The Project Gutenberg EBook of Bom senso e bom gosto, carta ao ex.mo sr.
A. F. de Castilho, by Antero de Quental

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Title: Bom senso e bom gosto, carta ao ex.mo sr. A. F. de Castilho

Author: Antero de Quental

Release Date: September 23, 2009 [EBook #30070]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-15

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                          BOM-SENSO E BOM-GOSTO

                                  CARTA

                         AO EXCELENTISSIMO SENHOR

                       ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

                                   POR

                            Anthero do Quental



                             NOVEMBRO DE 1865




BOM-SENSO E BOM-GOSTO

CARTA

AO EXCELENTISSIMO SENHOR

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

POR

Anthero do Quental


COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
1865




                                                               Ex.mo Sr.


Acabo de ler um escripto[1] de v. ex. onde, a proposito de
faltas de bom-senso e de bom-gosto, se falla com aspera censura da
chamada eschola litteraria de Coimbra, e entre dois nomes illustres[2]
se cita o meu, quasi desconhecido e sobre tudo desambicioso.

Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja
sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha
despreoccupao de fama litteraria, os meus habitos de espirito e o meu
modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta to
indifferente, que  como que se a nada a reduzissemos.

Estas circumstancias pareceriam sufficiente para me imporem um silencio,
ou modesto ou desdenhoso. No o so, todavia. Eu tenho para fallar dois
fortes motivos. Um  a liberdade absoluta que a minha posio
independentissima de homem sem pretenes litterarias me d para julgar
desassombradamente, com justia, com frieza, com boa-f. Como no
pretendo logar algum, mesmo infimo, na brilhante phalange das
reputaes contemporaneas,  por isso que, estando de fra, posso como
ninguem avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos
chefes do glorioso esquadro. Posso tambem fallar livremente. E no 
esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniencias, de
precaues, de reticencias--ou, digamos a cousa pelo seu nome, de
hypocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambies, das miserias
d'uma posio, que no pretendo, posso fallar nas miserias, nas
ambies, nas vaidades d'esse mundo to extranho para mim, atravessando
por meio d'ellas e sahindo puro, limpo e innocente.

A este primeiro motivo, que  um direito, uma faculdade s, accresce um
outro, e mais grave e mais obrigatorio, porque  um dever, uma
necessidade moral.  esta fora desconhecida que nos leva muitas vezes,
ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse,
a erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mo pelo que
acreditamos a justia.  ella que me manda fallar. No que a justia e a
verdade se offendessem com v. ex. ou com as suas apreciaes. Verdade e
justia esto to altas, que no tm olhos com que vejam as pequenas
cousas e os pequenos homens das infimas questiunculas litterarias d'um
ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal.

No  isso o que as offende. Mas as idas que esto por de trs dos
homens; o mal profundo que as cousas apenas miseraveis representam; uma
grande doena moral accusada por uma pequenez intellectual; as
desgraas, tanto para reflexes lamentosas, d'esta terra, reveladas
pelas miserias, to merecedoras de despreso, dos que cuidam dominal-a;
isso  que afflige excessivamente a razo e o sentimento, o que prende o
olhar ainda o mais desdenhoso a estas baas intrigas; isso  que levanta
esta questo do raso das personalidades para a elevar at  altura d'uma
questo de principios, e que d s ridiculas chufas, que entre si trocam
uns tristes litteratos, todo o valor d'uma discusso de philosophia e de
historia.

Sim, ex.mo sr. Eu no sei se v. ex. tem olhos para ver tudo isto.
Cuido que no: porque a intelligencia dos habeis, dos prudentes, dos
espertissimos  muitas vezes cega em lhe faltando uma cousa bem
pequena, que se encontra nos simples e nos humildes--a boa-f.

 luz d'ella, porem, eu hei de sempre ver uma pessima aco, digna de
toda a importancia d'um castigo, nas impensadas e infelizes palavras de
v. ex., dignas quando muito d'um sorriso de desdem e do esquecimento. E
se eu nem sequer me daria ao incommodo de erguer a cabea de cima do meu
trabalho para escutar essas palavras, entendo que no perco o meu tempo,
que sirvo a moral e a verdade, censurando, verberando a deshonesta aco
de v. ex.

