Project Gutenberg's Os jesuitas e o ensino, by Joo Pandi Calgeras

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Title: Os jesuitas e o ensino

Author: Joo Pandi Calgeras

Release Date: February 6, 2010 [EBook #31197]

Language: Portuguese

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                             J. P. CALOGERAS


                          Os jesuitas e o ensino




                              RIO DE JANEIRO
                            IMPRENSA NACIONAL
                                  1911




Algumas linhas premonitorias so necessarias para explicar a razo de
ser, em sua forma primitiva, desta reimpresso de nosso estudo sbre os
jesuitas e o ensino.

Destinado originariamente  _Revista Americana_, terminou sua redaco
antes de expedido o recente decreto federal, que reformou a instruco
publica. A este, portanto, no se podia referir.

A presente tiragem, embora posterior  Lei Organica, no apresenta um
texto modificado, no sentido de se pronunciar sobre o acto governamental.

No vae nesse silencio louvor, nem vituperio: assignala, apenas, a
insufficiencia do escopo. O novo Codigo encerra algumas medidas boas
quanto ao magisterio superior; outras, menos felizes, attinentes ao
chamado cyclo secundario, ligadas a providencias que se preconisam.

Emmudeceu sobre o estagio basilar, essencial, do ensino primario. No
ponto dominante do problema, o _punctum vitae_ da formao mental, os
moldes officiaes regrediram do que j estava conquistado, vencedoras
varias campanhas nesse rumo no seio do Congresso.

Desfalleceu nesse transe em mos do Govrno a causa da educaco nacional.

Sabedores de pedagogia diro as vantagens ou os inconvenientes das
normas recem-edictadas.

Todos os homens publicos, porm, cumpre ponderem as consequencias graves
do abandono em que contina o periodo primeiro da cultura intellectual.
Ahi se trata, no nos cancemos de repetil-o, do problema politico,
maximo entre os maiores, da elaborao do caracter brasileiro, com todos
os seus derivados na vida de nosso paiz, em seu govrno, nas solues
dos conflictos entre a intellectualidade e as crenas.

Esse ensaio de philosophia politica tentamos esboar nas paginas que
seguem.

Junho de 1911




INDICE

                                                                  Pagina.
          Preambulo                                                  III
          Indice                                                       V
       I--Fundao da Ordem. Suas tendencias                           1
      II--Criticas contra os jesuitas. Decadencia. Reorganizao      13
     III--Aspecto brasileiro do problema.                             25
      IV--Sobrevivencia das tradies do regimen imperial.
          Agnosticismo da Constituio republicana                    35
       V--Misso do Estado                                            47
      VI--Laicidade e ensino                                          57




I

_Fundao da Ordem. Suas tendencias_


No ha, talvez, exemplo mais flagrante de injustia collectiva do que a
reputao opprobriosa dos jesuitas. Feitas todas as reservas sbre seus
methodos de disciplina e sua casuistica, no haveria exaggro em dizer
que elles so os grandes calumniados da historia.

Razo de sobra tem Monod[1] quando nota que nunca se falou da
Companhia com serenidade e espirito imparcial, figurando sempre os
escriptos sbre ella em um dos dous extremos: a apologia sem limites,
nas obras da seus adeptos; o pamphleto sem critica, nas accusaes de
seus detractores. A verdade, a probidade scientifica e o amor  justia
parece estarem banidos de tal literatura.

E, entretanto, representam os discipulos de Inigo de Loyola um dos
factos mais importantes da humanidade, e nenhuma noo completa se pode
ter da evoluo das idas, da historia das religies, do progresso
intellectual e do surto moral do homem, sem estudar sua collaborao
continua, preponderante mesmo no seio do Catholicismo, no elaborar a
mentalidade das successivas geraes que regeram o Occidente a partir do
seculo XVI, e os conceitos dogmaticos definitivamente impressos no
clero, desde o Concilio Tridentino at o Concilio do Vaticano.

Tanto bastaria, entretanto, para investigar sua historia com o espirito
calmo e desprevenido de preconceitos que deve presidir  analyse dos
factos e dos elementos formadores da propria vida.

Quando, a 15 de Agosto de 1534, na capella de Montmartre, Ignacio e seus
seis companheiros lanaram as primeiras bases da sua associao, no iam
seus designios alm da converso dos musulmanos da Terra Santa. Si
fsse impossivel realis-la, elles se collocariam  disposio do Papa,
que lhes haveria de designar o modo por que pudessem salvar suas almas.

A ultima hypothese se verificou. De Veneza, onde se reuniram, j elevado
a dez o numero de socios, tiveram de tornar para trs em 1535, a
conselho de Paulo III, em vesperas de iniciar nova cruzada contra os
turcos, com o imperador Carlos Quinto e a Republica das lagunas.
Voltou-se ento Loyola para a misso interior, cuja necessidade, em
pleno schisma reformista, se lhe evidenciou to indispensavel e urgente
quanto a propaganda da f entre os incros.

Nesse anno, teve a Curia de estudar os estatutos da Companhia de Jesus.
F-lo com pouca sympathia, causando delongas, impondo restrices, e
somente em 23 de Setembro de 1540 a bulla, prophetica em muitos
sentidos, _Regimen militantis ecclesi_, confirmou a nova Ordem.

Era exclusivamente uma associao sacerdotal para a misso interior,
trazendo como caracterisco o voto especial de fidelidade ao Summo
Pontifice, a quem prestava obediencia incondicional, identica 
disciplina dos exercitos. Della se serviu desde logo Paulo III, como de
tropa auxiliar posta a seu dispr.

Sua primeira tarefa foi a converso das massas irreligiosas: plo
catecismo, para as creanas; plo tribunal da penitencia, para os
adultos; pla prdica, para a generalidade dos homens. Devia
salient-la, em tudo, seu zlo por obras inspiradas no amor do proximo,
applicando sempre a bella maxima do Fundador: Ser tudo para todos, afim
de merecer a confiana de todas as almas.

Breve alargou-se a esphera da propaganda. Francisco Xavier, primeiro de
uma legio de missionarios, foi evangelisar o Oriente.

A actividade intellectual e moral, e a promptido, bem como a habilidade
com que desempenhava suas incumbencias, grangearam  Ordem a inteira
confiana pontificia e tambem a da Curia, que, de principio, vira com
pouca f fundar-se uma congregao nova. Foi-lhe entregue a reforma de
conventos, onde a disciplina afrouxara.

Comearam seus membros de leccionar na Universidade Romana. Foram
enviados em misso de combate  heresia. Receberam, sem discutir,
encargos secretos de alta politica, incumbidos de sublevar a Irlanda
catholica contra seus soberanos ingleses, fautores do schisma, que os
varios _prayer-books_ evidenciavam. Seu prestigio, fama e valimento
subiram logo, tanto que foram jesuitas os theologos pontificios no
Concilio Tridentino, Lainez e Salmeron; jesuitas, ainda, os coadjutores
da misso que levou  Alemanha, como legado, o grande Cardeal Morone;
jesuita, sempre, o segundo apostolo da Germania, van der Hondt, o
immortal Canisius.

Cresceu sua reputao de saber: de toda a parte chegavam pedidos de
mestres que se incumbissem de reger as cadeiras das universidades. Em
seis annos, o ensino superior estava dominado pla Ordem, mas  preciso
lembrar que tal transformao de seu rumo primitivo no se dera por
iniciativa de Loyola, constrangido a ceder a pedidos de protectores da
nova associao. Acceitando a incumbencia, embora a contragosto,
organisou-a e deu-lhe, com a maior energia e habilidade, o cunho
especial que a caracterisa entre todas. Dahi resultou, plo successo de
seus fructos, um quasi monopolio do ensino em muitas regies catholicas
e mesmo em Estados protestantes.

Fram incalculaveis as consequencias da escola catholica dirigida por
elles em puro pas da Reforma. A ella se deve, em parte, a reconquista
romana nessas zonas que Roma j reputava perdidas.

Por um novo desvio de sua orientao primeira, ste jubilosamente
acceito por Ignacio, a Ordem encetou o combate extrenuo, sem treguas nem
transigencias, com o Protestantismo. Ao bispo de Modena, Morone, cabe
provavelmente a iniciativa da mudana de roteiro. Antes, e at 1552, a
lucta contra a heresia, a prdica dos jesuitas, fra obra individual de
cada um delles, ou imposta por ecclesiasticos de hierarchia elevada, ou
solicitaes de amigos da Ordem. A todas as tentativas se mantivera
extranho o Fundador.

Da ida  Allemanha, em 1542, como legado pontificio acolytado por
jesuitas, resultara em Morone a convico da necessidade de prgar a
contra-reforma nos pases infectados do virus lutherano, no com
sacerdotes latinos, mas com missionarios oriundos daquellas mesmas
regies. Dahi a fundao do Collegio Germanico, em Roma, clarividente
creao do Cardeal, mais do que de Loyola.

Loyola adoptou a ida, deu-lhe organisao genial e vasta, e considerou
a extirpao do rro protestante como alvo capital da aco jesuitica.
De 1554 data seu plano de campanha contra a Reforma, cujo alcance s
mais tarde os papas comprehenderam, plano applicado, sem falhas, a
partir de 1573, aps a remodelao feita por Gregorio XIII.

Para a duplice mudana nos intuitos primeiros de Santo Ignacio ao fundar
a Companhia de Jesus, em ponto nenhum tivera elle a iniciativa. Em ambas
as circumstancias, obedecera  ordem ou solicitao de influencias que
no pudera evitar: a Curia, os Wittelsbach, os Habsburg, Morone e alguns
bispos. Feita a mudana, applicou aos novos conceitos toda a sua
incomparavel qualidade de organisador.

A partir de 1555, pouco mais de vinte annos aps a fundao em Paris da
humilde sociedade de converso dos musulmanos, a transformao dera-se
inteira e absoluta, e as Constituies elaboradas plo vidente Navarro
davam  Companhia sua feio definitiva de congregao catholica
educadora e de Ordem militante anti-reformista. O alto ideal que
propugnava era a soberania do Papa e da f catholica.

Estes titulos houveram sido sufficientes para grangearem posio de
destaque no exercito monachal os admiraveis servidores da maior gloria
de Deus. Maiores titulos, entretanto, lograram pelos raros dotes no
cumprimento de sua misso, dados a poca em que surgiram e o partido que
abraaram na lucta, muita vez secular, entre os papas e os concilios.

Vinha a Europa trabalhada por fermentos de dissoluo religiosa. Luther,
Calvin e Zwingli, invocando a auctoridade dos Evangelhos contra a
doutrina romanista, ao mesmo tempo que, em nome da liberdade humana,
affirmavam os direitos da analyse individual, rebellavam-se contra as
crenas impostas e contra os abusos e os escandalos correntes na S
Apostolica. Taes escandalos forneceram o principal elemento de
propaganda do novo crdo, por entre populaes cansadas de exaces.

No proprio seio das potencias catholicas existia poderosa corrente
reformista, perigosissima mesmo para a inteireza do dogma, pois visavam
os novadores sanear a Egreja na cabea e nos membros, desde o supremo
poder pontificio at os ultimos ramusculos da frondosa hierarchia.

Era a submisso fatal do papado ao predominio conciliar, a pureza da
revelao sujeita s oscillaes das maiorias de assemblas deliberantes.

Tudo fz a Santa S para se oppor a tal descalabro. E si, em 1545, Paulo
III cedeu s reiteradas solicitaes de Carlos Quinto, e convocou, em
Trento, o grande concilio, do qual devia sair purgado o catholicismo,
fixado o dogma e extirpados os abusos, s o fez depois de assegurar-se
de auxiliares preciosissimos: os Habsburg, a crte portuguesa, os
Wittelsbach e, acima de tudo, a tropa de escol, que eram os jesuitas.
Esses, e esses to somente, eram inteira e absolutamente dedicados aos
intuitos da Curia, emquanto os demais estabeleciam condies.

No proprio Concilio, e apesar da condemnao preliminar da heresia
protestante, muitas sympathias encontrava a Reforma quanto s Santas
Escripturas, ao peccado original,  justificao pla f; o
Augustinianismo ainda possuia fortes adeptos. Triumphou Lainez, obtendo
da assembla oecumenica a confirmao da doutrina escolastica medieval
sbre a justificao, rechassada a de Santo Agostinho.

A Frana e a Allemanha exigiam concesses gravissimas--casamento dos
sacerdotes, communho sob as duas especies, uso da lingua vulgar na
liturgia, reforma dos conventos, e, principalmente, reforma do proprio
Papado. O Cardeal Morone, diplomata habilissimo, que soube mudar as
disposies do Imperador Fernando I, pde evitar que as exigencias
tivessem satisfaco, com grave prejuizo para a unidade da Egreja.

Expor, sem restrices nem refolhos que os prelados-diplomatas tinham de
observar para se no tornar irreductivel a opposio; expor o ponto de
vista integral da Curia, do Papa, de seu Geral: a infallibilidade papal,
a supremacia absoluta do Summo Pontifice sbre os bispos, sua
superioridade sbre as potencias terrenas--foi a tarefa do jesuita. Este
progamma ecclesiastico-politico Lainez defendeu com singular elevao e
videncia, e a Companhia sempre propugnou t o triumpho definitivo no
Concilio do Vaticano, em 1870, mais de trs seculos depois de
inicialmente formulado.

Desde Trento, Catholicismo e Companhia de Jesus so inseparaveis,
estreitamente e indissoluvelmente unidos seculos afora.

Era fatal a preeminencia dos jesuitas na hierarchia catholica, amigos
dos momentos difficeis, defensores abnegados at o sacrificio, heroes de
uma lucta sem tregoas a bem da Egreja.

E si esta era a rota seguida por elles no seio da catholicidade, aco
por assim dizer intrinseca, nenhum esfro poupavam, antes
prodigalisavam seu labor para chamarem  grey as ovelhas desgarradas, e
assegurarem o predominio dos principios por elles proprios abraados e
defendidos. E era logica e inevitavel tal orientao, ultimo e
definitivo rebento do espirito monachal, em sua lenta evoluo, desde os
solitarios da Thebaida e os stylitas at a admiravel florao mystica,
fraternal e humana, que eram os filhos de Francisco de Assis.

Facil seria traar os pontos capitaes dessa curva ascendente, visando os
mais altos fins altruistas da salvao das almas e da caridade christ:
do eremita, ou da colonia de eremitas, onde se busca a sanctificao
individual, ao mosteiro, no qual o amor fraterno se impe egual ao alvo
da perfeio subjectiva.

O isolamento primitivo dos monges foi dentro em breve substituido por
sua progressiva subordinao s exigencias da Egreja. Primando sbre
tudo, no conceito monachal, o ascetismo tende progressivamente a ceder a
primeira plana s obras praticas de amor ao proximo, de caridade
secular. E, em ambas as ordens de idas, no adoravel _Poverello_ de
Assis, encontramos o exemplo que Inigo seguiu com submisso absoluta e
intuio genial: na obediencia passiva, que o _perinde ac cadaver_
jesuita copiou literalmente do Santo Stigmatisado; na obra social, que a
Companhia de Jesus desenvolveu seguindo o rumo das Ordens mendicantes.
Dest'arte, ao clero secular vieram trazer concurrencia formidavel as
novas associaes monasticas, que dentro em pouco comprehenderam ser sua
misso principal a prdica e a salvao das almas.

A esses meios de agir sbre a massa dos crentes, accrescentaram os
jesuitas a funco educadora, em grau mais alto e mais perfeito do que
seus antecessores, a ponto de serem quatro quintos de seus membros ou
professores ou estudantes. O successo de seus methodos pode avaliar-se
plo numero de alumnos, que, em 1660, Bhmer calcula ter sido de 150.000.

A _Ratio Studiorum_ do Geral Claudio Aquaviva, redigida em 1599, e antes
as regras pedagogicas de Ignacio, resumiam as experiencias do Collegio
Romano; no traziam ideal novo de ensino, mas introduziam na escola o
que se julgava incarn-lo.

Alm disso, cuidavam os jesuitas muito de polir as maneiras de seus
discipulos, afeioando-os  vida em meios mais cultos do que o da
maioria de seus alumnos. Davam gratuito o ensino. No sobrecarregavam
programmas com os rudimentos de grego, hebraico, arithmetica e
geographia, que figuravam na escola protestante; os castigos corporaes
eram rarissimos; a doutrina religiosa tambem lhes era extranha,
reservada antes ao confissionario.

Por outro lado, a emulao, talvez levada ao exaggero, e a delao mutua
systematisada mantinham em constante exercicio o cerebro dos estudantes.
A proteco da Companhia acompanhava seus filhos espirituaes pla vida
afora. Assim, por esse conjuncto de circumstancias e pela superioridade
de suas escolas sbre as demais, at meiados do seculo XVII, foram
preferidas plas familias catholicas, e mesmo, como o provam os annaes
dos collegios, pelos proprios protestantes.

