, cuja prolongao hade impreterivelmente
tocar, to de perto, os dominios da monotonia, que a repercusso 
infallivel no espirito do leitor.

Consideremos, pois, as miserias por alto, englobadamente e apressemos a
narrao, que no deixa de ser custosa.

Fiquem os soffrimentos por minutos, por segundos, aos que lhes sentiro
os espinhos.

Em todos os dias subsequentes, andmos perdidos; ora, estacados por
muitos dias em pousos,  espera de nossos animaes que fugio, 6 e 7
legoas atraz, perseguidos dos mosquitos; ora, caminhando por cerrados
inundados, ora abrindo veredas em taquaraes, que afinal nos obrigavo a
retroceder, ora emfim, rodeando as campinas, de que fallmos j,
cahindo, para distraco, em grandes pantanaes.

A zona que percorriamos era uma baixada, alagada pelas aguas da serra e
estreitada por duas lombas; uma junto ao monte, coberta de
_taquarissima_ e _aucurys_ e a outra fronteira com cerrados, que no
podiamos alcanar em razo dos pantanaes, que encontravamos, apenas
tentavamos descer.

Aquella regio  a mais ingrata possivel.

Com o gado, que entretanto avistavamos, pastando em grandes manadas, no
podiamos mais contar: milhares de decepes tinho-nos convencido da
impossibilidade em obtel-o.

Tudo nos corria em contrario: nenhum fructo, a agua pessima e sempre
quente: os nossos animaes afracando, outros fugidos, ns completamente
perdidos e arcando, desde muitos dias, no com essa falta de alimentao
que haviamos anteriormente sentido no Coxim, mas com a verdadeira
_fome_, descarnada e horrorosa.

Sustentavamo-nos com duas chicaras de ch, uma ao sahir do pouso, outra
ao anoitecer, medidas e reguladas, em atteno ao terrivel _manh_.

Os soldados chupavo miolo[30] de macaubeiros; comio _jatobs_[31]
verdes, cujo sabor desagradavel sobrepuja ao cheiro nauseabundo.

Esses nossos fieis companheiros de viagem e soffrimentos trazio-nos
sempre, com admiravel lealdade, a sua insufficiente colheita de fructos.

N'esse estado de depauperamento de foras, a anorexia era completa;
custra-nos apenas o primeiro dia de fome, nos outros, sentiamos
nauseas, syncopes frequentes e completa turbao de vista.

Entretanto nunca o desanimo pairou sobre ns. Como n'um naufragio,
procuravamos, luctando e debatendo-nos, uma sahida para essa crise.

Abandonmos cargas e canastras no mato.

Alliviando os animaes, que nos restavo, caminhavamos sem cessar, apezar
do estado de fraqueza que nos acabrunhava, interrogando as menores
treitas, consultando a cada momento o horisonte, fazendo continuo fogo
sobre rezes, cuja vida illesa ficava garantida pelo nosso
_caiporismo_... e, sobretudo, pela distancia, em que ero atiradas.

Oito dias d'esse martyrio ingente que nos esgotava as foras, havio-se
passado, nos quaes s tinhamos vencido onze legoas.

Decidimos, tomando para O., ir cahir na parte conhecida do pantanal,
embora estivesse ella completamente coberta pelas aguas. No podiamos
continuar semelhante viagem, debaixo de auspicios to negros e
terriveis; no deviamos, sem grave imprudencia, teimar em achar caminho,
por onde s havio passado algumas pessoas, acossadas do inimigo, e
occultando os signaes de sua fuga.

Assim, pois, voltando as costas  serra, seguimos por uma trilha firme
de gado, em direco ao poente, caminhando n'este rumo mais de uma
legoa.

Encontrmos, com alegria estrondosa, crtes nas arvores, que
significavo a passagem recente de um homem. Ainda mais, esbarrmos n'um
pouso de fugitivos abandonado, e, o que  melhor, com um mato de
palmeiras, que nos dero palmitos e ccos.

A agua excellente de um corrego e aquelles ingredientes formro uma
refeio solemne, com a qual surgio em ns a esperana de podermos ter
outras melhores: vestibulo para momentos mais suaves, a que tinhamos
feito completo jus.




CAPITULO IV


No dia 4 de Maro, pelas onze horas da manh, alcanmos o caminho do
pantanal.

Haviamos, na nossa digresso, escapado aos alagadios do rio Negro, que
davo nado, e restava-nos a parte mais secca, para chegarmos ao Tabco
e, com facilidade,  alda da Piranhinha, d'onde deviamos ir ter aos
Morros.

Esta parte, mais enxuta, apresentava comtudo uma profundidade em aguas,
que nos incommodava sobremaneira. Viajando continuamente com as botas
molhadas, chegmos ao pouso da Piuva[32], onde um soldado conseguio
emfim..... matar uma rez.

A rapidez, com que foi ella esquartejada, a fogueira, que chammejou
logo, atirando ardente calor sobre immensos pedaos de carne espetados,
o olhar devorador de todos, a impaciencia que obrigava a comer partes
semi-cras, attestro a importancia d'esse tiro abenoado.

Julgavamos, eu e o meu companheiro, dever de ter appetite feroz, como o
dos soldados: entretanto, nossos estomagos mais delicados, mal podro
aceitar uma minima poro da alimentao necessaria.

Apraziamo-nos, porm, em apreciar o movimento continuo das facas, o
trabalho incessante dos queixos que funccionavo, depois de tantos dias
de quasi absoluto descano, a modo das mandibulas dos heres
pantaguelicos de Rabelais.

Durante toda a noite no se cessou de comer.

A fogueira, de continuo, assava _churrascos_, que desapparecio
fantasmagoricamente e despedia, sobre aquelle grupo faminto, reflexos,
que fazio reluzir a avidez de seus olhares, a sofreguido de sua
occupao.

A manh de 5 pareceu-nos mais risonha.

O aspecto das cousas havia-se modificado radicalmente e podiamo-nos
considerar salvos do perigo imminente.

Ento, por uma das prerogativas felizes do espirito humano--a
reluctancia s reminiscencias desagradaveis--os tempos de desgraa
parecia-nos se tinho passado em poca mui remota, talvez nos dominios
de ttrico sonho.

S cuidavamos no presente, que se abria para um futuro de doces
compensaes.

Accresceu  nossa satisfao um pucaro de delicioso mel de _jaty_ (Nota
G), que nos trouxe um camarada.

N'aquelles cerrados havia grande abundancia de colmas, e, d'ahi por
diante, podiamos adoar alguma bebida.

At a margem direita do rio Tabco, o terreno todo constitue, com
pequenos intervallos, um pantanal de muitas legoas de extenso, o qual
nos no custou, comtudo, muitos dias de viagem, pela firmeza da trilha
em que se anda.

No principio das aguas e no seu final, pelo embeber das terras e depois
pelo seu deseccamento lento, o transito  mais penoso, quando a natureza
do slo no se opponha  formao de atoleiros e tremedaes[33], como em
alguns pontos em que prevalece o elemento arenoso.

Os pantanaes, no districto de Miranda, produzidos, como dissemos atraz,
durante a estao chuvosa, pelo trasbordar de todos os rios, ribeires,
corregos e regatos, que corto aquella zona de terreno muito baixa e
plana, estendem-se entre o Aquidauna e o rio Negro, occupando muitas
legoas, desde a base da serra do Maracaj at o rio Paraguay, nas quaes,
s de ponto em ponto distante, se encontra lugar firme e secco, em
alguma collina mais elevada nas planicies.

A invaso das aguas nos campos, sensivel nos principios de Novembro,
toca ao maximo nos meiados de Fevereiro e Maro, decrescendo em Abril e
escoando-se em principios de Maio.

Esta regra, fixa para a zona que percorremos, soffre grande alterao
nas proximidades do rio Paraguay, por isso que, quando os rios seus
tributarios j inundro os campos, elle vai lentamente engrossando;
trasbordando por seu turno, quando os contingentes tendem a baixar,
dando-se o escoamento dos pantanaes de Miranda.

O caracter, que tem o trasbordamento d'aquella massa enorme de aguas, 
muito importante.

Os lugares proximos fico completamente alagados; as mais altas arvores,
cobertas, mal deixo vr a extrema rama, e grandes canas, seno
vapores, navego livremente, a tres e quatro legoas de distancia do
verdadeiro alveo do Paraguay.

As enchentes, s vezes, foro a que os rios do districto de Miranda
sejo refluidos e despejem de novo nos campos a agua que no encontra
vasante.

N'essa occasio, a navegao faz-se com extrema facilidade e celeridade;
as canas corto, como diz-se, a _rumo certo_, e abrevio de muitos dias
a viagem, sobretudo quando ella se faz rio acima, por encontrarem aguas
placidas e dormentes, e no a correnteza contraria de um curso veloz.

A _zinga_ habitual, que o barqueiro finca no leito do rio, para fazer
caminhar a cana,  ento substituida por compridos pos de forquilha,
para aproveitar os ramos das arvores submersas e afastar d'elles a
barquinha, na occasio precisa.

Os pantanaes, que atravessmos, offerecem  vista um aspecto de
vegetao com caracter particular, o qual reproduz-se uniformemente pelo
numero limitado de generos de plantas que resistem, em inundaes
periodicas,  immerso de suas raizes, durante mezes inteiros, e 
seccura completa, durante o resto do anno.

_Monocotyledoneas_, sobretudo _cyperaceas_, abundo naturalmente,
durante as aguas, e differentes especies de capim, entre o qual
_nympheaceas_ e outras plantas palustres se expandem, cobrem grandes
espaos, nos quaes s cresce um arbusto, o _mureci-penina_[34]
(byrsonima chrysophylla), unico que apparece nos verdadeiros pantanaes.
Nos campos alagados, capes e cerrados, surgem de dentro d'agua.

Com admirao vimos lindas _convolvulaceas_, cujas flres azul-celestes
(hypom[oe]a) casavo-se agradavelmente com as corollas, cr-solferino
(carmim-roxeado), de uma notavel bignoniacea (caule sarmentoso).

Muitos grupos de _aras_, chamados vulgarmente de cora, levanto-se,
aqui e alli, no meio do capim. Dissero-nos que esses fructos produzem
febres intermittentes; a razo nos no parece clara, entretanto nenhum
sertanejo deixa de afianar, com toda a energia, que o _ara do
pantno_[35] _d sempre maleitas_.

Observmos que,  medida que as aguas vo subindo, o capim
desenvolve-se; razo pela qual, nas proximidades do rio Paraguay,
podem-se arrancar ps de algumas braas de comprimento. As abertas
n'elle indico as trilhas e pisadas de gado, as quaes so excellentes
guias para lugares enxutos.

O aspecto de um pantanal  profundamente melancolico: o viajante fica
possuido de um sentimento contristador, ao atravessar aquellas paragens,
em que o perigo pde sorprehendel-o a cada instante.

O cho furta-se s suas vistas indagadoras. O bater monotono dos ps dos
animaes na agua, os sombrios aspectos que o cerco, os comoros de cupins
que, com escura cr, surgem, aqui, acol, de entre moutas de capim
pardacento, o silencio de toda essa natureza tristonha e anormal,
acabrunho a alma e a prostro grandemente.

O horisonte parece acanhado: o co como que pesa, com curva mais
abatida, sobre aquella scena de desolao.

O sertanejo, comtudo, passa calmo e cantando: apenas, de vez em quando,
examina, debruando-se sobre as aguas paradas, se os perfidos enleios
das hervas no lhe impediro a passagem.

Muitas vezes, para um viajor novato, o receio no  fra de proposito.
De repente sobe a altura da agua: j toca o sellim; mais um passo, o
cobrir-- uma _corixa_--. Apear-se dentro d'agua, formar uma pelota
para as suas cargas, atirar-se, prestes a nado, com a corda entre os
dentes,  questo de minutos, para o prtico, e origem de mil
aborrecimentos, para quem no o fr.

Os viventes, que se encontro nos pantanaes, acho-se em relao com o
seu _facies_ tristonho.  o desadornado _soc_, que esvoaa pesadamente,
indo pousar desairoso sobre as torres de cupim;  o desaprasivel
_tuyuy_, com o pescoo vermelho e bico longo, que cruza-se nos ares com
o desengraado _tabu-yy_[36]. Alegra, de quando em quando, a vista
alguma _gara_ que, com rapidez, corta o azul do co, estirando o
elegante collo e reflectindo, ao sol, o branco esplendido de sua
plumagem; rompem, de quando em quando, o silencio, barulhentos bandos de
_patos_ (anas) e _marrequinhas_, que erguem custoso vo ao minimo ruido.

Nos firmes, as pgdas da temivel _ona pintada_ no so raras, assim
como as do _tamandu bandeira_ (myrmecophaga jubata) que encontra sobeja
alimentao nos muitos formigueiros e casas de cupins.

O gado d-se perfeitamente no pantanal: durante o dia, desce elle todo
para os lugares inundados, porm no atoladios (o que evito com muito
cuidado) recolhendo-se,  prima noite, para os pontos descobertos ou
para os _barreiros_, onde pasto em grandes manadas.

Estas salsas pousadas constituem uma das grandes riquezas da provincia,
para a creao de rezes: ahi acho ellas o sal necessario para a
alimentao, tornando-se-lhes a carne to saborosa, que dispensa
qualquer preparao, para ser deliciosa ao paladar.

As poas, que se frmo nas depresses d'aquellas regies salinas,
contm uma agua que os animaes bebem com avidez, voltando, de muitas
legoas alm, para saciarem ahi a sde, apezar de qualquer outra que
posso encontrar.

J o dissemos,  um lugar curioso de reunio: nas arvores pouso grandes
cohortes de aligeros e melodiosos cantores[37], ao passo que numerosos
rastos de _porcos_[38], _veados_, _antas_, _tats_, e etc., indico a
continua frequencia d'esses animaes.

Assim como o homem ahi vai esperar motivos para grandes faanhas
cynegeticas, a _ona_, por instinctos mais naturaes, nunca se arreda
muito d'esses lugares, to bem providos para os seus appetites ferozes.
Bem junta ao cho, atraz de qualquer moutasinha, prepara ella o bte que
deve dar-lhe a posse do pobre vivente, que se colloca na sua terrivel
esphera de actividade. Obrigada a retirada cautelosa, quando se
approximo as numerosas varas de _queixadas_, vai ella mais longe
esperar algum, que se atraze e separe-se da columna respeitavel
d'aquelles suinos, cujos dentes compridos e aguados, com razo, lhe
inspiro receios.

Nos barreiros o cho  sempre firme e, apezar de inundado por muitos
mezes, nunca se torna atoladio. Tinhamos feito observao que, em todos
aquelles campos, onde crescem as _synanthereas_--perpetuas do campo--, o
terreno  sempre estavel: de modo que, de longe, ao avistarmos as
campinas, que s differenavo-se, por terem ou no aquellas plantinhas,
podiamos com confiana atravessal-as ou procuravamos cuidadosamente
rodeal-as.

Poder-se-hia, com menos certeza comtudo, dizer o mesmo, quanto a umas
_mimosaceas_, indicadoras quasi sempre de um local enxuto.

Fugiamos, pelo contrario, cautelosamente das varzeas limpas e vistosas,
em que traioeira e virente grama occultava atoleiros continuos e
perigosos--_Latet anguis in herb_.

Custosa experiencia fez-nos observar essas particularidades, que de
muito serviro-nos, no seguimento d'aquella viagem.

Os habitantes do sul de Mato-Grosso procuro, nas pocas de grande
carencia de sal e sua consequente e excessiva carestia, tirar, dos
terrenos salinos, aquelle necessario condimento, a despeito de haver
difficuldade n'essa extraco e os meios empregados serem mui
grosseiros.

Nas proximidades de Coimbra existem terrenos, j conhecidos e explorados
com vantagem, d'onde extrahe-se o chamado _sal da terra_, que vende-se
completamente impuro.

Em 1855, quando as communicaes terrestres, interrompidas pela previso
da proxima navegao do Paraguay, por alguns mezes, deixro de fornecer
o sal para consumo de todos os pontos da provincia, aquelles
barreiros[39] tornro-se fonte de extraordinario ganho para alguns e,
por isso, centro de attraco para muitos especuladores.

Entretanto a ganancia achou-se a tempo frustrada, pela entrada de um
navio que, cortando aguas acima o Paraguay, foi abastecer de sal o porto
de Corumb e a capital da provincia. Era uma barca de nacionalidade
paraguaya; a primeira que aproveitava-se do tratado de navegao entre o
Imperio e a Republica.

A essa seguiro-se logo outras, estabelecendo um movimento commercial
activo, que deu o ultimo golpe  especulao da utilisao dos
barreiros.

A decepo foi merecida, a ida comtudo no deve perder-se.




CAPITULO V


A crise, em que se achou a provincia de Mato-Grosso, por occasio da
invaso de 1865, veio renovar os apuros pela falta de sal, at que de
novo recomeassem as recovagens a transportar este genero das provincias
beira-mar. Era a renovao obrigatoria dos meios de communicao
antigos, cujo estabelecimento demorado deu lugar ao espirito
ganancieiro.

Em Cuyab vendeu-se o alqueire de sal a 600$000 rs. e em pouco tempo
subio a mais de conto!

Entretanto um pouco de industria[40] suppriria ao sal recebido do
exterior, ou, pelo menos, attenuaria muito as consequencias de sua
diminuio.

A Frana, por occasio do bloqueio continental, recorreu aos seus sabios
e o assucar de beterraba livrou-a do jugo colonial: a sciencia deu as
mos  industria, ajudando a politica espantosa, que podia desfechar
golpe mortal no poder inglez.

Em Mato-Grosso, no se tornavo precisos os esforos intellectuaes dos
mestres da sciencia. Com pequenos melhoramentos, fora de vontade e de
trabalho, tirar-se-io grandes quantidades de sal, cortando os vos 
especulao abusiva e altamente reprovavel. Todos comtudo se sujeito s
imposies dos monopolistas, que, na razo crescente da carencia,
alteavo cada vez mais o preo de seu genero, na carreira vertiginosa de
lucros exorbitantes.

Entretanto os barreiros jazem abandonados, entregues aos animaes, que
ali obtem, pela lambedura, o que tanto custa aos homens.

A indolencia parece ter assentado sua sde em Mato-Grosso.

Existe nos campos d'aquella provincia, uma populao _sui generis_,
meramente entregue  creao de gado, com habitos arraigados, que a
inhabilito para qualquer outro trabalho.

No districto de Miranda, ou se  negociante ou fazendeiro.

A vida do fazendeiro  marcar, em certas pocas do anno, os bezerros,
_costear_ o gado, de quando em quando, e negociar com elle.

Sua fazenda  uma rea de terreno indeterminada, muitas vezes com 5, 10,
20 e mais legoas de extenso, tendo, em certo ponto, um rancho, coberto
quase sempre de palha, raras vezes de telha, que serve de vivenda ao
dono d'essas gigantescas propriedades, onde caberio,  larga, dez a
doze gro-ducados ou principados allemes.

Ahi passar elle toda sua existencia; 50, 60 annos, sem que lhe corra
pela ida a necessidade de um melhoramento em suas terras, em sua
palhoa, a fruio de um canto aprazivel, de um pomar. Raras vaccas
mansas rodeo um espao limpo s pelas patas do gado; porm dezenas de
milhares de rezes percorrem as suas campinas desertas e innumeros touros
mugem ao longe.

Este aspecto desolador  o mais frequente: entretanto a descripo, que
nos fizero, da fazenda das Pirapitangas[41], pertencente ao Sr. baro
de Villa-Maria, indica da parte do seu proprietario, espirito de
actividade e gosto pelo trabalho, pouco communs na provincia.

Uma alterao profunda no systema actual de viver no hade comtudo
soffrer detena: a passagem para a vida agricola.

A epidemia que grassa entre os cavallos, produzir a modificao de que
fallamos.

No ha cavallo que resista a essa peste, depois de poucos annos de
trabalho, de modo que, em certas pocas, qualquer animal attinge a
preos despropositados.

Em alguns annos, a difficuldade em obter cavalhada tem impossibilitado o
_costo_[42], sem o qual o gado se torna arisco e bravio, como o que
avistavamos na base da serra de Maracaj.

Transportada da Bolivia em 1857, comeou aquella enfermidade a grassar
entre os cavallos, com todos os caracteres de epidemica. Hoje tornou-se
endemica.

A destruio foi quasi completa; mal escapro alguns, em localidades
salubres e aos quaes se poupra o excesso de servio.

Desde ento, annualmente reapparece: ora, atacando com pouca
intensidade, ora, levando cavallos aos centos, augmentando com o calor,
na estao das aguas, diminuindo com o frio e lavrando, sobretudo, na
razo da agglomerao de animaes muares, como aconteceu com os da
expedio, durante a estada no Coxim, onde morrro quasi todos os
burros, no escapando um s cavallo.

A zona, em que actua esse mal, estende-se do sul do districto de Miranda
at Cuyab, exactamente em todos os pontos, onde se do as inundaes
periodicas e o alagamento dos campos.

Nos lugares mais altos, em Nioac e junto  serra,  molestia pouco
conhecida, e, do outro lado da cada, no penetrou ella, ficando
limitada nos locaes, em que achou condies favoraveis para o seu
desenvolvimento.

O governo da provincia, attendendo  estabilidade d'essa molestia, cujos
effeitos ruinosos, ha muito, se fazem sensiveis, mandou contratar um
veterinario em Frana, para vir estuda-la e fornecer meios de
combate-la, visto como, sem resultados apreciaveis, continuo as
applicaes, que experimento os fazendeiros.

Dissero-nos que se dra a vinda para o Brasil d'esse especialista, o
qual, porm, ficra no Rio de Janeiro; no se tratando mais de chama-lo
 provincia, em cujo seio do-se, em escala crescente, os casos de
destruio de todos os animaes muares.

Os prodromos da molestia so variadissimos. s vezes, manisfesto-se por
simples ruidos no ventre: excrementos reseccados e duros, inappetencia
completa, magreza repentina. Outras vezes, com falta de todos aquelles
symptomas, apparece a impossibilidade ou difficuldade em beber, ficando,
comtudo, largo tempo, o animal, com a cabea mettida n'agua,
demonstrando o seu desejo.

Succedem-se ento phenomenos, cujo final obrigatorio  a morte.

Ora os animaes fico tristonhos e, em poucos dias, vo definhando at
morrerem; ora torno-se espantadios; correm, sem direco certa,
girando at cahirem, ou seguindo diagonalmente; ora completamente cgos;
ora surdos.

Em todos os casos, as cadeiras fico tolhidas, a parte posterior
derreada e o animal arrastra as patas trazeiras com difficuldade e
canao, d'onde provm a especificao de _peste-cadeira_ ou de
_cadeiras_.

Pessoa habilitada procedeu  autopsia de um cavallo, victima d'aquella
enfermidade, e encontrou, como era natural, alterao profunda na medula
espinhal.

Um curioso de algum merecimento, o Sr. Joo Lemes do Prado, depois de
esgotados muitos remedios, para subtrahir algum de seus cavallos 
peste, usou com proveito do _crtalo_, extrahido da cobra cascavel.

Entretanto, nunca os escapos recobravo o antigo vigor e, apezar de
gordos, empregavo extraordinario esforo nas subidas e descidas de
rampas.

Parece fra de duvida, pelos singulares phenomenos na locomoo,
inherentes a essa enfermidade[43], que a leso na espinha dorsal,
propaga-se ou repercute-se nos lbulos cervicaes, como o demonstro as
interessantes experiencias e acertadas indagaes de Flourens, na
vivi-seco.

Havemos, mais adiante, de verificar curiosas relaes entre a peste dos
animaes, e a que dizimou parte da columna expedicionaria, confirmando a
esclarecida opinio de Backewel, Chadwick, Harrison e Graves, quando
trato da connexo entre as epidemias e epizootias.




CAPITULO VI


Entretanto, a 10 de Maro, achavamo-nos na margem direita do rio Tabco,
o qual, contra as previses de nossos soldados, que trilhavo j caminho
conhecido, dava nado de lado a lado, n'uma extenso de mais de 30
braas, quando a sua largura normal no excede de 18 a 20.

