Project Gutenberg's Pelo mundo fra, by Maria Amlia Vaz de Carvalho

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Title: Pelo mundo fra

Author: Maria Amlia Vaz de Carvalho

Release Date: November 5, 2009 [EBook #30404]

Language: Portuguese

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     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
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                                             Rita Farinha (Nov. 2009)



Maria Amalia Vaz de Carvalho


PELO MUNDO FRA


LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira--editor
_50, 52--Rua Augusta--52, 54_
1896




PELO MUNDO FRA




Maria Amalia Vaz de Carvalho


PELO MUNDO FRA


LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira--editor
_50, 52--Rua Augusta--52, 54_
1896




LISBOA
Typographia e Stereotypia Moderna
_II--Apostolos--II_
1896




I


No ha de certo ninguem, por pouco imaginativo e pouco phantasista que
seja, que no tenha architectado um complicadissimo e alegre sonho
dando-lhe por base o _prazer das viagens_. Aos homens  o interesse de
visitar cousas novas, de experimentar sensaes mais vivas, que os
attrahe e chama; s mulheres  o amor do desconhecido que lhes irrita a
insaciavel curiosidade.

Imaginamos todos que a ventura est justamente... onde ns no estamos.
E que seria facil conquistal-a, indo em demanda d'ella um pouco longe,
em um logar d'onde ella nos sorri, d'onde ella nos acena, cariciosa...
traioeira.

Eu cedi tambem  estranha,  irresistivel suggesto. Fui-me por esse
mundo fra em busca do pomo d'ouro, que tantas vezes se parece com
aquelle fructo colhido em terras da Palestina--mimo e velludo por fra,
cinzas escuras no interior.

Era bem natural que, para mim to profundamente modelada pelo espirito
da Frana, o primeiro objectivo fosse a terra onde a civilisao
franco-latina se resume em synthese deslumbradora.

Chamava-me Paris. E Paris no era, j se v, a cidade luxuosa e alegre
do _boulevard_, a cidade da permanente festa, do prazer que se elabora
de todos os requintes de uma decadencia, da phrenetica aspirao ao gozo
material da vida.

Paris era a terra sagrada d'onde brotra para a especie humana a
primeira scentelha da Liberdade.

Paris era a patria, pelo menos moral--d'aquelles espiritos de que a
minha alma colhra, n'um vago extase fecundante, a flr maravilhosa e
inspiradora.

Todos os que eu intellectualmente mais amra tinham ido alli receber a
consagrao suprema da gloria ou da desgraa, s vezes de ambas ellas.

Eram, no grande seculo classico, Pascal, Racine e Molire; eram, na
soberba Renascena franceza, Rabelais e Montaigne; eram depois, n'esse
seculo XVIII hoje to calumniado, mas sempre to grande, e que to
indomitas energias acordara na alma do homem, Rousseau com a sua morbida
sensibilidade de ambicioso e de revoltado, que ns hoje comprehendemos
to bem; era Voltaire, a s ironia hoje desdenhada, mas que to benefica
aco exerceu na treva do espirito humano; era Diderot, o profundo
precursor de todas as modernas theorias criticas, o homem que no seu
tempo moveu maior numero de idas novas e suggestivas; era a pleiade
formidavel e fascinante da Revoluo, a que na minha mocidade me dera
sensaes de to absoluto assombro, a que, desde Turgot e Mirabeau at
Robespierre, refizera em novos moldes o mundo moral e o mundo politico;
era, na cumiada mais alta e mais luminosa da montanha da Historia, essa
grande figura immortal, o Alexandre do seculo XIX, o heroe de Homero, o
phrenetico conquistador, que empobreceu talvez a Frana, que dizimou as
populaes e crucificou as mes e as noivas, que sangrou do seu melhor
sangue as naes e as raas, mas que imprimiu na sua patria o cunho
epico, inapagavel, inolvidavel, com que ella ainda hoje espanta e
assombra o espirito dos estrangeiros! Parece dos tempos lendarios e  de
hontem esse homem soberbo e fatal--em cujo olhar profundo ha
reverberaes do Olympo, e cuja fronte pensativa fez parar embevecidos,
silenciosos, os mais impassiveis e os mais frivolos--cuja figura ns
topamos a cada passo na Capital do Mundo.

Modernamente, quantos outros me chamavam, ainda mais queridos ao meu
corao, ainda mais intimamente e estreitamente identificados com todas
as recordaes mais doces da minha vida intellectual... Era Michelet, o
poderoso encanto allucinante; era Balzac, a vida intensa que pullula em
creaes immortaes; era Renan, a graa emballadora, ondeante e morbida,
que anesthesia e faz sonhar; e Taine, o vigor soberbo da ida servido
por um temperamento possante de artista e de poeta, um Spinosa que
tivesse o pincel do Veronez para traduzir as vises do seu pensamento
altissimo; era Musset, o divino; era Sand, e Sainte Beuve, e Hugo, e
Lamartine: e cada um me attrahia por um lado ou por muitos lados da sua
sensibilidade e do seu genio, e cada um me dizia a palavra magica que
faz parar, suspenso, embevecido, um espirito de poeta e de artista,
humilde embora...

Eram mais, eram muitos mais, todos lidos, todos decorados com
enternecimento e apaixonado enlevo. Eram os que eu sempre amei desde que
abri os olhos d'alma, e a quem devo os prazeres mais ardentes, mais
refinados ou mais subtis da minha vida interior.

Todos alli me chamavam--cro de mortos que eu tinha a louca illuso de
encontrar ainda. Parecia-me que o sorriso aberto e expansivo do pae
Dumas havia de accentuar-se sympathicamente ao encarar com o meu
assombro extatico; que a voz mordente de Voltaire se amolleceria para
acolher em mim a mais fervente enthusiasta do espirito francez; que
Beaumarchais me contaria, entre risonho e caustico, uma nova travessura
de _Figaro_, uma nova paixo de _Cherubin_; que Molire, descendo do seu
pedestal marmoreo, me diria ao ouvido uma d'aquellas profundas reflexes
satyricas que elle no poupra s _bas-bleus_ do seu tempo!

Para mim confundiam-se n'um cahos allucinante as pocas, os seculos, os
periodos historicos.

O meu humilde espirito colhra apaixonadamente scentelhas soltas de
todos esses espiritos; a minha memoria guardava reverente, em relicario
precioso, perfumes vagos de todas essas essencias raras! Amara-os tanto!
Sonhara-os tanto! O scenario onde elles se tinham movido interessava-me
to profundamente!

Oh! Balzac ia decerto contar-me a historia, para elle _real_, das suas
elegantes e pallidas heroinas; elle que era forte e bom, compadecido da
minha pequenez, no duvidaria apresentar-me a esse mundo mais humano,
mais verdadeiro que o outro em que tanto  vontade sabia mover-se.

A viscondessa de Beauseant, a espirituosa e aristocratica rainha do
_faubourg_, aquella que amra tanto um portuguez, e que tivera no seu
abandono uma dignidade to gentil e uma attitude de to romanesco
encanto, ao vr-me patrocinada pelo seu grande artista, far-me-hia o que
fez a Eugenio de Rastignac: proteger-me-hia, introduzir-me-hia,
carinhosa e maternal, no circulo estreito, exclusivo, selecto onde
viviam as suas eguaes.

Ento, n'este ponto do meu sonho galopante, mais rapido que o trem que
me levava, mais vertiginoso que o scenario mudavel que me envolvia, eu
deixava o mundo da realidade sempre limitado, sempre condicional e
sempre estreito, por outro amplissimo, fascinador e deslumbrante.

A multido prestigiosa das figuras de Balzac cercava-me n'uma especie de
circulo encantado. Todo o sortilegio poderoso com que esse grande
artista--o Napoleo da litteratura--actuou sobre o nosso tempo, descia
sobre o meu cerebro, excitava-o, estimulava-o perigosamente.

Todos os meus gostos de observadora achavam alli a sua satisfao plena.
Esquecia, n'esse mundo de to frisante _realidade_, de to intensa vida,
tudo que o mundo actual tem de nauseante e de triste...

De resto, Nucigen, o formidavel banqueiro da _Comedia humana_,  bem
mais assustador que Reinach e que todos os judeus modernos da Columna da
Bolsa; Vautrin tem um porte pico de criminoso que deixa a perder de
vista Cornelio Herz, ou Arton; de Marsay, esse personagem que  de
Balzac como Hamlet  de Shakespeare, como Tartufo  de Molire, como D.
Juan  de Byron,  um politico, um diplomata, um perverso das altas
cumiadas sociaes, bem superior a Rouvier, a Clemenceau, aos pobres
pygmeus da terceira Republica; Lousteau, Claude Vignon, Emilio Blondet,
Nathan, os principes do jornalismo, os grandes criticos e os
manipuladores de _successos_ ou de derrotas litterarias, no podem
realmente comparar-se ao sr. Mayer, ao sr. Magnard, ao proprio sr.
Rochefort.

E que pleiade encantadora de artistas e de sabios! Que lindas figuras
luminosas de pintores, de esculptores, de romancistas, de pensadores!
D'Arthez! Joseph Bridau! Camille Maupin! Leon Giraud! Fulgence Ridal!

Em Miguel Christien transparece a integridade rigida, a consciencia
admiravel, a fogosa independencia de Armand Carrel; em D'Arthez a bella
alma, a vida modesta e simples, a magnificencia intellectual de um
Berryer...

E todos desfilavam ante os meus olhos offuscados, os cinzeladores da
palavra, os manejadores soberbos ou do escalpello que abre as entranhas
humanas para extrahir d'ellas o segredo da vida, ou do pincel que rasga
janellas de luz para o azul, para o Ideal! Os mestres da sciencia e da
arte, os grandes typos que constituiram essa sociedade imaginaria da
obra de Balzac, reflexo idealisado da outra que elle frequentava e
conheceu tambem.

Ao p d'esse agrupamento sublime de figuras que o genio creou, e que
illuminam o talento, a gloria, a ambio ou a desventura, que ora se
contorcem como os personagens que Miguel Angelo pintou nos seus frescos
soberbos, sob o influxo de uma dr tremenda, ora sorriem olympicamente,
como os retratos do Ticiano, surge uma legio adoravel de mulheres, em
quem a graa indefinivel da parisiense se allia ao eterno mysterio da
poesia feminina, mulheres que se vestem como duquezas modernas, e
sorriem, enygmaticas e suggestivas, como a Monna Lisa, eternamente
indecifravel, do pintor florentino.

Mulheres que sabem _ouvir_, que sabem comprehender, e julgar, e
consolar, e amar; mulheres que, sendo perversas, teem o encanto
diabolico da princeza de Cadignan e de Mme. Marneffe, e que, sendo
puras, se chamam Henriette de Morsauf, Duqueza de Langeais; mulheres que
so ao mesmo tempo imaginarias e reaes; que ficaram representando na
historia um papel preponderante e caracteristico, como as inspiradoras
da Renascena italiana, como as amigas gregas de Socrates e de Plato.




II


O comboio levava-me, rapido, ferozmente rapido. Levava-me para longe do
meu ninho, dos meus filhos, de tudo que me faz a vida consolada e boa,
de tudo que me d fora para o trabalho, para a lucta, de tudo que enche
de benos a minha existencia laboriosa e triste...

 paizagem arida, pedregosa, da Extremadura hespanhola succedia um
scenario mais animado, mais caracteristico. Aldas que desde os tempos
hispano-arabes se conservam na mesma immobilidade barbara, sinos altos
de egrejas gothicas, perfis apenas entrevistos de velhos conventos,
ninhos de cegonhas nas arvores que pareciam correr commigo, sombrias
manchas de arvoredo que o vento torcia em attitudes de desesperada
supplica...

A grandeza alpestre dos Pyrenos e a Frana, a Frana emfim!... Oh! que
jubilo estranho e mysterioso se mesclou ento com a saudade que me ia
alanceando e cortando as raizes da alma!

A Frana! Como eu tinha levado annos a amar e a sonhar esse paiz entre
todos aureolado aos meus olhos da luz que vem de cima!

Outras que para l partem levam projectos de requintada elegancia para
pr em pratica. Iro ao Redfern, o alfaiate afamado da rua Rivoli, que
veste to primorosamente as francezas de alto cothurno; iro ao Worth,
popularisado pelos romances modernos;  Laferrire, que veste as
actrizes de mais fama; ao Felix, que principescas encommendas acabam de
singularisar; compraro na Virot o ultimo modelo de chapo; recebero
_chez_ Lenthric _des conseils de beaut_, que elle d carissimos, _pela
hora da morte_, segundo a expressiva phrase portugueza, e que de resto
to pouco aproveitam a quem os recebe; interrogaro anciosas a elegancia
avulsa da parisiense que passa, pedindo-lhe o segredo, que s ella tem,
de andar por sobre o solo molhado ou enlameado, sem macular de leve a
fimbria, gentilmente arregaada, do seu simples, gracioso e bem posto
vestido escuro, que se amolda sobre um espartilho de mestra, com a
nobreza com que sobre o corpo de uma estatueta de Tanagra se amolda a
roupagem de linhas magistraes que o envolve sem encobril-o; o segredo de
collocar sobre a sua fina cabea pequenina, lindamente penteada, ou
antes, lindamente despenteada, um minusculo chapo, similhante a uma
borboleta ou a uma flr, que o vento parece querer levar, e que no leva
nunca...

O Paris que as attrahe  o Paris da moda, da elegancia, do _chic_, do
_concours hippique_, da _avenue des Acacias_, do _vernissage_ e dos
pequenos theatros gaiatos. O Paris que as attrahe  o dos figurinos, das
lojas de modas, dos ourives da rua de _la Paix_, dos frequentadores do
_boulevard des Italiens_ e da _Madeleine_.

O Paris que, na velocidade vertiginosa, quasi tragica do _expresso_,
surgia ante meus olhos, era um Paris phantastico, _unreal_, feito,
construido, cimentado com o genio dos seus grandes artistas, dos seus
grandes poetas, dos seus historiadores, dos seus moralistas, dos seus
sabios, dos seus criticos, dos seus dramaturgos, dos seus romancistas
geniaes!

A Frana, a que minha alma aspirava, como aspira s paizagens desoladas
da Palestina a alma dos grandes ascetas do christianismo, como aspiram 
mystica e penetrante atmosphera de Bayreuth os fanaticos da religio
wagneriana, era a Frana que desde Jean Goujon at Rodin, e desde o
Poussin at Puvis de Chavannes, e desde Froissart at Michelet, e desde
Mme. Laffayette at Georges Sand, e desde Balzac at Zola, e desde
Pascal at Renan--um, o catholico que se inclina sobre o abysmo da
duvida, outro, o sceptico que tem a unco evangelista de um santo... e
desde Montaigne at Anatole France, e desde Racine at Bourget... os
finos psychologos do eterno feminino--e desde Ronsard at Victor Hugo, e
desde Marot at Verlaine, e desde a grande renascena do seculo XVI at
ao magnifico movimento do romantismo, tem enchido o mundo da arte, e da
poesia, e da realidade, e da fico, de obras primas sem conta e sem
medida!...

De pequena tinham-me ensinado essa lingua to clara, que milhares de
artistas forjaram, bateram, cinzelaram, incrustaram de pedrarias
coruscantes, esmaltaram de riquissimas cres, metal precioso feito de
todos os metaes, e que tem qualidades de flexibilidade, de elegancia, de
sonoridade, de harmonia, de colorido, e de pujana absolutamente
incomparaveis e inimitaveis... De pequena tinham-me mettido nas mos as
obras primas dos seus genios mais brilhantes, e eu sentia-me no intimo
da minha alma mais franceza s vezes do que propriamente peninsular.

Ah! mas que melancholico foi o despertar do meu ambicioso, do meu doido
sonho!...

Atravessei, com uma rapidez que me deixou confusa e palpitante, o Paris
da minha evocao de vidente; estavam mortos os amigos que me tinham
alimentado com a medula do seu cerebro, ou com o leite da sua poesia, e,
vivos que fossem, alli perto d'elles, na atmosphera em que elles tinham
respirado, nas ruas em que elles tinham morado, no scenario que elles
enchiam do seu nome  que eu, pela primeira vez, ia sentil-os longe,
muito longe de mim, na incommensuravel distancia moral, que a
proximidade physica revelava de repente ao meu chimerico espirito de
sonhadora!

......................................................................

Senti ento o que nunca julguei que sentiria n'esse paiz que eu reputava
positivamente a patria do meu espirito! Senti uma nostalgia to
violenta, to dolorosa, que pensei morrer d'ella! Uma especie de
desaggregao intellectual, que deve ter nome na pathologia do cerebro,
mas que eu no sei scientificamente classificar--o que de resto no
admira nada!

Esqueci-me do que aprendera, fiquei-me em uma especie de assombro mudo,
em que a saudade de Portugal punha uma nota alanceadora, torturante.

O que os livros me tinham revelado foi como que varrido da minha
memoria; os sonhos que eu tinha edificado sobre a minha vinda a Paris,
desmoronaram-se em uma especie de estranho cataclysmo, e percorri a
linda capital da Europa civilisada, no como uma pessoa que de antemo,
e por muito os ter visto descriptos, conhecesse os seus encantos, as
suas bellezas soberanas, os filtros subtis que do seu _pav de bois_ se
exhalam de envolta com o cheiro penetrante da terra sempre humida e
sempre regada, a festa perenne das suas ruas e avenidas onde a miseria
no vem pr a sua mancha livida, onde perpassa uma multido sempre
garrida e sempre feliz, a perfeio nos seus theatros, a perversa poesia
das suas canes _fim de seculo_, a tenra verdura das suas arvores, to
bem cuidadas que parece que de manh cedo as lava todos os dias, a
esponja e sabonete, um exercito de invisiveis jardineiros, a lindeza da
sua luz que  tarde se faz de um cinzento roseo como o das paizagens de
Corot, to inexprimivelmente bellas... mas como um ser inteiramente novo
s impresses da vida extra-civilisada e que d'ella recebesse uma
especie de choque _estupidificante_!

Atravs de tudo, o que eu sentia vivo, absorvente como um _cauchemar_,
era a saudade do meu paiz, da minha Lisboa das sete collinas, construida
em amphitheatro, sobre o Tejo amplo e azul, da bonhomia d'este nosso
viver um pouco provinciano, pacato apesar do ridiculo de parodia
involuntaria que s vezes o desfigura e o desnacionalisa, da
familiaridade com que todos nos conhecemos, nos amamos atravs do
_debique_ permanente, em que andamos uns a respeito dos outros, da
tranquillidade um tanto adormecida do nosso espirito, do amor da casa
que distingue todo o bom lisboeta, da ausencia de ambio que,
exceptuando as alturas procellosas da politica, imprime o seu cunho
esterilisador, mas calmante, em todas as nossas almas serenas...

A lingua ento, a musica da lingua patria, fazia-me uma falta dolorosa.
Tinha sde de ouvir falar portuguez!

E preferia aos divertimentos que a engenhosa amabilidade do meu querido
hospedeiro me proporcionava, e s excurses artisticas em que elle era
um _cicerone_ incomparavel, instruidissimo, _raffin_, cheio de idas
originaes e suggestivas, as tranquillas e doces noites passadas em
Neuilly, na luz discreta da lampada Carcel, que um quebra-luz cr de
rosa fazia mais acariciadora e mais suave, e onde a familia
adoravelmente intelligente, e inolvidavel para mim, de um escriptor
portuguez, que  um artista da mais pura raa intellectual e da mais
ampla envergadura de engenho, me fazia uma especie de pequenina patria.
Alli a conversa tinha o tom preguioso da nossa conversa, os gostos
combinavam-se com os meus gostos, os nossos geitos especiaes de
portuguezas manifestavam-se a cada instante, e o que a graa feminil de
umas combinada com o genio nervoso e original de outros podiam dar de
delicioso ao meu espirito, harmonisavam-se para me fazer esquecer a
patria, os filhos, os outros amigos ausentes!

Nem sabem--n'esse ideal cantinho do mundo onde vivem, um pouco alheados
da civilisao babylonica que os aperta, os cinge e os invade s
vezes--elle, o artista laborioso e apaixonado mettido no seu trabalho
austero e impeccavel, como um monge na sua cella estreita, ellas, as
duas encantadoras irms, envoltas na grinalda viva de lindissimas flres
humanas, que so para uma _tudo_, e quasi tudo para o corao
instinctivamente maternal da outra,--nem sabem o bem que me fizeram
n'uma d'estas crises absurdas que s os nervosos conhecem e das quaes o
mundo estupidamente ri!

Foi ahi sobretudo que eu, curada d'aquella violenta nostalgia que
ameaava inutilisar inteiramente o resultado moral da minha viagem,
_reaprendi_ a gosar Paris, no j o meu Paris ideal, especie de
babylonia construida em nuvens, mas o Paris verdadeiro, o Paris real,
tal como elle lentamente me foi sendo revelado pelo intelligente
_cicerone_ que eu tive a fortuna de ter no meu divagar de _touriste_.




III


Folheio ao acaso as notas escriptas a correr, na rapidez da minha
viagem, e transcrevo-as para aqui, na sua sinceridade frisante.

, de resto, o unico merito que hoje podem ter as notas de viagem, o
temperamento pessoal do artista que _viu_, atravs das impresses que a
sua viso lhe deu. Mais nada. Tudo est dito, e no ha quem acorde uma
emoo nova, na alma do leitor _blas_ pelo conhecimento da obra dos
grandes artistas que viajaram. O proprio Bourget, que  um mestre, cujo
unico defeito  ter vindo um pouco tarde, depois de muitos outros, est
reduzido a chamar _Sensaes de Italia_ ao seu livro encantador de
viagem na terra classica da Arte. As sensaes que a Italia lhe deu a
elle, eis unicamente o que o delicado escriptor se atreve a contar,
certo de que toda a essencia de poesia que d'esse maravilhoso e fecundo
solo se pode extrahir, outros a extrahiram antes d'elle por l ter
passado.

A minha unica desculpa vem a ser esta: costumada a contar n'este mesmo
logar as impresses colhidas na leitura dos livros, porque me no
atreverei a completar, a ampliar, a desenvolver essas impresses
_livrescas_ com outras colhidas em diversos ramos de arte; mais
directas, mais reaes?...

......................................................................

--Acabo de sahir do Louvre, onde fui visitar as galerias da esculptura e
principalmente essa sala entre todas privilegiada e bemdita, onde a
_Venus victoriosa_, a Venus de Milo, esplende na sua sagrada formosura.

Chamava-me de longe, como um sortilegio poderoso exercido pelo Bello,
essa figura que eu tinha mil vezes visto em reproduces, em estampas,
em photographias, que me tinham dito ser a suprema divinisao do corpo
feminino, e que eu ia pela primeira vez contemplar na sua genuina pureza
marmorea.

A minha impresso, comquanto profunda, tem o seu qu de incerto e
duvidoso. Porque? Ser porque a Venus no realisou o sonho que eu fizera
da perfeio ideal dos seus contornos e das suas linhas? No. Ella 
realmente a belleza augusta, sobrehumana, ideal, como a proclamam
unanimes os que a tem visto e julgado.

Mas  que eu no tenho em mim enraizado como uma religio da infancia,
fazendo corpo com as minhas crenas, idas e sentimentos, esse culto da
belleza physica que foi a feio primacial da civilisao dos gregos.

Para mim um _corpo divino_  uma expresso litteraria, no  um dogma de
esthetica instinctiva.

Por isso, atravs da bella estatua procuro adivinhar, nas suas linhas
mais geraes, a extincta civilisao que ella representa, de que ella 
como que o remate e a flr!

Como Taine diz to bem, todas as grandes cousas um pouco remotas
correspondem a sentimentos que j no temos.

Precisamos de os reconstruir pela reflexo; e como ainda os menos
profundamente instruidos tem uma educao cosmopolita e multipla, em
que umas poucas de concepes de arte se ajustam e sobrepem, como ns
temos, adquirida laboriosamente, ou bebida no ar que respiramos e nas
rapidas leituras que fazemos, uma noo, profunda ou elementar, de cada
uma das civilisaes que antecederam a nossa, acabamos depois de algum
tempo de meditao por comprehender, com o espirito, no com a alma, o
sentimento que inspirou a obra de arte que estamos contemplando um pouco
inintelligentemente.

O _snobismo_ artistico consiste em fingir que se entende tudo  primeira
vista, mesmo as cousas mais avssas ao nosso temperamento individual ou
nacional. Evitar esse _snobismo_ a todo o custo, deve ser o decidido
empenho de qualquer espirito honesto e sincero.

A Venus , mesmo para o simples profano, uma esplendida revelao de
arte? , de certo.

No pde um corpo feminino ondular em linhas mais puras, no pde a
branca flr do marmore palpitar com mais intensa vida.

Pela graa magestosa da sua mutilada attitude (que fazia ella quando
tinha os seus divinos braos, perguntam debalde os criticos especiaes da
arte grega!), pela serenidade ineffavel da sua posio, pela harmonia
absoluta das suas linhas esculpturaes, pelo rythmo inspirador do seu
corpo marmoreo,--a Venus de Milo, brotada do cinzel de desconhecido
artista, na hora mais feliz da arte da Grecia, logo depois de Phidias
lhe haver imprimido o sello supremo de sua grandeza, antes do escopro de
Praxiteles a haver impregnado de uma languida graa voluptuosa, de um
sensualismo requintado e enervante, que decahe mais tarde na imitao
anti-esthetica da Natureza, nos realismos da polychromia, na extinco
final do gosto e do puro ideal artistico: a Venus de Milo merece ser
considerada, como diz Paulo de Saint Victor, aquella Eterna Belleza que
Plato adorava, a _Venus victrix_ cujo nome Cesar dava por senha aos
seus soldados na vespera de Pharsalia, e em todo o caso a mais bella
interpretao, que os modernos possuem d'esse feminino eterno que a
Grecia tanto amou, que no mundo historico ella foi a primeira a amar, e
cujo culto poetico e sensual traduziu nos seus mythos divinos, nos seus
ritos magnificos, na sua arte incomparavel...

Comtudo, ns smente possuimos truncados restos, fragmentos secundarios
da esculptura grega e no somos capazes, seno por _dilettantismo_ e por
curiosidade intellectual, de comprehender bem o culto apaixonado que ao
corpo humano foi consagrado pela Grecia.

 necessario avistar ao menos de longe essa raa simples, viril,
intelligente e bella, que foi de todas as raas a unica que poz a sua
concepo da felicidade humana em perfeito accordo com a sua concepo
das leis do Universo, que  realisao positiva de todos os seus
instinctos chamou Virtude, e  encarnao de todos os impulsos
naturalistas deu o nome de deuses; que tendeu ao aperfeioamento, e ao
desenvolvimento pleno da natureza humana na sua constituio politica,
no seu organismo social, nos seus costumes, na sua arte, na sua
religio; que fez deuses  similhana dos homens para os poder amar, e
que, chegada ao ponto culminante da sua perfeio artistica, esculpiu
homens  similhana de deuses para lhes render culto...

Que nos importa hoje, a no ser como exercicio d'arte, a belleza ideal
de um corpo de homem ou de um corpo de mulher?

Para ns a belleza tem outras regras bem mais complicadas, bem mais
subtis, e to difficil nos  conceber um corpo sem defeito, movendo-se
na plena graa e na plena liberdade da sua harmonia muscular, como seria
 Grecia conceber o nosso moderno ideal do bello, todo em expresso, com
a alma atormentada e complexa que se revela principalmente atravs do
gesto, atravs do olhar, atravs da physionomia ardente e devastada...

Para a Grecia, porm, habituada a realisar a perfeio, no smente no
marmore, que isso veiu mais tarde como complemento e como resultado,
seno na propria carne humana, e que seguia todos os processos pelos
quaes uma raa de homens se desenvolve, se robustece, se apura, se
requinta, at poder attingir a belleza suprema: que empregava no s a
eliminao systematica de todos os productos defeituosos, no s o
cruzamento forado dos fortes e das bellas, mas tambem os exercicios
permanentes da fora, e da graa robusta e livre, nos jogos do gymnasio,
na orchestrica, nas dansas guerreiras ou sacerdotaes, na educao,
emfim, do corpo levada s mais minuciosas praticas que podem depurar-lhe
as formas e desenvolver-lhe as latentes energias--para a Grecia a
belleza physica  mais que uma virtude,  uma condio absoluta da vida
nacional.

Sem belleza, isto , sem harmonia, no ha fora; sem fora como  que a
pequena Grecia venceria a poderosa Persia? Como  que ella chegaria a
ser o nucleo de extraordinaria civilisao, de que ainda hoje, apesar de
trinta seculos de mutilaes continuas, a nossa alma se alimenta, nutre
e revigora?




IV


Mas quem nos diz a ns que a Venus de Milo, objecto de uma ardente e
justa admirao entre os modernos, no fosse no fim de contas uma
estatua vulgar no seu tempo?

Os grandes esculptores gregos, aquelles cuja chronologia e cuja historia
chegaram at ns, descobertas pela paciente erudio, em alguns
fragmentos de Plinio, de Pausanias, de Cicero, de Quintiliano, no
faziam as suas obras mais preciosas seno em ouro, em prata, em marfim,
em materias firmes bem mais raras que o paros e o pentelico, de que hoje
se guardam nos museus os torsos mutilados, os fragmentos soltos, as
reconstituidas estatuas.

Ao p do que se sumiu d'essa sublime estatuaria grega, flr suprema
d'aquella civilisao de athletas, de gymnastas, de oradores e de
heres, quantas attitudes para a esculptura! O que resta vale bem
pouco, e representa apenas como documento de uma ra extincta.

Mas pelo que resta, ns sabemos que o corpo bello, viril, robusto e so,
movendo-se livremente sob a claridade azul de um co sem manchas, era o
ideal artistico d'esse povo que, mais feliz que nenhum outro, traduziu
integro e immaculado o seu sonho da vida, e--para quem  a vida, mais
que um sonho?--na religio, na arte, na poesia, nas paginas luminosas de
Homero, Eschylo e Plato, na frma sublime da sua Acropole, ante a qual
Renan soltou aquelle melancolico e sublime grito de amor, nas frisas e
estatuas dos seus templos, nas ceremonias divinas e inspirativas do seu
culto, que ora so castas como a longa procisso das Panatheneas, ora
so soberbas de fora e de pujana animal como as dansas e os jogos de
ephebos ns...

A Grecia amou a sobriedade, a correco, a graa e a fora.

E depois de percorrer um periodo longo e o progressivo da iniciao,
chegou ao ponto de combinar e fundir os extremos mais oppostos n'aquella
completa harmonia, que s uma vez se realisou na terra e que no torna
mais!

Que importa, porm, que no torne?

Bastou que apparecesse uma vez, que brilhasse sobre ns, astro longinquo
e puro hoje apagado e de que ainda vmos o reflexo calmo, para que o
mundo ficasse eternamente ungido d'aquella graa mysteriosa, d'aquelle
divino _atticismo_ que em alguns raros eleitos resplandece e de que
todos temos o presentimento, a sde, ou a avidez!

Por isso Renan, a alma mais accessivel  influencia do bello de que
talvez possa ufanar-se o nosso tempo, dizia no alto da _Acropole_ estas
palavras que traduzem um sentir universal que at alli no achra
expresso condigna:

-- Natureza impeccavel! Oh! simples e verdadeira Belleza! Deusa cujo
culto significa sabedoria e razo! oh! tu cujo templo  uma lio eterna
de sinceridade e consciencia! chego bem tarde aos umbraes dos teus
mysterios; venho ao teu altar cheio de remorsos! Para te encontrar, que
infinito esforo eu fiz!

A iniciao que, n'um sorriso, davas ao atheniense na primeira
infancia, s  fora de reflexes e de esforos eu pde conquistal-a!

Tu s s moa! tu s s pura! tu s s s! tu s s invencivel!

Um outro critico profundo, que estudou a Grecia com o amor com que se
estuda a civilisao-me, de que todas mais ou menos dependeram depois,
diz que no caracter nacional d'essa raa se discriminam claramente os
tres traos fundamentaes que constituem a intelligencia de um artista.

Estes tres traos so a _delicadeza da percepo_, a _necessidade
absoluta da clareza_ e o _amor e culto da vida presente_.

O primeiro d'esses traos permittiu-lhes perceber as relaes secretas
das cousas, deu-lhes o sentimento fino e raro das _nuances_, e a suprema
aptido para construirem conjunctos de frmas, de seres e de cres,
combinaes de circumstancias e de elementos to bem ligados entre si e
por to estreita identidade de relaes, que a sua creao de arte foi
to _viva_ que excedeu no mundo imaginario a harmonia preestabelecida no
mundo real e verdadeiro.

Ao segundo deveram o sentimento da proporo que possuiram como nenhum
outro povo, o odio ao vago e ao abstracto, o desdem pelo monstruoso e
pelo enorme,--que  a marca distinctiva do Oriente, do qual elles s
aproveitaram o bom,--o gosto dos contornos firmes e precisos. _O amor_ e
o _culto da vida presente_ bem o revelaram na sua religio sem mysterio
e sem _au del_, na sua paixo pela belleza plastica, na sua sde de
serenidade e de alegria, no seu antagonismo ingenito com a doena, com
as miserias physicas ou moraes, no seu encantamento absoluto, e que 
para ns immoral mas que para elles o no era, deante do corpo n,
representao suprema da fora, da graa, da saude e da belleza...

Uma raa to maravilhosamente dotada, idealista e positiva a um tempo,
tinha por fora de traduzir-se no esplendor das artes plasticas.

O espectaculo permanente dos bellos corpos ns, ou envoltos lassamente
na elegante e longa tunica que na altura do joelho se duplica e cahe
sobre os ps em pregas esculpturaes de inimitavel graa, a contemplao
habitual d'essa raa que se distingue pela nobreza simples das
attitudes, pela perfeio athletica da frma, pela serenidade do aspecto
que as nossas mesquinhas ambies ou o nosso devastador pensamento no
tinham convulsionado,--tudo devia naturalmente produzir, pelo pendor
imitativo que caracterisa o espirito do homem, a maravilhosa florao de
artistas sublimes que ao principio tentaram e depois conseguiram
libertar a noo do bello da estreita priso que o cingia e apertava,
fixar no marmore, no ouro, no marfim e no bronze a soberba viso da
fora militante ou graa ingenua e pura!

Como  interessante seguir a evoluo da arte grega desde o ponto em que
ella parece ainda pedir  inspirao hieratica do Egypto o molde
incorrecto que a liga e mumifica, at a hora em que Praxiteles arranca
do marmore a sua Venus de Gnido, de que a Anthologia canta assim a
voluptuosa formosura:

Cythera trazida pelas ondas foi a Gnido admirar a propria imagem, e
aps longa contemplao falou d'est'arte: Onde  que Praxiteles me viu
sem vos?... No, Praxiteles no ousou violar-te com olhar sacrilego. O
que elle fez foi representar-te com o cinzel qual te havia sonhado!