Orientada a formao intellectual para a uniformidade, para a obediencia
s regras preestabelecidas,  natural que as iniciativas ahi rareassem e
que produzissem taes normas a subordinao confissional. O methodo, um
dos mais poderosos meios de dominio usados pla Companhia, perdurou at
que, do espirito analysta, brotaram typos pedagogicos mais elevados, que
desthronaram aos poucos a escola jesuita.

A direco das consciencias na vida real completava a obra iniciada pla
escola.

No era usual, at o seculo XVI, a confisso frequente dos fiis. S em
momentos de grande afflico, em circumstancias particularmente
solennes, se approximavam do tribunal da penitencia. Mas, quando se
desenhou a tendencia de fazer do confessor o assistente moral, o
conselheiro sempre ouvido do christo, ninguem mais do que Loyola
preconisou e fomentou a evoluo, na qual via um dos melhores meios de
combater o peccado. Dentro em pouco, o jesuita confessor gosou de fama
egual  do professor jesuita, e tanto quanto a cathedra e a grammatica
latina, diz Bhmer, poderia o confissionario symbolisar a Companhia.

Extraordinario exito colheram como directores, principalmente pla
indulgencia que revelavam, pla extrema restrico que impunham ao
conceito de peccado mortal, plo ambito correspondente que davam  noo
de peccado venial, ao complexo de cousas licitas. Dsse laxismo ao
desapparecimento dos sos principios da moral, havia um passo, facil
e rapidamente transposto pelos casuistas; alis a Ordem, por mais de uma
vez, repudiou toda solidariedade com estes ultimos. Mas a area de
tolerancia era vasta, e em tempos perturbados como o periodo das guerras
de religio, naturalmente preferiam-se os directores de consciencia mais
cordatos.

Assim, a contragosto da Ordem, e mesmo contra suas indicaes, se viram
alguns de seus membros forados a acceitar cargos e encargos junto a
principes e reis.

Na situao especial dsses sacerdotes, era-lhes impossivel evitar a
politica, pois pla direco da consciencia rgia fatalmente teriam de
pesar actos, intenes e planos dos governos. E redobrou a intensidade
do influxo quando, em Frana, a partir de 1670, tiveram de desempenhar
funco analoga  dum ministerio dos cultos moderno. Em numerosos casos
intervieram no sentido das solues preconisadas pla Ordem: attestam-no
as guerras suspensas pla paz da Westphalia, a revogao do edito de
Nantes, a perseguio ao jansenismo e tantos outros fastos da historia.

A influencia da Companhia, emquanto se manteve forte, s e disciplinada,
s podia exercer-se em sentido nocivo aos interesses nacionaes dos
differentes povos.

Associao essencialmente internacional, com o caracteristico de
verdadeira milicia papalina, s lhe era licito pensar e agir como at
hoje age e pensa a Egreja--em conjuncto e impessoalmente--alheia a
fronteiras politicas, pois no ha patrias nem differenciaes nacionaes
para as almas de que cura o Catholicismo.

Universal em sua essencia e em sua manifestao,  Egreja como
responsavel pla salvao das almas, tanto quanto ao jesuitismo, seu
meio de aco, era e  vedado raciocinar sob a presso de limitados e
estreitos interesses regionaes.

Dahi frequentes conflictos entre o papel politico do confessor regio e
seu dever religioso: sentimento nacional de um lado, exigencia do
principio internacional do outro. Nunca tolerou a Ordem, emquanto viveu
o espirito que presidira  sua fundao, qualquer subordinao de seu
escopo universal s conveniencias dos governos locaes, a quem,
entretanto, lealmente procurava servir. Nisto residiu sua fra por
largos annos. A decadencia comeou quando os jesuitas se afastaram de
sua origem.

Durante longos prazos, por trs generalatos, pde a Companhia manter-se
essencialmente hespanhola, e s se disseminou na Italia, graas 
profunda hespanholizao da peninsula apenina. Em 1581, eleito Preposto
Geral o astuto napolitano Claudio Aquaviva, aps a curta presidencia do
belga Everardo Mercurin, grande foi o desgosto na provincia iberica por
ver passar definitivamente para outras terras a direco que, desde
Ignacio, se mantivera privilegio seu. A revolta manifestou-se por
tentativas de reformar a Regra, fazendo desapparecer a autocracia creada
por Loyola, dando-lhe como succedaneo uma sorte de federao, na qual as
provincias, pelo menos a Hespanha, fssem governadas por vigarios geraes.

J era outro, no o do Fundador, o espirito da Ordem, onde taes
insurreies contra a obediencia passiva se podiam manifestar. Logrou
Aquaviva annullar todas as tentativas, at que Clemente VIII ordenou a
reviso das Constituies. Ainda assim, conseguiu afastar da Congregao
geral os elementos dyscolos, entre elles o celebre Mariana, chefe da
conspirao. A assembla da Ordem, no encontrando como censurar
Aquaviva, aps inquerito por ste solicitado, deu-lhe ganho de causa e
permittiu fsse o director effectivo das deliberaes collectivas. Tanto
valeu impedir quaesquer alteraes da Regra; e as proprias corrigendas,
impostas plo Papa, resultaram inefficazes.

Mas, para manter inflexivel a disciplina e consolidar a victoria da
Regra de Santo Ignacio nas mos de Aquaviva, fra mister se seguissem no
generalato homens da mesma tempera e de habilidade egual  dsse
extraordinario jesuita, vencedor a um tempo de Felippe II da Hespanha,
da Inquisio e de Clemente VIII. Foi, porm, eleito seu successor o
_Anjo da Paz_, Mutio Vitelleschi, meiga creatura, que solicitava ou
aconselhava quando devera ordenar. Sentiu-se immediato o resultado da
falta de energia na direco da Companhia, e dentro em poucos annos a
autocracia foi cedendo o logar a uma oligarchia composta dos mais
graduados jesuitas, dos provinciaes, dos chefes das casas professas.
Relaxado o lao disciplinar, a dissoluo da Ordem se manifestou em
todos os ramos. O voto de pobreza foi illudido, feitas as doaes no
mais  Companhia, mas a determinados estabelecimentos, dos quaes o
outorgante se tornava administrador. A gratuidade do ensino mantinha-se,
mas os educandos se recrutavam nas classes abastadas, afim de
offerecerem compensaes as dadivas das familias. O voto de obediencia
ao Papa mal podia ligar quem desrespeitava a hierarchia ferrea
instituida por Loyola.

A sociedade de Jesus entregou-se ento ao commercio,  industria, aos
negocios bancarios,  usura. De todos os lados chegavam ao Geral queixas
da avidez de seus soldados, da sua ganancia no commercio e na captao
de riquezas.

Entregues a tal dissoluo de costumes e a taes desvios de seu ideal
primitivo, no podiam os chefes da milicia dominar de muito o nivel
mdio dos commandados. Comeou ento a serie de superiores frouxos,
sybaritas, gosadores, descuidados da vida interior para s curarem dos
proventos de cargos, onde as divicias abundavam. Quando apparecia um que
outro Goswin Nickel, ou Gonzlez de Santillana, o poder usurpado pelos
membros da Ordem e o relaxamento da Regra no permittiam a aco
saneadora do Geral.

Desappareceu assim a seriedade com que se entregaram  sua primitiva
misso. O ensino ankylosou-se nas formas antigas. Novos methodos surgiam
para satisfazer a necessidades novas, e a nada os jesuitas attendiam,
mantendo, immutaveis, normas j envelhecidas. Onde os seminarios
obedeciam  sua inspirao, a ignorancia do clero avultou. Nem mais o
monopolio da instruco conseguiram manter, e de todo lado surgiam com
os novos ideaes pedagogicos, novas escolas, novos programmas.

Phenomeno analogo se notou na economia da Ordem dentro na Egreja, no
dogma que defendiam: e viu-se ento jesuitas acompanhando o gallicanismo
do govrno de Luiz XIV e escrevendo contra a infallibilidade papal e a
supremacia do bispo de Roma. Em 1687, foram condemnadas taes obras a ser
queimadas por mos do carrasco.

Intolerantes em sua misso, quando encontravam concurrentes de outras
congregaes, despertavam rancores extremos por parte das Ordens mais
antigas, s quaes offendiam e perseguiam, tratando-as com menospreo. Do
mesmo modo agiam com as auctoridades ecclesiasticas, baseados nas bullas
de Paulo III e seus successores at Gregorio XIV, que lhes asseguravam o
privilegio de terem como chefe directo o papa e no dependerem do
ordinario local, e lhes conferiam faculdades quasi illimitadas.

Em suas controversias, eram tenacissimos na argumentao e nos meios
postos em pratica para fazer triumphar a todo transe suas convices.
Defendendo as theses da Egreja, no conheciam limites a seus esforos.
Quando seu ponto de vista discordava da opinio da Curia, sabiam ameaar
e fazer presso sbre o Papa, acenando-lhe com a convocao do Concilio
Oecumenico. Foi prova eloquente disto a attitude dos jesuitas na sua
longa disputa com os dominicanos de Hespanha sbre a doutrina da graa;
avocada a disputa perante a Curia, o Papa inclinou-se para a these
dominicana, e os jesuitas tanto ameaaram que Clemente VIII falleceu,
sem ousar contrariar a poderosa Companhia.

Era natural que taes falhas lhes augmentassem o numero de desaffectos, e
que, baseados nellas, se congregassem inimigos para mover guerra  Ordem.

No ser exaggero lembrar que no seculo XVII, a opinio da Frana
dictava a lei para a Europa. E nesse pas, exactamente, a lucta se
desenhou com mais intensidade e maior odio. No eram somente as
congregaes rivaes, humilhadas, que revidavam golpes antigos. Eram os
adversarios da primeira hora, tambem: o Parlamento e a Universidade--as
duas maiores auctoridades no direito e nas letras,--que nunca haviam
desarmado e agora renovavam seus ataques.

Era ainda o jansenismo, que os jesuitas haviam perseguido por suas
sympathias augustinianas e pla grande acceitao encontrada nas
espheras mais cultas e mais altas da sociedade francesa; era o
jansenismo que, por intermedio de Pascal e de Port-Royal, lhes
perturbava a vida com fundadas e terriveis criticas moraes e religiosas.

Por mais que a Curia lhes viesse em auxilio, e embora a bulla
_Unigenitus_ censurasse officialmente a nova philosophia religiosa,
ficou o fermento da analyse, e, em segrdo, nas almas mais elevadas, um
espirito novo ia formulando novas exigencias de vida em uma doutrina que
a Companhia porfiava por manter immutavel, rigida e hieraticamente
amortalhada nos actos Tridentinos. E era logico e inevitavel assim
procedesse, tal a fatalidade de origem e de misso da milicia pontificia
creada por Ignacio.

Por sua vez, o influxo protestante, to cruelmente combatido pela Egreja
militante, vingava-se, pondo em confronto seus methodos de ensino e
suas possibilidades philosophicas com a escola, j em franca decadencia,
dos jesuitas, e a paralysao intellectual decorrente de sua pedagogia.

A par do declinio da Ordem, exaggerando vicios e falhas consecutivos ao
abandono da primitiva Regra, alava-se e fructificava o espirito
analytico progressivamente predominante nos meios cultos. E, dentro em
pouco, somente o rei e algumas altas auctoridades ecclesiasticas
defendiam os jesuitas, formidavelmente guerreados pelos mais puros
representantes da intellectualidade e dos sentimentos religiosos da Frana.

Que uma causa geral--a decadencia do Instituto pelo desrespeito s
Constituies de Loyola--agia para precipitar a crise, nenhuma duvida
pode suscitar, pois queixas identicas, exprobaes eguaes se faziam
ouvir em todos os pases.

No foi a Frana quem primeiro supprimiu a Ordem, em suas fronteiras:
foi Portugal em 1759. Mas, em menos de dez annos, a medida se tinha
generalisado, e de todos os governos tinham emanado os actos de expulso
nos respectivos territorios: em 1763, em Frana, aps o escandaloso
processo Lavalette, que foi o processo da Ordem, a vingana do
Parlamento, da Universidade e de Port-Royal; em 1767, na Hespanha, em
Napoles e na Sicilia; em 1768, em Parma e Malta.

Culminou a reaco com o breve de 1773, de Clemente XIV, deferindo as
reclamaes de todos os Bourbons--de Frana, Hespanha e Sicilia--e
ordenando a completa e total suppresso da Companhia de Jesus.

Nos pases acatholicos, na Prussia e na Russia, junto aos principes mais
louvados pelos philosophos, Frederico e Catharina, os jesuitas
encontraram abrigo contra a intolerancia, reinante nos arraiaes de seus
adversarios. Assim mesmo, pouco durou a proteco prussiana, pois em
1776 tiveram de abandonar aquelle Estado e de refugiar-se na Russia,
onde aguardaram sua reorganisao e seu restabelecimento.




II

_Criticas contra os jesuitas. Decadencia. Reorganizao_


Era immenso o acervo de servios prestados pelos jesuistas ao
Catholicismo, fssem quaes fssem os desvios posteriores.

A misso exterior tinha fundado imperios nas reduces paraguayas,
estabelecido colonias christs no Congo africano, onde Livingstone achou
tribus que delles tinham apprendido a ler e a escrever. Na selva
amazonica, no extremo-oriente, nos grandes lagos canadenses, na India
central, na Malasia, em toda parte a roupeta do jesuita testimunhava o
ardor apostolico da Ordem e seu incansavel zlo na lucta contra os infiis.

A misso interior reconquistara para a orthodoxia mais de metade dos
pases j dominados pla Reforma. A Frana permaneceu a filha
primogenita da Egreja, e coroou seu esfro anti-protestante pla
revogao do edito de Nantes, em 1685. A Allemanha e a Austria, de quasi
inteiramente adhesas a Luther e Melanchton, dividiram a meio os
territorios confissionaes. Na Italia, toda heresia pereceu. E em todos
esses logares, os grandes triumphadores foram os jesuitas, e a elles se
deve a reintegrao no gremio da f das regies contaminadas.

 Egreja prestavam o incomparavel auxilio de sua voz e de seu esforo
incessante, com o fito de lhe manter com inteira pureza, nas grandes
Assemblas do Catholicismo, seu duplice caracteristico essencial de
doutrina fundada na revelao e na auctoridade, livrando-a do virus
dissolvente e lethal do parlamentarismo conciliario.

Ao espirito humano permittiram, pla resistencia victoriosa s
tendencias fragmentadoras da Reforma, evoluir e crescer em um ambiente
regido pla disciplina mental, impedindo assim disseminao improficua
plas innumeras orientaes individuaes, incapazes, naquella phase
historica, de produzir o esfro collectivo necessario ao progresso
ascensional da humanidade.

Deante de to grande benemerencia para a Egreja, e tambem para o
pensamento social, como explicar os odios, leigos e religiosos, que a
Companhia desperta, a ponto de seu nome ser correntemente usado como
synonymo de hypocrisia, astucia malfazeja, ganancia e falta de escrupulos?

Psto de lado o fructo da campanha de malquerena das Ordens mais
antigas, supplantadas pelos jesuitas, persiste ainda a formidavel mole
de accusaes movidas por seus adversarios, philosophos e protestantes,
governantes e governados, clero e povo. Cedo teve inicio a grita, e
foi-se repetindo e propagando, hauridas as censuras principalmente no
immortal pamphleto das _Provinciales_, de Pascal, nos _Extraits des
assertions_ publicados plo Parlamento de Paris por occasio do processo
Lavalette, no _Discursus de erroribus qui in forma gubernationis
Societatis Jesu occurrunt_ do celebre Mariana, e na audaciosa fabula das
falsas _Monita Secreta_. Citadas taes fontes, de parcialidade absoluta
contra as regras de Santo Ignacio,  obvia a suspeio das criticas que
nellas encontram assento.

Ha, em Pascal, a par de insufficiente conhecimento das _Constitutiones_,
intuio admiravel de certas tendencias da Companhia. A sua obra,
entretanto, reuma por demais o mal contido rancor do jansenista
perseguido, e a lucta de Port-Royal contra a orthodoxia official.

As _Assertions_ so verdadeira obra de m f. A longa hostilidade com a
Companhia permittiu  magistratura de Frana enxergar nos abusos do
padre Lavalette, na Martinica, uma occasio de se vingar da Ordem,
aproveitada com pouca lealdade. As respostas dos jesuitas, mostrando a
improcedencia, a inexactido dos assertos da publicao parlamentar,
enfraqueceram, quasi annullaram o valor do libello.

O livro do padre Mariana, que no ousou public-lo em vida,  o reflexo
do espirito particularista das provincias ibericas, especialmente da
Hespanha, quando esta, descontente com a eleio de Aquaviva para Geral
de uma Ordem at ento preponderantemente hespanhola, quis attenuar a
auctoridade incontrastada do superior e dar certa autonomia s
circumscripes nacionaes. Para isso, teve de escrever o processo
accusatorio da concentrao de toda a vida no cabea da Companhia, e a
regra de fiscalisao mutua, descambando na delao constante, vigente
entre seus membros.