Porque  uma aco deshonesta. O que se ataca na eschola de Coimbra
(talvez mesmo v. ex. o ignore, porque ha malevolos innocentes e
inconscientes), o que se ataca no  uma opinio litteraria menos
provada, uma concepo poetica mais atrevida, um estylo ou uma ida.
Isso  o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se  independencia
irreverente de escriptores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem
pedirem licena aos _mestres_, mas consultando s o seu trabalho e a sua
consciencia. A guerra faz-se ao escandalo inaudito d'uma litteratura
desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o sello e o visto da
chancelharia dos gros-mestres officiaes. A guerra faz-se  impiedade
d'estes hereges das lettras, que se revoltam contra a auctoridade dos
papas e pontifices, porque, ao que parece, ainda a luz de cima lhes no
escreveu nas frontes o signal da infallibilidade. Faz-se contra quem
entende pensar por si e ser s responsavel por seus actos e palavras...

Agora quem move estes ridiculos combates de phrases  a vaidade ferida
dos mestres e dos pontifices;  o espirito de rotina violentamente
incommodado por mos rudes e inconvenientes;  a banalidade que quer
dormir socegada no seu leito de ninharias;  a vulgaridade que cuida que
a foram--ns s lhe queremos puchar as orelhas!

Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da
eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do
atrevimento de sua rectido moral, do attentado de sua probidade
litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarem
por suas cabeas. E combatem-se por faltarem s virtudes de respeito
humilde s vaidades omnipotentes, de submisso estupida, de baixeza e
pequenez moral e intellectual.

V. ex., com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar
que uma guerra assim feita  no s mal feita, mas tambem pequena e
miseravelmente feita. Mas  que a eschola de Coimbra commetteu
effectivamente alguma cousa peior de que um crime--commetteu uma grande
falta: _quiz innovar_. Ora, para as litteraturas officiaes, para as
reputaes estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a
baba dos sophismas, do que envenenar com o erro as fontes do espirito
publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, peior do que
isto  essa falta de querer caminhar por si, de _dizer_ e no _repetir_,
de _inventar_ e no de _copiar_. Por que? Porque todos os outros crimes
eram contra as idas: haveria sempre um perdo para elles. Mas esta
falta era contra as pessoas: e essas taes so imperdoaveis. Innovar 
dizer aos prophetas, aos reveladores encartados: ha alguma cousa que
vs ignoraes; alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes; ha mundo
alm do circulo que se v com os vossos oculos de theatro; ha mundo
maior do que os vossos systemas, mais profundo do que os vossos
folhetins; ha universo um pouco mais extenso e mais agradavel sobre tudo
do que os vossos livros e os vossos discursos. Isto, sim, que 
intoleravel! Isto, sim, que  infame e revoltante e impio e subversivo!
Contra isto, sim, s armas, ergamo-nos na nossa fora, mostremos o que
somos e o que podemos... escrevamos tres folhetins e um prologo!...

V. ex. fez-se chefe d'esta cruzada to desgraada e to mesquinha. No
posso seno dar-lhe os pezames por to triste papel. Mas se eu, como
homem, desprzo e esqueo, como escriptor  que no posso calar-me;
porque atacar a independencia do pensamento, a liberdade dos espiritos,
 no s offender o que ha de mais sancto nos individuos, mas  ainda
levantar mo roubadora contra o patrimonio sagrado da humanidade--o
futuro.-- seccar as nascentes da fonte aonde as geraes futuras tm
de beber.  cortar a raiz da arvore a que os vindoiros tinham de
pedir sombra e socego. E atrophiar as idas e os sentimentos das cabeas
e dos coraes que tm de vir.

