Project Gutenberg's Pero da Covilhan, by Zeferino Norberto Gonalves Brando

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Title: Pero da Covilhan
       Episodio Romantico do Seculo XV

Author: Zeferino Norberto Gonalves Brando

Release Date: May 8, 2010 [EBook #32296]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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    Notas de transcrio:

    O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso
    em 1897.

    Mantivemos a grafia usada na edio impressa, tendo sido corrigidos
    alguns pequenos erros tipogrficos evidentes, que no alteram a
    leitura do texto, e que por isso no considermos necessrio
    assinal-los.




                              Pero da Covilhan


      QUARTO CENTENARIO DO DESCOBRIMENTO DO CAMINHO MARITIMO DA INDIA

                              PERO DA COVILHAN

                      (EPISODIO ROMANTICO DO SECULO XV)

                                    POR

                             ZEPHYRINO BRANDO

                 DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
       DA REAL ACADEMIA HESPANHOLA DE MADRID, DO INSTITUTO DE COIMBRA
                               E DA S. G. L.



                     ANTIGA CASA BERTRAND--JOS BASTOS
                              LIVREIRO-EDITOR
                      _LISBOA--73, Rua Garrett, 75_

                                   1897



Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa




CONVERSA PREAMBULAR


Eu no sei bem o que venho aqui fazer.

No venho, de certo, apresentar Zeferino Brando, pois eu proprio lhe
fui apresentado, novio em lettras, quando elle j era, na egreja
litteraria, officiante de pontifical, bemquisto e bem acolhido dos
sacerdotes maximos, com alguns dos quaes privava, de irmo a irmo.

Com effeito,--e sem que saiba dizer de positivo ha quantos annos, no
devendo comtudo andar muito longe dos trinta,--foi na primeira casa que
Joo de Deus habitou em Lisboa, na rua dos Douradores, e no proprio
quarto do poeta, que Zeferino Brando e eu nos avistmos a vez
primeira. Era elle alferes ou segundo tenente d'artilheria, eu,
cadete de lanceiros.

Vrmo'-nos, e ficarmos sendo, logo ali, amigos velhos, foi obra de um
momento. Eu tinha na minha bagagem uns versitos, que apresentava a medo,
e que um dia Manoel de Arriaga leu em voz alta, depois do caf, na mesa
dos hospedes, com a mesma emphase com que leria versos de Victor Hugo,
conquistando-me uma ovao no meio d'aquelle auditorio ingenuo, e
deixando-me a mim proprio deslumbrado de taes versos serem meus.
Coitados! Por onde andaro elles!

Zeferino Brando, j a esse tempo tinha poetado muito e, no meu entender
de ento, hombreava com todos os da sua vida de Coimbra, amigos de tu,
que, sempre que se encontravam, tinham to bons abraos a trocar, to
bellas coisas a relembrar e a dizer. Eram o Joo de Deus, que estava
ali; o Arriaga, que vinha todos os dias; o Anthero, que apparecia de
quando em quando; o Simes Dias, o Candido de Figueiredo, o Guimares
Fonseca, o Joo Penha, a todo o momento falados, porm ausentes.

Por signal, que a esse mesmo tempo Zeferino Brando se lembrou de fazer
annos, e nada menos que vinte e seis. A lembrana foi tida como
disparate de marca maior, e como antecedente de pessimos effeitos. E
tanto que Joo de Deus lhe disparou, logo ali,  queima roupa:

    Com que ento, cahiu na asneira
    De fazer na quinta feira,
    Vinte e seis annos! Que tolo!
    Ainda se os desfizesse...
    Mas fazel-os, no parece
    De quem tem muito miolo!

Averiguou-se, porm, que Zeferino era reincidente no delicto, pois no
anno anterior fizera o mesmo, e mostrava-se disposto a repetir no
immediato. E por isso Joo de Deus accrescentava:

    No sei quem foi que me disse,
    Que fez a mesma tolice
    Aqui o anno passado...
    Agora o que vem, apsto,
    Como lhe tomou o gosto,
    Que faz o mesmo? Coitado!

    No faa tal; porque os annos
    Que nos trazem? Desenganos
    Que fazem a gente velho.
    Faa outra coisa; que em summa
    No fazer coisa nenhuma,
    Tambem lhe no aconselho.

Zeferino Brando tinha boa vontade de seguir  risca a advertencia do
poeta; no poude no emtanto satisfazer-lhe o desejo. Effectivamente, fez
outras coisas, livros excellentes, por exemplo; mas accumulou, e foi
tambem fazendo annos, com a maior moderao, o mais devagar que lhe foi
possivel, mas, em summa, fazendo-os e contando-os. Era o que Joo de
Deus lhe tinha dito:

    Mas annos, no caia n'essa!
    Olhe que a gente comea
    s vezes por brincadeira,
    Mas depois, se se habitua,
    J no tem vontade sua,
    E fal-os, queira ou no queira.

Para mim, n'esse bom tempo da vida, Zeferino Brando vinha j, no direi
da noite dos tempos, mas de um passado glorioso. Era do fraternal e
alegre convivio d'aquelles que mais influencia exerciam nos nvos de
ento, e sabe-se quanto  ciosa e aristocrata a superioridade
intellectual, que no desce nunca a nivelar-se com os mediocres, e que
s anda hombro a hombro com os seus pares.

Depois, tive occasio de lhe definir melhor as referencias no espao e
no tempo, com respeito s geraes academicas, que elle frequentou,
quellas de que foi continuador, e s que o continuaram a elle proprio.

Mas, em todo o caso, nunca poderei esquecer que, nas lettras, fui seu
_caloiro_.

Portanto, toda e qualquer ideia de apresentao, ou de recommendao
seria absurda.

Mas Zeferino Brando exigiu-me que o acompanhasse n'esta sua quarta
excurso pelo mundo aventuroso da publicidade, no por medo d'ella, que
o seu animo  seguro, e o seu lucido espirito affeito de ha muito a
ponderar quanto valem baldes e glorias litterarias; mas verdadeiramente
to s, pois outra explicao lhe no posso dar, por mero capricho de
artista.

Dmos, por conseguinte, o brao e vamos ambos de companhia, uma vez que
esta lhe  agradavel, e que eu encontro n'ella prazer e honra.

Do muito que na mocidade poetou, fez Zeferino Brando apuramento selecto
em um volume, a que deu por titulo _Paginas Intimas_, do qual depois fez
segunda edio, mais aprimorada ainda, e tambem difficil j de encontrar
nas livrarias. No  vulgar que este caso succeda, e no  pequena
honra, nem pequena satisfao para um auctor, e sobretudo para um poeta,
poder referil-o.

Os taes annos, que a gente se habita a fazer, e que depois cada qual
faz, queira ou no queira, foram arredando o poeta das tentaes da
rima, sem comtudo o desviarem da verdadeira poesia, que elle
continuou procurando sempre, quer nos panoramas da natureza, observada
em longas viagens artisticas, e descripta posteriormente em paginas
coloridas e illuminadas, quer na evocao ideal dos tempos volvidos,
trazendo  tela do presente, memorias, personagens e feitos do passado.

D'estas duas predileces da sua mente, a um tempo assimiladora e
imaginosa, so documento bastante os dois livros de valor, com que a sua
bagagem litteraria se enriquece. Um d'elles, _Monumentos e lendas de
Santarem_,  um verdadeiro padro de sentimento, erguido s recordaes
gloriosas d'essa forte e vetusta cidade medievica; o outro, primeiro de
uma colleco de _Viagens_, que est reclamando, a brados, os seus
successores,  uma soberba descripo da _Belgica_ moderna.

Avulsos, e dispersos pelos jornaes, andam capitulos e fragmentos
descriptivos de uma excurso pela Italia, cuja leitura fugaz, ao tempo
da publicao, nos deixou no espirito uma grata lembrana.

Compraz-se o escriptor, como se v, e n'isto mesmo affirma intensamente
o seu culto pelo bello poetico, em frequentar, tanto na vida de relao
com o seu tempo, como na vida sonhadora a que o attraem os livros de
outr'ora, os dominios artisticos, onde a sua phantasia de meridional
mais  larga se expande.

Ali, os monumentos de mais de uma raa, livros de pedra abertos 
meditao dos videntes, e as lendas populares tenazmente conservadas na
memoria dos povos que se sobrepuzeram; aqui, ainda o passado, como
centro de attraco maior; depois, primacialmente, as soberanias e
magnificencias da arte, legados inestimaveis que as geraes foram
transmittindo, e nos quaes vae encontrar as mais altas suggestes
artisticas, e os mais profundos ensinamentos criticos, o gosto moderno.

Assumptos dignos de bem equilibrados e cultos engenhos, os quaes,
tambem, s por si, do medida do bom equilibrio e da alta cultura de
quem os escolhe e professa.

No so diversos os predicados do novo livro, que me encontro
prefaciando. O auctor impressionou-se com a bella e romantica figura de
Pero da Covilh, a qual apparece na historia, um pouco esbatida, to
smente pela exuberancia de luz com que se illuminam os quadros dos
descobrimentos e conquistas subsequentes, que elle em tamanha parte
preparou.

Essa figura, porm, tem contornos bem definidos, e Pero da Covilh
, na epopa dos Gamas e dos Albuquerques, um intelligente, um sagaz, um
inolvidavel predecessor.

Envolve-o o escriptor n'uma intriga romantica, apenas a indispensavel
para o seu proposito; mas de tal frma se cinge s linhas da realidade,
que a figura se destaca viva, deante de ns, como realmente foi, e o
leitor mal pde discernir onde comea e acaba a fico, e onde prevalece
o rigor historico.

Assim devia ser, e assim o comprehendeu Zeferino Brando, uma vez que a
vida aventurosa do seu personagem d que farte para todas as exigencias
da concepo romantica, sem precisar dos acrescentamentos da imaginao.

O scenario em que elle expande a sua actividade, to ousada e to
original, mesmo n'um tempo em que as mais famosas heroicidades no eram
de extranheza, apparece-nos restabelecido, por to singular poder de
evocao, que nos sentimos viver n'elle, com os olhos cheios de encanto
e a alma cheia de interesse, como se ns mesmos pertencessemos  poca
em que toda a aco do livro, muito mais historia do que romance,
amplamente se desenrola.

Vmos, logo no comeo, a Sevilha do seculo decimo quinto, e o
viver luxuoso das grandes casas de Hespanha, onde em muitas das quaes a
cadeira senhorial ousava defrontar-se em orgulhos e pretenes com os
thronos dos reis; e no solar magestoso dos Medina-Sidonia, vamos
encontrar o pagem galanteador e diserto que, trazido d'ali a terras de
Portugal, por c se deixou ficar a pedido de Affonso V, servindo com o
seu corao, que j era de portuguez, a patria de seus paes, assim
restituida a elle proprio.

Esse pagem, depois escudeiro e cavalleiro,  acompanhado pelo auctor e
pelo leitor, primeiro na sua misso e officio de personagem da crte e
do squito real, durante o ultimo quartel de vida, to agitado e to
pouco feliz, do rei, que em Portugal o havia detido e que sempre lhe
dispensou o seu favor; depois, em toda a sua peregrinao ao Oriente, na
demanda das terras do Preste, at dar fundo na Abyssinia, onde para
sempre o detiveram; esmagando-lhe a alma n'um captiveiro perpetuo, que
no deixou de ser profundamente tyrannico, embora lh'o houvessem tecido
com laos de sympathia, doirado com o lustre das riquezas e das honras,
agasalhado no ambiente da familia, e engrinaldado com as rosas do amor.

O idyllio amoroso, que constitue a trama romantica fundamental,
d'onde veiu por fim a ser gerada esta successo esplendida de quadros
historicos, passa-se na intimidade dos coraes e das consciencias
d'aquelles a quem um vivo affecto prendeu para sempre, mas para os quaes
a mais viva aspirao da alma foi um sonho que jmais se realisou. No
se pde conduzir fio mais tenue, com mais delicadeza e mais pericia,
atravez do labyrintho de rudes acontecimentos, onde as energias physicas
do homem so postas a toda a prova, sem nunca se lhe embotar a
agudissima sensibilidade do corao.

Parece-nos at, que a verdadeira e mais bella originalidade d'este livro
reside no contraste a que damos relvo agora. Os que tenham pensado
encontrar n'elle uma obra de completa fico, podem talvez ficar
desapontados ante o predominio que ali assumem a exactido, a
abundancia, a veracidade historica. Mas a conduco do fio ideal e
subtilissimo, de uma pura e platonica paixo amorosa, accendida nos
mysterios de duas almas amantes, e alimentada em todo o decurso da vida
com os oleos da religio e da cavallaria, com os incitamentos do dever e
da honra, a habil e engenhosissima conduco d'esse fio, repetimos, com
a qual o auctor parece nada se preoccupar sem que todavia um momento
a descure,  uma das maiores provas que Zeferino Brando nos podia dar,
de quo delicado  o seu temperamento artistico, de quo profundo  o
seu sentimento poetico, de quo esmerado  o seu fino gosto.

E aqui me deixaria longamente a palestrar com os leitores sobre os
meritos da obra, que deante dos seus olhos vae deslisar, se no
reparasse em qual deve ser j a sua impaciencia, e em como  tempo de os
deixar a ss com o dono da casa, do qual sabem j que teem a esperar uma
recepo de primr.

     26 de fevereiro de 1897.

                                                        FERNANDES COSTA.




_ADVERTENCIA_


O episodio, que vae ler-se, , como todos os episodios romanticos, um
pequeno espelho. Procurei disp-lo em termos de reflectir uma luz calma
e pura, como o co transparente e sereno, e no reprezentar a vasa de
lodaaes, d'essas miserias, que so a mais viva chaga social de todos os
tempos, o terrivel problema a resolver, o alpha e o omega das civilisaes.

Sem sacrificar nem a sombra da verdade historica, no tive de roar por
impudencias, nem de envolver-me em meandros asquerosos, salvo no
incidente da successo  cora de Castella.

No accuso de immoraes os que revolvem o ldo.

A quem deixa estagnar a agua, pertence mrmente a responsabilidade na
formao dos atoleiros. Mas alguns escriptores teem olhos de lynce para
descobrir o mal, e de toupeira para enxergar o bem: uma cegueira
lamentavel em ambos os casos.

No reinado de D. Joo II, em que se passa quasi totalmente o episodio,
houve, como em todas as pocas, grandes virtudes e grandes vicios.
D'estes no cuidei, porque no podia ir buscar a um meio, onde nunca
estiveram, os meus dois protagonistas, que so verdadeiros no sentido
eterno da palavra, antes de o serem no sentido historico.

--E como faze-los reprezentar tambem papeis violentos em dramas ou
tragedias, que despertassem interesse, reconhecendo eu que a historia, 
qual subordinei a sua aco, cortaria implacavelmente as azas da minha
phantasia?

Era porventura mais impressivo, ou ao menos mais accommodado ao gosto
hodierno, um enredo cheio de peripecias fabulosas. No colorido,
porm, d'esses quadros phantasticos deveria empregar as tintas modernas,
e nem eu sabia pinta-los, nem elles eram authenticos.

Commemro emfim, conforme sei e psso, o quarto centenario do
descobrimento do caminho maritimo da India.

                                                    _Zephyrino Brando_




I

_DESPEDIDA_


O leitor j visitou Sevilha? Pois se nunca a enxergou sequr, affirmam
por l os nossos visinhos, que _no vio maravilha_.

Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem
crr no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do
Guadalquivir do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e
em melhoramentos materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades
modernas.

O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo XV, em um
dia calmoso do estio.

Abrasa tanto calor!...

Em breve zombaremos d'elle.

Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os
de jardins e fontes, no intuito de refrescar as regies ardentes, que
povoavam, e at no interior dos proprios edificios possuiam esses mesmos
refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem fielmente os costumes de
seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma d'ellas,
poupar-nos-hemos a insolaes.

Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa
planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.

Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com
elle se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas,
que com grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob
esta corre caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa
nomeada, no s por dar ancoradouro seguro s maiores naves, que sulcam
os mares, seno por facilitar assim as relaes commerciaes, e animar a
florescente industria fabril dos sevilhanos;--o que torna riquissima de
populao e haveres a formosa metropole andaluza.

Crca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina
do Ouro.

 cathedral, cuja edificao comeou quasi ao entrar do seculo, em que a
estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se
vulgarmente a _grande_, como  de Toledo a _rica_,  de Salamanca a
_forte_ e  de Leo a _bella_.

Ao lado d'essa immensa mle altea-se suberba a torre de tijolo cr de
rosa, que coroava a mesquita, e  rematada por outra de menores
dimenses com variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito.
Este minarete, o mais notavel monumento arabe, da sua classe, na
peninsula, foi construido pelo celebre alchimista e architecto Gber, a
quem se attribuio, sem fundamento, a inveno da algebra.

--No olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que no
existe ainda o _Giraldillo_, e por isso a torre no  conhecida pelo
nome de _Giralda_.

Numerosa a casaria da praa; alguns edificios podem comparar-se em tudo
com palacios realengos.

As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com
graa e vivacidade; de vestir com louania e riqueza; de danar e cantar
ao som das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; de
encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos por
tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a
reflectir a luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.

O sevilhano passa por ns muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha,
que no s possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, seno
que  patria de notabilissimos santos; por isso at um poeta exclama
patrioticamente:

    Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas
    Para el Cielo cri tantos tesoros,
    Cuantas el ancho mar esconde arenas,
    Cuantas estrellas los celestes coros!

Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem
algo peccadora...

A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que
abundam frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos,
que pe ao seu servio e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias
ambies e prosapias.

Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallarias
centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes
fartos legados em seus testamentos.

Um d'esses grandes senhores  o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha,
como tambem o tratam.

Entremos no seu palacio.

Este grandioso edificio, exteriormente austero e n, ostenta no interior
uma riqueza enorme, um luxo deslumbrante e voluptuoso, que determina a
influencia exercida em Hespanha pela civilisao arabe. Pde
considerar-se uma vivenda semi-oriental, como todas as do estylo
_mudejar_, a que pertence, para a construco das quaes as duas artes,
christ e mahometana, se do as mos com tal engenho, que se harmonisam
perfeitamente os dois elementos de manifestaes to diversas.

--Como sabido anda, os arabes que ficaram com os christos, depois de
certos tratados, em virtude dos quaes se lhes permittia conservar suas
leis, religio e costumes, chamavam-se _mudejares_, e nas edificaes,
em que eram empregados, imitavam o luxo e magnificencia dos povos, que
os da sua raa haviam conquistado, especialmente da Persia.

Tornando, porm, ao ponto: na disposio geral do palacio adoptou-se o
estylo arabe, estabelecendo-se amplos pateos, e galerias, em volta das
quaes demoram as habitaes.

A sala principal pertence ao terceiro periodo arabe puro. As paredes
d'ella recordam os ricos tecidos orientaes da Persia, assim por seus
desenhos primorosos, como pelo brilhantismo do colorido. O pavimento
acha-se coberto com uma alcatifa persa de um avelludado suavissimo. No
tecto, o elemento decorativo predominante so estalactites e laarias,
tudo realado com applicao de cres e douraduras.

Os peregrinos ornatos d'esta sala bastam, para confirmar a frondosa
imaginao dos artistas mahometanos, e o respeito por elles tributado s
suas tradies gloriosas.

Mvel no se v, a no ser uma larga cadeira de espaldar, com sobreco e
estfo de brocado. No centro da espalda, o brazo dos Medina Sidonia.
Uma riquissima almofada de setim bordada a ouro est collocada aos ps
d'esta cadeira, em que smente costuma sentar-se o duque, ou algum
extrangeiro de distinco, que o visita, e a quem elle offerece esse
lugar de honra.

Em outras salas, paredes forradas de pannos de Arraz e de Flandres,
representando episodios da vida de Christo, assumptos mysticos,
batalhas, torneios e scenas de caa; ou cobertas de tapetes turcos,
imitando persas, guadamecins e azulejos, tendo os sccos revestidos de
mosaicos esmaltados. Os tectos, estucados e pintados, com imitaes mais
ou menos exactas da flora. Alguns pavimentos, alcatifados.

Nos aposentos dos duques pendem das paredes quadros de Giotto e da sua
escola, de Joo Van-Eyck, Roger van der Weyden, e do patriarcha da
pintura sevilhana, Juan Sanchez de Castro, que poucos annos antes
fundra a sua escola. As paredes e tectos da ante-camara, armados e
toldados de riquissimos lambeis. Os mveis, de pu-santo, primorosamente
entalhados e forrados de brocado e ouro.

Na sala da duqueza v-se um magnifico relicario, d'estes que o clero
manda executar sobre desenhos proprios para maravilhar os fieis, tal  a
perfeita intelligencia, que elle tem do seu tempo. Em cima de uma
credencia com tres compartimentos em frma de degrus, cobertos de setim
e rendas de Flandres, repousam varios objectos de uso senhoril, uns de
ouro, outros de prata e crystal de Veneza. Sobre um bufete de abano,
coberto com um bancal de velludo, tendo ao meio bordadas as armas da
duqueza, acham-se livros de horas luxuosamente encadernados e brochados
de prata, uma escrevaninha de ouro, flores em vasos de crystal e
castiaes de ouro. Nos angulos da sala, aucenas em amphoras preciosas
proclamam a sua candura triumphal, e roseiras enroladas em columnas de
onyx exhalam a sua fragancia suavissima.

As paredes da sala de armas do duque exhibem trophos de armas arabes,
despojo rico das batalhas das Navas e do Salado, como: rodellas,
adargas, onde se lem lemmas bordados a fio de ouro e a matiz, lanas em
frma de meia lua, espadas, gomias, tridentes e alfanges de dois fios.

Amplas colgaduras, tendo bordadas as armas da casa, encobrem
completamente as estreitas portas de alerse.

O mobiliario do palacio, em geral, consiste: em cadeiras de espaldar
coroado por dentilhes, tendo entalhado o brazo das armas de Niebla,
titulo da familia Medina Sidonia, ou simplesmente a cora ducal; algumas
cadeiras ainda, lavradas com atauxias de ouro, marfim, prata ou cobre, e
umas e outras com escabellos fixos ou moveis; almofadas de seda,
sobrepostas duas a duas, e servindo de assento na sala de recepo da
duqueza; faldistorios, tamboretes de espaldar, bancos longos e de
espaldas, almofadados de tela de ouro e velludo; bancos de thezoura,
bufetes de ebano artisticamente entalhados de prata, candelabros
dourados, arcas para assentos, armario, cofre e at mesa de escrever,
todas de madeiras preciosas e guarnecidas de prata, ferro ou bronze;
relogios de parede em luxuosas caixas, umas de madeira, outras de ferro.
Muito d'este mobiliario  coberto de ricas tapearias orientaes, que lhe
do um aspecto delicado e alegre com as cres vivas de seus bordados
caprichosos. Emfim, mesas de prata, de ouro e de bronze, quadradas, de
um p s, alm de outras de madeira, iguaes quellas no formato, e sobre
que se vem magnificos vasos de flores, cravejados de pedras preciosas,
outros vasos de prata lavrada, salvas e floreiras.

No entremos na ante-camara do duque, onde elle conversa agora com D.
Juan de Guzman, que tem sido o seu irmo predilecto.

Conforme o costume, a duqueza saiu logo de manh para o jardim com as
dez donzellas, suas familiares, levando, como cada uma d'estas, na mo
um rosario e um livro de missa.

 sombra do copado arvoredo alli rezam no mais edificante recolhimento.
Terminada a orao as donzellas correm alegremente a colher flores, com
que na volta ao palacio enfeitam o altar da virgem.

Na capella  esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas
moas da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por
aquella pequena crte.

Em seguida serve-se o almoo, depois do qual a duqueza, acompanhada de
suas donzellas e de alguns fidalgos, dos mais apontados em garbos de
cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de conversadores,
passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia, recolheu-se
aos seus aposentos, e no deu o seu passeio habitual.

Deixemos, pois, entregue s suas meditaes a virtuosa senhora.
Naturalmente algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos
muitos, que to justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de _me
dos pobres_.

E, emquanto o duque falla com o irmo, acompanhe-me o leitor ao pateo
principal do palacio.

 um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente,
decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em frma de
ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de
columnas de ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo 
ajardinado, tendo no centro uma fonte, cuja agua crystalina ce dentro
de um tanque largo que a circumda; e os canteiros so separados uns dos
outros por lousas de marmore branco.

Na galeria superior sente-se rir e folgar. So as donzellas da duqueza.
O sol no as incommoda, porque todo o vo do pateo est coberto com um
grande toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, v no jardim,
perto do tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:

--Estais a despedir-vos das flores, Perico?...

--Quem sabe, se tornarei a v-las!...--respondeo o pagem com
pronunciado acento de tristeza.

--Pois porque no haveis de voltar?...

--Deus o sabe; mas diz-me o corao, que nunca mais verei Sevilha!...

--Tem cousas o vosso corao!... Deixai-o c, para no vos ir
atormentando com presagios pelo caminho...

As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua
companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta
pergunta  sua interlocutora:

--Se eu podsse arrancar o corao do peito, de quem poderia confia-lo,
na certeza de que ficaria bem guardado?

--De mim!--exclamam todas a um tempo.

--Como elle no pde repartir-se,--ponderou o pagem--entrega-lo-hia a
Beatriz.

--Sois mui gentil, Perico!--tornou esta. Graas pela preferencia...

--No fostes vs, quem me propz no o levar comigo?...

--Sem duvida!... , porm, essa a unica razo da vossa escolha?...

--No m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alade, cantar-vos-ia agora
ao som d'elle:

    _Con dos cuidados guerreo_
    _que me dan pena y sospiro;_
    _el uno quando no os veo,_
    _el otro quando vos miro._[1]

--Bellissimo, Perico!...--bradaram as donzellas com viva demonstrao de
alegria.

--Que gracioso sois!--accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque
esquecestes a guitarra, que  mais maneira, e vos lembrastes do
corpulento alade, como lhe chamava o arcipreste de Hita?

--Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...--observou o pagem.

--Quem haver ahi, que os no tenha ouvido recitar aos trovadores e aos
jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o
arcipreste descreve a recepo de D. Amor... Se quereis ter uma igual,
quando regressardes, recitai-os, Perico!...

--Careceis dos nossos rogos?...--atalharam as outras donzellas.

Convem notar, que os duques de Medina Sidonia,  similhana dos reis de
Castella, mantem uma crte poetica. Fazer versos est na moda, por isso
so poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques,
marquezes, condes e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se
no estado latente, desde o reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois 
crte, e fez-se cortez. Com tudo no havia perdido completamente o
favor popular o romance brioso e sentido.

Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, so versados
na lingua arabe, e sabem numerosas lendas d'este povo de poetas.
Conhecem a escola provenal, e -lhes familiar a litteratura. Os
romances castelhanos, e as mais bellas composies poeticas de Hespanha,
anteriores ao presente seculo XV, todos os cavalleiros d'aquella crte
sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez de
Santilhana, que por l surge de quando em quando, ao passo que por todos
 escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moos, repetindo-lhes
esta maxima: a sciencia no embta o ferro da lana, nem afrouxa a
espada na mo do cavalleiro.

N'este meio social to distincto,  que tem sido educado o pagem, e a
familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.

Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de
gravidade, parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam
chispas de luz e de graa, e exclama:

--Atteno!... Vae fallar Juan Ruiz!...

Quando, porm, se propunha recitar o engraado episodio, pz termo ao
animado colloquio o apparecimento do irmo do duque a uma porta da
galeria inferior.

O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em
virtude d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram
tambem logo da galeria.

Junto das cavallarias um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de
olhar scintillante e modos altaneiros, em que se traduz o seu
orgulho de raa, inflexivel sempre, at sob o jugo do infortunio, tem
feito as delicias de eguarios e lacaios, ora tocando sanfona, ora
narrando historias de bandidos e de feitios dos mouros de Granada. A
famulagem tinha tempo para tudo. No se tratava ento de apparelhar
ginetes, para ir no encalo dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos
Guzman, apesar do seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos
estavam arreados, e promptos a enfrear  primeira voz.

So quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmo,
que lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena,
recebida momentos antes, e abraando-o diz-lhe: D. Affonso que conte
com dois mil cavallos.

Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sbem a um torreo do
palacio, para vr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de
Portugal D. Juan de Guzman.

Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o
qual D. Juan pompeava, o duque no s pz ao seu servio o discreto
pagem, que o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos
mais disrtos trovadores da sua crte.

Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente
ajaezadas e carregadas de bahs com a bagagem, caminham uns
romeiros, encostados ao seu bordo, e com a mura da esclavinha
ornada de conchas e vieiras. Por interveno da duqueza, haviam
alcanado licena de jornadear com D. Juan at Portugal, devendo d'aqui
passar a Santiago de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar
os caminhos de Hespanha ora to infestados de bandidos e salteadores.

As donzellas demoraram-se no torreo at se desfazer, l ao largo, a
ultima nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e pees; mas j no
logravam distinguir um s d'elles.

--Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?...
Talvez. Nada, porm, communicou s companheiras, que podsse denunciar
esse desejo.

--E Perico?... Levaria porventura gravada no corao a imagem de
Beatriz?... Comearia a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?...
Ou a lembrana de entrar no seu paiz, que, desde muito creana no
tornra a vr, e em cuja crte teria ensejo de exhibir as singulares
prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia da memoria os venturosos dias
de Sevilha?...

Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas,
feitas com o fundamento unico da scena, que presencemos no pateo.

Tem razo. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes,
dos costumes da poca, e at da indole das encantadoras filhas da
Andaluzia, no auctoriza a procurar mysterios no que to natural se
apresenta.

--Sabe o leitor o que logo ao comear da jornada est provocando os
gabos de experimentados escudeiros?

-- a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rincho fouveiro
que monta. A cada galo do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus
ditos joviaes e maliciosos  o enlevo da comitiva.

Ditosa mocidade!...

Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a
exercer o galante ministerio de _juiza_ em alguma _crte de amor_.

E c fra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som
da sanfona:

    Rosa fresca, rosa fresca,
    tan garrida y con amor;
    quando vos tuve em mis braos,
    no vos supe servir, no,
    y agora que os serviria
    no vos puedo aver no.[2]
    ............................
    ............................




II

_CONSPIRAO_


Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, pde
poupar-se  leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos
condensa-la, para melhor intelligencia do que mais ao deante se dir.

Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irm do rei de
Portugal D. Affonso V, sem ter successo; at que, em 1462, a rainha deu
 luz uma menina. Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes
demonstraes de regosijo, pelo arcebispo de Toledo, D. Affonso
Carrillo, sendo madrinha a infanta D. Isabel, irm do rei, e padrinho,
por procurao, Luiz XI de Frana. Pouco depois, reunidas crtes em
Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a recem-nascida, a que se
havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra o juramento.

Era a esse tempo mordomo-mr do palacio D. Beltran de la Cueva, que de
pagem da lana passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido
igualmente agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este
mui solicito no servio da rainha, mas no fazia mais do que cumprir as
ordens do monarcha, de cujo favor e privana gozava com inveja e
despeito de muitos, que no queriam reconhecer-lhe meritos para tanto.

Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;--o
verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caando e
divertindo-se.

D. Joo II, rei de Arago, andava em guerra com seu filho D. Carlos de
Viana, a quem no queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a
este, por morte de sua me; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon,
que lhe havia empenhado por avultada somma de dinheiro.

Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do
rei usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.

O marquez de Vilhena, D. Joo Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e,
como era mui artificioso e dado a soltar s meias palavras, foi a
Saragoa tratar da paz e boas relaes de Arago com Castella.

No seu regresso a este reino convidou, sem detenas, o arcebispo de
Toledo e seus sequazes, para uma reunio secreta, que se realizou em
um valle proximo de Alcal de Henares.

Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:

-- foroso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.

--No se me afigura empresa difficil...--acudio em tom pausado e sisudo
o arcebispo de Toledo.

--Convenho;--replicou Vilhena--mas ainda  numerosa a parcialidade do
rei, e tem  sua frente o arcebispo de Sevilha...

--E a ns,--atalhou, recachando-se, o prelado toledano--embra
inferiores na quantidade, ninguem sobrelevar na coragem e na
perseverana com que luctaremos. Demais... o rei  fraco, e o arcebispo
de Sevilha...

--Sim, esse...--condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja
execuo de ninguem confiava.--Lembrai, pois, um plano, e contai com o
rei de Arago.

--Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi ve em
poucas palavras: invistamos contra a honra da rainha!

Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da
edade media, nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro,
do que para menear o cajado pacifico do apostolo.

O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu
interlocutor, e, occultando cautelosamente o assombro, que lhe
produziram as suas palavras, perguntou sem hesitao:

--Como?...

--Divulgando, que a infanta D. Joanna  filha de Beltran de la
Cueva--respondeo serenamente o arcebispo.

--E acredita-lo-ho?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis,
o facto de ter o rei estado sem successo, durante sete annos, pde
explicar-se com o similhante de seu av Henrique III, que esteve oito.
lem d'isso a todos  bem prezente ainda a scena de ciume da rainha,
que, batendo com um chapim na sua dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a
ao mesmo tempo do alcaar de Madrid, sem evitar, que a sua rival esteja
vivendo hoje to entonada, por ser amante do rei, e dispensadora de
mercs, aos que preferem ganha-las com humilhaes perante tal mulher, a
conquista-las s lanadas aos mouros...

--E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro  lembrana de
ninguem acde. O segundo tem uma explicao natural no orgulho
offendido. lem de que o vulgo no deixa de crr s cegas em todas as
accusaes feitas aos potentados, e at as avulta enormemente...
Accresce, que para o genero d'esta no ha defensa possivel, e, dado o
escandalo, j o monarcha se no attreve a mostrar-se em publico, sem
correr o risco de ser apupado...

--N'essas circumstancias deixar a infanta de ser a herdeira
presumptiva da cora...--contestou pausadamente o marquez.

--Sem duvida!--atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no
marquez de Vilhena certo ar de indeciso.

--Melhor , pois, desthronar j D. Henrique!...

--ra at que chegmos ao ponto, por onde deviamos ter
comeado!--exclamou o arcebispo com mal contido jbilo, e, compondo o
aspecto, de seu natural severo, accrescentou: e quem hade impedir-nos de
o realizar?...

--Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignar as pazes com o rei
de Arago, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo
nosso com a crte aragoneza...

-- habil esse lance!...--ponderou o arcebispo--Comtudo no vos
esqueais do arcebispo de Sevilha...

--Seguramente...

--Vejo, que nos comprehendemos...

--Resta saber, quem nos convir no throno, cuja dignidade tratamos de
restaurar...

--O infante D. Affonso; por isso mesmo que  uma creana to debil e
apoucada, como seu irmo. Agrada-vos?...--concluio o arcebispo, sorrindo
ironicamente.

-- uma creana que substitue outra...--observou Vilhena.

--; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiana, e D. Affonso hade
obedecer s nossas inspiraes...

Das reticencias d'este dialogo  licito inferir, que os interlocutores
no confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era
insolente e audacioso. O marquez de Vilhena, mui solrte em intrigas
palacianas, fazia consistir a sua fora na brandura da sua linguagem, e
sabia-lhe melhor ganhar a victoria por meio de traas ardilosas, e
palavras melicas. No pretendia lem d'isso desaggravos to cruentos,
como o arcebispo; mas teve de concordar com elle, e com os outros
conjurados, em espalhar pela lama as jias mais bellas de uma cora,
para a tornar ludibrio do mundo!

O que mais resolveram to inclitos vares, em seu conluio, i-lo-ho
mostrando elles para gloria sua.

Henrique IV, apesar dos reparos, que pz na concordia com o rei de
Arago, assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece,
porm, ter-lhe servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar,
mais do que nunca a sua intimidade com o conde de Ledesma.

Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em
bocca o nome de _Beltraneja_, posto por elles  innocente infanta, e
perfida injuria disparada ao pundonor de sua me.

Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na
baixeza, de propalar em tamanha infamia aquelles, que se diziam
_grandes de Castella_!

Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por
saber quo perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo,
para lhe propr a demisso do metropolitano de Sevilha. No s conveio
n'isto o timido monarcha, mas ordenou tambem a priso do prelado. O
marquez avisou do rescripto a sua victima, que passou logo para o bando
dos descontentes!

Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e
apoderar-se d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a
tentativa. Acudiram de outra vez a Segovia, quando o monarcha alli foi;
compraram a camareira Maria Padilla, que velava junto do dormitorio, e
pareceu-lhes ageitado o lance; mas baldou-se ainda o attrevido designio.

De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentao, em que lhe
diziam, com inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma
a fazer jurar por herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem
o ser; pois que no era sua filha bem o sabiam elle e o conde!

O rei tremeo ao lr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os
perigos, concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e
accedendo, a que Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago,
por que tanto suspirava o marquez de Vilhena.

Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da cora seu irmo, uma
vez que casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu
turno, entregou nas mos do rei a sua demisso de mestre de Samtiago,
no por se considerar indigno de exercer esse alto cargo, mas para em
tudo servir D. Henrique. Em compensao foi elevado a duque de Albuquerque.

To alta merc exasperou mais a protervia dos colligados, que logo
ergueram em uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um
cadafalso, sobre o qual collocaram uma cadeira, em que assentaram um
manequim, figurando D. Henrique de sceptro na mo e cora na cabea.
Leram muitas queixas contra o rei, e em seguida o arcebispo de Toledo
tirou a cora do boneco; o marquez de Vilhena, o sceptro; o conde de
Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de Benavente e o de
Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a pontaps,
do cadafalso abaixo o vulto desataviado!

O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe
beijaram a mo, e aclamaram rei de Castella e Leo.

Pobre creana, que no tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero
instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmo!

Em outros paizes menos familiarisados com as rebellies, esta teria
abalado profundamente a opinio publica; e, se no fra a inepcia e
covardia de Henrique IV, que era o desespero dos bravos, a parte
sensata do reino teria feito estalar a sua indignao contra os conjurados.

Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um
grande golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepo
enthusiastica, feita  princeza D. Joanna em Saragoa.

Comeou o marquez de Vilhena por esta razo a nadar entre duas aguas,
mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de
Toledo lhe lanasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a
ponto de receber o sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu
testamenteiro, e pedir-lhe, que fosse patrono de seus filhos. Deixou
assim de arrogar-se, em seu entender, a responsabilidade de certos
actos, e preparou novas alicantinas.

O irrequieto arcebispo foi pr cerco a Simancas; mas do alto das
muralhas da velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D.
Opas;--o que significava compara-lo com o typo mais repugnante dos
homens conhecidos por traidores.

Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos
negocios do Estado, acudiram ao servio do rei, por comprehenderem que
se ventilava um processo de honra publica; todavia no pudram evitar,
que Henrique IV caisse na fraqueza de tratar com os sublevados uma
suspenso de armas por cinco mezes, dando azo a despedir-se das duas
parcialidades gente, que foi infestar as povoaes, a ponto de provocar
a fundao das _Hermandades_, para perseguir os malfeitores.

Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade smente
comparavel  dos magnates. Tudo era confuso no meio da cafila de
potentados, cobiosos de dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.

O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus
servios, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irm,
casasse com D. Pedro Giron, irmo do marquez. Com a filha de Vilhena, D.
Beatriz Pacheco, estava ajustado o casamento do principe D. Fernando,
filho do rei de Arago, que estimava esse enlace, o qual se no realizou
por se oppr tenazmente o almirante de Castella, av materno do principe.

A infanta D. Isabel comeou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem
fazer esforo algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.

O legado pontificio fulminou sentena de excommunho contra os nobres e
senhores, que no prestassem desde logo obediencia  auctoridade real,
deixando de impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de
Toledo, principal caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do
interdicto, dizendo, que appellariam para um concilio. E mandaram logo a
Paulo II uma embaixada, participando-lhe, que tinham acclamado o
infante D. Affonso rei de Castella e de Leo. O papa respondeo, que em
vez de attrairem as benos do Co sobre o infante, chamavam sobre elle
os castigos eternos e a morte; e que com o seu exemplo a liga provocava
todas as classes  desobediencia.

D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os
conjurados offereceram a coroa  infanta D. Isabel, que a no aceitou,
por no poder intitular-se rainha, em quanto seu irmo D. Henrique
vivesse... Entretanto, porm, desejava ser jurada herdeira do throno, em
competencia com D. Joanna, a quem chamou _supposta_ filha do monarcha.

Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condio de sua
irm no casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria
honra e a da rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os
interesses da innocente infanta, sua filha.

Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo
legado pontificio, o qual no attendeo os protestos da rainha contra
tudo quanto se accordou em opposio aos direitos de sua filha, porque
havia recebido o encargo de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe
impossivel desatar um n, julgou mais prudente corta-lo.

Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido
para D. Isabel.

O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu
neto D. Fernando, para ter em Arago um auxiliar poderoso; o marquez de
Vilhena oppunha-se, no para obstar  unio das duas coras, seno para
olhar pelo engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto
antes o enlace d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda
mal apagadas umas discordias, surgiam logo outras.

Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a
cora sob a sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades,
buscavam em tudo elementos de perturbao, e a auctoridade real era
incessantemente um joguete em suas mos.

Podsse muito embra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de
previso e dignidade no poder, fomentar o germen das sedies; nada
d'isso, porm, as justificava: serviram unicamente de deixar na historia
de um povo illustre uma pagina indecorosa.

O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma
nova campanha, que tratava de vencer, comprando a pso de ouro os
grandes de Castella.

Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia,
afim de receber umas cidades, que se administravam por seu proprio
arbitrio; e depois de ter feito jurar solemnemente a sua irm, que no
casaria, fosse com quem fosse, antes de elle regressar. A infanta,
porm, aconselhada pelo arcebispo de Toledo, protestou secreta e
intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo escreveo ao rei
de Arago, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho, mediante
certas condies, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella
encarregra a negociao. Mui vexatorias para o decoro do reino e do
principe as consideravam os conselheiros do soberano aragonez; com tudo
o matrimonio realisou-se. Correo logo que no estava valido, por se ter
celebrado sem a dispensa pontificia, to reclamada pelo proximo
parentesco dos conjuges; mas como no havia escrupulos, nem
difficuldades para o arcebispo de Toledo, este no hesitou em faltar 
verdade, affirmando, que a curia romana lhe envira muito a tempo o
breve indispensavel.

Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma
exposio, na qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as
condies, em que se effectura; sem deixarem, para maior ludibrio, de
solicitar o perdo do seu rei, por haverem, sem seu beneplacito,
preparado e conseguido to auspiciosa unio. Ao mesmo tempo Isabel
dirigio a seu irmo uma carta affectuosissima, em que lhe communicava a
sua mudana de estado.

Era o cumulo da insubordinao e da impudencia!

O desforo de Henrique IV consistio em reunir um simulacro de crtes
no valle de Lozoya, onde, perante a rainha e sua filha, fez declarar
solemnemente, que era irrito e nullo o acto de se haver jurado em Toros
de Guisando, a infanta D. Isabel por herdeira do throno, em virtude de
concesso feita por elle monarcha, pois lhe fra esta arrancada  fora,
e offendia os direitos de sua legitima filha. Assistiram a essa
assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram por procurao o
casamento de D. Joanna com o irmo d'aquelle soberano. As cidades, que
se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo seu
assentimento; mas o noivo da princeza no chegou a cumprir a palavra,
que por meio de poderes especiaes havia empenhado.

Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D.
Affonso V, a quem propz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em
dote os reinos de Leo e Castella; porm, o monarcha portuguez, mais
receoso dos artificios de Vilhena do que das difficuldades do assumpto,
deo largas ao negocio, e Henrique IV entretanto tentou ainda procurar
para genro o infante D. Henrique de Arago, filho de outro, que,
cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador de Castella.

Comeou o anno de 1474.

Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrs de
Cabrera, teve artes de fazer, com que o soberano se avistasse no
alcaar com a infanta D. Isabel. O rei, por sua natural bonhomia,
recebeo a irm, que no solicitou, nem esperou permisso para
apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um legado de Sixto
IV, sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o que
desejasse, por isso no tratou de desculpar-se, seno de commover o
irmo a ponto de lograr induzi-lo, a que no dia de Reis lhe dsse e ao
marido uma prova publica de affecto, indo  missa com elles, e voltando
com grande comitiva ao alcaar. Aqui tinha o alcaide farto e delicado
almoo. O rei comeo com sua irm e cunhado, e ao cair da tarde sentio-se
to mal, que foi mister leva-lo em braos para o palacio. Em quanto
esteve de cama no cessaram as deligencias, para que declarasse sua irm
por herdeira do throno. Negou-se a isso constantemente. O marquez de
Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo de Toledo a de D.
Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e disposta a
sustentar a todo o transe suas pretenses  successo, D. Fernando pelo
contrario, no parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia
um pso, de que no podia alliviar-se.

Depois do almoo de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, at que
falleceo em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois
mezes antes tinha morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu
filho D. Diogo, que assistio com o cardeal Mendoza, o conde de
Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. Joo de Macuelo, aos ultimos
momentos do rei em Madrid.

Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha
moribundo, perguntou a este o cardeal:

--V. A. deixa testamento?

--Deixo--respondeo Henrique IV.--O meu secretario Juan de Oviedo o
apresentar.

--E quem so os vossos testamenteiros?--continuou o cardeal.

-- excepo do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o
conde de Plasencia.

--E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?--insistio ainda Mendoza.

--A minha filha D. Joanna--replicou o monarcha serena e firmemente.

Seria grave offensa  memoria de Henrique IV suppr, que na hora
tremenda, em que elle se preparava, conforme a sua f, para dar conta
das suas fraquezas ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!

Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se
acclamar, em Segovia, rainha de Castella e Leo, mandando celebrar um
solemne _Te-Deum_, como se acabasse de alcanar o maior triumpho.
Seguidamente foi quelle mesmo alcaar, onde havia entrado mezes antes
em companhia de seu esposo e do rei defunto, sentou-se junto
d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoaram, e prezenteou o
alcaide Andrs de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D.
Henrique.

Parece um sarcasmo!

Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalam a
successo de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a
legitimidade e o direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de
que lanaram mo os rebeldes.

No  d'este modo, que deve comprehender-se a misso da historia.

Pde o historiador alardear a sua erudio e os seus talentos; se o seu
criterio, porm, no fr imparcial e desapaixonado, sacrificar a
verdade, que  a alma, a belleza da historia, e a honra suprema, de quem
a escreve.

O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido
desposar-se com a princeza D. Joanna, por si s bastaria, para lavar a
nodoa, com que macularam a reputao da mulher de D. Henrique.

Mas a tumida onda sediciosa no envolveu unicamente os povos de
Castella; saltou a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D.
Affonso V, que no conceito de Cames,

    _Fra por certo invicto cavalleiro,_
    _Se no quizera ir ver a terra Iberica._




III

_NOVO ESCUDEIRO_


Aps o passamento de Henrique IV, todas as esperanas dos partidarios de
D. Joanna firmavam-se no here de Arzilla; e as de D. Isabel no apoio de
Arago principalmente. Estava prstes a travar-se a lucta, em que devia
afinal decidir-se da sorte das duas contendoras, collocadas em
circumstancias mui diversas.

Isabel, ainda em vida de seu irmo, soube preparar-se a tempo; Joanna
era uma creana inexperiente, filha de uma senhora sem prestigio, e sem
a necessaria energia para collocar-se  frente do movimento, que se
operava a favor da justa causa da princeza de Castella.

Tambem a morte veiu surprehender a infeliz viuva no inicio das
hostilidades, de sorte que sua filha, orph prematura de pe e me,
ficou inteiramente  merc da versatilidade caracteristica de seus
parciaes. Estes, mais por acudir  vingana de seus odios particulares,
e ao accrescentamento de seus patrimonios, do que por zelo do bem
publico, ou amor de justia, trataram de comprometter D. Affonso V, para
lhes saciar a cobia.

Estava o rei de Portugal em Extremoz, quando lhe chegou s mos o
testamento, em que seu cunhado Henrique IV declarava ser a princeza D.
Joanna sua filha, e a nomeava herdeira dos reinos de Castella e Leo,
pedindo outrosim a D. Affonso V, que acceitasse a governana d'elles e
casasse com a sobrinha.

Ouviu D. Affonso sobre o assumpto o parecer de seu filho, bem como o dos
grandes e principaes do reino, a quem consultou mais talvez pelo
respeito s praxes estabelecidas, do que resolvido a seguir qualquer
conselho, que contrariasse o seu reservado intento. A fim de saber no
s quantos e quaes eram os magnates castelhanos legitimistas, como de
certificar-se da valia d'elles, enviou a Castella Lopo de Albuquerque,
seu camareiro-mr, depois conde de Penamacor.

A esse tempo chegava D. Juan de Guzman a Extremoz, onde foi recebido
pelo monarcha.

No podia ser mais a proposito esta visita, e D. Affonso folgou muito
com ella, dando ao seu hospede cordialissimo agasalho, como naturalmente
pediam a lhaneza e affabilidade do rei, que captivava com o seu trato
grandes e pequenos.

Entregou-lhe o recem-vindo uma carta, em que o duque de Medina Sidonia o
apresentava a D. Affonso, garantindo a approvao antecipada a quanto
entre ambos ficasse assentado.

Terminada a leitura do escripto, comeou Guzman por dizer:

--No ignora voss'alteza, quanto  lastimoso o estado de Castella. O
reino sem direco, nem governo, combatido por todos os principios de
dissoluo, caminha rapidamente para uma ruina tremenda, e nas mos de
voss'alteza est o poder evita-la.

--So esses os meus desejos;--replicou D. Affonso--mas, como sabeis, a
empresa no  facil, por isso careo de inteirar-me da lealdade dos que
se propem pugnar pela justia e direitos da princeza, minha sobrinha.

--Da parte de meu irmo--tornou Guzman--venho eu prestar homenagem a
voss'alteza, a quem elle jura servir em tudo, obrigando-se a auxiliar,
tomar e reconhecer por seu legitimo rei e Senhor, se voss'alteza se
desposar com a senhora D. Joanna, e fr sem demora tomar posse do
governo de Castella.

--O duque  digno dos meus louvores, e mais ainda pela frma, como
procede, offerecendo-me occasio de conhecer-vos, para muito vos estimar.

--Merc a voss'alteza, meu Senhor. Em breve poderei talvez provar-vos a
gratido do meu animo, onde tambem o seu esforo mais se manifeste.

--Praz-me ouvir-vos, e ver-vos to deliberado!

D. Juan de Guzman cortejou D. Affonso, e disse-lhe com aprimorados
ademanes de cavalleiro:

--Espro, que meu irmo me confie o comando de dois mil cavallos, que
desde j pe ao servio de voss'alteza.

-- contingente valioso esse--observou D. Affonso.

A respeito das foras, com que poderemos contar devo em breve ser
definitivamente informado pelo marquez de Vilhena.

--Assim o creio. Talvez a demora dos seus esclarecimentos dependesse da
resposta de meu irmo.

--Porqu?

-- hora da minha partida para Portugal recebeu o duque uma carta de D.
Diogo, na qual lhe perguntava com quantos cavallos concorria, pois
desejava enviar a voss'alteza uma nota das tropas castelhanas, com que
poderiamos entrar em campanha, e a Luiz XI a da totalidade do exercito.

--E o marquez communicava tambem ao duque o computo dos j inscriptos?

--Sim, meu Senhor. Anda por dezoito mil cavallos; devendo, porm, este
numero elevar-se, quando constar a entrada de voss'alteza em Castella,
pois muitos dos cavalleiros, que at agora no adheriram, o faro
immediatamente.

D. Affonso V no poude occultar o jubilo, que lhe causou esta nova de
ter j por si em Castella to importantes foras; e com a sua
habitual familiaridade affirmou a D. Juan de Guzman:

--Eu tenho muita confiana nos cavalleiros castelhanos. No os ha mais
briosos certamente.

--Merc por elles, meu Senhor.

--Agora aqui vos deixo para serdes recebido pelo principe, que muito
gostar de conversar comvosco.

 fcil de presumir, sobre que versaria principalmente a palestra,
sabendo-se do interesse, que mostrava o principe D. Joo em seu pe
acceitar o papel, que Henrique IV lhe distribuira no testamento.

D. Juan de Guzman poucos dias se demorou em Portugal; foi, porm, o
tempo sufficiente para D. Affonso e seu filho conhecerem e apreciarem o
pagem, que viera na comitiva. D'elle fizeram grandes gabos ao fidalgo
sevilhano, o qual, mais talvez por alardear philaucias de familia, do
que por enaltecer as qualidades do mo, ou por ambas as razes, referiu
em resumo: que da Covilhan costumava ir a Sevilha o pe do pagem
commerciar e conquistra grandes creditos. Tendo afinal estabelecido a
sua residencia n'aquella cidade, onde era geralmente estimado, accedeu
ao pedido, que lhe fez o duque de Medina Sidonia, de deixar-lhe educar o
filho, ento muito creana ainda, mas dotado j de singular viveza. Como
fallecesse o mercador, pouco depois, e j viuvo, ficra o pagem
inteiramente confiado ao amparo do duque. Possuia prendas muito
estimaveis, poderia em breve ser um excellente cavalleiro, e chamava-se
Pero da Covilhan, por causa da sua procedencia.

Esta narrativa ainda mais aguou a D. Affonso e ao principe o appetite
de terem o pagem ao seu servio; e D. Juan de Guzman j havia
reconhecido isso na maneira como lhe fallavam d'elle.

Na vespera do seu regresso a Sevilha, perguntou Guzman a Pero da Covilhan:

--Quereis ser pagem do rei de Portugal?

--Tudo quanto sou--respondeu Pero--devo ao senhor duque, por isso no
tenho animo de separar-me d'elle.

--Esperava essa resposta;--volveu Guzman--mas se eu vos pedir, que fiqueis?

--Obedeo, porque de vossa merc smente recebo ordens e no pedidos.

--Meu bom Perico!--exclamou affectuosamente Guzman.--Muito me custa
deixar-vos c; mas o senhor D. Affonso, que, dentro em pouco ser rei de
Castella, mostra desejos de ser vosso amo, e eu tenho-os de o bem
servir; por isso entregar-vos-ei a elle, certo de que meu irmo
assentir ao meu proposito.

No dia seguinte saiu D. Juan de Guzman para Sevilha. D. Affonso V
dirigiu-se a Evora, levando no seu sequito a Pero da Covilhan, j
escudeiro, servido de armas e cavallo, sem embargo de no ter completado
ainda vinte annos.

O rei antes da partida despachou o seu Arauto Lisboa com cartas para
Luiz XI, a quem communicava a resoluo que tomra, de receber por
esposa a princesa D. Joanna, e de entrar em Castella com um grande
exercito, pois a isso o estava convidando a maior parte da grandeza
castelhana. E sob o pretexto de recear, que na jornada sobreviesse ao
seu Arauto algum accidente ou enfermidade, que o retardasse, escreveu de
novo ao rei de Frana, insistindo agora principalmente em demonstrar os
legitimos e inauferiveis direitos da rainha D. Joanna. Ponderava
habilmente, que o no ser d'elles esbulhada, era conveniencia de ambos
os monarchas, por quanto, se Fernando se apoderasse de Castella, viria a
ser um vizinho formidavel e perigoso, tanto para Portugal, como para
Frana.

Procurava assim conciliar com acertada politica as boas graas de Luiz
XI, que mui interessado era, em que no throno de Castella estivesse um
principe capaz de manter e conservar as antigas confederaes e
allianas d'esse reino com a Frana; mas contra todos em geral e sem
excepo.

N'este ponto offerecia-se a difficuldade de ser Portugal alliado da
Inglaterra, antiga inimiga da Frana, e querer Luiz XI, que Portugal
ficasse comprehendido no tractado a celebrar com Castella.

De certo modo veiu o nosso monarcha a prestar-se s vistas politicas de
Luiz XI; o que determinou este a promulgar uma carta patente sobre o
soccorro, que dava a D. Affonso V, nomeando sire d'Albret commandante de
um exercito destinado a invadir Guipuzcoa e Biscaia.

Com quanto o duque de Bragana tivesse j dado lealmente por escripto o
seu parecer--que foi archivado a seu pedido, para constar no
futuro--cerca da entrada do exercito portuguez em Castella, D. Affonso,
antes d'este se pr em marcha, conversou ainda particularmente com o
duque a respeito do assumpto.

--Insistis na vossa opinio?--perguntou o monarcha ao duque de Bragana.

--Certamente, meu Senhor--respondeu o duque.

--Ora dizei-me: no deverei eu confiar nas declaraes categoricas, que
por Lopo de Albuquerque me enviaram os grandes de Castella?

--Mais acertado fra, Senhor, desconfiar d'ellas. Reparai bem, que esses
mesmos, que vos chamam agora para sustentar os direitos de vossa
sobrinha, so os que atraioaram a D. Henrique, seu rei natural,
depondo-o do governo do reino.

--Assim . Mas no acreditais, que elles reconhecendo a justia que
assiste a minha sobrinha, queiram resgatar com uma nobre aco seus
anteriores desatinos, sem embargo de esperarem tambem receber de mim
grandes mercs?

--O que me parece , que a obediencia por elles jurada depende
unicamente da sua ambio, e vem acompanhada de mais interesse, do
que de fidelidade e constancia; por isso, se a sorte das armas comear a
ser desfavoravel a voss'alteza, depressa abandonaro a vossa bandeira.

--Sei, que como amigo me fallais; mas a vossa prudencia  agora
descabida. Pois os nobres de Castella arriscar-se-iam por ventura a
grandes perigos, offerecendo-me espontaneamente seus servios, se
duvidassem do seu e meu triumpho?!

--De tudo so elles capazes, meu Senhor, que os no ha mais voluveis.
Mas superiores em poder e em numero so-lhes os mais avisados e
prudentes, tendo ao seu lado o povo, que unanimemente acclamou D. Isabel
por sua rainha. E uma acclamao, como esta,  vantagem muito grande no
comeo dos reinados, servindo at de justificar as pretenses mais
duvidosas.

--No ignoro quanto o poder de Castella excede o de Portugal; mas conto
no s com os homens do meu reino, que so muito valentes, seno com
outros tantos castelhanos, como de mais naes, que de boa vontade
engrossaro o meu exercito.

--E a D. Isabel no viro soccorros da Secilia, tanto em dinheiro, como
em armas, navios de guerra, cavallos e provises? Arago dar-lhos-ha
decerto; e at a Italia, pois so senhores d'ella, e primos dos reis da
Secilia, o rei de Napoles D. Fernando, e o duque da Calabria, seu filho.

--Sim, esto os meus adversarios bem aparentados; mas no os temo
apesar d'isso, e eu tambem _no nasci das pedras_.[3] Conto
igualmente com amigos e parentes; tambem me no falta dinheiro, _que 
mais fiel que todos os parentes e amigos_, e tenho sobretudo a Deus em
meu auxilio.

--No pretendo demover voss'alteza do proposito, em que est; permitti,
porem, que vos lembre ainda a reciproca averso de Castella e Portugal,
filha de um odio inveterado entre os dois povos; e o perigo de expr a
felicidade e a paz do vosso reino  inconstancia e capricho dos grandes
de Castella. No olvide tambem voss'alteza, que, durante a vida de seu
cunhado, no queria ouvir fallar do casamento de voss'alteza com sua
sobrinha, e que, acceitando-o agora, obriga o mundo, sempre prompto a
desacreditar as aces dos principes, a murmurar e attribuir esta guerra
a algum odio reservado...

--Sem embargo d'isso, estou resolvido a entrar em Castella.

--Acato a deliberao de voss'alteza, e peo-lhe me conceda licena,
para ter em alguns lugares d'esse reino pstas prestes a salvar a real
pessoa de voss'alteza e a minha, se necessario for.

A vigorosa argumentao do duque de Bragana, para combater o designio
de Affonso V, fez suspeitar o principe D. Joo, de que fra inspirada
por D. Isabel, proxima parenta do duque; suspeita essa, que dominou
sempre o animo do principe, e foi mais tarde to fatal  casa de Bragana.

D. Joo oppz-se apaixonadamente quelle parecer, por estar convencido
de que o senhor de Villa Viosa pretendia atalhar, a que D. Affonso V
aproveitasse o ensejo propicio, que se lhe offerecia, de dilatar os
dominios da cora, e unificar os reinos da peninsula. Era vivamente
applaudido por alguns fidalgos portuguezes, que observavam o invariavel
preceito, de no soffrerem os principes contrariedade a seus gostos.
Preferiam por isso ser aduladores, especie de pste endemica das crtes,
para a qual se no descobriu ainda remedio.

O duque de Bragana havia previsto, quanto ia passar-se em Castella; e
os successos, como veremos, bem mostraram ser mais difficil illudir a
prudencia, do que lisonjear um principe.

Falleceu o duque, antes de se pr em marcha o nosso exercito, e seu
filho primogenito D. Fernando, duque de Guimares, que lhe succedeu em
suas grandezas, tomou parte na expedio com seus irmos, vassallos e
dinheiro, sem que lhe entibiasse o zelo e a generosidade, com que servia
o seu legitimo rei, considerao alguma pelo parentesco, que to
estreitamente o ligava aos principes do partido contrario.

At aqui havia D. Affonso V reinado com muita gloria e auctoridade,
sendo alvo da estima e venerao dos principes seus contemporaneos,
alguns dos quaes consumiam seus patrimonios e foras em guerras
civis e domesticas, em quanto elle as expendia em activar o influxo
civilisador da religio catholica, e ampliar a soberania de Portugal,
havendo passado tres vezes a Africa, onde seus cavalleiros mais
acendraram a fama luzitana, e elle mostrou sempre a alteza de animo, de
que era singularmente dotado.

A inclinao e gosto, com que se occupava na conquista da Africa pela
Barberia, faziam-n'o olvidar a grandeza dos descobrimentos do Oceano,
iniciados pelo infante D. Henrique seu tio. Quem sabe, porm, se elle
continuaria a obra do solitario de Sagres, uma vez que no fosse
impellido pela generosa ida de reparar uma affronta, feita a sua irm,
e de soccorrer uma orph innocente e desamparada?

E seria smente esse o pensamento, que o levou a Castella?

Se o leitor, em alguma hora de seu desenfadamento, compulsasse os
codices da preciosa colleco pombalina, que possue a Bibliotheca
Nacional de Lisboa, em um d'elles encontraria a seguinte lembrana muito
instructiva:

Sendo antes destas tres escreturas atras contheudas trautado casamento
delRei Dom Affonso o quinto, padre delRei nosso Senhor e sobre elle com
a Rainha Dona Isabel, que na era presente reinava, foi com embaixada a
Castella o Arcebispo de Lisboa Dom Jorge grandemente, que hoje he
Cardeal de titolo de Sam Pedro Marceleni, e est em corte de Roma
privado e amado do Papa Innocencio, que foi Cardeal malfetano, e asi
outros embaixadores, e vindos outros de Castella ao dito Rei sobre o
mesmo caso, esta senhora Rainha Dona Isabel se casou com elRei de
Cecilia e Principe d'Araguam, filho delRei Dom Joo d'Araguam, que
primeiro foi Rei de Navarra, o qual casamento fez por mo do Arcebispo
de Tolledo dom Affonso Carillo, e do Almirante avoo do dito Rei da parte
de sua mi, e fique em memoria que o fez porque o dito Senhor Rei Dom
Affonso _a no quiz, querendo ella muito_, e depois elle a quisera e
ella como as molheres naturalmente sam vingativas o no quiz quando elle
quisera, e folgou de lhe dar competidor e de o anojar, como na verdade
foi, _ca desta mesma causa naceo sua entrada em Castella com o titolo de
sua sobrinha_, filha delRei Dom Amrique per dar trabalho  Rainha Dona
Isabel, e se vingar della, e como as cousas de sua entrada sobcedero
fique do Coronista ao carguo.

Com effeito Henrique IV, annos antes do seu passamento, offerecera, como
vimos, a mo de D. Isabel a D. Affonso V; e desejou igualmente, que o
principe D. Joo casasse com a princeza de Castella, D. Joanna.
D. Affonso dilatou a sua resoluo, e smente quando muito
instado por seu cunhado, pelo principe seu filho, e pelas diligencias do
marquez de Vilhena, mandou uma embaixada pedir a infanta. Os
embaixadores esperavam pela resposta na aldeia de Cientpozuelos, e
afinal foram despedidos, dizendo-se-lhes, que se trataria por meios
brandos de reduzir a infanta a obedecer a seu irmo. O arcebispo de
Toledo cuidou immediatamente de dissuadir D. Isabel d'este enlace, pondo
em relvo a dilao descortz de D. Affonso, aconselhou-a, a que
preferisse Fernando de Arago, e entendeu, que, para frustrar as idas
dos adversarios, devia fazer secretamente os preparativos, precipitar os
tramites do negocio, e de um modo ou outro verificar o matrimonio, para
que, realizado e consumado, no dsse lugar ao _arrependimento da
princeza_. E maior prssa se deu ainda, quando soube, que de Roma havia
sido enviada a Bulla de Paulo II, com data de 23 de junho de 1469,
concedendo a dispensa a D. Affonso e D. Isabel. Fabricou ento um breve
apostolico, datado de 28 de maio de 1464 e com assignatura falsa de Pio
II, pois se oppunha  execuo do desposorio com Fernando o impedimento
da consanguinidade dos nubentes, e no havia outro meio de velar o
sigillo e realizar o negocio com promptido.

O atribiliario prelado toledano comprazia-se em forjar caballas e
commetter torpezas.




IV

_JORNADA INFELIZ_


Resolveu D. Affonso V entrar em Castella pela villa de Arronches, onde
mandou reunir o exercito. Antes da marcha, e conforme prescrevia o
_Regimento de Guerra_, no s o rei, mas todos os fidalgos, que tinham
de acompanha-lo, receberam a Sagrada Eucharistia, indo depois toda a
hoste assistir a uma missa solemne, e sendo pelo celebrante benzida a
bandeira real mettida na funda.

Terminados estes actos, ao alvorecer de um formoso dia de maio de 1475,
D. Affonso V

    ...................tocado de ambio
    E gloria de mandar amara e bella,
    Sai cometter Fernando de Arago,
    Sobre o potente reino de Castella.[4]

L foram ajuntar-se com elle o duque de Guimares, o conde de Marialva,
Ruy Pereira e outros fidalgos, os quaes, atalhando pela Beira, chegaram
a Piedra Buena, onde acampou todo o exercito, composto de cinco mil e
seiscentos cavallos, e quatorze mil infantes. Alli mandou D. Affonso V,
que tomou ento o supremo commando, chamar  sua tenda o condestavel, o
marechal, o ouvidor da hoste e o meirinho, bem como todos os fidalgos,
cavalleiros e capites, a quem recommendou obediencia em tudo aos quatro
primeiros; verificou o numero da gente que havia, e deu as necessarias
providencias no tocante  ordenana, que as tropas deviam conservar
durante a marcha.

Na frente sau o _adail-mr_ com um troo de ginetes, formando a guarda
avanada; aps elle o marechal, que era o aposentador e assentador do
arraial; immediatamente o capito de ginetes, seguido pelo capito da
vanguarda real, e logo a carriagem; na rectaguarda o rei, e, cobrindo-a,
o condestavel, cujo cargo exercia em parte o duque de Guimares. Formava
as alas a fina flor da cavallaria portugueza, e entre a vanguarda e a
rectaguarda no mediava mais de um tiro de bsta, a fim de poderem
mutuamente soccorrer-se.

Ao condestavel, que era o general da milicia, pertencia marchar na
vanguarda. Na presente formatura as attribuies e preeminencias d'essa
dignidade estavam repartidas por D. Joo, marquez de Montemr, filho
do duque de Bragana D. Fernando I, e por seu irmo o duque de Guimares.

A cavallaria compunha-se de _cavalleiros_ e _escudeiros_ de gerao
nobre; de _lanas_, que os senhores de terras tinham obrigao de dar,
acompanhando cada uma dois arqueiros, um pagem e um escudeiro; e de
_cavalleiros_ da ordenana dos povos do reino, sendo apurados conforme a
contia, que devia possuir cada morador para ter cavallo e armas. Estes
smente eram reputados tropa regular e effectiva, e entravam na conta ou
rezenha das praas, que constituiam os corpos chamados bsteria,
denominando-se _bsteiros do conto_ tanto os de cavallo, como os de p.

Dividia-se a cavallaria em pesada e ligeira ou _ gineta_. Na primeira,
o homem era arnezado, e o cavallo bardado e encapacetado. Na segunda, os
cavalleiros pelejavam armados de lana e adarga, usando de estribos
curtos no apparelho do cavallo.

A infanteria constava de _bsteiros_, _espingardeiros_ e _piqueiros de p_.

Na bsteria differenavam-se os chamados de _pol_, por trazerem bsta,
que se armava com uma roldana d'aquelle nome; os _bsteiros da camara_,
que eram acontiados e fornecidos pelas camaras do reino; _bsteiros de
garrucha_, mais abastados e considerados, que os de pol, armados com
bacinete de camal ou de baveira, e tendo bsta com garrucha e solhas
para arremessar virotes; _bsteiros_ _de fraldilha_, por levarem
uma fralda de couro, que lhes servia como de escudo contra as settas do
inimigo; e _bsteiros do monte_ ou caadores.

Notaremos que o numero das armas de arremesso se reduzia cada vez mais,
 medida que as de fogo triumphavam da repugnancia, com que foi
acolhida, durante muito tempo, a sua inveno, mrmente pela cavallaria,
que considerava cobardes similhantes armas, com especialidade as
portateis. No reinado de D. Joo II apparece j o cargo de _anadl-mr_
dos espingardeiros, concedido a Payo de Freitas, cavalleiro da casa
real, cabendo mais tarde ao rei D. Manoel a sua vez de extinguir em 1498
os acontiados e bsteiros, tanto de conto, como da camara, todos os
cargos de officiaes mres e pequenos da bsteria, deixando unicamente os
bsteiros do monte em alguns lugares da Beira Alta, Alemtejo e Algarve,
com um anadl-mr, que era Pedr'alves, cavalleiro da sua casa, como
consta da carta de 29 de maio de 1499.

A segunda dignidade do exercito de D. Affonso V era a de marechal, a
quem pertencia, alm de outras obrigaes e prerogativas: repartir os
alojamentos; executar e fazer cumprir as ordens, que recebia do
condestavel; e julgar as causas civeis e crimes das gentes de guerra,
levando um ouvidor comsigo para esse fim.

O _alfres-mr_ levava a _signa_ ou _bandeira_, a qual no estendia ou
desenrolava sem especial determinao do rei, quando estivessem 
vista do inimigo, e costumava ter um _alferes pequeno_, que o
substituia. As bandeiras dos fidalgos no podiam tirar-se das fundas e
estender-se, sem que o fosse a bandeira real; podiam, porm, ir sempre
estendidos os balses ou insignias. No guio do rei via-se a divisa que
Affonso V tomra por sua mulher D. Isabel, e consistia em um rodizio de
moinho com gottas de agua esparzida ao redor, e na legenda _Jmais_.
Com oito ou dez pendes pequenos era balizado e divisado o lugar
escolhido para acampar.

Havia um _aposentador-mr_, que de ante-mo preparava os quarteis das
tropas, quando estas se mobilisavam. O _capito de ginetes_ era o
general de cavallaria; o _adail-mr_, o capito dos bsteiros; e o
_coudel-mr_ commandava escudeiros e homens de armas, que no pertenciam
a capitania alguma, e eram repartidos em tros de vinte por _coudeis_.