Ao principio, a architectura e a estatuaria, estreitamente unidas,
pareciam identificadas e inseparaveis; mas quando a estatuaria se
emancipou, no foram smente as frisas e os baixos relevos dos templos,
as colossaes effigies da cella interior, que captivaram e deslumbraram
o olhar do povo grego, foram as soberbas figuras erguidas ao ar livre, a
Athena colossal de Phidias, a Sosandra de Kalamis, as mulheres de
Carya, a Artmis divina em volta de cuja estatua as virgens da
Lacedemonia vm tecer annualmente as suas dansas rituaes!

Desappareceu o ingenuo symbolismo primitivo, que representava cada
divindade com os attributos do seu poder, ou com os accessorios
significativos das transformaes naturaes de que ellas todas eram a
concreta imagem; agora o que se revela ao fanatismo de belleza que
palpita na alma grega, so divinos corpos de mulheres em toda a
magnifica pujana da sua belleza creadora, em toda a graa adoravel da
sua feminina poesia.




V


A estatua deante da qual eu acabo de passar algum tempo, pedindo-lhe o
segredo do perdido Ideal que ella traduz, representa, como eu j disse,
esse momento fugitivo e bello da vida grega.

Esculpiu-a um desconhecido artista: mas no so totalmente desconhecidos
tambem para ns, os pobres oleiros que amassaram e modelaram as lindas
estatuas encontradas nos tumulos de Tanagra e no so tambem ellas a
poesia, o encanto, o velado mysterio, a ineffavel graa?

Falando d'ella, diz Paulo de Saint Victor: Oh! bemdito seja o camponez
grego, cuja enxada exhumou a deusa enterrada ha dois mil annos em uma
leiva de trigo!... Graas a elle, a ida do Bello ascendeu mais um gru
sublime, o mundo plastico encontrou a sua Rainha!... A belleza ondula
d'essa cabea divina e espraia-se em todo o corpo como uma luz!... S a
lingua de Homero e de Sophocles seria digna de celebrar to regia Venus!
Smente a amplido do rythmo hellenico poderia moldar, sem
deslustral-as, frmas to perfeitas!

Por que palavras exprimir a magestade d'esse marmore triplamente
sagrado, a attraco mesclada de assombro que elle inspira, o ideal
supremo e ingenuo que revela?

E Theophile Gauthier, descrevendo-a, diz assim:

A fronte soberba, de linhas curvas, cingida pelas _bandelettes_ do
penteado,  tal qual a podiamos sonhar para sde de uma alma divina; o
collo direito e firme lembra o fuste de uma columna dorica, o seio de
virgindade eterna  digno de servir de modelo, como o de Helena, para a
taa dos altares!

E, no emtanto, essa bella e pequenina cabea, que uma graa ideal nimba
eternamente, no  tal como elle diz, sde _de uma alma divina_. A Venus
de Milo no pensa. N'aquella branca flr marmorea uma alma vegetativa
sonha e dorme! Que sabe ella da Vida e das suas longas tragedias, que
sulcam de rugas profundas a fronte pallida das mulheres, que contorcem
em ancias, indomitas como o Oceano, a alma dos homens?

Quem lhe revelou, a ella, o segredo das nossas paixes que devastam, das
nossas luctas que ou disvirilisam ou depravam, das contradices
medonhas de que erriamos o nosso cruel destino, dos abysmos que abrimos
debaixo dos nossos canados ps? Que presentimento sequer tem ella--a
deusa inalteravel e serena--de tudo que a engenhosa imaginao dos que
vieram depois--deuses e homens--inventou para se torturarem e nos
torturarem?

Os dois mil annos que temos a pesar-nos sobre a cabea e sobre o peito,
passou-os ella ignorante e tranquilla sob a terra da Grecia.

O que ella representa  um momento risonho e curto da existencia humana;
um momento em que tudo  bello e harmonioso na terra e no co, em que,
para imitar os deuses que crearam, os homens no precisam de deixar
mutilar as suas energias mais vivas, os seus instinctos mais naturaes;
um momento em que o amor  sagrado e puro como a fonte inexgotavel dos
sres, e como tal tem culto e tem altares; um momento em que a Natureza
 benevola e s, e em que da espuma dos mares da Jonia pde brotar a
flr maravilhosa da eterna belleza, em que a inconstancia das ondas, a
perfida doura das sereias, o abysmo glauco, que tem no fundo grutas de
esmeralda collaboram em uma obra divina e produzem um symbolo
immortal...

       *       *       *       *       *

Que differena d'essa concepo propria  esculptura antiga e a nossa de
hoje, to fundamentalmente opposta nos fins e nos processos!

E no emtanto a estatuaria franceza representa no seculo XIX um momento
glorioso da historia da arte! Mas desenganem-se. Pde a estatuaria
franceza moderna revelar um grande talento da parte de quatro ou cinco
ou mesmo mais individuos; no , no pode j ser uma necessidade, uma
aspirao da raa, universal e irreductivel!

 um esforo de talento individual, no  o rebento vigoroso e vivaz em
que desabrocha finalmente a alma de um povo!

Depois da minha visita incompleta, mas cheia de interesse, s galerias
da antiguidade classica, fui ao Luxemburgo vr as estatuas francezas
modernas, e procurei, nos monumentos erguidos aqui ou alli,  memoria de
um artista querido ou de uma gloria nacional, o sello, a marca, pelos
quaes uma arte revela as intimas fibras de que  feita.

Vi corpos de mulher verdadeiramente encantadores! O marmore, branco de
mais, tinha a fluidez da carne tenra sob a qual o sangue, prpura viva,
circla rico e livre, mas pareceu-me que a preoccupao da _expresso_
dominava absolutamente os artistas e que elles tinham quasi todos
perdido o segredo em virtude do qual um corpo humano, masculino ou
feminino, interessa por si s, pela harmonia das suas propores, pela
liberdade com que jogam os seus musculos, pelo rythmo mysterioso de cada
uma das suas linhas.

E voltei d'essa peregrinao artistica sempre mais convencida, de que a
esculptura  talvez a mais bella das artes, mas a que est em menos
harmonia intima com o nosso ideal da vida!

Que temos ns feito em um longo esforo de dezenove seculos, apenas
interrompido pelo movimento artificial, erudito e artistico, mas no
popular da Renascena?

Temos contrariado pertinazmente a aco da Natureza sobre os nossos
gostos, instinctos e paixes. O que  o christianismo na sua essencia
philosophica e na sua influencia social? Uma reaco violenta e
permanente contra essa noo pag da existencia que fazia d'ella uma
festa perenne e magnifica; que fazia do corpo humano alguma cousa de
sagrado e de inviolavel, que tudo devia tender a satisfazer e a servir;
que fazia dos instinctos naturalistas da nossa especie a lei suprema a
que co e terra se subordinassem, pois que os deuses para serem amados
deviam ter e tinham as paixes que hoje fazem os homens criminosos.

O animal humano era realmente ento o rei da creao, mas nenhuma das
suas foras enfraquecera ou diminuira, nenhuma das suas energias fra
mutilada, nenhum dos seus instinctos domados, e elle movia-se livre,
feliz, triumphante e bello, em uma atmosphera de apotheose, que nenhuma
sombra vinha sinistramente obumbrar.

A antiguidade grega no  uma orgia, porque a orgia precisa de ter por
fundo a consciencia do peccado, e a Grecia em tudo que fez de
peccaminoso e de immoral aos nossos olhos, no violou nenhuma lei
divina, no foi de encontro a nenhum preceito dogmatico; pelo contrario,
obedecendo ao seu instincto, obedeceu  sua religio.

D'esta harmonia entre a lei moral, que ento no existia seno
rudimentar, e a realidade physica, vem a sua immensa felicidade e o
encanto incomparavel da sua civilisao.

Para o christianismo, pelo contrario, o corpo  o involucro, amaldioado
as mais das vezes, de paixes condemnaveis, de instinctos que 
necessario a todo o custo dominar, subjugar, vencer.

No  impunemente que a especie humana tem vivido acurvada durante
longos seculos a este jugo incomportavel.

Resente-se d'elles at a revolta dos atheus.

Por isso a nossa concepo da belleza physica, partindo de outras fontes
mais profundas e mais turvas, no podia ter nunca a incomparavel
claridade que tem o ideal grego. Os esculptores, que conservam na sua
alma o cunho indelevel que alli tem imprimido a civilisao christ, 
belleza do corpo humano prendem fatalmente consideraes de ordem
complexa que no influenciaram a estatuaria antiga.

As mulheres teem a attitude languida de peccadoras nuas, a carne, que o
marmore quer fingir, e que tem d'ella s vezes a flexibilidade, a
macieza, a vibratil poesia, tem tambem palpitaes e solicitaes
voluptuosas que a grave e simples belleza nunca deve suggerir aos que a
contemplam e que no suggeria aos contemporaneos de Phidias!

Isto no quer dizer que desde a antiguidade a esculptura seja uma arte
morta. E seria realmente sacrilego que tal avanasse, quem viu curvada,
em religioso assombro, a reproduco fiel d'essa _Noite_ de Miguel
Angelo, de uma tristeza to tragica e sublime, e o grandioso _Moyss_ de
biblica magestade incomparavel, e o _Penseroso_, e o _San Jorge_ do
Donatello, cuja nobre attitude altiva faz passar um calafrio de
admirao pelos nervos ainda mais resistentes.

Mas quer dizer que a estatuaria  hoje uma arte destinada a satisfazer,
no a alma collectiva das multides, mas o espirito culto dos
_dilettanti_ e dos artistas; uma arte em que o genio individual pde
manifestar-se sublimemente e l est a _Porta de Bronze_ que Rodin anda
esculpindo que o diga, e l esto os tumulos de Barrias, e l est o
baixo relevo de Rude, e l esto as innumeras estatuas, os innumeros
monumentos que enchem as praas e os museus affirmando que a Frana
d'este seculo possue uma intensa vitalidade artistica que a honra a deve
encher de justo orgulho. O proprio Falguire, um pouco amaneirado como
, e dando ao marmore palpitaes sensuaes e lubrica languidez, l tem
no monumento erguido na _Escola das Bellas-Artes_ a Henri Regnault uma
figura de mulher deliciosa e viva, que faz estremecer de goso o
verdadeiro artista, isto para no fallarmos na sua formosa Diana por
quem consta que morreu de amor um pobre hysterico, dos muitos que andam
enchendo este triste mundo com o espectaculo das suas perverses
morbidas!

A arte moderna, a que inspira a todas as almas de hoje o mesmo spasmo de
agonisante prazer,  a musica. Essa sim, que  para ns o que a
estatuaria pura, augusta e simples foi para os athenienses, o que a
architectura gothica foi para as torturadas almas idealistas da idade
media, o que a pintura foi para os renascidos pagos da Renascena
italiana, brios de cr, de luz, de vida. Essa sim, que  de ns todos,
e que nos faz vibrar, chorar, soffrer, e nos consola e nos tortura, e
nos arranca a ns mesmos e nos leva ao Inferno e ao Co.




VI


Visto que no outro capitulo fallei, no na inferioridade o que seria um
mal escolhido termo, mas na differena que distingue a estatuaria
moderna da estatuaria antiga, vou dizer alguma cousa a respeito de um
dos artistas mais palpitantemente _modernos_, mais caracteristicamente
diversos dos antigos que hoje possue a Frana e a quem de passagem me
referi nos meus anteriores artigos.

Este artista  Rodin. Os seus principios foram rudes e difficilimos,
como o de quasi todos os verdadeiros artistas, quer dizer d'aquelles que
trazem comsigo um temperamento to accentuadamente independente e to
intransigentemente pessoal, que desnorteia todas as rotinas e
revoluciona todas as estheticas estabelecidas e todas as escolas
triumphantes.

Hoje Rodin , elle proprio, um triumphador.

Acceitam-lhe as suas audacias, proclamam-lhe a altiva independencia
artistica, chamam-lhe um dos primeiros, seno o primeiro esculptor do
seculo.

Nem sempre comtudo succedeu assim.

Quando elle primeiro apresentou no _Salon_ a sua figura denominada
L'ge d'airain, que hoje, comprada pelo Estado, se admira no Jardim do
Luxemburgo, a primeira impresso do Jury, diante da escrupulosa
exactido de algumas partes d'esse corpo energico, foi que o estatuario
o tinha modelado sobre um corpo vivo e real.

Como se um tal excesso realista e anti-esthetico no fosse a condemnao
de um artista e pudesse produzir outra cousa a no ser uma obra morta
logo  nascena.

Foi em 1877 que a figura da Idade de bronze foi mandada ao _Salon_. Em
1881 Rodin expunha o S. Joo de bronze, um anachoreta magro e
robusto, de musculatura devastada e solida, erguida sobre ps que a
marcha endureceu, torso nodoso, habituado a todas as intemperies, com um
gesto de prgador obstinado, que levanta a face illuminada e aberta dos
mysticos e dos colericos.

At 1885 Rodin, que ao p do S. Joo expuzera tambem a Creao do
homem, apresenta na grande nave do Palacio da Industria os bustos
expressivos e magistraes de Jean Paul Laurens, de Carrier-Belleuse, de
Victor Hugo, de Dalou, de Antonin Proust.

No emtanto o acontecimento magno que at o presente domina a carreira
artistica de Rodin  a concepo e a execuo da Porta, destinada ao
Museu das artes decorativas,  qual me referi j n'estas mesmas notas.

Fiz, acompanhada do meu amavel _cicerone_ o trajecto longo que leva ao
atelier de Rodin.

Caminhmos pela rua da _Universidade_, atravez dos longos _boulevards_ e
das largas avenidas que se entrecruzam ou correm parallelamente nas
proximidades dos Invalidos.

 uma rua aristocratica e socegada; tem grandes palacetes e tem velhas
arvores.

Outras vezes surprehendem-nos entre esses vestigios de antigas
grandezas, pequenas casas graciosas com jardinsinhos  ingleza cuidados
e cheios de flores.

No fim, perto da odiosa torre Eiffel, escandalo de mau gosto,
americanismo revoltante erguido em plena Athenas moderna,--a physionomia
d'esta rua placida e tranquilla modifica-se bastante.

Grandes muralhas nuas, grandes tectos envidraados, mais altos do que as
muralhas, annunciam ao observador que entra n'um bairro de esculptores e
pintores.

Entrmos no n.^o 182.

Transposta a grande porta, que lembra o porto de uma das nossas
quintas, achmo-nos dentro de um cerrado bastante vasto, em que o cho 
musgoso e esverdinhado, em que ha recantos de herva alta e viosa, e por
sobre os muros do qual, verdes ramarias de arvores espreitam
curiosamente...

A dois passos do vertiginoso movimento de Paris respira-se aqui uma paz
profunda, uma quasi solido melancolica e doce.

Aqui e alli, enormissimos blocos de marmore de frmas diversissimas, de
cr frigida e branca, de arestas que brilham como ao ou como vidro ao
sol de abril, de veias azuladas em que parece gyrar um mysterioso
sangue...

Dormem na severa priso cyclopica d'esses blocos brutaes corpos airosos,
leves, esbeltos de nymphas florentinas, bustos delicados de Eva
adolescente, divinas nudezas de que esses marmores so a primeira frma
rude, frmas delicadas em que o genio do artista accender uma chispa
mysteriosa de vida immortal.

Que deliciosas figuras de mulher um cinzel magistral arrancar d'essa
massa dura e informe!

Como elle saber flexibilisal-a em membros de uma graa serpentina,
arredondal-a em braos que se abrem em uma curva deliciosa e suggestiva,
derramar, sobre niveas espaduas nuas, a vaga fluida e revolta de uma
cabelladura crespa e magnifica, entreabrir em um sorriso enygmatico
finos labios femenis, allumiar de ignota chamma o globo cavado de uns
olhos, desabrochar em molles curvas a flr de um seio virginal...

Todas estas vises de um mundo increado nos so suggeridas pela vista
d'esse campo cheio de pedras enormes, que  tarde, na luz rosea e
violeta do crepusculo, parece--disse-nos alguem--uma charneca semeada de
gigantescos tumulos...

Sobre esse armazem de pedra ao ar livre abrem as portas baixas dos
ateliers de esculptores que alli vieram buscar a commodidade e a
solido. Um d'elles  o atelier de Rodin, que eu ia visitar.

       *       *       *       *       *

Infelizmente, foi trahida a minha anciosa espectativa. O mestre no
estava, e o discipulo, que trabalha com elle,--um rapaz do Norte, de
immensa distinco de aspecto,--nem sequer pde mostrar-nos a esplendida
_Porta_, que estava no compartimento fechado contiguo quelle em que ns
entrmos, para admirar alguns grupos de marmore, em que a poderosa
_griffe_ do grande esculptor se imprimira profundamente.

O talento de Rodin  to pessoal,  to inconfundivel a sua maneira,
que, depois de se ter visto um corpo humano modelado por elle, no
tornamos a confundir este poderoso manejador do cinzel com nenhum dos
seus contemporaneos celebres.

Discipulo de Barye e de Carrier-Belleuse, a originalidade de Rodin
destaca, comtudo, em uma energia indominavel.

E original  ainda o assumpto que elle escolheu para essa _Porta_
monumental, apesar de arrancado  Divina Comedia Dantesca.  uma
transformao da ida do poeta, no  uma copia do seu pensamento, nem
um reflexo exacto da terrivel viso florentina.

Transcrevo de um critico eminente que fez a analyse da obra do esculptor
a descripo d'essa obra soberba, que eu tanto quizera ter visto.

Mas, antes d'isso, o retrato do esculptor tal como elle apparece,
envolto no prestigio de uma sympathia merecida, aos seus admiradores que
se contam por milhares.

Rodin  baixo, atarracado e placido de aspecto.

A barba loura cahe-lhe em ondas fartas por sobre o peito, enquadrando um
rosto friamente espiritual, um d'estes rostos de homem que valem
principalmente pela luz interior que os illumina, e que ora traduz a
serenidade silenciosa do trabalhador satisfeito com a sua obra, ora a
distraco absorvente do artista em lucta com as difficuldades ingentes
da execuo manual, ora a preoccupao dolorosa do investigador
insaciavel em busca do novo e do perfeito. A fronte de mystico, um pouco
ogival na frma,  vasta bastante para conter um cerebro potente de
pensador e de poeta.

O olhar e a voz esto em harmonia absoluta; olhar agudo, brilhante, que
concentra em si a luz; voz doce, intima, penetrante, que se insinua, e
onde um toque de causticidade pe no sei que estranho realce...

Tal o artista de tenaz vontade, a quem a estatuaria moderna, complicada
e symbolica, revela os seus segredos mais subtis.

Como typo representativo da arte moderna, no o ha mais culto, mais
philosophico, mais apto para entender tudo e tudo realisar.

E porque elle  assim, absolutamente incompativel com o simples ideal
grego,  que procurou no grande poeta da Idade Mdia o assumpto da sua
obra definitiva e magistral, obra de metaphysico e de observador, ao
mesmo tempo que  obra de artista; representao tragica, complexa e
soberbamente executada, da Natureza e da Vida, em alguns dos seus
aspectos mais inquietadores.




VII


Tem seis metros de altura a famosa _Porta_. As estatuetas do alto,
alguns grupos dos paineis, e os baixos relevos inferiores esto
completos ou quasi completos, mas ha pela vasta officina, espalhadas no
cho, nos sofs, nas cadeiras, em _tagres_, estatuetas de todas as
dimenses, em todas as posturas incoherentes, convulsas; de supplica, ou
desespero, de agonia ou de dr, dando a impresso de um campo de batalha
em que os combatentes se conservassem todos vivos, ou de um cemiterio
que houvesse resuscitado inteiro, em virtude de qualquer galvanismo
prodigioso...

O escriptor a que me estou referindo considera esta multido de estatuas
um agrupamento humano to significativo, to eloquente, to expressivo
em cada uma das suas mil attitudes, que s o apreciar quem o estudar
individuo por individuo, como se folheia um livro pagina por pagina,
como se l uma partitura nota por nota, como se analysa um corpo fibra
por fibra...

 a _Porta do Inferno_, quer dizer a agglomerao n'um drama cheio de
movimento e de vida dos Instinctos, das Fatalidades, das Paixes
inclementes que no homem vivem intensamente, dominando-lhe a vontade,
vencendo-lhe a razo, subjugando-lhe as resistencias, dobrando-o sob a
sua aco irreductivel, fazendo d'elle o instrumento inconsciente de uma
fora da natureza que a sua intelligencia no comprehende, e que a sua
virtude no submette...

Sob o cinzel d'este artista genuinamente, apaixonadamente, sentidamente
_moderno_ que  Rodin, o poema do vate gibelino no conservou a cr
local, nem to pouco o colorido catholico que o especialisa.

O esculptor despiu o seu symbolo de toda a significao italiana e
medievica, e smente aproveitou a moldura que elle lhe prestava para
exprimir dentro d'ella os aspectos humanos e universaes, que o tempo no
transforma e que o meio no pode alterar.

A _Porta_ ainda est por concluir; smente o enquadramento do poema
esculpido se pde julgar executado e completo.

As divises principaes, todavia, j podem ser imaginadas.

Comeando pela parte inferior da _Porta_ v se que os baixos-relevos por
sobre os quaes se vae erguer a composio principal, tem nos paineis
centraes mascaras inolvidaveis, contrahidas por todas as expresses da
Eterna Dr.

Corre em doida grinalda viva, em roda d'essas physionomias atormentadas,
uma dana vertiginosa de mulheres, de satyros e de centauros.

Pelos dois humbraes da Porta, sobe uma _theoria_ de figuras apertadas no
estreito espao, alongadas, fluidas, em alto relevo parcial.

So as doces apaixonadas, as criminosas felizes da paixo illicita, os
amantes que a mesma angustia entrelaa, e as velhas, que j perderam o
que tinham de humano, e as creanas inconscientes, nascidas de pouco
tempo e j marcadas pela garra adunca da Vida, tentando em vo
prescrutar com os seus olhinhos cegos o limbo incolor onde os membros
rachiticos se lhes agitam convulsamente.

No alto, sobre o fronto ha tres homens que so a representao viva do
distico dantesco: _Lasciate ogni speranza_. Inclinam-se uns sobre os
outros na attitude da desolao inconsolada. Apontam com os braos
extendidos para um ponto ignoto, a regio do irreparavel, do
horrendamente irreparavel.

Por debaixo d'elles  frente das multides movedias, que constituem o
primeiro circulo do inferno, um poeta n, sem nenhum dos distinctivos
que marcam uma poca ou uma nacionalidade, medita, mas em uma postura de
repouso.

Os membros fortes so feitos para as longas caminhadas e para as luctas
asperrimas, o rosto inquieto e intrepido, que se crispa na obsesso de
uma ida fixa, reflecte e repercuta a piedade, a indignao, a tristeza,
todas as sensaes que excitam o pensador at ao enthusiasmo, e o
commovem at  lamentao dolorida e tragica.

Aos ps d'elle, sob o seu triste olhar meditativo passa em turbilho
vertiginoso, cahe no espao vasio, ou rasteja dolorosamente a humanidade
inteira, na sua teima feroz de viver, de viver atravez da lucta
dilacerante, de viver despedaada, torturada, sangrenta, com espasmos
violentos de gozo que fazem soffrer mais do que as dres, com agonias
d'alma que lembram arroubamentos de extase!..

Extraordinaria a concepo do Mestre! Dizem que esses esboos, esses
estudos, essas realisaes plasticas bastam para provar a tenacidade de
trabalho do obreiro maravilhoso, a actividade genial de um creador de
seres vivos!

Cada figura isolada, cada grupo freneticamente enlaado, cada
representao de uma das mil paixes que cingem nos seus tentaculos de
polvo o corpo fragil e a alma dolorida da pobre humanidade, affirma
victoriosamente no s a destreza magistral do estatuario, como tambem a
ardente viso do poeta e a comprehenso soberba do pensador.

Ha entre centenas de outros, cuja descripo acabo de ler enlevada, com
pena inconsolavel de os no ter chegado a vr com os meus proprios
olhos, um que bastaria, segundo a mais exigente critica assegura, para
confirmar a grandeza de concepo, a fora tranquilla e a doura
melancholica d'este grande artista, que em frmas asperas, atormentadas,
sem a molleza amaneirada de que hoje a estatuaria reveste o corpo
humano,--soube encerrar e traduzir o infinito das tormentas moraes e a
variedade horrorisante das dres physicas.

Esse grupo  o de _Francesca e Paolo_, ou antes, to supprimidas esto
todas as condies do tempo e do logar, tanto escrupulo houve da parte
do artista em conservar os caracteres geraes e puramente humanos, este
grupo  o do amante e da amante, quer dizer do Amor.

Do Amor, no como a Grecia o pintou nos seus mythos risonhos, mas do
Amor ardente, apaixonado, cruciante e doloroso, cruel e divino, prodigo
em extasis e em torturas, em espasmos e em lagrimas, tal como a morbida
imaginao de hoje o concebeu e creou!...

O homem  alto e forte, esbelto e flexivel. A mulher, em pleno
desabrochar da puberdade, est sentada com tal ligeireza e tal meiguice
sobre o seu joelho esquerdo, que parece pesar apenas o que pesaria uma
ave.

A mesma doura de contacto  perceptivel aos sentidos no gesto com que
elle, fazendo do brao um collar quente e caricioso, a prende a si,
emquanto que a outra mo lhe toca no corpo com delicada ternura... Essa
mo forte e musculosa, feita para se imprimir pesadamente nas cousas,
tem a leveza divina do contacto de uma flr.

O abandono da amante  completo. Enlaa-o como uma liana, enrola-se
n'elle com um carinho em que ha a gratido do amor feliz e a avidez
insaciavel de caricias; e com a mo que lhe fica livre d'este abrao
apaixonado toca femenilmente nos cabellos com um geito feito de timidez
e de graa pueril.

A cabea do homem inclina-se, a cabecinha da mulher ergue-se para elle e
as duas boccas encontram-se em um beijo que  como que a unio mystica
de dois seres!

A extraordinaria magia d'esse beijo consiste n'isto:  um beijo visivel!
Visivel na impresso violenta que contorce em uma attitude de sedenta
adorao o corpo do homem; visivel no arroubamento da mulher todo ardor
e todo graa!

 triste e deliciosa essa representao sublime e symbolica do amor
humano. Envolve-a como que o nimbo da tristeza que envolve aos nossos
olhos tudo que  bello, intenso de vida e condemnado  morte!...

Como vm, a inspirao de Rodin participa do que mais agudo tem a
observao da vida real, da vida verdadeira em todas as suas
manifestaes e frmas physicas, e de tudo que mais alto e subtil tem a
poesia das cousas e que d'ellas se destaca como um perfume inebriante,
capitoso e perturbador!

O que elle principalmente traduz  o amor nas suas infinitas modalidades
tragicas ou divinamente bellas...

O amor dos nervos, o amor da carne e o amor da alma entrelaados e
produzindo esse mixto doloroso, que embriaga como um filtro, que corre
como um veneno, que contrahe como uma convulso, que entontece os
sentidos e d ao corao as revelaes da infinita Dr!

D'entre os criminosos de Dante, elle escolheu para os modelar pela sua
mo genial de grande artista pensador, os criminosos que o amor
subverteu no abysmo infernal.

Elles exprimem o canasso devastador da saciedade que j nada espera; o
phrenezi do extase que nada satisfaz; a ternura desbordante que a morte
ha de breve estancar; as fadigas as aspiraes, os sonhos morbidos, as
angustias e as melancholias que essa paixo entre todas omnipotente
inflinge aos seus condemnados escravos.

O amor que Schopenhauer descreve como a astucia suprema da Natureza que
se recusa a morrer, e que a maior parte das vezes no passa de um
arrebatamento ephemero, de uma illuso rapida e momentanea; o amor que 
a impossivel aspirao que leva dois seres a quererem formar essa
Unidade mysteriosa que seria o supremo triumpho da Vida sobre a
Dr,--aspirao que remata no tragico desengano e na fallencia absoluta
do Ideal sonhado, pois que nunca uma alma consegue penetrar
absolutamente outra alma, nunca dois entes estranhos conseguem ser
apenas um _ser unico_, e no ha agonia mais tragica do que esse luctar
angustioso para alcanar um impossivel bem,--o amor tal como  triste
lucidez dos nossos dias elle apparece, doloroso, violento e cheio de
ardentes lagrimas: eis a inspirao, seno unica, principal do grande
traductor plastico da sombria epopa dantesca!

Como  triste, como representa bem o _Terror_ sentido perante as duras
revelaes da Vida, a sua Eva admiravel que, levantando os dois braos
em um gesto de espavorida angustia, e como que esmagando com elles os
seios tumidos da humanidade futura, tapa com as mos entrelaadas os
olhos que tanta miseria tm de ver ainda na terra...

 triste, soberba e bella, rica sobretudo de maravilhosas interpretaes
a concepo que Rodin frma da estatuaria moderna. E por elle ser,
d'entre os esculptores modernos, o que mais frisantemente e
voluntariamente se afasta do ideal da Antiguidade,  que eu, em face da
Venus de Milo radiosa, tranquilla, serena e pura, quiz levantar deante
dos olhos do leitor um esboo ao menos rude e tosco embora, d'essa
tragica _Porta do Inferno_, pela qual o esculptor nos faz penetrar na
gehenna das loucas paixes insaciadas, que erguem na sombra o seu brado
ululante de intraduzivel dr...




VIII


Quando a gente de longe evoca a grande cidade do luxo, da vida
intelligente, da industria genial, pensa em tudo menos na belleza ideal
das suas arvores. A mim, vejam que estranha cousa!--foi isso que
positivamente me deslumbrou.

O arvoredo em Paris, nos arredores de Paris, nos jardins, nos parques,
nos bosques de Paris,  verdadeiramente delicioso e de um encanto
incomparavel e unico.

N'aquella fornalha tudo parece possivel menos o permanente idyllio que
as arvores representam, pois nem Cintra, essa orgia de verdura, me
consolou tanto a alma a este respeito como Paris. V-se que o culto da
arvore, a paixo da Natureza, vive em um canto do corao d'esse pago
extra-civilisado, que se chama o parisiense. E depois ser realmente
extra-civilisado como ns julgamos o parisiense genuino? No haver
n'essa immensa cidade cosmopolita, a par de uma minoria pequena de
artistas de talento, uma incontestavel multido de almas ingenuas que
representam de boa f toda a especie de comedia, desde o scepticismo _
outrance_, at ao chauvinismo  Boulanger? Ser verdade o que dizem
d'elle os que o pintaram com uma amargura to acre, F. Flaubert e
Balzac, por exemplo?

Como quer que seja, sceptico ou sentimental, o parisiense adora as
arvores, as flores, a natureza em todo o seu idyllico e sereno encanto.

Um passeio ao domingo, em Auteuil, em Saint Cloud, em Neuilly, nas
avenidas do Bois, bastaria para nos esclarecer a tal respeito.  que
tambem alli as arvores so incomparaveis. Ha alamedas longas e
deliciosas, em que o arvoredo de um verde um pouco ruo se recorta no
azul levemente grisalho do co! Ha longe verduras em Auteuil, por
exemplo, que do vontade de chorar, que penetram a alma de uma saudade
doce e amarga a um tempo, a saudade que Ado teve de certo do Paraiso,
de onde foi expulso! Os horisontes desdobram-se to longos, to calmos!
Quem dir que alli, a dois passos, se desenrola a multipla fita dos
_boulevards_, onde a febre da vida  to tentadora e to intensa!
Auteuil parece ser o fim do mundo, to sereno e vagamente adormecido  o
seu aspecto, to ineffavel bucolismo se exhala da sua tranquilla
paizagem. Para cada lado que lancemos os olhos, se abrem larguissimas
avenidas ao lado de arvoredos, com uns fundos longiquos, em que ha toda
a especie de cambiantes.

O ceu de um azul muito lavado, em que parece ter-se extendido um vu
diaphano de vapor,  bem differente do meu cu portuguez de uma cr to
quente, s vezes deslumbradora e excessiva! A agua parece crystallina,
ou sombreada de verde, de uma transparencia deliciosa ou de uma cr
glauca, atravz das rendas do arvoredo, movedias e multicres.

Abril tudo em flor, atira em flocos a sua neve perfumada aos troncos ha
pouco despidos; os castanheiros agitam os seus pennachos brancos; os
lilazes saturam a atmosphera do seu cheiro estonteador; ha uma expanso
risonha n'este paraiso artificial creado pelo homem, que se no encontra
infelizmente nos nossos paizes do Sul, onde o solo  to fecundo, onde a
Natureza um pouco acariciada e auxiliada se desentranharia em maravilhas
de produco!

A ns basta-nos o sol ardente e a vida brutal de que as cousas palpitam
no nosso vero africano; no sabemos pelo trabalho incessante,
intelligente e methodico crear estes paraisos, onde repousa depois
ineffavelmente a frenetica actividade do homem do Norte.

A mim, filha de um paiz accidentado, esta paizagem plena, em que as
alamedas se desdobram lentas, magestosas _ perte de vue_, faz-me uma
impresso de deliciosa calmaria. No me canso de olhar para as arvores,
as formosas arvores, enormes, colossaes, de um verde tenro, de um verde
ruo, de um verde _mauve_, de todas as gradaes imaginaveis do verde, e
em que a nota do verde esmeralda, mais rara, apparece de vez em quando
como uma estridula fanfarra de cr.

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Do alto da torre de Eiffel, Paris apparece todo entrecortado de manchas
negras de arvoredo--No ha cidade com mais arvores, digo eu
verdadeiramente abysmada ao meu companheiro e _cicerone_ que me
responde:--Londres ainda tem mais!

S ns portuguezes, com uma terra maravilhosa, um cu esplendido, um
clima em que a flora de todas as zonas egualmente se domestica, somos
incapazes pela nossa inercia proverbial de ter esta abundancia adoravel
de arvoredo, de verdura massia em torno de ns!

As alamedas de Saint Cloud, com os cimos verdes entrelaados, formando a
abobada sobre a cabea dos transeuntes, pareceriam um bocadinho de
floresta selvagem, se no fosse a invaso da burguezia e do povo vestido
de gala que ao domingo positivamente as inunda e banalisa, tirando ao
sonhador que alli foi acariciar a sua chimera intima todo o gozo que
elle podia beber na solido.