O caso das _Monita Secreta_  de audacia inaudita. Quiseram os
adversarios da Sociedade de Jesus attribuir seus triumphos e seu
enriquecimento a uma regra secreta, que se contrapunha ao admiravel
_Institutum Societatis Jesu_, e em virtude da qual se tornava conducta
commum ou normal exactamente o que mais se exprobava, como abuso e
crime, a seus membros. Ora, uma associao de poderes concentrados como
essa, uma monarchia dirigida pelos conceitos de um homem s, na phrase
de Gregorio XIV, sociedade cuja fra residia na permanencia immutavel
das regras dadas plo Fundador, no precisava de doutrina secreta; antes
soffreria com o conflicto fatal entre a massa dos fiis do credo publico
e o pugillo de iniciados na norma esoterica.

Nos lustros que precederam a guerra de Trinta Annos, e mais tarde no
periodo que viu surgir o celebre edito de Restituio, que generalisou a
questo e desencadeou a procella, veiu a lume uma literatura de
pamphletos, visando os pontos de vista antagonicos dos contendores
religiosos, e combatendo ou defendendo os jesuitas, justamente
considerados os representantes directos do pensamento pontificio,
norteado plo restabelecimento da unidade da f nos pases de Reforma, e
pla attribuio de meios assecuratorios da manuteno do culto. Pessoa
profundamente conhecedora do _Institutum_, um jesuita renegado talvez (e
foi citado, sem provas embora, o nome de Hyeronimus Zahorowski), fz
circular, a principio, copias manuscriptas, e, a partir de 1614, a
edio de Cracovia das _Monita privata Societatis Jesu_.

Era a deformao, systematicamente pejorativa, dos principios prgados e
postos em practica pla Companhia. O protesto de todas as auctoridades
maiores fez-se ouvir, mas a malquerena contra a Ordem, junto  analogia
de trechos entre a regra verdadeira e a contrafaco pamphletaria, deram
curso  plausibilidade da verso de duas doutrinas, publica uma e
clandestina a outra, e reforaram o ambiente de malevolencia j existente.

Hoje em dia, nenhum historiador serio liga importancia a tal calumnia.
Na poca em que se divulgaram, as _Monita_ foram arma do mais alto valor
contra a Companhia.

Do conjuncto de criticas e de invectivas, ficava, entretanto, um
residuo, que parece ter sido justo, commedido e exacto, pla inteira
conformidade com as normas estabelecidas por Loyola.

A piedade, no conceito dos jesuitas, tornava-se exercicio automatico,
gymnastica intellectual, visando subordinar a consciencia  direco
exterior,  letra dos casuistas, dando primasia absoluta a uma virtude
unica--a obediencia--, e esta nas suas trs manifestaes dos actos, das
vontades e das intelligencias. Era o _perinde ac cadaver_.

O ensino proprio e o alheio, no dizer de Macaulay, eram levados at onde
podia comport-lo a cultura, sem que degenerasse em emancipao
intellectual.

Na direco das consciencias, o laxismo ia to longe que os casuistas
jesuitas, hespanhoes em sua maioria, sendo, entretanto, em geral, homens
de moral inatacavel, permittiram se firmasse a convico erronea de
haver uma moral peculiar  Ordem, ethica na qual as distinces subtis,
o abuso da restrico mental, a latitude do conceito de peccado venial,
o conceito estrictissimo de peccado mortal, a arguta acrobacia da
direco de inteno, tudo eram outros tantos factores para se accusar a
Companhia de hypocrita, de protectora dos peores desvios, de
accommodaticia para com as mais graves aberraes.

A politica, dirigida por elles, no mais collimava altos designios
nacionaes. Orientava-se plas conveniencias internacionaes do
Catholicismo e da Ordem, e, em geral, arruinava os pases que a
acceitavam. Assim, a intima ligao dos jesuitas com o legado pontificio
Chigi durante longo tempo difficultou a pacificao da Allemanha na
guerra de Trinta Annos, mau grado os immensos prejuizos que dahi
decorriam para os povos conflagrados. O fanatismo do partido catholico
era aulado pla Ordem, para o fim de, em virtude do principio de
applicao usual _cujus regio, ejus religio_, se obterem converses em
massa na redistribuio de provincias protestantes por principes adhesos
 Egreja.

O empobrecimento moral e material da Frana foi consequencia da
revogao do edito de Nantes, triumpho assignalado da Companhia na sua
campanha contra os reformados.

O despovoamento da Bohemia seguiu-se  victoria austriaca sbre o
elemento tcheque, e em dezenas de milhar se computaram as familias
expulsas de suas antigas casas, graas  applicao inexoravel do
plano de saneamento confissional ideado pelos jesuitas Lamormaini e
Philippi.

A Polonia foi victima da interveno politica continua da congregao.
Em Portugal accelerou a decadencia de um pas que se exhauria em
tentativas coloniaes desproporcionadas com seus recursos em homens e
meios materiaes. Felippe II deu o primeiro golpe e o mais funesto na
grandeza e no poderio da Hespanha, mas os desastres que se seguiram
revelaram o influxo deleterio da Sociedade de Jesus.

E, com esses, outros exemplos poderiam ser citados, que justificariam o
conceito de Monod: Sempre que os jesuitas exerceram aco
preponderante, na Austria, na Bohemia, na Polonia, nos pases latinos,
seu reinado foi acompanhado do empobrecimento economico e da decadencia
intellectual.

Tal correlao, junta s consequencias do progressivo desvio da
Companhia da primitiva regra de Ignacio, tem sido mal interpretada plo
vulgo, e a tudo--males advindos s sociedades civis, enriquecimento
desmedido das casas da Ordem, enfraquecimento moral das consciencias
regidas plo _distinguo_ da casuistica, nivel abastardado do ensino pla
pedagogia auctoritaria--a tudo se ligava a preveno de assim agirem os
filhos de Loyola com o fito de tudo destruir para sbre os escombros
edificar o imperio de sua propria Associao, garantindo liberdade plena
para seus membros e impondo submisso aos demais viventes, polvo sombrio
a sugar a vida da collectividade.

 esse o reflexo das luctas a que j nos temos referido, mais uma prova
de quo pouco influem raciocinio e calma nas correntes sentimentaes da
multido.

Nenhuma doutrina fundamentalmente damninha ou immoral--contraria ao
interesse collectivo, em summa--, pode duradouramente predominar, pois a
convergencia espontanea de tendencias superiores, e socialmente
vantajosas, elimina aos poucos a tendencia regressiva que qualquer
doutrina representa.  o que se teria dado com os jesuitas, si
verdadeiras foram as accusaes que lhes moviam seus adversarios.

Um dstes, porm, e dos mais intelligentes, Voltaire, bem os defende de
taes increpaes, quando pondera: Nenhuma seita, nenhuma sociedade
teve jamais ou poder ter o intuito preconcebido de corromper os homens.

No seu afan de salvar eternamente as creaturas, de ser tudo para todos,
para ganhar a confiana de todas as almas, no tinham remedio os
discipulos do Navarro immortal sino multiplicar os pontos de contacto
com o seculo, afim de se insinuarem em todas as classes e em todas ellas
dirigirem a vida, collimando a eternidade.

Toda convico profunda, principalmente em se tratando de problemas
sociaes,  operante em sua essencia.

E desde que, contra as determinaes primeiras do Fundador e mau grado a
reserva imposta pelas assemblas da Ordem, se viram arrastados 
direco de consciencias rgias, a interveno dos jesuitas na politica
era fatal e inevitavel, e fra illogico suppor que tal se desse,
contravindo os fundamentos da associao: predominio absoluto das
conveniencias religiosas sbre todas as consideraes terrenas; aco
internacional de seus membros ao envs das exigencias das
collectividades nacionaes, lembrados de que universal  a Egreja e sem
limites o Verbo-Divino; noo de humanidade contraposta  de patria. E
s traram tal misso os jesuitas, quando se accentuou a decadencia da
Companhia.

 possivel que no tribunal da penitencia, em uma pocha agitada como
foram o seculo XVI e o seguinte, quando as consciencias viviam
perturbadas por paixes terriveis e actos de violencia,  possivel que a
tolerancia e a benevolencia fssem dictadas em parte plo dever politico
de attrahir o maior numero de fiis, certos como estavam os socios de
Santo Ignacio da superioridade de sua aco, de seu triumpho final no
bem e na pureza. Mas, por certo, nem foi o movel unico de sua
actividade, nem, talvez, siquer o mais valioso.

Era velha a lucta entre a severidade e a indulgencia nos fastos da
Igreja, e encontrava forma remota no contraste entre as imprecaes de
Isaias e de Ezequiel e a meiguice de Christo.

Fora da Sociedade encontravam-se laxistas. E, no seio della, a subtileza
na analyse dos determinantes do acto culposo procedia essencialmente do
amor ao proximo, que procurava encontrar attenuantes da falta, nem s
restringindo os casos graves, passiveis de fulminao capital, como
alargando a noo de venialidade.

Mas o que mais contribuiu para crear a fama depreciadora da moral
applicada pla Companhia, foram as obras de theologia de Escobar,
Busenbaum, Laymann, Snchez e outros, onde os mais escabrosos casos
vinham estudados e attenuados  luz de distinces de tal subtilidade,
que se pde sustentar ser permittida pelos jesuitas a pratica de todos
os peccados.

O rro, entretanto, era duplice.

Nem s taes obras no aconselhavam pratica alguma, apenas estudavam
faltas j commettidas (o que  essencial no julgamento do alcance moral
dos compendios). Visavam, alm disso, guiar e instruir o director de
consciencias em circumstancias espinhosas, procurando prever todos os
desvios possiveis (e nisto residia grave cinca) e apurar, para cada um,
o grau de responsabilidade e de culpa do delinquente. No sem razo
foram considerados verdadeiros manuaes do direito penal ecclesiastico,
inteiramente comparaveis  literatura penal moderna; ambas destinadas
aos juizes e aos philosophos, aos auctores nunca se devia accusar de
provocadores da realisao de crimes que infringissem a lei vigente. E,
entretanto, essa censura fez-se aos casuistas...

No nos occupamos dos desvios excepcionaes dste ou daquelle membro da
Ordem: o juizo formulado abrange a esta em seu conjuncto.

Tanto o influxo politico da Ordem, como suas normas ethicas, postos de
lado os abusos, nada tinham de systematicamente contrario  moral.

Eram conceitos antagonicos que se degladiavam: um, puramente religioso,
internacional e superior s cousas do mundo, tudo subordinava s
exigencias oecumenicas da Egreja; outro, admittia a iniciativa
individual, mesmo no exame da lei revelada, circumscrevia-se aos limites
de uma patria, no reconhecendo superioridade alienigena, pois ao
proprio poder proclamava como dimanando directamente de Deus, e
resultava do espirito de analyse favoneado pla Reforma, das
conveniencias nacionaes, do individualismo avido de se fortalecer.

Seria a escola, fatalmente, a arena da contenda, pois ahi se formaria a
mentalidade das novas geraes de combatentes.

De um lado, a escola jesuita, baseada na auctoridade dos textos,
contando, antes que aquilatando, os testimunhos e as opinies,
immobilisada nas noes pedagogicas do seculo XVI, impermeavel s
novas correntes intellectuaes, nada concedera s exigencias novas da
nova phase social.

De outro lado, a escola regida por protestantes ou imbuida do espirito
philosophico, de jansenismo ou de outros matizes mentaes, favorecia
iniciativas, cultivando o _eu_, prgando a liberdade.

Contrape-se o surto individual  obediencia passiva, a exuberancia de
movimento  immobilidade hieratica, obra de vida opposta  rigidez da
morte.

Estas mesmas virtudes, entretanto, que levavam o pensamento emancipado a
augmentar a intensidade da existencia plo auxilio prestado s foras
animadoras de suas proprias fontes, em seu nascedouro intellectual;
essas mesmas virtudes aconselhavam  Egreja, tradicional e voltada para
o passado, proteger as instituies que to leal e fielmente traduziam
seu modo peculiar de encarar e solver o problema capital da salvao das
almas. Catholicismo e jesuitismo, no bom sentido do termo, estavam por
demais unidos, intimamente ligados, como a essencia e uma das suas
manifestaes, para que pudessem perennemente estar divorciados. Era
inevitavel cessasse o dissidio. Pouco durou, de facto: apenas o
pontificado de Clemente XIV.

No fra, porm, inteiramente innocua para a disciplina da Ordem a
resistencia  bulla de suppresso.

O nucleo de socios que se haviam revoltado contra a deliberao
pontificia e tinham encontrado proteco junto a principes acatholicos,
violara francamente o voto de obediencia; e, em sociedades fortemente
organisadas, como a Companhia, as brechas na muralha da disciplina so
pontos fracos por onde irrompem todos os abusos.

Bem se viu quanto fra prejudicial a infraco da Regra, quando,
restabelecida a Ordem plo breve _Sollicitudo omnium_ de Pio VII, em
1814, tiveram os Geraes de luctar contra a insubordinao de varios dos
seus soldados. S por 1820, restabelecida a sde no Ges de Roma, pde o
Geral Aloysio Fortis sanear a Companhia e novamente impor-lhe a
primitiva obediencia.

Felizmente para a Sociedade, coube-lhe a fortuna de eleger uma serie de
Geraes notaveis, capazes de comprehender a nova situao social e de
agir de acordo com ella. Philippe Roothan foi o maior de todos, mas
sua obra foi dignamente continuada por Beckx, Anderledy, Martin e Wernz.

Constitue honra altissima para a Sociedade de Jesus o apgo invencivel
s Constituies de seu Fundador. Nas maiores difficuldades e provaes,
nunca quiseram apartar-se dellas e sempre as consideraram intangiveis.
Quando consultado plo Papa sbre modificaes da Regra, que evitariam a
bulla de suppresso da Ordem, respondeu o Geral Ricci, que bem sabia as
agruras decorrentes de sua resposta e morreu preso no castello
Sant'Angelo: _Sint ut sunt, aut non sint!_ Com taes precedentes, a
reorganisao levada a cabo por Philippe Roothan e seus successores no
podia visar modificaes de essencia: crearam, apenas, novos modos de
agir, sempre de acordo, entretanto, com o intuito primeiro de Inigo.

Roothan evitou empresas directas de aco catholica, fora dos quadros da
Curia. Em compensao, redobrou de esforos junto a esta, e, por seu
intermedio, ps em practica suas normas de dominio universal das
consciencias. Cada vez mais augmentou seu valimento juncto  hierarchia
ecclesiastica. Egrejas nacionaes no podiam mais subsistir, e, em Roma,
as mais altas auctoridades acceitavam plenamente o influxo e a
collaborao intelligente do jesuita.

Tanto bastava para tornar predominante o pensamento de Loyola nas
deliberaes do clero.

Dentro em pouco os factos vieram provar a valia de sua voz: Affonso de
Liguori, mestre da casuistica adoptada pla Ordem, foi canonisado e
proclamado doutor da Egreja, dando assim sanco universal aos methodos
de theologia moral usados pelos jesuitas; a proclamao, plo Papa
exclusivamente, do dogma da Immaculada Conceio, foi ainda um asserto
da superioridade pontificia sbre o concilio; os Syllabus de 1864 e de
1907, a condemnao do modernismo, foram outras tantas affirmaes da
immutabilidade dos conceitos da Egreja; os dogmas do primado da Santa
S, da infallibidade papal e do episcopado universal do Summo Pontifice,
plo Concilio do Vaticano, em 1870, valeram pelo solenne triumpho da
obra de Lainez em Trento.

Podem lastimar quantos veneram a admiravel obra do Catholicismo, que,
com taes recusas de admittir concepes modernas, a Egreja
voluntariamente se colloque  margem das idas contemporaneas e se
condemne a quedar extranha e hostil a todo progresso e a toda conquista
de niveis mais altos de civilisao.  incontestavel, entretanto, que
tal attitude de intransigencia absoluta s pode inspirar o profundo
respeito, de que so dignas as convices sinceras.

Por isso mesmo que se trata de convices, no podiam os membros da
Companhia permanecer inactivos. O proselytismo, comtudo, tomou aspecto
novo. No mais se nota a interveno directa sob a forma politica, mas
ainda se move, ora prgando doutrina junto aos dirigentes, ora agitando
as almas religiosas. Ahi, exactamente, se encontra a explicao da
diversidade de sua vida nas naes protestantes e nos povos catholicos:
junto s primeiras, age sbre a minoria dos habitantes, e, para afastar
difficuldades com os poderes publicos, evita cuidadosamente a politica e
limita-se a evangelisar as massas; junto aos ultimos, sua aco varia
conforme a posio reciproca do Estado e da Egreja, dominadora em se
tratando de uma religio official, com tendencias muita vez invasoras no
regimen concordatario, exigindo relaes liberaes nos casos da
agnosticismo constitucional por parte do Estado.

Em todas as circumstancias, seu esfro se exerce como em misso
interior, e esse  o fim principal de sua obra escolar.

