The Project Gutenberg eBook, Manhs de Cascaes, by Alberto Pimentel


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Title: Manhs de Cascaes


Author: Alberto Pimentel



Release Date: August 30, 2010  [eBook #33588]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1


***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MANHS DE CASCAES***


E-text prepared by Pedro Saborano



Notas de transcrio:

      O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso
      em 1893.

      Foi mantida a grafia usada na edio original de 1893, tendo sido
      corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos que no alteram a
      leitura do texto, e que por isso no foram assinalados.

      No original havia uma errata. Nesta edio corrigimos os erros ali
      apresentados.





ALBERTO  PIMENTEL

Manhs de Cascaes


Edictor

Livraria Ferin

Lisboa




ALBERTO  PIMENTEL


Manhs de Cascaes




1893
Livraria Ferin
Lisboa




I

O primeiro mosquito


Chegou o inimigo.

Ouvi hontem o seu clarim vibrante resoar sobre a minha cabea em som de
guerra.

Era a guarda avanada do grande exercito alado do vero, hunos do ar que
invadem os nossos quartos de cama zombando perfidamente de todas as
nossas precaues e dilacerando-nos a carne com o seu pequenino spide,
agudo como um punhal.

--Ah! disse eu.  o primeiro mosquito que chega!

E estremeci de horror.

 que se ha animal n'este mundo que me incommode, que seja incompativel
comigo, esse animal  o mosquito,--o pequeno mosquito, um dos mais
sanguinarios inimigos da humanidade.

Uma vez, em certa praia, um amigo meu mostrou-me o seu quarto, cujas
paredes estavam revestidas de uma estranha pintura,--arabescos de
sangue, o sangue da victima, o sangue d'elle, o desgraado!

--Entram os mosquitos, dizia-me o meu pobre amigo, e roubam-me o que eu
tenho menos, roubam-me o sangue. Eu, no podendo repellir a aggresso,
porque essa praga de mosquitos vem aos centos, adoptei a estrategia de
os deixar cevarem-se  vontade. Engordam e agiboiam-se, ficam obesos e
inertes. Ento sa a hora da minha vingana, pego n'um sapato e atiro-me
a elles como S. Thiago aos mouros. P! p! sapatada para a direita,
sapatada para a esquerda, aqui se esborracha um, ali se estampa outro, a
parede salpicada de sangue parece um crivo, um mappa, e  assim que eu,
durante um mez, tenho conseguido ornamentar o meu quarto com esta
estranha decorao, arabescos de sangue roubado s minhas proprias
veias. O que est ali na parede sou eu, depois de ter atravessado pelo
interior de um mosquito. Centenas d'elles me teem sugado, com o meu
sangue teem vitalisado os seus orgos sonoros, porque cada mosquito traz
s costas uma fanfarra estrondosa, que nos ensurdece com o tinido dos
seus metaes. Tenho n'aquella parede o meu sangue, e tenho no meu corpo a
minha anemia: o trao de unio entre aquillo, que  a parede, e
isto, que sou eu,  o mosquito.

Ha banhista que prefere dormir na praia, sobre um banco de pau, ou mesmo
sobre a areia, a dormir em casa sob a tyrannia dos mosquitos.

Um sujeito encontrei eu j, que, accordando de madrugada meio devorado
pelos mosquitos, sahiu para o meio da rua,--com o resto do corpo que
elles lhe tinham deixado de fartos.

Logo que amanheceu e a primeira tenda da praia se abriu, elle correu a
escrever sobre o balco a seguinte carta ao senhorio, que era um dos
pescadores mais ricos da terra:


Illmo. sr. Jos Peixeiro:--Sendo v. s. um dos homens mais
considerados d'esta localidade, regedor de facto e baro em perspectiva,
muito me admira que commettesse a burla de arrendar a sua casa a duas
familias ao mesmo tempo. Quando me entregou a chave da porta, fez-me
suppr que no havia l dentro mais inquilinos. Com effeito, assim me
quiz parecer quando entrei, porque a unica pessoa, e essa inoffensiva,
que encontrei, foi o cavalleiro D. Fuas Roupinho a pique de despenhar-se
do rochedo da Nazareth.  realmente um quadro muito bonito, que, longe
de me incommodar, me deleitaria. Aposentei a minha familia, a minha
mulher e os meus filhos, e eu preferi para meu uso o quarto onde se acha
o quadro do _Milagre da Nazareth_, porque sou amador, e falla-se mesmo
em mim para inspector da Academia de Bellas Artes. Deitamo-nos. Eis
seno quando, outra familia de inquilinos surge como por encantamento.
Primeiro appareceu o pae, depois a me, depois os meninos, depois as
meninas, depois os meninos dos meninos, depois as meninas das meninas,
depois os bisnetos, depois os tresnetos, depois os tetranetos, uma
alluvio de individuos, uma phalange, um exercito e, sem respeito nenhum
pelo nosso somno, comearam a conversar em voz alta, o pae com a me, os
manos com as manas, os tios com os sobrinhos, os primos com as primas.
Calei-me a vr no que aquillo parava. Mas no parou. Depois toda essa
magna caterva teve vontade de ceiar, foi  dispensa, foi  cosinha, e
como no encontrasse nada para comer, resolveu comer a minha familia
inteira. Participo-lhe, pois, que estamos comidos,--duas vezes: pelo
senhor e por elles, os outros inquilinos do meu predio. Resolvi portanto
mudar de casa para um banco da praia, que est  sua disposio, se nos
quizer dar a honra da sua visita. Quanto  sua casa, ahi lhe mando as
chaves, para que o sr. v l dormir esta noite com a sua familia, a fim
de verificar se as minhas informaes so verdadeiras ou no.


O sr. Jos Peixeiro respondeu immediatamente:


L irei  noite vr essa pouca vergonha, e se fr como diz eu c estou
para obrar como regedor.


Ento o pobre queixoso julgou dever prestar mais um esclarecimento
importante  digna auctoridade parochial:


Illmo. sr. Jos Peixeiro.--Tenho por conveniente informal-o de que na
minha carta anterior faltou um _note bene_, que vae agora.

Os inquilinos a que me refiro so os mosquitos.

Supponho que esta informao ha de aproveitar  sua perspicacia.


Jos Peixeiro deu-se pressa em enviar a seguinte replica:


A minha casa  a melhor da villa, e tem sido sempre habitada por
pessoas de importancia. Eu, no resto do anno, vivo l. E tanto eu como
minha senhora temos gosado saude; a unica doena que a minha senhora l
tem tido foi um parto. Eu, nem isso; sou so como um pro. Mosquitos e
moscas em toda a parte os ha; a mim ainda me incommodam mais as moscas
do que os mosquitos. O anno passado, o sr. visconde do Pecegueiro
veiu a morrer para a minha casa, e foi-se embora to bom, que at o meu
compadre barbeiro, que tem pilheria, disse que elle ainda ia capaz de
dar pecegos. Mas para no se incommodar com os mosquitos inventou o
systema de dormir de caraa e de luvas. Faa o senhor outro tanto, e no
d importancia aos trombeteiros.


Ah! caro leitor, aviso-o para que se acautele, visto que j fui atacado
pelo primeiro mosquito d'este vero: compre caraa e luvas como o
visconde do Pecegueiro.

Oh! o primeiro mosquito! Que horror!




II

A comedia das praias


De manh cedo, na praia, todos parecem ter ainda o olhar vidrado,
estupido, de quem acaba de accordar.

Olham uns para os outros com certa surpreza spasmodica, achando-se feios.

Defeitos que durante o dia chegam a passar despercebidos, avultam: foi
n'uma praia que eu descobri que certa dama, alis formosa, tinha uma
orelha maior que a outra... de manh!

Dar-se-ia o caso que, depois de feita a _toilette_, a orelha mais
pequena crescesse ou a maior diminuisse?

Certamente que no. Mas diante do espelho, com vagar, um geito dado ao
cabello, artisticamente, encobria o defeito da orelha. O ferro de frisar
salvava a situao: a madeixa, que elle fazia descer, salvava a orelha,
que a natureza fizera subir.

      *      *      *      *      *

Em questes de _toilette_, o meio termo no  admissivel: ou tudo ou
nada. Ou a _toilette_ esplendida ou... a estatua. Eva, depois do peccado
original, faz-nos rir vestida de folhas de figueira. Ora o fato de banho
 o meio termo: a folha de figueira. Para vestir...  pouco; para
despir...  muito.

Ha porm uma coisa peior do que vestir um fato de banho:  querer
sophismal-o.

Certas damas, quando chegam  praia, conseguem dar na vista pela
perfeio plastica das suas curvas. Ao entrar na agua, vestidas para o
banho, perdem as curvas. No perderam; deixaram-n'as na barraca. Este
sophisma deploravel revela a carencia de um bom argumento. Argumento ou
augmento. O eufemismo  o mesmo. Mas s a praia consegue revelar um
segredo, de que, quando muito, apenas se suspeitava...

      *      *      *      *      *

Andam pessoas a enganar-nos durante onze mezes em cada anno.

Suppomol-as polidas, eruditas, francas, estimaveis.

Em Lisboa, quando as encontravamos na rua, trocavam comnosco um
_shake-hand_, tinham um dito amavel ou sentencioso, pareciam-nos
cordealmente expansivas.

Nas praias,  sombra de um _chalet_ ou de uma arvore, durante duas horas
de conversao, desmascaram-se. Dia a dia, podemos fazer o inventario
das suas idas, dos seus sentimentos, das suas opinies. E, ao cabo de
um mez de estao balnear, averiguamos que:

Fulano, que vae  missa em Lisboa, no cr em Deus.

Sicrano, que tinha fros de erudito, apenas l a _Revista dos dois mundos_.

Beltrano, que parecia fallar-nos com o corao nas mos, no fazia outra
coisa seno metter-nos os ps nas algibeiras.

      *      *      *      *      *

Em Lisboa, accusa-se o Gremio e a Havaneza de terem m lingua.

Pobre Havaneza! pobre Gremio! pagam as favas injustamente.

A maledicencia habitual d'esses dois pontos, de reunio tem apenas um
caracter pessoal. Eu explico. Ordinariamente, falla-se s do sujeito que
passou ou do sujeito que saiu.

A maledicencia das praias estende-se  gerao, chega ao pae, passa ao
av, alcana s vezes o bisav.  retrospectiva. Por exemplo:

--Quem  aquelle sujeito que vem acol?

--Pois no conhece!  fulano.

--No conheo.

--Ha de lembrar-se com certeza do caso da herana do Gutierres. Foi
muito fallado.

--Lembro-me, sim.

--Pois este  que falsificou o testamento.

--Este! E anda vestido de branco,--como as virgens!

-- de familia...

--O fato branco?

--No. A alma negra. O pae foi negreiro.

--J vem mais de traz, isso.

--Por qu?

--O av enriqueceu no tempo dos francezes, dando assalto s casas dos
visinhos que tinham fugido.

O sujeito aproxima-se, dois ou tres levantam-se para abraal-o; mas a
esse tempo, que foi pouco, j lhe est desenterrada a familia at ao av.

O vagar faz colhres, diz o povo. Nas praias, o vagar faz exhumaes
tremendas. No ha bisav que esteja seguro na sepultura.

      *      *      *      *      *

Na comedia das praias, as moscas teem um papel importante. Em Lisboa,
para se dar importancia a uma mosca,  preciso que ella haja sido
audaciosa at o ponto de escolher para suicidar-se o nosso prato de
sopa. De resto, em Lisboa, as moscas morrem, mas, nas praias, as moscas
matam. Teem dentes; so carnivoras. Mordem, perseguem, endoidecem a
gente. Desforram-se da ociosidade de um anno inteiro, esperam famintas
pelos banhistas, e, depois de os morder, zumbem e zombam, parecem rir de
troa umas com as outras.

S nas praias  que o europeu consegue ser victima das moscas. E
fallarmos ns com horror das moscas de Africa! As moscas saloias so
muito peiores!

      *      *      *      *      *

Em Lisboa, os criados passam s vezes um anno inteiro sem partir loia.

Mas, chegando s praias, os seus dedos parecem debeis como vimes.
Quebram hoje um copo, manh um prato, escacam, em quinze dias, metade
da loia do senhorio.

Encontrei uma vez, n'uma praia, certa dama, que andava afflictissima de
loja em loja, procurando alguma coisa, que lhe dava grande cuidado.

--Imagine, disse-me ella, que o meu criado quebrou hontem uma chavena!

-- vulgar.

--Quebrar  vulgar; mas a chavena  que o no era.

--Como assim?!

--Quando eu vim, a senhoria disse-me: Peo a v. ex. todo o cuidado com
esta chavena, que era a chavena do pap.

--Como o sabre da _Gr-duqueza_!

--Isso. Ninguem se servia d'aquella chavena gloriosa, nenhum de ns
tinha ousado mandal-a tirar do guarda-loia. Mas o meu criado ousou
limpal-a hoje, e quebrou-a. Aqui ando eu agora afflicta  procura de uma
chavena, que possa continuar a ser, na tradio da casa, a _chavena do
pap_!

      *      *      *      *      *

Nada ha que me d tanto a impresso do communismo como um club de praia.

 de todos, sem pertencer a ninguem.

Cada um que vem chegando pensa que o club  seu. A primeira cousa de que
se apossa ... o piano. O piano passa a ser, no um instrumento de
musica, mas um escravo. Submisso, paciente, resignado, obedece como um
negro, cujos dentes so muito brancos... Aoutam-n'o com as mos, e no
protesta; do-lhe pontaps no pedal, e no se desconjunta. Familias
inteiras vo affirmar no teclado os seus direitos de socio. A me toca a
_Norma_, que  uma opera do seu tempo, a filha perpetra a
_Carmen_; o filho executa os _Fados_--com a mo direita.

O pae agarra-se aos jornaes e parece resolvido a no deixal-os lr por
mais ninguem.

As primeiras senhoras que  noite chegam ao club parecem tomar gosto 
grandeza da sala...

O seu desejo seria talvez que as outras, mais retardatarias, ficassem 
porta a contemplal-as... de longe.

Mas, como isso no acontece, as que j esto de posse da sala,
preparam-se para o ataque, assestam as suas baterias.

 o _lorgnon_...

 o sorriso sardonico...

 o ditinho picante...

Tudo isto entra em fogo ao mesmo tempo.

Depois, as que acabam de chegar, fazem causa commum com as que j tinham
chegado e, preparadas para o combate, ficam  espera das que ho de
chegar ainda...

      *      *      *      *      *

Ha sempre nas praias uma menina que recita.

De p, quasi sempre vestida de branco, recita versos azues. Quero dizer,
versos ethereamente romanticos. Em quanto ella recita, a me pe
os olhos no cho. As outras senhoras pem o leque diante da cara.

Algumas vezes, a menina engana-se, falta-lhe a memoria. Nem para traz
nem para deante.

Ento lana mo de um recurso supremo: desmaia.

--Um medico! No est ahi um medico?

N'uma praia esto sempre quatro medicos, pelo menos.

Vem um.

--Isto no  nada, passa j.

Mas o irmo mais novo da menina desmaiada foi, a correr, buscar a casa o
_Almanach das Senhoras_.

E, reanimada por este auxilio, a menina continua a recitao, ficando o
irmo mais novo mettido atraz do piano,--servindo de ponto  mana.

      *      *      *      *      *

Tambem ha sempre uma menina que tem album.

Pede, a torto e a direito, uns versos, um desenho, uma melodia.

Pde imaginar-se o valor do album dizendo que so os poetas que
desenham, so os pintores que fazem versos, so os que sabem fazer
desenhos ou versos que escrevem a melodia.

Em concluso: ninguem quer perder n'um album o melhor do seu
talento...




III

N'uma praia solitaria


Um amigo meu, que se acha n'uma praia do norte do paiz, certamente das
menos conhecidas e frequentadas, acaba de descrever-me n'uma carta a
maneira como alli tem vivido desde os ultimos dias de julho.

Quando chegou, apenas encontrou j installado um outro banhista, que
desde logo se constituiu seu companheiro inseparavel, comquanto ento se
vissem pela primeira vez.

O meu amigo  de Lisboa, o outro reside actualmente no Alto Minho. Foi
o acaso que os reuniu pela identidade de destinos, como dois nufragos
desconhecidos que se encontrassem agarrados  mesma tabua de salvao ou
perdidos na mesma ilha deserta.

Comearam por tirar cerimoniosamente o chapeu um ao outro, mas ao cabo
de duas horas de convivencia tratavam-se por tu,--intimamente.

A ilha deserta em que se encontraram era a unica loja importante da
praia,--uma loja onde se vende tudo o que uma pessoa pde desejar em
qualquer momento.

Supponhamos que um Lucullo extraviado chegava alli e pedia champagne.

Encostando-se ao balco, perguntaria:

--Tem champagne?

--Tenho, sim, senhor.

E abrindo um armario mysterioso, cheio de retortas, alambiques, garrafas
e garrafes, o dono do estabelecimento demorar-se-ia um instante
operando chimicamente.

Passada meia hora, quando muito, apresentaria uma garrafa de champagne,
feito talvez de petroleo, talvez de azeite, talvez de vinagre:
composio sua.

O freguez poderia extranhar que a garrafa no tivesse capsula de chumbo,
mas apenas uma velha rolha porosa.

O dono do estabelecimento responder-lhe-ia imperturbavelmente:

-- verdade isso, mas eu preoccupo-me mais com a qualidade dos meus
vinhos do que com a apparencia das garrafas.

Lucullo, sentado  sua mesa de familia, provaria o champagne, e ficaria
por ahi, a no ser que quizesse envenenar-se.

Mas, para no ser o unico a cahir no logro, calar-se-ia e, para rir um
pouco, aconselharia a toda a gente que fosse comprar o bello champagne
da loja do _Elephante azul_.

Ora  justamente o discreto silencio dos freguezes, que querem ter
companheiros na desgraa (_solatium est miseris_, etc.), que explica a
grande clientella que tem, principalmente na epocha de banhos, a loja do
_Elephante azul_.

Foi, pois, n'essa ilha deserta, deserta antes do mez de setembro, o
melhor n'aquella remota praia, que os dois solitarios banhistas se
encontraram, e principiaram a tratar-se por tu, duas horas depois de se
terem visto pela primeira vez.

--Mas ento, perguntava o meu amigo, no costuma vir mais gente para aqui?

--Sim, senhor, respondia o dono do _Elephante azul_, no mez de setembro
 tanta a concorrencia, que eu costumo vender todo o champagne, toda a
cerveja, toda a genebra que fabrico.

E o outro, que j l estava a banhos, observava:

--Em setembro, ser assim. Mas desde o dia 20 de julho, em que cheguei,
at hoje, apenas eu s tenho tido a honra de despertar as attenes dos
pescadores. No primeiro dia olharam para mim com surpreza, e nos dias
seguintes com espanto.

--Como assim?!

--Espanto de que eu, encontrando-me sosinho, continuasse a ficar...

--Mas agora somos j dois!

--Agora seremos um, _in carne una_, porque eu j te no largo, amigo da
minha alma! at que em setembro chegue mais gente. Tu foste a minha
tabua de salvao,  inesperado e dilecto amigo!

--O que direi eu ento de ti, que me proporcionaste occasio de ter com
quem fallar da crise monetaria e do caso das Trinas! Feliz de mim, que
te encontrei, e de ti que me encontraste! Gloria a Deus nas alturas, e
paz na terra... a dois homens!

--Imagina, porm, que, por nos exaltarmos em qualquer discusso,
tinhamos de ficar de mal um com o outro?

--Era o mesmo que romper com toda a humanidade!

--Mas o que farias tu?

--Eu?! Eu ficaria de bem comtigo at que, chegando setembro, podesse
encontrar dois padrinhos para te mandar desafiar...

Comeou agosto, e por mais que os dois amigos espreitassem para dentro
de todas as diligencias que se fazem annunciar ao som de estridulas
campainhas, no viam chegar ninguem.

--Ento para que servem as diligencias? perguntava um.

--Servem para alimentar a tradio de viajar, respondia o outro.

O dono do _Elephante azul_ dizia do lado:

--Em setembro vem cheias de gente. s vezes trazem dezeseis pessoas em
oito logares.

--Mas no seria melhor que essas pessoas viessem a pouco e pouco, cada
uma em seu logar?

--No, senhor. Porque ento, replicava o dono do _Elephante azul_, por
muita gente que viesse, no se sentiria tanto.

Os dois amigos tinham j esgotado todo o reportorio das suas opinies.

--O que pensas tu, caro amigo, a respeito do caso das Trinas?

--J to disse hontem.

--E a respeito da crise monetaria?

--J t'o disse ante hontem.

-- verdade! Por signal que te repetiste. Tambem j m'o tinhas dito no
dia em que eu cheguei...

O que mais os aborrecia era no poderem encontrar um terceiro parceiro
para o voltarete.

Haviam j perguntado ao dono do _Elephante azul_:

--Sabe o voltarete?

--No, sr. Sei fazer champagne, sei fazer cognac, sei fabricar cerveja,
s no sei jogar o voltarete!

--Porque no trata de o aprender?

--No vale a pena: no  coisa que se venda.

No dia 8 de agosto, por volta do meio dia, qual no foi a surpreza dos
dois amigos quando, encostados  porta de _Elephante azul_, viram chegar
uma carruagem com um passageiro dentro.

--Eureka! gritou um.

--Apaga a lanterna de Diogenes! exclamou o outro.

O passageiro apeiou-se do trem e, sem entrar na loja do _Elephante
azul_, seguiu para o interior da villa.

--Vae installar-se, disse um.

--Vae, e no tarda ahi,  procura dos unicos dois homens que n'este
momento lhe podem ser agradaveis.

O dono do _Elephante azul_, tendo vindo  porta examinar o
recem-chegado, observou:

--No  cara conhecida. Nunca veiu c.

--Podera! Se j conhecesse a praia, no vinha seno em setembro.

Ficaram os dois conversando, mas o homem no appareceu.

--Onde se metteria elle?

--Naturalmente, disse o dono do _Elephante azul_, anda procurando casa.

--Se fosse s isso, j a teria encontrado.  mais provavel que ande
procurando gente...

Cerca das trez horas da tarde, tornou a apparecer a carruagem, mas vasia.

O caso ia tendo as propores de um mysterio.

--O homem suicidou-se!

--Qual! Anda perdido nas ruas, e no encontra ninguem para lhe ensinar o
caminho.

Finalmente, o homem appareceu.

Entrou no _Elephante azul_ para comprar cigarros.

Os dois banhistas crivaram-n'o logo de perguntas.

--V. ex. vem para c?

--No, sr.

Os dois olharam-se com dolorosa surpreza.

--Ento no vem para c? insistiu no sei qual d'elles.

--Vim justamente fazer o contrario.

--Mas... no percebo!

--Vim dizer que no vinha para c.

--Nem mesmo em setembro?

--Nem mesmo... nunca. Tenho ahi um parente que me esperava, e vim
dizer-lhe que no contasse commigo.

--Mas isto  muito bonito... em setembro!

--Ser. Eu tenho informaes que me levam a pensar o contrario.

--Pois que! Nem sequer tenta fazer uma experiencia!

--No, sr. Um amigo meu veiu uma vez em agosto, e esperou at setembro
que viesse gente. Mas em setembro achou-se ainda mais s, porque morreu
de bexigas o unico banhista que lhe podia fazer companhia.

--N'esse caso vae-se embora?

--Vou j, respondeu o sujeito pagando os cigarros.

J elle ia a dirigir-se para o trem, quando um dos dois se lembrou de
gritar:

-- sr. Mendona!

O sujeito no fez caso.

-- sr. Andrade!

O sujeito dispunha-se a entrar no trem.

-- sr. Mattos!

O sujeito voltou-se rapidamente.

--Ah! j sei que se chama Mattos!... tem a bondade de nos dar uma palavra?

O sujeito, que j tinha um p no estribo, veiu ao encontro dos dois.

--Sabe o sr. Mattos, disse um, o que ns estamos resolvidos a fazer?

O meu amigo olhava para o companheiro de desgraa sem poder adivinhar a
sua inteno.

--No sei, mas v ex.^as tero a bondade de dizer.

--Pois bem, sr. Mattos! Vae sabel-o

E agarrou-o pelas lapellas do frak.

--O sr. est preso.

--Preso?! Porque?!

Ento o meu amigo sentiu-se illuminado. Adivinhou tudo.

E deitando as mos aos hombros do homem, gritou por sua vez:

--Preso... sim, sr.!

--Mas que crime fiz eu?

--No se trata de um crime, nem precisamente de uma priso.

--Mas, se no se trata de uma priso, porque  que me prendem!?

--Fica apenas detido. Segundo o codigo,  differente.

--Smente detido. O codigo estabelece a differena.

--Preso ou detido! disse o homem. Mas porque? Para que?

--Detido ou preso... Preso para banhista.

--Mas eu no quero tomar banhos!

--Pois no tome, mas fica preso para banhista.

--Preso no, observou o meu amigo.  bom no confundir as palavras. O
sr. Mattos fica apenas detido at setembro... emquanto no vem mais gente.

--Mas que proveito tiram d'ahi os srs.?... perguntou o Mattos.

--O proveito de sermos trez.

--Trez para tudo: trez para o cavaco, trez para o voltarete, trez para o
banho, trez para o _Elephante azul_.

--Mas eu no sei o voltarete!

--Pouco importa. O que se quer  que o jogue.

--Para jogal-o  preciso aprendel-o.

--Isso no  inteiramente verdade... Mas, dado o caso que seja
verdade, at setembro tem o sr. Mattos muito tempo para aprender a jogar
o voltarete.

O meu amigo termina a carta dizendo:

--C temos o homem preso, e bem vigiado.  noite fechamos-lhe a porta,
e levamos a chave para casa. Uma noite, para lhe suavisarmos o
captiveiro, resolvemos perder ao voltarete. E assim  que conseguimos
ser trez! Mas, para vr se vem mais gente, mandamos dizer nos jornaes do
Porto que a praia est muito animada, e que em setembro sero poucas as
casas para os banhistas que se esperam. V l se dizes isso tambem nos
jornaes de Lisboa...




IV

Os frequentadores das praias


Escolhamos alguns dos typos que avultam na galeria das praias, para
fixarmos n'elles a nossa atteno por um momento.

_O fallador_-- o discursador de cada praia, o homem que conta anecdotas
e que sabe da vida alheia. Tem corda para toda a poca balnear.
Levanta-se pela manh a fallar, vai conversar para a praia dos banhos
logo que se levanta, e  noite  o ultimo a sair do club.

--Meus amigos, diz elle, alli na Arruda aconteceu-me uma vez uma partida
de estalo. Imaginem que um rapaz do meu tempo, vendo-me apeiar da
diligencia, se lembrou de dizer aos da terra que eu era o homem mais
rico de Portugal. D'alli a pouco choviam-me no _hotel_ memoriaes,
requerimentos, bilhetes de visita. Um tal foi propr-me um negocio que
devia render cincoenta por cento. Outro queria vender-me uma
quinta phylloxerada. E um pai de familia pretendia que eu lhe desposasse
a filha... no caso de ser solteiro. Via-me embaraado com tantos pedidos
e propostas. De modo que tive de escrever para um meu amigo de Lisboa
pedindo-lhe que me dissesse em telegramma; Falliu Rio Janeiro casa
Antunes & C. Paciencia e resignao.

Eu li este telegramma na botica da terra, onde me foi entregue, e
exclamei fingindo desmaiar: Estou arruinado!

Acreditaram. Nunca mais ninguem me procurou para saber a resposta que eu
daria aos memoriaes e aos requerimentos.

D'alli a instantes:

--Em Mas de D. Maria tambem me aconteceu um caso muito rato. Eu tinha
ido l para arrematar uma quinta, que devia ir  praa n'esse dia. Mas,
por qualquer motivo, no se realisou a arrematao. Logo souberam,
porm, ao que eu ia.  noite, armaram um bailarico, e convidaram-me para
assistir. Houve descantes em minha honra. Mas no dia seguinte,
realisava-se a festa de um santo qualquer e vieram dizer-me que eu tinha
de pagar a missa e o sermo, porque era costume da terra que toda a
pessoa que alli fosse pela primeira vez, e recebesse a honra de um
bailarico, fizesse  sua custa a festa d'aquelle santo.

No club,  noite:

--Uma vez, na Narazeth, lembramo-nos de ir todos para o club vestidos
com o fato do banho. Imaginem que risota?!

--Mas as senhoras? O que disseram as senhoras a isso? pergunta alguem,
do lado.

_O fallador_ no se atrapalha:

--Ah! as senhoras no foram n'essa noite ao club...

_O silencioso_--Ouve tudo calado, mascando no seu charuto. No aventa
uma ideia, no arrisca uma opinio. No quer conhecer ninguem. Os outros
banhistas que se riem do _fallador_, riem-se igualmente do _silencioso_.
Ao cabo de vinte dias de praia, o _silencioso_ aventura-se a proferir
uma palavra ou duas. Em vez de levar apenas a mo ao chapeu, rompe neste
excesso de eloquencia: Muito bons dias ou Muito boas noites. Cinco
dias depois, j cumprimenta um ou outro pelo seu nome. E no fim do mez,
quando parecia resolvido a fallar, vae-se embora!

Uma vez, n'uma praia, appareceu um _silencioso_ d'estes. Havia um
_fallador_, que embirrava muito com elle. Era natural.

--Eu hei de obrigar a fallar este diabo...

Fazia-lhe uma pergunta, e o homem contentava-se com encolher os hombros.

--No importa! Eu hei de obrigar a fallar este diabo... dizia o
_fallador_ assim que o _silencioso_ voltava costas.

--O cavalheiro toma banhos?

O _silencioso_ meneiava affirmativamente ou negativamente a cabea.

Desesperado, o _fallador_, estando certo dia a contar uma das suas
muitas historias, fingiu-se distraido, e pisou o outro.

--Que bruto! exclamou o _silencioso_.

--Mas... fallou! gritou cheio de jubilo o _fallador_.

O _generoso_--V, rapazes, lembrem-se vocs d'alguma festa, e contem
commigo. Pde-se tirar partido de tanta coisa! Querem um arraial? Eu dou
o fogo de vistas. Querem uma regata? Eu dou os premios. Querem uma
burricada? Eu dou os burros.

--No os ha, diz alguem, do lado.

--Qual no ha! Tudo so difficuldades! J no ha rapazes!...

--O que no ha so burros.

--Burros! ha sim, sr. Eu encarrego-me de os mandar vir pelo caminho de
ferro ou, se tanto fr preciso, pelo telegrapho. Onde ha dinheiro, ha tudo.

O _sovina_--Andam ahi a fazer uma subscripo? Tem graa! Quem
encommendou o sermo, que o pague. Eu nunca na minha vida dei dez ris
para divertir os outros. Pelo contrario, o que eu quero  que os outros
me divirtam a mim. Agora uma _soire_! No vou a parte nenhuma para
tomar ch. Tomo-o em minha casa quando quero. De mais a mais uma
_soire_ com bolos saloios, que quebram os dentes  gente! E ch de
herva cidreira ainda por cima! No ch no se admitte meio termo: ou bom
ou nada. Eu no gosto seno do Hyson. E depois d c dez tostes! Ora
que tal est a maroteira! Queriam danar? Danassem a scco. Quanto mais
leve se est, melhor se dana!

O _pai extremoso_-- a primeira vez que o cavalheiro vem a esta praia?

--Sim, sr.;  a primeira vez.

--Ento hade conhecer poucas senhoras?

--Muito poucas.

-- uma contrariedade para quem gosta de danar. O cavalheiro dana?

--Gosto muito.

--Pois bem, esta noite queira procurar-me no club, que eu o apresentarei
a tres ou quatro senhoras.

--Oh! mil vezes obrigado.

--Se me no custa nada!

 noite, no club, o _pai extremoso_ procede s promettidas apresentaes.

--Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Engracia.

E passando em claro apenas uma cadeira:

--Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Cecilia.

E duas cadeiras mais adeante:

--Tenho a honra de apresentar ao cavalheiro minha filha Conceio.

Depois, filando o apresentado pela lapella do frack:

--Agora j o cavalheiro tem muito com quem danar. Para o caso, porm,
de querer variar um pouco, apresento-lhe ainda a minha Mimi, que tem
apenas nove annos, mas que gosta muito de danar. Aprendeu com o Justino
Soares, e elle disse-me quando viemos para c: Esta menina ha de vir a
danar ainda melhor que as irms!

O _pai indiferente_.--Passo.

O filho mais novo, chegando-se ao p da mesa do voltarete:

--Manda dizer a mam se faz favor de ir  sala para arranjar um par para
a mana. Ella ainda no danou.

--Diz  mam que vou j.

D'ahi a pouco volta o pequeno:

--Faz favor de l ir, que se vai danar uma quadrilha.

--Peo licena.

--Que diz o pap?

--Que j l vou.

--Ento eu espero pelo pap.

--Isto no tem discusso possivel: cinco matadores.

--Venha d'ahi, pap.

