Project Gutenberg's Historia alegre de Portugal, by Manuel Pinheiro Chagas

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Title: Historia alegre de Portugal
       leitura para o povo e para as escolas

Author: Manuel Pinheiro Chagas

Release Date: July 13, 2009 [EBook #29394]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                        HISTORIA ALEGRE DE PORTUGAL




                              HISTORIA ALEGRE

                                    DE

                                 PORTUGAL

                   LEITURA PARA O POVO E PARA AS ESCOLAS

                                    POR

                            M. PINHEIRO CHAGAS




                           DAVID CORAZZI--EDITOR
                         EMPREZA HORAS ROMANTICAS
                      Lisboa--Rua da Atalaya--40 a 52
                                    1880




Ao Ill.mo e Ex.mo Sr.

CONSELHEIRO

MIGUEL MARTINS DANTAS

Ministro de Portugal em Londres




                                            Ill.mo e Ex.mo Am.o e Sr.

Ha dois ou tres annos, desejando eu obter de Inglaterra um livro que
fra citado no parlamento por um deputado da opposio ao ministerio
Beaconsfield, dirigi-me a v. ex., meu collega na Academia,
perguntando-lhe se seria possivel alcanal-o. A resposta de v. ex. no
se fez esperar. Enviou-me o livro pedido, que obtivera com summa
difficuldade, e juntamente com elle quantos documentos officiaes se
referiam  questo da escravatura, questo de que esse livro se
occupava, e que ento me captivava mais particularmente a atteno. Foi
mais longe ainda a amabilidade de v. ex.; enviou-me um livrinho
francez, de que eu no tinha conhecimento, intitulado _Entretiens
populaires sur l'histoire de France_, perguntando-me se no seria
possivel fazer, com relao  historia portugueza, um livro n'esse
genero.

Li o livro e achei-o encantador. Tempos depois, encontrei-me com v. ex.
em Lisboa, e disse-lhe que a tentar o emprehendimento a que v. ex. me
incitra, e pedi-lhe licena para lhe dedicar o livro, que fosse o
fructo d'essa tentativa.  o que fao agora. Como v. ex. ver, o plano
da _Historia alegre de Portugal_  diversissimo do dos _Entretiens
populaires sur l'histoire de France_, mas a _Historia alegre_ vae
escripta tambem no tom faceto, folgazo, singelo e popular que achei
original, picante e util no livro francez que v. ex. me recommendava.

Folgo de ter ensejo de mostrar publicamente a minha gratido a v. ex.
pelas provas de estima e de considerao que me dispensou n'esta e
n'outras occasies, e o alto apreo em que tenho o talento e o saber
do escriptor distinctissimo, que renovou completamente, com os seus
_Faux Don Sbastien_, o estudo de uma poca interessante da historia
portugueza, que nos deu emfim n'esse primoroso livro um estudo
profundamente moderno, um estudo, como Gachard os sabe fazer, de um dos
episodios mais curiosos e mais romanescos da nossa vida nacional.

                                                           De v. ex.

Cruz Quebrada, 25 de outubro de 1880.

                                                   Att.o v.or e ob.o

                                                   _Pinheiro Chagas_.




INTRODUCO


O sr. Joo Martins, mais conhecido pelo nome de Joo da Agualva, porque
morava na pequena aldeia d'este nome, que fica entre Bellas e o Cacem
n'um sitio rido e feio, fra mestre de instruco primaria numa das
freguezias do concelho de Cintra. Conseguira a sua aposentao, e viera
para a sua aldeia natal amanhar umas terras que ali possuia, e cujo
rendimento o impedira j de morrer de fome nos tempos, em que o Estado
lhe pagava munificentemente os noventa mil ris annuaes, com que
remunerava n'essa poca os primeiros guias do homem nos speros caminhos
da instruco. Mas o Joo da Agualva era homem de uma illustrao
excepcional. Convivera muito tempo com o prior de Monte-lavar, padre
instruido que emprestra ao bom do professor os livros da sua
limitada bibliotheca; em Bellas tambem se relacionra com um engenheiro
francez, empregado nas obras de agua de Valle de Lobos, de Broco e de
Valle de Figueira, o qual tomra gosto em desenvolver o espirito
intelligente e vido de saber do velho professor. Apezar d'isto vivia
modestamente na sua pobre casa, lidando com os saloios que o tratavam
com verdadeiro respeito, e tinham por elle um affecto em que entrava um
pouco de venerao.

Era no inverno, e o Joo da Agualva estava passando a noite em casa de
uma boa velha, a tia Margarida, viuva de um caseiro do marquez de
Bellas, e me do Francisco Artilheiro, que, depois de ter servido cinco
annos em artilheria, como indicava o seu sobre-nome, viera para Bellas
ajudar a me a cuidar de umas leiras de terra, que a velhinha herdra do
marido. Um grupo de saloios de Bellas e das aldeias proximas, sabendo
que o Joo da Agualva viera para ali seroar, tinham vindo tambem,
desejosos de ouvir algumas das historias que o velho s vezes contava e
que entretinham agradavelmente a noite. N'essa occasio, porm, o
professor estava macambusio, e, quando o velho Bartholomeu, irmo da tia
Margarida, que era dos que mais gostavam de o ouvir, lhe pediu que
contasse alguma das suas historias, o bom do Joo da Agualva abanou
negativamente a cabea.

--No estou hoje com disposio para historias da carochinha,
disse elle, e sabem vocs? Tenho andado a matutar n'uma cousa. No  uma
vergonha que vocs saibam de cr as alteiadas historias de cousas que
nunca succederam, nem podiam succeder, e no saibam ao mesmo tempo nem o
que foram seus paes nem os seus avs, nem o que fizeram, nem como elles
viveram, nem o que succedeu n'esta boa terra de Portugal, que ns todos
regamos com o nosso suor, que hoje nada vale, mas que deu brado no mundo
pelas faanhas que os nossos praticaram?

--Tomra eu saber tudo isso, sr. Joo da Agualva, disse o Manuel da
Idanha, rapazote de cara esperta, moo de lavoura do sr. Garignan, o
antigo dono de collegio, que hoje reside na aldeia da Idanha, a cousa de
quinhentos metros de Bellas, tomra eu saber tudo isso, mas como ha de
ser!?  verdade que, graas a Deus, sei ler e escrever, e l o patro
emprestou-me uma vez uns livros de historia que eu lhe pedi, mas, mal os
comecei a ler, deu-me o somno. Diziam  gente os nomes dos reis e os
filhos que tinham tido, e as batalhas que tinham ganho, e mais umas
lenga-lengas de que no percebi patavina. Ora, sr. Joo da Agualva, eu,
para dormir, graas a Deus, ainda no preciso de ler historia.

--Mas que diriam vocs, tornou o velho professor, se eu, n'estes nossos
seres, lhes contasse, em vez de contos de fadas, e de historias de
Carlos Magno, a historia do que succedeu em Portugal? Talvez vocs
me entendessem, quer-me parecer que se no aborreceriam muito, e,
em todo o caso, se se enfastiassem, diziam-m'o francamente, e eu no
continuava, porque l para massador  que no sirvo.

--Ah! sr. Joo, exclamou o Manuel da Idanha, isso  que era um regalo!

Os outros no disseram palavra, e o Joo, que os percebeu, riu-se para
dentro, e fingiu-se desentendido.

--Pois ento, v feito, eu hoje estou canado, porque j fui a p ao
Sabugo tratar da compra de um boi, mas amanh  domingo. Venham vocs 
noite aqui para casa da tia Margarida, e eu comearei a minha historia.

No domingo  noite ninguem faltou; mas, se vieram, foi pelo respeito que
tinham ao Joo da Agualva, no porque esperassem divertir-se muito. O
Bartholomeu j abria a bca ainda antes do Joo da Agualva principiar.
Mas o Joo chegou-se mais para o lume, porque a noite estava fria a
valer, sorriu-se, e principiou como o leitor ver no capitulo immediato.




PRIMEIRO SERO

O que era Portugal.--Os seus primeiros habitantes.--As colonias
estrangeiras.--Os phenicios.--Os gregos.--Os carthaginezes.--Os
romanos.--Viriato.--Sertorio.


--Meus amigos, comeou o Joo da Agualva,  de saber que esta terra em
que ns vivemos nem sempre foi Portugal, e, se alguem se lembrasse de
fallar, aqui ha cousa de uns tres ou quatro mil annos ou mesmo s de mil
annos, em Portugal e em portuguezes, havia de ver como todos ficavam
embasbacados sem perceber patavina. Isto l para os antigos era tudo
Hespanha, desde os cocurutos dos Pyrinus, que so uns montes que
separam a Hespanha da Frana, at essas aguas do mar que cercam por
todos os lados a nossa terra, mais a dos hespanhoes, e at por estar
este pedao de terra cercado de agua por toda a parte, menos pela banda
dos Pyrinus,  que se chama a isto _peninsula_, que quer dizer uma
cousa que  quasi uma ilha, mas que o no vem a ser de todo.

--Bem sei, bem sei! peninsula  onde houve uma guerra em que entrou meu
av! exclamou o fallador do Manuel da Idanha.

--Mette a viola no sacco, Manuel, quem muito falla pouco acerta. L
chegaremos  guerra da peninsula. Roma e Pavia no se fez n'um dia.

--Pois ento, v l vocemec contando a sua historia.

--Como eu a dizendo, esta peninsula, a que se chama Hespanha e
Portugal, era ento s Hespanha. Hespanhoes ramos ns todos...

--Menos eu! acudiu o Bartholomeu, levantando-se todo furioso, hespanhol
 que nunca fui, nem sou, nem serei. Vae aqui tudo raso, se...

--Espera, homem de Deus! Que tem que tudo isto fosse hespanhol se nunca
mais o ha de ser? Tambem a Hespanha, e a Frana, e a Inglaterra, e a
Italia, e a Grecia, e o Egypto foi tudo imperio romano, e vae l dizer
agora a essas naes todas que se sujeitem ao mesmo governo! Tambem a
Frana d'antes se chamava Gallia e estendia-se pela Belgica fra, e mais
pela Suissa, e, se o Gambetta, ou quem  que governa l na Frana,
quizesse por isso empolgar a Suissa e a Belgica, a ahi em toda a Europa
uma berraria de seiscentos demonios.

--Pois sim, resmungou o Bartholomeu sentando-se de mau humor, mas no me
digam a mim que eu fui hespanhol.

--Ora, meus amigos, quem foram os que primeiro moraram c n'este canto
de terra  que ninguem sabe. Seriam uns iberos, que fallavam uma lingua
arrevesada, assim a modo similhante  que fallam hoje os hespanhoes das
Vascongadas que nem o demo entende? Isso  que lhes no posso dizer. O
que sei  que, quando a Hespanha comeou a ser conhecida, havia aqui uma
sucia de povos que era uma cousa por demais, turdetanos para um lado,
celtiberos para outro, ilergetas para aqui, bastetanos para acol.
Estava at manh a dizer-lhes nomes estramboticos, se no preferisse
fallar-lhes s nos nossos avs, c nos que moraram na nossa terra.

--Isso  que ! bradaram todos em cro.

--Pois muito bem! Saibam vocs que no era um povo s. No Algarve e n'um
pedao do Alemtejo havia os _cuneenses_, no resto do Alemtejo, na
Estremadura e na Beira moravam os lusitanos, e l para cima para o
Douro, para o Minho e mais para Traz-os-Montes moravam os gallegos.

--Os gallegos! exclamou o irritavel Bartholomeu, veja l como falla, sr.
Joo da Agualva, olhe que o pae de minha mulher veiu de Traz-os-Montes,
e meus sogro no era nenhum gallego, ouviu?

--Valha-te Deus, Bartholomeu, ento tu cuidas que os gallegos andam
todos com o barril s costas, e so todos uns grosseires como os
aguadeiros dos chafarizes de Lisboa? Pois digo-te, e depois t'o
mostrarei, que de todos os povos l das Hespanhas foram os gallegos os
que mais depressa se poliram. Mas, cala-te bca, no v o carro adiante
dos bois, e, como tu no queres ser genro de um gallego, sempre te direi
que os que moravam para c do Minho no eram da mesma casta que os de
l. Os nossos chamavam-se _Bracharos_ e os gallegos da Galliza
chamavam-se _Lucenses_.

--Ainda bem! murmurou o Bartholomeu, isso de _Bracharos_ at parece que
d ida de _Braga_.

--E  verdade que d, sr. Bartholomeu, lavre l dois tentos.

Todos se riram, e o Joo da Agualva continuou:

--Mas no imaginem que os nossos antepassados eram assim como ns, que
viviam em cidades, villas e aldeias, que andavam vestidos dos ps at 
cabea, que tinham espingardas para a caa e para a guerra. Qual
carapua! Eram uns selvagens, uns lapuzes. As armas eram lanas de
cobre, e o amante pedregulho, mais uns dardos e uma especie de escudo
para se defenderem; fato pouco havia, cabello comprido como o das
mulheres, que atavam com uma fita quando tinham de ir para a guerra.
As mulheres  que tinham os seus enfeites e os seus bordados, os seus
vestidos compridos, etc.

--Pois j se v que l as meninas nunca podem passar sem arrebiques!
disse o Z Caneira, relanceando um olhar malicioso para a boa tia
Margarida que fiava na sua roca ao p da lareira.

--Melhor para ellas, ouviu! redarguiu a velha. Que pena que no vivesses
n'esse tempo para atares os cabellos com uma fita, quando fosses para a
guerra!

Como o Z Caneira era calvo, uma gargalhada geral acolheu a observao
da tia Margarida.

--Em comidas no eram muito requintados, de carne de cabra  que elles
principalmente se alimentavam, e o seu po era cousa de pouca
substancia. Bebiam agua, dormiam no cho, os seus barcos eram de couro,
matavam gente em sacrificio aos seus deuses, quando tinham algum doente
punham-n'o  beira da estrada, quem fazia algum roubo ou outro crime
grave era apedrejado. No passavam de ser uns selvagens. Ento que
querem? nem os homens nem os povos nascem ensinados. Todos comeam
assim. Valentes eram elles, isso sim, valentes como touros. Tiveram
occasio de a mostrar, porque esta nossa terra foi na antiguidade uma
espcie de California.

Por muito tempo ninguem soube d'ella, e os navios da gente civilisada
que vivia l para o Oriente nunca passavam para c do estreito de
Gibraltar, at que um dia passaram os phenicios, gente atrevida, que
queriam metter o nariz em toda a parte, e que sobretudo procuravam
terras novas para commerciar. Acharam que lhes convinham a Andaluzia e o
Algarve, e aqui fundaram algumas colonias, sendo Cadiz a principal. Como
tinhamos por c muitas minas de ouro, e os homens deram sempre o
cavaquinho por este metal, estavam os phenicios nas suas sete quintas.
Ao mesmo tempo outro povo civilisado do Oriente, os gregos, vieram na
piugada dos phenicios, mas esses estabeleceram-se principalmente na
Hespanha do lado de l, onde hoje  a Catalunha, e o Arago e Valencia,
etc.

Os indigenas de c no se deram mal com os phenicios, emquanto elles se
limitaram a trocar as suas fazendas pelo nosso ouro e outras produces,
mas, quando viram que os taes estrangeiros comeavam a fazer casa,
acabaram com o negocio, foram aos gaditanos e deram-lhes uma tareia real.

--Foi bem feito! observou Bartholomeu.

--Mas os phenicios, que estavam muito longe da sua terra, chamaram em
seu soccorro os carthaginezes, que eram tambem uns phenicios, quer dizer
tinham assim com os phenicios o mesmo parentesco que os brazileiros tem
comnosco. Ora os cartagineses viviam aqui mais proximo, ali na Africa,
ao p de Tunis, no muito longe de Argel.

--Argel! exclamou o Francisco Artilheiro, j l estive.

--J l estiveste?

--J, sim senhor. Quando eu andava ao servio, e que fui para a India, o
vapor que me levou arribou a Argel.  uma bonita terra.

--J vs que no fica muito longe. Carthago era mais para o lado de l.
Vieram pois os carthaginezes em soccorro dos phenicios, mas gostaram da
terra, pozeram fra os que vinham soccorrer, e  fora de bordoada,
porque bons guerreiros eram elles, sujeitaram ao seu poder tudo.

--Mas ento, tornou o Francisco Artilheiro, vocemec diz que os nossos
eram to valentes?...

--Ora, que outro me fizesse essa pergunta, v, mas tu que foste militar!
Quem vence  quem tem disciplina. Por mais valentes que os homens sejam,
em combatendo sem ordem, um por aqui, outro por ali, um regimento bem
formado d logo cabo d'elles.

--Isso  verdade.

--Estavam os carthaginezes senhores da Hespanha, e, como tinham posto
fra os phenicios, queriam tambem pr fra os gregos, quando estes se
lembraram de pedir o soccorro dos romanos, que andavam ha muito tempo de
rixa velha com os carthaginezes, e que eram dos povos mais pimpes
d'aquelle tempo.

--Vieram ento os romanos? perguntou o Francisco Artilheiro que
estava seguindo com interesse a narrativa.

--No tiveram tempo de vir, porque um tal Annibal, rapasote dos seus
vinte e cinco annos, e que dizem at que era filho de uma lusitana,
succedendo no commando dos carthaginezes a seu pae Amilcar, no esperou
que elles viessem, correu a Sagunto, uma das taes colonias gregas,
tomou-a e queimou-a, e depois sae da Hespanha, atravessa os montes
Pyrinus e mais os montes Alpes, que parecia que tinha mesmo o diabo no
corpo, bate os romanos aqui, derrota-os acol, escangalha-os mais alem,
e s duas por tres, se continua assim de vento em popa, era uma vez
Roma. Porm, os romanos, que eram tambem levadinhos da breca, nunca
desanimaram, e, apesar de estarem de corda na garganta, tiveram artes de
mandar para c um exercito, de frma que, emquanto Annibal saa por uma
porta, entravam os romanos por outra. O atrevimento a-lhes sando caro,
isso  verdade, mas a fortuna virou, e o que  certo  que d'ahi a pouco
tempo no havia nem um carthaginez na peninsula, e estavam os romanos
senhores de tudo isto.

--Ento os povos de c estavam a olhar ao signal? perguntou Bartholomeu.

--Ora ahi  que bate o ponto. Effectivamente, os povos c das Hespanhas
acharam assim exquisito que os carthaginezes e os romanos andassem a
dispor d'elles, sem ao menos lhes perguntar a sua opinio, de frma que,
quando os romanos, julgando-se senhores da Hespanha, comearam a
espreguiar-se, os differentes povos da peninsula disseram-lhes d'esta
maneira: Ora esperem l, senhores romanos, que ns somos duros para
colches!

--Ah! boa rapasiada! observou, esfregando as mos, o Francisco Artilheiro.

--Comeou a pancadaria, e o povo que andou sempre na frente foram c os
nossos lusitanos, principalmente os serranos do Herminio (que era assim
que se chamava d'antes a serra da Estrella). No eram os romanos capazes
de metter dente c para este lado, at que uma vez um dos seus generaes,
chamado Sergio Galba, apanhou os lusitanos  traio, e fez n'elles uma
mortandade de que poucos escaparam.

--Ah! grande patife! exclamou o Manoel da Idanha.

--Isso era, mas alem de patife era tolo, porque isto de excitar muito d
maus resultados. Os lusitanos, que escaparam, ficaram como uma bicha.
Ora um d'elles era um pastor chamado Viriato, homem decidido e esperto,
que disse para os seus patricios: Faam vocs o que eu mandar, e deixem
os romanos comigo. Assim foi, juntaram-se  roda de Viriato, e, quando
appareceu um exercito romano commandado pelo consul Vetilio, o nosso
homem, que era das bandas de Vizeu, esconde n'uma emboscada uma parte da
sua gente, e com o resto pe-se a fazer fosquinhas aos romanos,
parecendo a modo medroso. O consul percebe que elle est assim com seu
susto, e diz l de si para si: Vaes apanhar uma surra mestra. Corre
sobre elle, Viriato faz tres meia volta, e, pernas para que te quero,
elle ahi vae. O consul Vetilio desata a correr atraz de Viriato, e
vae-se mesmo metter na boca do lobo. Era uma vez um exercito romano.
Depois de Vetilio vem outro e outro, e elle sempre zs, psada de crear
bicho. Em Roma havia terror, diziam que o luzitano lhes dava mais que
fazer que o proprio Annibal. Em Hespanha ento era um enthusiasmo por
ahi alem. Se Viriato j nem se contentava em estar nas montanhas,
entrava pelos povoados romanos, levantava contribuies, revolucionava
os povos, era um vivo demonio, e cada novo exercito, que por c
apparecia, no lhes digo nada, sumia-se n'um abrir e fechar de olhos,
at que emfim o consul Scipio apanha l dois patifes que Viriato
mandra para tratar de um negocio, e tantas endrominas lhes metteu na
cabea, e tantas promessas lhes fez que elles, quando voltaram para onde
estava o seu chefe, apanharam-n'o a dormir e mataram-n'o.

--Oh! que grandes malvados! exclamou Bartholomeu.

--E assim acabou esse homem que foi o que se pde chamar um homemzarro!
 senhores, eu sou um pateta, que no percebo nada d'estas cousas, mas,
quando me ponho a pensar n'este Viriato, quando me lembro que era apenas
um pobre pastor de cabras, um selvagem que no entendia nada de guerras,
nem de manobras, nem de legies para aqui, nem de centuries para ahi, e
que, apezar disso, em defeza da sua terra, fez andar os romanos em papos
de aranha, e atarantou aquella poderosa Roma que mettia medo a todos,
quando me lembro que elle era filho d'esta boa terra; que hoje se chama
Portugal, ah! c'o a breca, sinto assim uns arripios pela espinha, e
parece que  at uma vergonha para o paiz no se lhe ter levantado uma
estatua de um tamanho por ahi alem, no alto da serra da Estrella, que
aquillo  que se podia chamar a sentinella da nossa independencia.

E o bom do Joo da Agualva, no impeto do seu enthusiasmo, cerrava os
punhos; faiscavam-lhe os olhos, e dava mostras de querer elle mesmo ir
pr nos fraguedos da serra da Estrella a estatua do seu heroe.

--Tem raso, tem, observou o Bartholomeu, l que o tal Viriato foi um
homem de truz, isso foi.

--A morte de Viriato, como podem imaginar, continuou o Joo da Agualva,
deixou ficar os lusitanos um pouco atrapalhados, mas continuaram a
defender-se, e os romanos viram uma bruxa com elles. Pde-se dizer que
s Roma foi senhora da Lusitania, quando no ficaram nas nossas
montanhas seno as mulheres e as creanas. Mas as creanas fizeram-se
homens, e os homens estavam mortos por jogar as cristas com os romanos.
No tardou a apparecer-lhes uma boa occasio.

--Vamos l a ver isso! exclamou o Bartholomeu, com um orgulho patriotico.

-- de saber que em Roma havia umas guerras civis, tal qual como ns
tivemos c por muito tempo em Portugal, assim umas cousas  moda da
_Maria da Fonte_ ou da guerra dos dois irmos. Um fulano Sylla e um
sicrano Mario andaram  pancadaria um com o outro, at que venceu um
d'elles que foi Sylla. Era homem de cabellinho na venta este Sylla, e,
apenas se viu no poleiro, comeou a chacinar nos que eram do partido
contrario, de frma que parecia que no queria deixar vivo nem um s. Os
amigos de Mario trataram de se escapulir, e um d'elles, homem
desembaraado, chamado Sertorio, safou-se c para Hespanha, para os
lados do Oriente. Ahi, n'um instante, revolucionou tudo, arranjou um
exercito, mas os generaes de Sylla espatifaram-lh'o, e o amigo Sertorio
tingou-se para a Africa. Souberam os lusitanos do caso, e disseram
comsigo: Este magano  que nos faz conta. Mettem-se uns poucos n'um
barco, vo ali a Marrocos, por onde o Sertorio andava aos paus;
offerecem-lhe o vir commandal-os. Sertorio saltou logo para dentro do
barco, e d'ahi a pouco estavam os lusitanos em campo com Sertorio  frente.

Este, porm, no era, como Viriato, um pastor de cabras, era homem
civilisado, sabendo tudo o que se sabia no seu tempo, e que tratou de
arranjar c nas nossas terras uma especie de Roma. Pareceu-lhe que Evora
servia para o caso, estabeleceu-se ali, e, como o tinham acompanhado
muitos romanos, conseguiu perfeitamente o seu fim.

Que o Sertorio era uma grande cabea, isso  que no tem duvida! No s
poz o sal na moleirinha dos seus patricios que se quizeram metter com
elle, mas costumou os lusitanos a ser gente civilisada, e a imitar os
romanos em tudo, de frma que Viriato, se resuscitasse, no os
reconhecia. E a final de contas, vejam como as cousas so! Este Sertorio
deu lambada nos romanos por um sarilho! pois ninguem fez mais servios a
Roma do que elle! Introduziu aqui as artes, os usos e os costumes de
Roma! de frma que, depois, os nossos comearam a ter menos repugnancia
aos estrangeiros, a confundir-se com elles. Isto de fallar a mesma
lingua, de ter os mesmos habitos, sempre  uma grande cousa! Sertorio
foi assassinado, assassinado tambem por um traidor, um patricio d'elle,
um tal Perpenna! Pois senhores, quando morreu, j isto por c era
to romano como a propria Roma; de frma que nunca mais houve revoltas,
e os lusitanos como o resto dos habitantes de Hespanha,  excepo dos
vasconsos que sempre foram mettidos comsigo, e nunca se deram com os
visinhos, os lusitanos ficaram fazendo parte do grande imperio que vinha
do Mar Negro ao Oceano Atlantico, e da bca do Rheno at  foz do
Guadalquivir, e ainda mais para baixo, do outro lado do estreito.

E com isto os no enfado mais, meus amigos, a Margarida j acabou a sua
estriga, a luz do candieiro est assim a modo aos upas como quem se quer
ir embora, e ento domingo  noite continuaremos com esta conversa,
visto que vocs parece que vo gostando.

--Ora se gostamos, sr. Joo de Agualva! bradaram todos em cro. Venha
depressa o domingo para ouvirmos o resto.

E despedindo-se de Margarida, e de Joo, retiraram-se para as suas
casas.




SEGUNDO SERO

Cesar e os montanhezes do Herminio.--O imperio romano.--O
christianismo.--Os barbaros.--Suevos, alanos e visigodos.--Os mouros.--O
reino das Asturias.--O reino de Leo.--Portucale.--Os condados de
Portugal e de Coimbra.


--Meus amigos, comeou o Joo da Agualva, apenas todos fizeram roda no
domingo immediato, e que a boa da tia Margarida, depois de carregar a
sua roca, principiou a fazer girar o fuso nos seus dedos ageis, deixmos
no outro dia os bons dos nossos lusitanos, depois da morte de Sertorio,
costumados j  civilisao romana, e fallando o latim como se tivesse
sido sempre a sua lingua, gostando de dar as suas passeatas at Roma, e
provavelmente chamando barbaros aos que se lembravam com saudades dos
tempos de Viriato. Nas serras continuavam a refilar o dente aos senhores
do mundo, e o proprio Cesar, que veio a ser depois um grande homem,
estreiou-se nas guerras, tendo c na Lusitania os seus dares e tomares
com os montanhezes do Herminio, que vieram diante d'elle em rota batida
at aqui s proximidades de Peniche, pouco mais ou menos, e que, quando
deram de cara com o mar, no estiveram l com meias medidas, metteram-se
n'umas jangadas, e foram merendar s Berlengas, deitando a lingua de
fra ao sr. Cesar, que se foi embora de queixo cado. Mas isso eram
barulhos l de quando em quando. A verdade  que a Lusitania estava
sendo devras romana, e ento, quando l em Roma  republica succederam
os imperadores, nem mais se pensou em independencias, nem meias
independencias. As cidades com os nomes romanos ferviam por ahi, as
estradas militares cortavam o paiz, e uma pessoa podia ir de Lisboa at
Roma sem perguntar a ninguem. Hoje diz-se: quem tem bca vae a Roma.
Pois n'aquelle tempo, e com as estradas militares, bastava ter ps e
olhos, a-se l direito como um fuso.

--Havia caminho de ferro? perguntou o Z Caneira embasbacado.

--Qual caminho de ferro, bruto! Teu av ainda nem sabia que vinha isso a
ser, e j tu querias que o teu trigesimo ou quadragesimo av andasse de
wagon! No senhor, eram estradas ordinarias, mas feitas com todo o
cuidado e limpeza, e que, partindo de Roma, am ter aos pontos mais
distantes do imperio! L que os taes romanos eram um grande povo,
isso eram!

--Pois sim! mas regalaram-se de levar tapona c na nossa terra,
interrompeu o Bartholomeu.

