The Project Gutenberg EBook of Sermo contra o Filosofismo do Seculo XIX, by 
Jos Agostinho de Macedo

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Sermo contra o Filosofismo do Seculo XIX

Author: Jos Agostinho de Macedo

Release Date: July 24, 2010 [EBook #33245]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SERMO CONTRA O FILOSOFISMO ***




Produced by Pedro Saborano





                                 SERMO

                          CONTRA O FILOSOFISMO

                                   DO

                              SECULO XIX.,

                                PRGADO

                                   NA

                    IGREJA DE S. JULIO DE LISBOA

         NA QUINTA DOMINGA DE QUARESMA DO ANNO DE M. DCCC. XI.

                                  POR

                       JOS AGOSTINHO DE MACEDO,

             _Prgador do Principe Regente Nosso Senhor._




                                 LISBOA,
                           NA IMPRESSO REGIA.
                                  1811.
                              _Com licena._

                      *      *      *      *      *

    _Vende-se na loja de Desiderio Marques Leo, ao Calhariz, N. 12._




ADVERTENCIA.


No he muito proprio de hum Sermo hum Prologo, mas os ataques
reiterados dos meus gratuitos inimigos me tem obrigado a prevenir o
Publico em qualquer composio minha, ainda que seja de puro
divertimento, e he muito mais indispensavel huma preliminar advertencia
em composio to sria como he este Sermo, no qual fao triunfar a
Religio dos ataques do moderno Filosofismo. E para compr este
Discurso, seria licito ler alguma coiza! Parece que sim, e que sem hum
profundo conhecimento dos escritos dos Apologistas da Religio Christ
no poderia nem levantar a fiana do presente edificio. Certos
estouvados se atrevro a lanar-me em rosto, que roubava Antonio Vieira
para compor meus Sermes. Ora pois abatamos este importuno Fantasma de
Vieira, e rebatamos esta livre calumnia, e dita por quem nem leo Vieira,
e s ouvio dizer que Raynal fallra de hum Sermo deste Jesuita pelo bom
successo de nossas armas contra as de Hollanda. Saibo pois que eu, que
componho hum Sermo como o presente, no necessito de Vieira, que no
tem hum s discurso, onde se ache huma instruco christ, e que o
desprezei com todo o meu corao depois que li o principio de hum Sermo
de Mandato prgado na Capella Real no anno de 1655, e neste principio
estas escandalosas palavras==Tomo 4. pag. 358.  379. col. 2. regra 4.:
_Este cavallo branco he a sagrada Humanidade de Christo._==Nunca mais
o detestavel Vieira.

Ora como at nos doirados domicilios da crapula, e ociosidade, onde a
libertinagem ousa levantar a voz contra a Religio, torpissimos
ignorantes fallo de Sermes, e dos meus Sermes, saibo estes Gazetaes
eruditos, que para compr este gravissimo Discurso eu li, e estudei.

   1. S. Gregorio Nazianzeno, _Orat. cont. Jul._
   2. S. Fulgencio, _De Fide ad Pet._
   3. S. Cyrillo, _Cath. cont. Juli._
   4. O Cardeal Gerdil, _Impug. do Emilio._
      O mesmo, _Introduco ao estudo da Religio._
   5. Mazoti, _Discursos contra a cred._, T. 2.
   6. Vascelchi, _Provas do Christ._
   7. Roberti sobre a leitura dos Liv. de _Methafysica_.
      O mesmo, _Impugnao do Livro La Predication_.

No posso ser mais ingenuo: estas so as fontes: o Discurso he meu, as
provas dos santissimos, e doctissimos Mestres do Christianismo.




SERMO
CONTRA O FILOSOFISMO
DO SECULO XIX.

    _In malevolam animam non intraibit Sapientia._

                                      Sap. Cap. I.


No ha, nem pde haver coiza mais aborrecivel, e mais detestavel aos
olhos da boa razo, que a entonada soberba de hum malevolo ignorante. O
homem sisudo no pde olhar sem indignao para essa interminavel
cohorte dos que neste seculo se dizem livres pensadores, quando
contempla o soberbo, e ultrajante gesto, ou amargo surrizo com que
elles olho para o homem de bem, que fiel a seus principios, e
consequente em sua crena, e conducta, respeita sua Religio, e a
reconhece divina em sua fonte, e sua origem. Deste rizo, e deste
soberbissimo signal de huma ultrajante compaixo, quantas vezes tenho eu
sido testemunha, e tambem objecto no meio desta Capital! Eu julgava que
apenas aconteceria isto no meio das praas da nova, e mais prostituida
Babylonia, mas eu o vi realizado tambem em Lisboa. Se o medo, e o terror
de hum justo castigo continha, e exteriormente refreava estes estlidos
motejadores no centro de hum Governo Catholico, e vigilante, elles
deixro cahir de todo a mscara, e mostrro sem pejo a impudentissima
face em quanto sentimos o ferreo jugo do cos revolucionario, que nos
invadio, e tyrannizou por nove continuos mezes. Ento, ento esses
malevolos academicos do segredo, e das visagens, imaginando,
vertiginosos e illusos, que havio levantado, e firmado o estandarte
de sua nem realizada, nem possivel liberdade, insultro os verdadeiros
fieis, e os taxro de fraqueza, e pusillanimidade, e os titulos menos
affrontosos que lhes davo, ero os de fanticos, crdulos, e
supersticiosos. E quem serio estes miseraveis entusiastas? Por ventura
alguns Celsos, Jamblicos, ou Profirios doctos, e profundos Filosofos
successores em Athenas, e Alexandria daquelles famosissimos oraculos do
Epicurcismo, e Platonismo? Algum daquelles que apoiados com a
incredulidade, e poder de hum Imperante como Julianno pertendero com
seus escriptos, e doctrina solapar os alicerces do nascente
Christianismo? Seria honrar, e desvanecer excessivamenre estes tomos de
sabedoria, se eu os comparasse a to formidaveis, e terriveis talentos
da antiguidade. So verdadeiramente huns tomos, e perdidos no espao
immenso dos malvolos; huns obscuros adeptos do Illuminismo cobertos
agora de hum ridiculo eterno com os contrarios effeitos daquellas a
que elles chamavo profundas theorias de moral, e de politica: esmagados
agora debaixo do pezo das vergonhosas derrotas do monstro em que
confiavo, e que por certo ignora sua existencia, e do qual no podio,
como a experiencia lhes diz, esperar mais que opprobrios, ferros,
escravido, e morte. Huns famintos, mas vaidosos mendigos, que esperavo
entrar na diviso da preza dos sanguinarios Tigres, cuja avidade, e
cobia insaciavel at se rouba a si mesma para se saborear no roubo, e
no haver intervallo neste seu natural exercicio: huns ociosos perennes,
que nesses asilos da embriaguez se asoalho a si mesmos por fortissimos
espiritos, e no deixo a bocas alheias a trombeta de sua fama, e do
renome de seus relevantes, e sublimissimos engenhos, homens finalmente,
que sem mais estudo, sem mais Universidade, sem mais applicao, sem
mais livros que o Monitor, sem mais academias que as conferencias
das trvas nos subterraneos da crpula, e das enigmaticas, e symbolicas
ferramentas, ouso clamar, que ns os verdadeiros fieis, acreditando, e
respeitando nossos santos, e adoraveis dogmas, no fazemos de nossa
natural razo aquelle uso que podiamos, e que deviamos fazer. Que
dando-nos a Natureza olhos para ver, desgraada, e voluntariamente nos
fazemos cgos; e que querendo ser humildes, e obsequiosos crentes, nos
tornamos pessimos raciocinadores, que a nossa crena faz resvalar a
dignidade do ente pensador para a classe do bruto, que deshonra a
humanidade, sepulta, ou estraga o mais precioso talento que nos dra o
Creador, que vergonhosamente nos classificamos abaixo dos animaes rudes,
acima de cuja esfra estavamos constituidos pelas faculdades
intellectuaes. Eis-aqui o que eu mesmo escutei, o que eu mesmo soffri; e
ouvindo discorrer tanto a estes livres pensadores, nunca pude arrancar
de suas eloquentissimas linguas a causa, e o motivo desta to
filosofica accusao. Mas estas idas ccas expostas em sesquipedais
expresses, que parecem destiladas pelo vagaroso, e enfatico intervallo
que ha entre huma, e outra, e apoiadas com os estrondosos nomes de
Raynal, Voltaire, e Helvecio, e proferidas diante da juventude
inconsiderada, ociosa, e irreflexiva, obrigo a se formar de ns aquelle
conceito, que se forma de hum rebanho de animaes brutos, e estupidos que
se despenho, e precipito cgos por aquelles combros por onde vm
arrojar-se o primeiro, ou por onde os chama o silvo de hum pastor, ou a
sombra de huma vara. Aquelles que assim nos trato, e insulto so
acclamados, e tidos em conta de espiritos pensadores, amigos do bom
siso, e defensores da verdade, e at redemptores da oppressa razo, que
sabem magistralmente purgar-se a si, e aos outros de preoccupaes
defendendo-os dos ataques da ignorancia, do fanatismo, e infantil
credulidade.

