Project Gutenberg's Vinte Annos de Vida Litteraria, by Alberto Pimentel

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Title: Vinte Annos de Vida Litteraria

Author: Alberto Pimentel

Release Date: August 30, 2010 [EBook #33581]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA ***




Produced by Pedro Saborano









    Notas de transcrio:

    O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso
    em 1908.

    Foi mantida a grafia usada na edio original de 1908, tendo sido
    corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos que no alteram a
    leitura do texto, e que por isso no foram assinalados.

    No original havia uma errata. Nesta edio corrigimos os erros ali
    apresentados.




                    COLLECO ANTONIO MARIA PEREIRA

                           ALBERTO PIMENTEL

                    Vinte Annos de Vida Litteraria

                   (2. edio, revista pelo auctor)




                                1908
                    Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
                          LIVRARIA EDITORA
                       _Rua Augusta, 44 a 54_
                               LISBOA




              COLLECO ANTONIO MARIA PEREIRA--10. VOLUME

                    VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA




                    COLLECO ANTONIO MARIA PEREIRA

                           ALBERTO PIMENTEL

                    Vinte Annos de Vida Litteraria

                   (2. edio, revista pelo auctor)




                                1908
                    Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
                          LIVRARIA EDITORA
                       _Rua Augusta, 44 a 54_
                               LISBOA



                    *      *      *      *      *


                 Composto e impresso na typographia
                                 DA
                   Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
                      _Rua Augusta, 44 a 54._
                               LISBOA


                    *      *      *      *      *




A QUEM LER

Prologo da 1. edio


Publiquei o livro _Atravez do passado_, receoso de que no agradasse por
ser excessivamente pessoal. Mas Pinheiro Chagas, escrevendo na
_Illustraco Portugueza_ um artigo muito amavel para mim, a respeito
d'aquelle livro, preconisava a vantagem de todos os escriptores reunirem
as memorias jornalisticas e litterarias do seu tempo, como subsidio
indirecto para a historia completa da sociedade a que pertencem. Este
ponto de vista e a auctoridade de to abalisado homem de lettras
deram-me estimulo, confesso-o francamente, para colleccionar um segundo
livro de memorias.

De mais a mais, trabalhando n'este genero de escriptos, eu obedeo
gostosamente a uma natural inclinao do meu espirito para a
reconstruco do passado, que a saudade illumina. Sinto-me bem remexendo
as cinzas e contemplando as ruinas que o tempo deixou. No sei se at
certo ponto entrar n'isto o egoismo de, pelo que me respeita, reviver
pela memoria os dias que j vo longe.

Fui escrevendo estas recordaes de vinte annos de vida litteraria sem
preoccupaes de nenhuma especie, nem mesmo chronologicas. Quanto s
pessoas de que falo, no tratei de classifical-as pela ordem da sua
hierarchia politica ou litteraria. Aproveitei os nomes que me iam
lembrando, e as recordaes que me acudiam ao bico da penna.

Ha n'este livro,  certo, alguns perfis politicos, algumas paginas que
no versam assumptos exclusivamente litterarios. Mas foi pelo brao da
litteratura que eu entrei na politica, e foi pela politica que eu pude
conhecer mais de perto certos homens.

Lisboa, 42 de novembro de 1889.


                                                      ALBERTO PIMENTEL.




Prologo da 2. edio


Este livro deve certamente a boa fortuna de uma segunda edio ao facto
de contr aspectos biographicos de alguns homens notaveis, com os quaes
eu convivi na minha mocidade. Esses homens marcaram uma poca da vida
historica do paiz e, como sempre acontece, a morte deu-lhes maior
prestigio. De modo que o livro no envelheceu por causa d'elles, e s
d'elles recebeu a vida que o faz resurgir em segunda edio.

Creio, hoje como hontem, que a biographia  o processo mais agradavel de
escrever a historia, ainda quando esse processo caia em mos to
incompetentes como as minhas, comtanto que seja honesto e sincero, que
no engrandea nem amesquinhe apaixonadamente os biographados.

Por mim julgo os outros: releio com prazer algum trecho de Plutarcho, e
custa-me a digerir meio capitulo de Tito Livio.

Eu tive sempre o culto do passado, e por isso me no aborreci de mim
mesmo revendo agora este livro, que ia ser reimpresso. No  que o
repute perfeito, porque nem depois de retocado o fica sendo. Mas porque
a sua reviso me reconduziu a uma poca em que os homens e os factos
constituiram um vasto edificio de que s restam cinzas e ruinas.

N'aquelle tempo a vida portugueza era mais calma, communicativa e
cordeal. No se tinham ainda desencadeado grandes borrascas de odios
pessoaes, que nos agitassem como n'esta hora. As amizades eram
perduraveis, e os amigos certos. Os que chegavam eram recebidos de
braos abertos, acarinhados, protegidos. E cada qual plantava os seus
ideaes sem incommodar o vizinho, nem o malsinar s porque elle possuia
aquillo que ns desejariamos ter.

A impresso que eu recebi da leitura d'este livro foi a de uma sociedade
remota, que me no propuz descrever, mas que resulta de um conjunto de
biographias n'elle agrupadas.

E  medida que eu voltava cada pagina sentia-me expulso do passado pela
distancia e do presente pela estranheza.

Quanto ao futuro... Os velhos j no tem futuro. E se elle fr o
_crescendo_ logico do dia de hoje, eu no sinto pena de o no viver--e
descanarei serenamente da fadiga do caminho. _Fatigatus ex itinere
sedebat._

Lisboa, 27 de abril de 1908.

                                                       _O auctor_

      *      *      *      *      *




I

El-rei D. Luiz


Escrever dos reis, quando elles vivem ainda,  pelo menos um pouco
arriscado: pde parecer adulao. Mas escrever de um rei que j no
existe, e contar lealmente os altos favores pessoaes que d'elle se
receberam,  mais do que gratido-- justia.

Eu estou n'este caso para com el-rei D. Luiz. Nunca o disse em publico
durante a sua vida, para afastar de mim a suspeita de lisonjeiro, mas
no perdia occasio de dizel-o em particular. Muita gente o ouviu da
minha bocca, muitos o sabem; porm outros o ignoram. Para estes escrevo.

O que eu vi sempre menos na pessoa do senhor D. Luiz I foi o rei, o
principe, o astro da crte. O que n'elle sempre me captivou, desde o
primeiro dia em que tive a honra de lhe falar, foi o homem illustrado e
complacente, o amigo dos que trabalhavam, o protector dos que rudemente
luctavam pela existencia.

O rei podia desagradar alguma vez ao capricho das paixes politicas, que
em torno d'elle se debatiam. O homem era sempre o mesmo para todos: bom,
compassivo, affectuoso.

Chegava a causar assombro que um principe, to preoccupado de negocios e
at de distraces, pudesse seguir to attentamente o fio de tantissimas
pretenses particulares, de que elle, e s vezes s elle, possuia o
segredo.

No conjunto das massas populares havia centenas de biographias que
el-rei D. Luiz conhecia pagina a pagina, e que acompanhava dia a dia.

A sua consciencia devia sentir-se satisfeita com o galardo de si mesma
quando, na turbamulta de uma festa ou de um espectaculo publico, o rei
divisasse, perdidas humildemente na multido, as phisionomias de muitas
pessoas que occultamente havia protegido e felicitado.

Estou certo de que um sorriso ou um olhar quasi furtivo d'essas pessoas
agradaria mais ao seu espirito do que os discursos officiaes e as
lisonjas cortezs que por toda a parte o perseguiam.

De mais a mais o rei tinha essa memoria inexcedivel de todos os
principes da sua familia: fixava facilmente as phisionomias e as datas,
de modo que no perdia nunca mais de vista a pessoa a quem alguma vez
houvesse falado.

Muitas vezes, nos actos solemnes e ostentosos da crte, el-rei D. Luiz
me avistou na posio pouco evidente em que sempre procurei collocar-me,
e o seu olhar perspicaz, quando no era o seu sorriso amavel,
correspondia de longe ao meu cumprimento respeitoso, mas quasi subtil.

Posto isto, que me nasce da abundancia do corao, eu direi em singelas
palavras como foi que desde 1873 tive a honra de me aproximar de el-rei
D. Luiz I.

Quando cheguei a Lisboa, na menos prospera situao burocratica que
ainda assim vi com alegria cair do cu, tinha eu publicado
recentemente um livro, _A Porta do Paraiso_, chronica do reinado de
el-rei D. Pedro V.

Os regeneradores estavam no poder, e o governador civil do Porto, Bento
de Freitas Soares, que se me affeiora, dera-me uma carta de
apresentao para o ministro do reino, Antonio Rodrigues Sampaio.

Fui ao seu gabinete entregar a carta, e Sampaio recebeu-me
immediatamente com a bonomia familiar que elle tinha para com toda a gente.

Sampaio, apesar da ante-sala estar repleta de homens politicos e de
pretendentes, demorou-se bons tres quartos de hora conversando comigo.
Falou-me da sua origem obscura, da sua lucta pela existencia, da
perseguio aos Cabraes, do _Espectro_, e na sua palavra, s vezes
demorada, havia um doce tom de familiaridade verdadeiramente captivante.

Terminou perguntando-me o que eu queria.

Respondi a Sampaio que desejava apenas ser apresentado a el-rei para lhe
offerecer um exemplar do livro que acabava de dar a lume. Acrescentei
que era eu a primeira pessoa a reconhecer o nenhum valor litterario do
meu livro, e que de modo algum ousaria offerecel-o a el-rei, se no se
tratasse casualmente de uma novella baseada em factos do reinado do
senhor D. Pedro V; que, portanto, o meu livro, se no podia prender,
como obra de arte, a atteno de el-rei D. Luiz, teria comtudo para sua
magestade o interesse que resultaria naturalmente de todo e qualquer
escripto que dissesse respeito a uma pessoa da familia real.

Sampaio disse-me logo que o meu pedido seria satisfeito; que no dia
seguinte, uma quinta feira, havia despacho no Pao; que estivesse eu, 
uma hora da tarde, na secretaria do reino, por que me levaria na sua
carruagem, e me apresentaria a el-rei antes do despacho.

No dia seguinte,  hora indicada, partimos do Terreiro do Pao para a
Ajuda, na mesma carruagem, e dez minutos depois de chegarmos ao
Pao, el-rei, que logo tinha recebido Sampaio, mandava-me entrar para
uma das salas interiores.

Quando ali entrei, com a timidez de um homem que arrisca os primeiros
passos nos tapetes da crte, el-rei, encostado ao vo de uma janella, e
fumando charuto, com as mos mettidas nos bolsos de um _veston_,
conversava com o ministro do reino.

Sampaio apresentou-me em termos excessivamente amaveis, e el-rei
disse-me palavras to obsequiosas, que augmentaram ainda mais a minha
confuso.

Depois de trocadas estas formulas de cortezia, el-rei falou-me logo no
livro que eu lhe ia offerecer. Disse-me que j o tinha lido. Referiu-se
a muitos factos a que eu alludia, principalmente as viagens que elle
proprio fizera com el-rei D. Pedro V. Depois, como aproveitando um
relampago da sua felicissima memoria, recordou que eu tinha biographado
Julio Diniz. Falou muito d'este mallogrado homem de lettras,
perguntou-me se eu o havia tratado intimamente, e apreciou, com grande
segurana de critica, os seus romances, acceitando a minha opinio de
que Julio Diniz seguia principalmente no romance a escola ingleza.

E como eu, segundo a etiqueta, tivesse despido a luva da mo direita--o
que Sampaio me advertira--el-rei, certamente por ter reconhecido que eu
fumava, abriu a charuteira, e offereceu-me um charuto.

Inclinei-me agradecendo, mas recusando. E el-rei, sorrindo, observou-me:

--No pde negar que fuma; nem eu. E fumo muito.

Conservando a charuteira aberta, insistiu no offerecimento.

Lembrei-me de repente d'aquella anecdota de lord Stairs, que acceitou
uma vez ser o primeiro a entrar na carruagem de Luiz XIV, allegando que
resistir ao offerecimento de um rei era descortezia imperdoavel.

Sorrindo, acceitei o charuto, mas como estivessemos falando de
escriptores portuenses, fingi-me distrado, no o accendi. Nem me era
facil saber como havia de accendel-o. Eu no tinha phosphoros comigo,
Sampaio no fumava; s o rei estava fumando.

Mas sua magestade, vendo que eu no accendia o charuto, offereceu-me lume.

Aqui, n'este lance, comeou a minha tortura. Eu fumo desde os quinze
annos desesperadamente--mas cigarro. O charuto estontea-me. Basta s
vezes o seu fumo para incommodar-me.

O leitor calcula pois a repugnancia molesta com que eu, acceitando o
lume que el-rei me offerecia, accendi o charuto, que de mais a mais era
fortissimo.

A fim de evitar que o charuto me estonteasse, deixei-o apagar a breve
trecho, propositadamente. Mas el-rei, reparando que o meu charuto se
havia apagado, tornou a offerecer-me lume. Felizmente, quando eu estava
no apogeu da tortura, fra el-rei avisado de que chegra o presidente do
conselho de ministros, Fontes Pereira de Mello, e a audiencia terminou
um pouco abruptamente com estas palavras de el-rei:

--Procure-me sempre que precisar de mim. Mas faa-o sem acanhamento.

Isto fez-me suppr que el-rei havia attribuido a acanhamento o facto de
eu ter deixado apagar o charuto.

Tive que esperar que o despacho terminasse.  saida, Sampaio apresentou-me
a Fontes Pereira de Mello, e aos seus collegas no ministerio. Uma vez
entrados na carruagem, contei a Sampaio a historia do charuto, que elle
ouviu rindo s gargalhadas, e pedi-lhe licena para fumar um cigarro, a
fim de restabelecer-me pelo systema homoepathico:--_similia similibus
curantur_.

As minhas relaes com el-rei D. Luiz dataram d'esse dia.

Depois d'isso voltei algumas vezes ao Pao para offerecer a el-rei um
exemplar dos livros que ia publicando.

El-rei dizia-me invariavelmente:

--Procure-me sempre que precisar de mim.

De uma das vezes contei-lhe a historia do charuto, el-rei riu
expansivamente, e mandou-me fumar cigarro. Mas, porque estivesse fumando
charuto, soprava ao fumo para o afastar.

Um dia... um dia tratava-se do po quotidiano, do bem-estar da minha
familia. Eu vegetava, havia dez annos, amarrado a um obscuro logar de
amanuense. Muitas vezes, mas sempre baldadamente, havia procurado
melhorar de situao. Iam reformar-se os servios da camara dos pares;
creavam-se logares de redactores. Mas as pretenses, e algumas d'ellas
fortemente apadrinhadas, fervilhavam em torno de Fontes. Desejando um
d'esses logares, mas no dispondo de influencia que pudesse dar-me
probabilidades de ser attendido, lembrei-me do repetido offerecimento de
el-rei.

Metti-me n'um trem, fui ao Pao. Cinco minutos depois era recebido por
sua magestade, que me ouviu com a amavel benevolencia que sempre me
dispensou. E, tendo-me ouvido, disse:

--Esteja certo de que eu vou pedir com o maximo empenho. Havemos de ir
at onde pudermos.  muito justo que lhe dem alguma folga aos seus
incessantes trabalhos litterarios. No se pde aguentar por muitos annos
um trabalho d'esses.

No dia seguinte, s duas horas da tarde, falei a Fontes Pertira de
Mello, que, logo que me viu, me fez esta pergunta:

--Diga-me uma coisa: que empenho teve para el-rei?

Reconheci que sua magestade havia tratado immediatamente do meu pedido
com a maior pressa e solicitude. Desde essa hora julguei-me despachado.

--O meu empenho, respondi eu a Fontes, vai decerto surprehender v. ex.

--Diga l.

--O meu empenho... fui eu s.

Contei ento a Fontes tudo quanto se passra.

E Fontes limitou-se a dizer-me:

--El-rei tem o maior empenho no seu despacho.

Corri logo ao Pao da Ajuda a agradecer a el-rei. Sua magestade, apenas
me viu, perguntou-me:

--Ha alguma novidade a respeito da sua pretenso?

--No ha, meu senhor.  que eu venho agradecer a inexcedivel diligencia
de vossa magestade. Acabo de falar com o presidente do conselho.

--Eu falei-lhe hontem mesmo.

Isto disse o rei, e mudou logo de assumpto.

Os jornaes propalavam boatos a respeito de nomeaes para a camara dos
pares. O meu nome nunca foi lembrado pelos jornaes. A politica interveio
n'este negocio, como em todos: disse coisas falsissimas. Mas a minha
pretenso triumphou, graas  proteco do rei.

Quando o despacho appareceu, e lh'o fui agradecer, el-rei dignou-se
abraar-me dizendo:

--Tenho hoje um dia de satisfao. Agora descance um pouco. Era justo.
Era justo.

Eu senti lagrimas nos olhos; mas el-rei tambem no tinha os seus enxutos.

Desde ento mantive com el-rei as mais gratas relaes, no direi de
amizade, mas de franqueza.

Entre os seus papeis ha de haver uma longa carta minha sobre assumptos
que no eram pessoaes.

Ainda  cedo, porm, para fazer a historia d'essa carta. Ha quem conhea
a carta, e possa contar a historia um dia, querendo.

A ultima vez que me demorei conversando com el-rei foi para lhe fazer o
pedido de alguns brindes da familia real para um bazar de Setubal. El
rei disse-me logo que pela sua parte podia considerar como satisfeito o
meu pedido, mas que a rainha estava ainda invisivel, e que o principe
real estava estudando as suas lies, motivo por que transmittiria 
rainha e ao principe aquella solicitao.

N'essa mesma tarde parti para Setubal, e ao car da noite recebia eu
n'aquella cidade um telegramma do sr. D. Pedro Arcos participando-me que
tanto a rainha como o principe mandariam brindes para o bazar.

.........................................................................

El-rei D. Luiz morreu, e a sua morte deixou no meu corao uma saudade
indelevel pelo homem bom, pelo desvelado protector, que tanto me ajudou
a desbravar o aspero caminho da vida. Se os bons so premiados alm da
campa, o rei de Portugal deve repousar no seio de Deus n'uma eternidade
bem aventurada. Quanto  minha gratido, ser eterna, porque eu
ensinarei a meu filho, para que elle o ensine  sua familia, que a
tranquillidade do meu lar resultou de um acto magnanimo de el-rei D.
Luiz I.

      *      *      *      *      *




II

Meu pae


Toda a dr moral  tanto mais absorvente e exclusivista quanto  sincera
e aguda. No sei, no quero saber o que se tem passado fra de mim
proprio: tenho vivido apenas das minhas recordaes dolorosas,
concentrado n'ellas, estranho a tudo o que no seja o drama intimo do
meu luto e da minha tristeza.

E depois os leitores tem de certo para mim esse doce sentimento de
condolencia que resulta de uma convivencia longa e leal. Somos bons
amigos ha vinte annos, conversamos quasi todos os dias, tenho decerto
adivinhado algumas vezes os seus pensamentos, commungado as suas
opinies: desculpar-me-ho, portanto, este desafogo de uma saudade
irremediavel, to sagrada e to justa--a saudade de um filho que deplora
a morte de seu pae.

Se alguma vez tenho conseguido chamar aos labios do leitor um ligeiro
sorriso, fique esse sorriso  conta de compensao da magua que lhe
posso causar hoje obrigando-o a lr as palavras que certamente me
acudiro orvalhadas de lagrimas.

Mas  que, naturalmente, estou vendo passar deante dos olhos todos os
lances da minha vida desde a primeira infancia to descuidosa e alegre,
e no meio d'esse enxame de recordaes entrevejo, a contrastar com
ellas, o semblante demudado e quasi cadaverico do meu querido
octogenario, que ainda ha oito dias contemplei semi-morto no seu leito
de agonia.

Se eu tivesse morrido primeiro, elle, posto se no houvesse entregado ao
cultivo das bellas-lettras, mas unicamente aos aridos cuidados da sua
profisso de medico; elle, que devia ter com a morte essa fria
familiaridade que a faz encarar tranquillamente como o desfecho forado
de todos os actos phisiologicos, acharia comtudo no fundo do seu corao
de pae um terno perfume de poesia, uma triste idealidade dolente, que o
levaria a encher de flores a sepultura do filho.

Sobrevivendo-lhe, eu quero ter para com a sua memoria a mesma delicadeza
de sentimento, a mesma suavidade de lagrimas, e continuar a ver n'elle
no aquillo a que a morte o reduziu, mas a alma affectuosa e honesta, a
bella alma antiga, capaz de entender todos os carinhos e de comprehender
todas as dedicaes.

Elle foi um dos ultimos homens d'essa gerao quasi extincta, que
trouxeram do lar paterno a noo austera do dever e a impresso profunda
dos bons exemplos caseiros. Tudo era antigo na educao d'esses homens,
hoje j to raros, que viveram os primeiros annos da sua vida em plena
atmosphera de tradies sagradas e inviolaveis, e que professavam pelo
passado um culto quotidiano, no meio de criados velhos, de costumes
velhos, de velhas loias da India, e de velhos retratos de avs
fallecidos. Todas as grandes solemnidades religiosas no passavam sem
commemorao domestica: eram outras tantas festas de familia, muito
intimas e muito expansivas. O Natal, a Paschoa, os dias solemnes da
Egreja eram esperados com jubilo, e celebrados com devoo tradicional.
E sentar-se  mesa, d'esses dias memorandos, rodeados de todos os filhos
e de todos os parentes, era para os homens de uma gerao quasi extincta
um doce prazer patriarchal, puro e simples, o goso perenne da felicidade
pela familia.

Vieram com os novos tempos novos costumes, e outros homens, dilatando a
sua esphera de aco, tornaram-se cosmopolitas, entraram n'uma vida
mundana, que os leva para longe do bero das suas tradies de familia,
lanando-os n'um turbilho de negocios e de ambies, de preoccupaes e
trabalhos. Esta corrente moderna, esta evoluo do espirito humano,
assombra os velhos de hoje em dia, e deve entristecel-os tanto quanto os
assombra. Para elles a terra em que nasceram, com as suas arvores e os
seus casaes, era o eixo obrigado de todos os movimentos psichologicos, o
centro em torno do qual girava e se consumia toda a sua actividade. Ver
aquillo que seus paes haviam visto, e s isso, era como viver ainda em
espirito para elles e no meio d'elles, prolongar pela propria existencia
a d'aquelles entes queridos que tinham constituido a familia, e haviam
desapparecido j. Todas as folgas de meu pae passavam-se no Douro, n'uma
quinta dos seus maiores, contemplando as arvores que elles tinham
mandado plantar, colhendo os fructos dos pomares que elles haviam
disposto. Concluidas as colheitas, voltava alegre e tranquillo  sua
clinica portuense, tratando dedicadamente os seus doentes que conhecia
ha longos annos, e que iam envelhecendo tanto como elle: os seus doentes
de _partido_. Tinha extremos de paciencia para os escutar, para os
attender, e muitas vezes o ouvi descrer da efficacia da sciencia que
exercia, quando os no podia salvar. Havia no Passeio da Cordoaria um
major reformado que era um verdadeiro _doente de scisma_, o protagonista
bondoso de uma comedia molieresca, que se repetia todos os dias.

--Estou a morrer. Vo-me chamar o dr. Pimentel.

O medico, estivesse ou no entretido com o seu to querido voltarete,
dava-se pressa em acudir  chamada.

--No, meu caro major, o senhor no vae d'esta. Palavra de honra que no
vae. Somos amigos antigos: pde acreditar-me. Coma a sua asinha de
frango, tome a sua chavena de ch preto, deite-se descansado e durma.

No dia seguinte a mesma scena.

Ahi por 1880 fui ao Porto visitar meu pae. Saimos juntos uma tarde, e
elle pediu-me que o ficasse esperando no Jardim da Cordoaria.

--Vae ver o major? perguntei-lhe.

--Vou.

--Mas elle mandou-o chamar?

--No, respondeu meu pae com tristeza. Agora sou eu que vou de motu
proprio: o pobre major no dura oito dias, mas, felizmente para elle, j
no scisma na sua doena.

Quando eu estive no Porto a semana passada, todas as velhas e lazaras
dos recolhimentos das Fontainhas, de que meu pae fra por largos annos
clinico, mandavam saber d'elle.

Achei commovente este testemunho de gratido, mas no era difficil
encontrar-lhe a causa: meu pae tratava-as carinhosamente.

Assisti algumas vezes s suas visitas aos asilos.

--De que se queixa? perguntava o medico a uma nonagenaria.

--Dres... Afflices... Eu sei l!...

--Sei eu, respondia sorrindo o facultativo. Eu tenho isso mesmo.

--Tem?!

--Sim... tenho quasi a sua edade:  a nossa doena. Pois, minha boa
doentinha, tome um chsinho de erva cidreira, que lhe ha de fazer bem ao
estomago. Ver que passa a noite bem. Para as nossas edades no ha
outro remedio: a velhice no se cura. Deitar grandes remendos n'um
predio velho  perder tempo e trabalho. Vamos assim amparando as nossas
ruinas com paciencia e tranquillidade. manh venho vel-a, e hei de
achal-a mais socegada.

 incalculavel o numero de autopsias que meu pae fez como medico
forense. Quando eu e meus irmos eramos pequenos, embirravamos muito de
que meu pae viesse para casa cheirando a vinagre aromatico: j sabiamos
que tinha estado retalhando um cadaver.

Elle ria-se dos nossos engulhos, mettia-nos jovialmente  galhofa, e
dizia-nos que puzessemos os olhos no seu bom appetite.

S uma vez,  volta de uma autopsia, o vi chegar menos alegre. Mandou
inutilisar parte do fato com que tinha saido, para obstar ao contagio do
dipheterismo.

Apenas dou conta de o ver doente uma vez, era eu creana; cuido que
havia sido atacado de ictericia negra, com graves complicaes. Os
collegas fizeram-lhe conferencia: acharam-n'o perigoso. Meu pae, que
teve sempre uma grande agudeza de ouvido, escutou o prognostico que
elles fizeram, e logo que sairam, disse a minha me:

--Est-me appetecendo uma chavena de ch e uma torrada.

--Pelo amor de Deus! Isso no!

--Morra Martha, morra farta. Venha o ch e a torrada.

Como a sentena era de morte, no o quizeram excitar, contrariando-o.
D'ahi a oito dias levantava-se do leito.

--Ns sabemos sempre muito, dizia elle, mas o doente sabe sempre mais.

Esta descrena ironica pela sciencia que exercia era quasi sempre
manifesto nas suas apreciaes medicas; uma pontinha de scepticismo
fazia-o desdenhar do seu diploma, que principira a conquistar aos
17 annos, em 1825, quando entrou na Escola Medica.

Este homem de animo forte e tranquillo via aproximar-se a morte com
heroica serenidade. Era o declinar de um bom. Como eu, sem grande
esforo, o pudesse voltar no leito, elle disse-me placidamente do fundo
da sua lethargia:

--Isto  quasi um cadaver.

Mas, para desviar este pensamento triste, disse-me logo em seguida
palavras de carinhosa ternura, que eu no pude agradecer suffocado pelas
lagrimas.

Do medico, do homem alegre e sereno, restava nos ultimos dias um corpo
devorado por dres lancinantes, que elle indicava levando a mo ao
peito. E, na sua dolorosa agonia, dissera para minhas irms com voz
entrecortada e difficil:

--Rezem.

Era a sua boa alma triumphando, ainda serenamente, do corpo que se
esphacelava.

Eu poderia escrever uma larga biographia d'esse querido octogenario que,
sem ambies nem invejas, parecia no ter biographia. Mas o leitor
comprehende que estou fazendo sangrar o corao a cada golpe de penna. O
sacrificio tem sido superior s minhas foras. Mas o corao, posto que
dilacerado, no me permittia que, escrevendo de tantos homens a cuja
memoria devo a homenagem da minha saudade, deixasse de falar d'aquelle
cujo sangue corre nas minhas veias, o mais dedicado, e tambem o mais
amado, de todos elles.


Junho de 1889.

      *      *      *      *      *




III

Alexandre Herculano


Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais notavel historiador
portuguez do nosso seculo. Avistei-me com Alexandre Herculano em 1874, e
d'essa entrevista deixei memoria no livro que se intitula _O capote do
sr. Braz_. Quando o eminente escriptor morreu, tentei traar o seu
perfil litterario n'outro livro, que ento publiquei, _O Porto por fra
e por dentro_.

Hoje, porm, desejo apenas procurar na colossal individualidade de
Herculano um outro aspecto, que alis tem sido pouco explorado: a sua
ephemera vida politica. Mas quer-me parecer que esta pagina, que
acrescento agora  biographia do grande historiador, poder conter
elementos no de todo inuteis para quem houver de escrever um dia,
definitivamente, a monographia completa da sua brilhante existencia.

Alexandre Herculano padecera as contrariedades da guerra civil, emigrra
na onda dos liberaes que fugiram ao triangulo do patibulo, e voltra com
D. Pedro a Portugal.

Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser um dos primeiros
homens politicos do constitucionalismo, se no fossem naturalmente
subjugados por uma organisao de poeta, com todas as qualidades e os
defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam exhibir no
forum, no parlamento ou nos conselhos da cora, quando no tem, como
Herculano teve, a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada
passo os contraria e azda.

Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante a sua ephemera vida
politica, de ser um poeta, no sentido elevado d'esta palavra, um poeta
cujos naturaes caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel s
conveniencias partidarias, s manobras do parlamento e s intrigas de
gabinete.

Elle proprio o confessa quando diz: Entre os soldados de D. Pedro havia
poetas: militava comnosco o auctor de _D. Branca_, do _Cames_, de _Joo
Minino_; o sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os
ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil do
Mindello, no tiveram um cantor: _e apenas eu, o mais obscuro de todos,
salvei em minha humilde prosa, uma diminuta poro de tanta riqueza
poetica_.

_A Voz do propheta_, um dos seus mais notaveis escriptos politicos, no
 seno um grito lancinante de poeta contra a revoluo de 1836; a
colera sublime de um poeta da _Carta_, deixem-me dizer assim; de um
corao delicado que via ligada  memoria da _Carta_ a recordao dos
seus melhores dias de soffrimento, de lucta e de esperana.

A carta, escrevia elle em 1867, fra como a estrella polar da esperana
nos dias, to longos, da fome, da nudez, das tempestades, do desalento.
_Vivia depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi
dolorosa saudade, que ns os velhos ainda sentimos, mas que ser
provavelmente uma cousa inintelligivel para as geraes novas._

Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto de vista
exclusivamente politico dos homens que procuravam assaltar o poder,
fazendo a revoluo ou defendendo a _Carta_, d'esses homens que
accentuavam agora em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham
principiado a separal-os na emigrao, collocava-se no ponto de vista
desambicioso e romantico do homem que sustenta uma causa pelo estimulo
sincero da sua propria convico e da sua propria f n'essa causa.

Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente, faamos-lhe essa
justia, que estava ali um litterato eminente, um espirito superior, mas
que aquelle homem no _fazia sombra_ a ninguem como politico.

No tinha corao, nem consciencia, nem caracter para isso. Era um
teimoso honrado, um pensador insubmisso. E se Alexandre Herculano entrou
em 1840 no parlamento foi o homem de lettras que levou pela mo o deputado.

Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico amavel de salo,
escrevia cartas sobre cartas para o Porto, a Jos Gomes Monteiro, que
nada valia como politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleio por
aquella cidade, bero de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se em
pleno parlamento, logo que ali entrou, de que no fizera um pedido, de
que no escrevera uma carta para obter o diploma de deputado.

Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus companheiros de
emigrao, poria o fito em escalar o parlamento, fosse como fosse. O
caso era entrar, para _chegar_. Mas ao passo que Garrett comprehendia
isso, Herculano no o comprehendia assim. Por isso Garrett chegou a
ministro, e Herculano abandonou a vida politica.

Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que principiou a 26 de
maio de 1840, Alexandre Herculano usou pela primeira vez da palavra, na
discusso da resposta ao discurso da cora, em sesso de 6 de julho.

_O sr. Alexandre Herculano_--Sr. presidente, erguendo-me para dar a
minha opinio sobre as graves questes que se tem ventilado n'esta
camara, eu, deputado at aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito
passo que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas cadeiras, para
obter a qual _ninguem ousar dizer que eu gastasse uma rogativa, uma
carta, ou uma palavra_; n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam,
sem se lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em instrumento
de martyrio, se no as queremos tornar recordao de remorsos, que nos
acompanhe por todo o resto da vida.

 esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos do corao, e as
convices do entendimento, que me cumpria fazer hoje, tendo de censurar
o ministerio, no qual ha um homem a quem devo grandes obrigaes, e mais
que obrigaes; antiga amisade. Se alguns servios eu fizer n'esta
camara  minha patria, que ella no m'o agradea; mas agradea-me o
sacrificio que hoje lhe fao do mais santo dos affectos humanos, a boa e
leal amisade. (_Grande atteno_).

Da exposio do illustre deputado o sr. J. A. de Magalhes, vi eu (e
ainda vejo, porque as razes dos srs. ministros que j fallaram, me no
satisfizeram) que o governo tem deixado peiorar a situao das nossas
relaes estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade do ministro
ultimamente encarregado d'este ramo de administrao? Esqueceria elle o
bem do paiz para s curar que das mos lhe no cahisse esse pomo do bem
e do mal, to tentador, e formoso, chamado a pasta de um ministerio?
Ser culpa d'um ou de todos? No o sei; o que m'importa  o facto para o
haver de censurar como devo: visto que os meus constituintes me mandaram
para este logar.

Mas esta censura no cahe s sobre o ministerio actual: cahe tambem
sobre o que o precedeu; porque se no tempo d'aquelle houve descuido (ao
que parece) sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha
havido tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo.

E recordo-me hoje do que ha muito  passado, porque sobre os homens da
minha crena politica se lanaram crueis accusaes de falta de
patriotismo; porque eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos
jornaes que advogam a causa da revoluo permanente, asselladas com o
ferrete de lista ingleza.


