The Project Gutenberg EBook of A Morgadinha dos Cannaviaes, by Jlio Dinis

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Title: A Morgadinha dos Cannaviaes

Author: Jlio Dinis

Release Date: June 14, 2009 [EBook #29120]

Language: Portuguese

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                                               Rita Farinha (Jun. 2009)




BIBLIOTHECA ESCOLHIDA

XXIII

ROMANCE

III


A MORGADINHA DOS CANNAVIAES

Vol. I




CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
TELEPHONE 2337




JULIO DINIZ


A MORGADINHA DOS CANNAVIAES

(CHRONICA DA ALDEIA)

DECIMA-SETIMA EDIO



LISBOA
J. RODRIGUES & C.^a, EDITORES
186--Rua Aurea--188
_1920_




OBRAS DE JULIO DINIZ


A Morgadinha dos Cannaviaes
Os Fidalgos da Casa Mourisca
As Pupillas do Senhor Reitor
Uma Familia Ingleza
Ineditos e Esparsos
Poesias
Seres da Provincia
Agenda Julio Diniz (registo de anniversarios e lembranas)



_Todos os direitos d'esta publicao esto reservados em conformidade
com a lei em Portugal e Brasil_

J. Rodrigues & C.^a




A MORGADINHA DOS CANNAVIAES




I


Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuino dezembro,
chuvoso, frio, aoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera,
subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa
vereda, que pretenciosamente gosava das honras de estrada,  falta de
competidora, em que melhor coubessem.

Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima provincia
comea j a resentir-se, seno ainda nos valles e planuras, nos visos
dos outeiros pelo menos, da vizinhana de sua irm, a alpestre e severa
Traz-os-Montes.

O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario, melancolico, e,
n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a qualquer povoao importante, e
com nome em carta corographica, estendiam-se milhas de pouco
transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana raro se
encontravam. S de longe em longe, a choa do pegureiro ou a cabana do
rachador, mas estas to ermas e desamparadas, que mais entristeciam do
que a absoluta solido.

No se moviam em perfeita igualdade de condies os dois viandantes, que
dissemos.

Um, o mais moo e pela apparencia o de mais grada posio social, era
transportado n'um pouco esculptural, mas possante muar, de inquietas
orelhas, musculos de marmore e articulaes fieis; o outro seguia a p,
ao lado d'elle, competindo, nas grandes passadas que devoravam o
caminho, com a quadrupedante alimaria, cujos brios, alm d'isso,
excitava por estimulos menos brandos do que os da simples e nobre
emulao.

Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual processo de
transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e
fadigas da jornada no se pode dizer que fsse o cavalleiro.

A postura de abatimento que lhe tomra o corpo, o olhar melancolico,
fito nas orelhas do macho, a indifferena, a taciturnidade ou o
manifesto mau humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem
natural conseguiam j desvanecer, o obstinado silencio que apenas de
quando em quando interrompia com uma phrase curta mas energica, com uma
pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza
de gestos e desempenado jgo de membros do pedestre, com a sua
torrencial verbosidade, a que no oppunha diques, e com as joviaes
cantigas e minuciosas informaes a respeito de tudo, por meio das quaes
se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbatico
companheiro.

Explica-se bem esta differena, dizendo que o cavalleiro era um elegante
rapaz de Lisboa, que fazia ento a sua primeira jornada, e o outro um
almocreve de profisso.

O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto
que o grato e quasi voluptuoso alvoroo, com que se concebe e planisa
qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordao que d'ella
guardamos depois, so coisas de incomparavelmente muito maiores
delicias, do que as impresses experimentadas no proprio momento de nos
vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e
mrmente nas classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas
impertinencias, em que se no pensa antes, que se esquecem depois, ou
que a saudade consegue at dourar e poetisar a seu modo; esses
microscopicos martyrios, que de longe no avultam, actuam-nos, na
occasio, a ponto de nos inhabilitar para o gso do que  realmente
bello. A dureza do colcho, em que se dorme, do albardo ou selim sobre
que se monta, o tempro ou destempro do heterclito cozinhado com que
se enche o estomago, a lama que nos encrusta at os cabellos, o p que
se nos insinua at os pulmes, o frio que nos inteiria os membros, o
sol que nos congestiona o cerebro, tudo ento nos desafina o espirito,
que traziamos na tenso necessaria para vibrar perante as maravilhas da
natureza ou da arte.

S pelo preo de muitas jornadas se compra o habito de ficar impassivel
no meio dos episodios d'estas pequenas odyssas, que atormentam e
exhaurem o animo dos Ulysses novatos; mas ai, quando se adquire esse
habito, tambem nos achamos j com a sensibilidade mais embotada para as
commoes do bello.

Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos enthusiasmo; analysa-se
mais e melhor; porm a propria analyse  a prova de que se sente menos.
Onde domina o sentimento e a imaginao, mal teem cabida a paciencia e
phlegma, necessarias aos processos analyticos. O homem positivo e frio
recolhe de qualquer excurso  patria com a carteira cheia de
apontamentos; o enthusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos,
sentiu mais.

Mas Henrique de Souzellas--que era este o nome do cavalleiro--fra
educado e passado da infancia  plena juventude, em Lisboa,
levantando-se por avanada manh, frequentando o theatro, o Gremio, as
camaras, parolando no Chiado ou no Rocio, e indo alguns dias no anno a
Cintra, ou qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da
capital.

Desde que fazia perfeito e consciente uso da razo, fra esta jornada,
em que o encontramos, a primeira levada a effeito, e logo sob to maus
auspicios, que era para suffocar-lhe  nascena os instinctos de
_touriste_, se porventura quizessem despertar n'elle.

Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante, unico vehiculo
accommodado aos caminhos por que passra. E ento que dois dias!
D'aquelles, durante os quaes o co, uniformemente pardo, parece
desfazer-se em agua, e a chuva cae sem interrupo e com uma teimosia e
constancia impacientadoras; d'aquelles em que a terra saciada rejeita j
a agua que recebe, a qual escorre nos declives, transborda dos algares,
e encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as lezirias;
em que as lufadas do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente
despidos, dos lamos e sobreiros, e emprestam aos pinheiraes a voz dos
mares; em que os campos se mostram desertos, a noite se anticipa, e to
densas nuvens cobrem o firmamento, que parece tomar-nos a persuaso de
que nunca mais o veremos com as suas formosas vestes de azul.

Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz podia deixar de ir
cabisbaixo, triste e dando ao diabo a viagem que commettera.

E para qu e por qu a commettera elle assim?

Em poucas palavras procuraremos satisfazer a natural interrogao, que 
de suppr nos dirigissem os leitores, se podessem fazel-o.

Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos vinte e sete annos,
vivendo, como dissmos, aquella enlanguescedora vida da capital, e
dividindo as attenes do espirito pela politica, pela litteratura e
pelos destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava habilitado a
fazer circumstanciada chronica, que abrangesse os ultimos dez annos.

No concebia vida fra d'aquillo.

O mundo para elle era Lisboa. No sentia desejos, nem imaginava
possibilidade de visitar a Europa, quanto mais a provincia; o que seria
maior faanha.

No que lhe faltassem recursos para realisar qualquer projecto d'esta
natureza.

Henrique herdra dos paes rendimentos bastantes, dos quaes vivia
folgadamente e sem precisar de sacrificar nos altares da economia.

Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A poucos ia to direita a
apostrophe de Garrett aos seus queridos alfacinhas, a qual se pode ler
no livro setimo das _Viagens_.

De certo tempo em deante comeou, porm, a incommodal-o uma especie de
vcuo interior, um mal-estar, doena infallivel nos celibatarios sem
familia, quando chegam  idade a que chegou Henrique, e passam a vida
como elle.

Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos, bocejava nas camaras,
bocejava no Gremio, bocejava no Suisso, no Chiado e nos circulos dos
seus amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o insupportavel de
insipidez; porque poucas coisas ha que mais perturbem o espirito, do que
o espectaculo d'um homem que boceja ou dorme, onde e quando os outros
forcejam por divertir-se.

O demonio da hypocondria, esse demonio negro e lugubre, implacavel
verdugo dos ociosos e egoistas, o qual havia muito o espiava,
apoderou-se d'elle em corpo e alma.

Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito preoccupado com a sua
pessoa, imaginando-se victima de mil e uma molestias, as mais
disparatadas e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente predestinado
para a apoplexia e para a phtisica, para o cancro e para a alienao,
para a cegueira e para as aneurismas, tremendo  leitura do obituario da
semana, folheando livros de medicina, construindo theorias
physiologicas, consultando todos os medicos da capital, experimentando
todo o arsenal pharmaceutico e todos os annuncios, em parangona, da
quarta pagina dos periodicos, e elevando as crenas do seu espirito
amedrontado at s mysteriosas e nevoentas alturas do credo
homoepathico! Ao mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva
degenerao de gsto; no podia ler uma pagina dos livros que lhe eram
predilectos; desfazia-se sem desgsto de quadros, mveis, estatuas e
objectos curiosos que colleccionra com paixo; detestava a musica, o
theatro, n'uma palavra, tornra-se um dos maiores flagellos, que podem
pesar sobre a humanidade e que muito em especial causam o supplicio dos
medicos que os aturam.

Foram estes os que, em parte de boa f, em parte com o desculpavel
intuito de sacudirem de si tal pesadelo, lhe deram um dia de conselho,
que fsse viajar.

Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia n'esta palavra: viajar.

Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias apopleticas? E as
suas disposies para tantas outras enfermidades? Pois um homem pode l
viajar com esta bagagem pathologica?

E se lhe dsse alguma coisa pelo caminho? Recusou com mau humor a
receita, e ficou na capital.

Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as consultas, e os medicos,
como se para isso apostados, a insistirem em que saisse de Lisboa.

--O senhor no tem nada--diziam alguns.

Henrique perdia a cabea, ao ouvir isto.

Prolongou-se este estado de coisas, at que um dia o hypocondriaco rapaz
persuadiu-se muito sriamente de que estava chegada a sua hora extrema.

Um medico velho e grave, que por essa occasio o escutou, em vez de se
rir d'elle, disse-lhe, muito sisudo:

--Homem! O senhor est realmente mal. Esse estado de imaginao no pode
prolongar-se mais tempo, sem romper por ahi em alguma doena que o
sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto  tempo.
Quebre por todos os habitos, e escolha entre as fortes impresses de uma
grande capital, como Paris ou Londres, ou as mornas sensaes de um
completo viver de aldeia. Os revulsivos e os emollientes curam por meios
oppostos s vezes as mesmas molestias.

Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse Henrique um presente de
fructa de uma sua tia, santa creatura que elle, desde creana, no
tornra a vr.

Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho onde na idade de cinco
annos Henrique passra alguns mezes na companhia de sua me.

Aquelle presente frugal recordra-lhe esse tempo, j meio apagado na
memoria, e conseguira fazer-lhe saudades. D'ahi uns vagos desejos de
voltar a vr aquelles sitios.

Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique nomeou-lhe a aldeia, em
que esta sua parenta vivia.

O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para que fsse abraada.

O sobrinho escreveu ento  tia, e, passados dias, punha-se a caminho.

Mil vezes se arrependeu, depois da resoluo tomada; mil vezes mandou ao
diabo o conselho do medico e phantasiou horriveis exacerbaes em todos
os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, feita ainda segundo os
velhos processos, com malas, coldres e pistolas, botas de montar e
almocreve, ampliava-lh'os a propores estupendas, o prisma da
hypocondria.

No momento em que nos associmos ao cavalleiro, caira elle n'um
desalento profundo, n'um quasi convencimento de proxima anniquilao, do
qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas
eloquentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguia arrancar.

Havia mais de uma hora que estavam luctando com as difficuldades da
ascenso do ingreme e escabroso caminho, que torneava o monte como as
voltas de uma helice.

Era este monte uma como irregular pyramide, levantada no meio da
amplissima bacia, onde tinha assento a aldeia que Henrique demandava;
por isso o estafado rapaz no podia atinar a razo de conveniencia pela
qual, tendo de procurar o valle, assim porfiavam em descrever as
fastidiosas curvas da quasi interminavel espiral, que os approximava do
vertice.

No se concebe uma estrada menos logica do que aquella.

No nosso paiz so porm frequentes estas faltas de logica nas estradas.

O almocreve havia-se separado por momentos de Henrique com o fim de
encurtar distancias, seguindo por um atalho s franqueavel a gente de
p.

Henrique nem desvira os olhos para o fundo valle, que se abria 
esquerda, velado pela densa nevoa d'aquella atmosphera saturada de
humidade, nem prestava atteno  agreste e selvatica paizagem, do lado
direito, toda encrespada de pinheiraes nascentes e de espinhosas
tojeiras.

Os olhos procuravam, em anciosa interrogao, o mais alto da flexuosa
ladeira que subia, no sitio em que ella, formando um cotovello, furtava
 vista o seguimento ulterior.

N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe ao viajante, canado e
aborrecido, que pela primeira vez as trilha, uma promettedora esperana.

--D'alli verei talvez o termo do caminho--pensa elle.

Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperana lhe foge!

Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar  almejada inflexo e quando
esperava principiar emfim a descer para o valle e approximar-se da
aldeia, viu que o macho, pratico no caminho, e  disposio de cujo
instincto elle collocra a razo, dobrava ainda para a direita e
continuava a contornar e a subir o monte. A espiral no terminra ainda.
Henrique olhou em torno de si, profundou a vista nas sombras do valle,
nada pde descobrir, que lhe promettesse a aldeia procurada. Muita
arvore, povoao nenhuma!

Teve um paroxismo de impaciencia!

--Isto no  estrada!--exclamou elle, exasperado.--So os nove circulos
do Inferno de Dante virados para fra.

E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva a augmentar, a calar
atravs do grosso gabo de jornada que Henrique vestia! O desgraado
vergava sob o pso da sua consternao.

Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando com fleugma
desesperadora.

--Com um milho de demonios!--bradou-lhe Henrique, no podendo
conter-se.--Essa maldicta terra foge deante de ns, homem!

--Estamos quasi l, meu patro.  alli logo adeante--respondeu o
almocreve, sem se alterar. V aquella capellinha branca em cima
d'aquelle monte? pois fica j para alm da povoao.  a ermida da
Senhora da Saude.  um instante.

--Desde as duas horas da tarde que me dizes que  um instante, e eu
estou acreditando que cada vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica
alli em baixo, para que diabo subimos ns? s voltas que temos dado,
estou persuadido de que vamos to adeantados como quando principimos a
subir.

--Pois olha que dvida! Se se fsse a direito l por baixo, era mais
perto, mas...

--Mas foi ento pelo prazer de trepar, que me trouxeste por aqui?

--No  isso, patro; mas bem v v. s.^a que o caminho l por baixo 
todo cortado por quintas e campos, e  preciso dar taes voltas, que a
final fica mais longe. Depois, com a chuva que tem cado, faz l ideia
de como esto os riachos por l! S o esteiro do almargeal  para uma
pessoa se afogar. Mas tenha o patro paciencia, que pouco falta agora.
V v. s.^a aquelle tronco de sobreiro que parece, visto d'aqui, um frade
de capuz?

-- alli?

--No, senhor--disse o homem, rindo;--mas vem-se d'aquelle sitio as
primeiras casas da aldeia.

--As primeiras!--murmurou Henrique em tom lastimoso; e penderam-lhe os
braos com mais desalento e augmentou-se-lhe a flexo da columna
vertebral.

O almocreve proseguiu, para o distrair:

--Tenho passado por estes sitios muita vez com neve de se cortar  faca
e de noite. E olhe que nunca tive mdo. Qual historia! Mdo? Isso sim! E
vamos l! o sitio no  dos mais seguros. V o senhor essa cruz preta,
ahi  sua mo direita, pregada no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo
mataram um homem, que vinha com uns centos de mil ris da feira franca
de Vizeu, fez pelo S. Miguel um anno. E ainda hoje se est para saber
quem foi. N'um ermo d'estes s os santos podem valer a uma creatura.

Henrique sentiu-se pouco  vontade com as elucidaes do cicerone; olhou
para elle com desconfiana e quasi julgou vr moverem-se sombras
suspeitas por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou nos coldres os
cabos das pistolas, e approximou as esporas dos ilhaes da cavalgadura.

Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de sobreiro, de junto do
qual deviam avistar a aldeia.

Henrique olhou; viu l no fundo do valle muitas arvores, mas continuou a
no enxergar vestigios de casas.

--Onde est a aldeia que dizias, homem?

--D'ahi j se v--disse o almocreve, correndo para alcanar o
cavalleiro.--No v v. s.^a, alm, alm, aquelles pinheiraes mansos?

--Vejo, sim.

--Pois j so da freguezia. Se fsse mais claro havia de avistar a casa
do guarda.  a tapada dos Bajuncos, que pertence  morgadinha dos
Cannaviaes.

Henrique no respondeu. A distancia a que ficava ainda a tal tapada
fel-o suspirar.

Emfim, passados minutos, principiaram a descer para o valle, costeando
sempre obliquamente o monte.

Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco,
que se divisava ao longe por entre a rama do arvoredo, mas j
indistinctamente, em virtude do adeantado da hora e da intensidade da
neblina.

--L est a capella da freguezia--dizia o homem.

--Alli?  um seculo para l chegar!

--Qual! Estamos aqui, estamos l. Eh, russo!

E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas do macho, que accelerou o
passo.

O homem continuou:

--At se fsse mais dia podia-se vr d'aqui a pedra, que est no
cemiterio novo, e que  da familia da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a
me d'ella a primeira pessoa que l se enterrou, e at hoje mais
ninguem. O povo, como o outro que diz, tem sua aquella em se enterrar
fra da egreja. Elle, a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do
costume... mas emfim a gente foi creada n'isto... Mas a pedra  coisa
asseada.  como as que esto na cidade.

Henrique, transido de frio, quebrado de desalento, j nem attendia ao
que o homem ia dizendo.

Cerrra-se a noite de todo, quando attingiram emfim o valle. O terreno
mudava agora de aspecto. Appareciam j, aqui e alli, alguns indicios de
cultura, annunciando a proximidade de um povoado. Os caminhos
estreitavam, internando-se no valle, e seguiam tortuosamente por entre
muros tscos de pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva, que
no cessra de cair, transformra estes caminhos, onde o declive no
dava escoamento s aguas, em charcos e tremedaes.

Novos indicios da vizinhana da aldeia iam successivamente apparecendo.

Aqui era uma manada de bois soltos, em direco do curral, guiados por
uma creana de palhoa e pernas nuas, os quaes paravam a olhar com
aquella expresso de composta curiosidade, que lhes  peculiar, para o
recem-chegado visitante da aldeia. No faltou receio a Henrique, que
suppz a estes bonacheires quadrupedes a indole travssa e bravia dos
touros, a cuja chegada tantas vezes fra assistir em Lisboa.

Mais adeante passava por elles uma fileira de carros a vergarem sob o
pso do matto e atroando os ares com o chiar incmmodo das rodas sob o
eixo, incmmodo para os ouvidos cidados de Henrique, cujos nervos se
irritavam com elle, mas apparentemente agradabilissimo para os
conductores aldeos, que ou dormiam ou cantavam com aquelle
acompanhamento.

N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe j algumas casas de tectos de
colmo, de cujas innumeras fendas saa um fumo espsso, que a atmosphera
humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado de Henrique
de Souzellas o cheiro resinoso e activo das pinhas e das agulhas sccas
dos pinheiros, queimadas no lar, produziam sensaes muito longe de
serem agradaveis.

Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia que j lhe tomra o
animo.

--Tantas fadigas para este resultado!--pensava elle.--Sair de Lisboa
para me enterrar n'esta aldeia escura e suja! Enganou-se o parvo do
doutor. Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro por certo aqui. Deus
lhe perde o homicidio.

Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual mais tortuoso e incmmodo de
trilhar; as curvas complicavam-se como as ruas de um labyrintho. Aqui
subiam; desciam mais alm, para subir outra vez. Umas vezes caminhavam
em terreno descoberto, outras penetravam em to estreitas quelhas,
apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas de ramos
entrelaados, que s o instincto do animal podia evitar-lhes os perigos.
Ora soavam as patas do macho como em cho lageado, ora amortecia-lhes o
som um terreno, que a chuva encharcava, e a agua lamacenta vinha
salpicar o rosto do cavalleiro.

As casas eram j frequentes, e algumas de menos humilde apparencia.

Os ces, que, pelo timbre de voz, mostravam ser gigantes, ladravam
raivosos por dentro dos portes ou de sobre os muros das quintas, ao
ouvirem os passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que falava ou
cantava sempre.

Outras vezes era um inharmonico grunhir suino que accusava a vizinhana
das crtes ou, partindo de um casebre rustico, o chorar de creanas,
entremeado com os ralhos das mes e com as pragas dos chefes de familia.

O almocreve no desistira das suas funces de cicerone, que smente
interrompia para saudar alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam.

--Estes campos e lameiros--ia dizendo--so da morgadinha dos Cannaviaes;
andam arrendados a um compadre meu.

E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente allumiada por
uma candeia:

--Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada?

--Ai,  vossemec, sr. Jos? Ento no entra?--respondia-lhe uma voz
feminina.

--Agora, no, manh.

E proseguiu para Henrique:

-- uma santa creatura. A morgadinha...

Henrique interrompeu-o:

--Onde fica a final, a quinta de Alvapenha? onde mora minha tia? No me
dirs?

-- logo ahi adeante, meu patro. Em ns passando umas casas amarellas
que ha ahi...  logo ao p. Essas casas que digo so tambem da
morgadinha, mas ha uma demanda pelos modos.

O almocreve falava pela decima ou undecima vez na morgadinha. At esta
periodica referencia a uma personagem que elle no conhecia,
impacientava Henrique de Souzellas.

E continuavam a succeder-se em enredado dedalo as quelhas e azinhagas, a
ponto de fazer perder toda a orientao. Umas vezes ouviam o ruido das
levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado; adeante, transpunham
uma ponte rustica, escutando das profundezas do despenhadeiro, que ella
atravessava, o fragor das cascatas nos audes ou o ranger das rodas dos
moinhos.

Henrique a cada momento imaginava cair n'um abysmo.

--So os audes do Casal--dizia o almocreve berrando para se fazer ouvir
atravs do estrondo da torrente.--Pertencem  morgadinha dos Cannaviaes.

Henrique nem alento j tinha para falar.

Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia to cerrada lhe
envolveu o corao a nuvem de melancolia, que cedeu sem resistencia ao
crescente torpor que o invadia, como o que desespera da vida e da
salvao.

Mais adeante, excitou-lhe ainda as attenes uma toada plangente,
melancolica, monotona, que exacerbou estes effeitos.

-- uma fiada em casa do Tapadas--disse o almocreve.-- um dos maiores
amigos do pae da morgadinha. V aquelle muro acol?

--Eu no vejo nada. Deixa-me!

--Pois pertence j  quinta dos Cannaviaes, que a morgadinha...

--Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha--exclamou Henrique.

Era evidente emfim que estavam em pleno corao do povoado. As casas
appareciam mais juntas. De algumas saa um surdo rumor de vozes que
tinha o que quer que era de lugubre. Era a cora rezada em familia a
Nossa Senhora. A voz grave do lavrador casava-se com a voz quebrada e
trmula do av, com a voz sonora e fresca da me, e a juvenil das
raparigas e creanas n'aquelle piedoso cro, produzindo um effeito que
acabou por levar ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante.

--Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha, que no a acabamos de
attingir?

O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu uma chicotada sibilante
junto s orelhas do muar, o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira
orlada de arvores, volveu  direita e,  voz do almocreve, estacou em
frente de um porto de quinta resguardado por um telheiro rustico.

-- aqui--disse o guia.

--At que emfim!--exclamou Henrique, suspirando. Suspiro de conforto e
de tristeza ao mesmo tempo, como o do homem canado da vida, quando
antev o repouso do tumulo. Em Henrique era intima a convico de que a
quinta de Alvapenha lhe havia de servir de cemiterio.




II


O almocreve assentou duas vigorosas pancadas no solido porto de
castanho, deante do qual tinham parado.

As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as de dois ces, que
acudiram de longe ao signal e vieram ladrar  porta com furia, que fez
agourar mal a Henrique da cordialidade da recepo que o esperava. De
facto as intenes dos quadrupedes no pareciam demasiado hospitaleiras.
O almocreve divertia-se excitando-os de fra com uma vara de vime,
apesar de quantas recommendaes de prudencia lhe fazia Henrique, no em
demasia socegado.

A final ouviu-se uma voz aspera e rouca, chamando os ces  ordem, se 
licito, sem irreverencia, empregar n'este caso a phrase consagrada para
outro genero de algazarra.

Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos, levantar a aldraba,
gemerem os gonzos, e emfim um homem de lavoura alto e magro, trazendo em
punho um lampeo de frouxissima luz, appareceu-lhes  porta e saudou-os
com a frmula do estylo:

--Ora Nosso Senhor lhes d muito boas noites.

E, levantando a luz  altura do rosto de Henrique, poz-se a miral-o com
a menos ceremoniosa curiosidade.

-- o sobrinho c da senhora, no  verdade?

--Sou eu mesmo.

--Est um tempo muito azdo. Eu j julgava que no vinham. Entre.

Henrique no se resolvia a acceitar o convite, porque lhe continuavam a
impr respeito os olhares ferinos e os rugidos surdos dos dois
faanhosos quadrupedes, cuja m vontade era a custo refreada.

--Entre, entre--insistia o homem.

--Mas esses animalejos?...

--Ah! isto no faz mal. Sae-te p'ra l, Lobo: passa, Tyranno!

Lobo! Tyranno! Que nomes! E dizia o homem que no faziam mal!

--C'os diabos! ti'Manuel--disse o almocreve--em occasio de se esperarem
hospedes, no se soltam assim os ces. Os diabos no so nenhuns
cordeiros. Olhe no outro dia o sr. Joosinho das Perdizes, que por pouco
lhes deixava nos dentes as barrigas das pernas.

--Forte perca!--resmoneou o outro.--No trouxesse c os d'elle. No tem
dvida; entre o senhor, que elles no lhe fazem mal.

--No entro; assim  que no entro--teimou Henrique, a quem as palavras
do almocreve acabaram de fortificar na sua resoluo.

O homem em vista d'isto encolheu os hombros e bradou:

-- Luiz!

Uma creana de cinco annos, e quasi nua, correu ao chamamento.

--Enxota para l esses ces, que aqui o senhor tem mdo.

A creana,  palavra mdo, fitou Henrique com uns olhos espantados, e
tomando do cho um tronco de tojo, deu-se a zurzir desapiedadamente nas
feras, que, com todos os signaes de respeito, de orelha baixa e cauda
abatida, fugiram deante d'ella.

O orgulho de Henrique de Souzellas ficou um tanto maltratado com o
desfecho da scena; mas a prudencia consolava-o, dizendo-lhe que andra
ajuizadamente.

--Agora vossemec--disse o camponez para o almocreve--arranje-se como
puder e mais a bsta ahi pelas lojas, emquanto eu ensino o caminho ao
senhor.

--Vo, vo com Nossa Senhora, que eu c me arranjarei. Muito boas
noites, sr. Henriquinho.

--Adeus, Jos--disse Henrique, passando para a mo do guia a esportula
da gorgeta, e aps seguiu, com as pernas trpegas de cavalgar, o homem
do lampeo.

No era para dissipar a impresso penosa, que subjugava o espirito de
Henrique, o aspecto que lhe offerecia, quella hora da noite, a parte da
quinta, por onde era conduzido para a casa de Alvapenha.

Primeiro, trilhou o pavimento molle de um quinteiro ou eido, estradado
de altas camadas de matto e embebido de chuva, d'onde se exhalava um
cheiro de cortumes, pouco de lisonjear o olfacto mal habituado a estes
aromas campezinos. A luz do lampeo a custo conseguiu evitar a Henrique
o tropear n'um carro desapparelhado, n'uma dorna, n'uma pia para
gallinhas, e em outros objectos que atrancavam o quinteiro. Transpondo a
cancella que terminava este, seguiram por uma rua de folhas;
atravessaram diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia;
ladearam a eira e a casa do cabanal, e, effectuados mais alguns rodeios,
acharam-se finalmente junto da escadaria de pedra, por onde se subia
para uma especie de patamar ou varanda alpendrada, que servia de um
modesto portico  casa de Alvapenha.

A propriedade da tia de Henrique era um genuino typo de casa rustica, 
moda do Minho.

Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar os objectos  escassa
luz que os allumiava, recebeu Henrique a primeira impresso agradavel de
toda aquella mal estreada excurso.

Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre avivaram n'elle
memorias, quasi apagadas. Lembrava-se agora vagamente de ter brincado
alli, a cavallo n'esse mesmo parapeito, ento, como agora, enfeitado de
uma formidavel cohorte de aboboras meninas, victimas votadas s festas
do proximo Natal.

A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um grande vaso de loua, que
elle, havia vinte e tantos annos, conhecera, e ao qual tinha a ideia
vaga de haver quebrado uma aza; abaixou-se no intento de se certificar,
e viu que de facto ainda lhe faltava a aza, sendo este o unico estrago
que aps tanto tempo o velho utensilio soffrra.

-- admiravel!--no pde deixar de exclamar Henrique ao fazer a
descoberta, vendo que em oito dias operava maior reforma nos seus
aposentos em Lisboa, do que n'um quarto de seculo se realisava em
Alvapenha.

O hortelo bateu  porta e disse para dentro que era o sobrinho da
senhora que chegava.

Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de vozes, um arrastar de
passos; moveu-se a chave na fechadura; abriram-se as portas e no limiar
appareceu de braos abertos a tia Dorotha, e por traz d'ella, elevando
a luz acima do hombro da ama, a criada Maria de Jesus, a que, havia
trinta annos, lhe era companheira e interessada em lagrimas e pesares.
J Henrique lhe andra ao collo no tempo em que estivera creana na
quinta.

Deante da figura esbelta, do typo varonil e do comprido bigode de
Henrique, a sr.^a Dorotha reprimiu as suas expanses e quasi recuou.

Nunca mais vira Henrique desde que este, aos cinco annos, deixra
Alvapenha, e dir-se-hia que esperava ainda encontrar os mesmos cabellos
louros e annelados e o mesmo rosto menineiro da travssa creana de
outros tempos, em vez do homem feito, em que os vinte e tantos annos
volvidos o tinham transformado.

Ha d'estas illuses na gente.

A mais segura razo no est precavida contra ellas; a infundada
surpreza invade-nos de subito, e os labios no podem prender a
exclamao que a denuncia.

--Pois na verdade tu s o Henriquinho?!--disse espantada a boa senhora.

--Eu julgo que sim, tia Dorotha.

--Tu! Ai como ests um homem!  Maria de Jesus, voc no quer vr isto!?

--Parece mesmo um soldado!--disse a criada, igualmente estupefacta.

--Credo, mulher! Santissima Trindade! Voc que est a dizer? Nossa
Senhora nos livre de tal!--exclamou a ama, em cujo conceito o soldado
estabelecia a transio do homem para o diabo.

No entretanto Henrique de Souzellas abraava a tia, que havia tanto
tempo que no vira, e ella correspondia-lhe, beijando-o com todo o
carinho e chorando.

Chorando por qu? Por qu? Pela muita bondade que tinha n'aquella alma.
A bondade  um rico manancial, que brota lagrimas ao toque da menor
commoo.

Henrique no tinha ainda bem conseguido libertar-se dos roxeados
amplexos e mais provas de affecto de sua tia, quando se sentiu prso em
novos laos. Era Maria de Jesus, que o abraava tambem e lhe pespegava
nas faces dois beijos muito chiados, como aquelles que veem a ferver do
corao, e isto acompanhado de um--Ai o meu rico filho!--to eloquente
como os beijos.

Henrique, habituado s etiquetas da civilisao urbana, que estabelece
entre amos e criados distancias desconhecidas na aldeia, extranhou um
pouco a familiaridade, mas sujeitou-se a ella sem reflexes.

Maria de Jesus dizia, ainda admirada:

-- senhora! No que uma coisa assim! Pois  este o menino que vinha 
cozinha limpar o tacho, em que se fazia a marmelada!

-- verdade! E que boa marmelada c se fazia!

--Lambareiro!--disse a tia, sorrindo.--Se eu soubesse que eras assim,
no tinha mandado lavar o tacho do dce, que ainda hoje serviu.

--Sim? Ento ainda se faz dce c em casa, como d'antes?--perguntou
Henrique.

--Pois ento? todos os annos. Mas valha-me Deus! E no querem vr ns
aqui postas  palestra! Entra, menino, entra c para dentro, que est
frio e tu deves vir canado.

--Um pouco, um pouco, tia Dorotha.

E Henrique entrou para a sala.

Demoremo-nos no limiar para informar o leitor sobre as pessoas, em cuja
casa se vae alojar com Henrique de Souzellas.

No se imagina a santa paz de espirito, a placidez de paraiso, que estas
duas mulheres--D. Dorotha e Maria de Jesus, ama e criada--gosavam na
quinta de Alvapenha, onde Henrique de Souzellas ia procurar allivio aos
seus muitos e variados males.

Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas aos seus habitos, ambas
muito tementes a Deus e amigas do proximo, as duas celibatarias passavam
alli uma vida, rescendente a um suave perfume de santidade, como o da
alfazema e do rosmaninho, que lhes aromatizava as gavetas e de que se
repassava toda a roupa branca, objecto muito dos seus cuidados.

A inalteravel harmonia, mantida havia tantos annos entre as duas,
poderia ser exemplo  maior parte das familias d'este mundo. Entre
velhas, que nunca tiveram filhos, circumstancia que em geral faz o humor
mais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso.

Tinham ellas porm a precisa tolerancia para fazerem mutuas concesses;
cada uma fechava os olhos aos pequenos caprichos da outra, e tudo corria
bem. Nunca a dentro d'aquellas paredes se ouviu uma s palavra, que, por
mais alto pronunciada ou por menos expressiva de paciencia, destoasse da
invariavel monotonia dos seus habituaes dialogos.

Eram um exemplo edificante para os vizinhos, que, pela maior parte,
devorados por demandas entre primos e irmos, paes e filhos, marido e
mulher, mostravam infelizmente ser esta abenoada semente cada em
improductivo terreno.

As discordias intestinas nas familias do seu conhecimento affligiam as
duas sexagenarias e augmentavam o numero de Padre-Nossos com que todas
as noites se faziam lembrar dos santos, de quem eram validas,
pedindo-lhes a felicidade dos outros tanto ou mais do que a sua propria.

Ouvir rezar as duas santas velhas--e era essa a occupao dos seus
curtos seres--equivalia a escutar uma resenha das differentes
calamidades, que perseguem e apoquentam o genero humano, e que ellas,
d'esta maneira, pretendiam evitar.

--Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria a S. Maral, para que nos livre do
fogo--dizia D. Dorotha, e seguia-se o Padre-Nosso.--Outro a Santa Luzia
milagrosa, para que nos d vista e claridade na alma e no corpo; outro a
S. Braz, para que nos proteja da garganta; outro a S. Vicente, por causa
das bexigas, etc. Seguia-se um Padre-Nosso por todos os que andam sobre
as aguas do mar; outro por os pobres sem abrigo nem alimento; outro por
os orphos; outro pelos doentes; um pelos vivos; outro pelos mortos; um
pelos justos; outro pelas almas do purgatorio, no hesitando at a sua
caridade em transpr as portas do inferno e pedir tambem a remisso dos
condemnados. E ainda depois d'esta minuciosa e longa enumerao, um
ultimo Padre-Nosso fechava a primeira serie, comprehendendo todos os no
contemplados por esquecidos, ou por no terem logar na classificao.

Compunha a segunda serie a meno especial de cada uma das pessoas
fallecidas das suas relaes: parentes, amigos e conhecidos, por cujo
eterno descano entre os resplendores da luz perpetua oravam com
verdadeira compuno. N'esta phalange ia tambem D. Joo VI, por quem,
havia quarenta annos, se costumra a rezar D. Dorotha, e no era ella
mulher que rompesse com habitos semi-seculares. Era esse talvez o unico
Padre-Nosso que a alma do monarcha recebia no Co, com procedencia do
seu antigo reino.

Quanto s qualidades physicas, a imaginao dos leitores pintar-lh'as-ha
melhor do que a minha descripo. Forosamente conheceram uma d'estas
boas velhas, para quem nos sentimos attrahidos; a quem se estima e com
quem se brinca ao mesmo tempo; que nos podem inspirar sacrificios e
simultaneamente nos tentam a travessura; a quem mystificamos agora e
logo beijamos respeitosamente a mo; contra quem no reprimimos
impaciencias, escutando depois submissos os seus nunca terminados
sermes.

Ora estas velhas assim teem quasi sempre um typo uniforme, que  o
reflexo exterior da bondade do corao; esse era o typo da tia Dorotha
com o seu vestido rxo, o seu leno castamente cruzado no peito, a sua
touca de folhos alvissimos e de fitas escuras, o mlho de chaves 
cinta, o livro de oraes na algibeira e os oculos a marcarem no livro a
reza habitual.

Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma edio popular da mesma
alma. Succedra de mais com ellas o que  sempre de esperar de uma longa
e intima convivencia; haviam reciprocamente adoptado maneiras e modos de
pensar e de vr e de dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer
d'ellas ser como que uma premissa d'onde a modo de concluso, se deduzia
a outra facilmente.

Tudo isto percebeu logo Henrique de Souzellas ao primeiro exame que fez
das duas santas mulheres.

Entremos agora com elle para dentro da sala.

Quem, vinte annos antes, tivesse visitado a casa de Alvapenha e ahi
voltasse de novo com Henrique julgaria,  vista da uniforme disposio
de coisas mantida alli dentro em to distantes pocas, que todo esse
tempo no fra mais do que um sonho de momentos.

Encontraria os mesmos mveis, na mesma collocao; as mesmas cobertas
nos leitos, apenas mais desbotadas; as mesmas ou iguaes cortinas nas
janellas; o mesmo cheiro de feno e alfazema na atmosphera dos quartos,
os mesmos quadros na parede, as mesmas jarras nas cmmodas.

A memoria de Henrique, aquella inconstante e leviana memoria de rapaz
estouvado, sentia-se acordar,  vista d'aquillo tudo.

A sala tinha uma physionomia caracteristica.

Supponha-se uma no muito ampla quadra de pouca altura, toda pintada a
ca, e alumiada por duas mal rasgadas janellas de peitoril, com os seus
competentes assentos de pedra, um defronte do outro, com meias cortinas
de cambraia sempre corridas--pleonasmo de discrio que se no
justificava, visto que as janelas, abrindo para a quinta, no tinham
vizinhana de cujos olhares precisassem de recatar-se. O tecto era de
almofadas de castanho, em tempos pintado de azul, agora de uma cr
duvidosa. Havia quinze annos que D. Dorotha falava em o mandar retocar,
mas o projecto, momentoso como era, ia sendo adiado de primavera para
primavera. Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija saliente, onde
coroadas mas de inverno aguardavam, em vistosa fileira, a completa
maturao, e derramavam no aposento o mais agradavel aroma. O pavimento,
apesar de muito picado de caruncho, andava limpo e _escafunado_--termo
do vocabulario de casa--que mettia gsto vl-o. Cada parede era um museu
de estampas de devoo. Poucos santos e santas da crte celestial no
estavam alli representados e com um colorido, que era o maior peccado, a
que estes bemaventurados haviam dado logar c no mundo.

C se via Santa Quiteria e as suas sete companheiras; Santa Anna
ensinando Nossa Senhora a ler; o Senhor dos Passos, venerado em S. Joo
Novo, no Porto; o Bom Jesus de Bouas, representao da imagem, que,
segundo reza a respectiva chronica,  obra das mos de Jos de
Nicodemus; os Santos Martyres de Marrocos, da igreja de S. Francisco,
etc., etc. Sobre a cmmoda de pau preto era devotamente venerado o mais
rubicundo, menineiro e bem disposto Santo Antonio, que ainda modelaram
as mos de santeiro afamado. E seja dito de passagem que no sei por que
a tradio popular d a este austero franciscano o aspecto chorudo de um
moderno reitor de farta abbadia de aldeia.

No interior da redoma onde se abrigava o santo estava estabelecido o
museu de raridades da tia Dorotha. Eram flores artificiaes,
concharinhas e caramujos, um rosario de caroos de azeitonas, uns poucos
de vintens de prata, enfiados e pendentes do brao do menino Jesus, que
o santo sustentava ao collo, veronicas, escapularios, uma campainha
benta, uma medida do brao do Senhor de Mattosinhos, um po do sacco de
Santa Isabel, que vae na procisso de Cinza, no Porto, e outros objectos
curiosos.

A mobilia da sala consistia em cadeiras de palhinha, que gemiam quando
entravam em servio, como militar, cujas articulaes o rheumatismo
invadiu; mesas cobertas com colchas de chita; bahs cravados de pregaria
amarella, disposta em lettras e arabescos; uma papeleira de pau santo, e
uma gaiola com um canario decrepito, objecto, havia muitos annos, das
tentaes de um gato, mais decrepito do que elle e pertencente s
classes inactivas.

Henrique, adivinhando por todo aquelle cheiro de beatitude e de
antiguidade que alli se respirava, os habitos da casa, sentia j certo
desconfrto, como de quem  arrancado de subito ao ambiente, em que se
educou e vive, e engolfado n'um ambiente extranho; especie de asphyxia
moral, no menos angustiosa do que a do peixe fra da agua.

A saudade que ao principio sentira, dissipra-se j. O perfume da
saudade  como o de certas flores, que s se percebe quando de longe o
recebemos. Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto, dissipa-se.

Acontecera isto com Henrique.

Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a crena de que no seria
por muito tempo que se demoraria alli.

--Os emollientes do doutor--pensava elle, emquanto sua tia falava--sero
efficazes para quem os pudr soffrer sem enjo, mas para mim...

No entretanto sentou-se.

--Ora o Henriquinho!--dizia ainda D. Dorotha, pondo-se de braos
cruzados em contemplao defronte d'elle.-- menino, onde foste tu
arranjar esses bigodes tamanhos? Ento isso agora usa-se?

Pergunta que sobremaneira embaraou Henrique.

--Quem quer usar, usa, tia. No  obrigao--respondeu elle, com leve
mau humor.

--Em nome do Padre e do Filho!--dizia Maria de Jesus, benzendo-se e
tomando logar ao lado da ama.--At nem sei que parece, lembrar-se a
gente que trouxe este marmanjo ao collo!

O termo marmanjo no soou bem a Henrique. Principiava tambem a
impaciental-o o vr as duas embasbacadas deante d'elle; um homem sujeito
a uma exposio d'estas, por mais que faa, no atina com o modo de
arrostar com ella, que no seja ridiculo. Ora Henrique, como todo o
homem da sociedade, o que mais que tudo temia n'este mundo era o
ridiculo.

Felizmente acudiu-lhe a caridosa interveno da tia Dorotha, que fez
perceber  criada a conveniencia de ir preparando a ceia de Henrique,
que havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de no costumar cear,
acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas e a m alimentao dos
ultimos dias, haviam-lhe desafiado o appetite. Demais, o espanto de D.
Dorotha, quando lhe ouviu dizer que as ceias no entravam nos seus
habitos, foi tal que lhe tirou o animo de rejeitar.

--No ceias!  menino, que me dizes? ento vaes-te deitar sem ceia? Ora
essa! Por isso vocs so uns pelens. Vejam l que arranjo este! ficar
toda a santa noite sem alguma coisa que d sustento ao estomago, que
aconchegue. Nada, nada; a ceinha em todo o caso. E tu has de tambem
querer mudar de fato?

--Eu venho bastante molhado.

--Ai, ento depressa, menino, que no ha nada peor do que a roupa
molhada no corpo.  Maria... ou deixe estar, eu vou... Anda,
Henriquinho, anda l, que eu guio-te ao teu quarto para te arranjares.

Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado e commodamente vestido,
saboreava uma gorda gallinha de canja, sobre uma mesa coberta de toalha
lavada, e na melhor loua da copeira.

Elle que tinha sempre severidades de critica contra os mais afamados
cozinheiros de Lisboa, estava achando deliciosa aquella comida
primitiva, com que o regalava a tia.

Esta sentou-se a vl-o comer, e com a mesma familiaridade, que Henrique
j anteriormente extranhra, Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama.

Ambas tinham ceado j; pois que o faziam ao cerrar da noite.

Emquanto Henrique comia, ellas, sem deixarem de o observar com a natural
curiosidade de quem havia tanto tempo no tivera um hospede, faziam-lhe
perguntas, s quaes elle ia respondendo conforme lhe era possivel.

--Tu dizias-me na tua carta que estavas doente; pois olha que na cara
no o parece.

--No--concordou a criada--tem boas cres, e, vamos, a magreza inda no
 l essas coisas.

Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu logo ao reclamo.

--No me digam isso! Ento no vem como estou? Pois isto  l cr de
saude? de febre, ser. Gordo? pois acham-me gordo?!

--Gordo, no digo, mas assim, assim... E depois como vieste de
jornada... Mas a final que molestia  a tua, menino?

--Eu sei l, tia Dorotha? Nem os medicos a conhecem bem. , entre
outras coisas, uma tristeza, uma melancolia, que me no deixa, que me
persegue por toda a parte. s vezes parece-me que sinto apertar-se-me
dolorosamente o corao; outras, so palpitaes, ancias... Tenho quasi
vontade de chorar, irrito-me, impaciento-me, no quero que me falem,
nada quero vr, nada quero ouvir; no leio, no durmo, no como.
Finalmente todo eu sou doena e tristeza.

A boa tia Dorotha olhava com sisudez e atteno para o sobrinho,
emquanto elle falava, e na physionomia iam-se-lhe desenhando, ao
ouvil-o, os mais expressivos signaes de espanto e consternao.

Assim que Henrique terminou a exposio, ella disse-lhe com uma adoravel
candura:

--Ento  assim uma especie de mania!

 palavra mania Henrique sobresaltou-se. Seria a consciencia que se
sentiu ferida?

--Mania?  tia Dorotha! Mania! Veja bem, olhe que o termo  forte?
Mania!

--Sim, menino--insistiu ingenuamente a boa senhora--pois olha que no 
outra coisa. Pois isto de estar triste sem ter de qu... sim... porque
no te morrendo ninguem, nem te doendo nada...

 poetas devaneiadores,  almas melancolicas, que percebeis no sussurrar
das brisas, no ciciar das folhas, no murmurar dos arroios, queixas
occultas de dryades e de nayades, sentidas vibraes das harpas de fadas
aereas, que vivem em palacios de nuvens;  coraes inoculados de
poesia, que vos confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar do
dia, ao desfolhar das arvores no outomno; poetas, que escutaes, com
Victor Hugo, as vozes interiores, os cantos do crepusculo, e com elle
adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras, perdoae a involuntaria
blasphemia da tia Dorotha, que no contem o menor fermento de malicia;
perdoae-lhe a dura expresso de que ella se serviu para caracterisar os
vossos arroubamentos, as vossas tristezas vagas, os vossos devaneios, e
crde que, apesar da phrase, terieis n'ella uma alma mais afinada para
sympathisar comvosco, do que tantas que por ahi fazem gala de vos
comprehender melhor.

Henrique no podia porm digerir a expresso, de que se servira a tia,
para diagnosticar o seu mal.

--Mania!--repetia elle--essa agora! Sempre  forte de mais. Mania, no,
tia Dorotha, l isso no. Mania!

--Eu lhe digo--acudiu a criada.--No v sem resposta; que est quasi
como o cunhado da Rosa do Bacello. A senhora no se lembra? Andou
aquella alminha por ahi sempre triste, sempre a falar s, at que a
final l foi parar...

--Aonde?--perguntou Henrique, erguendo os olhos interrogadoramente para
a criada.

--L foi parar a Rilhafolles--concluiu esta, espevitando a vla o mais
naturalmente d'este mundo.

Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade.

Nem acabou de sorver a ultima colhr de caldo de arroz, que lhe estava
sabendo como nunca manjar lhe soubera.

--Ento no comes mais?--perguntou a tia.

--Muito agradecido; eu o mais que tenho  somno.

--Pois sim, mas  preciso fazer por comer--insistiu ella.

--Ora v mais este cxo--disse a criada.

--No  possivel--teimou Henrique, e insistiu para se recolher ao
quarto.

--Tens razo, tens--concordou a tia Dorotha--deves estar fatigado. Vae
com Nossa Senhora, menino. E deixa-te l de pensar e estar triste, que
isso no  bom.  fazer por espairecer. Come, bebe, passeia, que  o que
d saude. Nada de malucar.

--Sim--accrescentou a criada--e no queira estar doente, que no tem
graa nenhuma.

--E olha, Henriquinho, tu tens por ahi com quem te podes distrahir. O
brazileiro Seabra, que tem uma casa como um palacio; o Augustito do
doutor, que  um bom mocinho. E depois vae dar um passeio por ahi, um
dia at os moinhos outro dia at  ermida da Senhora da Saude. Agora me
lembra: a Lenita j mandou ahi outra vez saber se tinha chegado o
hospede--disse D. Dorotha.

--No foi s a morgadinha...

--Ahi est voc a chamar-lhe tambem a morgadinha.

--Ento, senhora?! isto  o costume. Mas todas as outras senhoras
mandaram tambem o Torquato saber do sr. Henrique. A sr.^a D. Victoria e
a Christininha.

--Ai, pois cuidadosas so ellas! Tu has de te entender com aquella
gente.  uma gente muito dada e sem ceremonia.  preciso l ir. Olha,
manh podes ir visital-as.  um passeio bonito.

Henrique, que tinha estado distrahido durante a conversa das duas, nem
se dava ao trabalho de intervir no dialogo em que ellas dispunham j do
seu tempo e traavam-lhe planos de vida.

--Mas vae descanar, menino, vae e faze por dormir. Olha l, tu costumas
dormir com luz?

--No, tia, no costumo.

-- porque n'esse caso...  Maria, onde est aquella lamparina, que me
serviu quando eu estive doente, ha seis annos?

--Est l dentro, senhora; se a senhora quer eu...

--V l, menino...

--No tia, no quero.

--Ha pessoas que no podem dormir s escuras--dizia a criada.--Eu,
graas a Deus, durmo bem de qualquer frma.

--Pois sim, mas nem todos so como voc. Olha,  Henriquinho, has de vr
se queres o travesseiro mais alto ou...

--Muito agradecido, tia Dorotha, tudo deve estar bom--disse Henrique,
procurando fugir s muitas reflexes, perguntas e conselhos, com que as
duas o iam perseguindo at o quarto.

--Olha,  menino, tu bebes agua de noite?

--s vezes.

--Voc poz-lhe agua no quarto, Maria?

--Puz, sim, minha senhora; pois ento? J minha mezinha dizia, que
antes sem luz do que sem agua.

--Bem, ento est bom. Ento muito boa noite, menino.

--Boa noite, tia.

--Ai,  verdade. Has de vr se queres mais roupa na cama.

--No hei de querer, no, tia.

--Olha que est muito frio. Voc quantos cobertores lhe deitou,  Maria?

--Cinco, senhora.

--Cinco!--exclamou Henrique, quasi horrorisado.--Cinco cobertores!

-- pouco?

--Pouco?-- de morrer esmagado debaixo d'elles.

--Ai, quer no! Olha que est muito frio.

--Bem, bem; eu c me arranjarei.

--Ento, muito boa noite.

--Muito boa noite, tia.

E Henrique ia a fechar a porta.

--Olha...--disse ainda a tia.

Henrique parou.

--No sei o que  que me esquece...

--No ha de ser nada, tia; boa noite.

--No esquecer?... Eu sei?... Emfim... boa noite. Ai,  verdade...
Sempre  bom ficar com lumes promptos.