No sei, Senhores, se podereis ter ouvido em paz, e sem se vos
desprender o fogo da ira, e da indignao, coizas to vis, e to
affrontosas; mas socegai, que talvez seja este o dia do triunfo mais
illustre da nossa F contra o Filosofismo do Seculo XIX. Eu vos amo,
prezo, e respeito tanto como a verdade, e discorrerei de maneira que
empenhe todas as foras da razo, e da eloquencia, e farei que to
escandalosas vilanias se no digo mais, ou se no digo impunemente aos
verdadeiros fieis. Mas porque caminho dirigirei eu os passos do
entendimento a esta baliza? Os apologistas da Religio nada tem at
agora omittido: so conhecidos seus escriptos. Holland, e Valceschi
respondro a Mirabaud, Bergier a Freret, Abbadie, e Hautevile a
Wolaston. A Celso respondeo Origenes, a Juliano S. Cyrillo, a Profirio o
maior de todos os Oradores, Nazianzeno: eu responderei a todos. Os
modernos Incredulos no so mais que serviz, e miseraveis ccos destes
antigos sofistas: e crde que tem mais pezo, e fora hum fragmento de
Profirio, ou de Celso, que toda a supposta, formidavel artilharia
encyclopedista: e hum Occelo, e hum Timeo mais que o confusissimo
systema da Natureza. Estando pois todas as varedas batidas, e todos os
meios empregados, eu no posso dizer-vos que seguirei hum caminho novo,
seguirei o mais plano, obvio, e descoberto, e que possa ser pizado at
pelos entendimentos menos agudos, e penetrantes sem o afan de profundas
especulaes. Eu confrontarei o uso ou emprego da razo natural, que
fazem os verdadeiros fieis com o uso, e emprego, que da mesma razo
fazem os incredulos. Constituirei de huma parte estes estrondosissimos
panegyristas, e redemptores da razo, que segundo elles dizem, e
assoalho, lhes serve para ver, e conhecer todas as coizas sem ter
necessidade da F, e que desprezo, ou regeito magistralmente tudo o
que ou no comprehendem, ou no vm com a mesma razo. D'outra parte
constituirei os verdadeiros crentes os mais rendidos, e sugeitos s suas
decises, e mais apartados do espirito de duvida: e comparando, ou
confrontando hum com outro partido, fazendo entrar em fechado campo os
humildes, e simplices crentes com os soberbissimos e eruditissimos
Sofistas como vra o vale de Therebintho de huma parte hum Gigante, e
d'outra parte num joven pastor, farei ver, e conhecer victoriosamente a
qual dos dois convenha o brazo e o timbre de fazer uso, e o melhor uso
das faculdades intellectuaes, qual dos dois honre, ou qual avilte a
razo, e a humanidade, e qual dos dois merea a compaixo como enganado,
e obtuso, qual seja digno de louvor como atilado, e consequente.

Conheo, Senhores, que a vantagem est da nossa parte, e que se
tornar evidentissima com o meu Discurso, e tambem conheo que assim
como os mysteriosos das vizagens, e dos signaes da esquadria se obstino
em planos de profunda tactica e politica sublime para igualizar,
republicanizar, domocratizar, e fraternizar o Mundo depois que elles
mesmos, e no outros, o encadero aos ps do monstruoso despotismo de
hum obscuro aventureiro, sem que se envergonhem nem do mesmo ridiculo de
que esto cobertos; tambem para se vingarem da verdade que lhes dr nos
olhos, se obstinaro ainda mais na impostura, e no engano. Se algum
destes miseraveis existe no meio deste immenso auditorio, e se tem
trazido para aqui o compasso para medir o que no entende, esperando
escutar as frazes do neologismo de seus ridiculos periodicos, eu lhe
peo, que se digne hum pouco de desfranzir as arqueadas filosoficas
sobrancelhas, e ouvir por hum instante hum Christo desapaixonadamente,
e desenganar-se-ha, que s no seio do Christianismo, e no regao da
F se acha o Orador sublime, o Filosofo profundo, e o homem da razo, e
da verdade.




DISCURSO.


Dizem pois os mysteriosos censores, e no tem jmais deixado de o
repetir o mais insignificante folheto da escola tenebrosa, que ns os
Christos nem fazemos, nem queremos fazer uso de nossa razo natural;
que quando se trata dos mysterios da Religio, accreditamos, e
emudecemos; que no damos conta aos outros homens dos motivos da nossa
f; que conservamos como encadeadas as faculdades racionaes, e
intellectuaes sem entrarmos no conhecimento analytico destes mesmos
motivos. Tal he a primeira calumnia, que envolta em rebombantes
periodos, sahio do famoso Club de Holbac, e havia de muitos annos antes
apparecido no impio Livro _O Militar Filosofo_; tal he o primeiro
improperio que vem na vanguarda dos impugnadores, e refutadores
analyticos da verdade da Religio Christ. Tal he o principio
puerilmente rebatido at ao enjo, em tantos livros de identica
substancia, de identica doctrina, e at de titulos identicos, e que j
desafio a irriso do homem sisudo, vendo que aquellas cgas, e
tenebrosas Toupeiras no sabem mais que hum caminho subterraneo;
_Systema da Natureza_; _Filosofia da Natureza_; _A Natureza_; _Religio
da Natureza_; _Codigo da Natureza_; _Moral da Natureza_. Tal he o grande
achado com que se esmalto os noventa e nove volumes do palavrosissimo
Sofista de Fresney. A estes malevolos oraculos, em que no cabe a
sabedoria, eu poderia j dizer as mesmas palavras que o Martyr Luciano
disse em Antiochia ao soberbo Proconsul: Sabe, que ns os Christos
no nos dirigimos, e levamos como tu julgas por huma indisputada, e
paternal tradio como fazem os teus Filosofos. Deos he o Auctor da
nossa crena, e Deos nos falla de Deos. (Euseb. Hist. Eccl. Liv. 9. c.
6.) Isto poderia fazer emudecer os monstros, mas comecemos de mais longe.

Sabei, ou no o affecteis ignorar, que os primeiros annunciadores do
Evangelho, tivero  frente dentro em Jerusalem os mesmos Hebreos
incredulos, e pertinacissimos, e que a estes mesmos Hebreos se disse, e
se provou, que o alimento da nova crena em o Christianismo era muito
racionavel. Sabei, ou no o affecteis ignorar, que o mesmo Apostolo, que
havia sido perseguidor, fallara ao Areopago de Athenas, e aos Filosofos
de Roma, e que dissera, que o obsequio, que nosso entendimenio fazia 
F, era muito racionavel. Por ventura o Areopago de Athenas,
celebradissimo por sua sabedoria, e prudencia, e as Academias da
douta Grecia, e soberbissima Roma ero ajuntamentos de gente escolhida,
ou capaz de se deixar embair de admirao pela doctrina de Paulo, e de
abraar sem escrupuloso exame, e sem huma muito filosofica discusso os
elevadissimos mysterios, que elle lhe propunha? Que injustia he esta
dos fataes encyclopedistas, e seus adeptos, cujas ramificaes se
estendem tanto pelos domicilios da crpula, e politica desta Capital!
Porque alguns humildes idiotas, e medrosos dos astutos, e capciosos
sofismas emudecem aos altisonantes nomes de Pitaval, e Raynal, ou dizem
simplesmente que accredito, fazer commum a todos, e at a mim, esta
linguagem, constituindo de seu plenissimo poder ao som de altas punhadas
nas marmoreas bancas huma enorme distancia, e huma irreconciliavel
inimizade entre o discorrer, e o accreditar! E se eu vos fizer ver, oh
malevolos, e incapazes da luz da verdadeira Filosofia, que nenhum dos
Filosofos antigos, e modernos fez tanto uso da natural razo em seus
principios, e opinies, quanto faz em sua Religio hum verdadeiro
crente? E se pelo contrario eu vos mostrar com evidencia que no existe
hum individuo, que menos empregue a razo, ou que a empregue mais
despropositadamente que hum incredulo do estupido rebanho dos fortes
pensadores? Eu j poderia cortar de hum golpe a grande questo,
constituindo-vos diante dos olhos a pueril differena dos innovadores em
materias puramente Filosoficas, e perguntar-vos se he mais chegado 
razo o systema de Taliamed, ou o de Delisle sobre a formaco do
Universo, e produco das creaturas, se a cosmogonia de Moiss? Se he
mais conforme aos dictames da razo natural o systema de Buffon, que
pertende, que huma pancada dada por hum Cometa no corpo do Sol, das
lascas que saltro se fizero todos os globos que em torno delle giro
com to compassados, e Regulares movimentos, se a creao do mesmo
Sol, e dos astros pela voz de hum Deos Omnipotente como nos declara
Moyss? Mas deixemos por agora esta confrontao de objectos
particulares para procedermos com methodo em materia de tanto momento, e
consequencia; e conheceremos quaes sejo os cgos, e os inconsequentes.