O contrario d'isto tudo  que  a bella, a immensa misso do escriptor.
 um sacerdocio, um officio publico e religioso de guarda incorruptivel
das idas, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras. Para
isso toda a altura, toda a nobreza interior so pouco ainda. Para isso
toda a independencia de espirito, toda a despreoccupao de vaidades,
toda a liberdade de jugos impostos, de mestres, de auctoridades, nunca
ser de mais. O mineiro quer os braos soltos para cavar buscando o ouro
entre as areias grossas. O piloto quer os olhos desvendados para ler nos
astros o caminho da no por entre as ondas incertas. O sacerdote quer o
corao limpo de paixes, de interesses, para aconselhar, guiar, julgar,
imparcial e justo. O escriptor quer o espirito livre de jugos, o
pensamento livre de preconceitos e respeitos inuteis, o corao livre de
vaidades, incorruptivel e intemerato. S assim sero grandes e fecundas
as suas obras: s assim merecer o logar de censor entre os homens,
porque o ter alcanado, no pelo favor das turbas inconstantes e
injustas, ou pelo patronato degradante dos grandes e illustres, mas
elevando-se naturalmente sobre todos pela sciencia, pelo paciente estudo
de si e dos outros, pela limpeza interior d'uma alma que s v e busca o
bem, o bello, o verdadeiro.

Este  o escriptor, o poeta, o apostolo. Se o obrigassem a respeitos
convencionaes, a terrores supersticiosos diante de certos homens, a
espantos cegos diante de certas cousas; se o fizessem baixar a cabea e
as costas para entrar a porta do pantheon litterario; elle, o pobre,
ficaria sempre curvo e submisso, humilde e sem fora propria, servo de
alheias idas e apostolo apenas de palavras decoradas e vazias d'alma.
Como se havia elle pois erguer, entre seus irmos, to alto que seus
olhos fossem uns como pharoes para todos os outros olhos, a sua fronte
uma como montanha de luz; to alto que as palavras de sua bocca cahissem
sobre as cabeas como uma chuva benefica e fecundante? Seria, depois das
provas e das torturas, das genuflexes e das baixezas da iniciao no
gremio dos _senhores_, seria um aleijo e no gigante, um aborto em
vez de heroe e, em vez de sobr'exceder a todos com a fronte, andaria
sumido entre elles, visitado escassamente pelo sol e pela luz. Elle, que
no soubera procurar para si o seu caminho, como poderia elle allumiar o
dos outros? Elle, humilde, como ensinaria a altivez e a dignidade?
Respeitador de conveniencias estereis, como daria o exemplo das revoltas
fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados?
Sem vontade, como resistiria s tyrannias da opinio omnipotente, ao
capricho dos grandes, s ambies, s tentaes?

As grandes, as bellas, as boas cousas s se fazem quando se  bom, bello
e grande. Mas a condio da grandeza, da belleza, da bondade, a primeira
e indispensavel condio, no  o talento, nem a sciencia, nem a
experiencia:  a elevao moral, a virtude da altivez interior, a
independencia da alma e a dignidade do pensamento e do caracter. Nem aos
_mestres_, aos que a maioria boal aponta como illustres, nem  opinio,
 critica sem sciencia nem consciencia das turbas, do maior numero, deve
pedir conselhos e approvao, mas s ao seu entendimento,  sua
meditao, s suas crenas. Nesta eschola do trabalho, da dignidade, das
altas convices, se formam os homens em cujos peitos a humanidade
encontra sempre um vasto lago onde farte a sde de verdade, de
consolaes, de ensinos para a intelligencia e confortos para o corao.

No peito dos outros, dos que andam de capella em capella na lida afanosa
de incensar cada dia todos os idolos, dos que fazem da gloria uma
bastilha para aventureiros levarem de assalto, e no pulpito aonde se
suba com respeito e amor, no peito d'esses no habita mais do que
ambio, vaidade, endurecimento e miseria. Esses lisongeiam os grandes;
e os grandes do-lhes a mo para que subam, e desprezam-nos depois.
Lisongeiam as maiorias; e as maiorias inconstantes lanam-lhes no regao
um pouco de ouro e algum applauso de momento, e depois passam e
esquecem. Afagam todas as vaidades; e tm em cada vicio humano um
capital, cujo juro dissipam em quanto vivos, porque essa moeda
corrompida para mais ninguem serve. Emfim, nos quinze ou vinte annos em
que do que falar s gazetas, aos botequins, aos gremios, a todos os
vadios, a todos os futeis, folgam, vivem alegres e esquecidos de tudo
quanto no seja a satisfao do que ha no homem de mais pequeno--a
vaidade e o interesse.