--Quem vae  guerra d e leva, respondeu o Joo da Agualva, e a final
quem vence  quem mais sabe. Se os romanos venceram, no foi nem porque
tinham mais fora, nem porque eram mais valentes, foi porque sabiam
mais. Tu vers ao depois. Olha que isto c no mundo no se leva a poder
de bordoada. Queres um exemplo? Ora ahi tens tu o mundo todo romano. O
imperador est em Roma, e tudo governa. N'isto sem da Juda uns homens
de bordo na mo, e de ps descalos, que comeam a prgar por esse
mundo, a dizer que Deus veiu  terra, que foi crucificado, que disse que
todos os homens eram iguaes, senhores e escravos e grandes e pequenos,
que a gente deve amar no s os seus amigos, mas tambem os seus
inimigos, que ha mais alegria no cu pela volta de um peccador, que se
arrepende, do que pela entrada de noventa e nove justos, e outras cousas
assim que embasbacavam todos, e vae os imperadores romanos comearam a
scismar que esta gente, que lhes fazia mal, que desorganisava tudo, e
botam a chacinar n'esses sujeitos que se diziam christos, e a
queimal-os, e a deital-os s feras, e a martyrisal-os, e quanto mais os
desbastavam mais elles cresciam, e tanto e tanto que lhes no digo
nada. s duas por tres o mundo romano tinha sido conquistado, sem pau
nem pedra, por esses soldados de Christo. Ora aqui tens tu como quem
vence nem sempre  a fora bruta.

--Essa agora  mais fina! accudiu o Manuel da Idanha. Esses, se
venceram,  porque eram os santos apostolos, e porque prgavam a palavra
de Deus.

--Pois assim , Manuel, dizes tu muito bem, mas  que isto que se chama
civilisao no  tambem seno a palavra de Deus. A civilisao  o que
concorre para nos fazer melhores, mais dignos de ser homens. Umas vezes
prgam-n'a os santos, outras vezes so os sabios, e s vezes tambem so
os soldados, porque Deus de todos os meios se serve para chegar aos seus
fins. E  assim que o instrumento d'isto a que eu chamo civilisao umas
vezes  o livro, outras vezes a cruz, e outras vezes a espada.

Os bons dos saloios ouviam boqui-abertos estas cousas todas, que s o
Manuel da Idanha parecia perceber um bocadinho, por isso o Joo da
Agualva, que no queria perder a atteno do auditorio, apressou-se a
continuar:

--Isto quer dizer, meus amigos, que foi por este tempo que principiou a
prgar-se no mundo a nossa santa religio, e foi c a nossa terra uma
das primeiras que se converteram. Dizem at que veiu aqui o proprio
apostolo S. Thiago, mas isso estou que so lrias; o que  certo, porm,
 que ainda quasi no havia bispos por esse mundo de Christo, e j Braga
era bispado, tanto assim que se chama ao arcebispo de Braga arcebispo
primaz das Hespanhas, porque foi o primeiro que na Hespanha houve.

Mas, entretanto, meus amigos, grandes cousas se passavam pelo mundo.
Fra dos limites do imperio, do lado de l do Rheno, do lado de l do
Danubio, havia povos que Roma no conseguira conquistar: gente selvagem
como os luzitanos do tempo do Viriato; valentes como elles, e ao mesmo
tempo gente inquieta que no parava n'um sitio e que no podia viver
quasi seno de caa e de rapina. Tinham os romanos um trabalho em os
conter, mas, quando o imperio comeou a fraquear, porque aquillo estava
j sendo uma choldra, quando as legies, que  como quem hoje diria as
divises e as brigadas, comearam cada uma a apregoar um imperador pela
sua banda, desabam todos aquelles meus amigos sobre o imperio, e foi
como quem diz uma verdadeira inundao. Ahi pelos annos quatrocentos e
tantos caram em cima de Hespanha, vindos das bandas dos Pyrenus, nada
menos de tres povos, os Alanos, os Suevos e os Vandalos. Ns, s  nossa
parte, tivemos dois que tomaram conta de tudo isto, que foram os
suevos e os alanos. Mas aquillo! as florestas de alem do Danubio e do
Rheno parece que se no fartavam de despejar povos que se empurravam uns
aos outros. Atraz d'estes tres povos vieram os visigodos que expulsaram
os outros e ficaram senhores da Hespanha toda. Mas agora ahi tem vocs
como nem sempre quem vence  quem conquista. Julgam por acaso que se
fallou na Hespanha o visigodo, e que as leis visigothicas  que
governaram, e que a religio dos visigodos  que triumphou? Qual
carapua! os vencidos  que conquistaram os vencedores e deram-lhes a
sua lingua, as suas leis e a sua religio. Porque? porque os mais
civilisados eram os vencidos, e quem mais sabe  quem triumpha.

--Mas ento, a final de contas, perguntou o Manuel da Idanha, sempre
isto ficou sendo romano?

--No, rapaz, no  assim. Ora dize-me uma cousa, quando tu deitas sal e
carne para dentro de uma pouca de agua, o que  que fica?  agua, 
carne ou  sal?

--Essa agora  mais fina, no fica nem uma coisa nem outra, o que fica 
caldo.

--Ora pois ahi tens tu: a agua eram os lusitanos, os romanos foram o
sal, e os visigodos a carne, e de tudo isso sau uma cousa nova, um povo
novo, este caldo que depois veio a chamar-se portuguez, que  no fundo
lusitano, como o caldo  agua, e a que Roma deu o sal que foi a
ida, e os visigodos a carne que foi a fora.

Acharam graa  comparao os bons dos saloios e o Joo da Agualva
proseguiu d'esta maneira:

--Mas as cousas no ficaram por aqui, porque no anno de 756 appareceu de
repente em Hespanha gente nova. Eram os mouros. Esses, em vez de vir do
norte, vinham do sul. Seguiam uma religio nova, a de Mafoma. No eram
uns selvagens, como tinham sido os visigodos. Traziam uma civilisao, e
das mais apuradas. Por isso a lucta que se travou foi medonha:
civilisao contra civilisao, Jesus contra Mafoma. Primeiro venceram
os mouros. Na batalha do Guadalete foram os visigodos vencidos, e morto
o seu rei Rodrigo. Em pouco tempo tinham os mouros tomado toda a
Hespanha. A nossa terra l foi tambem para elles. S nos montes das
Asturias, que so levados de quantos diabos ha, um punhado de visigodos
continuou a resistir, commandados por um tal Pelayo, que foi o primeiro
rei das Asturias. Metteram-se os mouros com elle, levaram para o seu
tabaco. Deixaram-n'o l estar no seu reino, que era como quem diz um
ninho de aguia, encarapitado no cucuruto das montanhas, e c'o a breca,
parece-me que uma aguia c'o as azas estendidas fazia-lhe sombra a elle
todo. A pouco e pouco foi augmentando. Agora tomava-se uma cidade,
logo outra; a gro e gro, diz o proverbio, enche a gallinha o papo.
D'ahi a duzentos annos j os visigodos tinham tirado aos mouros terras
bastantes para formar no s um reino, mas uns poucos. A moda que havia
de se dividir o reino pelos filhos de um rei que a para o outro mundo,
dava este resultado. Deixemos, porm, isso, e vamos a saber o que era
feito de ns.

--Isso  que , acudiu o Bartholomeu, os hespanhoes que tratem de si.

--Pois ns faziamos parte do reino que se chamou reino de Leo; quando
digo ns, quero dizer de Coimbra para cima, porque, entre Coimbra e
Lisboa, umas vezes era-se mouro e outras vezes christo, mas de Lisboa
para baixo no havia duvida nenhuma, era tudo moirama.

--Mas ento, vamos a saber, isto era j Portugal ou no era Portugal?
perguntou o Z Caneira.

--Ora com que tu vens! Sabes o que era Portugal? Era, para assim dizer,
o Minho. Havia Portugal e havia o condado de Coimbra. Portugal
chamava-se assim porque na foz do Douro havia uma terra que se chamava
_Cale_, que depois se mudou em Gaya, e vae defronte mesmo  beira do
rio, comeou a levantar-se outra terra que se chamou _Portus Cale_ ou
_Porto de Cale_. Esta terra  o que se chama hoje simplesmente _Porto_,
e o nome de _Porto de Cale_, que se foi mudando em Portugal, dava-se
a tudo o que ficava para o norte do Douro. E aqui est, meus amigos,
como Portugal deve o seu nome ao Porto, exactamente como depois lhe veio
a dever a liberdade.

--E ento Coimbra j no era Portugal?

--No, rapaz. Coimbra era outro condado, tambem christo, mas que tinha
existencia sobre si. Ora o que lhes digo, meus amigos,  que a corneta
do destacamento que chegou hoje est j a tocar a recolher, que so
horas de se ir chegando cada um para suas casas, e que no proximo
domingo continuaremos a nossa historia.




TERCEIRO SERO

D. Affonso VI de Leo.--O conde D. Henrique.--D. Thereza.--O conde de
Trava.--Batalha de S. Mamede.--Egas Moniz.--Fundao da monarchia.--D.
Affonso Henriques.--Os cruzados.--D. Sancho I.--D. Affonso II.--D.
Sancho II.--D. Affonso III.


--Viram vocs, meus amigos, tornou o Joo de Agualva, no domingo
immediato, que o Portugal de agora, ahi pelo anno mil, pouco mais ou
menos estava, do Mondego para baixo, quasi todo em poder dos mouros, e
do Mondego para cima distribuido em dois condados, um que se chamava de
Portugal, que era como quem diz do Porto, e o outro que se chamava de
Coimbra, e ambos estes condados faziam parte do reino de Leo, onde
governava um rei de cabellinho na venta, chamado o sr. D. Affonso VI.
Ora, como D. Affonso VI tinha sempre guerra com os mouros, e como n'esse
tempo o grande pratinho para um principe ou para um fidalgo, era jogar
as cristas com elles, tanto que os am buscar a casa de seiscentos
diabos, s para lhes dar tapona, aconteceu que dois francezes, chamados
um Henrique e outro Raymundo, ambos primos, e ambos da casa de Borgonha,
em vez de ir  Palestina, vieram aqui a Hespanha, que lhes ficava mais
ao p da porta, pedir para dar tambem as suas garfadas nos de Mafoma.
No havia duvida, a mesa estava sempre posta e podiam servir-se 
vontade. Deram bordoada de crear bicho, e o D. Affonso VI, que viu que
eram uns valentes, e que lhe podiam prestar para muito, casou-os com
duas filhas que tinha, uma legitima filha do matrimonio, e outra cousas
e tal etc. A primeira chamava-se Urraca e foi para o Raymundo, a segunda
chamava-se Tareja ou Thereza, e dizem at que era uma rapariga de truz,
para o Henrique. Ora ao primeiro, como era casado com a legitima, deu
elle o governo de toda a parte do reino, que ficava  borda do mar,
desde os altos da Galliza at s proximidades do Tejo, e a D. Henrique
deu especialmente os condados de Portugal e de Coimbra, ficando sempre
sujeito ao primo. Ha quem diga que Portugal veiu como dote de D. Tareja!
T carocho! N'esse tempo nem os paes davam dotes s filhas, os que
queriam casar com ellas  que ainda davam alguma cousa.

--E acho isso muito bem entendido! exclamou vivamente o Z Caneira, que
tinha uma filha casadoira.

--Pois sim! redarguiu sorrindo o Joo da Agualva. O que  certo  que a
moda no pegou. D. Henrique, porm, ficou sendo vassallo de Affonso VI,
e empenhou-se em alargar os seus dominios, dando pancadaria nos mouros.
Muito cedo deixou de ser sujeito a seu primo, e teve a sua capital em
Guimares, que por isso se chama o _bero da monarchia_. Mas este D.
Henrique parece que tinha bicho carpinteiro, foi  Palestina, como se
no tivesse por c mouros com fartura, e, quando o sogro morreu deixando
o throno  cunhada D. Urraca, que j ento era viuva, o bom do conde
metteu-se em todos os barulhos que l am por Hespanha, para ver se
apanhava mais alguma cousa para si. Qual carapua! no apanhou nada, e
a perdendo muito, porque os mouros, que se viram  larga, comearam a
fazer-se finos, e j subiam por ahi acima, como quem estava com desejo
de se espreguiar o seu pedao nos montes verdes de Coimbra.

No meio d'esta azafama toda, morreu em 1114 o honrado conde deixando uma
viuva muito frescalhota ainda, e um filho pequeno que teria os seus tres
annos, e se chamava Affonso Henriques, que  o mesmo que se dissesse
Affonso filho de Henrique, assim como Sanches queria dizer filho de
Sancho, Fernandes filho de Fernando, e Martins filho de Martim.

--Ora essa! exclamou um que at ahi estivera silencioso, aqui estou eu
que me chamo Antonio Martins, e mais meu pae chamava-se Jos.

--Pois isto que eu digo, tornou Joo, era n'aquelle tempo, depois os
nomes ficaram, mas j sem se lhes saber a significao, como acontece a
muitas outras cousas.

A me de D. Affonso Henriques, que era uma mulher bonita e
desembaraada, continuou a andar por cercos e batalhas, sempre a ver se
isto c em Portugal ficava independente, e, emquanto ella assim
procedeu, correu tudo bem; mas isto de mulheres sempre so mulheres--no
se zangue, tia Margarida--e D. Thereza l teve o seu fatacaz por um
conde gallego, Ferno Peres de Trava, que d'ahi a pouco era quem punha e
dispunha em Portugal. No agradava isso muito aos nossos fidalgos, e
menos ao rapazelho, que era levadinho da brca, esperto como um alho,
valente como seu pae, e que fra de mais a mais educado por um fidalgo
s direitas, um tal Egas Moniz, portuguez dos quatro costados. J se v
que o aio no lhe ensinou a revoltar-se contra sua me, e at devo dizer
que so verdadeiras patranhas muitas das cousas que a esse respeito se
contam. Por exemplo, diz-se que o rapazote andava s bulhas com a me, e
que o rei de Leo, D. Affonso VII, viera em soccorro da tia contra o
primo. Peta! D. Affonso VII veiu a Portugal,  verdade, mas foi para
obrigar a infanta-rainha (assim lhe chamavam) e o filho e os fidalgos e
todo o povo a reconhecer a sua suzerania. Apanhou o rapaz em Guimares,
cercou-o, e pl-o deveras em talas. Egas Moniz foi ter com elle, e
disse-lhe que se fosse embora e que lhe empenhava a sua palavra que a
sua suzerania seria reconhecida. Affonso VII assim o fez, e partiu d'ali
contra D. Thereza, que essa reconheceu-o immediatamente por seu senhor e
suzerano. Mas D. Affonso Henriques, livre do primo, pediu  me que
fizesse favor de lhe dar o governo a elle, que sempre era mais portuguez
que o conde de Trava. Este disse  rainha que no tivesse cuidado, que
elle iria dar uma duzia de palmatoadas no pequeno. Foram boas as
palmatoadas! Em S. Mamede, ao p de Guimares, e no anno de 1128, o
conde gallego levou uma esfrega, e teve de se pr a andar, levando
comsigo D. Thereza. De frma que nem D. Affonso Henriques prendeu a me,
nem fez cousa que se parecesse com isso. Quiz apenas governar, porque
tinha o direito de o fazer, e porque os bares portuguezes estavam
fartos de aturar o gallego. E a vassallagem que promettera a D. Affonso
VII? Boa vae ella! Mesmo agora D. Affonso Henriques pozera fra o
gallego para se sujeitar ao de Leo! Nem se pensou em tal. Mas Egas
Moniz tinha dado a sua palavra, e no queria que um patife de um
estrangeiro dissesse que havia portuguezes desleaes. No contou nada
ao seu querido discipulo, e foi at dos primeiros a aconselhar que se
mantivesse a independencia, mas agarrou em si, na mulher e nos filhos, e
foram todos de corda ao pescoo ter com o rei de Leo, e dizer-lhe:
Para resgatar a minha palavra, s tenho a minha cabea e a dos meus!
Ellas aqui esto! O rei ficou assombrado d'este acto de lealdade e
mandou-os embora com palavras de muito louvor.

--Homem! isso agora parece-me asneira! acudiu o Z. Que diabo de culpa
tinha elle que esse D. Affonso Henriques no fizesse o que promettera?

--Nenhuma, bem sei! mas elle  que ficra por fiador. Outro seria que
dissesse: Eu quiz, mas no pude. Elle foi mais franco e disse: No pude
e no quiz. O interesse da nao oppunha-se a isso, mas a minha vida ha
de resgatar a minha palavra, e no se fundar n'uma deslealdade a nova
monarchia.

--Aquillo  que eram homens! murmurou o Manuel da Idanha.

--Espera que tu vaes ver o que era um homem. Este Affonso Henriques
digo-te que foi mesmo fadado para fundador de reino. No parava um
instante. No principio do governo, andou sempre  bulha com o primo, e
com os gallegos, e tudo era ver se passava o Minho; mas um bello dia
olhou para o sul, e percebeu que para ali  que havia muito que fazer.
Os mouros comeavam a dar signal de si, e a romper de novo por ali
acima. Em 1139, Affonso Henriques vae s n'uma galopada at ao Alemtejo,
derrota os mouros em Ourique, e volta para casa. A respeito de Ourique
tem havido mosquitos por cordas. Diz-se que appareceu Nosso Senhor a D.
Affonso, que este foi ali acclamado rei pelos soldados, que aquillo foi
uma batalha formidavel, etc. Eu c no me metto n'essas cousas. Que
Nosso Senhor Jesus Christo apparecesse crucificado a D. Affonso
Henriques,  muito possivel, Deus pde fazer estes milagres, sempre que
lhe aprouver, e milagre de Deus foi a nossa historia toda. Sem a ajuda
de Nosso Senhor mal podia este pequeno povo fazer o que fez. Que a
batalha fosse muito importante, no me parece, pelo menos no teve
consequencias; ficou tudo como d'antes, e o que se no pde dizer  que
o quartel general fosse em Abrantes, porque a Abrantes ainda ns no
tinhamos chegado; que os soldados se lembrassem de acclamar D. Affonso
Henriques rei n'essa occasio tambem me parece historia. Sou capaz de
apostar que rei j lhe chamavam ha muito tempo, como chamavam rainha 
me; de mais a mais, esse titulo de rei, que affirmava mais a nossa
independencia, onde se deveria dar era n'uma batalha contra os leonezes,
mas n'uma batalha contra os mouros, que tanto se importavam que Portugal
fosse independente, como que fosse vassallo de Leo, a quem tanto
convinha que Affonso Henriques fosse rei como que fosse conde, no
se percebe. Diz-se tambem que foi nas crtes de Lamego que o titulo se
confirmou. Ora adeus! Crtes com clero, nobreza e povo ainda c se no
faziam. E de mais, quem diz isso parece que imagina que n'aquelle tempo
se passavam as cousas como agora, e que isto de fazer rei um conde
soberano era negocio que se no podia praticar sem grandes ceremonias e
ajuntamentos. Boas noites, meus amigos. Oiam vocs o que succedia!
Morria o rei de Leo, por exemplo, e dividia os estados pelos filhos, e
aqui ficava sendo um rei da Galliza, o outro rei de Leo e o outro de
Castella. E depois juntavam-se os estados, e j no havia reinos nem em
Galliza, nem em Castella, depois tornavam-se a separar, e assim andavam,
sem maior massada. D. Affonso Henriques fizera-se independente, era o
essencial, depois comearam a chamal-o rei, e rei se ficou chamando. O
que elle fez, como era espertalho, para garantir a conservao do
reino, foi declarar-se vassallo do papa, e mandar-lhe pagar um pequeno
tributo, para que o pontifice lhe valesse. A manha no era m; n'aquelle
tempo quem tinha por si a crte de Roma tinha tudo.

Mas o caso no era chamar-se uma pessoa rei, era ter um reino que
merecesse o nome, e esse Portugalsito, que vinha apenas do Minho at ao
Mondego, para fallar a verdade, no parecia l um grande reino. E
vae D. Affonso Henriques disse ento com os seus botes: Toca a
alargal-o! Ora o que faz um de vocs quando se v com uma terrola para
seu grangeio? Cospe nas mos, agarra na enchada, comea a fossar o cho,
e ali est desde pela manh at  noite. D. Affonso Henriques fez o
mesmo, cuspio nas manoplas, arrancou do montante, e elle ahi vae para a
faina em que andou desde pela manh at  noite, quer dizer, desde que
lhe apontou o buo at que a morte pregou com elle na sepultura. O
montante era a sua enchada, rapazes, e, a cada enchadada, saa do cho
sarraceno agora Santarem, depois Lisboa. Ah! meus amigos, que vida!
Aquillo era um lidar continuado! Elle casou com uma princeza de Saboya,
a sr. D. Mafalda, mas estou em dizer que no foram muitas as noites em
que dormio muito bem aconchegado com ella nos seus paos de Coimbra.
Alta noite l a elle tomar Santarem, de surpreza, e outra vez
constava-lhe que a uma gente do norte fazer guerra aos mouros na
Palestina, para defender contra elles o sepulchro de Christo, e vae D.
Affonso Henriques a logo  beira-mar ter com os homens, e pedir-lhes
que descanassem aqui um pedao, e que o ajudassem ao mesmo tempo na sua
tarefa de todos os dias. Elles no se fizeram rogar, desembarcaram, e
d'ahi a pouco estava Lisboa no poder dos nossos. Muitos d'elles por c
ficaram, porque D. Affonso Henriques deu-lhes terras, e at ha por
ahi povoaes que ainda se chamam com os nomes d'elles, por exemplo
Villa Franca, que  como quem diz villa dos Francos, etc.

--Ento os de Villa Franca so estrangeiros? perguntou o Manuel da Idanha.

--Qual carapua, homem! Tu no te lembras da minha comparao do caldo?
No  sal, nem agua, nem carne; mas tem carne, agua e sal. A carne eram
os godos, a agua os luzitanos e os romanos o sal; pois tambem no caldo
se deita s vezes o seu raminho de hortel ou de segurelha, que sempre
lhe d assim um sabor mais cousas, tal, etc., pois esses raminhos de
segurelha e de hortel foram os estrangeiros, que aqui vieram a Portugal
e por c se deixaram ficar. Vieram tambem contribuir para fazer o nosso
bom caldo portuguez.

-- bem achado, sim senhor, observou a tia Margarida.

--Pois assim mesmo  que . Ora j vocs vem que o pobre do D. Affonso
no podia estar muito tempo socegado. Hoje tomava Cintra, amanh Mafra,
no outro dia Palmella, no outro Abrantes! Era um vivodemonio. Os mouros
com elle andavam n'um sarilho. Por isso tambem tinham-lhe tomado um
medo! Fallarem-lhes no Ibn-Errik, assim lhe chamavam elles na sua
lingua, como quem diz _filho de Henrique_, fallarem-lhes em Ibn-Errik,
era o mesmo que fallarem-lhes no diabo. E que gente que elle tinha!
homens como um Gonalo Mendes da Maia, o Lidador, que morreu combatendo,
e mais andava j pelos noventa annos, e um que tomou Evora, Giraldo sem
Pavor, e outro que tomou Beja, cada qual por sua conta e risco. Gente
levadinha da brca, isso  que  fallar a verdade.

Mas, emfim, meus amigos, ainda que se diz pedra movedia no cria
bolor, sempre d o caruncho n'uma pessoa, por mais que ella se mexa e
trabalhe. D. Affonso envelheceu, mas antes d'isso j deitra um filho
que era o seu retrato, valente como elle, e homem de grande talento, D.
Sancho, que foi depois rei. Podia morrer descanado D. Affonso
Henriques, deixava a sua espada em boas mos e a sua cora em boa
cabea. E com essa consolao morreu em 1185 el-rei D. Affonso
Henriques, depois de ter no s tornado o reino independente, mas de o
ter alargado at ao meio do Alemtejo, e principalmente de ter tomado
Lisboa que era, como diz o outro, a menina dos olhos dos arabes, a
cidade sem a qual no se podia fazer c para estas bandas cousa que
geito tivesse. Ah! meus amigos, se algum de vocs fr alguma vez a
Coimbra, e entrar na igreja de Santa Cruz, suba at  capella mr, e
olhe para os dois tumulos que ali se vem, pergunte qual  o de D.
Affonso Henriques, e depois ajoelhe diante d'elles, porque, com
seiscentos diabos, se ns hoje no somos para ahi uns gallegos e uns
andaluzes, se dmos que fallar no mundo, e praticmos cousas que fazem
com que uma pessoa tenha orgulho de se chamar portuguez, oh! com a
brca,  a elle que o devemos, porque, como l diz o outro, de pequenino
se torce o pepino, e este reino de Portugal era bem pequerrucho ainda,
quando esse homem de ferro levou a sua vida inteira a costumal-o a fazer
cousas grandes.

E o bom do Joo da Agualva limpou o suor, que lhe escorria pela testa
com o enthusiasmo que o inflammava. Os seus companheiros escutavam-n'o
silenciosos, e j no faziam interrupes nem observaes. Estavam
deveras interessados com a narrativa.

--Meus amigos, continuou o Joo da Agualva, no governo como na lavoura
ha tempo para tudo, agora cava-se e depois semea-se. Primeiro compra-se
a terra e depois  que se amanha. Pois assim foi em Portugal; D. Affonso
Henriques ou D. Affonso I conquistra, D. Sancho tratou de povoar. Por
isso a historia chamou _conquistador_ ao primeiro e _povoador_ ao
segundo; e olhem que isso no quer dizer que D. Sancho no fosse tambem
um guerreiro de truz. T carocho! J na vida do pae elle dera que
fallar. Apenas o pae morreu, comeou elle a namorar uma terra do
Algarve, que hoje est bem decada, mas que n'esse tempo era, por assim
dizer, a Lisboa l do sul--Silves. No se lhe mettia dente, porm,
com facilidade. Para ir l por terra, era custoso como o demonio, para
ir por mar,  de saber, meus rapazes, que o sr. D. Sancho I ainda no se
lembrra de comprar nem a fragata _D. Fernando_, nem esse navio com que
andam por ahi sempre os jornaes aos tombos, e a que uns chamam o
_Pimpo_ e os outros o _Vasco da Gama_.

Uma gargalhada geral mostrou que os bons dos ouvintes tinham apanhado
facilmente o chiste do jovial anachronismo do narrador.

--Mas, meus amigos, isto de Portugal ficar no caminho da Palestina para
os christos que vinham l das terras do norte, foi uma verdadeira
pechincha. Descanavam aqui e sempre havia por c algum biquinho de
obra. Foi o que succedeu tambem d'esta vez. D. Sancho apanhou uma frota
de cruzados...

--Novos? perguntou o Z.

--Novos eram elles, que no costumavam vir para a guerra os carecas como
tu; mas  de saber que se chamavam cruzados aos christos que tinham ido
tirar o sepulchro de Christo das mos dos infieis, e que depois o
defendiam. D. Sancho apanhou pois uma frota de cruzados, e disse-lhes
d'esta maneira:

--Vocemecs  que me podiam fazer um favor.

--Se estiver na nossa mo!...

--L isso est.  simplesmente acompanhar-me ali a baixo a Silves,
e ajudar-me a intimar mandado de despejo aos mouros que l esto dentro.
Eu fico com a cidade, e os senhores levam as riquezas que se apanharem.

--V de feio.

E foi. Tomou-se Silves, tanto mais que lhes ficava na estrada, e no
tinham de torcer caminho. Mas D. Sancho no poude continuar com essas
funanatas, porque os mouros c da peninsula, que comeavam a estar
assim esmorecidos, receberam de repente uns reforos da Moirama, e...
no lhes digo nada, vieram outra vez por ahi acima que parecia que
tornava a haver invaso. Foi uma torrente que levou tudo adiante de si.
O Tejo tornou a ser a fronteira de Portugal, e apenas no Alemtejo uma
terra ou outra surgia ainda, como uma ilha, com a bandeira portugueza,
d'entre as ondas da mourisma. Ento D. Sancho pensou que primeiro que
tudo era necessario tratar do que era seu, e comeou n'uma lida
abenoada: elle mandou vir gente do norte da Europa para povoar os
nossos campos desertos, elle edificou, elle fez castellos, elle cuidou
emfim de tudo, e no se esqueceu tambem de mostrar aos bispos que tinha
muita contemplao por elles, emquanto se limitavam s suas rezas, mas
que lhes no permittia metter o nariz assim de muito perto nos negocios
do estado. A final, este bom rei morreu, menos velho que o pae, em 1212.
Tinha sido casado com uma princeza chamada D. Dulce, filha do conde
de Barcelona. De frma que aqui temos pois j duas rainhas de Portugal,
D. Mafalda e D. Dulce.