--Ai, sim; l isso sempre  bom.

--Vs? no que bem me parecia.

--J l esto, senhora--disse a criada de longe.

--Melhor; ento muito boa noite nos d Nosso Senhor, menino.

--Muito boa noite, tia.

E Henrique conseguiu fechar a porta.

Estava finalmente s.

--Que desastrada lembrana a minha!--disse o pobre rapaz, ao fechar a
porta sobre si.--Como posso eu viver com esta santa e virtuosa gente,
que chama manias aos meus padecimentos? Que futuro de impertinencias me
espera! Ai, Lisboa, Lisboa, e pensar eu que s posso voltar para ti 
custa de outra jornada!

O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto leito de
almofadas na cabeceira e rodap de chita, to alto que se no dispensava
o auxilio de cadeira para trepar acima d'elle, uma commoda com um
pequeno espelho, um bah, um lavatorio e duas cadeiras mais, constituiam
a mobilia toda.

Henrique de Souzellas sentiu a falta de mil pequenos objectos de
toucador, a que estava habituado. Aquelle estrictamente necessario no
lhe promettia grandes confortos.

Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvissimo e respirava um asseio
e frescura convidativos: os travesseiros, de largos folhos engommados,
possuiam uma molleza agradavel s faces; o colcho de pennas abatia-se
suavemente sob o peso do corpo fatigado.

Henrique conchegou a roupa a si;  falta de velador, pousou o castial
no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa, poz-se a
ler, para obedecer a um habito adquirido.

No teria ainda lido um quarto de pagina, quando ouviu a voz da tia
Dorotha, que lhe dizia de fra da porta:

-- menino, tu j te deitaste?

--J, sim, tia Dorotha.

--Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um mdo de fogos!

--Esteja descanada, tia. Eu apago j.

--Ento ser melhor. S. Maral nos acuda.

E afastou-se, rezando ao santo.

Henrique continuou a ler.

D'ahi a pouco a mesma voz:

--Tu j dormes, Henriquinho?

--No, tia, ainda no durmo.

--Olha que no vs adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um mdo de
fogos! No descano, emquanto no vejo tudo apagado em casa.

Henrique perdeu a paciencia.

--Pois pode socegar, olhe.

E apagou a vla, meio zangado.

--Fizeste bem, fizeste bem; isto j  tarde, e  melhor fazer por
dormir. Ento, muito boas noites.

--Muito boas noites--respondeu Henrique quasi amuado; e ageitando-se na
cama, dizia comsigo:--E esta! J vejo que nem ler me  permittido aqui.
Olhem que vida me espera!  isto o que me devia curar? Que fatalidade!

Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de papa, unicos que
conservava dos cinco primitivos, comearam a fazer o seu effeito,
insinuando nos membros canados da jornada um agradavel calor.
Convidavam ao somno o som da agua n'um tanque que ficava por debaixo das
janellas do quarto e as gottas da chuva, que dos beiraes do telhado
caam compassadas na taboa do peitoril.

A noite socegra. De quando em quando apenas algumas lufadas de vento,
j menos impetuosas, faziam bater as vidraas.

Eram como estes estados, que succedem a um choro aberto. Correm ainda
algumas lagrimas nas faces, mas j no brotam novas dos olhos: saem
ainda do peito os soluos, porm mais espaados; dentro em pouco ser
completa a serenidade.

Henrique comeou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar
n'aquelle confortavel leito e no meio d'aquelle socego; fecharam-se-lhe
enfraquecidos os olhos, e deslisou suave, insensivelmente, no mais
profundo, tranquillo e restaurador somno, que, havia muito tempo, tinha
dormido.





III


Ao romper da manh, quando a consciencia principia, pouco a pouco, a
acudir aos sentidos, at ento tomados pelo torpr de um somno profundo,
Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente sentado em uma cadeira de
S. Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma opera favorita.

Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos e contrabassos;
sopravam, a plena bca, os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam
descompostamente os braos os ruidosos timbaleiros; dedos amestrados
faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente
os ares, e comtudo no chegava aos ouvidos de Henrique, de toda esta
riqueza de instrumentao, mais do que uma nota unica, arrastada,
continua, plangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formar
uma s phrase musical.

Era de desesperar um _dilettante_ como elle; torcia-se na cadeira,
inclinava convenientemente a cabea, fazia das mos cornetas acusticas,
e sempre o mesmo resultado!

Este violento estado de atteno, este esforo do sensorio, principiou
n'elle a obra de despertar; principiou pois pelos ouvidos, mas cdo se
transmittiu a todos os outros orgos.

Antes de dar a si proprio conta do que era aquelle som, e quasi
esquecido ainda do logar em que estava, Henrique abriu os olhos.

A luz do dia penetrava j pelas frestas mal vedadas das janellas e
espalhava no aposento uma tenue claridade.

Veio ento a Henrique a consciencia do logar em que estava, e uma
alegria profunda lhe dilatou o corao.

O leitor se ainda no padeceu de insomnias, de pesadlos, ou de somnos
febris, no avalia por certo o contentamento intimo, que se apossa das
desgraadas victimas d'esses demonios nocturnos, quando por excepo
elles as deixam em paz, e lhes respeitam o somno de uma noite completa.
Acordar s aos raios da aurora  um dos mais ineffaveis prazeres, a que
elles aspiram na vida.

Penetra-lhes ento nos membros um insolito vigor; a arca do peito
expande-se-lhes mais livre e as sombras do espirito dissipam-se-lhes com
aquelle claro matinal.

Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira vez depois de muitos mezes,
dormira de um somno a noite inteira.

Sentia-se com isto to bom, to vigoroso, to contente que teve vontade
de cantar.

Mas o som, que o acordra, aquella nota unica, em que se confundiam
todas as notas da sonhada orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos.

Prestando-lhe a atteno de acordado, conheceu que era o chiar dos
carros--o mesmo som, que na vespera o irritra, agora assim a distancia,
estava-lhe agradando, como nota extrahida por mo habil das cordas de um
violino.

No resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella manh o incitava ao
exercicio, rara disposio no indolente filho da capital, que tinha por
habito ouvir o meio dia na cama.

Ergueu-se e abriu as janellas.

No  licita a comparao entre a mais surprehendente transmutao de
uma d'essas apparatosas magicas, que tanto extasiam as multides
embasbacadas nas plateias e camarotes de um theatro, e as que de
instante para instante, realisa a natureza. Descerrando o vo de nuvens
que encobre o fulgor do sol, elevando, acima do horizonte, esse
magestoso lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor que illumina
as noites desanuviadas, a natureza opra, a cada momento, as mais
admiraveis e completas metamorphoses.

Durante o somno de Henrique realisra-se um d'esses effeitos magicos.

Abrandra gradualmente a violencia do sul; o vento, mudando, voltou em
sentido opposto a grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens;
luziram trmulas por momentos as estrellas, empallideceram perante o
alvor do dia, e quando o sol assomou por sobre a crista das serras,
estendia-se-lhe deante um vasto manto azul, tapetando a estrada, que
tinha a percorrer. S, muito para o occidente, ainda algumas nuvens
amontoadas formavam uma como franja, que o astro nascente em breve
tingiu de carmim e de ouro.

Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa, cheia de aromas, que vem
dos campos nas alvoradas serenas que penetraram no quarto de Henrique,
quando elle abriu as janellas.

A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito uma exclamao de
prazer!

A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste que, com o corao
apertado, atravessra na vespera, parecia outra.

O sol da manh baixra sobre ella, dissipra-lhe as sombras,
colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe nas presas, dispersra-se em
iris cambiantes na espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfumra-a
de aromas, animra-a de cantos, transformra-a emfim na mais risonha
paizagem, em que os olhos de Henrique, pouco habituados s esplendidas
galas do Minho, tinham nunca repousado.

O inverno despojra parte d'essas galas; embora! At da propria nudez de
algumas arvores resultavam encantos. As folhas crestadas, os ramos
despidos, as moitas sem flores infundem tristeza; mas no tem a tristeza
poesia tambem? Pode haver completa paizagem onde no haja uns tons
escuros de melancolia?

Henrique de Souzellas, debruado na varanda de pedra do quarto, no se
canava de admirar aquella scena.

Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, que, n'um momento,
elevam, nos ermos, jardins e paos, como os de Armida e Alcina.

Pois era esta a mesma aldeia, atravs da qual elle cavalgra de noite?

Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que to do fundo da alma
amaldiora na vespera, produziam, vistos ento d'alli, os mais
pittorescos effeitos. Abatia-se-lhe aos ps um no muito profundo valle,
opulento em vegetao, e que a certa distancia se continuava insensivel
e gradualmente com uma amenissima collina.

Alm, um bello bosque de carvalhos seculares, que o inverno, privando-os
de folhas, tingira quasi da cr da violeta, contrastava com a fronde
sempre verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde por entre a
qual se divisavam abundantes os dourados fructos, poupados pela mo do
lavrador. As copas, como umbelladas dos pinheiros mansos, desenhavam nas
encostas e eminencias fronteiras as mais suaves ondulaes. Dispersos
aqui e alli, e entremeiados com a verdura, grupos de casas campestres,
alvejantes  luz do sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas
conicas, eiras, pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau humor
trilhra na vespera, to sinistras ento, como graciosas agora; extensas
e virentes campinas e lameiros, onde pastavam numerosas manadas de gado.
Mais longe a igreja com a sua alameda  entrada e o cemiterio, onde um
s mausolo avultava ainda; uma ou outra casa apalaada, ennegrecida
pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas heras, revestidas de
musgos, douradas de lichens; finalmente, tudo o que tenta os
paizagistas, tudo o que exala os poetas, tudo quanto suspende os passos
ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de
vapores azulados, dando-lhe a apparencia de uma das mimosas composies
a pastel da mo de Pillement.

A mudana de aspecto da scena operou no menor mudana nos sentimentos e
disposio do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava
observando.

-- preciso sair!  preciso sair!--disse Henrique comsigo.--Quero vr
isto de perto; quero entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por
aquelles montes, debruar-me d'aquellas ribanceiras.

E vestindo-se  pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa
_toilette_, saiu do quarto.

Encontrou nos corredores a tia Dorotha, que o saudou amavelmente.

--Muito bons dias, menino, ento como passaste tu a noite?

--Deliciosamente minha querida tia--respondeu elle, abraando-a com
maior affecto e bom humor do que na vespera.

O que  sentir-se a gente bem!

--Ento no estranhaste?

--Estranhei immenso!

--Sim?!--disse a tia, mortificada.

--Dormi a noite de um somno, e acordei bem disposto; o que para mim  a
mais estranha das occorrencias.

A tia sorriu satisfeita.

--Pois antes assim. E agora...

--E agora quero sair, quero vr esta terra, que me est parecendo um
paraiso terreal.

--Espera, menino. No vs sem almoar.

--Almoar! Pois que horas so?

--No  cdo; so j sete horas.

--J sete horas!

E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janella, para vr
como era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava.

--E ento acha que se pode almoar s sete horas?

--Por que no? Se est j prompto.

--Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os habitos da aldeia.
Principiemos por este.

Entrando para a sala do jantar, Henrique viu deante de si uma taa de
leite espumante, tpido, odorifero, extrahido de pouco tempo.

Foi por elle que principiou o almoo.

Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido o leite verdadeiro,
o leite que no faz mentir a analyse dos chimicos, de que os
physiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das
georgicas cantam as delicias e virtudes; s agora os comprehendeu elle,
que bem differente d'aquillo era o aguado e quantas vezes derrancado
sro, a que estava habituado na cidade.

D. Dorotha, almoando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo o
costume, continuadamente.

Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas.

Ouvia-as j com mais atteno e respondia-lhes com mais vontade e
paciencia.

Falaram em muitas coisas.

A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas da vizinhana,
sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de gallinhas,
offerecendo-se, ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da
terra; disse mais que as senhoras da quinta do Mosteiro tambem tinham j
mandado saber d'elle, Henrique, e lembrou que seria delicado ir
visital-as aquella manh.

Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar em qu, e terminando o
almoo apressou-se a sair para o campo.

--E se te perdes, menino?--lembrou a tia.

--Se me perder, farei por achar-me.

Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir.

Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que tambem ento lhe
parecia graciosa, de uma graa bucolica, a que no estava habituado. O
aspecto melancolico da vespera desvanecera-se. At para ser completa a
mudana, estavam encadeados nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas
graas comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos.

Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo quanto via lhe era
novidade, tudo lhe captivava a atteno e o distrahia dos seus lugubres
pensamentos.

Depois de muito andar, de subir collinas, de descer valles e costear
ribeiros, foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa
terrea, caiada de branco, com portas verdes e janellas envidraadas,
sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos por papel.  porta
d'esta casa estava muita gente parada; mulheres, velhos, moos,
creanas, uns sentados, outros deitados, outros a p e encostados 
umbreira, e todos apparentemente aguardando alguma coisa ou alguem do
lado de uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se
dirigiam todos os olhares.

Henrique approximou-se d'esta casa com alguma curiosidade, que cdo
satisfez, vendo em uma taboleta, suspensa no alto da janella, a seguinte
pomposa inscripo: Repartio do correio, e, como a confirmar o
distico, um crte feito na porta para a recepo das cartas.

Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado do correio para lhe
serem remettidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa,
Henrique entrou na repartio.

Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com um banco de pinho e
dividida por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal
do servio, isto , um homem por junto; e era este o sr. Bento
Pertunhas, personagem importante na terra, e a cuja intelligencia e
solicitude estavam confiadas mais do que uma funco. Alm de servir, em
interinidade permanente, como muitas vezes so as interinidades do nosso
paiz, este cargo, dito por elle, de director do correio, estava de
posse s. s.^a de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se
procura em Portugal fomentar nos concelhos ruraes o gsto pelas lettras
antigas; era ainda regente e director da philarmonica da terra, armador
de igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares,
e, quando Deus queria, auctor de alguns tambem.

Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre funccionario tirou
cortezmente o seu bonnet de pelle de lontra e ergueu-se da banca para
cumprimentar to honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou disse o
nome de Henrique.

Admirado por ser j conhecido, Henrique interrogou o latinista e,
achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito,
convenceu-se de que estava na presena de um esmerilhador de vidas
alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.

Com o fim de cortar a divagao, em que o homem entrra a respeito de
certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio
no chegra ainda.

--Saiba v. s.^a que ainda no--respondeu o sr. Bento Pertunhas--mas no
deve tardar; o homem que d'aqui vae buscar as malas  villa, se bem
andasse, j c podia estar. Esse formigueiro de gente, que v. s.^a ahi
v  porta, est  espera d'elle. Hoje ento, que chegam as cartas do
Brazil, ninguem pra com este povo. Do-me cabo da paciencia. Isto  um
inferno! Eu sirvo este logar interinamente, emquanto o empregado est
paralytico; porque eu tenho outro cargo publico; sou professor de
latinidade.

--Ah!...

-- verdade, mas a minha vocao era para as artes. Meu pae queria que
eu fsse padre e mandou-me ensinar latim; mas j ento a minha paixo
era a musica. Eu ainda queria que v. s.^a me ouvisse tocar trompa, que 
o instrumento que mais tenho estudado... Se v. s.^a se demorar ha de
fazer-me o favor...

--Com muito gsto.

--No poder um homem seguir no mundo a sua vocao!

--Ainda assim no se pode queixar muito. O cultivo das lettras latinas
deve-lhe proporcionar gosos; porque emfim para quem possue instinctos de
arte, a leitura dos poetas j  um lenitivo contra as agruras da vida.

O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos.

--Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa! Ento parece-lhe que pode
achar-se gsto em ll-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe uma
vontade!... O latim!... a mais destemperada e desesperadora lingua que
se tem falado no mundo! Se  que se falou--accrescentou em voz baixa.

--Ento duvida que se falasse latim?--perguntou Henrique, sorrindo.

--Eu duvido. No sei como os homens se podessem entender com aquella
endiabrada contradana de palavras, com aquella desafinao que faz dar
volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o que  uma casa
desarranjada, onde ninguem se lembra onde tem as suas coisas quando
precisa d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois  o que  o
latim. Abre a gente um livro e pe-se a traduzir e vae dizendo: As
armas, o homem e eu, canto, de Troia, e primeiro, das praias. Quem
percebe isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em outras, que elles
punham s vezes em casa do diabo, e faam uma coisa que se entenda! 
quasi uma adivinha. Ora adeus! E depois--continuou elle, enthusiasmado
com o riso de Henrique, suppondo-o de approvao--e depois as
differentes maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem tem graa. Ns
c dizemos por exemplo: reino e reinos e est acabado; l no senhor;
diz-se _regnum_ e _regna_ e _regni_ e _regno_ e _regnis_ e at
_regnorum_. Ora venham-me c elogiar a tal lingua!

Henrique estava achando delicioso o odio entranhado de mestre Bento
Pertunhas  latinidade que ensinava com a proficiencia, que o leitor
pode imaginar, depois do que ouviu.

--Ai, meu caro senhor--continuou o atribulado _magister_--eu se me vejo
um dia livre d'este amaldioado latim, fao uma fogueira, na qual me hei
de regalar de vr arder o Tito Livio e os Virgilios todos tres.

 de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir-se a
Virgilio.

Quer-me parecer que para este interprete da litteratura latina tinham de
facto existido tres Virgilios, provavelmente irmos, e cada um auctor de
cada um dos tres volumes da edio, que lhe servia de texto. Dizia
Virgilio 1.^o, 2.^o e 3.^o, como quem se refere aos monarchas homonymos,
que succederam n'um mesmo reino.

--No me salvo se morro mestre de latim--proseguia elle.--Afunda-me no
inferno o trambolho da syntaxe.

Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique viu fra da porta,
principiou em desordenada azafama a entrar para a loja, que em breve no
comportava mais ninguem.

--Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem. Graas a Deus, que ahi
vem!--diziam todos  uma.

O funccionario principiou a impacientar-se.

--Ento! ento! Por onde ha de elle entrar, fazem favor de me dizer?
Saiam, saiam. No ouvem? Ento no fazem caso das minhas ordens? Dem
logar. No vem que esto molestando este senhor?

Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se, ao vr que os
outros no obedeciam s ordens, mas, pela sua parte, no cedia um passo,
como se lhe valesse algum especial privilegio.

--Saia voc, mulher--dizia um.

--E voc por que no sae? Olha agora!

--A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver carta lh'a daro. L
por estar aqui no  que...

--Pois ento saia tambem. Ora essa!

-- santinha, no empurre.

-- filho, quem  que lhe faz mal?

--Por onde  que se quer metter, homem de Deus?

--Eu no sou menos que os outros.

--Que quereis vs d'aqui, canalhada?

--No bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.

--Espera que eu te falo.

Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor tumultuoso as agudas
declamaes do director do correio, o qual obrigou Henrique a passar
para dentro da teia, para se salvar das ondas populares.

Henrique estava achando igualmente curiosa a indignao do homem e a
alvoroada anciedade do povo.

Ha de facto poucas scenas to animadas, como a da chegada do correio e
da distribuio das cartas em uma terra pequena. Durante a leitura dos
sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um
observador, que estude attento as impresses que essa leitura opra nos
semblantes dos que vidos a escutam, como que v levantar-se uma ponta
de cortina, corrida a occultar-nos as scenas da comedia ou da tragedia
da vida de cada um.

Que hora de commoes aquella, em que se abrem as malas, onde veem
encerrados porventura os destinos de tantas pobres familias! Quantas
vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham as desgraas e os
pezares!

Nas grandes cidades dispersam-se estas commoes; passam-se no recato
dos gabinetes de cada um. Lembrem-se porm das vezes, em que teem
segurado com mo trmula na correspondencia, que o correio lhes traz; no
anciar do corao com que lhe rasgam o sllo; nas lagrimas ou sorrisos
com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel movimento de
desespero com que a amarrotam depois, ou nas expanses apaixonadas com
que beijaram o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso, multipliquem
depois esses affectos todos, despojem-os das reservas que a etiqueta
impe s classes mais civilisadas, faam-os manifestarem-se n'um mesmo
momento e n'um mesmo logar, e digam se concebem muitas outras scenas, em
que mais sentimentos e paixes se agitem em lucta travada.

Chegou emfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper at ao
mostrador, onde pousou a mala. O director, depois de tossir, de
assoar-se, de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas, que
formavam com a anciedade do povo um contraste desesperador, abriu
fleugmaticamente o sacco, extrahiu um no muito volumoso masso de
cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou apontamentos.

Era digno do pincel de um artista aquelle grupo de physionomias, que
seguiam vidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bcas
abertas, mos juntas, pescoos estendidos, a cabea inclinada para
receber o menor som, tudo caracterisava profundamente a anciedade que
lhes dominava os animos.

Mestre Bento Pertunhas achou a occasio apropriada para dizer a
Henrique:

--Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem mestre aprendi a tocar
trompa e, no  por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e
expresso.

Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o a consternao
d'aquellas physionomias. Resolveu valer-lhe.

--Tem a bondade de vr se ha alguma carta para mim?

--Ah! pois j as espera hoje?

--No  provavel; porm...

Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, comeou em voz lenta e fanhosa
a leitura dos sobrescriptos.

Seguiu-se novo e no menos interessante espectaculo.

A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre uma voz, s vezes um
grito; estendia-se por cima das cabeas um brao, e, podemos
accrescentar ainda que se no visse, alvorotava-se um corao.

Outros, os no nomeados ainda, olhavam com anciedade para o masso, que
diminuia, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante.

--Luiza Escolastica, do logar dos Cjos--lia mestre Pertunhas.

--Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!--exclamou uma mulher
joven, apoderando-se vidamente da carta.

--Joanna Pedrosa, de Serzedo--continuava elle.

--Aqui estou; ser do meu Antonio, senhor?--disse uma velha, pobremente
vestida.

--Ser do seu Antonio, ser--respondeu o insensivel funccionario;--o que
lhe posso dizer  que traz obreia preta.

A mulher, que j tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo
aquellas sinistras palavras. Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da
loja, a chorar lastimosamente.

--Se foi o filho que lhe morreu, no sei o que ha de ser d'ella--disse
um dos circumstantes.

--Coisas do mundo!--respondeu outro.

Estes commentarios foram interrompidos pela continuao da leitura.

--Joo Carrasqueiro.

--Prompto, senhor--bradou um velho.

--A mezada, hein?--disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos
oculos.--O rapaz no se esquece.

--Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saido.

--D. Magdalena Adelaide de...

-- a morgadinha,  a morgadinha--disseram a um tempo muitas vozes.

--Agradecido pela novidade; era c muito precisa a explicao--disse o
Pertunhas: e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de
fazer a distribuio a quem a podia gratificar, accrescentou:

--Leve-lh'a a casa.

E proseguiu:

--Augusto Gabriel...

-- o mestre-escola...

--Ora fazem o favor de estar calados! Esta... como elle vem por aqui...
pode ficar... ainda que... ser melhor levar-lh'a a casa, leve, leve
tambem...

--Joo Cancella.

-- o Joo Herodes.

--Esse foi a Lisboa.

--Ento, quando vier, que apparea.

--O tio Z P'reira ficou de receber as cartas.  compadre d'elle.

--Eu no quero saber de compadrices. O tio Z P'reira que se occupe com
o seu zabumba e deixe l os outros.

A leitura mais ou menos acompanhada d'estes dialogos proseguiu,
redobrando de momento para momento a anciedade dos que iam ficando. Um
fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de desalento, seguiu-se
 leitura do ultimo nome e s poucas palavras, com que o funccionario
fechou a tarefa.

--E acabou-se.

Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos, morosos e com to m
vontade, como se ainda tivessem esperana de commover a inexoravel
sorte.

Henrique, ficando s com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda, por
muito tempo, a narrao dos seus passados triumphos artisticos, das suas
amarguras presentes no magisterio, e das suas esperanas em
melhoramentos futuros. Entre as ambies mais inquietas do mestre, a de
obter o logar de recebedor de comarca, proximo a vagar por a morte
imminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha.

Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu
interlocutor, e continuou o passeio que este episodio interrompera, to
satisfeito e distrahido, que nem apprehenses lhe causava a ideia de
trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho, ideia que, em outra
occasio, bastaria para o fazer doente.

Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a procurar saida para a
deveza, da qual um fundo vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um
rumor de vozes, como de alguem, que conversasse perto d'alli.

Parou a certificar-se.

No se enganra. Era do outro lado da sebe, e na deveza, para onde
tentava passar, que se estava falando.

Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma
scena, que lhe moveu a curiosidade.

Um grupo de creanas e de mulheres do povo escutavam em pleno ar e com
religiosa atteno, a leitura que uma senhora joven e elegante lhes
fazia das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A senhora estava
montada, no como romantica amazona, em hacana fogosa, mas modesta e
simplesmente n'um digno exemplar d'aquelles pacificos animaes, a que
Sterne no duvidou dedicar algumas palavras de sympathia nas suas
paginas mais humoristicas, e que Pelletan incluiu entre os
collaboradores da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a
periphrase, em uma possante e bem apparelhada jumenta.

 roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade s ancas e ao pescoo
do immovel quadrupede.

A leitora segurava no collo a mais pequena e a mais nua das creanas do
rancho.

Lia com voz agradavel e sonora; e, graas  serenidade da manh e ao
socego do logar, ouviam-se distinctas,  distancia que ficava Henrique,
as palavras, que ella pronunciava lentamente, como para as deixar
penetrar bem na intelligencia do auditorio.

Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente, por a mesma que, momentos
antes, vira na casa do correio.

Mas as suas attenes voltaram-se com especialidade para a leitora.

Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa figura de mulher, suave,
elegante, distincta, um d'esses typos que insensivelmente desenha uma
mo de artista, quando movida ao grado da livre phantasia; a cr, essa
cr inimitavel, onde nunca dominam as rosas, mas que no  bem o
desmaiado das pallidas, encarnao surprehendente, a que ainda no ouvi
dar nome apropriado.

Os cabellos em fartas tranas, em ondas naturaes, no de todo pretos,
porm, mais distinctos ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser
alta, o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada, emfim, com a
magestade, com a graa que deviam ter estas creaes da poesia popular,
se fsse certo tomarem a frma de virgens, para matar de amores.

No se concebe atteno to distrahida, que esta mulher no fixasse;
olhos, que se no voltassem para seguil-a, depois de a vr passar;
corao, que no se perturbasse na sua presena.

Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no collo e
punhos apenas por collarinhos lisos. Descaa-lhe natural e elegantemente
dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe occultar as bellezas da
airosa conformao; o chapo de palha de largas abas, cobrindo-lhe a
cabea, espalhava pelo rosto as meias tintas, to favoraveis s bellezas
delicadas.

Henrique comprehendeu logo a significao da scena, a que, to
inesperadamente, viera assistir. Aquella mulher parra alli, para ler a
essa gente pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.

Tambem era caridade a aco, muito mais cumprida com o bom modo e com o
carinho com que ella o fazia.

Henrique applicou a atteno.

--...E por isso, minha me--lia ella--se Deus me ajudar, espero
dentro em pouco ir a essa terra e darei remedio a tudo. E no me fale
vossemec mais em vender o cordo e as arrecadas. Diga ao senhorio que
tenha paciencia, que eu satisfarei a tudo.

Aqui a leitora parou para perguntar:

--Ento que historia  esta das arrecadas, Anna?

--, senhora, que o aluguer estava vencido...

--E no podia falar-me antes de se lembrar do seu filho?

--Ora, senhora, bem basta o que...

--Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas! Elle que precisa de toda
a coragem!

E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas e das expanses de
alegria da ouvinte, mais interessada n'ella.

Acabando, deu um beijo na creana, que tinha ao collo, e estendeu a mo
a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta era menos
de consolar. No se falava alli seno de contratempos, de revezes e
desesperanas. Mais do que uma vez teve de suspender a leitura, para
mitigar a dr e enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na pobre
mulher, a quem era dirigida.

Aps esta, ainda outra e outra; uma do marido para mulher; outra de
filho para me; outra de noivo para noiva.

Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia nas inflexes da voz e
no olhar, que ella decifrou os mal legiveis caracteres, com que em papel
bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados
conceitos amorosos, que ainda dictou uma paixo.

A noiva crava, sorria; mas, no meio da sua modesta turbao, era
evidente que estava exultando de jubilo.

Com esta terminou a leitura.

Henrique no resistiu a esboar rapidamente o gracioso grupo na
carteira, que trazia comsigo. No pde, porm, deixar de dar-lhe um
sabor de idade mdia, substituindo a jumenta por um palafrem de pura
raa e dando  donzella, pelos trajes com que a desenhou, os ares de uma
castell rodeada dos seus vassallos.

No lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o de um figurino de
conveno. Perde-lhe a arte, que julgou servir.

Depois de distribuir mais alguns beijos pelas creanas, a gentil
rapariga passou a que tinha no collo para os braos da me e partiu
rodeada de agradecimentos e benos, perdendo-a Henrique de vista, por
entre as arvores do caminho.

Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza do apurado gsto, em
que no podiam enganar-se olhos conhecedores, como os d'elle, aquella
preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para chegar  qual era
necessario fazer uma comprida e laboriosa jornada! D'onde viera ella e
como? que nuvem a trouxera? que virao a transportra?

Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia,
para esclarecer-se, interrogar alguem do grupo, j no ia a tempo;
tinham dispersado.

Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi sentar-se no logar, em
que lhe apparecera a viso e ahi se demorou algum tempo; mas
lembrando-se de que eram quasi onze horas, levantou-se para no faltar
s promessas feitas  tia Dorotha, e que eram: a de visitar as senhoras
do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio dia, para no
transtornar a regularidade dos habitos domesticos em Alvapenha.

Pediu pois a uma creancinha que passava, que o guiasse  quinta do
Mosteiro, e ahi chegou depois de um quarto de hora de caminho.




IV


A casa do Mosteiro, com a quinta annexa  casa, como o dava a entender o
nome, pelo qual o povo a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem
monastica.

Era um d'estes conventos campestres, que hoje ou se encontram em ruinas
ou transformados em solar de alguma _notabilidade_ provinciana. Ao de
que falamos coubera o ultimo destino.

Incluido, depois do acto dictatorial de 1834, na lista dos bens
nacionaes, fra, por insignificante preo, vendido a um modesto
proprietario das immediaes, mais arrojado do que os vizinhos, ou mais
convencido da estabilidade da nova ordem de coisas politicas, que se
inaugurava no paiz.

E em to auspiciosa hora lhe acudira aquella inspirao, que, em pouco
tempo, lhe restituia a quinta o capital empregado, regalando-o todos os
annos com no calculados juros, e elle, sem intermittencias, cresceu
d'ahi por deante em prosperidade a ponto de deixar, ao morrer, a familia
no numero das mais abastadas d'aquella terra.

A propriedade do Mosteiro, apesar de varios melhoramentos e reformas
effectuados n'ella, offerecia, ainda claros, muitos vestigios de seus
primitivos usos. No era raro encontrar-se, aqui e alli, em p uma cruz
de pedra marcando antigos logares de devoo; no alto de algumas portas
conservava-se visivel o emblema e divisa da ordem, ou restos de
inscripes latinas; nas paredes da arcaria, em que se apoiava a face
posterior do edificio, mantinha-se ainda um azulejo contemporaneo dos
frades; finalmente resistira a successivas reformaes certo colorido
monastico, que s aps muitos annos se dissiparia de todo.

Entrava-se para a propriedade por uma larga, comprida e magestosa lea
de sobreiros seculares, alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados,
por pouco trilhada, crescia espssa e verdejante. Abria-se, ao fim
d'esta rua, o alto porto do pateo.

Henrique, deixado s pelo guia ao chegar alli, foi caminhando
vagarosamente por esta avenida, dominado por a intima commoo e
sentimento quasi de temor, que se apodera de ns, em todos os logares a
que se ligam memorias do passado.

A phantasia estava-o transportando a tempos, a que no chegavam j as
suas recordaes, s pocas, em que, por entre estas arvores gigantes,
se via passar, como um phantasma, o habito escuro do monge, cuja sombra
o sol, ao declinar no horizonte, tantas vezes projectou, esguia e
estirada, ao longo d'aquella mesma avenida.

Impressionado por esta ordem de pensamentos, chegou Henrique ao porto,
transpondo o qual se introduziu no pateo. Era um largo terreiro de
perfeita frma rectangular, limitado ao fundo pela fachada da casa, e
lateralmente por elevadas paredes, armadas  maneira de pannos de Arrs,
com tapearias de vigorosas heras. A cada uma das paredes encostavam-se
dois tanques de vasta capacidade.

No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as feias e enormes carrancas
de todos estes quatro tanques grossos jorros de fresca e purissima agua;
porm as medidas economicas do ultimo proprietario e as exigencias dos
seus projectos agricolas haviam derivado para outros fins, parte d'esta
abundante veia, de maneira que tres d'aquellas bacias estavam agora
completamente a scco.

Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietarias, os funchos
odoriferos, havia muito que tinham invadido a bca dos encanamentos
inuteis onde encontravam asylo imperturbado lagartos, aranhas e
myriapodes, e se estabeleciam pacificas colonias de caracoes.

A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notavel pelo lado architectonico.
A arte no tivera fadigas, ao concebel-a; o cinzel pouco se embotra a
executal-a; nem uma columna singela, nem um floro, nem um tympano lhe
davam a menos pretenciosa apparencia monumental. Imagine-se uma vasta
casaria de um andar alm do terreo, com muitas janellas de peitoril e
uma s varanda de pedra sobranceira  porta principal; acima do telhado,
uma especie de agua furtada, de construco evidentemente posterior e
aconselhada aos proprietarios modernos por conveniencias de accommodao
domestica; e ter-se-ha concebido o edificio.

Emquanto Henrique se occupava a examinar estas particularidades, um
velhito, que, sentado em um banco de pedra, que havia  porta de casa,
se estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro do
recem-chegado, tossindo e arrastando os passos.

Junto de Henrique, o velho, de apparencia meia rustica, meia urbana,
depois de o saudar com grave cortezia, que deixou a descoberto o
_solideo_ fradesco com que resguardava a fronte calva, perguntou se
havia alguma coisa, em que o pudesse servir.

Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique, que disse procurar
as senhoras, com nova cortezia lhe fez signal para que o acompanhasse, e
ambos atravessaram o pateo em direco da casa.

No portal o velho afastou-se de lado com toda a deferencia para deixar
passar Henrique; em seguida abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e,
voltando-se, pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de annunciar.
Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete de visita, cuja significao
teve de explicar, porque o velho no a comprehendia bem.

A final porm retirou-se por outra porta, levando o bilhete.

A sala, em que Henrique ficou esperando, era toda mobilada com pesadas
cadeiras de couro lavrado e alto espaldar, mesas de ps em espiral, e
pelas paredes alguns ennegrecidos retratos de frades, pertencentes
provavelmente aos antigos proprietarios do mosteiro.

No momento em que o velho servo, que era uma especie de feitor honorario
da casa, abriu outra porta da sala, para ir annunciar  familia a visita
de Henrique, chegaram aos ouvidos d'este, de mistura com um tinir de
louas e de crystaes, as vozes e risos de creanas, que falavam ao mesmo
tempo. Com a entrada do velho produziu-se um certo silencio, e aps uma
voz de mulher, de timbre fresco e agradavel, disse audivelmente e como
em resposta s palavras do criado:

--Ora as etiquetas com que esteve, Torquato! Mande entrar para aqui.

O feitor parece que resmoneou no sei o qu, a que ainda a mesma voz
redarguiu:

--O que no  bonito  fazel-o esperar. Ande, v.

Torquato--chamemos-lhe assim, visto que assim lhe chamaram--appareceu
outra vez e fez signal a Henrique, de que o esperavam na sala immediata.

Henrique que presentiu ir achar-se na presena de uma mulher nova e
porventura bonita, correu, com instincto de perfeito homem de crte, os
dedos pelos cabellos, afagou o bigode, ageitou rapidamente o lao da
gravata e entrou.

Era completo o contraste d'este aposento com o primeiro; transpondo
aquella porta dissipava-se todo o perfume antigo, todo o caracter de
vetustez, que at alli reinava em tudo. Era moderno o estuque do tecto,
modernissimo o papel que forrava as paredes, e a mobilia toda de um
cunho de actualidade, visivel aos olhos menos pesquizadores. Como para
tornar mais frizante o contraste, a presena do velho feitor estava aqui
substituida por a de duas creanas, a mais velha das quaes mal passaria
dos seis annos.

O reposteiro, que caiu atraz de Henrique, foi como que uma cortina
corrida sobre o passado. A porta, que elle transpuzera, a barreira que
separava dois seculos.

Sentadas no tpo de uma longa mesa de jantar, coberta de loua fina
ingleza, estavam as duas creanas que dissemos, com os seus babeiros
brancos e tendo cada qual defronte de si um prato de odorifera spa. Em
p,  cabeceira, presidia ao _lunch_ infantil uma mulher, de quem
Henrique s pde notar vagamente os contornos geraes do corpo e no as
particularidades das feies, porque, ficando voltada de costas  luz
das janellas, velavam-lhe o rosto umas meias sombras, que no favoreciam
o exame.

Ao vr entrar Henrique, ella disse-lhe jovialmente:

--Na aldeia a sala de recepes  aquella em que a gente se acha, quando
lhe annunciam uma visita.  assim pelo menos que eu comprehendo o viver
do campo.

--E  assim que eu o aprecio, minha senhora--respondeu Henrique,
approximando-se da mesa.

As creanas, interrompendo a refeio, fitavam o recem-chegado com
aquelles olhos espantados e penetrantes, com que ellas, promptamente, e
quasi sempre com a certeza de um verdadeiro instincto, decidem para si
das sympathias ou antipathias de que lhes  merecedor um estranho, a
quem vem pela primeira vez.

A mulher, que presidia ao banquete, no suspendeu com a entrada de
Henrique a occupao domestica, na qual estava empenhada. Mostrava
receber-lhe a visita com um perfeito  vontade, que nada tinha porm
de affectado.

--No sei se v. ex.^a sabe...--ia dizendo Henrique, quando, ao chegar
perto d'ella, parou subitamente em meio da phrase.

Na mulher, que estava deante de si, reconheceu a leitora da deveza, a
interessante rapariga, que tanto o preoccupra.

Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a mesma cabea, agora
melhor apreciada ainda, porque nada havia a encobrir-lhe a fronte de um
primoroso modelo, e os cabellos penteados com tanta graa como
singeleza. Em vez do longo chale de casimira, trazia agora uma especie
de jaqueta, curta e larga, apertada por alamares, de frma pouco mais ou
menos similhante  que, na nomenclatura das modistas, nomenclatura quasi
sempre absurda, e de mau gsto, teve depois a impropria e desastrada
denominao de _zuavo_!

A surpreza de Henrique no passou despercebida a quem era causa d'ella e
que lhe correspondeu com um gesto de curiosa interrogao.

--Perdo, minha senhora--disse Henrique, comprehendendo aquelle
gesto--mas ignorava que vinha encontrar aqui uma pessoa, que j me no
era estranha.

--E sou eu essa pessoa?

-- v. ex.^a effectivamente.

--Pois j nos vimos?

--J... quero dizer, eu j vi v. ex.^a

--Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que me no lembra de o ter
visto nunca. Apesar d'isso sei que  o sr. Henrique de Souzellas,
sobrinho d'aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Dorotha; no 
verdade?

--Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.^a no  antigo tambem;
data de algumas horas apenas.

A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu levemente as
sobrancelhas bem desenhadas, fez um movimento de labios e deu  cabea
uma ligeira inclinao sobre o hombro, d'onde resultou para aquella
gentil physionomia a mais adoravel expresso de estranheza, que pode
animar um semblante de mulher.

--Esta manh--proseguiu Henrique, a quem os encantos d'aquelle gesto no
tinham passado despercebidos--assisti a uma scena commovente. O logar
era uma deveza; uma joven senhora... joven e... e com outras qualidades,
alm d'esta, para excitar attenes, lia, em voz alta, as cartas que
algumas pobres mulheres do povo acabavam de receber pelo correio...

Ella no o deixou continuar.

--Ah! entendo agora. Viu-me? J andava por fra? No o suppunha assim
madrugador. Mas onde estava to escondido? Vejo que  indiscreto... No
admira, habitos da cidade.  verdade, . Aquella gente encontrou-me no
caminho quando eu voltava de uma visita a uns parentes pobres, e no me
deixou sem que eu lhe abrandasse a ancia de corao que a affligia.
Coitados! Que havia eu de fazer? Diga-me, j pensou no supplicio que
deve ser olhar a gente para uma folha de papel escripta, na qual sabemos
que se fala de uma pessoa querida, e no ter poder para decifrar aquelle
enygma? Que martyrio! Eu por mim, confesso que me falta o animo para
recusar pedidos d'aquelles, como me faltaria para negar uma gotta d'agua
ao desgraado que visse a morrer de sde. A crueldade seria quasi igual.
No lhe parece?

Henrique formulou um galanteio, que ella porm no ouviu, entretida j a
escutar o que uma das creanas lhe dizia.

--Lena, olha a Annica, que est a deitar a spa d'ella no meu prato.

--Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ella que primeiro a deitou no meu.
No tem vergonha de mentir!

--Ento--disse Magdalena, que a este nome correspondia a contraco
familiar, de que se serviam as creanas.--Olhem agora se teem juizo.
Vejam se querem que eu v dizer  mam que venha para aqui.

--No  ella a me, visto isso--pensou Henrique, como quem modificava
uma opinio que concebera antes e folgava com a modificao.--Ser irm?
Talvez... Ou mestra...  mais provavel que seja mestra. Esta mulher foi
de certo educada na cidade. Tem uns ares distinctos...

E elevando a voz:

--V. ex.^a est-me recordando uma scena de um precioso livro, que nunca
me cano de ler.

--Qual ?

--Werther.

--Ah!

--Conhece?

--Conheo... quero dizer, li-o, por acaso, ha pouco tempo. Compara-me a
Carlota?  por estar a distribuir as raes d'estas creanas? Que mulher
ha que no seja Carlota, n'essa parte? Em todas as casas se passa uma
scena assim. Bem se v que no tem familia.

--Por qu?

--Por lhe fazer tanta sensao o espectaculo d'esta.

-- certo--respondeu Henrique com melancolia.--Deve ser essa uma das
causas; mas no a unica--accrescentou galanteadoramente.

E, de si para si, estava encantado de saber que a sua interlocutora
tinha lido Werther.

Magdalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe:

--Ento que lhe parece esta nossa aldeia?

--Um jardim. Hontem, ao chegar, confesso que me foi desagradavel a
impresso recebida. Nem admira; a noite, o frio, a chuva, o cansao.
Esta manh, porm, a transformao foi completa. Estou encantado,
fascinado! N'uma palavra, minha senhora, eu, cidado em corpo e alma,
reconciliei-me em poucas horas com a vida do campo.

--Desconfie da mudana rapida. Habitos radicados, qualidades ou defeitos
de educao no se perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirar
por Lisboa outra vez.

--Talvez no. Hoje estou at em acreditar que tinha razo o doutor, que
me prometteu a cura das minhas doenas, se me costumasse devras a estes
habitos campestres.

--Ai, prometteram-lhe isso? E espera costumar-se?

--Por que no? Hoje j almocei s sete horas, j andei mais do que uma
semana inteira ando em Lisboa. E inda tenho por vr as raridades da
terra.

--As raridades?! E que raridades so essas que inda tem para vr? A
nossa pobre aldeia no lhe merece essa ironia.

--Ento acha to pouco curiosa esta terra? Do quasi nada que d'ella
observei esta manh, parece-me at...

--Ai, se fala da natureza,  outra coisa. A cada passo se encontra um
ponto de vista, que nos obriga a uma exclamao. Mas ha por ahi certos
cicerones, que insistem em mostrar aos hospedes as bellezas da arte.
Pea a Deus que o livre d'esse flagello.

--V. ex.^a assusta-me. Embora; se lhes cair nas mos, farei por achar
curioso o que elles acharem. Vae ser esse o meu systema de cura.
Interessar-me por tudo o que a um homem da aldeia interessa. Foi o
regimen que me prescreveu o medico, quando me receitou o campo, a titulo
de emolliente; se o seguir, salvo-me.

--E no o diga a rir. Se quizer prender-se  aldeia, abjurar os
attractivos da cidade, deve rustificar-se em tudo; principiar por
cultivar o interesse por as questesinhas da terra; deve, por exemplo,
declarar-se pelo abbade contra a junta de parochia ou pela junta de
parochia contra o abbade; ralhar do regedor na questo com os
taberneiros ou defendel-o. Emquanto no chegar a isso, desconfie da sua
acclimao.

--Farei por conseguil-o o mais depressa possivel. Outra coisa necessaria
 deixar-me convencer ingenuamente dos inexcediveis dotes de espirito
das notabilidades da terra, o que  de rigor; estar em perpetua
admirao deante de uns certos nomes famosos que ha sempre em todas as
terras pequenas, e que nos atiram  cabea a cada momento. Por exemplo,
aqui j sei de um, com que encherei a bca a proposito de tudo;  o de
uma celebre morgadinha dos Cannaviaes, pessoa em quem ouo falar, desde
que puz os ps, ou por mim a alimaria que me trouxe, n'este productivo
torro.

Magdalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo isto.

--Ento com que, tem ouvido falar muito n'essa morgadinha?

--Oh! mas no faz ideia; de uma maneira desesperadora. No ha pinhal,
quinta, azenha, choa ou lameiro que no pertena a essa entidade, para
mim desconhecida. Este nome anda-me j nos ouvidos, como um estribilho
de cantiga popular; na estrada, nos campos, em casa de minha tia, na
loja do correio, em toda a parte o ouo pronunciar. Parece que voga nos
ares.

--Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer a pessoa.

--Qual! tem-me impacientado a ponto de nem perguntar por ella. E demais
parece-me que a estou a vr.

--Ora diga. Ento como a imagina? Annica, no tens ahi um guardanapo?

--Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e est dicto tudo; uma senhora
nutrida, a rever saude por todos os pros, encarnada como uma rom,
sobre quem os vestidos  moda assentam como pendurados de um cabide, as
mos cheias de anneis, meias luvas de retroz, um chapo com uma
cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabea... V. ex.^a ri-se?
Acertei?

--Parece-me que sim; mas julgue-o por si j que tem  vista o original.

--Como?!

--A morgadinha dos Cannaviaes, sou eu.

--Vossa Excellencia!...

Henrique de Souzellas, apesar do seu uso do mundo, esteve por muito
tempo sem saber como sair da situao em que se puzera.

Magdalena ria com toda a vontade; os pequenos riam, por contagio, sem
saberem de qu. Tudo augmentava pois a confuso de Henrique.

--Ora confesse--insistia cruelmente Magdalena--confesse que o est
lisonjeando a exactido das suas conjecturas.

Henrique teve emfim uma lembrana. Tirou do bolso a carteira, em que,
horas antes, esbora rapidamente a figura esbelta da morgadinha,
rodeada das mulheres do povo, e mostrando-lh'a, disse:

--Veja v. ex.^a se esse esboo, apesar da sua imperfeio, est de
accordo com a estupida concepo, que eu formra.

Magdalena lanou a vista para a carteira e sorriu.

--Ah! desenha?

--Quando os modelos tentam, tenho d'essas ousadias. Os resultados so
lastimosos, como estes. Perde-me o original, que julguei possivel
copiar, o desacato, mas...

Magdalena fitou em Henrique um olhar penetrante.

--Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo advertil-o de uma coisa, sr.
Henrique de Souzellas. No ha nada to mal empregado como uma fineza no
campo. Tudo quer o seu logar. Em Lisboa talvez o achasse pouco
delicado... ou pelo menos pouco amavel, se me no dirigisse d'essas
phrases conceituosas e bonitas. Vive-se d'isso l. Aqui acho-as
affectadas e inuteis... Que quer? Influencias da scena. Ha tanta
semceremonia no campo! Aqui todos nos tratamos como parentes: ha de vr.
No repara como eu o recebo n'uma sala de jantar, sem nem sequer tirar
os babeiros a estas creanas? Olhe l que fizesse o mesmo em Lisboa...

--Ento v. ex.^a j l esteve?

--Eu nasci l e l me eduquei.

--Ah! bem se v.

--Ah? Ahi est um _ah_, que eu desejaria muito que me explicasse.

--No me ser difficil fazel-o.  que antes j de ouvir falar v. ex.^a,
s ao vr certa distinco, certa elegancia de maneiras, conjecturei...

--Basta.  um _ah_ portanto, que tem umas poucas de ms qualidades.

--Devras? Uma interjeio to innocente!

--Pelo contrario,  a voz mais perfida e inconstante da nossa lingua;
tudo exprime, a hypocrita. O seu _ah_  vaidoso, adulador e iniquo pelo
menos. Pela vaidade castigue-o algum resto de modestia que ainda se
abrigue no seu corao lisbonense; a adulao competia-me castigal-a,
mas perdo-lh'a porque quero ainda suppr que  um symptoma da doena
das cidades, a meu vr, a principal doena, que o obrigou a procurar a
aldeia; da iniquidade, da injustia, que faz  educao que se pode dar
na provincia, ha de convencer-se dentro em pouco, quando eu lhe
apresentar minha prima Christina, uma rapariga, que tem vivido aqui
sempre e que protesta contra essa sua opinio; possue tudo quanto pode
dar de bom a educao das cidades, e, o que mais vale, aquillo que l 
to facil perder-se depressa, uma candura adoravel.  a irm mais velha
d'estas creanas--accrescentou, pousando a mo na cabea dos pequenos,
que comiam e conversavam um com o outro.

--Mas v. ex.^a...

--Perdo. Outra coisa. J agora que entrei no caminho das admoestaes,
permitta-me mais uma, antes de perder o ar grave, que hei de por fora
ter. No me sa bem o impertinente tratamento de excellencia, que me d.
Essa excellencia est a pedir-me uma senhoria, pelo menos, e,
confesso-lhe ingenuamente que me custaria a voltar na lingua uma palavra
to comprida.

--Como quer ento que a trate?

--Eu sei?... Olhe, uma ideia! Ha pouco no me comparou  Carlota de
Goethe? Deixe-me pois adoptar uma lembrana d'ella. Est certo de que
tratou o Werther por primo, a primeira vez que lhe falou?  um
tratamento como outro qualquer; e entre ns mais justificado, porque
sendo o sr. Henrique sobrinho direito de D. Dorotha, e teimando minha
tia Victoria, a me d'estes pequenos e de Christina, que D. Dorotha 
ainda uma especie de nossa tia arredada, e como tal a tratamos, ns a
final de contas vimos a ser uma especie de primos tambem. Pelo menos
assim o sustentou e decidiu hontem minha tia Victoria; e ha de vr como
por primo o tratar!  um tratamento menos incmmodo; eu chamar-lhe-hei
primo Henrique; chamar-me-ha, se quizer, prima Magdalena, e
desterraremos para sempre a antipathica senhoria e excellencia;
concorda?

--Acceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos o principio falso,
admittido pela fidalguia em Portugal, de que os primos dos nossos
primos, nossos primos so.

--Fica pois ajustado?

--Fica ajustado.

--Bem. Mas que ia dizer ha pouco?

--Nem eu j sei... Ah!... Perguntava se tinha estado muito tempo em
Lisboa e o que a obrigou a vir viver para aqui.

--Isso  nem mais nem menos do que pedir-me a historia da minha vida.
Seja;  um sacrificio inevitavel a quem se v pela primeira vez.
Deixe-me primeiro attender a estes pequenos, que eu principio.

E, depois de partir a cada creana uma fatia de queijo, a morgadinha
principiou:

--A historia  curta e sem peripecias, tranquillise-se. Eu sou filha de
Manuel Bernardo de Mesquita e...

