Project Gutenberg's Historias Sem Data, by Joaquim Maria Machado de Assis

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Title: Historias Sem Data

Author: Joaquim Maria Machado de Assis

Release Date: July 3, 2010 [EBook #33056]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS SEM DATA ***




Produced by Pedro Saborano






HISTORIAS SEM DATA



OBRAS DO AUTOR

MEMORIAS POSTHUMAS DE BRAZ CUBAS        1 vol.
HISTORIAS SEM DATA                      1 vol.
PAPEIS AVULSOS                          1 vol.
HELENA                                  1 vol.
YAY GARCIA                             1 vol.
A MO E A LUVA                          1 vol.
RESURREIO                             1 vol.
PHALENAS, poesias                       1 vol.
AMERICANAS, poesias                     1 vol.
CHRYSALIDAS, poesias                    1 vol.
CONTOS FLUMINENSES                      1 vol.
HISTORIAS DA MEIA NOITE                 1 vol.
TU S, TU, PURO AMOR                    1 vol.
OS DEUSES DE CASACA, comedia            1 vol.
DESENCANTOS                             1 vol.
THEATRO                                 1 vol.




                            MACHADO DE ASSIS

                           HISTORIAS SEM DATA

               A EGREJA DO DIABO--O LAPSO--ULTIMO CAPITULO
                    CANTIGA DE ESPONSAES--UMA SENHORA
           SINGULAR OCCURRENCIA--FULANO--CAPITULO DOS CHAPOS
                            GALERIA POSTHUMA
                 CONTO ALEXANDRINO--PRIMAS DE SAPUCAIA
            ANECDOTA PECUNIARIA--A SEGUNDA VIDA--EX-CATHEDRA
                      MANUSCRIPTO DE UM SACRISTO
                         AS ACADEMIAS DE SIO
               NOITE DE ALMIRANTE--A SENHORA DO GALVO


                          _RIO DE JANEIRO_
                  B. L. GARNIER.--LIVREIRO-EDITOR
                      _71--Rua do Ouvidor--77_

                                1884.



      Typ. lith. a vapor, encadernao e livraria LOMBAERTS & C.




INDICE

                                    PAGS.
ADVERTENCIA                         vij
A EGREJA DO DIABO                     1
O LAPSO                              17
ULTIMO CAPITULO                      33
CANTIGA DE ESPONSAES                 49
SINGULAR OCCURRENCIA                 57
GALERIA POSTHUMA                     71
CAPITULO DOS CHAPOS                 87
CONTO ALEXANDRINO                   113
PRIMAS DE SAPUCAIA!                 131
UMA SENHORA                         147
ANECDOTA PECUNIARIA                 161
FULANO                              181
A SEGUNDA VIDA                      191
NOITE DE ALMIRANTE                  205
MANUSCRIPTO DE UM SACRISTO         219
EX CATHEDRA                         235
A SENHORA DO GALVO                 251
AS ACADEMIAS DE SIO                263


ERRATA

Escaparam alguns erros typographicos faceis de emendar; entre outros,
estes: _coser-lhe_ por _coser_ (pag. 43); _estar-lhe a contar_ por
_estar a contar-lhe_ (pag. 182); _deram a fora_ por _lhe deram a fora_
(pag. 211); _evidente mais_ por _evidentemente mais_ (pag. 272), etc.




ADVERTENCIA


De todos os contos que aqui se acham ha dous que effectivamente no
levam data expressa; os outros a tem, de maneira que este titulo
_Historias sem data_ parecer a alguns inintelligivel, ou vago.
Suppondo, porm, que o meu fim  definir estas paginas como tratando, em
substancia, de cousas que no so especialmente do dia, ou de um certo
dia, penso que o titulo est explicado. E  o peor que lhe pde
acontecer, pois o melhor dos titulos  ainda aquelle que no precisa de
explicao.

                                                                M. de A.




A EGREJA DO DIABO


CAPITULO I

DE UMA IDA MIRIFICA

Conta um velho manuscripto benedictino que o Diabo, em certo dia, teve a
ida de fundar uma egreja. Embora os seus lucros fossem continuos e
grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde
seculos, sem organisao, sem regras, sem canones, sem ritual, sem nada.
Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e
obsequios humanos. Nada fixo, nada regular. Porque no teria elle a sua
egreja? Uma egreja do Diabo era o meio efficaz de combater as outras
religies, e destruil-as de uma vez.

--V, pois, uma egreja, concluiu elle. Escriptura contra Escriptura,
breviario contra breviario. Terei a minha missa, com vinho e po 
farta, as minhas predicas, bullas, novenas e todo o demais apparelho
ecclesiastico. O meu credo ser o nucleo universal dos espiritos, a
minha egreja uma tenda de Abraho. E depois, emquanto as outras
religies se combatem e se dividem, a minha egreja ser unica; no
acharei diante de mim, nem Mahomet, nem Luthero. Ha muitos modos de
affirmar; ha s um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabea e estendeu os braos, com um
gesto magnifico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus
para communicar-lhe a ida, e desafial-o; levantou os olhos, accesos de
odio, asperos de vingana, e disse comsigo:--Vamos,  tempo. E rapido,
batendo as azas, com tal estrondo que abalou todas as provincias do
abysmo, arrancou da sombra para o infinito azul.


CAPITULO II

ENTRE DEUS E DIABO

Deus recolhia um ancio, quando o Diabo chegou ao cu. Os seraphins que
engrinaldavam o recem chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se
estar  entrada com os olhos no Senhor.

--Que me queres tu? perguntou este.

--No venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por
todos os Faustos do seculo e dos seculos.

--Explica-te.

--Senhor, a explicao  facil; mas permitti que vos diga: recolhei
primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor logar, mandai que as mais
afinadas citharas e alades o recebam com os mais divinos cros...

--Sabes o que elle fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de
doura.

--No, mas provavelmente  dos ultimos que viro ter comvosco. No tarda
muito que o cu fique semelhante a uma casa vasia, por causa do preo,
que  alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou
fundar uma egreja. Estou canado da minha desorganisao, do meu reinado
casual e adventicio.  tempo de obter a victoria final e completa. E
ento vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me no accuseis de
dissimulao... Boa ida, no vos parece?

--Vieste dizel-a, no legitimal-a, advertiu o Senhor.

--Tendes razo, acudiu o Diabo; mas o amor proprio gosta de ouvir o
applauso dos mestres. Verdade  que n'este caso seria o applauso de um
mestre vencido, e uma tal exigencia... Senhor, deso a terra; vou largar
a minha pedra fundamental.

--Vai.

--Quereis que venha annunciar-vos o remate da obra?

--No  preciso; basta que me digas desde j por que motivo, canado ha
tanto da tua desorganisao, s agora pensaste em fundar uma egreja?

Diabo sorriu com certo ar de escarneo e triumpho. Tinha alguma ida
cruel no espirito, algum reparo picante no alforge da memoria, qualquer
cousa que, n'esse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao
proprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

--S agora conclui uma observao, comeada desde alguns seculos, e 
que as virtudes, filhas do cu, so em grande numero comparaveis a
rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodo. Ora, eu
proponho-me a puxal-as por essa franja, e trazel-as todas para minha
egreja; atraz d'ellas viro as de seda pura...

--Velho rhetorico! murmurou o Senhor.

--Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos ps, nos templos do
mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do
mesmo p, os lenos cheiram aos mesmos cheiros, as pupillas centelham de
curiosidade e devoo entre o livro santo e o bigode do peccado. Vde o
ardor,--a indifferena, ao menos,--com que esse cavalheiro pe em
lettras publicas os beneficios que liberalmente espalha,--ou sejam
roupas ou botas, ou moedas, ou quaesquer d'essas materias necessarias 
vida... Mas no quero parecer que me detenho em cousas miudas; no
fallo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas
procisses, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma commenda...
Vou a negocios mais altos...

N'isto os seraphins agitaram as azas pesadas de fastio e somno. Miguel e
Gabriel fitaram no Senhor um olhar de supplica. Deus interrompeu o
Diabo.

--Tu s vulgar, que  o peior que pde acontecer a um espirito da tua
especie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas est dito e
redito pelos moralistas do mundo.  assumpto gasto; e se no tens fora,
nem originalidade para renovar um assumpto gasto, melhor  que te cales
e te retires. Olha; todas as minhas legies mostram no rosto os signaes
vivos do tedio que lhes ds. Esse mesmo ancio parece enjoado; e sabes
tu o que elle fez?

--J vos disse que no.

--Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um
naufragio, ia salvar-se n'uma taboa; mas viu um casal de noivos, na flor
da vida, que se debatiam j com a morte; deu-lhes a taboa de salvao e
mergulhou na eternidade. Nenhum publico: a agua e o cu por cima. Onde
achas ahi a franja de algodo?

--Senhor, eu sou, como sabeis, o espirito que nega.

--Negas esta morte?

--Nego tudo. A misanthropia pde tomar aspecto de caridade; deixar a
vida aos outros, para um misanthropo,  realmente aborrecel-os...

--Rhetorico e subtil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua egreja;
chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os
homens... Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impuzera-lhe
silencio; os seraphins, a um signal divino, encheram o cu com as
harmonias de seus canticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no
ar; dobrou as azas, e, como um raio, caiu na terra.


CAPITULO III

A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo no perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar
a cogula benedictina, como habito de boa fama, e entrou a espalhar uma
doutrina nova e extraordinaria, com uma voz que reboava nas entranhas do
seculo. Elle promettia aos seus discipulos e fieis as delicias da terra,
todas as glorias, os deleites mais intimos. Confessava que era o Diabo;
mas confessava-o para rectificar a noo que os homens tinham d'elle e
desmentir as historias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

--Sim, sou o Diabo, repetia elle; no o Diabo das noites sulphureas, dos
contos somniferos, terror das crianas, mas o Diabo verdadeiro e unico,
o proprio genio da natureza, a que se deu aquelle nome para arredal-o do
corao dos homens. Vde-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai.
Vamos l: tomai d'aquelle nome, inventado para meu desdouro, fazei
d'elle um trophu e um labaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo,
tudo, tudo...

Era assim que fallava, a principio, para excitar o enthusiasmo, espertar
os indifferentes, congregar, em summa, as multides ao p de si. E ellas
vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A
doutrina era a que podia ser na bocca de um espirito de negao. Isso
quanto  substancia, porque, cerca da frma, era umas vezes subtil,
outras cynica e deslavada.

Clamava elle que as virtudes aceitas deviam ser substituidas por outras,
que eram as naturaes e legitimas. A soberba, a luxuria, a preguia foram
rehabilitadas, e assim tambem a avareza, que declarou no ser mais do
que a mi da economia, com a differena que a mi era robusta, e a filha
uma esgalgada. A ira tinha a melhor defeza na existencia de Homero; sem
o furor de Achilles, no haveria a _Illiada_: Musa, canta a colera de
Achilles, filho de Peleu... O mesmo disse da gula, que produziu as
melhores paginas de Rabelais, e muitos bons versos de _Hyssope_; virtude
to superior, que ninguem se lembra das batalhas de Lucullo, mas das
suas ceias; foi a gula que realmente o fez immortal. Mas, ainda pondo de
lado essas razes de ordem litteraria ou historica, para s mostrar o
valor intrinseco d'aquella virtude, quem negaria que era muito melhor
sentir na bocca e no ventre os bons manjares, em grande cpia, do que os
mus boccados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo promettia
substituir a vinha do Senhor, expresso metaphorica, pela vinha do
Diabo, locuo directa e verdadeira, pois no faltaria nunca aos seus
com o fructo das mais bellas cepas do mundo. Quanto  inveja, prgou
friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades
infinitas; virtude preciosa, que chegava a supprir todas as outras, e ao
proprio talento.

As turbas corriam atraz d'elle enthusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a
grandes golpes de eloquencia, toda a nova ordem de cousas, trocando a
noo d'ellas, fazendo amar as perversas e detestar as ss.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definio que elle dava da
fraude. Chamava-lhe o brao esquerdo do homem; o brao direito era a
fora; e concluia: Muitos homens so canhotos, eis tudo. Ora, elle no
exigia que todos fossem canhotos; no era exclusivista. Que uns fossem
canhotos, outros dextros; aceitava a todos, menos os que no fossem
nada. A demonstrao, porm, mais rigorosa e profunda, foi a da
venalidade. Um casuista do tempo chegou a confessar que era um monumento
de logica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercicio de um direito
superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi,
o teu sapato, o teu chapo, cousas que so tuas por uma razo juridica
e legal, mas que, em todo caso, esto fra de ti, como  que no pdes
vender a tua opinio, o teu voto, a tua palavra, a tua f, cousas que
so mais do que tuas, porque so a tua propria consciencia, isto , tu
mesmo? Negal-o  cair no absurdo e no contraditorio. Pois no ha
mulheres que vendem os cabellos? no pde um homem vender uma parte do
seu sangue para transfundil-o a outro homem anemico? e o sangue e os
cabellos, partes physicas, tero um privilegio que se nega ao caracter,
 poro moral do homem? Demonstrando assim o principio, o Diabo no se
demorou em expr as vantagens de ordem temporal ou pecuniaria; depois,
mostrou ainda que,  vista do preconceito social, conviria dissimular o
exercicio de um direito to legitimo, o que era exercer ao mesmo tempo a
venalidade e a hypocrisia, isto , merecer duplicadamente.

E descia, e subia, examinava tudo, rectificava tudo. Est claro que
combateu o perdo das injurias e outras maximas de brandura e
cordialidade. No prohibiu formalmente a calumnia gratuita, mas induziu
a exercel-a mediante retribuio, ou pecuniaria, ou de outra especie;
nos casos, porm, em que ella fosse uma expanso imperiosa da fora
imaginativa, e nada mais, prohibia receber nenhum salario, pois
equivalia a fazer pagar a transpirao. Todas as frmas de respeito
foram condemnadas por elle, como elementos possiveis de um certo decoro
social e pessoal; salva, todavia, a unica excepo do interesse. Mas
essa mesma excepo foi logo eliminada, pela considerao de que o
interesse, convertendo o respeito em simples adulao, era este o
sentimento applicado e no aquelle.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a
solidariedade humana. Com effeito, o amor do proximo era um obstaculo
grave  nova instituio. Elle mostrou que essa regra era uma simples
inveno de parasitas e negociantes insolvaveis; no se devia dar ao
proximo se no indifferena; em alguns casos, odio ou despreso. Chegou
mesmo  demonstrao de que a noo de proximo era errada, e citava esta
phrase de um padre de Napoles, aquelle fino e lettrado Galliani, que
escrevia a uma das marquezas de antigo regimen: Leve a breca o proximo!
No ha proximo! A unica hypothese em que elle permittia amar ao proximo
era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa especie de
amor tinha a particularidade de no ser outra cousa mais do que o amor
do individuo a si mesmo. E como alguns discipulos achassem que uma tal
explicao, por metaphysica, escapava  comprehenso das turbas, o Diabo
recorreu a um apologo:--Cem pessoas tomam aces de um banco, para as
operaes communs; mas cada accionista no cuida realmente se no nos
seus dividendos:  o que acontece aos adulteros. Este apologo foi
incluido no livro da sabedoria.


CAPITULO IV

FRANJAS E FRANJAS

A previso do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de velludo
acabava em franja de algodo, uma vez puxadas pela franja, deitavam a
capa s ortigas e vinham alistar-se na egreja nova. Atraz foram chegando
as outras, e o tempo abenoou a instituio. A egreja fundra-se; a
doutrina propagava-se; no havia uma regio do globo que no a
conhecesse, uma lingua que no a traduzisse, uma que no a amasse. Diabo
alou brados de triumpho.

Um dia, porm, longos annos depois notou o Diabo que muitos dos seus
fieis, s escondidas, praticavam as antigas virtudes. No as praticavam
todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, s
occultas. Certos glotes recolhiam-se a comer frugalmente tres ou quatro
vezes por anno, justamente em dias de preceito catholico; muitos avaros
davam esmolas,  noite, ou nas ruas mal povoadas; varios dilapidadores
do erario restituam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos fallavam, uma
ou outra vez, com o corao nas mos, mas com o mesmo rosto dissimulado,
para fazer crer que estavam embaando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Metteu-se a conhecer mais directamente e
mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram at incomprehensiveis,
como o de um droguista do Levante, que envenenra longamente uma gerao
inteira, e, com o producto das drogas soccorria os filhos das victimas.
No Cairo achou um perfeito ladro de camellos, que tapava a cara para ir
s mesquitas. O Diabo deu com elle  entrada de uma, lanou-lhe em rosto
o procedimento; elle negou, dizendo que ia alli roubar o camello de um
drogman; roubou-o, com effeito, a vista do Diabo e foi dal-o de presente
a um muezzin, que rezou por elle a Allah. O manuscripto benedictino cita
muitas outras descobertas extraordinarias, entre ellas esta, que
desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apostolos era
um calabrez, varo de cincoenta annos, insigne falsificador de
documentos, que possuia uma bella casa na campanha romana, telus,
estatuas, bibliotheca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a metter-se
na cama para no confessar que estava so. Pois esse homem, no s no
furtava ao jogo, como ainda dava gratificaes aos criados. Tendo
angariado a amizade de um conego, ia todas as semanas confessar-se com
elle, n'uma capella solitaria; e, comquanto no lhe desvendasse nenhuma
das suas aces secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao
levantar-se. Diabo mal pde crer tamanha aleivosia. Mas no havia
duvidar; o caso era verdadeiro.

No se deteve um instante. O pasmo no lhe deu tempo de reflectir,
comparar e concluir do expectaculo presente alguma cousa analoga ao
passado. Voou de novo ao cu, tremulo de raiva, ancioso de conhecer a
causa secreta de to singular phenomeno. Deus ouviu-o com infinita
complacencia; no o interrompeu, no o reprehendeu, no triumphou,
sequer, d'aquella agonia satanica. Poz os olhos n'elle, e disse-lhe:

Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodo tm agora franjas de
seda, como as de veludo tiveram franjas de algodo. Que queres tu?  a
eterna contradico humana.


FIM DA EGREJA DO DIABO.




O LAPSO


        E vieram todos os officiaes... e o resto do povo, desde o pequeno
        at ao grande.

        E disseram ao propheta Jeremias: Seja aceita a nossa supplica
        na tua presena.

                                                JEREM. XLII, 1, 2.


No me perguntem pela familia do Dr. Jeremias Halma, nem o que e que
elle veiu fazer ao Rio de Janeiro, n'aquelle anno de 1768, governando o
Conde de Azambuja, que a principio se disse o mandra buscar; esta
verso durou pouco. Veiu, ficou e morreu com o seculo. Posso affirmar
que era medico e hollandez. Viajra muito, sabia toda a chimica do
tempo, e mais alguma; fallava correntemente cinco ou seis linguas vivas
e duas mortas. Era to universal e inventivo, que dotou a poesia malaia
com um novo metro, e engendrou uma theoria da formao dos diamantes.
No conto os melhoramentos therapeuticos, e outras muitas cousas, que o
recommendam  nossa admirao. Tudo isso, sem ser casmurro, nem
orgulhoso. Ao contrario, a vida e a pessoa d'elle eram como a casa que
um patricio lhe arranjou na rua do Piolho, casa singelissima, onde elle
morreu pelo natal de 1799. Sim, o Dr. Jeremias era simples, lhano,
modesto, to modesto que... Mas isto seria transtornar a ordem do conto.
Vamos ao principio.

No fim da rua do Ouvidor, que ainda no era a via dolorosa dos maridos
pobres, perto da antiga rua dos Latoeiros, morava por esse tempo um tal
Thom Gonalves, homem abastado, e, segundo algumas induces, vereador
da camara. Vereador ou no, este Thom Gonalves no tinha s dinheiro,
tinha tambem dividas, no poucas, nem todas recentes. O descuido podia
explicar os seus atrazos, a velhacaria tambem; mas quem opinasse por uma
ou outra dessas interpretaes, mostraria que no sabe ler uma narrao
grave. Realmente, no valia a pena dar-se ninguem a tarefa de escrever
algumas laudas de papel para dizer que houve, nos fins do seculo
passado, um homem que, por velhacaria ou deleixo, deixava de pagar aos
credores. A tradio affirma que este nosso concidado era exacto em
todas as cousas, pontual nas obrigaes mais vulgares, severo e at
meticuloso. A verdade  que as ordens terceiras e irmandades que tinham
a fortuna de o possuir (era irmo-remido de muitas, desde o tempo em que
usava pagar), no lhe regateavam provas de affeio e apreo: e, se 
certo que foi vereador, como tudo faz crer, pde-se jurar que o foi a
contento da cidade.

Mas ento...? La vou; nem  outra a materia do escripto, seno esse
curioso phenomeno, cuja causa, se a conhecemos, foi porque a descobriu o
Dr. Jeremias. Em uma tarde de procisso, Thom Gonalves, trajado com o
habito de uma ordem terceira, ia segurando uma das varas do pallio, e
caminhando com a placidez de um homem que no faz mal a ninguem. Nas
janellas e ruas estavam muitos dos seus credores; dois, entretanto, na
esquina do becco das Cancellas (a procisso descia a rua do Hospicio),
depois de ajoelhados, resados, persignados e levantados, perguntaram um
ao outro, se no era tempo de recorrer  justia.

--Que  que me pde acontecer? dizia um d'elles. Se brigar commigo,
melhor; no me levar mais nada de graa. No brigando, no lhe posso
negar o que me pedir, e na esperana de receber os atrasados, vou
fiando... No, senhor; no pde continuar assim.

--Pela minha parte, acudiu o outro, se ainda no fiz nada,  por causa
da minha dona, que  medrosa, e entende que no devo brigar com pessoa
to importante... Mas eu como ou bebo da importancia dos outros? E as
minhas cabelleiras?

Este era um cabelleireiro da rua da Valla defronte da S, que vendera ao
Thom Gonalves dez cabelleiras, em cinco annos, sem lhe haver nunca um
real. O outro era alfaiate, e ainda maior credor que o primeiro. A
procisso passra inteiramente; elles ficaram na esquina, ajustando o
plano de mandar os meirinhos ao Thom Gonalves. O cabelleireiro
advertiu que outros muitos credores s esperavam um signal para cahir em
cima do devedor remisso; e o alfaiate lembrou a conveniencia de metter
na conjurao o Matta-sapateiro, que vivia desesperado. S a elle devia
o Thom Gonalves mais de oitenta mil reis. N'isso estavam, quando por
traz d'elles ouviram uma voz, com sotaque estrangeiro, perguntando
porque motivo conspiravam contra um homem doente. Voltaram-se, e, dando
com o Dr. Jeremias, desbarretaram-se os dois credores, tornados de
profunda venerao; em seguida disseram que tanto no era doente o
devedor, que l ia andando na procisso, muito teso, pegando uma das
varas do pallio.

--Que tem isso? interrompeu o medico; ninguem lhes diz que est doente
dos braos, nem das pernas...

--Do corao? do estomago?

--Nem corao, nem estomago, respondeu o Dr. Jeremias. E continuou, com
muita doura, que se tratava de negocios altamente especulativos, que
no podia dizer alli, na rua, nem sabia mesmo se elles chegariam a
entendel-o. Se eu tiver de pentear uma cabelleira ou talhar um
calo--accrescentou para os no affligir,-- provavel que no alcance
as regras dos seus officios to uteis, to necessarios ao Estado... Eh!
eh! eh!

Rindo assim, amigavelmente cortejou-os e foi andando. Os dois credores
ficaram embascados. O cabelleireiro foi o primeiro que fallou, dizendo
que a noticia do Dr. Jeremias no era tal que os devesse afrouxar no
proposito de cobrar as dividas. Se at os mortos pagam, ou alguem por
elles, reflexionou o cabelleireiro, no  muito exigir aos doentes igual
obrigao. O alfaiate, invejoso da pilheria, fel-a sua cosendo-lhe este
babado:--Pague e cure-se.

No foi dessa opinio o Matta-sapateiro, que entendeu haver alguma razo
secreta nas palavras do doutor Jeremias, e propoz que primeiro se
examinasse bem o que era, e depois se resolvesse o mais idoneo.
Convidaram ento outros credores a um conciliabulo, no domingo proximo,
em casa de uma D. Anninha, para as bandas do Rocio, a pretexto de um
baptizado. A precauo era discreta, para no fazer suppor ao intendente
da policia que se tratava de alguma tenebrosa machinao contra o
Estado. Mal anoiteceu, comearam a entrar os credores, embuados em
capotes, e, como a illuminao publica s veiu a principiar com o
vice-reinado do conde de Rezende, levava cada qual uma lanterna na mo,
ao uso do tempo, dando assim ao conciliabulo um rasgo pintoresco e
theatral. Eram trinta e tantos, perto de quarenta--e no eram todos.

A theoria de Ch. Lamb cerca da diviso do genero humano em duas grandes
raas,  posterior ao conciliabulo do Rocio; mas nenhum outro exemplo a
demonstraria melhor. Com effeito, o ar abatido ou afflicto d'aquelles
homens, o desespero de alguns, a preoccupao de todos, estavam de
antemo provando que a theoria do fino ensaista  verdadeira, e que das
duas grandes raas humanas,--a dos homens que emprestam, e a dos que
pedem emprestado,--a primeira contrasta pela tristeza do gesto com as
maneiras rasgadas e francas da segunda, _the open, trusting, generous
manners of the other_. Assim que, n'aquella mesma hora, o Thom
Gonalves, tendo voltado da procisso, regalava alguns amigos com os
vinhos e gallinhas que comprra fiado; ao passo que os credores
estudavam s escondidas, com um ar desenganado e amarello, algum meio de
rehaver o dinheiro perdido.

Logo foi o debate; nenhuma opinio chegava a concertar os espiritos. Uns
inclinavam-se  demanda, outros  espera, no poucos aceitavam o alvitre
de consultar o Dr. Jeremias. Cinco ou seis partidarios d'este parecer
no o defendiam seno com a inteno secreta e disfarada de no fazer
cousa nenhuma; eram os servos do medo e da esperanca. O cabelleireiro
oppunha-se-lhe, e perguntava que molestia haveria que impedisse um homem
de pagar o que deve. Mas o Matta-sapateiro:--Sr. compadre, nos no
entendemos d'esses negocios; lembre-se que o doutor  estrangeiro, e que
nas terras estrangeiras sabem cousas que nunca lembraram ao diabo. Em
todo caso, s perdemos algum tempo e nada mais. Venceu este parecer;
deputaram o sapateiro, o alfaiate e o cabelleireiro para entenderem-se
com o Dr. Jeremias, em nome de todos, e o conciliabulo dissolveu-se na
patuscada. Terpsychore bracejou e perneou diante d'elles as suas graas
jocundas, e tanto bastou para que alguns esquecessem a ulcera secreta
que os roia. _Eheu! fugaces..._ Nem mesmo a dor  constante.

No dia seguinte o Dr. Jeremias recebeu os tres credores, entre sete e
oito horas da manha. Entrem, entrem... E com o seu largo caro
hollandez, e o riso derramado pela bocca fra, como um vinho generoso de
pipa que se rompeu, o grande medico veiu em pessoa abrir-lhes a porta.
Estudava n'esse momento uma cobra, morta de vespera, no morro de Santo
Antonio; mas a humanidade, costumava elle dizer,  anterior  sciencia.
Convidou os tres a sentarem-se nas tres unicas cadeiras devolutas; a
quarta era a d'elle; as outras, umas cinco ou seis, estavam atulhadas de
objectos de toda a casta.

Foi o Matta-sapateiro quem expoz a questo; era dos tres o que reunia
maior cpia de talentos diplomaticos. Comeou dizendo que o engenho do
Sr. doutor ia salvar da miseria uma poro de familias, e no seria a
primeira nem a ultima grande obra de um medico que, no desfazendo nos
da terra, era o mais sabio de quantos c havia desde o governo de Gomes
Freire. Os credores de Thom Gonalves no tinham outra esperana.
Sabendo que o Sr. doutor attribuia os atrazos d'aquelle cidado a uma
doena, tinham assentado que primeiro se tentasse a cura, antes de
qualquer recurso  justia. A justia ficaria para o caso de desespero.
Era isto o que vinham dizer-lhe, em nome de dezenas de credores;
desejavam saber se era verdade que, alm de outros achaques humanos,
havia o de no pagar as dividas, se era mal incuravel, e, no o sendo,
se as lagrimas de tantas familias...

--Ha uma doena especial, interrompeu o Dr. Jeremias, visivelmente
commovido, um lapso da memoria; o Thom Gonalves perdeu inteiramente a
noo de pagar. No  por descuido, nem de proposito que elle deixa de
saldar as contas;  porque esta ida de pagar, de entregar o preo de
uma cousa, varreu-se-lhe da cabea. Conheci isto ha dois mezes, estando
em casa d'elle, quando alli foi o prior do Carmo, dizendo que ia
pagar-lhe a fineza de uma visita. Thom Gonalves, apenas o prior se
despediu, perguntou-me o que era _pagar_; accrescentou que, alguns dias
antes, um boticario lhe dissera a mesma palavra, sem nenhum outro
esclarecimento, parecendo-lhe at que j a ouvira a outras pessoas; por
ouvil-a da bocca do prior, suppunha ser latim. Comprehendi tudo; tinha
estudado a molestia em varias partes do mundo, e comprehendi que elle
estava atacado do lapso. Foi por isso que disse outro dia a estes dois
senhores que no demandassem um homem doente.

--Mas ento, aventurou o Matta, pallido, o nosso dinheiro est
completamente perdido...

--A molestia no  incuravel, disse o medico

--Ah!

--No ; conheo e possuo a droga curativa, e j a empreguei em dous
grandes casos: um barbeiro, que perdera a noo do espao, e,  noite
estendia a mo para arrancar as estrellas do cu, e uma senhora da
Catalunha, que perdera a noo do marido. O barbeiro arriscou muitas
vezes a vida, querendo sahir pelas janellas mais altas das casas, como
se estivesse ao rez do cho...

--Santo Deus! exclamaram os tres credores.

-- o que lhes digo, continuou placidamente o medico. Quanto  dama
catal, a principio confundia o marido com um licenciado Mathias, alto e
fino, quando o marido era grosso e baixo; depois com um capito, D.
Hermogenes, e, no tempo em que comecei a tratal-a com um clerigo. Em
tres mezes ficou boa. Chamava-se D. Agostinha.

Realmente, era uma droga miraculosa. Os tres credores estavam radiantes
de esperana; tudo fazia crer que o Thom Gonalves padecia do lapso, e,
uma vez que a droga existia, e o medico a tinha em casa... Ah! mas aqui
pegou o carro. O Dr. Jeremias no era familiar da casa do enfermo,
embora entretivesse relaes com elle; no podia ir offerecer-lhe os
seus prestimos. Thom Gonalves no tinha parentes que tomassem a
responsabilidade de convidar o medico, nem os credores podiam tomal-a a
si. Mudos, perplexos, consultaram-se com os olhos. Os do alfaiate, como
os do cabelleiro, exprimiram este alvitre desesperado; cotisarem-se os
credores, e, mediante uma quantia grossa e appetitosa, convidarem o Dr.
Jeremias  cura; talvez o interesse... Mas o illustre Matta via o perigo
de um tal proposito, porque o doente podia no ficar bom, e a perda
seria dobrada. Grande era a angustia; tudo parecia perdido. O medico
rolava entre os dedos a boceta de rap, esperando que elles se fossem
embora, no impaciente, mas risonho. Foi ento que o Matta, como um
capito dos grandes dias, viu o ponto fraco do inimigo; advertiu que as
suas primeiras palavras tinham commovido o medico, e tornou s lagrimas
das familias, aos filhos sem po, porque elles no eram seno uns
tristes officiaes de officio ou mercadores de pouca fazenda, ao passo
que o Thom Gonalves era rico. Sapatos, cales, capotes, xaropes,
cabelleiras, tudo o que lhes custava dinheiro, tempo e saude... Saude,
sim, senhor; os callos de suas mos mostravam bem que o officio era
duro; e o alfaiate, seu amigo, que alli estava presente, e que
entisicava, s noites,  luz de uma candeia, zas-que-dars, puchando a
agulha...

Magnanimo Jeremias! No o deixou acabar; tinha os olhos humidos de
lagrimas. O acanho de suas maneiras era compensado pelas expanses de um
corao pio e humano. Pois, sim; ia tentar o curativo, ia pr a sciencia
ao servio de uma causa justa. Demais, a vantagem era tambem e
principalmente do proprio Thom Gonalves, cuja fama andava abocanhada,
por um motivo em que elle tinha tanta culpa como o doudo que pratica uma
iniquidade. Naturalmente, a alegria dos deputados traduziu-se em
rapa-ps infindos e grandes louvores aos insignes merecimentos do
medico. Este cortou-lhes modestamente o discurso, convidando-os a
almoar, obsequio que elles no aceitaram, mas agradeceram com palavras
cordialissimas. E, na rua quando elle j os no podia ouvir, no se
fartavam de elogiar-lhe a sciencia, a bondade, a generosidade, a
delicadeza, os modos to simples! to naturaes!

Desde esse dia comeou Thom Gonalves a notar a assiduidade do medico,
e, no desejando outra cousa, porque lhe queria muito, fez tudo o que
lhe lembrou por atal-o de vez aos seus penates. O lapso do infeliz era
completo; tanto a ideia de _pagar_, como as ideias co-relatas de
_credor_, _divida_, _saldo_, e outras tinham-se-lhe apagado da memoria,
constituindo-lhe assim um largo furo no espirito. Temo que se me argua
de comparaes extraordinarias, mas o abysmo de Pascal  o que mais
promptamente veiu ao bico da penna. Thom Gonalves tinha o abysmo de
Pascal, no ao lado, mas dentro de si mesmo, e to profundo que cabiam
n'elle mais de sessenta credores que se debatiam l embaixo com o ranger
de dentes da Escriptura. Urgia extrahir todos esses infelizes e entulhar
o buraco.

Jeremias fez crer ao doente que andava abatido, e, para retemperal-o,
comeou a applicar-lhe a droga. No bastava a droga; era mister um
tratamento subsidiario, porque a cura operava-se de dous modos:--o modo
geral e abstracto, restaurao da ideia de pagar, com todas as noes
co-relatas--era a parte confiada  droga; e o modo particular e
concreto, insinuao ou designao de uma certa divida e de um certo
credor--era a parte do medico. Supponhamos que o credor escolhido era o
sapateiro. O medico levava o doente s lojas de sapatos, para assistir 
compra e venda da mercadoria, e ver uma e muitas vezes a aco de pagar;
fallava da fabricao e venda dos sapatos no resto do mundo, cotejava os
preos do calado n'aquelle anno de 1768 com o que tinha trinta ou
quarenta annos antes; fazia com que o sapateiro fosse dez, vinte vezes a
casa de Thom Gonalves levar a conta e pedir o dinheiro, e cem outros
estratagemas. Assim com o alfaiate, o cabelleireiro, o segeiro, o
boticario, um a um, levando mais tempo os primeiros, pela razo natural
de estar a doena mais arraigada, e lucrando os ultimos com o trabalho
anterior, d'onde lhes vinha a compensao da demora.

Tudo foi pago. No se descreve a alegria dos credores, no se
transcrevem as benos com que elles encheram o nome do Dr. Jeremias.
Sim, senhor,  um grande homem, bradavam em toda a parte. Parece cousa
de feitiaria, aventuravam as mulheres. Quanto ao Thom Gronalves,
pasmado de tantas dividas velhas, no se fartava de elogiar a
longanimidade dos credores, censurando-os ao mesmo tempo pela
accumulao.

--Agora, dizia-lhes, no quero contas de mais de oito dias.

--Ns  que lhe marcaremos o tempo, respondiam generosamente os
credores.

Restava entretanto, um credor. Esse era o mais recente, o proprio Dr.
Jeremias, pelos honorarios d'aquelle servio relevantes. Mas, ai delle!
a modestia atou-lhe a lingua. To expansivo era de corao, como
acanhado de maneiras; e planeou tres, cinco investidas, sem chegar a
executar nada. E alis era facil; bastava insinuar-lhe a divida pelo
methodo usado em relao  dos outros; mas seria bonito? perguntava a si
mesmo; seria decente? etc., etc. E esperava, ia esperando. Para no
parecer que se lhe mettia  cara, entrou a rarear as visitas; mas o
Thom Gonalves ia ao casebre da rua do Piolho, e trazia-o a jantar, a
ceiar, a fallar de cousas estrangeiras, em que era muito curioso. Nada
de pagar. Jeremias chegou a imaginar que os credores... Mas os credores,
ainda quando pudesse passar-lhes pela cabea a ideia de ir lembrar a
divida, no chegariam a fazel-o, porque a suppunham paga antes de todas.
Era o que diziam uns aos outros, entre muitas formulas da sabedoria
popular:--Matheus, primeiro os teus--A boa justia comea por casa--Quem
 tolo pede a Deus que o mate, etc. Tudo falso; a verdade  que o Thom
Gonalves, no dia em que fallecera, tinha um s credor no mundo:--o Dr.
Jeremias.

Este, nos fins do seculo, chegra  canonisao.

--Adeus, grande homem! dizia-lhe o Matta, ex-sapateiro, em 1798, de
dentro da sege, que o levava  missa dos carmelitas. E o outro, curvo de
velhice, melancolicamente, olhando para os bicos dos ps:

--Grande homem, mas pobre diabo.


FIM DO LAPSO.




ULTIMO CAPITULO


Ha entre os suicidas um excellente costume, que  no deixar a vida sem
dizer o motivo e as circumstancias que os armam contra ella. Os que se
vo calados, raramente  por orgulho; na maior parte dos casos ou no
tm tempo, ou no sabem escrever. Costume excellente: em primeiro logar,
 um acto de cortezia, no sendo este mundo um baile, de onde um homem
possa esgueirar-se antes do cotilho; em segundo logar, a imprensa
recolhe e divulga os bilhetes posthumos, e o morto vive ainda um dia ou
dois, s vezes uma semana mais.

Pois apezar da excellencia do costume, era meu proposito sahir calado. A
razo  que, tendo sido caipora em minha vida toda, temia que qualquer
palavra ultima pudesse levar-me alguma complicao  eternidade. Mas um
incidente de ha pouco trocou-me o plano, e retiro-me deixando, no s um
escripto, mas dous. O primeiro  o meu testamento, que acabo de compor e
fechar, e est aqui em cima da mesa, ao p da pistola carregada. O
segundo  este resumo de autobiographia. E note-se que no dou o segundo
escripto seno porque  preciso esclarecer o primeiro, que pareceria
absurdo ou inintelligivel, sem algum commentario. Disponho alli que,
vendidos os meus poucos livros, roupa de uso e um casebre que possuo em
Catumby, alugado a um carpinteiro, seja o producto empregado em sapatos
e botas novas, que se distribuiro por um modo indicado, e confesso que
extraordinario. No explicada a razo de um tal legado, arrisco a
validade do testamento. Ora, a razo do legado brotou do incidente de ha
pouco, e o incidente liga-se  minha vida inteira.

