The Project Gutenberg EBook of Os dialectos romanicos ou neo-latinos na
frica, sia e Amrica, by Francisco Adolfo Coelho

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Title: Os dialectos romanicos ou neo-latinos na frica, sia e Amrica

Author: Francisco Adolfo Coelho

Release Date: July 14, 2010 [EBook #33159]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS ***




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    *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
    texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em caso
    de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
    deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                              Rita Farinha (Julho 2010)




SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA DE LISBOA


OS

DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS

NA

AFRICA, ASIA E AMERICA

POR

F. ADOLPHO COELHO

Professor do Curso Superior de Lettras e socio effectivo da Sociedade de
Geographia de Lisboa


LISBOA

CASA DA SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA

89, RUA DO ALECRIM, 89

1881




IMPRENSA NACIONAL




Extrahido do Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa




OS

DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS

NA

AFRICA, ASIA E AMERICA


N'uma conferencia feita ante a Sociedade de Geographia em 16 de
fevereiro de 1878 chammos a atteno dos nossos consocios e do publico
para as frmas dialectaes particulares que algumas linguas europas e
particularmente o francez, o hespanhol e o portuguez, tinham tomado nas
colonias e conquistas da Africa, Asia e America. Esses dialectos tem
at hoje attrahido muito pouco a atteno dos linguistas, no existindo
ainda nenhum trabalho geral sobre elles.

Era nosso desejo reunir os materiaes para um trabalho especial sobre os
dialectos portuguezes, e um trabalho geral comparativo em que
tentassemos determinar as leis de formao d'esses dialectos, formao
que se pde por assim dizer estudar _no vivo_, porque um similhante
estudo no poderia deixar de nos ministrar dados importantes sob os
pontos de vista glottologico, ethnologico e psychologico.

Pedimos n'essa conferencia esclarecimentos, como j o tinhamos feito por
outros meios, e os nossos pedidos no foram de todo inuteis. Um mancebo
intelligente da ilha de Santo Anto, o sr. Cesar Augusto de S Nogueira,
que assistra  conferencia, deu-nos todos os materiaes para o estudo
que publicmos do dialecto creolo d'aquella ilha. O nosso amigo rev. R.
H. Moreton continuou nos seus dedicados esforos para nos obter
publicaes no dialecto portuguez de Ceylo, e a elle devemos em grande
parte poder dar hoje uma bibliographia j asss consideravel d'essas
publicaes e, o que  mais, possuil-as, estando assim habilitados para
publicar em breve um estudo bastante completo sobre a _Grammatica e
vocabulario do indo-portuguez_. No meio de outros trabalhos mais
consideraveis nunca perdemos de vista os dialectos creolos, que havia
muito nos interessavam, e fomos assim reunindo uma serie de noticias, em
parte simplesmente bibliographicas, cujo conjuncto nos parece offerecer
j doutrina sufficiente para constituir materia de um artigo de ensaio.
Por mais incompleto que fique o nosso trabalho estamos certos que vem
preencher uma lacuna no quadro da glottologia. Fr. Pott no quadro
systematico-bibliographico da glottologia que serve de prefacio ao tomo
II, 4 das suas _Etymologische Forschungen_ (1870) nem sequer menciona os
dialetos creolos; nos livros geraes de Whitney, Max Mller e outros
sobre a glottologia em vo se busca uma noticia d'esses to
interessantes productos; as opinies expressas por alguns linguistas
sobre o caracter d'esses dialectos, so, como veremos, indecisas ou
erroneas, ou no apontam os lados por que esses dialectos so mais
importantes para o observador. Comprehende-se este facto singular da
historia da nossa sciencia quando se sabe que uma parte dos glottologos
gastam o seu tempo  busca da soluo de problemas ou insoluveis ou cuja
chave no est ainda descoberta (etrusco, basco, acadiano, etc.), e
outra anda absorvida pelos seus estudos especiaes, sem duvida
interessantes e muitas vezes importantes, mas que fazem desviar a
atteno de questes de muito maior momento, sendo poucos os que fazem
progredir a sciencia de uma maneira sensivel.

O nosso ensaio seria muito mais completo se tivessemos maior numero de
informaes dos dialectos das nossas colonias e conquistas, e se
tivessemos visto diversas publicaes sobre os dialectos similhantes das
outras linguas europas, que por diversas causas no podmos examinar.
Entre essas causas predominam a raridade de algumas d'essas publicaes
e miseravel dotao das nossas bibliothecas, que no lhes permitte
comprar seno poucos livros que interessem a um pequeno numero de
estudiosos.




I. DIALECTOS PORTUGUEZES


1. Creolo da ilha de Santo Anto (archipelago de Cabo Verde)

Este dialecto  fallado principalmente pela populao de cr e pelas
creanas que o aprendem com as creadas e amas negras. Distinguem-se duas
frmas: o creolo _rachado_, creolo _fundo_, creolo _vejo_, fallado
principalmente no interior da ilha e de que as noticias e documentos que
publicmos do conhecimento, e o creolo em que a grammatica portugueza 
menos ignorada, distinguindo-se quasi unicamente pela pronuncia de
algumas palavras ou sons e pelo accento geral.

As cartas seguintes foram escriptas por pessoas instruidas que fallam
bem o portuguez, mas conhecem bem o creolo rachado. O unico documento
verdadeiramente genuino do dialecto de Santo Anto acha-se na serie de
adivinhaes que o nosso amigo o sr. S Nogueira nos ministrou.


Carta 1.^a

Nha amigo.--Cu prssa en scrb     | Meu amigo.--Com pressa escrevi
s ds fja di papel, qui dentro    | estas duas folhas de papel que dentro
d's carta en t manda nh.         | d'esta carta lhe envio.
                                    |
Talvz algun csa, palabra, ou      | Talvez alguma cousa, palavra ou
mde nh cr, st rrado. Cuza      | como quizer, esteja errada. O que
qn'en c t dubda; pamde p       | no duvido, porque por mais creolo
ms crilo qui ns di Cabo Berde    | que ns de Cabo Verde saibmos,
n sab, snpre nu t ncontra       | sempre encontrmos difficuldade ou
dificuldade ou enbaro, quel'ora   | embarao logo que pegmos na                      |
qui n pga na pna p nu scrb na | penna para escrevermos na nossa
ns lingua.                         | lingua.
                                    |
s culpa  c di ns,  di gobrno, | A culpa no  nossa,  do governo
qui si al b animaba ns na         | que longe de animar-nos em qualquer
calqur cuza,  t oprimno c m   | cousa, opprime-nos com a m
scoja di ss empregado, qu' t     | escolha dos seus empregados, que
manda p Cabo Berde.                | elle manda para Cabo Verde.
                                    |
 t faz bn mal, pamde assi      | Faz bem mal, porque assim perde
 t prd tudo amor, tudo stima    | todo o amor e toda a estima que
qu' pd tn na pbo di Cabo       | pde ter no povo de Cabo Verde.
Berde. s cuza  c s na Cabo      | Isto no  s em Cabo Verde  por
Berde,  p tudo cbo, unde  tn   | toda a parte, onde elle tem um palmo
un palmo di chn. En pod flba     | de terra. Eu podia dizer-lhe
nh cuzs cho a ruspto di ns     | muitas cousas a respeito do nosso
gobrno na Cabo Berde, mas paqu?  | governo em Cabo Verde, mas para
s carta  c, sima portugus       | que? Esta carta no , como dizem
t fl, di politica, e pamde       | os portuguezes, de politica, e por
s en t bira p principio di ns   | isso volto ao principio da nossa
conbersa.  sima en staba t fl    | conversao.  como lhe estava dizendo,
nh, en c sab si algun cuza st   | no sei se alguma cousa est
trto ou ml screbdo ns ds fjas | errada ou mal escripta n'essas duas
di papel; mas c m'inporta c       | folhas de papel; mas no nos importemos
s, e nhu ubi cuss' qu'ent  fl  | com isso, e oua o que
nh: Na fja un e na linha binte    | lhe digo: Na folha 1 v. e linhas
eu binte un, nhu t l na banda     | vinte e vinte um, na columna creola
di crilo nha Dna di nha Luca   | nha Dona nha Luzia, e no portuguez
e na banda di portugus nh c t   | no encontro nada que,
acha nada qui, sima portugus t    | como dizem os portuguezes, lhe
fl, t corrspondl.               | corresponda.
                                    |
Nh sab  pamde?  pamde         | Sabe a raso?  porque Dona
s _Dna_  un nme qui na crilo   | n'aquelle logar  um nome que em
t chomdo nome di cassa, e      | creolo se chama nome de casa,
t custuma pdo n'algun minino      | e usa-se nas meninas (creanas).
fmea.  p s nme que s minino   |  por esse nome que ellas so chamadas
t chomado tioqu' grande,          | at  maioridade ou at 
ou tioqu' mrr. s uso  c s di | morte. Este uso no  s de Cabo
Cabo Berde, na Brazil tanb  t    | Verde, no Brazil tambem se usa,
usado, e assi mi conch ghentes     | e assim conhecemos muita gente
cho c nome di Nen, Nhanhina,     | com os nomes de Nn ..........
Nhnha, Sinhrnha, Nhsinhra,     | ...............................
Jca, Jca, sin sr ss nome di     | ...... e Joca sem serem os seus
batismo, ou _ss nome di greja_.    | nomes de baptismo.
                                    |
Agora si nh cr sab cuss' qu    | Agora se quizer saber o que quer
Dna cr fl, en t fl nh, no     | dizer Dona, eu lhe digo, em portuguez
portugus  _av_ e Dno  _av_.   |  av e Dono av.
                                    |
A ruspto di berbo, crilo c tn   | Emquanto a verbos, o creolo no
tudo qui portugus t choma _tnpo_.| tem tudo quanto o portuguez chama tempo.
                                    |
Prnme  sima ja'n esplic nh     | O pronome  como j lhe expliquei
na fja ds. Na crilo di Cabo Berde| na folha 2. No creolo de Cabo
c tn _bs_ ou _abs_ p _vs_ di  | Verde s ha _bs_ ou _abs_ para o _vs_
portugus, e s t fl _nh_, o     | portuguez, e usam de _nh_ quando
qu's t papi c algun s, e      | fallam a uma pessoa s, e de _nhs_
_nhs_, o qu's t papi c ms     | quando fallam a mais de uma.
d'un.                               |
                                    |
Agora _En_, _min_, _amin_  quasi   | Agora emquanto a _Eu_, _min_, _amin_
tudo  msmo, c algun diffrena,  |  quasi tudo o mesmo, com alguma
cnfrme conbersa t corr. Tanb   | differena conforme o seguimento
crilo tn _mi_. Ex.:               | da conversao. Tambem o creolo
                                    | tem _mi_. Ex.:
                                    |
En cr s cuza.                     | Eu quero esta cousa.
                                    |
Qunh qui faz s cuza?  mi.      | Quem fez isto? Fui eu.
                                    |
Amin en s t b enghnho, ou       | Eu vou ao engenho..........
Amin s t b enghnho, ou En       | ............................
s t b enghenho.                  |
                                    |
J bst. Nh al st enfadado.      | Basta. Deve de estar enfadado.
Agra tioque nu encontra na         | Agora at quando nos encontrarmos
biblithca.                        | na bibliotheca.
                                    |
Nh acreditan, cum'amigo (_ou_      | Acredite-me, como amigo, que
sima'amigo) qui t respta nh cho.| muito o respeita.


Carta 2.^a


_Csa._--Pan fart-bo bontade en    | Cesar.--Para vos fazer a vontade
t scrb-bo na ns lingua, na      | eu escrevo-vos na nossa lingua,
crilo rachado, qu'en c sab si b | em creolo fundo, que eu no sei
t entend-le.                      | se vs o entendeis.
                                    |
Flan: p que b mest p n         | Dizei-me: para que precisaes de
scrbbo ns lingua? B ten gna   | que vos escrevamos n'esta lingua?
di estud si orige, faz algun      | Tendes desejo de estudar a sua
gramatica ou dicionare? S' p algun| origem, de fazer alguma grammatica
ds cussa Deus juda-bos; mas dexam  | ou diccionario? Se  para alguma
fla-bo m al faz-bo su tioque     | d'estas cousas, Deus vos ajude,
bu c pod ms, tioque bi seinti... | mas sempre vos direi que isso
                                    | vos far suar at no poderdes mais,
                                    | at que o sintaes..............
                                    |
N's ija quasi tudo algun ten     | N'esta ilha quasi toda a gente
mdo di Duco. Duco bu conch-le?    | tem medo de Duco: Duco vs conheceil-o?
Estan m nu. Duco era un prso     | Estou que no. Duco era
que staba na calabs;  entend m  | um preso que estava no calabouo;
c stba l sbe,  fugi le c ds | e entendeu que no estava l bem;
companheros;  st riba chda; t   | e fugiu com dois companheiros; est
mt cbra, t for mujres, t    | em cima da achada; mata cabras,
faz tudo casta di pouca borgonha.  | fora mulheres, faz toda a casta
Flado m Duco manda fl Henrique    | de pouca vergonha. Diz-se (fallado)
d'Olibra, Puchim, Maia, Benceslu  | que Duco manda dizer a Henrique
p s tom seintido c ss          | de Oliveira, Puchim, Maia, Wenceslau
bida, p s c b fra, pamde se   | para que estes tomem sentido
encontra cu les m t matalos.     | com a sua vida, para estes no
Faz ida m s al tn mdo!       | irem fra, poisque se se encontra
                                    | com elles que os mata. Fazei ida,
                                    | como estes tero medo!
                                    |
P. si bida  dentro cartore;       | Paulo a sua vida  dentro do
st magro sima algun tisgo;  fl  | cartorio, elle est magro assim como
m s bo que s t faz-le falta;   | um tisico; diz que sois vs que
 mand-bo mantenha cho.           | lhe tendes feito falta; elle manda-vos
                                    | muitas recommendaes.
                                    |
Ti outr'ora; en c ten ms tempo.   | At outra occasio; eu no tenho
Bo armun, etc.                      | mais tempo. Vosso irmo, etc.


Carta 3.^a


Nha estimado armun. En rcb       | Meu estimado irmo. Eu recebi
carta di nh, qu'in fica munto      | carta do senhor, que eu fico muito
contente con l, e pan faz nh     | contente com ella, e para fazer ao
bontade en t cum screb nh na   | senhor vontade eu comeo a escrever
crilo. Primro nobidade qu'in t   | ao senhor em creolo. Primeira
d nh  cum C. m t recit qus  | novidade que eu dou ao senhor 
beros di dda de Albano na crilo  | que C. recita aquelles versos da doida
e  ta cunal sin:                  | de Albano em creolo, e comea
                                    | assim:
                                    |
Benca li nha fijo sucuta:           | Vem c meu filho escuta:
                                    |
B  amigo di bu mi?               | s amigo de tua me?
                                    |
B! nha mi, e que pergunta        | Bem, minha me, e que pergunta
s?                                 |  essa?
                                    |
Ps bn, sima bu oj s carnuja     | Pois bem, assim como tu vs este
carnugado, ferucho feruchado       | ferro enferrujado  sangue de teu
sangue di bu pai; i bu t juran cum| pae, e tu juras-me como o vingas?
bu ta bingal?                       |
                                    |
En t jura!                         | Eu juro!
                                    |
Ampz  Ricardo pai di Maria,       | Pois  Ricardo, pae de Maria,
qui mat bu pai!                    | que matou teu pae!
                                    |
B! mami! Pai di Maria en c       | B! mam! Pae de Maria eu no
pod matal, pamde Maria stan       | posso matal-o, porque Maria est
dente nha craon.                  | dentro de meu corao.
                                    |
E assim c munto cuza, mas          | E assim com muita cousa, mas
qu'in c sab, e por isso en c t  | que eu no sei, e por isso eu no
pon. Quen qui costum tanb recital | ponho. Quem aqui tambem costuma
 Brito e mas Quinquim.             | recital-os  Brito e mais Joaquim.
                                    |
En pidi nh di fabr p nh mandan  | Eu pedi ao senhor o favor de
qul dicionare; en pedi t na       | mandar-me aquelle diccionario; eu
portugus, gora en t biral na      | pedi em portuguez, agora eu traduzo
crilo. Qu p fabur c nh         | (viro) em creolo. Queira por
desquec. En t, cba s carta pan  | favor no se esquecer. Eu acabo
porgunta nh s' prciso escrb nh| esta carta por perguntar ao senhor
en crilo na tudo bapor, ou no.    | se  preciso escrever ao senhor em
                                    | creolo por todos os vapores ou no.
                                    |
Nhu ads, nh dn tudo alguen       |
mantnha cho. Tudo ghentes di      |
casa t mand nh mantenha cho.    |


Phrases diversas


M nhu st? ou M nhu pss?        | Como est? ou como passa?
                                    |
Cmmddo, nh m nhu sa ta         | Bom, e o sr. como tem passado?
pss?                              |
                                    |
M ba ghentes tudo dinh? _ou_      | Como esto todos os seus?
Mde ghentes tudo di nh st?       |
                                    |
Tudo st bon, graas a Dus.        | Todos esto bons, graas a Deus.
                                    |
J dura qui en ca j nh; Unde     | Ha muito tempo que o no vejo,
nhu staba? _ou_ Unde nhu tn stado? | onde tem estado?
                                    |
Mi en stba la na Orgn, _ou_ En    | Eu estava nos Orgos, ou eu tenho
tn stdo la na Orgn.              | estado nos Orgos.
                                    |
Cuz' _ou_ Cuss' nhu b fazba l? | O que foi l fazer?
                                    |
En bba oja (_ou_ en b ojba) un   | Fui ver uma parenta minha que
nh parente, qui stba doente.      | estava doente.
                                    |
Qunh, tia di nh, nh Maria?     | Quem? a sua tia, a sr.^a Maria?
Cuss' qu' tnba?                 | O que tinha ella?
                                    |
E tnba dr na pto, _ou_,  ta     | Tinha dores no peito, ou queixava-se
quexaba di dr na pto.             | de dores no peito.
                                    |
 j st milhor?                    | J est melhor?
                                    |
En dxal um pouco milhor, _ou_,     | Deixei-a um pouco melhor.
En dxal ms cmddo un pouco.     |
                                    |
Pndo nhu s t bai? (_gossi-n_).   | Para onde vae agora?
                                    |
En s t bai Praia.                 | Vou  Praia.
                                    |
I mi en s t bai (_ou_ b) Tarrafal| E eu vou para o Tarrafal.
_ou_ Tarfal.                        |
                                    |
Anton nhu tn qui anda cho         | Ento tem de andar ainda muito.
inda.                               |
                                    |
Qui horas  gossin? _ou_ Canto      | Quantas horas so?
hora j d?                         |
                                    |
J st p ds hora.                 | Devem ser duas horas.
                                    |
Dxam bai, tioque nu torna oj.     | Deixe-me ir, at quando nos tornarmos
                                    | a ver.
                                    |
Nhu ads. (_ads_).                 | Adeus.
                                    |
F. En t pidi bo p bo escrbn     | F. Peo-te que me escrevas uma
um carta na crilo, mas num crilo  | carta em creolo, mas em um creolo
brdadro.                          | verdadeiro (puro). Has de achar
Bu al acha galante s pidido;       | exquisito (extravagante) este pedido,
mas oc bu sab  p cuz, bu al     | mas quando souberes para que
fic contnte. Gossin en c pod    | , ficars satisfeito. Agora (n'esta
flbo  p que fin, pamde en c    | occasio) no posso dizer-te para
tn tnpo.                          | que fim , porque no tenho tempo.
                                    |
C bu squc, j bu oub?          | No te esqueas, ouviste?
                                    |
Bo armun amigo.                     | Teu irmo, amigo.
                                    |
J bu rcb nha carta qui en       | J recebeste a minha carta que
scrb-bo na crilo? Respondn e    | te escrevi em crioulo? Responde-me
e mand flan mode ghentes tudo      | e manda dizer-me como esto todos.
st.                                |
                                    |
Titia j st mijr di si dismaios?  | A tia j est melhor dos seus
Nha Dna di nha Luca inda c       | desmaios? A nha Dona da Luzia
cmda?                             | ainda no est boa?
                                    |
Logo qui[1] bu rcb s carta,     | Logo que receberes esta carta
bu ta manda chma Roque, e bu       | mandars chamar o Roque, e lhe
ta flal cum en rcb si carta, e  | dirs que recebi a carta d'elle, e
su xinti cho di ms, di mo tratos,| senti bastante dos maus tratos, que
qui scribons s t dal.             | os escrives lhe tem dado.
                                    |
Com gossin en c pod fazel        | Que agora nada lhe posso fazer,
nda, e p  spra tioque en bolt  | e que espere at (quando) eu voltar
C. Berde; e anton en t oja, si     | a Cabo Verde, e verei ento se
algun cuza en t pod alcana na si | alguma cousa posso alcanar em
fabr.                              | seu favor.



Adivinhaes

Os creolos em Cabo Verde, diz-nos o sr. Nogueira, pelo menos em
Sant'Iago, tem por costume contarem historias, isto , lendas ou
contos.

Quasi sempre essas historias so contadas  noite, assentando-se as
pessoas que tomam parte n'esse passatempo de caracter verdadeiramente
familiar,  porta da rua ou ento dentro de casa, fazendo d'esse
passatempo um sero. Precedem a essas historias as adivinhaes, sendo
algumas d'estas bem obscenas.

Eis uma pequena serie d'essas adivinhas que o nosso collaborador nos
ministrou:


1. Xintido.                       | Mi li, mi l.
                                  |
2. Porco.                         | Mungo mungo t ba rbera.
                                  |
3. Chba na banna.               | Rque-rque na pedragl.
                                  |
4.  un home que mt un buro,    { Curupu de ds p mt curpu de
pamde um p de coube.            {   quato p, sob curupiu de um p.
                                  |
5.  jo.                         { In tn nh ds fijo na janlla nium
                                  {   c t j companhro.
                                  |
6. Falla.                         { In tn nh fijo in t mandal dento
                                  {   chuba  c t mj.
                                  |
7. Mma di cadra.                { In tn nh ds fijo t cr tudo cr,
                                  {   nium c t pss companhro.
                                  |
8. Orja.                         { In tn nh figurinha na pnta di
                                  {   rcha, t que, c t que.
                                  |
9. Snbra.                        { In cr n c pga, in xinta in
                                  {   pga.
                                  |
10. Bca c dente.                | In tn nh pucarnha cheio d'sso.
                                  |
11. Tripiche.                     { Chro na cassa di riba, batuque na
                                  {   cassa di baxo.
                                  |
12. Pnno.                        | Nte di cumprido, di dia di trabsado.
                                  |
13. Caldron.                     {  tn p  c t nda  tn aa 
                                  {   c t bu.
                                  |
14. Arco d'abja.                 { Jn di Pico, Manl d'Orgn, s c
                                  {   sbi  al trabssa.
                                  |
15. Pedra fgn.                  { In tn trs prto; si n c st, qulouto
                                  {   ds c t sirbi.
                                  |
16. bo.                          { Radondte indte _que no tem_ tapo
                                  {   nem tpte.
                                  |
17. Anzol:-- t lba isca mrto, { Prto crcbdo que t lba mrto,
 t tarc pexe                   {   t trz bibo.
                                  |
18. Pte.                         |  b dtado,  bn squdo.
                                  |
19. Estrla na Co.               { In tn nha crl di cbra, nte p
                                  {   manhe nium.
                                  |
20. Mma de bca.                 { Nha quato bli bca p bxo lte
                                  {   c t lna.
                                  |
21. Estrubado.                    { Nh boi t bnba l na Tarafl, in
                                  {   t oubi li.
                                  |
22. Mandioca.                     { Rquit p bjo fsta qu c chiga,
                                  {    c sabe.
                                  |
23. Morte                         | In bai pn c bn ms.
                                  |
24. Calbicra.                    { Albo  c m albida, verde m
                                  {   vrdte, tn cr di rabu de sancho,
                                  {   mas  c l.
                                  |
25. Caminho.                      { Un hme grande sin snbra.
                                  |
26. Fumo.                         { Nha cabllo dento cma na rua.
                                  |
27. Sino.                         { Sin c pga nha boi rbo  c t
                                  {   bnba.
                                  |
28. E cco c si pja, cu cumida, { In tn un caza di pja dento qul
cu go.                           {   caza di pja in tn un caza branca,
                                  {   dento caza branca in tn un
                                  {   fonte d'go.
                                  |
29. Cruz na chda.                { In tn nha bca na chda, in c
                                  {   t d pja, in c t d go, tudo
                                  {   alghn qui p ta botan el um
                                  {   m de pja.
                                  |
30. Nabu.                        { In tn un me grande na m di
                                  {   mar, s' c bento  c t anda.



Observaes phoneticas

Dos sons do portuguez faltam no creolo de Santo Anto _lh_, substituido
por _j_ (_paja_, _ija_, _foja_, _fijo_, _scoja_), _v_ substituido por
_b_ (_dubida_, _db_, _oubi_, _pobo_, _conbersa_, _biro_, _fabur_); os
diphthongos nasaes (_Jan_==_Joo_, _Orgon_==_Orgos_,
_coraon_==_corao_, _armun_==_irmos_, _no_==_no_); o diphthongo
_ei_, substituido por __, __ (_promro_, _ruspto_, _figurinha_).

Ha alguma tendencia para o iotacismo: _di_==_de_.