Este nome era o de um dos principaes vultos politicos da poca, e que
ento militava no campo opposicionista, sendo indigitado para ministro
na primeira reforma ministerial, homem influente, de grande capacidade
politica, tendo sempre advogado no parlamento as ideias mais liberaes, e
militado no partido progressista.

Henrique de Souzellas, que conhecia todas as personagens de importancia
no paiz, fitou Magdalena com olhar estupefacto: to longe estava de
encontrar alli a filha de um futuro ministro.

--Filha do conselheiro Manuel Bernardo! V. ex.^a?

--Excellencia! Esquece-se da nossa conveno? Repare!  verdade. No
sabia que meu pae era d'aqui? Eu e meu irmo Angelo, que estuda
actualmente n'um collegio em Lisboa, somos os unicos filhos de meu pae.
Nasci, como disse, em Lisboa, mas as continuas enfermidades de minha me
fizeram-nos vir para aqui viver na companhia d'ella; aqui mesmo morreu,
e aqui est sepultada. O Angelo nasceu j n'esta casa. A morte de minha
me deixou-me orph aos doze annos, e incompleta a educao que ella
principira a dar-me e para a qual, se vivesse, ella s bastaria. Fui
pois obrigada a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha
educao. Mas, ao chegar  idade dos quinze annos, receiando meu pae que
os ares da cidade desenvolvessem em mim germens de molestia, que
porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez para aqui, onde sempre
passava alguns mezes no anno, e para onde me chamavam tambem habitos
adquiridos em creana. Eu sou muito alde. Para aqui vim pois. A morte
de meu tio, passado pouco tempo, impressionou profundamente a minha tia
Victoria, que ficou desde ento um pouco... um pouco... com pouca
paciencia para olhar por as coisas domesticas. Isto creou-me novos
deveres; havia aqui muitas creanas, estas duas, outras que esto l
dentro, e Christina, que era ento creana tambem; occupei-me a ajudar
minha tia.

--E to admiravelmente, que a mais carinhosa me o no faria melhor.

--Dou-me bem com as creanas, dou. E a meu pae devo, em parte, o ter
aprendido cedo esta sciencia. Porque  uma sciencia tambem.

--Ento como procedeu o conselheiro para a ensinar?

--Eu lhe digo. Meu pae tem em certas coisas umas ideias muito
singulares. Excellentes as acho eu. Oh! no imagina que boa e excellente
alma  a de meu pae! Era eu uma creana, tinha onze annos, talvez,
quando elle, um dia, vindo de Lisboa passar aqui algum tempo comnosco,
me trouxe uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de Nuremberg. Nos
primeiros dias no me fartava de a vr, de a beijar, at commigo a
deitava. Oito dias depois succedia o que era de esperar, j nem d'ella
sabia. Meu pae notou-o.--Ento, Lena--aqui todos me chamam assim--j no
gostas da tua boneca?--Disse-lhe eu: Gosto, mas...--Bem sei, j fizeste
tudo o que tinhas a fazer por ella, e como, pela sua parte ella nada faz
por ti, enfastias-te, canas-te de conceber, a cada momento, brinquedos
novos. Tens razo; onze annos j no  idade em que o interesse se
sustente com to pouco,  necessario mais. Ora dize-me, Lena,--continuou
elle--se eu te mandasse vir uma boneca que movesse os braos e os olhos,
que te sorrisse, que chorasse tambem, que te beijasse at...--Pois ha
bonecas assim?--perguntei eu, admirada.--E desejaval-a?--Oh! se a
houvesse!...--Trago-t'a manh. No dormi aquella noite a pensar na
boneca. No dia seguinte apresentou-me meu pae uma creana de um anno,
orph de uma pobre familia, que uma epidemia extinguira, e
disse-me:--Ahi tens a boneca que te prometti, Lena; vou confial-a aos
teus onze annos. Veremos se tens juizo para brincares com ella.  assim
que eu quero que aprendas os deveres de me, que  a verdadeira sciencia
apropriada a mulheres. E o que  certo  que eu, dissipado o desgosto
dos primeiros momentos, porque o tive, confesso, costumei-me a querer
quella pobre creana, fui avara nas suas caricias, troquei por ella
todos os meus brinquedos, e senti-lhe do corao a morte, quando, um
anno depois, ella me expirou nos braos. Quando fui para Lisboa, j ia
educada para amar creanas.

Magdalena contra tudo isto naturalmente, sem a menor affectao, sem
deixar at de attender aos primos, o que augmentava o interesse com que
a escutava Henrique.

--E assim fica sabendo quem  a morgadinha dos Cannaviaes--concluiu
ella, desatando o babeiro das creanas, que tinham terminado o _lunch_.

-- verdade, mas d'onde lhe vem este titulo singular, prima
Magdalena?--perguntou Henrique, tomando ao collo uma das creanas, que a
morgadinha pousou no cho.

-- que eu sou realmente a morgadinha dos Cannaviaes. Quero dizer, minha
madrinha vivia na quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui
perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa;
chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes. Tomou-me ella affeio, e,
sempre que passeiasse, me havia de levar comsigo; d'ahi comearam a
chamar-me de pequena a morgadinha. Quando ella morreu deixou-me tudo
quanto possuia; n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de que
sou proprietaria ainda. Foi uma como confirmao do titulo, que j desde
creana me tinham dado; e para todos sou aqui a morgadinha, titulo na
verdade pouco elegante e que to mau conceito fez conceber ao primo
Henrique da possuidora d'elle.

--Retracto-me, prima Magdalena; agora que sei a pessoa a quem elle
pertence, parece-me outro. Acho-o bonito, gracioso...

--Vamos, vamos. Confesse que o titulo no  dos mais romanticos e que,
de boa vontade, escreveria outro nome debaixo do desenho de phantasia
que ahi fez, da mesma maneira que deu  humilde e fiel jumenta, que eu
montava ha pouco, a conformao e orelhas elegantes de um palafrem, e
quasi me transformou em uma amazona ingleza.

Henrique respondeu, sorrindo:

--Na impossibilidade de reproduzir as graas naturaes, soccorri-me ao
expediente das bellezas de conveno. Confesso o meu deploravel erro.

--Olhe que no estamos em Lisboa, primo Henrique. Repare para essas
arvores e refreie o sestro galanteador, com que est.

--Por quem ! No leve o rigor a tal extremo. To injusta  comsigo, que
se recuse a acceitar, como naturaes e sinceras, as phrases que a sua
presena inspira?

--Ai, meu Deus, como refina! Veja como essa creana, que tem no collo, o
est encarando com os olhos espantados. Se ella nunca ouviu falar assim
aqui!

Henrique beijou as faces da creana, movimento em que no ia uma
inteno menos lisonjeira do que nas phrases que dissera, porque elle
percebia que Magdalena era extremosa pelos seus pequenos primos.

Abriu-se, n'este meio tempo, a porta da sala, e entrou, saltando, outra
creana mais crescida, mas ainda de vestidos curtos, trazendo na mo uma
folha de papel.

--Lena--dizia ella em alta voz.--Olha; queres vr o que o sr. Augusto s
me emendou hoje no thema francez?

Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza para Henrique.

-- o sr. Henrique de Souzellas--disse Magdalena.--O hospede da tia
Dorotha. Esta  Marianna, outra de minhas primas--accrescentou,
voltando-se para Henrique.--J v que no faltam creanas n'esta casa; e
ainda ha mais.  o que lhe d o ar alegre que tem.

Marianna cumprimentou Henrique e no se constrangeu por mais tempo;
mostrando  prima a composio que o mestre lhe emendra, disse:

--Ora v que no tive muitos erros.

Magdalena sorria, examinando o thema.

Henrique ia a fazer no sei que pergunta a Marianna, quando  mesma
porta, por onde ella entrra, appareceu o mestre, de quem se falava.

Augusto, que assim se chamava o recem-chegado, era um rapaz de pouco
mais de vinte annos de idade; de rosto pallido e physionomia
intelligente.

Ninguem adivinharia n'aquelle typo um mestre-escola de aldeia.

Trajava com simplicidade, porm com asseio e gsto, e havia em toda a
sua figura certo ar de distinco, que feria quem pela primeira vez o
visse.

N'um leve pendor de cabea, no olhar penetrante e fixo, e nos labios,
como habituados a fecharem-se  saida dos pensamentos intimos, lia-se o
caracter pouco expansivo d'aquelle adolescente.

Magdalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta deferencia.

--Como vo os seus discipulos, sr. Augusto?

--Optimamente, minha senhora--respondeu o interrogado.

--O sr. Augusto--disse Magdalena, apresentando-o a Henrique--o primeiro
mestre de meu irmo Angelo e hoje mestre de Marianna e Eduardo.

--Esquece-se, minha senhora,--accrescentou Augusto--que de Angelo sou
discipulo tambem, e mais discipulo do que fui mestre.

--Do que me esqueci, e, a falar a verdade, no devia, foi de que de
Angelo  effectivamente mais do que mestre,  amigo; assim como de todos
ns. Este senhor--continuou ella, concluindo a apresentao-- o senhor
Henrique de Souzellas, que se esperava em Alvapenha;  ainda nosso
primo.

Os dois cortejaram-se com affavel delicadeza.

--Teve carta de Angelo?--perguntou em seguida a morgadinha.

--No recebi ainda o correio de hoje.

--Nem ns; e  de estranhar que meu pae pelo menos no me escrevesse!
Angelo no vir passar a festa comnosco? Pobre rapaz! Parece que renasce
quando se v aqui.  uma perfeita creana ento.

Eduardo, outro primo de Magdalena, que Henrique ainda no vira, entrou
n'este momento na sala, trazendo um masso de cartas na mo. Depois de
cumprimentar Henrique, a quem Magdalena o apresentou, disse para
Augusto:

--A mam deu-me essas cartas para o sr. Augusto escolher d'ahi aquellas
que eu pudesse ler.

--Eu verei devagar--disse Augusto, guardando-as n'uma pasta que trazia.

--Ah! j temos o Eduardo a ler cartas!--disse a morgadinha, afagando o
primo.

--Pelo que vejo--disse Henrique de Souzellas, vendo Augusto em
disposies de partir--tem uma vida muito occupada?

--E tanto que sou obrigado a pedir licena para me retirar. Tenho de ir
esta tarde a casa do Seabra...

--Ai, lecciona ainda as pequenas do brazileiro?--perguntou Magdalena.

--Ainda, sim, minha senhora.

--E como vo essas mulatinhas?

Augusto encolheu os hombros, sorrindo; gesto que no devia lisonjear a
vaidade do sobredicto brazileiro, se tomasse a peito os dotes
intellectuaes das referidas mulatinhas.

Passados segundos, Augusto retirou-se, apertando a mo a Magdalena que
familiarmente lh'a estendeu, e a Henrique, que a imitou.

--Ia apostar que vae alli uma intelligencia--disse Henrique ao vl-o
sair--algum d'esses grandes espiritos, que vivem e morrem ignorados e
improductivos, porque os no aquece o sol do favor publico, nem os
bafeja a aura da moda caprichosa.  terra de maravilhas esta, ao que
estou vendo.

-- um rapaz intelligente, --disse a morgadinha--e uma alma generosa.
Desde tenra idade costumou-se a trabalhar. No tem familia. O pae foi um
pobre e honrado advogado de um logar perto d'aqui, que morreu quasi na
miseria, deixando-o por educar. A me, que era d'estes sitios, para ahi
veio, depois que viuvou. Elle tem sido, pode dizer-se, mestre de si
mesmo. Dirigiu os primeiros estudos de Angelo e hoje  o seu melhor
amigo. A morgada, minha madrinha, legou-lhe um patrimonio para elle se
ordenar: no quiz, e preferiu ser mestre-escola. Meu pae, que lhe
reconhecia intelligencia para mais, tentou dissuadil-o d'isso, mas nada
conseguiu. No ha quem o arranque d'estes sitios.

--Prende-o talvez alguma paixo?

--No sei.  certo que  um professor modelo. O seu primeiro despacho
foi temporario; agora, porm, espera meu pae fazel-o effectivo; para o
que j elle fez novo concurso. J v que ambies so as d'este rapaz.

--Na verdade! com muito menos fundamentos ha quem aspire a ser ministro.
Mas com certeza o corao entra como elemento no problema d'esse
caracter.

--Mas ainda agora reparo!--exclamou a morgadinha--eu esquecida a
conversar, e sem avisar a minha tia e Christina da sua chegada! No o
fiz logo, porque as sabia occupadas em umas longas novenas, em que
andam; mas agora  tempo. Vae, Marianna, e tu, Eduardo; ide ambos
dizer-lhes que est aqui o... o primo Henrique de Souzellas.

Marianna e o irmo sairam a correr.

--Vae conhecer duas boas almas--disse Magdalena, voltando-se para
Henrique--minha tia  uma santa senhora, cujo peor defeito  suppr-se
victima dos criados; e Christina... Christina  um anjo.




V


Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais penetrado da sympathia,
que logo  primeira vista, aquella mulher lhe despertra.

Havia na morgadinha um mixto de candura e de ironia, certa delicada
reserva fluctuando, como uma sombra diaphana, na conversa familiar, a
que to espontaneamente se dava; um visivel conhecimento dos usos e
etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo uma coragem para cortar por elles,
como quem se sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel s
suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas n'aquella sympathica
indole feminina, que poucos seriam impassiveis deante d'ella.

A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas, calado, immovel,
absorto, seguindo com os olhos os movimentos de Magdalena, que, sem o
menor constrangimento, proseguia nas suas occupaes domesticas.

Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes timbres na sala
immediata.

--Ellas ahi veem--disse a morgadinha.

De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram na sala D.
Victoria e Christina.

A me vinha dizendo:

-- o que eu digo... No que vocs no querem crer! Ora vejam se isto se
atura... se isto no  para metter uma pessoa no inferno!... No tem que
vr!... No ha ninguem que mais dinheiro gaste com criados e que seja
to mal servida como eu!... Eu s queria saber o que fazem os criados
d'esta casa? Sim, s queria que me dissessem o que elles fazem, esse
bando de mandries!... Elle  o Torquato, elle  o Luiz, elle  o
Damio, elle  a Ermelinda, elle  a Rosa, elle  a Violante... e no
havia um s que me viesse dizer que tinha chegado o primo!  forte
coisa!... Compromettem uma pessoa! Ento como est?--accrescentou ella,
mudando de tom para cumprimentar Henrique, a quem estendeu a mo.

Magdalena, ao ouvil-a, tinha j trocado com este um olhar malicioso.

Henrique correspondeu delicadamente  saudao das senhoras e procurou
justificar os criados.

--No m'os desculpe,--atalhou D. Victoria, elevando outra vez o tom de
voz--aquillo  de proposito para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem
me tira isto da cabea... Aquillo  de proposito!

--Mas a mam no v que as criadas estavam comnosco  novena?--lembrou
timidamente Christina.

--Pois que no estivessem. Quem tem servio a fazer no pode ouvir
novenas.

--Mas se a mam  que as mandou!

--Pois sim... pois sim... mas... mas ellas  que me deviam dizer que
tinham que fazer. Ento eu  que lhes hei de estar a lembrar as suas
obrigaes? No me faltava mais nada! Ora tens coisas, menina! Mas ento
vamos a saber, primo Henrique, fez bem a sua jornada?

Henrique principiou a falar para desvanecer a irritao de D. Victoria.

Como ns j sabemos dos pormenores da tal jornada, aproveitaremos a
occasio para dizer duas palavras a respeito das novas personagens, que
esto em scena.

D. Victoria, havendo attingido j a idade respeitavel dos quarenta e
tantos annos, dispensa-nos grandes longuras e esmeros de descripo.
Basta que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, bondosa no fundo,
e que sabia muito bem trazer os vestidos escuros da sua viuvez.
Impertinente com os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito
sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente sempre que tentava
forar o espirito a abraar alguma ideia mais complexa; mos rotas com a
pobreza; intolerante, em theoria, com os ladres e malfeitores, porm
felizes d'elles se d'aquellas mos lhes dependesse a condemnao; eis o
que era D. Victoria. Christina, porm, tinha dezenove annos; e esta
idade gosa de privilegios, que eu no posso infringir. O leitor no me
perdoaria se me visse passar estouvadamente por deante da prima de
Magdalena, sem um olhar de homenagem  sua juventude e ao seu typo
feminino. Reparemos pois.

Christina era mais bonita do que bella. No havia n'aquelle rosto uma s
feio, que no fsse correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos
meigos e quebrando-se com suavidade infantil; bca, d'onde parecia
sempre prestes a sair um afago ou uma consolao; voz, que da muita
piedade d'aquelle bom corao, tirava s vezes modulaes commoventes;
n'uma palavra, uma figura de cherubim, como as sonharam os mais
inspirados artistas, cuja mo representou na tla os augustos mysterios
do christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria. Mas no
procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos, que fixam de repente e
como por magnifico influxo, a atteno dos olhos, uma d'essas
particularidades physionomicas, pelas quaes a natureza, destruindo com
arrojo feliz a geral harmonia de um semblante, consegue tornal-o mais
fascinador; temperavam-se alli to completamente todas as feies, que a
atteno no se sentia obrigada a passar do conjuncto d'ellas, o que
lhes diminuia muito a intensidade.  o grande seno dos rostos
harmonicamente perfeitos.

Concordava-se em que Christina era galante, ninguem lhe negaria
sympathias; mas o pensamento na ausencia d'ella, no se sentia dominado
por a sua imagem: perdia-a at n'um vago, quando pretendia fixal-a: eram
suaves de mais as inflexes d'aquelles contornos, brandas as tintas que
lhes davam relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir facilmente
o typo angelico, de que lhe ficra uma agradavel, mas vaga impresso.

Por um homem, em quem predominasse a razo, Christina poderia vir a ser
adorada; mas nas imaginaes ardentes, nos coraes inflammaveis,
difficil lhe seria produzir alguma impresso duradoura.

Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe
primeiro o corao, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se
continha; ento descobrir-se-lhe-hia nas feies certa belleza ideal,
reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras
e generosas vertem nas physionomias. Se no fsse receiar-me de
linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas
mulheres assim,  uma belleza subjectiva.

De tudo isto  natural concluir que Henrique de Souzellas podia
sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava
timidamente os olhos deante d'elle, crando cheia de enleio e confuso,
mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, no conseguiria por
muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da
morgadinha--que a muitos respeitos, menos na bondade de corao, formava
contraste completo com sua prima.

Travra-se animada conversao entre as pessoas presentes, e
principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena.

D. Victoria quiz ser informada da doena de Henrique. Este passou a
fazer-lhe uma exposio igual, com pequenas variantes,  que fizera 
tia.

Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas,
impaciencias e desalentos, que to ingenuamente a boa senhora
classificra como mania.

Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.

Henrique tornou para ella os olhos.

-- menina, de que ris tu?--perguntou D. Victoria, com certo tom de
severidade.

--Rio-me d'aquella doena, tia. Pois j viu alguem padecer d'aquillo?
Ora diga?

--Eu?... mas...

--Pode dizer que no. E comtudo o primo Henrique no mente. Ha
d'aquellas doenas na cidade, ha; mas na aldeia so to raras, que eu
mesma as estranho j, eu que as vi em outro tempo...

--Ento no cr na realidade d'ellas.

--No lhes estou a dizer que sim? Ouo at que j teem levado ao
suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisao affeioam a seu modo a
natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso so menos
naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vr um d'esses
doentes em plena aldeia, no  modificada por todas essas consideraes.
 como um homem de casaca e gravata branca; no ha nada mais srio e
mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o
pode olhar a srio.

--Quer dizer que no devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.

--Tanto no digo; mas no o entendero; isso no.

--Porm a minha doena no  s d'essas, que se no do na aldeia, prima
Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas...

--Ah! tambem?--Com esse aspecto de robustez?!...

--Se eu sei o que tu ests ahi a dizer Lena!--disse D. Victoria, que no
tinha percebido bem o dialogo.

-- que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os
maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso no pode
curar-se.

--Sujeitar-me-hei da melhor vontade a to agradavel dominio.

--Principia mal, se principia com uma fineza. J o avisei ha pouco...

--Ser necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso
renuncio  cura.

--Grosseiro, no; basta que seja razoavel e sobretudo...

--Acabe.

--Acabo? eu sei? Eu s vezes sou sincera de mais.

--Eu adoro as sinceridades.

--J que o quer...  preciso que seja razoavel e sobretudo...
desaffectado.

Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, crando.

--Ento acha?...

--Acho que est sempre a imaginar-se n'um salo; faz uns gastos de
galanteria, desnecessarios e perdidos.

-- meninos, eu no vos entendo--repetia D. Victoria.

Magdalena sorriu.

--Digo eu que...

Um criado entrando com as cartas do correio no a deixou continuar.

--Sempre chegou o correio!--exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo
as cartas.--Por que veio to tarde?

--A mulher contou-me l umas historias de uma quda, e...

--Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?

--Esteja descanada, minha senhora. Ella partiu j e era um gsto vl-a
a correr.

Magdalena abriu com pressa a carta recebida.

-- de meu pae--disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir
licena, comeou a ler para si.

--Pois agora--dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique--o que
deve  aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As
pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir,
Christina?

--Eu! disse Christina, crando.

--Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?...

-- Senhora da Saude, mam.

--Ai,  verdade,  Senhora da Saude. Ahi est j um passeio bonito. V?
Saem d'aqui uma manh cdo, levam alguma coisa para l comer, porque o
ar do monte abre o appetite, e a cavallo esto l n'um instante...

--A cavallo, mam! d'aqui  Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a
p--notou Christina do lado.

--Isso  por os audes.

--Pois por onde haviamos de ir?

--Por a Granja, que  melhor.

--Por a Granja!  uma legua!

--Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos audes, que
 at perigoso; e depois para que ho de ir a p, se para ahi esto os
cavallos sem fazerem nada?  vontade de se canarem.

--Mas appetece ainda mais n'este tempo. S se... s se alli o sr.
Henrique...--disse Christina, embaraada ao continuar.

--Eu o qu, minha senhora?

--Perdo--interrompeu D. Victoria.--Por que no has de tu chamar primo
ao primo Henrique? pois no chamamos tia  tia Dorotha?

--Por isso mesmo, mam,--respondeu Christina--os sobrinhos da tia
Dorotha no so...

--No averiguemos d'esses parentescos, priminha,--acudiu Henrique--eu
acceito a proposta da mam, peo para ser considerado do numero de seus
primos.

Christina baixou os olhos, sorrindo.

Henrique proseguiu:

--Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a p  Senhora da
Saude. No sei onde  o logar, mas desde j me comprometto a no canar.

--No tem que saber--disse D. Victoria, caminhando para uma
janella.--Ella l est. Olhe que inda  necessario saber trepar.

--Tendo duas to galantes companheiras de viagem--tornou Henrique,
depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia
d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou--parece-me que daria a p
uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.

--O que eu lhe digo, primo--accrescentou D. Victoria-- que se acautele,
porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vr.

--Inda que morresse em to agradavel servio, teria de agradecer a Deus
a morte.

--C me chegou aos ouvidos o cumprimento--disse Magdalena, que
continuava a ler.--Logo ajustaremos contas.

-- implacavel esta nossa prima, no acha?--perguntou Henrique,
sorrindo, a Christina, que por unica resposta s soube sorrir tambem.

--Pois ento,  arranjarem,  arranjarem isso e quanto antes, que no ha
que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas j no so passeios para
mim, e depois estes criados...

Henrique de Souzellas receiou nova divagao sobre o assumpto predilecto
de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse,
terminando a leitura da carta:

--Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e
trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se at o dia dos Reis.

As creanas saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem
inveja a um clown de circo.

D. Victoria zangou-se.

--Ento que pouca vergonha  essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora
vamos! J quietos. A culpa tem a Ermelinda, que j vos devia ter levado
para a quinta.  Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a
sua obrigao!

As creanas reprimiram um pouco mais as expanses de seus jubilos, mas
ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composio d'ellas, o
seguinte:

--Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, ol!

--Pschiu! Calae-vos!--bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para
Magdalena:--Mas ento como se entende isso, Lena? Ento o pae diz que
vem...

--Nas vesperas do Natal.

--Sim, nas vesperas do Natal, e vae...

--Depois dos Reis.

--Sim; est bem; e... sim... e ento o Angelo?...

--O Angelo vem com elle. Quer vr a carta?

--No, menina. Mas  preciso no fazer confuso... Ento...

--No ha nada menos confuso...  s isto.

--Sim; pois agora, sim; agora est bem claro. Calae-vos, diabretes! 
meu Deus, que consumio! Mas ento por que no entregou o criado ha
mais tempo essa carta? Eh! no que vocs dizem que elles...

-- tia, pois no ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou,
porque...

--Historias! No me venham para c com esses contos. Vocs esto sempre
promptos para desculpal-os. So elles...

-- Lena, Lena--diziam as creanas--o primo Angelo no torna para
Lisboa?

--Ha de tornar.

--Ora!

--Olha l,  Lena--disse D. Victoria--sabes tu o que me lembra?... Mas
eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma
vez que teu pae vem com o pequeno... e... est agora c o primo
Henrique... lembra-me a mim... mas, j digo, era se eu pudesse contar
com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para
consoar... A prima Dorotha tambem, e aqui o primo; mas era se...

Uma perfeita ovao acolheu o projecto; as creanas levaram as suas
demonstraes de enthusiasmo at o delirio, penduraram-se ao pescoo, 
cinta, ao avental da me, gritando todas a um tempo:

--Ai, sim, mam, sim; mande convidar a tia Dorotha, mande! E ha de
ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos
de cantar as janeiras... Mande, mande, mam, por as alminhas; ora mande.

D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o brao,
como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe
o riso dos labios.

--Saiam d'aqui!--exclamava ella, quando conseguiu estar
sria.--Saiam!... No ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, no fazem
caso? Ora esperem... Marianna, j devias ter mais juizo... Ento,
Eduardo! Tu tambem? No tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui,
estafermos!

A ideia das consoadas em familia fra uma ideia que a ninguem deixra
impassivel. Christina, a timida Christina, no disfarou um movimento de
jubilo; as mos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar
suave um fulgor pouco costumado.

A propria Magdalena no se mostrou superior quella tocante puerilidade.

Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe
affectuosamente:

--Ora ahi est o que  muito bem pensado.

--Pois sim, sim, mas o peor ... os criados--disse D. Victoria.

--Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos ns.
Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da
tia Dorotha.

--Isso  que  a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorotha, aquella
sua tia, primo Henrique,  que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se
importam os de c com a Maria.

--No tem dvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem,
melhor--aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario.

--Ahi temos outra! No, filha; isso  que no. Para barulhos  que eu j
no estou. Ento, no.

--Est resolvido--disse a morgadinha, para cortar pelas divagaes da
tia.--Aqui o sr. de Souzellas--accrescentou, com maliciosa
inflexo--fica desde j encarregado de transmittir  tia Dorotha o
nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado.

--Acceito da melhor vontade.

--No sei se o dever dizer.  preciso que o avise de que n'aquella
noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um
minuto, pelo menos, de collaborao nos guisados. Por isso veja l....

-- menina, tens coisas!--disse D. Victoria.--Deixe-a falar, primo.

--No  deixe-a falar. Eu no dispenso ninguem.

--E eu prometto no me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os
pratos em que puzer a mo. Que mais querem?

Foi alegremente acolhida a promessa.

As creanas, familiarisadas j com Henrique, em quem tinham adivinhado
um humor jovial, o que  sempre para ellas um motivo de attraco,
trepavam-lhe j aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas,
difficultando-lhe as respostas.

--Havemos de jogar o rapa, no havemos?

--Havemos de jogar, havemos--respondeu Henrique.

--E o par ou perno?

--Tambem; tambem havemos de jogar o par ou perno.

--E?...

--Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.

--Olhe: e sabe contar historias?

--Sei tambem contar historias.

--Ento ha de contar-nos, que ns tambem lhe contamos a da Gata
borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na
testa.

--Ora, o sr. Henrique j as sabe--disse, fazendo-se sisuda, Marianna.

--Pois no sei, no, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de
querer ouvir isso tudo.

-- meninos!--exclamou D. Victoria, que at alli estivera distrahida a
discutir com Magdalena.--Ento isso que ? J para baixo. Ai, se lhes d
confiana, est arranjado, primo.

--Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias  salutar;
pegam-se.

--E no o diga a brincar--disse Magdalena--que tambem confio n'essas
creanas para o curarem dos seus males.

--Ento devras emprehendeu curar-me?

--Com toda a certeza.

--N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia.

--No havemos, no, senhor.  mau medico o que soffre que o doente o
interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido
com f, e cega.

Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esforos por
lhe chamar a atteno, resolveu-se a falar-lhe.

--Lena--disse ella--que te parece a lembrana que teve ha pouco a mam?

--A das consoadas? Excellente.

--No, menina, a do passeio  ermida.

--Ah! Excellente tambem. Marquemos j o dia.

--Quando queres?

--Depois de manh, que  quinta feira.

--Seja.

--Que diz, primo Henrique?

--Quando quizerem, primas; agora mesmo...

--Mas, veja l, atreve-se a fazer uma madrugada?

--Pois no viu hoje?

--Ai, pois no! Na aldeia no se chama isso uma madrugada.  preciso que
se levante s horas, a que se deitava na cidade.

--Que ests a dizer, Lena?--acudiu Christina.--Deixa-a falar. Basta que
saiamos d'aqui s cinco horas.

--Esta innocente Christina! Pois no  o mesmo que eu digo? Pergunta ao
primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cdo em Lisboa.

--Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou
valetudinario.

--Ai,  verdade, que me tinha esquecido. O que vejo  que ha por aqui
muita indolencia.

--Quem a ouvir falar, ha de julgar que ser ella a mais madrugadora; ora
havemos de vr--disse Christina.

Magdalena poz-se a rir.

E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse
Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos
pontos de vista.

Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, j retardado uma boa
hora ao que promettera  tia Dorotha.

Um criado serviu-lhe de guia at Alvapenha.

Henrique de Souzellas, ao findar aquella manh, era inteiramente outro,
do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem
que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse
n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos
entre os membros de to numerosa familia, a franqueza cordial com que
fra recebido, produziram n'elle uma impresso profunda.

Costumado ao viver desconsolador e de glo de rapaz solteiro e s; no
passando, nas casas que visitava, alm da sala de visitas, esse palco
artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam
a comedia social, Henrique estranhra, mas agradavelmente, o
espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos
costumes, d'aquellas alegrias, que no se envergonham de apparecer sem
reservas nem disfarces. Foi uma revelao que recebeu. Sorriu-lhe a
ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre creanas que lhe
trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via
manifestarem-se, e at com alguem que ralhasse com os criados,  maneira
de D. Victoria.

Escusado  dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes
quadros que lhe traava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes
mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as feies queridas da
mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a
immortalidade.

De manh parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completra-o a figura
de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no
eden, onde a mo de Deus o collocra.

--Anda, vagaroso, anda--disse D. Dorotha a Henrique, assim que o viu
chegar.--Se o jantar tiver esturro, a culpa  tua.

--Perde-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...

--Ah! foste l? E ento gostaste d'aquella gente?

-- uma familia para o corao. Passa-se o tempo alli to depressa! A
morgadinha, sobretudo,  adoravel!

--Ai, ai; como elle nos vem! Olha l no que te mettes, menino! A mina
boa , mas... filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu.

Henrique fitou os olhos na tia Dorotha, que dissera isto com certa
malicia.

--Que quer dizer, tia?

--Tu bem me percebes. Anda l, anda. Se fizesses tu o milagre, se
quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que no
tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.

Henrique levou o caso a rir, mas  certo que esteve um pouco mais
preoccupado e distrahido no resto da tarde.




VI


O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na companhia de qualquer
amigo, ha de ter observado que, durante os primeiros tempos que passam
juntos n'uma terra para ambos desconhecida, to alheios s coisas como
s pessoas, no meio das quaes se vem, nem por momentos se soffrem
separados; um segue sempre o outro em todos os passos que d, precisa
d'elle para communicar-lhe as primeiras impresses recebidas, e
pedir-lhe em troca as suas;  medida porm que, pouco a pouco, se vo
familiarisando mais com os logares e com as personagens d'aquelle mundo
novo, afrouxa a constrico d'esses laos, e cada um principia a
readquirir a independencia individual, que de motuproprio havia
abdicado.

Um facto similhante nos succede com Henrique de Souzellas. Encontrmol-o
na estrada; na companhia d'elle entrmos em uma terra, onde tudo nos era
estranho; nada mais natural do que dar o brao um ao outro, passar
juntos a manh, e fazer, em commum, as nossas visitas. Agora, porm, que
temos j algum conhecimento da terra e da gente,  tempo de nos
declararmos independentes, e sacudirmos o jugo de uma companhia forada,
a qual, embora seja de um amigo estimavel, se  forada,  sempre jugo,
em certas occasies.

Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes, penso eu, haviam de
ter momentos em que se desejassem ss; se  que no deviam aos deuses a
felicidade de possuirem curtos espiritos, o que no creio.

Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo com a tia Dorotha a
mais pacifica das conversas que podem auxiliar a digesto de um jantar;
deixemol-o no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos associar-nos a um
dos nossos recentes conhecimentos, que  Augusto, o mestre de Marianna e
de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos na sala da casa do
Mosteiro.

Ao sair d'alli, Augusto seguiu atravs de campos e  beira de vallados,
com aquelle ar pensativo que lhe era peculiar.

O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas palavras da morgadinha, 
j bastante para que nos no admire a quasi incessante melancolia de
Augusto.

Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia e mal podendo,  custa
de sacrificios, cultival-a, e eleval-a  altura das suas aspiraes!
Alma generosa e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a chorar os
infortunios que via, porque a pobreza lhe negava meios de remedial-os!..
no sero estas ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma
existencia, embora a juventude as illumine?

Havia alguns annos que esta disposio para a tristeza se exacerbra em
Augusto. Coincidiu o facto com algumas circumstancias, que convm
referir.

A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena e de quem viera a esta o
nome de morgadinha, pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia ao
morrer instituido um legado a favor de Augusto, ento creana, com a
condio d'elle abraar a vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de
Magdalena, devia administrar este legado, educando o rapaz nas escolas
de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro exame at o da primeira
missa, porque n'esse lhe entregaria o capital por inteiro.

Isto succedeu no tempo em que a me de Augusto, que havia dois annos
viuvra, luctava com a miseria, e o rapaz, pela sua penetrao e pelo
enthusiasmo com que aprendia, causava o espanto do velho mestre regio da
localidade.

Foi por todos abenoada a memoria da morgada, por to bem cabido legado,
que era ao mesmo tempo que remedio s privaes de uma familia, premio e
estimulo  intelligencia e  applicao de uma creana, que promettia
vir a ser... Deus sabe o qu.

Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio se a clausula, posta pela
legataria como condio  concesso do beneficio, no podia ser uma
crueldade que o annullasse; se comprar um futuro por dinheiro, sem
querer saber a quantidade de aspiraes, de esperanas, de phantasias
que sejam, a que se tem de renunciar pelo contracto, no  uma
iniquidade; se no era uma quasi simonia ir a casa do pobre, e fazendo
luzir os reflexos do ouro nas sombras da miseria, propr-lhe trocar por
estes thesouros, que o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por
mim abomino estes legados condicionaes, que um espirito malevolo,
egoista e desejoso de dominar ainda depois da morte, tantas vezes dicta;
essas meigas generosidades so s vezes a causa do infortunio de uma
vida inteira; acceites ou recusadas,  raro que depois, a cada provao
que nos experimenta, uma voz interior nos no exprobre o partido que
abraamos.--Louco! para que hesitaste em trocar meia duzia de
phantasmas por um bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos idolos
de poetas o beneficio que te offereciam?--dir ella aos que rejeitaram
o pacto.--Ambicioso!--clamar aos outros--ahi tens a felicidade que
julgaste comprar  custa do que ha de mais nobre na alma humana;
embriaga-te agora no incenso, em que envolveste o altar do bezerro de
ouro, consumindo ahi as tuas mais santas e generosas aspiraes.
Augusto no adivinhou porm logo a crueldade da disposio
testamentaria. Era muito creana ainda; e depois uma ideia nobre o
preoccupou; comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella pobre me, que s
podia abrigal-o com os extremos do seu muito amor. Seu pae, morrendo,
apenas conseguira deixar uma herana; foi  viuva o dever de velar pelo
filho. Augusto exultou vendo que podia inverter aquelle legado, velando
elle pela fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria de certo a
vida.

Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se mais e mais a
intelligencia, quasi espontaneamente, pois justo  confessar que bem
rudes eram os cuidados de cultura que o velho _magister_ lhe sabia dar.
Mas quem ignora os surprehendentes effeitos que da intelligencia e do
estudo, da aptido e da vontade, podem resultar? Dotem um homem d'essas
duas faculdades poderosas e neguem-lhe embora os meios de progresso,
elle caminhar, inventando-os primeiro, se tanto lhe fr preciso.

E depois,  um grande alento aos espiritos superiores a consciencia de
uma nobre misso a cumprir. No ha fadigas que tal estimulo no vena;
abnegao, que no inspire.

A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua me precisava d'elle.

Quando ainda aos seus treze annos fsse j bem conhecida a grandeza dos
sacrificios que lhe exigiam, no hesitaria talvez, instigado por aquella
aspirao; quanto mais que ainda mais lhe tinham animado os sonhos, as
doces imagens, to gratas ao corao do adolescente, e a que teria de
renunciar.

Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o qual, graas aos esforos
empregados, no se fez esperar muito.

Quando se approximava a occasio, o pae de Magdalena mandou vir Augusto
para Lisboa e hospedou-o em sua casa at que chegou o dia.

No confiando demasiadamente no ensino publico da aldeia, o conselheiro
quiz que o seu pequeno hospede recebesse algumas lies de um professor
da cidade, e d'este obteve as melhores informaes da intelligencia do
rapaz, que s por milagre d'ella conseguira sair muito pouco eivado dos
vicios do ensino de campo.

Augusto demorou-se algumas semanas em casa do conselheiro. A final fez o
exame, no qual foi felicissimo, obtendo n'elle as mais distinctas
qualificaes.

Imagine-se o effeito que a noticia produziu na aldeia. Exaggerando-se,
dizia-se por l que em toda Lisboa corria a fama do rapaz, e houve at
quem no hesitasse em affirmar que a creana confundira os mestres, que
fra uma maravilha.

O mestre-escola reclamou para si a gloria do acontecimento, fundando-se
em que, atravs do discipulo, resplandecia a sciencia do mestre.

Os invejosos disputavam-lhe porm to inquestionavel gloria e riam-se
d'elle.

A pobre me, essa, levou todo o dia a chorar de prazer e a render graas
 Virgem, a quem tanto encommendra o filho.

Voltou Augusto  terra.

Era o rapaz o assumpto de todas as conversas: olhavam-o como um
prodigio. Todos o queriam vr, como se at alli o no tivessem visto
bem, e de feito todos o foram vr; nem o abbade, nem o administrador,
nem o presidente da camara faltaram. Foi tudo. Pois bem, de tantos que o
viram, no houve um s que no notasse que o pequeno vinha triste.

Ninguem contestava o facto: que elle como que saltava aos olhos; as
interpretaes  que variavam.

--Aquillo  dos ares de Lisboa; a quem no est costumado... dizia um.

--So canceiras de estudos--aventava outro.--Ha l coisa que puxe mais
por uma pessoa do que o estudo!

--No que vocs cuidam! Um exame sempre abala a gente c por
dentro--dizia um doutor, que levra dez annos a vencer um curso de
cinco.

Fsse pelo que fsse, Augusto trouxera de Lisboa uma melancolia, que os
ares da sua terra no dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam
no futuro e no legado da morgada.

Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita melancolia, foi, como era
de suppr, a receiosa me. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos
e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas, supplicas, arguies,
lagrimas, promessas, nada tiravam de Augusto, que teimava em responder
que nada tinha que o affligisse, que era a illuso de quem o via a
tristeza que lhe suppunham, e, para confirmar o que dizia ria; mas era
mais triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse.

Para breve estava a entrada de Augusto no collegio de Lisboa, onde, 
custa do legado da defuncta proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar
nos seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum tempo na aldeia.
No se pde atinar com os motivos d'este pedido. Indolencia no era;
pois no entretanto comeou a estudar os rudimentos do latim com o
illustre professor, que o leitor conhece j, mestre Bento Pertunhas.

A saude vacillante da me de Augusto declinou n'esse inverno; o que veio
dar outro motivo  demora do filho.

Dias e dias passou o pobre rapaz sentado  cabeceira do leito dividindo
os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma.
Dois annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim d'elles, Augusto
abandonou aquelle leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um
cadaver.

Era orpho.

A vaga sombra de melancolia, que j lhe toldava o rosto,
condensou-se-lhe mais ento. Era quasi um negrume de tristeza.

Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena para a aldeia, pois
receiava pela saude d'ella se persistisse em Lisboa.

O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto, quando voltasse a
Lisboa. Uma manh, porm, este, de pouco mais de quinze annos,
procurou-o e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma teno
meditada e irrevogavel:

--Venho prevenir v. ex.^a de que desisto do legado da sr.^a morgada. No
quero ordenar-me.

O conselheiro fitou-o, estupefacto.

--No queres ordenar-te! Por qu?...

--J no tenho me a quem amparar. Por ella foraria a minha vocao sem
remorsos; por interesse proprio no o posso fazer; parece-me um
sacrilegio.

O conselheiro era um homem muito do seculo. O seu trato social, a
frequencia dos circulos politicos e elegantes, haviam-lhe dado todas as
boas e ms qualidades, que caracterisam aquella classe de homens, e
sabe-se que a candura de sentimentos no entra no numero das mais
habituaes d'essas qualidades. Tinha uma razo clara, mas fria; se
abraava uma boa causa, no o fazia cedendo ao enthusiasmo, mas smente
depois de ponderar fleugmaticamente os fundamentos em que ella se
baseava; assim era que, em politica, se costumra a contemporisar,
espaando a adopo de qualquer medida, inquestionavelmente boa, para
tempos em que fsse mais conveniente; no se apaixonava por utopias,
desconfiava d'ellas; havia muito tempo que desvira dos olhos o prisma
encantado, atravs do qual olham o mundo os poetas e todos os mais
sonhadores; costumra-se a marcar por modelo nas differentes carreiras
da vida, no um typo ideal dotado de todas as virtudes, limpo de todos
os defeitos e vicios; assentra a menor altura o alvo: parecia-lhe que
bom fito eram j os individuos que tinham conseguido maior considerao
na sua classe; as maculas que elles tivessem, eram, por esse facto,
maculas auctorisadas. O pensar de outro modo era pensar de romance;
agradavel para entreter, porm mau nas applicaes s coisas da vida.
N'uma palavra, o conselheiro era um homem de bem, mas na esphera
mundana; no um d'aquelles typos de pureza crystallina, atravs da qual
parece passarem sem desvio os raios da luz celeste, mas j um tanto
embaciado do bafo social, que no o fazia ainda totalmente opaco.

Por isso sorriu  declarao de Augusto. A carreira ecclesiastica no
lhe parecia to escabrosa como o futuro sacerdote a fazia; nem to dura
a lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro no pensava necessario
tomar ao p da lettra certos deveres impostos; o mundo seria, como elle,
tolerante em naturaes infraces; por tudo isso se riu. Fez a Augusto
uma longa dissertao sobre as vantagens da vida ecclesiastica, sobre os
muitos interesses que lhe promettia, e a leviandade com que elle queria
renunciar a uma carreira segura movido pelas instigaes de um espirito
timorato ou de uma viso phantastica.

Augusto insistiu. Sem crar perante o sorriso sceptico do conselheiro,
declarou que no abraaria a vida ecclesiastica sem que se sentisse com
a coragem precisa para cumprir todos os deveres que ella lhe impunha;
que era precisa uma grande abnegao, e que elle, depois da morte de sua
me, no tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses no pensava, e
se pensasse, seria isso a primeira prova de no estar preparado para a
misso de que se queria encarregar.

Quando alguem abraa com lealdade e franqueza uma boa causa,
difficilmente  vencido. O conselheiro, costumado a no recuar nas mais
acerbas luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco s objeces
d'aquella creana. Como que teve remorsos de tentar sequer desvanecer as
illuses a que o via abraado,--illuses pelo menos as suppunha elle;
parecia-lhe uma obra satanica envenenar com um sorriso aquelle ideal, em
que vivia.--Respeitou-o e calou-se.

--Alguma creancice amorosa dos quinze annos--pensou para si. Deixemos ao
tempo convencel-o. No me encarregarei eu d'esse papel, que  pouco
sympathico. Quem me restituira aquellas canduras! Teria alcanado menos
no mundo, mas talvez tivesse gosado mais... ou melhor...

O conselheiro cedeu apparentemente, esperando que a reflexo
modificaria, mais tarde, as ideias do rapaz.

Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as tenes, em que estava de no
se ordenar, pelo menos emquanto no passasse mais tempo sobre aquella
resoluo.

E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro que se
encarregasse da primeira educao de Angelo, ento de nove annos; pois
mais confiava para isso em Augusto, do que no professor official.

Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que, sobre adequada aos seus
gstos, lhe abria uma carreira, que elle j imaginra adoptar.

De ento nasceu uma intima amizade entre Angelo e Augusto. Foram rapidos
os progressos do discipulo, e no menos reaes as vantagens que ao mestre
resultaram do ensino, que lhe desenvolvia cada vez mais a
intelligencia.--O conselheiro tinha motivos para estar satisfeito da
escolha.

Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto em acceitar o legado eram
as mesmas; o egoismo paternal do conselheiro no o deixou ser muito
ardente a combatel-as.--Espaou-se mais uma vez a deciso.

Outras lies appareceram a Augusto, as quaes elle acolheu com gsto; o
mestre-escola reclamava tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido
da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou.

O velho acabou por declinar n'elle o servio todo, sem que Augusto
consentisse em receber por isso o menor estipendio.

O publico no se canava de perguntar quando seria que o rapaz
principiaria os seus estudos em Lisboa e por que o no fazia j. Como
no obtivesse resposta, commentava o facto, como costuma commentar todos
os que no entende.

No entretanto a educao de Augusto no ficra estacionaria. Com grandes
sacrificios a continura elle; e n'um rmo, como era aquella aldeia,
tinha muito de milagre o que fazia.

O latim de mestre Bento j mal satisfazia s impaciencias do espirito
d'este discipulo enthusiasta; e no era raro que a intelligencia de
Augusto visse mais fundo nos textos, do que a experiencia do mestre.

O acaso favoreceu os desejos do estudante.

N'uma freguezia proxima estava, como abbade, um doutor em theologia,
homem de solido saber e de reputao extensa.

Um dia em que, por convite do seu collega, viera assistir e prgar na
festa do orago da aldeia, o padre encontrou-se com Augusto na sacristia
e, conversando-o, admirou-lhe a penetrao, captivou-se da sua modestia
e lamentou no estar mais perto d'elle, porque o auxiliaria, como
pudsse, nos estudos.

Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade; affirmando-lhe o
padre que sim, respondeu que no seria ento estorvo a distancia, porque
elle a venceria.

E d'ahi em deante, duas vezes por semana, s quintas feiras e domingos,
franqueava legua e meia dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as
lies do erudito abbade. Assim se aperfeioou na latinidade, cultivou a
philosophia e adquiriu o gsto pelos nossos velhos prosadores e poetas.
Vinha de l carregado de livros para ler durante a semana. Toda a
bibliotheca do padre lhe passou pelas mos.

Era porm o theologo classico exclusivo e nada visto em linguas e
litteraturas modernas.

A sorte no recusou ainda a Augusto um novo mestre.

Entre os muitos estudos de estradas, de que os governos em Portugal
fazem preceder, vinte annos antes, a construco definitiva de uma s,
que de ordinario sae sempre como se no fsse to estudada, um houve que
levou  aldeia, em que eu e o leitor nos achamos, um engenheiro que ahi
fez quartel e centro de operaes, durante tres mezes inteiros.

A casa em que elle se alojou ficava proxima da de Augusto. Cdo travaram
conhecimento os dois. O engenheiro o menos que possuia eram livros de
mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna, trazia nas malas e
bahs uma excellente proviso.

No tendo que fazer s noites, entreteve-se a ensinar o francez a
Augusto e a ler-lhe os livros da sua bibliotheca portatil. Voavam as
horas a Augusto n'aquelles seres; n'elles aprendeu todos os nomes da
nossa litteratura moderna, bem como os principaes da de Frana e de
Inglaterra.

Quando o engenheiro partiu da aldeia j Augusto sabia o francez bastante
para se aperfeioar por si; este amigo deixou-lhe em lembrana grande
parte dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.

Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar do collegio. O
conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu mais uma vez com Augusto para
que viesse tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em vo,
encontrou-o ainda inabalavel.

E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o ambicionado patrimonio
foi concedido a outro.

Mezes depois morria o velho mestre-escola da aldeia.

Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe que pretendia aquelle
logar, que j havia muito tempo servia, e pedindo-lhe para que se
interessasse por que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da
ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em que estava Augusto, o
no ter ambies era indicio de uma profunda doena moral; que a posio
a que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita a que se
acolhesse vivo. Augusto persistiu porm no intento; o conselheiro
empenhou-se por elle em Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo
qual se faz em Portugal tudo que  contra lei expressa, o dispensasse da
idade que ainda no tinha, pois mal completra dezenove annos, e Augusto
foi por conseguinte admittido a concurso para to pouco disputado logar
e provido n'elle por tres annos. O conselheiro, a quem no fra
impossivel obter-lhe despacho vitalicio, quiz vr assim se, no fim de
tres annos, o obrigava a abandonar to laboriosa e mal recompensada
carreira, e de proposito o fez despachar temporariamente. Comquanto o
legado da morgada tivesse tido j outra applicao, o conselheiro no
hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o mestre de seu filho.

Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de por experiencia conhecer j
os espinhos da profisso, apresentou-se novamente ao concurso para obter
novo despacho. Na poca em que abrimos esta narrao, voltra Augusto de
pouco de ultimar a nova prova; e estava pendente ainda a deciso do
ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor, homem muito
protegido por influencias da localidade, as quaes ainda no tinham
podido vencer a do conselheiro, que pugnava por Augusto.

Desde que fra para Lisboa, Angelo no se esquecera de escrever
amiudadas vezes a Augusto, contando-lhe dos seus estudos, e
descrevendo-lhe a sua vida na capital; e quando vinha a frias,
procurava transmittir ao que fra seu mestre a sciencia que durante o
anno adquirra.

Foi assim que Augusto principiou a estudar a lingua ingleza, a
geographia e a historia.

Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia e applicao faziam o
resto.

Um homem que havia na aldeia e com quem cdo teremos de travar
conhecimento, um velho herbanario, para alguns um sabio, para outros um
louco, para todos um homem honrado, concorreu tambem, com o seu
contingente, para a educao de Augusto.

De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se em casa d'elle
com um pacote de livros debaixo do brao e, sorrindo, pousava-lh'os em
cima da mesa.

Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava ou sentia mais desejos
de possuir. Da primeira vez, Augusto fitou o herbanario com espanto.
Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois obter aquelles livros,
alguns dos quaes eram de preo? O velho porm disse-lhe, ao perceber-lhe
a surpreza:

--No queiras saber da minha vida, rapaz. Suppe que eu tenho a
servir-me uma vara de condo ou uma fada qualquer, e deixa correr.

Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario tinha accumulado
riquezas,  fra de economias: porque de economias vivera sempre.

De pequeno merecera quelle velho uma singular sympathia, e com affecto
de pae fra sempre tratado por elle.