Chamo-me Mathias Deodato de Castro e Mello, filho do sargento-mr
Salvador Deodato de Castro e Mello e de D. Maria da Soledade Pereira,
ambos fallecidos. Sou natural de Corumb, Matto Grosso; nasci em 3 de
maro de 1820; tenho portanto, cincoenta e um annos, hoje, 3 de maro de
1871.

Repito, sou um grande caipora, o mais caipora de todos os homens. Ha uma
locuo proverbial, que eu litteralmente realisei. Era em Corumb; tinha
sete para oito annos, embalava-me na rede,  hora da sesta, em um
quartinho de telha v; a rede, ou por estar frouxa a argola, ou por
impulso demasiado violento da minha parte, desprendeu-se de uma das
paredes, e deu commigo no cho. Cahi de costas; mas, assim mesmo de
costas, quebrei o nariz, porque um pedao de telha, mal seguro, que s
esperava occasio de vir abaixo, aproveitou a commoo e cahiu tambem. O
ferimento no foi grave nem longo; tanto que meu pai caoou muito
commigo. O conego Brito, de tarde, ao ir tomar guaran comnosco, soube
do episodio e citou o rifo, dizendo que era eu o primeiro que cumpria
exactamente este absurdo de cahir de costas e quebrar o nariz. Nem um
nem outro imaginava que o caso era um simples inicio de cousas futuras.

No me demoro em outros revezes da infancia e da juventude. Quero morrer
ao meio-dia, e passa de onze horas. Alm d'isso, mandei fra o rapaz que
me serve, e elle pde vir mais cedo, e interromper-me a execuo do
projecto mortal. Tivesse eu tempo, e contaria pelo miudo alguns
episodios doloridos, entre elles, o de umas cacetadas que apanhei por
engano. Tratava-se do rival de um amigo meu, rival de amores e
naturalmente rival derrubado. O meu amigo e a dama indignaram-se com as
pancadas quando souberam da aleivosia do outro; mas applaudiram
secretamente a illuso. Tambem no fallo de alguns achaques que padeci.
Corro ao ponto em que meu pai, tendo sido pobre toda a vida, morreu
pobrissimo, e minha mi no lhe sobreviveu dois mezes. O conego Brito,
que acabava de ser eleito deputado, propoz ento trazer-me ao Rio de
Janeiro, e veiu commigo, com a ida de fazer-me padre; mas cinco dias
depois de chegar morreu. Vo vendo a aco constante do caiporismo.

Fiquei s, sem amigos, nem recursos, com dezeseis annos de idade. Um
conego da Capella Imperial lembrou-se de fazer-me entrar alli de
sachristo; mas, posto que tivesse ajudado muita missa em Matto Grosso,
e possuisse algumas lettras latinas, no fui admittido, por falta de
vaga. Outras pessoas induziram-me ento a estudar direito, e confesso
que aceitei com resoluo. Tive at alguns auxilios, a principio;
faltando-me elles depois, lutei por mim mesmo; emfim alcancei a carta de
bacharel. No me digam que isto foi uma excepo na minha vida caipora,
porque o diploma academico levou-me justamente a cousas mui graves; mas,
como o destino tinha de flagellar-me, qualquer que fosse a minha
profisso, no attribuo nenhum influxo especial ao grau juridico.
Obtive-o com muito prazer, isso  verdade; a idade moa, e uma certa
superstio de melhora, faziam-me do pergaminho uma chave de diamante
que iria abrir todas as portas da fortuna.

E, para principiar, a carta de bacharel no me encheu ssinha as
algibeiras. No, senhor, tinha ao lado d'ella umas outras, dez ou
quinze, fructo de um namoro travado no Rio de Janeiro, pela semana santa
de 1842, com uma viuva mais velha do que eu sete ou oito annos, mas
ardente, lepida e abastada. Morava com um irmo cgo, na rua do Conde;
no posso dar outras indicaes. Nenhum dos meus amigos ignorava este
namoro; dous d'elles at liam as cartas, que eu lhes mostrava, com o
pretexto de admirar o estylo elegante da viuva, mas realmente para que
vissem as finas cousas que ella me dizia. Na opinio de todos, o nosso
casamento era certo, mais que certo; a viuva no esperava seno que eu
concluisse os estudos. Um d'esses amigos, quando eu voltei graduado,
deu-me os parabens, accentuando a sua convico com esta phrase
definitiva:

--O teu casamento  um dogma.

E, rindo, perguntou-me se por conta do dogma, poderia arranjar-lhe
cincoenta mil ris; era para uma urgente preciso. No tinha commigo os
cincoenta mil ris; mas o _dogma_ repercutia ainda to docemente no meu
corao, que no descancei em todo esse dia, at arranjar-lh'os; fui
leval-os eu mesmo, enthusiasmado; elle recebeu-os cheio de gratido.
Seis mezes depois foi elle quem casou com a viuva.

No digo tudo o que ento padeci; digo s que o meu primeiro impulso foi
dar um tiro em ambos; e, mentalmente, cheguei a fazel-o; cheguei a
vel-os, moribundos, arquejantes, pedirem-me perdo. Vingana
hypothetica; na realidade, no fiz nada. Elles casaram-se, e foram ver
do alto da Tijuca a asceno da lua de mel. Eu fiquei relendo as cartas
da viuva. Deus, que me ouve (dizia uma d'ellas), sabe que o meu amor 
eterno, e que eu sou tua, eternamente tua... E, no meu atordoamento,
blasphemava commigo:--Deus  um grande invejoso; no quer outra
eternidade ao p d'elle, e por isso desmentiu a viuva:--nem outro dogma
alm do catholico, e por isso desmentiu o meu amigo. Era assim que eu
explicava a perda da namorada e dos cincoenta mil ris.

Deixei a capital, e fui advogar na roa, mas por pouco tempo. O
caiporismo foi commigo, na garupa do burro, e onde eu me apeei, apeou-se
elle tambem. Vi-lhe o dedo em tudo, nas demandas que no vinham, nas que
vinham e valiam pouco ou nada, e nas que, valendo alguma cousa, eram
invariavelmente perdidas. Alm de que os constituintes vencedores so em
geral mais gratos que os outros, a successo de derrotas foi arredando
de mim os demandistas. No fim de algum tempo, anno e meio, voltei 
crte, e estabeleci-me com um antigo companheiro de anno: o Gonalves.

Este Gonalves era o espirito menos juridico, menos apto para entestar
com as questes de direito. Verdadeiramente era um pulha. Comparemos a
vida mental a uma casa elegante; o Gonalves no aturava dez minutos a
conversa do salo, esgueirava-se, descia  copa e ia palestrar com os
creados. Mas compensava essa qualidade inferior com certa lucidez, com a
presteza de comprehenso, nos assumptos menos arduos ou menos complexos,
com a facilidade de expr, e, o que no era pouco para um pobre diabo
batido da fortuna, com uma alegria quasi sem intermittencias. Nos
primeiros tempos, como as demandas no vinham, matavamos as horas com
excellente palestra, animada e viva, em que a melhor parte era d'elle,
ou fallassemos de politica, ou de mulheres, assumpto que lhe era muito
particular.

Mas as demandas vieram vindo; entre ellas uma questo de hypotheca.
Tratava-se da casa de um empregado da alfandega, Themistocles de S
Botelho, que no tinha outros bens, e queria salvar a propriedade. Tomei
conta do negocio. O Themistocles ficou encantado commigo: e, duas
semanas depois, como eu lhe dissesse que no era casado, declarou-me
rindo que no queria nada com solteires. Disse-me outras cousas e
convidou-me a jantar no domingo proximo. Fui; namorei-me da filha
d'elle, D. Rufina, moa de dezenove annos, bem bonita, embora um pouco
acanhada e meia morta. Talvez seja a educao, pensei eu. Casmo-nos
poucos mezes depois. No convidei o caiporismo,  claro; mas na egreja,
entre as barbas rapadas e as suias lustrosas, pareceu-me ver o caro
sardonico e o olhar obliquo do meu cruel adversario. Foi por isso que,
no acto mesmo de proferir a formula sagrada e definitiva do casamento,
estremeci, hesitei, e, emfim, balbuciei a medo o que o padre me
dictava...

Estava casado. Rufina no dispunha,  verdade, de certas qualidades
brilhantes e elegantes; no seria, por exemplo, e desde logo, uma dona
de salo. Tinha, porm, as qualidades caseiras, e eu no queria outras.
A vida obscura bastava-me; e, com tanto que ella m'a enchesse, tudo iria
bem. Mas esse era justamente o agro da empreza. Rufina (permittam-me
esta figurao chromatica) no tinha a alma negra de lady Macbeth, nem a
vermelha de Cleopatra, nem a azul de Julieta, nem a alva de Beatriz, mas
cinzenta e apagada como a multido dos seres humanos. Era boa por
apathia, fiel sem virtude, amiga sem ternura nem eleio. Um anjo a
levaria ao cu, um diabo ao inferno, sem esforo em ambos os casos, e
sem que, no primeiro lhe coubesse a ella nenhuma gloria, nem o menor
desdouro no segundo. Era a passividade do somnambulo. No tinha
vaidades. O pai armou-me o casamento para ter um genro doutor; ella,
no; aceitou-me como aceitaria um sachristo, um magistrado, um general,
um empregado publico, um alferes e no por impaciencia de casar, mas por
obediencia  familia, e, at certo ponto, para fazer como as outras.
Usavam-se maridos; ella queria usar tambem o seu. Nada mais antipathico
 minha propria natureza; mas estava casado.

Felizmente--ah! um felizmente n'este ultimo capitulo de um caipora, ,
na verdade, uma anomalia; mas vo lendo, e vero que o adverbio pertence
ao estylo, no  vida;  um modo de transio e nada mais. O que vou
dizer no altera o que est dito. Vou dizer que as qualidades domesticas
de Rufina davam-lhe muito merito. Era modesta; no amava bailes, nem
passeios, nem janellas. Vivia comsigo. No mourejava em casa, nem era
preciso; para dar-lhe tudo, trabalhava eu, e os vestidos e chapus, tudo
vinha das francezas, como ento se dizia, em vez de modistas. Rufina,
no intervallo das ordens que dava, sentava-se horas e horas, bocejando o
espirito, matando o tempo, uma hydra de cem cabeas, que no morria
nunca; mas, repito, com todas essas lacunas, era boa dona de casa. Pela
minha parte, estava no papel das rs que queriam um rei; a differena 
que, mandando-me Jupiter um cepo, no lhe pedi outro, por que viria a
cobra e engolia-me. Viva o cepo! disse commigo. Nem conto estas cousas,
seno para mostrar a logica e a constancia do meu destino.

Outro _felizmente_; e este no  s uma transio de phrase. No fim de
anno e meio, abotoou no horisonte uma esperana, e, a calcular pela
commoo que me deu a noticia, uma esperana suprema e unica. Era o
desejado que chegava. Que desejado? um filho. A minha vida mudou logo.
Tudo me sorria como um dia de noivado. Preparei-lhe um recebimento
regio; comprei-lhe um rico bero, que me custou bastante; era de ebano e
marfim, obra acabada; depois, pouco a pouco, fui comprando o enxoval;
mandei-lhe coser as mais finas cambraias, as mais quentes flanellas,
uma linda touca de renda, comprei-lhe um carrinho, e esperei, esperei,
prompto a bailar diante d'elle, como David diante da arca... Ai,
caipora! a arca entrou vasia em Jerusalem; o pequeno nasceu morto.

Quem me consolou no mallogro foi o Gonalves, que devia ser padrinho do
pequeno, e era amigo, comensal e confidente nosso. Tem paciencia,
disse-me, serei padrinho do que vier. E confortava-me, fallava-me de
outras cousas, com ternura de amigo. O tempo fez o resto. O proprio
Gonalves advertiu-me depois que, se o pequeno tinha de ser caipora,
como eu dizia que era, melhor foi que nascesse morto.

--E pensas que no? redargui.

Gonalves sorriu; elle no acreditava no meu caiporismo. Verdade  que
no tinha tempo de acreditar em nada; todo era pouco para ser alegre.
Afinal, comera a converter-se  advocacia, j arrasoava autos, j
minutava peties, j ia s audiencias, tudo porque era preciso viver,
dizia elle. E alegre sempre. Minha mulher achava-lhe muita graa, ria
longamente dos ditos d'elle, e das anecdotas, que s vezes eram picantes
demais. Eu, a principio, reprehendia-o em particular, mas acostumei-me a
ellas. E depois, quem  que no perdoa as facilidades de um amigo, e de
um amigo jovial? Devo dizer que elle mesmo se foi refreando, e d'alli a
algum tempo, comecei a achar-lhe muita seriedade. Ests namorado,
disse-lhe um dia; e elle, empallidecendo, respondeu que sim, e
accrescentou sorrindo, embora frouxamente, que era indispensavel casar
tambem. Eu,  mesa, fallei do assumpto.

--Rufina, voc sabe que o Gonalves vai casar?

-- caoada d'elle, interrompeu vivamente o Gonalves.

Dei ao diabo a minha indiscrio, e no fallei mais n'isso; nem elle.
Cinco mezes depois... A transio  rapida; mas no ha meio de a fazer
longa. Cinco mezes depois, adoeceu Rufina, gravemente, e no resistiu
oito dias; morreu de uma febre perniciosa.

Cousa singular:--em vida, a nossa divergencia moral trazia a frouxido
dos vinculos, que se sustinham principalmente da necessidade e do
costume. A morte, com o seu grande poder espiritual, mudou tudo; Rufina
appareceu-me como a esposa que desce do Libano, e a divergencia foi
substituida pela total fuso dos seres. Peguei da imagem, que enchia a
minha alma, e enchi com ella a vida, onde outr'ora occupra to pouco
espao e por to pouco tempo. Era um desafio  m estrella; era levantar
o edificio da fortuna em pura rocha indestructivel. Comprehendam-me bem;
tudo o que at ento dependia do mundo exterior, era naturalmente
precario: as telhas cahiam com o abalo das redes, as sobrepellizes
recusavam-se aos sachristes, os juramentos das viuvas fugiam com os
dogmas dos amigos, as demandas vinham tropegas ou iam-se de mergulho;
emfim, as crianas nasciam mortas. Mas a imagem de uma defunta era
immortal. Com ella podia desafiar o olhar obliquo do mau destino. A
felicidade estava nas minhas mos, presa, vibrando no ar as grandes azas
de condor, ao passo que o caiporismo, semelhante a uma coruja, batia as
suas na direco da noite e do silencio...

Um dia, porm, convalescendo de uma febre, deu-me na cabea inventariar
uns objectos da finada e comecei por uma caixinha, que no fora aberta,
desde que ella morreu, cinco mezes antes. Achei uma multido de cousas
minusculas, agulhas, linhas, entremeios, um dedal, uma tesoura, uma
orao de S. Cypriano, um rol de roupa, outras quinquilharias, e um mao
de cartas, atado por uma fita azul. Deslacei a fita e abri as cartas:
eram do Gonalves... Meio dia! Urge acabar; o moleque pde vir, e adeus.
Ninguem imagina como o tempo corre nas circumstancias em que estou; os
minutos voam como se fossem imperios, e, o que  importante n'esta
occasio, as folhas de papel vo com elles.

No conto os bilhetes brancos, os negocios abortados, as relaes
interrompidas; menos ainda outros acintes infimos da fortuna. Cansado e
aborrecido, entendi que no podia achar a felicidade em parte nenhuma;
fui alm: acreditei que ella no existia na terra, e preparei-me desde
hontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um
charuto, e debrucei-me  janella. No fim de dez minutos, vi passar um
homem bem trajado, fitando a miudo os ps. Conhecia-o de vista; era uma
victima de grandes revezes, mas ia risonho, e contemplava os ps, digo
mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e
provavelmente cosidos a primor. Elle levantava os olhos para as
janellas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei
de attraco, anterior e superior  vontade. Ia alegre; via-se-lhe no
rosto a expresso da bemaventurana. Evidentemente era feliz; e, talvez,
no tivesse almoado; talvez mesmo no levasse um vintm no bolso. Mas
ia feliz, e contemplava as botas.

A felicidade ser um par de botas? Esse homem, to esbofeteado pela
vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma
preoccupao d'este seculo, nenhum problema social ou moral, nem as
alegrias da gerao que comea, nem as tristezas da que termina, miseria
ou guerra de classes, crises da arte e da politica, nada vale, para
elle, um par de botas. Elle fita-as, elle respira-as, elle reluz com
ellas, elle calca com ellas o cho de um globo que lhe pertence. D'ahi o
orgulho das attitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de
tranquillidade olympica... Sim, a felicidade  um par de botas.

No  outra a explicao do meu testamento. Os superficiaes diro que
estou doudo, que o delirio do suicida define a clausula do testador; mas
eu fallo para os sapientes e para os malfadados. Nem colhe a objeco de
que era melhor gastar commigo as botas, que lego aos outros; no, porque
seria unico. Distribuindo-as, fao um certo numero de venturosos. Eia,
caiporas! que a minha ultima vontade seja cumprida. Boa noite, e
calai-vos!


FIM DO ULTIMO CAPITULO.




CANTIGA DE ESPONSAES


Imagine a leitora que est em 1813, na egreja do Carmo, ouvindo uma
daquellas boas festas antigas, que eram todo o recreio publico e toda a
arte musical. Sabem o que  uma missa cantada; podem imaginar o que
seria uma missa cantada daquelles annos remotos. No lhe chamo a
atteno para os padres e os sacristes, nem para o sermo, nem para os
olhos das moas cariocas, que j eram bonitos nesse tempo, nem para as
mantilhas das senhoras graves, os cales, as cabelleiras, as sanefas,
as luzes, os incensos, nada. No fallo sequer da orchestra, que 
excellente; limito-me a mostrar-lhes uma cabea branca, a cabea desse
velho que rege a orchestra, com alma e devoo.

Chama-se Romo Pires; ter sessenta annos, no menos, nasceu no
Vallongo, ou por esses lados.  bom musico e bom homem; todos os musicos
gostam delle. Mestre Romo  o nome familiar; e dizer familiar e publico
era a mesma cousa em tal materia e naquelle tempo. Quem rege a missa 
mestre Romo,--equivalia a esta outra forma de annuncio, annos depois:
Entra em scena o actor Joo Caetano;--ou ento: O actor Martinho
cantar uma de suas melhores arias. Era o tempero certo, o chamariz
delicado e popular. Mestre Romo rege a festa! Quem no conhecia mestre
Romo, com o seu ar circumspecto, olhos no cho, riso triste, e passo
demorado? Tudo isso desapparecia  frente da orchestra; ento a vida
derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar
accendia-se, o riso illuminava-se: era outro. No que a missa fosse
delle; esta, por exemplo, que elle rege agora no Carmo  de Jos
Mauricio; mas elle rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa
fosse sua.

Acabou a festa;  como se acabasse um claro intenso, e deixasse o rosto
apenas allumiado da luz ordinaria. Eil-o que desce do cro, apoiado na
bengala; vae  sacristia beijar a mo aos padres e aceita um logar 
mesa do jantar. Tudo isso indifferente e calado. Jantou, saiu, caminhou
para a rua da Mi dos Homens, onde reside, com um preto velho, pae Jos,
que  a sua verdadeira me, e que neste momento conversa com uma
visinha.

--Mestre Romo l vem, pae Jos, disse a visinha.

--Eh! eh! adeus, sinh, at logo.

Pae Jos deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que d'ahi a
pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa no era rica
naturalmente; nem alegre. No tinha o menor vestigio de mulher, velha ou
moa, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou
jocundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre
Romo tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao p, alguns
papeis de musica; nenhuma d'elle...

Ah! se mestre Romo podesse seria um grande compositor. Parece que ha
duas sortes de vocao, as que tem lingua e as que a no tem. As
primeiras realisam-se; as ultimas representam uma luta constante e
esteril entre o impulso interior e a ausencia de um modo de communicao
com os homens. Romo era d'estas. Tinha a vocao intima da musica;
trazia dentro de si muitas operas e missas, um mundo de harmonias novas
e originaes, que no alcanava exprimir e pr no papel. Esta era a causa
unica da tristeza de mestre Romo. Naturalmente o vulgo no atinava com
ella; uns diziam isto, outros aquillo: doena, falta de dinheiro, algum
desgosto antigo; mas a verdade  esta:--a causa da melancholia de mestre
Romo era no poder compor, no possuir o meio de traduzir o que sentia.
No  que no rabiscasse muito papel e no interrogasse o cravo, durante
horas; mas tudo lhe sahia informe, sem ida nem harmonia. Nos ultimos
tempos tinha at vergonha da visinhana, e no tentava mais nada.

E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa pea, um canto
esponsalicio, comeado tres dias depois de casado, em 1779. A mulher,
que tinha ento vinte e um annos, e morreu com vinte e tres, no era
muito bonita, nem pouco, mas extremamente sympathica, e amava-o tanto
como elle a ella. Tres dias depois de casado, mestre Romo sentiu em si
alguma cousa parecida com inspirao. Ideou ento o canto esponsalicio,
e quiz compol-o; mas a inspirao no pode sahir. Como um passaro que
acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo,
acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspirao do nosso musico,
encerrada n'elle sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas
notas chegaram a ligar-se; elle escreveu-as; obra de uma folha de papel,
no mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o
tempo de casado. Quando a mulher morreu, elle releu essas primeiras
notas conjugaes, e ficou ainda mais triste, por no ter podido fixar no
papel a sensao da felicidade extincta.

--Pae Jos, disse elle ao entrar, sinto-me hoje adoentado.

--Sinh comeu alguma cousa que fez mal...

--No; j de manh no estava bom. Vae  botica...

O boticario mandou alguma cousa, que elle tomou  noite; no dia seguinte
mestre Romo no se sentia melhor.  preciso dizer que elle padecia do
corao:--molestia grave e chronica. Pae Jos ficou atterrado, quando
viu que o incommodo no cedera ao remedio, nem ao repouso, e quiz chamar
o medico.

--Para que? disse o mestre. Isto passa.

O dia no acabou peor; e a noite supportou-a elle bem, no assim o
preto, que mal pde dormir duas horas. A visinhana, apenas soube do
incommodo, no quiz outro motivo de palestra; os que entretinham
relaes com o mestre foram visital-o. E diziam-lhe que no era nada,
que eram macacoas do tempo; um accrescentava graciosamente que era
manha, para fugir aos capotes que o boticario lhe dava no gamo,--outro
que eram amores. Mestre Romo sorria, mas comsigo mesmo dizia que era o
final.

--Est acabado, pensava elle.

Um dia de manh, cinco depois da festa, o medico achou-o realmente mal;
e foi isso o que elle lhe viu na physionomia por traz das palavras
enganadoras:--Isto no  nada;  preciso no pensar em musicas...

Em musicas! justamente esta palavra do medico deu ao mestre um
pensamento. Logo que ficou s, com o escravo, abriu a gaveta onde
guardava desde 1779 o canto esponsalicio comeado. Releu essas notas
arrancadas a custo, e no concluidas. E ento teve uma ida
singular:--rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa
servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.

--Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre
Romo...

O principio do canto rematava em um certo _l_; este _l_, que lhe cahia
bem no logar, era a nota derradeiramente escripta. Mestre Romo ordenou
que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal:
era-lhe preciso ar. Pela janella viu na janella dos fundos de outra casa
dous casadinhos de oito dias, debruados, com os braos por cima dos
hombros, e duas mos presas. Mestre Romo sorriu com tristeza.

--Aquelles chegam, disse elle, eu saio. Comporei ao menos este canto que
elles podero tocar...

Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao _la_...

--_L, l, l..._

Nada, no passava adeante. E comtudo, elle sabia musica como gente.

--_L, d... l, mi... l, si, d, r... r... r..._

Impossivel! nenhuma inspirao. No exigia uma pea profundamente
original, mas emfim alguma cousa, que no fosse de outro e se ligasse ao
pensamento comeado. Voltava ao principio, repetia as notas, buscava
rehaver um retalho da sensao estincta, lembrava-se da mulher, dos
primeiros tempos. Para completar a illuso, deitava os olhos pela
janella para o lado dos casadinhos. Estes continuavam alli, com as mos
presas e os braos passados nos hombros um do outro; a differena  que
se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romo, offegante da
molestia e de impaciencia, tornava ao cravo; mas a vista do casal no
lhe supprira a inspirao, e as notas seguintes no soavam.

--_L... l... l..._

Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escripto e rasgou-o. Nesse
momento, a moa embebida no olhar do marido, comeou a cantarolar  toa,
inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual
cousa um certo _l_ trazia apoz si uma linda phrase musical, justamente
a que mestre Romo procurra durante annos sem achar nunca. O mestre
ouviu-a com tristeza, abanou a cabea, e  noite expirou.


FIM DA CANTIGA DOS ESPONSAES.




SINGULAR OCCURRENCIA


--Ha occurencias bem singulares. Est vendo aquella dama que vai
entrando na egreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.

--De preto?

--Justamente; l vai entrando; entrou.

--No ponha mais na carta. Esse olhar est dizendo que a dama  uma sua
recordao de outro tempo, e no ha de ser de muito tempo, a julgar pelo
corpo:  moa de truz.

--Deve ter quarenta e seis annos.

--Ah! conservada. Vamos l; deixe de olhar para o cho, e conte-me tudo.
Est viuva, naturalmente?

--No.

--Bem; o marido ainda vive.  velho?

--No  casada.

--Solteira?

--Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia
com o nome familiar de Marocas. No era costureira, nem proprietaria,
nem mestra de meninas; v excluindo as profisses e l chegar. Morava
na rua do Sacramento. J ento era esbelta, e, seguramente, mais linda
do que hoje; modos srios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido
afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.

--Por exemplo, ao senhor.

--No, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis annos, meio
advogado, meio politico, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, d'onde
viera em 1859. Era bonita a mulher d'elle, affectuosa, meiga e
resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dois annos.

--Apezar d'isso, a Marocas...?

-- verdade, dominou-o. Olhe, se no tem pressa conto-lhe uma cousa
interessante.

--Diga.

--A primeira vez que elle a encontrou, foi  porta da loja Paula Brito,
no Rocio. Estava alli viu a distancia uma mulher bonita, e esperou, j
alvoraado, porque elle tinha em alto grau a paixo das mulheres.
Marocas vinha andando, parando e olhando como quem procura alguma casa.
Defronte da loja deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo,
estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o
numero alli escripto, Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e
ensinou-lhe a altura provavel da casa. Ella cortejou com muita graa;
elle ficou sem saber o que pensasse da pergunta.

--Como eu estou.

--Nada mais simples: Marocas no sabia ler. Elle no chegou a
suspeital-o. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda no tinha estatua nem
jardim, e ir  casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De
noite foi ao Gymnasio, dava-se a _Dama das Camelias_; Marocas estava l,
e, no ultimo acto, chorou como uma criana. No lhe digo nada; no fim de
quinze dias amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus
namorados, e creio que no perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem
bons. Ficou s, sosinha, vivendo para o Andrade, no querendo outra
affeio, no cogitando de nenhum outro interesse.

--Como a dama das Camelias.

--Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola, disse-me elle
um dia; e foi ento que me contou a anecdota do Rocio. Marocas aprendeu
depressa. Comprehende-se; o vexame de no saber, o desejo de conhecer os
romances em que elle lhe fallava, e finalmente o gosto de obedecer a um
desejo d'elle, de lhe ser agradavel... No me encobriu nada; contou-me
tudo com um riso de gratido nos olhos, que o senhor no imagina. Eu
tinha a confiana de ambos. Jantavamos s vezes os tres juntos; e... no
sei por que negal-o,--algumas vezes os quatro. No cuide que eram
jantares de gente pandega; alegres, mas honestos. Marocas gostava da
linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco estabeleceu-se
intimidade entre ns; ella interrogava-me cerca da vida do Andrade, da
mulher, da filha, dos habitos d'elle, se gostava devras d'ella, ou se
era um capricho, se tivera outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva
de perguntas, e um receio de o perder, que mostravam a fora e a
sinceridade da affeio... Um dia, uma festa de S. Joo, o Andrade
acompanhou a familia  Gavea, onde ia assistir a um jantar e um baile;
dous dias de ausencia. Eu fui com elles. Marocas, ao despedir-se,
recordou a comedia que ouvira algumas semanas antes no Gymnasio--_Janto
com minha mi_--e disse-me que, no tendo familia para passar a festa de
S. Joo, ia fazer como a Sophia Arnoult da comedia, ia jantar com um
retrato; mas no seria o da mi, porque no tinha, e sim do Andrade.
Este dito ia-lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se;
ella, porm, vendo que eu estava alli, afastou-o delicadamente com a
mo.

--Gosto d'esse gesto.

--Elle no gostou menos. Pegou-lhe na cabea com ambos as mos, e,
paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gavea. De
caminho disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as
ultimas Moleiras de ambos, fallou-me do projecto que tinha de
comprar-lhe uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse dispr de
dinheiro; e, de passagem, elogiou a modestia da moa, que no queria
receber d'elle mais do que o estrictamente necessario. Ha mais do que
isso, disse-lhe eu; e contei-lhe uma cousa que sabia, isto , que cerca
de tres semanas antes, a Marocas empenhra algumas joias para pagar uma
conta da costureira. Esta noticia abalou-o muito; no juro, mas creio
que ficou com os olhos molhados. Em todo caso, depois de cogitar algum
tempo, disse-me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e pl-a ao
abrigo da miseria. Na Gavea ainda fallmos da Marocas, at que as festas
acabaram, e ns voltmos. O Andrade deixou a familia em casa, na Lapa, e
foi ao escriptorio aviar alguns papeis urgentes. Pouco depois do
meio-dia appareceu-lhe um tal Leandro ex-agente de certo advogado a
pedir-lhe, como de costume, dois ou tres mil ris. Era um sugeito rles
e vadio. Vivia a explorar os amigos do antigo patro. Andrade deu-lhe
tres mil ris, e, como o visse excepcionalmente risonho, perguntou-lhe
se tinha visto passarinho verde. O Leandro piscou os olhos e lambeu os
beios: o Andrade, que dava o cavaco por anedoctas eroticas,
perguntou-lhe se eram amores. Elle mastigou um pouco, e confessou que
sim.

--Olhe; l vem ella sahindo: no  ella?

--Ella mesma; afastemo-nos da esquina.

--Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duqueza.

--No olhou para c; no olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do
Ouvidor...

--Sim, senhor. Comprehendo o Andrade.

--Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na vespera uma fortuna
rara, ou antes unica, uma cousa que elle nunca esperara achar, nem
merecia mesmo, porque se conhecia e no passava de um pobre diabo. Mas,
emfim, os pobres tambem so filhos de Deus. Foi o caso que, na vespera,
perto das dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida
com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada n'um chale
grande. A dama vinha atraz d'elle, e mais depressa; ao passar rentesinha
com elle, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando de vagar, como quem
espera. O pobre diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao
Andrade que, apezar da roupa simples, viu logo que no era cousa para os
seus beios. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com
tal instancia, que elle chegou a atrever-se um pouco; ella atreveu-se o
resto... Ah! um anjo! E que casa, que sala rica! Cousa papafina. E
depois o desinteresse... Olhe, accrescentou elle, para V. S.  que era
um bom arranjo. Andrade abanou a cabea; no lhe cheirava o comboro.
Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento, numero tantos...

--No me diga isso!

--Imagine como no ficou o Andrade. Elle mesmo no soube o que fez nem o
que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que
sentiu. Afinal teve fora para perguntar se era verdade o que estava
contando; mas o outro advertiu que no tinha nenhuma necessidade de
inventar semelhante cousa; vendo, porm, o alvoroo do Andrade,
pediu-lhe segredo, dizendo que elle, pela sua parte, era discreto.
Parece que ia sahir; Andrade deteve-o, e propz-lhe um negocio;
propz-lhe ganhar vinte mil ris.--Prompto!--Dou-lhe vinte mil ris,
se voc for commigo  casa d'essa moa e disser em presena d'ella que 
ella mesma.

--Oh!

--No defendo o Andrade; a cousa no era bonita; mas a paixo, n'esse
caso, cga os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas
o golpe fora to profundo, e elle amava-a tanto, que no recuou diante
de uma tal vingana.

--O outro aceitou?

--Hesitou um pouco, estou que por medo, no por dignidade; mas vinte mil
ris... Poz uma condio: no mettel-o em barulhos... Marocas estava na
sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na inteno de o
abraar; mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguem.
Depois, fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas empallideceu.--
esta senhora? perguntou elle.--Sim, senhor, murmurou o Leandro com
voz sumida, porque ha aces ainda mais ignobeis do que o proprio homem
que as commette. Andrade abriu a carteira com grande afectao, tirou
uma nota de vinte mil ris e deu-lh'a; e, com a mesma affectao,
ordenou-lhe que se retirasse. O Leandro sahiu. A scena que se seguiu,
foi breve, mas dramatica. No a soube inteiramente, porque o proprio
Andrade  que me contou tudo, e, naturalmente, estava to atordoado, que
muita cousa lhe escapou. Ella no confessou nada; mas estava fra de si,
e, quando elle, depois de lhe dizer as cousas mais duras do mundo,
atirou-se para a porta, ella rojou-se-lhe aos ps, agarrou-lhe as mos,
lacrimosa, desesperada, ameaando matar-se; e ficou atirada ao cho, no
patamar da escada; elle desceu vertiginosamente e sahiu.

--Na verdade, um sugeito rles, apanhado na rua; provavelmente eram
habitos d'ella?

--No.

--No?

--Oua o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veiu  minha casa,
e esperou por mim. J me tinha procurado tres vezes. Fiquei estupefacto;
mas como duvidar, se elle tivera a precauo de levar a prova at 
evidencia? No lhe conto o que ouvi, os planos de vingana, as
exclamaes, os nomes que lhe chamou, todo o estylo e todo o repertorio
d'essas crises. Meu conselho foi que a deixasse; que, afinal, vivesse
para a mulher e a filha, a mulher to boa, to meiga... Elle concordava,
mas tornava ao furor. Do furor passou  duvida; chegou a imaginar que a
Marocas, com o fim de o experimentar, inventra o artificio e pagra ao
Leandro para vir dizer-lhe aquillo; e a prova  que o Leandro, no
querendo elle saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o numero. E
agarrado a esta inverosimelhana, tentava fugir  realidade; mas a
realidade vinha--a pallidez de Marocas, a alegria sincera do Leandro,
tudo o que lhe dizia que a aventura era certa. Creio at que elle
arrependia-se de ter ido to longe. Quanto a mim, cogitava na aventura,
sem atinar com a explicao. To modesta! maneiras to acanhadas!

--Ha uma phrase de theatro que pode explicar a aventura, uma phrase de
Augier, creio eu: a nostalgia da lama.

--Acho que no; mas v ouvindo. s dez horas appareceu-nos em casa uma
criada de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava afflicta
em procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito,
trancada no quarto, sahiu de casa sem jantar, e no voltra mais.
Contive o Andrade, cujo primeiro gesto foi para sahir logo. A preta
pedia-nos por tudo, que fossemos descobrir a ama. No  costume d'ella
sahir? perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que no era
costume. Est ouvindo? bradou elle para mim. Era a esperana que de
novo empolgra o corao do pobre diabo. E hontem?... disse eu. A
preta respondeu que na vespera sim; mas no lhe perguntei mais nada,
tive compaixo do Andrade, cuja afflico crescia, e cujo pundonor ia
cedendo diante do perigo. Sahimos em busca da Marocas; fomos a todas as
casas em que era possivel encontral-a; fomos  policia; mas a noite
passou-se sem outro resultado. De manh voltmos  policia. O chefe ou
um dos delegados, no me lembra, era amigo do Andrade, que lhe contou da
aventura a parte conveniente; alis a ligao do Andrade e da Marocas
era conhecida de todos os seus amigos. Pesquizou-se tudo; nenhum
desastre se dra durante a noite; as barcas da Praia Grande no viram
cahir ao mar nenhum passageiro; as casas de armas no venderam nenhuma;
as boticas nenhum veneno. A policia poz em campo todos os seus recursos,
e nada. No lhe digo o estado de afflico em que o pobre Andrade viveu
durante essas longas horas, porque todo o dia se passou em pesquizas
inuteis. No era s a dor de a perder; era tambem o remorso, a duvida,
ao menos, da consciencia, em presena de um possivel desastre, que
parecia justificar a moa. Elle perguntava-me, a cada passo se no era
natural fazer o que fez, no delirio da indignao, se eu no faria a
mesma cousa. Mas depois tornava a affirmar a aventura, e provava-me que
era verdadeira, com o mesmo ardor com que na vespera tentara provar que
era falsa; o que elle queria era acommodar a realidade ao sentimento da
occasio.

--Mas, emfim, descobriram a Marocas?

--Estavamos comendo alguma cousa, em um hotel, eram perto de oito horas,
quando recebemos noticia de um vestigio:--um cocheiro que levra na
vespera uma senhora para o Jardim Botanico, onde ella entrou em uma
hospedaria, e ficou. Nem acabmos o jantar; fomos no mesmo carro ao
Jardim Botanico. O dono da hospedaria confirmou a verso; accrescentando
que a pessoa se recolhera a um quarto, no comera nada desde que chegou
na vespera; apenas pediu uma chicara de caf; parecia profundamente
abatida. Encaminhmo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu 
porta; ella respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade nem me deu tempo
de preparar nada; empurrou-me, e cahiram nos braos um do outro. Marocas
chorou muito e perdeu os sentidos.

--Tudo se explicou?

--Cousa nenhuma. Nenhum d'elles tornou ao assumpto; livres de um
naufragio, no quizeram saber nada da tempestade que os metteu a pique.
A reconciliao fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, mezes depois,
uma casinha em Catumby; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois
annos. Quando elle seguia para o norte, em commisso do governo, a
affeio era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores no tivessem
j a mesma intensidade. No obstante, ella quiz ir tambem; fui eu que a
obriguei a ficar. O Andrade contava tornar ao fim de pouco tempo, mas,
como lhe disse, morreu na provincia. A Marocas sentiu profundamente a
morte, poz luto, e considerou-se viuva; sei que nos tres primeiros
annos, ouvia sempre uma missa no dia anniversario. Ha dez annos perdi-a
de vista. Que lhe parece tudo isto?

--Realmente, ha occurrencias bem singulares, se o senhor no abusou da
minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...

--No inventei nada;  a realidade pura.

--Pois, senhor,  curioso. No meio de uma paixo to ardente, to
sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.

--No: nunca a Marocas desceu at os Leandros.

--Ento por que desceria n'aquella noite?

--Era um homem que ella suppunha separado, por um abysmo, de todas as
suas relaes pessoaes; d'ahi a confiana. Mas o acaso, que  um deus e
um diabo ao mesmo tempo... Emfim, cousas!


FIM DA SINGULAR OCCURRENCIA.




GALERIA POSTHUMA


I

No, no se descreve a consternao que produziu em todo o Engenho
Velho, e particularmente no corao dos amigos, a morte de Joaquim
Fidelis. Nada mais inesperado. Era robusto, tinha saude de ferro, e
ainda na vespera fra a um baile, onde todos o viram conversado e
alegre. Chegou a dansar, a pedido de uma senhora sexagenaria, viuva de
um amigo d'elle, que lhe tomou do brao, e lhe disse:

--Venha c, venha c, vamos mostrar a estes crianolas como  que os
velhos so capazes de desbancar tudo.