Passmos a noite debaixo de um laranjal, que servia de pomar  casa do
cidado Joaquim Alves de Souza, a qual teve de hospedar aos paraguayos,
quando elles io para o Coxim, e fra testemunha dos attentados que ahi
praticro.

Esses hospedes incommodos foro tratados com urbanidade to bem fingida,
que no duvidro em deixar o dono da casa em sua fazenda, com promessas
de leva-lo com toda familia para a villa de Miranda. Um camarada,
havendo, n'essa occasio, tentado fugir, foi pelos soldados fustigado,
amarrado a um p de _piuva_[44] (peroba) e quasi esfolado pelas pontas
do aoute.

Depois d'aquella execuo barbara, a que assistio o misero patro, com
custosa indifferena, partro elles, promettendo voltar breve,
concluida a expedio ao norte do districto.

Se elles cumprro a palavra, Joaquim Alves julgou-se com razes
ponderosas para no fazer o mesmo.

Apenas voltro as costas, fugio com toda sua gente para os matos,
tomando depois caminho de Sant'Anna do Paranahyba.

Vingro-se os paraguayos do logro, feito  ingenuidade de homens
brutaes e barbaros, queimando as casas e dependencias, e destruindo tudo
quanto encontrro.

A denominao de _Tabco_  de origem guaycur: significa _fundo_,
apezar de seu pouco volume de aguas habitual.

Alguns indios, porm, d'aquella nao, havendo habitado junto a um
peru, formado n'uma das voltas do rio, dero-lhe em toda a extenso
aquella especificao pouco conveniente.

Officialmente e nos mappas da provincia diz-se _Dabco_, muito
erradamente e sem razo.

Suscitando-se, em Agosto de 1866, a dvida a respeito do nome exacto,
colhemos a certeza no s da boca de pessoas conhecedoras da lingua
guaycur[45], seno dos proprios naturaes d'aquella nao.

Os que dizem _Dabco_ a todo o trance, no se firmo em principio algum,
a menos que apresentem, como autoridade, dous ou tres mappas da
provincia, em que apparece aquella palavra escripta por um _D_.

O rio, no lugar da passagem, tem a margem direita alta, a esquerda baixa
e paludosa depois das inundaes, frequentes, em razo da proximidade
das cabeceiras, se bem de pouca durao. Bellas figueiras e alguns ps
de _ing_ (ing edulis) torno esse lado umbroso, ao passo que o outro 
completamente descoberto.

Um pouco abaixo, o rio bifurca-se: um ramo segue direco, no rumo mdio
O.; o outro diverge para S. O., deixando intermedia uma comprida insua
rasa e arenosa.

Os desmoronamentos da barranca direita deixo perceber a natureza
completamente arenacea dos terrenos proximos, o que tambem pde explicar
o nome de _fundo_, dado em certa poca a um rio que, carregando grandes
pores de ara, modifica com facilidade o leito em que corre.

Fallro-nos, na realidade, nas diversas phases por que elle tem
passado, assignalando-se datas, no mui remotas, em que a sua
profundidade variou extraordinariamente.

Ao chegarmos junto ao Tabco, a noite, ha muito, tinha cahido. Nuvens
carregadas de chuva pesavo no horisonte, estendendo um vo tristonho,
por entre o qual a lua, a custo, diffundia raios amortecidos e tibios.

As arvores, formando densa mouteira, lanavo sombras vigorosas sobre a
superficie turva do rio que rolava, engrossado pelas chuvas passadas,
toldadas aguas, em cujo seio, de quando em quando, abria-se, com o
espadanar do salto de algum peixe, um vo luminoso.

Com o nosso approximar, um bando de _capivaras_[46] (hydroch[oe]rus
capibara) atirou-se ao rio, afundindo-se com estrondo, e indo surgir na
margem opposta, ao passo que barulhentos _quero-quero_[47], acordando,
com estrepitosos gritos, os echos, cruzavo-se nos ares com precipitado
vo.

Ahi achavo-se vestigios da passagem de numerosa comitiva, e, ao aclarar
o dia, reconhecro os soldados serem pisadas de indios, a despeito de
no apreciarmos os signaes que differenassem essas pgdas, das de
qualquer outra planta de p, como com razo o affianavo elles.

Esses homens so de uma sagacidade espantosa; nunca se engano e
conhecem perfeitamente os rastos de todos os animaes. Ao depois, vimos
nos indios demonstrao de um tino to fino, que reconhecem, pela
impresso do p no terreno, a pessoa que a deixra.

O Tabco dava nado de lado a lado: recorremos aos couros e o passmos
com difficuldade, perigando, n'essa occasio, a fragil pelota, em que se
mettra o nosso collega Lago.

N'esse dia (10) deviamos emfim chegar  alda dos indios da Piranhinha:
aligeirando pois a marcha, tommos aquella direco, tendo  frente dous
soldados, conhecedores d'esses lugares, que caminhavo com a confiana
que lhes faltra junto  serra, isto , cortando campos, seguindo
trilhas imperceptiveis e rompendo por veredas cobertas pelo matagal e
capim.

Haviamos deixado a serra de Maracaj e iamos ento fraldejando um ramo
d'ella, o qual segue para o sul, parallelamente  cada, em cujo novo
encontro achava-se a alda.

Os campos so pouco dobrados; o verdor das arvores, o capim crescido
denotavo, que, havia tempo, no lavrava fogo n'elles.

Cerrados, como sempre, se estendem por todos os lados; n'elles apparecem
com frequencia as _bignoniaceas_[48], as quaes tem menos representantes
nos das outras provincias: continuo comtudo a predominar os _aratics_.

Caminhando uma legoa e tres quartos na direco media S., attingimos ao
morrete que faz ponta ao ramo, que, ento, diverge para N. S. e vai
unir-se  serra, a qual avistavamos de novo, dominando, com pincaros
recortados, o aldamento da Piranhinha.

D'aquella ponta de morro, parte o caminho, que leva ao Aquidauana e ao
porto, chamado do Souza, onde existia ento um destacamento paraguayo,
com uma guarnio de pouco mais de cem homens, a qual vigiava o rio e a
estrada do Tabco, pela qual presumio dever de descer a fora
brasileira.

Ao dobrarmos aquelle promontorio, avistmos, na distancia de tres a
quatro legoas, uma columna de fumaa, que, maculando com rolos
alvacentos o puro campo do co, subia pesadamente, destacando de si
ligeiros flcos, em breve dissipados ao sopro da brisa.

Era o fogo do invasor atirado aos campos do Brasil, era o signal da
usurpao.

Indicava aquelle ponto negro a posse, depois da perfidia, o dominio aps
a violencia: posse momentanea que o governo de Lopes havia de pagar bem
caro, dominio temporario, que custou milhares de vidas, nas grandes
questes  mo armada, que se debatro nas planicies da republica do
Paraguay.

Caminhando uma legoa e um quarto d'aquelle morro, passmos o lindo
regato das Piranhinhas, no meio de luxuriante mata, finda a qual,
comemos a trilhar estrada, que mostrava signaes de muita frequencia.

Na realidade n'uma volta alm, achava-se a alda, cujos ruidos, cada vez
mais crescentes, denunciavo vida e animao.

Os baques de machados, confundio-se com o cantar de gallos e o vozear
de homens, formando um concerto, que ento preferiamos aos mais sublimes
acrdes do autor de Ernani, pois significava-nos o final de todos os
soffrimentos; alegrava-nos o espirito e o corpo, abrindo largos
horisontes ao nosso direito de compensaes.

Em breve, diante de ns, corrra um indio.

Noticia importante circulou pela alda.

Ouviamos grande vozeria, algazarra continuada, e, quando surgro ante
ns as primeiras palhoas, uma chusma de gente armada se atirou ao nosso
encontro.

O aspecto no era agradavel. Chegro alguns a apontar para ns: a vista
porm dos soldados que lhes ero conhecidos, o nosso passo pouco
bellicoso, o nosso acompanhamento, em nada medonho, dissipro logo
qualquer dvida.

A reaco foi estrepitosa. Explicmos a razo de nossa chegada, e,
cercados, quasi em braos, no meio d'aquella boa gente, fomos ter a casa
do capito Jos Pedro, que nos acolheu, no como chefe de indios, mas
como um filho da civilisao.

No pouca estranheza nos causava a apparencia de nossos novos amigos,
pintados de _genipapo_ e _uruc_. Fallavo, com volubilidade espantosa,
lingua que nos parecia ento extraordinariamente aspera e estavo
armados, uns com lanas, chuos, espadas, quasi todos com espingardas e
clavinas.

Depois de fartarem, por mais de uma hora, a curiosidade, que lhes
causavamos, a um aceno do capito deixro a palhoa, em que nos
achavamos, e podmos, afinal, comer socegadamente uma gallinha cosida
com arroz, que teria merecimento em qualquer parte do mundo.

A noite passou-se em narrar a Jos Pedro os acontecimentos que havio
precedido a guerra com o Paraguay, os successos do sul e os nossos
triumphos, que muito o enthusiasmro.

Fallou-nos elle, com verdadeiro sentimento respeitoso, do Imperador, de
Suas altas attribuies e mostrou-se conhecedor reconhecido da
benevolencia, que o monarcha brasileiro nutre pelos indios de Seu
Imperio.

Narrou-nos, com cres vivas e expressivas, a invaso, suas phases;
elogiou o comportamento de varios individuos de sua tribu, nunca fallou
de si, e, mostrando sempre os principios de uma boa educao esboada,
deu-nos prova de intelligencia clara e capaz de desenvolvimento.

O capito Jos Pedro de Souza sabia lr e escrever; mantinha em sua
alda severa disciplina; organisra uma escola de meninos, na qual
figuravo os seus dous filhos e sempre se havia mostrado affeioado aos
brasileiros, unindo-se com elles nas horas de infelicidade.

Era digno, debaixo de todos os titulos, de obter do governo imperial a
confirmao do posto, que lhe fra concedido pelo virtuoso missionario
frei Marianno de Bagnaia, sob cujas vistas foi educado, na alda dos
Quiniquinos do Bom-Conselho, alm do rio Paraguay[49].

Estabelecidos na alda do _Naxe-daxe_ ou de _Santa Cruz_, a 6 legoas da
villa de Miranda, tinho os indios Terenas procurado um refugio, por
occasio da invaso dos paraguayos, dedicando-se logo ao plantio, apezar
da carencia de sementes e gros, em que se achro.

Entretanto, quando chegmos, j havio colhido boa quantidade de arroz,
algum milho e mandioca, da qual fazem excellente farinha.

Na manh do dia seguinte, aquelles generos com mel e rapaduras figurro
nos presentes, que o mulherio, em peso, veio offerecer aos dous hospedes
da nao terena.

Retribuimos com moedas de prata de duzentos ris; o que causou alegria
manifesta.

Muitas mulheres, na confuso, accusavo no ter sido contempladas e s
se retiravo depois de satisfeitas as suas exigencias, voltando com
dadivas novas para fazerem jus  nova distribuio de dinheiro.

O capito livrou-nos de mais sacrificios pecuniarios, levando-nos a
passeio. A alda preparava-se para uma festa e varios indios _padres_
cantavo debaixo de alpendres de _perypery_[50], para que o mel colhido,
de dias, fermentasse depressa.

Fallaremos, em capitulo separado, de todas essas ceremonias e mais
costumes dos indios de Miranda; ainda depois do muito que se tem dito a
este respeito,  estudo curioso esmerilhar as praticas especiaes d'essa
gente, que tem conservado o seu typo bem caracteristico, apezar do longo
contacto com os brancos.




CAPITULO VII


No dia 11 de Maro, dizendo adeos quella boa gente e acompanhados pelo
capito Jos Pedro e mais alguns dos seus, tommos a trilha que
communicava a alda com a localidade em que se achavo os refugiados, a
3-{1/2} legoas. (Nota H)

Para penetrarmos no reconcavo da Piranhinha, haviamos caminhado
completamente a E.; desfazendo a volta, isto , tomando rumo O.,
chegmos de novo  ponta de morro, de que acima fallmos e dirigimo-nos
para a serrania.

Em breve comeou a ascenso.

As matas tornavo-se mais frequentes: o declive era j agro.

De repente desciamos; logo aps subiamos canativa rampa.

A trilha, entaliscada entre fileiras de rochedos altos, seguia ora por
baixo de taquaraes, ora por entre densos matagaes.

Comprehendia-se que era caminho de refugiados.

A meiga luz da tarde nos esclarecia paisagens lindissimas: ero
quebradas de montanhas, que deixavo a vista estender-se por sobre um
rico docel de verdura, nos declives alm: ero crystallinas aguas, que,
serpeando entre grossos mataces, despenhavo-se--borbulhantes
cascatas--riscando de branco a pedra negra e sumindo-se por escuras
fendas.

As sombras cobrio j as profundezas do valle, que muito ao longe
avistavamos; galgavo apressadas as primeiras dobras da montanha e s
alguns raios descorados de sol allumiavo a rama extrema das arvores,
que coravo o topo da serra.

Haviamos caminhado j tres legoas e um quarto, e temiamos, que a noite
nos sorprehendesse n'essas brenhas.

Com o cahir da tarde, subimos uma rampa to ingreme, que obrigou-nos a
apear de animal e a galgal-a de p.

Era o ultimo degro que restava vencer, antes de chegar ao chapado, que
se estende sobre a cada.

Na realidade, pouco depois, pisavamos um terreno plano, silicoso,
coberto de cerrados.

O crepusculo, cada vez mais fraco, mal deixava distinguir a trilha.
Emfim cahia a noite fechada, quando, por entre a folhagem de umas
moutas, vimos brilhar luzes......

Era o final de nossa viagem: era o repouso, no para algumas horas, para
uma noite; mas sim para dias, semanas......

Era o descano, a tranquillidade! a vida!

Era o socego depois de tantos trabalhos, a quietao depois de tanto
movimento!

Quantos sentimentos em ns se alvororo!

A responsabilidade official estava salva. Haviamos cumprido a parte mais
custosa de nossas instruces, e cumprido, com risco de saude, com
sacrificio penoso, com perigo de vida.

Dmos tudo por bem empregado.

O recebimento cordial e espontaneo, que nos esperava, constitue um
d'esses factos, que o homem de sentimento nunca mais esquece. Homo
sum......

O nosso actual amigo, o Sr. Joo Pacheco de Almeida recebeu-nos e
acolheu-nos, em sua palhoa, com a nobreza, com que um principe
hospedaria em seu palacio.

A longa convivencia, na qual estivemos, por muitos mezes, com esse digno
cavalheiro,  uma lembrana, que sempre em ns desperta a gratido.

       *       *       *       *       *

Passmos a noite em excellentes redes: o somno foi reparador.

A curiosidade, de que se achavo possuidos todos os refugiados, em
saberem noticias da fora que os vinha proteger, do que se passra desde
Janeiro de 1865, era modificada pelo desejo de dar-nos o descano depois
de tanta atribulao e assim podmos desfructar repouso longo e
tranquillo, que ainda durava, quando o sol j ia alto......

O acampamento de Joo Pacheco occupava uma rea de 20 braas quadradas.
Um bello corrego dividia-o em duas partes, ambas sombreadas, mais do que
convinha  saude, por magnificas arvores de construco.

Amontoavo-se, n'esse pequeno espao, 18 a 20 casinhas que parecia
tinho-se encostado umas s outras, apertando o circulo, para
protegerem-se reciprocamente.

 medida que o receio dos paraguayos[51] diminuia, as palhoas io se
affastando, a procurarem mais espao e liberdade.

A meia legoa d'esse nucleo, formra-se outro ao redor do fazendeiro
Francisco Dias, cujo nome servia para designar aquelle acampamento. A
posio era muito pitoresca: a serra faz ahi um reconcavo, todo cercado
por morros alcantilados, que fecho uma planura de pouca extenso, porm
muito aprazivel.

As frmas singulares, que tomo as montanhas, a brisa constante que ahi
reina, mantida por duas grandes abertas que correspondem, torno esse
lugar eminentemente ameno e saudavel.

Todas as pessoas, em numero superior a 100, que compunho aquelle
acampamento, viero comprimentar-nos no dia seguinte ao de nossa
chegada, e no rancho de Joo Pacheco reunio-se a quasi totalidade do que
o districto de Miranda continha em autoridades e fazendeiros.

A desgraa extrema no se descreve: esses homens achavo-se todos de ps
no cho, cobertos de farrapos, ostentando no rosto o soffrimento
prolongado, o martyrio de muitos mezes.

Obrigados ao trabalho para viverem, manejavo, com ardor digno de
admirao, o machado e a fouce e luctavo com todas as dificuldades da
inexperiencia n'esse servio pesado, para proverem o sustento de suas
familias.

As mulheres, por seu lado, no se esquivavo da mais ardua tarefa.
Causava d vr debeis moas socando, por esforo de braos, o milho para
reduzil-o a farinha ou descascando no pilo o arroz.

Todos com persistencia exemplar e espirito immenso de resignao,
curvavo-se s crueis exigencias da occasio e, cumprindo com a
imperiosa lei do trabalho, vivio vida penosa e altamente precaria,
depois do esbulho de todos os seus bens e dos dolorosos trances de fuga
ante um inimigo feroz e implacavel.




CAPITULO VIII


No dia 24 de Maro, partimos em direco ao rio Aquidauana, cuja margem
direita deviamos explorar, como recommendavo-nos as instruces.

Alguns moradores dos Morros nos acompanhavo n'este reconhecimento, em
que havia perigos a correr, por qualquer eventualidade possivel, quando
no provavel.

O Sr. Joo Pacheco, entre todos, primava pela dedicao e energia;
costumado a andar de p longas distancias, servia-nos de excellente
guia, caminhando com toda a galhardia diante de nossas cavalgaduras, que
com difficuldade seguio-lhe os ligeiros passos.

O rio Aquidauana, em Marco de 1866, formava a linha divisoria material
entre o Brasil e a republica do Paraguay e o districto todo de Miranda,
a mais linda poro da provincia de Mato Grosso, achava-se occupado
debaixo do titulo de districto militar de Mbotety[52].

A margem esquerda era guardada por um forte destacamento e
cuidadosamente rondada em toda sua extenso, e, bem que, desde Maio de
1865, o presidente Lopez houvesse prohibido[53] a transposio do rio
aos seus soldados, as correrias, no outro lado, tinho-se dado varias
vezes, com grande susto da populao dos Morros.

Iamos assim, apezar da falta de meios para isso, effectuar um verdadeiro
reconhecimento militar.

Dirigindo-nos pois para o acampamento de Francisco Dias, que distava do
nosso meia legoa, como j o havemos dito, reunimos ahi mais alguns
companheiros, com os quaes galgmos a encosta oriental da bacia em que
est encerrado aquelle acampamento.

A trilha, aberta pelos cascos de animaes, d difficil transito, subindo
as rampas abruptas d'aquellas fragosidades.

De certa altura, dominmos os picos vizinhos: alargou-se-nos o
horisonte; as grandes cpas dos madeiros ficro ao nivel comnosco e
nossos olhares se atiravo alm e bem ao longe.

No cume, a paizagem tomou amplido immensa. Ero campos, a perder de
vista, verdejantes aqui, azues mais adiante e roxeados nos extremos
limites, cortados por grupos raros de bosques, ao passo que continua
mataria mostra o curso das aguas do Aquidauana.

Taes aspectos da natureza so profundamente melancolicos: o espirito
como que se atira por essas immensidades, que recordo o indefinido do
oceano, sem terem comtudo aquella magestade que encanta a alma,
lanando-a n'uma prostrao incomprehensivel.

Para o habitante do litoral, as vastides terrestres acordo milhares de
recordaes saudosas; suave tristeza se apodera de ns e transporta o
espirito s bellas praias do mar.

Outro sentimento contristador dominava-nos ento.

Atraz de um morrete longinquo achava-se a villa de Miranda, presa do
estrangeiro e fogos, em um ponto e outro pela campina, lembravo a
occupao inimiga.

Muitos dos nossos companheiros se embebecro ento na contemplao
sombria que dominra o mouro, quando, do alto da rocha dos Suspiros,
elle lanra as derradeiras vistas sobre os formosos campos de Granada e
talvez as palavras de Aixa fossem de novo bem cabidas, como exprobrao
merecida.

Essa scena desappareceu no descambar da serra.

Por todos os lados novamente cercro-nos matas espessas, e o sol, a
furto, desenhava, por entre a folhagem, seus circulos fugaces no
caminho.

Os ribeires succedio uns aos outros, tombando de quda em quda e
despenhando-se pelos declives abaixo.

Como primeiros exploradores, fomos-lhes applicando nomes que nos
parecio mais convenientes, ora procurando um distinctivo que os
tornasse facilmente conhecidos; ora consagrando-os  lembrana de
nymphas classicas ou americanas; assim passmos o ribeiro da
Congonha[54], mais adiante o de Euterpe e, meia legoa alm, o de
Catharina Pazes, uma lindissima quiniquino, que habitava nos Morros.

Junto a este ultimo, tommos ligeira refeio, comendo, debaixo de
aprazivel sombra, a matalotagem preparada de vespera e bebendo a pura
lympha d'aquelle bello riacho.

Continuando a descer, achmo-nos em breve na planicie, abrindo-se ante
ns os campos, que levo a _Camapuan_[55], illuminados ento pelo brilho
do sol em seu zenith.

Tencionavamos visitar dous aldeamentos indios, collocados a 7 legoas do
ponto de nossa partida: por isso tomavamos direco E., da qual deviamos
divergir para S., quando procurassemos as margens do Aquidauana.

Assim pois caminhando, n'aquelle primeiro rumo, mais tres legoas, fomos
pousar junto ao lindo corrego das _Palmeiras_, na casa do cidado
Valerio de Arruda Botelho que recebeu-nos franca e amavelmente.

Ahi tivemos um agradavel dia de falha, que nos proporcionou a
jovialidade de nosso amphitryo.

Foragido de Miranda, Botelho conservra-se, por muitos mezes, occulto
com sua familia nas matas de sua propria fazenda do Embauval, perto do
rio Miranda, apesar da passagem continua dos paraguayos por suas terras.

Afinal transportra-se com crianas, e cargas para a margem direita do
Aquidauana, depois de uma perigosa viagem de dias, entre as rondas
inimigas.

O lugar de sua nova habitao era encantador: magestosos boritys,
banhando os ps nas aguas rapidas do corrego, se erguio fronteiros a
ella, e na fralda de um morro abaulado coberto de vegetao, que se
estende para N. E., formando com outras pontas isoladas, um systema
perfeitamente distincto. A grande serra corre para S., elevada como
sempre e dependurada desde ahi sobre o ribeiro das Pirapitangas, que
deviamos atravessar quatro vezes.

Deixando as Palmeiras no dia 26, em companhia de Valerio fomos  alda
do _Oauass_[56] onde alguns indios quiniquinos havio procurado
refugio, depois de expulsos de suas palhoas do _Euagaxigo_, alm
Aquidauana.

Tomando sensivelmente a E. N. E., fomos do Oauass ao aldeamento da
_Boa-Vista_, formado pelos indios laianos, distante do outro tres e meia
legoas. O caminho de communicao era uma apertada trilha atirada por
sobre lindos campos, ora perfeitamente planos, ora dobrados mais ou
menos profundamente.

De quando em quando, fraldejavamos um d'aquelles picos destacados ou
passavamos por abertas estreitas entre morretes, cujos crtes a prumo
obrigavo a atteno.

A alda da Boa-Vista estava situada n'um outeiro encostado a varios
morros e constava de cincoenta a sessenta ranchos de palha.

Os indios nos acolhro do modo o mais sympathico e cordial. Achmos um
rancho feito de proposito, em atteno  nossa visita e ahi nos
obsequiro com grandes mostras de respeito.

Os laianos da Boa-Vista moravo, antes da invaso, a uma e meia legoa da
villa de Miranda, e d'entre elles se tiravo os melhores camaradas para
o trabalho de roas, servio de canas e _costo_ de gado. Como quasi
todos os indios, so excellentes cavalleiros e domadores destemidos.

Em honra  nossa chegada, o capito Jos Vieira organisou danados, que
durro at alta noute, formados to smente pelo desejo de
festejar-nos, posto que faltasse o incentivo obrigatorio para taes
divertimentos a--aguardente.