Quando de Saint Cloud, por uma tarde serena e dce e luminosa de Abril,
se regressa a Paris, como eu regressei, pelo caminho ao longo do Sena,
entre o renque fino e tenro dos choupos que se debruam nas aguas do
rio, e os _chalets_ e os palacetes que espreitam do outro lado da
estrada do meio dos jardins coalhados de lilazes e de rosaes em flr,
no ha corao por mais secco e positivo que resista ao encanto
embalador d'este passeio.

Surprehende-se uma pessoa a ser moa outra vez, moa e romanesca e a
arranjar na phantasia uma existencia que quereria ter vivido alli,
n'aquella paz to proxima da infinda agitao, n'aquelle ermo to
chegado ao borburinho de uma vida em festa.

Deve ser bom viver e sonhar alli, perto do mundo e to longe d'elle, a
minutos de distancia do _boulevard_ da Yvette Guilbert, a deusa da
_chansonnette_ moderna, da _Comedie_ e da sua classica e correcta
interpretao da arte, do _Chat Noir_ e da sua phantasia revoltada, e ao
mesmo tempo to longe de tudo isto, no silencio do arvoredo em flr, na
serenidade pantheista da dormente e calma Natureza, no seio inebriante
dos lilazes e das rosas que estillam voluptuosa lethargia de cada petala
da sua flr avelludada e tenra...

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A vida para certos organismos de eleio s se comprehende n'estes dois
plos contrarios. Ou tudo que a civilisao tem de mais quintessencial e
de mais extremo, ou tudo que a natureza tem de mais calmo e de mais
_permanente_.

Juntar as duas cousas seria para o verdadadeiro artista o ideal, mas que
poucos so os que as sabem ou querem reunir!...

Pensava eu estas cousas vagas, ao passar deante de _Bagatelle_, a casa
campestre e o lindissimo parque, que surdiram com to vertiginosa
rapidez de uma aposta entre a infeliz e ento leviana Maria Antonietta e
o Conde de Artois, e que hoje, depois de varias vicissitudes--as casas e
os homens passam egualmente por ellas--pertence aos herdeiros do celebre
philanthropo William Wallace. A lembrana d'esse tempo, d'essa crte,
d'essa mulher, cujo nome se fez prestigioso no martyrio, levaram a minha
imaginao para longe, para bem longe no passado.

Fazia justamente cem annos que tanto luxo tanto prestigio, tanta gloria
tradicional se tinham afogado tragicamente em ondas de sangue.

_Noventa e tres_, o anno fatal, surgia sangrento e tragico ante os meus
olhos, produzindo em mim aquelle espanto e aquella fascinao que eu
sempre sinto quando voluntaria ou involuntariamente o evoco.

Tambem ella, a pobre rainha martyr, quiz experimentar essa suprema
sensao da vida feita de contrastes fortes; tambem ella quiz, ao lado
das pompas de Versailles, a deliciosa pastoral do Trianon; tambem ella,
despindo os pesados brocados e as sedas tecidas com ouro da crte, quiz
enfiar, ligeira e garrida, o vestidinho de cassa, com o leno castamente
cruzado sobre os seios opulentos; a sua imaginao romanesca de leitora
de Rousseau, de admiradora de Gluck, tambem se soube comprazer n'esta
delicia das experiencias contrarias que  o sol do _dilettantismo_, mas
nem porque viveu intensamente a vida e gozou tudo que ella tem de
melhor, desde a amisade at  arte, lhe foi menos pesada a sua cruz, nem
menos cruel a sua dolorosa via desde Versailles at  Guilhotina.

O ambicioso corao humano deseja tudo, a tudo aspira e tudo quer!

E para que, no fim de contas? l o diz Pascal na sua phrase incisiva e
sombria: o remate  sempre identico, qualquer que tenha sido a comedia
ou a tragedia que o antecedeu.

E aqui est como a vista do arvoredo de Bagatelle me levou para longe do
bucolismo, encontrado, onde meu Deus?... a dois passos da fornalha de
Paris!...

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A mais completa viso de arte e de magnificencia que ainda os meus olhos
tiveram, de que elles guardaro para sempre o reflexo illuminado, foi em
Fontainebleau que a recebi.

Fontainebleau est para Versailles como uma joia de Benevenuto est para
um vaso de macissa prata imperfeitamente burilado. No ha comparao
entre os dois, e para um artista no ha hesitao na escolha.

Como paizagem, aquelle sitio, aquella poetica e enorme floresta
consagrada por tantas recordaes artisticas, litterarias e historicas,
 tudo que pde haver de mais estranhamente bello.

Tem a poesia selvagem e a graa outonia, e saudosa. Parece um paiz
devastado onde se deram lutas de titans, por onde passou o sopro de uma
tempestade cyclopica, onde a natureza estrebuxa em cataclysmos
tremendos, e faz ao mesmo tempo o effeito calmante e doce de um ninho de
verdura que abriga a alma dolente, e a envolve no filtro subtil das suas
essencias vegetaes. O outomno na floresta de Fontainebleau, quando as
arvores se revestem de toda a riqueza infinita de colorido d'esse
periodo divino, quando a pompa victoriosa das fortes verduras acres de
seiva se degrada e decompe em tons expirantes de um encanto mysterioso,
em como que gangrenas vegetaes que desde o purpureo sangrento e o
amarello alaranjado vo at ao cr de lilaz e ao cr de malva,--o
outomno alli deve ser um poema de voluptuosa melancolia, d'estes que s
sabem saborear os que se deleitam na tristeza como em um nectar sagrado,
defezo s profanidades do vulgo...

No admira que n'essa floresta tenham vindo meditar e soffrer tantas
grandes almas desenganadas da illuso multiforme da vida.

Conta Michelet, que perguntando a uma mulher intelligente para onde ella
quereria fugir se uma grande dr lhe dsse a sde, a necessidade de um
asylo no seio da Natureza, ella lhe respondera:--Para Fontainebleau.

--E se tivesse uma alegria enorme, uma alegria que lhe dilatasse a alma
at ao infinito, onde mais lhe agradaria estar:--Em Fontainebleau!

 que realmente aquella paizagem, como diria Amiel, representa todos os
_estados da alma_.

Por isso S. Luiz nas suas fundas dres, quando as idas e os sentimentos
do seu tempo agonisavam, dando-lhe um espectaculo que lhe pungia
atrozmente o corao, era alli na floresta sombria que ia rezar pedindo
a Deus conforto e paz.

Luiz XIV vencido e velho, corroido por esse tdio dos Cesares, a quem
nada resistiu--que  de certo o estado de espirito que mais deve
approximar-se da infinita desolao de Satanaz, foge de Versailles, das
suas pompas, dos triumphos que os seus pintores lhe coloriam e que ento
no eram mais que ironias diabolicas do passado orgulho, e vem procurar,
sob as arvores colossaes da floresta amiga, o repouso, o silencio, o
adormecimento s suas lancinantes dres de rei... Francisco I,
desenganado d'esse sonho da Italia, que durante os seculos XV e XVI
perseguiu os reis da Frana, vem alli construir uma Italia franceza que
o console de haver perdido a outra, a que Miguel Angelo e Raphael,
Bramante e Donatello, Leonardo de Vinci e o Ticiano tinham feito to
fascinadora e to grande!...

 em Fontainebleau que Napoleo se despede do seu sonho homerico e
sublime, d'esse sonho de um Imperio Universal, que unificasse o mundo
civilisado sob um despota intelligente, e que lhe foi commum com
Alexandre, com Cesar, com Carlos Magno e Carlos V, com todos os grandes
capites da historia, to raros como os grandes poetas.

 alli que essa epopa magestosa e tremenda se lhe desfaz nas tremulas
mos que assignam a suprema abdicao do poder e da gloria.

Quantas recordaes me suggere esse logar fatidico de Fontainebleau, ou
seja o palacio de fadas, ou seja a grande floresta sombria e vasta, onde
talvez os Celtas, ascendentes dos francezes de hoje, colhero no tronco
dos annosos carvalhos o _qui_ das evocaes druidicas.

E sahindo d'essas espheras da grandeza social para outra, mais ampla
talvez, mas menos visivelmente pomposa,  em Fontainebleau, que Georges
Sand e Musset do aquelles ultimos passeios to tristes, de uma
melancolia feita de tanta saudade, quando _elle_ j sabe que no podia
viver sem _ella nem com ella_, como diz a triste cantiga peninsular
quando _ella_ comea a perceber, que, Ashaverus femenil do amor, tem de
percorrer at ao fim o seu amargo e cru fadario, sem encontrar quem
satisfaa a sua sde do infinito, sem poder parar n'essa caminhada atroz
em procura do _impossivel_!

Que fundo de paizagem to triste para um fim de amor! Onde poderiam
elles encontral-o que lhes saturasse a alma de mais tristeza, de mais
melancolia, de mais intensa e inexoravel saudade!...

Era alli ainda que Musset voltara mais tarde evocando em soluos
immortaes as melhores recordaes do seu fatal amor.


Dante pourquoi dis tu qu'il n'est pire misre
Qu'un souvenir heureux dans les temps de douleur
Quel chagrin t'a dict cette parole amre
        Cette offense au malheur!

En est il donc moins vrai que la lumire existe
Et faut-il l'oublier du moment qu'il fait nuit
Est ce bien ta grand me immortellement triste
        Est ce tu qui l'as dit?

Non, par ce pur flambeau dont la splendeur m'claire
Ce blasphme vant ne vient pas de ton coeur
Un souvenir heureux est peut-tre sur terre
        Plus vrai que le bonheur

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As estatisticas diro quantas leguas quadradas tem a floresta; os
naturalistas sabero explicar quaes as diversas qualidades da sua flora,
e que essencias se distillam das suas varias resinas; eu sei smente que
ella me encantou, como uma das mais bellas cousas que os meus olhos
ainda contemplaram. Fui a Barbozin, a alda em que Millet e Rousseau
pintaram as suas tlas melhores, e evoquei alli as figuras da
litteratura contemporanea que tem por fundo magestoso--bem mais
magestoso do que ellas so grandes!--a floresta divina de Fontainebleau.

A scena capital e magistral da _Sapho_ de Daudet  alli que se passa;
quando o pobre moo, empolgado pelo polvo terrivel que  para a mocidade
uma mulher perdida, tenta despegar-se d'ella, quer fugir-lhe para
recomear ao longe uma existencia calma e boa--em harmonia com as leis
sociaes, protectoras para quem as respeita, inexoraveis e implacaveis
para quem as despreza ou para quem as illude--e  vencido
irreductivelmente pela piedade que ella lhe inspira, por aquelle bramido
de animal, longo, constante, ininterrupto, com que _Sapho_ acorda e
sobresalta os cos de immensa solido ao vr imminente a ruptura de que
elle lhe fala, que elle com mil precaues lhe faz prever... Grande
quadro e de uma moral acre e dolorosa mas incontestavel, que os moos
deviam meditar, se  que os moos meditam, se  que a mocidade 
compativel com a previdencia e o calculo.

O parisiense tem a uma hora e meia de caminho de ferro essa grande matta
que  uma das maiores da Europa e a maior da Frana, por isso parte da
litteratura contemporanea a tem para theatro das suas scenas de
enthusiasmo, de paixo ou de desespero.

Os pintores vo alli procurar os effeitos maravilhosos da luz penetrando
na espessura, banhando-a em purpura, recortando em fundo de ouro a renda
delicada da sua folhagem, picando de pontos deslumbrantemente luminosos
os seus intersticios mais miudos e mais finos; Millet arrancou-lhe em
paginas immortaes o segredo da religiosidade infinita que possuem as
velhas arvores; Rousseau recortou em pequenas tlas retalhos de paizagem
em que a alma das cousas palpita mysteriosamente.

A floresta de Fontainebleau educou uma gerao de paizagistas, qual
d'elles mais penetrado da melancolica poesia da natureza. Que benefica
tem sido a sua calma e suggestiva influencia, que saudade eu tenho da
luz a que ella me appareceu, luz primaveril, que punha tons de um tenro
ineffavel em cada rebento, que rejuvenescia os velhos troncos colossaes!

 perto d'alli o lindo Castello de Francisco I, a que  preciso conduzir
o leitor. Deixemos, pois, a floresta e penetremos no palacio.




X


Nos seculos XV e XVI todos os principes, todos os poderosos da terra
tiveram um distinctivo commum que os caracterisa: o seu amor enthusiasta
das maravilhas da arte.

Sabe-se o que foi Loureno de Medicis, esse Mecenas da litteratura
italiana, esse amante apaixonado e prodigo da erudio, da architectura,
da pintura, da estatuaria. Esse homem intelligente e sagaz, poeta elle
proprio, e apezar de humanista notavel, sacudindo com bastante
independencia o jugo do antigo que pesava demais sobre as musas da
Italia,--mereceu a gloria suprema de ficar immortal no marmore modelado
pela garra de Miguel Angelo.

O _Penseroso_, das estatuas do mestre uma das mais emocionantes, uma das
mais mysteriosamente e tragicamente bellas, teve por modelo o grande
homem florentino, cujo tumulo havia de adornar mais tarde. Leo X, Julio
II e Clemente VII, foram os papas mais doudos pela arte de que reza a
historia.

Ludovico o Mouro encheu de bens e de glorias a Leonardo Da Vinci; os
chefes da aristocratica Republica veneziana no hesitavam quando se
tratava de pagar com prodigalidade louca aos seus soberbos pintores. Mas
Francisco I, o rei da Frana a quem se deve a magica de Fontainebleau,
esse no smente adorava a Arte, mas era amigo apaixonado dos artistas.

Sabe-se o enthusiasmo louco com que elle acolheu na sua crte o j
octogenario Leonardo Da Vinci.

--Hei de afogar-te em ouro, dizia elle a Benevenuto.--_Fao-te
conego_--exclamou deslumbrado para o italiano Rosso no dia em que este,
pela primeira vez o fez penetrar n'essa galeria esplendida, ainda hoje
chamada de Francisco 1.^o--em que o rei desenganado e canado passou
depois quasi todos os ultimos annos da sua accidentada existencia. E a
promessa extravagante cumpriu-se tal como se fez. Rosso teve um logar de
conego na collegiada da Sainte Chapelle.

O que fizera elle para merecer to piedosa distinco? Pintra o mais
estranho e luminoso carnaval de alegria e de cr, que ainda a imaginao
febril de um artista d'aquelle tempo de febre concebera e realizra.

Uma multido pantagruelica em que ha de tudo: o bello e o horrendo, o
delicioso de graa, e o grotesco; figuras virginaes a que talvez
serviram de modelo para o pintor, e de encanto ephemero para o rei, as
doces raparigas que alli perto ceifavam as tremulas searas, ou iam
buscar as amphoras cheias de agua crystallina das rochas, s fontes de
Fontainebleau que Jean Goujon e Benevenuto vo fazer idealmente bellas.

No meio da immensa turba de mulheres e de homens, uma flora e uma fauna
inteiramente novas, a flora e a fauna que os navegadores e os
conquistadores da peninsula iberica acabavam, no fim das suas
aventurosas viagens, de revelar ao velho mundo attonito.

A delicia de Francisco I no teve limites ao entrar n'aquelle recinto
encantado em que o mundo da arte lhe desvendava os seus aspectos mais
bellos!

Interrogador e curioso como era, cada quadro lhe suggeria uma pergunta e
uma investigao nova.

O mundo estranho de que o Rosso pintava algumas das maravilhas ineditas
fazia scismar o pago devoto que Francisco I era, como todas essas
crianas grandes da Renascena.--Mas ento mentia a Biblia quando
contava a creao do homem?

Essas raas, cujo segredo agora se desvendava pela vez primeira, no
eram tal, no podiam ser filhas do biblico Ado?

E a terra movia-se em torno do sol? Onde ficavam n'esse caso as palavras
de Josu?...

Depois contavam-lhe as magnificencias da Turquia, a magnanimidade de
Solimo, as maravilhas da civilisao arabe, to superior em certos
pontos n'aquelle tempo  civilisao christ, e esta ida de que o turco
no era finalmente o ante christo, o inimigo figadal de todo o bem e de
todo o bello, produzia um espanto infantil no animo de Francisco I.

Tempo encantador este de que a galeria de Fontainebleau ouviu as
conversaes curiosas, mixto de tudo que ha mais ingenuo e mais subtil,
mais refinado e mais credulo!...

Ao lado do fauno sensual, do satyro coroado, que foi Francisco I,--o
qual para contrapor aos seus vicios innumeros teve smente a vibrante
sensibilidade para tudo que  bello;--surge a Margarida das Margaridas,
a encantadora, a diserta, a latinista, a intelligente rainha de Navarra.
N'aquelle tempo saber latim no  um requinte de pedantismo,  uma
exigencia da fina cultura.

Quem no soubesse latim no sabia nada, no tinha conhecimento nem da
poesia no que ella tem de mais perfeito e mais bello, nem da Historia no
que tem de mais suggestivo e de mais inspirador. Ora Margarida amava os
poetas e a poesia, e ajudava seu irmo a fazer a Historia,
aconselhando-o, auxiliando-o, inspirando-o, negociando por elle com os
diplomatas do tempo.

A sciencia, a erudio, a poesia enchem o espirito de Margarida; quem
lhe enche completamente a alma  o irmo, esse irmo grosseiro e
sensual, natureza que, a no ser o amor da arte, seria feita do barro
mais vil, e que mesmo salvo por esse amor, que  no fim de contas mais
uma sensualidade requintada do seu temperamento que uma aspirao
espiritualista, reflecte a omnipotencia dos seus instinctos animaes no
soberbo, no inolvidavel retrato que d'elle fez Ticiano, o maior
retratista do mundo, aquelle que melhor traduz a profunda expresso
moral, a mobil physionomia, o caracter pessoal inconfundivel de cada um
dos seus modelos...

Esse perfil de fauno sensual, que o Ticiano retratou, domina e absorve o
corao delicado e subtil de Margarida.

Por isso eu a evocava agora, na galeria soberba, em que o sol entra a
flux, ao lado do rei seu irmo, analysando com elle as bellas pinturas
que fazem das paredes um kaleidoscopo to curioso e illuminado, em que o
velho e o novo mundo se confundem, discutindo--com Bud seu
bibliothecario, com Duchatel seu leitor, com os dois irmos du Bellay,
os celebres humanistas da Renascena franceza, seus favoritos e
commensaes,--um dialogo de Plato que tivesse acabado de lr em grego,
um verso de Virgilio de que ella houvesse ha pouco saboreado o nectar
subtil, servido na lingua de ouro do seculo de Augusto; uma apostrophe
de Cicero, nas suas Catilinarias, mais abrazada em rhetorica flamma;
conversando com Marot, seu poeta e seu servidor, cerca da medio e do
rythmo de um hexametro ou de um hendecassyllabo; ou perguntando a todos
elles, curiosamente, avidamente, informaes cerca do novo livro
extravagante que um physico e antigo tonsurado chamado Rabelais acabava
de dar  estampa em Lyo, contando as mirabolantes e inverosimeis
aventuras de Gargantua e Pantagruel, dois gigantes de quem ninguem at
alli ouvira falar, e de Panurgio, o maior sacripante que de memoria de
homem fra celebrado em lingua vulgar...

......................................................................

Ao reinado do prisioneiro de Pavia segue-se o do mystico e apaixonado
Henrique II. Margarida eclypsa-se na sombra, e  musa dos poetas succede
a inspiradora dos artistas brios de enthusiasmo...

No co da Renascena azul e ouro,  Diana quem desponta... A Salamandra,
emblema e symbolo do rei que arde continuamente na flamma impura do
desejo, sem jmais chegar a consumir-se,  substituida pela inicial de
Henrique enlaada por dois crescentes symbolicos, e esta data assim
poeticamente indicada vale para a posteridade muito mais que a mais
rigorosa chronologia marcada pelos sabios. Este anagramma amoroso
representa um grande amor, um estranho sentimento que participa do
mysticismo cavalleiresco e do sortilegio magico, do ideal mais puro e do
_envotement_ mais pavoroso.

Quem  esta esbelta Diana, ligeira, airosa e bella? No o perguntem 
Historia, que essa, implacavel como a verdade, falar-lhes-ha de uma
velha furia, sedenta de dinheiro e de vinganas, esmagando os povos, que
a maldizem, com o peso das contribuies mais engenhosas, das que tiram
o sangue e a pelle  plebe opprimida que se lamenta em vo.

Perguntem-n'o  Arte, a magica divindade que transfigura tudo aquillo em
que toca. Responder-lhes-ha a Diana de Jean Goujon, encostada
familiarmente ao veado manso e bello que lembra o principe encantado das
lendas, ou mais longe ainda, sempre modelada pelo sublime artista,
contemplando amorosamente o mesmo bicho symbolico, que approxima da
bocca finamente recortada da deusa a sua bocca de animal, como que a
pedir o beijo mysterioso que quebre o encanto que o tem encarcerado
n'aquella frma inferior e que o restitua bello e victorioso  antiga
frma humana.

Responde-lhes a Nympha de Benevenuto Cellini, ora entre as fras que
caou e os galgos que as perseguiram, ora estendendo-se voluptuosa junto
 frescura das fontes, ora caminhando nua pelos campos, seguida pelo
cortejo das nymphas que ella, a Diana immortal, a inspiradora dos
eternos amores que no se extinguem, domina inalteravelmente pela altiva
elegancia e pelo magestoso porte regio.

De todas estas imagens estranhas, inverosimeis, de corpo longo e
flexivel, que parecem copiar na pedra dura a fluidez das aguas
correntes, o baloio ondeante das hervas altas, a voluptuosa
flexibilidade das lianas que se enredam e entrelaam,--de todas estas
imagens que a arte prodigalisou aqui, a nossa imaginao compe uma s
figura, um s vulto, uma s imagem que as concretiza a todas.

 a mulher amada e triumphante, a Diana dos encantos invenciveis e
inviolados, a que pediu  deusa, sua madrinha o segredo dos filtros que
fazem parte do seu culto antigo, para ser eternamente amada, contra o
tempo, contra a fortuna, contra tudo...

A arte que a immortalisou no marmore devia-lh'o. Ninguem como ella fez
da arte uma auxiliar, uma amiga, uma feiticeira cumplice dos seus
encantamentos de mulher. Que importa o que diz a historia de Diana de
Poitiers? Quem fala verdade  a Arte. De todas as mil illuses de que a
vida se faz e se compe, s ella  mais intensa do que a realidade, e
mais verdadeira do que a verdade!




XI


Uma das excurses feitas por mim com mais prazer  a dos Museus, tanto
artisticos como historicos.

Deixo para mais tarde falar no que senti em frente de alguns quadros do
Louvre ou do _Museu de Madrid_ e vou falar agora da minha visita ao
museu Carnavalet. O palacio em que este museu est estabelecido
pertenceu a Madame de Svign e foi habitado por ella; d'aqui a
quantidade de recordaes d'esta mulher encantadora, que o povoam e para
mim o tornam particularmente interessante.

Ha logo  entrada um busto d'ella que me fez parar enlevada em
contemplao de uma das physionomias mais espirituosas e mais
sympathicas que o Passado legou aos nossos dias.

O _nez carr_ de que ella fala nas suas cartas, e que tornaram celebre
os seus contemporaneos referindo-se tantas vezes a elle, l est, mas
sem diminuir, antes accentuando o encanto da sua expresso. Os lindos
cabellos penteados ao _nome d'ella_, (porque aquelle penteado de
caracoes que enquadra to graciosamente o rosto feminil ficou sendo
chamado _ Sevign_) do um caracteristico especial  sua bella cabea
de juvenil matrona adoravel. O bom humor, a graa gauleza sorriem na
bocca espirituosa e finamente recortada.

A gente no se espanta, ao ver este lindo busto de mulher, de que o
original inspirasse verdadeiras e ardentes paixes, e que at aos
sessenta annos houvesse, no quem a requestasse  moda de Ninon ou de
Catharina da Russia, mas quem quizesse casar com ella, como quiz o duque
de Luynes, que por signal foi repellido.

Para mim, digo francamente, o _Museu Carnavalet_  Madame de Sevign e
no  mais nada. Este museu, extravagante contraste! est cheio de
recordaes revolucionarias. L est uma reduco feita, creio que em
pedra, da Bastilha, l est uma galeria, por signal detestavel, de
retratos dos vultos principaes da revoluo.

Por debaixo da fileira de retratos em que figuram Mirabeau, Robespierre
e Marat, est a cadeira em que expirou Voltaire. A collocao pareceria
propositadamente feita, seno fosse antes uma necessidade de symetria,
pois que, encostada  mesma parede na outra extremidade da sala, est
tambem a cadeira em que expirou Branger.

Entre Voltaire e os homens da Revoluo a affinidade  vizivel para o
espirito, mas o pobre Branger  que no vem aqui ao caso para cousa
alguma, de modo que a inteno philosophica que eu  primeira vista
attribui aos conservadores do museu ficou prejudicada pela segunda ida
que elles tiveram de collocar a cadeira de Branger em symetria com a de
Voltaire.

Uma concluso apenas me atrevo a tirar:  que em Frana quem sahe do
vulgar morre _de cadeira_. Incommodissima maneira de dar a alma ao
Creador! Ainda bem que nem a Branger posso aspirar, quanto mais a
Voltaire; isto augmenta as minhas probabilidades de morrer deitada na
propria cama, unica maneira pela qual me appetece sujeitar-me  sorte
commum de todos os mortaes.

No venho, j se v, fazer uma descripo miuda do _Museu Carnavalet_.
Alm de no ter fixado tanta cousa que vi--e que vai desde os troos de
ruinas e dos barros romanos achados em diversas excavaes recentes ou
antigas, desde truncados monumentos, ou fragmentarios tumulos,
pertencentes a epocas ainda anteriores ao dominio romano, at a centenas
de reliquias da Revoluo--no acho que isso seja sufficientemente
interessante para o leitor, a quem no posso communicar impresses que
no recebi.

Ha, por exemplo, no _Museu_ uma colleco enorme de caricaturas da poca
de Luiz Filippe, feitas, creio, que em barro. So hediondas. Tudo que
teve um nome no reinado d'esse rei dos burguezes, burguez elle proprio
dos ps at  cabea, alli est representado sob uma frma que produz
_cauchemar_,  fora de irritantemente feia.

Lembro-me por exemplo de uma cousa que me impressionou: uma ordem
autographa de Luiz XVI ordenando aos suissos da sua guarda que cessassem
o fogo que estavam fazendo contra o povo. Ora, esta ordem--a ultima que
elle assignou como rei--encerra nada menos que a sua abdicao e a
sentena da sua morte e dos seus.

Acabada a resistencia, o monstro jacobino pde refocilar-se  vontade no
sangue regio. Ninguem mais se levantou deante d'elle para obstar ao
direito da sua vingana secular.

       *       *       *       *       *

Tudo isso que em outro logar e em outra ordem de idas me produziria a
maior impresso, alli apparecia-me inopportuno e deslocado.

Como aquelles objectos friamente classificados me pareciam estranhos ao
tempo de febre de que elles so as reliquias, por assim dizer,
mumificadas!...  preciso, para que certas recordaes do passado nos
empolguem, se apossem ardentemente de ns, que as evoque a imaginao
omnipotente e creadora de um Michelet ou de um Carlyle! De outro modo,
em vez de nos tornarem mais vivo o tempo a que se referem, parece que
o recuam indefinidamente nos limbos do passado.

Um museu tira a vida aos objectos que encerra; no os conserva.

Assim como o processo de enterramento dos egypcios, creado em odio 
morte, concorre para tornar mais saliente a ida da morte, assim tambem
o desejo de conservar certas reliquias parece que lhes diminue a
realidade no passado.  possivel que eu exprima muito vagamente uma
cousa que sinto sem a saber muito bem traduzir, mas o leitor
intelligente, que tem visto muitos museus e tem talvez sentido esta
mesma desconsolao, comprehende perfeitamente o que ella significa!

Repito, pois: o encanto do museu Carnavalet tirei-o eu de mim mesma,
evocando n'aquellas frias salas que percorri, acompanhada pelo
indispensavel guia, as figuras que outr'ora as encheram de animao e
vida.

Vi madame de Sevign e o seu querido tio, o bom abbade de Livry, que to
bem se sahiu da educao da sua querida e intelligente pupilla.

Pareceu-me escutar as finezas hyperbolicas, que  moda do tempo, Mnage
e Chapelain, dirigiam cada um por seu lado  amavel e gentil Maria.
Mnage resolveu ensinar-lhe italiano e hespanhol, e resolveu, o que 
peior, apaixonar-se loucamente por ella. O bom pedante perdeu, j se v,
o tempo e o feitio que no era de amoroso, como egualmente o perdeu um
homem que  o perfeito contraste d'elle, o cynico, o duellista, o
_donjuanesco_ Bussy Rabutin, que, depois de amar Madame de Sevign, a
odiou de morte, e depois de a odiar tornou a querer-lhe muito,
encontrando-a sempre de pedra pura os seus transportes, mas capaz de
apreciar o que havia de scintillante e caustico no seu espirito, de
intrepido no seu valor, de melhor no seu pouco bom caracter. Viuva com
vinte e dois annos, e em uma crte licenciosa, em que ella propria se
mostra cheia de estranhas indulgencias para os peccados alheios--tudo
passou por ella sem lhe macular de leve a fimbria do seu vestido branco.

Foi admiravelmente virtuosa, sem ser por isso implacavel para as paixes
que a cercam, e que fazem d'esse tempo um capitulo do mais accidentado
romance.

Amiga extremosa de Fouquet, v-se em riscos de sahir levemente
compromettida do processo do Intendente de finanas, em cujo cofre de
galantes segredos se encontram cartas d'ella. No emtanto essas cartas
so simples pedidos em favor de um ou de outro protegido da marqueza, e
se provam alguma cousa  a bondade, a generosidade do seu corao
prompto a acudir e a valer. Se Fouquet guardava preciosamente esses
bilhetes formalistas  porque talvez no corao do galante financeiro a
formosa physionomia de madame de Sevign tivesse produzido uma impresso
excepcional; mas isso no basta para comprometter uma mulher que as
primeiras pessoas da crte, em influencia e em virtude, protegem ardente
e abertamente. Um dia Tonquedec, fidalgo da Bretanha, e o duque de
Rohan-Chabot em casa d'ella, e por causa d'ella, armam uma especie de
briga que conclue por um encontro no campo, como todas as brigas
d'aquelle tempo. Nem por isso a fama de madame Sevign soffre a mais
leve arranhadura. Que culpa tem ella das loucuras e dos extremos que
inspira a sua razoavel e formosa pessoa!

O conde de Ludre esteve vae no vae a vencer as resistencias mysteriosas
d'aquelle corao de mulher que a precoce experiencia da vida endurecra
para o amor.

Mas, aquelle asseio de arminho, aquelle amor das cousas justas, rectas e
claras, que  em certas mulheres um preservativo efficaz contra os
desfallecimentos da vontade, e o exclusivismo ardente do seu amor
materno, salvam-n'a d'essa tentao suprema, como a salvam do
prestigioso amor de Turenne, da crte persistente do principe de Conti,
do amor claro ou disfarado de tantos entre os melhores, entre os mais
queridos e os mais felizes em aventuras femininas.

No meio d'esse fogo que accende, a marqueza conserva-se alegre, calma,
gostando das anecdotas picarescas bem contadas, prompta a receber uma
confidencia escabrosa, comtanto que lh'a faam com espirito e bom humor;
indulgente para o amor da sua maior amiga pelo duque de la
Rochefoucauld, indulgente para as historias mais ou menos salgadas que
de todos os lados lhe vem aos ouvidos, dotada d'aquella philosophia
tolerante que a mulher virtuosa tem como ninguem, porque sabe, como
ninguem, o preo da virtude.




XII


Insensibilidade? No de certo. Amor bem entendido de me, e medo talvez
de soffrer mais do que soffrera j na sua curta experiencia da vida
conjugal, a que um duello infeliz--e por causa de uma mulher--tinha dado
fim.

Quem soube no amor maternal pr tantos requintes de sensibilidade, to
intensa paixo, tanta vida, tanta abnegao, to louco enthusiasmo, o
que seria em outra ordem de sentimento em que taes excessos so quasi
naturaes? O que a salvou foi talvez o exagero da propria sensibilidade.
Teve medo de si. Sondou-se e percebeu de que loucuras seria capaz,
amando, aquella que da maternidade serena e calma soube fazer uma paixo
tempestuosa. Tendo bebido na infancia o amor dos grandes sentimentos 
Corneille, de que a propria Mlle. de Scudery, a feiissima Sapho fez na
sua obra vasta uma grandiloqua caricatura; iniciada pelos seus mestres
Mnage e Chapelain nas extravagancias grandiosas da litteratura
hespanhola; tudo que provavelmente via em torno de si estava longe de
corresponder ao seu ideal de sacrificio eterno, de inalteravel
constancia. D'ahi, provavelmente, o seu proposito firme de se refugiar
no amor materno, extrahindo d'elle tudo que podia formar o alimento da
sua alma exigente, ambiciosa.

Depois ella viveu em uma quadra e em um meio em que o papel de
espectadora tinha o maximo interesse e podia satisfazer at mesmo um
espirito como o seu. Tudo que a cercava era digno de atteno e de
estudo. Tudo interessava, ensinava e dava ensejo para longas reflexes.

Em cima Luiz XIV--o Jupiter que ella viu sempre com olhos de adorao,
de quasi deslumbramento, olhos com que o seu tempo o viu tambem, com que
a posteridade continuaria a vl-o, se o desastre final de sua obra lhe
no dsse a sorte que tem sempre os vencidos, e se Saint-Simon no
tivesse revelado ao mundo, com a sua espionagem genial, o monstruoso
egoismo, o acanhado espirito, a mediocre envergadura intellectual d'esse
idolo com ps de barro;--Luiz XIV que o amor divino e divinamente
desinteressado da La Vallire envolvera em uma nuvem de olympico
prestigio. Abaixo d'elle,--tudo n'esse tempo ficava muito abaixo
d'elle--essa adoravel Henriqueta de Inglaterra, fina, branca, lyrial,
que a prematura morte embalsamada na eloquencia sublime de Bossuet, e a
vida cheia de graa, de encanto aristocratico e talvez de amor,
transformaram na figura impregnada da poesia mais subtil d'aquelle
periodo accidentado e romanesco. Em torno d'esses astros de primeira
grandeza gravitam milhares de satellites de um brilho fulgurante e
deslumbrador.

O amor e a guerra, como nos romances da cavallaria antiga, fazem d'essa
crte alguma cousa de excepcional na Historia do mundo.

A guerra j se v, no como a faziam Frederico da Prussia ou Napoleo,
mas a guerra pomposa que celebrou pomposamente Boileau; a guerra em que
os banquetes, as festas, os bailes se entremeiavam aos combates; em que
um cerco durava longos mezes, e cada marcha parecia uma cavalgada
festiva...