Joaquim Fidelis protestou sorrindo; mas obedeceu e dansou. Eram duas
horas quando sahiu, embrulhando os seus sessenta annos n'uma capa
grossa,--estavamos em junho de 1879--mettendo a calva na carapua,
accendendo um charuto, e entrando lepidamente no carro.

No carro  possivel que conchilasse; mas, em casa, mu grado a hora e o
grande peso das palpebras, ainda foi a secretria, abriu uma gaveta,
tirou um de muitos folhetos manuscriptos,--e escreveu durante tres ou
quatro minutos umas dez ou onze linhas. As ultimas palavras eram estas:
Em summa, baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a dansar uma
quadrilha;  porta um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim! Guardou o
folheto, despiu-se, metteu-se na cama, dormiu e morreu.

Sim, a noticia consternou a todo o bairro. To amado que elle era, com
os modos bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente,
instruido com os instruidos, ignorante com os ignorantes, rapaz com os
rapazes, e at moa com as moas. E depois, muito servial, prompto a
escrever cartas, a fallar a amigos, a concertar brigas, a emprestar
dinheiro. Em casa d'elle reuniam-se  noite alguns intimos da
visinhana, e s vezes de outros bairros; jogavam o voltarete ou o
_whist_, fallavam de politica. Joaquim Fidelis tinha sido deputado at 
dissoluo da camara pelo marquez de Olinda, em 1863. No conseguindo
ser reeleito, abandonou a vida publica. Era conservador, nome que a
muito custo admittiu, por lhe parecer gallicismo politico. _Saquarema_ 
o que elle gostava de ser chamado. Mas abriu mo de tudo; parece at que
nos ultimos tempos desligou-se do proprio partido, e afinal da mesma
opinio. Ha razes para crr que, de certa data em diante, foi um
profundo sceptico, e nada mais.

Era rico e lettrado. Formra-se em direito no anno de 1842. Agora no
fazia nada e lia muito. No tinha mulheres em casa. Viuvo desde a
primeira invaso da febre amarella, recusou contrahir segundas nupcias,
com grande magoa de tres ou quatro damas, que nutriram essa esperana
durante algum tempo. Uma d'ellas chegou a prorogar perfidamente os seus
bellos cachos de 1845 at meiados do segundo neto; outra, mais moa e
tambem viuva, pensou retel-o com algumas concesses, to generosas quo
irreparaveis. Minha querida Leocadia, dizia elle nas occasies em que
ella insinuava a soluo conjugal, por que no continuaremos assim
mesmo? O mysterio  o encanto da vida. Morava com um sobrinho, o
Benjamim, filho de uma irm, orpho desde tenra idade. Joaquim Fidelis
deu-lhe educao e fel-o estudar, at obter diploma de bacharel em
sciencias juridicas, no anno de 1877.

Benjamim ficou atordoado. No podia acabar de crer na morte do tio.
Correu ao quarto, achou o cadaver na cama, frio, olhos abertos, e um
leve arregao ironico ao canto esquerdo da boca. Chorou muito e muito.
No perdia um simples parente, mas um pai, um pai terno, dedicado, um
corao unico. Benjamim enxugou, emfim, as lagrimas; e, porque lhe
fizesse mal ver os olhos abertos do morto, e principalmente o labio
arregaado, concertou-lhe ambas as cousas. A morte recebeu assim a
expresso tragica; mas a originalidade da mascara perdeu-se.

--No me digam isto! bradava d'ahi a pouco um dos visinhos, Diogo
Villares, ao receber noticia do caso.

Diogo Villares era um dos cinco principaes familiares de Joaquim
Fidelis. Devia-lhe o emprego que exercia desde 1857. Veiu elle; vieram
os outros quatro, logo depois, um a um, estupefactos, incredulos.
Primeiro chegou o Elias Xavier, que alcanra por intermedio do finado,
segundo se dizia, uma commenda; depois entrou o Joo Braz, deputado que
foi, no regimen das supplencias, eleito com o influxo do Joaquim
Fidelis. Vieram, emfim, o Fragoso e o Galdino, que lhe no deviam
diplomas, commendas nem empregos, mas outros favores. Ao Galdino
adiantou elle alguns poucos capitaes, e ao Fragoso arranjou-lhe um bom
casamento... E morto! morto para todo sempre! De redor da cama, fitavam
o rosto sereno e recordavam a ultima festa, a do outro domingo, to
intima, to expansiva! E, mais perto ainda, a noite da ante-vespera, em
que o voltarete do costume foi at s onze horas.

--Amanh no venham, disse-lhes o Joaquim Fidelis; vou ao baile do
Carvalhinho.

--E depois?...

--Depois de amanh, c estou.

E,  sahida, deu-lhes ainda um mao de excellentes charutos, segundo
fazia s vezes, com um accrescimo de doces seccos para os pequenos, e
duas ou tres pilherias finas... Tudo esvaido! tudo disperso! tudo
acabado!

Ao enterro acudiram muitas pessoas gradas, dous senadores, um
ex-ministro, titulares, capitalistas, advogados, commerciantes, medicos;
mas as argolas do caixo foram seguras pelos cinco familiares e o
Benjamim. Nenhum d'elles quiz ceder a ninguem esse ultimo obsequio,
considerando que era um dever cordial e intransferivel. O adeus do
cemiterio foi proferido pelo Joo Braz, um adeus tocante, com algum
excesso de estylo para um caso to urgente, mas, emfim, desculpavel.
Deitada a p de terra, cada um se foi arredando da cova, menos os seis,
que assistiram ao trabalho posterior e indifferente dos coveiros. No
arredaram p antes de vr cheia a cova at acima, e depositadas sobre
ellas as coroas funebres.


II

A missa do setimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a missa, os cinco
amigos acompanharam  casa o sobrinho do morto. Benjamim convidou-os a
almoar.

--Espero que os amigos do tio Joaquim sero tambem meus amigos, disse
elle.

Entraram, almoaram. Ao almoo fallaram do morto; cada um contou uma
anecdota, um dito; eram unanimes no louvor e nas saudades. No fim do
almoo, como tivessem pedido uma lembrana do finado, passaram ao
gabinete, e escolheram  vontade, este uma canneta velha, aquelle uma
caixa de oculos, um folheto, um retalho qualquer intimo, Benjamim
sentia-se consolado. Communicou-lhes que pretendia conservar o gabinete
tal qual estava. Nem a secretria abrira ainda. Abriu-a ento, e, com
elles, inventariou o conteudo de algumas gavetas. Cartas, papeis soltos,
programmas de concertos, menus de grandes jantares, tudo alli estava de
mistura e confuso. Entre outras cousas acharam alguns cadernos
manuscriptos, numerados e datados.

--Um diario! disse Benjamim.

Com effeito, era um diario das impresses do finado, especie de memorias
secretas, confidencias do homem a si mesmo. Grande foi a commoo dos
amigos; ll-o era ainda conversal-o. To recto caracter! to discreto
espirito! Benjamim comeou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe
depressa, e Joo Braz continuou-a.

O interesse do escripto adormeceu a dor do obito. Era um livro digno do
prelo. Muita observao politica e social, muita reflexo philosophica,
anecdotas de homens publicos, do Feij, do Vasconcellos, outras
puramente galantes, nomes de senhoras, o da Leocadia, entre outros; um
repertorio de factos e commentarios. Cada um admirava o talento do
finado, as graas do estylo, o interesse da materia. Uns opinavam pela
impresso typographica; Benjamim dizia que sim, com a condio de
excluir alguma cousa, ou inconveniente ou demasiado particular. E
continuavam a ler, saltando pedaos e paginas, at que bateu meio-dia.
Levantaram-se todos; Diogo Villares ia j chegar  repartio fra de
horas; Joo Braz e Elias tinham onde estar juntos. Galdino seguia para a
loja. O Fragoso precisava mudar a roupa preta, e acompanhar a mulher 
rua do Ouvidor. Concordaram em nova reunio para proseguir a leitura.
Certas particularidades tinham-lhes dado uma comicho de escandalo, e as
comiches coam-se:  o que elles queriam fazer, lendo.

--At amanh, disseram.

--At amanh.

Uma vez s, Benjamim continuou a lr o manuscripto. Entre outras cousas,
admirou o retrato da viuva Leocadia, obra-prima de paciencia e
semelhana, embora a data coincidisse com a dos amores. Era prova de uma
rara iseno de espirito. De resto, o finado era eximio nos retratos.
Desde 1873 ou 1874, os cadernos vinham cheios d'elles, uns de vivos,
outros de mortos, alguns de homens publicos, Paula Souza, Aureliano,
Olinda, etc. Eram curtos e substanciaes, s vezes trez ou quatro rasgos
firmes, com tal fidelidade e perfeio, que a figura parecia
photographada. Benjamim ia lendo; de repente deu com o Diogo Villares. E
leu estas poucas linhas:

DIOGO VILLARES.--Tenho-me referido muitas vezes a este amigo, e
fal-o-hei algumas outras mais, se elle me no matar de tedio, cousa em
que o reputo profissional. Pediu-me ha annos que lhe arranjasse um
emprego, e arranjei-lh'o. No me avisou da moeda em que me pagaria. Que
singular gratido! Chegou ao excesso de compor um soneto e publical-o.
Fallava-me do obsequio a cada passo, dava-me grandes nomes; emfim,
acabou. Mais tarde relacionmo-nos intimamente. Conheci-o ento ainda
melhor. _C'est le genre ennuyeux._ No  mau parceiro de voltarete.
Dizem-me que no deve nada a ninguem. Bom pai de familia. Estupido e
credulo. Com intervallo de quatro dias, j lhe ouvi dizer de um
ministerio que era excellente e detestavel:--differena dos
interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente, quando o v pela primeira
vez, comea por suppol-o um varo grave; no segundo dia d-lhe
piparotes. A razo  a figura, ou, mais particularmente, as bochechas,
que lhe emprestam um certo ar superior.

A primeira sensao do Benjamim foi a do perigo evitado. Se o Diogo
Villares estivesse alli? Releu o retrato e mal podia crer; mas no havia
negal-o, era o proprio nome do Diogo Villares, era a mesma lettra do
tio. E no era o unico dos familiares; folheou o manuscripto e deu com o
Elias:

ELIAS XAVIER.--Este Elias  um espirito subalterno, destinado a servir
alguem, e a servir com desvanecimento, como os cocheiros de casa
elegante. Vulgarmente trata as minhas visitas intimas com alguma
arrogancia e desdem: politica de lacaio ambicioso. Desde as primeiras
semanas, comprehendi que elle queria fazer-se meu privado; e no menos
comprehendi que, no dia que realmente o fosse, punha os outros no meio
da rua. Ha occasies em que me chama a um vo da janella para fallar-me
secretamente do sol e da chuva. O fim claro  incutir nos outros a
suspeita de que ha entre ns cousas particulares, e alcana isso mesmo,
porque todos lhe rasgam muitas cortezias.  intelligente, risonho e
fino. Conversa muito bem. No conheo comprehenso mais rapida. No 
poltro nem maldizente. S falla mal de alguem, por interesse;
faltando-lhe interesse, cala-se; e a maledicencia legitima  gratuita.
Dedicado e insinuante. No tem idas,  verdade; mas ha esta grande
differena entre elle e o Diogo Villares:--o Diogo repete prompta e
boalmente as que ouve, ao passo que o Elias sabe fazel-as suas e
plantal-as opportunamente na conversao. Um caso de 1865 caracterisa
bem a astucia d'este homem. Tendo dado alguns libertos para a guerra do
Paraguay, ia receber uma commenda. No precisava de mim; mas veiu pedir
a minha intercesso, duas ou tres vezes, com um ar consternado e
supplice. Fallei ao ministro, que me disse:--O Elias j sabe que o
decreto est lavrado; falta s a assignatura do imperador. Comprehendi
ento que era um estratagema para poder confessar-me essa obrigao. Bom
parceiro de voltarete; um pouco brigo, mas entendido.

--Ora o tio Joaquim! exclamou Benjamim levantando-se. E depois de alguns
instantes, reflexionou comsigo:--Estou lendo um corao, livro inedito.
Conhecia a edio publica, revista e expurgada. Este  o texto primitivo
e interior, a lio exacta e authentica. Mas quem imaginaria nunca...
Ora o tio Joaquim!

E, tornando a sentar-se, releu tambem o retrato do Elias, com vagar,
meditando as feies. Posto lhe faltasse observao, para avaliar a
verdade do escripto, achou que em muitas partes, ao menos, o retrato era
semelhante. Cotejava essas notas iconographicas, to cruas, to seccas,
com as maneiras cordiaes e graciosas do tio, e sentia-se tomado de um
certo terror e mau-estar. Elle, por exemplo, que teria dito delle o
finado? Com esta ideia, folheou ainda o manuscripto, passou por alto
algumas damas, alguns homens publicos, deu com o Fragoso,--um esboo
curto e curtissimo,--logo depois o Galdino, e quatro paginas adiante o
Joo Braz. Justamente o primeiro levra delle uma caneta, pouco antes,
talvez a mesma com que o finado o retratra. Curto era o esboo, e dizia
assim:

FRAGOSO.--Honesto, maneiras assucaradas e bonito. No me custou
casal-o; vive muito bem com a mulher. Sei que me tem uma extraordinaria
adorao,--quasi tanta como a si mesmo. Conversao vulgar, polida e
chocha.

GALDINO MADEIRA.--O melhor corao do mundo e um caracter sem macula;
mas as qualidades do espirito destroem as outras. Emprestei-lhe algum
dinheiro, por motivo da familia, e porque me no fazia falta. Ha no
cerebro d'elle um certo furo, por onde o espirito escorrega e cai no
vacuo. No reflecte tres minutos seguidos. Vive principalmente de
imagens, de phrases translatas. Os dentes da calumnia e outras
expresses, surradas como colches de hospedaria, so os seus encantos.
Mortifica-se facilmente no jogo, e, uma vez mortificado, faz timbre em
perder, e em mostrar que  de proposito. No despede os maus caixeiros.
Se no tivesse guarda-livros,  duvidoso que sommasse os quebrados. Um
subdelegado, meu amigo, que lhe deveu algum dinheiro, durante dous
annos, dizia-me com muita graa, que o Galdino quando o via na rua, em
vez de lhe pedir a divida, pedia-lhe noticias do ministerio.

JOO BRAZ.--Nem tolo nem bronco. Muito attencioso, embora sem maneiras.
No pde ver passar um carro de ministro; fica pallido e vira os olhos.
Creio que  ambicioso; mas na edade em que est, sem carreira, a ambio
vai-se-lhe convertendo em inveja. Durante os dois annos em que serviu de
deputado, desempenhou honradamente o cargo: trabalhou muito, e fez
alguns discursos bons, no brilhantes, mas solidos, cheios de factos e
reflectidos. A prova de que lhe ficou um residuo de ambio,  o ardor
com que anda  cata de alguns cargos honorificos ou preeminentes; ha
alguns mezes consentiu em ser juiz de uma irmandade de S. Jos, e
segundo me dizem, desempenha o cargo com um zelo exemplar. Creio que 
atheu, mas no affirmo. Ri pouco e discretamente. A vida  pura e
severa, mas o caracter tem uma ou duas cordas fraudulentas, a que s
faltou a mo do artista; nas cousas minimas, mente com facilidade.

Benjamim, estupefacto, deu emfim comsigo mesmo.--Este meu sobrinho,
dizia o manuscripto, tem vinte e quatro annos de edade, um projecto de
reforma judiciaria, muito cabello, e ama-me. Eu no o amo menos.
Discreto leal e bom,--bom at  credulidade. To firme nas affeies
como versatil nos pareceres. Superficial, amigo de novidades, amando no
direito o vocabulario e as formulas.

Quiz reler, e no pde; essas poucas linhas davam-lhe a sensao de um
espelho. Levantou-se, foi  janella, mirou a chacara e tornou dentro
para contemplar outra vez as suas feies. Contemplou-as; eram poucas,
falhas, mas no pareciam calumniosas. Se alli estivesse um publico, 
provavel que a mortificao do rapaz fosse menor, porque a necessidade
de dissipar a impresso moral dos outros dar-lhe-ia a fora necessaria
para reagir contra o escripto; mas, a ss, comsigo, teve de supportal-o
sem contraste. Ento considerou se o tio no teria composto essas
paginas nas horas de mu humor; comparou-as a outras em que a phrase era
menos aspera, mas no cogitou se alli a brandura vinha ou no de molde.

Para confirmar a conjectura, recordou as maneiras usuaes do finado, as
horas de intimidade e riso, a ss com elle, ou de palestra com os demais
familiares. Evocou a figura do tio, com o olhar espirituoso e meigo, e a
pilheria grave; em logar d'essa, to candida e sympathica, a que lhe
appareceu foi a do tio morto, estendido na cama, com os olhos abertos e
o labio arregaado. Sacudiu-a do espirito, mas a imagem ficou. No
podendo rejeital-a, Benjamim tentou mentalmente fechar-lhe os olhos e
concertar-lhe a bocca; mas to depressa o fazia, como a palpebra tornava
a levantar-se, e a ironia arregaava o beio. J no era o homem, era o
auctor do manuscripto.

Benjamim jantou mal e dormiu mal. No dia seguinte,  tarde,
apresentaram-se os cinco familiares para ouvir a leitura. Chegaram
sofregos, anciosos; fizera-lhe muitas perguntas; pediram-lhe com
instancia para ver o manuscripto. Mas Benjamim tergiversava, dizia isto
e aquillo, inventava pretextos; por mal de peccados, appareceu-lhe na
sala, por traz d'elles, a eterna bocca do defunto, e esta circumstancia
fel-o ainda mais acanhado. Chegou a mostrar-se frio, para ficar s, e
ver se com elles desapparecia a viso. Assim se passaram trinta a
quarenta minutos. Os cinco olharam emfim uns para os outros, e
deliberaram sahir; despediram-se ceremoniosamente, e foram conversando,
para suas casas:

--Que differena do tio! que abysmo! a herana enfunou-o! deixal-o! ah!
Joaquim Fidelis! ah! Joaquim Fidelis!


FIM DA GALERIA POSTHUMA.




CAPITULO DOS CHAPOS


                      GRONTE

          Dans quel chapitre, s'il vous plait?

                    SCAGNARELLE

          Dans le chapitre des chapeaux.

                                         MOLIRE.


Musa, canta o despeito de Marianna, esposa do bacharel Conrado Seabra,
naquella manh de abril de 1879. Qual a causa de tamanho alvoroo? Um
simples chapo, leve, no deselegante, um chapo baixo. Conrado,
advogado, com escriptorio na rua da Quitanda, trazia-o todos os dias 
cidade, ia com elle s audiencias; s no o levava s recepes, theatro
lyrico, enterros e visitas de ceremonia. No mais era constante, e isto
desde cinco ou seis annos, que tantos eram os do casamento. Ora,
naquella singular manh de abril, acabado o almoo, Conrado comeou a
enrolar um cigarro, e Marianna annunciou sorrindo que ia pedir-lhe uma
cousa.

--Que , meu anjo?

--Voc  capaz de fazer-me um sacrificio?

--Dez, vinte...

--Pois ento no v mais  cidade com aquelle chapo.

--Porque?  feio?

--No digo que seja feio; mas  c para fra, para andar na visinhana,
 tarde ou  noite, mas na cidade, um advogado, no me parece que...

--Que tolice, yay!

--Pois sim, mas faz-me este favor, faz?

Conrado riscou um phosphoro, accendeu o cigarro, e fez-lhe um gesto de
gracejo, para desconversar; mas a mulher teimou. A teima, a principio
frouxa e supplice, tornou-se logo imperiosa e aspera. Conrado ficou
espantado. Conhecia a mulher; era, de ordinario, uma creatura passiva,
meiga, de uma plasticidade de encommenda, capaz de usar com a mesma
divina indifferena tanto um diadema rgio como uma touca. A prova 
que, tendo tido uma vida de andarilha nos ultimos dous annos de
solteira, to depressa casou como se affez aos habitos quietos. Sahia s
vezes, e a maior parte dellas por instancias do proprio consorte; mas s
estava commodamente em casa. Moveis, cortinas, ornatos suppriam-lhe os
filhos; tinha-lhes um amor de me; e tal era a concordancia da pessoa
com o meio, que ella saboreava os trastes na posio occupada, as
cortinas com as dobras do costume, e assim o resto. Uma das tres
janellas, por exemplo, que davam para a rua vivia sempre meia aberta;
nunca era outra. Nem o gabinete do marido escapava s exigencias
monotonas da mulher, que mantinha sem alterao a desordem dos livros, e
at chegava a restaural-a. Os habitos mentaes seguiam a mesma
uniformidade. Marianna dispunha de mui poucas noes, e nunca lra se
no os mesmos livros:--a _Moreninha_ de Macedo, sete vezes; _Ivanhoe e o
Pirata_ de Walter Scott, dez vezes; o _Mot de l'enigme_, de Madame
Craven, onze vezes.

Isto posto, como explicar o caso do chapo? Na vespera,  noite,
emquanto o marido fra a uma sesso do Instituto da Ordem dos Advogados,
o pae de Marianna veiu  casa d'elles. Era um bom velho, magro, pausado,
ex-funccionario publico, ralado de saudades do tempo em que os
empregados iam de casaca para as suas reparties. Casaca era o que
elle, ainda agora, levava aos enterros, no pela razo que o leitor
suspeita, a solemnidade da morte ou a gravidade da despedida ultima, mas
por esta menos philosophica, por ser um costume antigo. No dava outra,
nem da casaca nos enterros, nem do jantar s duas horas, nem de vinte
usos mais. E to afferrado aos habitos, que no anniversario do casamento
da filha, ia para l s seis horas da tarde, jantado e diggerido, via
comer, e no fim acceitava um pouco de doce, um calix de vinho e caf.
Tal era o sogro de Conrado; como suppor que elle approvasse o chapo
baixo do genro? Supportava-o calado, em atteno s qualidades da
pessoa; nada mais. Acontecera-lhe, porm, naquelle dia, vel-o de relance
na rua, de palestra com outros chapos altos de homens publicos, e nunca
lhe pareceu to torpe. De noite, encontrando a filha sosinha, abriu-lhe
o corao; pintou-lhe o chapo baixo como a abominao das abominaes,
e instou com ella para que o fizesse desterrar.

Conrado ignorava essa circumstancia, origem do pedido. Conhecendo a
docilidade da mulher, no entendeu a resistencia; e, porque era
autoritario, e voluntarioso, a teima veiu irrital-o profundamente.
Conteve-se ainda assim; preferiu mofar do caso; fallou-lhe com tal
ironia e desdm, que a pobre dama sentiu-se humilhada. Marianna quiz
levantar-se duas vezes; elle obrigou-a a ficar, a primeira pegando-lhe
levemente no pulso, a segunda subjugando-a com o olhar. E dizia
sorrindo:

--Olhe, yay, tenho uma razo philosophica para no fazer o que voc me
pede. Nunca lhe disse isto; mas j agora confio-lhe tudo.

Marianna mordia o labio, sem dizer mais nada; pegou de uma faca, e
entrou a bater com ella devagarinho para fazer alguma cousa; mas, nem
isso mesmo consentiu o marido, que lhe tirou a faca delicadamente, e
continuou:

--A escolha do chapo no  uma aco indifferente, como voc pde
suppor;  regida por um principio metaphysico. No cuide que quem compra
um chapo exerce uma aco voluntria e livre; a verdade  que obedece a
um determinismo obscuro. A illuso da liberdade existe arraigada nos
compradores, e  mantida pelos chapelleiros que, ao verem um freguez
ensaiar trinta ou quarenta chapos, e sair sem comprar nenhum, imaginam
que elle est procurando livremente uma combinao elegante. O principio
metaphysico  este:--o chapo  a integrao do homem, um prolongamento
da cabea, um complemento decretado _ab eterno_; ninguem o pde trocar
sem mutilao.  uma questo profunda que ainda no occorreu a ninguem.
Os sabios tem estudado tudo desde o astro at o verme, ou, para
exemplificar bibliographicamente, desde Laplace... Voc nunca leu
Laplace? desde Laplace e a _Mecanica Celeste_ at Darwin e o seu curioso
livro das _Minhocas_, e, entretanto, no se lembraram ainda de parar
deante do chapo e estudal-o por todos os lados. Ninguem advertiu que ha
uma metaphysica do chapo. Talvez eu escreva uma memoria a este
respeito. So nove horas e tres quartos; no tenho tempo de dizer mais
nada; mas voc reflicta comsigo, e ver... Quem sabe? pde ser at que
nem mesmo o chapo seja complemento do homem, mas o homem do chapo...

Marianna venceu-se afinal, e deixou a mesa. No entendera nada d'aquella
nomenclatura aspera nem da singular theoria; mas sentiu que era um
sarcasmo, e, dentro de si, chorava de vergonha. O marido subiu para
vestir-se; desceu d'ahi a alguns minutos, e parou deante della com o
famoso chapo na cabea. Marianna achou-lh'o, na verdade, torpe,
ordinario, vulgar, nada serio. Conrado despediu-se ceremoniosamente e
sahiu.

A irritao da dama tinha afrouxado muito; mas, o sentimento de
humiliao subsistia. Marianna no chorou, no clamou, como suppunha que
ia fazer; mas, comsigo mesma, recordou a simplicidade do pedido, os
sarcasmos de Conrado, e, posto reconhecesse que fra um pouco exigente,
no achava justificao para taes excessos. Ia de um lado para outro,
sem poder parar; foi  sala de visitas, chegou  janella meia aberta,
viu ainda o marido, na rua,  espera do _bond_, de costas para casa, com
o eterno e torpissimo chapo na cabea. Marianna sentiu-se tomada de
odio contra essa pea ridicula; no comprehendia como pudera supportal-a
por tantos annos. E relembrava os annos, pensava na docilidade dos seus
modos, na acquiescencia a todas as vontades e caprichos do marido, e
perguntava a si mesma se no seria essa justamente a causa do excesso
d'aquella manh. Chamava-se tola, moleirona; se tivesse feito como
tantas outras, a Clara e a Sophia, por exemplo, que tratavam os maridos
como elles deviam ser tratados, no lhe aconteceria nem metade nem uma
sombra do que lhe aconteceu. De reflexo em reflexo, chegou  ideia de
sahir. Vestiu-se, e foi  casa da Sophia, uma antiga companheira de
collegio, com o fim de espairecer, no de lhe contar nada.

Sophia tinha trinta annos, mais dous que Marianna. Era alta, forte,
muito senhora de si. Recebeu a amiga com as festas do costume; e, posto
que esta lhe no dissesse nada, adivinhou que trazia um desgosto e
grande. Adeus, planos de Marianna! D'ahi a vinte minutos contava-lhe
tudo. Sophia riu della, sacudiu os hombros; disse-lhe que a culpa no
era do marido.

--Bem sei,  minha, concordava Marianna.

--No seja tola, yay! Voc tem sido muito molle com elle. Mas seja
forte uma vez; no faa caso; no lhe falle to cedo; e se elle vier
fazer as pazes, diga-lhe que mude primeiro de chapo.

--Veja voc, uma cousa de nada...

--No fim de contas, elle tem muita razo; tanta como outros. Olhe a
pamonha da Beatriz; no foi agora para a roa, s porque o marido
implicou com um inglez que costumava passar o cavallo de tarde? Coitado
do inglez! Naturalmente nem deu pela falta. A gente pde viver bem com
seu marido, respeitando-se, no indo contra os desejos um do outro, sem
pirraas, nem despotismo. Olhe; eu c vivo muito bem com o meu Ricardo;
temos muita harmonia. No lhe peo uma cousa que elle me no faa logo;
mesmo quando no tem vontade nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece
logo. No era elle que teimaria assim por causa de um chapo! Tinha que
vr! Pois no! Onde iria elle parar! Mudava de chapo, quer quizesse,
quer no.

Marianna ouvia com inveja essa bella definio do socego conjugal. A
rebellio de Eva embocava nella os seus clarins; e o contacto da amiga
dava-lhe um prurido de independencia e vontade. Para completar a
situao, esta Sophia no era s muito senhora de si, mas tambem dos
outros; tinha olhos para todos os inglezes, a cavallo ou a p. Honesta,
mas namoradeira; o termo  cr, e no ha tempo de compor outro mais
brando. Namorava a torto e a direito, por uma necessidade natural, um
costume de solteira. Era o troco miudo do amor, que ella distribuia a
todos os pobres que lhe batiam  porta:--um nikel a um, outro a outro;
nunca uma nota de cinco mil ris, menos ainda uma apolice. Ora este
sentimento caritativo induziu-a a propor  amiga que fossem passear, ver
as lojas, contemplar a vista de outros chapos bonitos e graves.
Marianna aceitou; um certo demonio soprava n'ella as furias da vingana.
Demais, a amiga tinha o dom de fascinar, virtude de Bonaparte, e no lhe
deu tempo de reflectir. Pois sim, iria, estava canada de viver captiva.
Tambem queria gosar um pouco, etc., etc.

Emquanto Sophia foi vestir-se, Marianna deixou-se estar na sala,
irrequieta e contente comsigo mesma. Planeou a vida de toda aquella
semana, marcando os dias e horas de cada cousa, como n'uma viagem
official. Levantava-se, sentava-se, ia  janella,  espera da amiga.

--Sophia parece que morreu, dizia de quando em quando.

De uma das vezes que foi  janella, viu passar um rapaz a cavallo. No
era inglez, mas lembrou-lhe a outra, que o marido levou para a roa,
desconfiado de um inglez, e sentiu crescer-lhe o odio contra a raa
masculina,--com excepo, talvez, dos rapazes a cavallo. Na verdade,
aquelle era affectado demais; esticava a perna no estribo com evidente
vaidade das botas, dobrava a mo na cintura, com um ar de figurino.
Marianna notou-lhe esses dous defeitos; mas achou que o chapo
resgatava-os; no que fosse um chapo alto; era baixo, mas proprio do
apparelho equestre. No cobria a cabea de um advogado indo gravemente
para o escriptorio, mas a de um homem que espairecia ou matava o tempo.

Os taces de Sophia desceram a escada, compassadamente. Prompta! disse
ella d'ahi a pouco, ao entrar na sala. Realmente, estava bonita. J
sabemos que era alta. O chapo augmentava-lhe o ar senhoril; e um diabo
de vestido de seda preta, arredondando-lhe as frmas do busto, fazia-a
ainda mais vistosa. Ao p della, a figura de Marianna desapparecia um
pouco. Era preciso attentar primeiro nesta para ver que possuia feies
mui graciosas, uns olhos lindos, muita e natural elegancia. O peior 
que a outra dominava desde logo; e onde houvesse pouco tempo de as ver,
tomava-o Sophia para si. Este reparo seria incompleto, se eu no
accrescentasse que Sophia tinha consciencia da superioridade, e que
apreciava por isso mesmo as bellezas do genero Marianna, menos
derramadas e apparentes. Se  um defeito, no me compete emendal-o.

--Onde vamos ns? perguntou Marianna.

--Que tolice! vamos passear  cidade... Agora me lembro, vou tirar o
retrato; depois vou ao dentista. No; primeiro vamos ao dentista. Voc
no precisa de ir ao dentista?

--No.

--Nem tirar o retrato?

--J tenho muitos. E para que? para dal-o quelle senhor?

Sophia comprehendeu que o resentimento da amiga persistia, e, durante o
caminho, tratou de lhe pr um ou dous bagos mais de pimenta. Disse-lhe
que, embora fosse difficil, ainda era tempo de libertar-se. E
ensinava-lhe um methodo para subtrahir-se  tyrannia. No convinha ir
logo de um salto, mas de vagar, com segurana, de maneira que elle desse
por si quando ella lhe puzesse o p no pescoo. Obra de algumas semanas,
tres a quatro, no mais. Ella, Sophia, estava prompta a ajudal-a. E
repetia-lhe que no fosse molle, que no era escrava de ninguem, etc.
Marianna ia cantando dentro do corao a _marselheza_ do matrimonio.

Chegaram  rua do Ouvidor. Era pouco mais do meio dia. Muita gente,
andando ou parada, o movimento do costume. Marianna sentiu-se um pouco
atordoada, como sempre lhe acontecia. A uniformidade e a placidez, que
eram o fundo do seu caracter e da sua vida, receberam daquella agitao
os repelles do costume. Ella mal podia andar por entre os grupos, menos
ainda sabia onde fixasse os olhos, tal era a confuso das gentes, tal
era a variedade das lojas. Conchegava-se muito  amiga, e, sem reparar
que tinham passado a casa do dentista, ia anciosa de l entrar. Era um
repouso; era alguma cousa melhor do que o tumulto.

--Esta rua do Ouvidor! ia dizendo.

--Sim? respondia Sophia, voltando a cabea para ella e os olhos para um
rapaz que estava na outra calada.

Sophia, prtica daquelles mares, transpunha, rasgava ou contornava as
gentes com muita pericia e tranquillidade. A figura impunha; os que a
conheciam gostavam de vel-a outra vez; os que no a conheciam paravam ou
voltavam-se para admirar-lhe o garbo. E a boa senhora, cheia de
caridade, derramava os olhos  direita e a esquerda, sem grande
escandalo, porque Marianna servia a cohonestar os movimentos. Nada dizia
seguidamente; parece at que mal ouvia as respostas da outra: mas
fallava de tudo, de outras damas que iam ou vinham, de uma loja, de um
chapo... Justamente os chapos,--de senhora ou de homem,--abundavam
naquella primeira hora da rua do Ouvidor.

--Olha este, dizia-lhe Sophia.

E Marianna acudia a vel-os, femininos ou masculinos, sem saber onde
ficar, porque os demonios dos chapos succediam-se como n'um
kaleidoscopio. Onde era o dentista? perguntava ella  amiga. Sophia s 
segunda vez lhe respondeu que tinham passado a casa; mas j agora iriam
at ao fim da rua; voltariam depois. Voltaram finalmente.

--Uf! respirou Marianna entrando no corredor.

--Que , meu Deus? Ora voc! Parece da roa... A sala do dentista tinha
j algumas freguezas. Marianna no achou entre ellas uma s cara
conhecida, e para fugir ao exame das pessoas estranhas, foi para a
janella. Da janella podia gozar a rua, sem atropello. Recostou-se;
Sophia veiu ter com ella. Alguns chapos masculinos, parados, comearam
a fital-as; outros, passando, faziam a mesma cousa. Marianna
aborreceu-se da insistencia; mas, notando que fitavam principalmente a
amiga, dissolveu-se-lhe o tdio n'uma especie de inveja. Sophia,
entretanto, contava-lhe a historia de alguns chapos,--ou, mais
correctamente, as aventuras. Um delles merecia os pensamentos de Fulana;
outro andava derretido por Sicrana, e ella por elle, tanto que eram
certos na rua do Ouvidor s quartas e sabbados, entre duas e tres horas.
Marianna ouvia aturdida. Na verdade, o chapo era bonito, trazia uma
linda gravata, e possuia um ar entre elegante e pelintra, mas...

--No juro, ouviu? replicava a outra, mas  o que se diz.

Marianna fitou pensativa o chapo denunciado. Havia agora mais tres, de
egual porte e graa, e provavelmente os quatro fallavam dellas, e
fallavam bem. Marianna enrubeceu muito, voltou a cabea para o outro
lado, tornou logo  primeira attitude, e afinal entrou. Entrando, viu na
sala duas senhoras recem-chegadas, e com ellas um rapaz que se levantou
promptamente e veiu comprimental-a com muita ceremonia. Era o seu
primeiro namorado.

Este primeiro namorado devia ter agora trinta e tres annos. Andara por
fra, na roa, na Europa, e afinal na presidencia de uma provincia do
sul. Era mediano de estatura, pallido, barba inteira e rara, e muito
apertado na roupa. Tinha na mo um chapo novo, alto, preto, grave,
presidencial, administrativo, um chapo adequado  pessoa e s ambies.
Marianna, entretanto, mal pode vel-o. To confusa ficou, to
desorientada com a presena de um homem que conhecera em especiaes
circumstancias, e a quem no vira desde 1877, que no pode reparar em
nada. Estendeu-lhe os dedos, parece mesmo que murmurou uma resposta
qualquer, e ia tornar  janella, quando a amiga sahiu dalli.

Sophia conhecia tambem o recem-chegado. Trocaram algumas palavras.
Marianna, impaciente, perguntou-lhe ao ouvido se no era melhor adiar os
dentes para outro dia; mas a amiga disse-lhe que no; negocio de meia
hora a trez quartos. Marianna sentia-se oppressa: a presena de um tal
homem atava-lhe os sentidos, lanava-a na luta e na confuso. Tudo culpa
do marido. Se elle no teimasse e no caoasse com ella, ainda em cima,
no aconteceria nada. E Marianna, pensando assim, jurava tirar uma
desforra. De memoria contemplava a casa, to socegada, to bonitinha,
onde podia estar agora, como de costume, sem os safanes da rua, sem a
dependencia da amiga...

--Marianna, disse-lhe esta, o Dr. Vioso teima que est muito magro.
Voc no acha que est mais gordo do que no anno passado... No se
lembra delle no anno passado?

Dr. Vioso era o proprio namorado antigo, que palestrava com Sophia,
olhando muitas vezes para Marianna. Esta respondeu negativamente. Elle
aproveitou a fresta para puxal-a  conversao; disse, que, na verdade,
no a vira desde alguns annos. E sublinhava o dito com um certo olhar
triste e profundo. Depois abriu o estojo dos assumptos, saccou para fra
o theatro lyrico. Que tal achavam a companhia? Na opinio delle era
excellente, menos o barytono; o barytono parecia-lhe canado. Sophia
protestou contra o canasso do barytono, mas elle insistiu,
accrescentando que, em Londres, onde o ouvira pela primeira vez, j lhe
parecera a mesma cousa. As damas, sim, senhora; tanto a soprano como a
contralto eram de primeira ordem. E fallou das operas, citava os
trechos, elogiou a orchestra, principalmente nos _Huguenotes_... Tinha
visto Marianna na ultima noite, no quarto ou quinto camarote da
esquerda, no era verdade?

--Fomos, murmurou ella, accentuando bem o plural.

--No Cassino  que a no tenho visto, continuou elle.

--Est ficando um bicho do matto, acudiu Sophia rindo.

Vioso gostra muito do ultimo baile, e desfiou as suas recordaes;
Sophia fez o mesmo s della. As melhores _toilettes_ foram descriptas
por ambos com muita particularidade; depois vieram as pessoas, os
caracteres, dous ou tres picos de malicia, mas to anodina, que no fez
mal a ninguem. Marianna ouvia-os sem interesse; duas ou tres vezes
chegou a levantar-se e ir  janella; mas os chapos eram tantos e to
curiosos, que ella voltava a sentar-se. Interiormente, disse alguns
nomes feios  amiga; no os ponho aqui por no serem necessarios, e,
alis, seria de mu gosto desvendar o que esta moa pde pensar da outra
durante alguns minutos de irritao.

