Project Gutenberg's Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos, by Alberto Pimentel

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Title: Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos

Author: Alberto Pimentel

Release Date: July 23, 2010 [EBook #33238]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NERVOSOS, LYMPHATICOS E SANGUINEOS ***




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                            ALBERTO PIMENTEL

                          NERVOSOS, LYMPHATICOS

                                    E

                                SANGUINEOS




                                  PORTO
              TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA
                      62, Rua da Cancella Velha, 62
                                  1872





                          NERVOSOS, LYMPHATICOS

                                    E

                                SANGUINEOS





                            ALBERTO PIMENTEL

                          NERVOSOS, LYMPHATICOS

                                    E

                                SANGUINEOS




                                  PORTO
              TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA
                      62, Rua da Cancella Velha, 62
                                  1872




AO EXC.mo SNR.

D. ANTONIO DA COSTA DE SOUSA DE MACEDO

EM TESTEMUNHO DE RESPEITOSA AMIZADE

Offerece

                            _O author._




PHYSIOLOGIA LITTERARIA


I

O genio  uma nevrose proclamou d'uma vez o doutor Moreau, de Tours,
aos quatro ventos do universo. Segundo elle, as esplendidas disposies
d'espirito que fazem com que um homem suba acima do nivel commum,
procedem das mesmas condies physiologicas que as diversas perturbaes
moraes cuja expresso  a _loucura_ e o _idiotismo_.

Seja isto ou seja que a constante intuscepo dos homens intelligentes
os concentra de tal modo que parece viverem exclusivamente para si
mesmos, absortos apenas no seu mundo psychologico, o certo  que estes
homens se nos afiguram a mais das vezes entrados d'uma melancolia
excepcional. Ora o doutor Moreau quer que esta melancolia que
Aristoteles notou no seu tempo, seja simplesmente alienao mental, e
escreve que, por constituio melancolica, Aristoteles entendia a
disposio do organismo mais favoravel ao desenvolvimento da loucura.
Melancolia,--continua o nosso doutor,--era o termo generico, sob o qual
os medicos e philosophos da antiguidade designavam todas as frmas de
delirio chronico; corresponde  nossa palavra: alienao mental, loucura.

Aristoteles escreveu que no havia um grande espirito que no tivesse
um grau de loucura. O doutor Moreau aproveita-se d'este dito e abona
espirituosamente a verdade da sua these com o testemunho da antiguidade
letrada. A excitao cerebral que precede e acompanha a inspirao,
pareceu ao doutor de Tours o estado que mais analogia offerece com a
loucura real, por isso que da accumulao insolita de foras vitaes n'um
orgo,--palavras d'elle--duas consequencias so igualmente possiveis:
mais energia nas funces d'esse orgo mas tambem mais probabilidades de
aberrao e desvio d'essas mesmas funces.

Emilio Deschanel, author d'um interessante livro que temos aberto diante
de ns, _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, no deixa sem
commentarios as proposies do espirituoso doutor.

Se se pde, em verdade,--escreve Deschanel--observar alguma cousa
d'involuntario nos momentos sagrados da inspirao, esses momentos
fugitivos no so tudo: subsiste toda a potencia innata e toda a fora
adquirida, toda a somma de experiencia humana, de alegrias e dres, que
os precedem: toda a energia de escolha e de vontade que os segue,--se 
que no os acompanha--: porque o que ha de involuntario  apenas
apparente; e mesmo no enthusiasmo o genio no perde a sua bussola.

Ainda algumas palavras do doutor Moreau para ouvirmos depois Emilio
Deschanel:

Todas as vezes que as faculdades intellectuaes ultrapassem a bitola
ordinaria, especialmente nos casos em que ellas attinjam um grau de
energia excepcional, podemos estar certos de que o estado nervopathico,
sob uma frma qualquer, influenciou o orgo do pensamento, quer
idiopathicamente, quer por via da hereditariedade. O que  o mesmo que
dizer que nos homens excepcionaes se reconhecem as mesmas condies
d'origem ou de temperamento que nos alienados ou nos idiotas.

Modifica Emilio Deschanel:

O que  verdade,  que um pequeno numero de pessoas, maiores de trinta
e cinco annos, goza um estado de saude completa; quasi todas soffrem
mais ou menos, quer notoria quer secretamente, com mais razo, os homens
de letras e os artistas, cujo estado nervoso hereditario e innato est
sobreexcitado incessantemente. A concentrao habitual em que vivem, a
fermentao quasi contnua do cerebro, inflamma-os, gasta-os, mina-os.
Brilham ardendo. So, a certos respeitos, _meio doentes_; isso 
incontestavel. Parece que o pensamento lhes aproveita tudo quanto roubam
ao corpo. Ao passo que um se estiola, o outro se robustece; arruinam-se
physicamente  medida que se constroem moralmente.--Mas se soubessem
conservar o equilibrio entre o espirito e o corpo, iriam peor as cousas,
e o seu talento d'elles perderia? No, de certo! Pelo contrario, s
tinha a ganhar.

Estas ultimas palavras d'Emilio Deschanel parece deixarem brecha aberta
 contestao, se acreditarmos que elle se prope refutar completamente
a these do doutor Moreau. No. Deschanel protesta contra a exagerao do
doutor de Tours, mas aceita o _estado-mixto_, quer dizer, um estado que
ao mesmo tempo participa da saude e da doena.

Emilio Deschanel compartilha pois da opinio d'outro medico francez, o
doutor Bouchut, segundo o qual o _nervosismo_  a molestia ordinaria dos
homens de letras e dos artistas.

A antiguidade chamava-lhe _genus imbecille, genus irritabile vatum_. A
sciencia moderna foi mais longe, muito mais longe:--adoptou uma palavra,
e eis tudo,--_O nervoso._

_Nervosismo, estado-mixto_, seja como fr, tenha a denominao que
tiver, o que  certo  que parece ser apanagio das pessoas cujo
exercicio intellectual est em flagrante desproporo com a despeza
d'actividade physica.

Os homens de letras esto por via de regra costumados  recluso do
estudo e  vida sedentaria do gabinete. N'essas longas horas do
continuado labutar, toda a vida se concentra no cerebro, para assim
dizer;--d'aqui a excitao nervosa, um excesso d'actividade intellectual
que no  equilibrado pelo exercicio muscular, pelo desenvolvimento do
corpo.

A falta de saude, a debilidade, o _estado-mixto_ afigura-se-nos uma
consequencia inevitavel. Toda a vida organica tem por base a renovao
incessante da materia. A natureza quer expulsar de si o que  velho e
morbido. A moderada actividade das fibras musculares tende pois a
favorecer a transformao da materia, a regenerao da massa do sangue,
e a dar um impulso benefico ao acto vital.

Os homens de letras descuram porm as conveniencias do organismo. Para
elles a vida intellectual  tudo e,--dissipadores inconscientes!--vo-se
atirando para o tumulo com uma pressa que o seu estado de continua
excitabilidade lhes no permitte domar.

Abundam n'estas desafinaes do systema nervoso os caprichos, as
velleidades, os habitos exquisitos e bizarros, as idiosyncrasias.

Michelet, por exemplo, trabalha de manh, tomando caf em larga cpia.
Balzac escrevia de noite e, como Michelet, ia esvasiando chavenas sem
conto d'um caf negro, carregado, nauseabundo. Bossuet escrevia n'um
quarto frio com a cabea coberta; de Schiller conta-se que mettia os ps
em gelo para ter uma inspirao feliz.

Mozart, a sensitiva da musica, organisao extremamente nervosa, era
victima de profunda melancolia. Procurava vencel-a com o trabalho, com o
trabalho louco e desregrado, a ponto de se levantar do piano para cahir
no leito, exhausto de foras.

Paulo Janet, refutando n'um capitulo do seu livro _Le cerveau et la
pense_ a theoria do doutor Moreau, procura demonstrar que estas
excentricidades no so provenientes da loucura sublime do genio.
Quer-nos parecer porm que tanto exorbita Paulo Janet como o celebre
medico de Tours. Os extremos so por via de regra viciosos, e, n'esta
questo especialmente, afigura-se-nos que o meio termo  sobremodo
aceitavel. Por tal razo propendemos para as modificaes sensatas de
Emilio Deschanel. No se estabelece uma lei fatal, no nos referimos 
totalidade absoluta; falla-se do _maior numero_, o que  incontestavel,
como demonstra a longa experiencia dos factos. Cumpre notar que no
fazemos propaganda scientifica, seno que estamos lanando ao papel uns
estudos humoristicos para correrem em folhetim.

Prosigamos finalmente, deixando para academias e academicos esta grande
questo do genio e da loucura. O nosso proposito  outro;--vejamos.

Emilio Deschanel, no menos espirituoso humorista que o doutor Moreau,
procura demonstrar que o estylo revela o temperamento do escriptor.

 verdadeiramente a physiologia applicada  critica.

Atravs da eloquencia fogosa de Bossuet descobre Emilio Deschanel um
temperamento nervoso-sanguineo. Pascal era nervoso-bilioso;  o seu
estylo que nol-o diz.

Basta lr Voltaire para comprehender o doutor Raspail:

Voltaire  o systema nervoso levado  suprema potencia.

O marquez d'Argensou costumava definir Voltaire em poucas palavras:

Todo nervos e todo fogo, era sensivel s moscas.

As _Maximas_ de La Rochefoucauld denunciam um nervoso-bilioso; Joo
Jacques Rosseau  bilioso-melancolico.

N'este ultimo escriptor a educao influiu de certo muito sobre o
temperamento. Rosseau foi creado com seu pai em cujo corao jmais
cicatrisou a ferida dolorosa da viuvez. Escreve Rosseau fallando do pai:

Quando elle me dizia:--Joo Jacques, fallemos de tua mi; eu
respondia-lhe:--Ah! meu pai, ento vamos chorar? E s estas palavras lhe
arrancavam lagrimas.

Vem a proposito algumas palavras de Lamartine: Rosseau foi educado
pelas arvores, pelas aguas, pelos ventos, pelo co, pelo sol, pelas
estrellas; carecia ao mesmo tempo da educao de uma terna mi e d'um
pai laborioso: tudo isso lhe faltou[1].

A solido predispe para a meditao, para a melancolia, e Rosseau foi
creado pela natureza.

Temos visto como Emilio Deschanel desenvolveu galhardamente a these de
Buffon,--_O estylo  o homem_, encarregando-se de demonstrar que o
seculo, o clima, o solo, a raa, o sexo, a idade, o temperamento, o
caracter, a profisso, a hereditariedade physica e moral, a saude, o
regimen e os costumes,--tudo isso se espelha na superficie ora limpida
ora revolta do estylo.

 impossivel ir mais longe.

 impossivel saber aproveitar melhor o reflexo interior para fazer
resaltar do prisma fornecido por Buffon scintillaes de tal modo
deslumbrantes e magicas.

A _Physiologia dos escriptores e dos artistas_  um espirituoso livro, e
Emilio Deschanel um espirituoso escriptor que eu tenho conversado nos
ultimos seres d'inverno.

Procuremos ns n'esta linguagem facil do folhetim, nortear a penna, a
despeito de Paulo Janet, segundo o rumo dos trabalhos de critica natural
de Emilio Deschanel.

No podemos aventurar-nos, como elle,  vasta amplido das aguas.

Navegaremos terra a terra, modestamente, velejando ao sabor da
phantasia. Appliquemos tambem a physiologia  critica, e estudemos em
alguns livros portuguezes a organisao d'alguns escriptores nacionaes.

Algumas vezes,  possivel, teremos de abrir excepo para um escriptor
que n'um ou n'outro relance, mesmo n'um ou n'outro livro, quiz ou pde
dissimular a sua organisao, o seu temperamento, a sua predisposio.
Toda a regra tem excepes; esta ha-de tel-as tambem. O que  certo
porm  que o homem, na sua dupla existencia, moral e physica, no pde
encobrir-se por tanto tempo, que o physiologista litterario no chegue a
encontrar a verdade com o escalpello da critica.

Esto-nos j acudindo  memoria algumas excepes. Aproveitemos uma.

O snr. visconde de Castilho cuja indole amena e suavissima se espraia em
recamos scintillantes por todas as paginas dos seus formosos livros,
escreveu d'uma vez um poema onde se agita tempestuosamente o sentimento
mais violento que pde escandecer o corao do homem,--o ciume.

A sua bibliotheca tem porm s um livro de tempestades e luctas; todos
os outros refulgem serenos como os lagos na primavera.

O _estado-mixto_ dos escriptores e dos artistas soffre tambem excepes,
e n'ellas deve ter grande parte a hereditariedade.

Agora nos occorrem tres:

Um escriptor robusto, bem humorado, infatigavel--Alexandre Dumas, pai.

Um maestro todo alegria e saude,--Rossini.

Um pintor, cheio d'animao e de vida, em cujos quadros tudo  louro e
rosado,--Rubens.

Se estas excepes prejudicam por um lado a regra geral do
_estado-mixto_, por outro tendem a provar que o estylo  a
organisao--a doena ou a saude.

O vigoroso estomago de Alexandre Dumas, de cuja propriedade elle tantas
vezes se ufanava, est, deixem-me dizel-o, nos seus livros.

A _charis phytalmos_, de Pindaro, revela-se no _Guilherme Tell_ de Rossini.

De Raphael basta citar as _Virgens_, que mereceram a Michelet estas
palavras: Virgens enormes, rosadas, refeitas, escandalosamente bellas.

Ponhamos ponto, para comecarmos a fallar de escriptores portuguezes.
Principiemos por um que tem um triste direito a ser o primeiro--porque
morreu doudo.

    [1] _J. J. Rousseau_ por A. Lamartine.

      *      *      *      *      *




II

A. P. Lopes de Mendona


Ha phrases que envolvem uma prophecia, conceitos despretenciosos que
parecem sahir do intimo da alma como um presentimento que de repente
assalta o escriptor no remanso do gabinete.

A pag. 324 das _Memorias de litteratura contemporanea_, de Lopes de
Mendona, encontro eu estas palavras:

Ha vocaes, que reproduzem os prodigios das sibyllas antigas.
Prophetisam involuntariamente sobre a tripode, e deixam-se arrastrar
pelo enthusiasmo das suas proprias palavras. O joven poeta no cantava,
smente para que as turbas se deixassem commover pela harmonia dos seus
cantos: cantava porque lhe ardia no peito um fogo devorador, porque a
sua alma bria e palpitante, lhe accendia a imaginao, e como lhe
intimava que traduzisse aos outros a magia dos seus sonhos, o fervor dos
seus desejos, o esplendido irradiar da sua esperana.

 certo que os verdadeiros talentos, as almas privilegiadas para a
gloria e para o martyrio, _reproduzem os prodigios das sibyllas e
prophetisam involuntariamente_.

Lopes de Mendona escrevendo as _Memorias d'um doido_ prophetisava tambem.

Aquelle immenso talento, febril, audaz, infatigavel, sabia que as
organisaes como a sua resistem corajosamente a lucta social at
perderem a vida ou a razo.

Mauricio, o seu heroe,  o que geralmente se chama um doudo
sublime,--que pensa, que joga, que ama, que aborrece, que porfia, que se
sacrifica, que obedece fatalmente  excitabilidade do seu temperamento.

Arremessado aos quatorze annos no tumulto da capital,--escreve Lopes de
Mendona--tivera de se sustentar, como Rousseau, do trabalho machinal do
copista, e na estreiteza e improbas fadigas de tal profisso, pde
entregar-se ao estudo. Lendo avidamente a historia, sobretudo a historia
moderna, j a sua intelligencia penetrra em todos os problemas da
politica, e a aco dos acontecimentos que se succediam com uma
variedade propria das quadras revolucionarias, amadureceu a sua precoce
experiencia.

Tal era Mauricio, tal era Lopes de Mendona. O verdadeiro artista tanto
quer  sua obra, que procura animal-a com a parte psychologica da
propria individualidade.

D'aqui o encontrar-se frequentemente o author reproduzido no heroe.

A politica, a ida fixa e a maxima aspirao de Lopes de Mendona, que
transpirava sempre nos seus livros e nos seus folhetins, no podia ser
indifferente a Mauricio.

Mostrra a sua vocao,--contina Lopes de Mendona--escrevendo alguns
pamphletos, cheios de energia, e de vivacidade pittoresca. Lanra-se na
critica implacavel de medidas que elle suppunha timidas e incompletas,
porque reconhecera a distancia que o separava dos mediocres vultos, que
dirigiam os negocios publicos.

Apreciando, pelo que lra, o que devia ser um homem d'estado, via os
que governavam desperdiando as fras d'uma situao excepcional em
questes de mesquinha influencia, e nas intrigas, que manchavam todas as
obras, grandes ou pequenas, da politica.

Est claramente photographada n'estes periodos a ancia, a febre, a
aspirao, o espirito de justia e verdade, a coragem, o esforo, a
persistencia de Lopes de Mendona.

Queria elle,--aquelle espirito poderoso--que sahisse da espuma da
revoluo a verdadeira liberdade politica como tinha sahido--Venus
moderna,--a verdadeira liberdade litteraria.

E propunha-se os graves problemas da administrao, e planeava as
grandes medidas que correspondem s grandes necessidades d'um paiz, e
queria levantar sobre as bases da justia e da moralidade todo o
edificio do regimen liberal, e queria realisar em si o ideal perfeito e
quasi impossivel d'um homem d'estado, e queria apartar do centro da
aco politica as pequenas individualidades que prejudicam a marcha dos
acontecimentos no interesse da patria, e ao mesmo tempo mantinha digna e
corajosamente a revoluo litteraria que se havia iniciado, e escrevia
os seus livros, e sustentava durante onze annos o folhetim da _Revoluo
de Setembro_, e cumpria os encargos litterarios da academia real das
sciencias de que era socio e bibliothecario, e versava os trabalhos
parlamentares na legislatura de 1855, e desempenhava o magisterio, e
queria saber, precipitar o tempo para adquirir o que s o futuro lhe
podia ensinar, e lidava, pensava, trabalhava, para ter de sobreviver 
ruina da propria intelligencia.

Cavou a si mesmo o tumulo, onde o contemplamos alguns annos meio vivo,
meio cadaver.

Lia, annotava,--escreve Julio Machado--commentava todos os livros,
lidando desde o romper da manh, dormindo duas horas apenas, e
lastimando essas duas horas perdidas.

Andava preoccupado, andava triste e inquieto. Haviam-lhe mentido todos
os seus oraculos d'outr'ora, e j no acreditava mesmo em si proprio.
Tornou-se-lhe tudo escuro em redor. No tinha uma venda nos olhos, mas
principiou a tel-a na alma. Os seus amigos inquietaram-se do estado em
que o viram. A extrema actividade de espirito perturbou-lhe a aco
cerebral, mas a lealdade do seu caracter generoso nem ento se
desmentiu; imaginava-se rico, altamente collocado, offerecia-nos dos
seus haveres, e instava para que aceitassemos.

No breve intervallo que mediou da revelao d'esse estado  sua
recluso, comprou livros por toda a parte, muitos livros, todos os
livros que encontrou. Mas, a essa hora j estava perdido.

As faculdades da sua intelligencia haviam-se adulterado e estalaram
como as cordas d'um instrumento[2].

Estava irremediavelmente perdido,--estava louco; tinha morrido para a
familia, para a sociedade, para a patria, e todavia vivia ainda em
Rilhafolles. O seu estylo cadente, cheio, fogoso, elegante, a par da sua
linguagem s vezes incorrecta, denunciava para logo um temperamento
nervoso-sanguineo.

A exaltao dos pensamentos, as scintillaes differentes e successivas,
a variedade febril dos tons, a riqueza caprichosa do colorido, a escolha
variada dos assumptos, e at as mesmas imperfeies revelavam ao
physiologista litterario a organisao de A. P. Lopes de Mendona.

Nas _Memorias d'um doudo_, tudo  febril, tudo escalda, tudo denuncia o
homem.

Lopes de Mendona era realmente uma organisao de artista que
participava da vivacidade cerebral do temperamento nervoso e da animao
caracteristica do temperamento sanguineo. Era um escriptor modelado pela
definio em que Emilio Deschanel procura daguerreotypar o artista:
Temperamento rico, sensibilidade ardente, imaginao fecunda, ao
servio d'um corao generoso, d'um bom senso delicado e d'uma razo
elevada.

Elle mesmo, o infeliz Lopes de Mendona, apreciando um escriptor
contemporaneo, definia o artista:

Todo o segredo d'esta excitabilidade intellectual reside, no nos
poupamos a repetil-o, em que  artista, completa e essencialmente
artista. A sua razo philosophica,  mais d'uma vez desvairada pelos
caprichos da sua phantasia. E todavia, o escriptor  logico,  racional
e concludente, em cada uma das posies que alternativamente occupa.
Hoje, reflectido e maduro, elevado s austeras e mornas regies do homem
de estado, apresenta os mais sensatos alvitres, expe os problemas com a
mais fina e lucida critica, e corta os obstaculos, resguardando e
salvando os interesses, percebendo todas as conveniencias, pesando todos
os conflictos da opinio, e apalpando o terreno social como dextro e
instruido estrategico.

manh, desempedido e solto n'uma questo puramente litteraria, n'um
ponto moral ou metaphysico, v-o-heis enthusiasta d'um brilhante
paradoxo, comprazer-se em destruir as idas recebidas, em ferir as
convices consagradas, e fazendo _taboa rasa_ do _criterium_ publico,
pr os recursos do seu talento ao servio da sua impresso
instantanea[3].

Eis-aqui Lopes de Mendona, segundo as suas mesmas palavras; eis aqui o
artista. A sua vida foi uma serie de congestes, um incendiar-se
lentamente nas labaredas que lhe requeimavam o corao e o cerebro.
Tinha sonhado com a gloria, algumas vezes a entrevira, era festejado,
era querido, tinha ganhado os primeiros lugares, tinha entrado nas
primeiras salas, e elle, que tinha resistido  lucta,  insomnia, ao
trabalho, sentiu-se desfallecer quando a lava da ultima congesto
seccou, e para sempre, os louros da sua cora.

Em toda a sua vida houve apenas um momento de tranquillo repouso,--foi o
ultimo. Julio Machado, fallando da extrema dedicao da esposa de Lopes
de Mendona, escreve com a mimosa delicadesa que lhe  peculiar: Um
dia, ultimamente, elle sorriu-lhe. Os medicos disseram que ia salvar-se
talvez. Ia salvar-se, ia. Ia morrer!

No havia j o crepitar das chammas, porque d'aquella volcanica
combusto restavam apenas as cinzas d'um cerebro; o sopro da morte
espalhou-as.

Acabou-se tudo.

Alli agonisou nos braos da esposa carinhosa, esquecido da sociedade que
mais d'uma vez o acclamra festivamente e que mais d'uma vez o
apunhalra na couraa onde resvalaram todos os golpes dos detractores
impotentes.

Julio Machado escreve ainda no seu ultimo e interessante livro--_Da
loucura e das manias em Portugal_, fallando dos doudos de Rilhafolles:

L esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em Portugal, e
sua esposa alli foi todos os dias vl-o e fazer-lhe companhia,--colhendo
no co a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ella e
abraal-a meigamente aquelle ente querido, que havia representado um dos
primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe
com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a alma que n'esta
vida teve dedicao pelo infortunio!

Do homem que a fatalidade arrojou para os abysmos da loucura resta
apenas um epitaphio;--pouco , e transitorio. Mas de Lopes de Mendona,
do escriptor todo fogo e todo alma, todo colorido e sentimento, resta
alguma cousa mais duradoura que o seu epitaphio,--os seus livros, nos
quaes o physiologista poder estudar largamente a vida impetupsa d'um
temperamento nervoso-sanguineo.

    [2] _Trechos de folhetim_, pag. 128.

    [3] _Memorias de litteratura contemporanea_, pag. 328-329.

      *      *      *      *      *




III

J. C. Vieira de Castro


Se o leitor entrasse na sala do parlamento portuguez durante as mais
animadas sesses da legislatura de 1865 a 1866 e ouvisse trovejar do
alto da tribuna uma voz sonora, cheia, precipitando-se em inflexes
caprichosas e febris, que para logo denunciavam certa irritabilidade
fogosa e violenta, facilmente adivinharia, sem o descortinar, um orador
de temperamento nervoso-sanguineo, em plena virilidade, ebrio da gloria,
que, de triumpho em triumpho, o impellira at s regies do olympo
parlamentar.

Na sesso do dia 13 de Janeiro de 1866, por exemplo, em que se discutia
o projecto de lei sobre a liberdade de imprensa, apostrophava o orador a
que nos referimos:

 licito perguntar com um notavel estylista da Frana: Que temem os
governos da imprensa livre?

A guerra da discusso? Mas ao contrario lhes deve lisongear o seu amor
proprio, e a sua dedicao patriotica, porque lhes rasga vastos plainos
s victorias de suas doutrinas e de seus principios!

Guerra de injuria? Pois soffram-n'a, que  para isso que so homens
publicos. Se pelas eminencias do poder no houvesse seno estradas de
flres, de triumphos e de victorias, aonde estariam as provas da sua
abnegao e do seu merito? E tanto lhes havia de doer a injuria que lhes
arrancasse um grito contra a liberdade?

Guerra de epigramma? Mas diz Pelletan, e diz bem, que os homens de
estado devem ser fortes de corao e de cabea, no ter a sensibilidade
de nervos d'uma _petite-maitresse_, e fazer mesmo a epiderme robusta
para as affrontas!

Guerra de calumnia? Mas os governos teem ao seu lado a magistratura
judicial e a magistratura popular para afogarem as calumnias nas
gargantas dos calumniadores! Fiemo-nos da magistratura e da sua
vigilancia. Ella  como a mulher de Cesar; est acima de toda a
suspeita. E aproveito a primeira occasio do meu discurso em que posso
render a esta classe a minha mais profunda homenagem de respeito e
culto. Com a franqueza do meu caracter o digo, senhores; quando
desalentadamente atiro com os olhos para tanto rebaixamento moral da
minha patria, com orgulho vejo e com orgulho contemplo as togas da nossa
magistratura ainda impollutas com os seus sacrarios ao lado!

Mezes antes, na sesso de 19 de novembro de 1865, o mesmo orador
propunha uma mensagem de sentimento ao parlamento inglez pela morte de
lord Palmerston, e discursava sobre a proposta:

Verdadeiros heroes... e perde-me a memoria de Jos Estevo se eu penso
que os ha, e perde-me ella ainda mais se  exactamente, comparando-os
aos rochedos no oceano, que elles me parecem maiores e mais sublimes!

Penso assim, e quando por muitas vezes hei meditado n'aquella celebrada
imagem d'esse grande e inspirado orador, sempre me tem parecido que o
mais digno de admirao n'aquelle atrevimento oratorio,  a modestia
sublime de Jos Estevo.  que para mim no confronto dos heroes com os
rochedos, no perdem aquelles por nenhuma sombra. Bem sei que se a
irregularidade s vezes monstruosa da sua estructura pde ser um defeito
para a arte;  ella tambem, e sempre, o involucro esculptural das almas
fadadas para as grandes tempestades, e dos coraes baptisados desde o
primeiro dia na onda dos grandes martyrios! Os _rochedos_, os _heroes_
topetam com as nuvens que teem por cima; lambem-lhes os ps as vagas da
opinio humilhada e abatida, e alm canada de se espedaar contra
elles; e estendem os seus braos, que no vergam nunca, aos naufragos
cuspidos j quasi exanimes d'essas vagas, como se fossem elles os
destinados pela impassibilidade da sua fora, pelo seu contacto com a
luz immensa, e pela sua proximidade da praia, a retemperarem a tibieza
dos fracos, a reaccenderem o entendimento dos desesperados, e a
apontarem o porto de salvao e das novas esperanas aos que a resaca do
primeiro commettimento ia prostrando e sorvendo no pgo!

Tudo isto era tambem Jos Estevo, e porque se arreceasse aquella
sublime modestia de que uma vez lh'o conhecessem, por isso elle dizia
mal dos rochedos!

E depois os rochedos no cahem nunca! E so tambem assim os heroes; nem
cahem quando morrem!

Os heroes morrem de p!

Morrem de p!

Foi assim que morreu lord Palmerston. E tanto foi assim que elle
morreu, que expirando aos oitenta e um annos de idade, a Inglaterra
correu desvairada ao seu jazigo, accusando aquella morte de prematura
para o seu partido e para o seu paiz.

Quando o sceptro da eloquencia tribunicia resvalou das mos inertes de
Jos Estevo, era opinio geral da gente portugueza que tarde, ou talvez
nunca, uma nova palavra, de tal modo ardente e scintillante, despertaria
os echos adormecidos da camara electiva.

Mais d'uma penna authorisada manifestou publicamente que a phalange
gloriosa dos oradores parlamentares portuguezes tinha morrido na pessoa
de Jos Estevo. Tenho sobre a minha banca um livro de Ricardo
Guimares, _Narrativas e episodios da vida politica e parlamentar_, que
fornece uma prova do que vimos dizendo.

Quem lhe herdou--escreve o author do livro citado fallando de Jos
Estevo--o primado da palestra familiar, que elle exercia desaffrontado
de rivaes?

Por ora  elle herana jacente como o , e ser--Deus sabe porque
tempo!--o sceptro dourado da eloquencia de que no poderam despojal-o em
vida os mais possantes emulos, sceptro que ainda hoje pousa sobre o
tumulo do orador, insignia indisputada d'aquella realeza do genio.

Isto escrevia e publicava em 1863 Ricardo Guimares; em 1865 entrava no
parlamento Jos Cardoso Vieira de Castro.

No  intento nosso fazer apreciaes ou discutir personalidades.
Todavia cumpre dizer que a entrada de Vieira de Castro nas lides
parlamentares desabrochou no horisonte politico os primeiros alvores
d'uma esperana. Vieira de Castro no era ainda o successor de Jos
Estevo; promettia sel-o, depois d'um longo tirocinio parlamentar que
lhe proporcionasse um pleno conhecimento dos mais reconditos segredos da
eloquencia tribunicia. Vieira de Castro, ebrio dos triumphos que lograra
na carreira universitaria, vinha cheio de mocidade e de inexperiencia, e
abandonava-se aprazivelmente aos arrebatamentos da sua organisao e da
sua idade, julgando de si para si que a melhor lente para estudar os
intrincados problemas da administrao era o prisma dourado da sua
phantasia ardente.

