Project Gutenberg's O Primeiro de Maio, by Sebastio de Magalhes Lima

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Title: O Primeiro de Maio

Author: Sebastio de Magalhes Lima

Release Date: May 15, 2010 [EBook #32379]

Language: Portuguese

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MAGALHES LIMA


O 1. de Maio


    _Marchez, l'humanit ne vit pas d'une ide,_
    _Elle en allume une autre  l'eternel flambeau_


CASA BERTRAND--JOS BASTOS

CHIADO

LISBOA




O PRIMEIRO DE MAIO




                         O PRIMEIRO DE MAIO

                                POR

                        S. DE MAGALHES LIMA



                    _Marchez, l'humanit ne vit pas d'une ide,_
                    _Elle en allume une autre  l'eternel flambeau_



                               LISBOA
                 TYP. DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
                                1894




 MEMORIA
DO
MEU QUERIDO MESTRE
E
SAUDOSISSIMO AMIGO
BENOIT MALON

_Lisboa, 2 de dezembro de 1893._

     _Magalhes Lima._




_SOLEMNIA VERBA..._


Recordo-me perfeitamente. Era uma manh de agosto. Na vespera, Cipriani
havia me dito: amanh, s 11 horas, na _gare de S. Lazare_!

Fomos ambos pontuaes. Tommos os nossos bilhetes, e seguimos no trem de
Asnires. Era ali, na rua de Colombes, que vivia, ou que agonisava, para
melhor dizer, Benoit Malon. Subimos a longa escadaria que conduzia a um
terceiro andar. O mestre dormia tranquillamente. Mas, presentindo-nos,
afastou docemente o leno branco que lhe encobria o rosto, e
estendeu-nos a mo com carinho e alvoroo, abraando-nos e beijando-nos,
ao mesmo tempo.

A sua physionomia, abatida e amarellecida pelo uso da morphina, tinha o
aspecto doentio, morbido, de quem, havia muito, no dormira ou se achara
dominado por terriveis convulses. O quarto era pequeno, illuminado por
uma janella que deitava para a rua. Sobre o leito em desalinho, alguns
jornaes, dobrados uns, abertos outros--_Le Rappel_, _La Petite
Republique Franaise_, _La Justice_... A atmosphera estava impregnada
d'aquelle cheiro caracteristico das longas enfermidades dolorosas. A um
lado do leito uma mesa, completamente coalhada de garrafas e frascos,
uma pequena pharmacia, para assim o dizer; e a outro lado a figura
luminosa, transparente e doce de Mademoiselle Estelle Husson, a
enfermeira querida e dedicada, que teve a rara coragem e a excepcional
perseverana de atravessar os seis longos mezes da doena, passando as
noites em vigilia, ao lado do enfermo, sem se deitar...

-- uma heroina!--disse-me Amilcare Cipriani.

E era-o, com effeito.

Conservo ainda hoje a sua imagem, intensamente gravada no meu espirito
saudosissimo. Uma bata branca envolvia o seu corpo flexivel e franzino,
e uma pallidez marmorea se desenhava na sua figura delicada de _madona_,
de olhos azues e de longas tranas louras. Dir-se-hia uma irm do
doente, pelo soffrimento e pela dr que a caracterisavam.

Benoit Malon no podia fallar. Escrevia n'uma lousa que tinha sempre ao
seu lado, e que elle mesmo limpava, de quando em quando, com uma pequena
esponja.

Fez-me muitas perguntas. Felicitou-me pela publicao do meu livro--_La
Fdration Ibrique_, que havia dado a Geisler, para que a elle se
referisse na _Revue Socialiste_.--Porque no publica V., em volume, as
suas impresses, sobre o congresso operario de Zurich?--disse-me por
fim.

Prometti-lhe solemnemente que o faria.

Venho hoje cumprir a minha promessa; e,  tua memoria sacratissima,
consagro o fructo do meu labor,  morto querido!




O PRIMEIRO DE MAIO

    O congresso confirma a resoluo do congresso de Bruxellas, assim
    concebida:

    O congresso, afim de conservar ao 1. de Maio o seu verdadeiro
    caracter de reivindicao do dia normal de 8 horas de trabalho e de
    affirmao de lucta de classes, resolve:

    Que deve fazer-se uma manifestao unica em que tomem parte os
    trabalhadores de todos os paizes;

    Que esta manifestao se realise no dia 1. de maio, e se suspenda o
    trabalho, n'esse dia, em toda a parte onde seja possivel fazel-o.

    Adopta tambem a emenda seguinte:

    A democracia socialista de cada paiz tem o dever de empregar todos
    os seus esforos para conseguir a suspenso do trabalho no dia 1 de
    maio, encorajando todas as tentativas feitas, n'este sentido, pelas
    differentes organisaes locaes.

    O congresso resolve mais:

    A manifestao do 1. de maio, pelo dia normal de 8 horas de
    trabalho, deve, ao mesmo tempo, ser, nos diversos povos, a
    affirmao da energica vontade que anima o proletariado moderno de
    pr um termo, por meio da revoluo social, s desegualdades de
    classes, devendo tambem manifestar o pensamento commum ao
    proletariado de alcanar, pelas reformas sociaes, a paz universal,
    como uma consequencia da paz obtida dentro de cada nao.

    (_Congresso de Zurich._--Resoluo tomada na sesso de 11 de agosto
    de 1893).


A celebrao do primeiro de maio, significa e representa, ao mesmo
tempo, uma affirmao e um protesto: affirmao de direito e de justia
contra os privilegios e os preconceitos do mundo, e protesto da
humanidade trabalhadora contra o despotismo e a servido social.
Affirmar esse direito e relembrar essa justia  o dever dos que
trabalham; protestar contra a iniquidade de que so victimas,  a
obrigao dos que soffrem.

Encontramos-nos em face de um velho mundo que desaba. Os reis e os
dictadores esgotam os thesouros dos seus respectivos paizes em munies
e armamentos, e preparam-se para o supremo combate. Por toda a parte a
duvida e a incerteza. Alguma cousa de sombrio e de lugubre caracterisa
este terrivel periodo, chamado de transio. De duas uma: ou a guerra
irrompe, n'uma poca mais ou menos proxima; ou a revoluo rebentar,
como a consequencia logica, inevitavel, da crise economica a que esta
nova barbarie, denominada pomposamente exercito permanente, arrastou as
sociedades modernas.

O capitalismo explora, e a guerra mata e aniquila. O operario
encontra-se em frente d'estes dois inimigos; e elle, que representa o
trabalho e a produco, combate os exploradores; e elle, que significa
paz, amor e concordia, detesta e odeia a guerra.

Reivindicar para a collectividade os beneficios do trabalho e da
paz--eis a aspirao do proletariado moderno. A essas aspiraes,
chamamos ns socialismo; e, por seu turno, a gloriosa commemorao do
primeiro de maio, no  outra cousa seno a affirmao solemne e
collectiva das reivindicaes operarias.




I

O DESENVOLVIMENTO DAS IDEIAS SOCIALISTAS


BENOIT MALON, LUIZ RUCHONNET, RAMN CHES, VICTOR SCHOELCHER E VICTOR
CONSIDRANT.--THEODORO HERTZKA E O SEU FREILAND.--NO CONGRESSO DE
ZURICH:--A ALLEMANHA, A BELGICA, A FRANA E A INGLATERRA.--A ITALTA, A
SUISSA, A HESPANHA E PORTUGAL.--NOTAS E COMMENTARIOS.

No proximo anno preterito que acaba de desapparecer, arrastando na sua
cauda varredora todo um mundo de lagrimas e de fices, a humanidade
perdeu cinco dos seus melhores amigos e a revoluo cinco dos seus
apostolos mais queridos e predilectos.

O _primeiro de maio_, que, antes de tudo, significa paz e solidariedade,
presta homenagem aos mortos illustres. Faamos reviver os Mestres. O seu
exemplo  o nosso ensinamento, e a sua memoria luminosa  a origem dos
nossos esforos e dos nossos sacrificios. Por elles vivemos, e pela sua
lio sacratissima nos abalanamos aos supremos heroismos e aos supremos
martyrios. Bem hajam elles, os bons, os santos, os immortaes, os
calumniados de todos os tempos e de todos os paizes; bem hajam os
simples, os eternamente ingenuos: foram elles que nos ensinaram; so
elles ainda os que, atravez dos escolhos que as paixes semeiam na
sociedade, nos guiam e conduzem ao ideal abenoado,  terra promettida
da liberdade e da fraternidade humana!

      *      *      *      *      *


BENOIT MALON

O odio destre e espalha a guerra. S o amor pde construir e trazer a
paz. Benoit Malon era a personificao do altruismo e da bondade humana.
Era um santo e um virtuoso. Ninguem o excedeu em virtude. Ninguem o
egualou em abnegao e desinteresse. Por isso a sua morte pz o lucto
nos coraes e encheu de afflio todas as boas almas, candidas e
generosas. Elle no foi s o mestre do socialismo: foi o exemplo vivo de
quanto pde a vontade, quando levada e dirigida pelo amor e pela
curiosidade do saber. Elle foi a encarnao da alma moderna, em
lucta com o presente e crente no futuro, pondo o ideal acima dos
mesquinhos interesses do mundo e as ideias e os principios acima da
ganancia srdida dos homens e das sociedades.

      [Gravura: Benoit Malon]

Ah! sim!--dizia-me, pouco tempo depois da sua morte, Aurelien Scholl, o
scintillante chronista parisiense--elle foi um dos raros e um dos
privilegiados d'este fim de seculo! O meu pobre amigo vinha almoar
commigo de quando em quando. Um dia a minha creada perguntou-me, se
poderia aproveitar a hora do almoo, para coser o sobretudo do sr.
Malon, e se elle repararia... Respondi-lhe que cosesse o sobretudo,
porque o sr. Malon nem sequer daria por tal...  que elle era to bom,
to bom--rematou Scholl--que at as creadas de servir o amavam!

Eis aqui uma narrativa que vale bem por uma biographia! E tudo quanto
podessemos accrescentar a estas palavras, ao mesmo tempo to simples e
to pittorescas, seria superfluo e inutil. Nem mais ambicionaria, por
certo, o chorado e saudosissimo author do _Socialismo integral_!

      *      *      *      *      *


LUIZ RUCHONNET

Luiz Ruchonnet foi, por duas vezes, presidente do conselho federal da
florescente e grandiosa republica suissa. Era um sincero amigo da paz,
e, como todos esses _visionarios_ e _sonhadores_, que em Inglaterra se
chamam Cobden, Hodgson Pratt, Henry Richard, Cremer, Darby, em Frana,
Charles Lemmonier, Frederico Passy, Emile Arnaud, Ren Goblet, Edmond
Thiaudire, A. Millerand, Camillo Pelletan, Augusto Vacquerie; na
Italia, Bonghi, Siccardi, Mazzoleni, Theodoro Moneta; na Dinamarca,
Frederico Bajer; na Belgica, Laveleye, Janson, Cesar de Paepe, La
Fontaine; na Allemanha, Franz Wirth, Baumbach, Adolfo e Eugenio Richter;
na Austria, a baroneza de Suttner e o dr. Adler; na Suissa, Angelo
Umilt, Carlos Menn, M.me Goegg; na America, Alfredo Love, dr.
Trueblood, M.me Belva Lockwood--elle pertenceu a essa gloriosa raa de
philantropos e humanitarios, que atravessam o mundo, deixando atraz de
si um rasto de luz, e cujos nomes se perpetuam, atravez os tempos e as
geraes, consagrados pela historia, pela sciencia e pelo trabalho.

      *      *      *      *      *


RAMN CHES

Na historia do livre pensamento, Ramn Ches occupava um dos primeiros
logares e era uma das personalidades mais em vista. Era um
revolucionario por temperamento e por convico. No queria a republica
simplesmente pela republica. Queria a republica sim! para elevar e
engrandecer a sua patria aos olhos de nacionaes e estrangeiros. Para
elle a republica era uma phase transitoria; a phase organica e positiva
estava no socialismo. Por isso foi, ao mesmo tempo, um socialista e um
federalista. Tribuno, ninguem o excedeu em eloquencia, na defeza do
luminoso principio da fraternidade e da solidariedade humana; publicista
e jornalista de pulso, foi um apostolo constante, ardente, impetuoso e
dedicado da federao iberica.

       [Gravura: Ramn Chies]

      *      *      *      *      *


VICTOR SCHOELCHER

Victor Schoelcher pertenceu a essa mocidade alegre e enthusiasta que
forneceu ao author dos _Miseraveis_ o seu typo d'Enjolras, o estudante
de todas as sociedades secretas e de todas as conspiraes. Franco-mao
e conspirador, filiou-se na loja franceza dos _Amis de la verit_ e na
_Sociedade Aide-toi, le ciel t'aidera_.

Estas eram, com algumas outras, as associaes dos _malfeitores_
d'aquelles tempos, no dizer picante e ironico de um distincto jornalista
parisiense.

       [Gravura: Victor Schoelcher]

A grande e gloriosa figura de Schoelcher destaca-se na sua
brilhantissima campanha contra a escravido. Quiz vr de perto e
observar pelos seus proprios olhos a triste situao dos negros. E, para
poder denunciar ao mundo a ignominia e a barbarie dos homens, partiu
para a America, d'onde regressou, com o corao angustiado pela dr e o
espirito horrorisado por tudo o que havia presenceado e visto. Sendo
sub-secretario d'Estado, no ministerio da marinha, por occasio da
revoluo de 1848, o seu primeiro cuidado foi apresentar um decreto para
a libertao immediata dos negros.

Schoelcher encontrava-se ao lado de Baudin, na celebre e j hoje
historica barricada da Bastilha.

A tropa marchava sobre a barricada, sem dar um tiro.

--Amigos! gritou Schoelcher, voltando-se para o povo, nem um tiro at
que a tropa abra o fogo. Avancemos; se ella atirar, a primeira descarga
ser nossa; se nos matar, vs nos vingareis.

E dirigindo-se depois aos soldados:

--Ns somos os representantes do povo, exclamou. Em nome da
constituio, reclamamos o vosso concurso, para fazer respeitar as leis
do paiz. Vinde a ns; ser vossa a gloria.

E avanou para os soldados, commandados por um official. Seis dos seus
collegas seguiram-n'o. A tropa parou indecisa.

--Cumpro as ordens, respondeu o official. Retire-se, se no quer que d
a voz de fogo.

--Mate-nos, se quizer, replicou Schoelcher.

E, dando o exemplo que foi seguido pelos companheiros, gritou: Viva a
Republica!

O official mandou carregar.--Avanar!--ordenou.

Ouviu-se o ruido scco das baterias. Alguns representantes
descobriram-se e quedaram-se com o chapu na mo, esperando serenamente
a morte. N'esse instante, um soldado atacou Schoelcher  baioneta. Os
defensores da barricada, suppondo que se attentava contra a sua vida,
desfecharam e mataram o soldado. A tropa respondeu por uma descarga
geral. Foi ento que Baudin subiu  barricada para exhortar os soldados.
Uma bala feriu-o na fronte, cahindo logo fulminado.

Schoelcher, n'esse dia memoravel da sua vida, esteve  altura dos
grandes heroes; e,  semelhana dos antigos paladinos, s abandonou o
campo, quando nada mais restava a fazer. A barricada da Bastilha fra
improvisada de um momento para o outro; construida no ar, para assim o
dizer, sem elementos de resistencia, desfez-se e cahiu como um castello
de cartas. Mas o patriotismo opera milagres. E s patriotas sinceros e
devotados seriam capazes de semelhante audacia e de semelhante arrojo!

Chamaram-lhe idealista--um puro e nobre idealista!--a elle, que todos os
seis mezes, na camara franceza, apresentava um projecto de lei para a
abolio da pena de morte. Para o mundo, egoista e utilitario, so
idealistas e so sentimentalistas, todos os que lhe no acceitam as
falsas convenes e o trpe e vilissimo mercantilismo. E  precisamente
de idealistas e de sentimentalistas que carecem e precisam as sociedades
modernas! As grandes commoes da historia foram um producto do ideal e
do sentimento humano. Assim como  preciso pensar para obrar, na phrase
de Augusto Comte,  tambem preciso sentir para querer. Nem d'outro modo
se comprehende o patriotismo, nem d'outro modo se poderiam comprehender
as revolues e os grandes dramas sociaes.

Perdida a causa em que pozra todo o seu heroismo e todos os seus
esforos, Schoelcher emigrou para Inglaterra, onde permaneceu durante o
imperio, regressando a Paris em 1870. Estava no Hotel-de-Ville, a 4 de
setembro, e tomou parte na defeza de Paris, na sua qualidade de chefe
d'Estado-maior da guarda nacional.

      *      *      *      *      *


VICTOR CONSIDRANT

Um dia Victor Consideram dirigia-se  Escola Polytechnica, e atravessava
os caes de Paris, _bouquinant_, como dizem os francezes, isto ,
entretendo-se a vr as curiosas livrarias, de livros raros e antigos,
que guarnecem as varandas dos caes, na margem esquerda do Sena, e que
constituem uma das primeiras curiosidades da grande capital da Frana,
quando, subito, se lhe deparou uma obra que lhe despertou a atteno e a
curiosidade. Era o _Nouveau monde commercial_ de Fourier. Abriu-o, leu-o
e estudou o minuciosamente.

       [Gravura: Victor Considerant]

No fim do livro, Fourier dizia, pouco mais ou menos, o seguinte:

Precisa-se um capitalista, para realisar um novo mundo. Carta para
minha casa.

E designava a sua morada.

Considrant apresentou-se em sua casa.--No sou o seu homem, disse. No
tenho dinheiro, mas comprehendi-o.

Fourier havia encontrado o seu primeiro discipulo, que lhe levava a mais
que os capitaes pedidos--o genio para vulgarisar as suas theorias.

Fourier nutrira, desde creana, um horror invencivel pelo commercio.
Filho de commerciante, e tendo apenas sete annos de edade, ouviu um dia
o pae gabar-se  me de haver enganado um cliente. Vexado por este
proceder que qualificou de villo, procurou o freguez, afim de
participar-lhe o occorrido. Valeu-lhe a indiscrio um bom par de
bofetadas; mas, desde esse momento, votou ao commercio esse odio que
transparece nos seus primeiros livros.

Possuo o segredo da felicidade, para todos os
homens--dizia.--Intimaram-n'o a provar praticamente a sua
assero.--Escrevel-o-hei--respondeu.

O genero sahe das mos do productor, custando 3, por exemplo, e chega
s mos do consumidor valendo 9. O intermediario, isto  o commerciante,
ganhou, portanto, 6, na sua commisso, o que no succederia
evidentemente, supprimindo-se o intermediario, e estabelecendo-se, pura
e simplesmente, a troca entre productores e consumidores.

O seu systema baseava-se sobre o principio da felicidade humana, e o
ideal do mosteiro de Thlme no foi estranho s suas concepes. A
felicidade consiste em cada um fazer o que quizer. Mas, fazendo cada um
aquillo que quer, corre tambem o risco de fazer o que os outros no
querem. A esta objeco respondia elle que na natureza tudo se
equilibra--o mal e o bem.

Fourier era um poeta, mas tinha-se por homem pratico. Uma occasio,
terminando uma conferencia sobre o futuro da humanidade: E agora,
concluiu, preparemos o cosido.

Ninguem contesta o grande alcance philosophico, da theoria
phalansteriana; mas a sua parte organica e sociologica, observou muito
bem Anthero de Quental,  quasi a negao do verdadeiro socialismo,
positivo, liberal e moral.

Victor Considrant pretendeu primeiro fundar um phalansterio em
Conde-sur-Vgre que no passou de uma tentativa infructuosa. A ideia,
porm, fructificou mais tarde, embora de modo differente, por occasio
da fundao de uma colonia de velhos, n'aquelle mesmo paiz, que se
denominou--o phalansterio.

Em Texas estabeleceu Considrant, no um phalansterio, mas uma colonia
agricola. Uma sedio, organisada por Cantagrel, desapossou-o do
territorio e obrigou-o a retirar-se com sua esposa. A colonia prosperou
a principio; depois desaggregou-se. Era mal vista pelos naturaes por
causa da sua falta de religio--diziam.

Um pintor de Paris, Capy, ensinava a musica. Todos os domingos,
respondia elle a um inspector americano, fazemos musica. Ah! n'esse
caso,  differente, exclamaram os bons Yankees, sempre ali ha um pouco
de religio, uma vez que se canta.

E a verdade  que as censuras cessaram. Os membros da colonia, tambem,
por seu turno, deixaram de ser phalansterianos.

 mister ir a Iowa, para encontrar uma colonia communista--a Icaria.
Tudo ali  commum, sem mesmo exceptuar as mulheres. Podem-se estabelecer
unies temporarias, mas de curta durao; se as unies se prolongam, a
authoridade intervm, porque, nesse caso, affirmam os estatutos, a cousa
torna-se immoral.

Vejamos, porm, como Victor Considrant considerava a _organisao da
nova ordem social_.

O primeiro feudalismo que sahiu da conquista militar, havia feito
concesso do slo aos chefes militares e aos nobres, subordinando as
populaes conquistadas  _pessoa_ dos conquistadores pela servido da
gleba.

A guerra industrial e commercial, succedendo  guerra militar, sob a
frma de concorrencia, em que o capital e a especulao ficam
forosamente senhores do trabalho pobre, tende a constituir, pelas suas
conquistas, uma nova servido--no a _servido pessoal e directa_, mas a
_servido indirecta e collectiva_, o dominio, em massa, da classe dos
possuidores de capitaes, das machinas e dos instrumentos de trabalho,
sobre a classe dos desherdados.

E, com effeito, os proletarios das cidades e dos campos, considerados
_collectivamente_, esto sob a dependencia absoluta d'aquelles que
monopolisam os instrumentos de trabalho.

Este grande facto economico e politico pde traduzir-se, pela seguinte
formula, na vida pratica: _Para ter que comer todo o proletario 
obrigado a subjeitar-se a um patro._

A revoluo no se completou, pela simples emancipao politica, isto 
pelo dogma metaphysico da egualdade perante a lei, ou da liberdade pura
e simples.

A antiga sociedade havia sido organisada, _pela guerra e para a guerra_.
A nova sociedade ter de ser organisada pelo trabalho e pela paz e para
o trabalho e para a paz.

O problema dos nossos dias no pde pois, visar seno  libertao dos
servos da industria, dando a todo o homem que queira trabalhar o direito
aos instrumentos do trabalho, tornando-o assim proprietario dos fructos
do seu labor, e creando a ordem, a cooperao e a convergencia no campo
industrial.

A soluo d'este problema, que no  outra cousa seno a transformao
do _salariado_, a moderna frma de escravido, constitue o complemento
da revoluo, e pde e deve intitular-se o _problema social_.

Tal era, em rapidos traos, a doutrina d'essa altissima personalidade e
d'esse bello caracter que se chamou Victor Considrant, e que tantas
vezes vimos atravessar o boulevard S.t Michel, no bairro latino,
consagrado pela mocidade das escolas e venerado por todos os que, acima
dos materialismos do mundo, pem o supremo ideal da bondade e da
felicidade humana.

      *      *      *      *      *


THEODORO HERTZKA E O SEU FREILAND

_Freiland!_ (terra livre, paiz livre)--tal  o titulo do livro de
Theodoro Hertzka, um austriaco e um sociologo eminente.

       [Gravura: Theodoro Hertzka]

Pelos meados de julho de 18...--assim principia a narrativa de
Hertzka--lia-se o seguinte nos principaes jornaes da Europa e da America:

                                     _Sociedade livre internacional_

    Acaba de constituir-se um grupo de individuos de todas as partes do
    mundo civilisado, com o fim de emprehender e tentar a resoluo do
    problema social.

    Ao cabo de muitas e pacientes investigaes, opinou-se pela creao
    de uma communidade, estabelecida sobre as bases, ao mesmo tempo, da
    liberdade mais ampla e da justia economica, a qual, mantendo de uma
    maneira absoluta a independencia pessoal de cada trabalhador, lhe
    assegure o gso completo e integral do producto do seu trabalho.
    Para fundar a mencionada communidade, occupar-se-ha uma vasta
    regio, n'um local que no tenha possuidor, mas que seja fertil e
    proprio para a colonisao.

    N'esta regio, a sociedade livre no reconhecer nenhum direito de
    propriedade sobre o slo, quer a favor de um individuo quer a favor
    da communidade.

    Para cultivar o slo, como, de resto, para realisar toda a especie
    de produco, constituir-se-ho associaes, sendo cada uma
    administrada como melhor o entender, e distribuindo, entre os seus
    membros, o resultado da produco, consoante o trabalho de cada um.
     facultativo a cada membro o filiar-se na associao que escolher e
    de a abandonar tambem a seu bel-prazer. A communidade encarrega-se
    de fornecer gratuitamente os capitaes aos productores, com a
    condio d'estes os restituirem. Os individuos incapazes de
    trabalhar, assim como as mulheres, teem direito aos meios de
    subsistencia,  custa da sociedade. A receita indispensavel para a
    acquisio dos objectos, acima mencionados, assim como para as
    despezas de interesse geral, ser assegurada por uma quota tirada do
    rendimento bruto de cada produco. A sociedade livre internacional
    possue j o numero de membros e de capitaes sufficientes para a
    realisao do seu plano. Sendo, porm, de opinio, por um lado, que
    o resultado d'esta tentativa ha de ser tanto mais seguro e efficaz,
    quanto maiores e mais importantes forem os meios de que disposer, e
    desejando, por outro lado, offerecer a todos o ensejo de poderem
    participar da empreza, a sociedade, pelo presente aviso, faz saber
    ao publico que os pedidos e offertas de qualquer natureza que sejam,
    devem ser dirigidos para Haya, Bochstraat, 57.

    A sociedade livre internacional celebrar em Haya, no dia 20 do
    proximo mez de outubro, uma assembla politica em que sero
    apreciadas as ultimas resolues, afim de realisar praticamente a
    sua obra.

    Haya,... de julho, 18..

                     _Pelo comit da sociedade livre internacional._

                                        _Karl Strahl_

Este annuncio produziu uma profunda emoo na imprensa e no publico. O
nome do signatario, que era conhecido no s pela sua posio social,
seno ainda por ser um dos primeiros escriptores da Allemanha em
sciencia economica, afastava todo e qualquer pensamento de mystificao
ou de equivoco.

Realisou-se um congresso que foi aberto pelo seguinte discurso de
Strahl:

A convico de que a communidade,  fundao da qual vamos proceder, 
destinada a extinguir a pobreza e a miseria pela base e a destruir com
ella todos os desgostos e todos os crimes que devem ser considerados
como uma consequencia forada da miseria e da pobreza, essa convico,
apercebe-se no s nas palavras, seno tambem na maneira de obrar da
maioria dos nossos consocios e no profundo e desinteressado enthusiasmo,
segundo o qual cada um--na medida das suas foras--se tem applicado ao
fim commum. Quando publicmos o nosso applo, eramos apenas 84; os
recursos de que podiamos dispr oravam por 11.400 libras sterlinas;
presentemente a sociedade compe-se de 5.650 membros e o seu fundo monta
a 205.620 libras sterlinas. Convm notar que esta somma, no nos foi
fornecida simplesmente pelas classes pobres que habitualmente se
consideram como as unicas interessadas no problema social. E isto
torna-se ainda mais evidente percorrendo a lista dos socios.
Irresistivelmente, chega-se  concluso de que a averso e o horror,
inspirados pelas actuaes condies sociaes, attingiram tambem as classes
que,  primeira vista, parecem aproveitar com as privaes dos
desherdados da fortuna. A resoluo do problema social impe-se hoje,
por tal frma, que at os ricos e os favorecidos da sorte no duvidam
concorrer com alguns milhes de libras, para a fundao da nova
communidade, auxiliando-nos e participando da nossa empreza. N'este
facto, mais do que em qualquer outro, repousa a convico de que a nossa
obra no poder deixar de fructificar.

Trata-se de escolher a regio onde poderemos realisar o nosso projecto.
Toda e qualquer localidade europeia est naturalmente posta de parte,
por rases faceis de comprehender; a Asia, egualmente; e, em particular,
devemos assignalar os pontos onde sem acclimatar-se os emigrantes de
raa caucasica, sendo facil que se estabelecessem conflictos com as
organisaes juridicas e sociaes de outros tempos. Na America e na
Australia, os governos conceder-nos-hiam, com prazer, um territorio
espaoso, bem como a liberdade dos nossos movimentos; mas ainda ahi
difficilmente poderia a nossa communidade encontrar garantia contra os
ataques hostis e assegurar o repouso e a segurana, indispensaveis a um
successo rapido e certo. Resta-nos a Africa, o continente mais antigo,
e, sem embargo, aquelle cuja descoberta foi a mais recente. A parte
central interior encontra-se ainda sem possuidor. Podemos encontrar ali,
no s um espao sem limite e um repouso assegurado, seno tambem as
condies mais favoraveis, quanto ao clima e  fertilidade do slo,
desde que a escolha seja acertada. Ha paizes, a uma grande altitude,
reunindo as vantagens dos tropicos e dos Alpes, que aguardam uma
immigrao. As communicaes com esses paizes montanhosos, situados no
corao do continente negro, so certamente muito penosas, mas 
precisamente isso de que havemos mister para principiar. Propmos pois,
que se procure a nova patria, no interior da Africa equatorial. E
pensamos, principalmente, no paiz das altas montanhas do Kenia. Concorda
a assembla com a escolha?

Foi unanime o assentimento. Ouviram-se vozes que exclamavam:

Para deante, e antes hoje do que amanh!

Era evidente que a maioria estava disposta a pr-se a caminho sem mais
delongas.

De novo o presidente toma a palavra para declarar que as cousas nem
sempre podem marchar to depressa, como muitas vezes se deseja. A nova
patria ter primeiro de ser escolhida e conquistada, o que representa
uma empresa arriscada e difficil. O caminho tem que fazer-se por entre
desertos e florestas inhospitas. No poderemos evitar os combates com as
tribus selvagens e hostis, e, por isso, s nos podero convir homens
fortes e validos, e no mulheres, creanas ou velhos. Alm d'isso,
teremos que apurar os milhares de immigrantes que devero
acompanhar-nos, atravez d'aquellas regies, e de os organisar
devidamente; 200 emigrantes, entre os quaes 4 naturalistas, 3 medicos, 8
engenheiros e 4 representantes de outros ramos technicos, ricamente
providos de armas, de machinas, de sementes, de mercadorias e de
utensilios de viagem, formaro a vanguarda da expedio.