Diante de um pifaro e um tambor, collocro-se tres rapazes e igual
numero de raparigas, os quaes, de mos dadas, avanavo e recuavo,
imitando os gestos e movimentos titubantes dos embriagados.

Conforme a perfeio ou inexactido na imitao, colhio os danadores
applausos dos circumstantes ou apupadas, o que fazem batendo a mo
aberta de encontro  boca.

A toada  sobremaneira monotona; o danado igualmente; quando no ha o
elemento que transforme o fingido em triste realidade: ento todos tem
n'elle parte com ardor e furia indescriptiveis, at cahirem
completamente exhaustos.

Ao som d'aquella musica insipida, adormecemos.

Depois de combinarmos, no dia seguinte, com Vieira, sobre o ponto de
reunio em que elle devia se achar com vinte de seus indios[57] junto ao
Aquidauana, despedimo-nos d'aquella gente simples, voltando  casa de
Valerio, onde de novo falhmos um dia.




CAPITULO IX


Acabada a digresso, dirigimo-nos no dia 29 para a margem direita do rio
Aquidauana.

Atravessando o ribeiro das _Pirapitangas_, fomos seguindo, de novo, a
serra na direco S., at chegarmos junto  margem do rio, depois de
2-{1/2} legoas de marcha. Os aspectos do terreno continuo os mesmos.

As margens so aprumadas, cobertas de vegetao vigorosa, na qual
avulto os elegantes taquarusss, que frmo grupos compactos,
entremeados com elevadas macabeiras.

O Aquidauana  o mais bello rio caudal, que se encontra em todo o
districto de Miranda: as mais lindas paizagens se frmo em seu correr;
as mais animadas scenas se acho em suas vizinhanas.

A abundancia de pesca e caa ahi se encontra por modo prodigioso.

A natureza virgem, os viventes que lhe infundem o movimento, aquellas
matarias to verdejantes, aquellas aguas puras e crystallinas a
reflectirem um co de saphyra, a serra azulando ao longe, levo o extase
a uma alma artistica e a atiro n'essa alegria pura e suave, repassada
de tristeza, que Horacio to bem exprimio pelo--_flebile nescio quid_.

Lembrar-nos-hemos sempre de um ponto de vista, que attrahiria os olhares
do ente menos admirador do bello.

O rio, ahi, descendo em rapida _corredeira_, morre de repente n'uma
bacia, que se abre regularmente no reconcavo de barrancos, cortados a
pique.

Ahi as aguas dormem: circulos ligeiros mal encrespo a
superficie,--ultimos impulsos da correnteza--e, em ondulaes
concentricas, vo desapparecer de encontro s margens.

Ora a brisa geme na folhagem delicada dos taquarusss e brinca sobre as
aguas; ora  o vento, que, vergando os flexiveis colmos, anima aquella
scena com harmonia mais grandiosa. Assim a vimos.

No alto das margens alcantilosas, as arvores estremecio aos embates de
forte sopro: as elevadas cannas se enroscavo, se confundio, se
debatio frementes, s vezes, ligando os flexuosos topos s copas das
macabas, outras abatendo-os at tocarem o cho.

O sereno lago, perturbado pelas lufadas, reflectia, de quando em quando,
o sombrio de nuvens que orlavo o azul celeste das abertas, por entre as
quaes o sol estirava raios destacados de scintillante luz.

Centenares de passaros esvoaavo: uns tocados pelo vento, com as azas
meio encolhidas; outros cortando, com vo mais firme, a ventania e
suspendendo-se n'ella. Muitas marrequinhas brincavo n'agua, sobre a
qual brancas garas deslisavo-se veloces, ao passo que lontras fazio
reluzir ao sol o pello lustroso, mergulhando de continuo e nadando com
ligeireza.

Tudo isto gritava, tudo isto piava, unindo mil vozes diversas,
produzindo mil sons differentes que, combinados no espao, davo 
natureza aquella animao e vida, s proprias das obras do Creador.

Outra vez vimos essa bacia debaixo de novo aspecto. Tudo era calma; as
aguas no se movio; as arvores no se mexio.

O silencio da natureza como que se deixava ouvir; permitta-se-nos essa
expresso arrojada.

Um calor abrasador abatia e enervava a vida; luz deslumbrante penetrava
tudo.

A mataria, illuminada nos seus recantos mais sombrios, no tinha
mysterios; as aras apparecio no fundo de esverdeadas aguas, e s
cardumes de peixes, symbolo do mutismo, nadavo em todos os
sentidos.....

O rio Aquidauana nasce de vertentes da grande serra de Maracaj[58].
Recebe, depois de algumas legoas de curso, os rios Cachoeirinha e
Cachoeira, tomando desde ento importante volume de aguas, engrossado
pelos ribeires _Dous Irmos_, do _Taquaruss_ e _Uacgo_[59], que
entro pela margem esquerda e de _Joo Dias_, corregos do _Paxexi_ e da
_Paixo_, que desaguo pela margem direita.

Do ribeiro de Joo Dias, onde existe a ultima corredeira, o seu curso 
livre de obstaculos, com profundidade quasi constante de 8 a 10 palmos,
e largura mdia de 30 braas.

Navegavel para grandes canas n'uma extenso de quasi 40 legoas, fenece
no rio Miranda pelo lado direito, confundindo as suas aguas claras e
puras s revoltas e barrentas d'aquelle rio.

O seu nome  de origem uaycur.

Um capito dos cadiuos tem a mesma denominao, com o accrescimo de um
T.--Taquidauana.

No nos podro explicar o que significa.

Nas matas d'esse rio habito os animaes vulgares da fauna brasileira:
_onas_ (felis variarum specierum), _antas_ (tapirus americanus),
_lobinhos_, _jaguatiricas_, (felis pardalis, Neuwied), _raposas_,
_macacos_, (simia v. sp.), _tamandus_, _tats_ (Dasypus v. sp.), muitos
_queixadas_ (dicotyles labiatus), etc.; _lontras_ (lutra), _ariranhas_
(lutra brasiliensis) e _capivras_ atravesso, a todo instante, a
correnteza; em seus campos proximos pullulo _cervos_ (cervus paludosus,
Desm.), _veados_ (cervus rufus, c. campestris), _emas_ (rhea americana),
_ceryemas_ (dicholophus cristatus.); nos cerrados, _jabots_ (testudo
tabulata), muitas _cobras_ venenosas (crotalus horridus, bothrops
Neuwiedi, b. surucuc, boipbas, uruts, etc.) e reptis de outras
sortes.

Em aves ha os _jacs_ (penelope marail), _jacu-ccas_ (penelope
jacucca, Spix.), _jacutingas_ (penelope leucoptera, Neuwied), _mutuns_
(crax v. sp.), _jas_ (crypturus noctivagus) e _aracuans_[60], _tucanos_
(rhamphastos v. sp.), _araaris_ (pteroglossus), muitas _pombas_,
_gralhas_, _periquitos_ (psittacula v. sp.), _papagaios_, (psittacus v.
sp.), _arras_, enfeito a ramagem das arvores, ao passo que os
_inhumas_[61] (palamedea chavaria), _jaburs_ ou _tuyuys_[62],
_tabuyays_[63] (ciconia m.), _socs_ (ardea), _curiccas_ (ibis
melanopsis) e bandos de numerosos _patos_ (anas) e _marrequinhas_ pouso
nas ribeiras ou se agrupo nos rochedos e insuas do rio. (Nota I)

Em pescado o Aquidauana  fartissimo.

Abundo os _jas_, os _sorubys_, _dourados_, em certos mezes _pacs_,
_pirapitangas_, _corimbats_ e _pacu-pebas_, _papa-terras_ (geophagus,
Heckel), _raias_, etc., etc.

O _ja_  o maior peixe dos rios de Mato-Grosso: extremamente voraz, no
duvida atacar o homem[64]. A resistencia que tal monstro faz, quando
agarrado ao anzol,  prodigiosa e no so raros os exemplos de grandes
canas viradas na sua pesca.

O _soruby_ (platystoma), chamado mais commummente na
provincia--pintado--,  peixe de pelle, com malhas pardacentas em fundo
escuro. A cabea  chata, com appendiculos como a dos bagres e occupa um
tero do comprimento total: a carne  saborosa, bem que um tanto forte.

O mais abundante e ao mesmo tempo um dos mais delicados peixes de
Mato-Grosso  o _pac_, (prochilodus, Agassiz) tambem chamado _caranha_,
do qual Pison diz: melioris saporis et nutrimenti habetur, qum sargus
Europeus: tem cr pardacenta, azulada n'agua, escamas pequenas com
reflexos dourados; geralmente 2 a 3 palmos de comprimento.  achatado.

Em certas occasies, d tal abundancia de gordura, que alimenta
proveitoso commercio de azeite. A quantidade  prodigiosa.

Nas enchentes do Paraguay, os _pacs_ seguem o movimento das aguas em
grandes cardumes, que fico, na retirada d'ellas, presos em poas dos
campos e lagas, onde morrem  mingoa d'agua e por causa da elevada
temperatura.

O ar fica ento inficionado muitas legoas em derredor.

Contro-nos que, em certos pontos perto do rio Paraguay, fica o cho
forrado, em extenses importantes, com camadas de 2 a 3 palmos d'esses
restos.

A gordura do pac  preconisada para varias molestias: dizem ser de
grande efficacia na pica malacia, pelo enjo que causa ao enfermo.

Um dos peixes, com razo, mais apreciados dos rios da provincia,  a
_pirapitanga_ (species characini), chamado em Goyaz _jurupensen_ (?) e
pelos indios guans _araritiissi_ (peixe de rabo vermelho). As suas
dimenses nunca so extraordinarias; attinge no maximo a tres palmos de
comprido; mais commummente regula de um 1 a 2 palmos. A carne, com
listras vermelhas,  consistente, saborosa, bem que, como a dos outros
peixes de rios, seja crivada de perigosas espinhas bifurcadas.

As pirapitangas sobem os ribeires e corregos at onde encontro agua
sufficiente. Muitas vezes, fico retidas em poas mais fundas at a
poca das enchentes. No corrego dos Laianas apanhmos algumas de bom
tamanho, apezar da agua ter apenas 1/2 palmo de profundidade.

No Aquidauana  muito rara a presena dos monstruosos _sucurys_, assim
como a das perigosissimas _piranhas_ (myletes macropomus).

So habitantes predilectos do grande Paraguay.

Da voracidade da piranha se ha fallado sufficientemente: nada resiste
aos dentes aguados de myriades d'aquelles peixes[65], que no ardor da
fome, devoro-se uns aos outros, com rapidez prodigiosa.

Os _sucurys_[66] (boa murina), verdadeiros representantes
antediluvianos, chego a dimenses que os torno entes deslocados na
natureza proporcional de nosso globo. Vimos uma d'essas serpentes, com
30 palmos de comprido e 15 de circumferencia na barriga; era comtudo
muito nova, pois que o nosso amigo, o tenente de guarda nacional, Joo
Faustino do Prado nos asseverou attingirem muito alm de 6 braas,
contando-nos a este respeito um episodio curioso nas historias de
sucurys.

N'uma viagem a Cuyab, passando elle pelos pantanaes do Piquiry,
observra de longe um touro, o qual disparava em todos os sentidos,
parecendo retido por um extenso cip, que conheceu era um enorme sucury.
De mais perto notou aquella curiosa contenda. A serpente, depois de
estirar-se o mais possivel, retrahia-se de vagar, trazendo, de rastros
ao cho, o seu adversario exhausto.

Com o approximar de gente, o touro deu um arranco desesperado e partio 
disparada, bramando loucamente. O sucury deu de si at ficar da grossura
de tres dedos: depois comeou a encolher-se, arrastando a presa que,
extenuada por tantos esforos, de novo se deixra cahir.

A victoria era certa; o final conhecido.

Um novo elemento perturbou a peripecia natural. O faco do homem, de um
golpe, cortou o sucury e deu a liberdade ao touro. Este, erguendo-se de
um s pulo, sacudio a cabea e, arrojando-se pela campina, com o tronco
da serpente pendurada ao pescoo, em breve desappareceu d'aquelle
theatro, onde devra achar a morte.

s vezes, os sucurys ataco as onas e antas com exito[67]. Entretanto
n'uma margem do Paraguay, o capito Francisco Domingos da Costa Pereira
vio uma ona arrebentar um sucury, por quem fra enlaada.

Com uma facasinha o homem defende-se perfeitamente d'essas serpentes:
basta uma ligeira picada, levantando as escamas para obrigal-as a
desapertar os seus fataes enleios.

J em occasio opportuna fallmos sobre os ferres que os sucurys tem ao
redor do anus, e o que pensamos a tal respeito[68].

As rochas, sobre que rolo as aguas do Aquidauana, so de grs; em
muitas partes, o seu leito  completamente silicoso, em outras,
argiloso; lamacento, raras vezes. N'estes ultimos pontos reunem-se os
_corimbats_[69] (schizodon, Agassiz), _pius_, _traras_ (erythrinus),
_bagres_, etc. Os seixos rolados abundo nas margens e entre elles o
_silex_ e os _silicatos_ de ferro.

As enchentes do rio nunca sobem a grandes alturas; raramente trasbordo,
no s pela elevao dos barrancos, seno pela facilidade com que se
escoo as aguas no rio Miranda, o qual corre por campos baixos e faceis
de serem inundados.




CAPITULO X


Do primeiro pouso junto ao Aquidauana, seguimos a O. fraldejando sempre
a serra, que se eleva, cada vez mais, com pincaros escalvados e talhados
at a base.

Os sitios so agrestes e sombrios; as plantas sexatiles se agrupo de
lado a lado da trilha que sobe e desce, conforme as dobras extremas da
serrania.

De vez em quando, descobrem-se as corredeiras do rio, cujo ruido se ouve
de longe; de vez em quando descortino-se pedaos de campo distante, com
lindas arvores, a modo de vergeis.

N'um ponto, a vereda parece ir esbarrar n'um crte a pique de montanha:
a paizagem  ahi muito curiosa e eminentemente pitoresca.

Penetra-se ento n'uma fenda monstruosa que d passagem ao viajante,
entaliscando-o n'um corredor humido, cujas gotejantes paredes acho-se
tapetadas por achamalotadas _begonias_, _argyrostigmas_,
_capillus-veneris_, _adiantos_, etc.

Depois, sahe-se em campo: ahi acaba a serra[70].

As campinas, queimadas pouco tempo antes, reverdecio depois das ultimas
chuvas, e se estendio vicejantes, a perder de vista, como tapiz vistoso
salpicado de flresinhas mimosas[71].

Caminhmos 2-{1/2} legoas at o corrego do Paxexi, onde fizemos pouso,
aproveitando ranchos abandonados e em ruinas.

A noite cahio serena: a trovoada do dia dissipra-se ao sopro de forte
ventania e to smente fugaces relampagos rasgavo um massio de nuvens,
amontoadas em um ponto do horisonte. Roncos longinquos, intervallados,
mal se ouvio, rompendo o silencio crepuscular, to solemne n'aquellas
paragens.

A lua subio ento, espargindo sua meiga luz sobre a natureza e
infundindo aquella doce tristura, que acompanha essas noites de calma e
tranquillidade.

O dia da Paixo de Christo, em que estavamos, mais nos engolfava n'essa
meditao melancolica, que, sem mta, sem direco certa, se atira no
espao, e durante a qual os olhos da materia se fixo, sem vista, n'um
ponto, ao tempo que os olhos da alma vagueo pelos mundos alm creados,
pelo indefinido e indeterminado.

De repente, atraz de um morro erguro-se nuvens rubras, densas na base,
flocadas acima e adelgaadas. So os paraguayos, disse-nos o velho
indio Palh, que esto vaquejando no Taquaruss, a 5 legoas d'aqui;
queimo  noite os campos, para chamar o gado _esparramado_
(espalhado)...

Sahindo de Paxex com a madrugada, fomos em direco ao porto de D.
Maria Domingas, o qual deviamos examinar como ponto de passagem para as
foras. Estavamos ento a uma legoa de distancia d'elle.

J se havio reunido a ns os indios da Boa-Vista, que vinho constituir
a nossa guarda de proteco. Montados em bois, marchavo uns atraz dos
outros, com a lentido grave d'aquelles ruminantes, a qual no sera
alterada, ainda quando apparecessem os inimigos.

J comeavamos ento a avistar grandes manadas de gado: as _pontas_
pastavo em compactos grupos, que se apartavo com a nossa chegada,
fugindo as vaccas e bezerros, ao passo que os touros paravo, para
olhar-nos com desconfiana e sobranceria. s vezes, de um ponto
afastado, corria ao nosso encontro um d'elles; estacava junto ao caminho
e ahi nos esperava com ar de desafio e resoluo. Bastava, comtudo, um
simples grito, um aceno para desvial-o, seno para afugental-o bem
longe[72].

O caminho vai sempre seguindo o rio, o qual ora sahe em campo limpo, ora
d'elle se separa por uma mata espessa e sombria.

Passavamos, de quando em quando, por tapras[73]; ero ranchos vastos
cobertos de _herva de S. Caetano_[74], rodeados de urzes e espinhos;
ero moendas, engenhos, queimados em parte, cortados pelos machados do
invasor; em toda a parte, signaes de desolao e destruio inutil e
barbara. S a natureza, no brilhantismo de seus verdores, consolava ao
derredor as vistas, canadas de tamanhas provas de vandalismo; ella que,
embora desfigurada pela mo do homem, procura de continuo reparar os
estragos que tenha soffrido.

O porto de _D. Maria Domingas_, chamado pelos indios, _alinna_,  uma
larga aberta na mata. Dava passagem aos carros que, das fazendas da
margem direita do rio, se dirigio para a villa de Miranda.

Esse lugar fra testemunha de uma das poucas scenas de resistencia no
longo periodo da occupao paraguaya e apresentava gloriosas mostras
d'aquelle feito de armas: varias arvores varadas por balas e cinco
ossadas humanas.

Em Maio de 186 , dezeseis indios terenas, occupados em fazer ahi
rapaduras, tinho sido atacados por duzentos paraguayos, os quaes,
recebidos de dentro da mata por um fogo vivo e certeiro, em poucos
minutos foro obrigados  retirada, abandonando no s mortos como
feridos, que morrro s mos de seus encarniados inimigos.

Cada vez que uma caravana india passa por junto d'esses restos,
levanta-se um clamor immenso: uns quebro os ossos, outros insulto as
caveiras, cuspindo n'ellas e calcando-as aos ps; outros riem-se
estrepitosamente e dirigem motejos aos manes paraguayos.

Prohibimos demonstraes d'essa barbara expanso ao nosso sequito, que,
a custo, conservou-se calado, ao passar duas vezes por diante dos
alvejantes craneos, na entrada e sahida da mata: entretanto alguns
indios, descendo de seus bois, apanhro uns ossos que levro
escondidos.

O porto de D. Maria Domingas offerecia as melhores condies para uma
passagem de foras, estando a outra margem occupada pelo inimigo. Pouco
frequentado, afastado da estrada por onde os paraguayos presumio dever
descer a nossa gente, com vo seguro e commodo, com uma boa mataria para
proteco na transposio, era alm d'isso o ponto onde convergio todos
os caminhos do districto e cuja posse cortava as communicaes entre os
postos do Taquaruss e Souza, ento existentes mais proximos do rio e
que deviamos primeiro atacar.

Ahi decidimos que se effectuaria a passagem e trabalhmos sempre n'esse
sentido, apezar dos estorvos que se levantro contra essa escolha
razoavel e conveniente. Como, entretanto, no se realisro as nossas
previses e falhro os nossos planos pela demora das foras brasileiras
e retirada dos paraguayos em Agosto, deixaremos de parte essas questes
que tinho interesse immenso no momento e que o terio no futuro, se
houvessem surtido effeito as providencias, que n'aquelle sentido
tommos.

As terras, que atravessmos, pertencio a D. Maria Domingas de Faria,
senhora estimada pelas suas excellentes qualidades e virtudes. As suas
posses importantes estndio-se em toda a margem direita e esquerda do
Aquidauana e n'ellas estavo estabelecidos os seus parentes mais
chegados e filhos, entre os quaes temos o prazer de contar um amigo, o
sympathico fazendeiro--Joo Mamede Cordeiro de Faria.

Tangidos violentamente de suas propriedades pela invaso, havio todos
esses pacificos habitantes fugido de suas fazendas, indo, depois de mil
trabalhos e peripecias, se refugiar a 50 legoas d'ahi, junto ao rio
Taquary, a 7 legoas do lugar onde acampou a fora no Coxim.

Sahindo do porto de D. Maria Domingas, fomos pousar no laranjal de
Francisco Dias, que estava ento acoutado nos Morros, e, no dia
seguinte, chegmos ao porto do Pires, a uma legoa do entrincheiramento
paraguayo.

Ahi esperava-nos a maior contrariedade. Haviamos combinado com vinte e
tantos moradores dos Morros, para que nos fossem esperar n'aquelle
ponto, bem armados e com munio sufficiente para defesa, no caso de
sermos perturbados na ultima legoa, que restava fazer.

Apressramos a viagem, com o fim de no nos tornar esperados; deixramos
de parte muita curiosidade que examinar; haviamos desprezado o
entretenimento de pescas e caadas em completa perda.

Verificando os nossos recursos, o municiamento e armas, achmo-nos com
18 pessoas mal armadas e municiadas s a um ou dous cartuxos.

Os indios revelavo receio latente: a cada instante ouvio toques de
caixa e cornetas, os quaes, entretanto, apezar de nossa boa audio,
nunca podmos perceber.

A cada instante nos avisavo que os paraguayos estavo em vigilancia
continua e que ero muito valentes. Accrescia ainda que, n'aquelle dia,
haviamos desconfiado da passagem de gente para a margem direita, por
causa de pontas de gado que parecio vir tangidas dos lados do porto do
Souza e que, por diversas vezes, havio passado diante de ns, n'uma
corrida tremenda.

Assim pois, perigos nos cercavo sem a proteco conveniente para os
casos de aperto: continuar, fra temeridade improficua; proseguir, passo
inconsiderado.

Resolvemos por isso fazer-nos na volta dos Morros, cortando campo em
direco a um dos picos da serra em que ficava a nossa pousada.

Assim, voltmos as costas ao sul, havendo prviamente lanado fogo 
campina que, abrasada pelo sol, incontinente despedio ao co rolos de
negrejante fumaa.

Minutos depois apparecia, na margem de l, outra fumaa, em signal de
aceitao de desafio, como usavo os paraguayos.

Desappareceu, porm, debaixo do formidavel aguaceiro que, por mais de
meia hora, despejro as nuvens, protegendo a nossa retirada e impedindo
qualquer tentativa de perseguio.

N'esse mesmo dia (2 de Abril) chegmos ao nosso acampamento, onde
encontrmos os commodos que tanto consolo nos havio dado depois dos
dias penosos de nossa primeira viagem; ficando em ns, d'aquella
digresso s bellas margens do Aquidauana, a immarcessivel recordao de
dias alegres e felizes.




CAPITULO XI


Depois de alguns dias de obrigatorio descanso, remettemos ao commando
das foras, acampadas ento no rio Negro, os desenhos e relatorios de
nossa viagem ao Aquidauana, cuidando desde ento nos meios de passagem
d'aquelle rio, a qual, segundo as communicaes que recebiamos, devia se
effectuar em meiados de Junho.

Espermos comtudo desde Abril at principios de Julho. As mil
difficuldades que embararo a marcha das foras, a peste, a fome que
acommettro os nossos infelizes soldados, o fallecimento de officiaes e
afinal do commandante o bravo general Galvo, ero as causas d'essa
demora desesperadora que, retendo a expedio em mortiferos paes, ia,
mezes depois, produzir a medonha enfermidade,--a paralysia reflexa--,
adquirida n'aquelle periodo fatal.

No assistimos s scenas desoladoras do rio Negro; no presencimos os
duros trances em que se vio a columna: haviamos, de antecedencia, pago
pesado tributo, com quinho consideravel de soffrimentos.

 nossa penna, alm d'isso, falto a precisa energia, as cres vivas
para descrever to extremas necessidades, a fora e enthusiasmo para
traar a abnegao, o heroismo e resignao que, n'aquelles momentos
tormentosos, patenteou o nobre soldado brasileiro.