Palavra facil, copiosa, scintillante, ageitando-se s sinuosidades da
replica, sem se desviar do curso natural das idas, tinha-a elle, como
Jos Estevo.

A vida academica de Vieira de Castro, repleta de episodios pittorescos,
aos quaes a opinio publica do paiz, mormente a dos homens de letras[4]
no foi indifferente, inoculou nova seiva no espirito j de
natural fogoso e opulento do author da _Pagina da Universidade_. D'aqui,
aquelle desabotoar incessante de vigorosos florecimentos na alma do
futuro orador parlamentar, aquelle espanejar incessante de flres
variegadas e mimosas que elle espalhou s rebatinhas nas paginas da
_Biographia de Camillo Castello-Branco_.

N'este livro a imaginao de Vieira de Castro levantou-se em vos
alterosos e successivos. Era o phrenesi da aguia que pela primeira vez
bate as azas nos pramos infinitos.

Cada pagina  um jardim; todo o livro  uma primavera. Mas o que 
verdade  que a biographia de Camillo Castello-Branco est por fazer,
apesar de elle mesmo nos ter dado em muitas das paginas dos seus
preciosos livros, como as _Memorias do carcere_, _No Bom Jesus-do
Monte_, e outros,  similhanca de Garrett, copiosos apontamentos para se
escrever a verdadeira noticia de sua vida.

Este defeito, que a maioria da opinio notou na Biographia de _Camillo
Castello-Branco_, era ainda o seno que o mesmo tribunal encontrava nos
seus formosos discursos de estreia parlamentar. A opa tribunicia no
logrou abafar os impetos da eloquencia asiatica de Vieira de Castro. Os
seus discursos todos se emmaranhavam em ramagens phantasiosas, em
filagranas de caprichoso labor, ora alongando-se para cima como os
leques ondulantes da palmeira, ora escondendo as violetas gentis da
eloquencia nos taboleiros relvosos de um jardim oratoriano.

Era preciso desbravar trabalhosamente estes apertados labyrinthos de
vegetao esplendida, para se encontrar a ida que se estava affrontando
sob os innumeros recamos d'uma chlamyde roagante.

Eis-aqui a razo porque Vieira de Castro se no podia medir ainda com a
estatua gigantesca de Jos Estevo.

Os outonos da idade haviam de ir pouco e pouco mondando aquellas
exuberancias de vegetao litteraria, e ento appareceria o pensamento
com toda a sua lucidez no meio d'uma delicada moldura como apparece uma
paisagem entre duas arvores em flr, no alto d'uma estrada.

 esta a meu vr a grande distancia que temporariamente separava Vieira
de Castro de Jos Estevo. De resto era congenere a eloquencia,--o
temperamento o mesmo.

Na sesso do dia 4 de abril de 1865 procurava Vieira de Castro
defender-se da censura que um deputado imputra  camara por se
comprazer a cada momento em frequentes e estereis luctas de palavra.

O claro entendimento do novo deputado segredou-lhe que era elle mesmo o
verdadeiro alvo de similhante accusao, e levantou-se para declamar.

So logo do principio do seu discurso estes periodos. Demasias da
palavra? Demasias da palavra tinha-as tambem o padre Antonio Vieira, no
pulpito da igreja de Nossa Senhora da Bahia, quando interrogava a Deus;
e as naes pasmadas diante das prodigiosas catadupas da eloquencia do
oratoriano, hesitavam em pensar se fallava pelo seu verbo um inspirado
do co, ou um desvairado da terra.

E j que estou na igreja, abro o livro que encontro sobre o altar. Aqui
sim, aqui, na primeira pagina, no ha demasias de palavra, porque este
primeiro versiculo soube dizer na mais bella e sublime de todas as
phrases escriptas o maior e o mais estupendo de todos os milagres
creados: _Dixit Deus: fiat lux, et lux facta est._

Santas demasias da palavra, que so como as demasias do sangue, ou no
corpo de Cato, ou na liteira de Cicero, ou no sudario do Salvador!

E aqui estava o seu espirito a trahil-o e a arremessar para o ambito da
camara abadas de flres que ao mesmo tempo lhe serviam de imputao e de
gloria. E aqui estava a primavera a bracejar frondes e a engrinaldar-se
de festes quando mais a accusavam de perdularia e formosa.

O orador havia porm de modificar-se como o escriptor se modificou. Nos
ultimos opusculos de Vieira de Castro o estylo no se enredava j nos
antigos dedalos, mas era formoso, gentil e magistralmente modelado; a
linguagem derivava fluente, correcta e portugueza de lei. Todavia o
temperamento do escriptor estava patente. Todos os seus livros, todos os
seus escriptos, antigos e modernos, do testemunho da exaltao cerebral
das organisaes nervosas e da extrema actividade dos vasos sanguineos
no colorido vivo, animado e brilhante da sua penna.

Mas infelizmente o orador no teve ensejo de se modificar.

Uma grande catastrophe ainda recente despenhou este homem do alto das
suas esperanas e dos seus triumphos. Foi ainda uma dolorosa
consequencia do seu temperamento como denunciam estas palavras de Julio
Machado, escriptas horas depois da catastrophe:

Temperamento ardente, caracter inquieto e febril, denuncira muitas
vezes, logo ao entrar da vida, a violencia das suas paixes e o
enthusiasmo exaltado d'ellas. Magoas de corao, ambies quebradas,
feridas do orgulho, esperanas illudidas, fortuna exhausta, crenas
mortas, figuravam-se-lhe ser doenas da alma a que no era dado
resistir, e no podia tolerar os miseraveis que se sujeitavam a ir
vivendo cada um com o seu mal.

Ou ainda estas:

Todavia, no sei dizer-lhes como, no sei dizer-lhes porque, elle
proprio o no sabe talvez, perdeu tudo e principiou a desmoronar o
castello que erguera. Caracter fugaz, e sempre um pouco louco, parecia
ter gosto s vezes em vr desabar o edificio da sua felicidade e da sua
gloria. No era resultado do acaso nem carencia de habilidade, era falta
de paciencia, phrenesi nervoso, estonteamento febril.

O temperamento de Lopes de Mendona levara-o  loucura e da loucura 
morte; o temperamento de Vieira de Castro arrastra-o ao carcere e do
carcere ao desterro.

Ambos sobreviveram  sua ruina, ambos viram escrever-se o epitaphio que
a posteridade lhes destinava, ambos sonharam os sonhos cr de rosa das
imaginaes ardentes, ambos dormiram nos braos da gloria as dces horas
da embriaguez terrena, ambos entraram nos sales luxuosos da vida
aristocratica, e ambos cahiram, quando o horisonte se lhes afigurava
dilatar-se para os deixar respirar mais livremente.

Ambos viveram finalmente, porque um est no tumulo e outro no exilio.

Eu conheci Vieira de Castro n'uma noite de festa.

Era ainda feliz.

Dous annos depois d'essa noite, despenhou-se. Emquanto o processo estava
affecto aos tribunaes, no fallaria d'elle, mas hoje, que j a
posteridade comeou para o homem d'outr'ora, no duvidei aproveitar o
seu nome que pertence  historia do passado, e a historia  indefesa
para todos.

No offendi a sua memoria, no ri da sua desgraa. Inscrevi o seu nome
n'este pequeno catalogo de escriptores nacionaes, que estamos estudando
physiologicamente.

Dos nervosos-sanguineos temos fallado que farte; occupar-nos-hemos
d'outros temperamentos que esto convidando a nossa analyse.

    [4] Vr--_Jos Cardoso Vieira de Castro, antes e depois do
    seu julgamento_, por seu irmo Antonio Manoel Lopes Vieira de Castro,
    pag. 19 e seguintes.

      *      *      *      *      *




IV

Camillo Castello-Branco


O verdadeiro talento, como o vismara, borboleta das Indias, toma a cr
da planta sobre que vive, escreveu Stendhal. Seria difficil resumir to
profunda verdade em mais formoso conceito.

 conhecido at onde a critica moderna tem estudado a influencia do
clima sobre o espirito do homem. Montesquieu e Herder levaram ao exagero
a theoria climatologica. Proudhon contrape reflectidamente  doutrina
de Herder: Todo o systema descana sobre o fatalismo geographico,
chimico e organico; sol, clima; planicies e montanhas; rios, lagos e
mares; d'onde se deduzem successivamente, por cada latitude e meridiano,
a flora e a fauna, depois o homem; finalmente, a sociedade e sua
historia. Nada temos a censurar; smente perguntaremos o para que servem
ento a liberdade e o progresso, e o para que nos aproveita a
intelligencia?

A objeco  sensata. Emilio Deschanel no vai to longe como Herder,
sem todavia rejeitar a theoria, e tanto no vai to longe, que escreve
estas palavras: Esta doutrina de Hippocrates, de Plato, de
Aristoteles, d'Eratosthenes, de Varro, de Montesquieu, de Voltaire, de
Rousseau, de Herder, tem sido aceite e continuada em nossos dias com
muita distinco. Tornou-se a base da critica _naturista_, que  a
critica natural levada ao extremo. A terra, segundo esta doutrina,  a
prophecia da historia. Dize-me d'onde vieste, dir-te-hei quem s. E
reciprocamente, sabendo quem tu s, dir-te-hei d'onde vieste.

Caminhando mais terra a terra, ser-nos-ha facil reconhecer que ha no
homem, na lingua, na litteratura, na arte, e at na religio um reflexo
da natureza que lhes foi bero,--reflexo que a ausencia do torro natal
e a identificao com um novo clima pde attenuar, no homem,
consideravelmente. O que  certo, e tem sido muitas rezes notado,  que,
por exemplo, as linguas do Norte se distinguem pela rudeza das
articulaes das linguas do Meio-dia incomparavelmente melodiosas; que
as litteraturas septentrionaes teem uma riqueza de pensamento que se
pde contrapr  riqueza de sensibilidade das linguas meridionaes; que a
musica do Norte  magestosa, grave, solemne, ao passo que a musica do
Meio-dia  caracterisada pela variedade das inflexes, pela harmonia, e
pelo sentimentalismo.

Cumpre notar,--aproveitando uma observao de Deschanel,--que umas vezes
e pela similhana e outras pelo contraste que o clima se reproduz na
litteratura. Ideal de belleza,--diz elle,--ideal de fealdade, que
importa! Na religio dos negros, o diabo, dizem,  branco. E isto, pela
mesma razo que na religio dos brancos--dos brancos que acreditam no
diabo--o diabo  preto. Porque  que os poetas latinos, quando querem
pintar a graa e a belleza das mulheres, lhes do mais vezes cabellos
louros do que cabellos pretos?  porque entre elles, em Italia, quasi
todas as mulheres teem cabellos negros.--Reciprocamente, quando os
poetas celebram a miudo as bellezas morenas, logo se adivinha que so do
Norte, clima das bellezas louras.

Isto  realmente verdade. Diz o proloquio: S se deseja o que s se no
tem.

J deixamos dito que Emilio Deschanel no leva a influencia do clima at
ao fatalismo geographico. A sua _Physiologia_ no  uma theoria
absoluta, uma demonstrao didactica, como elle mesmo diz, mas
simplesmente uma _causerie_ sobre a litteratura e sobre a arte. Ns, que
procuramos seguir o caminho de Deschanel, no podemos acreditar que seja
a terra a _prophecia da historia_, mas firmemente cremos que todo o
homem tem muito do seu paiz como a flr tem muito do sitio onde
desabrochou. E depois o homem,--como notou Lamartine-- planta at certa
idade, e a alma tem as raizes no solo, no ar e no co que lhe formaram
os sentidos. D'aqui a absorpo dos fluidos que andavam espalhados no
ambiente da patria.

No ser difficil estudar-se na nossa litteratura o temperamento
predominante dos portuguezes. Dous livros nos caracterisam
perfeitamente,--_Os Lusiadas_ e a _Menina e moa_. Fomos sempre o povo
das saudades e da vida concentrada do mar, que o mesmo  dizer tambem da
saudade.

    Longe, por esse azul dos vastos mares,
    Na soido melancolica das aguas
    Ouvi gemer a lamentosa Alcyone,
    E com ella gemeu minha saudade.

Muita da nossa melhor litteratura so chronicas de viagem e poemas
d'amor. Ns, a nao que formamos a monarchia  sombra da cruz,
herdamos, no vasto espolio que recebemos de Roma, a lyra melancolica de
Virgilio, que foi o poeta mais christo do paganismo e de quem disse
Victor Hugo

    _Il chantait presque  l'heure ou Jsus vagissait._

Depois a mesma indole da lingua, cujos numeros so d'uma saudosa
melancolia, como notou Garrett, as perturbaes subitas da atmosphera, o
aspecto suavemente triste da natureza, a solido do navio, do bivaque e
do claustro, deram-nos este caracter sombrio que nos distingue,
predispozeram-nos para o temperamento nervoso-melancolico que  o
predominante.

O nosso clima favorece as molestias intestinaes--d'aqui o mau humor, a
hypocondria, o azedume, a satyra, que est perfeitamente representada em
Bocage.

Ao contrario, os gregos, cujo co era todo alegria e esplendores, tinham
uma palavra propria para designarem o seu estado normal--_Eucolos_, o
que diz simplesmente,--_ter bons intestinos_.

A Frana representa na civilisao moderna o papel de mediadora e
interprete; notou-o Edgar Quinet.

Pela sua posio topographica communica com a Italia e com a Allemanha,
e creou tambem uma phrase para designar as influencias beneficas que
recebe d'esta communicao--_en belle humeur_; por outro lado est
ligada aos paizes de Calderon e Cames, d'onde lhe sopram as auras
murmurosas que pozeram em vibrato a lyra plangente de Lamartine.

A meu vr, um dos maiores escriptores da Europa, que mais salientemente
deixa vr a influencia do seu clima natal,-- Camillo Castello-Branco.
Basta ll-o, nos seus numerosos volumes, para se conhecer o temperamento
portuguez.

 que Camillo Castello-Branco  primeiro que tudo um escriptor nacional.
Nos seus romances anda o idylio triste, suave, sublime de doura e
pungimento a par da satyra envenenada, da critica mordaz, do epigramma
lacerante. Os seus livros, como os quadros de Rembrand, teem a magia do
claro-escuro que caracterisa a escla hollandeza.

 facil encontrar n'elles Moliere a par de Millevoye.

A educao de Camillo Castello-Branco devia influir gravemente no seu
temperamento como aconteceu com Rousseau. So do livro _No Bom Jesus do
Monte_ estes pequenos quadros retrospectivos da sua primeira vida:

Tinha eu nove annos e era orpho.

Dous mezes depois d'este desamparo, com o tenro corao fistulado de
saudade, a desbordar de lagrimas, e os ouvidos ainda resoando-me  alma
o estertor da agonia de meu pai,  que eu, pela primeira vez, entrei no
sanctuario do Bom Jesus.

Ainda do mesmo livro:

Devo ajuizar da minha precoce sensibilidade, recordando que, dous mezes
antes, entrei, por noite alta, na sala onde meu pai estava amortalhado,
sem mais companhia que quatro cirios de chamma azulada. Ajoelhei sem
orar. Afastei da fronte do cadaver o capuz do habito, e beijei-lh'a. Puz
tambem a bocca nas mos glaciaes; senti um frio de que ainda o corao
me guarda a memoria: o frio do ambiente dos mortos. A meu lado, ninguem.
A irm que eu tinha, alguns annos mais velha, encerrara-se com a sua dr
e com o seu terror de cadaveres. E eu estava alli, destemeroso das
sombras que desciam dos angulos do tecto  penumbra do claro
oscillatorio das tochas.

Camillo Castello-Branco trabalha como trabalhava Mozart,--para vencer as
rebeldias do seu temperamento. O trabalho , para elle, ao mesmo tempo,
toxico e remedio.

D'aqui o numero prodigioso das suas obras. N'estes ultimos tempos
teem-se aggravado os padecimentos habituaes de Camillo Castello-Branco.
Mas ainda assim que prodigiosa fecundidade a sua!

Ha um anno tem publicado quatro livros, e j esto traados tres novos
romances que so _Celestina_, _Scenas da tragedia humana_ e _Infanta
capellista_.

 condo dos homens de letras o desentranharem-se em flres do espirito
quando o corpo mais se nega por enfermio. Assim foi tambem Garrett, que
j em 20 de setembro de 1838 escrevia para o Porto, a seu irmo:

Ha muito que devo resposta  tua de 13 de agosto e ters attribuido a
demora talvez a outros motivos, sendo unicamente que no tenho saude
para nada, e que o escrever sobre tudo me mata. No tanto em cousas de
meu gosto, e em correspondencias com os meus amigos,--mas tendo de
roubar aos padecimentos corporaes e amofinaes d'espirito os proprios
momentos que a natureza exhausta pedia para socego,--fico incapaz at
para o que alis me daria gosto e ainda allivio.

Era-lhe rebelde a saude, fatigava-o o escrever, e aquelle grande
espirito estava sempre moo, sempre acordado, e publicava, depois da
data d'esta carta, o _Frei Luiz de Sousa_ em 1844; em 1845 as _Flores
sem fructo_ e o _Arco de Sant'Anna_; em 1846 a _Philippa de Vilhena_ e
as _Viagens na minha terra_; em 1848 a _Sobrinha do marquez_ e, para
dizer tudo, foi depois de 1838 que nos deu os mais delicados livros da
sua gentil bibliotheca.

Camillo Castello-Branco sente-se tambem doente, e ainda assim vou jurar
que renunciaria  vida se o privassem de escrever os seus romances
admiraveis de verdade, de analyse, de _cr local_, o que , a meu vr,
um dos quilates mais preciosos do seu talento.

L-o a gente, e acredita-o, e commove-se por mais que se lembre que est
lendo uma novella.

O segredo d'este prodigio ha-de morrer com Camillo Castello-Branco. S
elle sabe temperar a verdade com a fico de modo que no offenda, por
falta de naturalidade, os mais exquisitos paladares.  que a verdade,
como sabem, nem sempre  verosimil.

Ouamol-o a este proposito:

Um meu amigo, que tinha conhecido muitos amigos infelizes, e tinha lido
as minhas novellas, disse-me assim uma vez:

--Tenho observado que voss inculca verdadeiras todas as suas historias.

--E voss duvda?

--Duvido porque as acho verosimeis de mais.

--Isso  um absurdo, com o devido respeito. Pois, se as minhas
historias fossem impossiveis, seriam mais possiveis?

--A pergunta formulada d'esse modo  irrespondivel; mas o que eu queria
dizer no  o que voss entendeu.

--Faa favor de se explicar.

--L vou. A verdade  s vezes mais inverosimil que a fico. O engenho
do romancista concatena os successos com tanta logica e coherencia que o
espirito no pde negar-lhes a naturalidade. As occorrencias advem to
harmoniosas, os successos filiam-se e reproduzem-se to espontaneamente,
que o leitor pde, sem desaire da sua critica, pensar que o romancista 
muitissimo mais correcto que a natureza. Ora agora, o modo como as
cousas reaes se passam, os disparates que a gente observa, o desconcerto
em que anda a previdencia do homem com o resultado phenomenico e sempre
ordinario das realidades, isso, meu amigo,  o que os torna inverosimeis
e inacreditaveis, se voss ou eu as contarmos com a simplicidade e nudez
de que ellas se vestiram aos nossos olhos. Sei eu acontecimentos que
relatados, como eu os presenciei, seriam incriveis, e compostos com a
mentira da arte seriam as delicias do leitor, que julga s verdadeiro o
que  possivel ter acontecido. D'onde eu concluo que a arte  muito mais
verosimil que a natureza, e que os seus romances so inacreditaveis por
isso que so verosimeis.

 este inquestionavelmente o grande segredo dos romances de Camillo
Castello-Branco, o serem muitas vezes, para no dizer quasi sempre, mais
verosimeis que a verdade.

O que  certo  que no ha ahi author que seja mais lido, mais gostado,
mais popular at. A razo d'isto j fica acima apontada,-- que Camillo
Castello-Branco , pelo seu temperamento, um romancista verdadeiramente
nacional.

--Eu j nem temperamento tenho! dizia-me elle outro dia. Creio que sou
uma degenerao de todos os temperamentos.

Ah! perdo, meu presado mestre, eu que tenho lido os seus ultimos livros
e que os estou agora dissecando sobre a minha mesa de physiologista,
acho que elles so extremamente eloquentes, sobejamente verdadeiros.

A prodigiosa imaginao de Camillo Castello-Branco augmenta-lhe tambem a
gravidade dos seus padecimentos;  ainda o romancista a fazer-se um
romance para si mesmo.

D'isto no tem elle culpa, que  tambem uma consequencia do seu mesmo
temperamento. A excitabilidade nervosa de certas organisaes leva-as
muitas vezes a verem os acontecimentos pelo prisma da sua imaginao
pessimista.  assim que o snr. Alexandre Herculano que, a meu vr, tem o
mesmo temperamento, escrevia inspirado pela revoluo de 1836 umas
formosas paginas, esplendidamente exageradas, que fazem lembrar as
_Ruinas_ de Volney e o _Livro do povo_ de Lamenais.

Depois de fallarmos de Camillo Castello-Branco parece-nos ocioso estudar
o mesmo temperamento em escriptores differentes, um dos quaes seria, se
o houvessemos de fazer, o snr. Latino Coelho, cuja feio peninsular
resalta dos seus escriptos politicos, cheios de _verve_, de mordacidade,
de energia nervosa.

      *      *      *      *      *




V

Visconde de Castilho


Estamos tratando do estylo e ainda o no definimos siquer. Emende-se a
tempo o descuido, e aproveitemos a definio d'um grande estylista
portuguez que nos vai preleccionar com maior clareza do que as regrinhas
pretenciosamente concisas d'uns compendios de bem fallar que por ahi
apparecem.

O estylo  na opinio de Camillo Castello-Branco a concepo das idas,
manifestada em formulas visiveis e transmissiveis;  a luz exterior
reflectida da luz interna.  ainda, em sentido menos lato, a escolha
harmoniosa das palavras, congruentes  elevao ou simplicidade do
assumpto. Que e mais o estylo? E a physionomia distincta da obra, do
author, do assumpto, do paiz e do seculo. , finalmente, o que ahi ha
menos material na arte de escrever.

Anda visivelmente por isto a doutrina de Emilio Deschanel, e a verdade,
que eu anteponho a todas as philosophias nebulosas, no fica tambem
muito longe da definio de Camillo e da these do escriptor francez.

Todo isso  o estylo.

O estylo  o homem na sua dupla existencia. Temol-o provado, pelo que
respeita  physiologia, e continuaremos a proval-o. Pelo que prende com
a pessoa moral basta ler simplesmente um conto de Antonio de la Trueba,
intitulado _O estylo e o homem_.

Fallemos levemente da formosa historieta do contista hespanhol.

Trueba recebe um dia uma carta que o chama urgentemente a Navalcarnero.
D-se pressa em partir; parte.

Ao chegar a Msteles, um cabo da guarda civil, commandante do posto,
exige-lhe o passaporte.

No se munra Trueba de documentos officiaes, e contenta-se com dizer o
seu nome.

O cabo, que tem na algibeira os _Contos campesinos_, duvida da
identidade do viajante.

Antonio de la Trueba quer sahir-se d'estes apertos, e appella para um
expediente extremo.

No correr do dialogo insinura o cabo que Antonio de la Trueba devia de
ser um homem de bem, porque o estylo  o homem; mas que se via obrigado
a vedar-lhe a passagem at obter uma prova da sua identidade.

Pois se o estylo  o homem--replicou Trueba--deixe-me recolher  casa
da guarda onde escreverei um conto. Est costumado a lr os meus livros;
reconhecer o homem no estylo.

O alvitre foi aceite.

Trueba escreveu o conto, que era simplesmente a historia interessante da
sua inesperada jornada, historia admiravel de sentimento e singeleza.

O verdadeiro conto est n'essa narrativa. O guarda ouviu attento, e,
terminada a leitura, disse apenas estas palavras:

--D. Antonio de la Trueba, pde partir.

Na opinio do author dos _Contos campesinos_ tres cousas ha que teem uma
physionomia unica,--a letra, o rosto e a alma.

Procurem disfaral-as; o observador intelligente ha-de sempre
conhecel-as. A mascara ha-de cahir perante a observao,--ou vle o
espirito ou cubra as faces, tanto importa. O estylo  o homem,--a alma 
o temperamento, o que no se palpa  o que se v, o _eu_ subjectivo e o
_eu_ objectivo. Por isso o estylo  mais perfido do que a onda,--atraia.

A alma  a luz; o corpo a lampada. O estylo  o reflexo que parte da
chamma e que ao atravessar o candelabro mostra a transparencia do
crystal ou o espelho scintillante do ouro.

Que o estylo era o paiz, o clima, mostramol-o no capitulo antecedente,
porque o homem, como os rios, reflecte a cr do co sob que nasceu.

Diremos tambem, e de passagem, at onde o estylo  o seculo.

A Frana do seculo XVIII est claramente representada nos romances
licenciosos de Duclos e de Crebillon, filho, como nos quadros eroticos
de Fragonard e Boucher.

Em Portugal os poetas e os historiadores do seculo XVI eloquentemente
revelam a poca de maior esplendor que jmais atravessou a patria, assim
como os annaes da _Accademia real de historia_ bastam para pregoar, em
suas declamaes fatuas e vans, a decadencia da litteratura portugueza
que veio depois a receber alento do grande espirito do marquez da Pombal.

_Chaque sicle a son tour d'esprit_, disse Fontenelle, e a historia
nos est provando que Fontenelle no mentiu.

Emilio Deschanel ponderou que se o estylo era o homem, a litteratura
era a sociedade.

Outra verdade profunda, outra illao da historia, que no s se
deprehende da litteratura propriamente dita, seno que tambem se est
revelando n'essa outra litteratura de pedra chamada architectura.

Para o nosso caso, os monumentos so to eloquentes como os livros.

J Victor Hugo notou, no romance _Notre Dame_, que o Paris de Luiz XV
estava em Saint-Sulpice, o Paris de Luiz XVI no Pantheon, e o Paris da
republica na Escola de Medicina.

Em Portugal, tambem o snr. Alexandre Herculano observou que a Batalha
era um poema de pedra e Mafra uma semsaboria de marmore,--que uma era
grave como o vulto homerico de D. Joo I e que a outra representava uma
gerao effeminada que se fingia gente.

Todavia promettemos logo ao principio ir apontando as excepes que
fossem occorrendo, e ao proverbio de que o escriptor encarna o seculo em
que viveu,--no nos esqueceremos de contrapr que as fabulas de Florian
so de 1792 e que em 93 Lgouv dava no _Theatro-francez_ uma tragedia
pastoril. Offenbach  um exemplo do nosso tempo; depois da guerra com o
estrangeiro, depois dos dias sangrentos da communa, recomea
tranquillamente as suas operetas.

Temo-nos desviado por atalhos que partem do nosso caminho, mas que no
seguem a direco que tomamos.

Continuemos o nosso estudo sobre temperamentos, e fallemos hoje d'um
escriptor, justamente laureado, poeta d'amenidades e branduras, cantor
da natureza e do amor.

 claro que fazemos referencia a Castilho, cujo temperamento
exuberantemente se est espelhando nos seus livros.

Escreve o author da _Chave do enigma_ fallando da sua infancia:

Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creana s para poeta, e
poeta unicamente de branduras.

Vendo-se ainda nas recordaes longiquas do passado, contina:

Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter
conhecido, rosada, chilreada, alegrissima como quasi todas as auroras.
Mas os penates do seu bero haviam sido na cidade, e os passaros
cantores no se criam e educam bem seno pelas amenidades tranquillas e
scismadoras d'esses campos.

A infancia bucolica de Castilho preparou-lhe a alma para os eternos
florecimentos com que ainda hoje toda se expande em cadencias e
perfumes. Nem siquer lhe faltou no paraiso dos primeiros annos uma
creana amiga que lhe inundasse o corao com os alvores matinaes do
santo amor da puericia. A sua indole, dil-o elle, foi-se compondo com
duas religies que a final se reduzem a uma s: o culto das gemeas e
eternas amantes universaes,--a natureza e a mulher.

Um dia appareceu n'este co azulado e crystallino d'uma infancia
suavemente idyllica, a primeira nuvem presaga de tempestade. O que
aconteceu elle vol-o dir, que ninguem melhor o pode dizer: De repente
outra doena, mais terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que
ella, no paga com martyrisar-me, no contente de balanar-me por um fio
largos mezes entre a vida e a morte, me atira vivo para um sepulchro. Eu
respirava: mas os bellos olhos, idolatras das flres e de Amalia, e
vangloria de minha mi, no sabiam se ainda havia no co o sol de Deus!

Privado de contemplar as paisagens dos seus primeiros amores, comeou a
saudade a reproduzir-lh'as na viso interior, a rememoral-as a toda a
hora, a contornal-as no horisonte infinitamente suave d'um paraiso perdido.

A fatalidade tinha-o atirado para um sepulchro,  certo, mas o sepulchro
d'um poeta tem sempre flres.

Era recendente a urna espessa em que lhe ficava cerrada a infancia. Mas
pelas estrophes perfumadas do passado recompoz Castilho os poemas
inebriantes do futuro; pelos aromas da infancia adivinhou a primavera
invisivel da mocidade.

Pouco era o que tinha aprendido, mas de muito lhe serviu para o que
viria saber. Onde lhe faltava a viso, porque as palpebras tinha-as para
sempre fechadas, ahi lhe acudiam os olhos de seus irmos, que viam por
elle, ahi o soccorria a lio dos poetas bucolicos com que foi creado,
ahi lhe entrava a flux pela alma e pelos ouvidos o dulcissimo
conhecimento da natureza que idolatrava. Assim se fez e educou poeta ao
murmurio placido do Mondego e do Tibre, de que no estava menos proximo.
O rouxinol, privado de vista, tambem canta, como sinta os perfumes da
primavera e a melopa da corrente suspirosa. De musicas e aromas se
formou a sua alma, por isso no ha ahi melhor poeta do amor, da
melancolia, das flres, das aves e das creanas.