Muitas passagens d'este discurso foram vivamente applaudidas.

Citaremos as seguintes:


Nem os homens da revoluo quizeram vender Portugal  Frana; nem o
partido cartista o quiz vender  Inglaterra; nem nenhum ministerio
passado, presente, ou futuro, o vendeu ou o vender a ninguem.
(_Vivissimos apoiados_).

E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nao se ergueria como um s homem,
e esmagaria os infames que atraioassem a terra da sua infancia; que
chamassem os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas que cobrem
as cinzas dos nossos paes! (_Muitos apoiados_).

Depois ns iriamos afiar as armas nas campas dos valentes
d'Aljubarrota; e pelejariamos at o ultimo de ns cahir moribundo pela
independencia nacional!

Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em ess'outras sentam-se
homens, que juntos combateram nas linhas do Porto; juntos velaram noites
longas e dolorosas; juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos
olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes desacompanhado de
esperana, sem que nunca se vissem uns aos outros enfiar ou tremer; sem
que nunca imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse os seus
companheiros d'armas. Como  possivel que hoje irmos reneguem da
confiana em seus irmos? Penhor do procedimento presente seja o
procedimento passado. Qual de ns pertenceria a um partido que no
tivesse por bandeira--_independencia e liberdade_? (Vozes: _Muito bem,
muito bem_).


Este discurso de estreia revela o homem de lettras _depays_ no
parlamento.  um academico que fala, encadernando em bons periodos
litterarios uma alma delicada de poeta, que sinceramente presta culto 
terra em que nasceu e  amizade que o liga a um dos ministros. Nada faz
suppr n'este discurso que esteja ali o argumentador capcioso e sophista
que haja de entrar em todos os debates da politica apaixonada, em todos
os incidentes facciosos e obstruccionistas, o _rabula_, o furo da
politica.

Rodrigo da Fonseca Magalhes, a raposa astuta, conhecia bem Herculano,
sabia por onde havia de dirigir-se para lisonjear o homem de lettras.
Por isso comparou-o a Lamartine, um grande escriptor, tambem poeta da
politica, e falou ao corao de Herculano a linguagem affectuosa da
amizade. Procurou rendel-o tocando todas as fibras mais sensiveis e
impressionaveis da organisao de um homem de lettras que tinha, sob um
feitio s vezes aspero, um corao de ouro.

Foi pois o ministro do reino que se levantou para responder por parte do
governo.

Comeou por prestar calorosa homenagem ao talento e ao caracter de
Herculano.

Sr. presidente, disse elle, principiarei por dar os parabens ao nobre
deputado, que acaba de falar, pelo seu primeiro discurso n'esta camara,
que nos promette a honra que tem a camara franceza de possuir monsieur
de Lamartine; sem embargo de que lanou censuras sobre o ministerio a
que eu perteno. Eu sou o amigo a quem o nobre deputado se dirigiu, e
tenho de o contradizer, porque elle quiz persuadir a assembla de
que me devia alguns obsequios: o nobre deputado nenhuns me deve, e pelo
contrario se em algum de ns ha divida, pesa sobre mim. Estou certo de
que as suas palavras sairam do corao, as ideias da sua intelligencia
na questo de que se trata, questo solemne e solemnissima para mim, a
maior em que me tenho visto at agora.

No se enganou Rodrigo da Fonseca Magalhes se, como suppomos, viu em
Alexandre Herculano o homem que, longe de manejar as armas politicas nos
combates de todos os dias, s uma vez por outra havia de tomar a palavra
em assumptos que mais ou menos pudessem lisonjear as tendencias do seu
espirito.

Assim aconteceu; a raposa vira bem.

Na sesso de 1 de agosto, Alexandre Herculano, como membro da commisso
de instruco publica, pronunciou algumas palavras sobre o projecto da
jubilao dos professores.

Transcrevemos uma passagem d'esse pequeno discurso:

O homem que ou aquecia as tenazes na inquisio de Evora, ou fazia
cousa similhante est aposentado; e creio que no ha muita justia em um
tal accumular. (Uma voz--E o que tocava os folles do orgam na
Patriarchal!)  por isto, sr. presidente, que eu requeiro que se approve
o parecer da commisso de instruco publica, sobre o direito
d'accumulaes dos professores, e que as commisses respectivas dem o
seu parecer sobre as outras classes, para que a essas a quem a mesma
accumulao competir, se torne extensiva a disposio d'esta lei.

Na sesso de 11 de agosto, Alexandre Herculano tornava a falar sobre o
mesmo assumpto, e dizia:

Eu entendo que a raso da lei dar o direito de accumulao aos
professores,  porque estes professores durante 20, 25, 30 annos de
servio accumularam na mo do Estado um capital productivo. Por exemplo,
o professor de instruco primaria, converteu um bocado de pedra ou
um bocado de pau n'um homem; um serrenho que desce das montanhas, e vem
para a escola primaria, no dista da animalidade cousa alguma; eu tenho
conhecido alguns, que realmente distam mais de uma creatura humana do
que de uma alimaria: isto  verdade, e o professor de instruco
primaria converte este ente n'um homem, e em um cidado productivo para
a sua patria, o que por certo no seria, se no fosse o cuidado do
professor de instruco primaria. Estes homens passam s escolas
superiores, e vo ser magistrados, e vo ser militares, vo ser
fabricantes e artistas, e emfim occupar todas as posies sociaes,
tornando-se assim productivos, e augmentando a riqueza nacional, que
como todos sabem (porque todos aqui sabem o que  economia politica)
consiste em capitaes accumulados pela intelligencia, e pelo trabalho.
Esses capitaes so os que os professores accumulam nas mos do Estado,
porque elles so a origem primordial d'elles.

Na sesso de 27 de agosto, Alexandre Herculano mandou para a mesa, por
parte da commisso de instruco publica, uma substituio ou antes nova
redaco do projecto de lei, que restituia os professores da academia do
Porto aos seus respectivos logares, de que haviam sido demittidos em
consequencia dos acontecimentos politicos posteriores ao dia 9 de
setembro de 1836.

Na sesso de 21 de setembro discutiu-se o projecto de lei relativo aos
abusos de liberdade de imprensa.

Alexandre Herculano tomou a mo para falar.

 muito saliente esta passagem d'esse seu discurso:

Os abusos d'esta liberdade podem reduzir-se a tres classes--abusos
contra a religio, e a moralidade publica--abusos contra a honra dos
cidados--e abusos contra a segurana do Estado.--Entendo que qualquer
d'estes crimes  gravissimo, e que as penas contra elles devem ser
tambem gravissimas: eu no tinha duvida nenhuma em votar, que o homem
que calumnia um empregado, ou um particular por via da imprensa,
soffresse at um degredo perpetuo para a Africa; e porque? Porque  um
assassino do espirito, da alma, assim como o homem que ataca com um
punhal na estrada,  o assassino do corpo; e eu no distingo entre estes
dois assassinos; no sei se diga, que detesto mais o assassino da alma,
aquelle que me rouba todas as minhas esperanas sociaes. Era aqui, sr.
presidente, que eu desejava todo o rigor da lei; mas no queria nenhuns
embaraos para o exercicio d'uma garantia, que pela constituio tem
todos os cidados; porque, torno a repetir, no tenho a honra de ser
legista, mas entendo, que uma lei que regula no destroe, e eu vejo
destruido este direito para todos os que no tiverem os meios de fazer
este deposito, ou dar esta fiana.

Na sesso de 3 de outubro, discutindo-se o oramento do estado,
Herculano occupou-se da verba destinada  conservao dos monumentos
nacionaes.

Desejava agora saber, disse elle, o que se ha de fazer s com oito
contos, quando para o convento de Mafra vejo que so precisos treze;
isto , s para este edificio; propondo-se agora oito contos para os
reparos de todos os monumentos, pretendia eu saber como ha de o sr.
ministro repartir esse dinheiro? Por tal motivo parece-me mais
conveniente que se espere pela presena do sr. ministro para vermos o
que elle diz a este respeito.

Tornando ainda a usar da palavra na mesma sesso, conformou-se com as
explicaes dadas pela commisso.

No queria eu decerto que estes monumentos se concluissem com o que ns
lhe vamos dar; queria que se reparassem, que se evitasse a sua ruina,
mesmo porque hoje no ha em todo o reino artifices que sejam capazes
de os acabar. Contento-me pois com isto, e muito mais com esta ultima
declarao da commisso; porque ha muitos monumentos que no esto
incluidos no numero d'estes que se chamam monumentos historicos, e posso
citar o castello da Feira que se est arruinando e deitando abaixo, e
pouco a pouco se vae apossando d'elle um sujeito que  dono das terras
visinhas ficando d'aqui a poucos dias perdido para a nao esse primor
d'arte. Muitos outros ha que tem a mesma sorte.

At aqui temos visto apenas o orador desambicioso, que no mira a fins
politicos, que expe parcimoniosamente a sua opinio, at com certa
hesitao algumas vezes, mas sempre impellido por generosos sentimentos;
e atravs do orador parlamentar, que o  sobreposse, descobrimos
perfeitamente o gosto, a predileco, a tendencia do homem de lettras,
que faz a apologia do professor de instruco primaria, o primeiro
cabouqueiro do espirito humano, e dos monumentos historicos, que so a
genuina expresso da arte nacional na serie dos tempos.

Em fevereiro de 1841 discutiu a camara dos deputados a celebre questo
da propriedade litteraria, em que Almeida Garrett to activa parte
tomou, sendo sua a iniciativa do projecto.

Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observaes.

Esta famosa questo, que to discutida tem sido sob o regimen liberal,
veio surprehender Herculano, queremos crl-o, no parlamento. Ella no
tinha passado ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras,
impondo-se profundamente  sua atteno. S onze annos depois foi que
Alexandre Herculano escreveu a celebre carta a Almeida Garrett, e ha
n'essa carta alguns periodos significativos, referentes  discusso de
1841. Diz Herculano a Garrett:

Se, porm, v. ex. quer que por esse facto eu mostrasse seguir as
ideias de v. ex. declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de
mim qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa
provir-me. _Dez annos no passam debalde para a intelligencia humana, e
eu no me envergonho de corrigir e mudar as minhas opinies, porque no
me envergonho de raciocinar e aprender._

Estamos persuadidos de que o debate parlamentar cerca da propriedade
litteraria encontrra Alexandre Herculano sem opinio definida sobre
esse assumpto. Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo
faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos de que o
sistema nervoso de um homem de lettras  s vezes susceptivel, e que os
proprios factos da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica.
Herculano, o irritado contradictor da propriedade litteraria,
reconheceu-a nas transaces honestas que fizera com o seu editor,
reconheceu-a no seu proprio testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros.

Os grandes talentos tem d'estas aberraes nervosas. So o claro-escuro
das suas concepes geniaes.

Espirito que a meditao de uma vida repousada tornra cada vez mais
avesso s promptas solues dos negocios publicos, poeta da solido, mas
sempre poeta, Herculano, desfolhadas as ultimas illuses, aborrecra a
vida publica, e crera pelo parlamento a repugnancia que se deve sentir
por um paiz onde a nostalgia nos acommetteu e pungiu.

Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo circulo de Cintra.
Este circulo, segundo o decreto eleitoral de 1852, dava dois deputados.
Alexandre Herculano saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco de
Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente se notabilisra no
parlamento como _apagador_ encartado. A lenda ridicularisava-o. Disse-se
que Herculano no quizera ir  camara de brao dado com um _apagador_
satirisado. No acceitamos esta verso.  certo que elle renunciou o
logar de deputado, e que a razo adduzida na sua _Carta aos eleitores de
Cintra_, agora reimpressa no II volume dos Opusculos,  pouco menos de
futil.

Essa razo era--_que nenhum circulo eleitoral deve escolher para seu
representante individuo que lhe no pertena_.

Politicamente o argumento  frivolo. Mas foi decerto o primeiro que
Alexandre Herculano pde encontrar para desculpar o seu aborrecimento
por a vida politica, onde sempre estivera, postoque pouco tempo,
contrariado e constrangido.

O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores, do que entre
politicos interesseiros que punham a sua candidatura a ministros.

Na sesso de 13 de agosto d'aquelle anno foi discutido o parecer da
primeira commisso de verificao de poderes acceitando a renuncia do
logar de deputado, para o qual Alexandre Herculano havia sido eleito
pelo circulo 26, sem que chegasse a tomar assento na camara.

O sr. Pegdo propoz a seguinte substituio ao parecer da commisso:

A camara, considerando que a renuncia pedida pelo sr. deputado
Alexandre Herculano no est exacta e rigorosamente no caso da lei,
convida-o a acceitar o logar de deputado.

Entendia o sr. Pegdo que Alexandre Herculano, tendo expendido pela
imprensa as razes da sua renuncia, no julgaria logico mudar da
opinio, mas que a camara podia tiral-o da posio melindrosa em que se
achava, convidando-o a ir occupar o seu logar no parlamento.

Por parte da commisso, o sr. Mello Soares disse que se o sr. Pegdo
tinha em mente fazer o elogio de Alexandre Herculano, a camara estava de
accordo com as suas palavras, _porque o sr. Alexandre Herculano faz
uma poca ao paiz, pelo menos uma poca litteraria_; mas a questo era
outra, havia uma lei a cumprir e uma vontade a respeitar.

A requerimento do sr. Coelho do Amaral, julgou-se a materia discutida, e
o parecer foi approvado.

Os animos generosos e fidalgos saboreiam s vezes com agreste
voluptuosidade o sentimento da resistencia obstinada s correntes
sociaes que em sentido contrario s suas tendencias os solicitam.

Foi o que aconteceu a Alexandre Herculano. Elle cristallisra no seu
aborrecimento pelo mundo politico, pelo scenario avariado do parlamento,
onde se reconhecra inferior aos outros, talvez mesmo a si proprio.

El-rei D. Pedro V, amigo particular do grande historiador, quiz
fazer-lhe mais uma distinco nobiliaria do que dar-lhe um premio
politico: nomeou-o par do reino. Transcrevemos o diploma official da
nomeao, que foi publicado no _Diario do Governo_:


_Ministerio dos negocios do reino_


Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das
Sciencias, antigo deputado da nao portugueza. Eu El-rei vos envio
muito saudar. Tomando em considerao os vossos merecimentos e
qualidades, hei por bem, tendo ouvido o conselho d'Estado, nomear-vos
par do reino, o que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e
effeitos devidos. Escripta no Pao das Necessidades em 17 de maio de
1861.--Rei.--_Marquez de Loul._--Para Alexandre Herculano de Carvalho,
socio effectivo da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da nao
portugueza.


Alexandre Herculano recusou, talvez ainda porque essa merc tinha
resaibos de iguaria politica, para apreciar a qual o seu paladar
estava desde muito tempo embotado.

Habituara-se a depreciar as galas que podem ensanefar, como elle dizia,
o pedestal dos homens politicos. Fizera-se lavrador, quasi misanthropo.
A sua prosa tinha por vezes, quando de longe a longe escrevia, tons
duros de mau humor para com a sociedade.

Recusou a merc regia.

Temos fortes razes para crr que o requerimento em que renunciou o
pariato fomos ns arrancal-o pela primeira vez ao archivo do ministerio
do reino.

Diz assim:

                                                     Illmo. e Exmo. Sr.


Sua Magestade El-Rei, usando das attribuies do poder moderador, Houve
por bem honrar-me com a nomeao de membro da Camara dos Dignos Pares do
Reino. Ser ocioso significar a v. ex. quanto aprecio esta demonstrao
de confianca d'um Soberano, que a historia pde qualificar como a mais
nobre e pura intelligencia que tem resplandecido no throno portuguez, e
que sabe ainda mais obrigar  affeio como homem do que ao respeito
como magistrado supremo.

Mas as condies da humanidade alcanam reis e subditos: reis e subditos
esto sujeitos a fazer apreciaes inexactas ou incompletas. Podem
illudir-se s vezes tomando os impulsos da benevolencia pelas
inspiraes da justia e  possivel que em relao a mim se dsse uma
circumstancia d'essas.

Dsse ou no dsse, o que sei, o que me diz a consciencia com voz
sobradamente intelligivel  que o meu concurso nas deliberaes da
camara dos Dignos Pares do Reino seria inutil, quando no inconveniente.
Dispense-me v. ex. de expr as razes d'esta intima e invencivel
persuaso, razes tristes para mim, e porventura demasiado longas e
tediosas para v. ex.

No creio que faltem em Portugal homens de saber e virtude que
tenham esperana e f. So esses que pdem, sem a temeridade de Ora,
erguer a mo para amparar a arca santa das instituies.  provavel que
saibam fazel-o aquelles que n'esta conjunctura foram tambem honrados com
a confiana da cora.

Queira v. ex. levar a minha escusa de membro da camara dos Dignos Pares
do Reino  presena de Sua Magestade El-Rei, que, acceitando-a
benignamente, ajuntar uma prova mais s muitas que j tenho da sua
inexgotavel indulgencia para comigo.

Deus Guarde a v. ex.--Lisboa, 18 de maio de 1861.--Illmo. e exmo. sr.
Marquez de Loul, ministro e secretario d'estado dos negocios do reino.


                                                       _A. Herculano._


O decreto acceitando a renuncia pedida, tambem, que nos conste, no fra
integralmente publicado no _Diario do Governo_, posto que a elle se
alluda em outro diploma official.

Attendendo ao que me representou Alexandre Herculano de Carvalho, socio
effectivo da Academia Real das Sciencias, Hei por bem acceitar a
renuncia por elle feita nas Minhas Reaes Mos da Dignidade de Par do
Reino, a que fra elevado por Carta Regia de 17 de maio proximo findo. O
Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Reino assim o tenha
entendido e faa executar. Pao das Necessidades em 4 de junho de
1861.--Rei.--_Marquez de Loul_.

Do mesmo modo no foi publicada a portaria que acompanhou a remessa do
decreto real.

Para Alexandre Herculano de Carvalho:

Manda Sua Magestade El-Rei pela Secretaria d'Estado dos Negocios do
Reino, remetter a Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da
Academia Real das Sciencias, para seu conhecimento, a inclusa copia
authentica do decreto de 4 de junho corrente, pelo qual Houve por
bem acceitar a renuncia por elle feita nas Reaes Mos do Mesmo Augusto
Senhor, da Dignidade de Par do Reino, a que fra elevado por Carta Regia
de 17 de maio proximo findo, o que na data de hoje se participa  Camara
dos Dignos Pares do Reino. Pao das Necessidades, em 8 de junho de
1861.--_Marquez de Loul_.

O unico documento que encontramos estampado no _Diario do Governo_  o
seguinte aviso da presidencia do conselho de ministros  camara dos pares:


_Ministerio do Reino_


Direco geral da administrao politica--1. repartio--Livro 15 n.
143==Illmo. e Exmo. Sr.--Tenho a honra de participar a V. Ex. para
conhecimento da Camara dos Dignos Pares do Reino, que Sua Magestade
El-Rei, attendendo ao que lhe foi representado pelo conselheiro d'estado
effectivo Joo de Souza Pinto Magalhes, e pelo socio effectivo da
Academia Real das Sciencias Alexandre Herculano de Carvalho, Houve por
bem, por decreto de 4 de junho corrente, acceitar a renuncia, por elles
feita nas Reaes Mos do Mesmo Augusto Senhor, da dignidade de pares do
Reino a que haviam sido elevados por cartas regias de 17 de maio proximo
findo.

Deus Guarde a V. Ex.. Secretaria d'estado dos negocios do Reino, em 8
de junho de 1861.--Illmo. e Exmo. Sr. Presidente da camara dos Dignos
Pares do Reino.--_Marquez de Loul._

As dimenses de uma pequena brochura obrigam-nos a circumscrever este
capitulo, a que poderiamos dar comtudo bem mais amplas propores.

      *      *      *      *      *




IV

Jos Gomes Monteiro


Sparta, que no render culto  mocidade sobrelevava toda a mais Grecia,
foi guiada pela legislao de Licurgo ao respeito da velhice. Facto
verdadeiramente extraordinario! N'uma cidade onde as creanas rachiticas
eram afogadas logo que nasciam, como cidados inuteis, os velhos, to
inuteis para o servio da republica como as creanas votadas  morte,
eram considerados em face da lei dignos do respeito e da estima dos seus
concidados.

Desde o momento em que um paiz entra no caminho do progresso social e na
conquista de um ideal de perfectibilidade, comea a ter pela velhice uma
venerao to carinhosa como delicada. Realmente, offender um velho 
apedrejar uma arvore carregada de fructos. As republicas, como todas as
sociedades, precisam alimentar-se da experiencia dos velhos e do ardor
dos mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina, e a do sol
que se levanta, deslisa toda a existencia da familia e da nao.
Estas duas correntes, em vez de se contrariarem, auxiliam-se, e s vezes
identificam-se de tal modo na harmonia de um grande progresso
intellectual, que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram
n'uma s alma aspirando ao mesmo ideal. Ditosos os paizes onde este
facto se d! Em Frana, por exemplo, Michelet, o velho que morreu moo,
absorvera em si a alma da mocidade, que transparecia nos seus livros
cheia do perfume da primavera, e do colorido _chatoyant_ de tudo quanto
 novo e vigoroso; Victor Hugo, a alma que no envelheceu, conservou na
voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia, que seduz as
imaginaes juvenis, arrastando-as para o mundo das auroras, para as
conquistas da luz. Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, no
ser possivel marcar limites aos progressos de um paiz, mas ser facil
aventar que elle tomar a deanteira a todos os outros para guial-os na
marcha das suas aspiraes sociaes.

Em Portugal--digamos cruamente a verdade--a mocidade habituou-se a
caminhar atirando por cima dos hombros, como Deucalio, pedras contra o
passado. A velhice no tem para as geraes modernas o esplendor
magestoso de um occaso. Os velhos foram uns nescios, dizem os novos.
Garrett, Herculano, Castilho, Jos Gomes Monteiro no desceram ao tumulo
sem ter provado o fel da ingratido. Esta  a verdade. Por muitas vezes,
a mocidade, enfurecida como um iconoclasta, arremetteu contra elles,
procurando abalar s mos ambas o pedestal d'onde j o olhar melancolico
descia a procurar o descanso da sepultura.  triste ter que recordar
estes factos, tanto mais que parece ter havido n'essa enorme
irreverencia o s proposito de derrubar por derrubar. Pois o que nos tem
dado em troca a gerao moderna? Um espirito manifestamente demolidor e
dissolvente domina a sociedade em que vivemos. Tentativas de
reconstruco srias e proveitosas, poucas. Por cada mil alavancas
que revolvem os alicerces do passado, uma s procura alinhar o blocus
faceado na esquadria do novo edificio.

Por minha parte, trabalhador obscuro, no me farei jmais cumplice da
irreverencia dos meus contemporaneos. Tirarei respeitosamente o meu
chapeu para saudar a velhice, sempre que se no degrade a si mesma. E
quando ella assignala a sua passagem com um rastro de luz, eu no tenho
duvida em confessar publicamente, agora e sempre, que dirijo a minha
rota pelo esteiro do seu leme.

Acatando a velhice, julgo estar na consciencia do dever; escrevendo de
Jos Gomes Monteiro, colloco-me justamente dentro das circumstancias
especiaes em que me encontro perante a memoria d'esse que me foi mestre,
amigo, conselheiro, durante um periodo de tempo de mais de dez annos,
talvez.

      *      *      *      *      *

Jos Gomes Monteiro nasceu na cidade do Porto a 2 de maro de 1807.

Aos dezeseis annos de edade matriculou-se em Coimbra nas faculdades de
leis e canones, mas, chegando ao quarto anno do curso, saiu de Portugal
para Inglaterra, talvez por uma poderosa necessidade do seu espirito,
que se sentia asphixiado na atmosphera classica da Universidade, onde
tudo se prendia ainda ao passado pelos los oxidados da tradio
scientifica, e onde comeava a fermentar a discordia politica, que veio
a motivar a emigrao de 1828.

Demorou dois annos em Inglaterra, e foi depois estabelecer residencia em
Hamburgo, onde fez parte da firma commercial Santos & Monteiro, cujos
revezes absorveram ao cabo de algum tempo todas as esperanas de
vida prospera. Este desastre amargurra o corao do homem; mas o
litterato tirra enorme proveito da residencia em paizes onde a cultura
litteraria captivava os espiritos lucidos, ainda quando as mais graves
complicaes da vida positiva os enleavam. No estrangeiro travra
relaes de estreita amizade com Almeida Garrett e com todos os
emigrados que, depois da victoria do partido avanado, foram os
primeiros homens de Portugal; do estrangeiro adquirira um vasto
conhecimento dos principaes idiomas da Europa, que elle manejava com
notavel facilidade, penetrando com o seu espirito profundamente
analitico na estructura intima do vocabulo, d'onde extraia s vezes uma
imprevista luz para a verdadeira interpretao dos textos; no
estrangeiro, onde o suave doer da nostalgia divinisa as memorias da
patria, devotou-se Gomes Monteiro ao estudo dos classicos portuguezes e
foi ento que, encontrando na livraria da Universidade de Gottingen um
exemplar da primeira edio dos _Autos_ de Gil Vicente, pde preparar,
auxiliado por Jos Victorino Barreto Feio, a edio critica das obras do
fundador do theatro portuguez.

Este trabalho, considerado em si mesmo, tem subido valor, no obstante
quaesquer ligeiros senes que possam apontar-se-lhe, e haver sido
realisado em edade incompativel com a madureza de espirito que requerem
os fastidiosos trabalhos de bibliographia. O sr. Theophilo Braga,
escrevendo de Jos Gomes Monteiro no 5. volume da _Revista
Comtemporanea_,[1] dizia a este respeito: O trabalho d'este
livro pertence-lhe todo; a profundidade da sua critica avalia-se pela
introduco com que precedeu a obra. Quando a escreveu era bastante
creana e  talvez por esta circumstancia, que o auctor hoje no lhe
quer dar o alcance, que esse estudo na realidade tem. Como quer que
fosse, era incontestavel o valor das investigaes biographicas a
respeito de Gil Vicente, e da taboa glossaria dos termos antiquados, _o
que tudo com menos fundamento ha sido por alguns attribuido a Barreto
Feio_, escreveu Innocencio Francisco da Silva.[2] Os irmos
Castilhos reproduziram na Bibliotheca portugueza o ensaio biographico da
edio de Hamburgo por _convencidos de que a respeito da vida e obras do
nosso poeta no poderiamos dizer mais nem melhor_. Gomes Monteiro
acceitava a responsabilidade d'aquelle trabalho, e era o primeiro a
reconhecer-lhe as imperfeies, postoque ligeiras, algumas das quaes
estavam corrigidas  penna no exemplar da sua livraria. Mas lancem-se
essas pequenas incorreces  conta da mocidade do auctor, como o sr.
Theophilo Braga indica, e  falta de meios de rigorosa verificao, com
que Jos Gomes Monteiro luctava fra de Portugal.

Se considerarmos, porm, a edio critica das obras de Gil Vicente, e
das obras de Cames, na sua influencia sobre a renascena litteraria de
Portugal, qualquer d'esses trabalhos tem um grandissimo valor, porque em
verdade ambos exerceram poderosa aco no s sobre o proprio espirito
de Gomes Monteiro, mas tambem sobre a collectividade illustrada do nosso
paiz. E, a este respeito, no me dispenso de citar mais um vez o sr.
Theophilo Braga, no seu artigo da _Revista Contemporanea_: Desde que
proferiu este _surge et ambula_, a Allemanha, a Inglaterra, a Frana,
estudaram para de logo o poeta. Tempo depois Garrett escrevia a Gomes
Monteiro dando-lhe parte de um drama _Um auto de Gil Vicente_, com o
qual havia, por uma notavel coincidencia, dar vida ao theatro portuguez,
apresentando-lhe o vulto do seu creador; n'essa carta dizia-lhe que no
sabia a parte que tinha no que acabava de escrever, nem a quem pertencia
a paternidade. A renascena em Portugal deve-se a tres homens:
Garrett, Alexandre Herculano e Jos Gomes Monteiro.

Pela observao profunda dos textos durante a elaborao das edies
criticas de Gil Vicente e Cames, pelas simultaneas investigaes
biographicas que era obrigado a fazer, habituando-se a um uso diuturno
dos processos analiticos, que estavam alis nas condies phisiologicas
do seu temperamento e no caracter germanico que pela sua longa
residencia em Hamburgo assimilra, chegou Gomes Monteiro  resoluo de
reunir subsidios para organisar mais tarde a historia litteraria de
Portugal, que, se tivesse sido levada a cabo, realisaria, pela
consubstanciao com o trabalho de Herculano, depois de concluido, a
historia completa da nossa nacionalidade.

Recolhendo a Portugal, e  terra da sua naturalidade--o Porto--Gomes
Monteiro dedicou a maior parte do tempo  investigao e preparao dos
materiaes necessarios para a historia litteraria. A morosidade com que
na Allemanha se educra a trabalhar pela applicao do criterio
historico, a natural indolencia do seu temperamento, e largas
interrupes devidas a melindres de saude fizeram, porm, que a obra
proseguisse lentamente, e os seus manuscriptos ficassem por sua morte
desatados apenas em memorias preciosas, sem a unidade logica e
chronologica de um corpo de historia.

Portanto, d'essa importantissima tarefa smente ha pequenas amostras
publicadas, e a origem da publicao deve procurar-se sempre nas
instancias de amigos e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi
assim que em 1849 appareceu em opusculo a _Carta ao illmo. sr. Thomaz
Norton sobre a situao da ilha de Venus, e em defeza de Cames contra
uma arguio, que na sua obra intitulada Cosmos, lhe faz o sr.
Alexandre de Humbold_.

N'este trabalho, em que os elementos da these so procurados com
notavel paciencia e lucidissima intuio, Jos Gomes Monteiro sustentou
que a ilha dos Amores no era a de Santa Helena, como alguns opinavam,
nem a de Anchediva, como escrevera Faria e Sousa, nem _fingimento que o
poeta fez_, como dissera Manuel Corra, mas a de Zanzibar, ao norte de
Moambique. Jos Gomes Monteiro baseou em grande parte a sua
argumentao na concordancia das descripes do episodio com as
particularidades do clima, da fauna, da flora, da situao geographica
da ilha de Zanzibar. No ser decerto um trabalho incontestavel,[3]
mas  seguramente notabilissimo, e como prova de um espirito
srio, predisposto para tarefas d'esta natureza, foi respeitosamente
recebido por todo o paiz.

A esse tempo ainda Jos Gomes Monteiro estava na firme resoluo de
trabalhar na realisao da historia litteraria de Portugal. Com effeito,
como a carta a Thomaz Norton revelava, elle poderia ter sido para a
litteratura portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola, Hipp. Taine
para a ingleza, Emilio Burnouf para a grega, etc. Mas, depois, o gravame
dos annos foi crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos
litterarios fizeram descair em aborrecimento. Era preciso, como j
dissemos, que a amizade o reptasse com dedicado empenho, para que
emittisse a sua opinio sobre importantes assumptos de historia
litteraria. De uma d'essas presses amigaveis resultou a publicao do
artigo que a _Revista Peninsular_[4] inseriu cerca da antiga
trova do _Figueiral Figueiredo_, que Jos Gomes Monteiro suppunha
filiada na lenda gallega de _Val-Doncel_.

      *      *      *      *      *

Na carta a Thomaz Norton escrevra Jos Gomes Monteiro em nota  pag. 17:

Aproveitarei esta occasio para dizer... que um dos mais famosos
monumentos d'esta litteratura cavalheiresca, e que to distincto logar
dever ter na historia litteraria do nosso paiz,--o _Amadis de Gaula_--
de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos elementos
historicos de que se compe. Impenetravel at hoje  investigao de
grandes criticos, tem sido considerado como uma _singular excepo_ ao
systema de _decomposio historica_. Eu mostrarei comtudo, em um
trabalho que tenciono publicar brevemente, que o seu maravilhoso, os
seus personagens, os seus episodios, tudo ali  urdido no grande tear da
historia--da historia do seculo XII, o mais rico em aventuras e feitos
d'armas da cavallaria real, de quantos contm os annaes da edade-media.
Ali, dissolvendo as tabulas do _Amadis_ em factos historicos, darei a
mais completa theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos
trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de _Endriago_, a mais
bella concepo de todos os romances de cavallaria, ficar sendo um
exemplo inapreciavel de como o espirito humano frma o mytho, nas edades
primitivas da litteratura.

Gomes Monteiro foi levado  realisao d'este trabalho, que deixou
inedito, pela applicao do mesmo processo que tinha seguido a respeito
da ilha de Venus--o confronto do romance com a historia. S por um
pacientissimo labor poderia encontrar no grande oceano da historia
universal justamente a poca cujos factos capitaes correspondessem aos
episodios do romance. Procurou e achou. _Dissolvendo as fabulas do
AMADIS em factos historicos_, como elle proprio escreveu, pde
localisar a aco do romance no tempo de Ricardo _Corao de Leo_,
enxergando no disfarce da alluso, motivado pelas exigencias da poca,
uma perfeita concordancia historica, e logrou chegar  concluso de que
Vasco de Lobeira no foi o auctor d'essa famosa novella do ciclo
cavalheiresco.

Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era uma edio critica da
_Menina e moa_ de Bernardim Ribeiro, da qual seriam expungidas as
intercalaes apocriphas que andam no livro. Calcule-se o dispendio de
paciencia e perseverana que essa reconstruco custaria ao douto
bibliophilo. Como na edio de Gil Vicente, um estudo biographico sobre
Bernardim Ribeiro e um glossario dos vocabulos antigos completariam a
edio critica da _Menina e moa_.