O velho ideal da Companhia--a escola livre, a Egreja livre, o mando
absoluto da Egreja no mundo--deve certamente despertar grandes
sympathias nos pases de regimem agnostico, pois os dous primeiros
termos da trilogia merecem todo apoio de quantos reconhecem a differena
necessaria entre o dominio temporal e o dominio espiritual. Em ambos,
trata-se de assumpto reservado  livre escolha dos interessados. Mas a
Egreja s admitte a liberdade para si e no para a communho. Quanto ao
terceiro termo, o predominio da Egreja, cabe  livre concurrencia das
opinies em contraste conquistar a confiana das almas, ao Estado
cumprindo manter neutralidade absoluta na contenda, dando, a todos os
credos, eguaes direitos e egual proteco no seu exercicio.  facil,
portanto, inferir dahi os elementos favoraveis que o regimen agnostico
assegura a todas as confisses.

Os novos Geraes bem comprehenderam as vantagens da situao, e o esforo
da Companhia norteou-se no sentido de alta intellectualidade, dirigida a
propaganda plo jornal, plo livro, plas revistas scientificas,
contraposta a trabalhos analogos feitos por adversarios seus. Ainda
nesta phase, a literatura da Ordem foi militante contra a impiedade,
fssem quaes fssem sua origem e sua manifestao.

Alterou-se, pois, profundamente o modo por que os jesuitas intervinham
para assegurar o advento da monarchia espiritual absoluta que sonhavam
para o mundo.

Na politica propriamente dita, sua aco confunde-se com a de Roma, pois
hoje em dia elles a inspiram por intermedio da Curia. Na direco das
consciencias, j  possuem a primasia que lhes era attribuida no
seculo XVI e no seguinte.

Resta, portanto, sua nobilissima tentativa de conquista pla escola,
alvo verdadeiro de sua misso interior: a evangelisao das almas e a
formao do espirito da mocidade, que um dia governar. Pouco importa si
o processo  lento: a Egreja, tanto quanto o Estado, tem por dever
considerar os factos sociaes _sub specie ternitatis_.




III

_Aspecto brasileiro do problema._


Coincidiram a depurao da Ordem, sua volta aos intuitos primitivos de
Santo Ignacio e o rejuvenescimento de seu ardor missionario com o
periodo de luctas e de gestao confusa de que proveio a emancipao
politica da America meridional.

No Brasil, ruira a obra pombalina. Viera, entretanto, substituida plo
espirito nascido da Encyclopedia, da Revoluo francesa e da ascendencia
crescente da investigao analytica. Sem se elevarem at o conceito da
separao dos dominios, o temporal distincto do espiritual, taes
factores geraram o molde em que se vasou a Carta constitucional do
Imperio: a preeminencia do poder civil ao lado da religio official, a
interveno regalista nos negocios ecclesiasticos.

Do choque de elementos to dispares resultaria o mau estar reciproco da
Egreja e do Estado durante os sessenta e sete annos do regimen monarchico.

Os esforos dos defensores do Catholicismo por manterem puro o dogma; a
reivindicao constante do poder publico de seu direito de superintender
e regulamentar o exercicio do culto no que tivesse de commum com as
necessidades correntes da vida civil, traduco empirica do conceito,
confusamente sentido embora, da discriminao necessaria das provincias
da actividade espiritual e da actividade civil; os reclamos de mais em
mais energicos desta ultima, manifestados em movimentos, como a
maonaria, s vezes injustissimos em sua propaganda, por excesso de
espirito sectario em seus juizos sbre Roma; todas essas correntes
desencontradas feriam-se e abalroavam, levando profundamente agitado o
pas. Culminou a desordem de 1871 a 1875, quando incandesceu a famosa
lucta que se chamou a questo religiosa.

Serenou a atmosphera com o advento da Republica. A separao das duas
competencias, desde logo feita por acto de 7 de Janeiro de 1890,
permittiu a livre expanso das exigencias espirituaes dos crentes.

Nesse ambiente de paz viviam e evoluiam os credos religiosos, quando
actos do passado Govrno da Republica, procurando impedir o desembarque
em nossos portos de membros da Companhia de Jesus, expulsos de Portugal,
vieram pr novamente em destaque um dos problemas mais serios, mais
graves, mais urgentes e mais descurados de quantos devem occupar as
cogitaes dos homens publicos de nossa terra: a obra collaboradora da
Egreja no desenvolvimento progressivo do Brasil.

A medida, em si, era indefensavel, de ridicula, iniqua e revoltante.
Ridicula, por no haver como faz-la respeitar, tantos e to faceis os
meios de illudir a argucia policial dos incumbidos de reconhecer os
jesuitas entre os centenares de passageiros transatlanticos. Iniqua e
revoltante, por vir crear, contra o agnosticismo firmado na Constituio
Federal, uma forma nova de delicto, crime de crenas e de idas, causa
de perseguio e de desrespeito s garantias asseguradas a todos os
habitantes dste pas e a quantos lhe procuram as plagas. Dobradamente
iniqua, si nos lembrarmos de quanto o Brasil deve aos filhos de Inigo de
Loyola, e de que  fundao da nacionalidade presidiram, em pochas
varias, os vultos augustos de Manoel da Nobrega, Anchieta e Antonio Vieira.

No basta, entretanto, para condemnar a iniciativa infeliz, allegar sua
inconstitucionalidade. Satisfaria tal processo, apenas, aos espiritos
afeitos ao judiciarismo estreito, enxergando somente o caso concreto e
sua conformidade com as normas vigentes.

Mais alta deve ser a indagao, para que seus fructos provem proficuos.
O aspecto social do phenomeno deve sobrepujar s demais caracteristicas,
o _fieri_ de que resulta, os antecedentes que o geraram, as
consequencias possiveis. No  um facto esporadico, de gerao
espontanea.  um producto de factores seculares, causa, a seu turno, de
novos phenomenos universaes, que cumpre analysar.

Como isolar o _attimo fuggente_, e fix-lo, especimen de museu, em
categorias predeterminadas? Como immobilisar o essencialmente
transitorio e passageiro, o que nunca , e sempre evolve? Seria
reproduzir as photographias dos movimentos, dos quaes cada placa revela
uma phase e no o conjuncto. Fra verdadeira libertinagem de espirito,
nunca o exame sincero que inspira pensadores.

Na analyse das tendencias, das series a que pertencem os problemas
inquiridos, das relaes mutuas que originaram; no evoluir dos
conceitos; nas necessidades antigas a satisfazer; nos reclamos das
exigencias de hoje; nos rumos previsiveis da sociedade de amanh; nesse
complexo de noes, experimentaes ou ideaes, se encontra a decifrao,
qui nem siquer entrevista, do enigma, insoluvel aos olhos de muitos,
da vida, tomada em seu conjuncto intrinseco e nas suas relaes com o
cosmos.

Incomprehensivel e sem remedios se afigura a desordem nas provincias do
dominio espiritual onde concorrem,  de esperar que transitoriamente, as
confisses religiosas e o Estado: o ensino e, em alguns casos, as
convices determinadoras da direco politica.

Tal estado de duvida s se manifesta, entretanto, em se encarando os
factos isoladamente, sem nexo causal no tempo e no espao. Cessa a
confuso, e aclara-se o horizonte, se os examinarmos do ponto de vista
relativo, restabelecida a perspectiva historica na evoluo das idas,
das doutrinas e das aspiraes.

, pois, no passado, tambem, que devemos haurir as lies que explicam o
facies actual do problema: na antiga constituio das ordens religiosas;
nas regras firmadas pelos Concilios; nas luctas do regalismo e do
espirito gallicano contra a universalidade da Egreja Catholica, luctas
que repercutiram em nossa Constituio Imperial; nos corollarios da
separao da Egreja e do Estado, decorrente da proclamao da Republica;
no aspecto novo que apresenta desde ahi a formao intellectual e moral
das geraes que surgem.

No se poderia imaginar, em pas christo, constrangimento maior para as
Egrejas derivadas das lies admiraveis do Nazareno, do que o ambiente
creado plo Estatuto de 25 de Maro 1824.

Aos acatholicos era apenas tolerado o culto, contanto que suas reunies
se fizessem em edificios sem signal exterior, capaz de os distinguir dos
demais, designando-os como templos. Era a medo, por tolerancia, que se
exerciam os actos solennisadores das mais importantes occupaes humanas
para todos os idealistas, os reclamos da f.

Em Roma, nos tempos do Imperio fundado pelos Cesares, to latitudinaria
em assumptos religiosos, mesmo nos periodos das perseguies, as
confrarias funerarias, em que se tinham transformado as pequenas
colonias christs, encontravam sossgo e inteira liberdade de celebrar
os ritos em seus cemeterios, as catacumbas, protegidas contra qualquer
invaso plo respeito sagrado da propriedade que caracterisa a lei
romana. Menos tolerante, a Constituio imperial do Brasil fazia do
exercicio do culto, para os acatholicos, uma occupao furtiva,
sequestrada  ampla luz da publicidade, cercada de precaues contra
olhares indiscretos. Felizmente, o bom senso dos governantes e a
diffuso generalisada de normas mais razoaveis de pensar sbre opinies
alheias divergentes, vieram corrigir na pratica o que tinha de
intransigente o duro texto da lei.

Mais grave, do ponto de vista dogmatico, era a situao dos catholicos,
membros da religio adoptada plo Estado.

Instituio divina, extranha s regras e aos modos de resolver das
potencias temporaes, haurindo sua fra na revelao e suas leis nas
deliberaes conciliarias e na aco ininterrupta dos seus papas, a
Egreja Catholica no pode negar sua origem, acceitando a collaborao
dos governos, como potencias temporaes, para os actos reguladores de sua
vida interna, quer quanto ao dogma, quer quanto  disciplina e
hierarchia ecclesiastica. Por isso, inteira e indiscutivel razo assiste
aos redactores do Syllabus, condemnando _in limine_ todos esses
compromissos com o Seculo. , por parte delles e de seu ponto de vista,
uma altissima affirmao de lealdade e de f.

Comprehende-se, portanto, quanto foi deleterio  pureza do Catholicismo
no Brasil o influxo official, imbuido de gallicanismo e inflexivel em
suas descabidas exigencias regalistas. Foi a lucta de todos os dias, o
conflicto perenne entre duas concepes antagonicas, em que a Egreja,
desarmada, cedia  imposio do mais forte, mal resalvando os principios
eternos de sua aco. O caso iniquo da priso dos bispos no foi sino
um accidente escandaloso nessa sequencia de choques entre Roma e o
Brasil. O clero tornou-se um ramo do funccionalismo publico. As
determinaes de ordem espiritual s chegavam aos ministros do culto,
incumbidos de as applicar, aps a depurao pelos orgos administrativos
prepostos  superintendencia governamental dos negocios ecclesiasticos.
Dessa passagem, por vezes verdadeira filtrao de actos que deveram
escapar  analyse do poder temporal, no raro saam deturpadas, do ponto
de vista dogmatico e disciplinar, as deliberaes da Curia.

A ida fixa de constituir uma egreja nacional mutilara a vida
conventual, cerceando-a em sua origem--pla extinco do noviciado--e
ferindo-a nos seus recursos--plas leis de amortisao. Extinguia-se por
tal forma o clero regular. Nos seminarios rareavam cada vez mais as
vocaes religiosas. Nas freguesias, insuficientes quanto ao numero de
fiis, o parocho, desinteressado muita vez de sua misso divina, como
funccionario publico retribuido, ia alheiando de si a alma de suas
ovelhas e nos seus ensinamentos transformava o estudo do catecismo em
mero exercicio mnemonico formal, em vez de salutar investigao de
essencia.

Era o amesquinhamento systematico. Sobrepunha-se o govrno regalista do
Imperio  auctoridade com que, em assumptos de f, devera falar a Egreja.

Como ficar sorpreso si, em circumstancias to adversas, ia aos poucos
amortecendo o espirito apostolico de que deve estar inspirado todo
pastor d'almas? O proprio ambiente social anesthesiava as virtudes
heroicas daquelles que, com sacrificio da propria commodidade, iriam
curar das alheias exigencias eternas.

E eram consequencia damninha de tal situao as vacancias das sdes
parochiaes, a invaso de clero famelico vindo de alm-mar, pouco afeito
s necessidades da alma brasileira, principalmente nas zonas pobres do
pas, nas quaes a desero dos sacerdotes creara um estado de vago
deismo, profundamente impregnado de crenas e praticas fetichistas
trazidas pla escravido negra. Que o digam, at hoje, os clerigos
incumbidos das misses interiores!...

Cessou, como por encanto, tal desconforto, desde o momento em que,
proclamada a Republica, se tornou lei um dos principios fundamentaes
propugnados durante a propaganda: a inteira liberdade de cultos. Esse
foi um dos inesqueciveis servios politicos do Govrno Provisorio.

Comprehendendo que, nos primeiros tempos do triumpho, a fra e o
prestigio dos vencedores no encontrariam contraste, assentaram em
solver definitivamente varios problemas capitaes que vinham dividindo a
Nao. Alguns, como a federao das provincias e a secularisao de
varios actos, dantes reservados s auctoridades religiosas, j eram
triumphantes na opinio, e figuravam at no programma de um dos partidos
monarchicos. Outros, como a plena liberdade de pensamento, embora menos
divulgados, reuniam o assentimento de quasi todos os pensadores, em
ambos os arraiaes da politica imperial. Permittiram os actos do
Provisorio apressar o advento de solues plas quaes anseiava a grande
maioria dos dirigentes, sem choques, sem protestos, antes com o applauso
de todos.

Vrias eram, entretanto, as formas possiveis de applicao do preceito
novo. Sabiamente, ainda, o Govrno escolheu a mais lata, a mais
generosa, a mais desprendida, a mais respeitosa dos escrupulos da
immensa maioria dos catholicos brasileiros.

E, ao publicar-se o decreto da separao, divulgada a forma por que
seria entendido, pde a Pastoral collectiva do Episcopado brasileiro
saud-lo como um acto de redempo da Egreja.

A Constituinte sanccionou e completou as medidas tomadas plo Govrno
revolucionario: manteve a inteira liberdade de pensar e prohibiu
quaesquer relaes de alliana ou dependencia entre o Estado e a Egreja,
fundando assim o agnosticismo, que deve reinar nas espheras officiaes,
agindo como orgos da collectividade.

Verificado que as estipulaes do Estatuto de 24 de Fevereiro eram
applicadas na letra e no espirito, teve inicio um progresso notavel na
organisao religiosa do pas. Incrementaram-se as misses acatholicas;
abriram-se numerosos collegios regidos por discipulos desta ou daquella
variao protestante; erigiram-se templos e casas de orao em logares
reconditos do serto e nas capitaes; a propaganda continua, incessante,
ampliou seu circulo de prdica, e no ha exaggero em affirmar que
constituem um nucleo respeitavel os fiis dos credos divergentes do
Catholicismo.

Egualmente notavel foi o impulso dado  grande massa de crentes da
religio dominante. Nenhuma, quanto esta, soube valer-se das liberdades
concedidas plo regimen que acabara de se instituir.

Abriu-se nova era para o clero regular. Repovoaram-se os cenobios: pelos
novios, que se admittiram de novo, e pla acceitao de frades
naturalisados. Outras congregaes fundaram casas no Brasil.
Procurou-se, com segurana de vistas e alta intuio psychologica,
estreitar o contacto entre os fiis e seus directores, pla
multiplicao das parochias e pla diviso das dioceses demasiado
extensas. Os ministros do culto, no sendo mais pensionistas do
Thesouro, foram obrigados, tanto pla sua vocao, como plas exigencias
de sua vida, a apertar os laos que os prendiam a seus fregueses,
enobrecendo o influxo reciproco de ambos, custeiado o culto pelos seus
religionarios, mantido e elevado o prestigio do sacerdote pla
supremacia moral de sua misso e plo desassombro e abnegao com que a
desempenhasse.

Mais tarde, si no desde j, se far justia ao grande progresso que tal
medida representa na elevao da vida interior do homem, na honestidade
com que a vida interior dirige e superintende aos actos da vida de relao.

Pouco tempo depois, comeou em Frana a agitao de que provieram as
leis sbre as congregaes, o rompimento da Concordata de 1801, os
inventarios e as expulses _manu militari_ dos que protestavam, ainda
que pacificamente, contra as usurpaes do poder civil.

O Brasil foi um dos refugios dsses exilados pla intolerancia sectaria,
e, em breve, casas de congregados dos dous sexos foram fundadas em
pontos varios do territorio nacional.

Ordens pura e exclusivamente contemplativas no se estabeleceram aqui.
Numerosas foram as que se dedicaram  educao, especialmente no grau
secundario. Os trappistas crearam verdadeira escola agricola em
Trememb. Os benedictinos mantiveram cursos primarios e secundarios
frequentadissimos. Os salesianos fundaram misses e especialisaram-se no
ensino profissional e no ensino secundario. Os lazaristas, velhos
hospedes do Brasil, conservaram suas antigas casas. Os jesuitas
continuaram em seus velhos collegios e installaram novos sem o menor
protesto.