Eu me persuado que estes zelosissimos Apostolos da razo no so to
encarniados inimigos da crena Christ, que em odio da mesma crena
queiro abolir, e exterminar de todo a mesma f humana; nem se poderia
entrar em argumento com estes filosofantes, se negassem este primeiro, e
evidente principio: e tambem me persuado, que se no pde imaginar num
homem nem mais irracionavel, nem mais infeliz do que aquelle, que
vivesse com o firme presuposto de no dar jmais credito a outro homem,
que falle, ou escreva, salvo se sua escritura, e suas palavras no forem
immediatamente apoiadas com o actual, e perenne testemunho dos
sentidos. E se he bom uso, segundo lhes oio dizer, aquelle que se faz
da razo humana accreditando os homens que fallo, ou escrevem, julgo,
que no diro, que he mao uso aquelle, que se faz da razo accreditando
a Deos. Eu creio, que este ser chamado por elles mesmos o uso mais
perfeito, mais excellente que se possa fazer da faculdade racional, pois
vm, que assim discorrro, e praticro no os idiotas, e simplices
crentes, mas hum Newton, hum Locke, e hum Pascal. Sim, dizem os
mysteriosos, ou ridiculos iniciados, se esse Deos existe, e, se acaso
existindo, esse Deos fallou... No se dm tanta pressa, Senhores, eu sei
que at esses limites chega toda a sua subterranea, tenebrosa, e
escondida illuminao. Trataremos ainda destes dois grandes objectos,
por agora bastar ver, que se os pensadores fortes acredito mais os
homens que Deos, e se ns acreditamos mais Deos, que os homens,
temos da nossa parte huma incomparavel vantagem, e igual quella que
tem hum homem de bom siso sobre hum varrido mentecapto. Creio, que esta
duvida dos mysterioros umbriferos sobre a demonstrada existencia de
Deos, he huma especie de espantalho, que me tem querido pr, pois o mais
superlativo Veneravel, e o do mais empinado cabeo do Libano, sabe muito
bem, que hum verdadeiro Atheismo depois de se haver sofisticado tanto,
ao menos para o estabelecer como provavel, em os dois confusos volumes
do inintelligivel Systema da Natureza, segundo a confisso at do mesmo
Vanini, e Spinosa, he hum verdadeiro delirio. He justo, que os Senhores
politicos tenebrosos procedo, e argumentem de boa f, e que no sio
de suas trincheiras, que so as do Deismo, e no as do Atheismo, e
presuposta a verdade que elles absolutamente se no atrevem a negar, que
existe hum Deos, cujas provas _a priori_ at agora no tentadas, eu
produzirei bem depressa em hum Tratado particular, para consolao
da razo humana; eu me no devo obrigar agora a outra demonstrao mais,
que  demonstrao de ter fallado aos homens. E quantas vezes, e de
quantas maneiras tem elle fallado destes dogmas, que ns accreditamos, e
desta Religio, que ss professamos? Por que meios to maravilhosos, to
estupendos no tem elle annunciado aos mortaes seus profundos mysterios,
as Leis, e os Decretos de sua immortal vontade? Fallou primeiro muitos
seculos antes pela lingua, e pela penna de alguns homens, que to
exactamente annunciro, e descrevro os futuros acontecimentos desta
Religio, e do seu Auctor, bem como os mais imparciaes, e fieis
Historiografos descrevem os factos presentes, ou  pouco acontecidos
debaixo de seus mesmos olhos: e estes futuros acontecimentos
pontualmente verificados, alm de seres contingentes, ero destituidos,
(conforme a capacidade do entendimento humano) de toda a apparencia,
e probabilidade de se verificarem: oppostos a todos os raciocinios, a
todas as conjecturas humanas, a todo o systema dos tempos em que se
escrevro; e alm disto repugnantes entre si, como so repugnantes, e
apparecem contradictorios em huma mesma personagem, em hum mesmo culto;
pobreza, e grandeza; exaltao, e ignominia; throno, e patibulo;
desterros, e conquistas; estragos, e multiplicao; perseguies, e
victorias. Fallou em segundo lugar, pela boca de seu mesmo Filho, pondo
por elle fim evidentissimamente  primeira alliana, e juntamente ao
Altar, ao Sacerdocio, e ao Principado de huma lei figurativa, e s
permanente antes da realidade: e dando principio nelle, e por elle 
nova alliana, conductora de verdadeiras benos a todas as Naes,
conforme os clarissimos vaticinios de todos os Profetas. Fallou com 
voz de huma grande parte do Mundo, que passou rapidissimamente do
culto idlatra, que era a Religio dominante, e quasi universal  crena
Christ; dos encantadores deleites  temperana Evangelica; das soberbas
riquezas  desprezivel pobreza; do ambicioso commando  humilde
sugeio, bastando doze homens simplices, e ignorados para fazerem esta
moral revoluo por toda a parte do immenso Imperio Romano. Fallou com a
voz de huma grande multido de homens literatos do Gentilismo, que
conhecendo, sentindo, e admirando a santidade desta Religio, e a
sublimidade destas doctrinas, julgro huma rematada loucura sua antiga
sapiencia, e se tornro como hum Justino, de Filosofos Pagos em
Theologos, e Mestres do Christianismo. Fallou finalmente com o sangue de
hum numero portentoso de Martyres, cuja constancia acompanhada sempre de
hum silencioso, e pacifico soffrimento excede todas as foras da humana
natureza, nem cabe nos confins da humana Filosofia.

Agora eu vos pergunto,  espiritos incredulos,  mysteriosos pensadores,
grandes columnas dos Liceos centraes, e dos Printaneos universaes, 
eruditos profundos em Monitor, e mais nada;  estupidos sequazes do
Filosofismo Wandalico, e revolucionario, quem vos tem fallado, quem vos
tem feito pensar, e crr cousas contrarias aos principios, e dictames
desta minha f, na qual se observa, e se escuta manifestamente a palavra
de hum Deos, que fallou aos homens? Ns somos iguaes nisto s: _Eu
creio, vs accreditais_. Porm ns somos differentes nos motivos, nos
auctores, nos testemunhos, eu, da minha crena, vs da vossa
incredulidade, e futilissimas duvidas. Dizei-me pois, quem sejo
aquelles que vos tem fallado de viva voz, ou por escripura? Ah! vs vos
correis, e envergonhais de os nomear! Tambem eu me envergonho, e corro
de proferir seu nome, para que no julgue, ou se no persuada algum
idiota dos doirados crapulosos domicilios de Lisboa, que eu me digne
de instituir huma confrontao entre os vossos mestres de F, e os meus.
Seria fazer o mais injurioso parallelo nomear Freret, Boulanger,
Diderot, e d'Alembert, e depois os mais sublimes Profetas, e os Santos,
e doutissimos Mestres do Christianismo, ainda no seu bero, como hum
Origenes, hum Athanazio, hum Tertuliano, e hum sublimissimo Nazianzeno.
Direi smente em geral, que estes Corifos, Enciclopedistas, e Oraculos
do Filosofismo so crentes de propria inveno, e mestres de proprio
moto, trepados em pestilenciaes cadeiras, mestres sempre fluctuantes,
sempre incertos, sempre discordantes entre si, sempre contradictorios
comsigo mesmo como hum Jaques, que em huma pagina exalta o Evangelho
como huma produco divina, e logo n'outra pagina o deprime como num
parto da simplicidade, e do Fanatismo: mestres, que se da sua crena ou
de seus sofismaticos escritos dependesse o mais pequeno, e o mais
insignificante negocio domestico de seus discipulos, ou alguma de suas
terrenas vantagens, ou fico que a todos os de sua escola pareceria summa
imprudencia fazer-se incredulos sobre a sua honrada, e scientifica palavra.

