The Project Gutenberg EBook of O Marquez de Pombal, by Manuel Emdio Garcia

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Title: O Marquez de Pombal
       Lance d'olhos sobre a sua sciencia; politica e systema de
       administrao; ideias liberaes que o dominavam; plano e
       primeiras tent

Author: Manuel Emdio Garcia

Release Date: May 15, 2010 [EBook #32378]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                        ESTUDOS CRITICO-HISTORICOS

                                    I

                           O MARQUEZ DE POMBAL

                   Lance d'olhos sobre a sua sciencia;
                  politica e systema de administrao;
                    ideias liberaes que o dominavam;
                plano e primeiras tentativas democraticas

                                   POR

                            M. EMYGDIO GARCIA


                                 COIMBRA
                         IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
                                  1869




ESTUDOS CRITICO-HISTORICOS

I

O MARQUEZ DE POMBAL

    Confundem facilmente os espiritos _vulgares_ a ideia com a
    manifestao, a doutrina com o homem.

        SR. ALEXANDRE HERCULANO.

    Portugal no _reinado_ d'el-rei D. Jos subiu  altura dos outros
    povos, se no  que em muitas cousas acima.

        SR. ALMEIDA GARRETT.


II

REACO OU LIBERDADE?

As reformas liberaes e a reaco ultramontana-absolutista em Portugal;
estudo, feito em 1866, sobre a carta do Marechal Duque de Saldanha
cerca do casamento civil.


III

PASCHOAL JOS DE MELLO FREIRE DOS REIS

Lance d'olhos sobre a sciencia do Direito em Portugal nos comeos d'este
seculo. Escreveu-se pela primeira vez a Historia do Direito Patrio e foi
este reduzido a um systema regular e harmonico. Revoluo nas leis e na
jurisprudncia.





                        ESTUDOS CRITICO-HISTORICOS

                                    I

                           O MARQUEZ DE POMBAL

                   Lance d'olhos sobre a sua sciencia;
                  politica e systema de administrao;
                    ideias liberaes que o dominavam;
                plano e primeiras tentativas democraticas

                                   POR

                            M. EMYGDIO GARCIA


                                 COIMBRA
                         IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
                                  1869




Deparam-se mui varias, e at contradictorias, apreciaes e juizos sobre
o caracter e obras do celebre Marquez de Pombal.

Livros de recentissima data, fabricas de muito pezo litterario e
primores de arte, ricos de substancia, e no menos opulentos de formas,
reproduzindo-as, parece quererem de novo levantar pleito, propor aco e
renovar processo, que no logrou ainda passar em julgado.

Mas no se diga que por parte do auctor d'este apoucado escripto ha
tanta vaidade e tamanho arrojo, que ouse inculcar-se para juiz officioso
em to graves contendas; consintam-lhe todavia, e para isso pede
antecipada venia, que deponha em processo, no qual a posteridade, e
talvez ainda o nosso publico illustrado, ha de proferir, algum dia, e
lavrar sentena definitiva.

No  para alardear thesouros de sciencia e pompas de erudio; que to
arredadas nos andam uma e outra, que mal de longe as enxergamos em poder
de alguns privilegiados, que, merecendo muito a Deos, no pouco devem 
fama que os aprega; o que s nos achega, porque a todos chega,  o amor
da verdade e o zelo da justia.

E foi a verdade que nos citou, para comparecermos no tribunal da
imprensa: se fingindo ser tal nos illudiu o erro, valha-nos de desculpa,
para bem merecer perdo, a boa f com que, sem a menor sombra de
rebeldia, nos damos  obediencia.

As paginas, que ao diante vo, fazem parte de um livro, que o auctor
compoz e escreveu em 1866, quando a appario do projecto do _codigo
civil_ no seio da representao nacional levantou, servindo-lhe de
pretexto, porfiada lucta entre o partido liberal e o _bando_
reaccionario, que a provocou.

Em mingoado tempo, e ainda assim cortado por outros maiores e mais
austeros trabalhos e cuidados, se concluiu o _manuscripto_; e logo foi
mettido em carcere privado  espera da ultima demo, para no haver de
sar em liberdade, sem se lhe alimparem erros e expurgarem peccados, que
no ha ahi obra de homens, por mais acabada de bigorna e lima, que os
no tenha ou d'elles possa eximir-se.

E com effeito, imperiosas circumstancias e motivos ponderosos estorvaram
o auctor, e bem contra sua vontade, de sar a pleitear na contenda em
prol da liberdade e dos liberaes, contra quem se erguia e praguejava
mais uma vez, em descomposto e mal soante vozear, a turba dos
retrogrados. No nos amedrontaram clamorosas gritas de injusta, se no
ainda mais fingida e calculada indignao, odios ameaadores de raiva
accesos, que no ha receios, nem escrupulos, onde entranhadas convices
se alentam; nem fomos levados do temor de affrontar-lhe as iras vans,
que no falecem animos e coragem, quando a conscincia  pura e as
intenes desinteressadas; nem pode a ignorancia de uns, o fanatismo de
outros e a hypocrisia de muitos vencer ou sequer dobrar espiritos rectos.

D'esse livro ainda se evadiram como rebeldes e saram a lume alguns
capitulos, abrigando-se, mais como fugitivos do que hospedes, em dous
periodicos litterarios--_O Povo_ e _A Academia_.--Mas como  sorte, e
no sei se melhor diga, fatal destino de todas as publicaes d'este
genero, to frequentes na nossa Lusa Athenas, que bem se parecem com as
flores do outomno, que abrem com a aurora, fecham e morrem ao car das
sombras em um mesmo dia,--to curta foi a durao dos dous
periodicosinhos, que nos ficmos a comeo da longa derrota que
poderiamos percorrer.

Nesse pouco, que do incognito e encarcerado manuscripto passou 
liberdade e a correr mundo, vem o que reproduzimos agora: bem pode ser
que algum dia nos d na vontade e resolvamos fazer correr o livro
inteiro, em demanda de bom e generoso gazalhado; e de experimental-o
comece j, para que, posto no merecer subida estimao obra de to
mediano vulto, no tenha o auctor de arrepender-se d'esta sua primeira
tentativa.




O MARQUEZ DE POMBAL


I

No foram s os germens da civilisao, despontando ao sol da
renascena, a luz irradiada pela philosophia do seculo XVIII, o brado
universal de 89, as armas de Napoleo I, o drama sanguinario de
1817,--que prepararam a revoluo de 1820.

De longe, de mui longe nos veio e se gravou em Portugal o espirito de
liberdade e independencia: Manifestou-se bem solemnemente na iniciativa
popular em 1385; mais solemnemente ainda em 1640; arreigou-se d'um modo
profundo e indestructivel durante a sabia administrao de um genio
reformador, que lhe preparou o campo de suas _ligitimas_ conquistas e
removeu os estorvos, que lhe empeciam o caminho, por onde, mais tarde,
devia deixar seu rastro luminoso.

Foi essa epocha o prologo fecundo das revolues! Esse homem o precursor
admiravel do liberalismo!

Foi a lucta gigante dos opprimidos contra os despotas; a _reaco
social_ contra a _reaco ultramontana_; lucta na qual a liberdade
pareceu succumbir e deixar-se esmagar debaixo dos ps da aristocracia
orgulhosa e da cleresia degenerada e pervertida,--para mais tarde
resurgir e erguer-se do mal encerrado tumulo vigorosa e ousada--para
cantar no dia do merecido triumpho o hymno da legitima victoria!