_I_ desapparece em _pos_==_pois_, _mas_==_mais_.

Mudanas varias nas vogaes atonas: _armum_==_irmo_,
_promro_==_primeiro_, _borgonha_==_vergonha_, _ruspto_==_respeito_.

Mudana nas vogaes accentuadas: _cuza_==_cosa_, _favur_==_favor_.

Apherese de vogal ou de syllaba: _sim_==_assim_, _nh_==_senhor_,
_nha_==_minha_[2]; _t_==_est_.

Syncope de vogal: _cum_==_comear_, _cr_==_querer_,
_conch_==_conhecer_.

Apocope de vogal ou de syllaba inteira: _calabs_==_calaboo_, _m_
(como)==_modo_, _mo_==_molho_, _s_==_este_.

Apocope de _r_: regular no infinito (_ser_  uma excepo, se no ha
erro no paradigma que nos enviou o nosso informador); _nh_==_senhor_,
_p_==_por_.

Varia: _ago_==_agua_, _sucuta_==_escuta_.


Observaes morphologicas

1. _Genero._ Os adjectivos no tem frmas que indiquem o genero. A
frma typica  em geral a frma masculina portugueza; mas ha excepo,
como _nha_==_minha_.

2. _Numero._ O emprego das frmas do plural no se pde estabelecer com
certeza dos textos que temos  nossa disposio, nem das noticias que
nos ministraram.

Os casos seguintes parecem-nos representar as tendencias do dialecto no
emprego do _s_ do plural: a) os adjectivos e pronomes empregados como
adjectivos no tomam o signal do plural (mas diz-se _quel_, _quels_); b)
com os numeraes o substantivo no toma o signal do plural (mas na carta
2.^a ha _ds companheros_); c) quando do contexto da phrase resulta a
ida da pluralidade falta o _s_ do plural. Exemplos:


_es dos foja._         estas duas folhas.
_tres preto._          tres pretos.
_mujer, mujeres._      mulher, mulheres.


Com relao ao plural diz-nos o nosso informador: A tendencia que ha
hoje para empregar regularmente as frmas do plural torna-se muito
sensivel.

3. _Pronomes._ Os pronomes demonstrativos so: _s_ (este, esse) e
_quel_ (aquelle).


_s home._             Este homem.
_s mujer._            Esta mulher.
_s homes._            Estes homens.
_s mujeres._          Estas mulheres.



_Quel rapaz._                         Aquelle rapaz.
_Quel rapariga._                      Aquella rapariga.
_Quels_ (ou _quel_) _rapaz_.          Aquelles rapazes.
_Quels_ (ou _quel_) _raparigas_.      Aquellas raparigas.


O interrogativo : _quen_, _qui_, ou _qu-nh_, quem.

Eis o quadro dos pronomes pessoaes.


Singular: _En_, _in_, _mi_      eu
          _-n_                  -me
          _Bu_ (ab)            tu
          _Di b_               de ti
          _-bo_                 -te
          __                   elle
          _-l_                  lhe
          _nh_                 lhe (vos)
          _l_, _-le_           o

Plural:   _Ns_, _nu_           ns
          _-no_                 -nos
          _Nh_, _nhs_         vs
          _nh_                 vos
          _s_                  elles
          _-ls_                 lhes


_Qun qui dan (d-n) el._        Quem m'a deu.
_Qun qui d-bo el._             Quem t'a deu.
_Qun qui d-nh el._            Quem lh'a deu.
_Qun qui d-no el._             Quem nol'a deu.
_Qun qui d nh el._            Quem vol'a deu.
_Qun qui dals (da-ls) el._      Quem lh'a deu.
_Bu t entendle._               Tu entendel-o.
_En t jural._                   Eu o juro.


_Bu_ (vs) tendo usurpado o logar de _tu_, no ha pronome da segunda
pessoa do plural; o _pronomen reverentiae_  substituido por
_nh_==senhor, _nh_==senhora. _Nh_ tomou o signal do plural: _
nh'amigos, nhs al judan faz s cuza_,  meus amigos, vs haveis de me
ajudar a fazer esta cousa.

O pronome da segunda pessoa do singular diz-se _b_ quando  precedido
de proposio: _di b_, de ti.

Nas ilhas de Barlavento ha _buc_, _bucs_, _boc_, _bocs_ em logar de
_b_, _ab_ e _nh_.

Os seguintes exemplos mostram as frmas dos possessivos ou seus
equivalentes:


_Nha caballo._               O meu cavallo.
_Nha caballos._              Os meus cavallos.
_Nha egua._                  A minha egua.
_Nha eguas._                 As minhas eguas.
_s caballo  di men._       Este cavallo  meu.
_s caballos  di men._      Estes cavallos so meus.
_s egua  di men._          Esta egua  minha.
_s eguas  di men._         Estas eguas so minhas.


_Bu cavallo._              O teu cavallo.
_Bu cavallos._             Os teus cavallos.
_Bu egua._                 A tua egua.
_Bu eguas._                As tuas eguas.
_s caballo  di b._      Este cavallo  teu.
_s egua  di b._         Esta egua  tua.



_Si caballo, ss caballo._       O seu cavallo, o cavallo d'elle.
_Caballo di nh_ ou _nh._       O seu (vosso) cavallo.
_s caballo  di nh._           Este cavallo  vosso, seu.



_Ns boi._                         O nosso boi.
_Ns bca._                        A nossa vaca.
_s boi ou s bca  di ns._      Este boi ou esta vaca  vosso, vossa.


_Si caballo, ss caballo._                   O seu cavallo (d'elles).
_s caballo  di ss, d'ls_ ou _d's._      Este cavallo  seu (d'elles).


4. _Verbo._ Esta parte da grammatica do creolo de Santo Anto apresenta
uma riqueza muito maior que em geral os outros dialectos similhantes.
No  difficil explicar este facto: o contacto persistente entre a
populao que falla o dialecto e os que fallam o portuguez puro tende
naturalmente a fazer penetrar no creolo maior numero de frmas
portuguezas. Vimos j o que se dava com as frmas do plural. Damos os
paradigmas da conjugao e faremos depois algumas observaes sobre
elles.


Ser (sr)

Indicativo

Presente


_Mi _                       Eu sou
_Bu, abo_ ou _abo bu _      Tu s
_l _                       Elle 
_Ns, nos nu _              Ns somos
_s _                       Elles so


Perfeito composto


_Eu ten sido_                Eu tenho sido
_Bu ten sido_                Tu tens sido
_l,  ten sido_             Elle tem sido
_Nos, nu, ten sido_          Ns temos sido
_s tn sido_                Elles tem sido


Imperfeito e perfeito


_Mi era_                     Eu era
_Bu etc. era_                Tu eras
_l era_                     Elle era
_Ns era_                    Ns eramos
_s era_                     Elles eram


Futuro


_En al ser_                  Eu serei
_Bu al ser_                  Tu sers
_l al ser_                  Elle ser
_Nu al ser_                  Ns seremos
_s al ser_                  Elles sero


Condicional


_En t srba_                Eu seria
_Bu t serba_                Tu serias
_ t srba_                 Elle seria
_Nu t srba_                Ns seriamos
_s tn de ser_              Elles seriam


Subjunctivo

Presente


_En ser_                     Eu seja
_Bu ser_                     Tu sejas
_ ser_                      Elle seja
_Nu ser_                     Ns sejamos
_s ser_                     Elles sejam


Imperfeito


_Mi era_                     Eu fosse
_Bu era_                     Tu fosses
_l,  era_                  Elle fosse
_Nu era_                     Ns fossemos
_s era_                     Elles fossem


Futuro composto


_In ten de ser_           Eu tiver de ser
_Bu ten de ser_           Tu tiveres de ser
_El,  ten de ser_        Elle tiver de ser
_Nos, nu ten de ser_      Ns tivermos de ser
_s ten de ser._          Elles tiverem de ser


Imperativo


_Ser_          S tu
_Nhu ser_      Sede vs



Haver

Este verbo  quasi exclusivamente empregado para a expresso do futuro
como auxiliar, portanto no presente do indicativo.

A frma _al_ provm de _ha-de_, por apocope e mudana de _d_ em _l_.

O verbo _db_  empregado como auxiliar, substituindo _al_. Na cidade
da Praia diz-se _hbe (oubi) tempo, tn habido_, mas essas frmas no se
acham ainda no creolo rachado.


Ten (ter)

No presente do indicativo _tn_ para todas as pessoas no paradigma
escripto pelo nosso informador; mas nas cartas 2.^a e 3.^a ha _tn_
como frma fundamental, servindo pois para o presente s com os pronomes
e figurando nos tempos compostos, como _ser_ no paradigma acima.

O imperfeito e o perfeito do indicativo tem _tenba_, tinha, para todas
as pessoas; o imperativo _tn_. Emprega-se o participio _tido_.


St (estar)

No presente do indicativo _sta_ ou _star_ para todas as pessoas; no
imperfeito _staba_, no perfeito _stbe_, ou no creolo rachado _staba_,
como no imperfeito. Os tempos periphrasticos conformam-se ao paradigma
de _ser_. Emprega-se o participio _stado_.


Verbos no auxiliares

O presente em regra  expresso por _t_ (-st) com o infinito, para
todas as pessoas exemplos: _en t jur_, eu juro, _b t fl_, vs
dizeis; mas occorre tambem como presente a simples frma do infinito:
_nhu sab_, vs sabeis. Algumas frmas do presente portuguez,
principalmente da terceira pessoa, occorrem, sem variao, com o
auxiliar _t_ ou isoladas, exprimindo o presente: _en t bai_, eu vou;
_l t lba_, elle leva; _en pga_, eu agarro; _en t biro_, eu volto;
_in xinto_, eu me sento.

Ha frmas do preterito como _fazeba_, fazia, _baba_, ia (sobre o
presente _bai_).

O perfeito parece ser expresso pelo infinito, como _receb_, _fug_
(elle fugiu), _xinti_, _mat_, _entend_, nas cartas acima.

O imperativo  expresso pelo infinito: _esquec_, esquece, esquecei;
_jud_, ajuda, ajudae. Occorrem algumas frmas particulares como _ben_,
vem, vinde.

Ha participios em _ado_ como _usado_, _enfadado_, em _edo_ como
_screbedo_, escripto, em _ido_ (normal?).

Os tempos periphrasticos seguem o paradigma de _ser_ (auxiliar com a
frma principal, infinito presente ou participio passado).

Algumas vezes o futuro  identico ao presente: _en t mand_, mandarei;
_b t flal_, dir-lhe-has.


Observaes lexiologicas

A etymologia dos vocabulos creolos  geralmente transparente nos
specimens que publicmos; notmos apenas particularmente os seguintes,
comquanto outros chamem tambem a atteno:

_C_, no; origem incerta.

_M_, _m_, que; provir da conjugao adversativa _mas_?

_Mantenha_ em _mantenha cho_, significando muitas recommendaes;
originou-se este emprego evidentemente da formula antiga de saudar:
_Deus te mantenha_.

_Pamde_, porque; provm da formula _por amor de_, _por mr de_, muito
usada em portuguez, significando por causa de. No dialecto de Macau
usa-se no mesmo sentido a variante phonetica _prmdi_.

_Papi_, fallar; _fl_ toma o sentido de dizer.

_S_ em _nhu s t passado_ como tem passado, e _s t dal_, lhe tem
dado, etc.,  obscuro para ns.

_Sbe_ (de _saber_) serve para exprimir que uma cousa  agradavel; _c
sbe_, que  desagradavel; _s cumida  sbe_, esta comida  agradavel,
sabe bem; _quel home tn ar sbe_, aquelle homem ter ar agradavel;
algumas vezes pde traduzir-se por _bem_. _Fede_ exprime o contrario:
_chr fde_, cheirar mal; _fazl fde_, offendel-o.

_Tioque_, at que; _oque_ (_oc_), _oqu's_, quando.


Nomes hypocoristicos ou nomes de casa


_Baca._          Loureno.
_Balanta._       Valentim.
_Banda._         Domingos.
_Barujo._        Vicente.
_Beba._          Genoveva.
_Beb._          Bernab.
_Beto._          Alberto.
_Beto._          Roberto.
_Bibina._        Balbina.
_Bina._          Etelvina.
_Bocha._         Ambrosio.
_Bomba._  }
          }      Anna.
_Bombina._}
_Caella._        Michaela.
_Caixa._         Nicolau.
_Cote._          Torquato.
_Chalino._       Marcellino.
_Chamara._       Maximiana.
_Chamaro._       Maximiano.
_Chana._         Sebastiana.
_Chana._         Luciana.
_Chanchane._     Alexandre.
_Chch._        Jos.
_Chella._        Marcella.
_Chello._        Marcello.
_Chencho._       Innocencio.
_Chicha._        Narcisa.
_Chichi._        Cecilia.
_Chica._         Francisca.
_Chico._         Francisco.
_Chim._         Cazimiro.
_China._         Filippe.
_Choga._         Chrysostomo.
_Choncha._       Sebastio.
_Chubanta._      Martha.
_Chumpa._        Paula.
_Cobra._         Francisco.
_Coco._          Simoa.
_Coima._         Paulo.
_Colaa._        Nicolaa.
_Cuna._          Joaquina.
_Dada._          Felicidade.
_Dams._         Damasio.
_Delba._         Amaro.
_Dico._          Frederico.
_Didi._          Claudina.
_Dindino._       Bernardino.
_Dique._         Henrique.
_Doca._          Theodora.
_Doco._          Theodoro.
_Doli._          Isidoro.
_Doria._         Andr.
_Dunda._         Domingos.
_Jj._          Jos.
_Faia._          Raphael.
_Fan._           Estephania.
_Fina._          Josephina.
_Fita._          Antonio.
_Fonfon._        Affonso.
_Fronha._        Luiza.
_Gena._          Eugenia.
_Gruida._        Margarida.
_Ia._            Maria.
_Lela._          Magdalena.
_Lelencha._      Florencia.
_Lelencho._      Florencio.
_Lena._          Helena.
_Lorma._         Jeronymo.
_Lota._          Izabel.
_Maja._          Luiz.
_Mana._          Germana.
_Mano._          Germano.
_Maral._         Pedro.
_Mongido._       Hermenegildo.
_Motas._         Thimotheo.
_Munda._         Raymundo.
_Nhaba._         Filippe.
_Nico._          Manuel.
_Oiro._          Miguel.
_Pelico._        Polycarpo
_Penha._         Gregorio.
_Pomba._         Ignez.
_Pot._          Hippolyto.
_Queta._         Henriqueta.
_Quinquina._     Joaquina.
_Ramal._         Antonio.
_Roda._          Andreza.
_Ronda._         Agostinho.
_Supro._         Cypriano.
_Tancha._   }
            }    Constana.
_Tantancha._}
_Tantana._       Victoriana.
_Tantano._       Victoriano.
_Tatacha._       Anastacia.
_Tatacho._       Anastacio.
_Teta._         Dorothea.
_Tts._         Matheus.
_Tilia._         Mathilde.
_Tinho._         Martinho.
_Tino._          Faustino.
_Tintim._        Valentim.
_Tintina._       Catharina.
_Tlo._          Bartholomeu.
_Touco._         Victor.
_Tuda._          Gertrudes.


s formaes hypocoristicas que tem limitadissima extenso em Portugal,
abriu-se um campo novo nos dialectos fra da Europa; algumas d'essas
frmas vieram de l para a metropole, como _Juca_, _Nhnh_, etc.

 difficil e em parte impossivel achar as relaes que existem entre
algumas d'essas frmas hypocoristicas de Santo Anto e as usuaes
correspondentes; para algumas no haver at talvez relao etymologica;
mas a difficuldade provm principalmente do pequeno numero das frmas
que conhecemos, que no nos permittem reconhecer todas as variedades dos
processos, a que devem a existencia. As frmas difficeis de reduzir ou
irreductiveis, em a nossa lista so: _Baca_, _Banda_, _Barujo_, _Bomba_
(e _Bombina_), _Caixa_, _China_, _Choga_, _Choncha_, _Chubanta_,
_Chumpa_, _Cobra_, _Coco_, _Coima_, _Delba_, _Doria_, _Dunda_, _Faia_,
_Fita_, _Fronha_, _Lota_, _Maja_, _Maral_, _Nhabo_, _Oiro_, _Pelico_,
_Pomba_, _Pot_, _Ramal_, _Roda_, _Ronda_, _Touco_ (32 frmas). As
outras frmas hypocoristicas de Santo Anto provm das usuaes
correspondentes por processos de formao em geral perfeitamente
regulares. O processo mais geral  o da simples apherese de todos os
elementos que precedem a syllaba accentuada; essa alterao raramente 
a unica que se d: quasi sempre se complica com outras. Em poucos casos
a apherese deixa de fazer desapparecer todas as syllabas que precedem a
accentuada (vid. infra _Mongido_ e _Chamaro_).


Formao por apherese

_A._ Simples apherese.


_Caela_      de      _Michaela_.
_Colaa_            _Nicolaa_.
_Fina_              _Josephina_.
_Lena_              _Helena_.
_Mano_       de      _Germano_
_Queta_             _Henriqueta_.
_Tinho_             _Martinho_.
_Tino_              _Faustino_.


Em:


_Ia_ de _Maria_


a apherese estendeu-se  consoante inicial da syllaba accentuada.


_B._ Apherese complicada com outros phenomenos phoneticos.

1) Modificaes nas vogaes finaes:


_Cate_       de      _Tor-quato_.
_Dada_              _Felici-dade_.
_Gena_              _Eu-genia_.
_Mota-s _    de      _Ti-motheo_.
_Munda _            _Raymundo_.


2) Apocope:


_Fan_        de      _Este-phania_.


3) Apocope com retraco do accento:


_Tlo_       de      _Bartholo-meu_.


4) Alterao da vogal accentuada:


_Cuna_       de      *_Quina_      de      _Joa-quina_.


5) Quda de _r_ da syllaba accentuada, com ou sem modificao das vogaes
finaes:


_Beto_       de      *_Berto_      de     _Al-berto_.
_Beto_              *_Berto_            _Ro-berto_.
_Dico_              *_Drico_            _Fre-drico_, _Frederico_.
_Guida_             *_Grida_            _Mar-grida_, _Margarida_.
_Tuda_              *_Trudes_           _Ger-trudes_.


6) Modificaes nas consoantes das syllabas conservadas:

a) _v_ em _b_.


_Beba_       de      *_Veva_       de     _Genoveva_.
_Bina_              *_Vina_             _Etel-vina_.


b) _s_, _z_ (__, _s_) em _ch_:


_Chicha_      de     *_Cisa_       de     _Nar-cisa_.
_Chello_            *_Cello_            _Mar-cello_.
_Tancha_            *_Tana_            _Cons-tana_.


c) _ci_, _si_, _ti_ em _ch_:


_Bocha_      de      *_Brosio_     de     _Am-brosio_.
_Chana_             *_Ciana_            _Lu-ciana_.
_Chencho_           *_Cencio_           _Inno-cencio_.
_Chana_             *_Tiana_            _Sebas-tiana_.


Em _Bocha_ houve quda de _r_ como em _Beto_, _Tuda_, etc., mudana de
_o_ em _a_ como em _Munda_.


d) Mudana de __ em _ch_ com alterao n'uma vogal protonica:


_Chalino_    de      *_Cellino_    de     _Mar-cellino_.



e) Mudana de __ em _ch_ e desapparecimento d'uma consoante:


_Chico_      de      *_Cisco_      de     _Francisco_.


_Facico_  a pronuncia pathologica do nome _Francisco_.

f) Alteraes diversas regulares de consoantes (complicadas n'alguns
casos com modificaes vocalicas).

Assimilao de _ld_ em _ll_ (_l_):


_Tilia_      de      *_Tilde_      de     _Ma-thilde_.


Assimilao de _ld_ em _d_:


_Mongido_  (_Mengido_)   de   *_Menegildo_   de    _Hermenegildo_.


_r_ em _l_, _n_ em _r_:


_Lorma_      de      *_Ron(y)mo_   de     _Je-ronymo_.


_r_ em _l_:


_Doli_       de      *_Doro_       de     _Isi-doro_.


_r_ em _d_:


_Dique_      de      *_Rique_      de     _Henrique_.


_n_ em _r_:


_Chamro_    de      *_Chimiano_   de     _Ma-ximiano_.


_n_ em _l_:


_Lela_       de      *_Lena_       de     _Magda-lena_.


g) Alterao consonantal irregular:


_Doca_       de      *_Dora_       de     _Theo-dora_.


h) Alterao da consoante da syllaba accentuada com apocope de syllaba:


_Chim_      de      *_Zim_       de     _Ca-zimiro_.



_C._ Apherese e reduplicao:

1) Sem apocope:


a) _Bibina_      de      *_Bina_                de      _Bal-bina_.
   _Chanchane_          *_Chane_ (_Chandre_)          _Alexandre_.
   _Dindino_            *_Dino_                       _Bernar-dino_.
   _Lelencho_           *_Lencho_ (_Rencho_)          _Flo-rencio_.
   _Tantancha_          *_Tancha_                     _Constana_.
   _Tatacho_            *_Tacho_                      _Anas-tacio_.
   _Tetea_              *_Tea_                        _Doro-thea_.
   _Tets_              *_Ts_ (_Teus_)               _Ma-theus_.

b) _Beb_               *_B_                         _Berna-b_.
   _Chch_             *_Ch_                        _Jos_.
   _Jj_               *_J_                         _Jos_.
   _Quimquim_           *_Quim_                       _Joa-quim_.
   _Tintim_             *_Tim_                        _Valen-tim_.


2) Com apocope:


_Didi_           de      *_Di_ (_Dina_)         de      _Clau-dina_.
_Fonfon_                *_Fon_ (_Fonso_)              _A-fonso_.
_Chichi_                *_Chi_ (_Chilia_)             _Ce-cilia_.


_Chichi_ pde explicar-se tambem por apocope.

3) Com syncope:


_Tantano_   de   _Tano_ (_Trano_, _Triano_, _Toriano_)     de    _Vic-toriano_.
_Tintina_       _Tina_ (_Trina_, _Tarina_)                     _Ca-tharina_.




Formao por apocope (sem apherese)


_A._ Sem retraco do accento:


_Dams_ de _Damasio_.


_B._ Com retraco do accento e em geral alterao da vogal sobre que
elle vae recar:


_Balnta_    de      _Valentim_.
_Pelco_            _Policarpo_.
_Supro_             _Cypriano_.


Algumas das frmas difficeis de explicar resultam sem duvida, em parte,
de uma complicao de processos; _Pot_, por exemplo, provm, de
_Hypolito_ por apherese de _Hy_, syncope de _l_ com contraco de vogaes
e protraco do accento, mas esta frma permanece isolada. A derivao
pde tambem, como n'outras linguas, ter representado algum papel
(_Lota_==_Izabelota_).

Os processos de formao que acabmos de expor no tem nada de
especial: encontram-se com simples variantes n'um grande numero de
linguas antigas e modernas, falladas a distancias consideraveis,
pertencendo a grupos radicalmente distinctos.

Mr. Robert Mowat consagrou s frmas hypocoristicas um estudo muito
interessante, _De la dformation dans les noms propres_, publicado
primeiramente em _Mmoires de la socit de linguistique de Paris_, e
depois na brochura _Noms propres anciens et modernes_ (Paris, 8.^o,
1869), p. 41-59. Um grande numero de frmas hypocoristicas germanicas
acha-se estudada na obra especial de Franz Stark, _Die Kosenamen der
Germanen_ (Wien, 1868, 8.^o), em August Fick, _Die Gttinger
Familiennamen_ (Programma do _Gymnasium and Realschule erster Ordnung zu
Gttingen_. Gttingen, 1875, 4.^o), em Ludwig Steub, _Die Oberdeutschen
Familienamen_ (Mnchen, 1870, 8.^o peq.) Nos _Studien zur romanischen
Wortschpfung_ von Carolina Michalis ha uma colleco interessante de
frmas hypocoristicas romanicas (p. 70 ss). So essas as obras que temos
 mo sobre o assumpto, mas ha outras que d'elle se occupam, como a de
August Fick, _Griechische Eigennamen_. Vamos extrahir d'essas obras
alguns exemplos que provam a existencia de leis geraes nas formaes
hypocoristicas.

Na Biblia _Aram_ (Gen. 22, 21) e _Ram_ (Job. 32, 2) designam o mesmo
personagem; o mesmo se d com _Jaziel_ (Chr. I, 15, 20) e _Aziel_ (Chr.
I, 15, 18). Mowat, que cita esses exemplos, approxima _Lazaro_
(Evangelho de S. Joo e de S. Lucas) de _Eleazaro_ (Livro dos Machabeos)
e adduz o copta _Chael_ (cp. _Caella_ por _Michaela_ no creolo de Santo
Anto), o phenicio _Karthalon_ por _Melkarthalon_, _Stembal_ por
_Manastambal_ (segundo Gesenius).

No grego o processo da apherese  raro; exemplo:


[Greek: Kletos]      por      [Greek: Anakletos]


A apherese com derivao observa-se em:


[Greek: Stasoyla]      de      [Greek: 'Ana-stasie],     suf. [Greek: oyla]
[Greek: Stathakis]            [Greek: Ey-stathyos],     suf. [Greek: ake].