A narrao d'esta marcha at ao Kenia, constitue uma das partes mais
interessantes do livro, devendo accrescentar-se que a descripo das
grandiosas montanhas africanas no  obra de pura phantasia, mas , ao
contrario, extrahida das narrativas dos exploradores africanos que
visitaram aquellas regies. A expedio faz a sua primeira paragem em um
valle delicioso, situado a 1:700 metros de altitude, ao sop de um
formidavel massio do Kenia e das suas magnificas geleiras, e que se
appellidar, por causa da sua belleza e da sua fertilidade, o valle do
Eden. Com as provises e os utensilios de que vo providos, podem os
valentes porta-bandeiras da gloriosa caravana fazer os preparativos
necessarios, para receber o principal grupo dos associados, se bem que
s alguns mezes mais tarde, por occasio da chegada do comit director 
base do Kenia,  que o paiz, onde refulgir a liberdade, ser baptisado
com o nome de _Freiland_, pondo-se ento, em pratica a nova organisao
do trabalho, consoante os principios _freilandezes_.

Para todos os que se interessam pelo estudo das questes sociaes, e
ainda para todos os que pensam que as modernas sociedades,
desorganisadas como esto e lanadas em bases falsas, devem ser
reconstruidas, segundo um principio de justia e de moralidade, o livro
do escriptor allemo  de um interesse palpitante[1]. Digamos tambem que
o author do _Freiland_ teve a rara felicidade de despertar em muitos
espiritos, pela sua maravilhosa obra, escripta em frma de romance, o
desejo ardente de fundar uma sociedade em tudo semelhante quella que
to brilhantemente concebeu e descreveu.

Para vulgarisar e fazer a propaganda da ideia, creou e fundou a
sociedade uma revista mensal, orgo dos associados:--_Freiland_, organ
der Freilandvereine.

Temos  vista uma carta de Theodoro Hertzka em que nos communica a
partida de Hamburgo da primeira expedio, por todo o mez de janeiro do
corrente anno, dirigindo-se ao Kenia, que fica a 600 milhas da
costa de Este, exactamente sob o Equador.

E eis aqui est o motivo por que, depois de ter prestado homenagem 
memoria dos mortos queridos, eu entendi que no devia continuar o meu
trabalho, sem d'aqui saudar enthusiasticamente o honrado e illustre
apostolo de uma nova organisao social, fazendo votos ardentes pelo
completo triumpho dos seus ideaes.

      *      *      *      *      *




NO CONGRESSO DE ZURICH


AMILCARE CIPRIANI

Ao chegarmos a Zurich, na tarde de 6 de agosto de 1893--Amilcare
Cipriani e eu--um soberbo e imponentissimo espectaculo se nos offereceu
logo  vista, como s a Suissa seria capaz de offerecer e realisar. As
sociedades do _Grtli_ desfilavam pelas ruas da cidade, com os seus
estandartes e philarmonicas  frente, no meio do enthusiasmo e das
acclamaes da multido. Estas associaes constituem uma das grandes e
uma das primeiras foras da poderosa republica. A sua origem  lendaria,
e deriva do local, onde se reuniram os amigos de Guilherme Tell, quando
decidiram conspirar contra Gessler.

As sociedades do _Grtli_ constituiram-se e organisaram-se, a principio,
com um caracter puramente patriotico; mas teem-se transformado, pouco a
pouco, e hoje so, na sua maioria, socialistas.

Nada mais bello e magestoso do que o desfilar d'esses 9:000
trabalhadores, todos pittorescamente vestidos com os trajos das suas
profisses e os distinctivos correlativos, e precedidos por 150
bandeiras, quatro das quaes eram vermelhas.

So estas as procisses da republica, e ninguem que as presenceie pde
deixar de se descobrir reverente e solemnemente. O homem livre,
associado e independente substituia o soldado escravo, tyrannisado e s
ordens de um senhor; ao principio da guerra contrapunha-se o principio
da solidariedade humana; ao militarismo, o socialismo; s armas e aos
petrechos de guerra, os instrumentos do trabalho e os symbolos da paz.

O cortejo havia sido organisado em honra dos congressistas. Na rua, o
povo formava alas  passagem dos seus representantes. Calculava-se em
mais de 40:000 o numero dos cidados que accorreram ao chamamento dos
iniciadores do congresso. Nas janellas os espectadores applaudiam
phreneticamente e lanavam flres  passagem dos manifestantes. A
recepo era digna e estava em tudo e por tudo  altura das ideias que
se glorificavam. Celebrava-se a abertura do congresso operario
socialista e no havia, com effeito, melhor meio para solemnisar a
gloriosa data.

Fallemos, porm, de Amilcare Cipriani.

Tenho deante de mim o seu retrato. Na sua physionomia transparece a
bondade do seu corao, e nos seus olhos a candura e a gentileza da sua
alma. Guardo d'elle a recordao saudosissima de um homem que pe a sua
dignidade e o seu brio pessoal acima dos seus interesses e das suas
conveniencias; do apostolo que colloca as ideias e os principios acima
das paixes humanas; do revolucionario, emfim, que ao amor da humanidade
sacrifica a vida, a familia, o bem estar e a tranquillidade. D'elle
poderia dizer que  um exemplo a seguir e a imitar, e d'elle afirmarei,
sem receio de contestao, que  unico e excepcional, no meio de uma
sociedade mercantil, gananciosa e covarde.

       [Gravura: Amilcare Cipriani]

Amilcare Cipriani tem hoje 47 annos de edade, dos quaes 22 foram
passados no carcere. Honrado, valente e desinteressado, nunca hesitou,
sempre que a causa da liberdade careceu do seu brao para a defender.
Bateu-se, como um here, no Egypto; bateu-se na Grecia: bateu-se pela
Italia, a sua patria querida e bateu-se pela Frana, a sua patria de
adopo.

Na parte inferior do seu retrato, e escriptas pelo seu proprio punho,
lem-se as seguintes phrases que synthetisam perfeitamente as suas
aspiraes e o seu credo social:

_Il proletariato, per essere libero ed emancipato, deve assingersi a
rovisciare, colla forza, tutto l'ordine sociale existente._

_Contre l'oppressione la ribellione  un diritto._

Est aqui o homem politico. Fallemos agora no homem particular, no amigo
e no companheiro queridissimo.

Soffreu sempre, com a maior resignao, todas as crueldades e todas as
privaes da existencia, sem um queixume, sem uma magoa, sem uma palavra
de odio ou de rancor. Muitas vezes o seu almoo  um copo de agua e um
pequeno po de 15 centimos.

Tendo amigos sinceros e dedicados, nunca pediu, para si, um real a
nenhum d'elles. Se tem apenas 20 centimos no bolso, come com esses 20
centimos: se no tem dinheiro no come. Estando em Londres exilado, nem
sequer tinha um quarto onde dormir. Por noites geladas e frias, com as
botas rotas, sem abrigo, sem dinheiro no bolso, era obrigado a andar
horas seguidas pelas ruas da enorme cidade, para no ser preso por
vagabundo.

Quando falleceu o nosso querido e lealissimo amigo Benoit Malon, foi
elle quem se conservou ao lado d'elle, durante quatro dias consecutivos;
foi elle quem o vestiu e quem velou o cadaver, sem se deitar, sem sentir
a menor fadiga, no pensando seno na amisade e no carinho que lhe
consagrara durante a vida, e que to bem retribuido foi pelo glorioso
mestre. Mas no dia do enterro, apossou-se d'elle o desalento, no
cemiterio do _Pre Lachaise_. Passavamos ao lado do tumulo do grande
cidado Anatole de la Forge.

--Eis aqui um que foi candidato  presidencia da republica, que se
bateu heroicamente pela sua amada Frana, e que teve de recorrer ao
suicidio para no morrer de fome!--disse.--Eis a sorte que naturalmente
me est tambem reservada--continuou.--Mas eu, se um dia me suicidar, hei
de escolher o muro dos federaes para o fazer, e, quando, junto d'elle,
encontrarem o meu cadaver--que o transportem para onde muito bem
quizerem, sem pompas nem discursos... Detesto as comedias e as
representaes theatraes deante de um cadaver.

Ah! bom e querido amigo! n'essa hora angustiosa, tu pensaste na
ingratido dos homens, e, em frente do camarada morto, avaliaste a
torpeza do mundo e a inanidade das suas palavras hypocritas e
fementidas!

Os longos soffrimentos produzem, s vezes, estes desanimos crueis. So
momentaneos,  certo, mas so dolorosos.

Sahimos do cemiterio e fomos almoar juntos. Duas horas depois, Amilcare
Cipriani havia recobrado animo, e fallava-me em ir bater-se na Sicilia,
ao lado dos seus compatriotas, victimas da miseria e do despotismo.

Que honradissimo caracter! e que gloriosa e brilhante personalidade!

      *      *      *      *      *


O CONGRESSO

As sesses do congresso realisaram-se n'um vasto salo de concertos, um
dos mais espaosos da cidade, o _Tonhalle_, rodeado por uma enorme
galeria, onde podiam accommodar-se muitas centenas de pessoas. Ao fundo,
n'uma especie de palco, coberto de verdura e ornado com os estandartes
das associaes, destacava-se um magnifico retrato em busto de Karl
Marx. Em redor e collada  galeria, a inscripo do chefe, impressa em
grandes caracteres, e traduzida em vinte e duas linguas: _Proletarios
de todo o mundo, uni-vos!_

Grandes mesas, collocadas parallelamente umas s outras, enchiam o
vastissimo salo, sendo cada uma d'ellas occupada pelos representantes
de uma dada nacionalidade.

A representao da Allemanha no augmentara. Era quasi a mesma do
congresso de Bruxellas.  frente d'ella encontravam-se Liebknecht, Bebel
e Singer. A novidade foi a representao dos novos, hostis ao velho
grupo; e d'entre esses, chamados os independentes, devemos destacar
Werner e Krner.

Da Belgica, estavam Hector Denis, Jean Volders e Emile de Vanderwelde;
da Hollanda, Domela Nieuwenhuis; da Hespanha, Pablo Iglesias; da
Roumania, Mille; da Inglaterra, Max Avelling: da Frana, Allemane,
Argyriads, Jaclard, Veber, Degay, Borlioz; da Austria, Adler, Fankel.

Augmentra consideravelmente a representao da Italia.

Alm de Madame Anna Koulischoff e Turati, um sociologo eminente e
director da _Critica social_, de Milo, assistiam ao congresso Antonio
Labriola, lente cathedratico da Universidade de Roma; Prampolini,
deputado, etc.

Entre as senhoras que tomaram assento na assembla, notavam-se, como
acima deixamos dito, Anna Koulischoff, russa, antiga nihilista, que fez
o seu curso na Universidade de Milo, onde hoje exerce a clinica; Madame
Mendelssohn, da Varsovia, casada com Mendelssohn, que fra expulso de
Paris, por nihilista; Madame Vera Sassulich, a notavel heroina que, em
1878, desfechou o seu rewolver sobre o general Trepoff, o miseravel
chefe de policia de S. Petersburgo, inimigo dos nihilistas e que tantas
victimas arremessou para a Siberia. Trepoff morreu e Vera Sassulich, a
grande libertadora, emigrou, sob um nome supposto, escapando ao furor
das auctoridades russas, e vivendo ora na Italia, ora na Suissa.  uma
mulher de armas, no bom sentido da palavra, honesta, intransigente e
sincera e devotada amiga da liberdade e da humanidade.

       [Gravura: Frederico Engels]

O congresso foi encerrado com a grata e inesperada appario do velho
companheiro e continuador de Marx--Frederico Engels. Quando o presidente
annunciou que se achava na sala um dos illustres precursores do
socialismo, todos se pozeram de p, e no palco surgiu, ento, a figura
gloriosa de Engels. O enthusiasmo foi indescriptivel. Uma estrondosa
salva de palmas coroou esta agradavel surpresa. _Viva a
Communa!_--gritou a delegao francesa. _Viva Engels!_--exclamaram todos
numa voz unisona, formidavel e estridente.

      *      *      *      *      *


A ALLEMANHA, A BELGICA E A INGLATERRA

Os paizes onde o socialismo est hoje, incontestavelmente, mais bem
organisado e desenvolvido, so a Allemanha e a Belgica. Na Frana
dividem-se e subdividem-se os grupos, chocam-se as personalidades, e os
odios e as desintelligencias evidenceiam-se a cado passo. Na Inglaterra,
apesar dos progressos realisados, n'estes ultimos tempos, principalmente
pela adheso das _Trades--Unions_, ainda o socialismo no representa o
que pde chamar-se um partido politico.

Na Allemanha, os mesmos pruridos militaristas que se observam nas altas
regies, reflectem-se, com maior ou menor intensidade, no partido
socialista. Nota-se, principalmente, este facto nos congressos, onde, a
um simples aceno do deputado Singer, todos os delegados approvam ou
reprovam, consoante as instruces de ante-mo estabelecidas. A mesma
disciplina do exercito estende-se aos partidos e aos agrupamentos
politicos. E ai! d'aquelle que se desviar destas normas: corre o risco
de ser expulso, sem mais applo nem aggravo.

O partido socialista est pois, organisado, na Allemanha, como um
verdadeiro partido politico, um partido de governo, poderiamos, talvez,
dizer, com uma caixa de resistencia, os seus jornaes, as suas
associaes e os seus milhares de filiados, em todas as cidades, em
todas as villas e em todas as aldeias do vasto imperio. Todos, sem
excepo, so obrigados a concorrer para as despesas do partido, e,
n'este facto, reside a base do direito de cada um, como partidario ou
membro da associao. No se concebe um partido, sem os recursos
indispensaveis, para fazer face s eventualidades de momento e para
combater o adversario, com vantagem. Os allemes sabem isto, e eis ahi
est o motivo porque o numero dos partidarios do socialismo sobe de dia
para dia na Allemanha, e por que os socialistas contam, presentemente,
com quarenta e sete deputados no _Reichstag_, tendo augmentado, a
representao partidaria, nas ultimas eleies.

       [Gravura: Liebknecht]

Liebknecht, um dos chefes consagrados pela opinio, e o director do
_Vorwerths_, o orgo do partido na imprensa, tem cerca da politica a
mesma opinio que poderia ter, em campanha, um general cerca da guerra.
Deante do inimigo, o dever  unir fileiras; e, todo aquelle que
abandonar ou se arredar do seu posto, tem de ser considerado como
desertor. E aqui est o motivo porque, no partido operario socialista
allemo, nem se admittem os dissidentes nem os independentes. Todos por
um e um por todos!--eis a maxima dos chefes. E n'este simples facto,
muito digno alis de ser imitado, por todos os partidos avanados, est
a origem da fora, do desenvolvimento e dos progressos do socialismo na
Allemanha.

Na Belgica acabam os socialistas de alcanar um enorme triumpho, pela
conquista do suffragio universal que at aqui no possuiam. O belga 
homem essencialmente pratico. O partido socialista, tendo reconhecido a
necessidade de organisar as suas foras, estabeleceu as grandes
cooperativas de consumo, principalmente de po e de carvo, e logrou
attrahir a si o elemento trabalhador, disciplinando-o, pelo interesse, e
pela conveniencia, que da associao economica poderia advir  sua
futura existencia. E as cooperativas belgas tornaram-se assim, no s
valiosos elementos de cooperao, seno poderosas e temiveis armas de
combate, pois que, dos lucros a destribuir, ficam sempre em caixa uns
tantos por cento, para as despesas da propaganda. No raro tem succedido
fazerem as cooperativas face a uma _grve_, distribuindo, diariamente,
aos grevistas, alguns milhares de pes.

No pde contestar-se o enorme progresso, feito pelo socialismo em
Frana que acaba de eleger quarenta e nove deputados, tendo,
principalmente, alcanado, em Paris, um assignalado triumpho. Mas  para
lastimar que no seja completa a unio entre os differentes grupos
que representam as ideias socialistas. A franca adheso de Ren Goblet,
A. Millerand, J. Jaurs, Camille Pelletan e outros notaveis politicos e
publicistas, deu ao partido um grande e decisivo impulso, e creou-lhe,
na camara, uma situao politica innegavel.

A _Petite Republique Franaise_  hoje, na imprensa, o orgo do novo
grupo. O seu redactor principal--A. Millerand-- um escriptor de raa e
um dos mais brilhantes e eloquentes oradores da camara franceza. O
programma por elle exposto na sesso de 16 de fevereiro de 1893, foi
adoptado por quasi todos os candidatos socialistas, nas ultimas
eleies: Reviso democratica da Constituio de 1875; modificao
radical e profunda, no interesse dos trabalhadores dos campos e das
cidades, da nossa legislao economica e do nosso systema de imposto;
acquisio para o Estado do Banco de Frana, das minas e dos caminhos de
ferro, arrancando-os das mos da alta finana.

O primeiro acto politico de Millerand, foi a defesa dos mineiros de
Monceau les Mines, em 1882. Desde ento, nunca mais houve grve em
Frana, em que elle no tenha posto o seu talento e as suas grandes
faculdades de orador ao servio das victimas dos patres gananciosos e
usurarios. E assim o vmos na brecha, defendendo successivamente os
mineiros de Decazeville, os grevistas de Vierzon, e os mineiros de
Carmaux que o haviam escolhido como arbitro.

Foi elle o defensor de Duc-Quercy e Roche, em Villefranche, de Lafargue
e Culine, perseguido por causa dos fusilamentos de Fourmies, de
Baudin, em Bourges, e de muitos outros.

       [Gravura: Millerand]

Adversario implacavel da alta finana, Millerand pronunciou, contra a
renovao do privilegio do Banco de Frana, um dos seus mais bellos
discursos, atacando essa realeza do ouro que trata de egual para egual
com a Republica, e que, merc da fraqueza e da cumplicidade dos regimens
anteriores, chegou  situao em que actualmente se encontra.

E, melhor que todas as periphrases, uma citao poder dar-nos uma ideia
da sua eloquencia. A perorao do seu discurso, relativo ao privilegio
do Banco de Frana, em que convida a burguezia a unir-se ao movimento de
transformao universal que se opera no mundo economico,  notabilissima:


A massa dos trabalhadores, libertada por tres revolues, poz-se a
caminho; quer que o suffragio universal tenha por complemento necessario
o bem estar universal. Pensa que ha contradico em que um povo
seja, ao mesmo tempo, miseravel e soberano.

A nao quer entrar na posse e no gozo de instituies, que at hoje
teem sido exploradas, apenas em proveito de um pequeno numero de
favorecidos. Vs no retardareis, nem a sua marcha, nem as suas
conquistas.  mister saber fazer a tempo os sacrificios necessarios.

Responder-me-ho, talvez, os defensores do privilegio, que o
sacrificio, que lhes pedimos poder sahir caro ao paiz. Assim o pensam,
estou convencido. No ponho em duvida nem a sua sinceridade nem a sua
boa f. A illuso no  nova.  velha como a humanidade...

Assim como outr'ora succedeu com a nobreza, a burguezia invoca os
servios j prestados, e os que, por ventura, ainda poder prestar. No
nego os seus servios. , sem duvida, bella e grande a parte que, ha cem
annos, tem tomado no desenvolvimento do commercio e da industria e no
aperfeioamento das sciencias. Se pretende invocar os seus servios,
como outros tantos titulos ao reconhecimento publico, est no seu papel
e no seu direito. Mas se pensa poder abusar da sua antiga supremacia,
para manter, na sombra e no esquecimento, a multido dos desherdados
que, por sua vez, pedem lhes seja reconhecido o direito que teem  luz,
 aco, ao desenvolvimento integral da sua personalidade; a
participao, n'uma palavra,  vida e  felicidade; n'esse caso, est
irremediavelmente perdida. Eu quereria apenas que a sua teimosia e a sua
obstinada resistencia no custassem muito caro ao paiz.

O progresso  cego, ingrato e brutal: os interesses particulares valem
pouco deante d'elle. N'esta grave questo do credito, como em todas as
outras, o que devemos fazer  aplanar-lhe o caminho, facilitando a sua
marcha, e poupando assim ao paiz de que somos servidores algumas d'essas
luctas violentas, d'essas convulses dolorosas, d'essas supremas crises
de sangue e de lagrimas, que at aqui teem assignalado cada uma das
_tapes_, cada um dos progressos da historia e da evoluo humana.

A _Petite Rpublique_, collaborada por alguns dos principaes socialistas
francezes, entre os quaes convm assignalar Ren Goblet, Jules Guesde,
Marcel Sembat, J. Jaurs, Ed. Vaillant, Eugne Fournire, Hovelacque, E.
Baudin, Gustave Rouanet, Dumas, Pierre Baudin, Ren Viviani, Clovis
Hugues, Paul Lafargue, Camelinat, Duc-Quercy, Grault-Richard, Madame
Paule Mink, etc., , por sem duvida, o grande reducto do socialismo
parisiense, e em volta d'elle, teem os adversarios e conservadores de
todas as cres e matizes estabelecido um verdadeiro estado de sitio,
atacando-o, formulando accusaes e inventando calumnias, que no servem
para outra cousa seno para exaltar ainda mais a ideia, se  possivel,
elevando e glorificando aquelles que a defendem.

Tambem o socialismo agrario se tem desenvolvido, em Frana, de uma
maneira espantosa. Acaba de o provar o ultimo congresso dos socialistas
agrarios, realisado em Auxerre, em que tomaram parte quasi todos os
deputados do partido operario socialista. A maior parte dos
congressistas estavam de blusa de trabalho e de tamancos, com as
mos calejadas da enxada.

       [Gravura: Thivrier]

Os socialistas agrarios francezes possuem hoje mais de 150 seces,
organisadas no Este e no Norte. O deputado Thivrier representa na camara
o elemento socialista da populao rural do Allier.

Thivrier assiste de blusa azul s sesses parlamentares. Fra do
parlamento tambem a no despe nunca. Conheci-o no _Coq d'Or_ da rua
Montmartre. Apresentou-m'o Cipriani. O _Coq d'Or_  o _rendez-vous_ de
todos os socialistas militantes. Pelas 6 horas da tarde, so certos,
n'aquella cervejaria, Eugene Fournire, Gustave Rouanet, Grault
Richard, Camlinat, Baudin, Degay e muitos outros.

Thivrier  dotado de caracter energico; homem de poucas palavras, mas
firme e resoluto; e isso explica a attitude por elle tomada na camara
franceza, por occasio da sua expulso.

O camponez , em geral, refractario  propaganda socialista. Os
socialistas da cidade variam inteiramente de processo, quando se trata
da populao rural. A propaganda, em vez de ser humanitaria,
transforma-se em socialismo pessoal, baseado no communismo
liberatorio--a unio dos pequenos proprietarios e caseiros communaes, em
opposio aos syndicatos patronaes e aos grandes agricultores.

       [Gravura: John Burns]

O congresso de Auxerre elaborou j o programma das reivindicaes dos
socialistas agrarios.

Na Gran-Bretanha e Irlanda, o movimento socialista tem feito grandes
progressos. Pela primeira vez, foram nomeados para assistir a um
congresso, em Zurich, os membros do parlamento, como delegados de
organisaes operarias.

Coube a John Burns, o heroe de 1887, e o eloquentissimo deputado de
hoje, essa suprema honra e essa suprema gloria.

Os trabalhadores agricolas comeam tambem a despertar n'aquelle paiz, e
o partido operario acaba de se constituir, como partido independente,
sem ligaes com os antigos partidos, o que demonstra evidentemente que
o movimento socialista tem ali augmentado em poder e extenso.

      *      *      *      *      *


A ITALIA, A SUISSA, A HESPANHA E PORTUGAL

O partido socialista italiano divide-se em duas grandes escolas: a
escola evolucionista e a escola revolucionaria. A primeira tem recrutado
os seus numerosos adherentes na alta Italia e na Italia central, ao
passo que a segunda tem recrutado especialmente os seus adherentes na
Italia meridional.

Mas, parte a questo de methodo, as duas escolas caminham
conjunctamente, tornando-se muitas vezes difficil delimitar os dois campos.

Os evolucionistas consideram a revoluo como uma frma violenta da
evoluo, e pensam que, sem haver necessidade de a provocar, a revoluo
ha de produzir-se violentamente no dia em que todos os trabalhadores
tiverem adherido ao socialismo.

Os revolucionarios, admittindo as grandes vantagens que resultam de um
paciente e demorado trabalho de preparao, sustentam que o operario
italiano  j bastante socialista, para que seja necessario ainda
esperar. Segundo a opinio d'estes ultimos, uma longa espera poderia
levar os trabalhadores a duvidarem do triumpho da sua causa.

 organisao dos _fasci dei lavoratori_ se deve o enorme
desenvolvimento que ultimamente tem adquirido o movimento socialista na
Italia.

Os _fasci_ (fachos) so associaes operarias, tendo por base a
cooperao e por fim o triumpho do collectivismo, segundo as theorias de
Karl Marx. As mulheres tambem so admittidas.

O primeiro _fascio_ foi fundado em Catanea, ao sop de Etna, no dia 1.
de maio de 1890. Em menos de quatro annos, fundaram-se na Sicilia mais
160 _fasci_. O numero de adherentes subia, ainda ha poucos mezes, a
300:000, na sua maioria agricultores.

O sr. Giolliti, ento presidente de conselho, principiou a preoccupar-se
seriamente com o movimento socialista dos _fasci_, e, num intuito de
represso, mandou  Sicilia o commandante Sensales, senador, com o fim
de dissolver aquellas associaes.

Sensales estudou, inquiriu, investigou, e nada encontrou que podesse
servir de pretexto a uma dissoluo; o que no impediu o ministro de
encher a Sicilia de soldados, obrigando as auctoridades a uma represso
rigorosa e at sangrenta, se tanto fosse necessario. O massacre de
Giardinello foi o resultado d'estas ordens.

Mas as medidas de rigor, empregadas pelos emissarios do governo, no
serviram seno para augmentar a popularidade dos _fasci_, j ento muito
grande, chamando para elles as attenes de toda a Italia. Os seus
fundadores aproveitaram as circumstancias, para crear novas seces e
recrutar alguns milhares de novos adherentes, de modo que o numero dos
associados dos _fasci_, pode hoje bem avaliar-se em 400:000. Em pouco
tempo ser de meio milho.

Os _fasci_ passaram da Sicilia para o continente, onde a sua organisao
avana rapidamente, e em especial na Calabria, nos Abruzzos, na
Ponille e na Romagna. Em Roma e Napoles, tambem foram fundadas muitas
seces dos _fasci_.

A propaganda pelo facto  repellida pelos socialistas italianos, que
nada esperam da dynamite. O partido socialista italiano no 
terrorista, mas _pacificamente revolucionario_, na phrase consagrada.

Semelhantemente ao que succede na Irlanda, o socialismo agrario, tem
tomado, na Italia, um incremento espantoso, n'estes ultimos tempos. Os
governos so impotentes para o debellar. No basta s mandar fusilar o
povo faminto que se revolta nas ruas e nas praas publicas, como succede
na Sicilia. Emquanto as causas do mal subsistirem, os effeitos ho de
continuar a dar-se, fatal e irremediavelmente. O que importa pois, na
Italia,  conjurar a crise economica e financeira que a levaram  ruina,
e d'isso no sero capazes os governos monarchicos. Por isso o partido
socialista, que j hoje constitue um partido forte e invencivel, ha de
ir augmentando de dia para dia, at ao momento do seu triumpho. As
adheses a estas idas emancipadoras, chegam a cada passo e de todos os
pontos do paiz. O grande escriptor Edmundo de Amicis converteu-se ao
socialismo, e  hoje uma das suas figuras mais salientes. Collajani, o
celebre deputado que levantou no parlamento a questo dos bancos, 
tambem socialista. Collajani  o temivel adversario de Lombroso. Combate
o atavismo, e sustenta, com os positivistas modernos, que o individuo
no  seno um producto do seu meio. Giuseppe Felice, o deputado
siciliano, que foi preso por occasio dos acontecimentos da Sicilia,
 uma das mais nobres e sympathicas personalidades do movimento agrario,
e  muito considerado entre os seus concidados. O mesmo com Claudio
Treves, um moo de raro e excepcional talento, e tantos outros que seria
longo enumerar aqui.

Para mostrar quanto o socialismo agrario tem uma raso de ser na Italia,
basta que faamos um pequeno estudo sobre os impostos n'aquelle paiz.

Vejamos o que paga uma familia operaria na Romagna. O chefe da familia
ganhou, durante o anno, 586 liras e 72 centimos. Comprou 7 hectolitros
de trigo. Mas esse cereal paga o direito de 5 francos por kilo. Segue-se
pois, que de imposto para o Estado e para lucro dos que vivem  sombra
da proteco aduaneira, o operario foi logo espoliado em perto de 26
francos.

Comprou tambem 7 hectolitros de milho, e sobre essa compra teve de
pagar 6 francos de imposto.

Pelo vinho nada pagou, porque apenas bebeu agua. Compra, por semana, um
litro de sal para sua casa. Com esse consumo lucrou o governo, no fim do
anno, 15 francos e 60 centimos. Pela sua illuminao, gasta, cada
semana, em sua casa, 20 centimos com petroleo. No fim do anno somma esta
despesa 10 francos e 40 centimos. S  sua parte, embolsa o governo 7
francos e 10 centimos.

Vivendo mais que modestamente, a familia, em todo o anno, gastou em
fato 15 francos e 25 centimos. Em impostos, exigem-lhe crca de 3
francos. De modo que s n'estas verbas, o contribuinte concorreu para o
Estado com 10 por cento do seu ganho.

Junte-se a tudo isto os impostos directos, os impostos supplementares
de consumo e outros que ha em muitas communas da Italia, e ver-se-ha a
raso que assiste ao desgraado que, trabalhando mais do que pde, deixa
nas garras do fisco quasi todo o resultado do seu labor.

       [Gravura: De Felice]

A miseria  tanta e tamanha, que, nas pequenas communas da Sicilia, o
povo apenas pde comer po ordinarissimo, fabricado com farelos. E, nas
ricas e uberrimas planicies da Lombardia, as classes trabalhadoras
tambem no teem para se alimentar mais que a _polenta_, uma especie de
massa de farinha de milho, havendo muitos que, por extrema pobresa, nem
sequer podem temperar com sal essa miseravel comida.

Ora foi precisamente contra este triste estado de cousas, que o
sympathico e honrado deputado siciliano de Felice levantou o grito de
revolta que logo se repercutiu em todo o paiz, com a rapidez de um
relampago.

De Felice Jiuffrida nasceu em Catanea, no anno de 1860.

Socialista convicto, havia-se assignalado na imprensa, pelos seus rudes
ataques contra a monarchia, o que lhe valeu varias condemnaes. Em
1887, durante a epidemia cholerica, que dizimava o sul da Italia,
deu provas de grande dedicao e de altissimo valor. O governo quiz
distinguil-o com a medalha de ouro; mas elle recusou a distinco,
dizendo, que da monarchia s acceitava a perseguio.

Algum tempo depois, tendo sido condemnado a dois annos de priso, por
abuso de liberdade de imprensa, refugiou-se em Malta, d'onde regressou,
em 1892, eleito, ao mesmo tempo, por Catanea e por Palermo.

Foi, em virtude da parte activa e intelligentissima que tomou na
organisao dos _Fasci_, especialmente na Calabria e na Romagna, que o
governo ordenou a sua priso.

Foram dissolvidos os _Fasci_, sob protexto de attentarem contra as
instituies; mas no morreram as idas e os principios por elles
representados. Ao contrario, avigoraram-se na lucta. De Felice foi o
glorioso interprete da opinio popular. A consciencia publica estava com
elle e applaudiu-o. Isto basta, para que seja immorredoura a sua obra e
seja glorificado o seu nome, que  o nome de um bravo e o nome de um here!

