The Project Gutenberg EBook of Os Lusadas, by Lus Vaz de Cames

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Title: Os Lusadas

Author: Lus Vaz de Cames

Release Date: February 4, 2007 [EBook #3333]
[File first posted on March 28, 2001]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS LUSADAS ***




Produced by Maria Helena Moreira Rodriques and Victor Calha





Lus Vaz de Cames
Os Lusadas

Canto Primeiro

1
As armas e os bares assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda alm da Taprobana,
Em perigos e guerras esforados,
Mais do que prometia a fora humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E tambm as memrias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A F, o Imprio, e as terras viciosas
De frica e de sia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vo da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3
Cessem do sbio Grego e do Troiano
As navegaes grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitrias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antgua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

4
E vs, Tgides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandloquo e corrente,
Porque de vossas guas, Febo ordene
Que no tenham inveja s de Hipoerene.

5
Dai-me uma fria grande e sonorosa,
E no de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se to sublime preo cabe em verso.

6
E vs,  bem nascida segurana
Da Lusitana antgua liberdade,
E no menos certssima esperana
De aumento da pequena Cristandade;
Vs,  novo temor da Maura lana,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande;

7
Vs, tenro e novo ramo florescente
De uma rvore de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesrea ou Cristianssima chamada;
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitria j passada,
Na qual vos deu por armas, e deixou
As que Ele para si na Cruz tomou)

8
Vs, poderoso Rei, cujo alto Imprio
O Sol, logo em nascendo, v primeiro;
V-o tambm no meio do Hemisfrio,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vs, que esperamos jugo e vituprio
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;

9
Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que j se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no cho: vereis um novo exemplo
De amor dos ptrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

10
Vereis amor da ptria, no movido
De prmio vil, mas alto e quase eterno:
Que no  prmio vil ser conhecido
Por um prego do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual  mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de til gente.

11
Ouvi, que no vereis com vs faanhas,
Fantsticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas so tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas;
Que excedem Rodamonte, e o vo Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro,

12
Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei o ao Reino tal servio,
Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
A ctara para eles s cobio.
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Os doze de Inglaterra, e o seu Magrio;
Dou-vos tambm aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.

13
Pois se a troco de Carlos, Rei de Frana,
Ou de Csar, quereis igual memria,
Vede o primeiro Afonso, cuja lana
Escura faz qualquer estranha glria;
E aquele que a seu Reino a segurana
Deixou com a grande e prspera vitria;
Outro Joane, invicto cavaleiro,
O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.

14
Nem deixaro meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos l da Aurora
Fizeram, s por armas to subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortssimo, e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
Albuquerque terrbil, Castro forte,
E outros em quem poder no teve a morte.

15
E enquanto eu estes canto, e a vs no posso,
Sublime Rei, que no me atrevo a tanto,
Tomai as rdeas vs do Reino vosso:
Dareis matria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que pelo mundo todo faa espanto)
De exrcitos e feitos singulares,
De frica as terras, e do Oriente os maros,

16
Em vs os olhos tem o Mouro frio,
Em quem v seu excio afigurado;
S com vos ver o brbaro Gentio
Mostra o pescoo ao jugo j inclinado;
Tethys todo o cerleo senhorio
Tem para vs por dote aparelhado;
Que afeioada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar-vos para genro.

17
Em vs se vm da olmpica morada
Dos dois avs as almas c famosas,
Uma na paz anglica dourada,
Outra pelas batalhas sanguinosas;
Em vs esperam ver-se renovada
Sua memria e obras valerosas;
E l vos tem lugar, no fim da idade,
No templo da suprema Eternidade.

18
Mas enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vs favor ao novo atrevimento,
Para que estes meus versos vossos sejam;
E vereis ir cortando o salso argento
Os vossos Argonautas, por que vejam
Que so vistos de vs no mar irado,
E costumai-vos j a ser invocado.

19
J no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas cncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vo cortando
As martimas guas consagradas,
Que do gado de Prteo so cortadas

20
Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo est da humana gente,
Se ajuntam em conclio glorioso
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Cu formoso,
Vm pela Via-Lctea juntamente,
Convocados da parte do Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.

21
Deixam dos sete Cus o regimento,
Que do poder mais alto lhe foi dado,
Alto poder, que s co'o pensamento
Governa o Cu, a Terra, e o Mar irado.
Ali se acharam juntos num momento
Os que habitam o Arcturo congelado,
E os que o Austro tem, e as partes onde
A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.

22
Estava o Padre ali sublime e dino,
Que vibra os feros raios de Vulcano,
Num assento de estrelas cristalino,
Com gesto alto, severo e soberano.
Do rosto respirava um ar divino,
Que divino tornara um corpo humano;
Com uma coroa e ceptro rutilante,
De outra pedra mais clara que diamante.

23
Em luzentes assentos, marchetados
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
Os outros Deuses todos assentados,
Como a razo e a ordem concertavam:
Precedem os antguos mais honrados;
Mais abaixo os menores se assentavam;
Quando Jpiter alto, assim dizendo,
C'um tom de voz comea, grave e horrendo:

24
"Eternos moradores do luzente
Estelfero plo, e claro assento,
Se do grande valor da forte gente
De Luso no perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente,
Como  dos fados grandes certo intento,
Que por ela se esqueam os humanos
De Assrios, Persas, Gregos e Romanos.

25
"J lhe foi (bem o vistes) concedido
C'um poder to singelo e to pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
Pois contra o Castelhano to temido,
Sempre alcanou favor do Cu sereno.
Assim que sempre, enfim, com fama e glria,
Teve os trofus pendentes da vitria.

26
"Deixo, Deuses, atrs a fama antiga,
Que coa gente de Rmulo alcanaram,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra romana tanto se afamaram;
Tambm deixo a memria, que os obriga
A grande nome, quando alevantaram
Um por seu capito, que peregrino
Fingiu na cerva esprito divino.

27
"Agora vedes bem que, cometendo
O duvidoso mar num lenho leve,
Por vias nunca usadas, no temendo
De f rico e Noto a fora, a mais se atreve:
Que havendo tanto j que as partes vendo
Onde o dia  comprido e onde breve,
Inclinam seu propsito e porfia
A ver os beros onde nasce o dia.

28
"Prometido lhe est do Fado eterno,
Cuja alta Lei no pode ser quebrada,
Que tenham longos tempos o governo
Do mar, que v do Sol a roxa entrada.
Nas guas tm passado o duro inverno;
A gente vem perdida e trabalhada;
J parece bem feito que lhe seja
Mostrada a nova terra, que deseja.

29
"E porque, como vistes, tm passados
Na viagem to speros perigos,
Tantos climas e cus experimentados,
Tanto furor de ventos inimigos,
Que sejam, determino, agasalhados
Nesta costa africana, como amigos.
E tendo guarnecida a lassa frota,
Tornaro a seguir sua longa rota."

30
Estas palavras Jpiter dizia,
Quando os Deuses por ordem respondendo,
Na sentena um do outro diferia,
Razes diversas dando e recebendo.
O padre Baco ali no consentia
No que Jpiter disse, conhecendo
Que esquecero seus feitos no Oriente,
Se l passar a Lusitana gente.

31
Ouvido tinha aos Fados que viria
Uma gente fortssima de Espanha
Pelo mar alto, a qual sujeitaria
Da ndia tudo quanto Dris banha,
E com novas vitrias venceria
A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
Altamente lhe di perder a glria,
De que Nisa celebra inda a memria.

32
V que j teve o Indo sojugado,
E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
Por vencedor da ndia ser cantado
De quantos bebem a gua de Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu to clebre nome em negro vaso
D'gua do esquecimento, se l chegam
Os fortes Portugueses, que navegam.

33
Sustentava contra ele Vnus bela,
Afeioada  gente Lusitana,
Por quantas qualidades via nela
Da antiga to amada sua Romana;
Nos fortes coraes, na grande estrela,
Que mostraram na terra Tingitana,
E na lngua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupo cr que  a Latina.

34
Estas causas moviam Citereia,
E mais, porque das Parcas claro entende
Que h de ser celebrada a clara Deia,
Onde a gente belgera se estende.
Assim que, um pela infmia, que arreceia,
E o outro pelas honras, que pretende,
Debatem, e na porfia permanecem;
A qualquer seus amigos favorecem.

35
Qual Austro fero, ou Breas na espessura
De silvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vo da mata escura,
Com mpeto e braveza desmedida;
Brama toda a montanha, o som murmura,
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
Tal andava o tumulto levantado,
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

36
Mas Marte, que da Deusa sustentava
Entre todos as partes em porfia,
Ou porque o amor antigo o obrigava,
Ou porque a gente forte o merecia,
De entre os Deuses em p se levantava:
Merencrio no gesto parecia;
O forte escudo ao colo pendurado
Deitando para trs, medonho e irado,

37
A viseira do elmo de diamante
Alevantando um pouco, mui seguro,
Por dar seu parecer, se ps diante
De Jpiter, armado, forte e duro:
E dando uma pancada penetrante,
Com o conto do basto no slio puro,
O Cu tremeu, e Apolo, de torvado,
Um pouco a luz perdeu, como enfiado.

38
E disse assim: " Padre, a cujo imprio
Tudo aquilo obedece, que criaste,
Se esta gente, que busca outro hemisfrio,
Cuja valia, e obras tanto amaste,
No queres que padeam vituprio,
Como h j tanto tempo que ordenaste,
No onas mais, pois s juiz direito,
Razes de quem parece que  suspeito.

39
"Que, se aqui a razo se no mostrasse
Vencida do temor demasiado,
Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
Pois que de Luso vem, seu to privado;
Mas esta teno sua agora passe,
Porque enfim vem de estmago danado;
Que nunca tirar alheia inveja
O bem, que outrem merece, e o Cu deseja.

40
"E tu, Padre de grande fortaleza,
Da determinao, que tens tomada,
No tornes por detrs, pois  fraqueza
Desistir-se da cousa comeada.
Mercrio, pois excede em ligeireza
Ao vento leve, e  seta bem talhada,
Lhe v mostrar a terra, onde se informe
Da ndia, e onde a gente se reforme."

41
Como isto disse, o Padre poderoso,
A cabea inclinando, consentiu
No que disse Mavorte valeroso,
E nctar sobre todos esparziu.
Pelo caminho Lcteo glorioso
Logo cada um dos Deuses se partiu,
Fazendo seus reais acatamentos,
Para os determinados aposentos.

42
Enquanto isto se passa na formosa
Casa etrea do Olimpo onipotente,
Cortava o mar a gente belicosa,
J l da banda do Austro e do Oriente,
Entre a costa Etipica e a famosa
Ilha de So Loureno; e o Sol ardente
Queimava ento os Deuses, que Tifeu
Com o temor grande em peixes converteu.


43
To brandamente os ventos os levavam,
Como quem o cu tinha por amigo:
Sereno o ar, e os tempos se mostravam
Sem nuvens, sem receio de perigo.
O promontrio Prasso j passavam,
Na costa de Etipia, nome antigo,
Quando o mar descobrindo lhe mostrava
Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

44
Vasco da Gama, o forte capito,
Que a tamanhas empresas se oferece,
De soberbo e de altivo corao,
A quem Fortuna sempre favorece,
Para se aqui deter no v razo,
Que inabitada a terra lhe parece:
Por diante passar determinava;
Mas no lhe sucedeu como cuidava.

45
Eis aparecem logo em companhia
Uns pequenos batis, que vm daquela
Que mais chegada  terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vela.
A gente se alvoroa, e de alegria
No sabe mais que olhar a causa dela.
Que gente ser esta, em si diziam,
Que costumes, que Lei, que Rei teriam?

46
As embarcaes eram, na maneira,
Mui veloces, estreitas e compridas:
As velas, com que, vm, eram de esteira
Dumas folhas de palma, bem tecidas;
A gente da cor era verdadeira,
Que Faeton, nas terras acendidas,
Ao mundo deu, de ousado, o no prudente:
O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.

47
De panos de algodo vinham vestidos,
De vrias cores, brancos e listrados:
Uns trazem derredor de si cingidos,
Outros em modo airoso sobraados:
Da cinta para cima vm despidos;
Por armas tm adargas o terados;
Com toucas na cabea; e navegando,
Anafis sonoros vo tocando.

48
Co'os panos e co'os braos acenavam
As gentes Lusitanas, que esperassem;
Mas j as proas ligeiras se inclinavam
Para que junto s ilhas amainassem.
A gente e marinheiros trabalhavam,
Como se aqui os trabalhos se acabassem;
Tomam velas; amaina-se a verga alta;
Da ncora, o mar ferido, em cima salta.

49
No eram ancorados, quando a gente
Estranha pelas cordas j subia.
No gesto ledos vm, e humanamente
O Capito sublime os recebia:
As mesas manda pr em continente;
Do licor que Lieo prantado havia
Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
Os de Faeton queimados nada enjeitam.

50
Comendo alegremente perguntavam,
Pela Arbica lngua, donde vinham,
Quem eram, de que terra, que buscavam,
Ou que partes do mar corrido tinham?
Os fortes Lusitanos lhe tornavam
As discretas respostas, que convinham:
"Os Portugueses somos do Ocidente,
Imos buscando as terras do Oriente.

51
"Do mar temos corrido e navegado
Toda a parte do Antrtico e Calisto,
Toda a costa Africana rodeado,
Diversos cus e terras temos visto;
Dum Rei potente somos, to amado,
To querido de todos, e benquisto,
Que no no largo mar, com leda fronte,
Mas no lago entraremos de Aqueronte.

52
"E por mandado seu, buscando andamos
A terra Oriental que o Indo rega;
Por ele, o mar remoto navegamos,
Que s dos feios focas se navega.
Mas j razo parece que saibamos,
Se entre vs a verdade no se nega,
Quem sois, que terra  esta que habitais,
Ou se tendes da ndia alguns sinais?"

53
"Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
Estrangeiros na terra, Lei e nao;
Que os prprios so aqueles, que criou
A natura sem Lei e sem razo.
Ns temos a Lei certa, que ensinou
O claro descendente de Abrao
Que agora tem do mundo o senhorio,
A me Hebria teve, e o pai Gentio.
Informaes. A Ilha de Moambique.

54
"Esta ilha pequena, que habitamos,
em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos
De Quloa, de Mombaa e de Sofala;
E, por ser necessria, procuramos,
Como prprios da terra, de habit-la;
E por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena ilha Moambique.

55
"E j que de to longe navegais,
Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
Piloto aqui tereis, por quem sejais
Guiados pelas ondas sabiamente.
Tambm ser bem feito que tenhais
Da terra algum refresco, e que o Regente
Que esta terra governa, que vos veja,
E do mais necessrio vos proveja."

56
Isto dizendo, o Mouro se tornou
A seus batis com toda a companhia;
Do Capito e gente se apartou
Com mostras de devida cortesia.
Nisto Febo nas guas encerrou,
Co'o carro de cristal, o claro dia,
Dando cargo  irm, que alumiasse
O largo mundo, enquanto repousasse.

57
A noite se passou na lassa frota
Com estranha alegria, e no cuidada,
Por acharem da terra to remota
Nova de tanto tempo desejada.
Qualquer ento consigo cuida e nota
Na gente e na maneira desusada,
E como os que na errada Seita creram,
Tanto por todo o mundo se estenderam,

58
Da Lua os claros raios rutilavam
Pelas argnteas ondas Neptuninas,
As estrelas os Cus acompanhavam,
Qual campo revestido de boninas;
Os furiosos ventos repousavam
Pelas covas escuras peregrinas;
Porm da armada a gente vigiava,
Como por longo tempo costumava.

59
Mas assim como a Aurora marchetada
Os formosos cabelos espalhou
No Cu sereno, abrindo a roxa entrada
Ao claro Hiperinio, que acordou,
Comea a embandeirar-se toda a armada,
E de toldos alegres se adornou,
Por receber com festas e alegria
O Regedor das ilhas, que partia.

60
Partia alegremente navegando,
A ver as naus ligeiras Lusitanas,
Com refresco da terra, em si cuidando
Que so aquelas gentes inumanas,
Que, os aposentos cspios habitando,
A conquistar as terras Asianas
Vieram; e por ordem do Destino,
O Imprio tomaram a Constantino.

61
Recebe o Capito alegremente
O Mouro, e toda a sua companhia;
D-lhe de ricas peas um presente,
Que s para este efeito j trazia;
D-lhe conserva doce, e d-lhe o ardente
No usado licor, que d alegria.
Tudo o Mouro contente bem recebe;
E muito mais contente come e bebe.

62
Est a gente martima de Luso
Subida pela enxrcia, de admirada,
Notando o estrangeiro modo e uso,
E a linguagem to brbara e enleada.
Tambm o Mouro astuto est confuso,
Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
E perguntando tudo, lhe dizia
"Se por ventura vinham de Turquia?"

63
E mais lhe diz tambm, que ver deseja
Os livros de sua Lei, preceito eu f,
Para ver se conforme  sua seja,
Ou se so dos de Cristo, como Cr.
E porque tudo note e tudo veja,
Ao Capito pedia que lhe d
Mostra das fortes armas de que usavam,
Quando co'os inimigos pelejavam.

64
Responde o valeroso Capito
Por um, que a lngua escura bem sabia:
"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relao
De mim, da Lei, das armas que trazia.
Nem sou da terra, nem da gerao
Das gentes enojosas de Turquia:
Mas sou da forte Europa belicosa,
Busco as terras da ndia to famosa.

65
A lei tenho daquele, a cujo imprio
Obedece o visbil e nvisbil
Aquele que criou todo o Hemisfrio,
Tudo o que sente, o todo o insensbil;
Que padeceu desonra e vituprio,
Sofrendo morte injusta e insofrbil,
E que do Cu  Terra, enfim desceu,
Por subir os mortais da Terra ao Cu.

66
Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Os livros, que tu pedes no trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia.
Se as armas queres ver, como tens dito,
Cumprido esse desejo te seria;
Como amigo as vers; porque eu me obrigo,
Que nunca as queiras ver como inimigo."

67
Isto dizendo, manda os diligentes
Ministros amostrar as armaduras:
Vm arneses, e peitos reluzentes,
Malhas finas, e lminas seguras,
Escudos de pinturas diferentes,
Pelouros, espingardas de ao puras,
Arcos, e sagitferas aljavas,
Partazanas agudas, chuas bravas:

68
As bombas vm de fogo, e juntamente
As panelas sulfreas, to danosas;
Porm aos de Vulcano no consente
Que dem fogo s bombardas temerosas;
Porque o generoso nimo e valente,
Entre gentes to poucas e medrosas,
No mostra quanto pode, e com razo,
Que  fraqueza entre ovelhas ser leo.

69
Porm disto, que o Mouro aqui notou,
E de tudo o que viu com olho atento
Um dio certo na alma lhe ficou,
Uma vontade m de pensamento.
Nas mostras e no gesto o no mostrou;
Mas com risonho e ledo fingimento
Trat-los brandamente determina,
At que mostrar possa o que imagina.

70
Pilotos lhe pedia o Capito,
Por quem pudesse  ndia ser levado;
Diz-lhe que o largo prmio levaro
Do trabalho que nisso for tomado.
Promete-lhos o Mouro, com teno
De peito venenoso, e to danado,
Que a morte, se pudesse, neste dia,
Em lugar de pilotos lhe daria.


71
Tamanho o dio foi, e a m vontade,
Que aos estrangeiros sbito tomou,
Sabendo ser sequazes da verdade,
Que o Filho de David nos ensinou.
 segredos daquela Eternidade,
A quem juzo algum nunca alcanou!
Que nunca falte um prfido inimigo
Aqueles de quem foste tanto amigo!

72
Partiu-se Disto enfim coa companhia,
Das naus o falso Mouro despedido,
Com enganosa e grande cortesia,
Com gesto ledo a todos, e fingido.
Cortaram os batis a curta via
Das guas de Neptuno, e recebido
Na terra do obsequente ajuntamento
Se foi o Mouro ao cgnito aposento.

73
Do claro assento etreo o gro Tebano,
Que da paternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento Lusitano
Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
No pensamento cuida um falso engano,
Com que seja de todo destrudo.
E enquanto isto s na alma imaginava,
Consigo estas palavras praticava:

74
"Est do fado j determinado,
Que tamanhas vitrias, to famosas,
Hajam os Portugueses alcanado
Das Indianas gentes belicosas.
E eu s, filho do Padre sublimado,
Com tantas qualidades generosas,
Hei de sofrer que o fado favorea
Outrem, por quem meu nome se escurea?

75
"J quiseram os Deuses que tivesse
O filho de Filipo nesta parte
Tanto poder, que tudo submetesse
Debaixo de seu jugo o fero Marte.
Mas h-se de sofrer que o fado desse
A to poucos tamanho esforo e arte,
Que eu co'o gro Macednio, e o Romano,
Demos lugar ao nome Lusitano?

76
"No ser assim, porque antes que chegado
Seja este Capito, astutamente
Lhe ser tanto engano fabricados
Que nunca veja as partes do Oriente.
Eu descerei  Terra, e o indignado
Peito revolverei da Maura gente;
Porque sempre por via ir direita
Quem do oportuno tempo se aproveita."

77
Isto dizendo, irado e quase insano,
Sobre a terra africana descendeu,
Onde vestindo a forma e gesto humano,
Para o Prasso sabido se moveu.
E por melhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
Dum Mouro, em Moambique conhecido
Velho, sbio, e co'o Xeque mui valido.

78
E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
A sua falsidade acomodadas,
Lhe diz como eram gentes roubadoras,
Estas que ora de novo so chegadas;
Que das naes na costa moradoras
Correndo a fama veio que roubadas
Foram por estes homens que passavam,
Que com pactos de paz sempre ancoravam.

79
E sabe mais, lhe diz, como entendido
Tenho destes cristos sanguinolentos,
Que quase todo o mar tm destrudo
Com roubos, com incndios violentos;
E trazem j de longe engano urdido
Contra ns; e que todos seus intentos
So para nos matarem e roubarem,
E mulheres e filhos cativarem.

80
"E tambm sei que tem determinado
De vir por gua a terra muito cedo
O Capito dos seus acompanhado,
Que da tenso danada nasce o medo.
Tu deves de ir tambm co'os teus armado
Esper-lo em cilada, oculto e quedo;
Porque, saindo a gente descuidada,
Cairo facilmente na cilada.

81
"E se inda no ficarem deste jeito
Destrudos, ou mortos totalmente
Eu tenho imaginado no conceito
Outra manha e ardil, que te contente:
Manda-lhe dar piloto, que de jeito
Seja astuto no engano, e to prudente,
Que os leve aonde sejam destrudos,
Desbaratados, mortos, ou perdidos."

82
Tanto que estas palavras acabou,
O Mouro, nos tais casos sbio e velho,
Os braos pelo colo lhe lanou,
Agradecendo muito o tal conselho;
E logo nesse instante concertou
Para a guerra o belgero aparelho,
Para que ao Portugus se lhe tornasse
Em roxo sangue a gua, que buscasse.

83
E busca mais, para o cuidado engano,
Mouro, que por piloto  nau lhe mande,
Sagaz, astuto, e sbio em todo o dano,
De quem fiar-se possa um feito grande.
Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
Por tais costas e mares com ele ande,
Que, se daqui escapar, que l diante
V cair onde nunca se alevante.

84
J o raio Apolneo visitava
Os montes Nabatos acendido,
Quando o Gama, colos seus determinava
De vir por gua a terra apercebido.
A gente nos batis se concertava,
Como se fosse o engano j sabido:
Mas pode suspeitar-se facilmente,
Que o corao pressago nunca mente.

85
E mais tambm mandado tinha a terra,
De antes, pelo piloto necessrio,
E foi-lhe respondido em som de guerra,
Caso do que cuidava mui contrrio;
Por isto, e porque sabe quanto erra
Quem se cr de seu prfido adversrio,
Apercebido vai como podia,
Em trs batis somente que trazia.

86
Mas os Mouros que andavam pela praia,
Por lhe defender a gua desejada,
Um de escudo embraado e de azagaia,
Outro de arco encurvado e seta ervada,
Esperam que a guerreira gente saia,
Outros muitos j postos em cilada.
E, porque o caso leve se lhe faa,
Pem uns poucos diante por negaa,

87
Andam pela ribeira alva, arenosa,
Os belicosos Mouros acenando
Com a adarga e co'a hstia perigosa,
Os fortes Portugueses incitando.
No sofre muito a gente generosa
Andar-lhe os ces os dentes amostrando.
Qualquer em terra salta to ligeiro,
Que nenhum dizer pode que  primeiro.

88
Qual no corro sanguino o ledo amante,
Vendo a formosa dama desejada,
O touro busca, e pondo-se diante,
Salta, corre, sibila, acena, e brada,
Mas o animal atroce, nesse instante,
Com a fronte corngera inclinada,
Bramando duro corre, e os olhos cerra,
Derriba, fere e mata, e pe por terra:

89
Eis nos batis o fogo se levanta
Na furiosa e dura artilharia,
A plmbea pla mata, o brado espanta,
Ferido o ar retumba e assovia:
O corao dos Mouros se quebranta,
O temor grande o sangue lhe resfria.
J foge o escondido de medroso,
E morre o descoberto aventuroso.

90
No se contenta a gente Portuguesa,
Mas seguindo a vitria estrui e mata;
A povoao, sem muro e sem defesa,
Esbombardeia, acende e desbarata.
Da cavalgada ao Mouro j lhe pesa,
Que bem cuidou compr-la mais barata;
J blasfema da guerra, e maldizia,
O velho inerte, e a me que o filho cria.

91
Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
Sem fora, de covarde e de apressado,
A pedra, o pau, e o canto arremessando;
D-lhe armas o furor desatinado.
J a ilha e todo o mais desemparando,
A terra firme foge amedrontado;
Passa e corta do mar o estreito brao,
Que a ilha em torno cerca, em pouco espao

92
Uns vo nas almadias carregadas,
Um corta o mar a nado diligente,
Quem se afoga nas ondas encurvadas,
Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
Arrombam as midas bombardadas
Os pangaios subtis da bruta gente:
Desta arte o Portugus enfim castiga
A vil malcia, prfida, inimiga.

93
Tornam vitoriosos para a armada,
Co'o despojo da guerra e rica presa,
E vo a seu prazer fazer aguada,
Sem achar resistncia, nem defesa.
Ficava a Maura gente magoada,
No dio antigo mais que nunca acesa;
E vendo sem vingana tanto dano,
Somente estriba no segundo engano.

94
Pazes cometer manda arrependido
O Regedor daquela inqua terra,
Sem ser dos Lusitanos entendido,
Que em figura de paz lhe manda guerra;
Porque o piloto falso prometido,
Que toda a m teno no peito encerra,
Para os guiar  morte lhe mandava,
Como em sinal das pazes que tratava.

95
O Capito, que j lhe ento convinha
Tornar a seu caminho acostumado,
Que tempo concertado e ventos tinha
Para ir buscar o Indo desejado,
Recebendo o piloto, que lhe vinha,
Foi dele alegremente agasalhado;
E respondendo ao mensageiro a tento,
As velas manda dar ao largo vento.

96
Desta arte despedida a forte armada,
As ondas de Anfitrite dividia,
Das filhas de Nereu acompanhada,
Fiel, alegre e doce companhia.
O Capito, que no caa em nada
Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
Dele mui largamente se informava
Da ndia toda, e costas que passava.

97
Mas o Mouro, instrudo nos enganos
Que o malvolo Baco lhe ensinara,
De morte ou cativeiro novos danos,
Antes que  ndia chegue, lhe prepara:
Dando razes dos portos Indianos,
Tambm tudo o que pede lhe declara,
Que, havendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente se temia.

98
E diz-lhe mais, com o falso pensamento
Com que Sinon os Frgios enganou:
Que perto est uma ilha, cujo assento
Povo antigo cristo sempre habitou.
O Capito, que a tudo estava a tento,
Tanto com estas novas se alegrou,
Que com ddivas grandes lhe rogava,
Que o leve  terra onde esta gente estava.

99
O mesmo o falso Mouro determina,
Que o seguro Cristo lhe manda e pede;
Que a ilha  possuda da malina
Gente que segue o torpe Mahamede.
Aqui o engano e morte lhe imagina,
Porque em poder e foras muito excede
A Moambique esta ilha, que se chama
Quloa, mui conhecida pela fama.

100
Para l se inclinava a leda frota;
Mas a Deusa em Citere celebrada,
Vendo como deixava a certa rota
Por ir buscar a morte no cuidada,
No consente que em terra to remota
Se perca a gente dela tanto amada.
E com ventos contrrios a desvia
Donde o piloto falso a leva e guia.

101
Mas o malvado Mouro, no podendo
Tal determinao levar avante,
Outra maldade inqua cometendo,
Ainda em seu propsito constante,
Lhe diz que, pois as guas discorrendo
Os levaram por fora por diante,
Que outra ilha tem perto, cuja gente
Eram Cristos com Mouros juntamente.

102
Tambm nestas palavras lhe mentia,
Como por regimento enfim levava,
Que aqui gente de Cristo no havia,
Mas a que a Mahamede celebrava.
O Capito, que em tudo o Mouro cria,
Virando as velas, a ilha demandava;
Mas, no querendo a Deusa guardadora,
No entra pela barra, e surge fora.

103
Estava a ilha  terra to chegada,
Que um estreito pequeno a dividia;
Uma cidade nela situada,
Que na fronte do mar aparecia,
De nobres edifcios fabricada,
Como por fora ao longe descobria,
Regida por um Rei de antiga idade:
Mombaa  o nome da ilha e da cidade.

104
E sendo a ela o Capito chegado,
Estranhamente ledo, porque espera
De poder ver o povo batizado,
Como o falso piloto lhe dissera,
Eis vm batis da terra com recado
Do Rei, que j sabia a gente que era:
Que Baco muito de antes o avisara,
Na forma doutro Mouro, que tomara.

105
O recado que trazem  de amigos,
Mas debaixo o veneno vem coberto;
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
 grandes e gravssimos perigos!
 caminho de vida nunca certo:
Que aonde a gente pe sua esperana,
Tenha a vida to pouca segurana!

106
No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde ter segura a curta vida,
Que no se arme, e se indigne o Cu sereno
Contra um bicho da terra to pequeno?


Canto Segundo

1
J neste tempo o lcido Planeta,
Que as horas vai do dia distinguindo,
Chegava  desejada e lenta meta,
A luz celeste s gentes encobrindo,
E da casa martima secreta
Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
Quando as infidas gentes se chegaram
As naus, que pouco havia que ancoraram.

2
Dentre eles um, que traz encomendado
O mortfero engano, assim dizia:
"Capito valeroso, que cortado
Tens de Neptuno o reino e salsa via,
O Rei que manda esta ilha, alvoroado
Da vinda tua, tem tanta alegria,
Que no deseja mais que agasalhar-te,
Ver-te, e do necessrio reformar-te.

3
"E porque est em extremo desejoso
De te ver, como cousa nomeada,
Te roga que, de nada receoso,
Entres a barra, tu com toda armada:
E porque do caminho trabalhoso
Trars a gente dbil e cansada,
Diz que na terra podes reform-la,
Que a natureza obriga a desej-la.

4
"E se buscando vs mercadoria
Que produze o aurfero Levante,
Canela, cravo, ardente especiaria,
Ou droga salutfera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,
O rubi fino, o rgido diamante,
Daqui levars tudo to sobejo
Com que faas o fim a teu desejo."

5
Ao mensageiro o Capito responde
As palavras do Rei agradecendo:
E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
No entra para dentro, obedecendo;
Porm que, como a luz mostrar por onde
V sem perigo a frota, no temendo,
Cumprir sem receio seu mandado,
Que a mais por tal senhor est obrigado.

6
Pergunta-lhe depois, se esto na terra
Cristos, como o piloto lhe dizia;
O mensageiro astuto, que no erra,
Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
Desta sorte do peito lhe desterra
Toda a suspeita e cauta fantasia;
Por onde o Capito seguramente
Se fia da infiel e falsa gente.

7
E de alguns que trazia condenados
Por culpas e por feitos vergonhosos,
Por que pudessem ser aventurados
Em casos desta sorte duvidosos,
Manda dous mais sagazes, ensaiados,
Por que notem dos Mouros enganosos
A cidade e poder, e por que vejam
Os Cristos, que s tanto ver desejam.

8
E por estes ao Rei presentes manda,
Por que a boa vontade, que mostrava,
Tenha firme, segura, limpa e branda;
A qual bem ao contrrio em tudo estava.
J a companhia prfida e nefanda
Das naus se despedia e o mar cortava:
Foram com gestos ledos e fingidos,
Os dous da frota em terra recebidos.

9
E depois que ao Rei apresentaram,
Co'o recado, os presentes que traziam,
A cidade correram, e notaram
Muito menos daquilo que queriam;
Que os Mouros cautelosos se guardaras
De lhes mostrarem tudo o que pediam:
Que onde reina a malcia, est o receio,
Que a faz imaginar no peito alheio.

10
Mas aquele que sempre a mocidade
Tem no rosto perptua, e foi nascido
De duas mes, que urdia a falsidade
Por ver o navegante destrudo,
Estava numa casa da cidade,
Com rosto humano e hbito fingido,
Mostrando-se Cristo, e fabricava
Um altar sumptuoso, que adorava.

11
Ali tinha em retrato afigurada
Do alto e Santo Esprito a pintura:
A cndida pombinha debuxada
Sobre a nica Fnix, Virgem pura;
A companhia santa est pintada
Dos doze, to torvados na figura,
Como os que, s das lnguas que caram,
De fogo, vrias lnguas referiram.

12
Aqui os dous companheiros conduzidos
Onde com este engano Baco estava,
Pem em terra os giolhos, e os sentidos
Naquele Deus que o mundo governava.
Os cheiros excelentes, produzidos
Na Pancaia odorfera, queimava
O Tioneu, e assim por derradeiro
O falso Deus adora o verdadeiro.

13
Aqui foram de noite agasalhados,
Com todo o bom e honesto tratamento,
Os dous Cristos, no vendo que enganados
Os tinha o falso e santo fingimento.
Mas assim como os raios espalhados
Do Sol foram no mundo, e num momento
Apareceu no rbido horizonte
Da moa de Tito a roxa fronte,

14
Tornam da terra os Mouros co'o recado
Do Rei, para que entrassem, e consigo
Os dous que o Capito tinha mandado,
A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
E sendo o Portugus certificado
De no haver receio de perigo,
E que gente de Cristo em terra havia,
Dentro no salso rio entrar queria.

15
Dizem-lhe os que mandou, que em terra
Sacras aras e sacerdote sinto; viram
Que ali se agasalharam o dormiram,
Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
E que no Rei e gentes no sentiram
Seno contentamento e gosto tanto,
Que no podia certo haver suspeita
Numa mostra to clara e to perfeita.

16
Com isto o nobre Gama recebia
Alegremente os Mouros que subiam;
Que levemente um nimo se fia
De mostras, que to certas pareciam.
A nau da gente prfida se enchia,
Deixando a bordo os barcos que traziam.
Alegres vinham todos, porque crm
Que a presa desejada certa tm.

17
Na terra, cautamente aparelhavam
Armas e munies que, como vissem
Que no rio os navios ancoravam,
Neles ousadamente se subissem;
E, nesta treio determinavam
Que os de Luso de todo destrussem,
E que incautos pagassem deste jeito
O mal que em Moambique tinham feito.

18
As ncoras tenaces vo levando
Com a nutica grita costumada;
Da proa as velas ss ao vento dando
Inclinam para a barra abalizada.
Mas a linda Ericina, que guardando
Andava sempre a gente assinalada,
Vendo a cilada grande, e to secreta,
Voa do Cu ao mar como uma seta.

19
Convoca as alvas filhas de Nereu,
Com toda a mais cerlea companhia,
Que, porque no salgado mar nasceu,
Das guas o poder lhe obedecia.
E propondo-lhe a causa a que desceu,
Com todas juntamente se partia,
Para estorvar que a armada no chegasse
Aonde para sempre se acabasse.

20
J na gua erguendo vo, com grande pressa,
Com as argnteas caudas branca escuma;
Cloto eo'o peito corta e atravessa
Com mais furor o mar do que costuma.
Salta Nise, Nerine se arremessa
Por cima da gua crespa, em fora suma.
Abrem caminho as ondas encurvadas
De temor das Nereidas apressadas.

21
Nos ombros de um Trito, com gesto aceso,
Vai a linda Dione furiosa;
No sente quem a leva o doce peso,
De soberbo com carga to formosa.
J chegam perto donde o vento teso
Enche as velas da frota belicosa;
Repartem-se e rodeiam nesse instante
As naus ligeiras, que iam por diante.

22
Pe-se a Deusa com outras em direito
Da proa capitaina, e ali fechando
O caminho da barra, esto de jeito,
Que em vo assopra o vento, a vela inchando.
Pem no madeiro duro o brando peito,
Para detrs a forte nau forando;
Outras em derredor levando-a estavam,
E da barra inimiga a desviavam.

23
Quais para a cova as prvidas formigas,
Levando o peso grande acomodado,
As foras exercitam, de inimigas
Do inimigo inverno congelado;
Ali so seus trabalhos e fadigas,
Ali mostram vigor nunca esperado:
Tais andavam as Ninfas estorvando
A gente Portuguesa o fim nefando.

24
Torna para detrs a nau forada,
Apesar dos que leva, que gritando
Mareiam velas; ferve a gente irada,
O leme a um bordo e a outro atravessando;
O mestre astuto em vo da popa brada,
Vendo como diante ameaando
Os estava um martimo penedo,
Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

25
A celeuma medonha se alevanta
No rudo marinheiro que trabalha;
O grande estrondo a Maura gente espanta,
Como se vissem hrrida batalha;
No sabem a razo de fria tanta,
No sabem nesta pressa quem lhe valha;
Cuidam que seus enganos so sabidos,
E que ho de ser por isso aqui punidos.

26
Ei-los subitamente se lanavam
A seus batis velozes que traziam;
Outros em cima o mar alevantavam,
Saltando n'gua, a nado se acolhiam;
De um bordo e doutro sbito saltavam,
Que o medo os compelia do que viam;
Que antes querem ao mar aventurar-se
Que nas mos inimigas entregar-se.

27
Assim como em selvtica alagoa
As rs, no tempo antigo Lcia gente,
Se sentem por ventura vir pessoa,
Estando fora da gua incautamente,
Daqui e dali saltando, o charco soa,
Por fugir do perigo que se sente,
E acolhendo-se ao couto que conhecem,
Ss as cabeas na gua lhe aparecem:

28
Assim fogem os Mouros; e o piloto,
Que ao perigo grande as naus guiara,
Crendo que seu engano estava noto,
Tambm foge, saltando na gua amara.
Mas, por no darem no penedo imoto,
Onde percam a vida doce e cara,
A ncora solta logo a capitaina,
Qualquer das outras junto dela amaina.

29
Vendo o Gama, atentado, a estranheza
Dos Mouros, no cuidada, e juntamente
O piloto fugir-lhe com presteza,
Entende o que ordenava a bruta gente;
E vendo, sem contraste e sem braveza
Dos ventos, ou das guas sem corrente,
Que a nau passar avante no podia,
Havendo-o por milagre, assim dizia:

30
" caso grande, estranho e no cuidado,
 milagre clarssimo e evidente,
 descoberto engano inopinado,
 prfida, inimiga e falsa gente!
Quem poder do mal aparelhado
Livrar-se sem perigo sabiamente,
Se l de cima a Guarda soberana
No acudir  fraca fora humana?

31
"Bem nos mostra a divina Providncia
Destes portos a pouca segurana;
Bem claro temos visto na aparncia,
Que era enganada a nossa confiana.
Mas pois saber humano nem prudncia
Enganos to fingidos no alcana,
 tu, Guarda Divina, tem cuidado
De quem sem ti no pode ser guardado!

32
"E se te move tanto a piedade
Desta msera gente peregrina,
Que s por tua altssima bondade,
Da gente a salvas prfida e malina,
Nalgum porto seguro de verdade
Conduzir-nos j agora determina,
Ou nos amostra a terra que buscamos,
Pois s por teu servio navegamos."

33
Ouviu-lhe essas palavras piedosas
A formosa Dione, e comovida,
Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
Ficaram desta sbita partida.
J penetra as Estrelas luminosas,
J na terceira Esfera recebida
Avante passa, e l no sexto Cu,
Para onde estava o Padre, se moveu.

34
E como ia afrontada do caminho,
To formosa no gesto se mostrava,
Que as Estrelas e o Cu e o Ar vizinho,
E tudo quanto a via namorava.
Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
Uns espritos vivos inspirava,
Com que os Plos gelados acendia,
E tornava do Fogo a esfera fria.

35
E por mais namorar o soberano
Padre, de quem foi sempre amada e eria,
Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
Na selva Idea, j se apresentara.
Se a vira o caador, que o vulto humano
Perdeu, vendo Diana na gua clara,
Nunca os famintos galgos o mataram,
Que primeiro desejos o acabaram.

36
Os crespos fios d'ouro se esparziam
Pelo colo, que a neve escurecia;
Andando, as lcteas tetas lhe tremiam,
Com quem Amor brincava, e no se via;
Da alva petrina flamas lhe saam,
Onde o Menino as almas acendia;
Pelas lisas colunas lhe trepavam
Desejos, que como hera se enrolavam.

37
C'um delgado sendal as partes cobre,
De quem vergonha  natural reparo,
Porm nem tudo esconde, nem descobre,
O vu, dos roxos lrios pouco avaro;
Mas, para que o desejo acenda o dobre,
Lhe pe diante aquele objeto raro.
J se sentem no Cu, por toda a parte,
Cimes em Vulcano, amor em Marte.

38
E mostrando no anglico semblante
Co'o riso uma tristeza misturada,
Como dama que foi do incauto amante
Em brincos amorosos mal tratada,
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
E se torna entre alegre magoada,
Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
Mais mimosa que triste ao Padre fala:

39
"Sempre eu cuidei,  Padre poderoso,
Que, para as cousas que eu do peito amasse,
Te achasse brando, afbil e amoroso,
Posto que a algum contrrio lhe pesasse;
Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
Sem que to merecesse, nem te errasse,
Faa-se como Baco determina;
Assentarei enfim que fui mofina.