--Dois de licena, cinco de matadores, dois de cinco primeiras: nove.

--Olhe, pap, j comeou a quadrilha!

--Quando se danar outra, vem chamar-me.

O _commodista_--Meninas, olhem que j so dez horas.

--manh  dia santo, pap.

-- Jeremias! deixa danar as pequenas mais um bocado...

--Perde-se todo o effeito dos banhos com estas noitadas!

-- s mais um bocado...

--Nada! nada! j estou com muito somno.

--V se o espalhas.

--A Rosa j deve ter feito o ch.

--s massador!

--Ai que deixei a janella do quarto aberta, e entram os mosquitos! Vamos
l depressa...

O _sucio_--Eu c sou de feio. No gostei nunca de desmanchar prazeres.
Podem danar  vontade, que eu vou vr jogar.

E vae para a rua conversar com as raparigas do povo, que espreitam 
porta do club.

Uma hora depois, volta  sala.

--Ento, ainda querem danar mais?

--S mais uma valsa.

--Pois sim! Eu c no quero ser desmancha-prazeres. Vou lr os jornaes,
que remedio!

E torna para a porta do club a conversar com as raparigas do povo.

-- Mela, j te vaes embora?

--J, sim, sr., e no tenho medo dos ladres.

--Pois fazes mal. Espera ahi, que eu acompanho-te. Sempre  bom
acautelar...

O _indigena da praia_--Quem diabo sero os patuscos, que andam a tocar
trompa a esta hora?! Estava no melhor do meu somno! Corja de patifes!

_Os da trompa_--Sopra-lhe ahi com fora para accordares o Diamantino,
que me vendeu um fato de banho por mais seis tostes. Patife!




V

Casos...


Conta-se a anecdota de certo prelado de uma diocese do Alemtejo, homem
de lettras afamado, que viveu no tempo do marquez de Pombal e que, em
estando entregue aos seus trabalhos litterarios, de nada mais queria saber.

Um anno, pelo tempo das boas-festas, estava o bispo sentado  banca, no
seu vasto escriptorio--um salo do pao episcopal--quando um diocesano
entrou para cumprimental-o.

O prelado no deu tento da entrada do homem, tanto era o interesse que
lhe merecia o assumpto de que estava tratando.

--Sr. bispo! apostrophou timidamente o recem-chegado.

O bispo no ouviu.

--Sr. bispo! tornou a exclamar o visitante.

Nada! O bispo no ouvia.

Ento, muito compromettido, o visitante resolveu-se a empurrar uma
cadeira para fazer barulho.

O bispo voltou de subito a cabea. Viu-o, e perguntou:

--O que  que quer?

--Eu vinha visitar v. ex.

E o bispo, continuando a escrever, respondeu:

--Pois visite, visite.

      *      *      *      *      *

O curso do quinto anno de direito estava simulando audiencias, como 
costume, fazendo um estudante de juiz, outro de escrivo do processo,
outro de official de diligencias, etc.

Constituiu-se o tribunal, e o professor da cadeira disse ao estudante
que representava de juiz:

--Ha sussurro na sala. O que faz o sr. juiz?

--Toco a campainha, e recommendo silencio ao auditorio.

Mas o professor insistiu:

--Continua o sussurro. O que faz o sr. juiz?

--Torno a tocar a campainha, e de novo recommendo silencio.

--Mas supponha que no basta isso. O sussurro continua.

--N'esse caso, direi: Official, tome nota das pessoas que esto fazendo
sussurro, para serem autuadas.

--Mas o sussurro redobra.

E o estudante, j muito atarantado, exclama:

--Redobra!

--Sim, senhor,--o sussurro redobra.

O estudante pensa um momento...

--Ento, insiste o professor, o que fazia o sr. juiz?

--Eu? Eu fazia isto: punha o chapeu na cabea e dizia: Est levantada a
sesso.

Riu o professor, riu todo o curso, e o estudante salvou-se da entalao
d'aquelle dia,--por ter tido uma ida e um chapeu.

      *      *      *      *      *

Havia um grande capitalista, que, por ter um sobrinho muito
extravagante, j lhe no queria dar vintem.

Um dia appareceu-lhe o sobrinho annunciando que ia partir para os
Estados Unidos, onde poderia vender melhor do que em Portugal, dizia
elle, o segredo de uma inveno maravilhosa.

O tio, picado de curiosidade, quiz saber no que consistia a maravilhosa
inveno. Recusa do sobrinho. Insistencia do tio. Finalmente, o
sobrinho revelou o seu segredo: tinha descoberto o processo de fazer
oiro. O tio, to rico como ambicioso, resolve comprar-lhe o segredo por
seis contos de ris. O sobrinho, simulando alguma difficuldade, acaba
por vender-lhe a receita, que o tio paga immediatamente. Concluida a
transaco, despedem-se, mas, j no fundo da escada, diz o sobrinho ao tio:

--Ah! esquecia-me uma coisa, meu tio. Para que a receita d resultado
satisfatorio,  preciso que o tio, quando quizer fazer oiro, no se
lembre do _elephante branco_.

E saiu com o dinheiro na algibeira.

O tio tratou de montar o seu laboratorio, e de realisar a receita. Mas,
por mais que quizesse affastar do seu espirito a ida do _elephante
branco_, essa terrivel ida acudia-lhe sempre, pelo que jmais conseguiu
tirar da compra que fizera o resultado que esperava...

      *      *      *      *      *

No sei quando, nem mesmo onde, existiam dois esposos, que se
enriqueceram... de filhos. A boa fortuna parecia apostada em querer que
elles esgotassem todos os nomes do _Flos sanctorum_.

Comearam pelos vulgares. Os primeiros filhos chamaram-se Manuel,
Joaquim, Antonio, Joo. Depois passaram a escolher nomes
romanticos: Arthur, Laura, Beatriz, Egberto. Por ultimo, tiveram
que lanar mo dos nomes mais esquisitos e arrevesados: Cunegundes,
Tecla, Mafalda, Thimoteo.

Um dia, quando j era difficil saber a conta de todos os filhos, e
acertar-lhes de prompto com os nomes, saiu o pae a passeio e, longe de
casa, encontrou na rua uma creana que chorava, escondendo o rosto entre
as mos.

Apiedou-se, dirigiu-se  creana, levantou-lhe a cabea, achou que tinha
uns olhos bonitos, e disse-lhe:

--O que fazes tu por aqui, meu menino!

--Ando perdido.

--Pobre creana! Sabes quem  a tua familia?

--No estou bem certo d'isso, meu sr.

--Tens fome?

--Muita, muita.

--E frio?

--Muito frio...

--Est bem, anda d'ahi comigo.

Onde ia elle levar a creana? Ora! onde  que o negociante feliz vai
depositar os seus lucros? No Banco. Pois o Banco onde esse feliz casado
enthesourava todos os lucros da sua prosperidade conjugal era... a sua
propria casa,--o seu lar.

Chega elle, muito contente, com a creana pela mo.

--Querida mulher! disse ao entrar em casa. Trago-te mais uma creana...

--Outra?!

--Sim, filha, tu s bondosa, compassiva, has de comprehender o impulso
do meu corao.

--O que queres dizer?

--Quero dizer que encontrei na rua, abandonada, esta pobre creana, que
no sabe ao certo quem so os seus pais e onde moram.

E o pequeno, escondendo o rosto choroso entre as mos, arquejava,
soluava...

--Vendo-o, pensei commigo mesmo: Onde cabem vinte, podem caber vinte e
um. Eis aqui est o que eu pensei, e trouxe-o commigo.

--Que Deus nos ajude, homem! mas j estvamos to sobrecarregados!

--Quando tinhamos apenas seis filhos j diziamos isso mesmo! E comtudo
tem havido logar para todos, nenhum d'elles ainda morreu de fome.

--Pois bem! fique o pequeno.

A creana conservava-se ao canto da casa, soluando, arquejando.

--Disseste que era bonito o pequeno?

--Olha para elle, e vers os lindos olhos que tem!

--Levanta a cabea, meu menino.

A creana no se mexia. Arquejava, soluava.

Ento foi preciso levantar-lhe a cabea quasi  fora.

--Ora esta! exclama a dona da casa.

--O que ?! pergunta o marido.

-- o nosso Augusto!

Eram tantos, que j nem o pai os conhecia!

      *      *      *      *      *

Sabem o que  muito difficil no carnaval?

 encontrar um companheiro que nos no incommode e que nos no contrarie.

Ah! isso  que  muito difficil!

Eu apenas conheo um caso em que certo amigo meu poude encontrar o
melhor dos companheiros para um baile de mascaras.

Esse companheiro era um general, que parecia excellentemente disposto:
alto, forte, com um bello bigode branco, e algum brilho ainda nos olhos.

O meu amigo convidou-o para irem a um baile de mascaras. Acceitou logo.
Foram.

Uma vez no baile de mascaras, o meu amigo sentou-se junto a duas
mulheres mascaradas. O general tambem. O meu amigo fallava-lhes. Ellas
respondiam. S o general estava calado, parecendo comtudo
excellentemente disposto.

Convidou-as o meu amigo para irem ceiar todos juntos. O general no
oppz a menor resistencia.

--Pois sim! vamos l ceiar, disse elle.

Foram ceiar.

As mulheres tiraram a mascara. O meu amigo disse a uma das mulheres que
gostava muito d'ella, o general no disse nada  outra.

Comeram. O general comeu tambem. No fim da ceia, queimaram todos quatro
as suas cigarrilhas. O general parecia excellentemente disposto.
Desabotoou o collete, repotreou-se na cadeira, accendeu segunda cigarrilha.

Veiu a conta. O meu amigo quiz pagar toda a despeza; o general no
consentiu, quiz pagar tambem a sua parte.

Sairam.

O meu amigo, voltando-se para o general, disse-lhe:

--E agora?

O general, parecendo sempre muito bem disposto, inclinou-se ao ouvido do
meu amigo, e disse-lhe:

--Olhe, meu caro, eu j no tenho condio nenhuma para gostar de um
baile de mascaras.

E o meu amigo, sem se desconcertar, sem se surprehender, offereceu o
brao direito a uma das mulheres, o brao esquerdo  outra, e disse ao
general, que continuava a parecer muito bem disposto:

--Boa noite, general.

      *      *      *      *      *

Certo estudante, tendo faltado s aulas, apresentou uma certido de
doena, falsa.

O medico que a passra era uzeiro e vezeiro em justificar a cabula dos
estudantes, que lhe pagavam a justificao.

Do alto da cathedra, o professor, tendo relanceado os olhos 
assignatura da certido, perguntou:

-- sr. Fulano! se estivesse doente chamava este medico para o tratar?

O estudante respondeu com promptido e firmeza:

--No, senhor.

      *      *      *      *      *

Tinha Antonio Feliciano de Castilho ido ao Rio de Janeiro, e fra
recebido em audiencia particular pelo imperador D. Pedro II.

A conversao versou, como era natural, sobre assumptos litterarios.

Castilho havia sido prevenido de que o imperador, por amor  discusso
com homens notaveis, gostava de que elles o contrariassem nas suas
opinies.

Assim avisado, se o imperador dizia que tal objecto era branco,
Castilho sustentava que esse mesmo objecto era preto.

O sr. D. Pedro II estava delirante de alegria, e propositadamente
prolongava a conversao.

Veiu a ponto fallarem de versos alexandrinos.

O imperador declarou que no gostava do verso alexandrino, de que, como
se sabe, Castilho era enthusiasta.

--Ser-me-ha licito, disse Castilho, perguntar a vossa magestade os
fundamentos da sua opinio?

--Acho o alexandrino--replicou D. Pedro II, um metro inutil, por isso
que  composto de dois versos de seis syllabas. Digam francamente que
fazem versos de seis syllabas, e escusam de baptisar cada parelha de
seis syllabas com o pomposo nome de alexandrinos.

Castilho replicou:

--O que faz vossa magestade quando tem sde?

O imperador sorriu-se, e respondeu:

--Bebo agua.

--Ora muito bem! tornou Castilho, mas se vossa magestade beber agua por
dois copinhos, no fica to satisfeito como tendo-a bebido de um s
trago por um copasio enorme.

      *      *      *      *      *

Um homem que se dava excellentemente com a mulher, e que tinha trez
filhas muito bonitas e trez filhos muito espertos, no podia soffrer a
sogra,--como quasi sempre acontece.

Um dia, ella adoeceu gravemente, muito gravemente. Foi preciso chamar o
medico que, depois de lhe vr a lingua e tomar o pulso, torceu o nariz.

--Isto no est bom! disse o medico.

--O que se ha de fazer ento?

--Deitar-lhe bichas, j, immediatamente.

Mandou-se, sem perda de tempo, buscar as bichas, muitas bichas.

O bom do genro assistiu  chegada das bichas, viu-as deitar, chegou
mesmo a perguntar se ellas tinham feito bem o seu dever: morder na sogra.

 noite, no club, dizia elle:

--Assisti hoje a um combate de feras.

--Como assim?!

--Vi deitar duas duzias de bichas em minha sogra...

      *      *      *      *      *

Certo professor de medicina perguntava a um estudante:

--Por que  que no tratamento das feridas se emprega o panno de linho
velho?

O estudante procurou qualquer razo, e disse-a.

--No, sr., replicou o cathedratico.

O estudante tratou de procurar outra razo.

Observao do professor:

--Tambem no.

O estudante d ainda tratos  cabea para descobrir uma terceira razo.

Ento o professor resolve-se a fazer luz no assumpto:

--Por duas razes, e nenhuma d'ellas o sr. foi capaz de descobrir! 1.
Porque o panno de linho velho  mais barato. 2. Porque o panno de linho
novo  mais caro.

      *      *      *      *      *

Eu estava uma vez no escriptorio de um advogado meu amigo, homem de
lettras, jornalista principalmente, que me pedira que esperasse emquanto
elle acabava de escrever um artigo de fundo.

A penna rangia vertiginosamente sobre o papel.

Eis seno quando entra um saloio.

--Que ? perguntou o advogado escrevendo sempre.

O saloio respondeu:

--Vinha consultar v. ex. sobre uma pequena questo.

--V dizendo.

O saloio olhou para o advogado, olhou para mim e olhou para um espelho
que havia no escriptorio. Estava embaraado, duvidoso de expr o seu
assumpto sem que o advogado se prestasse a dar-lhe toda a atteno.

--V dizendo, repetiu o advogado.

--Sr. dr.: Ha na minha terra uma mulher de m lingua, que traz todo o
logar embrulhado. Por causa d'ella lavram inimisades de familia,
questes entre casados, o diabo! Mas de cara a cara ella no se mette
com ninguem;  s por traz da cortina. Veiu para l ha tres annos,
comprou uma casita, e trabalha de tecedeira. Mas o que ella tece melhor
so intrigas. Por sua causa estou de mal com meu sogro e com meu
cunhado. Eu e outros mais da freguezia queremos pl-a fra do logar, mas
no sabemos a quem havemos de requerer...

E calou-se. O advogado continuava escrevendo.

--No sabemos a quem havemos de requerer... repetiu o saloio.

O advogado no respondeu.

--Sr. dr., perguntou o saloio, a quem havemos ns de requerer?

O advogado nem palavra.

Mas o saloio no desistiu. Aproximou-se da banca, e tornou a perguntar
curvando-se at quasi juntar a sua cabea com a do advogado:

--A quem havemos ns de requerer, sr. dr.?

--A D. Miguel, respondeu o advogado continuando sempre a escrever.

      *      *      *      *      *

Quem conhecia bem a formiga era um certo lavrador do Alemtejo, cujo
celleiro as formigas tinham invadido como praga damninha.

Elle consultou todos os chimicos afamados para que lhe vendessem um
ingrediente que as matasse.

A droga que lhe receitou o boticario da sua terra, no deu resultado.
Veiu de proposito a Lisboa, conversou sobre o assumpto com os mais
conspicuos pharmaceuticos da capital.

--Faa isto.

--Faa aquillo.

--Faa aquell'outro.

Nada deu resultado. Um dia, na charneca, aconselhou-se com um pastor.
Obrigados, pela solido em que vivem,  observao da natureza e 
philosophia da experiencia, os pastores da charneca tem s vezes
phrases conceituosas, alvitres sapientissimos.

O pastor deu-lhe um conselho, que valia mais do que as drogas dos
pharmaceuticos.

Chegado a casa, o lavrador pegou n'uma tira de papel, escreveu n'ella
algumas palavras, e foi pregal-a na porta do celleiro.

Legies de formigas avanavam, pelo veso, em demanda das tulhas. Mas
logo que avistavam a porta, e liam o lettreiro, retrocediam como que
embuchadas.

No dia seguinte, a mesma coisa. O pastor tinha aconselhado um remedio
excellente.

O que escreveu o lavrador no papel? Esta simples phrase:

_De hoje em deante, toda a formiga que entrar no meu celleiro ha de
pagar dez ris--por cabea._

Ora como as formigas so essencialmente avarentas, chegavam  porta do
celleiro, liam o papel, e desandavam para a toca, no sabendo ao certo
se o lavrador gracejaria ou fallaria verdade.

      *      *      *      *      *

Um moo de fretes costumava ir confessar-se todos os annos, mas fazia a
sua chorata ao prior para no ter que pagar a _desarrisca_. De uma vez,
porque lhe parecesse que o prior se aborrecia com a choradeira, que era
fingida, andou a procurar entre os seus patacos um que tinha peor cara e
que por isso mesmo era mais duvidoso.

Foi confessar-se, muito contricto, com o pataco falso na algibeira.
Antes de receber Nosso Pae, pensando sempre em Deus e no pataco,
dirigiu-se para a sachristia.

--Sr. prior, disse elle, eu tenho abusado muito da bondade de v. s.

--Nem por isso, Ramon...

--Tenho, tenho, sr. prior, mas este anno no ha de ser assim.

E, dizendo, tirava vagarosamente da algibeira do collete o que quer que
fosse.

--Este anno, continuou, quero pagar a _desarrisca_. Se o sr. prior
estiver pelos autos, ficar o costume de eu pagar de dois em dois annos.

--Pois seja como quizeres.

E o moo de fretes, tirando o pataco da algibeira, pl-o a um canto da
mesa em que o prior estava escrevendo no livro.

-- poucochinho, sr. prior, mas os annos vo muito bicudos...

--No fallemos mais n'isso.

--Sempre chega para o rap. Este pataquinho  para o rap do sr. prior.

--Pois seja.

E o prior, voltando-se para o menino do cro, que estava perto,
disse-lhe imperativamente:

-- Z Maria, vae-me ali defronte comprar um pataco de meio grosso.

O Z Maria sahiu, a correr, e o moo de fretes, sempre muito
contricto, foi ajoelhar-se  mesa da communho, esperando pelo prior.

Um instante depois, o menino do cro entrava na sachristia com o rap e
com o pataco.

--Sr. prior, disse elle, no quizeram receber o pataco.

--Por qu?

--Porque  falso como Judas. Mas obrigaram-me a trazer o rap por ser
para o sr. prior.

--Deixa l vr o pataco.

O prior pegou no dinheiro, levou-o  altura dos olhos, e riu-se.
Levantou-se, preparou-se para ir dar a communho.

Chegando  egreja, descobriu o moo de fretes, que estava j com o
queixo muito embrulhado na toalha de rendas.

O prior foi distribuindo as sagradas particulas, mas quando chegou ao
gallego, introduziu-lhe o pataco na bocca,--delicadamente.

Habituado a grandes pesos, o penitente nem sequer se admirou de que
fosse to pesada aquella estranha particula.

Mas quando quiz engulil-a,  que foram ellas!

E o prior, de p, grave e solemne, esperava.

Bem voltas dava  lingua o gallego, mas no havia meio de engulir o pataco.

At que, com alguma difficuldade, se resolveu a dizer:

--No passa, sr. prior!

E o prior, sempre muito grave e solemne respondeu-lhe:

--No passa, no. J mandei comprar rap, e no o quizeram acceitar.

      *      *      *      *      *

--Por que , perguntava um professor de agricultura, que as sementes
precisam ser enterradas na terra?

--Por isto... dizia um estudante.

--Por aquillo... respondia outro.

O professor zangou-se:

--No, sr.!  preciso enterrar as sementes para os passaros as no
comerem.




VI

 volta dos ps da imperatriz


Referiram ha tempos os jornaes que se tinha levantado na crte de Berlim
uma grave questo de etiqueta,--grave como todas as questes d'este
genero, incluindo a do _Hyssope_.

A actual imperatriz, que prima por uma extrema simplicidade de vestidos
e maneiras, pedira ao imperador seu marido que dispensasse, nas grandes
solemnidades do palacio, os vestidos roagantes, as longas _traines_
cadentes.

A condessa Waldersee, que tem auctoridade em questes de etiqueta,
reforou com a sua opinio o pedido da imperatriz.

Mas Guilherme II no annuiu, e as extensas caudas de setim e velludo
continuaro a arrastar-se, sobre os tapetes da crte allem, longamente,
apparatosamente...

 bocca pequena dizia-se em Berlim que no pedido da imperatriz havia o
que quer que fosse de vaidade feminina, porque, tendo uns ps
pequenissimos, no desejava que lh'os empanasse o vestido.

O imperador, conhecendo a inteno reservada da imperatriz,
entrincheirra-se na recusa, porque, no obstante as suas aventuras
d'amor, Guilherme II, como todo o marido que se prese, entende que deve
ser elle o unico a ter o direito de admirar as perfeies plasticas de
sua mulher.

Pelo que respeita aos ps femininos, dividem-se as opinies. Os leitores
sabem-n'o to bem como eu.

Entendem uns que os ps da mulher so to pouco para admirar como a
haste de uma rosa. Todas as attenes se fixam na belleza da corolla, no
colorido das petalas.  a rosa fresca e bella?  isso o que se quer.
Tenha a mulher as graas do semblante, que os ps, que ficam l muito
para baixo, escapam  vista, sejam grandes ou pequenos.

Outros porm, e estes so decerto em maior numero, adoram os ps
caprichosamente pequeninos, miniaturados a buril como por um gravador
que houvesse cegado depois de os ter feito...

Os que so d'este parecer defendem-se com a tradio da estatuaria
classica, com as lendas graciosas da bella plastica antiga, em que a
mulher, no raras vezes, apparece divinisada pela pequenez do p.

Recordam a historia da _Cendrillon_, a nossa _Gata borralheira_, que
perdeu o chapim pelo qual um principe galante a mandra procurar at
que, encontrando-a, s descansou quando poude desposal-a.

Citam a tradio da formosa Rhodopis a quem, estando ella no banho, uma
aguia empolgou uma das sandalias, que deixou cahir no terrao do palacio
real de Memphis, onde o rei, apanhando-a, tratou de descobrir, desde
essa hora, o pequenino p de que pela sandalia ficra enamorado.

, no fundo, a mesma lenda, talvez um symbolismo mythico transformado em
anecdota historica, como julga Husson.

Lembram ainda em seu abono o instincto artistico da poesia popular, que
sempre celebrou as mulheres de ps pequenos. E adduzem exemplos:

    Tendes o p pequenino,
    Do tamanho d'um vintem:
    Podia calar de prata
    Quem to pequeno p tem.

A verdade  que o arsenal de defesa dos que assim pensam est
copiosamente abastecido de citaes e referencias, a que esses taes
podero recorrer para seu triumpho.

Na cloga segunda de Bernardim Ribeiro,--de que os seus biographos tanto
se tem servido para dilucidar a mysteriosa vida do poeta--
tambem pelo p de Joanna que o pastor Jano se deixa fascinar amorosamente.

Jano anda guardando o seu rebanho quando v aproximar-se Joanna que,
vestida de branco, se entretm colhendo flres. Elle occulta-se
espreitando-a. Colhidas as flres,

    Joanna, as abas erguidas,
    Entrar pela agua ordenou;
    E assentando-se, ento
    As apatas descalou,
    E, pondo-as sobre o cho.
    Por dentro d'agua entrou,
    E a Jano pelo corao.

Ah! que  preciso uma pessoa ser cega de enthusiasmo pelo bucolismo,
pela infancia poetica da alma portugueza, to simples, to sincera e ao
mesmo passo to docil, para no morrer de apoplexia fulminante ao
soar-lhe nos ouvidos este plebeu vocabulo _apatas_, to grosseiro e
saloio, como elle nos sa hoje!

Bernardim, esse favo de saudades a que o tempo no tem roubado a doura,
essa abelha do amor, que usurpou ao Hymetto o segredo de amelar
deliciosamente as suas trovas com as boninas do corao namorado,
parecer-nos-ha, se o no avistarmos de alto, um camponio da Ribaldeira a
gabar as apatas amarellas da moa do prior!

Mas o pastor Jano no teve mo em si que no sahisse do escondrijo ao
encontro da bella zagalla. Ella, como Galata, esquivou-se fugindo:

    Muito perto estava o casal
    Onde vivia o pai d'ella,
    Que fez ir mais longe o mal.
    Que Jano teve de vl-a:
    Mas o medo que causou,
    Joanna partir-se assi,
    Tanto as mos lhe embaraou,
    Que a apata esquerda, alli,
    Com a pressa lhe ficou.

Agora  que o ridiculo da situao parece subir de ponto, porque o
pastor Jano--o proprio Bernardim talvez--corre a abraar-se com a
apata, a chorar sobre ella, apatando os peitos.  textual.

    apata, deixada aqui,
    Para mal de outro mor mal,
    Quem te deixou, leva a mi:
    Que troca to desegual!
    Mas pois assim , seja assi.

Foi, portanto, pelo p de Joanna que o pastor Jano se sentiu arrastado
para o abysmo do amor,--com a apata na mo.

Como os tempos mudam! Hoje, um poeta palaciano, que ouzasse cantar em
publico, ainda mesmo sob o disfarce de pastor, a apata da bem-amada,
era um homem que tinha a sua carreira cortada pelo ridiculo.

A Academia, elegante como ella , diria, se alguem lhe fallasse em
admitil-o socio correspondente:

--Que! O da apata?! No pde ser! Elle que mude para chapim.

Qualquer ministro do reino, com receio do ridiculo das gazetas, se algum
influente politico lhe pedisse que fabricasse deputado o poeta,
responderia sorrindo:

--Ora adeus! O deputado da apata?!  l possivel! Voc quer matar o
governo pelo ridiculo!

Todavia a Academia Real curva-se--e n'este ponto curva-se bem--perante
Bernardim Ribeiro, o primeiro poeta bucolico portuguez.

As gazetilhas em verso fariam uma troa de seiscentos diabos ao anonymo
que ouzasse mandar para o _Diario de Noticias_ o seguinte annuncio:

Ha oito dias que estou beijando incessantemente a apata que v. ex.
perdeu em Cascaes quando, para me fugir, entrou precipitadamente no
banho. A apata entrou-me pelo corao, como V. ex. pela agua.

Nada obstante, se os redactores de gazetilhas vissem entrar Bernardim
Ribeiro no escriptorio do jornal, vestido de mendigo, como a lenda nol-o
pinta  volta de Saboya, roto e esfrangalhado, e se elle lhes dissesse
que era o auctor do livro das saudades, os srs. redactores
levantar-se-iam respeitosos, curvados e dominados, para offerecer uma
cadeira ao grande poeta Bernardim Ribeiro, que devia estar cansado, por
vir de longes terras.

Mas,  parte o desprimor archeologico do vocabulo, emerge d'esta trova
do bucolista o naturalismo, vivo e quente, que endeusa a pequenez do p
feminino.

Parece-nos galante toda a conjunctura em que um p de fada se descubra
aos nossos olhos na sua exiguidade microscopica, seja pulando sobre o
tapete de um salo, poisando no estribo d'uma carruagem, ou aquecendo na
concha ardente das nossas mos aduncas...

Conta frei Luiz de Sousa que o infante D. Fernando, tendo casado com D.
Guiomar Coutinho, em torno da qual se agitou a paixo dramatica do
marquez de Torres Novas, e subindo ambos uma escada, em tempo que
andava pejada D. Guiomar, lhe lanou mo dos chapins para que tivesse
menos pena na subida.

Gentil, no ?

Todas as delicadas galanterias que se faam aos ps de uma mulher,
suppem que o que n'elles encantou foi a perfeio com que a natureza os
talhou no marmore.

Enumerar todos quantos poetas, antigos e modernos, tem cantado os ps
femininos, seria o mesmo que encher de versos uma bibliotheca.

Temos, pois, que resignar-nos, quanto ao numero, a dar apenas
insignificantissimas amostras.

De um poeta antigo; Rodrigues Lobo:

    As flres, por onde passa,
    Se os ps lhe acerta de pr,
    Ficam de inveja sem cr
    E de vergonha com graa.
    Qualquer pgada que faa
    Faz florescer a verdura,
    Vai formosa e no segura.

Citarei apenas dois poetas modernos.

 conhecidissimo o bello pensamento de Joo de Deus:

    O que te falta pois? os teus desejos
        Quaes so? de que precisas?
    Ah! no ser eu o marmore que pisas...
        Calava-te de beijos!

O soneto _A Borralheira_, de Luiz Guimares,  dos mais scintillantes da
sua lyra ardente:

    Meigos ps pequeninos, delicados
    Como um duplo lilaz,--se os beija-flres
    Vos descobrissem entre as outras flres,
    Que seria de vs, ps adorados!

    Como dois gemeos sylphos animados,
    Vi-vos hontem pairar entre os fulgores
    Do baile, ariscos, brancos, tentadores...
    Mas, ai de mim!--como os mais ps calados

    Calados como os mais! que desacato!
    Disse eu.--Vou j talhar-lhes um sapato
    Leve, ideial, fantastico, secreto...

    Eil-o. Resta saber, anjo faceiro,
    Se acertou na medida o sapateiro:
    Mimosos ps, calai este soneto.

A sabedoria da antiguidade, formulada em proverbios, que so como que
migalhas de philosophia, impe-se ao nosso espirito na immensa variedade
de assumptos que podem impressional-o.

Ora os antigos diziam: _Ne quid nimis._ Nada que seja de mais. Eu fui
educado com velhos, e aprendi da sua experiencia. Se n'aquelle proverbio
posso calar um p de mulher, acho que o proverbio  bom, e que o p 
ainda melhor. Se no posso, quer-me parecer que os meus velhos
educadores me esto segredando em espirito com a auctoridade dos seus
cabellos brancos: Ahi ha p de mais e proverbio de menos.

_Ne quid nimis_ ou, como dizem os francezes, _Rien de trop_... at nos
ps!




VII

Loucura alegre


Conta-se que sobre uma pequena terra de provincia cahira, no sei
quando, uma chuva verdadeiramente original, to original, que perderam o
juizo todos os que a apanharam.

E o caso  que toda a gente d'aquella terra a apanhou, com excepo de
um sabio que ali vivia voluntariamente exilado, entregue a leituras
profundas, a estudos d'alta sciencia.

No dia da chuva, o sabio no sahiu; no sahia nunca. Ficou, portanto, em
seu perfeito juizo.

A gente da terra vivia principalmente dos trabalhos da agricultura, em
pleno campo, de modo que a chuva cahiu-lhe em cheio sobre a cabea, foi
como se lhe alagasse os miolos...

Tendo endoidecido todos, o sabio era como que o unico pharol de bom
senso que brilhava n'aquelle vasto mar de loucura.

Aconselhava os outros.

Procurava chamal-os  razo.

Dava-lhes conselhos acertados.

Reprehendia-os amoravelmente quando elles praticavam desatinos.

Mas qual! Ninguem o acreditava, ninguem o attendia, todos os outros
haviam apanhado a chuva terrivel, todos estavam loucos, e procurar
restabelecel-os de um momento para o outro era o mesmo que remar contra
a mar.

Comeou o sabio a inquietar-se com a sua propria situao, que em
verdade nada tinha de agradavel.

Receiava elle proprio perder o juizo, que to preciso lhe era, como se
estivesse vivendo no meio de um hospital de doidos.

A sua criada desatava a cantar e bailar quando elle lhe mandava fazer o
biffe do almoo ou as torradas para o ch.

De sorte que se via na necessidade de ir elle mesmo fazer o biffe ou as
torradas, emquanto a criada bailava e cantava em frente do fogo,
azoinando o amo.

O seu criado engraixava-lhe a camisa engommada, quando elle lhe mandava
engraixar as botas, e escovava-lhe as botas, quando elle lhe mandava
tirar da gaveta uma camisa engommada.

Pensou o sabio em mudar de terra, mas a pequena propriedade que possuia
estava situada ali; e em taes circumstancias ninguem lh'a queria
comprar, porque o caso da chuva tinha soado ao longe, de maneira que a
terra cahira em descredito, sabia-se que todos l estavam doidos.

Os proprios trabalhos scientificos do sabio, at ahi to considerados,
principiaram a ser suspeitos de loucura. J no havia quem os quizesse
lr. A opinio publica  assim. At ento, como corresse fama de que era
aquelle um grande sabio, toda a gente o considerava como tal; de
repente, com a mesma unanimidade, toda a gente principiou a duvidar de
que elle podesse conservar inteiro o juizo vivendo no meio de doidos.