Mas no he este o lugar para esta discusso, he tempo sim de confrontar
uso de razo com uso de razo, o uso que eu fao com o uso que vs
fazeis, ou vos considerei como discipulos, ou vos assoalheis como irmos
terriveis, e veneraveis: e se esta disputa terminar em desvantagem
vossa, sereis obrigados a confessar racionavel a minha f, depois que
tantas vezes a tendes escarnecido, e me tendes provocado, e at
reprehendido como rebelde ao bom sizo, como desprovido de razo, e at
ingrato  humanidade. E porque? Oio este porque os Povos mais
selvagens, e incultos da terra, e digo seno he nova at entre
elles tanta extravagancia, e tanta brutalidade! Porque a despeito de
hum arbitrario fabricador de systemas, de hum arguto, e sagaz
filosofante, de hum fantastico pensador, tenho dado credito, e o dou ao
Supremo Ser,  Suprema, e primeira verdade, que fallou em todos os
Seculos, que fallou em todas as lingoas, que fallou em sua propria
pessoa, ensinando-nos por si mesmo dogmas unidos, e ligados entre si com
hum lao maravilhoso, e, se nem todos so accessiveis ao entendimento
humano, so todos conformes aos dictames da recta, e natural razo.

O que acabo de dizer, que a minha f, e a minha crena tem alguns
artigos que parecem inacessiveis ao entendimento, humano desabafa alguma
cousa meus implacaveis accusadores da consternao, e aperto em que os
lanou a primeira parte da indicada confrontao: porque, se he verdade,
dizem elles, como eu confesso, que a Religio tem alguns dogmas no
perceptiveis ao entendimento humano, eis-aqui porque eu Christo, a
respeito dos mysterios da F, sou obrigado a renunciar o lume da razo
natural: em quanto ns... Em quanto vs, oh! Pitavais, oh! Rainais! sois
obrigados a renunciar o lume da razo natural a respeito dos mysterios
da Natureza. Esta minha resposta assim vibrada, talvez seja pouco
sucosa, e muito restricta, he preciso que eu a exponha com mais
perspicuidade, e extenso.

Assim como he hum indispensavel dever do homem pensar segundo a razo
natural, tambem he hum dever indispensavel do mesmo homem conhecer os
confins, ou as balizas que a Natureza constituio a esta razo; e ainda
que exacta, e precisamente se no posso determinar quaes sejo estas
balizas, conhece-se com tudo que existem muito  quem das cousas
invesiveis, e imateriaes. E que conta se d a si mesma esta to
orgulhosa razo das cousas corporeas hum pouco superiores, ou
distantes dos nossos sentidos? Que conta se d daquellas mesmas cousas
que temos entre as mos, e que com o olho armado de lentes subtilissimas
examinamos todos os dias? Que razo ns damos do movimento de hum
insecto, da sobida de huma lavareda, da tendencia de huma pedra para o
centro da gravidade, da respirao de hum animal, do fenomeno regular do
fluxo, e do refluxo, da causa immediata do magnetismo, dos espantosos
effeitos da electricidade, das fases da lua, da marcha excentrica, e
irregular de hum Cometa, do movimento de hum Planeta, da sua accelerao
na razo inversa do quadrado da distancia ao centro da revoluo? E quem
seria to desasisado que em lugar de confessar limitada a sua razo,
negasse pertinazmente a existencia destes objectos porque os no
comprehende? Que conceito formariamos daquelle profundo pensador, que
porque os no entendia os julgasse, e reputasse a todos outras
tantas imaginaes sem fundamento, ou outras tantas illuses da
fantazia, e dos sentidos? No se dir de hum menino, que tocasse apenas
o septimo anno de sua idade, que no usa da sua razo, e que injuria a
Natureza que lha communicou, porque seno levanta com o entendimento a
especular os mysterios, e a resolver os problemas da mais recondita
Filosofia? Dir-se-ha com verdade, que considerando a molleza de suas
fibras, e a immaturidade de seus orgos, estes pensamentos altos, e
estas profundas especulaes no so ainda para elle, e que muito faz,
attendida a sua idade, se se adianta hum pouco em o material
conhecimento das letras, e em huma superficial combinao das syllabas.
E se este menino por no poder penetrar, e conceber sciencias maiores
que estes seus primeiros rudimentos da leitura, negasse que existio
mais sciencias, e mais reconditos conhecimentos das causas, e dos
effeitos, todos se ririo, e lhe no dario o nome de louco em atteno
 sua muito tenra, e delicada idade. Direis que eu discorro com clareza,
mas he porque se trata de huma razo tenra, e novia, mas que o
argumento no tem fora onde se trata de huma razo perfeita, e chegada
 sua devida maturidade. Seja embora a razo madura, e perfeita,
dizei-me pde ella acaso transgredir seus naturaes limites? Pde acaso
deixar de ser razo anuviada do sentido material, e cga para todos os
objectos que no forem corporeos? E no so prvas desta verdade alguns
incredulos escarnecido por vs mesmos, por terem a affirmado como
Mirabaud, que nada mais existe em o Universo, que corpo, e materia: ou
por haverem affirmado que esta materia he Deos, que esta materia he a
Providencia, que esta materia he aquella immaterial substancia, Arbitro
supremo, e separado da Natureza, que eu, simples, temo, e adoro como
hum ser infinito, de ordem superior, e todo espiritual? Lembrai-vos, que
he identico o vosso caso, e o do tenro menino, que porque no tem
entendimento capaz de formar idas mais sublimes, cuida que toda a
sciencia humana consista em saber contar hum pouco melhor, e em combinar
com mais facilidade algumas syllabas materiaes.

Torno outra vez ao campo com as empunhadas armas do parallelo, e vos
peo, que me digais se acaso seja honrar a humanidade, ou pizalla, e
desprezalla furiosamente depois de ter com mil provas conhecido a
limitada capacidade da razo, at no conhecimento, e analyse das cousas
sensiveis, que so de sua immediata jurisdico, atrribuir-lhe tanto
dominio, e dar-lhe huma vista to aguda, e penetrante, que nem das
cousas invesiveis, nem da Natureza Divina, nem das Divinas operaes, se
no deva acreditar, nem mais, nem menos, seno aquillo que a mesma
razo pde comprehender, e isto com tanta segurana ensinado pelos
Veneraveis aos adeptos dos primeiros gros, ou dos primeiros momos, ou
visagens, que quem pensar d'outra maneira se deva logo constituir 
carga cerrada na classe dos brutos animaes, desprovidos de razo, e de
conhecimento. E he isto conhecer, como he de obrigaco de todo o mortal
raciocinante, os limites do entendimento humano, e do humano discurso?
Em que direis vs que estes Veneraveis, ridiculamente mitrados,
annunciando enfaticos o ramo d'Acacia, e que a carne deixa os ossos, se
distinguem de hum insensato, que com azas postias presuma levantar o
vo, e girar em torno das orbitas dos Planetas?

Porm os crentes no fecho voluntariamente os olhos da razo? No se
immergem voluntariamente nas trvas da F? Vs aqui dissimulais com
vossa costumada perfidia, e malicia ter visto a clara luz que eu vos
mostrei na manifesta palavra de Deos, a cujo claro inextinguivel
ns caminhmos, e confundis com hum de vossos ordinarios sofismas as
trvas do entendimento com as trvas da razo: mas eu vos farei bem
depressa conhecer quaes sejo, e a quem perteno as primeiras, quaes
sejo, e a quem perteno as segundas. Trvas de entendimento so
aquellas de que se v rodeado nosso espirito, quando, por mais que
investigue, e procure descortinar certos arcanos da Religio, no chega
a conhecer, nem o seu modo, nem o seu fim, nem a sua causa: eis aqui
aquelle abysmo insondavel  vista do qual bradava o Apostolo--_oh
altitudo_! Mas isto so trvas necessarias a que podemos chamar sagradas
sombras, em quanto se derivo, e se derramo da incomprehensivel
Natureza do Ser Divino, e das Divinas operaes, e por isto so trvas
universaes para todos os entendimentos creados, so trvas para mim, e
para os profundos pensadores; so sombras minhas, e sombras vossas
por mais que vos chameis illuminados, nem so mais dos Egypcios, que dos
Hebreos, nem mais dos Gregos, que dos Romanos, nem mais dos incredulos,
que dos infieis, ou dos idolatras. Porm quando, ou por hum estranho
orgulho no se queiro nem conhecer, nem confessar estas trvas, ou
conhecendo-as, e confessando-as se fecho os olhos  luz da divina
palavra, que torna firme a nossa f no meio destas mesmas sombras, ento
as trvas que ero s do entendimento passo para a razo, e se torno
trevas voluntarias, e por isso trevas culpaveis, trevas deshonrosas,
trevas de homem, que por ser pertinacissimo, renuncia os dictames da
recta razo, e desce, e se faz semelhante aos mesmos brutos.