Desempenhavam o servio e a guarda do rei vinte cavalleiros ou
escudeiros, commandados por um _guarda-mr_. Eram escolhidos, e andavam
armados de cotas, barretas, braaes, lanas e espadas; e no tempo de paz
assistiam no pao junto da real camara. Algumas vezes o soberano
encarregava tambem da sua guarda o capito de ginetes, sendo ento de
duzentos o numero de cavalleiros, que ficavam em tudo considerados como
os da camara real.

Segundo prescrevia o _Regimento_, os soldados ou gente de guerra deviam
trazer em batalha uma divisa, ou sinal d'armas de S. Jorge, larga, e
tanto no peito como nas costas, para se distinguirem do inimigo. As
trombetas eram os instrumentos empregados nos diversos toques ou
chamadas; mas affirma Ruy de Pina, que n'esta marcha a Castella j o
nosso exercito usou tambem dos atabales.

O trem de artilheria com suas bombardas e colubrinas era morsamente
conduzido. Estava a cargo de um _vdor-mr_, aprompta-lo e p-lo em marcha.

Para este fim tinha atribuies amplas, estabelecidas em um _regimento_
proprio, de que se lhe passou carta em 20 de abril de 1450. Requisitava
s auctoridades locaes as bestas, bois, carros e barcos, que julgassse
indispensaveis  conduco do trem, sendo depois pago o aluguer; bem
como os bombardeiros, ferreiros, carpinteiros e pedreiros, de que
houvesse necessidade o servio de artilheria, e aos quaes pagava
conforme os seus merecimentos. Annexa ao trem ia uma brigada de
gastadores, para abrir caminho.

O principe D. Joo acompanhou seu pe at Piedra Buena, e d'aqui
regressou a Portugal na mesma occasio, em que o exercito marchou para o
norte, indo fazer alto em Plasencia.

D'esta cidade mandou D. Affonso V a Luiz XI uma embaixada, composta de
D. Alvaro de Ataide e do licenciado Joo d'Elvas, a fim de negociar
o seu reconhecimento como rei de Castella, e, conforme os desejos do
rei de Frana, renovar os antigos tractados, que existiam entre as duas
monarchias. Ao mesmo tempo escreveu  cidade de Salamanca uma carta
sobre os direitos de sua sobrinha aos reinos de Castella e Leo, e
mandou publicar um manifesto, no qual se demonstrava a justia bem
fundada, com que eram combatidas as pretenses de Isabel e Fernando de
Arago.

Celebrou esponsaes com a princeza D. Joanna, que j o esperava
acompanhada dos duques de Arvalo, marquez de Vilhena e outros magnates,
e foi publica e solemnemente proclamado rei, pelo que logo comeou de
intitular-se rei de Castella, Leo e Portugal.

Isabel e Fernando accrescentaram igualmente aos seus titulos os de reis
de Portugal; de modo que no parecia luctarem uns pela unio iberica e
outros contra, seno mramente para dar a presidencia d'essa unio
quelle que mais afortunado fosse.

D. Affonso V ia passando os dias em ruidosas festas, como se com ellas
se formasse o prestigio dos noivos, e nem por sombras suspeitava das
diligencias de D. Isabel, em comprar com o ouro e prata das egrejas o
favor de muitas povoaes, visto serem mui versateis e caros os
magnates. Em quanto o seu antagonista se divertia, conquistava ella as
sympathias da classe burgueza. Percorria os seus estados. Procurava e
enviava soccorros ao exercito, que seu marido commandava, para
conter o progresso da invaso. Assegurava a fidelidade vacillante de
Leo. Entabolava as intelligencias, que lhe fizeram recobrar a
importante cidade da Zamora. Reduzia o numero de inimigos, que tinha na
depravada e cupida aristocracia. Lanava finalmente mo do thezouro de
Castella, confiado  guarda do clebre Andrs de Contrera, a quem mais
tarde brindou com o Marquezado de Moya.

Na marcha pela provincia da Extremadura, por contemplao com o duque de
Arvalo, senhor de Plasencia, commetteu D. Affonso V um erro
estrategico; pois, segundo Zurita, foi de grande remedio para a
conservao do estado do rei da Secilia, e seria de grande prejuizo, se
a entrada se effectuasse pela Andaluzia, direito a Sevilha. Seguindo
este caminho, penetrava logo no interior do reino, e fazia-se frte em
Madrid, como lhe aconselhou o marquez de Vilhena, que se mostrou
descontente por no ser attendido, e tomou este pretexto para se retirar
do servio do rei. Era de esperar, todavia, que esse magnate assim
procedesse mais cedo ou mais tarde, por quanto, havendo-se declarado a
maior parte de seus vassallos contra elle, e a favor de Isabel, que os
corrompeu a peso de ouro, intimidou-o essa arteira tactica, e
determinou-o a propalar, que j estava de accordo com D. Fernando e sua
mulher.

Por grande parte da fronteira portugueza succediam-se a miude as
incurses de nossos visinhos. At o primogenito do duque de Medina
Sidonia, o duque D. Henrique, mo mais audacioso do que prudente, fez
uma entrada em Portugal, como se fosse em terras de mouros.

Este rebento dos Medina Sidonia era um isabelista sedicioso. Pouco
depois da jornada de seu tio a Portugal, rendeu-se s astucias de D.
Isabel, que lhe prometteu intervir pacificamente na eterna contenda com
o marquez de Cadiz.

E sabe o leitor, quem levou  rainha da Secilia a noticia d'aquella
jornada de D. Juan de Guzman?

--O velho mendigo, que ns vimos em Sevilha a tocar samphona. Era um
espio.

Para desaffrontar-nos dos repetidos insultos, que soffriamos, mandou o
principe D. Joo descobrir a campanha por homens praticos no paiz,
escoltados de alguma cavallaria; collocar sentinellas occultas nos
lugares suspeitos, para avisarem das partidas do inimigo; cortar as
estradas das serras com patrulhas, a fim de embaraarem os castelhanos,
que de ordinario se emboscavam por entre os arvoredos e quebradas do
terreno; e proveu finalmente de remedio a tantos males, cuidando ao
mesmo tempo da conservao e defesa do reino.

Terminados os festejos em Plasencia, onde Lopo de Albuquerque, para
premio de seus servios, foi agraciado com o titulo de conde de
Penamacor, saiu emfim D. Affonso V d'aquella cidade com a rainha, a
quem o nosso exercito agora principalmente resguardava. Marchou por
Arvalo em direco a Toro, no sem o inimigo estar bem informado cerca
do movimento do exercito; o que certamente no convinha, a quem era
chamado e levado para soccorrer.

O nosso monarcha portou-se sempre com mais bondade, do que prudencia,
n'esta empresa de Castella. E dizemos simplesmente empresa, porque no
podemos denominar campanha, ao que no passou de correrias mais ou menos
afortunadas, de uma e outra parte, sem que se ferisse uma batalha
campal, digna d'esse nome, e em que ficasse lavrada a sentena do pleito.

Quasi todos os grandes abandonaram D. Affonso V, deixando-o s no
perigo, em que o metteram. Quando elle, porm, foi estabelecer os seus
quarteis de inverno em Zamora, apresentou-se-lhe n'esta cidade o
arcebispo de Toledo, o qual sempre inconsequente e inconstante, sendo
convidado por Isabel a auxilia-la com os seus homens de armas, respondeu
com a soberba peculiar do seu estado e do seu paiz: _que a tinha livrado
de fiar, mas havia de manda-la outra vez pegar na roca_.

De Zamora escreveu D. Affonso V a seu filho dizendo-lhe que viesse
v-lo, pois muito carecia de conferenciar com elle. J o principe se
tinha posto a caminho, quando o monarcha soube, que os alcaides das duas
torres, que defendiam a ponte sobre o Douro,  entrada de Zamora, se
tinham vendido ao inimigo, concertando-se em prender ou matar D. Joo na
sua passagem por ella. Immediatamente communicou D. Affonso V a seu
filho, ento j em Miranda do Douro, o traioeiro plano, em virtude do
qual no devia avanar. Foi portador do recado o capito de ginetes da
guarda real, Vasco Martins de Sousa Chichorro, que teve de passar o rio
a nado, para se furtar  vigilancia do inimigo.

Entretanto resolveu Affonso V tomar a ponte  viva fora, mas no o
poude conseguir. Fazendo-lhe ver os nossos o perigo, que corria, se
permanecesse com a rainha em Zamora, pois deviam inspirar-lhe mais
temor, que confiana, os habitantes da cidade, recolheu de novo a Toro,
onde tanto elle como a rainha foram affectuosamente recebidos pelo alcaide.

Fernando de Arago, que no tinha ousado mostrar-se ao seu adversario,
em quanto elle esteve em Zamora, correu logo a occupa-la; e, como o seu
empenho principal era apoderar-se da rainha D. Joanna, acudiu a Toro,
tendo tomado  fora uma torre nas cercanias, e feito enforcar trinta
dos defensores d'ella, para dominar pelo terror a seus inimigos. De cima
dos muros de Toro riram-se d'essa faanha, e cobriram de motejos o
auctor, o qual aceso em ira, mandou por um rei de armas desafiar D.
Affonso V, que no tornou  requesta. Ento Fernando foi sitiar o
castello de Zamora, tendo inesperadamente encontrado forte resistencia,
onde no havia esperana de soccorro; e D. Affonso V, ao sabe-lo, saiu
de Toro em som de guerra, para ir apresentar batalha ao seu competidor.
Fez alto em frente da fortaleza, e alli o esperou. Passadas algumas
horas, retirava j para Toro, por lhe parecer que Fernando saa a
pelejar com elle; mal, porm o viu fra da cidade, aguardou-o no campo
outra vez em vo. Fernando escreveu em seguida varias cartas, em que
blasonava de no ter querido D. Affonso espera-lo e at fugira. Tendo o
nosso monarcha immediato conhecimento d'essa falsidade por uma carta de
Fernando para Isabel, e que foi apprehendida, mandou por um trombeta
denunciar em Zamora o escripto, e fazer publicamente o repto na frma
costumada, sem lograr que lhe dessem resposta.

Tinha havido uma comedia de desafios a combate singular entre D. Affonso
V e D. Fernando. Para segurana do feito, D. Affonso poria em refens a
rainha Joanna, e D. Fernando a rainha Isabel. Fernando no concordou,
allegando haver grande desigualdade no penhor.

D. Affonso V respondeu, que, se ficasse livre Isabel com sua filha, que
j tinha, a contenda no se acabaria, pois de futuro novamente se
levantava; sendo certo que, escusar-se o seu adversario a convir em taes
condies, fazendo questo de igualdade das pessoas, era confessar que
no queria o combate, como  honra de ambos convinha. Interpz a sua
mediao o cardeal de Castella, D. Pedro de Mendoza; mas no poude
conseguir-se o accrdo sobre as condies da paz.

Nos fins de janeiro do anno seguinte, que era o de 1476, chegou o
principe D. Joo a Toro, trazendo a seu pe dois mil cavallos, oito mil
infantes e dinheiro. No era demasiado soccorro, para quem tanto carecia
de engrossar o seu exercito, pois D. Affonso V fra abandonado pelos
magnates,  medida que a sua causa se tornara cada vez mais duvidosa,
permanecendo-lhe fiel apenas o arcebispo de Toledo.

Os povos mostravam quasi geralmente grande repugnancia pelo dominio
portuguez, como se elle viesse avivar o resentimento das feridas, que no
corao do seu orgulhoso exercito abrira o montante do Mestre de Aviz.

A perda de Zamora foi um grandissimo desastre, e a sua reconquista,
depois da traio da ponte, smente poderia realizar-se, tomando as
torres e conseguindo o descrco do castello. Mas de que foras numerosas
no seria necessario dispr, para effectuar duas operaes, iguaes ambas
na difficuldade!

D. Affonso V optou pela primeira e marchou com o principe a sitiar a ponte.

--Para que?

Tomando essa posio de nenhum modo podia soccorrer o castello, onde
tremulava ainda a bandeira portugueza, pois tinha de permeio o rio,
invadiavel para a cavallaria. Se tentava provocar o inimigo a uma
batalha, devia suppr, que este o no buscaria seno com uma
superioridade conhecida, estando, como estava, bem entrincheirado, e
tendo cobertas todas as communicaes importantes.

Seguiu emfim D. Affonso a margem meridional do Douro, saindo pela ponte
de Toro; e, tendo deixado n'esta cidade o duque de Guimares e o conde
de Villa Real ao servio da rainha, com a guarnio militar, que pareceu
bastante, approximou-se da ponte de Zamora em batalha ordenada, fez alto
e assentou o arraial.

Ficar prto do lugar cercado, era no s condio imposta pelo pequeno
alcance das bcas de fogo, mas preceito do _Regimento de guerra_, para
fazer maior corao aos combatentes e enfraquecer os sitiados. A ponte
estava enfiada pela nossa artilheria.

Cruzram-se os fogos, que romperam logo de sitiantes e sitiados, sendo o
damno, que soffriamos superior ao que causavamos. Houve uma pequena
trgoa para concertos de paz; inutilmente, porm, visto no se suggerir
meio conciliador, de que no desdenhassem as prosapias dos negociadores
d'ella. A sde de sangue causada pela febre guerreira, em que uns e
outros ardiam, tornava-se cada vez mais insaciavel. E comtudo nenhum dos
exercitos podia invejar ao outro a sua situao. O nosso, alm de
luctar com as dificuldades inherentes a uma guerra feita em paiz
extranho, tinha mais um inimigo a combater: o rigoroso inverno. Ao passo
que as chuvas e neves o iam j desimando, comeava a falta de viveres a
fazer-se sentir. Consumia-se emfim inutilmente.

Decorreram quinze dias. Uma noite chegou ao nosso campo a noticia, de
que Fernando de Arago fizera uma sortida sobre Toro na margem direita
do Douro. D. Affonso V levantou apressdamente o crco, para atalhar o
passo ao inimigo, e foi o primeiro a chegar diante d'aquella cidade,
onde mandou recolher o parque e a peonagem. Soube o principe durante a
marcha, que Fernando no havia saido de Zamora, mas tinha para o bater,
em um lugar chamado Fonte Sabugo, mais de seiscentas lanas, commandadas
pelo duque de Villa Formosa, irmo bastardo de Fernando. D. Joo
obliquou  direita, desviando-se assim da direco, que tomra seu pe,
e preparou-se para ir dar de salto n'aquellas lanas.

Havia o nosso exercito acabado de transpr um monte, e o inimigo, que
comeava ento a subi-lo, mal coroou o alto, descobriu o movimento dos
nossos, a ordem com que marchavam, e, para nos deter, mandou picar a
nossa rectaguarda com algumas cargas ligeiras de cavallaria.

Avisado o principe, e prevenido D. Affonso V, volveu este  rectaguarda;
mas D. Joo, por lhe parecer mal disposto para a peleja o lugar, onde
lhe deram a nova, pois to apertado era, marchou para a planicie, e
ficou esperando, que o inimigo ali descesse mais despejadamente.

D. Affonso V, com quanto fosse um tactico habil, no teve tempo de
formar as suas reduzidas tropas, de modo que pela boa distribuio
d'ellas fosse, quanto possivel, supprida a falta de numero. Repartiu-as
em duas grandes fraces. Tomou o commando de uma d'estas, e confiou ao
principe o da outra, em que ficou a flor da cavallaria portugueza.

Os castelhanos avanaram, tambem divididos em dois corpos: o da direita
capitaneado por D. Alvaro de Mendoza, _vindo na reserva_ Fernando de
Arago; e o da esquerda pelo duque de Alva, formando na rectaguarda o
cardeal Mendoza.

Desceram a encosta; mas ainda hesitantes, apesar da vantagem de terem a
rectaguarda coberta pelo monte; de contarem mais umas oitocentas lanas,
pois que parte das nossas haviam escoltado a bagagem para Toro; e de
disprem finalmente de infanteria mais numerosa.

Note-se, que na edade mdia no se conhecia toda a importancia da arma
de infanteria, nem a grande fora, que lhe provm da ordem e
uniformidade de seus movimentos. Dava-se quasi exclusivo apreo 
cavallaria, olvidando-se a maxima dos antigos, prudentemente restaurada
pela illustrao militar dos nossos tempos, de que a infanteria  o
agente principal do combate, ou, como poeticamente dizem alguns, a
rainha das batalhas. A prpria qualidade dos exercitos, compostos de
nobreza valente e dstra, mas pouco subordinada, bem como dos
contingentes tumultuarios das cidades, era incompativel com a disciplina
e outros requisitos essenciaes da sua organisao. N'este encontro de
Toro, comtudo, os castelhanos empregaram com proveito a sua infanteria
ao encetar do prelio; mas o seu exercito, embora aguerrido, no soube
mostrar-se disciplinado.

Amanhecera triste e sombrio o dia dois de maro de 1476. Quando os dois
exercitos occupavam as suas posies para travar a lucta, devia o sol
tr-se posto, e a claridade crepuscular era embaciada por uma chuva
miuda e persistente.

Duas vezes as hostes affonsinas fizeram rosto ao inimigo, como quem o
convidava a pelejar, at que, vendo D. Affonso V a perplexibilidade do
adversario, mandou dizer ao principe, que ao signal do combate, dado
pelas trombetas, fosse o primeiro a romper.

Fez-se o toque. Aos gritos de guerra, _por S. Jorge e S. Christovo_,
invste D. Joo com a sua hoste. Oppe-se-lhe D. Alvaro de Mendoza,
clamando com os seus por _S. Thiago e S. Lazaro_.

Os castelhanos avanaram com denodo sobre a hoste do principe, mas
obrigou-os a recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo
d'Evora D. Garcia de Menezes. Aproveitando a hesitao, em que ficou o
inimigo, a nossa cavallaria, como se fra uma forte muralha de
lanas, animada de extrema velocidade, carregou impetuosa, irresistivel,
sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando quantos tentaram
quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de bravos,
com o principe real  sua frente, paralysou, desorganisou, pz na mais
completa debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior 
carnificina, que em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o
effeito moral d'esse choque violentissimo, que percutiu at a reserva do
inimigo. E por isso Fernando de Arago--um moo de vinte e seis
annos!--que, para no expor a vida  contingencia de um golpe do seu
adversario, se collocra a respeitosa distancia, mal viu approximar-se a
hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas de cavallo para Zamora, sem
tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a pista, e salvando-o a sua
boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos cavalleiros, que
correram sobre elle.

Na ala direita D. Affonso V no pde cruzar tambem a sua espada com a do
rei da Secilia, porque a no v na sua frente; mas no lhe soffre o
animo t-la embainhada, e lana-se no combate.

Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da
cavallaria; rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanas
arremessadas com furia; retingem-se de sangue as espadas nos crbros
golpes; relincham os ginetes, discorrendo pela campanha, alliviados do
peso dos cavalleiros, que cairam ou mortos ou agonisantes; resoam,
similhando rugidos de feras, as vozes dos combatentes; soltam gritos de
dr cruciantissima os feridos, sem que possa acudir-lhes a caridade, e
servindo antes de estimulos para a vingana;  emfim renhida,
desesperada, horrivel a refrga. No cessa do ardor, com que comeou de
accender-se, e a victoria duvida, se ha de inclinar-se  parte da
multido, ou  do esforo.

Corre o Cardeal Mendoza a reforar o duque de Alva, e o arcebispo de
Toledo em auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a
cavallo--o que para a nossa hoste era uma novidade--do uma descarga,
que fez hesitar um momento a cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o
adversario empregado aquelle ultimo recurso, sem duvida reservado para o
momento decisivo, logo recrudesceu mais viva e encarniada a peleja.

Partem-se as lanas, e as espadas so agora as armas dos combatentes no
ultimo choque.

D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado
expr s contingencias d'este dia a deciso da causa, que se impugnava.
Era pois a morte ou a gloria o escopo unico d'aquelle

    Que a suberba do barbaro fronteiro
    Tornou em baixa, e humillima miseria.

Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias, mas os
cavalleiros portuguezes e castelhanos, que junto d'elle estavam,
percebendo-lhe a inteno ao v-lo preparar o corcel, detiveram-n'o; e,
fazendo-lhe vr a superioridade numerica do inimigo a par do denodo, com
que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais
fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na
bainha.

Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia j parte dos
nossos, no sem grande risco sau o monarcha do campo, e foi acolher-se
a Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e no ficava mui distante:
acertada resoluo esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que no
era provavel o inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto
planear com Pedro de Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do
ultimo conflicto.

Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das
cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa
quantia, para que lhes no fizesse guerra, e todos os grandes da sua
visinhana tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis
relaes com elle. Por isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em
que se encontrava, praticou um acto de boa politica, indo ter com um
homem de tanto valor, e que lhe era dedicado.  claro, que nem pela
cabea lhe passou a ida, de que o principe real fosse derrotado, tal
era a confiana que depositava no valor de seu filho e no dos
companheiros, que lhe deu.

Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um
porque fugiu, o outro porque o no deixaram empenhar-se na refrega.
Ficou victorioso d'elle o principe D. Joo, que mandou recolher os
feridos e os prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste,
tio de Fernando de Arago.

Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque
estava fechada a porta da ponte, e smente se abriu mais tarde para
entrar o principe, vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua
temeridade, pois que elle ia de monte a monte. Os golpes do ferro
inimigo no victimram tantos, como a corrente impetuosa do Douro. Foram
outros, mais prudentes, unir-se ao principe, e entre esses o escudeiro
Gonalo Pires, levando a bandeira real, que por instantes tremulra na
mo de um castelhano.

Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade,
que tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe
arrebataram depois de uma lucta titanica.

Singulares contrastes!

Encontrmos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria,
onde dois dos nossos praticaram faanhas, que por si s bastariam para
immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonalo Pires o
appellido de _Bandeira_; a outra, o cognome de _Decepado_ a Duarte
de Almeida.

    Cercado por toda a parte
    Sua espada se partiu.
    Por guardar seu estandarte,
    D'arma o estandarte serviu:
    A dextra mo jaz por terra,
    O seu guante a no guardou;
    O pendo na sextra aferra,
    E a mo perdida vingou:
    Outro golpe lhe sepra
    A sextra mo que segura
    A bandeira, que jurra
    Conservar intacta e pura:
    Nem assim perde a bandeira,
    N'hastea dura os dentes crava,
    Quando lana traioeira
    Seu ginete lhe prostava:
    Cahe no cho o cavalleiro
    Sem vida, quasi expirando,
    E ficou prisioneiro
    D'illustre rey Dom Fernando.
    Mas a bandeira regada
    Pelo sangue portuguez,
    Por Goncal'Pires livrada
    Breve foi, logo outra vez.

Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de
Almeida  sublime de heroismo! Com feridas to rasgadas, que cada uma
era larga porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o
honrado cavalleiro resiste sempre! Ce emfim; mas no quer a
Providencia, que por aquellas feridas se esgote sangue to generoso, e
sirvam antes de bcas, para affirmar esforo to desusado.

A bravura de Gonalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois _per fora e
como homem de bom coraam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a
levava_ (a bandeira), _e o prendeo sobre sua menagem_,[5]
abrindo a golpes de espada caminho por entre os cavalleiros, que j iam
correndo na companhia d'aquelle em direco a Zamora.

Tinha o principe resolvido no levantar o arraial, seno passados tres
dias, ou aguardar a manh para de novo accommetter o inimigo, por isso
mandou accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.

O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma
deliberao.

Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes  peonagem
mercenaria do exercito de Fernando de Arago, conversava sentado sobre
umas pedras, descanando ao mesmo tempo das fadigas do dia.

--Ces de portuguezes!--grunhia um.--Por causa d'elles fizeram de ns
morcgos!...

--Eu estou com uma sde, que de um trago enxugava agora a maior adga de
Malaga!--tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava,
levando o cavallo  mo.

--Se os mouros consentissem... sempre  bom accrescentar--observou o
outro, sem nenhuma curiosidade de saber, quem era o seu
interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.

--Prros de Mafoma, que nos no vemos livres d'aquelles
malditos!--exclamou o cavalleiro.--Mas, Virgem Santissima! o que
estaremos ns aqui a fazer?--perguntou o primeiro, como se uma ida fixa
estivesse a verrumar-lhe o entendimento.

-- espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...

--J no  sem tempo. Para l fugiu o rei, logo no principio da escaramua.

--Fugiu, no direi... Retirou...

--Pois seja assim; mas a rainha  mais homem do que elle. No saia do
campo sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi est o da
_Beltraneja_, que no desmaiou to deprssa.  verdade, que depois
tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fra a mata cavallo. Na
direco, que levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.

--Sim,  o mais certo;--replicou em tom indifferente o cavalleiro.

Um signal de trombetas no campo castelhano pz termo a este dialogo. Os
biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a
cavallo, e sau a galpe para os lados de Castro Nunho.

Acabaram as hesitaes do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se
concentravam no acampamento sem apparencia de receosos, valeu-se do
silencio e sombras da noite, e retirou com o exercito para Zamora.

D. Joo permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres
dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo
de Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fraces, uma com a
bandeira de D. Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem
mostrar prssa na marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.

Foi recebido com affectadas manifestaes de jubilo, pois maior era o
interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do
que pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de
Pelayo Gonalo. E tal ponto attingiu a consternao, abafada pelo receio
de melindrar o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de
Guimares, com a sua liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.

--No merece--exclamou alto e bom som--o nome de cavalleiro, quem
abandona o seu rei, e o no segue na vida ou na morte!

E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:

--O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e pe?

Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. Joo,
appareceu Pero da Covilhan, e disse ao principe:

--El-rei, vosso Pe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e so
est, por isso sejais tranquillo.

--E onde est el-rei, nosso senhor?!...--perguntou com alvoroo o
principe real.

--Em Castro Nunho.

--Quem nos trouxe to bom recado?

--El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.

A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de
trombetas e atabales, repiques de sinos, e outras demonstraes de
alegria, feitas pela classe popular. E sem demra igualmente mandou o
principe sair para Castro Nunho uma guarda de honra composta de
numerosos cavalleiros, a fim de acompanharem D. Affonso V a Toro.

Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presena junto do
rei, pois, desde o crco da ponte de Zamora, militava na hoste do
principe, havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa
refrega, em que conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.

Preveniu o principe a explicao, perguntando ao moo escudeiro:

--Como soubstes, que el-rei, meu pe, estava em Castro Nunho?

--Facilmente, meu senhor--respondeu Pero da Covilhan com a maior
naturalidade.--Quando cau a noite, comecei de inquietar-me, por vr,
que em nosso campo no havia de el-rei novas, nem mandados. Ancioso
de buscar sua alteza, era dominado por um triste presentimento. As
trvas da noite, e a confuso que reinava no campo contrario, poderiam
talvez favorecer quaesquer pesquizas, que eu tentasse. Lembrei-me, de
que me auxiliaria a facilidade, com que fallo os dialectos de Hespanha,
e fui  ventura.

--Esquecestes, porm, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a
vida--atalhou o principe.

--No me occorreu, com effeito, a ida d'esse perigo, pois a que
imperava unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a
voss'alteza.--A poucos passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando
caminhava na direco da margem do rio, ouvi fallar uns biscainhos.
Abeirei-me d'elles. Eram bsteiros do inimigo, que estavam em descano.
Quasi no repararam em mim. Tomaram-me naturalmente por seu convisinho,
e, trocando comigo algumas palavras, um d'elles affirmou ter el-rei
retirado do campo para os lados de Castro Nunho. Corri logo a verificar
isto, e l entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe j voss'alteza.
Agora, meu Senhor, peo-vos perdo de me ter afastado do acampamento sem
licena de voss'alteza.

--Perdoado estais, que digno de louvor  o acto por vs praticado; e, se
alguma culpa houvesseis, resgatada fra j pelo valor e brio, com que
pelejastes a meu lado.

--Beijo as mos de voss'alteza por mais esta merc...

No olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicao de Pero da
Covilhan, como veremos.

O principe, depois de conferenciar com seu pe em Toro cerca da
desgraada guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho,
regressou a Portugal; e o rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem
pensar que o revz de Toro fra o occaso de sua gloria guerreira.
Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no caminho de Medina, ter-lhe-iam
caido nas mos, se a fortuna, para elles to prodiga, no fosse para o
seu competidor to adversa.

Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertes da Africa nunca
temera a morte.

Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para
ser instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da
expiao. Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar
vingana eterna do sangue derramado em Alfarrobeira.

Justia da Providencia!




V

_ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA_


Estava D. Affonso V com desalento igual  falta de confiana, que tinha
nos meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua
temeraria empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o
Licenciado Joo d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua
misso junto de Luiz XI. Era grande o contentamento dos embaixadores,
por terem a convico, de que no fra illudida por vs promessas a sua
boa f ao tratarem com o rei da Frana. No lhes occorria, que os
principes no contrem, nem conservam amisades com sacrificio de seus
interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por maxima: _quem no
sabe dissimular, no sabe reinar_; e que, por elle ser asss astucioso e
perfido, lhe chamavam _a raposa_.

Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro de 1475, o
tratado de liga offensiva, no qual a Frana se comprometteu a coadjuvar
Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leo; e obtiveram a
confirmao e renovao dos antigos tratados de paz e amisade entre
estes dois ultimos reinos e o da Frana, por Luiz XI de uma parte, e da
outra por D. Affonso V, rei de Castella.

O nosso monarcha, porm, receoso, de que o seu alliado no cumprisse as
estipulaes dos tratados, por haverem augmentado para os reis da
Secilia as probabilidades do triumpho, resolveu passar a Frana, e
negociar pessoalmente com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro
da paz com o duque de Borgonha.

Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho,
pz o maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a
ambio cegava-lhe o entendimento, e a esperana de realizar os seus
desejos, de vingar-se da affronta de Toro, no dava lugar ao receio de
arriscar mais uma vez a sua reputao.

Querendo passar mais alm, do que lhe permittia a fortuna, sau para
Frana o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em
uma urca, na conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos
homens.

A esquadra fez-se  vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo
foi arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os
cumprimentos, que Luiz XI lhe envira por um official de sua casa,
com ordem de dispr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os
navios. Ao seu servio ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que
fazia parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do
conflicto de Toro.

Do porto de Collioure pz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e
teve aqui a mais pomposa recepo official, levando-se a homenagem ao
requinte de abrirem todos os carceres e soltarem os presos l retidos.

De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua crte, encarregado de
notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designao do sitio, onde
deviam conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D.
Affonso V, seguiu por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a
estrada ordinaria, a fim de tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde
lhe veiu ao encontro o duque de Bourbon, acompanhado de numeroso
cortejo, e antecipando-se a uma deputao, que por parte de Luiz XI
dra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto viajante.
Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo,
fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de Frana, que o
entretiveram a mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre
outras cousas, um rico e antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de
benidictinos. Era o _Lancelote do Lago_, romance de cavallaria escripto
em latim, na leitura do qual os paladinos dos seculos XII e XIII
aprendiam com enthusiasmo a imitar algum dos fabulosos cavalleiros da
_Tavola Redonda_. Poderia inflammar tambem o espirito aventureiro de D.
Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por si, ou por intermedio de seus
agentes, procurava divertir do proposito, que o levava a Frana, e por
isso lhe prodigalisava todo o genero de distraces.

Chegou o monarcha portuguez a Tours.  entrada foram-lhe entregues as
chaves da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos
dignitarios da crte franceza, lhe fizeram uma recepo solemne, e o
seguiram at os aposentos, que lhe estavam destinados.

Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de
Plessis-lez-Tours, onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede.
Sabendo D. Affonso V, que elle o buscava, quiz descer  rua, ou ao menos
ir at  escada do palacio recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois
principes, que Luiz XI havia mandado adeante para regularem o ceremonial
da entrevista.

A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de Frana
vinha com um s barrete na cabea, tendo j d'ella tirado um chapo e
duas grandes carapuas, e trazia solto um saio curto de mau panno, e 
cinta uma espada d'armas muito comprida, e umas botas caladas, e nos
ps as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoo uma bca de
chamalte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e
suas calas brancas entretalhadas de muitas cres.

E ambos os reis com barretes nas mos se abraaram, inclinados os
joelhos muito baixos.

E tendo o rei de Frana assim abraado o monarcha portuguez, com os
olhos no Co disse, que dava muitas graas a Nossa Senhora e a S.
Martinho, porque a um to pobre homem, como elle era, fizeram tanta
merc, que a seu reino e casa o viesse vr e visitar um tamanho rei, que
elle sempre desejava tanto vr, e ter por irmo e amigo, e que porm
elle no crsse, que era vindo em reino estranho, mas como proprio seu,
porque assim se faria n'elle todo seu prazer e servio, como nos de
Portugal.

E com isto acabado se recolheram  camara,  entrada da qual, sobre
quem se cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados
debates.[6]

Que farante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal
apresentar-se humilde at  repugnancia!

Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours
para Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os
monarchas, com o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder
casar com sua sobrinha, a princeza D. Joanna.

Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no
corao do inverno,  baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque
de Borgonha, ento empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com
quem estava em guerra. Sobre um rio coberto de glo abraaram-se os dois
soberanos, e alli mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu
proposito era congraa-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos
resultaria, que Luiz XI, por se vr desobrigado de mandar vigiar a
fronteira franceza, mais facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna,
e poderia uma boa parte das tropas borgonhezas concorrer tambem para o
bom exito da empreza de Castella.

O filho de Philippe o Bom, ao vr a ingenuidade com que seu primo lhe
apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era
homem sem virtude e sem f, e o andava illudindo, pois ao passo que o
aconselhra a vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a
soccorrer o duque de Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar
o primo a tomar parte na defesa de Pont--Mousson contra o duque de
Lorena, a quem esperaria deante de Nancy para lhe dar batalha.

Ante esta pratica, excitando  guerra, quem levava o animo inclinado 
concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e
assim fez.

Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu
inimigo mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a
presa, at o momento de se despenhar e lanar-lhe as garras, cau logo
sobre o ducado, e apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha
propriamente dita. O sagaz, mas perverso filho de Carlos VII, tinha
agora mais facilidade de resolver o problema, que sobre todos o
preoccupava: a unificao da Frana. Lanando mo de todos os meios,
mrmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha ao
territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os
passos de seus agentes.

Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de
Sixto IV. Na crte pontificia havia-se aberto uma grande campanha
diplomatica, adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de
Napoles, e outros principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a
curia duvidava das promessas feitas pelo rei de Frana ao de Portugal;
mas, parecendo-lhe, que a morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em
melhores circumstancias de honrar a sua palavra, resolveu sagazmente a
questo, concedendo a dispensa no caso de Luiz XI se decidir formalmente
a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo assim o soberano francez
supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz XI, deixando
implicitamente insinuado aos reis da Secilia, que tratassem com essa
potencia; e no os delegados de Affonso V, por quanto a estes pz uma
condio, cujo cumprimento confiava s diligencias do seu soberano, que
era o mais interessado no negocio. Sempre habil e cautelosa a curia romana.

A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com
elle a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso
no encontro dos dois monarchas em Arras.

Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de
Portugal a sua resoluo definitiva. Esperou este alguns dias em uma
abbadia de conegos regrantes, que fra designada para seu alojamento, e
recebeu emfim uma resposta, que o esclareceu cerca da doblez e politica
tortuosa de Luiz XI.

Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos
para Rouen. Aqui se deteve grande parte do vero na esperana de
embarcar-se, at que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios
para o transportar e  sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi
todo o mez de setembro. Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de
preferencia a exercicios religiosos dispendendo tambem parte do tempo em
escrever, e com o maior cuidado logo guardava o escripto dentro de um
cofre, cuja chave trazia comsigo.

Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:

--Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas
tenho por melhor deixar-vos ao servio do principe, que muito vos qur
tambem.

Ao que Pero da Covilhan respondeu:

--Que magua immensa o meu corao sente ao ouvir voss'alteza!  dever
meu cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado
ainda no cahi, concedei-me a grande merc de no regressar a Portugal,
sem que v com o meu rei e Senhor.