_Mademoiselle_, a _grande Mademoiselle_, apaixonada por Lauzun chorava
todas as lagrimas de seu corpo porque lhe no deixavam desposar o eleito
do seu corao; a epopa gentil das Longueville, das Chevreuses, das
lindas e intrepidas heroinas da _Fronda_, andava ainda em todas as
memorias e em todas as imaginaes. Hoje era Luiza de la Vallire a mais
doce martyr de um regio amor de que reza a Historia, que depois de pedir
humildemente perdo  sua rival coroada do escandalo que dera, fazia da
ceremonia da sua consagrao a Deus um d'estes acontecimentos
palpitantes com que vibra uma gerao inteira; amanh  Montespan, a
altiva Wasthi, a sultana magestosa que toma posse do seu logar de
favorita com um impudor, uma soberba, uma pompa theatral, que
escandalisam, que emocionam, que fazem trabalhar as pennas todas da
crte em _comptes rendu_ mais ou menos pittorescos, mais ou menos
eloquentes...

Depois as guerras entre os Jesuitas e Port-Royal; a lucta theologica
entre Fnlon e Bossuet; o apparecimento de uma tragedia de Racine; a
publicao dos _Caracteres_ de La Bruyre; as _Maximas_ do Duque de
Larochefoucauld; o livro de Madame de La Fayette; um sermo do Pre
Bourdaloue; um conto de La Fontaine; os acontecimentos os mais sagrados
e os mais profanos, as leituras mais edificantes e as mais gaiatas, os
incidentes mais comicos e os mais tragicos--tudo se succede, tudo se
entrelaa, fazendo da existencia um espectaculo to alegre, to variado,
to divertido, to interessante, to _atordoador_, que facil foi a
Madame de Svign resignar-se a no pr na sua propria vida interesses
dramaticos, que outros se encarregavam de fornecer-lhe em profuso.

_Basta a curiosidade para encher a existencia_, disse algures
Fontenelle. Esta _maxima_ de egoista acha-se justificada pensando na
vida de madame de Svign.

Onde ha espirito mais eminentemente _curioso_ no sentido elevado e
espiritual da palavra do que o d'esta eminente e deliciosa personalidade
femenina?

Ella tem a curiosidade intelligente de todos os phenomenos de ordem
moral e intellectual. Interessa-a o espectaculo das paixes humanas e
achou um theatro perfeitamente adequado ao genero de observaes que
mais a divertem.

A crte de Luiz XIV, antes que madame de Maintenon tivesse desdobrado
sobre ella o vo de hypocrita devoo em que to cautelosamente se
embrulhra,  tudo que ha de mais proprio a interessar, a apaixonar um
observador, um moralista como Madame de Svign.

_Moi qui aime tant  faire des reflexions_, esta phrase vem mil vezes
nas suas adoraveis cartas. E que assumpto sempre vivo, sempre palpitante
para reflexes no  essa crte, onde tudo que as paixes humanas tem
de mais ardente, de mais insaciavel, de mais caracteristico, de mais
desordenado, se manifesta sob os mais variados aspectos e nas frmas
mais pomposas...

O amor sem outra lei que no seja a inconstancia e o capricho; a ambio
sem outra restrico e outro limite que no sejam os que fatalmente lhe
impe a fraqueza humana; a inveja, a soberba, a cubia mais desenfreada,
o orgulho ao mesmo tempo mais feroz e o mais cheio de aberraes
inexplicaveis, orgulho que principalmente se compraz nos excessos mais
abjectos do servilismo--e todos estes diversos sentimentos, uns simples,
outros complexos, uns harmonicos, outros contradictorios, manifestados
atravez de caracteres em que ha ainda relevo, contorno accentuado,
individualidade inconfundivel, energia pessoal.

Pde haver espectaculo mais digno de interesse, contemplao que sem
talvez elevar o espirito o divirta e o instrua mais?

No , porm, o jogo complicado, brutal ou subtil do interesse e das
paixes pessoaes, o unico objecto de estudo para o espirito de madame de
Svign. Ella tem uma vasta leitura, uma aptido para se interessar
pelos estudos mais aridos, quasi maravilhosa.

Quando a vida em Paris a cana, quando a sociedade habitual do seu salo
comea a enfastial-a um pouco, quando as graas de monsieur de
Coulanges, a extrema amabilidade de d'Haqueville (o qual  to
extraordinariamente servial e de tal modo se multiplica para satisfazer
os seus amigos que lhe mereceu a ella a alcunha de _Les d'Haquevilles_)
lhe parece um tanto massadora, quando a gotta de M. de La Rochefoucauld
o faz dar gritos que lhe excitam demasiadamente a sensibilidade, quando
Le Pre Bourdaloue a tem fatigado de predicas, quando emfim o _meio_
habitual em que ella se move tem perdido, pela continuao, um pouco do
seu interesse e da sua novidade, quando as salas que ella frequenta e
das quaes  o querido adorno mais precioso e raro, no offerecem
assumpto nenhum que a satisfaa, quando a crte est em uma phase de
semsaboria estacionaria, sem incidentes e sem dramas, eil-a que parte
para Livry, ou para os _Rochers_, e ahi na paz deliciosa do campo, que
ella e La Fontaine so no seculo XVII os unicos a _sentir_, passeia
ssinha debaixo das arvores, ouve o rouxinol, o cuco, e _la fauvette_,
saboreia a graa primaveril do arvoredo em flor, e consagra a noite a
longas leituras em que ha de tudo, Tasso, Cervantes, Descartes, Racine,
La Fontaine, at Horacio, porque a encantadora marqueza sabia latim e
at o ensinou  filha.

       *       *       *       *       *

O que mais celebre torna deante da posteridade Mme. de Sevign, o seu
amor pela filha,  a maior prova de quanto pde a illuso sobre um
cerebro, sobre um corao de mulher! Mme. de Grignan, _la plus belle
fille de France_, como lhe chamavam os que queriam por uma tocante
atteno lisongear o corao da me, no  realmente digna por motivo
nenhum da adorao que inspira. Pedante, interesseira, ambiciosa,
gastadora, ingrata sobretudo, ingrata para essa me adoravel cujo crime
unico foi preferil-a em tudo ao irmo, Carlos de Sevign, to sympathico
quanto ella  antipathica, to dedicado quanto ella  egoista, to
apaixonado pelas graas, virtudes e encantos da me, quanto ella parece
ser-lhes indifferente, Mme. de Grignan tem por unica virtude a de ter
inspirado essas deliciosas cartas, em que um periodo longo e
interessantissimo da Historia se reflecte com incomparavel vivacidade,
com uma frescura, um pittoresco, uma animao que jmais sero
excedidos.

No final da minha visita ao museu, quando eu tinha achado prazer
infinito em evocar estas vises do passado, e muitas outras que no
podem caber no limitado espao d'estas notas, o guia que no sei porque
tinha sympathisado commigo e com meu amavel companheiro, decidiu de si
para si que ns eramos dignos de ser apresentados ao conservador do
museu, Monsieur Cousin, que no sei se  parente do celebrado philosopho
do eclectismo.

Levou-nos, pois, a um gabinete reservado onde nos esperava uma
encantadora surpreza. Monsieur Cousin vive fechado em uma pequena sala,
furtada a todas as vistas profanas, imaginem com quem?

Com madame de Grignan! No madame de Grignan em carne e osso, que isso
no seria no fim de contas uma companhia por demais preciosa. Imagino
que a convivencia de _la plus belle fille de France_ no era to
agradavel que a propria me, idolatra como era, no preferisse viverem
em casas separadas, quando madame de Grignan vinha a Paris tractar das
suas innumeras demandas, e discutir com juizes, advogados e procuradores
como uma verdadeira _madame Pimbche_ que era.

No, a maneira por que madame de Grignan se achava representada
n'aquelle gabinete escondido, era por meio de um esplendido retrato de
Mignard. A filha da encantadora marqueza apparece alli formosissima.
Cabellos de um louro fulgurante, veneziano, o louro de Ticiano, ou de
Palma Vechio; pelle branca, transparente, atravez da qual se sente gyrar
um sangue vivo e puro, olhos azues de uma belleza profunda e rara,
penteado levantado na frente e voluptuosamente entrelaado de rubras
flres de romeira e de flres brancas de laranjeira.

No peito, completamente decotado, um ramo vioso das mesmas flres.

--Flres de Provena, fez-me notar Mr. Cousin, com aquella nota
carinhosa na voz, que revela o namoro de um velho sabio, o namoro que o
seu homonymo Cousin teve pela duqueza de Longueville e pela de
Chevreuse!

--Flres do meu Portugal, atalhei eu, que ao vl-as tivera tanta saudade
do meu pequeno paiz longinquo.

Se a minha antipathia a Mme. de Grignan no fosse fundada e
irreductivel, tinha-a destruido de certo este adoravel retrato que a
representa verdadeiramente formosa, e o que  mais, seductora! retrato
que, apezar de ser de Mignard, parece feito na maneira ampla e superior
dos grandes mestres.

Assim a viu o pintor, assim a viu sua me, assim a v em pensamento e
feliz enlevo o velho conservador, que se fechou com ella em um quarto e
que a no deixa avistar se no a raros profanos!

O meu passeio pelo Museu Carnavalet mais me confirmou na eterna ironia
das cousas grandes ou pequenas!

No posso deixar de confessar que, tirando as minhas evocaes intimas,
a melhor impresso que de l trouxe, deu-m'a o retrato da minha _inimiga
pessoal_.




XIII


Uma das horas mais commovidas da minha vida foi aquella em que entrei
nos _Invalidos_ para vr o tumulo de Napoleo.

Sei bem que  esta uma excurso obrigada aos viajantes da agencia Cook,
aos _touristes_ prud'hommescos da provincia, aos _badauds_ de todas as
origens, procedencias e classes.

Mas tero esses porventura sufficiente poder para banalisar uma figura
como a do Imperador?

Depois, eu fui criada por uma me enthusiastica de gloria, no culto
quasi fanatico de Napoleo.

Para mim elle nunca foi, como para os meus compatriotas do principio do
seculo, o _ogre da Corsega_, o monstro peior que Nero e Caligula. Pelo
contrario. As manchas do seu caracter s muito mais tarde a historia
m'as fez conhecer. Na minha mocidade no me falavam seno nos
esplendores da sua fama e nos prodigios da sua heroicidade.

Tantas mudanas teem passado pela Frana desde que, em uma ilha
solitaria e longinqua do Oceano, o grande homem expirou, renegado e
abandonado por todos os seus, que eu receiava encontrar l muito
esmorecida a sua memoria, muito apagados os vestigios de sua passagem.

Enganei-me. A lenda napoleonica resuscita com insolito vigor n'essa
Frana de que ella foi a gloria ultima e inultrapassavel!

Havia n'essa occasio justamente em Paris a exposio dos quadros de
Meissonier, e essa exposio admiravel dominavam-n'a dois quadros, que
nunca mais podem ser esquecidos depois de uma vez terem sido vistos.

O primeiro quadro intitula-se _1807_.  Napoleo depois de _Friedland_,
triumphante, glorioso, acclamado.

O Imperador ainda magro, esbelto e sobrio, monta o seu lendario cavallo
branco, rodeia-o um estado maior de marechaes deslumbrante e numeroso, a
cada titulo dos quaes esta ligado um nome retumbante de batalha e de
gloria; os seus granadeiros admiraveis, a sua velha guarda fanatisada e
invencivel acclama-o em gritos que positivamente se _ouvem_ na tela
palpitante de Meissonier.

 o momento culminante da epopeia grandiosa. Sobejam os assombros, os
crimes apparecem n'um esplendor de purpura que lembra menos a cr do
sangue do que a cr da aurora!

A tyrannia j se revela em mil symptomas da vida do conquistador e da
vida do imperante. Os povos j perguntam n'um brado ululante de angustia
em nome de que direito derrubam os seus thronos tradicionaes e lhe
invadem os seus lares pacificos!

Mas ah! mais forte do que esse gemido desolado das naes invadidas,
mais forte do que o choro convulso das mes a quem arrancam
continuamente os filhos, os mais bellos e os mais fortes,-- o clangor
bellico do clarim que avisa a Frana da suas victorias incontaveis!
Lodi, Arcole, Rivoli, Marengo, Iena, Austerlitz, esto em todas as
boccas, produzem em todos os cerebros o assombro, o respeito, o
enthusiasmo!

O segundo quadro--_1814_-- a retirada,  a derrota,  a melancolica
derrocada do sonho gigantesco e sobrehumano.

O heroe vem canado, abatido e triste. Cavallo, cavalleiro, cortejo
militar, paizagem circumdante, tudo respira a mesma desolao e o mesmo
abandono!

A velha guarda ficou sepulta nos glos da inhospita Moscovia; os
marechaes canados, so os mesmos que vo acceitar, suggerir a
_dchance_ proxima....

Entre um anno, o da gloria soberba e unica, e outro, o da derrota
universal, quantos crimes de lesa-nao, de leso-direito, at de
leso-entendimento. Napoleo acabra por sentir aquella embriaguez dos
Cesares que os atirava ao crime e  loucura em virtude de uma attraco
irresistivel e fatal.

Vencera todos e perdera o segredo indispensavel de se vencer a si
proprio. D'aqui a ruina, d'aqui, depois da tragedia de Waterloo, o
suplicio _prometheano_ de Santa Helena!

Bastavam estes dois quadros para dar a Meissonier o logar eminente que
elle tem entre os pintores francezes. Accusam-n'o de ser minucioso em
demasia, de ter uma concepo acanhada da arte, de dar muito mais
atteno aos pormenores que  esthetica geral da sua obra; mas estes
dois quadros desmentem todas as accusaes que lhe fazem os seus
detractores. Meissonier comprehendeu a verdadeira grandeza, a grandeza
epica, a que inspirou Homero e Cames; a que faz ainda hoje palpitar os
frios coraes d'esta era de industrialismo e de interesse egoista.

O heroe que elle alli nos representa, tanto na hora estonteadora do
triumpho, como na hora tragica da derrocada,  o mais importante dos
_grandes homens_, no dizer de Carlyle, o que vale mais que todos os
outros, porque  aquelle a quem a vontade de todos se subordina em um
impeto de lealdade e adorao.

Eu tinha visto, havia pouco, os dois quadros famosos de que no posso
nem sei descrever o interesse, a expresso, a intensa vida suggestiva,
quando fui visitar nos _Invalidos_ o tumulo de preciosa pedra, em que as
cinzas de Napoleo esto guardadas.

L est elle cercado por doze silenciosas estatuas de marmore que
symbolisam victorias, e de bandeiras crivadas de balas que seu exercito
conquistou.

No houve nada de banalmente curioso na minha visita; era uma romaria
piedosa feita a um idolo da minha mocidade,  unica figura grandiosa que
a edade moderna pde apresentar em face das grandes figuras antigas que
se chamam Alexandre ou Cesar.

Em toda a parte o tenho visto; a sua figura que participa da Lenda e que
 da Historia, protege ainda a Frana como uma divindade tutelar contra
a onda da _mediocracia_ que avana. N'esse paiz onde hoje apenas soam
rles nomes de rles _politiqueiros_, echoa a pequena distancia um nome
que vale mais que todas as outras glorias modernas. Que valem Frederico
II ou Pedro o Grande, que vale Luiz XIV, que valem Cond ou Turenne ou
Luxemburgo, que valem Colbert ou Vauban, que valem Guilherme d'Orange,
ou Malbourough, que valem Walenstein ou Carlos XII ao p d'este homem
estranho, homem do destino, que reuniu em si, a todas as qualidades
brilhantes do guerreiro, as qualidades solidas do administrador; que foi
legislador e soldado, que dominou e venceu a anarchia, que levou atravez
do mundo inteiro, do Sena at ao Neva e do Tejo at ao Vistula a ida da
Revoluo, de que elle foi a formula tangivel, o propheta feito homem, a
representao concreta e o visivel symbolo?!

 por isso que s na Antiguidade se encontram dois homens cuja misso
excedeu em importancia universal aquella que Napoleo representou na
Historia, e que esses dois homens so Alexandre e Cesar.

As campanhas de Alexandre tiveram no desenvolvimento intellectual da
Grecia e do mundo uma influencia enorme e decisiva:

No  para mim falar das maravilhas estrategicas d'essas campanhas, das
quaes uma manobra celebre foi genialmente reproduzida por Napoleo em
Austerlitz; mas o que interessa  humanidade inteira e por mim pde ser
lembrado,  a impulso gigantesca que a intelligencia do homem recebeu
quando o genio grego foi pela primeira vez profundamente penetrado pelo
genio do Oriente, quando os capites e os soldados da guerreira
Macedonia venceram o amollecido imperio persa, e caminharam desde o
Danubio at ao Nilo, desde o Nilo at ao Ganges, vendo cada dia cousas
novas, sentindo cada dia impresses e suggestes at alli desconhecidas;
quando elles estremeceram ao sopro gelido que vem dos paizes que se
alastram ao longo do mar Negro, e foram quasi que asphyxiados, pelo
simoun ardente, pelos vendavaes de areia dos desertos do Egypto; quando
se assombraram deante das Pyramides que tinham resistido a vinte seculos
de velhice, e interrogaram em vo os obeliscos de Luqsor cobertos de
indecifraveis hieroglyphos, e as longas fileiras de esphinges mudas,
mysteriosas exhalando de si o pavor de um symbolo inexplicado! quando
admiraram as estatuas colossaes de reis que na aurora do mundo haviam
vivido e reinado, e se assentaram nos sales de Esar Haddon sobre os
thronos dos velhos reis da Assyria que enormes lees alados estavam
sombriamente guardando havia seculos e seculos...

 Grecia revelaram-se ento noes do Universo que ella ignorava;
maravilhas estranhas de uma civilisao que no fra feita como a sua de
proporo e de harmonia, mas que esmagava pela grandeza, e que se
impunha pela fora colossal.

Pela Iliada e pela Odyssea se percebe que observadores eram os filhos
subtis da alada Grecia.

Tudo que elles ento viram e estudaram foi aproveitado mais tarde nas
frmas de uma civilisao nova, mixto do que a hellenica teve de mais
bello e a oriental de mais grandioso.

E que sensaes deliciosamente novas lhe no daria essa paisagem que
elles ento conheceram e na qual havia de tudo, desde os areaes sem fim
at aos Jardins do Industo; desde as miragens do deserto at s densas
sombras das florestas profundas; desde as montanhas cuja crista se ia
perder no seio das nuvens, at s redondas colinas esbrumadas em nevoa
de um tenue cr de rosa; desde o tigre real de salto felino e ondeante e
o elephante que em Arbelle fazia tremer a terra sob o peso gigantesco do
corpo desforme, at ao rhinoceronte e o hippopotamo, o camello, e o
crocodilo, do Nilo e do Ganges; d'essa paisagem em que as arvores eram
palmeiras e tamarindos, oleandros e verdes myrtaes; em que os homens
tinham todas as cres e todos os trages; em que ao Persa acobreado
succedia o Syrio queimado do sol, e o Africano cr da noite...

Tudo isto era um encantamento e uma surpreza, tudo isto continha e
incluia em si resultados que assombraram o mundo.

Os conhecimentos exactos, as noes verdadeiras e positivas acrca do
universo, podem bem datar-se das campanhas famosas de Alexandre. Foi
ento que se fez essa unio fecunda e miraculosa do espirito hellenico e
do espirito oriental, a India, a Persia, a Babylonia, continham em
germen Alexandria e as suas escolas, os Arabes e a sua civilisao
ephemera mas deslumbrante...

Quanto a Cesar, esse latinisou, romanisou o mundo at ento descoberto;
tornando possivel a sua posterior christianisao.

Sob o sceptro dos Imperadores o mundo tinha-se feito romano, e d'alli
veiu que sob o baculo dos primeiros Bispos elle poude fazer-se christo.
No havia j nem raas que mutuamente se dilacerassem, nem religies que
umas s outras se contradissessem, nem tribus que entre si se
combatessem... O Imperio novo estava maduro para receber o baptismo de
uma s religio,  qual as hordas barbaras viriam successivamente
submetter-se...

 ainda, por isso mesmo, que os que hoje vem na Historia a logica
successo de causas e de leis produzindo a logica successo de
phenomenos que so resultados, vem em Napoleo a fora ao servio da
ida, o instrumento de uma grande transformao social obedecendo a uma
misso superior, e cumprindo-a de uma frma perfeita. A Revoluo
franceza sem Napoleo, no chegaria a ser um facto historico, egual nos
seus effeitos  proclamao do christianismo, superior nas suas
intenes  Reforma do seculo XVI.

Essa Revoluo hoje to calumniada pelos mesmos que lhe gosam os
resultados definitivos e os effeitos niveladores e libertadores,
acabaria, a no dar-se o apparecimento fatidico de Napoleo, em uma
anarchia ensanguentada da qual nem um principio se salvaria talvez.
Napoleo sahido do meio da turba, como que encarnando em si a alma do
povo, liberta da sua escravido secular, fez da Revoluo um facto, um
facto irreductivel, contra o qual nem a mais reaccionaria vontade pde
nada. Em primeiro logar elle formulou em leis, as doutrinas
revolucionarias; o seu codigo civil tem resistido a todas as mudanas de
regimen politico que ha setenta e oito annos tem convulsionado a Frana
 superficie, sem terem comtudo alterado a sua constituio civil e o
seu regimen de propriedade; depois elle fez de uma Revoluo local, que
tinha por origem primeira os abusos financeiros, uma Revoluo universal
que levou o mundo a um dos periodos decisivos da sua marcha progressiva,
e que transformou completamente a organisao social de toda a Europa
moderna.

Os seus exercitos assoladores como eram, e no os defenderei mesmo
contra os que lhe chamam as hostes de Attila, os seus exercitos
semearam, sem o saber, sem o querer talvez, a semente da liberdade por
toda a parte onde levaram o lemma da usurpao e da tyrannia. Elles
passaram, e sob os ps d'essas legies terriveis que espalhavam o
assombro e o pavor, ergueram-se por encanto instituies novas, e os
povos readquiriram a dignidade e a liberdade, ambas perdidas na abjecta
subserviencia ao despotismo sem grandeza das modernas dynastias.




XIV


As bellas theorias optimistas dos doutrinarios que haviam proclamado os
_Direitos do homem_, a Egualdade, a Liberdade e a Fraternidade, a
bondade innata da especie humana, o retrocesso  boa Natureza, o Culto
da razo humana como a religio melhor e a mais infallivel, tinham
produzido, ninguem sabia em virtude de que sortilegio hediondo, uma
horda de freneticos cannibaes, devorando-se uns aos outros com delicia
selvagem e requintes de odio e covardia, ao p dos quaes empallideciam
as descripes que o passado nos legou das suas peiores tragedias.

Ninguem atinava como de to puras premissas tinham sahido to horrendos
resultados; ninguem podia explicar como do bem se gerara tanto mal, como
do progresso das luzes se tinha feito to negra escurido, porque motivo
intenes to sublimemente generosas tinham produzido to monstruosos e
contradictorios effeitos.

A primeira embriaguez da liberdade sem restrices e sem limites, produz
sempre no homem esta demencia m. A Historia assim o diz, mas n'esse
tempo era apenas uma restrictissima minoria, a que sabia lr a Historia
e colher as suas lies.

Imagine-se que Napoleo no tinha ento surgido; que depois da orgia de
sangue que se chamou Terror, e da orgia de lodo e vinho e que se chamou
Directorio, no se erguia, mais alto que qualquer individualidade e
qualquer instituio, essa fora disciplinadora, organisadora dos
partidos internos, subjugadora dos inimigos estranhos, to poderosa, to
efficaz, to capaz de querer, to profundamente inimiga da anarchia
mansa, que dissolve as naes e da anarchia brava que as esphacella.

A reaco mais desbragada e mais insolita tomaria ento conta da Frana,
que n'esse momento decapitada, mutilada, exangue e sceptica, no achava
dentro de si nem uma energia redemptora, nem uma crena activa, nem uma
s fibra que no estivesse morbidamente combalida.

O sublime esforo de tantos genios humanitarios seria por um longo
periodo, que hoje no podemos calcular com acerto, inteiramente perdido;
da Revoluo restaria apenas a memoria dos seus inexpiaveis crimes. E
porque havia rolado nos degraus da guilhotina a bella cabea
precocemente embranquecida de Maria Antonietta, e porque o pobre e
burguez e inoffensivo Luiz XVI tinha expiado, como quasi sempre succede
em politica, os erros e as faltas dos seus antecessores, acontecia que
Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Turgot, Condorcet teriam pensado,
escripto, meditado, trabalhado em vo.

Quem  que seria capaz de pacificar os partidos exasperados a no ser
esse homem superior a todo o seu tempo, superior  sua raa, e que pde
congregar no mesmo fim:--fazer grande e gloriosa a patria commum;--os
vencidos e os vencedores, os regicidas e os ex-emigrados os que tinham
escapado por milagre s proscripes jacobinas e os que as tinham
decretado, Fouch e Talleyrand, os filhos da antiga aristocracia
espoliada, e os triumphantes espoliadores que estavam na posse do que
fra d'ella?...

E d'essa agglomerao de interesses contrarios, de ambies que se
excluiam, de classes que eram antagonicas por instincto e por
circumstancias, de adversarios que se odiavam mutuamente, quem tirou a
Frana poderosa, affirmativa, unificada pelo mesmo codigo de justia,
enriquecida pelo mesmo regimen de propriedade, tendo conquistado a
egualdade civil para todos os seus filhos, vendo abertas todas as
carreiras para as individualidades que se distinguissem no seu seio,
consolidadas todas as conquistas, emfim, d'essa liberdade que ameaara
suicidar-se, envenenando no seu sangue aquelles que d'elle haviam
sonhado nutrir-se?

       *       *       *       *       *

 este o papel cumprido por Napoleo na Historia,  esta a sua misso na
Frana; como foi sua misso no mundo espalhar, propagar os principios da
Revoluo que elle, sem talvez o querer, representava como ninguem!

Os que o julgarem mais tarde ho de julgal-o assim, e ho de perdoar ou
escurecer, como succede com Cesar, como succede com Alexandre, os seus
erros e defeitos pessoaes, os quaes, feito o balano final, que s o
futuro far, foram talvez mais uteis do que nocivos, porque contribuiram
para o inutilisar no momento em que o seu papel deixava de estar em
estreita harmonia com as circumstancias que necessitaram a sua
cooperao.

Ultimamente, porm, desenvolveu-se no mundo a febre de atacar ou
defender o caracter pessoal de Napoleo em _memorias_ numerosissimas, em
folhetos, em livros de historia, em pamphletos, em ensaios criticos,
etc., etc.

Quem deu o _branle_ a este movimento bibliographico extravagante, que
tem como here Napoleo, foi Taine em um dos seus volumes sobre as
_Origens da Frana Contemporanea_, em que traou do grande homem um
retrato, por todos conhecido hoje, retrato  Rembrandt, cuja belleza
magistral no fere  primeira vista seno os verdadeiros entendidos,
quer dizer os psychologos e os observadores e moralistas.

Taine para desenhar Napoleo serviu-se do seu velho processo de
documentos miudinhos juxtapostos, que no  de certo o mais interessante
para o grosso publico. Interrogou as testemunhas oculares, os criados,
as damas de honor da Imperatriz Josephina, as pessoas que mais ou menos
estiveram na intimidade e no contacto directo de Napoleo. Ora,  bem
sabido _que no ha grande homem para o seu criado de quarto_, mas ainda
assim Napoleo excede tanto a craveira commum e Taine sabe de tal modo
vivificar os mortos documentos com que frma o seu _dossier_ de
investigador, a sua imaginao auxiliou-o de tal modo, indo procurar nos
_condottieri_ do seculo XIV e XV, como Stendhal j fizera antes d'elle,
os antepassados cuja influencia hereditaria e atavica, se fez sentir com
to pittoresco relevo no grande aventureiro do seculo XIX--que mais
contribuem para a grandeza de Napoleo as accusaes de Taine, que os
elogios de mediocridades incapazes de entenderem a verdadeira grandeza.

J se v que um homem como Napoleo no pde ser julgado pelo nosso
codigo moral. O seu potente cerebro, o maior de certo que a determinados
respeitos tem havido no mundo, no se deixa subordinar pelas leis
fatalmente restrictas, pelas quaes a simples humanidade tem de reger-se
para mutuamente se supportar.

A sua imaginao portentosa pe-n'o continuamente a dous passos do crime
ou da loucura; as suas paixes indomitas no conhecem regra, como no
conhece obstaculos a sua vontade inflexivel.

 em virtude d'estas faculdades extraordinarias que elle  capaz de
executar cousas que os outros nem em sonhos ousariam conceber.

No admira que as _memorias_ do tempo lhe sejam muitas vezes contrarias.
Elle teve de subjugar muitas vontades, de se contrapr a muitas
ambies, de humilhar naturalmente muitas vaidades, de excitar muita
inveja e muito despeito, para que os seus contemporaneos mais intimos
sejam capazes de perdoar-lhe a grandeza excepcional de um destino que a
todos offuscava.

Mas o que ninguem pde negar-lhe  o poder singular de seduco que o
seu sorriso irresistivel, que o seu olhar de aguia exerciam. Venceu e
dominou todos os que se lhe approximavam, e os proprios imperantes, seus
inimigos, receberam, ao contacto d'aquella grandeza simples que o
distinguia, o choque electrico que se communicava fatalmente da alma
d'elle s almas com que a sua estava em contacto.

O retrato de Taine indignou, porm, apezar da sua incontestavel belleza
artistica, apezar da sua expresso intensa de vida, dos toques _humanos_
que o fazem palpitar, os adoradores de um Napoleo imaginario, todo
virtudes burguezas de familia, e clemencia de _Moral em aco_ e um
escriptor francez para mim desconhecido, o Sr. Arthur Levy, acaba de
publicar um grande volume com o fim de contrapr o verdadeiro Napoleo,
o que elle chama _Napoleon intime_, ao terrivel grande homem descripto
por Taine, e de contradizer o critico francez em todas as suas asseres
cerca do caracter pessoal do Imperador.

Ora, o _Napoleon intime_ do Sr. Arthur Lvy  a mais falsa personagem
historica que pde imaginar-se, embora seja todo elle composto, como um
mosaico laboriosissimo, de pedacinhos de cartas escriptas por Napoleo,
e de pedacinhos de documentos de uma authenticidade incontestavel.

O que mais irrita o auctor do _Napoleon intime_  a hereditariedade
italiana, que Taine to logicamente lhe attribue. _Um burguez francez
dos quatro costados e com todas as virtudes mdias e as qualidades
mediocres da burguezia francesa_ eis o que o Sr. Levy pretende fazer do
heroe das Pyramides e de Austerlitz e de Arcole e de Wagram!...

Sobre o tumulo de soberba pedra moscovita, que a piedade de nacionaes e
estrangeiros visita quotidianamente em veneravel recolhimento,
poder-se-hia escrever segundo o criterio do Sr. Arthur Levy, o que sobre
a sepultura de um burguez de 1830 mandou gravar a familia consternada:

_Bom esposo, bom pae, bom filho e bom guarda nacional._

_Napoleon intime_ est escripto,  verdade, com grande copia de
referencias, de citaes e documentos. Em primeiro logar, documentos e
citaes truncadas nada significam. Depois, quando muito, elles poderiam
provar que uma das faces do multiplo caracter de Napoleo era essa que o
Sr. Arthur Levy quer apresentar como predominante: isto , uma certa
fraqueza, que  frequente nos seres superiores para o seu _entourage_
mais intimo, para a familia, para a mulher, para os amigos, sempre que
os amigos lhe no resistiam.

O here de mil batalhas desde as campanhas da Italia e do Egypto at
essa admiravel campanha de Frana, a de mais superior estrategia,
segundo asseveram entendidos; o organisador, o administrador, o general
extraordinario em cuja viso se gravava toda a topographia de um paiz,
com os seus accidentes de terreno, os seus valles, e montanhas, os seus
recessos, as suas planicies, os seus pontos mais fracos e os mais
fortes, e que fazia d'essa sciencia rara a applicao mais genial e a
mais pratica; o homem de mil occupaes simultaneas, que deslumbrava,
pasmava, esfalfava os seus collaboradores subalternos; o violento, o
apaixonado, o teimoso, o tyranno; o organismo de uma delicadeza de
impresses, de uma violencia de impulsos, de um apuro de sensibilidade
excepcionaes; o que suggeria milagres e os fazia; o que subjugou e
seduziu uma nao inteira; a figura, emfim, _unica!_ em toda a Historia
moderna, que foi Napoleo, nem por um momento transparece nas paginas de
uniforme e banal elogio que o Sr. Arthur Levy lhe consagra
laboriosamente.

Napoleo antes queria, de certo, esse retrato s vezes de um cr
realismo de toques, que Taine lhe consagrou, do que o monotono
panegyrico d'este seu incommodo admirador.

Aquelle que eu fui ver aos _Invalidos_  talvez o Napoleo de Taine, o
do Sr. Levy, oh! esse  que affirmo com a infallibilidade da minha
intuio de mulher, que no  de modo algum.




Segunda parte




O fim do Paganismo

(GASTO DE BOISSIER)


A litteratura franceza da actualidade  pouco abundante em obras
fundamentaes de sciencia ou de historia, embora conte no seu seio dois
dos historiadores mais brilhantes dos modernos tempos Renan e Taine. 
excepo, porm, d'estes dous grandes espiritos, que devem as linhas
principaes da sua educao intellectual  Allemanha e  Inglaterra e nos
quaes so profundamente sensiveis essas influencias estranhas--pde
dizer-se que a grande gerao dos Michelet, dos Quinet, dos Auguste
Comte no deixou herdeiros capazes de nobremente a representarem.

Contina, porm, a escrever-se muito em Frana, e como as qualidades
eminentemente sociaveis d'esta nao privilegiada a tornam apta para o
seu grande papel de propagadora, de educadora dos espiritos, pde bem
accrescentar-se que ns os europus do Occidente quasi tudo que sabemos,
o sabemos passado pelos livros da Frana.

Ou traduzidos para francez ou assimilados pelo espirito da Frana,  por
esse caminho que nos chegam todas as grandes idas mais ou menos novas,
elaboradas ou transformadas pela raa anglo-saxonia, pela raa
germanica, ou pela raa slava.