Em toda a parte, notou-se o mesmo empenho de organisar a obra admiravel
da conquista moral do pas pla educao, emprehendimento altissimo, que
attesta a vivacidade, a pujana, a sinceridade da f, motriz de to alto
escopo.

Mas esta immensa tarefa pedagogica nunca despertou a atteno dos
governos republicanos, como devera ter acontecido, no para a reprimir
ou perseguir, mas para a estudar e lhe seguir o exemplo, afim de dar com
a escola leiga o contrapso necessario, indispensavel, mesmo,  escola
confissional.

Inerte quanto ao desenvolvimento desta ultima, o Estado cuidava apenas
de manter e estreitar suas relaes extra-officiaes com os
representantes do culto. Em algumas circumscripes politicas, mal se
velam os subsidios indirectos fornecidos a determinadas egrejas. Em
outras, o acrdo se manifesta no terreno partidario e politico, trazendo
verdadeiras allianas. Era geral, portanto, o ambiente de concordia
reinante entre o poder temporal civil e o poder espiritual ecclesiastico.

Neste meio, de paz e de collaborao sympathica, estalou a ordem
impedindo o desembarque dos jesuitas expulsos de Lisboa. Si bem as
noticias de Portugal tenham sido, nestes ultimos tempos, de uma
nebulosidade extranha, e seja difficil conhecer a verdade entre tanta
verso contradictoria, quiseram applicar a essa congregao o conceito
de _moines ligueurs_, que os echos repetiam em Frana no periodo de
lucta das leis Waldeck-Rousseau e Combes.

Mesmo si a accusao procedesse alm-Atlantico, na vigencia de uma
religio de Estado, como generalis-la e acceit-la no Brasil, com o
regimen confissional separatista, com relaes mutuas inteiramente
outras? Jesuitas ha na America portuguesa desde os primeiros annos da
fundao da Ordem, e sem elles  inexplicavel nossa propria historia.
Nunca impediram, e constantemente auxiliaram a marcha progressiva de
nossa terra. E como olvidar tal passado, que nos pe em debito de
gratido para com a Companhia, a pretexto de ser um elemento de
desordem, e ter uma politica obscurantista que nos levaria ao regresso
social?

Investiguemos o caso.

Postos de lado exaggeros e inexactides creados sbre os jesuitas plo
desconhecimento de sua historia e pla hostilidade, nem sempre
escrupulosa, de seus desaffectos, tem sua pedagogia, tem seus methodos
de ensino, seu escopo na preparao mental dos discipulos, que, j
agora, fornecem a base mais segura para julgar de sua valia na
collaborao prestada ao progresso de um pas.

No fra a situao social que atravessamos, de plena transio entre um
passado que se desfez e uma mta futura ainda desconhecida, e por certo
a soluo do caso quedaria entregue ao livre debate,  concurrencia
entre as doutrinas que aspiram reger a universalidade das consciencias.
Problema essencialmente espiritual, ao Estado ficaria vedado
intervir no pleito. Em pases de opinio publica forte, organisada,
consciente, tal disputa  possivel, e no se justifica a interveno do
poder temporal no dominio das convices.

Outra a feio do problema em pases de meia-cultura, nos quaes o
desequilibrio ethnico, mantido e que convm por emquanto manter, plo
affluxo de immigrantes, crea uma instabilidade mental facil de ser
explorada; onde o analphabetismo domina e as heranas de longo passado
fetichista ainda se manifestam nas crendices, polluindo a pureza do alto
espiritualismo verdadeiramente religioso, enfraquecendo ou mesmo
annullando a intensidade da vida interior.

Ahi, a misso do Estado  preparar a elevao progressiva do ensino
popular, at o ponto em que, attingida a maioridade mental, possa ficar
entregue ao livre confronto das confisses o preparo espiritual das
novas geraes.

Dsse dever decorre a obrigao moral por parte do Estado de no esmagar
crena alguma, de assegurar a todos o ambiente de paz e da tolerancia a
que tem direito. Ao mesmo tempo, a deficiencia intrinseca do meio onde a
competio vae exercer-se; a differena de elementos de vida dos varios
credos; a longa posse exclusiva do Catholicismo e sua preponderancia
esmagadora na massa nacional aconselham aos espiritos reflectidos a no
dar a proteco indirecta, que consistiria em entregar a lucta plo
predominio a adversarios, ns e desarmados, uns, contra outro, munido de
todos os apetrechos forjados na multisecular situao privilegiada de
que gosou.

O meio unico de resguardar a soluo definitiva do problema espiritual 
o ensino provisoriamente entregue ao Estado com o correctivo da
concurrencia crescente por parte das instituies, religiosas ou leigas,
analogas s officiaes, mas com a differena essencial seguinte: o Estado
ministrando um ensino rigorosamente agnostico, as escolas livres
seguindo sua orientao propria, acautelada apenas do Codigo Penal. E no
caso de, ainda em periodo de transio, se exigir uma prova publica de
habilitao, seja esta dada publicamente, sem indagar da proveniencia
dos candidatos, perante o mesmo jury avaliador dos meritos.

No se conseguiria tal resultado, si, desde j, fosse enfraquecida a
interveno official nos varios graus do ensino, e, principalmente, no
primario e no secundario. Dahi resultaria o predominio dos mais
bem apparelhados no momento actual, as escolas inspiradas nos conceitos
pedagogicos da Companhia. E isto, do ponto de vista social, seria franco
regresso a periodo de intolerancia e de desrespeito s crenas alheias,
regresso que se no poderia hoje em dia admittir. Nem ha neste asserto a
menor sombra de injuria:  a consequencia honesta e inevitavel de toda
convico profunda e exclusiva, e, por isso mesmo, operante.

, pois, do ponto de vista do ensino, e dste to somente, que cabe
apreciar o influxo da Sociedade de Jesus, examinar seus methodos e seu
alvo, em confronto com os conceitos modernos sbre a educao, com as
normas de liberdade espiritual instituidas plo direito constitucional
de nossa pocha.

Cumpre ainda comparar a mentalidade oriunda das escolas leigas com a que
se forma nas escolas confissionaes, especialmente as da Companhia.

Finalmente,  mister investigar si se acham em presena systemas
antagonicos, si o conflicto eventual se pode evitar.




IV

_Sobrevivencia das tradies do regimen imperial._
_Agnosticismo da Constituio republicana_


Limitando o exame aos orgos incumbidos de executar a lei e dar
realidade tangivel a seu pensamento, talvez se possa sem pessimismo
tornar patente que a comprehenso official do problema do ensino por
muito tempo se resumiu: no grau primario, em vulgarisar a leitura, a
escripta e os rudimentos de arithmetica; no grau secundario, abandonar o
curso de humanidades  concurrencia privada, modelada por poucos
institutos officiaes; no grau superior, onde predominam os
estabelecimentos officiaes, acceitar a collaborao da iniciativa
individual. Nesses dous ultimos estadios, a admisso nas escolas s se
regula plas facilidades financeiras dos paes; no  absolutamente uma
como que promoo seleccionada dos melhores elementos revelados nas
escolas primarias.

Forma-se, dest'arte, nos niveis superiores, uma aristocracia culta,
fundada na riqueza mais do que no talento. As proprias excepes
confirmam o asserto, e provam quanto o systema fere os principios
basicos de uma sociedade verdadeiramente democratica.

Claro que existem numerosas excepes nesse modo de encarar o problema,
e os esforos feitos em S. Paulo, com grande exito, no Rio, e em alguns
outros Estados, bem mostram que o assumpto preoccupa os governos e lhes
inspira progressos paulatinos, si bem que, infelizmente, por demais
desconnexos.

No circulo dos pensadores, dos sociologos, dos theoristas em geral, tal
conceito, fundamente erroneo, no encontra guarida; mas  formal
condemnao intellectual no se segue a repulsa pratica ou a instituio
de processos pedagogicos mais acordes com as normas hoje geralmente
preconisadas para formar a mentalidade da juventude. E, nesses termos,
continua a predominar o habito rotineiro das administraes
publicas, no raro mal preparadas para a comprehenso integral do
delicado problema e para a direco dos meios de prover s exigencias
indeclinaveis da cultura progressiva da mocidade, que se resumem no
indispensavel advento de uma educao fundamentalmente nacional, no que
tem de mais alto.

E, entretanto, encontram certa justificativa ou, antes, certa explicao
para a sua norma de agir os mantenedores de um ideal pedagogico que,
rapido, levaria  estagnao mental e social os educandos, a sociedade
de amanh, portanto.

A inercia perpetuou regras, talvez comprehensiveis no regimen monarchico
de religio official, mas inteiramente descabidas no regimen separatista
inaugurado pla Republica.

Ao proclamar-se esta, nenhuma doutrina lograva acceitao universal nos
arraiaes dos vencedores. Talvez, mesmo, poucos dos novos governantes
tivessem cogitado do novo aspecto da questo educacional, uma vez
firmada a liberdade de pensamento, e se julgassem aptos a solver um dos
problemas mais arduos da psychologia humana, formar homens de bem,
obedientes s regras da moral, sem ferir o agnosticismo que o Estado
devia honestamente respeitar, por honra propria e para dar livre
expanso s confisses religiosas.

Benjamin Constant, espirito afeito s altas indagaes moraes, sentiu o
vacuo deixado pla abolio da disciplina confissional no que ella
pudesse ter tido de activo, de creador na mente das creanas, embora no
houvesse a Egreja catholica dominante sufficientemente exercido sua
aco neste rumo, talvez embalada pla falsa certeza da perennidade de
uma situao privilegiada, a que o progresso do Brasil veio pr termo,
equiparando perante o Estado leigo os credos divergentes.

A fundao das cathedras de moral nos institutos de ensino superior
obedeceu a essa preoccupao.

Fortemente combatida, sua creao pouca vida teve, e deveria resultar
ephemera como aconteceu, pois  disciplina visada cumpriria tomar conta
da creana no periodo em que se formam sentimentos, idas, habitos, afim
de constituir aos poucos o ambiente em que viesse a mover-se o homem,
crear o complexo de regras, com sances interiores, directoras de sua
vida.

Na escola primaria--como disciplina despertada no animo infantil,
mais do que preleccionada--; nas escolas normaes--como estudo
theorico e pratico, collimando fins pedagogicos--; nas escolas de
philosophia--sciencia investigada em um conjuncto de altas indagaes
mentaes--; em todos esses institutos, a moral se achava em seu logar
proprio, ora ministrando regras de vida, ora apurada em analyse e aulas
dos docentes.

Mas em cursos profissionaes, no sentido estricto da palavra, escolas de
engenharia, de medicina, de arte militar, a cadeira de moral sairia
menos util, por encontrar o ambiente moral do alumno j formado na edade
de entrar para taes estabelecimentos, por destoar do genero peculiar de
raciocinio proprio s especialisaes, por visar pontos de detalhe, e
no o complexo das noes basilares da existencia, entre as quaes a
moral deve figurar.

O combate contra o plano de Benjamin Constant, embora alvejasse o ensino
superior, repercutiu nos graus inferiores. Nada se fez para preencher na
escola primaria, onde se formaria a _psyche_ commum dos brasileiros, a
tarefa de suscitar sentimentos communs, aspiraes generalisadas,
esforos de progresso interior ininterrupto, gravitao incessante para
o bem, misso que, em regimen unitario, caberia  Egreja, e que, na
vigencia da liberdade de pensamento, deveria recair sbre o professor
elementar, fra insubstituivel para a formao dos laos unionaes
decorrentes da communho de ideal, de aspiraes e de processos.

A estagnao foi facilitada plo elemento politico, que, receando
augmentar o acervo de difficuldades da phase inicial da Republica,
manteve com o maior zlo o pessoal director de todos os servios.
Permanecendo inalteradas as auctoridades superiores prepostas ao ensino,
triumphou o predominio quasi invencivel da rotina e dos habitos
burocraticos, que do tanto peso s opinies peculiares, aos meios
administrativos sbre quantas iniciativas buscam innovar, isto 
perturbar habitos adquiridos, exigir novos esforos materiaes e mentaes,
violar a placidez da applicao, quasi mecanica, de leis e regulamentos
aos casos occurentes, pouco variaveis e j estudados uma vez por todas.

A hostilidade da entrosagem administrativa ao esfro novo, despertado
plo problema educacional, que se vinha impor  soluo dos
governantes, tinha como collaboradora a norma legada plo Imperio em
materia de ensino. Como extranhar que, fortes pla tradio que
representavam, plo manuseio das leis que applicavam, as auctoridades
literarias tivessem conseguido manter a orientao anterior  quda do
antigo regimen? Por outro lado, como levar-lhes a mal desconhecerem um
problema novo, que os proprios triumphadores mal lobrigavam, e que,
ainda insolvido hoje, constitue um labo para as instituies
republicanas de nosso pas?!... Era natural, pois, se mantivesse ao
mecanismo antigo o mesmo funccionamento, j inadequado aos phenomenos
posteriores.

Como attenuante, pode ser allegado o analphabetismo geral do serto. As
estatisticas offerecem base pouca segura, por no estarem assimiladas,
por sua notoria deficiencia. Qualquer algarismo que se cite, vem,
portanto, viciado desde a origem.

Seria optimismo, em todo caso, acreditar superior a 20% o numero dos que
sabem ler e escrever. Em taes condies, pouco valeria incitar as almas
a vos mais altos, quando chumbadas inseparavelmente ao solo pla
ignorancia absoluta. Melhor e mais util seria, de resultados immediatos
e mais efficazes, dar a taes espiritos adormecidos o impulso inicial da
instruco rudimentar.

Ficaria perdido todo esfro gasto em tentativas de sublimar
intelligencias, amodorradas na treva do abandono mental secular. Das
proprias disciplinas ensinadas na escola, quantas se gravariam
permanentemente nos cerebros incultos de taes desvalidos intellectuaes,
e quantos exemplos ainda hoje se citariam de regresso ao desconhecimento
primitivo?

As difficuldades immensas offerecidas pla ausencia de meios de
communicao vinham complicar o caso. Admittido se tivesse formado uma
doutrina pedagogica, geralmente acceita, de nivel mais alto do que a
craveira adoptada at ento, si continuassem os professores os mesmos, o
unico meio de os iniciar em sua nova tarefa seria a inspeco amiudada
das escolas, o contacto intimo com funccionarios convenientemente
preparados, que ministrassem os elementos do programma preconisado, lhes
guiassem os passos vacillantes na nova rota, abrissem horizontes novos
no campo da educao infantil. A vinda por turmas dos professores ruraes
 sde da circumscripo literaria, ou  capital do Estado, lhes daria o
viatico indispensavel  estrada que se lhes apontava para o
desempenho de suas funces. Remedios faceis em zonas providas de meios
rapidos de locomoo, cortadas de vias-ferreas, ou em centros populosos.

Mas essas eram excepes, relativamente muito raras, no vasto territorio
nacional, ainda hoje, vinte annos depois, com menos de 22.000 kilometros
de estradas de ferro para seus 8 1/2 milhes de kilometros quadrados de
superfcie, sem estradas de rodagem, dignas do nome, tendo apenas os
mos trilhos abertos nas serranias e nos chapades plas tropas
sertanejas e plo tradicional carro de bois.  preciso no ter viajado o
interior do Brasil, no ter visto escolas, tristes casebres sem soalho
nem forro, destituidas de tudo quanto hoje se exige para a mais modesta
habitao, quanto mais para uma escola; no ter percorrido as distancias
immensas de freguesia a freguesia, e dellas aos pontos centraes, onde se
poderiam haurir recursos, intellectuaes e materiaes;  preciso o
desconhecimento do meio, para acreditar na possibilidade de generalisar
taes reformas e melhoramentos por occasio da quda da Monarchia.

O serto as inutilisaria sem lucta, por simples inercia.

E ainda para que tal reorganisao se pudesse dar, fra mister houvesse
uma norma a propagar, uma nova doutrina a evangelisar, um novo codigo
pedagogico a pr em effectividade. Nenhuma dessas condies iniciaes
existia.

O escopo das auctoridades literarias no variara, e os methodos
rotineiros continuavam em plena voga. Nenhuma esperana, pois,
desabrochava quanto  formao de uma camada professoral, com ideaes
mais altos, mais proximos do alvo de todos os esforos no ensino. E
quanto ao elemento antigo, o corpo de docentes ruraes, raras eram as
excepes s quaes se pudesse pedir a mra tentativa de comprehender
que, em pedagogia, alguma cousa ha acima da cartilha de A. B. C.,
decorada nas aulas e cantada cadenciadamente plas creanas, os
classicos exercicios graphicos dos pauzinhos, debuxados a principio e
copiados a mo livre mais tarde, como preliminar aos segredos da
escripta corrida e do bastardinho, as quatro operaes fundamentaes da
arithmetica.

