The Project Gutenberg EBook of O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven

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Title: O Romance d'uma cantora

Author: Alfredo Sirven

Translator: Salvador de Medona

Release Date: May 15, 2010 [EBook #32380]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA ***




Produced by Pedro Saborano




                   Nova Bibliotheca Economica
                        Leitura para todos

                   Travessa da Queimada, N. 35
                              LISBOA


                          Alfredo Sirven

                            O  ROMANCE

                               D'UMA

                              CANTORA

                      TRAD. DE S. DE MENDONA

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Completamente imparcial, sem se envolver na politica brazileira; com
largas seces do movimento official portuguez, dos acontecimentos do
estrangeiro e da vida nacional em todas as provincias, acompanhando com
a gravura todo esse noticiario.

Vai (em 1897) no seu 18. anno.

Nunca alterou os seus preos, no obstante a situao cambial.

ASSIGNATURAS

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Anno, 5$000 ris fracos; Semestre, 3$000 ris

Numero avulso, 200 ris

_EM PORTUGAL:_

Anno........... 2$000 ris

ANNUNCIOS

Cada linha, na respectiva seco, 40 ris fortes. Na 1. pagina, 200 ris.

Artigos e communicados contractam-se:

EM LISBOA--Travessa da Queimada, 135.

NO RIO DE JANEIRO--No escriptorio, Rua Sete de Setembro, n. 89--1. andar.




O ROMANCE D'UMA CANTORA




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ROMANCES PUBLICADOS

1--Luiz Noir--A Estalagem Maldita, trad. de C. Dantas.

2--Eugenio Chavette--Os companheiros do crime, trad. de A. Sarmento.

3--Visconde Henri de Bornier--Romance d'um auctor dramatico, trad. de
Portugal da Silva.

4--Mauricio Drack--A Mestra, trad. de N. de Bulho Pato.

5--Edgar Montell--Joo das Gals--traduco de C. Dantas.

6--Eugenio Chavette--Lili, Tt e Babette--trad. de A. Sarmento.

7--Arsenio Houssaye--Joanna d'Armaillac, trad. de H. de Oliveira.

8--Paulo Fval--A rainha dos estudantes, trad. de S. de Mendona.

9--Mayne-Reid--Os rebeldes, trad. do inglez, por M. Leal.

10--Victor Perceval--Uma mulher perigosa, trad. de S. de Mendona.

11--Mauricio Talmeyer--Um drama nas minas, trad. de A. Sarmento

12--Heitor Malot--Lua de mel, trad. de Antonio Bandeira.

13--Alfredo Sirven--O romance d'uma cantora, trad. de Segurado de Mendona.

A SEGUIR:

14--F. Champsaur--Uma excentrica, trad. de Ruy da Cunha.

ESCRIPTORIO: TRAVESSA DA QUEIMADA, 35

LISBOA




ALFREDO SIRVEN

O ROMANCE

D'UMA

CANTORA

TRAD. DE S. DE MENDONA

LISBOA

1895




TYPOGRAPHIA DO DIARIO ILLUSTRADO
35--Travessa da Queimada--35
LISBOA




O ROMANCE D'UMA CANTORA




I

A catastrophe


--Apaixonado por uma cantora... por uma mulher do theatro... eu?!... Ora
adeus!... no pode ser!... Hei de ver isso!

Assim monologava o visconde Antonino de Bizeux, acabando de vestir-se.

E sorria desdenhosamente, tomando um aspecto arrogante, como se quizesse
illudir-se sobre o estado do seu corao, persuadindo-se estar curado da
paixo que sentira, nos ultimos tempos, despertar em si.

--Hei de ver isso... hei de ver isso!... repetia, procurando qualquer
coisa pelo quarto, destrahidamente, porque nada lhe faltava, a no ser
que chegasse a hora d'ir para a Opera.

Os labios diziam: _hei de ver_, mas o corao tinha visto j.

Amava Linda, a _estrella_ do dia, a diva que, do ceu da Opera,
scintillava sobre Paris fascinado.

O visconde obtivera-se d'assistir s ultimas quinze representaes,
fugindo assim  fascinao que a grande artista exercia sobre elle.

Tratava, pelo afastamento, o comeo da paixo, que o assustava.

Durante esse tempo violentra-se, domra o corao com a grande fora de
vontade que possuia, e julgava-se curado, por isso.

O theatro da rua Le Peletier annuncira, para aquella noite, um
magnifico espectaculo, em beneficio das victimas d'um sinistro recente.

Cantavam-se os _Huguenottes_, desempenhando Laura Linda, pela primeira
vez, a parte de Valentina.

Toda a primeira sociedade parisiense devia assistir  representao,
porque no camaroteiro no restava um s bilhete.

Antonino ia tornar a ver Linda triumphante, acclamada.

Se procurava uma occasio para experimentar-se, no podia encontral-a
melhor.

--Irei aos _Huguenottes_! resolvera elle, depois de curta discusso
comsigo mesmo. Sem duvida ficarei certo de que estou completamente
curado, mas se, por acaso, ao ver Linda sentir a mesma impresso,
simultaneamente dolorosa e suave, de que necessito defender-me, juro que
manh de manh partirei para Saint-Malo, e que s no comeo do inverno
voltarei a Paris.

E foi para a Opera, onde o esperava a sua cadeira d'assignatura,
abandonada por mais de quinze dias.

Trocou apertos de mo e palavras de cumprimento com alguns conhecidos
que encontrou, e dois ou tres amigos disseram-lhe familiarmente:

--Adeus, formoso breto!

Antonino era, efectivamente, um bello rapaz.

A sua estatura d'athleta, admiravelmente proporcionada, conservava a
mais completa linha d'elegancia.

Louro, olhos d'um verde escuro, que semelhavam ser castanhos, era o
verdadeiro modelo do celta moderno: alliava a fora  distinco.

O espectaculo teve o brilhantismo ordinario das solemnidades da Opera.

Todos se recordam ainda d'aquella noite, que se tornou celebre por uma
d'essas catastrophes que gravam uma data com traos indeleveis, mesmo na
memoria d'esse grande esquecido que se chama Paris.

Quando Linda entrou em scena, Antonino estremeceu.

No se fita impunemente uma pessoa, que se julga inimiga, depois de se
ter deixado de a ver por alguns dias.

Ella cantou, e o visconde sentiu-se arrebatado julgando, comtudo, que
fra apenas a artista que o emocionra.

Applaudiu-a delirantemente, como de resto todos os espectadores, porque
Laura, afinal,--tinha de confessal-o,--possuia raro talento.

Durante a representao declarou a si proprio que no vira Linda, apenas
admirra Valentina.

O tempo que o espectaculo durou passou-se para elle como se fosse presa
de inconsciente embriaguez.

Por fim a grande ovao rebentou, imponente, com a furia da emoo que
trasborda.

Linda foi completamente coberta de flores, e chamada repetidas vezes,
apparecendo sempre sorridente, formosissima.

Antonino sentiu um mal estar indefinido, e uma alegria doida.

E conservava-se sentado na sua cadeira, n'uma immobilidade involuntaria,
incapaz de levantar-se, de seguir a multido que sahia.

Passado algum tempo olhou em volta; a sala estava deserta.

Dos corredores chegava um ruido confuso, produzido pelos ultimos
espectadores, que sahiam.

Que fazia elle alli, diante do panno cahido; sob o lustre meio apagado?

Um porteiro foi convidal-o a retirar-se.

Como no recebesse resposta e julgasse o visconde a dormir, saccudi-o.

Antonino estremeceu novamente, e no primeiro momento sentiu desejos de
desancar o porteiro.

Depois, pensando melhor, levantou-se e dirigiu-se para a porta da sahida.

Antes de transpr o limiar, olhou uma ultima vez para o lado do palco, e
retrocedeu, entrando novamente na plata.

Parecera-lhe ter visto um tenue fio de fumo sahir do soalho.

Approximou-se, arrastando o porteiro, a quem disse, sobresaltado:

--Olhe!... alli!...

--Que desgraa!... Fujamos!...

No havia que duvidar.

O fio de fumo engrossava progressivamente.

Antonino correu para o corredor, dando o grito de alarme.

Duas ou tres costureiras do theatro, que sahiam, suppuzeram-o doido, mas
atraz do visconde corria o porteiro, gritando:

--Fogo!... Fogo:!...

As costureiras, repetindo aquelle grito, correram para fra do theatro.

Ao perceber que havia fogo no palco o visconde lembrou-se de Linda,
immediatamente.

A cantora devia estar ainda no seu camarim. Seria prevenida a tempo de
se poder salvar?

As portas que communicavam com o palco, estavam fechadas.

O visconde bateu a uma, infrutiferamente, meio desvairado, e respirando
j a muito custo por entre o espesso fumo, que augmentava, enchendo os
corredores.

Lembrou-se ento da porta d'entrada para os artistas, que abria para a
rua Drouot, na outra extremidade do edificio.

Sahiu do theatro e deu volta, empurrando, na passagem, os bombeiros que
chegavam.

Chegado  porta, subiu, a dois e dois, os degraus da escada que conduzia
aos camarins dos artistas.

O fumo era ainda mais espesso d'aquelle lado.

Um bico de gaz, conservado acceso por acaso, rompia a custo, com
claridade amarellada, a densidade baa d'aquella especie de felpa
cinzenta, que enchia os corredores, pouco a pouco.

Sombras corriam para todos os lados, espavoridas, sem responder s
perguntas afflictas de Antonino, sem as ouvir.

Como nunca entrara no palco da Opera, o visconde no sabia onde ficavam
os camarins.

Bateu  primeira porta que encontrou, forou-a violentamente, sem dar
tempo a que lhe respondessem, e entrou.

Uma mulher atravessava n'esse momento o corredor, gritando com desespero:

--Soccorro!... soccorro!... A senhora est incommodada!

--Quem?... Linda?... perguntou anciosamente Antonino.

--Sim!... O medico... onde est o medico?

--O camarim?... Diga-me onde  o camarim!

Mas a mulher no ouviu a pergunta; desapparecera por entre o fumo, cada
vez mais espesso.

Repentinamente apagou-se o unico bico de gaz, que ainda ardia.

O visconde ficou mergulhado n'uma escurido pesada, completa, em que se
desenvolvia um calor violento.

Caminhou s apalpadellas, batendo com as mos nas paredes e chamando com
voz forte:

--Linda!... Linda!... Onde est?

Mas ninguem lhe respondia.

Continuou a caminhar, gritando sempre, cada vez com mais fora, e
arrombando, enraivecido, todas as portas que encontrava.

Repentinamente, pareceu-lhe ouvir um gemido fraco.

Procurou nas algibeiras uma caixa de phosphoros, e, encontrando-a,
accendeu um.

A alguns passos de distancia viu uma porta aberta.

Entrou por ella precipitadamente.

Era o camarim de Linda. A cantora estava caida por terra, pallida, meio
desmaiada.

O phosphoro que Antonino tinha na mo, apagou-se.

Com um outro, tentou accender o gaz, no conseguindo, felizmente o seu
designio.

--Onde estou eu? perguntou Laura de repente.

--Venha, venha! respondeu o visconde com voz imperiosa.

Guiado pela voz de Linda, approximou-se d'ella, tentando tomal-a nos
braos para a conduzir.

--Deixe-me, senhor, eu posso caminhar... Basta que me d a mo.

Pela porta aberta entrou no camarim uma claridade sinistra.

Fumo azulado sahia por entre as fendas do soalho e subia at ao tecto,
onde se immobilisava em camadas cinzentas.

Antonino e Laura sahiram do camarim e embrenharam-se nos corredores,
onde danavam j as chammas do incendio.

Apesar da natural turbao que o sinistro lhe causava, Antonino
experimentava deliciosa sensao por ter na sua a mo de Laura.

Subitamente uma lingua de fogo subiu verticalmente pela escada que dava
sahida para a rua Drouot, lambendo, com poderosa tranquillidade, o tecto
que lhe ficava superior. O calor abrazava.

-- muito tarde para sahirmos por aqui, disse Antonino sem perder a
presena de espirito. Necessitamos passar  plata, atravessando o palco.

--Vamos por aqui, respondeu Laura. Desceremos a escada que conduz  scena.

O visconde seguiu a cantora.

Dirigiram-se para a escada de servio.

Por entre a claridade avermelhada, viram os bombeiros correndo em todas
as direces, d'archotes em punho, dando indicaes uns aos outros, em
voz breve.

Fumo espesso, vindo de baixo, attingia toda a altura das abobadas, pela
potencia do jacto, dilatando-se em silencio, como sopros quentes
vomitados por boccas invisiveis.

Do palco partia um ruido continuo de fornalha bem alimentada, que solta
crepitamentos seccos.

O incendio, que fomentava havia duas horas, invadiu, repentina e
invencivelmente, a nave immensa da plata.

A chamara que sahiu pelo buraco do ponto inflammou o panno de bocca, que
pouco depois misturava as suas cinzas ao fumo.

O fogo chegou s torrinhas, lambendo, na sua passagem, as decoraes do
salo, cujo hemicyclo dentro em pouco foi tomado.

--Saiam todos! gritou um chefe de bombeiros aos seus homens; saiam
todos! Nada temos que fazer aqui... O incendio  mais forte que ns!

O soalho do palco queimava os ps dos que sobre elle caminhavam.

--Venha depressa, minha senhora! supplicou Antonino. Necessitamos saltar
para o espao destinado  orchestra, e d'aqui a dois minutos ser tarde.

--Ainda c est alguem? perguntou o chefe dos bombeiros, que ficara para
traz.

--Aqui, esto aqui duas pessoas, respondeu o visconde. Ajude-me a salvar
uma mulher.

O bombeiro saltou da plata para o palco e disse a Antonino:

--Eleve-se a pulso at esse camarote de bocca; logo que l esteja, eu
levantarei esta senhora, por frma que possa agarral-a.

O visconde seguiu o conselho, e depois, encostando o peito na borda
do camarote, estendeu os braos para Laura, que, elevada pelo bombeiro,
poude agarrar-se ao seu salvador.

Logo que os viu no camarote, o bombeiro disse-lhes:

--Agora fujam depressa, porque...

O desgraado no acabou.

O soalho, completamente carbonisado, cedeu ao peso do corpo do homem,
que repentinamente se sentiu envolvido pelas chammas.

--Soccorro!... gritou elle. Quem me acode!...

Como as taboas no tinham quebrado completamente, conseguiu depois de
muitos esforos, retirar o corpo d'aquella soluo de continuidade em
que cahira, e muito queimado, approximou-se do camarote onde ainda
estavam Laura e o visconde, a quem estendeu os braos, implorando salvao.

Mas a chamma seguiu-o, incendiando-lhe o fato.

Antonino inclinou-se novamente para o palco, estendendo-lhe as mos.

--Ajude-me!... no me abandone!... dizia o infeliz.

E deligenciava chegar at  mo do visconde, que por fim logrou agarrar.

De repente, a taboa em que se firmava, quebrou e  perda inesperada
d'aquelle appoio fez com que Antonino perdesse o equilibrio.

Laura percebeu o perigo; lanou os braos, tornados fortes pela
imminencia do perigo, em volta do tronco do visconde, puchando por elle
com fora.

Apesar das queimaduras o fazerem soffrer bastante, Bizeux esforou-se
por puchar para o camarote o infeliz bombeiro, que soltava gritos roucos.

Subitamente o homem fez um movimento brusco, e o visconde sentiu
escorregar-lhe da mo o pulso do desditoso, que cahiu no meio d'aquella
fornalha monstro.

O desgraado soltou ainda estas palavras: Meus queridos filhos!

E mais nada!

Tomado d'espantoso horror, Antonino voltou-se para Laura.

A cantora perdera os sentidos.

O visconde estava meio asphixiado.

Parecia-lhe que respirava fogo.

Nas pupillas dilatadas e quasi sem vista, sentia milhares de picadas
d'agulhas.

Envolveu a bocca de Laura com uma mantilha, e elle proprio tomou entre
os dentes o leno d'assoar, cerrando os labios como que para preservar
do oxido de carbone, desenvolvido pelo incendio, os seus robustos pulmes.

Em seguida, chamando a si toda a sua energia, levantou nos braos a
cantora, como se ella fosse uma creana, e sahiu do camarote,
percorrendo o corredor.

Aquella parte do theatro era-lhe conhecida.

O incendio desenvolvia-se no salo, com toda a intensidade.

O lustre abateu, produzindo ruido enorme.

A grande escadaria estava ainda praticavel.

O visconde desceu por ella apressadamente, com as sobrancelhas e os
cabellos queimados.

Um minuto depois chegava  rua, acclamado pela multido enthusiasmada.

N'esse instante abateu o tecto do salo.

Pelo espao espalhou-se infinita quantidade de faulhas.

O incendio pavoroso, sacudindo o seu pennacho de fumo ardente,
polvorisado de faiscas, alumiou sinistramente a cidade.

A claridade da lua extinguiu-se ante a intensa vermelhido das chammas.

Ao longe, sobre os telhados, o ondeado das labaredas, que se
distanciavam em espiraes phantasticas, fazia danar as chamins uma
dana macabra, no espao afogueado.




II

Antonino de Bizeux


Antonino de Bizeux residia em Paris havia apenas dezoito mezes.

At ento vivera sempre na Bretanha, com seu pae, no seu palacio de
Saint-Malo, ou, na epoca da caa, no castello que possuia proximo de
Rascoff.

O visconde viajra muito.

Conhecia toda a Europa e as costas mediterraneas da Asia e da Africa.

Entrra na vida parisiense conservando todas as suas illuses, mas
possuido do ardente desejo de se humanisar, como elle dizia, de se
tornar distincto na distincta sociedade, de que passava a fazer parte.

Caracter firme, sincero, honrado--honrado at  ingenuidade--os seus
pensamentos eram purissimos, e na physionomia transparecia-lhe sempre o
que pensava.

Na sociedade que frequentava, o visconde produzira primeiro o effeito
d'um phenomeno, prestando-se ao desfructe, sem dar por isso.

Depois, pouco a pouco, fra-se limpando da sua simplicidade primitiva e
tomando p na encapellada torrente parisiense.

Comtudo conservava o fundo de lhaneza natural, que lhe dava um certo
cunho d'originalidade, e lhe valia um verdadeiro successo junto das
mulheres, as eternas curiosas.

Tinha poucos ou nenhuns amigos.

O seu nome e a sua fortuna, porm, fizeram com que adquirisse innumeros
conhecimentos na alta roda, onde zombavam, apesar de o estimarem, d'esse
retardado da civilisao, a quem chamavam _formoso breto_ e _selvagem_.

Selvagem era elle seguramente, no porque lhe repugnasse o prazer, mas
porque, entregando-se aos gosos que constituem meros passatempos,
conservava puro o corao.

Sobre o ponto _mulheres_, absolutamente sem importancia para homens que
frequentavam a sociedade em que elle vivia, o visconde pensava e
procedia contrariamente aos seus companheiros, porque elles tinham
os seus amores, e Antonino s poderia ter um amor.

Em poucos mezes saborera todos os prazeres possiveis sem se embriagar;
estivera exposto a todas as seduces sem ser seduzido.

No pertencia ao numero infinito de inactivos, que, segundo a phrase do
seu compatriota Chateaubriand, atravessam a vida bocejando, e no seu
dolente aborrecimento s teem uma ambio e um sonho: divertirem-se.

O visconde possuia solida instruco, fallava duas ou tres linguas; era
um litterato e um _dilettante_.

Amava a arte sob todas as suas variadas frmas, mas sobretudo era
apaixonado pela musica.

Por essa razo tornou-se dentro em pouco um dos mais assiduos _habitus_
da Opera.

A sua cadeira raras vezes ficava vazia.

N'essa epoca, como j dissemos, brilhava na Opera Laura Linda, estrella
de primeira grandeza que eclipsava todas as outras.

Antonino era ardente admirador da diva.

Adorava-lhe a voz e a expresso maravilhosa do canto.

Mas, coisa extraordinaria, passra muito tempo sem reparar que Laura era
formosissima.

Poderia passar dias inteiros a admirar a grande artista
interpretando as obras dos mestres, que, se a encontrasse na rua, no
voltaria a cabea para a seguir com o olhar um minuto mais do que a
qualquer outra mulher.

De resto, a sua admirao pela cantora jmais se manifestra de frma a
dar nas vistas.

Nem um _bouquet_ offerecido, nem o menor transporte de enthusiasmo.

Limitava-se a applaudil-a, semelhando ser egoista do seu enlevo.

Os conhecidos commentavam a seu modo a assiduidade do visconde nas
representaes em que Laura tomava parte, e o recolhimento quasi
extatico d'elle a partir do momento em que a cantora entrava em scena.

Todos consideravam Antonino apaixonado pela diva.

A primeira vez que uns amigos, por brincadeira, lhe disseram que o
julgavam louco por Laura, elle admirou-se, mas nem tentou defender-se,
convencido de que os seus interlocutores no comprehendiam a que
sentimento obedecia.

Limitou-se a concordar, sorrindo, que as apparencias justificavam as
suspeitas.

Mas a brincadeira produziu no visconde o effeito d'uma revelao.

A datar d'esse dia consultou o corao, espiando todos os variados
sentimentos que experimentava, perguntando a si proprio se os amigos no
tinham, antes d'elle e sem que de tal desconfiasse, dado o nome exacto 
attraco que Laura Linda exercia sobre elle.

A diva, pelo seu lado, reparra n'aquelle espectador que todas as
noites, da sua cadeira, a seguia com olhar ardente.

De resto, tinham-lhe apontado o visconde como uma das suas victimas.

Deixra que lhe contassem tudo que constava do caracter do seu adorador,
da reputao de selvageria de que elle gosava, mas no admittira que
Antonino estivesse apaixonado por ella.

Fosse inteno ou simples desejo de ser admirada por aquella frma,
Laura quasi adivinhava o que o visconde sentia, e agradecia-lhe
intimamente a reserva em que elle se conservava, reserva que
desagradaria a qualquer outra.

Uma noite,-- possivel que acabasse d'ouvir fallar d'elle,--como tinha
d'entrar em scena lentamente e em silencio, Laura fixou o visconde por
muito tempo.

quelle olhar, todos os admiradores da diva se sentiram supplantados
pelo formoso breto.

O visconde, porm, longe de ficar satisfeito, parecia contrariado.

 provavel que a cantora percebesse isso, porque muitas vezes durante a
noite olhou para o visconde, constatando sempre que o seu olhar, apesar
d'inoffensivo, produzia n'elle a mesma impresso desagradavel.

At d'uma occasio o visconde levantou os hombros n'um movimento rapido,
como irritado por ella se esquecer por momentos do papel que
desempenhava.

Ao voltar ao seu camarim, Laura riu quando uma amiga lhe fallou
d'Antonino.

--Apaixonado, aquelle?... Est enganada, disse ella. Ser, quando muito,
um amador, e com certeza um homem extraordinario. Ha bocado olhei
algumas vezes para elle, que quasi protestou por eu me desviar do meu
papel!

N'essa noite Antonino sahiu do theatro descontente comsigo e com a diva.

Parecera-lhe que ella se mostrara inferior ao talento que possuia, e
zangou-se comsigo proprio: por julgar ter sido a causa das distraces
em que a cantora incorrera.

Entrevira pela primeira vez a mulher atravs da artista.

Entrou em casa mal humorado, e por muitas horas a imagem de Laura passou
ante o seu olhar sonhador, brilhante como em scena e fixando-o sempre.

E os olhos fecharam-se-lhe, ao adormecer, suppondo estar ainda admirando
a diva.

Pela manh assaltou-o uma preoccupao.

Porque olhara Laura para elle?

Porque infringira a arte, porque commettera uma falta, a Linda, a
impeccavel?

 medida que reflectia, o ser palpavel, a belleza material, a mulher,
absorvia-lhe imaginao.

Quando deu por isso encolerisou-se, e, s no seu quarto, disse alto,
despeitado, quasi furioso:

--No quero!

No dia seguinte foi para Opera como de costume, mas inquieto, perplexo,
e pensando no voltar l se,  entrada de Laura, sentisse a mais ligeira
commoo.

A diva entrou, saudada pelos applausos dos seus adoradores.

Depois do primeiro acto Antonino sorriu dos seus terrores.

Por mais que se interrogasse durante todo o tempo que o acto durra, s
encontrara em si o simples melmano.

Comtudo a sua tranquilidade no era obsoluta.

Apesar de tudo tremia a cada instante que ella o fixasse.

A Linda no tivera a mais ligeira distraco, conservara-se sempre a
artista superior que nem um segundo se esquece da personagem que
desempenha, e nem de passagem o seu olhar encontrara o do visconde.

Esta ultima circumstancia no passou despercebida a Antonino, e muitas
vezes lhe occorreu, primeiro sem o impressionar, e depois produzindo-lhe
uma sensao desagradavel, que no estava longe do despeito. A diva
n'essa noite foi surprehendente.

Quando, no fim do ultimo acto, o applauso irrompeu, unanime, s Antonino
no deu o seu contingente de palmas ou flores.

Assistiu  ovao contrariado, franzindo as sobrancelhas descontente,
como se soffresse com aquelle ligitimo triumpho da cantora.

Entre outros ramos, cahiu aos ps da diva um, de lilazes brancos,
lanado ao proscenio por um espectador que estava proximo d'Antonino.

Porque apanhou Laura aquelle ramo, primeiro que qualquer outro?

E porque, ao apanhal-o, olhou e sorriu para o espectador que lh'o
offerecera?

Qualquer explicaria o caso, dizendo comsigo que o lilaz seria a flor
preferida pela diva.

O visconde, porem,  que no considerou explicavel o facto, e
levantou-se da sua cadeira, bruscamente, sahindo apressado para os
corredores e seguindo para casa sem demora.

N'aquella noite teve febre.

No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou que ella
declinava, que dera j o que tinha a dar, e que no tardaria em chegar a
estado de s poder ser contratada para theatros d'operetta.

Por si, resolvera passar as noites na Comedia Franceza, porque, afinal,
a musica, era uma arte secundaria.

Com effeito o visconde no appareceu na Opera durante duas semanas.

Amava Laura.

Como nunca amra, no comprehendia a razo do seu mal estar.

Amava-a; os proprios esforos que fazia para estrangular a voz do
corao eram d'isso prova irrefutavel.

Amava-a, e sentia-se ingenuo, pateta, simples.

Pois no praticra a tolice de estremecer de raiva por um estranho
lanar  diva um ramo de que ella gostara?

Amava-a... mas, em summa, tinha ainda fora de vontade.

Saberia asphixiar o mal que apenas despontava!

Estava resolvido: no iria mais  Opera, no tornaria a ver a Linda,
porque, custasse o que custasse, tinha de vencer aquella paixo estupida!

Quinze dias depois de proceder pela frma que a si mesmo impozera,
convenceu-se de que podia voltar  Opera sem perigo.

Tinha a convico de que se vencera; nada o impedia de voltar a assistir
ao seu divertimento predilecto.

De resto, desejava colher a prova evidente da cura.

Nem um s doente ha que, depois de estar por muito tempo preso no
quarto, no se sinta impaciente d'affrontar o ar livre, d'experimentar
as suas foras.

Foi n'essas disposio confiantes que o visconde assistiu ao espectaculo
da Opera, depois do qual se deu o fatal sinistro que narrmos no
capitulo anterior.




III

Laura Linda


Na lucta contra o amor nascente, que se travava no corao d'Antonino, o
maior perigo, mas ao mesmo tempo o maior attractivo, era, mais do que o
talento de Laura e at mais do que a peregrina belleza da cantora, o que
o visconde sabia, porque todos o diziam, da vida e do passado da diva.

Tinha ento vinte e seis annos e havia sete que cantava em theatros.

No apogeu da gloria, envolta n'uma atmosphera d'adoraes e de
sollicitaes de toda a natureza, a Linda regeitara vinte propostas de
casamento, e ninguem jamais lhe conhecera amante.

A historia simples da sua vida explicava esse caso pouco vulgar.

Laura era hespanhola.

Seu pae, o celebre violinista Jos Marcia, descendia d'uma familia
illustre porque era o ultimo representante dos condes de Marcia.

Nunca usara o titulo, do qual raramente fallava e sempre com uma especie
de despreso.

Para elle s existia a arte, e considerava um grande artista superior a
um rei.

De resto, era  arte que tudo devia, porque a antiga casa dos Marcias,
era, desde muito tempo, uma casa arruinada.

O pae de Jos Marcia colhera os ultimos restos da fortuna patrimonial,
mas a grande paixo que tivera pela musica tudo lhe levra.

O conde de Marcia suppunha-se um verdadeiro genio para a composio. O
pouco dinheiro que possuia gastava-o na publicao das suas obras.

Vendeu a ultima quinta para fazer representar com luzimento, na Opera de
Madrid, uma partitura de que era auctor, e com a qual contava assegurar
a sua reputao e refazer a sua fortuna.

A opera, porm, cahiu desastradamente na primeira noite em que subiu 
scena.

Por felicidade seu filho Jos, a quem elle communicra o amor pela
musica, tinha n'essa epocha vinte e cinco annos e gosava j de grande e
merecida reputao de violinista.

Foi o filho que velou pela sustentao do pae.

O velho melomano apenas tinha uma ida fixa: desforrar-se.

Compoz ainda duas ou tres operas; e a muito custo conseguiu o filho que
elle as guardasse n'uma gaveta, para que a apresentao d'ellas ao
publico no lhes levasse mais algum dinheiro.

Comtudo Jos Marcia fingia admirar as composies paternas, por frma
que o pobre velho morreu cheio d'illuses, legando-lhe confiadamente a
realisao da sua gloria posthuma.

No foi, porm, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a
que poderia ter junto a riqueza, se no houvesse uma coisa que elle
despresasse mais do que a nobreza: o dinheiro.

Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas
egualavam as receitas, quando no as ultrapassavam,  claro que jamais
poderia juntar um pequeno capital.

E comtudo no esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, no
sabia tratar dos seus negocios.

Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario
embolsasse a maior parte dos ganhos.

Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel
reputao como professor, mas os seus discipulos predilectos no era os
que pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que
d'ordinario no lhe pagavam.

Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid.

Um banqueiro riquissimo incumbiu Jos Marcia de leccionar
particularmente um filho, retribuindo-o principescamente.

Por infelicidade no s o rapaz no tinha tendencia para a musica, como
tambem era um preguioso de primeira ordem, que s pegava no violino
durante o tempo das lies.

Ao cabo d'um mez, Jos Marcia, impacientado, participou ao pae do seu
discipulo que as suas occupaes no lhe promettiam continuar com a
leccionao. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a
remunerao das lies.

Marcia, tentado pelo lucro, continuou.

Mas a tentao durou apenas uma semana.

Finda ella, o distincto violinista escreveu o seguinte ao banqueiro:

Termino de vez com as lies, porque seu filho  extraordinariamente
estupido.

Vivia ainda o pae quando Marcia casou com a que devia ser me de Laura.

Era filha d'um relojoeiro que vivia no mesmo predio.

 falta de dote possuia rara belleza.

Elle estava longe de ser bello, e fortuna no a tinha tambem, mas, como
o rouxinol na primavera, conquistou o amor da que devia ser sua mulher
com o canto surprehendente do seu violino.

A joven passava horas a escutal-o, embevecida.

O artista pediu em casamento aquella sua sincera admiradora, que foi
esposa dedicada, e a melhor e a mais terna das mes.

Laura foi creada pela me na adorao do pae, e pelo pae na adorao da
arte.

Possuindo raros dotes vocaes, o pae fez d'ella uma artista completa.

Quiz tambem ensinar-lhe a tocar violino, mas ella tinha um outro
instrumento melhor: a voz.

A me jamais consentiu que Laura entrasse para o theatro.