Eu me mago, e penalizo, oh espiritos incredulos, devendo dizer-vos que
esta to tenebrosa, e aviltada razo, he pontualmente a vossa, a
tanto mais me penalizo quando mais conheo que vs quereis ser homens
pensadores fra do uso commum, e da vulgar esfera. Mas talvez que vos
lembre alguma resposta, que vos livre ao menos em parte desta vergonhosa
infamia. Pensai, estudai, meditai, consultai os vossos mais meditabundos
Veneraveis, l-de, e rel-de vossos amados livros, o vosso Tindal, o
vosso Collins, o vosso Bolimbrocke, o vosso prezadissimo Oraculo de
Fresney, v-de se nesse erario de paralogismos podeis achar algum
argumento, alguma palavra que vos possa destruir o vergonhoso labo de
serdes em materias de F homens desprovidos de razo. Eu mesmo, no
posso encontrar, por mais que subtilize, huma s vereda por onde vos
possaes escapar. Vs me concedesteis j, no o podeis negar, que existe
Deos, vs tambem me deveis conceder que elle haja revelado aos homens o
culto com que quiz ser adorado pelos mesmos homens, que o revelou, e
manifestou de huma maneira descoberra, e sensivel, milagrosa em cada
huma de suas circumstancias que este culto, para ser digno delle, devia
conter verdades superiores  esfera do humano entendimento, e que de
outro lado este humano entendimento he to pouco penetrante, que no
pde presumir sem loucura que conhece, e entende todas as verdades
fysicas, e naturaes. E porque estes Dogmas da F se envolvem em
magestosas sombras, e sagrada obscuridade, vs recusaes acredita-los sem
que se vos torne evidente sua possibilidade, ordem, e economia; e ns os
fieis que os acreditmos sem to filosoficas delicadezas somos tratados
por vs, profundissimos pensadores, e accreditadores das verdades, do
Monitor, de estupidos inimigos do bom siso, e de pessimos raciocinantes.

Ns, continuo os Veneraveis a clamar, no dizemos que vs sois pessimos
racionantes, dizemos smente que conservaes em estupido ocio a
razo, e o discurso. Isto he huma retirada que eu no podia esperar, mas
esta mesma retirada no os salva de serem seguidos, e feridos com as
armas da razo. Dizem pois, que eu por ser crente, sou constrangido a
conservar em ocio vituperoso o discurso humano, sepultando o maior
talento, ou dom da Natureza, que he o lume da razo. Grande Deos! E era
de esperar isto de homens que tem olhos para ver, e razo para
discorrer! E era de esperar huma semelhante impostura? Entrai oh
incredulos, em alguma daquellas respeitavel Bibliothecas conservadoras,
e depositarias da sapiencia Christ, e alongai a vista para o
assombroso, e surprendente nmero daquelles volumes cheios de
amplissimas provas da verdade da Religio Evangelica, e para que no
digaes que constituo ante vossos olhos alguma Legenda crdula, algum
Mistico a que chamais Visionario, l-de unicamente Grocio, e Locke ambos
defensores, ambos demonstradores da verdade do Christianismo, e de
seus augustos Dogmas. Aqui achareis demonstraes luminosissimas, e
levadas at a evidencia; os quaes os mais pertinazes das vossas
nocturnas, e tenebrosas escolas no se atrevro ainda a responder, e os
mais atrevidos no tivero ainda outra resposta que dar mais do que
vilipendios, e motejos plebeos: e quando tem querido dar resposta, como
serios argumentantes, no tem feito mais que oppr s provas daquelles
dois profundos Filosofos, fabulosas relaes, Padres suppostos,
Escrituras falsificadas, Authores suspeitos, e desacreditados, e se vs
chamais s provas do Christianismo fructos do ocio Christo, que
chamarei eu a taes objeces, fructos da vossa pensadora incredulidade?
A respeito pois da Essencia Divina, da sua immensidade, da sua
immutabilidade, da sua eternidade, que tem imaginado de grande, e que
descobrimento tem feito os vossos profundos pensadores, e os maiores
oraculos do maior Oriente, para que se no creia em nossos pensadores
Christos? Tudo quanto dissero sobre a Natureza Divina os Socrates, os
Plates, os Democritos, os Zenos, e outros Mestres pelo muito uso que
fizero da razo natural dignos de fama, e de memoria, he apenas hum
balbuciamento de tenros meninos a respeito do que ensina o menos
profundo dos Theologos Christos, e o mais superficial, e insignificante
dos nossos livros. A causa de to grande differena entre uso de razo,
e uso de razo, se vos dignaes escutalla o mesmo Evangelho a est
declarando. De differente maneira edifica aquelle que escolhe para o
edificio hum terreno compacto, e pedregoso, do que edifica aquelle, que
escolhe hum terreno movedio, e solto; o primeiro no tem medo de
levantar alto da terra o edificio que constroe, em quanto o segundo,
attendida a natureza do terreno, se v obrigado a conservar muito
baixo o edificio, nem pe huma pedra sobre outra pedra sem receio de que
crescendo o pezo cahia tudo confuso, e despedaado sobre o infiel
terreno. De similhante maneira acontece a hum entendimento, que tem
fundamentado suas decises sobre o firmissimo alicerce da sua F. Sobre
estas bases se pde levantar com a razo, at ao solio do Immortal, para
investigar a Essencia Divina, e as Divinas perfeies sem erro, e
conhecer sem perigo cousas remotas, e distantes do entendimento humano.
Pelo contrario os incredulos, e os Veneraveis que tanto me tem taxado de
embecilidade, sem o fundamento da F, por pouco que se queiro levantar
com a razo, devem sempre temer huma confusa ruina de caprichosos
fantasmas, e vergonhosas contradices.

Ainda com o impeto, e fora desta evidencia no emudecem os
pertinacissimos impugnadores, ou refutadores analyticos: que ha que
dizer (erguem elles animosamente a voz) que ha que dizer a estas
nossas livres fantazias, s quaes se d o odioso nome de caprichosas!
Por ventura, no so elas hum amplo patrimonio, hum direito innato do
espirito humano? Custa-vos acaso, que ns os pensadores recusando crr,
nos conservemos na posse daquella liberdade de pensar que a Natureza nos
deo, e que tanto tem dilatado os nossos Veneraveis, e da qual to
injustamente nos despoja a F? Ah! Illusos fraternizadores, e
niveladores! E porque no dizeis, que tambem a Filosofia despoja o
entendimento humano da liberdade de pensar? Quantos vos de engenho he
preciso refrear, quantos systemas he preciso regeitar, quantas invenes
he preciso sacrificar, s leis daquella, que segundo o vario gosto dos
Seculos se chama boa, e razoavel Fysica? Vos que accusaes a F de ligar
o entendimento, e de o condemnar a huma individa servido, porque no
accusaes tambem as Sciencias, que todas tem seus principios, suas
regras, seus confins, que da mesma sorte que pratica a F, pem hum
freio, e prescrevem leis ao licencioso entendimento?