--O que hei de eu fazer? perguntava a si mesmo o sabio.

Como ainda houvesse pelas ruas da villa muitas pas de agua da chuva,
comeou a analysar chimicamente a agua para vr se descobria o segredo
daquella extranha epidemia de loucura.

Mas nada lhe achou de notavel segundo a chimica. Era agua de chuva como
qualquer outra.

--Eu perco o juizo! dizia de si para comsigo o sabio. Tudo isto  to
extraordinario, que sinto vacillar a minha propria razo!

E a criada continuava a bailar e a danar quando elle lhe mandava fazer
o biffe ou as torradas.

E o criado engraixava-lhe a camisa quando elle lhe mandava engraixar as
botas.

Os seus caseiros no se entendiam com elle, nem elle com os seus caseiros.

O padeiro, pela manh, trazia-lhe pedras duras em vez de po fresco.

O merceeiro mandava-lhe assucar quando elle pedia arroz ou mandava-lhe
arroz quando elle lhe pedia assucar.

De modo que, n'um momento de desespero, o sabio resolveu um bello dia
perder o juizo que at ento havia conservado.

Fugiu para o meio da rua, andou procurando uma das pas de agua da
chuva, que ainda havia. Poz-se de ccoras, olhou em roda, e reconhecendo
mais uma vez que todos estavam doidos, metteu as mos na pa, encheu-as
de agua, e comeou a encharcar a cabea.

D'ahi a momentos estava tambem doido, e toda a sua preoccupao anterior
havia desapparecido, porque, tendo elle proprio perdido a razo, j no
se affligia com a loucura dos outros.

Lembrou-me esta anecdota quando, passando sabbado  noite pelo Colyseu
dos Recreios, vi uma enorme multido de povo invadir as portas, disputar
a entrada, ancioso de obter um logar para ir assistir ao beneficio da
Geraldine.

--Ento, dizia eu com os meus botes, tudo isso de reduces
imminentes  uma fabula! O paiz est rico e contente. Diz-se que ha
miseria, e toda a gente pensa em divertir-se! O que se v  que as
industrias esto prosperas, o commercio florescente. Os operarios,
voltando agora de um trabalho fartamente remunerado, tratam de comprar
bilhete para a _geral_. Vender uma colonia! para que? O que o povo quer
 que lhe vendam um bilhete do Colyseu! Os jornaes portuguezes e
extrangeiros dizem que estamos pobres! Sempre mentem muito os jornaes!
Toda essa gente, que ahi se agglomera s portas, estende para o
camaroteiro uma _nota_, offerece-lhe dinheiro, to rica est toda a gente!

E, pensando n'isto e na anecdota, continuei a dizer com os meus botes:

--... Salvo se o ultimo portuguez que tivesse juizo tambem molhou a
cabea na pa d'agua!

Mas no domingo fui passeiar  Avenida como para procurar a contra-prova
do espectaculo da vespera.

Oh! que alluvio de gente! que bulicio! que vida! que animao!

Longas filas de trens desdobravam-se ao longo da Avenida n'um grande
esplendor de equipagens brilhantes.

O dinheiro trotava em bellos cavallos _pur sang_; rodavam titulos e
brazes, _fortunas_ colossaes deslisavam a quatro soltas,
pomposamente.

E eu continuava perguntando aos meus botes:

--Santo Deus! onde  que est o ultimo sabio d'esta terra?!

E olhava para o cho esperando vr que o ultimo sabio, posto de ccoras,
estivesse olhando para os outros e molhando a cabea com frenesi.

Qual! no era para o cho que eu devia olhar.

Os sabios portuguezes prezam-se muito para que algum d'elles queira
acocorar-se  vista dos seus patricios.

Era para o alto das boleias e para a estampa das horsas que eu devia
olhar; no para o cho. O cho! esse, coitado, estava pisado, moido do
continuo attricto das ferraduras dos cavallos e das rodas das carruagens.

O sol, bellamente festivo, cahia em palpitaes de luz sobre a Avenida.
O monumento victorioso dos Restauradores recortava-se n'um fundo de azul
luminoso parecendo chispar centelhas como uma lamina erguida ao sol.
Chalets elegantes alcandoravam-se pela encosta oriental da cidade.
Predios magnificos, alguns sumptuosos, agrupavam-se em grandes bairros
novos  ilharga da Avenida nas terras outr'ora desertas e solitarias. As
antigas hortas desappareceram para dar logar a palacios novos.
Guardas-portes imponentes encostavam-se s portas vendo de longe
o formigueiro dos trens que passavam rodando ao trote largo de cavallos
finos.

E por mais que eu olhasse para o cho nenhum sabio, de ccoras, tratava
de molhar a cabea para no ter que chorar sobre tanta alegria!

Ento, recolhendo para casa, olhando sempre cautelosamente para no ser
atropellado pelos trens e pelos cavalleiros, lembrou-me outro caso, nada
mais e nada menos que o plano de um poema que certo amigo meu havia
delineado quando a morte o surprehendra.

_A Valsa_: era o titulo do poema.

A aco leva pouco tempo a contar.

Meia duzia de velhos, que no seu tempo haviam sido grandes valsistas,
resolveram, a despeito do peso dos annos, reconquistar uma hora de
mocidade, dar um baile em que todos elles valsassem como antigamente,
embora fossem morrendo de cansao no meio da sala.

Assim fizeram. Na noite do baile, eil-os que entram no salo,
correctamente barbeados, to gentis, quanto a idade lhes permittia,
dentro das suas casacas muito justas e luzidias.

Uma valsa de Strauss fez ouvir as suas primeiras notas. Tudo ali parece
palpitar ao som da musica,--os velhos principalmente.

E, cingindo a cintura de bellas damas, todos elles principiam a valsar
com a intrepidez dos vinte annos.

A valsa no affrouxa nunca, e os velhos valsistas, extenuados,
principiam a cahir de cansao, pallidos, mortos, um aps outro, at que,
estendidos sobre o verniz do salo, teem por funeral o baile, por _De
profundis_ a valsa de Strauss, que parece no acabar nunca!

Era phantastico o poema, excentrico o poeta.

Mas, o caso  que me lembrei do poema da _Valsa_, que, ai do poeta!
ficou apenas em projecto.

Tudo aquillo que eu tinha visto, no sabbado e no domingo, era como a
valsa dos velhos extenuados, que, ao som da musica, iam cahindo mortos
n'uma atmosphera de alegria e n'uma allucinao de prazer, que os matou
sem os ter remoado, que os esgotou sem os ter divertido!




VIII

A mascotte


Ter ou no ter _mascotte_, eis a questo, para tudo e para todos.

No sei se o leitor  dado a supersties e crendices, que, de resto,
constituem o fundo simples e primitivo da natureza humana.

Eu, por mais que oia dissertar os philosophos, creio profundamente em
supersties. Sou, a este respeito, quasi primitivo. E entre as
supersties, que me inspiram maior f, acredito cegamente na influencia
benefica de um genio bom e tutellar, a que modernamente chamamos
_mascotte_.

At--seja dito em confidencia--j tive uma _mascotte_.

Por que no hei de contar francamente essa historia?

Era uma insignificantissima bengala da ilha da Madeira, que me tinha
custado doze vintens e que ninguem seria capaz de me comprar por seis.

Estava muito longe do meu espirito a suspeita de que essa reles bengala,
cheia de ns e de mossas, podesse exercer alguma influencia benefica na
minha vida.

Mas comecei a notar a coincidencia de que tudo me corria mal, quando o
mau tempo me obrigava a substituir a bengala pelo chapeu de chuva.

Difficuldades, incertezas, contrariedades que o chapeu de chuva tinha
suscitado e alimentado, aplanavam-se e desappareciam quando no dia
seguinte a bengala substituia o chapeu de chuva.

Este facto repetiu-se uma e muitas vezes: induzi portanto que aquelle
reles pausinho da ilha da Madeira tinha condo de felicidade. Era o meu
talisman. Tomei-lhe amor, ganhei confiana na sua virtude, e comecei a
acreditar na existencia de uma _mascotte_ que, se me abandonava um
momento, me deixava exposto s maiores contrariedades.

Em dias de chuva torrencial, dias de temporal desfeito, eu no ousava
sahir sem a _mascotte_, importando-me pouco que as outras pessoas
podessem fazer reparo na excentricidade de um homem que, apesar de
chover a potes, deixava o chapeu de chuva em casa e sahia com a bengala
debaixo do brao.

Muitas vezes fui obrigado, por manter o culto devido  minha _mascotte_,
a tomar um trem.

Mas fazia de bom grado essa despeza, nem me importava apanhar chuva,
comtanto que no tivesse de largar a _mascotte_.

Os meus amigos conheciam esta superstio, e riam-se. Fingiam querer
roubar-m'a. Mas eu, se passava a noite com elles, sentava-me de bengala
na mo, no a abandonava um momento.

Um dia perdi-a. Vou contar como isso foi. O leitor pde imaginar o
desgosto que n'esse dia me feriu.

Era ento ministro da marinha o conselheiro Julio de Vilhena, que morava
na rua de S. Joo da Matta.

Na vespera haviamos passado grande parte da noite a conversar sobre um
livro, que se relacionava com o assumpto litterario de que eu ento me
estava occupando.

Tratava-se da symbolica do direito, que me era preciso estudar para o
livro _A jornada dos seculos_, que eu trazia entre mos. Julio de
Vilhena offerecra emprestar-m'o, e ficou combinado que eu iria no dia
seguinte a sua casa,  uma hora da tarde, buscar o livro.

Chovia: tomei um trem.

Durante o trajecto, para accender um cigarro, tive que encostar a
bengala a um canto da carruagem.

Quando cheguei  rua de S. Joo da Matta, disse-me o correio que o
ministro estava ainda almoando, e que eu teria de esperar pelo menos
meia hora.

Despedi o trem, sem tomar sentido no numero.

Chegaram mais pessoas, com quem esperei conversando.

Quando o ministro acabou de almoar, e me recebeu no seu escriptorio,
lembrei-me subitamente de que a _mascotte_ tinha ficado no trem.

Mostrei-me inquieto, disse-lhe o motivo da minha inquietao, porque
elle conhecia muito bem, como todos os meus amigos, a lenda da bengala.

Sahi de afogadilho, com o livro debaixo do brao, e dirigi-me
immediatamente ao commissariado geral de policia.

A um dos commissarios, meu amigo, contei que me tinha esquecido dentro
de uma carruagem, cujo numero ignorava, uma bengala que valeria apenas
seis vintens, mas que eu estimava muito.

O commissario imaginou talvez que se tratava de uma recordao de
familia. Socegou-me. Como a bengala no tinha valor material,
appareceria facilmente, ia dar as suas ordens, e eu prometti gratificar
o policia que encontrasse a bengala.

Sahi do commissariado de policia para ir dar umas voltas, tratar
de negocios particulares. Mas tinha a convico de que tudo me correria
mal n'esse dia e nos outros, porque, ai de mim! havia perdido a
_mascotte_. Era, moralmente, um homem morto.

s cinco horas da tarde, muito contrariado, quasi rabujento, subia eu o
Chiado, olhando attentamente para todos os trens que passavam, ancioso
de reconhecer o cocheiro que me tinha levado  rua de S. Joo da Matta.

De repente, descendo o Chiado, passa um trem. O cocheiro olha para mim,
e pra.  felicidade! era o cocheiro que eu procurava! De dentro da
caixa da almofada tirou elle a minha querida bengala, e eu tirei da
algibeira dez tostes que lhe dei como alviaras.

O cocheiro, que via pagar por dez tostes uma bengala que valeria seis
vintens, ficou a olhar para mim, espantado.

Suppoz, talvez, n'aquelle momento, que eu era filho do sr. Monteiro da
rua do Alecrim.

Que boas horas de alegria que eu tive, readquirindo a posse da
_mascotte_, a minha querida bengala! Nadando em jubilo, fui dizer ao
commissario de policia que a bengala tinha apparecido. E  noite,
contando a historia do feliz achado aos meus amigos, recebi parabens.

Rodaram alguns annos, durante os quaes tive sobejos motivos para firmar
a minha crena no condo maravilhoso da bengala. Era decididamente
uma _mascotte_.

Mas um dia--que terrivel dia esse!--por acaso, n'uma esgrima simulada, a
bengala partiu-se. Deus perde a quem, com a mais amavel inteno d'este
mundo, contribuiu para esse medonho fracasso. Guardei durante algum
tempo os dois fragmentos da bengala, mas o seu condo de felicidade
tinha-se partido com ella, ai de mim! A _mascotte_ havia fugido, como
uma alma abandona um corpo.

O leitor pde sorrir-se da minha ingenua credulidade, mas eu cria
cegamente na virtude d'esse talisman, que um acaso me trouxe, e que um
acaso levou.

No ha philosophia que resista aos factos.

De varias pessoas sei eu que tiveram _mascotte_, e que criam n'ella como
em Deus.

Uma d'essas pessoas era o general Jos de Vasconcellos Correia, que
morreu conde de Torres Novas.

A sua _mascotte_ era uma escova de fato, que o no abandonava jamais.

Justamente, tendo de partir para Torres Novas, onde se assignalou pelo
seu valor, esqueceu-lhe metter dentro da mala a escova. E, por no
querer separar-se d'ella em to duvidosa occasio, metteu-a dentro da
barretina.

Em Torres Novas, durante a refrega, recebeu uma cutilada na cabea. O
golpe tel-o-ia prostrado, se entre a barretina e a cabea no
estivesse a escova,--a que ficou devendo a vida.

Falta-me o espao para referir outros muitos casos no menos
interessantes e justificativos. E tenha pena! O leitor comearia talvez
por sorrir-se; mas acabaria decerto por acreditar.

Toda a gente, por muito que finja o contrario, tem as suas
supersties.




IX

Era em abril...


    C'tait en avril, un dimanche,
          Oui, le dimanche!
          J'etais heureux...
    Vous aviez une robe blanche
    Et deux gentils brins de pervenche,
          Oui, de pervenche,
          Dans les cheveux.

    Nous tions assis sur la mousse,
          Oui, sur la mousse,
          Et sans parler,
    Nous regardions l'herbe qui pousse,
    La feuille verte et l'ombre douce,
          Oui, l'ombre douce,
          Et l'eau couler.

    Un oiseau chantait sur la branche,
          Oui, sur la branche.
          Puis il s'est tu.
    J'ai pris dans ma main ta main blanche.
          C'etait en avril, un dimanche,
          Oui, le dimanche...
          T'en souviens--tu?

Ah! como esta deliciosa cano primaveral de Eduardo Pailleron concentra
em si todos os perfumes, todos os canticos, todos os sonhos de abril,
quando o laranjal florido deixa cair da sua cma, semelhante a um
_bouquet_ de noiva, no sei que doces pensamentos de amor, no sei que
fragrancias de _boudoir_, que estonteamentos de volupia, cheia de
mysterios, de segredos e de arrulhos maviosos!? A olaia pe no terreno
grandes manchas encarnadas, tapetes de petalas soltas, que se alastram
convidando ao remanso d'um idyllio, oui, d'un idylle...

No ar, passam foliando os assobios estridulos dos melros e da flauta de
Pan, dando uma extranha sensao de prazer vibrante, sobretudo se brilha
no cu o bello sol ocioso d'um domingo... _oui, le dimanche_!

Perto, um veio d'agua crystallina e mrmura d uma enorme sensao de
frescura e de preguia, porque no ha nada que enerve mais
deliciosamente do que vr correr a agua sobre um campo... _et l'eau
couler_.

Tufos de relva, estrellados de malmequeres, redondos e grandes, vecejam
n'uma exuberancia de florescencia sadia, impregnada da immensa
vitalidade vernal...

    Nous regardions l'herbe qui pousse,
    La feuille verte et l'ombre douce.

Delicioso abril! Primavera encantadora! por mais que a gente
queira adorar-te sem rhetorica,  completamente impossivel, porque tu
mesma s a rhetorica da creao, o Padre Cardoso da naturesa...

      *      *      *      *      *

_C'tait en avril..._

Era sim, era em abril, os melros e as toutinegras enchiam de musica o
ar, os laranjaes e as olaias doidejavam galas de flores e de perfumes, e
o meu amigo Rosendo, to feliz como Pailleron, foi com a sua bella ao
Campo Grande passar um domingo, uma esplendida manh de domingo... _oui,
le dimanche_.

Tinham ido por ahi fra no omnibus do Salazar, n'uma felicidade cortada
de phrases ternas e de solavancos, um paraiso ambulante, tirado por tres
pilecas rebeldes ao amor e ao chicote.

Rosendo e Ambrosia tinham pressa de chegar ao Campo Grande, tinham um
grande desejo de verdura, quasi tanto como as pilecas. Ella ia fresca de
mocidade e elegancia singela: um vestido de percale claro, umas rendas,
uma rosa natural, um chapeu com _blonde_ verde, luvas de _peau de
Sude_... Tentadora! Nunca uma Ambrosia parecera to fascinante, nunca
um Rosendo sentira no corao um bando de rouxinoes to palreiros e to
musicos como naquella hora deliciosa. Imagine-se a pressa do
Rosendo em chegar ao Campo Grande, porque, com um bando de rouxinoes
dentro do corao, estava em risco de morrer de hypertrophia, se no
chegasse de pressa,--mesmo muito de pressa.

Mas finalmente chegaram. Esperava-os um banco verde, um banco de
idyllio, que nem que fosse mandado pr ali de encommenda pela camara
municipal, para uso dos namorados ao domingo... _oui, le dimanche_. Por
de traz, um bosquesinho de roseiras, discreto como um cego, silencioso
como um mudo.

Rosendo sabia os versos de Pailleron por os ter lido na _Revista dos
dois mundos_, e por os haver achado deliciosos.

Tratou de pl-os em aco, ou antes, de pr a sua mo de enamorado
Rosendo sobre a mo branca de Ambrosia.

    J'ai pris dans ma main ta main blanche...

No faltava nada para que o scenario fosse em tudo semelhante ao da
_Revista dos dois mundos_: a erva vecejante, a folha verde, a agua
corrente, o domingo e a felicidade.

Passaros folgasos pipillavam no arvoredo, n'uma grande bambocha de
_virtuoses_, e  distancia, amortecido pelo intervallo dos canteiros, o
ruido de um trem que passava para o Lumiar, ouvia-se.

Rosendo, achando-se divino, divinisava Ambrosia, para se confundirem
ambos n'uma grande consubstanciao amorosa.

Elle s tinha um desgosto:--que ella, em vez de uma rosa no vestido, no
trouxesse nos cabellos dois ramos de pervinca... _oui, de pervenche_.

De repente, Ambrosia, ouvindo dar oito horas, voltou-se rapidamente para
elle, e dos seus labios saiu esta phrase, terrivel como um grito de
Tantalo:

-- Rosendo, vamos ns almoar ao Jos dos Caracoes?...

.........................................................................

_T'en souriens tu..._ Rosendo?




X

A felicidade e a camisa


Houve outr'ora um rei, que possuia vastos dominios, formosos castellos,
vastos parques, ricas baixellas e equipagens.

Mas era triste, peior talvez do que triste, melancolico.

Organisava festins, e aborrecia-se no meio d'elles. Nem o ouro, nem a
saude, nem a grandesa conseguiam distrail-o.

A rainha confrangia-se de vr sempre meditando o seu real esposo.

O principe real improvisava ruidosas caadas para alegrar seu augusto
progenitor, mas o rei, a breve trecho, cahia na sua melancolia habitual,
sentava-se  sombra de uma arvore, scismava...

Um dia, n'uma kermesse, que as damas da crte promoveram para divertir
seu real amo, appareceu uma cigana, que andava lendo a _buena-dicha_ de
barraca em barraca.

Era alta, morena como todas as ciganas, e tinha uns olhos tamanhos e to
vivos, que bem podiam lr o futuro a grande distancia...

Embrulhava-se n'um manto de retalhos, uma capa de pedinte que,  fora
de remendada, j no tinha cr propria.

Lia, com profunda indifferena, o destino dos outros, seguindo com a
vista as linhas que elles tinham gravadas na palma da mo. Annunciava
tragedias, desgraas, coisas tenebrosas com a mesma serenidade com que
promettia riquezas, venturas, delicias.

O rei soube que tinha apparecido na kermesse aquella cigana, e mandou-a
chamar.

--Quero que me digas, ordenou-lhe o rei, se posso ainda ser feliz.

A cigana, sem parecer preoccupar-se com a honra que lhe era dispensada,
respondeu laconicamente:

--Sim. Ainda pde ser feliz vossa magestade.

Alegrou-se subitamente o rei e perguntou-lhe:

--O que  preciso fazer para que eu seja inteiramente feliz?

A cigana demorou-se um momento consultando as linhas da real mo, e
respondeu:

--Precisa vossa magestade vestir a camisa de um homem feliz.

--Mas onde poderei eu encontrar esse homem feliz?

--Isso agora no  comigo, disse a cigana. E voltou costas ao rei
indifferentemente.

Logo sua magestade mandou reunir no palacio real os seus validos e
conselheiros.

Contando-lhes o caso da cigana, acabou por dizer-lhes:

--Agora  que eu vou conhecer qual de vs me  mais dedicado. Trata-se
de procurar um homem feliz, cuja camisa, ainda que custe rios de ouro,
eu hei de vestir, ide procural-o, pois. E todo aquelle que o encontrar,
receber recompensas quaes rei algum da terra ainda concedeu.

Fazendo mil protestos de dedicao, logo cada um d'elles se deu pressa
em partir. Para onde? Ao acaso, pelo mundo fra,  procura de um homem
feliz...

Tal conselheiro do rei descobriu um proprietario muito rico, que todos
os dias via entrar pela porta dentro os seus rendeiros carregados de ouro.

Foi procural-o, na supposio venturosa de que tinha encontrado a pessoa
que procurava.

--Sois feliz como pareceis? perguntou-lhe.

--No sou, ai de mim!  verdade que possuo uma riqueza enorme, mas
falta-me a saude, que  cada vez mais precaria. Daria toda a minha
riqueza para poder viver sem dres, para comer com apetite.

Outro conselheiro do rei encontrou um homem muito robusto, cuja
saude todos na sua terra invejavam.

-- o homem mais forte d'estes sitios! disseram-lhe.

Foi visital-o.

--Uma pergunta vos quero fazer. Dizei-me se, na posse de to florescente
saude, sois completamente feliz...

O homem forte suspirou, e respondeu:

-- verdade que sou muito robusto, mas quizera no o ser tanto, porque
no tenho gosto nenhum de viver ainda muitos annos.

--Por que?

--Porque sou pae de doze filhos e no ganho o bastante para lhes dar de
comer. Quanto mais trabalho, menos ganho. Ha destinos assim, e o meu, j
agora, no tem remedio.

Informaram um dos validos do rei, de que em tal aldeia morava um homem
que, vinte annos depois de casado, ainda namorava a mulher.

Assombrou-se com esta revelao o valido, e foi a correr por montes e
valles procurar o ditoso casado.

Sem mais preambulos, interrogou-o.

-- certo que sois casado ha vinte annos?

--Ha vinte annos e vinte dias.

--E que tendes vivido n'uma continua lua de mel:

--Certissimo, meu senhor.

--Sois pois inteiramente feliz?

--Sel-o-ia se...

--O que?! Pois no vos reputaes um homem feliz?!

--Sel-o-ia, se no fosse minha sogra, que volta e meia se lembra de vir
visitar-me.

J iam decorridos alguns mezes, sem que os conselheiros e validos do rei
houvessem voltado ao pao para noticiar a sua magestade o achado de um
homem feliz.

Esta demora tinha desanimado cada vez mais o rei, que, de quando em
quando, gritava enfurecido:

--Pois no haver sobre a terra um homem verdadeiramente feliz?!

Certo dia um dos conselheiros do rei ia jornadeando, sempre na faina de
procurar um homem feliz, por uma serra muito agreste e solitaria.

S de longe a longe avistava algumas cabras, que andavam roendo as
raizes das urzes.

--Que serra to triste! disse o fidalgo ao arreeiro.

--Por aqui s se encontra algum pastor; ninguem mais. L est um acol,
no alto d'aquelle rochedo, a tocar na sua flauta.

-- verdade! Quero fallar-lhe. Vamos l.

Era grande a distancia. Mas  medida que se aproximavam iam ouvindo os
sons rusticos da avna e vendo o pastor a bailar, muito contente,
ssinho, no topo do rochedo.

--Parece impossivel, dizia o fidalgo, que no tenha medo de cair!

Chegaram perto do rochedo, e o fidalgo gritou-lhe:

--Ol, pastor!

O pegureiro interrompeu a musica e o baile. Tirou o chapeu, e ficou-se
muito quieto.

--Anda c, que te quero fazer uma pergunta e dar dinheiro.

O pastor desceu de um salto.

--Julgas-te feliz, meu rapaz?

--Sim, meu senhor, julgo-me feliz.

O conselheiro do rei receiou endoidecer de alegria.

--Pois ento, pega l todo este dinheiro, e vende-me a tua camisa.

--Meu senhor, respondeu o pegureiro, eu no tenho camisa...

Por mais que a gente possa invejar a felicidade dos outros, e desesperar
da sua, o que  certo  que, ainda quando os outros lhe parecem felizes,
sempre lhes falta alguma coisa: a camisa, por exemplo.




XI

Morte de um gentleman

_(Baro da Torre de Pro Palha)_


Foram-se os deuzes, depois os heroes, por ultimo parece que tambem vo
acabando os homens...

Os homens antigos, entenda-se, os homens de rija tempera, fortes,
destros, gentis, bem educados.

Bem educados, sobretudo, que tambem isso faz muito ao caso para a
disciplina social, para a harmonia das classes, para a ordem que no
pde deixar de ser a base do respeito que as diversas categorias se
devem umas s outras.

Os homens que viram nascer a liberdade, que a sonharam e implantaram, e
que tinham por ella esse culto dedicado que se conserva por uma creana
que educamos a nosso geito...

O que ahi vae ficando j no so homens medidos pelo estalo que
outr'ora marcava a estatura moral. Como na Grecia antiga, foram-se
os Milciades, os Themistocles, talvez os Pericles. No tardar o tempo
em que se levantem trezentas e sessenta estatuas a Demetrio Phalerio,
quero dizer, aos heroes da decadencia. Se no ha melhor!

Generaes illustres, oradores proeminentes, sabios conspicuos, tudo isso
tem desapparecido a pouco e pouco. At vae desapparecendo tambem um typo
que parecia fundido de uma costella de cavalleiro e d'outra costella de
trovador: fundido dos restos meio heroicos e meio galantes da
idade-media. Era o _gentleman_, que sabia montar a cavallo, bater-se em
duello, fallar s damas, danar uma valsa, entrar n'um salo. Era o
_gentleman_, que punha o chapeu na cabea diante de um insolente, e que
o tirava quando  portinhola de uma carruagem cumprimentava uma senhora.
Era o _gentleman_, que no parecia ridiculo quando vestia uma cala de
ganga e calava umas luvas cr de aafro. Era o _gentleman_... Morreu
outro dia um; desconfio que foi o ultimo...

Chamava-se Hugo Owen, baro da Torre de Pro Palha.

No fez discursos, no fez leis, no escreveu livros, no compoz peras,
mas conquistou o direito a ser conhecido e estimado dos seus
contemporaneos.

Por que? Porque foi um _gentleman_. Eis tudo...

Seu pai, um inglez de distinco, militara ao servio de Portugal no
tempo em que os espiritos mais generosos principiavam a sonhar com a
liberdade.

Casra, ficra entre ns; e o filho, direito como um pinheiro novo,
esvelto e firme, passou os primeiros annos da vida montando garbosamente
a cavallo no squito de D. Pedro IV, improvisado, quasi por galanteria,
em seu ajudante de campo.

Zuniram-lhe as balas do crco do Porto por cima da cabea, ouviu de
perto o estrondo da metralha, fortificou-se respirando a fumarada da
polvora.

Depois... depois a guerra acabou, os vencedores julgaram que tudo o que
havia a fazer pela liberdade estava feito, quanto se enganaram! e os
vencidos presumiram-se decerto as ultimas victimas das luctas politicas
em Portugal. Quanto se enganaram tambem!...

Hugo Owen casou com uma dama portugueza, amou-a extremosamente, era
rico, forte, alegre, feliz.

Mas a roda da fortuna encravra-se um dia; parou de subito. A esposa de
Hugo Owen morrra deixando-lhe filhos pequeninos. No corao do viuvo
fez-se um vcuo profundo, enorme. E aqui comea a serie das suas
desgraas, quaes poucos homens teem soffrido, e que elle aguentou sem se
azedar a ponto de parecer malcreado e sem se mostrar desgostoso ao
extremo de querer descalar as luvas para sovar a humanidade.

Pois se o fizesse, teria tido razes de sobra para isso...

As difficuldades levantavam-se-lhe debaixo dos ps, a fatalidade andava
inventando para elle casos imprevistos e complicados, como um advogado
chicaneiro que no pensa seno em urdir uma rde de rabulices para
embaraar a parte contraria.

Um dia, Hugo Owen assistia  agonia de um filho, que a morte viera
surprehender prematuramente.

O corao do pae despedaava-se atormentado contra esse leito, como a
vaga contra os rochedos.

Havia j na face do moribundo a pallidez que parece ser o reflexo
longinquo do luar de alm-tumulo.

Os irmos soluavam, abafados de angustia, e o pae, pendido para o
leito, disfarava a sua dr murmurando palavras carinhosas, de uma
grande ternura dolorida, sobre a cabea do moribundo.

N'isto, rompe n'um dos andares do predio a esfusiada musical de uma
valsa de Strauss, sente-se danar ruidosamente, pular, conversar, tinir
loias e cristaes.

Est-se em plena _soire_, e a festa parece prolongar-se pela
noite dentro, attingir a madrugada.

 no som da valsa que o moribundo se contorce no delirio da agonia,  a
dois passos da vida alegre da sala que o espectro da morte vem assentar
arraiaes.

Teriam tido conhecimento d'esta deploravel antithese os que se estavam
divertindo? Certamente que no. Mas essa tormentosa coincidencia tinha-a
o destino guardado para esmagar o corao do baro da Torre de Pro Palha.

Uma sua irm, Fanny Owen, morreu na flr dos annos, sacrificada a um
drama conjugal que enche muitas paginas de um livro de Camillo Castello
Branco, _No Bom Jesus do Monte_.

Foi casada, e morreu pura. Os medicos que procederam  autopsia, assim o
affirmaram sob juramento.

Pois bem! um anno depois da morte de Fanny, contado dia a dia, Hugo
Owen, estando n'um hotel de Lisboa, ouviu gemer n'um quarto proximo.

--Quem est ali doente? perguntou.

-- o sr....

Era o marido de sua irm, o marido que to allucinadamente a aggravra,
que vinha morrer a dois passos de distancia do baro da Torre de Pro
Palha!

E, como estas, outras mil contrariedades e coincidencias, que o
destino baralhava para o atormentar, expressamente...

Eu conheo a biographia de Hugo Owen em tudo o que ella teve de mais
intimo e recondito. Smente no estou auctorisado a contal-a. Conheo-a,
porque elle me confiou um dia as suas memorias, que se conservam
inditas; paginas que elle escrevia com a verdade e o respeito de um
homem que se julga j diante de Deus contando o que soffreu entre os
homens.

Encontrei nas memorias do baro o material preciso para urdir dez
romances sem dar tratos  imaginao. Em cada capitulo havia um drama de
lagrimas. Li o manuscripto, sentindo-me muito honrado com a confiana
que o baro depositava em mim, fechei-o profundamente commovido e
sepultei no fundo do meu corao o segredo das suas revelaes, to
pungentes e dilacerantes.

s vezes, quando conversava com o baro da Torre de Pro Palha debaixo
da Arcada ou  porta da Casa Havaneza, assombrava-me a sua resignao,
espantava-me a sua paciencia, a correco sempre distincta das suas
palavras e das suas maneiras.

E todavia elle estava to pobre, que mal poderia esperdiar um charuto...

Os que o no conheciam de perto, poderiam suppl-o um homem feliz.

Com o seu ar elegante, o seu casaco curto, as suas calas largas, um
pouco  _hussard_ (essas calas tradicionaes dos _gentlemen_ do seu
tempo: nunca o Manuel Browne e os outros vestiram calas que no fossem
 _hussard_), as suas polainas brancas, a sua bengala de casto de
prata, as suas lunetas de oiro, as suas suissas grisalhas, elle tinha o
aspecto de um homem feliz, que houvesse accordado ao meio-dia depois de
ter passado a noite n'um baile onde perpetrra a sua ultima valsa, onde
queimra o ultimo cartucho do seu paiol amoroso.

E todavia talvez tivesse almoado, de p, dois ovos _ la coque_, apenas...

Tambem me assombrava n'este homem, cuja morte deploro, n'este homem que
tinha corrido e visto tanto mundo, n'este homem que tanto havia soffrido
e aprendido, a boa f, a ingenuidade com que parecia acreditar todas as
esperanas que lhe davam, todas as promessas que lhe faziam, o ar de
candura com que tantas vezes procurou o seu nome no _Diario do Governo_.