O livro _Primavera_ caracterisa-o perfeitamente; esto n'elle todas as
branduras lymphaticas do seu teraperamento, todas as douras ineffaveis
da sua alma. Uma vez s, como j dissemos em outro lugar, cahiram as
boninas da sua lyra campestre sacudidas pela rajada violenta das
paixes. Os _Ciumes do bardo_ e a _Noite do castello_ representavam um
esforo ao qual se devia seguir, como a claridade da manh aps a
negrura da tormenta, todos os idyllios suavemente elegiacos que dedilhou
depois. Ha d'estas contradices na vida dos escriptores, e ns, que
voluntariamente nos obrigamos a apontar as excepes, no podemos deixar
em silencio a seguinte, que  flagrante.

Gomes Goelho, j gravemente doente, escrevia, n'uma hora de dolorosos
soffrimentos, uns versos scintillantes de _verve_ peninsular, que
desmentem completamente o genero caracteristico do finado escriptor.

A poesia de que venho fallando destina-se  _Grinalda_ e, por obsequio
de Nogueira Lima, transcrevo as tres primeiras quadras:

    Ai, quem me dera em Sevilha,
    Onde a travessa hespanhola
    Sob a elegante mantilha
    As negras tranas enrola.

    Na arcada da s formosa
    Vl-a entrar, tal como a sonho;
    Entre _coquette_ e piedosa,
    Rosto, entre grave e risonho.

    Mergulhar na agua benzida
    A mo pequena e elegante
    E entre a turba, alli reunida,
    Distinguir o olhar do amante.

........................................................................

A vida de Castilho tem sido o caminhar emps idas generosas, principios
nobres e santos, quaesquer que sejam, com o peito cheio de serenidade,
ou o recebam hymnos ou chufas, ou o acclamem Poeta ou lhe gritem
Utopista. No ha presentemente em Portugal homem que mais tenha sido
aggredido e que mais razes tenha para ser respeitado. As vagas que se
levantam no esforo de quererem submergir a sua cora litteraria, batem
d'encontro ao throno em que a patria j collocou, e para sempre, o
cantor da _Primavera_, e refervem, e espumam e, finalmente, desfazem-se.

Elle, a cujos ouvidos resoam incessantemente as musicas da alma, no
ouve siquer o acachoar das aguas impuras que no chegam a macular-lhe as
plantas. Est embevecido na sua poesia, no seu sonhar perpetuo, nas suas
dces affeies.

Um dia, desceu do solio litterario e entrou  escla, levando comsigo a
alegria, a musica, o amor pelo estudo. Cercaram-no umas creanas
pallidas e concentradas, que lhe faziam d, e essas creanas, volvidos
dias, amavam-se entre si, estimavam o mestre, j no riscavam os seus
livros, e do intimo de suas almas immaculadas abenoavam o poeta cego e
velho que lhes enchera de poesia o recesso humido e soturno da escla.
Mas levantaram-se as vagas, e referveram, e espumaram. Castilho
recolheu-se ao ninho querido onde o estavam convidando as amenidades de
todos os dias. As multides gritavam Utopista e as vozes esmoreciam no
ar. No lhe deixaram fazer da escla-cemiterio, cheia de escuridade e
tristeza, a escla-floresta gorgeada, alegre e festiva. Conseguiram que
elle depozesse o livro da primeira communho espiritual, mas no lhe
poderam arrancar do peito o amor que elle ainda conserva  escla, s
creanas e  legio dos seus poetas romanos com os quaes se entende
muito melhor que com os impertinentes conservadores do velho ensino.
Arrancaram-lhe das mos o cathecismo preceptor,  certo, mas no lhe
poderam empolgar a lyra das branduras predilectas. E recomeou a cantar
os seus idyllios, a suspirar as suas dces elegias, pedindo aos seus
amigos que o deixassem morrer com as mos postas sobre as cabeas de
seus filhos e com a lyra encostada ao corao.

No quer outra indemnisao em quanto fr do mundo; depois que a morte
arrefecer a escurido dos seus olhos, pouco , e de poeta, o que elle
deseja para si:

    Depois que entre os abraos delirantes
    De todos os que amei, findar meus dias,
    Sepultai-me n'um valle ignoto e fertil.
    Para marcar da sepultura o sitio,
    Sobre o cadaver, que vos foi to caro,
    Mangeronas plantai, cuja verdura
    Em roda fechem variados lirios.
    Na raiz funda de soberba olaia
    Pouse a minha cabea, e o tronco amigo
    Sobre mim curve a copa florecente.
    Mil piteiras unidas, ostentando
    Na hastea vaidosa as flres amarellas,
    Em quadrado no grande me defendam
    Das incurses das cabras roedoras.
    Em meu tronco se escreva este epitaphio:

    _Foi poeta amador da natureza:
    D'entre as sombras ancioso a procurava,
    Qual terno amante a bella fugitiva._

    Sobre isto pendurai sonora flauta,
    Que se revolva  discrio do vento.
    No cerque os ossos meus, no mos ensombre
    Nem teixo nem cypreste; arvores quatro
    Quizera s no meu jardim de morte.
    N'um canto a laranjeira graciosa,
    Que mescla util e dce, a flr e o fructo:
    N'outro a figueira sob as amplas folhas
    Modesta occulte seus nectareos mimos:
    Defronte um pecegueiro em fructos mostre
    Que amavel  pudor, quando enche faces
    De pennugem subtil inda cobertas:
    No ultimo canto... (a escolha me confunde)
    Plantai no ultimo canto uma ginjeira,
     a arvore da infancia at na altura;
    D'esta por sua mo colhe um menino
    A mui ridente baga, e ri de ufano.
    Alguns tempos depois que a fria terra
    Meus restos encerrar,  minha olaia
    Vs, meus amigos, vs dareis meu nome,
    Pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.

Envelhece o homem mas sobrevive o poeta. O seu temperamento tem
prevalecido o mesmo e j se tornaram em sazonados pomos de abundante
outomno as flres odorosas da septuagesima primavera. A sua alma
conserva-se tranquilla, cheia de luz como o co da Grecia, sob o qual
poetou o seu Anacreonte, perfumada como os pomares tiburtinos do seu
Horacio.

O temperamento de Lopes de Mendona era prophecia da fatalidade a que
devia succumbir; o temperamento de Castilho assegura-lhe viver poeta e
morrer, como o cysne da tradio fabulosa, ainda poeta.

      *      *      *      *      *




VI

Julio Cesar Machado


A photographia  o folhetim da optica, assim, como o folhetim  a
photographia da litteratura. Depois que se accendeu a febre dos
jornaes, introduziu-se a moda j agora generalisada dos albuns, e a
photographia e o folhetim invadiram o mundo, correram de mos dadas, de
polo a polo, porque se o folhetim  a reproduco dos acontecimentos,
comeada e concluida n'um instante, a photographia  a copia ligeira das
pessoas, consummada em cinco minutos, n'um _atelier_ elegante. Quem tem
pretenes a fazer-se conhecido e respeitado das immensas ramificaes
de seus descendentes, retrata-se a oleo e deixa-se exhibir na sala nobre
da familia, pendente d'uma lona, de casaca ou de farda, como se
estivesse em perpetuo baile.

Quem deseja escrever um livro para a posteridade segue o moroso processo
dos retratos a oleo, senta-se pacientemente  banca todos os dias,
corrige, emenda, annota, do mesmo modo que o pintor se inclina para a
tela, aperfeioando um trao, avivando o colorido, corrigindo o
contorno, trabalhando para o futuro, n'uma palavra. Mas quem se vai
retratar para satisfazer um pedido, para brindar um amigo, para estar
presente a uns olhos queridos com a firme teno de mais tarde
substituir o carto pela propria pessoa, contenta-se com a photographia,
que  um retrato incompleto, mas que  todavia um retrato.

Do mesmo modo, quem se senta  mesa de trabalho para traar um esboo
dos acontecimentos, para consignar as impresses do espectaculo d'hontem
em quanto se faz horas para o baile d'hoje, e se pensa no passeio
d'manh, quem no quer historiar os factos mas unicamente
estenographal-os, deixa fluctuar a penna na corrente do folhetim, dando
um sorriso  bailarina nova, atirando um punhado de flres s alegrias
do povo, orvalhando de lagrimas a saudade d'um athleta que cahiu, e sahe
depois, de casaca e luva cr de perola, quando chega a carruagem, sem
pensar siquer em que, procedendo d'outro modo, poderia ir ao capitolio
mais depressa do que  sala esplendida e perfumada que o espera.

A misso do folhetim  pois photographar, apanhar os acontecimentos d'um
s jacto e coloril-os com a luz que resalta do foco interior. Camillo
Castello-Branco escrevia uma vez a respeito de Julio Cesar Machado: Bem
sabe elle como  rapido o photographar, e bem sabemos ns que no
devemos pedir-lhe mais que o esboo das cousas, aperfeioado depois pelo
sexto sentido do talento.

Em Portugal, o folhetim comeou grosseiramente no Almocreve das petas
e no Barco da carreira dos tolos como notou Rebello da Silva. Jos
Daniel, que comprehendeu o espirito proeminente da poca, procurou fazer
a critica dos acontecimentos e das pessoas do seu tempo, provocando o
riso, com a graa saloia e com a chufa grosseira, que era muita vez um
respiraculo intencionalmente aberto s combustes da inveja e do odio.

Era o embryo do folhetim, preparado  portugueza velha e pautado pelos
modlos da _Eufrosina_ de S de Miranda e do _Fidalgo aprendiz_ de
Francisco Manoel de Mello. O verdadeiro folhetim, tal como ns hoje o
conhecemos, a critica ligeira, risonha e fugitiva que borboleteia ao de
leve por cima das flres como disse tambem Rebello da Silva, veio de
Frana junto com os primeiros albuns que de l recebemos, ao tempo que
Julio Janin era moo, e de Hespanha dentro de uma caixa de charutos,
expedidos pelo dono do estanco onde Marianno Larra os costumava comprar.

Garrett, que estudou l fra as mais notaveis evolues da litteratura
moderna, foi o primeiro que trouxe para Portugal o folhetim francez,
amaneirado, elegante, _chic_. O mesmo no aconteceu ao snr. Alexandre
Herculano, que estudou tambem na escla do estrangeiro durante o tempo
da emigrao, mas cujo temperamento era adverso s amenidades da
litteratura ligeira.  hora em que o snr. Herculano trabalhava na mente
o plano das suas lucubraes historicas, descia o futuro visconde
d'Almeida Garrett do seu cubiculo de Ingouville, onde escrevera o
_Cames_, e _flanava_ distrahidamente pelas margens do Sena.

Era isto--Garrett, o _flaneur_; Herculano, o philosopho.

Garrett foi na litteratura, como na sociedade, o verdadeiro _flaneur_.
Borboleteou de genero em genero, dramatisou, romanceou, poetou,
folhetinisou n'uma palavra, mas folhetinisou soberba, esplendida,
admiravelmente. Garrett era porm o folhetinista do livro; faltava em
Portugal o folhetinista do periodico. O temperamento de Garrett
vedava-lhe o acompanhar quasi diariamente as lucubraes jornalisticas.
Gostava de folhetinisar no seu gabinete, entre flres e crystaes.
Estava-se pedindo um homem robusto, febril, enthusiasta, que escrevesse
os seus folhetins sobre a banca d'um escriptorio, n de moveis e
ornatos, com infatigavel energia, em quanto esperava o prlo impaciente.
Esse homem appareceu,--foi Lopes de Mendona. Durante muitos annos
exerceu elle brilhantemente o folhetim,--o folhetim que se compromette a
apparecer todas as semanas, a fallar de tudo embora haja completa
escacez de assumptos, a ser alegre, espirituoso e profundo, apesar de se
dar ares de leviano. O incendio d'aquella poderosa imaginao crepitou,
deslumbrou e finalmente extinguiu-se. Ento appareceu em Lisboa um
rapazinho da provincia, cheio de mocidade e esperana, que se estreou na
litteratura offerecendo-se para traductor do Gymnasio. Os horisontes que
elle sonhava eram lucidos como o co da primavera. Em redor de Julio
Cesar Machado tudo eram sombras, difficuldades, obstaculos. Mas elle era
feliz porque sonhava com a esperana. No basta ser feliz para o ser
verdadeiramente.  preciso, e n'isto est tudo, amar a felicidade.

Se elle quizesse vencer d'um impeto todos os estorvos, enlouqueceria.
Mas o seu temperamento lymphatico permittia-lhe esperar, e saber esperar
 inquestionavelmente a primeira condio para vencer. Os seus nervos
eram de natural submissos; impaciencia no a teve nunca. Por isso foi
feliz. Soube namorar a felicidade. Quando a critica invejosa e proterva
lhe sahia ao caminho, l lhe vinha uma sombra  alma, mas as tristezas
d'estes temperamentos so dolorosamente suaves. Passava a
nuvem;--sonhava de novo com a esperana.

Eu sou realmente amigo de Julio Machado, e sei que elle me estima
deveras. Quando penso na vida d'elle, lembro-me de mim, e perdem-me
este orgulho.

O author dos _Contos ao luar_ entrou no mundo ssinho; seu pai deixou-o
muito novo quando desceu ao tumulo. Eu fui um pouco mais feliz, mas o
brao de meu pai, cansado de trabalhar toda a vida, s com extrema
difficuldade poderia nortear a minha educao pelos mares que a sua alma
affectiva me queria aplanar. Os mestres de Julio Machado foram os seus
primeiros amigos. Eu tambem me quero lisongear d'essa honra. Foi a
amizade de Jos Estevo que lhe franqueou as columnas da _Revoluo de
Setembro_. Eu encontrei tambem no principio da minha carreira um
jornalista sobremodo honrado, o snr. Cruz Coutinho, que recebeu os meus
primeiros ensaios nas columnas do _Jornal do Porto_, e me animou a
proseguir. Ambos ganhamos pela penna o primeiro po da vida. Do meu
passado, conservo saudosas lembranas; Julio Machado compraz-se tambem
em rememorar os seus primeiros annos que lhe sorriem ainda gratos
atravs da penumbra do passado. Ambos nos destinavamos a um curso
superior, e ambos ficamos no mundo sem carta de bachareis. Foi realmente
uma pena; eu se fosse doutor era com certeza mais gordo,--mais feliz,
pelo menos.

Qual seria a barreira litteraria diante da qual empedrou o estudantinho
da Durruivos? No sei; o latim de certo no foi, que esse ensinou-lh'o o
padre Paulo, de quem elle falla nos _Quadros do campo e da cidade_.

A esphynge da latinidade tambem me no amedrontou a mim; conservo ainda
saudades do Virgilio e do Horacio, e estimo sinceramente o snr. Dantas
que foi meu mestre.

O meu pesadelo foi a mathematica, ah! foi a mathematica sim. O Garrett
queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa
d'elle se ficar poeta. E o mais  que o snr. Albuquerque, do lyceu,  um
homem de intelligencia e d'estado, duas qualidades que eu respeito e
admiro em qualquer homem.

Mas eu j tinha no corpo a peonha da poesia; aborreceu-me o Serret,
errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que no
pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de
menos e um litterato de mais,--eis tudo o que aconteceu.

Em razo d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a
minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas e esconda entre
plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que no vivi bem com a
arithmetica, no quero que ella se vingue de mim, quando me seja
impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo
denunciam a milicia dos mortos.

N'este horror  mathematica sou ainda discipulo de Camillo
Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: Teremos ns
sepultura com lagea!? Conta com um cmorosinho de terra, e umas papoulas
na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica
ha-de perseguir-me alm da morte!

Agora estou eu reparando que me tenho desmandado em confidencias, e que
amanh ha-de gritar a maledicencia que eu fiz, que aconteci, que me quiz
nivelar com Julio Machado. No ha tal; previno o commentario. Basta
dizer-lhes que ha sete annos,--era eu uma creana,--li pela primeira
vz, na Foz, as _Scenas da minha terra_ e que me demorei longo tempo
diante da dedicatoria d'esse livro que Julio Machado offerece a sua mi,
no sabendo se havia de applaudir mais o escriptor se o filho. Elle era
ento j um talento feito e eu, desprovido dos seus valiosos dotes,
ainda era uma creana. Applaudi-o ento, applaudo-o hoje e
applaudil-o-hei sempre.

Mas era d'elle que vinhamos fallando,--era do seu temperamento que
queriamos fallar.

Ah! feliz temperamento o seu, que se revela na suavidade dos seus
folhetins, na doura dos seus contos, na tranquillidade do seu animo.

O temperamento de Julio Machado est no _Pedrinho_ dos _Contos ao luar_,
na _Marcolina_ das _Scenas da minha terra_, no _Romance d'uma alma_, das
_Historias para gente moa_. So tristezas suaves,--deliciosas tristezas!

Elle, que foi o successor de Lopes de Mendona, deve inquestionavelmente
ao seu temperamento o ter arrostado ha longos annos com a improba
canceira do folhetim sem desanimar, sem ficar vencido.

Escreve tranquillamente, por isso se no tem gastado. As viagens so uma
tendencia do seu espirito.  ainda o folhetim em aco o que elle quer.
Mas no vai viajar de afogadilho, no pensem, como se lhe fosse na pista
a policia ou o cholera. Nada d'isso. Para ir a Paris e para chegar a
Londres gastou dous mezes.

Quando parte, no diz a ninguem onde esto os seus papeis importantes
para o caso de no voltar. Nada d'isso. Parte alegremente,--para Italia;
cantarolando com o Junca; para Hespanha, em trajo de _touriste_, em
communidade de aventuras com o conde d'Obidos.

Nunca se lembrou que lhe ia acontecer desgraa pelo caminho. Ao
contrario, pensa que a natureza o espera com um sorriso e um _bouquet_.
 elle mesmo quem nol-o diz:

De mais a mais, no sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes
de se proporem a sahir da sua terra, e at cuidam que o barco se ha-de
perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que
por eu ir n'elle  que o barco se no perder.

Accusam-n'o de desleixado na linguagem.  um defeito. Quem o no tem? E
muitos dos que lhe atiram a pedra esto tambem no caso de ser apedrejados.

Bem desleixado se deixou ser o Garrett nas _Viagens_, que  o folhetim
mais folhetim que se tem feito entre ns, e todavia o Garrett ha-de
viver mais tempo do que os seus criticos. O folhetim no se est a
pregar e a repregar como as mulheres de trinta annos. Ah! no, o
folhetim tem a graa e a desenvoltura de uma donzellinha. Namora-o a
flr; basta-lhe o perfume. Tudo o que faz  ao acaso, tudo a brincar,
tudo para entreter, segundo uma expresso de Julio Machado.

Quando elle publicou os _Contos ao luar_, sahiram-lhe ao encontro os
grammatices, os nossos graves grammatices--que graa!--por haver
attentado contra a virtude da syntaxe, comeando o seu livro por uma
conjunco copulativa.

Era certo que elle havia escripto--... E depois, eu no sei bem porque
chamei ao meu livro _Contos ao luar_! Que elle, o phantasioso contista,
tivesse aceitado a sequencia d'um sonho interrompido, d'um devaneio
cortado pelo fremito d'uma vaga, que quizesse dar aos seus contos o vago
do luar, no comprehendiam os grammatices. L estavam as reticencias
que substituiam as palavras, mas no eram reticencias o que elles
queriam, eram palavras, palavras, unicamente palavras.

Os grammatices so como os diccionarios;--o que mais tem so palavras.
E os defensores da inviolabilidade da grammatica em vo aularam a
critica, e os apostolos da conjunco morderam-se, e o livro teve tres
edies, para dizer tudo d'uma vez.

J que me referi n'outro lugar ao _Romance de uma alma_ quero
acrescentar que basta este conto para caracterisar physiologicamente
Julio Cesar Machado,--um conto adoravel, dce e triste, um devaneio de
phantasia delicada que faz lembrar as mais formosas tradies do Rheno
primorosamente trasladadas a portuguez pelo snr. Jos Gomes Monteiro.

Ah! meu caro Julio, eu, que sou ainda novo, amo sinceramente a candida
mocidade que se respira nos seus livros, delicio-me com as fragancias
d'esses gentis _bouquets_ que o seu talento tem enfeixado, e ao terminar
estes breves estudos de physiologia, litteraria permitta-me que saude
d'aqui a primavera que ainda lhe sorri exuberante de galas e esperanas.

Algum dia dir de si a historia da litteratura patria que foi um
escriptor sempre moo, que sabia com o seu espirito enganar a idade,
quando ella the acenava de longe, e que no dia em que lhe nasceu a
primeira branca atirou ainda a umas bailarinas que iam passando com um
bonito _bouquet_, um adoravel folhetim, de sorte que ellas, apesar d'uma
ruga e de uma can igualmente traioeiras, tiveram inveja  sua mocidade
e ao seu temperamento, como eu, que sinceramente o confesso, e se
lembraram de Anacreonte, que morreu a sorrir, coroado de flres.

Termino esta serie de folhetins com o nome festejado d'um distincto
folhetinista. Assim devia ser;  sobre o pedestal que se colloca a estatua.

N'estes rapidos estudos humoristicos, que ahi ficam, procurei fazer em
Portugal o que fez Emilio Deschanel em Frana, com uma unica
differena--que elle o fez muito melhor e mais detidamente. Elle me
serviu de modelo e incentivo. Gostei do seu livro, e o mais que fiz foi
applicar aos nossos escriptores a theoria que elle havia enunciado, no
na sua generalidade, o que seria longo, mas em uma das suas
ramificaes, o estado physico, o que me pareceu curioso. Parti, como
elle, da influencia do corpo sobre a alma, e procurei estudal-a n'um
certo numero de individuos.

Tentei estudar o temperamento no estylo.

Mais que nunca se me figura opportuna a occasio para trazer em minha
defeza as palavras de Deschanel: Paradoxo! diro uns. Banalidade!
clamaro outros. Que se entendam uns com os outros at chegarem a um
accordo. Que importa que uma cousa seja velha, se  verdadeira? E no
ser sufficientemente nova, para o tempo que corre, se fr precisa e
sincera? E depois, receioso de que supponham que se d ares academicos,
acode Deschanel denunciando a indole dos seus estudos: Imaginai que
folheaes, por matar o tempo, um album de autographos ou de
photographias;  pouco mais ou menos o que vos eu apresento. Isto
escreveu Deschanel; isto devo eu repetir com dobrada razo.

      *      *      *      *      *




EM ADDITAMENTO A PHYSIOLOGIA LITTERARIA




Carta do snr. Alexandre da Conceio ao author


                                                         _Ill.mo amigo._


Na ultima das suas _Cartas do Inverno_[5], nas quaes o meu
amigo tratou, com a sua habitual delicadesa d'estylo, a interessante
questo do temperamento d'alguns dos nossos mais populares escriptores,
vem l uns piparotes  mathematica e aos mathematicos que eu no posso
deixar passar sem reparos.

Saio pela honra do meu convento. Proponho-me demonstrar-lhe que as
chamadas sciencias exactas no so to destituidas de riquezas poeticas
como o meu amigo aprega e muita gente acredita, e que nas litteraturas
de todos os tempos e de todos os paizes--veja que ambies de erudio
as minhas!--no ha concepes nem mais grandiosas nem mais sublimes do
que nas mathematicas.

Combatendo-lhe a sua antipathia pela sciencia das quantidades, tenho
ainda em vista atacar o preconceito, entre ns infelizmente
vulgarissimo, de que o estudo das mathematicas esterilisa a imaginao,
mata o sentimento artistico e torna o espirito pesado e sorna como a
quarta pagina do _Times_.

No ha com effeito estudantinho de lyceo que tenha lido, em traduco
mascavada, os _Tres Mosqueteiros_ ou a _Menina do 4. andar_, que se no
julgue victima da mais cruel das tyrannias paternas quando se lhe impe
a obrigao de estudar um poucochinho do Manso Preto ou do Sousa Pinto.

Conheci no meu tempo d'estas victimas imberbes do romantismo fazerem
gala de serem reprovados em mathematicas elementares, para se darem ares
de Esproncedas em promessas, de Byrons em projectos, de rapazes
esperanosos, de moos cujo talento se no podia amoldar, pela grandeza
e pela impetuosidade, aos estreitos limites da arithmetica, da algebra
ou da geometria.

 verdade que depois estes interessantes mocinhos demonstraram ter na
mesma conta da arithmetica tudo o que os obrigasse a duas horas de
trabalho srio, e iam a final, cobertos de rapozas e inutilisados
physica e moralmente pela devassido e pela ociosidade, parar aos
corredores das secretarias d'estado, s ante-camaras dos ministros ou s
salas de espera dos influentes eleitoraes mendigando um emprego publico,
onde podessem emfim applicar a sua actividade gasta nos prostibulos, nos
cafes e nos passeios publicos.

Assim como ha porm intelligencias com aptido singular e admiravel para
a comprehenso das sciencias exactas, ha tambem boas e prestadias
intelligencias, e d'esse numero  a do meu amigo, que tomam  conta de
repugnancia invencivel pela mathematica o que n'essas intelligencias 
apenas amor e enthusiasmo por outra ordem de verdades. O Julio de
Castilho dizia-me em Lisboa, com aquelles seus ares candidos e virginaes
de pintor biblico da renascena, que no comprehendia como eu, que fazia
versos, conseguira encarar nas mathematicas sem ficar logo alli
empedrado de horror. Elle, como o meu amigo, quando lhe disseram que
havia de estudar arithmetica, parece que escreveu uma apologia
apocalyptica do suicidio e que esteve meio resolvido a ir esconder o seu
asco aos numeros no fundo do Tejo. Deixe-me fallar-lhe ainda de mim para
demonstrao d'uma verdade acima enunciada. Eu quando principiei a
estudar mathematicas tinha o espirito azedo e derrancado com a leitura
d'uns detestaveis romances francezes que por ahi andam na mo de todos
os meninos e meninas. Aterrado com o desimaginoso estylo do 1. tomo do
_Francoeur_ disse de mim para mim, para me desculpar da propria
mandriice, que o meu talento no nascera para digerir taes bagatelas e
alistei-me galhardamente na numerosa ala dos _mergulhadores_, meus
condiscipulos e consocios na guerra ao estylo do filho espurio da grande
actriz Lecouvreur, segundo contam as ms linguas. O resultado d'este meu
incipiente mau gosto litterario foi perder o anno, poupando assim o snr.
Pinto d'Aguiar ao trabalho de me premiar a _loureirice_ com tres
rapozas, vr com muita inveja e muito desgosto de mim proprio parte dos
meus condiscipulos alcanar com a approvao o premio dos seus esforos,
ir para ferias grandes com uma cara tola de homem que se reconhece
inutil e mandrio aos proprios olhos, e, por sobre tudo, apresentar-me a
meu pai, que tanto me estremecia, com a consciencia de lhe ter roubado
perto de trezentos mil reis, que fui tirar ao patrimonio sagrado de
minhas irms, sem receber d'elle uma reprehenso, o que era o peor de
todos os castigos.

Senti-me deveras e profundamente abjecto diante de mim mesmo.

Em outubro voltei ao Porto e comecei a estudar regularmente n'esse anno
e nos que se seguiram, at completar a minha educao profissional.
Nunca porm me pude vr livre completamente dos maus habitos adquiridos
na convivencia da mocidade imaginosa e revolucionaria, que me fra
companheira das tolices do primeiro anno. Ainda hoje estou combatendo
essas influencias de romantismo futil e estouvado que nos tem para c
vindo nos enxurros da litteratura franceza.

O precioso tempo que gastei a fazer versos e folhetins, com que nem eu
nem as letras ganhamos pouco nem muito, podia tel-o empregado bem
melhor a estudar conscienciosamente o que hoje me vejo obrigado a
compulsar de novo, para no exercer a minha profisso do mesmo modo que
fiz o papel de poeta e de folhetinista.

Com a propria experiencia pois lhe afiano que o estudo das mathematicas
nem esterilisa a imaginao nem atrophia o sentimento artistico.
Deixe-me dizer-lhe mais: Das grandes manifestaes do espirito humano s
a musica me tem causado to intimas sensaes de contentamento, de
felicidade interior e de enthusiasmo como as que experimentei com as
mathematicas, apesar de as haver estudado superficialmente e de apenas
lhes ter entrevisto a sublimidade e a elevao. Lastimo-o se nunca
sentiu os jubilos intimos, o puro contentamento que se apodera de ns
quando chegamos  posse plena d'uma verdade mathematica.  ento que se
comprehende bem que o homem no vive smente de po mas de verdade.
Sente-se a gente orgulhoso d'este orgulho fidalgo de pertencer  nobre
familia dos seres que tirou do fundo do seu espirito taes sublimidades.

E depois, meu amigo, que ida se ha-de fazer da arte, se frmos apregoar
que as sciencias exactas, que  onde a verdade mais luminosa se
apresenta, so inimigas irreconciliaveis da poesia? Em que conceito se
ha-de ter a litteratura, se se acreditar que ella odeia o rigor logico
dos raciocinios, a actividade energica e regalada do espirito, os
exercicios olympicos da intelligencia? Victor Hugo diz no prefacio de
no sei qual dos seus livros que a algebra  uma poesia.  um acerto
isto. Diz-se tambem que as mulheres da Africa do a comer aos filhos
corao de leo para os tornar robustos e corajosos. O corao do leo
para o espirito  o estudo das mathematicas. No ha nada mais sadio nem
mais nutritivo.

 uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o
ar da vida.  a agua lustral que nos lava dos preconceitos da educao,
e que nos levanta o entendimento quella altura d'onde se no podem j
enxergar umas certas cousas mesquinhas e tolas que ahi andam ataviadas
com os ouropeis da phantasia, e que so to futeis e to ridiculas, como
os interesses que sustentam.