Eu por mim lamento infinitamente que em Portugal a litteratura ingleza
por exemplo seja to incompletamente conhecida. Tenho achado tantas
vezes um gozo incomparavel na leitura de escriptores inglezes, que no
posso deixar de sentir que esse intenso prazer intellectual no seja
mais universalmente partilhado. E -o to pouco que ha tempos uma amiga
minha--muito instruida e _gr ledora_ por signal--me affirmava ter
ouvido a um _homem de Estado_ portuguez, ministro, e no sei que mais,
se mais alguma cousa pde haver que ministro, na opinio _imparcial_ de
quem o ,--affirmar audaciosamente que para provar a inferioridade
mental da Inglaterra bastava dizer isto: _ que a Inglaterra no tinha
uma litteratura!_

Que a patria que viu nascer desde Chaucer e Spencer, at Shakespeare,
Milton e Byron, desde Bacon at Herbert Spencer, desde Addisson at
Macaulay, desde Richardson at Georges Elliot, desde Bunyan o inspirado
da Religio at Carlyle o inspirado da Historia--perde as heresias do
joven estadista, meu compatriota, cuja ignorancia me parece o estar
realmente predestinando para governar e dirigir a nossa metaphorica Nu
do Estado, por muitos annos e bons.

Vinha tudo isto a proposito de eu ter hoje, contra o meu costume, de
apresentar um livro francez to erudito, to profundamente e facilmente
elaborado, to cuidadosamente feito sobre documentos authenticos, como
se o firmasse o nome de um inglez estudioso, ou de um sabio allemo.

O livro, chama-se _O fim do paganismo_ e deve-se  penna autorisada e
seria de Gaston Boissier da Academia Franceza, grande e sincero cultor
da antiguidade latina e autor de obras muito importantes sobre a
historia das lettras classicas.

A obra  enorme. Tem dous volumes macissos que tratam unicamente de
assumptos estreitamente ligados ao seu titulo, mas apezar d'isso l-se
com immenso agrado, porque  profundo sem ser pedante,  vivo sem ser
desordenado e est escripto com um sentimento intenso e profundo da
poca que o inspirou.

Essa poca  aquella em que as ultimas luctas religiosas se travaram no
Occidente entre o Paganismo que expirava e o Christianismo que irrompia
ardente, impetuoso, tumido de seiva, cheio de um longo futuro das
entranhas fecundas da humanidade.

Abre com o seculo IV pela converso de Constantino, isto , pela
christianisao do Imperio Romano, e fecha com a invaso dos barbaros e
com a destruio d'esse Imperio assombroso, que at s vesperas da sua
completa anniquilao fez o espanto at d'aquelles mesmos que mais
soffreram d'elle, e que no podiam crr que elle fosse destruido!

Ja se v que nos  impossivel em um artigo, ou mesmo em uma srie de
artigos, resumir este trabalho que representa longos annos de estudo e
de paciente investigao; que reflecte a leitura aturada do mais
enfadonho e difficil de todas as litteraturas, a da egreja primitiva e a
de Roma decadente.

No queremos, porm, deixar de anunciar este livro quella classe de
leitores que amam sinceramente o estudo, e principalmente o estudo da
historia, um dos mais attractivos, um dos mais interessantes que existem
no mundo, porque  um d'aquelles que suggerem mais variedade de
pensamentos e mais extensa srie de impresses intellectuaes.

A que logo se destaca d'esta obra monumental de que tivemos a paciencia
de lr attentamente as mil e tantas paginas  esta: Como nas mais
diversas pocas, os homens, tendo attingido um certo gru de
civilisao, se parecem entre si!...

Quantas similhanas frisantes, que identidade de pontos de vista
encontramos entre os homens que figuraram no IV seculo da nossa ra e os
homens de hoje!

No admira, porm, isso tanto, logo que pensarmos que ha bastantes
similhanas entre a phase de civilisao que atravessamos e a d'esse
seculo que assistiu ao esphacelar de um immenso imperio, ao fim
tragicamente melancolico de uma religio,  transio violenta e brutal
na distancia, mas menos violenta de facto do que a imaginmos, de um
regimen para outro que lhe era totalmente opposto.

No  por uma historia systematicamente escripta, chronologicamente
ligada pelos factos, que Gaston Boissier nos inicia n'essa quadra to
afastada de ns.

O auctor preferiu um methodo muito mais captivante e talvez um pouco
menos difficil.

Traa quadros differentes e livros completos em si. Frma como que uma
galeria de figuras typicas, cuja influencia se tenha feito sentir pela
sua obra escripta ou pela sua aco directa sobre os contemporaneos.

Escolhe aquelles que deixaram um nome celebre e analysa-lhes os livros,
as cartas, as poesias, etc. etc. Pede  historia do tempo que lhe
fornea os seus documentos mais incontestaveis e reconstrue com elles ou
uma physionomia de Imperador ou uma figura de Poeta, ou uma veneravel e
grandiosa imagem de Bispo ou de Doutor da nascente egreja.

Constantino, o imperador convertido, Julio, o imperador apostata, so
dois estudos de alto interesse historico e psychologico. Em ambos, o
auctor v dois convertidos, dois fanaticos, um do christianismo que se
apossa da sua alma e a transporta em allucinaes supremas, outro dos
velhos deuses, abandonados, cuja restaurao prepara com paixo fogosa e
arrebatamento devoto.

Nem Constantino  o ambicioso que muitos historiadores tem imaginado e
descripto, nem Julio  o livre-pensador que Voltaire enthusiasticamente
applaudia.

So duas almas sinceras que usram do poder illimitado que possuiam,
para imporem s almas dos outros a f que os transportava. Julio
vingava-se assim da oppresso em que o tinham tido longos annos e
associava  causa dos deuses vencidos a sua propria causa de opprimido e
de victima.

       *       *       *       *       *

No livro intitulado _O Christianismo e a Educao Romana_, Geston
Boissier, o erudito escriptor, traa o mais brilhante quadro d'essa
educao antiga, cujo poderoso encanto  to penetrante,  to subtil
que nunca mais ella deixou de ser a base da instruco que o mundo tem
dado aos seus modernos filhos.

Foi por meio da educao, dada publicamente por mestres pagos 
mocidade christ, que os dois cultos inimigos se fundiram no corao e
na imaginao da humanidade. Sem darem por isso, os christos receberam
a influencia do paganismo expirante, por meio dos livros dos seus poetas
sublimes e dos seus admiraveis prosadores.

Quem bebera com o leite as inspiraes de Homero e de Virgilio; quem
aprendera a bem pensar com Plato e a bem dizer com Cicero; quem
recebera a magistral lio da Philosophia e do Direito antigo; quem
formra o seu espirito por esses moldes incomparaveis, no podia mais
esquecer o mel de to doce eloquencia, a graa de to perfeita poesia e
a lio viril de to alta sciencia philosophica!

S. Jeronymo, Santo Antonio, Santo Agostinho, os grandes doutores, os
grandes luminares do christianismo, esto todos penetrados, at 
medulla, d'essa influencia suprema e invencivel.

Foi, portanto, por meio da educao, que os dois elementos, o pago e o
christo, se fundiram harmoniosamente.

 de um interesse profundo o quadro que Gaston Boissier desenha d'essa
educao romana, to propria para formar chefes politicos e chefes
militares incomparaveis. Mas no seculo IV da ra christ essa educao
modificara-se muito, a ponto de j no parecer a mesma, nem ser capaz de
produzir os mesmos fructos. Um romano de grande familia no conhecia,
nos tempos aureos da vida d'esse imperio, seno dois officios: a guerra
e a politica. Aprendia no campo a guerra; a politica aprendia-a, no,
lendo Aristoteles ou Plato, mas assistindo diariamente s sesses do
Senado.

Esta educao pratica de uma efficacia admiravel fazia ento os valentes
capites e os famosos dominadores politicos.

A Inglaterra contemporanea, de todos os paizes modernos o que mais se
parece com a Antiga Roma imperial, tambem cultiva a fora viril dos seus
filhos nos mais variados _sports_ que a desenvolvam; na natao, na
nautica, nas corridas de cavallos, na lucta athletica, nos jogos da
gymnastica moderna,--mais sabia, embora menos esthetica do que a
antiga,--e tambem comea, de muito moos, a exercital-os na arte da
palavra, na educao que forma os oradores, os _debaters_, os grandes
parlamentares da eloquencia ou dos negocios.

Nas Universidades de Oxford e de Cambridge, ha _clubs_ especialmente
destinados  discusso dos negocios publicos, onde se propem e se
debatem assumptos de interesse nacional e de politica geral.

Mais tarde, quando os professores gregos se estabeleceram em Roma, os
_grammaticos_ e os _rhetoricos_ tomaram conta da mocidade, ou nas
escolas publicas, ou no seio das grandes familias.

A Grecia cultivara com enthusiasmo a philosophia, a musica, a rhetorica,
etc. Os Romanos, porm, de uma inaptido esthetica to justamente
reconhecida por Mommsen--no acceitaram com prazer, de quantas artes e
sciencias lhes trouxeram os seus educadores gregos, seno a grammatica e
a rhetorica. A philosophia affigurava-se-lhes um palavriado vo e
inutil; a geometria e as mathematicas s os captivavam pelas suas
applicaes de utilidade pratica; eram para elles a arte de contar e de
medir.

A rhetorica, porm, essa arte de falar que tanta influencia produzia na
imaginao antiga, impoz-se-lhes fatalmente aps as primeiras
reluctancias do instincto conservador, que detestava tudo que era
innovao.

Foi ento que a educao dividida em dois ramos, fez da leitura e
explicao dos poetas, da critica e analyse das suas obras, a sua base
fundamental.

Ainda hoje a Inglaterra, sob as suas apparencias gothicas a mais
_romana_ das naes, d aos discipulos das suas universidades aquella
frte educao classica que torna to substancial e to nobremente
florida ao mesmo tempo a eloquencia dos seus grandes oradores.


II

Sem podermos acompanhar o livro altamente instructivo de Gaston
Boissier, nos variados assumptos que elle trata, sem tentarmos resumir
os quadros magistraes da vida da antiguidade que elle traou, n'essas
paginas to ricas de informao e to sobrias de cr, escolhamos, para
d'elles dar conta aos leitores, a quem este genero de trabalho interessa
particularmente, alguns dos seus capitulos mais notaveis.

A biographia de Tertuliano, um apologista do christianismo, que o mundo
moderno conhece apenas de nome, apesar da sua celebridade theologica no
pde, por exemplo, interessar-nos tanto como a _Converso de Santo
Agostinho_.

Este Santo que conheceu at  saciedade, at  nausea, todas as delicias
da volupia pag, este joven elegante, que frequentou com tamanha paixo
litteraria as escolas de Carthago, este christo que seguiu com enlevo
as procisses da _Me dos Deuses_, e que no theatro devorou avidamente
as peas ligeiras do reportorio antigo--interessa-nos pela violenta
crise mortal que determinou a sua converso.

Elle mesmo nos confessou em um livro que ser sempre avidamente lido
pelos prescrutadores insaciaveis do eterno abysmo humano, todas as
gradaes, todos os cambiantes por que passou a sua alma sequiosa do
Infinito e que procurava estancar a sde que tinha l dentro de verdade
e de luz, correndo atraz de todas as sensaes acres e pungitivas,
sondando com curiosidade inquieta todos os segredos da Paixo e do
Prazer.

Tanto mais meritorio  o sacrificio feito por Santo Agostinho, ao
renunciar s delicias da litteratura pag, s graas da musa classica,
aos encantos da sociedade polida e culta, quanto era sincero e
apaixonado o amor que ella tinha por todos esses prazeres da
intelligencia e dos sentidos.

Admirador de Virgilio, discipulo de Cicero, elle atirou-se porm, com
ardente desejo de achar n'ellas a verdade que lhe fugia, ao estudo das
Escripturas. Ao principio a barbaria christ revoltou o seu puro gosto.
S mais tarde  que, atravs da frma incorrecta d'essas traduces
hebraicas feitas por escrupulosos e ignorantes christos, elle poude
perceber as correntes puras e limpidas, os mananciaes de vida interior,
as preciosas riquezas d'alma, que jorravam dos livros sagrados, e que
vinham renovar a alma humana, vazar em moldes novos as suas aspiraes e
os seus sonhos, crear uma nova frma de civilisao infinitamente mais
rica e mais complexa do que essa, que a formidavel depravao romana
tinha gasto com os seus excessos orgiacos e os seus monstruosos e nunca
vistos crimes!

Todo o capitulo consagrado a essa bella figura do christianismo
primitivo, a esse grande espirito que tanto concorreu para a organisao
definitiva dos seus dogmas, e em que Gaston Boissier conta as suas
luctas interiores e, finalmente, o triumpho soberbo da sua converso 
de um interesse palpitante.

Teem sempre actualidade para aquelles que pensam os intimos combates de
uma consciencia sincera.

Aos que frem verdadeiramente _homens_ nada do que  humano pde ser
estranho; e onde  que a maravilhosa planta d a sua flr mais
desabrochada e mais perfeita do que n'esses typos luminosos, nos quaes o
genio concretisou todos os seus esplendores, a vontade, todas as suas
sublimes energias, a consciencia, todas as suas foras mysteriosas!...

Santo Agostinho  o homem que amou, que aspirou, que conheceu a vida,
que luctou e que venceu por fim, sobrepondo a todas as contingencias da
existencia limitada e mesquinha o que elle na sua alta consciencia
julgou ser a eterna verdade!

Subir to alto pela aco do seu proprio entendimento  conter dentro de
si, em um momento cuja memoria no mais se anniquilla, fecundando
eternamente outras almas e outras existencias;--aquella poro de
_elemento divino_ que  dado  frgil humanidade realisar e encarnar em
si bem raras vezes.

So estas almas superiores as eternas bemfeitoras da nossa raa
imperfeita, to grande pelo que sonha, to mesquinha pelo que consegue
executar.

_As origens da poesia latina christ_, que compem o livro 4.^o, no
segundo volume, so tambem cheias de interesse e novidade para quem no
est costumado--e quem o est hoje em dia?--a versar to remotos
assumptos!

A litteratura christ nasceu como j dissemos da mistura que se fez
durante tres seculos da antiguidade profana e do christianismo.

Aos que conhecem e apreciam a litteratura dos grandes seculos da Grecia
e de Roma, deve incontestavelmente parecer mediocre, quasi
insupportavel, essa rude e incorrecta litteratura, onde o melhor era
imitado ainda assim, com inconsciente impudor, dos modelos antigos.

Mas muito embora ella no tenha valor litterario, ninguem pde negar-lhe
um grande valor historico.

O grande abalo moral que o Christianismo imprimira s almas no tem
comtudo, um co que lhe corresponda na poesia d'este tempo.

Era muito imperfeito o instrumento d'essa lingua latina em dissoluo na
qual tantos povos varios tinham introduzido as suas locues barbaras, e
que manejada por humildes artifices ignorantes as mais das vezes,
perdera o sabor e a graa ampla e perfeita da aurea latinidade.

No pde pois ser classificada como uma obra de litteratura, a serie de
escriptos, que essa era,--no entretanto fecunda e na qual se estavam
surdamente e subterraneamente elaborando tantos elementos
novos--produziu e nos legou.

N'esse tempo cumpria-se justamente um dos maiores acontecimentos da
Historia.

O mundo estava sendo revolvido at s suas entranhas mais profundas.

Havia dramas intimos em cada consciencia, parecidos com esse, de que
Santo Agostinho nos representa o mais elevado typo; havia luctas
dolorosas em cada familia; em uns a sde do martyrio tinha
voluptuosidades violentas; em outros a plenitude da paz religiosa
attingia uma especie de beatifico esplendor. Que novas sensaes de uma
intensidade inultrapassavel conheceram ento as almas! Que fontes de
graa mysteriosa jorraram subitamente n'esses renovados coraes! Os
crentes elevaram o espirito n'um extase at alli desconhecido. A vida
eterna abria as portas resplandecentes aos sequiosos do eterno _au de
l_. Jesus Christo mostrava as chagas do seu corpo, e os estygmas do seu
martyrio affrontoso aos que sentiam subir na alma como uma mar
mysteriosa, o novo sentimento do amor, a divina emoo da piedade
fraternal, que subito fizera todos os homens irmos, e todos os irmos
soffrendo a partilha angustiosa da mesma agonia!

O Evangelho revelava as suas lendas cheias de graa, as suas parabolas
de idyllica innocencia, as suas lies de simples e ineffavel bondade,
aos saciados de uma civilisao dissoluta e abominavel!

Todos tinham um quinho n'aquella herana preciosa!

Para todos havia po e vinho n'aquella ceia symbolica, em que as almas
rejuvenescidas por um sopro de amor commungavam maravilhadas!

No , porm, na litteratura, mesmo nos mais rudes ensaios da
litteratura christ do tempo, que este mundo de emoes novas tem o seu
perduravel reflexo.

A alma do povo, na sua fecundidade prodigiosa, desatou-se, abalada por
este impulso que a transfigurava e sacudia, em idas, em typos, em
imagens, em lendas, que a Arte Christ em todos os seus periodos tem
largamente aproveitado. Em dois seculos, do segundo ao quarto seculo, a
imaginao christ elaborou e amontoou thesouros que enriqueceram o
mundo moderno.

Os evangelhos apocryphos gerados espontaneamente pela alma popular, no
tempo do christianismo primitivo, so os thesouros mais ricos em que
essa imaginao se desentranhou.

A mais doce, a mais imaginosa poesia do christianismo encontra-se alli.
Todas as lendas que fizeram o encanto da nossa infancia, e que
emballaram tambem com o seu rythmo dulcissimo a risonha infancia da alma
moderna, so tiradas d'essa poesia anonyma, em que todas os almas
collaboraram em um enleio religioso, e em uma f palpitante e
suggestiva, inconsciente dos prodigios que creava.

Essa  que  a verdadeira litteratura christ, aquella em que as foras
espontaneas que geram os mythos e os adornam com todas as flores da mais
variada poesia, se revelam com encantadora eloquencia.

       *       *       *       *       *

Passando em claro os capitulos consagrados a S. Paulino de Nola, um
santo gaulez que inspira uma sympathia patriotica a Gaston Boissier; o
capitulo que tracta da vida e das obras do poeta Prudencio; e muitos
outros que esto cheios de revelaes sobre a quadra que descrevem, e em
que ns os leitores podemos reconstituir com intenso colorido esse
seculo estranho, em que um periodo da Historia da humanidade findava e
outro principia a destacar-se nitidamente--paremos deante do _Livro
quinto_ do 2.^o vol. que tem este titulo que  s por si um regalo para
os _gulosos_ de taes estudos: _A sociedade pag nos fins do seculo IV_.

Mas percebo agora que cheguei ao fim do espao de que posso dispr. E
este capitulo de costumes,--em que uma sociedade aristocrata, culta,
amiga das lettras, fastienta at ao requinte, frivola at  dissipao,
muito occupada de elegancias mundanas, de convenes e de cerimonias,
muito sceptica, separada por um abysmo do mundo moderno cujos
representantes eram justamente os que compunham a seita que ella teimava
a desprezar como plebeia, humilde e ignorante, mesmo depois de fazerem
parte d'ella homens de valor moral de Agostinho,--este capitulo, digo em
que uma sociedade to parecida com a nossa com os mesmos preconceitos,
com os mesmos vicios, com a mesma despreoccupao do perigo est posta
de p, com admiravel vigor, precisa de um artigo especial que muito
proximamente lhe consagrarei.


III

O methodo de Gaston de Boissier , com algumas modificaes secundarias,
o methodo de Taine.

Para penetrar uma sociedade, o erudito escriptor estudou a sua
litteratura. Para comprehender bem a litteratura de um dado periodo elle
procura conhecer e investigar cuidadosamente a vida dos seus
escriptores. Cada typo representativo--_representative man_, dizem os
inglezes--d-lhe o segredo das idas, dos sentimentos que predominavam
em uma determinada poca.

Assim para dar a conhecer aos seus leitores a alta sociedade romana do
quarto seculo, Gaston Boissier vae lr e faz-nos lr a ns as cartas de
Aurelio Symmachus--personagem de que muitos dos seus leitores e dos
leitores benevolos d'este estudo, encurralados na extrema especialisao
da educao moderna, nunca de certo ouviram falar.

Todos sabem, que as cartas de Plinio, o moo, e as cartas de Cicero
lanam uma grande luz sobre a sociedade da sua poca, e concorreram como
documentos admiraveis para que a moderna critica, to erudita e to
comprehensiva, reconstituisse atravs d'ellas a alma da Antiguidade.

Pois Gaston Boissier pede s cartas muito menos caracteristicas de
Symmachus o mesmo impagavel servio.

N'aquelle tempo, to proximo da hora em que Alarico viria bater s
portas de Roma, ninguem percebe a imminencia do perigo que ameaava a
sociedade antiga.

Symmachus occupa-se muito pouco dos negocios publicos; acha-os, ou
nullos ou de pequena importancia.

Quem l as correspondencias, alis adoraveis dos grandes amadores da
_epistolographia_ no seculo XVIII, tambem no percebe n'ellas o minimo
rebate dos perigos que ameaam o regimen que ia esboroar-se em sangue e
em violencias tremendas. Nem o proprio Voltaire, to agudo de
intelligencia, to perspicaz, to penetrante, e que to activamente
collaborra na propaganda a que se deveu a Revoluo, percebe levemente
a responsabilidade que assumia, e as tempestades que elle crera com a
sua palavra de fogo.

Nas vesperas das grandes crises que iam transfigurar o mundo, occupam-se
todos de galantarias, de ditos graciosos, de versinhos bem feitos, de
anecdotas de velado escandalo, de intrigas de amor ou de ambio.

Quem presente sequer que Danton vai trovejar e que Robespierre vai
sorrir sinistramente e que d'esse trovo e d'esse sorriso vai surgir um
mundo novo?

Tambem hoje, um seculo depois da Revoluo, quando, feitas todas as
conquistas politicas, a alma inquieta, e nunca satisfeita, do homem
reclama imperiosamente a soluo prompta, radical do terrivel problema
da miseria--quem  que percebe nos sales de Paris, de Londres, de
Nova-York e de Berlim que a terrivel liquidao est a chegar, e que uma
era tenebrosa de anarchia e de lagrimas, de ruinas e sangue espera
porventura os que teimarem em viver muito?

 da lei das sociedades no perceberem nunca claramente as
transformaes que se esto elaborando no proprio seio d'ellas.

       *       *       *       *       *

Como quer que seja, a verdade  que o grande senhor romano, cujas cartas
nos interessam n'este momento, se no preoccupa absolutamente nada com
os negocios do Imperio. Comquanto no seu tempo o Senado seja ainda um
corpo importante, elle perdeu comtudo o seu antigo esplendor.

Os Senadores deixaram de ser grandes e poderosos magistrados, mas
conservam-se uma classe activa, eminentemente aristocratica, impondo, ja
se v, a moda e dominando os costumes.

 justamente a transformao que se opera na aristocracia europa, entre
o fim do seculo XVII e o principio do seculo XVIII. Occupam grandes
cargos honorarios na crte imperial, como os fidalgos francezes de que
nos fala Saint-Simon--e dominam--o que tambem frequentemente lhes
succedia a elles--na administrao interna das provincias romanas.

Um dos encargos e das honras, que estes ultimos teem e conservam
zelosamente, consiste no caro privilegio de dar jogos publicos ao povo.
O _po_ e _espectaculos_, de que fala Juvenal, continuam a ser at 
final dissoluo do Imperio, as unicas necessidades da plebe romana.
Muitas cartas de Symmachus, que era conservador das tradies antigas,
tratam exclusivamente de encommendas de feras e de animaes, feitas aos
amigos que elle tinha em todo o mundo.

Na occasio de investir da pretura o seu filho primogenito gastou elle
uma somma equivalente a dois milhes de francos.

Para todos os lados manda emissarios encarregados de lhe trazerem
artistas de merito, bichos raros, ornamentos estranhos, sumptuosos e
imprevistos, com que elle possa deslumbrar os olhos da plebe e manter a
sua popularidade.

N'este ponto no podemos accrescentar que o mundo moderno tenha
similhanas com a sociedade antiga. Entre as nossas eleies
constitucionaes e estas festas populares com que se comprava o affecto
do povo, a differena no  realmente to pequena como isso.

Os modestos banquetes, com que entre ns o eleito obsequeia os seus
eleitores no se parecem l muito com esses prodigiosos espectaculos em
que smente para lhe agradarem a elle, ao povo-rei, senadores como
Symmachus mandavam vir ursos do norte, lees da Africa, ces da Escocia,
crocodilos do Nilo,--d'esse _verde_ Nilo, de que Cleopatra fra a
serpente lasciva,--cavallos de Hespanha, comicos da Grecia, gladiadores
saxes, mimicos, cocheiros, de Byzancio, o inferno!... Todo o mundo,
ento conhecido, contribuia para o prazer cruel d'esse povo insolente!

Eis um trao de costumes que demonstra, mais que mil dissertaes a
distancia moral que nos separa dos homens d'esse tempo, ainda mesmo dos
melhores:

Symmachus, para essa festa monumental, mandra vir como gladiadores os
prisioneiros saxonios, raa valente, sobre a qual contava para o pleno
successo do espectaculo. Pois na vespera vinte e nove d'esses homens de
bravo corao, no querendo servir para os prazeres do povo romano,
estrangularam-se uns aos outros, no carcere em que os guardavam.

Symmachus, que era um bom homem, um homem culto, que conhecia a
philosophia e a litteratura antiga, que sabia, emfim, tudo que sabia o
seu tempo, longe de perceber a selvagem grandeza d'este acto heroico,
enfureceu-se contra os desgraados, e exclamou de muito boa f: No
quero que me falem mais d'esses miseraveis, que so ainda mais perversos
que _Spartacus_.

E esta exclamao de ingenua crueldade, vale mais que uma longa analyse
do caracter e da sensibilidade antigos.

       *       *       *       *       *

O modo externo de viver em Roma differe pouco do j conhecido pelas
Cartas de Plinio. As regras de civilidade social tem-se, porm,
complicado ainda mais. O tempo nas altas classes passa-se a fazer e a
receber visitas, a assistir a cerimonias mundanas, taes como casamentos,
investidura da tunica viril, conselhos de familia, etc., etc.

A paixo das lettras  universal na sociedade elegante--tal como no
nosso seculo XVIII. Os grandes e graves personagens do tempo passam a
vida a trocar entre si versinhos mais ou menos chchos e a
cumprimentarem-se com effuso pelos seus talentos litterarios.

Roma acolhe os litteratos estrangeiros sob o reinado de Theodosio, como
o fazia no tempo de Trajano. Os mais illustres escrevem e applaudem quem
escreve, e, como no tempo dos Medicis em Florena--os quaes, j se
entende, tratavam de imitar a antiguidade--ha banquetes em que se leva a
noite a discutir doutamente theorias scientificas e litterarias.

A classe alta possue grandes riquezas. O nosso Symmachus, um dos menos
ricos, tem tres casas em Roma e quinze _villas_ nas mais bellas regies
da Italia. No se excede em luxo, em graa voluptuosa, em douta cultura,
em elegancia magnifica, a vida d'essa classe privilegiada, cujos avs
tinham conquistado o mundo e que tratava agora de lhe gosar em paz as
infinitas delicias.

       *       *       *       *       *

No se imagine, porm, que s a sociedade pag estava contaminada d'este
egoismo, d'esta preguia epicurista, d'esta artistica e sumptuosa
indolencia. S. Jeronymo, que tambem, antes de convertido, tinha
saboreado o gosto d'esta vida ostentosa e anesthesiante, que tambem
conversra com as mulheres de espirito, lra avidamente os deliciosos
poetas pagos, bebra emfim at  embriaguez essas delicias de Roma
contra as quaes se revoltava depois,  o proprio que nos conta o modo
porque os ociosos e os ricos de _ambos os cultos_ passavam a existencia.

Em que se passa o tempo na grande cidade? pergunta elle, em uma das
suas cartas. Em ver e ser visto, em receber visitas e fazl-as. Em
louvar os presentes, e dizer mal dos ausentes. Comea a conversao e
no ha meios de acabar.

Contam-se historias escandalosas. Morde-se e -se mordido. Dilacera-se
quem no est, e adula-se quem ouve.

No parece a descripo de uma sala do nosso tempo?

Querem vr agora o retrato de um abbade da Regencia?

Levanta-se muito cedo e regula desde logo a ordem das suas visitas.
Procura o caminho mais curto, e vai surprehender, ao sahir do leito as
damas que pretende visitar. Repara, porventura, em uma almofada, em uma
toalha elegante, em algum objecto d'esta ordem. Apalpa-o, admira-o,
lamenta-se de no possuir nada egual, e tanto faz, que acaba por
conseguir que lhe faam presente d'elle.

Onde quer que a gente v,  a primeira pessoa que encontra; sabe todas
as noticias; corre a divulgal-as antes de ninguem; inventa-as quando lhe
faltam verdadeiras, e, em todo o caso, aformosa-as com incidentes novos
em cada vez que as conta.

Pois este abbadesinho galante, este joven padre parasita e lisongeiro,
no  tal da Regencia como eu lhes disse.  de Roma no tempo de S.
Jeronymo e  elle quem o descreve, com este ironico vigor, com esta
agudeza espirituosa em uma das suas _Epistolas_!

       *       *       *       *       *

A differena exterior entre esta civilisao e a nossa  bem grande; os
caracteres divergem extraordinariamente em resultado da distancia que
vai da moral antiga  moral moderna; o elemento da _caridade_, essa base
fundamental do christianismo, ainda apezar de enunciado e de prgado
pelos seus apostolos no penetrra profundamente nas almas, que a
religio antiga affeiora e modelra--mas apesar de tudo isso, quantos
quadros d'esse tempo que parecem copiados do tempo actual; quantas
figuras d'essa poca que vemos reproduzidas na nossa; quantas paixes
ento dominantes, que a moral da egreja, que o sentimento religioso mais
desenvolvido e mais educado, que a philosophia moderna mais piedosa e
mais humana, no conseguiram ainda amordaar.

Como essa sociedade que tripudiava no luxo colossal e na ostentosa e
deslumbrante magnificencia--esquecida ou despreoccupada dos perigos que
a ameaavam,--assim a nossa sociedade de hoje, tendo attingido um gru
de civilisao e de riqueza material differente, mas no inferior s de
Roma, se estonteia no gozo egoista de todos os prazeres, e no estadear
cynico de todos os vicios, sem presentir que uma seita, to tenaz como a
christ, e menos pacifica e menos espiritualista do que ella, to capaz
de abnegaes heroicas e de sacrificios sublimes, e no tendo como ella
o seu fim exclusivo no Reino dos Cos, no Reino que no  d'este mundo,
avana subterraneamente, recrutando-se nas minas onde no ha luz, nas
fabricas onde no ha Deus, nas officinas onde o trabalho  uma
ignominia, nas trapeiras miseraveis onde as creanas agonisam com fome
entre as blasphemias desesperadas dos pais, nas enxovias immundas onde o
ar falta e onde a desesperana brama sinistramente--e se prepara
energica e sombria para o definitivo assalto que ha de render a velha
sociedade apodrecida!

O que queriam--no esses christos degenerados e contagiados pelo
paganismo de que fala com amargo despreso S. Jeronymo--mas os grandes
christos que sacrificavam e oravam nas catacumbas, que morriam nos
amphiteatros e que escreviam com o sangue do corao os seus rudes
hymnos de adorao e de f?

Queriam o desmoronamento total d'esse imperio que era a somma do todas
as iniquidades pags, que era a escravido do miseravel e a apotheose do
mau rico!

O que quer hoje o socialismo triumphante?

A morte d'esta sociedade, cujo esplendor maravilhoso se faz com o
sangue, e as lagrimas do miseravel, do, como nunca, miseravel
proletario!

No  verdade que esta similhana basta para dar ao livro um intenso e
profundo interesse?




Anthero de Quental

A SUA OBRA E A SUA MORTE




I


Hesito em falar ainda de Anthero de Quental! Succedeu um to silencioso
esquecimento ao pasmo, ao sobresalto da primeira noticia do seu
suicidio!... E no emtanto, se havia physionomia complexa, suggestiva,
capaz de interessar e de captivar o nosso espirito era a d'este poeta de
to requintada e extrema delicadeza de inspirao e de pensamentos.

A primeira impresso que recebi da sua morte, foi to violenta e
dolorosa que em vo tentei traduzil-a em palavras, ou mettel-a no molde
imperfeito e rude de uma apreciao critica qualquer.

 hoje smente, depois de volvido um mez ou mais sobre esse suicidio,
que devia enluctar as lettras portuguezas, que eu me atrevo a conversar
com os leitores a respeito d'elle.

O livro dos _Sonetos_, saudado na sua primeira appario com sincero e
quasi religioso enthusiasmo, pde considerar-se como a completa
confisso d'aquella alma combalida, que procurou na Morte o extremo
refugio contra as luctas asperas do Pensamento, contra as chimeras
perseguidoras da Imaginao.

Se o considerarmos do ponto de vista pratico e material, d'onde a maior
parte da gente se colloca para julgar os homens e as cousas, Anthero no
era realmente um infeliz.

Tinha, pelo contrario, mil predicados, mil qualidades invejaveis.

Tinha, primeiro de tudo, um superior e bello talento incontestado; tinha
a sufficiente abastana para _no precisar viver d'elle_--o que eu pelo
menos considero o maior dos bens--tinha a adorao dos amigos (que lhe
chamavam _Santo Anthero_), o respeito dos estranhos, a par de uma
consciencia immaculada que no exercicio do bem encontrava permanente e
ineffavel consolo; tivera at na mocidade o raro dom de uma belleza de
Christo, espiritual, meiga e serena.

E, comtudo, apezar de tantas circumstancias que se reuniam para dever
tornar-lhe doce a vida, depois da leitura d'aquelles _sonetos_
magistraes, em que to requintadas amarguras e to estranhos supplicios
se crystallisavam, por assim dizer, em perolas maravilhosas, no havia
leitor que no sentisse esta interrogao desabrochar-lhe nos labios:
onde  que este homem to tranquillamente e to lucidamente desesperado
encontra a fora de continuar a viver?

O suicidio do grande poeta responde agora, lugubre, mas coherente,
terrivel mas logico,  irresistivel pergunta.

O pessimismo de Anthero no era, como a maior parte dos que ns por ahi
conhecemos, um pessimismo pessoal, egoista, limitado s contradices e
s tristezas do seu proprio destino.

Era um pessimismo philosophico, como o de Leopardi, como o de
Schopenhauer, como o de Leconte de Lisle.

A sua concepo da vida, to triste que faz horror e espanto, traduz-se
no soneto: _A Divina Comedia_, em que elle figura os homens erguendo
para os remotos cus os braos desesperados e apostrophando esses deuses
que s produziram a Dr, a Paixo, o Peccado, as Illuses, as luctas
fratricidas.