       *       *       *       *       *

Durante a estada prolongada, que tivemos nos morros, procurmos estudar
a sociedade que existra no Baixo-Paraguay, analysar a indole dos
indios, o elemento mais numeroso n'elle, investigar o gro de
civilisao em que se acho e os resultados da convivencia com os
brancos.

Nunca se apresentar occasio to favoravel para um espirito indagador.
As grandes provanas descarno os homens.

No soffrimento e na desgraa, o caracter bondadoso se requinta; o mu se
exaspera e se _irrita_; as paixes nobres ou baixas apparecem ento ao
descoberto da mascara que as convenes e conveniencias da sociedade
apresento aos olhos incautos.

Tinho se dado as scenas angustiosas da invaso.

O organismo social desarranjado, acabra com as formalidades que, a bem
da moralidade, se costumo respeitar: a hypocrisia fugra ao longe; a
falsa amizade desapparecra.

Nos dias lugubres da fugida ante os paraguayos os verdadeiros amigos
foro raros: apresentro-se rasgos de nobreza de caracter em quem tal
no era de esperar e amesquinhro-se aquelles com quem se contava.

Nunca o egoismo desenvolveu-se em to larga escala.

Alguns atopetro as suas canas[75] com os objectos mais inuteis,
trazendo de Miranda at garrafas vasias, ao passo que negavo passagem
aos seus affeioados da vespera, pretextando falta de espao.

Outros prohibio a matana de seu gado a pobres refugiados,
maltratando-os por cartas, que declaravo ser-lhes preferivel o roubo
dos paraguayos.

Do conflicto d'esses sentimentos resultro collises, cuja lembrana
no deve occupar a atteno d'aquelles que aprecio o homem como typo de
nobreza, e sujeito s suas virtudes moraes, a ordem physica das cousas,
brutal e necessaria.

O valor absoluto das idas do utopista  to precioso que, ainda com
prejuizo da indispensavel necessidade do conhecimento dos homens,
devemos desviar os olhos das lies d'aquella perigosa experiencia:
basto os desgostos no correr da vida normal, basto os desenganos na
sociedade polida, no mundo civilisado, em seus eixos, em seu curso
natural.




CAPITULO XII

OS INDIOS DO DISTRICTO DE MIRANDA


Em dous importantes grupos se divide a raa india, habitante de Miranda:
os _guaycurs_ e os _chans_. Os primeiros comprehendem tres tribus: a
_guaycur_, propriamente dita, que vai desapparecendo pelo contacto
immediato com a gente branca, os _cadiuos_ que, pelo contrario,
conservo-se no estado quasi selvatico, em terrenos proximos aos rios
Paraguay e Nabilek, ainda no bem explorados, e os _beaquios_ que
habito com os cadiuos[76].

Os _chans_ subdividem-se em quatro ramificaes: os _terenas_, que
constituem os tres quintos da populao aborigene, os _laianas_, os
_quiniquinos_ e os _guans_ ou _choorons_, de entre todos, os mais
doceis e civilisados.

A lingua  a mesma para todos estes, com algumas alteraes que
entretanto no lhes impedem a facil comprehenso reciproca. Os costumes
e praticas geraes: o seu typo, porm, conservando um _facies_ bem
determinado offerece distinces que assignalo caracteristicamente cada
uma d'estas tribus.

O _terena_  agil e activo: o seu parecer exprime mobilidade; a sua
intelligencia  astuciosa e com propenso ao mal. Aceita com
difficuldade as nossas idas e conserva arreigados os seus usos
especiaes, talvez por espirito mais firme de liberdade. O homem 
robusto, corpulento, de boa estatura; o seu semblante apresenta o nariz
um tanto achatado na base; as sobrancelhas pouco obliquas, em alguns
individuos bastas e desenhadas com regularidade; s vezes  pugibarba,
outras tem buo e barbas bem apparentes. A desconfiana transluz nos
seus olhares inquietos, vivos; a dobrez nos seus gestos. Escondem com
gosto os sentimentos que os agito; fallo com volubilidade, usando do
seu idioma sempre que podem, e indicando o aborrecimento em se
expressarem em portuguez.

As mulheres so de estatura baixa: tem a cara larga, beios finos,
cabellos grossos e compridos. s vezes, o seu typo tem um cunho de
amenidade que admira, grande regularidade nas feies e expresso de
intelligencia. Trazem commummente parte do busto descoberto e uma
julata[77] de algodo cingido abaixo dos seios, com uma das pontas
passada entre as coxas e segura na cintura. Raras mulheres sabem fallar
o portuguez: todas porm o comprehendem bem, apezar de fingirem no
entendel-o. So as mais laboriosas e industriosas da raa india,
guardada a relao necessaria entre a actividade e indolencia proprias
das naes indias.

O _laiana_  um typo de transio: tem muito melhores instinctos, menos
averso aos brancos, de cuja lingua se servem sem repugnancia, pelo
contrario, com gosto e facilidade. O homem  mais delgado que o terena,
menos inquieto; a physionomia com tudo  muito menos viva e
intelligente. Os seus habitos de trabalho so mais aproveitaveis, porm
menos constantes e esforados.

As mulheres geralmente so feias: tem os olhos commummente apertados, a
cr dubia: no  o avermelhado franco do corpo da terena nem o amarello,
algum tanto macilento, da quiniquino. Entretanto, como em quasi todas
as indias chans, o talho do corpo  elegante e esbelto, as mos e ps
pequenos e delicados.

O typo _quiniquino_  j mui diverso dos dous precedentes: o homem traz
estampadas no rosto a apathia e placidez: as feies, sem animao, so
regulares e proximamente bellas. A sua fora de trabalho  muito
diminuta: elle passa os dias, deitado sobre um couro pellado, sem
saudades do passado, nem receios do futuro; cultiva, com grande custo,
alguns cereaes que a familia come na proporo da colheita; se
abundante, muito; tudo em poucos dias; se nenhuma, passar a ccos e
fructas[78] do mato.

A mulher quiniquino  bella: pela mistura de raas, facil n'essa tribu
mais relacionada com os brancos e negros e encostada a elles, a cr ou 
de um amarello escuro de canella (cabur) ou de um branco ligeiramente
amarellado. N'este caso, as faces so delicadamente rosadas; a tez pura,
os labios rubros, as gengivas vermelhas. Quasi todas comprehendem o
portuguez: fazem esforos para fallal-o, apezar do vexame que mostro
experimentar.

O _guan_, no districto, quasi tem desapparecido nas raas branca, india
ou negra, que o cerco. Vimos porm uma india, chamada Antonia, filha de
pae quiniquino e me guan, que, sobre ser um verdadeiro typo de
belleza pela venustade do rosto, pelo delicado da epiderme e elegancia
do corpo, tinha summa graciosidade e donaire.

Os _guaycurs_, homens em extremo vigorosos, tem as feies brutaes e
grosseiras; estatura maior que mei, avantajada, s vezes, por modo
estranhavel.

O capito Lapagates, chefe de uma alda de cadiuos, o qual vimos no
Tabco, era um varo imponente, com rosto expressivo e olhar
intelligente; tinha no trato uma amenidade bondadosa que muito
caracterisava aquelle here do forte--Olympo.

 geral a todos os indios aguarem os dentes, formando pontas finas; 
tambem geral usarem de _uruc_[79] e _genipapo_, para pintarem no rosto
arabescos, figurando desenhos singulares ou para fingirem barbas e
bigodes.

Entre os cadiuos, comtudo,  isto regalia peculiar s mulheres e filhas
dos capites: os mais pinto to smente ao redor da boca, o que lhes d
aspecto curiosamente feroz.

Esses desenhos so, s vezes, feitos com muita regularidade, ora
simplesmente com alguma tinta corante em vesperas de solemnidades, ora
marcados indelevelmente com uma ponta de agulha em brasa.

 tambem commum a todos os indios do districto[80] o habito da mais
apurada limpeza: lavo o corpo tres ou quatro vezes por dia; por
qualquer tempo que faa, calor ou frio. As mulheres cuido muito na
alvura de seus pannos e procuro sempre andar limpas, exceptas as velhas
que do, com o tempo, de mo a esses cuidados.

Os terenas, como acima dissemos, frmo a maior parte da populao india
do districto: as suas aldas estavo situadas no _Naxedaxe_, a 6 legoas
da villa de Miranda; no _Ipgue_, a 7-{1/2}; na _Cachoeirinha_, e n'um
lugar a 3 legoas, constituindo um aldeamento chamado _Grande_, alm de
outros pequenos centros. Tres a quatro mil individuos moravo n'esses
diversos pontos.

Os quiniquinos aldeavo no _Euagaxigo_, a 7 legoas N. E. de Miranda; os
guans no _Eponadigo_ e no _Lauid_[81], em numero de 30 a 40; e os
laianas a meia legoa da villa.

Os guaycurs habitavo no _Lalima_ e perto de _Nioac_ e os indomitos e
falsos cadiuos em _Amagalobida_ e _Nabilek_, para os lados do rio
Paraguay.

O aldeamento modelo no Baixo Paraguay era incontestavelmente o do
_Mato-Grande_ ou do _Bom-Successo_, perto de Albuquerque, onde os
quiniquinos, debaixo da paternal e intelligente direco do
virtuosissimo missionario Frei Marianno de Bagnaia, apresentavo os
fructos valiosos da catechese bem entendida. Ahi os indios obrigados a
um trabalho regular, vivio na abundancia, entregavo-se a diversos
officios e aprendio as artes liberaes. Havia uma banda de musica, toda
composta de indigenas. Uma escola de primeiras letras funccionava com
numero crescido de alumnos estudiosos e n'ella se incutio os principios
de religio, de que tanto necessito aquellas infelizes creaturas.

Uma tribu, que desappareceu do districto quasi totalmente,  a dos
_guaxs_, da qual se encontro s alguns individuos, confundidos com
gente de outra nao. Esta extinco  devida ao habito
extraordinariamente immoral da morte dos fetos no ventre das mes, as
quaes produzem os vmitos, usando de hervas e raizes apropriadas. Os
laianas vo tambem pouco a pouco se extinguindo e, apezar do contacto
continuo com os mirandenses, iguaes factos se do entre quiniquinos e
terenas.

Entre os indios acima mencionados, apparecem alguns _caius_. Habitantes
do norte da republica do Paraguay, nas cabeceiras do rio Aquidavn, so
prisioneiros de guerra nas correrias que os cadiuos costumavo fazer
nas terras d'aquella republica. Para esse fim sahio do Nabilek,
passavo os campos da Pedra de Cal[82] e, costeando a serra de Dourados,
io ter s aguas do Iguatemy, contravertente do Aquidavn.

Os caius ero vendidos depois e passavo, de mo em mo, na qualidade
de captivos, aos quaes chamo _captiveiros_.

A escravido  a mais doce possivel. O _captiveiro_ faz parte da
familia, come com ella,  tratado como filho da casa; tem at regalias
especiaes. A senhora ir buscar agua  fonte e lavar a roupa que
pertena ao seu escravo e nunca o obrigar a estes servios. Entretanto
os captivos so vendidos com summa facilidade e por qualquer ninharia,
apezar da longa convivencia que os uno ao senhor.

Os indios do districto vivem na maior ignorancia e indifferena em
materia de religio. A catechese acha-se muito atrazada e tem sido mal
dirigida. Poucos quiniquinos conhecem a significao da Cruz e smente
alguns guans uso de nossas preces.

O mais existe nas maiores trvas: entretanto elles tem na lingua uma
palavra para exprimirem Deos, a quem chamo _Nhande-ira_[83].

Cada tribu tem porm um certo numero de _padres_ cantores, os quaes
servem ao mesmo tempo de medicos e feiticeiros: so destinados desde a
infancia ao sacerdocio e ainda crianas aprendem as poucas cantigas que
lhes so particulares. Homens e mulheres servem indistinctamente: nenhum
signal os distingue: nenhum respeito os roda.

O mais absurdo fetichismo pareceu-nos ser a religio dos padres: por
qualquer motivo, colheitas, chuva continua, sol ardente, _pendoar_ do
milho, etc., cantaro noites inteiras, denunciando presagios e
conversando com a ave _macaun_, que elles fingem chamar de longe,
imitando o cantar tristonho.

Este passaro  pois para elles um ente sagrado. Entretanto os outros
indios mato o macaun[84] com to pouca reverencia, que indica o pouco
caso que d'elle fazem. Temos por sem duvida que os proprios padres, em
occasio opportuna, saboreem a carne d'aquella ave, dando de mo aos
principios religiosos e ao encargo de consciencia.

s vezes, no meio de suas praticas, o padre faz grosseiros exercicios de
prestidigitao: finge engolir pennas compridas, tira-as do nariz,
introduz flechas no estomago, etc., etc.; entretanto os seus admiradores
so quasi sempre crianas e velhas; os homens passo por diante d'elle,
lanando olhares do mais completo indifferentismo, qui incredulidade.

O _padre_, para suas vigilias, veste-se com uma _julata_, ornada de
lentejulas e presa  cintura por uma especie de talim de contas; pinta
o thorax, braos e cara com genipapo e uruc. Estende um couro diante de
sua porta e n'elle caminha, lenta e compassadamente, avanando e
recuando, a cantar, ora estrondosamente, ora em voz baixa e monotona,
com acompanhamento de um chocalho, que elle segura na mo direita. Na
esquerda empunha um espanador feito de pennas de ema e bordado com
desenhos caprichosos.

Uma familia inteira pde ser de padres: assim pae, me e filhos canto
juntamente noites inteiras, cada um no seu couro, com seu espanador,
cabaa e mais adornos; as mulheres, como os homens, trazem a parte
superior do corpo na e pintada.

O canto de madrugada soffre uma parada longa: de repente sa muito ao
longe o grito do _macaun_: responde-lhe o padre; vem-se approximando o
passaro com pios cada vez mais proximos, e, afinal, comeo as suas
revelaes ao sacerdote. Essa scena no deixa de impressionar, pois a
imitao do cantar do macaun ao longe e successivamente mais e mais
perto,  feita com toda a perfeio.

O padre, como medico,  da mais crassa ignorancia; no usa das plantas
medicinaes que o rodo e cujas propriedades medicamentosas parece
desconhecer completamente. Elle aparta to smente o doente do contacto
com os outros, apalpa-o diversas vezes, sopra no lugar enfermo[85] e
canta frequentemente, consultando o macaun.  a verdadeira medicina
expectante, com formulas charlatanicas proprias da intelligencia do
facultativo e do medicando.

Quando o doente fallece, o medico jacta-se de tel-o deixado morrer por
gosto[86]; nos casos de cura, recebe presentes e por muitos dias  ainda
sustentado pela familia do convalescente[87], a qual tem esta obrigao
durante toda a molestia.

Quando morre um individuo, a alda toda entra em alvoroto. A casa do
morto  invadida, e n'ella levanto-se gemidos e gritos agudissimos,
soltos pelo mulherio e crianas[88]. Ora,  um barulho ingente dominado
pelo soluar estrepitoso do parente mais proximo; ora,  um murmurio
confuso que dura alguns minutos, recomeando aquellas lamentaes, que
se ouvem muito longe.

O corpo fica em casa duas ou tres horas smente:  logo amarrado em uma
rede enfiada n'um varapo, que vai carregado por dous parentes. O
enterro dirige-se para o cemiterio, acompanhado por todas as pessoas das
casas por defronte das quaes vai passando; a grita se ergue assim cada
vez mais intensa: todos lamento-se, todos urro.

No acto de entregar o cadaver  terra, junto  cova mato-se os animaes
mais queridos do morto, ao qual enterro com todos os objectos, que mais
affeiora. Se, n'esse acto, se apresenta alguem pedindo qualquer animal
ou objecto, obtem-o logo sem difficuldade nem paga, ficando desde ahi
propriedade d'elle.

Os parentes cedem por esse modo rezes, manadas de egoas, etc., etc.,
procurando desfazer-se de tudo quanto pertencra ao defunto.

De volta do cemiterio, o rancho  abandonado: toda a familia muda-se:
entretanto, durante muito tempo, conserva-se, na palhada desoccupada,
agoa, fogo e cigarros, para que a alma do morto beba, se aquea e fume.

Eis a ida que manifesto da immortalidade da alma.

Quando  uma mulher que morre, de volta do enterro, quebro-se todos os
potes, pratos, etc. O rancho tambem  completamente desmanchado.

Os signaes porque os chans manifesto a sua dr, so extremamente
ruidosos. O seu lamentar  em altos gritos.

Mezes depois do fallecimento de um parente, qualquer recordao[89]
provoca scenas de dr estrepitosa, que  logo acompanhada por todas as
velhas da alda: assim, o aspecto de um animal que se parea com um,
outr'ora affeioado do defunto, o apparecimento da lua, a vista de uma
roupagem, so causas de exploso de gritos, que duro muitas horas.

O luto consiste--nas mulheres--em tirar os seus adornos de prata e
ouro[90], brincos e collares, e cortar os cabellos na altura das
faces:--nos homens--em usar de roupas escuras, sem distinctivos nem
enfeites.

A durao do luto vara conforme o gro de parentesco: o de filho obriga
a um anno; de pae e me a muito menos tempo.

Perto de nosso rancho de palha, nos Morros, habitava uma pobre india
velha que lamentava, noute e dia, da morte de seu filho unico, agarrado
pelos paraguayos em fins de 1865 e morto por elles a lanadas. O seu
soluar mostrava a dr profunda em que jazia, entretanto seus olhos ero
seccos e nenhuma lagrima se deslisava pelas rugosas faces. Os indios
choro com muita difficuldade. Ora ella enumerava, n'um cantar monotono,
as virtudes de seu filho; ora pedia  lua que recebesse a alma d'elle;
ora rogava ao sol que aquecesse o lugar em que fra alanceado.

Era essa infeliz mulher um typo de dr materna: estava magra como um
esqueleto e vivia n'uma agitao constante.

Quasi sempre aquellas manifestaes so indifferentemente patenteadas,
quer pelo fallecimento de um homem ou uma mulher, quer pelo de uma
criana de peito: em todos os casos,  o mesmo ulular; identicas as
ceremonias.

A affeio que as mes demonstro pelos filhos, que um pae tributa 
familia, a amizade que une os irmos, so edificantes, os extremos
tocantes.

Assim os paes serviro com toda a dedicao a seus filhos, que lhes
obedecem cegamente. Isto em cada grupo, em cada circulo. No notmos
particular respeito aos velhos, deferencia  velhice, como acontece aos
indios da America do norte, de cujos costumes, um tanto poetisados, fez
Chateaubriant assumpto de um poema.

D'essa submisso resulta a verdadeira venda que se executa entre o pae
de uma mulher nubil e qualquer homem que a queira para companheira ou
para mero passatempo: a filha sujeitar-se-ha  imposio paterna,
aceitando sem murmurar o esposo, que lhe apresentem ou despresando
aquelle, cuja separao aconselharem.

As mulheres amamento as crianas por tempo indeterminado: vimos
rapagotes de seis a sete annos, que vinho correndo suspender-se aos
seios de suas complacentes mes.

Esta pratica faz com que, depois que parem, fiquem as mulheres
completamente estragadas: os seus seios, com a prolongada presso,
pendem ao longo do corpo, o qual tambem, pelo habito de carregarem as
crianas cavalgando n'um dos quadris, fica arqueado e desengraado.

O casamento  ceremonia pouco usual: os meios de contrahirem-se nupcias
so presentes e dinheiro, fonte d'onde dimana a mais horrorosa
immoralidade, visto que a ganancia dos paes simplifica todos os
preliminares, que, sem dvida, ero primitivamente exigidos.

Por dinheiro obtem-se mulher: quer indio, quer branco ou negro, tem
necessidade de sujeitar-se s condies dos paes, os quaes tambem
aconselho s suas filhas a liberdade a mais completa em materia de
fidelidade.

O genio dos indios do districto, em que o ciume  sentimento quasi
desconhecido, concorre para desenvolvimento da mais reprovavel
devassido de costumes, augmentada pela indole dos habitantes de
Miranda, como adiante mostraremos na parte em que tratarmos das relaes
entre as duas raas.

No casamento mais regular e muito mais raro, o noivo escolhe a sua
esposa, quando ainda ella  criana: trata d'ella, d-lhe roupa,
concorre para a alimentao dos paes dos quaes  considerado filho e
recebe tal tratamento.

Aos 10 annos, mal aponto os peitos, ainda no nubil,  a noiva entregue
ao seu marido e enrolada com elle n'uma esteira, ao redor da qual os
convidados dano, cantando, bebendo aguardente e comendo os presentes
que so a parte mais importante do casamento.

Esse habito de entregarem meninas a homens  geral: d'elle tiro os
progenitores maior lucro, dimanado da luxuria em seus desmandos brutaes,
pois essas infelizes crianas so procuradas e obtem quasi sempre altos
preos.  o effeito de idas desmoralisadoras e nojentas.

Os indios, que so modelos de affeio pelos filhos, que os trato com
amizade extremosa, nenhum mal enxergo n'esses estupros, de que as
victimas vem impreterivelmente a soffrer em seu organismo e
desenvolvimento.

As mulheres envelhecem com extrema rapidez: aos 14 annos esto na sua
maior expanso corporea, aos 20 comeo a desmerecer, e aos 30 so
velhas (_mems_), cuja decrepidez no se faz esperada.

Para sobrestar essa marcha infallivel e temida, procuraro ellas sempre
provocar os mvitos, para o que uso, por conselhos de suas proprias
mes e velhas da alda, de hervas[91], e sobretudo choques e apertos no
ventre. Assim rara  a india, que tenha tres filhos; quasi sempre um ou
dous, concebidos na idade em que a faceirice no  de uso.

Nos Morros, havia uma quiniquino que, com dezesete annos, abortra j
seis vezes.

No ultimo parto o feto, completamente desenvolvido, havia sido, na
sahida do utero, estrangulado pela propria av, a qual, desde muito,
declarra que s perdoaria, se a criana fosse do sexo masculino.

Tambem era uma familia de padres, em que todos os componentes pae, me,
filhos e filhas, cantavo de continuo, nos atordoando os ouvidos e
perturbando as doces horas do somno. Alm d'isso muito se distinguio no
brutal brinquedo chamado _tadik_.

 esse jogo um exercicio a scos,  maneira do _box_ inglez[92]. Para
elle enfileiro-se rapazes, mulheres e crianas uns defronte dos outros,
procurando, com o punho fechado, offender a cara do adversario, dando
pancadas smente at o queixo. Muitas vezes, furo-se os olhos, quebro
o nariz e com o esforo chego a desarticular o polegar.

Assistimos ao _tadik_ entre quiniquinos e terenas e, ao prazer do jogo,
unio-se sentimentos de grande rivalidade. Entretanto os velhos
separavo logo os contendores, quando estes mostravo animosidade
excessiva. Os dous partidos, havio tomado os nomes de _luzia_ e
_saquarema_, repercusso longinqua das lutas politicas do Brasil!
O-est-ce que la politique s'tait niche?!....

Acabou a festana, bebendo-se _garapa_ fermentada, que substituia a
aguardente.

       *       *       *       *       *

Cada alda tem o seu chefe ou capito, nomeado, ou pelo governo imperial
ou pelo respectivo director ou pelo consenso de sua gente. O respeito
que elles merecem,  pouco extenso: a subordinao aos chefes  muito
limitada; muitas vezes  um mero titulo sem distinco nem regalias.

Quanto mais civilisados, tanto menos considerao os indios tem pelos
seus capites. Os guans no aceito mais chefe especial. Os
quiniquinos pouco caso fazem do seu velho capito Flaviano Botelho. Os
laianas sujeito-se mais; emfim os terenas observo tal ou qual
deferencia, respeitando mais os seus cabeas de tribu.

Quando viajavamos na margem direita do rio Aquidauana, observavamos as
relaes que existem entre a civilisao e os filhos das matas.

Em nossos pousos, representavamos (guardadas as propores e salva a
modestia) o centro civilisado: a poucos passos, com a nossa camaradagem,
pousavo alguns guans, mais adiante ficavo os quiniquinos, os quaes,
de quando em quando, vinho misturar-se com a nossa gente; n'um raio
duplo, do nosso ponto ao dos quiniquinos, reunio-se os laianas e,
afinal, a boa distancia, congregavo-se os terenas.