Nas sciencias mathematicas ha sobre todos um ramo, com o qual, no meu
entender, no pde competir nem em grandeza nem em sublimidade poetica
nenhuma outra ordem de conhecimentos humanos;  a Astronomia. Galileu,
Kepler, Newton e Laplace so poetas de mais alto cothurno que Homero e
Shakspeare e Goethe e Victor Hugo. No grite  d'el-rei contra a
blasphemia litteraria; olhe que  verdade isto que lhe digo. Se tirar
aquelles grandes vultos da sciencia a imaginao, o enthusiasmo, a
intuio prophetica da verdade, as allucinaes do ideal, este exaltado
lyrismo que o amor sofrego da verdade produz nas intelligencias
privilegiadas, se lhes tirar todas estas qualidades de espirito que
fazem os grandes poetas, reduz-me aquelles homens  craveira vulgar de
quatro mathematicos mais ou menos obscuros, mas no m'os eleva nunca 
altura de espiritos creadores, de genios, de poetas finalmente.

Que litteratura ha no universo que possa sustentar as pretenes de
possuir uma obra litteraria capaz de se medir em grandeza de concepo e
em sublimidade de idas com a theoria da attraco universal de Newton
ou com a hypothese sobre a formao dos mundos de Laplace?

Que nome seno o de poeta quer o meu amigo dar a um homem como Leverrier
que encontra um planeta desconhecido e nunca visto por olhos humano na
ponta da sua penna, fechado no seu gabinete de trabalho? Diga-me: se
fosse millionario no pagaria por bem maior preo os calculos originaes
de Leverrier do que o autographo mais precioso do Dante?

E no me diga que esta poesia da sciencia s  accessivel aos espiritos
iniciados n'ella. Reuna em volta de si duas ou tres mulheres de talento
e de gosto litterario, la-lhes o melhor trecho do _Hamlet_, o melhor
canto do _Inferno_, a melhor composio da _Lenda dos Seculos_, e depois
faa-lhes uma exposio singela do systema dos mundos, narre-lhes a
historia da descoberta da velocidade da luz ou conte-lhes o prodigioso
romance do apparecimento no mundo da sciencia do planeta Neptuno, e ver
qual das cousas as deixou mais allucinadas, se a poesia dos versos ou da
palavra, se a poesia dos mundos ou da sciencia.

Em si, que  um espirito serio e estudioso, no quero eu vr no seu
horror as mathematicas mais do que um gracejo de folhetinista; mas  que
ns padecemos d'uma profunda doena social que se revela muito n'esse
desprezo pelos estudos serios, n'esse fastio pela verdade singela, pela
logica vigorosa e pelos methodos de raciocinio verdadeiramente
scientificos. Nutra-me o espirito publico de conhecimentos exactos, de
methodos seguros de raciocinio, e ha-de vel-o no se contentar to
facilmente com os sonhos com que o andam por ahi embalando os
especuladores da causa publica, todos estes prudentes da occasio que
trazem os principios chumbados ao marmore da rotina, que teem a
consciencia adstricta  gleba dos empregos publicos, e toda a alma
enfeudada aos preconceitos da opinio do maior numero. Olhe que  seria
esta questo. D-me  Frana mais mathematicos e menos romancistas, mais
arithmetica e menos versos, e Sedan  impossivel e os incendios de Paris
sero irrealisaveis. A victoria  o resultado da superioridade dos
vencedores; mas a superioridade dos vencedores suppe a inferioridade
dos vencidos.

O espirito serio e pratico da nova Allemanha havia de mais tarde ou mais
cedo derrotar o genio romantico e futil da Frana contemporanea. Era uma
guerra fatal aquella com um resultado previsto ha muito. Pergunte por
isto ao snr. Pedro d'Amorim Vianna, que talvez o encontre disporto a
dizer-lhe umas cousas sublimes que elle sabe, _apesar_ de saber tambem
mathematica como poucos.

E, j que tem a felicidade de ter uma filha, meu amigo, ensine-lhe a
admirar Soares de Passos, e em Soares de Passos a poesia _O Firmamento_,
cuja inspirao elle foi beber a um dos ramos d'essa vasta sciencia dos
numeros, que muita gente suppe arida e esterilisadora como um livro de
conta corrente. Depois nutra-lhe o espirito com o alimento sadio e
robusto das verdades scientificas; leve-a pela mo aos grandes templos
da vida moral; ensine-lhe a historia, que  a epopa da humanidade;
ensine-lhe a geologia, que  a historia da terra; ensine-lhe a
astronomia, que  o poema heroico do universo. Diga-lhe que por baixo da
lousa fria do tumulo, onde lhe mandar esparzir rosas de saudade, ha
apenas os restos inertes d'uma cousa grande, que  o homem; a alma
d'esse homem, essa, que a no procure n'esses restos, mas no proprio
espirito d'ella, na memoria das suas boas aces, na recordao, que
ella deve ter sempre viva da sua dedicao  familia, do seu amor ao
trabalho, da sua paixo pelo estudo, da sua coragem nos revezes, da sua
modestia nas alegrias, do seu respeito  virtude, da sua aspirao ao
bem, do seu culto ao bello, das suas qualidades como esposo, como pai e
como cidado, pois que n'essa recordao na alma ingenua d'uma filha vai
a melhor immortalidade a que um homem honrado pode aspirar.

Creio que abusei muito da sua paciencia, no abusei? Que quer?...
custou-me ouvir-lhe dizer mal das mathematicas.

No torne, olhe que eu estou de atalaia, e ento ai da sua paciencia.

At l e sempre creia-me

                                              seu amigo e admirador,

Bragana, 22 de Janeiro de 1871.

                                             _Alexandre da Conceio._

    [5] As paginas antecedentes sahiram com este titulo em
    folhetins do _Jornal do Porto_, de dezembro de 1871 a maro de 1872.

      *      *      *      *      *




Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceio


                                                      _Meu bom amigo:_


Fez-me a honra de replicar amavelmente ao ultimo d'estes despretenciosos
folhetins que tenho publicado no _Jornal do Porto_ sob o titulo de
_Cartas do Inverno_, e eu apresso-me a responder-lhe para inteira
conservao das nossas relaes amigaveis e litterarias.

Sahiu o meu amigo _pela honra do seu convento_, levantando umas ligeiras
insinuaes com que eu no esperava offender a mathematica e muito menos
melindrar um s mathematico.

Enganei-me, e em boa hora me enganei, porque a sua carta significa para
mim uma honra, posto que immerecida, bem vinda, e porque me apraz
digladiar com luctador assim digno como leal.

Foi seu proposito mostrar que a mathematica no pde deixar de ministrar
 litteratura o vigor logico do raciocinio, quer dizer, o machinismo
scientifico de que se serve o homem para chegar s convices profundas.
E cita o meu amigo uma pleiade d'homens illustres que foram ao mesmo
tempo grandes mathematicos e grandes poetas, uns tites celeberrimos que
se levantaram a uma altura a que no poderam chegar os gigantes da fabula.

Falla-me de Galileu, de Kepler e de Laplace. No me falle d'esses, que
foram os poetas da mathematica, que viveram embriagados no lyrismo da
sciencia, e que por uma privilegiada intuio souberam deletrear as
bellezas infinitas da epopa dos astros. No me falle dos grandes genios
da astronomia, sciencia quasi divina, porque estuda o co.

Herschell, cuja vasta intelligencia passou pelo baptismo da musica,
antes de se remontar s eminencias olympicas, tem no firmamento um
epitaphio eterno para o qual no ha honras nem grandezas comparaveis. O
rei Jorge III, que lhe fez merc d'uma penso da trezentos guineus e de
uma vivenda no burgo de Slough, quasi concedeu um galardo irrisorio ao
homem que devia ter o co por tumulo e Uranus por epitaphio. Estas so
as aguias audazes que roaram as azas pela tela azul do firmamento,
visitando os archipelagos de mundos, que, na phrase do materialista
Buchner, infinitamente distantes uns dos outros, povoam o immenso
deserto das alturas. D'esses no fallava eu, porque os respeito tanto,
quanto me  vedado conhecel-os. Fiquem estes e outros mathematicos para
logo; fallemos por agora da mathematica.

Eu no nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento da
verdade; assumpto  esse estranho  minha competencia e ao meu intento.
Se o fizesse, poder-me-hia encostar a talentos sobremodo abalisados;--a
Hobbes que escreveu contra a certeza da sciencia que se tinha  conta de
mais certa; ao padre Castel que falla n'este diapaso: Em geral
estimam-se muito s mathematicas. A geometria tem verdades nebulosas,
objectos vagos, pontos de vista vaporosos. Por que dissimulal-o? Tem
paradoxos; apparencias de contradico, concluses de systema e de
concesso, opinies de seitas, conjecturas e paralogismos; a Buffon,
finalmente, que ponderou que as verdades mathematicas se reduziam a
entidades d'idas, e eram baldas de realidade. Se eu lanasse mo d'esta
arma, movido de proposito ou convico, responder-me-hia o meu amigo com
numerosas e respeitabilissimas opinies tendentes a encarecerem a
verdade mathematica. Alardeariamos sciencia, mas no passaria a cousa
d'uma cegarrega causticante para o leitor e para ns.

No combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que
quer ou o que pde. Peo vista ao meu folhetim que despertou a sua
replica. No aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de
preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi
penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou
d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descansado o
somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura
com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cmoro um ramo
de flres. Isto  o que o meu amigo no pde nem deve discutir, apesar
da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta.  licito a
cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita
a esta disposio,  publico.

Os estudantinhos que o meu amigo conheceu com o espirito derrancado pela
leitura de romances de m doutrina e peor linguagem, no so uma creao
do seu espirito. Eu tambem os conheci, e ainda conheo muitos,
infelizmente. Ora esses nem tem amor  litteratura nem  sciencia. So
uns vadios, que andam malbaratando as economias dos paes e pegam no
compendio para pretexto de passeio at ao lyceu, e n'um romance para
engalharem o somno, espavorido com a excitao da saturnal.

Eu sei que no escureceu o seu animo a ida de se referir  minha
pessoa. Fao-lhe inteira justia e correspondo  sua amizade. Todavia
algum leitor menos benevolo poderia ver n'isso uma alluso encapotada. A
esse, no a si, digo eu que, no tendo merecimentos litterarios para
reivindicar, no estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa
que, como homem, me pertence,--o amor ao trabalho. Os meus amigos
conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me ento contente, e mais ainda
quando, ao romper da manh, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem
fumegam as casas visinhas para a refeio matinal, a canceira com que um
moinho de vento proximo vai rasgando o nevoeiro com os seus quatro
braos alvejantes. A essa hora, quando ainda no martelam as officinas
nem estrondea na rua o prego dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores
que esto despertos,  o moinho e sou eu. Basta isto.

Uns estudantes ha ahi, e sempre houve, que desestimam as sciencias
exactas, mas que so grandes em differentes ramos d'estudo. Esses s
sahem incolumes do exame de geometria,--quando sahem--depois de longo
soffrimento para domarem temporariamente a inclinao natural do seu
espirito d'elles.

Lembra-me citar-lhe um que tenho  conta de grandissimo poeta;--
Gonalves Crespo, o author das _Miniaturas_.

Bom  que haja sempre aptides diversas; s assim poder florescer um
estado.

Os que como o meu amigo comearam por poetar gentilmente e acabam por
combater as influencias do romantismo futil e estouvado so raros.

Felicito-o sinceramente pela perseverana com que procura expurgar os
velhos habitos, os quaes se me no afiguram to nocivos como o meu amigo
suppe, antes, a meu vr, eram mais um titulo de respeito para a opinio
que geralmente se frma da sua intelligencia.

Alguma cousa porm lhe ficou dos seus passados amores com as letras, a
despeito das mathematicas,--foi o estylo que naturalmente resalta da sua
penna com estimavel donaire.

No perdeu tempo nem trabalho, e muito mais se conseguiu, como acredito,
alliar as louanias da phrase aos conhecimentos d'um mathematico estudioso.

Voltemos porm aos mathematicos.

Em duas classes os divido eu; mathematicos-_artistas_ e
mathematicos-_operarios_.

Os primeiros, aquelles de que o meu amigo me fallou, so os que
entenderam em assumptos de telhas acima, os que procuraram a poesia da
mathematica nos mundos que pendem sobre as nossas cabeas e que esto
narrando a gloria de Deus, no dizer da escriptura.

Um s defeito tiveram alguns d'elles, a meu vr. Foi o ensoberbecerem-se
tanto com a gloria n'aquelle seu adejar nos pramos do co, que julgaram
Deus uma cousa ociosa e superflua. Subiram to alto, que se lhes
afigurou impossivel haver alguem que os sobrepujasse.

Lalande proclamava que tendo estudado o co no encontrara por l
vestigios de Deus. Laplace dizia a Napoleo que se no seu systema de
mechanica celeste no tinha fallado de Deus, era s porque no urgira
d'essa hypothese.

So maneiras de vr.

 segunda classe dos mathematicos, taes como eu os distingo, pertencem
os executantes, os que no sabem da sciencia mais do que o que est
n'uns compendios sobremodo aborrecidos; d'uns que no dispensam a
esponja para os seus calculos, porque a esponja lhes absorve os erros
frequentes; que se apresentam com a v magestade de regulos em sciencia
e fazem do radio uma especie de ferula com que martelam na lousa para
intimidar os alumnos que andam perdidos na abstrusidade da explicao do
professor; finalmente d'uns que zombam de todos e de tudo o que no fr
a mathematica que elles versam, e que nada acham prestadio tirante a
sciencia dos numeros. Estes so os que eu detesto, porque matam muita
aptido nascente com grandes doses de pastelo algebrico, como ia
acontecendo ao Garrett, se elle no tivesse o bom senso de lhes fugir
com o seu talento.

Estes taes podem ser equiparados na profundidade da sciencia, no pelo
que toca a extenso, a uns homens obscuros, mais prestimosos e menos
inchados que elles,--os guarda-livros. Uns praticam a mathematica dos
lyceus, os outros a das casas bancarias. Praticam-n'a todos os dias; por
isso desempenham correntemente as operaes arithmeticas que lhes
commettem. Mais nada.

A algebra, disse o adoravel Garrett,  bom contraveneno para os
empeonhados de poesia; mas hade ser dado com geito e tento. Quiz-me
fazer engulir doses muito grandes, no me pde o estomago com ellas.

Ora eu estava empeonhado, mas no me pde o estomago com as doses do
contraveneno, e como para chegar  poesia da mathematica era preciso
desbravar a semsaboria dos prologomenos, fiquei sem conhecer os
mathematicos do quinto andar e desandei pela porta fra. Esta distinco
que eu fao entre mathematicos, parece que tambem a fazia o
Chateaubriand. Sempre  bom valer-se a gente de authoridades. Dizia elle
no _Genio do Christianismo_:

Todavia no ser talvez difficil pr d'accordo os que declamam contra
as mathematicas e os que as preferem a tudo o mais. Esta differena
d'opinies vem do erro commum, que confunde um _grande_ com um _habil_
mathematico. Ha uma geometria material que se compete de linhas, de
pontos, de A+B; com tempo e perseverana, um vulgarissimo espirito pde
entrar por ella dentro com galhardia.

 ento uma especie de machina geometrica que executa de per si
operaes complicadas, como a machina arithmetica de Pascal. Nas
sciencias, o ultimo que chega  o que melhor se instrue; eis-aqui porque
qualquer collegial do nosso tempo esta mais adiantado que Newton em
mathematicas; esta  a razo, porque tal que hoje  tido  conta de
sabio ser acoimado de ignorante pela gerao futura. Azoinados com os
seus calculos, os geometras-machinas teem um desprezo ridiculo pelas
artes de imaginao; sorriem de compaixo quando se lhes falla de
litteratura, de moral, de religio; _conhecem_, dizem elles, a natureza.
No ser para adorar-se a _ignorancia_ de Plato, que chama  natureza
uma _poesia mysteriosa_?

Ha uma applicao da mathematica, que, com quanto se me no afigure
poetica, no merece que se maldiga, porque  util: a geodesia. Essa
professa o meu amigo, e tanto no me parece poetica a convivencia com o
jalo e a fita metrica, que foi capaz de emmudecer a lyra das suas
_Alvoradas_. Um tio meu, que passa por engenheiro distincto, Frederico
Augusto Pimentel, conserva na sua bibliotheca muitos volumes de boa
litteratura, que adquirira em estudante, mas eu quando o visito em Braga
ou o encontro a braos com o pantmetro ou annotando o seu livro _Manual
do apontador_.

Com referencia a mathematicos disse o que tinha a dizer.

Reportemo-nos agora a outro ponto da sua carta.

Deus me livrara, ainda que me fosse possivel, de fazer leituras
d'astronomia a mulheres.

Estou d'accordo com Rossely de Lorgues, que fixa a origem da impiedade
no reinado em que as mulheres, a conselho de Fontenelle, estudavam
Euclides e discutiara Newton e Leibnitz,  roda de Maupertuis, no jardim
das Tulherias.

Ora estas sabenas d'alto cothurno, que se conversavam nas cas do baro
d'Holbach e nos jantares de madame de Tencin, levaram a mulher franceza
ao desvergonhamento, a que s pde ser cauterio a verdadeira religio;
no a religio das misses e dos missionarios, mas a religio de Deus.

O proverbio popular desconfia da mulher que sabe latim; eu desconfio da
mulher que sabe mais do que latim. Quero instruco para a mulher, grito
por ella; mas ha-de ser uma instruco rosada, loura, como as mais
formosas tranas, casta, pura, limpida.

Para isso era preciso fazer compendios especiaes, delicados e prudentes.
Da historia de Portugal, por exemplo, seria conveniente dramatisar as
legendas dos heroes que se sacrificaram pela patria. Teem as mulheres
imperiosa necessidade de conhecel-os, para soprarem ao animo dos filhos
as primeiras sementes do amor nacional. Agora as negruras d'umas rainhas
e d'uns principes, que mancharam a nossa historia, bom seria que ellas
as no soubessem nunca. De mathematica desejo eu que as mulheres saibam
correntemente as quatro operaes elementares.  o que minha filha ha-de
saber, e afigura-se-me que o marido de minha filha abenoar algum dia a
discrio com que eu a hei-de educar.

 debalde que o meu amigo me aconselha n'este ponto. Cada um governa o
que  seu, e eu, a despeito do seu claro entendimento, meu caro
Conceio, no lhe hei-de ensinar a ella a historia, que  a epopa da
humanidade, mas unicamente da historia o preciso para ella no
aborrecer a humanidade.

No quero que a pobresinha entre no mundo pela porta do tedio.

Eu no entrei, porque, quando examinei os quadros negros, tinha a alma
educada para o sentimento do bem pelos amorosos conselhos de minha mi.
Isto no  dizer que a maxima erudio seja a maxima desmoralidade. No;
eu quero que a instruco seja para quem a pde professar, e que se
estude quando se deve estudar.

 meu proposito que minha filha no ande pelas salas a fazer discursos
de varia historia s meninas da sua idade.

Os livros que eu escrevo, como ella os ha-de lr um dia, no levam
doutrina que a faa corar de pejo, por usar o nome que lhe lega o author
d'aquellas novellas.

No fallemos mais de minha filha, que dorme no bero os sonhos
auriluzentes da primeira infancia. No quero passeal-a na imprensa,
depois de a ter roubado s caricias de sua mi.

Aqui tem, meu caro Conceio, o que se me offerece dizer-lhe.

Peo-lhe que me releve uma ou outra falta que tenha commettido, e
creia-me sempre,

                                     amigo dedicado e sincero discipulo,

Porto, 1 de fevereiro de 1872.

                                              _Alberto Pimentel._

      *      *      *      *      *




Segunda carta do snr. Alexandre da Conceio ao author


                                                        _Ill.mo amigo._


Uma declarao antes de mais nada: Agradeo ao seu bom senso e  sua
lealdade o ter-me feito a justia de no vr uma alluso pessoal e
indelicada no esboo que fiz do estudantinho ocioso e devasso, que
detesta a geometria, com o falso pretexto de que os talentos _originaes_
e impetuosos se no podem sujeitar ao jugo affrontoso do calculo. No
podia lembrar-me de si quando tentava aquelle esboo, primeiro: porque
seria isso uma grosseria incompativel com a minha educao; segundo:
porque o aprecio muito como escriptor e como poeta; terceiro: porque o
estimo deveras como amigo e como homem, pois que lhe reconheo o
talento, a elevao do caracter, o amor ao estudo e a dedicao ao
trabalho.

Posto isto como mordaa aos malevolos ou aos futeis, e no como elogio
com que eu queira pagar-lhe as finezas que me dirigiu na sua carta e que
eu lhe agradeo com a plena consciencia de que as no mereo seno  sua
amizade e no  sua critica esclarecida, entro na replica ao seu
folhetim, sobre o qual temos muito que conversar.

Com o seu espirito alado e inquieto de folhetinista toca o meu amigo na
sua ultima carta n'umas poucas de questes, qual d'ellas mais
importante, que eu lhe no posso levantar todas, porque me no sinto com
competencia para tanto, porque me no sobra tempo e porque isso tomaria
propores assustadoras para a redaco e para os leitores d'este
jornal, que no pde ser condescendente commigo at ao ponto de arriscar
a sua boa reputao.

Creio que o meu amigo leu a minha primeira carta um pouco preoccupado,
ou que eu, por falta de aptido e uso, expuz confusa e desastradamente o
que tinha na mente dizer-lhe. Opto pela segunda hypothese, por me
parecer a mais racional e por estar mais de accordo com os factos e com
o conceito em que eu tenho os meus merecimentos litterarios, cuja
pequenez no entanto recommendo a commiserao do seu espirito s vezes
to finamente epigrammatica. Assignar-se _meu discipulo_!... Eu, seu
mestre!... Em que? No lhe perdo a graa e obriga-me a praticar alguma
inconveniencia, se a repete: envio-lhe o Serret pelo correio, pois que
no tenho a consciencia de poder ensinar-lhe regularmente mais cousa
alguma; e no me discuta isto, que no soffre discusso seria.

Vou pois vr se condenso em dous ou tres periodos umas idas mal
expostas no meu primeiro folhetim e que o meu amigo ataca, porque as
tomou pelo que ellas no so, mal entrajadas como ellas se lhe
apresentaram.

A minha sincera admirao pelas mathematicas nunca me cegou o
entendimento at ao ponto de eu no vr mais nada fora d'ellas, de
suppr que abaixo das mathematicas tudo  futil e inconsistente e acima
d'ellas tudo sonhos e illuses. Creio que ha salvao possivel fra da
minha igreja, e que para divisar uma face  verdade no e absolutamente
indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151. da
_Popa do Navio_ ou para a _alpha do Centauro_. O que digo e sustento, em
quanto o meu amigo me no convencer do contrario,  que o estudo das
mathematicas e a familiaridade com os seus methodos seguros, ou pelo
menos cautelosos, de raciocinio, no pde por frma alguma ser
prejudicial ao desenvolvimento de qualquer das nossas aptides
intellectuaes, e que sendo a litteratura e em geral a arte um dos muitos
caminhos que levam o espirito humano s atlantides do ideal,  licito
acreditar que tudo o que tenda a elevar-nos o espirito, a robustecer-nos
a alma e a esclarecer-nos o entendimento ha-de tambem desenvolver-nos as
faculdades poeticas e o sentimento artistico. Este o argumento _
priori_, como se diz na logica. O argumento _ posteriori_ est nos
exemplos, que lhe citei na minha primeira carta, de grandes
mathematicos que foram tambem homens de muita imaginao e de muito
enthusiasmo, sendo estas mesmas qualidades as que os tornaram grandes
mathematicos. Responde a isto o meu amigo com a sua theoria dos
_mathematicos-artistas_ e dos _mathematicos-executantes_, theoria que, a
meu vr, se pde formular do seguinte modo: Ha mathematicos seccos de
espirito, estereis de imaginao e baldos de todo o senso artistico,
logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes
mathematicos com imaginao e sentimento, esses so espiritos por tal
frma privilegiados que resistiram s influencias esterilisadoras dos
numeros e do calculo.

Afigura-se-me sophistica esta sua argumentao, porque a ser verdadeira
teremos de classificar de esterilisadora a influencia de todas as outras
sciencias, incluindo a litteratura, e de massadores todos os primeiros
litteratos do mundo, todos os nossos escriptores de mais segura e
duradoura reputao; por exemplo: Garrett, que para manejar a lingua
patria com aquella graa, facilidade e atticismo, que ns todos lhe
admiramos, havia de folhear e compulsar muito bacamarte classico e
soporifero; Alexandre Herculano, que para escrever aquelle poema do
_Eurico_ teve forosamente de deletrear muita somma de pergaminho safado
e roido, muita chronica bolorenta, muito livro indigesto; Antonio
Feliciano de Castilho, Camillo Castello-Branco, Theophilo Braga e alguns
outros, que para subirem s alturas, onde ns hoje os contemplamos com
admirao, tiveram indispensavelmente de estudar e de meditar muito
livro somnolento, e nem por isso lhes ficou l o espirito, nem o
talento, nem a graa, nem a espontaneidade; muito pelo contrario, foi
ahi, n'essas monumentaes semsaborias da nossa litteratura classica que
elles se robusteceram em graa, em talento e em originalidade.

Um mathematico cabeudo e massador  to massador como um jurisconsulto
caturra e formalista, como um medico charlato e pretencioso, como um
padre fanatico e obscurante, como um professor ignorante e embirrento.

As caturrices dos jurisconsultos, o charlatanismo dos medicos e a
ignorancia dos padres no podem provar nada contra a poesia da
jurisprudencia, contra a grandeza da medicina ou contra a sublimidade da
religio.

Parece-me, pois, seno demonstrado, pelo menos no destruido pela sua
argumentao, que, em principio, o estudo das mathematicas no faz nem
pde fazer mal algum ao gosto litterario ou  aptido poetica.

Deixe-me dizer-lhe ainda:  convico minha, e creio que de muito boa
gente, que o espirito moderno deve  vulgarisao dos estudos
mathematicos as mais solidas e as mais brilhantes das suas conquistas.

No lhe fallo j da civilizao material do nosso seculo, para cujas
maravilhas a mathematica cooperou com a melhor parte: quero fazer-lhe
notar smente a benefica influencia dos estudos mathematicos no espirito
scientifico do nosso tempo. A mathematica no inventou por certo nenhuma
theoria physiologica, no ditou nenhum tratado de direito publico, no
descobriu um unico corpo simples ou a composio de qualquer corpo
composto, no acrescentou um s versete aos Evangelhos; mas tem, pela
benefica influencia dos seus methodos, do seu genio rigoroso e justo, do
seu espirito verdadeiramente scientifico ajudado a expulsar das outras
sciencias muito espantalho com fros de verdade; muitas tolices com
ambies de acertos, muitas hypotheses absurdas e lorpas com reputao
de principios incontestaveis. E com isto tem ganhado todas as sciencias,
incluindo a moral, que deve ao espirito logico e robusto das sciencias
exactas, aquella austeridade de principios, aquelle stoictsmo de
concluses, que so as feies caracteristicas da philosophia
contemporanea; com isto tem ganhado a litteratura, que se despe
d'aquelles modos scismadores e langorosos, d'aquelles ares meditativos e
lunaticos de virgem pallida e incomprehendida para se tornar em esposa
forte e affectuosa, que nos consola nas amarguras, que nos alegra nas
tristezas e que nos robustece nos desalentos, que nos melhora, que nos
eleva, e que nos instrue.  porque a poesia ainda se no compenetrou bem
d'estas verdades, que ella est representando na sociedade o papel
secundario que representa. Como explica o meu amigo este palpavel
desamor da opinio publica pela poesia? No nota que a sociedade
contemporanea no quer que lhe fallem em versos; e que os no l e que
vira a pagina do jornal ou do livro onde os versos lhe appaream? A
culpa d'este desamor deve imputar-se por inteiro  sociedade ou aos
versos?...  a sociedade que est acima dos versos, ou a poesia acima da
sociedade? Ha depresso no sentimento moral e artistico da sociedade ou
ha abaixamento no nivel intelectual da poesia? Eu creio que a culpa,
posto que lhe caiba em parte, cabe menos  sociedade do que  poesia.
Isto porm  uma questo para largos desenvolvimentos, e eu no quero
terminar esta minha carta, que j vai escandalosamente massadora, sem
lhe levantar outras duas questes que o meu amigo toca no seu folhetim.

A que chama o meu amigo _impiedade_?... s conquistas do espirito
analytico do mundo moderno,  reforma,  revoluo de 93?  philosophia
raccionalista, ao livre exame, aos direitos do homem?  critica
historica,  exagese biblica, a toda esta febre de investigaes que
trabalha a alma do seculo XIX e que lhe faz bater apressado no pulso o
sangue riquissimo da vida? Chama a isto impiedade, ou entende por
impiedade uns ralhos de sachristia em que andam ahi envolvidos os irmos
das confrarias? Chama impio ao catholico mr. Thiers, que deixa ir pela
agua abaixo o poder temporal de sua santidade, e orthodoxo ao actual
bispo de Orleans que se arreda de mr. Littr como de um leproso?
Diga-me o que seja para si impiedade, que eu tenho visto abusar-se tanto
da palavra e da ida que ella representa, que me no admira vr
appellidar de impio qualquer dia o proprio cardeal Antonelli ou at o
snr. marquez d'Avila e Bolama.

O meu amigo parece tambem pensar que o seculo XVIII foi immoral por
excesso de sciencia nas mulheres, e impio--volta a terrivel
palavra!--por excesso de philosophia nos homens. Mas onde  que est
isto demonstrado? Em Chateaubriand, que se esqueceu de metrificar o
_Genio do Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder
ser recitado ao piano? Mas quando e onde  que a sciencia e a
philosophia fez mal a alguem e principalmente a uma sociedade? Quando e
onde  que fez bem e elevou e moralisou e instruiu a ignorancia, o
absurdo, o preconceito, a _rvrie_? Mas ento voltemos aos cilicios,
aos jejuns, aos conventos,  inquisio,  idade media. Nego com toda a
fora das minhas convices, nego com todos os insignificantes recursos
da minha intelligencia que a immoralidade to apregoada da sociedade
franceza do seculo XVIII tenha nascido no palacio de Rambouillet; nego
que a impiedade--no me deixa esta maldita palavra!--do tempo dos
encyclopedistas, seja o resultado do amor pela philosophia. So absurdas
taes supposies perante os principios, so illegitimas perante os
factos, so calumniosas perante o meu pouquissimo conhecimento da historia.