Seria um defeito de intelligencia? No era, com certeza. Era apenas um
aspecto da sua individualidade de _gentleman_. Conhecendo que a vida
estava por pouco, no queria desfazer n'um momento a obra de toda a sua
existencia, sahir do mundo desmanchando-se n'um gesto to plebeu como
expressivo. Procurava illudir-se por mais algum tempo... pouco!

E, de resto, elle tinha razo.

Quando j no podia viver com as mulheres, com quem viveria elle se
tivesse rompido com os homens?

Era esta decerto a sua ideia.

No queria isolar-se pelo resentimento, pelo azedume, pelo despeito,
sentindo-se a dois passos da solido eterna do tumulo.

Fra um homem de sociedade, sabia o que era a lisonja, a mentira, a
falsidade cortez e amavel. Devia conhecel-as  legua. Mas assim como nos
sales tinha fingido acredital-as, reduzido  pobreza fingia tambem
dar-lhes credito.

O enganal-o por cortezia podia ser um motivo para que elle continuasse a
no ter dinheiro na bolsa, mas no era um motivo para que recusasse um
_shake-hand_  pessoa que o enganava segundo as boas praxes do codigo do
bom tom.

--Para a semana ser... dizia elle.

Passava uma semana, um mez, um anno.

--Ento?...

--Tem havido difficuldades... Mas esto aplanadas... Agora vae.

E no ia!

Elle  que, fingindo esperar sempre alguma coisa que lhe consolasse os
ultimos dias da vida, foi para o Porto, j muito doente, cheio de dres
e de desilluses, e de casa de uma filha querida, que lhe recolheu
piedosamente o derradeiro suspiro, foi para a cemiterio de Agramonte,
onde finalmente descansa...

O _Diario do Governo_ perdeu um leitor, a sociedade portugueza perdeu um
dos seus _gentlemen_, talvez o ultimo, seus filhos perderam um pae
extremosissimo, e eu perdi um amigo to dedicado, que me confiava os
segredos dolorosos de toda a sua vida, dando-me a lr o manuscripto das
suas memorias inditas.

Pobre baro! Outros, que comearam mais tarde a frequentar a sociedade,
chegaram depressa ao galarim, to depressa que, na allucinao do
triumpho, nem j o conheciam. Mas elle  que conhecia toda a gente: um
_shake-hand_ para a direita, um sorriso para a esquerda, parecia andar
fazendo as suas visitas de despedida antes de partir para a eternidade.
E para que ninguem podesse ficar aggravado com o muito que elle tinha
soffrido, perdoava a todos...

Morreu como viveu: um _gentleman_.




XII

A season lisbonense em 1833


Este inverno promette uma _season_ verdadeiramente notavel: salas que
raramente se abriam, como as dos condes de Porto Covo, reanimam-se e
povoam-se; o presidente do conselho de ministros receber ainda quatro
vezes durante os dois mezes proximos.

Fallemos principalmente das _soires_ da presidencia, notaveis mais que
todas por serem o ponto de reunio dos grandes vultos da politica
portugueza na casa do primeiro entre os primeiros.

Quem vir o sr. Fontes Pereira de Mello nas recepes officiaes do pao,
nos actos solemnes da vida parlamentar, com o seu aspecto severo e frio,
com a sua figura correcta e grave, ter avaliado apenas superficialmente
este homem de estado que tem, como nenhum outro, a consciencia
das funces de que se acha investido e das situaes em que se acha
collocado.  preciso, porm, avalial-o _chez lui_, tendo uma phrase
amavel para todas as pessoas que concorrem s suas recepes, sabendo
fallar s senhoras e aos politicos, percorrendo todas as salas para ser
attencioso com todos, conversando litteratura com os escriptores,
politica com os homens de estado, accommodando-se com distinco a todos
os assumptos e a todas as idades, sem constrangimento e sem esforo.

Um estrangeiro, um viajante, um _touriste_ no encontraria decerto
melhor occasio para conhecer todos os homens notaveis de Portugal do
que aquella que as _soires_ do presidente do conselho lhe podem fornecer.

Aqui, um pouco curvado, o cabello levantado e branco, faces cradas, um
sorriso docemente ironico, deixando vr atravez das suas lunetas uns
olhos penetrantes e expressivos, o ministro de Portugal em Madrid,
vice-presidente da camara dos pares, passa nas salas, sobraando a
_claque_.  um erudito, um professor, um academico, que consome a maior
parte dos dias na Torre do Tombo a revolver o archivo. Para os
litteratos  o auctor de _Um anno na crte_; para os academicos  o
auctor da _Historia da linha de demarcao que repartia o mundo entre
Portugal e Castella_, o recente annotador do _Roteiro de Lisboa a Goa_;
para os politicos  um estadista e um diplomata de primeira
ordem,  ainda o auctor dos _Perigos_; para os indifferentes  o sr.
Andrade Corvo.

Ali, debruado sobre a meza do whist, na curvatura interessada dos
myopes, um homem magro e sco, de uma magresa forte e resistente, pondo
s vezes por cima dos oculos afumados o seu _lorgnon_, interroga o
parceiro com a sua voz mansamente timbrada:  o poeta do _Av Cesar_ e
do _Pavilho negro_, o dramaturgo dos _Primeiros amores de Bocage_, o
romancista dos _Bandeirantes_, orador, estadista, diplomata, academico,
 Mendes Leal, emfim.

Acol, o ministro dos negocios estrangeiros, Antonio de Serpa Pimentel,
conversa animadamente, encostando o seu corpo franzino ao angulo de uma
meza, fazendo girar rapidamente o cordo da sua luneta, e sorrindo: eis
aqui um outro homem de estado que  ao mesmo passo um poeta, um
prosador, um critico e um academico.

Na sala de baile, a figura esvelta e forte de Thomaz Ribeiro destaca-se:
a gran-cruz escarlate, atravessada sobre o peito largo, anima-lhe o
busto: os cabellos grisalhos, como que ligeiramente empoados, tem por
vezes fulguraes instantaneas.

N'um _fauteuil_, Julio de Vilhena observa com os seus olhos
penetrantemente meridionaes, sorri com vivacidade aos que lhe vo
fallando, e retorce descuidadamente a guia esquerda do seu
pequeno bigode.

Hintze Ribeiro conversa n'um grupo de deputados sobre as discusses do
parlamento: anima-se fallando, e fixa a luneta, fitando o interlocutor.

O procurador geral da cora e fazenda[1], alto e corpulento, conversa no
tom modesto e auctorisado que lhe  peculiar, dois jurisconsultos
distinctos ouvem-n'o com uma grande atteno respeitosa, como a um mestre.

Barjona de Freitas, baixo, nutrido, hombros largos, cabello preto e
luzidio, falla com Thomaz de Carvalho, que o ouve com o beio inferior
um pouco descahido, e Bulho Pato, pequeno e forte, o cabello branco,
faces morenas como as de um anduluz, aproxima-se, cofiando a pera.

E como n'esse momento uma valsa, de uma melodia suave, docemente
marulhada, se espraie pela sala, devem certamente acudir-lhe ao espirito
ardente os versos da _Paquita_:

    Entrei no baile, quando a valsa rapida
    Corria as salas em airosas voltas!
    Das leves roupas, transparentes, soltas,
    Que doce aroma se esparzia no ar!
    Parei mirando aquellas frontes candidas,
    Que se animavam de alegrias loucas.
    Amor calando nas graciosas bocas,
    Amor dizendo no inspirado olhar.

As primeiras valsistas de Lisboa, as de mais nobre nascimento e de mais
distincta elegancia, giravam com effeito em torno do salo, que parecia
ondular serenamente como um lago, encrespado por uma brisa ligeira.

Algumas cabeas, formosamente loiras como a de Daphne, pareciam
aureoladas por um diadema de oiro; outras, de bellos cabellos negros,
affiguravam-se radiadas de arabescos luminosos, como o azeviche batido
fortemente pela luz.

O visconde de S. Januario, de amplo peito arqueado, gran-cruz traada,
cabea altiva, conversava n'um grupo de senhoras; o duque de Palmella,
alto, suissas pretas, com a mo direita entalada entre o collete e a
gran-cruz, acabava de conversar com o duque de Loul, que fra fazer a
sua partida de whist para a sala da bibliotheca, onde o conde de Valbom
jogava emparceirado com o sr. Carlos Bento na mesma mesa em que tambem
era parceiro o distincto advogado Pinto Coelho.

No haveria, pois, melhor occasio para poder observar os nossos homens
mais distinctos na politica, no fro, na litteratura, na diplomacia, no
professorado, no commercio.

Muitos d'elles, se no a maior parte, so um nobre exemplo de coragem,
de perseverana e de gloria a todos quantos agora estreiam a sua
carreira.  custa de um trabalho paciente e intrepido alcanaram,
por direito de conquista, a alta posio que hoje occupam. Soffreram,
combateram, luctaram, mas conseguiram honrar o seu bero, o seu nome, e
o seu paiz. Citemos ao acaso um nome, Mendes Leal, que atravessou todas
as commoes de uma existencia accidentada de mil incertezas, luctando
sempre, no theatro, na litteratura, na imprensa, na politica, mas
conseguindo vencer por um esforo heroico de que s os homens do seu
valor e da sua tempera so capazes.

Quantos d'elles, se no todos, tem sido injustamente accusados,
violentamente atacados, injuriados at! A consciencia do dever , porm,
uma especie de muralha da China, onde os projectis da inveja e da
calumnia vo bater, refluindo de ricochete contra os que os arremessaram
com mo traioeira.  a compensao providencial destinada aos que
cumprem a sua misso. Os insignificantes, os invejosos, os inuteis,
aquelles que no comprehendem o seu destino, julgam que todos lh'o
roubaram, e por isso de todos dizem mal.

Aqui est, pois, levamente esboada, uma pagina da _season_ lisbonense
em 1883.

[1] Conselheiro Martens Ferro.




XIII

Gostos no se discutem


Tem cada um sua maneira especial de se divertir. Chega a haver n'isso
uma tal variedade como nas physionomias.

Ha quem no possa divertir-se com os outros, e quem no esteja bastante
divertido sem os outros.

Ha quem goste dos outros s por algum tempo, de modo que nos acontece s
vezes encontrar um sujeito que nos abre os braos e exclama nadando em
jubilo:

--Ora ainda bem que o encontro! Ha quanto tempo! ha quantos mezes! Temos
muito que conversar! Vamos a isso! vamos a isso!

Fica a gente horrorisada com a perspectiva de uma maada enorme. Mas no
ha remedio seno fazer cara alegre e acceitar as coisas como ellas so.

--Pois vamos l a isso!

Conta-nos o sujeito duas lerias, fugitivamente, como se o tivesse de
fazer por simples cumprimento.

E, de repente, estendendo-nos a mo, parecendo ter j dito tudo:

--Adeus! meu amigo. Estimei muito vel-o.

Aqui est um exemplar de sujeito que gosta da companhia dos outros por
algum tempo apenas.

O grande prazer que sentiu encontrando-nos aguou-se to de pressa, que
s abandonando-nos de repente poude continuar a divertir-se.

Conheci um alto cavalheiro, pessoa de estimao, que folgava immenso de
que outro, que em tempo havia feito despachar para certo logar da
alfandega, o seguisse por toda a parte, vestindo-lhe o casaco  saida
dos theatros, pegando-lhe na bengala se queria atar o _cache-nez_,
acompanhando-o a casa todas as noites, dizendo-lhe na rua o nome das
pessoas que o iam cumprimentando.

Um dia o fiel protegido adoeceu, e o protector to aborrecido se
encontrou da sua falta, que resolveu ficar em casa emquanto o outro no
melhorasse.

Pelo contrario, ha pessoas a quem uma to solicita e dedicada gratido
incommodaria enormemente.

Andrade Corvo, conversando comigo, dizia uma vez:

--A gratido que persegue a gente,  das coisas mais secantes que se
conhecem. E offende at certo ponto, porque d a entender que fazemos um
favor para sermos servidos toda a vida.

Como n'esse dia estivesse de notavel bom humor, exemplificou:

--Ora imagine que se d um espirro e se ouve dizer logo do lado:
_Dominus tecum_, sr. conselheiro. Imagine que tira a gente um charuto
da algibeira, e que a gratido acode a cortar-nos o passo exclamando:
Aqui est o meu lume s ordens de v. ex., sr. conselheiro! Olhe que
chega a fazer perder a paciencia!

Ha pessoas que se divertem passeiando sem fallar e sem olhar para ninguem.

Recolhe um desses a sua casa e pergunta-lhe a mulher:

--Encontraste muita gente conhecida?

--No sei.

--E tiveste muito calor, filho?

--Olha que tambem no sei.

Outros, porm, gozam andando devagar, pasmando para tudo, parando de vez
em quando a observar todos, descobrindo mysterios, surprehendendo segredos.

Conheo um destes; que me disse ha poucos mezes:

--Fulano, quando chegar a ministro, no faz caso de ninguem.

--Por que?

--Eu lhe conto. Outro dia encontrou elle um amigo na rua da Boa Vista.
Voc conhece de certo o Silveira?

--Muito bem.

--Pois era esse o amigo que elle encontrou. Eu vinha atraz e ouvi toda a
conversa. Ambos queriam o _americano_ que fosse para o Rato. N'isto
passava o carro que ambos desejavam. De repente o outro, que lobrigra
um s logar vazio, larga o Silveira, trepa para o _americano_, e diz-lhe
de l adeus com a mo. O Silveira ficou com cara de parvo.

--Mas que tem isso?!

--Ah! ento voc no costuma aproveitar as lies que a observao de
todos os dias lhe vae deparando! Est arranjado! Aquelle _americano_ era
uma especie de carro do governo, em que o outro, logo que teve occasio,
tratou de arranjar logar, sem se importar com os que ficavam atrazados.

--Sim. Mas no me parece...

--Homem! qualquer coisa define uma pessoa. Os que gostam de fazer
_paciencias_ divertem-se comsigo mesmos: em tendo um baralho de cartas,
prescindem bem dos outros.

Um d'esses taes estava em casa uma noite. Passou um amigo, e entrou.

--Pensei que estivesse gente de fra! disse o amigo ao entrar.

--Enganaste-te. Estou eu s a fazer _paciencias_.

--E a sr. D. Ismenia?

--Sahiu.

--Foi para o theatro?

--Tambem no sei bem. Sahiu com a me.

--E tua filha?

--Sahiu com o tio.

--E tu por que no sahiste tambem?

--Por que no precisava.

--Mas sempre  bom passeiar depois que se janta.

--Para passeiar, meu amigo, basta que saia alguem da familia.

Outros so de feitio opposto: amam a sociedade, a companhia, a convivencia.

Encontra a gente um ou outro,  meia noite, quando recolhe a casa.

--Que pressa tem voc de se deitar? pergunta elle.

--Preciso levantar-me cedo.

--Mas durma depressa, homem!

--Durma depressa! tem graa!

-- o que lhe digo. Quer voc ouvir um caso? Olhe que ainda  cedo. Uma
vez estava eu em Villa Franca, em casa do Tiberio. Jogava-se o
voltarete. Havia hospedes: um d'elles era o major Noronha, que tinha de
ir no comboio da manh para Santarem. O jogo enremissou-se. A dona da
casa, muito constrangida, lembrou que era melhor deixarem as
remissas para outra occasio, porque o major tinha de levantar-se cedo.
E vae elle, muito amavel, respondeu: No tem duvida, minha senhora,
porque eu estou habituado a dormir depressa. Faa voc o mesmo, e d
dois dedos de cavaco.

--Sim... mas  j tarde.

--Olhe c, a proposito de voltarete e remissas... Voc sabe que o
Castilho dizia que o voltarete era um jogo impio?

--Impio?

--Porque a cada passo ouvia dizer aos que o estavam jogando: Arre
missas! (Ha remissas).

--Tem graa, tem! Adeus, que j  tarde.

E o pobre homem, que s com os outros se diverte, fica aborrecido por se
achar s na rua.

Lembra-lhe talvez ir pedir lume ao guarda nocturno para accender o
charuto,--como um pretexto para armar cavaqueira.

Depois de accender o charuto:

-- sr. guarda! n'esta rua ha muitos namoros?

--J houve mais.

--Por que?

--Tem ido casando.

-- mal feito!

--Bem ou mal feito,  l com elles.

--Mas o senhor fica muito prejudicado!

--Ora essa!

--Porque quantos menos namoros houver, mais s vae ficando a rua.

Eil-o aqui a pensar como se elle proprio fosse o guarda nocturno. Ah! se
o fosse, valer-se-ia at talvez da carta anonyma para desfazer
casamentos, porque os namoros podem succeder-se, mas os casados, em
geral, no se namoram... depois.

Ha pessoas secantes que se divertem ralhando sempre, e que gostam do
jogo, porque lhes d occasio de bater murros na mesa e de gritar.

A um d'estes grasinas faltava certa noite um parceiro para jogar o whist
de perna de pau.

--Se viesse por ahi alguem! exclamava elle espreitando pelas vidraas
para fra.

N'isto tocaram a campainha.

--Ah!  voc! Ainda bem! Vamos l jogar o whist.

--No jogo.

--Por que no joga?

--Porque voc ralha sempre!

--Hoje no ralho. Palavra de honra.

--Com essa condio, vamos l.

Meia hora depois dizia o dono da casa:

--Esta stearina est hoje detestavel!

Passados cinco minutos:

--Parece que c em casa no fazem hoje teno de servir o ch!

De repente os outros dois pegaram-se a discutir o jogo.

--Ah! elle  isso! exclama o dono da casa. Pois ento sempre lhe quero
dizer a voc (o tal, que tirra a condio) que j ahi fez uma grande
asneira quando eu me queixei da stearina, e outra quando fallei no ch.
Da primeira vez voc devia ter vindo a oiros.

Entra o criado com o taboleiro do ch.

--Leva l isso, que ainda  muito cedo! E da segunda vez porque devia
ter vindo a copas, que era o que se lhe pedia.

Epaminondas, segundo resa a historia, nem por gracejo mentia, tanto
gostava da verdade,--at para se divertir.

Outros, porm, s mentindo  que esto nas suas sete quintas.

E isso cria-lhes difficuldades, pe-n'os em graves apuros, mas d-lhes
tanto gosto, que perdoam o mal que s vezes lhes faz pelo bem que lhes
sabe... o mentir.

Contava um n'uma roda de amigos:

--Ver a morte! Quatro vezes a tenho eu visto j! imaginem que andando 
caa no Brazil, alonguei-me pela roa fra, e tinha descido a uma ch
quando vi que um preto, que eu havia castigado dias antes, corria atraz
de mim de espingarda na mo.

--E depois?

--Depois o preto, que chegra  borda do outeiro, apontou-me a
espingarda. Vocs sabem que os pretos tem uma pontaria infallivel!

--Como diabo escapaste tu?!

Chegado a este ponto, tambem elle proprio no sabia ainda como poderia
ter escapado.

--Sim! Como escapaste tu?!

Nova hesitao do narrador.

--No escapaste!

--Homem, isto  serio. Fosse em razo do odio que me tinha, ou do
cansao da corrida, o preto teve uma apoplexia fulminante e veiu cair-me
aos ps. Dei-lhe um pontap, e continuei a caar.

Conheci um rapaz, que morria por andar de calas brancas.

Eu disse-lhe algumas vezes:

--Que diabo de gosto o teu! No te parece que andas em ceroulas?

Elle respondia-me sempre:

--E a ti no te parece que metteste as pernas n'um tinteiro!

So gostos, e gostos no se discutem. Mas se toda a gente, em questo de
gosto, tivesse a mesma opinio, quanto seria difficil... casar, por
exemplo!




XIV

Peccadilhos metricos

_Non bis in idem_


                Fazem manh annos,
                ......................
                ......................
                Alberto Pimentel
                ......................

                _Novidades_, de domingo
                27 de novembro de 1887.


    Ainda ante-hontem dizia
    Certo jornal que eu fazia
    Annos no dia seguinte.
    Comquanto o jornal ref'rido
    Pertena a outro partido,
    Era favor; no acinte.

    Mas, emfim, passa em julgado
    Que eu seja to desastrado
    Que, j proximo dos _enta_,
    Faa annos cada semestre?
    No: que o tempo  um grande mestre.
    Tempo que passa, avelhenta.

    Fazer annos em novembro,
    Logo em abril repetil-os!
    De tal coisa no me lembro!
    Tomra diminuil-os,
    Quanto mais, por triste engano,
    Duplical-os em cada anno!

    Assim, se chego aos sessenta,
    Contar-me-ho cento e vinte!
    Pois cada semestre augmenta
    Um anno, e outro o seguinte!
    Fao annos no quente e frio
    Como pago ao senhorio!!

    No! No pode ser! Protesto!
    Porque eu trabalho, e de resto,
    Pago de seis em seis mezes
    Duas rendas, uma em annos,
    Outra em metal! So enganos?
    Mas eu pago duas vezes!

    Fique pois bem entendido,
    Bem notorio, bem sabido,
    Que s uns annos farei.
    _Quatorze de abril_:  a data.
    Dispenso flres, cantata...
    Mas protesto. E protestei.

29 de novembro de 1887.


DEPOIS DO INCENDIO DO THEATRO BAQUET

_(Versos recitados pelo actor Firmino, uma das victimas sobreviventes
d'aquelle incendio, no beneficio que realizou no theatro da Trindade.)_

    Venho d'entre as ruinas e das chammas,
    Onde tudo perdi. Sabeis a historia,
    Que o vosso corao ainda contrista.
    Perdoai a vaidade ao pobre artista...
    Eu sonhava essa noite com a gloria.

    Monstruosa ironia! A gloria! A gloria!
    Tive por ovao prantos, clamores.
    Ossadas por cortejo. O incendio e a fama
    Disputaram ali. Venceu a chamma.
    Eram chammas o palco e os bastidores...

    E ali n'essa sinistra apothese
    Ficaram sepultados meus thesoiros,
    Amigos que eu perdi,--to dedicados!
    Minha pobre familia,--os meus cuidados,
    Doces cuidados que eu pref'ria aos loiros!...

    Sou agora a mim proprio quasi extranho,
    Um viajante perdido no deserto,
    N'esse infindo deserto da saudade.
    Sinto ainda a desgraa muito perto...
    Mas sinto ainda mais perto a caridade!

    Se vivo,  s por ella. Em seu regao
    Choro o meu abandono, as minhas dres.
    Refunde-se a minha alma em muitas almas,
    Vale um consolo o que no valem palmas...
    Vivo, meu Deus! graas a vs, senhores!...


UMA DAS VICTIMAS DO INCENDIO

_(Etelvina Julia d'Almeida.)_

    Vi-a n'um baile, ha muitos annos, quantos!
    Da sua face bella as frescas rosas
    Deviam ter suavissimos encantos
    Se os beijos, namoradas mariposas,
    Fossem sorver, ha muitos annos, quantos!
    Da sua face bella as frescas rosas.

    Mas quem hontem logrou reconhecel-a
    Entre as negras ruinas sepultada?...
    Mas quem poude affirmar, dizer:  ella!
    Ella que fra outr'ora alva e rosada!
    J no poude ninguem reconhecel-a
    Entre as negras ruinas sepultada.


1. DE DEZEMBRO

    Filippa de Vilhena!
    Joo Pinto Ribeiro!
    Palavra, que faz pena
    Ver o despenhadeiro
    Em que isto agora vae!
    E como o paiz cae!

    Agora  s dinheiro.
    Est campando em scena
    Smente o deus Milho!
    Filippa de Vilhena!
    Joo Pinto Ribeiro!
    Palavra, que faz pena...
    Agora  s dinheiro...
    E os que l vo l vo!

1887.


EMILIA

_(Minha irm.)_

    Nunca tu azas tiveras,
    Que te elevassem ao ceu.
    Nunca tu voar poderas
    Co'as azas que Deus te deu.

    Por mais que tu procuraste
    Reprimir-lhe o ancioso vo,
    Eras to debil! cansaste.
    Deus quiz o anjo, e levou-o.

    Tinha reflexos to doces
    O teu olhar doce e brando,
    Que logo pensei que fosses
    Lirio que veio voando

    D'essa translucida esphera,
    To cristalina e to alta,
    Onde a eterna primavera
    Sentiria a tua falta.

    Ento as flres celestes
    Chorando saudosamente
    Vestiram lutuosas vestes,
    Feitas de seda somente.

    E, debruadas nas spalas,
    Choraram pranto divino
    Sobre o justilho de ptalas,
    Polvilhado de ouro fino.

    Deus viu-as tristes, chorosas.
    Nos seus ethreos jardins,
    E chorou co'as suas rosas,
    Teve d dos seus jasmins.

    E como o pranto divino
    Tambem, como pranto, queima,
    Deus co'a sua voz, um hymno,
    Dissera s azas: Trazei-m'a.

    E as azas, mal escutaram
    A celeste melodia,
    Obedeceram, voaram,
    Qual d'ellas mais voaria.

    Quando esse lirio nevado
    Chegou de novo ao empireo,
    Ia triste e maguado,
    Deus estranhou o seu lirio!

    E o que o lirio no dissera
    Tudo Deus adivinhou.
    Voando  celeste esphera,
    Chorra emquanto voou.

    As flres do azul sorriam,
    Os lirios do ceu cantavam,
    Meus olhos j te no viam,
    Meiga creana, e choravam.

    Nunca tu azas tiveras,
    Que te elevassem ao ceu
    Nunca tu voar poderas
    Co'as azas que Deus te deu.

24--2--87.


JOO DE DEUS

    Joo de Deus! De Deus... porque  divino.
    Joo, ou seja o primo de Jesuz
    Ou o outro que vela junto  Cruz,
     divino tambem.
                    E no atino
    Seno co'esta raso: foi prophecia
          --Se j no foi destino--
    De quem previu que Joo de Deus seria
          Um poeta divino.

Ericeira, 21--10--90.


KERMESSE

    O bem  como as auroras,
    Que para tudo o que existe
    Espalham luz e calor.
    Seja alegre ou seja triste
    A alma, o insecto, a ave, a flr,
    Tudo o que ri ou que chora
    Sente nos raios da aurora
    A esmola do eterno amor...

    Os beijos do sol aquecem
    Tudo o que  velho ou que  moo,
    O ephmero e o colosso.
    As rochas e os coraes,
    Os lagos e as ondas bravas,
    Emporios e solides,
    As lagrimas das escravas
    E os sorrisos das rainhas,
    As cavernas dos lees
    E os ninhos das andorinhas.

    E o bem  como as auroras.
    Por isso ao bem no esquece
    A creana, o ninho, a escola...

    Tu s como o sol, esmola!
    s como a aurora, kermesse!


OS TREZ VELHOS

            I

    Cahiu um nevo na serra.
    Desde a cumiada ao val
    Alveja rtila a terra.
    No houve nevo egual!

    O ar gelado, cortante,
    Passa sobre as povoaes
    Ceifando como um montante,
    Rugindo como os lees.

    Arvores scas, esguias
    Olham para o ceu, talvez
    A soluar elegias,
    Carpindo a sua nudez.

    Cheias de fome, as manadas
    Sobre as campinas despidas
    S rem urzes queimadas
    E raizes ressequidas.

    A fome, a doena, a morte
    Assentaram arraiaes
    Junto ao casal e  corte,
    Levando gente e animaes.

    Famintas, as alcateas
    Vem de noite ao povoado.
    Tremem de medo as aldeas,
    Ouvindo o lobo esfaimado...

    E desde o alto da serra
    Abre a neve o seu lenol.
    O que seria da terra
    Sem ter um raio de sol?!

            II

    Entre a egreja e o presbyterio
    Corre, caiado de novo,
    O muro do cemiterio.
    Vem ali juntar-se o povo.

    O sol, batendo no muro,
    Aquece a pedra ao meio dia,
    Torna o inverno menos duro,
    Tempera a nortada fria.

    L se juntaram trez velhos
    Scos, rijos, vermelhaos,
    Expondo ao sol os joelhos,
    Estendendo ao sol os braos.

    Emquanto o sol os aquece,
    Riem-se elles da nortada.
    Cada um seu mal esquece,
    Vai tudo de patuscada.

    --Tem morrido muita gente
    Com esta grande invernia!...
    --Pois nunca o inverno foi quente!
    --Salvo... este sol do meio dia.

    --Este sol  a minha adga:
    Eu no quero outro calor.
    --Voc o vinho renega!...
    --Lingua de mau pagador!

    --O vinho  caro. A cacha
    Custa agora...
             --Isso que monta!
    --O sol d-o Deus de graa!...
    --Mas beba vinho com conta!

    --Eu c nunca fui borracho.
    --Nanja eu. Mas acho-o bom.
    --Diz um cacho a outro cacho:
    No bebas sem tom nem som!

    E n'esta mansa folia
    Vo-se aquecendo os trez velhos
    Ao doce sol do meio dia,
    Rijos, scos e vermelhos.

            III

    --L vem enterro... Isto agora...
    No tem descanso o coveiro!
    --Vem d'acol d'onde mora
    A mulher do Z Cabreiro.

    --Foi o filho...  de creana
    O caixo: eu inda vejo!
    --O coveiro no descansa!...
    --Inda hontem lhe dei um beijo!

    --A quem? Ao coveiro?!
                          --Irra!
    Ao filho do Z Cabreiro.
    --O frio as creanas mirra.
    --L vem atraz o coveiro...

    --A morte leva os fedelhos,
    Mata n'um dia um rapaz,
    Emquanto que ns, os velhos.
    Vamos ficando p'ra traz!

    --A morte  uma gulosa,
    Gosta de bocados finos.
    Carnes que cheirem a rosa,
    Polpa de tenros meninos...

    --Pde ser!...
                  --Pois certamente!
    Ns c, ossos esburgados,
    Nem para a cova de um dente
    Lhe chegavamos, coitados!

    No alto mar me contava
    Um velho de Guimares
    Que a terra se embebedava
    Com as lagrimas das mes...

    --Por isso lhes leva os filhos!...
    A gulosa!... Quer banquete!
    --Quem tem filhos tem cadilhos.
    Morreram-me. Eu tive sete!...

    --E eu nenhum.
                  --Nem eu.
                           --Agora,
    Sem ter filhos nem mulher,
    Visto que ninguem nos chora,
    Nem mesmo a terra nos quer!...

Janeiro de 1891.


AS POMBAS

_(De Theophilo Gautier.)_

    Na collina dos mortos, entre os tumulos,
    Ergue a bella palmeira a verde pluma,
    E  tarde as mansas pombas de azas candidas
    Vo aninhar ali, uma aps uma.

    De manh, quando o sol desperta rutilo.
    As brancas pombas vo, cortando o ar,
    Como um solto collar no azul ethreo,
    Longe do ninho um tecto procurar.

    Minha alma  como a solitaria arvore
    Onde enxames de loucas illuses
    Poisam  noite. Fugitivos hospedes,
    Vo-se co'a luz as pombas e as vises.

8--2--87.


MULHER E GATA

_(Paul Verlaine.)_

    O vel-a at dava gosto
    Brincando co'a sua gata,
    Branca mo contra alva pata,
    Na penumbra do sol posto.

    Mitene, que a mo recorta,
    Por dissimular trabalha
    Unha d'gatha, que corta
    E brilha como navalha.

    Mas a gata, disfarada
    Tambem, com prazer ronrona
    E ensaia a unha acerada...
    No  melhor do que a dona!

    E os dois labios purpurinos
    Enchiam de riso o ar,
    Onde se viam, felinos,
    Quatro phosphoros brilhar.


N'UMA SALA

    A um canto, os politicos fallavam
        Com um certo mysterio
    Do modo como as coisas caminhavam,
    Se estava forte ou fraco o ministerio.

    Alguem que se mostrava resentido,
    Abanava a cabea--era um symptoma
    De que a seu vr o mundo est perdido
    E tudo cae,--como cara Roma!
    Elle s, por sciencia e por estudo,
    Era talvez capaz de salvar tudo...

    N'outro canto da sala gorgeiava
    A musica do riso e d'alegria
    Um grupo que sorria e que fallava
        De quanto ouvia e via.
    Era o grupo formoso das solteiras,
        O grupo dos vinte annos,
    Que  capaz de passar noites inteiras,
    Rindo de tudo,--at dos desenganos!

    D'este grupo gentil como  que eu posso
        Desenhar o esboo?
    Precisaria ter as tintas finas,
        O magico pincel
    De que dispunha o grande Raphael!
    Em vez de uma... eram quatro Fornarinas.

    Quereriam talvez as bellas damas
    Vr no papel traado o seu perfil?!
        N'essa no caio eu...
    Quem  capaz de retratar abril?
    De transportar  tela o que  do ceu?
        De copiar as flres?
        De imitar as estrellas?
    De dizer  manh: Roubei-te as cres?
    Tende paciencia,  minhas damas bellas,
    Incumba cada uma o seu Romeu
        D'esse arrojo inaudito.
        Eu c por mim, repito,
        N'essa no caio eu...