As relaes reciprocas entre esses indios ero de cordialidade algum
tanto duvidosa; os terenas so accusados pelos guans e quiniquinos de
mos e inimigos dos brancos e elles accuso aos outros de serem falsos e
escravos dos portuguezes[93].

       *       *       *       *       *

As raas que habito o districto, partro evidentemente da margem
direita do rio Paraguay, do lugar onde hoje existe a nao enima, de que
ellas so naturalmente ramificao. As provas parecem-nos claras e
irrecusaveis.

Alm da tendencia manifesta que os terenas tem para fugirem para as
bandas do Chaco boliviano a reunirem-se com outros da mesma tribu que
vivem com os enimas, na lingua existem palavras que demonstro que a
presena dos guans[94] no districto foi devida a uma grande immigrao.

Assim uso frequentemente do termo _maina_, que quer dizer semelhante,
quando referem, a objectos familiares, outros que lhes ero estranhos,
por associao natural de idas.

Chamo pois ao bority--maiana hrena,  semelhana do _carand_; 
anta--maiana cam, semelhante ao cavallo, etc., o que presuppe o
conhecimento do carand e cavallo, anterior ao do bority e anta.

Ora, os boritys existem em grande quantidade em todo o districto, assim
como as antas, e, do outro lado do rio Paraguay no se os conhecem,
sendo pelo contrario extremamente communs os carands e cavallos.

A concluso  facil e vem em soccorro do que procuramos sustentar.

A lingua guan, de formao muito irregular, provm evidentemente do
guarany: ha n'ella palavras identicas, iguaes; exemplo: iuqu, _sal_;
morev, _anta_;--segundo os laianas: buric, (guarany) muric, (guan)
_burro_.

A sua derivao do idioma guaycur  clara; no s alguns vocabulos
servem para as duas naes; exemplo _catpaga_, pac; _achunaga_,
dourado; mas muitos so sensivelmente modificaes, assim  o _aca_
(guaycur) e o _ac_ (guan) que significo _no_.

Comtudo a indole totalmente diversa das duas nacionalidades, as suas
idas, os seus habitos fizero com que essas linguas soffressem
alterao profunda, quando falladas. A maneira do guaycur expressar-se
 arrogante, pausada; as aspiraes so energicas; as palavras,
terminando mais particularmente em _a_ e _o_ fechados, so quasi sempre
esdruxulas ou graves. Ha mais abundancia de consoantes e essas com som
dobrado e guttural.

O guan falla rapidamente, com ligeiras aspiraes; a sua linguagem 
uma especie de sibilar continuo: os _i_ repetem-se com frequencia e as
vogaes seguem-se umas s outras, com quasi tanta profuso quanto, na
lingua allem, as consoantes.

Na phrase do espirituoso escriptor francez Oscar Commettant nas
palavras germanicas as vogaes se afogo n'um oceano de
consoantes:--Apparent rari nantes in gurgite vasto.

No guan  a inversa, com mais moderao comtudo.

As modificaes, que cada uma das tribus introduzio, com o tempo, na
lingua chan, constituro quatro dialectos, os quaes entretanto so
facilmente comprehendidos pelos indios de toda aquella nao.

A tribu guan[95] falla arrastando a lingua n'uma toada de chro; canto
 maneira do pronunciar em certas localidades de S. Paulo, apoiando
muito n'uma syllaba para correrem sobre as outras.

Os quiniquinos tem seus idiotismos especiaes: palavras proprias. Os
laianas tambem as tem.

Os terenas, segundo pareceu-nos, uso do idioma com mais justeza e
perfeio.

Os verbos, n'esse dialecto, so mais regularmente formados, apezar do
capricho que presidio em geral  sua conjugao, as analogias mais
frequentes, as phrases mais completas.

 por esta razo que os brancos do districto aprendem de preferencia a
maneira do fallar dos terenas, e os comprehendem com mais facilidade.

Na lingua guaycur existe uma particularidade interessante: os homens
fallo por certo modo, as mulheres por outro. Entre os guans esta
differena existe, porm no se estende a toda a phraseologia.




VOCABULARIO DA LINGUA GUAN OU CHAN


A


PORTUGUEZ                       GUAN

Abobora                         Cam.
Aborreo                        Bpi.[96]
Acarus (bicho da sarna)         Tchetch-uahat (filho da sarna)
Adeos                           Binne.
Agua                            Unn.
Agulha                          Tp.
Ai! (exclamao)                Vi, ou acaci.
Aipim                           Tchup.
Aipim (secco)                   Catch.
Alda                           Ptiuc.
Alegre                          Elloket.[97]
Amanh                          [-A]rti.
Amar                            Gch.
Anta                            Maina-cam.[98]
Anus                            Cicic.
Aonde vai?                      Nin?
Aprender                        Cequechiv.
Aracuan (passaro)               Uarag.
Arra                           Parau.[99]
Arroz                           Nacac.
Arvore                          Tagat.
Avental                         Julta.


B

Bala                            Poit-akt.
Banana                          Bnana.
Barba                           Ingueni.
Barriga                         Djur.
Bebamos                         Venut.
Beber                           Venu.
Bebo                            Venuond.
Beijo (entre os guans)         Inn.
Beijo (entre os terenas)        Inn.
Beijo (entre os quiniquinos)   Soquir.
Bezerro                         Tchetch-uac.
Biu branco (passaro)           Veragajn.
Biu preto                      Veragai.
Boca                            Bah.
Bocado                          Iapi-tch.
Boi                             U-i.
Bom                             Unat.
Bonito                          Unat.
Borboleta                       Uac-vac.
Bority                          Maina hrena.
Brao                           Dak.
Bugio                           Coxag.


C

Cabaa                          Trr.
Cabea                          Duti.
Cahi                            Ingrcn.
Cahidor                         Icrcon.
Cahio                           Iricn.
Cahiste?                        Icrcn?
Cala                           Bor.
Camisa                          Iembn.
Campo                           Mehm.
Canella                         G-tch.
Canado                         Meom.
Co                             Tamuc.
Capoeira                        Iomoikneti.
Cara                            Nn.
Carand (palmeira)              Hrena.
Casa                            Pti.
Casar                           Ongino.
Cascavel                        Ipc.
Cateit                         Couc.
Cavallo                         Cam.
Cachaa                         Cum-.
Co                             Uanuk.
Cerrado                         Chopotcoti.
Cervo                           U-i-j.
Cho                            Pok.
Chro                           Inhondi.
Chover                          Ennuc.
Chumbo                          Aket.
Chuva                           Uc.
Cobra                           Coit-ch.
Coitado                         Quixau.
Colhr                          Tchurup.
Come                            Nik.
Comer                           Ning.
Comida                          Nicoconti.
Comida (entre os quiniquinos)  Nicning.
Como                            Cuti.
Conhecer                        Indj.
Conheces?                       Ietch.
Copular                         Capi.
Corao                         Ommindjn (j espanhol).
Corpo                           Munh.
Corrego                         Notoag.
Corta (imperativo)              Tetuc.
Cortar                          Tetcoti.
Cortaste?                       Iattuc.
Cxa                            Djur-kun.
Criana                         Calliun.
Cuia                            Poc.
Custar                          Cic.
Custar (entre os quiniquinos)  Occor.


D

D-me                           Prtch.
Dar                             Boritch.
Dedo do p                      Guiiri-djv.
Deita                           Imc.
De mim                          Nuti.
Dente                           Onu.
Deos                            Iandear.
Deos                            Ech[-a]iunuk.
Depois                          Poin.
Depois d'amanh                 Poin-arti.
De tarde                        Kiactche.
Devras                         Quti.
Dia                             Ctche.
Diga                            Ioc-iucu.
Digo                            Ge.
Dinheiro                        Ararapeti.
Doente                          Carineti.
Dormes?                         Im-con?
Dormir                          Mngoti.
Dou                             Boritch-pi.
Dourado (peixe)                 Achunaga.
Dous                            Ptcho.


E

Egoa                             Sen-cam.
Ema                              Kip[-a].
Espada[100]                      Ann[-a]iti-pirito.
Espelho                          Nochigueti (sc. olhador)
Espingarda                       Capui-igapt.
Espirrar                         Andiicot.
Esposa                           Ino.
Escravo                          Hangah.
Est aqui                        Anne.
Ests alegre?                    Ellketi-icou?
Est alegre                      Ellketi-cou.
Estou alegre                     Ellketi-ongu.
Ests bom?                       Inati?
Estou bom                        Unnand.
Ests canado?                   Meom?
Estou canado                    Memond.
Ests com fome?                  Ep-cati-cimgati?
Estou com fome                   Hap-can-cimgati.
Est no cho                     Anng pok.
Estrella                         Hqur.
Eu                               Ond.
Excrementos                      Ciqu.


F

Faca                             Piritu.
Fallo comtigo                    Iundz[-a]i-cop.
Farinha                          Tutup[-a]i.
Farinha (entre os terenas)       Ramuc.
Faze                             Ittic.
Fazer                            Ittuket.
Febre                            Tchikiit.
Feio                             Cunati (sc. no bonito).
Filho                            Tchtch.
Fogo                             Iuc.
Fouce                            Tchpilcoti.
Frio                             Cssati.
Fumo                             Tchhm.


G

Gallinha                         Tpih.
Gallo                            Oin-tapih.
Garrafa                          Limet.
Gato                             Maracai.[101]
Gordo                            Knnati.
Gostar                           Gch-.[102]
Gostas?                          Queach?
Gostas de mim?                   Queach-nuti.
Gosto                            Gch.
Gosto de ti                      Gch-piti.
Gostoso                          Uchet.
Grande                           Anniti.
Guan (tribu)                    Uan _ou_ Tchur-n.
Guaycur                         Uaicur _ou_ Mipen.


H

Historia                         Chti.
Hoje                             Cohoihnn (os _h_ aspirados).
Homem                            Oin.
Hontem                           Tiip.


I

Idioma (lingua)                  Nhumdz.
Irm (entre os terenas)          Hal.
Irmo (entre os terenas)         Ll.
Irm mais velha                  Luk.
Irm do meio                     Mogutch.
Irm mais moa                   At _ou_ Annd.
Isto                             Aar.


J

Jabur (passaro)                 Cj.
Jac-tinga (passaro)             Maina-uarag.
J foi embora                    Pinne.
Jaty (mel de abelha)             Tchul-tchul.
J veio                          Anng.
Ja (peixe)                      Muiti.
Joelho                           Bui.


L

Lagarto                          Iuni.
Laina (indio)                   Liana.[103]
Lambary (peixe)                  Chivup.
Lavar                            Angicuot.
Lavemo-nos                       Uachicap.
Linguagem                        Iundz.
Lingua                           Nahn.
Lua                              Co-tch.


M

Machado                          Phti.
Macho                            Oin-muric.
Maduro                           Itunn.
Me                              Mm.[104]
Me                              Henn.
Mais                             Po.
Magro                            Uporit.
Mamma                            Inn.
Mandary (mel)                    Ror.
Mo                              Cunati.
Mo                              Uon-hm.
Marido                           Imm.
Matar                            Inzucti.
Mato                             U-hi.
Mecher                           Ivirik.
Meche (imperativo)               Ivirik.
Mel                              Mp.
Melancia                         Andi.
Menos                            Callinna.
Mentira                          Ninic.
Menstruo                         Ittin.
Meu                              Indugu.
Milho                            Tuup.
Miolo de palmeira                Namuculi.
Milho ffo                       Sbr.
Muito (adverbio)                 Opicoati.
Muito (adjectivo)                Tapui.
Muito bom                        Unati-tcho.
Muito gostoso                    Uchti-tcho.
Mula                             Sen-muric.
Mulher                           Sen.
Mutum                            Maina-uatut.


N

Nadar                            Alaongati.
No                              Ac.
No custa                        Ac-cic.
No custa (entre os
  quiniquinos)                  Ac-oc-ocor.
No quero                        Acon-gch.
Nascer                           Ipuchic.
Nariz                            Guiir.
Negro                            Hahti.
Ninho                            Nc.
Ns                              Uut.
Nosso                            Utigu.
Noute                            Ihot.[105]
Nuvem                            Capac.[106]


O

Olhos                            Ungu ou uk.
Ona                             Sni.
Orelha                           Ingun.


P

Padre                            Cchmnet.
Pae                              Tat.
Palmito                          Momon.
Papagaio                         Cor.
Panella                          Tchrn.
Parente                          Inhn.
Parente                          Iningn.
Passaro                          Chohopenn.
Passeiar                         Iapacic.
Pato                             Pohah.
P                               Djv.
Pega isto                        Oi-aar.
Peito                            Djah.
Peixe                            Choj.[107]
Pensar                           Iquich.
Perdiz                           Itidich.
Perna                            Gn.
Pescoo                          Annm.
Penis                            Ki.
Pennas                           Kipah.
Pimenta                          Tit.
Pinto                            Tchtcha-tapihi.
Piolho                           An.
Pirapitanga (peixe)              Araraitti-iss.[108]
Piriquito                        Tchul-tchul.
Polvora                          Poit.
Porco                            Gr.
Porco do mato                    Kimo.
Prato                            Uut.
Preguioso                       Tchulketi.
Prompto                          Oon.
Pulga                            Anatamac.[109]


Q

Quando                           Naman.
Quat (animal)                   Ctch.
Quebrar                          Heocoti.
Queixo                           Nnh.
Quem sabe?                       Em?
Qente                            Ctot.
Quero                            Gch.
Queres?                          Queach?
Queria                           Gcha-nin.
Quiniquino                      Koinu-kun.[110]


R

Rapaz                            Omohehu.
Rede                             Toit.
Regrada                          Ittin.
Remar                            Ivirik.
Rio                              Uh.


S

Saber                            Indj.
Sabes?                           Itchoa.
Sangue                           Iti.
Sapo                             Trum.
Sarna                            Uahat.
Saudades                         Inangur.
Seu                              Iut ou i.
Sentar-se                        Iavapoqueh.
Seriema (ave)                    Uatut.
Siga (imperativo)                Tchic.
Sobrancelha                      Indjuk.
Sol                              Ctche.
Soldado                          Andru.
Sombra                           Epugp.
Sonhar                           Chapuchat.
Sonhas?                          Chaputchn.
Sonho                            Indja-putchat.
Sovaco                           Umbkcu.
Sucury                           Oinaga.
Suruby (peixe)                   Appaga.[111]
Sua                              Itigu.


T

Tat                             Copoh.
Taquara                          Hetgati.
Temos                            Hape-ut.
Temer                            Bicutine.
Tens?                            Iap?
Ter                              Hap.
Terna                           Trena.[112]
Terra                            Marihpa.
Testa                            Inuc.
Tolo                             Ietr.
Tomar                            Mambat. Namac.
Touro                            Tr.
Trazer                           Iaman.
Tres                             Mopo.
Trovo                           Unobot.
Tu                               Iti.


U

Um                               Poichcho.
Umbigo                           Unr.
Unha                             Djiip.
Urub                            Uarutut.


V

V                               Pehehvo.
Vamos comer                      Nicotiti.
Vamo-nos embora                  Pehoti.[113]
Vamo-nos lavar                   Uachicap.
Vs buscar?                      Viapna?
Veado                            Tiip.
Veio (do v. vir) entre os
  quiniquinos                   Simn.
Vem c                           Ic.
Vento                            Onauot.
Verde                            Aitap.
Via lactea                       Chamc.
Vim (entre os quiniquinos)      Simn.
Vim (para ficar)                 Intzioponn.
Vim (para voltar)                Indzimonn.
Voc                             It.
Vou buscar                       Veaponot.
Vou-me embora                    Bohopon.
Vulva                            Ius.

       *       *       *       *       *

No incendio e saque de Nioac, a 2 de Junho de 1867, perdemos um
diccionario guan com perto de dous mil vocabulos. Nos papeis que
encontrmos esparsos pelo campo e podmos ajuntar, achavo-se algumas
folhas com as palavras, ainda no em ordem alphabetica, d'este
incompleto vocabulario.


       *       *       *       *       *


*Algumas indicaes*

Os pronomes possessivos isolados so:


Indugu                          Meu
Itigu                           Teu
Iuti ou i.                      Seu
Utigu                           Nosso


Entretanto so quasi sempre contrahidos nas palavras, como por exemplo:


_Possessivos da 1^a pessoa_     _Possessivos da 2^a pessoa_

Minha cabea      Duut.        Tua cabea      Totih.
Minha testa       Inuc.        Tua testa       Inic.
Meu nariz         Guiir.       Teu nariz       Quiir.
Minha boca        Bah.         Tua boca        Pehah.
Meu dente         Onu.         Teu dente       Iaho.
Meu queixo        Nnh.        Teu queixo      Nei.
Meus olhos        Ung.         Teus olhos      Iuuk.
Minha orelha      Ingun.      Tua orelha      Kein.[114]
Meu corpo         Munh.        Teu corpo       Mui.
Meu pescoo       Anm.         Teu pescoo     Ianm.
Meu brao         Dak.         Teu brao       Tiak.
Meu peito         Djah.        Teu peito       Tchin.
Minha mo         Uonhm.       Tua mo         Vea.
Minha barriga     Djur.        Tua barriga     Iur.
Minha cxa        Djur-cun    Tua cxa        Chir-cun.
Minha canella     Gtch.       Tua canella     Guetch.
Minha casa        Imben.       Tua casa        Pin.
Meu p            Djv.        Teu p          Hin.
Meu dedo do p    Quiri-djv.  Teu dedo do p  Kiriv.
Meu filho         Indjtch.    Teu filho       Tchi-tch.
Nossa casa        Vuvog.


Os possessivos da terceira pessoa so quasi sempre formados com os
pronomes _i_.

       *       *       *       *       *

Os adjectivos numeraes vo s at tres:


Um                               Poichcho.[115]
Dous                             Pitcho.
Tres                             Mopo.


Os indios continuo presentemente[116] com as palavras portuguezas,
algum tanto adulteradas:


Quatro                           Utro.
Cinco                            Cinqu.
Seis                             Sis.
Sete                             Site.
Oito                             Otcho.
Nove                             Nie.
Dez                              Ice, etc.


       *       *       *       *       *

Os pronomes pessoaes so os seguintes:


Ond  eu.    It  tu.    Uut  ns.   N  elles.
             Nut  de mim.   Ni  de ti.


Com os verbos emprega-se a particula _pi_ em lugar de _ondi_. Esses
pronomes vo sempre depois do verbo.

       *       *       *       *       *

A conjugao dos verbos  irregularissima e difficil seno impossivel.
So sempre defectivos.


PRESENTE DO INDICATIVO DO VERBO TER (HAP)


Eu tenho                         Hap ond.
Tu tens                          Iap.
Elle tem                         Hap.
Ns temos                        Hap ut.
Elles tem                        Hap no.


Para a formao do imperfeito accrescento _nini_.


Inindjoa, nini ondi              Eu tinha.
Innitchic                      Tu tinhas, etc.


Outro exemplo:


Eu quero                         Gcha pi
Tu queres                        Queach.
Elle quer                        Gach.
Ns queremos                     Gach uti.
Elles querem                     Gach n.


IMPERFEITO


Eu queria                        Gach nini ondi.
Tu querias                       Queach nini.


Nunca pude organisar a conjugao de outros tempos.[117]


Phrases e exemplos


Sonho comtigo?                        Chaputchononet (sc. penso na tua cara).

Tenho saudades de ti                  Inangor gopi ni (sc. saudades eu _pi_,
                                        de ti _ni_).

D-me noticias                        Itic chet (sc. faze historia).

Nada sei                              Ac ndja.

No ests contente?                   Ac elloket?

O que tens? Ests incommodado?        Cuti iap? Callina unat?

Estou doente dos olhos                Carineti uk (sc. doente olhos)

Desde muitos dias?                    Tpui ctche?

Desde ante hontem                     Poin tiip.

Coitada                               Quixau.

Adeos                                 Binne (Eu vou indo).

Adeos                                 Pehehvo (Pois v).


       *       *       *       *       *


Ests com fome?                       Ep cati cimagat?

Sim                                   Aspirao guttural no exprimivel.

Senta-te e come. Toma arroz com       Iavapoqu, nik. Vi nacac cuan uac.
  carne. Queres farinha?                Queach ramuc?

No, senhor: quero aipim e aboboras.  Ac, uni: gach tchup ioc cam.

Traz facas e farinha.                 Iaman piritu, cuan ramuc.

O seu jantar est muito bom. Sua      Unati nik. Cuti chot itucati
  mulher sabe cosinhar muito            nica ien. Au ning onuong
  bem: na minha casa nunca              cuti ionog.[118]
  comi assim.

Come mais ento.                      Nik, igop.

No, obrigado. Agora quero agua       Ac monduan. Poine unn
  e vou-me embora                       gach. Behoptine.

Quando has de vir?                    Nam kenaac.

Outro dia                             Poinu ctche.

Quem sabe se amanh?                  Etchune coec arti.[119]

 facto                               Ennmone.


       *       *       *       *       *

_Pois_ e _porm_ vo sempre depois da primeira palavra, exemplo: pois
toma; _nemuc_ toma, _cop_ pois; porm come; _nik_ come _copo_ porm.

Quando, _naman_, vem sempre antes. Quando has de vir? _Naman kinok_.




NOTAS


A

J tivemos a occasio de dizel-o officialmente: a estada do Coxim foi um
lento martyrio, no qual todos extremro em resignao e calma. A esse
respeito diziamos, depois de examinarmos as fontes de abastecimento que
poderio fornecer viveres ao acampamento do Coxim e reconhecermos a
impossibilidade em que se achavo de satisfazer tal compromisso:

N'este estado desesperado a fora achou-se a braos com a mais completa
mingoa. Reduzida a simples carne, por espao de mais de mez, muitas
vezes faltou-lhe aquella alimentao exclusiva, que deu em resultado o
apparecimento de varias molestias. Os generos de primeira necessidade
chegro a preos exorbitantes, aproveitando-se a ganancia e o espirito
de lucro abusivo, da desgraa, a que todos se vio reduzidos. Um
conjuncto, comtudo, de factos to tristes fez mais realar as virtudes
que impero no soldado brasileiro, patenteando o seu caracter
eminentemente soffredor e resignado, a subordinao e disciplina, que
lhe so naturaes.

Depois de dias, em que nada se distribuia, nenhuma queixa se erguia,
nenhuma exigencia se ouvia: todos se penetravo das difficuldades que
presidio a qualquer providencia que tomar, e calmos esperavo pelo que
lhes reservava a sorte. No nos compete a apreciao dos factos que
dero em resultado esta ordem de cousas: consignamos simplesmente as
phases por que passou a expedio, nas quaes sempre presencimos o
comportamento altamente recommendavel do pessoal que a compunha;
galhardo nas marchas e prompto para todos os trabalhos, supportando,
emfim, as maiores privaes, a que pde ser sujeito o homem na guerra,
sobretudo nas condies difficeis, que proporciono distancias immensas
e sertes inhospitos. Depois da mais penosa marcha por centenares de
legoas, rodeada de perigos e incommodos, na qual de continuo lutava-se
com circumstancias imprevistas, acompanhadas de innumeras afflices,
veio a estada prolongada do Coxim pr  prova a abnegao e o sentimento
intimo do dever, de que tantos exemplos brilhantes tem dado o
brasileiro, que enverga os distinctivos da vida de privaes e de
soffrimentos. Relatorio geral da commisso de engenheiros nas foras em
operaes ao sul da provincia de Mato-Grosso, 1866 pag. 48 (Annexo ao
relatorio do ministerio da guerra, 1867).

Quadro exacto da triste situao que apresentava a expedio de
Mato-Grosso, atirada a um canto da provincia, que vinha soccorrer,
reduzida  inaco por obstaculos invenciveis de um lado, do outro pelos
poucos meios, de que dispunha, para, smente sobre si, emprehender a
offensiva. De nenhum consolo lhe servia o titulo pomposo, com que, a
pedido, a havio agraciado. _Foras_ lhe faltavo; _operaes_ era uma
ironia cruel para um espirito philosophico e o sul da provincia de
Mato-Grosso  to vasto, to medonhamente erriado de difficuldades,
sobretudo n'aquella poca, quanto o ero os sinistros paes da Germania
em que se abysmro as bizarras legies de Varo. Assim, pois, no nos
illudiamos sobre o presente; e o futuro, como derivao natural, no nos
abria horisontes de flres.