Agora a questo magna do seu folhetim, a educao da mulher. Sobre este
ponto sinto dizer-lhe que nem comprehendo como o meu amigo, cujo bom
senso e intelligencia eu tanto aprecio, no quer para a mulher a maxima
instruco, que d em regra, a maxima elevao moral; no, para todas as
mulheres, a instruco professional de que precisa o medico, o
jurisconsulto, o estadista, o engenheiro, o professor de universidade,
mas esta instruco geral, completa e solida, que d aos espiritos a
maxima amplitude de vistas, ao entendimento a maxima robustez,  alma a
maxima grandeza moral, ao corao a maxima bondade, pela comprehenso do
direito, pelo sentimento profundo do dever.

Quer o meu amigo para a mulher uma instruco rosada e transparente como
uma meditao suspirosa de Lamartine; no lhe quer ensinar da historia
seno o sufficiente para que ella se no faa beata, pelo horror aos
seus similhantes, ou Lucrecia Borgia, por imitao ou por amor aos
envenenamentos; no lhe quer ensinar astronomia porque receia que ella
ande pelos bailes a perguntar aos cavalheiros que a comprimentam ou s
amigas que a abraam, qual seja n'esse momento a declinao austral do
planeta Saturno ou em que phase est o quarto satellite de Jupiter! Eu,
francamente, no lhe sei responder a isto. Se o meu amigo tivesse dito,
clara e cruamente, que quer a mulher como nossa mi Eva, ignorante como
uma barroza de capucha de pardo, entendia-se; era um systema ou uma
convico, a que eu tributaria todos os respeitos que me merecem as
convices sinceras; mas dizer-me que quer para a mulher uma certa meia
instruco, que no vi que dsse nunca mais que petulancia, mau senso e
bacharelice s mulheres que a possuem, porque lhes excita a curiosidade
sem lh'a satisfazer, porque as no deixa na completa ignorancia, que as
obriga  modestia do silencio, nem lhes d  instruco regular que
produz a sensatez, dizer isto  estar a fazer versos quando se trata de
formular claramente um principio, e responder com a _aria final_ da
_Traviata_ ao X de uma equao algebrica. No posso pois acreditar na
solidez das suas convices sobre este ponto, e peo-lhe que, antes de
me replicar, se me quizer dar tal prazer, leia o admiravel livro de
Ernesto Legouv--_Histoire morale des femmes_. Se elle o no convencer,
eu perco as esperanas de o levar a fazer melhor juizo dos beneficios da
instruco e do espirito da mulher.

Creia-me

                                                  muito seu amigo,

Braganca, 7 de fevereiro de 1872.

                                              _Alexandre da Conceio._

      *      *      *      *      *




Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceio


                                                         Meu bom amigo:


Estamos em plena sabbatina e, como em todas as sabbatinas escolares,
abundam as palavras e escaca o methodo, a deduco clara, e a
argumentao logica. Escreve o meu amigo que eu li a sua primeira carta
um pouco preoccupado, e eu com mais justa razo o poderia accusar de
igual desleixo, o que  em si muito mais para sentir attenta a sua
intimidade com as formulas mathematicas e os processos de calculo.
Vejo-me portanto, obrigado a pr nos seus verdadeiros termos esta
conversa amigavel entre dous rapazes que se estimam. Os periodos que
demoveram o meu amigo a quebrar o seu obstinado silencio de ha annos,
foram estes:

O meu pesadelo foi a mathematica, ai! foi a mathematica, sim. O Garrett
queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa
d'elle se ficar poeta. E o mais  que o snr. Albuquerque, do lyceu,  um
homem de intelligencia e d'estudo, duas qualidades que eu respeito e
admiro em qualquer homem.

Mas eu j tinha no corpo a peonha da poesia; aborreceu-me o Serret,
errei um problema, esmoreci, e fiquei como estava. Aconteceu que no
pude ser mathematico, e que me deixei ficar litterato. Um mathematico de
menos e um litterato de mais,--eis tudo o que aconteceu.

Em razo d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a
minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas, e esconda entre
plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que no vivi bem com a
arithmetica, no quero que ella se vingue de mim, quando me seja
impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo
denunciam a milicia dos mortos.

N'este horror  mathematica sou ainda discipulo de Camillo
Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: Teremos ns
sepultura com lagea!? Conta com um cmorosinho de terra, e umas papoulas
na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica
ha-de perseguir-me alm da morte!

Na sua replica propoz-se o meu amigo demonstrar-me, para usar das suas
mesmas palavras, que as chamadas sciencias exactas no eram to
destituidas de riquezas poeticas como eu apregoava e muita gente
acredita, mormente a astronomia, sciencia que tem dado homens como
Galileu, Newton e Laplace; que a mathematica  uma atmosphera de
verdade onde a alma humana respira a pleno peito o ar da vida; e
finalmente que esta poesia da sciencia no era s accessivel aos
espiritos iniciados n'ella, seno que tambem se lhe afigurava muito
para ser entendida e afagada pelas mulheres.

Esta a summa da sua argumentao.

Respondi-lhe eu que a poesia das mathematicas estava de certo nas suas
grandes syntheses, nas suas vastas concepes, e que o meu espirito no
tinha chegado a este apogeu aonde s podem subir as intelligencias
privilegiadas. Bem sabe o meu amigo que para se apreciar o panorama 
preciso ascender ao viso da serra d'onde elle se descortina em todo o
seu esplendor;--que Newton, Galileu e Laplace me queriam parecer ao
mesmo tempo grandes poetas e grandes mathematicos; chegarem aonde os
outros no vo era j prova mais que sufficiente de que para elles no
havia bellezas ignoradas nos altos segredos da harmonia que rege o
universo; disse-lhe outrosim que no negava nem discutia que a
mathematica fosse um instrumento de verdade, o que no obstante tinham
feito Hobbes, Castel, Buffon e outros, porque assumpto era esse estranho
ao meu proposito e competencia; que, finalmente, quanto a ser accessivel
a poesia das sciencias exactas a todos os espiritos, se me afigurava que
alguns havia que s a despeito d'uma repugnancia natural logravam metter
p nas mathematicas elementares, porque a isso os obrigavam os
regulamentos academicos. Quanlo  competencia das mulheres para
entenderem os phenomenos meteorologicos, as theorias cosmogonicas e os
problemas intrincados da philosophia, respondi-lhe que no era minha
opinio dar tamanha latitude  instruco feminina. J v que no fui eu
que puz esta questo accidental; foi o meu amigo que a estabeleceu
tambem accidentalmente.

Deixemos porm isto para logo, que por enquanto vinha prejudicar a
unidade das materias que me proponho tratar.

Insurreccionei-me, como sempre, contra o charlatanismo scientifico, que
expunha as mathematicas elementares na _linguagem hirsuta das cadeiras_,
na opinio de Garrett, que amontoava explicaes confusas, citaes
nebulosas, o que produzia immediato desgosto no animo do estudante.

A clareza  a primeira condio para nos fazermos entender, e os
mathematicos charlates no a podem ter, porque elles mesmos no
digeriram ainda os sobejos indigestos, forrageados sob a mesa olympica
em que se banquetearam intellectualmente os primeiros homens da sciencia.

Ora o meu amigo, depois de me observar que eu li a sua carta um pouco
preoccupado, diz-me que ha salvao possivel fra da sua igreja, e que
para divisar uma face  verdade no  absolutamente indispensavel saber
dirigir um equatorial para a estrella 2151. da _Popa do Navio_.

Isto e o que eu digo  simplesmente a mesma cousa; o Conceio est
portanto commigo.

Se ha salvao possivel fra da sua igreja, o mesmo  dizer que se pde
ser grande litterato, grande estadista e grande politico sem se saber
grande mathematica.

A verdade  a crte das idas, deixe-me dizer assim, o centro onde ellas
se devem grupar ao servio da intelligencia soberana. A familiaridade
com qualquer methodo seguro deve ser indubitavelmente o caminho mais
curto para chegar  verdade, e como o meu amigo observa que ha salvao
possivel fra da sua igreja, parece dar a entender que a mathematica no
 o unico methodo seguro para conseguir tal fim. No sei se  ou no,
pela simples razo de no saber mathematica.

Por isso  que eu tinha dito: No nego nem discuto que a mathematica
seja um instrumento de verdade, e mais abaixo:


No combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que
quer ou o que pde. Peo vista ao meu folhetim que despertou a sua
replica. No aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de
preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi
penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou
d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descanado o
somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura
com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cmoro um ramo
de flres. Isto  o que meu amigo no pde nem deve discutir, apesar da
sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta.  licito a cada
um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a
esta disposio,  publico.


Como eu no posso affirmar a primazia da mathematica, assento de mim
para mim que ella, em sua qualidade de sciencia, tende a demonstrar a
verdade, quantitativa pelo menos, o que de certo  um exercicio de
gymnastica intellectual que deve concorrer para o desenvolvimento do
espirito. Mas do que eu no posso duvidar  de que as outras sciencias,
como a psychologia, a physiologia e a logica, por exemplo, encerram
verdades, e que conseguintemente devem tambem exercitar as faculdades
intellectuaes. Ora o meu amigo desobriga-se de provar que a mathematica
 a unica estrada que leva  Roma da verdade, dizendo que ha salvao
possivel fra da sua igreja; mais arraigado fico eu pois ao pensamento
de que um homem pde ser grande sem a muleta da mathematica. No admira
que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque
quando a intelligencia attinge o maximo desenvolvimento possivel, est
apta para abranger todos os conhecimentos humanos.

Se porm um limitado peculio mathematico no permitte attingir-se esse
grau de desenvolvimento, nem pode ser compensado pelas mealhas
respigadas em outros thesouros de sciencia, ento  muito para
duvidar-se do senso artistico do individuo. Se ha mathematicos seccos
de espirito  que to pouco se exercitaram n'esse ramo de
conhecimentos, que no chegaram  perfectibilidade intellectual relativa
ou porque a sua intelligencia d'elles  pequena, rachitica, tacanha, e
assimila pouco, no podendo digerir a variedade de conhecimentos pela
sua mesma incapacidade natural. Esses taes trabalham com os elementos
creados pelos grandes genios, contentam-se com dar alguns passos nas
estradas infinitas que elles exploraram e param de affrontados de
cansao e de inepcia porque a cabea se lhes nega a ir mais longe.

 facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia
d'homem para homem segundo as mesmas condies physicas do cerebro.

Ora os espiritos privilegiados, que chegaram a ser grandes mathematicos,
nasceram predestinados para as conquistas do pensamento, no ha
difficuldade que os sustenha, barreira que os inquiete; so como os
Alexandre Magno e os Napoleo que no recuam diante da metralha
inimiga e vam no corcel impaciente at que a morte lhes arrefea o
sangue nas vas. Da theoria dos _mathematicos-artistas_ e dos
_mathematicos-executantes_ deduz o meu amigo o seguinte argumento:


Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginao e baldos de
todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e
massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginao e sentimento,
esses so espiritos por tal frma privilegiados que resistiram s
influencias esterilisadoras do numero e do caloulo.


Esta maneira de deduzir  que a mim me quer parecer extremamente
sophistica. Ento o meu amigo acha que se pde sujeitar a influencias
materiaes, puramente externas, a intelligencia humana? Ou quer ento
medil-a pela mesma bitola em todos os homens? Se apenas houvesse um s
grau de desenvolvimento intellectual, no teriam hoje meno especial os
Newton, os Galileu e os Laplace.

O conhecidissimo Fetis, o maior sabio da musica moderna, venceu pela sua
rara intuio todas as difficuldades e devassou os mais reconditos
segredos da arte dando ao mundo o _Tractado da harmonia_[6] um
verdadeiro monumento que no poderia ser escripto por qualquer
executante secundario da orchestra de S. Joo.

E porque no poderia? Segundo as suas concluses, porque a musica os
fez mirrhados e massadores. Victor Hugo escreveu uma ode magnifica aos
quinze annos; logo, ainda segundo as suas concluses, foi porque
resistiu s influencias esterilisadoras da poetica. No sophisme, meu
amigo; bem sabe que ha aptides excepcionaes e especiaes, que os Newton
e os Victor Hugo so grandes porque no so vulgares.

Agora ha certa affinidade em determinadas sciencias, que o mesmo  ter
aptido natural para umas e para outras, porque em verdade as podemos
considerar irms gemeas.

Acontece isto, como sabe, com a mathematica e com a physica, com a
geographia e com a historia. Todavia esta affinidade no se d a meu vr
entre a mathematica e a poesia, porque, com quanto mirem ambas 
verdade, visto que ambas teem por fim o bello, uma caminha a elle pela
sensibilidade, pela imaginao, e a outra pela intelligencia, pela
razo.  preciso ser descommunalmente grande, excepcionalmente
organisado, para as abranger a ambas: Diz o meu amigo na sua ultima carta:


Parece-me, pois, seno demonstrado, pelo menos no destruido pela sua
argumentao, que, em principio, o estudo das mathematicas no faz nem
pde fazer mal algum ao gosto litterario ou  aptido poetica.


E na primeira dizia que dessem  Frana mais arithmetica e menos versos,
e que Sedan seria impossivel. Aqui ha contradico. Ento foram os
versos que mataram o calculo,--foram as demasias do corao que
allucinaram a cabea. Portanto uma cousa e outra so incompativeis.

Tambem na sua primeira carta dizia o meu amigo que devra a sua
reprovao em mathematica s influencias nocivas da poesia, e que s
combatendo pertinazmente essas influencias conseguira familiarisar-se
com os numeros. Isto corrobora ainda o meu argumento.

A mathematica dilata a razo, como a poesia dilata o corao. Uma vai
aps a razo, a outra aps a sensibilidade, e tanto isto  verdade, que
os grandes litteratos so achacados s irritaes nervosas, ao _genus
irritabile vatum_, como diziam os antigos. O melhor poeta ser o que
sentir melhor; o maior mathematico ser o que calcular melhor. Portanto,
 indispensavel uma organisao especialissima para ser tamanho n'uma
como na outra. Lopes de Mendona que tentou passar das amenidades da
litteratura para o estudo pesado da economia politica, da administrao,
de tudo o que era adverso  sua inclinao natural, acabou por se perder
para tudo, agonisando longo tempo no carcere da loucura.

A nossa conversa fica n'isto: No nego que a mathematica fornea
processos seguros para a percepo da verdade, nem o meu amigo affirma
que s pela mathematica se chegue  verdade, o que  o mesmo que dizer
que sem se ser forte em mathematica, se pde ser grande em qualquer
outra cousa,--em litteratura por exemplo. Fao entre os mathematicos,
como entre todas as sciencias e artes, a distinco natural que
offerecem as intelligencias. Opino que a heterogeneidade dos meios de
que se servem a mathematica e a poesia produz entre ellas um certo
antagonismo natural de modalidade, como se d por exemplo entre as aves
e os peixes cujo fim commum  a vida, com quanto umas vivam no ar e
outros na agua; e o meu amigo corrobora esta opinio mostrando que a
poesia no seu proprio espirito s cedeu campo  mathematica, depois que
a expulsou a ella, a poesia, e que a Frana no attingiu o _fim_ que
devia attingir, porque empregou o _meio_-poesia, em vez de empregar o
_meio_-mathematica.

Vamos agora  que o meu amigo chama _magna_ questo da educao da
mulher, e antes de mais nada permitta-me que rebata a sua phrase
responder com a _aria_ da _Traviata_ ao X de uma equao algebrica.
Isto ou  gracioso ou serio. Se  gracioso,  improprio d'uma questo de
doutrina, e se  serio, colloca-se o meu amigo na posio de no poder
continuar uma discusso com um contendor que larga a cantar  desgarrada
quando o meu amigo lhe est expondo argumentos, e corre alm d'isso o
risco de se contradizer porque no se concebe como o Conceio,
acreditando que eu estudo, suppe que eu possa cantarolar quando o meu
amigo raciocina.

Eu chamo _impiedade_, no nosso caso, ao desprezo pela religio e
portanto  incredulidade religiosa. Ora o seculo XVIII instruiu de mais
a mulher, roubou-lhe a meu vr a timidez que lhe  natural, e portanto a
candura que a caracterisa. Roselli de Lorgues trata bem esta questo no
_Jesus Christo perante o seculo_. Na minha opinio a mulher deve ter a
instruco da preceptora, no a erudio de uma academia. J v que no
quero a mulher ignorante mas que tambem a no quero sabia.

O Legouv, cuja leitura me recommenda, j era meu conhecido,--estava na
minha estante.

Acho a _Histoire morale des femmes_ um bonito livro, mas no um livro
irrespondivel, irrefutavel.

Vejamos o capitulo _Educao_ que friza ao nosso caso, e permitta-me que
lhe riposte o golpe com as suas mesmas armas.

Cita Legouv o caso d'um rapaz e d'uma rapariga que estavam aprendendo
astronomia. Elle immovel, concentrado, meditativo. Ella exaltada,
enthusiasmada, em extasi. Isto que prova? Que ella sentia mais, o que
no  o mesmo que comprehender melhor.

N'outro relano diz Legouv: Ser esposa e mi  simplesmente dirigir um
jantar, governar os criados, velar pelo bem-estar material e pela saude
de todos, que sei eu,  simplesmente amar, orar, consolar? No!  tudo
isso; mas  mais ainda;  guiar e educar, por consequencia  saber. Ora
guiar e educar  saber, mas saber astronomia no  guiar e educar.
Dando-se to lata instruco  mulher, occasiona-se um desequilibrio na
familia, desapparece um dos elementos primordiaes,--o pai. Ha um excesso
de intelligencia, mas ha uma diminuio de sensibilidade, porque a
mulher usurpou as funces educativas do esposo.

Tinha muito que lhe dizer, mas ns tratamos tantos pontos ao mesmo
tempo, que  impossivel continuarmos assim.

Resta-me dizer-lhe como eu explico o desamor da sociedade pela poesia.

A Europa est n'uma verdadeira poca de transio. Tudo  fluctuante,
incerto. No tarda, segundo penso, uma evoluo geral, que se presente
atravs dos acontecimentos presentes. A sociedade est em ebullio e
por conseguinte falta de instruco; a litteratura resente-se d'este
estado geral, e por isso produz pouco e mal.

Ha seculo e meio que estamos a traduzir, disse-o Garrett. Temos perdido
os nossos grandes homens, uns porque morreram, outros porque se
retiraram da arena, e nem a sociedade l, porque no entende, nem a
poesia canta, porque no tem voz.

O que se d entre ns esta-se dando actualmente em Frana onde o theatro
vai na extrema decadencia como em Portugal, e onde os ultimos livros so
apenas inspirados pelos ultimos acontecimentos da sociedade franceza.
Sedan parece-me que no  um facto sem proximas consequencias europas.
A litteratura e a politica esto n'uma indolencia esterilisadora, e isto
assim no pde continuar.

A respeito de Portugal, escrevia Lopes de Mendona: A nossa decadencia
litteraria retrata-se com a mais severa exactido nos factos da nossa
historia politica. O mesmo  em todos os outros paizes.

Estas evolues so fataes em todos os povos. Os grandes e os pequenos
corpos no podem subsistir sem a renovao incessante da materia. As
naes so corpos collectivos, e esto sujeitas a esta lei de renovao
perpetua. A poesia est defecada porque respira no meio d'uma sociedade
igualmente defecada;--d'aqui o queixarem-se uma da outra. Isto  o que
me parece.

Deixe-me,--e j me ia esquecendo,--levantar uma phrase sua a respeito de
Chateaubriand, o qual se esqueceu de metrificar o _Genio do
Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder ser
recitado ao piano.

Eu no esperava isto de si, meu caro Conceio. O _Genio do
Christianismo_ afigura-se-me um livro pensado, formoso e concludente.

Guizot escreveu algures palavras de respeito ao author e ao livro; Lopes
de Mendona tambem, e Garrett escreveu simplesmente no _Tractado da
educao_: Mr. de Chateaubriand diz em sua obra _immortal_ do _Genie du
Christianisme_, etc.

O meu amigo dir-me-ha agora se Guizot, Garrett e Lopes de Mendona so
uns futeis.

Visto que me no permitte que publicamente confesse que tenho muito a
aprender da sua intelligencia, consinta ao menos que me assigne

                                                    seu admirador,

Porto, 20 de fevereiro de 1872.

                                                  _Alberto Pimentel._

    [6] Ns vmos, por exemplo, um musico mediocre produzir um
    effeito mediocre com um excellente instrumento, e pelo contrario um
    excellente musico produzir um admiravel effeito com um instrumento
    mediocre. Aqui o genio no se pde medir pelo instrumento material.
    Vmos as leses do instrumento compensadas pelo _genio_ do executante,
    tal instrumento doente e maltratado tornar-se uma origem de maravilhosa
    emoo nas mos d'um _artista_ arroubado e sublime. Vmos um Paganini
    obter sobre a corda unica d'um violino effeitos que um artista vulgar
    procuraria em vo n'um instrumento completo, ainda que fosse obra do
    mais habil fabricante; vmos Duprez sem vos sobrepujar pela alma todos
    os seus successores. Em todos estes factos,  indubitavel que o genio
    no se mede, como ha pouco vimos, pelo valor e integridade do
    instrumento de que se serve.

                                  PAULO JANET--_Le cerveau et la pense._

    O snr. Alexandre Herculano escreveu tambem em nota ao _Eurico_:

    Se a arte fra facil para todos os que tentam possuil-a, no nos
    faltariam artistas!

      *      *      *      *      *




Terceira carta do snr. Alexandre da Conceio ao author


                                                         _Ill.mo amigo._


Este nosso palestrear leva geitos de no terminar este anno, e estamos
apenas em principios de maro. Em cada folhetim seu surgem a par da
primitiva questo, que me traz aqui representando o papel de cavalleiro
da _triste figura_, outras questes qual d'ellas mais grave e mais
complicada. Vamos mais uma vez  primeira questo, a vr se conseguimos
entender-nos no meio do estrondo d'estes exercicios de polvora secca.

 ou no verdade que o Pimentel, no periodo que deu origem a esta
amigavel correspondencia e que vem transcripto no seu ultimo folhetim,
revela manifestamente a opinio de que o estudo das mathematicas 
inimigo inconciliavel da aptido poetica, pois que muitas das nossas
melhores reputaes litterarias, como Garrett, Camillo Castello-Branco,
etc., mostraram com o seu muito amor s letras e s musas horror igual
pelos numeros e pela algebra? Creio que  verdade, e esta opinio j o
meu amigo concordou que no  segura, pois que me diz na sua ultima carta:


No admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes
poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de
desenvolvimento, est apta para abranger todos os conhecimentos humanos.


Confessa o meu amigo pois que pelo estudo das mathematicas se _pde_
attingir o maximo grau de desenvolvimento intellectual--o que no
implica que esse grau de desenvolvimento se no possa attingir com outra
qualquer ordem de estudos--e confessa mais que uma intelligencia chegada
a essas luminosas alturas est apta para a comprehenso de todas as
verdades scientificas, litterarias e artisticas. Ora  isto exactamente
o que eu me tinha proposto demonstrar-lhe desde todo o comeo, pois que
se o estudo das mathematicas robustece e eleva a intelligencia, e o
maximo grau de desenvolvimento intellectual no  incompativel com o
desenvolvimento da aptido poetica,  claro que, _em principio_--que,
como todos os principios, tem as suas excepes--o estudo das
mathematicas no faz nem pde fazer mal algum ao gosto litterario ou 
inspirao artistica. Permitta-me pois dizer-lhe que no sou eu que
estou de accordo comsigo, mas que  o Pimentel que se pz de accordo
commigo, no pela fora dos meus argumentos, que so d'uma debilidade
lastimosa, mas pelo esplendor proprio da verdade, na qual eu o convidei
a attentar.

Depois d'isto ser desnecessario dizer-lhe que eu no chamo aptido
poetica ao geito para fazer versos. Tomo a palavra poesia na sua
accepo mais ampla e mais elevada, na altura em que o meu amigo a
comprehende e a cultiva. Que o estudo das mathematicas seja avesso 
poesia pequenina, lymphatica, entanguida e constitucional que por ahi
nos ministram quotidianamente, no serei eu que o duvide, que com as
mathematicas me lavei da ridicula monomania de fazer versos ao palr da
lua, s brisas,  alvura dos lirios,  modestia das violetas e a outras
especies similhantemente insipidas; mas que o seja a poesia digna de tal
nome, a este lyrismo interior, a este santo enthusiasmo que produz nas
almas a sublime loucura do genio, no creio, nem o meu amigo o pde crr
tambem, porque a poesia assim comprehendida  a manifestao da
intelligencia no seu estado de graa.

Esta questo por conseguinte, em que eu ganhei os seus folhetins para me
compensarem do descredito que me devem ter acarretado os meus, levantada
a apparente contradico que o meu amigo notou nas minhas idas sobre
este assumpto, termina aqui, porque isto vai tomando geitos d'uns _dize
tu direi eu_ interminaveis.

Vou pois responder  contradico que me aponta, e passar a conversar
comsigo sobre uns outros pontos do seu folhetim.

Diz o meu amigo que sustentando eu que os estudos mathematicos no so
contrarios ao desenvolvimento das faculdades poeticas e do gosto
litterario, estou em opposio commigo mesmo quando avano que se dessem
 Frana mais arithmetica e menos versos Sedan seria impossivel.

Crivei este periodo umas poucas de vezes e,  parte o joio dos meus
defeitos grammaticaes--com que j me no afflijo porque estou calejado
no peccado--no achei cousa que se parecesse com uma contradico.

Eu accuso os francezes de futeis; accuso-os de tratarem as questes mais
serias com a leviandade que lhes  propria, de fazerem romances quando
se trata de escrever historia, de recitarem versos quando se trata de
discutir sciencia, de sonharem theorias de governao platonica quando
se trata de assentar principios de democracia pratica, de orarem s
turbas em estylo academico e repolhudo quando se trata de pegar em armas
e defender a patria.

Foi isto o que eu quiz dizer e que o meu amigo no podia deixar de
entender assim.

Que contradico ha entre isto e a minha these de que o estudo das
mathematicas no pde ser prejudicial  aptido poetica?

Pde acaso entender-se que eu quiz apresentar os francezes como
eminentemente aptos para a poesia, e ao mesmo tempo e por isso mesmo
rebeldes ao senso pratico e  comprehenso das questes positivas?

Creio que no, porque sendo a litteratura, como no podia deixar de ser,
o espelho onde se reflecte em toda a sua verdade o genio d'um povo n'uma
dada poca, um povo futil ha-de ter uma litteratura futil, e  o que se
est vendo em Frana actualmente, e o que se tem visto sempre e em toda
a parte em identicas circumstancias:  falta de tino pratico, de
seriedade de espirito, de robustez d'alma e de convices corresponde o
abaixamento litterario filho d'essa depresso de espirito e de caracter.

Menos contradictorio com as minhas opinies actuaes  o facto que me
aponta de eu ter trocado a lyra ferrugenta das minhas _Alvoradas_ pelas
contemplaes astronomicas; j acima lhe disse que foi com as
mathematicas que eu me penitenciei do peccado mofino da poesia _piegas_,
e eu nunca dei outra.

Surprendeu-me este periodo do seu ultimo folhetim:


 facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia
de homem para homem segundo as mesmas condies physicas do cerebro.


Se no se offende peo licenca para lhe dizer que eu estou na innocente
persuaso de que a physiologia ainda no chegou a averiguar um facto to
importante, a no ser alguma physiologia official _ad usum delplini_.

Acredito mais que a physiologia em questes de analyse organica,
quantitativa e qualitativa, est ainda muito quem das suas
elevadissimas aspiraes, e que o ponto que o meu amigo diz _averiguado_
me parece sufficientemente duvidoso para me aconselhar a prudente
resoluo de ter para com elle uma espectativa benevolente, como se diz
em S. Bento.

Isto porm  uma questo incidente, que eu no posso nem sei discutir.
Adiante.

Apesar de ter o Legouv na sua estante, apesar das minhas amigaveis
reclamaes sobre este ponto, insiste o meu amigo em sustentar que a
educao litteraria completa faz mal  mulher e acrescenta:


Dando-se to lata instruco  mulher occasiona-se um desequilibrio na
familia, desapparece um dos elementos primordiaes--o pai. Ha um excesso
de intelligencia, mas ha uma diminuio de sensibilidade, porque a
mulher usurpou as funces educativas do esposo.


O meu amigo cr que ha actualmente _equilibrio_ na familia? Mas que
qualidade de equilibrio, permanente, estavel ou instavel, e permitta-me,
por graa, a caturrice da distinco mathematica? Mas como quer que haja
equilibrio se as duas foras que solicitam a familia so desigualissimas
e incidentes?... Como ha-de haver equilibrio se o homem, o esposo vive
em pleno seculo XIX e a mulher em plena idade media?... Que v o meu
amigo na familia moderna em geral, e no n'esta ou n'aquella familia
especial que  honrosa excepo  regra? Marido e mulher so duas
creaturas que se no conhecem: o marido trabalha, estuda, pensa, lucta,
 funccionario,  politico,  deputado,  escriptor,  poeta,  homem de
sciencia; a mulher no sabe em que elle trabalha, no conhece o que elle
estuda, no comprehende o que elle pensa, ignora-lhe as ambies, no o
coadjuva nas luctas, no o estimula, no o consola, no o anima, por que
no pde, por que no sabe, ou melhor, por que ns lhe no damos a
fora, por que ns lhe no damos educao. O casamento actualmente, em
geral, no  a unio de dous individuos, de duas foras, de duas almas
para a constituio da familia, esta instituio verdadeiramente divina,
por que  sublimemente humana,  apenas a junco de dous corpos, cujas
almas ou se desconhecem ou se repellem. D'ahi a desordem ou a
indifferena, tomando-se esta muitas vezes por felicidade. D'ahi a
crescente desmoralisao dos costumes privados, o celibato commodo e
prudente que tem por origem o egoismo; d'ahi o desregramento das
ambies politicas e argentarias, como compensao  esterilidade das
ambies domesticas legitimas.