--No. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicar a minha recusa,
dando-me algum allivio o desabafo.--Quando enviuvei, prometti deixar o
mundo, e metter-me em religio, logo que o principe, meu filho,
estivesse em edade de reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a
empreza de Castella, e, presumindo eu, que era servir a Deus e da Sua
vontade, defender a justa causa da princeza, minha sobrinha, procedi,
como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de Frana... vim a esta
nao, onde tenho esperado, que os successos das guerras, movidas por
sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... Vejo
infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus
negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava
de haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os
principes, que vivem e morrem na regencia de seus estados, com
difficuldade se salvam, unicamente me psa, no ter tomado a resoluo
de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz, pois
de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que no
deixaro de attribuir  falta de valor, e talvez a outras causas pouco
honrosas, desistir eu da empreza comeada. Sirvam esses mal fundados
juizos de desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a cora,
e a partir para a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenas, e
passarei o resto de meus dias em uma clausura.

Pero da Covilhan cau de joelhos aos ps de D. Affonso, e exclamou!

--Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade
tantos filhos vossos, que mais no so todos os portuguezes?!... Se no
quizerdes proseguir na empreza de Castella, no podereis ainda, uma e
muitas vezes, mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os
infieis, e alargando os dominios de alm-mar?!... E no ser isto
porventura entregar-vos ao servio de Deus, com proveito e gloria de
voss'alteza e da nossa patria querida?!...

D. Affonso V obrigou o mo escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito
impressionado:

--Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os
destinos da nao, e de certo elle voltar s terras da Africa, onde o
barbaro mouro experimentou j a rija tempera da sua espada. Vs l
sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que pelejastes nos
plainos de Toro. Crde, que o vosso novo rei vos ter sempre em grande
estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem
elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposstes, para ir a
buscar-me a Castro Nunho.

Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraou Pero da Covilhan,
que seguidamente lhe beijou a mo, e sau da sua presena muito commovido.

Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua
peregrinao e exilio, j porque era mui intelligente, j porque fallava
com facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de
grandezas, no tinha com que galardoar os merecimentos do moo
escudeiro, por isso preferiu deixa-lo ao servio do principe.

Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o
rei sau a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moos da camara
e dois de estribeira, depois de ter ordenado ao seu capello, que o
fosse esperar a meia legoa de distancia, em um sitio, onde
effectivamente se encontraram. D'aqui fez voltar para Honfleur um dos
moos de estribeira com a chave do cofre, que continha os seus
escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua comitiva
estivesse presente.

Entretanto j os portuguezes, e M. de Lebrt, que por ordem de Luiz XI
acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava
em regressar do seu passeio.

Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente,
que elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse
pensamento. Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral
inquietao, sem gesto ou palavra, que o trahissem.

Chegou emfim o moo de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram
encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na
qual pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os
portuguezes, que deixava em Frana; e expunha-lhe os fundamentos, que o
determinavam ao ingresso na vida monastica. Outra para o principe D.
Joo, dando-lhe conta da sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com
paternal affecto e justificada instancia, que se fizesse acclamar
immediatamente rei. Outra, participando ao reino a sua abdicao, e
determinando-lhe obediencia ao principe real, como o proprio e
verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual
nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.

Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo
ao principe por via do seu camarista Anto de Faria, que to celebre se
tornou mais tarde no seu reinado, e que tinha vindo a Frana tratar
de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude d'estas cartas, foi
D. Joo acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de S. Francisco
em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.

Tendo-se limitado o moo de estribeira a cumprir as ordens, que
trouxera, e no sabendo prestar informao alguma cerca do destino, que
levaria o regio fugitivo, atrigram-se os portuguezes em busca-lo por
toda a parte. M. de Lebrt, por seu turno, empregou emissarios com igual
fim, depois de communicar a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir
graves accusaes aos portuguezes, pela negligencia com que serviam, e
acompanhavam o seu soberano.

Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um
cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia
da Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para
melhor o reconhecer. No dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro
fez logo reunir a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitao,
e no consentissem a pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a
Luiz XI, aos portuguezes, que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrt,
participando a todos aquella nova. E, finalmente, no s tratou com
acatamento, mas serviu com zelo igual o seu prisioneiro.

O conde de Penamacor, que era o primeiro camarista de D. Affonso V,
e tinha declarado no voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo
junto do rei. Encontrando-o mui pertinaz, em levar vante o seu
proposito, de se dirigir  Palestina, esperou pelo conde de Faro, e
pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem. Deixou-se emfim
D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta muito
consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porm, pejo de entrar em
Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de
Hougue, para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da Frana,
onde se sentia sobre brasas.

Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de
Honfleur desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a
tempo de a comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat,
cognominado _o Grego_.

O rei de Frana continuava a encobrir com vs honrarias, e ostentaes
de respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o
trahia. E D. Affonso V fazia-se  vla para Portugal, sem levar no
corao magnanimo resentimento algum, contra quem o havia constantemente
logrado, antes at alimentando a esperana, de que Luiz XI sempre viria
a prestar-lhe soccorro para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe
esta preoccupao, depois que recebeu a ultima carta do seu amigo e
alliado...

D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predileco pelos
que cultivavam as lettras; por isso, durante a viagem, algumas
vezes ordenava a Pero da Covilhan, que lhe recitasse romances e outras
composies poeticas de Castella; com o que o rei-cavalleiro muito
folgava. Para todos tinha sempre o gentil soberano uma palavra amavel;
e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar, aos portuguezes
descrevia com rara exactido e lucidez, quanto vira de notavel nos
lugares, que percorrera, e ao capito da frota exalava as qualidades de
Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relvo a hospitalidade da nao franceza.

Sobreveiu um temporal, que deu causa a no poderem alguns navios
aguardar a conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do
que elles  bahia de Cascaes. No lhes tomaram, porm, grande deanteira,
pois mal tinha corrido em Lisboa, onde estava D. Joo, a nova, de que
seu pe chegaria prstes, logo este aportou  mesma bahia.

Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi
surgir a Oeiras.

No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que
mesmo alli depz em suas mos as redeas do governo e o sceptro, que por
obediencia havia empunhado.

A este tempo era j muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna.
O arcebispo de Toledo obteve perdo dos reis catholicos, e recuperou a
sua graa. O proprio Beltran de La Cueva recebia mercs d'estes
principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de Isabel; e
Castro Nunho, depois de apertado crco, em que a defensa heroica de
Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano,
rendeu-se afinal aos adversarios de D. Affonso V com permisso d'este,
enviada ainda de Frana ao alcaide lealissimo, e precedendo taes
condies, que foi quasi affrontosa a victoria para o exercito sitiante.

Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliana, de 9 de outubro de
1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer
confederaes, ligas e amisades existentes ou futuras da Frana com
Portugal, assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de
Castella.

Apesar de to categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns
magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas
estavam com elle na melhor intelligencia, persistia na ida de atear a
guerra, e concluir o casamento com sua sobrinha. A especulao dos
castelhanos no passava despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e
receio; por isso no cessavam as hostilidades tanto por parte de
Castella como de Portugal, com grande e manifesta ruina das duas naes.
A paz era de absoluta necessidade para ambas, e n'isto convieram emfim
as partes interessadas.

Para entabolar as negociaes, avistaram-se na villa de Alcantara,
em Castella, a rainha D. Isabel e sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do
infante D. Fernando duque de Vizeu, as quaes combinaram, que fossem
ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4 de setembro de 1479,
celebrou-se em Alcaovas o tratado de paz perpetua entre D. Affonso V e
os reis catholicos. Estipulou-se alm de outras clausulas, que o
principe D. Joo, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por
palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D.
Joanna, a qual receberia de arras vinte mil florins de Arago, fra os
rendimentos necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o
principe a concordar n'este casamento, a princeza no s seria
indemnizada, mas ficaria livre para poder dispr de si.

Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de
Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.

Para segurana d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em
teraria na villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, no
querendo, devia entrar em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de
Santa Clara, conservar-se ahi o tempo do noviciado, findo o qual era
obrigada a optar pela profisso ou pela teraria.

No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do
principe D. Joo, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse
com a infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis catholicos,
devendo esses infantes ser tambem postos em teraria nas mos da infanta
D. Beatriz.

Este enlace era a principal garantia da paz to desejada pelos reis de
ambos os paizes para prem termo  desconfiana, com que se tratavam,
originada de conveniencias e paixes particulares, mas filiando-a
especiosamente na reciproca offensa dos interesses nacionaes.

Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes
successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambies, de que foi
victima a innocente princeza D. Joanna:

Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua
liberdade, ella no com menos fora alheia que tristeza sua propria, e
com dolorosas lamentaes suas e de todos os seus deixou o titulo de
rainha e tomou o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas
que trazia e vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe
da cabea a cora real de Castella e Portugal de que era intitulada, e
cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior
seu aggravo e magua no lhe deixando os servidores de seu gosto e
vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro
mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem.
E na execuo d'estas cousas porque a necessidade de outras muitas assim
o requeria, o s e principal ministro era o principe; porque el-rei D.
Affonso seu pe de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se
escusou, e as deixa inteiramente  disposio e ordenana do filho, a
cuja vontade el-rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e
sujeito. Mas se o principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo
contra a senhora D. Joanna, por ventura mais do que per razo, piedade e
temperana se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do
casamento do infante seu filho se no desfazer, que no era sem alguma
esperana da successo de Castella, a desventurada fortuna como cr
algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela culpa do principe, se a
tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos
innocentes principe e princeza, depois de novamente casados, sobre que
tanto fundamento de honra e segurana fazia. Porque o mesmo lugar de
Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira
crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingana; porque o
principe D. Joo depois de ser rei  vista da mesma excellente senhora,
viu a subita e desastrosa morte do principe D. Affonso, seu filho, e a
quem  primeira pareceu, que, sendo vivo, os reinos de Portugal sem os
de Castella no bastariam, elle o viu logo morto, e de uma pouca de
terra para sempre sujeito e contente, e a triste e innocente princeza
sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, privada do
verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e hollandas
delgadas que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo
vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental
proposito de religio, sendo apartada das pessoas mais de sua
conversao e servida por servidores alheios, comendo no cho e em vasos
de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos
esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas
e trotes  vista de todos. Mas vs lagrimas que na lembrana d'esta dr
aqui apontaes soffrei-vos um pouco, c pera outro mais proprio lugar
estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso
juramento, que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento
d'esta senhora com o principe seu filho, no ficou sem triste pena e
mortal perda e sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que
se fez, no padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles
viram a no madura morte do principe innocente moo seu filho, vivendo
pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta senhora prometteram e
juraram de casar; porque elle j ento era casado com madama Margarida,
filha do rei dos romanos, e a tinha j em seu poder, sem de nenhum
d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta
esperana e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente
que os succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes
mais chegados.

Depois da profisso da _Excellente Senhora_--tratamento dado a D. Joanna
tanto que vestiu o habito de clarista--D. Affonso V quiz abdicar e
recolher para sempre ao mosteiro do Varatojo por elle fundado; mas a
morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo designio. A 28 de agosto de
1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do pao de Cintra, onde
se ouvira o seu primeiro vagido.

A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a
sentena fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mos
de ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. Joo II.

Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com
Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou,
rojou-se a seus ps, e solicitou-lhe a mo de esposa, como em outro
lugar deixmos referido. No podendo, porm, ella olvidar, nem um
momento, que era a legitima successora da coroa de Castella, recusou com
nobre altivez as propostas d'este seu algoz e diffamador de sua me,
preferindo conservar-se solteira, at que deixou de existir em 1530, com
sessenta annos de edade.

Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e to esquecida a
quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E,
como o terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, l
desappareceram misturadas com os destroos dos dois edificios as cinzas
da pobre princeza.

Malfadada condio a sua!

No logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nao hespanhola, e
ao filho de D. Joo II foi tambem vedado herdar as duas coras da
peninsula, para realizar, conforme as aspiraes de seu pe, a
reconstituio da velha monarchia wisigothica, terminada no primeiro
quartel do seculo VIII pela batalha de Guadalete.

Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era
patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de
que se serviram, para lh'o arrebatarem das mos, a segurana e a
estabilidade de todas as dynastias podiam considerar-se problematicas.

O que mrmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as
leviandades e torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada pde lavar a
macula de rebelde, com que ella conspurcou o seu nome para sempre.

Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de
Arago com Isabel preparou o successo transcendente da unidade
hespanhola, realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos
elevaram a Hespanha ao mais alto grau de prosperidade.

Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o
poder da realeza.




VI

_PESQUIZAS_


Por morte de D. Affonso V todos os credos da sua casa tomou D. Joo II
para si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de
Rezende. Pero da Covilhan pertencia quelle pessoal, e, como pelos
servios prestados em Castella e Frana havia conquistado a estima do
novo monarcha, para logo ascendeu esta  quasi intimidade de valido.

Convem notar, que D. Joo II ao seu servio preferia ter cavalleiros
particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta m vontade
contra estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes
qualidades e menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade
e menos ambio, por carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de
contentar. Sobretudo tinha na melhor conta os seus companheiros de
armas em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicao e valor,
cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu
sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil
_vassallos d'el-rei_, que creou, como lhe requereram as crtes reunidas
em Evora a 12 de setembro de 1481.

Pero da Covilhan vivia, pois, na crte de D. Joo II e fazia parte da
sua guarda.

Nem antes, nem depois, ainda houve outra crte mais brilhante em
Portugal. O rei, para descanar das fadigas da administrao, mostrava
grande prazer de achar-se rodeado de cortezos dotados de boas prendas,
e com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presena
das formosuras insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da
rainha D. Leonor.

Assistia jubiloso aos sarus do pao, nos quaes at s vezes, depois de
vr danar com primor a _retorta mourisca_ pelas damas trajando ao uso
arabe, deixava-se adormecer no regao de alguma d'ellas. Era o primeiro
emfim a lembrar os desafios poeticos, as _crtes de amr_, o _jogo dos
naipes_, e tantas outras diverses proprias de uma sociedade elegante,
de cujas aventuras amorosas se no fazia mysterio.

Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha
educava para suas damas, e que podemos denominar os botes de rosa do
real _jardim de formosura_, como depois Gil Vicente chamou ao
estrado das damas de D. Leonor.

Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em
verso. Ella, porm, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros,
torturando assim os apaixonados moos. Alguns alcunhavam-n'a de
desvanecida, outros de suberba, despeitados todos por se verem
repellidos. No logravam comprehender muitos d'elles, herdeiros de boas
casas, que uma menina pobre se mostrasse to esquiva, to reservada,
quasi fria, n'aquelle meio to aquecido pelo calor da mocidade; em
aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na
linguagem tornavam to jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo
reprezenta o _Cancioneiro Geral_, de Garcia de Rezende.

Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:

--Amo-vos!...

Maria Thereza crou, e tamanha perturbao sentiu, que no poude
articular uma palavra.

Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse
comsigo mesma:

--Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... No s ridicula; mas
traduziria o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que no agradeci a
sua galanteria por elle no ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...

Esta ida foi um desespero para Maria Thereza, que no encontrava
desculpa alguma para o seu silencio. At pelo seu espirito passou o
receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava convicta de
que fra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida 
sempre facil de responder.

Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, no poude fallar-lhe; mas
retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que
elle a cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu corao,
cresceu de subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attrem, 
que salta a faisca sagrada.

Durante algum tempo, no houve entre ambos correspondencia, que no
fosse a dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se
comprehenderem. Os olhos so o espelho da alma, e descobrem, sem o
sentirmos, todos os segredos, que l guardamos.

Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal
soube a novidade, esperou-o  entrada dos aposentos de sua ama, e quando
elle surgiu, disse-lhe:

--Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura
tivesseis... Como no  costume, havia de surprehender-vos a ordem da
rainha, minha Senhora?...

--Certamente!... E graas pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me
tinha occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e no o
levasse a bem...--respondeu Pero da Covilhan, ainda mal refeito do
sobresalto, que lhe causou a inesperada appario de Maria Thereza, que
para o tranquillizar lhe affirmou:

--Sua alteza nada sabe ainda. Como, porm, no tenho segredos para minha
real ama...

--Oh! nada lhe confesseis por emquanto!... interrompeu Pero da Covilhan
supplicando.

--Porqu?!...--perguntou Thereza meio admirada.

--Porque no vos mereo ainda...

--Por sermos muito mos; quereis talvez dizer?...

--Thereza!... Amo-vos cada vez mais! E por isso mesmo vos peo que
espereis...

--Esperarei.

--Quando eu tiver uma posio digna de vs e do vosso nome illustre,
virei offerecer-vo'-la, e esse ser o primeiro passo para a minha
felicidade... Antes, no!... Sou um simples escudeiro, bem vdes!...

--No vos amergeis tanto!... S os escudeiros sustentam o reino: dizia
D. Joo I... O que foi Nun'Alvares, antes de condestavel?... D'onde
provem os melhores titulos de Portugal e Castella?... De escudeiros se
fizeram as casas de Benavente, de Vilhena, de Albuquerque, de Medina
Sidonia, e tantas outras...

--Assim ; mas...

--Mas vs sois hoje um escudeiro, e manh podereis ser um fidalgo...
No tendes a nobreza por herana e patrimonio? Haveis de merece-la
e ganha-la!...  crena minha.

--Na firmeza da vossa linguagem manifestais bem os quilates do vosso
peregrino espirito... Edificativa exhortao a vossa!...

--Pois no ser verdade o que vos digo?... Aquelles a quem a gloria dos
avs envaida, sem procurarem imitar-lhes as virtudes, esquecem-se, de
que no  nas raizes, mas nos ramos, que teem as arvores o seu fructo...
Ora dizei-me!... Quantos fidalgos deixaram a vida em Toro?... Dos
escudeiros sabemos todos, que muitos l ficaram...

--Morreram no seu posto...

--Com honra, bem o sei. Ou no foram elles portuguezes!... Mas costume
foi sempre lanar os escudeiros deante, para serem no perigo o escudo
dos nobres... Que vejam estes agora como el-rei trata os escudeiros, que
sobreviveram!... A vs no perde sua alteza o ensejo de honrar... No
vo'-lo provou j, enviando-vos a Castella em seu real servio? E 
Barberia, a fazer pazes com o rei de Tremecem?...

--Mercs d'el-rei, meu senhor, que m'as no deve, porque lh'as no
mereo... Em Toro foram todos valentes, fidalgos e escudeiros, que ao
lado de sua alteza ninguem pde ser fraco!... Praz-me porm, vr-vos
discorrer d'ess'arte!... Nobre alma de portugueza a vossa!... Como eu me
sinto orgulhoso de vos amar!...

--E eu de ser por vs amada!...

--Abenoado amor o vosso!... Por elle sinto-me capaz de tudo quanto ha
de elevado e grande!... Nem perseverana e f me faltaro jmais!...

--Nem as minhas oraes, Pero... Assim ellas sejam ouvidas!...

--Porque no?... O co est sempre aberto s supplicas dos anjos. Vs
sois j o da minha guarda, e o do nosso lar sereis um dia!...

--Sim. A Santissima Virgem, que  auxilio dos christos, permitta que eu
saiba corresponder s vossas esperanas!

--Hade amparar-nos o seu patrocinio, crde! Eu tambem sou devto da Me
de Deus, Thereza!...

--Confiemos n'Ella... Mas... alguem chega! Recado vos trazem da rainha,
minha Senhora. Adeus.

Maria Thereza retirou-se; e Pero da Covilhan seguindo-a com os olhos,
apenas soltou esta palavra, que ella j no poude ouvir:

--Encantadora!...

E era realmente um encanto a gentilissima Thereza. O seu corao
virgineo abriu-se ao primeiro affecto, como o calice da flor aos
primeiros raios do sol em alegre manh de primavera. A sua alma
desabrochando, exhalava seu ingenito perfume angelico, e em uma
aspirao, que tinha alguma cousa de infinito, invocava no sabia bem o
qu, para ella ainda desconhecido. No ignorava, que geralmente o
interesse era o verdadeiro mbil dos casamentos na crte. Muitos dos
servidores das damas, seno todos, podiam ter a alma erma de virtudes, o
corao vasio de affeies, que, se os recommendasse o prestigio das
suas riquezas, ou a fascinao do seu nome, nenhuma d'ellas repudiava os
seus galanteios. Maria Thereza, porm, aspirava  posse de uma alma,
como a sua, que lhe offerecesse o thezouro da pureza, de um corao,
como o seu, que conservasse o thezouro do affecto; porque sem estes dois
thezouros nada lhe bastaria, e o nome, ainda o mais egregio, a fortuna
ainda a mais colossal, no poderiam dissimular a sua privao irreparavel.

A rainha D. Leonor, que tinha por ella particular predileco, como para
o deante veremos, era a mais desvelada e carinhosa das mes nos cuidados
com a sua educao. Nutrindo-a de solidos pensamentos pela cultura s e
moral do seu espirito, no lhe fazia ao mesmo tempo perder a frescura da
imaginao, nem lhe roubava a graa e a poesia, com que Deus a dotra.
Dando  imaginao o que justamente lhe pertencia, purificando-a e
dirigindo-a, creava-lhe tambem e primeiro que tudo, uma consciencia
forte; formava-lhe uma vontade energica e recta, um corao que soubesse
querer o bem, uma razo e intelligencia, que lhe deixassem trilhar
sempre, com resoluo e firmeza, o caminho do dever e da honra.

Que me de familia com taes dotes!

Em preciosos codices da bibliotheca real alimentava Maria Thereza a sua
paixo pelas lettras, sendo a sua leitura dirigida pela rainha, como
quem prescreve o regimen de uma alimentao salutar e sobria. Ao mesmo
passo encarecia D. Leonor  sua pupilla a intimidade do lar domestico,
dizendo-lhe, que sem ella no pode haver vida de familia, como sem
templo no existe religio, que se avigre.

Maria Thereza sabia assim, que no lar domestico nutrem e conservam sua
pureza e sua energia os nossos costumes, e que elle  para todos ns
como que uma patria mais estreita e mais estremecida, e tambem o lugar
consagrado pelas alegrias e pelos pezres communs da familia.

Ao pensar, pois, na sua unio com Pero da Covilhan, Maria Thereza
promettia a si propria, que seria sempre ao lado d'elle corajosa e
risonha, velando tudo, tomando o maior quinho nos dissabores do
trabalhador indefesso, applaudindo os seus esforos, aconselhando-o,
inspirando-o, confortando-o emfim com o seu olhar e o seu sorriso. E por
isso mesmo, embra Pero da Covilhan soffresse as mais duras
inclemencias, as mais longas provaes, antes de conquistar uma
reputao honrada e merecida, a despeito de criticas amargas e injustas,
o amor d'elle ao trabalho e ao lar domestico haviam de faze-lo triumphar
de todas as vicissitudes. Maria Thereza contava com esse triumpho e
deliciava-se ao imagina-lo.

Que desassocego febril, em que andava o seu corao de dezeseis annos,
desde que o surprehenderam no seu pulsar innocente e descuidado os
primeiros estremecimentos do amor! Mas este delicado e casto sentimento
deixou de ser uma paixo que poderia corrompe-lo, para tornar-se uma
virtude, que havia de eleva-lo.

O mais vehemente desejo de Maria Thereza, era, que Pero da Covilhan se
nobilitasse, crescesse em honras, conquistasse para o seu nome uma
aureola brilhantissima. Em Pero da Covilhan para merecer, e em D. Joo
II para premiar, tinha ella toda a confiana; por isso no a intimidavam
as habituaes murmuraes e desdens dos cortezos. Estes em geral,
occupados de inveja dos feitos alheios, trabalhavam por empece-los e
aniquila-los. Prezando-se unicamente de perfumados, e de porfiar
trovando nos seres do pao, nada mais faziam do que folgazar dia e
noite, emmaranhados em intrigas de amores interesseiros e faceis.

Um interesse tambem tinha o amor de Maria Thereza; mas unico: a gloria
de Pero da Covilhan.

Desinteressado amor!

A candida donzella via no seu bello ideal de ventura o mo escudeiro a
burilar no escudo um brazo floreteado, ganho em servio da religio e
da patria, e a si propria aprezentando com justa ufania a sua real ama,
e segunda me, o cavalleiro ennobrecido, a quem promettera a sua mo.
Exultava por isso de contentamento intimo, quando o rei o escolhia
para desempenhar qualquer misso que por espinhosa e arriscada o
distinguisse mais ainda.  que o seu amor tinha a singularidade
maravilhosa de illuminar-lhe o entendimento, conservando-lhe sempre
inflammado o corao.

Quando Pero da Covilhan ia a sair, j despedido pela rainha, poude dizer
a Maria Thereza:

--De novo passo  Barberia.

--Deus vos guie!--respondeu Thereza, to meiga, como alegre.--Comvosco
vae tambem o meu corao, que  vosso.

Nem uma palavra, nem a mais fugitiva expresso da physionomia de Maria
Thereza, podiam revelar a Pero da Covilhan qualquer sombra de tristeza
pelo apartamento; e comtudo bem natural , que fossem como realmente
eram, sempre que se separavam, docemente feridos ambos pelo espinho da
saudade. As despedidas em vez de os desfallecerem, animavam-os.

D. Joo II no seu ardente amor de gloria, ao passo que se tornava
insaciavel e insoffrivel em transpr os humbraes da India, no afastava
seus olhos d'aquella banda da Africa, tanto ao p da porta, e da qual
tivera por doao real a governana, quando principe ainda. Para ser
miudamente informado cerca do que se passava n'esses lugares, enviou l
Pero da Covilhan, recommendando-lhe em particular, tratasse a miude com
Molley-Belfagege, que em 1472 havia mandado a ossada de D.
Fernando, o mallogrado infante, que fallecera em Fez. A razo ostensiva
da viagem era, porm, a compra de cavallos do melhor sangue para o duque
de Beja, a quem o rei ia dar casa. Destinados  mesma adquiriria tambem
Pero da Covilhan alguns lambeis, que D. Leonor encommendara com
particular interesse, consoante  carinhosa rainha merecia, quanto
tocava a D. Manuel seu dilecto irmo, mais tarde rei.

Embarcou Pero da Covilhan para o seu destino.

Depois da necessaria demra, regressou a Portugal, onde o esperava j
outro encargo; este, porm, mais arduo, e de mais vasto alcance para a
realisao do plano politico de D. Joo II.

Estava a crte em Santarem, quando chegou e deu conta a seus reaes amos
dos mandados, que cumprira, conforme as instruces que levava.

--Bem o fizestes--disse-lhe o rei--; e agora--muito secretamente--espro
de vs grande servio, que sempre vos tenho achado bom e leal servidor,
mui ditoso em vossos feitos... No vos impede a falta de saude, ou o
cansao da viagem, de sair j de nossos reinos?

--Prstes estou, meu Senhor e rei--respondeu Pero da Covilhan.--Peza-me,
porm, no ser a minha sufficiencia igual ao desejo, que tenho de servir
voss'alteza...

--Embra, ireis, que Deus vos guardar.--A descobrir e saber do Preste
Joo, e onde se acham a canella e as outras especiarias, que das
terras do Oriente vo a Veneza, hei j mandado um homem da casa de
Monte-Rio e um frade de Lisboa. Chegados que foram a Jerusalem, d'aqui
fizeram volta, dizendo, que ninguem por aquellas partes podia
entender-se sem saber o arabe. De vs me lembrei, que bem o fallais.
Maior incumbencia todavia levareis, do que elles, pois tambem do vosso
valor e discernimento muito mais confio...

--Merc a voss'alteza, meu Senhor...

--O que de vs pretendo , que vos certifiqueis, se do meu senhorio da
Guin podemos communicar por terra com o reino do Preste Joo, e se
tambem por l, se a costa vae seguindo, levariamos  India a nossa frota.

--Com lda vontade, Senhor, acceito o encarrego, que  mais uma merc,
por que beijo a mo de voss'alteza.

--manh sereis despachado, e levareis comvosco Affonso de Paiva, que
vos dou para auxiliar-vos.

Pero da Covilhan poude pouco depois avistar-se com Maria Thereza, que j
sabia da sua vinda, e communicar-lhe com enthusiasmo, que el-rei o
mandava partir para longe, proporcionando-lhe azo de prestar  religio
e  patria bons servios. No lhe revelou o segredo da sua mysteriosa
viagem, mas no resistiu a dizer-lhe com o mais vivo arrebatamento de
amor:

--Agora, mais do que nunca, espro ser vosso, Thereza!...

--A Virgem vos oua!--exclamou Maria Thereza igualmentente enlevada e
radiante.--A longes terras ides?... Deus vos acompanhar... e eu
ficar-vos-hei esperando... de outro jmais serei!...

E apartaram-se, como dois crentes, cujo animo varonil o fervor da f
revigra.

Nem um uma lagrima derramaram!

As lagrimas nem sempre so a medida do amor. Este muitas vezes mais se
prova, com as que se deixam de chorar.

Se Pero da Covilhan partisse, para nunca mais ver Thereza, seria essa a
dor maior dos olhos de ambos, e a que lh'os desfaria em lagrimas. Elle,
porm, ia para voltar e trazer o seu nome laureado a Thereza; esta
ficava-o esperando, para o festejar jubilosamente. Por isso as lagrimas,
que deixavam ambos de chorar, se haviam seccado nas fontes do amor fino,
com que mutuamente se queriam.

No dia seguinte, que era o setimo de maio de 1487, D. Joo II, tendo a
seu lado D. Manoel duque de Beja, entregou a Pero da Covilhan, que se
apresentou j com Affonso de Paiva, uma carta de marear, feita em casa
de Pedro d'Alcaova, pelo licenciado D. Diogo Ortiz, o _Caladilha_,
depois bispo, e pelos physicos hebreos, mestre Rodrigo e mestre Moyss,
os quaes tomavam com o primeiro parte na _junta dos cosmographos_.
N'essa carta devia Pero da Covilhan, marcar os lugares do senhorio do
Preste, bem como todos os mais, por onde passasse.

Para os primeiros gastos da viagem mandou-lhe D. Joo II dar da arca das
despesas da horta de Almeirim quatrocentos cruzados, parte dos quaes
Pero da Covilhan depositou na casa bancaria de Bartholomeu Florentino, a
fim de receber em Hespanha o que lhe conviesse, levando alm d'isso uma
carta de credito, dirigida pelo monarcha  opulenta casa Medicis, para
que nada lhe faltasse nos paizes, que tivesse de percorrer. Foi emfim
portador de cartas em arabico para o Prste, nas quaes D. Joo II
significava a este o grande desejo de o conhecer, e travar com elle
relaes de amisade, dando-lhe ao mesmo tempo conta de tudo o que pela
costa da Guin havia descoberto para saber, se alguma d'aquellas terras
era perto de seu reino e senhorios, a fim de por ellas se poderem
communicar e prestar, bem como fazer, com que a F Christ fosse exalada.

E no mesmo dia partiram os dois exploradores em direco a Barcelona.




VII

_EM RHODES_


Apenas Pero da Covilhan e Affonso de Paiva chegaram a Barcelona,
passaram a Napoles pelo Mediterraneo. Alli desembarcaram, e dirigindo-se
logo  casa commercial de Csme de Medicis, pelos filhos d'este lhes foi
dado seu caminho, em vista da carta de credito, que levavam, como fica
dito.

Na formosa e vasta bahia de Napoles estava a largar para a ilha de
Rhodes uma nu, a bordo da qual facil foi receber os nossos viajantes.
Proseguiram n'ella, pois.

J no mar tyrrheno, quando Pero da Covilhan, encostado  amurada da nu,
tinha deante dos olhos o quadro pittoresco do golpho, emmoldurado por
uma natureza encantadora e grandiosa, nenhum allivio achava nas
tentadoras bellezas do magnifico panorama, para a dr que lhe ia
pungindo a alma. Agora que nos mares do levante pe a pra a nu,
que o transporta, e elle, se distanca mais de Portugal, sem saber aonde
o destino o levar, mais lhe parece que o seu corao o deixou para
ficar com Thereza.

Ao dobrar a costa meridional da Secilia, em aquelle afastar-se cada vez
mais da patria em busca de regies desconhecidas, o ardor, com que
desejava chegar ao termo da sua viagem, era muitas vezes amortecido pela
impresso viva da saudade, que deliciosa e acerbamente lhe dilacerava o
corao.

A nu singrava, assoprando-lhe galerno o vento, que lhe fazia as velas
pandas. Quasi ao cabo da sua derrota, entra no mar Carpasio, e,
proejando para Rhodes, surge n'este porto.

Est, portanto, Pero da Covilhan s portas do Oriente.

Habitavam Rhodes os cavalleiros da sacra milicia de S. Joo Baptista, de
Jerusalem. Tinham achado que, pelo sitio e vizinhana, era essa ilha
propria para, sem maior difficuldade, pelejar com os sarracenos do
Egypto e da Syria, bem como para reprimir e rebater os assaltos e
insultos dos turcos, que, com galeras armadas em guerra, infestavam
aquelles mares, vexando os christos, roubando e fazendo captivos muitos
d'elles.

Fortificaram-se por isso alli; armaram-se de nus, galees e galeras,
com que limparam de piratas e corsarios os mares do levante; e no
s davam passagem segura e pousada franca aos peregrinos, que
visitavam a Terra Santa, seno tambem refreavam os impetos e furias dos
mouros e turcos, para que no chegassem com as suas victorias at ao
corao da Italia. E pode affirmar-se, sem receio, que se deve attribuir
s virtudes, esforo, faanhas e proezas dos cavalleiros de Rhodes, o
no terem os infieis mahometanos destruido a maior parte da christandade.

Eram dois os cavalleiros portuguezes ento na ilha: frei Gonalo Pimenta
e frei Ferno Gonalves. O ultimo havia tomado parte na heroica e
brilhante defensa, contra o apertado crco do exercito ottomano, em
1480, no mestrado de frei Pedro d'Aubusson. Como bem natural era,
receberam os dois viajantes fidalga hospedagem de seus compatricios. A
breve trecho estabeleceu-se entre todos aquella confiana e lhaneza de
trato peculiarissimas do nosso caracter nacional, que no s se conserva
intemerato em quaesquer circumstancias de tempo e lugar, mas ainda mais
o affirmam os portuguezes uns aos outros, quando se topam em terra alheia.

Como os primeiros cuidados do gro-mestre tivessem sido, logo depois do
assdio, restaurar as muralhas e fortificaes arruinadas, durante este;
reedificar as casas e as egrejas, que foram demolidas, por estarem
situadas perto da cidade, e poderem servir de interesse ou de reparo ao
inimigo; e restabelecer finalmente o importante commercio dos
rhodios, que to notavel incremento havia j tomado; aos intrepidos
viajantes foi grato vr na Rhodes christanisada uma das mais
florescentes cidades da Asia.

Precisou Affonso de Paiva de repoisar um pouco; e, emquanto elle o
fazia, foi Pero da Covilhan com frei Ferno visitar as fortificaes.
Depois de haverem percorrido todas, sentaram-se na torre de S. Nicolau,
que demorava sobranceira ao mar na entrada do porto, e era fundada sobre
alcantilado fraguedo, que se erguia do seio das ondas.

Como os turcos emprehenderam expugnar esta torre, por lhes parecer que
d'ahi podiam bater com maior effeito a cidade, e tambem impedir que lhe
no entrassem soccorros, fr. Ferno recordou este episodio do crco, e a
bravura com que n'elle se portaram os cavalleiros portuguezes. Pero da
Covilhan escutava com interesse e assombro a narrativa, e no poude
occultar a commoo de jubilo, que sentiu ao ouvir as referencias feitas
 galhardia dos nossos.

Frei Ferno comprehendeu que fallava com quem era versado na arte da
guerra, por isso fez-lhe minuciosamente o lance do crco. E, como ento
os triumphos gloriosos dos prelios eram antes attribuidos  graa do
Omnipotente, do que ao esforo heroico dos guerreiros, no deixou fr.
Ferno de memorar um caso milagroso, que contribuiu principalmente para
a derrota dos turcos.