40
"Este povo que  meu, por quem derramo
As lgrimas que em vo cadas vejo,
Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sendo tu tanto contra meu desejo!
Por ele a ti rogando choro e bramo,
E contra minha dita enfim pelejo.
Ora pois, porque o amo  mal tratado,
Quero-lhe querer mal, ser guardado.

41
"Mas moura enfim nas mos das brutas gentes,
Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,
O rosto banha em lgrimas ardentes,
Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
Calada um pouco, como se entre os dentes
Se lhe impedira a fala piedosa,
Torna a segui-la; e indo por diante,
Lhe atalha o poderoso e gro Tonante.

42
E destas brandas mostras comovido,
Que moveram de um tigre o peito duro,
Co'o vulto alegre, qual do Cu subido,
Torna sereno e claro o ar escuro,
As lgrimas lhe alimpa, e acendido
Na face a beija, e abraa o colo puro;
De modo que dali, se s se achara,
Outro novo Cupido se gerara.

43
E co'o seu apertando o rosto amado,
Que os soluos e lgrimas aumenta,
Como menino da ama castigado,
Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
Por lhe pr em sossego o peito irado,
Muitos casos futuros lhe apresenta.
Dos fados as entranhas revolvendo,
Desta maneira enfim lhe est dizendo:

44
"Formosa filha minha, no temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos,
Nem que ningum comigo possa mais,
Que esses chorosos olhos soberanos;
Que eu vos prometo, filha, que vejais
Esquecerem-se Gregos e Romanos,
Pelos ilustres feitos que esta gente
H-de fazer nas partes do Oriente.

45
"Que se o facundo Ulisses escapou
De ser na Oggia ilha eterno escravo,
E se Antenor os seios penetrou
Ilricos e a fonte de Timavo;
E se o piedoso Eneias navegou
De Cila e de Carbdis o mar bravo,
Os vossos, mores cousas atentando,
Novos mundos ao mundo iro mostrando.

46
"Fortalezas, cidades e altos muros,
Por eles vereis, filha, edificados;
Os Turcos belacssimos e duros,
Deles sempre vereis desbaratados.
Os Reis da ndia, livres e seguros,
Vereis ao Rei potente sojugados;
E por eles, de tudo enfim senhores,
Sero dadas na terra leis melhores.

47
"Vereis este, que agora pressuroso
Por tantos medos o Indo vai buscando,
Tremer dele Neptuno, de medroso
Sem vento suas guas encrespando.
 caso nunca visto e milagroso,
Que trema e ferva o mar, em calma estando!
 gente forte e de altos pensamentos,
Que tambm dela ho medo os Elementos!

48
"Vereis a terra, que a gua lhe tolhia,
Que inda h-de ser um porto mui decente,
Em que vo descansar da longa via
As naus que navegarem do Ocidente.
Toda esta costa enfim, que agora urdia
O mortfero engano, obediente
Lhe pagar tributos, conhecendo
No poder resistir ao Luso horrendo.

49
"E vereis o mar Roxo, to famoso,
Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
Vereis de Ormuz o Reino poderoso
Duas vezes tomado e sojugado.
Ali vereis o Mouro furioso
De suas mesmas setas traspassado:
Que quem vai contra os vossos, claro veja
Que, se resiste, contra si peleja.

50
"Vereis a inexpugnbil Dio forte,
Que dous cercos ter, dos vossos sendo.
Ali se mostrar seu preo e sorte,
Feitos de armas grandssimos fazendo.
Invejoso vereis o gro Mavorte
Do peito Lusitano fero e horrendo:
Do Mouro ali vero que a voz extrema
Do falso Mahamede ao Cu blasfema.

51
"Goa vereis aos Mouros ser tomada,
A qual vir depois a ser senhora
De todo o Oriente, e sublimada
Co'os triunfos da gente vencedora.
Ali soberba, altiva, e exalada,
Ao Gentio, que os dolos adora,
Duro freio por, e a toda a terra
Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

52
"Vereis a fortaleza sustentar-se
De Cananor, com pouca fora e gente;
E vereis Calecu desbaratar-se,
Cidade populosa e to potente:
E vereis em Cochim assinalar-se
Tanto um peito soberbo e insolente,
Que ctara jamais cantou vitria,
Que assim merea eterno nome e glria.

53
"Nunca com Marte instructo e furioso,
Se viu ferver Leucate, quando Augusto
Nas civis Actias guerras animoso,
O Capito venceu Romano injusto,
Que dos povos da Aurora, e do famoso
Nilo, e do Bactra Ctico e robusto
A vitria trazia, e presa rica,
Preso na Egpcia linda e nego pudica.

54
Como vereis o mar fervendo aceso
Colos incndios dos vossos pelejando,
Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
De naes diferentes triunfando.
E sujeita a rica urea Quersoneso,
At ao longnquo China navegando,
E as ilhas mais remotas do Oriente,
Ser-lhe- todo o Oceano obediente.

55
"De modo, filha minha, que de jeito
Amostraro esforo mais que humano,
Que nunca se ver to forte peito,
Do Gangtico mar ao Gaditano,
Nem das Boreais ondas ao Estreito,
Que mostrou o agravado Lusitano,
Posto que em todo o mundo, de afrontados,
Ressuscitassem todos os passados."

56
Como isto disse, manda o consagrado
Filho de Maia  Terra, por que tenha
Um pacfico porto o sossegado,
Para onde sem receio a frota venha;
F, para que em Mombaa, aventurado,
O forte Capito se no detenha,
Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
A terra, onde quieto repousasse.

57
J pelo ar o Cileneu voava;
Com as asas nos ps  Terra desce;
Sua vara fatal na mo levava,
Com que os olhos cansados adormece:
Com esta, as tristes almas revocava
Do Inferno, e o vento lhe obedece.
Na cabea o galero costumado.
E desta arte a Melinde foi chegado.

58
Consigo a Fama leva, por que diga
Do Lusitano o preo grande e raro,
Que o nome ilustre a um certo amor obriga
E faz, a quem o tem, amado e caro.
Desta arte vai fazendo a gente amiga,
Co rumor famosssimo, e perclaro.
J Melinde em desejos arde todo
De ver da gente forte o gesto e modo.

59
Dali para Mombaa logo parte,
Aonde as naus estavam temerosas,
Para que  gente mande que se aparte
Da barra amiga e terras suspeitosas:
Porque mui pouco val esforo e arte,
Contra infernais vontades enganosas;
Pouco val corao, astcia e siso,
Se l dos Cus no vem celeste aviso.

60
No feio caminho a noite tinha anelado,
E, as estrelas no Cu, coa luz alhea,
Tinham o largo Mundo alumiado;
E s co'o sono a gente se recreia.
O Capito ilustre, j cansado
De vigiar a noite que arreceia,
Breve repouso ento aos olhos dava,
A outra gente a quartos vigiava;

61
Quando Mercrio em sonhos lhe aparece,
Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
Da cilada que o Rei malvado tece,
Por te trazer ao fim, e extremo dano;
Fuge, que o vento, e o Cu te favorece;
Sereno o tempo tens e o Oceano,
E outro Rei mais amigo, noutra parte,
Onde podes seguro agasalhar-te.

62
"No tens aqui seno aparelhado
O hospcio que o cru Diomedes dava,
Fazendo ser manjar acostumado
De cavalos a gente que hospedava;
As aras de Busris infamado,
Onde os hspedes tristes imolava,
Ters certas aqui, se muito esperas.
Fuge das gentes prfidas e feras.

63
"Vai-te ao longo da costa discorrendo,
E outra terra achars de mais verdade,
L quase junto donde o Sol ardendo
Iguala o dia e noite em quantidade;
Ali tua frota alegre recebendo
Um Rei, com muitas obras de amizade,
Gasalhado seguro te daria,
E, para a ndia, certa e sbia guia."

64
Isto Mercrio disse, e o sono leva
Ao Capito, que com mui grande espanto
Acorda, e v ferida a escura treva
De uma sbita luz e raio santo.
E vendo claro quanto lhe releva
No se deter na terra inqua tanto,
Com novo esprito ao mestre seu mandava
Que as velas desse ao vento que assopravam.

65
"Dai velas, disse, dai ao largo vento,
Que o Cu nos favorece e Deus o manda;
Que um mensageiro vi do claro assento
Que s em favor de nossos passos anda."
Alevanta-se nisto o movimento
Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
Levam gritando as ncoras acima,
Mostrando a ruda fora, que se estima.

66
Neste tempo, que as ncoras levavam,
Na sombra escura os Mouros escondidos
Mansamente as amarras lhe cortavam,
Por serem, dando  costa, destrudos;
Mas com vista de linces vigiavam
Os Portugueses, sempre apercebidos.
Eles, como acordados os sentiram,
Voando, e no remando, lhe fugiram.

67
Mas j as agudas proas apartando
Iam as vias hmidas de argento;
Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
Com suave e seguro movimento.
Nos perigos passados vo falando,
Que mal se perdero do pensamento
Os casos grandes, donde em tanto aperto
A vida em salvo escapa por acerto.

68
Tinha uma volta dado o Sol ardente
E noutro comeava, quando viram
Ao longe deus navios, brandamente
Co'os ventos navegando, que respiram:
Porque haviam de ser da Maura gente,
Para eles arribando, as velas viram:
Um, de temor do mal que arreceava,
Por se salvar a gente  costa dava.

69
No  o outro que fica to manhoso;
Mas nas mos vai cair do Lusitano,
Sem o rigor de Marte furioso,
E sem a fria horrenda de Vulcano;
Que como fosse dbil e medroso
Da pouca gente o fraco peito humano,
No teve resistncia; e se a tivera,
Mais dano resistindo recebera.

70
E como o Gama muito desejasse
Piloto para a ndia que buscava,
Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
Mas no lhe sucedeu como cuidava,
Que nenhum deles h que lhe ensinasse
A que parte dos cus a ndia estava;
Porm dizem-lhe todos, que tem perto
Melinde, onde achar piloto certo.

71
Louvam do Rei os Mouros a bondade,
Condio liberal, sincero peito,
Magnificncia grande e humanidade,
Com partes de grandssimo respeito.
O Capito o assela por verdade,
Porque j lhe dissera, deste jeito,
Cileneu em sonhos; e partia
Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

72
Era no tempo alegre, quando entrava
No roubador de Europa a luz Febeia,
Quando um e outro corno lhe aquentava,
E Flora derramava o de Amalteia:
A memria do dia renovava
O pressuroso Sol, que o Cu rodeia,
Em que Aquele, a quem tudo est sujeito,
O selo ps a quanto tinha feito;

73
Quando chegava a frota quela parte,
Onde o Reino Melinde j se via,
De toldos adornada, e leda de arte
Que bem mostra estimar o santo dia.
Treme a bandeira, voa o estandarte,
A cor purprea ao longe aparecia;
Soam os atambores o pandeiros,
E assim entravam ledos e guerreiros.

74
Enche-se toda a praia Melindana
Da gente que vem ver a leda armada,
Gente mais verdadeira, e mais humana,
Que toda a doutra terra atrs deixada.
Surge diante a frota Lusitana,
Pega no fundo a ncora pesada;
Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

75
O Rei, que j sabia da nobreza
Que tanto os Portugueses engrandece,
Tomarem o seu porto tanto preza,
Quanto a gente fortssima merece:
E com verdadeiro nimo e pureza,
Que os peitos generosos enobrece,
Lhe manda rogar muito que sassem,
Para que de seus reinos se servissem.

76
So oferecimentos verdadeiros,
E palavras sinceras, no dobradas,
As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
Que tanto mar e terras tem passadas.
Manda-lhe mais langeros carneiros,
E galinhas domsticas cevadas,
Com as frutas, que ento na terra havia;
E a vontade  ddiva excedia.

77
Recebe o Capito alegremente
O mensageiro ledo e seu recado;
E logo manda ao Rei outro presente,
Que de longe trazia aparelhado:
Escarlata purprea, cor ardente,
O ramoso coral, fino e prezado,
Que debaixo das guas mole cresce,
E como  fora delas se endurece.

78
Manda mais um, na prtica elegante,
Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
E que de no sair naquele instante
De suas naus em terra o desculpasse.
Partido assim o embaixador prestante,
Como na terra ao Rei se apresentasse,
Com estilo que Palas lhe ensinava,
Estas palavras tais falando orava:

79
"Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
Foi da suma Justia concedido
Refrear o soberbo povo duro,
No menos dele amado, que temido:
Como porto mui forte e mui seguro,
De todo o Oriente conhecido,
Te vimos a buscar, para que achemos
Em ti o remdio certo que queremos.

80
"No somos roubadores, que passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vo matando,
Por roubar-lhe as fazendas cobiadas;
Mas da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da ndia grande e rica, por mandado
De um Rei que temos, alto e sublimado.

81
"Que gerao to dura h hi de gente,
Que brbaro costume e usana feia,
Que no vedem os portos to somente,
Mas inda o hospcio da deserta areia?
Que m teno, que peito em ns se sente,
Que de to pouca gente se arreceia?
Que com laos armados, to fingidos,
Nos ordenassem ver-nos destrudos?

82
"Mas tu, e quem mui certo confiamos
Achar-se mais verdade,  Rei benigno,
E aquela certa ajuda em ti esperamos,
Que teve o perdido taco em Alcino,
A teu porto seguro navegamos,
Conduzidos do intrprete divino;
Que, pois a ti nos manda, est mui claro,
Que s de peito sincero, humano e raro.

83
"E no cuides,  Rei, que no sasse
O nosso Capito esclarecido
A ver-te, ou a servir-te, porque visse
Ou suspeitasse em ti peito fingido:
Mas sabers que o fez, porque cumprisse
O regimento, em tudo obedecido,
De seu Rei, que lhe manda que no saia,
Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

84
"E porque , de vassalos o exerccio,
Que os membros tem regidos da cabea,
No querers, pois tens de Rei o ofcio,
Que ningum a seu Rei desobedea;
Mas as mercs e o grande benefcio,
Que ora acha em ti, promete que conhea
Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
Enquanto os rios para o mar correrem."

85
Assim dizia; e todos juntamente,
Uns com outros em prtica falando,
Louvavam muito o estmago da gente,
Que tantos cus e mares vai passando.
E o Rei ilustre, o peito obediente
Dos Portugueses na alma imaginando,
Tinha por valor grande e mui subido
O do Rei que  to longe obedecido.

86
E com risonha vista e ledo aspeito,
Responde ao embaixador, que tanto estima:
"Toda a suspeita m tirai do peito,
Nenhum frio temor em vs se imprima;
Que vosso preo e obras so de jeito
Para vos ter o mundo em muita estima;
E quem vos fez molesto tratamento,
No pode ter subido pensamento.

87
"De no sair em terra toda a gente,
Por observar a usada preminncia,
Ainda que me pese estranhamente,
Em muito tenho a muita obedincia;
Mas, se lho o regimento no consente,
Nem eu consentirei que a excelncia
De peitos to leais em si desfaa,
S porque a meu desejo satisfaa.

88
"Porm, como a luz crstina chegada
Ao mundo for, em minhas almadias
Eu irei visitar a forte armada,
Que ver tanto desejo, h tantos dias;
E se vier do mar desbaratada,
Do furioso vento e longas vias,
Aqui ter, de limpos pensamentos,
Piloto, munies e mantimentos."

89
Isto disse; e nas guas se escondia
O filho de Latona; e o mensageiro
Coa embaixada alegre se partia
Para a frota, no seu batel ligeiro.
Enchem-se os peitos todos de alegria.
Por terem o remdio verdadeiro
Para acharem a terra que buscavam;
E assim ledos a noite festejavam.

90
No faltam ali os raios de artifcio,
Os trmulos cometas imitando;
Fazem os bombardeiros seu ofcio,
O cu, a terra e as ondas atroando.
Mostra-se dos Ciclopas o exerccio
Nas bombas que de fogo esto queimando;
Outros com vozes, com que o cu feriam,
Instrumentos altssonos tangiam.

91
Respondem-lhe da terra juntamente,
Co'o raio volteando, com zunido;
Anda em giros no ar a roda ardente,
Estoura o p sulfreo escondido.
A grita se alevanta ao cu, da gente;
O mar se via em fogos acendido,
E no menos a terra; e assim festeja
Um ao outro, a maneira de peleja.

92
Mas j o Cu inquieto revolvendo,
As gentes incitava a seu trabalho,
E j a me de Menon a luz trazendo,
Ao sono longo punha certo atalho;
Iam-se as sombras lentas desfazendo,
Sobre as flores da terra em frio orvalho,
Quando o Rei Melindano se embarcava
A ver a frota, que no mar estava.

93
Viam-se em derredor ferver as praias
Da gente, que a ver s concorre leda;
Luzem da fina prpura as cabaias,
Lustram os panos da tecida seda;
Em lugar das guerreiras azagaias
E do arco, que os cornos arremeda
Da Lua, trazem ramos de palmeira,
Dos que vencem, coroa verdadeira.

94
Um batel grande e largo, que toldado
Vinha de sedas de diversas cores,
Traz o Rei de Melinde, acompanhado
De nobres e seu Reino e de senhores:
Vem de ricos vestidos adornado,
Segundo seus costumes e primores;
Na cabea uma fota guarnecida
De ouro, e de seda e de algodo tecida.

95
Cabaia de Damasco rico e dino,
Da Tria cor, entre eles estimada,
Um colar ao pescoo, de ouro fino,
Onde a matria da obra  superada,
C'um resplendor reluze adamantino;
Na cinta, a rica bem lavrada;
Nas alparcas dos ps, em fim de tudo,
Cobrem ouro e aljfar ao veludo.

96
Com um redondo emparo alto de seda,
Numa alta e dourada hstia enxerido,
Um ministro  solar quentura veda.
Que no ofenda e queime o Rei subido.
Msica traz na proa, estranha e leda,
De spero som, horrssono ao ouvido,
De trombetas arcadas em redondo,
Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

97
No menos guarnecido o Lusitano
Nos seus batis, da frota se partia
A receber no mar o Melindano,
Com lustrosa e lograda companhia.
Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
Mas Francesa era a roupa que vestia,
De cetim da Adritica Veneza
Carmesi, cor que a gente tanto preza:

98
De botes douro as mangas vm tomadas,
Onde o Sol reluzindo a vista cega;
As calas soldadescas recamadas
Do metal, que Fortuna a tantos nega,
E com pontas do mesmo delicadas
Os golpes do gibo ajunta e achega;
Ao Itlico modo a urea espada;
Pluma na gorra, um pouco declinada.

99
Nos de sua companhia se mostrava
Da tinta, que d o mrice excelente,
A vria cor, que os olhos alegrava,
E a maneira do trajo diferente.
Tal o formoso esmalte se notava
Dos vestidos, olhados juntamente,
Qual aparece o arco rutilante
Da bela Ninfa, filha de Taumante.

100
Sonorosas trombetas incitavam
Os nimos alegres, ressoando;
Dos Mouros os batis, o mar coalhavam,
Os toldos pelas guas arrojando;
As bombardas horrssonas bramavam,
Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
Amidam-se os brados acendidos,
Tapam com as mos os Mouros os ouvidos.

101
J no batel entrou do Capito
O Rei, que nos seus braos o levava;
Ele coa cortesia, que a razo
(Por ser Rei) requeria, lhe falava.
C'umas mostras de espanto e admirao,
O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
Como quem em mui grande estima tinha
Gente que de to longe  ndia vinha.

102
E com grandes palavras lhe oferece
Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
E que, se mantimento lhe falece,
Como se prprio fosse, lho pedisse.
Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
A gente Lusitana, sem que a visse;
Que j ouviu dizer, que noutra terra
Com gente de sua Lei tivesse guerra.

103
E como por toda frica se soa,
Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
Quando nela ganharam a coroa
Do Reino, onde as Hespridas viveram;
E com muitas palavras apregoa
O menos que os de Luso mereceram,
E o mais que pela fama o Rei sabia.
Mas desta sorte o Gama respondia:

104
" tu, que s tiveste piedade,
Rei benigno, da gente Lusitana,
Que com tanta misria e adversidade
Dos mares experimenta a fria insana;
Aquela alta e divina Eternidade,
Que o Cu revolve e rege a gente humana,
Pois que de ti tais obras recebemos,
Te pague o que ns outros no podemos.

105
"Tu s, de todos quantos queima Apolo,
Nos recebes em paz, cio mar profundo;
Em ti dos ventos hrridos de Eolo
Refgio achamos bom, fido e jocundo.
Enquanto apascentar o largo Plo
As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
Onde quer que eu viver, com fama e glria
Vivero teus louvores em memria."

106
Isto dizendo, os barcos vo remando
Para a frota, que o Mouro ver deseja;
Vo as naus uma e uma rodeando,
Porque de todas tudo note e veja.
Mas para o cu Vulcano fuzilando,
A frota coas bombardas o festeja,
E as trombetas canoras lhe tangiam;
Co'os anafis os Mouros respondiam.

107
Mas depois de ser tudo j notado
Do generoso Mouro, que pasmava
Ouvindo o instrumento inusitado,
Que tamanho terror em si mostrava,
Mandava estar quieto e ancorado
N'gua o batel ligeiro que os levava,
Por falar de vagar co'o forte Gama,
Nas cousas de que tem notcia e faina.

108
Em prticas o Mouro diferentes
Se deleitava, perguntando agora
Pelas guerras famosas e excelentes
Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
Agora lhe pergunta pelas gentes
De toda a Hespria ltima, onde mora;
Agora pelos povos seus vizinhos,
Agora pelos midos caminhos.

109
"Mas antes, valeroso Capito,
Nos conta, lhe dizia, diligente,
Da terra tua o clima, e regio
Do mundo onde morais distintamente;
E assim de vossa antiga gerao,
E o princpio do Reino to potente,
Co'os sucessos das guerras do comeo,
Que, sem sab-las, sei que so de preo.

110
"E assim tambm nos conta dos rodeios
Longos, em que te traz o mar irado,
Vendo os costumes brbaros alheios.
Que a nossa frica ruda tem criado.
Conta: que agora vm co'os ureos freios
Os cavalos que o carro marchetado
Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

111
"E no menos co'o tempo se parece
O desejo de ouvir-te o que contares;
Que quem h, que por fama no conhece
As obras Portuguesas singulares?
No tanto desviado resplandece
De ns o claro Sol, para julgares
Que os Melindanos tm to rudo peito,
Que no estimem muito um grande feito.

112
"Cometeram soberbos os Gigantes,
Com guerra v, o Olimpo claro e puro;
Tentou Pirtoo e Teseu, de ignorantes,
O Reino de Pluto horrendo e escuro.
Se houve feitos no mundo to possantes,
No menos  trabalho ilustre e duro,
Quanto foi cometer Inferno o Cu,
Que outrem cometa a fria de Nereu.

113
"Queimou o sagrado templo de Diana,
Do subtil Tesifnio fabricado,
Herstrato, por ser da gente humana
Conhecido no mundo e nomeado:
Se tambm com tais obras nos engana
O desejo de um nome avantajado,
Mais razo h que queira eterna glria
Quem faz obras to dignas de memria."

Canto Terceiro

1
Agora tu, Calope, me ensina
O que contou ao Rei o ilustre Gama:
Inspira imortal canto e voz divina
Neste peito mortal, que tanto te ama.
Assim o claro inventor da Medicina,
De quem Orfeu pariste,  linda Dama,
Nunca por Dafne, Clcie ou Leucotoe,
Te negue o amor devido, como soe.

2
Pe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
Como merece a gente Lusitana;
Que veja e saiba o mundo que do Tejo
O licor de Aganipe corre e mana.
Deixa as flores de Pindo, que j vejo
Banhar-me Apolo na gua soberana;
Seno direi que tens algum receio,
Que se escurea o teu querido Orfeio.

3
Prontos estavam todos escutando
O que o sublime Gama contaria,
Quando, depois de um pouco estar cuidando,
Alevantando o rosto, assim dizia:
"Mandas-me,  Rei, que conte declarando
De minha gente a gro genealogia:
No me mandas contar estranha histria,
Mas mandas-me louvar dos meus a glria.

4
"Que outrem possa louvar esforo alheio,
Cousa  que se costuma e se deseja;
Mas louvar os meus prprios, arreceio
Que louvor to suspeito mal me esteja;
E para dizer tudo, temo e creio,
Que qualquer longo tempo curto seja:
Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
Irei contra o que devo, e serei breve.

5
"Alm disso, o que a tudo enfim me obriga,
 no poder mentir no que disser,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me h-de ficar inda por dizer.
Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
Segundo o que desejas de saber,
Primeiro tratarei da larga terra,
Depois direi da sanguinosa guerra.

6
"Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
Meta setentrional do Sol luzente,
E aquela que por f ria se arreceia
Tanto, como a do meio por ardente,
Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
Com suas salsas ondas o Oceano,
E pela Austral o mar Mediterrano.

7
"Da parte donde o dia vem nascendo,
Com sia se avizinha; mas o rio
Que dos montes Rifeios vai correndo,
Na alagoa Meotis, curvo o frio,
As divide: e o mar que, fero e horrendo,
Viu dos Gregos o irado senhorio,
Onde agora de Tria triunfante
No v mais que a memria o navegante.

8
"L onde mais debaixo est do Plo,
Os montes Hiperbreos aparecem,
E aqueles onde sempre sopra Eolo,
E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
Aqui to pouca fora tem de Apolo
Os raios que no mundo resplandecem,
Que a neve est contido pelos montes,
Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

9
"Aqui dos Citas grande quantidade
Vivem, que antigamente grande guerra
Tiveram, sobre a humana antiguidade,
Co'os que tinham ento a Egpcia terra;
Mas quem to fora estava da verdade,
(J que o juzo humano tanto erra)
Para que do mais certo se informara,
Ao campo Damasceno o perguntara.

10
"Agora nestas partes se nomeia
A Lpia fria, a inculta Noruega,
Escandinvia Ilha, que se arreia
Das vitrias que Itlia no lhe nega.
Aqui, enquanto as guas no refreia
O congelado inverno, se navega
Um brao do Sarmtico Oceano
Pelo Brsio, Sucio e frio Dano.

11
"Entre este mar e o Tnais vive estranha
Gente: Rutenos, Moseos e Livnios,
Srmatas outro tempo; e na montanha
Hircnia os Marcomanos so Polnios.
Sujeitos ao Imprio de Alemanha
So Saxones, Bomios e Pannios,
E outras vrias naes, que o Reno frio
Lava, e o Danbio, Amasis e Albis rio.

12
"Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
Esto os Traces de robusto peito,
Do fero Marte ptria to querida,
Onde, colo Hemo, o Rdope sujeito
Ao Otomano est, que submetida
Bizncio tem a seu servio indino:
Boa injria do grande Constantino!

13
"Logo de Macednia esto as gentes,
A quem lava do Axio a gua fria;
E vs tambm,  terras excelentes
Nos costumes, engenhos e ousadia,
Que criastes os peitos eloquentes
E os juzos de alta fantasia,
Com quem tu, clara Grcia, o Cu penetras,
E no menos por armas, que por letras.

14
"Logo os Dlmatas vivem; e no seio,
Onde Antenor j muros levantou,
A soberba Veneza est no meio
Das guas, que to baixa comeou.
Da terra um brao vem ao mar, que cheio
De esforo, naes vrias sujeitou,
Brao forte, de gente sublimada,
No menos nos engenhos, que na espada.

15
"Em torno o cerca o Reino Neptunino,
Co'os muros naturais por outra parte;
Pelo meio o divide o Apenino,
Que to ilustre fez o ptrio Marte;
Mas depois que o Porteiro tem divino,
Perdendo o esforo veio, e blica arte;
Pobre est j de antiga potestade:
Tanto Deus se contenta de humildade!

16
"Glia ali se ver que nomeada
Co'os Cesreos triunfos foi no mundo,
Que do Squana e Rdano  regada,
E do Giruna frio e Reno fundo.
Logo os montes da Ninfa sepultada
Pirene se alevantam, que segundo
Antiguidades contam, quando arderam,
Rios de ouro e de prata ento correram.

17
"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
Como cabea ali de Europa toda,
Em cujo senhorio o glria estranha
Muitas voltas tem dado a fatal roda;
Mas nunca poder, com fora ou manha,
A fortuna inquieta pr-lhe noda,
Que lhe no tire o esforo e ousadia
Dos belicosos peitos que em si cria.

18
"Com Tingitnia entesta, e ali parece
Que quer fechar o mar Mediterrano,
Onde o sabido Estreito se enobrece
Co'o extremo trabalhado Tebano.
Com naes diferentes se engrandece,
Cercadas com as ondas do Oceano;
Todas de tal nobreza e tal valor,
Que qualquer delas cuida que  melhor.

19
"Tem o Tarragons, que se fez claro
Sujeitando Partnope inquieta;
O Navarro, as Astrias, que reparo
J foram contra a gente Mahometa;
Tem o Galego cauto, e o grande e raro
Castelhano, a quem fez o seu Planeta
Restituidor de Espanha e senhor dela,
Btis, Lio, Granada, com Castela.

20
"Eis aqui, quase cume da cabea
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar comea,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Cu justo que floresa
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e l na ardente
frica estar quieto o no consente.

22
"Esta  a ditosa ptria minha amada,
A qual se o Cu me d que eu sem perigo
Torne, com esta empresa j acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitnia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela ento os ncolas primeiros.

22
"Desta o pastor nasceu, que no seu nome
Se v que de homem forte os feitos teve;
Cuja fama ningum vir que dome,
Pois a grande de Roma no se atreve.
Esta, o velho que os filhos prprios come
Por decreto do Cu, ligeiro e leve,
Veio a fazer no mundo tanta parte,
Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:

23
"Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
Que por armas sanguinas, fora e manha,
A muitos fez perder a vida o a terra;
Voando deste Rei a fama estranha
Do Herculano Calpe  Cspia serra,
Muitos, para na guerra esclarecer-se,
Vinham a ele e  morte oferecer-se.

24
"E com um amor intrnseco acendidos
Da F, mais que das honras populares,
Eram de vrias terras conduzidos,
Deixando a ptria amada e prprios lares.
Depois que em feitos altos e subidos
Se mostraram nas armas singulares,
Quis o famoso Afonso que obras tais
Levassem prmio digno e dons iguais.

25
"Destes Anrique, dizem que segundo
Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
Portugal houve em sorte, que no mundo
Ento no era ilustre nem prezado;
E, para mais sinal d'amor profundo,
Quis o Rei Castelhano, que casado
Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
E com ela das terras tornou posse.

26
"Este, depois que contra os descendentes
Da escrava Agar vitrias grandes teve,
Ganhando muitas terras adjacentes,
Fazendo o que a seu forte peito deve,
Em prmio destes feitos excelentes,
Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
Um filho, que ilustrasse o nome ufano
Do belicoso Reino Lusitano.

27
"J tinha vindo Anrique da conquista
Da cidade Hieroslima sagrada,
E do Jordo a areia tinha vista,
Que viu de Deus a carne em si lavada;
Que no tendo Gotfredo a quem resista,
Depois de ter Judeia sojugada,
Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
Para seus senhorios se tornaram;

28
"Quando chegado ao fim de sua idade,
O forte e famoso ngaro estremado,
Forado da fatal necessidade,
O esprito deu a quem lhe tinha dado,
Ficava o filho em tenra mocidade,
Em quem o pai deixava seu traslado,
Que do mundo os mais fortes igualava;
Que de tal pai tal filho se esperava.

29
"Mas o velho rumor, no sei se errado,
Que em tanta antiguidade no h certeza,
Conta que a me, tomando todo o estado,
Do segundo himeneu no se despreza.
O filho rfo deixava deserdado,
Dizendo que nas terras a grandeza
Do senhorio todo s sua era,
Porque, para casar, seu pai lhes dera.

30
"Mas o Prncipe Afonso, que desta arte
Se chamava, do av tomando o nome,
Vendo-se em suas terras no ter parte,
Que a me, com seu marido, as manda e come,
Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
Imagina consigo como as tome.
Revolvidas as causas no conceito,
Ao propsito firme segue o efeito.

31
"De Guimares o campo se tingia
Co'o sangue prprio da intestina guerra,
Onde a me, que to pouco o parecia,
A seu filho negava o amor e a terra.
Com ele posta em campo j se via;
E no v a soberba o muito que erra
Contra Deus, contra o maternal amor;
Mas nela o sensual era maior.

32
" Progne crua!  mgica Medeia!
Se em vossos prprios filhos vos vingais
Da maldade dos pais, da culpa alheia,
Olhai que inda Teresa peca mais:
Incontinncia m, cobia feia,
So as causas deste erro principais:
Cila, por uma, mata o velho pai,
Esta, por ambas, contra o filho vai.

33
"Mas j o Prncipe claro o vencimento
Do padrasto e da inqua me levava;
J lhe obedece a terra num momento,
Que primeiro contra ele pelejava.
Porm, vencido de ira o entendimento,
A me em ferros speros atava;
Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
Tanta venerao aos pais se deve!

34
"Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
Para vingar a injria de Teresa,
Contra o to raro em gente Lusitano,
A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
Em batalha cruel o peito humano,
Ajudado da anglica defesa,
No s contra tal fria se sustenta,
Mas o inimigo asprrimo afugenta.

35
"No passa muito tempo, quando o forte
Prncipe em Guimares est cercado
De infinito poder; que desta sorte
Foi refazer-se o inimigo magoado;
Mas, com se oferecer  dura morte
O fiel Egas amo, foi livrado;
Que de outra arte pudera ser perdido,
Segundo estava mal apercebido.

36
"lulas o leal vassalo, conhecendo
Que seu senhor no tinha resistncia,
Se vai ao Castelhano, prometendo
Que ele faria dar-lhe obedincia.
Levanta o inimigo o cerco horrendo,
Fiado na promessa e conscincia
De Egas Moniz; mas no consente o peito
Do moo ilustre a outrem ser sujeito.

37
"Chegado tinha o prazo prometido,
Em que o Rei Castelhano j aguardava
Que o Prncipe, a seu mando sometido,
Lhe desse a obedincia que esperava.
Vendo Egas que ficava fementido,
O que dele Castela no cuidava,
Determina de dar a doce vida
A troco da palavra mal cumprida.

38
"E com seus filhos e mulher se parte
A alevantar com eles a fiana,
Descalos e despidos, de tal arte,
Que mais move a piedade que a vingana.
--"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
De minha temerria confiana,
Dizia, eis aqui venho oferecido
A te pagar, coa vida, o prometido.

39
"Vs aqui trago as vidas inocentes
Dos filhos sem pecado e da consorte;
Se a peitos generosos e excelentes,
Dos fracos satisfaz a fera morte.
Vs aqui as mos e a lngua delinquentes:
Nelas ss exprimenta toda a sorte
De tormentos, de mortes, pelo estilo
De Cnis e do touro de Perilo"!--

40
"Qual diante do algoz o condenado,
Que j na vida a morte tem bebido,
Pe no cepo a garganta, e j entregado
Espera pelo golpe to temido:
Tal diante do Prncipe indinado,
Egas estava a tudo oferecido.
Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
Mais pde, enfim, que a ira a piedade.

41
" gro fidelidade Portuguesa,
De vassalo, que a tanto se obrigava!
Que mais o Persa fez naquela empresa,
Onde rosto e narizes se cortava?
Do que ao grande Dario tanto pesa,
Que mil vezes dizendo suspirava,
Que mais o seu Zopiro so prezara,
Que vinte Babilnias que tomara.

42
Mas j o Prncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exrcito ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
D'alm do claro Tejo deleitoso;
J no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em fora e gente to pequeno.

43
"Em nenhuma outra cousa confiado,
Seno no sumo Deus, que o Cu regia,
Que to pouco era o povo batizado,
Que para um s cem Mouros haveria.
Julga qualquer juzo sossegado
Por mais temeridade que ousadia,
Cometer um tamanho ajuntamento,
Que para um cavaleiro houvesse cento.

44
"Cinco Reis Mouros so os inimigos,
Dos quais o principal Ismar se chama;
Todos exprimentados nos perigos
Da guerra, onde se alcana a ilustre fama.
Seguem guerreiras damas seus amigos,
Imitando a formosa e forte Dama,
De quem tanto os Troianos se ajudaram,
E as que o Termodonte j gostaram.

45
"A matutina luz serena e fria,
As estrelas do Plo j apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando quem lhe aparecia,
Na F todo inflamado assim gritava:
--"Aos infiis, Senhor, aos infiis,
E no a mim, que creio o que podeis!"

46
"Com tal milagre os nimos da gente
Portuguesa inflamados, levantavam
Por seu Rei natural este excelente
Prncipe, que do peito tanto amavam;
E diante do exrcito potente
Dos imigos, gritando o cu tocavam,
Dizendo em alta voz:--"Real, real,
Por Afonso alto Rei de Portugal."

47
"Qual co'os gritos e vozes incitado,
Pela montanha o rbido Moloso,
Contra o touro remete, que fiado
Na fora est do corno temeroso:
Ora pega na orelha, ora no lado,
Latindo mais ligeiro que foroso,
At que enfim, rompendo-lhe a garganta,
Do bravo a fora horrenda se quebranta:

48
"Tal do Rei novo o estmago acendido
Por Deus e pelo povo juntamente,
O Brbaro comete apercebido,
Co'o animoso exrcito rompente.
Levantam nisto os perros o alarido
Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
As lanas e arcos tomam, tubas soam,
Instrumentos de guerra tudo atroam.

49
"Bem como quando a flama, que ateada
Foi nos ridos campos (assoprando
O sibilante Breas) animada
Co'o vento, o seco mato vai queimando;
A pastoral companha, que deitada
Co'o doce sono estava, despertando
Ao estridor do fogo que se ateia,
Recolhe o fato, e foge para a aldeia:

50
"Desta arte o Mouro atnito e torvado,
Toma sem tento as armas mui depressa;
No foge; mas espera confiado,
E o ginete belgero arremessa.
O Portugus o encontra denodado,
Pelos peitos as lanas lhe atravessa:
Uns caem meios mortos, e outros vo
A ajuda convocando do Alcoro.

51
"Ali se vem encontros temerosos,
Para se desfazer uma alta serra,
E os animais correndo furiosos
Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
Golpes se do medonhos e forosos;
Por toda a parte andava acesa a guerra:
Mas o de Luso arns, couraa e malha
Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

52
"Cabeas pelo campo vo saltando
Braos, pernas, sem dono e sem sentido;
E doutros as entranhas palpitando,
Plida a cor, o gesto amortecido.
J perde o campo o exrcito nefando;
Correm rios de sangue desparzido,
Com que tambm do campo a cor se perde,
Tornado carmesi de branco e verde.

53
"J fica vencedor o Lusitano,
Recolhendo os trofus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Trs dias o gro Rei no campo fiei.
Aqui pinta no branco escudo ufano,
Que agora esta vitria certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos,
Em sinal destes cinco Reis vencidos,

54
"E nestes cinco escudos pinta os trinta
Dinheiros por que Deus fora vendido,
Escrevendo a memria em vria tinta,
Daquele de quem foi favorecido.
Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
Porque assim fica o nmero cumprido,
Contando duas vezes o do meio,
Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

55
"Passado j algum tempo que passada
Era esta gro vitria, o Rei subido
A tomar vai Leiria, que tomada
Fora, mui pouco havia, do vencido.
Com esta a forte Arronches sojugada
Foi juntamente, e o sempre enobrecido
Scalabicastro, cujo campo ameno,
Tu, claro Tejo, regas to sereno.

56
"A estas nobres vilas sometidas,
Ajunta tambm Mafra, em pouco espao,
E nas serras da Lua conhecidas,
Sojuga a fria Sintra o duro brao;
Sintra, onde as Naiades, escondidas
Nas fontes, vo fugindo ao doce lao,
Onde Amor as enreda brandamente,
Nas guas acendendo fogo ardente.

57
"E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
Facilmente das outras s princesa,
Que edificada foste do facundo,
Por cujo engano foi Dardnia acesa;
Tu, a quem obedece o mar profundo,
Obedeceste  fora Portuguesa,
Ajudada tambm da forte armada,
Que das Boreais partes foi mandada.

58
"L do Germnico Albis, e do Rene,
E da fria Bretanha conduzidos,
A destruir o povo Sarraceno,
Muitos com tenso santa eram partidos.
Entrando a boca j do Tejo ameno,
Co'o arraial do grande Afonso unidos,
Cuja alta fama ento subia aos Cus,
Foi posto cerco tos muros Ulisseus.

59
"Cinco vezes a Lua se escondera,
E outras tantas mostrara cheio o rosto,
Quando a cidade entrada se rendera
Ao duro cerco, que lhe estava posto.
Foi a batalha to sanguina e fera,
Quanto obrigava o firme pressuposto
De vencedores speros e ousados,
E de vencidos j desesperados.

60
"Desta arte enfim tomada se rendeu
Aquela que, nos tempos j passados,
A grande fora nunca obedeceu
Dos frios povos Cticos ousados,
Cujo poder a tanto se estendeu
Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
E enfim co'o Btis tanto alguns puderam
Que  terra de Vandlia nome deram.

61
"Que cidade to forte por ventura
Haver que resista, se Lisboa
No pde resistir  fora dura
Da gente, cuja fama tanto voa?
J lhe obedece toda a Estremadura,
bidos, Alenquer, por onde soa
O tom das frescas guas, entre as pedras,
Que murmurando lava, e Torres Vedras.

62
"E vs tambm,  terras Transtaganas,
Afamadas co'o dom da flava Ceres,
Obedeceis s foras mais que humanas,
Entregando-lhe os muros e os poderes.
E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
Se sustentar a frtil terra queres;
Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
E Alccere-do-Sal esto rendidas.

63
"Eis a nobre Cidade, certo assento
Do rebelde Sertrio antigamente,
Onde ora as guas ntidas de argento
Vem sustentar de longo a terra e a gente,
Pelos arcos reais, que cento e cento
Nos ares se alevantam nobremente,
Obedeceu por meio e ousadia
De Giraldo, que medos no temia.

64
"J na cidade Beja vai tomar
Vingana de Trancoso destruda
Afonso, que no sabe sossegar,
Por estender coa fama a curta vida.
No se lhe pode muito sustentar
A cidade; mas sendo j rendida,
Em toda a cousa viva a gente irada
Provando os fios vai da dura espada.