II

Em Portugal, como em Inglaterra, como em Frana, a revoluo reformadora
teve os seus prophetas e apostolos: para no fallar em muitos outros de
mais circumscripta esphera e menor vulto, apontaremos para o celebre e
illustrado ministro de D. Jos I.

Quando Sebastio Jos de Carvalho e Mello, por circumstancias,
talvez imprevistas aos olhos do vulgo, importantes todavia, quando se
perscrutam os designios do Ser infinito no destino das naes e se
estuda a sua aco previdente sobre o mundo, appareceu  testa dos
negocios do estado, assenhoreando-se do monarcha, concentrando em si
todo o poder politico d'uma nao, abatendo a nobreza, reprimindo o
clero e subjugando o povo,--Portugal era patrimonio do rei, _feudatario_
da crte de Roma, objecto de explorao para as duas ordens nobilitadas,
orpho de patriotismo, pupillo de naes estranhas!


III

Principiava a arvore da _renascena_ a produzir os seus fructos, e de
sua frondosa copa j pendia, sobre a cabea do povo, o saborosissimo
pomo da liberdade: sem que lhe aguardassem a queda, muitos espiritos
elevados, vontades firmes e perseverantes haviam calculado as leis e, em
harmonia com ellas, traado a _mecanica_ politica do _regimen
constitucional_; distinguindo smente entre--rei e povo,--no
reconhecendo outras entidades sociaes, demonstraram a necessidade de
abater o orgulho da nobreza e destruir a influencia do clero,--elementos
politicamente inuteis e prejudiciaes a um tal systema!


IV

Era pleno seculo XVIII.

O sol da liberdade comeava de surgir e elevar-se no horisonte das
sociedades europeas, e, com elle, despontava do lado da Frana o dia da
emancipao popular.

Baccon, Montesquieu, Rabelais, Bayle, Fontenelle, e outros, foram apenas
a aurora do brilhante dia; Diderot, Alembert, Condorcet, e Rousseau,
animando-lhe cada vez mais os raios luminosos, s esperavam por
Voltaire, o astro da philosophia, por Mirabeau, o genio da politica,
que, resumindo em si toda a sciencia, toda a energia do seu seculo,
haviam de dar a realidade ao sentimento e  ideia revolucionaria.


V

Foi no seio d'essa atmosphera repassada de novos elementos, e impregnada
de novos germens de vida, que o espirito de Sebastio Jos de Carvalho e
Mello cresceu, se desenvolveu e preparou para vir a ser o que na
realidade foi, com grande applauso das naes e de certo com grande
proveito nosso, se lograsse levar a cabo a regenerao politica, moral e
economica do seu paiz, que to habilmente emprehendera e  qual miravam
as vistas, eminentemente _liberaes_ e _patrioticas_, do ministro de D.
Jos.

Cultor assiduo de todos aquelles estudos, que habilitam o homem para
governar; j herdeiro do aperfeioamento de muitas sciencias e artes,
que podem illustrar o mundo politico e determinar a prosperidade e
engrandecimento dos povos, lendo e meditando os livros economicos,
politicos e financeiros, que em seu tempo inundavam a Europa, a
dispondo o animo para entrar um dia affoito e lidar desassombradamente
com os negocios da alta politica e da administrao publica.

Tomara por modelo, escolhera para seus mestres,--Richelieu, Sully,
Colbert, Argenson, e as maximas, as memorias, os testamentos politicos
d'estes estadistas, mas principalmente a moral, a philosophia e todos os
trabalhos scientificos dos encyclopedistas--foram o thesouro, onde
aquella intelligencia vasta, aquelle espirito eminente, aquella vontade
firme e energica se enriqueceram e auriram luz e fora, para produzir o
que depois se viu e admirou.


VI

Portugal era ainda, no comeo do reinado de D. Jos I, o que a Frana
principiara a ser desde o reinado de Luiz XV.

D. Pedro II e D. Joo V, fascinados pelo brilho deslumbrante e pelo
apparato tumultuoso da crte de Luiz XIV, fizeram d'este rei absoluto,
libertino e folgazo, considerado, naquelle tempo e pelo partido
retrogrado e fanatico, o prototypo da realeza absoluta, o seu
aperfeioado modelo.

Um, seguindo a sua politica e imitando o seu exemplo, lanou ao
esquecimento as frmas da antiga _monarchia representativa_; reprimindo
a nobreza e o clero, sem libertar o povo, preparou o _absolutismo_.

O outro, animado de um espirito romanesco, dotado de uma imaginao
ardente, dominado por uma piedade exagerada, ou especulando com uma
calculada hypocrisia, imitou Luiz XIV nas suas vaidades, invejou-lhe a
pompa e o esplendor da sua crte, satisfez os mais puers caprichos e as
mais levianas phantasias, nada sacrificou ao bem do povo, enriquecendo a
curia romana, esfalcou o thesouro publico, enfraqueceu a agricultura e
as artes, enervou o espirito e a actividade nacional, numa palavra--o
rei fanatico... fanatisou o povo!


VII

Era mister levantar o edificio, que, minado pela base, dobrava j ao
peso de tantas pompas e magnificencias: o reino, povoado de sumptuosos
edificios, deslumbrante de purpura e ouro, mas pobre de actividade e
iniciativa, definhando  mingoa de moralidade e instruco, pendia j
sobre o abysmo, que um luxo reprehensivel e uma ociosidade criminosa lhe
tinham aberto pelas mos do proprio rei, sempre e em tudo dirigido pela
crte de Roma, dominado pelo clero e lisongeado pela nobreza.


VIII

Genio perspicaz, philosopho profundo e habil politico, o Marquez de
Pombal j previa, como o antigo ministro de Luiz XV, que uma revoluo,
uma crise tempestuosa se avisinhava, para tudo transformar e regenerar
tudo, ou tudo perder.

A Europa agitava-se em seus fundamentos: havia uma especie de detonao,
que impressionava os espiritos: estranhas convulses abalavam o grande
corpo social, como symptomas percursores d'um proximo terremoto moral e
politico.

A anarchia popular avisinhava-se do seu momento fatal; o governo
monarchico-absoluto, desacreditado em quasi todos os estados da Europa,
quasi desconhecido no Novo Mundo e declarado por muitos espiritos rectos
o peior dos governos, esperava todos os dias a sua sentena de morte; a
aco philosophica, apoderando-se das intelligencias elevadas do seculo,
ia-lhe preparando o supplicio no patibulo da opinio publica.

Os philosophos de Inglaterra e Frana trabalhavam fervorosos na
propaganda liberal: as theorias de Baccon e Mentesquieu tinham sido
profundamente desenvolvidas e levadas at s suas ultimas consequencias
praticas.

A interferencia da Inglaterra, a sua aco politica, disfarada debaixo
da apparencia de um grosso trato commercial, influenciava, de um modo
energico e profundo, a situao moral e economica dos povos; como as
_cruzadas_, em nome de Deus e pela f, produziram, em seu tempo, notavel
transformao social.

Um vento philosophico soprava da Allemanha, da Inglaterra, da Frana e
da America, e murmurava aos ouvidos de muitos as palavras--_liberdade_,
_emancipao_, _democracia_, _republicanismo_ e outras, que bem
significavam no estar longe o momento, em que o povo, senhor da sua
vontade, conscio da sua _fora_, reivindicasse os seus direitos,
usurpados pela realeza, ultrajados pelos nobres e em parte absorvidos
pelo clero.

Uma nova frma de governo existia j traada na mente de muitos homens
illustres.

As materias combustiveis, que se haviam de inflammar para accender a
revoluo, acervavam-se por toda a parte.