A sua prudencia inquieta, que o marido alcunhava de burguezismo,
considerava o palco como um logar de perdio.

Parecia-lhe que a filha, a quem transmittira toda a sua bellesa,
renunciaria, apparecendo no proscenio, a tudo o que havia de honesto e
feliz na vida d'ella: o amor ao lar domestico, o amor d'esposa e o amor
de me.

Mas antes de Laura completar desoito annos, falleceu a me extremosa,
acontecimento que por muito tempo acabrunhou o violinista e a filha.

Alguns mezes depois da morte da me, Laura foi convidada a cantar n'um
concerto de beneficencia.

Obteve um verdadeiro successo.

Mas os applausos de que foi alvo, no lhe causaram tanto enthusiasmo
como ao pae.

Jos Marcia procurou e encontrou occasio de renovar o triumpho obtido
por Laura.

A fina intuio de que era dotado deixava-lhe antever que a filha e
discipula seria uma artista de primeira ordem.

Aos desanove annos, Laura debutou na Opera de Madrid.

A sua voz, porm, no attingira ainda o completo desenvolvimento.

O pae assim o comprehendeu, e durante dois annos no consentiu que a
filha cantasse, seno raras vezes.

Findos esses dois annos Laura partiu para a Italia, acompanhada do seu
natural emprezario.

Conservou-se tres annos no Scala, de Milo, onde, sob a direco de
Pozzoli, aperfeioou o methodo de canto, adquirindo, sobre o seu nome de
theatro, a Linda, uma enorme reputao, que augmentava todos os dias.

Do Scala foi contractada para a Opera de Paris, porque Laura fallava
e cantava, com a mesma pureza d'accentuao e a mesma nitidez
d'articulao, o hespanhol, o italiano e o francez.

Havia j dois annos que ella estava em Paris, e o seu talento e a sua
formosura tinham encantado por completo os frequentadores da Opera.

O pae, que a acompanhra  capital da Frana, morreu tres mezes depois
de chegarem.

Felizmente deixava a filha no apogeu da gloria.

E s gloria, porque dinheiro no tinha Laura quando o pae falleceu, nem
elle lh'o deixou.

Jos Marcia legara  filha o perfeito abandono pelas coisas praticas que
durante a vida sempre tivera.

Por mais vantajosos que fossem os contractos que assignava, Laura apenas
conseguia no ter dividas.

E no era ella quem gastava as suas receitas, mas consentia que os
creados gastassem como lhes aprouvesse.

--Sei contar o meu tempo, dizia a Linda rindo, mas nunca saberei contar
o meu dinheiro!

Comtudo, se no seu oramento no havia ordem, a sua vida era ordenadissima.

A recordao da me adorada estava sempre presente a Laura, e
guardava-a, como se fosse a propria me em pessoa.

Resolvera seguir  justa uma vida irreprehensivel, e cumpriu o
compromisso tomado.

De resto, Laura possuia a verdadeira honestidade, a que  indulgente
mesmo com as fraquezas que repudia.

Era jovial com os seus companheiros de theatro, mas sabia fazer-se
respeitar.

Fra cortejada por muitos homens; soubera, porm, com rara habilidade,
repellir suavemente tanto os que lhe fallavam de casamento, como os que
s lhe fallavam d'amor.

Jamais dissera que no se casaria, mas a primeira condio que estava
resolvida a impor ao noivo, se um dia o tivesse, era conservar-se no
theatro, o que fazia diminuir as probabilidades d'encontrar marido rico.

Pozzoli, o director do Scala de Milo, que na epoca em que se passa esta
historia dirigia a Opera Italiana em Paris, pedira a mo de Laura ao pae
da cantora.

Mas, alm de ter uma reputao equivoca, Pozzoli contava evidentemente,
casando com a Linda, possuir sem concorrencia e sem despendio, uma
_primadona_ de primeira ordem.

Dizia-se at que seguia esse systema de ha muito, amancebando-se com
varias das suas contractadas.

Casando com Laura, Pozzoli faria diminuir as difficuldades com que
luctava como emprezario.

Em Milo, um compositor de talento apaixonou-se doidamente pela
diva, e, ainda que fosse pobre, no era de certo o interesse que o movia
a dar-lhe o seu nome e a sua vida.

Laura, porm, no sentia a mais insignificante parcella d'amor pelo que
tanto a adorava, e como elle comprehendesse essa triste verdade, sahiu
de Milo para Florena.

O numero dos que apenas procuravam o amor de Laura era superior aos que
desejavam casar com ella.

Mas perdiam o tempo e o trabalho.

Um d'elles, o tenor ligeiro Lauretto Mina, era um bello homem, muito
infactuado, mas a quem poucas mulheres resistiam.

Fra ajudante d'um professor d'esgrima.

Estava escripturado por Pozzoli na Opera Italiana.

Possuia voz extensa e bem timbrada, mas no sabia servir-se d'ella, e
era sufficientemente preguioso para poder modificar-se, estudando.

Entretanto considerava-se o primeiro tenor do mundo, e dizia-o
imperturbavelmente.

Desde a primeira vez que viu a Linda, declarou-se apaixonado por ella.

Mas Linda, com a natural finura de mulher, percebeu dentro em pouco que
especie d'homem era Lauretto e passou a tratal-o, contrariamente 
forma pela qual procedia com todos os outros collegas, com uma
frieza que bem se podia alcunhar de desdem.

Este procedimento de Linda fez com que Lauretto, vaidoso em extremo, se
possuisse d'occulta irritao, que mesclava d'odio o amor, ou antes o
desejo, que sentia pela cantora.

Entretanto teve a fora de vontade sufficiente para no manifestar o seu
descontentamento, declarando at aos amigos, com ironico despreso, que
se inclinava ante a virtude de Laura, a quem elle chamava _Casta diva_.

--Sou to preguioso! dizia o tenor no _foyer_ dos artistas. No tenho
paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher to bem
defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida
perseverana. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor,
que serei o segundo.

Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um
original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um
verdadeiro artista.

Remissy foi a Milo para ouvir Jos Marcia, de quem elle admirava o
talento, apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro.

Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se
d'enthusiasmo pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente.

A Linda, porm, tratou-o com meiguice e alegria, a que no era estranho
um certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente.

--Tem cem vezes razo! dizia-lhe elle. No pode tomar a serio um maluco
como eu. Alm d'isso, eu no estou perfeitamente certo de que no me
enganasse, e no adore apenas a sua voz, o que  muito possivel. Andaria
duzentas leguas para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu!
Convencionemos o seguinte: no serei seu amigo, serei seu idolatra. E
desde j te peo licena para te tratar por tu, como  divindade!

De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos.

Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr.
Despujolles, o medico considerado como a verdadeira providencia dos
theatros, sobre tudo dos theatros de canto.

Quem estivesse rouco pela manh podia cantar  noite como um rouxinol,
merc das magias homoeopathicas do dr. Despujolles.

Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy,  cura, homoeopathica
tambem, do amor pela amisade, mas como alm d'intelligente era honesto,
acabou no s por se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura
lhe confiava.

Todas estas informaes sobre a Linda foram colhidas por Antonino de
Bizeux dia a dia, d'este e d'aquelle, affectando indifferena, mas
sentindo na realidade um interesse e emoo de que elle no se
apercebia, e temendo e desejando ao mesmo tempo que lhe apontassem
qualquer nodoa no passado da diva, porque n'esse caso Laura passaria a
ser menos perigosa para elle.




IV

O dia seguinte


Era quasi meio dia.

Laura acabra de se levantar, e recostara-se languida e como magoada
ainda, sobre o canap do seu salo, remexendo, distrahidamente, n'um
monto de cartas e de folhas rasgadas de carteiras, que cobriam o
marmore d'um velador.

Por entre os nomes do que vulgarmente se chama _todo Paris_, procurava
um que no encontrava, e lia com indefferencia as palavras escriptas a
lapis sobre os papeis que folheava.

Entretanto um bilhete houve que lhe prendeu a atteno por mais tempo.

Era de Pozzoli.

Dizia o antigo emprezario de Laura:


Morreu a Opera, viva o theatro dos Italianos! Pozzoli ir manh a casa
da distinctissima diva, levando um contracto em branco  sua ex e futura
escripturada.


Ao ver o carto de Lauretto Mina, a Linda franziu as sobrancelhas.

O tenor escrevera:


Enforca-te Lauretto! Laura esteve prestes a ser queimada viva, e tu no
estavas junto d'ella para a salvar.


Em compensao, sorriu-se ao ler um outro bilhete.


Compuz hoje de manh um cantico d'aco de graas, uma _alleluia_
triumphante, que irei executar-te no meu violino, logo que possas
receber o teu mais humilde admirador.

                                                            _Remissy_.

A diva resolveu responder sem perda de tempo ao violinista, convidando-o
a almoar no dia seguinte.

Chamou para isso Jacintha, a sua creada de quarto, pedindo-lhe o
necessario para escrever.

Jacintha, collaa de Laura, tinha poucos mezes mais que a cantora.

Era uma formosa rapariga, d'um trigueiro assetinado e quente, olhos e
cabellos pretos, labios vermelhos e sensuaes.

Nunca abandonra a cantora, a quem estimava muito, mas a quem servia mal.

--Mais cartas, minha senhora, disse ella ao entrar, quasi todas
entregues pelos proprios, que no subiram porque o porteiro no consentiu.

--Que deixe subir o dr. Despujolles quando elle chegar.

--Sim, minha senhora. E o sujeito que lhe salvou a vida?

--O sr. Antonino de Bizeux? Tambem! H bocado disse-te o mesmo.

--J se v... Se no fosse elle estaria a senhora morta a estas horas. E
eu tambem, porque se a senhora morresse, no lhe sobreviveria.

-- um homem deveras corajoso! disse Laura, pensativa.

--E bonito!

--Jacintha!...

--Perdo, minha senhora!... jurei-lhe que nunca mais chamaria bonito a
qualquer homem, ainda que elle fosse como S. Miguel Archanjo, e
faltei ao meu juramento!... Mas no est mais na minha mo!

--Cala-te! interrompeu Laura, que no poude deixar de sorrir, e manda
entregar immediatamente esta carta ao sr. Remissy, rua Favart.

Alguns minutos depois, Jacintha annunciava o dr. Despujolles.

--Eil-a! disse o medico ao entrar. Eil-a, a esta salamandra que
atravessou impunemente as chammas!

--Infeliz da salamandra, respondeu Laura, que ficaria frita como uma
carpa se no tivesse quem a ajudasse.

--Vejamos o pulso. Sabe que vim c s oito horas da manh?

--Sei.

--Como me disseram que dormia, cedi o logar ao melhor dos medicos, o somno.

--S consegui adormecer s seis horas da madrugada.

--Pudera! Depois d'um tal abalo no admira. Hum! Est com febre, como
era de prever. Vou receitar-lhe um calmante.

E chamou.

Appareceu Jacintha.

--Manda sem demora esta receita a uma pharmacia.

--Sim, sr. doutor.

--E ento? H mais juizo agora?

Jacintha tornou-se purpurina.

--De certo, sr. doutor.

--Hein? Isso  verdade? Toma cuidado!  primeira escorregadella, tens
d'haver-te commigo!

Jacintha pegou na receita, e sahiu apressadamente.

-- necessario, disse o doutor a Laura, que a minha amiga possua uma
solida reputao, para ter junto de si uma rapariga d'este quilate!

--Coitada!  to bondosa e dedicada! Quer que a abandone?

--De certo que no! Estudo em Jacintha a fora do instincto.  um
precioso _sujet_ physiologico para observar--desculpe-me o termo--o
animal na mulher.

--Oh! doutor!

--Posso-lhe fallar assim, porque a minha amiga  toda espirito. Em si o
animal no existe.

--Trata de desculpar-se com um cumprimento! Pois dir-lhe-hei que, em
momento de perigo, o instincto  superior ao que o doutor chama
espirito. A noite passada, quando na Opera se ouviu o primeiro grito de
fogo, acabava eu de me vestir. Jacintha--o instincto--que estava no meu
camarim, fugiu immediatamente, e eu--o espirito--que temo o fogo mais do
que qualquer outra coisa no mundo, comecei a tremer, dobraram-se-me os
joelhos, fiquei impossibilitada de fazer o menor movimento.
Jacintha, que ainda no tinha sahido, sacudia-me, queria arrastar-me.
Tentei caminhar, e cahi desfallecida. Ento ella sahiu, dizendo-me que
ia buscar quem me soccoresse.

--Ah! a Jacintha fugiu? E pretende que ella  dedicada! Bonita
dedicao, no haja duvida!

--Oua o resto. Logo que chegou  rua e se viu livre de perigo, Jacintha
lembrou-se de mim immediatamente. Entrou de novo no theatro, soluando,
querendo procurar-me atravez as chammas. E gritava: Fui eu que a matei!
quero morrer com ella! Foram necessarios tres homens para a segurar,
levando-a  fora para um posto policial. Chegada l, Jacintha cahiu
n'um mutismo feroz. Como no podia salvar-me do fogo, tinha resolvido
lanar-se ao Sena.

--Mas, afinal, como e por quem foi salva? Corre j sobre o caso, uma
verdadeira lenda.

--E parece lenda, com effeito.

Seguidamente contou ao doutor as peripecias do seu salvamento at ao
momento da morte tragica do bombeiro, em que ella de novo tinha perdido
os sentidos.

--Quando voltei a mim, continuou Laura, estava n'uma pharmacia da rua de
Peletier. Jacintha, que me tinha encontrado, soltava gritos d'alegria
por me ver abrir os olhos. O meu salvador estava ali tambem, com o
fato, as barbas e os cabellos queimados, pallido, mas satisfeito por ver
que eu voltava  vida. Reconheci-o como um dos _habitus_ dos
_fauteuils_ d'orchestra. Exprimi-lhe o meu reconhecimento, e pedi-lhe
que me dissesse como se chamava. Sabe o doutor o que elle me respondeu?
Isto: Sou alguem que passava, e que a salvou, salvando-se. Foi a custo
que obtive, ao subir para a carruagem que me conduziu a casa, que elle
me desse o seu carto.

--E conserva o carto de to modesto homem?

--Eil-o aqui... O doutor leu:

--ANTONINO DE BIZEUX.

--Conhece-o?

--De vista, apenas. Tenho-o encontrado em varios sales.  considerado
como um original, meio selvagem. Lembro-me de o ver muitas vezes na
Opera, e, se bem me recordo, dizia-se que elle estava apaixonado pela
minha querida Laura.

--Engano! Quando muito estaria apaixonado pela minha voz. Se arriscou a
vida, para salvar a minha, estou certa que foi unicamente por suppr que
no ha outra cantora que lhe faa sentir as mesmas emoes de _dilettante_.

--Parece-me isso inverosimil, observou o medico. Ver que, como
recompensa, elle no se contentar com a promessa d'uma nova
escriptura na Opera. J a veiu ver, sem duvida?

--Pedi-lhe que viesse, e assegurou-me que viria saber como eu estava.
Julguei que tivesse vindo de manh, emquanto dormi, mas no encontrei o
carto d'elle entre os outros.

--Se suppe que ser recebido, como merece, s se apresentar depois do
meio dia. Entretanto lembre-se que no lhe receito s o que mandei
buscar  pharmacia:  necessario que guarde um repouso absoluto.
Prohibo-a de receber quem quer que seja.

--Tem de abrir uma excepo para o meu salvador, replicou Laura com
vivacidade. A ingratido no  droga que o doutor receite a ninguem, com
certeza.

--Bem! Farei a excepo pedida! disse Despujolles sorrindo. Registo,
comtudo, que a minha amiga desobedece s prescripes do seu medico, o
que  grave.

E retomando o tom serio do clinico, accrescentou:

--Asseguro-lhe que necessita do mais absoluto repouso durante muitos
dias. N'este momento  a febre que lhe conserva as foras, mas em breve
cahir n'uma grande prostrao nervosa, e sentir a necessidade d'uma
completa tranquillidade d'espirito.

--Comtudo... disse Laura.

--No ha comtudos...

--No lhe fallarei de Pozzoli, que me prope escriptura...

--Eu me encarrego de mandar Pozzoli para o inferno! D'aqui a oito dias
tratar d'esse negocio.

--Ou quinze; isso  o menos. O peor  que escrevi a Remissy,
convidando-o para almoar manh. Elle quer que eu oua uma _alleluia_
que compz em minha honra...

--Ento convide-me tambem, disse o doutor n'outro tom. Como estarei
presente, no consentirei que falle. Remissy e eu a entreteremos.

--E o meu salvador? perguntou Laura. Se vier hoje no posso convidal-o
para o almoo?

--Mau! Isso j  outro genero de distraco. Como serei do rancho,
tratarei de vigiar, porque, na verdade, comeo a ter ciumes do visconde.

--Que ida!

--Pois sim! A verdade  que elle est apaixonado e  breto. E um
apaixonado que salva a vida da sua bella...

--O senhor sabe que eu sou sincera... interrompeu Laura.

--Sei.  a mulher mais franca que eu conheo. Direi at: a unica, em que
pese  minha numerosa clientela feminina.

--Consola tanto nada ter que dissimular ou occultar! Pois bem;
affiano-lhe, doutor, que, pensando no sr. de Bizeux, no sinto a
menor commoo indicativa d'amor; nem sombra d'ella! Que elle esteja ou
no apaixonado por mim, confesso-lhe e declaro-lhe que nunca desejei
tanto fazer de qualquer homem um amigo.




V

Perplexidades


A Linda no recebeu n'esse dia a visita ou o carto d'Antonino.

Outro tanto succedeu no dia seguinte at  hora do almoo, ao qual
Remissy e Despujolles fizeram as devidas honras, sem conseguirem, apesar
dos esforos empregados para esse fim, distrahir a cantora d'uma especie
de preoccupao que se apossra d'ella.

Nada de novas do meu salvador! disse Linda a Despujolles quando o doutor
se despediu. Tenho perguntado a mim mesma se no serei eu quem deva
mandar saber noticias d'elle. Quem nos assegura que o visconde no est
mal?

--Vamos, serei generoso mais uma vez! replicou o medico. Irei saber do
seu heroe. Est satisfeita? Onde mora elle? No tem indicao de morada,
no bilhete de visita? Parece-me que  no _boulevard_ Hausmann, mas
ignoro o numero. Sabel-o-hei por um dos meus clientes, que  primo do
visconde, e dentro em pouco lhe mandarei dizer como elle est.

s tres horas da tarde Laura recebeu o seguinte bilhete:


Fui a casa do nosso homem. Est no mais invejavel estado phisico. O
moral ne me diz respeito.

                                                     _Despujolles._


Entretanto Antonino, cumprindo a promessa feita  cantora na noite do
incendio, fra no dia seguinte saber como estava Laura.

Contentra-se apenas com perguntar  porteira como estava Linda, sem
dizer nem deixar o nome.

Nos dois dias seguintes procedeu de forma identica.

Ao quarto, como os visitantes rareassem, a porteira respondeu  pergunta
d'Antonino:

--A senhora vae melhorando, mas no poder receber ninguem antes de dois
ou tres dias.

E advertida por Jacintha, segundo instruces de Laura, accrescentou:

--O sr. quer ter a bondade de me dizer o seu nome?

Antonino respondeu em tom breve.

--Visconde de Bizeux.

--N'esse caso, disse a porteira, o sr. visconde pode subir. Tinha ordem,
desde o primeiro dia, de dizer a vossa ex. que a senhora o recebe...
mas s ao sr. visconde.

Antonino interdicto, respondeu:

--Bem... mas hoje  impossivel... Tenho uma entrevista marcada... e j 
tarde... Transmitta  senhora os meus agradecimentos e os meus
respeitos... Eu voltarei.

E sahiu como se fugisse.

Alguns momentos depois Jacintha participava a Laura o que se passara.

--Singular indifferena essa! disse a cantora.

O que o corao d'Antonino sentia era justamente o contrario da
indifferena que Laura lhe suppunha.

Tanto de dia como de noite o visconde s pensava em Laura.

Tornar a vel-a era o seu mais ardente, o seu unico desejo.

Mas desejava tanto isso, que tremia.

Era como um barril repleto de polvora temendo uma faisca.

E no voltou  rua de Bolonha.

Quando Laura pz Despujolles ao corrente da situao, e medico disse:

--Oh! oh! o caso  mais grave do que eu julgava. Como  que um valente,
que a arrancou s chammas do incendio, treme diante da minha amiga?
Afinal, o caso comprehende-se. Elle percebe que o perigo, agora,
augmentou de intensidade. O infeliz est em um estado verdadeiramente
inquietante.

--No mangue, dr., respondeu Laura que pensava justamente como o medico,
mas que entendeu conveniente no annuir ao que Despujolles dizia. Mas
emfim, eu no o tornarei a ver?

--Seria o melhor para ambos.

--Est enganado, doutor. Mesmo quando a sua observao fosse justa, 
necessario tornar a vel-o, para que o possa curar. O doutor trata dos
seus doentes a distancia? No. O mesmo succede commigo. E como sabe, eu
tenho curas que me honram.

--Quer que a ajude a procurar o seu paciente? Seja! Tornarei a ser
generoso. Forcemol-o a sahir do covil. Escreva-lhe manh ao meio dia um
bilhete. Uma hora depois estarei aqui com a fera.

No dia seguinte, ao meio dia preciso, o visconde, perturbado, lia, n'um
carto de Laura, as seguintes linhas, escriptas pela cantora em
seguida ao nome:


Permitte-se lembrar ao sr. de Bizeux que elle deve visita  que lhe
deve a vida.


Um quarto de hora depois uma carruagem conduzia-o  gare d'Oeste.

Comprou bilhete para Saint-Malo e subiu para o comboio prestes a partir.

Quando Despujolles, ao meio dia e meia hora, chegou a casa d'Antonino,
disseram-lhe que o visconde tinha partido pouco antes, tendo deixado
dito que ia ver o pae.

O doutor dirigiu-se immediatamente para casa de Laura, a quem participou
o caso, ajuntando:

--Decididamente a doena torna-se alarmante! O visconde est apaixonado
at  indelicadeza!

Como no podia prever a visita de Despujolles que lhe dennunciaria a
fuga, Antonino julgou-se ao abrigo de censura enviando, no dia seguinte,
a Laura, este telegramma:


Recebi, minha senhora, o seu gracioso convite em Saint-Malo, onde fui
subitamente chamado por meu pae, um pouco doente. manh volto a
Paris, terei ento a honra de lhe apresentar os meus respeitos.


Sahira de Paris para metter cem leguas entre elle e a Linda, mas, ao
contrario do que esperava, a distancia fazia com que se lembrasse ainda
mais da cantora.

Aquelle acto de energia apenas serviu para demonstrar a sua irremediavel
fraqueza.

Em Paris estava perto de Laura; fugia de a ver, mas tinha noticias
d'ella, e quando quizesse podia procural-a.

Considerou uma loucura o ter supposto que a ausencia o curava, porque
nunca soffrera tanto.

Chegou desgostoso a Saint-Malo, achou soturna a velha casa da familia,
onde vivia o pae e uma irm mais velha, solteira ainda.

Tres dias depois, canado de soffrer em silencio, Antonino resolveu-se a
tudo confessar a seu pae.

O confidente foi bem escolhido e bem exposta a confidencia.

Em novo, o pae d'Antonino passara por um desgosto semelhante.

Amra uma menina encantadora, por quem era amado tambem, mas que tinha o
defeito de ser pobre e plebea.

O conde de Bizeux, av de Antonino, era um velho rigido, intractavel
em questes de nobreza e importancia patrimonial.

No se contentou, d'accordo com o pae da donzella, com destruir aquelle
amor; obrigou o filho a casar com uma prima, de belleza duvidosa, mas de
fortuna avultada.

Aquelle enlace de conveniencia no podia fazer felizes os esposos.

Ella era feia e altiva, entregue sempre a praticas devotas; elle,
tristemente resignado, deixava-se absorver pelas recordaes.

A filha mais velha parecia-se com a me, mais feia, mais orgulhosa, mais
devota ainda.

Recusra sempre casar-se, no querendo entregar-se a qualquer homem, que
apenas a tomaria pelo dote, o seu unico merito.

Depois d'enviuvar, o conde de Bizeux no tinha outra consolao alm do
amor por Antonino.

Essa grande estima que tinha pelo filho no impediu que se separasse
d'elle emquanto o visconde viajou, e que no quizesse acompanhal-o a Paris.

Quiz ficar na sua Bretanha, vivendo melancholicamente das recordaes do
passado.

A excessiva severidade dos paes produz muitas vezes nos filhos, paes por
sua vez tambem, a excessiva indulgencia.

Foi por essa razo que o conde de Bizeux recebeu a confidencia
d'Antonino com a simpathia terna d'um irmo.

O soffrimento do visconde diminuiu desde que teve com quem fallar de Laura.

Entretanto continuava triste e visivelmente inquieto.

Como percebia o estado em que o filho estava, o conde, ao fim d'uma
semana, chamou-o e disse-lhe:

--Tu soffres Antonino. Deixa-me dar-te um conselho: volta para Paris.
Parece-me que te falta um pouco de coragem e de dignidade. Amas uma
mulher que no te conhece e que s te viu quanto a salvaste. No pode
ter-te amor,  certo; mas quem te diz que, conhecendo-te melhor, no
vir a amar-te? Pelo que sabes d'ella, a Linda s pensa em arte, no
amou nunca, no amar talvez. Mas approxima-te, no como uma creana que
teme, mas como um homem que no recua nem ante uma decepo, nem ante um
grande desgosto. Quem sabe se, quando a conheceres bem, no achars que
Laura no corresponde ao teu sonho!

Antonio abraou o pae com effuso, agradecendo-lhe reconhecido aquelle
conselho viril, e partiu de Saint-Malo quasi to precipitadamente como
deixra Paris.

Ao partir telegraphou a Despujolles, dizendo-lhe que o procuraria no
dia seguinte, e pedindo-lhe para o acompanhar a casa de Laura.

Pelas duas horas da tarde do outro dia entraram ambos no salo da
cantora, prevenida antecipadamente pelo medico.

--Trago-lhe emfim o selvagem! disse o dr. ao entrar.

Laura estendeu a mo a Antonino, dizendo-lhe com a mais graciosa
simplicidade:

--Agradeo-lhe o ter vindo. Detesta a sociedade?... Tem raso. Mas eu
no perteno a essa sociedade, sou apenas uma mulher. Ver que sou
excellente camarada, muito sincera, que gosto muito d'alguns amigos, e
que me sentirei verdadeiramente feliz se o homem que me salvou a vida
quizer pertencer ao numero restricto d'esses amigos.

Em seguida fallou, a Antonino do proprio Antonino, como se fallasse
d'elle ao dr. Despujolles.

Lembrou-se, rindo, da noite em que o olhra da scena, com o que elle
indicra incommodar-se.

--E era justo que assim fosse, accrescentou ella, porque ns, ante o
publico, nem por um momento nos devemos esquecer do personagem que
representamos.

Fallando-lhe assim poz  vontade Antonino, que ao principio estava meio
compromettido.

Fallaram de musica, de theatro.

Ella disse-lhe que provavelmente ia para o theatro Italiano, visto
Pozzoli lhe ter proposto um bom contracto.

Confessou que no tinha a menor estima ou sympathia por aquelle
emprezario, mas como gostava de Paris, queria demorar-se na grande cidade.

De resto, no podia passar sem cantar,--por causa da sua bolsa e por
causa do seu espirito.

Cantar era para ella metade da vida.

--A proposito: Pozzoli, para celebrar o meu completo restabelecimento e
a minha entrada para os Italianos, offerece-me, na tera feira proxima,
uma especie de festa em S. Germano: almoo ajantarado na relva, passeio
aos Loges, etc. Devo-lhe enviar manh a lista dos meus convidados. Na
cabea do rol inscrevi o seu nome, sr. de Bizeux.... Oh! no recuse,
porque  caso para dizer: no haveria festa sem o sr.

Antonino fez um gesto d'assentimento.

Ficou combinado que iriam juntos a S. Germano, Despujolles e elle.

--Que adoravel mulher e que encantadora creana! Dizia o medico ao
visconde, descendo as escadas da casa de Linda. Ver: com ella comea a
gente por estar apaixonado, e acaba por se sentir feliz de ficar amigo.

--Assim ser! respondeu Antonino.

A verdade  que elle sentia-se cada vez mais apaixonado, e pensava com
desespero que Laura no o amava, que no o amaria jamais.




VI

A festa


No dia fixado, um _mail-coach_, em que tinham tomado logar Antonino,
Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote
largo de quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.

Era a primeira tera feira de setembro.

Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob
as agudas pontas das settas gothicas.

As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.

Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda
quella hora.

Os guisos de bronze reteniam ao pescoo dos cavallos n'uma alegria matinal.

E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como
estrellas movedias, os castanheiros espessos formavam massios largos,
ao fundo de _callidimos_ entrelaados em ramos monstros sobre a relva
dos canteiros.

Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigao
articulados.

Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre
as bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.

O _mail-coach_ que conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os
convidados de Pozzoli, chegou ao pavilho Henrique IV ao mesmo tempo que
o _coup_ de Linda.

Laura vestia uma elegante _toilette_ de seda da India, cinzenta.

O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de l e ornado de laos
granade.

A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna
fina de parisiense ou de hespanhola.

Estava encantadora assim.

Apertou a mo a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem
apresentou a Pozzoli, o amphytryo.

O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mos largas, dedos
massios, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos,
nariz recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos,
libidiminosos.

 primeira vista representava o typo completo da fora bruta e dos
appetites sensuaes.

Melhor examinado, porm, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.

Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor
Lauretto Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando
pronunciava uma d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que
habitualmente se rodeava achavam deliciosas, soltava gargalhadas
imprevistas casquinhando mechanicamente, para mostrar dentes
magnificos... mas postios.

D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nas _soires_ apparecia
sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por
uma pincelada negra.

Tal era Pozzoli.

O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem no
sympathisou com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras
pretenciosas faziam um absoluto contraste com os modos viris e simples
do gentilhomem breto.

Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentaes, os
excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um
carro do pavilho Henrique IV, que transportava o almoo.

--No vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra de
que no faltaria.

--Elle vir, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar,
porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.

Os _mails-coachs_, os _landaus_ e os _coups_ embrenharam-se sob as
abobadas verdejantes, n'um turbilho d'alegria ruidosa.

Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das
rodas tinham brilhos vivos e vibraes agudas.

Falseamentos rutilavam nas nuvens de p, com um bulicio de ruidos
multiplos: a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda
gemendo na depresso do terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no
ar perfumado de verdura humida, o estalo d'um pingalim assustando as
aves aterrorisadas, e por vezes, cortando os intervallos de silencio, o
relincho satisfeito d'um cavallo.

--Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.

--Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.

As carruagens pararam.

--Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola do _coup_.

--Eis a sala de jantar, a senhora est servida! annunciou Lauretto por
de traz do medico.

Sem esperar que lhe dessem a mo, Laura saltou com ligeiresa.

Pozzoli offereceu-lhe o brao.

--Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, sem
cerimonias.

Em um minuto chegaram  verde clareira em que o almoo estava servido,
sobre uma elevao arrelvada.

Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de
escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas de _foie gras_, doze
lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil,
passas de Malaga em caixas.

Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores,
alinhavam-se vinte quatro garrafas de _Bordeus_, e em torno d'um
carvalho secular, entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta
garrafas de _moscatel_, de _Madeira_ e de _Champagne_, de gargalos
prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.

Massios de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas
enfeixadas; extremidades de plantas queimadas pela geada balouavam-se
levemente, e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante
por entre uns fetos proximos.

Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco.

Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.

Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar  direita e 
esquerda da cantora.

Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os
restantes convivas.

Eram uns quarenta ao todo.

O almoo foi pouco ruidoso ao principio.

O appetite  sempre silencioso.

Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.

A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no
liquido do copo.

 sobremesa a conversao rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo
tenir dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confuso das vozes,
misturadas com o _pizzicato_ dos garfos, um melro, pousado n'uma arvore
proxima, rythmava as suas cadencias aflautadas.

Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.

De repente levantou-se, tendo na mo uma taa de _Champagne_, e disse
com voz entaramelada:

--Bebo  saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!

Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.

Mas todos levantaram as taas, repetindo:

-- saude de Laura Linda!

N'esse momento, na alla que seguia ao lado d'aquella meza verdejante,
apparecia uma duzia de officiaes d'_hussards_, trotando nos seus cavallos.

Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir
o andamento dos animaes.

Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois
caminhou para os officiaes e disse-lhes:

--Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos
a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?

--Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.

E puzeram em linha os cavallos arabes.

Foram as damas que serviram o _Champagne_.

Beberam pela Frana e pelos francezes.

Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram
as senhoras e partiram a galope.

A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na
profundeza do bosque.

Deixaram as carruagens e as louas  guarda dos creados, e partiram a p
para a feira das Loges.

Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.

Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se,
naturalmente, grupos e pares.

Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em
falso, e, como por acaso tambem, tomou o brao do visconde, appoiando-se
a elle ligeiramente, com uma graa encantadora.

Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas
vulgares que lhes pareciam to interessantes como se nunca as tivessem
visto.

Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.

Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho
ensurdecedor.

Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos
domingueiros, pares mais ou menos apaixonados, creanas saltando na
alegria da plena liberdade.

Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.

Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, de
_clowns_ esganiando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes
porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.

Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus
companheiros.

Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanas, os
objectos n'ellas expostos.

Laura achou immensa graa  atabalhoada arenga berrada  porta d'uma
barraca de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada,
cabellos crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim no perdera o
tom accentuadamente marselhez.

O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.

-- entrar, meus senhores,  entrar, dizia elle. Por dois _sous_ podem
admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. S homens podem
entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de
inveja! No quero dizer com isto que as senhoras presentes no sejam
novas e formosas, no! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das
ausentes, poderia dar a seu marido uma sensao semelhante  que esta
produz em todos os homens que lhe tocam!...  entrar, meus senhores, 
entrar! No encontraro outra occasio, como esta, para admirar uma
belleza sem rival! Tem pernas de Diana, braos de Venus... Parece a
esposa de Jupiter! No ha uma s princeza que a no inveje!...  um ovo
por um real, contemplar uma maravilha d'esta ordem apenas por dez
centimos!...  entrar, meus senhores,  entrar!...

Proximo, um colosso, de braos musculosos e ns, abronzeados, ao lado
d'uma preta robusta, provocava  lucta os amadores mais valentes.

Um realejo moia a _Valsa das Rosas_, e ao lado, n'uma barraca de
balouos, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre
gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouos, olhando
para os amantes, que as contemplavam satisfeitos.

Um pouco mais longe via-se um _carrousel_ de cavallos de pau, enfeitado
d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.

Creanas, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes
por fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a atteno
embasbacada dos passeiantes.

De toda aquella multido desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem
sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um
cornetim.

No ar passavam odores acres de frituras ranosas, salchichas que ferviam
em gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que
bebiam pelo cangiro, caf intoleravel feito do cosimento das borras e
de tintura de chicoria.

As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.

Muitos, como no tinham onde sentar-se, comiam de p, ao sol, com o mais
invejavel appetite.

A alegria franceza resaltava de toda aquella multido franca, ruidosa,
divertida.

Sentiam-se felizes por aquella excitao ardente, pelos movimentos
desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas,
pelas nuvens de p amarellento, que se elevava at ao cimo das arvores
frondosas, em virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.

Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funces de
pregoeiro, attrahiu a atteno de todos com o toque preliminar do seu
tambor.

Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam
parte grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e
leu esta especie de proclamao:

O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece um
_punch_ aos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o
almoo d'esta manh, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que
no tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!

Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no tronco d'uma
arvore e depz tranquillamente no cho o tambor, onde um palhao o foi
buscar.

Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multido.

O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante.

Os donos d'algumas barracas accenderam os lampees.

A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos
seus companheiros, voltaram ss para o local onde estavam as carruagens,
na meia luz crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.

O silencio augmentava  medida que avanavam.

Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multido.

A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo
contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.

A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as
folhas humidas das arvores.

Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na
clareira onde os esperavam as carruagens.

Ao centro do terreno arrelvado onde fra servido o almoo,
elevava-se uma enorme taa de prata cinzelada, em que chammejava um
_punch_ magistral!

Os reflexos do _punch_ lanavam, n'um largo raio, vibraes de luz azulada.

Remissy no apparecia.

-- necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde
estar elle?

No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa,
uma _phrase_ de violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado.

O violino de Remissy respondia  voz de Laura.

E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos,
uma dana extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse
acompanhamento de _pizzicato_ em surdina, a _phrase_ triste repetia-se
como um queixume atravez a noite!

Foi extraordinario, simples, idealmente puro!

Quando a ultima vibrao melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou
na clareira.

Remissy appareceu por entre o claro do _punch_, cabea ao vento,
ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o
seu magnifico _stradivarius_ debaixo do brao esquerdo.

--Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minha _Queen Mab_?
disse elle dirigindo-se  cantora. Tenho dedos, no  verdade?

--Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada. Mas isso no
impede que seja um homem sem palavra. Prometteu vir almoar comnosco e
no appareceu.

--No me falles em coisas tristes, minha filha!

Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu
novamente importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra
hoje mesmo, no expresso da noite. Antes de partir, porm, quiz que
ouvisses a minha melodiasita.

Creados de casaca serviam o _punch_ em copos de crystal.

Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.

Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.

Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta
que o trouxera.

Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:

--Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: depois
do campo, a cidade; o almoo campestre d'hoje teve por fim celebrar a
promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda;
quero dar uma _soire_ em honra da realisao d'essa escriptura. Peo,
pois, a todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze
dias, passar a noite em minha casa, na rua Pigolle. Cantar-se-ha,
dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!

Uma triple acclamao victoriou o discurso do amphitryo.

Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.

--Onde est o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que
fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meu _coup_.

--No faa tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante
a festa no se fallou seno na especie de monopolio que o visconde tinha
feito da diva.

--Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe d'ella.

--Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o
visconde para o _coup_. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde
seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: no parta s com o visconde.
Lembre-se do que podero dizer.

Laura levantou a cabea com altivez e replicou:

--O que podero dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece a
minha divisa: ser e no parecer. Repito-lhe que tenho de conversar
seriamente com o sr. de Bizeux, e no sei se, com a timidez de que elle
 dotado, acharei occasio to propicia como esta. Suppor o dr. que
ha na minha inteno qualquer pensamento menos digno?

--Eu? no, seguramente, mas.

--Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz.
Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem
e acompanhar-me at Paris?

--Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio alegre.

--Ento venha. Subiram para o _coup_ diante de todos.

--Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por frma que foi ouvido
por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboar-se o numero um...
porque eu quero ser o numero dois!




VII

Explicaes


A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos
indiferentes, e quasi banaes.

Fallaram do almoo e dos convidados de Pozzoli.

O visconde no queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.

Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodra por vezes, mas cujo
enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.

--Que corao to bondoso o d'elle! disse Laura.  meu verdadeiro amigo!
Meu pae dedicava-lhe grande affeio e profunda estima. Saber quanto
vale em o conhecendo melhor. Em Remissy no ha s a admirar e a
applaudir o artista consumado:  tambem um valente e um patriota
sincero. Durante a guerra da insurreio da Hungria, elle foi um dos
primeiros que se apresentou, e no quiz nem espingarda nem sabre. Tenho
horror de matar ou de ferir, disse Remissy; de resto, como no sei
servir-me d'essas armas, era capaz de dar cabo de mim com ellas. Em
compensao no largou o violino, e appareceu sempre onde mais accesa
era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando admiravelmente o _Hymno de
Rakoki_, por entre as ballas e a metralha, sem nunca falhar uma nota!

Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:

--N'uma palavra: Remissy  um homem. Tem, superior a todas, a qualidade
que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que
o sr. visconde possue: a lealdade.

-- virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a
conhece, minha senhora, affiana que no lhe falta.

--Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto esforo-me
o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das
vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade.  precisamente por
essa razo que lhe desejei fallar hoje.

--Porque? perguntou Antonino surprehendido.

--N'este dia, em que o vi quasi pela primeira vez, occupei-me, sem
querer, e como por instincto, quasi exclusivamente do senhor, como o
senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. Ha bocado, de subito, em
quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha sido um pouco
leviana, que o sr. visconde no conhece a minha frma de proceder,
talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se
passou. Portanto, disse commigo:  indespensavel que eu tenha com elle
uma explicao cabal, franca, em que lhe falle com o corao nas mos...

--No sei se deva regosijar-me por essa sua resoluo, disse Antonino
com voz tremula. Sinto que estou enfeitiado e desejava conservar-me assim.

--Mas eu no desejo que entre ns haja a menor sombra, a menor razo que
de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam
a declarao dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez
que eu fujo s conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me  sua
declarao, mas  necessario, primeiro que tudo, que o sr. no soffra.
Sr. de Bizeux, tenho pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio.
No dou importancia ao que se diz, ao que se suppe, ou ao que se
inventou, mas senti, de longe, nas suas aces, no seu silencio, na sua
fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas suas mais insignificantes
palavras, no seu aspecto, no seu metal de voz, senti... que o senhor
no estava longe de amar-me.

O visconde fez um movimento, e quiz fallar.

Mas Laura no lhe deu tempo, e continuou:

--Peo-lhe que me no declare ser isso um facto consumado... No, no
quero ouvir-lhe dizer: amo-a!

--Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora no me ama, o que 
natural, e--o que  triste,--no quer amar-me!

--No o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.

Antonino fez um gesto de desgosto.

Laura ajuntou suavemente:

--No se zangue commigo, e sobretudo no soffra. Sem duvida lhe disseram
o que tinha sido a minha vida at aqui, mas vista e julgada por
estranhos. Oua-me agora.

E seguidamente contou-lhe a educao que recebera, as suas primeiras
impresses, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o
pae transmittira-lhe o culto pela arte, a me guiara-a por forma a ter
sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura.

Depois a cantora disse, pensativa:

--Portanto no me accuse, como teem feito varios, de frieza, de
sequido. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expanso, aos quaes no
basta a sincera affeio que tenho aos meus amigos. Creio que s o
amor pode encher completamente o corao. Olhe, para se consolar um
pouco, vou dar-lhe uma prova de confiana absoluta, dizendo-lhe o que s
se diz a um irmo: ha em mim, em gru bastante elevado, um sentimento
que herdei de minha me, a mais estremosa das mes: o sentimento
maternal. Todas as creanas que vejo, produzem-me uma impresso
inexplicavel, tenho por ellas uma adorao completa: adoro-lhes os
gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma
creana que fosse meu filho,  para mim um sonho delicioso; ter um filho
do homem que amasse,  outro sonho que considero impossivel de realisar-se!

--Porque?

--Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou,
garanto-lhe, uma mulher seria. No quereria, no poderia amar um homem
que no fosse meu marido.

Houve um silencio.

Antonino cortou-o dizendo com voz grave:

--Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas
aces, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou
daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue
alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites.
No me amar ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me,  possivel
que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda,
consentir em ser minha mulher!

--Sua mulher!... disse a cantora admirada.

Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:

--Ah! como lhe agradeo a grande prova d'estima que acaba de dar-me!
Como as suas palavras me commovem! Ser por me ter salvo a vida? No
sei, mas o que  certo,--e j ha bocado lh'o disse,-- que fui attrahida
para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o no amo ainda,
parece-me que no necessitaria fazer grande esforo para o conseguir.
Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: no quero
amal-o!

--Mas porque?

--Porque o sr. visconde no pde nem deve casar commigo.

--E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poder
separar-nos?

--Um obstaculo insupperavel.  impossivel que o sr. visconde Antonino de
Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, no
renunciar  scena.

-- impossivel, disse?

--Disse e repito:  impossivel! No devemos deixar-nos obcecar por uma
excitao de momento. Quando se prende o destino inteiro, deve-se
ter em vista no a alegria do instante presente, mas a felicidade de
todo o futuro: Com as aspiraes honestas que minha me me legou, eu
tenho as aspiraes d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se
fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da
alta sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento  a minha voz, e
para que esse talento se produza  necessario um publico, no o publico
indulgente dos sales, mas o grande publico, a multido que enche um
theatro.

--E suppe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia no
substituiro vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?

--Durante algum tempo... sim...  possivel,  at provavel. Mas estou
certa de que depois chegar o aborrecimento, a nostalgia do proscenio.
Na ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao
comear o inverno. A doena era ligeira e qualquer outra que no fosse
eu estaria completamente curada com um mez de tratamento e de socego.
Mas a impaciencia, o desgosto e a febre devoravam-me, por frma que
estive de cama tres mezes. Pereceria longe do theatro, como uma planta a
que no chegam os raios do sol. Ah! se o senhor fosse um artista como
eu, pobre, desconhecido at! Mas possue um honrado titulo e uma grande
fortuna. Seu pae por mais condescente que seja, no acceitaria para
nora uma comediante, uma cantora, uma mulher que pde ser pateada e
assobiada! Se o senhor quizesse contrariar a vontade de seu pae,
desprezando os deveres que lhe impem o seu nome e a sua posio social,
seria eu a primeira--ouve?--que recusaria semelhante sacrificio.

--Sacrificio, se vier a amar-me, ser a senhora quem o far um dia.

-- possivel, e por isso mesmo  que eu no quero amal-o.

--Mas eu que a amo, o que hei de fazer?

--Tornar-se meu amigo. No diga que no; no supponha que  impossivel
d'operar a transformao do amor em amisade. Ver que hei de auxilial-o
fraternalmente.  necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa
de que no lhe faltaro essas duas qualidades.

--Est-me fallando como me fallaria meu pae!

--Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de
caracter fraco, eu diria: parta, faa uma longa viagem, e volte d'aqui a
alguns mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em
Paris, v ver-me quantas vezes desejar, e estar curado dentro em poucas
semanas.

--Seja! respondeu o visconde. No partirei, tentarei a prova. Veremos o
que resulta d'ella.

Quando o _coup_ parou na rua de Bolonha,  porta da casa de Laura,
Antonino despediu-se da cantora sem commoo apparente. Beijou-lhe a mo
e trocaram amigavelmente um:

--At manh.

O visconde desceu a p a rua de Glichy e a calada d'Antin at aos
_boulevards_.

Sentia uma especie de consolao ao ver-se perdido entre a multido.

Caminhou at que os passeiantes rarearam.

S depois disso entrou em casa, com o corao cheio d'incerteza e
d'angustia.




VIII

Mais perplexidades


Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resoluo que tomra.

No dia seguinte ao do almoo em S. Germano, e nos dez ou doze que se
seguiram, foi a casa da cantora, no a hora certa, e com demora
indeterminada, mas sem deixar de apparecer um unico dia.

Umas vezes encontrava Laura s, outras apparecia o dr. Despujolles,
sempre alegre, sempre espirituoso.

O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.

Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.

A Linda, por vezes, quando estavam ss, fallava d'ella propria, com
simplicidade, sem a menor affectao, sem se contrafazer, sem se macular.

Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das
suas luctas, dos seus successos, das suas dres.

Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais
insignificantes minucias da vida de Laura.

A cantora no dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas no os
exagerava.

No dia em que participou a Antonino que assignra, de manh, com
Pozzoli, uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a
multa de cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes,
que resolvesse rescindir o contracto, o visconde teve uma contraco
nervosa.

Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira.

Antonino no demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente
dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda m vontade contra o
Theatro Italiano, contra Pozzoli e o _elenco_, que considerou muito
inferior ao do antigo salo Favart.

Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma
companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.

Lauretto Mina e Pozzoli!

Um, brigo e libertino; o outro, libertino e rufio!

Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!

Na opinio d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos
italianos.

N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para
assistir  _soire_ que o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na
sua casa da rua Pigolle.

Laura tencionava ir?

Emquanto a elle, estava resolvido a no pr os ps n'aquelle bordel.

Perguntou  cantora se no sabia o que diziam de Pozzoli.

--No  um italiano...  um grego!

Laura respondeu com meiguice.

Estava resolvida a ter com Pozzoli as relaes indispensaveis que sempre
ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.

Entretanto no podia deixar d'ir  _soire_, que era dada em sua honra,
e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.

Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pr de parte a
repugnancia que sentia, e assistisse  _soire_ tambem.

Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.

--Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura,
rindo; sou jogadora. No sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O
jogo produz-me emoes to extraordinarias, que as procuro e as adoro.
No deixe d'ir, para que me contenha e afaste at, se eu, como costumo,
me deixar influenciar demais.

--A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, no  para a minha
amiga que a minha atteno deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.

--Bem sei. Diz-se que  muito feliz ao jogo, que principalmente os seus
escripturados no devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem
ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi
coisa alguma justificativa d'essa triste reputao de Pozzoli. Apenas
uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta
_luizes_. Mas no importa; se  verdade o que se diz, isso  mais uma
razo para no deixar d'ir  _soire_. Vae?

--Irei.

A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o
papel de seu protector e conselheiro.

Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse,
confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.

Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle tinha feito,
pedia-lhe a opinio sobre as coisas e sobre os homens, escutando-o
sempre com approvao e deferencia, como um irmo mais novo escuta o
irmo mais velho.

Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou
entrever a menor parcella de galanteio ou de vaidade.

A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para s ficar a amiga.

Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa
modestia, ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o
caracter d'Antonino, em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais
da mulher que faz d'elle confidente da sua alma ingenua e sincera.

E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.

Nem j conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixo.

Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que
experimentava.

Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os
inseparaveis da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.

Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos
antes de ter relaes fraternaes com a cantora.

Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura,
tranquillisou-se. A Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma
serenidade que no deixou no espirito do visconde a menor sombra de
suspeita.

Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que no via: o
tenor Lauretto Mina.

Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a crte a Laura, e nem uma s
vez a Linda pronuncira o nome de Lauretto.

Porque?

A verdade era que Laura temia o tenor, no por ella, mas por Antonino.

Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas
impertinencias, dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas
varias narraes que lhe tinham feito da pericia com que Lauretto jogava
o sabre.

Como j dissemos, o tenor fra ajudante d'um professor d'esgrima em Milo.

Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos.

Na Italia matra um homem, e ferira gravemente um outro.

Alm d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fra do
combate.

E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer
acontecimento grave.

Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia
surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem
breto.

Era essa a razo que a levava a no fallar do tenor ao visconde.

Comtudo um dia Antonino interrogou-a.

--Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, no
lhe fez a crte em tempo?

A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a
crte a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira
galanteios, ella respondera-lhe de frma que elle no se atrevera a
continuar.

Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.

De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, to
desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante,
suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.

Portanto deixou de ter ciumes.

Mas em compensao o amor augmentou.




IX

A confisso


Um dia,--na vespera da _soire_ dada por Pozzoli,--Antonino foi a casa
de Laura  hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.

A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canes populares
hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graa e perfeio
inexcediveis.

Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.

Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.

Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.

Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.

Vendo, porm que o visconde no lhe respondia, disse-lhe:

--Est hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma m
noticia? Estar doente seu pae?

--Effectivamente recebi hoje de manh uma carta de meu pae, que,
felizmente, est bom, assim como minha irm. A carta s fallava de mim,
e em resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe
disse, meu pae  o meu confidente e o meu melhor amigo.

--Se no  por elle,  pelo sr. que est triste? Teve algum desgosto?
Diga! Como sabe combinmos que eu seria tambem sua amiga.

--Combinamos,  verdade... respondeu Antonino em tom pungente.

--Ento faa-me confidente dos seus desgostos; j confessou que estava
triste...

--Estou...

--E qual  a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...

--Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao compromisso
que tomei com a senhora. Mas  o mesmo, fallarei... Perde-me e escute-me.

--Acautelle-se, disse a cantora inquieta. No venha turvar a profunda
satisfao que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas
semanas que o conheo, e parece-me que estamos relacionados ha mais de
dez annos. Acautelle-se... acautelle-se. De certo no me quer
entristecer tambem, e ainda menos offender-me.

--No a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas no combinmos
tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada
dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a
mais absoluta confiana? Pois bem: vou ler no meu corao, vou
indicar-lhe tudo o que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois
continuou:

--Pediu-me, Laura, que no fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa
vontade e de boa f, satisfazer o seu pedido, mas no o consegui. Quanto
mais vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admirao pela
senhora, e com a admirao e a estima, o amor. No posso resistir-lhe,
no posso luctar por mais tempo, no posso conter-me!  indispensavel
que lhe diga bem alto: amo-a, Laura, amo-a!...

Ella soluou.

--Escute-me... ainda no acabei. Se a phrase que me prohibiu de
pronunciar saltou dos meus labios, no foi com a inteno de a affligir
ou de lhe desobedecer. No me esqueci d'uma s das palavras que trocamos
 volta de S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faa a
seguinta pergunta; se casasse com um homem que a amasse e cuja
posio e fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia
completamente impossivel renunciar  scena para sempre?

--J lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro  para mim como uma
segunda vida, e que no devo nem quero renunciar a elle.

--Pois bem, Laura, eu  que no posso renunciar  sua mo. Talvez
soffresse menos no respirando do que deixando de a ver. A senhora 
para mim mais do que uma segunda vida, porque  a minha vida inteira!
No quer ceder ao meu pedido? Cederei eu ao seu.

E accrescentou com voz firme:

--Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, ser minha mulher!

Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.

-- possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar no
theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...

Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria no
comprehendia a significao.

Elle ajoelhou-lhe aos ps e disse:

--Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja minha!...

Laura pz-lhe uma das mos na frontes e respondeu:

--No, meu amigo,  muito! No devo consentir em tanta generosidade...
no quero acceitar um to grande sacrificio... no quero!...

N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua quella
em que estavam Antonino e Laura.

Era a voz de Lauretto Mina.




X

O supplicio do silencio


O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.

Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem
a expansiva Jacintha chamava bonitos.

--Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro
nunca incommoda!

E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.

A Linda empallideceu.

O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.

Lauretto fingiu no ter visto Antonino ajoelhado.

Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mo, que ella no lhe estendera.

--Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de
o cumprimentar... Esta Jacintha a no me querer deixar entrar!...
Ns s a estranhos no permittimos a entrada nos nossos camarins, mas,
que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada franca!

Laura, interdicta, no achou uma s palavra que responder.

Elle no se incommodou por no obter resposta, e continuou:

--Com que ento cantamos manh juntos, na _soire_ de Pozzoli, o dueto
da _Lucia_!  por essa razo que venho a tua casa. Se queres, vamos
ensaiar-nos, minha querida.

Antonino estava irritadissimo.

Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!

Chamava-lhe _minha querida_, como se estivesse fallando com a creada de
quarto!

Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.

Ella de certo ia zangar-se, mandaria pr fra o atrevido... ou, pelo
menos, com uma s palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse,
dando uma lio ao insolente.

Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do
visconde.

Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?

Do conflicto resultaria um duello talvez...

Aquelle miseravel mataria Antonino.

Por isso, com um sorriso forado, balbuciou apenas:

--Ensaiar o dueto?... No,  inutil... Agradeo-lhe ter-se incommodado...

--Como queiras, _cara mia_, replicou o tenor.

E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.

Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo
alegrava-se com ferocidade.

Via no rosto de Laura pintada a consternao e a angustia, e nas feies
do visconde a indignao e o furor.

Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.

De resto, que podiam elles fazer ou dizer?

Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao
silencio.

Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma
palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida,
o visconde tinha o direito e o dever de intervir.

E o que se seguiria?

Uma altercao, de que resultaria um desafio, com todas as suas
perigosas consequencias.

Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella
e levantasse qualquer termo insolente de Lauretto, faltaria s mais
rudimentares praxes da boa educao, comprometteria a cantora, porque se
daria ares de mandar mais que a dona da casa.

O tenor, divertindo-se com a situao embaraosa do visconde e da
cantora, continuou fallando a Laura com toda a liberdade.

E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.

Antonino sabia o italiano quasi to bem como o francez, mas podia
desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversao.

--No necessitas ensaiar o dueto, _cara_? Eu, desde que o cante comtigo,
estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. No o canto com tanta
correco com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se
canta, a emoo communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro
successo! Ah! _cara mia_, que alegria sinto por cantar de novo a teu
lado! O meu pobre talento  como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me
que a escriptura j estava assignada.  verdade? Duvido sempre das
affirmaes d'aquelle demonio.

-- verdade, respondeu Laura em francez.

O tenor,  claro, fingiu no comprehender a indirecta advertencia, e
continuou na sua lingua:

--Ah! Pozzoli d'esta vez no mentiu?!.... Bravo! bravissimo! Se
elle necessitar de metade dos meus ordenados para augmentar os teus, da
melhor vontade os cedo. Vamos manh dar aos parisienses o ante-gosto do
nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo por teres annuido a ir 
_soire_ do nosso emprezario. Verdade seja que no podias proceder
d'outra frma.

--Effectivamente era difficil recusar.

--Era at impossivel. Entretanto dizia commigo: a _casta diva_ no
acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que ns conhecemos,
evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle no pode deixar de ser o que
na realidade . Ah! Ah! em Paris augmentou at os conhecidos
desregramentos, aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me
importo com isso. Mas digo mal:  justamente por ser homem que mais
sinto as loucuras de Pozzoli. Como est todos os dias a mudar de
sultanas,--aquelle sulto!--o pobre tenor  forado a ser,
successivamente, agradavel a cada uma das favoritas. No me falta que
fazer. A que reina agora  a Elvira gorda. Conheces?

--No, respondeu Laura com firmeza.

--Agora me recordo que ella no foi a S. Germano. No gosta d'apparecer
de dia. Mas socega, que elle manh no deixa de apresentar-t'a. Tem uma
prenda ba, a Elvira; no  cantora, e por isso no me incommoda
com pedidos para que cante com ella.  bailarina; dirige o corpo de
baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que manh
dansaro na _soire_ um bailado a caracter. No te assustes, _casta
diva_, porque em publico apparecero pouco apimentadas. Haver outros
divertimentos; jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, no 
verdade? Na questo do jogo estou convencido, caso extraordinario, que
calumniam Pozzoli. Dir-me-has que eu jogo sempre a favor d'elle, mas
isso explica-se: Pozzoli tem sorte como poucos. E sabes porque? Fiz esta
descoberta, apesar de no lhe faltarem sultanas, como te disse: Pozzoli
 infeliz nos amores. manh no foges  tentao: depois de cantarmos
decerto jogars algumas _mos_ de _baccara_.

--No sei, respondeu Laura impaciente.

Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:

--E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim no fr divertir-se-ha por
outra frma, porque as distraces no faltaro. Em casa de Pozzoli ha
uma sala d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse
um pouco o sabre, todos os dias, para no engordar demasiadamente. No 
por ser meu discipulo, mas Pozzoli  j adversario para se temer um
pouco. Um dos numeros do programma da festa  um assalto. Sou
apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror pelos duellos,
porque j matei dois adversarios, mas sinto-me satisfeitissimo
quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um florete. Tambem no
admira: foi esse por muito tempo o meu ganha po; e no me envergonho de
o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a esgrima 
apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas como
os fidalgos, no  verdade, sr. visconde?

Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.

Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu.

Socegou, porm, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala,
e annunciou:

--O sr. dr. Despujolles.

O medico cumprimentou Laura e o visconde.

Lauretto Mina poucas relaes tinha com o dr., e no se arriscou a ser
muito familiar com elle.

Disse apenas:

--Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles.
Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega.
Declaro, porm, que no  com medo de que me faa febre, como se diz no
_Barbeiro_. Pozzoli espera-me s tres horas, por causa dos ultimos
preparativos para a _soire_. At manh, minha cara Linda, Sr.
visconde... um seu humilde creado...

Rodou sobre os taces, fez com a mo um gesto amigavel ao dr., e sahiu.

--Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!

Laura e Antonino no responderam.

Elle olhou-os admirado.

--Mas o que teem? Parece que viram a cabea de Medusa!

--Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe
chamou, que, na presena do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se
atreveu a tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux
desconhece, sem duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do
nosso mundo theatral. Os artistas tratam-se por tu entre si desde o
primeiro dia que se conhecem. O que no procede d'essa frma 
immediatamente considerado mau companheiro. Isto no impede que os
homens bem educados,--e no theatro tambem os ha, e muitos,--quando
encontram na sociedade uma mulher que  sua collega, se cohibam de lhe
fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante d'estranhos. Mas
ninguem ignora que Lauretto Mina no  um homem bem educado. Entretanto
o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um
pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto
fallou, Laura nem por um instante desfitou Antonino, cujas feies
indicavam um profundo desgosto.

Despujolles percebeu que chegra n'um momento de crise aguda, e tratou
de intervir como calmante, dizendo:

--O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por
completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, no pode adivinhar o
que eu sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. No admira, pois,
que se surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento de _tu_, que,
comtudo, garanto-o,  universal entre os artistas.

--Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino
com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu no foi a frma da
linguagem foi a propria linguagem.

--Oh! isso  uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com
vivacidade. E entretanto fiquei to surprehendida como o meu amigo.

--Ento porque no lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um
olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente  ordem.

Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle.
Portanto Laura limitou-se a responder:

--No quiz dar importancia s inconveniencias d'esse homem, para
que elle julgasse que nem reparava n'ellas.

--O Lauretto Mina  com effeito bastante conhecido e tem bem inferior
cotao para que se d importancia ao que diz.

Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.

--Peo perdo, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez
tinha uma importancia enorme...

E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar,
confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeo-lhe
muito o generoso pensamento que teve, mas no posso acceitar o que me
propoz. Como v, a sua inteno  completamente irrealisavel.

Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se,
dizendo a Laura:

--Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: at manh, na _soire_ de Pozzoli.

Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar s, ou
antes, soffrer sem testemunhas.

Fez parar Despujolles com um gesto.

--Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que
desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.

Apertou a mo a Laura, que apenas lhe disse:

--Espero que cumpra a palavra dada. Ir  _soire_, a que eu no posso
deixar d'assistir, no  verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a
promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitao, e
como occorrendo-lhe uma ida subita, respondeu precipitadamente:

--Sim, irei  _soire_ de Pozzoli.  indispensavel que eu me embrenhe
por completo nos habitos dos artistas!

Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppresso no
corao.




XI

Ouro, lama e sangue


A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.

N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que no se
escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as
salas do director do Theatro Italiano passavam, com justia, por ser
d'aquellas em que melhor se perdia uma noite.

Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam  melhor
sociedade parisiense.

As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.

Encontravam-se alli artistas de primeira ordem, como a Linda, e
outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, no tinham
direito a esse qualificativo, e que s se tornavam notadas pela belleza
ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.

O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem
dividido para recepes e festas de qualquer natureza.

Pozzoli decorra e mobilra a casa com sumptuosidade, a que faltava um
certo gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.

A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.

Entrava-se no rez do cho, subindo seis degrus, que terminavam em largo
patamar, protegido por elegante cobertura.

O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e
vermelho, em losango.

A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco,
e de marmore vermelho o corrimo.

Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das
folhas largas e flexiveis.

As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas
de prata, de muitos braos, sustentando globos baos, que espalhavam uma
claridade discreta.

O grande salo Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre
enorme, e ornado de oito espelhos.

N'esse salo entrava-se por uma porta que se abria  direita do vestibulo.

No fogo de marmore de Carrara, entre dois Renommes ladeando um espelho
elliptico, e encimado por um fronto em arco, elevava-se, n'um pedestal
simples, o busto de Rossini.

Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado
d'assumptos extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.

A sala de jantar ficava em frente do salo,  esquerda do vestibulo.

A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram
no primeiro andar.

A primeira impresso que se experimentava ao entrar n'aquelles sales de
velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.

Parecia que no se poderia respirar  vontade.

Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.

Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos
candieiros, perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia
penetrar alli.

As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados,
estavam como que impregnados d'um perfume capitoso, que tornava
pesada a cabea, embaciados os olhos, oppresso o peito.

s onze horas os sales comearam a encher-se.

quella hora ainda no tinham chegado nem Laura nem o visconde.

Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de
dono de casa, perguntou-lhe em voz baixa:

--Tens a certeza de que a tua _casta diva_ no deixa de vir? No achas
possivel que o nosso breto a prohiba de comparecer?

--Acho...

--Comeo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a
custo me cumprimentou, e ao receber o convite para a _soire_ d'esta
noite, apenas me mandou o seu carto, com estas palavras seccas,
escriptas a seguir ao nome: _acceita o convite do sr. Pozzoli_.
Desagrada-me deveras o pretencioso fidalgo!

--E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.

--Sim!... Porque?

--Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que ser o
visconde quem me franquear o caminho que conduz ao corao de Laura.
Cedo-lhe o logar da melhor vontade. Em geral no se gosta do
successor, mas no ha razo para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega!

--Com a Linda?

--No... Vem com o conde de Vireuil.

--Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!

--Ests doido! Olha que elle  rico, e provavelmente gosta de jogar.

--Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!

--Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o
dinheiro...

--Que v para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, no
estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!

--Eu? replicou o tenor. No caio n'essa! Hoje no quero brincadeiras com
elle. Tratarei at de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.

Alguns minutos depois chegava Laura Linda.

Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o brao.

Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia
resaltar admiravelmente a brancura _mate_ da sua cutis d'andaluza.

Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de
margaritas em brilhantes.

Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes s do diadema.

Aos cantos dos laos dos sapatos de setim mais duas margaritas
semelhantes, como que chamavam a atteno para a extraordinaria pequenez
dos ps.

Esta _toilette_ um pouco triste realava, comtudo, a incomparavel
belleza da cantora.

Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da
cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva
do sorriso, coruscavam clares femininos, scintillamentos de parisiense,
para quem o verdadeiro sol  a luz das _soires_.

Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.

--Ah! At que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos pela
sua chegada...

--Porque?

--Porque o concerto no podia comear sem que estivesse presente...

Offereceu-lhe o brao para a conduzir ao salo, onde todos os
convidados, amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.

Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.

S elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma
nuvem de tristeza.

O concerto comeou pouco depois.

Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto da
_Lucia_, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo
trecho.

Lauretto Mina cantou a toda a voz,  qual deu tudo o que suppunha ou
podia ter de sentimento.

Laura cantou com a segurana e a pericia costumadas, mas os que por mais
vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez,
no lhe dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.

Ainda assim o successo no foi menor.

Remissy, j de volta de Londres, executou as suas celebres variaes
sobre o _Carnaval de Veneza_, a que deu o mais extraordinario e
admiravel relevo e a mais poetica e sonhadora phantasia.

Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um
trecho da _Mancenilheira_.

N'essa aria  que os seus admiradores reconheceram a Linda!

Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!

No olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se
esforava por cantar com surprehendente habilidade.

O effeito foi extraordinario.

O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.

Antonino, reprimindo violentamente os soluos prestes a rebentar,
abysmava-se n'um extasi de dr e de paixo. Chegou a hora da ceia.

Passaram  sala de jantar, vasta mas um pouco fria, merc das paredes e
columnas de marmore.

Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.

Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.

Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de
Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe
depois:

--Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.

E accrescentou:

--O sr. visconde de Bizeux.--_Madame_ Elvira.

A Elvira gorda,--porque era a dona da casa em pessoa que fra
apresentada a Antonino--desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.

Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer
to distincto gentilhomem!

Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu s
expresses admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.

Ella tomou o brao do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das
mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.

A Elvira gorda fra em tempo bastante formosa, e  luz do gaz parecia-o
ainda.

Era branca e loira.

Tinhas as feies regulares, mas sem expresso.

O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo,
admiravelmente bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braos
soberbos.

Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia
com phrases curtas, d'uma conciso impossivel d'exceder.

Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de
lhe apontar o mais insignificante defeito.

--Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista.
Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de
brilhar, porque  rara distinco de maneiras junta os mais invejaveis
predicados de corao.

E continuou a elogiar a cantora, no perdendo occasio para,
disfaradamente, dirigir tambem elogios ao visconde.

Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o brao d'Antonino, para lhe
fazer as honras da casa.

Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas
de mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por
originaes authenticos.

Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qual
_pousara_, tendo apenas  cinta, como se via no marmore, uma simples
pelle de panthera.

E tentou crar aos cumprimentos forados d'Antonino, que declarou
admiraveis as formas.

--Quer vir  sala do jogo? Gosta do _bacura_? perguntou ella.

--Far bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles
surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela frma como
est jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.

Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo
inexplicavel inquietao.

Tambem no perdia de vista Lauretto Mina.

Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do
tenor, socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o
visconde.

O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas
attenes que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.

Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.

Era o ciume.

O que quereria aquella mulher a Antonino?

Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehenso
que lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.

Pois porque razo soffreria ella pelas attenes que a amante de Pozzoli
dispensava ao sr. de Bizeux?

Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.

No tinha razo para se zangar por um facto to insignificante, que de
mais a mais se passava com um homem a quem declarra no poder amar.

No devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as
phrases ternas d'aquella mulher?

E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupao.

Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.

Laura respondeu machinalmente que sim, mas no comprehendera o que lhe
dissera o emprezario.

Chegaram  sala do jogo, conhecida pelos _habitus_ sob a designao da
sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados
de veludo d'aquella cr.

Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis
que guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes
cada um, collocados nos angulos da casa.

Laura sentou-se, pensativa.

Ao principio no quiz jogar.

Depois, importunada e espicaada por sentimentos diversos, passou a
tomar pelo jogo o mais vivo interesse.

Chegou-lhe a vez de fazer _banca_.

Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexo nem presena
d'espirito.

Perdeu todos os _baccaras_.

A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder mil _luizes_ n'um
instante.

Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:

--Vae recuperar todo o dinheiro perdido, ver!

A previso no se realisou.

Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.

O azar continuou.

Foi ento que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte
singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe
pareceu conveniente avisar. Entraram juntos no salo do jogo.

A gorda Elvira segui-os de longe.

Laura viu o visconde assim que elle entrou.

--Ha vinte mil francos de _baccara_, dizia Pozzoli.

--Jogo-os! disse Laura lanando para Antonino como que um olhar de
desafio.

Pozzoli deu as cartas e ganhou.

--Ha quarenta mil francos... disse elle.

Laura ia abrir a bocca.

Antonino, porm, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe
em voz baixa e supplicante:

--Peo-lhe que no jogue mais!

Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:

--Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra  nossa amiga.

--Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para
outra vez!

Pozzoli empallideceu.

Laura, sem pronunciar uma s palavra, apontou cento e cincoenta francos.

O emprezario ganhou ainda.

--J v que tinha razo, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua vez.

--A verdade , replicou Pozzoli em laia d'explicao, que tenho uma
sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.

E levantou-se da mesa.

O _banqueiro_ que se seguia, deu ainda quatro _baccaras_.

Antonino continuava sorrindo.

O emprezario no o desfitava.

O rosto d'aquelle homem transformra-se de subito.

Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte,
e gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de
Antonino, a quem disse em voz baixa:

--No joga, senhor visconde?

--No...

--Como no se entretem aqui, se quer vamos at  sala d'esgrima...

--Pois sim.

--Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, occorre-me
uma ida, que talvez no lhe desagrade tambem.

--Queira dizer.

--A um canto da sala ha dois floretes, cujos botes saltaram ha dias.
Poderemos experimentar as nossas foras como elles... como quem no repara.

--Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.

--Escolher  sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.

E accrescentou em seguida:

--A Linda est a olhar para ns. No devemos sahir juntos. V o senhor
adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.

Antonino fingiu seguir com atteno, por alguns segundos, a partida
_baccara_, que j no despertava interesse a Laura, assustada pelo
colloquio do visconde com Pozzoli.

Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectao.

Laura procurou ento o emprezario com o olhar.

Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que no jogavam.

Passados dois minutos tomou o brao d'um d'elles, com quem pareceu
entabolar uma conversao interessante, e sahiu com elle.

Quando chegou  sala d'esgrima, o visconde j o esperava.

Despujolles e Remissy, que no eram fortes em esgrima, estavam um em
frente do outro, de sabre em punho.

--Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse Pozzoli.

Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicaes sobre
varias armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao
visconde, sem pronunciar uma s palavra.

Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera,
escolheu um e deu o outro a Pozzoli.

--Est combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, no
ser mais do que o effeito d'um accidente?

--Est.

Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam com
curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, que, em mangas de
camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.

Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que
deixamos dito sem serem percebidos.

Quando, porm, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a
gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.

Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:

--Vamos para a galeria grande. As _pequenas_ vo executar a dansa das
bailadeiras.

O emprezario franziu as sobrancelhas.

Por fim respondeu com voz brusca:

--Logo dansaro.

Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.

E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'um _divan_, e
accenderam umas cigarrilhas.

Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos,
um pouco ironicos, dos assistentes.

O violinista, j canado, disse:

--Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.

E ajuntou, sorrindo:

--De resto, nenhum de ns  forte ao sabre.

N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:

--Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide,
para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente
desagradavel.

--D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.

E em voz alta disse:

--Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presena,
que o meu amigo era de primeira fora ao florete. Quer dar-me a honra de
ser meu adversario?

--A honra ser toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.

Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem
os primeiros que encontrassem  mo.

Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:

--Venha um pouco para a penumbra, para que no reparem na falta de
botes dos floretes.

A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre
avermelhado, trabalhada com arte.

Estava suspensa ao centro da casa.

As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na
sombra.

Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.

Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda.

Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de
momento a momento.

Na sala no se ouvia mais do que o tenir das laminas.

Os dois adversarios comearam sem demora a bater-se com encarniamento,
_parando_ com toda a rapidez e _ripostando_ vigorosamente.

Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira,
percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.

Sem deixar de fumar, apontou o facto  amante de Pozzoli. Ao cabo de
dois minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:

--Sabes, Elvira?...

--O qu?...

--Ests prestes a enviuvar, minha querida.

--Pois suppes?...

--Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.

--Que estopada? Parece-te ento que Pozzoli?...

--Ser ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja
que o visconde  de primeira fora. Repara para elle...

Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a
sahida de Pozzoli, quasi immediata  de Antonino, no era natural.

Poucos minutos passados, no podendo conter-se por mais tempo, chamou o
conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:

--No vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr.
conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.

O conde inclinou-se e sahiu.

Demorou-se dez minutos.

 angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.

Por fim o conde voltou.

Vinha s.

Laura perguntou-lhe, logo que o viu:

--E ento?... Pozzoli?

--Perde-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com elle
na sala d'armas.

--Ah! Fallou-lhe?

--No. Era impossivel, porque no momento em que cheguei comeava elle um
assalto ao florete.

--Com quem?... com quem?...

--Com Bizeux.

Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.

Estava pallida como uma morta.

Passados instantes disse ao conde:

--Queira dar-me o seu brao. Vamos at l. Desejo ver o assalto. Sou to
curiosa!

Tomou o brao do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.

Entretanto no se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.

Laura apressou o passo.

Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido--porque
tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um
adversasario de primeira ordem,--concentrava toda a sua vontade e todos
os seus recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.

Comtudo sentia-se perdido.

No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoli
_parou_, curvando-se.

A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli no
tinha boto.

--Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.

Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.

Esta distraco fez com que se conservasse descoberto durante dois
segundos.

Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o
visconde no teve tempo de defender-se.

A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.

Antonino cambaleou e cahiu nos braos do dr. Despujolles.

Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena
tragica.

Transportaram o ferido para um _divan_.

Laura, fra de si, d'olhos esgazeados, gritava:

--Fui eu que o matei.

O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.

Passados momentos, disse:

--Ferida quadrangular!... No sangra!

Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas
sahiam umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia
comsigo.

O rosto alegrou-se-lhe.

Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:

--Ento, dr?...

--O ferimento  grave, mas no  mortal. Vou sangral-o.

Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mos os dois floretes, dizia para
Lauretto Mina com aspecto consternado:

--Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que ns,
a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma
noite dormir em minha casa!

E mostrou o florete do visconde, para provar que no tinha boto, como
aquelle de que se servira.

Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura,
sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.

Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.

--Pode j ser transportado, disse elle.

--Ir na minha carruagem, observou Laura.

--No. Uma padiola  mais conveniente.

Foi improvisada a padiola sem detena.

Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.

O visconde continuava sem sentidos.

Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras em _toilette_ de
baile, os conductores perguntaram:

--Para onde devemos seguir?

--Boulevard Haussmann.

--No, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha.  mais perto.

--Mas... ia a observar Despujolles.

--Em casa d'elle no ter ninguem que o trate. Para minha casa... para
minha casa!...

--Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se
entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos
significativos. Asseguro-lhe que respondo por elle...

E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta:

--Levem o sr. de Bizeux...

--Para minha casa, interrompeu Laura. J lhe disse, doutor... quero que
o levem para minha casa!

Ainda no eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se at
pela manh.

Aquella scena inesperada, porm, desgostra todos os convidados de Pozzoli.

Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.

Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o
assalto, ou o duello, de Pozzoli e do visconde.

Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia o _boulevard_:

--Ninguem sabia ao certo, at agora, o que era a casa de Pozzoli.
Passava por ser um bordel. Desde hoje  tambem um covil. Completou-se.

Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando s com
Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:

--Vamos para o salo reservado.

Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salo reservado no entravam
seno os intimos do emprezario.

Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes
mettidas em vidros de cres, que espalhavam uma luz mysteriosa e
sensual.

Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um
largo _divan_ baixo, que circundava toda a casa.

Tamboretes de madreprola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a
mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.

A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante
do senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios,
entre-abertos.

--Uff! No posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se para
o _divan_. No bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor de
mim. Vou desforrar-me!

Carregou n'um boto.

Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado.

--Antonio, _chypre_ para mim, e _champagne_ para a senhora e para o sr.
Lauretto Mina.

--Temos de beber  tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro,
palavra! cheguei a suppr-te um homem morto!

--Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou
Pozzoli, tirando das algibeiras,  mistura, notas de banco e moedas
d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.

Depois d'alguns instantes de silencio continuou:

--Se no fosse a interveno da nossa querida Laura, tinha-me levado o
diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! S lhe apanhei cinco
mil francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de
desanove. E aquelle grito de preveno, que soltou, salvou-me a vida.
Ah!  to bom viver!

--O pobre visconde, chasqueou Lauretto,  que no pode dizer o mesmo por
muito tempo. Entretanto  de esperar que viva ainda bastante. Reparaste?
A Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar
loucamente. A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos
teus negocios e adeantaste os meus. Obrigado!

--No te calars? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com rudeza.

Lauretto riu-se.

--Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razo. Vou por
elle. Has de ser amante de Laura!

E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.

Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:

--So para ti.

--Obrigado, Eurico!

E accrescentou dando as outras duas ao tenor:

--E estas para ti, Lauretto.

O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.

--Pois nem me agradeces?

--Para que? Ds sempre qualquer coisa com uns modos que provocam
explicaes.

--Ento restitue-me o dinheiro!...

--Ests doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso  que
tu s um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.

Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.

Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.

Os tres comearam a beber em silencio.

Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.

De repente interrompeu as libaes para dizer:

--Ento, no dizem nada?... Esto esta noite muito monos!...

--Espera, respondeu Elvira. Vou chamar as _pequenas_.

Carregou no boto d'uma campainha electrica.

Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.

Elvira disse-lhes:

--Executem a dansa das bailadeiras, sem crtes.

Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o
instrumento, uma cano arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando
gradualmente o movimento, at tornar-se ardente e rapida.

As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas,
brandas e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.

Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mos, rebolava-se pelo
_divan_.

Quando o bailado acabou, elle berrou:

--Mais! mais!...

--Mais no! replicou Lauretto. Eu e ellas  que sabemos se foi bastante.

--Ento bebamos!

--Olha, c est o teu copo grande, disse o tenor.

E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma
garrafa.

Pozzoli encheu-o de vinho de _chypre_.

Depois de beber a grandes golos, disse:

--Ah! isto consola!

E bebeu o resto.

--Basta, disse-lhe Lauretto. J ests bebedo.

--Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se
dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e ss.

Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e
accendeu um cachimbo.

--No fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu
j no bebo...

Mas elle continuou a fumar em silencio.

Pozzoli rolra do _divan_ para o tapete, balbuciando:

--Deem-me de beber!... Quero _chypre_!... Esto na mesa quinhentos
_luizes_... Aposta, visconde?...

As quatro bailarinas descanavam, sentadas no _divan_, de pernas
cruzadas, olhando com curiosidade para os patres.

Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.

Ellas desappareceram immediatamente.

Entretanto Lauretto bebia e fumava.

--Meu querido Lauretto, peo-te que no bebas mais! supplicava a Elvira
gorda.

E passava os braos em volta do pescoo do tenor, tentando tirar-lhe o
cachimbo da bocca.

Elle deu-lhe um murro.

--Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou s tu como Laura? Se s, vem!... Mas,
no... ella  mais formosa... No te pareces com a Linda, nem ao
longe... Ah! Laura!...

As palpebras cerraram-se-lhe.

No rosto desenhou-se-lhe uma expresso d'extasi voluptuoso.

--Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas
executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos
cresceram desde a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os
fluctuar ao longe, atraz de ns, cauda d'um cometa d'ouro, entre a
harmonia dos astros... A brisa eterna fal-os soltar notas maviosas...
Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouo por toda a parte a
sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um seculo!...

Calou-se.

Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo
socegadamente a bebedeira.

Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.

Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da
innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos
entreabertos, n'uma expresso mystica de Christo em extasi.

Por fim levantou-se; arredou-os com o p para passar, dizendo
despresadoramente:

--Que dois brutos!

E entrou, s, no quarto da cama.




XII

A cura


Durante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu,
atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa,
que corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para
lhe humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber.

Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe
palavras meigas, que elle no comprehendia, mas que o embalavam,
socegando-o.

Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado.

A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello terrivel,
Antonino olhou em volta, parecendo distinguir e perceber.

A sombra branca l estava junto d'elle.

No sonhra, pois.

Ella l estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia
por entre as lagrimas.

O visconde reconheceu-a.

Sorriu-lhe tambem e murmurou:

--Laura!

--No falle, observou ella. Est melhor, est salvo, mas no est ainda
completamente curado.  necessario estar calado e quieto, porque foi
essa a recommendao do doutor.

Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho:

--Laura!

Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou:

--Onde estou eu?

Despujolles entrava n'esse momento.

--Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que
chegou! Elle v e falla. Voltou completamente a si!

--Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse
facto, respondeu Despujolles.

E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou:

--Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae bem.

-- o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que
succedeu?... Porque no estou eu em minha casa?...

--No falle, recommendou o medico. Vou pl-o ao corrente do caso. O meu
amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo
patife do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio at! A nossa
querida Laura mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo est no
salo da nossa amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de
proposito, e que facilita muito os pensos. Durante essa terrivel semana,
o meu caro visconde no teve, tanto de dia como de noite, seno uma
enfermeira: Laura Linda, que apenas admittia que Jacintha a ajudasse
algumas vezes na sua dedicada misso e nas vigilias longas. Est em via
de cura rapida e completa, mas  necessario ter juizo, obedecendo ao seu
medico como a um deus, no se mover, fallar pouco e pensar menos.

--Seguirei  risca as suas instruces, meu caro doutor, e agradeo-lhe
reconhecido os seus desvelados servios, disse Antonino.

Em seguida estendeu a mo para Laura. A cantora pegou n'aquella mo
descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram
pelas faces:

--Como  estupido chorar d'alegria!

--Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco
d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.

Antonino no cessava d'olhar para Laura, com expresso de reconhecimento
e amor.

--Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando
estava no desempenho das suas funces. Espero que, logo que eu sahir,
no comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem,
addiem as explicaes e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao
ferido todos os esclarecimentos necessarios...

--Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.

--O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se
passou? Ah! como est em casa de Laura,  possivel que deseje que lhe
expliquem o caso...

--Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario...

--Bem, seja... concedo... Mas procedam de frma que no pronunciem mais
de tres palavras.

--Oh! doutor!...

--Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com a
condio de que depois sero mudos como dois peixes. Adeus, meu
caro visconde, at manh e juizo.

Laura acompanhou Despujolles at  porta da escada.

O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente no corria perigo,
recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino.

O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia
a volta de Laura.

A cantora entrou.

Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente,
ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse:

--Amo-o!

Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia.

Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe
aquelle amor, que existia latente no seu corao.

Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a.

Aquelle honesto e grave fidalgo breto, rico e considerado, dera-lhe a
mais irrefutavel prova de confiana e d'amor, offerecendo-lhe a sua mo
e permittindo que ficasse no theatro.

A insolente interrupo de Lauretto Mina no momento em que o seu
contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe
torturado o corao, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar
o offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento, sem
hesitao, renunciava a todos os prejuizos d'educao e de familia.

Mas tudo o que sentia ento podia ser apenas admirao e reconhecimento
pelo cego amor do visconde.

Na _soire_ de Pozzoli, Laura no tinha percebido que era ciume o que
sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a
atteno e as amabilidades do visconde, que ella considerava como
pertencendo-lhe.

Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases
pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que
experimentou, sentindo os espinhos da desconfiana picarem-lhe o corao?

Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da
Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez,
e morto por ella!

Ento tudo esquecera: posio, reputao compromettida, futuro perdido.

Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou
vivo.

No dia seguinte pela manh, levada pelo horror que sentia por aquelle
miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava
assassino, nem mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha
roubado ao jogo.

Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que
possuia, a um joalheiro, que n'outra occasio lhe adiantra, com um juro
modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor.

Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mos de contente, estava pago.

Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara,
attribulada, o soffrimento do ferido.

Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de
perigo.

Elle estava salvo, e ella salva tambem!

Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava.

Desde ento aquella alma to ardente e sincera no teria que
confranger-se, nem que hesitar.

Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que
pertencessem um ao outro para sempre!

A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade.

Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e
enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a fora
e a vida lhe voltavam gradualmente.

A Linda, obedecendo s prescripes de Despujolles, fallava pouco a
Antonino e no consentia que elle fallasse.

Por fim o medico declarou uma manh, sorrindo indulgentemente, que, se
ella tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o,
sem que o doente corresse risco de peorar.

Laura poude ento abrir completamente o seu corao a Antonino.

--Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor,
fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher pde esperar do homem
que ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero
provar-lhe quanto esse amor  intenso. Dava-me o seu nome, e, para
satisfazer a minha paixo d'artista, consentia em que eu continuasse no
theatro. Depois do que me disse, reflecti muito. Tenho reconhecido
duramente quanto, nas condies de fortuna e de posio em que o senhor
est, me seria difficil, se no impossivel, ficar no theatro, passando a
fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o seguinte: acceito
com a maior satisfao o seu nome, e, salvo uma condio que d'aqui a
pouco exporei, renuncio ao theatro.

--Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.

Ella continuou:

--Seu pae, que to bondoso , ficar satisfeitissimo. Parece-me
conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o
nosso projectado casamento. O visconde de Bizeux esposar a filha do
conde de Marcia. A Linda desapparecer.

--O que vale a minha abnegao ao lado da sua! disse Antonino. Eu
repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha
querida Laura renuncia aos seus triumphos,  sua arte, ao que, segundo
affirmava, era metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do
sacrificio?

--Tudo pensei e tudo previ.  justamente por essa circumstancia que ha
pouco resolvi apresentar-lhe uma condio. N'este momento creio
firmemente que o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os
tivermos,--como em tempo lhe disse, e decerto ainda se lembra,  esse o
meu mais delicioso sonho,--creio, dizia, que a felicidade da esposa e da
me no permittir que me recorde das minhas satisfaes e dos meus
successos d'artista. Entretanto  possivel que um dia, d'aqui a cinco ou
d'aqui a dez annos, a tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel
necessidade me leve a voltar  minha querida arte, e a procurar, ainda
que no seja seno temporariamente, as luctas e as victorias d'outr'ora.
Se tal succeder, meu amigo, peo-lhe, simplesmente sob a sua palavra de
gentilhomem, que n'esse dia no se oppor a que eu volte ao que era
no passado, deixando-me de novo entrar para o theatro, que abandono
apenas pelo muito amor que lhe tenho.

--Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que no a impedirei de
satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto,
fal-a-hei to feliz, que certamente esquecer para sempre o theatro.

--Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que eu
caminhe de futuro sem preoccupaes, desassombradamente,  indispensavel
que me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se
eu tiver um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a
opposio de meu marido pode annullar esse contracto. Fica assente,
Antonino, que renuncia por completo a qualquer opposio d'esse genero?

Elle reflectiu alguns instantes.

Depois dirigiu-se a uma secretria, pegou n'uma folha de papel e escreveu:


Dou o meu consentimento e approvao ao contracto feito entre Laura
Marcia, minha mulher, e...


Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:

--Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando
quizer, que a porta est aberta.

--Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.

E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor.
Concluamos o nosso romance.

A concluso foi a seguinte:

Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.

Trataram do casamento com todo o segredo.

S o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.

Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente
restabelecido, partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoao
do littoral, religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no
consulado de Frana.

Depois no partiriam para qualquer parte: desappareceriam.

Laura desejra sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.

Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fra aquelles paizes calidos.

Refugiar-se-hiam ahi at que a nostalgia os vencesse, isto , at que a
felicidade diminuisse.

Trespassaram a casa da rua de Bolonha.

Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os
restantes vendidos.

Antonino conservou os seus quartos de rapaz no _boulevard_ Haussmann,
residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.

Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da
sua senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaa.

Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia
estipulada no contracto para a resciso d'elle.

--Tu ests meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao
emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da
virtude da Linda. O primeiro capitulo comea por um rapto.  promettedor
o romance. Desejo chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.

Alguns dias depois lia-se nos _Echos_ d'um jornal _geralmente bem
informado_:


A Linda no cantar no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um
contracto fabuloso que assignou para uma _tourne_ nos Estados-Unidos.


Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outro _echo_:


O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que
esteja completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante
a doena. Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo,
prometteu, se escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.




XIII

Regresso a Frana


Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de
Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor
de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de
regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton.

O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e
aspecto veneravel e terno.

A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.

Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto
das suas feies e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta
estirpe.

O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia
tornar a vr depois de prolongada ausencia.

Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajra
durante um mez, com os recm-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.

A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo
finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e
ternos, de que o rodeava.

Sentia tanta impaciencia de a abraar, como de abraar o filho.

A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposies
menos benevolas, e at com uma especie de desconfiana.

O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que
estivera escripturada em diversos theatros.

Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de
Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para no
estar em contacto com uma _comediante_.

Para no sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmo a
desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um
conde hespanhol, no tinha outro dote alm da belleza.

Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a historia do primeiro
amor de seu pae, historia em tudo semelhante  de Antonino,  excepo
de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto
da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fra o
amor, o amor profano, que vencera.

Parecia a Estephania que o irmo, esposando a mulher que amava,
insultara a memoria de sua me.

O vapor de Jersey no tardou a chegar.

Logo que desembarcou, Antonino abraou o pae com effuso, e seguidamente
deu um abrao na irm.

O conde, depois d'abraar o filho, abraou a nora, com alegria, e
apresentou as duas senhoras uma  outra.

Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por frma
identica quella por que fosse tratada.

Estephania no a abraou, limitando-se a estender-lhe a mo, dizendo:

--Senhora viscondessa!...

--Minha senhora...

As relaes futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.

Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se
n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas
casas.

O visconde tinha casa sua, junto  do pae, que lhe legara um tio,
fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes.

As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de
communicao em todos os andares.

Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construco antiga.

O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos
navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a
cabea por cima das muralhas da cidade, afim de no deixarem de gozar a
vista do mar.

Os Bizeux descendiam de velhos bretes, marinheiros de raa.

Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois
almirantes francezes.

O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida
simultaneamente separada e commum.

Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeies juntos.

De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas
uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa
s pessoas mais intimas.

Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a
Saint-Pol-de-Lon.

Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda no podesse
ser reconhecida na viscondessa de Bizeux.

Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a
filha, suppunha que, habituada  cunhada, attrahida pela meiguice e
encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na
hypothese d'uma revelao sempre possivel.

Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista
que se accommoda a tudo que no seja burguez e vulgar, sentiu-se
immediatamente  vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e
mobilia  Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e
hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de
dever ser, no fundo, um pouco monotona.

Laura, porm, no dava por essa monotonia.

Para isso era necessario que ella, habituada s emoes do trabalho, da
aco, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.

O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.

A lua de mel durra doze luas, sem uma nuvem no cu d'anil.

Gosou, sem a mais leve interrupo, o prazer d'amar e ser amada, que  o
melhor da vida.

Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Per, o Brazil,
visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas
paisagens, aventurando-se at s florestas virgens.

Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.

Aquella magnifica natureza no era mais do que uma moldura apropriada
para servir no quadro do seu amor.

Ao cabo d'um anno, porm, comearam a achar, sem o dizer, nem mesmo dar
por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo ss, vivem em solido.

O quer que fosse parecido com o aborrecimento comeou a avoejar sobre
aquelle perpetuo colloquio.

Durante tres mezes soffreram aquella sensao intermitentemente.

Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante
mudana de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou
nos hoteis, tudo isso, por fim, cana o espirito e o corpo.

Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do
homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.

--Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a
voz.

--Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jmais teria saudades!...

E teria ella saudades, effectivamente?

O marido comera por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por
isso, sem prejuizo d'outros predicados.

Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que,
excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e
mais do que d'antes at, ante aquelle delicioso e divino canto.

Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixra de ter o mesmo
publico.

Foi essa a razo porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles
annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham
tambem o seu encanto.

E como estavam d'accordo, regressaram a Frana.




XIV

A vida no castello


O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Lon, e a um quarto de
legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora regio, em
que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das
colinas.

Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava
cinco kilometros, afra durante a epoca da caa, a vida ali era muito
retirada.

No caso presente esse facto no devia considerar-se um inconveniente.

Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripes e
encontros.

Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a p, as immediaes do
castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens,
recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e
ininterruptas attenes do conde, sempre previdentemente delicado com a
nora, sempre ancioso por lhe procurar distraces.

A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.

A solteirona dizia por vezes comsigo:

--Mas que frma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a
recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.

Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.

O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a
Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase
brilhante, que lhe occultavam.

Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra
pronunciada por Laura havia sempre dissimulao.

--Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar 
mesa com uma _toilette_ que ainda no lhe conhecia. Lembre-se que
estamos no campo!

--Por isso o vestido  simples e campestre! replicou Laura rindo.

--Mas ns estamos em nossa casa... no recebemos visitas. A quem deseja
agradar? A meu pae?

--E porque no?

--Agradecido! disse o conde sorrindo.

--A seu marido?

--Certamente...

--Um marido no  um amante, minha querida!

--Para mim .

E estendeu a mo ao visconde, que lh'a beijou com prazer.

Antonino gracejou com a irm, que conservou o seu habitual aspecto
ironico e altivo.

Aquellas picadas d'alfinete no tinham importancia, mas faziam soffrer
Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de
sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava.

Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista
religioso.

Entretanto a viscondessa, educada por uma me excessivamente devota, era
crente, e por vezes at supersticiosa como uma hespanhola.

Para a menina de Bizeux, porm, havia duas religies, a que os homens
seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.