No congresso operario de Bruxellas, em 1891, nem a Italia nem a Suissa
poderam apresentar relatorio: to escassas eram as foras socialistas
n'aquelles dois paizes. Em dois annos os progressos realisados por elles
so superiores a toda a expectativa e de molde a surprehender todos os
espiritos.

Na Suissa todas as organisaes profissionaes se constituiram em
federao. A _federao dos syndicatos profissionaes_ tem progredido
de dia para dia, possuindo uma receita de 28.000 francos, dos quaes
15.800 so reservados a soccorros, em casos de _grve_.  de crca de
15.000 o numero de associados. A _federao operaria suissa_ conta
200.000 adherentes. A sociedade suissa do _Grtli_ comprehende 350
seces, com 15.000 societarios, possuindo um orgo central, o _Grtli_,
que se publica tres vezes por semana.

A estas organisaes, convm ajuntar o _partido democratico socialista
suisso_ que existe, na sua frma actual, desde 1888, possuindo, em
commum, com a federao dos syndicatos profissionaes um orgo
especial--o _Arbeiterstimme_ (a _Voz do operario_).

No conselho nacional suisso, no contam os socialistas seno um
representante. Mas  certo que o movimento se alastra por todo o paiz, a
passos de gigante. Particularmente, so para registar os progressos
realisados pelo partido na Suissa allem.

Em Hespanha, o partido socialista contava crca de 30 grupos, por
occasio do congresso internacional de Bruxellas; segundo o relatorio,
apresentado ao congresso de Zurich, o partido conta hoje 50, dos quaes 6
pertencem aos trabalhadores agricolas.

Nas ultimas eleies geraes para deputados, obtiveram os socialistas
7:000 votos--2:000 a mais do que os obtidos nas eleies de 1890.

Na Hespanha,--e  este o principal facto a notar--o movimento
socialista, que, no ha muito ainda, comprehendia quasi exclusivamente
os trabalhadores manuaes, tem ganho, pouco a pouco, o professorado,
os jornalistas e os homens de letras; e hoje, pode-se dizer afoitamente
que o socialismo cathedratico est, no visinho paiz,  altura d'aquelles
que, como a Belgica e a Frana, mais se vangloriam com o progredimento
das novas ideias nas escolas e nas universidades.

Em Portugal continuam os socialistas, n'uma propaganda activa e
utilissima, prgando as vantagens e os beneficios do principio da
associao de classe, reclamando dos poderes publicos leis protectoras
do trabalho, reunindo congressos, publicando jornaes e obras de
propaganda, e tornando-se em tudo dignos dos esforos dos seus irmos e
camaradas no estrangeiro. O modo firme, serio e correcto por que os
socialistas portuguezes celebraram o primeiro de Maio, no proximo
preterito anno de 1893, bastaria para lhes attrahir as sympathias do
publico, se outros factos os no tivessem j recommendado ao suffragio
popular.




II

O PROGRAMMA SOCIALISTA


O PROGRAMMA DO PARTIDO OPERARIO.--PARTE POLITICA E PARTE
ECONOMICA.--JULES GUESDE E PAULO LAFARGUE.--O PROGRAMMA DO PARTIDO
SOCIALISTA EM PORTUGAL.

O programma do partido operario socialista francez, que  hoje
considerado como o programma commum a todos os partidos operarios, foi
elaborado por Jules Guesde e Paulo Lafargue. Digamos pois, algumas
palavras, cerca de cada um dos dois apostolos do socialismo.


JULES GUESDE

Jules Guesde pde e deve ser considerado, em Frana, como o verdadeiro
chefe do partido operario marxista. E, se tivessemos de avaliar os seus
meritos pelo numero das condemnaes j soffridas por causa do
socialismo, o seu logar de honra seria na primeira fila e ao lado dos
primeiros combatentes da ideia. A sua primeira condemnao, em
Montpellier, a cinco annos de priso, por causa de um artigo, publicado
no jornal _Os Direitos do homem_, teve uma grande influencia na sua
existencia politica e no desenvolvimento do seu espirito.

       [Gravura: Jules Guesde]

Mes Guesde refugiou-se em Italia e depois na Suissa, onde encontrou
muitos francezes exilados, por causa dos acontecimentos da Communa.
Bakounine e Marx estavam ento em lucta. Guesde no se pronunciou, nem
por um nem por outro, contentando-se apenas em assimilar a doutrina de
Marx; e por tal frma o conseguiu, que hoje os dois nomes, o do fundador
do socialismo allemo e o do propagandista do collectivismo marxista, em
Frana, so inseparaveis.

Voltando a Paris, em 1876, Guesde tentou baldadamente fazer a propaganda
da doutrina allem. A primeira proposta collectivista, feita em 1878, no
congresso de Lyon, foi regeitada por grande maioria.

Todavia, em Paris, devia realisar-se, n'esse mesmo anno, um segundo
congresso, por occasio da exposio universal. O governo quiz
prohibil-o. A minoria guesdista, porm, no fez caso da prohibio;
reuniu-se, recebeu solemnemente os delegados estrangeiros e estabeleceu
a base do collectivismo. Guesde proseguiu nos seus trabalhos, com
trinta e sete dos seus amigos, pronunciou um notavel discurso,
considerado como um verdadeiro manifesto do socialismo revolucionario, e
tornou-se, por esse facto, o chefe incontestado do partido.

Tornava-se mister um programma ao socialismo francez. Guesde fra
encarregado, pelo congresso de Marselha, de o elaborar. Partiu para
Londres, e redigiu-o ali sob a direco de Marx e com a collaborao de
Lafargue e de Engels.

O congresso nacional do Havre, ao qual foi submettido, approvou-o,
estabelecendo definitivamente a ruptura entre collectivistas e
cooperativistas. O partido operario adoptra o principio da lucta de
classes, da propriedade collectiva e da revoluo.

N'este programma havia, todavia, uma lacuna. No se havia pensado seno
no operario das cidades. O trabalhador dos campos fra esquecido. Foi
essa a misso do congresso de Marselha de 1892.

No seu ultimo manifesto eleitoral, Jules Guesde repelle os meios
violentos. A revoluo, escreveu,  antes um resultado, um facto, do que
uma doutrina, e desde que os socialistas resolveram recorrer e acceitar
o suffragio universal,  porque renunciaram, pelo menos provisoriamente,
aos outros meios. No programma do partido operario, j formulara, de
resto, o principio de que a organisao socialista deveria ser levada a
cabo por todos os meios de que o proletariado podesse dispr, sem
excluir o suffragio universal.

Jules Guesde deve contar quarenta annos de edade, e foi quem, no
congresso de Paris, em 1889, propoz a manifestao do 1. de Maio. 
hoje deputado por Roubaix. Na camara franceza est-lhe reservado o
successo a que do direito o seu grande saber e a sua notavel
eloquencia.

      *      *      *      *      *


PAULO LAFARGUE

Esto ainda certamente na memoria de todos os fusilamentos de Fourmies
do 1. de Maio de 1891, e o julgamento e a condemnao de Paulo
Lafargue, por ter prgado o socialismo no departamento do Norte,--no
dizer dos seus juizes. Pois foi precisamente este facto que o levou 
camara dos deputados. O mesmo departamento do Norte, entendeu que devia
corrigir as demasias e a violencia do governo, elegendo-o deputado.
Havia um ou dois mezes que Lafargue dra entrada no carcere, sahindo
d'ali, victorioso e triumphante, em direco ao palacio Bourbon.

       [Gravura: Paulo Lafargue]

O dr. Lafargue  uma das figuras mais originaes do partido
socialista. Ao mesmo tempo, theorico e homem de aco, ha seguramente
trinta annos que se mantem na lucta, e sempre com a mesma altivez e com
a mesma dedicao.

Sendo estudante de medicina em 1866, foi elle um dos organisadores do
congresso de Lige, onde a bandeira negra se arvorou, como que para
indicar que a Frana estava de lucto. No seu regresso, o imperio
vingou-se, excluindo-o de todas as faculdades.

Lafargue partiu ento para Inglaterra. Fez em Londres o conhecimento de
Karl Marx, que o iniciou no socialismo scientifico, alistando-o na
_Associao internacional dos trabalhadores_.

Genro de Karl Marx, occupou-se activamente da organisao do partido
socialista francez, cujo programma, elaborado no gabinete do celebre
revolucionario,  em parte obra sua.

Foi tambem em Londres que elle se ligou com Jules Guesde. Permaneceram
ambos fieis  doutrina orthodoxa e so, em Frana, os seus verdadeiros
representantes.

-- na officina--dizia Lafargue na sesso da camara dos deputados de 16
de fevereiro de 1893-- na officina que principia a explorao da classe
operaria;  ali que ella  roubada do producto do seu trabalho, e  por
isso que, na sociedade actual, a classe operaria que tudo produz, 
precisamente aquella que nada possue, ao passo que a classe que no
trabalha  possuidora de toda a riqueza social, e governa a nao
economicamente e politicamente.

      *      *      *      *      *


O PROGRAMMA DO PARTIDO OPERARIO

Considerando que a emancipao da classe productora  a de todos os
seres humanos, sem distinco de sexo nem de raa;

Considerando que os productores no sero nunca livres, emquanto no
estiverem na posse dos meios de produco (terras, officinas, navios,
bancos, credito, etc.)

Considerando que no ha seno duas frmas pelas quaes os meios de
produco podero pertencer-lhes, a saber:--a frma individual que nunca
existiu, como facto geral, e que tende, cada vez mais, a ser eliminada
pelo progresso industrial;--e a frma collectiva, cujos elementos
materiaes e intellectuaes so constituidos pelo proprio desenvolvimento
da sociedade capitalista;

Considerando que esta apropriao collectiva no pde sahir seno de uma
aco revolucionaria da classe productora, ou do proletariado,
organisado em partido politico distincto;

Considerando que semelhante organisao deve ser levada a cabo por todos
os meios de que o proletariado dispe, incluindo o suffragio universal,
transformando-o de instrumento de corrupo, como at hoje tem sido, em
instrumento de emancipao;

Os trabalhadores socialistas, tendo por alvo dos seus esforos a
expropriao politica e economica da classe capitalista e o regresso
 collectividade de todos os meios de produco, decidiram, como meio de
organisao e de lucta, entrar em todas as eleies com as seguintes
reivindicaes:


*A.*--_Parte politica_

1.--Abolio de todas as leis sobre a imprensa, as reunies e as
associaes, e, em especial, a Associao Internacional dos
trabalhadores.--Suppresso do livrete, ferrete ignominioso da classe
operaria, e de todos os artigos do codigo, estabelecendo a inferioridade
do operario em face do patro, e a inferioridade da mulher em face do
homem;

2.--Suppresso do oramento dos cultos, e o regresso  nao dos bens
chamados de mo morta, moveis e immoveis, que hoje pertencem s
corporaes religiosas, comprehendendo todos os annexos industriaes e
commerciaes das referidas corporaes;

3.--Suppresso da divida publica;

4.--Abolio dos exercitos permanentes e armamento geral do povo;

5.--A Communa na posse da sua administrao e da sua policia.


*B.*--_Parte economica_

1.--Repouso de um dia por semana, ou prohibio legal de mais de seis
dias de trabalho sobre sete.--Reduco legal do dia de trabalho a oito
horas para os adultos.--Prohibio do trabalho, nas officinas
particulares, dos menores com menos de quatorze annos; e reduco do dia
de trabalho a seis horas, desde os quatorze at aos dezoito annos.

2.--Vigilancia dos aprendizes pelas corporaes operarias;

3.--Minimum legal dos salarios, determinado e fixado annualmente,
segundo o preo local dos generos, por uma commisso de estatistica
operaria;

4.--Prohibio legal aos patres de poderem empregar os operarios
estrangeiros por um salario inferior ao dos operarios nacionaes;

5.--Egualdade de salario, em egual trabalho, para os trabalhadores dos
dois sexos;

6.--Instruco scientifica e profissional de todas as creanas,  custa
da sociedade, representada pelo Estado e pela communa;

7.--Manuteno,  custa da sociedade, dos velhos e invalidos do trabalho;

8.--Suppresso de toda a ingerencia dos patres na administrao das
caixas operarias de soccorros, de previdencia, etc., restituindo-as 
gesto exclusiva dos operarios;

9.--Responsabilidade dos patres em materia d'accidentes, garantida por
uma cauo em dinheiro, lanado nas caixas operarias, e proporcional ao
numero dos operarios empregados e aos perigos que a industria apresenta;

10.--Interveno dos operarios, nos regulamentos especiaes das
differentes officinas; suppresso do direito usurpado pelos patres de
poderem castigar os operarios por meio de multas ou de reduces nos
salarios;

11.--Annulao de todos os contractos, que hajam alienado a propriedade
publica (bancos, caminhos de ferro, minas, etc.) e a explorao de todas
as officinas do Estado, confiadas aos operarios que n'ellas trabalharem;

12.--Abolio de todos os impostos indirectos e transformao de todos
os impostos directos n'um imposto progressivo sobre os rendimentos que
vo alm de 3:000 francos.--Suppresso da herana em linha collateral e
de toda a herana em linha directa que exceda a somma de 20:000 francos.

      *      *      *      *      *


DESENVOLVIMENTO E EXPLANAO DO PROGRAMMA SOCIALISTA


PARTE POLITICA


ARTIGO 1.

a) _Abolio de todas as leis sobre a imprensa, as reunies e as
associaes, e, em especial, da lei contra a Associao Internacional
dos Trabalhadores;_

b) _Suppresso do livrete, ferrete ignominioso da classe operaria, e de
todos os artigos do codigo que estabelecem a inferioridade do operario
perante o patro e a inferioridade da mulher perante o homem._


Para que haja realmente liberdade, em materia de imprensa, no basta
legislar, impondo multas e priso aos que d'ella _abusam_, attenuando e
modificando as penas, ou substituir o julgamento correccional pelo
julgamento de jury.--O que se torna indispensavel e urgente,  abolir
todas as leis existentes _contra_ e _sobre_ a imprensa, a comear pela
lei que condemna, por diffamao, sem prova dos factos allegados, e que
permitte assim aos ricos e aos poderosos de abusarem da situao
especial em que se encontram, relativamente aos que nada possuem e aos
que nada podem.

Para que haja realmente liberdade, em materia de reunio, no basta
substituir o regimen actual por um novo regimen, mais ou menos hypocrita
e mais ou menos sophismado, permittindo os comicios em recinto fechado e
prohibindo-os na rua e na praa publica.--O que se torna indispensavel e
urgente,  a abolio de todas as leis, que subordinam s condies de
local, de tempo, de numero e de pessoas, o exercicio de um direito to
rudimentar como o direito de reunio.

Para que haja realmente liberdade, em materia de associao, no basta
permittir o uso d'este direito aos que esto nas boas graas dos
governos, embaraando-o e difficultando-o aos contrarios, pela exigencia
de formalidades, to ridiculas como absurdas.--O que se torna
indispensavel e urgente,  a abolio de todas as leis sobre as
associaes, qualquer que seja a sua natureza e o seu fim.

Mas a revoluo no nos trouxe apenas a liberdade; deu-nos tambem a
_egualdade civil_. E , em nome d'essa egualdade, que temos o direito e
o dever de reclamar a suppresso do livrete, bem como todos os artigos
do codigo que estabelecem a inferioridade da classe operaria perante
a classe dos patres.

O livrete que assemelha o productor de todas as riquezas  meretriz,
collocando-o no mesmo plano, sobre ser uma ignominia,  tambem infamante
e improprio dos nossos tempos. Se o ferrete foi abolido para os grandes
criminosos condemnados s gals, como  que pode conservar-se para os
trabalhadores do mundo moderno? Apenas a frma variou, por isso que,
sendo o livrete obrigatorio para todos os que so forados a viver da
venda do seu trabalho, nenhum movimento da vida operaria poder escapar
 policia. Para mudar de localidade e at para mudar de officina, so os
trabalhadores forados a apresentar essa prova da sua identidade e do
seu comportamento anterior. De modo que aos patres fica a liberdade
plena de os admittirem ou de os expulsarem das suas officinas, conforme
lhes aprouver.  uma inquisio de nova especie que se torna mister
abolir no s dos codigos, seno tambem dos usos particulares. O
operario ser admittido em todas as officinas e em todos os
estabelecimentos, quer do estado quer de particulares, sem que os
patres lhe possam exigir a minima formalidade. Condemnamos, por egual,
o livrete e os attestados individuaes, que collocam os trabalhadores na
mesma situao de inferioridade moral perante os seus superiores.

Ha, felizmente, paizes onde a licena para trabalhar no  j exigida.
Na explanao d'estes artigos, no nos dirigimos, porm, a este ou
quelle paiz, a esta ou quella localidade: fazemos a critica geral
do systema e apreciamos os factos que se assignalam e observam nas
modernas sociedades.

Na mesma ordem de reformas, entra a abolio dos artigos que estabelecem
a inferioridade da mulher perante o homem.

Que nos resta ento da egualdade perante a lei--o novo evangelho da nova
civilisao--se, na ordem civil assim como na ordem politica, continuam
a coexistir duas leis differentes, uma para o homem e outra para a mulher?

Diz-se, geralmente, que a mulher nasceu para os trabalhos caseiros. Mas
essa limitao vae desapparecendo de dia para dia. E, hoje, a mulher
applica-se a muitos outros trabalhos que antigamente s pertenciam aos
homens, como correios e telegraphos, empregos e servios dos grandes
armazens e dos grandes restaurantes, casas de modas, lojas, caminhos de
ferro e tantos mais que seria longo e superfluo ennumerar aqui.

O socialismo moderno no reconhece distinces fundadas e baseadas sobre
os sexos. Quer se trate de reunies quer se trate de congressos, a
mulher  chamada e eleita, com os mesmos titulos, que o homem. Ao
partido operario--que  o partido de todos os explorados, sem distinco
de sexo nem de raa.--cabe pois, o dever de se associar s suas
reivindicaes.

Art. 2.--_Suppresso do oramento dos cultos e regresso  nao dos
bens, chamados de mo morta, que pertenam s corporaes religiosas,
comprehendendo todos os annexos industriaes e commerciaes destas
corporaes._

Na grande republica dos Estados Unidos da America, a Egreja, ou, para
melhor dizer, as differentes egrejas nada teem com o Estado. Os cultos
constituem, naquella nao, uma industria particular, como a industria
das rolhas ou a industria da cortia.

_Paga quem consome._

 este o principio, adoptado por todos os publicistas e pensadores da
escola avanada. A separao da Egreja e do Estado, faz hoje parte de
todos os programmas radicaes e constitue uma das principaes
reivindicaes da philosophia moderna.

O regresso  nao da propriedade mobiliaria e immobiliaria das
corporaes religiosas, encontrou um precedente na revoluo operaria de
18 de Maro. Tem, alm d'isso, a vantagem de educar as massas,
ensinando-as a rehaver aquillo que lhes foi extorquido pela violencia e
pela fraude, isto --na linguagem do programma socialista--ensinando-as
a _expropriar os seus expropriadores_.

Art. 3.--_Suppresso da divida publica._

A divida publica, com effeito, dil-o Karl Marx no seu _Capital_, d ao
dinheiro improductivo o valor reproductivo, sem que por isso haja de
correr os riscos e os transtornos inseparaveis do seu emprego industrial
ou da usura particular.

A suppresso da divida que o partido operario reclama, aliviaria os
habitantes de cada paiz de uma grande parte do imposto que, actualmente,
so obrigados a pagar e constituiria, portanto, um novo rendimento
annual para cada familia e para cada cidado.

Art. 4.--_Abolio dos exercitos permanentes e armamento geral do povo._

Est hoje provado que os exercitos permanentes, com os progressos das
armas e dos instrumentos de guerra, e ainda com a rapidez dos
telegraphos e dos caminhos de ferro que obrigam a uma immediata
mobilisao de massas enormes, no so garantia sufficiente  defenso
efficaz de um paiz. Em geral, os governos precisam e servem-se d'elles,
no para esmagar o inimigo que lhes ultraja a bandeira ou lhes viola as
fronteiras, mas para intimidar e reduzir ao silencio os adversarios,
que, dentro da nao, os perturbam e incommodam. E eis ahi est o motivo
porque os exercitos, na actualidade, longe de serem um elemento de
defeza nacional, so, ao contrario, um elemento de defesa, para as
classes dirigentes, que teem n'elles o seu unico e principal apoio,
quando se trata de salvaguardar os seus interesses e os seus haveres,
ainda que para isso seja preciso fuzilar a _canalha_ ou atirar sobre o
povo inerme e faminto!

O partido operario socialista condemna a guerra, e, por isso, repelle os
exercitos permanentes. O armamento geral do povo no s traria, como
consequencia, uma economia para cada paiz, seno ainda desarmaria, por
completo, a burguezia. A nao armada at ao seu ultimo homem,
tornar-se-ha mais forte e poderosa do que nunca, e ser--digamol-o
assim--inatacavel. Para isso bastar que a instruco militar complete a
instruco scientifica e profissional, assegurada socialmente a todos os
menores sem distinco; que a espingarda, posta na escola nas mos
de todos, esteja, ao sahir da escola, nas mos de cada um, e que, depois
de uma rapida passagem pelas bandeiras, todos os annos se realisem as
grandes manobras, para manter a coheso indispensavel, entre elementos
individualmente superiores, obrigando-os a contrahir o habito das
operaes collectivas.

O poder militar da Suissa, no se apoia n'outras razes e corrobora
praticamente esta nobre e generosa aspirao.

Art. 5.--_A communa na posse da sua administrao e da sua policia._

A cummuna  a escola primaria da sciencia politica.  ali que se
adquirem as primeiras noes de disciplina e os primeiros rudimentos da
vida publica.

O partido operario no espera certamente chegar  soluo do problema
social pela simples conquista do poder administrativo na communa. A
abolio do salariado--essa escravido do mundo moderno, peior que a do
mundo antigo--no  uma questo communal, mas sim uma questo nacional e
internacional, e s poder resolver-se pela posse do poder central ou do
Estado. Mas  certo que a conquista das communas constitue outros tantos
meios de recrutamento e de lucta, para a classe proletaria.

No dia em que as communas estiverem na posse da sua administrao e da
sua policia, os conflictos com o poder central tornar-se-ho
impossiveis, se todos os municipios, comprehendendo a sua misso, se
ligarem e federarem, afim de constituirem uma liga municipal que poder
e dever ter uma influencia decisiva nos destinos de cada paiz.


PARTE ECONOMICA

Art. 1.--a) _Repouso de um dia por semana, ou prohibio legal de mais
de seis dias de trabalho sobre sete._

b) _Reduco legal do dia de trabalho a oito horas para os adultos._

e) _Prohibio do trabalho, nas officinas particulares, dos menores com
menos de quatorze annos, e reduco do dia de trabalho a seis horas, dos
quatorze aos dezoito annos._

_a)_ A necessidade de um dia de repouso por semana,  hoje reconhecida
por todos, e impe-se como uma questo de moral e de hygiene. Mas no
basta reconhecel-o.  mister que seja legal a prohibio,
estabelecendo-se uma penalidade aos patres que obrigam os seus
operarios a trabalhar mais de seis dias sobre sete.

_b)_ O primeiro congresso da Internacional, o congresso de Genebra de
1866, estabeleceu que o dia de trabalho devia ser de oito horas; por
isso que, diziam os considerandos, a primeira condio, sem a qual seria
baldada toda a tentativa de melhoria e de emancipao,  a limitao
legal do dia de trabalho. Esta limitao impe-se, afim de restaurar a
saude e a energia physica dos operarios, assegurando-lhes a
possibilidade de um desenvolvimento intellectual, de relaes sociaes e
de uma aco politica. Os operarios dos Estados Unidos reclamaram,
durante muito tempo, esta limitao, e o Congresso adoptou-a como um dos
artigos dos programmas governamentaes. O secretario d'Estado do
departamento da guerra, no Reino Unido, respondendo a John Burns, que,
na camara dos communs, pedira informaes, cerca da experiencia do dia
normal de 8 horas, no arsenal de Woolwich, asseverou que o resultado
fra excellente, e que o governo resolvra estabelecer, para todos os
arsenaes inglezes, o dia normal de 8 horas.

E ninguem pense que a reduco do dia de trabalho traria, como
consequencia, a reduco do salario.

O patro occupa, presentemente, dois operarios, para obter 24 horas de
trabalho, ou dois dias de 12 horas. Se o dia legal fosse de 8 horas,
seria forado a empregar tres. Os operarios sem trabalho voltariam 
officina, e, aquelles que trabalham, no estando j sob a ameaa de
serem substituidos, poderiam, sem duvida, aproveitar a situao para
exigir e obter um augmento de salario. A reduco do dia de trabalho
teria, como consequencia necessaria, um augmento de salario.

_c)_ Nas modernas sociedades, as creanas pertencem aos capitalistas,
que as arrancam ao lar domestico e ao conchego da familia, para as
converterem em instrumentos de sordida e desmesurada ganancia.
Semelhante facto nunca se presenciara, nas sociedades anteriores, ainda
mesmo nos peiores tempos da escravido. O menor, condemnado desde tenra
edade, s torturas de dez e doze horas de trabalho na officina e na
fabrica, e no offerecendo a minima resistencia, era ainda mais
explorado que o homem e a mulher. E to deshumana se tornou a
explorao que o Estado se obrigou a protegel-o contra o patro e o pae
de familia. Este, invocando a authoridade paterna permittia-se a
liberdade de vender os seus filhos, segundo as necessidades da situao;
aquelle, invocando a liberdade anarchica da sociedade capitalista,
arrogava-se o direito de impr ao menor mais horas de trabalho do que
geralmente se impe a um forado nas gals.

Art. 2.--_Vigilancia dos aprendizes pelas corporaes operarias._

A aprendizagem, constitue, para os patres, um meio de ter trabalho sem
necessidade de o pagar. O aprendiz, a quem nada se ensina, 
transformado em creado, e ordinariamente empregado nos trabalhos mais
grosseiros que os operarios se recusam a fazer. Em geral s quando finda
a aprendizagem  que o trabalhador comea de aprender o seu officio.
Para remediar estes males,  indispensavel que o aprendiz seja confiado
 proteco e  vigilancia das corporaes operarias.

O aprendizado desapparecer no dia em que a educao manual se combinar
com a educao intellectual. Com o desenvolvimento da mechanica e a
diviso do trabalho, a aprendizagem tende de dia para dia a ser
substituida pela instruco geral, ministrada s creanas nas escolas
publicas.

Art. 3.--_Minimum legal dos salarios, determinado e fixado annualmente,
segundo o preo dos generos, por uma commisso de estatistica operaria._

Dizer _minimum_, o mesmo  que dizer salario que permitta, pelo menos,
viver trabalhando.

Com o aperfeioamento e a generalisao da machina, os salarios
diminuiram e tornaram-se insufficientes. O excedente que todos os dias
vae augmentando da offerta do trabalho sobre a procura, fel-os descer
ainda abaixo do strictamente indispensavel  alimentao quotidiana de
cada operario. A fixao de um _minimum_ foi, por isso, considerada como
um grande progresso.

Esta justa reivindicao, formulou-a, pela primeira vez, Charles
Fourier, em 1831. _Viver trabalhando ou morrer combatendo!_--tal era o
lemma inscripto na bandeira negra dos primeiros revoltados do trabalho,
que no reclamavam outra cousa seno um _minimum_ de existencia ou de
salario, e que, por esse principio, se deixaram matar heroicamente,
defendendo, at ao ultimo sacrificio, os interesses e o futuro da classe
trabalhadora.

Desde que, em todos os ramos de trabalho, possa ser determinado, por uma
estatistica operaria, um _minimum_ de salario, e desde que se torne
obrigatorio para os patres, ficar o salariado senhor da mais poderosa
das armas, para levantar o preo da mo obra.

O _minimum_ de salario no deve ser, para os operarios, seno um meio
para chegar ao _maximum_.

Art. 4.--_Prohibio legal aos patres de poderem empregar operarios
estrangeiros por um salario inferior ao dos operarios nacionaes._

Ao capitalista, -lhe indifferente que o operario seja nacional ou
estrangeiro; o que lhe importa  que o salario seja diminuto.

Os operarios estrangeiros (belgas, allemes, italianos, hespanhoes),
obrigados a emigrar por causa da miseria, muitas vezes dominados e
explorados por engajadores, ignorando a lingua, os preos e os costumes
do paiz, so condemnados a aceitar as condies que os patres lhes
impem e a trabalhar por salarios que os operarios da localidade
regeitam. E ainda, em egualdade de circumstancias, preferem os patres
os estrangeiros, para evitar resistencias e amotinaes.

A 5 de maio de 1880, a _Sociedade de Economia politica_ discutiu as
vantagens que poderiam advir da substituio dos operarios francezes por
chinezes. O consul geral dos Estados Unidos, que estava presente 
sesso, objectou que a introduco dos chinezes era corruptora por causa
da sua immoralidade e perigosa por causa das miserias e das revoltas
operarias que d'ahi derivavam.

--Nada importa!--responderam severamente os economistas francezes: O
chinez  muito trabalhador, vive de quasi nada, contentando-se com um
modico salario. Na California, onde um branco exige 10 fr. por dia, o
chinez contenta-se com 2 fr. 50. Que venham os bons chinezes, e tanto
peior para os operarios francezes, se isso os incommoda. Talvez a lio
lhes aproveite!

O dr. Lunier (inspector geral dos servios administrativos no ministerio
do interior) observava que a vinda dos chinezes no estava to longe
como se suppunha:  provavel que, em breve, a emigrao chineza possa
fazer-se por terra, e que tenhamos ento de assistir a emigraes, que
traro  nossa velha Europa a sua sobriedade, a sua paciencia no
trabalho, e, como consequencia, a mo d'obra barata.

A isso e s a isso, aspiram os patres; e a prohibio legal de poderem
empregar operarios estrangeiros, por um salario inferior aos dos
operarios nacionaes, deriva no s de um principio de moralidade, para
evitar a explorao at aqui seguida, seno tambem da proteco que 
lei deve merecer o trabalho nacional.

Art. 5.--_Egualdade de salario, em egual trabalho, para os
trabalhadores dos dois sexos._

O partido operario, assim como no pede a expulso dos estrangeiros, no
reclama tambem a prohibio do trabalho para a mulher, nas fabricas ou
nas officinas. O que pede e reclama para a mulher, para a operaria,  a
proteco a que ella tem direito tanto como o homem; o que pede e
reclama  que a um trabalho egual corresponda egualdade de salario para
todos os trabalhadores, sem distinco de sexo.