A vida de S de Miranda fra por Jos Gomes Monteiro laboriosamente
investigada, alcanando extrair das proprias composies do poeta
illaes luminosas e no esperadas. A este respeito, permitta-se-me
dizer que por indicao sua introduzi S de Miranda no romance _Um
conflicto na crte_, baseando-me nos documentos que espontaneamente me
facultou, e que claramente revelavam a interveno do poeta na dramatica
paixo do marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. Foi nas
eclogas _Aleixo_ e _Andrs_ que Jos Gomes Monteiro encontrou a prova
d'essa interveno, de que resultou ser preso S de Miranda como punio
s ousadas alluses que, para desaffrontar o marquez, fizera  perfida
dama. Apraz-me renovar esta declarao que j fiz no segundo volume do
romance. A minha divida para com a memoria de Gomes Monteiro  tamanha,
que no posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.

Alm d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, enchiam as
suas pastas. Lembro-me agora de um extenso artigo a respeito da _Arte de
monteria_, de D. Joo I, e de uma infinidade de apontamentos sobre
varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos os que podiam
servir  elaborao de uma interessante monographia da cidade do Porto.

Mas, j transviados da rigorosa ordem chronologica, temos que retroceder
na biographia de Gomes Monteiro, para completarmos a pequena lista das
suas obras impressas.

Um anno antes da publicao da carta sobre a ilha de Venus, isto , em
1848, deu Jos Gomes Monteiro em volume a traduco de algumas baladas
dos poetas mais populares da Allemanha, sob o titulo de _Eccos da lyra
teutonica_.

Este livro est completamente fra do grande programma dos seus estudos
predilectos, e dos seus trabalhos habituaes. So recordaes da sua vida
na Allemanha, enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente
conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente um poeta, mostrava
que os processos de metrificao lhe eram conhecidos, se bem que em
muitos relanos sacrificasse a correco metrica, a elegancia da frma,
 fidelidade da traduco. Procedendo assim, obedecia simplesmente aos
seus escrupulos de investigador litterario. Queria dar a conhecer ao
nosso paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo a
exactido dos textos, como quem perfeitamente conhecia o justo valor das
palavras, e por elle fazia obra. A sua lealdade de traductor pde ser
confirmada por todos quantos saibam allemo, porque em muitas das
poesias a traduco vem a par do original.

Em 1873, Jos Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice de
Castilho--desaffrontando-a de accusaes que lhe foram feitas--com a
publicao do livro _Os criticos do Fausto do sr. visconde de Castilho_.
Estava j a esse tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma
resvala  sepultura. No obstante, cobrou foras para escrever
rapidamente um livro de 190 paginas, que Camillo Castello Branco e eu
vimos nascer quasi dia a dia. No me admirei do esforo, e a mim proprio
o explicava, sempre que na redaco do _Primeiro de Janeiro_ recebia
um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido n'estes termos: manh, a tal
hora, em casa do Camillo. Jos Gomes Monteiro, replicando com
auctoridade ao azedume com que os criticos de Castilho cairam sobre a
traduco do _Fausto_, lavrava um protesto energico em nome da velhice
desconsiderada, e desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as
maguas intimas que as ingratides de que a vida das lettras est eriada
tinham posto no seu corao. Esse livro era o seu testamento litterario,
resalta d'elle a indignao da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe
de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, e do outro o
respeito da gente moa. N'este caso a velhice morre como os dois
Carvajal, que emprazaram Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a
velhice empraza a mocidade irreflectida a comparecer no tribunal da
Historia. No ha espectaculo mais repugnante do que o d'um mancebo
insultando um ancio benemerito, dizia elle na penultima pagina.  um
parricidio moral de que todo o homem honesto affasta a vista com
horror. A sua alma precisava d'este desafogo--a to pequena distancia
da sepultura. Alexandre Herculano, movido por igual impulso, escrevia,
do fundo da solido de Val-de-Lobos, uma carta de congratulao a Jos
Gomes Monteiro a proposito da publicao dos _Criticos do Fausto_. Essa
carta, era breve, mas profundamente energica. _Nunca as mos lhe doiam_,
dizia o auctor da _Historia de Portugal_ quelle que muitas pessoas
denominavam o _Alexandre Herculano do Porto_.

Depois de um to aguerrido desabafo, a sua alma ficou tranquilla mas
fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, nunca mais escreverei. Vivendo
unicamente de recordaes, parecia esperar serenamente a noite
misteriosa da morte...

Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces, das mais gratas
recordaes da sua vida. O sr. Emilio Biel, do Porto, appellando para os
seus antigos estudos sobre Cames, convidra-o a rever a edio dos
_Lusiadas_, que foi publicada n'aquella cidade por occasio do terceiro
centenario da morte do grande epico. A este nome prestigioso, a alma de
Jos Gomes Monteiro teve ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela
sua preciosa _camoneana_, pondo diante de si as suas excellentes notas
sobre a vida e a obra de Cames, Jos Gomes Monteiro pretendeu encerrar
a sua carreira d'escriptor honrando a memoria do maior poeta que tem
tido Portugal. Esse trabalho  perfeito.  o ultimo raio de luz do seu
espirito, estrella cadente que sulcando a noite da velhice foi
abismar-se na sepultura j aberta para receber o douto bibliophilo.

A 12 de junho de 1879, Jos Gomes Monteiro adormecia na traquillidade
dos mortos.

      *      *      *      *      *

Ligado por antigos laos d'amizade, atados no exilio, a todos os homens
importantes de Portugal, elle poderia ter-se saciado de honras, se fra
um espirito vulgar. Mas at n'isso pensava com o seu Cames. Distinces
litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era socio
correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa e membro de
varias academias estrangeiras. O seu nome apparecia pouco, occultava-se
como elle proprio, e todavia, outros muitos que ajudra a crear com o
seu conselho, com os seus livros, com a sua proteco passavam por
diante d'elle, na pompa do triumpho, sem que o menor assomo de inveja
viesse perturbar-lhe a habitual serenidade de animo.

Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio da sua vasta
livraria. Tinha razo. As livrarias so cidades de mortos, onde os
livros falam como os tumulos. A paz creadora, a meditao tranquilla, o
descanso productivo, esto ali. Os outros amigos vo rareando
dizimados pela morte os contaminados pela ingratido; mas os livros,
amigos inalteraveis, no faltam nem atraioam. Na saude ou na doena, no
trabalho ou no ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu
silencio, so sempre uma companhia, uma guarda, uma fora. O velho
Castilho tinha o seu leito entre elles. No os via, mas sentia-os. No
tinha olhos para os procurar, mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes
me pareceu que elles lhe diziam quando os buscava: Procuras-me? Aqui
estou. Como no vs; ajudo-te. Entre elles morreu. O seu cadaver
depositado na livraria parecia escutar, na concentrao placida dos
cegos, o que Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio
eterno dos livros.

A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrpole immensa. A antiguidade
tinha ali, fechados em pergaminho, os seus thesouros classicos. A
renascena enfileirava os seus volumes em linha de batalha. A um lado, a
Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro lado, Roma, a Grecia
italiana, pendurava as suas liras coroadas de mirtho e louro. Os paizes
do norte da Europa combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos dos
seus climas. O occidente punha os seus trovadores a par dos seus
cavalleiros. A central Allemanha entoava as suas baladas vaporosas como
o vu azul do seu Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um bero de luz
os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus codigos religiosos e
austeros.

--Aqui ha tudo! dizia muitas vezes Jos Gomes Monteiro com certa alegria
lisonjeada, a todos quantos lhe perguntavam se possuia este ou aquelle
livro.

Bibliophilo por vocao, ele tinha o grande defeito dos bibliophilos: a
avareza. Os seus livros pareciam-se n'isto com as flores, que pertencem
principalmente a quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe de
ser aspirado pelos estranhos.

    [1] Pag. 236.

    [2] _Diccionario bibliographico portuguez_, vol. 4., pag. 363.

    [3] O sr. conde de Ficalho contradictou na _Flora dos Lusiadas_, em
    1880, sob o ponto de vista botanico, a assero de Gomes Monteiro,
    mas honra-o dizendo que a sua _carta_ contm, na parte
    exclusivamente litteraria, apreciaes justas e novas.

    [4] Vol. 2., pag. 401.

      *      *      *      *      *




V

No parlamento


Em Janeiro de 1882 entrei na camara dos deputados, eleito por um circulo
do districto de Vizeu.

A minha eleio no pesou na balana dos destinos politicos de Portugal,
e muito menos da Europa. Os fundos no subiram nem desceram. Mas, em
compensao, a minha eleio apresentra tres aspectos completamente novos:

1.--O circulo conhecia-me.

2.--Eu conhecia o circulo.

3.--No foi preciso, para que eu viesse a S. Bento, derramar-se o
sangue de ninguem--nem mesmo de um carneiro.

A minha eleio foi feita o menos carneirocombatatasmente possivel. Nada
d'isso. E o mesmo circulo, que me elegeu facilmente, porque me conhecia
desde pequeno, deixou de me eleger dois annos depois com igual facilidade.

A gratido dos circulos  uma coisa bicuda.

O sr. Barjona de Freitas fizera um filasterio politico dando de mo
beijada o circulo de Sinfes a um candidato progressista. E os fundos,
por este facto, tambem no subiram nem desceram. A substituio de
deputado por deputado operou-se, com grande proveito do partido
regenerador, sem agitar a politica da Europa.

N'um livro de memorias, que abrange vinte annos da minha vida, julgo-me
obrigado a falar dos dois em que passei pelo parlamento. D'outro modo a
coisa no valeria chronica.

Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal era auxiliar lealmente
a politica do meu partido, sem deixar comtudo de prestar algum servio
s lettras portuguezas, que indirectamente me tinham levado l.

Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de minha iniciativa,
estabelecendo a leitura nocturna nas bibliotheca publicas, do que
aquelle que seria preciso para me fazer visconde. O projecto passou,
graas  minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso avaliar
por dados estatisticos, hoje mesmo publicados n'um jornal, que no perdi
o meu tempo.

No mez de outubro proximo findo, concorreram  bibliotheca nacional de
Lisboa 2:586 leitores, assim divididos:

_Leitura diurna_: leitores, 1:092; volumes impressos, 2:061;
manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros, 6.

_Leitura nocturna_: leitores, 1:494; volumes impressos, 2:482;
manuscriptos, 31.

O numero dos leitores nocturnos  j excedente ao dos leitores diurnos,
o que prova que a lei no foi inteiramente inutil aos que n'este paiz
gostam ou precisam de ler.

Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura, campees
experimentados e insignes. A minha humilde e desauctorisada palavra no
se tornava precisa. Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas quando
careci de justificar o meu voto.

Da pequena bagagem que deixei depositada no _Diario dos sesses_
escolherei um unico discurso, no s para comprovar o que deixo dito,
mas tambem porque o assumpto era de geito a tentar as predileces de um
homem que, at dentro da politica, estima os assumptos historicos.

Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento do marquez de Pombal.

Eu tive ento occasio de dizer as seguintes palavras:

_O sr. Alberto Pimentel_:--Cumprindo as disposies do regimento,
comeo por ler a minha proposta.

(_Leu_).

A camara tem ouvido benevolamente consideraes, se no diametralmente
oppostas, pelo menos um tanto contradictorias, e espero que ella me
dispensar igual benevolencia, por mais excepcionaes que lhe paream,
sobre este assumpto, as minhas opinies.

Devo comear por dizer a v. ex. que no tenho um grande enthusiasmo
pelo centenario do marquez de Pombal; em minha consciencia, e s em nome
d'ella falo aqui, porque tenho direito de falar, acho ainda muitissimo
cedo para qualquer solemnidade publica, para qualquer demonstrao de
applauso nacional em honra de Sebastio Jos de Carvalho e Mello.

A iniciativa partiu da mocidade academica, e ainda que tenho uma
profunda estima por todas as iniciativas que partem do corao ardente
da gente moa, ainda que me sinto impellido para acceitar todos os
pensamentos em que palpita exuberantemente a seiva da idade juvenil, no
devo esquecer que os academicos so moos e que as idas da mocidade so
quasi sempre flores e no fructos.

Uma primavera carregada de fructos seria um phenomeno to extraordioario
na natureza como na sociedade. Ns, os legisladores, temos obrigao de
ser menos apaixonados, e menos enthusiastas do que a mocidade. A
reflexo  uma velhice precoce, e ns devemos tel-a.

Eu entendo, sr. presidente, que se os mortos passam depressa, muitas
vezes, para a nossa saudade, se desapparecem rapidamente na sua balada
phantastica, caminho da eternidade, os legisladores vo de vagar,
vergados ao peso das suas proprias responsabilidades, como se lhes
pesasse sobre os hombros o enorme lenho da Historia, que , ao mesmo
tempo, uma cruz  uma glorificao.

E tanto isto  verdade, que eu entendo que as responsabilidades
politicas do marquez de Pombal no esto ainda perfeitamente liquidadas.

Ns ouvimos, na sesso anterior, a palavra enthusiastica, sempre
inspirada e eloquente do sr. Pinheiro Chagas, defendendo brilhantemente
a causa do centenario.

Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citao do sr. Pinheiro Chagas a
respeito de um dos actos mais importantes da vida do marquez de Pombal.

Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos conspiradores
contra D. Jos I.

A este respeito citarei a v. ex. e  camara duas auctoridades, ambas
contemporaneas, para provar a minha assero de que as responsabilidades
politicas do marquez de Pombal no me parecem inteiramente liquidadas
ainda.

Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos:

_Nos dominios severos da historia ainda no passou em julgado_ nem a
sentena que condemnou a perpetua infamia o nome dos Tavoras, nem a que
depois pretendeu lavar de qualquer mancha a memoria de to numerosa e
esclarecida familia. No nos cabe apreciar a sanguinolenta catastrophe
de Janeiro de 1759. Basta-nos recordar que as duas filhas do marquez de
Alorna, uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes longo e
triste captiveiro, attenuado unicamente pela consolao de viverem
com a me, mitigando-lhe as amarguras da sorte, e recebendo com os
carinhos e desvelos a educao maternal.

No citarei s a opinio do sr. Teixeira de Vasconcellos, cuja perda
todos lastimamos, e eu mais que ninguem; citarei tambem a propria
opinio do sr. Pinheiro Chagas, que sinto no ver presente, e que to
enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica de nacional.

Temos agora a notar que morreram innocentes, ou, pelo menos, que no
deviam ser condemnados, _pois que havia falta absoluta de provas_,
alguns dos desgraados de Belem. Parece-nos isso incontestavel, mas _no
sabemos_ se devemos attribuir todas as culpas a Carvalho. _Pesa ainda um
grande mysterio n'esse periodo da nossa historia, e nenhum dos
escriptores que d'elle se occuparam, trouxe a lume todos os documentos
que podessem lanar luz n'este drama tenebroso._

Depois da citao d'estes periodos, arrancados  _Historia de Portugal_,
do sr. Pinheiro Chagas, e que por isso mesmo devem ser insuspeitos 
camara, peo licena para referir um facto, que  um trao anecdotico da
vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito.

Bocage tinha sido recebido em casa de Thom Barbosa de Figueiredo, que
lhe dava a mais cordeal e franca hospitalidade, que lhe fazia
offerecimentos de dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as
condies de bem-estar.

Thom Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado com a co-habitao
de Bocage, e Bocage parecia ter chegado ao ideal da sua felicidade.
Comtudo, uma bella manh, Bocage bateu  porta do quarto do seu amigo, e
disse-lhe que agradecia todos os obsequios que lhe havia proporcionado,
mas que era obrigado a retirar-se.

--Por que? perguntou-lhe Figueiredo.

--Por que conheo os seus defeitos e sinto uma invencivel necessidade de
dizer mal d'elles, e de si.

A respeito de Sebastio Jos de Carvalho e Mello pde dizer-se a mesma
cousa, porque todos aquelles que mais enthusiastas se revelam por elle,
esses mesmos so obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou citar 
camara ainda algumas palavras do meu illustre amigo, o sr. Pinheiro
Chagas, nos seus _Portuguezes illustres_. Cito a obra, para tornar mais
veridica a citao:

Mas o patibulo de Belem, a alada do Porto, a fogueira de Malagrida, o
supplicio atroz de Joo Baptista Pelle, _clamam alto contra o marquez de
Pombal_.

Eis aqui a applicao da anecdota de Bocage. Ella explica, a meu ver,
eloquentemente, o que se est passando n'este momento com relao ao
marquez de Pombal.

Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade academica, o
governo viu por ventura, e principalmente, no marquez de Pombal, o
reformador dos estudos, e propoz uma estatua em sua honra.

 certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas devem ser para
os legisladores, por isso que so frias, austeras como elles.

Para os grandes artistas, para os grandes pintores, para os grandes
poetas, para os grandes oradores e para os generaes victoriosos cuido eu
que devem ser as ruidosas ovaes populares, as solemnes deificaes
publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os arcos de
triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos, n'uma palavra, a
monumental apotheose das ruas e das praas, como ha pouco teve Cames.

Jos Estevo, sr. presidente, est ainda muito mais vivo e completo nos
seus discursos parlamentares, que remurmuram nos eccos saudosos d'esta
casa, do que na estatua fria e severa que se levanta ali fra, em frente
d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra.

Cames  muito maior nos _Lusiadas_ do que na estatua do Loreto.

Mas, emfim, o governo no se furtou  corrente pombalina que partia da
iniciativa particular, academica ou no academica, para se erguer uma
estatua ao marquez de Pombal, e  d'isso que se trata n'este projecto.

O governo foi accusado aqui pelo sr. Pinheiro Chagas de concorrer apenas
com uma simples esmola para a celebrao do centenario. O governo, sr.
presidente, no d to pouco como ao sr. Pinheiro Chagas se afigura, e
eu n'este ponto fui prevenido em grande parte pelo discurso do illustre
deputado sr. Emygdio Navarro, visto que a palavra, por infelicidade
minha, me chegou to tarde.

J aqui se disse que nos nossos arsenaes no havia bronze inutilsado em
quantidade sufficiente para a estatua, porque d'esse metal existiam umas
antigas peas de alma lisa que tem sido ultimamente transformadas em
peas raiadas.

Pde dizer-se que no ha bronze nenhum inutilisado nos arsenaes, e por
isso o governo, por muito pouco que se proponha gastar, no gastar
menos de 6:000$000 ris, justamente n'uma poca em que se est pedindo
ao povo o sacrificio de novos impostos sobre generos alimenticios de
primeira necessidade.

Alem de que, tendo a praa destinada para a collocao da estatua, na
Avenida da Liberdade, um raio de 100 metros,  foroso que a estatua do
marquez de Pombal tenha dimenses iguaes  de Jos I, ou quasi as
mesmas, circumstancia a que no devemos deixar de attender, visto que
somos chegados  parte menos attraente d'esta discusso, o capitulo das
despesas a fazer.

Levantem-se, porm, estatuas, sr. presidente; seja-me comtudo licito
exprimir o desejo de que quem quizer levantar estatuas, as pague.

Sabe v. ex. o que aconteceu ha annos no Porto? Isto a proposito de
estatuas, de monumentos.

Os proprietarios da fabrica de estamparia do Bolho, n'aquella cidade,
tinham um grande culto pelo sr. D. Pedro V, de saudosa memoria. Pois
quando morreu D. Pedro V, a fabrica de estamparia do Bolho, no Porto,
mandou erigir-lhe  sua custa um monumento.

Uma familia de Braga, a familia Cunha Rebello, que tinha igualmente uma
grande venerao por aquelle monarca, mandou levantar-lhe um novo
monumento, sem que se lembrasse de recorrer ao estado, para que a
auxiliasse na realisao do seu emprehendimento.

E ainda ultimamente, no Algarve, se levantou um monumento, creio que a
um medico illustre, por iniciativa particular.

Eu entendo, sr. presidente, que precisamos pr cobro a esta paixo pelos
centenarios e pelos monumentos, que j se vae tornando demasiadamente
extensa.

Quer v. ex. saber o que acontece?

Ns vamos ter centenarios por muitos annos. At ser facil organisar um
kalendario sob esse ponto de vista. Quer v. ex. ver? Eu peo a atteno
da camara...

_Vozes_:--Ouam, ouam.

_O Orador_:--Em 1885 teremos o setimo centenario de Affonso Henriques.

Este vale bem uma festa nacional, creio eu.

Em 1887 teremos o centenario de Jos Anastacio da Cunha, uma das
victimas mais illustres da inquisio em Portugal.

Em 1892 temos o centenario de Luiz Antonio Verney, e  justo celebrar-se
o centenario d'este reformador litterario, tendo-se celebrado o do
marquez de Pombal, que o encarregou de negociaes em Roma para a
abolio da companhia de Jesus.

Em 1895 teremos o centenario de Martinho de Mello e Castro, que
coadjuvou as reformas de Pombal, a quem alis no era affeioado.

Em 1897 teremos o bicentenario do padre Antonio Vieira.

Em 1915 teremos o quarto centenario de Affonso de Albuquerque.

Em 1924 teremos o quarto centenario de Vasco da Gama.

Em 1928 teremos o centenario de Brotero.

Em 1931 o quinto centenario de D. Nuno Alvares Pereira.

Em 1949 o terceiro centenario de Joo Pinto Ribeiro.

Em 1954 teremos o centenario de Garrett.

Em 1960 teremos o quinto centenario do infante D. Henrique.

Em 1977 teremos o quarto centenario de Pedro Nunes, o celebre inventor
do _Nonio_.

Em 1993 teremos o quinto centenario do infante D. Fernando.
(_Vozes_:--Muito bem).

E assim por diante.

Pro por aqui para no abusar da paciencia da camara, e mesmo porque da
continuao d'esta lista espero que algum dia se encarregaro os meus
netos ou os seus filhos...

Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do 24 de julho e disse
que, se ha familias ainda maguadas pela memoria da administrao do
marquez de Pombal, tambem o 24 de julho  uma festa que entristece
profundamente muitas familias portuguezas.

Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D. Pedro IV, por uma
excepo historica, andou mais depressa do que o marquez de Pombal,
cumprindo tambem notar que a ida que o 24 de julho significa recebeu j
a sanco official, porque est traduzida n'uma frma de governo, e eu
no creio que um paiz conserve uma frma de governo que inteiramente lhe
repugna.

No posso affirmar  camara se o dia 8 de maio ir ou no cobrir de luto
muitas familias; mas a prova de que as paixes esto ainda muito vivas e
accesas  que alguns dos conferentes, que se tem occupado do
assumpto do centenario do marquez de Pombal, tem ouvido, por entre o
ruido das ovaes, corajosas demonstraes de desagrado.

Faa-se a festa, em todo o caso, visto que o governo entende no se
dever oppor a ella nem deseja conservar-se indifferente, mas faa-se a
festa com ordem e com moderao.

Estes creio eu que so os votos de toda a camara.

Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha. Mas a estatua, se
no diminue, tambem no augmenta, a meu ver, a gloria do marquez de
Pombal, reformador dos estudos, protector das industrias e restaurador
de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas um acto de
deferencia do governo para com as letras, as industrias e a capital.

O marquez de Pombal vive ainda na universidade de Coimbra, nas fabricas
da Covilh, de Portalegre e em muitas outras; vive nos bellos
arruamentos uniformes da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que a
justia se v fazendo lentamente.

Quando Sebastio Jos de Carvalho e Mello morreu, D. Francisco de Lemos,
que lhe compoz o epitaphio em latim, disse n'elle que a propria academia
lhe no quiz resar um _requiem_; hoje  a academia que lhe quer fazer um
triumpho, embora contestado ainda...

Deixemos passar os seculos, e elles talvez faam o mais.

Disse.

A minha passagem por S. Bento no vale chronica de maior folego.

Rememorei o facto; e mais nada. Cerro por aqui o capitulo. No tenho
pelo parlamento saudades nem desdens. Mas dos homens com quem l convivi
e tratei mais intimamente conservo gratas recordaes, e essas quero-as
deixar archivadas n'este livro.

P. S. Voltei ao parlamento em abril de 1890, eleito por um circulo
do districto do Porto. Tambem d'esta vez no tive que sacrificar
carneiros para voltar. Mas que differena! Os homens so quasi todos os
mesmos de 1882, poucos a morte dizimou; mas os costumes politicos tem
peorado consideravelmente. Ouvi discursos que expludiam como bombas de
dinamite, e na tempestuosa sesso de 15 de setembro vi as opposies,
pondo de parte a eloquencia, levantarem conflictos de mos e ps.  a
melhor maneira que eu encontro para dizer que houve vias de facto, e
pateada. Que differena! que differena!

Decididamente, o maior inimigo do parlamentarismo ... o parlamento.

      *      *      *      *      *




VI

Antonio Rodrigues Sampaio


O maior elogio de Sampaio est precisamente n'esta phrase que todos tem
repetido:  um homem que faz falta. Fazer falta, n'uma poca em que
todos julgam servir para tudo, e uma glorificao.

So a rodo os jornalistas e os politicos; em nenhum tempo houve tantos
como agora. Desde o artigo de fundo at  pasta vae augmentando todos os
dias o formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar para o
poder carregados, como as formigas, com o peculio do seu trabalho ou das
suas honras vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta
conflagrao geral de pretenses e vaidades, os mais egoistas e os mais
vaidosos so os primeiros a confessar que Antonio Rodrigues Sampaio _faz
falta_.

E assim .

Faz falta, porque era um homem superior, tinha o seu logar na imprensa e
na politica, chegou a elle sem pressa e sem impaciencia, no pisou
ninguem, no acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e
quando chegou ao apogeu das honras sociaes j toda a gente o esperava
l, todos reconheciam que devia ahi chegar, e alguns, os mais justos,
estranhavam que no tivesse chegado mais cedo.

Tendo um passado politico, foi ministro depois de o ter. No nosso paiz
isto  raro. Muitos escalam o poder pela trapeira; elle entrou pela
porta da rua, e da primeira vez que foi ministro (1870) no passou do
patamar da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, em lhe
dizendo que l em cima, no primeiro andar, estava a dictadura, haveria
galgado os degraus quatro a quatro, para que se lhe no escapasse a
occasio de ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por
guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, poucos fariam o
que elle fez: pr o chapeu na cabea e sair.

Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se no poder pela
dictadura. Mas de que modo elle havia luctado! Como um forte, um
valente, um athleta; os nossos revolucionarios de hoje so ridiculos se
os medimos com Sampaio. Quanto a ns, essa  a phase mais gloriosa de
toda a sua vida. Com a sua penna e a sua coragem, elle s, deu que fazer
ao governo dos Cabraes. O ministerio empregava todos os meios ao seu
alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. Andavam
aulados os Argus da espionagem ministerial no empenho de farejar o
esconderijo de Sampaio, e, durante quasi um anno, esse jornal, to
perseguido officialmente, apparecia em toda a parte, at dentro das
pastas dos ministros!

Os revolucionarios de hoje seguem um caminho muito mais commodo:
mediante uma estampilha de dois ris e meio fazem-se lr pelas suas
victimas.

Depois da perseguio, da caa ao jornalista por parte do governo,
vieram as tentativas de suborno. Sampaio repelliu-as nobremente.
Appellou-se para a provocao. Sampaio foi reptado: bateu-se em
duello. Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, quando o conde de
Thomar caiu, quando para Sampaio chegra a hora de receber a fria,
recusou ao ministerio Palmella todas as vantagens que este lhe propunha.
D'isto no ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raa de homens foi ha annos
sepultado no cemiterio dos Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua
glorificao:

_Faz falta._

Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando de perto todas as
vaidades irritantes e todas as ambies irritadas, conhecendo bem o
mundo, atravessava-o com a serena philosophia do seu bom humor habitual,
por que o bom humor era n'elle uma philosophia.

O marquez de Caraccioli chamava a isto _gaiet philosophique_, alegria
philosophica; pois seja. Feliz o homem, diz elle, que contente com a
sua sorte e com o seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma
maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle os pesares como
tentaes, e s procura os objectos consoladores.  por um tal sistema
de felicidade que se consegue resistir s impertinencias e aos
soffrimentos, e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica a esse
contentamento da alma, que se no altera nem pelos remorsos, nem pelas
inquietaes. Os _espinhos do poder_! repetia muitas vezes Sampaio,
_isso  apenas uma metaphora_. E tinha razo, porque elle exercia o
cargo de ministro de estado com a mesma alegria philosophica, a mesma
honestidade tranquilla com que exercia todos os outros cargos.
Sentindo-se velho e pesado, apreciava sobremodo o poder andar de trem.
Era, depois de cair, que elle comeava a achar os espinhos da lenda, por
se ver obrigado a passar do trem para o _americano_. Dizia-o muitas
vezes, rindo.

Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam rindo tambem.
_J'ai ri, me voil dsarm._ Rindo, sabia perdoar. Ninguem o podia
tratar de perto sem ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos
homens haver to bondosos, to infantilmente bons. Custava a
comprehender como esse velho placido e alegre, cheio de bonomia e de
serenidade, se transmudava de um momento para o outro no ardente
articulista da _Revoluo de Setembro_, semeando s vezes resentimentos
pessoaes que poderia ter evitado.

De uma vez certo titular _vieille roche_ foi pedir-lhe um favor politico.

--Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por aqui a pedir favores de
chapeu na mo.

--Pois ponha-o na cabea e fale, respondeu Sampaio.

Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia procurou Sampaio
para se oppr ao despacho de um governador civil.

Sampaio respondeu-lhe:

--Meu caro amigo, voc j governa em vinte districtos; consinta ao menos
que o ministro do reino governe n'um.

Eu, que acabava de passar tormentosamente pela vida administrativa,
combati algumas disposies do codigo de 1878 n'um capitulo do livro
intitulado _Viagens  roda do codigo admistrativo_.

Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus apoiavam a minha
candidatura pelo circulo de Sinfes, Sampaio, consultado a esse
respeito, foi  sua bibliotheca buscar o livro e disse com bondosa
tranquillidade:

--Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, mas eu no me
zangarei com elle por causa do circulo. Que venha  camara, e ficaremos
amigos como d'antes.

A minha eleio foi causa indirecta da transferencia de um empregado.
Passados dias, estava eu j eleito, Sampaio mandou-me chamar pelo seu
_correio_.

Fui immediatamente saber o que elle queria.

--Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente Sampaio.

--Por que? perguntei eu muito intrigado.

--Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, que o elegeram,
mandaram de casa mudada um afilhado meu.

--Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso.

--Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que trate de remediar o mal que
est feito. V ter com o ministro F. e combine com elle o remedio.

Assim fiz; assim se fez.

Deve notar-se que Sampaio era ento presidente do conselho de ministros.

Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusaes, e a todas as
injurias.

Pouco antes de morrer andava em discusso accesa com Eduardo Tavares,
que redigia ento as _Instituies_.

Certo dia as _Instituies_ chamaram a Sampaio _pedao d'asno_, com
todas as lettras.

No centro regenerador discutiu-se  noite se Sampaio tambem responderia
a isto ou se deixaria de responder. Eu apostei que responderia. No dia
seguinte corri a ler a _Revoluo de Setembro_. O artigo de Sampaio
principiava assim: O homem das _Instituies_ chamava-nos hontem
_pedao do seu todo_.

Soberbo!

Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se forte na velhice.
_L'homme gai ne vieillit point, et paroit toujours se bien porter_,
observa o marquez de Caraccioli. Os artigos da _Revoluo_ punham bem em
evidencia esta verdade. Sampaio at no ataque era jovial; ria
combatendo. E os seus profundos conhecimentos de latinidade traziam-lhe
 memoria e  mo, a maior parte das vezes, citaes que elle
aproveitava habilmente para acerar a mordacidade com que sabia rir da m
situao em que deixava os adversarios politicos, ou em que elles
proprios se collocavam.

Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito medico, _malgr
lui_. Mas nas suas mos a dictadura foi uma arma completamente
inoffensiva; depois de cobrar os impostos partiu-a, atirou com ella para
o mesmo armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se em dictadura,
e ninguem dava por isso. O dictador Sampaio distraia-se s noites no
Passeio Publico, e dizia como o feroz Sylla ao povo: Lisbonenses, aqui
estou para vos dar conta do sangue derramado. E o povo deixava-o estar.
Sabia que era um homem bom, e ninguem receia a dictadura de um homem bom.

      *      *      *      *      *

No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse:  preciso defender a
monarchia.

Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, deve ser recebida como
um evangelho.

Quando uma ida nos tem preoccupado vivamente o cerebro, at no sonho
nos avassala. O delirio da febre deve ser alguma coisa de nebuloso e de
vago como o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa vida deve
enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, tanto mais apertadas
quanto mais o espirito lucta para desembaraar-se e partir.

Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario da realeza. A
monarchia havia saido ungida, sagrada do baptismo da liberdade. Sampaio
guerreava _ outrance_ o ministerio de 1846, porque entendia que esse
ministerio, apoiando-se na fora e na oppresso, desvirtuava a ida de
liberdade que na Europa progressiva servira de base  reconstruco
monarchica.

Se depois do estabelecimento do regimen constitutional a monarchia se
desprestigiasse prematuramente, seria um sistema perdido, uma frma de
governo apodrecida antes de amadurecer. Como adversario valoroso do
antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas raizes do absolutismo que
tinham ficado ainda arraigadas em derredor do throno constitucional.

Depois da organisao regular dos partidos politicos, Sampaio foi sempre
um monarchico, e muitas vezes atiava a lucta jornalistica entre esses
partidos, porque perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria as
frmas de governo degeneram na tirannia ou na anarchia: ou uma s faco
dispe de todos e de tudo, ou todos governam em tudo. Elle claramente
percebia que a diviso dos partidos  um elemento de fiscalisao e de
estimulo na gerencia dos negocios publicos, e de correco e
aperfeicoamento para o regimen estabelecido.

Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, em interesse da
monarchia. Frequentando o pao, foi sempre um monarchico, nunca foi um
aulico. Para os monarchicos sinceros  esse um justo-meio difficil de
conservar. Elle nunca o ultrapassou.

Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo do conflicto pela
inverso violenta dos principios estabelecidos, pela postergao
desordeira dos direitos sociaes, pelo desacato s leis vigentes do
reino, e pela irreverencia s garantias que o codigo fundamental do
estado concede a todos e a cada um.