Os homens podiam contentar-se em ir  missa aos domingos, comer de magro
s sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.

As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia
em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar
nas vesperas dos dias santificados.

Ora Laura limitava-se a seguir a religio dos homens; portanto era uma
impia, votada s chammas eternas!

De frma que a unica mulher com quem podia ter relaes d'amisade fugia
da sua convivencia.

Em vez de ser amiga e irm, Estephania era inimiga.

E se Laura procurasse relaes entre as damas que viviam nos castellos
mais proximos no encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de
sua cunhada.

O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se
verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava
qualquer das arias em que d'antes fra to applaudida.

Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com
indulgencia.

Se, porm, a palavra _amor_ fosse uma s vez pronunciada, levantava-se
cheia d'indignao e sahia altivamente da sala.

Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor  um thema
musical frequentemente usado pelos compositores.

Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.

Isto no a impedia, como j estava em Frana e lia os jornaes
parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de
theatro e as narraes dos debutes e das primeiras representaes.

O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!

Se no tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!

Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo
occupado d'ella!

Decerto no sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo
percebia que Paris lhe faltava.

Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura no assistiria 
inaugurao!

Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservra intacto no
corao o amor que tinha por Antonino.

 verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas
elle no tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao
casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.

O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixo dos primeiros
tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.

E ella consolava-se, chegava a encantar-se at, quando, por uma bella
manh de sol, sahiam ambos, e atravessavam bosques e prados, caminhando
ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em frias. Passeiavam
sobre a relva, ella appoiada ao brao do marido, e levantando um pouco
as saias para no as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se
direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto
Antonino, curvado, cortava com as unhas os ps das violetas, de que
Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.

Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso,
ou descia at  praia.

Divertiam-se ento em saltar precipitadamente, como creanas, elle
segurando-a por uma das mos, e ella levantando com a outra as saias,
que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vo d'aves anciosas
de liberdade.

Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a mar que
subia.

E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as
saliencias dos rochedos, ou traando na superficie lisa e clara da areia
o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.

Uma manh tiveram uma alegria que terminou em tristeza.

Acharam um ninho de melros.

Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.

Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que
os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.

Eram cinco.

No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com
voracidade.

Laura ficou penalisada por no ter que dar aos passarinhos.

--Voltaremos manh com provises, disse-lhe Antonino.

No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.

A me estava no ninho.

Logo que sentiu ruido, levantou vo para uma arvore proxima, saltando
depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os
filhos  merc de seres humanos.

Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos
passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo cr de rosa, bocados de
bolo, que previamente amolecia entre os labios.

Ao outro dia foram tambem ver o ninho.

Estava vasio.

O pae e a me tinham levado os passaritos.

Laura ficou triste, sem saber porque.

Como Antonino lhe perguntasse a razo d'aquella tristeza, Laura
respondeu:

-- lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um bero vasio!

Depois d'um momento de silencio, perguntou:

--As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, no  verdade?

--Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.

--Como as aves so felizes!

Antonino comprehendeu.

Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e
esforava-se sempre por lhe procurar distraces.

No servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o
breto  marinheiro.

Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.

Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.

O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga
facha vermelha, e tinha meia coberta.

Os passageiros tomavam logar  ppa, n'uma especie de camara oval,
cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas.

Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as
provises, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente
espao para dormir ao abrigo do vento.

O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurups, d'uma
vela grande e d'uma bergantina.

Com mau tempo tomavam quatro rizes  vela grande, e como o mastro se
inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle
unico panno.

Graas  largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a
chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente
 canna do leme.

Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com preciso a Laura
toda a manobra das velas.

Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a
embarcar s com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.

Muitas vezes embarcavam de manh.

Um creado levava-lhes, at ao caes, um cesto com provises.

Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo,
armava a vela.

Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na
camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.

Ento Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:

--Larga!

O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.

O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o
croque, e puchava a canna do leme para bombordo.

A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouava por instantes
como indecisa, e por fim vogava.

Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.

Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado at Donamaner, e
mesmo a Lorient, e do outro at ao Mont-Saint-Michel.

Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com
grande inquietao do conde.

O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo no os fazia
parar.

O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.

Laura sentia-se bem a bordo.

O perigo incitava-a porque era uma emoo, e eram as emoes o que
faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.

A caa divertia-a muito menos.

Por vezes recusava-se at a acompanhar o marido e o sogro, e s ia 
tapada do castello, se o almoo fosse servido ao ar livre.

No acceitra at uma esplendida espingarda de caa, que Antonino lhe
offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.

As poucas reunies que o conde entendeu dever dar no castello, no lhe
mereceram maior atteno, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.

Entretanto fazia as honras da casa com to fino tacto e to affavel
dignidade, que a propria Estephania se admirava.

Uma d'essas reunies, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para
Laura, verdadeira importancia.

Foi a festa da inaugurao da capella restaurada do castello.

Havia j tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal,
emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de
Rennes, a restaurao da referida capella, uma verdadeira joia do seculo
XV, no gosto de Folgoet.

A obra terminara emfim.

Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.

O arcebispo de Rennes fra convidado para esse fim, respondendo que iria
proceder  dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.

Esta noticia, como era de suppr, causou grande sensao em todos os
castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar
que s ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra.

Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o
conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello,
esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra
to excellente de certo, e muito mais util, que a inaugurao da capella.

Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por
subscripo em Saint-Servan, sob a direco d'uma commisso, de que o
arcebispo era presidente.

Tinham angariado j umas centenas de mil francos, com que o edificio
principira a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para
material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.

Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o
arcebispo desejava fallar com o conde.

Estephania fez no castello uma verdadeira revoluo, para que a recepo
de _monsenhor_ fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle
desempenhava.

Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e
coristas da cathedral de Rennes.

A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir
sensao, como effectivamente produziu, mas devido talvez a uma
circumstancia com que a menina de Bizeux no contava.

Eram tantos os cuidados e attenes que a pessoa do _monsenhor_ lhe
merecia, que Estephania no deu pela falta da cunhada no banco da familia.

Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgo, elevou-se
uma voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeio e expresso
d'adoravel suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o
auditorio maravilhado.

A mesma voz cantou depois o _offertorio_ do mesmo compositor, com tal
arte e vigor que a todos causou espanto.

O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa,
balanceava a cabea e movia as mos com beatitude.

Trocaram-se phrases d'admirao, e se no fosse o respeito  santidade
do logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.

Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na
sachristia, foi:

--Mas quem  a admiravel _virtuose_ que a todos nos encantou?

O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:

--Foi minha nora, a sr. viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de
apresentar-lhe, monsenhor.

--Na realidade a sr. viscondessa  uma artista de primeira ordem! disse
o arcebispo.

E depois accrescentou:

--Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que no me parece de todo m...
Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.

Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um
certo sabor particular a mistura que havia do padre e do _dilettante_.

No foi s Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos;
Estephania tambem compartilhou d'elles, e to interdicta ficou, que no
sabia se devia estar satisfeita ou vexada.

Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.

Era o seu primeiro successo em dois annos!




XV

Saint-Malo


Tinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando
chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro.

Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de
rheumatismo agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante.

Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa
pratica, que, depois de dispensar os primeiros cuidados  doente,
diagnosticou o mal de principio de rheumatismo articular.

O doutor demorou-se um dia no castello.

A sua ausencia da cidade no podia prolongar-se por mais tempo, porque,
como era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o.

Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana.

Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e
attenes constantes.

O medico de Saint-Pol-de-Lon inspirava mediocre confiana ao conde. Que
fazer, pois?

O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago.

Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se.

Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um
vapor, fretado para esse fim em Saint-Malo.

Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto
do planalto da cidade.

O conde de Bizeux queria partir s com a filha, deixando no castello
Antonino e a esposa.

Laura, porm, oppozera-se a essa determinao, dizendo:

--Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar  
cabeceira do leito da irm de meu marido.

Como a menina de Bizeux declarasse que no desejava incommodal-a,
principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu:

--Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada...

Laura, a _impia_, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto
que Estephania, a _devota_, a temia sobremaneira, como d'ordinario
succede a todos os espiritos fracos.

Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais
opposio, o offerecimento de sua cunhada.

Durante mais de duas semanas em que a doena apresentou maior perigo,
Laura tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento
desmentida. A menina de Bizeux parecia surpreza e commovida.

Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse
simplesmente a Laura:

--Agradeo-lhe e peo lhe que acredite que, no seu logar, teria
procedido da mesma frma.

--No duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas palavras.

D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em
Saint-Malo.

A convalescena de Estephania e o adeantado da estao, impediam a volta
ao castello.

Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura
apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.

Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasio para mais de perto
observar uma e outra.

A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.

Das janellas de casa gosva o largo panorama do mar e o aspecto da
bahia, que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o
cabo Frehel, gigantes de pedra que parecem estender os braos atravez as
sete leguas de mar que os separam, por cima da ilha granitica de
Czambre, guardada por negros recifes, que por entre as suas pontas
deixam apenas estreitas passagens aos navios.

O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes
acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e
penetrando  fora na bahia pelas portas de pedra, que jmais poderam
arrombar.

Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios,
rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhes de cerco,
estendidos pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva
dos revestimentos, as suas boccas ameaadoras. O mar tem na bahia,
durante o estio, a placidez langorosamente azulada dos lagos.

As ondas esperguiam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas
muralhas.

Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em
turbilhes d'espuma, a enorme altura.

A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel quellas convulses
da agua.

As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas
geometricas, socegadamente, como que seguras de no serem attingidas
pela impetuosidade das ondas.

Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos
quaes o vento arrebatou as imagens.

A ilhota que serve de base  cidade apenas apresentava para fra d'agua,
transposta a muralha, uma especie de calada em declive, relativamente
larga, mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado.

D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus
habitantes.

Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a
sua lealdade rude.

A independencia d'aquelles homens no se curvava ante o governador da
provincia, nem mesmo em frente da nobreza,  qual, de resto, d'uma vez
emprestaram cincoenta milhes de francos.

Que de mudanas se teem operado!

Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto
periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a
Frana ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invaso dos
jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os angulos, alterado o
caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da terra que deu 
Frana Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier, Dagaray-Tronin,
Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior talento.

O caracter dominante da gerao moderna , nas casas nobres, um
formalismo devoto, de que o fanatismo no exclue a immoralidade.

Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio.

Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os
esforos para que o povo adore a republica.

Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos
aristocraticos, onde vem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas
e clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa,
logistas, empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis
intelligentes d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas,
isolados n'aquelle entorpecimento provincial.

D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de vero.

Esses bailes so frequentados por varias camadas sociaes, mas jmais tal
facto produziu a mais insignificante mistura de castas.

O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade.

Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de
Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada.




XVI

A sr. baroneza


A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinio da alta sociedade
em Saint-Malo, era a sr. baroneza de Pontual, uma formosa mulher de
trinta annos. Havia umas cinco ou seis estaes que ninguem se atrevia a
disputar-lhe a elegante auctoridade.

A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o
conde se apaixonra antes de casar com a me d'Antonino, e parecia-se
at, um pouco, com a infeliz a quem o desgosto matra.

Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera
d'aco mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada,
onde podesse entregar-se completamente s suas melancholicas
recordaes.

O baro de Pontual era um insignificante.

Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o
conduzia por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse
caminhar.

Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava ter _alma d'artista_,
o que  uma percebivel ambio, quando no seja pretenciosa.

Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que 
baroneza faltava simplicidade e sinceridade.

Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a
pintura e a musica.

A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar,  semelhana
da sr. de Svign, sua compatriota.

Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da
marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres
estylos diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.

Em pintura _orvalhava_ as suas aguarellas, e _dava vida_ s paysagens.

Mas a sua arte predilecta era a musica.

Possuia voz agradavel, mas mal educada.

Comtudo recebera lies de canto de Delle Sedia, como recebera lies de
piano de Lecouppey.

Tinha opinies cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.

O seu deus era Gounod.

Eatretanto no desgostava de Berlioz, que ella declarava ser _quasi
sempre extravagante, mas algumas vezes sublime_.

A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a
viscondessa, inquietou-se.

Laura era mais formosa e mais nova que ella.

Alm d'isso a situao dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do
que a do baro de Pontual.

Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.

Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa,
que apenas parecia desejar no dar nas vistas, occultar-se na sombra.

A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.

--A viscondessinha  encantadora! disse ella.

O baro de Pontual era o thesoureiro da commisso que tratava da
fundao do hospicio para marinheiros.

O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasio, vice-presidente da
mesma commisso.

Uma ultima subscripo produziu approximadamente sessenta mil francos.

Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para
prefazer a quantia julgada indispensavel.

Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil
francos.

O arcebispo de Rennes foi ento d'opinio que se devia angariar o
restante, dando um grande concerto.

Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.

Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preos elevados,
e attrahissem a Saint-Malo a _lite_ da nobreza e da finana de toda a
Bretanha.

A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e
dirigir aquella festa.

Haveria canes populares brets, para as quaes recrutariam executantes
nas classes baixas.

O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu
concurso, e egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.

O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que
devia ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos
sales da melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento
dessem ao programma grande attraco, tornando-o de frma a aguar a
curiosidade de todos, prestaram-se a tomar parte na festa.

O salo da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.

O conde de Bizeux offereceu o seu.

A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente, viu-se
obrigada a fazer as honras da casa.

O sr. de Bizeux, que tomra a peito a terminao da grande obra de
caridade, perguntou  nora se no queria dar o seu contingente para o
brilho do concerto.

Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o
seu incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa,
tomando parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.

O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razes.

Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precauo.

A baroneza devia cantar, no concerto, a _Ave Maria_ de Gounod, o seu deus.

D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de
musica, ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.

Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim,
fazer-lhe os seus cumprimentos...

Laura, como todos, foi testemunhar a sua admirao  baroneza.

Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos
cumprimentos com a mais falsa das modestias.

--No, no... Favores!... Hoje no estava com voz... De certo
reparou que, no fim, a respirao faltou-me!...

--Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou
Laura com simplicidade.

--Pois no, minha querida!... Falle... peo-lhe...

--Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar o _crescendo_
phonico obrigado, a sr. baroneza o atacou demais no principio,
faltando-lhe depois a fora no final, que deve ser cantado com toda a
intensidade de tom possivel.

--No percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.

E depois d'um momento de silencio, perguntou:

--A sr. viscondessa sabe musica?

--Um pouco...

--Ah! sabe?... Ento queira ter a bondade de juntar a pratica  theoria,
cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.

--Depois da sr. baroneza ter cantado, no devo eu...

--No faa ceremonia... Cante... peo-lhe, insistiu a baroneza com frieza.

Com a insistencia esperava collocar em terrivel embarao a imprudente
conselheira.

Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.

Comeou muito _piano_, com intenso de cantar a meia voz, quando muito.

Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.

Quando chegou s ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal,
manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes,
admirados, romperam em bravos e palmas.

Antonino no estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho
de Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfao.

A baroneza de Pontual ficou abysmada!

A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.

Entretanto assaltou-a uma duvida.

Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente
revelava, uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e
mais do que sufficientes para fazerem a reputao d'uma cantora de
primeira ordem?

Entretanto a baroneza no foi a ultima a felicitar Laura.

--Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me no fez conhecedora,
ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr. viscondessa?

Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o
logar que lhe pertencia.

 porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a
baroneza no desejava occupar o segundo plano.

No dia seguinte, porm, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de
Rennes, a quem envira o programma, uma carta desoladora.

O arcebispo admirava-se de no ver figurar n'esse programma, o nome
d'aquella que devia ser a grande attraco, e que produziria o mais
brilhante successo.

Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.

Fra ouvindo-a cantar na missa d'inaugurao da capella do castello, que
ao arcebispo occorrera a ida de dar um concerto, cujo producto
revertesse a favor da subscripo para o hospicio de marinheiros.

Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o
raro talento da nora do conde de Bizeux.

Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella no desejasse
manifestar o seu talento em publico?

Quando se tratava d'uma obra meritoria, no se tinha o direito de ser
modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.

Ante esta especie d'intimao, a baroneza no poude deixar de convidar a
viscondessa.

Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe se
queria prestar ao concerto o seu valioso concurso.

Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.

Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.

O conde foi d'opinio que a nora no devia deixar de prestar-se a dar a
sua contingente para to santa obra.

A Linda desapparecera havia mais de dois annos.

Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade
to distanciada de Paris, diante d'um publico local, que no estava ao
corrente do movimento dos theatros parisienses?

O maior numero de probabilidades, era de que Laura no seria reconhecida.

--Mas se o fr? perguntou a viscondessa.

--Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em
condies to honrosas, to respeitaveis para todos ns, que, ante o
facto consumado, os mais rigoristas no tinham o direito d'arguir meu
filho de a ter amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome,
nem a mim por lhe chamar filha.

Houve um momento de silencio.

O conde, passados instantes, accrescentou:

--Nada tem no seu passado, Laura, de que deva envergonhar-se.
Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria
contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade.
Mas agora ella j a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicao to
fraternal, que minha filha est reconhecidissima. O arcebispo de Rennes,
que possue um espirito superior, reclama este servio; depois seria o
primeiro a no consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o
pede. Se o seu segredo, que  tambem nosso, tem de ser conhecido mais
tarde ou mais cedo, parece-me que no encontraremos occasio mais
favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho
foi cantora.

Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou
que oppr s razes apresentadas pelo conde.

De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.

Assim pois, foi Laura a unica que resistiu  ida de reapparecer e
cantar em publico.

Mas no queria ou no podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.

A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.

Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inaugurao da
capella.

Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a
_Ave Maria_ de Gounod, experimentra maior satisfao.

Os bravos e palmas que ento ouvira, tinham a como que transportado aos
bellos tempos em que ella arrebatava uma plata inteira.

O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico
numeroso?

Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as coras?

Ah! a queda era to facil e podia ser to desastrosa!

Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?

No.

Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura
da nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do
novo templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.

N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas
dizia-se tambem que o Mexico no era no fim do mundo, que se volta de l
dentro d'algumas semanas.

Mas a Linda no estava longe!

Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.

Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel
no seu corao.

Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.

Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e
que a tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.

Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. No tinha, porm,
a coragem de os expr.

Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella
no devia cantar no concerto de benificencia.

O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do
pae. Ella, por fim, disse:

--Reconhecem bem, no  verdade, que o que est mais em jogo no  o meu
interesse pessoal, mas o interesse da familia?

--Sem duvida, respondeu o conde, e  por isso mesmo que insistimos e
somos de opinio que deve ceder, como ns cedemos.

Laura, replicou ento:

--Visto assim o quererem, cantarei no concerto!

N'essa noite, Laura disse  baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:

--Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa
X... cantar as arias _Fidelio_ e o _Rei dos Alamos_.




XVII

A tempestade


O dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de
setembro.

Faltavam, pois, dez dias.

Laura propz ao marido no os passasem em Saint-Malo.

Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no
concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?

At ento a viscondessa no encontrra ninguem que a conhecesse.

Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier,
nunca a tinham visto.

Fallava-se, comtudo, em reforar o programma, accrescentando-lhe os
nomes d'outros artistas.

O mais prudente, pois, era no apparecer seno na noite do espectaculo.

Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente,
bastava a Laura uma simples recordao com a orchestra, na manh do dia
do concerto.

Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura no tinham ido alem do
Monte de Saint-Michel.

Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as
costas do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido.

O conde de Bizeux e Estephania, j completamente restabelecida,
receberiam as pessoas que iam ensaiar-se.

A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a
interveno da que ella considerava sua rival.

Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excurso, a mais
longa que ainda tinham feito.

A viagem foi encantadora.

A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo
uma verdadeira delicia.

Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam,
jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que
deparavam, rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo.

Para descanarem das fadigas da navegao, davam esplendidos passeios de
carruagem, visitando os melhores locaes e todas as curiosidades da ilha.

No abriram um jornal.

Sentiam-se to longe da Frana como se ainda estivessem na America.

Esqueceram Saint-Malo, esqueceram o universo.

Os dias corriam magnificos, uns dias d'outomno, tepidos e amenos.

Laura sentia apenas que o mar se conservasse to uniformemente tranquillo.

--Est bello de mais o tempo, disse ella. Algum vento que encapellasse
as ondas tornaria mais emotiva a nossa viagem.

Que pesar sentiam de que aquelles dias tivessem que terminar!

Na vespera do concerto estavam em Granville.

Antonino sahiu depois do almoo para preparar a chalupa, e voltou ao
hotel, onde tinham passado a noite.

Laura reparou que o marido estava com aspecto de pouco satisfeito.

--Diabo! diabo! disse elle. Parece-me que procederiamos acertadamente
voltando a Saint-Malo por terra, tomando o comboio em Dol.

--Porque?

--Vejo nuvens de mau agoiro. Se o vento refrescar,  provavel que,
antes de chegarmos a Saint-Malo, tenhamos de luctar com mar bravo, e a
nossa chalupa no tem condies para luctas d'essa ordem.

--_Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar Renato!_
disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma citao de
Chateaubriand.

E accrescentou n'outro tom:

--Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo.

Antonino dissera a verdade.

O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens
ameaadoras.

--No valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens que
o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a
tempestade se desencadeie. Mas se assim no acontecer, tanto melhor,
Antonino, porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu
lado. Acho encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a
nossa socegada viagem.

--Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir
por alguns momentos.

--Quero.

--Que a tua vontade seja feita.

E embarcaram.

Antonino tomou tres rizes  vela grande e prendeu o gurups.

Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se ao largo. Durante as
duas primeiras horas correu bem a viagem.

A chalupa navegava com uma velocidade de doze ns por hora.

O visconde chegou a ter esperanas de que chegariam a Saint-Malo sem
novidade.

Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e
as ondas encapelaram-se.

A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda,
cuja espuma chegava ao cimo do mastro.

O mar embravecia de minuto para minuto.

O vento refrescava cada vez mais.

A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao
nivel das ondas.

Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar
descano s vagas.

Mas depois, bruscamente, saltou para sueste.

Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca.

As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento
contrario, elevaram-se a enorme altura.

Depois, obedecendo  fora impetuosa do vento, correram na mesma direco.

Houve um minuto de indiscriptivel cahos.

O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido
ensurdecedor.

A chalupa corria rapida como um vo.

Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento,
encontrava outras ainda animadas da primeira impulso.

Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava
perdida.

Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender.

Laura poude ento admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da
destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das foras
naturaes.

O ceu assombreava-se cada vez mais.

Uma grande nuvem cr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas
extremidades, avanava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a
Antonino:

--Corremos grande perigo, no  verdade?

--O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o visconde.

--Para onde diriges a chalupa?

--Vou tentar abordar  ilha de Czambre, da qual distamos dois
kilometros. E agora, minha querida, silencio!

Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre
todos, feliz por se saber protegida por elle.

No fra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado?

Chamra o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por
aquelles dois entes cheios de vida.

Por isso Laura no sentia verdadeiro temor.

Ao principio, vendo a extraordinaria fora dos elementos, sentira um
ligeiro calafrio.

Mas, depois, socegou por completo.

Pensava apenas:

--Se ns fossemos separados por alguma vaga?

E, sem pronunciar uma s palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas
forte, prendeu uma das extremidades ao brao, passando a corda por cima
do hombro, e com a outra extremidade prendeu de frma identica o brao
d'Antonino. Depois disse:

--Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos,  morrer feliz!

A tempestade attingia o paroxismo.

As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre.

O ceu cobrira-se de funebre tela, cr de ardosia, com manchas violaceas.

As nuvens desciam pesadamente sobre as regies inferiores da atmosphera.

A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso
das ondas.

Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer
pouco depois, continuando na carreira rapida.

A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a
espuma franjava phantasticamente.

Antonino, com toda a energica tenso que pode ter a vontade, combatia
encarniadamente, para no desapparecer no abysmo.

Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que
corria sobre a chalupa, n'um encarniamento de fera, soltando roncos
temerosos.

N'essa occasio a vela rasgou-se.

Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade.

A onda, ao quebrar, inundou a embarcao.

A chalupa esteve prestes a submergir-se.

A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada.

O poro encheu-se d'agua.

Felizmente chegavam.

A praia da ilha de Czambre, estava ali, muito proxima...

Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma
enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa
afundava-se na areia.

Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo.

Laura lanou-lhe a extremidade d'uma amarra, que o visconde atou
solidamente n'um adelgaamento do rochedo.

Depois estendeu as mos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos
braos.

Abraaram-se apaixonadamente, com delirio.

Estavam salvos!




XVIII

O encontro


Antonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto
ao rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Czambre.

Na praia estava amarrado um barco.

Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega.

A casa estava aberta e vazia.

Sem duvida os guardas, tendo partido de manh, no estavam ainda de volta.

Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sitio havia uma cabana de
pescadores.

Depois de a terem procurado por alguns minutos, encontraram-a por fim,
n'uma anfractuosidade dos rochedos.

A porta apenas estava fechada na tranqueta.

Abriram-a e entraram.

Depararam com uma velha, meio surda, que concertava uma rde.

A custo conseguiram saber que o velho--marido sem duvida--tinha partido
de manh para Saint-Malo e que ainda no voltra.

Muito instada, disse mais que nada tinha que se Comesse e bebesse, alm
de _cidra_, toucinho, peixe scco e po.

Uma moeda d'ouro, que Antonino atirou para cima d'uma meza, abriu-lhe um
pouco mais os ouvidos e a intelligencia.

A velha levantou-se ento e tratou de fazer lume sem demora.

Pouco depois brilhavam as chammas na chamin.

Laura approximou-se para se aquecer e seccar o fato.

Depois de estar tambem alguns momentos junto do lume, Antonino disse:

--E agora vou buscar as nossas provises a bordo da chalupa, porque,
antes d'embarcarmos novamente, necessitamos comer, e no me agrada o que
a velha nos pde dar.

E voltando-se para a dona do tegurio, accrescentou:

--Acompanhe-me, porque, indicando-me o caminho, menos tempo me demorarei.

A velha levantou-se sem responder, e seguiu Antonino.

Laura conservou-se  chamin, pensativa.

Pouco depois ouviu uma voz conhecida dizer-lhe:

--Adeus, Linda, bom dia!

Levantou-se sobresaltada e olhou.

Tinha em frente Lauretto Mina.

--Como vaes tu, carissima?

Laura respondeu altivamente:

--Eu chamo-me viscondessa de Bizeux!

--Viscondessa?... Hum!... Emfim, seja! Effectivamente disseram-me, em
Saint-Malo, que tinha casado com o sr. de Bizeux, e que pertencia
officialmente  familia do visconde. Mas o casamento effectuou-se em
Inglaterra, no  verdade? Ninguem desconhece essa especie de
casamentos... enlaces pouco duraveis, to faceis de fazer como de
desfazer. Casa-se em frente d'um padre catholico, mas nem por isso o
casamento deixa de ser civil, o que illude a lei.

--Mas affiano-lhe... replicou Laura.

Interrompeu-se para ajuntar em tom desprezador:

--Que me importa o que o senhor pense! Acredite ou no, -me indifferente!

--Est bem! respondeu, rindo ironicamente, Lauretto Mina. Que a
viscondessa esteja mal, ou bem tincta,  questo secundaria, que no me
impede de prometter solemnemente tratal-a pelo seu titulo, com todas as
attenes e o mais profundo respeito. Tomo a peito proceder de frma que
reconquiste as suas boas graas.

Depois d'um momento de silencio, olhando-a de revez, accrescentou:

-- possivel que a sr. viscondessa tenha a maxima conveniencia de
passar, para mim, como uma desconhecida em Saint-Malo.  possivel que
no deseje que a reconheam como sendo a celebre cantora Linda...

Laura, surprehendida e interrogando-o com o olhar, interrompeu-o:

--E se assim fosse!

--Bravo! J vejo que acertei! Pois est combinado! manh, no concerto...

--Ah! o senhor canta no concerto d'manh? perguntou a viscondessa.

--Canto. Foi para isso que vim a Saint-Malo... manh ser para mim uma
desconhecida. Prometto-lh'o sob minha palavra d'honra.

--Obrigada.

--E agora que est certa da seriedade das minhas intenes, deixe-me
dizer-lhe rapidamente, antes que... seu marido volte, o que vim fazer
aqui, porque vim exclusivamente por sua causa.

--Por minha causa? repetiu Laura como um echo.

--No me refiro precisamente  ilha de Czambre. A estes rochedos
conduziu-me apenas o acaso, a minha boa estrella. Esta manh
propozeram-me um passeio at  ilha, que me affianaram ser
extraordinariamente pittoresca. A tempestade reteve-nos por mais
tempo do que desejavamos. Mas a Saint-Malo, vim exclusivamente por sua
causa, repito.

Em seguida a uma pausa calculada, o tenor ajuntou:

--O tempo passa. Vou direito ao fim. Sabe que no proximo mez  a
inaugurao da nova Opera. O director encarregou-me de dizer-lhe que
tinha o maximo empenho em contratar a Linda. Elle acceita uma escriptura
nas condies que mais lhe agradem, sr. viscondessa, ou seja por anno e
por serie de representaes.

Laura crou, e esteve sem responder durante alguns segundos.

Por fim disse:

-- impossivel. Eu sou a esposa do visconde de Bizeux.

--Ora adeus!... Nada de patetices!... replicou Lauretto com desdem. A
sr.  e ser sempre a Linda!  possivel que seja viscondessa, mas no
deixou de ser artista! Usa agora, legitamente ou no, pouco importa, o
nome dos nobres avs d'um fidalgo da provincia, mas, _per Bacco!_ no
lhe merecer mais considerao, no collocar cem vezes mais alto o seu
nome pessoal, o seu nome artistico, o grande nome que conquistou pelo
seu talento previlegiado? No posso deixar de lhe lembrar que seu pae
tambem era conde. Mas ninguem o conhecia por conde de Marcia, todos
lhe chamavam o grande violinista, o grande artista Marcia. Acho extranho
que a filha proceda de frma contraria, deixando offuscar o seu glorioso
nome de artista pelo vulgar titulo de nobreza!

O tenor fallava com vehemencia e emphase italiana, mas as suas palavras
correspondiam aos intimos pensamentos de Laura.

A viscondessa no respondeu.

Inclinara a cabea para o peito, pensativamente.

O tenor perguntou:

--Ento?... Que resposta devo dar ao director da Opera? Que acceita, no
 verdade?

Laura disse, como se fallasse comsigo mesma:

--Ha uma coisa que a tudo sobreleva: amo meu marido!

--Mas ha trinta mezes j que o ama! Parece-me sufficiente! O visconde
confiscou-a por mais de dois annos,  tempo de a restituir a si propria,
 arte, aos seus admiradores. Se a amasse, seria o primeiro a dar-lhe
esse conselho. E apesar disso a sr. continua amando-o, se  que no a
engana o corao. Mas eu conheo-a bem, e iria apostar em como est
farta da vida que leva. Convena-se: a sr. no pertence a um s homem,
pertence a todos! Eu nem um instante duvidei que a Linda voltaria
para o theatro. Se no fr hoje, ser manh!

Laura, fugindo de responder ao tenor, perguntou:

--Como soube o director da Opera que eu estava em Saint-Malo?