Resignou-se a acceitar sem reflexes; at porque sabia ser facil o
escandalisar o velho com ellas. O que fazia era evitar, na presena
d'elle, qualquer palavra que pudsse denunciar desejos de possuir um
livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto algum poder
occulto a informal-o, s vezes parecia adivinhar; e trazia-lhe livros
que Augusto devras desejava, mas a respeito dos quaes tinha a certeza
de lhe no ter falado, nem eram d'aquelles que o velho conhecia.

A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a crena supersticiosa do
povo a respeito d'aquelle seu velho amigo.

Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo as informaes, pelas
quaes o velho se guiava na escolha. No lhe attribuia porm o presente,
porque as economias de Angelo no chegavam para tanto.

Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, poder ainda o leitor
estranhar os ares pensativos com que o vemos?

Poucos passos andados, depois que saiu do Mosteiro, encontrou Augusto a
distribuidora das cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para elle.
Era de Angelo.

Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda pelo caminho.

Era uma extensa carta, em que se succediam os periodos em um d'esses
longos, incoherentes e diffusos arrazoados, que constituem a essencia de
uma carta de amigo para amigo.

Angelo falava dos seus estudos, de saudades da terra, de esperanas e de
projectos, projectos que, n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o
instante. Terminava esta carta, em que lhe participava a sua vinda 
aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo:

Peo-lhe que diga  Lindita que se no esquea de mim. Dentro de poucos
dias conto ir vr os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a
agua do poo. O pae d'ella chega ahi ao mesmo tempo que esta carta; leva
um livro para si.

Augusto sorriu, ao ler o _post-scriptum_.

--Pobre Angelo!--murmurou elle,--Deus no permitta que sobreviva  tua
ultima creancice essa sympathia por Ermelinda. Estas generosas affeies
de creana muitas vezes, ao crescer, envenenam o corao.

Havia tanta amargura n'estas reflexes de Augusto!

E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa do recoveiro Cancella, que
era o pae da pequena, a quem na carta se alludia.




VII


A casa do recoveiro Cancella ficava n'uma das mais estreitas ruas da
aldeia e ao lado de um pequeno quintal, objecto dos cuidados e das
diverses do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis da
sua occupada e laboriosa vida.

Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia. A maior parte do
tempo ia-se-lhe nas estradas; pernoitava hoje n'uma estalagem; viam-o
manh j a mais de seis leguas de distancia; acotovelava um dia a
multido nas ruas e feiras da cidade; no outro entretinha os curiosos da
sua terra, deixando-lhes entrever os thesouros da experiencia adquirida
 custa de muitos annos de fadigas.

As estradas em Portugal e os novos meios de transporte, que
conjunctamente vieram, no destruiram totalmente esse typo dos antigos
tempos, anterior a ellas. Alm da poca, que parecia dever marcar-lhes
limite  existencia, passaram, sustentados pela fra dos habitos e
justificados pelas irregularidades do servio das postas; e Deus sabe
quando de vez acabaro. Mas Cancella era alm d'isso um recoveiro de uma
especie rara e superior. Em todas as profisses ha sempre, no meio do
vulgo, que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia dos gsos,
superiores aos interesses, que ellas podem offerecer, certo grupo de
escolhidos, que as idealisam, e enxergam um raio de poesia atravs das
sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella era d'estes; era o poeta
da sua profisso. Tinha em si o que quer que era de um _touriste_, e
assim aproveitava todos os ensejos que se lhe offerecessem de explorar
algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido.

Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa. As muitas relaes do
conselheiro, pae de Magdalena, com as familias da aldeia, e a barateza
relativa das recovagens operadas por este meio primitivo,
proporcionavam-lhe algumas occasies d'isso, as quaes o Cancella de
boamente aproveitava. Era de uma d'essas expedies que elle devia
voltar aquella manh, como o dava a entender a carta de Angelo.

Quando porm Augusto lhe bateu  porta, achou-a ainda fechada; escutou 
fechadura, mas no pde verificar o menor signal de que alguem estivesse
dentro.

-- cdo ainda--pensou comsigo.--Vejamos se estar em casa do compadre.

Seguiu mais para deante pela rua por onde viera.--A poucos passos mais,
e do lado opposto, deparou-se-lhe outra casa de aspecto no menos
rustico do que a primeira, uma pequena casa terrea, de uma s porta e
uma s janella, e com o respectivo quintal ao fundo.

Do interior vinha um sussurro de vozes, como de conversa animada;
julgando que seria o Cancella, de quem o proprietario era, alm de
vizinho, confidente e compadre, Augusto empurrou a porta, que estava
apenas cerrada e entrou.

A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento quadrado, todo adornado
 volta de cruzes de pau, para as devoes da via sacra, e de imagens de
santos e santas em caixilhos de todos os tamanhos. Mais do que os outros
enramalhetado e enfeitado, via-se alli o bento registo de uma confraria,
havia pouco tempo instituida na terra pelos missionarios, o qual
occupava o logar de honra n'aquella devota exposio.

Era recente na aldeia o estabelecimento d'esta confraria, sociedade um
tanto mysteriosa, por meio da qual seus interessados instituidores s
visavam a dar o reino do co aos filiados, contentando-se _apenas_, em
paga, com o do mundo, do qual, lembrados de antigos tempos, teem
saudades j. Os missionarios, certos evangelisadores em terras onde a
palavra do Evangelho no  chave que abra a porta, pela qual entraram os
martyres no co, l andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa a
aco d'esta historia, plantando a vinha, que elles chamavam do Senhor;
as mulheres, abandonando os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto
catholico era por elles cada vez mais arrebicado com oraes absurdas e
ceremonias ridiculas, e o eterno anathema da ignorancia contra o
progresso da sociedade servia de thema predilecto aos seus barbaros
discursos.

Ardente proselyta d'estes apostolos de f duvidosa, a sr.^a Catharina do
Nascimento de S. Joo Baptista, a metade feminina do casal em questo,
tomra por modo de vida as devoes da igreja, onde ia chorar as
desgraas da humanidade, que to fra via andar da estrada direita.

Augusto pouco se demorou n'esta sala; respeitando a alcova conjugal, que
era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e
folhudas ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia  cozinha d'onde
lhe continuava a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o
attrahira.

Ao contrario do que esperava, porm, s uma pessoa encontrou na cozinha,
comquanto falasse com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem.

Esta pessoa era o dono da casa, o sr. Jos do Enxerto, ou vulgarmente
chamado ti' Z P'reira--nome que lhe vinha do popular e ruidoso
instrumento, o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje
aquelle nome.--Era muito para vr e admirar a mestria, com que o nosso
homem o sabia tocar nas festas e arraiaes,  frente das procisses e
crcos, e finalmente em todas as solemnidades publicas.

O ti' Z P'reira era homem dos seus quarenta e tantos annos; tinha no
rosto, principalmente no nariz, vestigios evidentes das suas sympathias
pela divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo da sr.^a
Catharina do Nascimento de S. Joo Baptista, vivia em perenne sabatina
com a sua cara metade, sujeitando-lhe todas as suas aces, mas salvando
sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no officio de
hortelo e, aos domingos e dias de festa,  fra de rufos e pancadaria
na retesada pelle do seu companheiro inseparavel--o zabumba. Era aos
cuidados e vigilancia d'este par conjugal que o recoveiro Cancella
confiava o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa
creana, que lhe ficra  sua viuvez to cheia de saudades, e a quem
elle mais queria do que  menina dos olhos.

Ermelinda era afilhada da familia Z P'reira, e a mesma a quem ouvimos
referir-se Angelo no fim da carta.

Z P'reira estava, como dissmos, s na cozinha, quando Augusto alli
chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo
para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e
vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e
rouca da sua escala de barytono, at o mais agudo e desafinado falsete.
A lingua pegava-se-lhe ao co da bca, difficultando-lhe suspeitosamente
a articulao de algumas syllabas; era evidente que se apossra do
hortelo o espirito familiar, o qual n'este caso, era um verdadeiro
espirito, na accepo chimica do termo.

Ze P'reira era um homem baixo, j grisalho, sufficientemente nutrido, de
olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto
artistico se apoderava d'elle; usava de umas suissas que pareciam tentar
sumir-se-lhe pela bca dentro; tinha longos braos, accommodados s
difficuldades e evolues da sua arte, e pernas que, do joelho para
baixo, lhe divergiam em angulo de mais de trinta graus.

Quando Augusto deu com elle, o homem monologava, gesticulando:

--Ora, senhores, que  forte desgraa a minha!...  forte desgraa!...
Aqui estou eu!... Um homem casado... casado  face da igreja... que me
casou em dia de S. Thiago o abbade que foi... e que Deus tenha em
descano. No faltou nada... correram-se banhos deante de quem os quiz
ouvir, e no houve quem puzesse impedimento... porque eu no devia nada
a ninguem... sempre fui liso de contas... Sou casado com a Catharina do
Nascimento de S. Joo Baptista, filha do Antonio Canhestro, do logar dos
Fjos... E casado para qu? Faz favor de me dizer? Para que casei eu?...
Forte desgraa a minha! Casei-me para isso!... Para vir para casa e
achal-a vazia, o lume apagado e o caldo na horta... e a mulher a papar
missas e novenas l por essas igrejas... Ora, senhores, que  forte
desgraa a minha!  forte desgraa!... Bem morria eu de frio e de
fraqueza, se no fsse aquelle quartilhito... o ultimo, que sempre me
deu sua aquella... sim... sempre me conchegou o estomago. No que dizem
que o vinho que faz, que o vinho que acontece... Pois casem-se com uma
mulher que v de madrugada para a igreja e venha de l quando muito bem
lhe parea, e vero depois se o vinho no serve de cobrir muita lazeira
que se soffre... vero depois... Ora, senhores, que  forte desgraa a
minha!... Diz que Deus que disse, que a mulher que era a carne da nossa
carne e o osso do nosso osso... Deus devia de vez em quando tornar a
dizer estas coisas... para no esquecerem... como se faz na escola com a
taboada. A minha Cath'rina j o no sabe, aposto... e pelos modos os
padres no lhe dizem isto na igreja... pois deviam dizer!... A carne da
minha carne e o osso do meu osso!... mas  carne e osso que me no fazem
caldo... Ora, senhores, que  forte desgraa a minha!... Como ha de um
homem, se isto assim continua, pegar na enxada para dar uma cavadela, ou
fazer qualquer sachada?... E tambem quero vr como hei de no arraial e
procisso de Santo Amaro, que no tarda ahi, dar sequer um rufo assim
mais tal... assim mais scientifico? Eu se fsse bispo...

A caudalosa corrente d'este soliloquio foi interrompida pela appario
de nova personagem  porta do quintal.

--Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha um bocadinho de
paciencia.  um instante emquanto accendo o lume e lhe fao o caldo.
Ver.

A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, era uma rapariga de
doze annos, alva e franzina, como a mais delicada creana da cidade, com
os olhos negros e expressivos de intelligencia e de doura, e com os
mais formosos cabellos louros que ainda enfeitaram uma cabea infantil.
No havia n'elles sombra, que desvanecesse aquella cr deslumbrante;
reflectia-se-lhes a luz nas ondas, naturalmente lustrosas, como em
tenuissimos fios de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre de
artificio, de um e de outro lado do collo.

Condizia com a expresso angelica do semblante o suave e affectuoso
timbre de voz com que falra.

O leitor prev de certo que  Ermelinda, a filha do Cancella, ou
Lindita, como geralmente na aldeia lhe chamavam, a creana que tem na
sua presena.

Ermelinda sobraava um mlho de hortalia, que fra colher ao quintal, e
dirigia-se com ella para o lar, que o descuido e a indifferena conjugal
deixavam ainda apagado quella hora do dia.

Dando, porm, com os olhos em Augusto, parou, sorrindo-lhe.

--Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu padrinho talvez sem
reparar.

A estas palavras o desditoso marido voltou a cabea e fitou em Augusto
um dos seus desemparelhados olhos.

--Ol, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem! Entre; esta casa  sua... De
jantar no lhe offereo... porque... porque... Forte desgraa a minha...
Olhe! repare para este desaforo!... Venho para casa, morto de
trabalho... e vejo o lar apagado! A minha mulher est a ouvir missa, a
confessar-se, a commungar... a tomar todos os sacramentos... acho que os
est a tomar todos... Louvado seja Deus! Vem ahi to limpa de
consciencia, como eu estou do estomago... Ora, senhores...

--Deixe estar, padrinho... Ver como isto se arranja depressa... Olhe; o
lume j est accso--dizia Ermelinda, accendendo effectivamente o lume
no lar.

--J o devias ter feito antes, Lindita,--disse Augusto, sentando-se
junto d'ella.

--Mas se inda agora vim das prsas, onde fui lavar a roupa?

--Pobre pequena--disse o Z P'reira--tambem no te ha de faltar lazeira,
tambem!

--A mim? Agora. No que eu no sa de casa com as algibeiras vazias.

--Pois sim... mas  sempre preciso coisa que conforte... Inda se tu
bebesses... j no digo um quartilho...

--Credo, meu padrinho! Que est a dizer?

--Que espanto!... Ora, senhores, que parece que o vinho  bebida
amaldioada, que todos lhe teem mdo!  vr se o padre na missa...

--Padrinho! padrinho! que vae dizer?--interrompeu Ermelinda, quasi
aterrada.

--Eu digo o que  verdade, rapariga!... Tenho minha presumpo de nunca
dizer seno a verdade... L o pespeguei na cara do sr. juiz de direito e
mais do sr. doutor delegado e mais doutores, quando fui a um juramento,
por causa d'aquellas pancadas no recebedor...  que nenhum d'esses
santalhes, d'esses missionarios me teem que ensinar n'esse ponto... Os
missionarios!... Eu, um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao
trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem no pulpito, se
Deus lhes manda que tirem as mulheres de casa, para que os maridos no
tenham que comer, quando voltarem do trabalho... Um dia inda lhes vou
perguntar... isso vou...

--Olhe; a agua no tarda a ferver; ver que dentro em
pouco...--continuou Ermelinda.

--Bem, Lindita, bem--disse Augusto--em paga da boa vontade, com que
trabalhas, vou dar-te uma alegre nova.

--A mim? Diga.

--Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias te dar em vez de
visitas, um abrao.

--De quem? Ah!... Angelo escreveu-lhe?

--Como adivinhaste depressa!

--Pois de quem mais havia de ser? Mas diz que... em poucos dias...
Ento?

--Tel-o-hemos c pelo Natal.

--Fala verdade?

--Assim m'o diz n'esta carta. Queres ler?

--Para qu?--respondeu a rapariga, fitando porm o papel com os olhos
cheios de curiosidade.

--Ora l, l... At para vr se ainda te recordas das lies, que eu te
dei.

--Ai, l isso... mas, o caldo do meu padrinho...

--Deixa que o lume  que o ha de aquecer e no a tua presena.

Ermelinda approximou-se; tomando a carta das mos de Augusto, comeou a
ll-a com intensa curiosidade.

Z P'reira proseguiu no seu monologo:

--A religio, senhores--dissertava elle--no manda tal... Isso  que no
manda... A religio  a palavra de Deus... e Deus disse... sim... Deus
disse... Deus disse muita coisa... Disse que por este deixars pae e
me. Ora a santa madre igreja  me, , sim, senhores; que tem l isso?
mas no  mais me do que a outra me... e ento... senhores, uma mulher
no deve deixar por ella o seu marido; porque o marido, senhores,  o
tudo de uma casa, e o ganhapo da familia. Ora, senhores, que  forte
desgraa.

O monologo do desconsolado conjuge e a leitura de Ermelinda foram
interrompidos por uma voz potente, que cantava na rua.


  O dinheiro paga tudo,
  No se fica a dever nada;
  Toma, toma o limo verde,
   da fresca limonada.


E logo em seguida estalaram as taboas do soalho no corredor sob uns
passos pesados e ruidosos, e no limiar da porta da cozinha desenhou-se a
figura agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da Ermelinda.
Cancella, ou o Joo Herodes, que assim tambem lhe chamavam por ter
creado, nos autos em que era actor applaudido e popular, o typo do
sanguinario e infanticida rei da Juda, fra pela natureza dotado de uma
estatura e robustez, dignas de Adamastor.

Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas realisaes dos
temperamentos sanguineos que, sem ameaarem de insultos apopleticos, do
riqueza ao sangue, vigor aos musculos e  physionomia o aberto e
colorido da saude e os reflexos da satisfao interior.

A barba negra e espessa cercava-lhe as faces cradas, e o natural fulgor
dos olhos parecia augmentado sob o duplo arco de bastas sobrancelhas,
que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras ameaadoras, d'onde
fuzilavam relampagos. Era formidavel ento!

O riso pairava-lhe porm, nos labios, quando na presena de amigos,
descobrindo-lhe duas fileiras de alvissimos e bem dispostos dentes,
d'esses que os excessos e absurdos culinarios ainda no deterioraram.

Parando  porta da cozinha, o Herodes (s vezes lhe chamaremos assim,
cedendo ao geral costume na aldeia) procurou com a vista alguem, que
mais que tudo trazia na memoria--a filha.--Esta, pela sua parte, mal o
reconheceu, correu a lanar-se-lhe nos braos.

O pae pegou n'ella, como se fsse uma penna, levantou-a  altura dos
labios e pousou-lhe nas faces dois sfregos e ruidosos beijos, ainda
palpitantes de todo aquelle intenso amor paternal.

--Ah!--exclamou, pousando-a no cho e respirando como quem acabava de
satisfazer uma intensa necessidade do corao.--Isto consola que nem o
copo de agua que a gente, em dias de calma, pede  borda da estrada,
quando se leva a bca secca e queimada de poeira! Mais do que isso me
sabem estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?...  sr.
Augusto! tambem por c?

--Esperava-o, Cancella.

--A mim?--continuou o homem, pousando no cho uma mala que trazia.--Pois
aqui me tem. Mas, dizia eu, um homem quando anda l fra, e pensa no que
lhe ir por casa, sente s vezes uns sustos, que parece que lhe fazem
tudo escuro... As desgraas, para succederem, no pem muito... De um
momento para outro... E depois a gente ouve por l conversas, v coisas
que parece que so agouros... e que nos fazem a noite no corao... Umas
vezes  um enterro... outras, um desastre... um fogo... um... E as
creanas ss, e os paes fra de casa!... Ai! Isto  de ralar o corao
de uma pessoa... Eu bem sei que em boa companhia me fica a pequena. Aqui
o compadre, tirante l a sua aquella pelo sumo da uva... Quantos foram
j hoje, compadre, hein?... mas, tirante isso,  homem de bem: a comadre
 uma santa, que s tem o defeito de querer ser santa devras... mas
emfim... tudo isso no obsta; uma coisa  uma pessoa saber o que lhe vae
por casa, outra... Tremem-me as pernas sempre que entro na aldeia. A
primeira alma de Christo, que encontro, estou sempre a vr quando me vem
dar alguma nova m. Salta-me c por dentro o corao, que ninguem faz
uma ideia; eu bem canto a vr se disfaro, mas... Ai, filha da minha
alma, quando me passa pelo pensamento que te posso um dia vir achar
doente!... Assim me succedeu com tua me... Deixei-a uma vez to
satisfeita e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa que
encontro, diz-me  queima-roupa: Venha, sr. Joo, venha, que j no vem
sem tempo. Corra a casa, se ainda quer vr sua mulher... Foi como se
recebesse uma descarga em cheio no peito... corri, e...

A commoo impediu-o de continuar; disfarou como envergonhado d'aquella
fraqueza, beijando a filha outra vez.

Ermelinda percebeu a perturbao do pae e disse-lhe carinhosamente:

--Para que est agora a pensar n'essas coisas que o affligem, meu pae?

--Deixa-me c, rapariga. Isto s vezes tambem faz bem. Mas, por isso,
quando entro em casa e te vejo, pequena, e te vejo com boas cres e
alegre... nem eu sei o que tem mo em mim, que no me ponho a danar.
Ah!... ah!... Ninguem tem uma filha como eu! Olhe que no, sr. Augusto;
mal fica a mim dizel-o, mas... L por Lisboa e por o Porto ha muita
menina galante, isso ha; muita inglezinha loura, bonitas como anjos, mas
cabellos assim dourados?--e passava com orgulho os dedos pelos bastos
cabellos de Ermelinda--mas uma pelle assim delicada,--e afagava-lhe com
as mos a face, quasi a mdo--mas olhos assim a metterem-se mesmo pelo
corao  gente?--e beijava-lh'os com paixo--isso  que eu ainda no
vi, nem tenho de vr. Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um
selvagem como eu,  que no sei...  a imagem da me!... Ella tambem era
poucochinho de si... miudinha e... Mas no pensemos n'estas coisas. Sim,
senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal com a minha vida por
arranjar e eu posto  taramela. Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e
muitos recados, muitos.

--J sei; Angelo escreveu-me.

--Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle! Aquillo  uma perola!
Com tres milheiros de demonios do inferno! d'alli ha de sair coisa
grande. Eu no queria morrer sem vr o que saa d'alli. Brinca como uma
creana, mas, quando quer, pe-se srio, e fala como homem. E nada de
soberbas, nem de ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da
cidade, quando conversam com uma pessoa rustica... Qual historia! Elle
tudo quer saber, tudo pergunta... isso  um nunca acabar, quando l me
pilha... Ento como vae fulano? e sicrano? e se j se fez aquella casa,
e se j acabou aquella obra, e se j casou este, e se inda vive aquelle,
e mais para aqui, e mais para acol, e tudo quer muito explicado... Ah!
ah! ah!... tem diabo o pequeno... Pois c a respeito da rapariga?...
Isso  uma comedia!... No se farta de me ouvir falar d'ella... Ah, sr.
Augusto, s vezes chego a ter pena de que isto nascesse minha filha.

Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.

--Sim, filha,--proseguiu elle.--Deus no te devia dar a um homem como
eu, que emfim... Com os diabos! l alma e corao... no quero que haja
ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um amigo... e com mil demonios,
at por um inimigo, se no fr soberbo, vamos l, dou a camisa do
corpo... Mas o mundo... Bem, bem, eu c me entendo. Vamos  minha
tarefa. Mas que tem voc estado para ahi a prgar, compadre, desde que
eu entrei? Humh! humh! parece-me que j se cantou a gloria, hoje, visto
que j se est ao sermo.

Effectivamente Z P'reira tinha apenas concedido ao seu compadre um
olhar de distraco e um aceno de mo, e voltra de novo s suas queixas
amargas contra a sorte e contra a esposa.

Interrogado pelo Herodes, Z P'reira reproduziu uma das suas
lamentaes; o compadre, emquanto desenfardelava a mala, ia cortando com
reflexes proprias essa longa jeremiada.

--Ento com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo, hein?  mal feito, a
falar a verdade. Lume apagado em casa de familia  coisa triste... Aqui
est um livro para si, sr. Augusto... Mas deixe l, compadre, que a
minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas beras... Tambem eu estou em
jejum desde as cinco horas da manh... mas estes missionarios! Ah! com
seiscentas mil duzias de demonios, eu ainda queria um dia...

--Deus nosso Senhor seja n'esta casa--disse uma voz gemida  porta da
cozinha.

--E o demo na do abbade--resmungou Herodes.

Era a sr.^a Catharina do Nascimento de S. Joo Baptista, typo de beata,
que dispensa descripo, que regressava a casa depois de completar o
cyclo das suas devoes.

--Viva a comadre!--disse o Joo Cancella, continuando a mexer na mala.

Ermelinda foi beijar a mo  madrinha.

Augusto saudou-a affavelmente.

O marido obrigou o corpo a uma meia rotao sobre o alqueire, e,
voltando-se para a mulher, disse-lhe, agitando os braos e as mos,
espalmadamente abertas:

--Mulher dos meus peccados, mulher de no sei que diga, olha que a
paciencia um dia acaba-se, mulher! Isto no pode continuar assim,
mulher! Eu no me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias na
igreja, mulher!... Isto so preparos, mulher?... Um homem chega a casa e
acha o caldo por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir nove
missas por dia e uma duzia de novenas!

--Cala-te, cala-te,--retorquiu azedamente a devota metade do Z
P'reira--cala-te para ahi, desalmado. Excommungado seja o mafarrico, que
assim me quer attentar logo que entro em casa! Olha l que no morresses
de fome! Ests mal acostumado. Louvado seja Deus! J no ha quem queira
soffrer n'este mundo mortificaes! cuidas que no tens de soffrer as do
purgatorio? E Deus nos queira dar s o purgatorio e livrar-nos das penas
do inferno. Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia! Ora que
no ha de uma pessoa poder ter as suas devoes, que no venha encontrar
lamurias em casa!  minha rica Me do co, seja para desconto dos meus
peccados! Sume-te, inimigo mau! E eu que deixei de rezar oito estaes,
que prometti  Senhora da Rocha, e vae... Ora digam como ha de esta
gente cumprir os jejuns que manda a santa madre igreja, se, por duas
horas de espera, j se choram todos! Bemdito e louvado seja o
sacratissimo corao de Maria!  homem de Deus, e ento aquelles santos
eremitas, que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes...

--Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os vr com
uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois
raizes para roer, a vr se gostavam. Ora, senhores, que  forte desgraa
a minha! Mulher, a religio manda que olhemos pelo nosso cadaver.  m
christ a mulher que deixa o seu marido na penuria. Isto  que os padres
deviam ensinar. Vae-lhes l perguntar se, quando chegam a casa, no teem
a spa e o toucinho  espera d'elles?

--Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem vergonha n'essa
cara. Olha agora! Eu queria vr-te com o trabalho do sr. padre Domingos.
Coitadinho! desde as cinco horas da manh at agora a confessar!

--Confessar  parolar; ora adeus!

--Tu ests doido, alma perdida?!

--E cuidas que elle no leva marmelada nos bolsos?

-- chagas do seraphico S. Francisco, ainda mais terei de ouvir?!

--Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns ninguem engorda. S os
santos... de pau.

--Vamos, vamos--disse o Herodes, intervindo.--No vale zangarem-se por
causa d'isso. A minha pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em
santa paz e deixem-se de testilhas, que no  bonito; e muito menos
entre marido e mulher. Voc, compadre, tambem tem culpas em cartorio;
vamos l. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa tambem bastante
tempo em devoo; emquanto  comadre, acredite o que lhe digo: a palavra
de Deus no  to difficil, que uma pessoa precise de estar tanto tempo
a ouvil-a explicar. Eu c penso que, fazendo a gente aquillo que lhe diz
o corao, e que no sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho
direito. E mais vale fazer o que Deus manda, do que levar a vida a pedir
perdo por o no ter feito. E tambem no  bonito estarem agora as
mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario, como lapas nos
rochedos, nem...

--Compadre!--atalhou escandalisada a sr.^a Catharina--compadre!  essa a
educao que d  sua filha? So coisas que se digam deante de uma
creana de doze annos? Ande l, ande l... Ora Deus queira que lhe no
encontre ainda o pago. Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse
ensinar, a doutrina; que  mesmo uma vergonha o pouco que sabe d'ella.

--Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda no deixa passar pobre
 porta, a quem no d esmola; creana que no afague; velho ou velha,
que no corteje; reza todas as manhs a orao, que a me lhe ensinou, o
Padre-Nosso e a Ave-Maria, onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus;
de dia trabalha, como filha de pobre que , e mulher de casa que ha de
ser... O Senhor me perde, se mais  preciso ainda, que mais no sei eu
ensinar-lhe.

--No tenha soberbas, compadre, no tenha soberbas! E cautela com o mimo
que d  pequena, que  o que perde muitas almas.

--Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio de repentes  que hei de
dar mimo a esta pobre creana, que nem o da me conheceu!

--Ora diga, compadre, acha que  muito bem feito, da sua parte, deixar
andar a rapariga com esses cabellos soltos? No sabe que o demonio...
cruzes! arma com elles laos s almas das creaturas?

--Fracas prises so as do diabo, se as forja s de cabellos!... Ento,
por causa das tentaes  que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem
coisas!  teima velha! Eu j lhe disse, comadre: Deus, que deu  pequena
esses cabellos to bonitos,  porque lh'os quiz dar. Se quizer, que
lh'os tire, eu  que no.

--Deus cerca-nos de tentaes, para que ns as venamos.

--Forte tentao venceu a comadre! aposto que os no cortaria assim, se
os tivesse como os da minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos  minha
filha, eu?! fazer d'aquella cabea de cherubim uma d'essas cabeas
tosquiadas, que por ahi andam!

--Talvez ainda se arrependa!

--Deixe l, comadre. O que eu vejo  que, junto de Deus e da Virgem, se
pintam anjos, como a minha pequena, e no figuras... respeitaveis, como
a da comadre; ora ento...

A beata, apesar de trazer sempre na memoria o _Vanitas vanitatum_ do
_Ecclesiastes_, no foi inteiramente insensivel ao remoque do compadre.
Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe como
para descarregar sobre ella a m vontade com que estava ao pae:

--Sae-te p'ra l. O senhor meu homem tinha muita pressa de jantar!
Deixar assim uma creana fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um
boi!  preciso no ter consciencia.

E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar o dicto.

Z P'reira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro
recebido.

Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo d'aquella creana, que
era de uma organisao nervosa, excepcional na aldeia, exercia a beata
uma especie de fascinao, um mixto de respeito e de terror, capaz de
dissipar todos os risos dos seus labios infantis. Era outra na presena
da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os bellos
olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o movimento dos labios
austeramente contrahidos; tremia ao escutar-lhe a voz aguda e
penetrante, falando nas penas do inferno; chorava  menor reprehenso
que d'ella recebia, e comtudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda na sua
candura de creana, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe, como
virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha; a innocente
julgava-se uma grande peccadora quando, depois de ter na mente aquelle
perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consciencia;
e que negros e hediondos peccados l encontrava! Uma pequena mentira que
dissera; um domingo em que faltou  missa; um juramento que, sem o
sentir, lhe saira da bca; um jejum que no guardra, e outros crimes da
mesma fra. A amedrontada creana chegava a receiar pela salvao da
alma.

 sempre funesta a influencia que exercem sobre a infancia os caracteres
como os da beata.

O Herodes percebeu a impresso sob a qual estava a filha e acudiu-lhe.

--Toma l, Ermelinda--disse elle, tirando da mala uma pequena medalha
com um retrato.-- um presente do nosso amigo Angelo para ns, ou antes,
para ti...

Ermelinda pegou no retrato com no reprimido alvoroo. Era outra vez a
creana.

A madrinha lanou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o
retrato.

--Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!--rompeu ella, com um
espanto exaggerado.--Este homem no tem a cabea no seu logar, por mais
que me digam! Elle quer perder a filha de certo! A fazer a cabea doida
a uma creana!

O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com impeto a mala no cho, e
com os olhos chammejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o
campo  clera, que se lhe accumulou no seio:

--Com seiscentos milhes de diabos! Voc que est ahi a dizer, mulher?
So os sermes dos missionarios, que lhe teem assim afiado a lingua e
deitado peonha na baba? Com effeito! Saiba que dou mais pela creana,
de quem  aquelle retrato, do que por quantos sotainas lhe ouvem os seus
peccados todas as semanas e por quantas beatas andam comsigo a dar
marradas no lagdo da igreja. Fazer a cabea doida  minha filha! Tenha
mo na lingua, comadre, que lhe no soffro tanto. Doida lh'a trazem a
vossemec os missionarios e os sermes. Seu marido fra eu, que a mania
lhe tirava.

O Z P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos, zelava a dignidade
do casal; e no levava  paciencia que outro, alm d'elle, dissesse
d'aquellas verdades  mulher; por isso, ouvindo-as, atravs dos sonidos
que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se nas pernas
vacillantes, e bracejando sempre, bradou:

--Compadre! Eu sei quaes so os meus deveres! Compadre, prudencia!...
Compadre, eu no consinto... Ora, senhores, que  forte coisa!
Compadre!... veja que eu  que sou aqui o chefe da familia e esta 
minha mulher! Pschiu... Basta... Compadre... basta. Ento? Ora,
senhores.

Mas o Herodes j nada attendia; cada vez mais lhe crescia a vermelhido
nas faces; a irritao rompera os diques da cordura e ameaava engrossar
cada vez mais. s exclamaes de Z P'reira respondia j azedamente.

--Ora adeus, temos conversado... Seja homem, que bem precisa... No
basta dar  lingua... Na taberna no  que se governa a casa...

A sr.^a Catharina abstinha-se agora prudentemente.

Ermelinda, pallida, a tremer, abraou o pae, quasi chorando.

Augusto, que fra alheio ao principio da contenda, conheceu emfim que
precisava de intervir. Saiu-lhe difficil a empreza.

Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho.

Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os. Deram-se mutuas
satisfaes, e separaram-se apertando as mos.

Augusto retirou-se com Joo Cancella e Ermelinda.

O par conjugal ficou, renovando-se cdo entre elles a interminavel
contenda em que viviam.




VIII


Saindo de casa do Z P'reira, Augusto teve de escutar, ainda por muito
tempo, as vociferaes e pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza
do compadre, que assim deixra a mulher tomar sobre si um ascendente
offensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado
silencio e atteno um pouco distrahida, conseguindo emfim a custo
soltar-se das mos do seu interlocutor, que, no fogo da exposio de to
justos aggravos, lhe segurava os braos com pouco affavel vivacidade; a
final, porm pde deixal-o e voltou a casa.

Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobilado com uma
banca, poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.

Era alli o seu logar de descano; a escola era em outra casa vizinha.
N'esta no havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vestigios que lhe
recordassem as do supplicio.

Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor da humanidade, s
entrevs delicias na tarefa do ensino, e fazes d'este vigiar e
encaminhar o espirito infantil, que desabrocha e respira pela primeira
vez no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro de phantasia,
perda-me a palavra, supplicio, de que me servi, e perda ainda mais ao
caracter de Augusto o ter saido exacta a expresso, que te feriu os
humanitarios instinctos.

Eu bem sei que  uma sublime misso a do mestre: e que  uma graciosa e
amoravel idade a da infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam
presente o ideal de uma e amenisavam  outra com branduras os amargores
do penoso tirocinio;--mas que importa? nem por isso  menos real o
supplicio. A cultura dos espiritos  como a cultura das terras. O
lavrador exulta, estremece de prazer, vendo pullular do solo, arado e
semeado de pouco, os rebentos do gro que o calor fez germinar, e
volverem-se as folhas, estenderem-se e enflorarem-se os ramos, penderem
os fructos e colorirem-se das tintas da madureza; mas, emquanto vergado,
coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno duro e quem
sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe fallece o alento, e se
olha de quando em quando para o co, no  para lhe agradecer, com risos
os gsos que elle lhe d; mas para lhe pedir, com lagrimas, a fra que
lhe minga.

De igual modo, se  grato ao cultor das intelligencias o vl-as
desenvolver, florir, fructificar; ardua, improba, desesperadora  muita
vez a tarefa da sua primeira educao.  mister possuir um grande
thesouro de ideal, para que o suave e risonho typo, que da infancia
concebemos, no se transtorne, na phantasia d'estas victimas d'ella, em
no sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena todos os
momentos de alegria.

Alm d'isso, o pobre professor de instruco primaria, sobre quem pesam
os mais fastidiosos encargos da instruco, no pode ser comparado
absolutamente ao agricultor do nosso simile;  antes o jornaleiro
contractado por magro salario, para,  fra de brao, lavrar o solo,
d'onde, mais tarde, romper a vegetao, que elle no ter de vr e que
a outros conceder os gsos e o beneficio. Venceu tambem o humilde
professor, e por o mesmo preo que o jornaleiro, que no vo mais longe
com elle as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores cruezas
do magisterio; mas no ver tambem o resultado das suas fadigas.
Fogem-lhe as intelligencias, que educou, justamente quando com mais amor
as devia contemplar, e, se o destino reserva a qualquer d'essas
intelligencias um futuro de glorias, raro  que volvam um olhar
agradecido para as humildes mos, que as sustentaram, quando ainda no
tinham azas para voar.

Quasi todos os grandes homens commettem esta ingratido. Falam nos seus
mestres de philosophia, de mathematica, de litteratura, e no salvam do
esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os
ensinou a ler.

Consideraes da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar, no
so as que mais preoccupam o pensamento da maioria d'esses pobres
diabos, que, por noventa mil ris annuaes, se deixaram ligar  atafona
do ensino primario da aldeia; porm devem ser, alm das miserias de to
mesquinha sorte, causas de grandes torturas moraes para alguma alma de
instinctos e aspiraes mais elevadas, que o destino amarrasse, como por
escarneo, a este poste de expiao. N'esse caso estava por certo a alma
de Augusto. No vasto mundo, que os livros abrem s imaginaes, que na
vida real no encontram deleite, refugiava-se elle nas horas em que as
suas obrigaes lhe permittiam respirar.

D'esta vez, porm, por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer.

Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas e chamou-o de fra uma
voz bem conhecida d'elle.

Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.

--Sr. Augusto,  meu querido sr. Augusto. _Amice!_ Pode falar a um amigo
e colega?--dizia elle.

Augusto foi abrir-lhe a porta, no reprimindo um gesto de enfado.

O latinista entrou esfregando as mos.

--A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado aos livros!--dizia elle,
batendo no hombro a Augusto.--Invejo-lhe mais a pachorra do que o
proveito. Olhe que no medra com isso; nem ninguem lhe agradece as
canceiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa c n'este
mundo, tolo  o que se mata. E ento n'este paiz!... Faa como eu.

E, imitando com a bca os sons da trompa, seu instrumento predilecto,
poz-se a examinar os livros que via sobre a mesa.

--Ento que estava lendo? que estava lendo?... Poh! poh! poh!...
Versos... Ora que nunca pude gostar de versos!... Poh! poh!... E no 
agora porque se diga que no tinha quda; no, senhores; em tempos fiz
at algumas quadras... Poh! poh!... j se sabe, at certa idade, mas
nunca fui muito para ahi... Poh!... A minha vocao  para a musica...
Poh! poh!... L para a musica, sim... Poh! poh! poh!... Herman e
Dorotha--continuava elle, examinando os livros.--Novellas... Poh!... E
isto que ? _Confessions_ de Rousseau--n'este nome deixou aos diphtongos
o valor portuguez--Poh! poh! As Metamorphoses... Latim! Oh que massada!
Poh! poh! poh! poh!...--E o Ovidio, que lhe chegra s mos, foi
arremessado como se estivesse em braza.

Augusto no pde conservar-se srio, ante o instinctivo movimento de
repulso do mestre.

--Ento que boa fortuna o traz por aqui, sr. Pertunhas?--perguntou elle.

--Ai,  verdade; eu lhe digo ao que venho.  para lhe pedir um favor,
meu caro sr. Augusto. Eu bem sei que  abusar da sua bondade...
_Quousque tandem, Catilina_... Mas,  por esta vez...

--J sei; quer que lhe v dar lio aos rapazes.

--Ah! grande magano, que adivinhou--exclamou o mestre, abraando
Augusto com effuso.-- isso mesmo, se lhe no custasse...

--Irei.

-- que... eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da philarmonica...
Percebe o senhor? Os Reis esto ahi  porta e as outras festas do Natal,
e no ha tempo a perder... Percebe? E eu tenho ainda umas peas do
_Trovador_ para ensinar  minha gente. So muito bonitas... Poh! poh!
poh! E ento este anno, que pelos modos temos c o conselheiro e mais o
pequeno... No contando com esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha.
Chama-se Henrique de Souzellas,  sobrinho da velha, da D. Dorotha, e
julgo que ainda aparentado no Mosteiro. L chamam-lhe primo. Esteve l
esta manh um par de horas, logo que saiu da minha repartio. Dizem-me
que  filhote de Lisboa, solteiro, rico e sem modo de vida. Rico e sem
modo de vida! Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente muito
feliz! Aqui para ns, sabe ao que me cheira a visita d'este senhor?
Aquillo  mosca que vem ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira
d'isto. Pois no lhe parece, hein?

--No sei bem o que quer dizer com a imagem--respondeu Augusto,
levemente enfadado.--Alm de que no posso adivinhar as intenes de um
homem que pela primeira vez encontrei esta manh.

--Pois est claro que no; nem eu; mas emfim uma pessoa logo tira pelo
que v... Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a
boa musica, _et coetera_, andar leguas e leguas para se metter n'este
desterro... Porque isto  um desterro. Sim, deve concordar que no 
natural. Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, _et coetera_...
O senhor bem me percebe... Todos, hoje em dia, sabem o preo ao
dinheiro, meu amigo.

A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando
Augusto, que no redarguia.

--Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, j depois de
manh vae o rapaz acompanhar as pequenas  ermida da Saude. Ah!... mas
agora me lembro! o senhor  tambem da sucia.

--Eu?!

--Com certeza. Disse-m'o o Damio, que tem ordem das pequenas para o
convidar. Se ainda no recebeu o recado, ha de recebel-o. Em todo o
caso, observe-o e ver se eu tenho razo.

--Vou jantar, sr. Pertunhas, que j ha muito para isso me chamou a
criada--disse Augusto, erguendo-se como para fugir quella conversa.--Em
seguida irei aos seus rapazes.

--Ento v, v. Deus lhe pague o favor que me faz e permitta que eu lhe
no pea muitos d'estes. E eu tenho esperanas... Sabe que ando com
ideias de arranjar o lugar de recebedor, que est, como diz o outro, a
encher dias? J falei ao conselheiro; mas o conselheiro promette muito e
falta melhor, sobretudo a um homem que no tenha influencia em eleies.
O sr. Joozinho das Perdizes interessa-se por mim,  verdade; mas, por
outro lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vr se consigo
pr o Seabra a meu favor, porque emfim... Mas v, v jantar, que eu
espero.

--Se quizer fazer-me companhia...

--Muito obrigado. Eu j jantei. O meio dia  a minha hora. Jante  sua
vontade.

Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando s, deu algumas
voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto,
poz-se a examinar os papeis que ella continha.

Ao mesmo tempo simulava umas variaes de trompa,  fra de contraces
e esgares dos labios.

A pasta, victima da indiscreo do mestre, era a mesma que Augusto
trazia, quando o vimos no Mosteiro.

Entre os documentos contidos n'ella algum achou o mestre Pertunhas mais
curioso do que as escriptas e themas dos discipulos, pois, ao ll-o,
desenhou-se-lhe no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo
a exhibio acustica, que com tanto ardor encetra.

Leu-o at o fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta de si,
para verificar que no era observado, dobrou-o e sorrateiramente o
escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no sitio d'onde a
tirra, continuou a ler ou a fingir que lia com toda a atteno um livro
e encetou novas variaes de trompa.

--Ento j! Apre! Isso  jantar a vapor--disse o latinista, pondo-se a
p, logo que Augusto voltou.

E momentos depois sairam juntos.

Querendo poupar os leitores  semsaboria de assistir a uma lio de
latim e a um ensaio da philarmonica, deixal-os-hemos ambos, para
voltarmos ao Mosteiro.

Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao
parapeito do muro da quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares
vizinhos, a vista se espraiava em amplissimo horizonte at umas nuvens,
que pareciam limital-o.

D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias da sesta habitual. As
creanas brincavam a alguma distancia, e os risos e os clamores d'ellas
vinham como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas raparigas, que,
a cada momento, se surprehendiam em meditativo silencio.

A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se estreitos e
longos traos nebulosos, a que o sol dava um colorido to ardente, que
se o pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria, ao passal-o 
tela, com receio de que o acoimassem de exaggerado. O verde dos campos
apresentava a gradao vigorosa, que a luz de um formoso dia de inverno
costuma dar-lhe.

Christina interrompeu o silencio por fim.

--O que eu no sei--principiou ella-- como o primo Henrique de
Souzellas...

--Onze!--atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto da
perspectiva, que fitava.

--Onze qu?--perguntou Christina, erguendo os d'ella.

--Com esta so onze as vezes que, esta tarde, depois de um longo
silencio, abres a bca para me falares no primo Henrique de Souzellas,
uma vez que est decidido que seja primo.

Christina fez um gesto de despeito e crou levemente.

--E ento que queres dizer com isso?

--Eu? Nada. Digo s que so onze vezes com esta.

--No sabia que era prohibido falar-te no primo Henrique. Bem, n'esse
caso falaremos em outra coisa. Est um tempo muito bonito: nem parece
dezembro.

--No; vae magnifico para os nabaes--replicou Magdalena zombeteiramente.

--Se no mudar com a nova lua--continuou Christina, ainda formalisada.

-- excellente para seccar os milhos, que bem precisavam ainda d'isso,
principalmente os das terras baixas.

E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir.

--No sei de que te ris!--acudiu Christina, cada vez mais sria.--Pois
no  esta a conversa de que tu gostas?

--Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de lavoura; bem sabes.--E,
mudando repentinamente de tom, accrescentou:--Ora vamos, Christe; no te
zangues commigo.

--No, mas  que s vezes no te entendo, a falar verdade. Vens com umas
coisas que mettem raiva--respondeu-lhe Christina, sempre agastada.

--J estou arrependida; peo perdo. Fala l  tua vontade no primo
Henrique, fala; que eu no contarei as vezes que o fizeres.

Christina reproduziu o gesto de impaciencia.

--Agradeo a tua generosidade, mas j no tenho mais que dizer d'elle
agora; por isso...

--Pelo menos completa a duzia.

--Lena! Ento! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair d'aqui.

--Sempre queria que te vissem agora, Christe, esses que andam por ahi a
gabar a docilidade do teu genio, as branduras da tua indole; queria que
te vissem essa cara arrenegada, para saberem que tambem ha um acidozinho
na tal doura... Mas fazes-me a graa de s para mim teres d'essas
franquezas.

Christina sorriu, ainda que no de todo aplacada, ao ouvir esta reflexo
da prima.

--E no sabes a razo d'isso?--respondeu-lhe ella--a razo  o genio que
tens, Lena. O teu gsto  mortificares uma pessoa. No ha santo que no
perdesse a paciencia comtigo.

--Que injustia! que ingratido! Eu, que sou a victima das tempestades
que o teu genio pouco expansivo te junta no corao a todo o instante!
Se alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas para o meu quarto; se
te irritam, vens desafogar as tuas clerazinhas sobre a minha cabea. E
pagas-me assim!

--s muito infeliz commigo. Pobre Lena!

--Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu disse ha pouco. No te posso
vr assim.--E tomando um tom natural, mas sob o qual transparecia ainda
certa malicia, Magdalena continuou:--Pois  verdade, dizias tu que no
sabias por que o primo Henrique de Souzellas...

Christina fez um movimento impaciente, como para levantar-se.

--Ento que  isso? No me acceitas a expiao?--perguntou Magdalena,
sorrindo.

--No; no quero que se fale mais no sr. Henrique de Souzellas. Vejo que
te no  agradavel que as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as
razes que tens para isso...

--Bravo! Foi admiravel de maldade o entono com que disseste esse: Sejam
quaes forem as razes. E venham-me falar na candura d'esta creana!

--Eu no quero dizer...

--O que queres dizer, no sei; mas vejo que no s senhora tua quando se
fala n'este assumpto.

--Que lembrana!--tornou Christina, cada vez mais embaraada--pois
imaginas devras que eu?...

--E por que no?

--Lena!

--No ha nada mais natural.

--Se queres, juro-te...

--Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mo nos labios.--Isso no, que 
mais srio. Jurar no te deixo eu. Conheo os escrupulos da tua
consciencia, e no quero obrigar-te a remorsos. Juro! E com que
ousadia ias pronunciar um juramento falso!

--Falso!

--Falso, sim; falso como os que o so. Olha, minha pobre Christe, queres
ento que te fale com toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de
proposito para confirmar umas suspeitas, que se me formaram e que vejo
agora que eram fundadas.

--Suspeitas! que suspeitas?...

--O primo Henrique de Souzellas deixou em ti uma tal ou qual impresso.

--Lena!

--Conheci isso ainda quando elle c estava; verifiquei-o depois e agora.
Ento! tem juizo. Commigo s sempre o que tens sido. Eu gso ha muito do
privilegio de conversar  vontade comtigo e de te vr sem aquella
timidez que tens deante dos outros. Com o teu genio, precisas de uma
pessoa, como eu, com quem no tenhas acanhamento e em quem possas at
descarregar algumas maldadezitas; e acredita que me lisonjeio com me
dares a preferencia.

--Mas como imaginaste?...

--Continuas? No tens de que te envergonhar pelo interesse que por
ventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souzellas  elegante, 
espirituoso, affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito trato
do mundo...

--Mas...

--Faa favor de me ouvir--atalhou Magdalena, pondo um dedo nos labios.
Reconhecendo todas essas qualidades n'aquelle nosso primo, no quero por
isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te j. E nem
receio que isso acontea, para te falar sinceramente, porque te conheo
o genio timido e porque... porque te conheo o genio timido e mais nada.

Havia mais alguma coisa, havia, mas no era coisa que se dissesse.
Magdalena sabia demais que Henrique no sara d'aquella primeira visita
demasiado impressionado por a imagem de Christina; sabia talvez,
suspeitava de certo, no me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto,
que no corao do hospede de Alvapenha reinava outra imagem mais
persistente. Mas vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ella
o poderia formular? O remedio pois era completar a phrase como a
completou.

Christina j no tinha ousadia para negar, nem ainda coragem para
confessar. Encostando a face  mo, calou-se e deixou falar Magdalena.

A morgadinha proseguiu:

-- preciso que saibas, Christe, que  mais facil conhecer os defeitos
de uma pessoa, do que as suas boas qualidades. Os defeitos so
imprudentes e linguareiros, denunciam-se, do signal de si, basta meia
hora para se descobrirem em qualquer logar que habitem. As boas
qualidades, no; essas so modestas, humildes, discretas; sabem
esconder-se. So precisos annos para as descobrir todas. Mas com que
olhos de espanto me ests fitando! Parece que te causa estranheza o meu
sermo? Eu te digo a que elle vem. Logo que falei com este nosso
primo... e quem sabe se o futuro vir confirmar, em relao a mim, esse
titulo, que por phantasia lhe dou? escusas de corar por eu dizer isto,
Christe...; mas, dizia eu, logo que falei com elle, saltaram-me aos
olhos muitos dos seus defeitos.

--Quaes so?--perguntou Christina com viveza.

--Socega; so ligeiros felizmente, e parece-me que os poder ainda
perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quiz-me tambem logo parecer
que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu
logo em mim a vontade de o sondar, a vr se conseguia purifical-o do que
n'elle houvesse de menos heroico. Ento que queres? para a aldeia era um
passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este desejo e
revestiu em mim mais srio caracter, desde que vi a impresso que este
sobrinho da tia Dorotha te causra.

--Lena! Como te deu para suppr que eu me apaixonei assim em poucas
horas? Julgo que me imaginas apaixonada?

--No, ainda no; inclinada, agradada, attrahida... ou outro qualquer
termo d'esta fra, que deixarei  tua escolha, isso sim. Para isso no
 preciso muito tempo. As razes, pelas quaes julguei isto, dispensa-me
de t'as dizer, que pouco valem. Suppe que foi por um tacto especial,
por uma qualidade occulta, como a do tino que dizem que teem certos
medicos para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente.

--Pois o tino enganou-te.

--Enganaria; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso fr
realmente o que eu imagino que , resta-me preparal-o para o tornar mais
digno do amor d'esta boa Christe, que em tal caso favorecerei; se no
fr, declaro-lhe j guerra e guerra de morte. A ti competia fazer isso
tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade e boa
f e da tua experiencia. Olha, estou certa que o que mais te attrahiu em
Henrique foi exactamente o que n'elle ha de peor. Certo verniz
mentiroso, certo colorido, que  preciso ter visto muita vez, e em
muitos individuos differentes, para se ter na conta devida. Illude,
agrada a quem no est costumado, e pode causar graves enganos e
desenganos mais graves ainda. Por emquanto o que elle nos mostra  mais
da sociedade em que vive, do que d'elle proprio.  necessario deixar
cair a primeira capa, para que o natural apparea.