O motor mechanico, tornando a mulher to apta, como o homem, para a
maior parte dos trabalhos, permitte hoje, nas fabricas e officinas, o
emprego do brao feminino, em substituio da antiga fora muscular. No
foi a falta do brao masculino que provocou a _industrialisao_ da
mulher: foi sim! a desmedida ambio do patro de obter a mesma somma de
trabalho por um salario muito inferior. De modo que a operaria foi
inventada, por um lado, para augmentar os proventos dos patres, e, por
outro lado, para reduzir o operario  fome.

 mister acabar com semelhante abuso, tornando a operaria egual ao
operario, e no a sua concorrente.

Para que a mulher seja senhora de si mesmo, para que recobre a liberdade
do seu corpo, fra da qual no ha seno prostituio, qualquer que seja
a legalidade das relaes que possa ter com o outro sexo,  mister que
ella encontre em si os meios de subsistencia, independentemente do homem.

Art. 6.--_Instruco scientifica e profissional de todas as creanas, 
custa da sociedade, representada pelo Estado e pela communa._

Do direito  existencia, deriva logicamente o direito ao trabalho, e
d'este a obrigao, para o Estado e para a communa, de ministrar
gratuitamente a todas as creanas, sem distinco de sexo, a instruco
scientifica e profissional.

Para trabalhar,  preciso saber e poder trabalhar, e d'ahi se conclue,
por um lado, a necessidade da instruco, e, por outro lado, a
necessidade no menos instante para o operario, de chegar  posse dos
instrumentos de produco.

Lepelletier Saint-Fargeau comprehendra perfeitamente estes principios,
quando, a 15 de julho de 1793, submetteu  Conveno um projecto de lei,
assim concebido:

Art. 1.--Todas as creanas sero educadas  custa da Republica,--as do
sexo masculino da edade dos cinco aos doze annos e as do sexo feminino
dos cinco aos onze.

Art. 2.--A educao nacional ser egual para todos; recebendo todos a
mesma alimentao, o mesmo vestuario, a mesma instruco e os mesmos
cuidados.

O trabalho do homem  tanto mais productivo quanto a sua
intelligencia fr mais cultivada[2]. O trabalho de um homem
ignorante no vale mais do que o _trabalho de um animal de egual fora_.

A monomania do emprego publico  um resultado da falta de ensino
profissional. Em Portugal, a burocracia absorve a maior parte das
receitas publicas, precisamente porque so poucos aquelles que se acham
habilitados a trabalhar.

No basta s que as escolas ensinem a lr:  mister tambem que ensinem a
trabalhar, isto  que, a par do po do espirito, se ministre egualmente
a todos o po do corpo.

      *      *      *      *      *

Art. 7.--_Manuteno pela sociedade dos velhos e invalidos do trabalho._

O trabalhador produz mais do que consome. Encarregando-se dos velhos e
invalidos do trabalho, a sociedade no faz seno retribuir aos operarios
aquillo que lhes  devido.  justo que um homem que passou a sua vida a
vestir, a calar e a alimentar os seus semelhantes e a construir as suas
habitaes, tenha tambem o vestuario, a casa e o alimento assegurados,
quando, em consequencia da edade ou de qualquer enfermidade, no se
encontre j apto para trabalhar.

O ultimo codigo feudal da Russia, de 1795, estatuia o seguinte: O
senhor deve fazer ministrar a educao a todos os camponezes pobres,
procurando tambem os meios de existencia quelles dos seus vassalos que
no possuem terras e soccorrendo os que cahirem na indigencia.

O servo transformou-se em salariado, e a liberdade burgueza deixou o
operario, sem garantias, entregue s exigencias do seu estomago e 
merc dos caprichos da fortuna. O militar e o funccionario do Estado
teem direito a reformas e aposentaes. O empregado do commercio succede
muitas vezes ao patro. S ao operario, s quelle que passou a sua vida
a enriquecer os seus semelhantes,  recusado o direito que se concede
aos demais membros da sociedade, isto  o direito de viver. No lhe
basta a incerteza de encontrar trabalho: ainda para mais lhe negam o que
os senhores feudaes no negavam aos seus servos--a proteco na velhice
e na doena. E eis ahi est porque o partido operario, no s por dever
de humanidade, seno ainda por dever de solidariedade, inscreveu este
artigo no seu programma.

      *      *      *      *      *

Art. 8.--_Suppresso de toda a ingerencia dos patres na administrao
das caixas operarias de soccorros, de previdencia, etc., restituindo-as
 gesto exclusiva dos operarios._

Na grande industria que multiplicou os riscos do trabalho, os patres
obrigam geralmente os operarios a tirarem, no fim de cada semana, uma
certa quantia dos seus magros salarios, para fazerem face
solidariamente aos accidentes,  doena e  velhice. As grandes
companhias de caminhos de ferro e minas chegaram mesmo a instituir um
fundo, destinado a uma caixa, com essa applicao. Comprehende-se a
tactica. Quanto mais os salariados estiverem no caso de se soccorrerem
mutuamente, tanto menos tero os patres de dispender com elles.

As caixas so, na sua quasi totalidade, sustentadas com o dinheiro dos
operarios. Mas os proprietarios e capitalistas, no intuito de
fiscalisarem esses fundos da _previdencia e da solidariedade operaria_,
chamam a si a gerencia e a administrao das referidas caixas,
concorrendo tambem com uma parte, para o mesmo fim. O que os patres
desejam  evitar, por esta frma, que os trabalhadores possam servir-se
d'esse dinheiro, empregando-o n'uma _grve_ ou em qualquer cousa que
possa contrariar os seus interesses ou os da sua industria.

 indispensavel que o proletariado se emancipe de semelhante tutella,
transformando o fundo das caixas operarias num poderoso instrumento de
emancipao social.

Art. 9.--_Responsabilidade dos patres em materia d'accidentes,
garantida por uma cauo em dinheiro, e proporcional ao numero dos
operarios empregados e aos perigos que a industria apresente._

Este artigo traduz um principio de justia, e representa uma compensao
para todos os que, no trabalho, expem a vida e arriscam a saude. Quem,
nas grandes empresas, aufere os grandes lucros e os enormes proventos, 
o capitalista e o proprietario.  justo pois, que, em caso
d'accidente, sejam elles os responsaveis, indemnisando e garantindo, por
meio de uma cauo, os que affrontaram o perigo, para os enriquecer e
locupletar. Em caso de desastre, occorrido nas fabricas e nas officinas,
o invalido, a viuva e o orpho teem direito a serem amparados e
protegidos; e esse amparo e essa proteco no pode exigir-se seno
quelles que foram a origem, embora indirecta, do seu infortunio, e que,
muitas vezes, pelo seu desleixo e pela sua desmesurada ganancia,
contribuiram poderosamente para esses tristes e dolorosos acontecimentos.

A indemnisaao a pagar seria, n'este caso, lanada na caixa operaria, e
avaliada por um jury escolhido na corporao. S os proprios operarios
seriam capazes de avaliar o que custa e o que vale, para o trabalhador,
a perda de um brao, a perda de uma perna ou a perda de uma vida.

Quem nunca visitou uma mina, no sabe o que  o risco no trabalho.
Superior  rhetorica dos economistas est a realidade das cousas. Que
todos os que nos lem se dignem, um dia, descer a uma mina, e que nos
digam depois, se no assiste ao operario o direito sagrado de reclamar
uma indemnisaao, em caso d'accidente, quelle por quem se sacrificou, e
que locupletou, sem outra compensao, alm de um salario diario
representando o stritamente indispensavel para no morrer de fome?!

      *      *      *      *      *

Art. 10.--_A interveno dos operarios nos regulamentos especiaes das
differentes officinas; suppresso do direito usurpado pelos patres de
poderem castigar os operarios, por meio de multas ou de reduces nos
salarios._

A interveno dos operarios nos regulamentos especiaes das differentes
officinas  uma salvaguarda  dignidade e  saude da classe
trabalhadora. Muitas vexaes inuteis sero supprimidas por este meio;
muitas medidas hygienicas, hoje despresadas ou recusadas pelo
fabricante, sero postas em pratica, no interesse da collectividade.

Sob a frma de multas, que se traduziam na reteno de uma parte do
salario, o patro abusava, muitas vezes, do operario, trazendo-o debaixo
de um jugo de ferro, feroz e insupportavel. O patro no pode arvorar-se
em juiz, adoptando o codigo penal que muito bem lhe aprouver para multar
o operario ou condemnal-o, segundo os caprichos da sua vontade.

A justia  fundada sobre uma delegao social. O direito moderno no
admitte outra; porque o contrario seria o despotismo, o abuso, a fraude
e a violencia. E  por isso que se justifica e se torna indispensavel a
interveno dos operarios nos regulamentos especiaes das differentes
officinas--precisamente para que o patro fique reduzido  sua esphera
de aco, e impossibilitado de vexar os trabalhadores, por meio de
penalidades, que, alm de uma tyrannia e de uma brutalidade sem nome,
representam para o capitalista, um interesse e um beneficio.

      *      *      *      *      *

Art. 11.--_Annulao de todos os contractos que hajam alienado a
propriedade publica (bancos, caminhos de ferro, minas, etc.), e a
explorao de todas as officinas do Estado, confiadas aos operarios que
n'ellas trabalharem._

O partido operario pede a annulao, pura e simples, dos contractos que
teem permittido a um bando de capitalistas de se locupletarem,  custa
da nao. O partido operario pede essa annulao, no para que o Estado,
entrando na posse das minas, dos caminhos de ferro e dos bancos, e
tornando-se, por sua vez, productor, os explore, em seu proveito, como
tem succedido com os correios e telegraphos, com a moeda, com os tabacos
e outros servios publicos, de que faz monopolio, mas sim, para confiar
a sua explorao aos operarios, encarregados d'esses trabalhos.

O programma socialista pede que a explorao das officinas do Estado
seja confiada aos operarios, que n'ellas trabalharem, com o duplo fim de
melhorar a sua triste situao e de provar experimentalmente, que, pela
sua propria iniciativa e responsabilidade, esto aptos para emprehender
a referida explorao.

Sobre este assumpto divergem as escolas. So uns de opinio que todos os
servios publicos devem ficar a cargo do Estado e da communa; outros
porm, sustentam que a absorpo gradual das industrias particulares
pelo Estado augmentaria sensivelmente o numero dos salariados que o
mesmo Estado explora. Teremos occasio de voltar ao assumpto no ultimo
capitulo d'esta obra.

      *      *      *      *      *

Art. 12.--a) _Abolio de todos os impostos indirectos e transformao
dos impostos directos n'um imposto progressivo sobre os rendimentos que
forem alm de 3:000 francos._

b) _Suppresso da herana em linha collateral e de toda a herana em
linha directa que exceda a somma de 20.000 francos._

Nas sociedades burguezas, o imposto  um encargo a que tem de
sujeitar-se todo o cidado, afim de garantir a sua pessoa e a sua
propriedade. Ha duas especies de imposto--o imposto pessoal, ou imposto
de sangue que todo o cidado tem de satisfazer pelo servio militar, e o
imposto impessoal que satisfaz pelo abandono e entrega de uma parte dos
seus rendimentos.

Para ser equitativa a distribuio do imposto, todo o cidado deveria
ser soldado e abandonar ao Estado uma parte do seu rendimento,
progressivamente, e proporcional  sua quantidade. Se o que possue 100
fr. paga 10 fr., o que possue 1000 dever pagar 200 fr., e o que possue
um milho, 400.000 fr.

Os impostos indirectos que recahem sobre os generos de consumo (po,
vinho, vestuario, etc.) obstam a que seja equitativa a sua distribuio.
Por exemplo: o operario que come por dia 1 kilo de po paga duas
vezes mais imposto do que o capitalista que come apenas meio kilo.

O imposto indirecto  um meio jesuitico, inquisitorial, de depennar e de
reduzir  miseria o operario, sem que elle d'isso se aperceba.

Os ricos repellem o imposto progressivo que os obrigaria a pagar na
proporo dos seus rendimentos; o imposto indirecto favorece-os de um
modo escandaloso, e eis ahi est o motivo porque o defendem e applaudem.

A abolio dos impostos indirectos e a creao de um imposto progressivo
sobre o rendimento, reduziria seguramente o preo dos generos. A
remodelao e transformao do imposto, seria para o operario a melhoria
das suas condies de existencia. O augmento, nos impostos indirectos,
tem-se traduzido praticamente por um augmento na mortalidade. A creao
do imposto progressivo poder-se-hia traduzir por um augmento na
alimentao e na vida das classes trabalhadoras.

A Conveno havia estabelecido um imposto gradual e progressivo sobre o
luxo e sobre todas as riquezas. Mas no teve tempo para o applicar.

Montesquieu, e todos os economistas orthodoxos, como Ado Smith, J. B.
Say e Rossi, pronunciaram-se pelo imposto progressivo. J. B. Say e
Rossi, affirmaram-n'o claramente nas seguintes palavras: No deixaria
de ser razoavel que os ricos contribuissem para as despezas do estado,
na proporo do seu rendimento, e ainda com mais alguma cousa alm
d'essa proporo.

Na Suissa est o imposto progressivo em vigor na maioria dos cantes.
Mas nem s a republica o perfilha e o applica. Tambem a real Inglaterra
e a imperial Allemanha acceitaram e introduziram o imposto progressivo,
no seu systema de impostos directos.

_b)_ A herana estabelece, na sociedade, um privilegio e uma
desegualdade revoltante. A sua suppresso impe-se, e, se no
completamente, pelo menos parcialmente. Em virtude da herana, a
instruco, a educao, o gzo, o bem estar contituem o privilegio dos
favorecidos da fortuna. O pobre, o infeliz que no herdou, tem de
subjeitar-se aos caprichos do acaso e  lei do seu destino. O partido
socialista quer a suppresso da herana em linha collateral,
restringindo-a e limitando-a a 20.000 francos na linha directa.

N'outra parte diremos a que seria applicado o excedente das heranas,
desde que ultrapassassem esta somma.

      *      *      *      *      *


O PROGRAMMA DO PARTIDO SOCIALISTA EM PORTUGAL

A titulo de curiosidade, publicamos, em seguida, o primeiro programma
dos socialistas portuguezes, desde que se contituiram em partido.  um
documento, por muitos titulos, importante, e que merece ser lido e
apreciado pelo publico. A sua approvao data do 1. congresso
socialista, realisado em Lisboa, nos principios de 1877, tendo sido
elaborado, aps o celebre congresso de Haya, onde Portugal esteve
representado por Lafargue.

Vigorou at 1882, anno em que se celebrou n'esta capital uma conferencia
dos delegados de Lisboa e Porto, sendo ento substituido pelo actual
programma que, ordinariamente se publica na quarta pagina do _Protesto
Operario_.

      *      *      *      *      *


Programma transitorio do partido socialista em Portugal

    O trabalho  a condio de existencia de todos os individuos.

    Todos teem o dever de trabalhar imposto pela natureza.

    Com os productos do trabalho de todos deve subsistir a sociedade, e
    com os productos do trabalho da sociedade, effeituado por todos,
    deve subsistir cada individuo.

    A massa do trabalho da sociedade, que deve constituir a sua riqueza,
    deve constituir a propriedade social, commum ou publica.

    A parte do trabalho de cada individuo constitue a sua riqueza, e a
    riqueza do individuo deve constituir a propiedade individual.

    Sendo a propriedade social por natureza commum, ou publica, a
    propriedade individual deve ser privada ou pessoal.

    Tambem devem ser communs, ou publicas, as riquezas naturaes, no
    creadas pela sociedade, nem pelos individuos.

    Taes so as condies de existencia da sociedade justa, isto , em
    que todos os individuos subsistem pelo seu proprio trabalho, e em
    que a sociedade subsiste pelo trabalho de todos; em que o producto
    do trabalho de cada individuo  propriedade sua, e em que o producto
    do trabalho de todos, ou da natureza, no  propriedade de alguem,
    mas sim da sociedade toda.

          *      *      *      *      *

    A constituio da sociedade injusta  differente.

    Na sociedade injusta os individuos no subsistem todos pelo seu
    proprio trabalho, e a sociedade no subsiste pelo trabalho de todos.

    Uma parte da sociedade trabalha para si e para a outra parte que no
    trabalha, produzindo os meios de subsistencia de todos os
    individuos.

    Um individuo trabalha como dois e mais, ou o duplo, ou pela metade
    do preo e por menos, para produzir os meios de subsistencia dos
    individuos que os no produzem.

    Os meios de subsistencia, em que consiste toda a especie de
    propriedade, so produzidos por uma parte dos individuos, e
    apropriados pela outra, que os no produz.

    A riqueza, ou a propriedade,  o producto do trabalho de todos os
    individuos accumulado na mo de alguns.

    Os productores, ou creadores, da propriedade individual e publica
    no possuem mesmo a parte com que subsistem. Esta parte -lhes
    vendida, ou arrendada, pelos proprietarios, que accumulam mais
    productos do trabalho alheio por meio das transaces mercantes,
    isto , das transaces da propriedade transformada em mercadorias.

    D'este modo se constitue a sociedade com proprietarios e no
    proprietarios, com os possuidores da propriedade de todos os
    individuos e com os no possuidores, que a produzem.

    A sociedade consta assim de duas classes: a dos ricos e a dos pobres
    ou proletarios, a superior e a inferior, a dominadora e a dependente
    ou salariada.

    Os proprietarios industriosos occupam-se em fazer trabalhar os
    proletarios na agricultura, na fabricao e na manufactura dos meios
    de subsistencia, isto , da propriedade transformada em mercadorias
    como objecto de commercio, de viao e de jogo.

    A classe dos proletarios, ou miseraveis, conta tambem milhares de
    individuos que no produzem: taes so os mendigos e os defensores
    salariados da propriedade, escolhidos pelo estado de entre os mais
    vigorosos, para que no a tomem aquelles que a produzem. Estes
    subjugam-se a si e a seus eguaes.

    A sociedade injusta subsiste s pela violencia, isto , uma parte da
    sociedade arranca violentamente  outra a sua propriedade.

    A violencia existe sem manifestar-se, por ter sido no principio das
    sociedades policiadas estabelecida pela fora, depois attestada
    pelas leis, depois acceita e transmittida por costume, pelas mesmas
    leis e pela mesma fora.

          *      *      *      *      *

    Na epoca actual os proletarios, obrigados pela necessidade,
    constituem a sua classe de salariados, determinados a fazerem da
    associao um poder, que modifique as violencias dos proprietarios
    industriosos, pela proposio e estabelecimento de condies, taes
    como:

    1. Estabelecimento do dia normal de trabalho, egual quanto possivel
    em todos os officios e em todas as estaes;

    2. Diminuio do tempo de trabalho;

    3. Elevao dos salarios;

    4. Salubridade e segurana dos logares onde se executa o trabalho;

    5. Melhoramentos particulares, tanto dos salarios como do tempo de
    trabalho, para os que exercem officios de sua natureza penosos e
    insalubres;

    6. Extinco do trabalho de jornal nos officios em que fr
    applicavel o estabelecimento de tabellas de preos dos trabalhos;

    7. Extinco das categorias nos officios, taes como: ajudantes e
    serventes, devendo considerar-se as divises do trabalho no como
    categorias, mas como ramos e especies do mesmo trabalho;

    8. Abolio dos regulamentos das fabricas e manufacturas, como
    especie que  de contrato unilateral, em que so partes os
    proprietarios e os miseraveis, tendo os proprietarios, como teem,
    liberdade de aco para despedir os trabalhadores e appellar para as
    leis nos casos de attentados;

    9. Egualdade do tempo de trabalho e dos salarios das mulheres e dos
    homens;

    10. Excluso das creanas das fabricas e manufacturas, e relao do
    tempo de trabalho dos menores com a sua idade;

    11. Abolio do tempo determinado de aprendizagem, e prohibio de
    outros misteres estranhos a cada officio;

    12. Estabelecimento e eleio de commisses de exame e vigilancia
    compostas de officiaes, que julguem da aptido dos aprendizes em
    periodos determinados e curtos;

    13. Egualdade de tratamento para os aprendizes, como individuos
    racionaes, evitando-se assim a educao aviltante que lhes incutem
    os costumes da obediencia passiva;

    14. Extinco dos signaes exteriores de obediencia e submisso,
    como improprios da natureza humana;

    15. Excluso dos proprietarios e seus representantes das sociedades
    de trabalhadores, taes como: monte-pios, cooperativas, de recreio,
    instruco e outras, com o fim de evitar a dominao e o servilismo.

          *      *      *      *      *

    Ao mesmo tempo os proletarios, tendo conhecimento da situao
    politica da sociedade, constituem-se em partido politico,
    determinados a crearem um poder, que modifique as violencias
    politicas da classe dominante, fazendo tambem representar nos
    poderes do estado os seus interesses de classe, excluidos das
    instituies politicas e civis.

    O movimento politico da classe dos proletarios  transitorio.
    Existir em quanto existirem classes, subordinando-se s
    circumstancias e necessidades occorrentes.

    Presentemente, o modo de effeituar o movimento politico dos
    proletarios consiste em modificar o poder legislativo, pela
    substituio dos individuos que o compem, e que representam smente
    a classe e os interesses da classe proprietaria.

    O pensamento, a aspirao, o fim, do movimento dos proletarios
    constituidos em classe e em partido,  a implantao e a
    constituio da sociedade justa. A este movimento tudo 
    subordinado, inferior e transitorio.

    Os proletarios de todas as naes civilisadas, constituindo a
    associao internacional dos trabalhadores, da qual nos declaramos
    um ramo, effeituam o mesmo movimento, e em cada uma organisam-se e
    procedem conformes s instituies politicas.

    Em Portugal, onde os poderes politicos so constituidos
    publicamente, os proletarios procedem dentro das instituies para
    realisarem o seguinte:

    1.

    Instituio dos municipios.

    _a)_ Constituio dos municipios com todos os contribuintes da sua
    circumscripo.

    Diviso dos municipios em circulos administrativos, e constituio
    d'estes com todos os contribuintes da sua circumscripo.

    Serem contribuintes todos os individuos maiores que exeram alguma
    profisso.

    _b)_ Celebrao de sesses periodicas, tanto nos municipios como nos
    circulos, onde os contribuintes, constituidos em assemblas,
    proponham, discutam e resolvam os respectivos interesses publicos.

    _c)_ Creao de corpos gerentes, tanto dos municipios como dos
    circulos, por eleio dos contribuintes nas assemblas respectivas.

    Responsabilidade individual dos membros dos corpos gerentes
    municipaes e dos circulos perante as assemblas respectivas, e sua
    sujeio  justia commum.

    _d)_ Elaborao dos recenseamentos dos contribuintes, tanto dos
    circulos como dos municipios, pelos corpos gerentes respectivos.

    Validao dos recenseamentos municipaes para todos os effeitos civis
    e politicos, publicos e privados.

    _e)_ Administrao dos rendimentos dos municipios feita pelos
    municipios, e a dos circulos feita pelos circulos, sem dependencia
    de poderes centraes, nem de regulamentos, nem de corpos e
    auctoridades superiores.

    _f)_ Integrao dos municipios na administrao das suas escolas, dos
    hospitaes, cadeias, vias publicas, correios e telegraphos, da sua
    circumscripo.

    _g)_ Repartio e cobrana das contribuies publicas feitas pelos
    municipios, e as d'estes pelos circulos ou pelos gremios de
    profisses.

    Concurso e ordenados fixos para todos os officiaes de fazenda,
    effeituados por cada municipio.

    Installao das reparties de fazenda nos edificios municipaes.

    Responsabilidade dos officiaes de fazenda perante as assemblas
    respectivas, e sua sujeio  justia commum.

    _h)_ Proviso dos officios de juizes e seus escrives, tanto do civel
    como do crime, por concurso aberto pelos municipios respectivos.

    Eleio dos jurados.

    Nomeao dos officiaes de justia subalternos pelos juizes e
    jurados.

    Fixao dos vencimentos de todos os officiaes de justia, tanto
    superiores como subalternos, pagos por cada municipio.

    Installao dos tribunaes de justia em edificios municipaes.

    Responsabilidade dos officiaes de justia perante as assemblas, e
    sua sujeio  justia commum.

    _i)_ Instituio da policia municipal, regida e paga por cada
    municipio.

    _j)_ Estabelecimento de escolas de ensino technico de artes e
    officios, tanto ruraes como fabris, nos municipios, geridas e
    sustentadas por elles.

    _m)_ Alimentao, vestuario e objectos de ensino dados pelos
    municipios aos menores miseraveis que frequentem as escolas.

    --Consequencias:

    Abrogao do codigo administrativo, e sua substituio por
    disposies geraes no codigo fundamental, isto , substituio de
    leis por instituies, que estabeleam e garantam as liberdades
    politicas, publicas e individuaes, pela extinco das camaras
    municipaes, das juntas geraes, dos conselhos de districto, dos
    governos civis, das administraes dos concelhos, das regedorias e
    das juntas de parochia.

    2.

    Conformao dos codigos civil, commercial, judicial e penal com as
    disposies de egualdade civil e politica estatuidas no codigo
    fundamental, abrogando-se no civel a parte que regula as condies
    da servido e todos os contratos unilateraes.

    Reviso periodica dos codigos.

    Abolio do juramento, tanto no fro politico, como no civil,
    judicial e militar.

    3.

    Constituio do poder legislativo com os delegados representantes de
    cada municipio, eleitos nas assemblas dos circulos pelos seus
    contribuintes.

    4.

    Abolio do recrutamento e das matriculas maritimas.

    Servio militar voluntario.

    Sujeio dos militares s leis e aos tribunaes communs nos casos de
    offensas de direitos civis e politicos.

    5.

    Reduco de todas as contribuies, tanto para o estado como para os
    municipios, a uma unica, directa.

    Extinco immediata das barreiras, estabelecendo a livre circulao
    dos generos alimenticios.

    Creao de bilhetes de contribuio divisiveis e vendaveis como os
    sellos, para que todos possam opportunamente compral-os durante o
    anno e pagarem assim a sua contribuio.

    6.

    Extinco dos privilegios a companhias e associaes. Resciso de
    seus contratos com o estado, e sua sujeio e de seus membros 
    justia commum.

    7.

    Extinco dos privilegios, subsidios ou mercs, subveno ou
    interveno do estado e dos municipios a individuos, a empresas, a
    estabelecimentos e a instituies industriaes, scientificas,
    litterarias e religiosas.

    8.

    Taxao de todos os servios publicos ao estrictamente necessario
    para o custeamento das suas despezas correntes.




III

A COOPERAO DOS TRABALHADORES


COOPERAO E SOLIDARIEDADE.--INSTRUCO E ASSOCIAO.--O
INTERNACIONALISMO.--AS COOPERAES OPERARIAS E ALGUNS DOS SEUS MAIS
DEDICADOS E FERVOROSOS APOSTOLOS.---CESAR DE PAEPE, ANSEELE, JEAN
VOLDERS, LOUIS BERTRAND.

A solidariedade operaria no  seno um resultado da cooperao. Disse-o
Cesar de Paepe, num discurso eloquentissimo, pronunciado no congresso
internacional cooperativo de Paris.

No ha, na Belgica, um Lassalle e um Schultze inimigos, exclamava o
illustre chefe do socialismo belga; ha sim! um partido operario que ,
ao mesmo tempo, cooperativista, republicano e socialista.

E accrescentou:

Os cooperadores belgas associaram-se sempre s manifestaes em favor
do suffragio universal.

As nossas sociedades cooperativas no tem por fim realisar interesses
para alguns individuos, seno, ao contrario, desenvolver os sentimentos
de solidariedade entre os seus membros.

A cooperao dos trabalhadores pde e deve tomar-se em dois sentidos
differentes: um sentido restricto e um sentido amplo e generico. No
primeiro caso, a cooperao limita-se a explorar as cooperativas
sociaes, quer sejam as de produco, quer sejam as de consumo, quer
sejam as de credito. No segundo caso, a cooperao estende-se alm das
fronteiras e affirma-se pelo principio da solidariedade de classe, no
combate quotidiano contra o capitalismo e o industrialismo, em favor das
reivindicaes operarias.

       [Gravura: Cesar de Paepe]

Do mesmo modo que para todo o cidado ha duas patrias--a patria onde
cada um exerce a sua actividade e essa outra grande patria, a que
estamos vinculados pelos nossos ideaes e pelas nossas aspiraes, que se
chama humanidade; assim tambem a cooperao dos trabalhadores tem de
ser, ao mesmo tempo, nacional e internacional: nacional pela affirmao
da solidariedade operaria, em cada paiz, e internacional pela
affirmao da solidariedade com os companheiros de todos os paizes, de
todas as raas, de todas as religies e de todas as linguas.

Da legislao internacional do trabalho, fizeram os socialistas o artigo
1. do seu programma. O internacionalismo manifesta-se, a cada passo,
nas relaes entre os povos. A facilidade de communicaes tem
concorrido extraordinariamente para isso. Mas ao facto material da
rapidez nas viagens, devemos juntar o facto moral da transformao,
realisada nos velhos processos politicos e da corrente, cada vez mais
intensa e cada vez mais poderosa, das idas modernas.

_Proletarios de todo o mundo, uni-vos!_ Era esta a divisa de Karl Marx,
e  esta a divisa do socialismo revolucionario.

Mas a verdadeira unio s poder conseguir-se pelas associaes de
classe. No dia em que o proletariado tiver realisado este grande e
supremo _desideratum_, n'esse dia ter soado a hora da sua emancipao.
E deante do formidavel exercito, no haver nem canhes Krupp nem
espingardas Kropateschaek que valham ou prevaleam. Isto matar aquillo.
O proletariado organisado matar a realeza armada. O trabalhador vencer
o soldado. O homem livre e consciente transformar o velho mundo,
enthronisando a paz e a justia, no logar onde campeava a iniquidade e a
desegualdade social.

A beneficencia publica e particular, a caridade official e outros
palliativos de egual natureza, so impotentes para resolver o problema,
porque humilham aquelle que se pretende beneficiar, rebaixam os
caracteres, engendram a preguia e entreteem a mendicidade.

No se trata apenas, de soccorrer os pobres: o que se trata  de
supprimir a pobreza. E para isso  mister que a sociedade, em vez de uma
madrasta odienta, se converta em me protectora e disvelada;  mister
que a todos, sem excepo, seja garantido o direito  instruco e o
direito ao trabalho, que so uma consequencia do direito  existencia; 
mister que a educao e os meios de produzir no constituam o privilegio
de uma minoria rica e favorecida da sorte;  mister, no s que todos
sejam eguaes perante a lei, seno tambem que todos sejam eguaes perante
a sociedade, pelo desenvolvimento physico e moral, pela posse dos
instrumentos de produco e pelo gozo do credito;  mister, emfim, que o
altruismo e a bondade se sobreponham ao egoismo e  crueldade das
modernas sociedades.

      *      *      *      *      *


AS COOPERATIVAS OPERARIAS

Ha quem pense que as cooperativas operarias podem concorrer
poderosamente para a extinco da miseria. No somos d'esse numero. As
cooperativas, (e quando fallo em cooperativas, refiro-me particularmente
s cooperativas de consumo) podem, quando muito, attenuar, e attenuam,
com effeito, as condies de existencia do proletariado. Mas d'ahi, a
resolver o problema da sua emancipao, vae um abysmo.