O filho mais velho de D. Sancho, que veiu a ser rei depois d'elle, no
se parecia muito, valha a verdade, nem com o pae, nem com o av, mas
olhem que nem por isso foi menos util c ao nosso paiz.  o que eu digo.
Cada qual tem a sua tarefa. Uns cavam, outros semeam, outros pem fra
os pardaes e arrancam o joio, que podem dar cabo da ceara. Foi esta a
tarefa de D. Affonso II. Ora vem perfeitamente que, se este Portugal
to pequeno se comeasse a dividir, pedao para aqui, pedao para acol,
a-se tudo quanto Martha fiou. D. Sancho, que tivera uma sucia de
filhos, pensra mais em os deixar bem arranjados do que em assegurar a
conservao do reino. Por isso no testamento era umas mos rotas. Esta e
aquella villa para o senhor infante fulano, esta e aquella cidade para
sicrano, e terras para este, e terras para aquelle. D. Affonso II
arrebitou a venta, e disse d'este modo: Ento vamos a saber, e eu com
que fico? E ahi comea  bulha com as irms e com os fidalgos. Andava
tudo em polvorosa com elle. Os fidalgos, por exemplo, tinham recebido de
D. Affonso e de D. Sancho esta ou aquella terra, mas am-se fazendo
finos, e por sua conta e risco am apanhando mais alguma, os frades
ento nunca chegaram  cabeceira de um moribundo que no apanhassem
algumas terras de bom rendimento. Isto assim no pde ser, berrava D.
Affonso II, s duas por tres fico a olhar ao signal. E elle ahi vae por
essas provincias fra, a obrigar os fidalgos a pr para ali os titulos
das suas propriedades, declarando que no valiam seno os que elle
confirmasse, e foi a isso que se chamou _confirmao_. Ao mesmo tempo
prohibia s corporaes religiosas que tivessem mais terras do que as
que tinham. Emquanto ao testamento de D. Sancho I, cumpriu s o que lhe
parecia bom, e, como as irms refilassem, houve pancadaria a menos de real.

--Ento, por esse andar, os mouros deviam ter vida folgada com elle?
observou o Francisco Artilheiro.

--L isso  verdade, e tanto assim que, quando se tomou Alcacer do Sal,
os cruzados, que nos ajudaram, e que nunca pozeram a vista em cima do
soberano, imaginaram que era uma rainha que governava em Portugal; mas,
meus amigos, olhem que o nosso paiz no lhe deve menos por isso. Se as
infantas comeam a puxar para um lado, os fidalgos a puxar para o outro,
e ainda os frades a arrancar tambem as terras, n'um abrir e fechar
d'olhos tinhamos para ahi vinte reinos, e adeus Portugal. Mas o
gordanchudo do Affonso II, apesar de se no importar para nada com
os mouros, tinha cabellinho na venta; e por isso os frades foram
prohibidos de ter mais terras, as infantas tiveram de pr para ali as
cidades que o pae lhes tinha deixado, porque D. Affonso II disse-lhes
que a respeito de cora em Portugal no havia seno uma, e finalmente os
fidalgos tiveram de receber d'elle as terras mas por favor e merc real.
De frma que, a 25 de maro de 1223, quando morreu apenas com trinta e
seis annos de idade, Portugal era pequeno, mas estava todo na mo do
rei, o que j era grande faanha.

--E o filho foi pelo mesmo caminho, sr. Joo? perguntou o Manuel da Idanha.

--Ora, meu amigo, eu te vou dizer o que succedeu ao filho, e por aqui tu
vers se o que eu acabo de dizer no  verdade, e se no ha na historia
exemplos para tudo. O filho era creana, quando subiu ao throno, por
conseguinte foi necessario haver regencia. Chamava-se Sancho o
pequenote, Sancho II, por alcunha o _Capello_, porque em creana andara
com um capuz de frade, l por promessa da me, ou cousa assim. Quem
ficou com o governo foram os ministros do pae, e, ainda que eram homens
de truz, sempre lhes faltava a auctoridade que tinha um rei. De frma
que toda aquella nobreza e fradaria, quando se viu assim  solta, livre
da mo de ferro de D. Affonso II, comeou a alvorotar-se, e os
ministros, para os terem quietos, am dando o que elles pediam. As
infantas apanharam as cidades, os frades foram juntando terras s que j
tinham, e parece que o rei andava umas vezes nas mos de uns, outras
vezes nas mos de outros. Pouco se sabe d'aquelle tempo. Ia pelo reino
todo uma confuso de seiscentos demonios. O que  certo  que, quando D.
Sancho II chegou  maioridade, estava j to costumado a no ser rei que
no soube puxar pelos seus direitos. E no era que elle fosse fraco.
Pois no! pelo contrario! Era da raa do av, no estava bem seno a
cavallo e com os mouros de volta. Tomou uma boa parte do Alemtejo e do
Algarve, mas fidalgos e frades esses faziam o que queriam e sobrava-lhes
tempo. Vem vocs? Para uma pessoa governar no basta ser um valento.
s vezes um porta-machado, com umas barbaas por ahi alem, anda em
bolandas nas mos de um creanola, outras vezes uma fraca figura faz
andar um regimento ali direitinho que nem um fuso. D. Affonso no queria
nada com os mouros, o que o no impedia de governar como um homem; para
D. Sancho as batalhas eram o po nosso de cada dia, e em Portugal todos
governavam menos elle. Cousas da vida! Como os fidalgos faziam o que
lhes dava na cabea, e os frades tambem, e os bispos a mesma cousa,
parecia que deviam estar todos muito satisfeitos. Mas no succedia
assim. Os bispos queixavam-se dos fidalgos, estes queixavam-se dos
frades, e todos do rei, os frades porque no reprimia os bispos, os
bispos porque no tinha mo nos fidalgos, os fidalgos porque no puxava
as orelhas ao clero. Quando elle saltava nos mouros, ainda as cousas no
corriam mal. A fidalguia gostava d'aquillo, am todos atrs do rei, e
no se pensava em mais nada. Mas, quando uma hespanholita, chamada D.
Mecia Lopes de Haro, caiu em graa ao rei, que casou com ella, e que
passou os dias a namorar os olhos pretos da rainha, l se foi tudo
quanto Martha fiou. A desordem excedeu todos os limites, e os bispos
foram ter com o papa a fim de lhe pedirem que tirasse a cora a D.
Sancho II. O papa, que era Innocencio IV, pulou de contente com o
pedido. Era o mesmo que virem-lhe dizer que era elle quem dava e tirava
as coras n'este mundo, e que vinha a ser portanto o rei dos reis.
Estava em Frana n'esse tempo um irmo de D. Sancho II, chamado D.
Affonso, que sara de Portugal para ir correr terras, encontrra em
Frana uma condessa de Bolonha, viuva, e j durazia, ao que parece, que
gostou d'elle e com elle casou, levando-lhe o condado em dote. Ora o tal
condado era uma especie de reino, sujeito ao rei de Frana, que n'esse
tempo era o rei santo que elles tiveram, a saber S. Luiz.

--S. Luiz rei de Frana, interrompeu a Margarida,  uma igreja que
fica ali para as bandas do Rocio.

--Pois  uma igreja e foi um rei, tia Margarida, respondeu o Joo de
Agualva, como Santa Izabel  uma igreja que fica ali para as bandas da
Estrella, o que a no impediu de ser tambem uma rainha e rainha de
Portugal.

--Isso  verdade! confirmou a tia Margarida.

--Pois ento, como lhes a dizendo, reinava S. Luiz em Frana, e D.
Affonso, seu vassallo, por ser conde de Bolonha, fra com elle  guerra,
e dra provas de ser homem desembaraado. Lembraram-se d'elle para rei,
e D. Affonso, que era ambicioso, acceitou. Os bispos e os fidalgos
disseram comsigo que um rei feito por elles havia de ser um creado que
tivessem ali no throno, e o papa entendeu tambem que aquillo era senhor
mandar, preto obedecer. Combinou-se tudo. D. Affonso prometteu quanto
quizeram e ahi vae elle caminho de Portugal, fingindo que a para a
Terra Santa. Desembarca e principia a guerra civil. Tambem se no sabe
muito do modo como as cousas se passaram. Parece que foi uma guerra
levada do diabo como so sempre as guerras civis, queimaram-se villas e
cidades, arrasaram-se muitas cearas, ficou muita gente na miseria, e o
pobre D. Sancho viu-se abandonado por todos, dizem at que pela mulher,
que fra, a final de contas, o motivo de todas aquellas cousas.
Houve s um ou outro que se lhe mostrou fiel. D. Sancho teve de sar do
nosso paiz, e foi para Hespanha, onde morreu em Toledo apenas com trinta
e sete annos.

--Pobre do homem! acudiu compassiva a tia Margarida. Ento que mal tinha
elle feito quella gente toda?

--Era um rei fraco, e, como se costuma dizer, no era nem para si nem
para os outros. At a mulher no fez caso d'elle, porque as mulheres so
assim: em estando uma pessoa embasbacada a olhar para ellas, no fazem
caso nenhum, e s vezes de quem gostam  de quem lhes chega um _calor_
ao corpo, como o outro que diz.

--Vae-te excommungado, bradou indignada a tia Margarida. Se um homem me
batesse, eu at parece que era capaz de lhe arrancar os olhos.

--Pois sim, tia Margarida! no digo menos d'isso. Mas a rainha D. Mecia
no era do mesmo parecer, e pagou bem as pieguices de D. Sancho!... S
de dois fidalgos se conta que se mostraram fieis ao desgraado rei. Um
foi o alcaide de Celorico, que at dizem que fez uma partida com graa.
Estava-o cercando D. Affonso, e elle j no tinha nem uma migalha de
po, n'isto passa uma aguia por cima da praa com uma truta no bico, e
deixa-a cair dentro da villa. O alcaide, em vez de a comer, manda-a
cosinhar muito bem, e envia-a de presente aos cercadores. D.
Affonso, vendo que na praa havia petiscos d'aquelles, entendeu de si,
para si que estava perdendo o tempo e o feitio, e foi-se embora. Pde
ser que isto seja patranha, mas o que  verdadeiro, sem tirar nem pr, 
o caso de Martim de Freitas. Esse era alcaide de Coimbra, foi cercado
tambem, no se rendeu. Disseram-lhe que j D. Sancho morrera, e que por
conseguinte era D. Affonso o seu natural successor. No acreditou.
Affirmaram-lhe que morrera em Toledo. Pediu para ir ver. Deram-lhe um
salvo conducto, e Martim de Freitas, mettendo na algibeira as chaves de
Coimbra, foi de passeio at Toledo. Mostraram-lhe o tumulo do rei,
mandou-o abrir; mostraram-lhe o caixo, quiz ver o corpo; e ao ver emfim
o pobre cadaver do seu rei, que assim morrera aos trinta e sete annos,
longe da sua terra e longe dos seus, ajoelhou e poz as chaves da cidade
nas mos do rei que lh'as entregra; depois, tirou-as d'essas mos j
frias que as no podiam segurar, e partiu para Coimbra, entregando-as ao
novo rei, que louvou muito a aco.

--E tinha raso para isso, tornou a tia Margarida, que estava sendo
agora a interruptora, mas com o tal rei novo  que eu no engrao nada.
Olhem que irmo! Sempre tinha uns figados!

--No era muito boa rez, no, tia Margarida, mas ento n'este mundo no
so s as boas pessoas que servem. Que D. Affonso se importava tanto
com a familia como eu me importo com a familia do imperador da China, 
o que no tem questo, mas que foi um grande rei, isso tambem  verdade.

--Era fresco o tal rei, que assim fazia guerra ao irmo sem mais nem menos!

--Ha mais exemplos d'isso, tia Margarida, e no vo elles to longe que
uma pessoa se no possa lembrar. Mas olhe que no param ahi as maldades
de D. Affonso. Tambem no fez caso da mulher, a tal condessa de Bolonha,
que nunca foi capaz de pr p em Portugal, e casou, em vida d'ella, com
uma filha do rei de Hespanha.

--E ainda voc o gaba, sr. Joo? perguntou a tia Margarida. Sabe o que
eu lhe digo? Parece-me que voc  to bom como elle!

--Olhe, tia Margarida, no me rogue voc nunca outra praga, que l com
essa no me hei de eu dar mal. O que lhe disse  que o sr. D. Affonso
III foi um dos reis que fizeram mais bem ao pobre povo, e sabe vocemec
porque? Porque era homem de cabea, e o que succedera com elle no tinha
cado em cesto roto. Elle disse comsigo; Estes patifes d'estes fidalgos
e d'estes bispos so capazes de me fazer a mim o mesmo que fizeram a meu
irmo. Ora, eu ssinho no posso com elles. A quem me hei de encostar?
Olhou em torno de si e vio o povo, o povo em quem ninguem fallava, e que
era a final de contas quem pagava as custas dos barulhos entre os
grandes, o povo que pagava tributos a toda a gente, e que mesmo quando
vivia em seus concelhos governando-se pelos seus foraes, que eram para
assim dizer as suas leis, mesmo ento era ralado pela fidalguia. E
Affonso III disse comsigo: Ora ahi est quem me serve. E desata a fazer
concelhos, e, quando reuniu crtes que at ahi eram s de fidalgos e
padres, chamou tambem procuradores do povo, e favoreceu o mais que poude
o seu negocio, e deu-lhes socego e cousas e tal, de frma que depois
poude dar para baixo nos prelados, que berravam pelos contractos que
tinha diabo, mas D. Affonso III, que era finorio, abanou-lhes as
orelhas. E que os papas tinham deposto no s o rei D. Sancho II, mas
tambem um imperador da Allemanha, de modo que aos chefes dos estados j
a cheirando a chamusco, e principiaram a fazer parede contra o papa.
Assim os bispos, que levavam tapona de D. Affonso III, am a Roma fazer
queixas ao papa, e o papa naturalmente respondia-lhes contando-lhes uma
fabula que lhes vou contar a vocs tambem.

--Conte l sr. Joo da Agualva, exclamou o Manel da Idanha, ainda que
eu, a dizer a verdade, no sei l muito bem o que venha a ser isso de
_fava_ ou _fabula_ ou o que .

--Fabula  assim uma historia em que os animaes fallam como se fossem
gente, e pelo que elles dizem tira a gente... sim...  como diz o outro
pelos domingos se tiram os dias santos... Eu l, a estas
explicaes, no se pde dizer que seja um barra, mas em fim, em eu
contando o caso, logo vos apercebem.

-- isso mesmo, tio Joo, conte l, disse o Bartholomeu.

--Uma vez as rs foram ter com Deus Nosso Senhor e pediram-lhe um rei, e
Deus Nosso Senhor, que estava de mar, no quiz abusar das pobresinhas,
e atirou-lhes para o charco um cepo; mas o cepo no fazia nada, andava 
tona da agua, para aqui e para acol, as rs no lhe tinham respeito
nenhum, e saltavam n'elle, qual debaixo qual de cima, e o cepo sempre um
paz d'alma, que tanto valia terem rei como no o terem. Vae ento as rs
voltaram a Deus Nosso Senhor, e disseram-lhe d'esta maneira: D-nos
Vossa Divindade um rei que se veja, um rei que nos governe.--Pois ento
ahi vae um rei como vocs querem, respondeu Nosso Senhor, e atirou-lhes
para o charco uma serpente, e a serpente, a primeira cousa que fez, foi
engulir as primeiras vassallas que lhe pareceram mais gordas, e depois
outras e outras, de frma que as pobres rs j se no atreviam nem
sequer a coaxar para que sua magestade no desse com ellas. Percebem
vocs agora porque  que o papa podia contar esta historia aos bispos
que am ter com elle?

--Percebo eu, acudiu logo o Manel da Idanha.  que elles no
descanaram emquanto no pozeram fra um rei que era um paz d'alma, um
cepo, o D. Sancho II, e foram buscar outro rei que era uma serpente e
que deu cabo d'elles que foi um regalo.

--Ora, tal qual, s Manel. Com gente assim  que eu me entendo. D.
Affonso III bem se pde dizer que era uma serpente, porque as serpentes
so manhosas, e elle tinha manha a valer. Mostrou-o em tudo, at no modo
como se assenhoreou do Algarve, que era s o que faltava para Portugal
chegar ao mar pelo lado do sul. Tomou-o aos mouros, e isso foi obra de
pouco tempo; mas o rei de Castella comeou a berrar que o Algarve lhe
devia pertencer a elle. D. Affonso III nunca lhe disse o contrario, mas
foi arrastando a entrega, e depois aproveitando tudo, de frma que s
duas por tres estava senhor do Algarve, e, quando D. Affonso III morreu,
que foi a 16 de fevereiro de 1279, estava Portugal completo e seguro, e,
visto que chegmos ao fim d'esta primeira parte, parece-me que o melhor
 irmos dormir, que para o outro domingo continuaremos.

--Mas  s Joo, disse o Manel da Idanha, j agora, faa favor, no
deixe ir a gente embora, sem nos explicar uma cousa. Vocemec diz que o
rei, para esmurrar as ventas aos bispos mais aos fidalgos, comeou a
fazer concelhos por d c aquella palha, e l isso  que eu no
percebo muito bem. Ento que diabo tinham os fidalgos com o haver ou o
no haver concelhos?

--Pois tem raso, s Manel da Idanha, e bom  que essas cousas fiquem
explicadas, porque a mim parece-me c no meu modo de ver que o que nos
importa a ns, que somos do povo, no  tanto saber as batalhas que se
deram, e mais os reis que houve; o que nos importa  saber como  que
viviam os nossos paes, e como se governavam e cousas e tal. Ora pois,
saibam vocs que muitos dos nossos paes eram a bem dizer escravos, no
como os do tempo dos romanos que podiam ser vendidos como uns negros,
mas faziam parte das terras que cultivavam, e com ellas passavam de dono
para dono. Isto foi melhorando, e os servos passaram a ser gente livre,
mas sem ter terras suas; pagavam foros e foros pesados, os senhores das
terras eram os reis, os nobres, os bispos e os mosteiros. As terras dos
reis chamavam-se _terras da cora_, as dos fidalgos e as da igreja
_coutos_, _honras_ e _behetrias_. Ora os fidalgos, que s tinham
obrigao de servir o rei na guerra e no pagavam mais nada, ou por
herana de seus paes, ou por doaes dos reis em recompensa dos seus
servios, am mettendo em si o paiz todo, j se v de embrulhada com os
padres; e os reis pouco tinham de seu, porque, demais a mais, fidalgos,
bispos e conventos apanhavam tudo quanto podiam, o que se lhes dava
e o que se lhes no dava. Por isso D. Affonso fez as taes _inquiries_,
quer dizer, obrigou todos a porem para ali os seus titulos, para se
saber se tinham as terras com direito ou sem elle, estabeleceu mais as
famosas confirmaes que punham a fidalguia sempre na dependencia da
cora, porque cada novo rei confirmava ou no confirmava as doaes dos
outros, e finalmente prohibiu aos conventos que arranjassem mais terras.
E vae o povo o que fazia? Sempre que se podia livrar dos fidalgos e dos
padres por qualquer modo e feitio, formava-se um concelho. Ento
continuavam a pagar tributo, e serviam nas guerras, mas no estavam
sujeitos a ninguem, governavam-se elles por si, e tinham as terras muito
suas. Ora, como os reis  que os podiam ajudar a ver-se livres da
fidalguia, chegavam-se para elles, e os reis, que tinham nos concelhos
gente que tambem a  guerra e que lhes pagava tributos, encostavam-se
para esse lado, para terem quem lhes valesse quando os bares ou os
bispos se faziam finos. Aqui tens tu explicado pela rama como cada
concelho, que se formava, era ao mesmo tempo um asylo de liberdade para
o povo e um auxiliar para o rei contra as ameaas dos fidalgos.

--Muito obrigado, s Joo da Agualva, tornou o Manel; mas sempre lhe
digo que quem no sabe  como quem no v. Ora quem me _havera_ de dizer
que esta historia de ter uma terra, um pelourinho no meio da praa,
era de tanta vantagem c para o povo! Pois at domingo, e tomra eu que
passasse depressa a semana porque divertimentos como este  que ha muito
tempo a gente no apanha.




QUARTO SERO

D. Diniz.--A universidade de Coimbra.--Os Templarios.--Santa Isabel.--D.
Afonso IV.--A batalha do Salado.--Morte de Ignez de Castro.--D. Pedro
I.--D. Fernando I.--Leonor Telles.--Estado de Portugal no fim do reinado
de D. Fernando.


--Meus amigos, principiou o Joo da Agualva, corriam os annos, e l por
esse mundo de Christo am todos abrindo os olhos. Os romanos, como lhes
disse, eram um povo que sabia o nome aos bois. Elles faziam estradas,
elles faziam edificios que ainda hoje, arruinados, deixam ficar uma
pessoa embasbacada, elles tinham escolas, o diabo! Mas, depois, vieram
os barbaros dos bosques da Allemanha e da Russia, e zas, tras, catatras,
l se foi tudo pela agua abaixo. Por muito tempo no se pensou seno em
pancadaria. Tudo era gente rude, os reis no sabiam ler nem escrever, os
povos fallavam uma lingua assaralhopada que nem era latina, nem deixava
de o ser. Mas a pouco e pouco foram-se aclarando as cousas, foi
havendo estudos, e D. Diniz, que subiu ao throno, depois da morte de D.
Affonso III, era j um sabicho. Elle fazia os seus versos de p
quebrado, que a gente hoje quasi que no entende, mas que eram j
escriptos n'uma lingua com termos, elle emfim vio que havia escolas por
esse mundo onde se ensinava tudo o que ento se sabia, e quiz tambem ter
uma que foi a universidade de Coimbra. Depois tratou de fazer do reino
alguma cousa com geito. J no tinha que pensar em mouros, e ento
pensou na lavoura, pensou na marinha, pensou em tudo o diabo do homem!
Mandou vir capites de navios, de Italia, para ensinarem os nossos, e
ajudou os navegantes do Porto, que sempre foram gente desembaraada, a
crear uma especie de companhia de seguros, e no se descuidou tambem de
dar para baixo na nobreza e nos padres para elles se no fazerem finos,
e dava-lhes de modo que elles no tinham raso de queixa, porque era
sempre com justia. Ora, por exemplo, d'antes havia uma especie de
frades que se chamavam freires militares, que eram, como quem diz,
frades e soldados ao mesmo tempo. Em vez de fazerem voto de rezar e de
jejuar, faziam voto mas era de dar bordoada nos mouros. Havia umas
poucas de ordens n'esse gosto, a ordem dos Templarios, a de S. Thiago, a
de Aviz e outras. Ora, como  de ver, esses templarios, por exemplo, que
se fartavam de tomar terras aos mouros, com algumas haviam de ficar
para si. E depois tinham doaes, emfim eram ricos a valer. O que
acontecia por c, tambem acontecia l por fra. Succedeu, pois, que um
rei de Frana e um papa acharam excellente apanhar para si essas
riquezas todas, e acabaram com a ordem dos Templarios em toda a parte;
mas D. Diniz, que era um homem serio, no esteve pelos ajustes, e
entendeu que seria um roubo tirar aos homens o que elles tinham ganho 
custa do seu sangue, e ento, como no havia de desobedecer ao papa,
abolio a ordem dos Templarios, mas passou todos os bens para outra que
pediu ao papa que creasse e a que chamou ordem de Christo.

-- sr. Joo, perguntou o Francisco Artilheiro, esse D. Diniz no era
marido da rainha Santa Isabel?

--Era sim, rapaz, e j vou fallar n'essa rainha, que foi tambem uma das
benos de Portugal n'esse tempo. Era filha do rei de Arago, e bem se
pde dizer que aquella  que foi uma verdadeira santa. Pobre senhora!
No lhe faltaram desgostos, no. Primeiro houve grande bulha entre o
marido e um cunhado, D. Affonso Sanches, que embirrou em que lhe
pertencia a cora, apesar de ser mais novo; depois, e isso foi o peor, o
filho, que veio a ser D. Affonso IV, revoltou-se contra o pae, e porque?
Porque el-rei D. Diniz, que era frecheiro, e que se fartou de ter
filhos bastardos, parecia que olhava mais por elles do que pelos
proprios filhos do matrimonio. Imaginem o desgosto da rainha! Primeiro
porque emfim no havia de gostar muito de ver o marido sempre ao lar
com esta e com aquella a arranjar filhos por fra de casa, e depois por
ver assim a guerra accesa entre seu marido e seu filho. E ainda por cima
o rei desconfiou que ella a de accordo com o filho, e chegou at a
tratal-a mal, e a mandal-a sar da crte. Pobre senhora! aquillo era o
que ali estava. Ella tudo supportou com resignao--as infidelidades e
as injustias do marido, s o que queria era ver tudo em paz. E sempre o
conseguio. Tanto pediu, tanto chorou, que o filho e o pae vieram s
boas. Mas d'ahi a pouco torna a haver intrigas, e o D. Affonso, que era
um vivo demonio, torna  pancadaria com o pae. Pois senhores, a batalha
estava para ser aqui ao p de Lisboa, no Campo Grande; mas quando j
comeavam  lambada, apparece no meio d'elles a boa rainha, que foi
mesmo o anjo da paz, e depois que ella appareceu ninguem mais se atreveu
a levantar uma lana. Oh! rapazes! digo-lhes que at me parece que no
era necessario que o papa a fizesse santa para que o povo a adorasse!
Pois ento se aquella no fosse santa quem  que o havia de ser? Dizem
que mudava o ouro em rosas, e rosas em ouro. Isso creio eu, que aquellas
bentas mos haviam de mudar em flores tudo em que tocassem, porque
eram, como o outro que diz, mos puras e boas, como a aragem de maio!
Mas milagres maiores fazia ella ainda, porque as lagrimas que chorava em
segredo caam depois sobre a cabea do pai e do filho como orvalho de
paz e como chuva de amor! Sim! Sim! continuou o bom do Joo da Agualva,
com voz tremula, e meio a chorar, digam l vocs que ella no mudava
tudo em que tocava em rosas, quando agora mesmo, que diabo! s de fallar
n'ella, parece que at as palavras na minha bca se esto mudando em
flores!

--Ai! a minha rica Santa Isabel! exclamou a tia Margarida, pondo as
mos, n'um enlevo. Coitadinha da minha rica santa que foi logo casada
com um homem to mau!

--No era mau, no senhora, tornou o Joo da Agualva, foi at um dos
melhores reis que ns tivemos, mas como elle s vezes l escorregava o
seu pedao, e nem sempre tratou a santa como ella merecia ser tratada,
bastou isso para que o povo comeasse a inventar cousas, que elle que
era um sovina, um desconfiado, um unhas de fome, e at os pintores,
quando fazem o quadro do milagre das rosas, pem-n'o com uma carantonha
de metter medo, que ninguem dir que est ali o rei poeta, o rei a quem
chamavam o pae do povo, o rei que no quiz roubar os templarios, o rei
que fundou a universidade de Coimbra, o rei que tanto se desvelou
pelo bem do paiz! E que as injustias, por mais pequenas que sejam,
sempre vem a pagar-se, e D. Diniz, esses peccados que teve, pagou-os bem
caro, primeiro com a revolta de seu filho, depois com a injustia do
futuro, e agora vo vocs ver como o filho tambem pagou o que fizera ao
pae, porque em 1325 morreu el-rei D. Diniz e subiu ao throno seu filho
D. Affonso IV, a quem chamaram o Bravo.

--Ora vamos l a ver o que fez esse senhor, disse uma voz.

--D. Affonso IV, meus amigos, tinha muito boas qualidades. Era, por
exemplo, um homem de muito bons costumes, e foi isso at que o levou a
praticar uma aco... emfim, depois fallaremos. Era homem serio, mas
arrebatado e vingativo. A primeira cousa que fez, assim que subiu ao
throno, foi vingar-se dos irmos, por cuja causa tivera as bulhas com o
pai. D'ahi guerra. Quem acudiu? A rainha Santa Isabel.

Casou uma filha com o rei de Castella, Affonso XI. Este, que era do
feitio de D. Diniz, comeou a largar a mulher e a metter-se com uma tal
D. Leonor de Gusman. D. Affonso IV, que ficra embirrando deveras com
esses arranjos depois das turras com o pai, comeou a criar m vontade
ao genro, e zas, toma que te dou eu, ao primeiro pretexto que teve, ahi
comeam as bulhas. Foi uma guerra de c c ra c, que no prestou
para nada, mas que sempre fazia mal ao povo. No mais seguiu  risca o
exemplo do pae. Tratou do povo, teve os fidalgos muito na mo, mais os
padres tambem. E ento com esses no foi l s por causa das terras a
que deitavam a unha, foi tambem por causa dos maus costumes, porque
elles gostavam de passar vida airada e outras cousas que D. Affonso IV
lhes no levou a bem. Por isso apanharam uma vez uma rabecada, n'uma
carta que D. Affonso escreveu ao papa, que foi de ficarem de cara a uma
banda.

--Bem feito! acudiu a tia Margarida. Esse rei sim! esse  que me quadra.
Bem se v que era filho da rainha Santa Isabel!

--Espere l, tia Margarida, no falle antes de tempo que, como diz o
outro, at ao lavar dos cestos  vindima. Houve no reinado de D. Affonso
IV duas cousas famosas: primeiro a batalha do Salado, depois a morte de
D. Ignez de Castro.

--Foi com os hespanhoes a batalha do Salado?