--Depois de assalto  cidade fugiram para ella grande numero de
turcos. Attestaram estes com juramento, que, tendo o gro-mestre acudido
ao combate, e feito arvorar de novo as bandeiras, em que se divisavam
pintadas as imagens de Christo, da Virgem e de S. Joo Baptista,
alvejando a cruz em campo de rouxeada cr, n'esse mesmo instante viram
os turcos correr pelo ar contra elles uma Cruz resplandecente da cr de
ouro,  qual seguia uma Matrona formosissima, adornada de candidos
vestidos, com escudo embraado e lana na mo direita; junto a ella um
homem vestido de pannos vis com uma plle de camlo sobre os hombros; e
logo um luzido esquadro de soldados, assignalados com cruzes brancas,
correndo em tal ordem que parecia virem em soccorro da cidade. Com esta
viso--diziam os desertores--ficaram os turcos to assustados e
attonitos, que os que iam em marcha ao assalto, no se atreveram passar
adeante; e os que j estavam interessados na lucta, conceberam tanto
medo e terror, que voltaram as costas, e para fugirem com menos embarao
se mataram uns aos outros.

--Vencemos!--concluiu frei Ferno--. Mas sem aquelle celeste auxilio no
podia prevalecer a nossa defensa contra o grande tropl e poderosas
foras dos inimigos. Cumprimos o que deviamos por honra nossa, com
grande gloria dos christos e a mr affronta dos infieis!... E a
proposito deixai-me lamentar, que o senhor D. Joo II, sendo to
catholico, tenha a sua atteno distrahida para Africa, e no nos
auxilie em nossa empreza!...

--Estou certo--retorquiu Pero da Covilhan--de que el-rei, meu Senhor,
admira os vossos esforos, e desejaria contribuir para o engrandecimento
da sagrada milicia; asseguro-vos, porm, que nas actuaes circumstancias
do reino, no podia, antes que quizesse, realizar esse desejo. Achais
porventura, que sua alteza deve consentir  sua porta, a vexar a
christandade, o agareno insolito e maldito?...

--Reduzir o numero dos infieis pela converso ao catholicismo,  sem
duvida obra emrita. Mas ns tambem l iriamos ajudar el-rei, se
tivessemos seguro o nosso dominio na Asia...

--No se esquece sua alteza do Oriente, crde... Se a nossa frta
podsse ir  India!... O resultado seria a propagao da f catholica
n'essas regies remotas, e o augmento da gloria e riqueza de Portugal!...

-- India?!... Arrojado pensamento esse!... Pois pde el-rei conceber um
tal proposito?!... Por que mares chegaria l?!...

--Por que mares, no sei... O pensamento  meu... Occorreu-me agora... O
que vs no ignorais, sem duvida,  que ns, os portuguezes, somos
aventureiros por indole. Estanciados no Occidente, parece-nos o mar uma
barreira constante, posta a nossos olhos, para nos impedir de caminhar;
por isso natural , que estejamos sempre anciosos de vencer esse
obstaculo... Quem sabe se servir de estimulo, para virmos a ser um dia
os primeiros navegadores do mundo?!...

--Confio muito na providencia de Deus e no valor dos portuguezes; mas...
Veneza tem o monopolio das riquezas do Oriente; os seus depositos em
Alexandria fornecem o mundo inteiro; e alm d'isso  a senhora dos
mares, sem que ninguem pssa disputar-lhe esse imperio... Se porventura
ella sonhasse, que por mar se podia ir  India, j l tinha surgido a
sua grande frta...

--Mas ns tambem j temos provado, que sabemos luctar com as ondas...

--Assim ...

--Ora dizei-me: no estar Deus a ensinar-nos o caminho da India no
movimento diurno do sol?... Eu me explico. No me custa admittir, que do
Oriente partisse um dia grande cfila de gente  procura do paiz do
ouro. Chegaram ao Occidente, e, topando com o mar, que os no deixou ir
mais alm, uns retrocederam, outros ficaram...

--Que saissem at muitos d'elles, para commerciar unicamente, facil 
acredita-lo--interrompeu fr. Ferno.

--Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso slo acompanharia
sempre no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento
no se transmettiria de pes a filhos, como um patrimonio de seu
corao?...

--Mui ajustado considero o vosso conceito. At do nosso genio
aventureiro razo sobeja me d.

--Uma esperana trouxe a nossa raa ao Occidente, uma saudade a levar
ao Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revoluo, como o
Sol!...

--Prouvra a Deus, que assim fosse!...--exclamou com enthusiasmo fr.
Ferno.

--No me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva,
 procurar o to fallado Prste Joo. Acaso podereis vs dar-me
informaes, que me alumiem?... Se fr um rei christo, como dizem,
muito ganharia a nossa religio santa, se com elle el-rei contraisse
alliana...

--Folgaria de bem vos encaminhar; mas to escuras correm as noticias
d'esse afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal
fundadas.

--Na Asia habita, dizem. Em que parte, porm, d'ella?

--Na Asia habitar... O nosso collegio, porm, j conta em Rhodes mais
de um seculo, e at hoje--que eu saiba!--no tem constado c, haver-se
descoberto o reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.

--Informao de pso  essa...

--Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome
commum a todos os soberanos d'ella, como foi o de Phara aos reis do
Egypto, o de Dario aos reis persas, o de Cesar aos imperadores
romanos, e actualmente  o de Turco aos sultes da casa ottomana. Esse
nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus em
Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razo
da cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E
esse imperador christo, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de
Babilonia, de maneira que tambem a elle obedeciam os christos, a quem
na India se chamavam da Serra ou de S. Thom. O seu imperio, porm, ha
muito que desappareceu.

--E porque no crr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de
mysterios o Prste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu
a Portugal no volto, sem colher informao segura, para a levar a
el-rei, meu Senhor.

--Nem al se deve esperar de vs, como brioso cavalleiro que sois.

O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi
tornar-se-lhe cada vez mais problematica a residencia, seno a
existencia, do Prste Joo das Indias. No soffreu com isso a menor
contrariedade o seu animo imperturbavel; serviu antes de maior estimulo
 sua diligencia.

De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar,
atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarados em
mercadores.




VIII

_BOAS NOVAS_


Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro
ao porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno
do costado da embarcao, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e
fazendo parecer, que o mar se transformra em um grande lago azul e
tranquillo. Ao cabo de uma feliz derrota o navio deu fundo em frente da
velha cidade egypcia, uma das mais bellas e graciosas cidades do mundo
antigo, e lao de unio da Europa com o Oriente.

Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua
bibliotheca celebre, que fra a maior do mundo, e quasi todos os seus
monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade
gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, no VII seculo.

De todas essas preciosidades historicas restavam unicamente: a
columna de Pompeu, denominada Amud-Assuari pelos musulmanos; dois
obeliscos, impropriamente chamados _Agulhas de Cleopatra_, e as catacumbas.

A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes pelo _Serapeion_,
ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos centros do
saber, no ponto de unio da Necropole com o velho bairro egypcio de
Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu,
testemunha sobrevivente das pocas classicas. Esta obra de arte
genuinamente grega mandou um prefeito romano erigir em honra do
governador Diocleciano, _genio tutelar da cidade_, para lhe demonstrar a
sua gratido pelo trigo, com que soccorrera o povo de Alexandria. Era
lavrada em syenito, com o scco quadrado, em que assentava, e o capitel
corinthio, onde se erguia a estatua, j mutilado.

As _Agulhas_ consistiam em dois monolithos de granito avermelhado, em
parte revestidas com laminas de prata dourada. Foram anteriormente dois
monumentos: um, o _Sebasteion_, em honra de Tiberio; o outro,  gloria
de Thutmosis III, quando o Egypto attingiu as culminancias do esplendor,
e, por consequencia, seculos antes da fundao da Alexandria no terreno,
em que assentava a velha aldeia de Rakotis.

No segundo obelisco viam-se os hieroglyphos, que celebravam o nome
d'aquelle Phara.

Primitivamente ambos os monumentos tinham sido consagrados a R, o deus
do Sol, adorado em todo o Egypto, e em um bello templo de Hliopolis
mais especialmente, sob a frma do boi Mnvis. D'esse templo os
removeram para Rakotis.

Na extremidade oriental da ilha de Pharo, que os Ptolomeus ligaram 
terra firme por meio de um mlhe de cantaria, denominado _Heptastadion_,
campeava ainda o pharol, que mereceu ser contado em o numero das
maravilhas do mundo, e realmente maravilha da esplendida capital do
Egypto grego.

Era uma torre quadrada, cuja altura excedia muito a da pyramide de
Cheops, e que Ptolomeu Philadelpho consagrou a seus pes, mandando-a
revestir de marmore branco por Sostrato de Knido. Este architecto
celebre gravou o proprio nome sobre o marmore, cobrindo a inscripo de
encaustica brilhante, em que traou o do soberano. O tempo
encarregar-se-ia de desfazer o revestimento, pondo a descoberto o nome
do vaidoso e desleal artista.

Como a torre ameaava ruina, em frente d'ella havia principiado outra
igual Melik-al-Nasser-Mohammed, nono sulto mameluco do Egypto, da
dynastia dos Baharitas, e que tanto animou a agricultura e as artes; mas
a morte surprehendeu-o logo, no lhe permittindo executar a sua obra.

Muito de corrida viram tudo isso os nossos viajantes, e pouco mais,
pois que uma fbre maligna os prostou.

Ainda mal restabelecidos, subiram ao Cairo, commerciando sempre, por
haver successivos mercados desde Alexandria at quella cidade, e
fazendo a ultima parte da jornada pelo Nilo, que vinha descendo n'esta
regio por entre alegres povoaes mui visinhas umas das outras, e
corria a pequena distancia da capital do Egypto, a qual demorava na
margem direita.

Alguns dias depois de chegarem a este grande centro de commercio,
encontrram-se com mercadores de Fz e Tremecem, que seguiam para Aden.
Ajuntram-se  caravana d'esses mouros, e com elles partiram caminho de
Tr. D'esta cidade do Hedjaz, pequena, mas graciosa, assentda  borda
do golpho de Suez, ao longo de uma bella praia, navegaram em um zambuco
para Suaquem, riquissima cidade da Nubia, na costa africana do mar
Vermelho, e d'ahi para Aden.

Pero da Covilhan approximava-se da India; e, sem embargo de haver sado
de Rhodes com pouca esperana de dar l com o Preste Joo, anciava cada
vez mais conhecer a hydrografia do Oriente, e fazer um estudo
consciencioso do commercio das especiarias.

Tomra o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que
a sua alma era christ e portugueza de lei. A convivencia com os infieis
mais lhe arraigava no corao as suas crenas. O seu melhor
companheiro, e confidente unico, era a imagem de Thereza, a guiar-lhe os
passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir audacioso e firme.
Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma exclamao nem um
gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de que no
fosse mercador ismaelita.

Quando aportou  bahia de Aden, esta importante cidade maritima da
Arabia produziu-lhe viva impresso, que passou completamente
despercebida aos olhos dos tripulantes e mercadores que o cercavam.

Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias
quebradas e picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao v-la
assim recortada, lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui
similhante. Parte d'ella mettia pelo mar, formando uma comprida
peninsula, que talhava duas formosas e largas enseadas, e na de lste
espelhava-se a muralha da cidade.

Com effeito Aden, edificada ao sop da serra, era defendida, para a
banda do mar, por um extenso lano de muro, dividido em muitos pannos
por meio de cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha
cortada a pique, do outro em um mrro, junto do qual havia um baluarte
rouqueiro, cujos tiros podiam varrer a praia. O mrro tornava-se um
ilho com o preamar, e at ao seu cume, onde estava um castello, subia
do baluarte um muro, que torneava o mrro. Por duas portas, ambas
juntas, se entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do
lado da terra, em um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres
portas consecutivas, protegida cada uma por sua fortificao.

Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razo do ardor vivissimo
do clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar s fontes
detraz da serra, em dres transportados por camlos e juntar a da chuva
em enormes tanques abertos na rocha.

O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que
sempre estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os
productos de seus paizes, e d'ella levavam a varios mercados as
exportaes da India, para as caravanas de Damasco e de toda a Asia
menor as passarem  Europa pelo Mediterraneo. Por tal motivo a maior
parte das nus contentava-se com chegar a Aden, e no curava de entrar
as portas do mar Vermelho.

Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um
grande rei christo, e considerasse, que o Prste se chamava das Indias,
convencionou com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no
da India, aproveitando logo a mono. Ficaram todavia de se ajuntar
ambos em determinada poca no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das
novas, que alcanassem.

Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na
costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma nu
mourisca a cidade de Calicut.

Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o
Oceano Indico.

A nu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um s
mastro sem gvea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adrias da
vla, que os ajudavam para r. O leme largo e de taboas delgadas
governava com gualdrpes para a borda, alados por um e outro bordo.
Ligeiramente construida, de poucas cavernas, e forrada apenas
exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de igual modo fixo ao
cavername, marcava a differena que ella fazia das pregadias, nas quaes
em vez de quilha havia fundo largo.

A vla, de pendo, era um trapzio de amplas dimenses, ligando o punho
da amura a uma antenna, que podendo debruar-se da borda, permittia 
nu navegar em melhor linha de bolina.

Por causa da vla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear
para cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma
especie de rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.

Nenhum mareante breava a sua embarcao; tornava-a, porm, muito
estanque, betumando as costuras do taboado com _quil_, e untando-as com
azeite de peixe, levado  consistencia de sbo. Assim vedavam
tambem os tanques, em que traziam a agua, os quaes consistiam em grandes
cubos de madeira com capacidade para trinta ou quarenta pipas, e com as
paredes escoradas interna e externamente.

O batel andava atoado, e smente o mettiam dentro, quando atravessavam
da India para o mar Vermelho.

Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras
particularidades de construco, esta nu differia muito das
portuguezas. Sem coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis,
levava a carga arrumada em compartimentos separados, e resguardada da
chuva por folhas sccas de palmeira, postas em frma de telhado de duas
aguas.

Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e
passageiros abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo
quando o vento soprava muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes
casos recolhiam-se em uma especie de choupana de la, encostada ao
mastro, ou armada a r, por cima das esteiras de rotas, com que cobriam
a carga.

O typo do fogo, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de
madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que
serviam de trempe. O cco, o peixe scco e o arroz constituiam os
principaes manjares da quotidiana alimentao.

E com embarcaes to frageis, como a succintamente descripta, se fazia
a navegao dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo
depois varadas nas praias e cobertas com la,  espera de nova mono.

Hoje, que to commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que,
sem um movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta
travessia em similhantes condies, e nem um momento sentisse
desfallecer-lhe o animo!

Que provas de valor, dedicao e lealdade ia accumulando na sua
peregrinao arriscadissima, para offerecer ao rei, que o envira, e a
Thereza, por quem tudo soffria resignado!

A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porm, no Co, que
permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados,
corriam por elle com ligeireza superior  das aves, ao passo que
sulcavam o mar cinco ou seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com
cordilheiras de collinas, separadas umas das outras por largos e
profundos valles. O vento soltava dos vertices angulosos de todas essas
collinas aquaticas uma especie de coma de espuma, em que refulgiam aqui
e alm as brilhantes cres do Iris, e levantava igualmente redemoinhos,
como que de poeira esbranquiada. Mas o mais terrivel era, que os tpos
d'esses vagalhes com a violencia do vento enrolavam-se sobre si,
formando enormes abobadas, espumando e rugindo como fras gigantes
iracundas. A nu, sem governo, vogava de capa, e no era seno
joguete do vento e das ondas. Subia essas serranias inclinada sobre um
dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo, equilibrava-se, e descia
depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em quanto se
escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo lenl
de espuma.

Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca scca,
mas horrenda, a fragil embarcao sossobraria irremediavelmente.

Salvou-se!

Com a sua bandeira verde iada no tpe do mastro, a nu arribou a
Cananor, para fazer aguada e tomar lenha.

A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e,
por ser a costa mui limpa, a nu, depois de refrescar, seguiu perto de
terra o seu rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na vla.

Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido
no seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a
opulencia e a belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia,
que lhe pintra com as cres mais vivas a vegetao luxuriante da India,
no o illudira, pois o maravilhoso painel, que estava contemplando, era
superior ainda ao que a sua imaginao havia sonhado.

Em um vastissimo jardim  beira mar, com arruamentos
arbitrariamente traados, estava disseminada a casaria da cidade,
sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras odoriferas
dos canteiros, das hortas viosissimas e dos palmares giganteos. Junto
da praia as palhotas dos pescadores mucus, e em lugares apartados as
dos pobres poles, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que
resplandecia a sumptuosidade dos pagdes, a elegancia das habitaes
nobres, e a magnificencia dos paos do rajah, que rematavam a cidade a
grandissima distancia da praia.

A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas
espadas nas e rodellas uns, outros com lanas, e ainda outros com arcos
e frechas; e os poles a bradar, para que os naires se desviassem, ou a
fugir, quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de
serem suas victimas.

Passavam pelos naires, e podiam at toca-los, os brahmanes. Estes
traziam a tiraclo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos
quatorze annos, consistia em uma correia de pelle crua com pllo de uma
especie de jumento silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de
linha dobrada de tres fios, com a largura de dois dedos, como a correia.

Tambem os nobres saam  rua em andores, que, conforme o seu tamanho,
dois ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado
ou deitado, ordinariamente mascando o seu bthel, e resguardando-o do
sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os malabares
chamavam _boi_.

Os naires no se limitavam unicamente a prohibir aos poles, que se
approximassem d'elles. Mais ainda. Como o pole era o escravo e o
trabalhador encarregado do amanho das terras, o naire dava-lhe as suas
ordens a uma certa distancia, indo immediatamente depois lavar-se, mudar
de fato, purificar-se. E mantinha-se tanto esta differena de castas,
que um pole nunca podia remir o peccado original do nascimento. Nascia
villo, havia de morrer villo.

Taes costumes dos gentios impressionaram vivamente o corao generoso de
Pero da Covilhan.

O commercio do Oriente estava nas mos dos mouros, cujas embarcaes
eram por isso os unicos meios de communicao entre os diversos portos.

Pero da Covilhan, que necessitou de lanar-se n'esse trafico, no podia
fazer itinerarios  sua vontade, e accommodava-se s circumstancias
tirando d'ellas todo o proveito.

Foi assim que logrou vr Ga, a guerreira capital do reino do Sabaio;
Ormuz, o emporio commercial do golfo persico; e Sofla, a rica cidade da
Africa meridional, aonde affluiam os mercadores, para o resgate do ouro
das minas de Monomotapa.

Restava-lhe obter noticias positivas cerca de Prste Joo; mas contava,
que lh'as dsse Affonso de Paiva, o qual, como vimos, fra  Ethiopia
com o cuidado de as trazer. Voltando, pois, ao Cairo, conforme havia
aprazado com o seu companheiro, soube alli, que este fallecera.

Tal acontecimento foi a primeira contrariedade sria da sua viagem. Com
os vagos conhecimentos, que adquirira, a respeito da existencia do
Prste, no se animava a regressar a Portugal. Parecia-lhe, que no
saciaria com to pouco os vehementes desejos de D. Joo II, n'aquelle
ponto.

--De muito psso eu j dar conta a el-rei; mas no de tudo quanto me
incumbira...--pensava Pero da Covilhan.

Chegou a hesitar um momento na resoluo, que deveria tomar, e mais
conviria ao servio de seu real amo.

N'esta conjunctura apparecem-lhe inesperadamente dois judeus
portuguezes, que o buscavam e que para saberem d'elle na bella cidade de
Amron, na opulenta rainha mussulmana do Oriente, no labyrinto immenso
d'essa Babel, em to embaraosas situaes se viram, que tiveram por
vezes perdida a esperana de encontra-lo.

Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o
outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. Joo II.

-- procura de vs andavamos!--exclamou o rabbi, ao dar casualmente com
Pero da Covilhan.

Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo,
experimentou um prazer novo, uma sensao gratissima, e respondeu:

--Aqui me tendes, e muito me praz vr-me to longe da patria com
portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...

Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia,
de D. Joo II, disse-lhe:

--Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por
essas cartas vereis. Lde-as, pois, e ellas nos acreditaro.

--E como podstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...--perguntou
Pero da Covilhan.

--Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mo
esquerda...--respondeu Abraham, apontando para ella.

--Nem este vestigio das minhas travessuras de creana escapou a el-rei
meu senhor!...--replicou Pero da Covilhan, sorrindo.

--Alm d'isso descreveu-me el-rei com tanta preciso a vossa
physionomia, que no era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo
crescida.

Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. Joo II, que
fosse mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se no estivesse ainda
bem instruido de tudo a que fra, mandasse pelo judeu Joseph novas do
que sabia, no devendo voltar ao reino sem ter visto o Prste Joo.

Joseph observou, que, tendo visitado j a cidade de Bagdad, ouvira l
fallar muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da
India s cidades de Alpo e Damasco. Do que vira e lhe informram,
fizera depois a narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe dra
proteco, para emprehender esta nova viagem, que concertra com o rabbi.

--De tudo estou inteirado--disse Pero da Covilhan.--A vs, Joseph, vou
immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor;
e--voltando-se para Abraham--comvosco tornarei a vr Ormuz.

N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego,
fazia Pero da Covilhan miuda relao da sua visita aos principaes
portos, que serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificra,
que a corrente d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em
Alexandria, seu principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza
a psse, garantida por tratado com o sulto do Egypto.

A respeito do porto de Calicut informava que de l saam, no s as
especiarias, seno tambem tudo quanto a India exportava de mais rico,
attrahido quella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e
opulentos mouros do Malabar.

Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel
valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.

A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas
de Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de
Pegu, as espinellas de Ceylo e Cananor, e os diamantes da Golconda.

Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande,
assombroso, parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar
eternamente um reflexo brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da
Covilhan uma das suas cartas com a seguinte informao: Navegando-se
pela costa da Guin adeante, chega-se ao termo do continente:
persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa no Occeano
indico, o melhor rumo  demandar Sofla, ou uma grande ilha, que os
mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul. E
addicionou: em Sofla me foi asseverado pelos mercadores mouros, que
dos mres da Guin se pde navegar para a India.

Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva,
communicava tambem, que, emquanto andou pela India, smente em Cananor
ouvira fallar no Prste Joo, affirmando os mouros, que este rei
christo estava to longe mettido nas suas terras, que no sabia, que
cousa era gente do mundo, e que para ellas ia-se pelo mar Vermelho. E,
posto que os mouros no dssem a esse rei o nome de Prste, como j no
Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da Covilhan muitas
cousas do rei abexim, de ser christo, trazer cruz alada, e possuirem
seus estados alguns mosteiros de religiosos, se veiu a persuadir, que
no tinha para que passar adeante, a buscar o que no sabia que
houvesse, tendo to prto o que lhe diziam que na Ethiopia havia.
Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia mostrar Ormuz ao rabbi
Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Prste.

Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direco a Portugal com as
cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e
d'este porto sahiram para Ormuz.

Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de
conversar largamente com o seu novo companheiro cerca da vida intima da
crte portugueza!...

O que poderia, porm, saber d'ella o rabbi?...

Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a
esperana, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria
realisados, era o melhor lenitivo da sua saudade.

--Que prazer no sentir Thereza, quando souber, que mandei dizer a
el-rei qual  o caminho da India pelo mar!...--repetiam os echos da sua
alma radiante e apaixonada.

E o infatigavel explorador l foi de novo atravessar as aguas do mar
d'Oman.




IX

_CONSTANCIA_


Nunca na crte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao
espirito,  elegancia, e  formosura da mulher, do que durante os
primeiros nove annos do curto reinado de D. Joo II. Os seres do pao
eram exhibio permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de
motejos deliciosos.

Depois que Pero da Covilhan sau de Portugal, Maria Thereza tinha uma
repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando
apparecia, era unicamente por obediencia.

Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade
fidalga nas salas do palacio real. Os cortezos, que, nada tendo em
geral a contemplar na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos
e attestada de egoismo, a tudo esto attentos, reparavam, que a
Maria Thereza faltava a sua natural animao, aquelle seu ar de
interessar-se pelo que a cercava; e no sabiam explicar, como ella nem
sequr encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.

Maria Thereza, com effeito, quasi no era senhora de si, para antepr s
suas meditaes, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de
transigir um tanto ao menos, com as hypocrisias da crte, para se no
tornar intratavel.

Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que
ter Maria Thereza, ainda ha pouco to leda e desenvolta, critiquizando
maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com
riso franco e jovial nossos apodos, e agora to calma, e lenta em
animar-se?!...

--E o mais estranho--observou Pedro de Barcellos--, que no occulta o
seu mau humor, quando algum de ns tenta galantea-la!...

--At se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se
insiste...--accrescentou Jorge da Silveira.

--De experimentados fallais ambos!...--atalhou D. Joo de Menezes

--Quem no hade gostar de Thereza!...--tornou Pedro de Barcellos.

--Toda a crte sabe, que ella  a predilecta da rainha, com quem rza
diariamente, horas esquecidas!... Ve caminho do claustro a formosa
menina!...--exclamou Gonalo da Fonseca.

Apesar da sua edade, j um pouco avanada, Gonalo da Fonseca amava a
convivencia dos mos, e estes, como elle era de pequena estatura,
chamavam-lhe Gonalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, no s por ser
affectuoso, mas porque lhe recordava uma amabilidade de D. Joo II, to
propria do caracter d'esse soberano, como o leitor vae vr.

Um dia Pedro da Silva, commendador-mr de Aviz, chamou-lhe Gonalinho na
presena do rei. Este no tomou o diminutivo por signal de confiana,
seno por gracejo deprimente, e disse, com um modo muito scco, a Pedro
da Silva: se vs vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonalo.

Este Gonalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos
duques de Borgonha, e D. Joo II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte
Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.

Voltemos, porm, ao ponto.

A conversao continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes,
cerca dos mais fallados galanteios da crte, e prolongou-se, at que,
apparecendo Garcia de Rezende, se deu principio ao _jogo dos naipes_.

Maria Thereza, a quem no meio das reflexes serias, que lhe tomavam a
alma, os vos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam
mais desagradaveis ainda, havia chegado a uma janella aberta sobre
um jardim. Fra alli respirar o perfume das flres, e esse prazer
parecia infundir algum alento em seu corao entristecido. Estava
fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que
lhe agradeciam a confiana, embalsamando cada vez com mais delicia o ar
que ella respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar
sempre de alcatea, no a chamasse a camareira-mr, que sobre ella
exercia a mais particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada
pela rainha.

Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a
dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento
passou rapidamente a seguinte exclamao:--infeliz lembrana!... E tenho
de attender com fingido agrado este importuno!...

Ao mesmo tempo no crebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropl de
duvidas, de esperanas, e de receios, ao passo que o seu corao se
debatia em ancias de tranzido amor.

O apaixonado mo cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder
dizer-lhe:--como sois bella!... que expresso de pensamento profundo!...
que physionomia angelica!...--e tantas outras phrases de admirao e
amor, que lhe estavam a saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.

Enlevado na contemplao da formosura celeste de Maria Thereza, e no
logrando evitar, que fosse trahido pelo olhar ardente, com que a
fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu aos reciprocos
cumprimentos, com esta interrogao banal:

--No vos interessa o _jogo dos naipes_?

-- sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas no me praz
tomar hoje parte n'essa diverso--respondeu Maria Thereza.

--Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior 
que mereceis...

--Lisongeiro!... E porque no ides tambem tirar uma carta?...

--Porque da minha sorte smente vs podeis decidir...--retorquiu com
certa intimativa Pedro de Barcellos.

--Eu!?... Grande poder me confiais!...

--E no o quereis?...

--Para qu?...

--Para me libertardes da sujeio em que me trazeis...

--Pois crde, que no tinha a consciencia da minha tyrannia...

-- que no quereis comprehender o olhar, com que vos admiro...

--Devaneais, primo!

--Acaso to pouco vos mereo, que mal parea ser vosso servidor?--instou
Pedro de Barcellos com forado sorriso.

--Quem, como vs, pode fazer pontaria a grandezas, e leva a palma
aos mais vaidosos em prendas de cortezo, seguro deve estar de seus
merecimentos... O ar, com que fizestes essa pergunta, manifesta bem que
tendes a consciencia d'elles...--redarguiu com reflexiva gravidade Maria
Thereza.

--Devem de certo ser brilhantes  luz da vossa phantasia primorosa;
prefiro, porm, s gentilezas do vosso espirito os apreos do vosso
corao. Se me no julgais indigno de vs, porque no acceitais o amor
que vos offereo?...

--Porque nunca poderia corresponder-lhe.

--Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...

--No sejais injusto. No vos desprzo, estimo-vos.

Convm recordar que, nos frequentissimos galanteios da crte de D. Joo
II, os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos
replicou a Maria Thereza:

--Agradeo a vossa estima, e sobre todas muito a przo; mas ficai certa,
de que sem o vosso amor jmais poder haver para mim ventura n'este mundo:

    Por mais mal que me faais
    nunca mudar me fareis
    at que no me acabeis.

    Minha f, minha firmeza
    Em vosso poder est;
    soffrerei minha tristeza,
    pois vossa merc m'a d.

    E meu bem nunca far
    mudana, nem a vereis,
    at que no me acabeis.[7]

--Bello villancete, primo!...

--No me pertence. Exprime, porm, com tanta verdade o que sinto, que me
lembrei de recita-lo...

--E no tendes prezente composio alguma vossa?...

--Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...

--No vos disse j, que vos estimo?...

Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos,
depois de grande hesitao, e com um receio immenso de ser desagradavel
a Maria Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal
por causa d'ella. Protestou-lhe, que no tinha, nem teria nunca outro
desejo mais ardente, seno o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse
anjo de graa e de bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe
fazia d'ella; e terminou, perguntando-lhe com a maior formalidade:

--Porque me no concedeis a vossa mo?...

--Porque no psso, primo; e rogo-vos, que no insistais...--respondeu
Maria Thereza com ar to nobre e de to expressivo desengano, que impz
o maximo respeito a Pedro de Barcellos.

Este, reconhecendo que seria importuna e pouco delicada qualquer
instancia, disse a Maria Thereza:

--Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composio minha, de que ninguem
mais saber, seno vs.

E, com o corao amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte
villancete:

    Aqui, onde vou deixar-vos,
    esse vosso doce olhar
    nunca me ver tornar.

    Para o mar vou sem ventura,
    sendo mais vosso cativo!
    Serei morto, sendo vivo,
    sem ver vossa formosura,
    pois que a minha sorte dura
    de vs me qur apartar
    para nunca mais tornar.

    E se bem, que me confrte,
    esperar me no  dado,
    melhor  ditosa morte,
    que viver desesperado.
    Acabe assim o cuidado
    de smente em vs cuidar,
    e no vosso doce olhar!...

-- realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que no
o divulgueis, pois n'elle se revela um dte mais do vosso aprimorado
espirito... Est-me chamando a camareira-mr!... Quando regressais 
ilha?... Crede, que fico sendo-vos muito affeioada...

Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido j
demasiado longo.

cerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na crte pela
extrema bondade de caracter, alliada a uma prudencia to singular, como
precoce. Da sua belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e
isto melhor a explica, do que a mais completa das descripes. A sua
orphandade contribuia tambem para ella merecer as geraes sympathias, de
que gozava; mas quem verdadeiramente a extremecia era a rainha, a qual
muitas vezes pensava com certa tristeza na possibilidade de perder um
dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no corao diamantino da
sua filha adoptiva.

D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa
primazia.

Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porm, de conformar-se com
a sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impe-se
irresistivelmente ao respeito do homem.  uma arma poderosa, com que a
mulher se defende contra os perigos sociaes, e, quando sabe servir-se
d'ella, triumpha e domina.

Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio
aventureiro da sua poca. Era dominado por um pensamento constante, que
se reflectia do seu amor  gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia
passado  ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos
primeiros povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago aoriano.

Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capito donatario
d'essa ilha, tinha ido a povoa-la Gonalo Annes da Fonseca, cavalleiro
muito nbre da cidade de Lagos, ao qual coubram na partilha, que se
fez, das terras da Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem
entre Porto Martim e os Paues das Vaccas. Tomou Gonalo Annes posse da
sua data, que era um grande condado, e voltou a Lisboa, d'onde regressou
 ilha j casado com D. Mecia Annes de Andrade, filha do doutor Joo
Machado, descendente legitimo da casa dos _Ricos-homens_ de _Entre Homem
e Cavado_, e por consequencia tambem _rico-homem_.--No principio da
monarchia era essa a maior dignidade depois da Real, e aos que a
possuiam, no s o rei lhes chamava _primos_, seno tambem estavam
cobertos e assentados na sua presena; e no tomava o soberano
deliberao alguma assim nas cousas da paz, como nas da guerra, sem o
conselho d'elles.

Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonalo Annes
da Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o
primeiro varo, que nasceu na Terceira.

Adoptaram todos o patronymico Gonalves de seu pe e o appellido Machado
de sua me, pois que foi estylo observadissimo at o reinado de D.
Manoel, ou, com mais rigor, at o de D. Duarte, tomarem os filhos por
sobrenome o nome proprio de seu pe: assim Joo, filho de Fernando,
chamava-se Joo Fernandes; Fernando, filho de Joo era Fernando
Annes ou Joannes.

Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonalves Machado,
primeira filha de Gonalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente
pretexto de visitar seu pe, ento alcaide-mr de Barcellos, e os seus
parentes, que eram as principaes familias do Minho; mas em verdade com o
proposito firme de apresentar a D. Joo II um plano, cuja realisao era
o seu sonho aureo.

Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. Joo
II, a quem propz sondar  propria custa os mares do Occidente, com o
intuito de descobrir novas terras.

Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo
vehementissimo de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaos
de madeira lavrada, as canas e at os cadaveres de homens de
physionomia estranha, arrojados a miude aos mares do archipelago
aoriano. E tendo elle abandonado o seu j ento pittoresco Minho, para
ir tentar fortuna em uma ilha, embra fertilissima, no era proprio do
seu espirito entregar-se s delicias de Capua, e ser insensivel s
provocaes seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle
muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito
sobre o seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulses do
slo.

Quiz, pois, expr-se aos perigos de uma navegao longa, e D. Joo II,
animando-o, fez-lhe todas as concesses desejadas.

Entretanto, vendo Maria Thereza na crte, ficou to impressionado pela
sua formosura, que, durante alguns dias, abafou no corao o sentimento,
que j lhe havia sido inspirado por Ignez, e chegou at a olvidar, posto
que momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A
nobre attitude de Maria Thereza f-lo reflectir, e despertou-lhe no
corao os seus brios de homem digno.

Despachado por D. Joo II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo
recebido com particular carinho no solar de _Entre Homem e Cavado_, e
tornou logo para a Terceira.

Pouco depois de ter chegado  ilha casou com Ignez Gonalves Machado, e
tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher,
largou da bahia de Angra em fins de 1491, e smente concluiu a sua
viagem em 1495, depois de ter descoberto a costa do Labrador.

Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em
3 de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do
que elle a uma regio do _Novo Mundo_. E assim succedeu, com effeito. O
facto, porm, no projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria
perduravel do insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em
nada o torna superior ao nosso Pedr'Alvares Cabral, a quem a patria
no fez ainda a devida justia.

Voltando  Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos
longos e penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar
seus servios tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do
fallecido navegador, concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta
passada em Evora, a 7 de junho de 1509. Por cartas dadas igualmente em
Evora, a 20 de novembro de 1533, e por outra em Almeirim, a 22 de
fevereiro de 1541, concedeu D. Joo III brazo de armas a tres
descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras e
privilegios de nobres e fidalgos, por procederem da gerao e linhagem
dos Machados, por parte de sua me e avs.

Repeso talvez de no ter feito o sacrificio de attender a proposta de
Colombo, D. Joo II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no
desempenho da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia
continuar nos preparativos de passar de novo  Africa, e chegar-lhe-iam
entretanto novas da India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.