--No sabia que era assim facil enganar-se uma pessoa a respeito de
outra--notou Christina, sorrindo.

--Se ! Lembras-te do que tantas vezes conta tua me? Que, quando ha
annos foi a Lisboa, comprou l por bom preo um cofrezinho que ella
suppunha preciosissimo, e que chora hoje a sua tentao, desde que o
verniz brilhante, que elle tinha, caiu e ficou  vista a realidade? pois
o mesmo acontece muitas vezes em contractos de outra ordem e bem mais
srios do que este. Ha vernizes maravilhosos, que illudem os
inexperientes.

Houve um instante de silencio, no fim do qual Christina perguntou,
olhando pela primeira vez fita para Magdalena:

--Ora dize-me, Lena, qual ser a razo pela qual eu no devo acreditar
que esses pensamentos te occorreram, porque era o teu destino, e no o
meu, que vias dependente do estudo que fazias?

A morgadinha fixou na prima um olhar triste e cheio de amargas
recriminaes.

--Por uma razo muito poderosa, Christe, porque ias abrir o corao a um
sentimento mau, que macularia o teu caracter generoso e candido--a
desconfiana. Porque me offenderias, duvidando da lealdade, com que te
falo, quando te falo sria; e porque me farias mal sem necessidade e
immerecidamente, pois que a consciencia me diz que t'o no merecia.
Satisfaz-te esta razo?

A voz de Magdalena perdera o tom de ironia, que s vezes tinha, e tomra
quasi o da commoo.

Christina arrependeu-se logo do que dissera, e, tambem commovida,
apertou as mos da amiga.

--No faas caso do que eu disse, Lena; perda-me. Quando eu duvidar de
ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei j, para tudo e para
sempre, envenenado o corao.

A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor.

--Estamos quasi a cair no sentimentalismo. Cautela! Saldemos antes as
nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensao da pequena offensa
que me fizeste, vaes-me fazer uma confisso formal, a qual at agora
tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu corao? Dize.

Christina hesitou.

--Vamos,--insistiu a morgadinha--acredita que preciso de uma declarao
para me guiar... E cr que  para bem teu.

--Que queres que te diga? Eu no me sinto apaixonada.

--Mas j te disse que me bastava um termo menos violento... um
agradada, por exemplo.

--Confesso que...

--Olha, se queres, podes at parar ahi. Esse confesso que... j diz
muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei. Afiano-te que no
corro o perigo de me apaixonar por elle; creio que ha alli um excellente
corao, mas que queres? No  o typo que me agrada... o meu ideal como
se costuma dizer.

--E ento qual  o teu ideal?

--Ai, eu sou muito exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma
especie de archanjo S. Miguel, animo de guerreiro em figura de cherubim;
e no sei onde o procure.

N'este sentido se prolongou o dialogo entre as duas primas, at que D.
Victoria, findando a sua sesta, veio ter com ellas  quinta. Segundo o
costume, ralhava contra os criados, a quem, no sei por que processo,
attribuia umas dres de cabea com que acordra.

No dia seguinte, Henrique voltou de manh ao Mosteiro; redobrou de
galanteio com Magdalena, a qual redobrou de ironia. Christina j mal
podia disfarar a pena que lhe causava o pouco que era attendida, mas a
sua timidez no a deixava luctar.

De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de
Alvapenha, que se promptificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos
da terra. Assim, com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar  nova
visita s senhoras do Mosteiro, para gastar as expresses da sua
admirao deante das alfaias da sacristia parochial; da tosca esculptura
de no sei que imagem de santo, a qual passava por um primor; de uma
sala nua, com uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras 
volta, que era a sala das sesses do corpo municipal; e de umas
pyramides de ripa, que tinham servido, havia oito annos, em festejos
officiaes.

Como  de suppr, Henrique passou uma tarde deliciosa.




IX


Dois dias depois da chegada de Henrique, e n'aquelle que se destinra
para o passeio  ermida, Christina foi mais madrugadora do que as aves.
 hora, a que estas ainda se no ouvem chilrear, j a prima de Magdalena
abandonava o leito, receiosa de se fazer esperar pelos companheiros da
projectada excurso matinal. Quasi no dormira toda a noite aquella
rapariga, com tal preoccupao.

As estrellas viram-a erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem
d'ella, antes de se esconderem discretas ante o apparecimento do dia.

Christina vestiu-se  pressa e dirigiu-se ao quarto de Magdalena. Esta
dormia ainda. O projecto de passeio  ermida no a alvorora tanto.
Christina foi acordal-a ao leito.

A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima.

--Que queres tu, Christina? Que lembrana foi essa hoje de andares
estremunhando a casa esta noite?

--Levanta-te, preguiosa, levanta-te. No o dizia eu hontem? Ento so
estas as madrugadas em que falavas?

--De certo que no so madrugadas; isto  noite  o que .

--Dentro em pouco  dia. Queres vr?

E, dizendo isto, Christina abriu para traz as portas das janellas e
correu as cortinas.

A estrella da manh, Venus, aquella brilhante e ao mesmo tempo suave
estrella, que umas vezes assiste no crepusculo s melancolias da
natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus jubilos,
scintillava mesmo defronte do leito de Magdalena.

--Vs?--disse Christina.

--Muito pouco.  esse o teu sol? Como vae alto!  pena que no alumie
melhor do que esta lamparina.

Christina sentia redobrar com estas delongas a sua impaciencia, quasi de
creana.

--Anda, Lena, anda. Assim no chegamos a vr do alto da ermida o romper
do sol.

--Pois queres vr isso de l?! Que crueldade! Em uma manh de dezembro!

--Est to bonita, que parece de primavera.

--Triste lembrana a nossa hontem de combinarmos este passeio. Isto  l
coisa que se faa? Vale por uma viagem aos plos.

Christina no fazia seno ir do leito de Magdalena para a janella e
voltar da janella para o leito, em virtude d'aquella irresistivel
necessidade de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos
quando nos deixamos apossar da impaciencia.

--No fazes ideia como est bonito c fra; n'alguns pontos ainda se v
neve.

--Oh, que agradavel e tentadora belleza! Ainda se v neve!... Parece-me
que j estou gelada... Com essa palavra tiraste-me o alento que ia
ganhando. Vs?

--Mas no est frio; at parece que aqueceu o tempo. Ento, Lena!...
Elles... no tardam por ahi. Cuidas que te vae custar muito, e  um
engano; aqui estou eu, que no sinto frio nenhum.

--Ora, mas tu ests em condies muito particulares. Quem tem uma
fogueira no corao, no precisa...

--Ahi principias com as tuas coisas!

--Eu no sei; o que  certo  que esse teu enthusiasmo pelos passeios
matutinos no  natural. Quantas vezes recusaste acompanhar-me quando eu
t'os propunha? Ora, se me ds licena, eu explico isso.

--No quero saber de explicaes; veste-te, anda.

--Seja! Infeliz lembrana a d'este passeio. E foi d'aquella tia
Victoria, que nem por isso nos quiz acompanhar. No, que j tem juizo;
dorme a estas horas o somno da madrugada, que  uma consolao. Que
sorte de invejar!

E a morgadinha, continuando assim a exaggerar o sacrificio d'aquella
madrugada e a alludir aos motivos secretos a que attribuia o ardor e
heroicidade da prima ante os rigores de dezembro, tudo isto de proposito
para a vr impaciente, principiou a vestir-se.

Christina ficra  janella, espiando os progressos do amanhecer e
transmittindo  prima as observaes que fazia.

--Olha, eu que digo?... j o Manoel vae abrir o porto... No ouves os
pardaes?...  dia claro j... Havemos de chegar com sol  ermida, o que
no tem graa nenhuma... Avia-te, Lena... Has de ser a ultima a estar
prompta... Ahi vae j o Luiz com o almoo.  que no chegamos l seno
ao meio dia. Elle ahi vem! Eu bem digo.

--Elle! Quem  esse elle que vem ahi?

--Pois quem ha de ser? Ento no  o primo Henrique que nos acompanha?

-- o primo Henrique,  o sr. Augusto e  o Luiz, que tua me teimou em
mandar com o almoo. No sabia qual dos tres te merecia as honras de um
elle.

--Eu dizia o primo Henrique, que j ahi est no pateo--disse Christina,
que n'esta occasio correspondia ao cumprimento, que o recem-chegado lhe
fazia de baixo.

--Ento, com effeito j chegou?--perguntou a morgadinha,
admirada.--Bravo! Nunca o esperei. Ai, Christe, que me parece que elle
tambem tem alguma coisa no corao!

--Tambem o julgo--respondeu Christina, despeitada;-- vr como hontem te
falou.

--Socega. Quando o corao tem alguma coisa, no se fala assim com a
pessoa que causou esse mal.

--No sei o que elle me est a dizer--disse Christina, olhando para o
pateo.--Posso abrir a janella, Lena?

--Eu j estou preparada para soffrer todas as crueldades esta manh.
Abre l a janella, abre. Fala-lhe.

Christina correu a vidraa.

A voz de Henrique chegou distinctamente aos ouvidos de Magdalena.

--Ento aquella grande madrugadora da nossa prima, onde est?--perguntou
elle a Christina.

Christina respondeu, sorrindo:

--Est a fazer a diligencia que pode para ficar prompta antes do meio
dia.

--Oh, que vingana a minha! Ella que tanto falou da minha
indolencia!--disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre de
Magdalena, e elevando a voz s vezes para se dirigir directamente a
ella, mas sempre sem receber resposta.

Esta insistencia impacientou Christina, para quem elle nem um galanteio
tivera ainda.

--De maneira que ns, priminha--continuou Henrique--damos uma lio de
mestre quella arrogante de hontem. Estou ancioso por que ella nos
apparea; quero vr a coragem, com que ousa apresentar-se.

--Eu vou chamal-a--disse sccamente Christina, e veio dizer a Magdalena,
com certo modo, que no podia escapar a esta:--Olha se appareces alli ao
sr. Henrique de Souzellas, que no descana emquanto te no v.

A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as tranas, dando ao
penteado a mais singela e graciosa disposio, voltou-se para a priminha
e disse-lhe sorrindo:

--Isso so j ciumes? Mal sabes quanto gsto de te vr assim! Ao menos
ha j vida n'esse teu corao, minha pobre pequena. O que te peo  que
no me odeies, s porque esse rapaz se lembrou de perguntar por quem no
via.

--Ests a imaginar ciumes, como hontem imanavas...

--Amores? justo; e com a mesma felicidade em acertar; podes ir
accrescentando. Mas, parece-me que ahi est mais alguem no pateo. Ouo
falar. Vae vr. Ser Augusto? N'esse caso, espera-se s por mim para
completar a caravana. E eu estou prompta. Marchemos.

Augusto havia effectivamente chegado ao pateo.

Henrique trocra com elle alguns cumprimentos, e principiaram depois
ambos a passeiar, um ao lado do outro,  espera das que deviam ser-lhes
companheiras na romagem.

A conversa manteve-se pouco animada. Augusto no era expansivo com as
pessoas, a quem o no prendiam habitos de longa intimidade; Henrique,
talvez por no conhecer a extenso e natureza dos conhecimentos de
Augusto, abstinha-se de falar dos assumptos, em que entraria de mais
vontade. Falaram pois de coisas indifferentes a ambos, e quasi frivolas;
no frio, na chuva, no inverno e no vero, nos prs e contras da vida do
campo e de varios outros assumptos sccos de si e j alm d'isso muito
esgotados, e tudo cortado por aquellas pausas e silencios constrangidos
e insupportaveis, que o leitor ha de conhecer por experiencia.

Digamos ns a verdade; estes dois homens no sentiam um pelo outro
aquella subita e inexplicavel sympathia, que abre os coraes e d
margens a confidencias.

Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestra-se entre elles
certa frieza mais que ceremoniatica, uma quasi desconfiana instinctiva.

Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos. Ainda quando
no fssem senhoras o seriam; a chegada de um terceiro, quando dois
indifferentes esto na presena um do outro, em entrevista forada e
fatigadora,  sempre saudada interiormente como uma redempo.

Magdalena e Christina vinham ambas formosas, com a especie de mantilhas
ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manh de
dezembro.

Appareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando proximo do quarto de
D. Victoria, p ante p, para no a acordarem, esta presentiu-as, e
mesmo do leito perguntou-lhes:

--Ento j vo, meninas?

--Vamos, tia; vamos, mam--responderam as duas a um tempo.

--O Luiz j partiu com o almoo?

--J partiu, j, minha senhora.

--E ides agasalhadas?

--Como se fssemos para a Siberia--respondeu Magdalena.

--Olhae, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa
Senhora.

--C os levamos. Adeus, tia; adeus, mam.

--Adeus, filhas; at logo, se Deus quizer. Olhae l, no vos estafeis.

Ora os taes guarda-chuvas  que no iam. Para qu? Com uma manh
d'aquellas, que nem de inverno parecia, pois que at o frio abrandra
com o vento! Por isso  que vinham ainda a rir.

Chegando ao pateo, cumprimentaram os seus dois companheiros. Henrique,
depois de formular um galanteio a Magdalena, offereceu-lhe
attenciosamente o brao, que Magdalena recusou com alguma impaciencia,
porque se lembrou de Christina.

--Muito obrigada, primo,--disse ella com vivacidade.--Mas  preciso que
o advirta de que no vamos passeiar pelas avenidas de um parque. Vamos
trepar montes, atravessar ribeiras, costear precipicios, e para tudo
isso  necessaria a completa liberdade de movimentos. Ha occasies, em
que melhor nos servem os nossos dois braos, do que o brao de outro,
embora seja o de um heroe.

--Mas de certo que no   borda dos precipicios que esse auxilio se
escusa--replicou Henrique.

--, muitas vezes . Ha bordas to estreitas, que mal cabe n'ellas uma
pessoa s; felizmente que a natureza nos d um brao ento... um brao
de giestas, por exemplo.

--V l, Lena,--disse Christina ao ouvido da prima.--Talvez seja melhor
que acceites. Resta-me, a mim, o brao de Augusto.

--Se continuas com essas loucuras, Christina, obrigas-me a odiar-te. Sr.
Augusto--continuou voltando-se para este--espero que tome a direco do
nosso passeio; ninguem melhor conhece os mais bellos pontos de vista;
leve-nos por l, embora tenhamos de comprar as bellezas  custa de
perigos e de fadigas. Partamos!

O monte onde se erigira a capella da Senhora da Saude, afamada por seus
milagres e pela sua romaria n'um circulo de muitas leguas de raio, era
uma elevada rocha vulcanica, que dominava as freguezias ruraes de mais
de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos ps as alcatifas da mais rica
vegetao; banhava-lh'os a agua dos ribeiros, das levadas e torrentes,
arterias fertilisadoras de extensas veigas e pomares; mas elle, o
gigante orgulhoso e selvagem, recebia aquelles preitos, olhava
sobranceiro aquella opulencia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em
vez de cobrir os hombros com o manto real, que lhe estendiam aos ps,
permanecia aspero, severo e n, como nas pocas primitivas, em que uma
convulso tremenda o evocra do seio da terra, para o consolidar em
colosso.

Apenas, como symbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda,
que, havia perto de um seculo, a piedade christ plantra em volta da
ermida, para refrigerio e conforto dos devotos christos que alli iam.
Era custosa a asceno por o lado, por onde os nossos romeiros, contra
os conselhos de D. Victoria, a emprehendiam. Quando, ao sair de uma
longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou de subito
deante de si a mole immensa e talhada quasi a pique, que lhe disseram
tinha de subir; elle, que raro em Lisboa estendia alm do Rocio os seus
passeios, com medo das ingremes caladas da cidade alta, julgou ouvir um
absurdo.

Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que
d'elle o separava.

O riacho, engrossado pelas aguas da chuva dos dias anteriores, levantava
um bramido atordoador ao cair em toalha dos audes e ao escoar rapido
pela cal da azenha, que lhe obstruia o leito e cuja enorme roda movia.

quella hora, ainda pouco clara da madrugada, este sitio da raiz do
monte tinha no sei que aspecto selvagem e melancolico, que quasi
infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes
negras, os troncos flexuosos e despidos das vides; mais longe, o
cannavial, ondulando ligeiramente ao perpassar atravs d'elle a briza da
madrugada, e, aqui e alm, um d'esses degenerados aloes dos nossos
climas, debeis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua
verdadeira patria, eram accessorios que concorriam para o effeito geral
do quadro.

A morgadinha, percebendo a hesitao de Henrique, deu-lhe alento com
lanar-lhe em rosto a sua pusillanimidade. Henrique encheu-se de brios e
atravessou, com no menor denodo do que os outros, o riacho, por o
passadio de altas pedras, collocadas a pequena distancia umas das
outras, e que as aguas a cada momento ameaavam cobrir.

Atravessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se
indispensavel caminhar em continuados zigue-zagues, aproveitando os
crtes que a fouce do tempo conseguira abrir n'aquella massa granitica e
os toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurra facilitar, por
aquelle lado, o accesso da ermida  piedade dos devotos.

As difficuldades para Henrique eram continuas.

A cada momento os embaraos d'este forneciam motivo para risos da parte
de Magdalena. Christina no lhe podia levar a bem que se risse
d'aquillo.

Para compensar as fadigas de to trabalhosa ascenso, havia porm, a
paizagem, que, a cada passo andado, a cada angulo que se dobrava,
apparecia mais surprehendente e maravilhosa.

Poucos peitos teriam fra para reprimir um brado de admirao.

As nevoas d'aquella manh de dezembro no eram bastantes para velarem a
belleza do quadro.

 medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava-se-lhes
mais e mais o horizonte; avelludava-se a relva da planicie, parecia
aplanarem-se os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apparencia dos
canteiros de um jardim.

Henrique no retinha o enthusiasmo, que aquelle espectaculo lhe causava.

-- magnifico!  admiravel!  soberbo!--dizia elle, a cada momento e
quando no era inquietadoramente preoccupado com os perigos do caminho.

O enthusiasmo de Augusto no era menos vivo! Dir-se-ia que eram os
montes a sua patria, e que a melancolia nostalgica, que o opprimia na
planicie, se ia dissipando  medida que subia a encosta.

Magdalena e Christina tambem no estavam menos impressionadas por o que
viam. Esta, porm, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe o prazer,
que as bellezas naturaes lhe pudessem occasionar.

Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manh.

Henrique continuava a ser todo attenes e galanteios com Magdalena;
parava a cada momento n'aquelles pontos do caminho, que lhe pareciam
mais difficeis de vencer, para lhe offerecer a mo a ella, sempre a
ella, a quem dirigia tambem todas as reflexes que o aspecto da paizagem
lhe suscitava e nunca  esquecida Christina que, n'esses momentos, quasi
achava a manh desagradavel e o sitio feio e sombrio.

A morgadinha respondia sempre em curtas phrases a Henrique e recusava
insistentemente o auxilio, que elle lhe offerecia.

--Estou a suspeitar que esses offerecimentos do primo so mais devidos 
necessidade, que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho de nos
auxiliar--disse ella sorrindo.--A falar verdade, para quem tem passado a
vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira? Eu fui creada n'isto.
Tenho um pouco de alpestre. Adeante.

E de uma occasio, em que estava perto d'elle, disse-lhe a meia voz:

--Pode ser que Christina carea mais do seu brao, primo. Ainda no teve
a lembrana de lh'o offerecer.

Henrique s ento deu por esse esquecimento; apressou-se a remedial-o,
offerecendo a Christina tambem o brao, que esta recusou, crando.

--Ento por que recusas?--perguntou-lhe a morgadinha, em voz baixa.

--Porque no quero abusar da delicadeza d'elle, nem da tua.

A morgadinha abanou a cabea em ar de reprehenso, fitando-a, mas no
lhe disse nada.

Pouco a pouco ia sendo mais completo o silencio em torno d'elles. J
tinham passado acima dos rumores do valle, que no subiam a mais de meia
encosta. Chegaram emfim ao cimo do monte; tudo annunciava o proximo
apparecimento do sol.

--Chegamos a tempo!--exclamou Magdalena que, deitando a correr, fra a
primeira que attingira a planura. Sua Magestade ainda se no levantou.

Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao p d'ella.

Houve um longo espao de silencio, concedido espontaneamente 
contemplao d'aquella perspectiva solemne.

As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa,
n'aquelle tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presena de um
espectaculo grandioso e bello. Fala-se baixo e pouco: no se formulam
longos periodos de aprimorado estylo, nivela-se a eloquencia de todos em
simples phrases, como estas:

-- bello!

-- magnifico!

-- sublime!

E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na occasio de que falamos. E
eu, por analogas razes, os imitarei, desistindo de descrever o que s
bem se aprecia, quando pela vista se abrange o conjuncto de todo o
panorama. O leitor, que nunca visse alguma scena similhante, no a
imaginaria pela descripo, forosamente pallida, que ahi lhe deixasse
d'ella; e para o que a viu, a memoria lhe preencher bem a lacuna.

Desvanecida a primeira impresso, que no deixa ao espirito a serenidade
precisa para os processos da analyse, principiaram, como  costume, a
fazerem notar uns aos outros os sitios mais conhecidos.

Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre
os quatro.

Christina descuidou-se da sua timidez e despeitos; Magdalena dos seus
projectos e desconfianas; Henrique e Augusto deixaram tambem a sua
mutua frieza.

--L est o Mosteiro--disse Magdalena, apontando para o logar
indicado.--Como parece pequeno, visto d'aqui!

-- verdade--respondia Christina--e olha, Lena, como se vem bem as
janellas do teu quarto.

--L est aquella que tu abriste esta manh para cumprimentares...

Sentindo a mo de Christina comprimir-lhe o brao, concluiu:

--Para cumprimentares a estrella d'alva.

--As janellas do quarto da mam julgo que ainda esto fechadas.

--Tanto no posso eu distinguir; comtudo afiano-te que sim. A tia
Victoria no  muito matinal.

--Aquella casa acol no  a de Alvapenha?--perguntou Henrique,
apontando n'outra direco.

----respondeu Augusto--e, mais adeante, alli tem a deveza, em que
passou ante-hontem. No  verdade?

-- justamente. Com effeito! Foi um soberbo passeio, o que eu dei!
D'aqui  que se v. L vejo umas prsas, por onde me lembro de ter
passado tambem.

--V, acol, aquella casa que tem uma capella ao lado?--perguntou
Magdalena, apontando para um ponto distante.

--Perfeitamente.

-- a minha quinta dos Cannaviaes.

--Ah!  verdade, l esto uns cannaviaes, se me no engana a vista.

--Justamente. No sei se sabe que ha n'aquella capella uma imagem de
Nossa Senhora, muito milagrosa.

--Sim? hei de visital-a.

--Coisa que se lhe pea, fazendo-se o voto da meia noite, 
concedido--disse Christina, fitando d'esta vez Henrique, com a expresso
da mais insinuante sinceridade.

--Que quer dizer o voto da meia noite?

--Tem uma pessoa de rezar  meia noite, e ssinha, sete estaes no
altar da Senhora--continuou Christina.

--S isso? Boa  de cumprir a promessa. J vejo que no ha aqui na terra
desejo que se no satisfaa.

--Mais devagar,--acudiu Magdalena, sorrindo--pouca gente se atreve at a
ir l  meia noite, porque a alma de minha madrinha passeia a horas
mortas por a sua antiga casa, dizem.

--Cada vez sinto mais desejos de l ir--accrescentou Henrique, depois de
ouvil-a.

--Alm, entre aquellas arvores, sr.^a D. Magdalena, vive um
philosopho--disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva.

-- verdade; o bom do tio Vicente.

--Tio Vicente? Quem  o tio Vicente? Temos mais algum tio, com que eu
possa augmentar o meu parentesco na aldeia?

--O tio Vicente  um santo velho, que se occupa a colher hervas pelos
montes e valles para fazer remedios, que dizem milagrosos. Ainda  nosso
parente, mas em grau muito arredado; comtudo chamamos-lhe tio, assim
como quasi toda a gente por aqui.

--Que sombras negras so aquellas que se vem no adro da
igreja?--perguntou Christina.

--Na igreja? Ah! acol?  verdade, parece um cordo de formigas--disse
Henrique de Souzellas.

--So as mulheres que vo ouvir o missionario--respondeu a
morgadinha.--Escutem, l est a tocar o sino.

Effectivamente chegavam ao alto do monte as debeis mas sonoras badaladas
do campanario da aldeia.

--A estas horas principiam as lamentaes d'aquelle pobre Z P'reira,
que to mal olhado anda por a mulher, desde que ella deu n'essas
devoes--notou Augusto, sorrindo, ao lembrar-se da scena domestica a
que na vespera assistira.

--Degenerou aquella mulher!--disse Magdalena--e, se quer que lhe fale a
verdade, sr. Augusto, custa-me vr o Cancella deixar a Lindita entregue
assim a essa gente quando se da terra. A pequena  to apprehensiva!

--Visto isso, j chegou aqui  aldeia a influencia dos
missionarios?--perguntou Henrique.

--E no tem lavrado pouco!--tornou Magdalena.

Christina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as
palavras da morgadinha.

--Primo Henrique--disse ella--julgo que ainda ser preciso o seu auxilio
para livrar do contagio esta innocente Christina.

--Prompto, prima Magdalena; para as boas causas tenho sempre armada a
minha vontade.

--Olha, Lena, no vs?--exclamou Christina--so os pequenos que nos
esto a dizer adeus das janellas do mirante.

De facto nas mais altas janellas do Mosteiro agitavam-se uns lenos
brancos.

Marianna e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irm e a
prima. Estas tiraram tambem os lenos e corresponderam-lhes aos signaes.

Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo:

--Annuncio a v. ex.^{as}, que chega o rei da creao.

Effectivamente o cume do telhado da ermida e as franas despidas da
alameda j se tingiam de luz.

Todas as vistas se voltavam para o oriente. Assignalava-o uma esplendida
faixa de purpura, que, em insensivel graduao, desmaiava para as
extremidades at se perder de todo no azul-celeste.

Rompia j, do meio d'ella, um pequeno segmento do sol, depois, o astro
inteiro apparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal
candente, e logo se desprendeu da terra, d'onde parecia surgir, e subiu
nos ares, como um brilhante aerostato, ao qual se rompessem as prises
que o retinham.

O monte inundou-se de luz. O valle, em baixo, estava ainda envolto nas
meias sombras da madrugada.

Nisto appareceu do outro lado da capella um dos criados de Alvapenha,
que veio annunciar que o almoo estava prompto.

--Pois devras temos um almoo?--exclamou Henrique, sinceramente
surprehendido.

--Graas  previdencia de minha tia, previdencia de que eu zombava em
casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto, parece-me que
estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto o
appetite--respondeu Magdalena. E logo aps continuou para
Henrique:--Agora  occasio mais accommodada de pr em prtica os
recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o brao a Christina?

Henrique, em quem a morgadinha suspeitra a inteno de lhe render a
ella a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender,
limitando-se a exprimir n'um olhar as suas queixas, olhar que Magdalena
fingiu no perceber.

E conversando e rindo, dirigiram-se para o logar onde, sobre uma mesa de
pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almoo.

D. Victoria no era senhora, que se saisse mal de emprezas d'estas. A
alvura da toalha, a excellencia da loua e o bem disposto e apurado das
iguarias convidavam.

No se concebe appetite refractario a um tal conjuncto de
circumstancias. O fastio, n'este caso, seria um fastio mrbido,
correspondente a leso organica e como tal sem poesia.

Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justia 
cozinha do Mosteiro.

Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doenas,
conversou animada e espirituosamente.

Contaram-se anecdotas; Augusto applaudiu as de Henrique; este riu com
vontade das que ouviu a Augusto.

A morgadinha, por sua propria mo, preparou o ch.

N'estas alturas do almoo encetou novamente Henrique o tiroteio de
amabilidades, de que por muito tempo no sabia prescindir.

Dir-se-ia ser este o signal para se perturbar a santa harmonia do
congresso. Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam
contrariados.

Henrique ficra sentado junto da parede da capella. Inclinando-se sobre
o espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas
letras escriptas na parede, exactamente por cima da cabea.

--Bravo!--exclamou, depois de as ler para si--no imaginava que havia
poetas na aldeia! Querem ouvir?

E leu:


  Se ests mais perto do co
  N'estas alturas da serra,
  Ai, porque tens, peito meu
  Inda saudades de terra?

  Em vez-de erguer os olhares
   luz d'este firmamento,
  Deso-os  sombra dos lares,
  Onde tenho o pensamento.


-- pena que a chuva apagasse o resto. Quem  o bardo, prima?

--No sei; da aldeia de certo que no --respondeu Magdalena, com
indifferena.

Augusto ergueu-se da mesa e foi passeiar para a alameda.

--Da aldeia, no, diz a prima; e por que no? Com esta natureza  facil
crearem-se os poetas. Eu estou vendo n'esta quadra a folha solta de um
romance. Aqui a serra de algum Bernardim inedito, to capaz de escrever
saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra dos quaes o olhar do
poeta trocava os esplendores do co... algumas d'essas casas, que ahi se
vem em baixo. Quem sabe se no ser at o Mosteiro? Eu, por mim,
confesso que se estivesse hoje aqui s, ou em outra
companhia--accrescentou, olhando significativamente para a
morgadinha-no teria dvida em subscrever esta quadra, como a exacta
expresso do meu sentir, porque...


  Em vez de erguer os olhares.
   luz d'este firmamento


Eu tambem...


  Os _abaixaria_ aos lares
  Onde tenho o pensamento.


Christina levantou-se tambem da mesa e foi ter com Augusto  alameda.

Magdalena, que a seguiu com a vista, no disfarou um gesto de despeito
ao ficar s com Henrique.

--Prima Magdalena,--disse em tom mais affectuoso Henrique, passado
tempo, e depois de mais algumas palavras--deixe-me falar-lhe com
franqueza, agora que estamos ss. Conhecemo-nos ha dois dias; eu, porm,
sinto-me to seguro j do que lhe vou dizer, que no hesito. No pode
imaginar a indelevel recordao que me ficar d'esta manh.

--Perdo,--atalhou Magdalena--diga-me primeiro o que  isso que me vae
dizer. Prepara-se para me agradecer o almoo? Eu sou como os reis; gosto
de estar prevenida do sentido das felicitaes que me dirigem, para ir
preparando uma resposta adequada.

-Que prazer tem em ser cruel!

-Deixemo-nos de loucuras--continuou Magdalena, sria j.--Quem ouvisse o
sr. Henrique de Souzellas havia de suppr que se preparava para me fazer
uma declarao.

-Uma declarao do mais puro affecto, do mais sincero sentimento, por
que no?

-Ah! Pois, se eram essas de facto as suas intenes, peo-lhe desista
d'ellas.

--Por qu?

--Porque no posso escutal-o.

--Ou no quer.

--Ou no quero; seja.

--Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu corao
j...

--Que impertinente pergunta? Se _j_, no tenho ainda no sr. Henrique a
necessaria confiana para o tomar por confidente. Conhecemo-nos apenas
de hontem, que  o mesmo que no nos conhecermos.--E accrescentou logo
depois:--Christina, anda ser arbitra n'uma disputa entre mim e o primo
Henrique.

--Que vae fazer?--perguntou-lhe Henrique, admirado.

Christina approximou-se; Augusto seguiu-a. Henrique no desviava os
olhos da morgadinha que, sem lhe dar atteno, proseguiu para Christina:

--O primo Henrique falava com certa exaltao da doura do teu caracter;
o meu amor proprio disse-me que--era pouco delicado estar assim a
lisonjear uma mulher na presena de outra--e redargui por isso, pondo em
dvida a assero e affirmando que havia um fermentozinho de maldade na
tua doura. Elle nega por impossivel, eu insisto e estamos n'isto. Agora
dize tu.

Christina crou intensamente e no teve que responder.

Henrique, que nas palavras de Magdalena julgou ouvir algumas que, pelo
sentido e inflexo, com que foram dictas, lhe eram dirigidas, acceitou
desaffrontadamente a posio, em que Magdalena o collocra, e respondeu:

--Venci eu! O facto de querer a priminha poupar uma rplica amarga 
accusao que lhe fazem,  a mais eloquente prova, j no digo s da
doura, mas da natureza angelica do seu caracter. J v, prima
Magdalena, que quando uma das mulheres que diz, fr como a nossa boa
Christina, no se podem admittir essas revoltas de amor proprio, a que
alludiu.

A morgadinha percebeu tambem o duplo sentido d'estas ultimas palavras;
mas fingiu no comprehender.

Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos
n'elle, emquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos labios a grave
expresso que lhe era habitual, temperando-a com no sei que de ironico,
que no escapou tambem a Henrique.

Os olhares d'estes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum
parecesse disposto a baixar-se deante do outro.

Desviou-os porm uma dupla exclamao de Magdalena e de Christina,
dizendo:

--Olhem o tio Vicente por aqui!

Dobrava effectivamente n'aquelle momento a esquina da ermida, e
approximava-se da mesa do almoo, o velho herbanario, em que j temos
falado no decurso dos passados capitulos.




X


Era uma expressiva figura de ancio o herbanario.

A fronte larga e desaffrontada de cs, os olhos ainda vivos e
penetrantes e, em toda a physionomia, permanentes indicios de habituaes
meditaes e por ventura de passados infortunios, elevavam aquelle
semblante muito acima da vulgaridade. Os annos ou, mais ainda do que os
annos, os pezares haviam subjugado n'elle a robustez de outros tempos;
os habitos de solido, que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o
caracter at fazerem do velho um d'esses typos excepcionaes, que
atravessam o mundo entre a estranheza de quantos os rodeiam, a ninguem
permittindo sondar os mysterios que guardam comsigo e para si, e creando
para uso proprio regras de viver, sem atteno s convenes sociaes.

Era um enigma vivo.

Nas aldeias acompanhava-o uma fama quasi de nigromante; attribuiam-lhe
curas milagrosas, obtidas com os simplices, a cuja cultura e colheita
consagrava as maiores attenes e canceiras.

Ninguem lhe queria mal, que a ninguem o fizera nunca. Poucos porm
ousariam, depois do esconder do sol, ir procural-o  isolada casa em que
vivia, escondida n'um quintal, que era cultivado com todo o amor pelo
velho.

Em todos os casos intrincados vinham consultar o herbanario, e elle,
como seguro da sua proficiencia, em caso algum recusava o alvitre.

Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem methodo, de uns
alfarrabios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas e
mal digeridas noes de sciencia, de que se mostrava orgulhoso. Livros
de medicina antigos, alguns de jurisprudencia, outros de logica e de
astronomia, constituiam a sua mesclada bibliotheca. Entre os livros mais
predilectos e consultados contava um exemplar da _Polyantheia_ de Curvo
Semedo.

O herbanario principira em creana uma educao tal ou qual, que
revzes de familia haviam interrompido.

Os meios conhecimentos, que das suas habituaes leituras extrahira, e os
erros, que de taes livros assimilra, eram os elementos, com que chegou
a architectar uma sciencia informe, que na aldeia passava por
maravilhosa.

E o caso era que a fama do homem vora de freguezia em freguezia, de
concelho em concelho, e de muito longe o vinham ouvir como a oraculo.

Os costumes do velho, que errava por valles e montes  procura dos
simplices, cujas occultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes, a
austeridade da physionomia, a franqueza, sem contemplaes, com que
dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imaginao popular aquelle
typo, para ella quasi lendario.

Depois de se sentar  mesa, o herbanario estendeu familiarmente a mo a
Augusto, que lh'a apertou com affecto.

--Bons dias, rapaz,--disse o velho; e, dirigindo-se a Magdalena e
Christina, accrescentou com maneiras paternaes:--Adeus, pequenas;
grandes madrugadas hoje!

Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quasi
desconfiados, terminando por lhe dizer simplesmente:

--Guarde-o Deus!

Henrique correspondeu-lhe no mesmo tom.

Sem mais o attender, Vicente voltou-se para Magdalena e perguntou-lhe
com voz audivel para Henrique, e referindo-se a elle:

--Quem ?

Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa:

--O homem que, melhor que ninguem, est habilitado a responder a essa
pergunta.

O velho nem sequer o olhou.

--Este senhor--respondeu Magdalena-- sobrinho de D. Dorotha; est
hospede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se da saude.

Vicente tornou a examinar Henrique.

--Ento  doente?... No parece... Olhar vivo... Cres boas... voz s...
Umh!...

Magdalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam
desagradando a Henrique; por isso apressou-se a intervir, respondendo
jovialmente:

--A doena d'este senhor  um pouco de imaginao.

--E grandes effeitos nascem d'ahi--acudiu sentenciosamente o velho.--L
veem na _Polyantheia_ muitos casos curiosos. Um homem, por ter comido
umas amoras, foi atacado de dres de cabea, de que morreu. Pois tanto
scismou que das amoras lhe viera o mal, que at se lhe formou no craneo
uma pedra do feitio de uma amora.

--Com effeito!--disse Henrique, com ironica expresso de pasmo--ahi
estava um cerebro de concepes rijas!

-- divertido!--disse Vicente, com ligeiro sarcasmo e olhando para
Magdalena.

--Pelo contrario--acudiu a morgadinha--o seu mal  a melancolia. No 
verdade?

--Eu j no sei qual  o meu mal. Estou quasi a dar razo  tia
Dorotha, que lhe chamou mania.

--Mania e melancolia no so a mesma coisa--emendou o velho.--Tambem l
na _Polyantheia_ se diz isso bem claro. A melancolia  sem ira nem
furia, porque procede de humor frio, e a mania de sangue quente ou
clera requeimada.

--De clera requeimada? Deve ser uma coisa terrivel!--continuou
Henrique, no mesmo tom.

Magdalena, receiando que a ironia dos commentarios de Henrique acabasse
por irritar o velho, perguntou a este:

--Parece-lhe que ter cura a doena?

--Pode ter; mais rebeldes melancolias se curam. Este  divertido a
final. Umh!... Mas contra tristezas e manias no ha como as folhas de
ouro em caldo de frango com flores de borragem e de herva cidreira.

--Este  como os calvos, que vendem aos outros pomadas para fazer nascer
o cabello;  um argumento vivo contra a efficacia da beberagem que
receita para as manias--disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe
ficava proximo.

O velho, que no tinha ainda dado mostras de offensa pelas maneiras
impertinentes de Henrique, crou d'esta vez e faiscou-lhe nos olhos um
relampago de irritao.

Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.

--Est bom, menino,--replicou elle amargamente.--No diga mais, para se
no envergonhar depois. Eu calo-me; e desculpe-me se falei. Estou
costumado a vr pobres e ricos virem a minha casa pedir-me o favor de os
attender. Ainda assim ahi vae mais um conselho, apesar de m'os no
pedir. Seja attencioso com a velhice que no  baixeza nenhuma. Mas que
 isto?--exclamou, mudando de tom e olhando para um redemoinho de folhas
sccas que o vento trouxera at perto d'elle.--As folhas veem d'este
lado! Ento virou o vento?  verdade. Ah! sim?... Percebo.

E, depois de olhar para o ar, continuou:

--Mudanas to repentinas!... Umh!... J me no agrada aquelle azul e
aquellas nuvens.

E levantou-se.

--Dou-lhes meia hora, e vero tudo isto coberto e quem sabe o mais que
vir! Aconselho-os a que vo descendo o monte, que no  seguro descel-o
quando as enxurradas engrossam. Eu, por mim, j me no demoro, que no
tenho confiana na firmeza das minhas pernas. Oh! n'outros tempos!...
Emfim tudo tem de acabar. Adeus!

E, sem mais palavras, sobraou a caixa de lata, em que archivava as
hervas medicinaes e outras substancias, que andava colhendo, e partiu,
depois de dizer adeus a Augusto, a Magdalena e a Christina.

Logo que o herbanario desappareceu, Henrique soltou uma risada, em que
parecia haver o que quer que era de forado.

-- realmente curiosa esta antigualha--disse elle, que interiormente
sentia j remorsos pela maneira por que tratra o velho.

--Ai, primo Henrique; que ainda est muito pouco preparado para viver na
aldeia!--disse a morgadinha.--Tem uns melindres e uma maneira de vr as
coisas! Tudo lhe parecem faltas de attenes, propositos de offender!
depois ha um sarcasmo cruel nas suas palavras, a que os espiritos no
esto aqui habituados e de que se sentem por isso feridos. Isso no 
bom! Se vae assim, ou ter de nos deixar cdo, ou grandes desavenas
suscitar por ahi. No repara que estes modos so proprios do campo?

--Perde-me, prima Magdalena; mas confesso que nunca tive demasiado
geito para lidar com doidos. Deve confessar que este homem...

-- um homem de bem--atalhou Augusto com voz firme e com uma severidade
de expresso, que at alli no mostrra ainda.

Henrique voltou-se admirado e fitou-o em silencio. Augusto arrostou
firmemente aquelle olhar.

--No o nego--respondeu Henrique, pouco depois--mas infelizmente os
homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema velhice traz a
imbecilidade.

--Engana-se; esse homem, apesar de algumas phantasias, tem ainda um
juizo so e uma razo clara.

--Acha?--tornou Henrique, j algum tanto azedado.--Ha de dar-me licena
de no fazer obra por as suas apreciaes... se me  permittido.

--Procede mal--redarguiu Augusto.--Porque eu conheo aquelle homem ha
muito e o senhor acaba apenas de o vr pela primeira vez. Foi o senhor
quem primeiro deu s suas palavras um tom irritante, que desafiou uma
digna correco. No lhe ficaria mal se tivesse sido mais generoso. A
consciencia lh'o est dizendo n'este momento melhor do que eu.

--L fundo nas consciencias dos outros!

--No  difficil. Em todos os homens a consciencia tem uma s maneira de
ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.

--Estou admirando a subita loquacidade que se lhe manifestou! At aqui
suppunha-o taciturno. Vejo que lhe mereo a fineza de abrir uma excepo
aos seus habitos de laconismo em meu favor. Muito agradecido. Isso que
dizia eram maximas ou pensamentos moraes? No reparei.

Augusto crou, mas respondeu com firmeza:

--Nem uma nem outra coisa;  um genero muito mais modesto do que
qualquer dos dois. Simplesmente um preceito de civilidade.

Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada
ironia:

-- verdade,  verdade... esquecia-me que a civilidade entra no seu
programma... de mestre-escola.

--Justamente; tenho alguns discipulos que lisonjeiam o mestre;
rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descalos, mas n'esse ponto podem
dar lies a elegantes filhos das cidades.

--Pois estimarei, nas minhas longas horas de ocio, aqui na aldeia,
dever-lhe algumas lies tambem. Comtudo, como, felizmente, as
circumstancias em que estou me permittem prescindir do beneficio do
estado, que o subsidia, ha de conceder-me que pague as lies que
receber.

--Nunca me envergonhei de acceitar a recompensa do meu trabalho, se o
discipulo pode dar-m'a... sem sacrificio.

--E acceita-a em toda a especie de moeda, no  verdade?--perguntou
Henrique, cada vez mais petulantemente.

Augusto respondeu com a mesma serenidade:

--No fao tambem escrupulo n'isso, comtanto que me fique o direito
salvo de pagar na mesma especie de trcos, quando julgar que os devo.

O dialogo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo mais
acerbo caracter.

Christina, que j tremia de assustada, cingiu o brao de Magdalena, como
para convidal-a a intervir.

Esta no o tinha ainda feito por uma simples razo. Desconhecia Augusto.
A audacia com que o via repellir as ironias do seu adversario, a firmeza
inalteravel, com que lhe sustentava o olhar, o sorriso, que, em desdens,
rivalisava com o d'elle, eram to novos para a morgadinha, que a
surpreza, que d'ahi lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade
de uma interveno. O aviso de Christina chamou-a, porm,  realidade.

--Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso entre
os senhores  uma altercao--disse ella por fim.--Vejam que s teem por
testemunhas duas mulheres, que mal lhes podem servir de padrinhos, se a
contenda tomar outra feio. Por isso no  muito para louvar a escolha
que fizeram da occasio, para uma justa to pouco... amavel.

--Perdo, prima Magdalena; reconheo a minha culpa, e a grosseria do meu
proceder. Mas aqui o sr. Augusto, costumado a impr aos discipulos o seu
pensamento, quiz estender at mim este despotismo de... _magister_...
Ora o meu pensamento pugnou pela sua independencia...

--Desculpe; suppondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que me
agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opinio desfavoravel, que
levianamente formou de quem lh'a no merecia. Vejo que prefere ser
injusto. Seja-o. Pense o que quizer. Mas o que eu no soffro  que se
diga deante de mim uma palavra contra um homem que respeito e de quem
sou amigo, sem que erga a voz a defendel-o. Se no costuma fazer o mesmo
por os seus, nem sente viva e irresistivel a necessidade de o fazer,
lastimo-o;  porque no os tem.

--Com mais paz de espirito se discutir tudo isso depois--disse
Magdalena.-- de crr que, como sempre, haja de parte a parte razo e
aggravos. Agora convido-os, antes de descermos, a visitar a ermida, cuja
porta est sempre, dia e noite, aberta aos devotos que a piedade aqui
traz. E tal  o prestigio que a defende, que no consta de um s roubo
sacrilego, que se fizesse n'ella.

Entraram na ermida. Era um pequeno santuario, todo forrado de azulejo
antigo, com ennegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto,
representando episodios da Paixo; os altares, adornados de columnas e
flores de talha dourada, attestavam nos muitos ex-votos que d'elles
pendiam e nos quadros, cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos
desenhos chinezes e que representavam milagres de todo o genero, a f
ardente com que era adorada a imperfeita esculptura da Virgem.

E apesar de tudo tinha este templo um ar de solemnidade manifesto.
D'onde lhe vinha elle? Da sua mesma pobreza e nudez, do silencio que
reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que
estava.

Alli dentro demoraram-se os quatro visitantes, Magdalena e Henrique
examinando alguns dos quadros dos milagres; Christina, que prolongra
mais do que a prima a orao que fizera, contemplando a imagem da
Senhora; Augusto com os olhos fitos nas columnas do altar, porm, no
sei se pensando n'ellas.

Esperava-os uma surpreza  saida.

Realisra-se o prognostico do herbanario.

O vento sul que, segundo elle notra, soprava j havia algum tempo,
viera condensar os vapores, que arrasta de ordinario na sua corrente, e
empanar com elles a limpidez do firmamento. O azul do co semeira-se,
pouco a pouco, de pequenos flocos brancos, de manchas irregulares e de
longos e encurvados veios que lhe davam uma apparencia quasi marmorea.
Cdo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se,
acabando por tingir uniformemente toda a extenso do firmamento. Ao
mesmo tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, comearam a
erguer-se do sul e caminharam impetuosas no espao, como montanhas
moveis, que viessem em pavorosa carreira, de encontro s serras, que as
aguardavam firmes.

Um denso vo de nevoeiro escondia j a paizagem, quando sairam da
ermida.

--Depressa!--exclamou Augusto--j no ha tempo a perder! Desamos antes
que a tormenta nos colha.

--Tem medo?--disse Henrique em tom de mofa.--Um montanhez!

--Talvez tenha; em todo o caso ha de vr que no  de inimigo pouco
digno de o inspirar. Por agora peo-lhe trguas s zombarias e, por amor
d'estas senhoras, aconselho-o a que trabalhe por apressar a descida.
Felizmente que o criado j partiu.  um embarao de menos.
Vamos.--Detendo-se, porm, disse para Magdalena:--Se descessemos por o
outro lado, minha senhora?

--Para qu?--respondeu esta.-- um momento, emquanto chegamos abaixo.

A tempestade caracterisava-se cada vez mais; crescia a cerrao do ar;
os lamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do sul; a
chuva principiou por grossas gottas, e cdo augmentou assustadoramente;
havia na atmosphera surdos rumores de tempestades longinquas; algumas
nuvens tomavam uma cr terrea, outras um carregado de chumbo, ambas
igualmente sinistras.

Christina, pallida de susto, murmurava em voz baixa oraes fervorosas;
Magdalena sorria para a animar, mas ella propria estava inquieta.

No era de facto uma empreza de todo facil o descer o monte por um tempo
d'aquelles. O caminho, j de si ingreme e precipitoso, era quasi
impraticavel quando as correntes se despenhavam por elle, como em
catadupas, e os ventos vinham despedaar-se furiosos de encontro s
arestas salientes da rocha.--Era necessario estar muito amestrado para o
descer sem perigo.

Augusto era de todos o que melhor o conseguiria; assim no tivesse de
repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumra quellas
aventuras; e j ento seguia, sem vertigem, a mais estreita borda dos
despenhadeiros do monte.

A tudo porm attendia agora, desenvolvendo uma actividade e pericia, que
inspirava alento e confiana aos mais. Agil, como um animal montez,
girava em volta da pequena caravana, de que tacitamente fra reconhecido
chefe. Ora adeante a dirigir os passos pelos logares de mais facil
transito, ora  retaguarda a dar a mo a Magdalena, que vira em
embarao, ou a amparar Christina, a quem muita vez chegou a levantar nos
braos, para a fazer franquear um ponto do caminho, em que ella parra,
sentindo que lhe resvalavam os ps no declive e na humidade do cho. O
proprio Henrique, que no era o menos embaraado do rancho, e nem isso
admira, s a custo podia prescindir, em certos lances, do auxilio de
Augusto.

O amor proprio e orgulho do hospede de Alvapenha iam um tanto
mortificados n'esta retirada ingloria. Nenhum dos seus muitos talentos e
aptides, de tanto valor no terreno, tambem escorregadio, das salas de
baile, lhe valiam para alli. Era evidente a sua inferioridade n'este
momento; ora Henrique no era homem que, tendo consciencia disto,
ficasse indifferente; mas que remedio? Procuraria mais tarde uma
compensao.

No descrevemos todos os episodios d'esta laboriosa descida, alguns dos
quaes smente a preoccupao, em que iam os animos, impedia achar
risiveis; porm que mais tarde deviam, como  costume, vir a ser
alimento de animadas e joviaes recordaes.

Assim foi que, a meio da encosta e em sitio em que se lhes cortava ao
lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quasi a
pique e erriada de fragas salientes e angulos de rocha, em cujas fendas
e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado
tinham conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a
mantilha de Magdalena, depois de a revolutear no espao arremeou-a ao
abysmo.

Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, porm em logar, onde seria
difficil o accesso, de qualquer lado que se tentasse.

Magdalena, no momento, no pde reter um grito, que fez parar com terror
Henrique e Augusto que caminhavam adeante. Voltaram-se assustados.

A morgadinha, com a cabea descoberta, tranas ligeiramente
desordenadas, as faces um pouco pallidas, sorria j do seu exaggerado
susto.

A rir, explicou o succedido, pedindo perdo pelo sobresalto que
involuntariamente causra.

--Descana em paz!--disse ella, olhando para a mantilha; e
accrescentou:--Sigamos.

--Mas no ser possivel tiral-a d'alli?--perguntou Augusto, examinando o
sitio.

--Para qu? No podemos demorar-nos agora com isso--respondeu Magdalena.

--Eu deso a cortar uma canna l abaixo aos Moinhos e volto n'um
momento--insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia.

Henrique notou, sorrindo:

--O alvitre  de homem prudente. Cuidei que os montanhezes no eram de
to bom aviso.

E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia
humilhado, e ao mesmo tempo cedendo  influencia que sobre elle exercia
a fascinadora figura de Magdalena, Henrique arrojou-se a uma
desnecessaria imprudencia.

Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflexo,
deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as mos  borda
do caminho; tenteou com os ps as fendas e as anfractuosidades da rocha,
at conseguir firmal-os; segurou-se ora a uma raiz saliente, ora a um
ramo mais tenaz;  fra de vontade dominou a sua impericia em
exercicios d'esta ordem, e finalmente conseguiu, estendendo o brao,
segurar a mantilha, que o vento arrojra ao precipicio.