B

Na viagem, que levmos, nunca podmos fazer seno estudos perfunctorios
d'aquillo que acompanha o caminho: da vegetao s vimos a fita que
segue o trilho, em mineraes, s o que se achava em seu percorrer. Por
isto no nos julgamos habilitados para avanar uma proposio fixa e com
fora de regra; entretanto, certo cuidado na observao permitte termos
por certo um facies especial, que distinga, mais ou menos, os _cerrados_
de S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz e Mato-Grosso, que fomos atravessando.
Na primeira d'estas provincias pareceu-nos predominarem as _cassiaceas_
e _terebinthaceas_; na segunda, ao menos na nesga que atravessmos,
_myrtaceas_, na terceira, especialmente _malpighiaceas_ (murecys) at a
villa dos Aboboras, e, d'ahi por diante, de envolta com ellas, uma
_myrtacea_, a _cagaiteira_. Em Mato-Grosso, para os lados do Piquiry, a
quantidade de _guabirobas_ nos cerrados  prodigiosa, e, entre o Coxim e
o rio Negro, na zona em que nos achavamos, figuro com especialidade os
_aratics_ e _rollinias_. Em todos os _cerrados_, todas aquellas
familias se acho representadas, porm o que procuramos fazer notar,  o
predominio de uma d'ellas ou pelo menos o de um genero.

Debaixo do ponto de vista do desenvolvimento, em iguaes condies
apparentes, os mais vistosos so os de Mato-Grosso; os menos, os de S.
Paulo: ahi chega o aspecto d'elles a ser seno desolador, ao menos
contristador. Talvez lhe achemos a causa na maior frequencia de
queimadas de campos, que annualmente so feitas, na approximao das
chuvas.

Os terrenos arenosos apresento os mesmos typos botanicos; entretanto,
mais desenvolvidos do que nos argilosos. Os areaes entre Bahs e Coxim e
nas immediaes de Sant'Anna do Paranahyba so prova do que avanamos;
assim tambem certos pontos da provincia de Goyaz, quasi ao chegar 
villa das Dres do rio Verde (Aboboras).

Nos verdadeiros cerrados at Mato-Grosso, observmos a pouca frequencia
das _melastomaceas_, comtudo to facil de distinguir. Ao entrar, porm,
n'essa provincia, torno-se ellas muito frequentes, apresentando bellos
exemplares, pelo seu desenvolvimento geral.

Em todos os cerrados sempre notmos a bem conhecida _canella de ema_.

As arvores dos _cerrados_ so quasi todas tortuosas; a casca sempre
escamosa, fendida irregularmente, grossa, merecendo por isso muitas
d'ellas o nome de _jacars_, devida, ao que nos pareceu,  aco annual
do fogo que provoca esse desenvolvimento do _liber_, obstaculo 
carbonisao que permitte ao vegetal poder continuar o seu penoso
crescimento. As _cassias_, sobre todas, so notaveis por essa alterao
da camada cortical.


C

A folhagem verde-escura da _mauritia_, abre-se como um leque, sustentado
por longos peciolos alveolados no topo de um estipite liso e pardacento
claro, no qual se noto os traos parallelos formados pela quda das
voltas semi-amplexicaules das folhas. Ao lado d'aquella formosa
monocotyledonea, a _macaybeira_ (acrocomia sclerocarpa) parece acanhada
e fica completamente offuscada; das palmeiras, cujas folhas so todas
revestidas por foliolos, a unica que rivalisa em elegancia e altaneria 
o _auass_ que os guaycurs chamo _chatelld_.

Do bority extrahe-se um succo saccharino, usado, depois da fermentao,
como bebida e do qual se pde tirar excellente assucar, como o fez um
official das foras. Os fructos do em compridos cachos; so ovoides,
com casca rija, amarello-avermelhada, escura e brilho metallico, todos
cobertos por escamas rhomboidaes, que encobrem uma polpa pouco saborosa,
ainda quando preparada com assucar. A amendoa acha-se n'uma loja
monospermica. Em pocas de fome, de muito servro aos soldados que
procuravo no s os ccos, em concurrencia com as arras, como em razo
do milo que chupavo com grande gosto. Os boritys so sempre indicio de
agua, nascendo s em lugares humidos.

No caminho para Uberaba apparecem, pela primeira vez, no pouso dos
Boritys (a 84 legoas do littoral), nas proximidades do rio Grande,
divisa entre as provincias de S. Paulo e Minas. D'esse ponto em diante,
acompanho a trilha, que seguro as foras, atravessando Minas, Goyaz e
Mato-Grosso. At o rio Negro, a abundancia de boritys  extrema; d'ahi
por diante, vo-se tornando menos frequentes e, para os lados de Nioac e
sul do districto de Miranda, vem-se raramente.


D

Comprehendendo, de ante-mo, as difficuldades com que lutario os nossos
collegas na promptificao de canas, sem as ferramentas precisas nem
trabalhadores habilitados, fizemos lembrada a conveniencia em
transportar aquella barca para junto quelle rio. As nossas previses
realizro-se completamente e os obstaculos que embararo os
engenheiros, no desempenho da commisso a este respeito, justificro a
importancia que haviamos dado quella conduco.


E

O _aucury_, do genero attalea, affeia, como os boritys, os lugares
humidos, apparecendo s n'aquelles que so commummente encharcados. O
seu aspecto  baixo; o estipite fino, s vezes engrossando
extraordinariamente junto ao coroamento das folhas, as quaes tem longos
foliolos delgados. Os fructos (cujos ccos tem 3 bagas monospermias) com
uma bonita cr amarello-alaranjada, e revestidos por uma casca
filamentosa (que no tem mo sabor, sobretudo assada), do em cachos,
que s vezes pendem junto ao cho, servindo de pasto aos porcos do mato,
que os procuro com avidez.

Por isso, quando atravessavamos os aucurisaes do rio Negro, onde a
abundancia d'esses ccos era extrema, grandes varas de _queixadas_
(dicotyles labiatus) fugio diante de ns, sendo facil a um dos soldados
derribar alguns d'elles.


F

Qualquer depresso de terreno, qualquer encontro de declives
transforma-se n'essa zona em profundas sanjas, que quasi sempre vro em
escoantes para os rios. Eis a _corixa_ ou o _corixo_.

A reteno da agua, por muitos mezes, desenvolve ento uma vegetao
palustre no meio de moutas de capim, reunindo-se n'ellas frequentemente
as terriveis _piranhas_ (myletes macropomus), que torno essas passagens
perigosas, pelos lados do Piquiry.


G

A qualidade de mel que d o jaty  boa, perfumada e clara; entretanto a
quantidade  commummente muito diminuta.

A colma  no tronco das arvores, quasi sempre junto ao cho. Pelo
contrario, sempre na parte superior, na _dichotomia_ ou bifurcao de
ramos, faz o seu cortio a abelha _mandory_ ou _mondori_: _mond_,
colher, _ira_, mel, o qual  superior ao do jaty, rivalisando com o do
_cacheta_ em sabor e limpidez. A abelha _mandory_  especie grande,
preta, rajada de amarello.

Seguem-se em qualidade: o _achup_ (grande e preta), o _sanharo_, o
_bor_ (grande e amarella), o _uru_, o _lambe-olhos_, etc.

D'essas abelhas, fomos, no seguimento da viagem, encontrando individuos.
Alm d'isso frequentes arvores, cortadas nos lados do caminho,
mostravo-nos a copiosa colheita que fazem os indios, os quaes,
justamente n'aquella poca, recolhio o mel para fermental-o, o que d
lugar s festas religiosas, em que estavo empenhados, quando chegmos 
alda da Piranhinha.


H

Levavamos ento um chapo que comprramos na alda: era de palha de
_carand_ (copernicia cerifera), e muito bem tranado. Esta palmeira,
bastante frequente no norte da provincia,  mais rara no districto. Pela
primeira vez a tinhamos visto quasi ao chegarmos ao Tabco, occupando um
vasto barreiro com lindos specimens, cujo aspecto era-nos totalmente
novo. Mais alto que a _carnaba_, com quem tem muitos pontos de relao
(se no fr ella propria), com estipite, porm, mais fino e ligeiramente
flexuoso, tem as folhas supportadas por longos peciolos erectos, que
frmo um coroamento em leques, como o do _bority_, mas cujos foliolos
so rigidos e terminados por pontas espinhosas.

A reunio de muitas d'essas palmeiras, cujo tronco  aproveitado para
construco de casas e curraes, cuja palha  muito utilisada para
chapos e cujos fructos, pequenos e em cachos compridos, do algum
azeite, chama-se um _carandal_.

Ahi frmo ellas moutas compostas de palmeiras rasteiras, no meio das
quaes surge alguma mais desenvolvida, levando agarrados cips e
parasitas, que vivem nos sulcos das folhas cahidas.

Algumas nopaleas, sobretudo a _opuntia_, com o aspecto to original, e
uma ou outra dicotyledonea, cuja folhagem agrada tanto pela disparidade,
constituem, ao redor dos elegantes _carands_, grupos, como que
arranjados pela mo artistica de algum horticultor intelligente.

O _carand_, que vimos pela primeira vez perto da Piranhinha, apparece,
com abundancia, entre Nioac e a colonia de Miranda. Talvez, no districto
de Miranda, posso ser, por meio de linhas longitudinaes, assignaladas
tres zonas de palmeiras predominantes: a dos _boritys_, do Coxim  villa
de Miranda; dos _carands_, da villa  colonia de Miranda, e das
_macabas_; da colonia ao Apa.


I

Nas proximidades do Aquidauana e na localidade de refugio no cimo da
serra de Maracaj, distante d'aquelle rio cinco legoas, vimos em _aves_,
alm das mencionadas: na familia dos _accipitres_, muitos _urubs_
(percnopterus jota), alguns dos quaes completamente brancos
(urubutingas) _gavies_ e innumeros _caracars_ (polyborus chimango) que
esvoaavo, com estridentes pios, por cima das queimadas, para agarrarem
as cobras e reptis, acoados do fogo. Na familia dos _trepadores_,
avistmos: a _arara azul_ (ara ararauna) com as costas e cauda azul,
peito amarello-alaranjado, a _vermelha_ (ara aracanga), a _rxa_ (ara
hyacinthinus),  qual convinha mais o epitheto de ararauna (arara
preta), cr que, de longe, parece ter; _tucanos de papo branco_
(rhamphastos toco) especie grande e rara, de _bico preto_ (rhamphastos
ariel), _de papo amarello_ (ramphastos discolorus), que so derribados,
mal lhes toque um bago de chumbo o bico: nas arvores, o desconfiado
_alma de gato_ (coccyzus cayanus) se esgueirava ligeiro por entre os
galhos e o lindo _jacamacira_ (galbula viridis) n'elles pousava
gravemente, emquanto os _pica-pos_ (picus melachloris, robustus, etc.)
em zig-zag se atrepavo, agarrados aos troncos. Entre os _passaros_
figuravo os _sabis_ (turdus flavipes, _una_, e rufiventer,
_larangeira_), o _bemtevi_ (tyrannus sulphuratus), o _serra-serra_
(carduelis nitens), o _canario da terra_ (carduelis brasilienses), o
_avinhado_ (pitylus nasutus), os _caranas_ ou _virabostas_ (icterus
violaceus) os mais animados e barulhentos cantores do serto, os
_encontros_ (xanthornus tristis) e muitos outros notaveis pela plumagem
e canto que no conheciamos e viamos pela primeira vez.

Nos campos ha poucas _perdizes_ e _codornizes_: na planura de cima da
serra no as vimos: em compensao, a volateria  sobremaneira
importante em outras qualidades, como j mostrmos.

Entre os _reptis_, alm dos _ophidios_ j apontados, avulta o _lagarto_:
os _bactracios_ so os conhecidos geralmente.

Entre os _insectos_ todas as subdivises so mais ou menos bem
representadas: entre os _nevropteros_ apparece com abundancia o _trmes_
(cupim), nos _hymenopteros_, muitas especies de _maribondos_, de
_formigas_ e _abelhas_: poucos _lepidopteros_: nos _dipteros_ muitos
_mosquitos_, _muriocas_, _mucuins_ ou _polvoras_, _moscas_, etc., em
alguns pontos do rio, em outros so rarissimos.

Entre as _arachnides_, no pode ser esquecido o _acaride-arachnide_,
_carrapato_ (ixodes) um dos grandes incommodos de quem viaja pelas
matas. No Aquidauana eramos flagellados pelo _rodeleiro_ ou _estrella_
(especie grande), _ruivo_ (especie menor) e _piolho de gallinha_
(especie mui pequena).

N'um dos affluentes do Aquidauana encontrmos curiosos molluscos, com a
conformao do _mechilho_ (mytilus) e com o interior da costa calcarea
brilhante, a modo de madreperola. O Pacheco e o Valerio, diz uma de
minhas notas de viagem, affiano que, em certo ponto do rio Paraguay,
ha muitos d'esses restos, sendo at uma bahia denominada das _Conchas_.
Achmos tambem d'essas conchas no ribeiro do Euagaxigo, a 3-{1/2}
legoas da villa de Miranda.




APPENDICE




APPENDICE


Memoria descriptiva do reconhecimento do caminho entre os rios Taquary e
Aquidauana, feito pelos engenheiros capito bacharel Antonio Florencio
Pereira do Lago e 2^o tenente bacharel Alfredo d'Escragnolle Taunay,
ajudantes da commisso de engenheiros junto s foras em operaes no
sul da provncia de Mato-Grosso.


I

Explorao entre os rios Taquary e Negro


No dia 13 de Fevereiro passmos, defronte do acampamento goyano, o rio
Taquary e margeando-o  esquerda, fomos, pela necessidade de descano em
consequencia do grande nado a que tinho sido obrigados os animaes,
pousar junto ao ribeiro da Fortaleza, com 20 minutos em tempo de
distancia percorrida. A sua margem esquerda  escarpada e necessita ser
rampada para a descida de carros; a direita  baixa e arenosa como o
alveo d'este tributario do Taquary, que, depois de grandes chuvas, nega
passagem a vo. Conta de largura 50 palmos, de profundidade 3, 1-{1/2}
por segundo de velocidade e a elle segue-se uma mata onde existem varias
rampas que podem ser facilmente vencidas. Deixando pelo lado esquerdo o
Taquary e seguindo parallelamente ao seu confluente, o Coxim, que, pouco
depois, desapparece, comemos a acompanhar o Taquary-mirim, o qual ora
afasta-se, ora approxima-se muito perto do caminho, transpondo-se com 32
minutos de marcha um pequeno corrego, cujas ribanas necessito ser
modificadas, e d'ahi a 43 milhas, outro nas mesmas condies. Com mais
41 minutos passmos um ribeirinho cujos barrancos devem ser cortados
para facilitar a passagem, e pouco depois chegmos  cachoeira do
Taquary-mirim (pouso dos Boritys), junto  qual existem vestigios de um
acampamento dos paraguayos e onde pernoitmos.

A distancia percorrida foi sempre em terreno secco, de base
argilo-arenosa, entre cerrados em que predomino _anonaceas_ (aratics
do campo) e varias especies de _byrsonima_: o caminho  uma simples
trilha, muito visivel porm e sempre seguido.


Tempo gasto                      4 horas e 32 minutos.
[120]Distancia percorrida        8,265 braas, ou 2-{3/4} legoas proximamente.


Deixando o pouso dos Boritys que offerecer um acampamento regular para
as foras em marcha, com 36 milhas de marcha fomos ter ao corrego da
Porteira, a 77 minutos do qual passmos outro, chegando ao ribeiro da
Mata depois de caminharmos mais 95 minutos. A 50 braas antes d'esta
corrente, existe um terreno baixo que ha de tornar-se alagadio com a
continuao de chuvas, podendo ser praticada, n'este caso, uma extensa
estiva pelo muito mato, que cobre as margens do ribeiro.

O leito d'este  arenoso; a largura mdia de 50 palmos, 2 de
profundidade, chegando a negar vo no tempo de grandes enchentes. Ahi
podro acampar as foras depois de ter sido facilitada a passagem,
rampando-se a margem esquerda.


Tempo gasto                      4 horas 0 minutos.
Distancia percorrida             7,285 braas, ou 2-{8/2} legoas proximamente.


A 16 minutos do ribeiro da Mata, existe uma casa abandonada, proxima a
um capo, denominado Tapera, assim como o corrego, que, pouco adiante,
dirige-se para E. entre margens pouco firmes, permittindo porm a
proximidade do mato fazer-se de prompto uma estiva para a passagem de
cargueiros e carros. D'ahi a 8 minutos passmos um pequeno pantano de 30
braas, que pde dar boa passagem, se as chuvas no augmentarem e o
tempo tornar-se secco; devendo ser este espao estivado no caso
contrario. Continuando, atravessmos o ribeiro Claro, cujas margens
altas e nemorosas preciso ser melhoradas, com leito pedregoso, largura
de 35 palmos e profundidade de 1-{1/2}. Depois de chuvas continuadas
impede o transito. Depois de 110 minutos chegmos ao ribeiro Verde que
tem margens abruptas, cobertas de mato, leito de grandes lages, vo
pessimo para a passagem de animaes carregados. Tem de largura 65 palmos,
3-{1/2} de profundidade, augmentada porm, durante as aguas, a ponto de
vedar o transito.

A fora pde acampar em sua margem direita depois de rampados os
barrancos que encano este ribeiro.


Tempo gasto                      3 horas 0 minutos.
Distancia percorrida             5,463 braas, ou 1-{1/3} legoas proximamente.


Sahindo do ribeiro Verde, passmos com 63 minutos de marcha um bosque e
d'ahi a 30 minutos a mata ou capoeira do Major com abrupta descida que
vai ter a um pantano, em que gastmos 5 minutos, seguindo-se nova mata e
outro almargeal cortado tambem por mato. O terreno comea a subir:
torna-se pedregoso e entra-se no Porto de Roma: pessima e difficultosa
passagem embaraada com grandes lages e rochas que se acho na trilha
que serve para a viao. As carretas dos paraguayos passro por este
desfiladeiro: entretanto ser necessario um trabalho preliminar ou um
desvio para conseguir-se facil transito. Continuando a caminhar,
margemos um lugar pantanoso logo abaixo do serrote e com mais 44
minutos fomos pousar no Lageadinho, onde um pequeno lagrimal d agua em
toda esta estao.


Tempo gasto                      3 horas e 49 minutos.
Distancia percorrida             6,951 braas, ou 2-{1/4} legoas proximamente.


Deixando o Lageadinho, passmos um lagrimal depois de 65 minutos de
marcha e com mais 65 o corrego do Castelhano, entrando d'ahi a 15
minutos n'uma mata, atravessada por um filete d'agua, seguindo-se
outras, cortadas, de distancia em distancia, por campos dobrados at o
corrego da Volta, onde poder formar-se o acampamento das foras.


Tempo gasto                      5 horas e 19 minutos.
Distancia percorrida             9,683 braas, ou 3-{3/2} legoas proximamente.


Do corrego da Volta, com 41 minutos de marcha passmos n'um matagal, e
com mais 32 minutos o ribeiro do Perdigo, cujas margens ho de
necessitar de concertos para a facil transposio.

D'este ribeiro, com 44 minutos, entrmos na mata dos Jas, de 3 minutos
de extenso, onde os paraguayos deixro uma cana, que poder servir
para a passagem do rio Negro, caso seja concertada e transportada para
aquelle ponto. Com 65 minutos chegmos ao corrego da Cachoeirinha, e,
d'ahi ao corrego Fundo, gastmos mais de 40 minutos. Poder acampar a
fora, depois de feita uma estiva nas margens pouco firmes d'este
corrego.


Tempo gasto                      3 horas e 46 minutos
Distancia percorrida             6,860 braas, ou 2-{1/4} legoas proximamente.


Com 119 minutos de marcha fomos do corrego Fundo a um pequeno olho
d'agua, d'ahi a 77 minutos a um lagrimal e com mais 81 minutos ao rio
Negrinho, passando antes por um terreno baixo e alagado. O rio d vo
commodo no tempo secco: n'esta estao, porm, a profundidade  de 7
palmos, sendo a sua largura de 63. Uma arvore cahida, de uma margem 
outra, servio-nos para a passagem das cargas, e com pouco trabalho
ter-se-ha uma boa pinguela. O vo acha-se a 30 braas mais ou menos
acima do lugar em que est a arvore, subindo pela margem esquerda. O
acampamento na margem direita, depois de passar a mata,  melhor, ainda
que mais distante da agua.


Tempo gasto                      4 horas e 37 minutos.
Distancia percorrida             8,408 braas, ou 2-{3/4} legoas proximamente.


Deixando a margem esquerda do rio Negrinho, depois de passarmos pela sua
mata (onde existem depresses, chamadas _corixas_, que fico cheias
d'agua e do nado durante as enchentes), fomos ter, com legoa e meia de
viagem ao Potreiro, pequeno rancho na fazenda dos cidados Antonio Alves
Ribeiro, e Tiberio, onde no encontrmos alm do gado, que no pde ser
reunido por falta de cavalhada, recurso de qualidade alguma para a
fora, nem pessoal para trabalhar na construco de canas para a
passagem do rio Negro. D'este ponto at o rio, o caminho apaga-se quasi
completamente;  apenas uma trilha mal aberta por alguns fugitivos de
Miranda, a qual atravessa grandes pantanaes, duas corixas cheias,
charcos e mata muito cerrada. Se os meios para passar o rio estiverem
promptos, dever a fora ir acampar na margem do rio; no caso contrario,
demorar-se-ha junto ao Potreiro.


Tempo gasto                      4 horas e 48 minutos.
Distancia percorrida             8,742 braas, ou 3 legoas proximamente.


A passagem para a infantaria  sempre commoda e facil at o Potreiro;
para os carros, porm, e bagagem ser necessario rampar as margens das
correntes que atravesso o caminho e fazer estivados em differentes
pontos. Nas matas, e nos cerrados, ha pos e taquaras que embaro o
transito; pelo que dever ir, sempre dianteiro  fora, um certo numero
de homens armados de machados e fouces, para removerem estes obstaculos.
Do Potreiro, porm, ao rio Negro, at para homens a p, o caminho  de
difficil viabilidade, e necessita ser aberto e melhorado para o
transito.

Com excepo do Porto de Roma, proximidades do Lageadinho e margem dos
corregos e ribeires, os declives do caminho so sempre bons: o leito 
uma estreita trilha, argilo-silicoso, quasi sempre secco at pouco
adiante do Potreiro.

Achamo-nos hoje na margem do rio Negro, sem termos encontrado guia para
o caminho que segue a fralda da serra de Maracaj at a alda da
Piranhinha, o qual os soldados desconhecem, e vamos encetar viagem  ta
e sem indicaes certas.

Margem esquerda do rio Negro, 25 de Fevereiro de 1866.


POUSOS PARA A FORA


Ao pouso dos Boritys          2-{3/4} legoas
Ao ribeiro da Mata           2-{1/2}   
Ao ribeiro Verde             1-{3/4}   
Ao Lageadinho                 2-{1/4}   
Ao corrego da Volta           3-{1/2}   
Ao corrego Fundo              2-{1/4}   
Ao rio Negrinho               2-{3/4}   
Ao rio Negro                  3         
                             -------
             Somma           20-{3/4}   
Do rio Taquary ao rio Negro  20-{3/4}   


A planta topographica indicar outros pousos, caso no convenho estes,
e d os accidentes de terreno e direces magneticas.


II

Explorao entre o rio Negro e os Morros


No dia 25 de Fevereiro, passando o rio Negro n'uma pelota,
transportmo-nos para a sua margem esquerda, baixa, paludosa e coberta
da mesma vegetao que j tinhamos achado do outro lado. Por espao de
um quarto de legoa lutmos n'ella com os obstaculos provenientes das
enchentes do rio, sendo obrigados a novas passagens, em pelota, de
corixas cheias e pyrisaes (lugares inundados) e  marcha em terreno
sempre humido e atoladio. Abre-se depois o campo com cerrados ao longe,
e achmo-nos na base da serra de Maracaj, que era o nosso unico meio de
direco na procura da trilha, que dizio ter sido aberta pelos
fugitivos de Miranda, na invaso d'este districto no anno passado. Com
effeito avistavamos uma longa e continuada serrania que tinhamos de
deixar  esquerda, fraldejando a sua aba e fugindo s aguas que cobrio
a estrada seguida no tempo secco at o rio Aquidauana.