Quer isto dizer que tenham sido estereis todas as tentativas feitas para
manter e sustentar as cooperativas? De modo algum. Entre os que tudo
pedem e esperam da iniciativa das corporaes operarias e os que tudo
esperam do Estado, entre os dois exclusivismos, ha um meio termo que
Malon synthetisava nas palavras de um velho proverbio: _Aide-toi, les
pouvoirs publics t'aideront._

Os esforos cooperativos e corporativos, do mesmo modo que a procura de
uma melhoria immediata, devem ter por alvo a educao administrativa e a
organisao dos trabalhadores, para se chegar  abolio do salariado,
com o concurso dos poderes publicos, influenciados primeiro e
conquistados depois.[3]

Tal era o programma do pae da cooperao, o illustre Robert Owen; mas
no foi esta a politica seguida pelos seus successores, que mutilaram a
ideia do mestre, fazendo da cooperao um _fim_, quando no  nem deve
ser seno um _meio_.

      *      *      *      *      *


OS APOSTOLOS DA COOPERAO

Durante muito tempo, foi grande e profunda a inimisade entre
cooperativistas e socialistas, se bem que o principio da cooperao
tenha uma origem caracterisadamente socialista, tendo sido, como j
dissemos, Robert Owen o seu primeiro apostolo. A elle se devem as
primeiras tentativas de cooperao; foi elle quem inventou a palavra e
quem propagou a theoria. Robert Owen, o inventor e o apostolo das
_sociedades cooperativas_--escrevia d'Assaily que para todos deve ser
insuspeito, pela sua tendencia conservadora e retrograda--pretendeu
realisal-as n'um estabelecimento, onde o trabalho collectivo abraasse,
ao mesmo tempo, a agricultura e a industria; onde o espirito tivesse,
como o corpo, a sua parte de legitima satisfao; onde o trabalho fosse
voluntario; onde no fosse punida a minima infraco; onde no fossem
obrigatorias quaesquer privaes, e onde o respeito dos direitos fosse o
resultado d'um mutuo interesse.

A ida de Robert Owen era demasiadamente idealista e synthetica para o
proletariado da Inglaterra. Mas, pratico como , o operario inglez
descobriu-lhe logo o lado util, e assim nasceram as cooperativas de
consumo, que, aps algumas tentativas, chegaram a ter um resultado
brilhante nos _Pionniers de Rochdale_.

S  efficaz a cooperativa de consumo; a de produco  impotente para
luctar com outras emprezas congeneres, attenta a difficuldade em obter o
capital que , por via de regra, superior s foras operarias; e a de
credito, por seu turno, tropea praticamente com embaraos e obstaculos
insuperaveis.

Devemos, porm, repetir, com Malon, que todas as frmas cooperativas
servem, em geral, para preparar a educao administrativa do
proletariado, tornando-o mais apto para as reivindicaes de ordem
politica e social.

Os socialistas fazem mal, rebaixando e combatendo as tentativas
cooperativistas. Do mesmo modo que a iniciativa individual s por si
seria impotente, assim tambem a aco dos poderes publicos no poder
ser nunca verdadeiramente benefica, se no fr secundada pelos esforos
collectivos de um proletariado j familiarisado com as difficuldades
administrativas das organisaes politicas e economicas.

Sob este ponto de vista, a cooperao, verdadeira escola de pratica
industrial e commercial, desembaraando-se pouco a pouco do primeiro
exclusivismo,  uma excellente preparao para as reformas sociaes, que
o proletariado ter um dia de arrancar aos poderes publicos.

N'uma palavra, cooperadores e socialistas so militantes na mesma obra
de renovao e de justia. Os trabalhos de uns e as luctas dos outros
completam-se mutuamente, e a sua unio apressaria o dia, por todos
desejado, da emancipao humana.

Associamos-nos pois, de todo o corao ao generoso applo dirigido aos
socialistas por Louis Bertrand, que , ao mesmo tempo, um dos primeiros
vulgarisadores do collectivismo e um cooperador pratico.

 obra pois, companheiros,  obra! No esqueais nunca que qualquer
nova sociedade cooperativa  um passo a mais para a sociedade do futuro,
a sociedade que sonhamos, feita de justia e de solidariedade, e na
qual todos encontraro o seu bem-estar em troca de um trabalho facil e
remunerador.

Mas no olvideis, sobretudo, que o fim a attingir no se limita a
beneficiar ou a fazer beneficiar os operarios de alguns francos por
semana ou por mez, e que  preciso ter sempre em vista o fim supremo: a
libertao completa da classe operaria pela suppresso do salariado e
pela applicao das doutrinas socialistas.[4]

       [Gravura: Louis Bertrand]

Na cooperao belga destacam-se cinco grandes realisaes, porventura as
primeiras e as mais solidas realisaes do principio cooperativista: a
sociedade do _Vooruit (vante)_, de Gand; o _Progrs_, de
Jolimont-La-Louvrire; a _Maison du Peuple_, de Bruxellas; o _Werker_,
d'Anvers; e a _Populaire_, de Lige.

A mais importante, o _Vooruit_, possue uma padaria, officinas de
calado, de vestuario, de quinquilheria, _armazens_ de carvo e um
caf restaurante onde  prohibida a venda de bebidas alcoolicas. O
_Vooruit_ possue tambem uma caixa de soccorros, sendo os doentes curados
gratuitamente. O jornal que se intitula _Vooruit_ tira por dia 10:000
exemplares. A sociedade _Vooruit_ tem 40 administradores e 150
empregados, e fazem negocios 2.500.000 francos por anno. O centro de
estudos, as camaras syndicaes, as sociedades de musica e de gymnastica,
constituem outras tantas seces da cooperativa que tem servido de
modelo a todas as outras cooperativas belgas.

       [Gravura: Anseele]

Anseele  o gerente do _Vooruit_, como Jean Volders  o gerente da
_Maison du Peuple_. A elles se deve uma parte da propaganda socialista
da Belgica, porque as cooperativas, n'aquelle paiz, apresentam uma
feio eminentemente revolucionaria e constituem, para o proletariado,
uma formidavel arma de combate. Quantas _grves_ no teem sido
sustentadas com o po e o carvo distribuido pelas cooperativas?!  que
os belgas fizeram das cooperativas de consumo, ao mesmo tempo, um
elemento de interesse pessoal, de resistencia politica e de propaganda
socialista. Os dividendos a distribuir a cada associado constituem o
fundo social do partido. E d'este modo, to digno de ser imitado,
organisaram os socialistas belgas o mais poderoso e valente exercito que
temos visto e admirado, o grande e honrado exercito da sciencia e do
trabalho, o invencivel exercito do povo, o exercito do futuro!

       [Gravura: Jean Volders]

Os cinco grupos, acima referidos, no comprehendem, ainda assim, todo o
movimento cooperativo belga, que, em 1889, havia attingido os algarismos
seguintes:

    Cooperativas alimenticias                        53

    Padarias                                         36

    Bancos populares                                 19

    Sociedades de produco                          18

    Syndicatos agricolas                             15

    Cooperativas de industriaes e commerciantes      10

    Pharmacias populares                              6

    Unies de credito                                 5

    Diversas sociedades                              17

                  Total                             179

E Jean Volders no descana um momento, percorrendo a Belgica em misso
de propaganda, uma e mais vezes por anno, espalhando a ideia e
attrahindo proselytos  sua generosa causa!

Uni-vos pois, trabalhadores! Organisae-vos e defendei-vos, creando
escolas, estabelecendo cooperativas, fundando associaes de classe e
preparando-vos por todos os meios, para o supremo combate contra os
vossos exploradores e os vossos inimigos. Sois hoje o numero e sereis
manh a qualidade! Para isso uma unica cousa bastar:--que vos
associeis, nacional e internacionalmente. Na associao est a vossa
fora. Usae d'ella! Reuni os vossos elementos. Instrui, trabalhae,
educae-vos. Sereis os vencedores. O mal no est n'este ou n'aquelle
paiz: est na sociedade em geral. Os governos recuam e os reis e
imperadores pensam que a salvao est na morte ou no desapparecimento
dos insubmissos e rebeldes. Puro engano! Os effeitos ho ser os mesmos,
emquanto subsistirem as mesmas causas. Eliminae o mal, pela vossa
perseverana na lucta e pela vossa constancia no combate. Formae,
adestrae os vossos batalhes. Sois regimento e sereis exercito. Tendes
por vs a razo e a justia. Confiae no futuro. Que a voz de commando
seja s uma e que a obediencia seja geral e completa!

O proletariado  s um, tem um s interesse e uma s aspirao. No
conhece raas, nem linguas, nem religies. No dia em que elle quizer,
nenhuma outra vontade lhe ser superior. A humanidade  o supremo ideal,
e, pensando n'ella, abstrahimos de ns mesmos, e das miserias e torpezas
do mundo.




IV

ARBITRAGEM INTERNACIONAL


SOCIEDADES DA PAZ.--EMILE ARNAUD.--O MILITARISMO.--DOMELA
NIEUWENHUIS.--ARBITRAGEM INTERNACIONAL.--MICHEL REVON.--A FEDERAO E OS
SEUS APOSTOLOS.--NACIONALISMO E INTERNACIONALISMO.--ALFREDO
NAQUET.--REN GOBLET E AUGUSTO VACQUERIE.--A GUERRA VENCIDA PELA
ARBITRAGEM.--O DESARMAMENTO.--EDUARDO VAILLANT.

O movimento em favor da paz, vae-se accentuando de dia para dia. 
consolador registar o facto e apreciar as suas consequencias.

Sobe a mais de cincoenta o numero das sociedades da paz de que temos
conhecimento e que realmente funccionam.

ALLEMANHA

_Sociedade da Paz_ (presidente o conde Bodner)--_Wiesbaden._

_Sociedade da Paz em Berlim_ (presidente o dr. Mhling)--Berlim.

_Sociedade da Paz em Ulm_ (presidente H. Eberle)--_Neu-Ulm._

_Sociedade da Paz em Francfort_ (presidente Franz Wirth)--_Francfort_.

_Sociedade da Paz em Constana_ (presidente professor
Martens)--_Constanz_.

INGLATERRA

_International Arbitration and peace association_ (presidente Hodgson
Pratt)--_London_.

_Peace Society_ (presidente Joseph Pease)--_London_.

_Local Peace Association_ (presidente M.elle Peckover)--_Wisbech_.

_Peace Society of Liverpool_ (presidente Thomas Suape)--_Liverpool_.

_International Arbitration League_ (presidente Cremer)--_London_.

_Local Peace Association_ (presidente Rowntree)--_York_.

_Woman's Peace and Arbitration Society_ (presidente
Thompson)--_Birkenhead_.

AUSTRIA

_Oesterr. Friedensgesselschaft_ (presidente a baroneza de
Suttner)--_Vienna_.

_Societ Universitaire de la paix_ (presidente dr. Steckel)--_Vienna_.

BELGICA

_Section belge de l'arbitrage et de la paix_ (secretario
Lafontaine)--_Bruxellas_.

DINAMARCA

_Association pour la neutralisation de la Danemark_ (presidente
Frederico Bajer)--_Copenhague_.

FRANA

_Ligue internationale de la paix et de la libert_ (presidente Emile
Arnaud)--_Luzarches_.

_Societ franaise de l'arbitrage entre nations_ (presidente Frederic
Passy)--_Neuilly_.

_Ligue du Bien public_ (presidente Pierre Potoni)--_Fontenay_.

_Societ de la paix du familistre de Guise_ (presidente
Bernardot)--_Guise_.

_Societ de la paix perptuelle par la justice internationale_
(presidente Philippe Destrem)--_Paris_.

_Groupe des amis de la paix du Puy-de-Dme_ (presidente
Pardoux)--_Clermont-Ferrani_.

_Association des jeunes amis de la paix_ (presidente Dumas)--_Paris_.

_Societ universitaire internationale_ (presidente Dumas)--_Paris_.

_Societ de la paix d'Abbeville et de Ponthieux_ (presidente Jules
Tripier)--_Eancourt_.

_Union Mditerranenne_ (presidente Gromier)--_Paris_.

_Comit de la Sarthe_ (presidente Destrich)--_Sarthe_.

_Socit de la paix de Felletin_ (presidente Abb Pichot)--_Felletin_.

HOLLANDA

_Pax Humanitate_ (presidente Schook)--_Amsterdam_.

_Socit Gnrale de la paix_ (presidente Moddermann)--_Haya_.

ITALIA

_Union Lombarda_ (presidente Theodoro Moncta)--_Milo_.

_Comit Romano da Paz_ (presidente Boughi)--_Roma_.

_Sociedade da paz de Turim_ (presidente Armandon)--_Turim_.

_Sociedade da paz de Palermo_ (presidente Aguanno)--_Palermo_.

_Sociedade da paz e da arbitragem de Perugia_ (presidente Leopoldo
Tiberi)--_Perugia_.

SUECIA

_Sociedade da Paz_ (presidente Wawrinsky)--_Stockholmo_.

SUISSA

LIGA INTERNACIONAL DA PAZ E DA LIBERDADE

--_Comit central_ (secretario M.me Goegg)--_Genve_.

--_Seco de Neuchatel_ (presidente Gustavo Renaud)--_Neuchatel_.

--_Seco de Berne_ (presidente W. Marcussen)--_Berne_.

--_Seco de Saint Gall_ (presidente Schimd)--_Saint Gall_.

--_Seco de Zurich_ (presidente Gustavo Vogt)--_Zurich_.

--_Seco de Genebra_ (presidente dr. Cords)--_Genve_.

ESTADOS UNIDOS DA AMERICA

--_Sociedade americana da paz_ (presidente dr. Trueblood)--_Boston_.

_Sociedade christ para a arbitragem da paz_ (presidente
Wood)--_Philadelphia_.

_Associao nacional da arbitragem_ (presidente
Gardener)--_Washington_.

_National Association for the Promotion of Arbitration_ (presidente
Lockwood)--_Washington_.

_Associao da arbitragem da California_ (presidente Berwick)--_Monterey
(California)_.

_Universal Peace Union_ (presidente Loye)--_Philadelphia_.

_Peace Department of the N. W. C. T. U._ (presidente Bailey)--_Maine U.
S. A._

_Peace Association of friends in America_ (Daniel Whill
secret.)--_Richmond, Ind. U. S. A._

_South Carolina Peace Society_--_Columbia S. C._

_Illinois Peace Society_ (presidente Allen)--_Chicago III._

_Connecticut Peace Society_ (Whipple, secret.)--_Old Mistic Conn. U. S. A._

_Rhode Island Peace Society_ (Robert, secret.)--_Providence R. I. U. S. A._

_Friend's Peace Association of Philadelphia_ (presidente
Wickersham)--_Philadelphia_.

_National Peacy Society_ (presidente Ellen Lease)--_Topeka (Kausao) U.
S. A._


A paz constitue hoje o supremo _desideratum_ da humanidade trabalhadora.
Mas a paz tem um complemento indispensavel--a liberdade e a justia.
D'este modo o antigo adagio: _Si vis pacem, para bellum (Se queres a paz
prepara a guerra)_, que havia sido substituido por est'outro, no menos
illusorio: _Si vis pacem, para pacem (Se queres a paz prepara a paz)_,
foi transformado, ao sopro da revoluo, pelo seguinte principio: _Si
vis pacem, para libertatem (Se queres a paz prepara a liberdade)_.

Com o progresso dos tempos, reconheceu-se porm, que a paz pela
liberdade era ainda pouco, e Aurelio Saffi, traduzindo as aspiraes dos
philosophos e pensadores da sua poca, estabeleceu o lemma da _paz pela
liberdade e pela justia (si vis pacem, para libertatem et justitiam)_.

Mais tarde, Carlos Lemmonier reforou esta formula, demonstrando que a
paz, assim como a liberdade, no devia ser um _fim_, mas apenas um
_meio_. E os philantropos, aceitando a observao, principiaram ento de
apregoar a paz _pela_ liberdade e _por amor_ da justia.

       [Gravura: Emile Arnaud]

A formula de hoje--diz ajuizadamente Emile Arnaud--a unica que
corresponde ao estado actual da Europa e  situao especial de cada
paiz,  a seguinte: _Si vis justitiam, para pacem (Se queres a justia,
prepara a paz)_.

E, uma vez que fallamos em Emile Arnaud, o glorioso continuador da
doutrina de Carlos Lemmonier, devemos dizer que dos apostolos e
evangelistas da paz,  elle um dos mais ardentes, um dos mais convictos
e um dos mais activos. A _Liga Internacional da Paz e da Liberdade_ est
organisada como nenhuma outra sociedade, com ramificaes em toda a
Suissa e seces e _comits_ em todos os outros paizes da Europa.

      *      *      *      *      *


O MILITARISMO.--DOMELA NIEUWENHUIS.

Em caso de guerra, qual dever ser a attitude do partido operario
socialista?--perguntava-se no congresso de Zurich.

Domela Nieuwenhuis, o sympathico e benemerito chefe do socialismo na
Hollanda, j havia respondido a esta pergunta no congresso de Bruxellas,
em 1891.

Em caso de guerra, aconselhava Nieuwenhuis a _proclamao de uma grve
militar e de uma grve geral_. Esta mesma ida havia j sido enunciada
na mesma cidade de Bruxellas, em 1868, por occasio do Congresso da
Associao Internacional dos Trabalhadores. Por unanimidade havia sido
approvada a resoluo seguinte:

O congresso recommenda, sobretudo, aos trabalhadores a suspenso de
todo o trabalho, no caso em que uma guerra viesse a explodir nos seus
respectivos paizes. O congresso conta sufficientemente com o espirito de
solidariedade, que anima os trabalhadores, que no se negaro a prestar
o seu apoio a esta guerra dos povos contra a guerra.

Cesar de Paepe propz dois meios:

1. A recusa em satisfazer o servio militar, ou, o que vale o mesmo, a
grve geral;

2. A resoluo definitiva da questo social, ou, por outros termos, a
revoluo social na Europa.

O militarismo no pde ser combatido com simples protestos.  guerra 
mister oppr a guerra, diz muito bem Domela Nieuwenhuis. J era este
tambem o grito de Victor Hugo. Guerra  guerra! Morte  morte!

       [Gravura: Domela Nieuwenhuis]

No basta s condemnar a guerra.  mister impedil-a, por todos meios,
evital-a e _deshonral-a_, ainda na phrase do Mestre.

No manifesto, feito por occasio da guerra civil em Frana, e redigido
por Karl Marx, o conselho geral da Internacional declarou que, no longo
curso da historia, uma unica guerra podia justificar-se--era a guerra
dos escravos contra os senhores. Eis o motivo porque, em caso de guerra,
ns devemos responder, recusando-nos ao servio militar, quer dizer,
proclamando a guerra civil. O partido socialista quer acabar com as
guerras nacionaes, substituindo-as pela guerra internacional, cujo
ultimo resultado ser a emancipao do proletariado.

Propmos a grve geral, sobretudo nos officios e profisses, que tenham
qualquer relao com a guerra, porque isso pde ser de grande
utilidade.

Com effeito, se, em caso de proclamao de hostilidades, os operarios
fizerem tudo quanto poderem, para destruir as rdes telegraphicas, os
_rails_, as machinas, numa palavra para impedir o encontro dos
exercitos,  claro que a guerra se tornar impossivel.

Apesar de tudo--concluia Domela Nieuwenhuis[5]--continuaremos a nossa
propaganda, para fazer germinar a ida da _recusa de servio em caso de
guerra_, acompanhada de uma _grve_ geral. Esta ida far o seu caminho.
O proletariado deve arriscar o seu sangue unicamente contra o seu unico
e verdadeiro inimigo: _o capitalismo_.

      *      *      *      *      *


ARBITRAGEM INTERNACIONAL.--MICHEL REVON

Para acabar com a guerra, prope Michel Revon, pelo seu lado, e com elle
outros notaveis pensadores,  frente dos quaes se encontra Frederico
Passy, a arbitragem internacional. Atravessamos um periodo de
transio--escreve elle[6]--que pde durar ainda dois ou
tres annos, mas que no poder prolongar-se. Em dez annos, ou a guerra
geral ter arruinado a Europa, ou o militarismo se haver tornado
impotente. A lucta entre o espirito da guerra e o espirito da paz, est
por ora indecisa. O momento psychologico poder surgir em 1894, como
em 1895 ou em 1896.

Em 1900  que no.

Segundo o criterio desenvolvido por Michel Revon no seu bello livro, a
guerra teve outr'ora a sua raso de ser. Foi j um phenomeno divino, mas
 hoje um anachronismo e uma brutalidade sem nome. Em tres seculos os
armamentos actuaes pertencero aos museus archeologicos.

So precisos os exercitos permanentes, para qu?--Para que os ricos
durmam descanados, como dizia Balzac?

 precisa a guerra para qu? Para devastar e exterminar a humanidade?
N'esse caso, proclamem tambem as vantagens das epidemias que dizimam as
populaes e das grandes catastrophes que enchem de victimas as
localidades.

A guerra s se justificava entre povos barbaros, em plena noite da
historia.

Vergniaud pinta-nos effectivamente os povos, combatendo durante a noite,
como amigos ou irmos que se no conhecessem, mas promptos a
abraarem-se e a fraternisarem, desde que a luz, descobrindo-os, os
tornou conhecidos uns dos outros.

Quem  que no conhece o obra prima de Proudhon:--a Justia e a Vingana
perseguindo o crime? A victima jaz por terra; o assassino foje; no
ambiente azulado da noite, entrevem-se, porm, as duas deusas
agitando-se, terriveis e fataes, compasso seguro e tranquillo;
ellas sabem perfeitamente, as immortaes, que, cedo ou tarde, o criminoso
lhes hade cahir nas mos, porque nenhum ainda lhes escapou. Esta
perseguio dramatisada do mal pelo direito, esta vibrante condemnao
d'esse hediondo crime que se chama a guerra, esta passagem formidavel da
vingana e da justia de Deus, no  outra cousa, no fundo, seno a
propria revoluo da civilisao humana. , n'uma palavra, a verdade
suprema da historia, o seu principio de vida e o seu mais salutar
ensinamento.

Para todos aquelles que, estudando a historia, observaram as duas
tendencias que nos offerecem as civilisaes da antiguidade--a tendencia
para a paz e a tendencia para a guerra, n'uma lucta pica, semelhante 
lucta entre a morte e a vida; para aquelles que, analysando o
christianismo, as perturbaes da edade mdia, e o esforo immenso do
papado, chegaram emfim, aos tempos modernos, e  transformao dos
Estados europeus, para esses no pde a arbitragem internacional
apresentar a minima duvida, por isso que ella no  seno o resultado
dos progressos alcanados pelo direito positivo moderno, que nol-a
apresenta em nossos dias, na sua preparao social, na sua elaborao
juridica e nas suas applicaes.

A arbitragem , no dizer de Revon, uma reforma absolutamente necessaria,
muito possivel de realisar, mas, ao mesmo tempo, de uma difficuldade
extrema, visto como a sua pratica depende no s de uma transformao
moral, economica, juridica, e sobretudo do meio em que ter de se
desenvolver, seno tambem do funccionamento de uma jurisdico
internacional, sob todas as suas frmas variadas, insensiveis, e
necessariamente ligadas umas s outras, desde a simples arbitragem
facultativa at ao tribunal geral, no triplice ponto de vista da sua
organisao, da sua competencia e do seu processo.

      *      *      *      *      *


A FEDERAO E OS SEUS APOSTOLOS

A guerra  um facto barbaro, e os exercitos so instituies barbaras,
disse-o Victor Considrant. O principal dogma da republica
democratica--_Liberdade, Egualdade, Fraternidade_--constitue, com a
guerra e os exercitos, uma triplice contradico. O progresso nos povos
deve contribuir para o desapparecimento da guerra, transformando os
exercitos _destructores_ em exercitos _productores_.

Herbert Spencer, no fim do terceiro volume dos seus _Principios de
Sociologia_, resume do seguinte modo o seu profundissimo estudo sobre as
instituies politicas:

A possibilidade de um estado social superior, tanto em politica, como
em geral, depende de um facto fundamental: a cessao da guerra. Tal  a
concluso mais importante a que chegam todas as partes do nosso
trabalho. Depois de tudo o que dissmos,  inutil insistir ainda sobre
os effeitos da persistencia do militarismo, o qual, conservando as
instituies adaptadas s suas necessidades, impede ou neutralisa a
transformao d'essas instituies ou d'essas leis n'um sentido mais
equitativo, ao passo que a paz permanente ha de ser seguida
necessariamente por melhoramentos sociaes de toda a especie.

A guerra deu tudo o que podia dar. A occupao da terra pelas raas
mais poderosas e intelligentes  um beneficio, j realisado em grande
parte; o que est por conquistar no reclama seno uma cousa: a presso
crescente que exerce uma civilisao industrial sobre uma barbarie que
reca. A integrao que fusiona grupos simples em grupos compostos, como
resultado de um estado de guerra, e que conduz no fim de certo tempo 
formao das grandes nacionalidades,  uma operao que parece ter
tocado o seu termo. Os imperios formados de povos estranhos uns aos
outros, desmembram-se ordinariamente, quando desapparece a fora
coerciva que os mantinha. E, ainda quando mesmo ficassem unidos, no
poderiam jmais constituir um todo harmonioso. Uma _federao pacifica_
 o unico processo de _consolidao_ que se pde prevr.

Tal  a opinio do grande philosopho. Para elle a paz  o fundamento da
moral.

Era esta tambem a opinio de Kant que consagrou a moral como a base de
toda a politica. Em sua opinio, todo o direito civil, politico ou
internacional constitue uma ligao entre duas vontades, e baseia-se no
respeito reciproco das liberdades. Quer se trate de dois povos, quer de
duas pessoas, o estado de guerra significa estado de natureza, e 
um dever sahir d'elle. Sob o ponto de vista da raso, no ha seno
um meio de tirar os Estados da situao violenta em que se encontram,
renunciando  liberdade anarchica dos selvagens, e submettendo-os ao
imperio de leis mais liberaes, afim de formar assim um Estado de naes
(_civitas gentium_) que possa augmentar insensivelmente, at abraar,
pouco a pouco, todos os povos da terra.

Ser chimerico este ideal de paz? No, responde Kant, por isso que 
obrigatorio.

E que ter de realisar-se, prova-o no s o inevitavel progresso do
direito, seno tambem o progresso dos interesses.

Os interesses economicos devero tornar a guerra impossivel. A natureza
garante a paz, pelo simples equilibrio das paixes humanas.

A federao dos povos no ser s o desarmamento dos reis e imperadores;
ser tambem o aniquilamento da guerra.

No dia em que todos os cidados souberem conciliar, no seu corao, a
ida de patria e a ida de humanidade, n'esse dia a paz pela federao
haver triumphado definitivamente no mundo.

O que torna os povos inimigos uns dos outros,  o sentimento de
nacionalidade, levado at  barbarie. Mas o homem moderno 
essencialmente cosmopolita. O amor pela patria no exclue o amor da
humanidade. Ao contrario, estes dois sentimentos completam-se e
identificam-se, num mesmo ideal e n'uma mesma aspirao de progresso. Da
comprehenso d'este principio deriva, a nosso ver, toda a moderna
philosophia social.

Dir-nos-ho, talvez, que no somos patriotas. A esta accusao responde
Alfredo Naquet, o grande e glorioso pensador, n'uma soberba carta que
nos dirigiu, a proposito da _Federao Iberica_:

       [Gravura: Alfredo Naquet]

No! se o patriotismo  feito de um espirito estreito e sectario, e 
custa do odio dos outros povos e de aspiraes militares--eu no sou
patriota.

Mas se o patriotismo consiste em amar profundamente o paiz onde
nascemos, e onde exercemos a nossa actividade, n'esse caso sou patriota.

Amo apaixonadamente a Frana. Amo-a porque foi no seu espirito que
moldei o meu cerebro, e porque as minhas aspiraes, os meus
sentimentos, e os meus instinctos, n'ella se desenvolveram; amo-a porque
ella constitue um factor indispensavel do grande trabalho humano; e,
mesmo por cosmopolitismo, teria ainda de ser patriota. Amo-a bastante
para tudo sacrificar por ella e pela sua defesa no dia em que fosse
necessario--a minha fortuna, a minha liberdade e a minha vida.

Mas estou convencido que a patria europeia ser to superior s
patrias de hoje, como a Frana o   Borgonha, a Hespanha  Andaluzia, e
o Reino-Unido  Inglaterra ou  Escocia.

E, no dia em que fr possivel substituir a patria nova s antigas
patrias, sem prejuizo do amor e das homenagens que estas nos merecem,
n'esse dia, entre o que foi grande e o que dever ser ainda maior, a
minha escolha far-se-ha sem hesitao.

No tenho a esperana de assistir a esse espectaculo radioso. 
provavel, quem sabe? que eu morra francez, pensando quasi
exclusivamente, alm das minhas meditaes philosophicas, na defesa, na
grandeza e na prosperidade d'este bello e nobre paiz. Mas invejo
aquelles que tiverem de assistir  creao dos Estados-Unidos da Europa.

E pensam assim todos os grandes pensadores modernos. No estabelecimento
de uma _Federao occidental_, baseava Littr toda a politica do futuro.
Emile de Laveleye conclue o seu bello livro _La Dmocratie_, pela
apologia de uma _federao fraternal_. Federalista foi Garibaldi, que
presidiu, em 1867, ao primeiro congresso da _Liga Internacional da paz e
da liberdade_; federalista foi Mazzini; federalista foi Victor Hugo. So
federalistas todas as sociedades de paz, que, presentemente, existem e
funccionam. Em Italia, como em Hespanha e Portugal, o federalismo ganha
terreno de dia para dia. O proprio sr. Crispi, actual presidente de
conselho de ministros, declarava, n'um dos seus ultimos discursos que
era para a federao que os povos caminhavam. Em Frana, so muitos os
partidarios da federao. Citemos, principalmente, dois--um por ser
o representante destas idas no parlamento, e outro por ser, na
imprensa, o seu glorioso interprete. Refiro-me a Ren Goblet e a Augusto
Vacquerie.

      *      *      *      *      *


REN GOBLET

Para bem se apreciar esta altissima personalidade, seria necessario
fazer a historia da politica franceza d'estes ultimos vinte annos.
Eleito deputado  Assembla Nacional em 1871, Goblet nunca mais deixou
de pertencer ao parlamento, a no ser no periodo que decorreu desde as
eleies geraes de 1889 at  sua eleio para o senado em 1891.

       [Gravura: Ren Goblet]

Goblet pensa, e muito bem, que a republica  mais alguma cousa do que
uma simples mudana de pessoal governamental, e que deve, sob pena de
morte, tirar todas as consequencias do seu principio, correspondendo
plenamente  confiana que o povo n'ella deposita. E eis ahi o motivo
porque no duvidou aproximar-se dos socialistas. Mudar de instituies,
unicamente para beneficiar meia duzia de favorecidos de um dado
partido ou de uma determinada politica,  cousa que no pde merecer o
sacrificio do povo. Se, com a mudana de instituies, se no pde, ao
mesmo tempo, reorganisar economicamente a sociedade ou remodelar o seu
modo de ser social, a transformao  esteril e sem resultado.