--No homem, foi dada at para os ajudar. J lhes disse, meus amigos,
que ns desde o reinado de D. Affonso III tinhamos posto os mouros na
rua. Mas os hespanhoes ainda no tinham conseguido o mesmo, os mouros
estavam reduzidos apenas ao reino de Granada, mas sempre isso era alguma
cousa. Ora agora ali em Marrocos estava, como sabem, a moirama toda.
Imaginem que um bello dia o tal miramolim de Marrocos, ou como diabo
se chamava elle, desaba em Hespanha com o poder do mundo e junta-se ao
rei de Granada para darem cabo do rei de Castella. Era este D. Affonso
XI, genro do nosso D. Affonso IV. Aterrado com o perigo, pediu soccorro
ao sogro, apesar de estar mal com elle; mas o nosso rei, homem ajuizado,
vio que a occasio no era para dize tu direi eu, que no era s
Castella que estava em perigo, estava em perigo a Hespanha toda; se
Affonso XI levasse uma tareia e perdesse algumas provincias ficavam aqui
os mouros de raiz, e tinha de se comear outra vez a pl-os fra. Por
isso no esperou por mais nada, ajuntou quanta gente poude, e foi em
soccorro do genro. O nosso rei era homem de pulso, os nossos soldados
tambem eram pimpes. O soccorro no foi nada mau. Na batalha do Salado
os mouros levaram uma sova de primeira ordem, e nunca mais os de
Marrocos vieram c metter o nariz d'este lado do mar. D. Affonso IV
voltou para a sua terra sem ter querido acceitar cousa nenhuma da grande
preza que fizeram.

--E isso de D. Ignez de Castro o que foi,  sr. Joo da Agualva?
perguntou a tia Margarida. No foi essa Ignez de Castro que esteve aqui
em Bellas, que at ali na quinta do marquez ha uma arvore a que chamam
de Ignez de Castro?

--Ora adeus, tia Margarida! esteve agora em Bellas! quer dizer, eu,
como no andei com ella por toda a parte, no sei se por c passaria
alguma vez, mas onde viveu principalmente foi em Coimbra. Era uma
hespanhola esta Ignez de Castro, linda como os amores, loura como o sol,
e com um pescoo to bonito, que lhe chamavam o _collo de gara_. Veio
para Portugal como dama da infanta D. Constana que foi mulher do
principe D. Pedro, filho de D. Affonso IV, mas o principe parece que
gostou mais da dama que da mulher. Tristes amores foram aquelles,
rapazes! Ella tinha pelo seu Pedro um fatacaz l de dentro, que estou em
dizer que mais gostaria ella de que elle fosse um pastor de cabras do
que filho de um rei. A princeza D. Constana morreu, e para isso no
deixaria de concorrer a paixo do marido, que, por mais que elle a
quizesse esconder, rebentava por todos os lados. Coitada da princeza!
tudo fez para arredar o marido d'aquelles mal-aventurados amores. Mas
ento! vo l fugir ao seu destino! Pediu a Ignez de Castro que fosse
madrinha de um filho que ella teve, porque n'esse tempo haver amores
entre compadre e comadre quasi que era maior peccado que havel-os entre
irmos. Nada! aquillo era como um fogo valente que tanto mais se accende
quanto mais agua lhe deitam. Em fim, morreu a princeza, e D. Pedro e D.
Ignez ficaram  vontade, porque at ahi tinham guardado respeito  pobre
senhora. Casariam? D. Pedro assim o jurou depois, mas eu estou em
dizer que no, porque para casarem era necessaria dispensa grada, que o
papa no daria assim sem mais nem menos e com tanto segredo como o
principe quereria. Mas, ou casassem ou no,  certo que tiveram tres
filhos, e que o principe D. Pedro no queria saber de mais nada seno da
sua loura Ignez.

D. Affonso IV no viu isso com bons olhos. Sabem como elle era. Vivia s
para a sua mulher, queria tudo em boa ordem, e no gostava d'essas
fraquezas. Os fidalgos tambem no gostavam, mas esses por outras rases.
Tinha D. Ignez muita parentella, e diziam comsigo que, apenas D. Affonso
IV fechasse os olhos, eram os Castros que davam as cartas em Portugal.
Comearam a ferver as intrigas, e chegaram a aconselhar o rei que, visto
que no havia foras humanas que arrancassem D. Pedro  sua Ignez, o
melhor era darem cabo d'ella. D. Affonso IV torceu o nariz, mas l por
dentro estava em braza. Ora, imaginem vocs! D. Affonso, no principio da
sua vida, tivera os maiores desgostos por causa dos bastardos de seu
pae. Tambem o tinham feito de fel e vinagre os amores de seu genro com
D. Leonor de Gusman. Morria pelo neto, um rapazinho bonito como a
aurora, que tinha de ser depois D. Fernando o Formoso. Lembrou-se das
amarguras que viriam a causar ao rapazito os filhos da amante
querida, que talvez at lhe roubassem a cora. Subiu-lhe a mostarda ao
nariz com a teima do filho, e deu ordem aos seus tres conselheiros,
Alvaro Gonalves, Diogo Lopes Pacheco e Pedro Coelho para que o
livrassem de D. Ignez. Ahi vo todos at Coimbra, onde estava muito
socegada a triste da rapariga. Ella, apenas suspeitou do caso, veiu com
os filhos lanar-se aos ps do rei. O pobre D. Affonso enterneceu-se,
mas os conselheiros  que viram o caso mal parado. Se elle perda,
disseram comsigo, ns  que pagamos as favas. No esperaram que D.
Affonso resolvesse as cousas de outro modo. Foram-se  pequena, e,
emquanto o diabo esfrega um olho, ferraram com ella no outro mundo!

--Ai que malvados! bradaram todos.

--Isso eram, tornou o Joo da Agualva. Sim! que eu no desculpo D.
Pedro, nem a desculpo a ella. Se uma mulher, s porque gosta de um
homem, no est l com mais ceremonias e passa a viver com elle, sem a
beno do padre, aonde ir isto parar? mas tambem matal-a sem mais nem
menos, matal-a no meio dos seus filhos, matar uma pobre menina, que no
fazia seno chorar, ah! s uns malvados eram capazes de fazer similhante
cousa. Por isso tambem, vem vocs? D. Affonso foi um bom rei, um homem
de bons costumes, um valente, tudo quanto quizerem, mas a final de
contas perguntem ahi a um pequeno:--Quem era D, Affonso IV? Cuidam
que elle que lhes responde: Era um bom rei, isto, aquillo e
aquell'outro. No, senhores, diz logo: Foi o rei que matou Ignez de
Castro. E como assassino  que a gente o conhece, e no seu manto real
no se v o sangue das batalhas, v-se mas  o sangue de Ignez! E esta?
Se a no matassem, o que dizia a historia? Foi a amante de um rei. Olhem
que gloria! E assim? Todos choram por ella, como a tia Margarida, que
est ali a limpar os olhos com a ponta do seu avental.

--E o que fez D. Pedro? perguntou o Manuel da Idanha.

--O que fez D. Pedro? Ah! com os diabos! Imaginem! Elle ainda tinha
peior genio que o pae. Apenas soube do que succedera, aquillo parecia um
leo ferido. Saltou logo para o campo em som de guerra, e D. Affonso
pagou o que fizera ao pae, porque teve tambem o filho revoltado contra
si. Correu muito sangue por esse reino, at que emfim se fez a paz, mas
D. Affonso IV pouco tempo sobreviveu, morrendo em 1359, dois annos
depois da morte de Ignez.

--Subio ao throno D. Pedro, no  verdade? perguntou com muito interesse
o Manuel da Idanha.

-- verdade que sim, e, meus amigos, ento  que se viu o amor l de
dentro que elle tinha  sua Ignez. Apenas subio ao throno, os assassinos
da Castro safaram-se para Hespanha, mas D. Pedro l fez o seu
negocio com o rei de Castella, de frma que apanhou os criminosos, menos
um, Diogo Lopes, que conseguiu fugir. Assim que os teve em seu poder,
fez-lhes torturas. A um mandou arrancar o corao pelo peito e a outro
pelas costas.

--Credo! exclamou a tia Margarida.

--Por isso lhe chamavam D. Pedro o Cruel, assim como tambem lhe deram o
nome de D. Pedro o Justiceiro. Justia fez elle, porque bradava aos cus
a morte de D. Jgnez, mas uma crueldade assim  de se porem a uma pessoa
os cabellos em p! Que mais querem? D. Pedro parece que no pensava
n'outra cousa seno na sua Ignez, elle trasladou-a, com um estado nunca
visto, de Coimbra para Alcobaa, onde lhe mandara fazer um tumulo que
era mesmo uma lindeza. Elle declarou que tinha casado com ella, e at se
diz que a sentou, depois de morta, no throno, e mandou que todos lhe
beijassem a mo. Mas isso parece-me patranha, ainda que D. Pedro era
capaz d'essas extravagancias e de muitas mais. Porque effectivamente,
meus amigos, parece que elle tinha endoidecido com a morte de D. Ignez.
Tinha assim de repente umas furias que era livrar quem estivesse diante.
Era justiceiro,  verdade, mas fazia justia  doida e  bruta. Outras
vezes entrava por essa Lisboa dentro a danar, muito contente da sua
vida. Governava bem, no ha duvida, punia pelo povo, abaixava a pra
aos bispos, conservava o reino em paz, e juntava bom dinheiro nos cofres
para uma occasio de apuros, mas era ao mesmo tempo umas mos rotas com
os fidalgos, que tornaram a fazer-se finos, como se viu depois.

Foi em 1367 que D. Pedro morreu, e logo subiu ao throno D. Fernando, a
quem chamavam o Formoso, de bonito que era. L que elle tinha telha,
isso  que no padece duvida, porque nunca se viu uma ventoinha assim.
Aquillo era mesmo um gallo de torre de igreja. Primeiro deu-lhe na tonta
o querer ser rei de Castella, de mais a mais no tendo geito nenhum para
a guerra, e no gostando de batalhas. D'ahi, o que resultou? Gastou o
que tinha, levou pasada de crear bicho, e teve de fazer as pazes. Mas
vejam vocs que cabecinha! Quando fez guerra a Castella, alliou-se com o
Arago, mandou-lhe para l bom dinheiro, e prometteu casar com a filha
do rei, que se chamava D. Leonor. Faz as pazes com o de Castella, e, sem
se lembrar j do primeiro casamento, promette casar com a filha do rei
castelhano, que tambem se chamava Leonor. O de Arago no fez caso,
metteu o dinheiro portuguez, que l tinha, nas algibeiras, e nunca mais
deu contas. Mas o peor no  isso, o peor  que D. Fernando tambem no
casou com D. Leonor de Castella, porque n'este meio tempo namorou-se de
uma dama do pao, chamada D. Leonor Telles, e desposou-a! Ao menos
n'uma cousa era elle constante,  que no saa das Leonores.

Esta Leonor Telles foi o que se chama uma mulher de truz, bonita como as
que o so, manhosa como a serpente, e dando, como a nossa me Eva, o
cavaquinho pelo fructo prohibido. Quando casou com D. Fernando j era
casada com um D. Joo Loureno da Cunha, mas lembrou-se  ultima hora de
que ainda eram parentes, e o rei arranjou do papa que desfizesse o
casamento. Joo Loureno da Cunha deu graas ao cu por se ver livre da
mulher que estava para lh'a pregar mesmo na menina do olho, e D.
Fernando levou D. Leonor Telles para casa. Mas o povo  que no esteve
pelos autos e gritou e berrou e fez tumulto, tanto que el-rei safou-se
de Lisboa. Houve mosquitos por cordas por esse reino todo, e a final
acabou tudo em paz. D. Leonor ficou sendo rainha, os de Lisboa apanharam
para o seu tabaco e D. Fernando no tardou a levar a paga.

O rei de Castella achou que D. Fernando o tratara com tal ou qual
sem-ceremonia, e quiz-lhe dar uma lio de bem viver. Veio a Portugal,
chegou a Lisboa, entrou por ahi dentro, fez um estrago de seiscentos
demonios, e dava cabo da capital se D. Fernando lhe no vem pedir pazes,
que, j se v, custaram caras. Aqui ficmos finalmente em socego, e
ento D. Fernando parecia outro homem. Sabia governar aquelle rapazote,
quando as mulheres lhe no faziam andar a cabea  roda, ou quando se
no lembrava de ter outros reinos. Era economico e arranjado. Sabia pr
as cousas no seu logar. Foi elle que cercou Lisboa de fortificaes, que
depois no serviram de pouco ao seu successor.

Mas, coitado, acertra mal, em todos os sentidos, com a tal D. Leonor
Telles, que era mesmo o demonio em pessoa; quando se enfastiou d'elle,
tomou amores com um gallego que vivia em Portugal, chamado conde
Andeiro. El-rei, entretanto, metteu-se outra vez em guerras com
Castella, e pediu auxilio aos inglezes. Oh! rapazes, que tristes tempos
foram aquelles! A vida do pao era um desaforo. Estava ali aquella
mulher, aquella... no sei que diga, a pr na cabea a cora da rainha
Santa Isabel, a cora que no podra pr nos seus cabellos louros a
pobre Ignez de Castro, que, apesar de todos os pezares, era mil vezes
mais capaz do que essa rainha de contrabando, que andou de um para
outro, sem vergonha de qualidade nenhuma! E ainda por cima era malvada!
vingativa! e para ella a vida de um homem valia tanto... como... a honra
do marido, que  o mais que se pde dizer!

O povo desgraado, porque tudo se juntava. As guerras com Castella
sempre infelizes! os inglezes, como sempre, apesar de amigos, muito
peores do que se fossem inimigos. Os fidalgos de Castella, que tinham
tomado o partido de D. Fernando, tratados aqui  grande! e ainda por
cima D. Fernando sem ter filhos, e com a filha unica j casada com D.
Joo I de Castella. D. Fernando, apesar da sua cegueira, j a
percebendo as cousas, e tinha l por dentro um desgosto que o ralava.
Tambem em 1383, tendo apenas trinta e oito annos de idade, esticou a
canella, depois de um reinado que podia ter sido muito proveitoso, e que
assim foi uma desgraa para todos. E eu tambem me vou chegando para a
cama, no sem lhes dizer que houvera mudana completa no modo de viver
da nossa gente n'estes ultimos reinados. Os fidalgos tinham levado para
baixo, e estavam j em grande parte, por assim dizer, s sopas dos reis.
Os concelhos do povo tinham-se feito fortes, e batiam o p  fidalguia,
e ao clero, principalmente, nas crtes, em que entravam. O resultado de
tudo isso  o que vocs ho de ver de hoje a oito dias.




QUINTO SERO

Interregno.--Regencia de Leonor Telles.--Morte do conde Andeiro.--O
cerco de Lisboa.--Nuno Alvares Pereira e Joo das Regras.--As crtes de
Coimbra.--D. Joo I.--A batalha de Aljubarrota.--Os filhos de D. Joo
I.--Tomada de Ceuta.--Os descobrimentos.--D. Duarte.--Expedio de
Tanger.--Menoridade de D. Affonso V.--O infante D. Pedro.--Batalha de
Alfarrobeira.--Tomada das praas africanas.--Guerras com
Hespanha.--Batalha de Toro.--Ida de D. Affonso V a Frana.--Continuao
dos descobrimentos.


--Meus amigos, disse o Joo da Agualva no outro domingo, o que eu agora
vou contar ha de parecer assim a vocs grande patranha, e a todos
pareceria se no houvesse tantas provas da verdade.  caso de uma pessoa
ficar pasmada ver o que fez este paiz s, ao canto do mundo, pequeno
como . Oiam, pois, rapazes, com atteno. Apenas morreu el-rei D.
Fernando, tratou logo D. Leonor Telles de fazer proclamar rainha de
Portugal a sua filha D. Beatriz, que era uma pequenota casada com o rei
de Castella D. Joo I, e ao mesmo tempo fez-se regente. O povo, que no
queria ser castelhano, ou hespanhol como hoje diriamos, nem que o
matassem, comeou a levantar-se por toda a parte. Mas o que faltava
era um chefe. Os filhos de D. Ignez de Castro andavam fugidos por fra
de Portugal, um por isto, outro por aquillo, mas quem estava em Lisboa
era um rapaz muito sympathico, filho bastardo de el-rei D. Pedro, que
este fizera mestre de Aviz, e a quem D. Leonor Telles sempre tivera
muito odio. A elle se dirigiram. O mestre vio que no havia remedio
seno fazer o que o povo queria. Toma logo a sua resoluo, vae ao pao
e mata elle mesmo o conde Andeiro, pe-se  frente do povo de Lisboa,
pe no meio da rua D. Leonor Telles, e proclama-se _defensor do reino_.
O povo toma todo, sem excepo, o seu partido, e por todas as
provincias; mas uma grande parte dos fidalgos foram para o rei de
Castella. Entre os que ficaram figurava um rapaz sympathico tambem,
valente como as armas, leal como a sua espada, amigo intimo e dedicado
do mestre de Aviz, Nuno Alvares Pereira.

Sabedor do que se passava, desce a Portugal o rei de Castella com um
exercito poderoso; mas pra deante de Lisboa j fortificada. Os
lisboetas, commandados pelo mestre de Aviz, defenderam-se como homens, e
o rei de Castella teve de se pr na pireza; entretanto Nuno Alvares
Pereira, que estava no Alemtejo, ganhava a batalha dos Atoleiros, e
comeava a estabelecer um systema de guerra que havia de dar muito de
si. Como os concelhos estavam todos com o mestre de Aviz, a fora do
exercito era principalmente infanteria. Pois Nuno Alvares Pereira
aproveitou isso para ensinar os nossos a combaterem a p. Formava uma
especie de quadrado, ou como  que se chama, com os seus soldados,
quadrado onde a cavallaria fidalga vinha sempre despedaar-se.

--Ah! se elles calavam bayoneta, observou o Francisco Artilheiro, no
entrava l para dentro nem um cavallaria s que fosse.

--No calavam bayoneta, respondeu o Joo da Agualva, porque era cousa
que ento no havia, mas fincavam as lanas no cho, e fossem l entrar
com elles.

Acabado o cerco de Lisboa, reuniram-se os dois amigos, e foram
conquistar todas as terras de Portugal em que os fidalgos tinham
levantado a bandeira de Castella. Ao mesmo tempo reuniram-se crtes em
Coimbra, para se escolher um rei. Ahi teve D. Joo I outro amigo,
advogado de mo cheia, fino como um coral, chamado Joo das Regras, que
foi quem lhe fez ganhar a eleio. Assim, o mestre de Aviz tinha a
felicidade de ter dois amigos particulares que o serviam
excellentemente, e cada um segundo o seu officio. Para cousas de penna e
parlenda Joo das Regras, para batalhas e mais bordoada correspondente
Nuno Alvares Pereira.

--Mas ento as crtes  que escolheram quem havia de ser rei? perguntou
o Manuel da Idanha.

--Tal e qual.

--E eram crtes como as de agora? acrescentou o Bartholomeu.

--No, senhor, havia os tres braos, como ento se dizia, clero, nobreza
e povo. Os bispos e os conventos mandavam os seus escolhidos, os
fidalgos mandavam os seus e o povo tambem, quer dizer cada concelho
mandava o seu procurador. Antes de D. Affonso III, am s os padres e os
fidalgos, depois  que o povo tambem comeou a figurar n'essas festas;
mas n'estas crtes, que se reuniram em Coimbra, como muitos fidalgos
estavam mettidos com o rei de Castella, pde-se dizer que foi o povo
quem escolheu, e que o mestre de Aviz, isto , D. Joo I, foi
verdadeiramente o eleito do povo.

--E ahi lhe valeu o Joo das Regras? acudiu o Manoel da Idanha.

--Isso mesmo, porque l para fallar no havia outro como elle. Mas d'ahi
a pouco tornou-se necessario fallar outra lingua, a lingua das espadas,
e n'essa, quem lia de cadeira era Nuno Alvares, que o novo rei fez logo
condestavel. Os castelhanos, que tinham ido de cara  banda, voltaram 
carga, e d'essa vez com um exercito immenso, porque o D. Joo I de l
tinha resolvido acabar de todo com o D. Joo I de c. Antes de vir o rei
com toda a sua fidalguia, j um corpo hespanhol tinha entrado pela Beira
dentro, mas em Trancoso levou uma tareia de primeira ordem. No se
emendaram e disseram comsigo: Agora  que vo ser ellas. A fallar a
verdade tinham raso. D. Joo I de Portugal teria, quando muito, uns
oito ou nove mil homens, D. Joo I de Castella no tinha menos de trinta
mil, e alem d'isso trazia comsigo peas de artilheria que era a primeira
vez que se viam em Portugal. Encontraram-se os dois exercitos em
Aljubarrota, que fica entre Alcobaa e Leiria, a 14 de agosto de 1385,
grande dia, rapazes! Eu no sei que diabo tinham os nossos, mas parece
que os animava um esforo sobrenatural. E elles no eram nenhuns
fracalhes, os castelhanos, era tudo gente valente e destemida, mas os
nossos estavam todos resolvidos a morrer ali mesmo. Depois tinham cabos
de guerra que sabiam da poda, emquanto os de l eram valentes, e mais
nada. De l, eram tudo fidalgos muito bem montados, com as suas espadas
a luzir ao sol; de c, gente do povo, soldados de p, mas que todos
queriam ser portuguezes com o seu rei que elles tinham feito, e que
tambem com elles queria vencer ou morrer. E por isso Nuno Alvares dizia:
Rapaziada, p terra! e zs! lanas no cho, e venha para c a fidalguia
castelhana, mais os traidores portuguezes que se uniram ao estrangeiro.
E no  dizer que no houvesse fidalgos tambem de c. Oh! se os havia, e
dos bons e dos melhores, porque eram todos os que tinham preferido
morrer com um rei portuguez a receber do estrangeiro honras e
castellos, gente briosa e valente, e aventurosa, que combatia pelo seu
rei, e pela sua dama, e pela sua honra e pela sua patria. Tambem, no
lhes digo nada, nunca levaram os hespanhoes to formidavel refrega. Por
muito tempo lhes ficou lembrada, e o rei, que fugio a toda a brida para
Santarem e de Santarem para a sua terra, no se podia consolar de
similhante desastre. D. Joo I mandou fazer, no sitio da batalha, uma
igreja e um convento maravilhoso, a igreja e o convento da Batalha, para
agradecer a Deus a sua victoria,--e raso tinha para isso, porque foi
Deus decerto quem deu aos portuguezes o esforo e a galhardia que ento
mostraram, que, eu, meus amigos, no sou dos que acreditam que Deus se
mette n'estes barulhos dos homens, mas quando um povo combate pela sua
terra, que  como quem diz quando um filho combate pela sua me, ento,
meus amigos, ha uma cousa c dentro em ns, que vem a ser a consciencia
a bradar-nos que Deus, que  a justia e a bondade, ha de querer a
victoria do que  justo e do que  bom.

--E a padeira de Aljubarrota, sr. Joo da Agualva? perguntou o Francisco
Artilheiro.

--Deixemo-nos l de padeiras. Eu no sou muito amigo de mulheres que se
mettem n'estas danas. A padeira era melhor que amassasse po. Se 
verdade o que se diz, quando os castelhanos j am de rota batida, a
padeira foi-lhes no encalo e deu cabo de sete com a p do forno. Olhem
que grande faanha: matar quem vae fugindo! Aquillo era mulher de faca e
calhau, e eu toro sempre o nariz a essa gentinha. Vamos adiante. A
batalha de Aljubarrota decidio a sorte de Portugal. Ainda durou a guerra
muito tempo, ainda o condestavel deu nova tareia nos hespanhoes em
Valverde, mas a verdade  que estava tudo acabado. D. Joo I governou
ento com socego, casou com uma senhora ingleza muito virtuosa e muito
boa, D. Philippa de Lencastre, teve muitos filhos que educou muito bem,
e que foram todos homens de saber e alguns d'elles grandes homens,
chamou muitas vezes as crtes para ouvir o que ellas tinham que lhe
dizer cerca dos negocios do Estado, e governou to bem, que se lhe
chama, com toda a justia, o rei da _Boa Memoria_. J em idade
adiantada, trinta annos depois da batalha de Aljubarrota, sentiu D. Joo
I um appetite de tentar alguma empreza grande. Quem o metteu n'isso
foram os filhos, tudo rapazes decididos que andavam mortos por se metter
n'alguma cousa que lhes dsse gloria. O que haviam de fazer? Foram-se
aos mouros. Passaram o estreito, e tomaram Ceuta que fica ali mesmo
defronte de Gibraltar. Vem vocs? Aquillo era uma raa que no podia
estar quieta. Emquanto jogavam as cristas com os visinhos, a tudo
bem, mas depois? Os aragonezes viravam-se para Italia, os castelhanos l
tinham os mouros granads, ns o que tinhamos? Os mouros de Marrocos e
as ondas do Oceano. Pois foram as ondas e os mouros que pagaram as
favas. D. Joo I tomou Ceuta, e D. Henrique, seu filho, deliberou tomar
o desconhecido.

-- sr. Joo, exclamou o Francisco Artilheiro, devo confessar que l
isso  que eu no percebo muito bem.

--Pois eu te explico, rapaz. Julgava-se d'antes que do outro lado do mar
no havia cousa nenhuma, ou antes que as ondas l para longe eram um
verdadeiro inferno ou um paraizo tambem, porque uns diziam que tudo para
alem eram ilhas de santos e jardins do cu, e outros que eram ilhas do
diabo e terras de maldio; que havia umas estatuas encantadas que no
deixavam passar ninguem, e um mar de pez que engolia os navios. Ora
vocs ho de saber que pde uma pessoa ser muito valente, e ter medo de
almas do outro mundo, e de feitios e do diabo. Ali est o Francisco
Artilheiro, que, quando foi na expedio  Africa, se atirou ao Bonga
como gato a bofes, que  capaz de varrer uma feira, e que, se lhe
disserem que v de noite ao palacio do marquez, l ao corredor onde
dizem que falla a voz do Roque...

--Tarrenego! exclamou o Francisco Artilheiro, um homem  para um
homem, mas l uma alma do outro mundo!...

--Ora ahi est! era o que acontecia aos soldados de D. Joo I. Com
mouros e castelhanos tudo o que quizessem, mas com as aventesmas do
mar... arreda! Pois imaginem vocs se D. Henrique no fez um milagre
conseguindo que os marinheiros do Algarve, porque elle, desde que poz o
fito em querer saber o que o mar escondia, foi-se estabelecer em Sagres,
mesmo na ponta do cabo de S. Vicente, conseguindo que os marinheiros do
Algarve se mettessem s ondas, sem medo de phantasmas, nem de avejes. E
foram aquelles valentes, que fizeram to grande no mundo este paiz to
pequeno, e partiram por esses mares fra, sem saber o que por l havia,
e sempre a tremer da perdio da vida e da perdio da alma, e foram, e
encontraram a Madeira e encontraram os Aores, e Gil Eanes dobrou o cabo
Bojador, que era onde diziam que estavam as taes estatuas encantadas, e,
como no encontrou estatuas nenhumas, l foi tudo atraz d'elle, e, de
repente, Portugal poude desenrolar diante do mundo um outro mundo
ignorado, a costa da Africa toda, com os seus grandes rios, os seus
bosques verdes, o seu povo de pretos, como eu vi, n'um theatro de
Lisboa, desenrolar-se diante da plata pasmada um panno pintado com
cidades e quintas e ilhas e rios, que era de uma pessoa ficar de boca
aberta. Ah! meus amigos, podem agora no fazer caso de ns, e
podemos ns tambem dizer mal de ns mesmos, mas um povo que assim se
atreve a arcar com o que mette medo aos mais valentes, e abre aos outros
as portas de um mundo maravilhoso,  um grande povo, digam l o que
disserem.

--E D. Joo I  que fez tudo isso? perguntou o Manuel da Idanha.

--No foi elle, mas foi o filho, D. Henrique, que era um sabio, e que a
seu pae deveu a educao que recebera; e o grande rei, que salvra
Portugal do estrangeiro, teve a gloria, antes de morrer em 1433, de ver
comeada essa obra que havia de tornar para sempre grande no mundo o seu
nome e o nome de Portugal.

Succedeu-lhe seu filho, D. Duarte, a quem chamaram o _Eloquente_, pelo
bem que fallava e que escrevia, porque tambem fazia livros como o rei D.
Diniz, e livros muito bem feitos. Coitado! no merecia a sorte que teve.
Os irmos, D. Henrique e D. Fernando, quizeram continuar a obra do pae,
e foram tomar Tanger. No o conseguiram, perderam muita gente, e para se
salvar o exercito das garras dos mouros, teve de ficar preso na Moirama
o infante D. Fernando. Para o livrar era necessario entregar Ceuta, mas
o infante D. Fernando, que bem mereceu o nome de _Santo_ que lhe
pozeram, no quiz nunca ouvir fallar em similhante cousa, e preferiu
morrer atormentado nas masmorras de Fez a consentir que dessem por elle
aos mouros uma terra, que tanto sangue nos custra. Tudo isto foram
desgostos grandes para o pobre D. Duarte, que morreu, depois de cinco
annos de reinado, em 1438, da peste que ento assolou o reino, porque
no houve desgraa que n'esse tempo no acontecesse.