Vive-se na rua, por que a casa, o lar s serve para l ir comer ou
dormir, quando se no dorme e come pelas orgias. A mulher no  uma
companheira,  um camarada militar, uma creatura que nos escova o fato,
que nos arruma o toucador e que nos pe em ordem a mesa do trabalho.
D'ahi estes ares ridiculamente protectores que ns nos permittimos com
as mulheres; d'ahi estes compadecidos modos cathedraticos com que ns
lhes fallamos em letras, em sciencia, em artes, em politica; d'ahi esta
nossa insolente superioridade intellectual ganha a custa do isolamento a
que as votamos, da ignorancia a que as condemnamos; d'ahi este estado
social violento, hypocrita, convencional e esteril em que nos arrastamos
sem convices, sem dignidade, sem enthusiasmo, por que nos vmos
obrigados a estudar a sciencia pelo ganho, a arte pelo lucro, a
litteratura por officio, a politica por vaidade; d'ahi esta burguezia de
sentimentos, este plebeismo de educao que nos faz tributar uns
respeitos hypocritas e convencionaes  mulher, quando a encontramos nos
sales de baile, e que nos leva a apedrejal-a quando a encontramos pela
rua.

A mulher actualmente ou vive annullada pela ignorancia, ou resignada com
o despotismo das leis, ou em guerra aberta com a nossa autocracia conjugal.

Andamos aqui a escrever artigos do fundo sentimentaes e floridos a favor
dos escravos do Brazil, e por que no havemos de pedir franca e
logicamente a emancipao para a ametade do genero humano? Pois acham
utopia ridicula a emancipao da mulher e no acham grotesca a
emancipao do escravo? Que maiores direitos tem o negro ignorante e
brutalisado pelo chicote  instruco,  igualdade social, do que a
mulher? Utopia! Chamem-lhe utopia embora, mas tenham tambem a franqueza
de chamar despotismo e brutalidade ao direito da fora. Parece que temos
medo do espirito feminino, parece que nos assusta a concorrencia do
trabalho intellectual da mulher!...

Dizemo-nos liberaes, e fechamos as portas dos nossos parlamentos 
opposio! Parece que nos de a consciencia!... Porque no ha-de a
mulher collabolar comnosco na obra da civilisao?... Pois a ethnologia
nota as profundas differenas de constituio do craneo que caracterisam
as diversas raas de homens que povoam o universo, nota ao mesmo tempo a
perfeita igualdade d'essa constituio entre o homem e a mulher, e ns,
pedindo a brados a igualdade de direitos para todos os homens, sem
distinco de raa, pedimos ao mesmo tempo que se neguem esses direitos
 mulher porque abusa d'elles? Mas como  que a mulher abusa d'esses
direitos, se nunca usou d'elles?... Quem disse que a mulher abusa
d'esses direitos?... quem o sabe?... quem o demonstrou? Dil-o a
historia?... sabe-o a philosophia?... demonstrou-o a sciencia? Pois
dmos sempre  mulher a ignorancia pr dote, e gritamos que lhe faz mal
a instruco? E porque  que a instruco faz mal  mulher e faz bem ao
homem? A muita instruco embota-lhe a sensibilidade, diz o meu amigo!
Perigosa sensibilidade a que prescinde da intelligencia; e  com effeito
essa a sensibilidade feminina, sensibilidade desregrada, impetuosa,
indomavel muitas vezes, que as martyrisa, que as adoenta, que as exalta,
que as perde, porque sentir, na accepo cruamente physiologica do
termo,  o unico modo de ser da sua vida interior, vida riquissima de
aptides, mas que ns lhe circumscrevemos aos estreitos limites do
trabalho domestico quotidiano, vulgar e quasi mecanico.

A mulher muito instruida  perigosa, diz ainda o Pimentel, por que
usurpa as funces educativas do esposo. Diga-me em que paiz os pais, a
no ser os muitos ricos ou os que tenham uma profisso muito especial,
educam seus filhos. As funces educativas do esposo!... Mas ento que
quer deixar  mulher, se at a esbulha do sublime encargo de primeira
preceptora de seus filhos? Ns  que somos e temos sempre sido
usurpadores de taes funces. Eu creio muito pelo contrario que o
principal trabalho destinado na familia e na sociedade  mulher  o
trabalho da educao, e para educar  preciso saber, e para saber 
preciso estudar e pensar, duas cousas que a sociedade prohibe  mulher
actualmente.

 convico minha, e n'isto como em quasi tudo estou com o meu estimavel
Legouv, que a sociedade no chega  soluo satisfactoria d'um certo
numero de problemas gigantes que assombram o mundo moderno, em quanto a
mulher no collaborar com todas as foras de que  capaz na resoluo
d'essas questes. Por exemplo: as questes de beneficencia, de
instituies de caridade, de sociedades cooperativas e de previdencia,
com as quaes se prende a magna questo do proletarismo e da miseria, s
o concurso do espirito feminino as pde encaminhar para uma soluo
completa. Depois, e prendendo-se ainda com estas, vem a questo do
ensino, em que a mulher pde e deve prestar grandissimos servios.
Depois ainda, ou talvez antes de todas estas, vem a questo religiosa,
esta mole gigante que traz ahi a sociedade vergada sob o peso da
hypocrisia, da duplicidade, da indifferena da tibieza de caracter, da
frouxido de convices, do cynismo; esta sphynge esculpida na frente de
todas as questes sociaes e para a qual no ha Edipo possivel emquanto a
sociedade beber com o leite todos os preconceitos, todos os sonhos,
todas as phantasias, todos os absurdos de que se nutre o espirito da
mulher contemporanea.

J v a importancia que eu dou  educao da mulher; quero essa educao
amplissima e to completa quanto o requeira a aptido especial que cada
mulher revelar. Quero a sua emancipao intellectual, moral, civil e
politica... e politica, creia n'isto, por que no sei recuar nem me
assustam as consequencias legitimas de principios que considero
verdadeiros, embora o mundo, e o meu amigo com o mundo, me taxem de
utopista, de exaltado e de revolucionario.

Apresento-me bem a descoberto e francamente n'esta questo, para que o
meu amigo ataque tambem francamente os pontos que julgar vulneraveis.
Espero-o com o respeito que me impe a sua superioridade, mas com a
coragem que me do as minhas profundas convices.

Vou terminar por hoje.

O Garrett, o Lopes de Mendona e outra gente de cothurno disseram cousas
muito boas  muito bonitas cerca do _Genio do Christianismo_ de
Chateaubriand. Sei isso e pouco mais saberei do que isso; mas ou por
ignorancia, ou por falta de gosto, ou por caturrice  certo que, apesar
de todas essas authoridades, eu considero o _Genio do Christianismo_ um
bom livro apenas como produco meramente litteraria, e n'este caso
tenho s a observar que o titulo me parece um pouco ambicioso. Como
livro de historia porm, e elle tem pretenes a isso, permitta-me
dizer-lhe que o julgo deploravel, e como livro de philosophia por que se
quer fazer passar, acho-o simplesmente piegas e lamuriante, e olhe que
no fao ao livro grande injustia, creio eu. O meu amigo pensa porm
d'outro modo, e eu no lhe quero mal por isso, comtanto que me creia sempre

                                              seu amigo e admirador,

Bragana, 3 de maro de 1872.

                                             _Alexandre da Conceio._

      *      *      *      *      *




Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceio


                                                        _Meu bom amigo:_


Conservo-me impenitente.

No me confesso convencido, nem siquer vencido, apesar do Conceio ter
j comeado a cantar-me piedosamente o _De profundis_.

Quero ainda enviar-lhe um grito de vida e rebellio da margem do
imaginario sepulchro para o fundo da qual o meu amigo julgou arrojar-me
com a sua argumentao um pouco sophistica,  certo, mas sempre habil e
benevola. No acabou esta amigavel pendencia pela morte d'um dos
contendores, como v; ella  que de per si mesma, como o meu amigo deu a
entender com a sua phrase do _dize tu, direi eu_, se est contorcendo
nos derradeiros paroxismos, porque realmente no tem vida para mais.

Deixe-me dizer-lhe pela ultima vez a minha opinio, que se me afigura
sempre a mesma. Supponho eu que me tenho conservado no terreno onde
comecei a pugnar.

A mathematica  uma sciencia positiva, em que a razo caminha de
demonstrao em demonstrao at chegar  verdade final,--a concluso.
Por conseguinte pde-se ter  conta de gymnastica intellectual, que, 
fora de evolues trabalhosas, chega a descortinar ao espirito por ella
cultivado as eminencias olympicas, defesas  vulgaridade chata.

A litteratura  caprichosa como a borboleta, adeja, volteia, sobe,
desce, doudeja, vive da imaginao, por ella e s para ella, porque
muitas vezes, poderia dizer quasi sempre, o ideal a que aspira  uma
fico, uma utopia, um ponto vago, emfim.  por isso que os grandes
poetas, e os grandes artistas tambem, so uns doudos sublimes, que
pensam umas chimeras cr de rosa que a multido no entende; e  por
isso que antes querem morrer abraados ao seu ideal do que transigir com
a realidade das cousas e dos homens. Ora o mathematico no phantasia,
no devaneia, no sonha,--raciocina. Segue um methodo, um processo, um
calculo. O poeta  livre, pde escolher voluntariamente o seu norte,
pde amarar a gondola da sua imaginao por aparcellados pgos, como
Byron, ou deixal-a deslisar mansamente pelos lagos serenos da Italia,
como Lamartine.

Agora pegue d'uma alma poeta de vinte annos, essencialmente livre e
essencialmente sonhadora, e em vez de a educar em Homero, em Virgilio,
em Dante, em Cames, em Garrett, metta-a no carcere do positivismo
mathematico, a raes de Serrett ou quejandos, entre um compendio arido
e uma lousa funebre. No quer sujeitar-se, resiste, lucta, e o mais das
vezes o que lhe acontece  renunciar  gloria d'um pergaminho academico
para ficar em plena posse da sua liberdade intellectual.  como se
transportassem subitamente um viajante, que vai atravessando uma campina
florida, a uma charneca solitaria, coberta por um co plumbeo. E
resiste, e lucta este poeta de vinte annos porque nasceu fadado para
outros destinos, e aborrece a mathematica, e detesta-a, porque uma voz
intima lhe diz que a sua misso  cantar como os rouxinoes dos
salgueiraes, viver devaneiando como elles, e morrer de cansao modulando
 porfia com o echo melodioso do seu ideal...

Note que eu fallo, e sempre fallei, dos que nascem predestinados para a
gloria, dos grandes poetas e dos grandes mathematicos, porque um poeta
mediocre e um mathematico igualmente mediocre fazem-se, conseguem
fazer-se com o auxilio d'uma paciencia evangelica.

Disse eu e repito-o:

No admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes
poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de
desenvolvimento, est apta para abranger todos os conhecimentos humanos.

Ento um homem que tem uma intelligencia acima do vulgar, que atravessou
uma longa educao scientifica, que sujeitou a razo a uma trabalhosa
gymnastica intellectual, no estar mais habilitado para comprehender
toda a casta de bellezas artisticas, do que um sugeito que no sabe
analysar grammaticalmente uma orao? De certo que sim; isto  intuitivo
a meu vr. Ora o grande mathematico pde comprehender Homero, tel-o 
cabeceira como Alexandre, mas o que no pde conseguir de certo, salva
uma ou outra rarissima excepo,  escrever a _Illiada_, e ser Homero.
Um grande poeta, Lamartine ou Byron, pouco importa, no comprehender
melhor que outro qualquer homem a alma sublime de Herschell ou Newton,
apesar de reconhecer comsigo mesmo que no nasceu para se nivelar com
Newton ou Herschell? Tambem creio que sim; tambem creio que isto 
intuitivo.

O meu amigo accusa os francezes de devaneiadores e por isso mesmo de
pouco analyticos, de pouco mathematicos. Quer dizer, accusa-os de
viverem para o amor e para a alegria, de amarem as flres, os versos e
as mulheres, e de no preverem as funestas consequencias, j realisadas,
da ultima crise sociologica.

 tambem certo que quando a Frana dava ao mundo um grande mathematico,
primeiro havia gerado uma duzia de grandes poetas. Porque  ento?
Porque _isto_ mata _aquillo_, porque a mathematica, que  a razo, mata
aquillo, a poesia, que  a verdadeira liberdade da phantasia e do corao.

O meu amigo, que era mavioso poeta,--sinceramente lh'o digo,--teve de
suffocar em si a chamma vivaz da inspirao com os gelados orvalhos das
sciencias exactas. D'outro modo, teve de esmigalhar a sua alma, por amor
aos cabellos brancos de seu pai, que lhe queria dar uma posio social,
para poder regressar ao lar paterno com uma carta de bacharel em
mathematica. A inspirao de que brotaram as _Alvoradas_ era dce,
gentil e donairosa. Todavia o Conceio quiz abafal-a, apagar a chamma,
desfolhar no altar da sua mocidade as flres candidas e perfumadas da
poesia. Teve de andar nos campos a medir terrenos, a rasgar estradas, a
levantar plantas.

Tranquillisou a velhice de seu pai, e como elle j no podia receiar
pelo destino do filho estremecido, e o meu amigo tivesse em horas de
melancolia umas secretas saudades dos seus tempos de poeta, porque para
isso nascera, esboou no seu gabinete um quadro, cuja ida  formosa,
mas que no tem, a meu vr, o colorido mimoso e delicado dos seus
primeiros versos. Refiro-me ao seu poemeto--_Abenoada esmola_--e
desculpe-me esta franqueza, que a nossa amizade authorisa de certo, e
que eu tenho comsigo, porque sei que  franco, leal e cavalheiro.

Conhecia-se que o poeta se havia secularisado. Infelizmente era assim.

Do Alexandre da Congeio, o academico sempre apercebido para celebrar
as grandes iniciativas e as grandes glorias, restava o poeta esmagado
pela presso da mathematica. Creio que a sua propria consciencia lhe
ha-de dizer isto mesmo.

Ah! meu amigo, como eu quizera vr o seu espirito a espannejar-se ainda,
livre, alado, inquieto, deixando vr aqui e acol a dce melancolia das
suas estrophes! Perdemol-o, confessa o meu amigo que se secularisou, e
eu sinceramente sinto que tenha de _sahir pela honra do seu convento_
mathematico para digladiar com o mais obscuro soldado das suas antigas
fileiras.

Ponho aqui ponto para que isto no enfade mais o bom publico que nos
escuta, e que por fim de contas no nos quer mal. No  meu proposito,
entenda-se, mostrar que o meu amigo vai succumbir a este golpe final. Eu
conheo a qualidade das minhas armas, e os recursos da sua vasta
intelligencia. Confesso-me no convencido nem siquer vencido, e sou eu
mesmo que declaro ao publico que o meu amigo dispe de meios que lhe
permittem resistir  minha lastimavel dialectica.

Tratarei de passagem os demais pontos da sua terceira carta.

Quanto s relas physiologicas da intelligencia com o cerebro, julgo-me
obrigado a transcrever, para me fazer comprehender melhor, estas
palavras de Paulo Janet:[7]

A experiencia nos ensina,  certo, que o cerebro entra por uma certa
parte, por uma grandissima parte no exercicio do pensamento; mas qual
seja a causa unica e rigorosa medida,  o que no est demonstrado.  a
massa cerebral, a composio chimica, a electricidade, o phosphoro? No
est _averiguado_, tem razo, e a isso no era eu estranho.

Todavia era meu proposito referir-me ao que a experiencia nos mostra, e
Paulo Janet corrobora, que o cerebro entra por muito no exercicio do
pensamento.

Creio que a maxima parte da gente assim o havia de entender.

Adiante.

Com relao  educao da mulher sou a dizer-lhe que tenho certas
convices adquiridas no tranquillo silencio do meu gabinete, uma das
quaes, e das no menos profundas, diz respeito ao assumpto que vou
tratar. Posso estar em erro, mas por ora ainda no tenho razes para me
demover. Quando tiver, confessarei a minha abjurao solemnemente. Se
estou em erro, redunda apenas em detrimento meu, por isso que os homens
que teem restricta obrigao de estudar pausadamente esta questo so os
philosophos e os legisladores.

Ora eu nem quero ser uma nem outra cousa.

Na questo da educao da mulher aceito inteiramente as idas do snr. D.
Antonio da Costa no seu livro--_A instruco nacional_. Permitta-me,
pois, que me soccorra da respeitosa amizade que me liga a to sympathico
escriptor, e que me defenda com elle.

 preciso,  indispensavel,  urgente promover a instruco da mulher,
que est em Portugal na proporo d'uma escla para 6:000 habitantes,
sendo que dos 146:000$000 ris votados para as esclas primarias, apenas
18 revertem em favor das creanas do sexo feminino.

Isto est d'accordo com o que eu expuz previamente, porque me lembro de
dizer que se no queria a mulher sabia tambem no a queria ignorante.

Urge pois educar a mulher, porque nasceu para mi, e da mi  que brota
a humanidade, da mi  que deriva a felicidade social. Mas note-se,
entenda-se bem, quero a mulher educada para as funces pedagogicas que
possa exercer na escla ou no collegio, para as attribuies industriaes
que precise desempenhar, para as occupaes artisticas que lhe possam
caber, e especialmente, e primeiro que tudo, para mi, para directora,
no s destinada a versar negocios de economia domestica, mas tambem
para ser espelho na sociedade, divindade na familia,--para ser mi e
esposa.

Dever defender-se e favorecer-se a absoluta emancipao da mulher?

Digo que no,--convictamente digo que no.

Eu quero que a familia se condense, se unifique, se levante, no desejo
portanto roubar-lhe o unico meio de rehabilitao que ella tem,--a
mulher. No quero que a mulher se masculinise para a sociedade, porque
no desejo desmembrar a familia.

Dizeis--escreve o snr. D. Antonio da Costa,--que a somma da
intelligencia e das qualidades da mulher se acha actualmente perdida
para ella e para a sociedade uma vez que lhe fecham as carreiras
politicas e scientificas? Vde que esta razo fundada na capacidade
igual dos sexos, exigiria, para haver logica na vossa doutrina, que as
funces hoje especiaes da mulher, educao infantil, governo da casa,
costurar e bordar, formao dos costumes publicos pela influencia
domestica, devessem tambem pertencer ao homem, alis seriamos ns as
victimas da desigualdade cujo principio combateis.

Que igualdade querem para a mulher? A igualdade politica e scientifica?
Sou contra ella, resolutamente contra ella, pelas razes j expostas.
Igualdade civil? Convenho, e conspiro contra a tutella oppressora que
soffre a mulher quer seja casada ou viuva. Igualdade moral? Quem lhe
disputa essa? que  verdadeira, como diz Paulo Janet na _Familia_--
evidente, e condio essencial em uma familia completa e feliz.

Isto  o que eu penso, a convico que eu tenho adquirido n'uns estudos
placidos a que me dou, porque eu estimo os livros serenos e
crystallinos, e no se desvirtue a minha opinio, e no se diga que eu
quero a mulher analphabeta e s apta para fiar ou coser.

Isto penso eu.

Mas para que discutil-o, Conceio?

Que o discutam philosophos e legisladores, que faam luz no espirito
publico, que demonstrem, que provem, que eu ento irei aps a verdade.

Para questo de tal magnitude no me julgo habilitado.

Poz o meu amigo em duvida as _funces educativas do esposo_! Pois o pai
no educa, no dirige a educao do filho! Sabe que eu no quero a
mulher ignorante, mas por no a querer ignorante, no deixo de
reconhecer que os pais so, como diz o Garrett no tractado _Da
Educao_, os mentores e educadores naturaes de seus filhos.
Plenamente concordo com Janet, quando expe que o pai esboa com
firmeza a estatua do homem futuro, e a mi retoca, aperfeioa e
alinda-a. Para isto cumpre no ser ignorante, mas no  indispensavel
que seja sabia.

Aqui tem com franqueza as minhas opinies. Estou firme n'ellas, e
estarei sempre, at que os factos sociaes se encarreguem de mostrar-me o
erro.

Agora deixe-me dizer-lhe que no tardam nada as andorinhas e que podemos
intimidal-as com _estes exercicios de polvora secca_. Vo cantar os
rouxinoes e eu, que merc de Deus no tenho de resolver nenhuma operao
arithmetica, folgava de poder ouvil-os por estas tardes de primavera em
que o co  azul e sereno. Combato mal, porque quando me tiram dos meus
dilectos remansos vou saudoso de to socegada obscuridade. No meu lar
espera-se a primavera como uma festa, e o que  certo  que tenho
descurado as flres da minha janella por causa d'estes malditos
algarismos, que eu suppunha ter afugentado de vez, no obstante a honra
que me deu o Conceio em descer at pelejar lealmente commigo.

Aperto-lhe cordealmente a mo.


Creia-me sempre

                                              seu amigo e admirador,

Porto, 14 de maro de 1872.

                                                 _Alberto Pimentel._

    [7] _La cerveau et la pense._

      *      *      *      *      *




PHYSIOLOGIA HISTORICA




Beethoven


A biographia  uma nova frma dada  historia por Plutarcho.

Seguindo o methodo seguro da induco, caminhamos da biographia para a
synthese, do caracter individual para o caracter collectivo, do homem
para a _poca_. No concordamos portanto com mr. Paul Albert[8]
que v n'esta evoluo historica mais uma decadencia que um
progresso.

A biographia  a historia do homem, quer dizer, tem de o estudar na
dupla manifestao da sua actividade, e  por isso que ultimamente a
critica e a historia no prescindem da alliana da physiologia com a
psychologia. Por tal razo foi que o doutor Moreau, de Tours, estudou a
_Psychologia morbida nas suas relaes com a historia_; que Emilio
Deschanel escreveu a _Physiologia dos escriptores e dos artistas_, e que
recentemente o doutor Laborde se entregou s lucubraes
medico-psychologicas que originaram o seu livro sobre _Os homens e os
actos da insurreio de Paris perante a psychologia morbida_.

Esboando na tela do folhetim alguns perfis historicos, tivemos sempre
em vista a noo de temperamento, ou antes, e melhor, o dualismo de
Plato, que definiu o homem na expresso d'uma alma que se serve d'um
corpo, e porque, segundo uma expresso feliz de Emilio Deschanel, para
conhecer o fructo  preciso conhecer a arvore.

Posto isto como exordio j demasiadamente longo, fallemos d'um grande
genio que enche de esplendor a historia da musica, d'um compositor
nervoso, hypocondriaco, melancolico,--Beethoven.

Antes de escrevermos do artista, saudemos a arte, esta linguagem
sublime, que parece revelar-nos o infinito, d'origem divina, porque se
nos remontarmos ao pantheismo oriental teremos de vr a musica
considerada como imperfeita imitao da harmonia que produzem os
movimentos dos corpos celestes.

Na tradio asiatica, devemos procurar a origem da musica na organisao
do universo. As sete nymphas _Swaras_ so a personificao das sete
notas. _Saraswati_, filha, mulher e irm de _Brahma_, representa a
primeira nota da escala dos sons[9].

Pythagoras acreditava na harmonia como alma do mundo, e era d'esta
grande alma collectiva que dimanava a substancia harmonica das almas
particulares.

Seja o que fr a musica, venha ella do co ou da terra, dos astros ou
dos homens, bemdita seja, que nos leva aps si a umas paragens ethereas
de um paraiso desconhecido. Abenoados sejaes, sacerdotes do bello, que
lanaes para dentro da nossa alma a esmola valiosa da harmonia.

Entre os maximos sacerdotes da arte divina, avulta o perfil venerando de
Beethoven.

Este nome  per si s uma epopa.

Tem a grandeza do mar, e a irradiao do sol.

Em torno do bero d'este homem sublime quer a nossa imaginao que
volitassem as particulas sonoras, exhaladas da grande alma harmonica da
terra, na philosophia devaneadora de Pythagoras, e que perpassando em
revoltos enxames no espirito do futuro maestro o afinassem pelas mais
dces harmonias da musica universal e pelas mais dces gravitaes dos
astros melodiosos.

Todavia a historia  que no admitte hypotheses romanescas e devaneios
poeticos; e  historia pertence o testemunho de Baden, companheiro da
infancia de Beethoven, pelo qual sabemos que os primeiros rudimentos de
musica os aprendera elle com violencia, e que s abancava ao piano
quando a voz paterna trovejava ameaadora.

O grande genio de Beethoven faz lembrar o oceano velado pela neblina.

 um abysmo que se no pde abranger com a vista atravs do vaporoso
involucro. Mas ao primeiro raio de sol va desfeito o vo, e arqueiam-se
as vagas, e doudejam as espumas, e scintillam as escamas crystallinas, e
tudo so fremitos, movimentos, prodigios,--e apparece finalmente o mar,
pregoando Deus e assombrando os homens.

O vo que resguardava o genio colossal de Beethoven voou todavia em
fragmentos, volvidos os primeiros annos da vida, como a neblina se
rarefaz ao primeiro raio da aurora.

Muito moo ainda, improvisou em Colonia, diante do compositor Junker, e
em Vienna, na presena de Mozart. Beethoven executou brilhantemente, o
que todavia no impediu Mozart de suppr que elle reproduzia de memoria.
Ento Beethoven pediu um thema, e devaneiou ao piano longo tempo. Este
prodigio arrancou a Mozart uma prophecia: Escutai-o com atteno;
dentro em pouco ouvireis fallar d'elle.

Luctar  o condo do genio; o mar creou-o Deus para a ebullio eterna.

Por mais d'uma vez se bateu Beethoven ao piano, em duello artistico, com
o compositor Woelff.

Essas noites de calorosa porfia foram ruidosas e agitadas, porque o
partido de Beethoven era capitaneado pelo principe de Lichnosky, e o de
Woelff presidido pelo baro Raymundo de Wezslar. Uma deliciosa _villa_
do baro, em Grunberg, era o theatro d'estas luctas homericas, onde o
genio fecundo de Beethoven revelava uma prodigiosa faculdade de
concepo, e uma imaginao estupenda, que tinha alguma cousa das noites
sombrias e mysteriosas das florestas.

No obstante, o demonio da melancolia havia empolgado o espirito de
Beethoven desde os primeiros annos.

Era uma consequencia do seu temperamento, aggravado pelos primeiros
signaes de surdez, em plena mocidade.

Aos vinte e nove annos escrevia Beethoven a um amigo da adolescencia,
lamentando-se amargamente da perda imminente do ouvido, e pedindo-lhe
que no transmittisse a confidencia a ninguem, nem mesmo a Leonor de
Breuning, outra companheira da adolescencia, que fra de certo a mulher
amada de toda a vida. A unica opera que Beethoven escreveu, movido por
instancias de amigos, tomou o nome de _Leonora_, sendo que depois de
reprovada pelo publico de Vienna reappareceu em scena com a denominao
de _Fidelio_.

Gustave Bertrand, no seu livro _Les nationalits musicales_, diz que a
opera fra cantada n'uma poca politicamente calamitosa, que o libreto
era deploravel, e que o desempenho orra pelo libreto, com quanto os
mesmos partidarios de Beethoven, reunidos em congresso, lamentassem ter
de accusar o _maestro_ de certa culpabilidade no desastre. Quatro annos
depois voltou  scena a opera, mudado o nome, e foi igualmente rejeitada.

Ento comeou a cerrar-se uma noite profundissima na alma de Beethoven.
Minguado de recursos, ameaado de completa surdez, agitado pelas
nevroses continuas do seu temperamento, escondendo talvez no peito uma
dr mais que todas dilacerante, porque Leonor de Breuning havia
desposado Wegeler, o amigo do _maestro_, a quem primeiro fizera a
confidencia das suas apprehenses, viu-se Beethoven compellido a aceitar
o lugar de mestre de capella do rei de Westphalia, Jeronymo Napoleo.
Quasi ao mesmo tempo, o archiduque Rodolpho, o principe Lobkowitz e o
conde de Kinsky resolveram obrigal-o por um contracto, mediante a renda
annual de quatro mil florins, a no sahir do territorio austriaco.
Beethoven, grato a esta considerao j ento muito para estranhar, e
hoje impossivel, fixou residencia em Vienna.

Era em Baden, a cinco leguas da capital, que elle vivia a maior parte do
anno.

Cortadas as suas relaes com o mundo exterior, doente, melancolico,
quasi surdo, concentrava-se todo nos seus arroubos artisticos. Passeava
pelos campos, horas seguidas, e era, passeando, que elle compunha, a
despeito da opinio geral de que a posio perpendicular  a que menos
favorece os actos do espirito, e a mais adversa  inspirao.

Vem de geito arrancar, n'este ponto, uma pagina dos _Grotesques de la
musique_, de Hector Berlioz, porque frisa ao nosso caso:

A posio horisontal  evidentemente a mais favoravel ao trabalho da
intelligencia,  expanso do espirito, e isso concebe-se. O nosso
cerebro  a caldeira onde se formam os vapores conhecidos pelo nome de
idas, que fazem marchar e muitas vezes desencarrilhar a trem das cousas
humanas; o sangue e a agua ebulliente que ahi se transforma em vapor;
todos os physiologistas vol-o diro. Quanto mais este liquido affluir
facilmente  caldeira, tanto mais, e necessariamente, deve produzir
idas ou vapores.

Voltaire doente, e por conseguinte, deitado quando escreveu a
_Candida_, gozava de vigorosa saude quando poz mo na _Henrieida_.
Bernardin de Saint-Pierre trouxe das Indias, segundo dizem, uma rede
onde gostava de se deitar para compr; foi onde elle pensou as suas
deliciosas obras primas, _Paul et Virginie_ e a _Chaunire de la
Nature_. Quando em seguida compoz as _Harmonies de la Nature_ e quiz
explicar o phenomeno das mares pela liquidao dos gelos polares, j a
rede estava velha, e no pde servir-se d'ella..