Depois, com dobradas difficuldades e por ventura redobrados perigos,
pde, roando-se como reptil, e ferindo as mos nas asperezas da rocha e
nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez os ps em
terra, sem acceitar a mo que Augusto lhe offerecia, e com gesto
radiante entregou a mantilha a Magdalena, fixando em Augusto um olhar de
triumpho.

Os espectadores d'esta scena haviam-a presenciado sem soltar uma
palavra, sem fazer um movimento, quasi gelados de susto e de espanto.

Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabea
murmurando:

--Que imprudencia!

--Na verdade!--disse Magdalena, ainda nervosa com a impresso que este
incidente lhe causra--foi uma loucura; uma loucura imperdoavel.

E a perturbao era tal, que nem acertou com uma phrase de
agradecimento, com que pagasse a imprudente galanteria, que mais
desejava reprehender, do que recompensar.

Esta reserva offendeu Henrique; servios a seu vr de menor importancia,
tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras.

Revoltou-o esta ingratido.

Mal sabia elle que estava sendo ainda mais ingrato, no concedendo
sequer um olhar s faces desmaiadas pelo terror, aos labios trmulos e
aos olhos arrasados de lagrimas, com que o fitava Christina. Ella, que o
tinha seguido muda de susto e de anciedade em toda aquella louca
aventura, ella que, ao terror do perigo, ajuntava a affligil-o o
desespro de vr que fra outra a que inspirava aquellas loucuras!

Aguardavam-os em baixo novos trabalhos a vencer. Com a fra das
enxurradas, que se precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares,
era provavel que a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado
mais e acabasse de cobrir a ponte rustica, que  vinda j tinham
encontrado quasi submersa.

Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo:

--Eu vou adeante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar
j coberta, como  provavel, vr se o moleiro nos abre a porta do
moinho, a fim de passarmos por l. Vo descendo devagar, que eu volto.

--Ento deixa-nos ss?--exclamou Christina, assustada.

-- um instante.

--No sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indicao--disse
Magdalena.

--O peor est passado. Alm d'aquella pedra j vem o ribeiro e a ponte;
o caminho indica-se por si.

E dizendo isto, desceu agilmente por uma especie de escadaria aberta na
rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao logar que demandava.

Henrique ia agora na frente; aps, seguia-se Magdalena. Christina
fechava o cortejo.

O mau humor de Henrique augmentra de ponto, em consequencia dos receios
com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos,
a direco do rancho.

Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confiana que lhes estava
merecendo o auxilio de Henrique, representando assim elle n'aquella
contingencia, em vez do papel de protector, o de protegido, que o
humilhava.

Obrigado a digerir, como pudsse, o seu fundo descontentamento, Henrique
perdera com isso aquella volubilidade de conversao que mantivera todo
o dia.

Nunca, na presena de Magdalena, deixra passar tanto tempo sem formular
um d'esses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta,
nem sempre demasiado affavel.

Magdalena, por seu lado, no se sentia com disposio para falar.
Christina menos.

Este silencio acabou por exasperar Henrique.

Haviam j percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do
riacho. Avistavam-se as aguas turvas e impetuosas, que, com mais fragor
do que nunca, se contorciam n'aquelle apertado leito.

Foi ento que Henrique desafogou o seu resentimento.

--Estou devras arrependido, prima Magdalena,--disse elle com leve
ironia--do meu espontaneo movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que
ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos os triumphos e toda a
gloria d'esta jornada: mas como d'aquella vez se me figurou que era
demasiado cauteloso para heroe...

Uma simultanea exclamao de Magdalena e de Christina no o deixou
proseguir.

Voltando-se para saber a causa, que a motivra, viu-as paradas,
pallidas, olhando com anciedade para a base do monte.

Seguindo a direco do olhar d'ellas, Henrique reconheceu a causa
d'aquelle duplo grito.

Refiramol-o em poucas palavras.

Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou
no transitavel, surprehendeu-o um espectaculo inesperado.

O herbanario que, prevendo tempestade e receioso dos perigos de que em
taes condies a descida era acompanhada, se apressra a partir, no
conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento da borrasca. O
andar vagaroso e precavido do velho e as frequentes pausas que fazia, ou
para descanar ou para colher a rara planta montezinha, o insecto, o
verme, o mollusco ou o mineral de occultas virtudes, elementos da sua
pharmacopeia, foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio
caminho, e mais difficil de descer lhe tornou a metade, que lhe faltava.
Assim, no obstante haver partido antes dos outros, no lhes levava
muitos passos de avano.

Ao chegar  levada, encontrou j as pedras do tosco passadio, a que se
dava o nome de ponte, cobertas pela agua. O velho deu-se pressa em
descer para a passar ainda a p enxuto; mas a levada, agora torrente
caudalosa, ganhava corpo de momento para momento; cdo j no se viam
signaes de ponte. O herbanario parou, embaraado. Acima ficavam-lhe os
audes, transformados em impetuosas cataractas; abaixo, o moinho, em
cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor.

O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via. As aguas,
sem transparencia, occultavam de todo a vista das pedras.

Tenteou com o bordo o sitio, em que as suppz. Encontrou a primeira,
pousou um p n'esse ponto; firmou-se como pde, para resistir  fra da
corrente; tenteou outra vez, reconhecendo outra pedra, deu mais um
passo, e outro, e mais outro, at que de repente, ou por esvamento de
sentidos ou por se firmar em falso, vacillou e, perdendo o equilibrio,
caiu na levada para o lado dos moinhos.

Foi n'este momento que Augusto chegou; viu-o pois cair, viu-o
estrebuchar, luctando com a impetuosidade das aguas; reconheceu a
urgente necessidade, para evitar uma horrivel desgraa, de acudir, sem
perda de tempo, ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados
do moinho.

Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quasi de um salto, o
espao, que o separava ainda do ribeiro, e lanou-se  agua.

Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique tambem a possuia, mas
abusava d'ella ou, por vaidade malbarateava-a em ninharias. Ainda n'isto
se revelava o seu amor de ostentao. Imaginava-se sempre n'um palco,
deante de espectadores que o viam e applaudiriam, se desempenhasse bem o
papel de homem perfeito. Fraco perante doenas imaginarias, arriscaria,
para evitar o ridiculo, a propria vida, assim como suffocaria, por
ventura, um impulso generoso, que no pudsse harmonisar-se com a
conveno, que se chama elegancia.

Eram estes os defeitos que Magdalena adivinhra n'elle.

Augusto era differente.

As suas grandes qualidades guardava-as com modestia dos olhos estranhos,
para smente as revelar, quando pudssem ser uteis.

Ao vr cahir a mantilha de Magdalena, no arriscou temerariamente a vida
para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais
segurana, embora com menos romanticismo; mas, para salvar uma vida,
para obedecer a um instincto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o
fazia recuar.

Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o herbanario a subir para a
margem, Magdalena, respirando emfim com desafogo, respondeu s
anteriores palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura:

--Bem v que nem sempre  cauteloso o nosso guia, primo Henrique. Sabe
tambem arriscar a vida, quando uma razo de humanidade lh'o pede. A sua
imprudencia de ha pouco... agradeo-lh'a, mas... no posso approval-a.
Confesse que no foi to justificada como esta.

Henrique tinha a razo clara bastante e a consciencia justa para vr
que, apesar da sua faanha cavalheiresca, ficra, d'esta vez ainda,
inferior ao seu companheiro.

Qualquer que fsse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse,  certo
que teve sobre a rebellio dos maus instinctos poder sufficiente para se
obrigar a ir apertar a mo a Augusto.

O velho Vicente estava pallido e extenuado pelo esforo da lucta com a
corrente; ainda assim abraou tambem Augusto, dizendo:

--Agradeo a Deus o haver-me dado esta occasio de te dever a vida,
rapaz. Era um prazer que desejava levar da terra, quando a deixasse.

Magdalena e Christina rodeavam o velho de cuidados.

Appareceram, emfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D.
Victoria com guarda-chuvas e roupas de agasalho. Com elles vinha tambem
o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto
estar obstruida a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudssem
ahi dentro mudar de fato.

Augusto seguiu o herbanario a casa.

Passada meia hora saam tambem do moinho os outros todos, depois de
haverem renovado a roupa, que a chuva repassra.

No Mosteiro, D. Victoria recebeu a filha e a sobrinha com muitas
exclamaes e ralhos por no terem ido prevenidas com guarda-chuvas,
como ella lhes recommendra; estas iras cdo se derivaram sobre os
criados, a quem, entre outros delictos, attribuia o de a no haverem
avisado de que na vespera passra por alli o caldeireiro ambulante,
repenicando nos seus arames, o que, sendo prognostico infallivel de
chuva, faria com que ella, sabendo-o, se oppuzesse a tal passeio.

Em Alvapenha, D. Dorotha e Maria de Jesus no levantaram menor celeuma,
ao vrem chegar Henrique. Fizeram-o metter na cama, cobriram-o de
cobertores, emborcaram-o de _punch_ e taes mdos lhe insinuaram, que as
apprehenses pathologicas de Henrique agitaram-se e tentaram
reapossar-se da sua antiga victima.




XI


Censuravel descuido tem sido o nosso em no conduzir o leitor a um dos
logares mais importantes da aldeia, onde se passam os singelos episodios
d'esta narrao.

Que se diria de um _cicerone_ que, por esquecimento ou proposito,
deixasse de apresentar um viajante, recem-chegado a uma cidade, na
assembleia, club, gremio, ou o que quer que seja, onde se reunem as
principaes personagens d'ella, onde se compendiam as grandes questes e
interesses locaes, as pequenas vaidades e intrigas, as modas ephemeras,
os voluveis caprichos que agitam os espiritos, onde se commenta o boato
de hontem, se do ao de hoje mil verses diversas e se adivinha j o de
manh?

Pois no mesmo delicto incorremos ns, chegando a este undecimo capitulo,
sem ter guiado os leitores  venda de Damio Canada, a qual podia
dizer-se o verdadeiro corao d'aquelle organismo social.

Tudo quanto na terra havia de certa representao alli ia falar da coisa
publica e tambem da particular;--da particular dos outros mais do que da
propria, entenda-se.

Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza aps horas continuadas
de chuva e de temporal, como que procurou respirar e permittiu que o
sol, j no occaso, levantasse uma ponta do manto de nuvens que o
envolvia, e mandasse os raios amortecidos s cristas das serras
fronteiras; aproveitemos este intervallo de socego para entrarmos na
taberna.

Tinham passado dois dias depois do passeio ao monte, que descrevemos.

Henrique de Souzellas teve de condescender com uma leve angina, que lhe
legaram os rigores d'aquella excurso, e ficou em Alvapenha,
entretendo-se a escrever cartas aos amigos e a scismar n'uma imminente
desorganisao da larynge, a que imaginava conduzirem-o os seus
incmmodos actuaes.

No Mosteiro nada tambem occorreu, que merea narrar-se ao leitor.

Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos, e vejamos o que
dizem os frequentadores do estabelecimento de Damio Canada.

Brilhante  a assembleia alli reunida. Alm do proprietario, barriguda e
rubicunda figura, que, assim posta ao p das pipas, podia servir de typo
para a representao de um Sileno, havia varias individualidades de peso
nos destinos de toda a comarca.

D-se primeiro meno ao nosso j conhecido Bento Pertunhas, a quem as
humanidades no faziam soberbo a ponto de recusar-se a entrar em
communicao social com os seus conterraneos.

Observada esta deferencia, mencionemos os mais.

Um era nem mais nem menos do que o sr. Joozinho das Perdizes, em quem
j temos ouvido falar por mais do que uma vez.

Era o dicto sr. Joozinho morgado e proprietario em uma das freguezias
proximas, chamada de Pinches; mas propriedades e morgadia andavam-lhe
to embaraadas em redes de demandas e de hypothecas, que Deus nos
acuda.

Os autos, que diziam respeito  casa das Perdizes, enchiam um cartorio.
Graas, porm, ao seu genio despreoccupado e folgazo, o sr. Joozinho
deixava aos procuradores os cuidados judiciaes; os cuidados agricolas
aos rendeiros e feitores; os do futuro, a Deus ou ao diabo; e para si
no reservava nenhuns.

Proseguia n'aquella vida airada, que j lhe era necessidade. Frequentava
as feiras, onde ia para jogar e fazer trocas de cavallos com os ciganos,
e s vezes para dar e levar sovas monumentaes.--Nos mezes de caa, a
vida do morgado era perfeitamente nmada: estendia por leguas e leguas
as suas excurses venatorias, contentando-se com qualquer cama e comida,
de que, de ordinario, participavam os ces, que o acompanhavam;
distrahia-se tambem a conquistar os coraes femininos da freguezia,
calando com dinheiro algumas queixas mais acerbas e insoffridas de um ou
outro pae, marido ou irmo. Em todas as tabernas das freguezias vizinhas
tinha contas em aberto, o que no obstava a que entrasse em todas com
ares de conquistador e expendesse alli as suas opinies absolutas, com
grande exhibio de berros e de punhadas.

Com todas estas qualidades, era o sr. Joozinho das Perdizes um homem
verdadeiramente popular entre os da sua freguezia; movia-os no sentido
que quizesse.

Tudo por l era o sr. Joozinho; no havia funco, rixa, solemnidade
official, para que elle no fsse consultado.  que a superioridade do
morgado das Perdizes no era d'aquellas que intimidam e acanham o povo;
ninguem hesitava em falar-lhe e em procural-o em casa, porque, falando e
vivendo com elles, o sr. Joozinho no constrangia ninguem. Os seus
defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas eram outras tantas causas a
popularisal-o; justo  porm que se diga que algumas boas qualidades
tambem para isso concorriam. O sr. Joozinho no era avarento, nem
soberbo. Sentado a beber, e com dinheiro no bolso, no consentia que
pessoa alguma, desde o mais rico proprietario at o jornaleiro mais
miseravel, recusasse tomar assento a seu lado. No eram poucos os
filhos-familias que resgatra de soldado, sem a menor cauo ou
interesse, chegando a ficar empenhado para os livrar; e se algum
desgraado se via perseguido pela justia, encontrava, fsse qual fsse
a enormidade do crime, asylo seguro na herdade das Perdizes, que em
certas pocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.

Graas, pois, a estas e analogas qualidades, era o sr. Joozinho uma
verdadeira potencia eleitoral.

Eis ahi o homem moralmente.

Pelo lado physico, supponham um sujeito de trinta e cinco annos, gordo,
vermelho, de longas e encaracoladas melenas em desordem, bigode aparado
e a barba quasi sempre mal feita ou por fazer. Na maneira de vestir
inculcava os habitos da vida e um certo desleixo com sua pessoa, que lhe
era peculiar. Trazia o collete quasi sempre desapertado e com alguns
botes de menos de modo que os peitos da camisa formavam hernia pela
abertura; entre as calas descadas e o collete avistava-se o cz das
ceroulas, no qual era geito muito seu o enfiar a mo; ao pescoo trazia
um leno de seda escarlate, negligentemente atado e com longas pontas
fluctuantes; uma jaqueta de pelles com alamares, calas de fazenda
chamada pelle do diabo, botas de montar e esporas constituiam o resto do
vestuario. O cigarro, que quasi sempre fumava at s ultimas,
crestra-lhe profundamente as pontas dos dedos e o canto dos labios. O
palito andava-lhe sempre atraz da orelha; a navalha de ponta na
algibeira, e, para qualquer parte que ia, acompanhava-o uma tumultuosa
matilha de galgos, podengos e perdigueiros.

Segunda e no menos importante personalidade era a do sr. Eusebio
Seabra, chamado por antonomasia--o Brazileiro.

Era um homem de cincoenta annos; bem figurado e sisudo, de falar
compassado e com seus qus de oraculo, phrases sentenciosas e ares de
proteco a todo o mundo.

Saira creana da aldeia e fra tentar fortuna ao Brazil. Por l esteve
quarenta annos, e voltou o homem grave que vemos e rico. Como enriqueceu
no sei, e ninguem na terra o sabia. Veio edificar uma casa no sitio em
que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo, com tres andares e
varandas, jardim com estatuas de loua e alegretes pintados de verde e
amarello, o qual jardim tinha mais fama n'aquellas aldeias vizinhas do
que os jardins suspensos da Babylonia. Trouxera um papagaio e uma arara,
igualmente famosos, e uma botica homoepatica, que elle proprio
manipulava.

As ambies de Eusebio Seabra limitavam-se a vir a ser a primeira
personagem de influencia na aldeia. Para isso principiou por fazer
alguns reparos na igreja parochial, presenteou com vestidos novos todos
os santos dos altares, e mandou renovar um sino, que havia doze annos
tocava a rachado. Fez  sua custa a festa do orago, chegando a mandar
vir fogo preso da cidade e um aerostato, que ardeu a pouca altura do
cho. Apesar, porm, de todos estes beneficios  localidade, o
conselheiro Manoel Bernardo, pae da morgadinha, comquanto vivesse quasi
sempre em Lisboa, continuava a fazer-lhe sombra e a contestar-lhe as
ambiciosas vistas. Por isso, apesar da apparente amizade com que Seabra
o acolhia e lisonjeava at, conservava por elle no fundo uma m vontade,
um ciume, de que eram de receiar, tarde ou cdo, exploses.

Seabra era to asseiado, quanto o sr. Joozinho das Perdizes descurado
no seu vestir. Usava sempre de suissa irreprehensivelmente talhada em
volta do queixo; camisa muito lavada; peito aberto e tres grandes botes
de brilhantes; no trajo combinavam-se as variegadas cres de uma ave da
America; e o ouro, distribuido com profuso por todos os accessorios da
sua pessoa, attestava os bons resultados dos seus quarenta annos do
Brazil. Passeiava pela aldeia de chinelos de marroquim verde ou sapato
de tapete, e era tal n'elle a delicadeza do andar, que voltava a casa
sem que uma mancha ennodoasse a alvura das suas meias de algodo fino.
Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos caminhos, calcando-a
com bota de polimento.

Alm d'estes dois e do nosso conhecido Z P'reira, que bebia, em
silencio, ao p do taberneiro, havia um padre, coadjuctor da freguezia,
dois lavradores abastados e j de avanada idade, e outros que
deixaremos confundidos na massa indistincta dos comparsas.

No momento, em que entramos, usava da palavra o brazileiro, que estava
sentado  porta da taberna, na mais limpa cadeira do estabelecimento.

--Pois  verdade--disse elle--fmos todos da mesma creao. O
conselheiro Manoel Bernardo saiu d'aqui para Lisboa um anno depois de eu
ir para o Brazil. Andmos ambos na mesma escola, que era a do padre
Joaquim, alli pelo sitio da Corredoura. Vossemec ha de estar lembrado,
sr. Luiz--accrescentou, dirigindo-se com a affabilidade protectora, que
o caracterisava, a um dos lavradores.

--Ora se estou! muito bem. Era na casa em que hoje mora o Chico da
Luciana.

-- verdade que sim. Pois alli andei eu e o conselheiro e aquelle rato
do Vicente, herbanario, que era j rapaz taludo. Lembra-me, como se
fsse hoje, de quando jogavamos todos tres a pedra no terreiro da
Corredoura.

--Olha l, hein!--diziam dois lavradores com um sorriso cortezo nos
labios--ento com que o sr. Seabra tambem jogava a pedra! Eh! eh! eh!...

--Ora, como um homem. Eu fui levadinho da brca. Boa sva levei de minha
me, por causa de umas calas novas que rompi.

--Ora vdes?--diziam os outros.

--Ai tempos, tempos!--disse, suspirando, o brazileiro.

--Quem havia de dizer ento ao que v. s.^a e o conselheiro tinham de
chegar!--notou lisonjeiramente o sr. Bento Pertunhas.

--Eu sim--respondeu com toda a sua modestia o brazileiro.--A que cheguei
eu? Comi candeias accsas pelo Brazil, para arranjar um boccado de po
para o resto da vida; com isso me contento. O mais, sou um pobre diabo
que ninguem conhece, um homem ignorante, sem principios. Elle  outra
coisa.

--No  tanto assim--insistiu Pertunhas--todos sabem que v. s.^a se
quizesse...

--Olhe, meu caro amigo, eu conheo-me; se tivesse o juizo de muitos, que
por ahi vejo figurando, ento havia de me vr na brecha; porque, no 
por me gabar, mas no me tenho por menos do que muitos d'elles.

--Ora pois, no, no--disseram os lavradores, Pertunhas e o padre.

--Alguns que at ministros teem sido...

--Por essa estou eu...

--O conselheiro mesmo...--resmungou o padre, fungando uma pitada
jesuitica--sim, aqui para ns...

--Tanto no digo--continuou o brazileiro, mais jesuiticamente ainda.--O
conselheiro... vamos... Faa-se-lhe justia. Eu no quero dizer que elle
seja uma coisa por ahi alm... sim... Que diabo tem elle feito a
final?... Mas... No  dos peores, no  dos peores. Faa-se-lhe
justia. No  homem de grandes talentos... isso no; nem mesmo de
grande fundo. Sim... Devemos confessar que esta  a verdade... Mas...
emfim, vamos andando... Cada um faz o que pode--concluiu o brazileiro,
depois de ter feito justia ao conselheiro.

--No que elle tem andado mal  em prometter mais do que pode fazer. Ha
quantos annos nos anda a falar na estrada, e at hoje ainda nem palmo
d'ella?--opinou Pertunhas.

--Meu amigo, engana meninos e chupa-lhe o po: diz o dictado--ponderou o
brazileiro.

--A falar verdade!...--disse um dos lavradores--com a influencia que
elle tem, podia...

--Ora adeus! palanfrorio--atalhou o padre--bem me fio eu na influencia
do conselheiro.

--Eh! eh! eh!--respondeu o brazileiro, agradado do scepticismo do padre,
e accrescentou com um sorriso velhaco:--No, elle diz que fala com os
ministros, que tal, que sim senhores, que domina o partido. Emfim...
Elle l o sabe.

--Para mim  que elle vem de carrinho...

--Eu no sei--concluiu com requinte de velhaquez o brazileiro.

--Pois eu c--disse o sr. Joozinho, que estivera bebendo em silencio, e
descarregou um murro na banca, que fez tilintar os copos.--Eu c j
disse; se os taes homens das bandeirolas me tornam a passar por as
terras, sempre lhes meo as costas com um marmeleiro, que l tenho, e
que j me serviu para varrer a feira de Santo Estevo. Uns mariolas!...

E como para desafogar o pso da sua amabilidade, despediu um pontap a
um podengo, que lhe viera roar por as pernas, e fel-o sair ganindo.

--Dizem que vo principiar outra vez com os trabalhos das
estradas--informou o taberneiro, enchendo de novo o copo ao sr.
Joozinho.

--Pois que vejam no que se mettem. Cautelinha commigo!--resmungou
este.--Fao como d'aquella vez em que eu e a minha gente queimmos toda
a papelada da camara e do escrivo da fazenda.

--Agora no inverno  que elles ho de principiar com os trabalhos.
Sempre se fia em boa!--disse, encolhendo os hombros, mestre Pertunhas.

--Vossemec  que est a ler--veio-lhe  mo o brazileiro.--Ento no
sabe que as eleies so em fevereiro?

--Ai,  verdade! no me tinha lembrado d'isso!--exclamou o padre.

--Tambem no sei como ser d'esta vez essa historia das eleies--acudiu
o sr. Joozinho.--C eu e a minha gente ainda estamos a vr no que param
as coisas. Eu j no estou para ser logrado. At agora tenho dado ao
conselheiro a freguezia em pso, sem pedir nada, ou se pedi foi o mesmo
que no pedisse. Vou curar-me de tolo; agora sempre havemos de entrar
n'uns ajustes. Se o homem no estiver c por umas contas, no anda o
filho de meu pae.

--Ora adeus!--disse o padre cura.--O conselheiro tem artes para o levar.

--A mim? Est enganado. No querendo eu? Ento voc no me conhece. Em
eu embirrando, sou como um borrego teimoso.

--Quando se fala em estradas, j estou a tremer--disse um dos
lavradores.--O que elles veem c fazer  cortar-nos os campos, e a final
no sei para que servem.

--Isso no  assim--atalhou o brazileiro, tomando uns ares
cathedraticos, cheios de gravidade.--Vossemec  ignorante e por isso 
que fala d'esse modo.

--Eu digo...--tartamudeou, intimidado, o lavrador.

--Pois sim: mas no deve metter-se a falar em coisas que no entende. As
estradas no servem para nada! As estradas so meios de communicao
e... facilitam o... o... o trafego commercial e augmentam por
conseguinte a riqueza das naes... Porque o trabalho representa um
capital..., sim, senhores, mas... mas um capital... sim... um capital
morto... quero dizer um capital que no vive... Quero dizer... sim...
supponhamos: o credito por exemplo... O credito..., sim... ahi est o
credito... Pois que  o credito?... O credito ...  o credito...
depende de muitas coisas... Por outra, supponhamos... se ns no
tivessemos estradas... Uma supposio... Partamos de um principio. A
produco excede o consumo... Quero mesmo que o consumo exceda a
produco... Sim, quero mesmo isso... Muito bem... D'ahi que resulta?
Est claro que um desequilibrio. E depois?... Depois, boas noites... No
havendo estradas... Ahi est que se diz por ahi que a livre exportao,
que tal, que sim senhores... mais isto, mais aquillo... Pois no 
assim.  preciso que se attenda tambem s condies economicas dos
povos. Sim... eu digo: O commercio deve ser livre... Muito bem... Em
termos j se sabe... Mas... o commercio livre... a livre troca...
entendamo-nos...  preciso clareza de ideias... Quando eu digo que...
Ora supponhamos... supponhamos que no havia estradas... Os transportes
eram mais difficeis e portanto mais caros... E se alm d'isso os generos
fssem escassos e... Diz vossemec, para que servem as estradas? Ora
diga-me uma coisa, sr. Manoel, supponhamos que... os impostos
indirectos... no precisamos de ir mais longe... os impostos
indirectos... Sempre queria que me dissesse o que havia de fazer.

--Impostos, Deus me livre d'elles!--murmurou o lavrador, cujos
instinctos trepidaram  palavra impostos.

--Isso tambem no  assim... Deus me livre! No se diz Deus me livre,
porque a riqueza... a riqueza... sim, a riqueza no est na terra...
isto , a riqueza est na terra... mas  preciso o capital para a
explorao... Percebe?... Ou... supponhamos... por exemplo... No...
vamos c por outro lado... Ha um _deficit_ n'um oramento... desce o
preo das inscripes... Ora bem... Mas... supponhamos que ha boas
estradas, _et coetera_... A riqueza tende a augmentar... e... e... Emfim
l que as estradas so uteis, isso  que no tem questo.

Toda esta lenga-lenga economica foi escutada pelo auditorio com profunda
atteno.

O brazileiro, assignante e leitor infallivel de varios periodicos
politicos, conseguira,  fra de leitura, fixar na memoria certas
phrases de artigo de fundo, e acabra por convencer-se de que possuia
grandes noes de sciencia politica. Em occasies como esta dava uma
sacudidela ao intellecto, e aquellas phrases como os variados objectos
do interior de um kaleidoscopo, tomavam uma disposio tal ou qual, mais
ou menos regular, e assim lhe saia uma dissertao, como essa que viram.
Em permanente indigesto economica vivia este portento. A doena no 
das mais raras entre politicos.

O sr. Joozinho das Perdizes abriu desmesurada e ruidosamente a bca,
depois do discurso do brazileiro, e disse:

--Eu c por mim no sei d'essas coisas. No se me dava das estradas para
poder ir  feira de Penafiel com menos trabalho, mas, j disse, que me
no venham mexer na quinta; porque ento teem que vr.

--Pois est arriscado a isso--disse o brazileiro.

--Veremos, depois no se queixem. Temos a historia da papelada outra
vez.

--Houve a ideia de levar a estrada pela Corredoura fra, depois de tomar
 esquerda pelo Castro e vir direito  Palhoa. No tinha cruzes nem
cunhos. Ia-me parte da propriedade.

--Ah! ah! ah! Tambem no gosta? Diga-me d'isso!--berrou o sr. Joozinho.

--No  no gostar,  que o traado era pessimo.

--No sei por qu.

--S a expropriao da minha quinta por que preo no lhes ficava?

--Elles, para esses casos, l teem umas leis a seu modo--notou o padre
cura.

--E por onde ha de ir ento a estrada?

--O outro traado, que eu aconselhei ao engenheiro, parte da herdade do
capito-mr, faz um viaducto nos lameiros, atravessa o pinhal do Conego,
passa o rio n'uma ponte e...

--Oh com os diabos; o que ahi vae!

--No  tanto como parece; sendo as obras bem dirigidas... At aos
lameiros s tem a deitar abaixo a casa e o quintal do herbanario.

--Deitar abaixo a casa do herbanario! O pobre diabo rebenta de paixo,
se tal fazem--disse, com certa commiserao, o sr. Joozinho das
Perdizes, que tinha por o herbanario uma sincera affeio e respeito,
n'elle excepcional, desde que lhe attribuia a cura de um typho que o
tivera s portas da morte, e de que o velho, dizia elle, o salvra, com
uns cozimentos smente d'elle sabidos.

--Ora adeus! Antes d'isso morre o homem de doidice. Est maluco de
todo--redarguiu o brazileiro.

--Tambem est um bom magico, est--notou o padre.

--Quer no, que sabe mais do que todos os medicos--acudiu o sr.
Joozinho das Perdizes; a mim me livrou de uma maligna. Oh que
excommungada!

E principiou a fazer a historia da sua doena.

Os lavradores concordaram em que o homem era sabedor; mas attribuiam-lhe
mais mysteriosa sciencia, do que a da medicina.

--Pois a final por onde devia ir a estrada--continuou o
brazileiro;--tinham ainda o campo dos Brejos do conselheiro, mas n'isso
no se fala, j se sabe.

--Ora! pois est de vr--concordou o padre.

--E o conselheiro no se ha de oppr  expropriao da casa do
herbanario, porque pelos modos elles no andam muito correntes--lembrou
um lavrador.

-- verdade; por que seria aquillo?--perguntou outro.

--Elles em tempo eram muito um do outro; e so at
aparentados;--explicou o brazileiro--e o velho ainda hoje  tratado com
familiaridade pela gente do Mosteiro; mas julgo que o homem com aquelle
genio exquisito que tem, disse algumas verdades ao conselheiro, por
occasio de umas eleies, quando elle pz as auctoridades a trabalhar
por si, e o velho entendia que as coisas no iam bem assim.

--Pois, com os diabos, o Vicente herbanario vale mais do que vinte
conselheiros e toda a familia,--exclamou o sr. Joozinho, batendo outra
punhada--e queira elle, que o tal senhor no pe mais o p nas camaras,
mandado c pela terra.

--Eu gsto de os ouvir,--disse o padre--falam assim, mas em chegando a
occasio, vo todos votar n'elle como carneiros.

O brazileiro encolheu os hombros e sorriu, como confirmando o dicto.

--Pois havemos de vr o que ser!--berrou o sr. Joozinho.--Isso 
consoante c umas coisas.

--A falar a verdade--disse o Pertunhas--no tem pago muito bem ao
circulo o nomeal-o ha tantos annos seu deputado; s essa teima agora em
querer obrigar o povo a enterrar-se no cemiterio!

--Essa a falar a verdade!--disse um lavrador.

--Quero vr se me ho de enterrar a mim!--disse ameaadoramente o sr.
Joosinho, como se esperasse ainda depois da morte, impr as suas
vontades  fra de murros e de pragas.

--Deram-lhe para lhe dizer que fazia mal enterrar nas igrejas.  moda e
acabou-se. D'antes enterrava-se l toda a gente e no havia mais doenas
do que agora--isto dizia o padre.

--Os romanos tinham as suas catacumbas--ponderou o mestre de latinidade,
forando as suas reminiscencias romanas.

--Vamos--ponderou o brazileiro, como quem vira pretexto de fazer novo
discurso e como homem que punha acima dos despeitos a verdade
scientifica.--O enterrar nas igrejas  anti-hygienico; porque os
chimicos sabem que... o ar que no  puro...  mau para a saude publica.
Ora os cadaveres... em putrefaco produzem uns vapores que corrompem o
ar... Ha uns insectozinhos invisiveis que a gente respira... e vo para
a massa do sangue e corrompem-a... e o resultado  a febre... porque a
febre so os humores a ferver... como o vinho no lagar... e se sem,
muito que bem; e se no sem, ficam retidos e azedam o corpo todo.

A theoria physiologica pathologica foi recebida com atteno igual  que
merecera a economica.

--Tudo isso ser assim,--disse o padre--mas o conselheiro faz aquillo
por instigaes das lojas maonicas e dos pedreiros livres.

--Pois elle ser tambem?...--disse um dos lavradores, arregalando os
olhos assustados.

--Ora que dvida! Pois aquella gentinha  toda da sucia.

--Corja!--resmungou o sr. Joozinho.

O brazileiro, que se filira no Brazil na maonaria, fez um discurso
sobre os fins da sociedade, que ninguem entendeu; vendo, porm, que no
calavam nos animos aquellas doutrinas, mudou repentinamente de rumo.

--Elle no ser mao--disse d'ahi a momentos o padre--mas  vr o que
elle tem defendido nas camaras; queria roubar s irmandades e s freiras
os bens que ellas possuem; appeteceu-lhe o exemplo do cunhado, que se
encheu com a compra do Mosteiro; queria acabar com o santo sacramento do
matrimonio; queria que cada qual seguisse a religio que muito bem lhe
parecesse. Vejam que christo aquelle!

Estas novidades abalaram os lavradores, que formularam algumas palavras
de censura.

--E tambem falou para acabar com os morgados e com os vinculos.

--A falar a verdade, os vinculos...--murmurou o sr. Joozinho, que por
vezes tropera nas disposies da antiga lei vincular, ao caminhar na
estrada da dissipao; porm, recordando-se de um irmo que tinha,
casado e pae de muitos filhos, que mal conseguia sustentar  custa de
muito trabalho, a ideia da abolio dos morgados no lhe sorriu e
exclamou com nova punhada:--Acabem l com os morgados quando quizerem,
que o que eu lhes digo , que tem de se haver commigo quem quizer
tirar-me um palmo de terra!

O padre cura continuou a tratar pouco christmente o conselheiro.

O pae de Magdalena militra sempre, como j dissmos, nas fileiras do
partido mais liberal, e por isso era-lhe em geral pouco affeioada a
maioria do clero, que, entre ns, no espsa ardentemente aquellas
ideias.

No principio da sua carreira parlamentar, cedendo ao impulso do
enthusiasmo juvenil, o conselheiro desenrolra desassombradamente a
bandeira do partido progressista e pronuncira os mais absolutos artigos
d'aquelle credo politico; liberdade era ento o seu mote favorito; a
liberdade do commercio, do ensino, da imprensa e dos cultos; as reformas
consequentes nos codigos, a desamortisao e desvinculao da
propriedade, tudo advogra com enthusiasmo, no tempo em que estas
palavras soavam ainda como heresias aos ouvidos habituados  lettra de
outro catecismo.

Com o tempo arrefeceu, porm, esse enthusiasmo; dissipou-se-lhe com o
fogo da mocidade. Com quanto liberal ainda de convico, ensinou-lhe a
politica pratica a rebuar em formulas mais ordeiras os seus principios
doutrinarios, a contemporisar, e at quando as conveniencias,
infelizmente, nem sempre as publicas, o pediam, a dar alguns passos de
retrocesso e a transigir com o partido opposto.

Se o fizessem ministro no se arrojaria a transformar em projecto de lei
nenhuma d'aquellas medidas por que pugnra nos seus primeiros discursos,
e que tantas malquerenas lhe acarretaram ento.

J atraz dissmos, que o conselheiro era actualmente um espirito pouco
apaixonado do ideal, respirava a atmosphera de desilluso e de
scepticismo, em que nas grandes cidades se vive. Era um perfeito homem
de crte; tratava cordialmente os seus adversarios politicos, pedindo
d'elles mercs e empregos para afilhados; fulminava-os s vezes da
tribuna e depois apertava-lhes a mo nos corredores das camaras e nas
praas. Se o julgava vantajoso, pronunciava ainda uma d'aquellas phrases
sonoras, uma d'aquellas sympathicas divisas de politica avanada, que no
principio da sua carreira adoptra com sinceridade; mas no tinha j aos
principios o amor preciso para cair, abraado n'elles, dos degraus do
poder, se algum dia os chegasse a subir.

Por isso os soldados rasos do seu partido, os politicos em abstracto,
unicos para quem a politica  sempre ideal e logica, o taxavam de frouxo
e tibio; e de gazeta na mo havia muito que lhe dictavam, do obscuro
canto do paiz em que viviam, a estrada direita, de que elle, porm, a
cada passo se desviava.

Apesar d'isso, o partido conservador e o reaccionario, julgando-o por os
seus primeiros discursos, continuavam, de boa ou de m f, a acoimal-o
de impio, de republicano e de pedreiro livre.

O brazileiro entrou em dissertao a respeito de todas as medidas
politicas a que alludira.

Segundo o costume, ninguem o entendeu.

Ia elle no mais enredado da sua meada oratoria, quando o som de um
tropear de cavallos o interrompeu. Mestre Bento, que fra espreitar 
porta, voltou-se, exclamando:

--Elle ahi vem! ahi vem o conselheiro!

Todos se levantaram pressurosos para correrem  porta. O que mais de m
vontade o fez foi ainda assim o brazileiro.

Dentro em pouco todos se descobriam. Parava  porta o conselheiro, que
montava um soberbo cavallo branco, e ao lado d'elle Angelo, n'um pequeno
baio de frmas elegantes e olhar vivo.

O conselheiro cortejou com affabilidade palaciana os seus amigos e
patricios, dizendo a cada um uma phrase lisonjeira, que dissipou quasi
todo o effeito da conversa que descrevemos.

Depois, fazendo signal ao filho de que podia seguir para casa, dispoz-se
para entrar na venda.




XII


O conselheiro levou a sua attrahente amabilidade at se sentar nos
bancos de pinho do estabelecimento de Damio Canada, envernizados j
pelo uso de muitos annos.

Entre os circumstantes era qual mais o cumprimentava e opprimia com
attenes e o flagellava com obsequios.

O conselheiro revestira-se, com muito estudo, de uma physionomia
satisfeita e sem sombras de reserva; tratando a todos por amigos, e
conversando com aquella familiaridade, to sabida de candidatos a
procuradores do povo, nos circulos que pretendem representar. At chegou
a levar aos labios o copo de vinho, que um lavrador lhe offereceu.

No se lhe percebia porm no rosto, ao fazer isto, o menor vestigio de
artificio, e, ao mesmo tempo, mantinha-se ainda n'elle to apparente a
superioridade intellectual, que os seus interlocutores nunca excediam os
limites da deferencia. O pae de Magdalena era um perfeito homem de
crte: presena agradavel, modos insinuantes, palavras to
astuciosamente lisonjeiras, que desvaneciam os proprios que como taes as
tinham.

Alvejavam-lhe j algumas cs nos cabellos e suissas, que usava talhadas
 moda ingleza; principiava a predominar-lhe nas frmas certa
rotundidade caracteristica; mas no esmero e at elegancia distincta de
casquilhice pretenciosa, com que vestia, no porte airoso, nos movimentos
ageis, no olhar penetrante como o de poucos, e na viveza das conversas,
havia ainda tantos signaes de vigor e de virilidade, que ninguem se
sentia obrigado a estranhar-lhe certos habitos de rapaz, que no perdera
ainda.

Em Lisboa passava o conselheiro por ser um homem bemquisto das damas, e
no obstante os seus cincoenta e cinco annos, acreditava-se que assim
fsse, ou quasi se adivinhava, ao primeiro olhar lanado sobre elle.

Possuia o dom especial de se encontrar  vontade em toda a parte, desde
o mais perfumado gabinete da moda, at o menos asseiado local de um
comicio popular. Nas camaras com graves diplomatas, nos cafs com
rapazes estouvados, na sua aldeia com eleitores absurdos, com actores e
actrizes nos bastidores, com padres nas sacristias, com militares nos
quarteis, em toda a parte e com todos se achava este homem  vontade,
acabando, quasi sempre, por captar sympathias.

Podia dizer-se d'elle, que com igual pericia e rara consciencia da
opportunidade, jogava todas as armas: o galanteio cortezo, a phrase
conceituosa, o equivoco subtil, a anecdota picante, o estribilho
popular, a figura oratoria, a maxima moral, e at a praga energicamente
expressiva; mas, como os espadachins de profisso, jogava-as todas com
frieza de animo, cada qual na occasio opportuna e com perfeita
observancia do que o mundo chama conveniencias sociaes.

Muito tinham que fazer com elle os La Bruyres, que, a cada passo, ahi
encontramos no mundo; illudia os mais atilados. s vezes parecia
abrir-se to do intimo, to completamente e sem condies nem reservas,
havia tal unco de sinceridade nas palavras, com que falava de si, dos
seus projectos, dos seus sentimentos, que o mais desconfiado jesuita
sentir-se-ia tentado a acredital-o e nem sempre se enganaria; outras,
falava verdade, mas com taes hesitaes na voz, com tal mobilidade no
olhar, que, ao consideral-o, a mais ingenua creana experimentaria o
despontar da primeira dvida.

J se v que um homem d'estes era um contendor de muita fra, para
poder ser combatido por qualquer dos influentes locaes; o proprio
brazileiro, apesar de toda a sua economia politica, ainda nada pudra
contra elle; nem ousra romper hostilidades com receio de ficar vencido.

Durante os poucos momentos, que o conselheiro se demorou na loja do
Damio Canada, soube desvanecer muitas das sombras, que a conversa que
precedera a sua chegada havia gerado em alguns espiritos. Tres ou quatro
lisonjas, outras tantas promessas, alguns conselhos modestamente pedidos
com fingida ingenuidade, serviram-o perfeitamente.

Deixemol-o ns na laboriosa e pouco invejada tarefa de manter a
popularidade, e vamos seguir Angelo, que se separou do pae  porta da
venda, para chegar mais depressa ao Mosteiro.

Mettendo a galope o pequeno baio que montava, dirigiu-se para casa com
aquelle alvoroo do corao, que conhece quem j foi estudante e se
recorda ainda do que experimentava ao vr de longe despontar o telhado
da casa paterna, onde vinha gosar as delicias de umas almejadas frias.

Angelo tinha por este tempo treze para quatorze annos. Era uma agradavel
figura de creana, expressiva de intelligencia e de vida. Tinha nas
feies um mixto da delicadeza de Magdalena e da energia varonil, e ao
mesmo tempo attrahente do conselheiro.

O cabello louro e curto levantava-se-lhe graciosamente em anneis
naturaes, com grande vantagem para a espaosa e bem modelada fronte.

Quando Angelo chegou ao pateo, era quasi noite fechada. As janellas do
Mosteiro estavam todas obscuras,  excepo das aguas-furtadas,
correspondentes aos quartos das creanas. Angelo desmontou e
cautelosamente se dirigiu a p para casa.

Torquato dormia  porta, como frequentemente lhe acontecia.--Angelo pde
assim penetrar sem ser percebido at o mais intimo da casa, at os
aposentos onde dormiam as creanas, e em cujas janellas avistra luz.

A scena que viu, ao entrar alli, insinuou-lhe no corao uma suave e
encantadora alegria.

O mais novo dos seus primos, creana de tres annos, estava meio n e de
joelhos sobre o leito com as mos erguidas e os olhos fitos em um
crucifixo que tinha  cabeceira. Magdalena, ao lado d'elle, dictava-lhe
as palavras da orao, que a creana repetia, cheia de fervor.

Nos quartos proximos palravam, ainda acordados, os mais velhos, apesar
das continuadas advertencias da prima.

Angelo approximou-se sem ruido, e quando a morgadinha se abaixava para
beijar a creana, elle estendeu a cabea e pousou tambem um beijo nas
faces da irm.

Magdalena soltou uma exclamao de surpreza e cingiu-o nos braos com
effuso.

A creana levantou um brado, que foi o signal de revolta dado a Marianna
e Eduardo, que cdo abandonaram os quartos e correram a abraar Angelo.

--Vens s?--perguntou Magdalena ao irmo, quando uma pergunta lhe foi
possivel.

--O pae ficou na loja do Canada--respondeu Angelo.--Estava em sesso a
assembleia dos notaveis. E como ests tu, minha Lena, tu e Christe e a
tia? Como vae toda essa gente?

--Anda tu mesmo sabl-o.

--Eu vou dizer  mam--disse Marianna, saindo aos saltos.

--Eu vou chamar Christe--disse Eduardo, imitando-a.

E sairam ambos, pregoando a chegada do primo.

O pequeno que Magdalena deitra, pedia, chorando, para se tornar a
levantar, requerimento que, a rogos de Angelo, foi deferido.

--Dize-me--continuava no entretanto este para a irm--tens-te enfastiado
muito, aqui s?

--No, tenho-me divertido at.

--Devras? E que fazes? Em que passas o tempo?

--Eu sei? O tempo  que passa, sem eu dar por isso. Leio pouco, passeio
muito; trabalho mais.

--Que tens lido?

--Quasi sempre relido.

--O qu?

--Nem eu sei j. O primeiro livro em que pouso a mo, quando os vejo
sobre a mesa.

--O Augusto tem vindo ensinar os pequenos?

--Todos os dias.

--E o tio Vicente? Que me dizes d'elle?

--Vae bom. Caiu no outro dia  levada da raiz do monte; valeu-lhe o
Augusto para o salvar.

--Sim? Pobre homem! Olha n'aquella idade! E a tia Dorotha?

--Tem de hospede um sobrinho de Lisboa, um Henrique de Souzellas;
conheces?

--Eu no.

-- provavel que por ahi venha. A tia Victoria insiste em que lhe
chamemos primo. Aviso-te d'isso.

--Sim? E a tia? Ralha ainda muito com os criados?

--Coitada! Achei graa, ha dias,  Joanna, que com muita ingenuidade se
me veio queixar de que ella at o anjo da guarda lhe occupava em servio
proprio. Tu sabes que a tia, quando est com muito somno, tem aquelle
costume de dizer s criadas que a encommendem ao anjo da guarda d'ellas.
Mas vamos.

--Espera... e... e o Cancella trouxe-vos aquellas encommendas?

--Trouxe.

-- verdade; e a filha d'elle? A Lindita?

--J c me ia tardando a pergunta--notou a morgadinha, rindo.--Essa anda
contente, como quem nada tem a penalisal-a; nem saudades.

--Ora vamos, Lena; no te perdo a malicia.

--Ento devras esse corao est assim tomado?

--No te informo do meu corao, que o no levo commigo, quando d'aqui
vou. C me fica; e uma grande parte d'elle no teu poder. Eu sou que
pergunto; em que estado m'o entregas?

--Muito doente.

--Sim? E o teu?

--O meu? Ah! nem eu sei d'elle. Olha; isto de coraes so como as
creanas. As travssas tantos cuidados do s mes, que a todos os
instantes querem saber o que ellas fazem e onde esto; as socegadas
inspiram tal confiana, que nem sequer n'ellas se pensa. O meu corao 
um modelo de serenidade.

--Ento ainda nenhum cavalleiro errante ou trovador...

--O sitio  pouco abundante em heroes. O unico d'estas immediaes,
capaz de ferir a imaginao e commover os affectos de uma mulher,  o
sr. Joozinho das Perdizes; mas esse  um Acton insensivel, que...

-- verdade--disse Angelo, rindo--l vi tambem esse javali na venda do
Damio Canada. Mas... No sei que pense, Lena. Eu ainda um dia te hei de
dizer umas coisas.

--A mim? A respeito de qu?

--Do teu corao.

--Que sabes d'elle?

--A seu tempo direi.

--Como te vieram essas presumpes de conhecedor dos coraes alheios?
No tinhas isso, quando d'aqui foste.

--s vezes v-se melhor de longe.

--Os de vista canada... de muito vr.

--Bem; depois falaremos. Vamos l ter com a nossa gente, que o pae no
tarda ahi.

De facto, meia hora depois estava a familia toda reunida n'uma das salas
principaes da casa. O conselheiro, sentado n'uma cadeira de braos,
tinha ao collo Marianna; Christina, a p, encostava-se-lhe familiarmente
ao hombro; a morgadinha, sentada em tamborete baixo, apoiava o brao, em
que recostava a cabea, em um dos joelhos do pae. Do outro lado da sala,
D. Victoria, sentada no sof, servia de travesseiro a um dos pequenos
que, apesar de prometter estar acordado, para que o deixassem ficar a
p, adormecera. Junto d'este, Angelo fazia frequentemente rir sua tia e
Eduardo, com as historias que lhes contava.

A conversa cdo se generalisou. Era uma d'essas conversas intimas,
familiares, em que se referem as mais insignificantes circumstancias da
vida domestica; conversas cujo suave perfume s em familia se aprecia.

Pobre do estranho que por acaso se encontra n'um d'esses circulos
apertados pelos estreitos laos da amizade e do parentesco, e se v
obrigado a ouvir a minuciosa chronica das occorrencias da casa, que no
 a sua!  uma pathetica illuso a de certas familias, que imaginam que
para todos  de igual interesse a narrao dos successos domesticos, que
tanto as deleitam, e com ella entreteem o primeiro indifferente que se
lhes depara; tudo trazem  luz, o dicto agudo da creana de tres annos,
os incmmodos que soffreu na primeira dentio, as espertezas do gato
favorito, as razes ponderosas que aconselharam a mudana de um movel, a
combinao economica que favoravelmente modificou o oramento domestico,
a reforma nos processos culinarios consagrados pelo habito de muitos
annos, o exame comparativo da conserva de um anno e da do anno
antecedente, os defeitos e qualidades de um criado e mil outras pequenas
coisas, que  foroso escutar com ares de quem as acha curiosissimas, o
que obriga a esforos sobrehumanos.

 natural aquella illuso; e pathetica a dissemos ns tambem, porque os
que mais de corao se entregam  vida domestica, so os mais sujeitos a
ella. Todos estes episodios futeis e pueris os preoccupam e deliciam
mais do que as mais estranhas peripecias, que ainda concebeu a
imaginao de romancista fecundo. E quem se lembra de que 
individualissimo esse interesse, inherente  pessoa e no aos factos, s
causas que to curiosos lh'os fazem ser?

Eu e o leitor, estranhos  familia do Mosteiro, vr-nos-iamos, se
fssemos escutar todo o dialogo que se travou na sala, na posio da
pessoa indifferente que imaginamos a aturar um d'esses relatorios
domesticos, a que sobre tudo so to inclinadas as mes de familia.

 verdade que o conselheiro podia achar curiosa a conversa; e o
conselheiro tinha visto e ouvido tanto no mundo, que o que elle achasse
curioso  porque realmente o era. D'esta vez, porm, damol-o por
suspeito, porque o conselheiro tinha corao e, quando esta viscera se
alvoroa com affectos, as intelligencias mais elevadas teem d'estas
sympathicas fraquezas.

O politico, o diplomata reservado, fica fra do porto da quinta do
Mosteiro; alli dentro, n'aquelle circulo de affectos, era o pae
extremoso, o homem de familia, ingenuo, sincero, aberto a todos, porque
em todos confiava, contente por no ter de estudar na expresso dos
rostos os pensamentos que se guardam; nas palavras o sentido, que
n'ellas no vem explicito.

Era um salutar descano dos continuados esforos da sua vida de Lisboa;
l a lucta; aqui o repouso.

Por isso ouvia com atteno e applaudia com vontade as narraes da
cunhada, de Magdalena, de Christina e at da pequena Marianna.

E apesar de todo este encanto, em que parecia cair, o conselheiro no
poderia resignar-se a trocar por elle para sempre o vertiginoso
movimento da sua vida politica.