Na mencionada lingua ao contrario o processo da apocope  frequente,
sendo as terminaes supprimidas substituidas constantemente por a final
[Greek: as]; exemplos:


[Greek: 'Aleksas]      de     [Greek: 'Aleksandros]
[Greek: 'Artemas]            [Greek: Artemidoros]
[Greek: Epafras]             [Greek: Epafrodeitos]
[Greek: Zinas]               [Greek: Zinosoros]
[Greek: Kleopas]             [Greek: Kleopatros]
[Greek: Kleofas]             [Greek: Kleofantos]
[Greek: Loykas]              [Greek: Loykanos]
[Greek: 'Antipas]      de     [Greek: Antipatros]
[Greek: Minas]               [Greek: Minodoros]
[Greek: Nikandas]            [Greek: Nikandridas]
[Greek: Olympas]             [Greek: Olympiodoros]
[Greek: Olympas]             [Greek: Olympiodoros]
                             {[Greek: Parmenidis]
[Greek: Parmenas]           { ou
                             {[Greek: Parmeniskos]
[Greek: Silas]               [Greek: Siloyanos].


O inglez, com a sua tendencia para accentuar a syllaba inicial, emprega
de preferencia a apocope nas formaes hypocoristicas; essa apocope 
complicada com outros factos phoneticos, de que mencionaremos alguns.


1. Apocope simples:


_Chris_      de      _Chrstian_   de     _Christinus_.
_Clem_              _Clemnt_           _Clemntius_.
_Dan_               _Dniel_            _Danil_.
_Tom_               _Thmas_            _Thoms_ ([Greek: Thmas]).
_Greg_              _Grgory_           _Gregrius_.


2. Apocope e adjunco de um _s_:

a) Sem assimilao de consoantes:


_Cutts_     de     _Cuth-bert_.
_Edes_            _Ed-ward_.


b) Com assimilao de consoantes:


_Watts_    de    _Walter_,    _Gibbs_    de    _Gilbert_.


Comp. creolo _Motas_ de _Timotheo_.

3. Apocope com mudana de _r_ em _d_:


_Dick_    de    _Richard_,    _Dobbs_    de    _Robert_.


Comp. creolo _Dique_ de _Henrique_.

Nos seguintes nomes germanicos medievaes desappareceu ou a primeira ou a
segunda parte:


_Faro_      por      _Burgundofaro_.
_Giso_              _Wartgis_.
_Offa_              _Ceolwulf_.
_Prandus_           _Rotprandus_.
_Uffo_              _Liudulfus_.

_Bruna_     por      _Brunihilds_.
_Euva_              _Evarix_.
_Hrode_             _Hruodolf_.
_Sunna_             _Suanilda_.
_Tado_              _Tadelbertus_.


A suppresso de uma parte do nome foi seguida ou acompanhada, como se
v, de outras modificaes, comparaveis em parte s que observmos nas
frmas hypocoristicas do creolo de Cabo Verde.

O processo de addio de suffixos diminutivos s frmas mutiladas tem
grande extenso nas linguas germanicas. Exemplos:



_Godi-ko_    de      *_Gode_       por    _Gode-fredus_.
_Ghise-ke_          *_Gise_             _Gise-lbertus_.
_Ghere-ke_          *_Ghere_            _Gere-hardus_.
_Albi-so_           *_Albe_             _Albe-ricus_.
_Gisle-zo_          *_Gisel_            _Gisel-bertus_.
_Berti-nus_         *_Bert_             _Bert-randus_.
_Feli-nus_          *_Fel_              _Fel-mirus_.



Escolhemos agora alguns exemplos da lista das frmas hypocoristicas
francezas dadas por Mowat:


_Bastien_      de     _Sebastien_.
_Billon_             _Barbillon_.
_Briel_              _Gabriel_.
_Brois_              _Ambrois_, _Ambroise_.
_Colas_              _Nicolas_.
_Cot_                _Jacot_.
_Delle_              _Adle_.
_Fan_                _Stephan_.
_Fonce_, _Fons_      _Alphonse_.
_Gelle_              _Angle_.
_Gory_               _Grgory_.
_Hippeau_            _Philippeau_.

_Guste_        de     _Auguste_.
_Livet_              _Olivet_.
_Mancet_             _Clmencet_.
_Mas_                _Thomas_.
_Maury_              _Amaury_.
_Nardon_             _Bernardon_.
_Pin_                _Chopin_.
_Pold_               _Lopold_.
_Randal_             _Durandal_.
_Sandre_             _Alexandre_.
_Thzard_            _Balthazar_.
_Vestris_            _Silvestre_.


Estes exemplos bastam para mostrar que as frmas hypocoristicas creolas
so o resultado da aco de leis geraes.


2. Creolo de S. Thom

Conhecemos apenas o seguinte specimen que devemos  memoria de um amigo;
so versos de um portuguez que habita a ilha:


S Ma Plant,      Senhora Maria da Apresentao,
S Ma jabo,        Senhora Maria diabo,
Floli blavo,       Flor brava,
Bujung.           Bujung (nome indigena)
Neni d'lo,        Annel d'oiro
Cun mimoia         C'om argolas (memoria);
S za estoia,      Isto  historia,
S zet.           Senhora rejeitar,
Leno seda         Leno de seda
C'uma saia,        C'uma saia
M lagaia,         ?
S zet            Senhora rejeitar.
S Ma Plant.      Senhora Maria da Apresentao.


3. Creolo da Ilha de Sant'Iago (archipelago de Cabo Verde)

Ao nosso amigo, o sr. Luciano Cordeiro, secretario da sociedade de
geographia, devemos a communicao da seguinte carta, dictada por uma
negra de Sant'Iago, que se exprime no creolo d'aquella ilha:


_Nho Dtore._
Senhor doutor.


_Mi ten sdadi cheu di nho Dtore, a m di nha Dna L._
Eu tenho saudades muitas do sr. doutor e mais da sr.^a Dona


_Mi manda mantenha, cheu, cheu, cheu._
Eu mando recommendaes, muitas, muitas, muitas.


_Mi a m Seyton nu est desamparados cheios di sdadi_
Eu e mais o Seyton ns estamos desamparados cheios de saudades


_di nha Dotore e di nha L...._
do sr. doutor e da sr.^a


_Oh! nhor Deus!_
Oh! senhor Deus!


_Nha Sinhra manda mantenha cheu tamb A. cu J._
A minha senhora manda recommendaes muitas tambem A. e J.


_Est magro traqui pisco j sae fora._
Esto magros at que (at o ponto) pescoo j sae fra.


(Isto : est demasiadamente magro).


_Agora qui j mi sab cusa qui  falta di nho Dotore. Deos_
Agora que j eu sei cousa que  a falta do sr. doutor. Deus


_al judan qui in torna, olh nho._
ha de permittir-me que eu torne a ver sr.


_Mi est na casa di nha Sinhra, mas en st cu muito_
Eu estou na casa de minha senhora, mas eu estou com muitas,


_muito sdadi di nhos tudo ds._
muitas saudades dos srs. ambos dois.


_Mi  quel creada di nhs qui t chomado Maria._
Eu sou a creada dos srs. que se chama Maria.


Este dialecto offerece naturalmente intimas similhanas com o de Santo
Anto, mas revela uma maior approximao ao portuguez puro, que em parte
pde ser puramente individual, poisque a negra que dictou a carta tem
vivido muito com pessoas instruidas originarias da metropole.

O dialecto possue um presente formado com _t: en t b_, eu vou, como
em Santo Anto. A negao  tambem _c_, no; _nh'armun_==meu irmo,
como em Santo Anto; _al_==_hade_, _ajudan_==_ajudar-me_, e outras
particularidades coincidem ainda nos dois dialectos, e provavelmente em
todos os do archipelago de Cabo Verde.

Observam-nos que _nhor_ e _nhara_ por _senhor_, _senhora_ so mais
respeitosos que _nho_ e _nha_ e se empregam dirigindo-se a pessoas de
idade. _Nhanha_  a senhora da casa, me de familia; _nhanhinha_,
menina; _nhonhosinho_, menino.


4. Creolo da Guin portugueza

Tudo quanto podemos apurar sobre o creolo portuguez da Africa
(continente e ilhas) se reduz ao que precede e  seguinte noticia.


     _De la langue, crole de la Guine portugaise. (Notes sur la Guine
     portugaise ou Sngambie mridionale_, par M. Bertrand-Bocand).
     _Bulletin de la Socit de Gographie_ de Paris, 3^e srie, t. XII.
     73-77 (1849 juillet et aot):


     On conoit que des hommes acoutums  se servir pour manifester
     leur pense, d'un idiome aussi simple, ne purent facilement lever
     leur intelligence au gnie d'une langue europenne. Quand ils
     furent en contact avec les Portugais et forcs de s'entendre avec
     eux, en parlant une mme langue, il a fallu que l'expression varie
     des ides acquises pendant tant de sicles de civilisation se
     dpouillt de sa perfection, pour s'adapter aux ides naissantes et
     aux formes barbares du langage des nations  demi sauvages. Le mot
     adopt dut conserver toujours le mme son; et perdre ces dsinences
     varies qui servent  distinguer les nombres, les genres, les
     pronoms, les temps ou les modes; il fut soumis seulement aux
     transformations absolument indispensables au discours, pour qu'il
     ne devnt pas uniquement des sons insignifiants.

     Il se fit un retranchement graduel de toutes ces modifications qui
     servent  exprimer les diverses nuances de la pense, et quand il
     ne fut plus possible de rien retrancher pour conserver le discours
     encore intelligible, l'idiome fut fixe dans sa grammaire
     particulire, devenue aussi simple que peuvent le permettre les
     rgles de la grammaire gnrale de toute langue. Il exista alors ce
     que l'on appelle la langue _crole_ portugaise.

     Pour se former, elle a d d'abord se soumettre  la prononciation
     habituelle des peuples d'Afrique. Ceux-ci ne peuvent, comme je l'ai
     dj dit, prononcer les deux sons reprsents par _je_ et _che_ qui
     sont devenus _ie_ et _kie_.

     Les noms n'eurent plus de terminaison pour distinguer les
     _nombres_; on doit dsigner la quantit de l'objet, ou dire s'il y
     en a peu, ou beaucoup. Le _genre_, en parlant des animaux
     seulement, se fait connatre en ajoutant au nom les mots _homme_ ou
     _femme_; on dit donc par exemple: un _boeuf homme_, un _boeuf
     femme_.

     Il fallut adopter des pronoms. Il y a des pronoms personnels pour
     les diffrentes personnes et le nombre de ces personnes.

     Le radical des verbes se termine toujours par une voyelle: on en a
     retrauch l'_r_; et ce radical peut tre employ comme substantif,
     ou comme verbe.

     Les pronoms ajouts au verbe dsignent seuls les personnes; il n'y
     a pas de dsinences diffrentes pour les dterminer.

     Quand aux temps _prsents_, _passs_ et _futurs_, il fallait
     ncessairement un moyen de les distinguer.

     Le _prsent_ se fait connatre de deux manires, ou bien en
     ajoutant simplement l'un des pronoms au radical, ou bien, au moyen
     du verbe _tre_ suivi du mot _na_, qui signifie _dans_ et au
     radical: ainsi pour dire _j'cris_, on emploie cette tournure _moi
     cris_, ou _mois est dans cri_, qui quivaut  _je suis  crire_;
     le pass se dsigne avec la particule _ia_, (_dj_), mis avant ou
     aprs le radical; _ta_, plac devant marque un temps _futur_; _va_,
     aprs, forme l'imparfait; enfin _ta_ prcdant et _va_ suivant le
     radical indiquent le mode conditionnel.

     J'ai connu au poste franais de Syou un de ces Papels-manjaga que
     l'on appelle portugais, qui tait devenu sergent de poste; il
     n'avait pu apprendre le franais; mais il avait adapt  notre
     langue le mcanisme de la langue crole portugaise, et se serait
     parfaitement fait entendre de quelqu'un qui en aurait eu la clef;
     ses commandants avaient beaucoup de peine  le comprendre. Ainsi il
     disait _moi faire_ ou _mois est na faire_, pour dire je fais; _moi
     ia faire_, j'ai fait; _moi faire va_, je faisais; _moi ta faire_,
     je ferai; _moi ta faire va_, je ferais ou j'aurais fait.

     Le crole portugais n'est donc qu'une altration de la langue
     portugaise; il est compos de beaucoup de mots de cette langue dont
     quelques-uns sont hors d'usage aujourd'hui, de mots espagnols, et
     d'autres emprunts aux langues des peuples qui entourent ses
     diffrentes factoreries.

     Ce crole varie dans chaque lieu: il a des mots, des expressions,
     une accentuation et mme quelquefois une ordre grammatical plus ou
     moins diffrents, suivant la langue qui a domin pour faire subir
     ses modifications  la langue portugaise, qui est toujours partout
     le fondement du crole.

     Dans la Guine il ressemble  celui des les du cap Vert; mais
     dans celle-ci on peut dire qu'on remarque autant de dialectes qu'il
     y a d'les, et dans celle de San-Thiago seule, les croles de la
     Villa da Praya, du centre de l'le et de Terrafal, et de San-Miguel
     offrent des changements notables: plus on s'approche de la Villa da
     Praya, plus le crole ressemble au portugais. Dans la Guine, le
     crole de Bissao sera ml davantage d'expressions _papels_, celui
     de Ziguichor, de _bagnoun_ ou de _floup_, celui de Farim et de Gba
     de _mandingue_.

     Cet idiome se modifie encore suivant les personnes qui le parlent:
     la position sociale, l'ducation, les habitudes, influent d'une
     manire aussi remarquable pour l'expression crole que pour les
     langues les plus parfaites. Il est facile  la personne la moins
     exerce en entendant le crole, de deriver le rang ou l'ducation
     de celui qui le parle. On entendra mme des personnes, quoique sans
     instruction, s'exprimer dans cet idiome avec une facilit et une
     grce que l'on ne pourra s'empcher d'admirer; ils savent
     parfaitement en tirer parti, quoiqu'il paraisse si ingrat, pour
     composer des rcits intressants, et improviser des chansons dans
     lesquels la vrit des images et les circonlutions supplent aux
     expressions qui manquent dans le langage, et dpeignent souvent
     lgamment les ides qu'ils veut suggrer.

     Des personnes instruites qui tiendront une conversation en crole,
     se garderont difficilement de mler dans leurs discours des
     expressions, des tournures empruntes  la langue portugaise, et
     principalement s'ils veulent exprimer quelque ide abstracte qui
     n'a point de mots en crole.

     D'un autre ct, il est presque impossible  un Portugais habitu
     long temps  ne parler que le crole, de se soustraire  une
     funeste habitude; des mots, des expressions, des phrases croles se
     rencontreront dans sa conversation, dans ces crits. Et s'il n'est
     pas soutenu par une connaissance profonde de sa langue, il la
     confondra bientt avec le crole qu'il ne pouvait d'abord entendre,
     il finira mme quelquefois par parler un langage qui ne sera ni
     portugais, ni crole, car il n'en aura que le mcanisme.


5. O portuguez no Brazil

O Brazil com as suas 873:000 milhas quadradas, povoadas,  verdade por
emquanto apenas por uns 10 milhes de habitantes, offerece um campo
vasto  alterao do portuguez,  qual se oppe porm a extenso
crescente da litteratura, e especialmente do jornalismo. Como o dominio
litterario da velha metropole europa no cessou com o dominio politico,
a linguagem litteraria do grande imperio da America meridional no se
afasta seno n'algumas peculiaridades de importancia secundaria do
portuguez da Europa. A linguagem fallada distingue-se, j na bca dos
mais instruidos, por essa entoao geral, por essa tendencia determinada
para tornar abertas todas as vogaes atonas, por esse amor do iotacismo,
que nos fazem reconhecer ao fim da primeira phrase pronunciada por um
brazileiro ou pessoa que se adaptou  pronuncia brazileira a sua
proveniencia. Na linguagem popular, especialmente das provincias, na
linguagem dos _matutos_, notam-se modificaes phoneticas mais
consideraveis, a mais geral das quaes  a suppresso do _r_ final, que
permitte rimas como a que nos apresenta a seguinte quadra popular:


Mariquinhas morreu hoje,
Hoje mesmo s'ntirou:
Sobre a sua sipultura
Nasceu um p de fir (flor).


O vocabulario brazileiro apresenta naturalmente muitos termos compostos
ou derivados de termos portuguezes, mas desconhecidos na nossa lingua da
Europa, e um numero asss consideravel de termos provenientes dos
dialectos indigenas, o _tupi_ e o _guarani_, e ainda de outras linguas
americanas; as linguas africanas ministram tambem alguns termos.

Uma parte das palavras peculiares do portuguez do Brazil foram j
reunidas em um _Vocabulario brazileiro_, por Braz da Costa Rubim (Rio de
Janeiro, 1853. 8.^o).

Damos em seguida uma serie de versos populares do Brazil. As cantigas
n.^{os} 1 e 4 a 12 foram-nos communicadas por um amigo; 2 e 3 acham-se
na _Noticia da provincia de Mattogrosso_, por Joaquim Moutinho, p. 19;
n.^{os} 13 a 20 acham-se na comedia _O matuto na crte_ por Antonio
Augusto de Araujo Correo. Rio de Janeiro, 1863.


1. Cantiga de pretos


Qui  queli santo
Qui! vai no and?
 San Binidito
 nosso sinh.
  Chi, cha.


2. Cantiga dos cururueiros de Matto-grosso


Em cima d'aquelle morro
    Si dona
Tem um p de jatob.
No ha nada mais pi
    Ai, si dona,
Do que um home se cas.


3. Desafio dos cururueiros


HOMEM.     Eu passei o Parnahyba,    MULHER.      Dizem que a muy  fara
           Navegando numa bara,                  To fara como pap,
           Os peccados vem da saia,               Mas quem vendeu Jesus Christo.
           Mas no pode vir da cara.             Foi home, no foi muy.


                      4.                                     7.


           Quando mozo vai ni rua,                Zi eu vi, [~u]a barta
           Camiza cheia di renda.                 No capte di vv,
           Quitanda sei a qui reva:               Quando eu fui pr peglla
           Por fa que acha venda.               Bteu zas e v.


                      5.                                     8.


           Zi criorinha dim Ba'a.                Minha Av quando  di noite
           Za no come bacai'ao;                  Custumava-se a banh,
           Come s vtf                        Quando entra na gamra
           Cucu, farinha di po.                  Comea rogo a chor...!


                      6.                                     9.


           Zi criorinha dim Ba'a                 Zi um gustinho lhe quero d
           Quando vai lv  m,                  D minha bunda qubrda
           Deixram as gua turva,                Qubra a bunda, mexe bunda
           Sendo ellas um crist.                 Qubra a bunda de Sinh.


                              Qubra a bunda, mexe bunda
                              Qubra a bunda di i-i.


                                         10.


                    O negra trs caf, ch e po torrado,
                    Para dar  sr pintor: vae pintar o meu sobrado.
                    De verde amarello e incarnado;
                    Onde eu fao o meu gingado.


                     11.                                    15.


           Minha mulatinha,                       S Man diz que no qu
           Meu muracuj                           Que o rato caia no m,
           A mar  boa,                          As alegria dos Cabanos
           Vamous embarc                          mat os ppa m.
            beira do rio,                            Ol! Ol!
            borda do m:
           Eu sou artilheiro
           Que sei atir.                                   16.
           Peixinho do rio,
           Camaro do m:
           Minha mulatinha                        Esta vai por despedida
           Diz-me o teu nome.                     Por dentro d'esta liminha.
           --Eu mi chamo boto                    Ora viva Sinh Dona
           Do calo do home.                     Sinh Insolencia Zephina.

                                                   Marca o passo, moa, barabos!
                     12.                           Patury no se come sem limo,
                                                   As mulata me chamo cidado.

           --Chiu,  rapariga!
           --Que pede,  sinh!                             17.
           --Chiu quer vir cumigo?
           --Sen surda, sinh,
           --Chia, eu do dinheiro,               Minha caboca bnita
           --Percebo, sinh.                      Sapateia no tijolo,
           --Ento, ven ja cumigo.                Que a barra do teu vestido
           --J, j, vou, sinh.                   prata e parece ouro.


                     13.                                    18.


           --Minha gente no inore                Ai a viola est com fme
           Este meu cantar baixo!                E a prima est c'uma d,
           Estou com o peito cerrado.             Minha gente venho v
           D'um marvado catarro.                 Que bahiano gemed.

           --Senh mestre cantad,
           Ai que me mandou cant,                          19.
           Quero que me d por conta
           Ai os peixe que tem no m.
                                                  Diga l, Senh Dout,
           Ai os peixe que tem no m              Que aprendeu a lussophia,
           Carrego no meu chapo,                 Qual  a ave que ava
           Ai quero que me d por conta.          E que d leite quando cria?
           Ai as estrellas que tem no co.

           --Voc me mandou cant                           20.
           Ai pensando que eu no sabia,
           Eu no sou cumo a cigarra
           Que no cant leva o dia.               Por fav, Senh dout,
                                                  Me adecifre esta conta
                                                  Vinte e cinco guardanapos
                     14.                          Com dois gintem em cada ponta?

                                                  Sim senh, eu advinho
           Ai! s mestre cardereiro               Sem fart nem um d ris,
           Metta a mo na mladura,               Doze ptacas e meia
           Que a canna do Lavrad                 Vem a ser quatro mim ris.
           S que d  rapadura.


Diversas particularidades caracteristicas dos dialectos creolos
repetem-se no Brazil; tal  a tendencia para a suppresso das frmas do
plural, manifestada aqui em que, quando se seguem artigo e substantivo,
adjectivo e substantivo, etc., que deviam concordar, s um toma o signal
do plural. Assim na cantiga n.^o 20: _dois gintem_==dois vintens.
Ouve-se com frequencia _os homen_ por _os homens_; _as muy_ por _as
mulheres_; _duas boa pessoa_ por _duas boas pessoas_; _casas grande_ por
_casas grandes_, etc. Mencionaremos ainda o habito de dar frmas
diminutivas aos pronomes: _ellasinha_==ella (referindo-se a uma menina);
_umasinha_==uma (referindo-se a uma creana, a um animal, a uma cousa
pequena). _Tens um co? Tenho umzinho_ (isto  um co pequeno).


6. Dialecto portuguez de Ceylo ou indo-portuguez


A primeira noticia que tivemos d'este dialecto achmol-a na obra de A.
A. Teixeira de Vasconcellos, _Les contemporains portugais, espagnols et
brsiliens_, t. I. _Le Portugal et la Maison de Bragance._ Paris, 1859,
8.^o, pag. 115-116, em que se acha um curtissimo extracto da parabola do
semeador em indo-portuguez. A obra de lord Stanley _The three voyages of
Vasco da Gama_ ministrava-nos depois um excerpto mais extenso (Genesis,
cap. III). Depois, como j dissemos, reunimos asss abundantes materiaes
para o estudo do dialecto. Hoje limitmo-nos  parte historica e
bibliographica, e no nosso ultimo capitulo indicaremos os principaes
pontos de contacto entre o indo-portuguez e os dialectos similhantes.

Em 1503 Loureno d'Almeida submetteu um dos reis mais poderosos da ilha
de Ceylo, Boenago Pandar. Por esse tempo foi fundada a fortaleza de
Colombo e deu-se o commando da ilha a um capito portuguez[3]. O
terceiro viso-rei da India Lopo Soares fundou ali um estabelecimento
commercial em 1517, que porm decau. S pela morte de D. Joo
Dharmapala, que legou os seus dominios ao rei de Portugal, ento Filippe
I (1581),  que os portuguezes adquiriram titulo  soberania da ilha,
com excepo de Jaffna, de que reconheciam ainda o rei nominal, e de
Kandy, em cujo throno elles queriam assentar a rainha Catharina. Apesar
dos portuguezes desejarem impor suas leis e costumes, ficaram de p as
antigas leis e privilegios da ilha.

N'esse periodo e no seguinte as guarnies dos fortes portuguezes
regulavam por 20:000 homens, dos quaes apenas menos de 1:000 eram
europeus. Colombo desenvolveu-se ento muito: edificaram-se conventos,
igrejas, hospitaes, e quando cau em 1656 nas mos dos hollandezes
residiam l mais de 900 familias nobres, alem de 1:500 familias de
empregados da justia, commerciantes e negociantes. Em 1617 os
portuguezes assenhorearam-se  mo armada de Jaffna. A alliana dos
hollandezes com o rei de Kandy foi o ponto de partida para o seu dominio
na ilha. Em 1658 tornaram-se senhores de todo o littoral e terras baixas
e expelliram os portuguezes, tratando de destruir todos os vestigios da
nossa influencia. As igrejas catholicas foram substituidas por igrejas
protestantes; a lingua portugueza, que durante o nosso to curto dominio
se implantra na ilha sob uma frma dialectal, ao lado das linguas
indigenas, o singalez e o tamul, foi perseguida. Rapava-se a cabea de
todos os escravos que fallavam portuguez; multavam-se por negligencia os
seus senhores: os hollandezes esperavam assim, como diziam n'uma
proclamao destruir a lingua dos portuguezes para que o nome dos
nossos inimigos perea e o nosso proprio florea em seu logar. (Emerson
II, 70.)

O dominio da Hollanda em Ceylo foi quasi igual em durao ao de
Portugal, cerca de um seculo e quarenta annos, mas a politica dos dois
paizes deixou uma muito differente impresso do caracter e instituies
do povo em cujo seio elles viveram. (Emerson II, pag. 70.)