Assim pensa Goblet, e assim deveriam pensar todos os que sinceramente
amam os principios republicanos.

Duas especies de politica so possiveis--dizia elle n'um dos seus
maravilhosos discursos: a politica conservadora e a politica de
progresso, que consiste em realisar as reformas politicas, sociaes,
economicas, financeiras e administrativas, que, em todos os tempos,
foram consideradas, como que o programma necessario da democracia
republicana.

Goblet  republicano socialista, e , na actual camara franceza, um dos
chefes mais authorisados do glorioso grupo a que pertencem Millerand,
Jaurs, Rouanet, etc., e que pretende a reviso immediata da
Constituio e a discusso e approvao de alguns dos primeiros artigos
do programma socialista.

 tambem federalista convicto, e um d'aquelles que acreditam que  no
estado federativo que reside o futuro para as naes da Europa. O
problema da guerra s no principio federalista poder encontrar a sua
soluo logica e natural.  esta a sua opinio que muito o honra e a que
eu no posso deixar de prestar a minha respeitosa e profunda homenagem.

      *      *      *      *      *


AUGUSTO VACQUERIE

Augusto Vacquerie , em Frana, o continuador da obra de Victor Hugo.
Jornalista primoroso, poeta e escriptor dramatico applaudidissimo, a sua
vida podia e devia servir de modelo a todos os que s letras e 
politica se consagram.  um puro, na verdadeira accepo da palavra, e
nunca jmais a ambio maculou os seus principios ou a vaidade toldou as
suas aspiraes. Propugnador das doutrinas do Mestre, tem sempre
defendido, com enthusiasmo e ardr, o bello e supremo ideal da creao
dos _Estados Unidos da Europa_, como meio de pr um termo aos conflictos
internacionaes e de levar os povos  fraternisao universal, pela
pratica e realisao dos principios federaes.

       [Gravura: Augusto Vacquerie]

Augusto Vacquerie  hoje, na Europa, um dos principaes e um dos mais
brilhantes apostolos da federao latina, e, como premissa, da federao
iberica.  d'aquelles que acreditam como ns, que s pelo federalismo
poderemos chegar  suppresso dos exercitos permanentes, e,
consequentemente,  suppresso da guerra.

      *      *      *      *      *


A GUERRA VENCIDA PELA ARBITRAGEM

A federao dos povos tornar a guerra impossivel. Mas, emquanto a
federao se no realisa, urge estabelecer a arbitragem internacional,
como meio pacificador. Est ainda na memoria de todos a deciso que o
tribunal de arbitragem, constituido pelo tratado de Washington, deu
cerca das reclamaes do Alabama. O conflicto levantado entre os
Estados Unidos e a Inglaterra foi assim regulado de uma maneira
pacifica. O governo inglez acatou a sentena, sendo obrigado a pagar ao
governo americano uma indemnisao de 75 milhes de francos.

Ora, se a questo do Alabama poude assim ser resolvida, sem derramamento
de sangue, porque no ho de resolver-se, pelo mesmo processo, todas as
questes internacionaes?

Sob o ponto de vista juridico e sob o ponto de vista politico,  pois,
evidente a necessidade da arbitragem: sob o ponto de vista juridico,
porque, sem um systema de arbitragem, o direito das gentes  um edificio
incompleto; sob o ponto de vista politico, porque a situao actual
exige manifestamente uma soluo.

Mas os systemas  que variam; havendo uns que advogam a jurisdico
internacional facultativa, outros que defendem a creao de tribunaes
internacionaes especiaes, outros ainda que so por um tribunal
internacional geral desprovido de sanco, e os ultimos que acceitam o
tribunal internacional geral, mas com sanco.

       [Gravura: Emile de Laveleye]

Poder, porm, realisar-se a arbitragem internacional, independentemente
da ideia de federao?

Opinam uns pela affirmativa, sendo outros de opinio que s, pela
constituio dos Estados Unidos da Europa, poderemos chegar  realisao
effectiva e immediata da arbitragem.

O sabio professor, Emile de Laveleye publicou, em 1873, um interessante
estudo, sobre as causas actuaes da guerra na Europa, concluindo pelo
estabelecimento de um tribunal internacional. Dois eram os meios
aconselhados pelo eminente publicista, para acabar com o flagello da
guerra: em primeiro logar, mostrando aos povos e convencendo-os, que, em
nenhum caso, teriam a ganhar com a guerra, e, em seguida,
realisando duas grandes reformas juridicas: a elaborao de um codigo
internacional e a creao de um tribunal para o applicar. Este tribunal
seria permanente, reunindo-se todas as vezes que se levantasse um
conflicto internacional, tendo a sua sde na capital de um paiz
neutro--a Suissa ou a Belgica--e sendo composto dos representantes
diplomaticos das potencias, coadjuvados por juristas versados na
sciencia do direito das gentes.

Laveleye era um apostolo da ideia federativa, e propunha este alvitre,
por o considerar de mais facil acceitao por parte dos governos actuaes.

Para aquelles que admittem o principio federalista, o tribunal
internacional no deve ser seno um dos orgos do futuro estado
juridico. Quatro so as instituies, essenciaes a este systema: uma
conveno federativa, que garantisse s naes associadas a soberania e
a autonomia de cada uma; uma lei, livremente votada por todas essas
naes, e pela qual seriam julgados todos os conflictos, litigios e
difficuldades que se levantassem entre ellas; um tribunal, com membros
eleitos por estas mesmas naes, que pronunciasse a sentena em ultimo
recurso sobre as questes que lhe fossem submettidas; e um poder
executivo, tambem livremente eleito por todas as naes, encarregado de
assegurar a execuo da lei e as determinaes do tribunal. Os
partidarios d'esta doutrina no visam smente, por este systema, a
aperfeioar o direito internacional ou a estabelecer uma jurisdico
internacional obrigatoria; vo mais alm e chegam a um resultado
final pela creao dos Estados Unidos da Europa.

A guerra  um crime, condemnado pela moral, pelo direito e pela
philosophia social.

A sciencia e o trabalho exigem o seu desapparecimento immediato.

Como?

Pela arbitragem internacional e pela federao. Entre estados
confederados, a soluo impor-se-hia sem difficuldade. Na espectativa
porm, e, em caso de guerra,  dever appellar para a arbitragem, sempre
que o permittam as circumstancias especiaes dos paizes, cujos interesses
se degladiam.

Ou o desarmamento ou a ruina!

-- este o dilemma que se levanta, sinistro e ameaador, ante as
potencias da Europa, cada dia mais sobrecarregadas com a contribuio de
guerra.

Se tal estado continua por mais dez annos, os receios de guerra havero
desapparecido, dizia Liebknecht e muito bem; o resultado ser, ento, a
ruina geral, e, como consequencia ainda, a revoluo social triumphante
e generalisada a todos os paizes.

Bem sabemos ns que a arbitragem internacional ha de triumphar e ha de
estabalecer-se no mundo, como uma consequencia logica da federao. Mas,
emquanto o actual estado de cousas subsistir, no seria demais que as
naes submettessem as suas contendas a um tribunal arbitral, imitando,
d'este modo, a Inglaterra e os Estados Unidos da America, na questo
Alabama.

Isto seria possivel, e isto seria, principalmente, humanitario.

O espirito moderno detesta a guerra. S o trabalho liberta. S a paz
emancipa. Convertamos os exercitos da destruio em exercitos da
produco e da abundancia.

      *      *      *      *      *


O DESARMAMENTO.--EDUARDO VAILLANT

Depois da morte do general Eudes, e, ainda mais, depois da sciso que se
deu no partido blanquista, por causa do boulangismo, ficou sendo Eduardo
Vaillant o chefe incontestado do partido communista revolucionario, que
preconisa o emprego da aco, da fora, da propaganda pelo facto, para
conquistar o poder e fazer cessar as iniquidades sociaes.

Sob a sua iniciativa, porm, a concepo do velho Blanqui parece haver
passado por uma especie de transformao. O movimento insurrecional de
1871, deixra no espirito de Vaillant uma impresso profunda e
inextinguivel.

Vaillant no limita o seu communismo s foras productoras e a
repartio dos productos, segundo as necessidades de cada um, vae at 
organisao da communa de Paris, como primeiro passo para o
estabelecimento da nova ordem social.

Na sua profisso de f, encontra-se esta ideia, profundamente accentuada:

 mister dar ao paiz, emancipado da tyrannia administrativa, policial e
judiciaria, como elemento do seu organismo politico, a organisao
communal e cantonal, dando a Paris a liberdade communal, e fazendo-a
entrar no direito commum, pelo restabelecimento da _Communa de Paris_.
Mais adeante pede, que a communa seja senhora da sua administrao, das
suas finanas, e da sua policia.

       [Gravura: Eduardo Vaillant]

A vida politica de Vaillant, comeou no anno terrivel. Regressando da
Allemanha, por occasio da declarao de guerra, fez parte da communa,
refugiando-se depois em Inglaterra.

A amnistia trouxe-o novamente a Frana, em 1880.

Ao lado de Blanqui que os eleitores de Lyon e Bordeaux haviam arrancado
 priso, Vaillant prosegue na sua obra revolucionaria, organisando o
comit central revolucionario e sendo um dos fundadores do jornal--_Ni
Dieu ni Maitre_, que pouco tempo poude resistir s foras combinadas da
policia e da reaco.

Foi eleito conselheiro municipal em 1887, 1890 e 1893, e  hoje um dos
deputados socialistas de Paris.

Foi elle o auctor de um importantissimo projecto de lei apresentado
ultimamente, em nome do partido socialista,  camara dos deputados
sobre _a suppresso do exercito permanente e a sua transformao
progressiva em milicias nacionaes_.

_Artigo primeiro._-- supprimido o exercito permanente.

Esta suppresso far-se-ha pela transformao immediata e rapida do
exercito permanente em milicias nacionaes, de modo que o poder defensivo
da nao, longe de diminuir, pelo contrario se eleve e augmente, at ao
ponto de poder pr em aco integralmente todas as suas foras. A defeza
do paiz e da Republica, da sua independencia e das suas liberdades,
tornar-se-hia, assim, invencivel.

 a renovao do projecto de Blanqui e de Gambon.

A Republica franceza, pela transformao democratica das suas
instituies militares, deve pr-se ao abrigo de todos os perigos de
guerra ou de invaso, e de toda a ameaa de interveno ou influencia de
qualquer inimigo estrangeiro. Para esse fim, devem ser educadas,
exercidas e organisadas todas as suas foras, e aproveitados todos os
cidados validos.

O desarmamento s poder realisar-se, em virtude de um accrdo, feito e
acceite pelas differentes potencias. No se concebe que uma nao
desarme, ficando  merc de naes inimigas e armadas. Seria um
contrasenso e uma leviandade sem nome.

O notavel criminalista italiano, N. Colajanni, termina o capitulo da
guerra e do militarismo, da sua _Sociologia criminale_, pelas seguintes,
conceituosas palavras:

Em resumo: a guerra e o militarismo engendram o desgosto de todo o
trabalho util; favorecem a tendencia para a preguia; despertam no
soldado novas necessidades, sem os meios necessarios para as satisfazer;
excitam os primitivos instinctos, ferozes e egoistas, transformam o
respeito do direito em respeito exaltado pela fora bruta; conduzem ao
servilismo e  prepotencia; e, por vias directas e indirectas, levam 
miseria, ao suicidio,  alienao mental e ao crime.--Taes so os
tristes resultados d'estas instituies sinistras, deduzidos das provas
historicas e estatisticas.

N'uma palavra--conclue o illustre e honrado socialista--_o militarismo
constitue a verdadeira escola do crime._

O eminente escriptor e philosopho russo, Lon Tolstoi,  de opinio que
a principal origem da guerra deriva da actual ordem social, baseada
sobre a violencia. A organisao militar dos estados modernos est toda
concentrada nas mos dos governos, que no desejam perder o monopolio,
servindo-se para isso de meios poderosos, taes como o _terrorismo_, o
_egoismo_, a _disciplina militar_, etc.

A guerra, apesar de iniqua, no poder nunca ser destruida, seno pela
educao, generalisada a todos os paizes. Quando a maioria dos povos
reconhecer que a guerra  injusta, n'esse dia cessar a guerra. Esta
revolta do direito e da justia contra a fora e a violencia, est
certamente destinada a fazer algumas victimas; mas, como todas as idas
nobres e generosas, penetrar, pouco a pouco, nas consciencias e acabar
por triumphar.

Em Paris, publicou-se recentemente um livro interessantissimo de A.
Hamon, o sabio socialista, sobre a _psychologia do militar de
profisso_, que no podemos deixar de mencionar n'este logar, por ser de
uma actualidade palpitante.

O dr. Hamon parte do principio de que a criminalidade legal  infima,
quasi inapercebivel, relativamente  criminalidade occulta.

O fim da profisso militar  a guerra, e toda a guerra implica
necessariamente a violencia, manifestando-se por assassinatos,
violaes, pilhagens e incendios.

Os individuos que escolhem esta profisso, fazem-n'o levados pelo seu
interesse pessoal. Taes individuos sentem-se predispostos para a
violencia pela sua organisao psychica, resultante do seu organismo
physiologico, pelo meio em que vivem e pela sua educao profissional.

O livro de A. Hamon  a justificao da _Delenda Caserna_ do capito
Siccardi. Estabelece a superioridade moral dos exercitos nacionaes sobre
os exercitos profissionaes. Nos primeiros encontra-se maior respeito
pela dignidade humana, e isto basta para que se no registem os actos de
grosseria, de brutalidade e de violencia, que se registam ordinariamente
nos segundos.

O militarismo  a escola do crime!--tal  a concluso a que chega
Hamon no seu bello estudo de psychologia social.

Quando , porm, que os povos podero celebrar, no mundo, o supremo
beneficio da paz, do amor e da concordia?!

Quando  que o homem se libertar, por completo, dos velhos prejuizos
selvagens e das antigas e barbaras tradies?

Quando soar a hora da completa maioridade e da completa emancipao?

A humanidade caminha,--lentamente,  certo!--mas caminha...

Confiemos no futuro!




V

A MULHER


RESOLUO DO CONGRESSO DE ZURICH.--A SITUAO DA MULHER--SEUS DIREITOS
CIVIS E POLITICOS.--A MULHER EM RELAO  INDUSTRIA.--A MULHER NO ESTADO
SOCIALISTA.--A PRIMEIRA VICTORIA.--MADAME FAULE MINK.--AUGUSTO
BEBEL.--P. ARGYRIADS.

Relativamente ao trabalho das mulheres nas fabricas, o congresso de
Zurich adoptou as seguintes resolues, promettendo envidar, n'esse
sentido, todos os esforos dos seus delegados:

--Dia de trabalho maximo de dez horas para as mulheres, e de seis horas
para as jovens de menos de dezoito annos;

--Descano semanal de trinta e seis horas consecutivas;

--Prohibio do trabalho nocturno;

--Prohibio do trabalho das mulheres em todas as industrias insalubres;

--Prohibio do trabalho das mulheres nos quatro mezes seguintes ao
parto e nos dois ultimos mezes de gravidez;

--Creao dos logares de inspectoras de fabricas, em numero sufficiente
 efficaz vigilancia de todas as officinas, onde se empreguem mulheres;

--Applicao d'estas disposies a todas as mulheres empregadas nas
fabricas, officinas, armazens e na industria domestica e agricola.

De futuro reclamar-se-ha formalmente a equiparao dos salarios das
mulheres, conforme o seu trabalho.

A situao da mulher, na sociedade, constitue evidentemente uma das
questes mais importantes do nosso seculo, e reclama por isso um estudo
especial. A populao da Europa,  formada, na sua maioria, por
mulheres. D'ahi a sua importancia, e o grande numero de opinies,
formuladas, cerca da sua condio. Pensam uns que  a vocao natural
da mulher que determina a esposa, a me e a dona de casa. Mas esquecem
que, apenas, uma parte minima da populao feminina est no caso de
preencher os seus deveres. Contam-se por milhes, as mulheres que nunca
poderam ser nem esposas, nem mes, nem donas de casa, e muitas outras
que nem sequer poderam satisfazer a esta vocao natural, sendo, como ,
o casamento, para ellas, uma escravido, graas s condies da
industria moderna. Outros reclamam o accesso da mulher a todos os ramos
do trabalho, manual e intellectual, e outros vo ainda mais longe
pedindo que lhes sejam tambem conferidos direitos politicos.

Na opinio de Bebel, este assumpto est intimamente ligado 
questo social. A sua soluo, assim como a da questo operaria, 
impossivel, emquanto no forem radicalmente transformadas as condies
do actual estado social.[7]

      *      *      *      *      *


A SITUAO DA MULHER

Os defensores da ordem actual dizem e sustentam que o casamento  a base
da familia, esta a base do Estado, e que, por conseguinte, atacar o
casamento o mesmo  que atacar a sociedade e o Estado.

Perguntaremos, em primeiro logar, qual dos casamentos  o mais moral?

Ser o casamento forado, o casamento venal da sociedade actual, ou o
casamento livre, fundado sobre o amor e a estima reciproca, e que, de
resto, no poder realisar-se seno n'uma sociedade socialista?

O casamento dos nossos dias, que  um resultado de consideraes
puramente materiaes, est intimamente ligado  sociedade actual e
destinado a cahir com ella. A lucta pela existencia, tornando-se, de dia
para dia, mais acerba, transformou o casamento n'um acto de perfeita
especulao mercantil.

A prostituio , pois, uma instituio necessaria  sociedade burgueza,
e to necessaria como a policia, o exercito permanente, a egreja, etc.

Na Grecia, em Roma e na Edade-Mdia, a prostituio era organisada pelo
Estado, e Santo Agostinho chegou mesmo a affirmar a sua necessidade. A
sociedade burgueza, no s a julgou indispensavel, seno tambem a
regulamentou.

Hgel, na sua historia sobre a _Estatistica e regulamentao da
prostituio em Vienna_, exprime-se do seguinte modo:

Com os progressos da civilisao, a prostituio transformar-se-ha,
adoptando uma frma mais doce e mais conveniente, mas existir emquanto
existir o mundo.

Quaes so as consequencias d'este estado de cousas?

As doenas syphiliticas e a degenerao da humanidade que d'ellas resulta.

O abaixamento progressivo da moral.

A humilhao da mulher e a sua escravido.

O infanticidio e o suicidio das mulheres so devidos, em grande parte, 
prostituio, devendo ainda accrescentar-se que so os orphos e os
filhos bastardos que constituem, tambem, em grande parte, os criminosos
da nossa sociedade burgueza.

A sociedade inteira encontra-se em estado de enervamento e de excitao,
sendo a mulher a victima.

Mulheres ha que sentem e vem claramente a situao, e procuram
remedial-a. Reclamam primeiro a sua independencia economica. Pretendem
ser admittidas em todos os trabalhos e em todos os empregos que a sua
fora physica e a sua capacidade moral lhes permittem; pedindo,
sobretudo, o accesso s chamadas profisses liberaes.

Sero justas e realisaveis semelhantes tendencias?

 isso o que procuraremos demonstrar.

      *      *      *      *      *

O casamento, na antiguidade, era fundado sobre o despreso e a escravido
da mulher; o casamento christo tinha, por principio, a inferioridade e
a servido da mulher; o casamento burguez actual baseia-se sobre a unica
conveniencia dos interesses mercantis e ainda na subordinao da mulher.
Pela primeira d'estas frmas matrimoniaes, o filho era para o pae uma
simples cousa; pela segunda, o seu servo; e pela terceira quasi se pde
dizer que continua sem direito.  indispensavel libertar a mulher e
conceder direitos aos filhos. O casamento futuro ter, por condio, a
escolha revogavel dos interessados, escolha livre e baseada unicamente
sobre as affinidades intellectuaes, moraes e physicas. Assim ficaro
assegurados a felicidade e o aperfeioamento dos conjuges; assim poder
effectuar-se a perpetuao da especie nas melhores condies moraes e
physicas[8]

Todos os socialistas dos partidos operarios so partidarios da
emancipao da mulher, e da manuteno e educao dos filhos pela
Communa ou pelo Estado. A unica divergencia est em saber se, de futuro,
as unies devero ou no ser consagradas pela lei, admittindo todos que
devem ser fundadas sobre a livre escolha dos affectos.

O inconveniente da familia actual no , como querem alguns, a monogamia
que deve considerar-se a frma mais digna da unio dos sexos e que
subsistir, atravez de todas as reformas e innovaes.  antes, a sua
quasi indissolubilidade, a subordinao legal da mulher, e o
rebaixamento do sentimento, pela preoccupao de um mercantilismo vil
que preside aos actos conjugaes.

O congresso internacional de Bruxellas de 1891 affirmou, no seu
programma, a egualdade completa dos dois sexos, e reclamou para a mulher
os mesmos direitos civis e politicos, concedidos aos homens. Como
esposa, como me de familia, como trabalhadora, a mulher  to
interessada como o homem, na confeco das leis. A humanidade compe-se,
por egual, de homens e mulheres, inseparaveis em direitos e eguaes
perante a justia.

      *      *      *      *      *


A MULHER EM RELAO  INDUSTRIA

A burguezia, diz Bebel, concedeu  mulher a independencia individual e o
direito ao trabalho: resultou d'aqui a sua admisso em quasi todos os
ramos da industria.

A burguezia reconheceu que era esse o seu interesse, por isso que o
trabalho da mulher  menos retribuido que o do homem.

E isto porqu?

Porque a mulher foi sempre considerada como um ser subordinado, inferior
ao homem, por causa das suas particularidades sexuaes. Sendo muitas
vezes forada a suspender o seu trabalho, os capitalistas exploraram
habilmente essa circumstancia, como pretexto para o abaixamento do salario.

Alm d'isso, a mulher  mais docil, mais paciente que o homem,
deixando-se tambem explorar mais facilmente do que elle.

D'este modo, a mulher substitue o homem, e, , por seu turno,
substituida pela creana.--Tal  a ordem moral na industria moderna.

Em vista de semelhantes abusos, tem-se j pedido a prohibio completa
do trabalho da mulher.

No esqueamos que o machinismo representou um papel importante na
transformao industrial e que foram justamente os progressos do
machinismo, que, supprimindo os trabalhos mais rudes, tornaram
possivel o emprego da mulher em certos ramos da industria.

S um limitado numero de pessoas, porm, graas ao auxilio dos seus
capitaes, podem aproveitar os resultados que as descobertas scientificas
trouxeram  sociedade; e  revoltante que milhares de operarios sejam
lanados  margem, em virtude dos progressos do machinismo que
substituiu o trabalho manual.

Resulta de tudo isto, que se torna indispensavel mudar as actuaes bases
sociaes, procurando-se a frma de uma distribuio mais equitativa dos
bens e dos instrumentos de trabalho.

Na sociedade nova, os instrumentos de trabalho sero propriedade de
todos, sem distinco de classes nem de sexos. Cada um ser obrigado a
trabalhar, e os melhoramentos e as descobertas technicas a todos
aproveitaro.

A mulher tornar-se-ha egual ao homem, podendo exercer e desenvolver as
suas qualidades physicas e intellectuaes e gosar de todos os seus direitos.

Sustentam alguns que a mulher  inferior ao homem, sob o ponto de vista
intellectual, e que no  susceptivel de uma elevada cultura, sendo,
como , o peso do seu cerebro inferior ao do homem.

Se a mulher  hoje menos intelligente que o homem, provm isso de haver
sido descurada a sua educao. Quanto ao cerebro, no  o peso que lhe 
necessario, mas a boa organisao e o exercicio. Averiguou-se, alm
d'isso, que, em muitos homens notaveis, o peso do cerebro era quasi
egual  mdia dos cerebros femininos.

No dia em que a mulher fr to instruida, to educada e to
desenvolvida, como o homem, n'esse dia ter proclamado a sua
emancipao, pela conquista dos seus direitos civis e politicos, e pela
equiparao do seu salario ao do homem, em todos os ramos da industria.

Para esse estado caminhamos. Na vida da familia, tem-se operado, n'estes
ultimos cincoenta annos, uma verdadeira revoluo. A mulher tornou-se
mais livre, e est menos adstricta s funces de dona de casa. Com o
andar dos tempos chegar a emancipar-se completamente.

      *      *      *      *      *


A MULHER NO ESTADO SOCIALISTA

Na sociedade nova, a mulher, gosando de inteira independencia, no
estar mais exposta a qualquer dominio ou explorao, e tornar-se-ha a
egual do homem. Receber a mesma educao que o homem, excepto nas
especialidades em que a differena de sexo exige uma cultura especial.
Como o homem, ella poder pois, desenvolver livremente as suas foras,
as suas capacidades physicas e intellectuaes, e escolher, para a esphera
da sua actividade, o que fr conforme aos seus gostos e s suas
aptides.

Pelo que respeita ao amor, a mulher gosar de tanta liberdade como o
homem. Poder, pelos mesmos titulos, manifestar os sentimentos que elle
lhe inspirar. Na sua unio, no ser guiada seno pelo amor, como
nos tempos primitivos. Tal unio depender de uma simples combinao
particular, sem o concurso de nenhum funccionario, com a differena de
que a mulher deixar de ser a escrava do homem e no lhe ser dada como
um presente ou uma mercadoria.

Devemos pois, trabalhar para esse futuro proximo que ha de inaugurar o
regimem das unies monogamicas, livremente contractadas, e, em ultimo
caso, tambem livremente dissolvidas, por simples consentimento mutuo, 
semelhana do que se faz j hoje com os divorcios, nos diversos paizes
europeus, em Genebra, na Belgica, na Roumania, etc., e com a separao
na Italia.

O discernimento, a instruco e a independencia facilitaro as unies.
No caso em que a antipathia, o desgosto, e a incompatibilidade de genio
succedessem ao amor, entre o homem e a mulher, a moral impr-lhes-hia o
dever de romperem uma unio, que, no sendo j baseada sobre o affecto,
se havia tornado anormal.

N'uma palavra, sendo supprimida a herana, os casamentos de mero
interesse deixaro de ter uma razo de ser.

      *      *      *      *      *


A PRIMEIRA VICTORIA

As mulheres francesas acabam de alcanar a sua primeira victoria, no
campo politico: o senado adoptou, em primeira leitura, um projecto de
lei que concede  mulher o direito de participar, como eleitora, na
formao dos tribunaes de commercio. Se a camara partilhar esta opinio,
de hoje em deante as mulheres commerciantes podero nomear os seus
juizes.

A 3 de dezembro de 1883, a camara dos deputados tinha de examinar a nova
lei que lhe era proposta, sobre a eleio dos juizes consulares. A
commisso das peties, havia recebido de Madame Maria Deraismes uma
petio, pedindo para que fosse extendido s mulheres este direito de
suffragio. O relator introduziu effectivamente, na lei, uma emenda,
assim concebida: Os membros dos tribunaes de commercio sero eleitos
pelos commerciantes e _pelas commerciantes_... A commisso, porm, por
rases de simples opportunidade, no adoptou esta emenda.

Na sesso de 11 de Maro de 1884, o deputado Hubbard apresentou um novo
projecto, em que se propunha que as mulheres commerciantes tinham pela
lei obrigaes e encargos especiaes inherentes  qualidade da sua
profisso. A commerciante paga, como o commerciante, um imposto
especial, a patente; est submettida s disposies rigorosas da lei
commercial; pde ser declarada fallida e pde ser perseguida por quebra
fraudulenta.  impossivel citar uma unica das obrigaes impostas aos
homens que lhe no incumbam. Estando submettida aos mesmos deveres
especiaes,  justo que aproveite dos direitos especiaes que a lei
confere ao commerciante. E desde que ao commerciante  dado eleger os
magistrados que teem de julgar as suas causas,  commerciante, sob
pena de inferioridade, no pde deixar de ser concedido o mesmo direito.

O relator terminava, affirmando que as mulheres que teem a direco e a
responsabilidade de um estabelecimento commercial, assignalam-se, em
geral, mais que os homens, por qualidades de ordem, de economia e de
probidade.

A 17 de fevereiro, a camara dos deputados tomava em considerao um
relatorio do sr. Colfavru favoravel aos direitos civis da mulher.

Finalmente, em junho de 1889, Ernesto Lefvre, vice-presidente da
camara, com mais 53 dos seus collegas, renovou a iniciativa da proposta,
que tinha por fim conferir s mulheres o eleitorado nos tribunaes de
commercio. A camara tomou-a na devida considerao, elegendo-se uma
commisso de 9 membros, todos favoraveis ao projecto, e, sendo votada a
lei, depois de approvado o relatorio do sr. Colfavru.

Aps quatro annos e meio de demora, acaba tambem o senado de dar o seu
assentimento ao projecto. O tempo pouco faz ao caso. O importante a
registrar, foi o triumpho obtido pelas mulheres, triumpho que no ser
certamente o ultimo, e que , porventura, o primeiro de uma longa serie
de outros a contar e a celebrar.

      *      *      *      *      *


MADAME PAULE MINK

Entre as mulheres que, em Frana, mais se teem distinguido na gloriosa
campanha, em favor da emancipao da mulher, seria ingratido esquecer
Madame Paule Mink, que, ainda nas ultimas eleies, foi apresentada como
candidata  deputao por Paris.

       [Gravura: M.me Paule Mink]

Conheci-a, em Madrid, por occasio do centenario de Colombo. Era
delegada ao congresso dos livres pensadores e fra-me recommendada por
Benoit Malon e P. Argyriads.

Modesta, despretenciosa e dedicada, Madame Paule Mink tem sido para
muitos uma incomprehendida, mas  seguramente para todos um bello e
luminoso talento, engastado n'um corao de oiro.

Quem a visita, na sua casa de Paris, encontra-a sempre rodeada das suas
gentis filhas que estremece e adora, e absorvida pela leitura dos seus
authores predilectos.  uma me disvelada e terna e uma companheira leal
e affectuosa.

Madame Paule Mink fez parte da Communa de Paris, e ainda ultimamente,
por occasio da greve de Pas de Calais, foi presa, no momento em que se
preparava para fazer uma conferencia, e depois julgada e condemnada.

As perseguies teem-lhe avigorado ainda mais, se  possivel, as
convices purissimas. Nada a contraria e nada a desalenta. Faz
consistir toda a sua felicidade, no amor de seus filhos e na dedicao
pela causa a que se entregou de corpo e alma.  uma altruista, no bom e
verdadeiro sentido da palavra. No conhece obstaculos e no conhece
sacrificios. Nem as privaes, nem as difficuldades da vida, lograram
jmais perturbar-lhe o animo ou aniquilar-lhe a vontade indomavel. No 
s uma mulher forte;  tambem um grande e superior caracter, e, n'este
duplo aspecto, reside o segredo do seu poder, como evangelista e como
propagandista da causa social.