--Ah! isso  descoberta minha, replicou Lauretto Mina envaidecido.
Quando a sr. desappareceu com o visconde, disse-se que tinha partido
para a America do Norte ou do Sul. A verdade  que nunca se soube ao
certo para onde tinham ido. Pouco tempo depois ninguem se lembrava da
Linda, excepto eu, que nunca a esqueci. Velava, espiava. Ha pouco soube
pelo barytono Gressier, que elle fra convidado para cantar n'um
espectaculo de beneficencia, em Saint-Malo. Lembrei-me que Saint-Malo
era a terra da naturalidade do visconde de Bizeux. Tratei de ler os
jornaes da provincia, e n'um, o _Correio d'Ille-et-Vilaine_, vi que o
conde de Bizeux era o vice-presidente da commisso que promovia o
espectaculo. Li o programma do concerto e n'elle encontrei os nomes da
baroneza de P... e da viscondessa de B... Procurei immediatamente o
director de Opera, para onde, tenho a honra de lh'o participar,
estou escripturado. Logo que o vi, disse-lhe: Encontrei a Linda!
Meia hora depois escrevia ao sr. conde de Bizeux, offerecendo-me
desinteressadamente para cantar no concerto. O conde acceitou
reconhecidamente o meu valioso concurso, em telegramma. No dia seguinte,
munido de plenos poderes pelo director da Opera, parti para Saint-Malo,
onde cheguei ha poucos dias. Eu desejava ficar hospedado em casa de seu
sogro. Infelizmente, porem, elle hospedava Nobillet e Gressier que
considerava como patricios, e tive de contentar-me em ser hospede da
sr. baroneza de Pontual--uma mulher encantadora, palavra d'honra! disse
o tenor como que em aparte com sorriso fatuo. Pena  que a voz no
corresponda  belleza com que Deus a dotou!

--Est hospedado em casa da baroneza de Pontual? perguntou Laura
inquieta. Disse-lhe quem eu era?

--Admire a minha prudencia e delicadeza: fazendo com que a baroneza
fallasse da minha ex-companheira de theatro, percebi com facilidade que
a sr. viscondessa tinha realmente guardado o mais rigoroso incognito, e
no trahi o seu segredo. Como antecipadamente tinha admittido essa
hypothese e resolvido no a denunciar, guardei o mais absoluto silencio.

--Agradeo-lhe, disse Laura pela segunda vez, durante a sua conversao
com Lauretto.

D'esta vez, porm, pronunciou a palavra mais delicadamente do que da
primeira.

--Nada tem que agradecer-me, replicou Lauretto. Repito-lhe; tenho o
maximo desejo em que veja em mim apenas um amigo. Escute-me, Laura:
ha mais de dois annos que nem um s momento deixei de pensar em si. A
sua imagem est sempre presente ao meu corao. Os sonhos de felicidade
que tenho architectado teem sido tantos e taes que nem mesmo me atrevo a
relatar-lh'os.  uma verdadeira obsesso! Ah! permitta-me que lhe diga,
o que ainda, sentido, nunca disse a qualquer mulher: adoro-a, Laura!

A viscondessa endireitou o corpo, irritada.

Depois d'olhar fixamente, com altivez, o tenor, disse-lhe desdenhosa:

--Creio que ha bocado prometteu tratar-me com todas as attenes e
respeito?

Lauretto no poude responder.

Olhando pela porta, viu o visconde, que se approximava.

Portanto disse a Laura, sorrindo maldosamente:

--No falle to alto, que pde ouvil-a seu marido.

Laura olhou tambem, e viu Antonino, seguido pela velha, que conduzia um
cabaz.

Ao transpor o limiar da porta, o visconde recuou, estupefacto.

A voz tremia-lhe ao pronunciar o nome do tenor.

--Lauretto Mina! disse elle apenas.

--Em pessoa! respondeu o tenor com toda a presena d'espirito. Diz-se, e
assim , que o mundo  enorme. Pois apesar d'isso os amigos
encontram-se sempre. Portanto o nosso encontro, sr. visconde, apesar de
ser perfeitamente casual, no  para admirar. Vim a Saint-Malo para
cantar no concerto d'manh. Uns amigos convidaram-me a passeio n'esta
ilha. A tempestade, retendo-nos, fez com que nos encontrassemos. Os seus
charutos devem estar molhados; permitti-me que lhe offerea um?

--Obrigado, disse friamente Antonino, acompanhando a palavra com um
gesto de recusa.

O tenor fingiu no perceber a frieza com que o visconde o tratava.

Deu um passo para a porta, olhou para o espao e disse:

--O tempo melhorou. O demonio do vento comea a socegar um pouco. Nada
me prende j n'esta especie d'ilha selvagem. No desejo importunal-os
por mais tempo; deixo-os com a sua refeio. Senhor visconde, tenho a
honra de o cumprimentar!... Senhora viscondessa, apresento-lhe a
homenagem do meu mais profundo respeito!

Tirou o chapu n'um gesto largo e saiu da cabana.

Antonino seguiu Lauretto com olhar colerico.

--Que tempo esteve este homem aqui? perguntou elle a Laura.

--Entrou pouco depois de tu sahires. No sei d'onde veiu!

O visconde interrogou a velha.

--Este senhor, respondeu a mulher, veiu passeiar  ilha para _ver a
vista_. Trouxe almoo, e como a tempestade rebentou, demorou-se. Estava
deitado entre as rochas a descanar, quando o senhor chegou.

--O que te disse elle? interrogou o visconde logo que a velha terminou
as explicaes.

--Fallou-me da nova Opera, onde est contractado. O director mandou-me
offerecer escriptura, tambem.

--E que lhe respondeste?

--Que era tua mulher, que no podia pensar em voltar ao theatro.

-- provavel que esse insolente continue a amar-te. Dirigiu-te algumas
palavras offensivas?

Deveria ella provocar um conflicto entre seu marido e o tenor?

Lauretto Mina, em duello, era adversario muito mais para temer que Pozzoli.

Por isso Laura respondeu, tremendo-lhe a voz:

--Lauretto foi attencioso d'esta vez. Est ha alguns dias, em
Saint-Malo, por causa do concerto, como te disse, e no fallou em mim,
promettendo-me at fingir que no me conhecia.

--Oh! E ficaste-lhe muito reconhecida, no  verdade? disse Antonino
ironicamente.

--O que tens? perguntou Laura com meiguice. No admira que te
contrariasse o encontro com esse homem, mas isso no  raso para me
tratares com modos bruscos!

--Perdoa-me, Laura! No sei porque, mas a presena d'este homem
irritou-me sobremaneira. No podia nem devia provocal-o pela
impertinente polidez com que me tratou, mas cada uma das palavras que
pronunciava fizeram-me ferver o sangue nas veias!

--Socega, no te exaltes. Vamos almoar, que necessitamos readquirir
foras, tu principalmente. Senta-te, que eu te sirvo.

Auxiliada pela velha, Laura poz a mesa.

Depois tirou do cabaz po, vinho de Bordeus, e carne assada.

O appetite que sentiram ao desembarcar, desapparecera.

Mal provaram os alimentos.

Emquanto estiveram  mesa poucas palavras trocaram.

Pensavam.

Antonino, que desembarcara na ilha, alegre e triumphante, apesar da
fadiga physica, como se est sempre depois d'um combate de que se sae
victorioso, estava agora triste e inquieto.

Laura fallara-lhe com a costumada meiguice, mas o instincto do amor que
sentia pela esposa, fazia com que o visconde visse para alm das
apparencias, e entendesse o que as palavras no diziam.

Esse instincto dizia-lhe que ella lhe occultava o quer que fosse, e que,
no pensamento intimo da mulher amada, havia um segredo, como que uma
sombra que lhe fugia e lhe era contraria.

Pelo seu lado, Laura, repassando pelo espirito as tentadoras
perspectivas que Lauretto lhe desenrolara, dizia comsigo que Antonino
nem pronuncira uma palavra d'agradecimento pelo sacrificio que ella de
novo fazia regeitando as propostas do director da Opera.

Parecia-lhe que o marido se esquecera do compromisso tomado, de, quando
ella lh'o pedisse, deixal-a em plena liberdade, ou, segundo as proprias
palavras que ento pronuncira, deixar-lhe a gaiola aberta.

Porque seria que, em vez de profundo reconhecimento, elle lhe
testemunhava uma especie de desconfiana amargurada?

Porque pareceria temer a presena do insolente Lauretto Mina, que, como
mulher honesta, ella repellira?

Aquelles dois entes que se amavam, que acabavam de escapar, juntos, d'um
perigo terrivel, e que se considerariam felizes de succumbir a elle,
enlaados n'um abrao ultimo, ao entrarem de novo na vida social,
procuravam divergencias e sentiam egoismos, que separam e dilaceram.

No fundo do corao  provavel que se recordassem, saudosos, da tempestade.

E comtudo essa tempestade passra, como se nada mais tivesse a fazer,
uma vez que lhe fugira o encantador par que desejara victimar.

A ilha de Czambre dista apenas cinco kilometros de Saint-Malo, mas
necessitavam apressar-se para poderem chegar  cidade antes d'anoitecer.

Prepararam-se para partir.

Antonino continuava pensativo.

Laura perguntou-lhe porque estava triste.

Elle desculpou-se com a fadiga.

A verdade, porm, era que deixra de a sentir desde que chegara  ilha.

O abalo moral quebrantra-o muito mais do que a lucta contra a borrasca.

Laura insistiu com sollicitude.

--Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda?

Antonino hesitou, mas por ultimo disse:

--Porque no hei-de confessar-te tudo?  verdade, sim, estou desgostoso!
Sabes o que me incommoda?  a ida de que devemos a Lauretto Mina o
obsequio de fingir que te no conhece, de no se indicar como teu antigo
companheiro no theatro, e, principalmente, a certeza de que elle,
como dantes, cantar ao teu lado, diante de numeroso publico. Se tivesse
supposto que esse insolente cantaria no concerto, affiano que no
consentiria que tu cantasses tambem.

--Lembra-te de que, se vou cantar,  exclusivamente para te comprazer e
a teu pae. De resto,  tempo ainda. Queres que no cante? Affiano-te
que essa tua resoluo no me entristecer, pelo contrario, porque
talvez assim tu fiques completamente socegado.

--Sim, replicou Antonino. Se no cantares socegarei, porque
desapparecer a inexplicavel apprehenso que me assaltou, e de que s
por essa frma conseguirei libertar-me.

--Abraa-me e socega. No cantarei manh, e ficarei to satisfeita como
tu.

Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava j envolta em trevas.
Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia.

Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do baro de
Pontual.

O conde de Bizeux tinha  sua meza, alm do arcebispo de Rennes, todas
as pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha
para assistir ao concerto, que em toda a provincia despertra o maior
enthusiasmo.

Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte.

O visconde explicou ao pae a razo porque desejava que o nome de sua
mulher fosse riscado do programma do espectaculo.

Mas o conde declarou:

-- completamente impossivel!  tarde para isso!

E depois, um pouco exaltado por semelhante resoluo, deu a sua opinio
sobre o caso.

No comprehendia os escrupulos do filho.

Vira e fallra com Lauretto Mina.

O tenor parecera-lhe um homem delicadissimo.

Era para agradecer-lhe que no tivesse feito a mais ligeira alluso 
sua antiga collega, a Linda, e estava certo que o tenor se portaria com
a viscondessa de Bizeux com todas as attenes e respeitos.

O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam
ouvir no a possuiam muitas cantoras de profisso, que o talento de
Laura era inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois
disto, fossem riscar do programma o nome de Laura era collocar
pessimamente o conde que, como vice-presidente da commisso promotora do
espectaculo, como que offenderia as numerosas pessoas que tinham ido a
Saint-Malo para ouvir a viscondessa.

Ora Antonino de certo no quereria que o pae fizesse m figura.

Ante estas razes apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia.

Portanto Antonino disse:

--Pois bem, Laura cantar!




XIX

O escandalo


Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um
somno febril, cortado de sonhos sinistros.

Laura no poude conciliar o somno, to profunda sensao lhe tinham
causado as scenas d'aquelle dia.

De manh teve nova emoo.

Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o
nome de Remissy.

O que significava aquelle caso?

Porque no a tinham prevenido?

Estaria Remissy em Saint-Malo?

Na vespera no o vira e nada lhe constra!

Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a
viscondessa a si propria fez.

O tenor dizia o seguinte:


                                                  _Senhora viscondessa_

No tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava
parte no concerto d'hoje. No sei se ficar satisfeita ou contrariada
com esta noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella.
Fui eu quem, satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a
Remissy, contratado em Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle
tambem no queria vir commigo a Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e
juntar, mais uma vez, n'este concerto de beneficencia, o nome d'elle,
como o meu, ao nome da sr. viscondessa.

Remissy respondeu-me:

Ver e ouvir mais uma vez a Linda, _poi morir_. Sim, sim, irei, mas no
espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos
ambulantes. Informei-me na estao do caminho de ferro, e soube que ha
um comboio que chega a Saint-Malo s sete e meia da noite. Ver-me-ha
entrar na sala do concerto, de casaca e gravata branca, s nove horas
precisas da noite em que elle se efectua.  cautella, peo-lhe que faa
com que o meu nome feche o programma. A _Marselheza_ est
interdiria pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas
locaes. Executarei, pois, a _Marselheza_ hungara, o hymno de Rakoki.

Previno-a d'este caso, sr. viscondessa, mas peo-lhe que no se
inquiete. Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, no pude escrever
ou telegraphar a Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou
telegramma. Esperal-o-hei  chegada e instruil-o-hei de frma que elle
saiba que  compromettedora para a sr. viscondessa a mais ligeira
indiscrio. Remissy , como eu, excessivamente dedicado  sr.
viscondessa, e por isso estou certo que elle annuir ao meu pedido, e
proceder de frma que no a comprometta.

Tenho a honra de me assignar, sr. viscondessa,

                                                     Seu humilde criado.

                                                     _Lauretto Mina._


Esta carta fra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser
lida pelo visconde.

Laura mostrou-a effectivamente a Antonino.

A leitura da missiva augmentou a inquietao do visconde.

--Um risco mais! disse elle.

E depois de pensar, por instantes, accrescentou:

--Afinal a quantidade pouco importa.

Quem no estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux.

Annunciou triumphantemente, ao almoo, que o espectaculo seria magnifico.

A casa fra completamente passada.

Renderia mais de cincoenta mil francos.

Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a
quantia necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros.

O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar,
fazendo-lhe assim a vontade.

Estephania,  claro, no partilhava do enthusiasmo do pae.

--Confesso, opinara ella, que no approvo essas exhibies n'uma senhora
nobre e titular, isso s se admitte nas mulheres que fazem vida pelo
theatro.

O conde, porm, no cumulo da satisfao, mofava da filha e dos
_prejuizos gothicos_ que ella tinha.

Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem
est segura do que executa.

Na vespera fizera substituir no programma a aria _O Rei dos Alamos_ por
um outro trecho de Schubert, _Margarida_, que exigia mais sentimento,
mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais conveniente
que a dama d'alta sociedade o executasse.

Era indispensavel no desprezar a mais insignificante circumstancia para
que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava
era a viscondessa de Bizeux.

Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um
desusado rodar de carruagens.

Apesar da noite ser de luar, o caes fra illuminado a gaz at  porta do
Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera.

Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salo do Casino pelo
brao do conde de Bizeux.

A entrada da viscondessa produziu sensao.

Estava adoravelmente formosa.

Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada
epiderme do collo.

Nos braos, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao
collar.

O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta,
collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e
cujas azas, salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario
brilho.

Laos de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe
os microscopicos sapatos de velludo azul.

O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa, dando o brao  irm,
que vestia uma _toilette_ simples, de seda preta, sem enfeites.

Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma.

Participavam ao conde que o comboio descarrillra a dois kilometros da
estao de La Fresnays.

No havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forado a
demorar-se por aquella circumstancia, no poderia a chegar a Saint-Malo
antes da meia-noite.

No podiam, pois, contar com Remissy.

A noticia alegrou Antonino e Laura.

O salo do Casino estava repleto, brilhante de _toilettes_ primorosas e
caras, e animado pelas meias conversaes dos espectadores satisfeitos.

Logo que o concerto comeou, fez-se o mais completo silencio.

O espectaculo constava de duas partes.

A primeira abriu pelos cros populares bretes, cantados por homens e
mulheres do povo.

Os espectadores, bretes na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo.

A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo na _Ave Maria_
de Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos.

Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura
cantou a aria _Fidelio_.

O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou
o trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo
indiscriptivel.

O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas 
viscondessa.

A esposa dedicada executra a aria, imprimindo-lhe o cunho superior
d'uma alma d'_elite_.

Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha.

Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execuo da aria,
a custo retinha as lagrimas.

Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia
sobre _motivos_ da Bretanha e da Vanda, que foi coroada de palmas.

O penultimo numero da segunda parte, to interessante como a primeira,
era a marcha hungara executada pelo violinista Remissy.

Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux
levantou-se para prevenir os espectadores de que se dera o
descarrillamento, e que, por isso, Remissy no estava presente.

O conde comeou dizendo:

--Um descarrillamento entre as estaes de...

Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino
debaixo do brao, avanou lentamente, e disse:

--O comboio descarrillou, mas por felicidade no se voltou a carruagem
em que segui desde a estao de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, 
hora marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores.

As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas.

Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se
passra.

Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o
sacco de viagem na mo, mettera-se a caminho para La Fresnays,
tranquillamente.

Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a
Saint-Malo, e entrava no salo do concerto, correcto, impeccavel, de
casaca e gravata branca, como se no chegasse d'uma viagem de trezentas
leguas.

Logo que o silencio se restabeleceu no salo, Remissy comeou a tocar o
hymno de Rakoki.

Como sempre, foi extraordinario d'execuo.

As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas o _thema_ do hymno foi
exposto com firmeza e arte.

Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento,
como se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth.

Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico.

Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se
o hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente.

Era a isso que elle chamava _tocar nas estrellas_.

Mas, singular condo do genio, as notas, apesar de fracas e quasi
indistinctas, tinham a mesma expresso e o mesmo encanto.

Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas
furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito.

Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio.

Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os
espectadores gritaram:

--Bis!... bis!...

Remissy, depois de agradecer a ovao, disse:

--Desculpem-me, mas no repito nunca os trechos que executo. Tocarei
qualquer outra coisa. D'esta vez ser alegre a musica.

E comeou a executar as celebres variaes, que compozera sobre o
_Carnaval de Veneza_.

Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade,
que Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praa de S. Marcos.

Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens
dos companheiros da _Commedia dell'arte_.

Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical,
passava uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro.

As palmas retiniram novamente.

Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fra amigo de seu pae.

Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia
modestamente.

O ultimo numero do programma, era a _Margarida_, de Schubert, cantado
pela viscondessa de Bizeux.

Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou
Remissy, que se retirava.

O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento:

--Ah! encontro-a emfim! no a via...

A viscondessa no o deixou terminar.

Apertou-lhe expressivamente a mo, e continuou andando.

Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda.

A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mo
a cadeira que Laura acabava de deixar.

O violinista approximou-se.

A baroneza disse-lhe ento:

--Querer o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado?

Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, no
se dando mesmo ao trabalho de responder.

Lauretto Mina no estava longe.

Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera,
de que a Linda desejava guardar o incognito.

No se moveu, porm.

--O acaso  contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada tero a
censurar-me por faltar ao compromisso tomado.

A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores,
cumprimentou graciosamente antes de comear.

Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande
espanto da baroneza:

--Que felicidade! No a ouvia ha tanto tempo!

Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e
nitida pronuncia, to desprezadas actualmente, que  raro perceber-se
uma s das palavras ditas pelas cantoras.

--Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca
qualquer outra voz me emocionou como a da Linda!

Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a
potencia da sua maravilhosa voz, enchendo, por assim dizer, o salo
com a mais bella e profunda sonoridade.

Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora.

Os bravos resoavam.

Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso!

--Bravo, diva!... bravo, Linda!...

Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salo.

Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy.

Augmentava a sua surpreza.

--Que querer elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparar
a voz da celebre Linda  voz da viscondessa?

Laura proseguia.

Os impulsos da paixo, e os gritos de dr do final da aria, exprimiu-os
e pronunciou-os ella de uma frma surprehendente.

A sua voz foi simultaneamente to penetrante e suave, o som to sentido,
a emoo que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com to
adoravel expresso, que o auditorio estava como que galvanisado.

Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola
occulta.

As damas choravam.

Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira exploso d'applausos, de
bravos, de gritos d'admirao unanime.

Remissy estava fra de si.

Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava.

A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras.

--Que artista!... dizia elle. No tem egual!...  extraordinarissima!...

Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido.

Dir-se-ia que elle proprio no fra alvo, pouco antes, de manifestao
quasi semelhante.

 que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle
centuplicado effeito.

Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual
Laura cantra.

A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovao que lhe era
feita.

Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mos e disse bem alto:

--Ah! minha cara diva, tu s sublime!... No posso conter-me, minha
querida Linda!... Se no te beijar, rebento!

E envolvendo-a nos braos, beijou-a com sofreguido nas duas faces.

Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao
violinista:

--No pde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy!

--Hein! o qu!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista estupefacto.

E lanou em volta um olhar admirado.

Era curiosa a mudana operada no auditorio.

Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis.

Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o
seu superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os
agora.

Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio.

E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas.

--O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria
familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por
tu!.. Beijou-a em publico!... _Shocking!..._  escandaloso!... 
ridiculo!...

Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual,
que gritava, com irreprimivel satisfao:

--A Linda!  a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux  a
Linda!

Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente
do salo, pelo brao do vigario geral, murmurando a meia voz:

--_Vade retro, Satanaz!_

Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente:

--O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae?

Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura.

O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago,
indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos:

--Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, sero por
acaso burguezes?... Trato-a por tu,  verdade... Mas o que admira, se a
Linda  o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas  a _Margarida_ que
beijo, selvagens!... Por ventura ignoraro os srs. bares, condes e
marquezes presentes que a verdadeira divisa da nobreza  _Honny soit qui
mal y pense_?

Antonino approximra-se de sua mulher.

Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o brao disse-lhe:

--Anda, Laura, vem.

Atravessou altivamente o salo, com a mulher pelo brao.

Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabea, e frio e
sereno o olhar.

Os espectadores abriram alas.

 medida que avanavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis.

Quasi  sahida do salo os applausos resoaram de novo, to entusiasticos
como no fim da aria.

Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse:

--No me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa
querida Linda, pratiquei uma grande tolice!

Mas depois d'um momento de silencio ajuntou:

--Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita.

O tenor respondeu apenas, sarcasticamente:

--Parece-lhe?




XX

Discordia conjugal


Laura e Antonino subiram para a carruagem, que os devia conduzir a casa.

Iam tristes.

Olhavam-se silenciosamente, encostados aos cantos do trem.

O visconde pensava com amargura no escandalo que acabava de dar-se, que
to fra de proposito rebentra.

Acceitra antecipadamente, com todo o desassombro, o effeito que devia
seguir-se, cedo ou tarde,  revelao do nome e do passado da esposa,
mas jmais calculara que essa revelao se faria em circumstancias to
estrondosas e desagradaveis.

Apesar do espirito independente que possuia, Antonino conservava comtudo
certos prejuizos de raa, de educao, impossiveis de fazer desapparecer
por completo.

Ao atravessar na carruagem os caes desertos calculava com tristeza o que
se passaria no dia seguinte.

Parecia-lhe estar vendo j o aspecto severo de sua irm, e at de seu
pae, a frieza dos seus amigos, e a circumstancia, mais dolorosa ainda,
de sua esposa no continuar a ser recebida pela primeira sociedade de
Saint-Malo.

Laura, pelo seu lado, magoada pelo silencio do marido, dizia comsigo que
nada tinha de que censurar-se.

No s no pedira para cantar no concerto, mas at se recusara a tomar
parte n'elle, apontando as inconvenientes que d'ahi podiam advir.

Consentira em cantar em publico unicamente para annuir s reiteradas
instancias do marido e do sogro.

Fra culpa sua que aquelle doido Remissy, com o seu exaltado
enthusiasmo, transformasse em escandalo o que no devia passar de triumpho?

Chegaram a casa sem trocar uma s palavra.

Operava-se, de subito, uma verdadeira separao entre aquelles dois
seres, que, entretanto, por inexplicavel aberrao, continuavam amando-se.

As desigualdades d'educao, e as educaes diversas, produzem muitas
vezes affeies que a todas as contrariedades e desgostos resistem.

Antonino acompanhou a mulher at ao quarto, e em seguida caminhou para a
porta, retirando-se.

--Deixas-me assim? perguntou Laura com voz triste.

Elle indicou-lhe, com um gesto, a creada, que entrava para despir Laura,
e respondeu:

--Voltarei d'aqui a pouco.

A viscondessa impoz silencio s curiosas perguntas que Jacintha lhe
fazia sobre o concerto, e disse  creada que se retirasse logo que lhe
despiu o vestido que levara para o concerto, substituindo-o por um
outro, de trazer por casa.

Depois foi, apesar da humidade da noite, encostrar-se ao parapeito da
janella aberta.

Ao longe, o mar, to tempestuoso na vespera, estava sereno como um lago.

Ouvia-se o regular sussurro da vagas, e o ruido monotono das ondas
desfazendo-se na areia da praia.

Nas aguas cahiam com lentido os remos d'alguns escaleres da alfandega.

No ceu azul, semeado d'estrellas, uma comprida nuvem clara, como longa
facha branca, listava o espao, por baixo da lua impassivel.

Um sino badalou triste, lugubremente.

Aquelle som fez-lhe mal.

Parecia-lhe que dobravam a finados, pela morte de alguem que lhe era caro.

Seria esse morto o seu amor?

Abriu-se a porta do quarto.

Laura voltou-se.

Era Antonino que entrava.

Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme.

--Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que
poderemos ns dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou?

--Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que
soffri. Como conscienciosamente sabes, eu no tive a menor culpa do que
succedeu.

Antonino replicou com amargura:

--E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos
e bem ridiculos!

--No  d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros dias
das nossas relaes. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se
era improvavel, no era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia
evitado se, como eu desejava, no me obrigassem a cantar no concerto.
Pois se eu no tivesse como que uma especie de pressentimento de que se
passaria o quer que fosse de desagradavel, insistiria por ventura para
no ser incluida no programma? Foi teu pae, e tu proprio, que no
annuiram aos meus pedidos. Cedi, porque no podia deixar de o fazer. O
enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se eu tivesse cantado mal no
teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has, por ventura, por ter
cantado bem, fazendo com que me applaudissem? No devo ser accusada
d'esse crime, se o foi, porque no sou responsavel por elle. Lavo d'ahi
as minhas mos.

--A verdade  que no s tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu
Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que s a Linda?  um
nome que tornaste celebre, e que estimas,--sem duvida muito mais,--do
que aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia,
esse nome, cahindo bruscamente, sem preparaes, sobre o publico,
vae servir de man  malignidade de toda a gente, que nos escarnecer e
diffamar. Seremos repellidos da sociedade que at aqui frequentavamos,
passaremos por pessoas que desprezaram a opinio publica, enganando os
amigos e os parentes.

--N'uma palavra: deshonrei a tua familia, no  verdade? interrompeu Laura.

--No digo tanto, mas...

--Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para
que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que no era a minha, n'essa
sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as
probabilidades, me fechar manh as suas portas? E eu por que accedi
aos teus desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem
por isso? Tens pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que,
casando commigo, tu me levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem
que no  assim, sabes bem que eu, casando comtigo, pratiquei um acto
d'abnegao, immolando-te e ao amor que por ti sentia, o que at ento
fra a minha alegria e a minha vida, a arte, o renome, a gloria! E esse
sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se, persisto n'elle e
renovo-o incessantemente. E jmais te dei a perceber quanto elle por
vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a
Frana, depois que vivo n'esta atmosphera de provincia em que
respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes artisticos que
possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado que me 
querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime! 
muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me foras,
recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o
theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te
envergonha, mas que  a minha maior gloria!

--Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do
sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? No te amo agora como
te amava d'antes?

--No, no me amas! Se me amasses como d'antes, no te porias ao lado da
sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade!

--A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com ella..

--Muito bem! Empregars todas as diligencias para que me tolerem, no 
verdade? No, no, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a
d. Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma
estranha, em que eu no passava de pria!

Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto.

Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio:

--Ests como eu, Laura, sob a impresso do incidente que ambos
lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre
esse assumpto, que no augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te.
manh estars mais socegada. At manh...

Pegou-lhe na mo, que ella lhe abandonou, inerte e fria, e repetiu:

--At manh.

Laura respondeu a meia voz:

--Pois sim... deixa-me. At manh.

Antonino olhou-a, ancioso.

Depois deu tres passos para a porta, e parou, como sentindo desejo de
voltar.

Por fim sahiu do quarto, fazendo um gesto de desanimado.

Logo que o visconde fechou a porta e ella sentiu apenas o ruido de
passos, que se affastavam, Laura, que at ento se reprimira, rompeu em
soluos.

Chorou muito tempo.

As lagrimas faziam-lhe diminuir a angustia que sentia.

Passado algum tempo, um pouco socegada, ora passeiando pelo quarto, ora
encostada a uma mesa, ella reflectiu na sua situao.

Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de servio, e,
pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha.

O quarto estava vasio!

Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama.

Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos.

Depois, fazendo um gesto de resoluo, desceu ao seu quarto novamente.

Davam quatro horas n'um relogio da casa.

Vestiu apressadamente uma _toilette_ de viagem.

Logo que terminou, sentou-se  mesa, e escreveu a seguinte carta,
precipitadamente:


                                                   _Antonino_

Reclamo de ti a palavra dada.

Volto para o theatro.

Parto sem te ver.

Temi a tua resistencia e a minha fraqueza.

Evito assim, a ambos ns o desgosto da despedida.

A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me
despresa, era para mim impossivel.

Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu corao te envia:

Amo-te, Antonino, amo-te muito! No posso continuar vivendo comtigo
uma vida que me incommodaria, mas espero e peo-te que me ds a
felicidade de viver commigo a minha vida passada.

Sou e serei sempre tua

                                                     _Laura._




XXI

A fuga


Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando  sua sorte essa
louca inconsciente, Jacintha.

Pensou:

--Devo deixar aqui toda a especie d'affeio?

Lembrou-se da dedicao cega que Jacintha tinha por ella, dedicao que
a levaria a lanar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.

Depois de reflectir, resolveu-se.

Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao
quarto da creada collocar o papel sobre uma mesa.

Recommendava-lhe que de manh tomasse, o mais occultamente que lhe
fosse possivel, o comboio de Paris, que partia s oito e meia.

Logo que chegasse  capital, procural-a-hia no Grande Hotel,
designando-a por _madame_ Linda.

A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o
Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.

Ao escrever estas recommendaes, Laura pensava:

--Por esta frma saber Antonino onde encontrar-me.

Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias,
cartas, alguns objectos insignificantes,--pura recordao,--e outros
essenciaes.

Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para
aquelle quarto, onde, apesar de tudo, passara horas to felizes.

Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.

Uma claridade, baa ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as
aguas da bahia.

As ondas tomavam reflexos cinzentos.

Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade,
e desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas
estrellas se perdiam.

Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.

No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que
manchavam a cr d'ardosia do mar.

Laura saccudiu bruscamente a cabea.

Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a
torturavam.

Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta
para Antonino ficasse bem em evidencia.

Poz um chapeu de cr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa
cinzenta.

A escada de servio, que subia at ao quarto de Jacintha, descia para a
rua, do lado da casa opposto ao mar.

A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.

Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precauo, caminhando na
ponta dos ps, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto
d'Antonino, separado do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma
porta para aquella escada.

No patamar parou por um minuto.

O corao batia-lhe apressadamente. Escutou.

Antonino no estava deitado.

Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.

Passeiava vagarosamente.

A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lanando-se-lhe nos
braos.

Resistiu  tentao.

Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e
principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.

Um dos degraus gemeu sob o peso.

Teve medo.

Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o
tapete que havia ao fim da escada.

Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu
para a rua.

O ar frio da madrugada fez-lhe bem.

Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da
velha cidade.

Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.

Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos,
dirigindo-se ao trabalho.

As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de
legumes e hortalias, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo
alto, e dirigindo, umas s outras, os velhos motejos gaulezes, para
attrahirem a atteno dos homens que encontravam.

Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e
ouviu, ao passar, os seus commentarios licenciosos.

Quando chegou  _gare_ era dia.