65
"Com estas sojugada foi Palmela,
E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
Sendo ajudado mais de sua estrela,
Desbarata um exrcito potente:
Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
Que a socorr-la vinha diligente
Pela fralda da serra, descuidado
Do temeroso encontro inopinado.

66
"O Rei de Badajoz era alto Mouro,
Com quatro mil cavalos furiosos,
Inmeros pees, d'armas e de ouro
Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
Mas, qual no ms de Maio o bravo touro,
Co'os cimes da vaca, arreceosos,
Sentindo gente o bruto e cego amante
Salteia o descuidado caminhante:

67
"Desta arte Afonso sbito mostrado
Na gente d, que passa bem segura,
Fere, mata, derriba denodado;
Foge o Rei Mouro, e s da vida cura.
Dum pnico terror todo assombrado,
S de segui-lo o exrcito procura;
Sendo estes que fizeram tanto abalo
No mais que s sessenta de cavalo.

68
"Logo segue a vitria sem tardana
O gro Rei incansbil, ajuntando
Gentes de todo o Reino, cuja usana
Era andar sempre terras conquistando.
Cercar vai Badajoz, e logo alcana
O fim de seu desejo, pelejando
Com tanto esforo, e arte, e valentia,
Que a fez fazer s outras companhia.

69
"Mas o alto Deus, que para longe guarda
O castigo daquele que o merece,
Ou, para que se emende, s vezes tarda,
Ou por segredos que homem no conhece,
Se at que sempre o forte Rei resguarda
Dos perigos a que ele se oferece;
Agora lhe no deixa ter defesa
Da maldio da me que estava presa.

70
"Que estando na cidade, que cercara,
Cercado nela foi dos Lioneses,
Porque a conquista dela lhe tomara,
De Lio sendo, e no dos Portugueses.
A pertincia aqui lhe custa cara,
Assim como acontece muitas vezes,
Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
A batalha, onde foi vencido e preso.

71
" famoso Pompeio, no te pene
De teus feitos ilustres a runa,
Nem ver que a justa Nmesis ordene
Ter teu sogro de ti vitria dina,
Posto que o frio Fsis, ou Siene,
Que para nenhum cabo a sombra inclina,
O Bootes gelado e a linha ardente,
Temessem o teu nome geralmente.

72
"Posto que a rica Arbia e que os ferozes
Enocos e Colcos, cuja fama
O Vu dourado estende, e os Capadoces,
E Judeia, que um Deus adora e ama,
E que os moles Sofenos, e os atroces
Cilcios, com a Armnia, que derrama
As guas dos dous rios, cuja fonte
Est noutro mais alto e santo monte;

73
"E posto enfim que desde o mar de Atlante
At o Ctico Tauro monte erguido,
J vencedor te vissem, no te espanto
Se o campo Emtio s te viu vencido,
Porque Afonso vers, soberbo e ovante,
Tudo render-se ser depois rendido.
Assim o quis o conselho alto e celeste,
Que vena o sogro a ti, e o genro a este.

74
"Tornado o Rei sublime finalmente,
Do divino Juzo castigado,
Depois que em Santarm soberbamente
Em vo dos Sarracenos foi cercado,
E depois que do mrtire Vicente
O santssimo corpo venerado
Do Sacro Promontrio conhecido
A cidade Ulisseia foi trazido;

75
"Porque levasse avante seu desejo,
Ao forte filho manda o lasso velho
Que s terras se passasse d'Alentejo,
Com gente e co'o belgero aparelho.
Sancho, d'esforo o d'nimo sobejo,
Avante passa, e faz correr vermelho
O rio que Sevilha vai regando,
Co'o sangue Mauro, brbaro e nefando.

76
"E com esta vitria cobioso,
J no descansa o moo at que veja
Outro estrago como este, temeroso,
No Brbaro que tem cercado Beja.
No tarda muito o Prncipe ditoso
Sem ver o fim daquilo que deseja.
Assim estragado o Mouro, na vingana
De tantas perdas pe sua esperana.

77
"J se ajuntam do monte a quem Medusa
O corpo fez perder, que teve o Cu;
J vem do promontrio de Ampelusa
E do Tinge, que assento foi de Anteu.
O morador de Abila no se escusa,
Que tambm com suas armas se moveu,
Ao som da Mauritana e ronca tuba,
Todo o Reino que foi do nobre Juba.

78
"Entrava com toda esta companhia
O Miralmomini em Portugal;
Treze Reis mouros leva de valia,
Entre os quais tem o ceptro imperial;
E assim fazendo quanto mal podia,
O que em partes podia fazer mal,
Dom Sancho vai cercar em Santarm;
Porm no lhe sucede muito bem.

79
"D-lhe combates speros, fazendo
Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
No lhe aproveita j trabuco horrendo,
Mina secreta, arete foroso:
Porque o filho de Afonso no perdendo
Nada do esforo e acordo generoso,
Tudo prov com nimo e prudncia;
Que em toda a parte h esforo e resistncia.

80
"Mas o velho, a quem tinham j obrigado
Os trabalhosos anos ao sossego,
Estando na cidade, cujo prado
Enverdecem as guas do Mondego,
Sabendo como o filho est cercado
Em Santarm do Mauro povo cego,
Se parte diligente da cidade;
Que no perde a presteza coa idade.

81
"E coa famosa gente  guerra usada
Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
A Portuguesa fria costumada
Em breve os Mouros tem desbaratados.
A campina, que toda est coalhada
De marlotas, capuzes variados,
De cavalos, jaezes, presa rica,
De seus senhores mortos cheia fica.

82
"Logo todo o restante se partiu
De Lusitnia, postos em fugida;
O Miralmomini s no fugiu,
Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
A quem lhe esta vitria permitiu
Do louvores e graas sem medida:
Que em casos to estranhos claramente
Mais peleja o favor de Deus que a gente.

83
"De tamanhas vitrias triunfava
O velho Afonso, Prncipe subido,
Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
Da larga e muita idade foi vencido.
A plida doena lhe tocava
Com fria mo o corpo enfraquecido;
E pagaram seus anos deste jeito
A triste Libitina seu direito.

84
"Os altos promontrios o choraram,
E dos rios as guas saudosas
Os semeados campos alagaram
Com lgrimas correndo piedosas.
Mas tanto pelo mundo se alargaram
Com faina suas obras valerosas,
Que sempre no seu Reino chamaro
"Afonso, Afonso" os ecos, mas em vo.

85
"Sancho, forte mancebo, que ficara
Imitando seu pai na valentia,
E que em sua vida j se exprimentara,
Quando o Btis de sangue se tingia,
E o brbaro poder desbaratara
Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
E mais quando os que Beja em vo cercaram,
Os golpes de seu brao em si provaram;

86
"Depois que foi por Rei alevantado,
Havendo poucos anos que reinava,
A cidade de Silves tem cercado,
Cujos campos o brbaro lavrava.
Foi das valentes gentes ajudado
Da Germnica armada que passava,
De armas fortes e gente apercebida,
A recobrar Judeia j perdida.

87
"Passavam a ajudar na santa empresa
O roxo Federico, que moveu
O poderoso exrcito em defesa
Da cidade onde Cristo padeceu,
Quando Guido, coa gente em sede acesa,
Ao grande Saladino se rendeu,
No lugar onde aos Mouros sobejavam
As guas que os de Guido desejavam.

88
"Mas a formosa armada, que viera
Por contraste de vento quela parte,
Sancho quis ajudar na guerra fera,
J que em servio vai do santo Marte.
Assim como a seu pai acontecera
Quando tomou Lisboa, da mesma arte
Do Germano ajudado Silves toma,
E o bravo morador destrue e doma.

89
"E se tantos trofus do Mahometa
Alevantando vai, tambm do forte
Lions no consente estar quieta
A terra, usada aos casos de Mavorte,
At que na cerviz seu jugo meta
Da soberba Tui, que a mesma sorte
Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

90
"Mas entre tantas palmas salteado
Da temerosa morte, fica herdeiro
Um filho seu, de todos estimado,
Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
No tempo deste, aos Mouros foi tomado
Alccere-do-Sal por derradeiro;
Porque dantes os Mouros o tomaram,
Mas agora estrudos o pagaram.

91
"Morto depois Afonso, lhe sucede
Sancho segundo, manso e descuidado,
Que tanto em seus descuidos se desmede,
Que de outrem, quem mandava, era mandado.
De governar o Reino, que outro pede,
Por causa dos privados foi privado,
Porque, como por eles se regia,
Em todos os seus vcios consentia.

92
"No era Sancho, no, to desonesto
Como Nero, que um moo recebia
Por mulher, e depois horrendo incesto
Com a me Agripina cometia;
Nem to cruel s gentes e molesto,
Que a cidade queimasse onde vivia,
Nem to mau como foi Heliogabalo,
Nem como o mole Rei Sardanapalo.

93
"Nem era o povo seu tiranizado,
Como Siclia foi de seus tiranos;
Nem tinha como Flaris achado
Gnero de tormentos inumanos;
Mas o Reino, de altivo e costumado
A senhores em tudo soberanos,
A Rei no obedece, nem consente,
Que no for mais que todos excelente.

94
"Por esta causa o Reino governou
O Conde Bolonhs, depois alado
Por Rei, quando da vida se apartou
Seu irmo Sancho, sempre ao cio dado.
Este, que Afonso o bravo, se chamou,
Depois de ter o Reino segurado,
Em dilat-lo cuida, que em terreno
No cabe o altivo peito, to pequeno.

95
"Da terra dos Algarves, que lhe fora
Em casamento dada, grande parte
Recupera co'o brao, e deita fora
O Mouro, mal querido j de Marte.
Este de todo fez livre e senhora
Lusitnia, com fora e blica arte;
E acabou de oprimir a nao forte,
Na terra que aos de Luso coube em sorte.

96
"Eis depois vem Dinis, que bem parece
Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
Com quem a fama grande se escurece
Da liberalidade Alexandrina.
Com este o Reino prspero florece
(Alcanada j a paz urea divina)
Em constituies, leis e costumes,
Na terra j tranquila claros lumes.

97
"Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofcio de Minerva;
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar do Monde-o a frtil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se,
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
Aqui as capelas d tecidas de ouro,
Do bcaro e do sempre verde louro.

98
"Nobres vilas de novo edificou
Fortalezas, castelos mui seguros,
E quase o Reino todo reformou
Com edifcios grandes, e altos muros.
Mas depois que a dura tropos cortou
O fio de seus dias j maduros,
Ficou-lhe o filho pouco obediente,
Quarto Afonso, mas forte e excelente.

99
"Este sempre as soberbas Castelhanas
Co'o peito desprezou firme e sereno,
Porque no  das foras Lusitanas,
Temer poder maior, por mais pequeno.
Mas porm, quando as gentes Mauritanas,
A possuir o Hesprico terreno
Entraram pelas terras de Castela,
Foi o soberbo Afonso a socorr-la.

100
"Nunca com Semirmis gente tanta
Veio os campos idspicos enchendo,
Nem Atila, que Itlia toda espanta,
Chamando-se de Deus aoute horrendo,
Gtica gente trouxe tanta, quanta
Do Sarraceno brbaro estupendo,
Co'o poder excessivo de Granada,
Foi nos campos Tartsios ajuntada.

101
"E vendo o Rei sublime Castelhano
A fora inexpugnbil, grande e forte,
Temendo mais o fim do povo hispano,
J perdido uma vez, que a prpria morte,
Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
Lhe mandava a carssima consorte,
Mulher de quem a manda, e filha amada
Daquele a cujo Reino foi mandada.

102
"Entrava a formosssima Maria
Pelos paternais paos sublimados,
Lindo o gesto, mas fora de alegria,
E seus olhos em lgrimas banhados;
Os cabelos anglicos trazia
Pelos ebrneos ombros espalhados:
Diante do pai ledo, que a agasalha,
Estas palavras tais, chorando, espalha:

103
--"Quantos povos a terra produziu
De frica toda, gente fera e estranha,
O gro Rei de Marrocos conduziu
Para vir possuir a nobre Espanha:
Poder tamanho junto no se viu,
Depois que o salso mar a terra banha.
Trazem ferocidade, e furor tanto,
Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

104
--"Aquele que me deste por marido,
Por defender sua terra amedrontada,
Co'o pequeno poder, oferecido
Ao duro golpe est da Maura espada;
E se no for contigo socorrido,
Ver-me-s dele e do Reino ser privada,
Viva e triste, e posta em vida escura,
Sem marido, sem Reino, e sem ventura.

105
"Portanto,  Rei, de quem com puro medo
O corrente Muluca se congela,
Rompe toda a tardana, acude cedo
A miseranda gente de Castela.
Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
De pai o verdadeiro amor assela,
Acude e corre, pai, que se no corres,
Pode ser que no aches quem socorres."--

106
"No de outra sorte a tmida Maria
Falando est, que a triste Vnus, quando
A Jpiter, seu pai, favor pedia
Para Eneias, seu filho, navegando;
Que a tanta piedade o comovia
Que, cado das mos o raio infando,
Tudo o clemente Padre lhe concede,
Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

107
"Mas j co'os esquadres da gente armada
Os Eborenses campos vo coalhados:
Lustra co'o Sol o arns, a lana, a espada;
Vo rinchando os cavalos jaezados.
A canora trombeta embandeirada,
Os coraes  paz acostumados
Vai s fulgentes armas incitando,
Pelas concavidades retumbando.

108
"Entre todos no meio se sublima,
Das insgnias Reais acompanhado,
O valeroso Afonso, que por cima
De todos leva o colo alevantado;
E somente co'o gesto esfora e anima
A qualquer corao amedrontado.
Assim entra nas terras de Castela
Com a filha gentil, Rainha dela.

109
"Juntos os dous Afonsos finalmente
Nos campos de Tarifa esto defronte
Da grande multido da cega gente,
Para quem so pequenos campo e monte.
No h peito to alto e to potente,
Que de desconfiana no se afronte,
Enquanto no conhea e claro veja
Que co'o brao dos seus Cristo peleja.

110
"Esto de Agar os netos quase rindo
Do poder dos Cristos fraco e pequeno,
As terras como suas repartindo
Antemo, entre o exrcito Agareno,
Que com ttulo falso possuindo
Est o famoso nome Sarraceno.
Assim tambm com falsa conta e nua,
 nobre terra alheia chamam sua.

111
"Qual o membrudo e brbaro Gigante,
Do rei Saul, com causa, to temido,
Vendo o pastor inerme estar diante,
S de pedras e esforo apercebido,
Com palavras soberbas o arrogante
Despreza o fraco moo mal vestido,
Que, rodeando a funda, o desengana
Quanto mais pode a F que a fora humana:

112
"Desta arte o Mouro prfido despreza
O poder dos Cristos, e no entende
Que est ajudado da Alta Fortaleza,
A quem o inferno horrfico se rende.
Co ela o Castelhano, e com destreza
De Marrocos o Rei comete e ofende.
O Portugus, que tudo estima em nada,
Se faz temer ao Reino de Granada.

113
"Eis as lanas e espadas retiniam
Por cima dos arneses: bravo estrago!
Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
Uns Mafamede, e os outros Santiago.
Os feridos com grita o Cu feriam,
Fazendo de seu sangue bruto lago,
Onde outros meios mortos se afogavam,
Quando do ferro as vidas escapavam.

114
"Com esforo tamanho estrui e mata
O Luso ao Granadil, que, em pouco espao,
Totalmente o poder lhe desbarata,
Sem lhe valer defesa ou peito de ao.
De alcanar tal vitria to barata
Inda no bem contente o forte brao,
Vai ajudar ao bravo Castelhano,
Que pelejando est co'o Mauritano.

115
"J se ia o Sol ardente recolhendo
Para a casa de Tethys, e inclinado
Para o Ponente, o Vspero trazendo,
Estava o claro dia memorado,
Quando o poder do Mauro grande e horrendo
Foi pelos fortes Reis desbaratado,
Com tanta mortandade, que a memria
Nunca no mundo viu to gr vitria.

116
"No matou a quarta parte o forte Mrio
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as guas co'o sangue do adversrio
Fez beber ao exrcito sedento;
Nem o Peno asperssimo contrrio
Do Romano poder, de nascimento,
Quando tantos matou da ilustro Roma,
Que alqueires trs de anis dos mortos toma.

117
"E se tu tantas almas s pudeste
Mandar ao Reino escuro de Cocito,
Quando a santa Cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito:
Permisso e vingana foi celeste,
E no fora de brao,  nobre Tito,
Que assim dos Vates foi profetizado,
E depois por Jesu certificado.

118
"Passada esta to prspera vitria,
Tornando Afonso  Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glria
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e dino da memria,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da msera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.

119
"Tu s, tu, puro Amor, com fora crua,
Que os coraes humanos tanto obriga,
Deste causa  molesta morte sua,
Como se fora prfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lgrimas tristes se mitiga,
 porque queres, spero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

120
"Estavas, linda Ins, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna no deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e s ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

121
"Do teu Prncipe ali te respondiam
As lembranas que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam:
De noite em doces sonhos, que mentiam,
De dia em pensamentos, que voavam.
E quanto enfim cuidava, e quanto via,
Eram tudo memrias de alegria.

122
"De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tlamos enjeita,
Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo, e a fantasia
Do filho, que casar-se no queria,

123
"Tirar Ins ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co'o sangue s da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?

124
"Traziam-na os horrficos algozes
Ante o Rei, j movido a piedade:
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razes,  morte crua o persuade.
Ela com tristes o piedosas vozes,
Sadas s da mgoa, e saudade
Do seu Prncipe, e filhos que deixava,
Que mais que a prpria morte a magoava,

125
"Para o Cu cristalino alevantando
Com lgrimas os olhos piedosos,
Os olhos, porque as mos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos;
E depois nos meninos atentando,
Que to queridos tinha, e to mimosos,
Cuja orfandade como me temia,
Para o av cruel assim dizia:

126
--"Se j nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas areas tm o intento,
Com pequenas crianas viu a gente
Terem to piedoso sentimento,
Como coa me de Nino j mostraram,
E colos irmos que Roma edificaram;

127
--" tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano  matar uma donzela
Fraca e sem fora, s por ter sujeito
O corao a quem soube venc-la)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o no tens  morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te no move a culpa que no tinha.

128
--"E se, vencendo a Maura resistncia,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe tambm dar vicia com clemncia
A quem para perd-la no fez erro.
Mas se to assim merece esta inocncia,
Pe-me em perptuo e msero desterro,
Na Ctia f ria, ou l na Lbia ardente,
Onde em lgrimas viva eternamente.

129
"Pe-me onde se use toda a feridade,
Entre lees e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos no achei:
Ali com o amor intrnseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relquias suas que aqui viste,
Que refrigrio sejam da me triste."--

130
--Morte de Ins de Castro
"Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo, e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe no perdoam.
Arrancam das espadas de ao fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama,  peitos carniceiros,
Feros vos amostrais, e cavaleiros?

131
"Qual contra a linda moa Policena,
Consolao extrema da me velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela os olhos com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na msera me postos, que endoudece,
Ao duro sacrifcio se oferece:

132
"Tais contra Ins os brutos matadores
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha;
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniavam, frvidos e irosos,
No futuro castigo no cuidosos.

133
"Bem puderas,  Sol, da vista destes
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mo de Atreu comia.
Vs,  cncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espao repetisses!

134
"Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cndida e bela,
Sendo das mos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal est morta a plida donzela,
Secas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva cor, coa doce vida.

135
"As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memria eterna, em fonte pura
As lgrimas choradas transformaram;
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Ins que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lgrimas so a gua, e o nome amores.

136
"No correu muito tempo que a vingana
No visse Pedro das mortais feridas,
Que, em tomando do Reino a governana,
A tomou dos fugidos homicidas.
Do outro Pedro crussimo os alcana,
Que ambos, imigos das humanas vidas,
O concerto fizeram, duro e injusto,
Que com Lpido e Antnio fez Augusto.

137
"Este, castigador foi rigoroso
De latrocnios, mortes e adultrios:
Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
Eram os seus mais certos refrigrios.
As cidades guardando justioso
De todos os soberbos vituprios,
Mais ladres castigando  morte deu,
Que o vagabundo Aleides ou Teseu.

138
"Do justo e duro Pedro nasce o brando,
(Vede da natureza o desconcerto!)
Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,
Que todo o Reino ps em muito aperto:
Que, vindo o Castelhano devastando
As terras sem defesa, esteve perto
De destruir-se o Reino totalmente;
Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.

139
"Ou foi castigo claro do pecado
De tirar Lianor a seu marido,
E casar-se com ela, de enlevado
Num falso parecer mal entendido;
Ou foi que o corao sujeito e dado
Ao vcio vil, de quem se viu rendido,
Mole se fez e fraco; e bem parece,
Que um baixo amor os fortes enfraquece.

140
"Do pecado tiveram sempre a pena
Muitos, que Deus o quis, e permitiu:
Os que foram roubar a bela Helena,
E com Apio tambm Tarquilio o viu.
Pois por quem David Santo se condena?
Ou quem o Tribo ilustre destruiu
De Benjamim? Bem claro no-lo ensina
Por Sara Fara, Siqum por Dina.

141
"E pois se os peitos fortes enfraquece
Um inconcesso amor desatinado,
Bem no filho de Alcmena se parece,
Quando em nfale andava transformado.
De Marco Antnio a faina se escurece
Com ser tanto a Cleopatra afeioado.
Tu tambm, Peno prspero, o sentiste
Depois que uma moa vil na Aplia viste.

142
"Mas quem pode livrar-se por ventura
Dos laos que Amor arma brandamente
Entre as rosas e a neve humana pura,
O ouro e o alabastro transparente?
Quem de uma peregrina formosura,
De um vulto de Medusa propriamente,
Que o corao converte, que tem preso,
Em pedra no, mas em desejo aceso?

143
"Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,
Uma suave e anglica excelncia,
Que em si est sempre as almas transformando,
Que tivesse contra ela resistncia?
Desculpado por certo est Fernando,
Para quem tem de amor experincia;
Mas antes, tendo livre a fantasia,
Por muito mais culpado o julgaria.

Canto Quarto

1
"Depois de procelosa tempestade,
Noturna sombra e sibilante vento,
Traz a manh serena claridade,
Esperana de porto e salvamento;
Aparta o sol a negra escuridade,
Removendo o temor do pensamento:
Assim no Reino forte aconteceu,
Depois que o Rei Fernando faleceu.

2
"Porque, se muito os nossos desejaram
Quem os danos e ofensas v vingando
Naqueles que to bem se aproveitaram
Do descuido remisso de Fernando,
Depois de pouco tempo o alcanaram,
Joane, sempre ilustre, alevantando
Por Rei, como de Pedro nico herdeiro,
(Ainda que bastardo) verdadeiro.

3
"Ser isto ordenao dos cus divina,
Por sinais muito claros se mostrou,
Quando em vora a voz de uma menina,
Ante tempo falando o nomeou;
E como cousa enfim que o Cu destina,
No bero o corpo e a voz alevantou:
--"Portugal! Portugal!" alando a mo
Disse "pelo Rei novo, Dom Joo."--

4
"Alteradas ento do Reino as gentes
Co'o dio, que ocupado os peitos tinha,
Absolutas cruezas e evidentes
Faz do povo o furor por onde vinha;
Matando vo amigos e parentes
Do adltero Conde e da Rainha,
Com quem sua incontinncia desonesta
Mais (depois de viva) manifesta.

5
"Mas ele enfim, com causa desonrado,
Diante dela a ferro frio morre,
De outros muitos na morte acompanhado,
Que tudo o fogo erguido queima e corre:
Quem, como Astians, precipitado,
(Sem lhe valerem ordens) de alta torre,
A quem ordens, nem aras, nem respeito;
Quem nu por ruas, e em pedaos feito.

6
"Podem-se pr em longo esquecimento
As cruezas mortais que Roma viu
Feitas do feroz Mrio e do cruento
Sila, quando o contrrio lhe fugiu.
Por isso Lianor, que o sentimento
Do morto Conde ao mundo descobriu,
Faz contra Lusitnia vir Castela,
Dizendo ser sua filha herdeira dela.

7
"Beatriz era a filha, que casada
Co'o Castelhano est, que o Reino pede,
Por filha de Fernando reputada,
Se a corrompida fama lhe concede.
Com esta voz Castela alevantada,
Dizendo que esta filha ao pai sucede,
Suas foras ajunta para as guerras
De vrias regies e vrias terras.

8
Vem de toda a provncia que de um Brigo
(Se foi) j teve o nome derivado;
Das terras que Fernando e que Rodrigo
Ganharam do tirano e Mauro estado.
No estimam das armas o perigo
Os que cortando vo co'o duro arado
Os campos Lioneses, cuja gente
C'os Mouros foi nas armas excelente.

9
"Os Vndalos, na antiga valentia
Ainda confiados, se ajuntavam
Da cabea de toda Andaluzia,
Que do Guadalquibir as guas lavam.
A nobre Ilha tambm se apercebia,
Que antigamente os Trios habitavam,
Trazendo por insgnias verdadeiras
As Hercleas colunas nas bandeiras.

10
"Tambm vem l do Reino de Toledo,
Cidade nobre e antiga, a quem cercando
O Tejo em torno vai suave e ledo
Que das serras de Conca vem manando.
A vs outros tambm no tolhe o medo,
 srdidos Galegos, duro bando,
Que para resistirdes vos armastes,
Aqueles, cujos golpes j provasses.

11
"Tambm movem da guerra as negras frias
A gente Biscainha, que carece
De polidas razes, e que as injrias
Muito mal dos estranhos compadece.
A terra de Guipscua e das Astrias,
Que com minas de ferro se enobrece,
Armou dele os soberbos moradores,
Para ajudar na guerra a seus senhores.

12
"Joane, a quem do peito o esforo cresce,
Como a Sanso Hebrio da guedelha,
Posto que tudo pouco lhe parece,
Co'os poucos de seu Reino se aparelha;
E no porque conselho lhe falece,
Co'os principais senhores se aconselha,
Mas s por ver das gentes as sentenas:
Que sempre houve entre muitos diferenas.

13
"No falta com razes quem desconcerte
Da opinio de todos, na vontade,
Em quem o esforo antigo se converte
Em desusada e m deslealdade;
Podendo o temor mais, gelado, inerte,
Que a prpria e natural fidelidade:
Negam o Rei e a ptria, e, se convm,
Negaro (como Pedro) o Deus que tm.

14
"Mas nunca foi que este erro se sentisse
No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,
Posto que em seus irmos to claro o visse,
Reprovando as vontades inconstantes,
Aquelas duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras que elegantes,
A mo na espada, irado, e no facundo,
Ameaando a terra, o mar e o mundo:

15
--"Como! Da gente ilustre Portuguesa
H-de haver quem refuse o ptrio Marte?,
Como! Desta provncia, que princesa
Foi das gentes na guerra em toda a parte,
H-de sair quem negue ter defesa?
Quem negue a F, o amor, o esforo e arte
De Portugus, e por nenhum respeito
O prprio Reino queira ver sujeito?

16
--"Como! No seis vs inda os descendentes
Daqueles, que debaixo da bandeira
Do grande Henriques, feros e valentes,
Vencestes esta gente to guerreira?
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Puseram em fugida, de maneira
Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
Presos, afora a presa que tiveram?

17
--"Com quem foram contino sopeados
Estes, de quem o estais agora vs,
Por Dinis e seu filho, sublimados,
Seno co'os vossos fortes pais, e avs?
Pois se com seus descuidos, ou pecados,
Fernando em tal fraqueza assim vos ps,
Torne-vos vossas foras o Rei novo:
Se  certo que co'o Rei se muda o povo.

18
--"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes
Igual ao Rei que agora alevantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto mais a quem j desbaratasses.
E se com isto enfim vos no moverdes
Do penetrante medo que tomastes,
Atai as mos a vosso vo receio,
Que eu s resistirei ao jugo alheio.

19
--"Eu s com meus vassalos, e com esta
(E dizendo isto arranca meia espada)
Defenderei da fora dura e infesta
A terra nunca de outrem sojugada.
Em virtude do Rei, da ptria mesta,
Da lealdade j por vs negada,
Vencerei (no s estes adversrios)
Mas quantos a meu Rei forem contrrios."--

20
Bem como entre os mancebos recolhidos
Em Cansio, relquias ss de Canas,
J para se entregar quase movidos
A fortuna das foras Africanas,
Cornlio moo os faz que, compelidos
Da sua espada, jurem que as Romanas
Armas no deixaro, enquanto a vida
Os no deixar, ou nelas for perdida:

21
"Destarte a gente fora e esfora Nuno,
Que, com lhe ouvir as ltimas razes,
Removem o temor frio, importuno,
Que gelados lhe tinha os coraes.
Nos animais cavalgam de Neptuno,
Brandindo e volteando arremesses;
Vo correndo e gritando a boca aberta:
--"Viva o famoso Rei que nos liberta!"--

22
"Das gentes populares, uns aprovam
A guerra com que a ptria se sustinha;
Uns as armas alimpam e renovam,
Que a ferrugem da paz gastadas tinha;
Capacetes estofam, peitos provam,
Arma-se cada um como convinha;
Outros fazem vestidos de mil cores,
Com letras e tenes de seus amores.

23
"Com toda esta lustrosa companhia
Joane forte sai da fresca Abrantes,
Abrantes, que tambm da fonte fria
Do Tejo logra as guas abundantes.
Os primeiros armgeros regia
Quem para reger era os mui possantes
Orientais exrcitos, sem conto,
Com que passava Xerxes o Helesponto.

24
"Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro
Aoute de soberbos Castelhanos
Como j o fero Huno o foi primeiro
Para Franceses, para Italianos.
Outro tambm famoso cavaleiro,
Que a ala direita tem dos Lusitanos,
Apto para mand-los, e reg-los,
Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.

25
"E da outra ala, que a esta corresponde,
Anto Vasques de Almada  capito,
Que depois foi de Abranches nobre Conde,
Das gentes vai regendo a sestra mo.
Logo na retaguarda no se esconde
Das quinas e castelos o pendo,
Com Joane, Rei forte em toda parte,
Que escurecendo o preo vai de Alarte.

26
"Estavam pelos muros, temerosas,
E de um alegre medo quase frias,
Rezando as mes, irms, damas e esposas,
Prometendo jejuns e romarias.
J chegam as esquadras belicosas
Defronte das amigas companhias,
Que com grita grandssima os recebem,
E todas grande dvida concebem.

27
"Respondem as trombetas mensageiras,
Pfaros sibilantes e atambores;
Alfrezes volteam as bandeiras,
Que variadas so de muitas cores.
Era no seco tempo, que nas eiras
Ceres o fruto deixa aos lavradores,
Entra em Astreia o Sol, no ms de Agosto,
Baco das uvas tira o doce mosto.

28
"Deu sinal a trombeta Castelhana,
Horrendo, fero, ingente e temeroso;
Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
Atrs tornou as ondas de medroso;
Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;
Correu ao mar o Tejo duvidoso;
E as mes, que o som terrbil escutaram,
Aos peitos os filhinhos apertaram.

29
"Quantos rostos ali se vem sem cor,
Que ao corao acode o sangue amigo!
Que, nos perigos grandes, o temor
 maior muitas vezes que o perigo;
E se o no , parece-o; que o furor
De ofender ou vencer o duro amigo
Faz no sentir que  perda grande e rara,
Dos membros corporais, da vida cara.

30
"Comea-se a travar a incerta guerra;
De ambas partes se move a primeira ala;
Uns leva a defenso da prpria terra,
Outros as esperanas de ganh-la;
Logo o grande Pereira, em quem se encerra
Todo o valor, primeiro se assinala:
Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia
Dos que a tanto desejam, sendo alheia.

31
"J pelo espesso ar os estridentes
Farpes, setas e vrios tiros voam;
Debaixo dos ps duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam;
Espedaam-se as lanas; e as frequentes
Quedas coas duras armas, tudo atroam;
Recrescem os amigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.

32
"Eis ali seus irmos contra ele vo,
(Caso feio e cruel!) mas no se espanta,
Que menos  querer matar o irmo,
Quem contra o Rei e a Ptria se alevanta:
Destes arrenegados muitos so
No primeiro esquadro, que se adianta
Contra irmos e parentes (caso estranho!)
Quais nas guerras civis de Jlio e Magno.

33
" tu, Sertrio,  nobre Coriolano,
Catilina, e vs outros dos antigos,
Que contra vossas ptrias, com profano
Corao, vos fizestes inimigos,
Se l no reino escuro de Sumano
Receberdes gravssimos castigos,
Dizei-lhe que tambm dos Portugueses
Alguns tredores houve algumas vezes.

34
"Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,
Tantos dos inimigos a eles vo!
Est ali Nuno, qual pelos outeiros
De Ceita est o fortssimo leo,
Que cercado se v dos cavaleiros
Que os campos vo correr de Tetuo:
Perseguem-no com as lanas, e ele iroso,
Torvado um pouco est, mas no medroso.

35
"Com torva vista os v, mas a natura
Ferina e a ira no lhe compadecem
Que as costas d, mas antes na espessura
Das lanas se arremessa, que recrescem.
Tal est o cavaleiro, que a verdura
Tinge co'o sangue alheio; ali perecem
Alguns dos seus, que o nimo valente
Perde a virtude contra tanta gente.

36
"Sentiu Joane a afronta que passava
Nuno, que, como sbio capito,
Tudo corria e via, e a todos dava,
Com presena e palavras, corao.
Qual parida leoa, fera e brava,
Que os filhos que no ninho ss esto,
Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
O pastor de Masslia lhos furtara;

37
"Corre raivosa, e freme, e com bramidos
Os montes Sete Irmos atroa e abala:
Tal Joane, com outros escolhidos
Dos seus, correndo acode  primeira ala:
-" fortes companheiros,  subidos
Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,
Defendei vossas terras, que a esperana
Da liberdade est na vossa lana.

38
-"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,
Que entre as lanas, e setas, e os arneses
Dos inimigos corro e vou primeiro:
Pelejai, verdadeiros Portugueses!"--
Isto disse o magnnimo guerreiro,
E, sopesando a lana quatro vezes,
Com fora tira; e, deste nico tiro,
Muitos lanaram o ltimo suspiro.

39
"Porque eis os seus acesos novamente
Duma nobre vergonha e honroso fogo,
Sobre qual mais com nimo valente
Perigos vencer do Mrcio jogo,
Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;
Rompem malhas primeiro, e peitos logo:
Assim recebem junto e do feridas,
Como a quem j no di perder as vidas.

40
"A muitos mandam ver o Estgio lago,
Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:
O Mestre morre ali de Santiago,
Que fortssimamente pelejava;
Morre tambm, fazendo grande estrago,
Outro Mestre cruel de Calatrava;
Os Pereiras tambm arrenegados
Morrem, arrenegando o Cu e os fados.

41
"Muitos tambm do vulgo vil sem nome
Vo, e tambm dos nobres, ao profundo,
Onde o trifauce Co perptua fome
Tem das almas que passam deste mundo.
E porque mais aqui se amanse e dome
A soberba do amigo furibundo,
A sublime bandeira Castelhana
Foi derribada aos ps da Lusitana.

42
"Aqui a fera batalha se encruece
Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
A multido da gente que perece
Tem as flores da prpria cor mudadas;
J as costas do e as vidas; j falece
O furor e sobejam as lanadas;
J de Castela o Rei desbaratado
Se v, e de seu propsito mudado.

43
"O campo vai deixando ao vencedor,
Contente de lhe no deixar a vida.
Seguem-no os que ficaram, e o temor
Lhe d, no ps, mas asas  fugida.
Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda despendida,
Da mgoa, da desonra, e triste nojo
De ver outrem triunfar de seu despojo.

44
"Alguns vo maldizendo e blasfemando
Do primeiro que guerra fez no mundo;
Outros a sede dura vo culpando
Do peito cobioso e sitibundo,
Que, por tomar o alheio, o miserando
Povo aventura s penas do profundo,
Deixando tantas mes, tantas esposas
Sem filhos, sem maridos, desditosas.

45
"O vencedor Joane esteve os dias
Costumados no campo, em grande glria;
Com ofertas depois, e romarias,
As graas deu a quem lhe deu vitria.
Mas Nuno, que no quer por outras vias
Entre as gentes deixar de si memria
Seno por armas sempre soberanas,
Para as terras se passa Transtaganas.

46
"Ajuda-o seu destino de maneira
Que fez igual o efeito ao pensamento,
Porque a terra dos Vndalos fronteira
Lhe concede o despojo e o vencimento.
J de Sevilha a Btica bandeira
E de vrios senhores num momento
Se lhe derriba aos ps, sem ter defesa
Obrigados da fora Portuguesa.

47
"Destas e outras vitrias longamente
Eram os Castelhanos oprimidos,
Quando a paz, desejada j da gente,
Deram os vencedores aos vencidos,
Depois que quis o Padre onipotente
Dar os Reis inimigos por maridos
As duas ilustrssimas Inglesas,
Gentis, formosas, nclitas princesas.

48
"No sofre o peito forte, usado  guerra,
No ter amigo j a quem faa dano;
E assim no tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano.
Este  o primeiro Rei que se desterra
Da Ptria, por fazer que o Africano
Conhea, pelas armas, quanto excede
A lei de Cristo  lei de Mafamede.

49
"Eis mil nadantes aves pelo argento
Da furiosa Tethys inquieta
Abrindo as pandas asas vo ao vento,
Para onde Alcides ps a extrema meta.
O monte Abila e o nobre fundamento
De Ceita toma, e o torpe Mahometa
Deita fora, e segura toda Espanha
Da Juliana, m, e desleal manha.

50
"No consentiu a morte tantos anos
Que de Heri to ditoso se lograsse
Portugal, mas os coros soberanos
Do Cu supremo quis que povoasse.
Mas para defenso dos Lusitanos
Deixou, quem o levou quem governasse,
E aumentasse a terra mais que dantes,
Inclita gerao, altos Infantes.

51
"No foi do Rei Duarte to ditoso
O tempo que ficou na suma alteza,
Que assim vai alternando o tempo iroso
O bem co'o mal, o gosto coa tristeza.
Quem viu sempre um estado deleitoso?
Ou quem viu em fortuna haver firmeza?
Pois inda neste Reino e neste Rei
No ousou ela tanto desta lei.

52
"Viu ser cativo o santo irmo Fernando,
Que a to altas empresas aspirava,
Que, por salvar o povo miserando
Cercado, ao Sarraceno se entregava.
S por amor da ptria est passando
A vida de senhora feita escrava,
Por no se dar por ele a forte Ceita:
Mais o pblico bem que o seu respeita.

53
"Codro, porque o inimigo no vencesse,
Deixou antes vencer da morte a vida;
Rgulo, porque a ptria no perdesse,
Quis mais a liberdade ver perdida.
Este, porque se Espanha no temesse,
Ao cativeiro eterno se convida:
Codro, nem Crcio, ouvido por espanto,
Nem os Dcios leais fizeram tanto.

54
"Mas Afonso, do Reino nico herdeiro,
Nome em armas ditoso em nossa Hespria,
Que a soberba do brbaro fronteira
Tornou em baixa e humlima misria,
Fora por certo invicto cavaleiro,
Se no quisera ir ver a terra Ibria.
Mas frica dir ser impossbil
Poder ningum vencer o Rei terrbil.

55
"Este pde colher as mas de ouro,
Que somente o Tirntio colher pde:
Do jugo que lhe ps, o bravo Mouro
A cerviz inda agora no sacode.
Na fronte a palma leva e o verde louro
Das vitrias do Brbaro, que acode
A defender Alccer, forte vila,
Tngere populoso e a dura Arzila.

56
"Porm elas enfim por fora entradas,
Os muros abaixaram de diamante
As Portuguesas foras, costumadas
A derribarem quanto acham diante.
Maravilhas em armas estremadas,
E de escritura dinas elegante,
Fizeram cavaleiros nesta empresa,
Mais afinando a fama Portuguesa.

57
"Porm depois, tocado de ambio
E glria de mandar, amara e bela,
Vai cometer Fernando de Arago,
Sobre o potente Reino de Castela.
Ajunta-se a inimiga multido
Das soberbas e vrias gentes dela,
Desde Cdis ao alto Pireneu,
Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.

58
"No quis ficar nos Reinos ocioso
O mancebo Joane, e logo ordena
De ir ajudar o pai ambicioso,
Que ento lhe foi ajuda no pequena.
Saiu-se enfim do trance perigoso
Com fronte no torvada, mas serena,
Desbaratado o pai sanguinolento
Mas ficou duvidoso o vencimento.

59
"Porque o filho sublime e soberano,
Gentil, forte, animoso cavaleiro,
Nos contrrios fazendo imenso dano,
Todo um dia ficou no campo inteiro.
Desta arte foi vencido Octaviano,
E Antnio vencedor, sem companheiro,
Quando daqueles que Csar mataram
Nos Filpicos campos se vingaram.

60
"Porm depois que a escura noite eterna
Afonso aposentou no Cu sereno,
O Prncipe, que o Reino ento governa,
Foi Joane segundo e Rei trezeno.
Este, por haver fama sempiterna,
Mais do que tentar pode homem terreno
Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
Os trminos, que eu vou buscando agora.

61
"Manda seus mensageiros, que passaram
Espanha, Frana, Itlia celebrada,
E l no ilustre porto se embarcaram
Onde j foi Partnope enterra:
Npoles, onde os Xados se mostraram,
Fazendo-a a vrias gentes subjugada,
Pola ilustrar no fim de tantos anos
Co'o senhorio de nclitos Hispanos.

62
"Pelo mar alto Sculo navegam;
Vo-se s praias de Rodes arenosas;
E dali s ribeiras altas chegam,
Que com morte de Magno so famosas;
Vo a Mnfis e s terras, que se regam
Das enchentes Nilticas undosas;
Sobem  Etipia, sobre Egito,
Que de Cristo l guarda o santo rito.