Pois no era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda no existe
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque  que para a dr nos evocastes?
Mas os deuses com voz ainda mais triste,
Dizem:--Homens! porque  que nos criastes?


A Morte, no sob uma frma repellente e odiosa, mas attrahente como
esphynge, perturbante e voluptuosa como sereia que vem cantar a sua
cantilena de seduco  flr das aguas de um verde glauco, a Morte,
revestida de um mysterioso encanto subjugador e estranho, paira por
sobre todas os paginas d'este livro, impregnando-as de subtil e
contagiosa tristeza.

Dir-se-hia que os _sonetos_ lhe so quasi inteiramente consagrados.  a
_ella_ que elle v sempre, chamando-o, chamando-o baixinho,
entontecendo-o com as promessas do seu silencio eterno, da sua paz
profunda e vasta, do seu mysterio que ninguem soube ainda violar.

Anthero pensra tanto que o crebro esgotado pedia emfim misericordia. A
sua ambio no fra de vs glorias, nem vos triumphos; quizera
levantar uma ponta d'esse vo que esconde a eterna Verdade, alm da qual
tantas geraes humanas tem sonhado com alguma cousa de inextinguivel e
de eterno.

E essa agonia intellectual que o dilacerou exprime-se em todos os seus
versos, com uma potencia maravilhosa, e uma energia devoradora que
acabou por consumil-o!

_A illuso, o vasio universal_, que encarava ao sahir das suas
vertiginosas contemplaes metaphysicas, faziam-n'o recuar pavido e
tremente. A vida no lhe dava o que elle queria; para quem d'esse vasto
mundo invisivel que a sua alma de sonhador presentia e pelo qual ella
anciava, nada havia que lhe satisfizesse a sde ideal. Por isso Anthero,
fugindo voluntariamente d'elle, foi buscar a sua amiga de todas as
horas, aquella que podia entregar-lhe a chave do eterno enygma que o
desesperava; a


       _Morte! irm do Amor e da Verdade_


       *       *       *       *       *

A proposito do suicidio de Anthero, falou-se muito de tres suicidios
tambem famosos que o precederam; mas realmente, a no ser pela
notoriedade que os assignala, eu no sei que elles tenham comparao com
o d'este poeta. Nem Camillo, nem Julio Cesar Machado nem Soares dos Reis
se mataram pelos motivos transcendentes que acturam no animo de Anthero
de Quental.

Os tres mataram-se porque soffriam mais do que  dado aos seres humanos
soffrer sem procurarem no anniquilamento a paz invocada entre
supplicios.

Um d'elles, Camillo, artista de nervos exasperados pela cegueira,
temperamento de hysterico para o qual a resignao era uma virtude
impossivel, matou-se para fugir s trevas densas de uma lobrega morte em
que se sentia perdido!

Julio Cesar Machado matou-se porque, no meio do mundo hostil que no
satisfizera nenhuma das ambies da sua pobre alma delicada e sonhadora,
elle concentrava as affeies todas do seu corao, os ultimos sonhos da
sua phantasia, a esperana, a suprema gloria, no amor de um filho que se
suicidra com 19 annos!--deixando-o s. O infeliz enlouqueceu e matou-se
tambem...

Sobre a morte de Soares dos Reis paira uma sombra de mysterio. Quem sabe
que luctas intimas, que drama de paixo intensa e dolorosa esse suicidio
no veio rematar!

A morte de Anthero obedeceu a outro genero de impulsos. No digo que
para ella no concorresse tambem o estado de miseria moral e de anarchia
mental em que via a sua patria (da qual havia pouco elle tinha
porventura esperado qualquer acto de energica reaco contra o destino),
mas a sua dr era uma d'estas dres de ordem aristocratica e rara, que
no se originam como as da maioria dos homens no corao, mas que emanam
do espirito canado de cogitar em vo no mysterio impenetravel das
cousas...

Querem vr os espectros que enchiam de pavor sagrado as suas noites?
Ouvi este _soneto_ que , como todos os outros, pagina solta de uma
confisso intellectual complicada e dolorosa, tal como um Pascal ou um
Amiel a escreveram tambem cada um, j se v, na sua respectiva esphera,
um nos seus immortaes _Pensamentos_, outro no seu _jornal_ to
caracteristico e to pouco comprehendido:


Espectros que velais emquanto a custo
Adormeo um momento, e que inclinados
Sobre os meus somnos curtos e canados
Me encheis as noites de agonia e susto!...

De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados,
Disputar dia a dia  mo dos fados
Uma parcella do saber augusto.

Se a minh'alma ha de vr sobre si fitos
Sempre esses olhos tragicos, malditos!
Se at dormindo, com angustia immensa

Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma, verter sobre o meu peito
As lagrimas geladas da descrena!


Foram estas as dres que o mataram. A sua consciencia no achava repouso
em nenhuma das concepes do Universo em que alternativamente tentava
acolher-se.

Ora, dirigindo-se  meiga Virgem do Catholicismo elle a invocava com
infantil simplicidade; ora punha na _mo direita_ de Deus o seu corao
canado, e lhe ordenava que alli _dormisse eternamente_; ora achava que
a Duvida tinha soprado sobre o mundo _um vento de ruina e de morte_, que
tudo emmurchecra, que tudo apagra, deixando apenas uma humilde e
mysteriosa flr desabrochar a medo no fundo da consciencia humana.

Aspirava ao _nirvna_,  paz inconsciente; queria cahir n'aquelle _vacuo
tenebroso_ onde na _immobilidade indefinida termina o ser inerte,
ocioso_; e ao mesmo tempo a comprehenso atavica da eternidade catholica
torturava-lhe em horas de lucta o inquieto espirito.

Que aspirao intensa ao ideal, a d'este formoso espirito alado! Que
sublimes tormentos os seus, procurando sem descano a verdade e a
luz!...

Mas sempre, em todas as phases d'esta interna lucta que talvez fizesse
sorrir alguns dos leitores dos _sonetos_ emquanto o suicidio do poeta
lhe no deu o seu fundo de lugubre realidade,--Anthero chamou pela
Morte, a invocou, lhe sorriu, lhe deu os nomes mais bellos, os mais
doces, os mais apaixonados!

D'elle se pde dizer que foi _um amante da Morte_, amante austero e
triste, mas nem por isso menos fervoroso e ardente

Por motivos inteiramente diversos dos seus, tambem Santa Thereza, a
apaixonada castelhana, chamou a Morte com aquelles mesmos arroubos de
extase que nos surprehendem e nos fazem estremecer a ns, pobres
creaturas feitas de carne melindrosa e fragil, a quem o soffrimento
repugna, e a sepultura com a sua podrido infecta repelle
formidavelmente.

Digam-me se ha em lingua alguma expresso de dr mais completa do que a
d'este _soneto_ a que Anthero pz o titulo de _Despondency_ por no
achar em portuguez um termo que rigorosamente correspondesse ao estado
de resignada e tranquilla desesperana que elle traduz:


Deixal-a ir, a ave, a quem roubram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as azas partidas a levaram...

Deixal-a ir,  vella que arrojaram
Os tufes pelo mar na escuridade,
Quando a noite surgiu na immensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixal-a ir a alma lastimosa,
Que perdeu a paz e f e confiana
 morte quda,  morte silenciosa...

Deixal-a ir a nota desprendida
De um canto extremo e a ultima esperana...
E a vida... e o amor... deixal-a ir a vida!


       *       *       *       *       *

No ha por tudo isto motivos para espanto no suicidio de Anthero. Elle
no era, como j dissmos, um escriptor de officio, que de proposito
exacerbasse e cultivasse em si proprio o desespero e as lagrimas, para
as transformar em rhetorica _livresca_; no tinha tambem um vo amor de
gloria indesculpavel em quem sondava com to penetrante e lucido olhar o
vasio de todas essas chimeras, a ephemera durao de tudo que  da
terra...

Era uma alma sincera e torturada, que naturalmente desafogava o seu
sentir tanta vez contradictorio e doentio, em versos de uma magia
dolorosa, de uma graa delicada e triste, de uma profundidade de
expresso inegualavel, e n'esses versos s uma nota era constante: _o
elogio da Morte_.

Invocou-a sempre, chamou por ella, coroou-a de funebres flres,
supplicou-lhe que o accolhesse no seu regao frio, achando emfim que
depois do _mal de haver nascido_ no havia seno um bem: tornar ao Nada.




II


Quando o livro dos _Sonetos_ appareceu escrevi eu um estudo sobre elles,
que no tinha, j se v, outro merecimento alm de uma sinceridade
absoluta e de uma immensa sympathia.

Lembra-me de que lamentava do fundo da alma que o auctor d'essas bellas
poesias to raras na nossa litteratura,--a qual como todas as
litteraturas meridionaes no pecca pelo _excesso de pensamento_--tivesse
consummido a vida, que to bellas cousas podia dar-lhe, mettido em si
mesmo, n'aquella especie de meditao allucinada que se traduzia, 
verdade, em versos magnificos, mas versos que eram, como as perolas,
productos de uma dr mortal.

E revoltava-me contra a solido mental em que Anthero se concentrra,
contra as hesitaes do seu querer, contra as fluctuaes do seu
pensamento, contra o pessimismo bhuddico da sua doutrina, contra tudo
que fizera d'elle um philosopho germanico, ou um sonhador nebuloso e
doente, e o separava da vida, da vida que tem tantos risos no meio das
suas charnecas desoladas, ou dos seus saraes cheios de espinhos e de
reptis....

Mesmo com o risco de parecer vaidosa, no quero deixar de offerecer aos
meus leitores, a carta, at hoje _absolutamente inedita_, que Anthero de
Quental me escreveu ento, depois de ter lido os meus artigos que se
publicaram primitivamente no _Jornal do Commercio_ de Lisboa, e que hoje
esto incluidos no volume intitulado _Alguns homens do meu tempo_.

Ahi vae a formosa e eloquente carta:


Porto, 24 de dezembro.

                                             Minha Senhora


Agradeo-lhe muito os seus artigos no _Jornal do Commercio_, e creia V.
que o no fao s por civilidade, ainda que no  cousa que se deva
desdenhar _par le temps qui court_. No lhe direi que me agradaram os
seus artigos, porque isso  o menos; dir-lhe-hei que me commoveram. Ha
n'elles uma sinceridade, que me encantou, e um tom fraternal que me foi
direito ao corao, onde quero que no morra nunca a vibrao d'essas
palavras amigas. Creio que V. se engana na apreciao que fez das
doutrinas chamadas (quanto a mim impropriamente) _pessimistas_ e nos
receios que lhe inspiram as tendencias bhuddicas que comeam a
manifestar-se por todos os lados, em sociedades que attingiram o _nec
plus ultra_ da civilisao, ou em individuos que attingiram o _nec plus
ultra_ do pensamento.

Tudo isso,  verdade, est ainda bastante obscuro e confundido com
elementos estranhos e at contradictorios, e por isso me no admira que
no possa ainda ser apreciado sem grandes apprehenses. O meu livrinho,
apenas aqui ou alli em meia duzia dos ultimos sonetos, fere a nota
exacta e s, porque infelizmente morreu-me o dom dos versos,
precisamente quando comeava a pensar e a sentir alguma cousa que
realmente merecesse ser posta em verso.

No podia elle, to incompleto e obscuro, justamente onde mais cumpria
que fosse claro e amplo, dissipar aquellas apprehenses, antes era
natural que contribuisse para as radicar. Mas a minha convico  que
taes apprehenses no so fundadas e que entre os sentimentos naturaes e
espontaneos do corao humano, entre o seu ideal de justia, de harmonia
e de belleza, e o ponto de vista ascetico do Bhuddismo, no s no ha
contradico verdadeira, mas que, pelo contrario,  s n'essa esphera
que elles encontram a sua mais perfeita expresso, libertos de muitas
illuses e de muitas imperfeies que lhe andam forosamente misturadas,
e attingem a plena consciencia do que so e para que so. E seria
singular com effeito que a doutrina, que entre todas, faz consistir no
Bem a verdade suprema da existencia humana, pudesse collidir com
aquelles espontaneos impulsos da nossa natureza, que no so, no fundo,
seno frmas e momentos, mais ou menos obscuros, mais ou menos
incompletos da nossa fundamental aspirao a esse mesmo Bem!

A, verdade  que a civilisao moderna chegou, no seculo actual, como a
civilisao antiga, no periodo do Imperio Romano, a um ponto em que, sob
pena de completa ruina, o problema metaphysico-psychologico tem de ser
sondado a uma profundidade desusada e proporcional ao gru superior da
mesma civilisao.

Hoje, como ento, as questes metaphysico-psychologicas so a chave de
todas as outras questes porque, tendo o proprio progresso das
instituies e das idas arruinado os antigos alicerces moraes da
sociedade, a grande questo, a questo vital e inadiavel no  j a do
aperfeioamento das instituies nem do augmento dos conhecimentos, mas
a da organisao theorica e pratica da vida moral, a creao da ordem
nas consciencias, em uma palavra a remodelao do _homem interior_, sem
o qual o outro homem, da sociedada e da vida pratica, por forte e sabio
que parea  mais miseravel que o escravo mais embrutecido.

O progresso gigantesco do naturalismo, filho de uma civilisao poderosa
e complexa como nenhuma, s poder ser equilibrado por um progresso
equivalente do ascetismo. Sem esse equilibrio a sociedade moderna, que
j hoje nos causa mais terror do que admirao, poder continuar ainda
por algum tempo de poderosa, tornada formidavel, e, de formidavel,
bestial: mas o homem, o verdadeiro homem, isto , o homem moral, ter
morrido: e morto elle, tudo cahir, por que s elle sustenta a grande
mlle social. A sociedade , antes de tudo, um facto de ordem moral.

Mas no continuo com estas reflexes, porque desejo fazer d'ellas o
assumpto de um escripto, at a certo ponto em resposta aos artigos de V.
e que publicarei em frma de carta, se V. levar isso a bem.

E termino, minha senhora, pedindo a V, que me consinta assignar-me
d'aqui em diante, como realmente sou, seu muito amigo.--_Anthero de
Quental_

       *       *       *       *       *

Esta carta to bella na frma, e to profunda no pensamento, apresenta
porm a contradico fundamental a que Anthero succumbiu.

O ascetismo  a contemplao mais inerte: o Bem demanda a actividade
mais incansavel, o esforo mais tenaz.

Como conciliar estes dois termos oppostos? Se para o extatico e
contemplativo pensador a quem o _nirvana_ sorri como o supremo fim da
sua ascenso ideal, cada homem no  mais do que um momento que toma
consciencia de si e logo passa, aquelle que na terra procura o Bem e
tenta pelo seu esforo creal-o, sabe que se dissolvem as frmas em que a
consciencia se encarna, mas que ella, a sublime chamma no se apaga
jmais... Ns os passageiros de um dia que conseguimos por instantes
guardal-a no nosso seio mortal, passamos rapidos sim, mas no antes de a
transmittirmos quelles que nos succedem sempre mais pura, e sempre mais
intensa...

O patrimonio real da humanidade  este: por este lhe vale a pena padecer
e luctar. Este no morre com as pobres geraes que se succedem como as
folhas das arvores, como as ondas do mar...

No  pelo Buddhismo antigo, ou pela ascetica renuncia aos bens reaes da
vida que a sociedade tem de salvar-se.  pelo exercicio activo das suas
energias espontaneas,  pela f na sua misso do bem, na sua ascenso a
qualquer eminencia moral, que ella ainda no antev de longe, mas que
existe decerto, mas que deve existir, ou este instincto de progresso a
que obedecemos, seria mais uma ironia atroz entre outras tantas!...

A prova de que esse ascetismo a que Anthero recorre na sua bella carta 
esteril,  que elle, querendo salvar por este modo a sua clara
consciencia e o seu espirito genial, veiu acabar na morte voluntaria, no
suicidio banal dos vencidos e dos fracos!

Infelizmente era eu, to mesquinha, e no elle, to grande, que tinha
razo, e essa razo, foi o seu acto extremo que m'a veiu dar.

Ninguem pensra mais alto e mais justo que esse homem de uma consciencia
to delicada, de uma penetrao philosophica to subtil, e cujo
entendimento parecia talhado para as mais elevadas especulaes da
metaphysica e da psychologia.

E no emtanto elle no achou outra resoluo ao problema que est
presentemente posto deante dos olhos das sociedades extra-civilisadas e
dos individuos que pensam intensamente, seno a do suicidio silencioso.

 profundamente desoladora a phase do espirito humano que, de vez em
quando, se manifesta em factos como este.

Como escapar a este estado de descrena absoluta em qualquer destino
ulterior da nossa especie? Retroceder  boa Natureza,  primitiva
ignorancia dos simples, como manda Tolstoi? Mas em primeiro logar a
natureza no  boa, depois, quem _sabe_ pde porventura, e s por
effeito da sua vontade comear de um dia para o outro a _ignorar_?...

Cada sociedade que chega ao extremo da sua civilisao particular, o
que, exaltando de um lado o orgulho natural do homem, produz por outro,
no espirito d'elle, uma irritao doentia, uma penosa desesperao
resultante dos limites que este acha sempre  sua curiosidade
transcendente--cada sociedade que attinge esta perigosa eminencia, est
por esse mesmo facto, muito proxima da sua fatal degenerao.

Nenhuma civilisao se elevou mais alto nas abstraces do pensamento,
nos arrojos da metaphysica do que esse Bhuddismo em que Anthero de
Quental tentava encontrar a suprema paz da consciencia humana. E o que
tem elle produzido seno resultados negativos, e allucinaes doentias?
A civilisao antiga, grega e romana, procurou resolver o problema do
destino do homem divinisando-lhe as paixes, e fazendo a permanente
apotheose da fora. E todos sabem em que agonia vasquejante o mundo
antigo se diluiu. A Edade Media teve uma comprehenso harmonica e
grandiosa da vida e do destino humano, mas tanto exigiu do espirito e
to pouco pensou na fatal realidade, que fez de cada organismo de homem
um anjo e um animal perpetuamente identificados, e ao cabo do sublime
esforo, respondeu-lhe o retrocesso pago da Renascena.

O mundo moderno quer achar na sciencia a chave do todo o eterno enygma
que at hoje se conserva inviolado, a explicao do universal mysterio
que o envolve e penetra, a resoluo de todos os problemas complexos que
se tem accumulado deante do seu espirito em dois ou tres mil annos de
pensamento--e a sciencia impotente, incompleta, desconsoladora no tem
agua que sacie a nossa sde, no tem piedade que unja a nossa lenta
agonia!

Os melhores abdicam ou pelo indifferentismo inerte, ou pelo suicidio;
que  ainda uma victoria do espirito ultrajado sobre si mesmo!

E um vo de tristeza densa e plumbea envolve este mundo enorme, agitado,
convulso, atravessado de fios electricos que em minutos transmittem de
um ao outro dos seus extremos o pensamento e a palavra; cortado de
locomotivas vertiginosas; abarrotado de riquezas brutas; ebrio de
orgulho material, de luxo e de vaidade; persuadido de que  a realisao
mais completa da felicidade e do triumpho moral do homem; mas tremendo a
cada abalo subterraneo que revele quo minados esto os seus alicerces e
em que movedia areia assentam os seus edificios de Babel!

Comtudo ha uma affirmao, no meio de tantas duvidas e de tanta desordem
mental, que pde ser feita sem medo!

O Bem existe! A consciencia humana conhece-o mesmo quando o atraia ou
o desdenha.  ella que o tem creado em seculos de lucta sublime! Os
humildes de corao so talvez os que esto mais perto das fontes vivas
d'onde elle promana, e  pela humildade e pela acceitao resignada do
seu destino incompleto e triste e eternamente obscuro, que a pobre
humanidade definitivamente se salvar!

Por mais que amenos e veneremos a memoria de Anthero, no podemos pois
achar justo o seu suicidio.

Contentamo-nos em achal-o explicavel.




Anatole France


I


Conhece porventura o leitor este mestre do estylo, que  francez e
moderno, e podia ser grego e antigo?...

Conhece este discipulo de Renan, discipulo que dispe de mais liberdade
moral e de mais fogo juvenil que o seu querido e respeitado mestre?

Anatole France , como Renan, um _charmeur_, mas  mais do que elle--um
voluptuoso.

A sua philosophia, mais _Renanesca_ do que _Hegeliana_, move-se
phantasiosamente em um universo de illuses.

E as fulgidas imagens, sempre renovadas, da sua esplendida imaginao,
reveste-as uma melancolia deliciosa e morbida, como se elle as evocasse
com a consciencia de que lhe mentiam, e as adorasse perdidamente, mesmo
depois de as saber fugitivas, falsas, ephemeras...

Um dos melhores livros que elle tem escripto, e cujas edies se
multiplicam com espantosa rapidez--apezar d'elle o ter no pensamento
dedicado aos delicados, aos _happy few_ de que fala desdenhosamente
Stendhal--chama-se _Thas_.

Thas  uma _lenda dourada_ dos primeiros seculos christos, que entre
parenthesis esto sendo apetecivel mina de estudos litterarios, de
poesias, de erudio e de arte.

Tem o livro como personagens principaes Paphnucio, um anachoreta da
Thebaida, de carne mortificada pelos longos jejuns, flagellada pelos
duros cilicios, curtida pelos ses causticantes do deserto, amachucada
nas caminhadas extenuantes por sobre as penhas bravas e os quentes
areaes--e Thas, uma gloriosa e applaudida actriz de Alexandria, bella
como Venus, e intelligente como Aspasia, e prodiga de affagos como as
duas, em que esplendidamente se encarnra para enlouquecer e perder os
homens.

Paphnucio construira nas margens do verde Nilo uma pobre cabana feita de
ramos de arvores e de lodo amassado.

Vivia alli na penitencia e na castidade; na contemplao e no ascetismo.
Obedeciam-lhe e amavam-no as feras do deserto; legies de anjos, bellos
como adolescentes gregos, visitavam-no de vez em quando na sua Thebaida
escondida; os demonios, com figuras de animaes immundos, vagavam uivando
em torno d'elle e dos solitarios que aqui e ali tinham escolhido para
morada o deserto--e tentavam em vo os santos ascetas.

Quando elles iam de manh encher as suas bilhas do barro ao poo que os
dessedentava, viam as patas dos satyros e dos faunos travessos impressas
na movedia areia.

Considerada sob o seu verdadeiro aspecto, a Thebaida era um campo de
batalha, onde se travavam a toda a hora, e especialmente de noite, os
maravilhosos combates do inferno e do cu.

Mas to profunda era a virtude d'esses santos cenobitas que submettia ao
seu poder as proprias fras.

Quando um solitario estava para morrer, vinha um leo abrir-lhe a cova
com as garras. O santo homem, logo que conhecia por este signal que Deus
o chamava a si, ia beijar uma por uma as faces de todos os seus irmos
espirituaes.

Depois deitava-se sereno e calmo e adormecia no seio do Senhor.

Esta descripo do Deserto e das suas maravilhas, do ascetismo e das
suas vises, da Thebaida e dos allucinados combates que ahi as paixes
humanas travavam com a perfeio ideal, todo este symbolismo _humano_ e
comprehensivel est traado com mo de mestre.

Parece nos seus lineamentos visiveis a pintura de um _primitivo_, tanto
 certo que s o extremo requinte na Arte sabe traduzir bem a ineffavel
simplicidade.

Paphnucio nascera em Alexandria, de paes nobres, e fra por elles
instruido na delicia das profanas lettras. Era de muito longe que elle
tivera de partir, para chegar  perfeio santissima da sua vida de
anachoreta christo.

Um dia, porm, lembrou-se por sua desgraa espiritual, ou por seu
aperfeioamento superior, que tinha conhecido em Alexandria uma formosa
actriz chamada Thas.

To bella como a mais bella das suas vises esplendidas do Paraizo e
condemnada  eternidade das penas,  perdio infernal,  ignorancia
absoluta do bem!...

Conhecel-a, lembrar-se nitidamente d'ella e no a salvar, no tentar
salval-a ao menos!...

Paphnucio no pde submetter-se a esta dura lei.

Deixa, pois, o deserto, procura a cidade faustosa e tentadora onde Thas
fazia as delicias e a admirao do povo, e vae arrancar ao inferno a sua
presa deslumbrante.

 necessario fazer notar que ainda bem Paphnucio no comera a
premeditar esta santa empreza, j os demonios que em figuras de chacaes
costumavam uivar lamentosamente em torno de sua cabana, sem comtudo lhe
penetrarem pela porta sempre aberta, se permittiram entrar por ella
dentro, deitando-se perto d'elle, familiarmente, como amigos velhos. Que
encontrariam os demonios na alma do velho cenobita para assim
procederem?...

A graa ironica, a commoo subtil com que estes quadros so traados,
podem ser indicados pelo commentador, mas no podem ser fielmente
traduzidos por elle.

Ao p do altivo asceta, que julga ter dentro de si fora que baste a
dominar as indominaveis, as omnipotentes paixes humanas, e se considera
com direito de desafiar o Peccado e de o vencer, ha uma encantadora
figura de frade laborioso e simples, que nem chega a odiar o Mal, porque
lhe ignora os requintes tentadores, e que cultiva no deserto um
pequenino jardim e uma horta em miniatura, aceitando o amavel convivio
dos bichos e dos passarinhos, envolvendo no mesmo amor humilde e doce a
vasta natureza cheia de graas e de assombros.

As gazellas vm apoiar a fina cabea inquieta nos joelhos do santo: as
figueiras que elle trata do grandes figos cheios de nectar cuja
contemplao  para elle um regalo innocente.

Este bom homem d de conselho ao orgulhoso apostolo que se deixe de
tanto zlo, pois que, vista a impossibilidade em que a gente est de
emendar o mundo, mais vale emendar-se a si proprio de todos os peccados
at d'aquelle que consiste em se julgar impeccavel.

Mas Paphnucio no o quer de frma alguma attender; isto, seja dito de
passagem, com alegria dos chacaes seus inimigos antigos e agora seus
inopportunos familiares.

       *       *       *       *       *

Pe-se, portanto, a caminho. Vestido to smente de um longo cilicio,
ei-lo que se dirige para o Nilo--no designio de seguir a p a margem
lybica at  cidade fundada por Alexandre.

Que deliciosa a narrao d'esta romaria, feita pela lingua de ouro de
Anatole France! Ha phrases que cantam no ouvido como uma flauta da
Jonia!... ha imagens que se desdobram deante de ns como uma evocao de
magia!

Nem a traduco litteral poderia fazer presentir o encanto rythmico,
emballador, quasi morbido, de requintado que , d'este estylo em que as
palavras se harmonisam em um concerto ideal, para formarem a mais suave,
e subtil, e suggestiva das musicas.

E emquanto assim se encaminha para Alexandria, Paphnucio foge das
cidades e das aldeias; tem medo de encontrar creanas a brincar na
soleira das portas, mulheres paradas  beira das cisternas, sorrindo
cariciosamente ao peregrino que passava, como a Nosso Senhor a
Samaritana j sorrira.

Quando, ao entardecer, a aragem passava nos tamarindos em flr, o
sombrio apostolo puxava para o rosto o seu capuz escuro, tal era o
receio que sentia de enternecer-se deante da belleza ineffavel, do
divino mysterio das cousas...

Viu uma enorme sphinge egypcia talhada no rochedo de granito e obrigou-a
a confessar o Santo Nome de Jesus Christo. Encontrou um eremita
bhuddico, todo n, de barba branca a fluctuar-lhe em ondas no peito
curtido ao sol, e, depois de lhe ouvir a confisso do seu _nihilismo_
absoluto, depois de lhe escutar as blasphemias de um scepticismo sem
fim, ainda tentou convertel-o  f profunda que lhe abrazava o corao.

A paizagem luminosa e estranha desentranhava-se em maravilhas; o _ibis_
mysterioso e hieratico retratava no liquido espelho do rio o seu longo
pescoo cr de rosa pallido; os salgueiros agitavam a mrmura folhagem
argentea; as cegonhas voavam no cu claro; e nos cannaviaes da margem
escutava-se o grito de outras aves aquaticas.

O valle perdia-se ao longe em ondulaes verdes; as aguas palpitavam
como um seio de virgem; a seiva, a vida, a fecundidade, o amor fremente
e creador parecia pullular em tudo, em tudo...

Paphnucio, porm, s pensava na cortez esbelta e branca, de braos cr
de lyrio e olhos cr de violeta, que em Alexandria representava as
traies de Helena, os delirios de Phdra, o sacrificio da candida
Ephigenia, ante uma turba delirante, que a sua belleza embriagava e
perdia...




II


A primeira vez que, em Alexandria, Paphnucio avista Thas  no theatro
em que ella representava a immolao de Polyxena.


Tal contra a linda moa Polyxena
Consolao extrema da mi velha
Porque a sombra de Achilles a condemna
Co'o ferro o duro Phyrro se apparelha...


No se lembram do nosso Cames? Era justamente esse lance da epopa
homerica que Thas traduzia pela mimica expressiva e perfeita, a qual,
na decadencia da Arte antiga, suppria agora na scena, viuva dos seus
grandes mestres de outr'ora, a alada, a divina poesia de Euripedes e de
Menandro. Thas altiva e doce appareceu ao austero monge dando-lhe, como
dava a todos que a contemplavam o tragico estremecimento da sua fatal
belleza.

Segue-se ento a lucta travada entre o asceta e todas as seduces pags
que circumdavam a cortez esplendida, para converter esta  religio dos
pobres, dos miseraveis e dos simples.

Thas fra iniciada em pequenina por um escravo negro da Nubia, chamado
Ahms, n'essa religio que reveste de to voluptuosas delicias o
sacrificio e a dr.

Tinha-a mesmo baptisado, em uma poca de perseguies e de angustias, o
bispo proscripto de Cyreno, que pela Egreja soffrra os mais horrendos
martyrios.

E toda a dulcissima e piedosa lenda evangelica lhe fra contada
baixinho, pela voz queixosa e cantante do misero escravo negro, quando
Thas, maltratada pelos paes, sem tecto carinhoso que lhe abrigasse o
corpinho infantil, torturado de aoites, ia deitar-se  noite a um canto
do estabulo, entre animaes domesticos, com Ahms perto d'ella--sentado
sobre os calcanhares, as pernas dobradas, o busto direito na altitude
hereditaria da sua raa, e o rosto negro banhado n'aquella divina luz de
esperana e de misericordia com que a estrella de Bethlem tem, durante
dezenove seculos, inundado, casta e divina, os desherdados de todo o bem
terrestre.

Portanto, no a espantou em excesso a appario do monge, depois de uma
vida consagrada ao prazer, que lhe dera o tdio sem lhe dar a
felicidade.

S um momento, durante esses vinte annos de embriaguez hyper-aguda, ella
conhecra a ephemera felicidade de amar. As lagrimas que chorou tinham
tido para a pobre um sabor acre e doce ao mesmo tempo. Nesse amor
encontrra tudo--at a perdida innocencia e a divina puerilidade da sua
f. A bella cortez de Alexandria realizra o delicioso pensamento do
poeta, e tambem ella, como a Marion dos perdidos amores, podia repetir
exultante:


             _Et l'amour m'a refait une virginit_


Mas subito esse homem, que de todos lhe parecra diverso, appareceu-lhe
tal como os outros todos, e ella fugiu espavorida, para no vr mais a
imagem da sua illuso que se partira.

Conheceu depois a gloria, os applausos, os enthusiasmos, as adoraes
febris, que duravam uma hora e que se tinham julgado eternas.

Por ella os philosophos se fizeram crianas credulas; os voluptuosos
tiveram a coragem do suicidio; deram-lhe thesouros os avarentos;
lagrimas, os egoistas; os poetas chamaram-lhe a sua Musa; os politicos
esqueceram, para se demorarem aos seus ps, o bem dos Estados e os
requintes que ha no prazer do mando.

E Thas, indifferente a todos e com todos brincando cruelmente,
conservava no fundo da sua alma a recordao indistincta e vaga d'esse
mundo mysterioso de que lhe tinham revelado o encanto.

Supersticiosa e cheia de ancia indefinida, tinha a sde atormentadora do
desconhecido, a que faz as santas, as arrependidas sublimes, e as
loucas...

Quando Paphnucio lhe appareceu, cedeu quasi que sem resistencia  rude
voz que a chamava para o aspero caminho dos penitentes. Para seguir o
seu implacavel mestre deixou os banquetes em que a acclamavam, sob os
bellos e poeticos nomes da poesia antiga, os homens mais opulentos e
considerados da Alexandria, os poetas, os rhetoricos, os sacerdotes de
Serapis, os dandys do tempo, preoccupados como os de hoje, com a arte de
amestrar bellos cavallos e de enamorar bellas mulheres.

Para o seguir, deu ordem aos numerosos escravos que a serviam, que
queimassem os seus thesouros de arte: os cofres de marfim, de ebano e
cedro, que, entreabrindo-se, deixavam cahir coras, grinaldas, collares
esplendidos; e os seus ricos tapetes, os seus bordados de prata, as
tapearias floridas, os leitos faustosos, os coxins macios: e as
estatuas de nymphas que pareciam animadas como mortaes: e o Eros eburneo
a quem se attribuiam maravilhosas e no sabidas virtudes, e que valia o
seu peso centuplicado em ouro.

Para o seguir, desprezou os seus vestidos brilhantes; os mantos de
purpura; as sandalias de ouro; os pentes, os espelhos, as lampadas
cinzeladas por industriosas mos de escravos artistas; as theorbas, as
lyras:--todos os instrumentos da sua seduco complicada e subtil, todas
as bellas cousas que representavam as recordaes de uma vida de luxo,
de opulencia e de amor... No a prendeu a gloria de actriz estremecida;
chamavam-lhe a clara estrella, a doce lua do cu alexandrino, e o rude
solitario arrebatou-a falando-lhe em penitencias duras e em
flagelladores cilicios, em lagrimas de vergonha e de amargura choradas
ao p da Cruz.

--Mulher, dizia-lhe o monge com voz colerica, arrastando-a comsigo ao
longo da costa--v esse enorme mar azul. Nem toda a agua que elle tem
pde lavar as tuas manchas asquerosas!

E emquanto elle a apostrophava com a eloquencia do mais impetuoso e
ardente horror, relembrando-lhe uma por uma, com minuciosidades de
confessor, as ignominias em que se perdera o seu corpo, que Deus fizera
to bello, Thas seguia-o docilmente sob o sol abrazador, e por cima dos
penhascosos caminhos, onde os seus ps ns, to lindos, tantas vezes
cobertos de beijos, se desfaziam em sangue.

       *       *       *       *       *

Todas estas paginas que contam o piedoso furor do apostolo, e a
humildade ineffavel da peccadora arrependida, esto escriptas com uma
paixo acre e flammejante.