    E de mais eu bem sei, minhas senhoras,
    Que me attendestes n'um sero inteiro
    Por no haver na sala algum solteiro...
    Sois boas, no sejaes enganadoras.

    Eu j tenho trez filhos, eu sou velho,
    Disse-m'o ha pouco tempo uma visinha,
        E o maldito do espelho
    Tem-me mostrado at... _ps de gallinha_!...

    Vo muito longe as minhas primaveras.
    De mais a mais, senhoras, a aza branca
    Da musa ideal que eu tive n'outras eras
    Desplumou-se a pensar em Salamanca,
        No imposto sobre o sal,
    A estudar as questes do parlamento,
        O oramento geral,
        --Diabo de oramento!
    Que  o livro maior que ha em _S. Bento_!
    Assim se foi rasgando, creio eu,
    Essa aza branca que me erguia ao ceu!..

    Vede, senhoras, se ha tormento igual!
        O que me resta s,
    Para de todo errar da sorte o alvo,
        E vr-me, um dia, calvo,
    E descer  miseria... de um chin.

    N'estas alturas, minhas damas bellas,
        No posso ser pintor.
    Quereis vr-vos, senhoras, retratadas
    Formosas como sois, e delicadas?
        Mirae-vos n'uma flr...

        N'essa no caio eu...
        Fazer-vos o retrato?!
        Mas, em compensao,
        Com a vossa adheso
    Estou prompto a fazer um syndicato.




XV

Os amaveis


Toda a gente os conhece, os amaveis, sempre generosos, sempre
previdentes, tendo  flr dos labios sorrisos doces e doces fallas, que,
quando no encantam, incommodam com certesa os outros...

Sim, porque os grosseiros custam a aturar, so bruscos, so asperos, so
impertinentes. Mas os amaveis de profisso, os que fazem gosto e gala de
o ser por uso e costume, chegam a aborrecer quasi tanto como os grosseiros.

Com a differena de que se um grosseiro, por descuido, alguma vez se
mostra amavel, fica a gente encantada com essa surpresa; ao passo que se
um amavel, tambem por descuido, commette uma grosseria, fica a
gente quasi vexada de vr que elle estragou com um involuntario borro
todo o seu passado de homem fino.

A cortezia  como certos estofos claros, em que a mais leve nodoa se
torna saliente. Ao passo que nos tecidos grosseiros, qualquer
incorreco de cr, qualquer sombra, por maior que parea, tem sempre
esta desculpa:  mesmo da fazenda...

Um brutalho de marca maior costumava espancar a mulher por d c
aquella palha. As visinhas tinham d da pobre creatura sempre que ella
acabava de apanhar a sova do estylo. Coitada! diziam-lhe, vocemec
sempre foi muito infeliz com o marido que escolheu! E ella respondia,
cheia de philosophica resignao:  genio d'elle, no faam caso.

Equivalia certamente a dizer:  feitio da fazenda, no ha que extranhar.

Um amavel que uma vez escorrega, fica to maltratado em sua boa fama,
como ficaria maltratado corporalmente se tivesse caido do arco grande
das Aguas Livres sobre as hortas da Rabicha.

Um dia, certo cavalheiro primoroso em fallas e maneiras, inexcedivel em
requintes de cortezia, andando adoentado de irritao intestinal, teve a
infelicidade, estando a jogar jogos de prendas com damas, de ser elle
proprio dolorosamente surprehendido por alguma coisa que o vexou.

O jogo acabou de repente, no meio de um silencio gelado. O cavalheiro
infeliz pegou no chapo e, esquecendo-se da bengala, deitou a correr
pela escada abaixo.

As damas dividiram-se em grupos, fallando ao ouvido umas das outras,
receiosas de que alguem as ouvisse.

Os que estavam jogando o voltarete e o _whist_ perguntavam admirados:

--Ento acabaram to cedo o seu divertimento!

--Aconteceu alguma coisa?

--Por que se foi Fulano embora to depressa?

E as damas calavam-se mysteriosamente, entrincheiradas n'um silencio,
que s quebravam para cochichar ao ouvido de alguma sua amiga.

No dia seguinte o caso espalhou-se em toda a cidade.

--Sabe o que aconteceu hontem a Fulano em casa de Fulano?

--No sei.

--Pois ainda no sabe!

--Eu lhe digo...

E dizia-lh'o ao ouvido, com tamanho mysterio, que justificava plenamente
o pasmo com que a noticia era recebida.

--Ora essa!

--Um homem to correcto!

--Um to perfeito cavalheiro!

--Que pena!

--Que desastre!

--Que fiasco!

E, em verdade, o que tinha acontecido a esse primoroso cavalheiro, que
no podesse acontecer a qualquer outra pessoa?

Tinha deixado cair um borro no claro estofo da sua boa fama.

Se se tratasse de um grosseiro, toda a gente haveria dito apenas que
era proprio da fazenda.

Viajando em caminho de ferro, quem  que no tem encontrado um
companheiro to amavel, que chega a aborrecer?

Se tem vontade de abrir uma janella, encobre este desejo com um veo de
cortezia, e pergunta:

--Quer a janella aberta, no  verdade?

Se deseja fechal-a, serve-se de processo identico, sempre em nome da
cortezia:

--Pois no  verdade, pergunta, que desejava a janella fechada:

Se se trata de offerecer de jantar a alguem, o amavel insta, insiste,
persegue quasi, que  talvez a melhor maneira da gente, no caso de ter
que acceitar por fora, ir mal disposta, e comer pouco.

--Voc--dizia certo amavel a um amigo que lhe appareceu sem ser
esperado--voc janta hoje comigo sem appellao nem aggravo.

--No posso, meu caro, o comboio parte d'aqui a meia hora, e eu tenho
que seguir hoje viagem.

--Que pena! que pena! Mas veja l se pde de algum modo fazer o
sacrificio de jantar hoje comigo...

--Absolutamente, no posso, meu caro.

E o amavel, tirando dois charutos da algibeira, offerece um ao seu amigo
e procura o pretexto de ir ao interior da casa accender o outro.

Serviu-se d'este pretexto para ir dizer alguma coisa ao cosinheiro, que
alis no tinha dotes de muito esperto.

E, voltando para a sala, todo elle era perguntar ao amigo:

--Seu pae como est?

--Menos mal, obrigado.

--E seu tio?

--Esse passa peior.

--Sinto muito. Diga-lhe que sinto muito.

--E aquelle seu primo de Torres Novas?

--Esse! Morreu ha um anno!

--No sabia! Que pena! um homem ainda to novo!

De repente, voltando ao offerecimento do jantar:

--Mas, decididamente, voc janta hoje comigo...

--No posso, meu caro, porque o comboio no d licena.

--Eu nem mesmo sei o que tenho hoje para jantar. Mas isso sabe-se
depressa.  Jos Maria, anda c.

Jos Maria era o cosinheiro, a quem elle havia dito de repente, quando
foi accender o charuto:

--Se eu logo te perguntar o que temos para jantar hoje, inventa l
alguma coisa grande e pomposa.

Vem o Jos Maria e, de barrete branco na mo, espera que o amo o
interrogue.

--O que temos ns hoje para jantar, Jos Maria?

E o cosinheiro, que estivera matutando na inveno de alguma coisa
grande e pomposa, responde:

--Saiba v. ex. que temos uma balea.

Gesto de surpresa do amigo e do dono da casa.

O cosinheiro fica atarantado, suppe que tinha dito ainda pouco...

--O que dizes tu, Jos Maria! Uma balea!

E o cosinheiro querendo emendar a mo:

--Duas... duas, meu senhor.

Um homem menos amavel teria certamente evitado este fiasco das duas
baleas, porque no se lembraria de chamar o cosinheiro como collaborador
da sua amabilidade hospitaleira.

E toda a gente, d'ali por diante, repetiu o caso s gargalhadas, fazendo
alastrar a ndoa com que uma to distincta pessoa maculra a sua
reputao de homem amavel.

Havia um sujeito, pessoa excellente, a quem a naturesa dera como filho
um brutamontes rebelde a todas as correces.

Pae e filho foram convidados a jantar fra de casa. O filho quiz ir por
fora: o pae consentiu, com a condio de que elle fallaria o menos
possivel.

 mesa, o visinho da direita disse ao rapaz:

--O tempo est magnifico!

Elle limitou-se a meneiar affirmativamente a cabea.

O visinho da esquerda disse-lhe por sua vez:

--Que magnifico tempo!

Elle tornou a meneiar a cabea.

D'ali a nada diziam os visinhos aos visinhos:

--Este rapaz  um grosseiro!

E o rapaz, dirigindo-se ao pae, que estava sentado defronte:

--Olhe que elles j me conheceram! Posso fallar  vontade.

O pae sorriu encolhendo os hombros, como se quizesse dizer para os
outros convivas.

--Desculpem, isto  mesmo da fazenda.

Desenganem-se: os amaveis teem muito mais que perder do que os
grosseiros. E quantas vezes se arrepende uma pessoa de ser amavel,
devendo ter sido grosseira!...




XVI

A sepultura d'um traidor


Devo comear por dizer quem fosse o sr. D. Ruy, porque eu, posto a
contar historias, tenho ainda o mau costume de comear pelo principio.

O que faz com que seja alguma coisa massador... pelo menos.

O sr. D. Ruy era o filho unico da fidalga da Gsteira e do morgado do
mesmo nome.

Sobre aquelle menino pesava uma nobreza de sete geraes, e uma riqueza
talvez mais pesada ainda do que uma tal arvore genealogica.

Pela sua parte, elle no precisaria ser to nobre nem to rico para se
fazer estimar e adorar.

Era, realmente, uma creana insinuante, meiga e intelligente,
quasi nada voluntariosa apezar dos extremos, por vezes ridiculos, com
que era tratada.

A me parecia viver da vida do filho. Se elle ria, ria ella tambem; s
vezes adoeciam, me e filho, da mesma tristeza: chamava-se logo o medico
para ambos, porque o morgado, depois de ter vivido no mundo, prescindira
da sociedade que tanto o prendera outr'ora, para se limitar a viver para
a mulher e para o filho, isto , para uma s alma partida em dois corpos.

No solar da Gsteira havia ainda uma outra pessoa, que fazia parte
integrante da familia: era o padre Joo, capello da casa.

Padre Joo accumulra tambem as funces de preceptor do sr. D. Ruy
durante a primeira infancia do fidalguinho. Ensinara-o a lr e a rezar.
Umas vezes por outras fallava-lhe do sr. D. Miguel de Bragana, que,
segundo elle, era o _Desejado_ dos tempos modernos.

Mas o sr. D. Ruy foi crescendo, e chegou um dia em que se pensou no que
se devia fazer d'aquelle menino.

O que havia elle de ser no mundo para melhor fazer sobresair a sua
riqueza e a sua fidalguia?

A me, no egoismo do seu amor, dizia que o melhor era no se pensar mais
n'isso, que o sr. D. Ruy j sabia lr o bastante... para no ser
analphabeto.

Padre Joo concordava com a fidalga: que sim, que a sabedoria era boa
para os pobres.

O morgado protestava. Elle mesmo era bacharel em direito, e queria que o
filho o fosse.

Vivendo amarrado s tradies de familia, queria que o filho se
graduasse em leis, como elle, fazendo o que seu pae fizera, tendo um
cavallo para passeiar, como todos os estudantes nobres d'aquelle tempo,
exhibindo-se, n'uma palavra, em toda a plenitude das regalias que
uzufruiam os morgados em Coimbra.

Padre Joo concordava tambem com o morgado: que sim, que o saber no
ficava mal a ninguem.

A morgada zangava-se, e dizia:

--O padre Joo est fallando assim por comprazer com meu marido. J lhe
tenho ouvido dizer que a sabedoria  boa para quem no tem outra coisa.

O bom do capello via-se enleiado, tomava a sua pitada, rufava depois
com os dedos sobre os joelhos:

--Sim, quero eu dizer, minha senhora, que nem tanto ao mar nem tanto 
terra. Uma envernizadella ao espirito no faz mal a ninguem...

--Uma envernizadella! replicava o morgado. Mais do que isso. Uma carta
de bacharel. Pde nascer-se morgado, sem a gente o querer; doutor  que
no. O padre Joo j viu alguem nascer doutor?

--Eu, no, sr.

--Pois se no viu,  porque para o ser  preciso estudar e saber alguma
coisa. E a honra  tanto maior quanto o individuo, pela sua posio
social, menos precisa das cartas de um curso para viver. Hoje os tempos
mudaram, e um fidalgo ignorante j ninguem o toma a serio. Eu quero que
meu filho v a Coimbra.

A fidalga punha os olhos no cho, ficava calada e triste.

--Mas isso no  por ora, tornava o morgado; escusas de estar ahi a
abalar de tristeza, Christina. Has de habituar-te pouco a pouco a viver
sem o teu filho, como minha me se habituou. O habito  uma segunda
natureza. Primeiro entrar o Ruy n'um collegio. Vamos viver para o
Porto,--e olha que fao n'isso algum sacrificio, porque j me custa
arrancar-me  vida da provincia. Para que elle tambem se habitue a viver
sem ns, mettemol-o n'um collegio, no da _Guia_, por exemplo, porque
tenho boas informaes a respeito d'essa casa de educao. Iremos vel-o
sempre que queiras. Pelas ferias, sahir, viremos para a Gsteira, a fim
de que elle possa saborear, de tempos a tempos, o bem estar da casa
paterna, conservar as tradies de familia, que eu tanto prezo, e tu
tambem.

De sahir da Gsteira, de deixar o seu querido Minho,  que padre Joo
no gostava; mas, chamado a conselho pelo morgado, no tinha
remedio seno concordar.

Finalmente, resolveu-se que o sr. D. Ruy iria para o collegio da _Guia_
estudar preparatorios.

Os fidalgos da Gsteira sahiram para o Porto, e arrendaram casa, uma
bella casa de trez andares, na rua de Santa Catharina.

A fidalga queria ficar perto do collegio,--o mais perto possivel.

Marcou-se o dia em que o sr. D. Ruy devia entrar no collegio. O
director, o Daniel Navarro, tinha ordem de se no poupar a despezas para
amenizar a iniciao do joven collegial. Esse dia, era uma segunda
feira. Mas no domingo  noite a fidalga chorou tanto, que o morgado
achou prudente deixar passar mais alguns dias.

Por sua parte, o sr. D. Ruy estava um pouco vacillante entre as saudades
da me e o desejo de entrar no collegio. Um dia o pae levara-o l. Era 
hora em que os alumnos estavam no _recreio_: todos elles pareciam
alegres, riam, vozeavam, corriam pelas ruas da quinta, jogavam as
escondidas, baloiavam-se no trapesio. Aquillo no lhe desagradou;
demais a mais o Navarro fizera-lhe muita festa, foi mostrar-lhe as
aulas, os dormitorios, a casa de jantar, e disse-lhe:

--Olhe que isto no  mau.

E o sr. D. Ruy sorrira, sentira-se forte, imaginava que se havia de dar
bem ali, com os outros, brincando como elles.

Mas ao chegar a casa, chorra vendo a me, e ella chorra tambem,
abraada n'elle.

--Bem! dissera do lado o pae, tu no desgostaste, pois no  verdade:

O sr. D. Ruy, com os olhos chorosos, menera affirmativamente a cabea.

--Ento entrars segunda feira... est dito!

E passra a mo pela face da fidalga, afagando-a.

-- que se o rapaz ainda no vae d'esta vez, dissra, fica sendo o D.
Sebastio do collegio da _Guia_. Eu no quero que os outros lhe ponham
alcunhas, que ficam depois para toda a vida.

--Nem eu, replicra a fidalga com vivacidade.

A ideia de que seu filho poderia ter uma alcunha, ser chamado o _D.
Sebastio_ do collegio, sobresaltra-a. E desde logo protestou a si
mesma que o deixaria ir na primeira segunda feira.

-- mam, dissera o pequeno, sabe que numero eu vou ter no collegio?

--Qual?

--Sou o 416.

Esta novidade, o facto de ir ser o 416, agradava-lhe. Era uma variante 
monotonia do seu tratamento habitual. Toda a gente lhe chamava D.
Ruy, o sr. D. Ruy, mas d'ali em diante iam chamar-lhe o 416. Que bom!

No domingo, o morgado tornou a levar o filho ao collegio. Quando
entravam, os rapazes sahiam arregimentados. Iam ouvir missa  Lapa, e
depois dariam um passeio at Paranhos. O morgado disse ao prefeito que
tambem os acompanharia, para habituar o filho  sua nova vida de collegial.

Na egreja da Lapa, emquanto esperavam pela missa, o sr. D. Ruy fez
relaes de amisade com um rapaz, filho de um fidalgo da casa de Villa
Pouca, em Guimares. Era o 86. O sr. D. Ruy gostou d'elle, e gostou de
se vr tratado familiarmente--por 416, apenas.

Veio para casa contar  me o que tinha feito. Estava enthusiasmado. E a
segunda feira tardava-lhe. A me alegrou-se um pouco da alegria do
filho. Pela manh lavou-o, penteou-o, ella mesma, chorando umas vezes,
sorrindo outras, soffrendo e amando.

Padre Joo foi com o morgado acompanhar o 416. A fidalga veiu para a
janella. Chorava. Chegra finalmente o momento terrivel, que ella temia
tanto. Mal viu o filho na rua, limpou as lagrimas, procurou sorrir. O
sr. D. Ruy ia bem disposto, sentia-se forte, disse adeus  me sem
chorar, mas  esquina da rua, quando a janella ia desapparecer, o
valoroso 416 voltou-se ainda uma vez para traz, e limpou duas
lagrimas ao canho da jaqueta.

 que, por muito leviano que se seja quando se  creana, sempre se tem
consciencia de que uma me faz muita falta.

O 416 deu boa conta de si no collegio da _Guia_. De dia, as aulas e o
recreio absorviam-lhe a atteno;  noite, nos primeiros tempos,
arrasavam-se-lhe sempre os olhos de lagrimas, quando, antes de
adormecer, pensava na me. Faltavam-lhe os beijos d'ella, que se
inclinava sobre o leito a compor-lhe a almofada, e a conchegar-lhe a
roupa. A cabea de Christina tomava ento o aspecto de uma aza
protectora. O 416, no collegio, enrolava-se no lenol, soluando, e
adormecia assim, rezando ao anjo da guarda, como padre Joo lhe
ensinra. Mas, pela manh, a disciplina escolar no lhe dava occasio
para pensamentos tristes: era saltar da cama e comear a lide.

Ao cabo do primeiro mez, o 416 j adormecia melhor.

Como as suas relaes com o 86 se houvessem estreitado cada vez mais,
faziam ambos projectos para as ferias da Paschoa. O 416 levaria para a
Gsteira o seu condiscipulo: j estavam solicitadas as respectivas
licenas. No havia duvida nenhuma. Fariam um Judas logo que l
chegassem. Houve apenas uma pequena divergencia, entre os dois amigos,
sobre o modo como vestiriam o Judas. O 86 queria que fosse de
veterano. O 416 preferia um fato de hespanhol--com as respectivas
castanhetas. A sua opinio venceu, com uma simples modificao: as
castanhetas seriam substituidas por um pandeiro.

Padre Joo, n'uma visita ao collegio, disse que o fato de hespanhol no
era proprio para Judas; que seria melhor vestil-o de judeu. Os dois
collegiaes no quizeram saber d'isso, e o 416 encarregou o capello de
lhe comprar um fato de hespanhol, que o padre foi desencantar na rua de
Santo Antonio, n'um guarda-roupa de carnaval.

Imagine-se a alegria com que todos partiram para a Gsteira! A morgada
parecia ter a idade do filho: ria, fallava, apoiava calorosamente os
projectos dos dois collegiaes sobre a queima do Judas, que devia ser
espaventosa.

Na caixa do trem ia muito fogo de artificio para recheiar o apostolo...
castelhano. Dentro da barriga tinham os dois amigos combinado pr-lhe
uma bomba, que devia rebentar como uma pea de artilheria. Na cabea,
outra bomba: o chapeu devia ir parar a casa do diabo.

Logo que chegaram  Gsteira, trataram de fazer o Judas. O arcabouo era
de palha. Vestiram-lhe as pantalonas castelhanas, a jaqueta de alamares;
ataram-lhe a faixa encarnada. Pozeram-lhe uma caraa de andaluz, e um
sombrero com debrum de velludo preto. As mos eram duas luvas de
algodo com recheio de palha; na esquerda tinha um pandeiro, e na
direita a saca dos trinta dinheiros. Por um artificio sabiamente
imaginado, a saca do dinheiro devia, quando se puxasse por um arame,
bater no pandeiro, e fazel-o soar. Na bca um charuto: era uma granada
envolvida em folha de tabaco. Nos ps, esporas de lata, com polvora dentro.

O Judas ficou n'um vasto telheiro que, dentro do pateo, se encostava ao
muro da quinta.

O machinismo do pandeiro e da saca dos trinta dinheiros, inveno do 86,
levara muito tempo, e dera muito trabalho, de modo que s foi possivel
acabal-o,  luz de lanternas, na sexta feira  noite. O Judas,
finalmente prompto, estava de papo ao ar, no cho, hirto, inchado,
apopletico. Pela manh, os meninos levantar-se-hiam muito cedo para
assistir  empalao.

Depois... s restava pegar-lhe fogo.

De madrugada, uma criada da casa fra ao moinho buscar uns sacos de
farinha, que trouxe n'uma jumenta. Descarregou a farinha e enxotou a
jumenta para o meio do pateo, emquanto foi acondicionar os sacos na
cosinha.

No se lembrou a estupida de que o Judas era de palha, e de que as
jumentas comem palha... ainda mesmo quando lh'a no sabem dar.

A jumenta, de focinho baixo, foi procurando o que havia pelo
telheiro. Vendo o Judas deitado no meio do cho, comeou, desconfiada, a
ladeal-o, mas, por fim, investiu com elle. Cheirou-lhe a palha, e com
uma dentada esgarou-lhe o peitilho da camisa. Achou dentro a palha, e
comeou a comer. Trazia fome. Tinha ido para o moinho de madrugada, e
l, emquanto esperava pela moedura, apenas poder traar com os dentes
umas hervitas, de modo que aquelle almoo inesperado soube-lhe bem.

Quando os meninos se levantaram, correram ao telheiro. Do Judas...
restava apenas a parte castelhana, isto , o fato:, mas os intestinos
tinham desapparecido.

Proromperam n'um choro atroador as duas creanas. Os morgados, os
criados, acudiram todos. As lamentaes dos dois collegiaes eram
sentidissimas, clamorosas. E a burra, indifferente a tudo o que se
passava, continuava a procurar com o focinho alguma cousa, na esperana
de encontrar outro Judas.

N'um momento de clera, o 86 e o 416 pegaram cada qual no seu fueiro, e
comearam a desancar a jumenta. Levou muita lambada; at o padre Joo,
para lisonjear os meninos, lhe dera um pontap na trazeira, dizendo: Que
grande burra esta!

Mas ella, com o falso apostolo na barriga, parecia ter a consciencia de
que um traidor no merecia sepultura melhor.



XVII

A caminho do Alemtejo


Ha pouco mais de um mez, passava eu na linha do sueste com destino ao
Alemtejo. Tinhamos atravessado o rio com muito vento; havia vaga. O ceu
estava carrancudo; promettia chuva. O vento apressava-a. Na ponte do
Barreiro, uma grande corda de agua principira a cahir. Corremos todos
para as carruagens;--foi um verdadeiro _sauve qui peut_.

O comboyo partira e a chuva continuava a cahir. Uma inverneira pegada.
Eu sentia-me somnolento, cabeceava. Na estao de... (sejamos discretos)
sentindo correr uma vidraa na carruagem immediata, espertei. Uma voz,
n'um tom agaiatado de rapazote de escola, disse: E a cabrinha? E a
cabrinha?

O chefe da estao, um homem velho, de bigode branco, olhou de repente
para a carruagem d'onde a voz partira. Havia ficado visivelmente
aborrecido, mas continura fazendo o seu servio. De instante a
instante, ao passo que a voz repetia--E a cabrinha?--elle resmungava.

Ao cabo de pouco tempo a campainha dera o signal da partida. No momento
em que o comboyo largava, uma voz, mais vozes disseram: E a cabrinha? E
a cabrinha?

O que se passou no sei, mas n'uma das estaes seguintes procurei
occasio de perguntar ao meu visinho, que se apeira, o que aquillo
queria dizer.

O rapazote, que teria quando muito dezeseis annos, explicou-me.

Aquelle chefe tinha uma cabrinha de muita estimao, que lhe dava
magnifico leite para o almoo. Mas a cabrinha, que era toda meiguice com
a dona, mostrava-se pouco affeioada ao dono. Um dia, por um motivo
qualquer, a mulher do chefe da estao teve de ausentar-se; o marido
ficou, desempenhando as funces do seu cargo.

Quando chegou a hora do almoo, o chefe tratou de chamar a cabrinha para
mungil-a. Isso sim! A cabrinha fugia, e o pobre homem resignou-se a
tomar o seu caf sem leite. No gostou, e tratou de afagar a cabra para
que ella se mostrasse menos extranha e rispida. Qual historia! No outro
dia a mesma comedia, elle a chamar a cabra com as suas melhores
maneiras, e ella a fugir d'elle como o demonio foge da cruz.

O pobre homem deu tratos  imaginao para resolver o problema, em que
elle e a cabra entravam como factores.

O que havia de fazer? Demais a mais o caf sem leite estava-lhe fazendo
mal ao estomago, e a cabra no promettia tornar-se mais amavel do que
at ahi se havia mostrado.

Depois que os comboyos passavam, elle fechava a porta da estao, e dois
pensamentos atrozes o preoccupavam: a mulher e a cabra.

O que havia de fazer? pensava e tornava a pensar.

At que uma noite teve uma ida luminosa, salvadora. Adormeceu mais
tranquillamente, saboreando mentalmente a delicia de tornar a almoar
caf com leite.

Pela manh, quando acordou, vestiu um vestido da mulher, poz na cabea
um leno d'ella. Foi chamar a cabra, e a cabra veiu immediatamente,
fazendo-lhe festa.

Estava resolvida a difficuldade, a cabra deixava-se mungir; o bom homem
endoidecia de contentamento.

N'isto, um silvo terrivel ouve-se a pequena distancia. Era o comboyo,
mas em que occasio, santo Deus!

O pobre chefe estava vestido de mulher, de saia e leno. Um dilemma
implacavel se lhe apresentava: apparecer tal como estava ou faltar.

Mas faltar seria um delicto muito grave, um motivo para demisso. N'isto
o comboyo chegava... E o chefe da estao apparecia na plataforma,
mascarado de mulher, a dar ordens no desempenho do seu cargo.

Os passageiros riram a bom rir. O caso divulgou-se, espalhou-se ao
longe, e agora  raro o dia em que passe um comboyo sem que alguem
pergunte ao chefe da estao noticias da cabrinha...

      *      *      *      *      *

--J no ha salteadores no Alemtejo! dizia eu para um dos meus
companheiros de viagem. Que falta que me faz um assalto, de que eu
precisava escapar... para o contar depois!

E elle referia-me casos tenebrosos de antigos salteadores alemtejanos,
do Jos da Costa e do _Chapeu de ferro_, dois faccinoras, dois monstros,
que viveram n'um tempo em que ainda se podia ser litterato.

O Jos da Costa fra ha doze ou quinze annos o terror das terras
interpostas a Alcochete e Setubal. Desertor de lanceiros, andava a
monte, zombando das auctoridades e da policia. Era um heroe terrivel, um
homem sanguinario, uma lenda viva. Uma noite, encontrra o caseiro
da quinta de Algeruz, e mandra-o apeiar do cavallo que montava.
O caseiro obedecera immediatamente, e o faccinora dissera-lhe,
passando-lhe a mo pela cara:

--Anda l, anda, segue teu caminho.

O caseiro cavalgou de novo, dispunha-se a partir, quando Jos da Costa
lhe tornou a dizer:

--Apeia-te outra vez.

E passando-lhe a mo pela cara:

--Ajoelha-te.

O caseiro ajoelhou.

--Por esta vez, vae-te embora.

O caseiro montou, e Jos da Costa, deitando a mo s redeas do cavallo,
exclamou:

--Apeia-te, e ajoelha.

E pondo-lhe a mo na cabea e nas faces:

--Vae com Deus ou com o diabo!

O caseiro estava muito disposto a partir protegido por qualquer dos
dois, quando o Jos da Costa lhe apostrophou:

--Torna a descer, que to mando eu.

E o caseiro desceu do cavallo.

--Ajoelha.

E o caseiro ajoelhou.

--Monta agora.

E o caseiro montou.

E depois, vendo-o em cima do cavallo, atirou-o a terra com um tiro.

--Coitado! disse, tornando a passar-lhe a mo pela cabea
inanimada, j devias estar canado de montar e desmontar!

De uma vez, Jos da Costa teve seus dares e tomares com um hespanhol
pimpo. Travou-se a lucta brao a brao, e o faccinora parecia no levar
a melhor.

De repente, Jos da Costa grita para o hespanhol:

--Olha quem ahi vem! Foge!

No vinha ninguem. O hespanhol, voltou-se e o faccinora feriu-o pelas
costas.

Foi na venda de Algeruz que Jos da Costa poude ser preso.

Fecharam-lhe a porta  traio, cercaram a casa, e foram buscar a
Setubal uma fora militar, de que foi commandante o governador Cunha, ha
annos fallecido.

Mas dentro da taberna haviam ficado trez ou quatro homens, que no
poderam sahir a tempo, e o Jos da Costa, vendo-se apanhado no lao,
ia-os esfaquendo para saciar a sede de sangue.

Os feridos gritavam de dentro, o povo gritava de fra, a fora havia
chegado, estava de armas mettidas  cara, e de repente, por uma das
janellas da casa, uma coisa saltra para a charneca. Mas os soldados,
percebendo o que era, no descarregaram.

Jos da Cosa havia atirado para fra um cortio, fingindo que era elle
proprio que saltava, na esperana de que os soldados disparassem,
e elle podesse fugir entretanto, so e salvo.

Ento, baldados todos os recursos, entregou-se  priso.

O _Chapu de ferro_ infestava ahi por 1860 e tantos as circumvisinhanas
de Beja.

Uma vez matara um homem n'um _monte_, como quem diz um casal, e obrigra
a mulher da victima a aparar-lhe o sangue n'um alguidar.

Dois rapazitos, e um d'elles  hoje um cavalheiro altamente collocado,
sahiam, em frias, de Beja para a sua terra natal.

Um homem de grandes barbas espessas appareceu-lhes na charneca.

--Quem so vocs? perguntou-lhes.

--Somos estudantes.

--E eu, sabem quem eu sou?

--No sabemos.

--Pois eu sou o _Chapu de ferro_.

--O _Chapu de ferro_! exclamaram horrorisados.

--Sim, eu sou o _Chapu de ferro_, e deixo-os ir em paz. Talvez
_quizessem_ que eu os matasse, dois creanolas!




XVIII

A mulher


Desde o paraiso terreal at hoje, no tem havido acontecimentos de polpa
em que no figure a mulher. Os francezes dizem _Cherchez la femme_. O
que significa que a mulher anda sempre mettida em todas as endrominas
d'este mundo.

Ora, desde que principiou a desenvolver-se na imprensa o panorama
escandaloso do Panam, admirado estava eu de que no tivesse apparecido
ainda como actriz ou como comparsa, como figurante de qualquer genero,
uma mulher pelo menos.

J tinha tido tentaes de lembrar  Frana que o seu proverbio
falhra... pela primeira vez. Eis seno quando o proverbio triumpha,
agora como sempre. No caso do Panam apparece uma mulher, madame Cottu,
e a sabedoria da Frana salva os seus creditos, emfim.

Decididamente, a mulher, quer a emancipem quer no, tenha voto ou no
tenha voto, ha de ser, na successo dos seculos, a eterna collaboradora
do homem em todos os casos da vida.

E visto que isto tem de acontecer por fora, convm a cada homem
escolher o typo de collaboradora que mais lhe agrade, especialmente para
as emprezas em que o agrado  tudo.

Dever escolher-se a mulher pequena. Ser essa, como typo do sexo, a que
mais pde encantar os olhos de quem a v?

 certo que os antigos diziam: A mulher e a sardinha quer-se
pequenina. A pequenina, a _mignone_, d'estas em que se pde pegar ao
collo, e passeial-as sem canar os braos, , em verdade, um ser
gracioso, que conserva, at mesmo na velhice, o que quer que seja de
infantil, de ar alegre de boneca

E de mais a mais dizia um philosopho, no sei qual, um philosopho
apologista de mulheres pequenas: Do mal o menos.

Mas a verdade  que as nulheres altas, elegantes, fortes, se no so to
commodas para trazer ao collo, do margem a que os olhos de quem as
contempla possam saturar-se de bello sexo, demorando-se a miral-as da
cabea at aos ps.

 como se a gente estivesse a olhar ao longo de terras vastas, de uma
paizagem dilatada, com um horisonte amplo, infinito, em que
sempre, por mais que se olhe, ha alguma coisa para vr de novo.