Eram-lhe j necessidade aquella conteno, aquelle esforo de espirito,
aquellas desconfianas continuas, aquelle jogo de astucias, que lhe
tomavam em Lisboa todo o tempo.

Quinze dias no campo bastavam para o fazerem suspirar por as lides e o
afan da capital; nem os affectos da familia o retinham.

A politica  uma embriaguez; nos intervallos em que o espirito se sente
desanuviado dos vapores em que ella o envolve, pesam-nos os desacertos a
que fomos arrastados; o desgosto do mal feito insinua-se-nos no corao;
cdo, porm, a violencia dos habitos subjuga os remorsos da consciencia,
e de novo nos arrasta.

O caracter intimo da conversao foi levemente modificado por a entrada
de D. Dorotha e de Henrique de Souzellas, que de Alvapenha vieram
visitar o conselheiro, mal tiveram noticia da sua chegada.

O conselheiro acolheu com jovial cordialidade a senhora de Alvapenha e
com delicada franqueza Henrique, que elle conhecia de Lisboa.
Frequentavam ambos os principaes crculos da capital e, por mais de uma
vez, tinham trocado algumas palavras ou tomado parte em conversas e
discusses communs.

Passado algum tempo depois dos cumprimentos, o sero animou-se de novo,
fragmentando-se porm a conversao.

D. Victoria tomou  sua parte D. Dorotha e passou a fazer-lhe amargas
queixas a respeito dos criados do Mosteiro, ao que D. Dorotha acudiu
com conselhos de resignao christ.

Angelo conversava com Magdalena e Christina, a quem frequentemente fazia
rir.

Henrique e o conselheiro, proximos do fogo, estavam empenhados n'um
dialogo muito animado.

O conselheiro parecia estar falando com muita sinceridade e candura que
surprehendiam Henrique, que ainda o no tinha observado por esta face.

-- uma triste verdade--dizia por exemplo o conselheiro n'um ponto
adeantado da conversa, referindo-se a algumas consideraes de Henrique
sobre a felicidade d'aquella vida do Mosteiro.--Tenho esta familia que
v; todos me querem sinceramente aqui, e no sei resistir  fatal
necessidade que me arranca de todos estes braos para me lanar ao
turbilho da politica e d'isso que se chama o mundo! Pois amo devras a
minha Lena, creia.

-- um dever que cumpre. N'estes tempos de m f politica, quem se sente
com a coragem de se votar, corpo e alma,  defeza despreoccupada dos
bons principios...

Nos labios do pae de Magdalena passou um ligeiro sorriso, meio de
descrena, meio de melancolia.

--Defeza despreoccupada? Isso  quando Deus quer--respondeu elle.--Olhe,
Henrique, visto que me veio encontrar em minha casa, a cuja porta eu
deixo, ao entrar, todas as mascaras e artificios, de que uso no mundo,
vae vr em mim o homem que talvez no esperasse e que, j lhe digo,
debalde procurar reconhecer um dia, se me observar outra vez em Lisboa.
O que lhe vou dizer no lh'o diria, nem lh'o repetirei l.  verdade que
estes ares do campo tambem actuaro em si para me apreciar e tomar  boa
parte a franqueza. L no acreditaria n'ella; se por acaso no a
aproveitasse como arma politica contra mim...

--Pois julga?...

--Peo perdo, se o offendi com isto. No era esse o meu intento, mas 
pratica to geral!... Se um dia fr politico, o que lhe no desejo,
dir-me-ha.

Dizendo isto, fez uma curta pausa na conversao.

Rompendo de novo o silencio, o conselheiro proseguiu:

--Mas falava ahi de principios, que se defendem com desassombro e
atravs de tudo. No sei se quiz ser lisonjeiro e disse o que no
sentia, ou mais do que o que sentia. Em todo o caso, eu, aqui no
Mosteiro, acho-me muito s ordens da minha consciencia, a qual no me
deixa calar hypocritamente. Estou muito longe de ser esse ideal do homem
politico, a que alludiu. Humildemente o confesso; at porque, se
quizesse sel-o, arriscar-me-hia a achar-me s, no teria partido.
Porque, qual  o que v nas condies de constancia de opinies que
disse? Tenho crenas politicas,  verdade; espso no corao certos
principios que quizera vr realisados, mas no combato por elles a todo
o transe, nem por elles affrontaria o supplicio; antes, por vezes, entro
em transaces, que so a completa negao da divisa da minha bandeira.
E este peccado no sou eu s que o commetto;  um peccado venial da
nossa poca. As grandes ideias, que definem e estremam os campos na
politica, havemol-as eu e os mais calcado muitas vezes aos ps, para
sustentar umas insignificantes frmulas, um interesse mesquinho, um
capricho pessoal. A politica desce muitas vezes a isto. E ninguem 
isento de culpa n'este mal. Para elle concorrem os mesmos que de fra
nos julgam severamente. Ha muitos d'estes peccados na minha carreira
publica. E, quer que lhe diga, sabe quando vejo claro n'elles? quando me
persuado de que no so de todo desculpaveis? quando... porque o no
direi? quando sinto remorsos de os ter commettido?  aqui,  perante a
boa f, a sinceridade, a candura d'esta familia, que me tem amor, e que
me considera um homem perfeito, superior, impeccavel.  perante os
generosos sentimentos da minha Lena, e o caracter nascente d'aquella
creana--e indicava Angelo com o gesto.--Parece-me que tenho n'elles
juizes inflexiveis, e escondo por isso a minha face politica dos seus
olhos penetrantes. Ha muita coisa n'ella, para que o mundo  j
indulgente, mas que receio elles me no perdoassem.

Reparando para o olhar de estranheza, com que Henrique lhe seguia esta
effuso de sinceridade, o conselheiro accrescentou, sorrindo:

--Estou a vr que no esperava estas palavras da minha bca; esta
confisso de peccador contricto.

--Confesso que no.

--Ento que quer? Surprehendeu-me aqui com o corao aberto. J agora
deixe-me continuar. Uma das ideias que mais me atormentam sabe qual ?
V aquella creana que alli est? Angelo?  uma intelligencia que, de
dia para dia, vejo formar-se com um vigor de vida, que me espanta. No 
a vaidade paterna que me cega, pode acreditar. Conhecendo-o de perto ha
de dar-me razo. Mas o que ha alm d'isso n'elle  um senso
profundamente moral, raro at em idades menos tenras. Pois bem, quando
penso n'elle por algum tempo, e conjectura que no sero poucas as vezes
em que o fao?... quando penso n'elle e no futuro, sobresalto-me. De um
lado, seduz-me abrir-lhe a carreira politica, onde ha grandes triumphos
a embriagar as intelligencias e onde presinto que a d'elle ter o
direito, se no o dever, de procurar um logar; mas, se me lembro de que
na atmosphera d'aquellas regies no duram muito estas primitivas
canduras da alma, to adoraveis e consoladoras, quando me lembro de que
Angelo ser um dia... o que eu j hoje sou, um pouco desilludido, um
pouco sceptico... com franqueza o digo, hesito em impellil-o ao
redemoinho e pergunto a mim mesmo se mais no valeria dizer-lhe: Angelo,
vive obscuro e tranquillo n'este retiro do Mosteiro, conserva aqui a
ideal pureza da tua alma e procura a felicidade nas satisfaes do
corao. A lucta da vida pode embriagar-te, filho, mas no te far
feliz.

--Mas no admitte possivel que um homem possa atravessar a vida
politica, sem sacrificar um s artigo do seu primitivo credo?

O conselheiro esteve algum tempo silencioso, depois respondeu:

-- difficil. Se um dia a fra das circumstancias realisasse, como um
phenomeno natural, uma revoluo completa nas camadas politicas do paiz
a ponto de trazer  superficie de uma s vez uma gerao nova,
impolluta, inspirada de sentimentos generosos e de sinceras crenas,
ento sim, no bastaria o tempo de uma vida para produzir n'esses homens
reunidos, que uns aos outros seriam ao mesmo tempo exemplo e vigilancia,
a inquinao que eu receio. Mas lance esses mesmos homens, um a um, a
ss com os seus principios e com os seus esforos, insulados no meio de
uma camada quasi toda composta de elementos velhos, e cada um, aps uma
lucta impotente de momentos, ou se retirar, fiel aos principios, mas
desanimado pela inefficacia da sua interveno, ou ficar, cedendo 
corrente e deixando-se penetrar do espirito pouco ideal, que rege as
massas. S um d'esses caracteres de excepo, que so raros na historia
do mundo,  que poderia luctar e vencer na lucta. E a esperar tanto de
Angelo no chega o meu affecto paterno.

--No o fazia to pessimista, sr. conselheiro;--disse
Henrique--conceda-me que julgue em demasia carregadas as cres do quadro
que me faz. Eu no creio que a corrupo...

--Se acha forte o termo, substitua-o por... o que quizer, relaxao,
tibieza de f politica, indifferentismo... em todo o caso ser uma
doena social. Assim abrandada a fra da expresso, no ponha
difficuldades em adoptal-a. No se me pode levar a mal o propl-a, desde
que principiei por me declarar affectado da lepra contagiosa.

--Nunca esperei encontral-o to desilludido. Eu, que me no tenho ainda
assim por demasiado crente, creio que quem entrar na politica sob a
gide de uma convico profunda, pode...

O conselheiro interrompeu-o.

--Sabe a coragem mais admiravel? a de que menos exemplos existem? 
aquella de que nos d uma eloquente mostra a historia do aldeo do
Danubio. Sair um homem de um canto retirado da provincia, um pouco
montanhez, e escudado s da sua boa f, achar-se de repente no meio de
um circulo luzido, illustrado, elegante, novo para elle, e ousar repetir
ahi aquellas falas rudes, que tanto deliciavam o auditorio da sua terra;
vr o sorriso nos homens, que a seu pesar respeita, e poder resalvar as
suas crenas d'aquelles sorrisos; sentir o ridiculo a seu lado, e ousar
fital-o; ferirem-lhe os ouvidos, a cada passo, as vozes seductoras da
moral elegante e facil, que hoje domina, e conservar-se fiel  austera e
rude moral que lhe falava entre o rumorejar das folhas da sua aldeia nas
longas horas de vigilia e de estudo, que l teve; cair embora, mas cair
fiel  consciencia, como um leal cavalleiro da idade mdia caa pela
dama de quem trazia a divisa:  uma especie de lucta, para que no
abundam lidadores, e nem sempre se deve lanar o labo de traidores aos
que mentem  sua antiga profisso de f. A maioria cede com boas
intenes. O perigo est em chegar a persuadir-se de que as suas
convices eram sonhos, em perder o amor s utopias. Eu confesso que s
quando aqui estou  que sinto avivar, debilmente, o amor que n'outro
tempo lhes tive.

N'isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um
dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do
conselheiro, e to visto em demandas e subtilezas de processos, como o
mais rabula dos lettrados. Demandista por gosto e officio, levava a sua
paixo pela arte a ponto de comprar as demandas dos outros, s por gosto
de as tratar; especie vulgar no Minho, onde uma legislao
especialissima, reguladora da propriedade rural, fomenta estas
disposies no espirito dos camponios, das quaes os juizes so as
miserandas victimas.

Depois de grande exhibio de cortezias, para a direita e para a
esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o fez sentar ao seu
lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e de amizade.

O homem que to judiciosa dissertao acabava de fazer sobre a politica
abstracta, sentiu, na presena do recem-chegado que de novo o abandonava
o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle politica pratica,
sob a feio mais mexeriqueira que ella pode revestir.

Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por fra
ou vontade dos representantes.

Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao p das senhoras, no
grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo.

Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores;
reproduziram-se n'elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a leve
ironia d'esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de
Christina.

D. Victoria e D. Dorotha entremetteram-se, dentro em pouco na conversa,
e desviando-lhe o curso, fizeram-a cair sobre o assumpto das proximas
consoadas.

Passado tempo, ouviu-se o conselheiro dizer, elevando a voz, para o
Tapadas:

--Pois, meu caro Tapadas, que tenha paciencia este bom povo. Com isso 
que eu no transijo. Ninguem  mais condescendente do que eu, menos no
que pode arriscar a vida de muitos e entre essas as dos que me
pertencem. O abuso ha de acabar. Por estes dias deve chegar uma
portaria, mandando expressamente cumprir a lei. Consegui isso do
governo. O cemiterio fez-se. Eu fui o primeiro a dar o exemplo,
levantando alli o sepulchro para a minha familia. Depois d'isso, graas
a um preconceito tolo,  m f de alguns padres,  frouxido das
auctoridades e talvez a alguma incuria minha, ainda ninguem mais se
enterrou alli. No entretanto quasi todos os estios se repetem os casos
d'essas febres que a sciencia attribue em grande parte aos miasmas da
igreja onde a extrema devoo d'este povo accumula em certos dias,
durante horas e horas, uma extraordinaria quantidade de fieis. Portanto,
com isso no transijo. Hei de acabar com o abuso.

--Pois sim... mas agora na occasio das eleies... sr. conselheiro, no
sei se faz bem.

--Para compensao trataremos de apressar o principio das estradas;
tambem o pude conseguir.

--Inda assim... Receio alguns motins.

--Reprimem-se.

--O peor  que ha de haver quem lance mo d'essa arma contra ns.

--Quem?

--Ora! no falta quem. Basta o missionario, que j prgou contra isso.

--No tenho mdo. Quando muito, algum motimzito sem consequencia.
Leve-os por bem. E se fr preciso fale ao ouvido d'esse tal
missionario... O homem que quer? Provavelmente alguma abbadia? algum
canonicato?  preciso vr isso.

--Elle diz que no quer nada.

--Bem sei, todos dizem o mesmo--disse o conselheiro, com a sua descrena
de homem politico.

Tapadas retirou-se mal assombrado. De facto a opinio publica era, por
toda a aldeia, em extremo adversa aos cemiterios, e elle mesmo no
estava de todo limpo do preconceito geral, mas a sua affeio ao
conselheiro obrigava-o a digerir a disposio legal, conforme podia.

Depois d'elle se retirar, o conselheiro disse, erguendo-se:

--Vem em m occasio a medida, vem;  arrojada para pocas eleitoraes;
se houvesse um chefe habil que a aproveitasse, podia... Em todo o caso
no transijo.

Eram dez horas quando se levantou a sesso, e Henrique voltou com a tia
para Alvapenha.




XIII


Ao outro dia a impaciencia de Angelo no lhe permittiu longa demora no
leito. Tardava-lhe o vr todos aquelles sitios, to seus conhecidos;
arvores que uma por uma distinguia, sebes, atalhos de campos, e
quebradas de montes. A custo o puderam reter para o almoo; resignou-se
porm a no ultrapassar, at ento, os muros da quinta. Logo porm que
sorveu  pressa o ultimo golo de ch, partiu, veloz como uma lebre, sem
nem sequer dar ouvidos  enfiada de recommendaes de sua tia D.
Victoria, que teimava em o querer prevenir, com scos, gabo e
guarda-chuva, de uma hypothetica mudana de tempo.

Angelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava ligada uma
recordao e uma saudade; mas seguia sempre, como quem no errava ao
acaso pelos campos, antes era guiado n'aquelle passeio por um intento,
que tinha pressa de realisar.

Atravessou grande parte da aldeia, cortejado, cumprimentado e festejado
por quantos encontrava pelos caminhos, ou s portas e janellas das
casas, nos campos e nos ribeiros.

Chegou emfim  casa, onde j dissemos morar o recoveiro Cancella e a sua
filha Ermelinda.

Era evidentemente aquelle o termo proposto por Angelo ao passeio
matinal, porque retardou o passo  medida que se approximava, e parou 
porta da casa.

Achou-a fechada, mas no lhe causou isso embarao.

Como quem estava habituado a vencer estes estorvos, sondou resolutamente
o muro do quintal, construido de pedras soltas, e dispoz-se  escalada.

Com a agilidade e destreza proprias de quem passou na aldeia os
primeiros annos da vida, o irmo de Magdalena trepou sem vacillar at o
alto do muro, e n'um momento pousou os ps no cho do quintal.

Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor com precauo e, com mais
precauo ainda, se dirigiu para um bosquezito de laranjeiras, que era o
logar de recreio do pequeno horto.

Foi motivo d'estas precaues o ter j avistado, por entre os troncos e
a rama baixa das laranjeiras, um vulto que se lhe figurou conhecido.

Assim se foi approximando sem que o presentissem e, occulto por detraz
de uma sebe de roseiras silvestres, poz-se  espreita.

Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal.

Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira velha, que mezes antes
havia sido derrubada, a filha do Cancella e afilhada da familia Z
P'reira, tinha todas as faculdades applicadas  decifrao dos
hieroglificos caracteres de um pequeno papel manuscripto, que segurava
nas mos, e lia a meia voz. De quando em quando interrompia a leitura e,
erguendo a cabea para o co, parecia repetir o que lera, como se
pretendesse decoral-o.

Angelo applicou mais o ouvido, a vr se alguma das palavras, que ella
declamava, lhe revelava a natureza do manuscripto.

De facto, de uma vez, a pequena leu em voz mais audivel e elle escutou a
seguinte quadra:


  --Que lamentavel tragedia,
  Que os meus olhos tristes viram!
  E publicam minhas vozes
  Aquelles que no ouviram!

  E principalmente o rei,
  Que se chama o rei tyranno,
  N'esta regio remota
  Do Egypto dilatado.


Depois de ler isto, a rapariguita levantou a cabea e repetiu:


  --Que lamentavel tragedia
  Que meus olhos tristes viram...


Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente, e com precauo,
veio collocar-se por detraz d'ella, sem que fsse presentido ainda.

To perto chegou, que, por cima do hombro de Ermelinda podia j ler as
quadras que ella estava decorando:


  --Tenho mil linguas, mil bcas...


ia Ermelinda continuar a ler, quando uma respirao mais profunda de
Angelo a fez desviar a cabea.

Dando com os olhos n'elle, soltou um grito de sobresalto; depois sorriu
e instinctivamente procurou esconder no bolso do avental o papel que
lia.

Angelo segurou-lhe a mo.

--Que estavas a ler, Linda?

--No  nada...

--Deixa vr.

--No deixo.

--Por que no deixas?

--Para no ser curioso. Que modos so esses de andar a escutar a gente?

--Pois sim, sim; mas deixa-me vr os versos.

--No so versos. Quem lhe disse que eram versos?

--Pois no ouvi? Que era isso de tyranno e de Egypto, que dizias?

--Que ha de ser?--disse a final Ermelinda, dando-lhe o papel.--So os
versos do auto dos Reis. Sabe agora?

--Do auto dos Reis? Ai, sim; est a chegar o dia! Mas que tens tu com o
auto dos Reis?

-- que este anno meu pae quer que eu seja a Fama.

--Viva! E que bonita Fama que vaes ser! E j sabes os versos?

--Estava a decoral-os.


  --Tenho mil linguas, mil bcas...


dizia Angelo, lendo no principio.--O que  pena  pr uma chochice
d'estas na bca de uma Fama como tu.

--Que est a dizer? Ento os versos no so bonitos?

--Oh! pois no so!--exclamou Angelo, gracejando.--So uma perfeio!

E tendo-os corrido com a vista, principiou a lel-os com accentuao e
emphase comicamente exaggeradas.

--Ora ouve l:


  Sabei que aquelle Herodes,
  Lobo cruel carniceiro,
  Tremendo de inveja pura
  Lhe venham tirar o reino...


--Ento que ha que dizer a isto?

E proseguiu:


  Feria raios de fogo
  De seus olhos com mudana;
  E s pretende fazer
  Alvo da sua vingana.


--Isto  claro e sublime!

--Lendo assim, pudra!--disse Ermelinda, rindo.

 preciso que advirta o leitor que estas quadras e auto, a que nos
estamos referindo, no so obra da nossa imaginao. Por ahi corre
manuscripto o auto, mais ou menos extravagantemente orthographado,
segundo o systema ou o capricho do copista. Em quasi todas as aldeias
dos arredores do Porto podem vr em cada anno representado este ou outro
analogo, com applauso e gloria da arte. s mos nos veio uma d'essas
cpias,  qual, menos na orthographia, escrupulosamente nos cingimos.

Angelo era talvez em demasia severo na apreciao critica sobre o
merecimento litterario da obra, ao chamar-lhe uma chochice.  raro que a
musa popular no tenha, apesar da sua rudeza, alguma inspirao. N'este
mesmo auto, se encontram vestigios d'ella. Mas no  nossa misso
apreciar as opinies dos actores que pomos em scena; to smente as
registamos, sem nos responsabilisarmos por nenhuma.

Angelo redarguiu  reflexo de Ermelinda:

--Pois bem; para que no digas que  da maneira de ler, que elles
parecem chchos, repara; vou lel-os agora com toda a seriedade. Ora
escuta.


  Que quantos at dois annos
  Em Belem fssem nascidos,
  E toda a sua comarca
  Matassem a ferro frio

  Sem excepo a pessoa
  Que nos districtos se achasse,
  Entendendo d'esta sorte
  Que ns lhe no escapassemos.


--Olhem que semsaboria!

Esta diviso administrativa e judicial, em districtos e comarcas, que o
auctor fez na Juda e que tanto parecia revoltar Angelo, era uma d'estas
liberdades shakspeareanas, que se devem perdoar aos genios.

--E no foi assim?--perguntou Ermelinda, que no percebia ainda o motivo
dos reparos de Angelo.--Pois Herodes mandou matar todas as creanas da
Juda; ento no mandou?

--Mandou, mandou; mas a Fama  que devia contar isso melhor.

--Melhor?! Ento no  bonito esse verso?

E Ermelinda, tirando o manuscripto das mos de Angelo, leu a seguinte
quadra:


  Para livrarem seus filhos
  Da morte dos innocentes,
  Dos braos faziam cruzes
  Aquellas mes impacientes.


Os instinctos populares da filha do Cancella perceberam a belleza,
talvez um pouco rude, do tocante quadro, que estes versos exprimem.

Esta pequena contenda litteraria entre duas creanas podia dar margem a
profundas reflexes a quem para ellas estivesse disposto.

Angelo estava no principio de uma educao esmerada. Principira j a
desenvolver-se n'elle a intelligencia, e a acordar os instinctos
artisticos que estremeciam j sob as primeiras seduces da frma.
N'estas pocas criticas, em que esses segredos se revelam,  tal o
encanto em que elles nos trazem que exclusivamente nos votamos ao novo
culto, com a fanatica intolerancia. Onde as louanias do estylo, os
primores e a sonora harmonia do metro, e o brilhantismo das imagens nos
no afagam os sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos assim na
sombra muita belleza real, s vezes occulta sob a grosseira revestidura
da poesia ou narrativa popular.

 necessario que passe o enthusiasmo, a violencia da paixo nascente,
que venha a frieza de animo necessaria  imparcialidade do juizo, para
que nos no cause repulso a aspereza, e grosseria at, da frma e
consigamos apreciar o bello que por ventura n'ella se envolva.

D-se com a belleza da ideia e da frma de qualquer obra litteraria, o
que se d com a belleza moral e a belleza physica de uma mulher.

Ambas so feitas para nos commoverem e dominarem. Mas, quando o assomar
de um sentir novo comea a alvoroar o sangue do adolescente, quando
frmas vagas e formosissimas principiam a encantar-lhe os sonhos de suas
noites febris, a paixo da frma domina-o; por ella sacrifica tudo; uma
modelao perfeita, um delineamento gracioso poder decidir da sua vida
inteira, e na fascinao que o cega, nunca ver a formosura da alma, que
se abriga n'uma pouco feliz encarnao.  que para apreciar a belleza
moral, para a vr transparecer, atravs do involucro exterior  preciso
deixar passar a vertigem dos primeiros momentos, ou no a ter ainda
experimentado.

Por isso na infancia e nas idades viris  que melhor se apreciam essas
fealdades, que escondem um corao angelico. A adolescencia  impiamente
cruel para com ellas.

Por uma lei analoga  o povo, o simile da creana, porque no tem os
sentidos educados para as mais subtis bellezas da frma, e  o homem a
quem ella j no fascina, embora ainda e sempre o deleite, como
poderosissimo elemento de belleza litteraria,--so estes os leitores que
mais aptos esto para avaliarem uma ou outra inspirao que, entre
muitos desvarios, tem a humilde musa que visita a cabana do lavrador ou
a officina do artista.

Apesar da defeza de Ermelinda, Angelo no perdoou ao auto.

--Sabes que mais? No decores isso--disse-lhe elle resolutamente.

--Meu pae quer.

--O que  que quer teu pae?

--Quer que eu entre no auto.

--E has de entrar. Quem te diz que no?

--E quer que seja a Fama.

--E has de ser a Fama.

--E no hei de falar?

--Has de falar. Tinha que vr uma Fama que no falasse. Para que lhe
serviriam as cem bcas?

--Ento?

--Ento;  que no  foroso que digas o que ahi est.

--E que hei de eu dizer?

--Outra coisa.

Ermelinda olhava Angelo admirada, sem conseguir comprehendel-o.

--Outra coisa! repetiu ella, instinctivamente.

--Olha, proseguiu Angelo.--D'aqui at chegar o dia do auto vae muito
tempo. Eu te darei outros versos para estudares, em logar d'esses.

--E onde os tem?

--Eu os procurarei. No digas tu nada. Basta que no dia recites, em vez
d'esses, os que eu te der!...

--Mas que dir meu pae e o sr. Pertunhas?

--O mestre de latim? Pois que tem elle com o auto?

-- quem ensina como a gente ha de dizer.

--Ah! sim? Pois para que elle nada diga, guarda para a occasio os
versos que eu te arranjar. At ha de ter graa vr a cara com que elles
ficaro todos, quando lhes sair uma coisa bem differente do que esperam.

--Mas... diga: onde  que vae buscar esses versos?

--No sairei da aldeia para isso. N'uma visita que d'aqui vou fazer,
conto obtel-os. Agora falemos de outra coisa. Que  de teu pae?

--Saiu a levar umas encommendas. Minha madrinha, d'alli defronte, est
para a igreja e meu padrinho nas hortas. E eu vou tratar do jantar de
meu pae.

--Pois vae, que eu fao-te companhia.

E Angelo seguiu-a  cozinha, e ahi, ella sentada na soleira da porta a
escolher hortalia, elle a dar de comer aos coelhos e s gallinhas, se
entretiveram a conversar.

Angelo falou-lhe de Lisboa, dos theatros, contou-lhe enredos de dramas
que o tinham commovido; typos e situaes de romances, que se lhe haviam
gravado na memoria; invenes da arte moderna, versos, anecdotas,
contos.

Ermelinda era toda ouvidos a escutal-o.

Passadas horas, Angelo levantou-se e despediu-se, para sair.

--Onde  que vae?

--Vou visitar Augusto, que deve estar agora em casa.

--E ainda o no viu?

--Ainda no. A minha primeira visita foi esta.

--Ento v, que elle deve estar morto por o vr. Ah!... j sei a pessoa
a quem vae pedir os versos!

--Quem te disse que Augusto os fazia?

--Eu vi-o estar a escrever na parede da capella da Senhora da Saude de
uma vez que eu ia levar o jantar a meu padrinho, que estava a trabalhar
para aquelles sitios.

--E leste-os?

--No, que no quiz que elle me visse. Mas que havia elle de escrever na
capella? Ento no adivinhei?

--No sei. Adeus.

--Diga.

--E chamavas-me curioso!

E Angelo saiu apressadamente.

Momentos depois estava com Augusto.

A conversa entre ambos teve toda a intimidade da de dois affectuosos
amigos.

Angelo fez a narrao dos episodios da sua vida de collegio; das
difficuldades e das bellezas dos seus estudos n'aquelle anno. Augusto,
que da aldeia com elle os seguia, passo a passo, interrogava-o sobre
algumas dvidas que tinha, e esclarecia s vezes tambem, graas  sua
poderosa penetrao e natural lucidez, as que o ensino do collegio havia
deixado no espirito do seu antigo discipulo.

A geographia e a historia, que eram as disciplinas estudadas n'aquelle
anno por Angelo, deram assumpto a grande parte d'este dialogo.

Augusto inclinra-se aos estudos historicos, inclinao em que o
herbanario o entretinha com frequentes presentes de livros d'aquelle
genero.

Em exame de livros novos, referencias a outros lidos, e leituras de
alguns mais apreciados, passaram os dois grande parte da manh, at que
por fim Angelo disse a Augusto:

--Ah!  verdade! Tenho um favor a pedir-lhe.

--Qual ?

--Sabe que est para breve o dia dos Reis?

--Sim.

--E portanto o auto com que o povo d'aqui o festeja; aquelle auto em que
o Herodes faz tremer meio mundo?

--Bem sei--respondeu Augusto, sorrindo.

--Este anno teremos a Linda a fazer de Fama. Fama bonita, por certo; mas
se soubesse os versos que lhe deram para recitar!

E Angelo reproduziu, como pde, as quadras do monologo da Fama no auto
dos Reis.

De quando em quando passava um sorriso pelos labios de Augusto.

--Eu j conhecia isso.  o costume--disse elle no fim.

--Mas no lhe parece que de uma Fama como aquella, se devia esperar
melhor do que isto?

--E ento que quer que eu lhe faa?

--Outros versos para o logar d'estes.

--Outros!... Eu?...--perguntou Augusto.

--Por que no?

--Que lembrana!

--No me venha negar que os faz.

--Versos?

--Sim.

--Quer dizer que os leio.

--E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em recusar, diga-me ento quem
 que os escreveu na parede da capella da Senhora da Saude, para eu me
dirigir a elle.

--Ento houve quem escrevesse versos na parede da capella?--perguntou
Augusto, sorrindo.

--No que eu visse; mas j duas pessoas m'o affirmaram, e as suspeitas
de ambas recaram no mesmo homem.

--Quem foram essas pessoas?

--De uma o ouvi agora mesmo. Foi Ermelinda.

--Ah!

--A outra foi Lena.

--Le... A sr.^a D. Magdalena?

-- verdade, minha irm. E estranhou, com razo, que eu o no soubesse.

--E como o soube ella?

--Leu-os, e pela leitura conjecturou o auctor.

Augusto calou-se como absorvido por um pensamento, que todo o
preoccupava.

Angelo continuou falando, sem que fsse escutado; a final concluiu,
dizendo:

--Ento quer falar ao poeta da Ermida para que me d o que lhe peo?

--Poesia no lhe pode elle dar, agora se... alguns versos o
satisfazem...

--Sim, sim, venham os versos; que a poesia eu a procurarei n'elles, at
a achar. Desde j lh'os agradeo.

--A elle?

--A ambos--respondeu Angelo, rindo.--E agora diga-me, Augusto: Ainda
est resolvido a viver aqui sempre enterrado? No pensa em mudar de
vida?

--Nenhuma outra me namora mais; o destino que a bondade da morgada me
offerecia... no tenho coragem para acceital-o. Assusta-me o peso do
crepe.

--Nem eu lhe digo que deva acceitar esse. Mas o Augusto no ter amigos
que ajudem a seguir outros destinos menos obscuros do que este e menos
pesados do que o que o legado lhe impunha? Meu pae j ...

--Que quer? No me posso vencer at pedir ou acceitar de outrem
auxilios, quando Deus m'os no tem recusado ainda; nem sei at se esses
destinos, que diz menos obscuros, me fariam mais venturoso. Ha indoles
que nasceram affeioadas para a obscuridade. Incommoda-as a demasiada
luz. Umas plantas querem ar, e sol e luz; outras vivem ahi em qualquer
canto escuso e obscuro, e l mesmo do flr. Porque  isto no sei,
mas...

--Sei eu--disse uma voz da parte de fra da janella, junto da qual se
passra o dialogo...

Voltaram-se os dois ao ouvil-a. A figura do herbanario desenhava-se no
vo da janella, como um retrato de velho n'um caixilho de galeria.

--Ah! o tio Vicente!--exclamou Angelo, correndo-lhe ao encontro.

O herbanario encostou-se, ainda de fra, ao peitoril da janella, ficando
assim com meio corpo para dentro da sala.

--Viva o nosso doutor--disse elle, sorrindo, a Angelo.--Por emquanto
ainda esse coraozito est como era. No esqueceu os seus amigos da
aldeia.

--Est como sempre estar--respondeu Angelo.

--Sempre!--repetiu o velho.--Sempre e nunca so duas palavras de
terrivel significao... Mas emfim... de bom metal  o corao, assim o
no enferrugem os ares da cidade, como ao de... como ao de tantos...

E mudando subitamente de tom, disse para Augusto:

--Com que dizias tu que no sabes porque algumas plantas vivem de pouca
luz e de pouco ar, ahi em qualquer buraco do muro?  porque vivem muito
pelas raizes essas. As plantas vivem do ar pelas folhas e vivem da terra
pelas raizes. L diz aquelle livro da _Historia Natural_ que eu tenho.
Umas prendem-se pouco ao cho; precisam, pois, de se abrirem muito ao ar
para poderem viver; outras porm, profundam tanto a terra, com tantas
raizes se seguram, que d'ellas lhe vem todo o sustento e no desdobram
muitas folhas, nem crescem em grandes ramos para o ar. Como umas e como
outras ha homens no mundo. Tu s dos que deixam ganhar raizes ao corao
e d'ellas vivem. Que te importa o mais? essas grandezas que os outros
procuram? Mas  preciso cautela, rapaz! Ha coraes como a hera, que
onde quer que se encosta, prende-se com raizes. Quem  assim deve
dirigir com prudencia as suas inclinaes. Se para mau lado dobra, se se
encosta a arvore de preo... mal d'elle! que o separaro com fra,
fazendo-lhe estalar todas as raizes, que o prendiam.

As palavras de uma obscuridade sibyllina, ditas pelo herbanario, parecia
terem um sentido para Augusto, que visivelmente se perturbou ao
ouvil-as.

--Que est ahi a dizer, tio Vicente!--disse Augusto, sem ousar fitar o
velho.

--Nada. Tonterias de velhice. A prudencia, que os annos do, v longe e
fundo, rapaz...  verdade que... s vezes... o arrojo dos mocos  tambem
guia feliz... Anda l com a tua estrella, anda. Ao que j vejo, no sei
se te possa chamar louco... como ao principio no duvidei fazel-o. 
certo que  pouco seguro o terreno, em que sustentas os teus castellos.

--Os meus castellos! Que castellos fao eu?

--No hei de ser eu que t'os mostre... S te quero avisar que no ponhas
grande f em sonhos... Lembras-te do que se passou no monte da ermida?

--No monte da ermida?

--No viste por l no outro dia uns signaes de trovoada? A inconstancia
 sempre de receiar. O que n'aquella manh se passou, o que ento vi...

--Que viu?... Que se passou?

O herbanario demorou por algum tempo o olhar em Augusto e com tal
expresso, que o obrigou a desviar o seu; depois accrescentou:

--Nada; o que todos os dias acontece. O co azul fez-se pardo, a luz
clara cobriu-se de sombras, os raios do sol tornaram-se torrentes de
chuva. Pois no te lembras?... E tudo devido a uma mudana... de
vento... a uns ares que vinham do sul...

Augusto no entendia ou fingia no entender estes mysteriosos dizeres do
herbanario. Angelo estava distrahido devras.

O velho voltou-se, de subito, para este, perguntando-lhe:

--Tem ido ao mosteiro o hospede de Alvapenha?

--Esteve l hontem.

-- amigo das creanas?

--Parece-o.

--Conta muitas historias s senhoras?

--Entretem-as bastante.

--E ao... e a teu pae? Ouve-o com atteno?

--Conversaram muito toda a noite.

O herbanario parecia ligar grande valor a estas perguntas, porque a cada
resposta obtida, abanava pausadamente a cabea com certo ar meditativo.

Augusto relanceava tambem para a fronte, meio contrahida, do velho um
olhar entre curioso e timido.

O herbanario proseguiu:

--Emfim... A desconfiana  um achaque de velhice e nem sempre os mais
felizes so os mais acautelados. Deus que vele, se os bons lhe merecem
ainda a graa da sua proteco.

--O tio Vicente desconfia do primo Henrique? perguntou Angelo, rindo.

--Primo?!--repetiu o velho, admirado.

--Primo lhe chamamos ns, porque a tia Victoria teima que, sendo elle
sobrinho da tia Dorotha,  nosso primo tambem.

--Ah? J ahi vamos? E Lena?...

--Lena, Christe, todos lhe chamam por l assim.

O herbanario poz-se a murmurar algumas palavras inintelligiveis,
terminando por estas:

--E, como no Egypto,  o vento sul que traz a praga dos gafanhotos. Mas
Deus que vele, Deus que vele. E eu no me demoro mais, que vou ainda
d'aqui aos pardieiros de Cernuche.

-- caa dos sapos, tio Vicente?--perguntou Angelo, gracejando.

--No, que no  agora o tempo--respondeu, sisudo, o velho.

--Dos sapos! Galante caa, na verdade!--continuou Angelo no mesmo tom.

--Galante no ser ella, pequeno,--respondeu o velho;--mas abenoada a
chamarias se te torcesses no leito com as dores do carbunculo, que no
ha remedio mais efficaz para o curar, do que a pelle d'estes animaes
scca ao ar livre.

--E a das toupeiras? O tio Vicente tambem caa toupeiras?

--Em seu tempo. Oh! a toupeira  animal de abenoadas virtudes! Basta
que um dente que se lhe arranque, estando ella viva, trazido ao pescoo,
cura a mais desesperada dor de dentes.

--No deve ser facil operao a de tirar os dentes s toupeiras--tornou
Angelo.

O herbanario continuou:

--A quinta essencia das toupeiras  milagrosa contra cancros e herpes.

--A quinta essencia das toupeiras!--repetiu Angelo, rindo.

--No rias, creana--acudiu severamente o herbanario.--Que no  bonito
rir do que os homens doutos asseguram. Eu j o experimentei, logo que o
li n'aquelle grande livro da _Polyantheia_, livro como se no faz hoje
outro.

--E como  que se tira a quinta essencia a uma toupeira, tio Vicente?

--Tomam-se as toupeiras e queimam-se at as fazer em cinzas. Mistura-se
a estas cinzas o sumo de celidonia maior, at haver quatro dedos de sumo
acima das cinzas. Mette-se tudo n'um vidro bem fechado, que se enterra
por dez dias e... e... Bem, bem. Elle ri!... Tolo sou eu em gastar tempo
e paciencia com creanas.

--Espere, espere, tio Vicente... No v embora... Ento depois de
enterrar tudo isso, que se faz?

--At logo... Pede a Deus que nunca te seja preciso fazer a pergunta com
menos vontade de rir.

--E assim vae sem me dar um remedio! Olhe, tio Vicente, eu padeo s
vezes de um somno to pesado que me no deixa estudar.

O herbanario voltou-se e, com toda a seriedade, respondeu:

--E julgas que no sei de remedio para isso? Experimenta e vers. Mette
um ou dois morcegos debaixo dos travesseiros e eu te affirmo que... Mas
adeus, que se me faz tarde e d'aqui a Cernuche  uma legua.

E o herbanario retirou-se, meio agastado com o scepticismo de Angelo e
sobraando a caixa de lata e o sacco dos seus thesouros medicinaes.

Angelo e Augusto ficaram rindo da sciencia e das singularidades do
velho, riso em que no entrava, porm, o menor laivo de malignidade;
porque ambos tinham pelo velho uma verdadeira estima, que elle bem lhes
merecia, pois sempre do corao o achavam votado a seu favor.

O dialogo de Angelo e de Augusto prolongou-se ainda, at s horas do
jantar.




XIV


Eu no sei se esta historia ter leitor to mal aventurado, que no
possua recordaes e saudades associadas  noite de Natal, quella
festiva e abenoada noite, em que as ruas e os logares publicos se
despovoam, e nos lares domesticos parece crepitar e scintillar o fogo
mais acalentador do que nunca. Se algum desherdado da fortuna ha ahi que
no saiba o que  a festa das consoadas em familia, esse que no leia
este capitulo, que n'elle no encontrar prazer. Se alguns as gosaram j
n'outros tempos, porm hoje erram a essas horas pelas ruas solitarias,
olhando com inveja para cada raio de luz que rompe das frestas de tantas
janellas discretamente fechadas, ouvindo commovidos o ruido das alegrias
que vo no seio das familias, e pela phantasia creando em cada morada um
mundo intimo de affectos e de venturas, como o de que a sorte os privou,
que esses me perdoem as amargas saudades, que por ventura lhes avive
assim.

 certo que no ha noite mais alegre; alegre d'esta alegria que vae
direita ao corao, sem perturbar os sentidos com fumos de embriaguez;
alegre d'esta alegria candida a que o homem  sujeito do bero 
velhice, a qual respeitam os estos das paixes, na idade d'ellas, e o
glo do egoismo, no declinar da vida.

Bem escura, bem ventosa, bem fria e humida surjas tu sempre, noite de
vinte e quatro de dezembro, que melhor ento se avaliar pelo contraste
a luz, o calor, o conchgo dos lares, e mais intimos se estreitaro os
circulos da familia em roda da ceia patriarchal.

E vs todos, a quem uma moda tla no constrangeu ainda a abandonar os
habitos que de pequenos contrahistes, e festejaes ainda o Natal de
Christo, segundo o estylo velho, continuae a manter genuinos esses
costumes nacionaes, que no resultar d'ahi desdouro para o vosso nome
ou brazo. A roda da civilisao, a que applicaes hombros com tanto
denodo, no se cravar por isso.--Podeis, elegantes meninas, cantar las
sem escrupulo deante do presepe armado na sala mais intima da casa, que
nem por isso cantareis peor na das visitas as arias italianas, que
aprendestes no collegio; no creis de collaborar, por excepo, esta
noite nos mesteres da cozinha, que sobra de agua de colonia e perfumes
tendes no toucador para as ablues purificatorias. Homens graves, a
republica perdoar-vos-ha uma pequena infidelidade, a politica do paiz e
da Europa no periclitar desnorteada se, por um pouco, lhe negardes a
vossa atteno; humanisae-vos pois uma vez por anno, e baixae ao seio da
familia os olhares, que ponderosos empenhos vos trazem
sublimados.--Entrae com as creanas em jogos pueris e faceis, que no
destemperareis a intelligencia para as philosophicas cogitaes do
_boston_ e do _whist_.

A familia do Mosteiro era fiel s classicas usanas d'esta noite
tradicional. E n'aquelle anno sobretudo as festas das consoadas deviam
ser coisa falada, graas ao plano de D. Victoria de reunir no Mosteiro a
resumida familia de Alvapenha; plano que vimos approvado por acclamao
por toda a assembleia presente.

D. Dorotha veio effectivamente na companhia de Henrique de Souzellas e
de Maria de Jesus.

Foram recebidos no Mosteiro por uma completa ovao das creanas.

D. Dorotha viu-se litteralmente enlaada em braos infantis, que lhe
tolhiam os movimentos e que, dizia ella, quasi ameaavam asphyxial-a.

Tudo isto dava motivo a exclamaes e risos, que inauguraram um estado
de coisas, o qual nunca mais devia cessar aquella noite.

A balburdia, a azafama festiva que ia no Mosteiro  indescriptivel. Na
cozinha, nas salas, nos corredores tudo era movimento e ruido.

Aqui eram as creanas jogando, a pinhes, o par ou perno e o rapa,
jogos popularissimos e de occasio, que, de to conhecidos, dispensam o
trabalho de descrevel-os. Estes jogos, como  de prever, no se
executavam sem um concurso de vozearia e de algazarra, que desafiava a
impaciencia de D. Victoria, a qual, segundo o costume, ia, pelo que se
passava na sala, ralhar com os criados  cozinha.

No aposento immediato ao quarto de D. Victoria, armra-se o presepe,
deante do qual ardiam seis vlas de cra em castiaes de prata macia.

As duas velhas senhoras, D. Dorotha e D. Victoria, encetaram logo no
principio da noite uma longa e devota reza, meio recitada, meio cantada,
a qual se continuava com uma interminavel enfiada de Padre-Nossos e
Av-Marias, a que respondia, em cro, a parte feminina, da familia, as
creanas e as criadas.

Corypheu era a senhora de Alvapenha, que em voz trmula e quebrada pela
idade, entoava em singela cantilena coplas como esta:


   infante suavissimo,
  Vinde, vinde j ao mundo
  Livrar-nos do captiveiro
  D'este jazigo profundo.


E seguia-se um Padre-Nosso e uma Av-Maria.

Angelo havia ao principio, com as suas travessuras, desordenado um pouco
o andamento regular das rezas, mas D. Victoria tomou o heroico
expediente de o expulsar do congresso, e tudo serenou.

 sala, onde Henrique de Souzellas conversava com o conselheiro em
assumptos, todos d'esta vez longe da politica, chegaram as surdas
harmonias d'aquellas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade de
saber o que era aquillo. O conselheiro, sorrindo, convidou-o a seguil-o
para por si proprio se poder informar.

E, tomando por aposentos interiores, conseguiram ambos introduco na
sala da novena justamente ao lado de D. Victoria e de D. Dorotha, que,
de embebidas que estavam nas suas oraes, nem por elles deram.

O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente ao lado d'aquellas boas
senhoras, e quando aps um dos Padre-Nossos, ditos por D. Dorotha, se
devia seguir a resposta do cro feminino, este emmudecido, com a chegada
dos dois, a qual desafira risos a custo suffocados, foi substituido por
um dueto de vozes masculinas, que sobresaltaram primeiro, e
escandalisaram depois ambas as sisudas senhoras.

O tumulto que o episodio produziu fez attrahir as creanas; D. Victoria
teve muito que fazer, muito que reprehender o cunhado, muito que ralhar
com os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com D. Dorotha,
muito que recriminar os criados, rindo-se, bem a seu pesar, no meio de
todas estas tarefas.

Terminou confusamente a novena com tal occorrencia. Os desordeiros
smente capitularam, consentindo em retirar-se, quando lhes prometteram
que se encurtaria a lista dos Padre-Nossos. Henrique voltou com o
conselheiro a admirar o primor que a paciencia de um artista imaginoso
realisra na confeco do presepe, onde estavam representados todos os
episodios da natividade de Jesus, e muitos outros.

Era effectivamente uma complicada machina aquelle presepe, e seria prova
de profunda indifferena artistica passar por elle sem um exame, embora
fugaz.

Este traste antiquissimo na familia gosava de nomeada n'um circulo de
leguas em redor. Havia empenhos para o vr no tempo do Natal, e se algum
viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava sempre quem lhe
recommendasse o visitar o presepe, como coisa digna de vr-se.

Consistia elle n'uma espcie de santuario de pau preto, no meio do qual
havia uma pequena gruta toda cravejada de caramujos, e rosas de papel,
com estames de fio de prata. Dentro d'essa gruta estava deitado o menino
Deus, no sobre umas palhas, como a tradio refere, mas graas aos
impulsos do compadecido corao de D. Victoria, que, ainda que tarde,
parecia tentear um lenitivo aos antigos rigores da humanidade, em uma
bonita cama de lenoes de renda com cercadura dourada; colcha de setim
bordado, e colcho e travesseiro da mais macia penugem de aves
americanas. Ao lado, Nossa Senhora e S. Jos, de propores quasi iguaes
s do menino; mais longe a vacca e a mula tradicionaes. Os episodios
porm eram inquestionavelmente o mais interessante da obra. Varios
grupos de pastores, soldados e fidalgos de todos os tamanhos, feitios e
vestuarios, ornavam a scena. Alli um cego tocador de sanfona; um grupo
de gallegos danando, ao som da gaita de folle; uma pastora com ovos
mais adeante; ao lado, um grupo celebrando um _pic-nic_, perfeita
actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata, e botas de
cano;--outros fumando e bebendo cerveja. Uma amazona ingleza, com o seu
Jockey, galopava pelas cercanias de Bethlem; um vareiro e uma vareira
caminhavam a par com offertas para o menino. Ao longe, nos visos da
serra, appareciam os tres Reis Magos, que deviam levar dez dias a chegar
abaixo.

No esqueceu ao inspirado auctor d'aquelle monumento esculptural os
muros de Jerusalem. Elles l estavam coroados de ameias e de milicianos
fardados  ingleza e armados de lanas e arcabuz. Eram gigantes aquelles
guerreiros, pois, no obstante estar a muralha no plano do fundo do
quadro, qualquer d'elles era duas vezes maior do que as figuras do plano
da frente. No alto da muralha arvorava-se a bandeira portugueza. Havia
varios santos espalhados pelas agruras d'aquellas montanhas, e, entre os
additamentos feitos pela devoo de D. Victoria ao presepe, contava-se o
de um Santo Antonio de Lisboa, que, apesar de thaumaturgo, parecia muito
admirado de se vr n'aquelle tempo e logar. Um gallo colossal soltava do
telhado do presepe o grito annunciador, anjos e cherubins espreitavam do
co por entre nuvens de algodo e estrellas de ouropel. Era um prodigio!

Descrevendo rapidamente esta maravilhosa fabrica, sentia eu vivo orgulho
de ter revelado ao mundo uma preciosidade sem igual, e a que a unanime
admirao faria cdo ou tarde justia; tive porm de abandonar esta
lisonjeira ida, ao achar-me precedido por um dos romancistas mais
justificadamente populares da nao vizinha. Das paginas de um delicioso
quadro de costumes de Fernan Caballero, a eminente escriptora de que a
Andaluzia se ufana, conheci eu serem no smente nacionaes, mas
peninsulares pelo menos, estes modelos de presepes, com os seus ingenuos
anachronismos, cunho irrecusavel que o povo imprime a todas as suas
obras de arte. Onde falta o anachronismo, falta a assignatura do povo.

Em todo o caso era digno da meno que d'elle fizemos o presepe do
Mosteiro.

Emquanto Henrique e o conselheiro o estudavam por miudo, D. Victoria
fizera desfilar o cortejo das criadas para a cozinha, onde urgia o
servio, e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram as peores criadas
do mundo, por isso que, tendo tanto que fazer, perdiam tempo a cantar
las deante do presepe. D. Dorotha cdo tomou com Magdalena e Christina
o mesmo caminho.

O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com os pequenos, e com elles
entraram em jogos, como se fssem creanas tambem.

O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o homem grave e srio das
salas de Lisboa perdera todo o ar diplomatico: agora era smente o homem
da familia; pueril, travesso, alegre, folgazo.

--Meu caro,--dissera elle a Henrique no principio da noite--vou
fazer-lhe um pedido. Hoje deve ser banido o menor assumpto politico, a
menor discusso sria. Deixe-se correr frivola a conversa da noite, o
contrario seria uma profanao, que attrahiria sobre nossas cabeas as
justas iras dos anjos domesticos que n'estas noites andam invisiveis
misturados com a familia.

--Apoiado,--respondeu Henrique;--acceito e comprometto-me a cumprir a
proposta.

Henrique possuia em alto grau o talento de se tornar agradavel.
Comprehendendo que eram sinceros os desejos do conselheiro, to frio e
pueril conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como membro da
familia, e ao proprio conselheiro parecia j impossivel que ainda fssem
to recentes as suas relaes mais intimas com aquelle rapaz.

--Animo, sr. conselheiro,--dizia-lhe Henrique, no momento em que elles
ambos estavam empenhados a jogar a cabra cega com os pequenos.--Coragem,
que temos gloriosos exemplos a animar-nos; at, entre outros, o do meu
homonymo Henrique IV.  sabido o episodio recordado por uma gravura
celebre.

O conselheiro secundava-o, rindo: graas a estes jogos, a sala estava
dentro em pouco em desordem; os moveis fra da sua posio, o cho
alastrado de cascas de pinhes, que estalavam sob os passos, os tapetes
desviados, as cortinas soltas.