      *      *      *      *      *


P. ARGYRIADS

No encerraremos j agora este capitulo, sem prestar uma homenagem
devida a P. Argyriads, pelo servio que prestou  democracia
socialista, com a traduco analytica da bella e gloriosissima obra de
Augusto Bebel--_A mulher e o Socialismo._

Alto, forte, robusto, dotado de um temperamento excepcional e de
qualidades verdadeiramente superiores, Panagiotis Argyriads nasceu em
Castoria, na Macedonia, a 15 de agosto de 1852. Em 1872, installou-se em
Paris, fazendo-se inscrever na faculdade de direito. Em 1878, assistiu,
como representante da Grecia, ao congresso dos orientalistas que se
realisou n'aquella cidade, e, no anno seguinte, ao de Londres, tambem
como delegado do seu paiz. Em 1875, publicou um interessante
opusculo sobre a _Pena de morte, considerada sob o ponto de vista
philosophico, moral, legal e pratico_, que teve as honras de ser citado,
na tribuna do senado, por Victor Schoelcher. Foi depois d'esta bella
estreia que se entregou inteiramente ao socialismo. Naturalisou-se
francez, em 1880; e d'esta poca em diante, assignalou-se no fro, pela
defeza de muitas causas importantes que, ao mesmo tempo, lhe grangearam
renome e gloria. Em 1883, foi elle quem organisou a manifestao em
honra de Flourens; mais tarde, foi ainda, pela sua iniciativa, que se
provocou o protesto publico contra a chegada a Paris do rei Affonso XII
que acabava de ser nomeado coronel de uhlanos. Em 1885, fundou _La
Question Sociale_, a popularissima revista que todos conhecem e que to
relevantes servios tem prestado aos principios socialistas.

       [Gravura: P. Argyriads]

O _Almanach de la Question Sociale_ que  o melhor, no seu genero, que
se publica na grande capital da Frana, vae j no seu quarto anno, e foi
fundado com eguaes intuitos e eguaes aspiraes.  um excellente
repositorio do actual movimento socialista, e recommenda-se a todos os
que se interessam pelo estudo e pela soluo dos problemas sociaes.

Tambem lhe  devido o numero commemorativo da _Manifestao do 1. de
Maio_ que, nos dois ultimos annos, se publicou em Paris.

P. Argyriads reside em Autenil, numa deliciosa e aprasivel vivenda, a
vinte minutos dos Campos Elyseos. A sua casa  o ponto de reunio de
todos os escriptores e pensadores socialistas. Foi ali que eu, pela
primeira vez, travei conhecimento com Allemane, um glorioso trabalhador
e um chefe incontestado; foi ali, em almoos intimos, e numa dce e pura
confraternidade, que tive o inolvidavel prazer de estreitar relaes com
alguns dos principaes vultos do socialismo moderno--com Pierre Lavroff,
o honrado revolucionario russo, um convicto e um fanatico; com Adolphe
Tabarant, o auctor do _Pequeno cathecismo socialista_, um poeta
adoravel, e um espirito vivo e scintillante; com Paul Cassard, o
intrepido e valente redactor do _Peuple_, de Lyon; com Aurelien Scholl,
o mais delicioso e original conversador que temos encontrado, a prosa
transformada em arte, a palavra feita esculptura; com Sanial, um
americano, trazendo ao socialismo as lies da sua experiencia e as
observaes da sua longa pratica na vida; com Duc-Quercy, to
attrahente pela sua physionomia energica e communicativa, como pelo seu
caracter firme e decidido; e com tantos outros cujos nomes constituem a
immensa e gloriosa pleiade de publicistas, de revolucionarios e de
combatentes que bem poderiamos denominar a ala dos namorados do Bem, da
Verdade e da Justia.

A estas pequenas festas de familia preside de ordinario uma senhora que
occulta, sob o pseudonymo de Marianne, um bello e juvenil talento de
escriptora, e que, alm de me disvelada e de esposa extremosa,  tambem
a companheira gentilissima do nosso querido e honrado amigo:  M.me
Argyriads.

Juntos os dois esposos formam como que um nucleo de propaganda
socialista, de uma influencia decisiva e de um largo e elevado alcance.
O socialismo internacional e cosmopolita no tem, seguramente, em
Frana, melhor vulgarisador nem mais dedicado e intelligente
apostolo!




VI

A SOCIEDADE NOVA


A TRANSFORMAO SOCIAL IMPE-SE.--O QUE  O COLLECTIVISMO.--O ESTADO
SOCIALISTA, SEGUNDO AUGUSTO BEBEL, E BENOIT MALON.--A LEGISLAO DIRECTA
PELO POVO.--A SOCIALISAO DOS MONOPOLIOS.--HECTOR DENIS, GUILLAUME DE
GREEF E EMILE DE VANDERWELDE.--A NOVA GERAO PORTUGUEZA.--JOS FONTANA
E SOUSA BRANDO.

J n'outro logar o dissmos: o socialismo desenvolve-se, por toda a
parte, de uma maneira espantosa. Nas eleies geraes para deputados, de
1889, obteve o partido socialista, em Frana, 90:000 votos nas ultimas
eleies de 1893, elevou-se essa votao a 500:000 votos, cabendo a
Paris 226:000. Na Inglaterra, o paiz do individualismo, conseguiram os
socialistas levar ao parlamento onze deputados, na eleio de 1892. A
limitao das horas de trabalho e a garantia obrigatoria nos accidentes,
so uma prova provada da importancia e da influencia d'esse grupo, na
camara dos communs. Na Austria, e especialmente na Bohemia e na Silesia,
o partido operario dispe de uma forte organisao. Na Suissa,  frente
do seu programma, inscrevem os socialistas o direito ao trabalho;
na Dinamarca, pela eleio de 1893, foram sete socialistas eleitos para
o conselho municipal de Copenhague; em Frana, por duas vezes, no mez de
Janeiro corrente, esteve o governo da republica ameaado de dar a sua
demisso: a primeira vez pela proposta de Paschal Grousset, o antigo
communista e um pamphletario destemido, sobre a amnistia, e a segunda
vez pela emenda de Jaurs, um pensador e um parlamentar distinctissimo,
cerca da converso dos titulos da divida publica. Emfim, no ha j hoje
governo ou individuo, qualquer que seja a sua posio ou fortuna, que
no acompanhe ou se no interesse pela soluo dos problemas sociaes. O
exercito do futuro  cada vez mais numeroso. Sobre o fundo vermelho da
sua bandeira, desfraldada aos ventos, destaca-se esta divisa, escripta
em letras de fogo: _Emancipao de todos os opprimidos e de todos os
explorados. Renovao total, pela bondade, pelo amor, pela sciencia,
pela justia e pela solidariedade._

A todos se afigura no s _possivel_, seno tambem inevitavel uma
revoluo social.

Luiz Blanc dizia-o ha cincoenta annos, dirigindo-se  burguesia franceza.

Deve tentar-se uma revoluo social:

1.--Porque a actual ordem social est cheia, em demasia, de
iniquidades, de miserias e de servides, para que possa durar muito tempo;

2.--Porque no ha ninguem que deixe de ter interesse n'uma nova ordem
social;

3.--Porque, emfim, esta revoluo, to necessaria,  possivel e
at facil de se proclamar pacificamente.

Assim fallava o eloquente author de _L'histoire de dix ans_, ha meio
seculo. De ento para c, os factos teem-lhe dado raso. A transformao
social impe-se a todos os espiritos, a todos os paizes e a todos os
governos, e isto explica, at certo ponto, o motivo porque o socialismo
est tanto em voga e porque o perfilham e adoptam os povos modernos, no
s por intermedio dos seus pensadores mais notaveis, seno tambem pelos
seus representantes de classe e pelos interpretes da opinio popular.

      *      *      *      *      *


O QUE  O COLLECTIVISMO

Toda a theoria, como toda a civilisao, diz Benoit Malon, tem a sua
dominante, pela qual se julga e afere. A dominante da sociedade
contemporanea encontra-se na pratica do individualismo universal, pelo
odioso _cada um para si e pela guerra de todos contra todos_.

De todas as questes que o socialismo pretende resolver, , sem duvida,
a questo da propriedade a mais importante. Da sua soluo depende o
juizo a fazer sobre o pensamento social contemporaneo. O collectivismo
derivou do modo de conceber a apropriao das cousas. Ha mais de
quarenta annos que os socialistas procuram explicar a significao
d'esta palavra, e, sem embargo, o vulgo ainda muitas vezes confunde
o collectivismo com o communismo, no obstante haver uma differena
radical entre um e outro.

No _communismo_, as foras productoras e os productos, postos em commum,
ficam sob a gesto directa do Estado; o _collectivismo_ no  seno a
inalienabilidade das foras productoras, collocadas sob a tutella do
Estado, que, por seu turno, as confia, temporariamente e mediante
indemnisao, aos grupos profissionaes. N'estes grupos a repartio
faz-se pelo _prorata_ do trabalho. O consumo  inteiramente livre. Cada
um gasta, conforme lhe apraz, o equivalente que lhe cabe, do producto do
seu trabalho, depois de satisfeitos os encargos sociaes.

O collectivismo  pois, uma concepo socialista que comporta:

1.--A apropriao em commum, mais ou menos gradual, da terra, dos
instrumentos de produco e da troca;

2.--A organisaao corporativa, communal ou geral, da produco e da troca;

3.--A faculdade para cada trabalhador de dispr, a seu bel prazer, do
equivalente de maior valor por elle creado;

4.--O direito ao desenvolvimento integral para as creanas; o direito 
existencia para os invalidos do trabalho; e a garantia, para todos os
validos, de um trabalho remunerador na associao da sua livre escolha.

Querer isto--affirma muito bem Malon--no  perfilhar os erros do
communismo utopico:  combinar simplesmente a necessidade do concurso
para a produco com a justia economica e as justas exigencias da
liberdade humana.

      *      *      *      *      *


O ESTADO SOCIALISTA, SEGUNDO AUGUSTO BEBEL

No se destre radicalmente seno aquillo que se substitue--dizia
Danton, na sua phrase grandemente revolucionaria.

O Estado socialista oppe:

1.--_ao estado de guerra, a paz internacional e a federao dos povos;_

2.--_aos antagonismos economicos, a organisao solidaria da produco
e da distribuio das riquezas;_

3.--_ ignorancia, a universalisao do saber e a cultura moral._

Todos os pensadores progressistas so pois, accordes em reconhecer que
os Estados socialistas, de um futuro mais ou menos proximo, ho de ser
formados por republicas federadas, que, em si mesmo, no sero outra
cousa, seno uma estreita federao de communas, engrandecidas e
transformadas, politica e socialmente. Para essa concepo de frmas
sociaes superiores se dirigem presentemente todas as vistas e todas as
escholas. S os processos variam, segundo o individuo que os emprega ou
segundo o meio em que teem de actuar.

Vejamos, primeiro, como Augusto Bebel, um socialista republicano,
segundo a sua propria confisso, concebe as relaes sociaes que ho de
vigorar n'um regimen socialista, isto , n'uma sociedade futura.

       [Gravura: Augusto Bebel]

A.--_A expropriao capitalista inherente ao novo regimen, ser feita em
proveito de todos e no interesse de toda a sociedade. Realisada esta
expropriao, a sociedade assentar em novas bases e a existencia humana
mudar por completo. A organisao actual tornar-se-ha inutil, e o
proprio Estado se tornar desnecessario, tendendo a desapparecer, como
desappareceram as religies, desde que deixou de existir a crena no
sobrenatural._

B.--_A lei fundamental da sociedade socialista  o trabalho para cada um
dos seus membros sem distinco de sexo._

Esta lei  justa e necessaria. Em primeiro logar, ninguem pde
satisfazer as suas necessidades sem trabalhar. Sendo valido, ninguem tem
o direito, por outro lado, de viver do trabalho do seu semelhante.

A organisao da sociedade, fundada sobre a liberdade e a legalidade, na
qual cada um responde por todos assim como todos respondem por cada um,
suscitar um sentimento de solidariedade, uma emulao e um desejo de
trabalho at hoje desconhecidos. D'esta frma o trabalho tornar-se-ha
mais productivo e o producto aperfeioar-se-ha.

A falta de trabalho, to frequente nos nossos dias, no poder existir
na sociedade futura, que apenas produzir para consumir, em harmonia com
os principios de justia e tendo sempre em vista o bem geral.

C.--_Na sociedade futura, a produco, mudando de frma, far
desapparecer o commercio, apanagio da sociedade actual._

Em vez dos milhares d'intermediarios que hoje existem, teremos os
grandes estabelecimentos, e o transporte dos productos far-se-ha por uma
frma completamente nova.

D.--_Na nova organisao as terras sero propriedade commum, assim como
o foram j no comeo da civilisao, mas com frmas sociaes superiores._

O bem estar de uma populao depende do grau de cultura que o slo
attingir. Emquanto a terra se conservar como propriedade privada, nunca
a cultura se aperfeioar. Os pequenos proprietarios no dispem para
isso dos meios necessarios, e os grandes proprietarios, com as suas
florestas e os seus parques, deixam por cultivar uma grande parte das
suas terras.

Pela frma indicada desapparecer o contraste secular entre a populao
das cidades e a populao dos campos.

E.--_Com a expropriao do slo e dos instrumentos de trabalho,
desapparecer um grande numero de abusos e de males que nos affligem na
organizao actual._

O que determina hoje a posio dos homens, na sociedade,  a quantidade
maior ou menor de dinheiro que possuem. No futuro estado socialista, a
sociedade far tudo por si mesmo. Nem as pessoas nem as classes podero
prejudicar-se entre si. O estado, tornando-se inutil, desapparecer. No
haver pois, nada a governar nem a supprimir ou a opprimir.

Com o Estado desapparecer naturalmente tudo o que o representa:
ministros, parlamentos, policia, prises, exercito permanente,
procuradores, advogados, n'uma palavra, todo o apparelho da dominao
politica. A sociedade ficar na plena posse de si mesmo.

F.--_Na organisao actual reclama-se, para todos, o mesmo nivel
d'instruco e de educao._

Ora esta egualdade  impossivel no regimen burguez, conforme o demonstra
Augusto Bebel. Para receber uma instruco mediana  preciso ter
dinheiro e vagar. No Estado socialista as condies do desenvolvimento
physico, moral e intellectual sero as mesmas para todos. Cada um poder
pois, instruir-se e viver, conforme as suas aptides e os seus gostos.

G.--_Sob o regimen futuro a vida social tornar-se-ha publica._

So os factos que o provam. A vida tem-se modificado sensivelmente
n'estes ultimos dez annos. A existencia torna-se cada vez menos
familiar, e, em pouco, ser passada inteiramente nas officinas, nos
campos, e nos locaes publicos, destinados ao estudo e  instruco.

H.--Bebel diz que, sendo melhoradas e augmentadas as vias de
communicao na sociedade futura, as viagens de instruco tornar-se-ho
mais faceis do que succede no actual regimen. O trabalho ser regulado,
de modo a permittir a viagem, ao mesmo tempo, de prazer e de estudo.

Quanto aos velhos, aos invalidos, e aos doentes, quando j no possam
trabalhar, a sociedade fornecer-lhes-ha os meios indispensaveis 
existencia.

As doenas tomar-se-ho mais raras, por isso mesmo que a vida ser mais
regular. A alimentao ser preparada scientificamente nos
estabelecimentos publicos. A vida de familia ser transformada por
completo.

Bebel diz ainda que o socialismo no pde ser realisado por um povo,
isoladamente.  primeira vista parece que o principio das nacionalidades
domina o mundo. Mas  um erro. O internacionalismo cosmopolita comea
realmente a penetrar nas populaes. Todos os povos se encontram nas
mesmas condies sociaes. Por toda a parte se observam as mesmas luctas
de classes que sero decisivas antes do fim do seculo XIX.

No novo estado social, fundado sobre bases internacionaes, as naes
civilisadas formaro uma federao d'onde ser banida a guerra. A paz
universal no  um sonho nem uma aspirao de visionarios. Um progresso
dar logar a outros progressos, e a humanidade avanar sem cessar para
um ideal de perfeio illimitada.

      *      *      *      *      *


O ESTADO SOCIALISTA, SEGUNDO BENOIT MALON

A noo de patria encerrou-se primeiro na _tribu_; depois na _cidade_;
mais tarde na _provincia_, e por ultimo na _nao_. Porque  pois, que a
patria no ha de ser _continental_ ou _intercontinental_
(europeio-americana) e finalmente _planetaria_?

A philosophia antiga dizia: _Dignidade, Moderao, Virtude;_ o
Christianismo: _F, Esperana, Caridade;_ o boudhismo: _Vontade,
Justia, Affinidade;_ o XVIII seculo: _Investigao, tolerancia,
sensibilidade;_ a revoluo franceza: _Liberdade, egualdade,
fraternidade;_ o socialismo utopico: _Dedicao, solidariedade,
harmonia;_ o socialismo integral ter por divisa: _Justia,
fraternidade, solidariedade._

Taes sero os principios do Estado social do futuro, no conceito de
Benoit Malon.

No nos accuseis de utopista, diz elle. Possuimos o _saber_ e a
_actividade_; o que nos falta  a _doutrina_ e a _boa vontade_. Nas
federaes europeia, americana e planetaria do futuro, estas quatro
foras estaro unidas, e, pelo seu poder, constituiro a origem da
felicidade e tendero a suavisar, no interesse de todos os seres, a
crueldade da situao actual.

Como politica, o socialismo aconselha: o emprego de todos os meios de
lucta: a resistencia economica (grve); voto; e, sendo necessario,
a fora, a geradora das sociedades novas, no dizer de Marx.

To longe no ia decerto Malon. Elle no renegou nunca o espirito
revolucionario que reputava indispensavel  existencia e  disciplina
dos partidos operarios. Mas estava persuadido que o convencimento e a
persuaso valiam mais que a fora, como elementos de propaganda e de
transformao social.

Vejamos qual era a sua concepo, sobre o Estado socialista, pela
socialisao dos monopolios. Mas antes d'isso fallemos rapidamente n'um
outro artigo, tambem do seu programma.

      *      *      *      *      *


A LEGISLAO DIRECTA PELO POVO

Charles Burkli apresentou, sobre este assumpto, ao congresso de Zurich,
uma proposta muito notavel e muito bem deduzida:

O congresso, considerando que a lei  o interesse escripto do
legislador; que na legislao a determinante deve ser o interesse do
povo; que os corpos representativos, segundo a experiencia, representam
mais os capitalistas do que os operarios; e que as leis, por
conseguinte, se fazem a favor do capital, em detrimento da classe
operaria; que o parlamentarismo, em toda a parte onde domina sem
limites, conduz  corrupo e ao ludibrio do povo; e que s pela
interveno directa na legislao  que o povo adquirir a
consciencia da sua fora, condio indispensavel  liberdade da classe
operaria:

Declara que  uma condio preliminar da suppresso de todo o dominio
de classe, que as classes operarias intervenham, como o mais poderoso
meio de combate politico, a favor da legislao directa pelo povo,
segundo a qual o povo exercer o direito de proposio para as leis
(iniciativa) e o direito da votao das leis (referendum).

Foi Mauricio Rittinghausen o instigador d'esta ideia e o seu
propagandista mais authorisado.

Convencido que s o collectivismo na legislao, isto , a participao
de todos na confeco das leis, pde corresponder ao collectivismo da
propriedade, e que nunca chegaremos a este segundo meio, a no ser por
intermedio do primeiro: convencido ainda que o systema representativo,
embora fira o privilegio, no resolver nunca a questo social;
Rittinghausen tentou construir sobre este principio um systema
governamental que tornou applicavel s grandes naes modernas,
compostas de milhares de individuos, e foi este o systema que elle
intitulou _a legislao directa pelo povo_.

Foi a 8 de setembro de 1850, que appareceu, na _Dmocratie Pacifique_, o
primeiro dos tres artigos intitulados--a legislao directa pelo povo ou
a verdadeira democracia. Rittinghausen viu-se logo atacado por Luiz
Blanc, Emile de Girardin e Proudhon. Mas teve por si o apoio das massas.
Poucos mezes depois, mais de trinta e seis jornaes defendiam a nova
theoria. Proudhon publicava, por esse tempo, a sua grande obra:
_Ide gnrale de la Rvolution_, e dizia:--Supponhamos que  esta a
questo: O governo ser directo ou indirecto?--A avaliar pelo successo
que acabam de ter, para a democracia, as ideias de Rittinghausen e
Considerant, quasi se pde affirmar, com uma quasi certeza, que a
resposta da grande maioria ser pelo governo _directo_...

Aps longos annos de lucta, Rittinghausen logrou ver inscripta a
legislao directa, no programma da democracia socialista allem,
approvado pelo congresso d'Eisnach, em agosto de 1869.

S em 1868, porm, foi a legislao directa, introduzida em Zurich, por
Charles Burkli, o mesmo que apresentou ao congresso de 1863 a proposta a
que acima nos referimos.

Mauricio Rittinghausen nasceu em Huckeswagen (Allemanha) a 12 de
Novembro de 1814 e falleceu em Ath (Belgica) a 29 de dezembro de 1890.

O systema parlamentar deu j, por toda a parte, o que tinha a dar. A
legislao directa pelo povo  o unico systema governamental que
corresponde, em politica, s exigencias e s necessidades do socialismo
moderno.

      *      *      *      *      *


A SOCIALISAO DOS MONOPOLIOS

O direito  existencia deve ser fundado sobre o direito ao trabalho. Por
seu turno o direito ao trabalho engendra a organisao social do
trabalho, d'onde deriva a necessidade de um _ministerio do trabalho_.

As attribuies d'este ministerio seriam:

1.--A applicao rigorosa das leis industriaes, melhoradas e completadas;

2.--A reorganisao do trabalho das prises, de molde a proteger os
interesses do trabalho livre, e a tornar mais justas, mais humanas e
mais moralisadoras as relaes entre a administrao e os condemnados;

3.--O estabelecimento de um servio especial de estatistica, que sirva
de informao aos productores (operarios e patres) e aos commerciantes,
cerca das condies do mercado do trabalho e da troca;

4.--Reorganisao do trabalho nas manufacturas e outros
estabelecimentos do Estado;

5.--Instituio de uma camara operaria consultiva do trabalho, em bases
rigorosamente corporativas, e de uma camara do commercio e da industria,
destinada a apresentar os projectos que teriam de ser discutidos em
publico;

6.--Instituio de um grande conselho arbitral, eleito em parte pelos
syndicatos operarios, e em parte pelos syndicatos dos patres e pelas
camaras de commercio, e que se pronunciaria sobre todas as questes
economicas a elle submettidas pelas partes interessadas;

7.--A reorganisao do ensino agricola, industrial e commercial;

8.--A reorganisao dos trabalhos publicos, comportando a constituio
de exercitos industriaes, de quadros permanentes mas de pessoal
variavel, e que poderiam ser quadruplicados em certas estaes e
redobrados em pocas de crise;

9.--A fundao de colonias agricolas e viticolas;

10.--O exercicio racional da fora de ponderao, afim de attenuar ou
prevenir as crises, de regularisar o mercado e de preparar a organisao
social do trabalho.

A reorganisao do credito far-se-hia, lanando um pesado imposto sobre
a agiotagem, abolindo as leis que permittem a emisso de titulos ao
portador e a formao das sociedades anonymas, e prohibindo a especulao.

Por seu turno, a reorganisao judiciaria realisar-se-hia por uma
justia prompta, simplificada e gratuita.

Emfim, todas as questes de finanas e de credito seriam resolvidas pela
nacionalisao dos bancos.

Mas estas reformas tornar-se-hiam irrealisaveis, se a collectividade,
Estado ou Communa, conforme os casos, no procedesse  transformao, em
servio publico productivo, dos monopolios de facto que gera
espontaneamente o systema capitalista, e a que chamaremos a SOCIALISAO
DOS MONOPOLIOS.

A regra effectivamente, estabelecida pela theoria do socialismo,  a
seguinte: desde que uma industria ou o principal elemento de uma
industria, passa, pela sua natureza e pelo seu desenvolvimento, ao
estado de monopolio, constituindo uma poderosa agglomerao de foras
productoras, incumbe  collectividade exploral-a em _rgie_ ou
fazel-a explorar, sob a sua direco, mediante indemnisao.

D'este modo, alm dos monopolios do Estado j constituidos, figuram, na
primeira linha, os caminhos de ferro, as minas, os poos de petroleo, as
fontes de aguas mineraes, os canaes, as fabricas de armas, os grandes
fornos, as companhias de vapores, as grandes officinas de machinas, que,
por seu turno, devem ser collocados sob a direco do Estado e
transformados gradualmente em _servios nacionaes_ productivos.

Esta socialisao dos organismos dominantes da produco e da viao,
tem o seu complemento logico e inevitavel na _communalisao_ dos
monopolios urbanos, que, por sua vez, seriam tambem transformados em
servios communaes. N'esta cathegoria entram:--a illuminao (gaz e
electricidade); os transportes em commum (omnibus, tramways,
carruagens); o servio das aguas (fornecimento, banhos e lavatorios
communs), os grandes armazens; os servios de proviso (padarias e
talhos municipaes), o servio pharmaceutico e a habitao.

A organisao dos servios communaes presuppe uma completa
reconstituio communal, baseada sobre uma populao de cinco mil
habitantes, pelo menos.

Uma sociedade, onde se tivessem operado semelhantes
transformaes--conclue Benoit Malon--teria progressiva e pacificamente
vencido a miseria e a ignorancia, organisando socialmente o trabalho,
creando uma nova consciencia social, fundada sobre as bases
indestructiveis da liberdade politica, da justia economica e da
solidariedade humana.

_Muitos sero os chamados e poucos sero os eleitos_--dizia a antiga
formula christ. _Todos sero chamados e todos sero eleitos_--tal  a
divisa da moderna escola socialista.

      *      *      *      *      *


HECTOR DENIS, GUILLAUME DE GREEF E EMILE DE VANDERWELDE

Por _socialismo integral_ deve entender-se o socialismo encarado sob
todos os seus aspectos, em todos os seus elementos de formao, e com
todas as suas possiveis manifestaes.

O sentimento no abdicar nunca, e ser sempre o primeiro mobil dos
actos humanos--disse-o Claude Bernard na sua _Philosophia experimental_.

_Faz socialismo_ o sabio, o pensador, que, ao cabo das suas longas
investigaes sobre a natureza das cousas, descobre o mysterio da
evoluo universal.

_Faz socialismo_ o inventor, quando applica as foras productoras do
homem, favorecendo a multiplicao dos productos e diminuindo, ao mesmo
tempo, a durao e as agruras do trabalho.

_Faz socialismo_ o escriptor quando no livro, no drama ou no jornal, faz
a apotheose dos sentimentos de justia para com os homens e de piedade
para com os animaes.

_Faz socialismo_ todo aquelle que combate pela liberdade.

_Faz socialismo_ o altruista que passa a sua existencia, fazendo o bem,
soccorrendo, consolando e fortalecendo os que soffrem e os que so
desventurados.

_Faz socialismo_ o poeta, quando canta o heroismo, a bravura, o
desinteresse e consagra as grandes e supremas virtudes civicas.

_Faz socialismo_ o professor, quando  orthodoxia das velhas formulas
inuteis, antepe o sagrado ideal de emancipao humana, prgando-o e
ensinando-o aos seus discipulos.

Emfim, o socialismo j no  apenas uma doutrina abstracta. O socialismo
faz-se e pratica-se por toda a parte: por sentimento uns, por convico
muitos, por raciocinio outros e por necessidade todos. E d'ahi a grande
variedade de escolas e um sem numero de theorias e de programmas.

Mas, em nosso juizo,  o socialismo professoral ou cathedratico aquelle
que mais tem concorrido para o desenvolvimento da ideia emancipadora, no
seio das sociedades modernas. E entre os principaes apostolos da escola,
seria erro imperdoavel esquecer os professores belgas que to grande
relevo teem sabido dar s doutrinas socialistas. No fallando j no
fallecido Emile de Laveleye, o mais celebre dos economistas
contemporaneos e auctor de um livro que se tornou classico--_Da
propriedade e das suas frmas primitivas_, cumpre-nos mencionar aqui
Hector Denis, Guilherme de Greef, o sabio auctor da _Introduco 
sociologia_, e Emile de Vanderwelde que, sendo advogado, pertence,
todavia, a esse glorioso grupo.

A Universidade livre de Bruxellas conta, no seu seio, dois
socialistas--Hector Denis e Guilherme de Greef, e um anarchista--Elise
Reclus.

       [Gravura: Emile de Vanderwelde]

Esto ainda na memoria de todos os recentes acontecimentos, que se
originaram pela suspenso official do curso de Elise Reclus. Os
estudantes tomaram uma parte activa no assumpto. Hector Denis, o reitor
da Universidade, demittiu-se, e Guilherme de Greef interveiu a favor dos
que protestavam contra a interveno dos poderes publicos. O governo
viu-se obrigado a reconsiderar, e o socialismo sahiu mais uma vez
triumphante da lucta.

Na campanha figurou tambem Emile de Vanderwelde, antigo alumno da
Universidade, um nobre e generoso espirito e auctor de um bello estudo
sobre _os parasitas organicos e os parasitas sociaes_.

Emile de Vanderwelde exerce, sobretudo, uma aco espiritual sobre o
socialismo belga. A sua influencia  enorme, e o seu prestigio cresce e
augmenta de dia para dia.

      *      *      *      *      *

Entre os socialistas cathedraticos, ha uma escola moderada que aspira 
implantao da theoria socialista por uma transformao gradual e lenta
da sociedade actual. Assim, so alguns de opinio que, para se chegar 
completa abolio da propriedade, se dever principiar pela abolio da
grande propriedade que estabelece um desequilibrio economico no mundo,
concentrando e monopolisando nas mos de alguns os capitaes e os
recursos que deveriam estar nas mos de todos. Outros fazem distinco
entre a propriedade industrial e a propriedade agricola, reclamando a
suppresso da primeira e conservando a segunda, visto mediar uma enorme
distancia entre o industrialismo e a agricultura.

Succede o mesmo com relao  grande e  pequena industria e com relao
s heranas. N'este ponto divergem tambem muitos socialistas, querendo
uns a extinco total das heranas, alm de uma certa quantia e
revertendo o excedente para o fundo da educao nacional, contentando-se
outros apenas, com a sua extinco immediata em linha collateral.

Como quer que seja, ha um ponto fundamental em que todos esto de
accrdo--a negao do existente.  indispensavel pois, destruir o que
est para o substituir. E a reconstruco social ser tanto mais facil,
quanto maior fr o numero de ideias emittidas. Da variedade de
theorias  que hade resultar a unidade do conjuncto. E a lucta travada
entre o capitalismo e o proletariado ainda mais apressar e favorecer a
soluo do problema.

      *      *      *      *      *


A NOVA GERAO PORTUGUEZA

A evoluo que, n'estes ultimos annos, se tem operado na parte s,
intellectual, deixem-me dizer assim, da nova gerao portugueza,  muito
digna de registar-se.  frente d'esses moos estudiosos e enthusiastas,
encontra-se Fernando Martins de Carvalho, um grande e solido talento,
disciplinado pelo estudo da philosophia moderna e educado na convivencia
dos grandes mestres da sciencia social.