Outro philosopho--porque sobejam, graas a Deus! philosophos para
tudo--costumava dizer que a mulher alta era a mais apreciavel de todas,
visto que no tinha o corao ao p da boca.

Feia? Dever ser feia a mulher? No falta quem seja d'esta opinio. No
ha mulher feia que no possua pelo menos uma qualidade estimavel. A
natureza mostrou-se principalmente sabia e justa nas compensaes.

V a gente s vezes um homem loucamente apaixonado por uma mulher que a
ns nos parece feia.

Sempre que isto acontece,  para desconfiar que exista uma compensao,
uma qualidade, que esse homem, tendo visto melhor que ns, conseguiu
descobrir.

De mais a mais, nada ha to vehemente, to vulcanico como o amor das
feias. Tendo pouco quem as requeste, poupam o paiol do corao, de modo
que o seu primeiro amor  como que uma exploso do Vesuvio.

No olhar amoroso de uma feia ha sempre um discurso enthusiasta, que pde
stenographar-se do modo seguinte.

--Muito obrigada, bravo e heroico cavalheiro! que esgrimes denodadamente
contra o preconceito da belleza, e que reunes  coragem o
talento, porque s tu foste capaz de descobrir a belleza na
fealdade, a compensao que a natureza me concedeu. Saber que uma mulher
 bella, quando ella realmente o seja, no engrandece o espirito de
ninguem. Basta, para isso, no ser cego. Mas vr uma obra de arte, a que
todos acham defeitos, e descobrir-lhe a unica qualidade boa que possua,
chega a ser brilhante, a ser glorioso,  nobre,  bravo,  excepcional
cavalheiro! A ti, a minha eterna dedicao!

Ora este discurso, pronunciado por dois oradores ao mesmo tempo, isto ,
pelos olhos de uma mulher, faz impresso no espirito de um homem,
envaidece-o, lisonjeia-o, acaba por subjugal-o.

E assim se pde explicar de certo a raso por que as feias vo tendo
despacho e consumo.

Esto no caso das feias, as velhas.

No me refiro a uma antiguidade verdadeiramente gothica, nem me proponho
sustentar que um homem deva casar-se com a s de Braga.

Mas Balzac fez, como se sabe, o elogio da mulher de trinta annos, e eu,
na minha obscuridade, acho que  essa uma boa conta para ponto de partida.

Trinta annos! obra acabada, paredes solidas, pavimentos seguros, um
predio capaz de resistir a um terremoto! Magnifico! J passou a
epoca das pieguices, dos amuos, dos caprichos de creana. Nada de
esboos, de linhas indecisas: obra a que a natureza acabou j de dar os
ultimos retoques! Excellente!

Entre os trinta e os quarenta toda a mulher se encontra na situao das
feias, ainda que tenha sido formosissima.

--Muito obrigada pela distinco que o cavalheiro me concede! parece
dizerem os seus olhos amorosos. Ha por ahi tantas meninas interessantes,
tantas rosinhas em boto, tantas flres frescas e mimosas, e o
cavalheiro por todas passou sem as cobiar! Realmente, sinto-me
captivada... Mas deixe estar que no hade arrepender-se. Saberei amal-o
como duas meninas, pelo menos: uma, que j fui, outra, que torno a ser,
remoada pelo seu amor.

E a fim de trazer sempre o homem satisfeito e entretido, toda ella 
corao, toda ella se dispende em lembranas mimosas, enviando ao
cavalheiro flres para a lapella e rebuados para o peito.

Contou Julio Cesar Machado, uma vez, que certa quarentona, soffrega de
amar, tomra um trem para n'um dia de primavera, cheio de estimulos e
effluvios, ir dar um passeio ao Campo Grande.

Pelo caminho, o corao trasbordava-lhe do peito, expandia-se, mas,
infelizmente, no havia um homem que quizesse ter a heroicidade
de amal-a.

Quando chegou ao Campo Grande, no momento de apeiar-se, j com o p no
estribo, reparou nos olhos do cocheiro, que eram bonitos, expressivos.

E deixando-se cair para fra, de modo a que o cocheiro tivesse a ideia
de amparal-a carinhosamente, exclamou:

--Amo-te, Jos Traquitana!

Julio Cesar Machado deixou neste ponto a historia, mas  de presumir que
a dama, acceitando as consequencias da sua allucinao, viesse a
tranformar esse cocheiro n'um marido grato e discreto, com tacto para a
vida, visto que havia principiado por ter boa mo de rdea.

Dever preferir-se a mulher formosa?

 decerto a que mais agrada no primeiro momento, porque a vida  uma
serie de illuses, e a formosura a mais grata das illuses.

L disse o padre Vieira: O que  a formosura seno uma caveira bem
vestida? Mas, emquanto est bem vestida, agrada, attrae, fascina.

Todavia, se se pensa um momento, receia-se...

A mulher formosa agrada tanto ao que a possue, como aos outros. Tem esse
perigo, que constitue um sobresalto permanente.

E depois o que a possue no pde de certo esquivar-se a pensar com os
seus botes,  medida que a belleza se vae apagando: Quem te viu e quem
te v!

Se a mulher vale s pela formosura, faltando-lhe a graa, a bondade, uma
qualidade de valor, emfim, o que quasi sempre acontece graas  theoria
das compensaes, essa mulher , j o disse alguem, um livro que uma vez
lido, no tem mais que lr.

Deve procurar-se uma mulher de bom genio?

Uma mulher de inalteravel bom genio parece feita de aorda,  uma
espcie de _menu_ sem surprezas, uma permanente dieta, em que o espirito
no passa de servir-se todos os dias uma aza de frango, como se fosse um
doente.

No irrita, mas no vivifica. No esfria, mas no aquece. Quando um
homem chega a festejar as suas bodas de prata, no tem que dizer aos
outros seno isto: Meus senhores, tenho passado vinte e cinco annos da
minha vida n'uma paz podre, que me sabe a gallinha cozida.

Se a mulher tem mau genio, se tem nervos, deve isso ser desagradavel
para o marido algumas vezes, mas nada ha que possa lisonjear tanto o
espirito de um homem como vr uma mulher, que tem a vocao da guerra,
offerecer-lhe um beijo... de paz! Oh!  glorioso para um vencido
acceitar o ramo de oliveira que lhe offerece o vencedor!

Dever ser rica? Para passar a vida,  bom que seja rica a mulher. Mas
no deixa isso de vexar um pouco o marido, se toda a riqueza veiu
d'ella. Quando um marido em taes condies manda pr o trem, sente-se
engasgado como se tivesse de dizer: O Jos, manda pr o coup da
senhora. Se vae ao theatro, ao entregar o bilhete ao porteiro, a
consciencia grita-lhe que deveria dizer, a querer ser sincero: Abra o
camarote da senhora!

Oh! deve ser horrivel!

Pobre? E se a mulher  pobre? D isso pena a um marido que sinceramente
a estime. Aqui est, dir elle comsigo mesmo, uma mulher a quem eu
quizera proporcionar todos os regalos, todas as commodidades de uma
princeza, e comtudo s poderei offerecer-lhe este mez um vestido de
percale. De modo que a independencia de que um tal marido gosa junto de
sua mulher, e aguada pelo desgosto de a no poder felicitar tanto quanto
desejava.

 difficil a escolha! concluir o leitor. Com effeito assim .
Difficilima, acrescentarei eu. Mas ha talvez um meio de illudir a
dificuldade da escolha:  amal-as a todas indistinctamente, para, com o
auxilio da experiencia, escolher depois a melhor... se houver tempo para
isso.




XIX

O carnaval...


J contei ha alguns annos a historia carnavalesca do Felix Telles, de
Estarreja.

Mas vou reedital-a, para que se torne to conhecida quanto o merece a
mais interessante e a mais veridica historia que o carnaval de Lisboa
tem produzido, desde que a caraa  caraa.

Felix Telles, boa pessoa, com seus laivos de patusco, vivia no solar de
um fidalgo de Estarreja, na qualidade de professor aposentado dos
meninos da casa.

De vez em quando vinha a Lisboa a pretexto de visitar o irmo e
sobrinhos do fidalgo de Estarreja. Agradava-lhe essa patuscada, que o
distraa da monotonia das arvores e da vida da aldeia.

Assim foi que um anno, pelo carnaval, elle disse ao fidalgo:

--Meu senhor, se v. ex. se no oppozer, vou a Lisboa pregar uma partida
real a seu mano e sobrinhos.

--Ento que intenta voc fazer,  Felix?

--Uma partida de carnaval, que passo a expr a V. ex. manh de manh
tomo o comboio descendente. Chego a Lisboa das oito para as nove horas
da noite. O mano de v. ex.  certo, com toda a sua familia, n'um
camarote da Trindade, segundo o costume. Logo que eu chegar, vou
hospedar-me no _Hotel Alliance_ para me lavar e descanar.  meia noite
pouco mais ou menos, mando um criado do hotel alugar um domin preto ao
Cruz da rua Larga de S. Roque. Dirijo-me em seguida ao theatro da
Trindade, vou direito ao camarote onde estiver a familia de v. ex. e
proponho-me intrigal-a, com casos certos, durante uma boa hora. Quando
eu lhe fallar de certas coisas, toda a familia arder em curiosidade,
dar tratos  imaginao para descobrir quem eu seja. Mas no podero
lembrar-se de mim por me supporem em Estarreja.  saida do theatro
tomarei as minhas precaues para no ser seguido nem conhecido. De
manh metto-me outra vez no comboio, e  noite estarei aqui a ceiar e a
rir do caso com v. ex.  ou no , ex.^mo senhor, uma partida real?

--Pyramidal! meu caro Felix Telles. Applaudo com enthusiasmo. V
deitar-se, visto que tem de fazer madrugada. Mas que boa partida!
Eh! eh! ria o morgado, esfregando as mos de contente.

Foi dali o fidalgo para o seu escriptorio e, a rir comsigo mesmo,
redigiu o seguinte telegramma:

Felix Telles chega ahi hoje noite para intrigar-te theatro Trindade.
Domin preto, alugado Cruz. Vai Hotel Alliance. Prepara-te para ataque.
Segredo.

Depois chamou o seu criado particular, disse-lhe que logo pela manh
fosse ao telegrapho expedir aquelle telegramma, recommendando-lhe a mais
completa reserva.

No comboio descendente, Felix Telles tomava effectivamente logar n'uma
carruagem de primeira classe, e saboreava mentalmente o prazer da sua
aventura.

Entretanto o irmo do morgado, o visconde de ***, recebia em Lisboa o
telegramma, e chamava o escudeiro para dizer-lhe:

--Esta noite estars em Santa Apolonia  chegada do comboio. N'uma
carruagem, que segundo o costume ser de primeira classe, hade vir o sr.
Felix Telles, que tu conheces muito bem. Seguil-o-has, sem que te veja.
Se tomar um trem, toma tu outro. Deve apeiar-se  porta do Hotel
Alliance. Ahi, logo que chegue ou pouco depois, dar ordem ao criado
para que lhe v buscar ao guarda-roupa do Cruz, na rua Larga de
S. Roque, um domin preto. Esperars os acontecimentos parado em frente
do hotel. Certificar-te-has se effectivamente sae do Alliance um homem
de domin preto. Esse homem ser o sr. Felix Telles. Logo que elle saia,
tomar-lhe-has dianteira, corrers ao theatro da Trindade. Encostados 
casa do bengaleiro estaro os meninos e, quando o sr. Felix Telles
entrar, dir-lhes-has:  este. Entendeste:

--Perfeitamente, sr. visconde. Esteja v. ex. certo de que saberei dar
conta do recado.

--Muito bem.

No seu quarto, os filhos do visconde escreviam sobre uma larga tira de
papel branco, em garrafaes lettras pretas, o seguinte lettreiro: _Sou o
Felix Telles de Estarreja._ E riam estrepitosamente, com aquelle grande
bom humor que se perde para todo o sempre depois que os dezoito annos
passam...

O criado do visconde desempenhou-se da sua misso de confiana s mil
maravilhas.

Felix Telles chegava ao theatro da Trindade quando j os filhos do
visconde, postos atraz do guarda-vento, se preparavam para pregar-lhe
nas costas a grande tira de papel branco.

Esta operao, alis difficil, foi feita com perfeita delicadeza.

As pessoas que presencearam tudo isto, casquinaram uma estrondosa
gargalhada, que Felix Telles no percebeu. E logo muitas vozes,
umas accentuadamente masculinas, outras feminilmente esganiadas,
comearam a gritar n'uma surriada d'opereta, emquanto o domin preto
passava:

--Olha o _Felix Telles de Estarreja_!

O homem estremeceu dentro do seu domin, debaixo da sua mascara.

E sujeitos de chapeu de cco, creanas de bisnaga em punho,
_pastorinhas_ vestidas de gaze cr de rosa, _vivandeiras_ de cantil a
tiracollo, caam sobre elle com o peso d'uma troa implacavel.

--Olha o _Felix Telles de Estarreja_!

Elle voltava-se para surprehender o denunciante em flagrante delicto de
bisbilhotice, no conhecia ninguem, suava, tressuava, perguntava a si
proprio se teria enlouquecido, e ento os esguichos, as gargalhadas, os
gritos recrudesciam n'um _crescendo_ atroador.

De repente, no salo, o visconde, de braos abertos, um riso
epigrammatico nos labios, postado deante do domin, saudava-o com a
terrivel apostrophe, que se repercutia nos eccos da sala:

-- Felix Telles, que diabo de lembrana foi a sua!

E elle, o Felix Telles, desesperado, hydrophobo, apopletico,
respondeu-lhe na sua voz natural, cheio de raiva, de colera:

--Ora deixe-me, que no sou eu!

E saiu, saiu acompanhado at  porta do theatro por este grito terrivel,
insistente, perseguidor:

--Tu s o _Felix Telles de Estarreja_!

E no conjuncto de todas essas vozes irritantemente causticas, atrozmente
mordentes, elle distinguiu perfeitamente as vozes dos filhos do visconde
que gritavam:

-- Felix Telles, venha c!...

Entrando no _Hotel Alliance_, Felix Telles despiu de repello o domin,
deixou-o ficar sobre o tapete do quarto, disse brutalmente ao criado que
se fosse embora, que o deixasse em paz, que o chamasse a tempo de sair
no comboio da manh, e que se no esquecesse de mandar entregar depois o
domin ao Cruz, com mais dez tostes que elle deixaria sobre a banquinha.

Pela manh, pagou rapidamente a sua conta, pousou sobre a banquinha os
dez tostes para o Cruz, e saiu.

Quando  noite chegou a Estarreja, j um telegramma do visconde para o
irmo o havia precedido.

--Ento? perguntou-lhe o morgado o mais seriamente que poude.

--Ento! respondeu Felix Telles. Aquillo  ainda uma aldeia peior do que
Estarreja! toda a gente me conheceu logo que l cheguei!

--No  possivel!

--To possivel como eu ter ouvido gritar de todos os lados, a todas as
pessoas, que aquelle domin preto era o Felix Telles de Estarreja!

--Conhecel-o-am pelo andar?

--Eu sei l, sr. morgado! Conheceram-me por tudo, no se ouvia seno o
meu nome n'uma berrata que me ensurdecia!

Trez dias depois, o morgado chamava ao seu escriptorio o Felix Telles e
perguntava-lhe:

--Onde foi que voc despiu o domin preto?

--No _Hotel Alliance_.

--E no viu no domin preto alguma cousa branca?

--S se fosse o forro... Mas no reparei.

--Pois eu lhe posso dar algumas explicaes, que faam luz sobre o caso.

Felix Telles esbugalhava os olhos attento, curioso.

--No viu um papel branco pregado nas costas do domin preto?

--No vi!

--Aqui o tem, pois--dizia o morgado desdobrando cautelosamente uma tira
de papel enrugado, rasgado, que o visconde mandra pedir ao _Hotel
Alliance_ e lhe tinha remettido pelo correio.

E elevando-o  altura dos olhos de Felix Telles, mostrou-lh'o.

--_Sou o Felix Telles de Estarreja_! dizia o papel.

O pobre homem estava passado, assombrado.

--Mas ento!... exclamou elle caindo em si.

E o morgado respondeu-lhe com uma gargalhada estrondosa, ao mesmo tempo
que todas as pessoas da casa acudiam  porta do escriptorio a rir, a
rir...




XX

O chapeu


Perguntaram a uma tricana do norte para que servia o chapelinho, do
tamanho de uma avell, que coroava os seus fartos cabellos negros.

--Ora essa! exclamou ella ironica e desdenhosamente. Serve para pr e
tirar...

Realmente,  para isto que serve o chapeu, qualquer que seja o seu
tamanho e o seu feitio, mas, principalmente pelo que respeita ao sexo
masculino, que de responsabilidades andam ligadas ao simples facto de
pr e tirar o chapeu!...

Custa pouco isso, tiral-o ou pl-o, coisa  que se faz n'um momento, e
comtudo nada ha que possa ter mais serias consequencias do que pr o
chapeu quando se devia tirar, ou tiral-o quando se devia pr.

No  so no theatro, durante os espectaculos, que pr ou tirar o chapeu
 um facto que pertence aos dominios do formulario social. Mas no
theatro, visto que se est entre uma sociedade menos numerosa, d isso
mais nas vistas, e se um espectador conserva o chapeu na cabea, depois
do panno subir, todos os outros comeam a gritar: Peu! peu! Se o tira,
mas parece reconsiderar tornando a pol-o, como que tem isso o proposito
de querer irritar os outros espectadores, e ento sobe de ponto a
gritaria dos que mandam desbarretar o insolente.

Ha j muitos annos, no theatro da rua dos Condes, appareceu n'um
camarote de segunda ordem um grupo de patuscos que vinham das hortas,
bem comidos e bem bebidos,--bem bebidos, sobretudo.

No se lembraram ou no quizeram tirar o chapeu, e o publico
indignou-se, comeou, de cara no ar, a gritar, a berrar para que se
descobrissem.

Assistia ao espectaculo, com alguns amigos, o Moita e Vasconcellos,
ento jovialissimo rapaz, mais tarde conselheiro e chefe de repartio
no ministerio das obras publicas,--o pobre Moita que to desgraado morreu!

Pareceu-lhe boa occasio de tirar partido do conflicto, e foi bater 
porta do camarote dos patuscos.

--Quem ? perguntaram de dentro.

--A auctoridade, respondeu o Moita e Vasconcellos.

Abriu-se a porta do camarote, e o Moita, tomando o ar grave de um
representante da lei, exclamou:

--Isto que se est passando  uma pouca vergonha! Pagaram ou no pagaram
os senhores o seu camarote?

--Pagamos, sim, senhor.

--Pois se pagaram, podem estar como quizer, comtanto que no offendam a
moral publica. Tanto monta ter o chapeu na cabea como no ter. Isso no
offende a lei nem a moral. O dever da auctoridade  proteger os direitos
de cada um, disse e saiu com a mesma seriedade.

Os do camarote, fortes com o apoio da lei, pozeram os chapeus na cabea
e despiram os casacos.

Imagine-se a gritaria que n'esse momento irrompeu da plata e dos outro
camarotes! A inferneira cresceu a tal ponto, que a verdadeira
auctoridade teve de intervir, e os patuscos tiveram de ceder, no
podendo dizer ao certo se a embriaguez lhes haveria feito vr a
auctoridade em duplicado ou se neste paiz tudo andava to fra dos
eixos, que havia duas auctoridades, uma para mandar pr o chapeu, outra
para o mandar tirar...

N'alguns espectaculos tem acontecido que o publico se arroga o
direito de mandar pr ou tirar o chapeu, sem se importar com a
interveno das auctoridades, e sem que mesmo as auctoridades se atrevam
a intervir.

N'uma tourada de Badajoz appareceu uma vez um sujeito de chapeu alto. O
publico, logo que elle entrou, comeou a gritar-lhe em cro:

--Que quite el sombrero!

O homem quiz resistir, mas acabou por ceder. Tirou o chapeu. N'isto
comeou o publico a gritar, sempre em cro:

--Que ponga el sombrero!

E o homem, ao cabo de alguns momentos de hesitao, teve que pr o
chapeu, para depois o tornar a tirar, para ter que o pr outra vez e
para ter que tiral-o de novo...

Na rua ha maior liberdade de aco, o facto de pr ou tirar o chapeu
escapa ao dominio do publico; mas por isso mesmo que ha maior liberdade
de aco, ha maior responsabilidade no facto em relao  pessoa a quem
 dirigido.

Basta deixar de tirar o chapeu para cortar pela raiz, de um momento para
outro, uma longa amisade de muitos annos. E assim, porque o chapeu ficou
na cabea, ficaram separadas moralmente duas pessoas.

Tirar o chapeu fra de proposito, tiral-o de mais ou tiral-o de menos,
pde ter consequencias analogas, como se tome esse acto por
troa, por baixesa de caracter ou por desconsiderao.

Tiral-o  mesma pessoa umas vezes, e no o tirar outras vezes,  caso
para a pessoa, que umas vezes  cumprimentada e outras no, pensar no
que deve fazer.

Eu adoptei para este caso uma linha de procedimento. Se uma pessoa me
cumprimenta uns dias por outros, hoje sim, manh no, se me cumprimenta
aqui e no me cumprimenta acol, porque est acompanhada de melhor ou de
peior sociedade, essa pessoa passa a fazer-me o effeito de um realejo,
que me diverte proporcionando-me occasio de trautear esta popularissima
trova:

    Quando eu quiz, no quizeste,
    Tiveste opinio;
    Agora queres, no quero,
    Tenho minha presumpo.

O chapeu impe deveres de normal cortezia, a que  preciso attender sem
exagero para mais ou para menos.

Nada ha to aborrecido como o excesso de cortezia em que um chapeu pde
incorrer estando fra da cabea quando devia conservar-se no seu logar.
Um estadista portuguez, a quem um seu antigo protegido acompanhava de
chapeu na mo por toda a parte, chegou a dizer n'um momento de
desespero:--Muito me incommoda a gratido!

Da gente de Lisboa escreveu o quinhentista Prestes:

    ... e de Lisboa se sa
    Que todos l so honrados,
    Que de pessoa a pessoa
    Se fallam desbarretados.

Mas Francisco Manuel de Mello poz  cortezia dos lisboetas seus justos
limites quando disse:

    Um fallar com tanto geito,
    Um ditinho de repente.
        Que affeia:
    _Um ter em tudo respeito_,
    Ai! mate-me Deus com a gente
        De Lisboa.

Ter em tudo respeito,--eis a questo.  como se dissesse: ter conta em
tudo. Respeito por os outros e por ns mesmos, at no cumprimentar!

Ha pessoas que caem no defeito contrario quelle, e que em vez e gastar
a aba do chapeu, apenas gastam o dedo com que lhe tocam.  pouco. Se um
s dedo podesse bastar a alguem para uso proprio ou alheio, a sbia
natureza no nos haveria dado cinco dedos em cada mo.

Quando a gente, no sendo militar, se v cumprimentada d'esse modo,
d-lhe vontade de responder ao dedo com o brao todo,--para se mostrar
generosa!

O presidente de no sei que estado americano, passeiava um dia na praa
publica, vestido  paisana, com o seu ajudante de campo ao lado.

Passou por elle um escravo, e cumprimentou-o. O presidente tirou-lhe o
chapeu, e seguiu seu caminho. Mas quiz parecer-lhe que o ajudante achou
que elle cumprimentra de mais para um escravo. Voltou-se e disse:

--No quero que possa haver n'este paiz alguem mais bem educado do que eu!

Isto percebe-se, e  logico. Fazer apenas meia dose de cumprimento, no
 cumprimentar,  vexar, porque se lembra  pessoa cumprimentada a sua
inferioridade.

Ainda ha uma cousa peior talvez do que dispensar smente meia dse de
cumprimento:-- exigir que lhe dispensem dse dobrada.

Certo fidalgo costumava deixar ficar de chapeu na mo as pessoas que lhe
fallavam. Um dia, na rua larga de S. Roque, passou um sujeito a quem
repugnou vr outro desbarretado deante do fidalgo, que o no mandava
cobrir. Chegou ao p dos dois, tocou no hombro do que estava descoberto,
e disse-lhe:

--Pde pr o chapeu na cabea, que este senhor d licena.

Se algum dos dois devia agradecer no era o desbarretado, mas o fidalgo,
porque estava fazendo peior figura...

Ter em tudo respeito, ter conta em tudo, eis o caso.

Chega a gente a sentir-se enjoada de vr um sujeito que cumprimenta a
torto e a direito para dentro de todos os trens que passam--ha n'isto
verdadeiros especialistas--e que se agarra a um cabello para ter o
pretexto de se tornar _snob_ dos machuchos.

Mas no enja por certo menos vr outros sujeitos que pem todo o seu
orgulho na aba do chapeu, imaginando que a aba do seu chapeu  a
continuao do firmamento.

Acima d'elles, s Deus, e s vezes nem Deus... que no conhecem!

De tudo quanto completa a _toilette_ do homem  com certeza o chapeu o
que lhe impe maiores responsabilidades, o que o approxima ou affasta
mais dos outros homens, o que o pde definir melhor na sua
individualidade moral, o que o pde tornar mais estimavel e o que tambem
o pde comprometter mais.

E tudo isto por que?

Porque o chapeu, como disse a tricana do norte, serve para pr e para
tirar.

E em saber pl-o a tempo e tiral-o a proposito  que est o buzilis.

Pouco importa que o chapeu seja pequeno e a cabea grande, que o chapeu
seja grande e a cabea pequena. No est n'isso a harmonia entre o homem
e o chapeu, mas sim no uso conveniente ou inconveniente que
d'elle se faz.

Quando a gente, ao sair de casa, pe o chapeu na cabea,  como se
pozesse ao sol o forro de si mesmo,--as suas ideias, os seus
sentimentos, a sua educao, o seu caracter.

Ha chapeus que vo dizendo de cima da cabea: C vae este tolo, que no
conhece os conhecidos.

Ha outros chapeus que, aborrecidos da roda-viva em que andam, parecem
gritar a cada momento: C vae este tolo, que at conhece os
desconhecidos!

Ainda ha outros chapeus que parecem muito contentes do acerto com que
so tratados pelo dono, e em cuja copa a gente cuida lr esta divisa:
Nem de mais, nem de menos.

J repararam em que o chapeu, qualquer que seja o seu tamanho e feitio,
parece variar de peso em certas occasies e, especialmente, de pessoa
para pessoa?

O mesmo chapeu, se a gente est de animo opprimido, parece pesar mais
que de costume.

Um pretendente, fallando uma vez com Antonio Rodrigues Sampaio, comeou
por dizer-lhe, visto que n'esse momento lhe parecia ser de chumbo a aba
do chapeu:

--Muito custa, sr. conselheiro, andar a gente por aqui de chapeu na mo!

E Sampaio, que tinha soffrido e trabalhado como poucos, respondeu
de prompto obrigando-o a cobrir-se:

--Pois ponha-o na cabea, e diga o que quer.

Dois sujeitos compram chapeu da mesma frma e no mesmo chapeleiro.

A um d'elles o chapeu como que brinca sobre a cabea, inclinando-se
requebrado n'um bolero permanente.  que a cabea anda alegre e
communica ao chapeu, que se sente leve, a vontade de foliar.

A outro o chapeu vae-lhe descendo insensivelmente at s orelhas, dando
mostras de querer enterrar-se por desgostoso.  que a cabea pegou-lhe
as scismas em que anda martellando no silencio do espirito.

To certo , meus senhores, que o chapeu revela o homem:--o chapeu  o
estylo de toda a gente, incluindo a que no tem estylo.




XXI

Os antipodas


Ha pessoas to infelizes, que julgam que a sua propria infelicidade no
ter fim.

Ha melancolicos para quem a esperana no accende um unico raio de sol,
to entranhadamente elles se entregam  melancolia.

Ha pobretes que desanimam de ser remediados algum dia, to pouca f
lhes vivifica o corao.

 para todos estes que eu escrevo hoje, mandando-lhes n'uma anecdota um
ensinamento moral, que pde, por um momento ao menos, arrancal-os aos
seus pensamentos sombrios, tiral-os, por um instante que seja, do
inferno da sua desesperana e entremostrar-lhes o ceu...

O padre-mestre Fanhes tambem se arrepellava, teimosamente incredulo,
quando o seu collega Liborio pretendia demonstrar-lhe que na
esphera terrestre havia habitantes que, em relao aos de meridianos e
parallelos oppostos, se chamavam antipodas, porque se achavam collocados
de modo que os ps de uns estavam voltados contra os ps de outros.

Padre-mestre Fanhes no o podia crr e desgostava-se d'isso, visto que
toda a gente acreditava na existencia dos antipodas, menos elle.

--No me fio! dizia de si para comsigo. Como  possivel que, estando ns
n'um hemispherio de cabea para cima, possa haver gente que se equilibre
de cabea para baixo no outro hemispherio?!

Por mais que matutasse no caso, acabava sempre por dar razo a si
proprio, e negal-a ao collega Liborio.

--Ora imaginem, insistia elle, uma laranja, porque a terra tem
approximadamente, segundo se diz, a frma de uma laranja. Ponho a
laranja sobre um prato e colloco-lhe facilmente na casca da metade
superior um ou dois gros de milho; mas se quizer collocal-os na metade
inferior, claro est que no terei meio de segural-os. Cairo por fora!
Pois com os habitantes da terra ha de dar-se a mesma cousa. Que nos
aguentemos de cabea para cima, percebe-se; mas que haja outros que se
aguentem de cabea para baixo, no me entra no miolo. O Liborio  um
asno, que acredita em todos os carapetes!

E o padre-mestre, ensinando o seu latim aos rapazes, interrompia-se
muitas vezes para dizer-lhes a proposito de cousa nenhuma:

--Nos antipodas  que eu no acredito! No pde ser!

Os rapazes davam-lhe razo, no s porque n'essas occasies o
padre-mestre os apoquentava menos no latim, mas tambem porque elles
proprios no tinham grande convico na tal historia dos antipodas,
gente que devia viver pendurada pelos ps, em permanente gymnastica.

Tirante a caturreira dos antipodas, padre-mestre era uma excellente
pessoa, um sacerdote exemplar, muito respeitador das leis da egreja e
dos preceitos da Bulla da Santa Cruzada.

s sextas-feiras comia-se sempre de magro em sua casa: os rapazes j
contavam com o bello bacalhau n'aquelle dia.

Elle proprio, o bom padre-mestre, o ia escolher  tenda nas
quintas-feiras de tarde. Trazia-o para casa, escondido debaixo do
capote. Dava-o a vr  criada.

--Que era de primeira ordem, approvava ella, o melhor que podia ser!

--Pois sim, Gertrudes, vae atar-lhe uma corda e pl-o a dessalgar no poo.

Dito e feito. A Gertrudes pendurava o bacalhau, e mergulhava-o no poo
at ao meio dia seguinte.

Succedia algumas vezes que o padre-mestre Fanhes se encontrava n'esses
dias, na botica, com o seu collega Liborio e, como sempre, discutiam o
eterno thema, a eterna teima dos antipodas.

--Que no! que no podiam existir! exclamava decisivamente o padre-mestre.

No havia argumento convincente que o Liborio no empregasse; mas o
padre-mestre, muito casmurro e auctoritario, cortava a questo dizendo:

--Ha duas cousas que eu sei perfeitamente: a primeira  que tenho manh
bacalhau para o jantar; a segunda  que essa tal historia dos antipodas
no tem ps nem cabea.

Ora succedia que na sexta-feira pela manh, quando a Gertrudes ia tirar
o bacalhau do poo, o encontrava sempre reduzido a menos de metade;
estava ratado, comido.

O que seria, o que no seria?!

-- gato que desce pela corda, alvitrava o padre.

--Isto no  dente de gato! ponderava acertadamente a Gertrudes.

E, realmente, fizeram a seguinte descoberta: que no podia ser gato de
casa, porque o no tinham, e no podia ser gato de fra, porque os muros
do quintal eram muito altos, e estavam eriados de cacos de garrafa.

--Ser elle rato de agua,  Gertrudes?!

--Nada, sr. padre-mestre, isto menos pde ser dente de rato.

--Olha, dente de coelho  que  com toda a certeza, porque por mais que
a gente puxe pelo milo no sabemos o que seja!

A Gertrudes achava mais uma vez graa a este dito do padre-mestre,
sempre repetido, e na sexta-feira seguinte, quando ia tirar o bacalhau
do poo, encontrava-o roido em metade.

Os alumnos do padre-mestre tinham inventado esta patuscada do bacalhau
e, graas a ella, passavam em cautelosa folia as noites das quintas-feiras.

Eram elles, os diabretes! que, depois de estarem certos de que o
padre-mestre dormia, e de que a Gertrudes ressonava, desciam p-ante-p
ao quintal, e, iando o bacalhau, cortavam e comiam grandes lascas.