Alguma cousa de extraordinario e assombroso se preparava no laboratorio
immenso da Europa!

Algum monumento, de sumptuosa fachada e maravilhosa architectura,
mas j gasto pelo roar dos tempos, ia desabar at aos alicerces.

Era--a _bastilha_ monarchica do absolutismo; era--o _capitolio_
jesuitico da theocracia, minados nos fundamentos, abalados na solidez!...

Finalmente as instituies, os poderes, as opinies.... tudo annunciava
que a transformao estava imminente, e inevitavel e fatal devia
operar-se por uma revoluo geral e profunda!


IX

Filho do seculo XVIII, herdeiro da renascena, educado na philosophia e
na politica dos encyclopedistas, admirador dos grandes homens da Frana,
versado nas suas obras e dominado pelas suas theorias, seguidor das suas
maximas, iniciado na vida politica da Inglaterra, Sebastio Jos de
Carvalho para logo viu os males que affligiam o povo e degradavam a
nao, e que o unico remedio, que podia salval-os, era--ou uma revoluo
popular, uma guerra civil tempestuosa e terrivel em sua aco, embora
salutar e benefica em suas consequencias,--ou a reforma pacifica e
diplomatica das instituies.

Optou pelo segundo meio. Como politico propoz-se o plano e as medidas de
Richelieu, mas com outro fim e mirando a mui diverso resultado; como
economista e financeiro esforou-se por imitar o grande estadista Sully;
discipulo de Quesnay, aprendera com elle que  no solo que reside a
principal fonte de riqueza e as materias primas de toda a produco;
como Adam Smith j no ignorava que s o trabalho pode arrancar 
natureza os seus productos e, transformando-os, fazel-os servir 
satisfaco das necessidades humanas,  prosperidade publica e 
felicidade domestica.

Foi por isso que lhe mereceram particular atteno e desvelado esmero a
agricultura e a industria, as artes e os officios, que, arrancando o
homem da abjeco, que a mizeria gera, da ociosidade, que perverte, tm
alem d'isso a singular virtude de emancipar o povo, entregando nas suas
mos, com o sceptro do trabalho,--a _realeza_ politica.


X

Sebastio Jos de Carvalho, discipulo fervoroso das ideias
philosophicas, politicas e economicas, que a Frana espalhava por toda
Europa, comprehendia bem o estado de fermentao revolucionaria, em que
por toda ella se agitavam os animos.

Uma revoluo  sempre um mal, pensava elle, uma enfermidade, que, s
depois de longa e angustiosa convalescena, d ao corpo social,
martyrisado, vigor e robustez.

O empenho na realisao d'um plano immenso, profundo e salutar, de
regenerao e progresso, s esperava opportunidade para se mostrar e
desenvolver d'um modo util ao seu paiz, glorioso para elle e para o rei,
em nome do qual e a bem do povo devia progredir affanoso na tarefa
reformadora, que ousadamente emprehendera.


XI

O estado lamentavel de quasi completa desorganisao, em que Portugal de
ha muito se debatia; a oppresso, que sobre ns exerciam algumas crtes
estrangeiras, nomeadamente a de Inglaterra, que de Portugal havia feito
no s pupillo, mas vassallo obediente, dirigindo-nos a politica,
exhaurindo-nos as fontes de toda a vida economica, dominando em todos os
nossos portos, explorando as nossas colonias occidentaes e obrigando-nos
a votar a um quasi completo abandono as ricas possesses do oriente,
fingindo manter em _equilbrio_ a nossa independencia nacional, e
opprimindo-nos como povo conquistado,--eram motivos fortes para
determinar o animo e despertar o desejo de applicar remedio a tamanhos
males, quebrar aquelle jugo funestissimo, ou pelo menos attenuar
consequencias desastrosas, que de dia para dia se iam aggravando.


XII

Por toda a parte o abandono da agricultura, o desprezo pelas artes,
insignificantissimo o trato commercial; um governo monarchico sem
prestigio, um throno esplendido sem solidez; o jesuitismo e a nobreza
lisongeando os reis, fanatizando o povo e especulando com a sua piedade,
dominando e opprimindo, gozando sem trabalho, adquirindo por meio de
successivas usurpaes, accumullando sem esforo; o luxo e a
immoralidade para uns, a miseria e a degradao para outros.... tal era
a situao perigosa e assustadora, o triste espectaculo, que a nao
offerecia, quando Sebastio Jos de Carvalho appareceu na scena publica
e concebeu o arriscado mas grandioso projecto da sua emancipao,
restabelecimento e progresso!


XIII

Valendo-se, por um bem combinado calculo, da proteco, que desde muito
tempo lhe dispensava a viuva de D. Joo V, e da docilidade e
benevolencia de D. Jos I (que de seu pae havia recebido uma mediocre e
superficial educao, sendo por natureza debil em foras e talentos),
gosando j entre ns de um nome illustre, que, a par de outros titulos,
tinha por fundamento a subida reputao que alcanara em Viena
d'Austria, no perdeu a primeira occasio, que lhe pareceu opportuna,
para, aproveitando o favor e a confiana do rei, salvar o seu paiz,
reivindicar a independencia da nao e dar liberdade ao povo.

Foi o seu governo um dos periodos mais gloriosos da nossa historia!

Foi Sebastio Jos de Carvalho um dos maiores vultos do seculo XVIII!

Foi ento que se travou no meio de ns a mais porfiada lucta da
_reaco_ com a liberdade!


XIV

 por isso que, entre os grandes genios, fadados para ousados
commettimentos, entre os ministros energicos em emprehender e vigorosos
em executar, no ha nenhum que se lhe avantaje, nenhum que, em menos
tempo, mais se distinguisse, maiores benefcios prodigalisasse ao povo e
mais gloria alcanasse ao rei:

--Restaurou a disciplina militar.

--Fortificou as praas d'armas.

--Renovou a marinha.

--Reanimou a agricultura.

--Restaurou e desenvolveu as artes, de todo esquecidas, e vivificou o
commercio moribundo.

--Restabeleceu e firmou o credito publico, e organisou as finanas.

--Reformou e ampliou os estudos superiores, segundo os progressos
litterarios e scientificos do seculo.

--Abriu as portas da instruco popular, fechadas pelo jesuitismo,
quelles que durante seculos haviam sido condemnados s trevas da
ignorancia e da superstio.

--Instituiu mais de oitocentas escholas gratuitas para o ensino primario.

--Creou e dotou collegios, escholas secundarias e professionaes para a
navegao, commercio e outras industrias.

--Diminuiu as prerogativas, cerceou os privilegios e abateu o orgulho da
nobreza.

--Tentou apagar odios de raas e extinguir luctas de crenas religiosas.

--Abriu caminho amplo  confuso das classes e  egualdade perante a lei.

--Tornou livres os indigenas do Brazil, e levantou barreiras ao trafico
infame e degradante da escravatura.

--Reprimiu as despoticas exigencias e a preponderancia orgulhosa da
_insaciavel_ Inglaterra.

--Frustrou os planos _ambiciosos_ da Hespanha.

--Celebrou tractados politicos e commerciaes com muitas naes da
Europa, e com outras o pacto da nossa independencia e dignidade nacional.

--Fundou e organisou companhias de commercio e industria, para reanimar
as nossas colonias, ou de todo abandonadas, ou preza da cubia de
estranhos especuladores.

--Restringiu o tremendo poder da inquisio, e proscreveu os autos de f.

--Dobrou e venceu a preponderancia pontificia, e refreou, por vezes,
a cholera do Vaticano, apontando ao Papa quaes os limites onde devia
expirar o seu poder temporal e politico.............