Ha uma palavra portugueza que os hollandezes no perseguiram, antes
aproveitaram como fonte de receita. O titulo de _dom_ era muito estimado
pelos indigenas de Ceylo: os portuguezes permittiam o seu uso pela
quantia de alguns centos de dollars. Escrevia-se o nome do comprador
n'uma placa de prata com o desejado _dom_  frente; o comprador
ajoelhava ante o governador ou pessoa por elle regularmente auctorisada;
collocava-lhe a placa na cabea e a auctoridade dizia: Levanta-te, dom
Fulano. Os hollandezes continuaram a vender o _dom_ rendoso, reduzindo o
preo, que chegou por fim a dez dollars, tornando-se assim accessivel s
bolsas modestas. Hoje ainda a ilha est cheia de dons. O hollandez foi
esquecido totalmente, at pelos descendentes dos que o fallavam; a
represso odienta no poude ao contrario destruir o portuguez.

Senhora da ilha desde 1796, a Inglaterra adoptou uma politica diversa da
dos seus predecessores: os inglezes estudaram o indo-portuguez, como
elles chamam ao dialecto portuguez de Ceylo; deram-lhe uma pequena
litteratura, de que damos mais abaixo noticia, e serviram-se d'elle como
meio de propaganda politica e religiosa.

Muito mais facil de estudar que as linguas indigenas, o tamul que, 
fallado na costa norte, e o singalez, fallado ao centro e na costa sul,
comprehendido por muitas familias principaes das cidades, que ainda se
ensoberbecem com o seu _dom_, os seus nomes portuguezes, precedendo os
appellidos indigenas, o indo-portuguez era um instrumento precioso que
os inglezes com o seu genio administrativo no podiam deixar de
aproveitar.

As informaes que reunimos sobre a extenso e importancia actual do
indo-portuguez no so sufficientes para formar sobre este assumpto um
juizo inteiramente seguro. Um missionario que esteve na ilha escrevia,
em data de 13 de novembro de 1875, que o indo-portuguez  quasi
exclusivamente a lingua dos descendentes dos portuguezes e hollandezes
que se estabeleceram na ilha; que a lingua no  considerada pelos
missionarios como importante meio de instruco, tanto quanto os que a
usam fallam outra lingua; que os missionarios Wesleyanos tem um servio
publico em portuguez em Colombo e em duas ou tres cidades; que o
dialecto est em extrema decadencia, e que com o curso de outra gerao
se extinguir totalmente. O missionario que deu estas noticias no
estava, porm, bem informado, porque diz que o indo-portuguez no tem
grammatica nem diccionario, o que ns sabemos no ser exacto. Um outro
missionario, que residiu tambem em Ceylo, descreve com data de 20 de
maro de 1877, que durante o exercicio das suas funces de missionario
em Ceylo no encontrou uma s pessoa com quem o portuguez podesse ser
empregado como meio de conversao; que nos districtos do norte e do
oriente da ilha o portuguez est quasi inteiramente extincto; que a
misso tinha deixado de o empregar para o servio publico havia alguns
annos, ao norte da ilha; que ao sul estava em rapida decadencia.

Alguns testemunhos, em verdade anteriores aos d'esses missionarios,
cujas informaes devemos ao nosso bom amigo rev. R. H. Moreton,
attribuem ao dialecto maior importancia e extenso; a bibliographia que
damos mais abaixo depe tambem n'este sentido.

Na _Cruz de Christo_ l-se: O auctor te da sua guardismento per o
publico, per o modo ne qual sua _Versos sagrada_ tinha recebido; dos
cento e cincoenta livrinhos de aquel tinha impressado e vendido per o
povo quem te sabe portuguez; esti lingoa mais que assi corrupto, tem
papiado extensivomente nesti Ilha, e tem ainde doci, mellifluozo, como
seu parente Frances e Italiano.

O indo-portuguez  mais ou menos entendido por todas as classes na ilha
de Ceylo e por toda a costa da India; a sua extrema simplicidade de
construco e facilidade de acquisio tendo-o posto extensamente em uso
como um meio de trafico. Mas o povo de que  vernaculo e que, em Ceylo
s, sobe a mais de 50:000 individuos,  constituido por descendentes dos
hollandezes e portuguezes, os primeiros dominadores (europeus) da
India. _The Bible of Every Land_, pag. 275-276.

Damos em seguimento a nota bibliographica das publicaes em dialecto
portuguez de Ceylo ou relativas a elle, de que at hoje tivemos
conhecimento; as que no possuimos e nem sequer vimos vo indicadas com
o signal [++].


     _Bautismo: sua subjectos e modo de sua administrao. Parte
     premeiro: Tocando o bautismo de nocentes._ Colombo: impressado ne
     officia de Misso Wesleyano. 1869, 44 pp, in-12.

     _Bom novas._ N.^o 15. March. 1869. p. 57-60. Colombo: printed at
     the Wesleyan Mission Press.  um numero de um pequeno periodico
     religioso.

     _Cantigas por adorao publico em lingoa portugueza de Ceylon._ De
     Robert Newstead, missionario wesleyano. Terceiro vez impressado.
     Colombo impressado ne officina Wesleyana. 1823. 8.^o 22-4 pp. (de
     index).

     [++] _Compendium (A) of the Ceylon-portuguese language_ by W. B.
     Fox. Colombo. 1859.

     _Cruz (A) de Christo._ Colombo: Impressado ne officio de A. H.
     Peterson. 1859. 23 pp. A _Intrudio_ acha-se subscripta por J. A.
     C. No nosso exemplar acha-se o nome manuscripto por inteiro: John
     Arnold Cristophelaz.

     [++] _Dictionary (A) in the Singhalese, Portuguese and English
     languages._ Second edition, enlarged. By W. B. Fox, Wesleyan
     Missionary. (Publicado em 1820).

     _Frma (A) da orao publico e administrao dos Sacramentos,
     conforme ao uso da Igreja Inglaterra. Traduzido, por o misso, em
     lingua portuguez de Ceylon._ Pelo Robert Newstead, missionario
     Wesleyano. Em Colombo: Impressado na officina Wesleyano. 1820. 44
     pp.

     [++] _Grammatical (A) Arrangement on the method of learning the
     corrupted portuguese as spoken in India_, by Berrenger. Sec. edit.
     Colombo, 1811. Indicao do sig. Teza no artigo alludido infra.

     _Horte de paraiso. Em o nome de o Jesus crucificado._ (XIV
     oraes.) Impressado ne Officio de Baptiste Missionarios, Kandy. 32
     pp.

     _Hum caminho per inferno._ Folha avulsa, 1 p.

     _Hum catecismo per o ensino de criances ne o principi de relize, e
     hum curto catecismo de o nomis ne o escritura._ Colombo: impressado
     ne officio de Wesleyanos. 1837. 12 pp.

     _Indoportoghese._ E. Teza. 8.^o 10 pp. Estratto dal
     Periodico:--Studi Filologici, Storici e Bibliografici Il
     Propugnatore. Vol. V.  o primeiro estudo scientifico sobre este
     dialecto.

     [++] _Instructions for children._ By the late Rev. John Wesley, A.
     M. of the University of Oxford. In portuguese and english.

     (Publicado antes de 1820.)

     _Meditacos e oracos_ (sic) _sober differenti subjectos e por
     differenti casios._ J. Campbell, Printer, Hulfsdorp Press. 50 pp.
     4.^o peq.

     _Novo (O) Testamento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Christo,
     traduzido ne indo-portugueza._ Colombo, officina de Misso
     Wesleyano, 1852. 8.^o

     _Oraos, Dez Mandamentos, O sermo riba do montanha._ 16 pp.

     _Psalterio (O), ou Psalmos de David, como apontado a ler nas
     igrejas. Traduzido em lingoa portugueza de Ceylon, e publicado por
     a Sociedade Biblia de Colombo._ A Colombo: Impressado na officina
     Wesleyano. 1821. 8.^o 102 pp.

     _The singhalese Tract Society_, n.^o 6, 1856. _O Serpente de
     Cobre._ 8 pp. No fim acha-se a indicao: Preo hum challi
     de-cobri, huma ou senao oito fanam hum cento.

     _Voz de verdade._ (Pequeno periodico religioso mensal; temos alguns
     numeros desde 1 de outubro de 1870, em que comeou a publicar-se,
     at janeiro de 1873. Sem logar de impresso.) 4 pp. cada numero.

     _Vocabulary (A) in the Ceylon Portuguese, and English Languages,
     with a series of Familiar Phrases._ By John Callaway, Wesleyan
     Missionary. Colombo: Printed at the Wesleyan Mission Press. 1820.
     Price six fanams. 44 pp. in 12.^o


A maior parte das publicaes mencionadas que possuimos devemol-as 
dedicao do nosso bom amigo o rev. R. H. Moreton, que se empenhou para
com a misso Wesleyana e missionarios seus amigos para nol-as obter.

Na obra: _The Bible of Every Land, a history of the Sacred Scriptures in
every language and dialect into which translations have been made_, etc.
London, Samuel Bagster and Sons. 4.^o, p. 275-276, achmos as seguintes
noticias com relao s traduces do Antigo e Novo Testamento em
indo-portuguez.

Com o declinar dos governos portuguez e hollandez na India, os membros
d'estas naes foram deixados sem meios de instruco religiosa excepto
os que offereciam os missionarios catholicos romanos; e em consequencia,
o catholicismo romano tornou-se a frma prevalecente da sua religio. Em
1817, Mr. Newstead, missionario wesleyano, que residia em Negombo, em
Ceylo, comeou uma traduco do Novo Testamento para beneficio
espiritual d'este povo. Partes d'esta traduco foram lidas por Mr.
Newstead do pulpito, e foram tambem emprestadas livremente a pessoas
doentes, uma das quaes, diz-se, morreu com o evangelho de S. Joo
debaixo do travesseiro. O povo mostrou tanto interesse pela obra, que
uma edio impressa foi em breve resolvida, e, em 1819, a verso do
evangelho de S. Matheus foi publicada em Ceylo,  custa da Sociedade
biblica auxiliar de Colombo; e os psalmos seguiram-se, em 1821,  custa
da mesma sociedade.

Pouco depois Mr. Newstead completou a sua traduco do Novo Testamento,
e a obra foi submettida a uma miuda reviso por uma commisso nomeada
para esse fim, consistindo de tres missionarios e de seis dos mais
intelligentes indo-portuguezes. A reviso foi terminada em 1824; e Mr.
Newstead emprehendeu uma viagem a Inglaterra para sollicitar o auxilio
da Sociedade biblica ingleza e estrangeira para a publicao da obra. A
traduco foi recommendada com instancia  adopo da commisso pelo
rev. T. J. Twisleton, archidiacono de Ceylo; e, como o seu valor foi
attestado por outros juizes competentes, duas edies foram impressas em
Londres, a expensas da sociedade, em 1826, sob a superintendencia
pessoal de Mr. Newstead. A segunda edio do Novo Testamento,
consistindo de 5:000 exemplares, appareceu em Colombo em 1831; e, no
anno seguinte, uma verso dos livros do Genesis, Exodo, e parte do
Levitico foi publicada no mesmo logar, a expensas da mesma sociedade. O
Pentateucho e o Psalterio foram impressos em Colombo, em 1833, n'uma
edio de 5:000 exemplares; annuncia-se como estando em progresso a
traduco de todo o Antigo Testamento.

Uma outra edio do Novo Testamento indo-portuguez foi mais
recentemente emprehendida, e projectou-se no comeo imprimil-a em
Londres, sob a inspeco de Mr. Newstead, o traductor, e  custa da
Sociedade biblica ingleza e estrangeira. Mas Mr. Newstead, depois de
muitos annos de ausencia de Ceylo, no sentiu sufficiente confiana no
seu conhecimento da lingua para fazer imprimir o Novo Testamento; e em
consequencia d'isso resolveu-se imprimir s o evangelho de S. Matheus em
Londres, para fim provisorio, emquanto a impresso da obra inteira seria
confiada a missionarios residentes em Ceylo, com a vista de a imprimir
na imprensa da misso n'aquella ilha. O evangelho de S. Matheus foi
acabado em 1852, sob a superintendencia de Mr. Newtead. Deram-se ao
mesmo tempo instruces para a impresso em Colombo de 2:000 exemplares
do Testamento inteiro,  custa da Sociedade biblica ingleza e
estrangeira. Esta edio foi completada em 1853, sob o cuidado de uma
commisso de reviso escolhida para esse fim.

Eis um specimen do dialecto:



     O sermo riba do Montanha


     Ne Evangelho de So Matheus


     Capitulo V[4]


     E Jesus olhando o multidos (de gentes) ja foi riba de hum
     montanha, e elle quando ja santa sua disipulos ja chegar perto per
     elle.

     2 E Jesus ja abri sua boca, e ja ensina per elotros fallando.

     3 Bendito _tem_ os pobres ne espirito, porque per elotros tem o
     reyno de ceo.

     4 Bendito _tem_ elotros quem tem tristes, porque elotros lo ser
     consolados.

     5 Bendito _tem_ elotros quem tem paiente ne coraa (humildes),
     porque elotros lo herida o terra.

     6 Bendito _tem_ elotros quem te senti fome e securo por justia,
     porque elotros lo ser enchido, (per elotros lo tem baste).

     7 Bendito _tem_ o gentes misericordioso, porque elotros lo acha
     (reebe) misericordia.

     8 Bendito _tem_ os limpos ne coraa, porque elotros lo olha per
     Deus.

     9 Bendito _tem_ o gentes quem te faze paz, porque elotros lo ser
     chomado filhos filhas de Deos.

     10 Bendito _tem_ elotros quem te suffri (padee) per o causo de
     justia: porque per elotros tem o reyno de ceo.

     11 Bendito tem vosoutros quando _gentes_ te engeita per vosoutros,
     e perseguir _per vosoutros_, e te falla toquando de vosoutros,
     tudos sortes de mal, falsamente, sem reza por o causo de mi.

     12 Allegr com muito grande allegria, porque vossas paga ne ceo
     _tem_ grande, porque assi (mesmo modo) elotros ja perseguir per os
     prophetas, quem tinhe antes (mais diante) vosoutros.

     13  Vosoutros tem o sal de terra, mas si o sal ja perdi aquel so
     sabor, acquel com que lo ser salgado? aquel despois nunca val
     nada, sena per fica pinchado fora, e per fica massado baixo de pes
     de gente

     14 Vosoutros tem o lume de o mundo, hum cidade que tem riba de um
     montanho non pode ser escundido.

     15 Nem gentes nunca sand hum candecera e (despois) aquel bota
     baixo de hum medida, mas riba hum candeler, e aquel te da lumi per
     tudos (pessas) quem tem ne caza.

     16 Vossas lumi desse luzi diante de gentes, que vossas bom fazeres
     elotros pode olha, e glarifica per vossas Pai quem tem ne ceo.

     17  Na lembra que eu ja vi per destrui o lei ou o prophetas, eu
     nunca vi per destrui, mas per guarda (per faze) aquel lei.

     18 Em verdade eu te falla per vosoutros, (que) ate que ceo e terra
     lo ser passado, nehum palavra, nehum lettra de o lei nada ser
     passado, ate que tudo lo ser cabado.

     19 Videaquel, quem seja lo quebra uma de istes mais piquinino
     manedmentos e assi lo ensina por gentes, (per faze) el lo ser
     chomado o mais piquinino ne o reyno de ceo; mas, quem seja lo faze
     e lo ensina istes mandamentos, aquel mesmo pessa lo ser chomado
     grande ne o reyno de ceo.

     20 Porque eu te falla por vosoutros, doque _o justia_ de os
     escribos e (de os) phariseos, si vossa justia non ten mais grande,
     vosoutro si nem hum modo nada entra ne o reyno de ceo.

     21  Vosoutros ja ovi que tinhe fallado de elotros de tempo antigo,
     (velho tempo) vos nada mata, e quem seja te mata, lo ser ne perigo
     de o juizo.

     22 Mas Eu te falla per vosoutros, que quem seja com sua irma tem
     raibe sem rezo, lo ser ne perigo de o juizo, e quem seja per sua
     irma lo falla, Raca, (vil pessa,) lo ser ne perigo de o supremo
     counselho, e quem seja que lo falla vos dodo, lo ser ne perigo de o
     fogo de inferno.

     23 Videaquel, si vos te trize vossa sagoate per o altar, e ali te
     cahi ne sentido que vossa irma tem alun cousa contra vos.

     24 Ali guarda vossa sagoate diante o altar, e anda vos, primeiro
     com vossa irma fica bom amizade, e depois de aquel, vi, e offere
     (da) vossa sagoate.

     25 Accorda com vossa enimigo prestamente que hora vos tem ne o
     caminho com elle, ou sena ne alum tempo, o enimigo pode entrega
     per vos per julgador, e o julgador te entrega per vos per sapier, e
     vos te fica lanado ne priso.

     26 Em verdade Eu te falla per vos, que vos nem hum modo nada vi
     fora (de aquel lugar) ate que vos ja paga o trazeiro padas de
     dinheiro.

     27 Vosoutros ja ovi que tinhe fallado, de elotros de tempo antigo
     vos nada faze adulterio.

     28 Mas, per vosoutros Eu te falla Que quem seja com impuro deseijo
     te olha sobre hum mulher, ja faze adulterio com ella ne sua
     corao.

     29 E si vossa olha dreito te offende par vos (tem um cassio per
     vos per offende) ranca aquel, e pincha fora de vos, porque tem mais
     bom per vos que uma de vossas olhos te fica destruido, e no que
     vossa enteiro corpo lo ser lanado ne inferno.

     30 E si vossa ma dreito (mesmo modo) te offende per vos, corta
     aquel, e lana fora de vos, porque doque vossa inteiro corpo per
     fica lanado ne inferno, tem mais bom que uma de vossa mos te fica
     destruido.

     31 Tinhe fallado que quemseja lo reda (bote fora) sua mulher, elle
     miste da per ella hum carta de seperaa.

     32 Mas eu te falla per vosoutros que quem seja lo reda sua mulher
     sena (forde) per reza de fornicaa, ella te causo per faze
     adultero, e quem seja lo caza com aquel mulher, (tambem) te faze
     adulterio.

     33. Torna, vosoutros ja ovi que tinhe fallado de elotros de tempo
     antigo, vos ne mista da falsa juramento, mas miste paga per o
     Senhor vossa permita:

     34 Mas Eu te falla per vosoutros, que enteiromente ne miste jura
     nem pelo ceo porque aquel tem o throno de Deus.

     35 Nem pelo o terra porque aquel tem o estrado de sua pes: nem pelo
     Jerusalem porque aquel tem o cidade de o grande Rey.

     36 Nem pelo vossa cabea porque vos nonpode faze branco ou preto
     hum cabello.

     37 Mas vossas cmmunicaa desse fica sem, sem na, na, porque
     doque iste que seja tem mais, te vi de mal.

     38  Vosoutros ja ovi que tinhe fallado, hum olho por hum olho, e
     hum dente por hum dente.

     39 Mas Eu te falla per vosoutros que vosoutros ne miste dessa mal:
     mas quem seja quando buftea per vos ne fae dreito; vira per elle o
     outra tambem.

     40 E si alum homi lo ita per vos ne hum corte de justia, e tira
     vossa cabai, elle desse toma vossa mantle tambem.

     41 E quem seja lo fora par vos per anda hum leagou, anda com elle
     dous leagous.

     42 Da per elle quem te pedie com vos, e ne miste vira de elle quem
     lo toma per deuda de vos.

     43 Vosoutros ja ovi que tinhe fallado, vos miste ama per vossa
     vizinho, e abhoree per vossa enimigo.

     44 Mas Eu te falla per vosoutros. Ama por vossas enimigos, benze
     per elotros quem te maldioa per vosoutros, faze bom per elotros
     quem te abhoree por vosoutros, e roga (com Deos) por elotros, quem
     te faze mal, e te perseguir per vosoutros.

     45 Que vosoutros pode fica o filhos filhas de vossas Pai quem tem
     ne ceo, porque elle te faze o Sol por luze sobre o maldito gentes,
     e sobre o bom gentes, e te manda chuve sobre os justos, e (tambem)
     os injustos.

     46 Porque si vosoutros te ama per elotros, quem per vosoutros te
     ama, vossas meriementos que tem? O maldito gentes o mesmo te faze.

     47 E si vosoutros per vossas irmas namais te mostra bondade,
     vosoutros que te faze mais doque outros? O maldito gentes o mesmo
     te faze.

     48 Videaquel, seja vosoutros perfeito, ate assi como vossas Pai
     quem tem ne ceo, tem perfeito.




     Capitulo VI


     Toma cuidade que vosoutros nunca faze caridade, (da ismolas,)
     diante de gentes per fica olhado de elotros; ou sena vosoutros
     nunca recebe nem um paga de vossas Pai quem tem ne ceo.

     2 Videaquel, vos quando te da ismolas, ne miste son hum trombetta
     diante de vos, (per da sabe vos que te faze) assi como os
     hypocritas te faze, ne os synagogas, e ne os ruas que elotros pode
     acha honra de gentes; Em verdade, eu te falla per vosoutros, (Que)
     elotros te acha elotros su paga.

     3 Mas vos quando te da ismolas, vossa ma escarde na desse sabe,
     vossa ma dreito que te faze.

     4 Que vossas ismolas pode ser ne segrade, e vossa Pai, quem ne
     segrade te olha, sua mesmo ne publico lo paga per vos.

     5  (E tambem) vos quando te ora (te roga com Deus) ne miste fica
     mesmo per os hypocritas porque elotros te dizer per ora ne os
     synagogas, e cantos de ruas, que elotros pode ser olhado de gente.
     Em verdade eu te falla per vosoutros que elotros te reebe elotros
     su paga.

     6 Mas vos, quando vos te ora, entra ne vossa cambre, e quando vos
     ja ficha porta, ora com vossa Pai quem tem ne segrade e elle quem
     te olha ne segrade ne publico lo paga par vos.

     7 Mas vos outros quando te ora, na usa va palavras, assi como os
     gentios te faze, porque elotros te lembra que elotros lo tem ovido
     per reza de elotros su muito palavras.

     8 Videaquel vosoutros ne miste fica mesmo per elotros, porque
     vossas Pai (celestial) enteiromente te sabe vosoutros que cousas te
     mista ansque vosoutros te pedie de elle.

     9 Videaquel, ne iste modo vosoutros miste roga. Pai nossa quem tem
     ne ceo, sentificado seja tua nome.

     10 Venho o tua reyno, seja feito a tua vontade asis ne terra como
     ne ceo.

     11 O pa nossa de cada dia nos da hoje,

     12 E perdoa nos nossas dividas, assi como nos te perdoa per nossos
     dividores.

     13 E nos na desse cahi ne tentaa, mas livra nos de mal, porque
     teu tem o reyno e o poder, e o gloria, pera tudo sempre, Amen.

     14 Porque, si vosoutros te perdoa per gente elotros su offenas,
     vossas Pai celestial tambem lo perdoa per vosoutros.

     15 Mas si vosoutros per gente nunca perdoa elotros su offenas,
     vossas Pai celestial tambem nada perdoa (per vosoutros) vossas
     offenas.

     16  Torna, vosoutros quando te jingua, no fica mesmo per o
     hypocritas, com hum rosto de tristeza, porque elotros te faze feu
     elotros su rostas, que pode pare per gente que elotros te jingua.
     Em verdade eu te falla per vosoutros (que) elotros te reebe
     elotros su paga.

     17 Mas vos, quando vos te jingua, onta (com azete) vossa cabea e
     lava vossa rosta.

     18 Que per gente na pode pare que vos te jingua, mas per vossas
     Pai, quem ne segrade te olha, e vossas Pai quem ne segrade te olha,
     ne publico lo paga par vos.

     19  Vosoutros nemiste junta thesouros (riquezas) ne o terra, onde
     pouches e forea te dana, e onde ladras te entra e te furta.

     20 Mas junta per vossa mesmos, thesouros ne ceo, onde nem pouche
     nem forea nunca dana, e onde ladras nunca entra e furta.

     21 Porque vossas thsouro onde tem, ne aquel lugar tambem vossas
     coraas lo fica.

     23 O lumi de o corpo tem o olho, videaquel si vossa olho tem puro
     (sinero,) vossa inteiro corpo lo tem enchido de lumi.

     23 Mas si vossa olho tem mal, vossa inteiro corpo lo tem enchido de
     escuridade, videaquel si o lumi que tem dentro de vos tem
     escuridade que grande tem aquel escuridade!

     24  Nem hum homi nonpode servi per dous Senhors, porque elle lo
     abhoree per huma, e por outra hum lo ama, ou sena, elle lo tem
     firme per huma, e por outra hum lo disimporta, vosoutros nonpode
     servi per Deos, e tambem per Mammon (ou requezas).

     25 Videaquel Eu te falla por vosoutros na toma nem hum cuidade
     toquando de vossas vida, vosoutros que lo comer, ou vosoutros que
     lo bebe, nem toquando de vossas corpo, vosoutros com que lo tem
     vestido, doque comer, nontem o vida de valia mais grande, e
     (tambem,) o corpo do que vestidos?

     26 Olha os pastros de ar! porque aquelles nunca bruffa, nem nunca
     faze novidade, nem nunca junta ne celleiros, ainda, vossas Pai
     celestial te sustenta per aquelles, (e) doque aquelles nontem
     vosoutros muito mais bom?