Sampaio viveu muito; viu muito.

Ainda teve tempo para vr isto. E como n'esta hora morria, era com essa
ida que sonhava no delirio da febre:  preciso defender a monarchia.

E .

Os campos politicos esto claramente definidos, nitidamente demarcados:
monarchicos a um lado, inimigos da monarchia a outro lado.

Os meios, que os nossos adversarios escolheram, so de sua inteira
responsabilidade: nada temos com isso. Empreguemos ns os nossos,
purifiquemos os nossos costumes politicos, procuremos fazer uma
administrao rigorosa, firmar o credito nacional, velemos  porfia
pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos as nossas escolas e as nossas
industrias, aproveitemos os servios dos homens de boa vontade que nos
offerecem a sua cooperao, e veremos depois quem triumpha.

Mas para que o consigamos  preciso no adormecer: _ preciso defender a
monarchia_.

      *      *      *      *      *




VII

A livraria de Sampaio


No ha nada que me entristea tanto como assistir ao leilo de uma
livraria, e comtudo attraem-me sempre esses espectaculos que me so
dolorosos, e que se repetem em Lisboa quasi todos os dias.

So ordinariamente duas as causas que determinam este genero de leiles:
a pobreza ou a morte. Qualquer d'ellas faz uma profunda impresso a
todos quantos estimam os livros, no para os revender com lucro, mas
para os ler com interesse. Os livreiros de profisso assistem a um
leilo de livros com a indifferena profissional com que um medico
assiste a uma operao cirurgica, e um enfermeiro  agonia de um
moribundo. Esto  vontade, de chapeu na cabea, fumando, commentando na
giria do negocio o que se vae passando em torno d'elles, mas
acompanhando sempre, com um fino olhar de raposa, a appario dos livros
e os movimentos do leiloeiro. E para um lado: _Comprou bem_; para outro
lado: _Comprou mal_; ou, para um espectador que lhe diz:--_Quem
comprou bem foi o senhor_,--como se um livreiro pudesse comprar mal
algum dia: _Acredite que no ganho seno a encadernao._

Trata-se s vezes de um livro, de uma obra que foi por muitos annos
talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo fallido ou fallecido. No a
podia comprar por ser pouco vulgar no mercado ou muito elevado o seu
preo; mas pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a possuiam,
corra todos os alfarrabistas a procural-a, havia muitos annos; fez
porventura um grande, um enorme sacrificio para a comprar, mas
finalmente achou-a, adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria,
mostrava o seu thesouro com orgulho: _Veja l isto! Que me diz a
isto?_--uma edio muito bem conservada, uma verdadeira preciosidade!

Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este mundo, excepto
para os livros. A Victor Cousin emprestaram de uma vez um manuscripto de
Mallebranche. Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser
n'essa occasio ministro da instruco publica em Frana, o dono do
manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. Cousin recusou-se a
restituil-o. Mas o manuscripto foi apenas emprestado, disse o
intermediario; o dono exige-o, tem o seu direito. Sim, respondeu
Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha paixo. Ns c, em
Portugal, tambem temos bibliophilos d'este feitio, que se desculpam com
a sua paixo, e vo ficando com os livros dos outros.

_Livre pret, livre perdu_, diz um proverbio francez. Os proverbios so
filhos da experiencia, e convm por isso respeital-os. Gifanius
respondeu uma vez a Gaspar Schopp, que lhe pedia emprestado um
manuscripto de Simmaco: Pedir-me emprestado o meu Simmaco!  como se me
pedisse emprestada minha mulher!

Uma livraria  um edificio que se constroe lentamente, dia a dia, e a
que o proprio constructor no chega nunca a pr a cupula. Por muito
longa que seja uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca,
que se deixa sempre incompleta no momento em que a vida foge. Se essa
bibliotheca  de livros antigos, se  classica, por muito que o
bibliophilo investigue o passado, no consegue,  fora de canceiras e
dispendios, reconstruir toda a litteratura dos seculos que o
antecederam. Ha sempre um thesouro encanado que elle no pde descobrir,
que no pde achar. Se  moderna,  to precipitado, to febril o
movimento litterario de nossos dias, que no seria possivel acompanhal-o
ainda quando elle se no perdesse de vista um momento.

Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora a hora, com uma
perseverana apaixonada, com um enthusiasmo sempre vivo, com uma f
sempre nova, e muitas vezes, por uma cruel sentena da sorte,
desmoronado pela propria mo d'aquelle que o erigiu, e que primeiro
despedaa o corao antes de derrubar a sua obra querida. Um dia v-se
obrigado a vender os seus livros, a atirar--elle mesmo!--esses volumes,
to amoravelmente guardados e lidos, para as mos mercenarias dos
livreiros--os gatos pingados da bibliographia--que fazem todos os
funeraes das livrarias com a mesma indifferenca com que os outros
arrancam os cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar na
voragem do cemiterio.

Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das grandes desgraas da
vida? Vendei os vossos livros.

Quasi todos os bibliophilos so ciosos dos seus livros; no consentem
que ninguem lhes toque, muitos no querem que ninguem os veja. O cardeal
Passionei tomou para o seu servio um bibliothecario ignorante, e dava a
razo d'isso: A minha bibliotheca  o meu serralho: portanto, fao-a
guardar por um eunuco.

Mas se o bibliophilo se v obrigado a vender os seus livros, a noticia
de todos esses thesouros misteriosos, a revelao de todo o segredo da
sua riqueza litteraria vae ser assoalhada em longos catalogos impressos,
que se espalham de graa, com uma publicidade profana, e esses
proprios thesouros vo ser expostos a um publico de amadores e de
vendilhes, de interessados e de interesseiros, que caem famintamente
sobre elles, que os devoram com o olhar, que os disputam na praa, como
se se tratasse apenas de uma barreg que se offerece ao publico, e se
vende a quem mais der.

At ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que alimentavam o fogo
sagrado do espirito. Com ellas ninguem communicava profanamente. S o
sacerdote d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel,
como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. Mas uma chusma de Clodios
ousados e sacrilegos invade o santuario, desacata-o, profana-o, commette
um sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se Messalinas,
offerecem-se do alto das estantes, com uma crua impudicicia mercantil, 
cupidez daquelles que no duvidam abrir a bolsa para satisfazer um
capricho da sua phantasia.

Mas n'um leilo de livros, que se faz pela morte do seu dono, a
profanao  ainda maior--talvez!

Pensei n'isto durante o leilo da bibliotheca de Antonio Rodrigues de
Sampaio.

Este homem que a posteridade no poder esquecer, comquanto houvesse
nascido obscuro, chegra no seu paiz s mais altas honras politicas,
fra ministro varias vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente
do conselho de ministros.

 porta da sua casa--aquella mesma casa--ordinariamente fechada, batra
muita gente, timidamente, respeitosamente, para solicitar de Sampaio um
favor. Todo o pretendente era introduzido por um criado na saleta, e ahi
esperava, com o corao ancioso, que apparecesse, com o seu grande ar de
bonomia, o velho Sampaio. Elle sabia bem o que era ter comeado de
baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, e,
ordinariamente, no se fazia esperar muito.

Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena porta 
esquerda: era a sua livraria. Estava ali sempre, quasi sempre, de dia. 
noite, recebia os seus intimos, e tomava regaladamente o seu ch, com o
guardanapo ao pescoo, como um bibe, mostrando-se guloso por bolos finos.

Pois desde que o leilo comera, a porta da rua estava aberta de par em
par, escancarada, franca para todos os que passavam, e que subiam 
vontade, falando uns com os outros, rindo, no encontrando criado algum
que lhes tomasse o passo, no vendo em logar nenhum o correio do
ministro do reino, que por tantos annos fez estao n'aquelle
portal--ninguem, nem uma s das pessoas que tambem por tantos annos
habitaram n'aquella casa.

A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, arregaadas; das
antigas alfaias apenas restava o candieiro de cristal. No sitio onde
estivera o piano, entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de
bibliophilos que esperavam o principio do leilo.  porta do
escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a que os livreiros
abancaram. Enquadrada na porta, a ampla figura do pregoeiro, que mascava
um charuto, emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros que
primeiro haviam de ser postos em praa.

N'uma palavra, a morte profanra aquelle recinto que estava, para assim
dizer, impregnado da individualidade de Sampaio. Havia em tudo aquillo
um ar de terrivel devastao; parecia que o vento ardente do deserto
passra por ali resequindo o corao de quantos haviam conhecido
Sampaio. Sentia-se o simoun da morte que, ao passar, derrubara as
alfaias e os livros, muitos dos quaes estavam amontoados no cho...

No havendo catalogo impresso, o publico no sabia o que ia comprar.
Esperava um pouco ao acaso que passasse por diante de si um livro bom;
por isso, quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam
sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em p estendiam
curiosamente o pescoo para ler-lhe o titulo--ao menos.

Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos seus livros.

No leilo, vendeu-se um exemplar dos _Sophismas parlamentares_, de
Bentham, edio de 1840, prefaciada por Elias Regnault. Arrematei-o para
offerecel-o a Julio de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no
ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha traos sinuosos,
rapidamente lanados, denotando certamente que Sampaio estava lendo com
interesse e que, desejando marcar um pensamento original, no queria
retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do que com o lapis;
deixava apenas no papel um rapido signal indicativo para facilitar a busca.

Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por Sampaio.

No prefacio de Regnault esto marginados todos os que se referem ao
poderio politico da imprensa. Por exemplo:  imprensa pertence a
iniciativa;  camara, a sanco;  imprensa, a inveno;  camara, a
realisao. Antigamente, as communas tinham um simples direito de
petio para obter a reparao dos aggravos, hoje, a imprensa  uma
petio perpetua.

No texto, esto sublinhados, alm de outros, estes pensamentos de Bentham:

Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na mesma situao, o que 
velho possue, por esse motivo, mais experiencia do que o novo. Mas entre
duas geraes, posto se chame velha  gerao que precede outra, no se
pde sustentar que tenha mais experiencia do que a que lhe succede.

Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as geraes primeiras, 
cair n'um erro to grosseiro como o de chamar velho a uma creana de bero.

Qual , pois, a sabedoria d'esses tempos denominados velhos?  a
sabedoria dos cabellos brancos? No,  a sabedoria dos moos imberbes.

Um homem morto no tem rivaes, e no faz sombra a ninguem. No se
encontra no caminho com os ambiciosos; e estes, mudando repentinamente
de linguagem, do-se, louvando-o, uns certos ares de justia e
benevolencia, que no lhes custam nada. O respeito pelos mortos
fornece-lhes occasio de satisfazerem o seu odio pelos vivos.

Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram de vez os diabos, os
espectros e os vampiros. A agua benta fez-lhes muito menos mal que a
tinta de imprimir.

Ainda mais alguns aphorismos:

Uma opinio insensata leva a um procedimento insensato; um procedimento
insensato produz crueis desastres; d'esses desastres vem o mais util
ensinamento.

 pois,  loucura dos nossos antepassados, e no ao seu saber, que se
deve pedir conselho; e  por isso que os sophistas invocam sempre a
sabedoria dos velhos.

Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania  absurda; toda a
lei que a si mesma se declara irrevogavel,  perigosa.

Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, no pde durar mais do que
essas circumstancias.

A resistencia no  um direito; o triumpho, sim. Resisti, e Blackstone
vos condemnar; mas triumphae resistindo, e Blackstone vos adorar.

De quantos livros se venderam no leilo Sampaio, um dos mais annotados
era com certeza a _Histoire des origines du gouvernement representatif
en Europe_, de Guizot, edio de 1851. Duas passagens d'esta obra,
sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, que no pude
entender. Mas as sublinhas a lapis so to frequentes, sobretudo em
certas passagens, que chegam a tracejar toda a pagina.

Um dos trechos sublinhados  o que respeita  theoria da soberania:

A ida mais geral, que se pde procurar n'um governo,  a sua theoria
de soberania; isto , a maneira por que elle concebe, colloca, e
attribue o direito de dar e de fazer executar a lei na sociedade.

Ha duas grandes theorias de soberania.

Uma procura-a e colloca-a nas foras reaes que existem sobre a terra,
qualquer que seja a fora: povo, monarcha, ou principaes do povo. Outra
sustenta que a soberania de direito no pde existir na terra, e no
pde ser attribuida a fora alguma, porque no ha fora terrestre que
conhea e queira inalteravelmente a verdade, a razo e a justia, unicas
fontes da soberania de direito, que devem regular a soberania de facto.

A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, seja qual fr a
frma de governo. A segunda combate o poder absoluto sob todas as
frmas, e no reconhece em caso algum a sua legitimidade.

No se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente nos
diversos governos. Ao contrario, misturam-se n'uma certa medida, porque
no ha nada que seja completamente destituido de verdade nem
inteiramente isento de erro. Todavia  sempre uma ou outra que predomina
em cada frma de governo, e que pde ser considerada como seu principio.

A verdadeira theoria da soberania, isto , a illegitimidade radical de
todo o poder absoluto, quaesquer que sejam o seu nome e logar,  o
principio do governo representativo.

O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas por Sampaio 
altamente curioso como elemento critico para a caracterisao historica
do annotador.

No foi, porm, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos apenas lanar no
papel as impresses que nos deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas
ahi ficam expostas com a sinceridade que sempre tivemos para com o
illustre jornalista, e que elle sempre teve para comnosco.

      *      *      *      *      *




VIII

Saraiva de Carvalho[5]


O scenario era triste.

A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma chuvinha miuda, como se
caisse de um crivo, parecia cristalisar em missangas na copa dos chapeus
de feltro, nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos cocheiros
das berlindas. Das arvores do cemiterio dos Prazeres, e da cimalha do
portico, escorriam gottas de agua como lagrimas. O Tejo, visto da
explanada, estava crespo e amarello, erriado de pequenas ondas revltas
e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e concentrada, esperava.
Algumas senhoras erguiam os seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de
orvalho, que se desfaziam e renovavam a cada momento.

Finalmente, a cruz alada appareceu, precedendo duas filas de padres,
cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas pela chuva, sem brilho e sem
consistencia. Atrs, a urna de mogno, que continha os restos mortaes de
Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, n'uma oscillao solemne,
atravs de um silencio lugubre.

Nada mais triste do que o enterro de um homem novo, sobretudo quando
esse homem vivera pelo espirito nas luctas do talento.

A velhice  uma justificao da morte. Ella tem, com effeito, o direito
cruel de matar. Ninguem lhe pergunta por que o fez. Reconhece-se que a
sua misso  extinguir e decompr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se
revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias deixam aps
si uma extensa chronica, cheia de opisodios, de alternativas, de
cambiantes e de anecdotas. Recordal-as,  desviar por momentos a
atteno para um assumpto menos triste do que a morte;  fugir do facto
material do aniquilamento para o mundo pittoresco da imaginao, que se
compraz em reconstruir pocas passadas, em resuscitar homens que j no
existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os actores de
acontecimentos importantes na politica, na litteratura, nas sciencias,
nas artes, na industria, no commercio ou nos sales elegantes da sociedade.

Deante, porm, do cadaver de um homem novo, o espirito encontra n'esse
mesmo espectaculo motivos de sobejo para accusar a morte por ter
invadido os direitos da velhice e por haver, como um tigre,
surprehendido por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. Depois,
os que morrem novos deixam uma pequena biographia, por maior que haja
sido o seu talento e o seu poder.  beira do seu tumulo, todas as
attenes se fixam n'elle; a imaginao no encontra um passado bastante
longo para se demorar reconstruindo-o. De modo que,  fora de olharmos
para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da
sua devastao prematura...

Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e tres annos de idade,
foi tres vezes ministro. No basta isto para o julgarmos velho na
politica, e para imaginarmos que elle tivesse concluido a sua misso de
homem publico. Longe d'isso. Para ns, francamente o dizemos, o seu
periodo de verdadeira gloria comeava apenas, e as suas qualidades de
estadista principiaram a definir-se durante o ultimo dos seus tres
ministerios, porque os dois primeiros foram mais uma contingencia da
politica do que uma conquista por direito.

Alm de que, seriamos injusto se n'um pequeno periodo de nove dias, que
tantos foram aquelles em que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da
fazenda, quizessemos encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo
poder em 1869.

Ento, era Saraiva, como todos os homens da sua idade, um theorico, um
preleccionador, um inexperiente. Vinha do _Gremio Litterario_, onde
mostrra as suas aptides intellectuaes, que eram j ento
incontestaveis. Mas a intelligencia, por mais brilhante que seja,
precisa amadurecer. No ha estufas para o espirito. , pelo contrario,
nas intemperies,  nas mil conflagraes da atmosphera social, que elle
se robustece e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva
de Carvalho comprehendeu que precisava justificar no futuro a posio
honrosa que por nove dias occupra. 1869 era para elle um estimulo, e
uma responsabilidade. E como fosse tambem um homem brioso, deixou-se
dominar pela ida fixa de mostrar ao seu paiz que servia para mais
alguma coisa do que ser ministro por nove dias, e que o marquez de S da
Bandeira no fizera emergir nos conselhos da cora um homem
completamente inutil.

Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de Carvalho pz toda a sua
energia e toda a sua intelligencia ao servio d'este nobre pensamento:
no recuar. Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios
premiaram os seus esforos honrados e justos levando-o de novo ao poder
em 1870.

A politica portugueza estava ento n'um periodo agitado, que tornava
ephemera a vida dos ministerios, e as origens revolucionarias do
movimento popular de 1868 deram s luctas da politica um caracter de
ardor e de enthusiasmo que no era decerto o mais conveniente para
tornar friamente reflexiva a cabea de um homem novo.

Saindo pela segunda vez dos conselhos da cora, Saraiva de Carvalho
conservou ainda por algum tempo todo o afgo que a sua proveniencia
politica explicava, e a sua idade mal sabia reprimir.

Nas pugnas da palavra avanava para a brecha, cheio d'essa coragem que
chega s vezes a parecer precipitao, cheio d'esse ardor indomavel que
no raro se confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando mais
vehemente era nos seus discursos, e houve alguns em que o foi muito, os
seus proprios adversarios reconheciam que elle no usurpava o logar de
ninguem combatendo na primeira linha de atiradores. Ento tinha j
conquistado o seu posto de honra, tinha ganho as suas esporas de
cavalleiro; no era um intruso, um adventicio; achava-se investido do
mais sagrado e do mais glorioso dos direitos--aquelle que o talento
confere.

Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe todavia alguma coisa, a
evoluo por que o espirito dos homens passa quando na arvore da sua
experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mo para
colhel-o.

E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo havia chegado
agora, definitivamente. Voltando ao poder em 1879, occupra-se dos
assumptos da pasta das obras publicas com uma atteno intelligente e
com uma grande perseverana trabalhadora. Debaixo do meu ponto de vista
politico, no posso concordar com alguns dos seus actos; mas no
posso deixar de reconhecer que o seu espirito havia passado por uma
transformao fructuosa e largamente promettedora. Como orador,
comprehendeu profundamente as exigencias da sua posio official, e
modificou-se notavelmente, sobretudo no discurso que como ministro
proferira na camara dos pares.

Saindo novamente dos conselhos da cora, no desmerecera por um s acto
ou por uma s phrase, at nas questes mais apaixonadas que se travaram
no parlamento, a opinio que em torno do seu nome principira a
formar-se, de que seria um dos homens de estado mais notaveis, mais
estudiosos e mais trabalhadores do nosso paiz.

N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou. Amigos e adversarios
protestaram, n'uma tregua lutuosa, contra a usurpao de uma existencia
cuja utilidade todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda, em verdade,
porque perdemos um homem, e deixamos de ter outro. Sempre que a obra de
um homem no est concluida, a sua perda equivale a duas:  um
trabalhador que se ausenta, e que no mais voltar. Faz portanto falta
ao presente e ao futuro.

      *      *      *      *      *

Emquanto alguns oradores discursavam junto ao jazigo de Saraiva de
Carvalho, dizendo provavelmente coisas bellas, mas por certo muito menos
eloquentes do que a imponencia d'aquella grande manifestao funebre
feita por todos os partidos politicos militantes, eu pensava, um pouco
_berc_ pela chuva que principiava a cair mais insistentemente sobre a
copa do meu chapeu n'um rithmo monotono.

No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma illuso, talvez; e,
sob este ponto de vista, no podia achar vocabulo mais expressivo do que
o _bercer_ francez, visto que este verbo significa no s o acto
material de baloiar o bero mas tambem o devanear falsas esperanas.

Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu, bem podiam os partidos
politicos monarchico-liberaes sellar com um juramento sagrado um pacto
solemne.

Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos do paiz andam a
insultar-se quotidianamente nas luctas politicas da imprensa e do
parlamento.

Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se elles a si
proprios. Se se trata de um correligionario, exalam-n'o ao
sete-estrello nas azas d'esse novo Icro chamado o elogio-mutuo; se,
porm, se trata de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de
adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle at o deixar amolgado.

Todos os recem-chegados  imprensa ou ao parlamento conhecem este
defeito da politica portugueza, e protestam candidamente contra elle.
Dias depois, o mangoal dos adversarios comea a escacar violentamente os
ovos de paschoa com que na primeira hora o receberam, e o mais doce
rebuado com que lhe atiram vem sempre embrulhado n'um epitheto to
amavel como _cretino_ ou to gentil como _marinelo_.

Algumas semanas depois, o diapaso vae subindo de intensidade, e o
sujeito apparece chrismado em _tolo_ com todas as lettras, sendo
maiuscula a primeira, para que se veja bem de longe.

Ento, a victima comea a sentir picar-lhe nas carnes a urticao da
colera, arranca a gravata com que entrra na arena, despe a sobrecasaca,
empunha o cacete do seu estilo, e principia a atirar bordoada de cego
sobre os contrarios, como um valento de feira.

E como v ganhando gosto a este exercicio de jogador de pau, j umas
vezes por outras descarrega o fueiro sobre os seus proprios
amigos--por engano,  claro.

Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes podem fazer-se
rapidamente por meio de um _clich_ inalteravel; esto sempre feitos, e
o terem redactores  quasi um luxo.

Referindo-se a um orador governamental, dizem as folhas opposicionistas
no dia seguinte:


_ incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. teve a ousadia de
despejar hontem em pleno parlamento. A verdade andou a pontaps pela
sala, e o orador parecia satisfeito de vr que estava agradando ao
governo que lhe encommendou o sermo, talvez para lh'o no pagar._


Mas os papeis invertem-se, se  uma folha do governo que est apreciando
um orador da opposio:


_A comedia foi bem representada. Como truo, o orador  perfeito.
Fingiu-se indignado, bateu murros sobre a carteira, arremessou ao cho
varios papeis, e entornou pelas costas de um collega o copo de agua. No
fim de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, e lhe atira
com uma posta gorda._


No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, uma pneumonia, um
tipho, uma apoplexia lembram-se de atirar para o cemiterio um homem da
opposio ou um homem do governo.

A mutao de scena  completa, n'este caso.

Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o morto, e quinze
tostes para o acompanhar ao cemiterio. Cada um empunha reverentemente
uma tocha para allumiar o feretro com a mesma mo com que ha dias
empunhava a penna para lhe denegrir a reputao. E quando o prior,
manejando o hissope, borrifa de agua benta o cadaver, no passa pelo
espirito de nenhum dos que ali esto--que lhe fizeram a mesma coisa
com tinta de escrever e lama das ruas.

Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da berlinda, diz-se a
respeito de um ministerial fallecido:

--Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario dedicado, e o
governo no teve coisa nenhuma que lhe dsse!

E a respeito de um opposicionista morto:

--Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou um ministro para lhe
pedir qualquer coisa! Isto  raro hoje em dia...

Dizia com graa um homem politico importante, que se achou de uma vez s
portas da morte:

--Estive to mal, que j os periodicos comeavam a dizer bem de mim!

O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia calcular...

No fim de contas, isto  um paiz de gente honrada. Os ministros saem do
poder insultados e empenhados. Toda a gente deve. Todos padecem dr de
colica no dia em que so obrigados a pagar a renda das casas. Os homens
mais poderosos na politica ficam arruinados com os direitos de uma
gran-cruz, e se teem duas j no podem desentalar-se mais. As
reparties de fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro
quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a maior parte das
familias do paiz ficava arruinada de um dia para o outro.

So rarissimas em Portugal as pessoas que podem adormecer sem que uma
espada de Damocles impenda sobre ellas. A penhora  uma ameaa eterna
n'este paiz. Mas, em compensao, ninguem se desacredita mais do que os
portuguezes, nenhum outro povo parece fazer maior gosto de passar por
deshonesto aos olhos de si mesmo.

Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar por uma doce illuso.
Parece-me que ia dizendo isto...

O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas, um dos seus homens
mais importantes e populares. Era o Sampaio da _Revoluo_. Ninguem mais
apedrejado do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios. Esse
homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se uma enorme manifestao de
respeito.

O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho, um dos seus
mais poderosos esteios. Tambem Saraiva foi muitas vezes aggredido na
imprensa, muitas vezes amesquinhado na sua importancia, que era grande.

Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o vae consumir,
concorreram, n'uma concentrao respeitosa, centenas de pessoas de todas
as parcialidades politicas.

Pois bem. Ahi esto dois tumulos que encerram despojos preciosos para
qualquer dos dois partidos. Era talvez chegada a occasio de sobre elles
fazer um pacto solemne--o de entrar n'uma nova vida politica, de mutuo
respeito, e de mutua hostilidade. Para combater os principios, no 
preciso combater os homens. Deixemos  rua a lama que lhe pertence, e
dmos a Cesar o que  de Cesar, sem que seja preciso darmos a Deus o que
 de Deus, isto , um cadaver.

Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer uma grande perda,
qualquer dos dois partidos chora um correligionario; ambos elles esto
de luto. Morto por morto, tumulo por tumulo, a dr nivela as
circumstancias em que nos achamos.

Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece que a Providencia
quiz tornar mais eloquente a sua lio fazendo que sobre o campo neutro
da morte, sobre o mesmo cho sagrado, regeneradores ajoelhassem deante
de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem perante um tumulo
regenerador.

Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso poderia levantar-se
em honra dos dois mortos illustres.

--Opporiamos programma a programma, tradio a tradio, doutrina a
doutrina, mas quando tentassemos oppr invectiva a invectiva, injuria a
injuria, as flechas disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam
como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os projecteis vibrados do
campo regenerador achariam um bice  sua passagem no tumulo de Saraiva
de Carvalho.

Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor ou vencido,
porque a calumnia no existiria.

N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria direitos: morto
por morto, tumulo por tumulo, as condies eram iguaes.

.........................................................................

Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prgar no deserto!

Dezembro de 1882.[6]

    [5] Foi na camara de 1882 que eu, graas ao feliz acaso de ter
    ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores
    relaes de amizade.

    [6] Ha 26 annos que no deserto clamou em vo a minha ingenuidade
    politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos
    tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de Portugal.
    O que desde ento at hoje 1908 se tem lido, ouvido e...
    visto!--NOTA DA 2. EDIO.

      *      *      *      *      *




    IX


      Fontes Pereira de Mello

A morte vae a pouco e pouco derrubando os homens notaveis de que
primeiro ouvimos falar na sociedade do nosso tempo, os homens cujo nome
primeiro soou a nossos ouvidos desde a infancia.

Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das lettras contemporaneas,
vimol-os fulgir e cair; o marechal Saldanha, esse bravo militar cujo
nome encheu o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de S.
Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho nobilitra at 
ultima grandeza social, vimol-o desapparecer da scena dos vivos; Anselmo
Jos Braamcamp, o successor do duque de Loul na chefatura do partido
progressista, vimol-o passar para o cemiterio ha pouco mais de um anno,
e agora chegou a vez a Fontes Pereira de Mello, o grande, o eminente, o
priveligiado estadista, cujo nome, ainda antes da consagrao da morte,
era j uma gloria nacional.

 por emquanto cedo, e a nossa commoo muito profunda, para fazer
historia. Todavia eu no duvido affirmar desde j que, depois do marquez
de Pombal, no tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes
Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel predecessor.

Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo produz um estadista
como o marquez de Pombal e como Fontes Pereira de Mello.

No so certamente dois reformadores da mesma indole, mas so,
indiscutivelmente, dois grandes reformadores.

O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico, a industria nacional,
animou o commercio portuguez, e, depois do terremoto, refundiu Lisboa.

Passra um seculo, e as circumstancias mudaram, como era natural que
acontecese.

Portugal no fra de novo experimentado, felizmente, por uma segunda
convulso subterranea, mas um terremoto no menos perigoso e devastador
havia abalado a primeira metade d'este seculo: a guerra civil.

Foi depois d'esta vibrao social que Fontes Pereira de Mello appareceu
na scena politica com o movimento chamado da _regenerao_, palavra que
 ainda hoje a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira de
Mello fra at  morte o chefe sempre respeitado e sempre querido.

A industria e o commercio nacional estavam atrophiados; o credito
abalado pelas consequencias da guerra civil; as finanas desorganisadas;
os empregados do estado morriam  fome, porque o thesouro publico, que
devia remuneral-os, no tinha ceitil. Depois da guerra viera a
revoluo, que  como o rescaldo de um grande incendio:  menor virao
que possa soprar, o incendio atea-se de novo. Era preciso apagar as
cinzas que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar a
administrao publica na grande complexidade dos seus elementos
componentes.

Pois bem, essa ardua misso coube a um homem novo, a um rapaz de pouco
mais de trinta annos, o desempenhal-a.

O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens na guerra e para a
guerra, mostrou que tambem sabia conhecel-os na paz e para a paz.

Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das nossas luctas
politicas que descobriu em Fontes Pereira de Mello a individualidade
poderosa de um estadista eminente.

O marechal adivinhra que esse moo elegante, de maneiras distinctas, a
que a rainha D. Maria II chamava o seu ministro janota, havia de
completar pela paz a obra que elle havia comeado pela guerra.

E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio da regenerao,
creando at expressamente para elle uma pasta, a das obras publicas,
pareceu dizer-lhe:

--Um velho, que trabalhou para dar  sociedade portugueza a liberdade a
que ella tem direito, entrega a sua obra nas mos de um homem novo para
que a consolide e complete.

Fontes Pereira de Mello recebeu das mos de um vivo esse nobre legado, e
desde ento, at  ultima hora da sua vida, no fez seno respeital-o e
cumpril-o.

Desde ento Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe a
existencia, trabalhou para enriquecer a patria, para desenvolver todas
as foras vitaes da nao, para fomentar todos os elementos de riqueza
publica, e esse homem, que no fez seno amontoar capital para os
outros, esse homem que enriqueceu o commercio e a industria da sua
terra, esse homem por cujas mos passra a gerencia das receitas do
Estado cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com o nome que
recebra de seus paes, e foi conduzido ao cemiterio no sob a purpura
dos principes, mas apenas com a bandeira portugueza por cobertura do
seu feretro.

Os funeraes de Fontes Pereira de Mello no foram a apotheose official
dos altos funccionarios publicos; foram mais do que isso, e melhor do
que isso, foram a glorificao de um cadaver feita por um povo inteiro
do meio da mais profunda commoo que pde ferir o corao de um paiz.

A espontaneidade do sentimento nacional  a mais invejavel deificao
dos homens illustres. Fontes Pereira de Mello acaba de ter essa
deificao feita de lagrimas, essa grandiosa deificao que no se
recommenda, que no se aconselha, que no se ensina, mas que rebenta do
corao de todas as classes sociaes, como a lava rebenta da cratera de
um vulco, e que explude n'uma grande e profunda erupo de sentimento
ingenuo e sincero.

Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo memorando, que
ficar para sempre gravado na memoria infantil dos nossos filhos, to
imponente, to grandioso elle foi.

Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade portugueza
pelos elevados cargos que o seu merecimento pessoal lhe conquistra, no
vivia todos os dias com as classes inferiores, no era um homem que o
povo visse passar atraves da multido nas ruas da capital.

Mas, o que  melhor, vivia mais no corao do que nos olhos do povo.
Provou-se agora que isto era assim. No obstante as luctas da politica,
que por vezes procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de
Mello, o povo conservava por elle um grande culto de estima e respeito,
o povo comprehendia que aquelle homem trabalhava para a nao, no para
si, e, quando soube que o illustre estadista morrera, ficou gelado de
surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se,
respeitoso e triste, nas ruas por onde o feretro havia de passar,
affluiu, n'uma agglomerao enorme, ao cemiterio onde o cadaver de
Fontes Pereira de Mello repousa para todo o sempre.

E o povo no se enganou pensando que esse preclaro estadista trabalhra
para o povo.

Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro  para o povo que
trabalham.

Poucos estadistas havero tido como Fontes Pereira de Mello mais
confiana no futuro, e se o povo se no enganava, tambem no se enganava
o estadista, porque o futuro ha de lhe dar raso, como, na vida do
campo, os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira e
da cultura.

Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica a semear para
colher, a demolir o passado para construir o futuro.

Elle bem sabia que, mortal como todos os outros homens, no teria tempo
de ver completamente sazonada a messe que to desveladamente semera e
cultivra.

Mas que lhe importava isso? No trabalhava para si, trabalhava para os
outros.

E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho a sua propria saude.

_Parar  morrer._ Eis o lemma glorioso da sua vida politica, eis a
divisa cavalheirosa de toda a sua carreira de estadista.

Foi elle que imprimiu  moderna sociedade portugueza o movimento que
n'este momento historico a vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho
s classes operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do
progresso. Os povos so como as machinas: o que  preciso 
imprimir-lhes movimento para que adquiram velocidade. Depois trabalham
por si mesmos.

Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio dos Prazeres o
cadaver de Fontes Pereira de Mello no irromperam apenas dos labios dos
sacerdotes que tinham ali a desempenhar uma funco liturgica.
Irromperam ao mesmo tempo de todas as regies do paiz, partiram de mil
boccas, eram articulados por mil gargantas differentes: saiam de todas
as fabricas, de todas as officinas, saiam dos teares e das locomotivas,
eram, n'uma palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro do que
ninguem e mais do que ninguem, fomentra em Portugal.