Succedeu-lhe um filho pequeno que tinha, e que foi D. Affonso V, e, como
D. Duarte era muito amigo da mulher, foi a ella que nomeou regente. Ora,
na verdade, tendo o pequeno uns poucos de tios que seriam todos grandes
reis, como D. Pedro, D. Henrique e mesmo D. Joo, dar a regencia a uma
mulher, e de mais a mais hespanhola, era tolice grada, por isso o povo
no gostou, e as crtes convidaram D. Pedro a tomar conta da regencia. A
rainha, que era levada da brca, e que nunca podra ver os cunhados, deu
pulo de cora com esta resoluo, a que foi obrigada a ceder, e, com o
partido que tinha, agitou o reino de tal maneira, que D. Pedro no teve
remedio seno tomar providencias, e uma d'ellas foi tirar o filho 
rainha, porque o pequeno estava sendo nas mos d'ella um instrumento de
revolta. A final, a rainha foi para Hespanha, mas eu estou convencido,
rapazes, que o odio que D. Affonso V sempre teve ao tio veio d'ahi. Ora
imaginem vocs! D. Affonso era uma creana n'esse tempo, agarrado  me
como so todas as creanas; no percebia cousa nenhuma de politica
nem de meia politica, viu-se arrancado dos braos da sua mamsinha, que
se agarrava a elle a chorar, e arrancado por quem? Por seu tio. Depois,
quando fosse maior, podia reconhecer que o tio era o que se podia chamar
um grande homem, que lhe tinha governado o reino como ninguem seria
capaz de o governar, que era to pouco amigo de vaidades, que nem
quizera que lhe fizessem uma estatua, mas o rancor da creana nunca se
foi embora. Pois o tio, apenas elle chegou  maioridade, logo lhe
entregou o governo, sem a mais pequena demora, e foi viver para Coimbra
com o maior socego. Apesar de tudo isso, e apesar de ser muito amigo da
mulher que era filha de D. Pedro, o rei tal odio tinha ao tio e ao sogro
que deu ouvidos a todas as intrigas dos inimigos d'elle, e
principalmente s do primeiro duque de Bragana, seu tio tambem, filho
bastardo de D. Joo I; chegou o duque a levantar tropas para ir contra o
pobre D. Pedro, que, espicaado e ralado por todas as frmas, teve de
tratar da sua defeza. Emquanto o duque de Bragana levantava tropas por
sua conta e risco, achava o rei isso muito bem feito; apenas o infante
D. Pedro juntou alguns soldados para no atravessar esse reino ao
desamparo, logo D. Affonso V entendeu que era caso de rebeldia e
traio, e marchou contra elle. Na Alfarrobeira, ali ao p de Alverca,
se encontraram as tropas de um e as tropas do outro. No houve
batalha, mas travaram-se de rases os soldados, e, quando mal se
precatavam, achou-se tudo embrulhado na bulha, e l morreu o pobre do
infante D. Pedro, to sabio, to bom, to justiceiro.

Quem ouvir isto, ha de dizer que D. Affonso V era um malvado, pois no
era; cabea de vento sim, nunca houve outra igual! Sympathico e bondoso,
um mos-rotas, principalmente para os fidalgos que apanhavam d'elle
quanto queriam, enthusiasmava-se todo por cousas que j no importavam a
ninguem, e quiz at fazer uma cruzada contra os turcos. Os outros
principes christos no estiveram pelos autos, e vae elle ento
voltou-se contra os mouros da Africa, e  certo que juntou a Ceuta as
praas de Tanger, Arzilla e Alcacer Ceguer. Por isso lhe chamaram o
_Africano_. Emfim, bom seria que nunca tivesse pensado n'outra cousa,
mas deu-lhe na veneta querer tambem ser rei de Hespanha, e, quando l
houve grande bulha para se saber quem havia de succeder ao rei que
morrera, se havia de ser D. Isabel que era irm, se D. Joanna que era
filha, o nosso D. Affonso, apezar de j no ser novo, casou com esta,
que vinha a ser tambem sua sobrinha, ao passo que D. Fernando de Arago
casava com a outra. D'ahi veio uma guerra levada dos demonios; mas, a
final, D. Affonso deu a batalha de Toro, que ficou indecisa, mas foi o
mesmo que se a perdesse, porque no poude continuar a guerra. De que
se ha de lembrar ento o nosso D. Affonso V? De ir em pessoa pedir
soccorro ao rei Luiz XI de Frana, que era o mais manhoso de todos os
principes, e que no fazia nada sem interesse. Luiz XI andou a cassoar
com elle, at que D. Affonso V mandou dizer ao filho, que ficra a
governar o reino, que subisse ao throno, porque elle abdicava, e a para
a Terra Santa; mas depois muda de tenes, e, quando j ninguem o
esperava, apparece em Portugal. O filho  que no quiz saber de mais
nada; entregou-lhe logo a cora, que D. Affonso acceitou, morrendo
quatro annos depois, em 1431.

-- sr. Joo, interrompeu o Bartholomeu, e essa historia de descobrir
terras novas tinha parado?

--Qual tinha parado, homem! Emquanto D. Henrique viveu, e s expirou em
1460, quando j D. Affonso V era homem, no pensou n'outra cousa; todos
os annos se a descobrindo mais alguma poro da Africa, e j no havia
quem acreditasse em carapetes de estatuas. Os portuguezes, o que faziam
era sempre seguir para baixo, at ver se topavam com a India, ou ento
se davam com um rei que diziam que era christo, e a quem chamavam o
Prestes Joo das Indias.

--E quem era esse rei? perguntou o Manuel.

--Eu depois lhes digo, rapazes, agora no me fallem  mo. O que  certo
 que estava j descoberta uma boa poro da Africa, e j por l se
fazia muito bom negocio, tanto que D. Affonso V, que andava embrulhado
com outras cousas, e que no podia cuidar dos descobrimentos como o tio,
arrendou o commercio da costa da Mina a um tal Ferno Gomes, com a
condio d'elle continuar a descobrir terras. Felizmente, quem a subir
ao throno era um rei de outra laia, que tinha lume no olho, e que havia
de levar as cousas pelo rumo que devia de ser, para gloria do nosso paiz.

Foi D. Joo II esse rei, e com raso lhe chamaram o principe perfeito,
porque no houve nenhum que entendesse to bem do seu officio; mas,
antes de fallar n'elle, meus amigos, deixem-me vocs explicar-lhes o que
 que se tinha passado no tempo d'esses tres primeiros reis da dynastia
que se chamou de Aviz.

Viram vocs como os reis se encostaram ao povo para dar cabo da nobreza
e do clero, e como lhe deram fora para que os fidalgos e padres se no
fizessem finos. Por isso tambem se pde dizer que foi o povo quem fez
rei D. Joo I, e este nunca se esqueceu d'isso. Comtudo, padres e
fidalgos, continuavam a ser muito poderosos, e, se D. Duarte, com a lei
chamada mental, e o infante D. Pedro lhes tinham dado para baixo, D.
Affonso V quasi que desfizera tudo, porque com elle no havia parente
pobre, dava aos fidalgos o que elles queriam, e com raso dizia o
filho que seu pae o deixra rei das estradas de Portugal, o que, valha a
verdade, no devia ser um grande reino. Ora agora acontecia tambem o
seguinte:  que o povo, nas crtes, estava sendo mais um servo do rei do
que outra cousa. J no podia dizer aos reis: Toma l, d c. J no
era cada concelho que mandava um procurador, juntavam-se uns poucos de
procuradores para mandar um deputado a que chamavam definidor, e o rei
sempre os podia ter mais na sua mo do que  turbamulta dos antigos
procuradores. Alem d'isso, os doutores, o que aprendiam nas escolas eram
as leis de Roma, o direito romano, e ahi o que se dizia era que o rei
podia fazer o que quizesse. O que resultava? Resultava que o clero e a
nobreza haviam de levar para baixo, mas que o povo depois... esperasse
pela pancada.  o que vocs sabero para o domingo que vem, porque a tia
Margarida est a car com somno, e eu no quero que digam de mim, como
de alguns prgadores, que sou bom para quem anda com falta de dormir.




SEXTO SERO

D. Joo II.--As crtes de vora.--Morte do duque de Bragana.--Morte do
duque de Vizeu.--Continuao dos descobrimentos.--O cabo da Boa
Esperana.--Christovo Colombo.--Entrada dos judeus.--Morte do principe
D. Affonso.--D. Manuel.--Descobrimento da India e do Brazil.--Os
conquistadores da India.--Ferno de Magalhes.--D. Joo III.--A
inquisio e os jesuitas.--Decadencia do nosso dominio na India.--D.
Sebastio.--A batalha de Alcacer-Kibir.--D. Henrique, o cardeal-rei.--A
successo do throno.--D. Antonio, prior do Crato.--Batalha de
Alcantara.--Perda da independencia:--Causas da decadencia de Portugal.


--Estou morto por saber, porque  que chamaram a D. Joo II o principe
perfeito, principiou o Manuel da Idanha no domingo immediato, quando
estiveram todos sentados  roda da lareira, porque, emfim, vocemec j
nos fallou n'uns poucos de reis de quem se no pde dizer mal: D. Diniz,
por exemplo, D. Joo I, etc.

--Eu te digo, rapaz,  porque no houve nenhum que percebesse to bem o
seu tempo, nem soubesse to bem como  que se governa. Era homem de
cabellinho na venta, mas s dava cabo de quem lhe fazia transtornar os
seus planos, era valente como os que o so, mas, depois de ser rei,
nunca mais foi  guerra. Calculava tudo, combinava tudo, e, como
quem joga bem a bisca, sabia de cr os trunfos, e o que queria era
marcar bons pontos, dsse l por onde dsse. Subiu ao throno, na firme
resoluo de acabar com os privilegios da nobreza e do clero. Para isso,
como de costume, serviu-se do povo. Chamou crtes a Evora, ahi
entendeu-se com os procuradores do povo para elles se queixarem dos
fidalgos. Ento o rei pe-se no seu logar, e toca a deitar abaixo
privilegios. Se vocs querem ver o que  berraria! O primeiro que se
levantou foi o duque de Bragana, e esse ento metteu-se com os
castelhanos. D. Joo II no esteve com ceremonias, mandou-lhe cortar a
cabea. O duque de Vizeu, seu proprio primo e cunhado, fez-se tambem
chefe de conspirao. O mesmo rei deu cabo d'elle com uma boa punhalada,
e depois foi tudo raso com o diabo do homem. Prendia uns, desterrava
outros, mandava matar este, confiscava os bens quelle... um inferno.

--Ento por isso  que era principe perfeito? perguntou a tia Margarida
indignada.

-- mulhersinha, espere l. Diz o proverbio: cada terra com seu uso,
cada roca com seu fuso. Pois eu digo tambem: cada tempo com os seus
costumes. O tempo d'elle no era como o nosso. Hoje matar um homem ,
com raso, uma cousa por ahi alem. N'aquelle tempo parecia a todos
perfeitamente natural que se castigassem com a morte, mesmo 
punhalada, todas as conspiraes. Ora D. Joo II s escapou por milagre
a muitas que houve contra elle.

Mas D. Joo II no era homem que se assustasse. Estreiara-se em Arzilla,
ao lado de seu pae, e logo mostrra um grande esforo; na refrega de
Toro, em Hespanha, foi elle quem ganhou a batalha pelo seu lado,
emquanto o pae a perdia pelo outro. Nas conspiraes, que se faziam
contra elle, mostrou sempre uma coragem por ahi alem, mas tambem no
perdoava nenhuma. E tanto fez, tanto fez, que a final todas as cabeas
se abaixaram, e quem ficou governando a valer e devras foi elle.

Eu no lhes digo, rapazes, que approvo todas aquellas crueldades, e que
acho bonito que D. Joo II matasse sem d nem piedade at os parentes.
Conheo que era preciso ter cabellos no corao para fazer o que elle
fez, mas que querem vocs?  sina que nunca se fizeram as grandes
mudanas politicas sem correr muito sangue. Dizia aquelle engenheiro
francez, que aqui esteve em Bellas na obra da agua, quando s vezes se
punha a conversar commigo: Joo, no se faz omeleta sem se quebrar
ovos. E dizia bem. Aquillo entre D. Joo II e a nobreza era guerra de
morte. Atiravam  cabea; eu bem sei que era mais bonito perdoar. Mas,
meus amigos, perdoar aos seus inimigos s o fez Nosso Senhor Jesus
Christo, e isso bastava para que todos conhecessem que elle era Deus
e no homem.

Em todo o caso, rapazes, sempre lhes quero confessar que, para gostar
deveras de D. Joo II, preciso de desviar os olhos d'aquella sangueira
toda, e ver o que elle fez por outro lado. Ah! que rei aquelle, rapazes!
Nos descobrimentos foi um segundo infante D. Henrique, porque no foi s
dizer aos pilotos: Vo vocs andando por ahi abaixo, e quando toparem a
India mandem c um recado. No, senhores! Agarrou em dois judeus que
eram homens de sabena, e mandou-os por terra ao Egypto, para que fossem
do Egypto ver se topavam a India e se sabiam como  que se podia l ir
ter por mar. Foram estes Pedro da Covilh e Affonso de Paiva. Ao mesmo
tempo no deixra de mandar navios pela Africa abaixo. Um sujeito,
chamado Bartholomeu Dias, tanto andou, tanto andou sempre com a terra 
esquerda, at que um bello dia, por mais que tocasse  esquerda, no via
seno agua: Mau, disse elle comsigo, o diabo da costa virou de rumo.
Vira elle tambem e d com a terra que a para cima em vez de ir para
baixo como at ahi. Eu cheguei ao fim da Africa, disse comsigo o
Bartholomeu Dias, eu passei algum cabo sem dar por isso. E, j todo
contente, queria ir seguindo para diante a ver onde iria dar comsigo.
Mas a marinhagem estava canada e quiz por fora voltar para traz.
No houve remedio, e  volta effectivamente deram com o tal cabo que
vinha a ser a ponta da Africa, e apanharam tantos temporaes que
Bartholomeu Dias chamou a esse cabo, cabo Tormentorio; mas, quando
chegou a Lisboa e contou a D. Joo II o que succedera, este, que logo
percebeu que estava dado o grande passo na descoberta da India, no quiz
para tamanha descoberta um nome de mau agouro, e mudou ao cabo
Tormentorio o nome em cabo da Boa Esperana, como quem diz: Agora sim,
agora  que me parece que vamos por estrada direita.

Ora ho de vocs saber, rapazes, que por esta occasio vivia em Portugal
um sujeito genovez chamado Christovo Colombo, que era homem entendido
em cousas de mar, e que se occupava tambem muito de descobrimentos de
terras e tal etc. Foi at por isso que elle veio para Portugal, porque
isto aqui era a forja, onde, para assim dizer, se fabricavam terras
novas, e todos os que se enthusiasmavam com essas cousas vinham para c
assoprar aos folles. Christovo Colombo estivera na Madeira, ouvira
fallar em signaes de terra para os lados do pr do sol, e comera a
embirrar que, indo atraz do sol, havia de esbarrar com a India. Fallou
n'isso a D. Joo II, este consultou os sabios, e os sabios desataram a
rir. Colombo ento foi-se embora e comeou a offerecer os seus servios
a quem lhe dsse uma casca de noz; acceitou-os a Hespanha, depois de
massar muito o pobre do homem. Christovo Colombo partiu seguindo sempre
para o occidente, e a final deu com uma terra povoada de selvagens, que
vinha a ser nem mais nem menos do que a America, emfim um mundo inteiro
muito maior que a Europa toda. Ora, tudo isso podia ter vindo para ns,
e no nos fazia mal nenhum, se D. Joo II no ce na asneira de no
acreditar no Colombo, que todos sabiam que era um homem esperto, e de
lhe no querer dar dois ou tres navios para tentar a sua descoberta,
elle que tinha navios a rodo por esses portos todos!

--Sim! l isso! acudiu o Manuel da Idanha coando na cabea. Vocemec
diz que o homem era to espertalho, mas essa parece-me de cabo de
esquadra!

--Achas, meu palerma? Diz um proverbio: Quem adivinha vae para a
casinha. E eu j te mostro que outro qualquer, no caso de D. Joo II,
fazia o mesmo. Tu imaginas que Christovo Colombo chegou ao p de D.
Joo II e lhe disse: Saiba Vossa Alteza (que ento ainda se no dava
magestade aos reis) saiba Vossa Alteza que ali defronte dos Aores est
um paiz muito rico, onde ha muito ouro, e muita prata e muitos
diamantes, e, se Vossa Alteza quizer, eu chego ali n'um instante e c
lh'o trago? Ests tu muito enganado. O proprio Colombo nem sabia que
havia ali similhante paiz. Toda a sua mania era que, sendo a terra
redonda, e n'isso tinha elle raso, indo uma pessoa para o occidente,
havia de dar volta e chegar ao oriente. Mas o que elle no sabia  que a
terra era to grande como lhe sau; e, se no lhe apparece a America, o
homem via-se grego, e ainda tinha de comer muito po antes de arribar,
onde elle queria ir, tanto que provavelmente no levava no poro farinha
que lhe chegasse. Ora agora, pensem vocs tambem, rapazes, no seguinte:
Havia um bom par de annos que Portugal andava a teimar em seguir pela
Africa abaixo  procura da India. Teimou, teimou, at que a final chegou
ao fim da Africa, e percebeu que a terra seguia para cima, e a com toda
a certeza parar  India. E  exactamente quando se consegue o que se
procurava havia tanto tempo, quando se descobre o cabo da Boa Esperana,
quando se tem a certeza de que se encontrou o caminho da India, que vem
um sujeito ter com o rei de Portugal, que est todo alegre com a
descoberta, e dizer-lhe: Faa favor de apagar tudo isso, e de comear
outra vez a procurar a India por outro lado. O rei,  claro, mandou-o
pentear macacos. Ora agora confesso tambem que se no pe assim no meio
da rua um homem como Christovo Colombo. Procurar a India pelo occidente
no impedia que se continuasse a procurar pelo caminho que at ahi se
seguira, e ns j tinhamos topado tanta terra que no esperavamos,
que no era cousa do outro mundo que fossem mais duas caravellas a Deus
e  ventura ver o que o mar dava de si.

Emfim no se fez isso; os hespanhoes ficaram com a America, e
principiaram ao desafio comnosco n'isso de descobrimentos, tanto que foi
necessario que o papa dividisse entre elles os novos mundos ao meio,
dizendo: Para aqui descobrem os hespanhoes, e para aqui descobrem os
portuguezes, o que fazia com que um rei de Frana dissesse depois: Ora
sempre eu queria ver o artigo do testamento do pai Ado que deixou a
terra aos hespanhoes e aos portuguezes!

Todos se riram, e o Joo da Agualva continuou:

--Muito mais provas de juizo deu el-rei D. Joo II, e felizes seriamos
ns se os reis que se seguiram fossem como elle. Na Africa, tratou de
chamar a si os pretos, de os mandar baptisar, mas s boas, e de fazer
por ali fortalezas para se assenhorear do commercio. Na Europa ento
houve uma cousa que mostra que elle sabia ser rei. Os soberanos de
Hespanha, todos devotos, mandaram pr fra do seu paiz os judeus, que
eram, como foram sempre, uma raa trabalhadeira e esperta, que se
enriquecia e a enriquecendo a terra onde vivia. Mas a rainha de
Hespanha, l por beaterios tolos, no os quiz consentir no seu reino, e
intimou-lhes mandado de despejo. Sempre quero que vocs me digam
porque? Porque tinham crucificado Jesus Christo? Mas isso foram uns
malandrins de Jerusalem, e nem os filhos tinham culpa do que os paes
fizeram, e at os paes de muitos d'elles talvez nem em Jerusalem
estivessem n'esse tempo. Porque no acreditavam na religio christ? O
peor era para elles. Pois se no se pde salvar quem no for christo,
no outro mundo torceriam a orelha, e no era necessario j n'este mundo
ir-lhes torcendo pescoo. Porque no comiam toucinho? Tanto melhor para
os bons christos, que sempre ficava mais barata a carne de porco. Mas
fossem l dizer estas cousas n'aquelle tempo aos reis catholicos! Corria
uma pessoa risco de ir parar a uma fogueira. D. Joo II riu-se da
devoo dos visinhos, recebeu os judeus na sua terra, e tirou proveito
do caso, obrigando-os, em troca do asylo que lhes dava, a pagar-lhe um
bom tributo. Elles estavam com a corda na garganta, pagaram com lingua
de palmo, ainda que isso lhes havia de custar, porque sempre foram
sovinas. Mas, como diz o outro, para judeu, judeu e meio.

--Olhe l,  sr. Joo de Agualva, e ento quem diz que a inquisio c
em Portugal queimava os judeus? perguntou o Manuel da Idanha.

--L chegaremos, sr. Manuel da Idanha, l chegaremos. No ha s muitas
Marias na terra, ha tambem muitos Joes, e ns ento tivemos seis,
cada um do seu feitio.

Tudo se paga, meus amigos, e um homem pde ser principe perfeito; quando
ultraja a lei de Deus, derramando o sangue de seus irmos, ha de o pagar
com lagrimas que tambem so sangue s vezes. Tinha D. Joo II um filho
chamado Affonso, a quem queria como s meninas dos seus olhos. Casra
com a filha dos reis de Hespanha, e as festas com que se celebrou o
casamento tinham sido das mais pomposas. Morreu, e morreu de um
desastre. Quem pde imaginar a dr d'aquelle pae! Chorou esse homem de
ferro, que tantas lagrimas tambem fizera derramar, chorou lagrimas de
sangue, do sangue do seu corao, e, l nas horas mortas da noite,
quando estivesse ssinho a pensar no filho, havia de ver muitas vezes os
espectros d'aquelles que matra sem ter piedade da orphandade de seus
filhos, como Deus no tivera tambem compaixo da orphandade da sua alma.
Morreu quatro annos depois, em 1495, sem poder deixar a cora a um filho
seu, porque debalde quizera legitimar um bastardo que tinha, e assim,
altos juizos de Deus! quem lhe havia de succeder, e no  s isso, quem
havia de colher para si a gloria de realisar a conquista da India, que
D. Joo II to cuidadosamente preparava? Um irmo d'aquelle duque de
Vizeu, que elle assassinra, D. Manuel, o _Afortunado_.

Afortunado ou Venturoso lhe chamou a historia, e com raso, porque no
teve seno bamburrice, o que no quer dizer que fosse um palerma, e que
no tivesse mesmo bastante tino, mas fazia tanta differena de D. Joo
II como uma larangeira de um carvalho. Encontrou a papinha feita.
Estavam preparados os navios para a descoberta da India, poz  frente
d'elles Vasco da Gama, e em 1497 chegava Vasco da Gama  India, que era
o paiz mais rico d'esse tempo. Mandou atraz d'elle Pedro Alvares Cabral,
este chega-se mais para o occidente do que devia ser, e esbarra com o
Brazil em 1500; bom! Pe ambos de parte, que l ingrato como aquelle no
havia nenhum, e manda para a India uma esquadra, onde a Duarte Pacheco,
homem que parece mesmo um d'aquelles sujeitos da antiguidade, que eram
meios homens, meios deuses, e de quem se contam muitas patranhas, que
foram excedidas pelas verdades d'este nosso patricio. Querem vocs
saber? Na India havia muitos reis, como ainda hoje ha, apesar que esto
agora todos sujeitos aos inglezes. Vasco da Gama tinha chegado a uma
terra chamada Calicut, onde residiam muitos mouros, que eram quem fazia
n'esse tempo o negocio todo da India. Viram a bolsa em perigo, e no
descanaram emquanto no pozeram ao rei de Calicut de mal com os
portuguezes. Palavra puxa palavra, elle matou-nos um homem, apanhou uma
lio mestra, e de vingana em vingana ficmos inimigos para
sempre. Mas havia outro rei, o rei de Cochim, que era e foi sempre nosso
amigo. D'ahi, barulho entre os dois. Como o rei de Calicut era muito
mais poderoso, esperou que no estivessem l navios nossos, e, sabendo
que tinha ficado apenas Duarte Pacheco e mais uns cincoenta portuguezes,
disse comsigo: Agora  que tu m'as pagas. E arranjou um exercito
forte, e marchou contra o pobre rei, nosso amigo. Os soldados de Cochim
tinham medo que se pellavam, e fugiam que era um louvar a Deus; mas
Duarte Pacheco, mais os seus cincoenta homens, com a sua habilidade e a
sua valentia, conseguiu tomar o passo ao de Calicut, e dar-lhe tareias
monumentaes.  rapazes, pois uma pessoa no se hade s vezes ufanar de
ser portuguez? Quando  que se viu uma cousa assim? Meia duzia de gatos
bastaram para dar cabo de exercitos immensos! Eu bem sei que era a
disciplina, que eram as armas, que era tambem a fraqueza d'aquelles
bananas, que o sol da India faz uns mollengas, mas era necessario que
fossem de ao e de ferro, em vez de ser de carne e osso, esses valentes
que assim viam, sem descorar, marchar contra elles um exercito
formidavel! Era necessario que se tivessem disposto a morrer para no
deixarem que fosse pisada aos ps a bandeira de Portugal! E, a final de
contas, por muito molles que os outros fossem, sempre eram mil
contra um, e, com certeza, nenhum dos nossos pensava que saria com
vida de similhante combate. Depois aces d'essas eram mais faceis, no
s porque os nossos j tinham tomado confiana em si, e sentiam-se
capazes de levar aos pontaps quantos indios houvesse na India, mas
tambem porque elles tinham-nos tomado medo; mas isso tudo a quem o
devemos seno a Duarte Pacheco? Pois, meus amigos, imaginam vocs que
Duarte Pacheco foi feito governador da India, ou teve algum titulo, ou
alguma recompensa grande? Qual carapua! D. Manuel nem mais pensou
n'elle, e era to feliz que logo encontrou para ser primeiro vice-rei da
India um homem como D. Francisco de Almeida, que em toda a parte do
mundo seria digno de exercer os primeiros logares.

Com effeito, D. Manuel, que primeiro quizera apenas que os seus seus
navios viessem carregados de mercadorias da India, que depois c se
vendiam na Europa, entendeu que devia tomar raizes, e encarregou D.
Francisco de Almeida de governar os portuguezes que por l estivessem,
fundando ao mesmo tempo fortalezas. D. Francisco de Almeida entendia,
porm, e no deixava de ter raso, que Portugal era um paiz muito
pequeno para estar assim a mandar soldados para a India, e o que elle
queria era ser senhor do mar para que ninguem mais ali podesse fazer
negocio. Emquanto s teve os indios pela pra am as cousas bem,
mas os turcos, que viam diminuir os seus rendimentos com o novo caminho
das Indias, comearam a metter-se na dana, e os turcos no eram tropa
fandanga, eram gente de quem tremia a Europa. Tambem, quando se
encontraram primeiro com os portuguezes, levaram a melhor e at mataram
um filho de D. Francisco de Almeida, que o vice-rei adorava. Foi a sua
perdio, porque D. Francisco de Almeida no descanou emquanto no
vingou a morte do seu estremecido Loureno. Os turcos levaram uma sova
de primeira qualidade, e na India ficou-se sabendo de uma vez para
sempre que casta de homens eram os portuguezes.

Pois, rapazes, parecia que d'esta vez D. Manuel se daria por muito feliz
em ter no Oriente um homem como D. Francisco de Almeida, que tinha posto
os indios a po e laranja, e dado uma esfrega tal nos turcos que se no
atreveram por muito tempo a tornar  India. Enganam-se. Apenas acabou o
seu tempo, foi chamado a Portugal, e naturalmente el-rei nem pensaria
mais n'elle, ainda que no tivesse morrido no caminho. Mas continuava a
ser to feliz que encontrou, para substituir D. Francisco de Almeida, um
homem que ainda valia mais do que elle, porque era o grande Affonso de
Albuquerque. Ah! meus amigos, apparecem de vez em quando no mundo uns
homens, que so capazes de revolver a terra, como os Napolees e
outros assim, Affonso de Albuquerque foi um d'esses.

A respeito das cousas da India no pensava como D. Francisco de Almeida,
mas no era porque visse as cousas de outro modo, era porque achra
maneira de as concertar. Sim, elle bem sabia que Portugal no podia
estar a encher a India de soldados, mas o que elle queria era que os
Indios se misturassem com os portuguezes, e, para o conseguir, ao passo
que era cruel com os mouros, com os indios era to bom e to justo que,
depois da sua morte, am elles resar ao seu tumulo, como quem vae resar
ao tumulo de um santo. Escolheu elle tres pontos, em que estabeleceu,
para assim dizer, os seus quarteis generaes, e todos muito bem
escolhidos: Ormuz, ao p da Persia; Goa, no meio da India; Malaca, para
os lados da China e das ilhas a que se chamava das Especiarias ou das
Molucas. Primeiro tomou Goa, depois Malaca que tinha dente de coelho,
porque os malaios so levadinhos da brca, depois Ormuz, e, quando
acabou de fazer tudo isto, estava j demittido, e sabendo que a ser
nomeado para o seu logar o seu peor inimigo! Morreu com esse desgosto.