     27 Com muito lembranas quem de vosoutros pode faze sua mesmo hum
     covido mais alto?

     28 E porque vosoutros te cuida toquando vestidos? considera os
     fules de o campo, (varze,) aquelles ne que modo te cresenta,
     aquelles nunca servi, nem nunca travai.

     29 E ainda, Eu te falla per vosoutros, que ate Salomo ne tudo sua
     gloria (grandeza) non tinhe vestido assi (bunito) como huma de
     istes (fules).

     30 Videaquel si Deos assi te vesti os fules de o campo, que hoje te
     fica, e amiam tem lanado ne forno (ou fogo,) Nontem sua vontade
     muito mais pera vesti per vosoutros? O vosoutros de bem pouco fe!

     31 Videaquel, non toma cuidade fallando, nos que lo comer, ou nos
     que lo bebe? ou nos com que lo tem vestido?

     32 (Porque tudo de istes cousas os Gentios te busca,) porque vossas
     Pai celestial (bemfeito) te sabe que vosoutros tem necessidade de
     istes cousas.

     33 Mas, primeiro vosoutros miste busca o reyno de Deos, e sua
     justia e (aquelhora) tudo de istes cousas per vosoutras lo ser
     dado.

     34 Videaquel na toma nem hum cuidade toquando de amiam, porque o
     amiam lo toma cuidade toquando os cousas que per aquel te compete.
     Per cada hum dia o mal tem baste, que te compete per aquel dia.




     Capitulo VII


     Nao julga, que vosoutros nunca ser julgado.

     2 Porque com que julgaa vosoutros te julga (per gente) vosoutros
     (tambem,) lo ser julgado (de Deos,) e com que medida vosoutros te
     medi, aquel mesmo per vosoutros lo ser medido torna.

     3 E porque vos te olha o mote (piquinino erro) que tem ne olho de
     vossa irmo, e nunca considera a grande faltane que tem ne vossa
     mesmo olho?

     4 Ou quely vos lo falla per vossa irma, Eu desse tira o mote fora
     de vossa olho; e Olha! hum grande faltane tem ne vossa mesmo olho?

     5 Vos hypocrita! primeiro, fora de vossa mesmo olho, pincha aquel
     grande faltane e aquelhora, mais claromente vos lo olha per tira o
     mote fora de vossa irmo su olho:

     6  Aquel que tem santo, na da per os cachors nem pincha vossas
     aljoffries diante os porcas, ou seno (istes bom cousas) aquelles
     (porcas e cachors) lo massa baixo de pe; e torna lo vira, e lo
     rompa per vosoutros.

     7 Pedie (com Deos) e aquel lo ser dado per vosoutros, busca, e
     vosoutros lo asserta, bate, (per o porta de misericordia,) e per
     vosoutros aquel lo ser aberto.

     8 Porque cada hum pessa quem te pedie (ne dreito modo,) te recebe,
     e elle quem te busca, te asserta, e per elle quem te bate o porta
     lo ser aberto.

     9 Ou, entre de vosoutros, qui homi tem, quem per sua filho lo da
     hum pedra, elle quando te pedie po?

     10 Ou, si elle te pedie hum peixe, elle lo da hum serpente.

     11 Antos, si vosoutros, tendo mal, te sabe perda per vossas filhos
     bom cousas, que tanto mais vossas Pai quem tem ne ceo lo da bom
     cousas per elotros quem te pedie de elle.

     12 Videaquel tudos cousas que seja que vosoutros te querre que
     gente per vosoutros miste faze, o mesmo (cousas,) vosoutros miste
     faze per elotros, porque iste tem (o mandemento,) de o lei, e de o
     prophetas.

     13  Entra vosoutros ne o porta estreito, porque largo tem o porta,
     e largo tem o caminho que te leva per destruio, e bastantos tem
     quem ne aquel te alcana.

     14 Videque estreito tem o porta, e estreito o caminho que te leva
     per vida, e poucos namais, aquel te asserta.

     15 Toma cuidade de falso prophetas, quem per vosoutros te vi, ne
     vestidos de ovelhas (de enganho,) mas dentro, elotrem tem bem
     maldito.

     16 Vosoutros lo conhee per elotros, de elotros su frute, gente te
     panha ouves de espinhos? ou bom fruite de mal albris?

     17 Ate assi, cada hum bom albri te produe bom fruite, mas hum mal
     albri mal fruite nenhum mal albri nonpode produe fruite bom.

     18 Hum bom albri non pode produe mal fruite, nem, hum albri
     corrupto non pode produe bom fruite.

     19 Cada hum albri, que nunca produe bom fruite tem cortado e
     pinchado ne o fogo.

     20 Videaquel de elotros su fruite, vosoutros lo conhece per
     elotros.

     21 Na cada um pessa quem par me te falla Senhor! Senhor! nada
     entra ne o reyno de ceo, mas elle (namais,) quem te faze o vontade
     de meu Pai quem tem ne ceo.

     22 Bastanto (pessas) lo falla par mi, ne aquel dia (de julgaa,)
     Senhor, Senhor, nos nunca prophecia ne tua nome? e ne tua nome ja
     lana fora diabos? e ne tua nome ja faze bastantos obras espantoso?

     23 E aquelhora, per elotros Eu lo declara, Eu nem hum tempo nunca
     conhee, per vosoutros, sahi de mi, vosoutros quem te faze
     iniquidade!

     24  Videaquel, quem seja te ovi istes meu ensinos, e aquelles te
     faze, Eu lo papia de elle assi como de hum homi sizo, quem je
     concerta sua caza riba de hum rocha (muito grande e fora pedra).

     25 E o chuve ja cahi, e os aguas, ja vi e os ventos ja abala, e ja
     bate sobre aquel caza, e aquel nunca cahi, per o causo que aquel
     tinhe fundado riba de um rocha.

     26 E cada hum pessa quem te ovi istes meu ensinos e aquelles nunca
     faze, toquanto de elle eu lo papia assi como hum homi dodie, quem
     sua caza ja concerta riba do area.

     27 E o chuve ja cahi, e os aguas ja vi, e os ventos ja abala, e ja
     bate sobre aquel caza, e aquel ja cahi e grande tinhe o ruido de
     aquel.

     28 E aquel ja vi per suste, Jesus quando ja caba istes ensinos, que
     os gentes tinhe espantado com sua doutrino.

     29 Porque Jesus ja ensina per elotros assi como huma quem tinhe com
     authoridade (poder) e no assi como os escribos.


7. O dialecto portuguez de Malaca

John Cameron, que viajou na India ha vinte e tantos annos, descrevendo
na sua obra _Our tropical possessions in Malayan India_ (London, 1865,
pag. 374[5]) os descendentes dos portuguezes estabelecidos em Malaca, os
quaes so uma raa mixta de portuguezes e indigenas, nota que durante um
periodo de cerca de dois seculos elles tem conservado a sua lingua
original e continuam a fallar uma especie de portuguez corrupto (_broken
portuguese_); que elles so grandes musicos, que so muito prolificos, e
que ao car da tarde os homens casados se assentam nas varandas de suas
casas dando para a rua, tocando geralmente no violino alguma
melancholica melodia para divertimento de suas mulheres e familias que
esto reunidas em roda d'elles.


8. Dialecto macaista

D'este s conhecemos o que nos ministram as duas cartas que
reproduzimos; a primeira foi publicada em 1865 no _Ta-Ssi-Yang-Kuo_,
jornal de Macau, e reproduzida na _Gazeta de Portugal_; a segunda
te-mol-a n'uma folha avulsa, tiragem  parte de um jornal provavelmente
o mesmo _Ta-Ssi-Yang-Kuo_. As cartas foram forjadas por quem conhecia a
lingua litteraria; um documento verdadeiramente popular falta-nos
infelizmente.

No ha n'esse dialecto distinco de generos; o _P. S._ da primeira
carta indica que a influencia do jornalismo a introduzindo as frmas,
da lingua me.

O plural  expresso pela repetio da palavra: _china china_, os chinas;
_criana criana_, crianas; _sium sium_, senhores; _amigo amigo_,
amigos.

As frmas verbaes esto reduzidas a uma, que  o infinito geralmente, ou
uma frma do presente, a qual pde ser empregada como infinito; assim
_calote de vae pescar_, tolice de ir pescar; _hora de vem_, hora de vir;
_pde tem_, pde ter. A mesma frma serve para todas as pessoas.

O _r_ do infinito foi apocopado excepto no verbo _ser_: _tir_, tirar;
_mand_, mandar; _faz_, fazer; _cor_, correr; _sub_, subir.

O presente  expresso: 1) pelo infinito: _vosso tio gost_, vosso tio
gosta; 2) por uma frma do presente: _china sam tolo_, o china  tolo;
3) por _t_ (est) com o infinito: _t faz_, fao, fazes, faz, etc.,
_t and_, ando etc., _t fall_, fallo, etc.; 4) por _t_ (est) com a
frma do presente que toma o logar do infinito: _t vai_, vou vae, etc.

O futuro  expresso por _logo_ com o infinito: _logo fic_, ficar; mas
n'alguns casos esse processo serve para exprimir o presente.

O passado  expresso: 1) pela formula fundamental: _augment_,
augmentou; 2) por _j_ com a frma fundamental: _j principi_,
principiou; mas este processo parece tambem exprimir o presente.

Conservam-se os participios passivos: _impurado_, _costumado_, etc.

Notem-se, entre outras, as seguintes frmas: _mest_, ser preciso, de
ver; _promdi_, por amor de, porque; _pastro_, passaro; _assilai_, tal.


*Carta de Sira Pancha a Nhim Miquela*


                                         Maco _3 de janero de 1865_.

     Minha querida Miqula.


     Tanto tempo eu j quer respond vosso carta, mas sempre sent
     doente, porisso tanto tard este resposta. Vs minha Miqula nadi
     fic reva c eu; vs sabe qui eu mutu quer pra vs, e se nunca
     escrev mas sinha san prmdi j t mto vla. Otro dia acun-ha
     mofina di ama abri janella, eu irgu cedo, sai fra, apanh vento,
     fic constipada. Primro toma sincap, misinha de vento, rasp
     mordicim, mas nunca pde fic bom, cada dia sint corpo ms fraco,
     perna azedo. Dtr fal sam doena d'idade, mas eu nunca sint
     assim, chom mstre Ahoi, qui tudu gente fal sam capaz, elle j
     cur. Agora sent um poco forte, mas mstre nmquro que eu faz
     mutu fora, e mand tom ninho di pastro.

     Nosso Maco, minha Miqula tem grande novidade. Governo nvo sam
     capaz e j vir tudo. Mas um pco tempo tudo lgo fic virado. Rua
     agora j nomtm pedra pedra, sam otro lai mdo, faz duro c tra.
     Faz gosto ol di bonito. Pra vanda de mar, na praia grandi, j
     bot qui tanto arvi; tudo gente cioso e intrimittido fal
     numpresta, qui sabe qui foi, mas eu nunca sint assim. Campo de Sam
     Francisco j fich, faz jardim, escada grande j nomtm, faz ali
     muro; ali riba, aquelle calvario tamm t vai i pra faz quartel
     di soldado, qui j principi, logo fic grandi. Porta di Campo e di
     Santo Antone j nomtm tamm, agora sam rua largu, tudo aquelle
     arvi fronte di Gularte sua casa j cort, china china fal cor
     sangui, mas eu sent china sam tlo. Aquelle porcaria di fonti
     perto di cano real tamm j tap, abri poo al vanda. Tudu poo
     agora tem sua cobertor bem fto, e bomba di novo invenm.

     Si minha Miqula agora pde l tudo aquelle lugar, certo nadi cr
     qui sam Maco.

     Santo Antone qui bem fto! Aquelle bariga di adro j vai dentro,
     fic bonito, e rua mas um pco grandi. Padri nunca contente, mas
     qui cuza logo faz! A nte j nmtem aquelle escuridm costumado,
     hoze canda tem tres bico, e china china si quer furt azte vai
     cart mati. Genti di Senado sempre durmido, nomtm aquelle genio di
     Governo, que tem lo vivo, e nadi iscap nada. Cdo, cdo, j tem
     na rua, tir telhro di botica, ranc pagde di porta di china
     china, cort rua faz drto, qui faz gosto l.

     Otro dia Voluntario inglez d'Hongkong j vem Maco! Qui lai di
     bonito! eu j vai l tamm. Maco parce Frana, tudo gente fall.
     Tem tifin, rivista di tropa, salva di vinte un-ha tiro, balsa 
     note qui bonito, gast c tudo aquelle flamancia tres mil fra
     pataca. Algum gente qui nunca gost assilai cuza, j vai l cova
     de Sam Francisco Xavier eu tamm muto quere pra santo, mas nunca
     vai.

     Agora t gavart Sam Paulo; ach un-ha buracu na Monte, tro na
     frontipicio di igreja e gente antigo fall sam caminho di basso di
     tra qui vai di igreja pra fortaleza na tempo de paulista, porisso
     agora gavart tudo aquelle mato, pra descobri caminho. Tudu gente
     fall ali tem tanto pataca qui jisuita inter, eu ach graa: pde
     cr? Padri padri qui cusa pde tem? coitado! Eu sint sam historia.
     Mesmo caminho, qui sabe? Eltro qui cuza faz c caminho basso di
     tra? Eltro nunca sam heregi como pedrro livre, qui cusa faz di
     lugar pra escond?

     Minha Miqula nomst esquec di mand nova di tudu qui l ali; si
     marido tem vagar mand tamm escrev. Gente t fall qui moda di
     balm j cav pra nhonhonha, eu sint qui si sam assim sam fortuna.

     Eu tamm nompde gost di assilai cusa; quando vento grandi sam
     mutu pirigoso, e quando incust na janla, ou fic capido, impurado
     pra traz, frv sangui l.

     D bena pra criana criana e nomst esquec de tudu aquelle
     receta qui eu j mand quando apanh savn. Nomst lembr sam
     brinco, eu fall c experiencia: tudu gente ri, qui foi eu pil
     costa a note intro, mas eu inda t vivo, eltro tudu qui faz cusa
     de moda t mor mas sinha.

     Eu j mand dos amchm di achar di gamn, un-ha balsa di sucri
     pedra, dos jara di jagra para vs e criana criana, mas nunca ach
     resposta, porisso eu fic c penm.

     J intr anno novo; mutu bom anno, filicidade, vida, saude para
     vs, vosso marido e tudo criana criana. Nosso senhr de cri.
     Eu t muto lembr pra vs, quer mand um pco de ala mas nmpde,
     paciencia. Masqui nompde acet bom vontade d'este vella chacha qui
     mutu quer pra vs.

     D lembrana pra Pepe, fal c elle mto contente eu j fic, ouvi
     fal, elle j fic bom de espinhla. Vosso tio padri tamm mand
     lembrana, elle coitado nunca sam nada j. Nhum Quimquim j vai
     viazi, imbarc de piloto na navio que lev chuchai, ganh tanto
     pataca.


                                                          Vosso chacha

                                                            _Pancha._


     P. S.--Vs lgo sint grandi differena na minha modo di escrev.
     Eu j aperfeo bastante neste um pco tempo. Tudu este escla novo
     de machu e femia, e aquelle gazetta _Ta-ssi-yang-kuo_ j faz
     indret bastante nosso lingu.


*Carta de tia Paschoela  sua sobrinha Florencia*


                                         Maco, 5 de otubro de 1869.

     Minha Querida Chencha.


     Como vs lgo quer sabe tudo novidade de Maco, porisso que eu j
     pedi com tudo sium sium, parecero de jogo, pra traz tudo novidade
     de fra pra eu pde escrev pra vs.

     Maco agora j t muto mudado; j nontm inveja de ropa. Pra tudo
     rua so careta, so cavalo; de tanto que j tem, que j nontm
     lugar pra guard; maior parte fic pinchado na meu de rua de S.
     Loreno. Agora t faz ung-a casa qui lai de grande na horta de
     governador, tamem pra guard careta e cavalo. Ol um pco, minha
     Chencha, faz palacio na cidade pra cavalo, tudo pobre pobre vae
     par pra casinha de campo!

     Agora t com fora de prepar pra recebe principe de Inglaterra. J
     pedi com sium Carlito pra d moda pra faz ung-a cadera pra cart
     principe. Quer cadera que tem quatro pinga pra oito cule; mas como
     vosso tio gost muto de figur, j lembr de ped pra convid oito
     comendador pra cart aquelle bemaventurado principe, pra vosso tio
     tamem pde entr na meu.

     Nosso governador lgo vae fic na casa vasio de sium Loreno pra d
     palacio pra principe.

     Nosso juiz t perto vae j pra Goa. Coitado de vlo, j soffr
     ung-a molestia bem de grande que escap mor. Agora t and ct;
     assim mesmo este um pco de farizo nunca perdo de desesper
     aquelle pobre vlo, que se nunca so cuidado de Padre Maximo, com
     sua misinha cazera, j vae j pra otro mundo!

     J cav lua de bat pu, mas lua de bat costa de china china inda
     nompde cav, porisso que este um pco desabrogunhado rabo de porco
     cada vez t mas atrevido.

     Otro dia eu j assist festa de Senhora Rozario. Sent na greza
     ung-a chro bem desagradavel. Vem casa a note, t cont com tio
     Joo, elle ento que d conta, que j levant um pco alto parte
     trazero de capela-mr; j faz ali ung-a lugar pra bot imundicia.
     Quando vem chua, tudo agu de aquelle porcaria porcaria, contamin
     pra p de parede, vem pra dentro de capela-mr. Vs inda lgo ovi,
     minha Chencha, que algum dia inda lgo mud tudo cavalo de policia
     pra dentro de greza, pra tem mas cham pra faz palacio grande
     grande pra official. Agora j nunca content cada ung-a com dos
     cela. Cada official quer sete cela, qui lai mdo pde cheg?

     Padre Rondina j livr de ung-a desgraa qui lai de grande! Que
     sabe qualo mapeoso aquelle que j vae tir de sua lugar ung-a
     botle de enxarope, bota ung-a botle de verniz. Coitado de padre,
     sem sabe de nada, vir muto socegado na sua botle pra copo de agu;
     quando beb primero pucado, ento que sent que so verniz! Nunm
     obra de maliombrado! quer verniz tripa de gente como verniz
     cadera, canap?!

     Vosso tio t muto triste. Este anno j perd quanto mil pataca com
     laia laia de condenao de historia. Se o menos pde tem agora
     grande negocio de cule, tamem so bom; pde chubi um pochinho de
     aqui, um pochinho de ali, discont o que j perd. Jogo este anno
     j nompde tir muto. Dispeza cada vez mas grande. Familia
     augment. Divida nompde cobr; maior parte so gente grande grande
     que t dev. Assim mesmo, minha Querida Chencha, inda nompde quex
     de falta que com; perna de presunto que china china mand de
     presente, armado de ung-a ponta pra otro ponta de cusinha; mas
     vosso tio nompde com tro cusa mas que pece fino, chilime de
     casa algum vez lamci di Canto.

     N'otro tempo pescaria so na agu salgado; agora so na agu doce.
     Que sabe qualo bragero aquelle que j invent que na Praia Grande
     tem pescaria de pece pedra, aquelle rapaz de botica de Neves j cae
     na calote de vae pesc anote fronte de sua botica. Pinch linha cae
     na sco; em quanto t saf linha, senti comedura; quando pua,
     apanh ung-a casta de susto qui laia de grande! era que so ung-a
     cuzauso de rato, como ung-a leto, ganchado na anzol. Aquelle
     tentao de animal principi cr pra tudo Praia Grande com linha
     na boca, e pobre de rapaz a cr traz de tal rato pra salv sua
     linha; de sorte que j faz ri tudo aquelle gente na Praia Grande
     com tal pescaria de pece pedra, que ramat, larg sarangong.

     Manjor Julio j tem quanto mez j de morto. Aquelle tolo de Boletim
     parte que d peza sua viuva, vae d pra tudo sua amigo amigo. Que
     sabe se na ropa so costumado assim?

     Tudo vez que eu sae na janella intop com ung-a official de vapor
     que casta de-chistoso, mas historero, sevandizio que ms nompde
     ser. Tem ung-a nome que laia de galante; eu j nompde lembra se
     so Homecaco o Monocaco, mas so ung-a cusa assim de caco. Mu
     genio, lingustero, intremetido, at quer intremet com emprego de
     sium Miguel Simes, e t faz conta j de intr naquelle lugar. Pra
     tudo gente so me chavoqueada, tir dente, tira lingu; mas
     medrozo como cachoro china.

     Como j so hora de vem tudo parecero de jogo, eu j nompde
     escrev mas novidade. Amest ol faz ch, tir sucre, mand faz
     torada, compr manteguilha na botica de barbero.

     Adeus, Minha Querida Chencha, Deus conserv saude pra vos e pro
     vosso Abelardo, Eu, vosso tio, tia tia, tio Joo, tudo mand muto
     lembrana.

     Vai ung-a botle de achar laia laia e ung-a flandi de bolo bat-pau
     torado.

                                                   Vosso tia e amiga

                                                       _Pascoela._


9. Appendix:

O portuguez alterado como o fallam os negros e os estrangeiros que
possuem mal a lingua tem sido muitas vezes imitado, principalmente no
theatro e na litteratura de cordel. Apesar do interesse secundario
d'essas imitaes damos, alguns specimens.


    (_Indo Gonalo seu caminho, apartando-se do Clerigo, topa hum Negro
    grande ladro, e entra cantando buscando hum mulato: e diz Gonalo,
    depois de cantar o Negro:_)


GON.   Dize, negro, es da crte?

NEG.  Qu'esso?

GON.      S'es da crte?

NEG.  Ja a mi forro, nam sa cativo.
      Boso conhece Maracote?
      Corregidor Tibo he,
      Elle comprai mi primeiro;
      Quando j paga a rinheiro,
      Daita a mi fero na p.
        He masa tredora aquelle,
      Aram que te ero Maracote.

GON. Mais tredor era o rascote
      Que m'a mim furtou a lebre.

NEG.  Qu'he quesso que te furtai?

GON. H[~u]a lebre de meu pae,
      De meu cunhado huns capes,
      E marmelos e limes;
      Abonda tudo l vai.

NEG.    Jesu, Jesu, Deoso consabrado!
      Aram tanta ladro!
      Jesu! Jesu! hum caralaso:
      Furunando s sapantado.
      Jesu! cralasam.


    Pato nosso santo paceto ranho tu e figo valente tu e cinco sego,
    salva tera po nosso quanto do d noves caro he debrite noses ja
    libro nosso gallo. Amen Jeju, Jeju, Jeju.


      Sa pantaro Furunando.
      Dize, rogo-te, fallai:
      Conhece tu que furtai?
      Porque tu nam bruguntando?

GON. Perguntarei por meu pae.

NEG.  Cal-te: Deoso cima sai,
      Que furtai ere oiai.
      Deoso nunca vai dormi,
      Sempre abre oio assi,
      Tamanha tu sapantai.
        Guarda mar esso mal,
      E senhora Prito santo.
      Nunca rir homem branco
      Furunando furta real.
      No sabe mi essa careira:
      Para que? para com?
      Muto com muto beb
      Turo turo sa canseira.
        Vira mundo turo canseira:
      Senhor grande, canseira;
      Home prove, canseira;
      Muiere fermoso, canseira;
      Muiere feio, canseira;
      Negro cativo, canseira;
      Senhoro de negro, canseira;
      Vai missa, canseira;
      Prgao longo, canseira;
      Crerigo nam tem muiere, canseira;
      Crerigo tem muiere, canseira;
      Grande canseira:
      Firalgo slto, canseira;
      Chovere muto, canseira;
      No pde chovere, canseira:
      Muito filho, canseira;
      Nunca pariro canseira;
      Papa na Roma canseira;
      Essa ratinho, canseira;
      No vamo paraiso, grande canseira;
      Vira reza mundo turo turo he
      Canseira.
        Mi nam falla zombaria.
      Pos para que furtai?
      Que riabo sempreza!
      Abre oio turo ria.
      Mi busca mulato bai.
      Ficar abora, ratinho.

GON. Eu aguardo meu padrinho,
      Que va comigo a meu pae.
        Eu vou ao rio perem,
      Porque hei sde e beberei,
      E sicais que nadarei
      Emquanto o clerigo vem.
      Leixarei o chapeiro
      Mettido nesta mouteira,
      E o cinto e esmoleira,
      Porque l logo o vero,
      No me aquea outra tal feira.


    (_Espreita o negro como Gonalo esconde o chapeiro e o al, e tanto
    que se vai entra dizendo:_)


NEG.    A mi abre oio e ve
      Ratinho tira besiro:
      Ere dexa aqui condiro:
      No sei onde elle mett.
      Senhora Santo Francico,
      Santa Antonia, San Furunando!
      Pois mi ha d'andar buscando,
      E levare elle na bico
      O servo Santa Maria.


     Sabe a regina Matho misercoroda nutra d'hum cego savel at que
     vamos. A oxulo filho d'egoa alto soso peamos ja mentes ja frentes
     vinagre qu'elle quebrro em balde ja ergo a quante nossa ha ilhos
     tue busca cordas oculos nosso convento e geju com muito fruta
     ventre tu ja tremes ja pias. Seuro santa Maria dinhero me l daro
     he ve esa carta da me mucho que furte cantara Furunando.