O comboio expresso da manh partia s cinco e meia.

Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera,
pensativamente.

Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o
silvo da locomotiva a chamou  realidade.

Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou
apressadamente na _gare_.

De repente estremeceu.

A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.

Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:

--Parte para Paris, Linda?

--Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua carruagem.

Mas logo em seguida perguntou:

--Remissy no parte agora?

--No, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Est
muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque
necessito fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que
lhe falle de si, ou, como no podia dizer em Saint-Malo que a senhora
era a Linda, ser-me-ha interdicto dizer em Paris que a Linda  a
viscondessa de Bizeux?

--Proceda como entender...

Chegou ao compartimento que tomra.

Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:

--Mas diga-me, _cara mia_...

--Senhor, respondeu Laura com dignidade, j nos cumprimentmos. Como v,
estou s e o senhor  um homem sufficientemente bem educado para no me
acompanhar por mais tempo.

E subiu lestamente para a carruagem.

Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.

Deitou fra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por
entre dentes:

--Tu me pagars, vibora!

Quando o comboio estava proximo da estao de Dol, o tenor escreveu
algumas palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e,
logo que o comboio parou na estao, apeiou-se, chamou um empregado a
quem entregou o papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:

--Para o telegrapho.

O telegramma era concebido da seguinte frma:


_Visconde de Bizeux.--Saint-Malo._

Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.

                                     _Um amigo._


Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado,
respirando a custo.

Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde no
ter chamado.

Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:

--Perdo; o sr. visconde no chamou, mas como este telegramma chegou ha
mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.

O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o
telegramma.

Leu e soltou um grito estridente.

Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o
corredor de communicao que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.

O leito estava intacto.

Sobre a mesa viu a carta que Laura deixra.

Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mos tremulas.

Agitou os braos no espao, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por
uma congesto cerebral.




XXII

Uma representao dos Huguenottes


O cartaz da Opera annunciava para aquella noite os _Huguenottes_,
cantando a Linda a parte de Valentina.

Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituio do primeiro
tenor, que adoecera.

Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e
magro, apoiando-se  bengala, entrava n'uma das agencias theatraes ento
recentemente abertas nos _boulevards_, e comprava um _fauteuil_
d'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preo da
casa.

Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura
abandonara a casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a
Linda s tivera noticias indirectas e incertas de seu marido.

Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,--_enviados por Marieta
Dauvin_,--seis grandes volumes contendo, no s os vestidos e demais
roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e
que provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.

Nem uma carta, nem uma s palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu
profunda anciedade.

O que significava aquelle silencio?

N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a
prendia e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem
reflectir.

Agora estava livre.

Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.

Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se,
saudosa, do seu amor.

O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda,
pedira-lhe uma entrevista.

Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.

Addiava, por instincto, a sua conversao com o emprezario, que de certo
a queria contractar.

Lia todas as manhs o _Correio de Saint-Malo_, que mandava comprar 
agencia Havas.

Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,--uma partida,
um accidente imprevisto--encontraria a noticia n'aquella folha local.

Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella
procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma s vez foi
mencionado pelo jornal.

A quem devia dirigir-se? A quem escrever?

Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.

Essa circumstancia fez com que no se relacionasse intimamente com
pessoa alguma.

Ao cabo de dez dias no poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.

Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:


Porque guardas silencio? No recebeste a carta que te deixei? No
comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a terminei?
Responde, peo-te! Responde, ainda que seja colerica ou desdenhosamente.


Depois supplicava ao marido que s escrevesse uma palavra, uma s, que
podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.

Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo.

Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.

A carta era do conde de Bizeux.

Escrevia o pae d'Antonino:


                                                        Minha senhora:

No  o filho que lhe responde,  o pae,  o chefe da familia que a
senhora abandonou to bruscamente, to cruelmente, e na qual deixou a
desolao e o lucto.

Esse chefe de familia no lhe dirigir, comtudo, a mais leve censura,
nem em seu nome, nem em nome do filho.

Desejou ser livre _para voltar para o theatro_. Satisfez o seu desejo,
est livre.

Ns desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que
nos importune quem quer que seja.

S lhe pedimos uma coisa:  que nos deixe esquecer, e esquea o passado.

                                              _Augusto, conde de Bizeux._


Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia.

Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!

Era o pae que intimava  fugitiva aquella especie de sentena, com ares
de juiz justiceiro!

O que houvera no seu procedimento de to reprehensivel e criminoso que
justificasse uma tal attitude?

Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e
deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella frma!

Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e at o despreso
geral, se assim fosse.

Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das
leis estabelecidas, no podia ser julgado com tanta severidade por seu
sogro ou por seu marido.

A injustia, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e
altivo de Laura.

A sua consciencia e o seu corao diziam-lhe que no merecia ser tratada
de semelhante modo.

Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal absteno, guardar o
mais completo silencio, para que a sua dignidade no soffresse a menor
quebra.

Foi ento, e s ento, que marcou o dia para a entrevista que o director
da Opera solicitra.

O emprezario queria escriptural-a.

Laura recusou em absoluto um contracto de longa durao, apezar das
magnificas condies que lhe offereciam.

No desejava prender-se por muito tempo, e por isso s acceitou o
contracto por um limitado numero de representaes.

O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condies ir
alterar o seu plano d'explorao theatral, curvou-se  imposio de
Laura, e acceitou.

A Linda arrendou ento, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez
do cho modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando
os moveis que lhe tinham enviado de Saint-Malo.

Alm de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta
annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as
funces de cosinheira.

Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua
nova casa, satisfeita, na sua dr e no seu isolamento, de sentir-se,
pelo menos, senhora absoluta das suas aces.

Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.

No lhe teria produzido to doloroso effeito a carta do conde, se
soubesse em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.

Oito dias depois da congesto o ter prostrado, ainda Antonino no
percebia o estado em que se achava.

A doena aggravara-se dia a dia.

Nem um s dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava
condemnado.

A robustez da sua constituio fazia augmentar a violencia da doena

D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia
perder o filho unico, a quem tanto amava.

Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por
Laura a Antonino.

O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que
a nora deixra em casa,  partida.

Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razo.

D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.

Mas quem garantia ao fidalgo que Laura no mentia?

Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que fra como que um
punhal a enterrar-se no corao d'Antonino.

Seu filho acreditra no que dizia o telegramma.

Que razo tinha o conde para no acreditar tambem?

Mas, culpada ou no, Laura era a causadora unica da morte do seu filho.
O conde no era juiz, era pae.

Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua
indignao lhe inspirra.

Laura matava-lhe o filho; no podia deixar de detestar, d'amaldioar
essa mulher.

A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas
semanas.

Durante todo esse tempo Antonino no reconheceu pessoa alguma.

O delirio no o abandonra um s instante.

Mas a prolongao da doena passou a significar esperana.

Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:

-- possivel salvar-se.

Quinze dias depois accrescentaram, emfim:

--Est salvo!

Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de
si mesmo. Apertou ao de leve a mo da irm, que estava sentada junto ao
leito.

Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:

--Laura?...

Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.

Em seguida quelle esforo, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia
pesada, que era a sua salvao.

A natureza, essa maravilhosa enfermeira, s lhe fez recuperar
completamente a razo, quando o doente estava em estado de j poder
supportar a verdade.

Recordou-se de tudo.

Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de
chamar, no estava alli, abandonra-o.

Porque?

Quando?

Ah! sim, recordava-se... fra uma manh...

Mas ella fugira s?

Accudiu-lhe  memoria o fatal telegramma...

Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,--d'uma carta d'ella!--que no
tivera tempo d'abrir.

Interrogou seu pae.

O conde entregou-lhe ento as duas cartas de Laura, cuja leitura s
podia fazer bem ao doente.

E com efeito assim foi.

Antonino poude chorar.

O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.

--Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me. Chama-me,
espera-me! Nunca deixra d'amar-me! E ha j dois mezes que ella me
espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de mim, sabendo-me
perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? No lhe deram
noticias minhas?

O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que
lhe parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta
implacavel que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que
jmais teria noticias de seu marido.

De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter
acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura
mentia nas duas cartas. Ao ouvir a explicao do conde, Antonino respondeu:

--No, no!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque
declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... no a conhece! Ella possue
o mais sincero e leal corao que  possivel imaginar-se! Tenho a
certeza que Laura no sente despreso por esse Lauretto Mina, sente
tambem horror!

O conde de Bizeux, apesar de no estar convencido, no quiz contrariar o
filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doena.

Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe,
chamando-a para junto d'elle sem detena.

O medico, porm, impedia-o de realisar a inteno, declarando-lhe que
ainda no tinha foras sufficientes para escrever, e que, fazendo-o,
arriscava-se a peorar.

Como no o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo,
resolveu no escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse
que o podia fazer.

Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura
de Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.

Por essa occasio os jornaes da capital noticiaram as representaes de
Linda na Opera.

Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:

--No a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o seu
sonho doirado. Voltar depois mais socegada.

O conde, depois de ter perdido completamente as esperanas de que os
medicos salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho no
morreria, estava louco de satisfao.

Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiana no
futuro.

De resto, em consciencia, elle censurava-se pela frma porque procedera
com Laura, respondendo desabridamente  carta que ella dirigira a
Antonino.

Fra injusto, fra cruel at, e desejava por isso tornar a vel-a para
nobremente lhe pedir perdo.

Comtudo, occasies houve em que se inquietou.

Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura
tomava parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da
Linda.

Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.

Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.

Com essa intuio que  como a segunda vista do amor, tinha a convico
absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia
ser para Laura.

No lhe restava a maior duvida.

Elle, to concentrado e to ciumento, como todos os que amam
verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella no podia amar
outro homem.

Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas
caricias trocadas, d'algumas injustias que Laura lhe censurra, e
percebia, interrogando o seu corao, que ella seria sempre d'elle, s
d'elle.

E tinha razo, porque no s a Linda no amava o tenor, como at o
despresava.

No se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.

Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer frma
no que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.

Na noite do concerto o tenor no estava longe de Remissy, podia ter
avisado o violinista de que a Linda no desejava ser reconhecida, e
Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os
labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio,
pouco antes do comboio se pr em marcha.

De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer
indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos.

Todavia a fatuidade de Lauretto no lhe fazia perder as esperanas, e
quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando
meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a crte.

No amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara
qualquer outra mulher, segundo affianava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu
amor n'um tom serio que no lhe era habitual.

--Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a
quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar
d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se far matar pela minha
amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso
admirador.

A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com
uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.

Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a
prudencia com que estava resolvida a responder.

Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que
sentia por elle.

Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e
tornou-se inimigo de Laura.

--Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que ser minha!

Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro
Italiano para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:

--No serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!

Motejavam d'elle, diziam-lhe que no poderia cumprir o juramento feito,
porque, decididamente, a frma pela qual a diva o tratava, os seus
cumprimentos frios, despresadores, no lhe deviam deixar esperana de
ser bem succedido.

--Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os
labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcana. O visconde
est ausente, portanto no tenho que temer o rival. Aposto o que
quizerem em como podero verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a
predico do nosso antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:--A Linda ser
d'elle!

O odiento adorador da Linda estava n'estas disposies ameaadoras na
occasio em que Antonino chegou a Paris.

O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho  capital, em
primeiro logar para no se separar d'elle, e depois para velar por
Antonino, porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel
doena que o ia matando.

Mas Antonino tinha a sua ida.

Instou com o pae para que o deixasse partir s.

Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concesses: addiar
a partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescena
avanasse mais uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas
partes, para evitar o cansao que lhe adviria de uma viagem to longa.

Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante.

Logo que chegou a Paris, acompanhado por um s creado, installou-se na
sua antiga casa de solteiro, no _boulevard_ Haussmann.

Conservou-se deitado sobre um canap at quasi s seis horas da tarde,
descanando, sonhando.

Pouco depois sahiu, e comprou, como j dissemos, um _fauteuil_
d'orchestra n'uma agencia theatral dos _boulevards_.

Em seguida foi jantar ao _Caf Inglez_, e s sete horas e meia entrava
na Opera.

Tivera a phantasia, que se transformra em ideia fixa, de tornar a ver
sua mulher,--de tornar a ver a Linda,--cantando a parte de Valentina dos
_Huguenottes_, que era justamente o papel que ella representra a ultima
vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.

Tornaria a vel-a, do seu _fauteuil_ d'orchestra, apenas como um simples
espectador, e sem que ella desconfiasse da presena d'elle.

Esperava sentir dupla alegria.

Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua
adorada mulher.

Sentiria as emoes do amador, e os estremecimentos do amante.

A verdade era que, depois da meia anniquilao, da meia morte de que
sahia, no se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem
tanta exhuberancia d'amor.

A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel
crise.

Mas a convalescena chegara.

Havia em todo o seu ser, e em todo o seu corao uma especie de
renascimento.

A fora physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.

Amava Laura com esperana e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes
a amara.

Chegando, como um provinciano, meia hora antes de comear o espectaculo,
admirou a escadaria, o _foyer_, as pinturas de Paulo Baudry, o salo!

Extasiou-se ante as _toilettes_ claras das senhoras, que sobresahiam do
vermelho do forro dos camarotes.

Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos
candelabros, do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino,
que dentro em pouco se elevaria para lhe deixar ver Laura.

Um ruido confuso de conversao espalhou-se pela sala.

Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.

Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da
orchestra levantou a batuta.

A opera comeou.

Antonino, porm, conhecia a partitura de cr, escutava como em sonho,
apenas vagamente via passar Lauretto Mina.

Todo o seu ser esperava por Laura.

Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena,
sentiu a louca tentao de se precipitar para o palco, e esteve prestes
a soltar um grito.

Quasi immediatamente depois, porm, voltando a si, olhou em volta para
ver se tinha chamado a atteno dos demais espectadores.

Mas no; merc do instinctivo habito adquirido, conservra-se correcto.

A representao seguia como um encanto para o visconde.

No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.

Disse a phrase

    _A offensa mortal do ingrato..._

com um sentimento to penetrante e to meigo, que os olhos d'Antonino
marejaram-se de lagrimas.

A sua emoo, porm, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina,
que abre o terceiro acto, e comea

    _Estou s com a minha dor!_

Quando Laura soltou o grito doloroso:

    _Meu Deus! afugentae esta lembrana fatal..._

a vibrao da sua voz maravilhosa foi to pungente e to vivida, que no
podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura quem se
lamentava e no Valentina.

O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de
terror gelado.

Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que
cantava, unicamente a elle que se dirigia.

Segundo as suas impresses, at ento tudo se passara, por assim dizer,
entre ella e elle.

Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.

Depois da beno dos punhaes, Raul fica s com Valentina.

Raul, por substituio n'aquella noite, era Lauretto Mina.

O dueto sublime comeou.

Aquelle trecho de musica produz o que no poderia produzir qualquer
outra arte, nem a pintura ou a poesia.

Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor
dos sentidos.

Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilaceraes da paixo, com
todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis
da voluptuosidade!

E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!

Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.

D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento e
_virtuosidade_ que possuia, com vigor e expresso.

Jmais, porm, a ouvira cantar com aquella paixo e embriaguez.

N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.

Agora sentia, recordava-se.

No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinao extranha.

Quando viu Laura--porque, para elle, aquella mulher deixra de ser
Valentina--lanar-se, supplicante, aos ps de Lauretto--que j no
considerava como Raul--acerbo ciume se apossou d'elle.

Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar 
fico uma realidade terrivel.

O salo, o publico, desappareceram.

Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor
entre sua mulher e aquelle homem detestado.

E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:

--Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse
indifferente, envolvel-o em arrebatados abraos, dirigir-lhe to
ardentes supplicas? Poderia, se no o amasse, attrahil-o e retel-o
contra o corao com tal accesso de ternura e de dr?

Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;

    _Fica, Raul, eu amo-te!_

o visconde mordeu a mo para no gritar:

--Miseravel!

Raul parte e Valentina cae desmaiada.

Antonino, no seu _fauteil_, parecia ter desmaiado tambem.

Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e
Marcial.

A presena d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o
despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o  verdade da situao
theatral.

Os olhos viram claro.

Laura passou novamente a ser Valentina para elle.

Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.

Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o
inegualavel dueto d'amor com tanta paixo pessoal, deixando n'elle, por
assim dizer, a sua alma, no era um tenor qualquer que ella escongurava,
que ella adorava com aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem
que amava, o homem que no via, mas que estava sempre presente  sua
imaginao, o homem que primeiro lhe revelra as alegrias celestes que
podem gosar duas almas irms.

E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel viso que tivera,
como se ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas
verdadeiras formas, deturpadas pela illuso das trevas. Estava j
completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo,
para de novo se levantar s duas chamadas que o publico enthusiasmado
fez a Laura.

O visconde sentia-se satisfeito pela resoluo que tomara, antes de
partir para Paris.

Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco,
perguntando ao porteiro onde era o camarim de _madame_ Laura Linda.

Entrou.

Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia do _foyer_.

O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver
Antonino, recuou admirado.

--O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.

Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presena d'espirito, e
accrescentou no tom de cortezia que exasperava Antonino:

--O sr. visconde procura sem duvida _madame_ Laura Linda?...  a segunda
porta, n'esse corredor da direita. Creio que _madame_ Linda est s esta
noite.

Antonino inclinou ligeiramente a cabea, e passou sem responder.

Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicra, Lauretto
murmurou colerico:

--Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto  para juntar ao
total!

Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.

Jacintha foi abrir.

Ao ver o visconde soltou um grito.

Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim,
para o qual correu, gritando:

--Minha senhora... minha senhora...  o sr. visconde!

Laura, de penteador de cachemira branca, entranava o cabello diante
d'um espelho.

--O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.

No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos,
phantasma de si proprio.

Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um s gesto
nem pronunciarem uma s palavra. Antonino disse por fim:

--Laura!

Depois caminhou para ella lentamente.

A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.

Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna.

--Minha Laura... amo-te!

Ella juntou as mos, extasiada, e replicou:

--Meu Antonino!... s tu?... Ah! tambem eu te amo!

Lanou-lhe os braos em volta do pescoo, alegremente.

Foi longo o abrao.

Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:

--Mas porque ests n'este estado?

O visconde respondeu, sorrindo:

--Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, entre
a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando
uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae,
afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia
anonyma, escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle
est arrependido do que fez, e pede-te perdo. Eu, logo que estive em
estado de partir, vim procurar te. Eis-me aqui.

Quiz tomal-a nos braos.

Ella impediu-o de realisar a inteno.

Fez-o sentar n'um canap e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixo.

--Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de
ti! Porque no me chamaste?

--Estive muito tempo sem consciencia...

--Mas depois?

--Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra,
no quiz privar-te da liberdade promettida No desejei ser um
impedimento, um obstaculo  vontade que tinhas de voltar para o theatro,
que  como o teu paiz natal. lem disso, considerei-me obrigado a expiar
algumas culpas, Eras tu que tinhas raso, Laura, n'aquella funesta noite
em que partiste. Que me importava a opinio d'estranhos? No devia
inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a
sociedade para o amor? A sociedade, para ns, somos ns proprios. Ama-me
como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem
Mozart, Beethoven e Meyerbeer? No os amo eu tambem, principalmente por
tua causa?

--Ah! como s bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito:
assististe ao espectaculo de hoje?

--Assisti.

--No te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em
ti, no  verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o
papel de Valentina, cheio de _phrases_ que parecem ter sido escriptas
para a situao d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me
mal, especialmente depois que estou s, e comtudo sinto-me feliz quando
a canto! E o dueto do quarto acto? No  verdade que o canto agora
melhor do que d'antes?

--Sim, sim, cem vezes melhor!

Laura ajuntou, collocando as mos sobre os hombros, do marido:

--Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!

Antonino sentiu o corao innundado d'alegria.

A segunda impresso que tivera durante o espectaculo, no o havia enganado.

Era o seu amor, que Laura cantara to apaixonadamente.

Ella proseguiu:

--A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas
vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, s novamente
meu. Esto reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes,
junto de ti, a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a
nostalgia do teu amor!

Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.

Laura estava completamente entregue  sua querida arte.

A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos
d'outr'ora.

Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma
bronchite.

Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a
Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.

Por sua parte, Antonino contava no receber ninguem nos seus
aposentos do _boulevard_ Haussmann.

Era possivel que o pae viesse vel-o, mas s muito mais tarde.

--Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual  a vontade do meu
senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou ir elle para a minha?

--Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os
longos dias de convalescena.  provavel que aches n'elle o quer que
seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste
bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona
para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma.
Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiana em ti,
deixo-t'a. No serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres?

--Quero, sim, quero, porque  a verdade!

--Ento nem eu irei para tua casa, nem tu te installars na minha.
Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e
prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto,
apenas por ns conhecido, onde ninguem poder surprehender-nos ou
incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente,
clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos
correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde, e tu convidar-me-has
algumas vezes para jantar com Despujolles.

--Oh! mas isso  encantador! disse Laura.

--Agrada-te a minha ida?

--Immenso!

--Bem! Havemos de ser muito felizes, vers. Est combinado. Chama
Jacintha. Vou deixar-te, para s te tornar a ver d'aqui a oito dias.
Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa
felicidade. O que me far diminuir o pesar d'esta separao, ser
lembrar-me que me occupo da minha querida Laura.

--E eu, durante esse tempo, s em ti pensarei!

Antonino levantou-se.

Laura, pegando-lhe nas mos, disse:

--Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.

Beijaram-se longamente, ardentemente.

Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.




XXIII

O amante legitimo


Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.

No dia seguinte pela manh, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em
busca d'uma casa onde fizesse o _ninho_ promettido.

Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de
Laura e d'aquella em que elle vivia.

Era o rez-do-cho d'um predio de dois andares.

Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, alm da entrada
principal,  esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo
porto, uma entrada particular que abria para a rua.

A casa era composta d'um salo, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande
e claro, cosinha e um outro quarto de menores dimenses.

Arrendado o rez-do-cho, Antonino chamou um estofador dos mais
conceituados de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas
horas, ficou assente que moveis e estofos guarneceriam a casa.

O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo,
para isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.

Era deliciosa a ornamentao, apesar de simples.

Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois
corpos, um aparador da Renascena, guarnecido de baixela de prata antiga
e de faianas de Ruen, Nevers e Marselha.

O fogo, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas
figuras biblicas.

A mesa fra coberta com um tapete de velludo de Gnes.

O movel principal do salo era um piano Erard, construido no esqueleto
d'um cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de
Boucher, representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem
celeste.

Ao fundo, as tres graas voavam para o Olympo.

A cr viva da tapearia que forrava o salo fazia sobresahir os quadros
que Antonino mandra vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de
Lancret, uma Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau,
assignado pelo mestre.

Um lago, de Julio Dupr, defrontava com um outro, visto  hora
crepuscular, de Corot.

O quarto de cama era a maior casa do rez-do-cho.

Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns
gabinetesinhos de _toilette_.

O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha
por unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalho,
em que se viam dois LL entrelaados e encimados por uma cora.

Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para
Antonino, queriam dizer Laura Linda.

Nas paredes, cr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes,
bordados, representando paysagens com figuras finamente desenhadas
e admiravelmente coloridas.

Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.

Nem um s objecto que compunha a mobilia do rez do cho era de mediano
valor.

Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem
presidira  decorao das casas.

O estofador encarregra-se d'enviar da praa da Magdalena tudo o que
respeitasse a cosinha.

D'esta frma apenas d'um creado necessitariam.

Jacintha estava naturalmente indicada para esse servio.

Laura e Antonino podiam contar com a dedicao e a discrio da creada.

Ella bastaria para servir  meza e para vestir a cantora.

O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.

Como a ornamentao no destoasse da restante, Jacintha,
satisfeitissima, declarou que nunca tivera quarto mais bello.

Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto
de Laura, quando os seus servios fossem necessarios.

A nova casa foi inaugurada  hora prefixa, precisamente oito dias
depois da representao dos _Huguenottes_.

N'essa noite a Linda cantava o _Roberto o Diabo_.

Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou,
encantado,--tanto como ella, de resto,--da sua nova felicidade conjugal.

Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras
noites, que elles partiriam para o _ninho_ em seguida a cada
representao, quando Laura estivesse ainda vibrante da emoo que lhe
causassem os applausos, e duplamente palpitante da vida do papel que
desempenhra e da vida propria.

Antonino assignra um _fauteuil_ d'orchestra junto  scena.

Como d'antes, applaudia pouco a Linda, no juntava as suas s
acclamaes que a chamavam nos finaes d'acto.

Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o
extasi em que o mergulhava a voz da mulher adorada.

Ella, pelo seu lado, no lhe sorria, no o olhava.

Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle
se sentava, e como era para Antonino que cantava, jmais cantara melhor.

O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer
que fosse.

Ambos se consideravam felicissimos por aquella encantadora vida,
alegre como a phantasia, doce como o habito.

O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde no dormia em casa,
dizia que elle ficava em casa de Linda.

Os creados da cantora sempre que ella s de manh voltava para casa,
pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.

Geralmente Antonino voltava para o _boulevard_ Haussmann ao amanhecer.

Laura, porm, s deixava o ninho a hora adiantada da manh.

Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.

O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira
a Linda.

De dia os dois esposos viam-se officialmente.

Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e  noite partiam juntos para
o theatro.

Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias.

De tarde visitava-a, invariavelmente  mesma hora, e jantava com a
esposa muitas vezes.

Sempre, porm, que Laura no estava s, elle retirava-se conjuntamente
com as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros
amigos.

Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes
na rua de Bolonha.

Reatra apenas relaes com tres ou quatro admiradores mais intimos, e
que o eram tambem do visconde.

Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela
Linda.

Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino,
que consideravam o amante official de Laura, no faziam a crte  diva.

Apenas no tinham perdido completamente a coragem.

Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e
esperavam com paciencia digna de melhor sorte.

Lauretto Mina, mais indelicado que elles, no guardava a mesma reserva
nem possuia identica paciencia.

No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.

O tenor sabia portanto, a situao em que se encontravam Laura e o
visconde, e agourava bem d'essa situao.

Um dia disse  Linda, no _foyer_ dos artistas, motejando:

E ento, minha querida, tinha ou no razo quando lhe dizia na ilha de
Czambre,--lembra-se?--que o seu casamento no me parecia dos mais
serios? Os habitantes de Saint-Malo, que no primam pela finura, parece
que viram o demonio quando tiveram conhecimento de semelhante unio. De
resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua situao. Vale
mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.

--Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvao! respondeu Laura
no mesmo tom.

--Por esta frma, proseguiu Lauretto, todos tero esperanas. Os que
esto apaixonados pela sua pessoa,--e eu creio que pelo menos conhece
um,--veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades
favoraveis.

--Suppe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades no
augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu
amante. O que influir n'esse numero  que eu ame ou no o sr. de Bizeux.

--Perdo! o caso  diverso! insistiu o tenor.

E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava no
_foyer_:

--No  verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais
probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de
que tendo na frente o marido?

--Est enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se Laura a responder
sem dar tempo a que o baritono fallasse. No  porque eu ame um outro
homem que no o amaria ao sr. Posso no amar ninguem, que nem por isso
lhe pertencera o meu amor.

E voltando as costas ao tenor, sahiu.

--Ah! ah! decididamente no avanas um passo, meu caro! disse Gressier,
rindo.

--Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera
extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te
darei provas irrefutaveis do que avano.

Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritao
do tenor, respondendo-lhe por frma a feril-o no seu amor proprio.

Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino
e Lauretto.

Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que
o tenor pronuncira uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogo do
_foyer_.

Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a
atteno de toda a gente.

--Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos
duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por
mim, estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando
provocado, a s me bater se o insulto recebido fr d'ordem a no
acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, no arranho nem firo, mato.

Era por essa razo que Laura deligenciava no sentir-se offendida pelas
impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.

Fingia no as comprehender, e at no as ouvir.

Ella era to feliz!...

E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma s
nuvem que a escurecel-a.

Antonino, pela sua parte, s tinha um desejo: tornar a ver seu pae.

Mas o conde, a quem o filho no quizera occultar o que elle chamava o
seu romance, no queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma
tal situao.

--Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se
occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. No me parece
razoavel tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais
sagrado no amor com o disfarce, com a mascara, com a aventura.

Seria isto um presentimento da fina intuio paterna?

Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo
manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido at 
escada que descia para a rua.

Demorou-se no patamar at que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si.

Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.

Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se
levantara.




XXIV

Jacintha


Jacintha, como j dissemos, tinha por Laura uma dedicao sem limites.

Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella no lhe
sobreviveria por muito tempo, com certeza.

O peor era que a creada no possuia apenas a fidelidade canina do
irracional.

As admoestaes, as severidadese as irritaes de Laura faziam-a chorar
deveras, porque possuia um bom corao.

Mas arrependia-se e no se emendava.

A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente quella humilde presa.

Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos
pretos e brilhantes, a tez morena e fresca d'andaluza, a cintura
delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, davam-lhe um
grande numero de cumplices.

Lauretto Mina, como indicmos, pertencera a esse numero.

O formoso tenor no desdenhra colher aquella flr modesta.

Colhera-a e passra.

No era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza.

Apesar d'isso Jacintha ficra singularmente lisongeada por contar, na
colleco dos seus admiradores, um _artista_, um verdadeiro artista, de
que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a
posse, segundo ella suppunha.

Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha,
sempre picante e attrahente, fra muito cortejada.

E no tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.

Os proprios patres deram-se ao incommodo de render homenagens  creada
de Laura.

Afinal, na grande sociedade--est provado!--as cosinhas no recebem peor
gente que os sales.

Lembrar-se-ho sem duvida que, na manh em que Laura resolvera abandonar
a casa de seu marido, encontrra vasio o quarto de Jacintha.

No dia seguinte, quando a creada se reuniu  cantora em Paris, Laura
admoestou-a com toda a severidade, como costumava.

Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de
Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida,
Laura demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.

Disse-lhe que a devia abandonar completamente.

Mais uma vez, porm, lhe perdoaria, sob condio de Jacintha lhe dar a
sua palavra de que no voltaria a praticar o menor desmando.

E affianou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.

Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.

Tomou para testemunhas todas as virgens da crte do ceu, promettendo
seguir os seus exemplos.

Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.

A admoestao aproveitar-lhe-ia.

Jmais o demonio se apossaria dos seus sentidos.

Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem
solidas, eram com certeza sinceras.

Entretanto tomou algumas precaues.

Resolveu no admittir creados moos na sua modesta casa da rua
Boudreau.

Escolheu um casal j idoso.

O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.

Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.

Nunca sahia s, e quando acompanhava Laura ao theatro jmais transpunha
a porta do camarim.

Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos
comeavam a cicatrisar.

A installao mysteriosa no rez-do-cho da rua da Arcada produziu-lhe
terrivel effeito.

Laura, porm, percebeu sem perda de tempo que Jacintha comeava
novamente a andar mais ligeira.

Aquella accelerao de movimento no corpo correspondia a movimentos,
accelerados tambem, no espirito.

Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria
melancholia.

--Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora  bem
feliz!...

--Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, achars qualquer dia
um bom marido.

--A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar,
necessitarei procurar.

Uma busca d'este genero  sempre um perigo para uma natureza
inflammavel. Se Laura, n'aquella occasio, tivesse reparado,
comprehenderia o perigo, verificaria que a virtude comeava a ser
demasiado pesada para Jacintha.

Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara
com Lauretto Mina.

O tenor pz-lhe uma das mos na fronte, levantou-lhe o queixo com a
outra, e disse-lhe:

--Sabes que ests cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei
tanto como agora.

No se contentou com palavras.

Passou-lhe um brao em volta da cintura, levou-a para um canto pouco
alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na
bocca.

Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.

O seu quarto na rua da Arcada era to bonito!

Devia haver muitas senhoras que o invejassem!

Esta circumstancia foi mais uma tentao.