Uma renovao do ensino primario importava, pois, na renovao do
professorado, na creao de um corpo docente imbuido do novo credo e de
suas praticas, na constituio de um escol que pudesse e soubesse
contribuir para o preparo intellectual dos professores das escolas
normaes, na reforma destas e no exito de uma escola normal primaria
superior, da qual saissem os professores das escolas normaes communs, os
inspectores do ensino primario, as auctoridades literarias, em summa.

Nada disso existia. E como conspirassem contra tal revoluo do ensino
(o termo no  excessivo) as commodidades da rotina, as asperezas do
meio, a ausencia de um novo codigo pedagogico, a deficiencia do elemento
docente, como taes fssem os obices ao esfro salvador, de nada se
cuidou. Continuou a pratica antiga a amadornar os cerebros, impedindo o
surto mental da mocidade. Um que outro pensador, consciente da gravidade
do problema, procurava, por si, dar as solues que o caso comportasse,
com a evidente inferioridade systematica do desequilibrio caracteristico
do autodidacta.

E, entretanto, o agnosticismo do Estado estava impondo o abandono do
carreiro antigo e a escolha de nova trilha para a obra escolar republicana.

Ao envs de uma religio official, quisera a Republica dar egual
tratamento a todas as confisses, e para isto separara das provincias da
f a orbita das aces humanas, na qual a razo  conselheira unica, e
neste terreno estabelecera sua competencia e actividade, vedado o
intervir na elaborao das convices espiritualistas.

Certo, a palavra razo deve ser interpretada _latissimo sensu_,
abrangendo a intelligencia, a consciencia, o sentimento, a successo
verificada dos factos. Ainda assim, deixa larga zona intacta, na qual
somente a crena pode imperar. Como observa Renouvier[2],
por maiores sejam os esforos officiaes no sentido de augmentar o valor
instructivo e educativo do ensino,  fra reconhecer no haver uma
doutrina leiga capaz de preencher o vacuo moral dos espiritos e dos
coraes. Dahi a falta de coordenao; a como que incoherencia dos
principios formulados pala razo pura; os conflictos continuos entre o
interesse immediato e os reclamos de um ideal superior; a imposio do
util prevalecendo muita vez sbre a exigencia do bem. Dahi, ainda, a
observao to funda do mesmo philosopho: De dia para dia augmenta
a convico de que a instruco, instrumento do raciocinio, no  o que
constitue ou o que realmente informa a razo, menos ainda o que gera os
sentimentos motores do corao humano. Nega-se que os conhecimentos
scientificos possam jamais supplementar as crenas moraes ou destrui-las.

De facto, para o sentimento se devem dirigir todos os esforos
educativos, pois esse  o motor principal das aces humanas.

Por isso, ao cessar o ensino religioso, houve em realidade uma
diminuio no valor dos processos pedagogicos, onde tal ensino fra
feito segundo o espirito dos evangelhos, sem se ater  letra arida do
catecismo. Falava o expositor em nome de um dogma revelado, traduzindo a
Verdade Eterna, com a auctoridade do Infinito Poder e da Suprema
Bondade. Sempre que tal orientao foi seguida, e sem analysar as
premissas em que se fundava, a educao do sentimento se revelava mais
intensa, reagindo com mais vigor na vida interior de que decorre a
actividade externa do homem.

Essa no foi, porm, e por mal nosso, a regra mais geralmente adoptada,
que reduzira a explanao da doutrina, na maior parte dos casos, a mro
exercicio mnemonico. Era obvia a inviabilidade da semente, j morta,
lanada no cerebro infantil.

Que o no fsse, entretanto, e, ainda assim, como poderia o Estado
prender-se na auctoridade de um dogma, sem desrespeitar outros credos
igualmente dignos de reverencia? E como, por tal forma, manifestar sua
preferencia em circulo de actividade vedado  sua interveno normal, e
no qual era claramente incompetente? A soluo unica possivel e
acceitavel seria: nas regras de viver que fatalmente teria de pregar aos
educandos, plo exemplo, pla palavra, pelos actos, adoptar como norma
ensinar o melhor de quanto se pensa, diz ou fez, com espirito eclectico,
sem exclusivismo em suas concluses. Para isso, agir sbre todos os
moveis incitadores da aco: o dever, a honra, os sentimentos
affectivos, o interesse bem entendido, o amor-proprio, o receio da
critica dos homens de bem, as noes de um ideal mais nobre.

Para dar a taes lies o pso, a auctoridade e o poder persuasivo de que
tanto ho mistr, varios obices teriam de superar.

Insufficiente experiencia psychologica, porque a materia a preleccionar
 de data recente; ainda sem a aurola que o tempo se dar s verdades
longamente ouvidas e transmittidas; porque o assumpto inquirido, a
moral,  por demais vasto, evolutivo e contingente.

Resistencia intrinseca  divulgao, porque o modo de a fazer, de
docente a discipulo, no obedece a um methodo j scientificamente
preciso, por falta de auctoridade decorrente da escassez de pontos de
referencia verificados; da variabilidade dos conceitos; dos conflictos
essenciaes, conforme o ponto de vista adoptado; das controversias
originadas na subordinao acceita para os conceitos elementares.

Fraqueza dos professores, notadamente nos pases catholicos, porque a
longa separao do dominio temporal do dominio espiritual mantida pla
Egreja nas cousas da consciencia, mal preparara os representantes do
primeiro a tratarem de assumptos que dizem respeito directamente 
formao psychica da creana. Dahi a inferioridade da prdica da escola.

Falta de unidade, por se tratar do problema do _eu_ analysado
experimentalmente pelo proprio interessado, sujeito, pois,  multiplice
causa de erro da observao imperfeita, da parcialidade do observador,
dos conflictos interiores entre a conveniencia e o ideal; falta, em
resumo, do nexo capaz de equiparar-se ao forte liame que une, prende e
enfeixa em um todo unico o conjuncto de preceitos oriundos da revelao,
no ensino sacerdotal.

Raridade dos professores, dignos dsse nome, aptos a fazerem do
desempenho de sua misso um verdadeiro trato de almas, depurando, aos
poucos e com amor, da ganga que os envolve os elementos sos e
brilhantes, que se encontram na mente infantil; educadores proprios a
formar almas vivas e palpitantes e no mras cpias de um typo official,
exemplar fundido por decreto.

Coefficientes peculiares  infancia: inatteno e incapacidade de se
concentrar ante o interesse despertado por phenomenos externos;
frivolidade; leviandade de pensamento; esquivana a questes mais
arduas, mais sccas, de aspecto menos sorridente.

Certo, o preparo da sociedade leiga para dirigir a formao das
consciencias muito deixa a desejar. Consequencia do tradicional
exclusivismo com que o Catholicismo dominava esta provincia, vedando aos
leigos intervir nas cousas da alma, ainda perturbado e aggravado pla
crise profunda reinante em todos os cerebros quanto s crenas em geral,
aos proprios elementos aliceraes da sociedade, s mesmas bases da vida
humana no que ella se distingue dos animaes.

E  necessario esforo immenso para, gradativamente, ir constituindo o
corpo de observaes, o conjuncto de noes, os principios de s
relatividade, as ordens imperativas do ideal superior, que deve
ministrar essa regra de vida, interna e externa, que  a moral.

Acima de tudo, o ensino no pode nem deve ser questo de palavras,
gymnastica verbal onde a memoria tenha o unico papel.

Quer-se que taes ensinamentos no sejam somente retidos plo cerebro,
mas lhe penetrem a substancia, at se tornarem estados permanentes da
consciencia; mais at, que valham por principios activos, formem o
ambiente do individuo, e presidam  elaborao obscura de todos os actos
humanos, feitas assim taes normas o coordenador e o inspirador das
causas motrizes ultimas do corao, dest'arte fortalecidas e disciplinadas.

Por que forma obter taes resultados, entretanto, sino pla pratica e
pla exposio diuturna das regras correspondentes, at que a repetio
do gesto cree o habito, e este se incorpore na consciencia juvenil como
relao normal e s? Bastaria tal ponderao para justificar o ensino
leigo da moral, sem preconceitos, sem pretenes a invadir os pramos da
f revelada, antes collaborador natural e efficaz do ensino religioso,
como _substratum_ commum a todos os credos, e, ainda no sentido
philosophico do termo, por estabelecer a unidade entre a regra, o dogma,
os sentimentos e os actos.

Mas, para ahi chegar, que thesouros de paciencia, de bondade, de
intuio superior ser preciso prodigalisar!... Que situao
extraordinaria ahi se crea para o Mestre, quanto se exige delle para o
collocar, quando no em contraposio, em confronto com o Sacerdote que
at hoje monopolisou tal disciplina nos pases catholicos! E s por ste
preo, entretanto, poder o ensino leigo ser uma sorgente de vida. ,
pois, pela cultura intellectual, intensivamente feita, que as idas
novas corrigiro, depuraro ou levaro cada vez mais alto os
conceitos anteriores  conquista das normas essenciaes da actividade
espiritual e, como consequencia, da actividade que nos fere os sentidos.
Pla sublimao da vida interior, viro a crescente dignidade, elevao
e utilidade social da vida exterior.

Entregar-se a seu sacerdocio com dedicao absoluta; dar a propria alma
s creanas que educa; penetrar-lhes a alma e deixar-se penetrar pla
mentalidade infantil, tal o conjuncto de condies que devem presidir 
obra do professor, que queira mostrar-se  altura de to melindrosa e
nobre incumbencia. Felizmente os ha, e a elles se deve, em todos os
pases, o que j hoje se pode considerar firmado nos dominios do ensino
da moral.

Assim, conseguiram pr em relevo, de modo a crear estados mentaes
permanentes, militantes por vezes, certas noes basilares sbre a
justia, o direito e dever social, a dignidade essencial e suprema do
homem e seu destino moral.

Souberam mostrar que elle  chamado a construir livremente sua propria
sorte, para isso normalisando e dando regras ao chaos interior das
tendencias desencontradas, dos impulsos cegos, dos instinctos obscuros e
das nobres aspiraes generosas; ou ainda, citando sempre o egregio
Pcaut, extrahindo do individuo apparente e natural o homem verdadeiro e
occulto, unico digno dsse nome augusto, e fim de todos os esforos
educativos, egualmente distanciado do determinismo absoluto e do
naturalismo sceptico e indulgente de Montaigne.

Foi-lhes dado expor convincentemente que a regra moral  secular,
opposta ao ascetismo, curando da sanidade da alma de forma a penetrar,
como espirito, a materia da vida, exalando-a sbre a animalidade.

A elles, ainda, se deve o alto predominio dado hoje em dia s noes de
responsabilidade pessoal e de solidariedade fraterna de todos os homens,
que tornam interdependentes todos os seres, no progresso como na
decadencia, na ascenso para a luz como no mergulhar em trevas, e que
fazem menos arduas as tentativas collectivas, visando fins eternos, mau
grado o estreito ambito das existencias individuaes.

Graas a taes educadores pde o ensino nortear-se por um ideal sito no
futuro, abrindo illimitado campo s esperanas humanas, ao envs do rumo
seguido na direco ecclesiastica do espirito da mocidade, direco
que proclama a perfeio suprema o passado, devendo, pois, a educao
ser um longo esforo para um alvo circumscripto.

 sempre devido a esses excellentes obreiros, philosophos, homens de
Estado e docentes, que pde o conceito moderno do ensino elevar-se acima
da simples questo de execuo de programmas didacticos, e valer mais
plo espirito, pla alma que o impregna e vivifica, do que plo cuidado
e esmiuado das disciplinas transmittidas.

Em nossas sociedades progressivamente democraticas, o suffragio
universal impunha, correlatamente, a instruco primaria universal,
gratuita, portanto. Dahi a ineluctavel necessidade do ensino normal e
leigo da moral, como remedio unico para respeitar todos os cultos.

J representaria grande progresso obter que todos pudessem conhecer, de
modo a utilis-las, as materias preleccionadas na escola primaria. Seria
ainda insufficiente, entretanto, si, pla ausencia de um nexo central
coordenador, todas as disciplinas no viessem concorrer, alm do servio
prestado particularmente ao individuo, para a evoluo ascensional do
homem, pla altura cada vez maior que alcanam dominar no mundo da
ethica. Esse, o intuito da escola primaria: preparar uma democracia
intelligente, justa, e fraternal, unida por uma cultura commum, guiada
por sentimentos progressistas communs, essencialmente unos, extremes de
intolerancia ou de sectarismo. O sentimento da dignidade unido ao da
responsabilidade moral, dentro em pouco fariam da multido anonyma,
inconsciente e impulsiva, um povo capaz de inquirir, de analysar, de
escolher, de se governar.

 sempre a bella phrase lembrada por Pcaut: pla alma da escola, ir ao
encontro da propria alma do pas. Dessa forma se constituir em todos
os graus da hierarchia social uma escol de caracteres fortes, de
espiritos sos, capazes de iniciativas, de governar a si proprios e de
preparar as solues para os problemas novos que surgem todos os dias.

Trata-se, portanto, de descobrir as caracteristicas individuaes, onde
existam, de favorecer as iniciativas, de animar o esfro singular, de
promover a cultura intensiva da originalidade digna, de procurar na
maxima diversidade de manifestaes servir a unidade de rumo collectivo,
de fazer convergir para o bem do pas o labor intellectual e moral de
seus filhos.

, portanto, a educao nacional que a escola leiga, em todos os seus
graus, procura instituir.




V

_Misso do Estado_


E foi a educao nacional o fundamento do legislador constituinte ao
estabelecer a laicidade em todos os institutos de ensino publicos.

Mais do que a qualquer outro, ao grau primario interessava sobremodo a
regra constitucional, por se applicar  generalidade dos jovens
brasileiros, emquanto somente um numero limitado cursaria escolas
secundarias e superiores.

Nestas, o systema de aquilatar o preparo do alumno, pelos exames
publicos perante commisses especiaes, exigia confronto de doutrinas,
cotjo de opinies, que obrigava a fugir do exclusivismo confissional.
Das proprias materias dos cursos, muitas obrigavam por sua natureza a
raciocinar mediante processos estrictamente logicos, fortalecendo assim
o poder de analyse do educando.

A edade era outro coefficiente favoravel  ecloso de processos mentaes
sos, pois o cerebro do adulto j viria com o cunho da escola primaria e
com mais facilidade para julgar por si.

Finalmente, a escolha dste ou daquelle methodo de ensino, orientado por
essa ou aquella philosophia, racionalista ou espiritualista, puramente
irreligiosa ou christ em sua essencia, a escolha seria revelao das
crenas e obra do livre arbitrio do interessado, e, em nome da liberdade
de pensamento, inaccessivel como tal  interveno externa, em todo
Estado sincera e honestamente agnostico.

Socialmente, o lado interessante e grave da questo  que neste meio
culto se recrutam os directores da evoluo do pas, e na direco se
reflecte o feitio especial da mentalidade formada nas diversas escolas.

Por isso mesmo, das confisses militantes, animadas de espirito de
proselytismo, as mais ardentes visam exactamente o chamado ensino
secundario e o ensino superior para ahi assentarem sua tenda de combate
ao que coherentemente apontam como rro e germen mortal para a
sociedade, de acrdo com o dogma que lhes motiva a f.

Este aspecto cumpre observado pelos homens de Estado, afim de saberem a
norma mais acertada de agir em bem dos interesses collectivos,
respeitando todos os credos, e, para isso, impedindo o advento de
situaes que permitiam ser violado o principio essencial--a liberdade
de pensar.

Para dar s noes que diffunde a auctoridade indiscutivel da verdade
provada, a escola moderna limita-se a ensinar segundo a razo.

Seria o sensualismo, inexoravel e duro, si lhe no viesse attenuar a
crueza dos contornos a moral com seus vos para as mais altas regies do
altruismo. Em todo caso, as exigencias intrinsecas do roteiro, adoptado
plo Estado para sua obra escolar, impem o agnosticismo como regra,
afim de dar o cunho das chamadas verdades scientificas s affirmaes
feitas nos institutos docentes.  o reconhecimento publico de que so
inaccessiveis  razo humana os debates e indagaes sbre as causas
primeiras, que somente as relaes e nunca o absoluto se tornam sensiveis.

Mas, por mais que se tente limitar a analyse ao verificavel e
demonstravel,  innata a tendencia do espirito a ir alm. Bastaria para
justific-lo a angustia das eternas interrogaes sbre o porqu da
vida, sbre o cosmos, o logar do homem na natureza, a finalidade de seu
destino. Abrir os olhos, j  ver-se assediado plo mysterio. E, embora
se proclame a inutilidade da cogitao sbre o incognoscivel, no ha
cerebro que se detenha perante o enigma perpetuo que domina a existencia
e hesite em transpor o limiar da regio defesa.

Ninguem se satisfaz com uma simples negativa, to metaphysica e
expresso de arbitrariedade mental como a affirmativa contraria.