V-se bem que o inferno e todas as suas furias esto dentro d'esse
orgulhoso corao de monge, que se julga acima do Peccado e que 
vencido pela fora irreductivel de um Poder que elle negou.

Thas, no; essa arrependida e submissa  em Christo que pensa e a sua
alma anceia por desprender-se do impuro corpo, para subir, lavada em
lagrimas, ao seio eternamente misericordioso do Homem Divino que perdoou
 Magdalena, e que no consentiu que fosse lapidada a mulher adultera
pelos que no tinham direito de a julgar.

A ultima parte do livro est impregnada de uma ironia, delicada como
tudo que sae da penna de Anatole France, mas destoante da opulencia da
cr e de estylo que inspiram as duas primeiras partes.

Consiste toda ella na narrao das penitencias a que Paphnucio se
entrega logo que percebe nitidamente que o zelo que o levou a salvar
Thas conduzida por elle a um convento de mulheres--no  to puro nem
to desinteressado como na sua illuso a respeito de si proprio elle
suppuzera at alli.

As penitencias s vezes chegam a ser de um comico _voltaireano_.
Exemplo: a columna no alto da qual, mystico acrobata, elle se
encarapitou um to longo espao de tempo, que em volta d'este novo Simo
o _Stylita_ construiu-se uma grande cidade com todas as abominaes mais
ou menos legalisadas, que ha sempre nos centros populosos.

Paphnucio dizia, porm, aos bispos e  brilhante clerezia, que
attrahidos pela fama da sua virtude rara, e dos milagres que ella
operava sobre enfermos epilepticos, coxos, cgos, manetas etc., etc.,
vinham cumprimental-o e visital-o de muito longe:

--Meus irmos, a penitencia que me imponho  nada em comparao das
tentaes que tenho, e cujo numero e fora me espantam. Um homem visto
de fra  pequeno, e do alto da columna a que Deus me elevou, vejo os
seres humanos agitarem-se como formigas. Mas considerado interiormente,
o homem  immenso;  grande como o mundo porque o contm em si... Tudo
que se extende ante os meus olhos, esses mosteiros, essas casas, essas
barcas sobre o rio, essas aldas, e o que descubro ao longo de campos,
de canaes, de areias, de montanhas, tudo isso  _nada_ ao p do que eu
tenho aqui dentro! Ha no meu corao cidades innumeras e desertos sem
fim. E o mal, o mal e a morte extendidos por sobre essa immensidade,
cobrem-na, como a noite cobre a terra. Eu ssinho contenho um Universo
de pensamentos mus.

Falava assim, accrescenta Anatole France, porque o _amor da mulher_,
como uma serpente, se lhe enroscra no seio.

       *       *       *       *       *

O final do livro, ou antes, a moral do livro  esta: Presente-se a
salvao da cortez arrependida que trouxera sempre, dentro do seu corpo
manchado, a saudade nostalgica do ignoto bem, a chaga aberta e sangrenta
de uma aspirao insaciada--e a perdio do apostolo orgulhoso, que dra
ao seu desejo,  sua paixo terrena, a frma de um fanatico
proselytismo, e que to rudemente falava s gentes do Peccado e da
Virtude.

Que quer Anatole France provar? pergunta a critica conspicua, um pouco
escandalisada d'esta orgia de estylo, de descripes, de paizagens, de
_dilettantismo_ artistico.

C por mim imagino que elle no quiz provar nada.

Quiz fazer divagar a sua imaginao de poeta pelos desertos onde os
monges vivem penitentes e castos, e pelas cidades douradas e luxuosas
onde as actrizes bebem em taas de crystal as perolas diluidas de uma
adorao voluptuosa.

Quiz levar-nos ao banquete do opulento pagador das esquadras de
Alexandria, onde philosophos e poetas discreteiam com a elegancia e o
requinte da civilisao de Bysancio. Quiz fazer-nos penetrar na alma de
uma louca mulher d'aquelle tempo, to bella que, em ella entrando na
sala do festim, coberta de flres naturaes, parecia emprestar a estas a
sua vida e receber d'ellas o mimo, a frescura o encanto virginal.

Quiz-- este o sentido profundo e philosophico do seu livro--dizer-nos
que s vezes os que apresentam mais austera virtude so os que trazem
mais serpentes venenosas no corao pharisaico, incapaz de indulgencia e
de perdo, e que o arrependimento, quando  sincero, humilde, e parte de
uma alma sedenta do infinito e capaz de o conter em si, pde resgatar
grandes erros e lavar na fonte crystallina das suas lagrimas, muita
nodoa de que o mundo, o impeccavel mundo, costuma fugir enojado e
austero...




Ernesto Renan

SUA OBRA, O SEU ESPIRITO, A SUA PHILOSOPHIA


I


Venho tarde para accrescentar qualquer cousa ao que n'este jornal de
certo se tem dito a esta hora da vida de Renan, e da sua morte. Venho
tarde para ajuntar, qualquer dado biographico, qualquer inedito
incidente aos j citados aqui por informadores habeis e intelligentes.

Mas venho cedo, talvez, para conversar com os leitores cerca d'esse
espirito encantador, que desapparecendo d'entre os vivos, deixa na
Europa culta uma lacuna imprehenchivel.

No , porm, meu intento fazer _obra de critico_, o que alm de mais,
seria prematuro ainda. Tentarei apenas dar a impresso, que a minha
sensibilidade recebeu da leitura d'esse fino artista, d'esse poeta, que
to bem se conhecia a si mesmo, que um dia, figurando-se a si sob o nome
_Lolin_, nos _Dramas Philosophicos_, dava do seu genio esta
adoravelmente exacta definio:


O que  que eu fao no mundo? Contemplo e goso. Vou a toda a parte;
entro em todos os lugares e em todos comprehendo alguma cousa. Eis a
minha profisso. Procuro o Bello, devorado de sde, que jmais saciei. A
verdade demanda maior dose de perseverana nos que a buscam;  por isso
que ella me foge, talvez.


No ha convivencia mais estreita, que a que tem largos annos existido,
entre mim, obscura e pobre mulher, e essa deliciosa intelligencia de
artista, um dos mais requintadamente perfeitos que a litteratura tem
possuido em todo o mundo.

 fra de duvida que, para mim, o _hebraisante_, o erudito, o
epigraphista sagaz, o archeologo meticuloso, o decifrador de textos
assyrios, o _sabio_, emfim, que era Renan, me interessava mediocremente.
Admirava que um to grande poeta tivesse a humilde ambio de ser apenas
um grande erudito; ambio que lhe era de resto cruelmente contestada
por terriveis homens calvos, de oculos azues com aros de ouro e nomes
impronunciaveis de terminaes barbaras, que eu nunca tinha lido, e
julgo aqui entre ns, que smente se tinham lido a si mesmos...

Esses, escreviam volumes _in folio_ para provarem que o _Sr. Renan no
conhecia os textos_, e o divino celta que tanta vez me fizera vibrar at
s lagrimas com as notas da sua harpa mysteriosa--desesperava-se com a
incredulidade d'aquelles medonhos eruditos allemes, de que toda a gente
que se presa ignora a existencia, no atinando sequer com a arrevesada
pronuncia dos seus respectivos nomes...

O _hebraisante_ era-me pois indifferente, mas o historiador ficava de
p, com a sua intuio extraordinaria da alma religiosa das multides
extinctas; com a vida intensa que elle sabia dar aos personagens do
passado; com a sua viso clara e profunda das cousas que j foram; com o
magico poder de evocao que elle possuia, como Carlyle o possuiu, como
o possuiram Michelet e Victor Hugo, mas de um modo inteiramente diverso
d'aquelles todos.

Um Michelet resuscitando periodos historicos de enthusiasmo fremente e
de doentia exaltao, saber dar vida s perturbaes nervosas, aos
desfallecimentos e aos extases dos seus congeneres do passado.

Um Victor Hugo dar o nitido contorno das cousas, e at para o mundo da
allucinao levar o seu poder de descrever o incommensuravel, de
figurar o impossivel...

Um Carlyle tera a viso ardente de um mundo como foi o puritano, capaz
de produzir Cromwell; e saber--desmontando pea a pea o machinismo
complicado d'esse caracter de allucinado e de batalhador, de perfido
conductor de homens, e de crente quasi fanatico--revelar-nos o segredo
da quadra estranha de que elle  o producto natural, a resultante
logica...

Renan saber principalmente interpretar e traduzir problemas e
sentimentos moraes, estados de consciencia. Para elle, como para o
grande inglez que escreveu o _Culto dos heroes_, a historia, _ uma
cousa viva, uma **cousa** ineffavel e divina_, destinada a resuscitar
diante dos olhos do nosso espirito, os soffrimentos, as emoes
violentas ou delicadas, as luctas, as tristezas, as fraquezas e
heroicidades, dos nossos irmos que morreram, das geraes que modelaram
fatalmente a nossa, e s quaes devemos o que somos em bom e em mau.

       *       *       *       *       *

Quando a noticia da morte de Renan nos veio sorprehender dolorosamente a
todos, acabava eu de passar dois mezes no campo, em uma solido quasi
absoluta, em uma isolao moral quasi selvagem, lendo apenas com intima
delicia, o mais arido talvez, por ser o mais erudito, de todos os livros
do grande exegeta: a sua longa _Historia do Povo de Israel_, cujo 4.^o e
5.^o volumes elle deixou para serem posthumamente publicados.

E depois de ter vencido aquelle primeiro impulso de preguia, que um
espirito de mulher indolente no podia deixar de experimentar ante um
trabalho d'esta ordem--eu acabra por sentir-me irresistivelmente e
deliciosamente transportada quelles tempos obscuros em que o semita
nomada, o soberbo vagabundo da Historia, enriqueceu o thesouro humano,
com a mais alta noo religiosa a que  nossa especie foi dado ainda
attingir, a noo de um _deus unico_, cujo espirito est em tudo, e ao
qual o vasto Universo obedece submisso!...

Assim como a Grecia creou a alta cultura intellectual, a philosophia, a
poesia, as artes plasticas; assim como Roma creou as fortes instituies
politicas, tendo o Direito por base; o semita creou a religio de que a
nossa alma se tem alimentado longos seculos, e que to profundo cunho
lhe imprimiu, que ainda hoje o mais sceptico de entre os scepticos
demolidores do passado se no pde libertar da sua poderosa e absorvente
influencia!

Essa genese de monotheismo, que Renan intitulou a _Historia do Povo de
Israel_,  talvez de todas as suas obras aquella em que as soberbas e
multiplas faculdades do seu grande espirito tiveram melhor espao para
se desenvolverem.

Nada mais bello, nada mais profundamente interessante para um espirito
que pensa, do que a evoluo da ida religiosa, seguida passo a passo,
com os seus periodos de impetuosa florescencia, com os seus
desfallecimentos e os seus eclypses, com os desdobramentos subitos de
sua apaixonada energia, com as acquisies moraes, to laboriosamente e
dolorosamente feitas atravez de violencias spasmodicas e de paroxysmos
convulsionarios.

Sendo a civilisao moderna uma resultante da collaborao alternativa
da Grecia, da Juda e de Roma, as origens da historia d'essa raa
mysteriosa, em cujo seio havia virtualmente _Jahv_ e _Jesus_ no podem
deixar de produzir uma ardente curiosidade em todo o espirito avido de
conhecimento e de luz moral.

Eu tinha-me pois, n'essa recluso completa em que vivera, embriagado
longamente, voluptuosamente, da prosa, de Renan, capitosa e
perturbadora.

E quem como elle sabia, da lingua que fallava, extrahir effeitos de
harmonia, ao p dos quaes, os das outras artes me pareciam absolutamente
secundarios?

Falando do idioma hebraico, Renan diz em uma das bellas paginas da sua
_Historia do Povo de Israel_:


Uma aljava de flechas de ouro, um grosso cabo de potentes contorses,
um trombone de bronze, dilacerando o espao com duas ou tres agudas
notas: eis o hebraico.

Uma lingua d'estas no pode exprimir nem um pensamento philosophico,
nem um resultado scientifico, nem uma duvida, nem uma percepo do
infinito.

As lettras dos seus livros sero contadas como numeros, mas sero
feitas de fogo como a chamma. Dir poucas cousas essa lingua, mas as que
disser, sero martelladas sobre uma bigorna.

Derramar ondas de colera, ter gritos de raiva contra os abusos do
mundo; clamar pelos quatro ventos do co para que acudam ao assalto das
cidadellas do Mal. Como os instrumentos rituaes do santuario no servir
para uso algum profano; nunca lhe ser dado exprimir a alegria innata da
consciencia, a luminosa serenidade da Natureza; mas clamar a guerra
santa contra a injustia, e o appello dos grandes panegyricos; ser o
claro das neomenias e a trombeta do Juizo final. Felizmente que o genio
hellenico compor, para a expresso das alegrias e das tristezas da
nossa alma um alade de sete cordas, o qual saber vibrar unisono com
tudo que  humano, um grande orgo de mil teclas igual s multiplas
alegrias da vida.

A Grecia conhecer toda as delicias, desde as dansas em cro nos
pincaros do Taygeto at ao banquete de Aspasia; desde o sorriso de
Alcibiades at  austeridade do Portico; desde a cano de Anacreonte
at ao drama philosophico de Eschylo e aos sonhos dialogados de Plato.


Este admiravel, este soberbo trecho, que acabamos de traduzir
integralmente, em que o genio das duas linguas toma forma, em uma outra
lingua, nunca fallada com tal melodia e tal poder, quizera eu que fosse
posto como epigraphe  _Historia do Povo de Israel_, em que Renan
traduziu genialmente sob a divina inspirao do genio Grego, a alma
tumultuosa e sombria, agitada e sequiosa de justia, dos prophetas da
raa semitica.

Oh! como elles renascem alli nas paginas do grande escriptor, os
fundadores de quanto ha de tremendo e de sombrio na religio que veio
depois a dominar o mundo!

Como alli se reflecte igualmente, na prosa divina do Mestre, a Grecia
que _sobre a Acropole_ lhe revelou o segredo dos seus primores! O
assumpto  o semita, mas a lingua em que essa sublime evocao se fez, o
magico instrumento, atravez do qual ns communicamos com o arido e
difficil assumpto, a inspirao adoravel, que presidiu a este trabalho
de reconstituio historico-religiosa, a arte plastica, com que elle 
genialmente modelado, tudo isso foi colhido pela alma de Renan, abelha
bria de luz e de perfume e de succos balsamicos, no corao da Grecia!

 s ahi que a Belleza e a Razo tem a mesma frma e a mesma essencia;
 s ahi que a Venus Amphytrite sorri  musa de Socrates e que a Poesia
e a Religio enredam voluptuosamente a fantasia e a sensibilidade do
homem na mesma rede azul e ouro tecida de sonhos, que so symbolos e de
chimeras entontecedoras, que sao divinas verdades.

Mas quem leu smente de Renan a _Historia do Povo de Israel_ ficar
conhecendo todo o genio complexo do escriptor?

Decerto que no. Elle  um grego pelo amor da belleza plastica, mas  um
celta pela sensibilidade doentia, pela delicadeza concentrada do seu
genio.

Os que desejarem conhecel-o, precisam de ler tudo que elle escreveu.

Precisam de seguil-o atravez dos meandros, alguns quasi inaccessiveis,
da sua _Historia das origens do Christianismo_.

Precisam de penetrar bem no estranho mysticismo que ha no fundo d'este
temperamento de sceptico; precisam de interrogar os escaninhos
inesperados d'esta imaginao de poeta, que em certas paginas,--como por
exemplo, no sonho de Leolino, na _Eau de Jouvence_, invocando a alma da
adorada irm morta; nas paginas dulcissimas dos _Souvenirs de Jeunesse_;
na symphonia esplendida que se chama _La Prire sur l'acropole_; na
dedicatoria de um dos seus livros celebres; em trechos dos seus estudos
de _Historia Religiosa_;--attinge uma _virtuosidade_, um poder de
harmonia, excita uma emoo, faz vibrar to intensamente os nervos do
leitor, que pde bem dizer-se que a lingua falada e escripta se
transforma sob os seus dedos de magico em musica transcendente que
parece vir d'alm da terra, em musica que penetra no corao e o
desfallece de delicioso extase.




II


Este conhecimento da obra total do grande escriptor, que eu considero
imprescindivel em quem, com acerto e justia, quizer falar d'elle, no o
tinham, estranho  dizel-o, seno com rarissimas excepes, os que em
Frana, no jornalismo, commemoraram luctuosamente o passamento de Renan.
A accusao que eu aqui deixo, fl-a, com a sua graa incomparavel Julio
Lematre no artigo que ao seu querido philosopho consagrou no _Jornal
dos Debates_. Porque Renan escreveu muito, escreveu immenso. Durante
cincoenta annos trabalhou dez horas por dia, o que  extraordinario.

E alm das monographias scientificas e dos estudos especiaes que
publicra nas _Revistas_ e nos Jornaes de Sciencias, alm da _Historia
das Origens do Christianismo_, que vae de _Jesus_ a _Marco Aurelio_, e
que se compe de sete grossos volumes, alm da _Historia do Povo de
Israel_ de que ha publicados tres volumes e para publicar dois, elle
passou as horas que no consagrava  sua principal tarefa, a escrever
toda a especie de artigos litterarios: _ensaios criticos_; _dialogos
philosophicos_  maneira de Plato, como os que publicou em volume com o
titulo que acima dmos; comedias e dramas  moda e na tradio de
Shakespeare como o _Prtre de Nemi_, _L'eau de Jouvence_, _Caliban_,
etc. etc.; cartas que so celebres como aquella escripta _ un ami
d'Allemagne_, e outra a _Mr. Berthelot_; fragmentos de historia
religiosa; estudos de moral; trechos adoraveis como o consagrado a
Francisco d'Assis, o santo que teve a adorao de Michelet e de Renan,
etc. etc.

As mil faces do talento de Renan s as conhece o que leu essa obra
vastissima atravessada por uma flecha ideal de encanto e de magia; para
a saber apreciar devidamente,  comtudo, necessario mais do que havel-a
lido, porque ento, n'esse caso estava a minha humilde pessoa, a qual se
recusa a to elevada empreza.

Uma das accusaes feitas a Renan, at pelos seus criticos mais
benevolos,  a de contradictorio e a de incoherente.

Baptisram de _renanismo_ uma certa qualidade requintada e subtil de
duvida amavel, que acolhe todas as idas, que acha em todas alguma cousa
de verdadeiro e muito de falso, que se baloua voluptuosamente entre
doutrinas adversas, que se inclina ora para uma ora para outra das mil
frmas da vida sem se dar completamente a nenhuma d'ellas, que em cada
chimera acha um fundo de verdade, e em cada verdade acceita e
indiscutida um fundo de inanidade e de illuso, que ante a
Natureza,--Isis de mil faces,--se limita a comprehender e acceitar as
contradices do Universo, explicando-as se pde, e admittindo a
legitimidade absoluta dos mais variados pontos de vista, sem ter nenhuma
das qualidades estreitas e limitadas do sectario ou do fanatico.

Ora esse modo de ser intellectual  tanto da nossa poca, que Renan,
professando-o, no fez mais do que representar em uma condensao
superior de pensamento e de critica, a philosophia do seu tempo.

Que culpa teve elle de nascer justamente em um periodo da civilisao em
que estes caracteres da intelligencia so justamente os que assignalam o
_homem superior_, o artista consciente, o _representative man_ de uma
phase do pensamento humano.

De resto, querendo dizer a verdade toda, esse estado de espirito de
Renan, -lhe commum com as intelligencias mais altas de todos os tempos.
Shakespeare, que foi tambem um _dilectando_ genial no dizia j que o
_homem  talvez feito do mesmo estofo que os seus sonhos_?

A interpretao dos phenomenos visiveis do mundo  feita por esses
espiritos, no de um modo racionalista e logico, mas consoante a
fugitiva inspirao do momento que passa.

A raiz de toda a realidade mergulha em um abysmo insondavel e obscuro,
em que elles gostam de debruar-se, ora trementes de pavor, ora gelados
pela duvida...

Mas a justia, que nem sempre fazem a Renan e que  necessaria
fazer-lhe, exige que se accrescente a esses traos por assim dizer
exteriores de seu talento esta qualidade fundamental que resalva o que
elles podiam ter de perigoso para os discipulos de sua philosophia.

Ha uma cousa em que elle acreditou sempre, da qual no negou nunca a
existencia _necessaria_, embora lhe contestasse s vezes nos caprichos
da sua ondeante palavra, cariciosa e triste, os resultados uteis, ou as
compensaes interesseiras; essa cousa  a _moral_!

A moral  a cousa sria e verdadeira por excellencia; basta ella para
dar um sentido e um fim  vida humana, diz elle no prologo dos seus
_Ensaios de Moral e de Critica_.

Escondem-nos vos impenetraveis o segredo d'este mundo estranho, cuja
realidade se impe a ns e nos esmaga; a philosophia e a sciencia
procuram eternamente, sem jmais a encontrarem, a frmula d'esse Proteu
que a razo no limita e que a linguagem no exprime. Mas ha uma base
indubitavel que o scepticismo por mais completo no pde abalar, onde o
homem achar at ao termo dos seus dias o ponto fixo de todas as
incertezas; o bem  o bem; o mal  o mal. Para odiar um e amar outro,
no  necessario qualquer systema, e  n'este sentido que a f e o amor,
que na apparencia no tem ligao alguma com a intelligencia, so o
verdadeiro fundamento da certeza moral e o unico meio que o homem possue
para comprehender alguma cousa do problema da sua origem e do seu
destino.

Por estas palavras sinceras e que Renan honrou to nobremente, em uma
longa existencia laboriosa, honesta e casta, consagrada ao trabalho
incessante,  desinteressada investigao da verdade, s sondagens to
difficeis da Historia,--por estas palavras se percebe bem claro, que o
renanismo no significa indifferena moral, mas sim benevola sympathia
por ideaes diversos, contemplao amorosa dos phenomenos que se succedem
em perpetua fluidez, em perpetua transformao, embevecimento perante as
mil frmas alliciadoras com que a eterna illuso nos tenta, nos seduz,
nos anesthesia, para nos fazer aceitar o pesado encargo da vida...

A riqueza extraordinaria d'esta intelligencia consiste na quantidade de
contrastes, de aspectos e de _nuances_ que n'ella se conciliam e n'ella
se contm. Os contrastes de um caracter so o sllo da sua
individualidade, da sua vida exuberante e intensa. Os contrastes de
idas cabendo em uma intelligencia do a medida do seu grande valor.

As contradies que desnorteiam uma logica vulgar, no assustam por
exemplo o pensamento allemo de uma to extraordinaria complexidade. A
concepo, a synthese magnifica de um Hegel envolve e concilia os mais
contrarios termos no seu vastissimo seio. Ora, em Renan, alm da
influencia da Biblia, to accentuada no seu modo dizer e de sentir, alm
da influencia grega to esplendidamente demonstrada na _orao sobre a
acropole_, que vem inserta nos adoraveis _Souvenirs de jeunesse_, actuou
de um modo profundo, decisivo a influencia da Allemanha.

Na sua moral Renan obedece  inspirao de Kant, na sua concepo do
Universo, Renan  Hegeliano. E seno vejamos esta phrase caracteristica:

Deus  immanente no conjunto do Universo, e em cada um dos seres que o
compem. No se reconhece, porm, egualmente em todos. Reconhece-se mais
na planta que no rochedo, mais no animal que na planta, mais no homem
que no animal, mais no homem intelligente que no cerebro limitado, mais
em Socrates que no homem de genio, mais em Buddha que em Socrates, mais
em Christo que em Buddha.

Eis o resumo de toda a theologia hegelina e _renanesca_.

Se accrescentarmos a isto a affirmao de que nenhuma vontade particular
se tem manifestado at hoje, nem poder jmais manifestar-se na evoluo
do Universo, ou na marcha da humanidade, mas que esse Deus, de que elle
nega a existencia pessoal, est por assim dizer em formao no tempo e
no espao,  proporo que o mundo vai attingindo a consciencia sempre
mais perfeita de si proprio, e que o homem vai descobrindo as eternas
leis da verdade, da belleza, da virtude e do bem; de que o Universo tem
um fim idal, aspira a um divino objectivo e no  nem pde ser a
resultante de uma agitao inane, inutil e v; que a razo, reinando
mais e mais sobre a humanidade, acabar por _crear Deus_, creando o bem
absoluto, e a divina harmonia das cousas;--ns teremos completado a
philosophia de Renan, nem sempre original, e em todo caso pouco
consoladora para os humildes e para os pobres de espirito que em nada
collaboram para a formao definitiva d'esse Deus, que est em via de
apparecer vizivel aos homens que hajam attingido o mais alto ponto da
consciencia...

Esta philosophia reveste-se porm, das mais deliciosas frmas, ella tem
para se desenvolver e para se reduzir a preceitos geraes, um instrumento
incomparavel, de uma graa que nenhum artista ainda egualou.

Esse instrumento, que  a prosa de Renan,  que o torna principalmente
querido entre os que lem...

A sua melancolia de celta, a sua sensibilidade doentia, a doura
estranha, inspirada de algumas das suas phrases, tem tido sobre a minha
alma de mulher o poder inexplicavel de um sortilegio.




III


O desinteresse levado quasi a um extremo irritante para os praticos
homens de hoje, a fidelidade tocante a todas as causas vencidas; um amor
das tradies da raa, que se exalta at  poesia, uma frma de
imaginao absolutamente singular e inconfundivel caracterisam os
Celtas, a cuja raa Renan tanto se orgulhava de pertencer.

Em parte alguma, diz elle, a eterna illuso se adornou de mais
seductoras cres, e no grande concerto da especie humana nenhuma familia
egualou esta, nos sons penetrantes, que vo at o corao. Os seus
cantos de alegria acabam em tom elegiaco; nada eguala a deliciosa
tristeza das suas melodias nacionaes; dir-se-hiam emanaes do cu, que,
deslisando gotta a gotta dentro d'alma, a penetram, como reminiscencias
de outro mundo.

Ninguem, como ella, saboreou jmais to longamente essas volupias
solitarias da consciencia, essas reminiscencias poeticas, em que se
cruzam simultaneamente todas as sensaes da vida, to vagas, e
profundas e penetrantes, que, a prolongarem-se muito, fariam morrer, sem
que pudesse dizer-se se era de delicia ou de amargura.

A infinita delicadeza de sentimento que caracterisa a raa celtica est
estreitamente ligada  sua necessidade de concentrao... D'ahi esse
pudor delicioso, esse _no sei qu_ de velado, de requintado, de sobrio,
a egual distancia da rhetorica do sentimento to familiar aos povos
latinos e da ingenuidade reflectida que tanto se faz sentir nos
allemes.

Essa raa quer o infinito; tem sde d'elle; procura-o a todo o preo,
para alm da tumba, para alm do inferno...

Estas phrases de Renan, colhidas no seu esplendido estudo sobre a
_poesia das raas celticas_ so o segredo de mil particularidades
d'aquella fina sensibilidade de artista.

O que elle diz dos cantos nacionaes da sua raa, podia egualmente
applicar-se ao genero indefinivel de encanto quasi physico que a sua
prosa exerce em temperamentos accessiveis a certa ordem de emoes.

A estranha combinao que n'elle se fez de duas inspiraes to oppostas
e ambas to pronunciadas no seu espirito, a da poesia biblica e a da
poesia dos Celtas; a alta cultura complexa que o seu entendimento
assimilou de um modo to feliz; o dom irresistivel da ironia que a fada
que presidiu ao seu nascimento lhe trouxe occulto entre as mais finas
flores de uma sensibilidade morbida; o optimismo de um temperamento so
e de uma calma existencia, luctando com a noo pessimista que a
sciencia lhe deu do Universo e da vida; as suas tendencias de
_dilettante_ e de aristocrata, desenvolvido em um meio de brutal
democracia e de _lucta pela vida_ phrenetica; a hereditariedade de uma
me da Gasconha e de um pae breto; at a estranha circumstancia de elle
ter ouvido--nos braos maternos e dos labios queridos de onde lhe
escorria o mel dos unicos beijos que no mentem,--contados com a mais
graciosa florescencia de incidentes e detalhes, todas as nebulosas
tradices do Cyclo de Arthur, todas as lendas poeticas de Bretanha,
isto por uma deliciosa voz ironica, que no acreditava n'ellas, e que
era como o acompanhamento musical da serenata de D. Juan, o risonho
desmentido quella poesia tecida em sonhos;--todos estes contrastes,
todas estas influencias contradictorias, composeram em no sei que
mysterioso laboratorio, a essencia rara que era o genio de Renan.

Esse philtro capitoso, inebriante, seria salutar? Parece-me, receio bem
que no! Renan era muito do seu tempo para no ter d'elle a pontinha de
corrupo intellectual, que, em temperamento physico menos equilibrado,
levaria ao scepticismo dissolvente,  egoistica indisciplina que se
traduz pela satisfao de todas as paixes, ainda as mais funestas.

Elle, que era um santo na pratica da vida, e que, sahindo do seminario,
quiz trazer para o trato social as virtudes, a castidade, a serena
despreoccupao de sentimentos que o agitassem, que lhe haviam sido
recommendadas pelos padres que o creram; elle, que era um santo na
moral, podia na vida intellectual ser esse delicioso _diletante_ que se
comprazia em perder-se nos complicados meandros do pensamento, amando
como Socrates a virtude e chamando-lhe como Bruto um _nome vo!_
glorificando o martyrio e notando ao mesmo tempo a impossibilidade que
ha para o homem superior em morrer por _uma ida_, necessariamente
falsa, pois que nunca a verdade pde estar em uma s face de qualquer
doutrina; recommendando a _moral_ como a cousa por excellencia
verdadeira e sria e dizendo aos homens, aos fracos mortaes a quem o
desinteresse custa tanto, que nenhuma recompensa lhes advir dos
sacrificios feitos a essa abstraco sublime; negando a interveno de
Deus na obra universal e affirmando que o Universo tem um fim divino;
sentindo e communicando aos que o lem, as sensaes mais dubias e as
mais contradictorias; vibrando ao influxo das idas mais diversas, desde
o mysticismo at a transcendente ironia, tendo feito a viagem  roda do
mundo do pensamento, e vindo de l, da sua longa e laboriosa romaria,
egualmente indifferente ou egualmente benevolo para todas as doutrinas,
para todos os estados da alma, menos para o fanatismo dos sectarios, que
lhe inspirava um desdem piedoso, e que ainda assim comprehende, porque
ninguem entendeu melhor Jeremias e Ezchias, os prophetas da feroz
Jerusalem!

Elle podia ser essa encarnao suprema do genio da critica moderna. Mas
os que no tem o mesmo dom feliz de separar a vida da intelligencia da
vida dos sentidos? Mas os que vivem a sua philosophia e traduzem em
actos as suas theorias?...

Oh! para esses, a doutrina d'esse santo ser o mais corrosivo dos
venenos; o encanto miraculoso d'aquelle genio ondeante, cujo pessimismo
desabrochava na flor de um sorriso e cuja esperana se afundava,
mysteriosa e lugubre nympha, no pantano glauco de uma negao
sombria,--seria a mais desorganisadora e a mais corruptra das lies!

       *       *       *       *       *

Mas esquecemos o que houve de triste e de negativo n'essa philosophia,
cujas raizes mergulham no complicado e sceptico pensamento germanico!

Ns, as mulheres, amemo-lo pela graa--esse dom feminino, que elle
possuiu como ninguem mais, pela linguagem divina, de que elle revestiu
as suas idas, por milhares de trechos verdadeiramente impeccaveis, de
uma unctuosidade evangelica, de uma pureza transcendente, de uma poesia
ineffavel, com que elle enriqueceu a litteratura universal.

Como havia em Rnan de tudo,--e  este o seu caracteristico mais
singular, e  este, em face da estricta logica, o defeito mais
reprehensivel da sua intelligencia--podia um admirador consciencioso e
delicado extrahir, dos seus livros innumeros, um livro piedoso, especie
de _Imitao_, menos ascetico, porm, mais perfumado das flres do
Evangelho primitivo; livro para ser lido em hora de crise d'alma, livro
para ser decorado pelos delicados, pelos contemplativos, pelos
tristes...

No prefacio dos seus _Estudos de Historia religiosa_, diz Renan pouco
mais ou menos isto mesmo.

Formla o voto de que alguem, das perolas soltas do seu escrinio, que
sabemos ser de millionario, compozesse uma especie de _livro d'horas_,
para ser folheado depois da sua morte, por finas, esguias e brancas mos
patricias, na paz obscura e calmante das cathedraes.

Oh! Como a subtil ironia que atravessa, flecha de luz aeria, este voto
estranho,  bem d'elle! D'esse aristocrata, que deveu  democracia a
liberdade que amplamente gozou; d'esse _dilettante_, d'esse mystico que
desejaria ser enterrado na nave lateral de uma sombria egreja catholica;
d'esse ironista que manejou tanta vez o arco de Voltaire com settas mais
finas, settas feitas de ouro; d'esse philosopho que prgou a inanidade
da sabedoria; d'esse sabio que se ria da sciencia; d'esse iconoclasta
dos templos que ungiu de balsamos to inneffavelmente doces os ps de
Jesus Christo, e que achou na piedade da sua alma uma frmula de
scepticismo mais respeitosa que muitas oraes, de um realismo por assim
dizer concreto e material...

       *       *       *       *       *

Se eu pude traduzir a impresso que elle me dava, impresso confusa e
deliciosa, indefinivel e querida, impresso que era ao mesmo tempo
receio de me deixar seduzir, encanto ao sentir-me arrastada na corrente
d'aquelle feiticeiro perigoso; se eu pude dizer todo o amor com que lhe
quiz, e todas as restrices com que este sentir me subjugra, dou-me
por feliz, porque a fazer a critica da obra de Renan, a isso nunca eu
ousaria aspirar.




Oliveira Martins


I

Tres mezes decorreram j desde que a negra terra do cemiterio o encobriu
aos olhos dos que o amavam, e no est de molde o mundo moderno, que
tumultua desvairadamente anarchico para chorar os seus mortos ou para
commemorar os seus heres!

Desde que elle morreu, esta pobre nacionalidade portugueza que a sua
alma soube to bem estudar, comprehender, amar nos momentos typicos da
sua grandeza, chorar nos espasmos convulsivos ou no torpr comatoso da
sua longa agonia, desde que elle morreu, j esta pobre patria, to sua
amada, se tem deixado afundar mais alguns gros no abysmo de uma
decadencia para que no ha cura.[1] Quasi todos o esqueceram, a elle, ao
grande melancolico que, durante mais de vinte annos, se no cansou de
avisar os despreoccupados, de accusar os cynicos, de analysar cruamente
ou desalentadamente o lento processo por que uma nao se desagrega e
esphacella e para quem a historia foi mais uma obra de moralista do que
um trabalho de laboriosa e minuciosa erudio.