--E as corridas do Jockey-Club? perguntou o ex-presidente.

Marianna continuava a abanar a cabea. No tinha ido s corridas
naquelle anno. Pois perdra muito, a penultima, principalmente; esteve
animadissima, e os cavallos eram de primeira ordem. As de Epsom, que
elle vira, quando esteve em Inglaterra, no eram melhores do que a
penultima do Prado Fluminense. E Sophia dizia que sim, que realmente a
penultima corrida honrava o Jockey-Club. Confessou que gostava muito;
dava emoes fortes. A conversao descambou em dous concertos daquella
semana; depois tomou a barca, subiu a serra e foi a Petropolis, onde
dous diplomatas lhe fizeram as despezas da estadia. Como fallassem da
esposa de um ministro, Sophia lembrou-se de ser agradavel ao
ex-presidente, declarando-lhe que era preciso casar tambem por que em
breve estaria no ministerio. Vioso teve um estremeo de prazer, e
sorriu, e protestou que no; depois, com os olhos em Marianna, disse que
provavelmente no casaria nunca... Marianna enrubeceu muito e
levantou-se.

--Voc est com muita pressa, disse-lhe Sophia. Quantas so? continuou
voltando-se para Vioso.

--Perto de tres! exclamou elle.

Era tarde; tinha de ir  camara dos deputados. Foi fallar s duas
senhoras, que acompanhra, e que eram primas suas, e despediu-se; vinha
despedir-se das outras, mas Sophia declarou que sahiria tambem. J agora
no esperava mais. A verdade  que a ideia de ir  camara dos deputados
comera a faiscar-lhe na cabea.

--Vamos  camara? propoz ella  outra.

--No, no, disse Marianna; no posso, estou muito canada.

--Vamos, um bocadinho s; eu tambem estou muito canada...

Marianna teimou ainda um pouco; mas teimar contra Sophia,--a pomba
discutindo com o gavio,--era realmente insensatez. No teve remedio,
foi. A rua estava agora mais agitada, as gentes iam e vinham por ambas
as caladas, e complicavam-se no cruzamento das ruas. De mais a mais, o
obsequioso ex-presidente flanqueiava as duas damas, tendo-se offerecido
para arranjar-lhes uma tribuna.

A alma de Marianna sentia-se cada vez mais dilacerada de toda essa
confuso de cousas. Perdera o interesse da primeira hora; e o despeito,
que lhe dera foras para um vo audaz e fugidio, comeava a afrouxar as
azas, ou afrouxara-as inteiramente. E outra vez recordava a casa, to
quieta, com todas as cousas nos seus logares, methodicas, respeitosas
umas com as outras, fazendo-se tudo sem atropello, e, principalmente,
sem mudana imprevista. E a alma batia o p raivosa... No ouvia nada
do que o Vioso ia dizendo, comquanto elle fallasse alto, e muitas
cousas fossem ditas para ella. No ouvia, no queria ouvir nada. S
pedia a Deus que as horas andassem depressa. Chegaram  camara e foram
para uma tribuna. O rumor das saias chamou a atteno de uns vinte
deputados, que restavam, escutando um discurso de oramento. To
depressa o Vioso pediu licena e sahiu, Marianna disse rapidamente 
amiga que no lhe fizesse outra.

--Que outra? perguntou Sophia.

--No me pregue outra pea como esta de andar de um logar para outro
feito maluca. Que tenho eu com a camara? que me importam discursos que
no entendo?

Sophia sorriu, agitou o leque e recebeu em cheio o olhar de um dos
secretarios. Muitos eram os olhos que a fitavam quando ella ia  camara,
mas os do tal secretario tinham uma expresso mais especial, callida e
supplice. Entende-se, pois, que ella no o recebeu de sopeto; pde
mesmo entender-se que o procurou curiosa. Emquanto acolhia esse olhar
legislativo ia respondendo  amiga, com brandura, que a culpa era della,
e que a sua inteno era boa, era restituir-lhe a posse de si mesma.

--Mas, se voc acha que a aborreo no venha mais commigo, concluiu
Sophia.

E, inclinando-se um pouco:

--Olha o ministro da justia.

Marianna no teve remedio seno ver o ministro da justia. Este
aguentava o discurso do orador, um governista, que provava a
conveniencia dos tribunaes correccionaes, e, incidentemente, compendiava
a antiga legislao colonial. Nenhum aparte; um silencio resignado,
polido, discreto e cauteloso. Marianna passeava os olhos de um lado para
outro, sem interesse; Sophia dizia-lhe muitas cousas, para dar saida a
uma poro de gestos graciosos. No fim de quinze minutos agitou-se a
camara, graas a uma expresso do orador e uma replica da opposio.
Trocaram-se apartes, os segundos mais bravos que os primeiros, e
seguiu-se um tumulto, que durou perto de um quarto de hora.

Essa diverso no o foi para Marianna, cujo espirito placido e uniforme,
ficou atarantado no meio de tanta e to inesperada agitao. Ella chegou
a levantar-se para sair; mas, sentou-se outra vez. J agora estava
disposta a ir ao fim, arrependida e resoluta a chorar s comsigo as suas
magoas conjugaes. A duvida comeou mesmo a entrar nella. Tinha razo no
pedido ao marido; mas era caso de doer-se tanto? era razoavel o
espalhafato? Certamente que as ironias delle foram crueis; mas, em
summa, era a primeira vez que ella lhe batra o p, e, naturalmente, a
novidade irritou-o. De qualquer modo porm, fra um erro ir revelar tudo
 amiga. Sophia iria talvez contal-o a outras... Esta ideia trouxe um
calafrio a Marianna; a indiscrio da amiga era certa; tinha-lhe ouvido
uma poro de historias de chapos masculinos e femininos, cousa mais
grave do que uma simples briga de casados. Marianna sentiu necessidade
de lisonjeal-a, e cobriu a sua impaciencia e zanga com uma mascara de
docilidade hypocrita. Comeou a sorrir tambem, a fazer algumas
observaes, a respeito de um ou outro deputado, e assim chegaram ao fim
do discurso e da sesso.

Eram quatro horas dadas. Toca a recolher, disse Sophia; e Marianna
concordou que sim, mas sem impaciencia, e ambas tornaram a subir a rua
do Ouvidor. A rua, a entrada no _bond_, completaram a fadiga do espirito
de Marianna, que afinal respirou quando viu que ia caminho de casa.
Pouco antes de apear-se a outra, pediu-lhe que guardasse segredo sobre o
que lhe contra; Sophia prometteu que sim.

Marianna respirou. A rola estava livre do gavio. Levava a alma doente
dos encontres, vertiginosa da diversidade de cousas e pessoas. Tinha
necessidade de equilibrio e saude. A casa estava perto;  medida que ia
vendo as outras casas e chacaras proximas, Marianna sentia-se restituida
a si mesma. Chegou finalmente; entrou no jardim, respirou. Era aquelle o
seu mundo; menos um vaso, que o jardineiro trocra de logar.

--Joo, bota este vaso onde estava antes, disse ella.

Tudo o mais estava em ordem, a sala de entrada, a de visitas, a de
jantar, os seus quartos, tudo. Marianna sentou-se primeiro, em
differentes logares, olhando bem para todas as cousas, to quietas e
ordenadas. Depois de uma manh inteira de perturbao e variedade, a
monotonia trazia-lhe um grande bem, e nunca lhe pareceu to deliciosa.
Na verdade, fizera mal... Quiz recapitular os successos e no pode; a
alma espreguiava-se toda naquella uniformidade caseira. Quando muito,
pensou na figura do Vioso, que achava agora ridicula, e era injustia.
Despiu-se lentamente, com amor, indo certeira a cada objecto. Uma vez
despida, pensou outra vez na briga com o marido. Achou que, bem pesadas
as cousas, a principal culpa era della. Que diabo de teima por causa de
um chapo, que o marido usra ha tantos annos? Tambem o pae era exigente
de mais...

--Vou ver a cara com que elle vem, pensou ella.

Eram cinco e meia; no tardaria muito. Marianna foi  sala da frente
espiou pela vidraa, prestou o ouvido ao _bond_, e nada. Sentou-se alli
mesmo com o _Ivanhoe_ nas palmas, querendo ler e no lendo nada. Os
olhos iam at o fim da pagina, e tornavam ao principio, em primeiro
lugar, porque no apanhavam o sentido, em segundo lugar, porque uma ou
outra vez desviavam-se para saborear a correco das cortinas ou
qualquer outra feio particular da sala. Santa monotonia, tu a
acalentavas no teu regao eterno.

Emfim, parou um _bond_; apeou-se o marido; rangeu a porta de ferro do
jardim. Marianna foi  vidraa, e espiou. Conrado entrava lentamente,
olhando para a direita e a esquerda, com o chapo na cabea, no o
famoso chapo do costume, porm outro, o que a mulher lhe tinha pedido
de manh. O espirito de Marianna recebeu um choque violento, egual ao
que lhe dera o vaso do jardim trocado,--ou ao que lhe daria uma lauda de
Voltaire entre as folhas da _Moreninha_ ou de _Ivanhoe_... Era a nota
desegual no meio da harmoniosa sonata da vida. No, no podia ser esse
chapo. Realmente, que mania a della exigir que elle deixasse o outro
que lhe ficava to bem? E que no fosse o mais proprio, era o de longos
annos; era o que quadrava  physionomia do marido... Conrado entrou por
uma porta lateral. Marianna recebeu-o nos braos.

--Ento, passou? perguntou elle, emfim, cingindo-lhe a cintura.

--Escuta uma cousa, respondeu ella com uma caricia divina, bota fra
esse; antes o outro.


FIM DO CAPITULO DOS CHAPOS.




CONTO ALEXANDRINO


CAPITULO I

NO MAR

--O que, meu caro Stroibus? No, impossivel. Nunca jmais ninguem
acreditar que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do
homem um ratoneiro.

--Em primeiro logar, Pythias, tu omittes uma condio:-- que o rato
deve expirar debaixo do escalpello, para que o sangue traga o seu
principio. Essa condio  essencial. Em segundo logar, uma vez que me
apontas o exemplo do rato, fica sabendo que j fiz com elle uma
experiencia, e cheguei a produzir um ladro...

--Ladro authentico?

--Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias, mas deixou-me a maior
alegria do mundo:--a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco
de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade immortal. Sim, meu
caro Pythias; esta  a eterna verdade. Os elementos constitutivos do
ratoneiro esto no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado
na aguia...

--Os do sabio na coruja, interrompeu Pythias sorrindo.

--No; a coruja  apenas um emblema; mas a aranha, se pudessemos
transferi-la a um homem, daria a esse homem os rudimentos da geometria e
o sentimento musical. Com um bando de cegonhas, andorinhas ou grous,
fao-te de um caseiro um viageiro. O principio da fidelidade conjugal
est no sangue da rola, o da enfatuao no dos paves... Em summa, os
deuses puzeram nos bichos da terra, da agua e do ar a essencia de todos
os sentimentos e capacidades humanas. Os animaes so as letras soltas do
alphabeto: o homem  a syntaxe. Esta  a minha philosophia recente; esta
 a que vou divulgar na crte do grande Ptolomeu.

Pythias sacudiu a cabea, e fixou os olhos no mar. O navio singrava, em
direitura a Alexandria, com essa carga preciosa de dous philosophos, que
iam levar quelle regao do saber os fructos da razo esclarecida. Eram
amigos, viuvos e quinquagenarios. Cultivavam especialmente a
methaphysica, mas conheciam a physica, a chimica, a medicina e a musica;
um d'elles, Stroibus, chegra a ser excellente anatomista, tendo lido
muitas vezes os tratados do mestre Herophilo. Chypre era a patria de
ambos; mas, to certo  que ninguem  propheta em sua terra, Chypre no
dava o merecido respeito aos dous philosophos. Ao contrario,
desdenhava-os; os garotos tocavam ao extremo de rir d'elles. No foi
esse, entretanto, o motivo que os levou a deixar a patria. Um dia,
Pythias, voltando de uma viagem, propoz ao amigo irem para Alexandria,
onde as artes e as sciencias eram grandemente honradas. Stroibus
adheriu, e embarcaram. S agora, depois de embarcados,  que o inventor
da nova doutrina expol-a ao amigo, com todas as suas recentes cogitaes
e experiencias.

--Est feito, disse Pythias, levantando a cabea, no affirmo nem nego
nada. Vou estudar a doutrina, e se a achar verdadeira, proponho-me a
desenvolvel-a e divulgal-a.

--Vive Helios! exclamou Stroibus. Posso contar que s meu discipulo.


CAPITULO II

EXPERIENCIA

Os garotos alexandrinos no trataram os dous sabios com o escarneo dos
garotos cypriotas. A terra era grave como a ibis pousada n'uma s pata,
pensativa como a sphynge, circumspecta como as mumias, dura como as
pyramides; no tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e crte, que desde
muito tinham noticia dos nossos dous amigos, fizeram-lhes um recebimento
regio, mostraram conhecer seus escriptos, discutiram as suas idas,
mandaram-lhes muitos presentes, papyros, crocodilos, zebras, purpuras.
Elles porm, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a philosophia
bastava ao philosopho, e que o superfluo era um dissolvente. To nobre
resposta encheu de admirao tanto aos sabios como aos principaes e 
mesma plebe. E alis, diziam os mais sagazes, que outra cousa se podia
esperar de dous homens to sublimes, que em seus magnificos tratados...

--Temos cousa melhor do que esses tratados, interrompia Stroibus. Trago
uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos
que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e
as virtudes.

--No  esse o officio dos deuses? objectava um.

--Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem  a syntaxe
da natureza, eu descobri as leis da grammatica divina...

--Explica-te.

--Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando a minha doutrina
estiver completa, divulgal-a-hei como a maior riqueza que os homens
jmais podero receber de um homem.

Imaginem a expectao publica e a curiosidade dos outros philosophos,
embora incredulos de que a verdade recente viesse aposentar as que elles
mesmos possuiam. Entretanto, esperavam todos. Os dous hospedes eram
apontados na rua at pelas crianas. Um filho meditava trocar a avareza
do pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varo,
um varo os desvarios de uma dama, porque o Egypto, desde os Pharas at
aos Lagides, era a terra de Putiphar, da mulher de Putiphar, da capa de
Jos, e do resto. Stroibus tornou-se a esperana da cidade e do mundo.

Pythias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe:

--Methaphysicamente, a tua doutrina  um desproposito; mas estou prompto
a admittir uma experiencia, comtanto que seja decisiva. Para isto, meu
caro Stroibus, ha s um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo da razo como
pela rigidez do caracter, somos o que ha mais opposto ao vicio do furto.
Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vicio, no ser preciso mais;
se no conseguires nada, (e pdes crel-o, porque  um absurdo) recuars
de semelhante doutrina, e tornars s nossas velhas meditaes.

Stroibus acceitou a proposta.

--O meu sacrifio  o mais penoso, disse elle, pois estou certo do
resultado; mas que no merece a verdade? A verdade  immortal; o homem 
um breve momento...

Os ratos egypcios, se pudessem saber de um tal accordo, teriam imitado
os primitivos hebreus, acceitando a fuga para o deserto, antes do que a
nova philosophia. E podemos crer que seria um desastre. A sciencia, como
a guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorancia dos
ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e physica dos dois
philosophos eram outras tantas vantagens na experiencia que ia comear,
cumpria no perder to boa occasio de saber se efectivamente o
principio das paixes e das virtudes humanas estavam distribuidos pelas
varias especies de animaes, e se era possivel transmittil-o.

Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao
ferro. Primeiro, atava uma tira de panno no focinho do paciente; em
seguida, os ps, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoo
do animal  taboa da operao. Isto feito, dava o primeiro talho no
peito, com vagar, e com vagar ia enterrando o ferro at tocar o corao,
porque era opinio d'elle que a morte instantanea corrompia o sangue e
retirava-lhe o principio. Habil anatomista, operava com uma firmeza
digna do proposito scientifico. Outro, menos destro, interromperia muita
vez a tarefa, porque as contorses de dr e de agonia tornavam difficil
o meneio do escalpello; mas essa era justamente a superioridade de
Stroibus: tinha o pulso magistral e pratico.

Ao lado d'elle, Pythias aparava o sangue e ajudava a obra, j contendo
os movimentos convulsivos do paciente, j espiando-lhe nos olhos o
progresso da agonia. As observaes que ambos faziam eram notadas em
folhas de papyro; e assim ganhava a sciencia de duas maneiras. s vezes,
por divergencia de apreciao, eram obrigados a escalpellar maior numero
de ratos do que o necessario; mas no perdiam com isso, porque o sangue
dos excedentes era conservado e ingerido depois. Um s d'esses casos
mostrar a consciencia com que elles procediam. Pythias observra que a
retina do rato agonisante mudava de cr at chegar ao azul claro, ao
passo que a observao de Stroibus dava a cr de canella como o tom
final da morte. Estavam na ultima operao do dia; mas o ponto valia a
pena, e, no obstante o cansao, fizeram successivamente desenove
experiencias sem resultado definitivo; Pythias insistia pela cr azul, e
Stroibus pela cr de canella. O vigesimo rato esteve prestes a pl-os de
accordo, mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a sua posio
era agora differente, rectificou-a e escalpellaram mais vinte e cinco.
D'estes, o primeiro ainda os deixou em duvida; mas os outros vinte e
quatro provaram-lhes que a cr final no era canella nem azul, mas um
lyrio roxo, tirando a claro.

A descripo exagerada das experimentaes deu rebate  poro
sentimental da cidade, e excitou a loquella de alguns sophistas; mas o
grave Stroibus (com brandura, para no aggravar uma disposio propria
da alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do
universo, e no s os ratos, como os paves, as cabras, os ces, os
rouxinoes, etc.; que, em relao aos ratos, alm de ganhar a sciencia,
ganhava a cidade, vendo diminuida a praga de um animal to damninho; e,
se a mesma considerao no se dava com outros animaes, como, por
exemplo, as rolas e os ces, que elles iam escalpellar d'ahi a tempos,
nem por isso os direitos da verdade eram menos imprescriptiveis. A
natureza no ha de ser s a mesa de jantar, concluia em frma de
aphorismo, mas tambem a mesa de sciencia.

E continuavam a extrahir o sangue e a bebel-o. No o bebiam puro, mas
diluido em um cosimento de cinamomo, succo de acacia e balsamo, que lhe
tirava todo o sabor primitivo. As doses eram diarias e diminutas;
tinham, portanto, de aguardar um longo praso antes de produzido o
effeito. Pythias, impaciente e incredulo, mofava do amigo.

--Ento? nada?

--Espera, dizia o outro, espera. No se incute um vicio como se cose um
par de sandalias.


CAPITULO III

VICTORIA

Emfim, venceu Stroibus! A experiencia provou a doutrina. A Pythias foi o
primeiro que deu mostras da realidade do effeito, attribuindo-se umas
tres idas ouvidas ao proprio Stroibus; este, em compensao, furtou-lhe
quatro comparaes e uma theoria dos ventos. Nada mais scientifico do
que essas estras. As idas alheias, por isso mesmo que no foram
compradas na esquina, trazem um certo ar commum; e  muito natural
comear por ellas antes de passar aos livros emprestados, s gallinhas,
aos papeis falsos, s provincias, etc. A propria denominao de plagio 
um indicio de que os homens comprehendem a difficuldade de confundir
esse embryo da ladroeira com a ladroeira formal.

Duro  dizel-o; mas a verdade  que elles deitaram ao Nilo a bagagem
metaphysica, e dentro de pouco estavam larapios acabados. Concertavam-se
de vespera, e iam aos mantos, aos bronzes, s amphoras de vinho, s
mercadorias do porto, s boas drachmas. Como furtassem sem estrepito,
ninguem dava por elles; mas, ainda mesmo que os suspeitassem, como
fazel-o crr aos outros? J ento Ptolomeu colligira na bibliotheca
muitas riquezas e raridades; e, porque conviesse ordenal-as, designou
para isso cinco grammaticos e cinco philosophos, entre estes os nossos
dous amigos. Estes ultimos trabalharam com singular ardor, sendo os
primeiros que entravam e os ultimos que sahiam, e ficando alli muitas
noites, ao claro da lampada, decifrando, colligindo, classificando.
Ptolomeu, enthusiasmado, meditava para elles os mais altos destinos.

Ao cabo de algum tempo, comearam a notar-se faltas graves:--um exemplar
de Homero, tres rolos de manuscriptos persas, dois de samaritanos, uma
soberba colleco de cartas originaes de Alexandre, copias de leis
athenienses, o 2 e o 3 livro da _Republica_ de Plato, etc., etc. A
auctoridade poz-se  espreita; mas a esperteza do rato, transferida a um
organismo superior, era naturalmente maior, e os dois illustres gatunos
zombavam de espias e guardas. Chegaram ao ponto de estabelecer este
preceito philosophico de no sahir d'alli com as mos vasias; traziam
sempre alguma cousa, uma fabula, quando menos. Emfim, estando a sahir um
navio para Chypre, pediram licena a Ptolomeu, com promessa de voltar,
cozeram os livros dentro de couros de hippopotamo, puzeram-lhe rotulos
falsos, e trataram de fugir. Mas a inveja de outros philosophos no
dormia; deu rebate s suspeitas dos magistrados, e descobriu-se o roubo.
Stroibus e Pythias foram tidos por aventureiros, mascarados com os nomes
d'aquelles dous vares illustres; Ptolomeu entregou-os  justia com
ordem de os passar logo ao carrasco. Foi ento que interveiu Herophilo,
inventor da anatomia.


CAPITULO IV

PLUS ULTRA!

--Senhor, disse elle a Ptolomeu, tenho-me limitado at agora a
escalpellar cadaveres. Mas o cadaver d-me a estructura, no me d a
vida; d-me os orgos, no me d as funces. Eu preciso das funces e
da vida.

--Que me dizes? redarguiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de
Stroibus?

--No, senhor; no quero estripar os ratos.

--Os ces? os gansos? as lebres?...

--Nada; peo alguns homens vivos.

--Vivos? no  possivel...

--Vou demonstrar que no s  possivel, mas at legitimo e necessario.
As prises egypicias esto cheias de criminosos, e os criminosos
occupam, na escala humana, um grau muito inferior. J no so cidados,
nem mesmo se podem dizer homens, porque a razo e a virtude, que so os
dois principaes caracteristicos humanos, elles os perderam, infringindo
a lei e a moral. Alm d'isso, uma vez que tm de expiar com a morte os
seus crimes, no  justo que prestem algum servio  verdade e a
sciencia? A verdade  immortal; ella vale no s todos os ratos, como
todos os delinquentes do universo.

Ptolomeu achou o raciocinio exacto, e ordenou que os criminosos fossem
entregues a Herophilo e seus discipulos. O grande anatomista agradeceu
to insigne obsequio, e comeou a escalpellar os rus. Grande foi o
assombro do povo; mas, salvo alguns pedidos verbaes, no houve nenhuma
manifestao contra a medida. Herophilo repetia o que dissera a
Ptolomeu, acrescentando que a sujeio dos rus  experiencia anatomica
era at um modo indirecto de servir  moral, visto que o terror de
escalpello impediria a pratica de muitos crimes.

Nenhum dos criminosos, ao deixar a priso, suspeitava o destino
scientifico que o esperava. Sahiam um por um; s vezes dous a dous, ou
tres a tres. Muitos d'elles, estendidos e atados  mesa da operao, no
chegavam a desconfiar nada; imaginavam que era um novo genero de
execuo summaria. S quando os anatomistas definiam o objecto do estudo
do dia, alavam os ferros e davam os primeiros talhos,  que os
desgraados adquiriam a consciencia da situao. Os que se lembravam de
ter visto as experiencias dos ratos, padeciam em dobro, porque a
imaginao juntava  dr presente o expectaculo passado.

Para conciliar os interesses da sciencia com os impulsos da piedade, os
ros no eram escalpellados  vista uns dos outros, mas successivamente.
Quando vinham aos dois ou aos tres, no ficavam em logar d'onde os que
esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem
muitas vezes abafados por meio de apparelhos; mas se eram abafados, no
eram supprimidos, e em certos casos, o proprio objecto da experiencia
exigia que a emisso da voz fosse franca. s vezes as operaes eram
simultaneas; mas ento faziam-se em logares distanciados.

Tinham sido escalpellados cerca de cincoenta rus, quando chegou a vez
de Stroibus e Pythias. Vieram buscal-os; elles suppuzeram que era para a
morte judiciaria, e encommendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram
uns figos, e explicaram o caso allegando que era um impulso da fome,
adiante, porm, subtrahiram uma flauta, e essa outra aco no a puderam
explicar satisfactoriamente. Todavia, a astucia do larapio  infinita, e
Stroibus, para justificar a aco, tentou extrahir algumas notas do
instrumento, enchendo de compaixo as pessoas que os viam passar, e no
ignoravam a sorte que iam ter. A noticia d'esses dous novos delictos foi
narrada por Herophilo, e abalou a todos os seus discipulos.

Realmente, disse o mestre,  um caso extraordinario, um caso lindissimo.
Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...

O ponto era saber se o nervo do latrocionio residia na palma da mo ou
na extremidade dos dedos; problema esse suggerido por um dos discipulos.
Stroibus foi o primeiro sujeito  operao. Comprehendeu tudo, desde que
entrou na sala; e, como a natureza humana tem uma parte infima,
pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um philosopho. Mas
Herophilo, com um grande poder de dialectica, disse-lhe mais ou menos
isto:--Ou s um aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso,
tens aqui o unico meio para resgatar o crime de illudir a um principe
esclarecido, presta-te ao escalpello; no segundo caso, no deves ignorar
que a obrigao do philosopho  servir  philosophia, e que o corpo 
nada em comparao com o entendimento.

Dito isto, comearam pela experiencia das mos, que produziu optimos
resultados, colligidos em livros, que se perderam com a queda dos
Ptolomeus. Tambem as mos de Pythias foram rasgadas e minuciosamente
examinadas. Os infelizes berravam, choravam, supplicavam; mas Herophilo
dizia-lhes pacificamente que a obrigao do philosopho era servir 
philosophia, e que para os fins da sciencia, elles valiam ainda mais que
os ratos, pois era melhor concluir do homem para o homem, e no do rato
para o homem. E continuou a rasgal-os fibra por fibra, durante oito
dias. No terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir
praticamente uma theoria sobre a conformao interior do orgo. No
fallo da extraco do estomago de ambos, por se tratar de problemas
relativamente secundarios, e em todo caso estudados e resolvidos em
cinco ou seis individuos escalpellados antes d'elles.

Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso afflictivo e
doloroso com dansas e festas, a que convidaram alguns ces, rolas,
paves e outros animaes ameaados de egual destino, e outrosim, que
nenhum dos convidados acceitou o convite, por suggesto de um cachorro,
que lhes disse melancolicamente:--Seculo vir em que a mesma cousa nos
acontea. Ao que retorquiu um rato: Mas at l, riamos!


FIM DO CONTO ALEXANDRINO.




PRIMAS DE SAPUCAIA!


Ha umas occasies opportunas e fugitivas, em que o acaso nos inflige
duas ou trez primas de Sapucaia; outras vezes, ao contrario, as primas
de Sapucaia so antes um beneficio do que um infortunio.

Era  porta de uma egreja. Eu esperava que as minhas primas Claudina e
Rosa tomassem agua benta, para conduzil-as  nossa casa, onde estavam
hospedadas. Tinham vindo de Sapucaia, pelo Carnaval, e demoraram-se dois
mezes na crte. Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas,
theatros, rua do Ouvidor, porque minha mi, com o seu rheumatico, mal
podia mover-se dentro de casa, e ellas no sabiam andar ss. Sapucaia
era a nossa patria commum. Embora todos os parentes estivessem
dispersos, alli nasceu o tronco da familia. Meu tio Jos Ribeiro, pai
d'estas primas, foi o unico, de cinco irmos, que l ficou lavrando a
terra e figurando na politica do logar. Eu vim cedo para a crte, d'onde
segui a estudar e bacharelar-me em S. Paulo. Voltei uma s vez a
Sapucaia, para pleitear uma eleio, que perdi.

Rigorosamente, todas estas noticias so desnecessarias para a
comprehenso da minha aventura; mas  um modo de ir dizendo alguma
cousa, antes de entrar em materia, para a qual no acho porta grande nem
pequena; o melhor  afrouxar a redea  penna, e ella que v andando, at
achar entrada. Hade haver alguma; tudo depende das circumstancias, regra
que tanto serve para o estylo como para a vida; palavra puxa palavra,
uma ida traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma
revoluo; alguns dizem mesmo que assim  que a natureza compoz as suas
especies.

Portanto, agua benta e porta de egreja. Era a egreja de S. Jos. A missa
acabra; Claudina e Rosa fizeram uma cruz na testa, com o dedo pollegar,
molhado na agua benta e descalado unicamente para esse gesto. Depois
ajustaram os manteletes, emquanto eu, ao portal, ia vendo as damas que
sahiam. De repente, estremeo, inclino-me para fra, chego mesmo a dar
dous passos na direco da rua.

--Que foi, primo?

--Nada, nada.

Era uma senhora, que passra rentesinha com a egreja, vagarosa,
cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol; ia pela rua da
Misericordia acima. Para explicar a minha commoo,  preciso dizer que
era a segunda vez que a via. A primeira foi no Prado Fluminense, dous
mezes antes, com um homem que, pelos modos, era seu marido, mas tanto
podia ser marido como pai. Estava ento um pouco de espavento, vestida
de escarlate, com grandes enfeites vistosos, e umas argolas demasiado
grossas nas orelhas; mas os olhos e a bocca resgatavam o resto.
Namormos s bandeiras despregadas. Se disser que sahi d'alli
apaixonado, no metto a minha alma no inferno, porque  a verdade pura.
Sahi tonto, mas sahi tambem desapontado, perdia-a de vista na multido.
Nunca mais pude dar com ella, nem ninguem me soube dizer quem fosse.

Calcule-se o meu enfado, vendo que a fortuna vinha trazel-a outra vez ao
meu caminho, e que umas primas fortuitas no me deixavam lanar-lhe as
mos. No ser difficil calculal-o, porque estas primas de Sapucaia
tomam todas as frmas, e o leitor, se no as teve de um modo, teve-as de
outro. Umas vezes copiam o ar confidencial de um cavalheiro informado da
ultima crise do ministerio, de todas as causas apparentes ou secretas,
dissenses novas ou antigas, interesses aggravados, conspirao, crise.
Outras vezes, enfronham-se na figura d'aquelle eterno cidado que
affirma de um modo ponderoso e abotoado, que no ha leis sem costumes,
_nisi lege sine moribus_. Outras, afivellam a mascara de um Dangeau de
esquina, que nos conta miudamente as fitas e rendas que esta, aquella,
aquell'outra dama levara ao baile ou ao theatro. E durante esse tempo, a
Occasio passa, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapellinho de sol:
passa, dobra a esquina, e adeus... O ministerio esphacelava-se; malinas
e bruxellas; _nisi lege sine moribus_...

Esteve a pique de dizer s primas, que se fossem embora; moravamos na
rua do Carmo, no era longe; mas abri mo da ida. J na rua pensei
tambem em deixal-as na egreja,  minha espera, e ir ver se agarrava a
Occasio pela calva. Creio mesmo que cheguei a parar um momento, mas
rejeitei egualmente esse alvitre e fui andando.

Fui andando com ellas para o lado opposto ao da minha incognita. Olhei
para traz repetidas vezes, at perdel-a n'uma das curvas da rua, com os
olhos no cho, como quem reflecte, devaneia ou espera uma hora
marcada. No minto dizendo que esta ultima ida trouxe-me a emoo do
ciume. Sou exclusivo e pessoal; daria um triste amante de mulheres
casadas. No importa que entre mim e aquella dama existisse apenas uma
contemplao fugitiva de algumas horas; desde que a minha personalidade
ia para ella, a partilha tornava-se-me insupportavel. Sou tambem
imaginoso; engenhei logo uma aventura e um aventureiro, dei-me ao prazer
morbido de affligir-me sem motivo nem necessidade. As primas iam
adiante, e falavam-me de quando em quando; eu respondia mal, se
respondia alguma cousa. Cordialmente, execrava-as.

Ao chegar  porta de casa, consultei o relogio, como si tivesse alguma
cousa que fazer; depois disse s primas que subissem e fossem almoando.
Corri  rua da Misericordia. Fui primeiro at  Escola de Medicina;
depois voltei e vim at a Camara dos Deputados, ento mais devagar,
esperando vel-a ao chegar a cada curva da rua; mas nem sombra. Era
insensato, no era? Todavia, ainda subi outra vez a rua, porque adverti
que, a p e de vagar, mal teria tempo de ir em meio da praia de Santa
Luzia, se acaso no parra antes; e ahi fui, rua acima e praia fra, at
o convento da Ajuda. No encontrei nada, cousa nenhuma. Nem por isso
perdi as esperanas; arripiei caminho e vim, a passo lento ou apressado,
conforme se me afigurava que era possivel apanhal-a adiante, ou dar
tempo a que sahisse de alguma parte. Desde que a minha imaginao
reproduzia a dama, todo eu sentia um abalo, como se realmente tivesse de
vel-a d'ahi a alguns minutos. Comprehendi a emoo dos doudos.

Entretanto, nada. Desci a rua sem achar o menor vestigio da minha
incognita. Felizes os ces, que pelo faro do com os amigos! Quem sabe
se no estaria alli bem perto, no interior de alguma casa, talvez a
propria casa d'ella? Lembrou-me indagar; mas de quem, e como? Um
padeiro, encostado ao portal espiava-me; algumas mulheres faziam a mesma
cousa enfiando os olhos pelos postigos. Naturalmente desconfiavam do
transeunte, do andar vagaroso ou apressado, do olhar inquisidor, do
gesto inquieto. Deixei-me ir at  Camara dos Deputados, e parei uns
cinco minutos, sem saber que fizesse. Era perto de meio-dia. Esperei
mais dez minutos, depois mais cinco, parado, com a esperana de vel-a;
afinal, desesperei e fui almoar.

No almocei em casa. No queria ver os demonios das primas, que me
impediram de seguir a dama incognita. Fui a um hotel. Escolhi uma mesa
no fim da sala, e sentei-me de costas para as outras; no queria ser
visto nem conversado. Comecei a comer o que me deram. Pedi alguns
jornaes, mas confesso que no li nada seguidamente, e apenas entendi
tres quartas partes do que ia lendo. No meio de uma noticia ou de um
artigo, escorregava-me o espirito e cahia na rua da Misericordia, 
porta da egreja, vendo passar a incognita, vagarosa, cabisbaixa,
apoiando-se no chapellinho de sol.

A ultima vez que me aconteceu essa separao da _outra_ e da _besta_,
estava j no caf, e tinha diante de mim um discurso parlamentar.
Achei-me ainda uma vez  porta da egreja; imaginei ento que as primas
no estavam commigo, e que eu seguia atraz da bella dama. Assim  que se
consolam os preteridos da loteria; assim  que se fartam as ambies
mallogradas.

No me peam minucias nem preliminares do encontro. Os sonhos desdenham
as linhas finas e o acabado das paysagens; contentam-se de quatro ou
cinco brochadas grossas, mas representativas. Minha imaginao galgou as
difficuldades da primeira falla, e foi direita  rua do Lavradio ou dos
Invalidos,  propria casa de Adriana. Chama-se Adriana. No viera  rua
da Misericordia por motivos de amores, mas a ver alguem, uma parenta ou
uma comadre, ou uma costureira. Conheceu-me, e teve egual commoo.
Escrevi-lhe; respondeu-me. Nossas pessoas foram uma para a outra por
cima de uma multido de regras moraes e de perigos. Adriana  casada; o
marido conta cincoenta e dous annos, ella trinta imperfeitos. No amou
nunca, no amou mesmo o marido, com quem casou por obedecer  familia.
Eu ensinei-lhe ao mesmo tempo o amor e a traio;  o que ella me diz
nesta casinha que aluguei fra da cidade, de proposito para ns.

Ouo-a embriagado. No me enganei;  a mulher ardente e amorosa, qual me
diziam os seus olhos, olhos de touro, como os de Juno, grandes e
redondos. Vive de mim e para mim. Escrevemo-nos todos os dias; e, apezar
d'isso, quando nos encontramos na casinha,  como se medeara um seculo.
Creio at que o corao d'ella ensinou-me alguma cousa, embora novio,
ou por isso mesmo. N'esta materia desapprende-se com o uso e o ignorante
 que  douto. Adriana no dissimula a alegria nem as lagrimas; escreve
o que pensa, conta o que sente; mostra-me que no somos dois, mas um,
to smente um ente universal, para quem Deus creou o sol e as flores, o
papel e a tinta, o correio e as carruagens fechadas.

Emquanto ideava isto, creio que acabei de beber o caf; lembra-me que o
criado veiu  mesa e retirou a chicara e o assucareiro. No sei se lhe
pedi fogo, provavelmente viu-me com o charuto na mo e trouxe-me
phosphoros.

No juro, mas penso que accendi o charuto, porque d'ahi a um instante,
atravez de um vu de fumaa, vi a cabea meiga e energica da minha bella
Adriana, encostada a um soph. Eu estou de joelhos, ouvindo-lhe a
narrao da ultima rusga do marido. Que elle j desconfia; ella sahe
muitas vezes, distrahe-se, absorve-se, apparece-lhe triste ou alegre,
sem motivo, e o marido comea a ameaal-a. Ameaal-a de que? Digo-lhe
que, antes de qualquer excesso, era melhor deixal-o, para viver commigo,
publicamente, um para o outro. Adriana escuta-me pensativa, cheia de
Eva, namorada do demonio, que lhe sussurra de fra o que o corao lhe
diz de dentro. Os dedos affagam-me os cabellos.

--Pois sim! pois sim!

Veiu no dia seguinte, consigo mesma, sem marido, sem sociedade, sem
escrupulos, to smente comsigo, e fomos d'alli viver juntos. Nem
ostentao, nem resguardo. Suppuzemo-nos estrangeiros, e realmente no
eramos outra cousa; fallavamos uma lingua, que nunca ninguem antes
fallara nem ouvira. Os outros amores eram, desde seculos, verdadeiras
contrafaces; ns davamos a edio authentica. Pela primeira vez,
imprimia-se o manuscripto divino, um grosso volume que ns dividiamos em
tantos capitulos e paragraphos quantas eram as horas do dia ou os dias
da semana. O estylo era tecido de sol e musica; a linguagem compunha-se
da fina flr dos outros vocabularios. Tudo o que n'elles existia, meigo
ou vibrante, foi extrahido pelo autor para formar esse livro
unico--livro sem indice, porque era infinito--sem margens, para que o
fastio no viesse escrever n'ellas as suas notas,--sem fita, porque j
no tinhamos preciso de interromper a leitura e marcar a pagina.

Uma voz chamou-me  realidade. Era um amigo que acordara tarde, e vinha
almoar. Nem o sonho me deixava esta outra prima de Sapucaia! Cinco
minutos depois despedi-me e sahi; eram duas horas passadas.