A temporalidade da misso do Estado no lhe permitte ir alm de seu
papel de mantenedor da ordem, dispensador de justia e despertador de
energias.

Cabe-lhe instituir mais equitativa distribuio das vantagens da vida
collectiva; dar felicidade commum a todos os homens; repartir
imparcialmente os encargos; promover, finalmente, a verdadeira egualdade
e a fraternidade humana, fazendo desapparecer a injustissima e feroz
distinco vigente de classes, privilegiadas pla artificial repartio
das riquezas e das commodidades, materiaes e espirituaes, que as
acompanham; manter o ambiente de liberdade absoluta. Taes incumbencias,
porm, por mais que se inspirem no altruismo, na moral mais pura e
elevada, movem-se no circulo das aces terrenas, das verdades
demonstraveis, das conveniencias bem entendidas, das exigencias de um
idealismo tangivel e relativo. Muito longe esto do mundo reservado 
f, que as confisses porfiam por conquistar.

A falta de competencia do Estado , portanto, evidente, e para intervir
em assumptos de f teria de sair dos limites de sua tarefa e exercer um
acto de fra, escolhendo sem criterio proprio uma doutrina entre as
varias theses em presena. Si, individualmente, um homem pode exercer
esse direito, genuinamente pessoal, que auctoridade para proceder por
forma egual assistiria ao Estado, representante de um conjuncto de
opinies, desencontradas nesse terreno, e que s se podem manter unidas
em associao cohesa, eliminadas as causas de dissidio e, entre estas, a
que mais avulta, o credo espiritualista?

A natureza das cousas, portanto; a divergencia das confisses
contendoras; a mesma reverencia merecida por ellas, indistinctamente; os
conflictos e violencias possiveis contra as demais, decorrentes da
supremacia artificialmente creada para uma dellas; esse complexo de
consideraes, j sanccionadas pelos annaes das guerras de religio e
plas controversias dos tempos modernos, proporcionou o triumpho mais
completo do espirito relativo: a instituio da liberdade de crenas,
afastadas todas da tutella official, vivendo e prosperando de acrdo com
suas virtudes intrinsecas, com sua faculdade de satisfazer s aspiraes
ansiosas das almas na sua sde do Bem, da Justia e da Felicidade.

Sendo o agnosticismo do Estado uma das maiores conquistas do espirito
liberal, merece estudado com particular interesse tudo quanto possa
perturbar a posse em que j se acha a sociedade de to alto bem.

Entre os factores de maior importancia na constituio do ambiente em
que taes problemas se discutem e solvem, est seguramente o ensino.

Poder sobrevir algum conflicto entre os elementos sociaes formados na
escola confissional e os que sarem da escola leiga, conflicto em que
possa perigar o principio superior da liberdade de pensamento?

Cumpre preliminarmente notar que no  esta uma questo a solver pla
maioria de pareceres: um divergente, que exista entre milhes de
correligionarios, ter tanto direito a ser respeitado em sua crena
quanto os membros da seita dominante. Examinemos, pois, a orientao
educadora, de confronto com as exigencias dos principaes grupos
religiosos, e tambem com aquellas dos partidarios da negao pura e
simples, quasi sempre systematicamente hostil, de toda actividade
supra-sensivel.

No insistamos sbre esta ultima. Exemplos recentes provaram que, em
nome de mal entendida e desvirtuada liberdade de pensar, os
pseudo-livres pensadores entendiam admiravelmente o modo de organisar os
processos de perseguio.

A estreiteza sectaria renovou em nossos dias, no dominio das idas, sem
a mesma escusa de alta espiritualidade--a salvao das almas--os rigores
da Egreja catholica nos seculos de heresia.

Existe afinidade sentimental e intellectual estreita entre os
autos-da-f e as leis francesas sbre as congregaes, as violencias dos
inventarios processados _manu militari_ e as expulses em massa por
motivos de crenas. Pertencem  mesma familia espiritual os algozes
calvinistas de Servet, os inquisidores que mandaram Giordano Bruno ao
supplicio e Galileu  retractao da verdade, os delatores leigos da
questo das _fiches_ e os anti-clericaes exaltados que hoje multiplicam
os obices  livre prdica confissional. So, aqui como l, manifestaes
de intolerancia e de sectarismo.

Si viessem a triumphar seus methodos na orientao leiga do Estado, nova
ra de perseguio se abriria, e a liberdade de pensamento s existiria
para quem pensasse e instruisse de acordo com os dominadores do dia.
Valeria por uma inquisio leiga, as _dragonnades_ do atheismo em
delirio. Nenhuma intelligencia normal poderia tolerar similhante estado
de cousas. Nenhum Estado, digno do nome, acorooaria a livre propaganda
dsse evangelho de odio.

A preponderancia da Sociedade de Jesus no seio do Catholicismo  de tal
ordem, que no ser exaggro nem injustia considerar o ensino
ministrado por ella como caracteristico da pedagogia ecclesiastica. As
tendencias que favorece so as que deveriam prevalecer definitivamente
na sociedade theocratica sonhada pla Egreja universal. Ora 
exactamente na immutabilidade dos conceitos desta, no ensino, como em
todo o mais, que ella se tem collocado em crescente hostilidade aos
reclamos dos contemporaneos.

Todos os esforos educadores inspiram-se intensamente no objectivo de
fazer da formao mental da mocidade uma obra viva de sinceridade, de
boa f para comsigo e para com os outros, de labor collectivo para o
melhoramento do individuo e da humanidade, pondo no futuro, sem limites,
o alvo ideal alentador da aco, obra de tolerancia, de respeito mutuo,
de sacrificio, de abnegao, procurando comprehender o rro alheio para
perdoar e corrigir, persuadindo. S se desenvolve, pois, nas auras da
liberdade.

No pensamento pedagogico e moral dos jesuitas, a liberdade s se tolera
para exercer uma vez unica o acto que a deve aniquilar: a submisso
absoluta  regra, ao superior, ao dogma, s conveniencias da Ordem,
pautada, cumpre acrescentar, por uma elevadissima noo de seu dever
para com Deus e a Egreja, mas intolerante, exclusiva, combatente e
incapaz de infringir seu ideal primitivo de obediencia passiva.

Que auxilio poderia, pois, prestar a uma sociedade voltada para o
futuro, prenhe das admiraveis realizaes das utopias de hoje, em que
auxiliaria a to formidavel evoluo o influxo de um homem que deu sua
alma, no conceito de Michelet? E, como consequencia de seus methodos
abafadores de toda originalidade, accrescenta o grande historiador:
todos tiveram merito, instruco; alguns foram heroes, de admiravel
persistencia e coragem, mas, em meio de tanto valor, nenhum talento
superior.

Educadores admiraveis da vontade, ensinaram-lhe somente a obedecer. Sua
moral deixou de ser a disciplina vivificante, fortalecedora das energias
da alma, para se tornar uma acrobacia esteril entre os textos e as
opinies dos doutores em theologia. Deslocaram, da consciencia para a
auctoridade, o ponto nodal de sua ethica; a obediencia, em vez da
responsabilidade, tornou-se o extracto essencial de sua pedagogia; seu
formalismo matou no brto todas as iniciativas.

Assim conseguiram discipulos excepcionalmente preparados para o grau
secundario do esforo mental, que se caracterisa plo exito em descobrir
consequencias formaes, pla capacidade de achar os corollarios de um
asserto qualquer, pla explanao de theses alheias; esfro, enfim,
subordinado  existencia dos grandes actos de creao mental, que
assignala indelevelmente a obra dos pensadores egregios.

Ainda ahi, a obediencia e o respeito ao preestabelecido suppririam o
aniquilamento da fra creadora individual.

Com esta grande deficiencia, o ensino jesuita no permittiu a
originalidade, a iniciativa benefica, e s preparou reproduces de um
certo feitio mental, de valor social infimo, si olharmos para o impulso
motor da humanidade na sua evoluo ascensional.

Essa mesma obediencia  Regra apresenta graves perigos politicos.

No se acha o Estado em face de uma simples congregao docente, com
programmas mais ou menos perfeitos: a propria Egreja, universal em sua
essencia e nas suas tendencias, ergue-se deante delle, com um programma
politico, alm de suas normas moraes e divinas. E no programma politico,
que os Syllabus concretisaram e as recentes encyclicas sbre o
modernismo e sbre S. Carlos Borromeu vieram relembrar aos catholicos,
so profligadas numerosas conquistas liberaes, que no foram,
entretanto, obra de perseguio contra a Egreja, sim prova de reverencia
aos demais cultos e, acima de tudo,  liberdade humana.

, portanto, perfeitamente admissivel que o proselytismo, digna e
honesta consequencia de toda convico operante, se transforme nas
escolas regidas pla Companhia, que sempre se salientou na vanguarda, em
lucta aberta contra os principios de que se gloriam todos os espiritos
emancipados: o respeito s crenas alheias, a proteco a toda
actividade lealmente inspirada por uma convico, a sinceridade e a f
no progresso social.

Nem ha nisto simples hypothese formulada sbre plausibilidades. A
historia dessa milicia do Papa incarna um longo esfro por fazer
predominar seus pontos de vista dogmaticos, educacionaes e politicos.

A recente lucta em Frana contra as Congregaes, sejam quaes forem os
excessos sectarios, foi provocada pla aco politica do espirito
jesuita, e no seria tarefa difficil balisar plos periodos de maior
actividade da Sociedade os actos de reaco do poder civil, sem apreciar
at que ponto estes ultimos desobedeceram aos principios moraes, que a
laicidade proclama, nem analysar o passado de rancores accumulados que
explodiram no combate levado ao Catholicismo plo gabinete
Waldeck-Rousseau, e sobretudo plo de Combes.

Ainda hontem divulgou-se nas Crtes hespanholas a correspondencia do
Cardeal Cascajares, preconisando a fuso dos dous ramos dynasticos
rivaes daquelle pas, com o fito de formar um grande partido catholico
monarchico, projecto favoneado por Leo XIII, o Cardeal Rampolla e o
Imperador da Austria.

A historia de nossos dias archiva a formao de partidos catholicos
nacionaes, com intuitos mais ou menos claramente inspirados plo
programma politico da Egreja oecumenica.

No , pois, visionario quem alludir ao grande problema politico interno
creado pla separao da Egreja do Estado e oriundo do conflicto
possivel entre o conceito theologico do homem e da sociedade, e a
mentalidade que presidiu  organisao republicana, e at hoje se mantm
nas suas leis organicas; conflicto que pode romper, na lucta pla
victoria entre os dous ideaes, quando das escolas, leigas umas,
confissionaes outras, sairem e pelejarem os directores da politica
nacional de amanh, reflectindo a contenda mais funda entre essas duas
concepes da propria vida.

E  licito indagar si se trata mesmo de previso, ou de simples
indicao de tendencias j hoje manifestas e que tem posto  prova a
fidelidade do Estado agnostico s suas affirmaes de neutralidade
confissional.

Tal divergencia no  de se receiar quanto s escolas filiadas s
innumeras variaes protestantes. Schisma aberto em nome da liberdade
individual na interpretao dos textos sagrados, seu principio essencial
age continua e perpetuamente como fermento para, sem cessar, favorecer e
alentar novas correntes religiosas e auctorisar a mutabilidade do dogma.
No permitte, portanto, a grande centralisao confissional, que d ao
Catholicismo e seus orgos de aco o poder e a preponderancia que tem
na vida espiritual dos povos.

Alm disso, a tendencia analytica do Protestantismo e a austeridade de
seus habitos mentaes coincidem por demais com os caracteristicos do
espirito de investigao scientifica para que se no deem entre os dous
allianas tacitas e comprehenso reciproca. Ao dogma sempre aberto 
corrigenda individual, corresponde o conceito moral em via de constante
melhoramento progressivo.

 geral, hoje em dia, a coexistencia sympathica da laicidade com as
confisses derivadas da Reforma.

De dous pontos do horizonte, portanto, podem sobrevir as tempestades: do
espirito sectario, systematicamente hostil ao Catholicismo e pedindo
medidas repressoras; da propaganda dos artigos politicos do Syllabus,
pelos fiis da religio romana.

Ao primeiro, deve o Estado oppor, com brandura, mas inexoravelmente, sua
tarefa de protector equanime de todos os modos de pensar, de orgo
alheio s disputas espirituaes e, por isso mesmo, egual respeitador de
todas as divergencias. No o deve fazer, entretanto, do ponto de vista
erroneo de uma ironia superior. Nos varios credos no lhe  licito
enxergar suspersties que cumpra extirpar. Em nome de que principio o
faria, si representa a inteira liberdade de pensamento?

E como elimin-las todas, o que seria escolha de um credo tambem--o
atheismo--, si proclama no possuir o criterio da verdade absoluta e age
na esphera essencialmente relativa dos phenomenos, das manifestaes
sensiveis, portanto?

Mas seria insufficiente uma attitude puramente negativa. Para libertar
as crenas, como convm  plenitude da vida social, com o homem, digam o
que disserem, e mau grado as excepes individuaes, um idealista
impenitente, cumpre consider-las a todas com sympathia e agradecer-lhes
o alto servio que prestam  mentalidade humana,  dignidade crescente
da existencia,  moralidade cada vez superior do individuo e da
aggremiao, ao aperfeioamento da vida collectiva, plo desenvolvimento
e intensificao da vida interior do homem.

Outra e mais ardua  a misso do Estado quanto ao ataque sempre
renascente dos restauradores do conceito antigo, exalado plo
Catholicismo nas condemnaes de 1864 e de 1907, ao formular a lista dos
dizeres fulminados pla Egreja. Mas, para ser proficua, a aco do
Estado deve, serena, evitar armas e processos utilisados por seus
adversarios, o que valeria por uma abdicao e por uma confisso do
nenhum valor do agnosticismo, prgado como frmula definidora da
separao de poderes.

, portanto, tratando os catholicos com a mesma profunda sympathia
devida a todas as demais convices, e ainda com a maior gratido pelos
immensos servios prestados  humanidade, que o Estado dever organisar
a defesa da obra leiga; no para aggredir a ste ou quelle dogma; sim
para manter o ambiente de neutralidade espiritual mais propicio para a
livre concurrencia de todas as confisses, assegurando assim o triumpho
quellas que mais dignas se mostrarem da direco das consciencias.

, pois, na organisao leiga de um ensino, forte em seus varios graus,
e accurado nos meios postos em aco para augmentar o valor moral e
social do homem, que se encontra a defesa do agnosticismo contra as
investidas dos partidarios do exclusivismo religioso e da suppresso de
conquistas, que o espirito liberal de todos os cerebros politicamente
emancipados consideram definitivamente incorporadas no patrimonio da
Sociedade.

Como organis-lo, entretanto?




VI

_Laicidade e ensino_


O inicio da sabedoria est em conhecer o rro. Confessemos, lisamente,
que no existe ainda a obra escolar destinada a formar, sem liames
confissionaes, mas tambem sem sectarismo anti-religioso, as camadas de
jovens, progressivamente mais poderosos pla instruco e pla educao,
fortes por seu valor intellectual e por seu descortino moral, mocidade
com que a democracia tem o direito de contar para construir aos poucos,
na cidade futura, seu ideal de justia e de bondade por que anseiam os
pobres e os soffredores.

Esboam-se, apenas, em alguns Estados, as linhas da empresa leiga,
andaimes dum edificio ainda por erigir. E essas mesmas tentativas, sem
coordenao de regio a regio, ameaam quebrar mais um dos laos que
prendem as circumscripes federadas. Em algumas, o descaso  quasi
absoluto. Cumpre, pois, a bem da permanencia e do progresso do instituto
republicano, enfeixar os esforos dispersos em um esforo collectivo,
synergico, fortemente inspirado plo indispensavel advento de um
ambiente, intellectual e moral a um tempo, commum ao Brasil inteiro, sem
embargo das particularisaes inevitaveis, para que, em cada zona, o
ensino corresponda s exigencias peculiares della.

Esta obra pedagogica nacional  mister encetar, desde j, com intuitos
nacionaes e no locaes, elo e no fermento dispersivo entre os brasileiros.

A vastido do escopo, o servio que visa, o dever nacional do
fortalecimento dos laos federaes, tudo est a indicar que a execuo de
ministerio to alto no pode ficar somente  merc dos apertos
financeiros dos Estados. Esta misso deve estar assegurada e garantida,
sejam quaes forem as deficiencias regionaes, e isso no como um auxilio
prestado  circumscripo deficitaria, sim como cumprimento simples de
indeclinavel necessidade collectiva. Tanto vale dizer que  Unio
no pode ser indifferente a forma por que a tarefa  posta em pratica
nas varias zonas do Brasil, nem lhe  licito nesse rumo permittir
attenuao na intensidade, na sequencia e no caracter nacional da
actividade escolar.

Felizmente, as duvidas existentes a principio sbre a possibilidade de
interveno do Govrno Federal nos dominios da escola primaria j esto
dissipadas por actos do Congresso, affirmando a competencia cumulativa
da Unio e dos Estados na quadra inicial do ensino. Bastaria para
justific-la attentar nas consequencias da forma politica adoptada plo
Brasil.