--Substituiu  auctoridade dos jurisconsultos romanos e s argucias e
sophysmas dos glossadores, que mantinham agrilhoadas as leis e a
jurisprudencia ao imperio absoluto d'uma sciencia convencional, curvada
sob o peso de muitos seculos e j decrepita--a auctoridade da Razo,
esse poder soberano, capaz de descubrir a verdade; alargando assim o
campo de explorao a um dos maiores genios do seculo--Paschoal Jos de
Mello Freire, o sabio jurisconsulto portuguez, que por si s egualou, se
no  que excedeu, ao mesmo tempo Montesquieu e Beccaria.

--Vendo que as artes e as sciencias floresciam na Inglaterra e por quasi
toda a Allemanha, para logo viu tambem a necessidade de operar uma
revoluo completa no mundo scientifico, litterario e artistico; e foi
ella to profunda e salutar, que, no dizer de Almeida Garrett tudo
mudou de face; cahiu o collosso jesuitico, o reino de Aristoteles e a
barbaridade Thomistica, para lhe succeder Milton, Baccon, Descartes,
Newton, Lineu e outros.

 que o reflexo d'uma nova luz brilhava do lado do septemptrio, para
inundar com o seu esplendor a ns os meridionaes, que estudavamos as
_cathegorias_ e as _summas_, aguavamos distinces, alambicavamos
conceitos, retorciamos a phrase no discurso e torciamos a razo no
pensamento nada produzindo de bom e util ao progresso da humanidade.

A reforma da universidade produziu: Jos Anastacio da Cunha, Avelar
Brotero, Monteiro da Rocha, Mello Freire e muitas outras illustraes,
que, exterminando a barbaridade, haviam de produzir a civilisao, e,
fundando a republica das letras, pela soberania da razo, unica
verdadeira e legitima, abater se no destruir o imperio absoluto d'uma
auctoridade prepotente, acoitada sob a roupeta jesuitica e
intrincheirada por detrs do volumoso, mas indigesto, _corpus juris
romanorum_, das leis canonicas e dos mil _in folio_ dos glossadores e
reinicolas.

E a universidade de Coimbra comeou de ser mais uma prova eloquente, no
s da influencia, mas tambem da fecunda iniciativa, que as
_universidades_ desenvolveram sempre em preparar e promover as
revolues do progresso pela liberdade.

Bem sabia elle, porque a reflexo e a experiencia poucas vezes deixam
illudir os homens de genio, que  republica das letras,  emancipao da
intelligencia devia succeder--a democracia politica e a liberdade para o
povo.

Foi tambem em virtude d'esta lei que  reforma religiosa do seculo XVI
succedeu--a revoluo social de 1688 em Inglaterra; e  revoluo
litteraria e scientifica das idas no seculo XVIII--a revoluo politica
de 1789 em Frana.

--Ordenou que as _execues_ por dividas parassem deante das portas das
cadeias, que at 1774 em Portugal, at 1867 em Frana, se abriam como
ainda hoje em Inglaterra para sequestrar a liberdade d'aquelles, que
muitas vezes no tinham outro crime alem da pobreza, outro peccado alem
da miseria!

E quando ainda hontem a imprensa liberal de todos os paizes saudava, em
nome do progresso, e applaudia, como gloriosa e civilisadora, a abolio
de to odiosa pena, havemos de ficar silenciosos ante a memoria do
Marquez de Pombal, que a eliminou, um seculo primeiro, em nome da
humanidade?!

Finalmente, o Marquez de Pombal, usando da oppresso e da tyrannia,
empregando o terror e o despotismo, mirava  grande transformao
social, que em Frana se operou depois; preparava, pacifica e
diplomaticamente, o que ella s pde alcanar por meio de uma
conflagrao geral, e entregando-se louca e desvairada a todos os
excessos, a todos os horrores da guerra civil,  _guilhotina_ e s
_barricadas_, com que immolava os seus proprios filhos e assolava as
cidades, as villas e os campos, ensanguentados pelos combates
fratricidas ou entregues  voracidode das chammas,  pilhagem e 
carnificina!...


XV

No recuou o Marquez de Pombal, porque o julgou necessario e de
maravilhoso effeito para libertar o povo, deante do cadafalso, levantado
para rolarem algumas cabeas _nobres_.

No tremeu o Marquez de Pombal, quando lavrou o decreto que expulsava os
_jesuitas_; pois com to rasgada medida no s beneficiou Portugal, mas
a Europa inteira e o Novo Mundo; com este acto de sabia politica
quebrava as cadeias, com que os _padres da companhia_ amarravam as
consciencias ao poste d'uma f convencional; limpava o corpo social da
lepra da superstio e do fanatismo, que rapidamente se propagava e
desinvolvia, por toda a parte, aonde penetrava o morbido contagio da
roupeta dos _mos e falsos companheiros_ de Jesus!

Para alguns so estes dous factos dous grandes e execrandos crimes; para
outros duas louvaveis virtudes; para ns--dura necessidade, consequencia
_forada_ na realisao de um plano salutar e benefico.

A nobreza e o jesuitismo eram, naquella epocha, os obstaculos
gigantes, que se oppunham ao estabelecimento da liberdade.

A nobreza e o jesuitismo, desherdando, espoliando o povo de tudo o que
podia tornal-o livre e independente, disputando o poder, a influencia e
a preponderancia monarchica, eram estorvo invencivel ao _systema
representativo_,  adopo e reconhecimento legal das _garantias
constitucionaes_ e das _prerogativas da cora_, que a philosophia
politica de seculo, as necessidades do tempo e o exemplo da Inglaterra
instantemente reclamavam, cujo disco luminoso comeava j a brilhar nos
horisontes do futuro em muitos estados da Europa, cuja triangulao
havia sido habilmente traada sobre--a _inviolabilidade_ do rei--a
_responsabilidade_ do _ministro_ e a _soberania_, do _povo_.


XVI

O Marquez de Pombal queria a liberdade para a patria e para o povo, como
a primeira fonte de engrandecimento e prosperidade nacional.

O Marquez de Pombal no phantasiava theorias politicas nem traava
systemas philosophicos; no escrevia pungentes ironias e asperos
epigrammas; no defendia e exaltava o protestantismo, para censurar
e maldizer a Egreja catholica; no persuadia a revolta nem excitava os
povos  pilhagem e  carnificina--concebia medidas uteis e prudentes, e
executava-as conforme as circumstancias imperiosamente o exigiam.

A regenerao intima dos homens e das instituies, e no a organisao
_formal_ e superficial do systema governativo, foi o seu firme
proposito, objecto constante de sua actividade e desvelo, embora para o
conseguir fosse necessario dominar o _rei_, opprimir e desacreditar os
nobres, desprestigiar e abater o clero.

Tinha por ventura o _rei_ fora, energia, firmeza de vontade, sciencia e
coragem para salvar a nao e o povo e detel-o  beira do abysmo, que de
dia para dia lhe cavavam profundo tantas causas de ruina?!

Seria bastante robusto o seu brao, poderoso o seu sceptro de oiro,
valiosos os diamantes da sua cora, para poupal-os ao choque
revolucionario, que de perto e ao longe se presentia, e que em breve
devia abalar a Europa inteira, j consideravelmente agitada pelas
pulsaes, que violentas se succediam no corao da Frana e que a
faziam estremecer at s mais affastadas extremidades?!

Qual teria sido o destino do pequeno e ento pobre e humilde Portugal,
se o no houvessem preparado para resistir  onda revolucionaria,
que mais tarde lhe devia passar por sobre as _quinas_ e inundar os seus
_castellos_?!