Se lhes dessem uma ceia de _foie-gras_ talvez no gostassem tanto. O
bacalhau roubado tinha para elles o sabor do fructo prohibido, a que
servia de aperitivo a chalaa de o irem buscar ao poo com o sobresalto
de ratoneiros que temem ser presentidos.

Padre-mestre dava em doido, o caso j o ia intrigando tanto como a
historia dos antipodas.

Um dia chamou de parte o mais intelligente dos seus discipulos de latim,
e contou-lhe o que estava acontecendo com o bacalhau.

--O que ser? perguntou candidamente o padre-mestre.

--Ao certo no sei, respondeu o estudante. Mas talvez...

--Talvez?

--Pode muito bem ser que o comam os antipodas.

--L vens tu com a fabula dos antipodas! No creias n'isso, rapaz!

-- sr. padre-mestre, pois se todos os sabios dizem que sim, por que
raso havemos ns de pr em duvida o que elles affirmam! De mais a mais
vossa senhoria tem meio de averiguar a verdade. Sexta-feira pela manh
debruce-se no poo, ponha-se  espreita, que talvez os apanhe com a boca
na botija.

--No bacalhau  que tu queres dizer...

--Sim, senhor, no bacalhau.

--Pois olha que hei de tomar o teu conselho. Na sexta-feira eu proprio
irei tirar o bacalhau do poo para desenganar-me.

Pde calcular-se o que os estudantes ririam uns com os outros  espera
da sexta-feira, que n'aquella semana parecia no chegar nunca, to
anciosamente elles a esperavam.

Mas, arrastadamente, a sexta-feira chegou, e o padre-mestre foi em
pessoa buscar o bacalhau.

Ao debruar-se no poo, deu um grande grito.

A Gertrudes correu  janella:

--O que , sr. padre-mestre? perguntou

--Eu vi um homem no fundo do poo, respondeu elle assaralhopado. E assim
que me endireitei para gritar, fugiu.

--Atire-lhe uma pedra, sr. padre-mestre, aconselhou um dos estudantes,
que tambem tinham acudido.

O padre-mestre pegou n'um calhau e atirou-o para o fundo do poo. A
agua turvou-se, de modo que, por mais que elle se debruasse
espreitando, no tornou a vr homem nenhum,--isto , no podia vr-se a
si proprio.

--E o bacalhau est inteiro? perguntou outro rapaz

--Vamos vr isso.

O padre-mestre deu-se pressa em iar a corda.

Faltava metade ao bacalhau.

--Ora agora, sr. padre-mestre, disse-lhe o estudante que primeiro o
havia aconselhado, j vossa senhoria no pde duvidar da existencia dos
antipodas, porque os viu.

--E  verdade que vi um!

--Mas o que fez elle quando vossa senhoria appareceu  beira do poo?

--Ora o que faz um gatuno quando alguem o apanha com a boca na botija?

--No bacalhau, sr. padre-mestre, emendou o estudante.

--No bacalhau ou na botija. Fugiu! Pois o que havia elle de fazer, o
patife?!

--Vossa senhoria reparou se elle trazia casaco?

--Trazia, sim, l isso ainda eu pude vr.

--Est provado ento que os antipodas vestem como ns. E vossa senhoria
que no queria acreditar n'elles!

-- verdade! Ninguem pde dizer: d'esta agua no beberei. Vou confessar
o meu erro ao collega Liborio.

E foi. O collega Liborio estava na aula a ensinar geographia aos rapazes.

O padre-mestre chamou por elle em altos berros. O Liborio veiu  porta
vr que afflico era aquella. Era o padre-mestre, que lhe gritou:

--No ha duvida, no senhor; Voc tem razo n'aquillo dos antipodas!

--Porque,  padre-mestre?

--Porque eu vi um.

--Viu um!

--Vi-o com estes que a terra hade comer.

--E onde  que o viu?

--No fundo do meu poo!

Assim  em tudo o mais.

Por muito escura que seja a vida, e basta que seja to negra como o
fundo de um poo, por mais teimosa na sua descrena que seja uma alma, e
basta que o seja tanto como a do padre-mestre Fanhes, chega
sempre um dia em que se v ou se cuida vr aquillo que jmais se
reputava visivel: realidade ou illuso.

Melhor  que seja a realidade, ao contrario do que aconteceu com o
padre-mestre. Mas se fr illuso, isso basta s vezes, n'um mundo em que
a maior parte das cousas so illusorias, para sentir a alma menos
propensa  duvida e ao desalento.

O padre-mestre julgou vr um antipoda, e morreu na f de que elles
existiam,--por isso. O collega Liborio, em vez de vr os antipodas no
fundo do poo, via-os nos compendios de geographia e nos globos. Nem por
se ter convencido mais depressa logrou ter maior convico de que o
padre-mestre desde aquelle dia. E ambos chegaram ao mesmo fim por
caminhos diversos. Mas, com quanto um se atrazasse na jornada, ambos
chegaram, e o essencial na vida  chegar... alguma vez!




XXII

As uvas


Outubro: todos os lavradores tratam de apurar o resultado das vindimas.

Quantas pipas de vinho tiveram? A como as vendero? Eis as questes que
principalmente os preoccupam.

So, pois, as uvas que esto ainda em scena no grande palco da vida
rural, tablado sombrio e melancolico desde que o phyloxera comeou a
roer os bastidores feitos de pampanos e latadas, outr'ora verdejantes e
opulentos de seiva.

As uvas, disse-o algures Julio Cesar Machado, so o vinho em pilulas.
Deliciosas e saborosas pilulas, que no precisam ser doiradas com
assucar como as da botica!...

Um dia, certo medico, que punha muito gosto em falar com distinco,
aconselhou um dos seus doentes a tomar umas pilulas amargas que,
para no repugnarem, precisavam ser envolvidas n'uma substancia doce.

--Tome-as n'um vehiculo qualquer, recommendou o medico.

Ora em pharmacia a palavra vehiculo  synonimo de excipiente, isto , a
substancia em que se encorporam ou dissolvem os medicamentos, para lhes
mascarar o sabor, para diminuir o seu principio activo ou ainda para
lhes dar uma frma conveniente.

No dia seguinte vem o medico, e no encontra o doente em casa. Mostra-se
profundamente surprehendido e contrariado.

--Onde est elle?!

--Saiu.

--Saiu?! Que imprudencia, santo Deus!

--Mas foi V. ex. que mandou...

--Eu?!

N'isto ouve-se parar  porta uma carruagem. Era o doente, pallido e
tremulo, que regressava a casa.

--O que fez o senhor?! perguntou o medico.

--Sa de carruagem.

--Mas que loucura foi essa?!

--Pois V. ex. no me disse que tomasse as pilulas n'um _vehiculo_
qualquer! Tomei-as de carruagem...

Com as pilulas de vinho, to doces so! no pdem dar-se
d'estes equivocos, pois que no precisam vehiculo--assucar ou
carruagem--para engulir-se com agrado.

Perde-se na noite do cahos a origem da vinha e do seu fructo saboroso.

Segundo a Biblia, No foi o inventor da arte de fazer vinho e, por tal
signal, que aprendeu  sua custa, empiteirando-se sem o querer. Segundo
a mythologia, foi Baccho o primeiro viticultor, e o que  certo  que
ns ainda hoje, quando carregamos nos tropos, dizemos muitas vezes--o
deus Baccho--em vez de vinho.

Mas quem sabe l qual foi ao certo o primeiro homem que cultivou a vinha
e bebeu o sumo das uvas! De mais a mais a vinha no foi arvore que Deus
prohibisse, como a do _bem e do mal_. No, senhores, a cultura da vinha
foi livre desde o principio do mundo, e ento, que me conste, no se
vendia o vinho por decilitros. O systema metrico decimal , acho eu,
muito posterior  origem do mundo... Cada um podia beber o que quizesse.
Que delicia, o principio do mundo!

Pois no serei eu que me proponha estudar a origem do vinho, para no
incorrer no ridiculo d'aquelle sabio que, tratando de descobrir o
inventor do jogo do _voltarete_, ficou capacitado de que tinha sido...
Voltaire.

Ha poucos dias li n'uma obra interessantissima, a viagem de Pyrard s
Indias Orientaes, que o duque de Alba, tendo tomado a cidade de
Haerlem, na Hollanda, mandou fazer n'ella execues to crueis, que ha
quem derive d'ahi o proverbio _fazer arlem_, de onde veiu, por
corrupo, fazer _arlia_ ou _arrelia_.

Pois nem Francisco Pyrard, nem Cunha Rivara, que commungou esta opinio,
eram dois insignificantes.

Pareceu-me forada a derivao e contando-a a um homem de espirito,
disse-me elle:

--Eu estou convencido do contrario. Sabe voss que Jacob s muito
contrariado casou com Lia. Por isso,  natural que a no tratasse bem.
Obrigava-a a trabalhar, sem que ella podesse e, como n'esse tempo todos
os homens eram grosseiros, dizia-lhe a cada momento: _Arre, Lia_. D'aqui
 que veiu certamente a locuo...

Tem graa, e caracterisa a facilidade com que os sabios inventam origens.

Sempre me ha de lembrar o caso d'aquelles dois distinctos archeologos
que, n'uma serra de Portugal, encontraram certa pedra tosca com estas
duas lettras gravadas: C. M.

Discutiram, investigaram, at que um cantoneiro lhes disse:

--Essa pedra foi mandada ahi pr ha muitos annos pela senhora _camara
municipal_.

Ficaram de cara  banda, os sabios.

A mim, a respeito da vinha, no me ha de acontecer outro tanto. Tiro o
meu chapeu  antiguidade da cepa, e passo adeante. Mas como as
uvas, e bebo o vinho. No estado de civilisao em que nos encontramos
hoje,  o melhor que temos a fazer.

Sem embargo, tambem gosto de olhar para ellas, principalmente se so
brancas, graciosamente tocadas pela luz em cada bago, o que faz o
desespero dos pintores.

S um soube at hoje igualar-se ao Creador na reprodaco das uvas. Foi
Zeuxis, diz a lenda. Os passaros, enganados por uma to perfeita
similhana, vieram bicar os cachos. Parrhasius, rival de Zeuxis, quiz
pintar uma tela ainda melhor. No seu quadro havia um cortinado que
enganou o proprio Zeuxis.

--Levanta o cortinado, disse elle a Parrhasius, para que eu possa
observar a tela.

Quando reconheceu que era pintado, Zeuxis confessou-se vencido: Eu
enganei os passaros, mas Parrhasius enganou-me a mim!

A vinha pde ser mais ou menos elegante, alta e pendente como no norte
do paiz, de _enforcado_ lhe chamam; ou pequena e redonda como nas
provincias do sul: mas as uvas so sempre bellas na lucidez e variedade
dos tons.

 notavel que Cames, tendo vivido na Estremadura, se  que n'esta mesma
provincia no nasceu, descrevesse na _ilha dos Amores_, no a vinha do
sul, mas a de _enforcado_, a alta e pendurada, que vegeta no norte:

    Entre os braos do ulmeiro est a jucunda
    Vide, c'uns cachos roxos, e outros verdes.

Frei Luiz de Sousa, na descripo da crca de Bemfica, serviu-se de uma
feliz comparao com as pedras preciosas para caracterisar as _nuances_
da colorao dos cachos. Faziam, diz elle, collares de pedraria as
uvas, segundo os tempos, e as cres d'ellas: j topasios, j rubis,
primeiro esmeraldas.

Na linguagem pittoresca do apologo, as uvas esto verdes quando a rapoza
lhes no pde chegar.  uma das mais sentenciosas fabulas, essa, da
rapoza e das uvas. Desdenha-se sempre d'aquillo que se no pde alcanar.

--Ser ministro! diz um pretendente  pasta. Que massada!

E do lado algum malicioso observa a meia voz:

--Esto verdes, no prestam...

Por este anno, vamos a despedir-nos das uvas, que s por ahi resta algum
cacho guardado como um mimo.

Perdem-se no ar, por esse paiz fra, as ultimas canes das vindimas. No
Douro, a regio do vinho, a vindima  ainda uma festa, apesar da
phylloxera. Canta-se todo o dia, vindimando. E ha razo para isso,
porque a vindima representa o advento do vinho novo. No sul do paiz, a
vindima corre triste e silenciosa, parecendo um funeral, o enterro das
uvas.

Mas, para o effeito de ser bom, pouco importa que o vinho nasa entre
canes ou sem ellas. O que se quer  que alegre e aquea... no
inverno;--porque, no estio, alegra e refresca, dizem os borrachos.




XXIII

Pessoas conhecidas de vossas excellencias


Temos visto cair de anno para anno, um a um, os mais antigos _habitus_
de S. Carlos.

Por que no comearemos pelas testas coroadas? O seu _dilettantismo_ 
to humano como o dos outros _habitus_. Primeiro el-rei D. Fernando, um
espectador certo, mesmo j quando a voracidade lethifera de um cancro
lhe ia roendo a face. D. Fernando punha o seu parche de seda preta, e ia
para S. Carlos, para S. Carlos onde elle havia brilhado outr'ora em
plena mocidade feliz. Depois D. Augusto, que parecia amar a temperatura
elevada de S. Carlos, apesar de ser um cardiaco. Em seguida, el-rei D.
Luiz, que tinha pela musica a paixo nativa de todos os Braganas. J
doente, pallida e flaccida a face, n'um esphacelamento lento que o rosto
denunciava, ia uma vez por outra a S. Carlos como para se
despedir da musica, que sempre adorra.

C em baixo, nas cadeiras, desapparecra primeiro o dr. Alvarenga, que
passra a vida a tratar o corao dos outros, embora, para o atormentar,
lhe bastasse o seu, de que soffria muito.

Lembram-se do dr. Alvarenga? Sempre de casaca, gravata preta, oculos
escuros, e um crescente mais _dilettante_ do que cathedratico. Lembram
decerto.

Depois o Jos Carlos _Poeta_, grande peitilho lustroso, casaca de amplas
lapellas, calva ostentosa e lusidia.

Tinha conhecido a av de cada cantora que ia apparecendo, e decerto
gosava, ouvindo a neta, mais do que ns, porque vivia da saudade
deleitosa que as suas recordaes lhe avivavam.

Foi-se um dia, de repente, alli ao fundo da rua do Alecrim.

Julio Cesar Machado, muito correcto dentro da sua casaca, sempre de
gravata preta--querendo assim mostrar que j se no tinha na conta de
moo, comquanto se tivesse ainda na conta de _dilettante_--foi, como uma
estrella cadente que parece procurar outra no ceu, ver se encontrava
pelo azul fra a alma do filho, que era a estrella querida do seu
corao affectuoso.

Agora, ultimamente, o duque de Albuquerque, uma s pessoa, que fornecra
a S. Carlos dois _habitus_: o conde de Mesquitella e o duque de
Albuquerque.

O seu chin, sempre to fallado nas chronicas de S. Carlos, era como que
a pagina mais eloquente do seu gosto pelo mundo: queria fingir de mais
moo cada vez que S. Carlos abria, no obstante ser mais velho um anno.

E, depois de certa idade, nada ha que envelhea tanto como cada anno que
vae passando...

Julio Machado raras vezes subia a um camarote para visitar alguem; e
tambem raras vezes assistia, nos ultimos annos, a um espectaculo todo.

Parecia um pouco cansado do mundo: entrra no periodo em que a gente
vive principalmente de recordaes.

O duque de Albuquerque, pelo contrario, entrava em todos os camarotes,
visitava todas as damas, e apenas saa de S. Carlos... quando os outros
saam.

Tinha razo, porque elle ia l no s para ouvir as operas, como tambem,
para ver os outros.

      *      *      *      *      *

Jos Carlos de Freitas Jacome alternra uma grande parte da sua vida em
occupaes que profundamente contrastavam uma com outra: a prosa
dos tribunaes e a poesia da opera. De per meio, e de passagem, plantra
o seu loureirosinho no jardim das Musas, era escrivo do civel na Boa
Hora, _dilettante_ em S. Carlos, e poeta por desfastio nas horas em que
da prosa dos autos ascendia  regio da harmonia. Fra bastante
escriptor para no ser unicamente escrivo, e, fra da Boa Hora,
esquecia-se de ser escrivo, para ter as predileces e as honras de
escriptor.

Bom homem a valer, amavel, sabendo vestir uma casaca, tendo o segredo de
fazer espelhar, com uma limpidez de cristal, o peitilho da sua camisa.
Nunca perdeu, apesar de velho e doente, os seus ares de homem elegante,
os seus habitos mundanos. Gostava do mundo, e tinha bom gosto, porque
mal se chega a comprehender a mania, que teem alguns, de se sepultarem
em vida na solido da misantropia.

Duas coisas lhe no esqueceram nunca: as suas luvas, e uma flr.

Nas bellas noites de S. Carlos, Freitas Jacome enflorava sempre a
lapella da casaca.

E no theatro, na egreja, na rua, na Havanesa, jmais lhe esqueceram as
luvas, que s vezes no calava, mas que no abandonava nunca.

Dava gosto vel-o na sua cadeira de S. Carlos, grave, attento, tendo o ar
de um diplomata pomposo. Tendo visto nascer o romantismo em
Portugal, fra romantico de convico e, como tal, adorava a musica
italiana, saboreava-a, a goles de audio, como se fosse um licor
esquisito, divino.

Verdi servia-lhe  phantasia uma especie de champagne capitoso, que o
embriagava docemente.

Bellini e Rossini, dois copeiros da cava celeste, enchiam-lhe a taa do
prazer de um tokay generoso, unico.

E, de resto, tinha raso, porque ainda no houve quem lhes podesse
apagar os nomes na grande tla da immortalidade. Meyerbeer, uma aurora
boreal, Mozart, uma estrella, Wagner, uma nublosa, passam hoje por todos
os palcos do mundo, mas, sem embargo, as partituras italianas ho de
illuminar-se sempre d'esse doce luar de sentimentalismo, que faz a
delicia do corao.

N'essa atmosphera fra educado Freitas Jacome. Nos combates romanticos,
da musica e da poesia, fizera as suas primeiras armas. Seguia o exemplo
de Garrett no vestir e no pensar, amava o romantismo em si e nos outros.
No podia nivelar-se com esse grande homem na riqueza do intellecto,
mas, no que podia ser assimilavel, imitou-o. No podia medir-se
litterariamente com Castilho, mas versejou a exemplo d'elle em honra das
divas do Olympo lyrico, porque Castilho, com ser cego, glorificou
na lyra o feminino da opera, a Agostini, a Bernardi, a Gazzaniga.
Admirador de Herculano, uma das tres entidades gloriosas da trimurti
romantica, no o imitou nos processos de vida rustica e meditativa: para
solitario no tinha geito Freitas Jacome.

Faz-me pena vr morrer um homem que soube aproveitar o mundo como elle 
e que, j combalido pela doena e desalentado pela velhice, poz o seu
chapeu, pegou nas suas luvas, e foi para a rua esperar a morte, que no
ousou atacal-o de cara, como a todos os tristes e a todos os fracos.

Freitas Jacome morreu em plena rua, como Molire morreu em plena scena,
n'um esforo de coragem.

Lisboa, esta Lisboa que elle tanto amava, viu-o passar no seu ultimo
passeio de vivo minutos antes de cahir morto. Mesmo doente, a vida
exterior attraira-o. Em vez de pedir uma tisana ao medico, planeou o seu
jantar d'aquelle dia, saiu, recebeu o ultimo golpe de luz que cahia do
ceu de Lisboa, e morreu ouvindo o ruido da grande cidade, que fremia em
torno d'elle.

E todavia Freitas Jacome era provinciano!

Muitas vezes lhe ouvi dizer que nascera em Thomar, cujas bellezas
naturaes recordava, mas para um homem que gostava do mundo, e que tanto
se interessava por elle, o mar de lona de S. Carlos era mil vezes
preferivel  corrente authentica do rio Nabo.

      *      *      *      *      *

Fallava-se muito dos irmos Andrades, que j tinham cantado no Porto com
a Sembrich, mas, cantar em Lisboa tendo nascido em Lisboa, caso era para
uma certa curiosidade, direi mesmo para um certo receio.

Todos ns nos lembravamos de ter visto esses dois rapazes pr pela
primeira vez chapeu alto.

Foi outro dia, ainda.

E quando se principiou dizendo que elles cantavam bem, havia sempre uma
voz judiciosa que ponderasse:

--Ora adeus! Se elles ainda outro dia pozeram chapeu alto!

Christo dissera uma vez uma palavra profunda e sabia, como todas as suas
palavras: que ninguem chega a ser propheta na terra em que nasceu.

Por que ser isto assim?

 porque, talvez, o que em grande parte contribue para fazer a gloria
dos homens  no tanto o seu merecimento como a sua lenda.

Desde o momento que a gente apenas conhea, nua e crua, em toda a sua
exactido, a biographia de qualquer homem, v-o unicamente pelo
que elle possa ter de vulgar, de vulgarissimo, e julga que tudo o que
constitua a individualidade d'esse homem ha de ser vulgar, vulgarissimo,
tambem.

Mas, quando se d exactamente o contrario d'isto, quando primeiro se
conheceu a lenda do que a biographia, ento principiamos a vr o
semi-deus no homem, divinisamol-o ao capricho da nossa imaginao e da
dos outros, porque a lenda no  outra coisa seno o que a imaginao de
muitos sonha a respeito de um s...

Se nos disserem que, no dia em que Adelina Patti nasceu, um rouxinol foi
cantar sobre o seu bero, como para prophetisar-lhe que ella seria a
rainha do canto, acreditamos facilmente.

Ainda mesmo que a Patti tenha nascido no inverno, ainda mesmo!
acreditamos que o rouxinol cantasse.

Por que? Porque da Patti o que primeiro conhecemos foi a lenda, e, como
j estamos habituados  lenda, nem mesmo chega a fazer-nos mossa ouvir
cantar um rouxinol no inverno.

Mas dos Andrades o que primeiro conhecemos no foi a lenda, foi a
biographia. Tanto peior para elles.

Viessem dizer-nos que quando os dois irmos nasceram, seu pae, o
tabellio Jos Justino, viu e ouviu um rouxinol comear a cantar
sobre o bero de um e outro, como se o rouxinol viesse milagrosamente a
vaticinar que o Antonio havia de ser tenor, e que o Francisco havia de
ser barytono! Pois sim! Conta-lhe d'essas!--diriamos ns--rouxinoes!
quaes rouxinoes nem qual historia! o que elle ouviria talvez seriam os
pintasilgos da casa de jantar... Sempre o Jos Justino tem coisas!

Depois, todos haviamos conhecido os dois Andrades ainda pequenos, todos
os tinhamos visto assistir aos espectaculos do Gymnasio no seu camarote
de familia.

Por tal signal que riam a bandeiras despregadas com as pilherias do
Taborda. E todos haviamos verificado que elles riam como as outras
pessoas,--um pouco estavanadamente como todos os rapazes da sua edade.

Onde estava n'isto a lenda?

Voz podiam elles ter; lenda  que no tinham.

Pois foi n'estas circumstancias, realmente difficeis, que os dois
Andrades appareceram no palco do theatro de S. Carlos.

Receiava-se...

Suspeitava-se...

Tremia-se!...

Que falta faz uma lenda!

Mas os dois artistas antepozeram o gosto de cantar na sua terra natal a
todas as consideraes pelas reticencias e pelas reservas dos
seus conterraneos.

E, uma vez resolvidos a cantar,--cantaram.

E, depois que cantaram, ficou-se sabendo que elles sabiam cantar.




XXIV

Comer a dois carrilhos


Numa villa do Alemtejo, cujo nome no vem para o caso, havia um tendeiro
rico e avarento, que nem de vero nem de inverno se lembrava de atirar
uma migalha aos mendigos que lhe batiam  porta.

Um engeitado, um pria, um rapazote do sitio, to pobre como ladino,
matutou na injustia da Providencia que dava ao tendeiro um bello capote
de camello para se resguardar do frio, ao passo que s lhe dava a elle
o frio sem o capote. Matutou n'isto, e propoz-se regularisar a ordem das
coisas.

--Uma esmolinha, _tio_ Ambrosio, pelo amor de Deus... Est tanto frio!
dizia elle, tiritante, roando-se pela hombreira da porta do
tendeiro.

--Sai-te d'aqui, maroto, que no quero espantalhos  porta, resmoneava
de dentro o tendeiro. Vae trabalhar.

--No posso, que sou doente... E tenho tanto frio, tanto!

--Que te leve o diabo e mais o frio.

No dia seguinte, o rapazito voltava. E,  fora de teimar, o engeitado
ia conseguindo poder demorar-se mais tempo  porta do tendeiro sem que o
enxotasse j com tanta dureza.

De uma vez o Ambrosio precisou um recado.

--Olha l, disse elle ao mendigo, j que no tens que fazer, vae-me ali
chamar o Jos da Azenha.

E o rapazito foi submissamente atravez o frio aspero da serra, ao passo
que o tendeiro, bem embrulhado no seu capote de camello, ficou sentado
ao balco da loja, olhando vagamente para os seus dominios.

Ao outro dia o rapaz voltou.

--_Tio_ Ambrosio, disse elle da porta, vocemec no quer hoje algum
mandado?

O tendeiro ficou encantado com este desprendimento de um mendigo, que
parecia ter o maximo empenho em fazer recados de graa s pessoas ricas.
Em vez de pedir que lhe pagassem o trabalho da vespera, o bom do rapaz
vinha pedir que lhe dessem mais que fazer... pelo mesmo preo.

--Sim, disse o tendeiro, pois olha... vae-me chamar o Joaquim da
Rita, que preciso fallar-lhe por causa d'uma coisa.

Essa coisa, eram uns juros em atraso.

E o rapaz foi, em mangas de camisa, como andava, ao passo que o
tendeiro, embuando-se melhor no seu farto capote, disse l comsigo que
sempre estava muito frio.

O Venancio engeitado, como todos o tratavam, tornou-se desde ento o
mais diligente criado que o tendeiro podia desejar. Sobretudo, pelo que
tocava a soldada, era uma joia: nem vintem. Tambem elle no pedia. Mas
fra a pouco e pouco captando a sympathia e a confiana do tendeiro, que
primeiro o deixou sentar  porta, e depois n'um banco dentro da loja.

Nos dias de mercado, em que havia maior labutao no estabelecimento, o
Venancio engeitado offerecia-se para tudo, elle para ir prender  argola
as cavalgaduras, elle para lhes chegar umas sopas, elle para varrer as
cascas dos ovos que os piteireiros bebiam, elle para limpar o balco e
lavar os copos... uma joia, uma verdadeira joia... a sco!...

O tendeiro gabava-o: Que era muito bom rapaz, que precisava muito, e que
de mais a mais no era pedincho.

O que o tio Ambrosio queria, com toda esta cantata, era que os freguezes
pagassem os servios que o rapaz lhe fazia a elle, porque decerto
pareceria escandaloso que uma vez por outra o Venancio no
recebesse nada. Mas como os freguezes caam, dando ao engeitado po e
azeitonas, o tendeiro entendia que ficava uma coisa pela outra, e
achava-se desembaraado para fazer do Venancio seu criado.

Foram passando tempos, e uma vez, que estava na loja o morgado do sitio,
um mos-rotas de generosidade e bizaria, o Venancio disse de repente ao
tendeiro, entrando na loja:

-- _tio_ Ambrosio, se vocemec me podesse dar agora aquellas duas
libras que lhe dei a guardar, fazia-me favor.

-- maroto! pois tu deste-me algumas duas libras?!

--Dei, sim, senhor, ha dois mezes, na occasio em que estava aqui o da
Michaela, que foi para o Brazil.

--Ah! maroto, que me perdes! Pois tu j tiveste duas libras algum dia?!

--Tive, sim, senhor, ha dois mezes, e dei-lhas a vocemec para mas
guardar por ser um homem de bem...

-- senhor morgado, este maroto est-me a envergonhar!

--E o _tio_ Ambrosio est-me a roubar, disse serenamente o Venancio.

--Sr. morgado, continuava o tendeiro, eu sou um homem honrado, incapaz
de tirar nada a ninguem.

--Menos a um pobre... como eu. Duas libras! que eu guardava para
uma preciso! exclamou o Venancio, e comeou a chorar.

Ento, a natural bizarria do morgado no lhe permittiu tolerar aquella
scena por mais tempo. Fosse verdade ou no fosse, era preciso acabar com
aquillo,--uma miseria de duas libras! E o tendeiro envergonhado por to
pouco!... No podia ser.

--Rapaz, disse o morgado querendo salvar a situao, no foi ao sr.
Ambrosio que deste a guardar as duas libras. No te lembras bem. Foi a
mim...

Ento o Venancio, serenamente, humildemente observou:

--Essas foram outras, sr. morgado.




XXV

O ultimo puritano


Era uma vez um velho, o Seabra, que eu de tempos a tempos procurava na
repartio, porque tinha uma excellente mo de cursivo para tirar copias.

Sessenta e seis annos bem puxados, posto que elle no desse ao manifesto
mais de sessenta.

--Sessenta--dizia elle--sessenta j c esto!

E suspirava.

No se sabia bem se suspirava com remorsos de estar mentindo ou porque,
deitando as contas  sua vida, achasse que o mais prejudicado era elle...

Tinha visto muita coisa, muita politica, muita patifaria. Nada que vinha
de novo o surprehendia. Batera-se no Alto do Viso, trabalhra em
varias eleies, e havia quarenta annos que saboreava, como premio de
seus trabalhos e servios, um pingue logar de amanuense cristalisado em
seiscentos ris por dia.

Conhecra muitos homens importantes, que tinham lucrado com a
collaborao d'elle, e outros que taes, para subir ao poleiro, e que por
mais de uma vez lhe haviam promettido tiral-o d'ali para coisa melhor.

Pois apesar de lhe faltarem a todas as promessas, de o trazerem enganado
durante quarenta annos, elle tratava-os sempre com o mesmo respeito,
cumprimentava-os muito reverente:

--Sr. conselheiro, criado de v. ex.

Era um praxista. No cumprimentava ninguem sem ter descalado primeiro a
luva da mo direita, nem saa da repartio sem ir perguntar ao chefe,
entreabrindo a porta do gabinete:

--V. ex., sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?

E o chefe, que estava conversando com amigos, muito entretido, nem o ouvia.

Mas elle, insistindo, reperguntava:

--V. ex., sr. conselheiro, determina mais alguma coisa?

E o conselheiro, se d'essa vez tinha ouvido, respondia:

--Adeus, Seabra, at manh.

Algumas vezes lhe fallei do chefe, para sondal-o.

E o Seabra dizia-me:

-- dos novos; mas boa pessoa.

Cheguei a entender o sentido d'estas palavras: _ dos novos_. No era
praxista, no respeitava as tradies e os regulamentos da burocracia,
mas o Seabra reputava-o boa pessoa.

Alma generosa, a d'esse velho amanuense! que, em respeito ao seu chefe,
que o tratava simplesmente por _Seabra_, no ousava dizer d'elle seno
que _era dos novos_... mas boa pessoa.

Se o Seabra tivesse nascido meio seculo mais tarde, no entreabria a
porta do gabinete do chefe para se despedir; mas, se o fizesse, e elle
lhe respondesse com um adeus, Seabra, pespegava-lhe uma tarea nas
gazetas.

Para um praxista como o Seabra, aquelle homem, que estava dentro do
gabinete, conversando com os amigos, era seu chefe, e isso lhe bastava.

Ora uma das praxes observadas pelo Seabra era a de consultar sempre,
antes de sair da repartio, o seu espelhinho d'algibeira.

Elle tinha apenas duas farripas de cabello branco, muito bem penteadas
ao longo da cabea. Mas essas duas farripas mereciam-lhe todo o cuidado
e atteno. Vendo-se ao espelhinho, passava a mo por cima das farripas,
brunia-as com os dedos, alisava-as.

Depois observava a gravata, que era ordinaria, mas sempre bem tratada,
sem sombra de p.

Por ultimo, segurando o espelhinho com a mo esquerda, escovava a sua
velha sobrecasaca com a mo direita.

E feito todo este servio, depois que o chefe lhe dizia o adeus,
Seabra, guardava o espelhinho na algibeira, a escova no armario, e
seguia para sua casa, a passos mesurados, muito vagaroso, pela rua do
Oiro at Santa Martha.

Inculcaram-m'o uma vez como tendo excellente letra para tirar copias.
Apresentaram-m'o. Por varias vezes lhe dei trabalho, meu e alheio. Era
pontualissimo na entrega das copias, e honestissimo nas contas que
fazia. Arredondava sempre as quantias contra elle. Se, trabalhando a
tanto por pagina, o seu trabalho importava por exemplo em 1$085 ris,
no queria nunca receber mais de dez tostes.

Comprehende-se que precisasse muito d'estas achegas para poder viver,
visto que o seu logar lhe rendia apenas 600 ris diarios.

Todas as noites saa para vir ao Rocio conversar n'uma loja at s nove
horas. O logista era um homem do tempo d'elle. Tratavam-se por tu. s
nove em ponto, o Seabra despedia-se, ia para casa trabalhar at  meia
noite, tirar copias a 120 ris a pagina.