Com effeito, ou se considerem as sciencias, ou se considere a F, ou
isto em vs he huma grosseira impostura, ou huma equivocao pueril,
porque esta liberdade de pensar de que dizeis vos despoja a F, vs por
certo a julgais, e a entendeis huma liberdade sabia, digna de hum homem
racional, e no huma liberdade de fernetico, ou de hum sonhador
febricitante. Ora dizei-me em que vos violenta, ou vos constrange esta
F, cuja prepotencia vs tanto exageraes? Ella vos obriga a dizer que
existe Deos, e esta existencia j est demonstrada pela razo natural.
Ella vos obriga a confessar que este Deos existente fallra aos homens,
e he evidente que elle fallou pelo exactissimo complemento dos
vatecinios. Ella vos obriga a confessar, que as palavras deste Deos
so infaliveis, e he inegavel que no podem deixar de ser infalliveis
pois so de hum Deos que encerra em si todas as perfeies. Fra disto
eu no posso, nem he possivel descobrir cousa em que se constranja, ou
tyrannize, como vs dizeis, a vossa liberdade; salvo se vos queixaes de
perder aquella liberdade que quereis ter de ajuntar contradices, de
engrazar impossiveis, e de dar ao Mundo (como tendes feito em tantos
Livros ineptos quantos ha desde o Militar Filosofo, at s prvas do
Mahometismo, ultima produco de Holbac,) quimericas imaginaes por
verdades demonstradas. Se quereis permanecer neste estado como vos
prescreve o Codigo de Weishaupt, o de loucos varridos ainda he mais
vantajoso.

E,  vista disto, que estrepito se no tem feito, e se no continua
ainda a fazer pelos subterraneos, que tremem da Policia vigilante, que
os faz ir republicanizar, e igualizar em masmorras, sobre a
miseravel escravido do humano entendimento, e sobre o tyrannico
imperio, que a F, segundo elles clamo, tem usurpado sobre a razo
natural? Que queixas eu no tenho ouvido fazer sobre os pequenos
progressos que tem feito no Mundo, depois da entrada do Christianismo a
profana Litteratura? Que compaixo no fingem ter dos engenhos
catholicos, que tendo azas com que poderio sobir acima das nuvens, se
curvo, e encolhem ao jugo da crena, abatendo os vos, e andando quasi
de rojo pela terra? Mas se se quizer examinar, ou vr smente que cousa
seja este remontar-se sobre as nuvens, achar-se-ha que no he outra
cousa mais que arrancar do entendimento ( fora de pensar livremente) o
innato conceito da honestidade, o innato horror do vicio, fazer das
aces justas, e das aces injustas huma inveno do interesse, ou
apenas huma das ceremonias da vida civl, e da conducta politica;
collocar, e estabelecer na fora maior hum justo direito de roubar, e de
matar seus similhantes; tirar das mos aos Principes, e aos Dominantes a
espada punidora de suas escandalosas maldades; e fundar toda obrigao
que tem os homens de honrar, e obedecer a Deos, no em seu infinito
merecimento, e em seu supremo dominio, mas unicamente em seu
irresistivel poder. Eis-aqui, dizem elles, hum pensar livre, nobre,
generoso, honrado, sublime, e no pensar com humildade, e sugeio de
escravos, como fazem os Christos. Eis-aqui o que se chama despregar
soltamente as azas do entendimento, desferir com magestade os vos como
nos ensina o nosso Mestre Veissauph, e todos os nossos Cavalheiros do
Libano, eis-aqui o que escutamos aos nossos Veneraveis, quando descalo
as formidaveis, e tremendas luvas para nos fazerem vr a luz em o ultimo
dos nossos gros, que vem a ser, ensinar-nos em Methafysica o
Pantheismo, e em Moral, a Igualdade acephala, e anarquica. Eis-aqui o
que se chama entranhar-se no conhecimento da verdade, e no querer a
vida, se no para a empregar na indagao da verdade, sem levar sempre
ao lado o cgo, e molestissimo pedagogo da crena sobrenatural. Eis-aqui
o que nos inculcou, e o que ns estudamos nos mais que sobrehumanos
escritos do nosso Cidado Genebrino.

 vista disto, Senhores, eu creio, que ainda quando a F vo-lo no
vedasse, vs no quererieis huma similhante liberdade de pensar, s para
manter o decro da vossa razo, e para no mostrar ao Mundo que
constituis na extravagancia, e na loucura a gloria d'espirito forte, e
pensador profundo. Resta pois que os valentes pensadores bato outro
caminho que lhes possa lembrar, porque as veredas at agora tentadas os
no tem conduzido, nem podem conduzir  sua to vmente preconizada
victoria. Mas elles so de fecundo engenho, e fertil de estratagemas
na guerra anti-christ; acolhem-se  sua ultima trincheira, conforme a
tactica do guerreiro, ou campio de Genebra, que he a dos milagres que
ns acreditamos como simplices, fundando nelles hum dos motivos da
credibilidade da F. Milagres, que elles como sabios, e profundos
pensadores desprezo, ou orgulhosamente desconhecem. Mas he preciso
antes que venhamos s mos, que os meus inimigos mostrem boa f em o seu
ataque, e que se no tornem como costumo pessimos pensadores,
escrevendo, e divulgando, no sem motejos, e improperios, que ns os
fieis somos crdulos em tudo aquillo que se nos offerece prodigioso com
tanto, que encerre em si alguma cousa de devoto, e de mistico. Mas eu os
considero to amestrados na Ecclesiastica Historia, que no ignoro oue
os tempos de huma to abusiva, e facil credulidade, ou no existro na
Igreja, ou se existiro em algum Seculo de decadencia, e dominao
Gotica comprehendro em si hum pequeno numero de pessoas idiotas, e
vulgares, fraces infinitezimas em o todo dos illustrados Christos:
elles no ignoro que a derramada luz da severa critica, da sagrada
Hermeneutica, e das profundas indagaes litterarias tem at destruido,
e acabado a sua memoria. Alm de que, esta crena dos milagres,
exceptuando aquelles que esto registrados nas Santas Escrituras, no he
entre ns crena divina, nem absoluta, nem sempre igual; he sim huma
crena medida sempre pelo maior, ou menor valor da authoridade em que se
firma. E  vista disto, quem pde taixar de aviltamento da razo o uso
que ns fazemos do bom siso, a respeito dos acontecimentos milagrosos?
Tem por ventura a Natureza ensinado aos homens outra regra de dar
credito, ou de o negar s mais estranhas, e inexperadas aventuras, mais
que a qualidade, e o numero daquelles, que nos referem, e
testemunho extraordinarios acontecimentos? Diro por acaso que usa
rectamente de sua razo aquelle, que porque hum facto he milagroso,
conta em nada a authoridade, a multido, o caracter, as luzes das suas
testemunhas oculares! Usa bem da razo, quem reputa ignorantes os homens
mais doutos, os mais agudos, e penetrantes por insensatos, os mais
prudentes por superficiaes, e os mais santos, e virtuosos por
impostores?... Mas se os milagres so impossiveis, como he possivel que
se acreditem? Tambem a vossa razo vos diz que os milagres so
impossiveis? Oh entendimentos felizes! E podesteis desde as vossas
tenebrosas, e nocturnas cavernas do mysterio, e das vizagens, sobir aos
ceos, e tomar huma exacta medida das foras da Divindade, e,
considerando, ou a subita vista de hum cgo, ou a ressurreio de hum
morto dicidir magistralmente, que no chega a tanto o infinito poder
do absoluto Arbitro da Natureza? Eu na verdade, no tenho medido palmo a
palmo como vs fizesteis esta Divina Omnipotencia: todavia, parece cousa
fra de razo, que quem impz as leis  Natureza, se haja elle mesmo
feito escravo destas leis, com manifesta injuria de sua essencial,
absoluta, e dispotica dominao. Mas se he preciso, oh grandes, oh
profundos pensadores, tirar a Deos o poder absoluto de operar milagres,
e considerar, e ter quantos se conto, ou de Moyss, ou dos Profetas, ou
os de J. C. por outras tantas fabulosas invenes, ento he preciso
tambem negar todas as historias profanas, nenhuma das quaes tem por si a
centesima parte daquellas prvas, que tornam autentica, e indubitavel a
Historia Divina.