Quando o povo de Baden ou de Vienna via passar Beethoven, rapido como a
sombra, mas triste, melancolico, concentrado, sentia-se tornado de
subito respeito, e crianas, velhos e mulheres no o deixavam de saudar
com estas palavras: _Alli vai Beethoven!_ saudao que o _maestro_ no
podia ouvir, mas que era um preito espontaneo de admirao.

Como n'essas longas horas de excurso campestre ou urbana redemoinhariam
na alma de Beethoven as recordaes dolorosas de melhores tempos! A
imagem de Leonor, da querida confidente dos primeiros annos, devia de
apparecer-lhe desenhada no horisonte longiquo do passado, colorida com
aquellas meias tintas que a saudade sabe dar. Ter-se-iam amado? A menor
observao dos factos parece demonstral-o. D'uma carta escripta a Leonor
de Breuning em novembro de 1793 claramente se deprehende que foram
dissenes de familia que separaram para o resto da vida os dous amigos
de outr'ora. Todavia a distancia no pde endurecer o corao, porque,
na mesma carta, dizia Beethoven em tom de meio segredo:

Para terminar, arrisco-me a fazer um pedido: julgar-me-ia feliz, se
possuisse um collete de pllo de coelho, costurado pelas vossas mos,
minha cara amiga. Perdoai ao vosso amigo este pedido indiscreto. Culpa 
do muito valor que eu ligo a tudo o que vos sahe das mos, e depois
tambem posso dizer que ha no fundo de tudo isso uma pequena vaidade: 
poder dizer que possuo alguma cousa da melhor e da mais estimavel filha
de Bonn.

Conservo ainda o primeiro collete que tivestes a bondade de me dar, em
Bonn; mas a moda proscreveu-o e agora s me resta conserval-o n'um
guarda-roupa, como um objecto que me  muito caro porque vem de vs...

Ah! o corao namorado palpita ainda sob estas formulas respeitosas da
epistolographia.  manifesto. O collete, costurado pelas mos de Leonor,
queria-o Beethoven para que o peito lhe estivesse hora a hora segredando
umas recordaes sempre vivas.

Foi satisfeito o pedido? Foi e no foi. Em vez d'um collete, recebeu
Beethoven uma gravata, o que no  menos significativo, porque uma
gravata, dada por uma mulher,  o mesmo que dizer-nos ella: Com este
delicado esparto estrangula tu todas as palavras que no sejam para mim.

Beethoven agradeceu epistolarmente: A bella gravata, obra de vossas
mos, causou-me a mais viva surpreza. Despertou em mim um sentimento bem
doloroso, apesar do mimo do presente: fez-me renascer a recordao do
tempo passado, e a vergonha, que me cabe, ao vr como sois generosa para
commigo...

Em 1806 o nome de Leonor  substituido pelo de Julieta, em tres cartas,
das quaes se deprehende que o destino havia cavado um abysmo profundo
entre as duas almas. As conveniencias, mais talvez que as conveniencias,
as circumstancias, obrigaram Beethoven a lanar este vo transparente
sobre a imagem de Leonor. O segredo desvenda-se, e a historia no pde
duvidar.

Os ultimos annos da vida de Beethoven foram o declinar d'um nervoso, que
sente accumularem-se as sombras da melancolia sobre a lampada interior,
j bruxoleante.

De longe a longe descia um raio de sol aos carceres d'aquella alma. Os
nervos, fatigados de continuas descargas electricas, descanavam por
momentos. N'essas raras intermittencias de paz, lia Homero, o seu poeta
favorito, e as novellas de Walter Scott, o seu romancista dilecto.

 surdez sobreveio a hydropesia, e Beethoven acamou durante quatro
mezes, findos os quaes foi transportado ao sepulchro.

O catre onde agonisou cento e vinte dias realisou as angustias do leito
de Procusto. A alma, mortalmente entenebrecida, gemia dentro do
ergastulo dos nervos, cada vez mais excitados.

Uma atmosphera de melancolia enchia a camara, e as poucas palavras do
maestro ressumbravam o fel do sarcasmo ou a lava do desespero. Nem o
governo, nas suas espheras mais elevadas, escapava s verberaes de
Beethoven. Escrevei uma colleco de psalmos de penitencia,--dizia elle
a Hummel--e dedicai-os  imperatriz. Era ainda a Hummel que elle
confidenciava entre afflicto e pensativo: Sois feliz, porque no vos
falta uma mulher que vele por vs. Mas eu, ai de mim, _povero_ que sou!

N'uma das poucas horas de tranquillidade, esboou no papel a casa onde
nascera Haydn; pendurou o desenho  beira do catre, e por mais de uma
vez revelou que lhe era consolao estar contemplando as paredes dentro
das quaes viera  luz do mundo um grande homem.

Dous dias antes de morrer, sentado no leito, apostrophava a duas pessoas
que acabavam de entrar no seu quarto: _Plaudite, amici, comoedia finita
est._ Nas horas que lhe restaram de vida parece que no mais referveu
nos seus labios a espuma da ironia. Assim partiu da terra, angustiada
por um soffrimento inexplicavel, a grande aima do Goethe da musica, como
lhe chama Deschanel. E  certo que os livros de Goethe e as partituras
de Beethoven resumem o que ha de mais profundo no pensamento humano. So
como os grandes lagos, que ora se anilam sob um co transparente, ora se
revolvem e entenebrecem agitados por mysteriosas correntes.

Perto de Schoenbrunn ha ainda dous carvalhos vetustos, entre os quaes
Beethoven costumava sentar-se para descanar dos seus longos passeios,
mas as frondes annosas, que deixam cahir uma sombra espessa sobre o
pouso devoluto, no contam s geraes os monologos do _maestro_, nem
quantas vezes lhe ouviram ciciar nos labios o nome de Leonor...

    [8] _La Prose, leons faites a la Sorbonne._

    [9] _Trait complet de la theorie et de la pratique de
    l'harmonie, par Fetis._

      *      *      *      *      *




Raphael

A MR. PELLEREAU


Era um talento enorme.

O pai, artista mediocre mas de juizo claro, ensinou-lhe a dar os
primeiros traos, a lanar as primeiras tintas na tela.

Mas  ninho d'Urbino, escondido n'uma das mais graciosas paragens dos
Apeninos, era pequeno para tamanha aguia.

O co d'Italia desdobrava-se n'um azul suavissimo e espelhava-se sobre
as aguas tranquillas desde os canaes de Veneza at  bahia de Napoles.

Adivinhava-se que em qualquer parte da Italia sorria a natureza, com
todo o esplendor das suas galas, e o amor com a sua infinita doura.

Elle era moo e artista. O pai adivinhou a gloria d'aquelle destino, e
disse-lhe:--Parte.

E partiu, alegre, descuidoso, pensando um pouco na gloria, alguma cousa
no amor, e namorando-se mais que do amor e da gloria d'aquella Italia
formosissima em que nascera e em que primeiro devia amar.

Dias depois entrava no _atelier_ de Perugino, em Perugia. Um artista
hospedava outro.

A recepo foi cordial. Todavia Raphael, porque era elle, queria ser
mais alguma cousa do que um simples hospede,--ambicionava ser discipulo.

Esboou os primeiros quadros, coloriu os primeiros contornos, e o mestre
inclinado sobre o hombro do moo pintor j o no queria s como hospede
nem o quereria j como rival.

Tinha dezesete annos.

Sorria-lhe a vida e a gloria. Comera pelos retratos, adestrra-se a
mo, e Perugino ficra vencido.

Um dia o discipulo quiz voar mais longe, e comeou um quadro de largas
dimenses, o celebre _Sposalizio_, cujo assumpto delicado e formoso  o
_Casamento da Virgem_.

O artista queria emancipar-se da tutela de Perugino, mas o discipulo,
respeitoso e grato, afogava a sua individualidade na _maneira_ do mestre.

Aos vinte annos, todo o talento, que tem balbuciado at ahi, procura
quebrar as gramalheiras da imitao.

 a poca da liberdade.

Raphael foi encarregado de coadjuvar o seu condiscipulo Pinturricchio na
reforma artistica por que ia passar a cathedral de Sienna. Mas Raphael
foi mais de que um obscuro collaborador n'aquelle maravilhoso poema da
pintura.

Do seu pincel desabrocharam os graciosos frescos, cheios de vida e
mocidade, que ainda hoje se conservam em todo o esplendor da belleza.

Um talento assim  tambem athleta; quer luctar. Florena era ento a
arena dos grandes artistas. Miguel Angelo e Leonardo de Vinci estavam em
campo. Perugia era j pequena para Raphael. Partiu para Florena onde
podia justar com os dous maiores pintores da Italia. A esperana era o
seu anjo da guarda;--a gloria o sonho de todas as horas.

Ah! Florena! Como elle se sentia bem alli, pensando, executando, e
dividindo o tempo com a arte e com o amor!

Fra do _atelier_, esperavam-n'o os sorrisos da ramilheteira, a
_fioraia_; quando estava trabalhando, tinha perto de si as flres
d'ella. E tanto a amava, e tanto a tinha presente quando no a via, que
o seu pincel a reproduziu espontaneamente na _Bella Jardineira_, a
primeira Virgem de Raphael, quadro admiravel conservado ainda hoje na
galeria do Louvre.

Era o cartel atirado a Miguel Angelo e a Leonardo de Vinci. Estava
travada a lucta entre os poderosos athletas.

Occupava n'esse tempo o throno pontificio o papa Julio II. Roma ia
envolver-se n'um manto de roagante magestade.

Levantavam-se templos, erigiam-se palacios, encommendavam-se quadros. O
torneio das artes mudava-se de Florena para Roma. Alli era a capital do
mundo, alli pulsava o corao da Italia; grandeza, esplendor,
deslumbramentos olympicos, tudo havia alli.

O architecto encarregado de velar por todas essas maravilhas da arte era
Bramante, tio de Raphael.

O amor foi vencido pela gloria. Veio de Roma um convite. Raphael
despediu-se da _fioraia_ e aceitou, entre triste e distrahido, umas
flres que ella lhe dera orvalhadas de lagrimas. A florista de Florena
ficava com a immortalidade que lhe dera o seu amante; Raphael partia
lendo na vastido do horisonte a epopa do seu destino...

Roma foi em todos os tempos a fascinao dos artistas. Tudo l tem voz
para cantar as grandezas do passado, e os monumentos arruinados
rumorejam ainda hoje as legendas dos maiores artistas do mundo.

Apresentado ao papa Julio II, sentiu-se maior que nunca; o seu pincel
era a vara de condo que devia desencantar as maravilhas do Vaticano.
Comeou pela sala de la Segnatura. O grande pintor mostrou a valentia do
seu pulso em quatro quadros differentes que decoram a sala:--a
Theologia, a Philosophia, a Poesia e a Justia.

O papa entrou um dia  sala onde Raphael trabalhava. Extasiou-se diante
do prodigio; chamou quatro operarios e mandou desfazer a martello os
_frescos_ que os predecessores de Raphael haviam pintado. J era muito e
ainda no era tudo;--comeava a realisao do sonho.

E todavia nos jubilos de Raphael perpassava, de momento a momento, uma
sombra; era o pincel de Miguel Angelo. Ambos tinham sido chamados a
Roma, collaboravam ambos n'aquella immensa epopa da renascena
artistica da Italia, e todavia no fraternisavam em amiga communho, nem
siquer se tinham permittido a mutua contemplao dos seus quadros.
Trabalhava um na capella Sixtina; o outro nas salas do Vaticano. Sempre
que vinha a geito o confidenciar com seu tio, ahi lhe segredava Raphael
o immenso desejo de conhecer as obras primas de Miguel Angelo. O velho
artista ouvia-lhe as confidencias e sorria-se. Mas um dia, Bramante,
aproveitando a ausencia de Miguel Angelo, que trazia entre mos o _Juizo
Final_, abusou da sua qualidade de architecto e entrou com o sobrinho 
capella. O mesmo foi pascer Raphael os olhos nas telas de Miguel Angelo
e deletrear os segredos artisticos que deviam operar a rapida
transformao porque passou o seu talento audaz e gigantesco. A historia
consigna muitos d'estes factos, em que um artista que comea parece
aquecer-se para uma vida nova nas labaredas que illuminam a alma de
outro artista j feito. Corregio, ao relancear os olhos  _Santa
Cecilia_ de Raphael, exclama arrebatado: _Anch' io son pittor!_--La
Fontaine, ouvindo uma ode de Malherbe, sente incendiar-se-lhe a alma no
fogo da inspirao.

Passados dias, Miguel Angelo entra s salas do Vaticano e no pde
conter um grito de admirao. Ah! disse elle, Raphael imita-me; Raphael
estudou-me; Raphael viu o que eu tenho feito!

E n'esta apostrophe em que espontaneamente rebenta o sincero orgulho
d'um grande artista, Miguel Angelo prophetisa, sem o desejar talvez, a
gloria que esperava Raphael, como Mozart prophetisa por uma intuio
artistica o destino esplendido de Beethoven, e Haydn os triumphos
ruidosos de Mozart.

Eram tres homens, Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci que deviam
coroar o assombroso monumento do espirito humano comeado por Dante e
Giotto.

Dante, como diz Charles Clement, resuscita a poesia, Giotto a pintura;
Brunelleschi levanta o zimborio de _Santa-Maria-del-Fiore_; Colombo
descobre um mundo; Copernico as leis do universo; Guttemberg espanca as
trevas profundas da ignorancia; Savonarola e Luthero despertam a
consciencia individual;--Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci
rematam a cora da renascena artistica. Comea o dia da gloria depois
d'uma longa noite de dez seculos. Do attrito da antiguidade com a idade
media resalta a centelha que devia animar a litteratura, a historia e a
arte.

Os iniciadores d'este movimento revolucionario sahiram da raa latina, e
portanto eram pagos. Assim se explica como o paganismo resuscita no
catholicismo, como Jupiter se transforma em Christo, e Venus em
Magdalena e na Virgem. Da religio catholica nasce a poesia moderna. 
um papa, Julio II, que reune em Roma os maiores pintores e os maiores
architectos.

As madonas de Raphael teem uma belleza pag.

A renascena conspira contra o ascetismo primitivo, e assim se inaugura
a pintura da historia, porque, como reflectidamente pondera Louis Pfau,
a renascena no viu na religio mais que a historia sagrada, e na
historia sagrada mais que a historia da humanidade.

Ao tempo que o talento de Raphael comeava a assombrar a Italia inteira,
um opulento negociante de Sienna, Agostino Chigi, confiou do seu pincel
a decorao d'um palacio que mandra construir nas margens do Tibre.
Raphael quiz ainda dizer o derradeiro adeus  antiguidade, e, antes de
voltar ao Vaticano, pinta para o palacio de Agostino dous quadros
notabilissimos--_Galathea_ e _Psych_.

Era ento um rapaz que se atirava ao turbilho da mocidade, ebrio
d'esperana e gloria. Sobre o seu temperamento divergem todavia as
opinies; o doutor Macedo Pinto[10] cita-o como sanguineo, e
Emilio Deschanel attribue-lhe uma organisao essencialmente nervosa,
como a de Bellini e Beethoven.

Todavia o maior numero d'historiadores revela-nos que era de melindrosa
compleio, e ns, estudando vagarosamente a sua biographia, cuidamos
vr n'elle um nervoso-sanguineo, dotado d'um espirito brilhante, d'estes
que parece viverem em incessante combusto, como a salamandra dos
antigos vivia nas labaredas fabulosas, e naturalmente propenso aos
prazeres desregrados e s expanses vehementes.

Era gentil, tinha uns bellos olhos, rasgados, dces e meigos, e os seus
cabellos pretos, que elle tantas vezes reproduzia em seus quadros,
davam-lhe s faces morenas uma expresso de encantadora doura.

Foi em Roma, que elle amou uma rapariga do povo, _fornarina_, a filha do
padeiro.

Muitas vezes, emquanto pintava a _Galathea_, abandonava a paleta para ir
vr _fornarina_, cujo retrato se reproduz em quasi todas as obras da
segunda metade da vida de Raphael.

Por uma d'aquellas manhs formosas da Italia, em que todo o co se
esbate n'um azul delicioso, _fornarina_, que estava cuidando d'umas
flres dispostas na janella, levantra de golpe a cabea, ao sentir
passos conhecidos. Se visseis afoguearem-se-lhe as faces no suave carmim
das rosas que desabrocham, e brilhar-lhe nos olhos a luz delicada das
estrellas que palpitam, dirieis que chegava Raphael.

--Raffaelo! exclamra a _fornarina_.

--Querida! suspirra Raphael. No ames tanto as tuas flres, que eu
tenho ciumes d'ellas.

--Que remedio! Se  preciso amar as flres para merecer o teu amor! J
te no lembras de Florena?...

--Ah! sempre cruel e formosa!

--Quero vr se,  fora de cuidar nas flres, chego a adquirir os
encantos da _fioraia_.

--Por Deus, querida, que me despedaas o corao! Por Deus te juro, que
o meu amor  s teu. No falles da _fioraia_, que  apenas uma
recordao. Todas as flres de Florena no valem essa poeira branca que
te cobre as tranas e faz lembrar a neve da manh que polvilha a rosa.
Querida, se tu soubesses com que vertiginoso enthusiasmo eu vou copiando
nas faces da _Galathea_ o colorido da _fornarina_! Quero deixar o teu
retrato no palacio de Agostino; preciso que todos saibam que te amei. Se
visses a _Galathea_, conhecias-te. s tu mesma,  a tua formosura
animada pelo meu amor.

--Raffaelo, e as flres que trouxeste de Florena?

--Seccaram.  o destino das rosas que vivem um s dia.

--Ah! E o amor da _fornarina_ ha-de extinguir-se um dia como as flres
da _fioraia_. De mim, s ficar no teu corao o orgulho de haveres
pintado a _Galathea_. O quadro, porque  d'um grande artista, ha-de
subsistir; mas a lembrana do modlo ha-de apagar-se primeiro que a tua
vida. Que resta da _fioraia_? A _Bella-Jardineira_. Que ha-de ficar da
_fornarina_? A _Galathea_. Ella era mulher do povo; eu tambem sou.
Cabe-nos a mesma sorte;--o esquecimento. O teu amor  um capricho de
artista;  mais um devaneio da tua phantasia, que uma necessidade do teu
corao. O artista copia, mas o homem no ama.

--Ah! que me offendes. Cala-te, por Deus. Eu no quero que me fira o
espinho do resentimento quando encostar a cabea ao teu regao no lance
extremo. Estou doente, se estou! Tenho vivido s, de sonho em sonho, de
esperana em esperana. Sinto que a febre me incendeia o cerebro.  o
cansao. Eu s tenho espirito, e o espirito ama, delira, ensoberbece-se.
O espirito dos artistas  lava;--queima, escalda, por isso o corpo
succumbe. Restas-me tu, querida. Quero morrer encostado ao teu seio; que
os teus labios recolham o ultimo suspiro da minha vida...

--Raffaelo, como ests triste, como s apprehensivel! Oh! se te amo
perdidamente, loucamente! O ciume  irmo gemeo do amor; no andam um
sem o outro. Perda-me os desvarios do corao. Culpa  de te amar
tanto... Est formoso o dia, o sol  italiano como tu e como eu. No
falles em tristezas, em soffrimentos. Tu, que tens vivido a luctar, no
succumbas a ti mesmo. Levantei-me alegre, quando a luz da manh entrou
pela casa dentro. Vim cuidar das minhas flres, que so tuas. Olha que
bonita rosa esta! Sabia que para ti nascia, desabrochou para fazer
inveja ao teu pincel. No ha mais dce carmim! Olha... Como  formosa!

Raphael levou a rosa subitamente aos labios e depois deixou-a cahir no
seio.

D'outra vez tinha elle acabado um quadro primoroso destinado ao convento
do Monte-Oliveto, em Palermo. Correu voz em Roma de ter sossobrado o
navio que transportava o quadro. Raphael, como se o seu talento
precisasse de novos titulos de gloria, sentiu-se profundamente triste ao
saber que perdera uma das suas primeiras obras. Foi nos braos de
Fornarina que elle despeitorou as suas tristezas d'artista.

--Ah! dizia-lhe elle, era uma formosa cabea de Christo, em que eu
pozera extremo cuidado. E tinha sido feliz na expresso de soffrimento,
na pallidez dolorida das faces, na suave tristeza que desabrochava em
sorrisos...

--Tenho ciumes, Raffaelo. De quem  o teu amor? Meu ou da tua gloria?
Fallas d'um quadro que perdeste! E a _Disputa do Santo Sacramento_? E a
_Escola de Athenas_? E _Psych_? E _Galathea_?--a _Galathea_ que sou eu,
que deve ser o teu quadro dilecto, por que te ama, por que corresponde
ao teu amor d'artista! E o Vaticano, Raffaelo? O Vaticano onde o teu
nome fica para sempre escripto, para sempre coroado pela maior das
realezas do mundo--a gloria!

Volvidos dias, chegava noticia a Roma de ter abordado s praias de
Genova a caixa que encerrava o quadro destinado ao mosteiro de Palermo.
Perdera-se o navio, a tripolao e as mercadorias, mas o mar respeitra
o quadro de Raphael e restituira-o, depondo-o cautelosamente n'uma praia
italiana... A magestade do mar tinha respeitado a magestade do genio.

A _Transfigurao_, quadro encommendado pelo cardeal Julio de Mdicis,
foi o ultimo, se bem que se possa dizer o primeiro de Raphael. Ha
n'esta composio--escreve Valentin no seu livro _Les peintres
celbres_--figuras to bellas, cabeas de um estylo e d'um caracter to
novos e to variados, que tem sido olhada, e com razo, por todos os
artistas, como a obra mais admiravel que produziu o pincel de Raphael.

Havia pouco tempo que estava concluido o quadro da _Transfigurao_,
quando, habitando em Farneto, recebeu ordem para vir a Roma. Deu-se
pressa em obedecer, e chegou coberto de suor ao Vaticano onde se
demorra n'uma das vastas salas fallando largamente da fabrica de S.
Pedro. Resfriou e, poucas horas depois, entrava em casa subitamente
atacado d'uma febre perniciosa, que o arrastou ao tumulo.

Quando Fornarina se abeirou do leito, turbaram-se de lagrimas os olhos
de Raphael.

--Parte, disse-lhe elle. Esperava morrer nos teus braos, mas no posso.
Falta-me a coragem. Sempre ha-de haver quem me feche os olhos. Deixa
esse triste encargo a Julio Romano que  mais que discipulo do amigo,--
amigo do mestre. Deixa-me vr bem os teus olhos; quero recordar-me da
_Glycera_. Como me estou lembrando das minhas horas de arroubado
trabalho no palacio de Agostino!  o ultimo claro da memoria que se
extingue. Ah! parte, querida, parte. Quero poupar-te ao doloroso
espectaculo d'um cadaver alumiado por quatro cirios...

N'este momento entrava Julio Romano.

Instantes depois, Raphael cahia prostrado no leito, e o discipulo amado
colhia nos braos Fornarina para a tirar da camara onde ella sentia os
ps chumbados ao pavimento.

Quatro pessoas dividiram o espolio do grande artista: Fornarina, Julio
Romano, um padre, tio de Raphael, e o cardeal Bibiena, a quem legou uma
propriedade que possuia perto do Vaticano.

Na sexta-feira santa do anno de 1520, dia em que tinha nascido, rendeu
ao Creador a grande alma.

O seu cadaver foi collocado n'uma das salas do Vaticano, onde de
preferencia costumava trabalhar.  cabeceira, erguia-se o quadro da
_Transfigurao_.

Os olhos dos muitos admiradores que por um momento pousavam no feretro,
alteavam-se depois  tela onde o pincel do artista havia traado a
epopa da sua gloria...

    [10] Medicina administrativa e legislativa, primeira parte.

      *      *      *      *      *




Luiz Rossel


Quasi  mesma hora em que o sopro devastador do inverno de 1871 comeava
a desfolhar a verdura das arvores, as balas de Satory arrancaram do
tronco venerando da terceira republica franceza as ultimas folhas
denegridas pela polvorada da communa.

Havia seis mezes que tres condemnados vacillaram entre a vida e a morte,
na mais cruel e dolorosa incerteza com que se pde opprimir um homem
dentro das quatro paredes do carcere. O conselho de guerra, presidido
pelo coronel Merlin, havia sentenciado  pena ultima os communistas
Rossel, Ferr e Bourgeois. Os processos foram enviados  commisso de
indultos e desde ento comeou a ancia, a duvida, o maximo supplicio. E
a commisso no se lembrava talvez de que per si mesma impunha uma nova
pena, cruciante e horrivel, a tres presos cuja sorte ella podia
melhorar, confirmando a sentena, sem to deshumanas delongas! Grandes
criminosos deviam de ser estes homens, que anteprovaram as agonias da
morte durante cento e oitenta dias de carcere!

Um d'elles, Luiz Rossel, despertra profundas e geraes sympathias.

Durante esses seis mezes de suprema tribulao, era-lhe consolo extremo
a dce companhia de um padre. Os seus olhos marejavam-se de lagrimas
quando a saudade da familia acudia intensa a despedaar-lhe o corao.
Com que dolorido enthusiasmo no fallava elle de seu pai, de sua mi,
das suas pequenas irms, Bella e Sara!

O sacerdote protestante que lhe assistia pde sondar-lhe vagarosamente
as serenas profundezas da sua alma, e o resultado d'esta longa e piedosa
observao foi o demover-se voluntariamente a pedir misericordia 
commisso d'indultos e ao presidente da republica franceza.

De todos os pontos da Frana--escrevia o padre Passa--vos dirigem esta
supplica. Soffrei que vos seja tambem enviada do quarto onde, ha seis
mezes, o sentenciado e o padre se encontram, debaixo das vistas de Deus,
para se preparar para a morte.

De todos os pontos da Frana! escrevia o assistente espiritual de
Rossel. Que crime tinha ento commettido elle que inspirava tamanha
compaixo? Rossel desertra das tropas de Versailles para as tropas da
communa.

Fra julgado desertor e condemnado  morte. Henrique Rochefort, que
desertra tambem da republica para a communa, fra simplesmente
condemnado a deportao para uma fortaleza. Quer dizer, a Rochefort,
espirito ambicioso e fluctuante, ficava com a vida a esperana da
amnistia. Rossel, que, por um impeto de louca mocidade, tomra parte na
revoluo de 18 de maro, era condemnado sem appellao nem aggravo.

Porque desertra Rossel? Expliquemos. Rossel no era d'estes lymphaticos
que transigem com os peores homens e com as peores cousas, esperanados
em que tudo ser pelo melhor,--embora o melhor venha longe. Era um
nervoso, d'estes que sacrificam a vida aos acontecimentos, no intuito de
susterem audazmente a machina incansavel das fatalidades terrenas e
humanas.

Em dezembro de 1870 escrevia elle a Gambetta, ento ministro da guerra
na republica:

Eu esperava que as noticias favoraveis que recebestes cerca do meu
comportamento em Metz, e a boa vontade, de que eu tenho dado provas,
para a defeza do meu paiz, forneceriam occasio de vos elucidar sobre a
guerra actual, de vos notar as faltas de organisao e de estrategia que
se commettiam diariamente, e que vos conduziam a uma derrota.

E mais abaixo, desconfortado pela inhabilidade dos generaes
republicanos, acrescentava:

Em nome da nossa f commum na patria e na liberdade, concedei-me um
cargo importante, dai-me o meio de vos provar que eu sei a guerra, de
vos expr as razes das vossas derrotas passadas e dos desastres que vs
vos preparaes.

Afigura-se-vos isto a febre do orgulho? No. Isto  a expansibilidade da
nevrose, a consciencia de se valer alguma cousa, embora os meticulosos
ateimem que as flres da mocidade no chegam a ser fructo porque as
desfolham sempre os vendavaes da paixo. No. Rossel no estava obcecado
pela amaurose da exaltao partidaria, e tanto no estava que comeava a
desacorooar da republica e dos republicanos, e escrevia ainda a
Gambetta estas palavras:

No comprehendi nunca o que vs fazieis no vosso gabinete. Quando me
lembro que Napoleo resumia em algumas horas por semana esse trabalho de
contencioso a que vos reduziram, tomo o partido do despota contra vs.
Elle fazia a guerra, e vs, vs, deixastes fazel-a. O vosso governo no
foi um governo de combate; pareceu-se muito com o que o precedeu: muitas
secretaras,--e muito pouca policia.

O desalento lavrou fundo no corao de Rossel. Em 19 de maro de 1871
escrevia do campo de Nevers ao general ministro da guerra em Versailles:


Meu general:

Tenho a honra de vos informar de que me dirijo a Pariz para me pr 
disposio das fras governamentaes que se possam constituir. Instruido
por um despacho de Versailles tornado publico hoje, de que ha dous
partidos em lucta no paiz, _colloco-me sem hesitao do lado d'aquelle
que no assignou a paz e que no conta nas suas fileiras generaes
culpados das capitulaes_.

Tomando uma to grave e to dolorosa resoluo, sinto deixar em
suspenso o servio de engenharia do campo de Nevers, que me tinha
confiado o governo de 4 de setembro.

Entrego este servio, que apenas consiste em assentos d'artigos de
despezas e escripta de contabilidade, a M. F., tenente de engenharia
auxiliar, homem recto e experimentado, que ficou s minhas ordens por
determinao de mr. o general Vergne, em virtude do vosso despacho
datado de 5 do mez corrente.

Eu vos informo summariamente, por carta dirigida  repartio do
material, do estado em que deixo o servio.