No vi nunca pobresa mais resignada, nem mais elegante. Parecia
um principe arruinado, a passos mesurados, pela rua do Oiro. Era s
ento que elle via o mundo, uma vez por dia. Mas via-o bem, depois de se
ter preparado tambem para ser visto. No saa da repartio sem o
espelhinho lhe ter dito: Ests correcto, Seabra.

Na rua do Oiro encontrava um conselheiro. Cumprimento respeitoso.

--Criado de v. ex., sr. conselheiro.

No deixava nunca de vr os conselheiros, apesar de todo o seu gosto, ao
passar na rua do Oiro, consistir em vr as mulheres ou, mais
propriamente ainda, em vr os ps das mulheres.

Se parava uma carruagem  porta de uma loja, tambem elle parava, com
delicado disfarce, para vr saltar do estribo uma dama.

No tinha esta escola moderna dos que fazem tudo descaradamente, parando
e observando com petulancia. Nada disso. Elle via o p, media-o com os
olhos, calculava, pelo p, as dimenses da perna, ficava sabendo a cr e
a qualidade da meia, mas, se alguem, encontrando-se com elle, lhe
adivinhava a inteno, disfarava a olhar para uma _vitrine_ ou a lr um
cartaz.

S ao cabo de alguns annos de convivencia, eu consegui conquistar a
familiaridade precisa para lhe fallar nos ps das mulheres.

--O sr. Seabra pella-se por vr um p bem feito!

--Gsto!... gsto!

E d'ahi a pouco parou uma carruagem, apeiou-se uma senhora, que deixou
vr, sobre o estribo, um p digno da admirao do Seabra.

--Ento, sr. Seabra! disse-lhe eu. Repare, que vale a pena.

--No! nunca! respondeu elle um pouco atrapalhado.

Jmais eu o tinha visto, em nenhum caso da sua vida, to contrariado
como naquelle momento.

--Aquelle p--pensei eu-- talvez uma recordao para elle.

Mas reflexionei. A dama era, relativamente, nova. Podia ser filha do
Seabra.

--Ser talvez filha?

E architectei um antigo romance de amor, que tivesse deixado ao Seabra
uma filha natural.

Se fosse assim, eu poderia conseguir talvez que elle me contasse o seu
romance.

Tentei o assumpto.

--Mas ento, meu caro sr. Seabra, porque perdeu esta occasio propicia?

--No! nunca! tornou elle a responder.

Devorado pela curiosidade, insisti:

--Era talvez sua parenta?

--Qual! disse elle surprehendido. Era a mulher do meu chefe!

Fiquei a olhar para elle, aturdido, assombrado.  lealdade da velha
burocracia portugueza! que, em homenagem  disciplina social, desviava
os olhos para no vr o p da mulher a quem o chefe havia dado a mo! E
tive tentaes de o abraar, em plena rua do Oiro, exclamando:
Honradissimo Jos do Egypto, cujos olhos largam a capa, quando a mulher
do chefe da repartio expe o p  vista do publico! eu te admiro e te
venero!

Acompanhando-o pela rua do Oiro adiante, baralhavam-se-me no espirito
casos que eu tinha ouvido contar, por mais de uma vez, de empregados
publicos que captavam as boas graas dos chefes seguindo o processo
opposto ao do Seabra.

Admiravel homem! pensava eu, que penteia as suas farripas para ir vr as
mulheres e que, no obstante querer vl-as, no perde nunca de vista um
conselheiro, para lhe cumprimentar a carta de conselho, nem a mulher do
chefe, para evitar cumprimentar-lhe o p!

Uma coisa que entristeceu muito o Seabra foi o ir perdendo a vista, e
com ella o gosto de passar na rua do Oiro.

Mas, no obstante, no largou nunca o seu espelhinho. Tinha o mesmo
cuidado em alisar as farripas e escovar a sobrecasaca. Smente mudou de
caminho, tomava pela rua da Prata, em vez de seguir pela rua do Oiro.

Os seus collegas diziam:

--O Seabra agora est muito caido!

Na repartio, elle trabalhava com oculos, mas na rua nunca os punha.

Um dia insisti com elle em que viesse comigo pela rua do Oiro.

Pediu-me muitas desculpas, e recusou.

--J no vejo nada! dizia elle.

--Mas por que no pe os seus oculos? perguntei-lhe eu.

E elle, muito sentencioso, respondeu-me:

--Eu sou de um tempo em que no era permittido confessar nenhuma
fraqueza em publico: nem mesmo a da vista.

De uma vez, como sempre, o Seabra entreabriu a porta do gabinete do chefe.

--V. ex., sr. conselheiro, determina mais alguma coisa? perguntou.

--No, Seabra, at manh.

O Seabra compoz, diante do espelhinho, as suas farripas, ageitou a
gravata, escovou a sobrecasaca, fechou a escova no armario.

E metteu pela rua da Prata, na sua teima de no querer confessar em
publico nenhuma fraqueza: nem mesmo a da vista.

Junto  Praa da Figueira andava-se concertando um cano, a rua estava
esburacada.

O Seabra caiu to desastradamente, que partiu uma perna. Foi conduzido
em maca ao hospital de S. Jos. Logo que l chegou, cheio de
dres, despiram-no, metteram-n'o na cama.

E elle, dirigindo-se muito attenciosamente ao enfermeiro, disse-lhe:

--Quer ter a bondade, sr. enfermeiro, de recommendar todo o cuidado com
o meu fato, e de me dar um espelhinho que est na algibeira das calas?

Passados dias fui visital-o, levei-lhe um romance para que elle se
entretivesse, lendo-o.

--No posso, disse-me elle. Deixei os oculos fechados na repartio.




XXVI

Os principes do Per


Vem j ahi caminhando ao nosso encontro a bella festa do Natal. No
tarda nada. Os batedores, a guarda avanada, chegaram com a sua
costumada pontualidade. C temos o frio e o per passeiando ambos pelas
ruas de Lisboa, um muito afiado e cortante, o outro gluglujante e luzidio.

Esta solemne festa do anno tem o condo de sorrir a todas as idades, de
lisonjear todos os paladares, de encantar todas as imaginaes.

As creanas pensam, cheias de jubilo, no seu Presepio, na sua arvore do
Natal, na bonecada e nos bolos.

Os namorados esto j arregalando o olho amoroso para a missa do Gallo,
que  boa capa para entrevistas hombro a hombro, de mos dadas, emquanto
se finge rezar muito devotamente...

Os velhos, que so ordinariamente gulosos, comeam a afinar o olfacto
para descobrir, nas lojas de confeiteiro, os mais saborosos petiscos.

Os ambiciosos de qualquer idade e sexo sonham com a grande loteria de
Madrid, esse ideial de felicidade que todos os annos lhes faz negaas 
imaginao fogosamente credula.

As beatas esto j antegostando a delicia de oscular mysticamente as
carnes rosadas e divinas do pequenino Jesus.

No meio de todo este cro de alegrias s uma nota discordante poderia
soar, mas o per, a principal victima do Natal, no tem decerto a
consciencia do perigo que a esta hora est correndo,--felizmente para elle.

Pobre per! Ahi o vemos fazendo descuidosamente a sua ultima _avenida_,
dando o seu ultimo passeio de condemnado  morte, sem pensar em
disposies testamentarias, to felizes so os pers!

As pessoas do norte do paiz no teem, como o lisboeta, a tradio do
per do Natal. No Minho, na Beira, em Traz-os-Montes pensa-se agora em
mil guloseimas, que no tardaro a encher de aromas a cosinha e a mesa,
mas o per setemptrional no tem que receiar-se da faca do cosinheiro,
porque a tradio local no exige como victima seno a gallinha gorda e
o gallo nedio.

Eis aqui a raso por que um rapaz da Ponte da Barca, que, ha annos,
andava estudando em Lisboa, ficou muito surprehendido com o pedido que
lhe fizera a mais astuciosa das suas namoradas lisboetas.

Ella era filha de um servente de repartio, creio eu, que vivia cheio
de difficuldades, porque a mulher lhe havia dado uma prole numerosa:
tres filhas e quatro filhos.

Emquanto todos os sete foram pequenos, era com profunda tristeza que o
marido e a mulher viam passar na rua, pelo tempo do Natal, os bandos de
pers luzidios e gluglujantes. No podiam chegar-lhes, elles! Dez
tostes no era quantia que um servente de repartio, cheio de
filharada, podesse dispender. Isto ralava-o. Mas o pobre homem dizia
muitas vezes  mulher:

--Deixa crescer a raparigada, e vers que no nos faltaro pers.

A mulher sorria com desalento e replicava:

--Pensas talvez que esto  espera d'ellas tres principes muito ricos,
que ho de ser nossos genros?!

--No  isso. Eu c tenho a minha ideia. Deixa crescer a raparigada, e
vers.

Os annos foram passando, e as tres filhas do servente cresceram,
principiaram a revelar um palminho de cara menos mau. A mais nova tinha
quinze annos; a mais velha dezesete.

--E ento os tres principes do Per? perguntava a mulher ao marido,
fazendo um _calembour_ inconscientemente.

-- agora. Vae comear este anno, c pelo que eu tenho observado. Elles
ahi esto a bater  porta...

--Os principes?

--No, os pers.

--Fia-te n'essa, pateta!

--Ora dize-me uma coisa: Teem ou no teem j as raparigas o seu derrio?

--Sim... acho que teem. E d'ahi, homem?

--D'ahi, tem paciencia, e espera. Eu logo vou conversar com as
raparigas, porque todo o bom pai precisa aconselhar ajuizadamente as
suas filhas.

O Natal estava por um fio, chega no chega. Fazia frio e luar. O
estudante da Ponte da Barca no fra a ferias, porque n'aquelle tempo
ainda o caminho de ferro no tinha encurtado as distancias.

O rapazote, achando-se sem obrigaes escolares, principiou a
entregar-se exclusivamente  cultura de namoros desde pela manh at 
noite.

Ora ia vr uma das suas bellas, ora ia catrapiscar a outra, mas a filha
do servente, a dos quinze annos, era de todas as namoradas a que mais o
prendia talvez, no s por esse orgulho natural de ter inspirado um
primeiro amor, como tambem porque o estudantelho era poeta e a
rapariga parecia-lhe romantica.

Romantica, sim, senhor! Onde fra ella aprender isso? Quem o podra
dizer! Foi uma qualidade que derivou talvez do fluido magnetico dos seus
olhos negros e grandes. O pae era tudo o que podia haver de mais prosa
em servente de repartio. A me era digna esposa de seu marido segundo
os canones e a prosa. As irms s desejavam poder um dia comer bem e
dormir melhor. Mas a rapariguinha dos quinze annos tinha suas
_reveries_, contemplava o azul do cu, gostava de vr o luar, o que o
pae e a me muito extranhavam classificando de telhuda a filha mais nova.

Pois o Natal estava por um fio, chega no chega, como eu ia dizendo
ainda agora.

O servente ressonava j ha muito tempo em competencia philarmonica com a
cara metade. As outras duas filhas sonhavam talvez com alguem que lhes
desse um vestido e um camarote, mas a Mariquinhas estava  janella,
envolta no vu azul do luar, unico de que podia dispr, a conversar
idillios com o seu estudantelho do Minho.

--Tu s-me infiel, dizia-lhe ella.

--Eu! respondia elle. Eu adoro-te, Mariquinhas, e s penso em poder
casar comtigo logo que seja alferes de cavallaria.

--So palavras... No sentes o que dizes!

--Por que duvidas de mim?

--Porque tenho a certeza de que o teu corao no  sincero. S te
lembras de mim quando me ests fallando.

--Tambem isso so palavras, apenas.

--Nunca tiveste uma pequena lembrana que me dsses, uma d'essas
apreciaveis bagatellas que valem mais pelo que significam do que pelo
custam. Agradece-se, estima-se a inteno, principalmente...

--E que gostarias tu que eu te offerecesse? Um ramo de flores?...

(Foi a coisa mais barata que lhe lembrou).

--Logo vi que havias de escolher uma coisa que durasse to pouco como o
teu amor. Eu gosto immenso de flores, mas tenho m f com ellas no amor.
So como que o presagio de que tudo acabar de pressa. As flres duram
to pouco!

--Um leque, Mariquinhas, um leque?...

(Lembrou-se de ter visto na rua do Oiro uns que custavam oito vintens).

Ella replicou indignada:

--Eu no sou mulher que me requebre de leque na mo. No sou d'essas
mulheres levianas que andam pela rua a fazer fogo de vistas com a
ventarola.

--Mas eu no te quiz offender, Mariquinhas.

--Talvez no quizesses. Eu sou uma rapariga honesta, que vivo  sombra
de meus paes, e que os adoro. Psa-me de que elles sejam to
pobres e to bons. Sabes no que eu penso? Em proporcionar-lhes um dia de
Natal agradavel, como elles j no tiveram ha muitos annos...

--E como seria isso?

--Fazendo-lhes a surpreza de uma boa _meia noite_.

--Como?

--Comprando-lhes um per sem o elles saberem.

O estudante sentiu uma punhalada no corao; duas punhaladas  que foram.

Primeira punhalada: Ento ella, to romantica, to sonhadora, pensa
agora n'um per?

Segunda punhalada: Onde hei de eu ir arranjar dinheiro para comprar o per?

Mas, emfim, era preciso no fazer m figura deante da Mariquinhas.

--Socega, querida. Has de fazer essa agradavel surpresa a teus paes.

--Quando?

--manh... decerto, visto que depois d'manh  vespera de Natal.

--Ah! como sou feliz! exclamou a Mariquinhas.

E o estudante, quando sahiu d'ali, ia dizendo comsigo:

--Ella  muito exigente para um estudante, mas, em compensao, parece
ser muito boa filha.

No dia seguinte foi elle ao Rodrigues do Pote das Almas vender um
_Magnum Lexicon_, umas grammaticas velhas, um Monteverde em menos mau
estado. Apurou ao todo mil e duzentos. Comprou ao principio da noite, na
Praa da Figueira, um per por 1$100, e ficou-lhe ainda a tinir na
algibeira o bello tosto para cigarros e caf.

 meia noite, eil-o debaixo da janella da Mariquinhas, de per debaixo
da capa. Momentos depois o per subia suspenso por um cordel, e a
Mariquinhas era feliz.

As outras irms dormiam, mas estariam sonhando ainda com alguem que lhes
podesse dar um vestido e um camarote? No. Sonhavam, o que era verdade,
que tinha cada uma um per, que ellas pediram aos namorados, por
conselho do pae.

Foi assim que o servente de repartio, como havia planeado, pde ter
per na noite de Natal, per no dia de Anno Bom, per no dia dos Santos
Reis. Tres pers a tres filhas,--por cabea.

E sentado  mesa, muito alegre e palreiro, ouvindo repicar os sinos para
a missa do gallo, dizia elle  mulher:

--Ahi vem sua alteza o primeiro principe do Per. Os outros dois esto
ainda em palacio. No te dizia eu que elles haviam de chegar?




XXVII

A poesia da Servia


Perguntaram um dia a Mikiewiez: O que so os servios? 

E o grande poeta da Polonia respondeu: Um povo destinado a ser o bardo
e o menestrel de toda a raa slava.

J. Reinach sae em abono d'esta opinio confirmando-a: O caracter servio
 essencialmente poetico, e a sua poesia no se traduz apenas nos
_pesmas_, nos hymnos nacionaes que acompanham na _guzla_, encontra-se
ainda na religio, nas cerimonias do culto, nas festas, na organisao
da familia, nos casamentos, na coragem heroica dos combates, nos sonhos
de uma vida melhor. Se queremos procurar a causa d'este caracter dos
slavos, devemos attentar no paiz que elles habitam. O povo que tem a
Servia por patria, no podia deixar de ser, como disse Mikiewiez, seno
um povo de bardos e menestreis, e, nas horas de perigo nacional,
um povo de heroes. As florestas sombrias e profundas, as quebradas dos
valles, as altas montanhas com as suas cristas inaccessiveis e os seus
bosques de castanheiros, os _Schumadia_, as margens accidentadas dos
rios, toda essa natureza selvagem e pittoresca contm e inspira
thesouros de poesia.

Na familia servia o sentimento da fraternidade  talvez o mais
desenvolvido, No ha uma joven servia sem irmo diz uma velha lei.
Quando a noiva deixa o lar da sua familia,  pelos irmos que ella chora
lagrimas semelhantes a _bagos que se destacassem de um cacho maduro_. A
cano do desgraado Iowo diz assim:

O moo Iowo cahiu, porque o sobrado da casa abateu, e partiu o brao
direito.

Quem o curar? S a feiticeira da montanha, que conhece a fundo a
virtude das plantas; mas a feiticeira exige muito. Pede  me a sua
branca mo direita;  irm as tranas do seu cabello;  mulher o seu
collar de perolas...

A me d, com a melhor vontade, a sua branca mo direita, a irm d as
tranas do seu cabello, mas a mulher recusa o seu collar de perolas...

Agasta-se a feiticeira que vive na montanha, e lana veneno nos
alimentos de Iowo. Iowo morre com grande pezar de sua me.

Ouvem-se ento gemer trez cucos: um que no deixa jmais de
lamentar-se; outro que s se faz ouvir pela manh e  noite; e o
terceiro, que smente geme quando lhe apraz.

Qual  o que no deixa jmais de ouvir-se? A desgraada me de Iowo. O
que smente se ouve pela manh e  noite? A irm de Iowo, profundamente
afflicta. E o que s geme quando lhe apraz?  a joven viuva de Iowo.

O casamento entre os servios  livre, o resultado do _mutuus consensus_.
O rapaz apresenta-se em casa do pae da namorada, a pedir-lhe a mo da
filha. Obtida que seja, d lhe o annel, penhor do casamento, porque um
antigo _pesma_ diz: Como testemunho de amor, d-se um pomo; como
perfume, um mangerico;--mas o annel s se d para casar.

Se a donzella quer recusar o noivo, arremessa-lhe o pomo  cara,
dizendo: No te quero a ti nem ao teu pomo.

Excepcionalmente, algumas vezes, os paes procuram para suas filhas
casamentos ricos. Os _pesmas_ protestam contra esta excepo. A pobre
rapariga caminha descala sobre o gelo, tiritando, e o irmo
pergunta-lhe: Tens frio nos ps, querida irm? E ella responde: No!
no tenho frio nos ps, meu irmo, mas sinto um frio glacial no corao.
No  a neve que me molesta,  minha me que me quer dar por esposo
aquelle que eu aborreo. Uma outra cano diz: Vivia na
montanha uma donzella, e toda a montanha era illuminada pela belleza de
seu rosto.  meu rosto, dizia ella,  meu unico cuidado, se eu soubesse,
meu branco rosto, que um velho marido te devia beijar, oh! iria 
montanha verde e colheria o absyntho, espremeria o seu suco e
lavar-te-hia com elle, meu rosto, a fim de que o velho, quando te
beijasse, lhe sentisse o amargor. Mas se eu soubesse, meu branco rosto,
que um joven marido havia de te beijar, oh! ento iria ao verde jardim,
colheria todas as rosas e das rosas espremeria o suco para te lavar, meu
branco rosto, a fim de que o joven noivo, quando te beijasse, ficasse
perfumado do teu perfume.

O casamento, revestido ainda de todos os symbolos primitivos, exige que
os irmos e amigos da noiva a acompanhem  sua nova casa, a cavallo, ao
som de musica, entoando canticos e dando tiros. As irms e as cunhadas
vem ento ao encontro da noiva, que se adeanta para ellas:
apresentam-lhe uma creana que ella deve vestir, bem como deve offerecer
aos convidados po, vinho e agua. S quando d  luz  que a noiva passa
a ser considerada como fazendo parte da familia. Recebe um dote, que os
servios chamam _persia_. Quando a noiva j no tem pae,  o irmo que
deve pagar o dote, sempre fixo, e de que o marido no pde fazer uso.
Mas, circumstancia verdadeiramente notavel! quando uma rapariga
casa sem auctorisao dos pais, a sua unio  considerada legitima, pois
que tem por base o amor.

Assim  que diz uma cano:

Eu queria pedir a tua mo, mas teu pae no me quer para genro, e eu s
no te posso roubar. Escuta as minhas supplicas, vem para mim, que t'o
peo eu.--Bello amigo,  inutil pedir a minha mo; meu pae
recusar-t'a-ha. No penses em roubar-me, porque tu o pagarias, meu bem
amado. Tenho nove irmos e numerosos primos; quando elles montam nos
seus cavallos negros, com as suas finas espadas na mo, s vel-os causa
horror. No quero que tu morras combatendo com elles; e se fugisses, no
mais te poderia ouvir. Amo-te. Chama-me, eu irei voluntariamente
lanar-me nos teus braos.

Os funeraes so, entre os servios, to poeticos como o casamento. Quando
morre alguem, os parentes levantam grande alarido; os homens saiem
descobertos durante alguns dias; as mulheres deixam fluctuar os cabellos
e os vestidos. Os homens choram silenciosamente, mas as mulheres, desde
o dia da morte at ao do enterro, no cessam de _naritsati_, quer dizer
de cantar em voz alta a sua dr, pranteando a sorte do morto e dos seus.

Ai! ai! trava-se na minha alma um terrivel combate! Volto os meus olhos
para o anjo luminoso de Deus, e exclamo: Fazei com que a minha
vida seja curta. Mas Deus no me escuta. E eu, ai! contemplo o oceano da
vida, de que as ms paixes so as vagas, e em vo desejo abordar a
porto e salvamento.

Segue-se a cerimonia dos funeraes, sendo o esquife do morto conduzido ao
cemiterio pelos amigos. Quando o fretro desce  sepultura, um sacerdote
lana-lhe em cima um punhado de cinzas, e as mulheres recomeam a
prantear longa e tristemente. Cada anno ha um dia consagrado aos mortos:
 o Zaduchnitzi.

Os servios, como diz Theophilo Lavalle, formam a populao christ mais
importante da Turquia, pela dignidade e gravidade do seu caracter, pela
sua coragem, bondade, generosidade, costumes patriarchaes, amor 
patria, usos e religio.

A festa dos ramos  a primeira do anno: celebra o advento da primavera.
As raparigas juntam-se n'uma collina e cantam o hymno da resurreio de
Lazaro: A creana cresce, o homem vive, o velho morre n'esta ideia:
quando vir o imperio servio? No dia seguinte, antes de nascer o sol,
vo buscar agua e cantam em cro: As pontas do veado tornam a agua
turva, mas o seu olhar torna-a clara e limpida.

Esta cano deve ser interpretada n'um sentido mythico.

O veado, cujas pontas tornam a agua turva,  o inverno, o tempo
brumoso. Gubernatis, fallando do veado mythico, diz-nos que ha o veado
negro, que symbolisa o cu coberto de nuvens, e o veado luminoso, que
figura em muitas lendas da India. Ora n'esta cano servia, o olhar do
veado, que torna as aguas claras e limpidas, deve ser considerado como o
triumpho alcanado pela primavera sobre o inverno.

Reinach diz que as raparigas servias sadam no regresso da primavera a
volta dos tempos felizes para o amor, entoando canes notavelmente
simples, taes como esta: Dois amantes beijaram-se na campina, e
julgavam que ninguem os teria visto. Mas a campina viu-os, e contou tudo
ao branco rebanho, que o repetiu ao pastor; o pastor disse-o ao
viandante, o viandante ao marinheiro, que por sua vez o contou  barca.
A barca foi dizel-o ao rio, e o rio  me da rapariga. Os leitores de
um livro meu, _Atravez do passado_, conhecem j a ideia fundamental
d'esta cano encantadora, que se encontra tambem na Grecia, e que tem
sido glosada por distinctos poetas, entre os quaes o allemo Chamisso.

No fim de abril realisa-se a festa de S. Jorge, um dos patronos da
Servia. As mulheres vo s montanhas colher hervas e flores, que lanam
depois ao rio, onde no dia seguinte se banham.  assim pois que os
servios, como os outros povos slavos, celebram o advento da
primavera.

Vem immediatamente a festa de Kralitza, em que as donzellas festejam
Lelio, a Venus da Servia, a deusa do amor.

Segue-se o S. Joo, o tempo da canicula, em que, como diz a lenda, o sol
parou outr'ora tres vezes. Se o anno tem corrido sco, procede-se a uma
cerimonia verdadeiramente original: uma rapariga, cujos vestidos
consistem apenas n'uma ligeira tunica de folhas e flores, percorre,
acompanhada por outras, os campos, que vae aspergindo com um regador,
pedindo ao cu uma chuva fecundante, invocando o sol e a lua: _Tako mi
Suntza!_ (o sol) _Tako mi Semlie_ (a lua)! Que o sol seja comigo! Que a
lua me proteja! Ligeiras corremos atravez da alda; possam as nuvens do
ceu, mais rapidas do que ns, beneficiar os prados e as vinhas. _Tako mi
Semlie._ Quando, pelo contrario, o anno tem corrido chuvoso, os
habitantes do campo imploram o auxilio de Elio, que no  seno o sol.

As festas domesticas na Servia tem um caracter deliciosamente intimo.
Os viajantes, os estranhos so sempre recebidos com amavel
hospitalidade. O chefe da familia, quando o repasto se realisa, enta a
cano de Batschka: Tres passaros desferiram vo atravez do espao,
levando cada um no bico um presente precioso: o primeiro, um gro de
trigo; o segundo, um bago de uva; o terceiro a alegria e a
felicidade. O gro de trigo caiu sobre a planicie de Batschka, o bago de
uva sobre as montanhas de Gore; possam sobre a nossa mesa car a alegria
e a felicidade.

Mas de todas as festas domesticas da Servia, o Natal  a mais solemne.

Ao fim da tarde, terminado o trabalho, o pae de familia vae  floresta
cortar um carvalho novo e, pondo-o s costas, volta para casa. Quando
entra, exclama:

Boa noite! feliz Natal!

E a familia responde: Que Deus te proteja, e te d boa colheita!
Depois, o carvalho (badujak)  posto no fogo. No dia seguinte, a gente
moa percorre a povoao a cavallo, disparando tiros de pistola. E o pae
de familia, apparecendo  janella, atira para a terra alguns gros e
sementes, dizendo: Natal! Natal! Christo nasceu. Ao que os moos
respondem no estylo do Evangelho: Em verdade ns vol-o dizemos, Christo
nasceu.

Ento, todas as familias se juntam em torno do carvalho que arde,
aoitando-o com correas; e quando as faiscas saltam, exclamam: Tantas
faiscas, quantos bois, cavallos, cabras, carneiros, porcos, abelhas e
benos do ceu teremos este anno.

A festa do Natal dura tres dias. E at que entre o novo anno, toda a
gente se sada, dizendo: Christo nasceu! e respondendo: Em
verdade, ns vol-o dizemos, Christo nasceu!

A universalidade das crenas populares  realmente um facto admiravel!

Assim como os servios tem o _badujak_. temos ns, nas provincias do
norte, e citaremos para exemplo o concelho da Maia, arrabalde do Porto,
o carvalho do Natal, que tambem se pe no fogo e que no fim da noite se
guarda para tornar a accender-se em occasio de tempestade.

A Servia  decididamente o paiz das canes. Todos os seus habitantes
cantam. Em cada casa ha uma _guzla_, especie de mandolim ou guitarra,
que tem apenas uma corda de crina. No ha festa sem cano e sem
_guzla_. A Europa occidental conhece de varias imitaes ou traduces
muitas das poesias populares da Servia. Prosper Mrime, tendo aprendido
cinco ou seis palavras de slavo, compoz em quinze dias um pequeno
romanceiro, que attribuiu a um imaginario tocador de _guzla_, Jacintho
Maglanovitch.

Na poesia servia relevam a riqueza das imagens, a ingenuidade dos
sentimentos, o ardor do patriotismo. A estrophe, sempre melodiosa, 
geralmente curta; e o acompanhamento da _guzla_ apenas a toma nos
ultimos versos. Os cantos nacionaes so compostos em trocheus; as
canes de amor admittem os dactylos.

No estudo da poesia servia ha a distinguir os _pesmas_ heroicos
que os homens acompanham na _guzla_, e as canes do lar, que as
mulheres e as raparigas entoam.

Foi s muito tarde que os servios comearam a escrever os seus _pesmas_.
Em conformidade com a theoria de Vico, a poesia, entre elles, precedeu a
prosa, que foi definitivamente fixada por Obradwitch, depois da primeira
metade do seculo passado.

Os slavos do sul s modernamente attingiram na litteratura a frma
dramatica. Annibal Lusitch foi quem primeiro escreveu para o theatro,
comeando elle e os seus imitadores per seguirem o rasto dos poetas
italianos, Metastasio, Alfieri, Guarini. Foi Estevo Popovitch quem
comprehendeu que os assumptos nacionaes convinham ao theatro. Entre as
suas produces merece especial meno a comedia _Belgrado na
antiguidade e em nossos dias_, que teve um grande successo nos theatros
provisorios levantados em Agram e Belgrado. Popovitch foi pois o Eschylo
da Servia; Martinho Ban, auctor dos dramas _Lazaro_ e _Meirima_, pde
ser considerado o Sophocles servio. A _Meirima_ tem por assumpto o amor
de um christo por uma mussulmana, assumpto que, posto fosse tratado por
Voltaire e Byron, offerece comtudo um certo encanto de execuo.

Entre as creaes phantasticas da poesia popular da Servia devem
contar-se as _vilas_, a que chamamos _feiticeiras_,  falta de
melhor vocabulo, mas que so creaturas mysticas, que presidem aos votos
do povo e que pairam silenciosamente sobre a existencia dos homens. So
ligeiras e bellas, diz Reinach; o vento brinca, passando, com os seus
longos cabellos. Habitam sobre as colinas, perto dos regatos, sobre o
Lotchen, cujo cimo, onde a tempestade ruge incessantemente,  coberto de
neves eternas.

Mas se as _vilas_ so os genios bemfasejos da Servia, existem, em
opposio a ellas, espiritos maleficos, que trabalham pela perdio do
genero humano. So os _vitchizs_ que, flucctuando nos ares,
surprehendem os pastores adormecidos, abrem-lhes o peito com uma vara
magica, fixam o dia da sua morte, comem-lhes o corao, fecham de novo o
peito das victimas e desapparecem.

Quando os pastores acordam, sentem-se abatidos, doentes. E pouco depois
expiram.

Mas uma das creaes mysticas que mais impressionam a imaginao slava 
o _vampiro_, que se alimenta da carne dos cadaveres e do sangue dos vivos.

Entre os typos dos _pesmas_ heroicos, o mais notavel  Marko, o Cid e
Roland da Servia.

Mas, percorrendo o cancioneiro servio, so as canes de amor as que
mais nos encantam. Terminaremos este ligeiro artigo com uma cano
amorosa, que rompe dos labios de uma rapariga: _ tchardak_
(leito), um fogo abrazador me devora: ninguem, durante a noite, est 
minha direita ou  minha esquerda; revolvo com o meu corpo a coberta, e
com a coberta as, minhas dres. E o namorado responde-lhe:  Mileva,
assenta-te a meu lado. Ns no somos selvagens, ns sabemos onde se deve
beijar: as viuvas entre os olhos, as solteiras entre os peitos.


FIM




INDICE

                                                        Pag.
    I O primeiro mosquito                                 5
   II A comedia das praias                               11
  III N'uma praia solitaria                              20
   IV Os frequentadores das praias                       30
    V Casos...                                           38
   VI  volta dos ps da imperatriz                      56
  VII Loucura alegre                                     65
 VIII A mascotte                                         73
   IX Era em abril...                                    80
    X A felicidade e a camisa                            85
   XI Morte de um gentleman                              91
  XII A season lisbonense em 1883                     100
 XIII Gostos no se discutem                            106
  XIV Peccadilhos metricos                              114
   XV Os amaveis                                        130
  XVI A sepultura d'um traidor                          137
 XVII A caminho do Alemtejo                             148
XVIII A mulher                                          155
  XIX O carnaval...                                     163
   XX O chapeu                                          171
  XXI Os antipodas                                      181
 XXII As uvas                                           190
XXIII Pessoas conhecidas de vossas excellencias         197
 XXIV Comer a dois carrilhos                            207
  XXV O ultimo puritano                                 212
 XXVI Os principes do Per                              221
XXVII A poesia da Servia                                229



      *      *      *      *      *



ERRATAS

Pag. 69, lin. 9, onde se l--um bilhete Colyseu leia-se--um bilhete do
Colyseu.

Pag. 104, lin. 30, onde se l-- vista de um trabalho--leia-se-- custa
de um trabalho, etc.

Pag. 142, lin. 23, onde se l--deixaria na primeira leia-se--deixaria ir
na primeira, etc.

Pag. 155, lin. 2, onde se l--havido acontecimentos leia-se--havido
acontecimento, etc.

Pag. 176, lin. 16, onde se l--E como--leia-se-- como, etc.



***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MANHS DE CASCAES***


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