63
"Passam tambm as ondas Eritreias,
Que o povo de Israel sem nau passou;
Ficam-lhe atrs as serras Nabateias,
Que o filho de Ismael co'o nome ornou.
As costas odorferas Sabeias,
Que a me do belo Adnis tanto honrou,
Cercam, com toda a Arbia descoberta
Feliz, deixando a Ptrea e a Deserta.

64
"Entram no estreito Prsico, onde dura
Da confusa Babel inda a memria;
Ali co'o Tigre o Eufrates se mistura,
Que as fontes onde nascem tem por glria.
Dali vo em demanda da gua pura,
Que causa inda ser de larga histria,
Do Indo, pelas ondas do Oceano,
Onde no se atreveu passar Trajano.

65
"Viram gentes incgnitas e estranhas
Da ndia, da Carmnia e Gedrosia,
Vendo vrios costumes, vrias manhas,
Que cada regio produze e cria.
Mas de vias to speras, tamanhas,
Tornar-se facilmente no podia:
L morreram enfim, e l ficaram,
Que  desejada ptria no tornaram.

66
"Parece que guardava o claro Cu
A Manuel, e seus merecimentos,
Esta empresa to rdua, que o moveu
A subidos e ilustres movimentos:
Manuel, que a Joane sucedeu
No Reino e nos altivos pensamentos,
Logo, corno tornou do Reino o cargo,
Tomou mais a conquista do mar largo.

67
"O qual, como do nobre pensamento
Daquela obrigao, que lhe ficara
De seus antepassados, (cujo intento
Foi sempre acrescentar a terra cara)
No deixasse de ser um s momento
Conquistado: no tempo que a luz clara
Foge, e as estrelas ntidas, que saem,
A repouso convidam quando caem,

68
"Estando j deitado no ureo leito,
Onde imaginaes mais certas so?
Revolvendo contino no conceito
Seu ofcio e sangue a obrigao,
Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
Sem lhe desocupar o corao;
Porque, tanto que lasso se adormece,
Morfeu em vrias formas lhe aparece.

69
"Aqui se lhe apresenta que subia
To alto, que tocava a prima Esfera,
Donde diante vrios mundos via,
Naes de muita gente estranha e fera;
E l bem junto donde nasce o dia,
Depois que os olhos longos estendera,
Viu de antigos, longnquos e altos montes
Nascerem duas claras e altas fontes.

70
"Aves agrestes, feras e alimrias,
Pelo monte selvtico habitavam;
Mil rvores silvestres e ervas vrias
O passo e o tracto s gentes atalhavam.
Estas duras montanhas, adversrias
De mais conversao, por si mostravam
Que, desque Ado pecou aos nossos anos,
No as romperam nunca ps humanos.

71
"Das guas se lhe antolha que saam,
Para ele os largos passos inclinando,
Dois homens, que mui velhos pareciam,
De aspecto, inda que agreste, venerando:
Das pontas dos cabelos lhe caam
Gotas, que o corpo vo banhando;
A cor da pele baa e denegrida,
A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.

72
"Dambos de dois a fronte coroada
Ramos no conhecidos e ervas tinha;
Um deles a presena traz cansada,
Como quem de mais longe ali caminha.
E assim a gua, com mpeto alterada,
Parecia que doutra parte vinha,
Bem como Alfeu de Arcdia em Siracusa
Vai buscar os abraos de Aretusa.

73
"Este, que era o mais grave na pessoa,
Destarte para o Rei de longe brada:
--" tu, a cujos reinos e coroa
Grande parte do mundo est guardada,
Ns outros, cuja fama tanto voa,
Cuja cerviz bem nunca foi domada,
Te avisamos que  tempo que j mandes
A receber de ns tributos grandes.

74
--"Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
Celeste tenho o bero verdadeiro;
Estoutro  o Indo Rei que, nesta serra
Que vs, seu nascimento tem primeiro.
Custar-te-emos contudo dura guerra;
Mas insistindo tu, por derradeiro,
Com no vistas vitrias, sem receio,
A quantas gentes vs, pors o freio."--

75
"No disse mais o rio ilustre e santo,
Mas ambos desaparecem num momento.
Acorda Emanuel c'um novo espanto
E grande alterao de pensamento.
Estendeu nisto Febo o claro manto
Pelo escuro Hemisfrio sonolento;
Veio a manh no cu pintando as cores
De pudibunda rosa e roxas flores.

76
"Chama o Rei os senhores a conselho,
E prope-lhe as figuras da viso;
As palavras lhe diz do santo velho,
Que a todos foram grande admirao.
Determinam o nutico aparelho,
Para que com sublime corao
V a gente que mandar cortando os mares
A buscar novos climas, novos ares.

77
"Eu, que bem mal cuidava que em efeito
Se pusesse o que o peito me pedia,
Que sempre grandes cousas deste jeito
Pressago o corao me prometia,
No sei por que razo, por que respeito,
Ou por que bom sinal que em mi se via,
Me pe o nclito Rei nas mos a chave
Deste cometimento grande e grave.

78
"E com rogo o palavras amorosas,
Que  um mando nos Reis, que a mais obriga,
Me disse:--"As cousas rduas e lustrosas
Se alcanam com trabalho e com fadiga;
Faz as pessoas altas e famosas
A vida que se perde e que periga;
Que, quando ao medo infame no se rende,
Ento, se menos dura, mais se estende.

79
--"Eu vos tenho entre todos escolhido
Para uma empresa, qual a vs se deve,
Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
O que eu sei que por mi vos ser leve."--
No sofri mais, mas logo:--" Rei subido,
Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
 to pouco por vs, que mais me pena
Ser esta vida cousa to pequena.

80
--"Imaginai tamanhas aventuras,
Quais Euristeu a Alcides inventava,
O leo Cleoneu, Harpias duras,
O porco de Erimanto, a Hidra brava,
Descer enfim s sombras vs e escuras
Onde os campos de Dite a Estige lava;
Porque a maior perigo, a mor afronta,
Por vs,  Rei, o esprito e a carne  pronta."

81
"Com mercs sumptuosas me agradece
E com razes me louva esta vontade;
Que a virtude louvada vive e cresce,
E o louvor altos casos persuade.
A acompanhar-me logo se oferece,
Obrigado d'amor e d'amizade,
No menos cobioso de honra e fama,
O caro meu irmo Paulo da Gama.

82
"Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
De trabalhos mui grande sofredor;
Ambos so de valia e de conselho,
De experincia em armas e furor.
J de manceba gente me aparelho,
Em que cresce o desejo do valor;
Todos de grande esforo; e assim parece
Quem a tamanhas cousas se oferece.

83
"Foram de Emanuel remunerados,
Porque com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Para quantos trabalhos sucedessem.
Assim foram os Mnias ajuntados,
Para que o Vu dourado combatessem,
Na fatdica Nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxnio, aventureira.

84
"E j no porto da nclita Ulisseia
C'um alvoroo nobre, e  um desejo,
(Onde o licor mistura e branca areia
Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)
As naus prestes esto; e no refreia
Temor nenhum o juvenil despejo,
Porque a gente martima e a de Marte
Esto para seguir-me a toda parte.

85
"Pelas praias vestidos os soldados
De vrias cores vm e vrias artes,
E no menos de esforo aparelhados
Para buscar do inundo novas partes.
Nas fortes naus os ventos sossegados
Ondeam os areos estandartes;
Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.

86
"Depois de aparelhados desta sorte
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhamos a alma para a morte,
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Para o sumo Poder que a etrea corte
Sustenta s coa vista veneranda,
Imploramos favor que nos guiasse,
E que nossos comeos aspirasse.

87
"Partimo-nos assim do santo templo
Que nas praias do mar est assentado,
Que o nome tem da terra, para exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Certifico-te,  Rei, que se contemplo
Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dvida e receio,
Que apenas nos meus olhos ponho o freio.

88
"A gente da cidade aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saudosos na vista e descontentes.
E ns coa virtuosa companhia
De mil Religiosos diligentes,
Em procisso solene a Deus orando,
Para os batis viemos caminhando.

89
"Em to longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam;
As mulheres c'um choro piedoso,
Os homens com suspiros que arrancavam;
Mes, esposas, irms, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrescentavam
A desesperaro, e frio medo
De j nos no tornar a ver to cedo.

90
"Qual vai dizendo:--" filho, a quem eu tinha
S para refrigrio, e doce amparo
Desta cansada j velhice minha,
Que em choro acabar, penoso e amaro,
Por que me deixas, msera e mesquinha?
Por que de mim te vs,  filho caro,
A fazer o funreo enterramento,
Onde sejas de peixes mantimento!"--

91
"Qual em cabelo:--" doce e amado esposo,
Sem quem no quis Amor que viver possa,
Por que is aventurar ao mar iroso
Essa vida que  minha, e no  vossa?
Como por um caminho duvidoso
Vos esquece a afeio to doce nossa?
Nosso amor, nosso vo contentamento
Quereis que com as velas leve o vento?"--

92
"Nestas e outras palavras que diziam
De amor e de piedosa humanidade,
Os velhos e os meninos os seguiam,
Em quem menos esforo pe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A branca areia as lgrimas banhavam,
Que em multido com elas se igualavam.

93
"Ns outros sem a vista alevantarmos
Nem a me, nem a esposa, neste estado,
Por nos no magoarmos, ou mudarmos
Do propsito firme comeado,
Determinei de assim nos embarcarmos
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que  de amor usana boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

94
"Mas um velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em ns os olhos, meneando
Trs vezes a cabea, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que ns no mar ouvimos claramente,
C'um saber s de experincias feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

95
--" glria de mandar!  v cobia
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
 fraudulento gosto, que se atia
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justia
Fazes no peito vo que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

96
--"Dura inquietao d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultrios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de imprios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vituprios;
Chamam-te Fama e Glria soberana,
Nomes com quem se o povo nscio engana!

97
--"A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe fars to facilmente?
Que famas lhe prometers? que histrias?
Que triunfos, que palmas, que vitrias?

98
--"Mas  tu, gerao daquele insano,
Cujo pecado e desobedincia,
No somente do reino soberano
Te ps neste desterro e triste ausncia,
Mas inda doutro estado mais que humano
Da quieta e da simples inocncia,
Idade d'ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d'armas te deitou:

99
--"J que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
J que  bruta crueza e feridade
Puseste nome esforo e valentia,
J que prezas em tanta quantidades
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que j
Temeu tanto perd-la quem a d:

100
--"No tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre ters guerras sobejas?
No segue ele do Arbio a lei maldita,
Se tu pela de Cristo s pelejas?
No tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
No  ele por armas esforado,
Se queres por vitrias ser louvado?

101
--"Deixas criar s portas o inimigo,
Por ires buscar outro de to longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraquea e se v deitando a longe?
Buscas o incerto e incgnito perigo
Por que a fama te exalte e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga cpia,
Da ndia, Prsia, Arbia e de Etipia?

102
--" maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas velas ps em seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se  justa a justa lei, que sigo e tenho!
Nunca juzo algum alto e profundo,
Nem ctara sonora, ou vivo engenho,
Te d por isso fama nem memria,
Mas contigo se acabe o nome e glria.

103
--"Trouxe o filho de Jpeto do Cu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu
Em mortes, em desonras (grande engano).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto para o mundo menos dano,
Que a tua esttua ilustre no tivera
Fogo de altos desejos, que a movera!

104
--"No cometera o moo miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande Arquiteto co'o filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, gua, calma e frio,
Deixa intentado a humana gerao.
Msera sorte, estranha condio!"--

Canto Quinto

1
"Estas sentenas tais o velho honrado
Vociferando estava, quando abrimos
As asas ao sereno e sossegado
Vento, e do porto amado nos partimos.
E, como  j no mar costume usado,
A vela desfraldando, o cu ferimos,
Dizendo: "Boa viagem", logo o vento
Nos troncos fez o usado movimento.

2
"Entrava neste tempo o eterno lume
No animal Nemeio truculento,
E o mundo, que com tempo se consume,
Na sexta idade andava enfermo e lento:
Nela v, como tinha por costume,
Cursos do sol quatorze vezes cento,
Com mais noventa e sete, em que corria,
Quando no mar a armada se estendia.

3
"J a vista pouco e pouco se desterra
Daqueles ptrios montes que ficavam;
Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
Ficava-nos tambm na amada terra
O corao, que as mgoas l deixavam;
E j depois que toda se escondeu,
No vimos mais enfim que mar e cu.

4
"Assim fomos abrindo aqueles mares,
Que gerao alguma no abriu,
As novas ilhas vendo e os novos ares,
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritnia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando  mo esquerda; que  direita
No h certeza doutra, mas suspeita.

5
"Passamos a grande Ilha da Madeira,
Que do muito arvoredo assim se chama,
Das que ns povoamos, a primeira,
Mais clebre por nome que por fama:
Mas nem por ser do mundo a derradeira
Se lhe aventajam quantas Vnus ama,
Antes, sendo esta sua, se esquecera
De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.

6
"Deixamos de Masslia a estril costa,
Onde seu gado os Azenegues pastam,
Gente que as frescas guas nunca gosta
Nem as ervas do campo bem lhe abastam:
A terra a nenhum fruto enfim disposta,
Onde as aves no ventre o ferro gastam,
Padecendo de tudo extrema inpia,
Que aparta a Barbaria de Etipia.

7
"Passamos o limite aonde chega
O Sol, que para o Norte os carros guia,
Onde jazem os povos a quem nega
O filho de Climene a cor do dia.
Aqui gentes estranhas lava e rega
Do negro Sanag a corrente fria,
Onde o Cabo Arsinrio o nome perde,
Chamando-se dos nossos Cabo Verde.

8
"Passadas tendo j as Canrias ilhas,
Que tiveram por nome Fortunadas,
Entramos, navegando, pelas filhas
Do velho Hesprio, Hesprides chamadas;
Terras por onde novas maravilhas
Andaram vendo j nossas armadas.
Ali tomamos porto com bom vento,
Por tomarmos da terra mantimento.

9
"Aquela ilha apartamos, que tomou
O nome do guerreiro Santiago,
Santo que os Espanhis tanto ajudou
A fazerem nos Mouros bravo estrago.
Daqui, tanto que Breas nos ventou,
Tornamos a cortar o imenso lago
Do salgado Oceano, e assim deixamos
A terra onde o refresco doce achamos.

10
"Por aqui rodeando a larga parte
De frica, que ficava ao Oriente,
A provncia Jalofo, que reparte
Por diversas naes a negra gente;
A mui grande Mandinga, por cuja arte
Logramos o metal rico e luzente,
Que do curvo Gambeia as guas bebe,
As quais o largo Atlntico recebe.

11
"As Drcadas passamos, povoadas
Das Irms, que outro tempo ali viviam,
Que de vista total sendo privadas,
Todas trs dum s olho se serviam.
Tu s, tu, cujas tranas encrespadas
Netuno l nas guas acendiam,
Tornada j de todas a mais feia,
De bvoras encheste a ardente areia.

12
"Sempre enfim para o Austro a aguda proa
No grandssimo glfo nos metemos,
Deixando a serra asprrima Leoa,
Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.
O grande rio, onde batendo soa
O mar nas praias notas que ali temos,
Ficou, com a Ilha ilustre que tomou
O nome dum que o lado a Deus tocou.

13
"Ali o mui grande reino est de Congo,
Por ns j convertido  f de Cristo,
Por onde o Zaire passa, claro e longo,
Rio pelos antigos nunca visto.
Por este largo mar enfim me alongo
Do conhecido plo de Calisto,
Tendo o trmino ardente j passado,
Onde o meio do mundo  limitado.

14
"J descoberto tnhamos diante,
L no novo Hemisfrio, nova estrela,
No vista de outra gente, que ignorante
Alguns tempos esteve incerta dela.
Vimos a parte menos rutilante,
E, por falta de estrelas, menos bela,
Do Plo fixo, onde ainda se no sabe
Que outra terra comece, ou mar acabe.

15
"Assim passando aquelas regies
Por onde duas vezes passa Apolo,
Dois invernos fazendo e dois veres,
Enquanto corre dum ao outro Plo,
Por calmas, por tormentas e opresses,
Que sempre f az no mar o irado Eolo,
Vimos as Ursas, apesar de Juno,
Banharem-se nas guas de Netuno.

16
"Contar-te longamente as perigosas
Coisas do mar, que os homens no entendem:
Sbitas trovoadas temerosas,
Relmpados que o ar em fogo acendem,
Negros chuveiros, noites tenebrosas,
Bramidos de troves que o mundo fendem,
No menos  trabalho, que grande erro,
Ainda que tivesse a voz de ferro.

17
"Os casos vi que os rudos marinheiros,
Que tm por mestra a longa experincia,
Contam por certos sempre e verdadeiros,
Julgando as cousas s pela aparncia,
E que os que tm juzos mais inteiros,
Que s por puro engenho e por cincia,
Vem do mundo os segredos escondidos,
Julgam por falsos, ou mal entendidos.

18
"Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a martima gente tem por santo
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
No menos foi a todos excessivo
Milagre, e coisa certo de alto espanto,
Ver as nuvens do mar com largo cano
Sorver as altas guas do Oceano.

19
"Eu o vi certamente (e no presumo
Que a vista me enganava) levantar-se
No ar um vaporzinho e subtil fumo,
E, do vento trazido, rodear-se:
Daqui levado um cano ao plo sumo
Se via, to delgado, que enxergar-se
Dos olhos facilmente no podia:
Da matria das nuvens parecia.

20
"Ia-se pouco e pouco acrescentando
E mais que um largo masto se engrossava;
Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
Os golpes grandes de gua em si chupava;
Estava-se coas ondas ondeando:
Em cima dele uma nuvem se espessava,
Fazendo-se maior, mais carregada
Co'o cargo grande d'gua em si tomada.

21
"Qual roxa sanguessuga se veria
Nos beios da alimria (que imprudente,
Bebendo a recolheu na fonte fria)
Fartar co'o sangue alheio a sede ardente;
Chupando mais e mais se engrossa e cria,
Ali se enche e se alarga grandemente:
Tal a grande coluna, enchendo, aumenta
A si, e a nuvem negra que sustenta.

22
"Mas depois que de todo se fartou,
O p que tem no mar a si recolhe,
E pelo cu chovendo enfim voou,
Porque coa gua a jacente gua molhe:
As ondas torna as ondas que tomou,
Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
Vejam agora os sbios na escritura,
Que segredos so estes de Natura.

23
"Se os antigos filsofos, que andaram
Tantas terras, por ver segredos delas,
As maravilhas que eu passei, passaram,
A to diversos ventos dando as velas,
Que grandes escrituras que deixaram!
Que influio de signos e de estrelas!
Que estranhezas, que grandes qualidades!
E tudo sem mentir, puras verdades.

24
"Mas j o Planeta que no cu primeiro
Habita, cinco vezes apressada,
Agora meio rosto, agora inteiro
Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,
Quando da etrea gvea um marinheiro,
Pronto coa vista, "Terra! Terra!" brada.
Salta no bordo alvoroada a gente
Co'os olhos no horizonte do Oriente.

25
"A maneira de nuvens se comeam
A descobrir os montes que enxergamos;
As ncoras pesadas se adeream;
As velas, j chegados, amainamos.
E para que mais certas se conheam
As partes to remotas onde estamos,
Pelo novo instrumento do Astrolbio,
Inveno de subtil juzo e sbio,

26
"Desembarcamos logo na espaosa,
Parte, por onde a gente se espalhou,
De ver eousas estranhas desejosa
Da terra que outro povo no pisou;
Porm eu co'os pilotos na arenosa
Praia, por vermos em que parte estou,
Me detenho em tomar do Sol a altura
E compassar a universal pintura.

27
"Achamos ter de todo j passado
Do Semicapro peixe a grande meta,
Estando entre ele e o crculo gelado
Austral, parte do mundo mais secreta.
Eis, de meus companheiros rodeado,
Vejo um estranho vir de pele preta,
Que tomaram por fora, enquanto apanha
De mel os doces favos na montanha.

28
"Torvado vem na vista, como aquele
Que no se vira nunca em tal extremo;
Nem ele entende a ns, nem ns a ele,
Selvagem mais que o bruto Polifemo.
Comeo-lhe a mostrar da rica pelo
De Colcos o gentil metal supremo,
A prata fina, a quente especiaria:
A nada disto o bruto se movia.

29
"Mando mostrar-lhe peas mais somenos:
Contas de cristalino transparente,
Alguns soantes cascavis pequenos,
Um barrete vermelho, cor contente.
Vi logo, por sinais e por acenos,
Que com isto se alegra grandemente.
Mando-o soltar com tudo, e assim caminha
Para a povoao que perto tinha.

30
"Mas logo ao outro dia, seus parceiros,
Todos nus, e da cor da escura treva,
Descendo pelos speros outeiros,
As peas vm buscar que estoutro leva:
Domsticos j tanto e companheiros
Se nos mostram, que fazem que se atreva
Ferno Veloso a ir ver da terra o trato
E partir-se com eles pelo mato.

31
" Veloso no brao confiado,
E de arrogante cr que vai seguro;
Mas, sendo um grande espao j passado,
Em que algum bom sinal saber procuro,
Estando, a vista alada, co'o cuidado
No aventureiro, eis pelo monto duro
Aparece, e, segundo ao mar caminha,
Mais apressado do que fora, vinha.

32
"O batel de Coelho foi depressa
Pelo tomar; mas, antes que chegasse,
Um Etope ousado se arremessa
A ele, por que no se lhe escapasse;
Outro e outro lhe saem; v-se em pressa
Veloso, sem que algum lhe ali ajudasse;
Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,
Se mostra um bando negro descoberto.

33
"Da espessa nuvem setas e pedradas
Chovem sobre ns outros sem medida;
E no foram ao vento em vo deitadas,
Que esta perna trouxe eu dali ferida;
Mas ns, como pessoas magoadas,
A resposta lhe demos to tecida,
Que, em mais que nos barretes, se suspeita
Que a cor vermelha levam desta feita.

34
"E sendo j, Veloso em salvamento,
Logo nos recolhemos para a armada,
Vendo a malcia feia e rudo intento
Da gente bestial, bruta e malvada,
De quem nenhum melhor conhecimento
Pudemos ter da ndia desejada
Que estarmos ainda muito longe dela;
E assim tornei a dar ao vento a vela.

35
"Disse ento a Veloso um companheiro
(Comeando-se todos a sorrir)
-" l, Veloso amigo, aquele outeiro
 melhor de descer que de subir."
--"Sim, , (responde o ousado aventureiro)
Mas quando eu para c vi tantos vir
Daqueles ces, depressa um pouco vim,
Por me lembrar que estveis c sem

36
"Contou ento que, tanto que passaram
Aquele monte, os negros de quem falo,
Avante mais passar o no deixaram,
Querendo, se no torna, ali mat-lo;
E tornando-se, logo se emboscaram,
Por que, saindo ns para tom-lo,
Nos pudessem mandar ao reino escuro,
Por nos roubarem mais a seu seguro.

37
"Porm j cinco Sis eram passados
Que dali nos partramos, cortando
Os mares nunca doutrem navegados,
Prsperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite estando descuidados,
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem que os ares escurece
Sobre nossas cabeas aparece.

38
"To temerosa vinha e carregada,
Que ps nos coraes um grande medo;
Bramindo o negro mar, de longe brada
Como se desse em vo nalgum rochedo.
--" Potestade, disse, sublimada!
Que ameao divino, ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?"--

39
"No acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e vlida,
De disforme e grandssima estatura,
O rosto carregado, a barba esqulida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e m, e a cor terrena e plida,
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

40
"To grande era de membros, que bem posso
Certificar-te, que este era o segundo
De Rodes estranhssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo:
Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo:
Arrepiam-se as carnes e o cabelo
A mi e a todos, s de ouvi-lo e v-lo.

41
"E disse:--" gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vos nunca repousas,
Pois os vedados trminos quebrantas,
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo h j que guardo e tenho,
Nunca arados d'estranho ou prprio lenho:

42
--"Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do mido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mim, que apercebidos
Esto a teu sobejo atrevimento,
Por todo o largo mar e pela terra,
Que ainda hs de sojugar com dura guerra.

43
--"Sabe que quantas naus esta viagem
Que tu fazes, fizerem de atrevidas,
Inimiga tero esta paragem
Com ventos e tormentas desmedidas.
E da primeira armada que passagem
Fizer por estas ondas insofridas,
Eu farei d'improviso tal castigo,
Que seja mor o dano que o perigo.

44
--"Aqui espero tomar, se no me engano,
De quem me descobriu, suma vingana.
E no se acabar s nisto o dano
Da vossa pertinace confiana;
Antes em vossas naus vereis cada ano,
Se  verdade o que meu juzo alcana,
Naufrgios, perdies de toda sorte,
Que o menor mal de todos seja a morte.

45
--" do primeiro Ilustre, que a ventura
Com fama alta fizer tocar os Cus,
Serei eterna e nova sepultura,
Por juzos incgnitos de Deus.
Aqui por da Turca armada dura
Os soberbos e prsperos trofus;
Comigo de seus danos o ameaa
A destruda Quloa com Mombaa.

46
--"Outro tambm vir de honrada fama,
Liberal, cavaleiro, enamorado,
E consigo trar a formosa dama
Que Amor por gr merc lhe ter dado.
Triste ventura e negro fado os chama
Neste terreno meu, que duro e irado
Os deixar dum cru naufrgio vivos
Para verem trabalhos excessivos.

47
--"Vero morrer com fome os filhos caros,
Em tanto amor gerados e nascidos;
Vero os Cafres speros e avaros
Tirar  linda dama seus vestidos;
Os cristalinos membros e perclaros
A calma, ao frio, ao ar vero despidos,
Depois de ter pisada longamente
Co'os delicados ps a areia ardente.

48
--"E vero mais os olhos que escaparem
De tanto mal, de tanta desventura,
Os dois amantes mseros ficarem
Na frvida e implacvel espessura.
Ali, depois que as pedras abrandarem
Com lgrimas de dor, de mgoa pura,
Abraados as almas soltaro
Da formosa e misrrima priso."--

49
"Mais ia por diante o monstro horrendo
Dizendo nossos fados, quando alado
Lhe disse eu:--Quem s tu? que esse estupendo
Corpo certo me tem maravilhado.--
A boca e os olhos negros retorcendo,
E dando um espantoso e grande brado,
Me respondeu, com voz pesada e amara,
Como quem da pergunta lhe pesara:

50
--"Eu sou aquele oculto e grande Cabo,
A quem chamais vs outros Tormentrio,
Que nunca a Ptolomeu, Pompnio, Estrabo,
Plnio, e quantos passaram, fui notrio.
Aqui toda a Africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontrio,
Que para o Plo Antarctico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.

51
--"Fui dos filhos asprrimos da Terra,
Qual Enclado, Egeu e o Centimano;
Chamei-me Adamastor, e fui na guerra
Contra o que vibra os raios de Vulcano;
No que pusesse serra sobre serra,
Mas conquistando as ondas do Oceano,
Fui capito do mar, por onde andava
A armada de Netuno, que eu buscava.

52
--"Amores da alta esposa de Peleu
Me fizeram tomar tamanha empresa.
Todas as Deusas desprezei do cu,
S por amar das guas a princesa.
Um dia a vi coas filhas de Nereu
Sair nua na praia, e logo presa
A vontade senti de tal maneira
Que ainda no sinto coisa que mais queira.

53
--"Como fosse impossvel alcan-la
Pela grandeza feia de meu gesto,
Determinei por armas de tom-la,
E a Doris este caso manifesto.
De medo a Deusa ento por mim lhe fala;
Mas ela, com um formoso riso honesto,
Respondeu:--"Qual ser o amor bastante
De Ninfa que sustente o dum Gigante?

54
--"Contudo, por livrarmos o Oceano
De tanta guerra, eu buscarei maneira,
Com que, com minha honra, escuse o dano."
Tal resposta me torna a mensageira.
Eu, que cair no pude neste engano,
(Que  grande dos amantes a cegueira)
Encheram-me com grandes abondanas
O peito de desejos e esperanas.

55
--"J nscio, j da guerra desistindo,
Uma noite de Dris prometida,
Me aparece de longe o gesto lindo
Da branca Ttis nica despida:
Como doido corri de longe, abrindo
Os braos, para aquela que era vida
Deste corpo, e comeo os olhos belos
A lhe beijar, as faces e os cabelos.

56
--" que no sei de nojo como o conte!
Que, crendo ter nos braos quem amava,
Abraado me achei com um duro monte
De spero mato e de espessura brava.
Estando com um penedo fronte a fronte,
Que eu pelo rosto anglico apertava
No fiquei homem no, mas mudo e quedo,
E junto dum penedo outro penedo.

57
--" Ninfa, a mais formosa do Oceano,
J que minha presena no te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
Daqui me parto irado, e quase insano
Da mgoa e da desonra ali passada,
A buscar outro inundo, onde no visse
Quem de meu pranto e de meu mal se risse,

58
--"Eram j neste tempo meus irmos
Vencidos e em misria extrema postos;
E por mais segurar-se os Deuses vos,
Alguns a vrios montes sotopostos:
E como contra o Cu no valem mos,
Eu, que chorando andava meus desgostos,
Comecei a sentir do fado inimigo
Por meus atrevimentos o castigo.

59
--"Converte-se-me a carne em terra dura,
Em penedos os ossos sefizeram,
Estes membros que vs e esta figura
Por estas longas guas se estenderam;
Enfim, minha grandssima estatura
Neste remoto cabo converteram
Os Deuses, e por mais dobradas mgoas,
Me anda Ttis cercando destas guas."--

60
"Assim contava, e com um medonho choro
Sbito diante os olhos se apartou;
Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantando as mos ao santo coro
Dos anjos, que to longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse os duros
Casos, que Adamastor contou futuros.

61
"J Flegon e Piris vinham tirando
Com os outros dois o carro radiante,
Quando a terra alta se nos foi mostrando,
Em que foi convertido o gro Gigante.
Ao longo desta costa, comeando
J de cortar as ondas do Levante,
Por ela abaixo um pouco navegamos,
Onde segunda vez terra tomamos.

62
"A gente que esta terra possua,
Posto que todos Etopes eram,
Mais humana no trato parecia
Que os outros, que to mal nos receberam.
Com bailos e com festas de alegria
Pela praia arenosa a ns vieram,
As mulheres consigo e o manso gado
Que apascentavam, gordo e bem criado.

63
"As mulheres queimadas vm em cima
Dos vagarosos bois, ali sentadas,
Animais que eles tm em mais estima
Que todo o outro gado das manadas.
Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,
Na sua lngua cantam concertadas
Com o doce som das rsticas avenas,
Imitando de Ttiro as Camenas.

64
"Estes, como na vista prazenteiros
Fossem, humanamente nos trataram,
Trazendo-nos galinhas e carneiros,
A troco doutras peas, que levaram.
Mas como nunca enfim meus companheiros
Palavra sua alguma lhe alcanaram
Que desse algum sinal do que buscamos,
As velas dando, as ncoras levamos.

65
"J aqui tnhamos dado um gr rodeio
A costa negra de frica, e tornava
A proa a demandar o ardente meio
Do Cu, e o plo Antarctico ficava:
Aquele ilhu deixamos, onde veio
Outra armada primeira, que buscava
O Tormentrio cabo, e descoberto,
Naquele ilhu fez seu limite certo.

66
Daqui fomos cortando muitos dias
Entre tormentas tristes e bonanas,
No largo mar fazendo novas vias,
S conduzidos de rduas esperanas.
Colo mar um tempo andamos em porfias,
Que, como tudo nele so mudanas.
Corrente nele achamos to possante
Que passar no deixava por diante.

67
"Era maior a fora em demasia,
Segundo para trs nos obrigava,
Do mar, que contra ns ali corria,
Que por ns a do vento que assoprava.
Injuriado Noto da porfia
Em que colo mar (parece) tanto estava,
Os assopros esfora iradamente,
Com que nos fez vencer a gro corrente.

68
"Trazia o Sol o dia celebrado,
Em que trs Reis das partes do Oriento
Foram buscar um Rei de pouco nado,
No qual Rei outros trs h juntamente.
Neste dia outro porto foi tomado
Por ns, da mesma j contada gente,
Num largo rio, ao qual o no e demos
Do dia, em que por ele nos metemos.

69
"Desta gente refresco algum tomamos,
E do rio fresca gua; mas contudo
Nenhum sinal aqui da ndia achamos
No Povo, com ns outros quase mudo.
Ora v, Rei, que tamanha terra andamos,
Sem sair nunca deste povo rudo,
Sem vermos nunca nova nem sinal
Da desejada parte Oriental.

70
"Ora imagina agora coitados
Andaramos todos, perdidos,
De fomes, de tormentas quebrantados,
Por climas e por mares no sabidos,
E do esperar comprido to cansados,
Quanto a desesperar j compelidos,
Por cus no naturais, de qualidade
Inimiga de nossa humanidade.

71
"Corrupto j e danado o mantimento,
Danoso e mau ao fraco corpo humano,
E alm disso nenhum contentamento,
Que sequer da esperana fosse engano.
Crs tu que, se este nosso ajuntamento
De soldados no fora Lusitano,
Que durara ele tanto obediente
Por ventura a seu Rei e a seu regente?

72
"Crs tu que j no foram levantados
Contra seu Capito, se os resistira,
Fazendo-se piratas, obrigados
De desesperao, de fome, de ira?
Grandemente, por certo, esto provados,
Pois que nenhum trabalho grande os tira
Daquela Portuguesa alta excelncia
De lealdade firme, e obedincia.

73
"Deixando o porto enfim do doce rio
E tornando a cortar a gua salgada,
Fizemos desta costa algum desvio,
Deitando para o pego toda a armada;
Porque, ventando Noto manso e frio,
No nos apanhasse a gua da enseada,
Que a costa faz ali daquela banda
Donde a rica Sofala o ouro manda.

74
"Esta passada, logo o leve leme
Encomendado ao sacro Nicolau,
Para onde o mar na costa brada e geme,
A proa inclina duma e doutra nau;
Quando indo o corao que espera e teme
E que tanto fiou dum fraco pau
Do que esperava j desesperado,
Foi duma novidade alvoroado

75
"E foi que, estando j da costa perto,
Onde as praias e vales bem se viam,
Num rio, que ali sai ao mar aberto,
Batis  vela entravam e saam.
Alegria muito grande foi por certo
Acharmos j pessoas que sabiam
Navegar, porque entre elas esperamos
De achar novas algumas, como achamos.

76
"Etopes so todos, mas parece
Que com gente melhor comunicavam;
Palavra alguma Arbia se conhece
Entre a linguagem sua que falavam;
E com pano delgado, que se tece
De algodo, as cabeas apertavam;
Com outro, que de tinta azul se tinge,
Cada um as vergonhosas partes cinge.

77
"Pela Arbica lngua, que mal falam,
E que Ferno Martins muito bem entende,
Dizem que por naus, que em grandeza igualam
As nossas, o seu mar se corta e fende;
Mas que l donde sai o Sol, se abalam
Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,
E do Sul para o Sol, terra onde havia
Gente, assim como ns, da cor do dia.

78
"Muito grandemente aqui nos alegramos
Com a gente, e com as novas muito mais:
Pelos sinais que neste rio achamos
O nome lhe ficou dos Bons Sinais.
Um padro nesta terra alevantamos,
Que, para assinalar lugares tais,
Trazia alguns; o nome tem do belo
Guiador de Tobias a Gabelo.

79
"Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos,
Nojosa criao das guas fundas,
Alimpamos as naus, que dos caminhos
Longos do mar, vm srdidas e imundas.
Dos hspedes que tnhamos vizinhos,
Com mostras aprazveis e jocundas,
louvemos sempre o usado mantimento,
Limpos de todo o falso pensamento.

80
"Mas no foi, da esperana grande e imensa
Que nesta terra houvemos, limpa e pura
A alegria; mas logo a recompensa
A Ramnsia com nova desventura.
Assim no cu sereno se dispensa:
Com esta condio pesada e dura
Nascemos: o pesar ter firmeza,
Mas o bem logo muda a natureza.

81
"E foi que de doena crua e feia,
A mais que eu nunca vi, desampararam
Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
Os ossos para sempre sepultaram.
Quem haver que, sem o ver, o creia?
Que to disformemente ali lhe incharam
As gengivas na boca, que crescia
A carne, e juntamente apodrecia.

82
"--Apodrecia com um ftido e bruto
Cheiro, que o ar vizinho inficionava;
No tnhamos ali mdico astuto,
Cirurgio subtil menos se achava;
Mas qualquer, neste ofcio pouco instructo,
Pela carne j podre assim cortava
Como se fora morta, e bem convinha,
Pois que morto ficava quem a tinha.

83
"Enfim que nesta incgnita espessura
Deixamos para sempre os companheiros,
Que em tal caminho e em tanta desventura
Foram sempre conosco aventureiros.
Quo fcil  ao corpo a sepultura!
Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros
Estranhos, assim mesmo como aos nossos,
Recebero de todo o Ilustre os ossos.

84
"Assim que, deste porto nos partirmos
Com maior esperana e maior tristeza,
E pela costa abaixo o mar abrirmos
Buscando algum sinal de mais firmeza.
Na dura Moambique enfim surgimos,
De cuja falsidade e m vileza
J sers sabedor, e dos enganos
Dos povos de Mombaa pouco humanos.

85
"At que aqui no teu seguro porto,
Cuja brandura e doce tratamento
Dar sade a um vivo, e vida a um morto,
Nos trouxe a piedade do alto assento.
Aqui repouso, aqui doce conforto,
Nova quietao do pensamento
Nos deste: e vs aqui, se atento ouviste,
Te contei tudo quanto me pediste.

86
"Julgas agora, Rei, se houve no mundo
Gentes que tais caminhos cometessem?
Crs tu que tanto Eneias e o facundo
Ulisses pelo inundo se estendessem?
Ousou algum a ver do mar profundo,
Por mais versos que dele se escrevessem,
Do que eu vi, a poder de esforo e de arte,
E do que ainda hei de ver, a oitava parte?

87
"Esse que bebeu tanto da gua Ania,
Sobre quem tem contenda peregrina,
Entre si, Rodes, Smirna e Colofnia,
Atenas, Ios, Argo e Salamina:
Esse outro que esclarece toda Ausna,
A cuja voz altssona e divina
Ouvindo, o ptrio Mncio se adormece,
Mas o Tibre, com o som se ensoberbece;

88
Cantem, louvem e escrevam sempre extremos
Desses seus Semideuses, e encaream,
Fingindo Magis Circes, Polifemos,
Sirenas que com o canto os adormeam;
Dem-lhe mais navegar  vela e remos
Os Cicones, e a torra onde se esqueam
Os companheiros, em gostando o Loto;
Dem-lhe perder nas guas o piloto;

89
"Ventos soltos lhe finjam, e imaginem
Dos odres e Calipsos namoradas;
Harpias que o manjar lhe contaminem;
Descer s sombras nuas j passadas:
Que por muito e por muito que se afinem
Nestas fbulas vs, to bem sonhadas,
A verdade que eu conto nua e pura
Vence toda grandloqua escritura."

90
Da boca do facundo Capito
Pendendo estavam todos embebidos,
Quando deu fim  longa narrao
Dos altos feitos grandes e subidos.
Louva o Rei o sublime corao
Dos Reis em tantas guerras conhecidos;
Da gente louva a antiga fortaleza,
A lealdade de nimo e nobreza.

91
Vai recontando o povo, que se admira,
O caso cada qual que mais notou;
Nenhum deles da gente os olhos tira,
Que to longos caminhos rodeou.
Mas j o mancebo Dlio as rdeas vira
Que o irmo de Lampcia mal guiou,
Por vir a descansar nos Ttios braos;
E el-Rei se vai do mar aos nobres paos.

92
Quo doce  o louvor e a justa glria
Dos prprios feitos, quando so soados!
Qualquer nobre trabalha que em memria
Vena ou iguale os grandes j passados.
As invejas da ilustre e alheia histria
Fazem mil vezes feitos sublimados.
Quem valerosas obras exercita,
Louvor alheio muito o esperta e incita.

93
No tinha em tanto os feitos gloriosos
De Aquiles, Alexandro na peleja,
Quanto de quem o canta, os numerosos
Versos; isso s louva, isso deseja.
Os trofus de Melcades famosos
Temstoeles despertam s de inveja,
E diz que nada tanto o deleitava
Como a voz que seus feitos celebrava.

94
Trabalha por mostrar Vasco da Gama
Que essas navegaes que o mundo canta
No merecem tamanha glria e fama
Como a sua, que o cu e a terra espanta.
Si; mas aquele Heri, que estima e ama
Com dons, mercs, favores e honra tanta
A lira Mantuana, faz que soe
Eneias, e a Romana glria voe.

95
D a terra lusitana Cipies,
Csares, Alexandros, e d Augustos;
Mas no lhe d contudo aqueles dois
Cuja falta os faz duros e robustos.
Octvio, entre as maiores opresses,
Compunha versos doutos e venustos.
No dir Flvia certo que  mentira,
Quando a deixava Antnio por Glafira,

96
Vai Csar, sojugando toda Frana,
E as armas no lhe impedem a cincia;
Mas, numa mo a pena e noutra a lana,
Igualava de Ccero a eloquncia.
O que de Cipio se sabe e alcana,
 nas comdias grande experincia.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe  cabeceira.

97
Enfim, no houve forte capito,
Que no fosse tambm douto e ciente,
Da Lcia, Grega, ou Brbara nao,
Seno da Portuguesa to somente.
Sem vergonha o no digo, que a razo
De algum no ser por versos excelente,
 no se ver prezado o verso e rima,
Porque, quem no sabe arte, no na estima.

98
Por isso, e no por falta de natura,
No h tambm Virglios nem Homeros;
Nem haver, se este costume dura,
Pios Eneias, nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo  que a ventura
To speros os fez, e to austeros,
To rudos, e de engenho to remisso,
Que a muitos lhe d pouco, ou nada disso.

99
As Musas agradea o nosso Gama
o Muito amor da Ptria, que as obriga
A dar aos seus na lira nome e fama
De toda a ilustro e blica fadiga:
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Calope no tem por to amiga,
Nem as filhas do Tejo, que deixassem
As telas douro fino, e que o cantassem.