     (_Acabada assim esta_ salve regina, _acha o Negro o que Gonalo
     leixou escondido, e diz:_)


      Ei-lo aqui sa! Deoso graa.
      Graa Deoso esse he capote;
      Nunca dexa aqui palote:
      Ratinho, quem te forcasse!
      Aram que te ero villo!
      Que palote saba sam,
      Barete tambm bo era.
      Mi cansai e  deradera
      A mior fica sua mo.
        Vejamos bolsa que tem:
      Hum pente para que bo?
      Tres ceitil sa qui so:
      Ratinho nunca bitem.
      O riabo ladaro!
      Corpo re reos consabrado!
      Essa villo murgurado
      Sa masa prove que co.
        Quando bolsa mi achase
      Ferno d'Alvaro, esse si;
      Nunca pente sa alli.
      Ah reos! quem te furtasse
      Bolsa, Nuna Ribeiro!
      Home bai busca rinheiro:
      A toro ere rise:
      Ja rinheiro feito he.
      Aram que tu ero gaiteiro!
        Ferno d'Alvaro m'acontenta;
      Elle nunca risse nam.
      Logo chama ca crivam,
      --Crivaninhae esormenta;
      Toma rinheiro, vas embora.
      Boso, home de bem, que buscae?
      --Mi da cureiro agarba sae.
      --Boso que buscai corte agora?
      --Buscae a Rei jam Joo,
      Paga minha casaramento.
      --D ca, moso, trae esormento;
      Crivaninhae boso, crivo:
      Home, tomae hum dos quatro sete:
      Vas embora turo turo.
      Sua rinheiro sa segura,
      Mioro que elle promete.
        Marco Estevez moladeiro.
      Elle rise: Santa Maria!
      Rinheiro boso queria?
      Bai bai dormir paieiro.--
      Boso que pedir, muieiro?
      --Tanta filho mi tem qui...
      --Quem manda boso pari,
      Boso grande parideiro?
      --Boso seria muito b:
      Vaca ne Francico paia;
      Tenha seis filho e mi so
      Nam temo comere ni migaia.
      Elle rise:
      Que culpo tem a Rei jam Joo
      Boso parir como porco,
      Bai buscai sua pae torto,
      Que dai a sua fio po.
        Velha, que boso quer?
      --Molla, que a mi pobre sai.
      Elle rise:
      Porque boso nan guardai
      Rinheiro que boso beb?--
      Jesu! Jesu! moladeiro
      Sa riabo aquella home:
      Quando a mi more da fome
      Nunca buscai sua rinheiro,
        Porm graa a Reos, a mi
      Nunca minga que furt;
      Pouco ca, pouco rel,
      Pouco requi, pouco reli,
      Gro e gro gallo fart,
      Quem furta, home sesuro:
      E louvar a Reos com turo
      E senhoro Prito Santo.
      A mi bai furta emtanto
      Camisa que s na muro.

Gil Vicente, O Clerigo da Beira.


_O preto, e o bugio ambos no mato discorrendo sobre a arte de ter
dinheiro sem ir ao Brazil._ Lisboa. Na officina patriarchal de Francisco
Luiz Ameno 1789. 4.^o 21 pp.--Excerpto:

     J non pore deix de incric os cabea, e confess, que vozo
     doutrina s huns doutrina to craro, e verdadeiro, que pla mim s
     huns admiraom non s platicada per toro o mundo. O trabaio a que
     vozo obliga os pleto, e os blanco; s huns trabaio a que ninguem se
     pore neg sem melec huns cssa bom; porque os genia, e os
     incrinaom do natureza a toro gente move pala ere, e fla de
     trabaio ninguem pore viv em satisfaom. Mim agola sem trabai nom
     pore cont, ainda que mim ter abominaon a captiveiro cruere de
     blanco, de que s forro; com turo non aglada a mim estar aqui sem
     nada faz: evita vozo tanta plegia, os excessa de plodigo, e dos
     varento, que nozo poderemo toro assi hav os oira, e triunf dos
     indigencia; e de turo quanto pore infelicit. Se aqui apalecera
     agola uns blanco, que pole escrev os mavioso doutrina, que vozo
     platic, e toro o gente ouvire cos oreia aberto, faria ere ao
     familia toro do mundo hum favoro, que meoro non pore imagin. p.
     21.




II. DIALECTOS HESPANHOES


1. Creolo de Curao

Esta ilha, cujo nome  lembrado por um licor bem conhecido, que d'ella
tomou o seu,  uma das tres ilhas denominadas de sotavento; est
situada em frente da costa de Venezuela entre a lat. 12 3' e 12 24' e
long. 68 47' e 69 16' Gr.

Com as outras ilhas do grupo pertenceu  Hespanha depois de seu
desenvolvimento at 1648 em que a Hollanda ficou de posse d'ella, e
conservando-a at hoje, apenas com uma interrupo produzida pelo
dominio de Inglaterra de 1807 at 1815. A primitiva colonisao
hespanhola foi muito limitada. Hoje a populao da ilha sobe a mais de
15:000 habitantes, de que apenas crca de um quinto so brancos. A
populao negra parece ter passado para l em grande parte das colonias
hespanholas; o dialecto creolo que ella falla tem por base o hespanhol e
contm alguns elementos lexiologicos ministrados pelo hollandez. O sign.
E. Teza consagrou a esse dialecto um artigo no _Politecnico_, vol. XXI,
p. 342-352, tendo por base de investigao o livro: _Catecismo pa uso di
catolicanan di Curaao. Cathecismus ten gebruike der katholyken van
Curaao door Martinus Joannes Niewindt, bissehop van Cytrum, karmerheer
van Z. H. en apostolisch vicarius van Curaao. Gedrukt te Curaao ter
drukkery van zyne doorluchtige hoogwardigheid_. Segundo o illustre
professor italiano esse catechismo no foi impresso muito antes de 1845.

_The Bible of Every Land_, p. 270, d-nos a seguinte noticia: Uma
traduco de parte do Novo Testamento n'esta lingua foi feita pelo rev.
Mr. Conradi; e uma pequena edio do evangelho de S. Matheus foi
impressa em 1846, a expensas da Sociedade biblica neerlandeza. O sign.
Teza no soube da existencia d'essa traduco, de que a obra ingleza
citada nos d um specimen em orthographia hollandeza, que vamos
reproduzir enterlinhando-o com as palavras hespanholas correspondentes,
tanto quanto conseguimos determinal-as.


     *S. Matheus, cap. V v. t. 12*


     1. _Anto ora koe Hezoes a mira toer e heende nan eel a soebi_
     Entonces hora que Jeus ha mirar todo el hombre--el a subir

     _o en seroe; deespues eel a sienta i soe desipel nan a bini_
     a un sierra; despues el a sentado y su discipulo--ha venido

     _seka dje._
     cerca del.

     2. _I eel a koemisa di papia i di sienja nan di ees manera._
     Y el ha comenzar de papiar y de ensear -- de esta manera.

     3. _Bieenabeentoera ta e pober nan na spiritoe, pasoba reina_
     Bienaventurado est el pobre -- spritu, por-este-obra reino

     _di Dioos ta di nan._
     de Dios est de--

     4. _Bieenabeentoera ta ees nan, koe ta jora pasoba lo_
     Bienaventurado est este --, que est llorar, por-este-obra--

     _nan bira konsolaa._
     -- consolado.

     5. _Bieenabeentoera pasifiko nan, pasoba lo nan erf tera._
     Bienaventurado pacifico --, por-este-obra -- -- tierra.

     6. _Bieenabeentoera ees nan, koe tien hamber i sedoe di hoestisij,_
     Bienaventurado este --, que tiene hambre y sed de justicia,

     _passoba lo nan no tiene hamber i sedoe mas._
     por-este-obra -- -- no tiene hambre y sed mas.

     7. _Bieenabeentoera ees nan, koe tien mizerikoordia, pasoba_
     Bienaventurado este --, que tiene misericordia, por-este-obra

     _lo heende tien mizerikoordia koe nan,_
     -- hombre tiene misericordia con --

     8. _Bieenabeentoera ees nan, koe ta liempi di koerasoon, pasoba_
     Bienaventurado este -- que est limpio di coraon, por-este-obra

     _lo nan mira Dios._
     -- -- mira Dios,

     9. _Bieenabeentoera ees nan, koe ta perkoera paas, pasoba_
     Bienaventurado este --, que est procurar paz, por-este-obra

     _lo nan ta jama joe di Dioos._
     -- -- est llamado hijo de Dios.

     10. _Bieenabeentoera ees nan, koe ta persigido pa motiboe di_
     Bienaventurado este --, que est persiguido por motivo de

     _hoestisji, pasoba reina di Dioos ta di nan._
     justicia, por-este-obra reino de Dios est de --.

     11. _Bosonam lo ta bieenabeentoerado koe ta koos nan zoendra_
     Vosotro-_nan_ -- est bienaventurado que est -- -- --

     _i persigi bosonan, i koe ta koos pa mi kausa nan ganja_
     y persiguido vosotro-_nan_, y que est -- por mi causa -- gaar

     _toer soorto di maloe ariba bosonan._
     todo suerte de malo arriba vosotro-_nan_.

     12. _Legra bosonan i salta di legria, pasoba bosonan_
     Alegrar vosotro-_nan_ y saltar de alegria por-este-obra
     vosotro-_nan_

     _rekompeensa ta grandi deen di Ciloe; pasoba nan a persigi_
     recompensa est grande dentro de Cielo; por-este-obra -- ha
     perseguido

     _di ees manera e profeet nan, koe tabata promee koe bosonan._
     de este manera el profeta --, que estaba primero que vosotro-_nan_.


Para auxiliar a comprehenso d'esse excerpto damos a verso hespanhola
dos doze versiculos de S. Matheus.

1. Mas viendo Jesus este gento, se subio  un monte, donde habindose
sentado, se le acercaron sus discpulos;

2. Y abriendo su boca, los adoctrinaba diciendo:

3. Bienaventurados los pobres de espritu, porque de ellos es el reino
de los cielos.

4. Bienaventurados los que lloran, porque ellos sern consolados.

5. Bienaventurados los mansos, porque elles poseern la tierra.

6. Bienaventurados los que tienen hambre y sed de justicia, porque ellos
sern saciados.

7. Bienaventurados los misericordiosos, porque ellos alcanzarn
misericordia.

8. Bienaventurados los limpios de corazon, porque ellos vern  Dios.

9. Bienaventurados los pacificadores, porque ellos sern llamados hijos
de Dios.

10. Bienaventurados los que padecen persecucion por la justicia, porque
de ellos es el reino de los cielos.

11. Bienaventurados sereis cuando los hombres per mi causa os
maldijeren, y os persiguieren; y dijeren con mentira toda suerte de mal
contra vosotros.

12. Alegros y regocijos, porque es muy grande vuestra recompensa en
los cielos: del mismo modo persiguieron  los profetas que ha habido
antes de vosotros.


Como se v, n'este dialecto no ha nenhuma distinco formal de genero
nem de numero: a pluralidade exprime-se pela adjunco de _nan_, que  o
pronome da terceira pessoa plural: _ees nan_, estes ou aquelles;
_pober_, pobre; _pober nan_, pobres. Quando um substantivo  precedido
de adjectivos s se segue o signal do plural depois do substantivo:
_toer el heende nan_, todos os (aquelles) homens. O presente 
geralmente expresso pela frma _ta_ (==est) e o infinito, tendo todos
os infinitos perdido o _r_ final.

O futuro  expresso por _lo_ (==luego?).


2. Hespanhol fallado nos campos de Buenos-Ayres e Montevideu

M. Maspero publicou em _Mmoires de la Socit de Linguistigue de
Paris_, t. II, p. 51-65 (Paris, 1875), um artigo sobre as alteraes
experimentadas pelo hespanhol no Rio da Prata. Essas alteraes so
sufficientes para lhe dar uma feio dialectal asss bem caracterisada;
mas so muito differentes das que determinam os dialectos creolos, como
o de Curao, etc.; so principalmente lexiologicas e phoneticas. A vida
nova dos europeus n'essas regies deu principalmente logar  creao de
palavras novas do velho fundo do idioma nacional e  introduco de
termos das linguas indigenas, por exemplo, de _pi_ fez-se _pialar_,
pear um cavallo, de _manco mancarron_, um cavallo mo, que no serve
para nada. Alguns dos termos das linguas indigenas adoptados
encontram-se tambem no portuguez do Brazil e parte vieram at s linguas
europas, como _jacar_, _yacar_ (termo guarani). As alteraes
phoneticas encontram-se sobretudo na linguagem do camponio oriental ou
_Porteo_.




III. DIALECTOS FRANCESES


1. Creolo da ilha Mauricio

A este dialecto pertencem algumas poesias da colleco intitulada: _Les
essais d'un bobre africain_, seconde dition, augmente de prs du
double, et ddie  madame Borel jeune, par F. Chrestien. Ile Maurice,
G. Deroullede et C^{ie}, 1831, pet. in-4. Achmos a indicao d'esta
obra no catalogo da bibliotheca de Burgaud des Marets e n'um artigo de
M. P. Meyer: _Revue critique_, 1872, artigo 50. A ilha Mauricio, depois
do dominio do portuguez e hollandez (1598-1715) esteve em poder dos
francezes de 1715 a 1810, em que se tornou possesso ingleza.

O dr. A. Bos publicou na _Romania_ muito recentemente (vol. IX, p.
571-578) uma nota sobre o dialecto creolo d'essa ilha, a qual pudmos
ler ainda  ultima hora. Resumimos o seu contedo.

Esse creolo, diz o auctor, formado para o uso commum, lao de
communicao entre as differentes raas que habitam a ilha,  muito
desprezado; no se escreve e no  empregado pelos brancos seno para se
fazerem comprehender dos seus creados de cr. O plantador de Mauricio
no falla creolo seno a seus servos ou trabalhadores, negros ou indios,
e ainda a seus ces de caa, repellindo para longe de si a ida que esse
_patois_ informe possa jamais converter-se n'uma lingua. E, todavia, o
creolo de Mauricio, como diremos mais abaixo, cresce e prospera de dia
em dia; encaminha-se para a fortuna de uma lingua.

Com relao  phonetica notaremos o seguinte:

1. O accento tonico no se desloca.

2. Ha alongamento frequente de _a_: _[-a]-ccent_, _p[-a]-rent_. Esse
alongamento  de lei quando ha quda de consoante: _p[-a]-ti==partir_
(alongamento por compensao).

3. _E_ medial atono muda-se em _i_: _vini_ (venir) ou cae; _e_ final
atono cae sempre.

4. _Ui_ muda-se em _i_; _oi_ s vezes em _o_.

5. _Ch_, _g_ (e, i), _j_ mudam-se respectivamente em __, _z_.

6. _R_ final cae sempre, at nas ligaes como _tre_, _bre_; p. ex.
_cambe==chambre_. _R_ medial entre vogal e consoante cae igualmente:
_Zoze==Georges_.

7. _X_  pronunciado como _s_ (): _lan==excellent_.

Com relao s frmas eis o mais interessante:

1. No ha distinco de generos: permanecendo a frma masculina para o
masculino e feminino, _mon fame_, _ton lakaze_, ma femme, ta maison.

2. A distinco do numero tende igualmente a desapparecer. Os pronomes
pessoaes que so palavras differentes para o singular e plural
conservam-se: _moa_, eu; _nou_, ns; _toa_, tu; _vou_, vs.

3. A suppresso do artigo  quasi completa. Como no dialecto da Trinidad
o artigo e ainda a preposio partitiva coalescem com varias palavras:
_lacaze_, casa (maison); _dilo_, _dipin_, _divin_ (_de l'eau_, _du
pain_, _du vin_). Como no dialecto da Trinidad se diz _zoreis_==oreilles
(o _s_  o resto do artigo _les_), assim n'este temos, p. ex,: _zozo_,
oiseaux. O _z_ apparece tambem no singular: _ne zozo_, un oiseau, _li
zozo_, les oiseaux.

4. Pronomes: _moi_, _toa_, _li_ (lui); _nous_, _vous_, _li_. Os pronomes
sujeitos do singular _je_, _tu_, _il_ do francez desappareceram pois; o
pronome da terceira pessoa do plural  identico ao do singular.

5. Uma unica frma verbal--o infinito,  empregada no creolo da ilha
Mauricio. O passado  expresso pelo infinito do verbo principal com o
infinito auxiliar _fini_: _moi fini trava_, j'ai travaill; _mon fini
broe chambre_, j'ai fait (_brosser_) la chambre. Para a expresso do
futuro empregam-se com o infinito diversas locues adverbiaes. Para
alguns verbos, segundo o dr. Bos, essa frma unica que substitue todas
as outras no sau do infinito, mas sim do presente: _kon_==connais,
connat; _voul_==voulez. A explicao verdadeira d'essas frmas est
n'outro principio que o artigo que analysmos nos ministra. Os infinitos
em _oir_ e _re_ foram substituidos por infinitos analogicos pelos typos
em _e_ (_er_) e _i_ (_ir_); assim _teindre_ por _teignir_, _tezi_ por
_taire_. Estas frmas assentam sobre as do plural _teignons_,
_teignez_, _teignent_, _taisons_, _taiser_, _taisent_, ou antes sobre
os substractos _teign-_, _tais-_ com a desinencia do infinito _i_. O
dr. Bos, tendo primeiro explicado _voul_ por _voulez_, apresenta-o
depois como exemplo d'este processo.

6. O verbo _avoir_ foi substituido por _gagner_ (como na Luisiana).

7. No se usam conjunces; as proposies so raras. A construco
approxima-se do typo chinez: _moa kos vou al baza_, je vous dis
(cause) d'aller au march (bazar); _toa gut ival pa pati_, tu
regarderas (guetter)  ce que le cheval ne parte pas; _mamzle kos kme
a mamzle pa vini mamzle fa_, mademoiselle m'envoie vous dire
prcisment qu'elle ne peut pas venir, parce qu'elle est malade; _vou
kontan moa al promen_, tes-vous satisfait, aimez-vous que j'aille me
promener?

Com relao ao vocabulario diz-nos o nosso auctor: O creolo apenas
conservou do francez poucas palavras, as palavras que bastam para
exprimir as primeiras necessidades da vida, as relaes mais ordinarias.
Evidentemente seria difficil e mesmo impossivel tratar um assumpto de
philosophia em creolo; o mesmo succedeu provavelmente com o francez nos
seus primeiros comeos. A essas poucas palavras francezas que formam
quasi em totalidade o seu vocabulario, o creolo ajuntou algumas
recebidas dos paizes vizinhos: _baza_, mercado, _salam_, bons dias;
_tiffin_ (pronuncia-se _toffin_), o paladar, d'onde _tiffiner_, provar,
palavras que pela maior parte se acham no francez em uso em Mauricio.

Esse creolo de Mauricio, apesar de ser to grosseiro, est longe de
querer desapparecer deante das linguas muito mais perfeitas, o francez e
o inglez. A maior parte da populao de Mauricio  hoje india; pde
prever-se que ella augmentar cada dia mais, graas s immigraes
continuas da India. Deante d'essa onda que sobe, a antiga populao
creola, brancos, negros e mulatos, diminue proporcionalmente. Ora entre
indios, chinezes, malgaches, creolos, mulatos e brancos o lao commum 
o creolo. Um indio, um chinez, um arabe, um branco (europeu?) trataro
uns com os outros os seus negocios em creolo, e esse neo-francez tomar
maior extenso ao passo que a populao variegada da ilha for
augmentando.  possivel at que n'uma epocha, muito afastada  verdade,
o francez desapparea, como a populao que o falla tende a diminuir. O
creolo, ganhando ao contrario terreno, poder tornar-se a lingua usual,
commum, e at a lingua geral, como elle  j a lingua do povo, a
_rustica vulgaris_. O auctor pensa que o inglez permanecer
exclusivamente como lingua de administrao sem influencia sobre o
creolo.

No francez da ilha Mauricio algumas palavras indicam a proveniencia dos
primeiros colonos, porque se acham l como na Bretanha, de onde elles
emigraram; alm d'isso esses colonos eram marinheiros. Achando
coincidencia de termos entre o creolo d'essa ilha e o de outras
possesses europeas no vocabulario em contraposio com o do francez
litterario, deve admittir-se que ella tem a causa em que esses colonos
levam no seu vocabulario termos do francez de Bretanha e do vocabulario
nautico que se encontram nas outras linguas romanicas. No francez de
Mauricio diz-se, por exemplo, _amarrer_ no _attacher_, _esprer_, no
_attendre_, _larguer_ no _lcher_, como em portuguez.


2. Creolo da Luisiana

Na _Mlusine_ I, col. 495-497, acha-se reproduzido um conto em
francez-creolo da Luisiana com traduco franceza.  talvez ocioso
recordar aos nossos leitores que os francezes descobriram em 1699 a foz
do Mississipi e fundaram em 1717 Nova Orleans, e que tendo a Luisiana
feito parte dos dominios de Hespanha desde 1762 at 1800, passou n'esse
ultimo anno de novo para o dominio da Frana, que a cedeu aos Estados
Unidos em 1803 por 60 milhes de francos. Esses factos explicam a
existencia da colonisao franceza e do dialecto francez-creolo
n'aquelle estado da republica norte americana. Eis um excerpto do conto:


Ein joie, dan tan l zot foi, Compair   |  Un jour, au temps d'autre fois,
Bouki couri dn ct so ouasin         |  compre Bouc alla dner chez son
Compaire Lapin. Compair Lapn           |  voisin, compre Lapin. Compre
t pa gagn ein goute do lo pou         |  Lapin n'avait pas une goutte d'eau
boi. a f Compair Bouki di com         |   boire. Alors compre Bouc dit
a  Compair Lapin;                     |  comme a  compre Lapin:
                                        |
--Mouen non pli, mo pa gagn            |  --Moi non plus, je n'ai pas
do lo; si to ol vini padna, no va      |  d'eau; si tu veux venir par l, nous
fouy ein pi.                           |  allons creuser un puits.
                                        |
Compair Lapin soucouy so la            |  Compre Lapin secoua la tte:
tte:                                   |
                                        |
--Non! Compair Bouki; gran              |  --Non compre Bouc; le bon matin
bon matin, mo boi la ros on zerbe;     |  je bois la rose sur l'herbe et dans
dan jou, kan mo souaf, ma boi dan       |  le jour, quand j'ai soif, je bois dans
piste la ouach.                         |  la piste de la vache. Alors compreBouc
                                        |  fouilla son puits tout seul.
                                        |
a f Compair Bouki fouy so            |  Aprs qu'il eut fouill le puits,
pi li tou sel. Ap li t fouy pi l,   |  quand il courut chercher de l'eau
kan li couri charch so do lo bon       |  de bon matin, il vit la trace de
matin, li ou trace Compair Lapin       |  compre Lapin au ras du puits. Il
au ra so pi. Li grat so la tte et     |  se gratta et s'cria:
li jongl.                              |
                                        |
--Bambail, mo Compair, mo va            !  --Mon compre, je vais t'attraper.
trap toi.                              |
                                        |
Li couri pran so zouti et lif ein      |  Il court prendre ses outils et il
gro catin av boi lauri. Li godron    |  fait une grosse catin[6] avec du bois
li, godron li si tan jika lit noi     |  du laurier. Il la goudronne, la goudronne
com ngresse guinain. Soleil bas,       |  jusqu' tant qu'elle ft noire
Compair Bouki couri plant so catin     |  comme ngresse de Guine. Le soleil
dboute au ra so pi. Dan la             |  tomb, compre Bouc courut
nuite la line tap clr, Compair       |  planter sa catin debout au ras du
Lapin vini av so baqu pou charch     |  puits. Dans la nuit, la lune tapait
do lo. Kan li ou ti ngresse           |  clair; compre Lapin vint avec
l, li rt, li baiss, li gard ben.   |  son baquet pour chercher de l'eau.
                                        |  Quand il voit la petite ngresse,
                                        |  il s'arrte, se baisse et la regarde
                                        |  bien.
                                        |
--Ki btail ci l?                      |  --Quelle bte est-ce l?
                                        |
Li hl on li; ti ngresse l pa        |  Il la hle; petite ngresse ne
grouy, li pas rponne.                 |  bouge pas, ne rpond pas.


_Observaes phoneticas._ 1) _u_, _ui_ mudado em _i_: _jik_==_jusqu'_,
_line_==_lune_, _pli_==_plus_, _pi_==_puits_; 2) _au_ em _ou_:
_oussi_==_aussi_; 3) _eu_ em __: _p_==_peu_, _f_==_feu_,
_sel_==_seul_; 4) _oi_ em __, __: _drte_==_droite_, _cr_==_croire_,
_ol_==_vouloir_; 5) _r_, _re_, _le_ apocopados: _ou_==_voir_,
_noi_==_noir_, _pou_==_pour_, _jou_==_jour_, _cr_==_croire_,
_pran_==_prendre_, _zot_, _lot_==_autre_, _enco_==_encore_;
_capab_==_capable_; 6) _r_ sincopado entre vogal e consoante ou
consoante e vogal: _fanne_==_fendre_, _rponne_==_rpondre_,
_foce_==_force_, _moceau_==_morceau_, _ap_==_aprs_; 7) _v_ vocalisado
ou supprimido: _choual_==_cheval_, _ouach_==_vache_, _ou_==_voir_,
_ol_==_vouloir_ (mas _vol_==_voler_); 8) assimilao:
_fanne_==_fendre_, _moune_==_monde_, _rponne_==_rpondre_; 9) apherese:
_cr_==_sacr_, _ti_==_petit_; _baiss_==_abaisser_, _rt_==_arrter_,
_voy_==_envoyer_, _contr_==_rencontrer_, _gard_==_regarder_.