Existiria hoje Portugal, como nacionalidade e paiz _independente_, se
lhe no houvessem dado, annos antes, fora e coragem, recursos e
patriotismo, para no succumbir abatido ante as armas victoriosas do
moderno Cesar, que, debaixo da forma do despotismo e da tyrannia, da
invaso e da conquista, contra a sua vontade talvez, ou, melhor ainda,
sem o presentir, fazia com a ponta da espada e com a bocca de seus mil
canhes a propaganda liberal?![1].


XXIII

Depois da resurreio nacional, que em 1640 succedeu  morte da
independencia da patria, esmagada pelo peso oppressor de estranho jugo,
devida no como pretendem alguns, s combinaes _grandiosas_ e 
politica _admiravel_ de Richelieu, mas  patriotica iniciativa e 
dignidade heroica dos conspiradores populares,--a nao portugueza
recobrou a sua autonomia, despedaou as algemas de to odiosa
servido politica, desprendeu-se, por um soberano esforo de coragem,
dos braos de ferro, em que durante longo e angustioso periodo a tinham
apertado os despotas castelhanos, e levantou sobre o throno de Affonso
Henriques, reis, se no filhos do povo, eleitos e proclamados por elle.

Portugal entrou de novo no dominio e posse de suas conquistas; e o
soberano opulento do Oriente, o descobridor generoso de ignotas plagas e
de estranhas gentes, ergueu-se do tumulo, que lhe tinham aberto o arrojo
pueril d'uma creana vida de glorias vs, e a imbecilidade trpega
d'um velho cardeal fanatizado.

Era todavia sombra magestosa d'um vulto heroico, surgindo entre as
ruinas de sumptuoso edificio desmantelado!

Nem exercito, nem marinha, sem commercio, sem industria, exhaustos os
cofres do estado, perdido o credito, nominal a riqueza de suas
maravilhosas descobertas, vazio o thesouro de suas conquistas!... S com
a aurola de passadas glorias; sem outro titulo perante as naes, alem
da merecida gratido, a que tinha direito pelos valiosos servios
prestados  humanidade e  religio, que o ligara ao co e a Deus
logo desde o bero!

Havia para elle a esperana no futuro firmada na lembrana do passado;
existiam amontoados, sobre os mares e nas suas ricas possesses
abandonadas, os despojos da sua antiga grandeza; o seu nome escripto
sobre toda a extenso do Oceano, brilhando nas coroas de muitos
monarchas, gravado no corao de muitas naes florescentes!

Foi por isso que todos acolheram com applauso o brado da sua
independencia e lhe ajudaram a manter a liberdade, que desastrosamente
havia perdido nas plagas longinquas de Alcacer Quivir e sobre o leito de
um cardeal moribundo!

A coroa de ferro dos senhores de Hespanha precisava das perolas e dos
diamantes de quatro mundos!...

Para cobrir a juba ensanguentada do leo de Castella eram necessarios os
alvissimos arminhos do manto de nossos reis!...

A ambio insaciavel do hespanhol, no contente com as suas possesses,
pretendia ainda com sfrega cubia usurpar as colonias portuguezas, que
j se alongavam e estendiam do oriente ao occidente, do septentrio ao
meio dia, sobre todos os continentes,  roda e no meio de todos os
mares!...[2].


XXIV

Os herdeiros da casa de Bragana, os _populares soberanos eleitos pelo
povo_, os primeiros representantes d'essa realeza _legitima_, nem
comprehenderam a sua elevada misso, nem lhe importaram as necessidades
do _seu_ povo, no sabendo ou no querendo aproveitar-se do amor e
da confiana que nelles haviam depositado os que, resgatando o reino,
lhes cingiram o diadema e lhes lanaram sobre os hombros a purpura de
duas _dynastias_!

No emprehenderam reformas; no traaram plano algum de politica
definida; no promoveram o desenvolvimento ou ao menos a restaurao da
industria, do commercio, da navegao--de todos quantos elementos
constituem a vida laboriosa, o bem estar social e a prosperidade d'uma
nao livre, independente e opulenta do que poderia tornal-a grande e
respeitada; exhaurindo o _erario_, sem activar as foras da riqueza
publica e particular, sem abrir novos mananciaes de produco, sem dotar
o paiz de melhoramentos de reconhecida utilidade... sua unica
preoccupao, todo o seu empenho limitava-se, parecia comprazer-se at,
em augmentar e completar o despotismo, que estranhos para c haviam
importado, e o gosto da epocha, o exemplo d'outras crtes, muito
favoreciam, engrandecendo ao mesmo tempo os jesuitas, dando fora e
apoio ao tribunal da inquisio; em manter um fausto ruinoso, em
propagar o amor e a paixo por um luxo, mais do que inutil,
prejudicial, e por vezes e em muitas cousas insolente; em consumir
improductivamente, com vaidades reaes, em sumptuosas construces, em
dispendiosas obras d'arte, e, o que  peor, em beatificas e exaggeradas
piedades mundanas, capitaes immensos, sommas fabulosas!

Portugal, arrancado pela mo do povo ao jugo de Castella,  em 1703
_hypothecado_ aos inglezes, que o exploraram, como o possuidor de _m
f_ explora a propriedade alheia. Roma especulou tambem; a nobreza e
o clero completaram este systema de legal e convencionada pilhagem!...


XXV

Foi nesta situao, aggravada por muitos males, que o sabio e corajoso
ministro de D. Jos se propoz a tarefa espinhosa de restaurar a patria,
quebrar o jugo estranho, que lhe pezava odioso, extinguir aquella
vexatoria explorao, que, debaixo da apparencia de uma _benefica_
tutela, lhe ia aniquilando as foras physicas, ao mesmo tempo que
_outros_, invocando a f e o Evangelho, a cruz e a Redempo, abrindo
masmorras e atiando fogueiras, iam apagando a luz na alma e
immobilisando o espirito do povo!...

Restabelecer a actividade e ordem no seio da familia portugueza, dar-lhe
a liberdade, fundar a felicidade domestica e a prosperidade
publica,--tal foi o seu elevado empenho.

 pois a intelligencia, a vontade, o poder de um s homem,--reanimando uma
nao moribunda, prestes a esconder-se no cemiterio da historia, embora
as geraes vindouras, prestando-lhe a devida homenagem, houvessem de
lhe gravar sobre a campa o mais glorioso epitaphio;--chamando  vida, ao
trabalho,  liberdade e  independencia um povo escravo da nobreza e do
clero, e, o que  peor, da ignorancia, do fanatismo, da indolencia e da
miseria;--elevando e fazendo respeitar um rei _servo_ da crte de Roma,
_vassallo_ da Inglaterra!...


XXVI

Luta infatigavel de tantos annos, se no de todo infructifera, porque a
semente, que ficara escondida na terra, veio mais tarde a germinar com o
calor das revolues, foi todavia mallograda pelas intrigas dos nobres e
do clero, pelas ambies da Inglaterra e da Hespanha: aquelles, ainda
curvados sobre o catafalco de D. Jos, juravam o exterminio do homem,
que consideravam seu implacavel e invencivel inimigo; estas, insinuando
s occultas a queda do independente ministro, promettiam _apoio
seguro_ aos que emprehendessem e conseguissem derribal-o.

 morte do rei succedeu pois a queda do ministro e por ultimo a
condemnao e o exilio do varo prestante e benemerito, calumniado,
perseguido e processado por ter amado o rei e a patria, o povo e a
liberdade!...