A questo era examinar a qualidade de terreno, em que tinhamos de
marchar e saber das vantagens da abertura de um caminho para a fora nos
seus primeiros movimentos para o Baixo-Paraguay.

Seguindo pois o rumo S., desde as primeiras horas de marcha,
reconhecemos as difficuldades que tinhamos de vencer na procura
d'aquella supposta trilha e dos vestigios da passagem, bem que recente,
de um homem a cavallo, apagadas de todo ou pelas chuvas ou pelas pgdas
do gado que vagua pelos campos, indo a final esbarrar em uma mata to
cerrada que roubou-nos boa poro do dia, no nos permittindo caminhar
mais de legoa e meia. No pouso verificmos que a carne secca, que
haviamos preparado no Potreiro para a nossa viagem, calculada em oito
dias, pelas passagens nas corixas e pela muita chuva dos dias
anteriores, achava-se de todo deteriorada. A impossibilidade de termos
recursos d'aquelle lugar, pois que a ultima poro de gado recolhido,
fra levado da fazenda do Retiro para o Coxim e a esperana de podermos
matar alguma das rezes que encontravamos, no nos permittro duvida
sobre o que deviamos resolver. Dous dias depois caminhando sempre, ora
em terreno pantanoso e atoladio, at a fralda da serra, ora em cerrados
de difficultosa passagem, achavamo-nos com todos os recursos de boca
completamente esgotados e com a certeza desesperadora da quasi
impossibilidade em matarmos  bala rezes, completamente selvagens e
ariscas.

Os nossos males crescro com a fuga de todos os animaes, o que nos
reteve nas mais crueis necessidades, junto ao corrego da Afflico,
durante dous dias nos quaes sustentmo-nos de fructos silvestres, que os
soldados podro colher. Conseguindo no terceiro dia alguns dos animaes,
proseguimos viagem deixando quatro d'elles perdidos e canastras
escondidas na mata proxima, alimentando-nos desde ento por oito dias de
milo de palmeiras e de alguns fructos do mato, soffrendo sempre chuvas
torrenciaes e contrariedades. Em todo este tempo fizemos apenas 11
legoas, apezar de andarmos dias inteiros, ora rodeando charcos
perigosos, ora abrindo picadas em cerrados de intrincadissima taqura.
Em parte alguma viamos uma trilha seguida: quando nos suppunhamos
perdidos, deparavamos algum rancho abandonado, uma arvore cortada, um
signal que indicava acharmo-nos no rumo seguido pelos fugitivos, os
quaes, sem duvida, tivero interesse em occultar os seus vestigios,
acoados dos paraguayos, que demandavo o mesmo caminho, como o vimos
pelos signaes de acampamento de foras. Tomando afinal o rumo O. fomos
trilhar a parte, transitavel hoje, do caminho do pantanal, onde podmos
dar fim aos nossos soffrimentos, conseguindo carnear uma rez. No dia 10
passmos o rio _Tabco_ que achmos de nado e, visitando no dia seguinte
o aldeamento dos indios na Piranhinha, chegmos no dia 11 ao
arranchamento do cidado Joo Pacheco de Almeida, onde tivemos
recebimento hospitaleiro e sympathico e onde nos achamos agasalhados.


CAMINHO QUE A FORA DEVE SEGUIR

No existe trilha alguma junto  fralda da serra de Maracaj. O pantanal
que vai at a base d'esta serrania  em terreno ffo e de perigoso
transito, sobretudo para grande numero de cargueiros e carros: nos
cerrados, o sap alto, capins e taquaras maltrato os infantes e cano
sobremodo os animaes. S nos principios de Maio podero, segundo
informaes de pessoas praticas, achar-se estes lugares seccos; poca em
que o caminho, chamado do pantanal, conhecido por muitos e trilhado, d
excellente passagem por occasio da retirada das aguas. A vantagem de
ser a trilha do pantanal sempre firme, no pde deixar duvida sobre o
caminho a seguir, escolhido que seja um guia, conhecedor d'estes lugares
que d indicaes dos lugares em que se encontro boas aguadas. O
_capataz_ da fazenda do _Tabco_, o cidado Antonio Maria Tonh,  muito
proprio para este servio.


CONTINGENTE PARA A FORA

_Guarda nacional._--Os guardas nacionaes, que existem debaixo das ordens
do tenente coronel Albuquerque, no podem perfazer o numero de 100:
melhores informaes sobre seu armamento, fardamento e municiamento,
teremos depois de recebermos resposta ao nosso officio de 17 do corrente
ou conversarmos com o tenente coronel commandante; o que tudo havemos de
communicar com a brevidade possivel.


_Indios._--No aldeamento dos indios terenas, da Piranhinha, encontrmos
a melhor disposio na gente do capito Jos Pedro: apresentro-se-nos
60 moos bons atiradores e proprios para servirem de excellente tropa em
sorprezas e emboscadas.

No aldeamento de Francisco Dias ha 40 homens robustos, em estado de
pegarem em armas: acho-se armados, e s lhes falta cartuxame.

Da gente quiniquino, acampada em diversos pontos, pde-se contar com 30
homens.

So ao todo 130 indios que esto no caso de servir de contingente 
fora. Falta-nos comtudo visitar, a oito ou dez legoas d'aqui, dous
aldeamentos, um quiniquino e outro laiana, que devem augmentar o numero
de homens e dar alguns alqueires de arroz e milho. quem de Miranda ha
tambem outros pontos em que existem indios foragidos.

A indole dos indios  guerreira: voto odio encarniado aos paraguayos e
esto com estes em continua guerra de emboscada, em que a crueldade e
ferocidade de ambos os lados tem trazido temor e receio reciprocos;
entretanto a inconstancia de genio e a impossibilidade em confiar na
disposio de espirito e firmeza para arrostarem no campo e de frente o
inimigo, os torna apenas proprios para atiradores em matas e
guerrilheiros.


RECURSOS COM QUE DEVE CONTAR A FORA

_Gado._--Desde o rio Negro at a Piranhinha vimos immensa quantidade de
rezes, vagando pelos campos em grandes manadas. Entretanto a
necessidade, para o fornecimento, de bons cavallos para rodear-se o
gado, obrigar  espera da terminao da peste que grassa entre os
animaes at fins de Abril, e que tem destruido toda a cavalhada desde o
Coxim at estes lugares.

Um contractador, de posse comtudo de bons animaes, poder com
facilidade, em todos os pousos da fora, reunir a quantidade precisa de
rezes nas fazendas de Joaquim Alves, Fialho, capito Pires (prisioneiro
dos paraguayos), Jos Alves de Arruda e outros.

Os cidados que pelas informaes colhidas, podero se encarregar do
fornecimento so: Joaquim Alves e Canuto Virgolino de Faria (no Coxim);
mas devero de antemo comprar cavallos para se acharem em
circumstancias de cumprir com os seus compromissos.

Calcula-se em 13,000 cabeas o gado que existe nas fazendas apontadas
acima, e s pde haver difficuldade na obteno de rezes com a falta de
cavallos, para o que devem ser tomadas providencias acertadas.


_Cereaes._--As plantaes dos refugiados de Miranda, alm das limitadas
propores em que foro effectuadas para proverem unicamente 
subsistencia particular, no dero colheita satisfactoria. O milho veio
muito falhado; o arroz abaixo da expectao: so comtudo os dous generos
que mais avulto. Ha grande difficuldade em reduzir-se o milho existente
 farinha, ou  cangica, pela falta de um monjlo; promettem alguns
alqueires  custa de braos.

No ha nenhum feijo recolhido: apenas algumas quartas plantadas, que
comtudo pouco podem dar pela falta de chuva e m poca em que foro
lanadas em terra.


_Sal._--Ha grande carencia de sal: apenas existem 2 ou 3 alqueires que
esto sendo vendidos.

Os dados que seguem foro todos colhidos com a maior minuciosidade, e
so o resumo de quantidades parciaes, como se v do mappa annexo:


Milho                             50 alqueires
Cangica                           57   
Farinha                           10   
Arroz com casca                  110   
Arroz socado                     155   
                                ----
Somma                            382   



FORA INIMIGA

Interrogando diversas pessoas e indios, que tm, desde Janeiro at fins
de Fevereiro, visitado os lugares ainda occupados por foras, colhemos
as seguintes informaes:


Na fazenda do Souza              50 a 150 homens
No Espenidio                          200    
Na Forquilha                          100    
Em Nioac                              360    
                                 --------
Ao todo                               810    


No porto do Souza existe um entrincheiramento a menos de meia legoa do
rio, e entre estes dous pontos uma guarda rendida diariamente, que serve
para vigiar o Aquidauana. N'este entrincheiramento houve ultimamente
augmento de fora, pois que ouvem-se agora rufos de tambores e toques de
corneta, o que no acontecia at fins de Janeiro: ha uma pea de
artilharia para defendel-o e uma palissada de grossos madeiros de
aroeira. Iremos com as precaues precisas visitar estes pontos,
communicando logo o que tivermos observado.

A Forquilha e o Espenidio acho-se no caminho de Nioac  villa de
Miranda. Este ultimo ponto est presentemente abandonado, todas as casas
foro queimadas e no ha mais guarnio.  informao de Andr Jos dos
Santos, que nos ultimos dias de Janeiro, com 6 companheiros foi
reconhecer o inimigo, voltando no dia 4 de Fevereiro.

A Nioac chegou, a 3 de Fevereiro, Agostinho Joaquim Coelho, assistindo,
de uma mata proxima, ao exercicio de um batalho de infantaria pesada,
formado em 6 pelotes de 30 filas pouco mais ou menos. A gente que se
acha na fazenda do Souza  aguerrida e regular, o resto dizem constar de
soldados ainda bisonhos. A cavalhada, de que elles dispem,  boa, como
vimos por alguns cavallos roubados pelos indios.

Usa a infantaria de espingardas  Mini de 1,000 passos, e a cavallaria
de lanas que manejo com muita destreza, de clavinas e espadas. Nas
cartuxeiras trazem os soldados 80 cartuxos: os indios afiano que so
mos atiradores, fazendo comtudo justia completa  coragem e valor
nunca desmentidos do inimigo.

Os paraguayos desde Maio do anno passado no fizero mais correrias na
margem direita do Aquidauana; provem-se de gado, abundantissimo no
outro lado, e considero o rio divisa do territorio brasileiro.

Existe uma estrada, chamada do Canastro, pela qual, de Dourados, onde
ha fora, e da fronteira podem vir soccorros para coadjuvarem os
contingentes espalhados no districto de Miranda.

Espero-se aqui cartas de um fazendeiro de Nioac, preso dos paraguayos,
que foi visitado pelo indio laiana Joaquim da Silva em Fevereiro, o qual
d noticia de mais destacamentos na Ariranha e no Esbarrancado, a 8
legoas alm de Nioac.

Suppe-se que os destacamentos no Souza e Espenidio tem ordem para
concentrar-se, com o apparecimento de nossas foras, em Nioac, afim de,
attrahindo-as at este ponto, poder ser cortada a nossa retaguarda pelo
caminho do Canastro, que vem do Paraguay a Miranda.


RESUMO

O movimento da fora brasileira pde effectuar-se nos primeiros dias de
Maio, tomando o caminho do rio Negro, e depois o do pantanal, que deve
de estar completamente secco, reunida que seja boa cavalhada para o
fornecimento de gado durante a marcha. Com poucos generos pde contar
dos Morros e dos indios. Nas operaes, alm do Aquidauna, deve esperar
encontrar mais de 1,000 inimigos, entrincheirados o mais das vezes, e
dispostos  resistencia.


RIOS QUE PASSMOS

O rio Negro, no lugar de nossa passagem, tem 18 braas: entretanto como
a fora dever vir pelo caminho do pantanal, indicado no nosso trabalho
pelo trao colorido que vai ligarse ao caminho do roteiro do primeiro
reconhecimento, alm do Potreiro,  necessario visitar o rio mais baixo
e conhecer a sua largura.

O rio Tabco tem 30 braas de largura.


_Meios de passagem._--Para o rio Negro devem-se promptificar barcas,
pois que as margens baixas e atoladias no facilito a construco de
uma ponte. O rio[121] tem lugares de bom vo, como o afiana o pratico
Tonh, que conhece-os perfeitamente. O rio Tabco  vadeavel.

Para o Aquidauana preciso ser trazidas ao porto do Jatob, ou ao de D.
Maria Domingas, as canas do tenente coronel Albuquerque da sua fazenda
do rio Negro e a prancha do cidado Cardoso Guapor, o qual j foi
examinar o estado em que ella se acha, por estar escondida, ha mais de
anno, n'uma volta do rio.


DISTANCIA QUE PERCORREMOS


Do rio Negro  entrada do Pantanal       13       legoas

D'ahi  Piuva.                            1-{1/4}   

Da Piuva aos Dous Corregos.               1-{1/2}   

Dos Dous Corregos ao Tabco.              3-{1/2}   

Do Tabco  ponta do morro
  d'onde o caminho segue para
  o Aquidauana.                           1-{3/4}   

D'aquella ponta  Piranhinha.             1-{1/4}   

              a Joo Pacheco.           3-{1/4}   

De Joo Pacheco a Francisco Dias.            1/2    
                                         --------
Somma                                    26         


A volta pelo caminho do Pantanal no pde exceder de 4 legoas.

Morros, 20 de Maro de 1866.


III

Explorao  margem direita do rio Aquidauana


A necessidade de visitarmos dous aldeamentos de indios e reconhecermos a
margem direita do rio Aquidauana e seus diversos portos que dero
passagem aos paraguayos, na invaso do anno passado, fez-nos emprehender
nova viagem, effectuando a nossa partida para aquelles pontos, no dia 24
do mez proximo passado. Seguindo s vezes a base da serra que viemos
fraldejando, desde o rio Negro, outras cortando-a em diversas e
profundas depresses, visitmos a 7-{1/4} legoas de nosso ponto de
partida o acampamento dos laianas, onde apenas encontrmos 20 homens em
estado de pegar em armas, e viveres em quantidade insufficiente, at
para sustento proprio.

No aldeamento do Oauass, a 3 legoas do outro, ha igual carencia de
mantimentos e s 9 indios para augmentarem o contingente, que d a tribu
dos quiniquinos. Tomando d'ahi rumo S., procurmos o Aquidauana, indo
acampar junto  sua margem direita que, desde ento, seguimos at a
tapera do Pires, d'onde fizemo-nos na volta dos Morros.

Acho-se junto  borda do rio, que margemos, differentes casas
abandonadas por occasio da entrada dos paraguayos, as quaes tem cada
qual a sua passagem para o outro lado e porto no rio.

Assim so os portos do Canuto, at onde chegou uma partida inimiga vinda
do Taquaruss, de Joo Dias, Maria Domingas, Francisco Dias, etc., que
vo apontados no reconhecimento topographico. Examinando cada um d'elles
com cuidado, para indicarmos a passagem mais conveniente para a fora,
pareceu-nos o porto de D. Maria Domingas o que satisfaz a todas as
condies precisas.  o unico que d vo em toda a extenso (30 braas)
com profundidade de 4 a 8 palmos, facilitando assim no s a passagem da
infantaria, como tambem o servio das barcas, que ser feito com muito
mais presteza, tocadas e puxadas  mo.

Alm d'isto a fora, occupando a margem esquerda, corta a communicao
entre o entrincheiramento do porto do Souza e o do Espenidio e impede
qualquer movimento de concentrao que os inimigos procurem fazer. Do
largo da Piranhinha devero as foras dirigir-se para o porto de D.
Maria Domingas, tendo  frente um bom pratico d'estas localidades, caso
no seja tomada outra determinao.

D'este porto ao do Souza, pela margem esquerda conto-se 4 legoas de
trilha completamente secca e, a no querer cortar campo,  d'elle que
partem caminhos para Miranda, Forquilha, Nioac, etc.


Do porto de D. Maria Domingas ao Eponadig      4 legoas
Do Eponadig  Forquilha                        7    
Da Forquilha a Nioac                          10    
                                             ---
Do porto a Nioac                              21    


Alguns d'estes pontos e mais o Espenidio e o Souza, occupados pelos
paraguayos, frmo uma linha que fecha em circulo a villa de Miranda;
razo por que foi ella abandonada e queimada, reforando-se os pontos
estabelecidos em derredor. Assim pois a retirada de Miranda no tem
significao de evacuao de foras, parecendo, pelo contrario, dever
indicar a teno de melhor defender o territorio, em que se acho e que
fechro por um cordo de destacamentos desde o Apa at o Souza.

A este ultimo ponto no podmos chegar, pois que um desencontro na
remessa de cartuxos, que tinhamos requisitado do Illm. Sr. tenente
coronel Albuquerque, obrigou-nos a no effectuar este reconhecimento
arriscado e que s pde ser feito  mo armada, pela vigilancia que,
sobre a outra margem, exercem os paraguayos. Mandmos comtudo uma
partida de indios[122] reconhecer, de dentro da mata, a estacada e,
apezar de seus habitos e habilidade na espionagem, no podro passar
alm do piquete que, como j participmos, existe entre o rio e o
entrincheiramento. Este piquete compe-se de 10 a 12 praas, que se
achavo montadas em burros (o que indica a falta de cavallos) para
cercarem as rezes que conservo, encostadas  margem do rio, para o
consumo. Na frente ha uma bandeira vermelha, junto a um _mangrulho_,
d'onde uma sentinella devassa grande extenso de terreno.

(Os paraguayos chamo _mangrulho_ a uma guarita elevada sobre 2 ou 4
esteios de 40 a 60 palmos, d'onde a vista se estende muito ao longe).

Descendo o rio pela margem direita, chega-se com 4 legoas de marcha ao
porto do Jatob, que dizem ser vadeavel, depois de um pequeno nado e que
dista do Souza, pela margem esquerda, 2-{1/2} legoas.

Em geral todas as trilhas acho-se apagadas pelo muito capim e falta de
transito: devem ser preparadas quando a fora tiver de dirigir-se ao
porto escolhido para a sua passagem.

Distancia que percorremos 23 legoas.


CONTINGENTE PARA A FORA OPERADORA

_Guarda nacional._--Segundo as informaes, que nos prestou o Illm. Sr.
tenente coronel Albuquerque, commandante do batalho n. 7 da guarda
nacional, existem 85 praas mal armadas e sem fardamento e poucos
officiaes, tendo-se retirado a maior parte d'elles para diversos pontos
longinquos d'esta provincia. Acho-se os guardas espalhados n'uma larga
zona e so elles os que preparo a maior quantidade de mantimentos, o
que deve ser attendido por occasio de sua reunio que desfalcar, pela
falta de braos, o numero de alqueires de mantimentos com que poderia a
fora contar.

Esto tambem qualificados guardas nacionaes indios quiniquinos e
terenas que melhores servios prestario englobados nas suas respectivas
tribus, como por exemplo o indio Jos Pedro, capito dos terenas, que
deve ser conservado  frente de sua gente pelo respeito que tem sabido
infundir e obediencia que lhe presto os seus companheiros.

A guarda nacional acampou, de 3 a 22 de Setembro do anno passado, junto
ao capo dos Boritys, tendo-se ahi reunido 66 praas desarmadas, que
foro licenciadas para cuidarem em roados e plantaes. Existe algum
cartuxame para seu municiamento: entretanto ha muitos cartuxos
deteriorados e inserviveis.


_Indios._--Informaes frescas colhidas do Sr. Joo da Costa Lima, que
chegou das aldas alm Aquidauana, do-nos os meios de apresentar o
total de indios que, alm dos guaycurs, cujo capito Nad consta vir-se
apresentar com toda a sua tribu, poder coadjuvar a fora.


Terenas           216
Quiniquinos       39
Laianas            20
                  ---
                  275 homens.


Estes indios mostro a melhor disposio, offerecendo-se com
espontaneidade e servindo com toda a dedicao, como verificmos nos
nossos ultimos reconhecimentos. Acho-se muito atemorisados com a
chegada da fora, pois que repetidas ameaas dos fazendeiros, refugiados
aqui e em outros lugares, por causa das rezes que elles so obrigados a
matar para a sua alimentao, tem incutido o temor de que as foras
viro escravisal-os e tratal-os com todo o rigor da guerra. Procurmos
tranquillisar esta pobre gente que, nos calamitosos mezes de invaso,
portro-se com moderao no natural na esphera e condio em que
vivem.

Os _cadiuos_, inimigos figadaes dos paraguayos, no merecem confiana
alguma e tem, em varias occasies, causado tantos damnos aos
brasileiros como aos inimigos.


RECURSOS

Insistindo ainda sobre a importantissima questo de fornecimento e
acquisio de gado, que se tem tornado muito difficultoso, depois da
peste dos cavallos, levmos ao conhecimento do commando das foras a
falta absoluta de cavalhada desde o Coxim at os Morros, onde os
fugitivos de Miranda se acho desprovidos de carne para sustento
proprio, pela destruio completa de todos os animaes, desde Dezembro do
anno passado. O tenente coronel Albuquerque indica os cidados, de que
fallmos na nossa ultima participao, prestando-se-lhes os meios para
munirem-se de cavallos.

Ao numero de alqueires, dado no mappa dos mantimentos, que se podem
obter dos habitantes dos Morros, devem ser addicionados mais 45 de
arroz, e de cangica 22. Ponderamos comtudo de novo que o chamamento dos
guardas nacionaes ao servio das armas, deve diminuir a quantidade de
viveres indicada n'aquelle mappa, por no se achar a colheita concluida,
e pertencerem quasi todos os seus possuidores  guarda nacional. A
requisio que, segundo as nossas instruces, fizemos de homens para a
construco de canas no rio Negro, impossibilita varios cidados de
promptificarem os mantimentos que tinho promettido.

Indagando de diversos pontos d'esta provincia ou de outra que poderio
mandar viveres para as foras no districto de Miranda, apontro-nos a
villa de Santa Anna do Paranahyba, que dista de Camapuam 60 legoas,
ficando este ultimo lugar, hoje completamente abandonado, a 50 legoas da
villa de Miranda; por agua fallro-nos na communicao muito frequente
antes da invaso, entre Porto Feliz, em S. Paulo, e o acampamento de
Nioac, descendo canas carregadas os rios Tiet e Paran, e subindo o
Ivinheima e Brilhante at Sete Voltas, d'onde, com cinco dias, chegavo
carros a Nioac. Esta viagem, que fazio em 4 mezes, ida e volta, pde
fornecer abundante provimento s foras no caso de sua demora no
Baixo-Paraguay: indicamol-a por ser esta hypothese possivel e dever
cuidar-se quanto antes na reunio de viveres que, de mais  mais, ho de
tornar-se escassos em territorio devastado e sem recursos.


MEIOS DE PASSAGEM DO RIO NEGRO E AQUIDAUANA

Guiando-nos pelas nossas participaes anteriores, que aconselho a
marcha das foras do Coxim nos primeiros dias de Maio, requisitmos a 6
do corrente 12 guardas nacionaes e indios para irem construir barcos
para a passagem da expedio.

Com difficuldade, apezar das ordens do tenente coronel commandante,
esto-se reunindo as praas pedidas, faltando completamente toda a
especie de ferramenta. Estes homens, como melhores trabalhadores, so os
que preparo a maior quantidade de mantimentos para a fora, no se
achando ainda terminada a colheita de milho e arroz, e sobretudo no tem
meio algum de conduzir viveres que cheguem para alimentao, durante o
mez necessario de parada n'um local totalmente falto de recursos como 
o rio Negro. Apezar de tudo vamos tratar de apressar a remessa d'estes
guardas, requisitando mais 12,  vista das instruces que nos mando
preparar meios de passagem nos differentes rios, para o trabalho que
temos de fazer nas canas que serviro no Aquidauana.