Tambem d'essa vez tinha-se acabado o fornecimento de grandes homens, e
os dois ultimos governadores da India, no tempo de D. Manuel, no foram
l grande cousa, mas tambem no estragaram nada. Aquillo ento a
n'um sino. Os portuguezes espalhavam-se por toda a parte, de um lado
chegavam  China, do outro  Persia, do outro s Molucas, do outro a
Cambaya. Tinham fortalezas por toda a parte; elles recebiam a boa
canella de Ceylo, o bom cravo das Molucas, a boa pimenta da India, os
bons cavallos da Persia, as sedas da China, o incenso da Arabia, os
diamantes de Golconda, e traziam estas riquezas todas para a Europa e
vinham aqui a Lisboa, que estava sempre cheia de navios, os hollandezes
e os inglezes comprar tudo isto para o vender por esse mundo. Do Brazil
no se fazia caso porque nem valia a pena; na Africa sempre se am
tomando praas, que era para n'aquellas constantes guerras com os mouros
se exercitar a fidalguia, que depois fazia o diabo a quatro na India.
Emfim, quando D. Manuel mandou ao papa uma embaixada com presentes
vindos de todas as suas conquistas, Roma ficou embasbacada, e no se
fallava em todo esse mundo seno na grandeza de Portugal. Bons tempos,
meus amigos, mas que duraram pouco!

No reino, D. Manuel logo mostrou que, se no era tolo, tambem no tinha
o entendimento de D. Joo II. Poz fra os judeus;  verdade que depois,
quando em Lisboa o povo fez uma matana nos que tinham ficado a titulo
de se terem convertido, mostrou-se muito zangado e castigou a cidade.
Grande no foi elle, mas viu-se cercado de gente que o fez grande,
e teve a esperteza de os saber conhecer. Depois, punha-os de parte com a
maior facilidade, mas atinava com elles; s no percebeu o que podia
esperar de Ferno de Magalhes, que, zangando-se com uma picardia que
lhe fez, passou para Hespanha, e assim nos deixou ficar sem a gloria de
termos sido ns os primeiros que deram volta ao mundo, como fizeram os
hespanhoes commandados pelo tal Ferno de Magalhes, porque isso,
n'aquelle tempo, no havia por esses mares uma onda que no marulhasse
em portuguez...

--Em portuguez porque? perguntou o Francisco Artilheiro. Eu nunca
percebi o que ellas diziam.

--Ento  que tem a cabea to dura como tu, porque foi sempre o
portuguez a primeira lingua que ouviram, e at l para a terra dos
bacalhaus, para o norte, onde faz um frio de rachar, l mesmo foi Gaspar
Cortereal que primeiro descobriu a Terra Nova. Emfim, meus amigos,
depois de ter casado tres vezes, e sempre com princezas hespanholas,
morreu em 1521 el-rei D. Manuel, e, verdade verdade, com elle se pde
dizer que morreu a grandeza de Portugal.

Succedeu-lhe o filho D. Joo III, que era o beato mais beato que tem
vindo a este mundo. D. Manuel j l tinha as suas manias, mas, como eu
lhes contei, quando os de Lisboa desataram a matar os judeus, ou
antes os christaos novos, deu-lhes com o _basta_. D. Joo III, esse, no
descanou emquanto no metteu em Portugal a inquisio. O papa no
queria, fazia-se rogado, e D. Joo III  que insistiu com elle para
apanhar essa prenda. Chegou a gastar rios de dinheiro para o conseguir!!
Ora, realmente, metter c um tribunal que, apenas um sujeito se esquecia
de ir  missa, ferrava com elle na cadeia, quando no era na fogueira,
s lembrava a D. Joo III. At os estrangeiros fugiam, e ento o resto
dos judeus, que ainda por c havia, e que por amor  nossa terra se
tinham feito christos, com medo da inquisio, se foram safando logo
que poderam. E, no contente com isso, introduziu tambem a companhia de
Jesus, que era uma ordem nova de frades mais disciplinados que um
regimento, e que tinham jurado ser elles que haviam de governar o mundo.
Ora, l para prgar aos herejes, e aos gentios da India, e aos selvagens
do Brazil, eram muito bons, porque no recuavam nem diante da morte, e
houve jesuitas, como S. Francisco Xavier, que no ficaram a dever nada
aos doze apostolos; mas em Portugal mettiam-se em toda a parte: elles
ensinavam, elles confessavam, e estou em dizer que no podia ser bom. Eu
no sou contra os padres, nem contra a religio, pelo contrario, mas
tambem no se ho de metter em tudo. Ora vejam vocs como havia de
viver um dos nossos avs d'esses tempos! Os jesuitas a apertarem-lhe o
freio, e ao mais pequeno desmando, zs, fogueira da inquisio com elle.
At se fizeram macambuzios os pobres homens, que eram at ahi gente
alegre. No se podia escrever cousa nenhuma, que no viessem logo os
jesuitas: Corte-se isto porque parece contra a religio, no se
represente aquillo porque se faz troa a um frade, e porque torna e
porque deixa. O que  certo, meu amigos,  que, emquanto l por fra se
andava para diante, e se faziam invenes, e se estudava, ns no
passavamos da cepa torta, e o mal que isso fez vo vocs vl-o.

Na India parecia que a tudo muito bem, mas via-se que no podia durar
muito. Valentes eram os nossos, mas, em vez de fazerem o que Albuquerque
queria, em vez de accommodarem os Indios, e de se porem s boas com
elles, no senhor, faziam crueldades que era uma cousa por demais, e o
que queriam era apanhar dinheiro. Passavam o tempo, ora em guerra com o
rei de Calicut, ora com o rei de Cambaya, ora com o rei de Achem, ora
com o rei de Bintam, ora com o rei de Kandy, ora com todos ao mesmo
tempo. Isto no era vida. Obravam prodigios de valor, isso  verdade,
como por exemplo nos dois cercos de Diu, em que Antonio da Silveira e D.
Joo de Mascarenhas se defenderam de um modo maravilhoso, mas,  fora
de dar cutiladas, o brao a canando, e o paiz estava esfalfado.
No havia nem um instante de socego. Se apparecia um governador como D.
Joo de Castro, o da Penha Verde de Cintra, que era honradissimo e
justiceiro, os outros no pensavam seno em roubar. J se pegavam uns
com os outros, como fez Lopo Vaz de Sampaio com Pedro Mascarenhas, e
quando D. Joo III, o Piedoso, como lhe chamaram os frades, morreu em
1557, todos previam que isto a para baixo. O filho mais velho de D.
Joo III morrera ainda em vida do pae, e quem lhe succedeu foi um neto,
creana de cinco annos, que tinha o nome de D. Sebastio. Ficou regente
a av, senhora de bastante juizo, que governou bem, mas que em 1562 teve
de ceder a regencia ao cunhado, o cardeal D. Henrique, todo dominado
pelos jesuitas, e que cercou de padres o principe. O que resultou d'ahi?
Resultou que D. Sebastio, que gostava de guerras e batalhas, fez-se ao
mesmo tempo beato. Parecia um d'aquelles antigos frades militares, que
tinham concorrido tanto para expulsar os mouros de Portugal. No quiz
casar, e at fugia das mulheres. No pensava seno em dar cabo dos
mouros. Ora, se ns que j tinhamos tanto trabalho para nos sustentarmos
na India, que framos obrigados a largar umas poucas de praas na
Africa, que tinhamos precisado de um grande esforo para salvar Mazago,
cercada pelos mouros, nos mettiamos em grandes guerras com elles,
aonde iria isto parar! Pois foi o que succedeu. Na India o trabalho era
cada vez maior; um governador, chamado D. Constantino de Bragana,
parente da casa real, fizera por l grandes cousas, mas pouco tempo
depois juntavam-se quasi todos os reis da India e vinham sobre ns. O
que nos valeu foi termos um novo Affonso de Albuquerque, um general de
mo cheia, D. Luiz de Athayde, que a tudo acudiu e tudo salvou; mas
vocs bem vem que isto no podia continuar assim. Quando as cousas
estavam n'este bonito estado, quando ns tinhamos s costas a India, o
Brazil para que D. Joo III principira a olhar, onde precisvamos de
nos defender contra os aventureiros francezes que achavam a terra a seu
gosto, de que se ha de lembrar el-rei D. Sebastio? De ir conquistar
Marrocos! Eu j tenho ouvido dizer que mais valia termos conquistado
Marrocos, que nos ficava  porta, do que irmos  India que ficava to
longe. Pois sim, mas o que era necessario era escolher. Ou uma cousa ou
outra. Mas D. Sebastio, com aquella embrulhada, que elle tinha na
cabea, de idas religiosas e de idas guerreiras, no attendia a cousa
nenhuma, nem fazia calculos nenhuns. O que elle queria era dar lambada
nos mouros, e, apesar dos conselhos de toda a gente, levanta um pequeno
exercito, e para o levantar custou-lhe, porque j no havia braos
no paiz... co'a breca, que elles no chegavam para tudo! e abala-se
para a Africa a pretexto de ir soccorrer um principe mouro que tinha
sido expulso do throno por seu tio!

Ah! meus amigos, aquillo era mesmo um doido que ali a. A gente gosta de
ver um rapaz que tem o sangue na guelra, e que se atira para diante,
embora faa asneira, mas  que D. Sebastio estava perfeitamente maluco.
Era maluquice a empreza, foi maluquice o modo como a preparou, foi
maluquice o modo como a dirigiu. Parecia que Deus, por umas poucas de
vezes, o quizera salvar, e elle sempre a atirar comsigo de cabea para
baixo. Emfim, no dia 4 de agosto de 1578, deu-se a batalha  moda de
seiscentos diabos, porque nem houve commando, nem houve nada. D.
Sebastio atirou-se aos mouros e no quiz saber de exercito, nem de
cousa nenhuma. Emquanto poude dar cutilada, deu. A flor da fidalguia
portugueza ali morreu, a que no morreu ficou prisioneira. Os soldados
fugiram, uns por aqui outros por ali, e, quando a noticia chegou ao
reino, imaginem que afflico! No se perdera s um rei, perdera-se a
cora, porque no havia herdeiros, e quem subiu ao throno foi o velho
cardeal D. Henrique, tio av do fallecido, que nunca fra esperto e que
estava ento meio apatetado. Ainda houve quem dissesse que D. Sebastio
no morrera, porque ninguem o vira car morto, e o cadaver que
appareceu, e que se disse que era d'elle, estava to desfigurado que se
no podia conhecer. Assim l ficou D. Henrique a governar, mas para que?
Todos sabiam que a cora era herana que no tardava. Quem a havia de
apanhar? Quem tinha direito verdadeiro era a duqueza de Bragana, por
ser filha de um irmo de D. Joo III, D. Duarte; quem era mais
sympathico ao povo era D. Antonio, filho bastardo de outro irmo de D.
Joo III, D. Luiz; quem tinha mais fora era D. Filippe II, rei de
Hespanha, filho de uma irm de D. Joo III, D. Isabel. Ainda havia
outros que se diziam herdeiros, mas entre aquelles tres  que a lucta
era sria. Ferviam as intrigas. D. Filippe tinha em Portugal um
embaixador, e at por signal era portuguez, D. Christovo de Moura, que
comprava todos quantos se queriam vender, e bem parvos eram os que no
am ao mercado. As crtes, chamadas por D. Henrique para decidir a
questo, estavam j to pouco costumadas a metter o seu bedelho n'essas
questes, que disseram ao rei que decidisse como quizesse, apesar de
berrar muito contra isso um portuguez s direitas, procurador de Lisboa,
e que se chamava Phebo Moniz. O rei no decidiu cousa alguma. Morreu em
1580, e deixou o quartel general em Abrantes, tudo como d'antes. Nomeou
governadores do reino uns sujeitos que se tinham j vendido aos
hespanhoes, e que de certo am escolher D. Filippe II. Mas, como se
demorassem, este no esteve para os aturar, e mandou-nos c um exercito
commandado pelo duque de Alba. Vendo os hespanhoes, o povo virou-se para
D. Antonio, prior do Crato e bastardo do infante D. Luiz, e acclamou-o
rei. Valente era elle, mas no era mais nada. Quiz resistir aos
hespanhoes com um punhado de gente que nunca pegra em armas. Batido em
Alcantara, s portas de Lisboa, depois de algumas horas de combate,
fugiu para o Minho, por onde andou escondido, at que poude safar-se
para o estrangeiro. Filippe II entrou socegadamente em Lisboa, e era uma
vez a independencia de Portugal.

--O que! estavamos hespanhoes? perguntou furioso o Bartholomeu.

--Estavamos hespanhoes, sim, meu amigo, e eu te vou explicar como  que
tinhamos chegado a isso em to pouco tempo. Em primeiro logar, creio que
j sabem que D. Joo II abaixra a pra de todo  nobreza, e d'ahi por
diante os fidalgos ficaram sendo simplesmente criados do pao. O povo
ajudra o rei a fazer essa obra necessaria, mas o rei, apenas se viu
servido, deu-lhe para baixo, e el-rei D. Manuel comeou a dizer que os
foraes, que eram as leis por que se governavam os concelhos, no estavam
muito claros, e para os aclarar, reformou-os, quer dizer, deu cabo
d'elles. Em crtes j se no fallava seno de longe a longe. D'antes,
pelo menos, para se lanarem tributos novos, sempre se reuniam as
crtes. D. Manuel no quiz que ellas se incommodassem por to pouco, e,
para lhes poupar trabalho, comeou elle a deitar os tributos por sua
conta. Ora isto  muito bom, emquanto as cousas vo correndo bem. O rei
tem ali o seu povo manso como um leo domesticado, com as unhas cortadas
e os dentes limados, mas, quando vem as occasies, o povo mette o
rabinho nas pernas e no tuge nem muge. Para mais ajuda, a inquisio
concorria para terem todos pouca vontade de se mexer. Os jesuitas, que
tanto podiam fazer pela influencia que possuiam, no se importaram para
nada com isso. Frades como elles eram, muito ligados entre si, e muito
escravos do seu geral que estava em Roma, no tinham patria, a sua
patria era a Companhia. Depois, vocs bem vem que o reino no podia
deixar de estar sem foras. Era um sar de gente todos os annos para a
Africa, para a India, para o Brazil, que era uma cousa por demais. No
meio de tantas riquezas o paiz achava-se pobre. Havia muita gente rica e
vadia, mas no havia lavoura, no havia fabricas, no havia nada, o
dinheiro entrava por um lado para sar pelo outro. Demais a mais tudo
era pandiga rasgada. Os portuguezes vinham do Oriente descanar das suas
fadigas. Tinham escravos para o servio, passavam os dias na amante
vadiagem. No ha cousa que mais deite a perder os homens. Por isso
D. Filippe e o seu embaixador Christovo de Moura encontraram tudo podre.

Ho de vocs dizer: Pois ento, s porque um rei morreu, e s porque se
perdeu um exercito, que no era grande cousa, perdeu-se Portugal? 
assim mesmo. Faltou o rei, faltou tudo, porque o povo nem j sabia de
si, e as crtes, quando no havia quem mandasse alguma cousa, nem sabiam
o que haviam de fazer. Soldados portuguezes, os bons, estavam na India,
e no bastavam; os que tinham voltado no pensavam seno na pandiga.
Tudo estava alluido na nao portugueza, veio o empurro de
Alcacer-Kibir, foi tudo abaixo, e eu, meus amigos, no vou para baixo,
vou para cima que so horas de me ir chegando ao pouso. Domingo
continuaremos, porque j agora havemos de acabar, que l dizer que eu
tenho muita vontade de lhes contar a historia do que se passou no tempo
dos Filippes, isso no tenho. Ento  que Portugal perdeu a esperana de
se levantar.




SETIMO SERO

Portugal durante o dominio hespanhol.--Filippe I.--Os falsos D.
Sebastio.--Ultimos esforos do prior do Crato.--Os inglezes e
hollandezes no ultramar.--A invencivel armada.--D. Filippe II.--Perda e
restaurao da Bahia.--Filippe III.--O conde-duque de Olivares e os
privilegios das provincias.--Perda de Pernambuco.--Tumultos de Evora.--O
duque de Bragana.--A conspirao dos fidalgos.--Revoluo de 1 de
dezembro de 1640.


--Meus amigos, disse o Joo da Agualva no domingo immediato, demorei-me
e o resultado foi apanhar uma constipao, que ainda mal me deixa
fallar. No quiz comtudo deixar de vir para se no perder este bom
costume dos domingos, mas pouco tempo me demoro, e no farei mais do que
contar-lhes a historia do que passou Portugal com o dominio dos hespanhoes.

Se ns ao menos tivessemos passado para uma nao forte, com vida e com
sangue, alguma cousa lucrariamos, mas a Hespanha estava peor do que ns.
Parecia muito poderosa por fra, mas s havia podrido l dentro. Depois
andava em guerra com a Europa toda, e n'essa guerra nos embrulhou
para nossa desgraa.

Apesar dos pesares, no cuidem vocs que tudo foram rosas para o nosso
rei Filippe I, que era em Hespanha Filippe II. Elle veio com psinhos de
l, prometteu respeitar as liberdades portuguezas, nunca nos dar por
governadores seno portuguezes ou principes da familia real, jurou
quanto quizeram, mas o povo no andava satisfeito, e, como no tinha a
quem se encostar, pensava em D. Sebastio, o _Desejado_, como lhe
chamam. Assim que apparecia um homem que tinha alguma parecena com o
rei fallecido, diziam logo que era elle, de frma que os hespanhoes
estavam sempre em sobresalto. Por isso o rei de Penamacor e o rei da
Ericeira, uns pobres homens que o povo embirrou em querer que fosse cada
um d'elles D. Sebastio, e que tomaram o caso a serio, provocaram os
seus tumultos, sendo os da Ericeira um poucochinho graves. Passados
tempos, ainda appareceram l fora, em Hespanha e em Italia, dois homens
que diziam ser D. Sebastio, e que lograram muita gente, mas esses eram
verdadeiros intrujes que nem mesmo pensavam seno em comer 
barba-longa,  custa dos freguezes. O tal amor ao D. Sebastio foi-se
pegando a ponto que comeou a formar-se uma seita que ainda ha pouco
tempo durava, a seita dos sebastianistas, que acreditavam que D.
Sebastio havia de apparecer n'um dia de nevoeiro para governar em
Portugal. Eu ainda conheci um sebastianista.

--E eu tambem, acudiu o Bartholomeu.

--J vem que no minto. Mas d'esse D. Sebastio no ha de vir mal ao
mundo, nem bem que  o peor. D. Antonio tambem trabalhava pela sua
banda, e, como a ilha Terceira o acclamra rei, foi-se l metter e
arranjou soccorro de Frana, mas os hespanhoes bateram a esquadra
franceza, e tomaram a ilha. Depois arranjou soccorros da rainha de
Inglaterra, que mandou uma esquadra a Lisboa, mas os inglezes foram
repellidos, e D. Antonio, descorooado de todo, foi morrer a Paris em 1595.

Mas querem vocs ver o que ns ganhmos com o estar juntos  Hespanha?
Foi termos  perna os inglezes e os hollandezes, que principiaram a
sacudir-nos da India, e que ento aos nossos navios faziam guerra
mortal. Ia tudo pela agua abaixo, e, para mais desventura, Filippe
lembra-se de mandar contra a Inglaterra uma esquadra immensa, a que
chamou a invencivel armada, e que sau do porto de Lisboa. A armada
perdeu-se e l se foram os nossos melhores navios. Filippe morria em
1598, e succedia-lhe Filippe II aqui e III em Hespanha. Se as cousas
tinham ido mal at ahi, ento foram peor. A Hespanha a a Deus e 
ventura, e ns atraz d'ella. O governo hespanhol, que mal cuidava de si,
no cuidava nada de ns. Os inglezes e os hollandezes tomavam-nos
quasi tudo o que tinhamos na India, e estes ultimos tambem se mettiam no
Brazil comnosco. Grandes faanhas ainda se faziam,  verdade, e da
Bahia, por exemplo, foram os hollandezes expulsos, mas, quando Filippe
II morreu em 1621, j o nosso poder no era nem a sombra do que tinha sido.

Succedeu-lhe Filippe III, e esse tinha um primeiro ministro chamado
conde-duque de Olivares, que imaginou que havia de acabar com os
privilegios das provincias, principalmente com os de Portugal. No
pensava n'outra cousa, de frma que deixava ir as colonias, e no Brazil
j os hollandezes tinham tomado raizes, e estavam senhores de
Pernambuco. Mas os portuguezes comearam a achar a brincadeira pesada e
a refilar ao Olivares. Em 1637 rebentou uma revolta em Evora, foi logo
apagada, mas com muito sangue. Peor para o caso. Os fidalgos, que
andavam tambem damnados, principiavam a conversar com o duque de
Bragana, D. Joo, e a apalpal-o para ver se elle quereria a cora. O
duque no dizia nem que sim, nem que no. Mas n'isto a Catalunha, que
tambem no perdoava ao Olivares a sem-ceremonia com que elle lhe queria
tirar os seus antigos privilegios, revolta-se. Boa occasio! Os
fidalgos, em Lisboa, sentiam-se cada vez mais dispostos a mandar os
hespanhoes para o diabo. O Olivares no fazia seno desesperal-os e
atial-os. Tinha-lhes dado por governador a duqueza de Mantua, e para
secretario do governo um portuguez, Miguel de Vasconcellos, que era mais
damnado contra os seus patricios do que se fosse hespanhol. Emquanto
deixava perder as colonias portuguezas, Olivares levava os nossos
fidalgos e os nossos soldados para as guerras de Flandres e da
Catalunha. Lembra-se emfim de dar ordem ao duque de Bragana para que v
para Madrid. Ento  que j se no podia estar com pannos quentes. Os
fidalgos dizem ao duque de Bragana: Ou acceita a cora, ou ns pomo-nos
em republica. O duque, a final, disse que sim. Com a brca! aquillo foi
um momento. Era um punhado de homens, os que andavam assim a conspirar;
elles no sabiam se podiam contar com o povo, nem se no podiam,
conspiravam s claras, que parece que em Lisboa todos sabiam da
conspirao menos os hespanhoes; reuniam-se umas vezes em casa de Joo
Pinto Ribeiro, outras vezes em casa de D. Anto de Almada, no jardim. No
dia 1 de dezembro de 1640 saem todos para o meio da rua. Eram quarenta,
pouco mais ou menos. Chegam ao pao, matam o Miguel de Vasconcellos,
agarram na duqueza de Mantua e fecham-n'a  chave, desarmam a guarda,
abrem as janellas, e dizem a quem a passando: Viva o duque de Bragana,
rei de Portugal! viva o sr. D. Joo IV! O povo diz-lhes c de baixo:
Viva! e viva, e viva! e eram uma vez os hespanhoes, e d'ahi a
pedao estava tudo to socegado como se no tivesse havido cousa
nenhuma, e os hespanhoes tinham desapparecido; e aqui tem vocs como se
faz uma revoluo quando ella est na vontade de todos. Digo-lhes,
rapazes, que este dia 1 de dezembro consola uma pessoa. Parecia que o
paiz no tinha feito seno acordar de um pesadello. Aquillo foi s
saltar da cama abaixo, e elle ahi estava de p, todo pimpo como em
outros tempos. E sabem vocs porque isto foi?  porque as naes so
como as espadas, onde enrijam  na bigorna.




OITAVO SERO

Unanimidade da revoluo.--Preparativos de resistencia.--Organisao
militar do paiz.--As allianas.--Relaes de Portugal com
a Hollanda.--Restaurao de Pernambuco e de Angola, e perda
de Ceylo.--Conspiraes contra D. Joo IV.--Guerra da
Restaurao.--Batalhas de Montijo e de Telena.--D. Affonso VI.--A sua
educao e a sua indole.--Regencia da rainha D. Luiza.--Antonio
Conti.--O conde de Castello Melhor.--Continuao da guerra.--Cerco de
Badajoz.--Batalha das Linhas de Elvas.--Paz entre a Hespanha e a
Frana.--Campanhas de D. Joo de Austria.--Schomberg.--Victorias do
Ameixial, Castello Rodrigo e Montes Claros.--Planos do conde de Castello
Melhor.--Intrigas do Pao.--Casamento, desthronamento e divorcio
vergonhoso de D. Affonso VI.--Regencia do infante D. Pedro.--Casamento
com a cunhada.--Tratado de Methwen.--Guerra da successo de
Hespanha.--D. Joo V.--As minas do Brazil.--Desperdicios, beaterio e
immoralidades.


--Meus amigos, principiou no outro domingo o Joo da Agualva, e j
ninguem o interrompia, tal era o interesse com que todos seguiam a sua
narrativa; o que succedeu na capital, succedeu no reino todo. Aquillo
foi chegar a noticia do que se passava em Lisboa, e de um momento para o
outro desappareciam os hespanhoes, e tornava tudo a ser Portugal.
Poupmos-lhes muita despeza em correios, porque logo souberam pelo
primeiro que Lisboa se tinha revoltado, que tinha vencido, que reinava
em Portugal D. Joo IV, e que a Hespanha, do Minho para baixo e do
Caya para o occidente, j no possuia nem um palmo de terra. Querem
vocs saber como o conde-duque de Olivares deu a noticia ao patro? Foi
d'esta maneira:--Dou os parabens a Vossa Magestade; acabam de lhe entrar
uns poucos de milhes no bolso.--Como assim? perguntou o rei que estava
a jogar, e que no desgostaria de que lhe saisse d'essa maneira a sorte
grande de Hespanha.--Porque o duque de Bragana, tornou o ministro,
acaba de se revoltar, e de se fazer rei de Portugal, e, como temos de
lhe tirar os bens e de lhe cortar a cabea, fica Vossa Magestade mais
rico. O rei no gostou muito d'esse modo de enriquecer, e ainda olhou
para os parceiros a ver se algum lhe dava quatro vintens pela herana.
Nenhum cau n'essa.

Isso era muito bom, mas Portugal  que no vivia de cantigas. A Hespanha
era ento ainda maior do que hoje , e, se ella nos casse em cima,
estavamos promptos. De que precisavamos ns? De dinheiro, de soldados e
de allianas. Tratou-se logo de tudo. Dinheiro votaram as crtes quanto
se quiz; para arranjar soldados fez-se uma obra fina que nunca ninguem
at ahi tinha feito, e que foi pr toda a gente em armas. E como?
dividiu-se o reino em tres linhas; a primeira de soldados, que se
chamavam pagos, a segunda de milicianos, e a terceira, que era a dos
velhotes, de ordenanas. Uns am  guerra, os outros ajudavam-nos
em sendo preciso, sando, o menos que podesse ser, dos seus sitios, e
finalmente os ultimos defendiam as suas terras, porque isso, atraz de um
muro, todos fazem figura. Digo-lhes, rapazes, que aquillo  que foi uma
ida, e olhem que no nos serviu s ento, tambem na guerra da peninsula
foi o que nos valeu, e, aqui para ns, no me parece que fizessem muito
bem em deitar abaixo aquella historia. Estava j tudo costumado, e
quando vinha uma guerra, saltava toda a gente para o meio da rua; e
olhem que isto de estar um homem dentro de casa, de espingarda na mo,
d que fazer aos mais pintados. E logo se viu.

Emquanto a allianas tambem no faltaram;  verdade que no serviram de
muito, porque cada um cuidava de si. A Frana, prompta, o que ella
queria era abaixar a pra  Hespanha, mas, como tambem l andava em
guerra com os hespanhoes, o mais que fez foi consentir que arranjassemos
officiaes francezes pelo nosso dinheiro; a Inglaterra, a mesma cousa,
muita festa para a festa, mas andava embrulhada em guerras civs, no
mandou para c nem um navio. Ento a Hollanda ainda foi peor, isso...
recebeu o nosso embaixador de braos abertos, poz luminarias, achou que
tinhamos feito muito bem, mas, quando o embaixador lhe disse: Ento
agora que estamos amigos, venham para c as nossas colonias, que
so nossas e no dos hespanhoes, a Hollanda exclamou: As colonias! ah!
sim! ns somos to amigos d'ellas! Esto j acostumadas comnosco! at
tinhamos pena de as deixar. E acrescentava o embaixador: Mas ento,
c'os diabos, ao menos no nos tomem mais nenhuma.--No tomamos, dizia
a Hollanda, isso nunca. Ora agora sabem vocs? as colonias so como as
cerejas. O caso  apanhar uma. Ah! elle  isso! disseram os portuguezes
comsigo, pois ento vamos a ellas. E, zs, rebenta uma revolta em
Pernambuco, e os brazileiros a berrarem: Viva D. Joo IV! A Hollanda
chamou o nosso embaixador: Ento que diabo  isso? ns somos amigos e
fazem-nos uma partida d'estas!--Patifes! dizia o embaixador. Aquillo 
do sol! esquenta-lhes a cabea, e do por paus e por pedras. Mas, aqui
para ns, se elles dizem: Viva D. Joo IV, no havemos de lhes ir dizer:
Morra D. Joo IV! No nos ficava bem.--Pois sim, mas digam-lhes que
estejam quietos.--Pois isso dizemos ns. E D. Joo IV mandava para l
armas e officiaes, e dizia-lhes: Ahi vae isso, que  para vocs estarem
quietos. E em poucos annos estavamos senhores de Pernambuco, e os
hollandezes na rua.