100
Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor,  somente o pressuposto
Das Tgides gentis, e seu respeito.
Porm no deixe enfim de ter disposto
Ningum a grandes obras sempre o peito,
Que por esta, ou por outra qualquer via,
No perder seu preo, e sua valia.

Canto Sexto

1
No sabia em que modo festejasse
O Rei Pago os fortes navegantes,
Para que as amizades alcanasse
Do Rei Cristo, das gentes to possantes;
Pesa-lhe que to longe o aposentasse
Das Europias terras abundantes
A ventura, que no no fez vizinho
Donde Hrcules ao mar abriu caminho.

2
Com jogos, danas e outras alegrias,
A segundo a polcia Melindana,
Com usadas e ledas pescarias,
Com que a Lageia Antnio alegra e engana
Este famoso Rei, todos os dias,
Festeja a companhia Lusitana,
Com banquetes, manjares desusados,
Com frutas, aves, carnes e pescados.

3
Mas vendo o Capito que se detinha
J mais do que devia, e o fresco vento
O convida que parta e tome asinha
Os pilotos da terra e mantimento,
No se quer mais deter, que ainda tinha
Muito para cortar do salso argento;
J do Pago benigno se despede,
Que a todos amizade longa pede.

4
Pede-lhe mais que aquele porto seja
Sempre com suas frotas visitado,
Que nenhum outro bem maior deseja,
Que dar a tais bares seu reino e estado;
E que enquanto seu corpo o esprito reja,
Estar de contino aparelhado
A pr a vida e reino totalmente
Por to bom Rei, por to sublime gente.

5
Outras palavras tais lhe respondia
O Capito, o logo as velas dando,
Para as terras da Aurora se partia,
Que tanto tempo h j que vai buscando.
No piloto que leva no havia
Falsidade, mas antes vai mostrando
A navegao certa, e assim caminha
J mais seguro do que dantes vinha.

6
As ondas navegavam do Oriente
J nos mares da ndia, e enxergavam
Os tlamos do Sol, que nasce ardente;
J quase seus desejos se acabavam.
Mas o mau de Tioneu, que na alma sente
As venturas, que ento se aparelhavam
A gente Lusitana, delas dina,
Arde, morre, blasfema e desatina.

7
Via estar todo o Cu determinado
De fazer de Lisboa nova Roma;
No no pode estorvar, que destinado
Est doutro poder que tudo doma.
Do Olimpo desce enfim desesperado;
Novo remdio em terra busca e toma:
Entra no mido reino, e vai-se  corte
Daquele a quem o mar caiu em sorte.

8
No mais interno fundo das profundas
Cavernas altas, onde o mar se esconde,
L donde as ondas saem furibundas,
Quando s iras do vento o mar responde,
Netuno mora, e moram as jocundas
Nereidas, e outros Deuses do mar, onde
As guas campo deixam s cidades,
Que habitam estas midas deidades.

9
Descobre o fundo nunca descoberto
Das areias ali de prata fina;
Torres altas se vem no campo aberto
Da transparente massa cristalina:
Quanto se chegam mais os olhos perto,
Tanto menos a vista determina
Se  cristal o que v, se diamante,
Que assim se mostra claro e radiante.

10
As portas douro fino, e marchetadas
Do rico aljfar que nas conchas nasce,
De escultura formosa esto lavradas,
Na qual o irado Baco a vista pasce;
E v primeiro em cores variadas
Do velho Caos a to confusa face;
Vem-se os quatro elementos trasladados
Em diversos ofcios ocupados.

11
Ali sublime o Fogo estava em cima,
Que em nenhuma matria se sustinha;
Daqui as coisas vivas sempre anima,
Depois que Prometeu furtado o tinha.
Logo aps ele leve se sublima
O invisvel Ar, que mais asinha
Tomou lugar, e nem por quente ou f rio,
Algum deixa no mundo estar vazio.

12
Estava a terra em montes revestida
De verdes ervas, e rvores floridas,
Dando pasto diverso e dando vida
As alimrias nela produzidas.
A clara forma ali estava esculpida
Das guas entre a terra desparzidas,
De pescados criando vrios modos,
Com seu humor mantendo os corpos todos.

13
Noutra parte esculpida estava a guerra,
Que tiveram os Deuses com os Gigantes;
Est Tifeu debaixo da alta serra
De Etna, que as flamas lana crepitantes;
Esculpido se v ferindo a terra
Netuno, quando as gentes ignorantes
Dele o cavalo houveram, e a primeira
De Minerva pacfica oliveira.

14
Pouca tardana faz Lieu irado
Na vista destas coisas, mas entrando
Nos paos de Netuno, que avisado
Da vinda sua, o estava j aguardando,
As portas o recebe, acompanhado
Das Ninfas, que se esto maravilhando
De ver que, cometendo tal caminho,
Entre no reino d'gua o Rei do vinho.

15
" Netuno, lhe disse, no te espantes
De Baco nos teus reinos receberes,
Porque tambm com os grandes e possantes
Mostra a Fortuna injusta seus poderes.
Manda chamar os Deuses do mar, antes
Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;
Vero da desventura grandes modos:
Ouam todos o mal, que toca a todos."

16
Julgando j Netuno que seria
Estranho caso aquele, logo manda
Trito, que chame os Deuses da gua fria,
Que o mar habitam duma e doutra banda.
Trito, que de ser filho se gloria
Do Rei e de Salcia veneranda,
Era mancebo grande, negro e feio,
Trombeta de seu pai, e seu correio.

17
Os cabelos da barba, e os que descem
Da cabea nos ombros, todos eram
Uns limos prenhes d'gua, e bem parecem
Que nunca brando pentem conheceram;
Nas pontas pendurados no falecem
Os negros misilhes, que ali se geram,
Na cabea por gorra tinha posta
Uma muito grande casca de lagosta.

18
O corpo nu, e os membros genitais,
Por no ter ao nadar impedimento,
Mas porm de pequenos animais
Do mar todos cobertos cento e cento:
Camares e cangrejos, e outros mais
Que recebem de Febe crescimento,
Ostras, e camares do musgo sujos,
As costas com a casca os caramujos.

19
Na mo a grande concha retorcida
Que trazia, com fora, j tocava;
A voz grande canora foi ouvida
Por todo o mar, que longe retumbava.
J toda a companhia apercebida
Dos Deuses para os paos caminhava
Do Deus, que fez os muros de Dardnia,
Destrudos depois da Grega insnia.

20
Vinha o padre Oceano acompanhado
Dos filhos e das filhas que gerara;
Vem Nereu, que com Dris foi casado,
Que todo o mar de Ninfas povoara;
O profeta Proteu, deixando o gado
Martimo pascer pela gua amara,
Ali veio tambm, mas j sabia
O que o padre Lieu no mar queria.

21
Vinha por outra parte a linda esposa
De Netuno, de Celo e Vesta filha,
Grave e Ieda no gesto, e to formosa
Que se amansava o mar de maravilha.
Vestida uma camisa preciosa
Trazia de delgada beatilha,
Que o corpo cristalino deixa ver-se,
Que tanto bem no  para esconder-se.

22
Anfitrite, formosa como as flores,
Neste caso no quis que falecesse;
O Delfim traz consigo, que aos amores
Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.
Com os olhos, que de tudo so senhores,
Qualquer parecer que o Sol vencesse:
Ambas vm pela mo, igual partido,
Pois ambas so esposas dum marido.

23
Aquela que das frias de Atamante
Fugindo, veio a ter divino estado,
Consigo traz o filho, belo Infante,
No nmero dos Deuses relatado.
Pela praia brincando vem diante
Com as lindas conchinhas, que o salgado
Mar sempre cria, e s vezes pela areia
No colo o to a a bela Panopeia.

24
E o Deus que foi num tempo corpo humano,
E por virtude da erva poderosa
Foi convertido em peixe, e deste dano
Lhe resultou deidade gloriosa,
Inda vinha chorando o feio engano
Que Circe tinha usado com a formosa
Cila, que ele ama, desta sendo amado,
Que a mais obriga amor mal empregado.

25
J finalmente todos assentados
Na grande sala, nobre e divinal;
As Deusas em riqussimos estrados,
Os Deuses em cadeiras de cristal,
Foram todos do Padre agasalhados,
Que com o Tebano tinha assento igual.
De fumos enche a casa a rica massa
Que no mar nasce, e Arbia em cheiro passa.

26
Estando sossegado j o tumulto
Dos Deuses, e de seus recebimentos,
Comea a descobrir do peito oculto
A causa o Tioneu de seus tormentos:
Um pouco carregando-se no vulto,
Dando mostra de grandes sentimentos,
S por dar aos de Luso triste morte
Com o ferro alheio, fala desta sorte:

27
"Prncipe, que de juro senhoreias
Dum Plo ao outro Plo o mar irado,
Tu, que as gentes da terra toda enfreias,
Que no passem o termo limitado;
E tu, padre Oceano, que rodeias
O inundo universal, e o tens cercado,
E com justo decreto assim permites
Que dentro vivam s de seus limites;

28
"E vs, Deuses do mar, que no sofreis
Injria alguma em vosso reino grande,
Que com castigo igual vos no vingueis
De quem quer que por ele corra e ande:
Que descuido foi este em que viveis?
Quem pode ser que tanto vos abrande
Os peitos, com razo endurecidos
Contra os humanos fracos e atrevidos?

29
"Vistes que com grandssima ousadia
Foram j cometer o Cu supremo;
Vistes aquela insana fantasia
De tentarem o mar com vela e reino;
Vistes, e ainda vemos cada dia,
Soberbas e insolncias tais, que temo
Que do mar e do Cu em poucos anos
Venham Deuses a ser, e ns humanos.

30
"Vedes agora a fraca gerao
Que dum vassalo meu o nome toma,
Com soberbo e altivo corao,
A vs, e a mi, e o mundo todo doma;
Vedes, o vosso mar cortando vo,
Mais do que fez a gente alta de Roma;
Vedes, o vosso reino devassando,
Os vossos estatutos vo quebrando.

31
"Eu vi que contra os Mnias, que primeiro
No vosso reino este caminho abriram,
Breas injuriado, e o companheiro
Aquilo, e os outros todos resistiram.
Pois se do ajuntamento aventureiro
Os ventos esta injria assim sentiram,
Vs, a quem mais compete esta vingana,
Que esperais? Porque a pondes em tardana?

32
"E no consinto, Deuses, que cuideis
Que por amor de vs do cu desci,
Nem da mgoa da injria que sofreis,
Mas da que se me faz tambm a mi;
Que aquelas grandes honras, que sabeis
Que no mundo ganhei, quando venci
As terras Indianas do Oriente,
Todas vejo abatidas desta gente.

33
"Que o gr Senhor e Fados que destinam,
Como lhe bem parece, o baixo mundo,
Famas mores que nunca determinam
De dar a estes bares no mar profundo.
Aqui vereis,  Deuses, como ensinam
O mal tambm a Deuses: que, a segundo
Se v, ningum j tem menos valia,
Que quem com mais razo valer devia.

34
"E por isso do Olimpo j fugi,
Buscando algum remdio a meus pesares,
Por ver o preo que no Cu perdi,
Se por dita acharei nos vossos mares."
Mais quis dizer, e no passou daqui,
Porque as lgrimas j correndo a pares
Lhe saltaram dos olhos, com que logo
Se acendem as Deidades d'gua em fogo.

35
A ira com que sbito alterado
O corao dos Deuses foi num ponto,
No sofreu mais conselho bem cuidado,
Nem dilao, nem outro algum desconto.
Ao grande Eolo mandam j recado
Da parte de Netuno, que sem conto
Solte as frias dos ventos repugnantes,
Que no haja no mar mais navegantes.

36
Bem quisera primeiro ali Proteu
Dizer neste negcio o que sentia,
E segundo o que a todos pareceu,
Era alguma profunda profecia.
Porm tanto o tumulto se moveu
Sbito na divina companhia,
Que Tethys indignada lhe bradou:
"Netuno sabe bem o que mandou".

37
J l o soberbo Hiptades soltava
Do crcere fechado os furiosos
Ventos, que com palavras animava
Contra os vares audazes e animosos.
Sbito o cu sereno se obumbrava,
Que os ventos, mais que nunca impetuosos,
Comeam novas foras a ir tomando,
Torres, montes e casas derribando.

38
Enquanto este conselho se fazia
No fundo aquoso, a leda lassa frota
Com vento sossegado prosseguia,
Pelo tranquilo mar, a longa rota.
Era no tempo quando a luz do dia
Do Eo Hemisfrio est remota;
Os do quarto da prima se deitavam,
Para o segundo os outros despertavam.

39
Vencidos vm do sono, e mal despertos;
Bocejando a mido se encostavam
Pelas antenas, todos mal cobertos
Contra os agudos ares, que assopravam;
Os olhos contra seu querer abertos,
Alas estregando, os membros estiravam;
Remdios contra o sono buscar querem,
Histrias contam, casos mil referem.

40
"Com que melhor podemos, um dizia,
Este tempo passar, que  to pesado,
Seno com algum conto de alegria,
Com que nos deixe o sono carregado?"
Responde Leonardo, que trazia
Pensamentos de firme namorado:
"Que contos poderemos ter melhores,
Para passar o tempo, que de amores?"

41
"No , disse Veloso, coisa justa
Tratar branduras em tanta aspereza;
Que o trabalho do mar, que tanto custa,
No sofre amores, nem delicadeza;
Antes de guerra frvida e robusta
A nossa histria seja, pois dureza
Nossa vida h de ser, segundo entendo,
Que o trabalho por vir me est dizendo."

42
Consentem nisto todos, e encomendam
A Veloso que conte isto que aprova.
"Contarei, disse, sem que me repreendam
De contar cousa fabulosa ou nova;
E porque os que me ouvirem daqui aprendam
A fazer feitos grandes de alta prova,
Dos nascidos direi na nossa terra,
E estes sejam os doze de Inglaterra.

43
"No tempo que do Reino a rdea leve
Joo, filho de Pedro, moderava,
Depois que sossegado e livre o teve
Do vizinho poder, que o molestava,
L na grande Inglaterra, que da neve
Boreal sempre abunda, semeava
A fera Ernis dura e m ciznia,
Que lustre fosse a nossa Lusitnia.

44
"Entre as damas gentis da corte Inglesa
E nobres cortesos, acaso um dia
Se levantou discrdia em ira acesa,
Ou foi opinio, ou foi porfia.
Os cortesos, a quem to pouco pesa
Soltar palavras graves de ousadia,
Dizem que provaro, que honras e famas
Em tais damas no h para ser damas;

45
"E que se houver algum, com lana e espada,
Que queira sustentar a parte sua,
Que eles, em campo raso ou estacada,
Lhe daro feia infmia, ou morte crua.
A feminil fraqueza Pouco usada,
Ou nunca, a oprbrios tais, vendo-se nua
De foras naturais convenientes,
Socorro pede a amigos e parentes.

46
"Mas como fossem grandes e possantes
No reino os inimigos, no se atrevem
Nem parentes, nem frvidos amantes,
A sustentar as damas, como devem.
Com lgrimas formosas e bastantes
A fazer que em socorro os Deuses levem
De todo o Cu, por rostos de alabastro,
Se vo todas ao duque de Alencastro.

47
"Era este Ingls potente, e militara
Com os Portugueses j contra Castela,
Onde as foras magnnimas provara
Dos companheiros, e benigna estrela:
No menos nesta terra experimentara
Namorados afeitos, quando nela
A filha viu, que tinto o peito doma
Do forte Rei, que por mulher a toma.

48
"Este, que socorrer-lhe no queria,
Por no causar discrdias intestinas,
Lhe diz:--"Quando o direito pretendia
Do reino l das terras Iberinas,
Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
Tanto primor, e partes to divinas,
Que eles ss poderiam, se no erro,
Sustentar vossa parte a fogo e ferro.

49
"E se, agravadas damas, sois servidas,
Por vs lhe mandarei embaixadores,
Que, por cartas discretas e polidas,
De vosso agravo os faam sabedores.
Tambm por vossa parto encarecidas
Com palavras de afagos e de amores
Lhe sejam vossas lgrimas, que eu creio
Que ali tereis socorro e forte esteio."--

50
"Destarte as aconselha o Duque experto,
E logo lhe nomeia doze fortes;
E por que cada dama um tenha certo,
Lhe manda que sobre eles lancem sortes,
Que elas s doze so; e descoberto
Qual a qual tem cado das consertes,
Cada uma escreve ao seu por vrios modos,
E todas a seu Rei, e o Duque a todos.

51
"J chega a Portugal o mensageiro;
Toda a corte alvoroa a novidade;
Quisera o Rei sublime ser primeiro,
Mas no lhe sofre a Rgia Majestade.
Qualquer dos cortesos aventureiro
Deseja ser, com frvida vontade,
F, s fica por bem-aventurado
Quem j vem pelo Duque nomeado.

52
"L na leal Cidade, donde teve
Origem (como  fama) o nome eterno
De Portugal, armar madeiro leve
Manda o que tem o leme do governo.
Apercebem-se os doze, em tempo breve,
De armas, e roupas de uso mais moderno,
De elmos, cimeiras, letras, e primores,
Cavalos, e concertos de mil cores.

53
"J do seu Rei tomado tm licena
Para partir do Douro celebrado
Aqueles, que escolhidos por sentena
Foram do Duque Ingls experimentado.
No h na companhia diferena
De cavaleiro destro ou esforado;
Mas um s, que Magrio se dizia,
Destarte fala  forte companhia:

54
--"Fortssimos conscios, eu desejo
H muito j de andar terras estranhas,
Por ver mais guas que as do Douro o Tejo,
Vrias gentes, e leis, e vrias manhas.
Agora, que aparelho certo vejo,
(Pois que do mundo as coisas so tamanhas)
Quero, se me deixais, ir s por terra,
Porque eu serei convosco em Inglaterra.

55
--"E quando caso for que eu impedido
Por quem das cousas  ltima linha,
No for convosco ao prazo institudo,
Pouca falta vos faz a falta minha:
Todos por mim fareis o que  devido;
Mas, se a verdade o esprito me adivinha,
Rios, montes, fortuna, ou sua inveja,
No faro que eu convosco l no seja."

56
"Assim diz, e abraados os amigos,
E tomada licena, enfim se parte:
Passa Lio, Castela, vendo antigos
Lugares, que ganhara o ptrio Marte;
Navarra, com os altssimos perigos
Do Perineu, que Espanha e Glia parte;
Vistas enfim de Frana as coisas grandes,
No grande emprio foi parar de Frandes.

57
"Ali chegado, ou fosse caso ou manha,
Sem passar se deteve muitos dias:
Mas dos onze a ilustrssima companha
Cortam do mar do Norte as ondas frias.
Chegados de Inglaterra  costa estranha,
Para Londres j fazem todos vias.
Do Duque so com festa agasalhados,
E das damas servidos e amimados.

58
"Chega-se o prazo e dia assinalado
De entrar em campo j com os doze Ingleses,
Que pelo Rei j tinham segurado:
Armam-se de elmos, grevas e de arneses:
J as damas tm por si, fulgente e armado,
O Mavorte feroz dos Portugueses;
Vestem-se elas de cores e de sedas,
De ouro e de jias mil, ricas e ledas.

59
"Mas aquela, a quem fora em sorte dado
Magrio, que no vinha, com tristeza
Se veste, por no ter quem nomeado
Seja seu cavaleiro nesta empresa;
Bem que os onze apregoam, que acabado
Ser o negcio assim na corte Inglesa,
Que as damas vencedoras se conheam,
Posto que dois e trs dos seus faleam.

60
"J num sublime e pblico teatro
Se assenta o Rei Ingls com toda a corte:
Estavam trs e trs, e quatro e quatro,
Bem como a cada qual coubera em sorte.
No so vistos do Sol, do Tejo ao Batro,
De fora, esforo e de nimo mais forte
Outros doze sair, como os Ingleses,
No campo, contra os onze Portugueses.

61
"Mastigam os cavalos, escumando,
Os ureos freios com feroz semblante;
Estava o Sol nas armas rutilando
Como em cristal ou rgido diamante;
Mas enxerga-se num e noutro bando
Partido desigual e dissonante
Dos onze contra os doze: quando a gente
Comea a alvoroar-se geralmente.

62
"Viram todos o rosto aonde havia
A causa principal do rebolio:
Eis entra um cavaleiro, que trazia
Armas, cavalo, ao blico servio.
Ao Rei e s damas fala, e logo se ia
Para os onze, que este era o gr Magrio;
Abraa os companheiros como amigos,
A quem no falta certo nos perigos.

63
"A dama, como ouviu que este era aquele
Que vinha a defender seu nome e fama,
Se alegra, e veste ali do animal de Hele,
Que a gente bruta mais que virtude ama.
J do sinal, e o som da tuba impele
Os belicosos nimos, que inflama:
Picam de esporas, largam rdeas logo,
Abaixam lanas, fere a terra fogo.

64
"Dos cavalos o estrpito parece
Que faz que o cho debaixo todo treme;
O corao no peito, que estremece
De quem os olha, se alvoroa e teme:
Qual do cavalo voa, que no desce;
Qual, com o cavalo em terra dando, geme;
Qual vermelhas as armas faz de brancas;
Qual com os penachos do elmo aouta as ancas.

65
"Algum dali tomou perptuo sono
E fez da vida ao fim breve intervalo;
Correndo algum cavalo vai sem dono
E noutra parte o dono sem cavalo.
Cai a soberba Inglesa de seu trono,
Que dois ou trs j fora vo do vale;
Os que de espada vm fazer batalha,
Mais acham j que arns, escudo e malha.

66
"Gastar palavras em contar extremos
De golpes feros, cruas estocadas,
 desses gastadores, que sabemos,
Maus do tempo, com fbulas sonhadas.
Basta, por fim do caso, que entendemos
Que com finezas altas e afamadas,
Com os nossos fica a palma da vitria,
E as damas vencedoras, e com glria.

67
"Recolhe o Duque os doze vencedores
Nos seus paos, com festas e alegria;
Cozinheiros ocupa e caadores
Das damas a formosa companhia,
Que querem dar aos seus libertadores
Banquetes mil cada hora e cada dia,
Enquanto se detm em Inglaterra,
At tornar  doce e cara terra.

68
"Mas dizem que, contudo, o gr Magrio,
Desejoso de ver as coisas grandes,
L se deixou ficar, onde um servio
Notvel  condessa fez de Frandes;
E como quem no era j novio
Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,
Um Francs mata em campo, que o destino
L teve de Torcato e de Corvino.

69
"Outro tambm dos doze em Alemanha
Se lana, e teve um fero desafio
Com um Germano enganoso, que com manha
No devida o quis pr no extremo fio."
Contando assim Veloso, j a companha
Lhe pede que no f aa tal desvio
Do caso de Magrio, e vencimento,
Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.

70
Mas, neste passo, assim prontos estando
Eis o mestre, que olhando os ares anda,
O apito toca; acordam despertando
Os marinheiros duma e doutra banda;
E porque o vento vinha refrescando,
Os traquetes das gveas tomar manda:
"Alerta, disse, estai, que o vento cresce
Daquela nuvem negra que aparece."

71
No eram os traquetes bem tomados,
Quando d a grande e sbita procela:
"Amaina, disse o mestre a grandes brados,
Amaina, disse, amaina a grande vela!"
No esperam os ventos indinados
Que amainassem; mas juntos dando nela,
Em pedaos a fazem, com um rudo
Que o mundo pareceu ser destrudo.

72
O cu fere com gritos nisto a gente,
Com sbito temor e desacordo,
Que, no romper da vela, a nau pendente
Toma gr suma d'gua pelo bordo:
"Alija, disse o mestre rijamente,
Alija tudo ao mar; no falte acordo.
Vo outros dar  bomba, no cessando;
A bomba, que nos imos alagando!"

73
Correm logo os soldados animosos
A dar  bomba; e, tanto que chegaram,
Os balanos que os mares temerosos
Deram  nau, num bordo os derribaram.
Trs marinheiros, duros e forosos,
A menear o leme no bastaram;
Talhas lhe punham duma e doutra parte,
Sem aproveitar dos homens fora e arte.

74
Os ventos eram tais, que no puderam
Mostrar mais fora do mpeto cruel,
Se para derribar ento vieram
A fortssima torre de Babel.
Nos altssimos mares, que cresceram,
A pequena grandura dum batel
Mostra a possante nau, que move espanto,
Vendo que se sustm nas ondas tanto.

75
A nau grande, em que vai Paulo da Gama,
Quebrado leva o masto pelo meio.
Quase toda alagada: a gente chama
Aquele que a salvar o mundo veio.
No menos gritos vos ao ar derrama
Toda a nau de Coelho, com receio,
Conquanto teve o mestre tanto tento,
Que primeiro amainou, que desse o vento.

76
Agora sobre as nuvens os subiam
As ondas de Netuno furibundo;
Agora a ver parece que desciam
As ntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro, Breas, Aquilo queriam
Arruinar a mquina do mundo:
A noite negra e feia se alumia
Com os raios, em que o Plo todo ardia.

77
As Alcineas aves triste canto
Junto da costa brava levantaram,
Lembrando-se do seu passado pranto,
Que as furiosas guas lhe causaram.
Os delfins namorados entretanto
L nas covas martimas entraram,
Fugindo  tempestade e ventos duros,
Que nem no fundo os deixa estar segui-os.

78
Nunca to vivos raios fabricou
Contra a fera soberba dos Gigantes
O gr ferreiro srdido, que obrou
Do enteado as armas radiantes;
Nem tanto o gr Tonante arremessou
Relmpagos ao mundo fulminantes,
No gr dilvio, donde ss viveram
Os dois que em gente as pedras converteram.

79
Quantos montes, ento, que derribaram
As ondas que batiam denodadas!
Quantas rvores velhas arrancaram
Do vento bravo as frias indinadas!
As forosas razes no cuidaram
Que nunca para o cu fossem viradas,
Nem as fundas areias que pudessem
Tanto os mares que em cima as revolvessem.

80
Vendo Vasco da Gama que to perto
Do fim de seu desejo se perdia;
Vendo ora o mar at o inferno aberto,
Ora com nova fria ao cu subia,
Confuso de temor, da vida incerto,
Onde nenhum remdio lhe valia,
Chama aquele remdio santo  forte,
Que o impossvel pode, desta sorte:

81
"Divina Guarda, anglica, celeste,
Que os cus, o mar e terra senhoreias;
Tu, que a todo Israel refgio deste
Por metade das guas Eritreias;
Tu, que livraste Paulo e o defendeste
Das Sirtes arenosas e ondas feias,
E guardaste com os filhos o segundo
Povoador do alagado e vcuo mundo;

82
"Se tenho novos modos perigosos
Doutra Cila e Carbdis j passados,
Outras Sirtes e baixos arenosos,
Outros Acrocerunios infamados,
No fim de tantos casos trabalhosos,
Por que somos de ti desamparados,
Se este nosso trabalho no te ofende,
Mas antes teu servio s pretende?

83
" ditosos aqueles que puderam
Entre as agudas lanas Africanas
Morrer, enquanto fortes sostiveram
A santa F nas terras Mauritanas!
De quem feitos ilustres se souberam,
De quem ficam memrias soberanas,
De quem se ganha a vida com perd-la,
Doce fazendo a morte as honras dela!"

84
Assim dizendo, os ventos que lutavam
Como touros indmitos bramando,
Mais e mais a tormenta acrescentavam
Pela mida enxrcia assoviando.
Relmpados medonhos no cessavam,
Feros troves, que vm representando
Cair o cu dos eixos sobre a terra,
Consigo os elementos terem guerra.

85
Mas j a amorosa estrela cintilava
Diante do Sol claro, no Horizonte,
Mensageira do dia, e visitava
A terra e o largo mar, com leda fronte.
A densa que nos cus a governava,
De quem foge o ensfero Orionte,
Tanto que o mar e a cara armada vira,
Tocada junto foi de medo e de ira.

86
"Estas obras de Baco so, por certo,
Disse; mas no ser que avante leve
To danada teno, que descoberto
Me ser sempre o mil a que se atreve."
Isto dizendo, desce ao mar aberto,
No caminho gastando espao breve,
Enquanto manda as Ninfas amorosas
Grinaldas nas cabeas pr de rosas.

87
Grinaldas manda pr de vrias cores
Sobre cabelo; louros  porfia.
Quem no dir que nascem roxas flores
Sobre ouro natural, que Amor enfia?
Abrandar determina, por amores,
Dos ventos a nojosa companhia,
Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
Que mais formosas vinham que as estrelas.

88
Assim foi; porque, tanto que chegaram
A vista delas, logo lhe falecem
As foras com que dantes pelejaram,
E j como rendidos lhe obedecem.
Os ps e mos parece que lhe ataram
Os cabelos que os raios escurecem.
A Breas, que do peito mais queria,
Assim disse a belssima Oritia:

89
"No creias, fero Breas, que te creio
Que me tiveste nunca amor constante,
Que brandura  de amor mais certo arreio,
E no convm furor a firme amante.
Se j no pes a tanta insnia freio,
No esperes de mi, daqui em diante,
Que possa mais amar-te, mas temer-te;
Que amor contigo em medo se converte."

90
Assim mesmo a formosa Galateia
Dizia ao fero Noto, que bem sabe
Que dias h que em v-la se recreia,
E bem cr que com ele tudo acabe.
No sabe o bravo tanto bem se o creia,
Que o corao no peito lhe no cabe,
De contente de ver que a dama o manda,
Pouco cuida que faz, se logo abranda.

91
Desta maneira as outras amansavam
Subitamente os outros amadores;
E logo  linda Vnus se entregavam,
Amansadas as iras e os furores.
Ela lhe prometeu, vendo que amavam,
Sempiterno favor em seus amores,
Nas belas mos tomando-lhe homenagem
De lhe serem leais esta viagem.

92
J a manh clara dava nos outeiros
Por onde o Ganges murmurando soa,
Quando da celsa gvea os marinheiros
Enxergaram terra alta pela proa.
J fora de tormenta, e dos primeiros
Mares, o temor vo do peito voa.
Disse alegre o piloto Melindano:
"Terra  de Calecu, se no me engano.

93
"Esta  por certo a terra que buscais
Da verdadeira ndia, que aparece;
E se do mundo mais no desejais,
Vosso trabalho longo aqui fenece."
Sofrer aqui no pode o Gama mais,
De ledo em ver que a terra se conhece:
Os geolhos no cho, as mos ao cu,
A merc grande a Deus agradeceu.

94
As graas a Deus dava, e razo tinha,
Que no somente a terra lhe mostrava,
Que com tanto temor buscando vinha,
Por quem tanto trabalho experimentava;
Mas via-se livrado to asinha
Da morte, que no mar lhe aparelhava
O vento duro, fervido e medonho,
Como quem despertou de horrendo sonho.

95
Por meio destes hrridos perigos,
Destes trabalhos graves e temores,
Alcanam os que so de fama amigos
As honras imortais e graus maiores:
No encostados sempre nos antigos
Troncos nobres de seus antecessores;
No nos leitos dourados, entre os finos
Animais de Moscvia zebelinos;

96
No com os manjares novos e esquisitos,
No com os passeios moles e ociosos,
No com os vrios deleites e infinitos,
Que afeminam os peitos generosos,
No com os nunca vencidos apetitos
Que a Fortuna tem sempre to mimosos,
Que no sofre a nenhum que o passo mude
Para alguma obra herica de virtude;

97
Mas com buscar com o seu foroso brao
As honras, que ele chame prprias suas;
Vigiando, e vestindo o forjado ao,
Sofrendo tempestades e ondas cruas;
Vencendo os torpes frios no regao
Do Sul e regies de abrigo nuas;
Engolindo o corrupto mantimento,
Temperado com um rduo sofrimento;

98
E com forar o rosto, que se enfia,
A parecer seguro, ledo, inteiro,
Para o pelouro ardente, que assovia
E leva a perna ou brao ao companheiro.
Destarte, o peito um calo honroso cria,
Desprezador das honras e dinheiro,
Das honras e dinheiro, que a ventura
Forjou, e no virtude justa e dura.

99
Destarte se esclarece o entendimento,
Que experincias fazem repousado,
E fica vendo, corno de alto assento,
O baixo trato humano embaraado.
Este, onde tiver fora o regimento
Direito, e no de afeitos ocupado,
Subir (como deve) a ilustre mando,
Contra vontade sua, e no rogando.

Canto Stimo

1
J se viam chegados junto  terra,
Que desejada j de tantos fora,
Que entre as correntes Indicas se encerra,
E o Ganges, que no cu terreno mora.
Ora, sus, gente forte, que na guerra
Quereis levar a palma vencedora,
J sois chegados, j tendes diante
A terra de riquezas abundante.

2
A vs,  gerao de Luso, digo,
Que to pequena parte sois no inundo;
No digo ainda no mundo, mas no amigo
Curral de quem governa o cu rotundo;
Vs, a quem no somente algum perigo
Estorva conquistar o povo imundo,
Mas nem cobia, ou pouca obedincia
Da Madre, que nos cus est em essncia;

3
Vs, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso no pesais;
Vs, que  custa de vossas vrias mortes
A lei da vida eterna dilatais:
Assim do cu deitadas so as sortes,
Que vs, por muito poucos que sejais,
Muito faais na santa Cristandade:
Que tanto,  Cristo, exaltas a humildade!

4
Vede-los Alemes, soberbo gado,
Que por to largos campos se apascenta,
Do sucessor de Pedro, rebelado,
Novo pastor, e nova seita inventa:
Vede-lo em feias guerras ocupado,
Que ainda com o cego error se no contenta,
No contra o soberbssimo Otomano,
Mas por sair do jugo soberano.

5
Vede-lo duro Ingls, que se nomeia
Rei da velha e santssima cidade,
Que o torpe Ismaelita senhoreia,
(Quem viu honra to longe da verdade?)
Entre as Boreais neves se recreia,
Nova maneira faz de Cristandade:
Para os de Cristo tem a espada nua,
No por tomar a terra que era sua.

6
Guarda-lhe por entanto um falso Rei
A cidade Hieroslima terrestre,
Enquanto ele no guarda a santa lei
Da cidade Hieroslima celeste.
Pois de ti, Galo indigno, que direi?
Que o nome Cristianssimo quiseste,
No para defend-lo, nem guard-lo,
Mas para ser contra ele, e derrub-lo!

7
Achas que tens direito em senhorios
De Cristos, sendo o teu to largo e tanto,
E no contra o Cinfio e Nilo, rios
Inimigos do antigo nome santo?
Ali se ho de provar da espada os fios
Em quem quer reprovar da Igreja o canto.
De Carlos, de Lus, o nome e a terra
Herdaste, e as causas no da justa guerra?

8
Pois que direi daqueles que em delcias,
Que o vil cio no mundo traz consigo,
Gastam as vidas, logram as divcias,
Esquecidos de seu valor antigo?
Nascem da tirania inimiccias,
Que o povo forte tem de si inimigo:
Contigo, Itlia, falo, j submersa
Em Vcios mil, e de ti mesma adversa.

9
 mseros Cristos, pela ventura,
Sois os dentes de Cadmo desparzidos,
Que uns aos outros se do a morte dura,
Sendo todos de um ventre produzidos?
No vedes a divina sepultura
Possuda de ces, que sempre unidos
Vos vm tomar a vossa antiga terra,
Fazendo-se famosos pela guerra?

10
Vedes que tm por uso e por decreto,
Do qual so to inteiros observantes,
Ajuntarem o exrcito inquieto
Contra os povos que so de Cristo amantes;
Entre vs nunca deixa a fera Aleto
De semear ciznias repugnantes:
Olhai se estais seguros de perigos,
Que eles e vs sois vossos inimigos.

11
Se cobia de grandes senhorios
Vos faz ir conquistar terras alheias,
No vedes que Pactolo e Hermo, rios,
Ambos volvem aurferas areias?
Em Ldia, Assria, lavram de ouro os fios;
frica esconde em si luzentes veias;
Mova-vos j sequer riqueza tanta,
Pois mover-vos no pode a Casa Santa.

12
Aquelas invenes feras e novas
De instrumentos mortais da artilharia,
J devem de fazer as duras provas
Nos muros de Bizncio e de Turquia.
Fazei que torne l s silvestres covas
Dos Cspios montes, e da Ctia fria
A Turca gerao, que multiplica
Na polcia da vossa Europa rica.

13
Gregos, Traces, Armnios, Georgianos,
Bradando-vos esto que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceptos do Alcoro (duro tributo!)
Em castigar os feitos inumanos
Vos gloriai de peito forte e astuto,
E no queirais louvores arrogantes
De serdes contra os vossos muito possantes.

14
Mas entanto que cegos o sedentos
Andais de vosso sangue,  gente insana!
No faltaro Cristos atrevimentos
Nesta pequena casa Lusitana:
De frica tem martimos assentos,
 na sia mais que todas soberana,
Na quarta parte nova os campos ara,
E se mais mundo houvera, l chegara.

15
E vejamos entanto que acontece
Aqueles to famosos navegantes,
Depois que a branda Vnus enfraquece
O furor vo dos ventos repugnantes:
Depois que a larga terra lhe aparece,
Fim de suas porfias to constantes,
E dar novo costume e novo Rei.

16
Tanto que  nova terra se chegaram,
Leves embarcaes de pescadores
Acharam, que o caminho lhe mostraram
De Calecu, onde eram moradores.
Para l logo as proas se inclinaram,
Porque esta era a cidade das melhores
Do Malabar melhor, onde vivia
O Rei que a terra toda possua.

17
Alm do Indo jaz, e aqum do Gange,
Um terreno muito grande e assaz famoso,
Que pela parte Austral o mar abrange,
E para o Norte o Emdio cavernoso.
Jugo de Reis diversos o constrange
A vrias leis: alguns o vicioso
Mahoma, alguns os dolos adoram,
Alguns os animais, que entre eles morri.

18
L bem no grande monte, que cortando
To larga terra, toda sia discorre,
Que nomes to diversos vai tomando,
Segundo as regies por onde corre,
As fontes saem, donde vm manando
Os rios, cuja gr corrente morre
No mar ndico, e cercam todo o peso
Do terreno, fazendo-o Quersoneso.

19
Entro um e outro rio, em grande espao,
Sai da larga terra uma loira ponta
Quase piramidal, que no regao
Do mar com Ceilo nsula confronta;
E junto donde nasce o largo brao
Gangtico, o rumor antigo conta
Que os vizinhos, da terra moradores,
Do cheiro se mantm das finas flores.

20
Mas agora de nomes e de usana
Novos e vrios so os habitantes:
Os Delis, os Patanes, que em possana
De terra e gente, so mais abundantes;
Decanis, Oris, que a esperana
Tm de sua salvao nas ressonantes
guas do Gange, e a terra de Bengala
Frtil de sorte que outra no lhe iguala.

21
O Reino de Cambaia belicoso
(Dizem que foi de Poro, Rei potente)
O Reino de Narsinga, poderoso
Mais de ouro e pedras que de forte gente.
Aqui se enxerga l do mar undoso
Um monte alto, que corre longamente,
Servindo ao Malabar de forte muro,
Com que do Canar vive seguro.

22
Da terra os naturais lhe chamam Gate,
Do p do qual pequena quantidade
Se estende uma fralda estreita, que combate
Do mar a natural ferocidade.
Aqui de outras cidades, sem debate,
Calecu tem a ilustre dignidade
De cabea de Imprio rica e bela:
Samorim se intitula o senhor dela.

23
Chegada a frota ao rico senhorio,
Um Portugus mandado logo parte
 A fazer sabedor o Rei gentio
Da vinda sua a to remota parte.
Entrando o mensageiro pelo rio,
Que ali nas ondas entra, a no vista arte,
A cor, o gesto estranho, o trajo novo
Fez concorrer a v-lo todo o povo.

24
Entre a gente que a v-lo concorria,
Se chega um Mahometa, que nascido
Fora na regio da Berberia,
L onde fora Anteu obedecido:
Ou pela vizinhana j teria
O Reino Lusitano conhecido,
Ou foi j assinalado de seu ferro:
Fortuna o trouxe a to loiro desterro.

25
Em vendo o mensageiro, com jocundo
Rosto, como quem sabe a lngua Hispana,
Lhe disse: "Quem te trouxe a estoutro mundo,
To longe da tua ptria Lusitana?"
--"Abrindo, lhe responde, o mar profundo,
Por onde nunca veio gente humana,
Vimos buscar do Indo a gro corrente,
Por onde a Lei divina se acrescente."

26
Espantado ficou da gr viagem
O Mouro, que Monaide se chamava,
Ouvindo as opresses que na passagem
Do mar, o Lusitano lhe contava:
Mas vendo enfim que a f ora da mensagem
S para o Rei da terra relevava,
Lhe diz que estava f ora da cidade,
Mas de caminho pouca quantidade.

27
E que, entanto que a nova lhe chegasse
De sua estranha vinda, se queria,
Na sua pobre casa repousasse,
E do manjar da terra comeria,
E depois que se um pouco recreasse,
Com ele para a armada tornaria,
Que alegria no pode ser tamanha,
Que achar gente vizinha em terra estranha.

28
O Portugus aceita de vontade
O que o ledo Monaide lhe oferece;
Como se longa fora j a amizade,
Com ele come, e bebe, e lhe obedece.
Ambos se tornam logo da cidade
Para a frota, que o Mouro bem conhece;
Sobem  capitania; e toda a gente
Monaide recebeu benignamente.

29
O Capito o abraa em cabo ledo,
Ouvindo clara a lngua de Castela;
Junto de si o assenta, e pronto e quedo,
Pela terra pergunta, e cousas dela.
Qual se ajuntava em Rdope o arvoredo,
S por ouvir o amante da donzela
Eurdice, tocando a lira de ouro,
Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.

30
Ele comea: " gente, que a natura
Vizinha fez de meu paterno ninho,
Que destino to grande ou que ventura
Vos trouxe a cometerdes tal caminho?
No  sem causa, no, oculta e escura,
Vir do longnquo Tejo e ignoto Minho,
Por mares nunca doutro lenho arados,
A Reinos to remotos e apartados.