Tenho a honra de ser,

Meu general,

Vosso muito obediente e dedicado servo

                                                      _L. Rossel._


Data da expedio d'esta carta a desero de Rossel. Chegado a Pariz,
no sentiu revigorar-lhe o corao enfermo de desalento uma esperana
vivificadora. Ao lr nos editaes affixados nas ruas os nomes de Lullier
e Assi, sentiu recrudescer o desgosto que lhe enervava a alma. Ainda
assim quiz justificar o seu procedimento perante a sua mesma
consciencia, e aceitou o cargo que o Hotel de Ville lhe conferiu. Ento
foi o succederem-se as intermittencias de esperana e desconforto, e por
mais d'uma vez o assaltou a ida de abandonar Pariz. As tropas estavam
indisciplinadas, os generaes eram ineptos, e elle, pobre louco! j no
acreditava na communa para confiar unicamente na propria coragem e na
propria dedicao. N'esta conjunctura organisou-se a _cour martiale_,
cujo presidente era. O aceitar as funces de presidente d'este
tribunal,--escreveu elle-- o maior sacrificio que eu tenho feito e que
eu podia fazer  causa da Revoluo. Inimigo das revolues, as
circumstancias me lanaram n'uma revoluo; aborrecendo a guerra civil,
estava mettido na guerra civil. Tratava-se agora de presidir a um
tribunal revolucionario, um tribunal que s pronunciaria sentenas de
morte.

Se eu tivesse a defender-me da accusao d'ambio, o aceitar
dolorosamente este cargo seria talvez o argumento mais forte que eu
poderia produzir. Que interesse tem um ambicioso em manchar as mos?
Seria um ambicioso bem louco, ou bem desprovido de estudo para ir
ensanguentar o meu nome em funces subalternas. Ha apenas uma
explicao razoavel para o meu procedimento,-- que eu me sacrifiquei 
Revoluo. No tinha escolhido nenhuma das funces de que fui
successivamente encarregado, mas no recusei nenhuma. N'estes momentos
de similhantes crises  preciso ter a dedicao d'um sectario. Mal
entrou no ministerio, no dia 30 d'abril, occupou-se Rossel de tomar as
medidas mais urgentes, que vinham a ser o soldo, a disciplina e a
organisao de foras activas. Ento comearam a empecer a sua boa
vontade as intrigas e complicaes que elle no podia desviar com o p
por serem numerosas e constantes.

A recordao de todos estes revolucionarios presumposos,--diz
elle--mas desprovidos d'estudos e d'energia, capazes de ordenar um
assalto talvez, mas no d'uma vontade e d'um proposito firme, esta
recordao, digo eu,  para mim um pesadelo.

No obstante estes dissabores que soffria silencioso, empenhava-se na
organisao de tropas activas, medida que era sempre contrariada por
obstaculos cada vez maiores.

A designao de--regimentos,--que elle adoptra, em vez de--brigadas--,
para no augmentar o numero de generaes fez sombra aos chefes de
legio, que receiavam vr-se desapossados da sua authoridade por esta
combinao, escrevia Rossel de proprio punho.

A defeza do forte de Issy era o alvo dos seus mais ardentes cuidados,
sendo que o general La Cecilia havia retirado as tropas que defendiam a
alda e o forte d'aquelle nome. Em vo tentou Rossel reunil-as de novo,
e procurou organisar foras para fazer rosto ao violento bombardeamento
do inimigo. Este era o seu empenho maximo. N'esta conjunctura
reuniram-se os chefes de legio para protestar contra a formao dos
regimentos, e muitos procuraram Rossel para lhe fazer sentir que a sua
authoridade d'elles era sufficiente para mobilisar as tropas
immediatamente. O certo  que na noite d'esse mesmo dia o avisaram de
que no podiam pr em movimento as tropas que tinham promettido.

Rossel, inteiramente desacorooado, demittiu-se, e poucas horas depois
fluctuava a bandeira tricolor no forte d'Issy, abandonado na vespera
pela guarnio, sem que lhe fosse possivel fazel-o reoccupar. No
obstante as instancias com que foi solicitado para retirar a demisso,
accusaram-n'o de haver contribuido para a perda do forte, de haver
aspirado a tyrannia, e de ter recebido quinhentos mil francos para
realisar a traio.

No  pois sem fidelidade historica que Pinheiro Chagas escrevia, ha
pouco tempo, no _Diario de Noticias_:

E no foi uma desgraa para a Frana a morte de Rossel? Foi, era uma
cabea energica, cheia de vida, de talento e de patriotismo, e, o que 
mais ainda, cheia de profundissimo desprezo por aquella gente da
communa, com a qual a sua ambio e o acaso das circumstancias o tinham
obrigado a pactuar. E elles sabiam-n'o, tanto que Rossel esteve umas
poucas de vezes para ser fuzilado por elles. A assembla entendeu que
devia cumprir as ultimas vontades da communa, e fuzilou Rossel.
Confundiu a causa d'este nobre revolucionario com a dos homens, que lhe
causavam a elle repugnancia, quiz dar emfim um martyr  communa! Santa
gente!

A nobre alma de Rossel nada perdeu da sua grandeza epica dentro das
quatro paredes do carcere.

A mocidade e o temperamento, duas correntes fataes para o homem,
desvairaram-n'o.

Quando me juntei  insurreio--escrevia Rossel do caderno das suas
notas intimas--no contava com o successo, no esperava chegar a uma das
primeiras posies. Obedeci a um dever politico; quando rebenta a guerra
civil, cada cidado deve sustentar o seu partido. Republicano, meu lugar
era em Paris.

Que no era ambicioso, especulador e ignobil claramente o evidenceiam
estas palavras, escriptas entre ferros, com os olhos postos no tumulo.

Podemos afoutamente acredital-as, porque, como escrevia o padre Passa 
commisso d'indultos--sempre se  sincero em presena da morte. Rossel,
antes da desero, era geralmente estimado pelos seus merecimentos. At
no momento em que mais refervia a onda vermelha da communa, o
consideraram os insurgentes dando-lhe um dos primeiros lugares.
Mataram-n'o, perderam-n'o. Embriagou-se com o successo que no esperava.
Collocaram-n'o na primeira plana da revoluo. Era chefe; no quiz
recuar. Simples soldado, teria talvez reflectido, teria talvez
retrocedido  voz de seu pai para offerecer mais um brao  causa da
ordem, que era a causa da patria.

Os estudantes de Pariz foram a Versailles pedir o perdo de Rossel. A
manifestao foi ruidosa, compacta, mas prudente. Era a derradeira
esperana. Todavia o tronco venerando da republica queria sacudir de si
as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Sibilaram as
balas,--as folhas cahiram. A republica deixava passeiar impunemente em
Frana os mais respeitados amigos da communa, a republica deixava
resfolegar a Internacional, mas mandava fuzilar Rossel.

Ferr e Bourgeois no mereciam a camaradagem de Rossel, ainda quando os
comecemos a estudar no carcere. Todos os que visinharam de Rossel se
sentiram commovidos: Cassel, carcereiro; Alberto Joly, seu advogado; o
padre Passa, seu director especial.

Momentos depois de commungar, escrevia Rossel esta carta a uma das mais
queridas pessoas da sua familia,--sua av:

A mistress Isabella Campbell:

Adeus, madrinha, amo-te.

28 de novembro de 1871.

Acabamos de commungar, mr. Passa e eu, e Deus abenoou a nossa communho.

Posso dizer que  a primeira vez que commungo, e estou extremamente
agradecido a Jesus Christo, que nos deixou este symbolo.

Sentindo nas veias o frio do tumulo, momentos depois de ter recebido a
particula sagrada, um dos mais commoventes e sublimes actos da religio
christ, perante o qual se sentem impressionados os mais duros coraes,
ao qual ninguem pde assistir sem chorar,--Rossel no mentia.

Depois da patria, como elle amava a familia!

No posso supportar--escrevia no carcere--que se faa soffrer meus
paes. Pelo que me respeita, tenho a epiderme dura, e estou to pouco
preoccupado com a eventualidade d'uma morte imminente, que a mim mesmo
pergunto muitas vezes se no ser uma insensibilidade doentia da minha
parte. Mas o que no concebo,  que differindo sempre uma resoluo,
dissimulando a deciso que j esta tomada, faam soffrer uma longa
agonia a meus paes, que no commetteram outro crime que no fosse o de
me ensinarem a amar o meu paiz.

So docemente dolorosas estas palavras:

A vista de meus paes magoa-me. Hontem contava-me minha mi os passos
que deu na vespera; de repente interrompe-se: No posso mais! j nem me
lembro! estou douda, vs tu! Minha irm, que estava mais serena,
continuou a narrao, que eu no pude ouvir. Eu via-os, eu ouvia-os; eis
tudo; pouco me importava o resto. Hoje era minha mi que estava serena e
minha irm que parecia louca. Todavia ns estavamos tranquillos hontem 
noite. Mr. Passa havia-nos socegado!

Mas eu tenho confiana--diz minha mi--eu tenho confiana; elles no te
faro nada. Pai, falla d'outra cousa: do forte de Santa Margarida, do
ultimo desenho que eu fiz, d'aquelle que vou fazer; minha mi fez-me
prometter-lhe dous, e justamente, acabei-lhe o segundo esta noite, feliz
por fazer alguma cousa para ella.

A pequenita no chora, mas tem o corao cheio de lagrimas.

Tambem a ti--lhe digo-eu--tambem te fazem soffrer! N'este meio tempo,
ella rompe em soluos, por que lhe faltou a coragem.

Os seus ultimos momentos foram para a sua alma e para a sua familia.

Est revestido d'uma resignao providencial. Vai morrer, porque deve
morrer. No treme. Mas, ao fallar de seus paes, de suas irms, dos seus,
salta-lhe dos olhos uma lagrima. Era a ultima. O valente no tornou a
chorar. Quer porm mandar-lhes a ultima palavra de saudade.
Escreve-lhes, levanta-se tranquillamente da mesa, e abre com firmeza a
porta do quarto. Chega o momento de partir. Entram os soldados e choram
de o vr. O gendarme que o tem de algemar estremece e perturba-se.
Rossel agradece meigamente as lagrimas que lhe do, abraa Alberto Joly,
abraa o carcereiro Cassel, e desce ao pateo, escoltado pelos soldados e
acompanhado pelo padre Passa.

Ferr  grosseiro e materialista. Despede estultamente o capello Folley
e escreve a suas irms,--crentes e nobres coraes de mulher, de
certo--que vai morrer como viveu: sem crenas religiosas!

Bourgeois, igualmente sordido, mas menos perigoso talvez, come e bebe no
seu quarto, embriagando-se para a morte.

Pois bem. O mesmo peloto fuzilou Rossel, Ferr e Bourgeois. O governo
de Versailles foi injusto. No devia emparceirar estes tres homens.

Rossel chega ao lugar da execuo acompanhado pelo seu confessor, como
se quizesse que elle o conduzisse at ao limiar da eternidade. O coronel
Merlin, seu juiz, est presente.

Rossel quer que lhe faam sciente de que no morre odiando-o, e pede ao
seu derradeiro amigo, ao bom Passa, para que lhe ponha a venda.

Bourgeois, atordoado pela embriaguez, deixa-se vendar com indifferena.

Ferr no consente que lhe velem os olhos, e, materialista, no se
dispensa o ultimo regalo;--morre de cigarro na mo, como quem sahe d'uma
taberna.

Momentos depois entrava o velho pai de Rossel no quarto d'onde sahira o
filho. Ao assomar  porta, descobre-se respeitosamente. Alvejam-lhe na
cabea as cans da velhice; tremem-lhe nos olhos as lagrimas da saudade;
agita-se-lhe o peito n'uma ancia offegante.

Est ainda distincta a pequena cavidade onde descanra a cabea de
Rossel. O velho pai, antes de se ajoelhar, curva-se para o catre, e
pousa os labios descorados no travesseiro.

O carcereiro, testemunha unica d'esta scena, chora copiosamente, e,
instantes depois, quando aperta nos braos o tremulo corpo do velho,
orvalha-lhe os cabellos brancos com as lagrimas que no pde reprimir.

Quasi ao mesmo tempo, o padre Passa amparava contra o peito as cabeas
latejantes de duas creancinhas vestidas de preto,--Bella e Sara, e
dizia-lhes commovido:

--No choreis, meus anjos, que vosso irmo est no co. Acompanhei-o at
que Deus m'o recebesse. No choreis por elle, que  de certo feliz.

A imprensa ingleza, como se ouvisse chorar estas duas creanas,
levantou-se em massa para protestar contra a morte de Rossel.

A republica, que  o regimen da equidade, na bocca dos fanaticos, fez
justia e contentou-se com entregar o cadaver do condemnado  familia
que o reclamra. Famosa ironia da republica!

O cesarismo dava a toda a Frana festas ruidosas que deslumbravam o
mundo. A republica, menos generosa que o cesarismo, apesar de no menos
opulenta, cede galhardamente a cada familia o cadaver d'um homem que lhe
pertencia.

A Frana escusava de derramar tanto sangue para ficar como estava.

Mr. Thiers d e recebe condecoraes como Luiz Napoleo. Os jantares e
os bailes do palacio da presidencia arremedam os jantares e os bailes
das Tulherias. Madame Thiers organisa obras de beneficencia como madame
Napoleo. D'antes a crte era em Pariz; agora est em Versailles.

D'antes deportavam-se homens para Cayenna e Lambessa; agora fuzilam-se
em Satory e Marselha.

D'antes applaudia-se Luiz Napoleo; agora applaude-se Adolpho Thiers.

Hontem apedrejou-se o imperador dos francezes; manh apedrejar-se-ha o
presidente da republica.

Ora aqui est porque eu no sou monarchico nem republicano,--porque no
quero ser cousa nenhuma.

O meu posto  do lado da justia; onde ella estiver, estou eu.  ainda
por esta razo que eu protesto contra as palavras que a _France_ atirou
para cima do tumulo de Rossel. A _France_ declara que se absteve de
fallar em quanto o processo esteve affecto a um tribunal competente. A
_France_ fez o que devia; no ha motivo para encarecer-se.

Depois, quando o tribunal pronunciou o seu _veredictum_, quando a
sentena foi executada, a _France_ enumera as circumstancias aggravantes
que o tribunal inventariou, e, constituindo-se em segundo tribunal,
sentenceia um cadaver.

Recorda a _France_ que Rossel encarregado de julgar o commandante de
batalho, Giraud, no dia 19 de abril, fra implacavel para com o ro,
accusado de desobedecer a uma ordem superior e interrompera dez vezes os
debates, apostrophando:

--Mas finalmente desobedeceu!

Foi ainda Rossel que lera a sentena de morte a Giraud e que escrevera
estas palavras ao cidado Laperche:

 prohibido interromper o fogo durante o combate, ainda que o inimigo
levante a coronha para o ar ou arvre a bandeira parlamentar.

 prohibido, _sob pena de morte_, continuar o fogo depois de se ter
dado ordem para o suspender, etc.

Estas lembranas--pondera a _France_--bastam para dizer o que elle foi
durante o seu commando, para dar uma ida do que teria sido na victoria.

E do que devia de ser no carcere e na morte, esqueceu-se de ponderar a
_France_. Uma vez chefe, Rossel no podia dar exemplo de cobardia, assim
como, uma vez vencido, no o deu tambem. No trepidou diante da morte, e
se Giraud, que fra julgado traidor aos seus, no teve a coragem de
agradecer a justia que lhe fizeram, Luiz Rossel enviou ao seu juiz
Merlin, por intermedio do padre Passa, estas palavras:

--Dizei aos meus juizes que cumpriram o seu dever, condemnando-me.

No satisfeito com isto, encarregou o seu confessor de fazer calmar os
odios que por ventura a sua morte levantasse entre os sectarios da ida
que o sacrificra a elle.

Eu no defendo Rossel nem fulmino a republica pelo ter mandado fuzilar
na esplanada de Satory. Eu condemno a republica que manda matar Rossel e
prender Rochefort.

Entre Rochefort e Rossel a desproporo  immensa. Rochefort  um
aventureiro, que mercadeja com a sua penna e com o seu espirito; Rossel
era um homem cheio de coragem e intrepidez, sempre util  causa da ida
que defendesse.

Rochefort nogociava; Rossel combatia. Ambos desertaram da republica para
a communa, eram igualmente criminosos e todavia Rochefort vive e Rossel
est morto.

Mas a republica  o regimen da equidade, que exclue o compadrio e a
proteco, dizem!

Rochefort est preso, manh ser amnistiado, fulminar o governo que
lhe perdoou, por que Rochefort  d'estes homens que esto sempre do lado
da opposio, e recomear a negociar litterariamente com a _Lanterne_
ou o _Mot d'ordre_.

Passeiam a sua liberdade em Londres, Bruxellas e na Suissa milhares de
communistas francezes. Como  que estes homens poderam enganar a
vigilancia das tropas francezas e prussianas que guardavam as fronteiras?

Fugiram, salvaram-se, esto contentes e felizes; d'aqui a pouco tempo
vivero tranquillamente em Frana.

Rossel, menos venturoso que elles, morreu traspassado de balas.

Estrondearam as espingardas;--a folha cahiu.

10 de dezembro de 1871.

      *      *      *      *      *




PHYSIOLOGIA ROMANTICA

HISTORIA D'UM NERVOSO


I

Minha mi era nervosa, hypocondriaca, apprehensivel.

Eu nasci portanto sob a influencia fatal da predisposio hereditaria;
recebi ao nascer um patrimonio do que se chama em medicina affeces
dynamicas.

Era eu uma creana de sete annos e vivia sob a vigilancia d'uma criada
fanatica, que me fallava todos os dias, ao anoitecer, da resurreio dos
mortos, do inferno e do diabo.

Minha mi, que no assistia a estas praticas quotidianas, no abdicava
porm todos os seus direitos educativos.

Quem me educava o espirito era a criada; quem velava pela minha saude
era minha mi. Resguardava-me o peito com flanellas, prohibia-me que
comesse fructas, e no me deixava expr ao ar, no quintal.

Meu pai, cuja vida agitada o trazia sempre por fra de casa, oppunha-se,
nas poucas horas que demorava no lar, a este regimen anti-hygienico.
Todavia, como eu estava sempre ao p de minha mi, cada vez se me
arraigavam mais no espirito os seus habitos.

N'esse tempo a gymnastica era um exclusivo dos acrobatas. Uma creana
que subisse ao trapezio nivelar-se-hia com os filhos dos saltimbancos.

Meu pai, que tinha lido por curiosidade um pouco de hygiene, propoz
tomar-me um mestre d'esgrima e de gymnastica. O preconceito d'aquelles
tempos oppoz-se. Meu pai, que no tinha tempo para estas luctas
familiares, desistiu.

Estudava eu instruco primaria.

O professor dizia a minha mi que eu tinha certa vivacidade
intellectual, e que me devia destinar para um curso superior. De dia
estudava as minhas lies;  noite lia a Biblia  mesa do ch.

Iamos poucas vezes ao theatro.

As noites de nossa casa eram tristes.

Meu pai jogava com alguns amigos; minha mi seroava; eu lia, e a criada
rezava ao som da minha leitura.

No sei porque, mas eu odiava o theatro.

Talvez pela criada velha me ter dito um dia que se no salvava quem
morresse n'um espectaculo...


II

Fiz exame de instruco primaria e comecei a estudar o latim com um
padre decrepito, que morava perto de nossa casa. O padre vivia de jejuns
e oraes. O seu contacto dava  alma uma tristeza gelida.

Eu estudava longas horas, velado pela criada que ia rezando sempre. A
concentrao do estudo e a convivencia com o padre tornaram-me
melancolico. Atravessavam-me o espirito uns horrores vagos do inferno e
do dia de juizo. A ida da morte punha-me medo. De noite tinha sonhos
agitados; acordava banhado em suor, a chamar por minha mi. A criada
velha, que dormia perto, dizia-me que rezasse e fizesse por adormecer.

Comecei a adoecer frequentemente.

Como eu entristecesse cada vez mais, compraram-me uma capella de pau,
que eu armava de festa todos os sabbados, e desarmava todas as segundas
feiras, antes de ir para a aula.

Esta predileco pelo culto religioso provinha de certo da minha
educao biblica e caseira.

Fiz exame de latim, ao cabo de dezoito mezes d'estudo.

O padre achou isto prodigioso, e disse que as creanas como eu no se
vingavam.

Eu suppunha o padre muito em relao com as cousas futuras, e tremi da
prophecia.


III

Quiz meu pai que eu frequentasse o lyceu.

Estudei francez, e logica nas aulas publicas.

Os rapazes que me cercavam eram alegres, inquietos, robustos.

Esta circumstancia prejudicou-me ainda; eu comparava-me com os meus
condiscipulos e achava-me rachitico.

Vencidas estas disciplinas, estudei inglez e geographia.

Comecei a gostar muito dos poetas inglezes, e a interessar-me pela poesia.

Um dia, um rapaz meu condiscipulo emprestou-me a _Menina e moa_ de
Bernadim Ribeiro. Esse livro produziu-me uma impresso suavissima; pedi
mais livros, e li-os todos.

Quando meu pai fez annos, escrevi-lhe umas quadras que conservo ainda;
eram simplesmente desastradas.

Todavia continuei a ler, e, quando acabei os preparatorios, estava
doudamente namorado pela litteratura.

Os negocios de meu pai corriam mal, e tive de renunciar a ida d'um
curso superior. Meu pai propoz-me o commercio, e eu aceitei o alvitre. A
esse tempo tinha esboado um poemeto no genero archaico. Quando entrei
para um escriptorio commercial, estava ainda o poemeto incompleto. O meu
patro era boal. A sua presena exercia no meu animo uma influencia
tyrannica.

Quando elle voltava costas, ia eu escrevendo no poemeto. Um dia
surprehendeu-me nas minhas lucubraes poeticas, quiz ver o meu
autographo, desatou a rir alarvemente, e despediu-me. Entrei em casa
triste, concentrado, apprehensivel.

Tinha ento dezoito annos.

A criada velha havia-me perguntado muitas vezes se eu j tinha sido
convidado para a maonaria.

Certo dia li n'uma folha um artigo que desvendava a cegueira popular
sobre a maonaria.

Eu no conhecia bem o espirito d'esta associao, mas sympathisei com a
maneira porque o jornal desfasia os preconceitos do povo, que eram
tambem os meus. Comecei ento a pensar na grandeza do problema social
que a imprensa se propunha resolver. O jornalismo afigurou-se-me a mais
poderosa alavanca dos povos modernos, porque tinha o seu ponto de apoio
no pensamento humano.

Informei-me sobre a dignidade dos periodicos de aquelle tempo, e soube
que o mais digno era portanto aquelle com que mais eu sympathisava.

Procurei o redactor, e pedi-lhe um lugar na sua folha. O jornalista
procurado, que me pareceu um cavalheiro, sorriu do meu denodo, das
minhas illuses talvez, e aceitou-me. Comecei por ser traductor e
revisor, e tirava d'essa tarefa salario de que repartia com meu pai.


IV

Eu amava.

A minha amada era rosada e loura.

Tinha nas tranas o que o co tem de mais formoso--o sol; e nas faces o
que a primavera possue de mais puro--as rosas.

Eu era naturalmente triste, e pasmava da metamorphose que se havia
operado em mim.

Sentia-me assombrado.

Tinha vagas aspiraes, desejos indefinidos.

Queria ser grande.

Comecei a estudar. Versei livros de botanica, de zoologia e d'economia
politica.

O jornalismo afigurava-se-me a escada de Jacob, pela qual eu devia subir
ao olympo das grandezas sociaes.

Comecei a escrever artigos politicos, e j uma vez por outra se fallava
no meu nome.

Por esse tempo uma faco militante offereceu-me um circulo.

Eu endoudecia de felicidade; comeava a vr realisarem-se os meus desejos.

Sahi eleito.

Entrei nas camaras, e desgostou-me conhecer de perto o que era aquillo.

O meu temperamento desvairava-me.

Queria esmagar todos os futeis e todas as futilidades que encravavam a
cada momento a marcha da governao publica.

Comecei a fallar calorosamente, frequentemente, a querer desmascarar os
hypocritas, a apontar os traidores, a desarmar os imbecis.

Ao mesmo tempo escrevia para os jornaes do meu partido, e tirava d'ahi
os recursos com que vivia modestamente.

Um dia um sectario do governo convidou-me a desertar para a faco
ministerial, sob promessa d'um despacho.

Renunciei dignamente, e lancei mo do facto na camara para fulminar o
ministro do reino.

Dentro em poucas semanas o chefe do meu partido fusionava com o governo,
na esperana de ser nomeado conselheiro d'estado.

A maioria ficou por tanto sendo governamental.

Ergui-me para fallar.

Fui impetuoso, violento, audaz.

O presidente notou-me que eu estava fra da ordem, e retirou-me a palavra.

Pedi que se consultasse a camara, e a camara resolveu approvando a
resoluo da presidencia.

Sahi do parlamento, estonteado, febril, delirante.

Cheguei a casa, e encontrei uma carta de minha mi.

Soube por ella, que a mulher que eu amava estava perigosamente doente.

Dei-me pressa em partir.

Todavia a fatalidade andou mais ligeira; quando cheguei, a minha amada
tinha morrido.


V

Vi-a no caixo.

Era loura ainda. Tremiam-lhe nas tranas os reflexos da eternidade.

As rosas da face tinham desmaiado.

Em volta da sala havia crepes.

Senti um horror instinctivo d'aquelle luto.

Ao longe dobrava um sino.

Lembrei-me de Goethe que detestava todo este apparato funebre.

Se a alma  immortal, para que chorar a minha amada, que renascia para
outra vida?

Se no , para que sanctifical-a ainda com estas honras religiosas?

Notou alguem que eu estava excessivamente pallido.

Tiraram-me da sala, quando eu j no dava accrdo de mim.

Ao outro dia despertei, fatigado e triste, como de um pesadelo horrivel.

Estive muito tempo sentado no leito at que me fosse possivel atinar com
a realidade.

No sahi n'esse dia, no sahi tambem nos immediatos.

Comecei a lr, a pensar, a propor-me todos os problemas que dementam a
cabea humana.

Queria devassar os mysterios d'alm-tumulo.

Tinha vises, dres dilacerantes.

Chamei um medico, que me disse que as vises eram gastricas e as dres
nevralgicas.

Aconselhou-me distraces, passeios, agitao.

Desobedeci, e continuei a viver recluso.

Passava as noites a passeiar no meu quarto d'um lado para outro; Percebi
que a minha pertinacia comeava a aborrecer aos meus amigos.

A proximidade da pobreza tornava-me quasi louco.

Um medico confirmou as minhas suspeitas, e aconselhou-me a sahir
immediatamente para o campo.

Por acaso, vi n'um jornal um annuncio em que se offerecia um lugar de
administrador d'uma casa no Minho.

Resolvi-me a trabalhar, apesar de me sentir doente.

Offereci os meus servios, que foram aceites.

O rio Lima passa perto da casa que eu administro.

O sitio  formoso e saudavel.

Comecei a levantar-me de madrugada, a acompanhar os trabalhadores, a
dirigir as maltas.

Ao domingo ou cao ou pesco.

Dispensei-me de pensar, e a minha unica leitura  a do jornal que eu
assigno.

Detesto profundamente a litteratura, especialmente os versos.

Estou d'uma carnao razoavel, sem todavia estar gordo.

Umas vezes por outras, pego na enxada ou na fouce, e trabalho tambem.

Posso rir-me de vs,  nervosos esgrouviados, que tendes vises,
idiosyncrasias, que viveis n'um inferno.

O claro do vosso espirito vai-vos calcinando o corpo.

Dentro em pouco sereis cinzas.

O adelgaamento da raa toma um incremento prodigioso.

Os vossos filhos so amarellos e intanguidos; j me no parecem
creanas, mas futuras congestes visceraes, dyspepsias, catarrhos
vesicaes, nevralgias e affeces calculosas.

Pobres d'elles, por vossa causa!

Um unico meio pde ainda conservar-vos, a vs, e remil-os a elles d'uma
catastrophe imminente.

Um grande medico que vos pde salvar,--a Hygiene!

Vde bem que a questo do temperamento  uma questo nacional, porque os
nervos da patria comeam a ter contraces dolorosas.

Na estatistica dos temperamentos, o nervoso  o predominante.

Pois bem. Resta um unico meio de salvao, o regimen hygienico.


VI

Costumai-os desde pequenos  gymnastica, no  gymnastica violenta do
trapezio, mas  suave gymnastica de quarto.

Mandai comprar-lhes a _Gymnastique de chambre_, escripta em allemo por
Schreber e traduzida em francez por Delondre.

Chegando a primavera, atirai-os para o campo.

Deixai-os correr, saltar, e cahir,--e cahir tambem.

Vde bem que  preciso desenvolver-lhes o systema muscular.

Urge reformar esta raa enfesada que se est eximindo a cada passo de
servir o exercito nacional por no chegar ao estalo.

No deixemos mumificar estes pobres rapazes de vinte annos que se
narcotisam com o charuto, que se requeimam com o _grog_, e se desvairam
com o romance.

E as raparigas! ah! e as raparigas!

Como ellas querem ser pallidas e languidas!

Aos dezoito annos comeam a ter enxaquecas, e aos vinte soffrem
nevroses,--classicas e romanticas--, como as classificou Balzac na
_Physiologia do casamento_.

Havieis de vr estas mooilas do Minho, bellas e rosadas, que volteiam
tardes inteiras na valsa, em dias de romagem!

Vs, rapazes e raparigas, sois feitos de nevoeiro.

Tendes uma transparencia etherea.

Um dia, passando um cyclone na Europa, haveis de desapparecer da
superficie da terra e subir ao ar em vapor.

Depois haver uma epidemia europa, porque vs, particulas deleterias,
corrompereis a atmosphera, e os animaes que vos respirarem ho-de cahir
fulminados.

Das alturas de Barroso descer ento uma mocetona que, solidamente
organisada, o tufo no logrou empolgar.

E da serra da Estrella baixar um beiro que zombou das correntes
atmosphericas erguido sobre um penhasco, que serviu muitas vezes de
canap a Viriato.

E d'esta mulher e d'este homem nascer a raa futura.

E a proposito de vs,  gentes de 1872, contar-se-ha o caso de certas
mumias que foram desfeitas por um spro...


FIM





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Alberto Pimentel

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works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
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