Pois s ella  que havia admirar aquella verdadeira belleza?

Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, no tivesse visto
um quarto to encantador como aquelle.

Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.

Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.

No se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o
visconde ou sobre a Linda.

Mas, depois d'uma scena de seduco admiravelmente bem desempenhada
pelo tenor, uma noite, durante um entre-acto, Jacintha foi forada a
dar-lhe todas as indicaes necessarias, para que elle podesse entrar
n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um verdadeiro ninho d'amor.

Pela uma hora da manh, em quanto Antonino e Laura estivessem  mesa,
ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor,
para o qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no
quarto. Depois iria ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.

O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manh, quando o
visconde tivesse partido.

Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.

Foi assim que, na noite de que j fallmos, Lauretto Mina estava s tres
horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.

quella hora a creada dormia profundamente.

Lauretto levantou-se sem fazer ruido.

Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.

O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordes
d'um reposteiro.

Em seguida voltou ao leito, pegou na mo direita de Jacintha e
approximou-a levemente da esquerda.

Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:

--J te levantaste?

--No, no, respondeu o tenor. Ainda  cedo.

Reuniu bruscamente as duas mos e, n'um segundo, ligou os pulsos de
Jacintha com tres ou quatro voltas do cordo, que atou n'um n rapido.
Ella accordou sobresaltada e tentou gritar.

Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaa que levava,
prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoo.

Jacintha deu com os ps na roupa da cama, tentando saltar do leito.

O tenor ligou-lhe os ps com o cordo, como lhe ligara as mos.

Em seguida verificou se todos os ns estavam bem dados.

Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi
imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a
roupa da cama.

Depois, o tenor vestiu-se lentamente.

Entreabriu a porta do quarto, e escutou.

Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha no se movia,
destapou-a, inquieto, e tirou-lhe a mordaa.

A infeliz estava desmaiada.

O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.

Antes que a creada recuperasse completamente os sentidos, Lauretto
tornou-lhe a pr a mordaa, mas apertando-lh'a menos, e deixando-lhe as
narinas a descoberto.

Depois voltou novamente para junto da porta.

Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura at  escada.

Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.

Ento transpz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.

Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.

O miseravel armara ardilosamente aquelle lao  sua fraqueza, e ella
cahira estupidamente, como uma ingenua.

No era por ella, mas por Laura, que elle ali fra.

A Linda,  claro, no tornara a sua creada de quarto confidente das
impertinencias de Lauretto.

Jacintha, porm, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas
palavras pronunciadas pelo tenor.

No podia duvidar.

Era Laura quem elle desejava.

A Linda estava n'esse momento  discrio do insolente.

E fra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a
entregara quelle miseravel!

Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.

Deixaria ella commetter um to infame crime?

Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.

As mos e os ps ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como
arrancar a mordaa?

Como cortar os cordes que a atavam?

O tempo passava, e ella no achava que responder quellas perguntas.

As lagrimas corriam-lhe pelas faces.

Olhou para o candieiro acceso.

Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?

Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma ida.

Nem um instante hesitou.

Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos
cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do
travesseiro.

Esta operao difficultosa durou dez minutos.

Quando chegou com as mos ligadas at ao angulo do leito, agarrou-se a
elle, e, com um esforo acabou de se elevar.

Ento, com um movimento decidido, chegou  luz do candieiro os cordes
que lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.

A dr era insupportavel.

Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da
luz.

Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel
cobardia, chegava novamente  chamma a carne j queimada.

Uma das voltas do cordo quebrou por fim.

Mas no era a que formava o n.

Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precaues e cuidados.

E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:

--Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!

O cordo cedeu emfim.

Ento, com um movimento rapido, desembaraou-se dos bocados que ainda a
prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os
pulsos--porque o tempo urgia--sentou-se na cama, e desligou os ps,
ainda que com bastante custo.

Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordes da mordaa.

Estava livre!

Vestiu-se sem perda d'um segundo.

As mos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente
cumpriam a sua misso.

Sentia-se banhada em suor frio.

No prestou atteno  frma pela qual se vestia.

Pensava.

O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia
hora antes. N'aquelle momento, como era possivel que o crime
estivesse consumado, era necessario no fazer escandalo. N'aquelle
negocio no devia intervir qualquer pessoa estranha.

Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a
meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.

Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.

No duviu o menor rumor.

Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?

No se atrevia a decidir.

Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta
e achou-se na rua, deserta quella hora.




XXV

O infame


Se no fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de
Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.

Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que
ella trazia, tel-a-hia tomado por surpreza na sombra, e a Linda
podia ento considerar-se perdida.

Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo
com a colera da cantora.

Portanto mostrou-se, apresentou-se.

--Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que
Laura entrou. No te admires nem te assustes por me veres em tua casa a
hora to adiantada da noite. As minhas intenes so tudo o que ha de
mais amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.

Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razo.

O tenor proseguiu:

--Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto violentos,
a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado por
ti. Mas isso no  uma razo para me escarneceres, para me tornares
ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o
visconde, teu amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi
desforrar-me. Para o conseguir conquistei um corao mais sensivel que o
teu, o da Jacintha. Ella introduziu-me na praa--e eis-me aqui!

--Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de
resignao.

Voltra-lhe a presena d'espirito.

Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente
do tenor e entrou no quarto.

--Estimo que acceites a situao com essa desenvoltura! disse Lauretto
sorrindo victoriosamente.

Como ella no respondesse, o tenor continuou:

--Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razo. Jmais se
devem desprezar estas palavras: amo-te!

Laura encostra-se a uma secretria Riesener.

O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:

--Pois no  verdade que  absurdo fazer barulho por causa d'um beijo?

Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.

Laura abriu rapidamente com a mo esquerda a gaveta da secretaria,
pegando, com a direita, n'um objecto que estava dentro.

E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um
revolver que acabava de engatilhar.

--Se d um s passo mais, mato-o! gritou ella.

Lauretto empallideceu horrivelmente.

Mas replicou, tentando sorrir-se:

--Suppunha-te mais sensata. A menos que no estejas brincando...

--Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaando-o novamente com o
revolver.

--Perdo, sr. viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com
afectao, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o
corpo. No considero de bom gosto ameaar com um revolver um homem
desarmado, entretanto...

E ia dar mais um passo.

Laura, porm, fel-o parar, dizendo com energia:

--No se mecha, ou disparo! E previno-o de que no repetirei o aviso.
Acautelle-se! Tenho na mo uma arma admiravel, de preciso
extraordinaria. Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na regio dos
_pampas_. Ao dar um passo ter quatro balas no corpo.

Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto
era certo que omittia um pormenor importante.

O revolver estava descarregado.

Suppozera, e com razo, que um homem capaz de proceder como Lauretto
Mina, no podia deixar de ser cobarde.

Ao ouvir Laura, o tenor teve uma ida, que mais o assustou.

Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo
gatilho.

Entretanto, fazendo-se forte, disse:

--Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e
ento...

--Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. Tinha
o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto,
de o matar como se mata um co hydrophobo. Mas a vista do sangue
horrorisa-me. Conserve-se quieto, e nada ter a temer.

Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de
silencio, com riso forado:

--Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um
para o outro, como dois ces de faiana?

Laura no respondeu.

Conservava-se immovel como uma estatua.

--Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.

Ella replicou:

--Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, uma
vez sentado, o prohibirei de se levantar.

--Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de p.

--Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que  bom.

--Devras?... disse Lauretto indiciso.

Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente no seria bater em
retirada.

Aquelle revolver imprevisto mudra a situao.

O negocio falhra, decididamente.

Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?

No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos
collegas, que com razo o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.

Era indispensavel sustentar a situao at ao fim, custasse o que custasse.

Depois d'alguns minutos de reflexo, Lauretto disse com voz um pouco
mais firme:

--No partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.

--Qual?

--Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que no tenho uma arma
na mo, sinto-me j fatigado. Pesa-me a cabea e cerram-se-me as
palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. S
amanhecer d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado
mutuamente, veremos se o seu olhar no se turbar, se os seus joelhos
no se dobraro, se o brao no se baixar por si proprio. Veremos se a
gallinha no acabar fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e
tomada pela raposa!

--Veremos! respondeu Laura apertando com mais fora a coronha do revolver.

Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.

No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.

O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.

Os minutos passavam com uma lentido mortal.

Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.

A tenso enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir
as foras do corpo.

Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um
ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o brao
meio estendido, empunhando o revolver.

O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.

Se assim no fra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia
defender-se contra uma aggresso subita, ferindo ou pelo menos
assustando o seu inimigo.

Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do
seu lado.

Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse
sobre ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mo do que um
bocado d'ao e de madeira, no poderia defender-se.

E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir
infame d'aquelle miseravel.

O relogio deu cinco horas.

Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e
d'ouvir uma voz humana, ainda que no fosse seno a propria.

Disse portanto em voz alta:

--Cinco horas!

Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:

--Fao-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher.  triste
que no empregue essa energia ao servio de melhor causa. Admittindo
mesmo,--o que  duvidoso,--que consiga sustentar at ao fim esse
magnanimo esforo para preservar a sua honra, nem por isso ficar menos
deshonrada. Quer saber como?

Laura no respondeu.

O tenor proseguiu:

--O meu amor  muito sincero e ardente. Se no fosse para a possuir no
poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo
de ver de cada um de ns. Mas o meu amor proprio est agora comprometido
n'esta empreza tambem. A sr., ha muito tempo, tem-me despresado,
motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que
mereceria todo o seu desprezo se no conseguisse tel-a um dia nos meus
braos. Por emquanto ainda no perdi a esperana, e espero, at,
conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das
hypotheses, deve concordar que as apparencias so por mim. Por
agora pouco importa que eu seja ou no seu amante. O essencial  que,
para os espectadores, o parea. Ora parecel-o-hei, evidentemente...

Laura sorriu com desdem.

Elle continuou:

--Deixe-me acabar e ria depois. Medite,--porque ainda  tempo,--e ver
que o que mais lhe convm  baixar o revolver e entregar-se  minha
generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde j o
declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que
fallarei. Ser essa a minha compensao e a minha desforra.

O tenor fez uma pausa.

A Linda deu aos hombros despresadoramente.

--Imagina que no me acreditaro? Oua: limitar-me-hei a affirmar que a
tive esta noite nos meus braos. Estamos ss: quem poder
contradizer-me?  de suppor que o visconde de Bizeux me pea
explicaes; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as.
Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraadamente
succede-me esse precalo sempre que me bato. No ser em virtude d'esse
duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras
deixaro de ser acreditadas, ao contrario. Mas haver mais do que as
minhas palavras, haver provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar
vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura, ao lado do
retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o--para possuir uma
recordao sua. Eis o testemunho: pela manh sahirei, no pela porta que
deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao
ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora to
matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou
tenor da Opera, e que saio de casa da sr. Laura Linda, amante do sr.
visconde de Bizeux...

-- engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto.

A cantora soltou um grito d'alegria.

--Antonino! disse ella.

O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de
braos cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu
corpo herculeo.

Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta.
Lanou em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.

Antonino bateu-lhe pesadamente com a mo no hombro.

Laura, deitando fra o revolver inutil, correu para o marido.

O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:

-- triste que eu venha desmanchar as suas combinaes infames.
Graas  coragem e  dedicao d'aquella pobre rapariga que me foi
chamar, eil-o preso no proprio lao que armou. Ao que parece  forte em
violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem no faz to boa
figura.

Lauretto respirava a custo sob o peso da mo de Antonino.

Apenas teve fora para balbuciar:

--Senhor... estarei s suas ordens... quando quizer...

--Na realidade? Consente em dar-me razo? Pois no sabe, miseravel, que
quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto
d'attentado nocturno e de roubo... (com a mo que tinha livre procurou
na algibeira de Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lanou
sobre a mesa) s ha a escolher entre entregar o mariola  policia ou de
lhe pegar pelas orelhas e lanal-o pela porta fra a ponta-ps? No
sabe? Pois fique sabendo que n'um caso d'esta ordem o infame nunca
offende. Teria graa considerar-me eu offendido e bater-me com o gatuno
que me roubasse a bolsa!

--Oua-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de
vergonha e de colera. Oua-me: n'este momento estou  sua discrio, 
verdade, mas aconselho-o a que no abuse da sua vantagem.

Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe que
isso ser mais conveniente no s para mim, como tambem para o senhor e
para esta senhora.

--Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que
parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que no ouamos mais
fallar d'elle.

--Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com
voz timida.

--Pois qu! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez
soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de
sahir d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que to mal
comeou? Ah! eu considerar-me-ia to cobarde como elle, se lhe
concedesse a impunidade que pedem. Dizes, Laura: que parta, e que no
ouamos mais fallar d'elle? Mas no ouves as ameaas que o biltre acaba
de pronunciar? Elle ir manh dizer por toda a parte que passou a noite
aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto ferver-me o sangue, pensando em
tal. Se no estivesses presente, tosal-o-hia por frma que jmais se
esqueceria d'esta noite!

E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia.

--No estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a
dizer.

--Est em frente d'um justiceiro!

--Como?... O que vae fazer?...

--O que o senhor proprio projectava.

Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.

--Vamos... venha!...

--No quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vo.
Protesto contra as suas indignas violencias!

O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.

--No lhe faas mal! aconselhou Laura em voz baixa.

Mas Antonino nada escutava.

Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que  a mais
terrivel.

Repetiu

--Vamos!... venha!...

E accrescentou, dirigindo-se  creada:

--Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.

Arrastou pelo corredor fra o tenor, que empregava inoffensiva
resistencia, e chegou assim  porta que dava para o vestibulo do predio.

Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mo tremula.

Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.

Desceram ao vestibulo.

Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:

--Sr. Durandeau! peo-lhe que se levante e abra-nos a porta.

Segurava Lauretto apenas com uma das mos.

O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaas e palavras indistinctas.

O porteiro appareceu pouco depois  porta do cubiculo, em mangas de
camisa e de chinellas.

--O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto.  um ladro?

--Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em
minha casa com inteno de violentar a creada de quarto!

--Oh! que patife! disse o porteiro!

Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao
pulso nervoso d'Antonino, ajuntou:

--Que cara de velhaco! Sabe quem elle , sr. visconde?

--Sei. Chama-se Lauretto Mina, e  cantor da Opera.

O porteiro abriu a porta.

Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeou-o para a rua.

Em seguida lanou para o passeio o chapu e o sobretudo do tenor,
objectos que Jacintha trouxera na mo, cuidadosamente.

A porta foi fechada quasi immediatamente depois.

Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e
estendendo o punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:

--Chegar-me-ha a vez!

E distanciou-se com passo rapido.




XXVI

O desafio


Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada
aos ps de Laura, dizendo-lhe arrependida:

--Oh! minha senhora, perde-me!

Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presena d'espirito,
a sua coragem.

--Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou no _boulevard_
Malesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu no me deitra ainda,
e vim immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos
confessar que foi ella tambem que tudo remediou.

Laura socegou Jacintha, consolou-a.

Pelas suas proprias mos envolveu em algodo em rama os pulsos queimados
da creada de quarto, emquanto no podesse ser feito outro tratamento,
acompanhou-a ao quarto, deitou-a, e s a deixou quando a viu adormecida.

Voltou para junto d'Antonino.

At ento podra conter-se, mas a reaco veiu, por fim.

Cahiu sobre um _fauteuil_ e chorou, murmurando:

--Ah! que noite! que scena!...

--Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mos.
Passaste uma hora terrivel, que felizmente no se repetir. Acabou-se!

--Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabea. Se tudo estivesse
terminado no me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso
perigo que corri tu no podesses suffocar a tua indignao. Insultaste
terrivelmente esse miseravel. Conheo-o. Lauretto no possue apenas uma
alma vil, possue tambem uma alma m. Vingar-se-ha com certeza.

--Pois suppes?... Ests enganada. Eu puni-o justamente para no ter que
o provocar. Vers que, elle tambem, no se atrever a ser o provocador.

--E se fr?

--Do-se explicaes d'um insulto e no d'um castigo. Recusarei bater-me
com esse homem.

--Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida
incommoda-me sobremaneira; Tinha razo teu pae na ultima carta que te
escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses
agradar  minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e
poetico, que tinha muitos encantos, mas que no era isempto de perigos.
Seriamos felizes se no houvesse invejosos e maus. Estou convencida que
foi a nossa situao equivoca que causou todo o mal.

Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.

Depois proseguiu:

--Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua
mulher. Porque ser que, amando-nos tanto, no podemos pr d'accordo as
nossas existencias, como puzemos os nossos coraes?

Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.

Antonino seccou-as com beijos, esforando-se por tranquillisar a esposa
com phrases ternas.

--Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma
hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a
annunciar-te uma resoluo seria que tomei, e uma noticia agradavel a
dar-te. A resoluo  que, decididamente, renuncio ao theatro. A
noticia...--fallemos baixo!--desejava esperar alguns dias para te fallar
nisso... Mas no... no posso esperar... tenho a certeza!... A noticia 
que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim!
Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o
sentimento artistico, e por minha me o sentimento maternal. At hoje
pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha
me!

Antonino ajoelhou aos ps de sua mulher, envolvendo-a nos braos, louco
d'alegria.

--Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.

E cobriu-lhe de beijos as mos.

Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:

--s feliz, no  verdade? Pois bem: procede de frma a dissipar a nuvem
sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora
novos deveres. A tua vida no te pertence unicamente,  tambem minha, 
nossa. Peo ao pae um juramento sagrado: peo-te, sob tua palavra
d'honra, que em caso algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina,
expors a tua vida contra a d'esse miseravel.

Antonino hesitou.

--Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu elle.

--Ah! hesitas!... disse Laura.

Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.

Reflectiu n'um instante que uma mulher pde acreditar n'um compromisso
tomado por aquella frma, mas que em taes circunstancias esse
compromisso no obriga um homem.

Portanto replicou:

--No hesito. Dou-te a palavra que me pedes.

--Ah! obrigada!...

Tomou-lhe a cabea entre as mos e beijou-o na fronte.

Seguidamente comearam, cheios de confiana e de f, a traar o plano da
sua nova vida.

Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida,
assim precipitada, semelhava a fuga.

Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios.

Como estava escripturada por espectaculo, a Linda no tihha de pagar
multa na Opera.

Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.

Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha,
Grecia, Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Lon.

Conversaram at s sete horas da manh.

A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.

Ficou resolvido que elle no voltaria mais quella casa. O visconde
procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.

At ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino
voltar  casa do _boulevard_ Haussmann apenas para tratar de pormenores
materiaes.

Laura adormeceu em breve, esperanosa e feliz.

Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre
um canap.

No podia conciliar o nome.

Previa, preoccupado, o que se ia passar.

Desejava lavar, com uma execuo summaria, a offensa recebida,
principalmente para que o nome de sua mulher no fosse envolvido na
questo.

Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre
elles o insulto e o conflicto no podia deixar de terminar por duello.

s onze horas o creado foi levar-lhe os cartes de Nobillet, o pianista,
e de Gressier, o baritono.

No poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas
as visitas.

Laura tinha razo: a vida para elle duplicra de valor, desde a vespera.

Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como
Gressier, tinham assistido  scena de Remissy no concerto de Saint-Malo,
e conheciam um pouco os incidentes e o visconde.

Foi Nobillet quem fallou.

--Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O
nosso collega assegura que vossa ex. o insultou esta noite,
gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para
vereficarmos se as suas explicaes condizem com as do nosso
constituinte. Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relaes
com uma rapariga ao servio da sr. viscondessa de Bizeux; parece que
essas relaes foram agora reatadas, e que elle passou a noite anterior
no quarto d'essa rapariga. Por acaso vossa ex. encontrou-o, e sem
razo, sem provocao da parte d'elle, agarrou-o pelo casaco como se
fra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, indicando o nome
d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e arremessando-o
depois para a rua, com violencia. So verdadeiras estas declaraes, sr.
visconde?

--Completamente...

--Vossa ex. pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e ns
estamos s suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer
honrar-nos.

--Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto
Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella
habita. Irritei-me e pul-o fra.

--Vossa ex. disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O
sr. Lauretto Mina affiana que no houve a menor violencia.

--Ignorava e ignoro esse facto.

Nobillet proseguiu:

--Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, no
 deshonra para um homem. Para que vossa ex. se irritasse at 
indignao e  violencia, por um facto que realmente no tem gravidade,
de certo houve razes estranhas a esse mesmo facto. Somos homens
honrados fallando com um homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois,
que nos julgue capazes d'apreciar e comprehender essas razes.

Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle
negocio.

Nem um nem outro tinha grande considerao pelo caracter de Lauretto
Mina, de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.

Comtudo no tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na
concluso do conflicto.

Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razo ou ao
menos um pretexto para declinar a sua penosa misso.

Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma s palavra n'esse sentido.

O visconde, porm, limitou-se a responder:

--Agradeo-lhes os termos delicados com que expozeram a questo. Sinto a
mais alta considerao por vossas ex.as, mas no s posso dar do meu
procedimento outras razes alm das que j conhecem, porque no
existem.

As duas testemunhas olharam-se consternadas.

Depois Gressier disse:

--Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o no
offendeu tambem,  elle que deve considerar-se offendido, tendo,
portanto, o direito de exigir ou desculpas ou uma reparao pelas armas.

--No estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. De
resto supponho que no seriam acceites.

-- claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a
escolha das armas... disse Gressier.

--E sei antecipadamente que elle escolher o sabre, respondeu Antonino,
sorrindo.

E levantando-se, accrescentou:

--Mais uma vez lhes agradeo, meus senhores, a sua delicada interveno,
e a frma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os pr em
relaes com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e baro de
Chazeuil. Procural-o-ho esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.

Os tres cumprimentaram-se com silencio.

O visconde acompanhou-os at  escada.

Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais
inquietas que o proprio visconde.




XXVII

Preliminares


Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para
comsigo:

--Era fatal este resultado!

E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar
as suas disposies.

Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que
tinha, no dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o
expresso da noite, que o devia trazer  capital pelas oito da manh.

A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e
encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos do _boulevard_ Hausmann
s nove horas.

Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.

Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o
baro de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.

Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.

O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabea com
ar preoccupado:

--Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional.
Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu
gravemente o outro, que s escapou por milagre. Jmais foi possivel
explicar e justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta
victoria. Em virtude da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes
tinham sido vibrados. Conheo a sua fora ao sabre, meu caro visconde, e
vel-o-ia, sem inquietao, bater-se com os melhores esgrimistas. Mas
considerando a frma... italiana de Lauretto, todas as cautellas so
poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas d'este duello 
duplamente seria. No se trata de regular o negocio, ou de apresentar
desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto
apparente, razes occultas, que eu no lhe perguntarei. Ns sabemos,
Chazeuil e eu, que o meu amigo  corajoso como poucos. Encarregue-nos de
dizer s testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe
explicaes, e ns acceitaremos a misso satisfeitissimos, no 
verdade, baro?

Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.

--Agradeo-lhes a confiana que em mim depositam, replicou Antonino, mas
no posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem,
sabendo bem quem elle era, e conhecendo o risco que corria. Se eu
recusasse a bater-me hoje, elle manh offender-me-hia por frma que
fosse ento inevitavel o duello. Minha mulher no desconfia agora que eu
fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de
futuro. Peo-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda
de tempo.

--Estamos  sua disposio, disse o conde de Bauriac. Tem algumas
instruces a dar-nos?

--No. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, manh s onze
horas. Meu pae s chega s oito, e eu tenho que fallar-lhe.

Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino,  casa do _boulevard_
Hausmann, pelas dez horas da manh.

Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.

Estavam ainda mais perplexos do que de manh.

Gressier, sobretudo, no podia occultar a inquietao de que estava
possuido.

Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o
baritono fez um gesto de profundo desgosto.

 que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o
visconde acceitava o desafio.

Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera no _foyer_ dos
artistas:

--N'um duello eu no arranho nem firo, mato. E ajuntou:

--Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem
duvida no teremos que temer manh um resultado to tragico.

--Est enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o
visconde! Hei de matal-o!

Gressier estremecera violentamente, por tal frma Lauretto pronuncira
as ultimas palavras.

Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o
peso d'aquella desagradavel impresso.

O baro de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:

--No me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina  um
adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr.
visconde de Bizeux saber defender-se, com certeza.

Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as
testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um
meio que os levasse a no continuar com as negociaes.

Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac
disse, segundo o costume, que a sorte decediria.

Ns acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde
de Bizeux, disse Nobillet.

--O sr. Lauretto Mina no ratificaria a sua concesso, observou o conde.

--N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.

O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'absteno,
affirmando que no poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.

Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.

O baro de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.

Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.

Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado.

Durante esse tempo Antonino fra a casa do dr. Despujolles, que deu um
salto ao saber que o visconde se batia com Lauretto.

Depois, readquirindo a presena d'espirito, disse:

--L estarei com os meus instrumentos, mas, no sei porque, estou
convencido que elles no serviro ao meu amigo. J o vi de sabre em
punho; ia affianar em como dar uma lio ao ajudante do professor
d'esgrima. O que  necessario  que no se distraia.

Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.

Despujolles, porm, pretextando affazeres, mas na realidade por temer
no estar sempre de bom humor, desculpou-se de no acceitar o convite.

O visconde, que no desejava estar s com sua mulher, ao sahir de casa
de Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.

Chegando a casa, disse a Laura:

--Encontrei Heitor e Linage; jantaro comnosco.

--Desejava antes jantar s comtigo.

E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:

--Nada de novo sobre Lauretto Mina?

--Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.

O jantar correu alegremente.

A fatalidade, porm, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o
visconde acompanhava os dois amigos at  porta, Jacintha lhe entregasse
um telegramma.

Antonino voltou para junto da esposa.

Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.

-- um telegramma de teu pae? perguntou.

--Ah! sim,  verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudana de vida.
Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega manh,
talvez...

--Deixa ver... disse Laura estendendo a mo para o telegramma.

--Curiosa!... respondeu elle, rindo.

Fez uma bola com o papel, e lanou-o ao fogo.

Laura pensou immediatamente:

--Bate-se manh com Lauretto Mina.

Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus
pedidos e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.

--Em que pensas? perguntou-lhe elle.

--Penso que teu pae ser um magnifico av.

E no fallaram mais seno no pae e no filho.

No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.

s oito horas estava prompto para sahir.

Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:

--Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...

O visconde calculou:

--No desconfia de nada!

E Laura dizia para comsigo:

--No suppe que eu adivinhei tudo!




XXVIII

O duello


A entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna.

Antonino no dissimulou o perigo que corria, batendo-se com um
adversario to habil como pouco escrupuloso.

O conde disse-lhe com toda a energia viril:

--Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda
a tua presena de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades.

Antonino no necessitava recommendar Laura a seu pae.

Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher.

O conde abraou o filho, dizendo:

--Mais uma probabilidade a teu favor.

O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de
corao, que dirigia a sua mulher.

O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles.

O dr. no podia occultar a sua inquietao.

Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado
reanimou um pouco Despujolles.

Antonino subiu para uma carruagem com seu pae.

As testemunhas e o medico subiram para outra.

O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se
completamente estranho a elle.

O dia estava ennevoado, e, para a estao, um pouco frio.

Ligeira neblina envolvia as arvores. No espao passava como que uma
nuvem de melancholia.

As duas carruagens chegaram  clareira destinada ao duello um pouco
antes das onze horas.

As testemunhas e o adversario d'Antonino no tinham chegado ainda. O
conde no se apeiou.

Apertou com fora a mo do filho, quando Antonino desceu, e no
pronunciou uma s palavra.

Pouco depois, porm, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o
velho, que tremia, no conseguiu entregar as armas  testemunha de seu
filho, tanta era a sua commoo.

A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do
theatro no se fez esperar.

As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mos.

Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar.

No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante.

O d'Antonino conservava-se impassivel e digno.

Nobillet e Gressier, novios e quasi incorrectos em assumptos d'aquella
natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem.

A escolha das armas foi tirada  sorte, conforme tinham convencionado.

A sorte designou os sabres de Lauretto Mina.

Depois de procederem  medio das laminas, o conde de Bauriac disse
para os dois adversarios:

--Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem.

Mas tanto Antonino como Lauretto tinham j descalado as luvas.

Despiram os sobretudos e os casacos.

As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares.

--Vamos, meus senhores, disse Bauriac.

Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda.

Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos.

Depois deram a conhecer o jogo.

Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma
calculada defensiva.

Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto,
contentando-se com _parar_, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do
adversario.

O brilho do seu olhar implacavel causava perturbaes ao tenor.

Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza.

Parecia desconcertar-se, e at por vezes se descobria.

Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde
mudasse de tactica.

O tenor, pouco depois, estava visivelmente canado.

Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro
pallido, ondeavam.

O assalto durava j por vinte minutos, quando Bauriac disse:

--Podem descanar, meus senhores.

Lauretto vestiu o sobretudo.

O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braos cruzados
sobre o peito.

Ao cabo de sete ou oito minutos, o baro de Chazeuil, olhando para
Lauretto, disse-lhe:

--Quando quizer.

Ao segundo assalto, o tenor continuou no tendo vantagens sobre o visconde.

Perguntava a si proprio se o plano d'Antonino no seria esgotar-lhe as
foras, sem duvida menos resistentes do que as do athletico breto. Mas
se assim fosse o duello devia prolongar-se por muito tempo sem resultado
definitivo, porque os momentos do descano que as testemunhas
concederiam aos combatentes bastavam para Lauretto se refazer.

Depois de muitos minutos passados, foi ainda Bauriac quem disse:

--Podem descanar.

O segundo descano foi apenas de cinco minutos.

Lauretto tinha quasi a certeza que Antonino atacaria n'aquelle terceiro
assalto, para pr fim ao duello.

Portanto comeou a esgrimir com toda a presteza, como fizera ao principio.

Dirigiu um bote ao visconde, mas Antonino _parou-o_ e _ripostou_ com
energia.

Depois conservaram-se por alguns segundos immoveis, espiando-se,
tacteando os ferros, com sensivel crescimento d'irritao mutua.

Repentinamente Antonino fez um movimento e cahiu a fundo, com a rapidez
do raio.

Lauretto _parou em prima_ e _ripostou_.

Foi to rapido o jogo do tenor que o visconde no teve tempo de _parar_
e foi _tocado_..

Ao mesmo tempo, porm, com um bote fortissimo, Antonino attingiu
Lauretto, trespassando-o.

O visconde cahiu desmaiado, e o tenor cahiu morto.

Despujolles precipitou-se para Antonino, e descobriu-lhe o ferimento.

--Justamente a duas polegadas da cicatriz feita por Pozzoli! disse o dr.

O conde de Bizeux correu, afflicto, mas Despujolles gritou-lhe:

--Socegue! d'esta vez o ferimento no  grave! D'aqui a oito dias est
curado!

Durante esse tempo o medico do theatro constatava a morte de Lauretto
Mina, que Nobillet e Gressier, aterrados, transportaram para a carruagem
que os conduzira.

Duas horas depois a carruagem d'Antonino parava  porta da casa da rua
de Boudreau.

Despujolles foi o primeiro a descer, para prevenir Laura. Logo que
abriram a porta, ella correu para o medico.

Felizmente, porm, o aspecto de Despujolles indicava uma alegria
extraordinaria.

--Ah! Antonino est vivo, no  verdade? perguntou-lhe Laura.

--O que!... Pois sabia?

--Adivinhei... Mas diga-me, elle est ferido?...

--Est, ligeiramente. Se assim no fosse eu no estaria alegre. J vae ver.

Alguns instantes depois, Laura, ajoelhada junto do leito em que fra
deitado Antonino, que tinha entre as suas as mos de seu pae, dizia-lhe:

--Meu querido Antonino!...  a terceira vez que expes a tua vida por
minha causa!

--E agora abandonars tudo por mim?

--Ah! sim! E no ters completamente apenas a esposa, ters tambem a me!


FIM





End of Project Gutenberg's O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA ***

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Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
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unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
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