_Genero e numero._ No ha nenhuma distinco formal de genero e numero:
_ti_ ou _petit_==_petit_ e _petite_; _moceau_==_morceau_ e _morceaux_.

_Artigo._ Ora  empregado ou supprimido, asss arbitrariamente: _La main
goche coll aussi_, la main gauche se colle aussi; _pi coll_, le pied
se colle. O artigo apparece entre o possessivo e o substantivo: _so la
main_, sa main; _mo lot la main_, mon autre main (l'autre main), _so la
tte_, sa tte. O artigo coalesceu com alguns substantivos: _lo_, eau;
_do lo_, de l'eau (litteralmente: _du l'eau_), _so do lo_, son eau
(litteralmente: _son du l'eau_), mas _mo fron_, mon front, _so pi_, son
puits.

N'alguns casos coalesceu com o substantivo o _s_ (z) de _les_, e a frma
com essa prothese  empregada como singular ou plural: _so zepol_, son
paule; _zerbe_, herbe; _zot_, autre (tambem _lot_), _so zouti_, ses
outils; _so zoreil_, son oreille, ses oreilles; o mesmo se d na
Trinidad e Mauricio.

_Pronomes._ 1.^a pessoa singular, _mo_, _mouen_ sujeito: _mo boi_, je
bois; _mouen non pli_, moi non plus; _mouen_ regimen: _lch mouen_,
lche-moi. 2.^a pessoa singular, _to_ sujeito: _to gard_, tu regardes;
_toi_ regimen: _to cr choual voy cou pi on toi_, tu croiras qu'un
cheval t'a envoy un coup de pied; _mo va trap toi_, je vais
t'attraper; _qui cogne toi_, qui te cogne. 3.^a pessoa singular, _li_
sujeito e regimen: _li f_, il fait; _li gratt_, il sa gratta; _li voy
li_, il l'envoya. 1.^a pessoa plural, _no va fouy_, nous allons creuser
(fouiller). As outras frmas faltam no conto sobre que se baseiam estas
nossas observaes. No ha pronome reflexo: _li rt_, il s'arrte; _li
baiss_, il s'abaisse; _li gratt_, il se gratta.

_Verbo._ Com excepo de _t_==_tait_ (_tais_), todas as frmas
verbaes so substituidas pelo infinito, que serve para exprimir o
presente, o futuro, o preterito de todos os modos. A frma _t_ serve
porm para exprimir com um infinito (ou o participio passivo?)
periphrasticamente o preterito: _li t p gagn_, il n'avait ps; _li t
fouy_, il eut fouill; _to t di_, tu avais dit.

_Preposio_. As principaes preposies so: _av_, avec, _dan_, dans,
en; _on_, en; _au_; _pou_, pour. A preposio _de_  supprimida: _pierre
tonnair_, pierre de tonnerre; _boi laurier_, bois de laurier; _ta
branchaille sec_, tas de branches sches; _piste la ouach_, piste de la
vache; _au ra so pi_, au ras de son puits; _cou pi_, coup de pied.

_Suppresso de verbos_, etc.: _Comenc colair_, il commence  tre
colre; _kan mo souaf_, quand j'ai soif.


3. Creolo da Guyana

MM. de Saint Quentin publicaram ha alguns annos um livro contendo contos
populares (um s na prosa original), fabulas traduzidas do francez e
canes creolas dos auctores n'este dialecto. Temos noticia d'este livro
apenas por uma indicao na _Mlusine_, I, 55 (Paris, 1877). Na
_Mlusine_, I, n.^{os} 1 e 2, ha traduco, mas sem o original, de dois
contos da Guyana franceza. Esta possesso da Frana foi colonisada por
francezes no comeo do seculo XVII e permaneceu colonia franceza at
hoje, com excepo do periodo de 1808-1817, em que esteve em nosso
poder.


4. Creolo da Ilha de S. Domingos

Encontram-se um _Voccabulaire, franais et crole_, dialogos e canes
n'este dialecto no _Manuel des habitants de Saint-Domingue_, par
Duc[oe]urjoly. Paris, Lenoir, 1802, t. II, p. 283-393.


5. Creolo da Trinidad

O dialecto francez-creolo d'esta ilha pde estudar-se na obra _The
theory and practice of creole grammar_, by J. J. Thomas. Port of Spain
(Trinidad), the _Chronicle_ publishing office. In 8.^o, 134. p. Tenho
noticia d'essa obra apenas por um artigo de M. Paul Meyer na _Revue
critique_, 1872, art. 50.

A conservao entre os negros das Antilhas, diz M. P. Meyer, de
_patois_ mais ou menos differentes uns dos outros, mas tendo
incontestavelmente uma origem franceza,  um facto digno de atteno.
-o sobretudo na Trinidad que nunca foi colonia franceza.  evidente que
todos esses negros vem originariamente de colonias francezas, e
aquelles mesmo da parte meridional dos Estados Unidos que fallam o
inglez que nos fizeram conhecer os romances de Mrs. Beech-Stowe ou de M.
Kirke, deviam ter fallado outr'ora um _patois_ francez. Parece at que o
_patois_ da Ilha de Frana offerece, na deformao do francez, analogias
com o da Trinidad que no so explicadas sufficientemente pela
communidade do ponto de partida. A expanso de um _patois_ negro formado
do francez depende naturalmente das deslocaes a que foram submettidos
aquelles que o fallavam, e isso  um assumpto que no  geralmente
conhecido, pelo menos d'este lado do Atlantico.

O fundo do _patois_  francez, com alguns emprestimos do hespanhol (a
Trinidad foi colonia hespanhola at 1797) e do inglez.

Ha algumas particularidades curiosas no systema dos sons. A apocope e
mais ainda a apherese (o fim da palavra sendo geralmente protegido pelo
accento) representam n'elle um grande papel. Assim: _t_ por _tais_,
_tait_ (ou antes talvez pelo participio _t_); _s_ por _serais_,
_serait_. Outras suppresses effectuam-se sobre o centro das palavras;
assim: _vlez_ por _voulez_, em que vemos a extenso de um facto que o
anglo-normando nos offerece em _frai_ (_ferai_), _fras_, _frad_, etc. As
liquidas _l_ e _r_ caem deante d'uma outra consoante, e a vogal
precedente torna-se longa: _mgr_ (_malgr_), _pler_ (_parler_),
_mdre_ (_mordre_). Algumas vezes tambem _l_ e _r_ caem depois do
accento diante de um _e_ mudo, que seria melhor no escrever; assim:
_tabe_ (_table_), _vte_ (_vitre_). Todos que tiveram occasio de ouvir
negros ou mulatos das colonias tiveram occasio de notar os mesmos
factos na sua pronuncia, ainda quando elles fallam francez.

No   phonetica que pertencem os factos mais caracteristicos do
creolo, mas  flexo e  composio das palavras. O que n'essa parte se
observa  bem feito para elevar ao mais alto o assombro dos que acham j
enormes as formaes novas que nos offerecem os idiomas romanicos
comparados com o latim. Ns dizemos _celui-l_ emquanto o latim vulgar
dizia _eccillum_; mas os negros pem _l_ a todo o instante depois dos
substantivos como um demonstrativo a que no ligam j grande valor (M.
Th., p. 15). O sentido das particulas e dos artigos est de tal modo
obliterado que j no se empregam seno absolutamente confundidos com as
palavras a que se juntaram e fazendo corpo com ella: _dif_, _dith_,
_divin_, _dleau_ (p. 18) querem dizer: _feu_, _th_, _vin_, _eau_;
_zoreies_ quer dizer as orelhas; _pncor_ (p. 122) quer dizer _pas
encore_, contraco que nos offerece tambem o provenal _pancaro_. N'um
idioma to empobrecido  s o logar das palavras que indica as relaes.
Assim n'este proverbio: _Pas fte langue qui fair bf pas sa pler_ (p.
121) (a n'est pas faute _de_ langue qui faire b[oe]uf pas savoir
parler).

Os verbos parecem, pelo menos muitas vezes, reduzidos a uma s frma, a
do infinito (a no ser que alguma outra frma tenha sido preservada por
causa de uma differena bem sensivel e de um uso frequente).
Estudar-se-ho com interesse os diversos tempos compostos com os quaes
os negros remediaram as lacunas da conjugao, e achar-se-ha n'isso
materia para diversas comparaes com os factos parallelos das linguas
romanicas. Todavia  mister no esquecer que a comparao no tem aqui
seno a mais fraca base. Os negros quando aprenderam o francez, estavam
habituados a uma linguagem absolutamente differente, e nunca souberam
seno as palavras e as frmas mais usuaes do seu novo idioma, emquanto o
latim vulgar de que saram as linguas romanicas por desenvolvimentos
individuaes e locaes, foi sempre um idioma asss completo, cujas
transformaes foram asss lentas para que as lacunas tivessem tempo de
se encher ao passo que se formaram.


6. Creolo da Martinica

Cremos que versa principalmente sobre este dialecto a obra seguinte, que
conhecemos apenas pelo catalogo da bibliotheca de Burgaud des Marets:
_Catchisme en langue crole, prcd d'un essai de grammaire sur
l'idiome usit dans les colonies franaises_, par M. Goux, missionnaire
 la Martinique. Paris, Vrayet de Suroy, 1842, in 8.^o Mais recente  o
livro de Turiault: _tude sur le langage crole de la Martinique_.
Brest. 236 pp. in 8.^o en deux volumes. 1876. (Paris, Viaut.) Contm uma
serie de enigmas, numerosos proverbios, alguns contos, algumas canes e
diversas traduces do francez. Vid. _Mlusine_, I, 55. Paris, 1877.




IV. LINGUA FRANCA


Littr, _Dict. de la langue franaise_, s. v. _franc_ 4, define lingua
franca: jargon ml d'italien, d'espagnol, etc.  l'usage des Francs de
l'Orient isto , dos europeus do Levante.

J. Creswell Clough no ensaio _On the existence of mixed languages_, p.
11, define, fundado na auctoridade de Malte Brun, a lingua franca do
Mediterraneo como uma mistura de catalo, limosino, siciliano e arabe,
originada nos estabelecimentos de escravos dos mouros e turcos. O auctor
no conheceu porm nenhum specimen d'essa lingua. (_The Athenaeum_,
1877. January to June, p. 545.)

Segundo o mesmo periodico inglez, vol. cit. p. 608, ha um _Dictionnaire
de la langue franque, ou petit mauresque,  l'usage des franais en
Afrique_, publicado ha alguns annos em Marselha. O vocabulario
comprehende palavras italianas, algumas frmas approximando-se do
hespanhol e ainda um certo numero de termos locaes usados na Argelia.

O principe L. L. Bonaparte considera, com raso, a lingua franca como
estando para com o italiano litterario na mesma relao que o
indo-portuguez para com o portuguez, os dialectos creolo-francezes para
com o francez, o negro-hollandez para com o hollandez, (_Athenaeum_,
vol. cit., p. 640 e 703.)


Lingua franca                           | Italiano
                                        |
Bon giorno, Signor; comme ti            | Buon giorno, Signore; come stai?--Io
star?--Mi star bonu, e ti?--Mi          | sto bene, e tu?--Io son contente
star contento mirar per                 | di vederti.--Grazie.--Poss'io
ti.--Grazia.--Mi pudir servir per ti    | servirti in qualche cosa?--Molte
per qualche cosa?--Muciu grazia.--Ti    | grazie.--D una seggiola al
dar una cadiera al Signor.--Non         | Signore.--Non ho bisogno. Io sto
bisogna. Mi star bene                   | bene cos.--Como sta il tuo
acous.--Comme star il fratello di      | fratello?--Sta molto bene.
ti?--Star muciu bonu.                   |

(_The Athenaeum_, 1877, 1.^o sem., p. 640).


L. L. Bonaparte d as seguintes regras que caracterisam a lingua franca:
1.^a Os nomes no tem plural: _amigo_==amigo e amigos. 2.^a Os verbos
no tem conjugao, mas s um futuro periphrastico e um participio
terminando em _ato_ ou _ito_: _mi_, _ti_, _ellu_, _noi_, _voi_, _eli_,
_andar_ significam no s eu vou, tu vaes, elle vae, ns vamos, vs
ides, elles vo, mas tambem eu ia, etc., eu fui, etc.; _bisogno andar_
significa eu irei, etc. 3.^a _Star_ significa _ser_ e _ter_, quando so
usados como verbos auxiliares. 4.^a _Avir_ ou _tenir_ significam _ter_,
mas s com a ida de _possuir_. 5.^a O regimen directo dos pronomes
pessoaes  precedido da preposio _per: mi mirar per ella_, eu vejo-o.

Molire no acto IV do _Bourgeois gentilhomme_ deu uma imitao da lingua
franca.


     Scne X.--_Le Muphti, Dervis, Turcs, chantans et dansans; Monsieur
     Jourdain_, vtu  la turque, la tte rase, sans turban et sans
     sabre.

     _Le Muphti,  M. Jourdain._

                  Se ti sabir,
                  Ti respondir,
                  Se non sabir,
                  Tazir, tazir.

                  Mi star muphti,
                  Ti qui star si?
                  Non intendir,
                  Tazir, tazir.


     Scne XI.--_Le Muphti, Dervis, Turcs chantans et dansans._


     _Le Muphti._ Dice, Turque, qui star quista? Anabatista? anabatista?

     _Les Turcs._ Ioc.

     _Le Muphti._ Zuinglista?

     _Les Turcs._ Ioc.

     _Le Muphti._ Coffita?

     _Les Turcs._ Ioc.

     _Le Muphti._ Hussita? Morista? Tronista?

     _Les Turcs._ Ioc, ioc, ioc.

     _Le Muphti._ Ioc, ioc, ioc. Star pagana.

     _Les Turcs._ Ioc.

     _Le Muphti._ Luteranos.

     _Les Turcs._ Ioc.

     _Le Muphti._ Puritana?

     _Les Turcs._ Ioc.

     _Le Muphti._ Bramina? Moffina? Zurina?

     _Les Turcs._ Ioc, ioc, ioc.

     _Le Muphti._ Ioc, ioc, ioc. Mahametana? Mahametana?

     _Les Turcs._ Hi Valla. Hi Valla.

     _Le Muphti._ Como chamara? Como chamara

     _Les Turcs._ Giourdina, Giourdina.

     _Le Muphti_ (sautant). Giourdina, Giourdina.

     _Les Turcs._ Giourdina, Giourdina.

     _Le Muphti._

                  Mahameta, per Giourdina,
                  Mi pregar, sera e matina.
                  Voler far un paladina
                  De Giourdina, de Giourdina;
                  Dar turbanta e dar scarrina,
                  Con galera, e brigantina,
                  Per deffender Palestina,
                  Mahameta, per Giourdina,
                  Mi pregar sera e matina.
                  Star bon Turca Giourdina?

     _Les Turcs._ Hi Valla. Hi Valla.

     _Le Muphti_ (chantant et dansant). Ha la ba, ba la chou, ba la ba,
     ba la da.

     _Les Turcs._ Ha la ba, la la chou, ba la ba, ba la da.


     Scne XIII.--_Le Muphti, Dervis, Monsieur Jourdain, Turcs,
     chantans et dansans._

     _Monsieur Jordain_ (aprs qu'on lui a t l'Alcoran de dessus le
     dos). Ouf!

     _Le Muphti_ ( M. Jourdain).

                  Ti non star furba?

     _Les Turcs._

                  No, no, no.

     _Le Muphti._

                  Non star forfanta?

     _Les Turcs._

                  No, no, no.

     _Le Muphti_ (aux turcs).

                  Donar turbanta.

     _Les Turcs._

                  Ti non star furba?
                  No, no, no.
                  Non star forfanta?
                  No, no, no.
                  Donar turbanta.


     _Les Turcs dansans_ mettent le turban sur la tte de _M. Jourdain_
     au son des instruments.

     _Le Muphti_ (donnant le sabre  _M. Jourdain_).


             Ti star nobile, non star fabbola,
                  Pigliar schiabolla.


     _Les Turcs_ (mettant le sabre  la main).


             Ti star nobile, non star fabbola
                  Pigliar schiabolla


     _Les Turcs dansans_ donnent en cadence plusieurs coups de sabre 
     _M. Jourdain_.

     _Le Muphti._

                  Dara, dara
                  Bastonnara.

     _Les Turcs._

                  Dara, dara
                  Bastonnara.

     _Les Turcs_ donnent  _M. Jourdain_ des coups de bton en cadence.

     _Le Muphti._

                         Non tener honta,
                  Questa star l'ultima affronta.

     _Les Turcs._

                         Non tener honta,
                  Questa star l'ultima affronta.


O uso frequente na lingua franca da palavra _sabir_, principalmente na
expresso _mi no sabir_ com que os levantinos e argelinos respondiam s
perguntas que lhes faziam os estrangeiros e que elles no comprehendiam,
fez dar a essa lingua o nome de _sabir_, _lingua sabir_. Vid. Littr,
_Dictionnaire de la langue franaise. Supplment_, s. v. _Sabir_.

A. Darmesteter, _De la cration actuelle de mots nouveaux dans la langue
franaise_, p. 261, n. define ainda: Le _sabir_ ou langue franque,
mlange d'italien, de franais, de provenal et d'arabe parl par les
marins de la Mditerrane.

Algumas phrases ou expresses da lingua franca chegaram, sem duvida por
intermedio dos marinheiros, at ao calo ou girias dos diversos povos da
Europa. No _cant_ (calo de Inglaterra) ha por exemplo: _nantee dinarly_
(no tenho) nenhum dinheiro, da lingua franca; _niente dinaro_, do
italiano _niente_, nada (==fr. _nant_) e _denario_ (==port. _dinheiro_,
hesp. _dinero_, fr. _denier_, do lat. _denarius_). Em portuguez ha
_nentes_ do ital. _niente_, que no veiu ao que parece por intermedio da
lingua franca. _Nicles_, nada, da giria dos garotos portuguezes parece
estar por _niks_ e corresponder ao _nix_ da lingua franca. The
well-known _Nix mangiare_ stairs at Malta derive their name from the
endless beggars who lie there and shout Nix mangiare, i. . nothing
to eat,--an expression which exhibits remarkably the mongrel
composition of the Lingua Franca, _mangiare_ being italian, and _Nix_
(germ. _Nichts_), an evident importation from Trieste, or other Austrian
seaport. _The Slang Dictionary_, apud Johan Storm, _Englische
Philologie_ I, 162-3.

Storm junta em nota a pag. 163: Li n'um romance maritimo inglez a
seguinte lamuria de um pedinte maltez: _Me_ molto miserabile, signore!
_Nix_ padre, _nix_ madre, _nix_ mangiare _per sixteen days_, per Ges
Christo. _Nix_  considerado geralmente na Italia pelo povo como a
negao allem ou estrangeira. Mas o emprego de uma expresso como _nix_
ou de termos extranhos no determina de modo algum o caracter da lingua
franca. O emprego de expresses como _sixteen days_  um accidente de
momento que se encontra em todas as linguas: quando a gente que as falla
se acha em contacto com estranhos recorre  sua maior ou menor proviso
de termos estrangeiros. A composio da lingua franca no  realmente
mais _mongrel_ que por exemplo a do inglez, que apresenta vocabulos
provenientes de innumeras linguas.




V. CONSIDERAES GERAES


No foram s as linguas romanicas que serviram de base  formao de
dialectos como os que acbamos de noticiar: podemos dar indicao de
dialectos similhantes de origem germanica, a cujo estudo procederemos
logo que tenhamos materiaes sufficientes.

O _negro-english_, dialecto assim chamado impropriamente,  fallado na
colonia hollandeza de Surinam, na Guiana, por uma populao de crca de
100:000 individuos, dos quaes 90:000 negros e 10:000 de origem europa.
As frmas grammaticaes esto reduzidas n'este dialecto, como em todos os
similhantes a um minimo.

_The Bible of Every Land_, p. 213, d noticia de traduces dos Psalmos
e do Novo Testamento no _negro-english_. Julgmos terem por objecto este
dialecto os livros seguintes que ainda no logrmos ver:

_Kurzgefasste neger-englische Grammatik._ Bautzen, 1854.

Van der Vegt, _Proeve eener handleiding om het neger-engelsch_.

O creolez (ingl. _creolese_)  um dialecto tendo por base o hollandez,
fallado pela populao negra das ilhas de Santa Cruz, S. Thomaz e S.
Joo (Indias Occidentaes); no tem distinco de genero nem numero, nem
declarao de nomes, nem conjugao simples de verbos.

Em 1781 o governo da Dinamarca fez imprimir em Copenhagen uma traduco
do Novo Testamento n'esse dialecto; em 1818 fez-se nova edio. Segundo
_The Bible of Every Land_, pag. 212, parece que o creolez cau em
desuso.

O inglez serviu de base na China  formao dialectal chamada _Pidgin
English_ (_pidgin_  approximadamente a pronuncia chineza do inglez
_biznes_, _business_). No vimos ainda a obra de Leland, _Pidgin English
singsing, or Songs and Stories in the China-English dialect_. London,
1866.

Na _Introduction to the Study of Sign Language among the north american
Indians_ by Garrick Mallery (Smithsonian Institution-Bureau of
Ethnology. Washington, 1880.) p. 12, achmos a seguinte noticia: Os
kalapuyas do Orego meridional usaram at ha pouco uma linguagem de
signaes, mas gradualmente adoptaram para a communicao com o
estrangeiro a lingua composta, commummente chamada giria _tsinuk_ ou
giria _chinook_, que provavelmente se originou para fins commerciaes nas
margens do Columbia antes da chegada dos europeus, fundada sobre o
tsinuk, tsiholi, nutka, etc., mas agora enriquecido por termos francezes
e inglezes, e esqueceram quasi inteiramente os seus antigos signaes. A
prevalencia d'esta lingua mestia, formada nas mesmas condies que
produziram o _pigeon-english_ ou a _lingua franca_ do oriente, explica a
falta notada de lingua de signaes entre as tribus da costa noroeste.

A giria tsinuk no  talvez, apesar do que nos diz G. Mallery, mais do
que um dialecto inglez da natureza dos que so objecto do presente
estudo.

Ninguem ainda, que saibmos, viu com clareza o verdadeiro caracter e
reconheceu as leis geraes que presidem  formao de dialectos de que
nos occupmos.

O eminente philologo P. Meyer tocou a nosso ver em um dos pontos
essenciaes da questo, mas por falta sem duvida de termos de comparao
no a collocou  verdadeira luz: Estudar-se-ho com interesse, diz
elle, com relao ao dialecto da Trinidad, os diversos tempos compostos
pelos quaes os negros remediaram as lacunas da conjugao, achar-se-ha
materia para diversas comparaes com os factos parallelos que apresenta
 formao das linguas romanicas. Nada deve porm esquecer que a
comparao tem aqui a mais fraca base. Os negros, quando aprenderam o
francez, estavam habituados a uma lingua absolutamente differente e
nunca souberam mais que as _palavras e as frmas mais usuaes_ de seu
novo idioma, emquanto o latim vulgar de que saram por desenvolvimentos
individuaes e locaes as linguas romanicas, foi sempre um idioma
sufficientemente completo, cujas transformaes foram asss lentas para
que as lacunas tenham tido tempo de se encher facilmente ao passo que se
formaram. _Rev. critique_, 1872 artigo 50. Na passagem seguinte, M. P.
Meyer mostra ter repugnancia em admittir que a formao de dois
dialectos creolos obedea a leis perfeitamente identicas: Parece que o
_patois_ da ilha de Frana offerece, na deformao do francez, analogias
com o da Trinidad que no so explicadas sufficientemente pela
communidade do ponto de partida.

O dr. Bos (_Romania_ IX, 571) admitte j a independencia d'essas
formaes analogas, sem ver ainda aqui a aco de leis geraes: Os
diversos creolos (francezes) que se fallam nas Antilhas, na America, nas
ilhas Mascarenhas, no Oceano Indico, tem todos um ar de familia, uma
similhana ainda mais accentuada que a que existe entre as linguas
neo-latinas, e devida provavelmente  sua maior mocidade e  sua maior
proximidade da lingua me. Alem d'isso essa lingua me, o francez, 
unica para os idiomas creolos; e o latim vulgar, quando deu origem s
linguas neo-latinas, tinha talvez j perdido a unidade, e experimentado
as influencias regionaes que deviam transformal-o, aqui em francez,
acol em provenal, alem em italiano, etc. Fra pois da questo de
tempo, a grande similhana que existe entre as linguagens creolas provm
provavelmente da unidade da lingua que lhe deu origem: o francez
representa aqui o papel do latim vulgar com relao s linguas
romanicas.