Vexa-me dizer que ainda fui  rua da Misericordia, mas  preciso narrar
tudo: fui e no achei nada. Voltei nos dias seguintes sem outro lucro,
alm do tempo perdido. Resignei-me a abrir mo da aventura, ou esperar a
soluo do acaso. As primas achavam-me aborrecido ou doente; no lhes
disse que no. D'ahi a oito dias, foram-se embora, sem me deixar
saudades; despedi-me d'ellas como de uma febre maligna.

A imagem da minha incognita no me deixou durante muitas semanas. Na
rua, enganei-me varias vezes. Descobria ao longe uma figura, que era tal
qual a outra; picava os calcanhares, at apanhal-a e desenganar-me.
Comecei a achar-me ridiculo; mas l vinha uma hora ou um minuto, uma
sombra ao longe, e a preoccupao revivia. Afinal vieram outros
cuidados, e no pensei mais n'isso.

No principio do anno seguinte, fui a Petropolis; fiz a viagem com um
antigo companheiro de estudos, Oliveira, que foi promotor em
Minas-Geraes, mas abandonara ultimamente a carreira por ter recebido uma
herana. Estava alegre como nos tempos da academia; mas de quando em
quando calava-se, olhando para fra da barca ou da calea, com a atonia
de quem regala a alma de uma recordao, de uma esperana ou de um
desejo. No alto da serra perguntei-lhe para que hotel ia; respondeu que
ia para uma casa particular, mas no me disse aonde, e at desconversou.
Cuidei que me visitaria no dia seguinte; mas nem me visitou, nem o vi em
parte alguma. Outro collega nosso ouvira dizer que elle tinha uma casa
para os lados da Rhenania.

Nenhuma d'estas circumstancias voltaria  memoria, se no fosse a
noticia que me deram dias depois. Oliveira tirra uma mulher ao marido,
e fra refugiar-se com ella em Petropolis. Deram-me o nome do marido e o
d'ella. O d'ella era Adriana. Confesso que, embora o nome da outra fosse
pura inveno minha, estremeci ao ouvil-o; no seria a mesma mulher? Vi
logo depois que era pedir muito ao acaso. J faz bastante esse pobre
official das cousas humanas, concertando alguns fios dispersos; exigir
que os reate a todos, e com os mesmos titulos,  saltar da realidade na
novella. Assim fallou o meu bom senso, e nunca disse to gravemente uma
tolice, pois as duas mulheres eram nada menos que a mesmissima.

Vi-a tres semanas depois, indo visitar o Oliveira, que viera doente da
crte. Subimos juntos na vespera; no meio da serra, comeou elle a
sentir-se incommodado; no alto estava febril. Acompanhei-o no carro at
a casa, e no entrei, porque elle dispensou-me o incommodo. Mas no dia
seguinte fui vel-o, um pouco por amizade, outro pouco por avidez de
conhecer a incognita. Vi-a; era ella, era a minha, era a unica Adriana.

Oliveira sarou depressa, e, apezar do meu zelo em visital-o, no me
offereceu a casa; limitou-se a vir ver-me no hotel. Respeitei-lhe os
motivos; mas elles mesmos  que faziam reviver a antiga preoccupao.
Considerei que, alm das razes de decoro, havia da parte d'elle um
sentimento de ciume, filho de um sentimento de amor, e que um e outro
podiam ser a prova de um complexo de qualidades finas e grandes
n'aquella mulher. Isto bastava a transtornar-me; mas a ida de que a
paixo d'ella no seria menor que a d'elle, o quadro d'esse casal que
fazia uma s alma e pessoa, excitou em mim todos os nervos da inveja.
Baldei esforos para ver se mettia o p na casa; cheguei a fallar-lhe do
boato que corria; elle sorria e tratava de outra cousa.

Acabou a estao de Petropolis, e elle ficou. Creio que desceu em julho
ou agosto. No fim do anno encontrmo-nos casualmente; achei-o um pouco
taciturno e preoccupado. Vi-o ainda outras vezes, e no me pareceu
differente, a no ser que, alm de taciturno, trazia na physionomia uma
longa prga de desgosto. Imaginei que eram effeitos da aventura, e, como
no estou aqui para empulhar ninguem, accrescento que tive uma sensao
de prazer. Durou pouco; era o demonio que trago em mim, e costuma fazer
d'esses esgares de saltimbanco. Mas castiguei-o depressa, e puz no logar
d'elle o anjo, que tambem uso, e que se compadeceu do pobre rapaz,
qualquer que fosse o motivo da tristeza.

Um visinho d'elle, amigo nosso, contou-me alguma cousa, que me confirmou
a suspeita de desgostos domesticos; mas foi elle mesmo quem me disse
tudo, um dia, perguntando-lhe eu, estouvadamente o que  que tinha que o
mudra tanto.

--Que hei de ter? Imagina tu que comprei um bilhete de loteria, e nem
tive, ao menos, o gosto de no tirar nada; tirei um escorpio.

E, como eu franzisse a testa interrogativamente:

--Ah! se soubesses metade s das cousas que me tm acontecido! Tens
tempo? Vamos aqui ao Passeio Publico.

Entrmos no jardim, e mettemo-nos por uma das alamedas. Contou-me tudo.
Gastou duas horas em desfiar um rosario infinito de miserias. Vi atravez
da narrao duas indoles incompativeis, unidas pelo amor ou pelo
peccado, fartas uma da outra, mas condemnadas  convivencia e ao odio.
Elle nem podia deixal-a nem supportal-a. Nenhuma estima, nenhum
respeito, alegria rara e impura; uma vida gorada.

--Gorada, repetia elle, gesticulando affirmativamente com a cabea. No
tem que ver; a minha vida gorou. Has de lembrar-te dos nossos planos da
academia, quando nos propunhamos, tu a ministro do imperio, eu da
justia. Pdes guardar as duas pastas; no serei nada, nada. O ovo, que
devia dar uma aguia, no chega a dar um frango. Gorou completamente. Ha
anno e meio que ando n'isso, e no acho sahida nenhuma; perdia a
energia...

Seis mezes depois, encontrei-o afflicto e desvairado. Adriana deixara-o
para ir estudar geometria com um estudante da antiga Escola Central.
Tanto melhor, disse-lhe eu. Oliveira olhou para o cho envergonhado;
despediu-se, e correu em procura d'ella. Achou-a d'ahi a algumas
semanas, disseram as ultimas um ao outro, e no fim reconciliaram-se.
Comecei ento a visital-os, com a ida de os separar um do outro. Ella
estava ainda bonita e fascinante; as maneiras eram finas e meigas, mas
evidentemente de emprestimo, acompanhadas de umas attitudes e gestos,
cujo intuito latente era attrahir-me e arrastar-me.

Tive medo e retrahi-me. No se mortificou; deitou fra a capa de renda,
restituiu-se ao natural. Vi ento que era ferrenha, manhosa, injusta,
muita vez grosseira; em alguns lances notei-lhe uma nota de
perversidade. Oliveira, nos primeiros tempos, para fazer-me crer que
mentira ou exagerra, supportava tudo rindo; era a vergonha da propria
fraqueza. Mas no pde guardar a mascara; ella arrancou-lh'a um dia, sem
piedade, denunciando as humilhaes em que elle cahia, quando eu no
estava presente. Tive nojo da mulher e pena do pobre diabo. Convidei-o
abertamente a deixal-a, elle hesitou, mas prometteu que sim.

--Realmente, no posso mais...

Combinamos tudo; mas no momento da separao, no pde. Ella embebeu-lhe
novamente os seus grandes olhos de touro e de basilisco, e d'esta
vez,-- minhas queridas primas de Sapucaia!--d'esta vez para s deixal-o
exhausto e morto.


FIM DAS PRIMAS DE SAPUCAIA!




UMA SENHORA.


Nunca encontro esta senhora que me no lembre a prophecia de uma
lagartixa ao poeta Heine, subindo os Appeninos: Dia vir em que as
pedras sero plantas, as plantas animaes, os animaes homens e os homens
deuses. E d-me vontade de dizer-lhe:--A senhora, D. Camilla, amou
tanto a mocidade e a belleza, que atrazou o seu relogio, afim de ver se
podia fixar esses dois minutos de crystal. No se desconsole, D.
Camilla. No dia da lagartixa, a senhora ser Hebe, deusa da juventude; a
senhora nos dar a beber o nectar da perennidade com as suas mos
eternamente moas.

A primeira vez que a vi, tinha ella trinta e seis annos, posto s
parecesse trinta e dous, e no passasse da casa dos vinte e nove. Casa 
um modo de dizer. No ha castello mais vasto do que a vivenda d'estes
bons amigos, nem tratamento mais obsequioso do que o que elles sabem dar
s suas hospedes. Cada vez que D. Camilla queria ir-se embora, elles
pediam-lhe muito que ficasse, e ella ficava. Vinham ento novos
folguedos, cavalhadas, musica, dansa, uma successo de cousas bellas,
inventadas com o unico fim de impedir que esta senhora seguisse o seu
caminho.

--Mami, mami, dizia-lhe a filha crescendo, vamos embora, no podemos
ficar aqui toda a vida.

D. Camilla olhava para ella mortificada, depois sorria, dava-lhe um
beijo e mandava-a brincar com as outras creanas. Que outras creanas?
Ernestina estava ento entre quatorze e quinze annos, era muito
espigada, muito quieta, com uns modos naturaes de senhora. Provavelmente
no se divertiria com as meninas de oito e nove annos; no importa, uma
vez que deixasse a mi tranquilla, podia alegrar-se ou enfadar-se. Mas,
ai triste! ha um limite para tudo, mesmo para os vinte e nove annos. D.
Camilla resolveu, emfim, despedir-se d'essses dignos amphytries, e
fel-o ralada de saudades. Elles ainda instaram por uns cinco ou seis
mezes de quebra; a bella dama respondeu-lhes que era impossivel e,
trepando no alazo do tempo, foi alojar-se na casa dos trinta.

Ella era, porm, d'aquella casta de mulheres que riem do sol e dos
almanaks. Cr de leite, fresca, inalteravel, deixava s outras o
trabalho de envelhecer. S queria o de existir. Cabello negro, olhos
castanhos e callidos. Tinha as espaduas e o collo feitos de encommenda
para os vestidos decotados, e assim tambem os braos, que eu no digo
que eram os da Venus de Milo, para evitar uma vulgaridade, mas
provavelmente no eram outros. D. Camilla sabia d'isto; sabia que era
bonita, no s porque lh'o dizia o olhar sorrateiro das outras damas,
como por um certo instincto que a belleza possue, como o talento e o
genio. Resta dizer que era casada, que o marido era ruivo, e que os dois
amavam-se como noivos; finalmente, que era honesta. No o era, note-se
bem, por temperamento, mas por principio, por amor ao marido, e creio
que um pouco por orgulho.

Nenhum defeito, pois, excepto o de retardar os annos; mas  isso um
defeito? Ha, no me lembra em que pagina da Escriptura, naturalmente nos
Prophetas, uma comparao dos dias com as aguas de um rio que no voltam
mais. D. Camilla queria fazer uma represa para seu uso. No tumulto
d'esta marcha continua entre o nascimento e a morte, ella apegava-se 
illuso da estabilidade. S se lhe podia exigir que no fosse ridicula,
e no o era. Dir-me-ha o leitor que a belleza vive de si mesma, e que a
preoccupao do calendario mostra que esta senhora vivia principalmente
com os olhos na opinio.  verdade; mas como quer que vivam as mulheres
do nosso tempo?

D. Camilla entrou na casa dos trinta e no lhe custou passar adiante.
Evidentemente o terror era uma superstio. Duas ou tres amigas intimas,
nutridas de arithemetica, continuavam a dizer que ella perdera a conta
dos annos. No advertiam que a natureza era complice no erro, e que aos
quarenta annos (verdadeiros), D. Camilla trazia um ar de trinta e
poucos. Restava um recurso: espiar-lhe o primeiro cabello branco, um
fiosinho de nada, mas branco. Em vo espiavam; o demonio do cabello
parecia cada vez mais negro.

N'isto enganavam-se. O fio branco estava alli; era a filha de D. Camilla
que entrava nos dezenove annos, e, por mal de peccados, bonita. D.
Camilla prolongou, quanto poude, os vestidos adolescentes da filha,
conservou-a no collegio at tarde, fez tudo para proclamal-a creana. A
natureza, porem, que no  s immoral, mas tambem illogica, emquanto
sofreava os annos de uma, afrouxava a redea aos da outra, e Ernestina,
moa feita, entrou radiante no primeiro baile. Foi uma revelao. D.
Camilla adorava a filha; saboreou-lhe a gloria a tragos demorados. No
fundo do copo achou a gotta amarga e fez uma carta. Chegou a pensar na
abdicao; mas um grande prodigo de phrases feitas disse-lhe que ella
parecia a irm mais velha da filha, e o projecto desfez-se. Foi d'essa
noite em diante que D. Camilla entrou a dizer a todos que casra muito
creana.

Um dia, poucos mezes depois, apontou no horisonte o primeiro namorado.
D. Camilla pensra vagamente n'essa calamidade, sem encaral-a, sem
apparelhar-se para a defeza. Quando menos esperava, achou um pretendente
 porta. Interrogou a filha; descobriu-lhe um alvoroo indefinivel, a
inclinao dos vinte annos, e ficou prostrada. Casal-a era o menos; mas,
se os seres so como as aguas da Escriptura, que no voltam mais, 
porque atraz d'elles vm outros, como atraz das aguas outras aguas; e,
para definir essas ondas successivas  que os homens inventaram este
nome de netos. D. Camilla viu imminente o primeiro neto, e determinou
adial-o. Est claro que no formulou a resoluo, como no formulra a
ida do perigo. A alma entende-se a si mesma; uma sensao vale um
raciocinio. As que ella teve foram rapidas, obscuras, no mais intimo do
seu ser, d'onde no as extrahiu para no ser obrigada a encaral-as.

--Mas que  que voc acha de mo no Ribeiro? perguntou-lhe o marido, uma
noite,  janella.

D. Camilla levantou os hombros.--Acho-lhe o nariz torto, disse.

--Mo! Voc est nervosa; fallemos de outra cousa, respondeu o marido.
E, depois, de olhar uns dous minutos para a rua, cantarolando na
garganta, tornou ao Ribeiro, que achava um genro aceitavel, e se lhe
pedisse Ernestina, entendia que deviam ceder-lh'a. Era intelligente e
educado. Era tambem o herdeiro provavel de uma tia de Cantagallo. E
depois tinha um corao de ouro. Contavam-se d'elle cousas muito
bonitas. Na academia, por exemplo... D. Camilla ouviu o resto, batendo
com a ponta do p no cho e rufando com os dedos a sonata da
impaciencia; mas, quando o marido lhe disse que o Ribeiro esperava um
despacho do ministro de estrangeiros, um logar para os Estados-Unidos,
no poude ter-se e cortou-lhe a palavra.

--O que? separar-me de minha filha. No, senhor.

Em que dse entrra n'este grito o amor materno e o sentimento pessoal,
 um problema difficil de resolver, principalmente agora, longe dos
acontecimentos e das pessoas. Supponhamos que em partes eguaes. A
verdade  que o marido no soube que inventar para defender o ministro
de estrangeiros, as necessidades diplomaticas, a fatalidade do
matrimonio, e, no achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois
veiu a nomeao. No terceiro dia, a moa declarou ao namorado que no a
pedisse ao pai, porque no queria separar-se da familia. Era o mesmo que
dizer: prefiro a familia ao senhor.  verdade que tinha a voz tremula e
sumida, e um ar de profunda consternao; mas o Ribeiro viu to smente
a rejeio, e embarcou. Assim acabou a primeira aventura.

D. Camilla padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se depressa.
No faltam noivos, reflectiu ella. Para consolar a filha, levou-a a
passeiar a toda parte. Eram ambas bonitas, e Ernestina tinha a frescura
dos annos; mas a belleza da mi era mais perfeita, e apezar dos annos,
superava a da filha. No vamos ao ponto de crr que o sentimento da
superioridade  que animava D. Camilla a prolongar e repetir os
passeios. No: o amor materno, s por si, explica tudo. Mas concedamos
que animasse um pouco. Que mal ha n'isso? Que mal ha em que um bravo
coronel defenda nobremente a patria, e as suas dragonas? Nem por isso
acaba o amor da patria e o amor das mis.

Mezes depois despontou a orelha de um segundo namorado. D'esta vez era
um viuvo, advogado, vinte e sete annos. Ernestina no sentiu por elle a
mesma emoo que o outro lhe dera; limitou-se a aceital-o. D. Camilla
farejou depressa a nova candidatura. No podia allegar nada contra elle;
tinha o nariz recto como a consciencia, e profunda averso  vida
diplomatica. Mas haveria outros defeitos, devia haver outros. D. Camilla
buscou-os com alma; indagou de suas relaes, habitos, passado.
Conseguiu achar umas cousinhas miudas, to smente a unha da imperfeio
humana, alternativas de humor, ausencia de graas intellectuaes, e,
finalmente, um grande excesso de amor proprio. Foi n'este ponto que a
bella dama o apanhou. Comeou a levantar vagarosamente a muralha do
silencio; lanou primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas,
depois as phrases curtas, depois os monosyllabos, as distraces, as
absorpes, os olhares complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos
fingidos por traz da ventarola. Elle no entendeu logo; mas, quando
reparou que os enfados da mi coincidiam com as ausencias da filha,
achou que era alli de mais e retirou-se. Se fosse homem de luta, tinha
saltado a muralha; mas era orgulhoso e fraco. D. Camilla deu graas aos
deuses.

Houve um trimestre de respiro. Depois appareceram alguns namoricos de
uma noite, insectos ephemeros, que no deixaram historia. D. Camilla
comprehendeu que elles tinham de multiplicar-se, at vir algum decisivo
que a obrigasse a ceder; mas ao menos, dizia ella a si mesma, queria um
genro que trouxesse  filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E,
uma vez, ou para robustecer este decreto da vontade, ou por outro
motivo, repetiu o conceito em voz alta, embora s ella pudesse ouvil-o.
Tu, psychologo subtil, pdes imaginar que ella queria convencer-se a si
mesma; eu prefiro contar o que lhe aconteceu em 186....

Era de manh. D. Camilla estava ao espelho, a janella aberta, a chacara
verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ella sentia em si a harmonia
que a ligava s cousas externas. S a belleza intellectual 
independente e superior. A belleza physica  irm da paysagem. D.
Camilla saboreava essa fraternidade intima, secreta, um sentimento de
identidade, uma recordao da vida anterior no mesmo utero divino.
Nenhuma lembrana desagradavel, nenhuma occurrencia vinha turvar essa
expanso mysteriosa. Ao contrario, tudo parecia embebel-a de eternidade,
e os quarenta e dous annos em que ia no lhe pesavam mais do que outras
tantas folhas de rosa. Olhava para fra, olhava para o espelho. De
repente, como se lhe surdisse uma cobra, recuou atterrada. Tinha visto,
sobre a fonte esquerda, um cabellinho branco. Ainda cuidou que fosse do
marido; mas reconheceu depressa que no, que era d'ella mesma, um
telegramma da velhice, que ahi vinha a marchas foradas. O primeiro
sentimento foi de prostrao. D. Camilla sentiu faltar-lhe tudo, tudo,
viu-se encanecida e acabada no fim de uma semana.

--Mami, mami, bradou Ernestina, entrando na saleta. Est aqui o
camarote que papai mandou.

D. Camilla teve um sobresalto de pudor, e instinctivamente voltou para a
filha o lado que no tinha o fio branco. Nunca a achou to graciosa e
lepida. Fitou-a com saudade. Fitou-a tambem com inveja, e, para abafar
este sentimento mu, pegou no bilhete de camarote. Era para aquella
mesma noite. Uma ida expelle outra; D. Camilla anteviu-se no meio das
luzes e das gentes, e depressa levantou o corao. Ficando s, tornou a
olhar para o espelho, e corajosamente arrancou o cabellinho branco, e
deitou-o  chacara. _Out, damnet spot! Out!_ Mais feliz do que a outra
lady Macbeth, viu assim desapparecer a nodoa no ar, porque no animo
d'ella, a velhice era um remorso, e a fealdade um crime. Sae, maldita
mancha! sae!

Mas, se os remorsos voltam, porque no ho de voltar os cabellos
brancos? Um mez depois, D. Camilla descobriu outro, insinuado na bella e
farta madeixa negra, e amputou-o sem piedade. Cinco ou seis semanas
depois, outro. Este terceiro coincidiu com um terceiro candidato  mo
da filha, e ambos acharam D. Camilla n'uma hora de prostrao. A
belleza, que lhe supprira a mocidade, parecia-lhe prestes a ir tambem,
como uma pomba sae em busca da outra. Os dias precipitavam-se. Creanas
que ella vira ao collo, ou de carrinho empuxado pelas amas, dansavam
agora nos bailes. Os que eram homens fumavam; as mulheres cantavam ao
piano. Algumas d'estas apresentavam-lhe os seus _babies_, gorduchos, uma
segunda gerao que mamava,  espera de ir bailar tambem, cantar ou
fumar, apresentar outros _babies_ a outras pessoas, e assim por diante.

D. Camilla, apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que remedio,
seno aceitar um genro? Mas, como um velho costume no se perde de um
dia para outro, D. Camilla viu parallelamente, n'aquella festa do
corao, um scenario e grande scenario. Preparou-se galhardamente, e o
efeito correspondeu ao esforo. Na egreja, no meio de outras damas; na
sala, sentada no soph (o estofo que forrava este movel, assim como o
papel da parede foram sempre escuros para fazer sobresahir a tez de D.
Camilla), vestida a capricho, sem o requinte da extrema juventude, mas
tambem sem a rigidez matronal, um meio termo apenas, destinado a pr em
relevo as suas graas outonias, risonha, e feliz, emfim, a recente
sogra colheu os melhores suffragios. Era certo que ainda lhe pendia dos
hombros um retalho de purpura.

Purpura suppe dynastia. Dynastia exige netos. Restava que o Senhor
abenoasse a unio, e elle abenoou-a, no anno seguinte. D. Camilla
acostumara-se a ida; mas era to penoso abdicar, que ella aguardava o
neto com amor e repugnancia. Esse importuno embryo, curioso da vida e
pretencioso, era necessario na terra? Evidentemente, no; mas appareceu
um dia, com as flores de Setembro. Durante a crise, D. Camilla s teve
de pensar na filha; depois da crise, pensou na filha e no neto. S dias
depois  que poude pensar em si mesma. Emfim, av. No havia duvidar;
era av. Nem as feies que eram ainda concertadas, nem os cabellos, que
eram pretos (salvo meia duzia de fios escondidos), podiam por si ss
denunciar a realidade; mas a realidade existia; ella era, emfim, av.

Quiz recolher-se; e para ter o neto mais perto de si, chamou a filha
para casa. Mas a casa no era um mosteiro, e as ruas e os jornaes com os
seus mil rumores acordavam n'ella os echos de outro tempo. D. Camilla
rasgou o acto de abdicao e tornou ao tumulto.

Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao collo uma
creana de cinco a seis mezes. D. Camilla segurava na mo o chapellinho
de sol aberto para cobrir a creana. Encontrei-a oito dias depois, com a
mesma creana, a mesma preta e o mesmo chapu de sol. Vinte dias depois,
e trinta dias mais tarde, tornei a vel-a, entrando para o bond, com a
preta e a creana.--Voc j deu de mamar? dizia ella  preta. Olhe o
sol. No v cahir. No aperte muito o menino. Acordou? No mexa com
elle. Cubra a carinha, etc., etc.

Era o neto. Ella, porm, ia to apertadinha, to cuidadosa da creana,
to a miudo, to sem outra senhora, que antes parecia mi do que av; e
muita gente pensava que era mi. Que tal fosse a inteno de D. Camilla
no o juro eu. (No jurars, MATH. V, 34 ). To smente digo que
nenhuma outra mi seria mais desvellada do que D. Camilla com o neto;
attribuirem-lhe um simples filho era a cousa mais verosimil do mundo.


FIM DE UMA SENHORA.




ANECDOTA PECUNIARIA


Chama-se Falco o meu homem. N'aquelle dia--quatorze de Abril de
1870--quem lhe entrasse em casa, s dez horas da noite, vel-o-hia
passear na sala, em mangas de camisa, cala preta e gravata branca,
resmungando, gesticulando, suspirando, evidentemente afflicto. s vezes,
sentava-se; outras, encostava-se  janella, olhando para a praia, que
era a da Gamba. Mas, em qualquer logar ou attitude, demorava-se pouco
tempo.

--Fiz mal, dizia elle, muito mal. To minha amiga que ella era! to
amorosa! Ia chorando, coitadinha! Fiz mal, muito mal... Ao menos, que
seja feliz!

Se eu disser que este homem vendeu uma sobrinha, no me ho de crer; se
descer a definir o preo, dez contos de ris, voltar-me-ho as costas
com desprezo e indignao. Entretanto, basta ver este olhar felino,
estes dois beios, mestres de calculo, que, ainda fechados, parecem
estar contando alguma cousa, para adivinhar logo que a feio capital do
nosso homem  a voracidade do lucro. Entendamo-nos: elle faz arte pela
arte, no ama o dinheiro pelo que elle pde dar, mas pelo que  em si
mesmo! Ninguem lhe v fallar dos regalos da vida. No tem cama fofa, nem
mesa fina, nem carruagem, nem commenda. No se ganha dinheiro para
esbanjal-o, dizia elle. Vive de migalhas; tudo o que amontoa  para a
contemplao. Vai muitas vezes  burra, que est na alcova de dormir,
com o unico fim de fartar os olhos nos rolos de ouro e maos de titulos.
Outras vezes, por um requinte de erotismo pecuniario, contempla-os s de
memoria. N'este particular, tudo o que eu pudesse dizer, ficaria abaixo
de uma palavra d'elle mesmo, em 1857.

J ento millionario, ou quasi, encontrou na rua dois meninos, seus
conhecidos, que lhe perguntaram se uma nota de cinco mil ris, que lhes
dera um tio, era verdadeira. Corriam algumas notas falsas, e os pequenos
lembraram-se d'isso em caminho. Falco ia com um amigo. Pegou tremulo na
nota, examinou-a bem, virou-a, revirou-a...

-- falsa? perguntou com impaciencia um dos meninos.

--No;  verdadeira.

--D c, disseram ambos.

Falco dobrou a nota vagarosamente, sem tirar-lhe os olhos de cima;
depois, restituiu-a aos pequenos, e, voltando-se para o amigo, que
esperava por elle, disse-lhe com a maior candura do mundo:

--Dinheiro, mesmo quando no  da gente, faz gosto vr.

Era assim que elle amava o dinheiro, at  contemplao desinteressada.
Que outro motivo podia leval-o a parar, diante das vitrinas dos
cambistas, cinco, dez, quinze minutos, lambendo com os olhos os montes
de libras e francos, to arrumadinhos e amarellos? O mesmo sobresalto
com que pegou na nota de cinco mil ris, era um rasgo subtil, era o
terror da nota falsa. Nada aborrecia tanto, como os moedeiros falsos,
no por serem criminosos, mas prejudiciaes, por desmoralisarem o
dinheiro bom.

A linguagem do Falco valia um estudo. Assim  que, um dia, em 1864,
voltando do enterro de um amigo, referiu o explendor do prestito,
exclamando com enthusiasmo:--Pegavam no caixo tres mil contos! E,
como um dos ouvintes no o entendesse logo, concluiu do espanto, que
duvidava d'elle, e discriminou a affirmao:--Fulano quatro centos,
Sicrano seiscentos... Sim, senhor, seiscentos; ha dois annos, quando
desfez a sociedade com o sogro, ia em mais de quinhentos; mas
supponhamos quinhentos... E foi por diante, demonstrando, sommando e
concluindo:--Justamente, tres mil contos!

No era casado. Casar era botar dinheiro fra. Mas os annos passaram, e
aos quarenta e cinco entrou a sentir uma certa necessidade moral, que
no comprehendeu logo, e era a saudade paterna. No mulher, no
parentes, mas um filho ou uma filha, se elle o tivesse, era como receber
um pataco de ouro. Infelizmente, esse outro capital devia ter sido
accumulado em tempo; no podia comeal-o a ganhar to tarde. Restava a
loteria; a loteria deu-lhe o premio grande.

Morreu-lhe o irmo, e tres mezes depois a cunhada, deixando uma filha de
onze annos. Elle gostava muito d'esta e de outra sobrinha, filha de uma
irm viuva; dava-lhes beijos, quando as visitava; chegava mesmo ao
delirio de levar-lhes, uma ou outra vez, biscoitos. Hesitou um pouco,
mas, emfim, recolheu a orph; era a filha cobiada. No cabia em si de
contente; durante as primeiras semanas, quasi no sahia de casa, ao p
d'ella, ouvindo-lhe historias e tolices.

Chamava-se Jacintha, e no era bonita; mas tinha a voz melodiosa e os
modos fagueiros. Sabia ler e escrever; comeava a aprender musica.
Trouxe o piano comsigo, o methodo e alguns exercicios; no pde trazer o
professor, porque o tio entendeu que era melhor ir praticando o que
aprendera, e um dia... mais tarde... Onze annos, doze annos, treze
annos, cada anno que passava era mais um vinculo que atava o velho
solteiro  filha adoptiva, e vice-versa. Aos treze, Jacintha mandava na
casa; aos dezesete era verdadeira dona. No abusou do dominio; era
naturalmente modesta, frugal, poupada.

--Um anjo! dizia o Falco ao Chico Borges.

Este Chico Borges tinha quarenta annos, e era dono de um trapiche. Ia
jogar com o Falco,  noite. Jacintha assistia s partidas. Tinha ento
dezoito annos; no era mais bonita, mas diziam todos que estava
enfeitando muito. Era pequenina, e o trapicheiro adorava as mulheres
pequeninas. Corresponderam-se, o namoro fez-se paixo.

--Vamos a ellas, dizia o Chico Borges ao entrar, pouco depois de
ave-marias.

As cartas eram o chapu de sol dos dous namorados. No jogavam a
dinheiro; mas o Falco tinha tal sde ao lucro, que contemplava os
proprios tentos, sem valor, e contava-os de dez em dez minutos, para ver
se ganhava ou perdia. Quando perdia, cahia-lhe o rosto n'um desalento
incuravel, e elle recolhia-se pouco a pouco ao silencio. Se a sorte
teimava em perseguil-o, acabava o jogo, e levantava-se to melancolico e
cego, que a sobrinha e o parceiro podiam apertar a mo, uma, duas, tres
vezes, sem que elle visse cousa nenhuma.

Era isto em 1869. No principio de 1870 Falco propoz ao outro uma venda
de aces. No as tinha; mas farejou uma grande baixa, e contava ganhar
de um s lance trinta a quarenta contos ao Chico Borges. Este
respondeu-lhe finamente que andava pensando em offerecer-lhe a mesma
cousa. Uma vez que ambos queriam vender e nenhum comprar, podiam
juntar-se e propor a venda a um terceiro. Acharam o terceiro, e fecharam
o contracto a sessenta dias. Falco estava to contente, ao voltar do
negocio, que o socio abriu-lhe o corao e pediu-lhe a mo de Jacintha.
Foi o mesmo que, se de repente, comeasse a fallar turco. Falco parou,
embasbacado, sem entender. Que lhe desse a sobrinha? Mas ento...

--Sim; confesso a voss que estimaria muito casar com ella, e ella...
penso que tambem estimaria casar comigo.

--Qual, nada! interrompeu o Falco. No, senhor; est muito criana, no
consinto.

--Mas reflicta...

--No reflicto, no quero.

Chegou  casa irritado e aterrado. A sobrinha afagou-o tanto para saber
o que era, que elle acabou contando tudo, e chamando-lhe esquecida e
ingrata. Jacintha empallideceu; amava os dous, e via-os to dados, que
no imaginou nunca esse contraste de affeies. No quarto chorou 
larga; depois escreveu uma carta ao Chico Borges pedindo-lhe pelas cinco
chagas de Nosso Senhor Jesus Christo, que no fizesse barulho nem
brigasse com o tio; dizia-lhe que esperasse, e jurava-lhe um amor
eterno.

No brigaram os dois parceiros; mas as visitas foram naturalmente mais
escassas e frias. Jacintha no vinha  sala, ou retirava-se logo. O
terror do Falco era enorme. Elle amava a sobrinha com um amor de co,
que persegue e morde aos extranhos. Queria-a para si, no como homem,
mas como pai. A paternidade natural d foras para o sacrificio da
separao; a paternidade d'elle era de emprestimo, e, talvez, por isso
mesmo, mais egoista. Nunca pensara em perdel-a; agora, porm, eram
trinta mil cuidados, janellas fechadas, advertencias  preta, uma
vigilancia perpetua, um espiar os gestos e os ditos, uma campanha de D.
Bartholo.

Entretanto, o sol, modelo de funccionarios, continuou a servir
pontualmente os dias, um a um, at chegar aos dois mezes do prazo
marcado para a entrega das aces. Estas deviam baixar, segundo a
previso dos dois; mas as aces, como as loterias e as batalhas, zombam
dos calculos humanos. N'aquelle caso, alm de zombaria, houve crueldade,
porque nem baixaram, nem ficaram ao par; subiram at converter o
esperado lucro de quarenta contos n'uma perda de vinte.

Foi aqui que o Chico Borges teve uma inspirao de genio. Na vespera,
quando o Falco, abatido e mudo, passeava na sala o seu desapontamento,
propoz elle custear todo o _deficit_, se lhe dsse a sobrinha. Falco
teve um deslumbramento.

--Que eu...?

--Isso mesmo, interrompeu o outro, rindo.

--No, no...

No quiz; recusou tres e quatro vezes. A primeira impresso fra de
alegria, eram os dez contos na algibeira. Mas a ida de separar-se de
Jacintha era insupportavel, e recusou. Dormiu mal. De manh, encarou a
situao, pesou as cousas, considerou que, entregando Jacintha ao outro,
no a perdia inteiramente, ao passo que os dez contos iam-se embora. E,
depois, se ella gostava d'elle e elle d'ella, porque razo separal-os?
Todas as filhas casam-se, e os pais contentam-se de as vr felizes.
Correu  casa do Chico Borges, e chegaram a accordo.

--Fiz mal, muito mal, bradava elle na noite do casamento. To minha
amiga que ella era! To amorosa! Ia chorando, coitadinha... Fiz mal,
muito mal.

Cessra o terror dos dez contos; comera o fastio da solido. Na manh
seguinte, foi visitar os noivos. Jacintha no se limitou a regalal-o com
um bom almoo, encheu-o de mimos e affagos; mas nem estes, nem o almoo
lhe restituiram a alegria. Ao contrario, a felicidade dos noivos
entristeceu-o mais. Ao voltar para casa no achou a carinha meiga de
Jacintha. Nunca mais lhe ouviria as cantigas de menina e moa; no seria
ella quem lhe faria o ch, quem lhe traria,  noite, quando elle
quizesse ler, o velho tomo ensebado do _Saint-Clair das Ilhas_, dadiva
de 1850.

--Fiz mal, muito mal...

Para remediar o mal feito, transferiu as cartas para a casa da sobrinha,
e ia l jogar,  noute, com o Chico Borges. Mas a fortuna, quando
flagella um homem, corta-lhe todas as vazas. Quatro mezes depois, os
recem-casados foram para a Europa; a solido alargou-se de toda a
extenso do mar. Falco contava ento cincoenta e quatro annos. J
estava mais consolado do casamento de Jacintha; tinha mesmo o plano de
ir morar com elles, ou de graa, ou mediante uma pequena retribuio,
que calculou ser muito mais economico do que a despeza de viver s. Tudo
se esboroou; eil-o outra vez na situao de oito annos antes, com a
differena que a sorte arrancra-lhe a taa entre dous goles.

Vai seno quando cai-lhe outra sobrinha em casa. Era a filha da irm
viuva, que morreu e lhe pediu a esmola de tomar conta d'ella. Falco no
prometteu nada, por que um certo instincto o levava a no prometter
cousa nenhuma a ninguem, mas a verdade  que recolheu a sobrinha, to
depressa a irm fechou os olhos. No teve constrangimento; ao contrario,
abriu-lhe as portas de casa, com um alvoroo de namorado, e quasi
abenoou a morte da irm. Era outra vez a filha perdida.

--Esta ha de fechar-me os olhos, dizia elle comsigo.

No era facil. Virginia tinha dezoito annos, feies lindas e originaes;
era grande e vistosa. Para evitar que lh'a levassem, Falco comeou por
onde acabara da primeira vez:--janellas cerradas, advertencias  preta,
raros passeios, s com elle e de olhos baixos. Virginia no se mostrou
enfadada.--Nunca fui janelleira, dizia ella, e acho muito feio que uma
moa viva com o sentido na rua. Outra cautella do Falco foi no trazer
para casa seno parceiros de cincoenta annos para cima ou casados.
Emfim, no cuidou mais da baixa das aces. E tudo isso era
desnecessario, porque a sobrinha no cuidava realmente seno d'elle e da
casa. s vezes, como a vista do tio comeava a diminuir muito, lia-lhe
ella mesma alguma pagina do _Saint-Clair das Ilhas_. Para supprir os
parceiros, quando elles faltavam, apprendeu a jogar cartas, e,
entendendo que o tio gostava de ganhar, deixava-se sempre perder. Ia
mais longe: quando perdia muito, fingia-se zangada ou triste, com o
unico fim de dar ao tio um accrescimo de prazer. Elle ria ento  larga,
mofava d'ella, achava-lhe o nariz comprido, pedia um leno para
enxugar-lhe as lagrimas; mas no deixava de contar os seus tentos de dez
em dez minutos, e se algum cahia no cho (eram gros de milho) descia a
vela para apanhal-o.

No fim de tres mezes, Falco adoeceu. A molestia no foi grave nem
longa; mas o terror da morte apoderou-se-lhe do espirito, e foi ento
que se pde vr toda a affeio que elle tinha  moa. Cada visita que
se lhe chegava, era recebida com rispidez, ou pelo menos com sequido.
Os mais intimos padeciam mais, porque elle dizia-lhes brutalmente que
ainda no era cadaver, que a carnia ainda estava viva, que os urubs
enganavam-se de cheiro, etc. Mas nunca Virginia achou n'elle um s
instante de mu humor. Falco obedecia-lhe em tudo, com uma passividade
de creana, e quando ria,  porque ella o fazia rir.

--Vamos, tome o remedio, deixe-se disso, vosmec agora  meu filho...

Falco sorria e bebia a droga. Ella sentava-se ao p da cama,
contando-lhe historias, espiava o relogio para dar-lhe os caldos ou a
gallinha, lia-lhe o sempiterno _Saint-Clair_. Veiu a convalecena.
Falco sahiu a alguns passeios, acompanhado de Virginia. A prudencia com
que esta, dando-lhe o brao, ia mirando as pedras da rua, com medo de
encarar os olhos de algum homem, encantavam o Falco.