31
"Deus por certo vos traz, porque pretende
Algum servio seu por vs obrado;
Por isso s vos guia, e vos defende
Dos inimigos, do mar, do vento irado.
Sabei que estais na ndia, onde se estende
Diverso povo, rico e prosperado
De ouro luzente e fina pedraria,
Cheiro suave, ardente especiaria.

32
"Esta provncia, cujo porto agora
Tomado tendes, Malabar se chama:
Do culto antigo os dolos adora,
Que c por estas partes se derrama:
De diversos Reis , mas dum s
Noutro tempo, segundo a antiga fama;
Saram Perimal foi derradeiro
Rei, que este Reino teve unido e inteiro.

33
"Porm, como a esta terra ento viessem
De l do seio Arbico outras gentes,
Que o culto Mahomtico trouxessem,
No qual me instituram meus parentes,
Sucedeu que pregando convertessem
O Perimal: de sbios e eloquentes,
Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,
Que pressups de nela morrer santo.

34
"Naus arma, e nelas mete curioso
Mercadoria, que oferea rica,
Para ir nelas a ser religioso,
Onde o profeta jaz, que a Lei publica;
Antes que parta, o Reino poderoso
Com os seus reparte, porque no lhe fica
Herdeiro prprio, faz os mais aceitos
Ricos de pobres, livres de sujeitos.

35
"A um Cochim, e a outro Cananor,
A qual Chal, a qual a ilha da Pimenta,
A qual Coulo, a qual d Cranganor,
E os mais, a quem o mais serve e contenta,
Um s moo, a quem tinha muito amor,
Depois que tudo deu, se lhe apresenta:
Para este Calecu somente fica,
Cidade j por trato nobre e rica.

36
"Esta lhe d com o ttulo excelente
De Imperador, que sobre os outros mande.
Isto feito, se parte diligente
Para onde em santa vida acabe, e ande.
E daqui fica o nome de potente
Samori, mais que todos digno e grande,
Ao moo e descendentes; donde vem
Este, que agora o Imprio manda e tem.

37
"A Lei da gente toda, rica e pobre,
De fbulas composta se imagina:
Andam nus, e somente um pano cobre
As partes, que a cobrir natura ensina.
Dois modos h de gente, porque a nobre
Naires chamados so, e a menos digna
Poles tem por nome, a quem obriga
A Lei no misturar a casta antiga.

38
"Porque os que usaram sempre um mesmo ofcio,
De outro no podem receber consorte,
Nem os filhos tero outro exerccio,
Seno o de seus passados, at morte.
Para os Naires  certo grande vcio
Destes serem tocados; de tal sorte,
Que quando algum se toca, por ventura,
Com cerimnias mil se alimpa e apura.

39
"Desta sorte o Judaico povo antigo
No tocava na gente de Samria.
Mais estranhezas ainda das que digo
Nesta terra vereis de usana vria.
Os Naires ss so dados ao perigo
Das armas; ss defendem da contrria
Banda o seu Rei, trazendo sempre usada
Na esquerda a adarga e na direita a espada.

40
"Brmenes so os seus religiosos,
Nome antigo e de grande proeminncia:
Observam os preceitos to famosos
Dum que primeiro ps nome  cincia:
No matam coisa viva, e, temerosos,
Das carnes tm grandssima abstinncia;
Somente no venreo ajuntamento
Tm mais licena e menos regimento.

41
"Gerais so as mulheres, mas somente
Para os da gerao de seus maridos:
Ditosa condio, ditosa gente,
Que no so de cimes ofendidos!
Estes e outros costumes variamente
So pelos Malabares admitidos.
A terra  grossa em trato, em tudo aquilo
Que as ondas podem dar da China ao Nilo."

42
Assim contava o Mouro; mas vagando
Andava a fama j pela cidade
Da vinda desta gente estranha, quando
O Rei saber mandava da verdade.
J vinham pelas ruas caminhando,
Rodeados de todo sexo e idade,
Os principais, que o Rei buscar mandara
O Capito da armada, que chegara.

43
Mas ele, que do Rei j tem licena
Para desembarcar, acompanhado
Dos nobres Portugueses, sem detena
Parte, de ricos panos adornado.
Das cores a formosa diferena
A vista alegra ao povo alvoroado.
O remo compassado fere frio
Agora o mar, depois o fresco rio.

44
Na praia um regedor do Reino estava,
Que na sua lngua Catual se chama,
Rodeado de Naires, que esperava
Com desusada festa o nobre Gama.
J na terra, nos braos o levava,
E num porttil leito uma rica cama
Lhe oferece, em que v, costume usado,
Que nos ombros dos homens  levado.

45
Desta arte o Malabar, destarte o Luso
Caminham, l para onde o Rei o espera:
Os outros Portugueses vo ao uso
Que infantaria segue, esquadra fera.
O povo que concorre vai confuso
De ver a gente estranha, e bem quisera
Perguntar: mas no tempo j passado
Na torre de Babel lhe foi vedado.

46
O Gama e o Catual iam falando
Nas coisas, que lhe o tempo oferecia;
Monaide entre eles vai interpretando
As palavras que de ambos entendia.
Assim pela cidade caminhando,
Onde uma rica fbrica se erguia
De um sumptuoso templo, j chegavam,
Pelas portas do qual juntos entravam.

47
Ali esto das deidades as figuras
Esculpidas em pau e em pedra fria;
Vrios de gestos, vrios de pinturas,
A segundo o Demnio lhe fingia:
Vem-se as abominveis esculturas,
Qual a Quimera em membros se varia:
Os Cristos olhos, a ver Deus usados
Em forma humana, esto maravilhados.

48
Um na cabea cornos esculpidos,
Qual Jpiter Amon em Lbia estava;
Outro num corpo rostos tinha unidos,
Bem como o antigo Jano se pintava;
Outro com muitos braos divididos
A Briareu parece que imitava;
Outro fronte canina tem de fora,
Qual Anbis Menftico se adora.

49
Aqui feita do brbaro gentio
A supersticiosa adorao,
Direitos vo, sem outro algum desvio,
Para onde estava o Rei do povo vo.
Engrossando-se vai da gente o fio,
Com os que vm ver o estranho Capito;
Esto pelos telhados e janelas
Velhos e moos, donas e donzelas.

50
J chegam perto, e no com passos lentos,
Dos jardins odorferos formosos,
Que em si escondem os rgios aposentos,
Altos de torres no, mas sumptuosos.
Edificam-se os nobres seus assentos
Por entre os arvoredos deleitosos:
Assim vivem os Reis daquela gente,
No campo e na cidade juntamente.

51
Pelos portais da cerca a sutileza
Se enxerga da Dedlea facultade,
Em figuras mostrando, por nobreza,
Da ndia a mais remota antiguidade.
Afiguradas vo com tal viveza
As histrias daquela antiga idade,
Que quem delas tiver notcia inteira,
Pela sombra conhece a verdadeira.

52
Estava um grande exrcito que pisa
A terra Oriental, que o Idaspe lava;
Rege-o um capito de fronte lisa,
Que com frondentes tirsos pelejava;
Por ele edificada estiva Nisa
Nas ribeiras do rio, que manava,
To prprio, que se ali estiver Semele,
Dir, por certo, que  seu filho aquele.

53
Mais avante bebendo seca o rio
Mui grande multido da Assria gente,
Sujeita a feminino senhorio
De uma to bela como incontinente.
Ali tem junto ao lado nunca frio,
Esculpido o feroz ginete ardente,
Com quem teria o filho competncia:
Amor nefando, bruta incontinncia!

54
Daqui mais apartadas tremulavam
As bandeiras de Grcia gloriosas,
Terceira Monarquia, e sojugavam
At as guas Gangticas undosas.
Dum capito mancebo se guiavam,
De palmas rodeado valerosas,
Que j, no de Filipo, mas sem falta
De prognie de Jpiter se exalta.

55
Os Portugueses vendo estas memrias,
Dizia o Catual ao Capito:
"Tempo cedo vir que outras vitrias
Estas, que agora olhais, abatero;
Aqui se escrevero novas histrias
Por gentes estrangeiras que viro;
Que os nossos sbios magos o alcanaram
Quando o tempo futuro especularam.

56
"E diz-lhe mais a mgica cincia
Que, para se evitar fora tamanha,
No valer dos homens resistncia,
Que contra o Cu no val da gente manha;
Mas tambm diz que a blica excelncia,
Nas armas e na paz, da gente estranha
Ser tal, que ser no mundo ouvido
O vencedor, por glria do vencido,"

57
Assim falando entravam j na sala,
Onde aquele potente Imperador
Numa camilha jaz, que no se iguala
De outra alguma no preo e no lavor.
No recostado gesto se assinala
Um venerando e prspero senhor;
Um pano de ouro cinge, e na cabea
De preciosas gemas se aderea.

58
Bem junto dele um velho reverente,
Com os giolhos no cho, de quando em quando
Lhe dava a verde folha da erva ardente,
Que a seu costume estava ruminando.
Um Brmene, pessoa proeminente,
Para o Gama vem com passo brando,
Para que ao grande Prncipe o apresente,
Que diante lhe acena que se assente.

59
Sentado o Gama junto ao rico leito,
Os seus mais afastados, pronto em vista
Estava o Samori no trajo e jeito
Da gente, nunca de antes dele vista.
Lanando a grave voz do sbio peito,
Que grande autoridade logo aquista
Na opinio do Rei e do povo todo,
O Capito lhe fala deste modo:

60
"Um grande Rei, de l das partes Onde
O cu volvel, com perptua roda,
Da terra a luz solar com a terra esconde,
Tingindo a que deixou de escura noda,
Ouvindo do rumor que l responde
O eco, como em ti da ndia toda
O principado est, e a majestade,
Vnculo quer contigo de amizade.

61
"E por longos rodeios a ti manda,
Por te fazer saber que tudo aquilo
Que sobre o mar, que sobre as terras anda
De riquezas, de l do Tejo ao Nilo,
E desde a fria plaga de Gelanda
At bem donde o Sol no muda o estilo
Nos dias, sobre a gente de Etipia,
Tudo tem no seu Reino em grande cpia.

62
"E se queres com pactos e alianas
De paz e de amizade sacra e nua
Comrcio consentir das abastanas
Das fazendas da terra sua e tua,
Por que cresam as rendas e abastanas,
Por quem a gente mais trabalha e sua,
De vossos Reinos, ser certamente
De ti proveito, o dele glria ingente.

63
"E sendo assim, que o n desta amizade
Entre vs firmemente permanea,
Estar pronto a toda adversidade,
Que por guerra a teu Reino se oferea,
Com gente, armas e naus, de qualidade
Que por irmo te tenha e te conhea;
E da vontade em ti sobre isto posta
Me ds a mim certssima resposta."

64
Tal embaixada dava o Capito,
A quem o Rei gentio respondia
Que, em ver embaixadores de nao
To remota, gr glria recebia;
Mas neste caso a ltima teno
Com os de seu conselho tomaria,
Informando-se certo de quem era
O Rei, e a gente, e terra que dissera..

65
E que entanto podia do trabalho
Passado ir repousar, e em tempo breve
Daria a seu despacho um justo talho,
Com que a seu Rei resposta alegre leve.
J nisto punha a noite o usado atalho
As humanas canseiras, por que ceve
De doce sono os membros trabalhados,
Os olhos ocupando ao cio dados.

66
Agasalhados foram juntamente
O Gama e Portugueses no aposento
Do nobre Regedor da ndica gente,
Com festas e geral contentamento.
O Catual, no cargo diligente
De seu Rei, tinha j por regimento
Saber da gente estranha donde vinha,
Que costumes, que lei, que terra tinha.

67
Tanto que os gneos carros do formoso
Mancebo Dlio viu, que a luz renova,
Manda chamar Monaide, desejoso
De poder-se informar da gente nova.
J lhe pergunta pronto e curioso,
Se tem notcia inteira e certa prova
Dos estranhos, quem so; que ouvido tinha
Que  gente de sua ptria muito vizinha;

68
Que particularmente ali lhe desse
Informao mui larga, pois faria
Nisso servio ao Rei, por que soubesse
O que neste negcio se faria.
Monaide torna:--"Posto que eu quisesse
Dizer-te disto mais, no saberia;
Somente sei que  gente l de Espanha,
Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.

69
"Tm a lei dum Profeta, que gerado
Foi sem fazer na carne detrimento
Da me, tal que por bafo est aprovado
Do Deus, que tem do mundo o regimento,
O que entre meus antigos  vulgado
Deles,  que o valor sanguinolento
Das armas no seu brao resplandece,
O que em nossos passados se parece.

70
"Porque eles, com virtude sobre-humana,
Os deitaram dos campos abundosos
Do rico Tejo e fresco Goadiana,
Com feitos memorveis e famosos:
E no contentes ainda, e na Africana
Parte, cortando os mares procelosos,
Nos no querem deixar viver seguros,
Tomando-nos cidades e altos muros.

71
"No menos tm mostrado esforo e manha
Em quaisquer outras guerras que aconteas,
Ou das gentes belgeras de Espanha,
Ou l dalguns que do Prene desam.
Assim que nunca enfim com lana estranha
Se tem, que por vencidos se conheam,
Nem se sabe ainda, no, te afirmo e asselo,
Para estes Anibais nenhum Marcelo.

72
"E se esta informao no for inteira
Tanto quanto convm, deles pretende
Informar-te, que  gente verdadeira,
A quem mais falsidade enoja e ofende:
Vai ver-lhe a f rota, as armas e a maneira
Do fundido metal, que tudo rende,
E folgars de veres a polcia
Portuguesa na paz e na milcia."

73
J com desejos o Idolatra ardia
De ver isto, que o Mouro lhe contava.
Manda esquipar batis que ir ver queria
Os lenhos em que o Gama navegava.
Ambos partem da praia, a quem seguia
A Naira gerao, que o mar coalhava.
A capitania sobem forte e bela,
Onde Paulo os recebe a bordo dela.

74
Purpreos so os toldos, e as bandeiras
Do rico fio so que o bicho gera;
Nelas esto pintadas as guerreiras
Obras, que o forte brao j fizera:
Batalhas tem campais, aventureiras,
Desafios cruis, pintura fera,
Que, tanto que ao Gentio se apresenta,
A tento nela os olhos apascenta.

75
Pelo que v pergunta; mas o Gama
Lhe pedia primeiro que se assente,
E que aquele deleite, que tanto ama
A seita Epicureia, experimente.
Dos espumantes vasos se derrama
O licor que No mostrara  gente:
Mas comer o Gentio no pretende,
Que a seita que seguia lho defende.

76
A trombeta que, em paz, no pensamento
Imagem faz de guerra, rompe os ares;
Com o fogo o diablico instrumento
Se faz ouvir no fundo l dos mares.
Tudo o Gentio nota; mas o intento
Mostrava sempre ter nos singulares
Feitos dos homens, que em retrato breve
A muda poesia ali descreve

77
Ala-se em p, com ele o Gama junto,
Coelho de outra parti, e o Mauritano;
Os olhos pe no blico transunto
De um velho branco, aspecto venerando
Cujo nome no pode ser defunto
Enquanto houver no mundo trato humano:
No trajo a Grega usana est perfeita,
Um ramo por insgnia na direita.

78
Um ramo na mo tinha... Mas,  cego!
Eu, que cometo insano e temerrio,
Sem vs, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho to rduo, longo e vrio!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento to contrrio,
Que, se no me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

79
Olhai que h tanto tempo que, cantando
O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
A fortuna mo traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo, e novos danos:
Agora o mar, agora experimentando
Os perigos Mavrcios inumanos,
Qual Canace, que  morte se condena,
Numa mo sempre a espada, e noutra a pena.

80
Agora, com pobreza avorrecida,
Por hospcios alheios degradado;
Agora, da esperana j adquirida,
De novo, mais que nunca, derribado;
Agora s costas escapando a vida,
Que dum fio pendia to delgado
Que no menos milagre foi salvar-se
Que para o Rei Judaico acrescentar-se.

81
E ainda, Ninfas minhas, no bastava
Que tamanhas misrias me cercassem,
Seno que aqueles, que eu cantando andava
Tal prmio de meus versos me tornassem:
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em to duro estado me deitaram.

82
Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valorosos,
Que assim sabem prezar com tais favores
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Para espertar engenhos curiosos,
Para porem as coisas em memria,
Que merecerem ter eterna glria!

83
Pois logo em tantos males  forado,
Que s vosso favor me no falea,
Principalmente aqui, que sou chegado
Onde feitos diversos engrandea:
Dai-mo vs ss, que eu tenho j jurado
Que no o empregue em quem o no merea,
Nem por lisonja louve algum subido,
Sob pena de no ser agradecido.

84
Nem creiais, Ninfas, no, que a fama desse
A quem ao bem comum e do seu Rei
Antepuser seu prprio interesse,
Inimigo da divina e humana Lei.
Nenhum ambicioso, que quisesse
Subir a grandes cargos, cantarei,
S por poder com torpes exerccios
Usar mais largamente de seus vcios;

85
Nenhum que use de seu poder bastante,
Para servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.
Nem, Camenas, tambm cuideis que canto
Quem, com hbito honesto e grave, veio,
Por contentar ao Rei no ofcio novo,
A despir e roubar o pobre povo.

86
Nem quem acha que  justo e que  direito
Guardar-se a lei do Rei severamente,
E no acha que  justo e bom respeito,
Que se pague o suor da servil gente;
Nem quem sempre, com pouco experto peito,
Razes aprende, e cuida que  prudente,
Para taxar, com mo rapace e escassa,
Os trabalhos alheios, que no passa.

87
Aqueles ss direi, que aventuraram
Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,
To bem de suas obras merecida.
Apolo, e as Musas que me acompanharam,
Me dobraro a fria concedida,
Enquanto eu tomo alento descansado,
Por tornar ao trabalho, mais folgado.

Canto Oitavo

1
Na primeira figura se detinha
O Catual que vira estar pintada,
Que por divisa um ramo na mo tinha,
A barba branca, longa e penteada:
"Quem era, e por que causa lhe convinha
A divisa, que tem na mo tomada?"
Paulo responde, cuja voz discreta
O Mauritano sbio lhe interpreta.

2
"Estas figuras todas que aparecem,
Bravos em vista e feros nos aspectos,
Mais bravos e mais feros se conhecem,
Pela fama, nas obras e nos feitos:
Antigos so, mas ainda resplandecem
Colo nome, entre os engenhos mais perfeito
Este que vs  Luso, donde a fama
O nosso Reino Lusitnia chama.

3
"Foi filho e companheiro do Tebano,
Que to diversas partes conquistou;
Parece vindo ter ao ninho Hispano
Seguindo as armas, que contino usou;
Do Douro o Guadiana o campo ufano,
J dito Elsio, tanto o contentou,
Que ali quis dar aos j cansados ossos
Eterna sepultura, e nome aos nossos.

4
"O ramo que lhe vs para divisa,
O verde tirso foi de Baco usado;
O qual  nossa idade amostra e avisa
Que foi seu companheiro e filho amido.
Vs outro, que do Tejo a terra pisa,
Depois de ter to longo mar arado,
Onde muros perptuos edifica,
E templo a Palas, que em memria fica?

5
"Ulisses  o que faz a santa casa
A Deusa, que lhe d lngua facunda;
Que, se l na sia Tria insigne abrasa,
C na Europa Lisboa ingente funda."
--"Quem ser estoutro c, que o campo arrasa
De mortos, com presena furibunda?
Grandes batalhas tem desbaratadas,
Que as guias nas bandeiras tem pintadas."

6
Assim o Gentio diz. Responde o Gama:
--"Este que vs, pastor j foi de gado;
Viriato sabemos que se chama,
Destro na lana mais que no cajado;
Injuriada tem de Roma a f ama,
Vencedor invencvel afamado;
No tem com ele, no, nem ter puderam
O primor que com Pirro j tiveram.

7
"Com fora, no; com manha vergonhosa,
A vida lhe tiraram que os espanta:
Que o grande aperto, em gente ainda que honrosa,
As vezes leis magnnimas quebranta.
Outro est aqui que, contra a ptria irosa,
Degradado, conosco se alevanta:
Escolheu bem com quem se alevantasse,
Para que eternamente se ilustrasse.

8
"Vs? conosco tambm vence as bandeiras
Dessas aves de Jpiter validas;
Que j naquele tempo as mais Guerreiras
Gentes de ns souberam ser vencidas.
Olha to subtis artes e maneiras,
Para adquirir os povos, to fingidas,
A fatdica Cerva que o avisa:
Ele  Sertrio, e ela a sua divisa.

9
"Olha estoutra bandeira, e v pintado
O gr progenitor dos Reis primeiros.
Ns ngaro o fazemos, porm nado
Crem ser em Lotarngia os estrangeiros.
Depois de ter com os Mouros superado,
Galegos e Leoneses cavaleiros,
A casa Santa passa o santo Henrique,
Por que o tronco dos Reis se santifique."

10
"Quem , me diz, este outro que me espanta,
(Pergunta o Malabar maravilhado)
Que tantos esquadres, que gente tanta,
Com to pouca, tem roto e destroado?
Tantos muros asprrimos quebranta,
Tantas batalhas d, nunca cansado,
Tantas coroas tem por tantas partes
A seus ps derribadas, e estandartes!"

11
--"Este  o primeiro Afonso, disse o Gama,
Que todo Portugal aos Mouros toma;
Por quem, no Estgio lago, jura a Fama
De mais no celebrar nenhum de Roma.
Este  aquele zeloso a quem Deus ama,
Com cujo brao o Mouro inimigo doma,
Para quem de seu Reino abaixa os muros,
Nada deixando j para os futuros,

12
"Se Csar, se Alexandre Rei, tiveram
To pequeno poder, to pouca gente,
Contra tantos inimigos quantos eram
Os que desbaratava este excelente,
No creias que seus nomes se estendera
Com glrias imortais to largamente;
Mas deixa os feitos seus inexplicveis,
V que os de seus vassalos so notveis.

13
"Este que vs olhar com gesto irado
Para o rompido aluno mal sofrido,
Dizendo-lhe que o exrcito espalhado
Recolha, e torne ao campo defendido;
Torna o moo do velho acompanhado,
Que vencedor o torna de vencido:
Egas Moniz se chama o forte velho,
Para leais vassalos claro espelho.

14
"V-lo c vai com os filhos a entregar-se,
A corda ao colo, nu de seda e pano,
Porque no quis o moo sujeitar-se,
Como ele prometera, ao Castelhano.
Fez com siso e promessas levantar-se
O cerco, que j estava soberano;
Os filhos e mulher obriga  pena:
Para que o senhor salve, a si condena.

15
"No fez o Cnsul tanto, que cercado
Foi nas foras Caudinas, de ignorante,
Quando a passar por baixo foi forado
Do Samntico jugo triunfante.
Este, pelo seu povo injuriado,
A si se entrega s, firme e constante;
Estoutro a si, e os filhos naturais,
E a consorte sem culpa, que di mais.

16
"Vs este que, saindo da cilada,
D sobre o Rei que cerca a vila forte?
J o Rei tem preso e a vila descercada:
Ilustre feito, digno de Mavorte!
V-lo c vai pintado nesta armada,
No mar tambm aos Mouros dando a morto,
Tomando-lhe as gals, levando a glria
Da primeira martima vitria.

17
", Dom Fuas Roupinho, que na terra
E no mar resplandece juntamente,
Com o fogo que acendeu junto da serra
De Abila, nas gals da Maura gente.
Olha como, em to justa e santa guerra,
De acabar pelejando est contente:
Das mos dos Mouros entra a feliz alma,
Triunfando, nos cus, com justa palma.

18
"No vs um ajuntamento, de estrangeiro
Trajo, sair da grande armada nova,
Que ajuda a combater o Rei primeiro
Lisboa, de si dando santa prova?
Olha Henrique, famoso cavaleiro,
A palma que lhe nasce junto  cova.
Por eles mostra Deus milagre visto:
Germanos so os mrtires de Cristo.

19
"Um Sacerdote v brandindo a espada
Contra Arronches, que toma, por vingana
De Leiria, que de antes foi tomada
Por quem por Mafamede enresta a lana:
 Teotnio, Prior. Mas v cercada
Santarm, e vers a segurana
Da figura nos muros, que primeira
Subindo, ergueu das Quinis a bandeira.

20
"V-lo c, donde Sancho desbarata
Os Mouros de Vandlia em fera guerra;
Os inimigos rompendo, o alferes mata
E o Hisplico pendo derriba em terra:
Mem Moniz , que em si o valor retrata,
Que o sepulcro do pai com os ossos cerra,
Digno destas bandeiras, pois sem falta
A contrria derriba e a sua exalta.

21
"Olha aquele que desce pela lana?
Com as duas cabeas dos vigias,
Onde a cilada esconde, com que alcana
A cidade por manhas e ousadias.
Ela por armas toma a semelhana
Do cavaleiro, que as cabeas frias
Na mo levava (feito nunca feito!)
Giraldo Sem-pavor  o forte peito.

22
"No vs um Castelhano, que agravado
De Afonso nono rei, pelo dio antigo
Dos de Lara, com os Mouros  deitado,
De Portugal fazendo-se inimigo?
Abrantes vila toma, acompanhado
Dos duros infiis que traz consigo.
Mas v que um Portugus com pouca gente
O desbarata e o prende ousadamente.

23
"Martim Lopes se chama o cavaleiro,
Que destes levar pode a palma e o louro.
Mas olha um Eclesistico guerreiro,
Que em lana de ao torna o Bago de ouro.
V-lo entre os duvidosos to inteiro
Em no negar batalha ao bravo Mouro;
Olha o sinal no cu que lhe aparece,
Com que nos poucos seus o esforo cresce.

24
"Vs? vo os Reis de Crdova e Sevilha
Rotos, com os outros dois, e no de espao.
Rotos? mas antes mortos, maravilha
Feita de Deus, que no de humano brao.
Vs? j a vila de Alcare se humilha,
Sem lhe valer defesa, ou muro de ao,
A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,
Que a coroa da palma ali coroa.

25
"Olha um Mestre que desce de Castela,
Portugus de nao, como conquista
A terra dos Algarves, e j nela
No acha quem por armas lhe resista;
Com manha, esforo, e com benigna estrela,
Vilas, castelos toma  escala vista.
Vs Tavila tomada aos moradores,
Em vingana dos sete caadores!

26
"Vs? com blica astcia ao Mouro ganha
Silves, que ele ganhou com fora ingente:
 Dom Paio Correia, cuja manha
E grande esforo faz inveja  gente.
Mas no passes os trs que em Frana e Espanha
Se fazem conhecer perpetuamente
Em desafios, justas e torneios,
Nelas deixando pblicos trofus.

27
"V-los, com o nome vm de aventureiros
A Castela, onde o preo ss levaram
Dos jogos de Belona verdadeiros,
Que com dano de alguns se exercitaram.
V mortos os soberbos cavaleiros,
Que o principal dos trs desafiaram,
Que Gonalo Ribeiro se nomeia,
Que pode no temer a lei Leteia.

28
"Atenta num, que a fama tanto estende,
Que de nenhum passado se contenta;
Que a ptria, que de um fraco fio pende,
Sobre seus duros ombros a sustenta.
No no vs tinto de ira, que reprende
A vil desconfiana inerte e lenta
Do povo, e faz que tome o doce freio
De Rei seu natural, e no de alheio?

29
"Olha: por seu conselho e ousadia
De Deus guiada s, e de santa estrela,
S pode o que impossvel parecia:
Vencer o povo ingente de Castela.
Vs, por indstria, esforo e valentia,
Outro estrago e vitria clara e bela,
Na gente, assim feroz como infinita,
Que entre o Tarteso e Goadiana habita?

30
"Mas no vs quase j desbaratado
O poder Lusitano, pela ausncia
Do Capito devoto, que, apartado
Orando invoca a suma e trina Essncia?
V-lo com pressa j dos seus achado,
Que lhe dizem que falta resistncia
Contra poder tamanho, e que viesse,
Por que consigo esforo aos fracos desse?

31
"Mas olha com que santa confiana,
--Que inda no era tempo,--respondia,
Como quem tinha em Deus a seguraria
Da vitria que logo lhe daria.
Assim Pomplio, ouvindo que a possana
Dos inimigos a terra lhe corria,
A quem lhe a dura nova estava dando,
-"Pois eu, responde, estou sacrificando."--

32
"Se quem com tanto esforo em Deus se atreve,
Ouvir quiseres como se nomeia,
Portugus Cipio chamar-se deve;
Mas mais de Dom Nuno Alvares se arreia:
Ditosa ptria que tal filho teve!
Mas antes pai, que enquanto o Sol rodeia
Este globo de Ceres e Netuno,
Sempre suspirar por tal aluno.

33
"Na mesma guerra v que presas ganha
Estoutro Capito de pouca gente;
Comendadores vence e o gado apanha,
Que levavam roubado ousadamente.
Outra vez v que a lana em sangue banha
Destes, s por livrar com o amor ardente
O preso amigo, preso por leal:
Pro Rodrigues  do Landroal.

34
"Olha este desleal o como paga
O perjrio que fez e vil engano:
Gil Fernandes  de Elvas quem o estraga,
E faz vir a passar o ltimo dano:
De Xerez rouba o campo, e quase alaga
Com o sangue de seus donos Castelhano.
Mas olha Rui Pereira, que com o rosto
Faz escudo s gals, diante posto.

35
"Olha que dezessete Lusitanos,
Neste outeiro subidos se defendem,
Fortes, de quatrocentos Castelhanos,
Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
Porm logo sentiram, com seus danos,
Que no s se defendem, mas ofendem:
Digno feito de ser no mundo eterno,
Grande no tempo antigo e no moderno.

36
"Sabe-se antigamente que trezentos
J contra mil Romanos pelejaram,
No tempo que os viris atrevimentos
De Viriato tanto se ilustraram,
E deles alcanando vencimentos
Memorveis, de herana nos deixaram
Que os muitos, por ser poucos, no temamos:
O que depois mil vezes amestramos.

37
"Olha c dois infantes, Pedro e Henrique,
Prognie generosa de Joane:
Aquele faz que fama ilustre fique
Dele em Germnia, com que a morte engane;
Este, que ela nos mares o publique
Por seu descobridor, e desengane
De Ceita a Maura tmida vaidade,
Primeiro entrando as portas da cidade.

38
"Vs o conde Dom Pedro, que sustenta
Dois cercos contra toda a Barbaria?
Vs, outro Conde est, que representa
Em terra Marte, em foras e ousadia;
De poder defender se no contenta
Alccere da ingente companhia;
Mas do seu Rei defende a cara vida,
Pondo por muro a sua, ali perdida.

39
"Outros muitos verias, que os pintores
Aqui tambm por certo pintariam;
Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores,
Honra, prmio, favor, que as artes criam:
Culpa dos viciosos sucessores,
Que degeneram, certo, e se desviam
Do lustre e do valor dos seus passados,
Em gostos e vaidades atolados.

40
"Aqueles pais ilustres que j deram
Princpio  gerao que deles pende,
Pela virtude muito ento fizeram,
E por deixar a casa, que descende.
Cegos, que dos trabalhos que tiveram,
Se alta fama e rumor deles se estende,
Escuros deixam sempre seus menores,
Com lhe deixar descansos corruptores.

41
"Outros tambm h grandes e abastados,
Sem nenhum tronco ilustre donde venham;
Culpa de Reis, que s vezes a privados
Do mais que a mil, que esforo e saber tenham.
Estes os seus no querem ver pintados,
Crendo que cores vs lhe no convenham,
E, como a seu contrairo natural,
A pintura, que fala, querem mal.

42
"No nego que h contudo descendentes
Do generoso tronco, e casa rica,
Que com costumes altos e excelentes,
Sustentam a nobreza que lhe fica;
E se a luz dos antigos seus parentes
Neles mais o valor no clarifica,
No falta ao menos, nem se faz escura.
Mas destes acha poucos a pintura."

43
Assim est declarando os grandes feitos
O Gama, que ali mostra a vria tinta,
Que a douta mo to claros, to perfeitos,
Do singular artfice ali pinta.
Os olhos tinha prontos e direitos
O Catual na histria bem distinta;
Mil vezes perguntava e mil ouvia
As gostosas batalhas que ali via.

44
Mas j a luz se mostrava duvidosa,
Porque a a lmpada grande se escondia
Debaixo do Horizonte e luminosa
Levava aos Antpodas o dia,
Quando o Gentio e a gente generosa
Dos Naires da nau forte se partia
A buscar o repouso que descansa
Os lassos animais, na noite mansa.

45
Entretanto os Arspices famosos
Na falsa opinio, que em sacrifcios
Antevem sempre os casos duvidosos,
Por sinais diablicos e indcios,
Mandados do Rei prprio, estudiosos
Exercitavam a arte e seus ofcios
Sobre esta vinda desta gente estranha,
Que s suas terras vem da ignota Espanha.

46
Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,
De como a nova gente lhe seria
Jugo perptuo, eterno cativeiro,
Destruio de gente, e de valia.
Vai-se espantado o atnito agoureiro
Dizer ao Rei (segundo o que entendia)
Os sinais temerosos que alcanara
Nas entranhas das vtimas que olhara.

47
A isto mais se ajunta que um devoto
Sacerdote da lei de Mafamede,
Dos dios concebidos no remoto
Contra a divina F, que tudo excede,
Em forma do Profeta falso e noto,
Que do filho da escrava Agar procede,
Baco odioso em sonhos lhe aparece,
Que de seus dios ainda se no desse.

48
E diz-lhe assim: "Guardai-vos, gente minha,
Do mal que se aparelha pelo inimigo
Que pelas guas midas caminha,
Antes que esteis mais perto do perigo."
Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,
Espantado do sonho; mas consigo
Cuida que no  mais que sonho usado:
Torna a dormir quieto e sossegado.

49
Torna Baco, dizendo: "No conheces
O gr legislador que a teus passados
Tem mostrado o preceito a que obedeces,
Sem o qual freis muitos batizados?
Eu por ti, rudo, velo; e tu adormeces!
Pois sabers que aqueles, que chegados
De novo so, sero muito grande dano
Da lei que eu dei ao nscio povo humano.

50
"Enquanto  fraca a fora desta gente,
Ordena como em tudo se resista,
Porque, quando o Sol sai, facilmente
Se pode nele pr a aguda vista;
Porm, depois que sobe claro e ardente,
Se agudeza dos olhos o conquista,
To cega fica, quanto ficareis,
Se razes criar lhe no tolheis."

51
Isto dito, ele e o sono se despede.
Tremendo fica o atnito Agareno:
Salta da cama, lume ao servos pede,
Lavrando nele o fervido veneno.
Tanto que a nova luz que ao Sol precede
Mostrara rosto anglico e sereno,
Convoca os principais da torpe seita,
Aos quais do que sonhou d conta estreita.

52
Diversos pareceres e contrrios
Ali se do, segundo o que entendiam;
Astutas traies, enganos vrios,
Perfdias inventavam e teciam.
Mas, deixando conselhos temerrios,
Destruio da gente pretendiam,
Por manhas mais subtis e ardis melhores,
Com peitas adquirindo os regedores;

53
Com peitas, ouro, e ddivas secretas
Conciliam da terra os principais,
E com razes notveis e discretas
Mostram ser perdio dos naturais,
Dizendo que so gentes inquietas,
Que, os mares discorrendo ocidentais,
Vivem s de pirticas rapinas,
Sem Rei, sem leis humanas ou divinas

54
 quanto deve o Rei que bem governa,
De olhar que os conselheiros, ou privados,
De conscincia e de virtude interna
E de sincero amor sejam dotados!
Porque, como este posto na suprema
Cadeira, pode mal dos apartados
Negcios ter notcia mais inteira,
Do que lhe der a lngua conselheira.

55
Nem to pouco direi que tome tanto
Em grosso a conscincia limpa e certa,
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambio acaso ande encoberta.
E quando um bom em tudo  justo e santo,
Em negcios do mundo pouco acerta,
Que mal com eles poder ter conta
A quieta inocncia, em s Deus pronta.

56
Mas aqueles avaros Catuais,
Que o Gentlico povo governavam,
Induzidos das gentes infernais,
O Portugus despacho dilatavam.
Mas o Gama, que no pretende mais,
De tudo quanto os Mouros ordenavam,
Que levar a seu Rei um sinal certo
Do mundo, que deixava descoberto.

57
Nisto trabalha s; que bem sabia
Que depois que levasse esta certeza,
Armas, o naus, e gente mandaria
Manuel, que exercita a suma alteza,
Com que a seu jugo e lei someteria
Das terras e do mar a redondeza;
Que ele no era mais que um diligente
Descobridor das terras do Oriente.

58
Falar ao Rei gentio determina,
Por que com seu despacho se tornasse,
Que j sentia em tudo da malina
Gente impedir-se quanto desejasse.
O Rei, que da notcia falsa e indina
No era de espantar se se espantasse,
Que to crdulo era em seus agouros,
E mais sendo afirmados pelos Mouros,

59
Este temor lhe esfria o baixo peito.
Por outra parte a fora da cobia,
A quem por natureza est sujeito,
Um desejo imortal lhe acende e atia:
Que bem v que grandssimo proveito
Far, se com verdade e com justia
O contrato fizer por longos anos,
Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.

60
Sobre isto, nos conselhos que tomava,
Achava muito contrrios pareceres;
Que naqueles com quem se aconselhava
Executa o dinheiro seus poderes.
O grande Capito chamar mandava,
A quem chegado disse:--"Se quiseres
Confessar-me a verdade limpa e nua,
Perdo alcanars da culpa tua.

61
Fala do Samorim ao Gama
"Eu sou bem informado que a embaixada
Que de teu Rei me deste, que  fingida;
Porque nem tu tens Rei, nem ptria amada,
Mas vagabundo vs passando a vida;
Que quem da Hespria ltima alongada,
Rei ou senhor de insnia desmedida,
H de vir cometer com naus e frotas
To incertas viagens e remotas?

62
"E se de grandes Reinos poderosos
O teu Rei tem a rgia majestade,
Que presentes me trazes valerosos,
Sinais de tua incgnita verdade?
Com peas e dons altos, sumptuosos,
Se lia dos Reis altos a amizade;
Que sinal nem penhor no  bastante
As palavras dum vago navegante.

63
"Se porventura vindes desterrados,
Como j foram homens de alta sorte,
Em meu Reino sereis agasalhados,
Que toda a terra  ptria para o forte;
Ou se piratas sois ao mar usados,
Dizei-mo sem temor de infmia ou morte,
Que por se sustentar em toda idade,
Tudo faz a vital necessidade."

64
Isto assim dito, o Gama, que j tinha
Suspeitas das insdias que ordenava
O Mallomtico dio, donde vinha
Aquilo que to mal o Rei cuidava,
Com uma alta confiana, que convinha,
Com que seguro crdito alcanava,
Que Vnus Acidlia lhe influa,
Tais palavras do sbio peito abria:

65
"Se os antigos delitos, que a malcia
Humana cometeu na prisca idade,
No causaram que o vaso da niqucia,
Aoute to cruel da Cristandade,
Viera pr perptua inimiccia
Na gerao de Ado, coa falsidade,
 poderoso Rei da torpe seita,
No conceberas tu to m suspeita.

66
"Mas porque nenhum grande bem se alcana
Sem grandes opresses, e em todo o feito
Segue o temor os passos da esperana,
Que em suor vive sempre de seu peito,
Me mostras tu to pouca confiana
Desta minha verdade, sem respeito
Das razes em contrrio que acharias
Se no cresses a quem no crer devias.

67
"Porque, se eu de rapinas s vivesse,
Undvago, ou da ptria desterrado,
Como crs que to longe me viesse
Buscar assento incgnito e apartado?
Por que esperanas, ou por que interesse
Viria experimentando o mar irado,
Os Antarcticos frios, e os ardores
Que sofrem do Carneiro os moradores?

68
"Se com grandes presentes de alta estima
O crdito me pedes do que digo,
Eu no vim mais que a achar o estranho clima
Onde a natura ps teu Reino antigo.
Mas, se a Fortuna tanto me sublima
Que eu torne  minha ptria e Reino amigo,
Ento vers o dom soberbo e rico,
Com que minha tornada certifico.

69
"Se te parece inopinado feito,
Que Rei da ltima Hespria a ti me mande,
O corao sublime, o rgio peito,
Nenhum caso possvel tem por grande.
Bem parece que o nobre e gr conceito
Do Lusitano esprito demande
Maior crdito, e f de mais alteza,
Que creia dele tanta fortaleza.

70
"Sabe que h muitos anos que os antigos
Reis nossos firmemente propuseram
De vencer os trabalhos e perigos,
Que sempre s grandes coisas se opuseram;
E, descobrindo os mares inimigos
Do quieto descanso, pretenderam
De saber que fim tinham, e onde estavam
As derradeiras praias que lavavam.

71
"Conceito digno foi do ramo claro
Do venturoso Rei, que arou primeiro
O mar, por ir deitar do ninho caro
O morador de Abila derradeiro.
Este, por sua indstria e engenho raro,
Num madeiro ajuntando outro madeiro,
Descobrir pde a parte, que faz clara
De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.

72
"Crescendo com os sucessos bons primeiros
No peito as ousadias, descobriram
Pouco e pouco caminhos estrangeiros,
Que uns, sucedendo aos outros, prosseguiram.
De frica os moradores derradeiros
Austrais, que nunca as sete flamas viram,
Foram vistos de ns, atrs deixando
Quantos esto os Trpicos queimando.

73
"Assim com firme peito, e com tamanho
Propsito, vencemos a Fortuna,
At que ns no teu terreno estranho
Viemos pr a ltima coluna.
Rompendo a fora do lquido estanho,
Da tempestade horrfica e importuna,
A ti chegamos, de quem s queremos
Sinal, que ao nosso Rei de ti levemos.

74
"Esta  a verdade, Rei; que no faria
Por to incerto bem, to fraco prmio,
Qual, no sendo isto assim, esperar podia,
To longo, to fingido e vo promio;
Mas antes descansar me deixaria
No nunca descansado e fero grmio
Da madre Tethys, qual pirata inico,
Dos trabalhos alheios feito rico.