As idas geraes com relao  formao d'estes dialectos expressas por
E. Tesa no seu citado estudo sobre o creolo de Curao no me parecem
tambem exprimir a verdade dos factos. Due studj sono a farsi nella
istoria delle lingue: la libert e la servit. Una favella si disgiunge
da una grande famiglia, serbando parte del tesoro commune e nei valori
radicali che si incorporano in un grupo di suoni, e ne' canoni
derivativi, e nelle flessioni. Questa ricchezza ereditata non giace
inerte.  un grande albero: e dei molti rami, quale si leva pi alto,
quale si arresta a mezza la via; ma in ciascuno  una vita sua propria:
vi discorre lo stesso succo a nutrirli, ma  vario lo spessore degli
strati e le virt: tutto  un agitarsi, un crescere; finch le due
ultime foglie, che si toccano in mezzo al sereno dei cieli, non
rammentano pi che la radice commune  nascosta in un luogo solo e
circondata di poca terra.

Beata la nazione alla quale, in codesta opera de' secoli, la lingua si
disvolge senza ingiustamente comandare e senza miseramente servire;
perch anche negli organismi vocali cos corrompe il vedersi schiavo
como il farsi tiranno.

Bens le lingue, presto o tardi, si incontrano, si impinguano, si
tarpano l'una l'altra; o sia l'imitazione delle idee come nella prosa
de' Cechi e de' Magiari, guidata in tanta parte dal tedesco: o da questa
lingua in quella si trasfonda la somma delle parole, como le sanscrite
nel tamulico; le turche nel greco, nell'armeno, nello schipetaro, nel
romno, nel bulgaro, nel serbo. Talora poi le forme stesse o cedeno alle
alle straniere o le accettano cooperatrici a rappresentare il pensiero;
come nel persiano e pi nel turco e, con istrazio peggiore, nel
huzuresco.

Un esempio di queste corruzioni profonde lo veggiano a Curassao; e non
osservato, ch'io sappia, dai linguisti. Non ho trovato che un libro; e
bisognerebbe sapere se altri ve ne sieno e serbino tutti le forme
spagnuole, o incomincine a corrompere anche la lingua degli Olandesi,
padroni nuovi. Poi sarebbe utile a conoscere QUALE DIALETTO VI
PARLASSERO GLI ABORIGENI; quando sia scomparso o se ancora se ne
conservino le tracce; finalmente quanto sieno in quel picciolo popolo i
discendenti di Spagna i quanto di Olanda...

Certo da questo breve studio sul curassese saremo condotti a
ristringere la opinione di Augusto Fuchs che lo spagnuolo, dominatore in
tanta parte di America, non si mescol a nessuna delle lingue indigene
da formare um nuovo dialetto (Cfr. _Die romanischen Sprachen._ Halle,
1849, p. 7). Non s' mescolato; ma IL PENSIERO NAZIONALE TRASCIN DIETRO
A S LE FRME SPAGNUOLE E GLI AVANZI; cos che ne deriv una favella che
non assomiglia certo a nessuno dei dialetti metapireneici.

A me pare che uscirebbe un bel libro, ma da non farsi in Europa, chi si
ponesse a ricercare come le lingue latine rimutassero; il francese nel
Canada, in Haiti; il portoghese nel Brasile e lungo le coste d'India; a
Cuba, a Portorico e via via lo spagnuolo. SAREBBE A DISCOPRIRSI LA
GRAMATICA INDIGENA; E DEDURNE LE LEGGI DISSOLUTIVE DI QUELLA PAROLA, l
inerte o quasi, che fu stromento a forti pensiere e alle grazie
dell'arte in bocca a Dante, a Cervantes, a Voltaire.

Como se v o douto professor de Pisa inclina-se a admittir como
explicao dos dialectos creolos uma accommodao das frmas romanicas 
grammatica das linguas dos povos entre os quaes esses dialectos se
formam.

Alguns eruditos brazileiros, conhecedores dos dialectos indigenas,
admittem influencia grammatieal d'estes dialectos sobre o portuguez do
seu paiz.

A lingua fallada pelos primitivos incolas d'El-Dorado, a lingua do
selvagem, que teve voga nos primeiros tempos do desenvolvimento do
Brazil, que durante dois seculos entre os proprios colonos europeus era
a lingua geral e de uso quotidiano no tracto commum, usada e fallada
at no pulpito, ainda hoje fallada no Paraguay, teve tal importancia j,
que, temendo-se que fosse esquecida a lingua portugueza, mereceu ser
proscripta expressamente a ponto de a mandarem abolir pela proviso de
12 de outubro de 1727 (_Jornal do Timon_, t. 2.^o; p. 315). E depois,
apezar de tudo, ella perdura ainda, j no digo pelo facto de subsistir
hoje entre varias e numerosas tribus do Amazonas e de Matto Grosso,
porm, perdura na lingua portugueza, fallada pelos descendentes dos
Brazis, dando-lhe um feitio caracteristico que distingue essencialmente
essa falla brazileira da portugueza, no s na inflexo da voz, no s
na phonetica, mas ainda no torno grammatical e no phraseado que tem
_seu que_ de novo, no usado na terra lusitana, e a final em grande
numero de vocabulos de todo no portuguezes. A lingua geral  certo,
morreu com o indio e ou si no morreu ainda, vae morrer e desapparecer
com o derradeiro selvagem, que a locomotiva da civilizao tem de
aniquilar na sua marcha, no seu avana para deante. Porm, como em
seguida  derrubada, onde era a mata virgem, surge a capoeira, do mesmo
modo no campo de exterminio, do qual se-eliminou o indio, subsistem o
mameluco, o caboclo, o caipira, o matuto; e essa pobre gente que
constitue a nossa gente da roa, os nossos _officiaes de officio_, a
nossa soldadesca e a nossa maruja, concorre sem a menor duvida com a
maior percentagem para formar o algarismo da nossa populao.
Desappareceu o indio (_ab_), o indigena, o autochtone
(_t-yby-ab_==_typynab_), o selvagem (_tapyyia_),--mas ficou o caboclo,
o perfilhado por branco (_carab-oca_==_caribca_), o mameluco, o filho
da mulher india (_membyruc_), o pelle tostada (_caipra_), ou o homem
corrido, envergonhado, abatido, submettido (_kuaipira_). E esses
mamelucos, caboclos e caipiras, fallando a lingua do outro, do
extrangeiro, do homem de l longe, do emboaba, (_amo-ab_), fallando
essa lingua corrompida pelo fallar do africano, do selvagem negro
(_tapyyuna_), conservam no sotaque, no phraseado, reminiscencias da
lingua geral que vo se-fazer ouvir ainda no seio do parlamento, onde
desgraadamente predomina um francez assaz eivado de francezismos e
tambem j de no poucos inglezismos. Foi proscripta a lingua do indio (o
_ab eenga_), mas na lingua do branco (no _cara-eenga_) fallada pelos
matutos, e reproduzida s vezes com bastante merito em escriptos
litterarios, subsistem dizeres _sui generis_, oriundos da lingua
materna, certamente _materna_ pois que elles so os mamelucos, os filhos
da mulher indigena, so os caboclos oriundos do homem branco. Como muito
bem diz o sr. dr. Couto de Magalhes, na _linguagem popular_ do Brazil
ha no s grande _quantidade de vocabulos tupis_ ou _guaranis_, mas
ainda _phrases, figuras, idiotismos e construces peculiares_. Quanto
ao vocabulario  incontestavel, e com um pouco de atteno v-se, que no
portuguez brazilico abundam dices de linguas americanas em numero mais
consideravel talvez que o das dices arabicas que se-conservam no
lexicon portuguez. Dizemos linguas americanas, porque na realidade no
ha s vocabulos do _abeenga_, e sim tambem do _chilidugu_, do _kechua
callu_, do _karai-arianga_, e outras, como sejam _brisa_, _cana_,
_furaco_, _piroga_, _mate_, _guasca_, _guampa_, _gacho_, etc. Nas
sciencias naturaes (mrmente na botanica) e na geographia  mais que
consideravel o numero de vocabulos oriundos de linguas americanas[7].

Nem o tupi oriental, aquelle que era fallado na costa quando os
jesuitas o escreveram, e que faz objecto dos diccionarios e grammaticas
que nos legaram; nem a lingua Kirir, um tupi que era fallado pela tribu
d'esse nome, no so hoje linguas vivas. Assim como os selvagens ou
desappareceram ou subsistem mestiados, assim a lingua ou desappareceu
ou mestiou-se no rustico fallar do nosso povo, conseguindo introduzir
na lingua portugueza do Brazil centenares de raizes[8].

O cruzamento d'estas raas (indigenas do Brazil, negros e brancos) ao
passo que misturou os sangues, cruzou tambem (se nos  licito
servirmo-nos d'essa expresso) a lingua, sobretudo a linguagem popular.
 assim que, na linguagem do povo das provincias do Par, Goyaz, e
especialmente de Matto-Grosso, h no s quantidade de vocabulos tups e
guarans accommodados  lingua portugueza e n'ella transformados, como
ha phrases, figuras, idiotismos, e construces peculiares ao tup. Este
facto mostra que o cruzamento physico de duas raas deixa vestigios
moraes, no menos importantes do que os do sangue. O notavel professor
norte-americano C. F. Hartt nota que so rarissimos os verbos
portuguezes que tem raizes tups, e cita como um d'esses raros
exemplos, talvez unico, o verbo _moquear_. Se o illustre professor
houvesse viajado outras provincias, veria que esse exemplo no 
isolado, e que no temos um, mas muitos verbos vindos do tup, e alguns
d'elles to expressivos e energicos que no encontrmos equivalentes em
portuguez; citarei entre outros os seguintes: _espocar_ (Par) por:
arrebentar abrindo; _petequear_ (Minas, S. Paulo) por: jogar; _entocar_
(geralmente em todo o Brazil) por metter-se em buraco, ou figuradamente,
por: encolher-se, fugir  responsabilidade; _gapuiar_ (Par, Maranho)
por: apanhar peixe; _cutucar_ (geral) por: tocar com a ponta; _espiar_
(geral) por: observar; _popocar_ (Par, Maranho) por: abrir
arrebentando; _pererecar_ (geral) por: car e revirar; _entejucar_ por:
embarrear; _encangar_ por: metter os bois no jugo; _apinchar_ por:
lanar, arremessar; _capinar_ por: limpar o matto; _embiocar_ por:
entrar no buraco; _bobuiar_ por: fluctuar; _catingar_ por: exhalar mau
cheiro; _tocaiar_ por: esperar, etc., so outros tantos verbos com que o
tup enriqueceu a lingua popular dos habitantes do interior do Brazil,
lingua s vezes rude, no o contestmos, mas s vezes tambem de uma
energia e elegancia de que s pde fazer ida, aquelle que tem estado em
uma roda de gachos folgazos a ouvil-os contar a historia de seus
amores, suas faanhas de valentia, ou as lendas, s vezes to tocantes e
poeticas de suas supersties, metade christs, metade indigenas[9]...

Se dos verbos passassemos aos substantivos, nomes de animaes, logares,
plantas, ver-se-ha que nada menos de mil vocabulos, quasi uma lingua
inteira, passou e veiu fundir-se na nossa, assim como com o cruzamento
tem passado e ha-de continuar a passar o sangue indigena a assimilar-se
e confundir-se com o nosso[10].

Como se v os dois escriptores brazileiros, que tem um longo
conhecimento do tupi-guarani, nenhum facto apresentam que prove a
influencia grammatical que admittem: as suas indicaes resumem-se a
factos lexiologicos, alguns dos quaes so muito contestaveis.

No entraremos n'um exame critico directo das diversas opinies que
acabmos de citar. Os materiaes por ns accumulados permittem-nos
assentar os seguintes principios, em face dos quaes  facil julgar essas
opinies.

1.^o _Os dialectos romanicos e creolos, indo-portuguez e todas as
formaes similhantes representam o primeiro ou primeiros estadios na
acquisio de uma lingua estrangeira por um povo que falla ou fallou
outra._

Este principio  por assim dizer evidente. Basta observar como os
estrangeiros que no tem estudos grammaticaes comeam a fallar a lingua
de um paiz que no  o seu para a ver perfeitamente confirmada. _Mi no
fall portuguese_  uma phrase typica que todos conhecemos na bca dos
inglezes.

Os factos observados nos dialectos creolos de Santo Anto, Guin, etc.,
revelam _graus diversos na acquisio do portuguez_. A lingua franca
pde ser considerada como o typo mais rudimentar das formaes de que
nos temos occupado. Aqui devemos observar um facto interessante:
consiste elle em que o povo de qualquer paiz achando-se em contacto com
estrangeiros que no fallam a sua lingua reduz esta tambem, por assim
dizer instinctivamente, ao mesmo typo privado de frmas grammaticaes que
caracterisam os dialectos creolos[11].

Nos contos populares, os mouros, os turcos e os negros so apresentados
pelo povo a fallar uma lingua em que o infinito substitue as outras
frmas verbaes; assim em G. Pitr, _Fiabe, novelle e racconti popolari
siciliani_, I, 17, n.^o 1, ha o seguinte dialogo entre um turco e S.
Nicolau: Bonciornu Santu Nicola!--Addiu Maumettu.--_Pigghiari_
tanticchia d'ogghiu?--_Pigghiari_ quanto vi. Pde comparar-se a
verso portugueza d'essa facecia em a nossa colleco de _Contos
populares portuguezes_, n.^o 72. O douto e indefesso collector das
tradies sicilianas ministra-nos a seguinte nota: Nel _Malmantile_ del
Lippi annotato dal Minucci, vol. III, pag. 257, a proposito della frase
del Lippi _star usanza_ si legge: _Star usanza_.  detto alla maniera
degli stranieri, specialmente tedeschi, o turchi, che cominciando a
parlar un poco Italiano, si servono quasi sempre dell'infinito in luogo
di qualsivoglia tempo.  curiosa la perifrase d'uno schiavo turco, che
avendo rubato un turibolo d'argento, volendolo vendere, andava dicendo
negli orecchi a coloro, ch'egli supponeva lo potessino comprare: _Voler
comprar un andare un venire un sentir buono?_

 com razo que M. E. Egger nas suas _Observations et rflexions sur le
dveloppement de l'intelligence et du langage chez les enfants_ (Paris,
1879. 8.^o) compara a linguagem das creanas aos dialectos creolos: A
vingt-huit mois l'enfant connat le sens des trois mots: _ouvrir_,
_rideau_ et _pas_ (ngation); dj il les rapproche avec une certaine
dextrit, en les acompagnant du geste et du monosyllabe _a_. _Pas
ouvrir a_ signifie la fentre est ferme; _pas rideau a_ signifie
la fentre n'a pas de rideau. On reconnat l ces grossires faons de
parler qu'on dcore parfois du nom de patois ngre, parce que les ngres
de nos colonies n'empruntent gure  la langue de leurs matres qu'un
petit nombre de vocables, les plus ncessaires, et qu'ils les
accouplent, selon le strict besoin, sans aucun souci de la conjugaison
et mme de la syntaxe. Ob. cit., p. 44.

Os dialectos de que nos temos occupado no so pois o resultado de uma
transformao lenta, gradual, tendo por ponto de partida principal a
alterao phonetica, como a que se opera nas linguas que seguem o curso
normal da sua evoluo, como a que transformou o latim em portuguez,
hespanhol, provenal, italiano e valachio; nos dialectos creolos e
similhantes a alterao phonetica  o menos; com ella pouco se explica
da estructura morphologica e syntactica d'essas frmas de linguagem.
Bopp e Diez so de muito pouca utilidade immediata, os principios da
grammatica comparada usual de pouco nos servem para entendermos aquelles
dialectos.

A transformao da linguagem em virtude da alterao phonetica  um
phenomeno de base physiologica; a formao dos dialectos creolos  no
que tem de essencial um phenomeno psychologico. Formam-se elles
rapidamente, para acudir  necessidade das relaes;  o povo inferior
pela raa, pelo estado de civilisao, mas ao mesmo tempo mais forte de
instinctos, mais rico de espontaneidade,  esse que os forma com os
materiaes da lingua do povo superior, que em regra no desce a aprender
ou mesmo a dar atteno s expresses do barbaro, do selvagem. Ao ouvido
do povo inferior chegam primeiro como ondas sonoras tumultuosas as
palavras do povo superior, depois aquelle percebe como que um rythmo,
depois n'aquelle oceano de palavras descobre alguns pontos firmes,
salientes; fixa-se n'elles: so as frmas mais geraes e frequentes da
linguagem; ellas bastam--a lingua nova, o instrumento indispensavel para
o trato est forjado; enriquecel-o, approximando-o do typo perfeito, 
obra do tempo, se o houver, se as condies o permittirem; mas a riqueza
no ser muitas vezes mais do que anomalia, porque aquella frma
primeira de linguagem, nascida de um trabalho todo espontaneo, era
perfeitamente coherente. Por fim d-se muitas vezes um phenomeno
curioso: entendido do povo superior, do povo que em geral manda, o povo
inferior no quer saber mais nada da lingua d'elle, contentando-se com o
dialecto que formou: ento o povo superior ver-se-ha obrigado a fallar a
sua propria lingua alterada[12].

 innegavel que a primeira reduco morphologica (podemos assim definir
o processo de formao dos nossos dialectos) que uma lingua experimenta
na bca de um povo que tinha j outra deixa vestigios profundos, ainda
quando o povo acaba por esquecer completamente a sua lingua propria e
por conhecer de um modo mais completo a morphologia da lingua que adopta
de um outro povo. Os processos periphrasticos da primeira phase da
acquisio da lingua estranha no desapparecero de todo, e mais tarde,
quando a alterao phonetica, que elles favorecem, obscurecer certas
frmas grammaticaes, esses processos voltaro a ser normaes na lingua.
No ser a causa d'esta natureza que sero devidos os futuros
periphrasticos, por exemplo, nas linguas romanicas? At hoje no se
determinou com preciso o grau e caracter da influencia exercida por um
povo sobre a lingua estranha que a conquista ou outras causas lhe faz
adoptar. O erro capital n'esta questo consiste, a nosso ver, em se
suppor que a lingua estranha  alterada pelo typo da lingua propria. O
estudos dos dialectos creolos permitte-nos resolver esta questo.

2.^o _Os dialectos romanico-creolos, indo-portuguez e todas as formaes
similhantes devem a origem  aco de leis psychologicas ou
physiologicas por toda a parte as mesmas e no  influencia das linguas
anteriores dos povos em que se acham esses dialectos._

Os factos accumulados por ns mostram  evidencia que os caracteres
essenciaes d'esses dialectos so por toda a parte os mesmos, apesar das
differenas de raa, de clima, das distancias geographicas e ainda dos
tempos.  em vo que se buscar, por exemplo, no indo-portuguez uma
influencia qualquer do tamul ou do singalez. No dialecto macaista a
formao do plural por duplicao do singular pde attribuir-se a uma
influencia chineza, mas esse processo  to rudimentar que nenhuma
concluso podemos fundar sobre elle. No dialecto da ilha de Sant'Iago
_muito muito_  um superlativo.

Os phenomenos phoneticos que nos offerecem os dialectos creolos nada
tem de especial: a suppresso do _r_ final, a tendencia para o
iotacismo, por exemplo, apparecem-nos quasi por toda a parte; as
proprias excepes so as mesmas: assim temos _ser_ e no _s_ em
Ceylo, em Macau, no archipelago de Cabo Verde. Nenhum som das linguas
indigenas foi transportado para os dialectos creolos; mas alguns sons
das linguas europeas foram modificados. Ora na propria Europa se notam
modificaes similhantes. A seguinte observao do dr. Bos sobre o
creolo da ilha Mauricio , emquanto aos sons, quasi inteiramente
applicavel a todos os dialectos similhantes:  provavel que os sons do
francez que o negro no pde reproduzir faltavam na sua lingua. A
influencia das linguas negras reduziu-se a isso; ellas no....
implantaram nenhum som novo; ellas supprimiram os que ellas
ignoravam[13], para os substituir por outros mais ou menos analogos: _e_
mudo por _i_, _ui_ por _i_ , _j_ por _z_, _ch_ por __, etc.

No fallar brazileiro, por exemplo, no parece haver nenhum dos sons
particulares do tupi-guarani.

A aco das leis psychologicas geraes vae quasi sempre nos dialectos de
que nos occupmos at s feies miudas; assim no s a periphrase com
as frmas mais geraes nos apparece para substituir as frmas no
adquiridas, mas ainda a mesma preferencia por certas frmas auxiliares
se nota quasi por toda a parte; assim o presente formado com _ta_
(==_estar_) em Macau, nas ilhas de Cabo Verde, em Curao; em Ceylo
como em Curao _lo_  o elemento formativo do futuro. Na Luisiania
_t_==_tait_ serve para formar o imperfeito.

A preferencia dada n'esses dialectos aos pronomes regimens, que vem
occupar o logar dos pronomes sujeitos encontra-se entre ns no fallar
das creanas e tem grande extenso nas phrases populares das nossas
linguas europas[14].

A propria seleco lexiologica, isto , a preferencia dada a certos
termos, manifesta a aco das mesmas leis geraes, das mesmas tendencias
nas formaes que estudmos, apesar das differenas de raas e de meios;
assim para significar fallar ou dizer encontrmos em Ceylo, Curao,
archipelago de Cabo Verde, etc., a palavra _papi_, o que  tanto mais
interessante quanto esse termo no parece existir hoje nem em hespanhol
nem em portuguez. O substantivo _mist_ (_mister_) em Ceylo, em Macau,
em Curao, no archipelago de Cabo Verde, tem o valor de um verbo
significando ser preciso, ter necessidade de, dever. _Pamde_ e
_promodi_(==por amor de) tomam em Macau, como em Santo Anto, o logar da
conjunco porque, de um modo independente; em quanto o _passba_
(==_por es'obra_) de Curao nos lembra o _quamobrem_ latino. _Assilai_
por _tal_ em Ceylo e Macau deve ter-se produzido tambem
independentemente n'um e n'outro dialecto; a palavra  composta de
_assi_ (d'este modo) e _lai_ por _laia_, que em portuguez significa
especie, sorte, estofo. sentido desenvolvido do de _l_.

A extenso j to consideravel d'este artigo no nos permitte
desenvolvermos mais completamente estas idas, julgmos porm ter
ministrado sufficientes provas de que os dialectos creolos e formaes
similhantes no revelam influencia alguma directa, salvo no vocabulario,
das linguas anteriores dos povos que os fallam, mas que se deve ver
n'elles apenas o resultado da aco de leis geraes a que obedece por
toda a parte o espirito humano.

O nosso _Estudo sobre a grammatica e o vocabulario do indo-portuguez_
completar as nossas observaes na parte comparativa[15].




Notas:

[1] Logo qui por _qu l'or qui_. Hoje  muito usado na cidade da Praia.

[2] O desapparecimento da syllaba inicial de _minha_ explica-se pelo
facto d'esta palavra se tornar proclitica? G. Vicente tem _enha_.

[3] As particularidades historicas que seguem so extrahidas da obra
_Ceylon, an account of the Island_, etc. by sir James Emerson Tennent.
London, 1860, 2 volumes, 8.^o

[4] Istes Escrituras de Novo Testamento, (que nossa Senhor Jesus Christo
ja papia,) _particularmente_ te da sabe, istes Mandamentos, que quer
dizia.

[5] _Apud_ Carl Engel, _An Introduction to the Study of National Music._
London, 1866. 8.^o, p. 351.

[6] Catin en patois normand est une poupe.

[7] _Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro._ 1878-1879. Vol.
IV. _Manuscripto guarani da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro_,
etc., _publicado com a traduco portugueza, notas, e um esboo
grammatical do abee_ pelo dr. Baptista Caetano d'Almeida Nogueira, p.
XI-XII.

[8] _O Selvagem_, I. Curso da lingua geral segundo Ollendorf. II.
Origens, costumes, regio selvagem, por Couto de Magalhes. Rio de
Janeiro, 1876, 8.^o, p. 40.

[9] Ob. cit., p. 77.

[10] _O Selvagem_, I. Curso da lingua geral segundo Ollendorf, etc., p.
77.

[11] Ds 1633, le pre Lejeune se plaignait qu'on employt entre
Franais et Indiens un jargon qui n'tait,  proprement parler, ni le
franais ni l'indien, et cependant, ajoutait-il avec surprise, les
Franais,  l'user, se flattent de parler indien, et les Indiens pensent
s'exprimer en bon franais. Maspro _Rev. ling._ IX, 405.

[12] Vid. acima as interessantes observaes de Bocand.

[13] Seria preferivel dizer: parte dos que ellas ignoravam.

[14] Vid. J. Storm, _Englische Philologie_, I, 207 ss.

[15] N'esse estudo tentaremos tanto quanto nos  possivel fazer com os
materiaes que temos  nossa disposio, indicar as particularidades
phoneticas do indo-portuguez, escondidas em grande parte sob a
orthographia adoptada pelos missionarios inglezes, e que julgmos no
dever modificar no specimen que dmos, reproduzido do folheto que contm
_Oraes_, _Dez Mandamentos_, _O sermo riba do montanha_ (sem data nem
logar de impresso).


Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+-------------------------+----------------------+
  |          |      Original           |      Correco       |
  +----------+-------------------------+----------------------+
  |#pg.    4| Anto                   | Anto                |
  |#pg.   13| Estes cavallos so teus.| Esta egua  tua.     |
  |#pg.   30| _three voyage_          | _three voyages_      |
  +----------+-------------------------+----------------------+


As variaes de dialecto (por vezes escrito dialeto) foram mantidas de
acordo com o original.

As variaes de nomes prprios foram mantidas de acordo com o original
(ex: Newtead e Newstead
)





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na frica, sia e Amrica, by Francisco Adolfo Coelho

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