Eu j comeo, de sentir algum tedio, em rebater huma calumnia que talvez
fosse ferir em reverberao com nula ignominia, que fructo, os
escarnecedores, e motejadores da crena Christ. E agora que penso
socegadamente me doe de no ter nesta contestao usado antes da doura,
que do rigor, para attrahir os incredulos: mas eu lhes supplico que se
persuado que este calor, e esta aspereza, que tem respirado o meu
Discurso, no he culpa minha, mas se he licito dizello assim, he culpa
da verdade. Esta verdade he branda de sua natureza, suave, e tranquilla,
mas quando se v impugnada, e atacada com audacia, e com injustia,
accende-se, inflamma-se em nobre ira, muda o sereno aspecto em
carregado, e severo, veste-se de todas as armas, e toma huma lingoagem,
ou tom, que faz sentir, a quem a ultraja, todo o seu incontrastavel
valor. Com toda esta indignao pois, que he mais indignao da verdade,
que indignao minha, creio que o meu corao os no pde escusar,
ainda que deseje encontrar motivos de se Compadecer. Infelizes! Vivem em
hum Mundo, e frequento sociedades onde os serios, e verdadeiros
pensadores, no so mui aplaudidos: de outro lado elles querem
sobresahir ao vulgo, e parecer homens, ainda entre os doutos, d'hum
pensar profundo. As materias de Religio lisongeo, ainda mais que as
outras, seus menos regulados costumes, o pouco trabalho de huma
superficial, e desatenta leitura os surte de breves sentenas, ou
triviaes apothegmas, capazes de nutrirem a sua intereada incredulidade,
e de excitar a admirao dos idiotas. Entre estes apothegmas, eis-aqui o
principal. Que a faculdade racional, he superflua nos Christos, os
quaes devem crer, e no discorrer, porque se discorressem, talvez no
acreditassem. Mas o paralello, que fiz do nosso discorrer, com o
discorrer dos incredulos, no ter dissipado todo o seu engano? Pzem os
principios de que fazemos partir, ns a nossa crena, elles a sua
incredulidade, e tenho, no digo vergonha de si, e de sua
scientifica soberba, mas tenho d da sua alma, que Deos pelos caminhos
da razo tinha conduzido ao regao da F. Confessem que se obstino a
pensar brutalmente, por huma soberbissima nauzea de pensar Christmente.
Que lhes fez J. C. para o no quererem acreditar como Mestre de huma
doutrina celestial? Para que martyriso perpetuamente seu espirito, e
sua consciencia, contrastando a evidente santidade de seus Dogmas, a
evidencia das Profecias que o annuncio, a evidencia dos factos que o
comprovo, a evidencia dos milagres que o demonstro? Basta.

Juliano Apostata tinha sempre na boca a inraciocinabilidade que os
incredulos nos oppem, e dizia que em ns Christos, tudo era crer.
Porm o immortal Orador Nazianzeno lhe disse, e o confundio desta
maneira (Orat. 1. Cont. Julianum) Podes tu, que tanto admiras, e amas
tanto as Seitas Gentilicas, reprehender-nos a ns que fazemos esta
honra, ou mais depressa esta justia ao nosso Divino Mestre, e 
sublimidade excellentissima, e inimitavel de seus dictames? Os teus
amados Pytagoricos no tem por huma lei fundamental da sua escola,
dever-se eximir das mais difficultosas questes que se lhes proponho
com aquelle seu decantado--Ipse dixit!--E ns porque no damos outra
razo de nossos mysterios, mais que os ditos de hum Legislador conhecido
com mil prvas por Divino, e infalivel, somos chamados por ti automatos
insensatos, ou animaes sem entendimento?

Esta he huma parte do to gabado discurso dos incredulos desta idade,
declarar-nos ros de aviltada, e desprezada razo, porque nos apoiamos
em huma manifesta authoridade suprema: porm elles no tem na boca a
toda a ora, mais que certos nomes, que, ou a audacia tem feito famosos,
ou tornou clebres: a habilidade de vestir  moderna, e com estilo
moderno as blasfemias antigas; como por exemplo--no he de crer que hum
Deos, que he todo bondade, e misericordia haja de condemnar hum to
grande numero de creaturas, que vivem fra da sua Igreja--(E porque as
no ha de poder condemnar, achando que a sua infidelidade he culpavel!)
Mas no se busquem tantos _porques_. Disse-o hum Sofista de Pars, ou de
Genebra. _Ipse dixit_. Este Sofista he hum homem que tem em linha igual
a momentanea lascivia, e a continencia Evangelica. He hum homem cujos
incendiarios escritos foro lanados nas chamas pelos Decretos dos
Tribunaes seculares, e vive em toda a terra infamado, e infame pela sua
manifesta impiedade. _Ipse dixit_. He hum Tolland que diz que no ha lei
que obrigue os homens a seguir a Religio revelada; e que seria Deos
injusto se houvesse promulgado tal lei. E este Tolland arrastra-se em
Londres de huma prizo para outra prizo, e morre foragido em o
frio, e nebuloso inferno de Holanda; _Ipse dixit_. Este he o mestre
alegado, acreditado, e seguido. Seja embora condemnado, e proscripto
pelos Magistrados civs, he mestre _Ipse dixit_.

Pde haver maior incoherencia; maior injustia, que lanar-nos em rosto
a ns o _ipse dixit_ de huma Authoridade Soberana, sustentada com tanta
evidencia, e conservar para si, e querer que valha o _ipse dixit_
vacilante, e humano, e pronunciado por homens sem costumes, sem leis,
sem patria, sem outra authoridade mais que a dos atavios ridiculos da
Confraria das trvas, e dos subterraneos?

Destruamos finalmente o ultimo sofisma destas almas malevolas, ou
dissolvamos o ultimo lao de huma fraudolenta equivocao com que
pertendem tapar os olhos aos simplices. Ns acreditamos os Mysterios, he
verdade: a respeito dos Mysterios acreditados, tudo nos Christos he
crer, mas a respeito dos motivos de acreditar, tudo em os Christos he
vr. Tudo he crer, a respeito dos Mysterios, porque estes sendo remotos
dos sentidos, e superiores  razo humana, s podem ser objectos da
crena: mas tudo he vr a respeito dos motivos da crena, porque as
provas da revelao destes Mysterios so tantas, e to irresistiveis,
que o espirito mais pertinaz no pde exigir outras maiores, e renovando
outra vez a confrontao entre ns, e os incredulos, digo, que em ns,
tudo he crer com summa razo aquillo que devemos crer, e nelles tudo he
negar, sem razo alguma de negar, e com todas as razes de crer.

Se destes principios innegaveis, sobre materias de Religio, eu deso a
analysar o uso da razo que os mysteriosos, e tenebrosos fazem sobre
materias de moral, e de politica, eu os descubro igualmente monstruosos,
e inconsequentes. Assim como a incredulidade os conduz voluntariamente 
sua eterna perdio, a mesma incredulidade os conduz  sua desgraa
temporal. Todos os homens desejo efficacissimamente a sua ventura
moral, e a sua ventura politica, como individuos unidos em sociedade, e
diz-se que hum homem faz bom uso de sua natural razo, quando escolhe, e
emprega os meios mais aptos, e porporcionados para aquelle fim. E ser
fazer bom uso da razo para ser feliz na ordem moral, no conhecer
differena alguma entre o justo, e o injusto! No se embaraar com a
qualidade dos meios, com tanto que se consiga o fim? Julgar licito,
matar, roubar, calumniar, ou denegrir o seu similhante, para se avanar
pelos caminhos da ambio! Julgar licito o furto com tanto que se
empregue a maior fora, e affirmar, como eu ouvi a hum, que a passagem
violenta do dominio de quaisquer cousa de humas mos para outras mos
no he delicto, porque a objecto arrancado no muda de essencia na sua
passagem, e no ha mais que a differena de seu possuidor, e que nunca
pde neste caso haver perturbaco na sociedade, porque o direito da
propriedade, he quimerico, e se existe, he s fundado na maior fora, e
que por isto (continuava elle) ero licitas, e justas as conquistas, e
usurpaes de hum monstro? Ser fazer hum bom uso da razo natural, no
julgar o adulterio hum crime, mas hum simples galanteio, e s estranhado
pelo Gotico, brusco, anti-social, e preocupado? E com que descaramento,
e impudencia nos diz hum monstro to desmoralizado como este, que
emprega a sua vida na indagao da verdade, e que no tem outro intento
mais que reformar, e regenerar o Mundo! E no vemos ns espalhados estes
atrocissimos principios pelos escritos da escola encyclopedista, e no
malvado Livro que se chama--Os Costumes?--E a marcha da Revoluo, no
foi coherente a estes principios? As aces de que somos testemunhas no
so Corolarios destes infernaes theoremas de Helvecio! Ora ainda antes
que falle no uso da razo que fazem os crentes, pelo que pertence 
moral, no se envergonharo, e no se confundiro estes malevolos
espiritos, em quem no cabe a sabedoria, se eu lhes disser que os mesmos
Filosofos Pagos, que inquirro, e anciosamente buscro o caminho da
felicidade moral, fizeram melhor uso da sua razo constituindo a suprema
ventura na pratica da virtude, e chamando virtude s quillo que era
conforme ao puro dictame da Natureza? Leio, e envergonhem-se, os
principios de Socrates, quando se introduz em algum dos Dialogos de
Plato, e os axiomas, e sentenas d'outros Filosofos que religiosamente
nos guardro Plutarcho, e Diogenes Laercio. Leio, se a tanto se
atrevem, os escritos immortaes, e admiraveis de hum Marco Tulio, e
fixem-se ao menos no sonho de Scipio, no Tratado das Obrigaes Civs,
e nas eloquentissimas dissertaes sobre os verdadeiros bens, e os
verdadeiros males. Leio as engenhosas, e eloquentes paginas de Seneca:
os profundos pensamentos de Epiteto, e os Tratados sublimes do Filosofo
Imperante Marco Aurelio. Oh desgraa digna de lagrimas de sangue! Que
ho de lr estes detestaveis monstros, cuja liberdade de pensar, de que
to cgamente se ufano, voluntariamente se encadeia, e no tem outro
uso livre, mais que a diversa modificao que lhe d o discurso do
Veneravel, que elles escuto com a face cosida com a terra, e com as
encruzadas mos acobertadas de sanguinarias luvas.