Parece, porm, que a justia divina dra a D. Joo II, para expiao de
suas culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realizao
das suas maiores ambies; isto ; atravessar o Oceano Atlantico e levar
 India as caravlas portuguezas; comtudo no lhe pertenceria a gloria
de resolver esses dois problemas.

Colombo chegra a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos;
Bartholomeu Dias transpozra o Equador, dobrra o cabo da _Ba
Esperana_, e chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do
Oriente, foi obrigado a recuar, impellido pela mo mysteriosa do
destino.  que muito embra dois navegadores portuguezes houvessem
podido sondar mares desconhecidos, era-lhes vedado frustrar os designios
insondaveis da Providencia. A condemnao, a que D. Joo II estava
sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.

Como se explica a presena de D. Manoel no acto da despedida de Pero da
Covilhan, em Santarem?

Por que razo havia de D. Joo II confiar a seu cunhado, que nenhum
interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do
Estado?

Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o
successor de D. Joo II na cora. Quem poderia dar credito ao
visionario, quando na familia real existia um herdeiro necessario, e
ainda outros com mais direito do que D. Manoel? E com que reservado
intento concedeu D. Joo II a D. Manoel uma esphera por empreza, cuja
_alma_ era: _Spera in Deo_? No parece ser um presentimento muito
singular?...




X

_TENTANDO AS AZAS..._


Recebeu D. Joo II as cartas, que lhe escrevera Pero da Covilhan.
Occultava-se na singella narrativa do explorador um enthusiasmo, que
smente podia ser egualado ao jubilo immenso por ella produzido na alma
anciosa do monarcha.

Ao terminar a leitura, exclamou D. Joo II a meia voz:

--No ter Bartholomeu Dias, podido avanar!...

Reservando para si as informaes cerca da India, mandou logo espalhar
a nova da existencia do Prste. E, como s novas alegres ordinariamente
se d credito antes de sujeitas a exame, esta correu logo de bca em
bca, e foi to bem recebida e festejada, que no s no reino, mas na
Europa, acclamaram por Prste Joo da India o imperador da Ethiopia.

Estava assim satisfeita uma das maiores aspiraes d'esse tempo--o
apparecimento d'aquelle personagem legendario; e ninguem pensava em ir 
India pelo mar, excepto D. Joo II e Colombo; este, porm, navegando
pelo Occidente.

Quem entre todos teve puras e santas alegrias, foi Maria Thereza. A
esperana de ver chegar Pero da Covilhan coberto de gloria, sorria-lhe
agora mais viva, amaciando-lhe simultaneamente os rigores da saudade.

Approximava-se o casamento do principe D. Affonso com a filha dos reis
catholicos. D. Joo II, extraordinario em tudo, preparava para a
celebrao d'aquella solemnidade as mais apparatosas festas,
servindo-lhe de modelo as de seu tio o duque de Borgonha, em Lille.

A crte estava ento em Evora, porque de Lisboa a trazia afastada a peste.

No pao da velha cidade transtagana, faltava uma casa apropriada para
banquetes e consoadas. No era uma difficuldade. O j mutilado convento
de S. Francisco dava para tudo.

Antes de D. Affonso V ir a Castella, pediu aos frades as casas de seus
estudos para sair d'ellas ao campo; e, como gostou do sitio, tornou a
pedir grande parte do convento e da horta, para no espao occupado por
essa parcella da residencia fradesca, mandar construir os paos reaes.

Continuando esta obra, D. Joo II ainda obteve mais, e cortou to
largamente, que ficaram os frades postos no maior aprto.

Esta amplificao dos paos, acanhando o convento, foi necessaria para
se fabricar a sala dos banquetes--aquella sala de madeira,

    que ficara por memoria.
    Real em tanta maneira,
    de perfeio to inteira,
    de tanta mundana gloria.[8]

Um dos franciscanos, exprimindo os sentimentos da communidade, maguada
do seu captiveiro e da liberdade alheia em cortar pelo convento,
exclamou um dia em tom prophetico: Quem viver ver, que os mortos, que
isto deram a S. Francisco, ho de clamar e pedir justia a Deus. Agora
vo fazer-se festas, que se ho de tornar em pranto!...

E, como se fra acho de si mesmo, repetiu o franciscano:--Quem viver
ver!...

A verdade , que se no enganou.

Nem fr. Joo da Povoa, confessor do rei, e Vigario Provincial, poude pr
cbro s regias extorses, contra que se levantavam as jeremiadas do
espoliado cenbio eborense. D. Joo II nunca fra attreito a
sensibilisar-se com lamentaes de frades.

A construco da _sala de madeira_ foi dirigida por Andrea Contucci, a
quem o rei tinha confiado reedificar e decorar os paos.

Contucci, mais conhecido pelo nome de Sansovino, o do lugar do seu
nascimento, fra enviado a Portugal por Loureno de Medicis, a quem D.
Joo II pedira um dos mais notaveis artistas da republica florentina.

Andrea Sansovino era mo ainda, quando veiu a Portugal. Havia j
revelado o seu talento; mas unicamente com a sua segunda maneira,
iniciada depois de ter chegado a Roma, em 1509, conquistou o lugar, que
to merecida e distinctamente occupa na historia da Arte.

Em architectura fra discipulo de Cronaca; mas o bom exito de alguns
trabalhos seus, como o vestibulo da egreja de San-Spirito em Florena,
no o impediu de cultivar de preferencia a esculptura, para a qual tinha
a mais pronunciada vocao.

O seu primeiro mestre havia sido Antonio Pollaiolo, o assassino de
Domenico Veneziano, que lhe tinha ensinado o processo da pintura a oleo,
ainda ignorado na Toscana, ou ao menos assim o presumira Pollaiolo.
V-se bem, qual foi, pois o mvel do crime.

O scelerado artista era correcto no desenho, e sobretudo esmerava-se na
pintura do n, lisonjeando d'este modo o gosto de Loureno de Medicis,
seu patrono, cuja proteco mais se accentuou depois que Pollaiolo
fundiu a bella medalha commemorativa da conspirao dos Pazzi, da qual
Loureno o _Magnifico_ se salvou milagrosamente.

O Mecenas de Pollaiolo favorecia com a sua poderosa influencia o
triumpho simultaneo do Paganismo, do Naturalismo, e at do Sensualismo,
na maioria dos productos da intelligencia humana; e, sem embargo de
have-lo proclamado grande protector das lettras a universidade de Pisa,
por elle fundada, o seu consulado frma um periodo tristemente memoravel
para a historia dos costumes, das artes e das proprias lettras.

 provavel, pois, que este aprendizado de Sansovino na officina de
Pollaiolo determinasse a escolha de Loureno de Medicis, para satisfazer
o empenho de D. Joo II.

Na esculptura decorativa dos paos d'Evora, imprimiu Sansovino o cunho
do seu privilegiado talento; e, na ornamentao das salas e aposentos da
familia real, tocou o requinte do seu peregrino gosto artistico.

D. Joo II avivou com a magnificencia, e o deslumbramento das festas de
Evora, as recordaes do periodo medieval.

No satisfeito por expedir por mar e por terra, agentes seus ao
extrangeiro, para comprarem os brocados, as sedas, as tapearias, as
pedras preciosas, um sem numero emfim de objectos necessarios e de luxo,
mandou publicar, que tinham entrada livre de direitos em Portugal at ao
termo dos festejos, todas as mercadorias de importao. Os fidalgos da
crte foram vestidos  custa do real thezouro; recebendo alm d'isso, os
que tomavam parte nas justas, armas e cavallo; e os que entravam
nos mmos e entremezes, cem a duzentos cruzados. Egualmente foi dado
vestido e dinheiro aos mouros e mouras do reino, bem como s mais
galantes raparigas e foliantes mocetes do Alemtejo, que vieram com suas
danas, toques e descantes concorrer todos para o luzimento e alegria
das festas.

O proprio rei, franqueando ao povo a entrada na _sala de madeira_,
appareceu-lhe invencionado no phantastico _cavalleiro do cysne_, o
poetico aventureiro das margens do Rheno; e por outro cavalleiro mandou
ler, e depois entregar  princeza, sua nora, um _brve_, em que propunha
a teno de a querer servir nas festas do seu casamento, e sobre certas
concluses de amores, que defendia, desafiava em honra d'ella, para
justar com seus oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem
combater.

Singular caracter o d'este monarcha!

 carinhosa rainha D. Leonor no eram, nem podiam ser indifferentes os
preparativos para a solemnidade imponentissima do casamento de seu unico
filho; comtudo no a distrahiam do pensamento, que enchia de gzo intimo
a sua alma enlevada e contemplativa--a fundao da misericordia de Lisboa.

To piedosa e santa ida fra-lhe suggerida pelo seu confessor frei
Miguel de Contreiras, ornamento da ordem religiosa da SS. Trindade.

De visita ao seu mosteiro de Santarem havia chegado a Evora o douto
e humilde trino, e veiu encontrar a sua augusta penitente, lendo o
Evangelho de S. Matheus, cuja doutrina era um orvalho celeste, que
penetrava no corao da devota rainha, para o purificar e tornar fecundo.

--Embra vindes, fr. Miguel!...--disse a rainha ao receber o trinitario,
que com profunda reverencia lhe beijou a mo.--Sentae-vos que muito
desejo ouvir-vos cerca da _vossa_ Misericordia...

--Da de voss'alteza: quereis dizer...--ponderou Contreiras.

--Pois seja de ambos ns--tornou D. Leonor,--ou melhor: de Deus ser
esse arbusto, que vamos plantar, e que se far--assim o espero da
proteco divina--arvore frondosa, cuja sombra abrigar muitas miserias...

--Tenho f, em que succeder, como voss'alteza espera... O terreno, em
que ve fazer-se o plantio,  feracissimo, e a cultura no podia o
Senhor confia-la de melhores mos...

--Mos de peccadora...

--Purificadas nas boas obras...--atalhou Contreiras.

--Se o Redemptor nos ensinou a enchugar as lagrimas, a dar allivio s
miserias, remedio s necessidades, amparo e conslo s fraquezas, porque
no hade aproveitar-nos essa lio?... Porque no seguir o exemplo do
Divino Mestre?...

--At, porque Elle nos promette a recompensa, permittindo-nos um santo
interesse nas aces boas que praticamos. Bemaventurados os
misericordiosos, porque elles alcanaro misericordia.

--Antes de vs chegardes, estava eu meditando essas e outras palavras do
Evangelho de S. Matheus, cuja leitura me aconselhastes...

--E viu decerto voss'alteza, em todo esse quadro to singelamente
traado pelo apostolo, quanto Jesus Christo aprecia e recommenda a
misericordia...

--Vi. Nem careo de outro estimulo, para prestar todo o meu auxilio 
santa instituio, que projectamos...

--Bemdito seja o Senhor, que vos inspira!...

--Sem duvida pensstes j na ordenana, que devem seguir os fieis, que
em nome da caridade christ vamos congregar...

--Uni-los-ha um compromisso a que dei principio, e submetterei, depois
de concluido,  censura e approvao de voss'alteza...

--Trazei-mo, sim. Muito folgarei de l-lo, que, para o approvar, bastava
ser traa vossa...

--Beijo as mos de voss'alteza, minha Senhora e rainha, que to grande
merc me fazeis...

A uma das portas da sala, onde D. Leonor conversava com fr. Miguel de
Contreiras, appareceu Maria Thereza, a qual ia para retirar-se, mas a
rainha, dando por ella, mandou-a entrar e despediu o seu confessor.

Com o donaire e o miudo pisar das andorinhas correu Maria Thereza
para sua ama, foi ajoelhar junto d'ella, e disse-lhe no tom mais doce e
affectuoso:

--Venho pedir a voss'alteza uma grande merc...

--Muito grande, muito grande?... Ento dize l!...--volveu
carinhosamente a rainha.

--Voss'alteza sabe quanto desejo estudar e comprehender as sciencias, e
o cuidado que ponho em instruir-me... Ora, se eu fosse ouvir, durante
algum tempo, as lies de meu tio, lente de Canones na Universidade...
Mas... agradar porventura a voss'alteza, que me auzente do pao, ainda
mesmo para tal fim?...

A rainha ficou surprehendida. Fitou Maria Thereza um momento, e
disse-lhe para lhe fazer gosto, e vr o fructo de to singular lembrana:

--Tens a minha approvao. Eu mesma te levarei a Lisboa, depois das
festas do casamento.

Maria Thereza beijou com o mais vivo reconhecimento as mos da rainha;
mas, no a satisfazendo inteiramente a resposta, insistiu:

--E se eu fosse j?...

--Que trigana  essa?...

--Perde-me voss'alteza!... Preferia no assistir s festas...

--Creana!... Como alcanaste a minha licena, j est a pular-te o
p!... Olha, que no  bom, ser-se impaciente...

--Se eu no agastasse a vossa'alteza!...

--O que me dirs tu, que possa enfadar-me?!...

--No sei, como confessar a voss'alteza... tudo quanto penso e sinto...
e, todavia, no devo occultar, a quem para mim  mais do que me,
qualquer segredo da minha alma... Eu, minha Senhora...

Maria Thereza no poude concluir. Tapou com as mos os olhos, e ainda
mais os escondeu, inclinando a cabea no regao da rainha.

D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:

--Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...

Maria Thereza ergueu a cabea, retirou as mos dos olhos, e baixando-os,
respondeu:

--Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...

--Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...--perguntou a
rainha, accentuando com grande admirao as suas palavras.

--Sim, minha Senhora--replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e
parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do corao um enorme pso.

--Antes, porm, de o admittires... como teu servidor... no reparste na
differena de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu
casamento, com quem no possa fazer a tua felicidade?...

--O que trago sempre em lembrana, minha Senhora,  o dever, de no dar
um passo, que no seja do real agrado de voss'alteza. O amor, que
Pero da Covilhan me inspirou, no apaga do meu corao o que consagro a
voss'alteza, como do corao da esposa nunca se apaga--creio--o amor da
filha. At este mais santifica e robustece o outro...

--Assim ; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas
tu as tuas esperanas, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu
prsme?...

--Pero da Covilhan  j cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se
elle no fra de bons costumes e manhas, no lhe teria sua alteza feito
tantas honras e mercs, como at aqui. Dos seus servios nas terras do
Oriente, por onde anda, houve j to boas novas, que sua alteza a miude
os gaba, e no esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando
elle voltar, tendo cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor,
no lhe faltar o cuidado, que sua alteza se haver com aquelles que bem
o servem...

--Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores--affirmou
gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as
palavras, que docemente proferia, continuou:--pois bem... mandarei dizer
a teu tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razo, por que
desejas fugir s festas... e fao-te a vontade...

Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente Maria
Thereza, que, no podendo logo articular uma palavra, cobriu de beijos e
lagrimas as mos da rainha. Momentos depois,  luz do seu espirito
scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava deliberada a
fazer, o de se apartar embra temporariamente d'aquella, a quem tanto
amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenes puras:

--Nunca soffri dr igual,  que me est causando a ida, de deixar por
algum tempo a companhia de voss'alteza!...

--Pobre creana!...--interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa.
Mandou-a depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mo carinhosamente
pela cara:

--Ve! Espro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando
voltres, no encontrars preenchido o lugar, que deixas vasio junto de
mim...




XI

_PEREGRINAO_


Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi
desembarcar em Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e
profundamente catholico do corao, d'aquella cidade do Hedjaz
dirigiu-se a Mecca, incorporando-se em uma numerosa caravana de
peregrinos, e, affectando o recolhimento de um crente da religio de
Mafoma, sem mostrar, todavia, como os musulmanos seus companheiros, o
semblante macerado e consumido pelo ardor fanatico.

Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christo, em todos os tempos se
considerou infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico;
realisa-la, porm, mrmente no seculo XV, embra se tivesse envergado o
_ihram_ do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.

Os raros europeus, que no seculo actual logrram vr Mecca, do
testemunho do perigo, a que se expem os christos, que se afoitam a
violar a lei que lhes prohibe, com pena de morte, o seu ingresso no
velho santuario arabe.

Mas, para quem teve o seu baptismo de sangue em Toro, e atravessou o
Oceano indico, lidando sempre com homens de diversas raas, religies e
costumes, nada havia j, que o intimidasse, fazendo-o renunciar um
dever, a cujo cumprimento sacrificava a propria vida.

 peculiar da alma portugueza, arrostar os perigos e retemperar-se na
adversidade; e Pero da Covilhan era portuguez de lei. Affeito aos
labores improbos da sua viagem de explorao, j nem por elles dava; e,
no seu resignado soffrer, punha constantemente o seu valor  prova, e
robustecia cada vez mais a confiana, que em si proprio depositava.

L se pz a caminho pelo Hedjaz fra.

O Hedjaz, uma das provincias menos extensas e mais inferteis da Arabia,
tem importancia e celebridade por ser o bero do islamismo, e pela
influencia, que recebe de Mecca e Medina, situadas no seu territorio. A
sua aridez, quasi geral, augmenta a fadiga, de quem por ella caminha.
Cortam a immensa solido das suas planicies arenosas, que se extendem
para a margem do mar Vermelho, pouquissimos valles cultivados e
montanhas cobertas de rochedos, que se vo tornando cada vez mais
abruptas  medida que os viandantes se internam no paiz. As
estradas so regueiras enxutas, que nas pocas das grandes chuvas se
transformam em rios caudalosos. Caminha-se por esses _udis_, e na falta
d'elles seguem-se as direces rigorosamente determinadas pela situao
de pos e cisternas, sem cuja agua a vida seria impossivel no deserto.

Eram tres os inimigos de que necessitava defender-se a caravana, que
percorria estas regies malfadadas: a falta de agua, os nomadas e o
_simoun_.

Para combater o primeiro, iam os aacaes--_sakka_--encarregados de
conduzir sobre camlos a agua contida em dres, e pelo caminho faziam
novas provises da dos depositos, que encontravam.

Contra os nomadas, ou tribus arabes, que vagueavam no deserto e viviam
exclusivamente da rapina, vr-se-ia a caravana obrigada a pegar em
armas. Os nomadas eram sempre temiveis nos seus assaltos mui frequentes,
pois que taes bandidos orgulhavam-se tanto de haverem roubado uma
caravana, como um general europeu de ter bombardeado e conquistado uma
praa de guerra; e, se no erguiam uma estatua ao scheick, por elles
muito venerado, e que os conduzia  victoria,  porque na Arabia, a
ninguem se fazia essa consagrao.

O terceiro inimigo era talvez o mais perigoso e terrivel.

Quando o horisonte se avermelhava ao longe, tornando-se pouco depois
todo o Co plumbeo, a ponto de embaciar o disco do sol, que tomava ento
um aspecto sanguineo, e seguidamente a atmosphera se cobria de uma areia
finissima, arrebatada pelo vento, como a espuma das ondas do mar
embravecido, era preciso fugir a toda a pressa!

Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!

O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, aoitado pela mais
turbulenta borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos
sangrentos, os labios sccos e abrazados, mal respiravam. Os camlos,
esses pacientes _navios do deserto_, desarvoravam, partiam  desfilada,
zombando da vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo
instincto de conservao, paravam emfim, e occultavam a cabea debaixo
das areias movedias.

Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufo, a caravana podia
abrigar-se nas sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com
segurana a calma da tempestade, salvava-se; se no tivesse refugio, e
ficasse entregue  merc da tormenta, homens e animaes perdiam toda a
sua energia, toda a esperana de sobreviver os abandonava!

Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope,
desfalleciam, caam inanimes n'aquelle oceano de areia, que logo lhes
servia de mortalha e tumulo, at que novo temporal viesse descobrir as
ossdas d'essas victimas numerosissimas do implacavel e deshumano
simoun!

De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinao simulada, elle
proprio fez a narrativa a D. Joo II em carta, que lhe enviou do Cairo.

Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a
distancia, que separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sop
de um dos montes, que cercavam a _me das cidades_, a Om-el-Kora dos
arabes.

A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada
pelo _propheta_ a estao, em que devem parar, antes da chegada a Mecca,
para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom musulmano.

Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar
Vermelho. Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se
extendia  roda de Mecca a algumas leguas de distancia e denominado
Beled-el-Haram.

N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que
corre de suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pso de seus
cachos de tamaras, sobresaa no meio de outras arvores fructiferas,
como sendo o caracteristico predominante das paizagens orientaes, os
homens da caravana fizeram uma abluo geral, chamada _ghort_,
substituiram os seus trajos de viagem pelo _ihram_, o calado pelas
chinelas--_besmak_--, e perfumaram-se. As musulmanas tambem purificadas,
cobriram-se com o seu grande vo, branco como o _ihram_, e denominado
_yaschmak_.

Antes d'essa purificao o peregrino tinha o nome de _hadji_, depois
d'ella era tratado pelo de _mohrim_; e as suas vestes ficavam
santificadas pelo uso durante a romaria, sendo, ao termo d'esta,
cuidadosamente guardadas, para servirem de mortalha ao seu possuidor.

A caravana assim preparada pz-se logo em marcha, recitando pelo
caminho--os homens em voz alta e as mulheres em voz baixa--muitas
oraes, terminando pelo _Tebiya_ ou _Lebbeika_.

Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente  mesquita,
continuando as preces. Quasi ao prem o p no immenso atrio do templo, e
depois de deixarem atraz de si uma espessa floresta de columnas, que
sustentavam arcadas numerosas, pronunciaram o _tekbir_ e o _tehlil_,
que consistem em dizer: _Allah Akbar_--Deus  grande; _L lla ill
lla_--no ha outro Deus seno Deus; e ouviram exclamar a um dos
pregoeiros--_almuadens_ ou _muezzinos_, voltado para a _kaaba: observai,
observai a casa de Deus, a prohibida!_ E logo irromperam descalos,
foram passar por baixo de uma especie de arco triumphal, approximaram-se
da _pedra-negra_--_Hadjar elaswad_, para fazer o _touaf_, isto , para
dar sete giros em volta da _kaaba_, offerecendo sempre o lado esquerdo a
este santuario, que se elevava no meio do atrio, e, conforme a crena
arabe, o mais antigo templo consagrado ao verdadeiro Deus.

A mesquita--_mesgid_, _guma'a_, lugar de reunio, e tambem _Bettallah_,
casa de Deus, reduzia-se a um claustro--_sakhn-el-gama_, ou pateo
aberto, formando um parallelogrammo perfeitamente regular, ladeado de
porticos levantados sobre quatrocentas e noventa e uma columnas, umas de
granito outras de marmore, e para o qual davam accesso dezenove portas,
destituidas de bandeiras, dispostas sem ordem, irregulares emfim na sua
construco, pois terminavam umas em ogiva, outras em arco de volta
inteira.

As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam,
eram cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se
elevavam sete minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do
edificio, e tres de um modo irregular no comprimento das galerias
formadas pelas arcadas.

A frma e architectura da notabilissima _kaaba_ no desmentiam, com
effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros de
altura, com paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada
para o Norte uma pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a
cima do slo. Este templo apenas estava patente ao publico na
sexta-feira de cada semana, dia guardado pelo muslim, ou de
reunio--_iom el guma'a_, e tambem quando se celebrava o
anniversario natalicio do propheta. Ao scheick dos ancios, ou
_xaibins_, pertencia abrir a porta. Para isto subia a uma especie de
pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em que terminavam os seus ps
de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina, chamada _Albarc_,
especie de vo de purpura, que se extendia sobre a porta, e esta era,
como a soleira, forrada de laminas de prata.

O povo, ao invadir a _kaaba_, rompia, de braos abertos e mos erguidas
ao Co, na seguinte exclamao: Abre-nos,  Deus, as portas da tua
misericordia e do teu perdo,  maior dos misericordiosos!

O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois
pilares, assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e
pretos, dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo
por ornato apenas arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um
tom negro bronzeado. Numerosas lampadas de ouro massio serviam para a
illuminao. O exterior estava coberto por um immenso vo de seda preta,
chamado _Kesoua_, que smente deixava ver o scco do edificio, durante
os primeiros dias da peregrinao, e para isso suspendiam-n'o em frma
de grinalda por meio de cordes tambem de seda da mesma cr. Ao meio da
altura de todo o vo sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga
fita igualmente preta, nas quaes se liam inscripes piedosas e
textos do Coro.

Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas
dobras, os peregrinos tinham a crena de ser essa agitao devida s das
azas dos anjos, que voavam em torno da _kaaba_, e que levaro um dia o
sagrado vo deante do throno de Allah.

A _pedra-negra_ era o unico ponto da _kaaba_, permanentemente offerecido
 devoo dos fieis. Perto da porta, no angulo voltado para nrdste,
achava-se encravada na parede exterior, e os seus lados embutidos em
chapas de prata.

Esta famosa pedra tinha uma tradio veneranda. Muito tempo antes de
Mahomet, beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as
tribus arabes. Conforme as suas crenas, fra trazida do Co pelos
anjos, e collocada junto de Abraham, para servir-lhe de escabello,
quando o velho _pe dos crentes_ estava construindo a _kaaba_. A Pero da
Covilhan, porm, pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma
substancia amarellada; ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular
de um vermelho carregado, que podia passar por negro.

Ella no tinha j a sua cr primitiva, no dizer dos arabes, pois no
momento, em que to milagrosamente desceu  terra, nenhum jacintho mais
brilhante e de mais bella transparencia existia no mundo; mas os beijos
de tantos homens maculados de iniquidades de toda a especie a
tinham assim metamorphoseado.

No pteo da mesquita, e prto da _kaaba_, elevava-se outra construco
quadrada, apparentemente massia, mas de menores dimenses, do que o
santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo  pobre e
afflicta escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia
a tapar os olhos, para no vr seu filho Ismael morrer de sde, e
denominado po de Zemzem, por designar esta palavra a fonte que brta
com suave murmurio. A sala, em que estava o po sagrado, era revestida
de marmore branco, e de todos os lados recebia ar e luz por oito
janellas. Um estrado de marmore cercava a fonte, d'onde se tirava a agua
santa para a purificao.

Junto da _pedra-negra_ comeavam e terminavam os giros, durante os quaes
os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro beijavam a
pedra, se isto lhe no fosse impedido pela affluencia dos crentes, pois
no caso contrario tocavam-lhe com a mo, levando depois esta aos labios.
Seguia-se beijar o nobre _Alcamamo_ ou _maquam d'Ibrahim_, o qual
consistia em uma pedra, onde se conservavam as pgadas de Abraham, e,
por ultima ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua no po de Zemzem.

Os peregrinos saam finalmente pela porta de Safa, subiam  collina
d'este nome, voltavam-se para a _kaaba_ e recomeavam as suas oraes.
Desciam depois lentamente ao valle Bathu-Onadi, situado entre
aquella collina e a de Meroua, para executarem alli a marcha, chamada
_sa_, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas palavras, voltados
para a _kaaba_:  meu Deus, s misericordioso; perda os meus peccados,
 Senhor santo e clemente, andavam em differentes direces, para
recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por Abraham.

Cumpridas estas formalidades, regressavam  cidade, para esperar a
festa, com que terminava a peregrinao.

Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presena
de Deus, ainda que no entrasse na mesquita, e no deixava de rezar as
oraes quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e
chamava-se _Sabah Namazy_; a segunda, _Oilah Namazy_, ao meio-dia; a
terceira, _Akindy Namazy_, entre o meio-dia e o pr do sol; a quarta,
_Acham Namazy_, ao sol posto; e a quinta _Yatzu Namazy_, ao serrar da
noite.

Precedia sempre as oraes uma abluo parcial--_woudou'_, que consistia
em lavar a cara, as mos e braos at o cotovlo, e os ps at o
artelho. Antes de comear a reza, o crente extendia no cho o seu tapete
quadrado, collocava-se de p sobre elle, voltava-se para a _kaaba_,
estando em Mecca, ou para esta, em outra parte, conforme a _quebla_
estabelecida por Mahomet; repetia o pedido de perdo--_istigfar_,
elevava depois as mos abertas, ficando os pollegares  altura e quasi
em contacto da parte inferior das orelhas, e recitava a prece preliminar
chamada _tekbir_. Passava ao _fatihah_, e pronunciava ao menos tres
versiculos, ou _ayat_, d'esta orao, que  a primeira sura do Coro,
collocando ambas as mos sobre o ventre, a direita por cima da esquerda,
e cravando os olhos no cho. Declamava o _tesbihk_, inclinando o corpo e
a cabea, e pondo as mos nos joelhos. Endireitava-se, retomava a
posio do _fatihah_, e assim se conservava um instante. Succedia-se uma
prosternao--_soudjoud_, durante a qual repetia o _tekbir_ e tres vezes
o _tesbihk_, tendo a face voltada para a terra, os dedos das mos e ps
muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no slo. Erguia-se, ficava um
momento assentado sobre os joelhos, as mos nas cxas, os dedos abertos,
e repetia o _tekbir_. Depois de uma prosternao ultima, saudava para a
direita e para a esquerda os dois anjos da guarda, que, durante a
orao, estiveram sempre em sua companhia, embora elle os no visse.

A serie d'estes movimentos e genuflexes constituia um _rick'ah_.

Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em
frente do inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a orao um
combate contra o espirito das trevas.

No mez de _schewal_, que  o decimo do anno da hegira, e o primeiro dos
mezes da peregrinao, accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as
velas da mesquita, bem como os candieiros das torres, illuminando-se
igualmente o eirado do edificio, na noite do apparecimento da lua nova.
Na manh seguinte celebrava-se a orao da paschoa, pois que no mez
anterior, o _ramadhan_, era a quaresma, durante a qual nenhum musulmano
comia, nem bebia, seno de noite, isto , desde o pr do sol at o
romper d'alva.

Chegado o primeiro dia do mez de _doulkaadah_, que era o undecimo,
tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal do
abenoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava at
ao dia da subida a Arafat. No setimo dia o _iman_ pronunciava do alto do
mimbar na mesquita a _khotbat-el-hadj_, isto , uma allocuo, em que
explicava aos crentes as cerimonias, que sobre aquella montanha iam
celebrar-se. No oitavo dia a caravana santa dirigia-se de madrugada ao
valle de Min. Este dia chamava-se de reflexo--_Ianm terwia_, alludindo
 incerteza de Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de
immolar seu filho, ignorava se tal sonho seria uma inspirao divina, se
uma suggesto diabolica. Passava-se a noite no valle, e no dia
immediato, depois da orao matutina, a caravana subia  montanha de
Arafat, onde existia uma capella--_turben_, a qual santificava o sitio,
em que pelo anjo Gabriel fra ensinada ao pe commum dos homens a
primeira invocao. Conforme o ritual, os crentes, depois de uma
orao feita na propria _kubba_, armada no acampamento, iam esperar o
pr do sol, e entretanto o _iman_ erguia os braos ao Co, para invocar
a beno sobre a multido alli reunida, exclamando por fim milhares de
vzes unisonas; _Lebek Allahouma Lebek!_ Ns estamos s tuas ordens, 
Deus!

Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer
a _Djebel Farkh_, depois de ter passado em Monzdelifat, parecia uma
catarata de espuma!

No segundo dia punha-se em marcha, atravessava _Elmeschar-el-haram_--o
lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em confuso enorme, o apertado
valle _Onadi-monhassar_--o valle maldito, e chegava de novo a Min.
Atiravam todos para traz das costas, junto do _Djamrat-el-Agab_, sete
pedras do tamanho de uma ervilha cada uma, em signal de despreso pelo
demonio, e gritando antes do arremesso: _Bismillah!_--Em nome de Deus!

Os sete seixinhos, que tomavam o nome de _Hassiato-Aljemar_, eram
expressamente apanhados em Monzdelifat.

Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a
victima, que trouxesse.

A caravana regressava a Mecca para visitar a _kaaba_, fazia nova romaria
a Min, e tratava logo de sair da cidade _santa_, antes de commetter
algum peccado; mas no partia, sem voltar pela terceira e ultima
vez  _kaaba_, a fim de celebrar os _Thonaf-wida_--procisses da
despedida; ao po de Zemzem onde bebia agua e de onde trazia alguma,
como piedosa recordao; e retirava-se finalmente pela porta do
adeus--_Bab-el-wida_.

Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o slo deseccado
de um _udi_, que se inclinava suavemente do norte ao sul, e por onde
raro corriam as aguas das chuvas, mas produziam s vezes grandes
inundaes, indo depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.

As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro,
lembravam sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam
confiados, por singular contraste, os thezouros da graa, que vo alli
procurar os sectarios do islamismo. As suas ruas no eram, como em geral
as das outras cidades arabes, estreitas e tortuosas, mas sim largas e
traadas com certa regularidade, ladeando-as casaria alta, construida de
granito vulgar dos montes suburbanos, o que lhe imprimia um aspecto
monotono.

Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos
tanques, cisternas e pos de Arafat, por um aqueducto, attribuido 
bella sultana Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso
califa Harun-al-Raschid.

Durante as peregrinaes era a patria de Mahomet um centro de commercio
muito rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que
em seus bazares accumulavam-se as produces de todos os paizes sujeitos
 lei do propheta, e faziam-se negocios importantes.

No mercado diario, sempre fornecido de po, fructas, hortalias, legumes
e carne, encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfos, e desvalidos,
que, mediante uma paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas
_foluzes_, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em
duas alcfas de differente tamanho, chamadas _Magtal_, as compras
feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse servio.

O po no se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem
fermento, e algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal
cosidos e molles, como pasta, a que chamavam _hops_.

De alguns valles distantes vinham fructas e hortalias; mas o que
verdadeiramente abastecia o mercado era o porto de Djiddah.

Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de ps
aromaticos, mrmente nas immediaes da mesquita, investigou a causa
d'esse facto, e soube, que por costume andavam os meccanos sempre
perfumados; mas nos mezes da peregrinao chegavam a fazer to
extraordinario uso dos perfumes, que muitas mulheres se privavam at de
parte do seu alimento para compra-los, e, quando ellas vistosamente
ornadas am girar ao redor da _kaaba_, o aroma expirado por seus
vestidos predominava de tal modo sob as arcadas da mesquita, que
muito tempo depois de retirarem, permanecia alli o seu vestigio
fragrantissimo.

No menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam.
A muitas d'ellas no satisfazia a cr natural dos seus cabellos, por
isso os tingiam, velhas e moas, com o _kohl_, que do mesmo modo
empregavam nas pestanas, bem como nas sobrancelhas, que no s
ennegreciam, mas ampleavam e arqueavam graciosamente. Com a mesma
tintura, applicada s palpebras, esbatiam os olhos formosissimos; sem
embargo, porm, d'esta affectao, consideravam o _kohl_ um verdadeiro
collyrio, e um remedio soberano contra as ophtalmias to frequentes
n'aquelles climas. Faziam signaes pretos na cara e nas mos com um certo
p, que introduziam na pelle por meio de uma agulha despolida de ferro
ou de prata; e s mos e ps davam uma cr rubro-alaranjada, servindo-se
para isso de uma erva denominada _elhene_.

As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as
classes um amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como
que uma pharmacopea talismanica muito curiosa e muito extensa.

Os trajos, posto que no fossem identicos em todas as partes da Africa,
do Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de frmas
uma grande similhana, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica
e capa--o que smente bastaria,  falta de outras provas, para
demonstrar quo poderosa  a fora das tradies na raa arabe.

As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos,
so o symptoma da mobilidade das suas idas, e dos caprichos
alternativos do seu gosto.

O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes
abastadas. Nas outras classes, que so ainda hoje as mais numerosas,
compunha-se geralmente de uma larga tunica--_farmla_, atada na cintura
com o _samla_ ou _foutah_, e um vo--_tarbah_, que cobria a cabea e
quasi todo o semblante.

Em algumas regies a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem
de espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta no
sacrificava o prte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo,
por exemplo, as quaes recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente
e nos hombros desempenados, as deusas da Grecia antiga.