Para este ultimo rio devero subir as canas do tenente coronel
Albuquerque, do seu acampamento no rio Negro, ficando ns aqui para
mandarmos preparar, com uma serra e um machado, taboas e barrotes que
formaro as barcas na occasio da approximao da fora, pois que
qualquer trabalho precipitado pde ser inutilisado pelo inimigo, o qual
parece ultimamente vigiar mais cuidadosamente as margens do rio.

Fora maior nos impede de acompanhar os homens que vo ao rio Negro:
levaro para dirigil-os um official carpinteiro habilitado na factura
das canas. Para guia das foras at o Aquidauana recommendamos denovo o
pratico Antonio Maria Tonh, homem utilissimo por conhecer perfeitamente
os caminhos e campos por onde se posso abreviar as marchas e saber dos
lugares onde existo boas aguadas.

Para Miranda e Nioac h n'esta localidade muitas pessoas proprias para
servirem de guia.


DISTANCIAS ALM DO AQUIDAUANA


Do porto do Souza a Miranda      10 legoas
De Miranda ao Eponadig            9    
Do Eponadig  Forquilha           7    
Da Forquilha a Nioac             10    
                                ---
Do porto do Souza a Nioac        36    


FORA INIMIGA

Duas extensas cartas, cuja integra remettemos, que recebro os
moradores d'este lugar do cidado Joo Barbosa Bronzique, prisioneiro
dos paraguayos em sua fazenda, desde o anno passado, dero-nos
informaes do estado a que se acho reduzidos os inimigos e da fora
espalhada em diversos pontos: tem elles nas colonias de Dourados e
Miranda 100; no Brilhante 100; Sete Voltas 10; Vaccaria 100; Agua fria
30; Nioac 500; Taquaruss 200; Porto do Souza 200. Ao todo 1,240 homens,
a que se devem acrescentar os 50 de Miranda que viero para o Espenidio
e Souza e outros que existem junto do Apa e morro do Canastro, onde
possuem boa cavalhada. Desde o Porto do Souza at o de Maria Domingas,
os paraguayos tem ultimamente lanado fogo a todos os campos e
desbastado as margens, parecendo ter assim conhecimento dos proximos
movimentos de nossa fora.

Morros, 16 de Abril de 1866.




Notas:


[1] Tacora hy, (tupi).

[2] No  o _marmeleiro_ de que trata Saint-Hilaire, sob o nome de
Maprounea brasiliensis (euphorbiacea).

[3] Temos o desenho d'ella no album de viagem. Folhas oppostas; corolla
monopetala com um labolo; antheras didynamas; ovario sobre disco
hypoginio. Flr com 2-{1/2} pollegadas de comprido; Stygma bipartido.

[4] Folhagem muito delicada; folhas tomentosas e ovario livre; sementes
ovoides.

[5] Em frma de colher (cochlear).

[6] Calophyllum brasiliense, (Saint-Hilaire). Oanandim, lantim ou
olandy; excellente po para canas.

[7] As folhas d'esta planta so muito desenvolvidas. No corrego da
Pontinha (a 8 legoas de Camapuan) vimos algumas com um palmo de largura
e palmo e meio de comprido, lustrosas e completamente glabras.

[8] _Acacia maleolens_ de Freire Allemo.

[9]  conhecido nos sertes do norte por _cajueiro bravo_ ou melhor
_aimbahiba_ (_aimb_ aspera, _yba_ arvore). Curatella aimbahiba.
(Saint-Hilaire).

[10] Bority ou mority.--Do tupi, _mooro_, nutrir, _ty_, succo.
(_Mauritia vinifera_. Mart. _flexuosa_. Lin.)

[11] A 6 legoas do rio Piquiry; _pic_, pomba; (r) _hy_, agua (L. T.)

[12] Esta palavra derivada do tupi (_caa-poam_, ilha)  com razo
geralmente empregada em todo o Brasil.

[13] O sertanejo Perdigo.

[14] Fourcroya gigantea.

[15] _Gua_, baga; _yrob_, acre (lingua tupi). Psidium _Vell_.--Eugenia
_Mart_.

[16] Familia entre as rosaceas e magnoliaceas.

[17] Autor do poema _La Gastronomie_, publicado em 1800.

[18] _Amaca_, rede; _yva_, arvore (lingua tupi).

[19] Ara Ararauna (especie particular aos sertes de Goyaz e Mato
Grosso).

[20] Ara Aracanga.

[21] Ara Hyacinthinus (Descourtils).

[22] _Crypturus noctivagus._ Comea a piar apenas descamba a tarde.
Martius chama-a _tinamus_ nocturna. Em algumas partes do imperio 
conhecida por _sabel_. [23] Os banhos das folhas d'esta plantinha so
efficassissimos nas orchites. (Davilla elliptica, Saint-Hilaire).

[24] Sapindus (Saint-Hilaire).

[25] Lugares empantanados, pascigos do gado.

[26] Em lingua tupi quer dizer _pu de caj_ (mara-caj). Segundo alguns
_cascavel ao p_ (marac jub) da serra. (Glossario).

[27] Toda audacia  permittida em hypotheses. Impressionro-nos, de
passagem, sem estudo, aquellas linhas que correm parallelas por muitas
legoas. Sero na realidade indicao do que acima tocmos, ou
simplesmente effeitos de infiltraes vagarosas em estratificaes,
eroses, etc.?

[28] Amambahy ou Ambaibahy--_Hy_, agua.--_Ambaiba_ ou _embauba_
(urticacea do genero Cecropia). Castelnau d  poro de serra, que
conhecemos, o nome muito apropriado de serra da Chapada: entretanto
nunca o ouvimos nas localidades, onde os moradores usavo s da
denominao de Maracaj.

[29] Na provincia de Minas chama-se _paratudo_ a uma
amaranthacea,--gomphrena officinalis. A causa do paratudo (bignoniacea)
tem grandes propriedades febrifugas e sudorificas.

[30] Os indios Guans o chamo _namucul_.

[31] Esta arvore, _hymena_, abundantissima no rio Negro, ia-se tornando
cada vez mais rara. Os seus fructos, quando maduros, so supportaveis e
muito nutrientes: os nossos soldados, no acampamento do rio Negro,
sustentavo-se quasi exclusivamente d'elles.

[32] Contraco de ip, uva (arvore).

[33] O que, no interior do paiz, se chamo tijucaes, palavra brasileira
tirada da lingua tupi, _tyjuca_ (lama). Usa-se tambem muito do verbo
_entijucar_ por enlamear.

[34] _Mureci penina_ ou pintado. Em Mato Grosso assim chamo o mureci do
pantano. Ser com certeza--chrysophylla--a especie? Em todo caso, o
genero  _byrsonima_, bem caracterisado. Com ser malpighiacea, vm-se os
pares de glandulas bem apparentes; s vezes desenvolvidas em extremo, em
cada sepala. Do fructo do _mureci_, diz com justeza Pison:--Fructus
maturi gratissimi quidem acore pulatum vellicant, sed stuporem tandem
dentibus inferunt simulque astringendo intens refrigerant. (De
facultatis simplicium Lib. IV).

[35] Em Mato-Grosso quasi todos pronuncio esta palavra grave.

[36] Ciconia Maguari (G. Temm).

[37] Vimos nas _mimosaceas_ dos barreiros myriades de _vira-bostas_,
(Icterus violaceus, Desc.); _encontros_ (Xanthornus tristis, Desc.) e
_ans_ (Crotophaga, Marcgravio).

[38] Cateitus (dicotyles torquatus) e porcos do mato (dicotyles
labiatus).

[39] Na bahia Negra, abaixo do porto de Coimbra. A proporo de sal para
a terra era, n'um alqueire de mistura, tres quartas partes.

[40] As salinas da margem direita do rio Paraguay so muito mais ricas
em sal, do que as da margem esquerda. Antes da invaso, havia prohibio
de tirar-se sal da bahia Negra, por estar o barreiro em territorio
contestado entre o Brasil e a republica do Paraguay.

[41] Na margem esquerda do rio Paraguay, defronte de Corumb.

[42]  palavra geralmente usada nas fazendas de gado.

[43] Devida a uma intoxicao paludosa.

[44] Aspidosperma.

[45] Os nossos amigos os Srs. tenente Joo Faustino do Prado e Joo
Mamede Cordeiro de Faria.

[46] _Caapi-ira_, dono do capim (Gloss.). Com mais razo, diz Gonalves
Dias _capi-uara_, derivando ura de gora (habitante que mora, em
determinada parte, por vontade propria). Das capivaras, diz Marcgrav com
exagerao notavel:--Noctu ingentem clamorem excitant et horribile fere,
ut Asini solent.

[47] Vanellus cayennensis (Vieill.).

[48] Em Agosto, deviamos de apreciar a magestosa florescencia d'aquellas
bignoniaceas; _ips_, Tecoma speciosa Vall., _para-tudos e carobinhas_
(jacarand procera) ostentavo ento massios amarellos e azues da maior
belleza.

[49] Obteve em fins de 1867 esta distinco e em Janeiro do anno
seguinte falleceu na cidade de S. Paulo, onde se achava, depois de uma
viagem ao Rio de Janeiro, com alguns de sua tribu.

[50] _Pery_, junco (tupi).

[51] Desde Maio de 1865 no fazio seno raras incurses, na margem
direita do rio Aquidauana.

[52] Denominao indigena do rio Miranda ou Embotety e Emboteti, das
palavras, _enimbo_ lao, _tui_ periquito--lao para piriquito. Tambem
tem nome de Aranhahy, Guaxihy e alguns escriptores portuguezes lhe do o
de Mondego, ainda que parea este s convir, depois da confluencia com o
Aquidauana.

[53] Uma carta de Joo Barbosa Bronzique, prisioneiro dos paraguayos, em
sua fazenda do Bonito, deu noticia d'essa prohibio devida, ao que elle
suppunha, aos ataques repetidos dos indios, que se occultavo nas matas
do lado direito do rio.

[54] Ilex congonha, familia das Illicineas (Aquifoliaceas de de
Candolle). Das congonhas fazem os habitantes uma agradabilissima
infuso.

[55] _Cama_ mama, _apuam_ redonda (tupi).

[56] Os oauasss, chamados pelos guaycurus _chatelld_, so as
magestosas palmeiras de que j temos fallado: os grupos que ellas
frmo, so imponentes. Os troncos lisos, ligeiramente engorgitados na
base, as cpas erectas e compridas folhas, com um prateado fugaz, as
distinguem de muito longe. Os ccos de bom tamanho do amendoas com o
valor approximado s da Bahia e constituem durante certas pocas a
alimentao quasi exclusiva dos indios. Pelo systema phyllotaxico,
preconisado pelo professor Agassiz, a fraco 1/3 representa a
disposio das folhas, occupando os intervallos, as espadices da
inflorescencia. Assemelho-se os oauasss s magnificas _oreodoxas_, to
em moda no Rio de Janeiro: Martius deu-lhes o nome de _attalea
spectabilis_. Em lingua tupi significo folha grande: _oau_ ou _oba_
folha, _ass_ grande.

[57] O laiana pertence  numerosa familia chan: a sua linguagem  a
mesma que a dos quiniquinos, terenas e guans com algumas alteraes:
os seus costumes identicos. O seu typo  caracteristico; a physionomia
muito menos expressiva que a do terena e menos delicada que a dos
quiniquinos; elles tm o nariz afilado, s vezes pontudo, os olhos
algum tanto divergentes, os labios finos e apertados.

As suas plantaes consistio em arroz, milho, feijo; porm as chuvas
falhadas impedio que ellas tivessem aspecto satisfactorio; por esta
razo, no podro os seus possuidores prometter cousa alguma para as
foras.

[58] O corrego da _Pontinha_, perto de _Camapuam_,  uma das cabeceiras
mais afastadas.

[59] _Uacgo_, corrego dos Couros (guaycur).

[60] As _aracuans_, Penelope aracuan (Spix.), so aves de plumagem
escura, pernas curtas, bico preto e forte.  caa procurada pela alvura
e sabor da carne. Este passaro offerece uma particularidade singular.
Quando um grita,  logo acompanhado por todos os companheiros, de modo
que, por qualquer ruido, levanta-se grande alarido em ambas as margens,
o qual vai-se propagando e crescendo.  muito applicavel o--_Vires
acquirit eundo_.

[61] Esta ave conhecida tambem por _inhuma-pca_ canta com regularidade,
de modo que, dizem, pde marcar as horas e tambem annunciar mudanas de
tempo. Tem como a _palamedea cornuta_ excrescencia na cabea. Marcgravio
diz do canto: Terribilem clamorem edit--_vihu vihu_--vociferando.

[62] O _tuyuy_ (micteria americana)  a maior das aves ribeirinhas:
todo branco com uma colleira vermelha, tem um bico longo e tubulado.
Nutre-se de peixe e anda no lodo das bordas de rios. A sua altura, fra
o pescoo,  de 1, m. 2.

[63] O _tabuyay_ (ciconia maguari)  maior que a gara; tem azas pretas
malhadas de branco: o bico e pernas compridos. Em guarany chama-se
baguary (Martius).

[64] Na nossa passagem do Aquidauana, um soldado foi arrebatado por um
ja.

[65] Pison diz com razo da carne: Edulis non solum caro ejus
albissima, sed quod friabilis et sicca optimi saporis.

[66] Familia dos Aproterodontes--Gen. boa--Esp. murina (Principe de
Neuwied e Sellow): boa scytale (Lin.) Estas serpentes apparecem raras
vezes nos affluentes do rio Paraguay, ao passo que abundo nos do rio
Paran. O grito d'ellas, , dizem, estridente. Nunca ouvimos esse ronco
de que tanto se falla no serto.

[67] Entre as absurdas historias, tocantes a essas serpentes, sobresahe
a referida por Charlevoix, na sua historia do Paraguay, o qual diz que
os sucurys se atiro sobre as mulheres com outro fim, que no o de
devoral-as e cita o testemunho do padre Montoya que confessra, em certa
occasio, uma india _in extremis_: laquelle tant occupe  laver du
linge sur le bord d'une rivire, avait t attaque par un de ces
animaux, qui lui avait fait, dit elle, violence: le Missionaire la
trouva tendue par terre au mme endroit, etc.

[68] Relatorio geral da commisso de engenheiros (pag. 22 e 31).

[69] Spix chama-o _pac-argenteus_, no sabemos se com razo; o pac
pouca semelhana tem com o corimbat.

[70] Contra ella tambem bate o rio Aquidauana, formando uma curva
apertadissima. Alm, no outro lado, eleva-se o _Morro Azul_, seguindo de
novo a serra at Nioac e para os lados do Apa; baixa, porm, e com
disposio de morretes.

[71] Citaremos uma lindissima _apocynea_ (nerium?), varias _salvia_, a
_ardsia_ (_Ardisacea_), a curiosa _aristolochea galeata_, que se
enrosca nos mais flexiveis encostos; a fragrante _saudade_ do campo
(scabiosa-dipsacea), hyptis (labiadas), _malpighiaceas_ rasteiras com
cambiantes samaridios, a vistosa _gomphrena officinalis_ (o para-tudo de
Minas) _malvaiscos_, etc.

[72] Ero os restos da abundantissima colheita paraguaya; esses campos,
poucos mezes antes, havio contido muitos milhares de rezes. O districto
de Miranda possuia 150,000 cabeas de gado: d'essas, segundo o
testemunho de vista de Joo Barbosa Bronzique, o infeliz prisioneiro de
que j temos fallado, 60,000 passro para a republica do Paraguay em
varias pontas e ainda no tempo em que viajavamos pelo Aquidauana
continuavo amiudadas as remessas. A carne do gado d'essas vargens 
saborosissima.

[73] Palavra tupi, usada geralmente: significa _casa abandonada_.

[74] Momordica operculata (Velloso), charantia.

[75] Quasi todos os habitantes de Miranda fugro embarcados, descendo o
rio Miranda, entrando no Aquidauana e subindo por este at perto do
porto do Souza. Ahi se refugiro nas fragosidades da serra de Maracaj
(Morros); alguns tomro caminho de Sant' Anna do Paranahyba. A villa
ficou deserta a 4 de Janeiro de 1865: a 12 entrro os paraguayos que
n'ella estivero at fins de Fevereiro d'aquelle anno.

[76] Das outras tribus que refere Castelnau, no ouvimos fallar. Talvez
estejo extinctas ou confundidas com estas.

[77] Tanga, avental.

[78] Muito aprecio o _tarum_ (Vitex montevidensis) que em Dezembro de
1866 constituia a principal alimentao da gente quiniquino dos Morros.

[79] Bixa orellana.--Genipa americana.

[80] Lry faz esta justia s indias em geral, quando diz: qu' toutes
les fontaines et rivires claires, qu'elles rencontrent, s'accroupissans
sur le bord ou se mettans dedans, elles jettent, avec les deux mains de
l'eau sur leur teste et se lavent et plongent ainsi tout leur corps
comme cannes, tel jour sera plus de douze fois (Histoire de l'Amrique,
pag. 128).

[81] Quasi todos os nomes de lugares e rios do districto de Miranda so
de origem guaycur.--_Euagaxigo_, significa bando de capivaras;
_Eponadigo_, bando de trairas; _Lauid_, campo bello; _Nioac_, clavicula
quebrada.

[82] Esses lindissimos lugares foro explorados a vez primeira pelo
intrepido sertanejo Jos Francisco Lopes, o qual encontrou, n'uma de
suas viagens, uma numerosa partida de cadiuos, que o acompanhou at
terras do Paraguay.

[83] Palavra guarany que significa Nosso-Senhor. Os terenas uso d'esse
vocabulo. Os outros guans dizem _Ech[-a]i-uanuk_ (que est no co).

[84] Herpethoteres. Azara chama _Macagu_: alguns _acauan_ ou _oacaoam_.

[85] O mesmo fazio os medicos entre os guaranys (Padre Loano).

[86] No sabemos se deve merecer f o que diz Castelnau sobre
assassinatos dos padres.

[87] O mesmo dava-se entre os padres dos guaranys (Padre Montoya).

[88] Lry diz dos tupinambs:--Ils lamentent de telle faon, que si
nous nous trouvions en quelque village o il eust un mort, ou il ne
fallait pas faire stat d'y coucher, ou ne se pas attendre de dormir la
nuit. Mais c'stait merveille d'ouyr les femmes, lesquelles brallent si
fort et si haut que vous diriez, que ce sont hurlemens de chiens et de
loups (Histoire de l'Amrique, pag. 392).

[89] Lry refere: Si elles se ressouviennent de leurs feus parents, ce
sera, faisant les regrets accoutumez,  hurler de telle faon, qu'elles
se font ouyr d'une demi-lieue (H. de l'Amrique, pag. 400).

[90] A que chamo na provincia _lavrados_.

[91] Principalmente o _timb_ (paullinia pinnata) que tem violentas
propriedades toxicas.]

[92] Batem-se a punho secco, ainda mais geitosamente que os albies (M.
Ayres de Casal C. B. pag. 234).

[93] Todo o homem branco, pardo ou preto,  portuguez; os indios nunca
uso da denominao de brasileiros: os paraguayos so ainda para elles
castelhanos.

[94] Temos por vezes usado d'essa denominao de uma das tribus da nao
chan, como que abrangendo a todas as outras, porque no districto de
Miranda conhecem-se todos os indios chans por guans. Entretanto
perguntando eu, certo dia, a um terena se elle era guan: _Ac chooron,
chan cuan treno enmone_; guan no, chan ou terena na verdade
(litt.).

[95] Esta tribu habitou primitivamente quasi toda junta  serra chamada
do Chan, no lado direito do rio Paraguay, acima da do Albuquerque,
dando a cordilheirasinha o nome da nao a que pertence? Ou l esteve
toda a nao? Nas minhas notas encontro ainda uma confirmao de que a
denominao de chan,  valiosissima. Disse-me um quiniquino:
_Humn[-a]i quechat cequexiv nhumz chan?_ O senhor quer aprender a
minha lingua chan? e acrescentou: _Encre nhumz ac ocohocor
iaquexovi chan_. Pois minha lingua no custa aprender o chan
(litteralmente). Ao illustrado viajante Henrique de Beaurepaire Rohan
no escapou esta particularidade importante.

[96] O ultimo accento  o tonico: os outros modifico o som das vogaes.

[97] Os dois _l_ soo claramente.

[98] Os laianas dizem _morev_, como em guarany.

[99] Na lingua tupi _paragu_, papagaio; d'onde _paragu hy_, rio dos
papagaios.

[100] Castelnau no seu inexactissimo vocabulario _guan_ exprime esta
palavra por _ann[-a]iti_ que significa _grande_, ignorando a sua
qualidade de adjectivo, o qual vai modificar _pirito_, faca. No merece
confiana a traduco dos outros vocabulos.

[101] Os indios chamavo-me _ung-maracai_, olho de gato. Os guaranys
dizem _mbaracai_; na lingua tupi _maracay_ ou _maracaj_.

[102] Talvez se devesse escrever _ingch-_: em todo o caso no se
pronuncia claramente o _in_, fazendo s soar o _g_, arrastando-o.

[103] A palavra  esdruxula: no sabemos porque se a pronuncia grave.

[104] _Mm_ em lingua caiu, muito approximada ao guarany, seno o
proprio.

[105] Os _h_ so todos aspirados com energia.

[106] _Non capac_, cara de nuvem, era a antonomasia de um de nossos
soldados, por causa da guedelha desgrenhada.

[107] Este _j_ sa, como em hespanhol, gutturalmente.

[108] Significa _peixe de rabo de sangue_ (vermelho).

[109] Quer dizer _piolho de co_.

[110] V-se claramente que quiniquino  alterao da palavra india.

[111] Os nomes de peixes so, como este e muitos outros, guaycurs.

[112] Esdruxulo, quando em portuguez  grave.

[113] Os quiniquinos dizem _pahapti_.

[114] Observa-se a irregularidade de formao. So novas palavras.

[115] Esta palavra  de mui difficil pronuncia. Nunca a podmos escrever
conforme a ouvimos.

[116] Alm de tres dizem _tpuia_ muito, ou _opicoati_. Para marcarem
pocas, serve-lhes a florescencia do _para-tudo_. Um indio disse-nos:
J o para-tudo deu flres duas vezes e os castelhanos ainda esto em
Miranda.

[117] Os imperativos, que elles emprego muito, termino quasi todos em
_ca_, exemplo: _itic_ faze, _tetuc_ corta, _nic_ come, _angic_ lava;
dos verbos _ittuketi fazer_, _tetocoti cortar_, _ning comer_,
_angicati_ lavar.

[118] Litteralmente _unati_ bom, _nik_ comida. _Cuati_ deveras,
_echoti_ sabe, _itucoati_ fazer, _nica_ comida, _ien_ sua mulher.

[119] Tambem diz-se _em_? quem sabe?

[120] Tommos para estimativa da distancia vencida a mdia, em diversas
observaes, do tempo gasto por um animal carregado em percorrer uma
certa extenso medida; sendo a unidade o minuto que achmos
correspondente a 30 braas, 355.

[121] O rio pareceu-nos profundo e suppomos nunca poder dar vo bom 
artilharia e cargueiros.

[122] Commandada pelo capito Jos Pedro de Souza, o qual sempre se
prestou a coadjuvar-nos efficazmente em todos os nossos trabalhos.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +-----------+--------------------------+-------------------------+
  |           |        Original          |        Correco        |
  +-----------+--------------------------+-------------------------+
  |#pg.    15| ininvejavel              | invejavel               |
  |#pg.    20| ns difficuldades        | nas difficuldades       |
  |#pg. 23/24| estimativativa           | estimativa              |
  |#pg.    81| Pararaguay               | Paraguay                |
  |#pg.   113| abuntante                | abundante               |
  |#pg.   128| fequentemente            | frequentemente          |
  |#pg.   130| syllada                  | syllaba                 |
  |           |                          |                         |
  |#nota    52| escriptores. portuguezes | escriptores portuguezes |
  +-----------+--------------------------+-------------------------+

Quando h indicaes de data em que o ano no se encontra completo, optmos
por apresent-lo como no original.

Mantiveram-se verses da palavra Aquidauana, tais como Aquidauna.





End of Project Gutenberg's Scenas de viagem, by Alfredo d'Escragnolle Taunay

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     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
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     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
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     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
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     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

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forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
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Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
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liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

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is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

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in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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