Lancem-se os olhos para os actuaes resultados da Revoluo, veremos quem
faz melhor uso da razo na ordem moral, para a felicidade. E se eu
contemplar os verdadeiros Christos nesta mesma ordem moral? Bastar
abrir o Evangelho, bastar demorar hum pouco a vista sobre a
conducta dos primeiros fieis, sobre os escritos adoraveis dos primeiros
Mestres do Christianismo. Dizei-me, he fazer mo uso da razo natural,
assustar-se, no s com o crime, mas at com a ida, e pensamento do
mesmo crime? Ser fazer mo uso da razo natural buscar a ventura, e
tranquillidade da vida moral s pelo emprego, e pelo exercicio da
virtude? Ser superior  inquieta, e turbulenta ambiao,  desasocegada,
e desconfiada avareza, ao srdido, e vil interesse,  deslumbrada
soberba, ao srdido, e vil interesse da gloria popular, e finalmente, 
vergonhosa incontinencia? Ser fazer mo uso da razo natural, abraar
os dictames da temperana, fugir da glotonaria, ser moderado, paciente,
humano, compasivo, sensivel, generoso? Ser fazer mo uso da razo
natural, chegar com isso, que tanto assoalhais, e no tendes, e a que
chamais filantropia, a hum to subido gro de heroismo, que se amem,
no s os homens em geral, como similhantes mas at os mesmos inimigos,
porque so homens? Ser fazer mo uso da razo natural vencer os
movimentos tumultuosos da ira, e soffocar os internos brados de todas as
paixes, apenas se fazem escutar nos corao do homem? Confrontesse a
conducta aos verdadeiros Christos, que no bero da Religio revelada
apparecro no meio do Imperio da corrupo, e dos vicios com a conducta
destes illuminados, que rejeito, e desconhecem o foro interno da
consciencia, e que no admittem para regra das aces humanas, mais do
que o temor dos castigos temporaes, ou a esperana das recompensas
terrenas, e ento se conhecer quem haja feito melhor uso da razo
natural. Elles no querem conhecer seno delictos externos, e publicos,
ns conhecemos alm destes mesmos delictos, peccados, e reconhecemos at
crime aquillo mesmo que no foi mais que lembrado, ou imaginado.
Moral verdadeiramente pura, cuja sublime evidencia arrancou da boca do
Sofista de Genebra aquelle admiravel elogio que elle faz ao Evangelho.
Tanto pde a Verdade! A malicia, e a impiedade, nunca podero contrastar
sua victoriosa fora! E poder ainda dizer a impudencia, que ns os
fieis no fazemos bom uso da nossa razo, quando buscamos a felicidade
em a ordem moral?

Se eu quero dilatar, e espraiar o pensamento pela ordem politica, e
social em que os homens existem, ainda se torna mais patente a
desgraada condio da incredulidade, que ousa taxar-nos de irracionaes,
e at mentecaptos. Veja o Mundo espantado, vejo os homens todos
assombrados com o medonho quadro que lhe offerece a consternada Europa
depois que rebentou o Volco revolucionario, se he fazer bom uso da
razo natural, ter preparado com sofisticas idas de igualdade, e de
liberdade o caos em que se afundro todas as Jerarquias, todas as
Classes, todas as Instituies, todas as Leis, que o pezo dos Seculos, e
a vontade unanime, e universal dos homens havio sanccionado? He fazer
bom uso da razo perturbar de tal maneira a sociedade, a titulo de lhe
buscar em hum novo estado, e em huma nova ordem de cousas huma
prometida, mas fantastica felicidade? Que procedimento to chegado 
razo, soltarem-se sanguinarios Tigres, e levados do instincto, ou da
fora de nunca vista ferocidade, derramarem rios de sangue, no s pela
terra que os vio nascer, mas quasi por todo o globo atonito  novidade
de scenas to barbaras, e to atrozes, vendo que ellas foro preparadas,
conduzias, e executadas por aquelle mesmo Filosofismo orgulhoso, que se
dizia regenerador do Mundo, e salvador da razo aviltada, e abatida aos
ps do Fanatismo, e da Suprestio! He fazer bom uso da razo natural,
preparar a assinte sobre as ruinas de Thronos, e sobre reliquias de
Naes esmagadas, o Throno, ou as bases para se levantar o Colosso do
mais atroz, e escandaloso Despotismo que vio o Mundo em os annaes da
Tyrania! O que os nossos mesmos olhos esto vendo, e o que ns to
desgraadamente temos sentido no exige mais prvas, e demonstraes; as
lagrimas que temos derramado, o sangue que temos vertido, os males
pezadissimos que temos suportado, mostro bem a que ponto de
melhoramento chegra o Mundo politico pelos esforos dos livres
pensadores que tanto exalto, e apregoo o bom uso da sua razo, e tanto
taxo o nosso procedimento de hum rematado desvario.

E podereis dizer, malevolos, e publicos perturbadores da paz, e do
socego das Naes, que o verdadeiro fiel faz mo uso da sua razo, em
quanto permanece tranquillo naquella situao em que o constutuio a
Providencia, sugeito como lhe manda a Religio s Potestades dominantes,
sem murmurar, sem innovar, sem rebelar, reconhecendo na suprema
Jerarquia a authoridade emanada de Deos. Quando se vro, oh Ceos! Com
que pejo o digo! Quando se vro em Portugal tantos prfidos, tantos
traidores votados j  execrao, e indignao publica, pelas decises
de rectissimas Sentenas? No Seculo do illuminismo, em que se diz se
levantra o bom uso da razo sobre o abatido fantasma de velhas
preoccupaes. E he fazer bom uso da razo natural, conjurar contra a
propria Patria, contra a propria Nao, querer lanar-lhe ao colo os
ferros de hum Tyranno, despoja-la de sua gloria, soberania,
independencia, representao, e grandeza? Ser fazer bom uso da razo
natural attrahir sobre a propria cabea os males que preparavo aos
outros? Ser fazer bom uso da razo natural sacrificar a hum monstro que
permanece em huma absoluta ignorancia da sua existencia, a
reputao, a liberdade, o estabelecimento, e a ternissima posse daquella
Patria, e daquelle Reino que lhes deo o bero? Confronte-se o uso da
razo que fazem estes profundos pensadores, com o uso da razo que faz o
honesto Cidado, ainda que seja o mais ignorante, e idiota, e
conhecer-se-ha com evidencia de que parte esteja a vantagem.

Mas he to grande, e to profunda a cegueira, ou a pertinacia destes
monstros, que nenhuma razo os convence, porque huma alma malevola no
d entrada  verdadeira sabedoria. Fieis, fechai os ouvidos aos
enganadores discursos dos impios, debaixo de sua lingoa existe o veneno
dos spides, elles erro, e erraro sempre, _erraverunt ab utero, locuti
sunt falsa_. Fugi do precipicio a que vos conduz sua revoltosa doutrina.
Sabei que no querem Throno, no querem Altar, no querem Leis. Segui as
maximas celestiaes da Religio, cujas luminosas provas longe de
aviltarem a razo, a enobrecem, a purifico, a exalto, e fazendo o
verdadeiro homem de bem na terra, em quanto o torno virtuoso, nos
asseguro, e affiano huma eterna Bemaventurana.


                                                            Disse.






End of the Project Gutenberg EBook of Sermo contra o Filosofismo do Seculo
XIX, by Jos Agostinho de Macedo

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SERMO CONTRA O FILOSOFISMO ***

***** This file should be named 33245-8.txt or 33245-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/3/3/2/4/33245/

Produced by Pedro Saborano

Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