75
"Assim que,  Rei, se minha gr verdade
Tens por qual , sincera e no dobrada,
Ajunta-me ao despacho brevidade,
No me impeas o gosto da tornada.
E, se ainda te parece falsidade,
Cuida bem na razo que est provada,
Que com claro juzo pode ver-se,
Que fcil  a verdade de entender-se."

76
A tento estava o Rei na segurana
Com que provava o Gama o que dizia;
Concebe dele certa confiana,
Crdito firme em quanto proferia.
Pondera das palavras a abastana,
Julga na autoridade gro valia,
Comea de julgar por enganados
Os Catuais corruptos, mal julgados.

77
Juntamente a cobia do proveito,
Que espera do contrato Lusitano,
O faz obedecer e ter respeito
Com o Capito, e no com o Mauro engano.
Enfim ao Gama manda que direito
As naus se v, e, seguro de algum dano,
Possa a terra mandar qualquer fazenda,
Que pela especiaria troque e venda.

78
Que mande da fazenda, enfim, lhe manda,
Que nos Reinos Gangticos falea;
Se alguma traz idnea l da banda
Donde a terra se acaba e o mar comea.
J da real presena veneranda
Se parte o Capito, para onde pea
Ao Catual, que dele tinha cargo,
Embarcao, que a sua est de largo.

79
Embarcao que o leve s naus lhe pede;
Mas o mau Regedor, que novos laos
Lhe maquinava, nada lhe concede,
Interpondo tardanas e embaraos.
Com ele parte ao cais, por que o arrede
Longe quanto puder dos rgios paos,
Onde, sem que seu Rei tenha notcia,
Faa o que lhe ensinar sua malcia.

80
L bem longe lhe diz que lhe daria
Embarcao bastante em que partisse,
Ou que para a luz crstina do dia
Futuro sua partida diferisse.
J com tantas tardanas entendia
O Gama, que o Gentio consentisse
Na m teno dos Mouros, torpe e fera,
O que dele atli no entendera.

81
Era este Catual um dos que estavam
Corruptos pela Maumetana gente,
O principal por quem se governavam
As cidades do Samorim potente.
Dele somente os Mouros esperavam
Efeito a seus enganos torpemente.
Ele, que no conceito vil conspira,
De suas esperanas no delira.

82
O Gama com instncia lhe requere
Que o mande pr nas naus, e no lhe vai;
E que assim lhe mandara, lhe refere,
O nobre sucessor de Perimal.
Por que razo lhe impede e lhe difere
A fazenda trazer de Portugal?
Pois aquilo que os Reis j tm mandado
No pode ser por outrem derrogado.

83
Pouco obedece o Catual corrupto
A tais palavras; antes revolvendo
Na fantasia algum subtil e astuto
Engano diablico e estupendo,
Ou como banhar possa o ferro bruto
No sangue avorrecido, estava vendo;
Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
Por que nenhuma  ptria mais tornasse.

84
Que nenhum torne  ptria s pretende
O conselho infernal dos Maumetanos,
Por que no saiba nunca onde se estende
A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.
No parte o Gama enfim, que lho defende
O Regedor dos brbaros profanos;
Nem sem licena sua ir-se podia,
Que as almadias todas lhe tolhia.

85
Aos brados o razes do Capito
Responde o Idolatra que mandasse--
Chegar  terra as naus, que longo esto,
Por que melhor dali fosse e tornasse.
"Sinal  de inimigo e de ladro,
Que l to longe a frota se alargasse,
Lhe diz, porque do certo e fido amigo
 no temer do seu nenhum perigo."

86
Nestas palavras o discreto Gama
Enxerga bem que as naus deseja perto
O Catual, por que com f erro e flama,
Lhas assalte, por dio descoberto.
Em vrios pensamentos se derrama;
Fantasiando est remdio certo,
Que desse a quanto mal se lhe ordenava;
Tudo temia, tudo enfim cuidava.

87
Qual o reflexo lume do polido
Espelho de ao, ou de cristal formoso,
Que, do raio solar sendo ferido,
Vai ferir noutra parte luminoso,
E, sendo da ociosa mo movido
Pela casa do moo curioso,
Anda pelas paredes  telhado
Trmulo, aqui e ali, e dessossegado:

88
Tal o vago juzo flutuava
Do Gama preso, quando lhe lembrara
Coelho, se por caso o esperava
Na praia com os batis, como ordenara.
Logo secretamente lhe mandava,
"Que se tornasse  frota, que deixara;
No fosse salteado dos enganos,
Que esperava dos feros Maumetanos."

89
Tal h de ser quem quer, com o dom de Marte,
Imitar os ilustres e igual-los:
Voar com o pensamento a toda parte,
Adivinhar perigos, e evit-los:
Com militar engenho e subtil arte
Entender os inimigos, e engan-los;
Crer tudo, enfim, que nunca louvarei
O Capito que diga: "No cuidei".

90
Insiste o Malabar em t-lo preso,
Se no manda chegar a terra a armada;
Ele constante, e de ira nobre aceso,
Os ameaos seus no teme nada;
Que antes quer sobre si tomar o peso
De quanto mal a vil malcia ousada
Lhe andar armando, que pr em ventura
A frota de seu Rei, que tem segura.

91
Aquela noite esteve ali detido,
E parte do outro dia, quando ordena
De se tornar ao Rei; mas impedido
Foi da guarda que tinha, no pequena.
Comete-lhe o Gentio outro partido,
Temendo de seu Rei castigo ou pena,
Se sabe esta malcia, a qual asinha
Saber, se mais tempo ali o detinha.

92
Diz-lhe "que mande vir toda a fazenda
Vendvel, que trazia, para a terra,
Para que de vagar se troque e venda:
Que quem no quer comrcio, busca guerra.
Posto que os maus propsitos entenda
O Gama, que o danado peito encerra,
Consente, porque sabe por verdade,
Que compra com a fazenda a liberdade.

93
Concertam-se que o negro mande dar
Embarcaes idneas com que venha;
Que os seus batis no quer aventurar
Onde lhos tome o inimigo, ou lhos detenha.
Partem as almadias a buscar
Mercadoria Hispana, que convenha.
Escreve a seu irmo que lhe mandasse
A fazenda com que se resgatasse.

94
Vem a fazenda a terra, aonde logo
A agasalhou o infame Catual;
Com ela ficam lvaro e Diogo,
Que a pudessem vender pelo que val.
Se mais que obrigao, que mando e rogo
No peito vil o prmio pode e val,
Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,
Pois o Gama soltou pela fazenda.

95
Por ela o solta, crendo que ali tinha
Penhor bastante, donde recebesse
Interesse maior do que lhe vinha,
Se o Capito mais tempo detivesse.
Ele, vendo que j lhe no convinha
Tornar a terra, por que no pudesse
Ser mais retido, sendo s naus chegado
Nelas estar se deixa descansado.

96
Nas naus estar se deixa vagaroso,
At ver o que o tempo lhe descobre:
Que no se fia j do cobioso
Regedor corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juzo curioso
Quanto no rico, assim como no pobre,
Pode o vil interesse e sede inimiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

97
A Polidoro mata o Ptei Trecio,
S por ficar senhor do gro tesouro;
Entra, pelo fortssimo edifcio,
Com a filha de Acriso a chuva d'ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro vcio,
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quase afogada em pago morre.

98
Este rende munidas fortalezas,
Faz tredores e falsos os amigos:
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capites aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos:
Este deprava s vezes as cincias,
Os juzos cegando e as conscincias;

99
Este interpreta mais que sutilmente.
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjrios entre a gente,
E mil vezes tiranos torna os Reis.
At os que s a Deus Onipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas no sem cor, contudo, de virtude.

Canto Nono

1
Tiveram longamente na cidade,
Sem vender-se, a fazenda os dois feitores
Que os infiis, por manha e falsidade,
Fazem que no lha comprem mercadores;
Que todo seu propsito e vontade
Era deter ali os descobridores
Da ndia tanto tempo, que viessem
De Meca as naus, que as suas desfizessem.

2
L no seio Eritreu, onde fundada
Arsnoe foi do Egpcio Ptolomeu,
Do nome da irm sua assim chamada,
Que depois em Suez se converteu,
No longe o porto jaz da nomeada
Cidade Meca, que se engrandeceu
Com a superstio falsa e profana
Da religiosa gua Maumetana.

3
Gid se chama o porto, aonde o trato
De todo o Roxo mar mais florescia,
De que tinha proveito grande e grato
O Soldo que esse Reino possua.
Daqui aos Malabares, por contrato
Dos infiis, formosa companhia
De grandes naus, pelo ndico Oceano,
Especiaria vem buscar cada ano.

4
Por estas naus os Mouros esperavam,
Que, como fossem grandes e possantes,
Aquelas, que o comrcio lhe tomavam,
Com flamas abrasassem crepitantes.
Neste socorro tanto confiavam,
Que j no querem mais dos navegantes,
Seno que tanto tempo ali tardassem,
Que da famosa Meca as naus chegassem.

5
Mas o Governador dos cus e gentes,
Que, para quanto tem determinado,
De longe os meios d convenientes,
Por onde vem a ef eito o fim fadado,
Influiu piedosos acidentes
De afeio em Monaide, que guardado
Estava para dar ao Gama aviso,
E merecer por isso o Paraso.

6
Este, de quem se os Mouros no guardavam,
Por ser Mouro como eles, antes era
Participante em quanto maquinavam,
A teno lhe descobre torpe e fera.
Muitas vezes as naus que longe estavam
Visita, o com piedade considera
O dano, sem razo, que se lhe ordena
Pela maligna gente Sarracena.

7
Informa o cauto Gama das armadas
Que de Arbica Meca vm cada ano,
Que agora so dos seus to desejadas,
Para ser instrumento deste dano.
Diz-lhe que vm de gente carregadas,
E dos troves horrendos de Vulcano,
E que pode ser delas oprimido,
Segundo estava mal apercebido.

8
O Gama, que tambm considerava
O tempo, que para a partida o chama,
E que despacho j no esperava
Melhor do Rei, que os Maumetanos ama,
Aos feitores, que em terra esto, mandava
Que se tornem s naus; e por que a fama
Desta sbita vinda os no impea,
Lhe manda que a fizessem escondida.

9
Porm no tardou muito que, voando,
Um rumor no soasse com verdade:
Que foram presos os feitores, quando
Foram sentidos vir-se da cidade.
Esta fama as orelhas penetrando
Do sbio Capito, com brevidade
Faz represaria nuns, que s naus vieram
A vender a pedraria que trouxeram.

10
Eram estes antigos mercadores
Ricos em Calecu, e conhecidos;
Da falta deles, logo entre os melhores
Sentido foi que esto no mar retidos.
Mas j nas naus os bons trabalhadores
Volvem o cabrestante, e repartidos
Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,
Outros quebram com o peito duro a barra;

11
Outros pendem da verga, e j desatam
A vela, que com grita se soltava,
Quando com maior grita ao Rei relatam
A pressa com que a armada se levava.
As mulheres e filhos que se matam
Daqueles que vo presos, onde estava
O Samorim, se queixam que perdidos
Uns tm os pais, as outras os maridos.

12
Manda logo os feitores Lusitanos
Com toda sua fazenda livremente
Apesar dos inimigos Maumetanos,
Por que lhe torne a sua presa gente.
Desculpas manda o Rei de seus enganos;
Recebe o Capito de melhor mente
Os presos que as desculpas, e tornando
Alguns negros, se parte as velas dando.

13
Parte-se costa abaixo, porque entende
Que em vo com o Rei gentio trabalhava
Em querer dele paz, a qual pretende
Por firmar o comrcio que tratava.
Mas como aquela terra, que se estende
Pela Aurora, sabida j deixava,
Com estas novas torna  ptria cara,
Certos sinais levando do que achara.

14
Leva alguns Malabares, que tomou
Por fora, dos que o Samorim mandara
Quando os presos feitores lhe tornou;
Leva pimenta ardente, que comprara;
A seca flor de Banda no ficou,
A noz, e o negro cravo, que faz clara
A nova ilha Maluco, com a canela,
Com que Ceilo  rica, ilustre e bela.

15
Isto tudo lhe houvera a diligncia
De Monaide fiel, que tambm leva,
Que, inspirado de anglica influncia,
Quer no livro de Cristo que se escreva.
 ditoso Africano, que a clemncia
Divina assim tirou de escura treva,
E to longe da ptria achou maneira
Para subir  ptria verdadeira!

16
Apartadas assim da ardente costa
As venturosas naus, levando a proa
Para onde a Natureza tinha posta
A meta Austrina da esperana boa,
Levando alegres novas e resposta
Da parte Oriental para Lisboa,
Outra vez cometendo os duros medos
Do mar incerto, tmidos e ledos;

17
O prazer de chegar  ptria cara,
A seus penates caros e parentes,
Para contar a peregrina e rara
Navegao, os vrios cus e gentes;
Vir a lograr o prmio, que ganhara
Por to longos trabalhos e acidentes,
Cada um tem por gosto to perfeito,
Que o corao para ele  vaso estreito.

18
Porm a deusa Cpria, que ordenada
Era para favor dos Lusitanos
Do Padre eterno, e por bom gnio dada,
Que sempre os guia j de longos anos;
A glria por trabalhos alcanada,
Satisfao de bem sofridos danos,
Lhe andava j ordenando, e pretendia
Dar-lhe nos mares tristes alegria.

19
Depois de ter um pouco revolvido
Na mente o largo mar que navegaram,
Os trabalhos, que pelo Deus nascido
Nas Anfineas Tebas se causaram;
J trazia de longe no sentido,
Para prmio de quanto mal passaram,
Buscar-lhe algum deleite, algum descanso
No Reino de cristal lquido e manso;

20
Algum repouso, enfim, com que pudesse
Refocilar a lassa humanidade
Dos navegantes seus, como interesse
Do trabalho que encurta a breve idade.
Parece-lhe razo que conta desse
A seu filho, por cuja potestade
Os Deuses faz descer ao vil terreno
E os humanos subir ao cu sereno.

21
Isto bem revolvido, determina
De ter-lhe aparelhada, l no meio
Das guas, alguma nsula divina,
Ornada de esmaltado e verde arreio;
Que muitas tem no reino, que confina
Da me primeira com o terreno seio,
Afora as que possui soberanas
Para dentro das portas Herculanas.

22
Ali quer que as aquticas donzelas
Esperem os fortssimos bares,
Todas as que tm ttulo de belas,
Glria dos olhos, dor dos coraes,
Com danas e coreias, porque nelas
Influir secretas afeies,
Para com mais vontade trabalharem
De contentar, a quem se afeioaram.

23
Tal manha buscou j, para que aquele
Que de Anquises pariu, bem recebido
Fosse no campo que a bovina pele
Tomou de espao, por subtil partido.
Seu filho vai buscar, porque s nele
Tem todo seu poder, fero Cupido,
Que assim como naquela empresa antiga
Ajudou j, nestoutra a ajude e siga.

24
No carro ajunta as aves que na vida
Vo da morte as exquias celebrando,
E aquelas em que j foi convertida
Perstera, as boninas apanhando.
Em derredor da Deusa j partida,
No ar lascivos beijos se vo dando.
Ela, por onde passa, o ar e o vento
Sereno faz, com brando movimento.

25
J sobre os Idlios montes pende,
Onde o filho frecheiro estava ento
Ajuntando outros muitos, que pretende
Fazer uma famosa expedio
Contra o mundo rebelde, por que emende
Erros grandes, que h dias nele esto,
Amando coisas que nos foram dadas,
No para ser amadas, mas usadas.

26
Via Acteon na caa to austero,
De cego na alegria bruta, insana,
Que por seguir um feio animal fero,
Foge da gente e bela forma humana;
E por castigo quer, doce e severo,
Mostrar-lhe a formosura de Diana;
E guarde-se no seja ainda comido
Desses ces que agora ama, e consumido.

27
E v do mundo todo os principais,
Que nenhum no bem pblico imagina;
V neles que no tm amor a mais
Que a si somente, e a quem Filucia ensina.
V que esses que frequentam os reais
Paos, por verdadeira e s doutrina
Vendem adulao, que mal consente
Mondar-se o novo trigo florescente.

28
V que aqueles que devem  pobreza
Amor divino e ao povo caridade,
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justia e integridade.
Da feia tirania e de aspereza
Fazem direito e v severidade:
Leis em favor do Rei se estabelecem,
As em favor do povo s perecem.

29
V, enfim, que ningum ama o que deve,
Seno o que somente mal deseja;
No quer que tanto tempo se releve
O castigo, que duro e justo seja.
Seus ministros ajunta, por que leve
Exrcitos conformes  peleja,
Que espera ter com a mal regida gente,
Que lhe no for agora obediente.

30
Muitos destes meninos voadores
Esto em vrias obras trabalhando:
Uns amolando ferros passadores,
Outros steas de setas delgaando;
Trabalhando, cantando esto de amores,
Vrios casos em verso modulando,
Melodia sonora e concertada,
Suave a letra, anglica a soada.

31
Nas frgoas imortais, onde forjavam
Para as setas as pontas penetrantes,
Por lenha coraes ardendo estavam,
Vivas entranhas ainda palpitantes.
As guas onde os ferros temperavam,
Lgrimas so de mseros amantes;
A viva f lama, o nunca morto lume,
Desejo  s que queima, e no consume.

32
Alguns exercitando a mo andavam
Nos duros coraes da plebe rude;
Crebros suspiros pelo ir soavam
Dos que feridos vo da seta aguda.
Formosas Ninfas so as que curavam
As chagas recebidas cuja ajuda
No somente d vida aos mal feridos,
Mas pe em vida os ainda no nascidos.

33
Formosas so algumas e outras feias,
Segundo a qualidade for das chagas;
Que o veneno espalhado pelas veias
Curam-no s vezes speras triagas.
Alguns ficam ligados em cadeias,
Por palavras subtis de sbias magas:
Isto acontece s vezes, quando as setas
Acertam de levar ervas secretas.

34
Destes tiros assim desordenados,
Que estes moos mal destros vo tirando,
Nascem amores mil desconcertados
Entre o povo ferido miserando;
E tamboril nos heris de altos estados
Exemplos mil se vem de amor nefando,
Qual o das moas Bbli e Cinireia,
Um mancebo de Assria, um de Judeia.

35
E vs,  poderosos, por pastoras
Muitas vezes ferido o peito vedes;
E por baixos e rudos, vs, senhoras,
Tambm vos tomam nas Vulcneas redes.
Uns esperando andais noturnas horas,
Outros subis telhados e paredes:
Mas eu creio que deste amor indino
 mais culpa a da me que a do menino.

36
Mas j no verde prado o carro leve
Punham os brancos cisnes mansamente,
E Dione, que as rosas entro a neve
No rosto traz, descia diligente.
O frecheiro, que contra o cu se atreve,
A receb-la vem, ledo e contente;
Vm todos os Cupidos servidores
Beijar a mo  Deusa dos amores.

37
Ela, por que no gaste o tempo em vo,
Nos braos tendo o filho, confiada
Lhe diz: "Amado filho, em cuja mo
Toda minha potncia est fundada;
Filho, em quem minhas foras sempre esto;
Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
A socorrer-me a tua potestade
Me triz especial necessidade.

38
"Bem vs as Lusitnicas fadigas,
Que eu j de muito longe favoreo,
Porque das Parcas sei, minhas amigas,
Que me ho de venerar e ter em preo.
E, porque tanto imitam as antigas
Obras de meus Romanos, me ofereo
A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,
A quanto se estender o poder nosso.

39
"E porque das insdias do odioso
Baco foram na ndia molestados,
E das injrias ss do mar undoso
Puderam mais ser mortos que cansados,
No mesmo mar, que sempre temeroso
Lhe foi, quero que sejam repousados,
Tomando aquele prmio e doce glria
Do trabalho, que faz clara a memria.

40
"E para isso queria que, feridas
As filhas de Nereu, no ponto fundo,
De amor dos Lusitanos incendidas,
Que vm de descobrir o novo mundo,
Todas numa ilha juntas e subidas,
Ilha, que nas entranhas do profundo
Oceano terei aparelhada,
De dons de Flora e Zfiro adornada;

41
"Ali, com mil refrescos e manjares,
Com vinhos odorferos e rosas,
Em cristalinos paos singulares
Formosos leitos, e elas mais formosas;
Enfim, com mil deleites no vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
De amor feridas, para lhes entregarem
Quanto delas os olhos cobiarem.

42
"Quero que haja no reino Netunino,
Onde eu nasci, prognie forte e bela,
E tome exemplo o mundo vil, malino,
Que contra tua potncia se rebela,
Por que entendam que muro adamantino,
Nem triste hipocrisia val contra ela:
Mal haver na terra quem se guarde,
Se teu fogo imortal nas guas arde."

43
Assim Vnus props, e o filho inieo,
Para lhe obedecer, j se apercebe:
Manda trazer o arco ebrneo rico,
Onde as setas de ponta de ouro embebe.
Com gesto ledo a Cpria, e impudico,
Dentro no carro o filho seu recebe;
A rdea larga s aves, cujo canto
A Factntea morte chorou tanto.

44
Mas diz Cupido, que era necessria
Uma famosa e clebre terceira,
Que, posto que mil vezes lhe  contrria,
Outras muitas a tem por companheira:
A Deusa Giganteia, temerria,
Jactante, mentirosa, e verdadeira,
Que com cem olhos v, e por onde voa,
O que v, com mil bocas apregoa.

45
Vo-a buscar, e mandam adiante,
Que celebrando v com tuba clara
Os louvores da gente navegante,
Mais do que nunca os d'outrem celebrara.
J murmurando a Fama penetrante
Pelas fundas cavernas se espalhara:
Fala verdade, havida por verdade,
Que junto a Deusa traz Credulidade.

46
O louvor grande, o rumor excelente
No corao dos Deuses, que indignados
Foram por Baco contra a ilustre gente,
Mudando, os fez um pouco afeioados.
O peito feminil, que levemente
Muda quaisquer propsitos tomados,
J julga por mau zelo e por crueza
Desejar mal a tanta fortaleza.

47
Despede nisto o fero moo as setas
Uma aps outra: geme o mar com os tiros;
Direitas pelas ondas inquietas
Algumas vo, e algumas fazem giros;
Caem as Ninfas, lanam das secretas
Entranhas ardentssimos suspiros;
Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:
Que tanto, como a vista, pode a fama.

48
Os cornos ajuntou da ebrnea lua
Com fora o moo indmito excessiva,
Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,
Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.
J no fica na aljava seta alguma,
Nem nos equreos campos Ninfa viva;
E se feridas ainda esto vivendo,
Ser para sentir que vo morrendo.

49
Dai lugar, altas e cerleas ondas,
Que, vedes, Vnus traz a medicina,
Mostrando as brancas velas e redondas,
Que vm por cima da gua Netunina.
Para que tu recproco respondas,
Ardente Amor,  flama feminina,
, forado que a pudiccia honesta
Faa quanto lhe Vnus amoesta.

50
J todo o belo coro se aparelha
Das Nereidas, e junto caminhava
Em coreias gentis, usana velha,
Para a ilha, a que Vnus as guiava.
Ali a formosa Deusa lhe aconselha
O que ela fez mil vezes, quando amava.
Elas, que vo do doce amor vencidas,
Esto a seu conselho oferecidas.

51
Cortando vo as naus a larga via
Do mar ingente para a ptria amada,
Desejando prover-se de gua fria,
Para a grande viagem prolongada,
Quando juntas, com sbita alegria,
Houveram vista da ilha namorada,
Rompendo pelo cu a me formosa
De Mennio, suave e deleitosa.

52
De longe a Ilha viram fresca e bela,
Que Vnus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Para onde a forte armada se enxergava;
Que, por que no passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Para onde as naus navegam a movia
A Acidlia, que tudo enfim podia.

53
Mas firme a fez e imvel, como viu
Que era dos Nautas vista e demandada;
Qual ficou Delos, tanto que pariu
Latona Febo e a Deusa  caa usada.
Para l logo a proa o mar abriu,
Onde a costa fazia uma enseada
Curva e quieta, cuja branca areia,
Pintou de ruivas conchas Citereia.

54
Trs formosos outeiros se mostravam
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramneo esmalte se adornavam..
Na formosa ilha alegre e deleitosa;
Claras fontes o lmpidas manavam
Do cume, que a verdura tem viosa;
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa Ninfa fugitiva.

55
Num vale ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras guas ajuntar-se,
Onde uma mesa fazem, que se estende
To bela quanto pode imaginar-se;
Arvoredo gentil sobre ela pende,
Como que pronto est para afeitar-se,
Vendo-se no cristal resplandecente,
Que em si o est pintando propriamente.

56
Mil rvores esto ao cu subindo,
Com pomos odorferos e belos:
A laranjeira tem no fruto lindo
A cor que tinha Dafne nos cabelos;
Encosta-se no cho, que est caindo,
A cidreira com os pesos amarelos;
Os formosos limes ali, cheirando,
Esto virgneas tetas imitando.

57
As rvores agrestes que os outeiros
Tm com frondente coma enobrecidos,
Alemos so de Alcides, e os loureiros
Do louro Deus amados e queridos;
Mirtos de Citereia, com os pinheiros
De Cibele, por outro amor vencidos;
Est apontando o agudo cipariso
Para onde  posto o etreo paraso.

58
Os dons que d Pomona, ali Natura
Produz diferentes nos sabores,
Sem ter necessidade de cultura,
Que sem ela se do muito melhores:
As cerejas purpreas na pintura,
As amoras, que o nome tm de amores,
O pomo que da ptria Prsia veio,
Melhor tornado no terreno alheio.

59
Abre a rom, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preo perdes;
Entre os braos do ulmeiro est a jocunda
Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;
E vs, se na vossa rvore fecunda,
Peras piramidais, viver quiserdes,
Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,
Em vs fazem os pssaros inicos.

60
Pois a tapearia bela e fina,
Com que se cobre o rstico terreno,
Faz ser a de Aquemnia menos diria,
Mas o sombrio vale mais ameno.
Ali a cabea a flor Cifsia inclina
Sbolo tanque lcido e sereno;
Floresce o filho e neto de Ciniras,
Por quem tu, Deusa Pfia, inda suspiras.

61
Para julgar, difcil coisa fora,
No cu vendo e na terra as mesmas cores,
Se dava s flores cor a bela Aurora,
Ou se lha do a ela as belas flores.
Pintando estava ali Zfiro e Flora
As violas da cor dos amadores;
O lrio roxo, a fresca rosa bela,
Qual reluz nas faces da donzela;

62
A cndida cecm, das matutinas
Lgrimas rociada, e a manjarona.
Vem-se as letras nas flores Hiacintinas,
To queridas do filho de Latona.
Bem se enxerga nos pomos e boninas
Que competia Cloris com Pomona.
Pois se as aves no ar cantando voam,
Alegres animais o cho povoam.

63
Ao longo da gua o nveo cisne canta,
Responde-lhe do ramo filomela;
Da sombra de seus cornos no se espanta
Acteon, n'gua cristalina e bela;
Aqui a fugace lebre se levanta
Da espessa mata, ou tmida gazela;
Ali no bico traz ao caro ninho
O mantimento o leve passarinho.

64
Nesta frescura tal desembarcavam
J das naus os segundos Argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas Deusas, como incautas.
Algumas doces ctaras tocavam,
Algumas harpas e sonoras flautas,
Outras com os arcos de ouro se fingiam
Seguir os animais, que no seguiam.

65
Assim lhe aconselhara a mestra experta;
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos bares a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa formosura,
Nuas lavar-se deixam na gua pura,

66
Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os ps, de terra cobiosos,
Que no h nenhum deles que no saia
De acharem caa agreste desejosos,
No cuidam que, sem lao ou redes, caia
Caa naqueles montes deleitosos,
To suave, domstica e benigna,
Qual ferida lha tinha j Ericina.

67
Alguns, que em espingardas e nas bestas,
Para ferir os cervos se fiavam,
Pelos sombrios matos e florestas
Determinadamente se lanavam:
Outros, nas sombras, que de as altas sestas
Defendem a verdura, passeavam
Ao longo da gua que, suave e queda,
Por alvas pedras corre  praia leda.

68
Comeam de enxergar subitamente
Por entre verdes ramos vrias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que no eram das rosas ou das flores,
Mas da l fina e seda diferente,
Que mais incita a fora dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais formosas.

69
D Veloso espantado um grande grito:
"Senhores, caa estranha, disse,  esta!
Se ainda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas  sagrada esta floresta.
Mais descobrimos do que humano esprito
Desejou nunca; e bem se manifesta
Que so grandes as coisas e excelentes,
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

70
"Sigamos estas Deusas, e vejamos
Se fantsticas so, se verdadeiras."
Isto dito, velozes mais que gamos,
Se lanam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as Ninfas vo por entre os ramos,
Mas, mais industriosas que ligeiras,
Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcanando.

71
De uma os cabelos de ouro o vento leva
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes sbito mostradas;
Uma de indstria cai, e j releva,
Com mostras mais macias que indignadas,
Que sobre ela, empecendo, tambm caia
Quem a seguiu pela arenosa praia.

72
Outros, por outra parte, vo topar
Com as Deusas despidas, que se lavam:
Elas comeam sbito a gritar,
Como que assalto tal no esperavam.
Umas, fingindo menos estimar
A vergonha que a fora, se lanavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que s mos cobiosas vo negando.

73
Outra, como acudindo mais depressa
A vergonha da Deusa caadora,
Esconde o corpo n'gua; outra se apressa
Por tomar os vestidos, que tem fora.
Tal dos mancebos h, que se arremessa,
Vestido assim e calado (que, coa mora
De se despir, h medo que ainda tarde)
A matar na gua o fogo que nele arde.

74
Qual co de caador, sagaz e ardido,
Usado a tomar na gua a ave ferida,
Vendo no rosto o frreo cano erguido
Para a garcenha ou pata conhecida,
Antes que soe o estouro, mal sofrido
Salta n'gua, e da presa no duvida,
Nadando vai e latindo: assim o mancebo
Remete  que no era irm de Febo.

75
Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem amor no dera um s desgosto,
Mas sempre fora dele maltratado,
E tinha j por firme pressuposto
Ser com amores mal afortunado,
Porm no que perdesse a esperana
De ainda poder seu fado ter mudana,

76
Quis aqui sua ventura, que corria
Aps Efire, exemplo de beleza,
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu para dar-se a natureza.
J cansado correndo lhe dizia:
" formosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma.

77
"Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se  vontade do inimigo,
Tu s de mi s foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito j aquela ventura,
Que em toda a parte sempre anda comigo,
 no na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

78
"No canses, que me cansas: e se queres
Fugir-me, por que no possa tocar-te,
Minha ventura  tal que, ainda que esperes,
Ela far que no possa alcanar-te.
Espora; quero ver, se tu quiseres,
Que subtil modo busca de escapar-te,
E notars, no fim deste sucesso,
Tra la spica e la man, qual muro  messo.

79
" no me fujas! Assim nunca o breve
Tempo fuja de tua formosura!
Que, s com refrear o passo leve,
Vencers da fortuna a fora dura.
Que Imperador, que exrcito se atreve
A quebrantar a fria da ventura,
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu s fars no me fugindo!

80
"Pes-te da parte da desdita minha?
Fraqueza  dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um corao, que livre tinha?
Solta-me, e corrers mais levemente.
No te carrega essa alma to mesquinha,
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? Ou, depois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

81
"Nesta esperana s te vou seguindo:
Que, ou tu no sofrers o peso dela,
Ou na virtude de teu gesto lindo
Lhe mudars a triste e dura estrela:
E se se lhe mudar, no vs fugindo,
Que Amor te ferir, gentil donzela,
E tu me esperars, se Amor te fere:
E se me esperas, no h mais que espere."

82
J no fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mgoas que dizia.
Volvendo o rosto j sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos ps do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

83
 que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos to suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manh, e na sesta,
Que Vnus com prazeres inflamava,
Melhor  experiment-lo que julg-lo,
Mas julgue-o quem no pode experiment-lo.

84
Desta arte enfim conformes j as formosas
Ninfas com os seus amados navegantes,
Os ornam de capelas deleitosas
De louro, e de ouro, e flores abundantes.
As mos alvas lhes davam como esposas;
Com palavras formais e estipulantes
Se prometem eterna companhia
Em vida e morte, de honra e alegria.

85
Uma delas maior, a quem se humilha
Todo o coro das Ninfas, e obedece,
Que dizem ser de Celo e Vesta filha,
O que no gesto belo se parece,
Enchendo a terra e o mar de maravilha,
O Capito ilustre, que o merece,
Recebe ali com pompa honesta e rgia,
Mostrando-se senhora grande e egrgia.

86
Que, depois de lhe ter dito quem era,
Com um alto exrdio, de alta graa ornado,
Dando-lhe a entender que ali viera
Por alta influio do imvel fado,
Para lhe descobrir da unida esfera
Da terra imensa, e mar no navegado,
Os segredos, por alta profecia,
O que esta sua nao s merecia,

87
Tomando-o pela mo, o leva e guia
Para o cume dum monte alto e divino,
No qual uma rica fbrica se erguia
De cristal toda, e de ouro puro e fino.
A maior parte aqui passam do dia
Em doces jogos e em prazer contino:
Ela nos paos logra seus amores,
As outras pelas sombras entre as flores.

88
Assim a formosa e a forte companhia
O dia quase todo esto passando,
Numa alma, doce, incgnita alegria,
Os trabalhos to longos compensando.
Porque dos feitos grandes, da ousadia
Forte e famosa, o mundo est guardando
O prmio l no fim, bem merecido,
Com fama grande e nome alto e subido.

89
Que as Ninfas do Oceano to formosas,
Tethys, e a ilha anglica pintada,
Outra coisa no  que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas proeminncias gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glria e maravilha:
Estes so os deleites desta ilha.

90
Que as imortalidades que fingia
A antiguidade, que os ilustres ama,
L no estelante Olimpo, a quem subia
Sobre as asas nclitas da Fama,
Por obras valorosas que fazia,
Pelo trabalho imenso que se chama
Caminho da virtude alto e fragoso,
Mas no fim doce, alegre e deleitoso:

91
No eram seno prmios que reparte
Por feitos imortais e soberanos
O mundo com os vares, que esforo e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos.
Que Jpiter, Mercrio, Febo e Marte,
Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,
Ceres, Palas e Juno, com Diana,
Todos foram de fraca carne humana.

92
Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes to estranhos
De Deuses, Semideuses imortais,
Indgetes, Hericos e de Magnos.
Por isso,  vs que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai j do sono do cio ignavo,
Que o nimo de livre faz escravo.

93
E ponde na cobia um freio duro,
E na ambio tambm, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vcio da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vs, esse ouro puro
Verdadeiro valor no do  gente:
Melhor , merec-los sem os ter,
Que possu-los sem os merecer.

94
Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes no dem o dos pequenos;
Ou vos vesti nas armas rutilantes,
Contra a lei dos inimigos Sarracenos:
Fareis os Reinos grandes e possantes,
E todos tereis mais, o nenhum menos;
Possuireis riquezas merecidas,
Com as honras, que ilustram tanto as vidas.

95
E fareis claro o Rei, que tanto amais,
Agora com os conselhos bem cuidados,
Agora com as espadas, que imortais
Vos faro, como os vossos j passados;
Impossibilidades no faais,
Que quem quis sempre pde; e numerados
Sereis entre os Heris esclarecidos,
E nesta Ilha de Vnus recebidos.

Canto Dcimo

1
Mas j o claro amador da Larissia
Adltera inclinava os animais
L pera o grande lago que rodeia
Temistito, nos fins Ocidentais;
O grande ardor do Sol Favnio enfreia
Co sopro que nos tanques naturais
Encrespa a gua serena e despertava
Os lrios e jasmins, que a calma agrava,

2
Quando as fermosas Ninfas, cos amantes
Pela mo, j conformes e contentes,
Subiam pera os paos radiantes
E de metais ornados reluzentes,
Mandados da Rainha, que abundantes
Mesas d'altos manjares excelentes
Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
Restaurem da cansada natureza.

3
Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,
Se assentam dous e dous, amante e dama;
Noutras,  cabeceira, d'ouro finas,
Est co a bela Deusa o claro Gama.
De iguarias suaves e divinas,
A quem no chega a Egpcia antiga fama,
Se acumulam os pratos de fulvo ouro,
Trazidos l do Atlntico tesouro.

4
Os vinhos odorferos, que acima
Esto no s do Itlico Falerno
Mas da Ambrsia, que Jove tanto estima
Com todo o ajuntamento sempiterno,
Nos vasos, onde em vo trabalha a lima,
Crespas escumas erguem, que no interno
Corao movem sbita alegria,
Saltando co a mistura d'gua fria.

5
Mil prticas alegres se tocavam;
Risos doces, sutis e argutos ditos,
Que entre um e outro manjar se ale vantavam,
Despertando os alegres apetitos;
Msicos instrumentos no faltavam
(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
Fizeram descansar da eterna pena)
Ca voz da anglica Sirena.

6
Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,
Que pelos altos paos vo soando,
Em consonncia igual, os instumentos
Suaves vm a um tempo conformando.
Um sbito silncio enfreia os ventos
E faz ir docemente murmurando
As guas, e nas casas naturais
Adormecer os brutos animais.

7
Com doce voz est subindo ao Cu
Altos vares que esto por vir ao mundo,
Cujas claras Ideias viu Proteu
Num globo vo, difano, rotundo,
Que Jpiter em dom lho concedeu
Em sonhos, e despois no Reino fundo,
Vaticinando, o disse, e na memria
Recolheu logo a Ninfa a clara histria.

8
Matria  de coturno, e no de soco,
A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;
Qual Iopas no soube, ou Demodoco,
Entre os Feaces um, outro em Cartago.
Aqui, minha Calope, te invoco
Neste trabalho extremo, por que em pago
Me tornes do que escrevo, e em vo pretendo,
O gosto de escrever, que vou perdendo.

9
Vo os anos descendo, e j do Estio
H pouco que passar at o Outono;
A Fortuna me faz o engenho frio,
Do qual j no me jacto nem me abono;
Os desgostos me vo levando ao rio
Do negro esquecimento e eterno sono.
Mas tu me d que cumpra,  gro rainha
Das Musas, co que quero  nao minha!

10
Cantava a bela Deusa que viriam
Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,
Armadas que as ribeiras venceriam
Por onde o Oceano ndico suspira;
E que os Gentios Reis que no dariam
A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira
Provariam do brao duro e forte,
At render-se a ele ou logo  morte.

11
Cantava dum que tem nos Malabares
Do sumo sacerdcio a dignidade,
Que, s por no quebrar cos singulares
Bares os ns que dera d'amizade,
Sofrer suas cidades e lugares,
Com ferro, incndios, ira e crueldade,
Ver destruir do Samorim potente,
Que tais dios ter co a nova gente.

12
E canta como l se embarcaria
Em Belm o remdio deste dano,
Sem saber o que em si ao mar traria,
O gro Pacheco, Aquiles Lusitano.
O peso sentiro, quando entraria,
O curvo lenho e o frvido Oceano,
Quando mais n'gua os troncos que gemerem
Contra sua natureza se meterem.

13
Mas, j chegado aos fins Orientais
E deixado em ajuda do gentio Rei de
Cochim, com poucos naturais,
Nos braos do salgado e curvo rio
Desbaratar os Naires infernais
No passo Cambalo, tornando frio
D'espanto o ardor imenso do Oriente,
Que ver tanto obrar to pouca gente.

14
Chamar o Samorim mais gente nova;
Viro Reis [de] Bipur e de Tanor,
Das serras de Narsinga, que alta prova
Estaro prometendo a seu senhor;
Far que todo o Naire, enfim, se mova
Que entre Calecu jaz e Cananor,
D'ambas as Leis imigas pera a guerra:
Mouros por mar, Gentios pola terra.

15
E todos outra vez desbaratando,
Por terra e mar, o gro Pacheco ousado,
A grande multido que ir matando
A todo o Malabar ter admirado.
Cometer outra vez, no dilatando,
O Gentio os combates, apressado,
Injuriando os seus, fazendo votos
Em vo aos Deuses vos, surdos e imotos.

16
J no defender somente os passos,
Mas queimar-lhe- lugares, templos, casas;
Aceso de ira, o Co, no vendo lassos
Aqueles que as cidades fazem rasas,
Far que os seus, de vida pouco escassos,
Cometam o Pacheco, que tem asas,
Por dous passos num tempo; mas voando
Dum noutro, tudo ir desbaratando.

17
Vir ali o Samorim, por que em pessoa
Veja a batalha e os seus esforce e anime;
Mas um tiro, que com zunido voa,
De sangue o tingir no andor sublime.
J no ver remdio ou manha boa
Nem fora que o Pacheco muito estime;
Inventar traies e vos venenos,
Mas sempre (o Cu querendo) far menos.

18
Que tornar a vez stima (cantava)
Pelejar co invicto e forte Luso,
A quem nenhum trabalho pesa e agrava;
Mas, contudo, este s o far confuso.
Trar pera a batalha, horrenda e brava,
Mquinas de madeiros fora de uso,
Pera lhe abalroar as caravelas,
Que at'li vo lhe fora comet-las.

19
Pela gua levar serras de fogo
Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;
Mas a militar arte e engenho logo
Far ser v a braveza com que venha.
--"Nenhum claro baro no Mrcio jogo,
Que nas asas da Fama se sustenha,
Chega a este, que a palma a todos toma.
E perdoe-me a ilustre Grcia ou Roma.

20
"Porque tantas batalhas, sustentadas
Com muito pouco mais de cem soldados,
Com tantas manhas e artes inventadas,
Tantos Ces no imbeles profligados,
Ou parecero fbulas sonhadas,
Ou que os celestes Coros, invocados,
Decero a ajud-lo e lhe daro
Esforo, fora, ardil e corao.

21
"Aquele que nos campos Maratnios
O gro poder de Drio estrui e rende,
Ou quem, com quatro mil Lacedemnios,
O passo de Termpilas defende,
Nem o mancebo Cocles dos Ausnios,
Que com todo o poder Tusco contende
Em defensa da ponte, ou Quinto Fbio,
Foi como este na guerra forte e sbio."