D'ahi a tempos, Salvador Correia de S a a Angola e punha fra os
hollandezes que nos tinham tomado esse reino.--Ento isto que vem a
ser? bradaram os hollandezes, ento os senhores vo de proposito do
Brazil a Angola para nos sacudir!--Quem  que fez isso? perguntava o
embaixador.--Salvador Correia de S.--Sim! pois estejam vocs
descanados, que lhe vamos j perguntar pelo correio, que diabo de
lembrana foi essa. Em vindo resposta c lh'a mandamos. E a proposito,
sr. Hollanda, vocs tomaram-nos Ceylo?--Tommos Ceylo, mas que
defeza! Antonio de Sousa Coutinho defendeu-se maravilhosamente. Os
nossos generaes so todos accordes que nunca encontraram resistencia to
desesperada! Quando escreverem para l, mandem os nossos parabens ao sr.
Antonio de Sousa Coutinho e recommendaes aos amigos.

E era assim que ns estvamos com a Hollanda: abraos na Europa e
lambada l por fra.

Houve s duas crtes que no quizeram nunca reconhecer a independencia
de Portugal; uma foi a crte de Roma que estava toda nas mos dos
hespanhoes, e a outra a da Allemanha, cujo imperador era da mesma
familia que a do rei Filippe. E fizeram-nos transtorno: a primeira
porque estvamos assim a modo excommungados, a segunda por uma patifaria
que praticou o imperador, mandando prender sem mais nem menos o principe
D. Duarte de Bragana, irmo de D. Joo IV, que andava por l na guerra
contra os turcos, e que tanta conta nos faria em Portugal. Morreu
na cadeia o pobre rapaz por causa de ns e da traio do tal imperador.

Em Portugal, ao principio, tinha ido tudo bem, mas, assim que passou
aquelle primeiro fogo, houve muitos que comearam a pensar no caso e que
disseram comsigo: Isto foi uma grande asneira. Vem ahi os hespanhoes e
do cabo de todos ns. O melhor  pormos as costas no seguro, e, antes
que elles venham ter comnosco, vamos ns ao encontro d'elles, que sempre
apanharemos alguma cousa. E n'isto desatam a conspirar contra D. Joo
IV. Foram castigados cruelmente. Morreram muitos com a cabea cortada, e
mais nem todos eram culpados. Mas que querem vocs? A mania de D. Joo
IV era que o no tomariam a srio como rei em Madrid, emquanto no
mandasse cortar a cabea a alguem.

Pois em primeiro logar visse bem a quem matava, e em segundo logar eu
sempre ouvi que os reis, quando so mais reis,  quando perdam. E, alem
d'isso, os hespanhoes quando tomaram a srio D. Joo IV no foi quando
elle mandou cortar a cabea a fidalgos portuguezes, mas quando os
soldados portuguezes lhes comearam a esfregar as costas a elles.

L que os taes conspiradores tinham raso em estar com medo, isso
tinham, porque parecia mesmo impossivel que Portugal resistisse.
Tambem o que nos valeu foi a asneira dos hespanhoes, que nos primeiros
dois annos no fizeram seno dar um rebate falso a uma praa, atacar
outra, escaramuar aqui, disparar uns tiros alem. Parecia que estavam
incumbidos por D. Joo IV de fazer andar os nossos soldados na recruta.
Em 1644  que, pela primeira vez, fizeram assim movimento mais serio,
mas j tinhamos ento soldados velhos, commandados por um bom general,
Mathias de Albuquerque, e os amigos hespanhoes levaram a primeira sova
mesmo l na sua terra, em Montijo; em 1646 nova batalha em Telena, mas
n'essa perdemos ns mais do que lucrmos, ainda que os hespanhoes com
isso nada ganharam tambem, porque voltaram  costumeira antiga. Emfim,
para encurtar rases, quando D. Joo IV morreu, em 1656, estavamos havia
dezeseis annos n'aquella brincadeira, hoje amos ns  Hespanha e
apanhavamos gado, manh vinham elles c e levavam-nos o nosso. Mas quem
lucrava com isso? ramos ns, porque os nossos milicianos, e as nossas
ordenanas am-se costumando  guerra, e cada vez este bocadinho de
Portugal se a tornando para a Hespanha mais duro de roer.

Em 1656 morreu pois D. Joo IV, como eu lhes disse, e succedeu-lhe seu
filho D. Affonso VI, a quem chamaram o _Victorioso_, como chamaram a
D. Joo IV o _Restaurador_, mas emfim a este com mais um bocadinho
de raso.

D. Affonso VI no era o filho mais velho, mas o mais velho, um rapazito
que dava esperanas, Theodosio, morrera em 1653. D. Affonso VI fra
desde creana muito doente, nunca podra aprender cousa nenhuma e tivera
uma educao muito descuidada. O seu gosto era brincar com os garotos
que am para debaixo das janellas do pao, e, quando foi homem, andava
em pandigas pela cidade, com uma roda de facinoras que faziam tudo o que
queriam  sombra d'elle, a ponto que at havia mortes nas ruas de
Lisboa! Como ainda era pequeno quando seu pae morreu, ficou regendo o
reino sua me D. Luiza de Gusmo, uma hespanhola muito decidida, que
diziam at que fra quem mais concorrera para o marido acceitar a cora.
A regente l foi governando com acerto, emquanto o rapazote andava ao
lar com um tal Antonio Conti, que lhe soubera conquistar a amisade. A
rainha um dia pegou n'esse Antonio Conti, e ferrou com elle desterrado
no Brazil.  diabo que tal fizeste! o pequeno zanga-se, e, quando o
conde de Castello Melhor lhe disse que era bom que comeasse a governar
por si, porque tinha j chegado  maioridade, D. Affonso, para pregar
pirraa  me, acceitou; eu no louvo o conde de Castello Melhor por ter
aconselhado esta aco, mas a verdade  que D. Affonso VI j estava
em idade de governar, e que, se no podia dirigir os negocios, sempre
era melhor que por elle os dirigisse um homem como o conde de Castello
Melhor, que tinha uma excellente cachimonia, do que a rainha, que,
apezar de ser esperta, sempre era senhora, e por isso menos capaz de
governar o reino em tempo de guerra.

Bem conheo que D. Affonso VI era um mau rei, que no tinha juizo, que
se entregava a divertimentos indecentes e at criminosos, mas uma
qualidade tinha elle, percebia perfeitamente que no sabia cuidar do
reino, e deixava o Castello Melhor fazer tudo quanto queria. Ora o
Castello Melhor era uma das melhores cabeas que tem governado o nosso
paiz, como vocs vo ver, porque  bom que saibam o que se passra na
guerra.

Logo depois da morte de D. Joo IV, um general portuguez, Joo Mendes de
Vasconcellos, fizera grande asneira. Vendo que os hespanhoes andavam s
a fazer fosquinhas, disse comsigo: No nos ho de conquistar, e havemos
de ser ns que os conquistaremos a elles. Junta um exercito magnifico, e
vae cercar Badajoz. Ainda ali ganhmos uma batalha, que foi a do Forte
de S. Miguel, mas a final tivemos de levantar o cerco, depois de
havermos perdido inutilmente a flor dos nossos soldados. Ora o que
succedeu? Foi que, no anno seguinte, quer dizer em 1659, os hespanhoes,
picados com o nosso atrevimento, saram da sua pachorra, juntaram
um exercito formidavel commandado pelo proprio ministro do rei, D. Luiz
de Haro, vieram sobre Portugal e cercaram Elvas. A cousa esteve
phosphorica, porque os nossos melhores soldados tinham ficado estendidos
diante de Badajoz, e andava isto por c muito desarranjado. Mas para
alguma cousa haviam de servir os dezenove annos de guerra. Em primeiro
logar Elvas, governada por D. Sancho Manuel que foi depois conde de
Villa Flor, defendeu-se admiravelmente, em segundo logar o conde de
Cantanhede, depois marquez de Marialva, como no tinha outra gente,
reuniu um exercito quasi todo de milicianos e saltou nos hespanhoes que
cercavam Elvas. Foi no dia 14 de janeiro de 1659 que se deu a batalha,
conhecida pelo nome de batalha das linhas de Elvas, e nunca os
hespanhoes apanharam tamanha pilota. Os prisioneiros foram aos milhares,
artilheria, bagagens, tudo nos cao nas mos, e o proprio D. Luiz de
Haro escapou-se por um fio. Tambem nunca mais nos perdoou aquella sova,
e, quando n'esse mesmo anno foi fazer a paz com a Frana, deu aos
francezes tudo quanto elles quizeram, s com uma condio--a de se no
fallar em Portugal. Era patifaria grada do ministro francez, um padre,
um tal cardeal Mazarino, porque as tareias que davamos nos hespanhoes
tinham feito muita conta aos francezes. Mas o Mazarino foi
apanhando o que poude, e pouco lhe importou mandar-nos  fava.

Vem vocs a situao em que ficmos. Quando comemos a guerra com a
Hespanha, estava ella em guerra tambem com quasi toda a Europa, o que
no era mau para ns. Em 1648 fez a paz com muitas naes, e isso no
foi l muito bom, porm, como a Frana continuava em guerra, e essa s
por si dava mais que fazer  Hespanha do que todas as outras juntas,
ainda a cousa no a mal; mas agora? A Frana fazia a paz, quasi que se
alliava com os hespanhoes, porque o rei de Frana, Luiz XIV, casava com
uma princeza hespanhola, e ns  que ficavamos em campo, com a Hespanha
s costas. Ella ainda esteve dois annos a apalpar-nos, mas em 1662
rompeu o fogo com alma. Poz um dos seus melhores generaes, D. Joo de
Austria, filho bastardo do rei,  frente dos seus exercitos, e cau em
cima de ns com todo o seu peso.

Ora foi exactamente em 1662 que entrou no poder o conde de Castello
Melhor, e foi sobre elle que desabou esse temporal desfeito. Nunca
Portugal se vira em to maus lenoes. D. Joo de Austria tomava praas
sobre praas, e na campanha do anno immediato, 1663, quasi que chegava
s portas de Lisboa. Mas o ministro fizera o diabo, parece que at das
pedras tinha feito soldados. Depois, como Mazarino era um finorio, que
no desgostava de jogar com pau de dois bicos, ao passo que
contentava a Hespanha, mandava-nos para c os officiaes que podia, entre
elles o conde de Schomberg, que era um general de mo cheia. No
commandou nunca em chefe, porque os nossos no gostavam, e tinham raso,
que elles j haviam dado provas de que no precisavam de tutores; mas
foi um excellente conselheiro. O que  certo, meus amigos,  que, em
tres annos successivos, em que os hespanhoes fizeram todos os esforos
para dar cabo de ns, levaram tres sovas mestras; a primeira deu-lh'a em
1663 o conde de Villa Flor na batalha do Ameixial, a segunda em 1664
Pedro Jacques de Magalhes na batalha de Castello Rodrigo, a terceira em
1665 na batalha de Montes Claros o marquez de Marialva. D'ahi por diante
nunca os hespanhoes levantaram cabea, e no pensaram mais em tomar
conta outra vez de Portugal.

Ora o conde de Castello Melhor tinha uma grande ida; dizia elle
comsigo: os hespanhoes levaram tanta pancadaria, que, se fazemos a paz
com elles, ficando ns simplesmente com o que tinhamos ao principio,
pde-se dizer que fomos logrados. Demais a mais Portugal  pequeno, a
Hespanha  grande; em qualquer bulha que tivermos estamos de mau
partido.  necessario fazer Portugal maior e a Hespanha mais pequena. E
toda a sua tineta era obrigar os hespanhoes a dar-nos a Galliza. E
o que fazia elle ento? Encostava-se a Luiz XIV, rei de Frana, que
andava namorando umas provincias hespanholas l de Flandres. Casava D.
Affonso VI com uma princeza franceza, e dizia comsigo: Mais dia menos
dia, Luiz XIV pega-se com a Hespanha. Ns vamos com elle. A Hespanha
leva para o seu tabaco a valer. Elle fica com as provincias que quizer,
at com a Flandres toda, se isso lhe fizer conta, e ns com a Galliza, e
com mais alguma cousa se podr ser.

--E era bem pensado, sr. Joo da Agualva, observou o Bartholomeu, porque
 que no havia de ser nossa a Galliza?

--Tens raso, e j vs que, se ns tivessemos a Galliza tambem, no
estavamos sempre com medo de ser engulidos pelos visinhos. Mas que
queres tu? Entretanto am grandes intrigas no pao. A rainha, que era
uma princeza toda _lir_ e toda costumada s janotices da crte de Luiz
XIV, achando-se casada com um homem que s se dava bem com moos de
cavallaria, e que de mais a mais era to doente que nem marido podia
ser, principiou a desgostar-se, e ao mesmo tempo a agradar-se do infante
D. Pedro, rapaz desempennado, que tambem no desgostava da francezita.
Pensaram em se juntar e governar o paiz. Principiaram as intrigas. Tanto
fizeram que conseguiram pr fra o conde de Castello Melhor.
Desamparado, o pobre D. Affonso VI no tardou a ser expulso do
throno, e at o descasaram, coitado! Foi necessario para isso um
processo que  uma vergonha, e realmente no posso perceber como foi que
uma rainha se deixou assim andar nas bcas do mundo!... Emfim, o que 
certo  que desterraram o pobre D. Affonso VI, mandando-o para a ilha
Terceira; prenderam-n'o depois em Cintra, onde morreu, e a rainha casou
com o cunhado, e este ficou a governar o reino. Eu j lhes disse,
rapazes, que bem conheo os defeitos de D. Affonso VI; mas o pobre
homem, que era mesmo uma creana, que se no importava para nada com a
politica, que tivera a fortuna de acertar com um bom ministro que
governava por elle e governava bem, no merecia que lhe fizessem
similhante entrega! Mette d, porque elle nem sabia defender-se, andava
ali como o menino nas mos das bruxas.

E o irmo, que lhe tirra a cora, e que lhe tirra a mulher, nem ao
menos lhe dava a sua liberdade, nem lhe consentia que espairecesse.
Tinha-o preso n'um quarto em Cintra, e ali o deixou morrer de
aborrecimento e de desgosto, a elle que nunca fizera mal a ninguem seno
com as suas tolas rapaziadas!

Emfim, passemos adiante! O que  certo  que isto succedeu em 1667, e
logo no anno seguinte de 1668 fazia-se a paz com a Hespanha, sem lucro
nenhum para ns, porque nem ao menos apanhavamos a praa africana
de Ceuta, que era to nossa, por causa da qual morreu no captiveiro o
infante santo, e que em 1640 no conseguira livrar-se dos hespanhoes.

Tanto se empenhra em governar o reino o sr. D. Pedro II, que desde 1667
at 1683, anno em que morreu D. Affonso VI, s tomou o titulo de
regente, e a final de contas no fez seno tolices. Demais a mais
algumas cousas boas que deixou fazer, logo as desmanchou. Um ministro
que elle teve, o conde da Ericeira, quiz ver se fundava fabricas em
Portugal, mas em 1703 um tratado com a Inglaterra, conhecido pelo nome
de tratado de Methwen, que este era o nome do embaixador que o assignou,
deu cabo da nossa industria. Conservou-se em paz, tanto que lhe deram o
nome de _Pacifico_, e vae no fim do seu reinado mette-se sem mais nem
menos na guerra da successo de Hespanha, favorecendo D. Carlos da casa
de Austria contra D. Filippe da casa de Bourbon. Como tinhamos ento um
excellente general, que era o marquez das Minas, deu-nos este o gostinho
de entrar victorioso em Madrid, e de proclamar ali D. Carlos rei de
Hespanha; mas esse gostinho no tardmos a amargal-o, porque, morrendo
D. Pedro II no dia 1 de dezembro de 1706, logo no dia 25 de abril de
1707 era o marquez das Minas batido na batalha de Almanza com graves
perdas para ns, tanto que at ao fim da guerra pde-se dizer que
nunca mais levantmos cabea.

Subio ao throno D. Joo V, e eu, para lhes dizer a verdade, o que no
posso perceber  como ha historiadores que gabam aquelle rei. C para
mim foi um dos peores que ns tivemos. Possuia algumas qualidades que
no eram de todo ms, era porm o mesmo que se as no tivesse, porque
no pensava seno no beaterio, e em obras grandes e magnificas, que a
maior parte das vezes para nada serviam. Logo por desgraa foi n'esse
reinado que comearam a render rios e rios de dinheiro as minas do
Brazil, e tudo era pouco para o rei que no cuidava seno de si e nada
do reino. Por exemplo, achou-se embrulhado com a Hespanha e com a Frana
n'uma guerra que no seu tempo no foi seno desastrosa. Uns corsarios
francezes deram-nos cabo do Rio de Janeiro e levaram-nos umas riquezas
espantosas. Pois no encontrou aquelle homem uns poucos de navios para
saltarem tambem nas colonias francezas, ou para protegerem as nossas!
Emfim! se os no tinhamos, paciencia! Mas d'ahi a pouco sau de Lisboa
uma excellente esquadra em soccorro do papa, commandada pelo conde do
Rio Grande, esquadra que foi bater os turcos no cabo Matapan! Ora vejam
se ha um patarata assim! Annos depois, por causa de uns insultos feitos
em Madrid ao nosso embaixador, est para rebentar a guerra com a
Hespanha. Fazem-se preparativos, e v-se que no temos nem exercito, nem
marinha. De que tratou logo D. Joo V? De comprar armamento? Qual
historia! De mandar fazer em Paris, para si, uma barraca de campanha
muito rica, e to luxuosa que toda a gente a a ver!!

No tinhamos estradas, no tinhamos rios canalisados, no tinhamos
desentulhados os portos, no tinhamos nada do que nos era necessario,
mas tinhamos aquella monstruosidade do convento de Mafra que custou 120
milhes de cruzados, que no serve para cousa nenhuma, e que nem ao
menos  bonito. Dizem que gostava muito de imitar Luiz XIV, mas o que me
dizia o engenheiro francez que esteve aqui em Bellas,  que Luiz XIV
mandava ir sabios para Frana, dava penses aos sabios estrangeiros, e
este o que dava era dinheiro para igrejas, e o que mandava vir era de
Roma bullas e capellas. Dizem que nunca deixou s naes estrangeiras
pr p em ramo verde comnosco. Quem lhe valeu para isso foram os
diplomatas que teve, que nunca em Portugal os houve to bons, e tambem o
ser to orgulhoso que a aos ares s com a ida de que mangavam com elle.

Mas no mais no me fallem em D. Joo V, que at me sobe o sangue 
cabea. Pois vocs conhecem cousa que mais indigne do que ir um homem
ali para Lisboa, no campo da L, ver os inquisidores queimarem
gente de bem, ou porque no gostavam de toucinho, ou porque nem sempre
am  missa, e depois montar a cavallo, para se metter em Odivellas na
cella de uma freira e passar ali a noite? Eu digo que me chega a parecer
nem sei o que uma malvadez assim.

Morreu em 1750 esse rei que no fez nada bom em Portugal, a no ser as
Aguas-Livres. Pouco mais dinheiro gastou que se podesse dizer que fosse
bem gasto. E digo-lhes que, se vocs olharem para o paiz, at lhes ha de
fazer pena. A nobreza j no se compunha seno simplesmente de criados
do pao, o clero immenso e corrompido enchia o reino com os seus padres
e os seus conventos, e conservava o povo n'uma ignorancia completa, o
povo, miseravel, vadio, ou emigrava para o Brazil, ou pedia esmola s
portarias dos conventos, ou sentava-se ao sol. Tinhamos chegado ao mais
baixo a que podiamos chegar. Felizmente, quando uma nao desce a tal
ponto, sempre apparece alguem que a levante e esse, eu, para o outro
domingo, lhes direi quem foi. Por hoje basta. Quando fallo no sr. D.
Joo V, o _Magnifico_, e penso no mal que elle fez ao paiz, fico sempre
macambusio, e ento o melhor  ir-me deitar.




NONO SERO

D. Jos I.--As transformaes sociaes.--O marquez de Pombal
e a revoluo.--Terramoto de 1 de novembro de 1755.--As
grandes reformas de Sebastio de Carvalho.--Expulso dos
jesuitas.--Reforma da universidade.--Reorganisao do
exercito.--Agricultura.--Industria.--Inquisio.--Christos novos e
christos velhos.--Politica estrangeira.--Energia com Roma e com
Inglaterra.--Reconstruco de Lisboa.--Estatua de D. Jos.--Attentado
contra o rei.--Supplicio dos Tavoras.--D. Maria I.--Reaco contra as
medidas do marquez de Pombal.--Processo do grande ministro.--Pina
Manique, Francisco de Almada.--Martinho de Mello.--Loucura da
rainha.--Regencia do principe D. Joo.--A republica franceza.--Campanha
do Roussillon.--Campanha de 1801.--Napoleo e o tratado de
Fontainebleau.--Fuga da familia real para o Brazil.--Guerra
peninsular.--Congresso de Vienna.--D. Joo VI.--Conspirao de
1817.--Revolta de Pernambuco.--Revoluo de 1820.


Ho de vocs notar, rapazes, observou o Joo da Agualva mal todos se
sentaram no domingo seguinte em torno da lareira, que, em estando para
haver uma grande mudana na sorte dos homens, parece que todos, sem o
querer e sem o saber, trabalham para essa mudana, desejando fazer
muitas vezes exactamente o contrario. Por exemplo, lembram-se vocs que
ali por 1500  que os reis se fizeram senhores absolutos, porque
acabaram com os privilegios da nobreza, e com os foraes do povo.
Quem  que contribuiu para isso? O povo, que ajudou o rei a dar
cabo dos nobres. Agora encaminha-se tudo para a liberdade e para a
igualdade, e quem  que no nosso paiz vae concorrer mais para similhante
cousa? O marquez de Pombal. Dir-me-ho vocs: Ento o marquez de Pombal
era algum liberalo por ahi alem como os de vinte? Qual historia! Era um
tyranno e dos mais ferozes que nunca houve, mas, sem o querer e sem o
saber, ninguem mais do que elle trabalhou pela liberdade.

Em primeiro logar ho de vocs saber que o rei D. Jos, que subiu ao
throno por morte de seu pae D. Joo V, quasi que nem conhecia o marquez
de Pombal, que j era homem dos seus cincoenta annos, e que tinha andado
por fra como embaixador, ora em Londres, ora em Vienna de Austria, onde
casra com a filha de um figuro austriaco. Quem metteu empenhos para
que elle fosse ministro foi a me de D. Jos, D. Marianna se chamava
ella, archiduqueza de Austria, e por isso amiga da mulher do marquez,
que ento se chamava simplesmente Sebastio Jos de Carvalho e Mello.
Era um ministro como os outros, e o rei no fazia mais caso d'elle do
que fazia dos seus collegas, quando de repente acontece uma grande
desgraa em Lisboa, que veio a ser o terramoto do dia 1 de novembro de
1755. A cidade foi quasi toda a terra, morreram muitas mil pessoas,
outras ficaram a pedir esmola, e sobretudo reinava um terror
tamanho que ninguem sabia o que havia de fazer nem para onde se havia de
virar. O Sebastio de Carvalho no perdeu a tramontana. Toma elle a
direco de tudo, arranja sustento, enforca s portas da cidade quantos
ladres apanha, porque isso ento era uma praga, trata do desentulho, e
logo em seguida de reconstruir a cidade, isto com uma actividade, com um
desembarao, com um acerto, que D. Jos disse comsigo: Temos homem!
D'ahi por diante quem governou foi elle, e  de uma pessoa pasmar ver o
que fez. At ahi os governos, para fallar a verdade, em quem menos
pensavam era no povo e no paiz. O dinheiro do estado no servia seno
para elles fazerem o que lhes agradava, e por felizes se podiam dar os
povos quando lhes dava o capricho para cousas uteis. Sebastio Jos de
Carvalho e Mello tratou do paiz e mais nada. Ora de que  que o paiz
precisava?

Precisava, primeiro que tudo, de acabar com as despezas no gosto das que
fazia el-rei D. Joo V, que era umas mos rotas com fidalgos e com igrejas.

Precisava de poder pensar e estudar, sem ser sempre debaixo da
palmatoria dos frades e dos jesuitas.

Precisava de acabar com a inquisio, porque era uma vergonha que ainda
se queimasse gente em Portugal s porque no a  missa.

Precisava de ter exercito e de ter marinha.

Precisava de ter industria.

Precisava de ter lavoura.

E nada d'isto elle tinha.

Sebastio de Carvalho via estas cousas e disse comsigo: Mos  obra. Ora
digam-me vocs: Quando chegam a uma quintarola que compraram e vem tudo
estragado: os pardaes a darem cabo da fructa, as cearas a morrerem 
sede, a terra fraca por falta de estrume, as hervas ruins a afogarem o
trigo, o que  que fazem? Arregaam as mangas e dizem: Vamos a isto. E
sacham as hervas, sem d nem piedade, e saltam ao tiro nos pardaes at
os prem fra, e deitam estrume na terra, e levam a agua da rega para as
cearas, e levantam os muros arrasados, e enxotam os porcos que lhes
vinham fossar nas batatas, e sacodem as gallinhas que lhes depinicavam
tudo, e at vocs se riam se os accusassem de crueldade porque matavam
os pardaes, ou porque arrancavam e deitavam fra as hervas ruins.

Pois Sebastio Jos de Carvalho e Mello tratou Portugal exactamente como
vocs tratariam a tal quintarola. Olhou para tudo e disse comsigo: Eh!
com os diabos, como isto est. No pao ha um bando de pardaes que d
cabo da melhor fructa dos pomares da nao. Toca a enxotar os pardaes,
e, como os pardaes refilaram, saltou ao tiro n'elles. As cearas da
intelligencia, que tambem so trigo porque do o po do espirito, no
podiam medrar porque os affogava por toda a parte o joio do jesuitismo.
Toca a sachar os jesuitas. Os muros da quinta estavam arrasados, quer
dizer, estavam as fronteiras a descoberto, e em vez de haver fortes o
que havia era igrejas, e elle mandou fazer o forte da Graa em Elvas, e
poz o exercito a direito, mandando vir para isso um militar estrangeiro,
o principe de Lippe, que era da escola de um rei da Prussia que foi o
primeiro militar do seu tempo. No havia lavoura nem havia industria,
porque ninguem lhe dava a proteco da rega e do adubo, e Pombal deu-lhe
tudo isso  moda do seu tempo, que elle tambem no podia adivinhar o que
hoje se sabe. Elle reformou os estudos e a universidade, elle fundou
companhias e fabricas, elle partiu os dentes  inquisio, elle poz fra
os jesuitas, elle tirou a censura dos livros aos padres, elle acabou com
distinces de christos-novos e christos-velhos, e na India e no
Brazil acabou tambem com todas as tolices das raas, elle arreganhou os
dentes a Roma, e soube pr o papa no seu logar, elle bateu o p 
Hespanha, elle fez-se respeitar da Inglaterra, elle acabou com os
morgados pequenos que s faziam mal  lavoura, elle no deixou que
entrassem para padres e frades todos quantos o queriam ser, porque, se
as cousas continuassem assim, s duas por tres no havia seno
cabeas rapadas em Portugal, emfim, meus amigos,  de uma pessoa pasmar
ver que aquelle diabo de homem, que ao mesmo tempo fazia de Lisboa uma
cidade nova e levantava uma estatua ao seu rei no Terreiro do Pao, em
tudo poz a mo, tudo melhorou, tudo reformou, tudo arranjou, e pde-se
dizer que virou a nao de dentro para fra. J se v que fez tudo isto
com o posso, quero e mando. Mas a quem  que prestou verdadeiros
servios? Foi  liberdade, porque tirou o povo da miseria e da
ignorancia em que vivia, porque o livrou de ter os jesuitas por tutores,
e assim o animou a cuidar dos seus direitos, e o preparou para um bello
dia reclamar a liberdade. Foi cruel, bem sei, no digo menos d'isso.
Tratou os homens como se fossem pardaes, e praticou mesmo barbaridades
escusadas; mas que diabo! no sei que sina  esta: reforma grada sem
muito sangue parece que no ha modo de se fazer; uma vez so os
reformadores que derramam o seu proprio sangue, e ento  que a reforma
vem de Deus, como acontece com o christianismo; outras vezes os
reformadores derramam o sangue dos outros, e ento  que a reforma vem
dos homens, como aconteceu com a revoluo franceza; porque l isso de
regar as arvores do bem com o sangue das nossas proprias veias, Deus 
que o ensina, que os homens s por si no so capazes de chegar a
tanto.