Algumas mulheres deixavam vr os olhos, e uma parte da testa; outras
smente um dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por
isso pareciam verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensao havia
formosas musulmanas, que, muito embra usassem a capa at aos ps,
deixavam s vezes cair artificiosamente o vo, regalando os olhos de
quem as via.

Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois no podia
esquecer-se, de que era christo, e, ao mesmo tempo, de que no deviam
sequr desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.

Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da
mesquita, gritava: vinde  orao, vinde ao templo da salvao; a
orao deve ser preferida ao somno! Pero da Covilhan extendia o seu
tapete, sobre o qual ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os
olhos, fitava os da sua alma na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua
f catholica. Mas no havia preceito do Coro, que elle ignorasse e no
cumprisse publicamente.

Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam
as cinzas de Mahomet. Os mercadores--_gellabys_, carregaram de provises
os seus camlos. Os aacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram os
seus tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o _kyrba_, ou gancho
indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos pos. Para os que por
impossibilidade physica no estavam nas circumstancias de vencer o
caminho, nem de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de
sobejo e no lhes faltava tambem o alimento nem o remedio, pois a todas
essas necessidades occorriam as esmlas dos ricos. Sobre o dorso de
muitos animaes viam-se grandes caldeires de cobre, chamados
_arrauato_, para cozinhar a comida nos aduares, os quaes eram
illuminados por lanternas immensas, que serviam igualmente para as
marchas, durante a noite. Em varios _meharas_ enfeitados com collares de
sda, e o _henn_ ou apparelho coberto com magnificos brocados,
sobresaam os _attatouch_, ou palanquins, para commodamente se
recostarem as mulheres opulentas.

O alfange, o punhal--_khamtscher_, a faca,--_bitschak_, a lana, a
alabarda e a maa, eram as armas defensivas da caravana.

A cidade do propheta _Medinet-el-Nebi_, distava de Mecca onze dias de
jornada, atravz de vastas planicies de areia, rochedos alcantilados e
extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a cultura. E
a toda essa immensa regio, ingrata e bravia, em que estavam situadas
Mecca e Medina, davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado,
_houdoud-el-haram_.

Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada
a sua approximao pela alta cupula dourada, em que terminava o
monumento funerario do propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se
 grandiosa mesquita, sustentada por quatrocentas columnas e
constantemente illuminada por trezentas lampadas.

O recinto venerado, que encerrava no s os restos de Mahomet, mas
tambem os de seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se
El-Hdjra. Composto de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado at
dois teros da altura por uma grade de ferro com intervallos
estreitissimos.

O atade do propheta estava velado por um tecido de sda bordado a ouro,
sob um docel de brocado, seguro no vo de uma pequena torre adornada de
laminas de prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sda e
ouro, elevava-se sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a
uma balaustrada de prata, em cima da qual ardiam continuamente perfumes
em vasos do mesmo metal. Uma lua de prata, em quarto crescente,
artisticamente lavrada e cravejada de pedras preciosas, encimava emfim o
sepulchro do fundador do islamismo.

Em uma das faces do El-Hdjra existia um prgo de prata, junto do qual
paravam os peregrinos, para fazerem a saudao competente defronte da
face do enviado.

Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradio, a que todos os
islamitas tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prgava na
mesquita junto do tronco de uma palmeira, e que depois fabricra o
pulpito. No primeiro dia, em que subiu a este, inclinou-se o tronco para
o novo lugar occupado pelo propheta, e com tal affecto, que podia
comparar-se ao amor da camla para o seu filhinho. Ento Mahomet abraou
o tronco, exclamando: se te no abraasse, suspiraria inconsolavel at
ao dia de juizo!

O pulpito era feito de tamargueira.

Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe
faltavam. Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao
sudoeste d'ella, no mar Vermelho.

Ao norte saa-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha
do propheta, e prto amontoavam-se as escorralhas de lava sadas da
cratra de Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crena dos
musulmanos, ser transportada um dia para o paraizo, como theatro, que
foi, da victoria alcanada por Mahomet sobre os seus inimigos. A lste e
a oeste elevavam-se tambem alguns picos, um dos quaes era o de Ara,
onde o propheta esteve prstes a morrer de sde, e que ser precipitado
no inferno, conforme a crena. Ao sul prolongava-se a planicie a perder
de vista. Raros pomares e renques de palmeiras juntos de pos, cujas
aguas fossem sufficientes para as regar, moderavam de longe em longe a
monotonia d'essa extenso pardacenta, onde as argilas alternavam com as
areias e a greda.

Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde,
embarcando em um zambuco, passou a Tor. Estava prto do Sinai, que
percorreu, e, voltando a Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.

Chegou emfim s portas da Abyssinia.




XII

_NA ABYSSINIA_


Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava
finalmente Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Prste
Joo. Parece, que Deus lhe inspirra acinte aquella digresso, pelas
regies desertas da Arabia, para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe
mais attrahente a paizagem deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao
passo, que foi o primeiro a mostrar, em uma carta maritima, a derrota,
que as nossas caravelas deviam seguir para a India, ia agora tambem
levantar o vo, que trazia occulta aos olhos da Europa a historia da
Abyssinia.

Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade
credula, havia smente um fundo de verdade: a existencia de um povo
christo no seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia
contra o islamismo.

Mas onde e quem se esforava com tanto denodo?--Ninguem sabia responder;
pois at mesmo no Oriente o reino do Prste Joo era quasi desconhecido,
talvez por estar to remontado ao trato e commercio das gentes.

Pde considerar-se essa vasta regio ethiopica um immenso planalto,
elevado entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao
Norte pela Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do serto
africano oriental, a Lste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas
distinctas: a inferior, ou o _Kolla_, em que a temperatura varia de 20 a
40 centigrados, encontrando-se, n'esta regio verdadeiramente tropical,
a fauna e a flora especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o
solo sem cultura; a media, ou o _Onana Dga_, com a temperatura de 15 a
30, sendo a parte mais fertil e mais propria para o amanho da terra; a
superior, ou o _Dga_, cuja temperatura varia de 5 a 15, e ce abaixo
de zero nas mais altas montanhas.

As serranias, que em differentes direces crtam este massio, parece
formarem um systema  parte na orographia geral do continente negro. O
numero d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens
condensadas em volta dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a
quem as v, quanto mais a quem as passa. E raramente se faz jornada, em
que no haja necessidade impreterivel de as collear e transpr; por
isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da Covilhan, se houvessem
abeirado d'ellas, e, sem animo de se exprem a to invios caminhos,
voltassem para traz.

Pero da Covilhan no desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe
afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para
escalar o Co. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com
agudas arestas a desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os
diluvios do tropico tinham cavado corregos profundos. L do cume as
torrentes, no periodo annual das chuvas, despenham-se com violencia nos
valles estreitos, indo engrossar os numerosos cursos de agua, que
serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes.

Ento o Tacaz ou _Nilo negro_, que na bacia hydrographica septentrional
recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigr, a quem banha, vae,
sob o nome de Albra, ao occidente lanar-se no Nilo com dobrado impeto.
E na bacia do Sul, em Amhara, que contm na sua parte central o grande
lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Aba ou _Nilo azul_,
atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo
extenso e tortuoso valle sulca o reino de Cha, adquire um tal volume,
que aos proprios indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se
igualmente alguns lagos sobre o vertice das montanhas.

Com os aspectos severos alternam, porm, as perspectivas risonhas.

Nas veigas aoitadas pelo vento, as coras-de-rei douradas, os trevos
purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulaes matizadas, como se
fra em mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o
sussurro das florestas proximas  um fundo de concerto, que faz
sobresair o canto alegre das aves, como a doce verdura  o fundo da cr,
sobre que se destaca o brilho das flores e dos fructos.

Como deve ser opulenta a flora d'este paiz to accidentado e humido,
aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto
vara, determinada pelas grandes differenas de nivel!

A propria natureza parece gostar de se oppr a si propria, pois reune
todas as estaes no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar,
terrenos contrarios no mesmo solo.

O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo  facil
apanhar insectos to variados, como a vegetao que os nutre; o geologo
v massas centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie,
para se lhe mostrarem; o meteorologista emfim pde a cada instante
observar a formao das nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se
acima d'ellas.

Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presena da agua
accusa as riquezas de uma vegetao luxuriante e vigorosa.

Ao sar-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma
extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem propores
extraordinarias, bem como o _teff_, coberto de flres purpurinas, e cujo
gro oblongo d uma farinha saborosa.

O po abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do
Sudo, devastam as ceras, o _enste_, que  uma especie de bananeira,
cujo fructo se no aproveita, offerece no seu caule, uma vez que no
esteja completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.

Outros flagellos dos campos so as manadas de vaccas bravas, e o numero
infinito de bugios ou cynocphalos. Estes, por serem to damninhos,
obrigam a vigiar as ceras, para que no as destruam, temendo-se a sua
invaso unicamente de sol a sol, pois de noite no sem a comer.

O agigantado _baobah_, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a palmeira
excelsa, o _kuara_ com as suas bellas flres coralinas, a _mimosa_, o
_cusco_, o _wansey_, cujas flres alvissimas abrem todas a um tempo, o
_daro_, que escolhe, para os abrigar com a sua sombra benefica, os
sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores egualmente
frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros massios de
folhagem, que, sendo arregaada pelo vento, apresenta os mais singulares
e formosos cambiantes.

No mesmo solo humedecido, e alcatifado de flres odoriferas,
crescem elegantes arbustos, emquanto que as trepadeiras, o cip
flexivel, os pampanos carregados de uvas pretas, se abraam ao tronco
das arvores protectoras, revestindo-os de gala, subindo at se
suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.

E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu
retiro  sombra dos pavilhes de verdura, e raro so perturbados pelos
passos do homem. Fazem d'estas vastas solides um grande e magnifico
quadro, uma scena animada e grandiosa, uns pela belleza da sua plle,
vivacidade de seus movimentos, agilidade de seu andar; outros pela
frescura de suas pennas, graa de seu todo, rapidez de seu vo, melodia
de seus trinados; todos emfim pela immensa variedade de suas frmas. O
esmalte das flres mistura-se com o brilho das folhas, e so apagados
ambos pelas cres mais brilhantes ainda da plumagem das aves, mrmente
da do _sonis-manga_, ou _cynnirus splendidus_, conforme a denominao
scientifica moderna.

Nas regies mais aridas, o _cactus_, a especie de euphorbio, denominada
_kolquall_, a palmeira an, o _kautuffa_ coberto de espinhos, do signal
de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e so testemunhas das
perseguies dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas, coras, e
outros antilopes, como o _beni-israil_, igualmente elegantes, que logram
escapar, por causa da ligeireza dos movimentos e rapidez da
carreira, a esses crueis inimigos.

Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem
de asylo aos lees, aos lynces, s pantheras, aos leopardos, aos
girtaccheus, a todos esses monstros ferozes, de que  como que patria
o continente negro.

 beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bamb, e o papyro alto,
garridamente empennachado, banham seu p nas aguas limpidas, mas suas
hastes elegantes e frageis so muitas vezes partidas  passagem do
rhinoceronte bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Alm d'isso os
crocodilos infestam os rios, em cujas margens vam innumeras aves
aquaticas.

No meio d'essa exhuberancia de vegetao emfim, at os mais humildes
musgos se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangerico, e
muitas outras plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam
deliciosamente os montes. E para cora d'esta prodigiosa flra, nas
maiores altitudes sobresem o _Kousso-Brayera anthelmintica_, e o
_Gibarra_--Rhynchopetalum, que se elevam descommunalmente.

Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e  beira
de medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique
entre valles to profundos, que no chegam os olhos a vr-lhes o fim,
apartou-se da caravana, em que vinha, e dirigiu-se  crte do Prste
Joo.

Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era
amovivel, por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe
edificios, que lhe dessem a ida de uma povoao, viu numerosas tendas
armadas em um grande campo, as quaes constituiam a capital do imperio. E
convinha-lhes o nome de cidade, no s pela multido de gente n'ellas
abrigada, seno pela boa ordem, como as tinham dispostas.

Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa
distancia, com quatro lees amarrados por grossas cadeias de ferro, e
separados uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga
rua, orlada com symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos
quaes estavam enrolados alternadamente pannos de algodo brancos e
rxos. Grande numero de cavallos  mo, morzellos, pombos, castanhos,
russos, russo-rodados, meldos, fouveiros e outros, todos de boa raa,
com as garupas contra os arcos, e bem arreados, tendo cellas muito
leves, estribos  bastarda e lros muito compridos, formavam duas
fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro
d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes
colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens
com azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se
agglomeravam de um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma
grande tenda rxa, seguindo-se aps ella, em diversos arruamentos
milhares de outras, todas brancas.

Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan,
surgiu, por mero acaso, na crte abyssinia. A sua presena produziu a
mais desusada sensao no ajuntamento.

Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que
vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. Joo
II para o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico--j
n'esse tempo a lingua da crte--que fra encarregado pelo rei de
Portugal, seu senhor, de entregar pessoalmente aquellas cartas a sua
alteza, o mui alto e poderoso imperador da Ethiopia, e desejava por isso
ter a honra de lhe ser apresentado. O seu interlocutor levou esta
mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu  presena d'elle Pero da
Covilhan.

Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas,
sobre um catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se
pelas suas barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o
imperador, rodeado da sua crte.

 entrada Pero da Covilhan, ao vr o Prste, abaixou a mo direita at
ao cho, e com ella tocou em seguida o alto da cabea, consoante lhe
fra, a seu pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois,
ajoelhou em frente do soberano, a quem deu as cartas de D. Joo II, as
quaes eram escriptas em arabe. O Prste mandou-o levantar, fez-lhe
algumas perguntas cerca da sua viagem, e principalmente a respeito de
D. Joo II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse
descanar, para mais tarde conversarem largamente, como desejava.

Esta recepo amavel poz logo em boas relaes Pero da Covilhan com os
grandes da crte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto
das cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a
sympathia publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a
magnificencia da crte, e a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna
de visitar.

A crte compunha-se do _Belltimoche goyt_, mordomo-mr; do _Teccase
Belltimoche-goyt_, pequeno mordomo-mr; dos dois _Betendet_, os
validos do imperador; do _Titaurri_, que fazia o officio de marechal; e
outros dignitarios de menor categoria. Alm d'isso frequentava
diariamente a tenda imperial o _Abima_, que quer dizer pe, e era o
metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da
Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas
tinha grande auctoridade, o _tch'g_, prelado do numeroso clero
regular, e officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Cha,
fundado pelo _abima_ Tekla Haimanot. Logo abaixo, seno quasi a par do
_abima_, havia o _Labeata_, padre de nomeao imperial. Junto do
soberano funccionavam os _Azages_ e _Umbares_, dezembargadores e
ouvidores do imperio, sem escrives, nem tabellies, por serem
verbalmente averiguadas e julgadas na presena das partes todas as suas
demandas, e do mesmo modo proferidas as sentenas. No havia as
papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pgo immenso de trapaas.

O livro da lei, _Fitha Negoust_, compunha-se de textos mal traduzidos do
codigo Justiniano, amalgamados com prescripes religiosas. Antes de
serem ouvidas as testemunhas, iam  porta principal da egreja, prestar
juramento na presena de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas.
A pessoa que jurava, punha as mos na porta, e um dos clerigos
dizia-lhe: falla verdade, e se jurares falso, assim como o leo traga a
presa no bosque, assim seja tua alma tragada do diabo; e assim como o
trigo  quebrado entre as pedras, assim os teus olhos sejam moidos dos
diabos; e assim como o fgo queima a lenha, assim a tua alma seja
queimada no fogo do inferno e feita p; e se verdade disseres, a tua
vida seja alongada com honra, e a tua alma gze do paraizo com os
bemaventurados. A cada uma d'estas maldies e benos respondia o que
jurava: amen.

O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a no ser, que fizesse o
juramento pela cabea do imperador, ou que fosse ameaado da
excommunho, que sobre tudo temia.

As tendas do imperador,  excepo da rxa, que smente armavam nos dias
festivos e para as grandes recepes, eram brancas e cercadas por
umas cortinas de algodo preto e branco em xadrez, as quaes formavam
como que um muro, e em volta giravam muitas sentinellas.

Quando o acampamento mudava de local, iam  distancia de um tiro de
bsta, na frente da comitiva imperial, os quatro lees, dois a dois, com
gargalheiras de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente
quatro cadeias do mesmo metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis
homens, quatro por cadeia; sendo oito adeante e oito atraz do leo, de
modo que este podia andar unicamente na direco dos homens que o
antecediam.

Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vo com
a comprida correia presa ao pequeno cabo do aoite, ouvia-se um forte
estalido, que fazia afastar a gente.

Aps estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros
de maa, vestidos uniformemente, com camisa e calo de seda, apertado
por um cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao cho; aos hombros
uma pelle de leo, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo
engastada muita pedraria falsa.

O altar, em que diziam missa ao Prste, e a pedra de ara, eram levados
por clerigos nos braos, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.

O _Titaurri_ escolhia o lugar do arraial, assignalando com uma
lana cravada no terreno o centro da rea, que deviam occupar as tendas
imperiaes. Detraz d'aquella, em que dormia o soberano,  distancia de um
tiro de bsta, ficava a da cozinha, da qual levavam a comida em tijellas
e panellas de barro preto mui fino, postas em bandejas conduzidas por
pagens, e tudo debaixo de um pallio.

Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente
d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da
crte. Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se
mais de duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero
superior a cem mil; tudo como se fra uma cidade populosa, onde no
faltava, o que para uma povoao em taes condies se tornava mister.

As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o
poente.

As pessoas pobres dormiam sobre o seu _Net_, que era um coiro de boi,
extendido no cho, e que lhes servia tanto de cama como de lenol. Como
cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou
simplesmente uma pelle de carneiro, leo ou tigre.

Assim como o arabe no larga o turbante, o abexim nunca se separava
voluntariamente da capa. Quando se dava at o caso de ser preso por
haver commettido algum delicto, o encarregado de o levar  presena do
juiz, para evitar que se evadisse, apenas tomava a precauo de atar
 sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando a capa,
reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso,
puniam-n'o sem julgamento prvio.

Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre
as quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de
seda. O travesseiro consistia em uma forquilha de pu, chamada
_bercut_, onde no recostavam a cabea, porque esta ficava em vo, mas
o pesco, para no amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito
enfeitados.

Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais
sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de frma
redonda, e no havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se s _pas_,
espcie de po de varias farinhas, em que entravam a do _teraux_ e a do
_cousio_, e que tambem lhes servia de alimento.

Sobre as _pas_ collocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo
estas com mlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas
de barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina,
chamadas _escambis_.

Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca,
embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavam _berind_ a este amargo
manjar, um dos mais delicados da sua mesa.

Tinham para bebida nacional, de que smente usavam depois das refeies,
o hydromel; que constava de cinco ou seis partes de agua, uma de
mel, e uma poro de cevada torrada, que fazia ferver a mistura,
lanando-se depois n'esta uns pedaos de pu, denominado _sard_, que em
cinco ou seis dias de infuso modificava a doura do mel.

Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasio das
mudanas de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma,
tapadas com barro e selladas, e denominavam-se _gombos_. Os portadores
d'ellas iam escoltados por muitos homens d'armas.

Como abundava por toda a parte o mel e a cra, d'esta faziam vellas, com
que se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente
se serviam da canna para alimento.

 excepo de pepinos, meles e rabanos, que se no davam em parte
alguma do territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes
conhecidos, sendo escassa a produco de hortalias.

Alm de grandes creaes de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria
a quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rlas,
os patos bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxines e as gallinhas
do mato. As perdizes, de tres castas: umas, como grandes capes, da
mesma cr e feio das nossas, salvo terem os ps e bicos amarellos;
outras, corpulentas como gallinhas, com os ps e bicos vermelhos; e as
restantes, do tamanho das nossas, differindo d'ellas smente na cr
pardacenta dos bicos e ps.

Appareciam tambem coelhos e lebres.

Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoao merecia o nome de
cidade, nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral
abertas; e unicamente cercadas de uma parede ensssa, as que ficavam
fronteiras dos gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com
perpetuas correrias lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.

Algumas das maiores povoaes, declaradas inviolaveis, serviam de
refugio. Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o
nome de _gueddam_ e seus governadores o de _alikas_.

A situao das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes
de algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as
paredes formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com
aoteas em vez de telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por
terem as paredes de pedra ligada com argamassa, e o vigamento do tecto
ser de aguieiros de cedro to unidos, que serviam de forro,
effectuando-se essa unio por meio de cordes de varias cres, que
produziam bello effeito. Em terreno fechado com crca de pedra ensssa
at  altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sbe muito
bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flres
muito delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda
muito aprazivel dos senhores.

Os abyssinios provem de uma mistura de povos diversos, por isso os
orientaes lhes chamam _hobesch_. Raa esbelta, elegante e vigorosa, de
rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bca rarissimamente
guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou
menos aspera, no molle e assetinada, como a da raa negra; corre-lhes
nas veias sangue do egypcio antigo, do brbere, no sentido mais lato
d'esta palavra, do _foulah_ ou _peulh_--raa vermelha, do arabe e do
africano puro. N'esta mistura dominam successivamente, segundo as
regies, os typos secundarios mais proximos, _bedjas_, _somali_, _galla_
e o syro-arabe, por isso, alm do preto, a cr da pelle varia muito,
encontrando-se o moreno em todos os tons, e at o branco; este, porm,
exangue e sem graa.

Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e
curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sde. A vida, dos que
se no occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam
de pequenos, e n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calo
leve, e pouco largo, de algodo, seguro por uma faxa do mesmo panno
enrolada  cintura. Uma capa de egual tecido mais encorpado, e sobre
ella uma pelle de panthra negra ou de leo. Calavam alparcatas, e
andavam ns de braos e pernas, pois o calo mal cobria estas at ao
joelho.

Em geral a plebe no usava calado, e o seu vestuario reduzia-se a
umas bragas de algodo e uma capa, que podia ser uma pelle ou um largo
panno tambem de algodo.

Muitos abexins vestiam cales mouriscos, que desciam recramados at ao
artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para
baixo, e d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya,
faziam-n'os de teada. Os cales dos grandes da crte ajustavam-se s
pernas, e as cabayas, como as dos baneanes, abertas at  cinta, eram
abotoadas com botes miudos. Em um collarinho cozido a umas mangas
estreitas e compridas, a ponto de recramarem, tudo feito de bofets de
Cambaya ou de um fusto azulado da mesma proveniencia, consistia a
camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles tecidos
por tafet ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo, ou
de brocadilho de Mecca, no se cobriam com capa, que era de panno fino
da terra ou de bofet.

Quando vinha de suas terras um nobre, chamado  crte pelo Prste,
emquanto andava n da cinta para cima, e smente com uma pelle sobre os
hombros, _ainda no estava na graa do Senhor_; mas logo que fallasse
com o Prste, e saisse da sua tenda vestido, _j estava na graa do
Senhor_.

Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados
caprichosos. As mulheres encaracolavam algum, com o qual
emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam solto o restante, que lhe
cahia fartamente sobre os hombros.

O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de plle de bufalo;
dois zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros,
outro largo, com que esgrimiam na lucta; maas de pu duro e pesado,
denominadas _bolots_; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso;
e lanas curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros
com zargunchos estreitos, como se foram dardos.

Os mais nobres cingiam espada--de que raras vezes se serviam--com
empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sda.
Alguns traziam tambem adaga.

Os cavalleiros com sia de malha--que poucos eram--no se curavam de
rodella, porque os embaraava, e usavam de capacete.

Sem ordem alguma de formatura, as batalhas comeavam e acabavam no
primeiro choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.

Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas,
grandes e bem feitas, e levavam os cavallos  dextra, porque estes, como
no tinham ferraduras, deprssa ficavam despeados. Os homens, descalos
mettiam nos estribos smente o dedo pollegar de cada p.

Alm da gente de armas, era muita mais a que seguia o arraial e a
bagagem d'elle. Iam familias inteiras, e eram necessarias muitas
mulheres, para fazerem as _pas_ e o hydromel. Muitos no levavam
matalotagem, e, quando se acabava a dos outros, no pediam todos elles
mantimentos aos camponezes, por cujas habitaes passavam, mas invadiam
estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente selvagem.

Como no corria moeda no paiz, nem o Prste a mandava cunhar, as compras
effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados _amal_,
cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.

Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e
estanho, os habitantes no sabiam proceder  extraco d'esses metaes, e
aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas
regueiras com a corrente das aguas.

A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da
metallurgia, explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal
gemma; e, como a natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para
trocar pelos productos importados de outros paizes, prescindiam ou no
sentiam falta da moeda.

A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em
Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisao mais
adeantada.

Junto de um immenso _daro_ elevava-se o templo christo, que era de
formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas
abobadadas, sete capellas, cro alto, abobadado ao modo dos nossos, e
denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.

Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma s pedra granitica, no se viam
hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro
faces esculturas, que revelavam um cinzel grego.

N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradio dos abexins, fundou-se a
christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem
os primeiros christos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira
a prophecia de David.

Sem embargo de to respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros
da sua religio, cheia de supersties grosseiras, e fortemente
impregnada de judaismo, com traos de budhismo.

Alm de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia
numerosas egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.

Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de
harmonia com as habitaes. Situadas em lugares altos,  sombra de
copadas arvores, e smente por excepo em subterraneos, tinham muitas a
frma circular, e as suas portas nos quatro pontos cardinaes.
Reconhecia-se facilmente, que no deixaram discipulos os artistas,
que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares,
sendo attribuidas aos egypcios todas essas obras.

Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para
dentro smente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo,
limitava o espao comprehendido entre ambas, reservado para assistirem
de l aos officios divinos o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo
era defeso entrar na egreja. Ficava  porta fronteira do altar a ouvir
missa, e o celebrante no s d'alli lhe ministrava a communho, que
todos os fieis, antes de comear o santo sacrificio, deviam receber,
seno tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em gheez, que era a
lingua lithurgica.

O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser
admittidos no interior dos templos, e haviam de descalar-se antes do
ingresso. Por tal motivo o imperador trazia na mo uma pequena cruz, no
como sceptro ou insignia do imperio, seno em signal de ser diacono. De
sceptro nunca elle usava, cora tambem a no punha, nem sahia de cruz
alada, como erradamente se affirmava.

Os frades eram celibatarios, no os clerigos; e at os filhos dos
conegos tinham o privilegio de pertencerem  collegiada dos pes.

O matrimonio, porm, no se considerava sacramento, e toda a gente o
contrahia com o tacito ou expresso consentimento de se poderem
apartar os conjuges, tomando estes logo para isso fiadores, e assim
evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes asqueroso,
das causas de divorcio.

As cruzes no tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam
indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se no mostrava ao povo
a hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas
de uvas, deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias,
enxugavam-as depois, pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a
celebrao da missa, as vestimentas consistiam em umas como que grandes
camisas brancas, na estola furada pelo meio e mettida pela cabea, e no
usavam de manipulo, amicto, nem cordo para se cingirem. Os frades
celebravam com o capello na cabea, e todo o clero a trazia rapada,
deixando, porm, crescer as barbas.

Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a
cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e s tornavam a
montar, quando iam j distantes.

A venerao geral tributada  Egreja e cousas d'ella, contribuia, para
ser muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso
o soberano no podia considerar-se completamente absoluto.

E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada:
arcyprestes--_komosats_; conegos--_debterats_; curas--_kasis_;
vigarios--_nefk-kasis_; diaconos--_diakons_; e
sub-diaconos--_nefk-diakons_.

Pero da Covilhan, cuja illustrao e talento o elevavam muito acima do
nivel moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver,
tornou-se dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se
succediam no throno. Com repetidas instancias pedia ao imperador
Alexandre lhe dsse seu despacho, e a resposta s cartas de D. Joo II;
mas o Prste, respondendo sempre, que o mandaria  sua terra com muita
honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. E, dizendo mais, que no
podia por emquanto prescindir da sua companhia, prezenteou Pero da
Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e florestas,
cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio immenso
emfim.

A imperial munificencia pz o nosso explorador na desconfiana, de que o
soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande
senhor, e distrahi-lo do proposito de voltar  patria.

Tomou Pero da Covilhan psse de seus dominios, mais por mostrar-se
obediente s deliberaes imperiaes, do que pelo prazer de goza-los.
Como, porm, tinha de viver na crte, confiou ao cuidado de feitores a
importante administrao da sua casa.

Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se perder na
obscuridade d'elle, parava a ouvir os ruidos profundos e melancolicos do
espesso arvoredo, dos grandes seres insensiveis que o cercavam!...

No eram accentuaes distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um
povo, que celebra ao longe uma festa por acclamaes, ou o de uma grande
cidade tambem distante!...

E, quando  linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do
rouxinol, que do seu ninho endereava saudaes maviosas e votos
reconhecidos ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida
s gratissimas recordaes da patria, e confiava aos inanimados
companheiros da sua solido os segredos ineffaveis do seu amor a Maria
Thereza, engrandecido pelos desejos ardentes de a vr!...

Que momentos de infinda saudade no seriam aquelles!...

A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via
a miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos,
tratou de estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.

Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em
gheez, a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem
desenho quasi e sem perspectiva.

Aquella lingua conservava j algumas frmas archaicas. Dirivava-se o
alfabeto ethiopico do das inscripes himyariticas, s quaes os
missionarios budhistas juntaram certo numero de signaes diacriticos para
indicar as vogaes. Era uma influencia estrangeira, igualmente devida 
interveno da escriptura, que outr'ora ia da direita para a esquerda,
ou de cima para baixo, como a maior parte das semiticas, e que tomou a
direco da grega, da esquerda para a direita.

O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e
o amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande
parte tirado do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a
grammatica do agaou, to aparentado com o egypcio antigo.

No tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos
litterarios dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas
no fazia d'isso alardo, porque no tinha o irrisorio despejo dos
pedantes. Todos lhe reconheciam a superioridade, sem elle a impr; e a
sua prudencia, a sua modestia, o seu respeito emfim ao soberano, s leis
e aos costumes do paiz, conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia
no animo de toda a gente, que nobres e plebeus  porfia procuravam
conhecer e servir o _novo senhor_. O seu procedimento, porm, to
regrado, de to salutar exemplo para aquelles povos semi-civilisados
concorreu, para que o Prste se lhe affeioasse ao ponto de dizer-lhe um
dia: No posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho ou
filha, que nos deixeis em penhor, mandar-vos-ei com nossas cartas a
Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha; no  razo, que se
retirem, nem ns os deixamos ir. E no vos agasteis, porque tendes em
ns um amigo.

Pero da Covilhan, a quem este discurso to claro, quanto conciso, feriu
profundamente no corao, apenas respondeu com imperturbavel serenidade:
Obedeo s vossas determinaes, pois para isso fui mandado  vossa
presena pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder 
vossa amisade.

No quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse
passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava,
tratou de casar-se, e no pensou mais, d'alli em diante, seno em que
havia de acabar os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens
seus, que se encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e
d'aqui trabalhassem por passar a Portugal, a fim de levarem a D. Joo II
umas cartas, que lhes entregou.

Foi o Prste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o
queriam; mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada
Helena. No dia do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do
imperador, mrmente sdas da India, colchas da China, e arreios de
cavallos.

Helena considerava-se a mais ditosa filha da Ethiopia. Sentada ao
lado de Pero da Covilhan sobre uma alcatifa preciosissima da Persia,
disse-lhe, tomando-o pela cintura, e fitando-o enlevada: Ha muito, que
suspirava por ser vossa!... Como sou feliz!... Agora para sempre
ficaremos unidos, como as pedras na parede, e os coraes no amor de
Christo!... A toutinegra no quer mais ao seu ninho, do que eu j quero
 nossa casa!... Os teus braos, amor meu, so como os ramos do _daro_,
que do doce abrigo; e os teus olhos, os luzeiros do co, em que vou
viver!... Tu s o tronco do ulmeiro, e eu a vara da vide, que o
buscava!... Amo-te muito!... muito!...

Pero da Covilhan estava sonhando, acordado!... Rolaram-lhe sobre a face
duas lagrimas, que os labios ardentes de Helena enchugaram!...

Foi a primeira vez, que elle se viu chorar!...

--E porque chorava?!...

Pobre corao humano!...




XIII

_REMATE_


O casamento de Maria Thereza com Pero da Covilhan no repugnava a D.
Leonor de Lencastre, a qual tinha at o presentimento, de que no viria
a realizar-se. Alm d'isso Maria Thereza, sempre muito briosa, havia de
timbrar em progredir no estudo das sciencias, que cursaria na
Universidade, e, comquanto a vehemencia do seu desejo de saber no
apagasse a chamma do amor, que lhe incendiava o corao, amortece-la-ia
ao menos. Depois a ausencia com arrefecer, e o tempo com gastar, eram no
conceito da rainha remedios capazes, de debellar a enfermidade d'esse amor.

Talvez fosse uma illuso similhante pensamento, porque o maior incentivo
do amor de Maria Thereza era a gloria de Pero da Covilhan, e esta no
tardaria a engrinardar-lhe o nome. Assim o esperava Maria Thereza,
e tinha para isso fundamento.

D. Leonor, porm, preferia illudir-se, a deixar de nutrir a esperana
tambem de continuar a ver junto de si a meiga companheira das suas
devoes, apenas ella completasse os seus estudos. E, como a formosa
rainha era dotada de um espirito no s eminentemente religioso e
caritativo, mas ao mesmo tempo illustradissimo e pratico, imaginem-se os
primores de educao, dada por essa Senhora a Maria Thereza, que logo
nos mais tenros annos revelou a sua intelligencia peregrina e uma
docilidade encantadora!

Tal era, com effeito, o juizo que D. Leonor formava das singulares
qualidades da sua donzella, que, tendo esta apenas dezeseis annos, a
fazia j sua confidente, e com ella conversava frequentes vezes cerca
do seu vasto plano de beneficencia e fundao de casas religiosas, o
qual havia traado com o fim de collaborar, no desenvolvimento da
prosperidade nacional, e na exaltao da f catholica.

No meio das variadas e constantes distraces da crte, a excelsa rainha
no olvidava, um s instante, o desempenho da misso civilisadora, que a
si propria impozra. E, conhecendo as aptides de Maria Thereza, teve
sempre em vista eleva-la pela cultura do espirito, e aproveitar-lhe os
recursos intellectuaes, para associa-la na execuo das obras
meritorias, que projectava.

Havia j fundado, ainda em vida de seu marido, um hospital, e junto
d'elle uma povoao, que tomou o nome de Caldas da Rainha, para perpetua
memoria da sua origem; mas no s mandou provr aquelle estabelecimento
do necessario para a sua sustentao, como obteve do pe de Lucrecia
Borgia, o papa Alexandre VI, indulgencia plenaria para os enfermos, que
l fallecessem, muito embra no houvessem contemplado o hospital em
seus testamentos.

No faltava assim a esmola do remedio para o corpo e para a alma, aos
que fossem procurar allivio s enfermarias da caridosa fundadora.

Maria Thereza partira effectivamente na companhia de seu tio para
Lisboa, antes das festas de Evora, e foi frequentar a Universidade,[9]
a qual occupava as casas, de que lhe havia feito doao o
infante D. Henrique, situadas acima da egreja de S. Thom, contra o muro
velho da cidade.

O novo estudante, com o seu habito talar mais curto do que o dos lentes,
conforme prescrevia o Estatuto, a sua formosa cabea, que ninguem
suppunha fosse de mulher, o desembarao de suas maneiras, e a gentileza
do seu prte, era alvo da sympathia publica no bairro das Escolas
Geraes. As raparigas do sitio sabiam j a hora, a que _elle_ passava
para as aulas, ou saa a passeio, por isso esperavam-n'o  janella, e,
ao v-lo, iam-se-lhe os olhos no galante _moo_. Maria Thereza
ignorava, que era objecto d'essa curiosidade feminina, a qual comeava a
despertar ciumes na visinhana; mas o tio, que nunca deixava de
acompanhar a sobrinha, percebeu, que a requestavam, e uma ou outra vez
sorria-se maliciosamente para as admiradoras d'ella, o bom do velho.