Para os outros a obscuridade, e a miseria muita vez--mas a estima dos
melhores entre os homens pelo espirito, e, o que excede tudo, a posse
d'uma consciencia superior a quanto no seja a verdade, a justia e a
formosura. As idas serenas brilham-lhes na escurido do isolamento e
alumiam-lhes com uma luz doce mas immensa toda a sua obscuridade. Do-se
a desbaratar o mal dos outros homens, como muitos se do a augmentar o
seu bem proprio. Vivem na regio das benos, escutando as palavras da
bcca invisivel, e com os echos d'essa voz celeste compem os hymnos de
esperana e de amor para a humanidade. Morrem; mas morrem nobres e
puros. Tudo isto porque foram independentes. No pertenceram a
corrilhos; no elogiaram ninguem para que os elogiassem a elles; no
incensaram os fetiches dos ridiculos pagodes litterarios. Foram
honrados. Foram simples.

A estes taes chamo eu poetas. Porque nos ensinam o bem. Porque so
originaes e dizem sempre alguma cousa nova  nossa curiosidade de saber.
Porque do com a elevao das vidas confirmao  sublimidade dos
escriptos. Porque so to poeticos como os seus poemas. Porque vo
adiante abrindo  luz e ao amor novos horisontes. Porque no conhecem
ambies nem orgulhos. Porque tm a cabea do genio e o corao da
innocencia.  por isso tudo que lhes chamo poetas.

Os outros adoram a _palavra_, que illude o vulgo, e desprezam a _ida_,
que custa muito e nada luz. So apostolos do diccionario, e tm por
evangelho um tractado de metrificao. Fazem da poesia o instrumento de
suas vaidades. Pregam o bem por uso e conveno litteraria, porque se
presta  declamao poetica, mas practicam o egoismo por indole e por
vontade. Fazem-nos descrer da grandeza humana, porque so uns sophismas
que nos mostram a pequenez e a m f aonde as apparencias so todas de
nobreza. Preferem imitar a inventar; e a imitar preferem ainda traduzir.
Repetem o que est dicto ha mil annos, e fazem-nos duvidar se o
espirito humano ser uma esteril e constante banalidade. So os
enfeitadores das ninharias luzidias. Pem os nadas em p para parecerem
alguma cousa. So os idolos litterarios da multido que mal sabe ler.
So os philosophos queridos da turba que nunca pensou. So, emfim,
genios no Brasil como v. ex.

Estes taes escusam da nobreza e da dignidade: tm a habilidade e a
finura. Para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra, ex.mo sr.,
 que  uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas esteril
para o espirito. Sa bem, mas no ensina nem eleva. Ora a humanidade
precisa que a levantem e que a doutrinem. So, pois, necessarias outras
e melhores obras.

Mas, se j alguma hora da historia impoz aos que fallam alto entre os
povos obrigaes de seriedade, de profunda abnegao, de sacrificio do
_eu_ s tristezas e miserias da humanidade, de trabalho e silencioso
pensamento; se alguma hora lhes mandou serem graves, puros, crentes, 
certamente esta do dia de hoje, da edade de transformao dolorosa, de
scepticismo, de abaixamento moral, de descrena, que  o nosso seculo.
Refundem-se as crenas antigas. Geram-se com esforo novas idas.
Desmoronam-se as velhas religies. As instituies do passado abalam-se.
O futuro no apparece ainda. E, entre estas duvidas, estes abalos, estas
incertezas, as almas sentem-se menores, mais tristes, menos ambiciosas
de bem, menos dispostas ao sacrifcio e s abnegaes da consciencia. Ha
toda uma humanidade em dissoluo, de que  preciso extrahir uma
humanidade viva, s, crente e formosa.