--Esta ha de fechar-me os olhos, repetia elle comsigo mesmo. Um dia,
chegou a pensal-o em voz alta:--No  verdade que voc me ha de fechar
os olhos?

--No diga tolices!

Comquanto estivesse na rua, elle parou, apertou-lhe muito as mos,
agradecido, no achando que dizer. Se tivesse a faculdade de chorar,
ficaria provavelmente com os olhos humidos. Chegando  casa? Virginia
correu ao quarto para reler uma carta que lhe entregra na vespera uma
D. Bernarda, amiga de sua mi. Era datada de New-York, e trazia por
unica assignatura este nome: Reginaldo. Um dos trechos dizia assim: Vou
d'aqui no paquete de 25. Espera-me sem falta. No sei ainda se irei
ver-te logo ou no. Teu tio deve lembrar-se de mim; viu-me em casa de
meu tio Chico Borges, no dia do casamento de tua prima...

Quarenta dias depois, desembarcava este Reginaldo, vindo de New-York,
com trinta annos feitos e trezentos mil dollars ganhos. Vinte e quatro
horas depois visitou o Falco, que o recebeu apenas com polidez. Mas o
Reginaldo era fino e pratico; atinou com a principal corda do homem, e
vibrou-a. Contou-lhe os prodigios de negocio nos Estados-Unidos, as
hordas de moedas que corriam de um a outro dos dous oceanos. Falco
ouvia deslumbrado, e pedia mais. Ento o outro fez-lhe uma extensa
computao das companhias e bancos, aces, saldos de oramento publico,
riquezas particulares, receita municipal de New-York; descreveu-lhe os
grandes palacios do commercio...

--Realmente,  um grande paiz, dizia o Falco, de quando em quando. E
depois de tres minutos de reflexo:--Mas, pelo que o senhor conta, s ha
ouro?

--Ouro s, no; ha muita prata e papel; mas alli papel e ouro  a mesma
cousa. E moedas de outras naes? Hei de mostrar-lhe uma colleco que
trago. Olhe; para vr o que  aquillo basta pr os olhos em mim. Fui
para l pobre, com vinte e tres annos; no fim de sete annos, trago
seiscentos contos.

Falco estremeceu:--Eu, com a sua edade, confessou elle, mal chegaria a
cem.

Estava encantado. Reginaldo disse-lhe que precisava de duas ou tres
semanas, para lhe contar os milagres do dollar.

--Como  que o senhor lhe chama?

--Dollar.

--Talvez no acredite que nunca vi essa moeda.

Reginaldo tirou do bolso do collete um dollar e mostrou-lh'o. Falco,
antes de lhe pr a mo, agarrou-o com os olhos. Como estava um pouco
escuro, levantou-se e foi at  janella, para examinal-o bem--de ambos
os lados; depois restituiu-o, gabando muito o desenho e a cunhagem, e
accrescentando que os nossos antigos pataces eram bem bonitos.

As visitas repetiram-se. Reginaldo assentou de pedir a moa. Esta,
porm, disse-lhe que era preciso ganhar primeiro as boas graas do tio;
no casaria contra a vontade d'elle. Reginaldo no desanimou. Tratou de
redobrar as finezas; abarrotou o tio de dividendos fabulosos.

--A proposito, o senhor nunca me mostrou a sua colleco de moedas,
disse-lhe um dia o Falco.

--V amanh  minha casa.

Falco foi. Reginaldo mostrou-lhe a colleco mettida n'um movel
envidraado por todos os lados. A sorpreza de Falco foi extraordinaria;
esperava uma caixinha com um exemplar de cada moeda, e achou montes de
ouro, de prata, de bronze e de cobre. Falco mirou-as primeiro de um
olhar universal e collectivo; depois, comeou a fixal-as
especificadamente. S conheceu as libras, os dollars e os francos; mas o
Reginaldo nomeou-as todas: florins, coras, rublos, drachmas, piastras,
pesos, rupias, toda a numismatica do trabalho, concluiu elle
poeticamente.

--Mas que paciencia a sua para ajuntar tudo isto! disse elle.

--No fui eu que ajuntei, replicou o Reginaldo; a colleco pertencia ao
espolio de um sujeito de Philadelphia. Custou-me uma bagatella:--cinco
mil dollars.

Na verdade, valia mais. Falco sahiu d'alli com a colleco na alma;
fallou d'ella  sobrinha, e, imaginariamente, desarrumou e tornou a
arrumar as moedas, como um amante desgrenha a amante para toucal-a outra
vez. De noite sonhou que era um florim, que um jogador o deitava  mesa
do _lansquenet_, e que elle trazia comsigo para a algibeira do jogador
mais de duzentos florins. De manh, para consolar-se, foi contemplar as
proprias moedas que tinha na burra; mas no se consolou nada. O melhor
dos bens  o que se no possue.

D'alli a dias, estando em casa, na sala, pareceu-lhe ver uma moeda no
cho. Inclinou-se a apanhal-a; no era moeda, era uma simples carta.
Abriu a carta distrahidamente e leu-a espantado: era de Reginaldo a
Virginia...

--Basta! interrompe-me o leitor; adivinho o resto. Virginia casou com o
Reginaldo, as moedas passaram s mos do Falco, e eram falsas...

No, senhor, eram verdadeiras. Era mais moral que, para castigo do nosso
homem, fossem falsas; mas, ai de mim! eu no sou Seneca, no passo de um
Suetonio que contaria dez vezes a morte de Cezar, se elle resussitasse
dez vezes, pois no tornaria  vida, se no para tornar ao imperio.


FIM DE UMA ANECDOTA PECUNIARIA.




FULANO


Venha o leitor commigo assistir  abertura do testamento do meu amigo
Fulano Beltro. Conheceu-o? Era um homem de cerca de sessenta annos.
Morreu hontem, dous de Janeiro de 1884, s onze horas e trinta minutos
da noite. No imagina a fora de animo que mostrou em toda a molestia.
Cahiu na vespera de finados, e a principio suppunhamos que no fosse
nada; mas a doena persistiu, e ao fim de dous mezes e poucos dias a
morte o levou.

Eu confesso-lhe que estou curioso de ouvir o testamento. Ha de conter
por fora algumas determinaes de interesse geral e honrosas para elle.
Antes de 1863 no seria assim, porque at ento era um homem muito
mettido comsigo, reservado, morando no caminho do Jardim Botanico, para
onde ia de omnibus ou de mula. Tinha a mulher e o filho vivos, a filha
solteira, com treze annos. Foi n'esse anno que elle comeou a occupar-se
com outras cousas, alm da familia, revellando um espirito universal e
generoso. Nada posso affirmar-lhe sobre a causa disto. Creio que foi uma
apologia de amigo, por occasio d'elle fazer quarenta annos. Fulano
Beltro leu no _Jornal do Commercio_, no dia cinco de Maro de 1864, um
artigo anonymo em que se lhe diziam cousas bellas e exactas:--bom pai,
bom esposo, amigo pontual, cidado digno, alma levantada e pura. Que se
lhe fizesse justia, era muito; mas anonymamente, era raro.

--Voc ver, disse Fulano Beltro  mulher, voc ver que isto  do
Xavier ou do Castro; logo rasgaremos o capote.

Castro e Xavier eram dous habituados da casa, parceiros constantes do
voltarete e velhos amigos do meu amigo. Costumavam dizer cousas amaveis,
no dia cinco de maro, mas era ao jantar, na intimidade da familia,
entre quatro paredes; impressos, era a primeira vez que elle se benzia
com elogios. Pde ser que me engane; mas estou que o expectaculo da
justia, a prova material de que as boas qualidades e as boas aces no
morrem no escuro, foi o que animou o meu amigo a dispersar-se, a
apparecer, a divulgar-se, a dar  collectividade humana um pouco das
virtudes com que nasceu. Considerou que milhares de pessoas estariam
lendo o artigo,  mesma hora em que o lia tambem; imaginou que o
commentavam, que interrogavam, que confirmavam, ouviu mesmo, por um
phenomeno de allucinao que a sciencia ha de explicar, e que no 
raro, ouviu distinctamente algumas vozes do publico. Ouviu que lhe
chamavam homem de bem, cavalheiro distincto, amigo dos amigos,
laborioso, honesto, todos os qualificativos que elle vira empregados em
outros, e que na vida de bicho do matto em que ia, nunca presumiu que
lhe fossem--typographicamente--applicados.

--A imprensa  uma grande inveno, disse elle  mulher.

Foi ella, D. Maria Antonia, quem rasgou o capote; o artigo era do
Xavier. Declarou este que s em atteno  dona casa confessava a
auctoria; e accrescentou que a manifestao no sahira completa, porque
a ida d'elle era que o artigo fosse dado em todos os jornaes, no o
tendo feito por havel-o acabado s sete horas da noite. No houve tempo
de tirar cpias. Fulano Beltro emendou essa falta, se falta se lhe
podia chamar, mandando transcrever o artigo no _Diario do Rio_ e o
_Correio Mercantil_.

Quando mesmo, porm, este facto no desse causa  mudana de vida do
nosso amigo, fica uma cousa de p, a saber, que daquelle anno em diante,
e propriamente do mez de maro,  que elle comeou a apparecer mais. Era
at ento um casmurro, que no ia s assemblas das companhias, no
votava nas eleies politicas, no frequentava theatros, nada,
absolutamente nada. J n'aquelle mez de maro, a vinte e dous ou vinte
ou vinte e tres, presenteou a Santa Casa da Misericordia com um bilhete
da grande loteria de Hespanha, e recebeu uma honrosa carta do provedor,
agradecendo em nome dos pobres. Consultou a mulher e os amigos, se devia
publicar a carta ou guardal-a, parecendo-lhe que no a publicar era uma
desatteno. Com effeito, a carta foi dada a vinte e seis de maro, em
todas as folhas, fazendo uma dellas commentarios desenvolvidos cerca da
piedade do doador. Das pessoas que leram esta noticia, muitas
naturalmente ainda se lembravam do artigo do Xavier, e ligaram as duas
occurencias: Fulano Beltro  aquelle mesmo que, etc. primeiro
alicerce da reputao de um homem.

 tarde, temos de ir ouvir o testamento, no posso estar a contar-lhe
tudo. Digo-lhe summariamente que as injustias da rua comearam a ter
n'elle um vingador activo e discursivo; que as miserias, principalmente
as miserias dramaticas, filhas de um incendio ou inundao, acharam no
meu amigo a iniciativa dos soccorros que, em taes casos, devem ser
promptos e publicos. Ninguem como elle para um desses movimentos. Assim
tambem com as alforias de escravos. Antes da lei de 28 de setembro de
1871, era muito commum apparecerem na Praa do Commercio crianas
escravas, para cuja liberdade se pedia o favor dos negociantes. Fulano
Beltro iniciava tres quartas partes das subscripes, com tal exito,
que em poucos minutos ficava o preo coberto.

A justia que se lhe fazia, animava-o, e at lhe trazia lembranas que,
sem ella,  possivel que nunca lhe tivessem acudido. No fallo do baile
que elle deu para celebrar a victoria de Riachuelo, porque era um baile
planeado antes de chegar a noticia da batalha, e elle no fez mais do
que attribuir-lhe um motivo mais alto do que a simples recreao de
familia, metter o retrato do almirante Barroso no meio de um trophu de
armas navaes e bandeiras no salo de honra, em frente ao retrato do
imperador, e fazer,  ceia, alguns brindes patrioticos, como tudo consta
dos jornaes de 1865.

Mas aqui vai, por exemplo, um caso bem caracteristico da influencia que
a justia dos outros pde ter no nosso procedimento. Fulano Beltro
vinha um dia do thesouro, aonde tinha ido tratar de umas decimas. Ao
passar pela egreja da Lampadosa, lembrou-se que fra alli baptisado; e
nenhum homem tem uma recordao d'estas, sem remontar o curso dos annos
e dos acontecimentos, deitar-se outra vez no collo materno, rir e
brincar, como nunca mais se ri nem brinca. Fulano Beltro no escapou a
este effeito; atravessou o adro, entrou na egreja, to singela, to
modesta, e para elle to rica e linda. Ao sahir, tinha uma resoluo
feita, que pz por obra dentro de poucos dias: mandou de presente 
Lampadosa um soberbo castial de prata, com duas datas, alm do nome do
doador--a data da doao e a do baptisado. Todos os jornaes deram esta
noticia, e at a receberam em duplicata, porque a administrao da
egreja entendeu (com muita razo) que tambem lhe cumpria divulgal-a aos
quatro ventos.

No fim de tres annos, ou menos, entrra o meu amigo nas cogitaes
publicas; o nome d'elle era lembrado, mesmo quando nenhum successo
recente vinha suggeril-o, e no s lembrado como adjectivado. J se lhe
notava a ausencia em alguns logares. J o iam buscar para outros. D.
Maria Antonia via assim entrar-lhe no Eden a serpente biblica, no para
tental-a, mas para tentar a Ado. Com effeito, o marido ia a tantas
partes, cuidava de tantas cousas, mostrava-se tanto na rua do Ouvidor, 
porta do Bernardo, que afrouxou a convivencia antiga da casa. D. Maria
Antonia disse-lh'o. Elle concordou que era assim, mas demonstrou-lhe que
no podia ser de outro modo, e, em todo caso, se mudra de costumes, no
mudra de sentimentos. Tinha obrigaes moraes com a sociedade; ninguem
se pertence exclusivamente; d'ahi um pouco de disperso dos seus
cuidados. A verdade  que tinham vivido demasiadamente reclusos; no era
justo nem bonito. No era mesmo conveniente; a filha caminhava para a
edade do matrimonio, e casa fechada cria morrinha de convento; por
exemplo, um carro, porque  que no teriam um carro? D. Maria Antonia
sentiu um arrepio de prazer, mas curto; protestou logo, depois de um
minuto de reflexo.

--No; carro para que? No; deixemo-nos de carro.

--J est comprado, mentiu o marido.

Mas aqui chegamos ao juizo da provedoria. No veiu ainda ninguem;
esperemos  porta. Tem pressa? So vinte minutos no maximo. Pois 
verdade, comprou uma linda victoria; e, para quem, s por modestia,
andou tantos annos s costas de mula ou apertado n'um omnibus, no era
facil acostumar-se logo ao novo vehiculo. A isso attribuo eu as
attitudes salientes e inclinadas com que elle andava, nas primeiras
semanas, os olhos que estendia a um lado e outro,  maneira de pessoa
que procura alguem ou uma casa. Afinal acostumou-se; passou a usar das
attitudes reclinadas, embora sem um certo sentimento de indifferena ou
despreoccupao, que a mulher e a filha tinham muito bem, talvez por
serem mulheres. Ellas, alis, no gostavam de sahir de carro; mas elle
teimava tanto que sahissem, que fossem a toda a parte, e at a parte
nenhuma, que no tinham remedio seno obedecer-lhe; e, na rua, era
sabido, mal vinha ao longe a ponta do vestido de duas senhoras, e na
almofada um certo cocheiro, toda a gente dizia logo:--ahi vem a familia
de Fulano Beltro. E isto mesmo, sem que elle talvez o pensasse,
tornava-o mais conhecido.

No anno de 1868 deu entrada na politica. Sei do anno porque coincidiu
com a queda dos liberaes e a subida dos conservadores. Foi em maro ou
abril de 1868 que elle declarou adherir  situao, no  socapa, mas
estrepitosamente. Este foi, talvez, o ponto mais fraco da vida do meu
amigo. No tinha idas politicas; quando muito, dispunha de um d'esses
temperamentos que substituem as idas, e fazem crer que um homem pensa,
quando simplesmente transpira. Cedeu, porm, a uma allucinao de
momento. Viu-se na camara vibrando um parte, ou inclinado sobre a
balaustrada, em conversa com o presidente do conselho, que sorria para
elle, n'uma intimidade grave de governo. E ahi  que a galeria, na
exacta accepo do termo, tinha de o contemplar. Fez tudo o que poude
para entrar na camara; a meio caminho cahiu a situao. Voltando do
atordoamento, lembrou-se de affirmar ao Itaborahy o contrario do que
dissera ao Zacarias, ou antes a mesma cousa; mas perdeu a eleio, e deu
de mo  politica. Muito mais acertado andou, mettendo-se na questo da
maonaria com os prelados. Deixra-se estar quedo, a principio; por um
lado, era maon; por outro, queria respeitar os sentimentos religiosos
da mulher. Mas o conflicto tomou taes propores que elle no podia
ficar calado; entrou n'elle com o ardor, a expanso, a publicidade que
mettia em tudo; celebrou reunies em que fallou muito da liberdade de
consciencia e do direito que assistia ao maon de enfiar uma opa;
assignou protestos, representaes, felicitaes, abriu a bolsa e o
corao, escancaradamente.

Morreu-lhe a mulher em 1878. Ella pediu-lhe que a enterrasse sem
apparato, e elle assim o fez, porque a amava deveras e tinha a sua
ultima vontade como um decreto do cu. J ento perdera o filho; e a
filha, casada, achava-se na Europa. O meu amigo dividiu a dr com o
publico; e, se enterrou a mulher sem apparato, no deixou de lhe mandar
esculpir na Italia um magnifico mausolu, que esta cidade admirou
exposto, na rua do Ouvidor, durante perto de um mez. A filha ainda veiu
assistir  inaugurao. Deixei de os ver uns quatro annos. Ultimamente
surgiu a doena, que no fim de pouco mais de dous mezes o levou d'esta
para a melhor. Note que, at comear a agonia, nunca perdeu a razo nem
a fora d'alma. Conversava com as visitas, mandava-as relacionar, no
esquecia mesmo noticiar s que chegavam, as que acabavam de sahir; cousa
inutil, porque uma folha amiga publicava-as todas. Na manh do dia em
que morreu ainda ouviu lr os jornaes, e n'um d'elles uma pequena
communicao relativamente  sua molestia, o que de algum modo pareceu
reanimal-o. Mas para a tarde enfraqueceu um pouco;  noite expirou.

Vejo que est aborrecido. Realmente demoram-se... Espere; creio que so
elles. So; entremos. C est o nosso magistrado, que comea a ler o
testamento. Est ouvindo? No era preciso esta minuciosa genealogia,
excedente das praticas tabellias; mas isto mesmo de contar a familia
desde o quarto av prova o espirito exacto e paciente do meu amigo. No
esquecia nada. O ceremonial do sahimento  longo e complicado, mas
bonito. Comea agora a lista dos legados. So todos pios; alguns
industriaes. V vendo a alma do meu amigo. Trinta contos...

Trinta contos para que? Para servir de comeo a uma subscripo publica
destinada a erigir uma estatua a Pedro Alvares Cabral. Cabral, diz alli
o testamento, no pde ser olvidado dos brazileiros, foi o precursor do
nosso imperio. Recommenda que a estatua seja de bronze, com quatro
medalhes no pedestal, a saber, o retrato do bispo Coutinho, presidente
da Constituinte, o de Gonzaga, chefe da conjurao mineira, e o de dous
cidados da presente gerao notveis por seu patriotismo e
liberalidade  escolha da commisso, que elle mesmo nomeou para levar a
empreza a cabo.

Que ella se realise, no sei; falta-nos a perseverana do fundador da
verba. Dado, porm, que a commisso se desempenhe da tarefa, e que este
sol americano ainda veja erguer-se a estatua de Cabral,  da nossa honra
que elle contemple n'um dos medalhes o retrato do meu finado amigo. No
lhe parece? Bem, o magistrado acabou, vamos embora.


FIM DO FULANO.




A SEGUNDA VIDA


Monsenhor Caldas interrompeu a narrao do desconhecido:--D licena? 
s um instante. Levantou-se, foi ao interior da casa, chamou o preto
velho que o servia, e disse-lhe em voz baixa:

--Joo, vae alli  estao de urbanos, falla da minha parte ao
commandante, e pede-lhe que venha c com um ou dous homens, para
livrar-me de um sujeito doudo. Anda, vae depressa.

E, voltando  sala:

--Prompto, disse elle; podemos continuar.

--Como ia dizendo a Vossa Reverendissima, morri no dia vinte de maro de
1860, s cinco horas e quarenta e tres minutos da manh. Tinha ento
sessenta e oito annos de edade. Minha alma vou pelo espao, at perder
a terra de vista, deixando muito abaixo a lua, as estrellas e o sol;
penetrou finalmente n'um espao em que no havia mais nada, e era
clareado to smente por uma luz diffusa. Continuei a subir, e comecei a
ver um pontinho mais luminoso ao longe, muito longe. O ponto cresceu,
fez-se sol. Fui por alli dentro, sem arder, porque as almas so
incombustiveis. A sua pegou fogo alguma vez?

--No, senhor.

--So incombustiveis. Fui subindo, subindo; na distancia de quarenta mil
legoas, ouvi uma deliciosa musica, e logo que cheguei a cinco mil
legoas, desceu um enxame de almas, que me levaram n'um palanquim feito
de ether e plumas. Entrei dahi a pouco no novo sol, que  o planeta dos
virtuosos da terra. No sou poeta, monsenhor; no ouso descrever-lhe as
magnificencias daquella estancia divina. Poeta que fosse, no poderia,
usando a linguagem humana, transmittir-lhe a emoo da grandeza, do
deslumbramento, da felicidade, os extasis, as melodias, os arrojos de
luz e cores, uma cousa indefinivel e incomprehensivel. S vendo. L
dentro  que soube que completava mais um milheiro de almas; tal era o
motivo das festas extraordinarias que me fizeram, e que duraram dous
seculos, ou, pelas nossas contas, quarenta e oito horas. Afinal,
concluidas as festas, convidaram-me a tornar  terra para cumprir uma
vida nova; era o privilegio de cada alma que completava um milheiro.
Respondi agradecendo e recusando, mas no havia recusar. Era uma lei
eterna. A unica liberdade que me deram foi a escolha do vehiculo; podia
nascer principe ou conductor de omnibus. Que fazer? Que faria Vossa
Reverendissima no meu logar?

--No posso saber; depende...

--Tem razo; depende das circumstancias. Mas imagine que as minhas eram
taes que no me davam gosto a tornar c. Fui victima da inexperiencia,
monsenhor, tive uma velhice ruim, por essa razo. Ento lembrou-me que
sempre ouvira dizer a meu pae e outras pessoas mais velhas, quando viam
algum rapaz:--Quem me dera aquella edade, sabendo o que sei hoje!
Lembrou-me isto, e declarei que me era indifferente nascer mendigo ou
potentado, com a condio de nascer experiente. No imagina o riso
universal com que me ouviram. Job, que alli preside a provincia dos
pacientes, disse-me que um tal desejo era disparate; mas eu teimei e
venci. Dahi a pouco escorreguei no espao; gastei nove mezes a
atravessal-o at cair nos braos de uma ama de leite, e chamei-me Jos
Maria. Vossa Reverendissima  Romualdo, no?

--Sim, senhor; Romualdo de Souza Caldas.

--Ser parente do padre Souza Caldas?

--No, senhor.

--Bom poeta o padre Caldas. Poesia  um dom; eu nunca pude compor uma
decima. Mas, vamos ao que importa. Conto-lhe primeiro o que me succedeu;
depois lhe direi o que desejo de Vossa Reverendissima. Entretanto, se me
permittisse ir fumando...

Monsenhor Caldas fez um gesto de assentimento, sem perder de vista a
bengala que Jos Maria conservava atravessada sobre as pernas. Este
preparou vagarosamente um cigarro. Era um homem de trinta e poucos
annos, pallido, com um olhar ora molle e apagado, ora inquieto e
centelhante. Appareceu alli, tinha o padre acabado de almoar, e
pediu-lhe uma entrevista para negocio grave e urgente. Monsenhor fel-o
entrar e sentar-se; no fim de dez minutos, viu que estava com um
lunatico. Perdoava-lhe a incoherencia das idas ou o assombroso das
invenes; pde ser at que lhe servissem de estudo. Mas o desconhecido
teve um assomo de raiva, que metteu medo ao pacato clerigo. Que podiam
fazer elle e o preto, ambos velhos, contra qualquer aggresso de um
homem forte e louco? Em quanto esperava o auxilio policial, monsenhor
Caldas desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabea, espantava-se
com elle, alegrava-se com elle, politica util com os loucos, as mulheres
e os potentados. Jos Maria accendeu finalmente o cigarro, e continuou:

--Renasci em cinco de Janeiro de 1861. No lhe digo nada da nova
meninice, porque ahi a experiencia teve s uma frma instinctiva. Mamava
pouco; chorava o menos que podia para no apanhar pancada. Comecei a
andar tarde, por medo de cair, e dahi me ficou uma tal ou qual fraqueza
nas pernas. Correr e rolar, trepar nas arvores, saltar paredes, trocar
murros, cousas to uteis, nada disso fiz, por medo de contuso e sangue.
Para fallar com franqueza, tive uma infancia aborrecida, e a escola no
o foi menos. Chamavam-me tolo e moleiro. Realmente, eu vivia fugindo de
tudo. Creia que durante esse tempo no escorreguei, mas tambem no
corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as
cabeas quebradas de outro tempo com o tdio de hoje, antes as cabeas
quebradas. Cresci; fiz-me rapaz, entrei no periodo dos amores... No se
assuste; serei casto, como a primeira ceia. Vossa Reverendissima sabe o
que  uma ceia de rapazes e mulheres?

--Como quer que saiba?...

--Tinha dezenove annos, continuou Jos Maria, e no imagina o espanto
dos meus amigos, quando me declarei prompto a ir a uma tal ceia...
Ninguem esperava tal cousa de um rapaz to cautelloso, que fugia de
tudo, dos somnos atrazados, dos somnos excessivos, de andar sozinho a
horas mortas, que vivia, por assim dizer, s apalpadellas. Fui  ceia;
era no Jardim Botanico, obra explendida. Comidas, vinhos, luzes, flores,
alegria dos rapazes, os olhos das damas, e, por cima de tudo, um
appetite de vinte annos. Hade crer que no comi nada? A lembrana de
tres indigestes apanhadas quarenta annos antes, na primeira vida,
fez-me recuar. Menti dizendo que estava indisposto. Uma das damas veiu
sentar-se  minha direita, para curar-me; outra levantou-se tambem, e
veiu para a minha esquerda, com o mesmo fim. Voc cura de um lado, eu
curo do outro, disseram ellas. Eram lepidas, frescas, astuciosas, e
tinham fama de devorar o corao e a vida dos rapazes. Confesso-lhe que
fiquei com medo e retrahi-me. Ellas fizeram tudo, tudo; mas em vo. Vim
de l de manh, apaixonado por ambas, sem nenhuma dellas, e caindo de
fome. Que lhe parece? concluiu Jos Maria pondo as mos nos joelhos, e
arqueando os braos para fra?

--Com effeito...

--No lhe digo mais nada; Vossa Reverendissima adivinhar o resto. A
minha segunda vida  assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreiada
por uma experiencia virtual e tradiccional. Vivo como Eurico, atado ao
proprio cadaver... No, a comparao no  boa. Como lhe parece que
vivo?

--Sou pouco imaginoso. Supponho que vive assim como um passaro, batendo
as azas e amarrado pelos ps...

--Justamente. Pouco imaginoso? Achou a formula;  isso mesmo. Um
passaro, um grande passaro, batendo as azas, assim...

Jos Maria ergueu-se, agitando os braos,  maneira de azas. Ao
erguer-se, caiu-lhe a bengala no cho; mas elle no deu por ella.
Continuou a agitar os braos, em p, defronte do padre, e a dizer que
era isso mesmo, um passaro, um grande passaro... De cada vez que batia
os braos nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma
cadencia de movimentos, e conservava os ps unidos, para mostrar que os
tinha amarrados. Monsenhor approvava de cabea; ao mesmo tempo afiava as
orelhas para vr se ouvia passos na escada. Tudo silencio. S lhe
chegavam os rumores de fra:--carros e carroas que desciam,
quitandeiras apregoando legumes, e um piano da vizinhana. Jos Maria
sentou-se finalmente, depois de apanhar a bengala, e continuou nestes
termos:

--Um passaro, um grande passaro. Para ver quanto  feliz a comparao,
basta a aventura que me traz aqui, um caso de consciencia, uma paixo,
uma mulher, uma viuva, D. Clemencia. Tem vinte e seis annos, uns olhos
que no acabam mais, no digo no tamanho, mas na expresso, e duas
pincelladas de buo, que lhe completam a physionomia.  filha de um
professor jubilado. Os vestidos pretos ficam-lhe to bem que eu s vezes
digo-lhe rindo que ella no enviuvou seno para andar de luto. Caoadas!
Conhecemo-nos ha um anno, em casa de um fazendeiro de Cantagallo. Saimos
namorados um do outro. J sei o que me vae perguntar: porque  que no
nos casamos, sendo ambos livres...

--Sim, senhor.

--Mas, homem de Deus!  essa justamente a materia da minha aventura.
Somos livres, gostamos um do outro, e no nos casamos: tal  a situao
tenebrosa que venho expor a Vossa Reverendissima, e que a sua theologia
ou o que quer que seja, explicar, se puder. Voltamos para a Crte
namorados. Clemencia morava com o velho pae, e um irmo empregado no
commercio; relacionei-me com ambos, e comecei a frequentar a casa, em
Matacavallos. Olhos, apertos de mo, palavras soltas, outras ligadas,
uma phrase, duas phrases, e estavamos amados e confessados. Uma noite,
no patamar da escada, trocamos o primeiro beijo... Perde estas cousas,
monsenhor; faa de conta que me est ouvindo de confisso. Nem eu lhe
digo isto seno para acrescentar que sahi dalli tonto, desvairado, com a
imagem de Clemencia na cabea e o sabor do beijo na bocca. Errei cerca
de duas horas, planeando uma vida unica; determinei pedir-lhe a mo no
fim da semana, e casar dahi a um mez. Cheguei s derradeiras minucias,
cheguei a redigir e ornar de cabea as cartas de participao. Entrei em
casa depois de meia noite, e toda essa fantasmagoria vou, como as
mutaes  vista nas antigas peas de theatro. Veja se adivinha como.

--No alcano...

--Considerei, no momento de despir o collete, que o amor podia acabar
depressa; tem-se visto algumas vezes. Ao descalar as botas, lembrou-me
cousa peior:--podia ficar o fastio. Conclui a _toilette_ de dormir,
accendi um cigarro, e, reclinado no canap, pensei que o costume, a
convivencia, podia salvar tudo; mas, logo depois adverti que as duas
indoles podiam ser incompativeis; e que fazer com duas indoles
imcompativeis e inseparaveis? Mas, emfim, dei de barato tudo isso,
porque a paixo era grande, violenta; considerei-me casado, com uma
linda creancinha... Uma? duas, seis, oito; podiam vir oito, podiam vir
dez; algumas aleijadas. Tambem podia vir uma crise, duas crises, falta
de dinheiro, penuria, doenas; podia vir alguma dessas affeies
espurias que perturbam a paz domestica... Considerei tudo e conclui que
o melhor era no casar. O que no lhe posso contar  o meu desespero;
faltam-me expresses para lhe pintar o que padeci nessa noite...
Deixa-me fumar outro cigarro?

No esperou resposta, fez o cigarro, e accendeu-o. Monsenhor no podia
deixar de admirar-lhe a bella cabea, no meio do desalinho proprio do
estado; ao mesmo tempo notou que elle fallava em termos polidos, e, que
apesar dos rompantes morbidos, tinha maneiras. Quem diabo podia ser esse
homem? Jos Maria continuou a historia, dizendo que deixou de ir  casa
de Clemencia, durante seis dias, mas no resistiu s cartas e s
lagrimas. No fim de uma semana correu para l, e confessou-lhe tudo,
tudo. Ella ouviu-o com muito interesse, e quiz saber o que era preciso
para acabar com tantas scismas, que prova de amor queria que ella lhe
dsse.--A resposta de Jos Maria foi uma pergunta.

--Est disposta a fazer-me um grande sacrificio? disse-lhe eu. Clemencia
jurou que sim. Pois bem, rompa com tudo, familia e sociedade; venha
morar commigo; casamo-nos depois desse noviciado. Comprehendo que Vossa
Reverendissima arregale os olhos. Os della encheram-se de lagrimas; mas,
apesar de humilhada, aceitou tudo. Vamos; confesse que sou um monstro.

--No, senhor...

--Como no? Sou um monstro. Clemencia veiu para minha casa, e no
imagina as festas com que a recebi. Deixo tudo, disse-me ella; voc 
para mim o universo. Eu beijei-lhe os ps, beijei-lhe os taces dos
sapatos. No imagina o meu contentamento. No dia seguinte, recebi uma
carta tarjada de preto; era a noticia da morte de um tio meu, em Santa
Anna do Livramento, deixando-me vinte mil contos. Fiquei fulminado.
Entendo, disse a Clemencia, voc sacrificou tudo, por que tinha noticia
da herana. Desta vez, Clemencia no chorou, pegou em si e sahiu. Fui
atraz della, envergonhado, pedi-lhe perdo; ella resistiu. Um dia, dous
dias, tres dias, foi tudo vo; Clemencia no cedia nada, no fallava
sequer. Ento declarei-lhe que me mataria; comprei um revolver, fui ter
com ella, e apresentei-lh'o:  este.

Monsenhor Caldas empallideceu. Jos Maria mostrou-lhe o revolver,
durante alguns segundos, tornou a mettel-o na algibeira, e continuou:

--Cheguei a dar um tiro. Ella, assustada, desarmou-me e perdoou-me.
Ajustmos precipitar o casamento, e, pela minha parte, impuz uma
condio: doar os vinte mil contos  Bibliotheca Nacional. Clemencia
atirou-se-me aos braos, e approvou-me com um beijo. Dei os vinte mil
contos. Ha de ter lido nos jornaes... Tres semanas depois casamo-nos.
Vossa Reverendissima respira como quem chegou ao fim. Qual! Agora  que
chegamos ao tragico. O que posso fazer  abreviar umas particularidades
e supprimir outras; restrinjo-me a Clemencia. No lhe fallo de outras
emoes truncadas, que so todas as minhas, abortos de prazer, planos
que se esgaram no ar, nem das illuses de saia rota, nem do tal
passaro... plas... plas... plas...

E, de um salto, Jos Maria ficou outra vez de p, agitando os braos, e
dando ao corpo uma cadencia. Monsenhor Caldas comeou a suar frio. No
fim de alguns segundos, Jos Maria parou, sentou-se, e reatou a
narrao, agora mais diffusa, mais derramada, evidentemente mais
delirante. Contava os sustos em que vivia, desgostos e desconfianas.
No podia comer um figo s dentadas, como outr'ora; o receio do bicho
diminuia-lhe o sabor. No cria nas caras alegres da gente que ia pela
rua: preoccupaes, desejos, odios, tristezas, outras cousas, iam
dissimuladas por umas tres quartas partes dellas. Vivia a temer um filho
cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. No conseguia dar
um jantar que no ficasse triste logo depois da sopa, pela ida de que
uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de servio podia
suggerir o epigramma digestivo, na rua, debaixo de um lampeo. A
experiencia dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que,
realmente, no tinha at agora lucrado nada; ao contrario, perdera at,
porque fra levado ao sangue... Ia contar-lhe o caso do sangue. Na
vespera, deitara-se cedo, e sonhou... Com quem pensava o padre que elle
sonhou?

--No atino...

--Sonhei que o Diabo lia-me o Evangelho. Chegando ao ponto em que Jesus
falla dos lyrios do campo, o Diabo colheu alguns e deu-m'os. Toma,
disse-me elle; so os lyrios da Escriptura; segundo ouviste, nem Salomo
em toda a pompa, pde hombrear com elles. Salomo  a sapiencia. E sabes
o que so estes lyrios, Jos? So os teus vinte annos. Fitei-os
encantado; eram lindos como no imagina. O Diabo pegou delles,
cheirou-os e disse-me que os cheirasse tambem. No lhe digo nada; no
momento de os chegar ao nariz, vi sahir de dentro um reptil fedorento e
torpe, dei um grito, e arrojei para longe as flres. Ento, o Diabo,
escancarando uma formidavel gargalhada: Jos Maria, so os teus vinte
annos. Era uma gargalhada assim:--c, c, c, c, c...

Jos Maria ria  solta, ria de um modo estridente e diabolico. De
repente, parou; levantou-se, e contou que, to depressa abriu os olhos,
como viu a mulher deante d'elle, afflicta e desgrenhada. Os olhos de
Clemencia eram doces, mas elle disse-lhe que os olhos doces tambem fazem
mal. Ella arrojou-se-lhe aos ps... Neste ponto a physionomia de Jos
Maria estava to transtornada que o padre, tambem de p, comeou a
recuar, tremulo e pallido. No, miseravel! no! tu no me fugirs!
bradava Jos Maria investindo para elle. Tinha os olhos esbugalhados, as
temporas latejantes; o padre ia recuando... recuando... Pela escada
acima ouvia-se um rumor de espadas e de ps.




NOITE DE ALMIRANTE


Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) sahio do arsenal de
marinha e enfiou pela rua de Bragana. Batiam tres horas da tarde. Era a
fina flor dos marujos e, de mais, levava um grande ar de felicidade nos
olhos. A corveta d'elle voltou de uma longa viagem de instruco, e
Deolindo veiu  terra to depressa alcanou licena. Os companheiros
disseram-lhe, rindo:

--Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai voc pasmar! ceia, viola
e os braos de Genoveva. Collosinho de Genoveva...

Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como elles
dizem, uma d'essas grandes noites de almirante que o esperava em terra.
Comera a paixo tres mezes antes de sahir a corveta. Chamava-se
Genoveva, caboclinha de vinte annos, esperta, olho negro e atrevido.
Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um pelo outro, a
tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeada, elle deixaria o
servio e ella o acompanharia para a villa mais recondita do interior.

A velha Ignacia, que morava com ella, dissuadiu-os disso; Deolindo no
teve remedio seno seguir em viagem de instruco. Eram oito ou dez
mezes de ausencia. Como fiana reciproca, entenderam dever fazer um
juramento de fidelidade.

--Juro por Deus que est no cu. E voc?

--Eu tambem.

--Diz direito.

--Juro por Deus que est no cu; a luz me falte na hora da morte.

Estava celebrado o contracto. No havia descrer da sinceridade de ambos;
ella chorava doudamente, elle mordia o beio para dissimular. Afinal
separaram-se, Genoveva foi ver sahir a corveta e voltou para casa com um
tal aperto no corao que parecia que lhe ia dar uma cousa. No lhe
deu nada, felizmente; os dias foram passando, as semanas, os mezes, dez
mezes, ao cabo dos quaes, a corveta tornou e Deolindo com ella.