XXVII

Poucos annos depois da sua morte, apressada talvez pela condemnao, que
o obrigara a encerrar-se em logar obscuro, e afastado da crte, onde
ostentara sciencia e poder, fora de vontade e energia, regulando
sabiamente os destinos da nao, que por sua direco immediata e em
suas proprias mos se havia reanimado e engrandecido, realisavam-se em
Frana as prophecias da revoluo, com todos os horrores da guerra civil.

A cabea de Luiz XVI rolava nos degrus do cadafalso, que lhe levantaram
os despotas da _liberdade_, como tambem em Inglaterra havia cado
abatida a cabea de Carlos I. A guilhotina fazia victimas s mil,
tragava, devorava, em nome da _deosa da razo_, como a fogueira
inquisitorial em nome da religio sancta! O punhal revolucionario,
impellido pelo brao homicida dos revoltosos, alastrava as ruas e as
praas de cadaveres com a mesma furia, com que em outras eras immolara
os _albigenses_ e os sectarios da religio _reformada_.

Foi seu intuito, objecto de seus infatigaveis esforos, obter o mesmo
resultado, por meios brandos e pacificos; conquistar as mesmas ideias,
fazer dominar os mesmos principios, firmar o poder dos reis na
_soberania de todos_, dar a liberdade ao povo por meio d'uma
_constituio representativa_, semelhante  que vigorava em Inglaterra,
embora para o conseguir fosse necessario usar de tyrannia contra alguns
nobres, decretar o exterminio d'uma congregao mais politica do que
religiosa, odiada j em toda a Europa e em muitas regies da America,
condemnada pelas universidades seculares, mal vista dos povos e d'uma
parte consideravel do clero, e at repudiada pela Egreja.


XXVIII

Era foroso, em to arriscado e perigosissimo lance, em circumstancias
to anormaes, oppr  tyrannia de alguns a tyrannia de um s, ao
despotismo de muitos o despotismo em nome do rei; de outra sorte no
conseguiria desarmar as ciladas, desfazer as intrigas, cortar os tramas,
frustrar manejos, surprehender conspiraes, que tudo e por toda a parte
a _nobreza_ e o _jesuitismo_ estendiam e machinavam ao _rei_, ao seu
_ministro_ e ao _povo_, que, ligando-se por um pacto inviolavel, no
tardariam a destruir-lhes a insolente _preponderancia_, a extinguir-lhes
os _privilegios_, a supprimir-lhes as _regalias_, a alevantar-lhes os
_foros_, a picar-lhes os _brazes_, em uma palavra a dobrar-lhes as
_orgulhosas servis_ sob o jugo inflexivel da--_egualdade perante a lei_.

Se o Marquez de Pombal no fosse victima de falsas accusaes e vis
intrigas, se se conservasse mais algum tempo  testa dos negocios
publicos investido do supremo governo da nao, se houvesse gozado
juncto do throno de D. Maria da mesma confiana, apoio e favor, que
alcanara perante D. Jos, a _constituio_ teria apparecido primeiro em
Portugal do que em Frana, em Hespanha e em outros paizes, e o systema
_representativo_ seria proclamado entre ns, pelo menos, ao mesmo tempo.

 esta uma verdade, que immediatamente deriva dos factos, e que
difficilmente poder escurecer-se.

O despotismo, a tyrannia de que se arge Pombal, era imposta pelas
necessidades, como o unico meio de chegar  liberdade.

No ignorava por certo este grande homem--que a _liberdade_ e a
_tolerancia_ s com a liberdade e com a tolerancia podem solidamente
fundar-se no seio de uma nao.

Bem sabia elle--que os partidarios da liberdade e da tolerancia devem
deixar o emprego da fora aos partidarios da fora e da intolerancia.

Mas este conselho evangelico, que s hoje comea a converter-se em
preceito obrigatorio, este grande principio theorico, era naquella
epocha, attentas as circumstancias, de impossivel applicao na pratica.

O que no seculo XIX em 1868 no pde realisar a Hespanha, era nos fins
do seculo XVIII uma utopia impraticavel em Inglatarra, em Frana, e
muito mais em Portugal.

Os designios do grande estadista e as suas vistas eram patrioticas; o
seu ideal a emancipao politica, religiosa, moral e economica do povo,
que elle conhecia--grande, opulento e soberano na historia,--pequeno,
pobre e escravo no presente; o mobil que o determinava o amor da liberdade.

Sebastio Jos de Carvalho mostrava em muitos dos seus actos ser no
interior da sua alma, no intimo da sua consciencia, pela razo e pelo
sentimento, um dos maiores e mais enthusiasticos liberaes do seculo XVIII.

Se no pde ver executado o seu plano e levar ao cabo to gloriosa
empresa, arremessando para longe a mascara do despotismo, foi porque o
no deixaram; foi ainda a _reaco_, que lh'o impediu, a injustia que
lh'o estorvou.

Despojado do poder, privado da aco governativa, condemnado ao
ostracismo politico, exilado para longe da crte, afastado dos negocios
publicos, viu mallograda a sua obra; no lhe embaciaram porem a gloria,
no lhe quebraram os brazes, e, o que  de maior valia, no lhe
extinguiram a gratido no corao dos povos; e se ao tumulo baixam
esperanas, devia acompanhal-o a lembrana de que um dia as suas ideias
haviam de ser realisadas, os seus principios triumphar, e o plano, que
lhe absorvera a existencia inteira, posto em plena execuo, o seu nome
exaltado, a sua reputao glorificada e os seus inimigos, os inimigos do
povo e da liberdade, confundidos.

Se ao Marquez de Pombal no permittiu Deos continuar a obra do
_constitucionalismo_, cabe-lhe todavia a bem-merecida gloria de preparar
o paiz e os povos para a proclamarem trinta annos depois da sua morte.


XXIX

 transformao, que Portugal experimentou pela aco previdente e
reformadora do grande ministro, aos elementos de fora e prosperidade,
que no s indicou, mas com que legalmente dotou a patria, s
instituies politicas e economicas, e aos germens de educao popular,
que semeou, devemos em grande parte os beneficios, que com razo se
attribuem  revoluo liberal.

Sem o genio fecundo, sem a intelligencia vasta e a dedicao inexcedivel
de Sebastio de Jos Carvalho, seria Portugal conquista partilhada entre
a Frana e a Hespanha, ou nao livre e independente?

No estado de desorganisao politica, de desordem moral e economica, de
miseria e degradao, a que Portugal tinha chegado antes da sua
administrao, seria possivel o triumpho glorioso do partido liberal em
1820?

Cremos firmemente que no: assim nol-o dizem a razo e a consciencia,
firmadas na historia e esclarecidas pela philosophia dos factos.

 por isso que entre as causas remotas, mas essencialmente
determinativas, da transformao liberal, que depois se operou, devemos
considerar, como uma das mais importantes e efficazes, o governo forte e
energico, a administrao sabia e illustrada, a politica severa e, por
vezes, intolerante do Marquez de Pombal.

Abone a historia imparcial a verdade que o paradoxo esconde.

Que importa a expulso dos jesuitas?

Era uma necessidade para o estabelecimento da liberdade politica e da
tolerancia religiosa, que o Marquez de Pombal amava, queria fundar, e
que elles detestavam.

Que importa que do alto do cadafalso rolassem as cabeas de alguns
nobres, que, ociosos e embriagados no mais escandaloso luxo, conspiravam
contra o rei, odiavam as reformas do ministro, queriam privilegios e
prerogativas injustificaveis, opprimiam e vexavam o povo, nada fazendo
em beneficio da patria; e, de mos dadas com os inquisidores, discipulos
de Loyola, dedicados familiares do _sancto officio_, procuravam a morte
do rei, a queda do ministro e a ruina da nao?!