Para este grande trabalho  que se querem os grandes homens. Sahiro
esses heroes das academias litterarias? das arcadias? das sinecuras
opulentas? dos corrilhos do elogio-mutuo? Sahiro as aguias das
capoeiras? Saltaro as idas salvadoras do choque das maledicencias e
dos doestos? Nascero as dedicaes do casamento das vaidades? Daro a
grande novidade os ledores de Horacio? Inventaro as novas formulas os
que decoram as phrases rabugentas dos livros bolorentos que chamam
classicos? E os Socrates e os Epictetos descero para as suas misses
das cadeiras almofadadas, das rendosas conezias litterarias, das
prebendas, das exploraes?

Fra d'essa atmosphera corrupta, e, quando no corrupta, pelo menos
esterilisadora,  mais provavel encontrarem-se as condies que precisam
para viver e crescer os homens uteis e necessarios s transformaes do
espirito humano.

No  traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grecia e de Roma;[3]
requentando fabulas insossas diluidas em milhares de versos
semsabores;[4] no  com idyllios grotescos sem expresso nem
originalidade, com alluses mythologicas que j faziam bocejar nossos
avs;[5] com phrases e sentimentos postios de academico e rhetorico;[6]
com visualidades infantis e puerilidades vs;[7] com prosas imitadas das
algaravias mysticas de frades estonteados;[8] com banalidades;[9] com
ninharias;[10] no , sobre tudo, lisongeando o mo gosto e as pessimas
idas das maiorias, indo atrs d'ellas, tomando por guia a ignorancia e
a vulgaridade, que se ho de produzir as ideias, as sciencias, as
crenas, os sentimentos de que a humanidade contemporanea precisa para
se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando.

Mas fra de tudo isto, d'estas necedades tradicionaes,  o nevoeiro,  o
methaphysico,  o inattingivel--diz v. ex.

Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa no  Portugal, no  Lisboa,
cuido eu:  Paris,  Londres,  Berlim. No  a nossa divertida Academia
das Sciencias, que revolve, decompe, classifica e explica o mundo dos
factos e das idas.  o Instituto de Frana,  a Academia Scientifica de
Berlim, so as escholas de philosophia, de historia, de mathematica, de
physica, de biologia, de todas as sciencias e de todas as artes, em
Frana, em Inglaterra, em Allemanha. Pois bem: a Allemanha, a
Inglaterra, a Frana, comprazem-se no nevoeiro, so incomprehensiveis e
ridiculas, so methaphysicas tambem. As tres grandes naes pensantes
so risiveis deante da critica fradesca do sr. Castilho. Os grandes
genios modernos so grotescos e despreziveis aos olhos baos do banal
metrificador portuguez.

O grande espirito philosophico do nosso tempo, a grande creao
original, immensa da nossa edade, no passa de confuso e embroglio
desprezivel para o professor de ninharias, que cuida que se fustiga
Hegel, Stuart Mill, Augusto Comte, Herder, Wolff, Vico, Michelet,
Proudhon, Littr, Feuerbach, Creuzer, Strauss, Taine, Renan, Buchner,
Quinet, a philosophia allem, a critica franceza, o positivismo, o
naturalismo, a historia, a methaphysica, as immensas creaes da alma
moderna, o espirito mesmo da nossa civilisao.... que se fustiga tudo
isto e se ridicularisa e se derriba com a mesma sem-cerimonia com que
elle d palmatoadas nos seus meninos de 30, 40 e 50 annos, de Lisboa, do
Gremio, da Revista Contemporanea!

Quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno; com as tendencias da
sciencia; com os resultados de trinta annos de critica; com a nova
eschola historica; com a renovao philosophica; com os pensadores; com
os sabios; com os genios; vai com a Frana; vai com a Allemanha--mas que
importa? no vai com o sr. Castilho! no vai com o novo methodo
repentista! no vai com o moderno folhetim portuguez!

O metrificador das Cartas d'Echo diz ao pensador da Philosophia da
natureza--_tira-te do meu sol!_--O mythologo do diccionario da fabula
diz ao profundo descubridor da Symbolica--_s um ignorante!_--A
rethorica portugueza diz  sciencia, ao espirito moderno--_cala-te
d'ahi, papelo!_

 que tudo isto no passa de idas. Ora ha uma cousa que o sr. Castilho
tomou  sua conta, que no deixa em paz, que nos prometteu destruir... 
a methaphysica...  o ideal...