22
Mas neste passo a Ninfa, o som canoro
Abaxando, fez ronco e entristecido,
Cantando em baxa voz, envolta em choro,
O grande esforo mal agardecido.
--" Belisrio (disse) que no coro
Das Musas sers sempre engrandecido,
Se em ti viste abatido o bravo Marte,
Aqui tens com quem podes consolar-te!

23
"Aqui tens companheiro, assi nos feitos
Como no galardo injusto e duro;
Em ti e nele veremos altos peitos
A baxo estado vir, humilde e escuro.
Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
Os que ao Rei e  Lei servem de muro!
Isto fazem os Reis cuja vontade
Manda mais que a justia e que a verdade.

24
"Isto fazem os Reis quando embebidos
Na aparncia branda que os contenta
Do os prmios, de Aiace merecidos,
 lngua v de Ulisses, fraudulenta.
Mas vingo-me: que os bens mal repartidos
Por quem s doces sombras apresenta,
Se no os do a sbios cavaleiros,
Do-os logo a avarentos lisonjeiros.

25
"Mas tu, de quem ficou to mal pagado
Um tal vassalo,  Rei, s nisto inico,
Se no s pera dar-lhe honroso estado,
 ele pera dar-te um Reino rico.
Enquanto for o mundo rodeado
Dos Apolneos raios, eu te fico
Que ele seja entre a gente ilustre e claro,
E tu nisto culpado por avaro.

26
"Mas eis outro (cantava) intitulado
Vem com nome real e traz consigo
O filho, que no mar ser ilustrado,
Tanto como qualquer Romano antigo.
Ambos daro com brao forte, armado,
A Quloa frtil, spero castigo,
Fazendo nela Rei leal e humano,
Deitado fora o prfido tirano.

27
"Tambm faro Mombaa, que se arreia
De casas sumptuosas e edifcios,
Co ferro e fogo seu queimada e feia,
Em pago dos passados malefcios.
Despois, na costa da ndia, andando cheia
De lenhos inimigos e artifcios
Contra os Lusos, com velas e com remos
O mancebo Loureno far extremos.

28
"Das grandes naus do Samorim potente,
Que enchero todo o mar, co a frrea pela,
Que sai com trovo do cobre ardente,
Far pedaos leme, masto, vela.
Despois, lanando arpus ousadamente
Na capitaina imiga, dentro nela
Saltando o far s com lana e espada
De quatrocentos Mouros despejada.

29
"Mas de Deus a escondida providncia
(Que ela s sabe o bem de que se serve)
O por onde esforo nem prudncia
Poder haver que a vida lhe reserve.
Em Chal, onde em sangue e resistncia
O mar todo com fogo e ferro ferve,
Lhe faro que com vida se no saia
As armadas de Egipto e de Cambaia.

30
"Ali o poder de muitos inimigos
(Que o grande esforo s com fora rende),
Os ventos que faltaram, e os perigos
Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.
Aqui ressurjam todos os Antigos,
A ver o nobre ardor que aqui se aprende:
Outro Ceva vero, que, espedaado,
No sabe ser rendido nem domado.

31
"Com toda a coxa fora, que em pedaos
Lhe leva um cego tiro que passara,
Se serve inda dos animosos braos
E do gro corao que lhe ficara.
At que outro pelouro quebra os laos
Com que co alma o corpo se liara:
Ela, solta, voou da priso fora
Onde sbito se acha vencedora.

32
"Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,
Na qual tu mereceste paz serena!
Que o corpo, que em pedaos se apresenta,
Quem o gerou, vingana j lhe ordena:
Que eu ouo retumbar a gro tormenta,
Que vem j dar a dura e eterna pena,
De esperas, basiliscos e trabucos,
A Cambaicos cruis e Mamelucos.

33
"Eis vem o pai, com nimo estupendo,
Trazendo fria e mgoa por antolhos,
Com que o paterno amor lhe est movendo
Fogo no corao, gua nos olhos.
A nobre ira lhe vinha prometendo
Que o sangue far dar pelos giolhos
Nas inimigas naus; senti-lo- o Nilo,
Pod-lo- o Indo ver e o Gange ouvi-lo.

34
"Qual o touro cioso, que se ensaia
Pera a crua peleja, os cornos tenta
No tronco dum carvalho ou alta faia
E, o ar ferindo, as foras experimenta:
Tal, antes que no seio de Cambaia
Entre Francisco irado, na opulenta
Cidade de Dabul a espada afia,
Abaxando-lhe a tmida ousadia.

35
"E logo, entrando fero na enseada
De Dio, ilustre em cercos e batalhas,
Far espalhar a fraca e grande armada
De Calecu, que remos tem por malhas.
A de Melique Iaz, acautelada,
Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,
Far ir ver o frio e fundo assento,
Secreto leito do hmido elemento.

36
"Mas a de Mir Hocm, que, abalroando,
A fria esperar dos vingadores,
Ver braos e pernas ir nadando
Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.
Raios de fogo iro representando,
No cego ardor, os bravos domadores.
Quanto ali sentiro olhos e ouvidos
 fumo, ferro, flamas e alaridos.

37
"Mas ah, que desta prspera vitria,
Com que despois vir ao ptrio Tejo,
Qusi lhe roubar a famosa glria
Um sucesso, que triste e negro vejo!
O Cabo Tormentrio, que a memria
Cos ossos guardar, no ter pejo
De tirar deste mundo aquele esprito,
Que no tiraram toda a ndia e Egipto.

38
"Ali, Cafres selvagens podero
O que destros imigos no puderam;
E rudos paus tostados ss faro
O que arcos e pelouros no fizeram.
Ocultos os juzos de Deus so;
As gentes vs, que no nos entenderam,
Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,
Sendo s providncia de Deus pura.

39
"Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto
(Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)
L no mar de Melinde, em sangue tinto
Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,
Pelo Cunha tambm, que nunca extinto
Ser seu nome em todo o mar que lava
As ilhas do Austro, e praias que se chamam
De So Loureno, e em todo o Sul se afamam!

40
"Esta luz  do fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque ir amansando
De Ormuz os Prseos, por seu mal valentes,
Que refusam o jugo honroso e brando.
Ali vero as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a f da Madre Igreja.

41
"Ali do sal os montes no defendem
De corrupo os corpos no combate,
Que mortos pela praia e mar se estendem
De Gerum, de Mazcate e Calaiate;
At que  fora s de brao aprendem
A abaxar a cerviz, onde se lhe ate
Obrigao de dar o reino inico
Das perlas de Barm tributo rico.

42
"Que gloriosas palmas tecer vejo
Com que Vitria a fronte lhe coroa,
Quando, sem sombra v de medo ou pejo,
Toma a ilha ilustrssima de Goa!
Despois, obedecendo ao duro ensejo,
A deixa, e ocasio espera boa
Com que a torne a tomar, que esforo e arte
Vencero a Fortuna e o prprio Marte.

43
"Eis j sobr'ela torna e vai rompendo
Por muros, fogo, lanas e pelouros,
Abrindo com a espada o espesso e horrendo
Esquadro de Gentios e de Mouros.
Iro soldados nclitos fazendo
Mais que lies famlicos e touros,
Na luz que sempre celebrada e dina
Ser da Egpcia Santa Caterina.

44
"Nem tu menos fugir poders deste,
Posto que rica e posto que assentada
L no grmio da Aurora, onde naceste,
Opulenta Malaca nomeada.
As setas venenosas que fizeste,
Os crises com que j te vejo armada,
Malaios namorados, Jaus valentes,
Todos fars ao Luso obedientes."

45
Mais estanas cantara esta Sirena
Em louvor do ilustrssimo Albuquerque,
Mas alembrou-lhe a ira que o condena,
Posto que a fama sua o mundo cerque.
O grande Capito, que o fado ordena
Que com trabalhos glria eterna merque,
Mais h-de ser um brando companheiro
Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.

46
Mas em tempo que fomes e asperezas,
Doenas, frechas e troves ardentes,
A sazo e o lugar, fazem cruezas
Nos soldados a tudo obedientes,
Parece de selvticas brutezas,
De peitos inumanos e insolentes,
Dar extremo suplcio pela culpa
Que a fraca humanidade e Amor desculpa.

47
No ser a culpa abominoso incesto
Nem violento estupro em virgem pura,
Nem menos adultrio desonesto,
Mas ca escrava vil, lasciva e escura.
Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,
Ou de usado a crueza fera e dura,
Cos seus a ira insana no refreia,
Pe na fama alva noda negra e feia.

48
Viu Alexandre Apeles namorado
Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,
No sendo seu soldado exprimentado,
Nem vendo-se num cerco duro e urgente.
Sentiu Ciro que andava j abrasado
Araspas, de Panteia, em fogo ardente,
Que ele tomara em guarda, e prometia
Que nenhum mau desejo o venceria;

49
Mas, vendo o ilustre Persa que vencido
Fora de Amor, que, enfim, no tem defensa,
Levemente o perdoa, e foi servido
Dele num caso grande, em recompensa.
Per fora, de Judita foi marido
O frreo Balduno; mas dispensa
Carlos, pai dela, posto em causas grandes,
Que viva e povoador seja de Frandes.

50
Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,
De Soares cantava, que as bandeiras
Faria tremular e pr espanto
Pelas roxas Arbicas ribeiras:
--"Medina abominbil teme tanto,
Quanto Meca e Gid, co as derradeiras
Praias de Abssia; Barbor se teme
Do mal de que o emprio Zeila geme.

51
"A nobre ilha tambm de Taprobana,
J pelo nome antigo to famosa
Quanto agora soberba e soberana
Pela cortia clida, cheirosa,
Dela dar tributo  Lusitana
Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,
Vencendo se erguer na torre erguida,
Em Columbo, dos prprios to temida.

52
"Tambm Sequeira, as ondas Eritreias
Dividindo, abrir novo caminho
Pera ti, grande Imprio, que te arreias
De seres de Candace e Sab ninho.
Mau, com cisternas de gua cheias
Ver, e o porto Arquico, ali vizinho;
E far descobir remotas Ilhas,
Que do ao mundo novas maravilhas.

53
"Vir despois Meneses, cujo ferro
Mais na Africa, que c, ter provado;
Castigar de Ormuz soberba o erro,
Com lhe fazer tributo dar dobrado.
Tambm tu, Gama, em pago do desterro
Em que ests e sers inda tornado,
Cos ttulos de Conde e d'honras nobres
Virs mandar a terra que descobres.

54
"Mas aquela fatal necessidade
De quem ningum se exime dos humanos,
Ilustrado co a Rgia dignidade,
Te tirar do mundo e seus enganos.
Outro Meneses logo, cuja idade
 maior na prudncia que nos anos,
Governar; e far o ditoso Henrique
Que perptua memria dele fique.

55
"No vencer somente os Malabares,
Destruindo Panane com Coulete,
Cometendo as bombardas, que, nos ares,
Se vingam s do peito que as comete;
Mas com virtudes, certo, singulares,
Vence os imigos d'alma todos sete;
De cobia triunfa e incontinncia,
Que em tal idade  suma de excelncia.

56
"Mas, despois que as Estrelas o chamarem,
Suceders,  forte Mascarenhas;
E, se injustos o mando te tomarem,
Prometo-te que fama eterna tenhas.
Pera teus inimigos confessarem
Teu valor alto, o fado quer que venhas
A mandar, mais de palmas coroado,
Que de fortuna justa acompanhado.

57
"No reino de Binto, que tantos danos
Ter a Malaca muito tempo feitos,
Num s dia as injrias de mil anos
Vingars, co valor de ilustres peitos.
Trabalhos e perigos inumanos,
Abrolhos frreos mil, passos estreitos,
Tranqueiras, baluartes, lanas, setas:
Tudo fico que rompas e sometas.

58
"Mas na ndia, cobia e ambio,
Que claramente pem aberto o rosto
Contra Deus e Justia, te faro
Vituprio nenhum, mas s desgosto.
Quem faz injria vil e sem razo,
Com foras e poder em que est posto,
No vence; que a vitria verdadeira
 saber ter justia nua e inteira.

59
"Mas, contudo, no nego que Sampaio
Ser, no esforo, ilustre e assinalado,
Mostrando-se no mar um fero raio,
Que de inimigos mil ver coalhado.
Em Bacanor far cruel ensaio
No Malabar, pera que, amedrontado,
Despois a ser vencido dele venha
Cutiale, com quanta armada tenha.

60
"E no menos de Dio a fera frota,
Que Chal temer, de grande e ousada,
Far, co a vista s, perdida e rota,
Por Heitor da Silveira e destroada;
Por Heitor Portugus, de quem se nota
Que na costa Cambaica, sempre armada,
Ser aos Guzarates tanto dano,
Quanto j foi aos Gregos o Troiano.

61
"A Sampaio feroz suceder
Cunha, que longo tempo tem o leme:
De Chale as torres altas erguer,
Enquanto Dio ilustre dele treme;
O forte Baaim se lhe dar,
No sem sangue, porm, que nele geme
Melique, porque  fora s de espada
A tranqueira soberba v tomada.

62
"Trs este vem Noronha, cujo auspcio
De Dio os Rumes feros afugenta;
Dio, que o peito e blico exerccio
De Antnio da Silveira bem sustenta.
Far em Noronha a morte o usado ofcio,
Quando um teu ramo,  Gama, se exprimenta
No governo do Imprio, cujo zelo
Com medo o Roxo Mar far amarelo.

63
"Das mos do teu Estvo vem tomar
As rdeas um, que j ser ilustrado
No Brasil, com vencer e castigar
O pirata Francs, ao mar usado.
Despois, Capito-mor do ndico mar,
O muro de Damo, soberbo e armado,
Escala e primeiro entra a porta aberta,
Que fogo e frechas mil tero coberta.

64
"A este o Rei Cambaico soberbssimo
Fortaleza dar na rica Dio,
Por que contra o Mogor poderosssimo
Lhe ajude a defender o senhorio.
Despois ir com peito esforadssimo
A tolher que no passe o Rei gentio
De Calecu, que assi com quantos veio
O far retirar, de sangue cheio.

65
"Destruir a cidade Repelim,
Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;
E despois, junto ao Cabo Comorim,
a faanha faz esclarecida:
A frota principal do Samorim,
Que destruir o mundo no duvida,
Vencer co furor do ferro e fogo;
Em si ver Beadala o Mrcio jogo.

66
"Tendo assi limpa a ndia dos imigos,
Vir despois com ceptro a govern-Ia
Sem que ache resistncia nem perigos,
Que todos tremem dele e nenhum fala.
S quis provar os speros castigos
Batical, que vira j Beadala.
De sangue e corpos mortos ficou cheia
E de fogo e troves desfeita e feia.

67
"Este ser Martinho, que de Marte
O nome tem co as obras derivado;
Tanto em armas ilustre em toda parte,
Quanto, em conselho, sbio e bem cuidado.
Suceder-lhe- ali Castro, que o estandarte
Portugus ter sempre levantado,
Conforme sucessor ao sucedido,
Que um ergue Dio, outro o defende erguido.

68
"Persas feroces, Abassis e Rumes,
Que trazido de Roma o nome tm,
Vrios de gestos, vrios de costumes
(Que mil naes ao cerco feras vm),
Faro dos Cus ao mundo vos queixumes
Porque uns poucos a terra lhe detm.
Em sangue Portugus, juram, descridos,
De banhar os bigodes retorcidos.

69
"Basiliscos medonhos e lies,
Trabucos feros, minas encobertas,
Sustenta Mascarenhas cos bares
Que to ledos as mortes tm por certas;
At que, nas maiores opresses,
Castro libertador, fazendo ofertas
Das vidas de seus filhos, quer que fiquem
Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.

70
"Fernando, um deles, ramo da alta pranta,
Onde o violento fogo, com ruido,
Em pedaos os muros no ar levanta,
Ser ali arrebatado e ao Cu subido.
lvaro, quando o Inverno o mundo espanta
E tem o caminho hmido impedido,
Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,
Os ventos e despois os inimigos.

71
"Eis vem despois o pai, que as ondas corta
Co restante da gente Lusitana,
E com fora e saber, que mais importa,
Batalha d felice e soberana.
Uns, paredes subindo, escusam porta;
Outros a abrem na fera esquadra insana.
Feitos faro to dinos de memria
Que no caibam em verso ou larga histria.

72
"Este, despois, em campo se apresenta,
Vencedor forte e intrpido, ao possante
Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta
Da fera multido quadrupedante.
No menos suas terras mal sustenta
O Hidalco, do brao triunfante
Que castigando vai Dabul na costa;
Nem lhe escapou Pond, no serto posta.

73
"Estes e outros Bares, por vrias partes,
Dinos todos de fama e maravilha,
Fazendo-se na terra bravos Martes,
Viro lograr os gostos desta Ilha,
Varrendo triunfantes estandartes
Pelas ondas que corta a aguda quilha;
E acharo estas Ninfas e estas mesas,
Que glrias e honras so de rduas empresas."

74
Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,
Com sonoroso aplauso, vozes davam,
Com que festejam as alegres vodas
Que com tanto prazer se celebravam.
--"Por mais que da Fortuna andem as rodas
(Na cnsona voz todas soavam),
No vos ho-de faltar, gente famosa,
Honra, valor e fama gloriosa."

75
Despois que a corporal necessidade
Se satisfez do mantimento nobre,
E na harmonia e doce suavidade
Viram os altos feitos que descobre,
Ttis, de graa ornada e gravidade,
Pera que com mais alta glria dobre
As festas deste alegre e claro dia,
Pera o felice Gama assi dizia:

76
--"Faz-te merc, baro, a Sapincia
Suprema de, cos olhos corporais,
Veres o que no pode a v cincia
Dos errados e mseros mortais.
Sigue-me firme e forte, com prudncia,
Por este monte espesso, tu cos mais."
Assi lhe diz e o guia por um mato
rduo, difcil, duro a humano trato.

77
No andam muito que no erguido cume
Se acharam, onde um campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis, tais que presume
A vista que divino cho pisava.
Aqui um globo vm no ar, que o lume
Clarssimo por ele penetrava,
De modo que o seu centro est evidente,
Como a sua superfcia, claramente.

78
Qual a matria seja no se enxerga,
Mas enxerga-se bem que est composto
De vrios orbes, que a Divina verga
Comps, e um centro a todos s tem posto.
Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,
Nunca s'ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto
Por toda a parte tem; e em toda a parte
Comea e acaba, enfim, por divina arte,

79
Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
Vendo o Gama este globo, comovido
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa:--"O transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
Por onde vs e irs e o que desejas.

80
"Vs aqui a grande mquina do Mundo,
Etrea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que  sem princpio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfcia to limada,
 Deus: mas o que  Deus, ningum o entende,
Que a tanto o engenho humano no se estende.

81
"Este orbe que, primeiro, vai cercando
Os outros mais pequenos que em si tem,
Que est com luz to clara radiando
Que a vista cega e a mente vil tambm,
Empreo se nomeia, onde logrando
Puras almas esto daquele Bem
Tamanho, que ele s se entende e alcana,
De quem no h no mundo semelhana.

82
"Aqui, s verdadeiros, gloriosos
Divos esto, porque eu, Saturno e Jano,
Jpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
S pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar,  s que o nome nosso
Nestas estrelas ps o engenho vosso.

83
"E tambm, porque a santa Providncia,
Que em Jpiter aqui se representa,
Por espritos mil que tm prudncia
Governa o Mundo todo que sustenta
(Ensina-lo a proftica cincia,
Em muitos dos exemplos que apresenta);
Os que so bons, guiando, favorecem,
Os maus, em quanto podem, nos empecem;

84
"Quer logo aqui a pintura que varia
Agora deleitando, ora ensinando,
Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
A seus Deuses j dera, fabulando;
Que os Anjos de celeste companhia
Deuses o sacro verso est chamando,
Nem nega que esse nome preminente
Tambm aos maus se d, mas falsamente.

85
"Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
Causas obra no Mundo, tudo manda.
E tornando a contar-te das profundas
Obras da Mo Divina veneranda,
Debaxo deste crculo onde as mundas
Almas divinas gozam, que no anda,
Outro corre, to leve e to ligeiro
Que no se enxerga:  o Mbile primeiro.

86
"Com este rapto e grande movimento
Vo todos os que dentro tem no seio;
Por obra deste, o Sol, andando a tento,
O dia e noite faz, com curso alheio.
Debaxo deste leve, anda outro lento,
To lento e sojugado a duro freio,
Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,
Duzentos cursos faz, d ele um passo.

87
"Olha estoutro debaxo, que esmaltado
De corpos lisos anda e radiantes,
Que tambm nele tem curso ordenado
E nos seus axes correm cintilantes.
Bem vs como se veste e faz ornado
Co largo Cinto d, ouro, que estelantes
Animais doze traz afigurados,
Apousentos de Febo limitados.

88
"Olha por outras partes a pintura
Que as Estrelas fulgentes vo fazendo:
Olha a Carreta, atenta a Cinosura,
Andrmeda e seu pai, e o Drago horrendo;
V de Cassiopeia a fermosura
E do Orionte o gesto turbulento;
Olha o Cisne morrendo que suspira,
A Lebre e os Ces, a Nau e a doce Lira.

89
"Debaxo deste grande Firmamento,
Vs o cu de Saturno, Deus antigo;
Jpiter logo faz o movimento,
E Marte abaxo, blico inimigo;
O claro Olho do cu, no quarto assento,
E Vnus, que os amores traz consigo;
Mercrio, de eloquncia soberana;
Com trs rostos, debaxo vai Diana.

90
"Em todos estes orbes, diferente
Curso vers, nuns grave e noutros leve;
Ora fogem do Centro longamente,
Ora da Terra esto caminho breve,
Bem como quis o Padre omnipotente,
Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
Os quais vers que jazem mais a dentro
E tem co Mar a Terra por seu centro.

91
"Neste centro, pousada dos humanos,
Que no somente, ousados, se contentam
De sofrerem da terra firme os danos,
Mas inda o mar instbil exprimentam,
Vers as vrias partes, que os insanos
Mares dividem, onde se apousentam
Vrias naes que mandam vrios Reis,
Vrios costumes seus e vrias leis.

92
"Vs Europa Crist, mais alta e clara
Que as outras em polcia e fortaleza.
Vs frica, dos bens do mundo avara,
Inculta e toda cheia de bruteza;
Co Cabo que at'aqui se vos negara,
Que assentou pera o Austro a Natureza.
Olha essa terra toda, que se habita
Dessa gente sem Lei, qusi infinita.

93
"V do Benomotapa o grande imprio,
De selvtica gente, negra e nua,
Onde Gonalo morte e vituprio
Padecer, pola F santa sua.
Nace por este incgnito Hemisprio
O metal por que mais a gente sua.
V que do lago donde se derrama
O Nilo, tambm vindo est Cuama.

94
"Olha as casas dos negros, como esto
Sem portas, confiados, em seus ninhos,
Na justia real e defenso
E na fidelidade dos vizinhos;
Olha deles a bruta multido,
Qual bando espesso e negro de estorninhos,
Combater em Sofala a fortaleza, Que
defender Nhaia com destreza.

95
"Olha l as alagoas donde o Nilo
Nace, que no souberam os antigos;
V-lo rega, gerando o crocodilo,
Os povos Abassis, de Crista amigos;
Olha como sem muros (novo estilo)
Se defendem milhor dos inimigos;
V Mroe, que ilha foi de antiga fama,
Que ora dos naturais Nob se chama.

96
"Nesta remota terra um filho teu
Nas armas contra os Turcos ser claro;
H-de ser Dom Cristvo o nome seu;
Mas contra o fim fatal no h reparo.
V c a costa do mar, onde te deu
Melinde hospcio gasalhoso e caro;
O Rapto rio nota, que o romance
Da terra chama Obi; entra em Quilmance.

97
"O Cabo v j Armata chamado,
E agora Guardaf, dos moradores,
Onde comea a boca do afamado
Mar Roxo, que do fundo toma as cores;
Este como limite est lanado
Que divide Asia de Africa; e as milhores
Povoaes que a parte Africa tem
Mau so, Arquico e Suaqum.

98
"Vs o extremo Suez, que antigamente
Dizem que foi dos Hroas a cidade
(Outros dizem que Arsnoe), e ao presente
Tem das frotas do Egipto a potestade.
Olha as guas nas quais abriu patente
Estrada o gro Mouss na antiga idade.
sia comea aqui, que se apresenta
Em terras grande, em reinos opulenta.

99
"Olha o monte Sinai, que se ennobrece
Co sepulcro de Santa Caterina;
Olha Toro e Gid, que lhe falece
gua das fontes, doce e cristalina;
Olha as portas do Estreito, que fenece
No reino da seca dem, que confina
Com a serra d'Arzira, pedra viva,
Onde chuva dos cus se no deriva.

100
"Olha as Arbias trs, que tanta terra
Tomam, todas da gente vaga e baa,
Donde vm os cavalos pera a guerra,
Ligeiros e feroces, de alta raa;
Olha a costa que corrre, at que cera
Outro Estreito de Prsia, e faz a traa
O Cabo que co nome se apelida
Da cidade Fartaque, ali sabida.

101
"Olha Dfar, insigne porque manda
O mais cheiroso incenso pera as aras;
Mas atenta: j c destoutra banda
De Roalgate, e praias sempre avaras,
Comea o reino Ormuz, que todo se anda
Pelas ribeiras que inda sero claras
Quando as gals do Turco e fera armada
Virem de Castelbranco nua a espada.

102
"Olha o Cabo Asaboro, que chamado
Agora  Moando, dos navegantes;
Por aqui entra o lago que  fechado
De Arbia e Prsias terras abundantes.
Atenta a ilha Barm, que o fundo ornado
Tem das suas perlas ricas, e imitantes
A cor da Aurora; e v na gua salgada
Ter o Tgris e Eufrates a entrada.

103
"Olha da grande Prsia o imprio nobre,
Sempre posto no campo e nos cavalos,
Que se injuria de usar fundido cobre
E de no ter das armas sempre os calos.
Mas v a ilha Gerum, como descobre
O que fazem do tempo os intervalos,
Que da cidade Armuza, que ali esteve,
Ela o nome despois e a glria teve.

104
"Aqui de Dom Filipe de Meneses
Se mostrar a virtude, em armas clara,
Quando, com muito poucos Portugueses,
Os muitos Prseos vencer de Lara.
Viro provar os golpes e reveses
De Dom Pedro de Sousa, que provara
J seu brao em Ampaza, que deixada
Ter por terra,  fora s de espada.

105
"Mas deixemos o Estreito e o conhecido
Cabo de Jasque, dito j Carpela,
Com todo o seu terreno mal querido
Da Natura e dos des usados dela;
Carmnia teve j por apelido.
Mas vs o fermoso Indo, que daquela
Altura nace, junto  qual, tambm
Doutra altura correndo o Gange vem?

106
"Olha a terra de Ulcinde, fertilssima,
E de Jquete a ntima enseada;
Do mar a enchente sbita, grandssima,
E a vazante, que foge apressurada.
A terra de Cambaia v, riqussima,
Onde do mar o seio faz entrada;
Cidades outras mil, que vou passando,
A vs outros aqui se esto guardando.

107
"Vs corre a costa clebre Indiana
Pera o Sul, at o Cabo Comori,
J chamado Cori, que Taprobana
(Que ora  Ceilo) defronte tem de si.
Por este mar a gente Lusitana,
Que com armas vir despois de ti,
Ter vitrias, terras e cidades,
Nas quais ho-de viver muitas idades.

108
"As provncias que entre um e o outro rio
Vs, com vrias naes, so infinitas:
Um reino Mahometa, outro Gentio,
A quem tem o Demnio leis escritas.
Olha que de Narsinga o senhorio
Tem as relquias santas e benditas
Do corpo de Tom, baro sagrado,
Que a Jesu Cristo teve a mo no lado.

109
"Aqui a cidade foi que se chamava
Meliapor, fermosa, grande e rica;
Os dolos antigos adorava
Como inda agora faz a gente inica.
Longe do mar naquele tempo estava,
Quando a F, que no mundo se pubrica,
Tom vinha prgando, e j passara
Provncias mil do mundo, que ensinara.

110
"Chegado aqui, pregando e junto dando
A doentes sade, a mortos vida,
Acaso traz um dia o mar, vagando,
Um lenho de grandeza desmedida.
Deseja o Rei, que andava edificando,
Fazer dele madeira; e no duvida
Poder tir-lo a terra, com possantes
Foras d' homens, de engenhos, de alifantes.

111
"Era to grande o peso do madeiro
Que, s pera abalar-se, nada abasta;
Mas o nncio de Cristo verdadeiro
Menos trabalho em tal negcio gasta:
Ata o cordo que traz, por derradeiro,
No tronco, e fcilmente o leva e arrasta
Pera onde faa um sumptuoso templo
Que ficasse aos futuros por exemplo.

112
"Sabia bem que se com f formada
Mandar a um monte surdo que se mova,
Que obedecer logo  voz sagrada,
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
A gente ficou disto alvoraada;
Os Brmenes o tm por cousa nova;
Vendo os milagres, vendo a santidade,
Ho medo de perder autoridade.

113
"So estes sacerdotes dos Gentios
Em quem mais penetrado tinha enveja;
Buscam maneiras mil, buscam desvios,
Com que Tom no se oua, ou morto seja.
O principal, que ao peito traz os fios,
Um caso horrendo faz, que o mundo veja
Que inimiga no h, to dura e fera,
Como a virtude falsa, da sincera.

114
"Um filho prprio mata, e logo acusa
De homicdio Tom, que era inocente;
D falsas testemunhas, como se usa;
Condenaram-no a morte brevemente.
O Santo, que no v milhor escusa
Que apelar pera o Padre omnipotente,
Quer, diante do Rei e dos senhores,
Que se faa um milagre dos maiores.

115
"O corpo morto manda ser trazido,
Que res[s]ucite e seja perguntado
Quem foi seu matador, e ser crido
Por testemunho, o seu, mais aprovado.
Viram todos o moo vivo, erguido,
Em nome de Jesu crucificado:
D graas a Tom, que lhe deu vida,
E descobre seu pai ser homicida.

116
"Este milagre fez tamanho espanto
Que o Rei se banha logo na gua santa,
E muitos aps ele; um beija o manto,
Outro louvor do Deus de Tom canta.
Os Brmenes se encheram de dio tanto,
Com seu veneno os morde enveja tanta,
Que, persuadindo a isso o povo rudo,
Determinam mat-lo, em fim de tudo.

117
"Um dia que pregando ao povo estava,
Fingiram entre a gente um arrudo.
(J Cristo neste tempo lhe ordenava
Que, padecendo, fosse ao Cu subido);
A multido das pedras que voava
No Santo d, j a tudo oferecido;
Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
Com crua lana o peito lhe atravessa.

118
"Choraram-te, Tom, o Gange e o Indo;
Chorou-te toda a terra que pisaste;
Mais te choram as almas que vestindo
Se iam da santa F que lhe ensinaste.
Mas os Anjos do Cu, cantando e rindo,
Te recebem na glria que ganhaste.
Pedimos-te que a Deus ajuda peas
Com que os teus Lusitanos favoreas.

119
"E vs outros que os nomes usurpais
De mandados de Deus, como Tom,
Dizei: se sois mandados, como estais
Sem irdes a pregar a santa F?
Olhai que, se sois Sal e vos danais
Na ptria, onde profeta ningum ,
Com que se salgaro em nossos dias
(Infiis deixo) tantas heresias?

120
"Mas passo esta matria perigosa
E tornemos  costa debuxada.
J com esta cidade to famosa
Se faz curva a Gangtica enseada;
Corre Narsinga, rica e poderosa;
Corre Orixa, de roupas abastada;
No fundo da enseada, o ilustre rio
Ganges vem ao salgado senhorio;

121
"Ganges, no qual os seus habitadores
Morrem banhados, tendo por certeza
Que, inda que sejam grandes pecadores,
Esta gua santa os lava e d pureza.
V Catigo, cidade das milhores
De Bengala provncia, que se preza
De abundante. Mas olha que est posta
Pera o Austro, daqui virada, a costa.

122
"Olha o reino Arraco; olha o assento
De Pegu, que j monstros povoaram,
Monstros filhos do feio ajuntamento
Da mulher e um co, que ss se acharam.
Aqui soante arame no instrumento
Da gerao costumam, o que usaram
Por manha da Rainha que, inventando
Tal uso, deitou fora o error nefando.

123
"Olha Tavai cidade, onde comea
De Sio largo o imprio to comprido;
Tenassari, Qued, que  s cabea
Das que pimenta ali tm produzido.
Mais avante fareis que se conhea
Malaca por emprio ennobrecido,
Onde toda a provncia do mar grande
Suas mercadorias ricas mande.

124
"Dizem que desta terra co as possantes
Ondas o mar, entrando, dividiu
A nobre ilha Samatra, que j d'antes
Juntas ambas a gente antiga viu.
Quersoneso foi dita; e das prestantes
Veias d'ouro que a terra produziu,
'Aurea', por epitto lhe ajuntaram;
Alguns que fosse Ofir imaginaram.

125
"Mas, na ponta da terra, Cingapura
Vers, onde o caminho s naus se estreita;
Daqui tornando a costa  Cinosura,
Se encurva e pera a Aurora se endireita.
Vs Pam, Patane, reinos, e a longura
De Sio, que estes e outros mais sujeita;
Olha o rio Meno, que se derrama
Do grande lago que Chiamai se chama.

126
Vs neste gro terreno os diferentes
Nomes de mil naes, nunca sabidas:
Os Laos, em terra e nmero potentes;
Avs, Brams, por serras to compridas;
V nos remotos montes outras gentes,
Que Gueos se chamam, de selvages vidas;
Humana carne comem, mas a sua
Pintam com ferro ardente, usana crua.

127
"Vs, passa por Camboja Mecom rio,
Que capito das guas se interpreta;
Tantas recebe d' outro s no Estio,
Que alaga os campos largos e inquieta;
Tem as enchentes quais o Nilo frio;
A gente dele cr, como indiscreta,
Que pena e glria tm, despois de morte,
Os brutos animais de toda sorte.

128
"Este receber, plcido e brando,
No seu regao os Cantos que molhados
Vm do naufrgio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapados,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Ser o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Ser mais afamada que ditosa.

129
"Vs, corre a costa que Champ se chama,
Cuja mata  do pau cheiroso ornada;
Vs Cauchichina est, de escura fama,
E de Aino v a incgnita enseada;
Aqui o soberbo Imprio, que se afama
Com terras e riqueza no cuidada,
Da China corre, e ocupa o senhorio
Desde o Trpico ardente ao Cinto frio.

130
"Olha o muro e edifcio nunca crido,
Que entre um imprio e o outro se edifica,
Certssimo sinal, e conhecido,
Da potncia real, soberba e rica.
Estes, o Rei que tm, no foi nacido
Prncipe, nem dos pais aos filhos fica,
Mas elegem aquele que  famoso
Por cavaleiro, sbio e virtuoso.

131
"Inda outra muita terra se te esconde
At que venha o tempo de mostrar-se;
Mas no deixes no mar as Ilhas onde
A Natureza quis mais afamar-se:
Esta, meia escondida, que responde
De longe  China, donde vem buscar-se,
 Japo, onde nace a prata fina,
Que ilustrada ser co a Lei divina.

132
"Olha c pelos mares do Oriente
s infinitas Ilhas espalhadas:
V Tidore e Ternate, co fervente
Cume, que lana as flamas ondeadas.
As rvores vers do cravo ardente,
Co sangue Portugus inda compradas.
Aqui h as ureas aves, que no decem
Nunca  terra e s mortas aparecem.

133
"Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam
Da vria cor que pinta o roxo fruto;
s aves variadas, que ali saltam,
Da verde noz tomando seu tributo.
Olha tambm Bornu, onde no faltam
Lgrimas no licor coalhado e enxuto
Das rvores, que cnfora  chamado,
Com que da Ilha o nome  celebrado.

134
"Ali tambm Timor, que o lenho manda
Sndalo, salutfero e cheiroso;
Olha a Sunda, to larga que a banda
Esconde pera o Sul dificultoso;
A gente do Serto, que as terras anda,
Um rio diz que tem miraculoso,
Que, por onde ele s, sem outro, vai,
Converte em pedra o pau que nele cai.

135
"V naquela que o tempo tornou Ilha,
Que tambm flamas trmulas vapora,
A fonte que leo mana, e a maravilha
Do cheiroso licor que o tronco chora,
--Cheiroso, mais que quanto estila a filha
De Ciniras na Arbia, onde ela mora;
E v que, tendo quanto as outras tm,
Branda seda e fino ouro d tambm.

136
"Olha, em Ceilo, que o monte se alevanta
Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;
Os naturais o tm por cousa santa,
Pola pedra onde est a pegada humana.
Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
No profundo das guas, soberana,
Cujo pomo contra o veneno urgente
 tido por antdoto excelente.

137
"Vers defronte estar do Roxo Estreito
Socotor, co amaro alo famosa;
Outras ilhas, no mar tambm sujeito
A vs, na costa de frica arenosa,
Onde sai do cheiro mais perfeito
A massa, ao mundo oculta e preciosa.
De So Loureno v a Ilha afamada,
Que Madagscar  dalguns chamada.

138
"Eis aqui as novas partes do Oriente
Que vs outros agora ao mundo dais,
Abrindo a porta ao vasto mar patente,
Que com to forte peito navegais.
Mas  tambm razo que, no Ponente,
Dum Lusitano um feito inda vejais,
Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
Caminho h-de fazer nunca cuidado.

139
"Vedes a grande terra que contina
Vai de Calisto ao seu contrrio Plo,
Que soberba a far a luzente mina
Do metal que a cor tem do louro Apolo.
Castela, vossa amiga, ser dina
De lanar-lhe o colar ao rudo colo.
Varias provncias tem de vrias gentes,
Em ritos e costumes, diferentes.

140
"Mas c onde mais se alarga, ali tereis
Parte tambm, co pau vermelho nota;
De Santa Cruz o nome lhe poreis;
Descobri-la- a primeira vossa frota.
Ao longo desta costa, que tereis,
Ir buscando a parte mais remota
O Magalhes, no feito, com verdade,
Portugus, porm no na lealdade.

141
"Ds que passar a via mais que meia
Que ao Antrtico Plo vai da Linha,
Da estatura qusi giganteia
Homens ver, da terra ali vizinha;
E mais avante o Estreito que se arreia
Co nome dele agora, o qual caminha
Pera outro mar e terra que fica onde
Com suas frias asas o Austro a esconde.

142
"At'aqui Portugueses concedido
Vos  saberdes os futuros feitos
Que, pelo mar que j deixais sabido,
Viro fazer bares de fortes peitos.
Agora, pois que tendes aprendido
Trabalhos que vos faam ser aceitos
As eternas esposas e fermosas,
Que coroas vos tecem gloriosas,

143
"Podeis-vos embarcar, que tendes vento
E mar tranquilo, pera a ptria amada."
Assi lhe disse; e logo movimento
Fazem da Ilha alegre e namorada.
Levam refresco e nobre mantimento;
Levam a companhia desejada
Das Ninfas, que ho-de ter eternamente,
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.

144
Assi foram cortando o mar sereno,
Com vento sempre manso e nunca irado,
At que houveram vista do terreno
Em que naceram, sempre desejado.
Entraram pela foz do Tejo ameno,
E  sua ptria e Rei temido e amado
O prmio e glria do por que mandou,
E com ttulos novos se ilustrou.

145
N mais, Musa, n mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E no do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
No no d a ptria, no, que est metida
No gosto da cobia e na rudeza
Da austera, apagada e vil tristeza.

146
E no sei por que influxo de Destino
No tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os nimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vs,  Rei, que por divino
Conselho estais no rgio slio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor s de vassalos excelentes.

147
Olhai que ledos vo, por vrias vias,
Quais rompentes lies e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
A quentes regies, a plagas frias,
A golpes de Idoltras e de Mouros,
A perigos incgnitos do mundo,
A naufrgios, a pexes, ao profundo.

148
Por vos servir, a tudo aparelhados;
De vs to longe, sempre obedientes;
A quaisquer vossos speros mandados,
Sem dar reposta, prontos e contentes.
S com saber que so de vs olhados,
Demnios infernais, negros e ardentes,
Cometero convosco, e no duvido
Que vencedor vos faam, no vencido.

149
Favorecei-os logo, e alegrai-os
Com a presena e leda humanidade;
De rigorosas leis desalivai-os,
Que assi se abre o caminho  santidade.
Os mais exprimentados levantai-os,
Se, com a experincia, tm bondade
Pera vosso conselho, pois que sabem
O como, o quando, e onde as cousas cabem.

150
Todos favorecei em seus ofcios,
Segundo tm das vidas o talento;
Tenham Religiosos exerccios
De rogarem, por vosso regimento,
Com jejuns, disciplina, pelos vcios
Comuns; toda ambio tero por vento,
Que o bom Religioso verdadeiro
Glria v no pretende nem dinheiro.

151
Os Cavaleiros tende em muita estima,
Pois com seu sangue intrpido e fervente
Estendem no smente a Lei de cima,
Mas inda vosso Imprio preminente.
Pois aqueles que a to remoto clima
Vos vo servir, com passo diligente,
Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
E (o que  mais) os trabalhos excessivos.

152
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemes, Galos, talos e Ingleses,
Possam dizer que so pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho s d'exprimentados
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe.
Mais em particular o experto sabe.

153
De Formio, filsofo elegante,
Vereis como Anibal escarnecia,
Quando das artes blicas, diante
Dele, com larga voz tratava e lia.
A disciplina militar prestante
No se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Seno vendo, tratando e pelejando.

154
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vs no conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai s vezes acabado.
Tem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experincia misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.

155
Pera servir-vos, brao s armas feito,
Pera cantar-vos, mente s Musas dada;
S me falece ser a vs aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me isto o Cu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada,
Como a pres[s]aga mente vaticina
Olhando a vossa inclinao divina,

156
Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante,
A minha j estimada e leda Musa
Fico que em todo o mundo de vs cante,
De sorte que Alexandro em vs se veja,
Sem  dita de Aquiles ter enveja.

---------------------oOo---------------------

Final de Os Lusadas









End of the Project Gutenberg EBook of Os Lusadas, by Lus Vaz de Cames

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