Quasi todos o esqueceram, ou se recordam apenas do que mais ephemero e
contingente houve no seu espirito, e uma das coisas que mais de  este
silencio, mortalha peior que todas as mortalhas, que na hora seguinte ao
desapparecimento de um grande espirito lhe envolve nas funerarias dobras
o nome que parecia to brilhante em vida!

Depois, mais tarde,  certo que a posteridade vinga esse nome da
indifferena da gerao a que elle devia ser mais querido, mas isso no
impede que a impresso geladora de to duro esquecimento faa soffrer
algumas almas raras que no esquecem o que amaram...

Para mim, a morte de Oliveira Martins foi um golpe dolorosissimo...

Feridos os dous por uma doena traioeira que se apresentava no
empobrecido organismo de ambos, egualmente ameaadora de morte proxima e
que para elle to cedo realizou a negra ameaa, ambos tinhamos partido
com differena de dias apenas para Cascaes.

Eram contiguas as casas que habitavamos, davam ambas para o lindo parque
que o fallecido Visconde de Gandarinha alli plantou luxuosamente.

A primavera tinha desdobrado pelo parque todo em vio e pela extenso
dos campos um enorme estendal das flres mais frescas, mais vivas, mais
cheias de mimo e cr. Inundavam-nos as salas os lyrios amarellos, as
rubras papoulas, os malmequeres brancos e dourados, as verdes espigas,
toda essa divina e inoffensiva flra dos campos que consola os doentes
sem os envenenar.

Atravs das rendas transparentes do arvoredo em que todos os tons, todas
as _nuances_ do verde se casavam em uma gamma opulenta e maravilhosa,
avistava-se, das janellas dos dous convalescentes, o mar, o grande mar
azul, em que Oliveira Martins lra to commovedoramente a lenda do nosso
destino nacional, a historia gloriosa e tragica da vida e da morte da
Patria Portugueza.

Barcos de vla passavam a cada instante, e elle sabia conhecer cada typo
de embarcao.

Cada vla que atravessava o mar longinquo, palpitando ao vento fresco de
abril, tinha para elle uma suggesto viva, uma lembrana saudosa ou
pittoresca.

A luz, a luz embriagante da primavera de Portugal, derramada em caudaes
da concava saphyra dos Cus, reanimava-o dia a dia, dava-lhe aspiraes
frementes de vida, de alegria, de trabalho, de actividade mental.

Ouvi-lo era um encanto.

Menos abatido de espirito, e mesmo de corpo, que eu, era elle quem,
descendo a escada da sua casa e subindo a da minha, vinha sentar-se na
pequenina sala onde eu quotidianamente esperava aquella visita
deliciosa.

E de sua voz lenta, cheia de pausas, de uma doura como que abafada,
modulando-se em tons de intima melancholia, de acre desprezo, de
tolerante e passivo desdem, e s vezes, raras vezes, de alegre e
despreoccupada ironia, ia preguiosamente escorrendo toda uma
philosophia da Vida, triste sim, mas no desesperada nem cra...

Mystico de temperamento, mystico de sentir, o seu scepticisrno das
coisas era temperado sempre por aquelle instincto to raro na alma
penisular, positiva at na sua f, o instincto do mysterio ambiante, o
presentimento de alguma coisa ignorada que nos cerca, acompanha, domina,
nunca revelada, nunca explicada, nunca tangivel, mas to impossivel de
definir como de eliminar...


_There are more things in heaven and earth, Horatio.
Than are dreamt of in your philosophy._


Estas palavras do Hamlet lembravam-me quando o ouvia discorrer de vagar,
sempre muito de vagar, olhos de sonho fitos vagamente no espao, como
que vendo n'elle coisas que ns l no viamos...

Falvamos de tudo. Mais, no emtanto, do presente que do passado. Era
nobre, glorioso, pico o passado? De certo!

Mas que importava, se estava inteiramente extincto para ns. O presente
causava  grande alma especulativa e triste de Oliveira Martins um tedio
inenarravel. Esta agonia sem grandeza; esta lucta de mesquinhos, de
baixos interesses, lembrando a germinao e o fervilhar de vermes na
putrefaco de um cadaver querido; esta inconsciencia de perigos
imminentes; esta ignorancia universal de todas as foras e elementos
que, ou conjugados ou antagonicos, ho de fatalmente ter uma influencia
capital no modo de ser organico da sociedade portugueza; este risonho
cynismo que anima as classes dirigentes e lhes inspira todas as
manifestaes da sua actividade ou da sua inercia; este quadro desolador
de um paiz que lucta pela vida,  verdade, mas que perdeu todas as
energias materiaes ou ideaes, por meio das quaes uma vida se
conserva--arrancava-lhe expresses de uma to inconsolada tristeza, como
eu me no recordo de as ter ouvido a mais ninguem.


II

Outras vezes, nas horas mais calmas, mais doces da conversao, quando o
crepusculo ia envolvendo a paizagem maritima, to doce, suggestiva e
melancolica, em uma especie de ideal neblina azul--era pelo seu trabalho
passado que os olhos do grande morto se espraiavam.

Dizia-me ento a commoo intensa, dolorosa, extenuadora, com que elle
_vivera_, por assim dizer, algumas scenas da sua Historia, revelando
essa profunda e hyper-aguda sensibilidade intellectual que  talvez a
feio predominante, a _facult maitresse_ do seu genio...

Em momentos sagrados, d'estes que sero um eterno segredo entre o
artista que _sente_ e o Deus que o inspira, ou antes em momentos em que
o artista se sente um deus, isto , um Creador, e em que o elemento
divino, de que o seu genio  a revelao suprema, o levanta acima de si
proprio e da sua pobre existencia ephemera, fugitiva, mortal, o grande
artista, que havia em Oliveira Martins, vivia seculos de gozo
extenuante, de volupia ideal incomparavel...

--Saha d'esses momentos alagado em lagrimas e como que exhausto,
envelhecido--contava elle, deixando transparecer na palavra e no gesto
um vago assombro.

 por isto que o trabalho lhe exhauriu a mais pura seiva do seu sangue,
no porque fosse nem excessivo, nem brutalmente aturado, como por
exemplo o de Balzac.

Outras vezes ainda a saudade levava-o docemente, talvez sem dar por
isso, a evocar a memoria do querido amigo morto, de Anthero de Quental.
Oliveira Martins fra o companheiro, o confidente, o amigo dilecto do
poeta dos _Sonetos_, em quem Souza Martins, n'um magistral estudo
psychico-pathologico, acaba de descobrir uma ascendencia scandinava, que
explica e justifica a essencia de sonho nebuloso e mystico de que o seu
talento parece haver sido elaborado.

Falando de Anthero, era inexgotavel a memoria de Oliveira Martins. O
intimo drama d'aquelle corao e d'aquelle espirito ninguem melhor o
conheceu e interpretou.

A excessiva idealisao na esphera sentimental, o abuso do pensamento, a
acceitao simultanea das mais contrarias, das mais oppostas, das mais
irreductiveis theorias, a multipla concepo da vida que n'esse
desequilibrado de genio se transformou na loucura e na morte: tudo elle
analysava, estudava, esclarecia com aquella atteno paciente, com
aquella agudeza de intelligencia, com aquelle estranho dom de penetrar e
comprehender as almas mais diversas,--e at uma alma diversa segundo os
momentos, a influencia exterior, as crises morbidas, a propria
temperatura physica,--com aquella extraordinaria lucidez critica,
serena, impessoal que assignala os homens verdadeiramente superiores.

Para elle proprio--deixem me este orgulho de que alis tenho recordao
escripta pela sua propria mo e confirmado pela sua sublime e dedicada e
heroica enfermeira, amiga e esposa--para elle proprio estas conversaes
que o capricho de cada momento ia inspirando e movendo, se tinham
tornado um prazer subtil e delicado. Eu ouvia, sem muitas vezes fazer
mais que suggerir, excitar, conduzir um pouco ao sabor da minha
curiosidade intellectual o rumo errante da sua palavra fascinadora...

Elle pensava alto, e gosava talvez de dar frma concreta s vises
fugitivas da imaginao, de prender o peso de uma definio verbal, 
aza subtil de uma ida que ia esmaecer, volatilisar-se, fugir espao em
fra...

O ardente desejo de Oliveira Martins, sedento de vida, como todos os
feridos por aquella doena atroz que escolhe os melhores e os mais
delicados organismos, para os fulminar em plena flr de intelligencia e
vida--o ardente desejo de Oliveira Martins era partir para Castella e
estudar de perto o theatro de scenas que a sua mo magistral ainda
deixou esboadas em rapidas notas. Escrever o seu livro sobre D. Joo II
e depois terminar por D. Sebastio,--o querido heroe lendario, o nosso
rei Arthur fielmente esperado durante seculos por tantas almas de f,--o
cyclo da nossa vida nacional; que depois no tem feito mais que
arrastar-se, desprestigiada, desformisada, pervertida na frma e na
essencia, at esta tristeza de hoje amorpha e gelatinosa: eis o sonho
concebido pelo escriptor glorioso e admiravel.

Foi com o fito de visitar a Hespanha e depois de ir trabalhar em algum
eremiterio bem recolhido, bem arejado e fresco, bem afastado de todo o
movimento social, que Oliveira Martins mais robustecido, e na apparencia
melhorado, deixou Cascaes.

Ha uma carta sua de Salamanca em que transparece do novo aquella
tristeza que na doena o acompanhou como um presentimento funereo. No
resisto ao desejo de copiar alguns trechos d'ella:--Ahi vo duas linhas
do viajante que pisa agora as terras de Santa Thereza.

Em Alba de Tormes esteve ella; aqui na cathedral tem um dedo que eu
hontem tive a honra de tocar.

Dizia a Santa, ardendo em divino amor: _muero porque no muero_. Eu no
digo outro tanto, mas, em verdade, a vida no  realmente seno o desdem
de viver e de morrer. Morrer para qu? Para qu viver? Os hespanhoes
tem uma locuo muito frequente e muito expressiva.  uma phrase, na
qual, como succede com a musica, cada um mette o que tem na ida. _Quien
sabe?_ Quem sabe o que  viver? Quem sabe o que  morrer?

N'esta fluctuao vaga do pensamento que se comprazia em ver sempre de
cada problema as duas faces contrarias, est em _raccourci_ muito do que
foi a philosophia particular de Oliveira Martins!

Da viagem a Hespanha voltou elle j ferido sem apello e sem possivel
cura pelo punhal traioeiro da Morte!

Ainda esperou contra todas as esperanas, ainda a paizagem agreste e
idyllica a um tempo do convento de Brancanes e cercanias o embriagou
como a ultima estrophe deliciosa d'esse poema da Natureza, que para a
alma d'elle, como para poucas almas, tinha harmonias, cres, vises
divinas, philtros alucinantes e poderosissimos. E ainda como ultima
exhalao do seu querido espirito para o meu, algumas palavras me vieram
provar a fora pertinaz da sua illuso e os extremos da sua delicada e
preciosa amizade.

--Hontem, para provar a mo, comecei a trabalhar no meu _Principe
Perfeito_. No imagina a alegria que me deu vr que no tinha morrido
ainda. Ainda escrevo. Ainda vivo. Cumpra depressa a promessa da sua
visita...

--No ha calmante como a paizagem e os rumores do campo. Sente-se a
gente arvore. Aqui ha tudo. Solido no meio de um campo habitado,
pomares nos valles, montes em volta, em frente o mar. Que mais se quer?
O convento onde estou  enorme; cabe aqui tudo. Ha terraos delirantes.
Ha arvores verdadeiras; uma matta a valer; pinheiros, sobreiros,
medronheiros. Venha depressa...

 a ultima vez que a sua mo traou linhas que me fossem dirigidas e eu
propria infelizmente, preza pela doena em Cascaes que nunca deixei, no
o tornei mais a ver.

Mas publiquei trechos d'estas duas cartinhas preciosas, porque duas
faces bem caracteristicas do espirito complexo de Oliveira Martins esto
aqui adoravelmente retratados. N'uma a ondulao melancholica e vaga do
seu sonho ante o mysterio da vida e o mysterio da morte. N'outra, na
ultima, o seu ardente amor pantheista da natureza viva, aquella paixo
fremente que o fazia dar uma alma  paizagem, communicar a sua fecunda
emoo s arvores e s cousas, sentir no seio d'ellas a communho
mysteriosa que prende em uma cadeia de infinitos los sem quebra, a
pedra  planta, a planta ao animal, o animal sem alma  alma infinita, 
alma Universal!


III

Deante da obra to vasta e variada de Oliveira Martins no pde ainda a
critica lavrar qualquer juizo definitivo.  cedo de mais para que esse
tribunal pronuncie a sentena decisiva que tem de ficar gravada no
Pantheon das glorias portuguezas. Mas se a critica impassivel e austera
tem de addiar ainda o resultado da sua investigao,  licito a cada um
de ns dar a impresso intima que recebeu do trabalho devras
extraordinario do escriptor que se finou.

Em primeiro logar a dualidade de aspectos que essa obra apresenta,
transforma-a em uma especie de problema altamente interessante para a
psychologia.

Em Oliveira Martins, a par do mystico contemplativo, do sonhador
philosopho, do moralista desdenhoso, havia--estranha coisa, to rara na
nossa raa simplista--um ser inteiramente contrario a esse, um espirito
positivo na analyse dos factos, rigoroso nas deduces do pensamento,
pratico na administrao dos negocios, e em que uma rara sagacidade das
coisas se alliava a um methodo maravilhoso na classificao dos
conhecimentos positivos.

Estes dois homens to diversos formaram um s, s vezes coutradictorio
at ao enigma irritante, incomprehensivel ao entendimento mdio,
illogico perante a opinio do vulgo. Separados, cada um d'elles formava
um conjuncto completo de qualidades harmonicas, uma fora intellectual
de primeira grandeza. Juntos, havia momentos em que eram capazes de
desnortear, de entontecer at o espirito mais perspicaz e mais aberto ao
feliz dom da sympathia intelligente. Assim como o seu talento tinha
estas duas faces distinctas quasi inconciliaveis, pois que presuppem
qualidades em absoluto antagonismo e temperamentos em radical opposio,
assim tambem a sua obra parece dividir-se em dois ramos diversissimos. A
um d'esses ramos, o mais arido para mim, o que nada admira--pertencem os
seus to notaveis artigos jornalisticos, quasi todos compilados nos
volumes _Politica e economia nacional_ e _Carteira de um jornalista_, os
seus opusculos e livros sobre o _Regimen das riquezas_, o _Socialismo_,
as _Eleies_ e at o seu magnfico projecto de _Lei de fomento rural_,
que pde bem chamar-se um programma completo de restaurao patriotica,
uma especie de systema de hygiene applicado ao organismo exangue de um
paiz que, primitivamente destinado a uma existencia modesta e rudemente
tonica de trabalho rural, de obscura felicidade sem historia, se gastou
nos excessos e nas aventuras d'esse sonho ultramarino que o fez viver, 
certo, e que lhe deu renome, mas que o condemnou  longa e incuravel
anemia de que todos morremos hoje aos poucos...

 como um homem verdadeiramente pratico que apparece aos nossos olhos, o
publicista, o deputado, o politico nem sempre feliz, embora sempre
perfeitamente intencionado do periodo que talvez mais do que nenhum
outro, elle quereria ter riscado da historia, alis to nobre da sua
vida.  sob essa face que elle assombrou muitas vezes no smente os
espiritos da nossa terra mais chos e mais positivos, mas ainda os
_homens de negocio_ estrangeiros com quem teve de tratar tantos
assumptos de importancia e que ficavam falando d'elle como de uma
intelligencia rapida, aguda e fria, absolutamente rara nas naes
peninsulares.

Se essas faculdades sem o auxilio de outras j so sufficientes para
assignalar o alto valor de um homem, o que far quando a essas se
ajuntam em rarissimo connubio outras, mais altas, mais nobres, mais
reveladoras de uma grandeza ingenita e de um valor moral amplissimo?!...
Quando o mesmo homem, que ha pouco parecia versar, com tanta segurana e
to fino criterio, questes de que dependem o bem estar material e a
ordem administrativa e economica das naes, se revela de repente um
delicado artista vibrante e creador, um entendimento alado, capaz de
erguer-se s cumiadas mais altas do Pensamento, um vidente para quem a
historia  uma continua revelao de reconditos segredos da alma, uma
evocao magica de figuras vivas, uma palpitante suggesto de moral e de
justia?!...

Os que tiverem de pr de p deante da posteridade a figura inteira de
Oliveira Martins, tem de evocal-o sob estes dois aspectos e fundir
ambos na culminao intellectual a que elle attingiu.

Outros fizeram a historia com mais exactido e mais verdade--se a
verdade historica  apenas a verificao rigorosa das datas e a
decifrao lenta dos documentos coevos; outros fundiram em mais bronzeo
estylo as cogitaces do seu vasto pensamento; outros interrogaram com
mais paciente e minucioso escrupulo os monumentos do passado, legados
sob multiplas frmas materiaes ou moraes, artisticas ou religiosas, 
gerao sua contemporanea: poucos tem possuido, mais ardente e mais
vivo esse poder estranho de penetrar na alma de uma raa e de lhe
traduzir as aspiraes occultas ou os sonhos realisados; de lr a
summula completa dos destinos de uma nao na obra truncada que ella
tentou em vo consummar; de evocar em plena vibrao de vida, em plena
intensidade de emoo communicativa os typos representativos de uma
poca remota e finda; de emprestar a sua propria alma  alma dos mortos
e de os fazer resurgir do sepulchro, onde pareciam para sempre
esquecidos,  luz fremente do mais bello e claro dia.

Accusam-n'o com razo de contradices, de inexactides e erros de
facto, que um espirito inferior meticuloso podia facilmente corrigir ou
evitar. Sim. Tudo isso  verdade.

Mas escrevam, se so capazes, a Historia que elle escreveu,
interessem-nos apaixonadamente como elle nos interessou, dem o vigor, o
relevo, a vida que elle deu aos personagens que evocava, faam de cada
um dos seus livros o drama agitado que elle fez, transformem a Historia
como elle a transformou, em uma prophecia, em um lamento, em uma lico,
em uma suggesto ardente, em uma saudade inconsolada do que foi e no
pde tornar a ser.

Outros narram precisamente os factos, elle commentou-os, esclareceu-os,
deu-lhes o sentido occulto, a amarga e profunda philosophia.

O nosso destino historico; o papel particular que aos portuguezes foi
distribuido n'essa tragedia pica da peninsula iberica, que deu mundos
ao mundo inconsciente; o preo atroz por que ns pagamos a posse d'esse
ideal que foi nosso um momento e que perdemos justamente por tel-o
realisado completo;--quem melhor o soube explicar, tornar claro aos
olhos ainda os menos penetrantes, tornar palpavel aos entendimentos
ainda os mais obtusos?


IV

Na obra que elle deixa to grande, que revela uma capacidade e um
methodo de trabalho assombrosos, pois s assim se poderia escrever
tanto, longe de tudo ser perfeito ha muita coisa desegual, muita coisa
que elle no teria escripto se a necessidade quotidiana o no houvesse
por largos annos espicaado,--porque  preciso que se saiba l fra que
este trabalhador incansavel foi um chefe de familia exemplar, e que,
ficando na quasi infancia orpho de pae, foi elle quem auxiliou
nobremente sua me a educar e formar uma familia numerosa de que at ao
ultimo instante foi desvelado amigo.

Deve tambem confessar-se que ha muito de injusto e de cruel nos juizos
que na, temeraria mocidade, isolado, e inexperiente elle formulou a
respeito dos homens e das cousas. O seu _Portugal Contemporaneo_ foi
mais escripto sobre pamphletos e artigos de jornal, sempre suspeitos, do
que sobre documentos authenticos completados pelo austero e profundo
estudo do movimento liberal que iniciou para ns a ra moderna. Ha
capitulos na _Historia de Portugal_ que os seus livros posteriores,
ungidos to docemente pelo amor dos heroes patrios, parecem negar,
contrariar, annullar inteiramente. Elle proprio teve de contradizer, na
maturidade do seu grande espirito, no qual um incessante progresso se
faz sentir, grande parte das theorias que primeiro enunciara e que to
profundo ecco tiveram na sociedade portugueza e to irremediavel
influencia exerceram no espirito pessimista e desenganado da
contemporanea gerao. O culto dos heroes que elle acabou pregando e
exemplificando da maneira mais irresistivel, mais poderosa e mais bella,
foi elle--fora  dizel-o, porque deante das cinzas de um grande morto,
a verdade impe-se como um dever sagrado--foi elle quem quasi
completamente o destruiu na nossa alma, alis disposta a derrubar todos
os idolos, a escarnecer todas as religies!

Mas como estas maculas parciaes, mas como estes mesmos enganos do seu
entendimento que lentamente se foi formando, aperfeioando, cultivando e
depurando, desapparecem no conjuncto da sua obra! Mas como resgatam
amplamente e soberbamente esses senes secundarios, livros como a sua
_Civilisao Iberica_ to admiravelmente traada por um pincel de
artista e de pensador, como o seu volume _Os Filhos de D. Joo I_, feito
todo elle sob uma inspirao soberba da epopa, como o seu _Condestavel_
to bello, to puro, em que a sua alma parece entender to bem os mais
intimos segredos d'uma alma de extase e de f, prenunciando d'este modo
a resignao ineffavel, a pacificao serena e alta, a submissa doura
ao mysterio supremo, no qual todas as contradices se conciliam, a
humilde piedade unctuosa da sua morte edificante, d'essa morte que
tantos balsamos verteu no dilacerado corao da esposa, que n'ella teve
a sua crucificao e a sua cora, a sua maior dr e o seu consolo mais
sublime!

Como em Nuno Alvares o interessa mais ainda que o guerreiro audaz o
asceta e o santo! Que trechos aquelles em que elle, subindo a uma altura
onde no tinha subido ainda e que representa a culminao suprema a que
o seu engenho chegou, nos conta os arrebatamentos, as vises, as
asceticas delicias em que a alma do santo Condestavel se dilata at aos
cus!

N'este livro, mais que em nenhum outro, o estylo de Oliveira Martins
pde ser apreciado na sua complexidade e nas suas modalidades to
varias!

 um estylo unico, inconfundivel, atormentado, desegual, feito de
imagens propriamente suas, de torneios de phrase inimitaveis e que o
pem a cem leguas do classicismo acceito e consagrado. Ora se levanta em
uma especie de somnambulismo vago a alturas ennevoadas e insondaveis,
ora cahe de chofre na vulgaridade de um realismo voluntariamente plebeu;
 ironia trascendente de umas paginas oppe o amargo pessimismo de
outras;  colera convulsa que o espectaculo das cousas lhe acorda no
corao, segue-se o desdem benevolo e superior de quem julga este mundo
todo illusorias apparencias, que umas nas outras se esvaem e se
transfiguram; o seu grande poder de suggesto vem menos dos vocabulos
empregados, menos dos epithetos escolhidos, do que da repercusso
indefinida e infinita que certas phrases que elle emprega nos accordam
na alma. s vezes, ha uma limpidez serena e correntia n'este estylo
magico; outras vezes,  obscuro erriado de symbolos, enredado em
labyrinthos em que a mente se perde e desnorteia!

Se o estylo deve traduzir todas as _nuances_ de uma dada individualidade
e ser o transumpto claro e fiel de um temperamento artistico nunca houve
ninguem que tivesse um mais accentuado estylo do que Oliveira Martins!

De cada uma das _maneiras_ do escriptor eu queria dar ida,
transcrevendo um trecho que lhe correspondesse, mas no ser melhor que
cada leitor procure na obra to complexa e to variada, aquillo que
melhor quadre ao seu gosto especial,  sua concepo artistica,  indole
do seu espirito...

Recommendo-lhe, porm, as ultimas paginas da mais transcendente e ideal
belleza da _Historia de Nun'Alvares_, as descripes que esmaltam ora
com o colorido brilhante de uma tla de Veroneze, ora com a melancolia
pungitiva de uma paizagem de Ruysdael, ora com a luz aeria, docemente
_unreal_ de um trecho de floresta pintado por Corot, esse livro de todos
o mais admiravelmente escripto que o historiador nos legou.

Recommendo-lhe a analyse do caracter de Nuno Alvares, de Joo I, dos
_Inclytos Infantes_, principalmente de D. Pedro, paginas de uma
psychologia to delicada, penetrante e subtil, em que o fundo mystico da
imaginao de Oliveira Martins se allia  sua profunda intuio dos
segredos da alma humana! E o quadro magistral feito a duas pinceladas
rapidas da Crte de D. Fernando, ai de ns! to parecida com a sociedade
de hoje que no sei mesmo dizer se no foi ella que serviu de modelo ao
artista para chegar a conseguir taes effeitos de realismo brutal e de
frisante e juvenalesca ironia!

No farei comparaes sempre inexactas entre Oliveira Martins e outros
escriptores que o precederam. Acho que essas comparaes no so em
alguns casos mais do que erros palmares de critica que desconcertam e
irritam! Um escriptor que se parece com outro,  raras vezes um artista
de raa. No pde um talento grande deixar de suppor uma personalidade
accentuada, forte, isto , _differente_. De resto no conheo em
Portugal escriptor algum, cuja indole, cujas tendencias, cuja
comprehenso das cousas se possa comparar com as de Oliveira Martins.

Elle nunca poder ser considerado como um _representative man_, nem do
tempo nem da raa a que pertenceu. D'aqui a sua originalidade viva e
talvez o principal caracteristico do seu talento.

 viveza,  meiguice,  sensibilidade vibrante do meridional, elle
juntava a profunda melancolia, o symbolismo vago, a fluctuao de sonho
do germano, e como elle tantas vezes se comprazia em lr os vestigios de
antigas influencias ethnicas, no caracter dos seus personagens
historicos mais dilectos, pde tambem dizer-se que no seu genio to
complexo, to estranho, to cheio de meandros, complicaes e
antagonismos inconciliaveis se casam o poetico elemento celta, o
positivismo calculista do phenicio, a profundidade e o pessimismo
semita, a viva paixo do arabe, e o sentimento da Natureza que o barbaro
do Norte primeiro suggeriu ao corao seco do civilisado latino!


FIM




Antonio Maria PEREIRA--Editor


OBRAS

DE

Maria Amalia Vaz de Carvalho



_A arte de viver na sociedade_, 1 vol. br, 1$000 ris. Ricamente
encadernado 1$400.

_Pelo mundo fra_, 1 vol. broch. 500 rs Encad. 700 rs.

_A aventura d'um polaco_, romance, traduzido de V. Cherbuliez, 2 vols.
broch. 400 rs. Encad. 600 rs.

_Raphael_, traduzido de Lamartine; 1 vol., edio de luxo illustrada e
ricamente encad. 3$200 ris.



OBRAS DE TEIXEIRA DE QUEIROZ

(BENTO MORENO)


*Comedia do Campo*, 4 volumes, broch. 2$000 rs.

*Os noivos*, 2.^a edio, com o retrato do auctor (no prlo).

*O Sallustio Nogueira*, 1 vol. br. 1$000.

*Novos contos*, 1 vol. br. 600 rs.

*D. Agostinho*, 1 vol. br. 600.

*Morte de D. Agostinho*, 1 vol. br. 600 ris. Encad. 800 rs.

*Arvoredos*, contos escolhidos, 1 volume illustrado, lindissima edio
em formato diamante, br. 800 rs. Encadernado em percalina, folhas
douradas, 1$100 rs.

*Amores, amores*... 1 vol. (no prlo).





Colleco Antonio Maria PEREIRA

A 200 RIS O VOLUME


VULGARISAO DOS MELHORES LIVROS

DAS

LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS


Volumes in-8.^o de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente
edio em optimo papel. Preo de cada volume 200 ris brochado, ou 300
ris elegantemente encadernado em percalina. Para as provincias accresce
o porte do correio


*Volumes publicados*


N.^o 1--_Tristezas  Beira-Mar_, romance de Pinheiro Chagas, 1 vol.

N.^o 2--_Contos ao Luar_, por Julio Cezar Machado, 1 vol.

N.^o 3--_Carmen_, romance de Merime, traduco de Mariano Level, 1 vol.

N.^o 4--_A Feira de Paris_, por Iriel, 1 vol.

N.^o 5--_A Mascara Vermelha_, romance historico de Pinheiro Chagas, 1
vol.

N.^o 6--_John Bull e a sua ilha_, traduco de Pinheiro Chagas, 1 vol.

N.^o 7--_O juramento da duqueza_, romance historico por P. Chagas, 1
vol.

N.^o 8--_A lenda da meia-noite_, romance phantastico, por P. Chagas, 1
vol.

N.^o 9--_A joia do vice-rei_, romance historico, por Pinheiro Chagas, 1
vol.

N.^o 10--_Vinte annos de vida litteraria_, por Alberto Pimentel, 1 vol.

N.^o 11--_Honra d'artista_, romance de Octavio Feuillet, traduco de
Pinheiro Chagas, 1 vol.

N.^o 12--_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade Coelho, 1
vol.

N.^o 13 e 14--_A aventura d'um polaco_, por Victor Cherbuliez, traducao
de Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 vol.

N.^o 15--_Os contos do tio Joaquim_, por R. Paganino, 1 vol.

N.^o 16--_As batalhas da vida_, contos por Guiomar Torrezo, 1 vol.

N.^o 17--_Noites de Cintra_, romance por Alberto Pimentel, 1 vol.

N.^o 18 e 19--_Em segredo_, romance traduco de Margarida de Sequeira,
2 vol.

N.^o 20 e 21--_A Irm da Caridade_, por Emilio Castellar, traduco de
L. Q. Chaves, 2 vol.

N.^o 22--_Migalhas de historia portugueza_, por Pinheiro Chagas, 1 vol.

N.^o 23--_A Cruz de Brilhantes_, por A. Campos, 1 vol.

N.^o 24--_Contos_, do Affonso Botelho, 1 vol.

N.^o 25--_Contos phantasticos_, por Theophilo Braga, 1 vol.

N.^o 26--_O mysterio da estrada de Cintra_, por Ea de Queiroz e Ramalho
Ortigo, 1 vol.

N.^o 27--_O naufragio de Vicente Sodr_, romance historico de P. Chagas,
1 vol.

N.^o 28--_Vid'airada_, por Alfredo Mesquita, 1 vol.

N.^o 29--_O Bacharel Ramires_, por Candido Figueiredo, 1 vol.

N.^o 30 e 31--_Amor  antiga_, romance de Caiel, 2 vol.

N.^o 32--_As Netas do Padre Eterno_, por Alberto Pimentel

N.^o 33--_Contos_, de Pedro Ivo, 1 vol.



Requisies  Livraria do editor Antonio Maria PEREIRA

_50, 52--Rua Augusta--52, 54_, LISBOA




Antonio Maria PEREIRA--Editor

_Rua Augusta, 50 a 54--Lisboa_


*Maria Amalia Vaz de Carvalho*


Pelo mundo fra      500
A arte de viver na sociedade, br.      1$000
A aventura d'um polaco (trad.), br.      400
Raphael, de Lamartine (trad.), enc.      3$200


*Teixeira de Queiroz*


Os noivos, 2.^a edio (com o retrato do auctor)      1$000
O Sallustio Nogueira      1$000
Morte de D. Agostinho, br.      600
Arvoredos, contos, 1 vol. illustrado      800
Comedia do campo, 4 vol.      2$100
Amores, amores... (no prelo)


*Wenceslau de Moraes*


Traos do Extremo Oriente 500


*Ramalho Ortigo*


A Hollanda, 2.^a edio      1$000
O culto da arte em Portugal      600
A instruco secundaria      240
Hygiene da alma (trad.)      500


*Ea de Queiroz e Ramalho Ortigo*


O Mysterio da estrada de Cintra, 3.^a edio      200


*Silva Pinto*


Philosophia de Joo Braz      500
N'este valle de lagrimas      500
A queimar cartuxos (no prlo)
Santos portuguezes      500


*Oliveira Martins*


Historia de Portugal, 2 vol.      1$400
Portugal contemporaneo, 2 vol.      2$000
Portugal nos mares      700
Historia da civilisao iberica      700
Historia da Republica Romana      2$000
Taboas de chronologia e geographia historica      1$000
A Inglaterra de hoje      600
Cartas peninsulares      600
Systhema dos mythos religiosos      800
A vida de Nun'Alvares      2$000
O Principe perfeito      2$000




Notas:

[1] Isto foi escripto como se v tres mezes depois da morte de O.
Martins, n'um dos momentos mais deploraveis sob o ponto de vista
politico, que o Portugal moderno tem atravessado. As victorias de Africa
vieram n'esta hora como que alliviar o nosso espirito do pezo esmagador
que o opprimia, e desmentir, sob determinados aspectos, o pessimismo
absoluto que n'esta phase transluz. (Fevereiro, 1896).



Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   31| Para __ encontrar   | Para te encontrar    |
  |#pg.   47| do musculatura      | de musculatura       |
  |#pg.   48| surprehem-nos       | surprehendem-nos     |
  |#pg.   57| __ rosto            | o rosto              |
  |#pg.   66| arvoredos'          | arvoredos,           |
  |#pg.   74| su as               | suas                 |
  |#pg.   74| Fran a             | Frana               |
  |#pg.   79| rebento'            | rebento,             |
  |#pg.  121| deliciciosamente    | deliciosamente       |
  |#pg.  142| entranhas fecundos  | entranhas fecundas   |
  |#pg.  146| Santo Agostinha     | Santo Agostinho      |
  |#pg.  181| contante            | constante            |
  |#pg.  186| que que             | que                  |
  |#pg.  187| Imperio Romana      | Imperio Romano       |
  |#pg.  190| achaou              | achou                |
  |#pg.  195| seu o               | o seu                |
  |#pg.  219| _cousa sa_          | _cousa_              |
  |#pg.  221| qne                 | que                  |
  |#pg.  227| passsamento         | passamento           |
  |#pg.  230| _dile ctando_       | _dilectando_         |
  |#pg.  231| ex prime            | exprime              |
  |#pg.  232| difficies           | difficeis            |
  |#pg.  250| coi sas             | coisas               |
  |#pg.  252| fossse              | fosse                |
  +----------+---------------------+----------------------+

Variantes dos nomes prprios ( excepo dos indicados anteriormente)
foram mantidas de acordo com o original.





End of Project Gutenberg's Pelo mundo fra, by Maria Amlia Vaz de Carvalho

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PELO MUNDO FRA ***

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permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
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with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
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Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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