No podia ter mais gloriosos responsos o cadaver de um morto illustre.

      *      *      *      *      *

Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui recebido em sua casa.

Era na rua de S. Bento, em noite de recepo politica. Fontes, de
casaca, viera ao meu encontro, dissera-me palavras amaveis. Perguntou-me
se eu gostava de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o
voltarete.--Mas gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, replicou
Fontes; o meu collega Barjona est jogando, e vale a pena ir vel-o.

Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me que fosse
fazer uma partida de voltarete com o visconde de N. e com o capito de
mar e guerra M. Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com a
minha confisso anterior, insistiu. Foi apresentar-me aos dois
parceiros, que j estavam abancados, e retirou-se.

Nas combinaes preliminares do jogo, tratou-se do preo.

--No sendo caro no diverte, disse o visconde de N.

--Como quizerem, respondeu o capito de mar e guerra M.

Eu vi-me obrigado a obtemperar:

--Estou s ordens de v. exas.

Ento o visconde de N. estipulou que jogariamos a cinco tostes, talha
de roda, duas talhas o que dsse cartas.

Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que sempre fui pobre,
vivia ento com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro
libras incompletas--um acaso que eu reputaria feliz em qualquer outra
occasio.

A preoccupao da situao embaraosa em que me achava collocado
desorientou-me e afugentou a sorte. Quando se serviu o ch, havia
immensas remissas: as minhas deviam orar por quarenta mil ris.

Emquanto os meus dois parceiros tomavam ch, corri as salas, n'uma
grande excitao nervosa,  procura de um amigo. Encontrei-o, felizmente
para mim, e expuz-lhe o embarao em que me encontrava, e que tivera por
origem uma confisso ingenua.

--No se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.[7]

Pegue l a minha bolsa, que est recheada: recebi hoje umas rendas. Nem
eu sei ao certo quanto .

Acabavam os meus parceiros de tomar ch, quando eu voltei  sala do
jogo. Continuamos jogando. A felicidade attrae o dinheiro, como o iman
attrae o ao. Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa do
meu amigo foi para mim um talisman. s duas horas da madrugada, quando
os meus parceiros quizeram, levantei-me do jogo ganhando 32$500 ris.
Nunca esta cifra me esqueceu.

Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao largo do Rato, tomei
pela calada do Salitre, pensando, como certo philosopho, que se a
eloquencia  de prata, o silencio  de oiro. Nunca eu tivesse feito
aquella confisso ingenua de que jogava o voltarete...

 esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, dois _fadistas_
parados. A calada estava deserta. Um d'elles atravessou, de modo que eu
havia de passar entre ambos. Quando o da direita tinha avanado para
mim, assomou no topo da calada uma carruagem, que naturalmente vinha de
casa de Fontes. O homem ainda chegou a perguntar-me que horas eram, mas,
vendo a carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e pedi 
pessoa que ia dentro do trem que me permittisse tomar logar na
almofada.--Aqui dentro, aqui dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma
voz de homem. Agradeci, e subi para a almofada..

E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado o dinheiro alheio,
e o meu! Ah! que noite de torturas que essa foi!

No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci  pessoa que ia
dentro do trem, a qual ainda hoje no sei quem fosse.

Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se muito, e, s
vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, pedia-me que reeditasse a
historia, a que achava graa.

      *      *      *      *      *

De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento para um amigo meu.
Fil-o muito contrariado, por dever de amizade.

Fontes, que era ento ministro da fazenda, poz a luneta, leu o
requerimento, e perguntou-me:

--Tem muito empenho n'isto?

--Tanto, respondi, quanto se pde ter em servir um amigo sincero.

Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me o papel, disse-me:

--V.  um homem novo na politica. Permitta-me um conselho: Estes favores
so uma desgraa para a pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com
a sua vida desequilibrada para sempre. Como  amigo d'elle, avise-o de
que se est infelicitando irremediavelmente.


                                                      Janeiro de 1887.

    [7] Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, j hoje
    fallecido.--NOTA DA 2. EDIO.

      *      *      *      *      *




X

Antonio Augusto de Aguiar


Quem ha que no tenha, umas vezes com fundamentada tristeza, outras
vezes com vaga tristeza--que  talvez o estado mais doloroso da
alma--desejado a morte?

Com razo ou sem ella, porque exageramos as nossas amarguras ou porque
sejam realmente grandes, todos ns temos mais ou menos pensado, com uma
certa caricia da nossa imaginao, na hora suprema em que o corpo ha de
adormecer para sempre e a alma ha de partir para um mundo desconhecido,
que, por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto bem mais
tranquillo do que este...

No creio que haja uma s pessoa, por mais feliz que parea, que no
tenha desejado a morte uma vez sequer.

A felicidade  um dom celeste que parece ter fugido de ns para os
outros, e que os outros dizem sempre que ns possuimos e elles no.

Como dom celeste que , no pde a felicidade aclimar-se na terra.
Ave do azul,  no azul que passa s vezes, mas to alto, to alto, que
se por um momento a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar s de
a haverem acompanhado c de baixo n'uma grande avidez deleitosa...

Esse encanto desfaz-se breve, essa viso encantadora  ephemera, e o que
fica depois  a realidade triste das coisas terrenas, a lucta, a batalha
da vida, sangrenta e contnua, cheia de amarguras e desalentos, para os
quaes a ida da morte  como um doce raio de sol, ambicionado e querido.

Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado a morte, quando ella
passa perto de ns para ir fazer uma victima, quando sentimos o frmito
das suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, quando o
seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um cu
caliginoso, faz-nos horror a morte, pe-nos medo a sua aproximao e a
sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera de misterio e silencio...

Por que no hei de eu dizer francamente que no combate da existencia,
n'esta lucta de todos os dias, cada manh renovada, algumas vezes a ida
da morte me tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade
dolorida? A verdade  essa, e todos me ho de comprehender, porque todos
somos iguaes. Mas a verdade  tambem que ainda esta semana, segunda
feira, eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso que se
chama a Morte, e cuja obra de devastao parece assombrar tanto mais
quanto mais rapida .

Estavamos, no sei quantos--poucos eram--no club da Ericeira. Jogava-se
o voltarete n'uma tranquillidade paradisiaca, como poderia ser a do pae
Ado, antes do peccado, se o voltarete j ento houvesse sido inventado,
e elle o estivesse jogando de quatro, com os seus tres filhos. Uma
senhora ou uma creana tocava piano na sala proxima, esboando apenas a
musica, com uma grande timidez de execuo. O sol, alegre e bom,
entrava docemente pelas janellas, como poeira de oiro finamente coada
atraves de um crivo azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som
aspero do choque das bolas, ou de uma contada do taco sobre o pavimento.
De resto, o mar parecia ter-nos aqui prisioneiros n'uma regio remota,
longe, muito longe de Lisboa--essa grande cidade ruidosa, que dizem ser
feita de marmore e de granito, e banhada por um bello rio portentoso,
mas de que ns, aqui na Ericeira, apenas conservavamos uma vaga
recordao...

Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que tambem acumula a
funco de sala de leitura, o carteiro da villa, com o bon em uma das
mos, a mala de couro na outra.

O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram para o carteiro.

 preciso sar de Lisboa para comprehender bem o interesse que se pde
ter em receber uma carta ou um jornal ainda que s esperemos banalidades.

Era o correio que chegava. Iamos receber noticias de Lisboa, essa
longinqua cidade, de que apenas conservamos a vaga recordao de ser
construida de marmore e de granito e banhada por um bello rio magestoso.

O carteiro comeou a despejar a mala sobre a mesa de leitura: mlhadas
de jornaes--progressistas, regeneradores, republicanos--e algumas
cartas, poucas, sobretudo em relao aos jornaes, que constituem uma
verdadeira alluvio.

E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo para um lado e para o
outro:

--V. ex. hoje no tem nada.

--Aqui esto os seus jornaes.

--V. ex. tem s uma carta.

--Est no correio uma encommenda postal para v. ex.

Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala uma noticia
profundamente dolorosa e inesperada:

--Morreu o Aguiar!

--Quem? O que?!

--Morreu o Aguiar!

--O Antonio Augusto?!

--Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...

E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente o jornal,
procurando os pormenores, lendo e dizendo:

--De repente... de uma _angina pectoris_... ainda ante-hontem saiu...
bem disposto... tinha jantado no _restaurant Rosa Araujo_ com o Luciano
Cordeiro e com outro.

Dizer-lhes quo pungente foi a impresso d'esse momento de tanta
surpresa, -me hoje impossivel. Ficmos fulminados, assombrados, como se
Aguiar acabasse de morrer  nossa vista, to rapidamente como os jornaes
o referiam.

Ento cada um de ns comeou a lembrar-se da ultima vez que lhe falra,
da boa disposio em que elle estava, do que dissera, do que contra.
Havia apenas quinze dias que o ultimo banhista chegado  praia o tinha
visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel aniquilar um homem de
valor em quinze dias. Todavia os jornaes que estavamos lendo eram
d'aquelle mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doena de Aguiar
fra rapidissima, apenas de duas ou tres horas, na madrugada de sabbado
para domingo.

Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas do Club a noticia da
morte de Aguiar. Os jornaes passavam de mo em mo, qualquer novo
pormenor era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases soltas,
resumiam, no primeiro momento, a impresso geral:

--Um homem serio...

--Um homem de talento...

--Um homem de saber...

--Um bom caracter...

--Um homem digno...

Sim,  verdade, tudo isso elle era, tudo isso elle fra, e todavia
quantas vezes o ridiculo, a calumnia, e tambem a troa, no saiu ao
encontro d'esse homem serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de
saber, d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!

Tudo isso elle fra, e sem embargo algumas vezes lh'o contestaram,
porque ha pessoas que parece quererem aggredir os vivos para terem que
humilhar-se deante dos mortos.

No, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado dar o seu a seu dono, a
Deus o que  de Deus, a Csar o que e de Csar. Qualquer que fosse a sua
posio politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma considerao e
o mesmo respeito. E de todas as suas qualidades a que eu achava que
tornava maior as outras era a serenidade com que elle recebia todos os
golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. Ainda poucos dias
antes de se fechar o parlamento, no momento de se commentar no corredor
da camara dos pares a m inteno com que s vezes, na politica, se
deturpavam as palavras e os factos, elle dizia accendendo
tranquillamente o seu charuto:

--Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.

Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito e da sua
consciencia, o bem-estar interior, a paz inalteravel de um caracter sem
manchas e sem remorsos.

Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam s vezes que era vaidoso.
No era, no. Era menos hipocrita do que os outros. Cada homem
representa uma somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se esquece
do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos sabem mais ou menos
quanto valem, mas ha homens que recuam para avanar e homens que
preferem ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem sem recuar.

Eu gosto mais d'estes ultimos.


                                                                 1887.

      *      *      *      *      *




XI

Mendes Leal


Dois escriptores da gerao que nos precedeu no esto tendo desde j a
celebridade posthuma, que s vezes comea para outros escriptores no
proprio dia dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes Leal.

No se fala muito d'elles, no se cita a sua auctoridade litteraria, no
se d o seu nome a qualquer instituio, a qualquer philarmonica ou club
de operarios em folga. Pois admira, que no morre homem conhecido que
no apparea logo um gremio de classe, musical ou danante, a
adoptar-lhe o nome.

E todavia, Rebello da Silva, que eu alis j no conheci pessoalmente,
foi o mais brilhante estilista que at ento floresceu em Portugal.
Nunca ninguem antes d'elle, e no sei se depois, possuira uma paleta to
rica de tintas, uma palavra to pomposamente e to elegantemente colorida.

Assombra vr como saam perfeitas e primorosas as suas primicias
litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas foi o romance historico
_Russo por homizio_, publicado em 1842 na _Revista universal
Lisbonense_. Com razo dizia a _Revista_ referindo-se a este romance:
Damol-o sem alterao de uma virgula, qual saiu da penna de seu
auctor:--que seria sacrilegio tocar, nem de leve, nas primicias que 
sua patria offerece um tal espirito--quem no acreditaria!--de vinte
annos!

Assombroso, em verdade.

Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas meu patrono, tratei-o
particularmente, tive sobeja occasio de avaliar a vasta erudico do
seu espirito e a fidalga grandeza do seu corao.

Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, e n'ella bem
attentar, reconhecer que poucas vezes pde um escriptor reunir em si
tantas e to variadas aptides como Mendes Leal.

Como poeta tinha vos de inspirao que roavam pelas cumiadas da
epopea: hajam vista o _Pavilho negro_, _Ave Cesar_, _Napoleo no Kremlin_.

Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel continuador da obra
de Garrett. Tudo quanto escreveu para o theatro--e foi muito--pde ter
defeitos, mas affirma riqueza de imaginao, talento de _savoir faire_,
opulencia de linguagem. Percorram toda essa vasta galeria de produces
dramaticas, que vae desde os _Dois renegados_ at aos _Primeiros amores
de Bocage_, e digam depois se j conheceram, fra do theatro hespanhol,
engenho mais fertil, espirito mais maleavel s exigencias de cada genero
e de cada poca.

Como romancista, se no attingiu nunca uma individualidade to
accentuada como dramaturgo, no deslisou comtudo um pice dos seus bons
creditos de homem de lettras.

Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com notavel seriedade de
espirito.

Como orador politico, deixou discursos parlamentares que podem servir de
modelo aos que, dentro e fra da camara, presam a lingua portugueza
atravs dos arrebatamentos da paixo partidaria.

Trabalhou muito, no obstante o tempo que foi obrigado a consagrar aos
negocios administrativos, aos negocios politicos, aos negocios
diplomaticos, e  vida de salo. Com uma organisao to debil, com uma
to embaraosa miopia, e com uma vida to agitada de occupaes e
distraces, ninguem seria capaz de trabalhar mais do que elle.

Estive durante alguns annos em relao epistolar com Mendes Leal. Creio
que foi Castilho que recommendou  sua benevolencia de mestre as minhas
palidas estreias litterarias. Castilho tinha uma grande considerao por
Mendes Leal--a quem, na dedicatoria do primeiro livro das _Georgicas_,
divinamente traduzidas, chamou--_caro Leal, gloria da terra lusa_.

Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, em misso
diplomatica. S em 1882, vindo elle a Lisboa, o pude conhecer
pessoalmente. Visitei-o frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda,
conversamos largamente, e era encantadora a simplicidade bondosa do seu
trato. Mendes Leal dera-me provas de muita estima, tornando-se meu
dedicado amigo.

Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades do mundo politico e do
mundo litterario, quasi todos os ministros estrangeiros acreditados em
Portugal, e grande numero de pessoas que mais lustravam em pompas de
_high life_.

A ultima vez que me demorei conversando largo tempo com Mendes Leal foi
em dezembro d'esse mesmo anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.

O prestito funebre seguira a p desde a igreja de Santa Isabel at ao
cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal encontrou-me n'aquelle ondular de
pessoas de todas as classes sociaes, que foram prestar a derradeira
homenagem ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se ao meu brao.
Assim fomos conversando at ao cemiterio occidental no meio da
multido immensa.

Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado ao prelo, n'uma brochura
intitulada _Hommage aux lettres latines_, as suas ultimas composies
poeticas. Ahi se pde ver com que primor elle manejava a lingua
franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia envelhecendo e
pendendo  terra.

A posteridade est sendo, porm, um pouco ingrata com este homem
superior, que to poderosamente contribuiu para impulsionar os
progressos litterarios do seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da
Silva, e  caso para estranheza. Succede comtudo s vezes que a opinio
publica passa por uma evoluo demorada tanto para apreciar como para
depreciar um escriptor fallecido--especialmente para aprecial-o. Quanto
tempo no foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria de Ferno
Mendes Pinto? E o proprio Cames teve que esperar trezentos annos por
uma apothese nacional.

No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma honrosa, postoque
modesta, homenagem que lhe prestou a villa da Ericeira. Ha ali uma rua
com o seu nome. Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que elle
cantou em 1857 na poesia _Mare magnum_. A descripo das _furnas_, to
bellas e to agrestes,  de mo de mestre:

    No vos lembraes?--Alm do manso pego,
    O mar, que vem do largo, e que no cessa,
    Da vaga arquea a cuspide irritada,
            E, com impeto cego,
             insensata escalada
    Dos immoveis penhascos se arremessa.

    Quem ha de commetter a louca empresa
    De tentar a passagem tortuosa
    Que alguma convulso da natureza
    Abriu sobre a voragem tenebrosa?
    Do rolo immenso a curva ameaadora
    Investe, galga, apruma-se, desaba;
    E quando o turbilho que o ar devora,
            Trovejando rebenta,
            Parece que  tormenta
    A terra no resiste e o mundo acaba.

    Pelas rugas da penha sacudida,--
    De niveos flocos inda guarnecida,--
    Depois que o mar bramindo atraz volvra,
    Um veio d'agua, rapido e sombrio,
    Deslisa; qual em rude face austera
    De um triste ancio, que a idade encanecra,
            O pranto corre em fio.

Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas contra as _furnas_
da Ericeira, recordar eternamente a verdade sublime, a hipotiposis
felicissima d'este notavel trecho de poesia descriptiva, e
simultaneamente o nome de Mendes Leal.

O oceano vingar a ingratido dos homens.

      *      *      *      *      *




XII

Gonalves Crespo


Tendo de escrever a respeito de Gonalves Crespo, deixei-me ir ao sabor
da saudade, pelo mar das recordaes em fra, at o encontrar nos
primeiros annos da sua vida, e da minha.

Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual eu comprehendi melhor
que nunca toda a verdade e toda a philosophia que se encerram n'este
pensamento de Garrett:

    Saudade, gosto amargo de infelizes,
    Delicioso pungir de acerbo espinho.

Comprehendi bem, melhor do que nunca,  certo, toda a observao
psichologica que essa bella antithese contm; comprehendi Garrett
n'esses dois admiraveis decassiliabos que j no esquecero mais em
lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel quando chama 
saudade _um mal de que se gosta, e um bem que se padece_; comprehendi o
rei D. Duarte quando no _Leal conselheiro_ escreveu da saudade com
uns finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehenso d'esse
agridoce sentimento, que ao mesmo passo despedaa e mitiga o corao...

Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho percorrido em poucos
annos. A saudade fizera reverdecer todas as recordaes, aquecra todas
as cinzas, despertra todos os mortos. Vivi por momentos a vida j
extincta, enflorei-me das minhas antigas esperanas, remocei com as
minhas illuses de outro tempo. Pareceu-me que essa reverso ao passado
era completa e real, que tudo voltra effectivamente a ser o que tinha
sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, o sonho acabou, retrocedi
pelo caminho que imaginariamente percorrera, e pareceu-me atravessar um
deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e silencioso, onde
tudo jazia sepultado na mudez da morte--esperanas deliciosas e amigos
queridos, illuses que me fascinaram e pessoas que eu amei.

Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda enorme, eu s encontro
a triste consolao de a recordar.

Tal  a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo providencial.

Assim  que os poetas a definem; assim  que eu a sinto agora--melhor
por certo do que nunca.

Em verdade, as circumstancias em que me encontro, para escrever de
Gonalves Crespo, so muito especiaes. Elle teve muitos amigos, e
merecia-os, mas as nossas relaes vinham de longe, eram antigas na
proporo da nossa idade, ataram-se no Porto quando eramos apenas duas
creanas.

Estou a vel-o ento, no meu quarto de estudante, rodeado de antigos
amigos, quasi todos mortos j, apesar de moos.

Crespo tomava parte activa em todas as nossas faanhas mais ou menos
habituaes, que eu j historiei largamente no livro _Atravez do
passado_--o meu primeiro livro de saudades.

Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com o criado da casa: o
Angelo, um gallego.

Crespo era ento o mais janota de ns todos, tinha a linha elegante e
aristocratica. Mas desconcertava-se n'aquellas brigas nocturnas, gostava
d'ellas tanto como ns, e no duvidava arriscar n'essa folia asselvajada
o primor da sua _toilette_, quasi sempre irreprehensivel.

Coisa notavel! Crespo no era ento para ns um poeta: um elegante, sim.
Eu fazia versos de p quebrado; Alfredo Leo lia chronicas e
romances[8]; mas Gonalves Crespo _flanava_ a pretexto de
estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento
poetico com a publicao das _Miniaturas_.

Houve um periodo em que me separei de Gonalves Crespo;--quando foi para
Coimbra. Mas em quasi todas as ferias elle passava no Porto em direco
a Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos ento e falavamos. Crespo
frequentava o _Caf Portuense_, na Praa Nova, e continuava a ser um
elegante. Mas quando eu o via, sempre me perguntava pelo
Angelo--recordando as nossas faanhas anti-ibericas.

Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitao que recebi,
ainda antes de partir, foi de Gonalves Crespo. Enviava-m'a de Coimbra.
O que elle me dizia no posso, no devo eu repetil-o aqui, to agradavel
era para mim. A amizade cegava-o.

Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira pessoa que procurei ali
foi Gonalves Crespo. Conheci ento o seu celebre quarto da Couraa de
Lisboa, to fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos _Homens e
letras_, e to falado ainda na tradio academica. Crespo estava
adoentado, e no me pde mostrar a cidade, mas encarregou d'essa
misso, a que elle chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente
est em Lisboa.

Crespo dera-me _rendez-vous_ para a noite, na livraria do Melchiades.
Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que era j muito respeitado pela
academia. Laranjo tambem ahi estava. Demormo-nos conversando de
litteratura, porque no se falava ento de outra coisa, e Gonalves
Crespo viera passar o sero comigo no _Hotel dos caminhos de ferro_,
onde eu estava hospedado.

Foi l que recitou muitas das suas novas poesias, com o primor que elle
sabia dar  recitao. Burilador da phrase, um esmaltador do verso como
Gautier o fra da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas as
bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril de artista. Tinha uma
inflexo especial para cada meandro das phantasiosas filigranas que a
sua musa tecia; de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua voz
contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava todas as cres
harmoniosas do verso. Miniaturisava com a voz como com o espirito.
Via-se o que elle dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como
poeta.

Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de costumes brazileiros
sobretudo. Era to primoroso, to notavel nos quadros da vida americana,
tinha uma viso to delicada da natureza dos tropicos, que se me
afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse genero. Desculpava-se
allegando que o intimidavam as largas dimenses de um poema, e que se
sentia  vontade nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle
effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava como o ao ao
capricho da sua inspirao, e no soneto _Animal bravio_, offerecido a
mademoiselle Eugenia Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptido
artistica do seu espirito:

    Preferiras um ramo caprichoso
    De escolha rara e de um concerto fino,
    Onde visses o cacto purpurino
    E os nevados jasmins do Tormentoso.

    Em vez do ramo exotico e oloroso,
    Casto recreio d'esse olhar divino,
    Acceita, Eugenia, este animal felino,
    Que o meu brao subjuga vigoroso.

    Tive artes de o amansar: eil-o sereno!
    Acode a minha voz, e ao meu aceno
    Como um jaguar a voz de um saltimbanco...

    Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!
    E  doce Eugenia, do sorriso honesto,
    A fimbria oscule do vestido branco!

Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commisso de instruco publica. Crespo
estava ento em Lisboa. Certo dia recebi pelo correio um carto de
visita seu, que conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello
soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos _Nocturnos_:

            ODOR DI FEMINA

    Era austero e sisudo; no havia
    Frade mais exemplar n'esse convento;
    No seu cavado rosto macilento
    Um poema de lagrimas se lia.

    Uma vez que na extensa livraria
    Folheava o triste um livro pardacento,
    Viram-n'o desmaiar, cair do assento,
    Convulso e torvo sobre a lagea fria.

    De que morrera o venerando frade?
    Em vo busco as origens da verdade,
    Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.

    Consta que um bibliophilo comprra
    O livro estranho e que, ao abril-o, achra
    Uns dourados cabellos de mulher.

Em 1881, Gonalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha
biographia para o _Diario de Portugal_[9]. A sua antiga
amizade foi to prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a
desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que
principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que
elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu
espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o
interesse de um amigo leal. Esta convico foi-me extremamente agradavel
e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter
honestissimo; a sua dedicao compensava-me sobejamente da ingratido de
alguns e das injurias de poucos.

Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrra na
adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica
e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade,
porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonalves Crespo
por qualquer divergencia de opinio, grave ou insignificante.

O destino, porm, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada
vez mais os nossos velhos laos de amizade, acabara por ser enganador e
perfido.

Juntara-nos at na mesma repartio publica, onde deviamos trabalhar em
commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e to
depressa promettera como trara a sua promessa, arrebatando Gonalves
Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moo! elle, que tinha
finalmente chegado a uma situao, que lhe permittia viver inteiramente
tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da
sua vida.

A morte fra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em
enfeixar esperanas para as despedaar depois. A sorte havia dado a
Gonalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna
d'elle pelo espirito e pelo corao, dois filhos adorados, meios de
fortuna, consideraes politica e honras litterarias, gloria, amigos e
admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que
entrasse na Terra da Promisso, cuja porta perfidamente lhe dera tempo
de transpr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o
cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o
sempre o corao da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de
todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta das _Miniaturas_ e dos
_Nocturnos_.

Traando estas linhas, deixei que a penna escrevesse da abundancia do
corao. Outra coisa no fiz, nem de outra coisa curei. Emquanto
Gonalves Crespo esteve baloiado entre a vida e a morte, na mais cruel
das agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores dos
_Contos para os nossos filhos_, colleccionados e traduzidos por
Gonalves Crespo e sua esposa, que pedissem a Deus pela saude de um dos
traductores d'esse livro, que elles sabiam de cr. As oraes de meus
filhos no puderam disputar  morte a existencia preciosa do velho amigo
de seu pae. No me restava portanto seno o triste desafogo de escrever
com lagrimas estas linhas que vo, adejando para o seu tumulo, levar-lhe
o ultimo preito da minha amizade, o cco sincero do luto da minha alma.

                                                                 1883.

    [8] ATRAVEZ DO PASSADO: _Na morte de um condiscipulo._

    [9] No vem incluida na edio posthuma das suas obras, o que alis
    duplica o valor d'esta especie bibliographica.--NOTA DA 2. EDIO.

      *      *      *      *      *




XIII

Antonio Maria Pereira


Quando eu fazia parte da redaco do _Jornal do Porto_, onde recebia
apenas 500 ris diarios por o encargo de traduzir o noticiario
estrangeiro acumulado muitas vezes com o trabalho de rever as provas das
edies que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, vendia no seu
estabelecimento de livreiro, escrevi um dia, no apuro de augmentar a
escassa receita do meu oramento, ao editor lisbonense Antonio Maria
Pereira, propondo-lhe a acquisio de um romance original.

Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu vivamente.

Estava to habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que
qualquer sorriso da boa-fortuna me parecia, por excepcional, irrealisavel.

Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se no viessem
ordinariamente na idade em que o corao  forte e a imaginao exaltada?!

O sr. Pereira no s respondia acceitando a minha proposta, mas
dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. Offerecia-me o seu
prestimo como auxilio  minha vida litteraria, que sabia ser trabalhosa.
Declarava concordar com todas as condies que eu lhe propuzesse.

Esta fidalga resposta destoava do juizo que ento se fazia dos editores
em geral.

Balzac, nas _Illuses perdidas_, tinha deixado a ethopea do editor. Era
uma anatomia. Contavam-se dezenas de anecdotas que depunham em favor do
escalpelo de Balzac. Um editor lisbonense rejeitra um livro de poesias
por lhe achar _pouco peso_. O poeta respondra que voltaria com os seus
versos copiados em papelo. O tempo dos Mecenas tinha passado, e os
editores no pareciam resolvidos a substituil-os.

Nunca a celebre phrase de Villemain fra to verdadeira como applicada
quella poca: _Les lettres mnent  tout,  condition de les quitter._

Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. Arnaldo Gama vivia
com difficuldades. Evaristo Basto, o brilhante folhetinista portuense,
mendigra um logar publico.

Os jornaes principiavam a dar vaso, com o estipendio de 500 ris por
dia, s ambies litterarias dos novos.

O que os estreantes queriam era sequer ao menos encontrar guarida na
imprensa periodica, esquecidos, ai d'elles! de que, como disse
Roqueplan, o jornal  uma gal de que de dez em dez annos se evadem dois
forados, que alis ficam sempre com o ferrete de o terem sido.

Eu havia ido refugiar-me no _Jornal do Porto_, onde a vinda de Ramalho
Ortigo para Lisboa deixra aberta uma vaga. Confiei a essa vaga o meu
fragil batel, mas a carga, por demasiado pesada, ameaava naufragio.
Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, financeiramente, a
uma boia de salvao, que s poderia ser o livro. Mas os editores eram
difficeis, e hoje, ainda o so mais, porque a febre das gazetas, e
a variedade de materias a que a concorrencia as obriga, tem posto o
livro pelas ruas da amargura. Os jornaes enxameam, pululam,
atropelam-se, esmagam-se. E no meio d'este conflicto de interesses
similares, o livro, como a cidade sitiada, espera, privado da sua
liberdade de circulao, que a revoluo dos jornaes acabe, tendo
morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. Gutenberg experimenta
a lei de Darwin. Dos trezentos novos jornaes que se publicam cada anno,
apenas 50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta bastam para
prolongar a crise que o livro vem atravessando ha dez annos a esta parte.

O que no deixa de ser curioso  que, justamente no momento em que o
mercado mais falta ao livro, o publico exige, como est acontecendo, que
o trabalho tipographico do livro seja no s perfeito, mas brilhante.

De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado pela lettra
redonda dos jornaes, s se deixa tentar pela belleza dos chromos. Tudo o
que no seja isto, cheira-lhe a jornal, e de jornaes est farto o
consumidor. Mas o editor  que tem de aguentar-se nas aventuras, sempre
dispendiosas, das impresses de luxo.

Tempo das edies em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos,
em que tambem era singela a _toilette_ dos livros, passaste  historia,
s uma recordadao apenas, nada mais!

A resposta do sr. Pereira no s teve para mim o encanto de uma surpresa
pelo que respeitava  difficuldade de encontrar um editor accessivel,
mas tambem a refulgencia de uma aurora polar que deixava cair, sobre a
minha longa noite de incertezas, um claro doirado irradiando de
estipendio certo.

Puz mos  obra. Escolhi o assumpto e o titulo do romance. Chamar-se-ia
_O testamento de sangue_. O _Jornal do Porto_ e o ensino livre
absorviam-me o dia; foi pois  noite, depois de um dia inteiro de
labutao litteraria, que eu tracei os primeiros capitulos
d'aquelle romance.

O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com que eu entraria no
mercado lisbonense pela mo de um editor acreditado, fez que por mais de
uma vez, conversando com Cruz Coutinho e com os meus collegas de
redaco, alludisse ao _Testamento de sangue_.

Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando no _Jornal do Porto_
se deu o que eu chamarei uma crise de folhetim. Estavam ali sendo
publicados _Os dramas de Paris_, de Ponson du Terrail, arranjados sobre
uma edio lisbonense. A publicao da obra atrazra-se em Lisboa, de
modo que era preciso acudir  seco do folhetim com um romance que no
fosse to longo que prejudicasse a sequencia dos _Dramas de Paris_, nem
to breve que deixasse de preencher um compasso de espera.

--Se o teu romance no estivesse destinado para Lisboa, poderia servir
para o jornal, dissera alguem.

Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com uma insistencia, que me
deixou embaraado. Allegavam que eu no tinha marcado prazo ao sr.
Pereira, nem estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois
publicar _O testamento de sangue_ no _Jornal do Porto_, e escrever outro
romance para Lisboa. Observei em primeiro logar que no tomaria
resoluo alguma sem ter previamente consultado o sr. Antonio Maria
Pereira; em segundo logar, que estando apenas traados os primeiros
capitulos, eu teria, para a publicao em folhetim, de escrever os
outros dia a dia, o que certamente obstava a um tal ou qual acuro que eu
queria dar  novella.

Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. Pereira, e, para que o
romance pudesse ser retocado, comprometteu-se a publical-o em volume
depois de ter sido publicado em folhetim.

Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me, na volta do
correio, que me editaria um livro, qualquer que fosse, e quando me
aprouvesse. A sua carta era gentilissima de amabilidade.

Comecei ento a escrever precipitadamente o romance, a fim de satisfazer
ao pesado encargo de um folhetim diario--encargo que eu acumulava com a
minha collaborao no noticiario estrangeiro, e outras occupaes
quotidianas.

Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto de foras.
Morava eu ento no predio n. 456 da rua do Almada. Da minha janella
avistava-se a quinta do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se
eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo  faina de todos os dias.
Nem elle, nem eu paravamos nunca.

No livro _Nervosos, lymphaticos e sanguineos_ deixei consignada, a pag.
86, uma recordao d'esse moinho com que eu to irmanado estava--pelo
destino. Arranco-a, para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre
da Conceio, com quem eu sustentava polemica epistolar no _Jornal do
Porto_.

A esse, no a si, digo eu que, no tendo merecimentos litterarios para
reivindicar, no estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa
que, como homem, me pertence,--o amor ao trabalho. Os meus amigos
conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me ento contente, e mais ainda
quando, ao romper da manh, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem
fumegam as casas vizinhas para a refeio matinal, a canceira com que um
moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro com os seus quatro
braos alvejantes. A essa hora, quando ainda no martelam as officinas
nem estrondea na rua o prego dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores
que esto despertos,  o moinho e sou eu.

Pude vencer a canceira que uma tal acumulao de trabalho importava.
Escrevi o romance dia a dia, e no mez de setembro, finda a publicao em
folhetim, revi-o, para sair em volume. O pequeno prologo que o
precede  de todo o ponto exacto quando explica a pressa com que o
_Testamento de sangue_ fra escripto.