XXX

O Marquez de Pombal obstou por uma sabia politica--ao despotismo do rei,
 oligarchia dos nobres,  theocracia dos jesuitas,  miseria e 
degradao do povo.

Foi, como se exprimem alguns, odiado dos nobres pelo seu nascimento e
pelo seu liberalismo; dos inquisidores pela sua tolerancia e moderada
piedade; dos jesuitas pelo seu saber e perseverana; da populaa por sua
severidade; dos inglezes pelos obstaculos que lhes oppoz, e com que
abateu a sua omnipotencia commercial e politica.

Os inimigos implacaveis do ministro s com a morte do rei poderam
derribal-o, mas no perdel-o. Affastaram-n'o dos negocios publicos; mas
nos dias do seu poder nem lhe torceram o animo nem lhe afrouxaram os
esforos, que continuadamente empregou para o engrandecimento e
regenerao da sua patria.

Interrogae a politica, a moral, a jurisprudencia, as finanas, a
agricultura, o commercio, a industria, as artes, a navegao, a milicia,
a instruco publica, e at a propria religio; numa palavra,
consultae as leis, as instituies e os costumes, e por toda a parte
encontrareis ainda hoje a sua aco benefica e reformadora.

A guerra implacavel, que ento lhe fizeram os retrogrados e os
absolutistas, os nobres e os jesuitas, a inquisio, a Hespanha e at a
propria Inglaterra,  a mesma que a _reaco_ machna e promove ainda
hoje e tem promovido sempre contra os _liberaes_.

Se o Marquez de Pombal foi despota, se empregou o terror e a tyrannia,
no lhe vinham d'alma taes excessos, nem lh'os inspirava o seu genio
altivo e severo, mas liberal e bemfazejo; provocava-lh'os a reaco dos
nobres e dos fanaticos, exigiam-lh'os as necessidades da patria e os
velhos e inveterados prejuisos do passado.

No foi para exaltar o despotismo, nem para lisonjear o monarcha, que,
por amor do povo e para bem da nao, parecia adorar a realeza.

No foi para satisfazer vaidosas ambies de quem nunca mostrara tel-as,
que a memoria do _augusto principe_ se gravou no bronze da estatua
equestre, nem o monumento levantado para impr ao povo a idolatria
monarchica.


XXXI

Todos os grandes homens como todos os sanctos tm a sua estrophe na
epopea legendaria do povo.

Affonso Henriques, Mestre d'Aviz, Nuno Alvares Pereira, Joo das Regras,
Vasco da Gama, D. Joo de Castro, Affonso de Albuquerque, Cames, Joo
Pinto Ribeiro, frei Bartholomeu dos Martyres, frei Caetano Brando e mil
outros, perpetuos na historia, so creaes ideaes na immortalidade da
legenda.

O Marquez de Pombal, tendo sido na realidade tudo o que dissemos,  no
bom senso dos povos um ente legendario.  um typo ideal, que no se
apaga, que jmais se apagar na consciencia e na imaginao do nosso
povo, como o sero no futuro e em parte j o esto sendo Gomes Freire,
Fernandes Thomaz, Borges Carneiro, Ferreira Borges, Mousinho da
Silveira, Agostinho Jos Freire, Passos Manuel, Alexandre Herculano...
so sempre estes os homens que o povo escolhe para cantar na sua lyra de
oiro, para perpetuar-lhes a memoria na sua rude mas espontanea e sincera
poesia.

Todos os grandes homens comeam por ser utopistas; a sua vida  uma
lucta sem treguas. Numa das mos o camartello destruidor do passado que
resiste, na outra o facho civilisador das ideias alumiando o caminho do
futuro que a sua razo descobre.

Para premio as mais das vezes o martyrio, para recompensa o esquecimento
ou a injustia na historia.

Mas, para salval-os d'esse esquecimento ou reparar essa injustia l
est o bom senso, o espirito recto, a alma poetica, o corao agradecido
dos povos, a legenda, esse--_relatus inter divos_, com que elle
significa e aprega a immortalidade e faz a apotheose dos seus heroes.

A estatua de D. Jos I pde tombal-a a mo soberana do povo ou
polverisal-a a lima edaz do tempo, que assim gasta o granito como o
bronze e tudo consome.

A _realesa_, depois de haver durante seculos contrariado os progressos
da civilisao pela liberdade, pode ser manh um facto _utopico_, sem
valor na consciencia da humanidade, sem deixar saudades nem merecer
benos; mas o homem grande pela grandeza do genio, pelo acerto e
inergia de aco, o homem, que illustrando a patria beneficiou o povo, 
vulto que se ergue magestoso ante os olhos de todas as geraes que
passam e em todos os seculos que vam; tem a immortalidade no sentimento
intimo das massas, na consciencia do povo; em cada corao um altar
de saudades, em cada cabea um monumento de gloria, em cada bcca uma
trombeta a apregoar-lhe as virtudes... e todas as mos se erguem para o
abenoar e applaudir.

Que a realidade historica do grande Sebastio Jos de Carvalho e Mello
corresponde  poesia da legenda provam-o muitos documentos, cuja
authenticidade no pde ser contestada: foi por isso que nos dispensmos
de os apontar, ou transcrever.

Muito alem poderiamos avanar nesta apreciao historica, fragmento d'um
livro inedito, em que o assumpto occorreu incidentemente: julgmos
bastante este simples esboo critico, ligeiros traos, a que outros mais
competentes daro luz e colorido.

FIM

    [1] Napoleo! que a Providencia parece haver lanado no meio das
    ruinas, a que a revoluo de 1789 tinha reduzido a Frana, para
    levantar sobre os destroos do despotismo o dominio salutar e
    benefico da liberdade!

    Os elementos corrompidos, que constituiam uma civilisao, j
    caduca, enferma e quasi moribunda, foram por ultimo triturados,
    dissolvidos pela aco candente do vulco revolucionario, que tinha
    por principal reagente a liberdade.

    A desaggregao molecular, se assim  licito dizel-o, do monstruoso
    cadaver do feudalismo, da theocracia e da realeza absoluta,
    operou-se d'um modo geral e completo no violento e vigoroso impulso,
    que a fora soberana do povo havia desenvolvido.

    Familia, patriotismo, coheso e unidade nacional e politica,
    religio, amor de dignidade, nobreza de sentimentos elevao de
    ideias, aspiraes de gloria e a propria liberdade... tudo havia
    desapparecido, abysmando-se em completa desordem e anarchia, na
    immensa cratera, que a espantosa erupo revolucionaria acabava de
    rasgar no seio da Frana.

    O imperio, a concentrao, o despotismo, a tyrannia das armas, os
    estragos apparentes da conquista, as invases ambiciosas d'um homem
    e do seu numeroso exercito, despertaram e desenvolveram por toda a
    parte uma nova fora de coheso e affinidade, para reunir os
    fragmentos dispersos, e dar ao corpo dilacerado consistencia e
    unidade por meio de um novo arranjo politico, religioso, moral e
    economico, que lhe assegurasse a existencia e uma vida regenerada e
    pura.

    Do embate de duas foras contrarias, mas tendentes e susceptiveis de
    formar um dia o _equilibrio_--da aco _descentralisadora_ da
    republica e da aco _concentradora_ do imperio, devia mais uma vez
    resultar a _harmonia_!

    Com a bayoneta e com a espada levava o soldado do imperio o terror e
    o espanto ao seio das familias nas terras, que invadia e
    conquistava,--era o instrumento material e automatico do despotismo.