-- sr. Joo, exclamou o Bartholomeu, mas parece-me que tenho ouvido
dizer que os Tavoras, o duque de Aveiro e os mais fidalgos soffreram
tormentos do diabo ali na praa de Belem. Ora, ainda que fosse
necessario dar cabo d'elles, acho que no era preciso atormental-os, e
que o marquez de Pombal tinha na verdade cabellos no corao.

--No digo menos d'isso, Bartholomeu, mas ouve l uma cousa: tu sabes
porque  que os fidalgos foram executados, no sabes? Foi por darem uns
tiros no rei. Elles queriam livrar-se do ministro, o rei no largava o
ministro, cada vez se lhe agarrava mais, como depois mostrou, fazendo-o
conde de Oeiras e marquez de Pombal, e ento lembraram-se de dar cabo de
D. Jos. Ora sabes tu como fra castigado em Frana, pouco tempo antes,
um homem que tinha querido matar o rei Luiz XV? Foi posto a tormentos,
depois nas feridas abertas deitaram-lhe chumbo a ferver, e a final
ataram-n'o aos rabos de quatro cavallos, e esquartejaram-n'o. E comtudo
ninguem diz que Luiz XV tivesse cabellos no corao. As cousas faziam-se
assim no seu tempo, no foi o marquez de Pombal que as inventou.

Ho de vocs dizer: Este diabo gaba sempre as tyrannias por toda a
parte. J defendeu D. Joo II, agora defende o marquez de Pombal. Eu no
as louvo, rapazes. Se vivesse n'esses tempos e podesse, havia de berrar
contra ellas; mas c de longe, vendo as cousas com socego, digo que
ninguem  perfeito, e que todos os homens tem, como dizia o tal
engenheiro francez que esteve em Bellas, os defeitos das suas
qualidades. Ali est o Francisco Artilheiro que foi soldado: havia de
ter servido com muitos coroneis. Encontrou algum que fosse teso a valer
e que ao mesmo tempo desatasse a chorar, no tempo das varadas, quando
tinha de mandar chibatar algum soldado? No pde ser. Estes pimpes que
quebram todos os abusos, que pem um joelho de ferro em cima de todas as
revoltas, fazem aos homens o mesmo que fazem s cousas, e o dever de
quem depois conta a historia  perceber isso tudo, e no estar a berrar
contra aquelles que fizeram servios ao seu paiz, s porque nem sempre
paravam onde seria melhor que tivessem parado.

Mas vamos ns ao resto da historia que d'aqui a pouco j as noites so
mais pequenas, e mal chega o tempo para dormir a quem tem de se levantar
com o sol. D. Jos morreu em 1777, e, apenas elle fechou os olhos,
rebentou o odio que havia contra o grande ministro; ninguem quiz l
pensar no bem que elle tinha feito, e todos clamaram contra as suas
crueldades. Demais a mais quem succedia a D. Jos era sua filha a rainha
D. Maria I, muito beata, embirrando muito com o marquez, porque
desconfiava que elle quizera fazer passar o throno para o filho
d'ella, um rapazito muito esperto, chamado D. Jos; e ento o rei a
morrer hoje e o ministro a ser demittido manh. No houve picardia que
lhe no fizessem. Mandaram-n'o para a sua quinta do Pombal, e, estando
elle j doente e amargurado, moeram-n'o com perguntas porque lhe armaram
um processo. Se podessem desfazer tudo o que elle fizera, desfaziam, mas
a final s soltaram os presos, porque emquanto ao mais tiveram medo de
dar bordoada no finado rei, que a final de contas respondia pelos actos
do ministro, porque elle  que assignava as ordens. Tiraram o retrato do
marquez da memoria do Terreiro do Pao, qu s em 1834 se tornou a pr
como era justo; em vez do retrato pozeram as armas de Lisboa que so um
navio  vla, e foi ento que o marquez de Pombal disse, ao saber do
caso: Ai! Portugal que vaes a vla!

Bem quizera D. Maria I admittir os jesuitas outra vez, mas no podia
ser, porque o marquez de Pombal no s os expulsra de Portugal, mas
fizera uma liga contra elles em toda a Europa, e conseguira que o papa
Clemente XIV acabasse com a Ordem. Muito trabalharam os parentes dos
Tavoras para conseguir que se dsse uma sentena a declarar que era peta
o que se dissera a seu respeito, e injusta a sentena que os condemnava;
mas a final no conseguiram isso, porque a rainha percebeu que,
condemnando o marquez de Pombal, a quem condemnava era ao pae.

No mais tudo andou para traz, a no ser na marinha, que teve um bom
ministro, Martinho de Mello, e n'isto de escolas que sempre se foram
desenvolvendo. Houve alem d'isso dois homens que fizeram muito bem a
Lisboa e ao Porto, a saber, o intendente da policia Pina Manique e o
corregedor do Porto Francisco de Almada.  que j se no podia deixar de
cuidar de melhoramentos; mas o que deu cabo de ns foi a birra que
tivemos em nos metter na bulha contra a republica franceza. Isso, fallar
em Portugal nas idas novas, era o mesmo que fallar no diabo, e D. Maria
I, em vez de tratar da sua vida, seguio o caminho de D. Joo V. Este
a-se metter com os turcos que lhe no faziam mal nenhum, D. Maria I
foi-se metter com a republica franceza, que estava l to longe e que
nada tinha com Portugal.

O que resultou d'aqui  que mandmos uma diviso ao Russilho a ajudar
os hespanhoes, e uma esquadra a Toulon a ajudar os inglezes. A diviso
do Russilho portou-se o que se chama bem, mas depois? A Hespanha fez a
paz com a Frana, e ns ficmos a olhar ao signal, a Inglaterra
mettia-nos na dana, e depois punha-se de palanque. Tivemos de andar a
pedir a paz  republica franceza, quasi de joelhos, e o Napoleo, que j
n'esse tempo comeava a governar em Frana, e que nos tinha jurado pela
pelle, teve a habilidade de audar a Hespanha contra ns,
resultando d'ahi a guerra de 1801. Foi uma guerra vergonhosa. Tinhamos o
exercito escangalhado, no fizemos seno levar bordoada, e, para
alcanarmos paz, tivemos de pagar bom dinheiro, e de dar aos hespanhoes
Olivena que nunca mais apanhmos. De nada nos valeram todas as
humilhaes. Em 1807, Napoleo, que j era imperador, e que andava n'uma
lucta de morte com a Inglaterra, quiz que fechassemos os portos aos
nossos antigos alliados. Andmos a hesitar, at que Napoleo, que no
gostava de perder tempo, declara que a casa de Bragana deixra de
reinar, e mette-nos c dentro um exercito commandado pelo Junot. A
familia real no teve seno tempo de fazer as malas e de partir para o
Brazil, por conselho dos inglezes. Devo-lhes dizer uma cousa: a rainha
D. Maria I endoidecera havia muito tempo, e quem governava em seu nome
como principe regente desde 1792, era o principe D. Joo, seu filho mais
velho, porque aquelle D. Jos, de quem lhes fallei, e que dava tantas
esperanas, tinha morrido em 1788.

Imaginem vocs como ficaria o povo com esta _partida_, e agora  que  o
caso de se lhe chamar _partida_.

Abandonado pela familia real, viu o Junot tomar conta do governo,
agarrar no exercito portuguez, que no tinha ordem para resistir, e
mandal-o para Frana servir no exercito de Napoleo, lanar
contribuies pesadas como o diabo, e emfim tratar isto como terra
conquistada. E, para maior vergonha, Junot invadira o paiz, no corao
do inverno, com meia duzia de gatos, e entrra em Lisboa  frente de
quatro soldados estropiados e esfarrapados. A vergonha de todas estas
humilhaes comeou a fazer ferver o sangue aos portuguezes, e um bello
dia rebentou a revolta no Porto. Foi como quem diz um rastilho de
polvora. Desde o Minho at ao Algarve, no houve terra em que se no
pegasse em armas contra os francezes. O Junot mandou as suas tropas
esmagar as revoltas, e os francezes fizeram ento cousas do arco da
velha, mataram, roubaram, queimaram...

--Ah! pae do cu! exclamou a tia Margarida, eu era bem pequenina ento,
havia de ter sete ou oito annos, mas lembra-me do que minha me me
contava. Havia um que ella chamava o _Maneta_, que isso parece que era o
diabo em pessoa.

--Era o general Loison, que no tinha um brao. Em Evora fez elle o
demonio, mas, por mais que fizessem, no conseguiam acabar com a
revolta. Era pobre gente do povo, sem armas, sem disciplina, sem chefe,
que assim se levantava contra os francezes, e estes davam-lhe para baixo
facilmente, mas a gente levava aqui em Bellas, levantava-se em Cintra,
am os francezes a Cintra, levantavam-se os de Bellas. Demais a mais,
cada qual faz a guerra como pde. L em batalha no podiam os
nossos medir-se com os soldados de Napoleo. O que faziam? Davam-lhes
caa; em os apanhando separados, carga para cima d'elles. Era facada,
era paulada, era tiro de bacamarte, era o que podia ser, com os diabos!
que um povo  como uma pessoa, quando o querem pisar aos ps, defende-se
com unhas e dentes. Mas n'isto os inglezes, que andavam  tca de ver se
podiam sar da sua ilha e desembarcar n'algum sitio onde podessem
incommodar Napoleo, assim que viram que Portugal estava revoltado,
desembarcaram aqui um exercito commandado por um sugeito chamado
Wellington, que, se no era to bom general como Napoleo, pelo menos
parece-me que ainda seria mais feliz do que elle. O Junot, que no
passava de ser um valento, foi batido pelos inglezes na Rolia e
Vimeiro, onde os nossos, j se v, tambem combateram ao lado das fardas
vermelhas, que , como vocs sabem, o uniforme inglez, e, para se safar
de Portugal, teve de capitular.  verdade que o patife apanhou uma
capitulao, que a no podia ter melhor se fosse elle que houvesse dado
a tunda nos inglezes. Levou-nos tudo o que nos tinha roubado, e nem se
fallou nos nossos soldados que l andaram, contra vontade sua, a servir
no exercito de Napoleo.

-- sr. Joo, acudiu o Manuel da Idanha, vocemec ha de desculpar
uma pergunta, mas parece-me que ninguem pde vir por terra de Frana a
Portugal, sem passar pela Hespanha, no  verdade?

-- sim, rapaz; mas que queres tu dizer com isso?

--Quero dizer que no percebo como foi que o Junot c veio. Ento os
hespanhoes deixaram-n'o passar?

--Fizeram mais alguma cousa, vieram com elle, porque n'esse tempo
estavam ainda muito manos com os francezes, tanto que repartiram entre
si Portugal como quem reparte um melo, uma talhada para este, outra
talhada para aquelle, etc. Mas o Napoleo surripiou aos hespanhoes a sua
familia real, e fez rei de Hespanha um seu irmo chamado Jos, de frma
que, quando ns nos revoltmos, revoltaram-se elles tambem, e comemos
uns e outros  lambada aos francezes.

Entretanto c se arranjra um governo; tratou elle de organisar o
exercito, que ainda era  moda de 1640, e que s precisava de um general
como o principe de Lippe para ficar uma joia. Esse general appareceu,
foi um inglez chamado Beresford, que n'um abrir e fechar de olhos poz
tudo a direito. O que  certo, meus amigos,  que na guerra da
Peninsula, que durou seis annos, os nossos soldados, combatendo ao lado
dos soldados inglezes, passavam por ser to bons como elles e
talvez melhores. J se v que tinha sido necessario virem muitos
officiaes inglezes para os nossos regimentos, porque a officialidade
portugueza estava toda dispersa, uns tinham ido para Frana, outros para
o Brazil, e outros, diga-se a verdade, no prestavam para nada.

-- sr. Joo, d licena que lhe faa uma pergunta? interrompeu de novo
o Manuel da Idanha.

--Faze, rapaz, podra! Pois ento para que estou eu aqui?

--Porque  que se chamou a essa guerra a guerra da Peninsula?

--No te disse eu, rapaz, no principio d'esta conversa, que Portugal e a
Hespanha juntos formavam uma peninsula, quer dizer quasi uma ilha,
porque a crca o mar por toda a parte menos por um lado, que  onde pega
com a Frana pelos Pyrenus?

--Disse, sim senhor.

--E no te acabei de dizer que, quando nos revoltmos contra Napoleo,
revoltaram-se tambem os hespanhoes, e que desatmos uns e outros 
pancada aos francezes?

--Tambem  verdade.

--Pois ento ahi tens tu: a guerra era de Hespanha e de Portugal, por
conseguinte era a guerra da Peninsula.

--Ora tambem quero fazer uma pergunta, disse a tia Margarida.

--Pois ento, tia Margarida! Era o que faltava era que as mulheres no
tivessem a palavra.

--O que voc precisava era de um puxo de orelhas, mas emfim l vae a
pergunta. Eu, sempre que minha me fallava n'essas cousas, ouvia-lhe
dizer que os francezes eram muito maus, mas que os inglezes talvez ainda
fossem peores. Ora voc diz que os inglezes vieram ajudar-nos...

--Dizia muito bem a sua me, tia Margarida, mas eu tambem no digo mal.
Soldados inglezes sempre foram abrutados, principalmente em estando com
o vinho. Nunca vieram a Portugal seno ajudar-nos, e nunca tambem c
vieram que no ficasse tudo a berrar contra elles. Olhem no tempo de D.
Fernando. Parece-me que lhes contei que, vindo elles combater ao nosso
lado contra os hespanhoes, fizeram o que o demonio no fez. E, agora que
j respondi s suas perguntas, vou continuar a minha historia.

O Junot foi posto fra em 1808, os inglezes ento viraram-se contra os
francezes que estavam na Hespanha, e metteram-se pela Galliza dentro,
mas o Soult, apanhando-os l, deu-lhes uma tareia formidavel, e depois
veio sobre Portugal e entrou no Porto. A gente do Porto, a fugir dos
francezes, metteu-se na ponte de barcas que ento havia sobre o
Douro, para passar para o outro lado; a ponte abateu e morreram milhares
de pessoas.

--Ah! bem sei! interrompeu a tia Margarida, diz que foi o dia de juizo.

--Ora se foi! os francezes pararam no Porto, mas ns e os inglezes
fomo-nos a elles d'ahi a tempo e pozemol-os fra. O Napoleo, embirrando
com o caso, mandou um exercito commandado pelo marechal Massna, um dos
seus melhores generaes, com ordem de atirar o Wellington ao mar; mas o
Wellington, que era homem avisado, e que no gostava de tomar banhos de
choque, aproveitra o tempo a arranjar as linhas de Torres Vedras, de
traz das quaes se metteu. O Massna bateu com as ventas nas linhas, vio
que no podia fazer nada, foi-se embora, e ns logo atraz d'elle.

Para encurtar rases, em quatro annos de campanha, fomos a pouco e pouco
empurrando os francezes pela Hespanha fra, em 1814 entrmos em Frana
de embrulhada, e, como os russos, os austriacos e os prussianos tambem
entraram por outro lado, levando o Napoleo adiante de si, cau aquella
caranguejola toda, o Napoleo teve de dar a sua demisso de imperador, e
ns ficmos livres dos francezes.

Dois annos depois, em 1816, morreu a rainha D. Maria I no Brazil, sem
que ninguem, por assim dizer, dsse por isso. O principe regente tomou
o nome de D. Joo VI e continuou tudo como at ahi.

Entretanto em Portugal estava tudo descontente. O povo levantra-se
contra os francezes por sua conta e risco, e parecia-lhe historia que o
rei, que fugira, continuasse a no fazer caso nenhum d'elle.

Em Hespanha tinham-se reunido crtes e arranjra-se uma constituio
pela qual se acabava com o poder absoluto dos reis. Em Portugal, se no
se fizera o mesmo, no fra por falta de vontade, mas os inglezes no
deixavam. Todos percebiam, porm, que se no podia voltar  antiga, como
se no se tivesse passado cousa nenhuma no intervallo. Por outro lado a
teima do rei em ficar no Brazil j nos a fazendo chegar a mostarda ao
nariz, tanto mais que, ao passo que havia por c muita miseria, estava
sempre a ir dinheiro para o Brazil, e no s dinheiro mas tropa tambem,
porque D. Joo VI, em 1817, lembrra-se de juntar Montevideu ao Brazil,
como se o Brazil ainda fosse pequeno, aproveitando para isso a revolta
das colonias hespanholas. Emfim, a conservao de Beresford e dos
coroneis inglezes no quadro do exercito portuguez incommodava os nossos
officiaes, e descontentava a nao.

Em 1817, descobre-se ainda por cima uma conspirao liberal, do como
implicado n'ella, com provas de c c r c, um general muito
estimado, Gomes Freire de Andrade, de quem diziam que Beresford tinha
ciumes, e enforcam-n'o. Tudo isto a fazendo ferver o sangue aos
portuguezes, e, quando em 1820 comeou a haver revolues liberaes por
toda a parte, rebenta tambem uma revoluo liberal no Porto, espalha-se
logo por todo o reino, chega a Lisboa, e pega-se ao Brazil. D. Joo VI 
obrigado a acceital-a, e a vir para Portugal, a mandar embora os
officiaes inglezes, e a assignar uma constituio que as crtes fizeram;
mas os governos l de fra, e logo os mais poderosos, acharam perigoso
que se tornasse a fallar em liberdade e constituies, e decidiram que
viesse um exercito francez pr a mordaa na boca aos liberaes da
Hespanha, emquanto um exercito austriaco a fazer o mesmo aos da Italia.
Apenas c chegou a noticia, os amigos do absolutismo, que tinham por
chefe o infante D. Miguel, segundo filho do rei, levam este para Villa
Franca, e deitam abaixo a constituio. Mas o que a fez car no foram
elles, foram os passos dos soldados francezes que j a essas horas
andavam por Hespanha.

Entretanto o Brazil, onde ficra governando o principe D. Pedro, que era
o filho mais velho do rei, fazia-se independente. Antes d'elle tinham
feito o mesmo as colonias visinhas que pertenciam  Hespanha, e
cincoenta annos antes as que pertenciam  Inglaterra. No Brazil j
houvera duas tentativas de revolta, e ambas tinham sido afogadas em
sangue, uma em 1789, outra em 1817. A final venceram. Accusam muito D.
Pedro de se ter feito imperador do Brazil, e de se haver revoltado
contra seu pae. Elle no se revoltou, mas s podia fazer uma de duas
cousas, ou ir com os brazileiros, ou pr-se no andar da rua. Ento esses
figures imaginavam que um paiz rico, grande e forte, est agora para
receber ordens de outro mais pequeno, ou maior que elle seja, e que fica
de mais a mais do outro lado do mar? Ora, historias da vida! e no se
queixem d'isso.  ordem das cousas. As colonias so como os filhos. A
gente educa-os, trata-os, deixa-os ir crescendo. Quando so maiores
emancipam-se. E ninguem tem que estranhar. Foi o que aconteceu com o
Brazil. Estava maior, emancipou-se. Perdemos o Brazil em 1825, em 1826
morreu D. Joo VI. Os seus ultimos dias foram amargurados. Tivera guerra
com o filho mais velho que se revoltra com o Brazil; estivera para ser
desthronado pelo filho mais novo, D. Miguel, que o chegra a prender na
Bemposta, e que elle depois tivera que mandar para fra do reino; a
mulher, D. Carlota Joaquina, que estava sempre s turras com elle, nunca
lhe dra seno desgostos. Falleceu ralado o pobre do rei, que era uma
excellente pessoa, amigo de tomar o seu rap com socego, e que para sua
desgraa governra no tempo da revoluo franceza, no tempo de
Napoleo, e no tempo da revoluo de 1820. E ha de a gente acreditar no
rifo: D Deus o frio conforme a roupa.

E, como eu tambem estou com frio, rapazes, vou at casa  procura de
roupa, e no proximo domingo acabaremos com isto.




DECIMO SERO

Historia contemporanea.--D. Pedro IV.--A Carta Constitucional.--Regencia
da infanta D. Izabel Maria.--D. Miguel, rei absoluto.--Sublevao do
Porto.--Emigrao.--A ilha Terceira.--O conde de Villa
Flor.--Perseguio aos liberaes.--A esquadra franceza no Tejo.--D. Pedro
IV pe-se  frente dos liberaes.--Desembarque no Mindello.--Crco do
Porto.--Expedio do Algarve.--Batalha do Cabo de S. Vicente.--Entrada
das tropas do duque da Terceira em Lisboa, a 24 de julho.--Crco de
Lisboa.--Batalhas de Asseiceira e Almoster.--Conveno de Evora
Monte.--Reinado de D. Maria II.--Revoluo de Setembro.--Constituio de
1838.--Restaurao da Carta.--A Maria da Fonte.--A Junta do Porto.--A
interveno estrangeira.--A Regenerao.--Reinado de D. Pedro V.--A
febre amarella.--Reinado de D. Luiz.--Concluso.


--Vocs percebem, meus amigos, principiou o Joo da Agualva, que, tendo
de lhes contar agora acontecimentos em que tomou parte muita gente que
ainda est viva e s, e no querendo offender ninguem, no posso estar
com muitas reflexes. Quem succedeu a D. Joo VI foi D. Pedro IV, j
ento imperador do Brazil. Este, que era um principe que percebia as
cousas, vio bem que o nosso tempo j no era tempo para
absolutismos, e antes quiz dar elle uma constituio do que ir o povo
arrancar-lh'a. Mandou portanto para Portugal a Carta, dizendo ao mesmo
tempo que abdicava em sua filha D. Maria, a qual havia de casar com seu
tio o infante D. Miguel, e, emquanto D. Miguel no voltava para
Portugal, nomeou regente a infanta D. Izabel Maria, que vocs haviam de
conhecer muito bem.

--Ora se conhecemos! morava ali em Bemfica!

--Tal qual! morreu ha cousa de tres ou quatro annos. A Carta
Constitucional ficou sendo lei do reino, apezar de algumas revoltas, mas
o infante D. Miguel, apenas chegou a Lisboa em 1828, fecha as crtes,
atira com a Carta de pernas ao ar e faz-se proclamar rei absoluto. A
guarnio do Porto no est pelos ajustes, e revolta-se, mas tem de
fugir para Hespanha. Tudo o que eram liberaes, e que poderam safar-se,
emigraram uns para Frana, outros para Inglaterra. Mas o que  certo 
que o povo todo estava com D. Miguel. Porque? Como pde haver um povo
que no goste de liberdade? Vo l explical-o! Os padres e os frades
estavam quasi todos ao lado de D. Miguel, e levavam comsigo muita gente.

Mas a ilha Terceira no esteve pelos autos, e no acceitou o
absolutismo. Apenas isso constou, correram os emigrados para essa ilha,
o conde de Villa Flor tomou conta do governo, e ali resistio s
esquadras de D. Miguel. Este, entretanto, com o devido respeito,
fazia tolices gradas, e a maior era perseguir os liberaes a ferro e
fogo. A forca estava sempre armada, as prises sempre atulhadas, e os
caceteiros no deixavam ninguem socegado. Isto de fazer martyres  o
diabo. Para a arvore da liberdade no ha rega como o sangue dos seus
filhos.

Ora, alm d'isso, emquanto o governo francez se mostrava pouco amigo da
liberdade, tinha D. Miguel as sympathias da Frana, mas depois da
revoluo de 1830 aconteceu o contrario. O governo de D. Miguel cau na
asneira de perseguir uns francezes. D'ahi resultou vir uma esquadra
franceza ao Tejo e levar os navios que ahi estavam. Ao mesmo tempo D.
Pedro, que tivera os seus dares e tomares com os brazileiros, abdicou a
cora imperial do Brazil, e veio tomar o commando dos defensores de sua
filha. Pe-se  frente d'elles, que no eram muitos, eram 7:500,
desembarca no Mindello a 8 de julho de 1832, mette-se no Porto, e ahi
resiste mais de um anno aos soldados de D. Miguel, que eram muito
valentes, mas mal commandados. Envia ao Algarve em 1833 meia duzia de
gatos, debaixo das ordens do conde de Villa Flor, j ento duque da
Terceira, n'uma pequena esquadra, que primeiro fra commandada por um
inglez chamado Sertorius, que ainda vive, e que o estava sendo por outro
inglez chamado Napier. Este desembarca o duque da Terceira no
Algarve; depois vae-se  esquadra miguelista e derrota-a no cabo de S.
Vicente. O duque da Terceira marcha sobre Lisboa, bate na cova da
Piedade os miguelistas, commandados pelo Telles Jordo, que tinha sido
um tyranno para os presos liberaes, e que ali morreu, e entrou em Lisboa
no dia 24 de julho de 1833. D. Pedro vem para Lisboa que os miguelistas
cercam. Elle e os seus dois marechaes, duques da Terceira e de Saldanha,
obrigam os miguelistas a retirar para Santarem. Depois o duque de
Saldanha por um lado bate os miguelistas em Almoster, o duque da
Terceira por outro bate-os na Asseiceira, e D. Miguel assigna a 25 de
maio de 1834 a conveno de Evora Monte, pela qual o seu exercito
depunha as armas, e elle abandonava Portugal. Como se esperasse
unicamente o fim da sua empreza para terminar tambem a sua vida, D.
Pedro IV veiu aqui morrer a Queluz no dia 24 de setembro de 1834. Podem
para ahi pensar d'elle o que quizerem, meus amigos, mas o homem que,
tendo nascido no throno, passou a sua vida a regeitar coras, e a
combater, como um soldado valente, pela liberdade dos povos, merece bem
as tres estatuas que no Porto, em Lisboa e no Rio de Janeiro, mostram
que, ao menos depois da sua morte, no foram ingratos com elle os
portuguezes e os brazileiros.

Succedia-lhe a senhora D. Maria II, que viveu bem pouco tempo, e
teve uma vida bem atormentada. Logo em 1836 um partido, que queria mais
liberdades que as da Carta fez a revoluo de setembro, e em 1838 veiu
uma nova constituio. Contra ella se fazem muitas revoltas, at que em
janeiro de 1842 Costa Cabral, depois conde de Thomar, deita abaixo a
constituio de 1838, e pe outra vez a Carta de p. Governou elle muito
tempo, mas, diga-se a verdade, um poucochinho  bruta. D'ahi vieram mais
revolues, e a maior de todas que foi a da Maria da Fonte, em 1846, em
que metade do reino obedecia  Junta do Porto, e a outra metade ao
governo nomeado pela rainha. Batidos em Val-Passos, em Torres Vedras, e
no Alto do Viso, os _patulas_, como se chamava aos partidarios da
junta, so obrigados a depor as armas pelos inglezes e pelos hespanhoes
que mandaram uns uma esquadra, os outros um exercito para restabelecerem
aqui o socego. Mas no fundo estava tudo em braza, e quando em 1851 o
duque de Saldanha se levantou contra o conde, hoje marquez de Thomar,
foi tudo atraz d'elle. Reuniram-se crtes que introduziram umas mudanas
na Carta, e d'ahi por diante nunca mais houve revoltas de considerao.
Pegaram os governos a fazer estradas e caminhos de ferro, e l de
partidos  que eu no entendo. Em 1853 morria a senhora D. Maria II,
considerada por todos como uma santa senhora, e uma santa me, e
succedeu-lhe seu filho, o senhor D. Pedro V, sendo regente nos
primeiros dois annos o senhor D. Fernando que vocs todos conhecem. O
sr. D. Pedro V era uma joia, como sabem. Quando em 1857 veio a febre
amarella a Lisboa, andou elle pelos hospitaes, a consolar os doentes, e
a dar coragem e exemplo a todos. Tambem quando em 1859 morreu a boa
rainha Estephania, sua mulher no houve portuguez que a no chorasse com
elle, e quando em 1861 morreu elle tambem quasi de repente, com os seus
dois irmos, o senhor D. Fernando e o senhor D. Joo, a dr do povo foi
tamanha que chegou a haver tumultos, porque at se desconfiava que
aquillo no fosse natural. Subio ao throno o senhor D. Luiz que hoje
reina, e aqui portanto acaba a historia. Sempre direi, com tudo, que no
so muitos os paizes por esse mundo onde os povos ainda hoje chorem
pelos reis, e que isso vem de serem os nossos to amigos da liberdade
como so e tem sido, graas a Deus. E aqui, meus amigos, acabo a minha
tarefa; o que eu desejo, rapazes,  que vocs achem que no os massou
muito o pobre do Joo da Agualva, e que entendam que empregaram melhor o
seu tempo a ouvir as minhas historias, do que a beber decilitros na
taverna do Funileiro.

FIM





End of the Project Gutenberg EBook of Historia alegre de Portugal, by 
Manuel Pinheiro Chagas

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     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
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forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
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of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
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Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
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liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

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is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

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in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