Constituida pla unio perpetua e indissoluvel das antigas provincias, a
Republica desde logo teve de attender s necessidades vitaes das
circumscripes, asphyxiadas por uma centralisao demasiada. A
federao surgiu como formula solvedora do problema.

Como se acontecer em todas as crises, a reaco foi alm da aco que a
provocara, e, fructo da guerra excessiva movida ao principio unitario,
commetteu o rro de disjungir o processo da essencia na actividade
juridica, e permittir a formao de vinte e um codigos differentes, para
um pas acostumado  salutar unidade do direito.

Somente agora, a interpretao judiciaria, plo crescente numero de
casos nos quaes o Supremo Tribunal tem reivindicado a competencia
federal, est alargando a orbita da lei geral por um processo
constructivo analogo ao que soffreu o direito constitucional
norte-americano. Feliz do Brasil, si dsse rumo surgir a volta do pas 
primitiva unidade de seu codigo formal.

Entretanto, no estado actual, um dos mais fortes elementos do nexo
unional, a base da vida processual, foi substituido por uma fragmentao
de competencias, que enfraquecem as relaes e a intimidade do commercio
juridico entre brasileiros. O maior numero de reclamos das populaes
sertanejas encontra soluo junto aos poderes regionaes, ficando
completo o cyclo administrativo dentro no proprio Estado: outro factor
poderosissimo de afastamento do centro governativo geral do pas.

Esse centro, como expresso do conjuncto nacional, exerce sbre os
membros federados sua aco onerosa mais do que seu concurso benefico,
isso na forma mais directamente percebida pla populao. O imposto 
mais sensivel do que o complexo de servios indispensaveis 
dignidade nacional, prestados, portanto, aos Estados, mas de modo
indirecto, sem que lhes saibam apreciar a valia--taes a defesa do
territorio, a diplomacia, a faina legislativa, o fomento economico, o
ensino superior.

Tudo, portanto, na legitima satisfaco das exigencias primaciaes das
antigas provincias, tanto quanto o modo por que se faz sentir a
interveno federal, tudo concorre para afrouxar os laos de unidade
nacional estreitando a noo regionalista.

Em taes condies, fra o mais grave dos erros politicos da Unio, por
inercia ou descaso impedir a formao natural dum ambiente commum de
sentimentos, de aspiraes, de processos mentaes, de progresso moral. De
norte a sul, em vasto amplexo, experimentariam todos os brasileiros a
sensao de constituirem uma familia unica, que influiria na mentalidade
individual e na mentalidade collectiva como uma fra nacional activa,
operante, corroborando, pla unidade de consciencia moral e communho de
destino, para cada vez mais avultar ste Brasil uno e grande que almejam
todos os patriotas sinceros.

E o meio mais efficaz, mais elevado e mais seguro  organisar o ensino
primario, no qual, mais do que nos outros graus, se forma a _psyche_ da
nacionalidade. Esse, um dos motivos que levam a affirmar que a crise da
mentalidade brasileira  a crise da escola primaria.

Certo, a aco nem ser facil nem prompta.

No seria justificavel que a Unio custeasse os gastos da instruco
publica por todo o territorio. Bastaria, para realisar sua grande obra
educadora, ter em cada Estado--ou, nos Estados pequenos,
grupando-os--uma escola normal primaria superior, com o fito de formar
os professores das escolas normaes communs, os directores de escolas
primarias grupadas e os inspectores de ensino. Utilissima instituio,
esta ultima, orgo essencial para manter a unidade doutrinaria entre os
docentes isolados e conservar-lhes sempre acceso o animo apostolico em
que se inspira o verdadeiro educador; instituio ainda por ser creada,
pois o arremdo de inspeco ora existente em alguns Estados 
prejudicial mais do que util, por terem recado as nomeaes em pessoal
pedagogicamente inapto a desempenhar to ardua misso, meros burocratas
que falseam o espirito do professorado, limitando sua tarefa 
regularidade das funces administrativas, deixando no olvido, por a
desconhecerem, a elevada incumbencia de que esto investidos no preparo
do campo espiritual, onde devem germinar as searas de amanh.

Complementarmente, para que os institutos primarios superiores
continuassem animados do mesmo espirito nacional, impedindo a
immobilidade mental e moral pla constante competio entre os lentes,
premiando os mais dignos no sacerdocio docente; para dar esse caracter
geral  formao do corpo de educadores, cumpriria crear na Capital da
Republica um instituto superior de pedagogia, theorico e experimental,
no qual se preparassem os candidatos s cadeiras das escolas normaes
primarias superiores.

Ficaria assim fechada a cupola do ensino elementar, lanando sbre o
Brasil todo a rede dos estabelecimentos de educao nacional. Seu
nobilissimo fim de elevar o nivel moral e intellectual das massas,
collimando a estricta solidariedade de todas as regies do pas,
instituindo um ideal sublimado de liberdade e de responsabilidade, de
fraternidade humana, e de destino social de todos os esforos; tal fim
dentro em breve se resumiria no culto  Patria, e della faria a grande
religio nacional.

A aco governamental no chamado ensino secundario , a um tempo, menos
ampla, mais facil, egualmente urgente e de resultados mais promptos.

O modo plo qual se recrutam os discentes nos estabelecimentos
secundarios tem por base quasi unica o grau de fortuna dos paes, e as
mensalidades exigidas pelos collegios no esto ao alcance da immensa
maioria daquelles que mandam seus filhos  escola primaria. Existe ahi,
portanto, um vicio de principio a corrigir, afim de facilitar ao
proletariado a possibilidade e os meios de aperfeioar a instruco de
seus filhos, nos casos em que estes revelem aptides especiaes.

Quer pla creao de logares inteiramente gratuitos conferidos aos
alumnos, que mais distinctos se tiverem revelado nos exames finaes das
escolas primarias; quer pla gratuidade absoluta concedida como regra
aos filhos de operarios; de qualquer forma  indispensavel permittir o
accesso dos lyceus aos desvalidos da fortuna, afim de no ser privilegio
da riqueza o adito  instruco secundaria e superior.

Claramente, no ha vantagem social em multiplicar, com a viciosa
organisao vigente, o numero dos bachareis em letras. E o meio
pratico de diminuir a concurrencia  organisar fortemente o ensino
primario, realisando programmas estudados de forma a ministrarem aos
alumnos as noes efficientes indispensaveis para que saibam reger a si
e as suas relaes com seus similhantes.

Aqui,  menos difficil agir, pois com a pessima estructura adoptada
pelos codigos, a maior parte dos collegios so equiparados aos
institutos officiaes, exigindo portanto fiscalisao e tendo de obedecer
s normas editadas plo Ministerio do Interior. Ha o que no existe no
grau primario: materia sbre a qual actuar, quadros para a execuo das
ordens, auctoridade coordenadora superior, doutrina a pr em pratica.
Sem discutir as virtudes isoladas de cada um dsses elementos, meios de
aco existem.

Seria banal repetir aqui o que vale a fiscalisao official, inventada,
salvo excepes rarissimas, para crear renda certa paga pelos
fiscalisados aos felizes fiscaes.

No ha, pois, fiscalisao, ou, antes, ella serve apenas para dar a
co-responsabilidade official nos abusos innumeros que se praticam em
taes collegios, que mais vendem approvaes do que espargem luzes. O
modlo de instruco secundaria , legalmente, o instituto official;
modlo fraco,  certo, mas, inda assim, o que menos dista do verdadeiro
estabelecimento secundario. Infelizmente, apesar de lamurias officiaes e
de trechos rhetoricos dos documentos apresentados ao Congresso Nacional,
nada ha feito no rumo do reerguimento do ensino, quer nos modelos
officiaes, quer nas casas equiparadas. Manteve-se o mercado de pouco
recommendaveis fabricantes de diplomas, e o prurido inqualificavel de
grangear sympathias continuou por largo tempo a instituir a mais
deploravel anarchia e a mais criminosa tambem, nos cursos dos lyceus.

Foi norma o desamor dos Governos da Republica, desapercebidos da noo
elevada de quanto, em regimen agnostico, era melindrosa a tarefada
formao mental da mocidade. A preoccupao dos programmas substituiu o
cuidado no ensino. Um doentio amor  exhibio levou docentes e
congregaes a organisarem pomposas listas de materias a preleccionar,
triumphando, em cada materia, a cogitao pueril e inintelligente de
exgottar o assumpto, como si tal cousa fosse simplesmente possivel. Mas
a receptividade do educando, o trato psychico entre o lente e o
discipulo, a impresso nos cerebros juvenis das disciplinas
expostas, de modo a se tornarem estados de consciencia permanentes e
motores da vida--tudo isso, detalhes de que no usam curar os
responsaveis plo ensino.

Insinceridade e libertinagem de espirito campeiam infrenes. Ainda ahi,
falta de ambiente moral, creado plo estagio educativo, onde se formam
as crenas basilares, impulsionadoras e directoras de toda existencia
humana: a escola primaria.

Alm dsses graves defeitos organicos, vicios de methodo, deficiencias
intellectuaes, superficialidade nas provas de obediencia e respeito s
regras officiaes, tidas por modelares. Ensino, exames, provas de
sufficiencia, verificao da madureza do alumno, tudo se faz no interior
do collegio com a assistencia do fiscal. Si ste nenhuma confiana
profissional pode inspirar, dado o modo por que geralmente se fazem as
nomeaes; si os examinadores so os proprios professores, interessados
no augmento dos discentes do estabelecimento e por isso mesmo
tolerantes, afim de no perderem a frequencia; como podem merecer f os
actos probatorios de maioridade intellectual?

No  ensino similhante estado de cousas:  a comedia do ensino  a
fraude e infelizmente legalisada com a estampilha official.

E quanto se comprehende que os paes fujam da praga dos equiparados
leigos, onde se perverte intellectualmente a mentalidade dos jovens, e
prefiram os equiparados confissionaes!

Entregues  competencia indiscutivel de educadores de primeira ordem,
primeiros do ponto de vista especial em que se collocaram de acordo com
os conceitos da religio, as casas de ensino confissionaes obedecem 
norma, j velha para as egrejas, j estudada e applicada por ellas em
prazos seculares, para a qual se apparelharam por incessante actividade:
a conquista das almas pla escola. E por isso mesmo que o alvo 
altissimo, mais se cuida nos meios de triumpho e se multiplicam os
sacrificios para vencer.

A perduradoura preferencia assim manifestada ser a morte da laicidade,
si o Estado si no precaver, reorganisando seus methodos didacticos e
fazendo surgir no professorado o animo apostolico que crear a alma da
escola.

Para tomar uma providencia immediata, que influa desde logo na seriedade
do preparo dos alumnos, por que se no subtrairia aos collegios a
averiguao de madureza dos seus educandos?

Devidamente comprehendidas as provas de madureza, que no representam
uma recapitulao de materias, mas um meio de evidenciar at que ponto
se incorporaram e tornaram principios activos na mente e na consciencia
dos moos; porque no sujeitar seu julgamento ao criterio de commisses
nomeadas pelo Govrno Federal, extranhas a todos os collegios, perante
as quaes os candidatos se apresentariam e exhibiriam suas aptides?
Assim se estabeleceria a unidade de criterio no julgamento do preparo
dos interessados; ficaria eliminada a suspeio de lentes, julgando e
approvando seus proprios alumnos; despertaria a emulao entre os
institutos congeneres.

Seria, para o exame de madureza, a applicao da nossa velha usana dos
exames parcellados de preparatorios, to anti-scientificos quo
prejudiciaes, mas que apresentavam o merito da insuspeio dos juizes,
alm da unidade do criterio julgador.

Dahi proviria ainda a desnecessidade da fiscalisao continua dos
collegios com funccionarios por elles retribuidos, sem a precisa
auctoridade moral, portanto. Abertas, a quem quisesse se inscrever, as
bancas de madureza, nenhuma vantagem adviria da equiparao e cessaria
tal industria, que tanta vez especula indignamente  sombra de um
malfadado texto legal e da desidia dos Governos.

Outro ponto merecedor de interveno immediata seria a simplificao dos
programmas. Porque sobrecarreg-los com materias das quaes, quando
muito, noes deficientissimas podero ser esboadas? Porque fingir
desenvolvimentos, que no comportam nem o tempo, nem a capacidade
receptiva de cerebros de 16 annos, nem o preparo mental obtido no grau
inferior, nem as exigencias ulteriores da vida?

 verdadeira improbidade intellectual e moral a falta de correspondencia
entre o pomposo programma e o curso realmente leccionado, entre os
pincaros collimados e a modestissima restinga em que se installa a aula.

Tem por fim o ensino fundamental, no formar sabios, sim somente jovens
munidos das noes precisas para regular a existencia, luctar contra os
obstaculos, comprehender seu meio, ser util a si, e a seus similhantes.
Porque, pois, fingir nos programmas, ou mesmo na pratica, rudimentos de
questes de pura erudio, ou improprias ao destino social, collectivo
da mdia?  obvio o egoismo professoral em casos taes: a ostentao
da propria cultura, a par do deleixo da misso espiritual juncto aos
educandos.

Observaes analogas poderiam ser feitas sbre o ensino superior, menos
opportunas, entretanto, do que as que ficaram notadas sbre os graus
preliminares. Por ora, a lucta intellectual entre o espirito leigo e as
normas confissionaes ainda no teve por theatro as faculdades que formam
as nossas chamadas profisses liberaes.

Taes observaes, tambem, poderiam ser resumidas na falta dsse pendor
especialissimo da alma, que estabelece as correntes de reaco reciproca
entre a cathedra e o estudante, esse fluido peculiar, cordial, generoso
que sagra educador o expositor da doutrina. Aqui, como no estagio
secundario, encontrariamos elementos probantes para, de modo
comprehensivo e generico, affirmar mais uma vez que a crise do ensino no
Brasil  uma crise moral, a crise da escola primaria.

Do cimo  base do edificio, o que se requer so professores dignos de
exercer o altissimo sacerdocio, capazes de pr em jogo todas as energias
occultas da alma, que possuam o fervor communicativo dos apostolos, que
no reduzam sua misso a uma simples exigencia do espirito, porventura
apenas tarefa mnemonica, e sim uma obra evocadora dos recursos proprios
do individuo, uma chamada a postos de suas melhores faculdades, uma
lenta mas incessante ascenso s mais puras regies do bem, do bello e
do consciente.

Obra de longo folego, no dispensa a collaborao do tempo. Exige
paciente e cuidado preparo anterior. Impe uma coordenao prvia de
esforos, s possivel com antecedencia notavel, antes de colligir
resultados. Pouco importa: sobra auctoridade moral, e pode esperar
serenamente a ecloso dsse espirito novo quem fala e age em nome dos
interesses de um pas, permanentes por seculos porvindouros.

Mas, tambem, s pode germinar e dar fructos num ambiente de inteira
liberdade, de respeito verdadeiro por todas as opinies, neutralidade
sympathica para com todos os systemas que buscam elevar a vida interior
e tornar mais intenso seu influxo regedor nas aces humanas. Da
neutralidade leiga sair fortalecido o animo verdadeiramente religioso.

Grata misso para os espiritos sinceramente liberaes, lembrados de que
todas as grandes conquistas moraes tiveram inicio no sonho--na
utopia ou na demencia, diriam pessimistas--do pensador solitario, em
cuja meditao desabrocharam. Por ellas padeceram, martyres da f, os
precursores que as haviam prgado, irradiando sbre os homens o
deslumbramento da Verdade que lhes illuminava a alma.

Para todos os crentes no progresso humano, misso grata e dulcissima,
por lhes passar pla mente a esperana de que, no conflicto
contemporaneo de sentimentos e de idas, em meio de tantas syntheses que
aspiram a reger as consciencias, astros de grandeza vria no ceu da
espiritualidade, alguma claridade se encontra--brilhando em puro azul,
ou scentelha que mal se divisa abaixo do horizonte, nas brumas do
vindouro--, luz em ambos os casos,  qual talvez caiba renovar o milagre
da Galila, e, fulgurante das scintillaes da evidencia, guiar as
gentes ao bero de novo Messias, perante o qual se dissiparo, nevoas ao
claro da aurora, as duvidas e incertezas sbre os graves problema dos
Homem, da Vida, do Mundo.


5447--Rio de Janeiro--Imprensa Nacional--1911


    [1] Introduo ao estudo de Boehmer sbre os jesuitas. Nessa obra
    colhemos quasi todos os nossos apontamentos sbre a Companhia,
    muitas das consideraes que damos a seguir.

    [2] As opinies dste philosopho so extrahidas das citaes do
    livro de Pcaut sbre _L'ducation publique et la vie nationale_.
    Desta obra admiravel, extrahimos numerosissimos excerptos de que nos
    utilisamos no correr de nosso trabalho.





End of Project Gutenberg's Os jesuitas e o ensino, by Joo Pandi Calgeras

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information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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