No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois livros novos, _A Porta
do Paraiso_ e _Entre o caffe e o Cognac_. Tive ento occasio de
conhecer pessoalmente o sr. Antonio Maria Pereira.

Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta n. 50, 52. Seriam duas
horas da tarde. Um calor abafadio pesava sobre a cidade baixa. A loja,
que o filho e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar
alargando-a, tinha uma s porta e a _montre_. Sobre o balco havia uma
grande agglomerao de livros e folhas impressas. Ao fundo da loja, de
p a uma escrivaninha, estava um homem que, ouvindo perguntar pelo sr.
Antonio Maria Pereira, levantou a cabea. Era elle.  ilharga d'esta
escrivaninha havia outra em que trabalhava um homem de barba e cabello
preto: era o antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. Em
frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em que um rapaz, de
bigode, parecia tomar notas. Era o Francisco, o segundo caixeiro da
casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos
do caldeireiro Loureno, proximo vizinho.

Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balco cumprimentar-me. A
phisionomia um pouco arabe d'este editor era insinuante; e as suas
maneiras distinctas. Bigode e cabello grisalhos, com uns tons
luminosamente argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A face morena
e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia os labios, inspirava
confiana. Estava todo vestido de preto, e, na occasio em que entrei,
fumava charuto.

Fra do balco havia dois bancos de palhinha. Fez-me sentar n'um
d'elles, e debruou-se no balco conversando comigo. Poucas palavras
haviamos ainda trocado, quando entrou um mocinho imberbe, cujas feies
tinham uma notavel similhana com as do sr. Pereira. Era seu filho, o
actual editor[10]. Tempo antes, seguindo o exemplo paterno, havia
comeado a trabalhar, emprehendendo a publicao de uma _Encyclopedia
litteraria_, para a qual tivera a amabilidade de solicitar a minha
collaborao.

Escrevi ahi uns versos, _Virgens loiras_, cuja inspirao me parece hoje
bastante macrobia: vinte e tres annos pesam sobre elles, e as _Virgens_,
que devem estar decrepitas--como os versos.

Desde a hora da minha apresentao, ataram-se entre mim e o sr. Antonio
Maria Pereira relaes de agradavel convivencia.

Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos Caldas, perto do palacio
do marquez de Penafiel, onde por signal entrei no dia do leilo e
assisti ao desalfaiar d'aquellas opulentas salas, que deram brado em
Lisboa.

Poucas pessoas tero como eu um to affectuoso apgo bairrista. Custa-me
realmente sair do meu bairro, tanto me affeio s arvores e s pedras
que estou costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos habituaes
era limitado pelo Rocio, oude morava o meu editor Mattos Moreira, e a
loja do sr. Pereira, na rua Augusta.

Muitas noites ia eu conversar  loja do sr. Pereira, onde havia, quando
menos, dois cavaqueadores: o dono da casa e o bibliographo Innocencio.

Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa n'esses seres
litterarios, que se prolongavam ordinariamente at s dez horas, e s
vezes at s onze.

O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois de jantar ao seu
estabelecimento, disposto a distrair o espirito na conversao de um
pequeno grupo de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a
essa hora, e disse quasi, porque s vezes, durante o estio, elle
fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e apreciava muito essas
fugidas  sua labutao quotidiana.

Taes so as recordaes, agradaveis e saudosas, que eu conservo d'esse
illustrado editor, que prestou relevantes servios s lettras
portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens j hoje
fallecidos[11]--graas talvez, e no parea isto desacerto,
 felicidade de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta da
gloria--editando-lhes os primeiros livros.

    [10] Falleceu prematuramente, minado pela doena nas asperezas do
    exhaustivo trabalho quotidiano--a que elle chamava _a
    vinagreira_.--NOTA DA 2. EDIO.

    [11] Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco,
    Pinheiro Chagas, etc.--NOTA DA 2. EDIO.

      *      *      *      *      *




XIV

Innocencio Francisco da Silva


Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas provas de estima
pessoal e de considerao litteraria.

Foi elle que me propoz socio correspondente da Academia Real das
Sciencias. E fel-o espontaneamente, penhorando-me sobremodo.

Mantive com Innocencio as melhores relaes de amizade, inalteravel entre
ns dois at os ultimos dias da sua attribulada existencia.

Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio no recebeu nunca
do estado os beneficios a que, pela improba canceira a que se dedicou,
tinha inquestionavel direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo entre a
funco burocratica, que desempenhava no governo civil de Lisboa, e os
seus valiosissimos trabalhos bibliographicos. Nem todos os homens de
lettras lhe faziam inteira justia; muitos d'elles investiram cruelmente
com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe foros de escriptor,
simplesmente pelo facto de no ser um estilista. Alguns
amesquinhavam o seu trabalho, que capitulavam desdenhosamente de _rol de
roupa suja de livros velhos_. Que revoltante injustia! De mais a mais,
Innocencio, na absorvente paixo que tinha pelos livros, no dispunha de
meios bastantes para poder satisfazer todos os seus caprichos de
bibliophilo.

Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom por vezes azedo e
irritado das suas apreciaes litterarias, falando ou escrevendo.
Innocencio devia pouco ao mundo para o qual sempre havia trabalhado
dedicadamente. Tinha a consciencia de merecer mais do que lhe davam, e o
seu espirito justiceiro revoltava-se contra essa flagrante ingratido.
D'elle  que com propriedade se poderia dizer que fra um _vencido da
vida_. Viveu atormentadamente; e assim morreu.

Mas, serenadas essas legitimas exploses de colera, que bello corao o
seu e, a sobredoirar a bondade do corao, que excellente caracter de
portuguez antigo!

Tinha coisas de creana, mutabilidades de genio verdadeiramente
infantis. Passava rapidamente da indignao  bonomia, e ento era
adoravel a sua conversao familiar, sempre erudita, e muitas vezes
liberrima em facilidades de linguagem.

No era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. No sabia enganar
nem fingir. O que era, era. Mas havia na sua alma, repito, um grande e
doce fundo de bondade antiga.

A sua individualidade ajustava-se de molde  conhecida quintilha de S
de Miranda:

    Homem d'um s parecer,
    D'um s rosto, uma s f,
    D'antes quebrar que torcer,
    Elle tudo pde ser,
    Mas de crte homem no .

Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, receberia a
impresso de ter deante de si um velho militar rabujento,--um major
revoltado contra a sua reforma e a decadencia do exercito.

Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansido patriarchal,
de--digamol-o assim--bom humor tarimbeiro, ficava-se encantado de
ouvil-o e de tratal-o, porque a sua erudio fazia desculpar as demazias
de linguagem em que s vezes caa.

Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra que, depois da
_Bibliotheca Lusitana_ do abbade Barbosa, saiu dos prelos portuguezes.
No s melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas
escripturou com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente
conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados posteriormente 
publicao da _Bibliotheca Lusitana_.

Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicao, de buscas
mallogradas ou felizes, de sacrificios pecuniarios, de caminhadas
improductivas ou bem succedidas, de contrariedades vencidas ou
vencedoras representa o _Diccionario Bibliographico Portuguez_ at o
ponto em que o deixou publicado, e apparelhado para a continuao dos
restantes volumes do _Supplemento_!

De mais a mais, a natureza da especialidade em que labutava no lhe
consentia uma hora de descanso. Tarefa interminavel, porque um
diccionario bibliographico no se completa nunca, arrastava-o a uma
aspera applicao ininterrupta.

Elle jmais poderia dizer como os marinheiros que, ao cabo de uma longa
viagem, avistam a terra desejada: _Emfim!_

O seu _emfim!_ devia ser a morte.

Todos os dias, de toda a parte--graas  actividade febril dos prelos
nos ultimos vinte annos--recebia novos livros, que se iam empilhando em
camadas alterosas  espera que a alphabetao por auctores lhes fizesse
lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a um novo supplemento,
que decerto j no esperaria concluir.

Todos ns podemos hoje testemunhar a grande importancia do _Diccionario
Bibliographico Portuguez_, como subsidio para os nossos trabalhos
litterarios. Tem defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os no
tivesse. O que elle d,  bom; o que deixa de dar, em relao ao seu
tempo,  pouco.

Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva no era um avarento, um
Harpago egoista, que fechasse a sete chaves os seus livros e os seus
manuscriptos. Facultava uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui
obsequiado por elle com a copia de algumas poesias ineditas de Gabriel
Pereira de Castro, que me serviram para architectar sobre ellas o
conto--_Como as borboletas se queimam_--inserto no livro PORTUGAL DE
CABELLEIRA (1875).

Egoismo de bibliophilo s o tinha para os seus collegas em bibliomania.
Era natural que, entre elles, disputasse encarniadamente a presa. Julio
Cesar Machado conta nas _Mil e uma historias_ o caso interessante de
Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se um ao outro, com o
fim de apanharem um livro raro, que ambos haviam lobrigado no Manuel
Rodrigues, do Pote das Almas.

D'esta vez Innocencio ficou codilhado.

A este ou outros desastres alludia elle certamente quando, escrevendo o
artigo _Bibliophilos e biblomaniacos_, na _Encyclopedia litteraria_,
publicada pelo sr. Antonio Maria Pereira (filho), dizia com visivel
azedume:

Na classe dos bibliomaniacos _improductivos_, que capricham em
accumular livros sobre livros, um conhecemos sobre todos digno de meno
especial. Fareja este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, as
lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que lhe escapem os
leiles e a classica _feira da ladra_, na diligencia de prover-se de
tudo o que nas diversas provincias da republica litteraria gosa de
algum apreo por merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade dos
livros so para elle coisas indifferentes; sciencias, arte, litteratura,
prosa e verso, impressos ou manuscriptos em qualquer lingua, e de
qualquer tempo, tudo lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido
reunir copiosissima somma de volumes, e no sem grande dispendio, com
quanto seja de genio naturalmente acanhado, e de uma mesquinhez que toca
as raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel aos
vendedores que o tem por um caustico volante. Pois esta originalissima
creatura, cujo saber parece ser encyclopedico, apenas nos deu at hoje
por suado fructo de tantas lucubraes um magrissimo artigo de vinte e
tantas linhas, servindo de explicao a uma reles lithographia, que
appareceu ha muitos annos em certo jornal artistico de Lisboa, de
ephemera durao!...

Aqui est o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle era nas suas
horas de indignao. Mas, bibliophilo productivo, auctor de um vasto
repositorio bibliographico que a todos aproveitaria, comprehende-se e
desculpa-se o desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar
precioso, destinado a tornar-se improductivo para toda a gente, com
excepo, talvez, do seu feliz possuidor.

Elle tinha a religio, o fetichismo do livro. Era um idolatra, um
fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da rua de S. Filippe Nery
abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E
os que no eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a
publicao do _Diccionario_, com a riqueza dos thesouros acumulados por
Innocencio.

O predio em que habitava--e que tem hoje uma lapide
commemorativa--estava completamente cheio de livros, de alto a baixo.
Innocencio e a sua pequena familia habitavam, os peores compartimentos
do predio, unicos disponiveis.

Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu conheci Innocencio.
Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos relaes de amizade
cordealissima. Innocencio falava sempre, fumando muito, e habitualmente
maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar para que se tornassem
mais fortes quando os reaccendesse. Em sua casa havia differentes caixas
atulhadas de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava
trabalhando.

Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira para matal-o.
Innocencio morreu de um scirro na lingua, que o fez soffrer
terrivelmente. No podia falar, no podia comer, no podia descansar com
dores atrocissimas.

Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!

Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa e dolorosa agonia.
Despedaava o corao vel-o soffrer. E--circumstancia que n'este momento
me est lembrando com viva saudade--foi com o seu collar de academico
que eu concorri ao baile dado no Pao d'Ajuda em honra do principe de
Galles.

Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: Recebi.
_Innocencio._ Mas a sua lettra estava j inteiramente desfigurada. A
morte ia apagando lentamente todos os vestigios da sua viril
individualidade. Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.

Dias depois morria, e s n'essa hora a sua alma, sempre trabalhada de
canceiras e desgostos, poderia dizer, pela primeira vez, _Emfim!_

      *      *      *      *      *




XV

Tres actrizes


Vi no theatro de S. Joo do Porto representar a Manuela Rey, e
parece-me, se penso n'isso, que estou sonhando ainda uma doce illuso
meio sagrada, meio profana--a de ter visto passar no palco de um theatro
um cherubim de azas brancas e cabello loiro.

Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica de actriz, a sua
historia vulgar no amor--como as outras. Mas vel-a era o mesmo que
divinisal-a, ouvil-a era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.

Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze
branco e de conduzil-a  beira de um lago para que as estrellas e os
lirios fossem testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito casto e
muito leve...

Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. E todavia, acabado o
espectaculo, ella tinha um amante que a esperava e um _coup_ que a
conduzia para um leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam
a engrinaldar idealmente as almofadas de sumama.

Vi-a representar no Porto a _Cora_ e recitar a _Stella matutina_, de
Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente a sua estreia ruidosa
com a _Viso dos tempos_.

Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste harmonia, os versos do
poeta:

    Eu sou a filha d'Eva
    Gerada em outro amor!
    Cando a dr me eleva...
    Senhor, Senhor, Senhor!

Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma lagrima tivesse voz,
vibraria exactamente na tremula modulao musical d'aquella garganta
divina, e que se n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa
mulher, destinada a

    ... servir de falla
     dr que emmudeceu

seria personificada na formosura etherea e biblica de Manuela Rey.

A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, vi representar no Porto
todo o seu velho repertorio, a _Joanna a doida_, a _Mulher que deita
cartas_, a _Medea_.

Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar Sophocles e
Euripedes. A sua belleza decaa no esplendor de um occaso
magestoso--como o sol. Via-se, atraves da neve com que a velhice lhe
pulverisava os cabellos e as feies, a estatua que um Phidias cinzelra
no seu corpo de marmore. A expresso tragica dos olhos, a riqueza
dramatica da voz, a amplido esculptural do peito tinham-n'a fadado para
a scena antiga, onde as grandes paixes humanas, para expludirem
theatralmente, exigiam um corpo que no ficasse vexado dentro de um
manto real, uma plastica talhada a cinzel n'um bloco de Paros.

Entre as minhas recordaes mais nitidas avulta a da apotheose que os
estudantes do Porto realisaram no theatro Baquet, na noite de 26 de
fevereiro de 1863, em honra de Emilia das Neves e Sousa.

Eu tinha ento quatorze annos, e no tomei parte na festa seno
como espectador. Mas raro foi o estudante favorecido das musas que no
afinasse a lira para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente da
difficuldade que a minha familia teve em obter um camarote de segunda
ordem. Na plata, os estudantes, empilhados como sardinha em tigela,
vozeavam applausos atroadores sempre que o himno da _linda Emilia_, como
ainda ento se dizia, era executado pela orchestra.

A lettra d'esse himno fra escripta por Custodio Jos Duarte, um poeta
que estudava medicina; compuzera a musica outro academico, Joo Baptista
Pires.

Ahi vae a lettra do himno:

    O robusto leo da victoria
    De teus ps lambe a terra em redor;
    Tua vida  um archivo de gloria,
    O teu nome um augusto esplendor.

    Para ti nunca findam as palmas,
    Nem os bravos que fazem tremer;
    E do ouro de lei d'estas almas
    S tu podes um throno fazer.

    Ns que vemos os lumes ardentes
    Onde Deus escondel-os nos quiz,
    Vimos hoje dizer-te frementes:
    s sublime, s sublime,  actriz!

    Arde o peito em delirio o mais puro,
    Cada olhar ao teu nome reluz;
    Has de ser immortal no futuro,
    Que este fogo  baptismo de luz.

              Cro

    Para a fronte onde o genio rebenta
     pequena a corda dos reis;
    Ha no mundo uma s que lhe assenta:
    A cora dos nobres laureis.

Por mais de uma vez foi o cro repetido pelos espectadores, postos em p
sobre as cadeiras ou pendurados dos camarotes de terceira ordem,
por onde ainda outro dia as chammas alastraram as suas linguas de fogo.

Se houve ovao espontanea e enthusiastica foi aquella, to differente,
bem o pde dizer quem a viu, das ovaes convencionaes que hoje se fazem
aos nossos artistas com applausos de amigos e _bouquets_ que se vo
buscar ao palco para tornar a atiral-os.

N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas e flres, abundancia
caudalosa, que a propria Emilia das Neves, habituada s glorias da
scena, estava profundamente commovida.

Qualquer poeta de hoje em dia a custo escrever meia duzia de versos
para um album ou para uma festa theatral.

Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os melhores poetas da
Academia do Porto compuzeram em honra da _linda Emilia_ dois e tres
epinicios cada um e, no contentes com imprimil-os ou recital-os,
reproduziram-n'os no album da grande actriz.

Assim, Custodio Duarte, alm de ter composto o himno, escreveu uns
alexandrinos que foram distribuidos, e outros alexandrinos que foram
recitados por Luiz de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina.

Este estudante de 1863  hoje cirurgio do exercito. Recitava
primorosamente. Vi-o ha poucos annos em Setubal, tomando cerveja  porta
do botequim do Lapido, melancolico e concentrado como sempre. Tive
vontade de chegar-me ao p d'elle e perguntar-lhe: Lembra-se da noite
de 26 de fevereiro de 1863? Se eu tivesse feito a pergunta, elle
haver-me-hia respondido decerto: Se lembro! Aquella festa de
estudantes ficou indelevel na memoria de quantos ento o eram.

Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fram trabalhados por
Custodio Duarte sobre o modelo de Victor Hugo, que era ento o mestre
favorito dos poetas novos.

Darei uma pequena amostra:

    Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita!
    Pde um peito conter oceanos de luz!
    Ha um qu no corao, que, se um dia palpita,
    Como o brao de Deus, cria mundos a flux...

    Feliz o que no bero abraa em sonhos vagos
    Um phantasma de fogo e acorda pensativo!
    Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos,
    E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...

    E ento  tanto o ardor a incendiar a mente,
    Que se cr que l dentro estalam mil vulces;
    Um descobre um Principio, um outro um Continente,
    O Talma encontra um palco, uma lyra Cames!...

Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. Era ha poucos annos
professor de no sei quantas cadeiras na escola de Ga. Depois esteve na
Africa occidental. Ultimamente regressou  metropole.[12]

Mas no poucos dos moos poetas d'essa noite devem estar j pulverisados
no seio da terra.

Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir a quadra final que elle
compz:

    Curvamo-nos tambem...  Deus que passa
    Occulto nos monarchas do proscenio!
     o seu brao de luz que, em fogo, traa
    N'aquellas sombras o caminho ao genio.

Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano de valor, que disse:

    Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo,
    Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas,
          Sente, mas no traduz;
    Mulher ou anjo, realidade ou sonho,
    Teu genio admiro, como admiro o Etna!
          O mar... a noite... a luz!...

Emilia das Neves j estava ento longe da sua florida mocidade, que
devia ter sido gloriosa de esculptural belleza.

Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor quilate no duvidavam
chamar-lhe em 1863 _mulher ou anjo_.

Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima pea, _O meia
azul_, n'uma decadencia pungitiva. A mulher luctava com a doena e com a
velhice: duas enfermidades.

O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um esforo supremo de
declamao e caracterisao.

E ento passava nos meus ouvidos este verso de Ernesto Pinto de Almeida:

    Mulher ou anjo, realidade ou sonho...

O que restava do sonho era apenas a realidade...

Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, ourives da rua das
Flores. Um hipocondriaco fatalista e supersticioso.

Este dissera a Emilia das Neves:

    Agora que aos teus ps, mais uma vez,
    As rosas vem cobrir a tua estrada,
    Acceita esta homenagem no comprada,
    Mas filha do caracter portuguez!

Ento ainda se no escrevia ideia com lettra grande, mas o genio
dramatico de Emilia das Neves impunha-se de tal modo a admirao dos
poetas, que no vacillavam em tratal-a com maiusculas, como se se
estivessem dirigindo a uma verdadeira realeza.

Emilia das Neves representra n'aquella noite a tragedia _Judith_.
Soberba, n'esse papel, em que nunca mais tornei a vel-a. Recordo-me
nitidamente dos lances capitaes da pea, sobretudo d'aquelle em que ella
degolava Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli com barbas
de guerreiro.

Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, o do Baquet teria
ardido n'aquella noite.

Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi acompanhada a casa pela
estudantada n'uma especie de marche aux flambeaus, que se improvisou
com mais enthusiasmo do que archotes.

Ella havia-se hospedado, se no estou em erro, n'um dos _hoteis_ da
Praa da Batalha. Ahi recomeou trovejante a ovao, ao ar livre, e frio
como costuma ser o das noites do Porto em fevereiro. Mas os coraes
estavam quentes, e as saudaes ininterruptas ribombavam estentorosas
pela rua de Cima de Villa dentro e pela Calada da Madeira abaixo.

Emilia das Neves, abafada n'uma _capeline_ branca, recebia da janella do
_hotel_ as saudaes, alvejando como uma viso de Ossian ou de
Macpherson; para o caso pouco importa.

Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no couce da archotada,
assistiam gratuitamente a esse ultimo acto d'um espectaculo pago por bom
dinheiro.

Os estudantes, voz em grita, entoavam o cro do himno:

    Para a fronte onde o genio rebenta
     pequena a cora dos reis;
    Ha no mundo uma s que lhe assenta:
    A cora dos nobres laureis.

E,  socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava muito o terceiro
verso d'esta quadra, segundo certa hermeneutica que passra despercebida
ao proprio auctor e aos ouvintes de boa f.

E eu era ento um d'elles.

Isto foi em 1863.

Hoje... tudo so ruinas e cinzas: da _bella Emilia_, o alvo d'aquella
ovao; de alguns poetas que endeusaram a grande tragica portugueza em
versos de toda a especie; e at do theatro onde ella representou e elles
a cantaram.

O tempo  um demolidor terrivel?

Gertrudes... Gertrudes no sei de que--toda a gente dizia apenas a
_Gertrudes_--pertencia a essa raa privilegiada de mulheres fortes e
bellas, em que Emilia das Neves brilhou como o sol no meio do sistema
planetario.

Fra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as
segundas; como mulher, o seu corpo branco e opulento, a sua carnao
sadia e vlida, fazia pensar mais n'ella como mulher do que como actriz.

E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar de _grande dame_, o seu
bello collo de alabastro que, na velhice e na doena, triumphavam na
scena de D. Maria, poucos mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada
pela morte.

Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel mordacidade de
que dou noticia em mulher. Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e
dizia quasi sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos
bastidores, os seus ridiculos e os seus pdres, dava quasi todas as
noites um curso de psichologia theatral. Punha a n os segredos mais ou
menos escandalosos, que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma
tesourava os anteparos de papelo, que armavam  credulidade ingenua do
publico.

Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez
passar no theatro de D. Maria.

Acabra de realisar-se em Paris a _premire_ de _Mr. Alphonse_ de Dumas
Filho, e Santos, ento  frente da empresa de D. Maria, encarregra-me
de traduzir a pea em tres dias.

Tres dias,  um modo de dizer. Eu s tinha livres as noites, e foi
justamente  noite que, passeando e fumando, ia ditando a traduco a um
amigo meu, que se prestra a esse servio, e que j hoje no existe.

D. Maria pde finalmente dar a pea--por tal signal que em beneficio de
Brazo.

Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, encostei-me a uma
porta. Eu recebia, como todos os traductores, uma percentagem sobre os
bilhetes vendidos. Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me
esse facto, que redundava em proveito meu, e ia a sair da platea quando
inesperadamente ouvi a Gertrudes dizer em scena:

--Vai-te d'aqui, meu estupor.

Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, o publico riu
longamente, mas eu, fulminado, desesperado, corri  caixa, procurei por
todos os cantos a Gertrudes.

Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava ainda em scena.

Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu encontro.

Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas que com ella
tinham estado em scena, disse-me:

--J sei, j sei. Ento que quer? Escapou-me! Mas o caso  que agradou.

Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; que eu podia
ser accusado, com apparente razo, de ter deturpado a meu bel-prazer, e
com mau gosto, o original de Dumas.

E ella, sentando-se no soph do camarim, ainda arquejante, tomando um
tom sentencioso, disse:

--Olhe, meu amigo, no viu como o publico gostou? D'isto  que toda a
gente entende, e gosta. Perdoe o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao
publico.

E eu, que entrra zangado, acabei rindo... tambem.

Nos ultimos tempos, a doena cavra sulcos profundos no seu rosto. E
aquella forte e bella mulher, que parecia talhada, como Emilia das
Neves, pelo cinzel de um estatuario, expirou decerto poucos momentos
depois do espelho lhe ter dito: Ests irremediavelmente morta.

    [12] J falleceu. Era irmo de outro poeta illustre, que felizmente
    ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.--NOTA DA 2. EDIO.

      *      *      *      *      *




XVI

Actores celebres


Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, j alcachinado pela
terrivel doena que o matou. Soffria da spinal-medulla; estava perdido.
Vivia n'um pequeno _chalet_ alcandorado pittorescamente sobre a praia
dos Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por piedosa
conveno, o ar do mar.

Marcolino era um actor comico de subido merecimento, muito estimado em
Lisboa. A doena afastou-o do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto
que o conheci, e eu podia ento dizer com Thomaz Ribeiro:

    Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;
    me de sabios, de heroes, crime e virtude;
    golfo de riso e dr, que ora serena,
    ora referve e escuma em sanha rude.

Mal pensava eu ento que, annos volvidos, viria fixar residencia em
Lisboa, mais attraido pelo seu movimento litterario e artistico do que
pelas magras sopas que o oramento me offerecia n'um prato de estanho.

Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um _oiteiro_ no convento
de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes de hoje no sabem o que era um
_oiteiro_. Pois deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus
litterarios, que a tradio da extincta Arcadia conservou ainda por
muito tempo. O _oiteiro_ era o festival com que se celebrava a eleio
da abbadessa em cada convento. Durava tres dias e tres noites. N'outro
tempo, as freiras diziam das janellas para o pateo os motes que os
poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador de _oiteiros_. No meu
tempo, as coisas tinham mudado j. Havia recepo na _grade_ da
abbadessa. O feminino superior do convento sentava-se, dentro da grade,
em semicirculo, dando a presidencia  prelada recentemente eleita. Fra
da _grade_ havia um piano, um bufete permanente, e o masculino preciso
para mundanisar a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. O
mote era ainda obrigado, mas no constituia o unico elemento essencial
da festa, como n'outros tempos.

Foi n'esse _oiteiro_ que eu ouvi Marcolino recitar, no uma poesia
comica, como se poderia esperar do genero que elle to distinctamente
cultivava no theatro, mas uma poesia lirica, _A borboleta_, de Thomaz
Ribeiro, que elle disse com um notavel primor de interpretao.

Estou a vl-o, e a ouvil-o ainda:

    Eu conheo-a! oh, se a conheo!
    sempre volitando anciosa,
    esbelta, fugaz, airosa,
    esquiva, amante, esquecida,
    eterno enygma na vida!...
    Eu conheo-a! ah, se a conheo!
    Estimo-a; estimal-a  grato;
    quero entendel-a... endoideo!

As freiras (comquanto n'esta designao generica fossem incluidas muitas
coristas, algumas d'ellas gentilissimas) ficaram encantadas de ouvil-o,
e ns, os homens, tambem. Marcolino teve uma ovao estrondosa:
creio que foi a ultima da sua vida.

Eram duas horas da noite quando saimos da _grade_, e eu lembro-me ainda
de que me despedi em verso n'um improviso de que apenas sei hoje as
ultimas rimas:

    Tenho esta noite glosado
    Versos a esmo, a granel.
    Consenti, minhas senhoras,
    Que eu d'esta feita termine
    E que a vossos ps se incline
    Vosso servo: Pimentel.

Eu era ento uma creana. Mal me penujava o buo. Mas que alegria, que
felicidade a minha n'aquella noite!  saida, as gentilisimas
pensionistas vieram ainda despedir-se de ns  portaria. Uma d'ellas era
filha natural de um antigo conde do Minho; morreu pouco depois. Outra
era minha prima: quarenta annos e uns olhos, que no tinham mais de
vinte. Tambem j morreu. Em Lisboa ha uma unica pessoa que pde
lembrar-se do _oiteiro_ de S. Bento, porque tambem l esteve: o
escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com grande applauso da
assistencia, glosou um mote n'um soneto, faanha comparavel  de ter
mettido uma lana em Africa.

Foi tambem no Porto que eu conheci o Santos _Pitorra_, como dizia toda a
gente, sem embargo de elle ser, pelo seu altissimo valor artistico, o
_grande Santos_.

A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos era ento um dos
empresarios, dera alguns espectaculos no Porto, eu frequentava os
espectaculos e os ensaios, o palco e o _foyer_, e escrevi por essa
occasio, julho de 1873, uns versos, que se intitulavam _Lirios_, e que
Emilia Adelaide recitra.

Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia de memoria,
dezenas de versos, o que eu julguei, n'aquella occasio, um desastre
irremediavel.

Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; mas, a breve
trecho, encontrei a explicao do facto. A memoria da actriz prejudicra
os versos; comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar
todas as faltas da actriz.

Santos atra com Guilherme Braga e comigo estreitas relaes de amizade.
Lembro-me ainda com saudade de um jantar que tivemos os tres no _Hotel
Francfort_, onde elle estava hospedado. A esse jantar, to alegremente
conversado, assistiu tambem a actriz Amelia Vieira. Quando cheguei a
Lisboa, Santos deu-me um banquete romano na sua casa da rua do Amparo.
Estavam  mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e Miguel Queriol. Foi
outra a actriz que assistiu a este festim: Emilia Letroublon, j ento
louca, mordia por vezes as mos dos convivas.

Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor Santos, abro o pequeno
livro das suas memorias, que elle publicou j acorrentado ao leito da
morte como o Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escurido com
que a cegueira o quiz habituar  noite eterna do sepulcro, dilacerado o
peito amante pelo abutre implacavel da saudade...

N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja de sagrado como os
epitaphios, encontro uns versos meus escriptos para a noite do seu
beneficio no theatro de D. Maria em 16 de maio de 1874.

Paro um momento a lel-os:

    Foi aqui--a historia o conta...
    Que entre flres, palmas, himnos,
    Dos talentos peregrinos
    Brilhou a constellao.
    Era um loureiral a scena,
    O theatro escola e templo,
    Cada talento um exemplo,
    Cada palavra--lio.

    Formoso e esplendido quadro!
    As bellas frontes rasgadas
    Resplandeciam banhadas
    Em misterioso fulgor...
    Grupo onde tudo era grande
    Merecia moldura d'ouro,
    Se tantas cordas de louro
    No o cingissem melhor.

    Foi o tempo devastando
    As maravilhas da tela.
    Onde a loira Manuela?
    Onde Epiphanio, o pharol?
    Onde Sargedas, a graa?
    Onde Tasso e a sua gloria?
    Mais quatro nomes na historia,
    Mas no  posto inda o sol.

    No . O quadro tem vida.
    Move-se, agita-se, fala
    Remurmuram n'esta sala
    Os eccos da sua voz...
    Supponde muitas palmeiras
    Rasgando do cu as brumas...
    Quando o vento prostra algumas,
    As outras no ficam ss.

    Dos velhos heroes da scena
    Descem hoje sobre o espolio,
    No theatro-Capitolio,
    Flres d'antiga ovao.
     que um talento robusto,
    Honrando um nobre legado,
    Resuscita hoje o passado,
    Renova as flres d'ento.

    E a sua voz, que domina
    Da ovao a anciedade,
     a voz da posteridade,
    Que da scena aos velhos reis
    Diz como um brado da historia:
    La vos honrei o legado;
    Se vos prostrou o passado,
    No sois mortos. Reviveis...

E de todos estes versos, a que unicamente a saudade de Jos Carlos dos
Santos poderia dar segunda edio, ha um em que a minha atteno
particularmente se detm:

    Mas no  posto inda o sol.

Ento, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. O theatro de D.
Maria fazia lembrar n'esse tempo um vasto pantheon onde alvejavam as
urnas funerarias dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia das
Neves no tinha ainda morrido, mas a velhice aniquilava-a. J se no
contava com ella seno para relembrar-lhe a gloria. E n'esse venerando
cemiterio, onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens,
Santos sacrificava em honra de tantos mortos illustres, sacerdote
solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as coras e as
palmas que elle proprio ganhava para perpetuar a tradio gloriosa do
velho theatro normal.

Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo interposto a um dia de
victoria e a uma noite de decadencia.

_No era posto ainda o sol_, porque elle era a luz crepuscular; no
estava inteiramente deserto o templo, porque Santos o povoava ainda.

Mas no havia outro lao vivo a prender o passado ao presente seno elle.

Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes;
Taborda principiava a retirar-se.

Santos, de p, combatia intrepidamente sobre a barricada que ia render-se.

Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. Cegra to rapidamente
como se fechasse os olhos para dormir. E ao cair no seu posto de honra,
similhante ao soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisra que
elle no tornaria a vr a luz seno passada a barreira da eternidade...

Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: appareceu cego
no palco tres vezes, uma no theatro de S. Carlos, outra no theatro do
Principe Real, a terceira no theatro da Trindade.

J no era elle... O seu corpo estava ali, mas a alma confrangia-se sob
as azas negras da cegueira. Era uma sombra que falava, uma realeza
condemnada como a de Luiz XVI--que tantas vezes reproduzira--passando
atravs dos bastidores, venerada ainda pelos velhos cortezos, mas
insultada j pelos estragos da doena.

Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, porque os actores
morrem no dia em que so obrigados a abandonar o theatro.

A elle condemnara-o a desgraa, no a velhice. Cedia a uma revoluo,
ainda como Luiz Capeto, a revoluo das trevas contra a luz. A cegueira,
como um _sans-culotte_ implacavel, arrastava-o para o _Temple_, as
quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, a doena, viria todos os
dias annunciar-lhe a morte. N'esse angustioso despedaar do corpo,
ouvindo a voz do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma vez
repetiria por certo a phrase notavel que Paulo Giacometti puzera na
bocca de Luiz XVI: _Ah! a natureza humana no tem fora para mais!_

O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentena era irrevogavel. O
condemnado sentira levantar os ferrolhos do _Temple_: era a sua familia
que entrava para trocar com elle as effuses da ultima despedida.
Despedida incomportavel! que devia durar cinco mezes, sem que os braos
do amor pudessem afrouxar de tenso n'aquelle longo abrao, que era o
derradeiro.