O ideal! palavra mystica; de gothica configurao; quasi impalpavel;
espiritualista; impopular; que o artigo de fundo repelle; que
desacreditaria o deputado do centro que a empregasse; que Victor Hugo
adora e de que se riem os localistas; que no chega para um folhetim e
que enche o maior poema; immensa aos olhos dos que a vem com os
olhos fechados e que nunca viram os que os trazem sempre arregalados;
palavra pessima para uma rima de madrigal; palavra que faz desmaiar as
beatas; grotesca num botequim; disforme numa sala; medonha numa
assembleia de litteratos horacianos... decididamente v. ex. devia odiar
esta desgraada palavra!

O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinteressado da
verdade; preoccupao exclusiva do grande e do bom; desdem do futil, do
convencional; boa fe; desinteresse; grandeza d'alma; simplicidade;
nobreza; soberano bom gosto e soberanissimo bom senso... tudo isto quer
dizer esta palavra de cinco letras--ideal.

Por todos estes motivos ella  sobremaneira odiavel; ella  desprezivel
por todas estas causas; e v. ex. tem toda a razo, chacoteando,
bigodeando, pulverisando esse miseravel ideal.

Elle, com effeito, nada do que elle  ou do que vem d'elle, serve ou
pode servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida, do que
nella procuram os homens graves, os homens serios, os homens de senso e
gosto como v. ex., que nada querem com ideaes ou com idas, mas s com
realidades e com tactos; para captar a admirao das turbas; o applauso
das multides; para formar um grande nome composto de pequeninas
lettras; para merecer os encomios dos grammatices e o assombro dos
burguezes; para ser das academias; das arcadias; commendador; citado
pelos brasileiros retirados do commercio; decorado pelos directores de
collegio; o Tirteu dos mercieiros e um Homero constitucional.

Para isto  que no serve o ideal. E  por isso, pela sua absurda
inutilidade, que v. ex. o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal
aonde, para o adorarem, o tm posto os loucos que nunca foram nada neste
mundo, nem das academias nem do conselho de instruco publica, um
Christo, um Socrates, um Homero...

Por isso  que v. ex. faz muito bem em o destruir, a esse pobre diabo
do ideal; de o pr fra de casa a bofetes; de o bannir das suas obras,
que no haver por l nem a mais leve sombra d'elle. Agradam a todos
assim. Os versos de v. ex. no tm ideal--mas comeam por letra
pequena. As suas criticas no tm idas--mas tm palavras quantas bastem
para um diccionario de synonimos. Os seus poemas lyricos no so
methaphysicos, no precisam d'uma excessiva atteno, de esforos de
pensamento para se comprehenderem--e tm a vantagem de no deixarem ver
nem um s ideal. Nas suas obras todas ha uma falta to completa d'essas
incomprehensibilidades, que deve pr muito  sua vontade os leitores que
v. ex. tm no Brasil. V. ex. diz tudo quanto se pode dizer sem
idas--boa, excellente receita para no cahir nas nebulosidades do
ideal. Os seus escriptos so optimos escriptos--menos as idas: e  v.
ex. um grande homem--menos o ideal.

Dante, que era um barbaro, e Shakspeare, que era um selvagem,  que
rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo tambem ce muito nesse
defeito. V. ex.  que o tem sempre evitado cautelosamente, e por isso
no  um barbaro como Dante, nem selvagem como Shakspeare, nem um mo
poeta como Victor Hugo. No  Dante, nem Shakspeare, nem Hugo--mas 
amigo do sr. Viale, que falla latim como Mevio e Bavio.