Na convivencia com seus condiscipulos e collegas, os mais vaidosos davam
a Maria Thereza, sem querer escarnece-la, a primazia no talento, no
saber, e at na graa da palestra.

Nas concluses, que defendeu, para tomar o grau de bacharel, bem como no
acto para licenciado, causou assombro aos mestres.

Aproveitou tanto emfim, que sau doutissima em theologia e direito
canonico.

Quando ella tinha concluido os seus estudos, falleceu o tio. O corpo
docente foi logo convida-la, para reger a cadeira,[10] que
ficou vaga. Maria Thereza agradecendo o convite, respondeu: Sem
approvao de sua alteza a rainha, minha senhora, no psso acceitar
encargo algum, nem este que to honroso , e tenho a certeza de que a
no alcanarei, sejam quaes forem as instancias, que junto de sua alteza
se faam.

Os lentes no insistiram em presena de to cathegorica resposta, e
Maria Thereza, sem que pessoa alguma tivesse dado pelo disfarce, com
que, durante quatro annos lectivos, cursou as aulas da Universidade,
sau de Lisboa, e no dia 29 de setembro de 1495, chegou s Alcaovas,
onde residia ento sua real ama.

D. Joo II tinha recebido as cartas, que Pero da Covilhan lhe envira da
Abyssinia por creados seus;[11] como, porm, estivesse em
preparativos de passar ao Algarve, a fim de procurar allivio aos seus
padecimentos nas caldas de Monchique, ficaram para depois da sua sada,
as novas, que D. Leonor queria dar a Maria Thereza.

Na entrada do mez de outubro partiu o rei para as caldas, deixando 
rainha o escrinio, onde guardava aquellas cartas.

Depois de haver tomado quatro banhos, aggravou-se de tal modo a sua
doena, que por conselho dos physicos se mudou para Alvor. Achando-se
cada vez peor, desejou ver a rainha e o duque de Beja, fazendo ao mesmo
tempo teno de communicar a este, que em testamento o declarava por s
e legitimo herdeiro do throno, e lhe deixava encommendado, como vassallo
seu, D. Jorge de Alencastro--que era o filho D. Joo II e de D. Anna de
Mendoa.

Estava a rainha com o duque seu irmo em Alcacer do Sal, por se haver
assentado esperar alli o rei na volta do Algarve, e partirem depois para
Santarem. D. Leonor iria embarcada at Setubal, d'aqui atravessaria
por terra para Alcochete, e seguiria logo pelo Tejo acima at  velha e
pittoresca rainha do Riba-Tejo. Este itinerario, differente do que para
si trara o monarcha, pareceu o mais commodo, por estar D. Leonor ainda
convalescente da grave doena, que a pozra s portas da morte.

Na tarde, porm, de 25 de outubro de 1495, quasi ao sol posto, expirou
D. Joo II, ou _morreu o homem_, como sentenciosamente disse Isabel, a
Catholica. Logo ao outro dia foi dada, tanto  rainha, como ao duque,
nova certa do fallecimento.

Succedeu, com effeito, no throno o duque de Beja, ento na bella edade
de vinte e seis annos. Pela prssa, com que tratou de se casar, pendemos
a crr, que foi essa a sua primeira ida, ao ver-se senhor da cora. Tal
era a paixo, que lhe havia inspirado a formosa viuva do mallogrado
principe D. Affonso--quem sabe se nas festas de Evora!...

No mesmo anno de 1497 contrahiu um enlace, que muito ambicionava, e
satisfez uma obrigao, que tinha herdado, enviando  India a frota, que
D. Joo II havia apparelhado, commandada por Vasco da Gama, a quem deu
cartas para alguns principes do Oriente, incluindo o Prste Joo,
conforme as informaes e documentos, que deixra e houvera d'aquellas
partes o Principe Perfeito.

No foi estranha a rainha D. Leonor ao ultimo d'esses dois actos, sem
duvida os de maior transcendencia, que seu irmo praticou no comeo
do seu reinado.

Era a rainha, ao tempo do passamento de seu marido, depositaria da
importante correspondencia de Pero da Covilhan; e, fazendo entrega
d'esta ao novo monarcha, rogou-lhe, que no s mandasse saber do nosso
explorador, mas apromptasse, conforme as indicaes do mesmo, uma
embaixada, que o acreditasse junto do Prste, confirmando as cartas, que
lhe levou, e com instancia solicitasse a resposta.

Vasco da Gama nada soube da Abyssinia; e no admira, porque nem tempo,
nem gente lhe sobrava, para l mandar alguem. Voltou, pois, a Portugal
sem novas nem mandados do Prste. E, como a empresa da India tinha por
fim primario apossarmo'-nos do commercio oriental, assegurado o nosso
predominio nos mares levantinos, facil seria estabelecer relaes com o
abexim, e at este as buscaria.

A rainha D. Leonor no se descuidava, porm, de lembrar a D. Manoel a
conveniencia de entabolar negociaes com o Prste; e Pero da Covilhan,
porque j soavam em todo o Oriente as faanhas dos portuguezes, no
perdia o ensejo, agora to opportuno, de inspirar ao imperador abyssinio
uma grande ida de Portugal, de incita-lo a responder  nota do rei, que
o tinha enviado junto d'elle, e a dirigir-lhe, por seu turno, uma
solemne embaixada.

Afinal Duarte Galvo, que mui singular prudencia, sagacidade e
experiencia de negocios manifestara, como embaixador junto de Alexandre
VI, do imperador Maximiliano e do rei da Frana, sau de Lisboa na mesma
qualidade para a Ethiopia em abril de 1515; mas no satisfez o
mandamento, por haver fallecido na ilha do Camaro a 9 de julho de 1517.

Ao imperador Escander succedera Andeseon, que reinou unicamente seis
mezes, e logo Naod, que teve tambem um curto reinado.

 morte d'este ultimo principe subiu ao throno uma creana, que tinham
baptisado com o nome de Lebna Danguil, mas adoptou depois o de Onag
Segued, e por ultimo o de David. Contava apenas onze annos, e por isso,
durante a sua menoridade, tomou as redeas do governo a imperatriz Helena.

As circumstancias do imperio eram gravissimas. Estava ameaado no s
pelos islamitas de Zeila, mas pelo formidavel poder que se elevra sobre
as ruinas do imperio dos Khalifas. Aos arabes haviam succedido os
turcos, que sustentados por suas idas de fatalismo, invadiram avidos
tudo, desde as cumiadas do Caucaso at s fronteiras da Nubia.  sua
frente o feroz Selim I, tornou-se senhor do Egypto, juntando-o ao
imperio ottomano, e com suas frotas cobriu logo o Mar Vermelho. Djiddah,
Mokha, Suaquem e Zeila receberam successivamente guarnies de
janizaros, que levaram ahi armas novas, ainda desconhecidas n'esses
paizes. A mosqueteria e artilheria espalharam ao longe o terror por seus
effeitos rapidos.

Foi ento, que a regente do imperio abyssinio, atemorizada de to
terrivel vizinhana, se lembrou de solicitar, a favor da causa do seu
povo, a proteco de um rei, cujas grandezas Pero da Covilhan tanto
exaltava, e de cujas victorias alcanadas em toda a India, nas pelejas
contra os mahometanos, j se ouvia o cco na Ethiopia. Mas desconfiada
sempre, como todos os da sua raa, tratou de procurar pessoa, que
podsse certifica-la tanto dos acontecimentos da India, como das coisas
que lhe contava Pero da Covilhan, e ella muito lhe perguntava.

Na crte do Prste andava um mercador armenio, chamado Matheus, que, por
fallar ou entender o portuguez, pareceu  imperatriz Helena mais
proprio, do que outro qualquer, e mandou-o a Portugal. Veiu, com
effeito, ao nosso reino, mas secretamente, o embaixador Matheus com
cartas da imperatriz em nome do Prste, um pedao de lenho da Vera Cruz,
como signal da f professada na Abyssinia, e tudo foi recebido pelo rei
D. Manoel. Entendeu o nosso monarcha, no dever demorar o delegado da
imperatriz Helena, e despediu-o com muita honra, ordenando a Diogo Lopes
de Siqueira nomeado governador da India, que na esquadra do seu commando
conduzisse Matheus  ilha de Massuah.

A esquadra, composta de dez nus, largou do porto de Lisboa no dia
27 de maro de 1518, e levou tambem D. Rodrigo de Lima, o qual ia 
Ethiopia com uma embaixada do rei D. Manoel para o Prste. Eram treze as
pessoas, que constituiam a comitiva do embaixador, e n'aquelle numero
contava-se o P. Francisco Alvarez, capello do rei.

Diogo Lopes cumpriu as ordens do soberano, entregando em Massuah ao
Bahar-Nagays, governador das terras maritimas da Ethiopia, Matheus e a
embaixada portugueza.

Logo em um dos primeiros dias de marcha para a crte do Prste falleceu
Matheus, no mosteiro da Viso. A embaixada proseguiu, at que chegou ao
seu destino, depois de longas e arduas jornadas.

Tiveram os portuguezes a satisfao de encontrar Pero da Covilhan, que
exultou ao ver os seus nacionaes, e no poude conter as lagrimas, ao
lembrar-se da patria,  qual o no deixavam voltar as obrigaes, que
tinha tomado.

Durante os seis annos, que D. Rodrigo de Lima esteve na Abyssinia, de
muito lhe serviu o voluntario e nobilissimo exilado, que to heroica e
honradamente sacrificou a vida pelo seu paiz.

Nas cartas, que o imperador David escreveu a D. Manoel, por D. Rodrigo
de Lima, dizia:

O Pero da Covilhan achei, quando reinei, que meu pe no encaminhra,
at ver coisa, que o mais certificra; o que Deus a mim fez e no a
elle, e sabe como fica meu corao at ver vossa, resposta, que muito
desejo.

Os desejos do Prste eram, que o rei de Portugal mandasse fortificar
Massuah e Suaquem, por medo dos rumes, que, fazendo-se ahi fortes, o
desbaratariam e aos portuguezes. Offerecia gente, mantimentos, e o que
necessario fsse emfim, lembrando ao mesmo tempo, que seria bom tomar
Zeila, porque d'este porto iriam as mercadorias para Aden, Djiddah e
toda a Arabia, at ao Tor e Cairo.

Entretanto continuava de refem Pero da Covilhan...

Chegmos ao fim do primeiro quartel do seculo XVI, sem comtudo irmos
mais longe, do que deviamos; -nos, porm, preciso retroceder.

Da correspondencia de Pero da Covilhan estremou a rainha D. Leonor a
seguinte carta, que mandou lr a Maria Thereza:

                                                      _Maria Thereza_

Sabeis naturalmente j o bastante para apreciar a minha situao, e
comprehender a impossibilidade, em que me vejo, de sair d'ella, como eu
desejava, ou--porque no direi?--como ns ambos desejavamos.

Devo crer, que vos no faltaro informaes de Sua Alteza a Rainha minha
Senhora, e que tambem vs as havereis solicitado a miude. Mas a El-Rei
meu Senhor pedi licena de vos escrever, pela primeira e ultima vez,
para de longe conversar comvosco, condemnado, como estou a no mais
vos vr, nem ouvir.

A palavra humana  fraca, para exprimir a violencia da dor, que soffro,
ao lembrar-me d'essa condemnao eterna! Deus me conceda a resignao
precisa, e a minha alma se fortalea com to duras provaes!...

De como desempenhei o real servio, desde que sahi de Portugal at hoje,
tem El-Rei larga noticia, enviada por mim a Sua Alteza. Restava-me
unicamente dar-vos conta dos meus passos, que dirigi esperanado sempre,
em merecer o agrado de meu Augusto Amo, e de tornar-me digno de vs.

Em caravanas e recvas de mouros, e por mouro a seus olhos passando,
estudei o commercio e navegao do Oriente, visitando para esse fim os
principaes portos; e alcancei certificar-me, de que pelo mar se podia
vir de Portugal  India. Do mesmo modo, sabendo em Calicut, que do gro
Cairo para aquella cidade, que  a primeira e a mais formosa das terras
indianas, traziam os mouros fortes armadas de muitas nus com grande
trato de grossas mercadorias, provenientes de Mecca, fui ver com meus
proprios olhos o centro d'este mercado.

Voltando de Ormuz, aonde por ordem de El-Rei meu Senhor, acompanhei o
rabbi Abraham, desembarquei na cidade de Djiddah, que  o porto de Mecca
no mar Vermelho.

Tendo encontrado alli numerosos peregrinos, que se preparavam para ir
visitar a _cidade santa_, como elles fanaticamente chamavam a Mecca,
encorporei-me na sua caravana.

No vos encareo os riscos d'esta minha empresa, para jactar-me d'ella,
seno para vos assegurar, que muito devo  misericordia divina, a qual
decerto moveram mais as vossas oraes do que as minhas.

Com extrema confiana em Deus, e em que vs no cessarieis de velar
pelos meus passos, ousei ir da-los, onde a christos  vedado transitar.

Felizmente no adivinharam os meus companheiros, que lhes profanava os
seus lugares santos...

Ser-vos-ia fastidiosa a relao das ceremonias a que assisti, e em que
tive de tomar parte--perde-me Deus!--na terra natal de Mohammed.
Smente vos direi, que no pde ir mais longe o fanatismo nem a cegueira
humana!

 realmente Mecca um centro de commercio muito rico, e sem duvida o mais
variado de todo o Oriente, no tempo das romarias, pois que se accumulam
nos bazares produces mui valiosas de todos os paizes sujeitos  lei do
_propheta_, e fazem-se negocios importantes.

De Mecca passei a Medina, onde est o tumulo do _sancarro_. Atravessei
igualmente uma regio immensa, adusta e maninha.

Terminada a peregrinao, retirei para Yambo, que  no mar Vermelho
o porto, que abastece Medina, e alli embarquei logo em um zambuco, no
qual me dirigi a Tor.

Eu tinha necessidade absoluta de purificar-me, de retemperar a minha f.
O Sinai ficava-me perto. Fui vr essas solides da Arabia Petrea, por
onde vagaram to longo tempo os filhos de Israel, desde o exodo at
entrarem na Chanaan promettida. Subi  montanha sacrosanta, onde Moyss
dictou a lei aos hebreus. Puz a mo na pedra, da qual o propheta fez
brotar um jrro de agua com o toque da sua vara mysteriosa. Penetrei na
caverna do monte Horeb, onde o propheta Elias se escondeu, para escapar
 vingana da rainha Jesabel. Percorri emfim toda essa regio pedragosa
e triste, que crca o Sinai; esse antigo paiz biblico, um dos mais
celebres da historia. N'ella encontrei ainda as ruinas de Petrea, que
fra outr'ora o grande deposito do commercio da Arabia meridional, bem
como o mercado, aonde as caravanas de Yemen levavam o incenso e os
aromas, recebendo em troca os productos da Phenicia.

Voltei depois de Tor, e d'aqui atravessando o mar Vermelho, fui
desembarcar em Zeila.

Tinha chegado s portas da Abyssinia.

A residencia do Prste  ordinariamente no reino de Cha, mui salubre, e
situado quasi no meio do vastissimo imperio ethiopico.

Os que vo do Levante demandar a crte, vem-se obrigados a trepar uma
altissima serra, como se fra inexpugnavel fortaleza. Por cima
d'ella corre um caminho muito ingreme, o qual no espao de um tiro de
bsta de tal modo se aperta, que mal cabem dois homens a cavallo, indo
emparelhados.  uma lomba cortada a pique de ambos os lados,  qual
conduzem to escabrosos passos, abertos no recosto da montanha, que, se
alguem embicar, ou a cafila, que sobe, topa com a que desce, no indo
com o prumo attento nas passadas, fazem-se em pedaos os caminhantes, e
perdem-se totalmente as mercadorias, rolando tudo por aquelles horriveis
despenhadeiros abaixo! Na entrada de taes precipicios esto de uma parte
e da outra umas como portas, onde pagam direitos ao Prste todos os que
por l passam com tamanho risco de suas vidas.

Fui emfim recebido pelo Prste, e, vendo que elle me detinha, roguei-lhe
instantemente me despachasse, dando-me a resposta s cartas d'El-Rei. E
sabeis vs, qual foi a deciso irrevogavel do Prste?

--Que tratasse de me casar, e depois de ter um filho, para lh'o deixar
por fiador, me mandaria a Portugal!

Impz-me, como vdes, o maior dos sacrificios!

A vs, a El-Rei e  nossa querida patria o offereo.

Eu poderia arrostar qualquer perigo, disfarar-me, e sar d'aqui; mas
perder-se-ia tudo quanto tenho feito. Se eu me retirasse, esta
gente sempre desconfiada, e em geral de pouca verdade, ficaria tendo-me
na conta de um embusteiro; no que no perigava a minha consciencia, mas
o credito e os interesses, de quem me mandou c. Assim tomariam por
grande falsidade tudo o que lhes tenho dito, para exalar o nome de meu
Augusto Amo; para convencer o Prste, de quanto lhe ser util alliar-se
com Sua Alteza; para conseguir finalmente que todo este povo considere,
respeite e admire a nao portugueza. E no descanarei, emquanto no
resolver o Prste a enviar uma embaixada a El-Rei meu Senhor.

De nenhum modo conviria a El-Rei fazer guerra a um povo, cujo territorio
a natureza to prodigamente fortificou. Essa temeraria empreza traria
comsigo muitos encargos, por ser o paiz mui remoto, para se poder
conquistar e conservar, e debilitaria tanto as foras de Portugal, que
ficaria este sem as necessarias para a sua conservao. Prefere decerto
Sua Alteza crear e manter as mais pacificas relaes de amisade com o
Prste.

Muito contribuir para isto a vinda da nossa frota ao Oriente; e, como
El-Rei j sabe o caminho, no tardar ella em sulca-lo.

Os abexins so muito ciosos de suas coisas. Tenho, pois, de
lisonjear-lhes a vaidade, para lograr a sua inteira confiana, porque
depois ser menos difficil admittirem o meu conselho. Como prouve a
Deus, que eu viesse acabar meus dias a este exilio, empregal-os-ei
todos no servio d'El-Rei, e da patria.

Fui constrangido a constituir familia, e todavia--crde-me,
Thereza!--vivo em uma solido immensa!...

Como, porm, quando a alma nos se da carne, dever levar comsigo todas
as suas affeies, ter-vos-hei junto de mim no Paraizo. O co  o
verdadeiro lugar do amor, e n'esta esperana immortal repousa docemente
o meu corao. E, emquanto andarmos ambos sobre a terra, as nossas
oraes e os nossos votos juntar-se-ho no caminho do co...

Estou longe de vs, mas acompanho-vos sempre, e no me vdes, por no
ser visivel o pensamento... So terriveis combates os accessos de
abatimento, que repetidas vezes me tomam!... Mas, para que esta
separao nos no custe, experimentemos... vs o serdes menos amavel, eu
amar-vos menos...

No nos  dado realizar o impossivel!

O tempo de lagrimas, de solido, de aborrecimento, que de vs me sepra,
acabar, para nos unirmos e gosarmos juntos da bemaventurana eterna!...

Adeus.

                                                  _Pero da Covilhan._

Quando Maria Thereza terminou a leitura d'esta carta, estava como a
candida cecem das matutinas lagrimas rociada; mas tinha ao p de
si quem lh'as enxugasse, quem lhe respirasse os suspiros, que as
entrecortavam.

Conservando a carta apertada n'uma das mos, voltou-se para a rainha e
exclamou:

--Assim o quiz Deus!... Faa-se a sua vontade!... Que duvidosas so as
coisas d'esta vida!...

--Tambem as ha certas--interrompeu D. Leonor com muito carinho--e uma
d'ellas ser a tua resignao, que no psso pr em duvida...

--Sim, minha Senhora; nas mos de Deus me resigno... E, se voss'alteza
me permitte, cumprirei tambem as ultimas palavras, que disse a Pero da
Covilhan: de outro jmais serei!

--No admiro a tua fidelidade s promessas, que fazes--tornou a
rainha--; mas s vezes... em momentos irreflectidos... e ha tantos em
galanteios!... Emfim  necessario, que penses no teu futuro...

--Tenho pensado, minha senhora. Eu nunca perdi a esperana de tornar a
vr Pero da Covilhan; agora, porm, depois da sua carta, ainda que elle
voltasse j no podia ser sua mulher. Serei esposa do Senhor.

--No pde haver unio mais santa--retorquiu com jubilo a rainha--; mas
sentir-te-has tu bem forte para a contrahir?...

--Se sinto!... Creia voss'alteza, que no  filho de um desespero o meu
proposito; anima-me, pelo contrario, a esperana, de que, servindo
melhor a Deus na clausura, mais util poderei ser a Pero da Covilhan,
orando por elle, e mais facilmente ser perdoada a minha fraqueza de o
no esquecer... A dr  o mais seguro lao, que prende dois coraes...

--Minha boa Thereza!... Cada vez considero mais digno da minha estima o
teu corao de ouro!...

Maria Thereza cahiu de joelhos aos ps da rainha, e beijou-lhe as mos,
regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa
cabea da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...

Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do
mesmo affecto finissimo.

Fra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta
patente de 24 de maro de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que
passra com sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros
d'esta monarchia; e logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa
regente instituiu a Misericordia de Lisboa. No satisfeita com erigir
esse monumento, que por si s bastaria para immortalisa-la, 
infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos esplendores da f, e
profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com que a sublime
virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de candura.

Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da
Annunciada em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna,
sobrando-lhe ainda tempo para dar proteco s lettras e s artes, pois
 sua munificencia indefessa se deviam monumentos preciosos da nossa
typographia, que tentava ento os seus primeiros ensaios em Portugal.

Mas de todas as suas instituies religiosas a mais querida e por isso
mais velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D.
Leonor mandou edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades
artisticas possuia.

N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da crte
as asperezas da vida monastica, em ordem to apertada, como aquella a
que se votou.

Antes da profisso, pediu Maria Thereza  rainha, que fizesse chegar s
mos de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito,
portador o P. Francisco Alvarez:

                                                     _Pero da Covilhan_

Sois um benemerito, Deus, que  remunerador, hade recompensar os vossos
sacrificios.

Vou manh professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus,
fundado em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na
minha clausura, onde espro servir melhor a Deus, do que se ficra
no mundo, lembrar-me-hei sempre de vs nas minhas oraes, e o Eterno
Pe, a quem nada pde esconder-se, attender-me-ha, por ver a inteno
pura, com que lh'as dirijo.

Elle vos acompanhe sempre!

     Adeus.

                                                     _Maria Thereza._

Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em
Xabregas, onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do
mosteiro,  porta da casa do capitulo, foram cobertos seus
venerandissimos restos por uma singela lapide, na qual se lia unicamente;

                     AQUI EST A RAINHA D. LEONOR.

Que mais era preciso, para no esquecer o nome, de quem foi, toda a sua
vida, exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!

As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre
testemunham a vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do
glorificado.

O monumento da rainha D. Leonor est no corao dos povos de Portugal,
que tantos beneficios teem recebido e continuam a receber das
Misericordias.

As relaes do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se
definitivamente no seculo XVI, e conservaram-se at o seculo seguinte.

Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande
pensamento de unir-se ao Prste, com o fim de divertir a corrente do
Nilo, para a banda do mar Vermelho, junto da peninsula de Mro, entre
aquelle rio e o Atharah, abrindo um novo leito, e entulhando aquelle
pelo qual descia para o Egypto. D'esse modo esterelizaria os campos
egypcios, que eram os principaes graneis do sulto ottomano.

E Christovam da Gama,  frente de um punhado de bravos, partiu de
Massuah a 9 de junho de 1541, e correu em soccorro do Prste, ameaado
pelo scheick de Zeila.

D'esse herico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: era o
primeiro, que tomava o fato s costas, e com esta fragueirice e vontade
acrescentava a dos outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o
sentir.

Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Prste; mas os valentes
portuguezes, que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a
morte do seu illustre capito, derrotando completamente o inimigo.

Aureos tempos!...

Maria Thereza revelou a sua vasta illustrao, publicando algumas obras
em latim,[12] e sendo por isso aurora brilhantissima da
renascena das lettras em Portugal.

Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de l
contemplava o Tejo...

Quando voltavam as nus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se
com ellas teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...

E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar
sobre a sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior
recolhimento, e deixava a lapide orvalhada de lagrimas!...




NOTAS


A

PAG. 3.--... _de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos
olhos_. Como referimos no Cap. XI, o _tarbah_ das musulmanas serve-lhes
de abfo e tambem lhes vla o rosto, no deixando algumas vr seno um
dos olhos.  de presumir, que as andaluzas herdassem d'ellas este
costume.


B

PAG. 26.--..._a ponto de provocar a formao das Hermandades_. Estas
confrarias politicas, instituio popular da edade media, excluiam por
essencia o influxo da auctoridade real e serviam no s para manter a
segurana publica, seno que velavam egualmente pela conservao dos
fros e liberdade dos povos e communidades que as formavam. Eram uma
fora importantissima, que os reis catholicos habilmente aproveitaram
depois, fazendo depender do governo do Estado a disciplina e
constituio d'ella. Organisando as capitanias e mais tropas da
_Hermandad_, aquelles principes logrram ter um corpo permanente de
exercito, prompto a conter em respeito o poder dos magnates. Foi um
ensaio de milicia nacional, paga immediatamente pelos povos, e que muito
contribuiu, para que a cora se emancipasse da influio e dependencia
da mais incommoda e turbulenta oligarchia.

Muito antes de conflicto do Toro j existia a _santa hermandad_, e no
foi organisada contra as tropas portuguezas, que depois d'elle se
limitavam a saquear as terras, a praticar actos de bandidos, como
erradamente affirma o Sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_.


C

PAG. 33.--_No  d'este modo, que deve comprehender-se a misso da
historia_. Clemencin, referindo-se aos historiadores e chronistas
cerca do silencio de uns e das diminutas noticias de outros, em
assumpto de tanta monta, como a successo  cora de Castella por morte
de Henrique IV, diz: o fallar tinha inconvenientes, e a relao inteira
e veridica do succedido podia offender a pessoas auctorisadas e
poderosas.

 evidente o corollario d'esta affirmativa to imparcial, como sensata.


D

PAG. 47.--... _o principe D. Joo casasse com a princesa de Castella,
D. Joanna_. Zurita, que to parcial se mostra na descripo do encontro
de Toro, e to affecto a D. Fernando, o Catholico, diz, que D. Joo II,
sendo principe, muito desejou a entrada de D. Affonso V em Castella; mas
condemnou depois o mu conselho d'elle, em no haver acceitado os
primeiros casamentos d'aquelle reino: que era casar el-rei com a Infante
D. Isabel, e elle com a princeza D. Joanna. Zurita, Anales de Aragon,
tom. IV, liv. XIX, cap. XVIII.

Em fins de 1463 ou principios de 1464, avistando-se em Gibraltar os reis
D. Henrique e D. Affonso, trataram de casar D. Isabel com este Diogo de
Clemencin, Mem. de la Real Acad. de la Hist., tom. VII.


E

PAG. 69.--... _a bandeira real, que por instantes tremulara na mo de
um castelhano_. O sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_ mostra,
no dar crdito ao caso do escudeiro Gonalo Pires haver, com effeito,
recobrado o estandarte real, e affirma simplesmente, que Pedro Vaca o
tomou. Ignorava de certo, que existe em Torre d'Eita, povoao pouco
distante de Viseu, uma familia illustre, a qual representa legitimamente
o seu antepassado Gonalo Pires, por isso usa do brazo e appellido de
Bandeira, concedidos a elle, como recompensa do seu brilhante e heroico
feito de Toro.

 conseguintemente falso, que na veiga de Bisagra a multido apinhada
visse passar os reis catholicos em procisso, levando como tropheu o
estandarte real portuguez a varrer as ruas.


F

PAG. 90.--_D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predileco
pelos que cultivavam as lettras_. O sr. Oliveira Martins amesquinha com
to rematada injustia o pe de D. Joo II, que dotando-o de um _genio
incoherente e curto no alcance_, concede-lhe a primasia em organisar uma
bibliotheca no pao, mas... unicamente _por seguir a mda_; e occulta o
facto de ter sido o sympathico here de Arzilla o primeiro rei, que
tratou, de que se escrevesse em lingua latina a historia portugueza.

Singular criterio!


G

PAG. 100.--..._cortezos dotados de bas prendas_. Talvez o leitor
compulsasse j um livro intitulado Viagem por Hespanha e Portugal no
seculo XV, de Nicolaus von Popplau, cavalleiro da casa de Frederico III,
imperador da Allemanha.

Nas poucas paginas consagradas ao nosso paiz, o auctor, que por c andou
nos ultimos mezes de 1484, capitula de incivis, de ignorantes e de
insensatos tanto nobres, como plebeus. Considera os portuguezes, em
geral, incapazes de bons costumes e sem bondade. s mulheres, d-lhes os
olhos negros e furiosos.

Nas taes paginas, porm, encontra-se a explicao do mu humor, com que
foram escriptas. Relaxo, pois, ao meu despreso a estolida aldravice.


H

PAG. 154.--..._depois de ter descoberto a costa do Labrador_. Quem
primeiro tornou publico este facto, foi o illustrado e benemerito
michaelense, sr. Ernesto do Canto, no _Archivo dos Aores_, vol. XII,
pag. 529; e confirmou-o, exhibindo um documento no seu opusculo _Quem
deu o nome  Terra do Labrador_.

Mais tarde o mesmo academico publicou outro documento comprovativo, que
foi extrahido da Chancellaria de el-rei D. Manoel, e fornecido pelo
indefesso investigador, o erudito general sr. Jacintho Ignacio de Brito
Rebello.


I

PAG. 155.--... _a quem a patria no fez ainda a devida justia_. Em
a _Noticia Preliminar_, que precede o _Esmeraldo de situ Orbis_,
publicao dirigida pelo douto academico sr. Raphael Basto, para a
commemorao do quarto centenario do descobrimento da America, mostra o
sr. Basto, com trechos de uma carta de Pero Vaz de Caminha e do Roteiro
de Duarte Pacheco, ser acertado, no attribuir a mero acaso o
descobrimento da terra de _Vera Cruz_. Como temos, ha muito, esta
opinio, folgmos de vr, que para ella pende o sr. Raphael Basto, a
cujas investigaes persistentes e conscienciosas muito deve j a
historia portugueza.


J

PAG. 155.--... _da gerao e linhagem dos Machados_.  digno de reparo
que a familia Barcellos adoptasse o brazo, que lhe pertencia por linha
materna, parecendo assim reputar de menos valia as flores de liz, que
seus maiores, por linha paterna, ostentavam legitima e vaidosamente
gravadas no seu escudo.

A varonia dos Pinheiros , como a dos Machados, illustrissima, no s
pela sua antiguidade, mas pela sua rgia ascendencia. Sobre isto so
accrdes todos os nossos genealogistas.

Se com os Machados se ligram os Azevedos, os Cunhas, os Vasconcellos,
os Silvas, os Castros, os Val de Reis, os Montebellos de Hespanha; com
os Pinheiros aparentaram-se numerosas familias nobres, como os Alvitos,
os Galveias, os Alcoforados, os Lacerdas, os Pereiras de Bretiandos; de
modo que se diffundiu por quasi todas as mais antigas casas do reino o
sangue das duas familias.

A preferencia pelo brazo dos Machados explica-se talvez, por serem
estes mais opulentos na ilha, do que os Pinheiros, e todos os parentes
d'aquelles procurariam contribuir, para perpetuar o nome, que muito os
distinguia aos olhos de seus conterraneos. E tanto os Barcellos iam
n'essa esteira, que nem os fez desviar d'ella a honrosissima carta, com
que o rei D. Manoel premiou to liberalmente os servios do navegador
Pedro de Barcellos. No apreciram at devidamente o valor particular
d'essa merc.

D. Manoel no quiz estimular apenas os descendentes do agraciado, e
aquelles a quem constasse; era natural suppr, que no animo do rei
pesaria a circumstancia, de pertencer o filho de Pedro de Barcellos a
uma familia, que tantos servios prestra  casa de Bragana, e d'isto
podia ser informado o monarcha pela rainha D. Leonor, sua irm.

De certo no ignorava, e por isso no esquecia a viuva de D. Joo II,
que Pedro Esteves, av de Pedro de Barcellos, se crera no pao de D.
Affonso, primeiro duque de Bragana, e d'alli fra a Salamanca estudar
direito civil e canonico na Universidade, onde o graduaram de doutor _in
utroque_. Voltando para Portugal, tornou-se notavel pelo seu grande
entendimento, summa prudencia, bom conselho, profundo conhecimento das
lettras, e as suas muitas virtudes e qualidades o fizeram conciliar os
affectos de todos os principes do seu tempo.

Era cavalleiro da casa de el-rei D. Duarte, e nenhum negocio da de
Bragana se tratava, sem que elle fosse ouvido, mostrando-se sempre to
imparcial e recto em seus conselhos, que o infante D. Pedro, quando
regente, o chamou para seu lado.

Seu pe, Estevam Annes, _o Mo_, fra educado na casa do condestavel D.
Nun'Alvares Pereira, seu parente, e acompanhou, desde muito novo, em
todas as grandes e famosas emprezas o glorioso vencedor da batalha dos
Atoleiros.

Mas, para maior lustre e gloria dos Barcellos, o navegador Pedro
Pinheiro de Barcellos, ou Pedro de Barcellos, como officialmente o
denomina a carta de D. Manoel, foi bisav do Beato Joo Baptista
Machado, que, renunciando o morgado e casa de seus pes, entrou na
Companhia de Jesus, e foi martyrisado no Japo em 22 de maio de 1617.

O representante legitimo d'esta familia Barcellos, da ilha Terceira,  o
antigo fidalgo sr. Francisco de Paula de Barcellos Machado Bettencourt.
D'este e de sua mulher e prima, j fallecida, a sr. D. Maria Isabel
Borges do Canto, era filha D. Francisca Emilia de Barcellos e Canto
Bettencourt do Carvalhal Brando, raro modlo de virtudes, alliadas a
uma intelligencia e a uma illustrao ss, que se lhe serviram de
ornamento proprio, tambem contribuiram, para honrar mais ainda a sua
estirpe nobilissima.--Foi a me, sobre todas carinhosa e desvelada, de
meus filhos.

Fica assim patente a razo, por que Pedro de Barcellos apparece na crte
de D. Joo II, e justifica-se o tratamento de primo, que Maria Thereza
lhe deu, no para desdenhar os seus requebros, mas para congelar-lhe os
enthusiasmos.




ERRATA

PAG. LIN. ONDE SE L LEIA-SE

3 27 pessue possue

51 14 _couto_ _conto_

100 4 _vasallos_ _vassallos_

103 2 ineperada inesperada

113 9 Torentino Florentino

121 30 pratimonio patrimonio

Nas pag. . Tro Toro

    [1] Canc. Gen.

    [2] Canc. Gen.

    [3] Hist.

    [4] Cames.

    [5] Ruy de Pina.

    [6] Ruy de Pina.

    [7] Canc. ger.

    [8] Misc., Garcia de Rezende.

    [9] Historico.

    [10] Historico.

    [11] Historico.

    [12] Historico.




Notas de transcrio:

O livro impresso continha no seu final, uma errata  impresso. Os erros
apresentados nessa errata, assim como pequenas gafes detectadas durante a
transcrio, e que no afectam o significado do texto, foram corrigidos
nesta edio electrnica. No foram deixadas marcas das correces
aplicadas.





End of the Project Gutenberg EBook of Pero da Covilhan, by 
Zeferino Norberto Gonalves Brando

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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

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effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
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works, and the medium on which they may be stored, may contain
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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