A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz commoveu-se.
Tamanha era a magestade d'aquella realeza de infortunio!

Ghegou porm a hora fatal em que a terrivel sentena havia de
cumprir-se. O condemnado offereceu a sua cabea ao sacrificio, e uma
familia coberta de luto fra regando de lagrimas, religiosamente, a
via dolorosa por onde esse rei da scena era arrastado  tortura.

Mas, com a fronte msta sobreposta ao grupo venerando de uma familia
orphanada, o theatro portuguez soluava n'um luto irremediavel, n'uma
viuvez amarissima.

Era o Delphim que pranteava a morte do rei...

.........................................................................

Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: o Izidoro, o
Theodorico, e o Rosa pae.

Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer _partidas_: algumas
conta elle proprio nas suas _Memorias_. Como actor comico, mereceu a
celebridade que teve. Quando cantava com Taborda o _duetto_ de _Moyss_,
ou representava os _Dois candidatos_ e _Para as eleies_, era da gente
rebentar a rir.

Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, estava doente,
triste, muito velho. A troa indigena mettia a ridiculo a sua declamao
emphatica, um pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente um
defeito de escola, mas, em compensao, todos os artistas do seu tempo,
incluindo elle proprio, sabiam representar. Muito escrupuloso, muito
correcto, s tinha, para a nossa poca, o defeito de haver envelhecido.

No trato particular, um perfeito cavalheiro.

Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, dava todas as manhs o
seu passeio no Rocio, sentava-se a descansar n'um ou n'outro banco e, se
a gente o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que pretendia
ento um logar na alfandega.

Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como em Lisboa, o Rosa pae.
No Porto, ouvi-o recitar o episodio do _Adamastor_, de Cames, e o
_Firmamento_, de Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma _reprise_ do
_Marquez de l Seiglire_, que foi o seu cavallo de batalha.

Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange de actores antigos
capazes de investirem com a tragedia e com a epopea. Mas possuia, como
Theodorico, os defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos tres,
de que tenho falado, o mais _poseur_: toda a gente se lembra ainda de o
ver passear nas ruas de Lisboa com um grande chapeu desabado e o
sobretudo alvadio ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a at
fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo botas.

Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros actores notaveis

      *      *      *      *      *

Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O celebre alfaiate Humann
dizia a respeito de Gavarni: No ha seno um homem que saiba desenhar
uma casaca:  Gavarni. O Catarro ou o Keil poderiam dizer, com igual
justia, a respeito do Tasso: No ha seno um homem que saiba vestir
uma casaca:  o Tasso.

A sua dico, um pouco _saccade_, era cristallina, sonora. Ainda no
ouvi no theatro quem dissesse melhor do que elle. E decerto no tornarei
a ver quem soubesse estar melhor em scena.

Vi o Sargedas no _Gaiato de Lisboa_, no theatro de S. Joo, do Porto.
Era dos bons, antigos. Apesar de velho, fazia o _Gaiato_ como se
estivesse ainda em idade de jogar o pio. Estes milagres, que triumpham
da velhice, s os consegue o talento.

Antonio Pedro  um morto de outro dia.

Fra do theatro, a sua _gaucherie_ passava em proverbio. No theatro era
um grande actor por intuio, tropeando por vezes em pequenas
difficuldades de prosodia, simplesmente. Mas, no vo impulsivo da sua
assombrosa vocao theatral, esmagava, ao passar pelo palco, os que
estudavam mais do que elle e lhe censuravam a ignorancia manifesta
em questes de arte dramatica.

Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma modestia phenomenal,
aos que o elogiavam: Isto calhou assim. Esta phrase, tantas vezes dita
por elle proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua
organisao artistica.

      *      *      *      *      *

Com o Tasso convivi durante uma _tourne_, no Porto; com Sargedas nunca
tratei pessoalmente. Rectifico assim uma inexactido que s agora notei
na 1. edio d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer
diabrura tipographica.

J isso vai ha tanto tempo!

      *      *      *      *      *




XVII

Pintores


No vero de 1875 estive mais de um mez em Coimbra como vogal da
commisso de exames de instruco secundaria.

Coimbra, a _terra de encantos_, s ento me pareceu tel-os, porque da
primeira vez que a visitei, durante um dia triste e chuvoso, cheio de
incertezas para mim, a cidade havia-me deixado uma impresso bem pouco
agradavel.

Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes verdejavam as suas
galas roagantes, o Mondego, manso e humilde, amenisava bucolicamente a
paizagem, toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por entre os
sinceiraes e as suaves quebradas dos montes.

Uma delicia!

De manh ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, arduo sempre, e por
vezes doloroso como . Mas de tarde eu desforrava-me passeando no
Choupal, na Estrada da Beira e, no poucos dias, no Mondego.

A convivencia no podia ser melhor. Havia examinadores do Porto, de
Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos uns aos outros nos passeios de
todas as tardes. S um unico dos nossos collegas, alis homem
estimabilissimo, se furtava  nossa companhia para divagar ssinho: era
o pintor Christino, que fazia parte do juri de desenho.

Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, e, recostado na
pra do barco, parecia gosar n'um extasi pantheista o bello espectaculo
da natureza que o rodeava.

Os seus olhos absorviam todas as ondulaes luminosas d'aquella clara
paizagem, lucida e placida como uma vista de stereoscopo.

Pois que o pintor Christino tinha a configurao de um eucalipto, alto e
magro, ns, que da Ponte o ficavamos observando, podiamos distinguir,
at grande distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, que
destacavam  pra do barco.

Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem do poente que a sua
cabea descoberta, e mal guarnecida de cabello, pendia scismadora.
Comprehendia-se. Christino reunia mentalmente  belleza do panorama as
tradies romanticas, as memorias lendarias d'aquella margem. D'esse
lado ficava a _Fonte dos amores_ emboscada saudosamente na sombra de
corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a elegia dos
mallogrados amores de Ignez. Mais para cima,  distancia de dois
kilometros da cidade, a _Lapa dos esteios_, retiro selvatico sem
aspereza, e como enfeitado sem arte, segundo a phrase de Castilho,
recordava os tempos semi-pagos em que o poeta da _Primavera_ e os seus
amigos ali foram, em plena mocidade, celebrar, no seio da natureza, a
festa do equinoxio que traz as flores e os canticos, os perfumes e os
amores.

Christino havia sido educado n'essas tradies romanticas, tinha uma
alma de artista, era uma organisao delicada como a de Raphael,
que se devorava nas suas proprias impresses, e ninguem mais
profundamente do que elle poderia sentir toda a poesia d'essa regio
encantada, que o Mondego banha, e que as recordaes e as arvores povoam.

Elle ia, rio acima, to sonhador e abstracto como se uma gondola de
Veneza o fosse passeando no canal do Lido ao som da barcarola de uma
gondoleira. _ dolce volutt_!  deliciosa voluptuosidade espiritual dos
artistas! Que doces horas aquellas que o Christino passou no Mondego
sonhando sobre as aguas!

Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou abenoando do alto
da Ponte como se elle levantasse ferro para uma longa viagem aventurosa
e arriscada.  que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto a
gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios ao acaso, que
desgastam a alma, e com ella a vida. Volta-se velho, como se realmente
se tivesse feito uma longa viagem. O passado  um paiz ideal onde se
envelhece ao cabo de algumas horas de concentrao.

Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes tornei a avistar-me com
o pintor Christino.

Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra morrra, e ouvi dizer
que a luz da sua razo tinha empallidecido primeiro que a dos olhos...

Quanto lhe no teriam cavado a sepultura aquelles sonhos do Mondego, to
a miude repetidos, e to docemente devoradores!...

Tratei de perto com o Annunciao, que foi um animalista notavel.
Encontrava-o muitas tardes na alameda de S. Pedro de Alcantara
passeando, quasi sempre s. Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces
morenas, olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboado, era
comtudo facil e agradavel.

Amador da natureza, ia procural-a no panorama que d'aquella alameda se
descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo
artistico de que os pintores que copiam do natural precisam
impregnar-se.

Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por S. Pedro de
Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. Os olhos conservavam o
seu brilho agareno. Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por
vinte e quatro horas.

No dia seguinte, de manh, pego n'um jornal: Annunciao havia morrido
repentinamente.

E  tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, o panorama
oriental da cidade parecia provocar, na sua belleza tranquilla, a paleta
de um pintor.

Chega s vezes a causar desespero a ideia de que, sendo eterna a
natureza, o homem, o mais perfeito dos seus organismos, seja quasi um
ephemero!...

Miguel Angelo Luppi no se parecia phisicamente nem com o Christino nem
com o Annunciao. Os cabellos branqueavam-lhe j, mas a sua phisionomia
era aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, parecia
vender saude.

Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, n'uma _soire_ litteraria
que o visconde de Castilho (Julio) dra na sua casa da rua de S. Joo da
Matta em honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio.

Fizemos ento relaes, que nunca diminuiram nem augmentaram de
intimidade. Mas eu gostava de encontral-o porque elle, que era um
trabalhador, tinha alegria, e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom
de convico dava-me estimulo.

No ha nada que me entristea tanto como encontrar na rua um homem que
se mostra desanimado por ser obrigado a trabalhar...

      *      *      *      *      *




XVIII

Um grupo de academicos


Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet--_Trente ans de
Paris_--lembrei-me muito de Teixeira de Vasconcellos ao percorrer o
capitulo que fala de Villemessant.

O livro (colleco Guillaume & Cie. )  illustrado, e at o retrato de
Villemessant denuncia um homem robusto, nutrido, como era Teixeira de
Vasconcellos.

Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. Encontrei-me
varias vezes com elle nas _soires_ politicas de Fontes Pereira de
Mello. Visitei-o outras vezes em sua casa, graas  benevolencia com que
desde o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem de mundo,
um _gentleman_, espirituoso, algum tanto mordaz. Contavam-se a seu
respeito anecdotas escabrosas, mas, no trato social, no havia homem que
mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia.

Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer parte da redaco
do _Jornal da Noite_. Eu precisava trabalhar: acceitei. A
benevolencia, que elle sempre me tinha dispensado, fazia-me acalentar a
esperana de que o _gentleman_ das salas havia de continuar a ser
affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. Mas, dentro da
redaco, Teixeira de Vasconcellos era, pelo menos, um pouco
Villemessant: auctoritario, por vezes brusco, um homem muito differente,
tomando sempre  lettra o seu logar de chefe de redaco e de dono de
jornal.

Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem razo para queixar-me.

Mas, logo que o redactor saa, o Villemessant, o dono do jornal
desapparecia completamente. Teixeira de Vasconcellos voltava a ser, para
o desertor do seu jornal, o homem de sala, amavel, servial, obsequiador.

As pequenas nuvens, que tinham empanado o cu, rasgavam-se. E Teixeira
de Vasconcellos recebia cordealissimamente os homens com quem, no trato
familiar de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.

Foi o que aconteceu comigo.

Depois que sai da redaco do _Jornal da Noite_ vivemos deliciosamente.
Se escrevia a meu respeito, fazia-o com extrema amabilidade. Se eu o
visitava, acolhia-me gentilissimamente. E algumas vezes, na minha
presena, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, como eu havia
soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant para os outros, voltava-se
para mim sorrindo e continuando a conversar placidamente.

Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que foi atacado, e
assombrava-me o bom humor, sempre um pouco mordaz, s intermittente para
os de portas a dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.

J de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, mandou-me um pequeno
artigo, que eu lhe havia pedido para uma publicao do editor Chardron e
que, no havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio
d'aquelle editor.

Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior valia. Pena 
conservar-se inedito.

Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, mas o seu lucido
espirito colheu e aproveitou as lies da experiencia.

Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle me deu:

--Se receber um livro mau, cale-se; se receber um livro bom, elogie-o.

Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando o no sigo, arrependo-me.

Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. Passou metade da
sua vida a estudar e outra metade a brigar. Quando entrei na Academia,
estava ainda muito viva a lembrana de azedas discusses que elle l
tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto e d'aquillo. Sem
embargo, e talvez por isso mesmo, Soromenho prestou bons servios 
Academia, de que fra bibliothecario durante muitos annos.

 frequentissimo compulsar um livro qualquer da Bibliotheca de Jesus e
encontrar dentro d'elle uma etiqueta que diz: _Adquirido pelo
bibliothecario A. Soromenho para preencher a falta do exemplar da
livraria._

Bastaria s este servio, muitas vezes repetido, para mostrar quanto
Soromenho se dedicra pela causa da Academia.

Eu, que desde alguns annos converso mais os livros que os socios da
Academia, lucrei sobremodo com a passagem de Soromenho pela bibliotheca
d'aquelle estabelecimento, que s vezes parece mais morto que vivo.

No conheci nunca, no trato particular que tive com Soromenho, a
irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. Queixava-se,  certo,
mas no se queixava mais nem menos do que todos quantos julgavam ter
razo para o fazer. No se vive largo tempo n'uma sociedade de homens do
mesmo officio sem razes de queixa. Peor do que uma sociedade de
homens do mesmo officio s talvez uma sociedade de mulheres da mesma
profisso. Quem melhor poderia dizer se isto  ou no inteiramente
verdade, no o dir por certo. Refiro-me ao sulto da Turquia e ao
imperador de Marrocos, que tem serralho.

O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho foi um grande, um ardente
desejo de estudar e saber. Elle defrontava-se corajosamente com todos os
assumptos, por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente de
uma posio obscura, e litterariamente do lirismo romantico. Entrou no
mundo das lettras com um livro de versos, o _Diwan_. Mas  fora de
trabalho e perseverana nobilitara-se social e litterariamente. Investiu
com as mais intrincadas questes de philologia, de historia, de
epigraphia e de direito. E conseguindo, por um grande esforo de
naufrago, emergir  superficie do mundo litterario, como professor e
academico, certamente teria que combater e que soffrer, porque ninguem
vence os outros sem ficar vencido de si proprio...

Apesar de robusto--Soromenho era um homem forte, com uma phisionomia
algum tanto arabe--morreu relativamente novo.

A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria no Porto. Elle
tinha ido quella cidade como examinador de no sei que disciplina de
instruco secundaria; eu fui de Lisboa visitar a minha familia.
Conversmos toda uma tarde. Soromenho contra-me casos, coisas da
Academia e das litteratices lisbonenses. Animando-se na conversao,
levantava-se, e ento a sua bella figura de homem forte destacava-se
como a de um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, e a
roseta de no sei que ordem portugueza ou estrangeira. Em rosetas no
sou forte; entendo-me melhor com as rosas.

Lembro-me de que  despedida elle me dissera:

--Olhe l. Voce diz no _Guia do viajante no Porto_ que eu nasci aqui. 
engano. Sou de Aveiro--como os mexilhes.

Despedimo-nos rindo. Nunca mais falmos.

Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, sempre atarefado,
gritador, s vezes to precipitado que no se sabia bem o que elle
queria dizer ou fazer. Muito activo, muito illustrado, no deixou
comtudo uma obra litteraria que pudesse dar na vista  posteridade.
Espalhou muito trabalho s rebatinhas, e em pequenas doses, pelos
periodicos litterarios da sua mocidade, _A Semana_, por exemplo. O que
lhe conheo de melhor so as monographias sobre D. Catharina de Bragana
e a Casa dos Bicos, bem como os _Estudinhos de lingua patria_,
publicados no _Archivo Pittoresco_. De resto no consolidou o seu nome
litierario n'um trabalho de folego. Faltavam-lhe, para isso, paciencia e
methodo. Comtudo, era um homem de vastos conhecimentos litterarios.

Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pde ter muito emquanto
teve boa saude. Era um catalogo vivo, e comtudo havia na Bibliotheca
muita cousa que lhe escapra por falta de catalogao.

Quando eu escrevi o _Livro das lagrimas_ para a casa Mattos Moreira,
quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca havia com relao a Santo
Antonio de Lisboa.

Esta investigao era difficil, mas Silva Tullio citou-me logo, de cr,
mais de quinze livros que tratavam do assumpto.

E no dia seguinte mandou-me para casa no menos de outros quinze livros.

Era em extremo obsequiador, servial, amavel. s vezes pedia-lhe a gente
qualquer cousa. Elle, parecendo sempre distraido, respondia
affirmativamente. Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. L se
esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi! Pois no tinha esquecido. Quando
j menos se esperava, dava accordo de si, satisfatoriamente.

Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, e pensava em
colleccionar as cartas do grande historiador, mas no o chegou a tazer.
O tempo fugia-lhe, no s porque elle o perdia com os outros, mas porque
tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a Academia, e o Conselho
Superior de Instruco Publica. E de mais a mais faltava-lhe methodo
para trabalhar. Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.

Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um estilista, escrevia com
pureza e elegancia. Apreciava muito estas qualidades nos outros,
especialmente em Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo,
teve uma grande admirao. _A Semana_, jornal que Silva Tullio dirigira
de 1851 a 1852, atacou violentamente Camillo no seu noviciado
litterario. Mas o tempo passra evidenciando a supremacia intellectual
de Camillo, o tempo sazonra as suas grandes aptides litterarias, e
Silva Tullio tornra-se um dos mais enthusiastas admiradores do eminente
romancista.

Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedra-se no _Hotel
Universal_. Jantei ali com elle e, quasi ao terminar o jantar, entrou
Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo at as dez horas da
noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo _por mestre_.

      *      *      *      *      *




XIX

Conselheiro Viale


Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me ao Porto uma carta dos
srs. Lucas & Filho, proprietarios da Bibliotheca Universal,
convidando-me para escrever um romance historico.[13]

Puz as minhas condies, que foram acceitas, e o romance _Annel
mysterioso_ comeou a ser publicado em fasciculos.

Ia em meio a publicao, quando nova carta dos srs. Lucas & Filho me
instigou a escrever outro romance, para seguir-se immediatamente ao
_Annel mysterioso_.

Aquelles editores davam como razo d'esta proposta o facto de ser
recebido com agrado o meu romance que estavam publicando.

Confesso francamente que me encontrei n'uma situao embaraosa
lembrando-me de que  sempre difficil agradar na repetio, e de que a
empresa editora poderia ser prejudicada pela aventura de querer que eu
succedesse a mim proprio. _Non bis in idem_, diz o proloquio. Escogitei
ento na escolha de um assumpto que lograsse despertar maior interesse
do que o _Annel mysterioso_, e ao cabo de dois ou tres dias
pareceu-me haver encontrado a chave do enigma. No estando ainda
explorada a lenda piedosa que se havia formado em torno do sarcophago de
D. Pedro V, afigurou-se-me que esse assumpto valeria por sua mesma
popularidade. Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em meu
favor a abundancia da fonte. Acabada a publicao do _Annel mysterioso_,
seguiu-se immediatamente a da _Porta do Paraiso, chronica do reinado de
D. Pedro V_. E assumpto foi esse to simpathico aos leitores, que deixou
lucros  empresa editora. Lucas filho morreu pouco tempo depois, mas
ainda vive o pae,[14] com tipographia na rua dos Calafates, e
esse poder dar testemunho de que  inteiramente exacta a minha narrativa.

Comecei a escrever a _Porta do Paraiso_ no Porto. A meio do romance,
caiu-me em casa um despacho para a secretaria da Procuradoria Regia de
Lisboa, e vim tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos
da novella. Voltei ao Porto, e continuei l trabalhando. Vim
definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui os ultimos capitulos.

Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como um Creso na raso de
600 ris por dia...

Perdo! No era isto o que eu queria dizer.

Foi depois da minha installao definitiva em Lisboa que conheci o
conselheiro Antonio Jos Viale. Fui-lhe apresentado por Silva Tullio na
Bibliotheca Nacional. Como eu no vim occupar uma posio brilhante,
d'estas que logo pem em evidencia um homem, ainda que elle valha pouco,
fui vagarosamente fazendo a minha proviso de relaes sociaes,
conhecendo hoje um politico notavel, manh um litterato distincto; hoje
um actor, manh um jornalista: construindo eu proprio, laboriosamente,
o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.

Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca Nacional, quando
eu cheguei com Silva Tullio. Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua
cabea de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma lente para fixar
a minha phisionomia. Estive em foco alguns momentos. Falando-me com
extrema amabilidade, destacava as suas palavras n'um tom gravemente
conceituoso, que o habito do professorado explicava. E na sua maneira de
pronunciar havia um _tic_ original, que fazia retinir algumas sillabas.

Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado das lettras, quizesse
espontaneamente conhecer um velho academico. Fez sentir que o grito de
guerra, dos arraiaes litterarios, era _Place aux jeunes_, ainda que
para abrir logar aos moos fosse preciso demolir os velhos.

Viale tinha sido varias vezes tratado com injustia pelos que chegavam.
O seu resentimento era fundado. A injustia desmandra-se at 
jogralidade. E elle, que sabia profundamente o muito que sabia,
magoava-se com razo de que a multido dos novos passasse sob a sua
janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, ridicularisando-o no seu
apego a Homero, no seu fanatismo por Pindaro. A maior parte dos novos
no sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.

Falou-me da _Porta do Paraiso_, disse-me que o livro lhe avivra
recordaes saudosas de el-rei D. Pedro V  da rainha D. Estephania; que
de ambos fra professor; e que tendo ido  Allemanha, para ensinar
portuguez  mallograda rainha, havia publicado a seu respeito um
opusculo, que eu alias s conhecia por uma transcripo. Offereceu-me
esse opusculo e mandou-m'o d'alli a dias: _Apontamentos para uma
biographia de S. M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima
memoria_, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.

Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos evidenciaram-se logo
s primeiras palavras, denunciando a firmeza convicta de um crente.
Viale viveu sempre em plena religio. Catholico, adorava Deus e acatava
profundamente a auctoridade da igreja romana; homem de lettras, adorava
o classicismo, dormia, como Alexandre, com Homero  cabeceira, a
adormecia talvez depois de ter rezado uma orao a Deus e recitado um
trecho da _Illiada_ ou uma ode de Pindaro.

Collaborou no _Jornal da Sociedade Catholica_, redigiu o _Catholico_,
traduziu o primeiro canto da _Odissea_, o sexto da _Illiada_, os cinco
primeiros cantos do _Inferno de Dante_, o episodio do conde Hugolino, e
bosquejou em oitava rima a historia de Portugal, propagando pelas
escolas de instruco primaria as tradies gloriosas do passado.

A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da sua alma; traa com
uma linha geographica os limites da sua honesta actividade intellectual.
Educar pela lio grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do
catholicismo, foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.

Comeou desde muito novo a trabalhar. Aos doze annos publicou um poema
heroico, _David triumphante_, entrou no mundo das lettras pela porta da
oitava-rima. Era a manifestao precoce de um espirito antigo, que
parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, invadida
pelos turcos, salvando sobraado o ultimo thesouro da civilisao
greco-romana. No chegou cantando o amor, como todos, adejando por sobre
os rosaes floridos da poesia subjectiva. No. Foi recolher-se na Italia,
abrigar-se no palacio dos Medicis em Florena, conversar em Roma com
Leo X e Julio II, preparar em espirito a Renascena. Assistiu
mentalmente  dieta de Spira, e assim como apoiou os papas na
resurreio artistica do passado, apoiou-os tambem na lucta tenaz do
catholicismo contra Luthero. Partindo da Renascena, parou horrorisado
deante da Reforma. quem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolio do
passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convico era de tal
modo pura e profunda, entrincheirava-se to fortemente n'um baluarte de
sciencia, que conseguiu atravessar o mundo, at  extrema velhice, sem
que os desgostos, as injustias, os sarcasmos lograssem fazel-o vacillar
um momento.

Eu tenho aqui, deante de mim, as _Tentativas Dantescas_ do conselheiro
Viale, a sua traduco do _Inferno_ prefaciada por uma notabilissima
carta de elrei D. Pedro V.

As palavras que o traductor me dirigiu, traadas de seu proprio punho,
na sua calligraphia senilmente arqueada, constituem a mais amavel das
dedicatorias.

Eu era por esse tempo professor de historia de seu filho Luiz Filippe,
um moo que ha de honrar largamente, nas lettras patrias, a tradio
erudita do pae. O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo,
as mais subidas provas de considerao em que eu no deixei nunca de
enxergar o corao affectuoso do pae atravs dos repetidos favores com
que o academico, o professor, o hellenista confundiam a minha humildade
de homem de lettras. Eu no havia de ser o juiz official dos meritos de
seu filho, no dependia de mim a sentena do seu exame, mas comprehendia
que Viale me pedia, de um modo captivante, que ensinasse quelle que
devia ser o successor do seu nome tudo quanto na exiguidade do meu
peculio historico lhe pudesse ministrar.

Desde essa poca, sobre a qual j vo passados alguns annos, nunca mais
tornei a avistar-me com o conselheiro Viale.


Maio de 1889.

    [13] S muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fra Camillo
    Castello Branco que me indicra quelles editores na occasio de ter
    declinado o convite que elles lhe dirigiram.--_Nota da 2. edio._

    [14] Tambem j falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a
    tipographia, que ainda subsiste.--_Nota da 2. edio._

      *      *      *      *      *




XX

Eduardo Coelho


Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem...

A noite estava clara, levemente fria. Principiava a sentir-se um
tudo-nada d'essa animao popular que,  meia-noite, havia de
repartir-se pelos ranchos joviaes, de homens e mulheres,  saida da
missa do gallo. As confeitarias resplendiam num grande espelhamento de
guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam o _Jornal da Noite_,
que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, era a unica folha que saa
depois de posto o sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado e
a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade alta. Para os
theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se um formigueiro de
espectadores, dobrando a esquina do largo das Duas Egrejas, onde hoje
est a ourivesaria Leito. Vendedores de _cautelas_ rouquejavam o prego
da _taluda_, o 4897, perseguindo a gente.

Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e, diga-se
francamente, uma pequenina onda de saudade, mansa mas teimosa, envolvia
o meu corao na salsugem de recordaes esfumadas, de memorias
fugitivas d'aquella noite de festa.

Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, eu ia
aventurar-me a uma explorao, no direi to arriscada como as do serto
africano, mas no inteiramente isenta de difficuldades, por certo.

Como eu houvesse procurado j duas vezes Eduardo Coelho em sua casa, sem
o encontrar, elle tivera a amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim
de encontrarmo-nos _definitivamente_, fosse eu  redaco do _Diario de
Noticias_, s nove horas da noite.

Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as ruas de Lisboa sem o
auxilio de ninguem, entrei no Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda
da rua dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua do _Diario de
Noticias_  de recente data.

Complica-se com o encruzamento de varias travessas a topographia
d'aquelle bairro. Ha pessoas que, comquanto nascidas em Lisboa, no se
orientam facilmente no Bairro Alto, assim como tambem no so capazes de
sair, sem que as dirijam, do labirintho do Bairro d'Alfama.

Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, o caminho do _Diario
de Noticias_, e no me ficou barata essa audacia. Perdi tempo e passos.
Mas sustentei heroicamente o meu capricho: no fiz uma pergunta sequer.
Aprendi n'aquella noite a complicada topographia do Bairro Alto, levei a
cabo a explorao, sabe Deus com que trabalho!

Finalmente, entrei na redaco do _Diario de Noticias_ quarenta minutos
depois da hora aprazada.

Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira vez, embora tivesse
estado com elle em communicao epistolar, a causa da minha demora.

Elle, de flr ao peito, muito alegre, muito bem disposto, riu da
minha aventura e, ficando silencioso um momento, acabou por dizer-me:

--Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. Voc  um homem
capaz de luctar, de soffrer para vencer. Perdeu quarenta minutos 
procura do _Diario de Noticias_, mas ganhou o ficar habilitado a tornar
c com os olhos tapados.

Apresentou-me a todos os seus collegas de redaco, captivou-me com
aquella sincera bonomia que era a feio predominate do seu caracter
affectuoso: ficamos amigos.

Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro ou quarto acto de
uma comedia, que j no sei como se chamava; Mas, pouco antes de acabar
o espectaculo, Eduardo Coelho despediu-se. _Ia fazer a meia noite, com a
sua familia_, disse-me. Eu no sabia o que era _fazer a meia noite_.
Coelho riu-se.

-- o que l, para as nossas provincias, se chama a consoada, a ceia do
Natal.

Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo Coelho, proprietario e
redactor principal do _Diario de Noticias_.

Em maio de 1889 chegava eu  _gare_ de Campanh, no Porto, em virtude de
um acontecimento de familia, que me trazia ento dolorosamente
preoccupado. Ouvi dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo o
_Jornal da manh_:

--Morreu o Eduardo Coelho.

--De repente?

--Sim, de repente.

--Hontem  noite, quando samos de Lisboa, nada constava...

Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador e alegre, que
foi, deve dizer-se, _uma das foras do seu tempo_.

Depois de haver sido um dos _vencidos da vida_ (no no sentido
pantagruelico que esta denominao est tendo hoje, mas no sentido
economico e abstemio) elle conseguira, graas  sua imaginao, ter uma
ida que o salvasse.

Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores porque tiveram uma
ida: seja um plano de batalha ou a inveno de uma machina. Eduardo
Coelho teve tambem uma ida, que, sem embargo de lhe ser pessoalmente
proveitosa, tem aproveitado a muita gente: lanar um jornal de dez ris
para noticias e annuncios.

Mas no basta ter uma ida:  preciso sabel-a conduzir. Eduardo Coelho
affirmou esse duplo merito, e a sua ida, feita jornal, conservou sempre
a direco que elle lhe deu, ganhou velocidade, est em movimento, j
no poder desgarrar-se.

Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances e dramas,
folhetins e versos, elle teve comtudo o bom senso de nunca ser to
exclusivamente litterato no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a
indole noticiosa e popular do _Diario de Noticias_.

Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do circulo de Popilius
que a si proprio se havia traado, e se as saudades da litteratura o
tentavam a fazer arte por amor da arte, deitava o seu livro,
espanejava-se em liberdade n'um volume independente, que era uma especie
de gazeta feita...  gazeta.

Mas os moldes do _Diario de Noticias_ nunca foram alterados, o artigo
litterario nunca floresceu tanto que ensombrasse a noticia, a _blague_
phantasista nunca se permittiu nutrir  custa do chocolate do
annuncio--este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.

Dizer o que se passava, com uma grande investigao de pormenores, mas
sem refolhos de linguagem que ameaassem attenuar ou esfriar o interesse
do leitor, eis o proposito inicial do _Diario de Noticias_.

Contar as occorrencias como qualquer pessoa que chegasse  escada as
poderia contar, ainda sob a primeira impresso, e sem retoques de
litteratice, n'um tom que tanto pudesse servir para o visconde do
primeiro andar como para a velhinha do quinto, eis o que o _Diario de
Noticias_ se propoz conseguir, e realisou.

Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam s vezes a
epiderme do _Diario de Noticias_: queriam-n'o mais enlitteratado, mais
pintalegrete em estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu  sua vaidade que
fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do _Martinho_. Seguia o
seu caminho, tranquillamente, resolutamente, e, graas ao seu trabalho
honesto e indefesso, ia construindo predios na rua dos Cardaes ao passo
que os seus criticos, trabalhando sempre, mas com peor orientao,
viviam em casa de renda, com difficuldade em pagal-a.

Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, conseguiu que
Lisboa inteira se cousubstanciasse com o _Diario de Noticias_, que, se o
lermos com atteno,  a chronica da capital, escripta dia a dia, na
flagrante nudez da sua verdade anatomica.

Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os litteratos) que chegue 
porta esse vigilante mensageiro de todas as manhs. Os outros jornaes
podem interessar-nos mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo das
nossas predileces pessoaes ou politicas; mas o _Diario de Noticias_
diz-nos o que ha a dizer com a brevidade de quem d um recado,
informa-nos, faz-nos a sua vnia, e deixa-nos em liberdade para lermos,
consoante nosso gosto, os outros jornaes.  e no  um concorrente
perigoso para as novas empresas jornalisticas, porque os dez ris que
elle custa cristalisaram no oramento domestico da populao lisbonense,
converteram-se em despesa ordinaria, no entram em linha de conta para o
gasto, maior ou menor, que hajamos de fazer com os outros jornaes que se
vendem avulso.

A velhinha da mansarda j tem como certo que, alm do indispensavel 
sua alimentao, ha de gastar um vintem por dia: dez ris para o
seu _Diario de Noticias_, dez ris para o carapau do seu gato.

s cinco horas da manh, quando a gente parte ou chega de uma viagem,
todos os moos de fretes lem preliminarmente o _Diario de Noticias_,
encostados s esquinas das ruas.

Ora o moo de fretes  incapaz de perpetrar uma extravagancia
dispendiosa. Harpago das esquinas, trabalha para amealhar, com os olhos
postos no seu ideal gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato
das _maltas_, para alimentao, renda de casa e despesas miudas, entra a
verba effectiva do _Diario de Noticias_, cuja leitura se faz, as mais
das vezes, em voz alta, para o grupo todo.

 isto ou no  isto?

Eduardo Coelho teve pois uma ida que se consolidou n'um facto
indestructivel. Deixou alguns livros, mas a sua popularidade, a sua
gloria, a sua evidencia no lhe veiu dos livros, veiu-lhe do _Diario de
Noticias_.

No proprio dia em que elle se enterrava, o _Diario de Noticias_
appareceu carregado de annuncios: era a affirmao glorificadora de que
elle no trabalhra debalde e de que a sua ida se havia convertido
definitivamente n'uma instituio lisbonense.

      *      *      *      *      *




XXI

Marquez de Thomar


Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar n'este mundo, e
comprehendem facilmente que me interessasse mais o biberon do que a
politica.

Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me sofregamente para
ella e, segundo o testemunho de pessoas insuspeitas, mostrei-me to
indifferente  politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes.

Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas de Plutarchos, ao
traar-me um pomposo elogio biographico, haveriam notado a coincidencia
do meu nascimento com um dos periodos mais agitados da politica portugueza.

Teriam gritado: predestinao! E diriam, _una voce_, que o illustre
estadista (o illustre estadista era eu...) nascera sob a influencia da
grande lucta travada entre os amigos e os adversarios do conde de
Thomar--lucta feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima cartada.

Effectivamente, os Cabraes haviam caido com a _Maria da Fonte_, o conde
de Thomar fugira para Hespanha, mas o resultado das eleies de
1848 chamra-o de novo ao poder.

1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda republica
franceza!... Decididamente, os srs. biographos poderiam, sempre no caso
de eu ser um estadista de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da
poca do meu nascimento, porque um anno depois da proclamao da
republica em Frana e quando estava germinando a _regenerao_, foi que
me estreei n'este mundo, envolto nas faxas infantis.

Mas como o acaso--essa bussola misteriosa que nortea os destinos
humanos--no quiz que eu viesse a ser um politico de marca, perdeu-se a
descoberta de mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo notavel.

No que a meu respeito tem dito em bem e em mal, nem uma s palavra foi
ainda escripta relativamente ao facto de eu haver chegado a este mundo
depois de ter sido annunciado pelo himno da _Maria da Fonte_.

Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente morte do marquez de
Thomar chamou a minha atteno para a poca da sua decadencia politica.
Eu entrei n'este mundo durante os _cem dias_, posso dizel-o assim, de
Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve tambem,  volta de
Hespanha, alguns dias de ephemera restaurao.

O que  certo  que vim encontrar o mundo politico portuguez ainda
saturado do nome dos Cabraes. No sei se a minha ama era cabralista ou
patula. Naturalmente seria patula, porque era do Minho, e eu proprio,
se pudesse ser ento alguma cousa, seria patula tambem... E assim foi
que correu a minha primeira infancia derivando por entre dois nomes, de
que se falava muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, que
tinha cado definitivamente em 1851, e o marechal Saldanha, que tinha
triumphado com a regenerao.

Estavam ainda muito frescas as impresses d'esse movimento politico,
recordava-se o _Espectro_ e a _Maria da Fonte_, acudiam ainda  memoria
de toda a gente as cantigas populares do Minho contra a familia dos
Cabraes.

Digo familia, porque uma conhecida cantiga da poca nem sequer poupava a
esposa do ministro caido:

    Luizinha, agora, agora...

Quiz porm o acaso que eu chegasse ainda a conhecer pessoalmente muitos
dos homens notaveis d'esse tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e
pude d'este modo completar as fugitivas e incertas impresses que, para
assim dizer, trouxera do bero.

Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque  verdade, que o
vi por um oculo: o oculo aberto na urna em que elle viera de Inglaterra.
Mas em todo caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traos d'essa
phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva e insinuante.

Vi o Sampaio da _Revoluo_... de guardanapo ao pescoo, tomando
pacatamente o seu ch de familia, e comendo com tranquilla delicia bolos
de cco. Elle, o terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor
do _Espectro_, o ardente pamphletario de 1846, vi-o eu ser o mais
pachorrento, o mais soffrido, o mais tolerante dos homens que n'este
paiz tem mexido em politica.

Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, ouvi-o, convivi com
elle politicamente nas horas de triumpho e adversidade. Tambem o vi
morto, com o seu uniforme de general, deitado no modesto leito que os
cirios rodeavam lanando sobre o seu rosto macerado um pallido claro
indeciso.

Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo vigor de homem
forte para a sua cadeira de par do reino, e vi abrirem-se para elle
todos os braos, e ouvi as saudaes respeitosas que todos os
homens lhe dirigiam, sem excepo dos antigos patulas _enrags_.

 que o tempo tinha passado, adormecido as paixes, saciado as
impaciencias, envelhecido os homens.

Chegra a _paz geral_, que o meu excellente amigo D. Polycarpo Lobo,
hoje coronel de lanceiros,[15] havia prophetisado. Os adversarios de
1848 tinham ensarilhado armas, os regeneradores de 51 haviam-se
congraado com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio Sampaio, com uma
magnanimidade que faz honra  sua memoria, referendra o decreto que
agraciou Antonio Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez de
Thomar.

Em que abismo de recordaes no mergulharia o espirito d'aquelles
homens, que se estimavam na paz depois de se haverem odiado na lucta!
Como elles ririam da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos do
combate, que o ardor pde ser eterno, e que as suas proprias paixes ho
de queimar durante toda a vida com a mesma violencia! E como elles
chorariam intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das noites
mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos de outr'ora, que
se desfizeram em fumo!

Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio sentados nas suas
cadeiras de ministros, e o marquez de Thomar sentado na sua cadeira de
par do reino, meneando a cabea, approvando tacitamente o que elles
diziam...

Ao cabo de quarenta annos estavam de accrdo, e a onda revolucionaria da
_Maria da Fonte_ tinha rolado para o sorvedouro da historia, deixando
maiores recordaes no papel do que nos homens.

Meio seculo  espao mais que sufficiente para transfigurar, por dentro
e por fra, a natureza humana.

De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio deviam achar-se da mesma
estatura quando se medissem mentalmente. O valor d'estes tres homens
divergia em determinadas aptides; mas a energia de caracter tinha sido
igual em todos tres.

Costa Cabral fra um luctador contumaz, arcra  mo tente com os homens
que se lhe oppunham; foram precisas duas revolues para o derrubar,
porque  primeira resistiu elle.

Sampaio luctra com o luctador, perseguira-o com a penna, combatera-o
implacavelmente com o _Espectro_, amargurra-lhe as horas de triumpho,
os dias de poderio. Homem para homem; coragem por coragem.

Fontes resistira de p, como os heroes, a todos os embates, que
procuravam lanal-o por terra na sua gloriosa iniciao como ministro da
cora. Pde dominar todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades,
chegou com esforo, mas viu e venceu como Cesar.

Todos esses tres homens foram dominadores por sua vez, todos tres
brigaram encarniadamente, e todos tres eram coraes generosos, almas
de bom timbre, expansivas e affectuosas.

Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos podem encontrar-se e
communicar, todos tres contemplaro l do alto a sombra que projectaram
na terra, e rir-se-ho da pequenez do seu vulto, que a ns nos parece
enorme. Porque, descontadas no homem politico as suas paixes, as suas
furias de momento, o que a seus proprios olhos deve restar
parecer-lhes-ha cousa pouca e vulgar. Mas ns, os que sobrevivemos,
continuamos a vl-os grandes e colossaes, porque os ficamos vendo
atravs da historia...

Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito de Costa Cabral,
algumas notas discordantes.

Certos jornaes tem feito accusaes  sua memoria, mas a primeira
condio para apreciar um homem politico deve ser, segundo penso, o
exame detido e imparcial das circumstancias em que se encontrou. 
preciso reconstruir toda uma poca para julgar com segurana um homem
politico. E as circumstancias em que Costa Cabral se encontrou foram das
mais agitadas por que tem passado o governo constitucional n'este paiz.

Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario e
conservador. Esta accusao pde ser fulminada contra a maior parte dos
homens politicos de todos os paizes, por isso mesmo que a politica 
tudo quanto pde haver de menos certo e previsto. Governar  transigir,
dizia amiudadas vezes Fontes Pereira de Mello.

Pois bem, os homens de estado tem que obedecer s correntes caprichosas
da opinio--to caprichosas como as da atmosphera. E a palavra
opportunista, modernamente lanada na circulao, explica bem todas as
eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica.

Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral de renegado.

Ah! santo Deus! a quantos republicanos no pde ser feita igual accusao!

Tudo isto no faz seno confirmar que a politica , essencialmente, uma
fora instavel, que se impe muitas vezes  vontade dos homens,
subjugando-a.

Cada vez estou mais inclinado a crr que no ha principios absolutos,
nem na sciencia, nem na politica, nem em cousa nenhuma. Ao sistema
astronomico de Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. Em
politica tem-se visto tal paiz, como a Frana por exemplo, ser
alternadamente monarchico e republicano. E cada individuo muda dentro de
si mesmo centenas de vezes.

Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo da maior
solidariedade politica que depois de 1834 se tinha visto n'este paiz.
Por isso mesmo chegou a rodear-se dos mais dedicados amigos. Quem
no era por elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica,
praticamente, esta maxima da sabedoria das naes: A unio faz a fora.

O sr. Oliveira Martins accusa-o, no _Portugal Contemporaneo_, de ter
governado sem um principio moral. Ah! Diogenes da politica, accendei as
vossas lanternas, e procurae os principios moraes de todos os
governos... Haveis de ficar ricos com o achado!...

Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver a viao
publica, como o fez Fontes Pereira de Mello, se tivesse interessado no
seu governo as classes operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado
no poder.

Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.


Setembro de 1889.

    [15] Esbocei saudosamente o seu perfil no livro _Figuras
    humanas.--Nota da 2. edio_.

      *      *      *      *      *




XXII

Alexandre da Conceio


Alexandre da Conceio estudava engenharia civil na Academia
Politechnica do Porto quando eu tentava na imprensa a minha estreia
litteraria. Era um dos poetas novos da phalange de Guilherme Braga, Jos
Dias d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposio ao
Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, que haviam quasi abandonado
as musas a esse tempo.

Principiou militando nas fileiras do romantismo, que era a corrente
dominante da poca. Em 1865 reuniu em volume as suas poesias sob o
titulo de _Alvoradas_. E dez annos depois fez segunda edio augmentada
com novas composies.

Como poeta, se no podia medir-se com a estatura genial de Guilherme
Braga, era comtudo muito distincto. Dou como _specimen_ aquella das suas
poesias que teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro
_Alvoradas_, pde ajuizar, pelo _specimen_, do valor de Alexandre
da Conceio como poeta:

                PERGAMINHOS

    No me esmagam, mulher, os teus sorrisos;
    Eu tenho mais orgulho do que pensas
          E rio-me tambem;
     debalde que tentas humilhar-me,
    Porque eu ouso pensar--v tu que insania!
          Que tambem sou alguem.

    Alguem que veio ao mundo sem familia,
    Um producto do acaso, um paria, um misero,
          Um engeitado emfim,
    Um sr sem proteco das leis canonicas,
    Filho sem pae no assento do baptismo,
          Mas um sr, inda assim.

    Levantou-me da estrada do infortunio
    Um homem que entendeu que um filho espurio
          Tem jus a proteco,
    Um homem que entendeu que  vil e infame
    Atirar para o lodo dos hospicios
          Uma alma em embryo.

    Este homem deu-me a fora do seu brao,
    Legou-me em vida o seu honrado nome...
          Vestiu quem era nu,
    Depois, quando me viu robusto e forte,
    Disse-me um dia: Vae, s homem, lucta,
          Trabalha agora tu.

    Luctei, passei curvado sobre os livros
    A mais florida quadra dos meus dias
          Sereno a trabalhar;
    Estudei, progredi, illuminei-me
    E um dia para entrar em novas luctas,
          Pude emfim descanar.

     que eu vi as premissas da victoria,
    O applauso espontaneo dos estranhos
          Incitar-me a seguir,
     que eu via deante dos meus passos
    Rasgar-se ampla, infinita, luminosa
          A estrada do porvir.

    Se alguma cousa sou a mim o devo,
    Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,
          Ao amor de meus paes,
     fora de vontade,  intelligencia,
     sociedade pouco, s leis bem menos...
          E a ti no devo mais.

    E s tu que vens fallar-me em pergaminhos?
    E s tu que vens fallar-me nas riquezas
          Que o destino te deu?
    Eu no troco os meus louros de poeta,
    As conquistas do estudo e o meu futuro
          Por tudo quanto  teu.

    s louca!... Sabes l que orgulho  este
    Do homem que a si s deve o que vale
          E que espera valer?
    Ha l brazes illustres que equilibrem
    Estes louros viosos d'um triumpho
          Que soubemos mercer?

    s louca! Sabes l como eu sou rico,
    Rico de muita honra e muita esp'rana
          E muito corao?
    s louca! Mostra a escravos as riquezas,
    Que eu p'ra no adorar bezerros de ouro,
          Sou bastante christo.

    E quem te disse a ti que eu te invejava
    Esse ouro, que  teu unico prestigio
          E o nome a teus avs?
    Orgulhosa!... pois julgas decidido
    Qual seja, n'esta lucta de vaidades,
          O mais nobre de ns?

    Pois julgas que ser nobre  mero acaso,
    Uma questo de bero ou de destino,
          Uma questo de paes?
    No vs que se a nobreza fosse heranca,
    Tendo eu e tu por paes Ado e Eva,
          Seriamos eguaes?

    E no somos, bem vs, porque a nobreza
    No se lega, conquista-a a intelligencia,
          O talento, as aces;
    Ora eu, se me permittes a vaidade,
    Colloco um pouco abaixo dos meus louros
          Todos os teus brazes.

    Devolvo-te portanto os teus insultos
    E a suspeita de te adorar os risos,
          Que nunca mendiguei;
    Se s bella e tens orgulhos de rainha,
    Mulher, entende bem, eu sou poeta,
          Tenho orgulhos de rei.

    Que  esta a nossa fora; n'estes tempos
    Em que a estupidez m enche as mos d'ouro
          Para nos insultar,
     modestia a orar pela baixeza
    No fazermos sentir aos maus e aos futeis
          Quem devem respeitar.

    No me compares, pois, a horda ignara
    Que te adora os sorrisos pelo ouro...
          Eu tenho corao,
    Tenho por pergaminhos o trabalho,
    Por thesouros a minha intelligencia
          E a honra por brazo.

    Ns, os homens que andamos procurando
     luz do corao por este mundo
          Os caminhos do bem,
    Como trazemos alto o pensamento
    E a fronte erguida ao co, temos orgulho,
          Bem vs, como ninguem.

Em 1867 publicou o poemeto _Abenoada esmola_, que considero inferior 
maior parte das composies incluidas nas _Alvoradas_.

A este tempo, j era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito
prejudicra a inspirao. Sem embargo, sente-se ainda na _Abenoada
esmola_ a destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado
a prosaicas occupaes.

E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na
mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para
illudir-se. A este respeito discutimos n'uma serie de cartas
publicadas no _Jornal do Porto_ desde dezembro de 1871 a maro de 1872.

A discusso terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos
antes. Uma das minhas primicias litterarias fra justamente beliscada
por Alexandre da Conceio n'um folhetim do _Nacional_. Quando a questo
rompeu no _Jornal do Porto_, tudo fazia suppr que viesse a azedar-se,
mas quiz por excepo a minha boa fortuna que eu ficasse sendo
favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da
Conceio, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinio,
especialmente em politica.

Elle era republicano, e prestou bons servios ao partido em que
militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio  imprensa, com
nobre independencia, affirmar e defender as suas convices. No havia
conveniencia de situao que lhe atasse os braos. O seu caracter era
resoluto na expanso das suas convices.

Em 1881 Alexandre da Conceio travou uma aspera peleja litteraria com
Camillo Castello Branco, a proposito do _Euzebio Macario, historia
natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes_.

Na _dedicatoria_ declarava Camillo o intento que o demovera a escrever
essa novella humoristica: Perguntaste-me um dia se um velho escriptor
de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um
romance com todos os _tics_ do estylo realista. Respondi temerariamente
que sim.

O _Euzebio Macario_ foi a justificao d'esta affirmativa, d'este
compromisso espontaneamente tomado.

Camillo, o inexcedivel romantico do _Amor de perdio_, provou o seu
pulso de escriptor realista no _Euzebio Macario_ e, depois, na _Corja_.
Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da
litteratura, no havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto,
processos que lhe desnervassem o brao.

Alexandre da Conceio que principiara, como todos os litteratos do seu
tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e
em litteratura para o realismo.[16] Exagerou o seu enthusiasmo,
fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. No viu
deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco.
Cuidou ver apenas no _Euzebio Macario_ a pretenso _de lanar o ridiculo
sobre a escola realista_.

D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggresses
pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicao no facto
de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceio provinham do
afgo com que elle abraava os processos litterarios da escola realista.

O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte no houve
trepidao que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um
polemista insigne. Mas Alexandre da Conceio, descontados os excessos
que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no
combate.

Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal tem o seu lado
triste, e esta mais que todas, porque Alexandre da Conceio, no fundo
da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios
do seu contendor.

Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, no _Caf Marrare_,
n'uma calmosa manh, em que ali entrmos.

O combate foi to aspero como longo. A curiosidade publica acompanhou-o,
commentou-o e, faz pena dizel-o, divertiu-se. Mas estou plenamente
capacitado de que nenhum dos dois guardou duradouro resentimento
d'essa cruel peleja.

... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que resta? Camillo,
irmanado na grandeza da desgraa a Milton, agonisou privado da luz dos
olhos at que, revoltado contra as trevas, arremessou a sua alma para as
alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. Alexandre da
Conceio, adormecido na immobilidade da morte, no  mais do que o
envolucro decomposto d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella
alma ardente, mas fidalga.

E, o que  profundamente lacrimavel, tres creanas ficaram ao desamparo,
sem pae e creio que... sem po.

    [16] Esta evoluo annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde
    (1882) compilados no livro a que deu o titulo de _Notas, ensaios de
    critica e de litteratura._--_Nota da 2. edio._

      *      *      *      *      *




XXIII

Julio Cesar Machado


No dia em que elle se matou, a graa, a flr dos espiritos alegres,
pendeu amortecida como essa outra flr, que no campo chamam _bons dias_,
quando a tarde principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...

A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, que desperta
voltada para o oriente, e que sempre vae seguindo o sol, aquecendo-se
n'elle para melhor sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo
diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida por uma
dolorosa noticia...

A anecdota, que bem pde comparar-se a esses bellos cachos de glicinia
que, nas estradas monotonas, espreitam s vezes sorrindo do alto dos
muros das quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar por
elle, que jmais havia feito uma jornada litteraria sem lhe dar um momento
de atteno em passando...

A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes com a sua
sorte, esta flr que, nas mais agrestes paragens, parece cantar na
festiva expanso do seu perfume, dizendo a toda gente que ella est ali,
bem florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, para
occultar a sua commoo, como tambem s vezes a madresilva se encobre
com as folhas da hera, que nos braos verdes a vae levantando ao alto
das grandes ruinas...

A modestia, a violeta timida que no faz alarde da sua delicadeza, e que
 o caracteristico das almas boas e simples, chorou sobre a terra que
no tardaria a devorar, no seu seio egoista, o cadaver do homem que
melhor a personificou no mundo...

.........................................................................

Mas como pde este Julio, to alegre, to moo sempre, to costumado a
rir, to interessado pelo mundo, to apegado  vida, que at parecia no
estar disposto a envelhecer jmais, to delicado e gentil nos seus
pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, n'um drama de
sangue, que s de recordal-o sente a gente o corao confranger-se?!

Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se
suicidem, comprehende-se, explica-se de algum modo. A vida era-lhes
pesada, no tanto por si mesma, como por que elles proprios exageravam o
peso da vida.

Mas o Julio, to despreoccupado, to pouco dado a scismas e
presentimentos, to bem disposto sempre a no extrair de toda a agua de
uma nuvem mais que uma lagrima--apenas!

No se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle (o livro _Scenas da
minha terra_); tel-as-ha trazido alguma nuvem ligeira, que um raio de
luz mais ligeiro ainda haver logo enxugado; so irms dos meus
sorrisos, essas lagrimas...

De mais a mais no sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de
se proporem a sair da sua terra, e at cuidam que o barco se ha de
perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que
por eu ir n'elle  que o barco no se perder. Muito pouco merecem,
pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.[17]

Viajo com enthusiasmo, com esperana, com uma ineffavel felicidade; nem
entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, 
morrer![18]

Tudo  grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas;
deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado  alegria e 
sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraesinhas, perante
o altar da anecdota![19]

Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos
depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava
tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes
de Mendona, porque a exaltao doentia do seu espirito no nos deu o
tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final.

O filho que elle adorava at ao fanatismo succumbira a uma allucinao
de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou
a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de
terra, nada fica de p dentro de poucas horas.

Todos ns nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mo, muito
ufano d'essa creana de calo e blusa, a quem falava curvando-se, a
quem sorria escutando-a.

Uma palavra de saudao amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de
feies miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com
louvor ao seu livro mais querido, _Os contos ao luar_.

-- Julio, o teu prologo dos _Contos_ leio-o s vezes para me sentir to
moo como ha vinte annos. ... E depois, eu no sei bem por que chamei
ao meu livro _Contos ao luar_! Bonito, como eram ento as coisas bonitas!

--Pois sim... Mas olha que este rapaz no  peor do que o livro...
respondia-me elle uma vez.

E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...

Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podest, o pequeno Julio
levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae,
que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar
pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. No
tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois
de haver apertado a mo, muito expressivamente, ao amigo que tinha
afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relaes com o
outro amigo que o reprehendera.

Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o
perdeu;--basta por si mesmo a explicar a contradico que em Janeiro de
1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.

Eu devo  memoria d'este homem a gratido que nos impelle para todo
aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada.

Foi no livro _Manhs e noites_ que elle saudou com excessivo favor os
meus primeiros trabalhos litterarios, as _Peregrinaes na aldea_ e o
romancesito _Idyllios  beira d'agua_. No me conhecia pessoalmente,
elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado
algumas cartas.

S em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu,
recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino.

Fiz ento, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installao, um
livro que me haviam comprado no Porto: _Photographias de Lisboa_.

Reproduzo uma pagina d'esse livro:

Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, est o
escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros,
retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um
labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu
explico a phrase, que pde parecer descomposta.  que as mulheres, por
naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahotico _atelier_
do Julio.

Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor no _mnage_, 
um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das
maiores notabilidades europeas. L esto, reproduzidos d'um lado pela
photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo,
Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca
Magalhes, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.

A proposito dos escriptores francezes do album, falamos,  segunda vez
que nos viamos, de litteratura franceza. No sei qual de ns passou dos
talentos masculinos da Frana para os femininos. Provavelmente foi o
Julio. O que  certo  que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, me de
Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei no haver encontrado o
seu nomeado livro _Physiologie du ridicule_.  effectivamente raro este
livro, cuja primeira edio data de 1833.

--s vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo a sua livraria,
encontra-se a felicidade onde se no espera. Todavia  mais facil
encontral-a debaixo d'um telhado do que debaixo d'uma pedra, d'onde a
desencantou o nosso Camillo.

E tirando para fra um livro:

--Ora se voc pde reputar felicidade instantanea o encontrar a
_Physiologia do ridiculo_, alegre-se que vae vl-a.

E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:

--E lel-a.

O Julio havia escripto:

_Ao seu amigo Alberto Pimentel--lembrana de Lisboa em outubro de 1873._

_Julio Cesar Machado_.

E entregando-me o livro:

--E tel-a.

Era impossivel recusar; acceitei.

Depois d'esse dia, as nossas relaes de amizade tornaram-se familiares,
intimas, o _tu_ veio consolidal-as como entre dois bons amigos de
collegio, que se conhecessem desde a infancia.

Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa estao de aguas
alegremente, e, por acaso, retiramos no mesmo dia. Elle ficava na
Durruivos, com a sua familia; eu, com a minha, seguia para a Ericeira.
Uma bella tarde de vero declinava, e o que quer que fosse de leve
saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, sua esposa e seu filho
apearam-se n'uma estao que no sei dizer ao certo se era o Bombarral
ou o Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados,
saboreando a sua modesta _villegiature_.

J elle ia saindo da estao, e eu gritei-lhe:

--_Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!_

 o seu livro que mais fala da Durruivos.

Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braos como para receber as
minhas palavras, e depois, com a mo direita, acenou na direco dos
campos, dos arvoredos da Durruivos.

O Julito agitou no ar o seu chapeu.

E o comboio partiu.

    [17] e [18] Do livro _Recordaes de Paris e Londres_.

    [19] Do livro, o seu ultimo livro, _Mil e uma historias_.

      *      *      *      *      *




XXIV

Joo de Andrade Corvo


Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um s lote da minha modesta
bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar Machado, arrolando o espolio
litterario d'esse morto querido, destinando-lhe um logar de honra no
futuro pantheon dos meus auctores predilectos.

Ainda foi outro dia!...

De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com algum tempo de
trabalho, pude reunir n'um s logar todos os seus volumes, incluindo os
dois da _Vida em Lisboa_, que vo sendo muito raros no mercado.

 que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, em que perfeitamente
me oriento. Acho fria, monotona a arrumao sistematica por auctores,
dispostos em fila, como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a
distribuio caprichosa de escolas e escriptores, essa _grande
confusion_ tumultuaria em que Voltaire d o brao a Chateaubriand, em
que Rnan se encontra vizinho do padre Manuel Bernardes, e em que
Bossuet vive paredes meias com Augusto Comte.

Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente _cancan_ dos
espiritos, que volteiam em torno da minha banca de trabalho, uns graves
como espectros, outros folgazos como collegiaes; estes sorrindo
desdenhosamente scepticos, aquelles crendo fervorosamente como apostolos.

Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe uma especie de
culto privativo--o culto da saudade--e dei-lhe um logar reservado n'um
s lote da minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros,
folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordaes de antiga leitura, e
muitas vezes encontrei citado entre as paginas, que ligeiramente
passavam por deante dos meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo.

Hoje alargo as dimenses do compartimento em que Julio Machado era
inquilino unico, e ponho, tambem ordenadamente, ao lado das suas obras,
as do sr. Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque
diversamente orientados, sempre se comprehenderam e estimaram, e
estimando-se e comprehendendo-se continuaro conversando um com o outro
no mesmo lote da minha estante.

Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes tive de escrever a seu
respeito. No folhetim semanal do _Economista_ apreciei eu dois volumes
dos seus _Contos em viagem_, e no sei se foi n'essa occasio, ou em
qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo como romancista
historico, declarei francamente antepr o seu _Um anno na crte_  to
preconisada _Mocidade de D. Joo V_, de Rebello da Silva.

No quer isto dizer, por modo algum, que eu no reconhea em Rebello da
Silva superiores qualidades de estilista; mas como romancista historico
acho que o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo da
poca, e na fidelidade dos caracteres.

A obra do sr. Corvo no se limitou, porm, ao romance. Elle foi
dramaturgo, jornalista, poeta, estadista e academico.

Em todas estas espheras de aco firmou creditos inabalaveis de homem
eminente. Como escriptor nunca lhe ouvi notar seno um defeito: no ter
orthographia. Mas a orthographia  como a belleza: nem toda a gente tem
a mesma opinio a respeito de uma e outra. Quanto  orthographia do sr.
Corvo,  provavel que o sr. Latino, que prefere a etimologica, a achasse
m; mas  tambem provavel que o sr. Barbosa Leo, que apostolava a
sonica, a achasse boa.

Corvo viajou por todas as regies da sciencia, no com bilhete de _ida e
volta_, como quem vae passar dois dias santos fra da terra, mas como
esses pacientes caminheiros que fazem a sua Jornada de Misericordia em
Misericordia.

Formou-se no sei quantas vezes, no por necessidade, mas por
divertimento. A sua grande distraco era estudar, saber.

E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu Julio Cesar Machado
no _Claudio_:


Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com que se maravilham os
leitores faceis. Citou muitos auctores, referiu-se a muitas obras,
metteu trechos de todas as linguas, uns bocados em latim, outros em
allemo, dois em grego. O _Martinho_ exultou. O homem novo ia matar tudo.

No matou cousa nenhuma. D. Jos de Almada tinha no s mais talento
que elle, mas outra qualidade de merecimento e outra seriedade de
estudo. Incommodou-se com isso, como toda a gente se incommoda de ver a
ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes mais nobres de um homem, a
sua intelligencia e o seu trabalho, e respondeu-lhe com a elevao de um
poeta e o sentimento de um artista.

Pouco depois representou-se uma pea de Andrade Corvo, _O Astrologo_.

--Ah! O Corvo  um homem superior, um homem justamente respeitado
pela valia dos seus meritos... Vou-me a elle.

E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como pde atirar-se um lobo esfomeado
a um homem bem nutrido. Corvo foi o ultimo a dar por isso.

De mais a mais, exactamente por essa occasio, Joo de Andrade Corvo,
tenente do corpo de engenheiros, lente da escola polytechnica, socio da
academia real das sciencias, auctor do _Anno na crte_, do _Alliciador_,
do _Astrologo_, de _D. Maria Telles_, de _D. Gil_, de _Nem tudo que luz
 oiro_, de grande numero de artigos publicados dos _Annaes das
sciencias e lettras_, na _Epocha_, etc., estava todo entregue a uma
curiosidade.

Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas de Carvalho e o dr.
Magalhes Coutinho, Andrade Corvo dissera-lhes que para as suas cousas
de botanica teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser
discipulo d'elles.

--No s capaz!

--Ora! Elle  l capaz d'isso!

--Sou capaz at de estudar o curso completo.

Os dois olharam para elle, sorrindo.

--Vou matricular-me manh.

Matriculou-se no dia immediato.

Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, l ia elle sempre com a
maior regularidade, de lio sabida, sentar-se no seu banco: e quando se
diz l ia, quer dizer que foi l cinco annos, todos os dias, como um dos
melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto no cumprimento dos
seus deveres. s vezes chovia o grande diabo, e Andrade Corvo, a p,
modestamente, _ estudante_, trepava aquella calada do Garcia e
mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo accelerado de um
filho familias que estivesse exposto mais dia menos dia a que o pae lhe
exigisse uma certido de frequencia colhida com austeridade nos
registros sisudos do livro de ponto.

Homem verdadeiramente original! Homem de constancia do trabalho, do
estudo, na sde de saber, que s n'isso faz do desejo uma fora, e que
n'elle ainda no parou nem se fartou um instante.

Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente da sciencia na
politica, da politica na litteratura.


N'uma poca em que o sr. Corvo geria simultaneamente as pastas da
marinha e dos negocios estrangeiros, e em que os debates parlamentares
eram irritantes e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes,
entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na Academia Real das
Sciencias.

Na Academia tinha elle at um gabinete especial, que era conhecido pela
designao de--_Gabinete do sr. Corvo._

O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. No podia entrar na
secretaria ou no parlamento sem ter devorado primeiro a iguaria da
sciencia e o pito litterario. Como todo o bom gastronomo, gostava de
variar. Por isso, ao mesmo tempo que redigia os _Estudos sobre as
provincias ultramarinas_, escrevia os _Contos em viagem_. S depois de
regalado o paladar  que fazia despachos e discursos.

Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse, lhe tentava o
espirito, comtanto que tivesse de o tratar litterariamente. O arroz, que
deu a Teixeira de Vasconcellos uma novella, sendo-lhe comtudo preciso,
para doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a Andrade Corvo
um trabalho scientifico de primeira ordem. Refiro-me  parte que lhe
coube--estudos economicos e higienicos sobre os arrozaes--no relatorio
official apresentado ao ministerio do reino, em 1860, por elle, Manuel
Jos Ribeiro e Bettamio de Almeida. Este trabalho notabilissimo, em que
a collaborao do sr. Corvo occupa 200 paginas _in-folio_, foi desde
logo to apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue um
exemplar.

Vivendo intellectualmente n'uma regio superior, nos dominios
immateriaes da abstraco, o sr. Corvo tinha o mais soberano desdem por
todas as ninharias da vida ordinaria, por mil bagatellas que, no
obstante, constituem outras tantas engrenagens do mecanismo social.
Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito posso referir
uma anecdota authentica e graciosissima.

Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e sabe Deus com que
sacrificio elle se resignava a perder duas horas calado, ouvindo repetir
aos outros o que j tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas
occasies.

Havia uma sesso em que se esperava a apresentao de uma proposta de
alcance politico. O sr. Corvo sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da
presidencia, tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem era o
redactor que estava de servio n'aquelle dia. O continuo foi saber, e
levou a resposta ao sr. Corvo: o redactor de servio era eu. Fui
immediatamente ao seu gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mo,
disse-me com uma grande seriedade:

--Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta, e que isso prende
com o artigo 37. do regimento. Ora eu no sei qual  a disposio
respectiva. Peo-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37. do
regimento dispe.

Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem.

-- que eu no sei de cr--respondi--o que dispe o artigo 37.

--Nem eu, replicou o sr. Corvo.

--N'esse caso vamos vr.

E abri o _Regimento_, que estava sobre a banca do presidente.

Li o artigo 37.

--Muito bem, observou o sr. Andrade Corvo. O que eu no queria era ter o
trabalho de ler isso.

E depois, levantando-se da cadeira e puxando-me para o vo da janella:

--Ento como vamos de litteratura?

Esta anecdota, inteiramente authentica, e que muitas vezes contei
durante a vida do sr. Corvo, define bem a sua maneira de pensar
relativamente a tudo o que se no traduzisse para o seu espirito n'um
facto scientifico ou n'um facto litterario.

E todavia elle era um homem de to superior estofa que ainda quando
extraviado da sciencia e da litteratura na politica, a que dava menos
apreo, assignalou indelevelmente a sua passagem por ella--como n'estes
dois assumptos capitaes: a amizade ingleza e o progresso material das
colonias.


FIM




ERRATAS


Mencionamos como mais importantes as seguintes:

Pag. 15, lin. 35--transmittiria a e ao rainha principe, leia-se:
transmittiria  rainha e ao principe.

Pag. 43, lin. 19--e das de Canities, leia-se: e das obras de Canities.

Pag. 45, lin. 10--da fama, leia-se: da fauna.

Pag. 45, lin. 20--Henri, leia se: Hipp.

Pag. 63. lin. 5--a rodos, leia se: a rodo.

Pag. 100, lin. 25--conservamos, leia-se: conservavamos.

Pag. 102, lin. 10--elle fra, leia-se: elle fra.

Pag. 119, lin. 14--ao folhetim, leia-se: do folhetim.

Pag. 121, lin. 26--editr, leia se: editor.






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Foundation as set forth in Section 3 below.

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that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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