Mas, ex.mo sr., ser possivel viver sem idas? Esta  que  a grande
questo. Em Lisboa, no curso de lettras, na academia, no conselho
superior, no gremio, nos saraus de v. ex., dizem-me que sim, e que 
mesmo uma condio para viver bem. Fra de Lisboa, isto , no resto do
mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim, Goettingue, New-York, Boston,
paizes mais desfavorecidos da sorte, na velha Grecia tambem e mesmo na
Roma antiga,  que nunca poderam passar sem essas magnificas
inutilidades. Ellas o muito que tm feito  servirem de entretenimento
aos visionarios como Christo (um metaphysico bem nebuloso), como
Socrates, como akia-Mouni, como Mahomet, como Confucio e outros
sujeitos de nenhuma considerao social, que se entretinham fazendo
systemas com ellas, e com os systemas religies, e com as religies
povos, e com os povos civilisaes, e com as civilisaes codigos, leis,
sentimentos, amores, paixes, crenas, a alma emfim da humanidade, cousa
que se no v nem rende, e  tambem inutil e incomprehensivel. Eis ahi o
mais a que as idas tm chegado. Creio que pouco mais ou nada mais
tm feito do que isto.

Em Lisboa  que nem isto. No sei se tem havido quem tente introduzil-as
nessa capital. V. ex.  que eu tenho a certeza de que no era capaz
d'essa m aco. Por isso Lisboa no cahe como cahiram Athenas e Roma,
por causa das suas idas, e Jerusalem e outras cidades infelizes, cujos
poetas tiveram um amor demasiado ao ideal... Uma s cousa ficou d'ellas:
uma memoria grande, honrosa, nobilissima. Cahiram, mas deram ao mundo um
espectaculo raro--o espirito e a consciencia humana triumphando da
materia e brilhando no meio das ruinas como a chamma que se alimenta da
destruio da lenha d'onde sahe e que a gerou. Eu no sei se v. ex.
acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que no. O que eu sei smente 
que isto  sublime......................

Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor
do discurso, faltar ao respeito a v. ex., aos seus cabellos brancos.
Cuido mesmo que j me escapou uma ou outra phrase no to reverente e
to lisongeira como eu desejra. Mas  que realmente no sei como hei de
dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de
sessenta annos; dizel-as eu com os meus vinte e cinco! V. ex. aturou-me
em tempo no seu collegio do Portico, tinha eu ainda dez annos, e
confesso que devo  sua muita paciencia o pouco francez que ainda hoje
sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria
agora podel-o seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus
exemplos, em poesia e philosophia como outr'ora em grammatica franceza,
na comprehenso das verdades eternas como em outro tempo no entendimento
das fabulas de La Fontaine. Vejo, porem, com desgosto que temos muitas
vezes de renegar aos vinte e cinco annos do culto das auctoridades dos
dez; e que saber explicar bem Telemaco a crianas no  precisamente
quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razo e
gosto. Concluo d'aqui que a edade no a fazem os cabellos brancos, mas a
madureza das idas, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte
e cinco annos tm-me as verduras de v. ex. convencido valerem pelo
menos os seus sessenta. Posso pois fallar sem desacato. Levanto-me
quando os cabellos brancos de v. ex. passam deante de mim. Mas o
travesso cerebro que est debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que
sahem d'elle, confesso no me merecerem nem admirao nem respeito, nem
ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade
numa criana. V. ex. precisa menos cincoenta annos de edade, ou ento
mais cincoenta de reflexo.

 por estes motivos todos que lamento do fundo d'alma no me poder
confessar, como desejava, de v. ex.


Coimbra 2 de Novembro de 1865.


                                         Nem admirador nem respeitador


                                                _Anthero do Quental._



    [1] No livro do sr. Pinheiro Chagas--_Poema da Mocidade_.

    [2] Os srs. Theophilo Braga e Vieira de Castro.

    [3] Allude as traduces de Ovidio e Anacreonte.

    [4] Allude as Cartas d'Echo e Narciso.

    [5] Allude  Primavera.

    [6] Allude ao Tributo Portuguez na morte de Pedro V.

    [7] Allude aos tractados de Metrificao e Mnemonica.

    [8] Allude a todas as obras em prosa.

    [9] Allude a todas as obras em verso.

    [10] Allude a todas as obras junctas, prosa e verso.





_Vende-se nas principaes livrarias... preo 100 rs._

DO MESMO AUCTOR

*Odes Modernas* 1 vol. em 8.... preo 400 rs.

_Em Lisboa na loja de livros de Lavado; Porto e Coimbra, na livraria da
Viuva Mor._





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sr. A. F. de Castilho, by Antero de Quental

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and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


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business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

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     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


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