L vai elle agora, pela rua de Bragana, Prainha e Saude, at ao
principio da Gamba, onde mora Genoveva. A casa  uma rotulasinha
escura, portal rachado do sol, passando o cemiterio dos inglezes; l
deve estar Genoveva, debruada  janella, esperando por elle. Deolindo
prepara uma palavra que lhe diga. J formulou esta: jurei e cumpri mas
procura outra melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse
mundo de Christo, italianas, marselhezas ou turcas, muitas d'ellas
bonitas, ou que lhe pareciam taes. Concorda que nem todas seriam para os
beios d'elle, mas algumas eram, e nem por isso fez caso de nenhuma. S
pensava em Genoveva. A mesma casinha d'ella, to pequenina, e a mobilia
de p quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo lhe lembrava deante dos
palacios de outras terras. Foi  custa de muita economia que comprou em
Trieste um par de brincos, que leva agora no bolso com algumas
bugigangas. E ella que lhe guardaria? Pode ser que um leno marcado com
o nome d'elle e uma ancora na ponta, porque ella sabia marcar muito bem.
N'isto chegou  Gamba, passou o cemiterio e deu com a casa fechada.
Bateu, fallou-lhe uma voz conhecida, a da velha Ignacia, que veiu
abrir-lhe a porta com grandes exclamaes de prazer. Deolindo,
impaciente, perguntou por Genoveva.

--No me falle n'essa maluca, arremetteu a velha. Estou bem satisfeita
com o conselho que lhe dei. Olhe l se fugisse. Estava agora como o
lindo amor.

--Mas que foi? que foi?

A velha disse-lhe que descanasse, que no era nada, uma d'essas cousas
que apparecem na vida; no valia a pena zangar-se. Genoveva andava com a
cabea virada...

--Mas virada porque?

--Est com um mascate, Jos Diogo. Conheceu Jos Diogo, mascate de
fazendas? Est com elle. No imagina a paixo que elles tm um pelo
outro. Ella ento anda maluca. Foi o motivo da nossa briga. Jos Diogo
no me sahia da porta; eram conversas e mais conversas, at que eu um
dia disse que no queria a minha casa diffamada. Ah! meu pai do cu! foi
um dia de juizo. Genoveva investiu para mim com uns olhos d'este
tamanho, dizendo que nunca diffamou ninguem e no precisava de esmolas.
Que esmolas, Genoveva? O que digo  que no quero esses cochichos 
porta, desde as ave-marias... Dous dias depois estava mudada e brigada
commigo.

--Onde mora ella?

--Na praia Formosa, antes de chegar  pedreira, uma rotula pintada de
novo.

Deolindo no quiz ouvir mais nada. A velha Ignacia, um tanto
arrependida, ainda lhe deu avisos de prudencia, mas elle no os escutou
e foi andando. Deixo de notar o que pensou em todo o caminho; no pensou
nada. As idas marinhavam-lhe no cerebro, como em hora de temporal, no
meio de uma confuso de ventos e apitos. Entre ellas rutilou a faca de
bordo, ensanguentada e vingadora. Tinha passado a Gamba, o Sacco do
Alferes, entrra na praia Formosa. No sabia o numero da casa, mas era
perto da pedreira, pintada de novo, e com auxilio da visinhana poderia
achal-a. No contou com o acaso que pegou de Genoveva e fel-a sentar 
janella, cosendo, no momento em que Deolindo ia passando. Elle
conheceu-a e parou; ella, vendo o vulto de um homem, levantou os olhos e
deu com o marujo.

--Que  isso? exclamou espantada. Quando chegou? Entre, seu Deolindo.

E, levantando-se, abriu a rotula e fel-o entrar. Qualquer outro homem
ficaria alvoroado de esperanas, to francas eram as maneiras da
rapariga; podia ser que a velha se enganasse ou mentisse; podia ser
mesmo que a cantiga do mascate estivesse acabada. Tudo isso lhe passou
pela cabea, sem a frma precisa do raciocinio ou da reflexo, mas em
tumulto e rapido.. Genoveva deixou a porta aberta, fel-o sentar-se,
pediu-lhe noticias da viagem e achou-o mais gordo; nenhuma commoo nem
intimidade. Deolindo perdeu a ultima esperana. Em falta de faca,
bastavam-lhe as mos para estrangular Genoveva, que era um pedacinho de
gente, e durante os primeiros minutos no pensou em outra cousa.

--Sei tudo, disse elle.

--Quem lhe contou?

Deolindo levantou os hombros.

--Fosse quem fosse, tornou ella, disseram-lhe que eu gostava muito de um
moo?

--Disseram.

--Disseram a verdade.

Deolindo chegou a ter um impeto; ella fel-o parar s com a aco dos
olhos. Em seguida disse que, se lhe abrira a porta,  porque contava que
era homem de juizo. Contou-lhe ento tudo, as saudades que curtira, as
propostas do mascate, as suas recusas, at que um dia, sem saber como,
amanhecera gostando d'elle.

--Pode crer que pensei muito e muito em voc. Sinh Ignacia que lhe diga
se no chorei muito... Mas o corao mudou... Mudou... Conto-lhe tudo
isto, como se estivesse diante do padre, concluiu sorrindo.

No sorria de escarneo. A expresso das palavras  que era uma mescla de
candura e cynismo, de insolencia e simplicidade, que desisto de definir
melhor. Creio at que insolencia e cynismo so mal applicados. Genoveva
no se defendia de um erro ou de um perjurio; no se defendia de nada;
faltava-lhe o padro moral das aces. O que dizia, em resumo,  que era
melhor no ter mudado, dava-se bem com a affeio do Deolindo, a prova 
que quiz fugir com elle; mas, uma vez que o mascate venceu o marujo, a
razo era do mascate, e cumpria declaral-o. Que vos parece? O pobre
marujo citava o juramento de despedida, como uma obrigao eterna,
diante da qual consentira em no fugir e embarcar: Juro por Deus que
est no cu; a luz me falte na hora da morte. Se embarcou, foi porque
ella lhe jurou isso. Com essas palavras  que andou, viajou, esperou e
tornou; foram ellas que lhe deram a fora de viver. Juro por Deos que
est no cu; a luz me falte na hora da morte...

--Pois, sim, Deolindo, era verdade. Quando jurei, era verdade. Tanto era
verdade que eu queria fugir com voc para o serto. S Deus sabe se era
verdade! Mas vieram outras cousas... Veio este moo e eu comecei a
gostar d'elle...

--Mas a gente jura  para isso mesmo;  para no gostar de mais
ninguem...

--Deixa d'isso, Deolindo. Ento voc s se lembrou de mim? Deixa de
partes...

--A que horas volta Jos Diogo?

--No volta hoje.

--No?

--No volta; est l para os lados de Guaratiba com a caixa; deve voltar
sexta-feira ou sabbado... E por que  que voc quer saber? Que mal lhe
fez elle?

Pode ser que qualquer outra mulher tivesse egual palavra; poucas lhe
dariam uma expresso to candida, no de proposito, mas
involuntariamente. Vde que estamos aqui muito proximos da natureza. Que
mal lhe fez elle? Que mal lhe fez esta pedra que cahiu de cima? Qualquer
mestre de physica lhe explicaria a queda das pedras. Deolindo declarou,
com um gesto de desespero, que queria matal-o. Genoveva olhou, para elle
com desprezo, sorriu de leve e deu um muxoxo; e, como elle lhe fallasse
de ingratido e perjurio, no poude disfarar o pasmo. Que perjurio? que
ingratido? J lhe tinha dito e repetia que quando jurou era verdade.
Nossa Senhora, que alli estava, em cima da commoda, sabia se era verdade
ou no. Era assim que lhe pagava o que padeceu? E elle que tanto enchia
a bocca de fidelidade, tinha-se lembrado d'ella por onde andou?

A resposta d'elle foi metter a mo no bolso e tirar o pacote que lhe
trazia. Ella abriu-o, aventou as bugigangas, uma por uma, e por fim deu
com os brincos. No eram nem poderiam ser ricos; eram mesmo de mau
gosto, mas faziam uma vista de todos os diabos. Genoveva pegou d'elles,
contente, deslumbrada, mirou-os por um lado e outro, perto e longe dos
olhos, e afinal enfiou-os nas orelhas; depois foi ao espelho de pataca,
suspenso na parede, entre a janella e a rotula, para ver o effeito que
lhe faziam. Recuou, approximou-se, voltou a cabea da direita para
esquerda e da esquerda para a direita.

--Sim, senhor, muito bonitos, disse ella, fazendo uma grande mesura de
agradecimento. Onde  que comprou?

Creio que elle no respondeu nada, nem teria tempo para isso, porque
ella disparou mais duas ou tres perguntas, uma atraz da outra, to
confusa estava de receber um mimo a troco de um esquecimento. Confuso
de cinco ou quatro minutos; pode ser que dous. No tardou que tirasse os
brincos, e os contemplasse e puzesse na caixinha em cima da mesa redonda
que estava no meio da sala. Elle pela sua parte comeou a crer que,
assim como a perdeu, estando ausente, assim o outro, ausente, podia
tambem perdel-a; e, provavelmente, ella no lhe jurra nada.

--Brincando, brincando,  noite, disse Genoveva.

Com effeito, a noite ia cahindo rapidamente. J no podiam ver o
hospital dos Lazaros e mal distinguiam a ilha dos Meles; as mesmas
lanchas e canas, postas em secco, defronte da casa, confundiam-se com a
terra e o lodo da praia. Genoveva accendeu uma vela. Depois foi
sentar-se na soleira da porta e pediu-lhe que contasse alguma cousa das
terras por onde andara. Deolindo recusou a principio; disse que se ia
embora, levantou-se e deu alguns passos na sala. Mas o demonio da
esperana mordia e babujava o corao do pobre diabo, e elle voltou a
sentar-se, para dizer duas ou tres anecdotas de bordo. Genoveva escutava
com atteno. Interrompidos por uma mulher da visinhana, que alli veiu,
Genoveva fel-a sentar-se tambem para ouvir as bonitas historias que o
Sr. Deolindo estava contando. No houve outra apresentao. A grande
dama que prolonga a vigilia para concluir a leitura de um livro ou de um
capitulo, no vive mais intimamente a vida dos personagens do que a
antiga amante do marujo vivia as scenas que elle ia contando, to
livremente interessada e presa, como se entre ambos no houvesse mais
que uma narrao de episodios. Que importa  grande dama o auctor do
livro? Que importava a esta rapariga o contador dos episodios?

A esperana, entretanto, comeava a desemparal-o e elle levantou-se
definitivamente para sahir. Genoveva no quiz deixal-o sahir antes que a
amiga visse os brincos, e foi mostrar-lh'os com grandes encarecimentos.
A outra ficou encantada, elogiou-os muito, perguntou se os comprara em
Frana e pediu a Genoveva que os puzesse.

--Realmente, so muito bonitos.

Quero crer que o proprio marujo concordou com essa opinio. Gostou de os
ver, achou que pareciam feitos para ella e, durante alguns segundos,
saboreou o prazer exclusivo e superfino de haver dado um bom presente;
mas foram s alguns segundos.

Como elle se despedisse, Genoveva acompanhou-o at  porta para lhe
agradecer ainda uma vez o mimo, e provavelmente dizer-lhe algumas cousas
meigas e inuteis. A amiga, que deixra ficar na sala, apenas lhe ouviu
esta palavra: Deixa d'isso, Deolindo; e esta outra do marinheiro:
Voc ver. No poude ouvir o resto, que no passou de um sussurro.

Deolindo seguiu, praia fra, cabisbaixo e lento, no j o rapaz
impetuoso da tarde, mas com um ar velho e triste, ou, para usar outra
metaphora de marujo, como um homem que vai do meio caminho para terra.
Genoveva entrou logo depois, alegre e barulhenta. Contou  outra a
anecdota dos seus amores maritimos, gabou muito o genio do Deolindo e os
seus bonitos modos; a amiga declarou achal-o grandemente sympathico.

--Muito bom rapaz, insistiu Genoveva. Sabe o que elle me disse agora?

--Que foi!

--Que vai matar-se.

--Jesus!

--Qual o que! No se mata, no. Deolindo  assim mesmo; diz as cousas,
mas no faz. Voc ver que no se mata. Coitado, so ciumes. Mas os
brincos so muito engraados.

--Eu aqui ainda no vi d'estes.

--Nem eu, concordou Genoveva, examinando-os  luz. Depois guardou-os e
convidou a outra a coser.--Vamos coser um bocadinho, quero acabar o meu
corpinho azul...

A verdade  que o marinheiro no se matou. No dia seguinte, alguns dos
companheiros bateram-lhe no hombro, comprimentando-o pela noite de
almirante, e pediram-lhe noticias de Genoveva, se estava mais bonita, se
chorra muito na ausencia, etc. Elle respondia a tudo com um sorriso
satisfeito e discreto, um sorriso de pessoa que viveu uma grande noite.
Parece que teve vergonha da realidade e preferiu mentir.


FIM DA NOITE DE ALMIRANTE.




MANUSCRITO DE UM SACHRISTO


I

........... Ao dar com o padre Theophilo fallando a uma senhora, ambos
sentadinhos no banco da egreja, e a egreja deserta, confesso que fiquei
espantado. Note-se que conversavam em voz to baixa e discreta, que eu,
por mais que afiasse o ouvido e me demorasse a apagar as velas do altar,
no podia apanhar nada, nada, nada. No tive remedio seno adivinhar
alguma cousa. Que eu sou um sacristo philosopho. Ninguem me julgue pela
sobrepeliz rota e amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas. Sou
um philosopho sacristo. Tive estudos ecclesiasticos, que interrompi por
causa de uma doena e que inteiramente deixei por outro motivo, uma
paixo violenta, que me trouxe  miseria. Como o seminario deixa sempre
um certo vinco, fiz-me sacristo aos trinta annos, para ganhar a vida.
Venhamos, porm, ao nosso padre e  nossa dama.


II

Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois que eram
primos, nascidos em Vassouras. Os pais d'ella mudaram-se para a crte,
tendo Eulalia ( o seu nome) sete annos. Theophilo veiu depois. Na
familia era uso antigo que um dos rapazes fosse padre. Vivia ainda na
Bahia um tio, d'elle, conego. Cabendo-lhe n'esta gerao envergar a
batina, veiu para o seminario de S. Jos, no anno de mil oitocentos e
cincoenta e tantos, e foi ahi que o conheci. Comprehende-se o sentimento
de discrio que me leva a deixar a data no ar.


III

No seminario, dizia-nos o lente de rhetorica:--A theologia  a cabea do
genero humano, o latim a perna esquerda, e a rhetorica a perna direita.

Justamente da perna direita  que o Theophilo coxeava. Sabia muito as
outras cousas: theologia, philosophia, latim, historia sagrada; mas a
rhetorica  que lhe no entrava no cerebro. Elle, para desculpar-se,
dizia que a palavra divina no precisava de adornos. Tinha ento vinte
ou vinte e dous annos de edade, e era lindo como S. Joo.

J n'esse tempo era um mystico; achava em todas as cousas uma
significao recondita. A vida era uma eterna missa, em que o mundo
servia de altar, a alma de sacerdote e o corpo de acolyto; nada
respondia  realidade exterior. Vivia ancioso de tomar ordens para sahir
a prgar grandes cousas, espertar as almas, chamar os coraes  Egreja,
e renovar o genero humano. Entre todos os apostolos, amava
principalmente S. Paulo.

No sei se o leitor  da minha opinio; eu cuido que se pde avaliar um
homem pelas suas sympathias historicas; tu sers mais ou menos da
familia dos personagens que amares devras. Applico assim aquella lei de
Helvetius: o grau de espirito que nos deleita d a medida exacta do
grau de espirito que possuimos. No nosso caso, ao menos, a regra no
falhou. Theophilo amava S. Paulo, adorava-o, estudava-o dia e noite,
parecia viver d'aquelle converso que ia de cidade em cidade,  custa de
um officio mecanico, espalhando a boa nova aos homens. Nem tinha smente
esse modelo, tinha mais dous: Hildebrando e Loyola. D'aqui podeis
concluir que nasceu com a fibra da peleja e do apostolado. Era um
faminto de ideal e creao, olhando todas as cousas correntes por cima
da cabea do seculo. Na opinio de um conego, que l ia ao seminario, o
amor dos dous modelos ultimos temperava o que pudesse haver perigoso em
relao ao primeiro.

--No v o senhor cair no excesso e no exclusivo, disse-lhe um dia com
brandura; no parea que, exaltando smente a Paulo, intenta diminuir
Pedro. A egreja, que os commemora ao lado um do outro, metteu-os ambos
no Credo; mas veneremos Paulo e obedeamos a Pedro. _Super hanc
petram..._

Os seminaristas gostavam do Theophilo, principalmente tres, um
Vasconcellos, um Soares e um Velloso, todos excellentes rhetoricos. Eram
tambem bons rapazes, alegres por natureza, graves por necessidade e
ambiciosos. Vasconcellos jurava que seria bispo; Soares contentava-se
com algum grande cargo; Velloso cobiava as meias roxas de conego e um
pulpito. Theophilo tentou repartir com elles o po mystico dos seus
sonhos, mas reconheceu depressa que era manjar leve ou pesado de mais, e
passou a devoral-o sosinho. At aqui o padre; vamos agora  dama.


IV

Agora a dama. No momento em que os vi fallar baixinho na egreja, Eulalia
contava trinta e oito annos de edade. Juro-lhes que era ainda bonita.
No era pobre; os pais deixaram-lhe alguma cousa. Nem casada; recusou
cinco ou seis pretendentes.

Este ponto nunca foi entendido pelas amigas. Nenhuma d'ellas era capaz
de repellir um noivo. Creio at que no pediam outra cousa, quando
resavam antes de entrar na cama, e ao domingo,  missa, no momento de
levantar a Deus. Porque  que Eulalia recusava-os todos? Vou dizer desde
j o que soube depois. Suppuzeram-lhe, a principio, um simples
desdem,--nariz torcido, dizia uma d'ellas;--mas, no fim da terceira
recusa, inclinaram-se a crer que havia namoro encoberto, e esta
explicao prevaleceu. A propria mi de Eulalia no aceitou outra. No
lhe importaram as primeiras recusas; mas, repetindo-se, ella comeou a
assustar-se. Um dia, voltando de um casamento, perguntou  filha, no
carro em que vinham, se no se lembrava que tinha de ficar s.

--Ficar s?

--Sim, um dia hei de morrer. Por ora tudo so flores; c estou para
governar a casa; e voc  s ler, scismar, tocar e brincar; mas eu tenho
de morrer, Eulalia, e voc tem de ficar s...

Eulalia apertou-lhe muito a mo, sem poder dizer palavra. Nunca pensra
na morte da mi; perdel-a era perder metade de si mesma. Na expanso de
momento, a mi atreveu-se a perguntar-lhe se amava alguem e no era
correspondida; Eulalia respondeu que no. No sympathisara com os
candidatos. A boa velha abanou a cabea; fallou dos vinte sete annos da
filha, procurou atterral-a com os trinta, disse-lhe que, se nem todos os
noivos a mereciam egualmente, alguns eram dignos de ser aceitos, e que
importava a falta de amor? O amor conjugal podia ser assim mesmo; podia
nascer depois, como um fructo da convivencia. Conhecera pessoas que se
casaram por simples interesse de familia e acabaram amando-se muito.
Esperar uma grande paixo para casar era arriscar-se a morrer esperando.

--Pois sim, mami, deixe estar...

E, reclinando a cabea, fechou um pouco os olhos para espiar alguem,
para ver o namorado encoberto, que no era s encoberto, mas tambem e
principalmente impalpavel. Concordo que isto agora  obscuro; no tenho
duvida em dizer que entramos em pleno sonho.

Eulalia era uma exquisita, para usarmos a linguagem da mi, ou
romanesca, para empregarmos a definio das amigas. Tinha, em verdade,
uma singular organisao. Saiu ao pai. O pai nascera com o amor do
enigmatico, do arriscado e do obscuro; morreu quando apparelhava uma
expedio para ir  Bahia descobrir a cidade abandonada. Eulalia
recebeu essa herana moral, modificada ou aggravada pela natureza
feminil. N'ella dominava principalmente a contemplao. Era na cabea
que ella descobria as cidades abandonadas. Tinha os olhos dispostos de
maneira que no podiam apanhar integralmente os contornos da vida.
Comeou idealisando as cousas, e, se no acabou negando-as,  certo que
o sentimento da realidade esgarou-se-lhe at chegar  transparencia
fina em que o tecido parece confundir-se com o ar.

Aos dezoito annos, recusou o primeiro casamento. A razo  que esperava
outro, um marido extraordinario, que ella viu e conversou, em sonho ou
allucinao, a mais radiosa figura do universo, a mais sublime e rara,
uma creatura em que no havia falha ou quebra, verdadeira grammatica sem
irregularidades, pura lingua sem solecismos.

Perdo, interrompe-me uma senhora, esse noivo no  obra exclusiva de
Eulalia,  o marido de todas as virgens de dezesete annos. Perdo,
digo-lhe eu, ha uma differena entre Eulalia e as outras,  que as
outras trocam finalmente o original esperado por uma copia gravada,
antes ou depois da lettra, e s vezes por uma simples photographia ou
lithographia, ao passo que Eulalia continuou a esperar o painel
authentico. Vinham as gravuras, vinham as lithographias, algumas muito
bem acabadas, obra de artista e grande artista, mas para ella traziam o
defeito de ser copias. Tinha fome e sde de originalidade. A vida commum
parecia-lhe uma copia eterna. As pessoas do seu conhecimento caprichavam
em repetir as idas umas das outras, com eguaes palavras, e s vezes sem
differente inflexo,  semelhana do vestuario que usavam, e que era do
mesmo gosto e feitio. Se ella visse alvejar na rua um turbante mourisco
ou fluctuar um pennacho, pde ser que perdoasse o resto; mas nada, cousa
nenhuma, uma constante uniformidade de idas e colletes. No era outro o
peccado mortal das cousas. Mas, como tinha a faculdade de viver tudo o
que sonhava, continuou a esperar uma vida nova e um marido unico.

Em quanto esperava, as outras iam casando. Assim perdeu ella as tres
principaes amigas: Julia Costinha, Josepha e Marianna. Viu-as todas
casadas, viu-as mis, a principio de um filho, depois de dous, de quatro
e de cinco. Visitava-as, assistia ao viver dellas, sereno e alegre,
mediocre, vulgar, sem sonhos nem quedas, mais ou menos feliz. Assim se
passaram os annos; assim chegou aos trinta, aos trinta e tres, aos
trinta e cinco, e finalmente aos trinta e oito em que a vemos na egreja,
conversando com o padre Theophilo.


V

N'aquelle dia mandara dizer uma missa por alma da me, que morrera um
anno antes. No convidou ninguem: foi ouvil-a sosinha. Ouviu-a, resou,
depois sentou-se no banco.

Eu, depois de ajudar  missa, voltei para a sacristia, e vi alli o padre
Theophilo, que viera da roa duas semanas antes e andava  cata de
alguma missa para comer. Parece que elle ouviu do outro sacristo ou do
mesmo padre officiante o nome da pessoa suffragada; viu que era o da tia
e correu  egreja, onde ainda achou a prima no banco. Sentou-se ao p
d'ella, esquecido do logar e das posies, e fallaram naturalmente de si
mesmos. No se viam desde longos annos. Theophilo visitra-as logo
depois de ordenado padre; mas saiu para o interior e nunca mais soube
d'ellas, nem ellas d'elle.

J disse que no pude ouvir nada. Estiveram assim perto de meia hora. O
coadjutor veiu espiar, deu com elles e ficou justamente escandalisado. A
noticia do caso chegou, dous dias depois, ao bispo. Theophilo recebeu
uma advertencia amiga, subiu  Conceio e explicou tudo: era uma prima,
a quem no via desde muito. O padre coadjutor, quando soube da
explicao, exclamou com muito criterio que o ser parenta no lhe
trocava o sexo nem suppria o escandalo.

Entretanto, como eu tinha sido companheiro do Theophilo no seminario e
gostava d'elle, defendi-o com muito calor e fiz chegar o meu testemunho
ao palacio da Conceio. Elle ficou-me grato por isso, e d'ahi veiu a
intimidade de nossas relaes. Como os dous primos podiam vr-se em
casa, Theophilo passou a visital-a, e ella a recebel-o com muito prazer.
No fim de oito dias, recebeu-me tambem; ao cabo de duas semanas era eu
um dos seus familiares.

Dous patricios que se encontram em plaga estrangeira e podem finalmente
trocar as palavras mamadas na infancia no sentem maior alvoroo do que
estes dous primos, que eram mais que primos: moralmente eram gemeos.
Elle contou-lhe a vida e, como os acontecimentos acarretassem os
sentimentos, ella olhou para dentro da alma do primo e achou que era a
sua mesma alma e que, em substancia, a vida de ambos era a mesma. A
differena  que uma esperou quieta o que o outro andou buscando por
montes e valles; no mais, egual equivoco, egual conflicto com a
realidade, identico dialogo de arabe e japonez.

--Tudo o que me cerca  trivial e chocho, dizia-lhe elle.

Com effeito, gastara o ao da mocidade em divulgar uma concepo que
ninguem lhe entendeu. Emquanto os tres amigos mais chegados do seminario
passavam adiante, trabalhando e servindo, afinados pela nota do seculo,
Velloso conego e prgador, Soares com uma grande vigararia, Vasconcellos
a caminho de bispar, elle Theophilo era o mesmo apostolo e mystico dos
primeiros annos, em plena aurora christ e metaphysica. Vivia
miseravelmente, costeando a fome, po magro e batina surrada; tinha
instantes e horas de tristeza e de abatimento: confessou-os  prima...

--Tambem o senhor? perguntou ella.

E as suas mos apertaram-se com energia: entendiam-se. No tendo achado
um astro na loja de um relojoeiro, a culpa era do relojoeiro; tal era a
logica de ambos. Olharam-se com a sympathia de naufragos,--naufragos e
no desenganados--, porque no o eram. Crusoe, na ilha deserta, inventa
e trabalha; elles no; lanados  ilha, estendiam os olhos para o mar
illimitado, esperando a aguia que viria buscal-os com as suas grandes
azas abertas. Uma era a eterna noiva sem noivo, outro o eterno propheta
sem Israel; ambos punidos e obstinados.

J disse que Eulalia era ainda bonita. Resta dizer que o padre
Theophilo, com quarenta e dous annos tinha os cabellos grisalhos e as
feies canadas; as mos no possuiam nem a maciez nem o aroma da
sacristia, eram magras e callosas e cheiravam ao matto. Os olhos  que
conservavam o fogo antigo era por alli que a mocidade interior fallava
c para fra, e fora  dizer que elles valiam s por si todo o resto.

As visitas amiudaram-se. Afinal iamos passar alli as tardes e as noites
e jantar aos domingos. A convivencia produziu dous effeitos, e at tres.
O primeiro foi que os dous primos, frequentando-se, deram fora e vida
um ao outro; relevem-me esta expresso familiar:--fizeram um
_pique-nique_ de illuses. O segundo  que Eulalia, canada de esperar
um noivo humano, volveu os olhos para o noivo divino e, assim como ao
primo viera a ambio de S. Paulo, veiu-lhe a ella a de Santa Thereza. O
terceiro effeito  o que o leitor j adivinhou.

J adivinhou. O terceiro foi o caminho de Damasco,--um caminho s
avessas, porque a voz no baixou do cu, mas subiu da terra; no chamava
a prgar Deus, mas a prgar o homem. Sem metaphora, amavam-se. Outra
differena  que a vocao aqui no foi subita como em relao ao
apostolo das gentes; foi vagarosa, muito vagarosa, cochichada,
insinuada, bafejada pelas azas da pomba mystica.

Note-se que a faina precedeu ao amor. Sussurrava-se desde muito que as
visitas do padre eram menos de confessor que de peccador. Era mentira;
eu juro que era mentira. Via-os, acompanhava-os, estudava esses dous
temperamentos to espirituaes, to cheios de si mesmos, que nem sabiam
da fama, nem cogitavam no perigo da apparencia. Um dia vi-lhes os
primeiros signaes do amor. Ser o que quizerem, uma paixo quarentona,
rosa outonia e pallida, mas era, existia, crescia, ia tomal-os
inteiramente. Pensei em avisar o padre, no por mim, mas por elle mesmo;
mas era difficil, e talvez perigoso. Demais, eu era e sou gastronomo e
psychologo; avisal-o era botar fra uma fina materia de estudo e perder
os jantares dominicaes. A psychologia, ao menos, merecia um sacrificio:
calei-me.

Calei-me  toa. O que eu no quiz dizer, publicou-o o corao de ambos.
Se o leitor me leu de corrida, conclue por si mesmo a anecdota,
conjugando os dous primos: mas, se me leu de vagar, adivinha o que
succedeu. Os dous mysticos recuaram; no tiveram horror um do outro nem
de si mesmos, porque essa sensao estava excluida de ambos, mas
recuaram, agitados de medo e de desejo.

--Volto para a roa, disse-me o padre.

--Mas por que?

--Volto para o roa.

Voltou para a roa e nunca mais c veiu. Ella,  claro que tinha achado
o marido que esperava, mas saiu-lhe to impossivel como a vida que
sonhou. Eu, gastronomo e psychologo, continuei a ir jantar com Eulalia
aos domingos. Considero que alguma cousa deve subsistir debaixo do sol,
ou amor ou o jantar, se  certo, como quer Schiller, que o amor e a fome
governam este mundo.


FIM DO MANUSCRITO DE UM SACRISTO




EX CATHEDRA


--Padrinho, vosmec assim fica cgo.

--O que?

--Vosmec fica cgo; l que  um desespero. No, senhor, d c o livro.

Caetaninha tirou-lhe o livro das mos. O padrinho deu uma volta, e foi
metter-se no gabinete, onde lhe no faltavam livros; fechou-se por
dentro e continuou a ler. Era o seu mal; lia com excesso, lia de manh,
de tarde e de noute, ao almoo e ao jantar, antes de dormir, depois do
banho, lia andando, lia parado, lia em casa e na chacara, lia antes de
ler e depois de ler, lia toda a casta de livros, mas especialmente
direito (em que era graduado), mathematicas e philosophia; ultimamente
dava-se tambem s sciencias naturaes.

Peior que cgo, ficou aluado. Foi pelos fins de 1873, na Tijuca, que
elle comeou a dar signaes de transtorno cerebral; mas, como eram leves
e poucos, s em Maro ou Abril de 1874  que a afilhada lhe percebeu a
alterao. Um dia, almoando, interrompeu elle a leitura para lhe
perguntar:

--Como  que eu me chamo?

--Como  que padrinho se chama? repetiu ella espantada. Chama-se
Fulgencio.

--De hoje em diante, chamar-me-has Fulgencius.

E, enterrando a cara no livro, proseguiu na leitura. Caetaninha referiu
o caso s mucamas, que lhe declararam desconfiar desde algum tempo, que
elle no andava bom. Imagine-se o medo da moa; mas o medo passou
depressa para s deixar a piedade que lhe augmentou a affeio. Tambem a
mania era restricta e mansa; no passava dos livros. Fulgencio vivia do
escripto, do impresso, do doutrinal, do abstracto, dos principios e das
formulas. Com o tempo chegou, no j  superstio, mas  allucinao da
theoria. Uma de suas maximas era, que a liberdade no morre onde restar
uma folha de papel para decretal-a; e um dia, acordando com a idea de
melhorar a condio dos turcos, redigiu uma constituio, que mandou de
presente ao ministro inglez, em Petrpolis. De outra occasio, metteu-se
a estudar nos livros a anatomia dos olhos, para verificar se realmente
elles podiam vr, e concluiu que sim.

Digam-me, se, em taes condies, a vida de Caetaninha podia ser alegre.
No lhe faltava nada,  verdade, porque o padrinho era rico. Foi elle
mesmo que a educou, desde os sete annos, quando perdeu a mulher;
ensinou-lhe a ler e escrever, francez, um pouco de historia e
geographia, para no dizer quasi nada, e incumbiu uma das mucamas de lhe
ensinar crivo, renda e costura. Tudo isso  verdade. Mas Caetaninha
fizera quatorze annos; e, se nos primeiros tempos bastavam os brinquedos
e as escravas para divertil-a, era chegada a idade em que os brinquedos
perdem de moda e as escravas de interesse, em que no ha leituras nem
escripturas que faam de uma casa solitaria na Tijuca um paraiso. Descia
algumas vezes, raras, e de corrida; no ia a theatros nem bailes; no
fazia nem recebia visitas. Quando via passar na estrada uma cavalgada de
homens e senhoras, punha a alma na garupa dos animaes, e deixava-a ir
com elles, ficando-lhe o corpo, ao p do padrinho, que continuava a ler.

Um dia, estando na chacara, viu parar ao porto um rapaz, montado n'uma
bestinha, e ouviu que lhe perguntava se era alli a casa do doutor
Fulgencio.

--Sim, senhor,  aqui mesmo.

--Podia fallar-lhe?

Caetaninha respondeu que ia ver; entrou em casa, e foi ao gabinete, onde
achou o padrinho remoendo, com a mais voluptuaria e beata das
expresses, um capitulo de Hegel. Mocinho? Que mocinho? Caetaninha
disse-lhe que era um mocinho vestido de luto. De luto? repetiu o velho
doutor fechando precipitadamente o livro; ha de ser elle. Esquecia-me
dizer (mas ha tempo para tudo) que, tres mezes antes, fallecera um irmo
de Fulgencio, no norte, deixando um filho natural. Como o irmo, dias
antes de morrer, lhe escrevera recommendando o orpho que ia deixar,
Fulgencio mandou que este viesse para o Rio de Janeiro. Ouvindo que
estava alli um mocinho de luto, concluiu que era o sobrinho, e no
concluiu mal. Era elle mesmo.

Parece que at aqui nada ha que destoe de uma historia ingenuamente
romanesca: temos um velho lunatico, uma mocinha solitaria e suspirosa, e
vemos despontar inopinadamente um sobrinho. Para no descer da regio
poetica em que nos achamos, deixo de dizer que a mula em que o Raymundo
veiu montado, foi reconduzida por um preto ao alugador; passo tambem por
alto as circumstancias da accommodao do rapaz, limitando-me a dizer
que, como o tio,  fora de viver lendo, esquecera inteiramente que o
mandra buscar, nada havia em casa preparado para recebel-o. Mas a casa
era grande e abastada; uma hora depois, estava o rapaz aposentado n'um
lindo quarto, d'onde podia ver a chacara, a cisterna antiga, o
lavadouro, basta folha verde e vasto cu azul.

Creio que ainda no disse a idade do hospede; tem quinze annos e um
ameao de buo;  quasi uma criana. Logo, se a nossa Caetaninha ficou
alvoroada, e as mucamas andam de um lado para outro espiando e fallando
do sobrinho de sinh velho que chegou de fra,  porque a vida alli
no tem outros episodios, no porque elle seja homem feito. Essa foi
tambem a impresso do dono da casa; mas, aqui vae a differena. A
afilhada no advertia que o officio do buo  virar bigode, ou, se
pensou n'isso, fel-o to vagamente, que no vale a pena de o pr aqui.
No assim o velho Fulgencio. Comprehendeu este que havia alli a massa de
um marido, e resolveu casal-os; mas viu tambem que, a menos de lhes
pegar nas mos e mandar que se amassem, o acaso podia guiar as cousas
por modo differente.

Uma idia traz outra. A idia de os casar pegou por um lado com uma de
suas opinies recentes. Era esta que as calamidades ou os simples
dissabores nas relaes do corao provinham de que o amor era praticado
de um modo empyrico; faltava-lhe a base scientifica. Um homem e uma
mulher, desde que conhecessem as razes physicas e metaphysicas d'esse
sentimento, estariam mais aptos a recebel-o e nutril-o com efficacia, do
que outro homem e outra mulher que nada soubessem do phenomeno.

--Os meus pequenos esto verdes, dizia elle comsigo: tenho tres a quatro
annos diante da mim, e posso comear desde j a preparal-os. Vamos com
logica; primeiro os alicerces, depois as paredes, depois o tecto..., em
vez de comear pelo tecto... Dia vir em que se aprenda a amar como se
aprende a ler... Nesse dia...

Estava atordoado, deslumbrado, delirante. Foi s estantes, desceu alguns
tomos, astronomia, geologia, physiologia, anatomia, jurisprudencia,
politica, linguistica, abriu-os, folheou-os, comparou-os, extractou
d'aqui e d'ali, at formular um programma de ensino. Compunha-se este de
vinte capitulos, nos quaes entravam as noes geraes do universo, uma
definio da vida, demonstrao da existencia do homem e da mulher,
organisao das sociedades, definio e analyse das paixes, definio e
analyse do amor, suas causas, necessidades e effeitos. Em verdade, as
materias eram crespas; elle entendeu tornal-as doceis, tratando-as em
phrase corriqueira e ch, dando-lhes um tom puramente familiar, como a
astronomia de Fontenelle. E dizia com emphasis que o essencial da fructa
era o miolo, no a casca.

Tudo isso era engenhoso; mas aqui vai o mais engenhoso. No os convidou
a aprender. Uma noite, olhando para o co, disse que as estrellas
estavam brilhando muito; e o que eram as estrellas? acaso sabiam elles o
que eram as estrellas?

--No senhor.

D'aqui a iniciar uma descripo do universo era um passo. Fulgencio deu
o passo, com tal presteza e naturalidade, que os deixou encantados e
elles pediram a viagem toda.

--No, disse o velho; no esgotemos tudo hoje, nem isto se entende bem
se no de vagar; amanh ou depois...

Foi assim, sorrateiramente, que elle comeou a executar o plano. Os dois
alumnos, assombrados com o mundo astronomico, pediam-lhe todos os dias
que continuasse, e, posto que no fim dessa primeira parte Caetaninha
ficasse um tanto confusa, ainda assim quiz ouvir as outras cousas que o
padrinho lhe prometteu.

No digo nada da familiaridade entre os dois alumnos, por ser cousa
obvia. Entre quatorze e quinze annos a differena  to pequena, que os
portadores das duas edades, no tinha mais que dar a mo um ao outro.
Foi o que aconteceu.

No fim de tres semanas pareciam ter sido criados juntos. S isto bastava
a mudar a vida de Caetaninha; mas Raymundo trouxe-lhe mais. No ha dez
minutos, vimol-a olhar com saudade as cavalgadas de homens e damas que
passavam na estrada. Raymundo matou-lhe a saudade, ensinando-lhe a
montaria, apezar da relutancia do velho, que temia algum desastre; mas
este cedeu e alugou dois cavallos. Caetaninha mandou fazer uma linda
amazona, Raymundo veiu  cidade comprar-lhe as luvas e um chicotinho,
com o dinheiro do tio--j se sabe--que tambem lhe deu as botas e o
demais apparelho masculino. D'ahi a pouco era um gosto vel-os ambos,
galhardos e intrepidos, abaixo e acima da montanha.

Em casa, brincavam  larga, jogavam damas e cartas, cuidavam de aves e
plantas. Brigavam muita vez; mas, segundo as mucamas, eram brigas de
mentira, s para fazerem as pazes depois. Era o pico do arrufo. Raymundo
vinha s vezes  cidade, a mandado do tio. Caetaninha ia esperal-o ao
porto, espiando anciosa. Quando elle chegava, brigavam, porque ella
queria tirar-lhe os maiores embrulhos, a pretexto de que elle vinha
canado, e elle queria dar-lhe os mais leves, allegando que ella era
fraquinha.