    Com a palavra, junto do lar domestico e rodeado d'essa familia, que
    o recebia, como inimigo e como hospede, narrava os feitos gloriosos
    da revoluo, expunha o seu plano, traava as suas reformas,
    bemdizia os seus beneficios, exaltava as suas doutrinas, applaudia o
    seu triumpho--era o apostolo fervoroso da liberdade, o discipulo
    intelligente e livre da eschola de 89.

    A Constituinte tinha-lhe dominado a intelligencia e o corao;
    Bonaparte recrutara-lhe apenas os braos e a fora muscular.

    Aquella apontou-lhe para o sol da liberdade e dava-lhe como premio a
    emancipao: este descobriu-lhe o horisonte luminoso da gloria e
    promettia-lhe a cora do vencedor.

    Estas duas foras, ambas poderosas, ambas intrepidas e inflexiveis
    na meta, quasi sempre terminam por transigir... Se uma convence e
    domina, a outra seduz e arrasta; e s vezes a razo e a conscincia
    humilham-se ante as ambies mesquinhas dos homens... E a historia
    prova de sobejo que se os filhos da Frana amam a liberdade, prezam
    sobre tudo a gloria militar, o que no admira se attentarmos 
    poderosa influencia que sobre este povo exerceram duas raas, duas
    civilisaes differentes--a latina e a germanica, e  sua educao
    guerreira.

    Foi por isso que ao vulto heroico do soldado imperial seguia por
    toda a parte a sombra, pelo menos, do revolucionario de 89.

    [2] Hoje ainda nos invejam e disputam a liberdade, o nosso mais
    precioso thesouro... Hoje clamam pelo irmo portuguez para que lhe
    cure as chagas venenosas da tyrannia e lhe restitua a vida quasi
    exhausta pelo despotismo com o elixir animador da liberdade!...

    A liberdade!...

    A liberdade, que os desventurados filhos da moderna Hespanha, os que
    se appellidam legitimos descendentes de arabes e godos, parece no
    sentirem nem conhecerem, e que muitos traioeiramente fingem amar,
    para mais facilmente a destruirem!...

    Querem a liberdade que para o portuguez  a vida, que o portuguez
    ama e respeita, de que o portuguez  apostolo e soldado
    inflexivel?...

    Levantem-lhe um altar e adorem-na; faam-se missionarios e
    propaguem-na; e, se tanto for preciso, opponham aos despotas, que os
    opprimem, o despotismo das revolues.

    No clamem pelo _auxilio_ d'aquelles que, no podendo dar-lhes essa
    liberdade, no querem, com uma unio impossivel, perder a sua!...

    Os livros sanctos fallam de um Caim e de um Abel.

    Ter a historia contemporanea, um dia, de personificar nelles dous
    povos que se dizem tambem _irmos_?!

    Venha, e bem vinda seja,--a harmonia nas leis; a uniformidade nas
    instituies; o consorcio das litteraturas; a aproximao dos
    costumes; a intimidade de relaes moraes e economicas: ciam por
    terra essas odiosas barreiras que estorvam a liberdade de commercio
    entre os dois povos, e a troca de seus productos; acabe por uma vez
    o repugnante systema dos passaportes; entronquem-se as linhas
    ferreas; facilitem-se as communicaes fluviaes; canalizem-se os
    rios communs; celebrem-se congressos scientificos e litterarios,
    exposies industriaes e artisticas, _peninsulares_; venham, numa
    palavra, a fraternisao dos homens e a alliana dos governos; mas,
    para fortalecer a _autonomia_ dos _dois_ povos e garantir a
    _liberdade de todos_,--e o _futuro_ resolver o difficil problema,
    para o qual a _natureza_ e a _historia_ fornecem dados to
    differentes e heterogeneos, que o tornam _hoje_ absolutamente
    insoluvel.

    .....................................................................

    Em 1866, em que pela primeira vez se traaram estas linhas, bem se
    presentia j o que dous annos depois veio a succeder, e se est
    realisando na visinha Hespanha.

    Commoes violentas denunciavam o aproximar--d'uma revoluo
    profunda para preparar uma regenerao intima,--de um esforo
    gigante que devia partir os ferros a essa nao escrava da tyrannia
    e do fanatismo, agrilhoada (e o que  assombroso!) por alguns de
    seus degenerados filhos ao poste do mais affrontoso despotismo e da
    mais ignominiosa intolerancia politica e religiosa!

    Fez-se o esforo, operou-se a revoluo e com tanta maior gloria
    quanta maior abnegao e generosidade; caram os tyrannos,
    libertaram-se os opprimidos, erigiram-se altares, levantaram-se
    monumentos  liberdade em muitas leis e instituies, novas ou
    regeneradas; mas a revoluo profunda no sentimento, grandiosa na
    ideia, sublime nas inspiraes, , fatalmente,  hora em que
    escrevemos mais um desengano pungentissimo que uma illuso fagueira,
    antes um desalento que uma esperana.

    A Hespanha parece retrogradar, em vez de progredir; olha desconfiada
    e como receosa para o futuro que a chama, e pesam-lhe saudades do
    passado, saudades de amarguras, saudades do seu longo martyrio!

    Desventurada Hespanha! Para que te cortam o vo de legitimas
    aspiraes?

    Para que sem d arrancam no teu bello jardim de esperanas as mais
    formosas e promettedoras?

    Para que te querem agrilhoar de novo ao poste onde te suppliciaram
    durante tantos seculos?

    Mudana de _potro_, mudana de _cutello_, substituio de
    _algozes_... mas sempre o mesmo supplicio! sempre os mesmos
    instrumentos de tortura!

    Mesquinha revoluo, que to pouco alcana!

    Povo infeliz! quanto mais rega com lagrimas e sangue o slo da
    patria, tanto mais elle se lhe desentranha em ferro para forjar
    grilhes; e s produz espinhos para tecer a cora do seu prolongado
    martyrio!...

    Povo infeliz! mal principiava a despontar a aurora da tua
    _redempo_ pela liberdade, e erguem-se tenebrosas as nuvens do
    passado, para toldar a face ao grande astro do teu dia de gloria,
    projectando sombras em vez de irradiar luz!

    Quando, apostolo da grande ideia, te purificavas para tomar sobre os
    hombros a tunica alvissima do augusto sacerdocio, prestar culto 
    liberdade, e entoar o hymno do progresso, que em breve deveria
    talvez repercutir-se em todos os angulos da Europa,--arremessam-te a
    mortalha destinada ao _moribundo_, ainda tincta no sangue das
    hectombes, com que a tyrannia oppressora celebrava as suas
    criminosas e lugubres victorias, e condemnam-te a mais alguns annos,
    e quem sabe se a mais alguns seculos de tormentoso martyrio!

    Revoluo de 1848 em Frana, de 1868 na Hespanha: datas gloriosas, e
    que apenas separam vinte annos de luctas no interrompidas; sonhadas
    aspiraes, gratas lembranas d'esse sonho de liberdade, que valor,
    que importancia ser a vossa na historia das naes?!

    A Frana acordando encontra--o _imperio_, e a liberdade mutilada.

    A Hespanha--A _realeza_, e a liberdade... talvez perdida.

    .....................................................................

    Tremenda  a responsabilidade d'aquelles que preferem  liberdade de
    todos as pompas deslumbrantes, mas vs, d'uma _crte_ apparatosa!...






End of Project Gutenberg's O Marquez de Pombal, by Manuel Emdio Garcia

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O MARQUEZ DE POMBAL ***

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