A tendencia federalista e socialista accentua-se na nova gerao
portugueza, como um resultado da corrente internacionalista que, por
toda a parte, se impe e affirma, e como uma consequencia logica e
necessaria das ideias do nosso tempo.

Prova este facto que marchamos para a conquista de um novo ideal e que a
politica, entre ns, vae perdendo o seu antigo caracter sentimental e
jacobino, para se transformar n'uma soluo organica, positiva, liberal
e moral.

Procedendo assim, a nova gerao portugueza affirma a sua solidariedade
com o movimento social moderno e mostra-se em tudo digna e  altura
dos grandes problemas que agitam a sociedade.

Parabens muito sinceros a todos esses bons e leaes companheiros, e, em
especial, a Fernando Martins de Carvalho, o chefe incontestado da
gloriosa crusada!

Os periodos que vo lr-se representam mais do que um simples estudo ou
uma simples aspirao: so, para assim o dizer, o programma ou o
manifesto dos novos. Por isso julgmos que tinham aqui o seu logar, e
que seria de summa utilidade reproduzil-os, embora n'elles se notem umas
lisongeiras referencias  minha pessoa que no posso nem devo attribuir
seno  muita bondade de Martins de Carvalho.

      *      *      *      *      *

A aproximao do individualismo economico do individualismo politico 
o resultado de uma viciosa associao de ideias. A sociologia moderna
deve acceitar o individualismo, como soluo politica, e o communismo,
como soluo economica. Nem ha qualquer conflicto entre estas duas
formulas, restrictas aos campos proprios:--o _neminem laede_, essa
formula fundamental do individualismo, tem evidentemente consequencias
communistas; no lesar a ninguem  no tolher a ninguem a apropriao do
necessario, no  apenas no perturbar ninguem na sua situao actual,
justa ou injusta. Spencer, que generalisou a economia orthodoxa na
sociologia,  decididamente individualista e affirma a tendencia
evolutiva para a propriedade social.

Do primitivo communismo genealogico, de caracter familiar, passou-se
para o communismo local, dos que habitam o mesmo territorio. Dos
communismos das tribus passa-se para o communismo universal, para a
confederao de todas as communas.

A passagem de uma a outra frma do communismo deu logar ao
individualismo economico, a desintegrao, successiva e gradual, do
communismo genealogico, desde o condominio familiar at  simples quota
legitimaria dos parentes. O individualismo no poder ser uma integrao
social; os elementos que elle dispersou precisam de se integrar n'uma
nova frma communista.

A evoluo social realisa-se em virtude da lei do uso e do desuso, de
que deriva a diviso do trabalho, e que  o principio fundamental do
transformismo, em que se accentua hoje uma renascena lamarckista.
Lamarck deveria ter applicado aquella lei, que applicou s aos
organismos individuaes, tambem directamente aos organismos collectivos,
s especies. A influencia do uso e do desuso actua sobre os orgos dos
organismos individuaes, mas actua tambem sobre os organismos
individuaes, como orgos dos organismos collectivos. A doutrina da
seleco natural no representa seno uma tentativa para applicar 
differenciao das especies a lei do uso e do desuso; na seleco
social, uma frma da seleco natural, desapparecem todos os inuteis,
embora as subsistencias cheguem para todos. A evoluo realisa-se
pela differenciao estructural das massas organicas primitivas,
constituindo os organismos individuaes; pela differenciao dos
organismos individuaes formando o protoplasma social primitivo, em
variedades, especies, reinos. Uma especie constitue-se organicamente
pela successo de frmas cada vez mais perfeitas da diviso do trabalho,
pela formao de uma solidariedade social, generalisando-se gradualmente
dos pequenos grupos s raas, e a toda a especie;  concorrencia vital
dentro das especies succede-se a concorrencia vital com outras especies,
at que umas e outras entrem n'um hyper-organismo superior, que ir at
estabelecer a solidariedade de toda a existencia.

A sociedade, que comeou a sahir da primitiva homogeneidade communista
pela anthropophagia, com manifestaes juridicas notaveis, como por
exemplo a condemnao do criminoso a servir de alimento  tribu,--pelas
frmas parasitarias e commensalistas, vae pouco a pouco aproximando-se
da frma superior da diviso do trabalho,--o communismo, que  a frma
de repartio nos organismos perfeitos--a cada orgo segundo as suas
necessidades.

 medida que esta evoluo se realisa a concorrencia social torna-se
cada vez menos intensa; o parasitarismo interno da especie transforma-se
em parasitarismo com relao s outras especies. As profundas
differenciaes anthropologicas, produzidas pelas velhas frmas
parasitarias da constituio social, vo-se attenuando. A analogia real
da sociedade com o organismo, que tem sido muito exaggerada e tem
dado logar a mil hespanholadas scientificas, a doutrinas muito
estheticas que se tem destacado por gemmiparidade das theorias de Comte
e Spencer, no nos pde levar a idealisar a sociedade futura como a
perfeita reproduco do organismo individual, com a sua forte
differenciao de estructura, a sociedade  um organismo superior, que
reproduz na sua phase embryonnaria a evoluo dos organismos individuaes
(como pela lei biogenetica o individuo reproduz na vida fetal toda a
evoluo organica anterior), mas que na sua phase post-embryonnaria a
continua.

A economia da diviso do trabalho, que se succede  primitiva economia
communista, tem duas phases preparatorias: uma militar, violenta,--a
escravido, a servido, o feudalismo--, outra pacifica,--o capitalismo
moderno. A distribuio da riqueza pelo producto do trabalho, dando
logar  interveno da concorrencia, produz o capitalismo; a theoria
communista quer que se pague o trabalho-funco social e no o
trabalho-producto, como o capitalismo e mesmo o collectivismo, uma
doutrina transitoria evidentemente, e que se v em difficuldades para
provar que o capital no  accumulao de trabalho, coisa absolutamente
indifferente no ponto de vista communista.

As castas no so diversas raas, diversos povos, que se sobrepem; so
differenciaes anthropologicas, que se formam dentro de todas as
sociedades pela aco de factores eminentemente sociaes, as frmas
primitivas da diviso do trabalho. As castas correspondem s raas
occipital--a exploradora pela violencia--e  frontal, a
primitivamente explorada, que se liberta pela intelligencia;--a theoria
de Gratiolet  verdadeira, admittindo-se factores sociaes da
differenciao dentro das primitivas raas, que pouco a pouco
desapparecem perante as nacionalidades, um parasitismo de que resultam
differenciaes anthropologicas, e perante as castas. O militarismo
exterior e internacional e o militarismo nacional ou aristocracia, tem
origens economicas, e produzem differenciaes anthropologicas.

No regime communista primitivo o direito  a coaco  adaptao social
pela intimidao, ou o appressamento violento da inadaptao. Existia a
promiscuidade. Havia perfeita egualdade economica e perfeita egualdade
politica.

Fez-se sentir a necessidade da diviso do trabalho: ia-se constituir a
primeira frma de parasitarismo. Ninguem ousava violar a tradio, com
profunda sanco religiosa, da propria tribu. Comea a guerra permanente
entre as tribus de bimanos. O que se no aventurava a escravisar
individuos, a monopolisar femeas, a apossar-se da propriedade da propria
tribu, cahia sobre a tribu visinha. O individualismo comeou pela
escravido dos extrangeiros, pela exogamia, pelo roubo da propriedade
das outras tribus. Constituiu-se um direito internacional,
fundamentalmente differente do direito do _clan_;--conflicto
anthropologico, o direito tinha um caracter collectivo;--crime e pena
eram conflictos ethnicos.

Constituiram-se assim em casta os homens de guerra, passando depois a
exercer a violencia sobre a propria tribu. O direito entre as
castas passou a ser cpia do direito internacional; o velho direito
interno s persistiu em _survivances_ nas relaes entre os membros das
classes inferiores.

 casta, como a todos os grandes factores sociaes, devia corresponder
uma differenciao anthropologica. A anthropologia criminal, quando nega
os factores economicos do crime, no repara em que a seleco natural
das raas tem segundo o darwinismo, de que essa escola deriva, uma
origem economica--o facto registado pela lei de Malthus.

 primitiva seleco individual devia pouco a pouco substituir-se uma
seleco entre os grupos anthropologicos, que se iam formando, seleco
naturalmente preventiva, d'ahi a formao da escravido, que  uma frma
de caracter duradouro da seleco e que se substituiu  pena de morte do
criminoso e do prisioneiro de guerra; d'ahi a formao na aristocracia
da familia polygamica, destinada a garantir a rapida multiplicao da
casta superior, e acompanhada de diversas medidas restrictivas da
multiplicao da casta inferior.

Pouco a pouco tem ido perdendo de intensidade a frma violenta do
individualismo, pelo apparecimento do capitalismo e pelo cruzamento das
castas, primitivamente prohibido, que caracterisa as frmas sociaes
superiores, como o cruzamento das raas caracterisa a domesticao com
respeito ao estado selvagem. O caracter de conflicto anthropologico do
direito na phase primitiva do militarismo tem pouco a pouco
desapparecido de diversos dos seus ramos; primitivamente aquelle direito
que hoje s tem sanco civil, tinha uma sanco penal. Hoje o
direito penal tende a tornar-se to contractualista como o direito
civil; Spencer baseia toda uma theoria penal sobre a organisao
systematica da indemnisao de perdas e damnos.

 medida que o militarismo vae declinando, vae-se realisando no direito
internacional uma endosmose do direito interno progressivo; o contrario
precisamente do que se deu nas origens do militarismo.

Resultado de todos estes progressos sociaes  o desapparecimento
evolutivo das differenciaes anthropologicas, a que as castas e as
nacionalidades deram origem.

Contra o que o collectivismo affirma, somos de opinio que o capitalismo
representa um progresso. A evoluo realisa-se pela aco cada vez menor
da hereditariedade, permittindo a evoluo rapida da especie, por
adaptaes repetidas. A organisao em castas, a hereditariedade
politica e economica, correspondeu a phases inferiores da transformao
da especie: hoje sobre a hereditariedade predomina a adaptao, na sua
frma seleccional, que tem como consequencia politicamente o regime
representativo, economicamente o regime capitalista. As seleces, no
sendo fixas pela hereditariedade, que, tanto nas suas consequencias
politicas, como nas suas consequencias economicas, tende a desapparecer,
 uma transio necessaria para o regime da egualdade, em que as
progressivas adaptaes da especie no se realisaro seleccionalmente,
mas solidariamente.

 um facto conhecido o da degenerao das aristocracias,
facto perfeitamente egual ao da degenerao das raas indigenas
perante a civilisao branca, e ao da degenerao das raas
criminosas,--seleces militaristas e aristocracias abortadas, raas
d'origem teratologica,--perante o homem normal.  degenerao das
aristocracias correspondeu necessariamente a formao das monarchias;
era facil no decorrer da degenerao da casta, uma familia garantir-se o
poder monarchico. Quando a degenerao se estende s dynastias, a
monarchia torna-se temperada ou constitucional.  possivel que na
degenerao da burguezia perante o quarto estado, pelo mesmo processo
historico appaream novos cesarismos.

Vejamos os factores intellectuaes da evoluo social. O homem primitivo
faz corresponder  sensao o mundo exterior;  _ideia_, que julga
independente da sensao, o espirito, a substancia: eis a origem do
substancialismo, do livre-arbitrismo, da doutrina das ideias innatas, da
theoria da creao. Reconhecida a dependencia causal da ideia para a
sensao, substitue-se ao principio da substancialidade o principio de
causalidade, e funda-se a sciencia moderna, positiva, monista,
determinista e evolucionista. Por fazer do positivismo uma questo de
methodo e no determinar precisamente a origem do causalismo e todas as
suas consequencias, Comte acceitou a irreductibilidade dos phenomenos e
a relatividade dos conhecimentos, principio que occasionou esta recente
recaida idealista. A evoluo scientifica no  deductiva, como queria
Comte, mas inductiva, das ciencias do espirito para as sciencias
mais geraes, as do mundo inorganico;  assim que, por exemplo, a
doutrina da evoluo appareceu successivamenie na sociologia, na
biologia e na physico-chimica. Note-se que na astronomia ainda se
admitte a evoluo-circular, da nebulosa  nebulosa, e a
evoluo-circular foi precisamente a primeira phase do evolucionismo
social; e que nada ha ainda sobre a evoluo geral physico-chimica.
Conhecem-se os factores psychologicos da marcha social; conhecem-se os
seus factores biologicos ainda; e muito mal os factores inorganicos.

A doutrina do livre-arbitrio deu origem ao contractualismo na politica,
no direito economico, na familia e no direito penal, punindo o crime,
no o criminoso. O determinismo, que successivamente, visivelmente na
criminologia, tem passado da sua frma statica, para uma frma dynamica,
evolucionista, do motivismo psychologico ao condicionalismo biologico e
anorganico, tem como consequencia necessaria uma constituio
socialista. O direito economico fundar-se-ha sobre o destino social dos
actos, no sobre o livre-arbitrio dos contrahentes; reconhecido o
governo de leis sociologicas, e o progresso, contradictorio com o
livre-arbitrio, isto , a eterna possibilidade do homem pensar e
praticar indifferentemente, desapparecer a necessidade do Estado,
resultado theorico da necessidade de uma eterna interveno coactiva
para levar o livre-arbitrio ao Bem; a pena ter um fim socialista, a
adaptao do criminoso  sociedade. Esta adaptao ser facil, contra o
que julga a antropologia criminal, que admitte a evoluo
anthropologica e social e nega a evoluo anthropologica e social dos
criminosos, que, sabendo que a symbolica juridica mostra bem que a
origem da propriedade foi a conquista e que a origem da successo foi o
culto dos mortos, chama aos attentados contra a propriedade--_delictos
naturaes_. A probidade actual que  seno o habito violentamente creado
de respeitar a desegualdade economica, hereditariamente transmittido?

Differimos do collectivismo:--na nossa soluo final economica, que 
communista; na theoria politica, que  o anarchismo scientifico; no
processo theorico, por isso que fazemos sociologia anthropologica e por
no fazermos sociologia exclusivamente economica. Os primitivos
socialistas como os primeiros economistas nem sequer suspeitaram a
sociologia, viveram no especialismo economico; n'uma segunda phase
economista e socialista levaram a explicao economica a todos os
phenomenos sociaes, fizeram sociologia economica; n'uma terceira phase a
economia orthodoxa generalisou-se com as outras sciencias sociaes na
sociologia spenceriana. Tudo hoje tambem faz prever a constituio de
uma sociologia socialista. A biologia nunca ousou explicar a evoluo
organica s por factores economicos--os que dizem respeito  nutrio. O
collectivismo , em Marx principalmente, um argumento _ad hominem_ com
relao  economia orthodoxa, de cujas entidades metaphysicas tirou
consequencias habeis, mas scientificamente infundadas; Karl Marx v-se
obrigado a contradizer violentamente as suas theorias, aproximando
o seu socialismo da formula communista da distribuio.

Differimos do anarchismo, apesar de acreditarmos que o Estado tende a
desapparecer pelas rases que dmos e ainda pelas legitimas deduces
sociologicas da doutrina lamarckiana da creao natural dos instinctos,
em virtude da qual o Estado perder a sua raso de ser apenas tenha
formado habitos, que, tornados hereditarios, sejam a base moral da
sociedade futura:--na theoria determinista e anthropologica, e pelo
sentimento profundo da evoluo historica.  preciso contar com a
historia, a hereditariedade psychologica; o espirito social no 
evidentemente a _taboa rasa_ da velha psychologia materialista. A
evoluo tem periodos revolucionarios; a _lucta pelo direito_ de Jhering
 a theoria do progresso sanguinolento das sociedades. Mas no podemos
como o anarchismo ou como o jacobinismo fazer do crime politico uma
metaphysica revolucionaria. Dissmo-nos communistas: devemos notar que a
unica theoria socialista de que saiu uma sociologia, foi uma doutrina
communista, a de Saint-Simon, cuja influencia na obra de Comte  conhecida.

 nitida a nossa posio. Libertos completamente das velhas doutrinas,
hereditariedade morbida muitas vezes secular do espirito collectivo,
affirmamos a necessidade de uma reconstruco social completa. As velhas
theorias sociaes, que so seno as velhas tendencias inconscientes, a
que se quer dar um pretexto de que se faz pedantemente uma sociologia,
como o hypnotisado d um pretexto pueril e julga da sua iniciativa
os actos suggeridos e que inconscientemente praticou?

 no partido republicano o logar dos novos, no vencidos por essa
_surmnage_ mental da historia que caracterisa o momento, para quem a
sociologia no  apenas um libretto da _Portugueza_, que fazem uma
critica intellectual do que existe, e que deixam a velha critica
jacobina, uma parte de policia carregada.

 preciso que o partido republicano faa, porm, vigorosamente
affirmaes socialistas e federalistas. Estas duas correntes poderosas
teem sido vehementemente representadas na propaganda republicana por
Magalhes Lima, contra aquelles, para quem a republica  toda a sciencia
social e um _mnagesinho patriotico_, e que fazem a sociologia pacata do
bom homem Ricardo.

A questo politica no  indifferente, contra o que alguns deduzem do
principio socialista de que as transformaes politicas teem apenas
factores e destinos economicos. Os novos devem pois, collocar-se ao lado
dos republicanos, porque a soluo politica immediata  a mesma.
Socialistas, achamo-nos reunidos aos orthodoxos, que piedosamente julgam
o socialismo uma metaphysica do roubo. Aproxima-nos uma especie de
_isomorphismo_, porque as nossas e as suas doutrinas crystalisam nas
mesmas formulas politicas.

Socialismo rasgado, no um socialismo que seja um dilettantismo da
Historia, e que corresponda  velha formula--_panem et circenses_,
politica internacional definida e sem hesitaes, tem sido a
propaganda vehemente feita por Magalhes Lima, que assim abriu uma
nova phase na historia do partido republicano portuguez. Os novos podem,
pois entrar sem hesitaes na vida nova do partido.

      *      *      *      *      *


JOS FONTANA E SOUSA BRANDO

E, uma vez que fallmos nos novos, seria ingratido esquecer aquelles
que, pela sua influencia, pela sua dedicao, pela sua actividade e pela
sua propaganda, tanto contribuiram para o derramamento d'estas ideias no
povo portuguez. Refiro-me a Jos Fontana e Sousa Brando.

Ser republicano ou ser socialista n'estes tempos que vo correndo, cousa
 que no importa um grande acto de coragem ou de audacia. Mas para
affirmar as opinies republicanas e socialistas, na poca em que
aquelles dois benemeritos o fizeram, requeria-se ainda mais que coragem
e audacia--requeria-se uma grande independencia de caracter e um grande
e soberano despreso pelas conveniencias e interesses pessoaes.

Os que modernamente vieram para a politica, no sabem, nem podem mesmo
avaliar, o que custava a propaganda n'aquelle tempo. Era uma lucta cruel
e constante, com a familia, com os amigos, e com tudo e com todos.
Ser republicano o mesmo era que ser um doido mau. Socialismo era
synonimo de pilhagem e de liquidao social.

       [Gravura: Jos Fontana]

Os partidos por via de regra, ingratos para com os seus servidores.
Superior, porm,  gratido dos partidos, ha o applauso da propria
consciencia. E s pela satisfao do dever cumprido, vale bem a pena
supportar as chufas dos adversarios, as calumnias dos maldosos e a
perseguio dos inscientes e dos inconscientes.

Jos Fontana era muitas vezes calumniado por aquelles que o no
comprehendiam. De Sousa Brando sorriam-se os _finorios_ e os homens
praticos, como se tivessem d d'elle. Fui d'essa poca, e sei o que isso
era e o que isso custava! Mas que importava? Os calumniadores calaram-se
e os disfructadores desappareceram. Jos Fontana e Sousa Brando so
hoje venerados e consagrados, em Portugal, como o so egualmente, na
Allemanha, Karl Marx e Lassale.

E isto porqu?

Precisamente porque elles representaram, na sociedade portugueza,
mais alguma cousa do que as suas proprias pessoas. Elles foram os
genuinos interpretes de uma ideia que honraram e glorificaram, pela sua
coherencia, pela sua abnegao e pelo seu civismo. Foram dois puros e
foram dois fortes. Era differente o processo de cada um. Mas o ideal, o
fim, o objectivo era o mesmo em ambos. Jos Fontana era o apostolo da
_Internacional_, e ella ahi est hoje mais solida e mais viva do que
nunca, apesar da perseguio dos governos! Sousa Brando foi o
evangelista das _sociedades cooperativas_, e ellas ahi esto hoje a
impr-se por toda a parte e em todas as classes, apesar dos embaraos e
obstaculos que o capitalismo lhe levanta!

       [Gravura: Sousa Brando]

Ha quem desanime na lucta e ha quem cance, durante o caminho. Nem um nem
outro souberam nunca o que era o desanimo ou o cansao. Trabalharam,
combateram, perseveraram e seguiram sempre vante como os crentes das
antigas religies. Edificaram sobre as ruinas e construiram sobre
os escombros do velho mundo. A obra ahi est--bella, soberba,
imponente. O exemplo  d'aquelles que no morrem nunca e a lio  das
que aproveitam sempre. Inspiremo-nos no seu nobre e magnanimo exemplo e
reavivemos nos nossos espiritos a grandeza e a sublimidade da sua lio.

A homenagem aos mortos deve constituir um culto para os vivos. E, quando
os mortos se chamam Jos Fontana e Sousa Brando, a homenagem reveste
ento o duplo caracter de um preito ao amigo querido e de uma apotheose
pelo bravo, pelo apostolo e pelo here.




CONCLUINDO


Bom ou mu, ahi fica um rapido esboo do actual movimento. Foi simples a
nossa misso. Desejando que todos vissem pelos proprios olhos e
palpassem pelas proprias mos, limitmos-nos a fazer a historia do que 
e do que se passa. Historimos; no criticmos; narrmos; no
commentmos. _Savoir pour prvoir, afin de pouvoir_--tal era a maxima de
Augusto Comte. _Saber para prevr, afim de poder_--tal deve ser o
principio de todos os que, presentemente, se dedicam e consagram aos
estudos politicos e sociaes.

No confundamos o ideal com a utopia. O ideal de hoje  a realidade de
manh. O ideal,--disse muito bem Elie Rclus, no  seno o
desenvolvimento da realidade. A utopia no passa, muitas vezes, do
espirito ou do cerebro que a gerou. Mas no succede o mesmo com o ideal
que encontra sempre uma realisao pratica, no mundo. O socialismo  o
ideal do seculo XIX e ser a realidade do seculo XX. Muitos governos
monarchicos comeam j a aceitar-lhe as reivindicaes e as
consequencias. Gladstone perfilhou, para o seu programma liberal, o
dia normal das 8 horas de trabalho e a responsabilidade nos accidentes.
 socialista o imperador da Allemanha e so socialistas todos os
governos da Europa. Comprehende-se. Fazendo concesses ao proletariado,
os reaccionarios e ultramontanos procuram defender-se da onda que os
ameaa, prolongando d'este modo a sua existencia, embora  custa de uma
especulao e de uma hypocrisia. No acontece porm, o mesmo com os
partidos avanados. Esses teem de acompanhar o movimento, sob pena de se
suicidarem, no o fazendo. Ahi fica a advertencia. Quem tem olhos para
vr, veja; quem tem ouvidos para ouvir, oia.

N'este livro reproduzi, a largos traos, as minhas impresses sobre o
congresso operario de Zurich de 1893, desenvolvendo os assumptos ali
tratados, segundo o criterio das diversas escolas socialistas. Aos novos
me dirijo, porque s dos novos ha alguma cousa a esperar. Os velhos so
impenetraveis s ideias modernas. Concorre, para isso, o egoismo e a
intransigencia da edade. Seria absurdo esperar qualquer cousa de
proficuo e de util de elementos gastos, canados, e, em parte,
desacreditados. J uma vez o disse e no cessarei de o repetir. O bom
senso publico no reconhece, em geral, seno dois partidos--o partido
dos que avanam e o partido dos que recam. Deixemos recuar os que tudo
sacrificam ao seu interesse pessoal e  sua desmesurada ganancia;
deixemos recuar os timidos, os covardes e os impotentes; e avancemos
ns, unidos, fortes e disciplinados--unidos na aco, embora
divergentes na doutrina; fortes pelo sentimento do dever, e
disciplinados pela solidariedade das ideias e dos principios.

A festa do 1. de de maio do corrente anno ser uma nova affirmao da
fora e da importancia do proletariado internacional.

Michelin, o illustre deputado socialista, apresentou ultimamente, na
camara franceza, o seguinte projecto de lei:

O trabalho  a origem unica e legitima da riqueza. Nenhum producto pde
existir sem o trabalho, que  a condio essencial da liberdade e da
prosperidade do homem, e s, por meio d'elle, se pde assegurar o
progresso e moralisar a sociedade.

Os trabalhadores tomaram a iniciativa da celebrao de uma festa
annual, com o fim de honrar o trabalho. Peo por isso,  camara que
decrete, no sentido de considerar esta festa nacional.

Os poderes publicos, cuja misso consiste em dar satisfao s
aspiraes do povo, no podem seno associar-se a um sentimento to
elevado, demonstrando assim o desejo sincero em que esto de examinar,
para as attender, as justas reivindicaes dos trabalhadores que
constituem a immensa maioria do paiz.

Por estas rases, tenho a honra de submetter  camara o seguinte projecto:

Art. unico--O 1. de Maio  declarado o dia da festa nacional e annual
do trabalho.

Michelin deseja, por este modo, consagrar o 1. de Maio, assim como se
tem consagrado o 14 de julho que  o dia da festa da Republica. Perderia
a festa dos operarios, n'este caso, o seu caracter de resistencia, e
converter-se-hia n'uma celebrao pacifica do trabalho. Nada mais nobre
e digno! Aos termos da proposta, associou-se enthusiaticamente o grande
poeta socialista, Clovis Hugues, embora outros divergissem por desejarem
conservar ao 1. de Maio a sua feio, radical e revolucionaria, de
combate e de opposio ao existente.

De um ou de outro modo, a celebrao do 1. de Maio no deixar de
fazer-se.

Ha um problema a resolver.  a questo magna do seculo. Ou os governos o
resolvem, ou as sociedades tero de passar por um cataclismo terrivel.

 este o dilemma. E da soluo do assumpto depender, no futuro, a
felicidade e o bem-estar dos povos!


FIM




INDICE


SOLEMNIA VERBA                                                          7

O PRIMEIRO DE MAIO                                                     11

O DESENVOLVIMENTO DAS IDEIAS SOCIALISTAS.--Benoit Malon, Luiz Ruchonnet,
Ramn Chies, Victor Schoelcher e Victor Considrant.--Theodoro Hertzka e
o seu Freiland.--No congresso de Zurich.--A Allemanha, a Belgica, a
Frana e a Inglaterra.--A Italia, a Hespanha e Portugal.--Notas e
commentarios                                                          13

O PROGRAMMA SOCIALISTA.--O programma do partido operario.--Parte
politica e parte economica--Jules Guesde e Paulo Lafargue.--O programma
do partido socialista em Portugal                                     57

A COOPERAO DOS TRABALHADORES.--Cooperao e solidariedade.--Instruco
e associao.--O internacionalismo.--As cooperaes operarias e alguns
dos seus mais dedicados e fervorosos apostolos.--Cesar de Paepe,
Anseele, Jean Volders, Louis Bertrand                                 97

ARBITRAGEM INTERNACIONAL.--Sociedades da paz.--Emile Arnaud.--O
militarismo.--Domela Nieuwenhuis.--Arbitragem internacional--Michel
Revon.--A federao e os seus apostolos.--Nacionalismo e
internacionalismo.--Alfredo Naquet.--Ren Goblet e Augusto Vacquerie.--A
guerra vencida pela arbitragem.--O desarmamento.--Eduardo Vaillant   109

A MULHER.--Resoluo do Congresso de Zurich.--A situao da
mulher.--Seus direitos civis e politicos.--A mulher em relao 
industria.--A mulher no estado socialista.--A primeira victoria.--Madame
Paule Mink.--Augusto Bebel.--P. Argyriads                           137

A SOCIEDADE NOVA.--A transformao social impe-se.--O que  o
collectivismo.--O Estado socialista, segundo Augusto Bebel e Benoit
Malon.--A legislao directa pelo povo.--A Socialisao dos
monopolios.--Hector Denis, Guillaume de Greefe Emile de Vanderwelde.--A
nova gerao portugueza.--Jos Fontana e Souza Brando               155

CONCLUINDO.--                                                        193




RETRATOS


    1.--Benoit Malon                 14
    2.--Ramn Chies                  17
    3.--Victor Schoelcher            18
    4.--Victor Considerant           21
    5.--Theodoro Hertzka             26
    6.--Amilcare Cipriani            35
    7.--Frederico Engels             39
    8.--Liebknecht                   41
    9.--Millerand                    44
    10.--Thivrier                    47
    11.--John Burns                  48
    12.--De Felice                   53
    13.--Jules Guesde                58
    14.--Paulo Lafargue              60
    15.--Cesar de Paepe              98
    16.--Louis Bertrand             104
    17.--Anseele                    105
    18.--Jean Volders               106
    19.--Emile Arnaud               113
    20.--Domela Nieuwenhuis         115
    21.--Alfredo Naquet             122
    22.--Ren Goblet                124
    23.--Augusto Vacquerie          126
    24.--Emile de Laveleye          128
    25.--Eduardo Vaillant           132
    26.--M.me Paule Mink            149
    27.--P. Argyriads              151
    28.--Augusto Bebel              160
    29.--Emile de Vanderwelde       173
    30.--Jos Fontana               189
    31.--Sousa Brando              190





    [1] _Freiland. Ein soziales Zukunftbild_. Leipzig, Duncker und
    Humblot, 1889, 10 mk; Dresden, E. Pierson, 1891 e 1892, 3
    mk.--_Freeland_, traduco ingleza por Arthur Ranson. Londres,
    Chatto e Windus, 1892, 6 sh.--_Freiland und die Freilandbewegung_.
    Vienna, 10 pf., traduzido por H. La Fontaine, advogado em Bruxellas,
    sob o titulo de _Freiland_, un roman collectiviste. Extraits et
    rsum. Bruxelles. 1892. Imprimerie Veuvc Mounom.

    [2] _Horace Greeley._

    [3] B. Malon--_Socialismo integral._

    [4] Louis Bertrand.--_La Cooperation, ses avantages et son avenir._

    [5] _Discurso proferido no congresso de Zurich._

    [6] Michel Revon--_L'arbttrage international._

    [7] Serviu-nos de guia, n'este estudo, a traduco analytica da obra
    de Rebel--_La femme et le socialisme_--publicada por P. Argyriads.
    Vulgarisando a excellente doutrina, procurmos fazer obra de
    propaganda e nada mais.

    [8] B. Malon--_Le Socialisme Integral._






End of Project Gutenberg's O Primeiro de Maio, by Sebastio de Magalhes Lima

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     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

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     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

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1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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