No fim de quatro mezes, a vida era totalmente outra. Pde-se at dizer
que s ento  que Caetaninha comeou a usar rosas no cabello. Antes
d'isso vinha muita vez despenteada para a mesa do almoo. Agora, no s
se penteava logo cedo, mas at, como digo, trazia rosas, uma ou duas;
estas eram, ou colhidas na vespera, por ella mesma, e guardadas em agua,
ou na propria manh, por elle, que ia levar-lh'as  janella. A janella
era alta, mas Raymundo, pondo-se na ponta dos ps, e levantando o brao,
conseguia dar-lhe as rosas em mo. Foi por esse tempo que elle adquiriu
o sstro de mortificar o buo, puchando-o muito de um e outro lado.
Caetaninha chegava a bater-lhe nos dedos, para lhe tirar to mo
costume.

Entretanto, as lices continuavam regularmente. J tinham uma ida
geral do universo, e uma definio da vida, que nenhum d'elles entendeu.
Assim chegaram ao quinto mez. No sexto, comeou a demonstrao da
existencia do homem. Caetaninha no pde suster o riso, quando o
padrinho, expondo a materia, perguntou-lhes se elles sabiam que existiam
e porque; mas ficou logo sria, e respondeu que no.

--Nem voc?

--Nem eu, no, senhor, concordou o sobrinho,

Fulgencio iniciou uma demonstrao em regra, profundamente cartesiana. A
seguinte lico foi na chacara. Chovera muito nos dias anteriores; mas o
sol agora alagava tudo de luz, e a chacara parecia uma linda viuva, que
troca o vo do luto pelo do noivado. Raymundo, como se quizesse copiar o
sol, (copiam-se naturalmente os grandes) despedia das pupillas um olhar
vasto e longo, que Caetaninha recebia, palpitando, como a chacara.
Fuso, transfuso, diffuso, confuso e profuso de seres e de cousas.

Emquanto o velho fallava, recto, logico, vagaroso, curtido de formulas,
com os olhos fixos em parte nenhuma, os dous alumnos faziam trinta mil
esforos para escutal-o, mas vinham trinta mil incidentes distrahil-os.
Foi a principio um casal de borboletas que brincavam no ar. Faam-me o
favor de dizer o que  que pde haver extraordinario n'um casal de
borboletas? Concordo que eram amarellas, mas esta circumstancia no
basta a explicar a distraco. O facto de voarem uma atraz da outra, ora
 direita, ora  esquerda, ora abaixo, ora acima, tambem no d a razo
do desvio, visto que nunca as borboletas voaram, em linha recta, como
simples militares.

--O entendimento, dizia o velho, o entendimento, segundo eu j
expliquei...

Raymundo olhou para Caetaninha, e achou-a olhando para elle. Um e outro
pareciam confusos e acanhados. Ella foi a primeira que baixou os olhos
ao regao. Depois, levantou-os, afim de os levar a outra parte, mais
remota, o muro da chacara; na passagem como os de Raymundo ali
estivessem, ella encarou-os o mais rapidamente que pde. Felizmente, o
muro apresentava um expectaculo que a encheu de admirao: um casal de
andorinhas (era o dia dos casaes) saltitava n'elle, com a graa peculiar
s pessoas aladas. Saltitavam piando, dizendo cousas uma  outra, o que
quer que fosse, talvez isto--que era bem bom no haver philosophia nos
muros das chacaras. Se no quando, uma d'ellas voou, provavelmente a
dama, e a outra, naturalmente o garo, no se deixou ficar atraz:
esticou as azas e seguiu o mesmo caminho. Caetaninha desceu os olhos 
gramma do cho.

Quando a lico acabou, d'ahi a alguns minutos, ella pediu ao padrinho
que continuasse, e, recusando este, tomou-lhe o brao e convidou-o a dar
um giro na chacara.

--Est muito sol, contestou o velho.

--Vamos pela sombra.

--Faz muito calor.

Caetaninha propoz irem continuar na varanda; mas o padrinho disse-lhe
mysteriosamente que Roma no se fez n'um dia, e acabou declarando que s
dois dias depois continuaria a lico. Caetaninha recolheu-se ao quarto,
esteve ali tres quartos de hora fechada, sentada,  janella, de um lado
para outro, procurando as cousas que tinha na mo, e chegando ao cumulo
de ver-se a si mesma, cavalgando, estrada acima, ao lado de Raymundo. De
uma vez aconteceu-lhe ver o rapaz no muro da chacara; mas attentou bem,
reconheceu que era um par de bezouros que zumbiam no ar. E dizia um
d'elles ao outro:

--Tu s a flor da nossa raa, a flor do ar, a flor das flres, o sol e a
lua da minha vida.

Ao que respondia o outro:

--Ninguem te vence na belleza e na graa; o teu zumbir  um co das
fallas divinas; mas, deixa-me... deixa-me...

--Porque deixar-te, alma d'estes bosques?

--J te disse, rei dos ares puros, deixa-me.

--No me falles assim, feitio e gala das mattas. Tudo por cima e em
volta de ns est dizendo que me deves fallar de outra maneira. Conheces
a cantiga dos mysterios azues?

--Vamos ouvil-a nas folhas verdes da larangeira.

--As da mangueira so mais bonitas.

--Tu s mais linda que umas e outras.

--E tu, sol da minha vida?

--Lua do meu ser, eu sou o que tu quizeres...

Era assim que os dous bezouros fallavam. Ella ouviu-os scismando. Como
elles desapparecessem, ella entrou, viu as horas e saiu do quarto.
Raymundo estava fra; ella foi esperal-o ao porto, dez, vinte, trinta,
quarenta, cincoenta minutos. Na volta disseram pouco; uniram-se e
separaram-se duas ou tres vezes. Da ultima vez foi ella que o trouxe 
varanda, para mostrar-lhe um enfeite que julgava perdido e acabava de
achar. Faam-lhe a justia de crer que era pura mentira. Entretanto,
Fulgencio antecipou a lico; deu-a no dia seguinte, entre o almoo e o
jantar. Nunca a palavra lhe saiu to limpida e singella. E assim devia
ser; tratava-se da existencia do homem, capitulo profundamente
methaphysico, em que era preciso considerar tudo e por todos os lados.

--Esto entendendo? perguntava elle.

--Perfeitamente.

E a lico seguia at o fim. No fim, deu-se a mesma cousa da vespera;
Caetaninha, como se tivesse medo de ficar s, pediu-lhe para continuar
ou passear; elle recusou uma e outra cousa, bateu-lhe paternalmente na
cara, e foi encerrar-se no gabinete.

--Para a semana, pensava o velho doutor, dando volta  chave, para a
semana entro na organisao das sociedades; todo o mez que vem e o outro
 para a definio e classificao das paixes; em maio, passaremos ao
amor... j ser tempo...

Emquanto elle dizia isto, e fechava a porta, alguma cousa resoava do
lado da varanda--um trovo de beijos, segundo disseram as lagartas da
chacara; mas, para as lagartas qualquer pequeno rumor vale um trovo.
Quanto aos auctores do ruido nada positivo se sabe. Parece que um
maribondo, vendo Caetaninha e Raymundo unidos n'essa occasio, concluiu
da coincidencia para a consequencia, e entendeu que eram elles; mas um
velho gafanhoto demonstrou a inanidade do fundamento, allegando que
ouvira muitos beijos, outr'ora, em logares onde nem Raymundo nem
Caetaninha puzera os ps. Convenhamos que este outro argumento no
prestava para nada; mas, tal  o prestigio de um bom caracter, que o
gafanhoto foi acclamado como tendo ainda uma vez defendido a verdade e a
razo. E d'ahi pode ser que fosse assim mesmo. Mas um trovo de beijos?
Supponhamos dous; supponhamos tres ou quatro.


FIM DA EX CATHEDRA.




A SENHORA DO GALVO


Comearam a rosnar dos amores d'este advogado com a viuva do brigadeiro,
quando elles no tinham ainda passado dos primeiros obsequios. Assim vai
o mundo. Assim se fazem algumas reputaes ms, e, o que parece absurdo,
algumas boas. Com effeito, ha vidas que s tm prologo; mas toda a gente
falla do grande livro que se lhe segue, e o autor morre com as folhas em
branco. No presente caso, as folhas escreveram-se, formando todas um
grosso volume de tresentas paginas compactas, sem contar as notas. Estas
foram postas no fim, no para esclarecer, mas para recordar os capitulos
passados; tal  o methodo n'esses livros de collaborao. Mas a verdade
 que elles apenas combinavam no plano, quando a mulher do advogado
recebeu este bilhete anonymo:

No  possivel que a senhora se deixe embair mais tempo, to
escandalosamente, por uma de suas amigas, que se consola da viuvez,
seduzindo os maridos alheios, quando bastava conservar os cachos...

Que cachos? Maria Olympia no perguntou que cachos eram; eram da viuva
do brigadeiro, que os trazia por gosto, e no por moda. Creio que isto
se passou em 1853. Maria Olympia leu e releu o bilhete; examinou a
lettra, que lhe pareceu de mulher e disfarada, e percorreu mentalmente
a primeira linha das suas amigas, a ver se descobria a autora. No
descobriu nada, dobrou o papel e fitou o tapete do cho, cahindo-lhe os
olhos justamente no ponto do desenho em que dous pombinhos ensinavam um
ao outro a maneira de fazer de dous bicos um bico. Ha d'essas ironias do
acaso, que do vontade de destruir o universo. Afinal metteu o bilhete
no vestido, e encarou a mucama, que esperava por ella, e que lhe
perguntou:

--Nhanh no quer mais ver o chale?

Maria Olympia pegou no chale, que a mucama lhe dava e foi pol-o aos
hombros, defronte do espelho. Achou que lhe ficava bem, muito melhor que
 viuva. Cotejou as suas graas com as da outra. Nem os olhos nem a
bocca eram comparaveis; a viuva tinha os hombros estreitinhos, a cabea
grande, e o andar feio. Era alta; mas que tinha ser alta? E os trinta e
cinco annos de edade, mais nove que ella? Emquanto fazia essas
reflexes, ia compondo, pregando e despregando o chale.

--Este parece melhor, que o outro, aventurou a mucama.

--No sei... disse a senhora, chegando-se mais para a janella, com os
dous nas mos.

--Bota o outro, nhanh.

A nhanh obdeceu. Experimentou cinco chales dos dez que alli estavam, em
caixas, vindos de uma loja da rua da Ajuda. Concluiu que os dois
primeiros eram os melhores; mas aqui surgiu uma complicao--minima,
realmente--mas to subtil e profunda na soluo, que no vacillo em
recommendal-a aos nossos pensadores de 1906. A questo era saber qual
dos dois chales escolheria, uma vez que o marido, recente advogado,
pedia-lhe que fosse economica. Contemplava-os alternadamente, e ora
preferia um, ora outro. De repente, lembrou-lhe a aleivosia do marido, a
necessidade de mortifical-o, castigal-o, mostrar-lhe que no era peteca
de ninguem, nem maltrapilha; e, de raiva, comprou ambos os chales.

Ao bater das quatro horas (era a hora do marido) nada de marido. Nem s
quatro, nem s quatro e meia. Maria Olympia imaginava uma poro de
cousas aborrecidas, ia  janella, tornava a entrar, temia um desastre ou
doena repentina; pensou tambem que fosse uma sesso do jury. Cinco
horas, e nada. Os cachos da viuva tambem negrejavam diante d'ella, entre
a doena e o jury, com uns tons de azul-ferrete, que era provavelmente a
cr do diabo. Realmente era para exhaurir a paciencia de uma moa de
vinte e seis annos. Tinte e seis annos; no tinha mais. Era filha de um
deputado do tempo da Regencia, que a deixou menina; e foi uma tia que a
educou com muita distinco. A tia no a levou muito cedo a bailes e
expectaculos. Era religiosa, conduziu-a primeiro  egreja. Maria Olympia
tinha a vocao da vida exterior, e, nas procisses e missas cantadas,
gostava principalmente do rumor, da pompa; a devoo era sincera, tibia
e distrahida. A primeira cousa que ella via na tribuna das egrejas, era
a si mesma. Tinha um gosto particular era olhar de cima para baixo,
fitar a multido das mulheres ajoelhadas ou sentadas, e os rapazes, que,
por baixo do coro ou nas portas lateraes, temperavam com attitudes
namoradas as ceremonias latinas. No entendia os sermes; o resto,
porm, orchestra, canto, flores, luzes, sanefas, ouros, gentes, tudo
exercia n'ella um singular feitio. Magra devoo, que escasseou ainda
mais com o primeiro expectaculo e o primeiro baile. No alcanou a
Candiani, mas ouviu a Ida Edelvira, dansou  larga, e ganhou fama de
elegante.

Eram cinco horas e meia, quando o Galvo chegou. Maria Olympia, que
ento passeava na sala, to depressa lhe ouviu os ps, fez o que faria
qualquer outra senhora na mesma situao: pegou de um jornal de modas, e
sentou-se, lendo, com um grande ar de pouco caso. Galvo entrou
offegante, risonho, cheio de carinhos, perguntando-lhe se estava
zangada, e jurando que tinha um motivo para a demora, um motivo que ella
havia de agradecer, se soubesse...

--No  preciso, interrompeu ella friamente. Levantou-se; foram jantar.
Fallaram pouco; ella menos que elle, mas em todo o caso, sem parecer
magoada. Pde ser que entrasse a duvidar da carta anonyma; pde ser
tambem que os dous chales lhe pesassem na consciencia. No fim do jantar,
Galvo explicou a demora; tinha ido, a p, ao theatro Provisorio,
comprar um camarote para essa noite: davam os _Lombardos_. De l, na
volta, foi encommendar um carro...

Os _Lombardos_? interrompeu Maria Olympia.

--Sim; canta o Laboceta, canta a Jacobson; ha bailado. Voc nunca ouviu
os _Lombardos_?

--Nunca.

--E ahi est porque me demorei. Que  que voc merecia agora? Merecia
que eu lhe cortasse a ponta d'esse narizinho arrebitado...

Como elle acompanhasse o dito com um gesto, ella recuou a cabea; depois
acabou de tomar o caf. Tenhamos pena da alma d'esta moa. Os primeiros
accrdes dos _Lombardos_ ecoavam n'ella, emquanto a carta anonyma lhe
trazia uma nota lugubre, especie de _Requiem_. E porque  que a carta
no seria uma calumnia? Naturalmente no era outra cousa: alguma
inveno de inimigas, ou para affligil-a, ou para fazel-os brigar. Era
isto mesmo. Entretanto, uma vez que estava avisada, no os perderia de
vista. Aqui acudiu-lhe uma ida: consultou o marido se mandaria convidar
a viuva.

--No, respondeu elle; o carro s tem dois logares, e eu no hei de ir
na bola.

Maria Olympia sorriu de contente, e levantou-se. Ha muito tempo que
tinha vontade de ouvir os _Lombardos_. Vamos aos _Lombardos_! Tr, l,
l, l... Meia hora depois foi vestir-se. Galvo, quando a viu prompta
d'ahi a pouco, ficou encantado. Minha mulher  linda, pensou elle; e fez
um gesto para estreital-a ao peito; mas a mulher recuou, pedindo-lhe que
no a amarrotasse. E, como elle, por umas velleidades de camareiro,
pretendeu concertar-lhe a pluma do cabello, ella disse-lhe enfastiada:

--Deixa, Eduardo! J veiu o carro?

Entraram no carro e seguiram para o theatro. Quem  que estava no
camarote contiguo ao d'elles? Justamente a viuva e a me. Esta
coincidencia, filha do acaso, podia fazer crer algum ajuste prvio.
Maria Olympia chegou a suspeital-o; mas a sensao da entrada no lhe
deu tempo de examinar a suspeita. Toda a sala voltara-se para vel-a, e
ella bebeu, a tragos demorados, o leite da admirao publica. Demais, o
marido teve a inspirao machiavelica de lhe dizer ao ouvido: Antes a
mandasses convidar; ficava-nos devendo o favor. Qualquer suspeita
cahiria diante d'esta palavra. Comtudo, ella cuidou de os no perder de
vista--e renovou a resoluo de cinco em cinco minutos, durante meia
hora, at que, no podendo fixar a atteno, deixou-a andar. L vae
ella, inquieta, vai direito ao claro das luzes, ao explendor dos
vestuarios, um pouco  opera, como pedindo a todas as cousas alguma
sensao deleitosa em que se espreguice uma alma fria e pessoal. E volta
depois  propria dona, ao seu leque, s suas luvas, aos adornos do
vestido, realmente magnifico. Nos intervallos, conversando com a viuva,
Maria Olympia tinha a voz e os gestos do costume, sem calculo, sem
esforo, sem sentimento, esquecida da carta. Justamente nos intervallos
 que o marido, com uma discrio rara entre os filhos dos homens, ia
para os corredores ou para o saguo pedir noticias do ministerio.

Juntas sahiram do camarote, no fim, e atravessaram os corredores. A
modestia com que a viuva trajava podia realar a magnificencia da amiga.
As feies, porm, no eram o que esta affirmou, quando ensaiava os
chales de manh. No, senhor; eram engraadas, e tinham um certo pico
original. Os hombros proporcionaes e bonitos. No contava trinta e cinco
annos, mas trinta e um; nasceu em 1822, na vespera da independencia,
tanto que o pae, por brincadeira, entrou a chamal-a Ypiranga, e
ficou-lhe esta alcunha entre as amigas. Demais, l estava em Santa Rita
o assentamento de baptismo.

Uma semana depois, recebeu Maria Olympia outra carta anonyma. Era mais
longa e explicita. Vieram outras, uma por semana, durante tres mezes.
Maria Olympia leu as primeiras com algum aborrecimento; as seguintes
foram callejando a sensibilidade. No havia duvida que o marido
demorava-se fra, muitas vezes, ao contrario do que fazia d'antes, ou
sahia  noite e regressava tarde; mas, segundo dizia, gastava o tempo no
Wallerstein ou no Bernardo, em palestras politicas. E isto era verdade,
uma verdade de cinco a dez minutos, o tempo necessario para recolher
alguma anecdota ou novidade, que pudesse repetir em casa,  laia de
documento. D'alli seguia para o largo de S. Francisco, e mettia-se no
omnibus.

Tudo era verdade. E, comtudo, ella continuava a no crr nas cartas.
Ultimamente, no se dava mais ao trabalho de as refutar comsigo; lia-as
uma s vez, e rasgava-as. Com o tempo foram surgindo alguns indicios
menos vagos, pouco a pouco, ao modo do apparecimento da terra aos
navegantes; mas este Colombo teimava em no crr na America. Negava o
que via; no podendo negal-o, interpretava-o; depois recordava algum
caso de allucinao, uma anecdota de apparencias illusorias, e n'esse
travesseiro commodo e molle punha a cabea e dormia. J ento,
prosperando-lhe o escriptorio, dava o Galvo partidas e jantares, iam a
bailes, theatros, corridas de cavallos. Maria Olympia vivia alegre,
radiante; comeava a ser um dos nomes da moda. E andava muita vez, com a
viuva, a despeito das cartas, a tal ponto que uma d'estas lhe dizia:
Parece que  melhor no escrever mais, uma vez que a senhora se regala
n'uma comboraria de mu gosto. Que era comboraria? Maria Olympia quiz
perguntal-o ao marido, mas esqueceu o termo, e no pensou mais n'isso.

Entretanto, constou ao marido que a mulher recebia cartas pelo correio.
Cartas de quem? Esta noticia foi um golpe duro e inesperado. Galvo
examinou de memoria as pessoas que lhe frequentavam a casa, as que
podiam encontral-a em theatros ou bailes, e achou muitas figuras
verosimeis. Em verdade, no lhe faltavam adoradores.

--Cartas de quem? repetia elle mordendo o beio e franzindo a testa.

Durante sete dias passou uma vida inquieta e aborrecida, espiando a
mulher e gastando em casa grande parte do tempo. No oitavo dia, veiu uma
carta.

--Para mim? disse elle vivamente.

--No;  para mim, respondeu Maria Olympia, lendo o sobrescripto; parece
letra de Mariana ou de Lul Fontoura...

No queria lel-a; mas o marido disse que a lesse; podia ser alguma
noticia grave. Maria Olympia leu a carta e dobrou-a, sorrindo; ia
guardal-a, quando o marido desejou ver o que era.

--Voc sorriu, disse elle gracejando; ha de ser algum epigramma commigo.

--Qual!  um negocio de moldes.

--Mas deixa ver.

--Para que, Eduardo?

--Que tem? Voc, que no quer mostrar, por algum motivo ha de ser. De
c.

Ja no sorria; tinha a voz tremula. Ella ainda recusou a carta, uma,
duas, tres vezes. Teve mesmo ideia de rasgal-a, mas era peior, e no
conseguiria fazel-o at o fim. Realmente, era uma situao original.
Quando ella viu que no tinha remedio, determinou ceder. Que melhor
occasio para ler no rosto d'elle a expresso da verdade? A carta era
das mais explicitas; fallava da viuva em termos crs. Maria Olympia
entregou-lh'a.

--No queria mostrar esta, disse-lhe ella primeiro, como no mostrei
outras que tenho recebido e botado fra; so tolices, intrigas, que
andam fazendo para... Leia, leia a carta.

Galvo abriu a carta e deitou-lhe os olhos avidos. Ella enterrou a
cabea na cintura, para ver de perto a franja do vestido. No o viu
empallidecer. Quando elle, depois de alguns minutos, proferiu duas ou
tres palavras, tinha j a physionomia composta e um esboo de sorriso.
Mas a mulher, que o no adivinhava, respondeu ainda de cabea baixa; s
a levantou d'ahi a tres ou quatro minutos, e no para fital-o de uma
vez, mas aos pedaos, como se temesse descobrir-lhe nos olhos a
confirmao do anonymo. Vendo-lhe, ao contrario, um sorriso, achou que
era o da innocencia, e fallou de outra cousa.

Redobraram as cautelas do marido; parece tambem que elle no pde
esquivar-se a um tal ou qual sentimento de admirao para com a mulher.
Pela sua parte, a viuva, tendo noticia das cartas, sentiu-se
envergonhada; mas reagiu depressa, e requintou de maneiras affectuosas
com a amiga.

Na segunda ou terceira semana de agosto, Galvo fez-se socio do Cassino
fluminense. Era um dos sonhos da mulher. A seis de setembro fazia annos
a viuva, como sabemos. Na vespera, foi Maria Olympia (com a tia que
chegara de fra), comprar-lhe um mimo: era uso entre ellas. Comprou-lhe
um annel. Viu na mesma casa uma joia engraada, uma meia lua de
diamantes para o cabello, emblema de Diana, que lhe iria muito bem sobre
a testa. De Mahomet que fosse; todo o emblema de diamantes  christo.
Maria Olympia pensou naturalmente na primeira noite do Cassino; e a tia,
vendo-lhe o desejo, quiz comprar a joia, mas era tarde, estava vendida.

Veiu a noite do baile. Maria Olympia subiu commovida as escadas do
Cassino. Pessoas que a conheceram n'aquelle tempo, dizem que o que ella
achava na vida exterior, era a sensao de uma grande caricia publica, a
distancia; era a sua maneira de ser amada. Entrando no Cassino, ia
recolher nova copia de admiraes, e no se enganou, porque ellas
vieram, e de fina casta.

Foi pelas dez horas e meia que a viuva ali appareceu. Estava realmente
bella, trajada a primor, tendo na cabea a meia lua de diamantes.
Ficava-lhe bem o diabo da joia, com as duas pontas para cima, emergindo
do cabello negro. Toda a gente admirou sempre a viuva n'aquelle salo.
Tinha muitas amigas, mais ou menos intimas, no poucos adoradores, e
possuia um genero de espirito que espertava com as grandes luzes. Certo
secretario de legao no cessava de a recommendar aos diplomatas novos:
_Causes avec Mme. Tavares; c'est adorable!_ Assim era nas outras
noites; assim foi n'esta.

--Hoje quasi no tenho tido tempo de estar com voc, disse ella a Maria
Olympia, perto de meia-noite.

--Naturalmente, disse a outra abrindo e fechando o leque; e, depois de
humedecer os labios, como para chamar a elles todo o veneno que tinha no
corao:--Ypiranga, voc est hoje uma viuva deliciosa... Vem seduzir
mais algum marido?

A viuva empalideceu, e no pode dizer nada. Maria Olympia accrescentou,
com os olhos, alguma cousa que a humilhasse bem, que lhe respingasse
lama no triumpho. J no resto da noite fallaram pouco; trez dias depois
romperam para nunca mais.


FIM DA SENHORA DO GALVO.




AS ACADEMIAS DE SIO


Conhecem as academias de Sio? Bem sei que em Sio nunca houve
academias: mas supponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.


I

As estrellas, quando viam subir, atravez da noite, muitos vagalumes cr
de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sio, que se
divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas s
outras, perguntavam:

--Reaes suspiros, em que  que se occupa esta noite o lindo Kalaphangko?

Ao que os vagalumes respondiam com gravidade:

--Ns somos os pensamentos sublimes das quatro academias de Sio;
trazemos comnosco toda a sabedoria do universo.

Uma noite, foram em tal quantidade os vagalumes, que as estrellas, de
medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e elles tomaram conta de uma parte
do espao, onde se fixaram para sempre com o nome de via-lactea.

Deu logar, a essa enorme asceno de pensamentos o facto de quererem as
quatro academias de Sio resolver este singular problema:--porque  que
ha homens femininos e mulheres masculas? E o que as induziu a isso foi a
indole do joven rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo n'elle
respirava a mais esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz
argentina, attitudes molles e obedientes e um cordial horror s armas.
Os guerreiros siamezes gemiam, mas a nao vivia alegre, tudo eram
dansas, comedias e cantigas,  maneira do rei que no cuidava de outra
cousa. D'ahi a illuso das estrellas.

Vai seno quando, uma das academias achou esta soluo ao problema:

--Umas almas so masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa
 uma questo de corpos errados.

--Nego, bradaram as outras tres; a alma  neutra; nada tem com o
contraste exterior.

No foi preciso mais para que as vielas e aguas de Bangkok se tingissem
de sangue academico. Veiu primeiramente a controversia, depois a
descompostura, e finalmente a pancada. No principio da descompostura
tudo andou menos mal; nenhuma das rivaes arremessou um improperio que
no fosse escrupulosamente derivado do sanscrito, que era a lingua
academica, o latim de Sio. Mas d'alli em diante perderam a vergonha. A
rivalidade desgrenhou-se, pz as mos na cintura, baixou  lama, 
pedrada, ao murro, ao gesto vil, at que a academia sexual, exasperada,
resolveu dar cabo das outras, e organisou um plano sinistro... Ventos
que passaes, se quizesseis levar comvosco estas folhas de papel, para
que eu no contasse a tragedia de Sio! Custa-me (ai de mim!), custa-me
escrever a singular desforra. Os academicos armaram-se em segredo, e
foram ter com os outros, justamente quando estes, curvados sobre o
famoso problema, faziam subir ao cu uma nuvem de vagalumes. Nem
preambulo, nem piedade. Cahiram-lhe em cima espumando de raiva. Os que
puderam fugir, no fugiram por muitas horas; perseguidos e attacados,
morreram na beira do rio, a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao
todo, trinta e oito cadaveres. Cortaram uma orelha aos principaes, e
fizeram d'ellas collar e braceletes para o presidente vencedor, o
sublime U-Tong. Ebrios da victoria, celebraram o feito com um grande
festim, no qual cantaram este hymno magnifico: Gloria a ns, que somos
o arroz da sciencia e a luminaria do universo.

A cidade acordou estupefacta. O terror apoderou-se da multido. Ninguem
podia absolver uma aco to cra e feia; alguns chegavam mesmo a
duvidar do que viam... Uma s pessoa approvou tudo: foi a bella Kinnara,
a flr das concubinas regias.


II

Mollemente deitado aos ps da bella Kinnara, o joven rei pedia-lhe uma
cantiga.

--No dou outra cantiga que no seja esta: creio na alma sexual.

--Crs no absurdo, Kinnara.

--Vossa Magestade cr ento na alma neutra?

--Outro absurdo, Kinnara. No, no creio na alma neutra, nem na alma
sexual.

--Mas ento em que  que Vossa Magestade cr, se no cr em nenhuma
d'ellas?

--Creio nos teus olhos, Kinnara, que so o sol e a luz do universo.

--Mas cumpre-lhe escolher:--ou crr na alma neutra, e punir a academia
viva, ou crr na alma sexual, e absolvel-a.

--Que deliciosa que  a tua boca, minha doce Kinnara! Creio na tua boca:
 a fonte da sabedoria.

Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ella
era a mulher mascula--um bufalo com pennas de cysne. Era o bufalo que
andava agora no aposento, mas d'ahi a pouco foi o cysne que parou, e,
inclinando o pescoo, pediu e obeteve do rei, entre duas caricias, um
decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legitima e
orthodoxa, e a outra absurda e perversa. N'esse mesmo dia, foi o decreto
mandado  academia triumphante, aos pagodes, aos mandarins, a todo o
reino. A academia poz luminarias; restabeleceu-se a paz publica.


III

Entretanto, a bella Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma
noite, como o rei examinasse alguns papeis do Estado, perguntou-lhe ella
se os impostos eram pagos com pontualidade.

--_Ohim!_ exclamou elle, repetindo essa palavra que lhe ficara de um
missionario italiano. Poucos impostos tm sido pagos. Eu no quizera
mandar cortar a cabea aos contribuintes... No, isso nunca... Sangue?
sangue? no, no quero sangue...

--E se eu lhe der um remedio a tudo?

--Qual?

--Vossa Magestade decretou que as almas eram femininas e masculinas,
disse Kinnara depois de um beijo. Supponha que os nossos corpos esto
trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos
os nossos...

Kalaphangko riu muito da ida, e perguntou-lhe como  que fariam a
troca. Ella respondeu que pelo methodo Mukunda, rei dos Hindus, que se
metteu no cadaver de um brahamane, emquanto um truo se mettia no d'elle
Mukunda,--velha lenda passada aos turcos, persas e christos. Sim, mas a
formula da invocao? Kinnara declarou que a possuia; um velho bonzo
achra copia d'ella nas ruinas de um templo.

--Valeu?

--No creio no meu proprio decreto, redarguiu elle rindo; mas v l, se
fr verdade, troquemos... mas por um semestre no mais. No fim do
semestre destrocaremos os corpos.

Ajustaram que seria n'essa mesma noite. Quando toda a cidade dormia,
elles mandaram vir a piroga real, metteram-se dentro e deixaram-se ir 
ta. Nenhum dos remadores os via. Quando a aurora comeou a apparecer,
fustigando as vaccas rtilas, Kinnara proferiu a mysteriosa invocao; a
alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando,  espera que o corpo do rei
vagasse tambem. O d'ella cahira no tapete.

--Prompto? disse Kalaphangko.

--Prompto, aqui estou no ar esperando. Desculpe Vossa Magestade a
indignidade da minha pessoa...

Mas a alma do rei no ouviu o resto. Lepida e scintilante, deixou o seu
vaso physico e penetrou no corpo de Kinnara, emquanto a d'esta se
apoderava do despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um para
o outro, imagine-se com que assombro. Era a situao do Buoso e da
cobra, segundo conta o velho Dante; mas vede aqui a minha audacia. O
poeta manda calar Ovidio e Lucano, por achar que a sua methamorphose
vale mais que a d'elles dous. Eu mando-os calar a todos tres. Buoso e a
cobra no se encontram mais, ao passo que os meus dous heres, uma vez
trocados continuam a fallar e a viver juntos--cousa evidente mais
dantesca, em que me peze  modstia.

--Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-me
magestade  exquisito. Vossa Magestade no sente a mesma cousa?

Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa
adequada. Kalaphangko espreguiava-se todo nas curvas femininas de
Kinnara. Esta esteiriava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Sio tinha,
finalmente, um rei.


IV

A primeira aco de Kalaphangko (d'aqui em diante entenda-se que  o
corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bella siameza
com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias 
academia sexual. No elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram
mais homens de pensamento que de aco e administrao, dados 
philosophia e  litteratura, mas decretou que todos se prosternassem
diante d'elles, como  de uso aos mandarins. Alm d'isso, fez-lhes
grandes presentes, cousas raras ou de valia, crocodillos empalhados,
cadeiras de marfim, apparelhos de esmeralda para almoo, diamantes,
reliquias. A academia, grata a tantos beneficios, pediu mais o direito
de usar officialmente o titulo de Claridade do Mundo, que lhe foi
outorgado.

Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda publica, da justia, do culto
e do ceremonial. A nao comeou de sentir o peso grosso, para fallar
como o excelso Cames, pois nada menos de onze contribuintes remissos
foram logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabea ao
dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se regularisou. A justia e
a legislao tiveram grandes melhoras. Construiram-se novos pagodes; e a
religio pareceu at ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko,
copiando as antigas artes hespanholas, mandou queimar uma duzia de
pobres missionarios christos que por l andavam; aco que os bonzos da
terra chamaram a perola do reinado.

Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos
diplomatico, atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e
gloriosa do seculo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas
esplendidas. Trezentos barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram
recebel-o. Cada um d'estes tinha na pra um cysne ou um drago de ouro,
e era tripolado pela mais fina gente da cidade; musicas e acclamaes
atroaram os ares. De noite, acabadas as festas, sussurrou-lhe ao ouvido
a bella concubina:

--Meu joven guerreiro, paga-me as saudades que curti na ausencia;
dize-me que a melhor das festas  a tua meiga Kinnara.

Kalaphangko respondeu com um beijo.

--Os teus beios tm o frio da morte ou do desdem, suspirou ella.

Era verdade, o rei estava distrahido e preoccupado; meditava uma
tragedia. Ia-se approximando o termo do prazo em que deviam destrocar os
corpos, e elle cuidava em illudir a clausula, matando a linda siameza.
Hesitava por no saber se padeceria com a morte d'ella visto que o corpo
era seu, ou mesmo se teria de succumbir tambem. Era esta a duvida de
Kalaphangko; mas a ida da morte sombreava-lhe a fronte, emquanto elle
afagava ao peito um frasquinho com veneno, imitado dos Borgias.

De repente, pensou na douta academia; podia consultal-a, no claramente,
mas por hypothese. Mandou chamar os academicos; vieram todos menos o
presidente, o illustre U-Tong, que estava enfermo. Eram treze;
prosternaram-se e disseram ao modo de Sio:

--Ns, despreziveis palhas, corremos ao chamado de Kalaphangko.

--Erguei-vos, disse benevolamente o rei.

--O logar da poeira  o cho, teimaram elles com os cotovelos e joelhos
em terra.

--Pois serei o vento que subleva a poeira, redarguiu Kalaphangko; e, com
um gesto cheio de graa e tolerancia, estendeu-lhes as mos.

Em seguida, comeou a fallar de cousas diversas, para que o principal
assumpto viesse de si mesmo; fallou nas ultimas noticias do occidente e
nas leis de Man. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era
um grande sabio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta,
ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade,
confessaram elles que U-Tong era um dos mais singulares estupidos do
reino; espirito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender
nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estupido?

--Custa-nos dizel-o, mas no  outra cousa;  um espirito raso e chocho.
O corao  excellente, caracter puro, elevado...

Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora os academicos,
sem lhes perguntar o que queria. Um estupido? Era mister tiral-o da
cadeira sem molestal-o. Tres dias depois, U-Tong compareceu ao chamado
do rei. Este perguntou-lhe carinhosamente pela saude; depois disse que
queria mandar alguem ao Japo estudar uns documentos, negocio que s
podia ser confiado a pessoa esclarecida. Qual dos seus collegas da
academia lhe parecia idoneo para tal mister? Comprehende-se o plano
artificioso do rei; era ouvir dois ou tres nomes, e concluir que a todos
preferia o do proprio U-Tong; mas eis aqui o que este lhe respondeu:

--Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: so treze camellos,
com a differena que os camellos so modestos, e elles no; comparam-se
ao sol e  lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais
singulares pulhas do que esses treze... Comprehendo o assombro de Vossa
Magestade; mas eu no seria digno de mim se no dissesse isto com
lealdade, embora confidencialmente...

Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camellos? Treze, treze. U-Tong
resalvou to smente o corao de todos, que declarou excellente; nada
superior a elles pelo lado do caracter. Kalaphangko, com um fino gesto
de complacencia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quaes
fossem, as suas reflexes, no o soube ninguem. Sabe-se que elle mandou
chamar os outros academicos, mas d'esta vez separadamente, afim de no
dar na vista, e para obter maior expanso. O primeiro que chegou,
ignorando alis a opino de U-Tong, confirmou-a integralmente, com a
unica emenda de serem doze os camellos, ou treze, contando o proprio
U-Tong. O segundo no teve opinio differente, nem o terceiro, nem os
restantes academicos. Differiam no estylo; uns diziam camellos, outros
usavam circumloquios e metaphoras, que vinham a dar na mesma cousa. E,
entretanto, nenhuma injuria ao caracter moral das pessoas. Kalaphangko
estava attonito.

Mas no foi esse o ultimo espanto do rei. No podendo consultar a
academia, tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, at que a
linda Kinnara lhe segredou que era mi. Esta noticia fel-o recuar do
crime. Como destruir o vaso eleito da flr que tinha de vir com a
primavera proxima? Jurou ao co e  terra que o filho havia de nascer e
viver. Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os
corpos.

Como da primeira vez, metteram-se no barco real,  noite, e deixaram-se
ir aguas abaixo, ambos de m vontade, saudosos do corpo que iam
restituir um ao outro. Quando as vaccas scintillantes da madrugada
comearam de pisar vagarosamente o co, proferiram elles o formula
mysteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara,
tornando ao seu, teve a commoo materna, como tivera a paterna, quando
occupava o corpo de Kalaphangko. Parecia-lhe at que era ao mesmo tempo
mi e pai da creana.

--Pai e mi? repetiu o principe restituido  frma anterior.

Foram interrompidos por uma deleitosa musica, ao longe. Era algum junco
ou piroga que subia o rio, pois a musica approximava-se rapidamente! J
ento o sol alagava de luz as aguas e as margens verdes, dando ao quadro
um tom de vida e renascena, que de algum modo fazia esquecer aos dous
amantes a restituio psychica. E a musica vinha chegando, agora mais
distincta, at que n'uma curva do rio, appareceu aos olhos de ambos um
barco magnifico, adornado de plumas e flammulas. Vinham dentro os
quatorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em cro mandavam
aos ares o velho hymno: Gloria a ns, que somos o arroz da sciencia e a
claridade do mundo!

A bella Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbogalhados de
assombro. No podia entender como  que quatorze vares reunidos em
academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multido de
camellos. Kalaphangko consultado por ella, no achou explicao. Se
alguem descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do
Oriente, mandando-lh'a em carta fechada, e, para maior segurana,
sobrescriptada ao nosso consul em Changai, China.


FIM DAS ACADEMIAS DE SIO.





End of the Project Gutenberg EBook of Historias Sem Data, by 
Joaquim Maria Machado de Assis

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIAS SEM DATA ***

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