J por noite avanada, disse o conselheiro para Henrique:

--Falta-nos ainda um artigo importante do ritual d'estas festas, o
principal.  dirigir uma visita  cozinha. Porque a obra principal
d'esta noite  fazer uma ceia e no comel-a. Por isso convido-o a
acompanhar-me l.

--Com tanto mais vontade, que estou ha muitos dias compromettido a isso
com as senhoras.

--N'esse caso  tempo.

E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia  cozinha.

Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu tumultuariamente,
annunciando-os ao longe com risadas e gritos de alegria.

A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de frades. Occupava um vasto
recinto rectangular, rasgado em amplas janellas e fornecido de bancas
monumentaes, condizendo com a estupenda chamin, que parecia ainda
saudosa dos odoriferos vapores que outr'ora espalhavam os tachos e as
grelhas monasticas.

Ia indizivel animao na cozinha, quando Henrique ahi entrou com o pae
de Magdalena. Era um barafustar de criadas, um chiar de certs, um
borbulhar de caarolas e tachos, um tinir de pratos, um tilintar de
crystaes no meio de uma babel de ordens, de perguntas, de reclamaes,
de conselhos, todos attinentes a negocios culinarios. E D. Victoria
ralhava, e a sr.^a de Alvapenha promulgava preceitos, e Maria de Jesus
desdenhava do servio das collegas, e Magdalena e Christina riam de
todos e de tudo, e Angelo a todos impacientava.

No se imagina!

A chegada do conselheiro e do seu hospede veio exacerbar a desordem.
Ergueram-se risos e exclamaes, as quaes ainda assim eram subjugadas
pelos reparos e censuras de D. Victoria, a qual dizia para o
conselheiro:

--Sempre o mano tem coisas! Olhem agora para o que lhe havia de dar! Vo
l para dentro, vo. No venham atrapalhar-nos mais ainda do que
estamos. E o primo Henrique tambem! Ora esta!...

--No se afflija, mana. Ns no podiamos resignar-nos a ficar alheios 
tarefa principal do dia. E at porque  necessario dar andamento a isto
para chegarmos a tempo da missa do gallo.

--Pois querem ir  missa do gallo?

--Est de vr que sim.

--Eu tambem vou--disse Christina.

--E eu--acudiu Magdalena.

--Mais um, que ir tambem--disse Henrique.

--E eu, e eu--accrescentaram differentes vozes.

--Ai, minhas encommendas!--suspirou D. Victoria.--Ento por que no
disseram isso logo? Agora como ha de ser?

E saiu em direco  sala da ceia a dispr as coisas.

 preciso que se diga que D. Victoria vivia na candida illuso de que
era ella quem fazia tudo em casa, emquanto que manda a verdade declarar
que nunca mais regularmente corriam as coisas domesticas do que quanto
dormia esta alis excellente senhora.

--Mos  obra, sr. Henrique!--bradou o conselheiro, insistindo na
resoluo com que viera.

--Prompto--respondeu Henrique.

--Ento? ento?... Que vo fazer?--perguntava D. Victoria, afflicta,
voltando  cozinha.

--Querem vr que preparos?!--dizia D. Dorotha, sorrindo e olhando com
curiosidade para o que faziam os dois.

--Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras, minha tia--dizia
Henrique, approximando-se da banca, perto da qual trabalhavam Magdalena
e Christina.

-- verdade que sim,--acudiu Magdalena--e eu exijo o cumprimento da
promessa.

--Vamos l, sr. Henrique,--tornou o conselheiro--acceite-me alguns
preceitos da pratica. A regra  fazer tudo o mais indigesto possivel;
porque essa qualidade  o caracteristico dos manjares d'esta noite.

--N'esse caso, vejo que nasci para cozinhar a ceia do Natal, pois
desafio o melhor estomago do mundo a que subjugue os meus guisados com
os seus succos digestivos.

--Eu j escolhi tarefa--disse o conselheiro, tirando das mos de
Christina a colhr com que ella mexia o vaso onde se preparava o vinho
quente, esse _punch_ nacional, que n'esta noite seria uma falta
imperdoavel se esquecesse no programma d'aquelle banquete.

Christina quiz resistir; mas o conselheiro venceu, e cdo principiou a
desempenhar-se d'este trabalho, no meio de hilaridade geral.

Angelo dispensou a tia Dorotha do trabalho da preparao dos mexidos.

Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e no seguimento do seu
constante proposito, approximou-se da morgadinha, que n'aquelle momento
se occupava a regar de calda de mel umas recentes rabanadas.

--Peo trabalho, prima Magdalena.

--No ha falta de braos n'esta repartio, primo Henrique. V a outra
porta.

--Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance das minhas fras.

--Esta? Como se engana! No sabe que as rabanadas so a essencia da ceia
de Natal? E logo havia de confiar-lh'as?

--Ah! no ligava tanta importancia a estas representantes da pastelaria
primitiva, notaveis porque recordam a infancia da arte! Emquanto a mim,
j no tempo da peregrinao dos hebreus, Moyss lhes ensinava a cozinhar
d'isto.

Magdalena abanou a cabea em signal de reprehenso.

--Perde s pobres rabanadas o pouco ar de moda que teem. A sua
elegancia  implacavel, primo Henrique. Um indigesto manjar francez
seria de melhor tom, bem sei. At n'isso!

--Para provar que estou arrependido da minha irreverencia, consinta-me
que a coadjuve, prima.

--No pode ser; pesa sobre mim uma tremenda responsabilidade.

--Isso equivale a recusar-me o fro de familia, que to humildemente
reclamo.

--Justamente--respondeu Magdalena.--Eu sou muito escrupulosa n'isso. Faz
mal em no reclamar esse fro de Christina, que talvez encontrasse mais
disposta a conceder-lh'o.

--Mas, se me no engano, foi a prima Magdalena que primeiro me conferiu
o apreciavel titulo de parentesco com que nos tratamos.

--O de primos? Esse sim; mas no tem os privilegios, que lhe quer dar.

--Que privilegios so?

--Ah!... o de collaborar n'uma ceia de consoadas, por exemplo.

--Parece-lhe, priminha, que ser muito exigir o que eu peo?--perguntou
Henrique a Christina, que principira a escutal-os.

--No ouvi--respondeu esta, crando e sorrindo, como sempre que lhe
falava Henrique.

--Escusado  consultar Christina--acudiu a morgadinha--porque em muitas
coisas pensa ella em opposio commigo. E n'isto...

--E n'isto...

--N'isto de attender a requerimentos,  talvez mais condescendente.

--Ao que estou vendo--disse o conselheiro jovialmente--grandes coisas se
tinham passado aqui, antes da minha chegada. Vejo lavrar uma hostilidade
entre Lena e o sr. de Souzellas, que me d srias inquietaes.

--E eu julgo que no. Ao que ouvi ao Henriquinho, a primeira vez que viu
a nossa Lena no Mosteiro!...--disse D. Dorotha, com toda a indiscreo
da sua ingenuidade.

Magdalena procurou acudir a tempo  corrente das revelaes, a que viu
disposta a boa senhora.

Veio opportunamente em seu auxilio Angelo, que tendo feito uma digresso
pela sala do refeitorio, voltou com a alegre nova de que a ceia estava
na mesa.

O annuncio foi recebido com apparente enthusiasmo. Suspenderam-se
trabalhos, quasi completos, ultimaram-se  pressa outros, e a companhia
dirigiu-se para o corredor.

Pouco depois de Angelo, chegou D. Victoria, desmentindo-o e pretendendo
suster a corrente, que ameaava invadir a sala, que ella ainda no dera
por prompta. J no era tempo. O conselheiro, tomando duas creanas ao
collo, rompia a marcha, e atraz d'elle at a pacifica D. Dorotha
clamava insubordinada que no recuaria um passo.

E falando e rindo assim entraram na sala.

Estava offuscante de luzes, esplendida de louas e baixellas, enfeitada
de flores e de crystaes e ennevoada dos vapores das iguarias.

Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas, uma confuso e
incoherencia de ordens de D. Victoria para marcar logares, infraces
d'estas ordens, que a impacientavam, como se com isso pudsse perigar a
ordem natural e social do mundo, e, como justa consequencia, caa sbre
a cabea dos criados uma enfiada de recriminaes, que elles por habito
j soffriam com exemplar paciencia.

Restabelecida emfim a ordem, procedeu-se  ceia.

Ceia de Natal! abenoado banquete, ao qual todos se devem sentar nas
mesmas disposies de animo em que ordenava Christo estivessem os que
fssem orar ao templo; ceia com tanto afan cozinhada, e com to pouca
vontade comida, falem embora contra ti os medicos e os gastronomos
emritos, condemnando uns a indigestibilidade dos teus cozinhados,
outros o pouco delicado d'elles; reage contra as ideias novas, que veem
da Frana e da Allemanha; cerra as fornalhas s iguarias exoticas e
furta-te s mos da extranha gerao de Vateis, que aspiram a dominar
pelos paladares o espirito nacional.

Modifiquem embora o caracter vernaculo de todas as outras refeies, mas
respeitem esta, consagrada pelas memorias da familia, justificada pelo
facto de que quasi no  feita para ser comida.

Assim succedia com a do Mosteiro. Apesar das instigaes do conselheiro,
das instancias de D. Victoria, das garantias de D. Dorotha sobre a
innocuidade dos guisados, os pratos corriam  roda da mesa quasi
intactos e intactos voltavam  cozinha d'onde sairam.

Mas se se comia pouco--e de facto,  excepo de Henrique, do
conselheiro e das creanas, quasi ninguem parecia haver-se sentado alli
para ceiar--mas, diziamos ns, se se comia pouco, em compensao
falava-se muito.

O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando uma iniciativa
efficaz para baralhar e generalisar as conversas e assim conservar
constante a animao. Tudo desafiava risos, o dito de uma creana, a
anecdota contada por Henrique, as distraces de D. Victoria, as
canduras de D. Dorotha, os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as
alluses da morgadinha a Christina, a confuso d'esta, as maliciosas
insinuaes de Angelo.

Assim procedeu o repasto nocturno at  altura das saudaes e dos
_toasts_. N'esta parte, justo  confessar que Henrique e o conselheiro
fram menos abstinentes. Era difficil resistir  preciosidade dos
vinhos.

Passados os reciprocos brindes entre os parentes, o conselheiro,
voltando-se para Angelo, auctorisou-o a propr tambem um brinde.

Angelo levantou-se ento para brindar Augusto.

O conselheiro secundou-o, levando o copo aos labios.

--Ah! o sr. Augusto--disse Henrique, antes de beber e com certo tom de
ironia.--Conheo;  uma ave rara d'estas immediaes, que tem brios de
cavalleiro errante sob umas apparencias de philosopho.

--Brios de cavalleiro?--disse Angelo, com vivacidade.--Inda isso no 
tudo, sr. Henrique; pode accrescentar, e alma de heroe tambem.

--Pois d-se-lhe tambem alma de heroe, e se fr preciso at consciencia
de santo. V  saude da phenix!

E bebeu.

Depois de pousar o copo, proseguiu com o mesmo tom anterior:

--O que vejo  que  perigoso falar com a mais ligeira irreverencia
d'esta personagem; corre-se o risco de vr voltar contra o impio, que
tanto ousa, os poderes conspirados do co e da terra. Bem; prometto
acatar essa preciosidade.

--E creia--disse-lhe o conselheiro--que lhe  merecedor de toda a
considerao. Augusto  um d'estes caracteres excepcionaes que vivem 
sombra de uma modestia impenetravel e  sombra d'ella muitas vezes
morrem.  necessario ter a vista muita exercitada n'estas exploraes de
almas modestas, para descobrir uma assim.

--Felizmente para os myopes como eu--proseguiu Henrique--ellas fazem s
vezes a fineza de se despojarem da sua timidez e de se mostrarem  luz.
No  verdade, prima Magdalena?

--Que admira;--respondeu Magdalena--bem occulto est o fogo na
pederneira, primo Henrique, mas, percutindo-a, salta a faisca.

--Pobre rapaz;--notou a sr.^a de Alvapenha--aquillo nem parece d'este
tempo. O que eu no sei, primo Manuel,  porque elle se no resolveu a
tomar ordens. Recusar o legado da D. Rosa!

--No seja isso a dvida. Elle sabe que, adoptando essa ou outra
qualquer carreira, no lhe faltaro recursos para seguil-a at o fim.
Devo-lhe esse auxilio, assim elle o acceitasse; mas tem um genio
singular aquelle rapaz!

-- uma phenix--insistiu Henrique, ironicamente.--Vejo que no 
susceptivel de discusso, impe-se  gente como um axioma. Eu tenho
habitos de livre pensador, mas... forar-me-hei a incluir no meu credo
esse dogma.

--Perdo--replicou Angelo.--Um axioma no se demonstra, e a boa alma de
Augusto est todos os dias a demonstrar-se por aces generosas.

--Por favor!! Dem como no ditas as minhas palavras! Arrependo-me da
minha irreverencia, e se elle aqui estivesse, principiaria a
penitenciar-me na sua presena.

--E  certo que nos falta aqui Augusto. Como te no lembraste d'elle,
Angelo?

--No viria. N'esta noite no deixaria o tio Vicente.

--Ah, sim. Esquecia-me d'aquelle pobre Vicente.

-- do herbanario que falam?--perguntou Henrique.

--Justamente.

--Outra phenix; e quer-me parecer que tambem pertence ao numero dos
inviolaveis; no  verdade, prima?

--Pertence ao numero dos infelizes, primo, o que  justo considerar-se
uma especie de inviolabilidade.

A resposta collocou Henrique em mau terreno, e por isso apressou-se a
desviar do ponto principal da questo, dizendo:

--Infeliz? Por que lhe chama infeliz? Os visionarios como elle teem em
si os elementos da propria felicidade, e ninguem possue poder de
perturbar-lh'a. Alm de que o herbanario gosa aqui na terra de uma certa
soberania, que deve lisonjeal-o.

--E olha que nem em Lisboa ha talvez quem saiba tanto como elle em
coisas de doenas e de remedios, menino,--disse D. Dorotha, que era uma
das fervorosas apologistas da sciencia do herbanario.

-- na verdade um homem singular!--disse o conselheiro.--D'antes, na
noite de Natal, e em todas as solemnidades de familia, tinhamol-o tambem
por commensal, que ainda  parente arredado da casa. Ha annos porm deu
em tomar a peito o meu procedimento politico e em prgar-me sermes e
dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar com a possivel resignao.
Mas um dia foi mais amargo nas suas recriminaes e eu achava-me com
maior susceptibilidade; julgo que lhe respondi com bastante acrimonia, e
o homem saiu de minha casa offendido e protestando no voltar mais a
ella. Procurei-o, escrevi-lhe, tentei demovel-o do seu proposito. No
houve de qu. Havia-o ferido no seu orgulho, e  intolerante n'estas
condies.

--Sei-o j por experiencia;--disse Henrique--que n'uma unica entrevista
que tive com elle, e que durou minutos, deu-me occasio de lhe conhecer
a irritabilidade.

--Vamos, primo Henrique; talvez possa haver quem supponha que n'essa
entrevista no demonstrou o primo peor do que elle possuir as qualidades
de que o accusa.

--Agora--continuou o conselheiro--vo consideravelmente exacerbar-se os
despeites do herbanario contra mim.

--Porqu?--perguntou Magdalena.

--Porqu?... por causa do traado que se adoptou para a estrada.

--Ento?--disseram simultaneamente Angelo e Magdalena.

--A casa e o quintal do herbanario so os primeiros cortados.

--No pode ser!--exclamou Magdalena, com evidente expresso de susto.

Angelo dirigiu ao pae um olhar tambem inquieto.

Christina no exprimiu menos apprehensiva tristeza.

-- inevitavel. Os dois primeiros traados tinham certas durezas. O
primeiro era uma luva lanada a uma influencia eleitoral, poderosissima;
o brazileiro Seabra.

--Ah!--disse Magdalena, com certa amargura na expresso e no olhar.

O conselheiro reparou n'ella e em Angelo, em cuja physionomia se no lia
menos intenso desgosto.

--Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse
com os despeites d'esse influente. A logica do sentimentalismo tem
d'essas exigencias absolutas.

Magdalena respondeu:

--Julguei que era a da consciencia, meu pae.

--A consciencia diz-me que ha interesses superiores s contemplaes com
as singularidades de um velho honrado, mas... meio tonto. Na carreira
politica ceder ao corao  morrer ou ser vencido. O sentimentalismo
exaggerado, Lena, tem o inconveniente de dar tanto vulto s vezes a um
sacrificio individual, que, para o evitar, no duvida prejudicar maiores
e mais geraes interesses e operar sacrificios mais custosos.  muito
tocante na verdade o amor de um velho pelas suas arvores e pela sua
casa; porm, mais respeitavel  o bem-estar e a conveniencia de uma
localidade.

--E  to necessario para a felicidade d'esta terra o sacrificio a que
se quer obrigar o herbanario?--perguntou Angelo, e Magdalena secundou
com o olhar a pergunta do irmo.

--Eu te digo, Angelo--respondeu o conselheiro, levemente despeitado.--Eu
tinha a vaidade de me suppr ainda prestavel para esta gente, que me tem
elegido tantas vezes. Dos nossos patricios, deixem-me dizel-o aqui em
familia, no vejo ainda quem d garantias de desempenhar o mandato,
muito melhor do que eu. Chamasse eu contra mim a animadverso d'este
povo, e elles,  falta de outros, acceitariam manh qualquer nome
inscripto na carteira do ministro; um homem que nunca tivessem visto, e
que nem soubesse em que ponto da carta estava o circulo de que se
propunha ser representante. Mas perda-me, Lena, talvez isto te esteja
parecendo um censuravel excesso de vaidade.

--No, meu pae, ninguem acredita mais do que eu no muito valor da sua
influencia, mas...  meu Deus!... isso vae ser a morte do pobre tio
Vicente! Imagine bem o que  n'aquellas idades e com aquelle genio, a
grandeza do sacrificio que vo exigir d'elle?

--Custa-me ser obrigado a isso; porm...

--Valia mais esperar algum tempo. A vida d'elle no pode ser muito
longa. Deixem-o morrer em paz,  sombra d'aquellas arvores a que elle
quer tanto. Que importa passar mais alguns annos sem uma estrada?

--Poesia!--disse o conselheiro, sorrindo para Henrique, que lhe
correspondeu.

--Perdo!--acudiu Magdalena, crando-- caridade.

--Ora vamos, Lena. S razoavel. Todos soffrem no mundo sacrificios
maiores do que esse; eu mesmo, que me no tenho ainda assim por victima
da sorte...

--E no haveria outro meio?--perguntou Angelo.--Acaso ha s esses dois
logares para dirigir a estrada?

--Que antes nunca se fizesse!--exclamou Magdalena, apaixonadamente.

--Ahi temos como o sentimento me torna retrograda a minha Lena. J clama
contra as estradas como qualquer reaccionario convicto. Havia um outro
traado, mas esse ia destruir completamente os campos do Brejo.

--Ah! ento esse, esse! So bens nossos!--exclamou Magdalena com
vivacidade.

--So bens de Angelo, filha, e por ventura aquelles que um dia mais
valiosos se tornaro para teu irmo.

--Os charcos?--disse Angelo, encolhendo os hombros--ora! S para viveiro
de rs.

--Hoje pouco mais so do que isso, e como tal nol-os pagariam agora.
Dentro, porm, de alguns annos, operados alli os trabalhos de esgoto,
que eu projecto, vero em que se transforma aquillo.  exigir a um homem
muita abnegao pretender d'elle que sacrifique assim os elementos da
riqueza futura de seus filhos; quanto mais que as vantagens no seriam
taes que...

--No pediriamos esmola, meu pae--notou timidamente Angelo.

--Nem o Vicente a pedir. Visto que estaes to desprendidos de
interesse, que no hesitaes em fazer-lhe sacrificio dos vossos bens,
podeis ceder-lhe o sufficiente para o compensar da perda.

--Mas quem o compensar dos golpes nos seus affectos?--perguntou
Magdalena.

--Tambem tu! So segredos do corao feminino essas compensaes.
Deixo-as  tua disposio.

--Meu pae! meu pae! se  ainda possivel atalhar-se!

-- impossivel.

--Meu tio!--secundou Christina.

--Mano! Primo!--disseram a um tempo as senhoras mais idosas.

--O que posso fazer  ir eu proprio falar com o Vicente, para o mover a
consentir na expropriao amigavel, que farei que lhe seja o mais
vantajosa possivel.

--E tem corao para lhe ir propr isso?

--Dize antes se tenho coragem para arrostar com as iras do velho, e com
as maldies que j sei vae sacudir sobre mim.

Lena calou-se, suspirando.

--Mas vejam a inevitavel fatalidade que me persegue!--continuou o
conselheiro.--Eu, que tinha feito voto de no me entreter de negocios
publicos esta noite! Ai, Lena, Lena, a culpada s tu!

--Eu?! Eu, que abomino a politica! que s ella podia fazer entrar uma
crueldade no corao de meu pae!

-- tio, veja se faz com que a estrada v por outro sitio!--implorou
meigamente Christina.

--Tambem tu, Christe! tambem tu!

--Pudera, mano! No, que uma coisa assim! Isso  at uma ingratido para
com um homem a quem esta aldeia tanto deve--disse D. Victoria.

--Pois no ! E logo um quintal onde cresciam tantas plantas de
virtudes!--accrescentou D. Dorotha.

--V vendo, sr. Henrique, como se conspiram todos contra mim. Veja como
um sentimento insignificante organisa uma opposio.

-- uma lio que estou recebendo, sr. conselheiro.

--Meu pae,--insistiu Magdalena--eu espero ainda que, ouvindo o tio
Vicente, se commover e trabalhar por alterar esse fatal plano que
principia por arrancar arvores, mas que, pode estar certo, com ellas
arrancar uma vida.

--Romances! Lena, romances! Os romances, lidos em plena aldeia, so
perigosos. Falta aqui nos ares um certo scepticismo que, no sendo em
dses exaggeradas, tem a vantagem de no deixar vr as coisas da vida
atravs do prisma dos livros de imaginao. Mas basta de falar em
politica. manh procurarei o herbanario. Espero uma recepo de glo, e
vou preparado para uma ladainha de recriminaes, mas irei. Nada
esperes, porm, da entrevista, Lena; nem o mal, se mal , se poderia j
atalhar; nem o orgulho de Vicente lhe permittiria expanses 
sensibilidade, que cheguem a commover-me. Conheo-o.

Magdalena no instou. Ficou, porm, pensativa e sem o menor vestigio da
alegria, com que principiara o sero.

N'isto ouviu-se um toque de sino longinquo.

--J toca para a missa do gallo! Ouvem?--disse D. Victoria.

--Vamos! No ha tempo para demoras--exclamou o conselheiro,
levantando-se.

Todos o imitaram, menos Magdalena.

--No vens, Lena?--perguntou Christina.

--No.

--So amos, filha!--disse-lhe o conselheiro, indo por traz d'ella; e,
tomando-lhe a cabea entre as mos, beijou-a na fronte.

--No, meu pae,  uma dr de cabea to violenta!

--A maldita politica  o que faz! Pois fica; fica, porque est fria a
noite.

--Far-te-hei companhia, Lena, disse Christina.

--No, no. Se insistes, obrigas-me a sair.

--Aviem-se!--dizia D. Dorotha.--Henriquinho, vens?

Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia noite esfriou desde que
viu Magdalena ficar, respondeu:

-- tia... a falar verdade!... se me dispensassem!...

--Vem d'ahi, preguioso! anda!

-- que... para um homem doente...

--Ai, no; se te ha de s vezes fazer mal, ento no--apressou-se a
dizer a precavida senhora.

E foi deferido por unanimidade o requerimento de Henrique, a quem cdo
depois Torquato foi ensinar. o caminho para o quarto onde devia
pernoitar.

O conselheiro, D. Dorotha, Christina e Angelo fram para a missa do
gallo.

D. Victoria, Magdalena e Henrique ficaram no Mosteiro.




XV


Fechando-se no quarto, que lhe deram para pernoitar, Henrique de
Souzellas sentiu poucas disposies de dormir. Uma profunda excitao
impedia-lhe o repouso; em parte era devida s occorrencias d'aquella
noite, to fra dos seus habitos de vida; em parte, digamol-o em
verdade,  influencia dos vinhos, com que secundra os brindes do
conselheiro, e com que elle proprio inicira outros.

A imaginao, excitada como estava, cada vez, entre outras imagens, lhe
representava mais bella a de Magdalena. A especie de hostilidade
permanente, com que a morgadinha o tratava, ainda mais parecia
seduzil-o.

Nos poucos dias que passra na aldeia, havia Henrique, com novos
habitos, adquirido uma maneira de vr e de julgar as coisas e as
pessoas, differente da que lhe era habitual na cidade, no circulo de
amigos, com quem convivia; assim foi que abjurou tacitamente, e sem dar
por isso, certo scepticismo convencional, que uma antipathica escola
conseguiu pr muito na moda.

Graas a estas melhoras moraes, to verdadeiras n'elle como as physicas,
as quaes at o constante pensamento das doenas lhe haviam dissipado,
pudra elle considerar Magdalena como uma mulher superior ao typo, pelo
qual a mencionada escola costuma modelar o sexo: e acceitou sem m
preveno a aberta sinceridade d'aquelle caracter sympathico, que
descrevia com enthusiasmo nas suas cartas a um dos seus mais intimos
amigos de Lisboa.

Taes estados de convalescena so porm sujeitos a recadas.

N'este dia, vespera de Natal, recebera elle a resposta quellas cartas,
e sob as impresses com que ficou da leitura, tinha vindo para o
Mosteiro.

O amigo ria-se, com todo o elegante scepticismo de um homem da moda, da
candura e da ingenuidade de Henrique. Dizia-se sinceramente penalisado 
vista dos profundos estragos que alguns dias de provincia tinham operado
n'elle. Via-o disposto a idealisar a mulher, a mais perigosa e mofina
monomania que, dizia o tal, pode transtornar o cerebro de qualquer
homem.

Com aquella ausencia de escrupulos, com que todos os dias caracteres,
alis no pervertidos, levianamente calumniam ou ferem de suspeitas
reputaes de todo o genero, elle fazia irreverentes alluses 
morgadinha e zombava de Henrique, que ainda tomava a srio as isenes
de uma rapariga de vinte e tres annos. Acabava por o aconselhar a que
indagasse de algum primo timido e modesto, ainda que menos ingenuo de
certo do que elle Henrique se estava mostrando.

Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a doena, que estava em via
de cura. Um espirito mephistophelico parecia havel-a dictado. Henrique
transportou-se pela imaginao, depois de lel-a, a um dos circulos que
habitualmente frequentava em Lisboa; suppoz-se a fazer alli a narrao
da sua vida na aldeia, e parecia-lhe estar vendo os sorrisos com que o
escutariam, e elle proprio construia os epigrammas, com que lhe seria
por certo commentada a narrao. E ento uma vergonha de m indole,
vergonha do homem que pe um preceito de elegancia acima de um dictame
de moral, fazia-o crar, apesar de a ss comsigo mesmo. Voltava a ler a
carta, que lhe parecia dictada pela experiencia e pelo bom senso,
emquanto que a ingenuidade das suas crenas se lhe figurava ridicula e
desarrazoada.

Quem ha que no tenha tido momentos d'estes? Quem se pode gabar de no
ter perguntado um dia aos seus escrupulos mais nobres se no so meros
preconceitos, que ficaram de uma educao acanhada? Quem no poz um
momento em dvida as sublimes verdades que a me lhe ensinou em creana?
Henrique estava passando por um d'esses accessos de scepticismo.
Magdalena era j para elle uma astuciosa, que muito se deveria ter rido
da sua simplicidade; e tanto o incommodava esta ideia, que promettia a
si proprio ser d'ahi por deante mais arrojado. Esta ordem de reflexes
estavam acudindo outra vez a Henrique e recebiam da excitao, que se
apoderra d'elle aquella noite, uma tenacidade maior. Sentindo a cabea
em fogo, Henrique levantou-se, apagou a luz, e abrindo a janella do
quarto, saiu  varanda que deitava para a quinta, a respirar o ar livre.

A noite era sem luar e sem nevoas. Descobriam-se muitas estrellas no
co, que com forte scintillao parecia illuminarem a terra de um tenue
crepusculo, que mal deixava distinguir os objectos.

O ar frio da noite estava produzindo em Henrique um prazer, que elle
procurava prolongar.

No havia passado muito tempo, depois que assim se encostra  varanda
do quarto, quando lhe attrahiu a atteno certo vulto alvacento, que
furtivamente se movia n'uma das ruas da quinta.

Pareceu-lhe uma figura de mulher.

Justamente n'aquella occasio tinha Henrique na memoria o periodo final
da carta do seu amigo.

Por isso occorreu-lhe uma ideia satanica.

--Ah!... Querem vr que... A dr de cabea subita... A insistencia em
ficar s... Percebo... Um primo timido e modesto...

E murmurando estas palavras, um sorriso maligno encrespava os labios de
Henrique.

--Se eu pudsse averiguar isto... Mas ella corre com uma ligeireza que,
antes que eu ache meio de sair para a quinta... j a levar bem longe.

O meio porm no era difficil de encontrar. Da varanda em que estava
Henrique passava-se com grande facilidade para outra immediata, na qual
havia uma escada de communicao para a quinta.

Reconhecendo esta disposio do terreno, Henrique operou n'um momento a
descida, e pouco depois procurava atravs da quinta os vestigios da
mulher que tinha perdido de vista.

N'esta operao esforava-se por combinar com a maxima ligeireza a
possivel precauo, para no ser por causa alguma frustrada a sua
pesquiza.

A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada toda em volta por um solido
muro de alvenaria. Aqui e alli abriam-se n'elle differentes portas que
deitavam para os diversos logares da aldeia. N'este vasto recinto havia
pomares, lameiros, vinhedos e hortas, por onde Henrique errava  ta, j
desanimado de ser bem succedido no empenho.

De repente julgou ouvir, a pouca distancia, o rodar de uma chave na
fechadura. Parou por precauo e ficou-se a escutar. Logo depois ouviu o
bater de uma porta e mais nada.

Ento adeantou-se rapidamente; n'um momento deu com a porta, que ainda
se conservava aberta.

Saiu por ella para a rua, mas achou-a deserta.

Dirigiu-se  esquina que d'alli avistava; dobrou-a, mas nada viu; as
ruas eram solitarias, e uma s casa terrea que havia ao lado de um
quintal estava discretamente fechada e silenciosa.

Desistindo de proseguir na infructuosa pesquiza, Henrique voltou para a
porta.

--Esperemos aqui por esta donzella destemida que assim anda de noite a
correr aventuras. Ha de ser curioso observar como ella fica, quando me
encontrar por guarda porto. Veremos se ainda depois d'isto duraro
aquelles ares de soberania, com que me trata. Um primo timido e
modesto!...

E, sorrindo  lembrana da scena que se preparava, Henrique fechou a
porta por dentro, e accendendo um charuto, poz-se a passeiar, aguardando
o regresso da morgadinha.

Para no perdermos muito tempo  espera tambem, aproveital-o-hemos a
inquirir de coisas e de pessoas, cujo conhecimento  util  continuao
da nossa historia.

A pouca distancia do extremo da quinta do Mosteiro e n'um sitio a que a
abundancia de vegetao e a suavidade de perspectiva davam o mais
pittoresco aspecto, estava a casa e o quintal do herbanario, casa e
quintal j condemnados pelos lapis e tira-linhas dos engenheiros e
offerecidos em sacrificio aos melhoramentos municipaes e concelhios.

Acharia justificado o quasi terror, com que Magdalena e Angelo escutaram
a nova d'esta expropriao, quem conhecesse a vivenda rustica do
herbanario e soubesse do amor que elle votava a cada objecto d'ella,
assim como da vida que, havia tantos annos, alli vivia escondido e
obscuro.

Para o quintal, que a abundancia das arvores de espinho fazia sempre
verde, abriam-se as janellas da pequena e humilde saleta, onde o
herbanario se entregava s suas leituras e lucubraes scientificas.
Logo ao p da porta se estendiam o jardim, em parte de recreio, pelas
flores que o adornavam, em parte de utilidade, pelas simplices
medicinaes, de virtudes mais ou menos problematicas, que o velho n'elle
cultivava.

Vicente tinha entranhada a paixo vegetal, deixem-me assim chamar-lhe.
Adorava as plantas pelas suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes
curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem a
responsabilidade dos effeitos produzidos, assim lhes queria e as
amimava, quando salutares; assim as aborrecia e maltratava, quando
nocivas. A vida isolada e o genio do velho, que sempre fra dado a
singularidades, augmentaram estas disposices, que tinham o que quer que
era de pantheistico; e no era raro surprehenderem-o conversando com
ellas, como se convencido de que o estavam comprehendendo.

A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre, a herva moura, os
trevos, os geranios, as papoulas, as violetas, to boa camaradagem lhe
faziam, que nem lhe deixavam sentir a solido.

O herbanario no tinha pessoa alguma ao seu servio. Elle proprio
cozinhava e por suas mos fazia todos os mesteres domesticos.

 pois de imaginar que no seria muito complicado o banquete das
consoadas n'aquella casa, e que devia formar em tudo contraste com o que
 mesma hora se celebrava no Mosteiro.

De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas e mais espontaneos
os risos, dois homens apenas, sentados um defronte do outro, a uma
pequena mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta sala o santo
anniversario. Um era o proprietario da casa, o outro Augusto, um dos
poucos que se atrevia a frequentar quellas horas mortas a habitao do
velho.

Alm da mesa, sobre a qual estava uma ceia composta de queijo, mas,
nozes, castanhas, duas sopeiras com escabeche, especialidade na
confeco da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa de vinho do
Porto de promettedora cr de topazio, consistia o resto da mobilia n'uma
estante de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas
encadernaes e folhas vermelhas nos aparos, em algumas cadeiras e
bancos tambem occupados com livros e com varios utensilios empregados
nas exploraes scientificas do velho, taes como caixas de lata,
frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes ainda sobravam para
alastrarem o cho.

Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro de azeite, e a
escassa luz, que dos tres lumes que, em atteno  solemnidade da noite,
o velho accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um Christo de
marfim pendente de um crucifixo negro, que sobresaa n'aquellas paredes
nuas e caiadas.

Havia bastante tempo que aquelles dois homens, sentados defronte um do
outro, guardavam silencio; um d'esses silencios, durante os quaes os
espiritos, como se impacientes com as longuras da palavra, tendo-se
desembaraado d'ella, voam a par, para adeantarem caminho e voltarem
mais longe a associarem-se  sua mais lenta companheira.

Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava a scena, parecia
alheio a quanto o rodeava.

O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com o brao estendido para o
calice que tinha defronte de si, e a cabea inclinada, parecia espiar,
um por um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles os pensamentos
que o preoccupavam. Emfim rompeu o primeiro o silencio:

--Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens. Para que te mettes a
esconder de mim aquillo que eu ha tanto te leio nos olhos, creana?

--O qu, tio Vicente?--perguntou Augusto, inquieto.

--O qu?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho, sem te esfriar o
corao: so dons do Co, que se pagam caro e com lagrimas, rapaz.
Bondade de corao, com a cabea... assim, assim... a dar esmolas aos
pobres se satisfaz; cabea de fogo, mas corao de glo... todos os
meios de levar ao fim ambies, tanto os bons como os maus, todos lhe
servem; mas corao como o teu, com o espirito que tens!... ai, pobre
Augusto, se se escapa ao infortunio,  por milagroso poder do Senhor.

--No o entendo, tio Vicente,--disse Augusto, com manifesta confuso.

--No! Olha para mim. E v se te atreves a repetil-o.

Augusto baixou a cabea.

O velho sorriu com ar de commiserao e sympathia.

--Tu ainda no sabes fingir. Vamos l; e cuidas que me no havia de
custar, se no tivesse acertado?--E, depois de breve pausa,
continuou:--Mas ainda quando penso em como tu, uma cabea forte, assim
te deixaste enfeitiar!...--E tomando o calice, que tinha defronte de
si, disse com resoluo--Quero beber  tua saude, Augusto, e para que em
breve se te desfaa essa loucura.

Quando ia a levantar o calice aos labios, a mo de Augusto susteve-lhe o
brao.

--No beba. Loucura embora, deixe-me viver e morrer com ella. Sou feliz
assim.

--Ah!--disse o velho herbanario, tomando um ar mais grave; e pousou o
copo, sem desviar de Augusto o olhar penetrante e fixo.

Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu com maior vehemencia e
colorindo-lhe as faces um no costumado rubor:

--Sim. Por que o no hei de confessar? Essa loucura que diz, trago-a
commigo, vivo com ella e quasi que para ella. Quero-lhe assim, e no a
desejaria perder. Amor? no ; a tanto no chega... antes um culto, isso
sim.  uma adorao como aquella, em que de pequenos nos educam para com
a Virgem. Que esperanas tenho? Nenhumas. Nem procuro alimental-as. Quer
que lhe diga? Vl-a; respirar estes ares que ella respira; atravessar
estas devezas em que ella passeia; amimar as mesmas crenas que ella
amima; soccorrer, com o meu bulo de pobre, a miseria sobre a qual ella
espalha caridosa as dadivas da sua abenoada opulencia... e, ahi est;
so as minhas aspiraes;  o futuro que desejo, e com que me contento.
Leu no meu corao, disse; e ha muito que m'o d a entender; mas no viu
claro de todo, confesse. Julgou talvez que haveria em volta d'este
sentimento um enxame de esperanas loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por
certo foi que se riu;  muito generoso para se rir do mais. Enganou-se,
porm, tio Vicente; v agora que se enganou, no  verdade? Essas
esperanas no existem. Se existissem, bem v que no estaria aqui. No
me teria impellido a ambio pelo caminho de realisal-as? No se me teem
offerecido os meios para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto
me satisfaz esta felicidade a meu modo, que no arrisco um instante
d'ella para tentar uma ventura maior.

O herbanario escutava silencioso, porm meneando a cabea com ares de
quem no punha demasiada f n'aquellas palavras.

--Aos vinte annos!...--disse elle por fim--sentir o que dizes... ser
feliz assim!... Deixa passar mais tempo; deixa tomar corpo  paixo e
vers... vers depois...

--Tem dez annos--disse Augusto, sorrindo.

--Dez annos!

-- verdade. De creana a conheo, a paixo que diz; por isso confio
n'ella. Tenho f em que se no transviar.

--Dez annos!--repetia o velho, admirado.--Porm... ha dez annos...

--Ha dez annos sa eu d'aqui, tio Vicente. No se lembra? Era ento uma
pobre creana da aldeia, educada entre os braos de minha me, e
conhecendo, uma por uma, as arvores d'estes sitios e mais nada. Sa
d'aqui e fui para Lisboa. No imagina as fortes impresses que recebi na
noite que alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de fadas e de
encantamentos que ouvia, quando era pequeno, nunca me feria a imaginao
assim! Tudo era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes, os
palacios, os edificios, os carros produziam-me quasi uma vertigem;
sentia-me vacillar. Achei-me, nem sei bem como, de to atordoado que ia,
n'uma casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia, n'aquella
noite, uma companhia numerosa de homens, de senhoras e de creanas,
muitas da mesma idade que eu, e que formavam uma assembleia  parte. A
sala era magnifica; muitas luzes, muitos espelhos, muitas flores, moveis
dourados, tapetes, quadros, crystaes, e para acabar de me confundir, o
piano, objecto novo para mim, e que eu me no fartava de admirar. Tudo
isto me perturbava, como imagina, e por fra me havia de dar uns ares
de estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto; deu explicaes s
pessoas presentes a respeito da minha vida, e deixou-me entregue s
creanas. Ahi fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta
mal talhada, o meu olhar timido, os meus modos acanhados, no meio de uma
turba de creanas elegantes, que se me figuravam de uma essencia
superior  minha. As creanas so desapiedadas, quando assim em
companhia. Cdo percebi que estava sendo o alvo da zombaria d'ellas;
riam ao principio com disfarce e falavam-se ao ouvido, olhando-me de
relance; redobravam as risadas e transmittiam reflexes a meu respeito,
cujo sentido julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas,
dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfarados; formaram
grupos em volta de mim; se eu falava, respondiam-me rindo. Ento
apoderou-se de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me o corao de
tristeza. Lembrei-me, com saudades, das arvores da minha aldeia, do meu
pobre quarto, de minha me; e achei-me alli to s, to sem conforto nem
amizades, que as lagrimas me vieram ferventes aos olhos. Ainda hoje no
hesito em dizel-o, foi aquelle um dos mais amargos momentos da minha
vida. Ns, quando adultos, esquecemos facilmente os martyrios da
infancia, quando n'esta idade uma sensibilidade exaggerada to dolorosos
os faz. Foi ento que se deu um facto que, na minha piedosa superstio
de rapaz aldeo, quasi me pareceu de interveno divina. Abriu-se a
porta e entrou na sala uma creana, que eu no tinha ainda visto. Era
uma menina pallida, de gesto affavel e angelico. Vestia toda de branco.
Entrou e approximou-se do conselheiro, que jogava com uns amigos. O
conselheiro, depois de beijal-a, no sei que lhe disse ao ouvido. Ella
correu ento a sala com a vista; viu-me e veio direita a mim.

--No conhecias j da aldeia, Magdalena?--perguntou o herbanario.

--No; minha me veio para aqui no anno em que, por morte da sua,
Magdalena voltou a Lisboa. A affabilidade, a singeleza desaffectada com
que me falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje sinto como que
os reflexos d'aquella suave impresso. Parecia-me ouvir a voz de minha
me; tinha o timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confiana o
corao. Com ella no senti mais aquelle acanhamento que me enleiava.
Depois falava-me de coisas que eu sabia to bem! Perguntava-me a
respeito dos campos, das arvores, das abelhas, dos ninhos dos passaros,
das flores, dos trabalhos do linho... interrogando-me e escutando-me com
tanta deferencia e atteno, que me inspirava coragem, e julgo que me
estava dando ares de mais importancia junto d'aquelles pequenos senhores
e senhoras que, pouco a pouco, se fram despojando dos seus desdens e
acabaram por me escutar e interrogar tambem com curiosidade. J uns me
lanavam os braos ao hombro, outros formavam circulo em volta de mim, e
cdo fui eu a principal personagem d'aquella noite. Essa creana...

--Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se j o no soubesse. No podia
deixar de ser ella--exclamou o herbanario, com um fulgor de sympathia a
illuminar-lhe o olhar.--Era ella; sempre assim foi!

--Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia no meu espirito.
Hoje ainda, se penso n'ella, acho-a de uma grande significao moral.
Pois no  mais apreciavel n'uma creana esta prova de superioridade de
caracter, do que nas idades em que muitas vezes a razo e o calculo a
impem a uma indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo
espontaneidade. Desde ento a adoro.

O herbanario parecia no ter j animo para sorrir.

--Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella grande tristeza. To
novo!

-- verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi sempre para mim affavel;
inclinava-se sobre o livro em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os
defeitos da minha educao alde, e, se reconhecia progressos no
discipulo, manifestava uma alegria que era para mim o maior incentivo e
o maior premio. Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena com certo
ar de gravidade, que aquella creana j ento tomava, perguntou-me, no
meio de uma conversa propria de creanas: E sente-se com genio para ser
padre, Augusto? J me no lembro do que lhe respondi. Trouxe porm
commigo aquella pergunta; trouxe-a para a solido da minha aldeia.
Procurei cerrar os ouvidos  voz interior, que desde ento m'a repetia
sempre, at junto da cabeceira de minha me, cuja maior aspirao era,
como sabe, vr-me padre. Mas em vo! foi desde ento uma dvida
constante com que luctava. Com a morte de minha me tudo mudou. Pela
primeira vez respondi  interrogao, que havia tanto tempo dirigia a
mim proprio, e consegui por fim responder: No. Eis o segredo do meu
passado.

--E por que disseste No?

--Porque vi que toda a minha vida era para a consagrar a um sonho; que o
sonharia no altar, no pulpito e no confessionario; que para toda a parte
me seguiria a imagem, a que eu j no podia renunciar, e a qual ento j
no contemplaria sem remorsos, como agora o fao. Foi por isto.

--S? No te illudirs a ti mesmo, Augusto? Repara bem, que n'isso pode
ir a tua felicidade! Ests bem certo de que no ha uma esperana dentro
do teu corao?

--Se a tivesse...

Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de passos na rua. Cdo
batiam na porta duas leves pancadas, e uma voz dizia de fra:

--Est acordado ainda, tio Vicente?

O herbanario trocou um olhar com Augusto. A voz era de Magdalena.

Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario quiz retl-o.

--Onde vaes?

--Deixe-me sair. No poderia vl-a agora. No estou preparado com a
minha indifferena.

--Pobre mascara!--N'esse caso sae pelo quintal.

--Tio Vicente!--repetiu Magdalena, de fra.

--Eu vou, minha ave nocturna; eu vou j. Espera--continuou em voz baixa
para Augusto:--d-me a tua palavra que no escutars.

--Dou; mas... promette que nada lhe dir?

--Eu?!... Louco! Assim te pudsse fazer esquecer, quanto mais... Adeus!

Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo lado do quintal, o
herbanario foi abrir a porta da rua  morgadinha.




XVI


--Ora com Deus venha a minha fada; esta querida Lena, que se no esquece
dos seus amigos velhos... Boas festas me trazes pela noite, filha!

No rosto e nas maneiras de Magdalena havia evidentes indicios de
preoccupao.

--Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar; eu venho...

O herbanario conduziu-a para junto da mesa, onde estavam ainda os
signaes de refeio, que havia pouco findra. Vendo os dois talheres, a
morgadinha olhou interrogadamente para Vicente:

--Estava alguem comsigo?

--Esteve Augusto, que ceiou aqui. Porqu? Temos por ahi mais alguns
livros a comprar-lhe?--continuou, sorrindo com benevola malicia.--Tenho
eu mais uma vez de chamar em meu auxilio a fada que, de vez em quando,
me ensina em segredo quaes os livros, que o rapaz mais deseja e de que
eu mal sei dizer os nomes? Hei de ainda ouvir calado agradecimentos, que
no mereo, e que elle mais de corao daria, a quem so de justia
devidos?

--No, tio Vicente; no se trata agora d'isso.

--Ai, Lena, Lena, que no sei bem o que devo pensar de todas estas
coisas.

A morgadinha parecia um pouco perturbada com as palavras do herbanario.

--Que ha de pensar? Ha nada mais natural? Angelo foi que me deu o
exemplo. Elle sabia o amor que Augusto tem  leitura. Porm o cofre de
Angelo  pequenino, bem sabe; emquanto que eu chego a nem saber em que
hei de consumir o que me sobra. Por isso foi que me lembrei... porm
como no conviria que eu propria fizesse o presente, nem elle de mim o
acceitaria,  que eu lhe pedi que o fizesse em seu nome. Mas falemos de
outra coisa, porque me no posso demorar. Venho s occultas e emquanto a
minha gente foi  missa do gallo. Tio Vicente, um objecto muito grave me
obrigou a procural-o a estas horas.

--Ah!--disse o velho, sentando-se em tom de gracejo.--Adivinho a
gravidade do caso. O filhito do boieiro, o teu afilhado predilecto, tem
algum principio de sarampo ou de garrotilho, e vens...

--No, no. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor a esta casa e a este
quintal?

O velho tornou-se immediatamente srio.

--Se lhe tenho amor?! Que pergunta!

--Tem?

--Nasci aqui, filha.

--Custar-lhe-ia a...

--A qu?

--A... a...

E Magdalena hesitava.

--Fala!--insistiu o velho, j inquieto.

--A separar-se d'ella?

O herbanario respondeu simplesmente:

--Ah! morreria.

Magdalena fez um gesto de afflico.

Em Vicente crescia o desassocego.

--Mas... Dize, Magdalena; o que significam essas palavras?

-- que...

--Explica-te!--exclamou o herbanario, quasi imperiosamente.

--Oua-me, tio Vicente; oua-me, mas no se afflija. Eu vim de proposito
para o prevenir. Mas, por amor de Deus, socegue; seno tira-me o animo
de continuar.

--Que socegue, e tu a atormentares-me com essas demoras!

--Perde... Fala-se em deitar abaixo estas arvores e esta casa, para...

O herbanario de um impeto poz-se a p. Fulgurou-lhe nos olhos um
relampago de ira terrivel!

Magdalena calou-se, assustada.

--Deitar abaixo estas arvores e esta casa?! Quem?... Quem se atreve?
Pois que venham! que venham!

Mas reparando no terror que estava causando a Magdalena, procurou
reprimir-se, e com uma voz que elle se esforava por tornar tranquilla,
continuou:

--Mas vejamos. Ento querem, dizes tu... Fala, Lena, fala... Dize o que
sabes. Quem ?... Para que fim? Pois quem pode lembrar-se de... Fala,
bem vs que eu estou socegado, filha.

--Ha um projecto de estrada...

--Ah!--disse Vicente, com um grito de raiva.--No digas mais. J
sei--continuou com renascente exaltao.--J sei. Adivinho o resto. 
teu pae que o determina;  teu pae que o resolveu?

Magdalena abaixou a cabea com dolorosa expresso.

O furor do velho exaltou-se outra vez.

--Teu pae! Teu pae, Lena! Ento esse homem jurou matar-me?

--Tio Vicente!

--Elle no sabe o que so para mim estas arvores e estas paredes? Elle
no sabe que a minha alma est n'ellas, presa a estas raizes? que com
ellas se despedaar? Esse homem sem corao no v que so estas as
minhas affeies, as unicas? a minha unica familia? Elle, o companheiro
dos meus primeiros annos! que, como eu, ahi brincou,  sombra d'essas
mesmas arvores e sob os olhares de meu pae, que tambem o abenoava, to
duro de corao se fez que, sem respeito por estas memorias todas, assim
me quer separar do que me d vida, do que ainda me prende ao mundo? E 
teu pae este homem, Lena?

--Por quem , tio Vicente; oua-me. Deixe-me dizer-lhe ao que vim, que
talvez tudo se remedeie ainda.

--Sim, sim; tudo se remediar... com a minha morte. Talvez que ella seja
util a teu pae... Talvez precise d'ella.

--Oh! no creia, no creia.

-- duas vezes doloroso o golpe; porque me separa do que amo deveras e
por vir da mo de quem vem. Eu era amigo de teu pae, Lena. Acredita que
o era... ainda. Conheci-o to generoso e to innocente, como teu irmo
Angelo. Muitas vezes me enthusiasmei ao ouvil-o falar dos seus
projectos. E acreditei n'elle. Tinha ento no olhar um fogo, que no
mentia. Vi-o seguir a carreira publica e acompanhei-o com a minha f.
No tardaram os primeiros desenganos; no lhes quiz dar credito ao
principio. Vieram outros e outros. Fui vendo ento que os maus ares
d'aquella terra tinham embaado o brilho do caracter, que eu julguei
melhor do que os outros. Mas o peor dos desenganos estava-me reservado
ainda. Para teu pae hoje os homens so medidos pelos votos, que podem
lanar na urna eleitoral!

--Por amor de Deus, tio Vicente, no fale assim! No duvide de meu
pae!--exclamou Magdalena, a quem cruelmente estavam affligindo as
recriminaes amargas do herbanario.--Meu pae estima-o e respeita-o. No
tem o corao endurecido que diz. Elle mesmo manh aqui ha de vir. Ver
ento...

--Elle? manh?...

--Para isso venho prevenil-o. No o receba com asperezas, tio Vicente;
fale-lhe com brandura. Talvez o commova, talvez seja ainda possivel
valer a tudo. Ainda no est decidido... Julgo... E que estivesse...

--manh! Teu pae vem aqui manh? E ousa vir elle proprio annunciar-me
o que sabe que vae ser uma sentena de morte?

--No; elle ignora o mal que isto lhe causa, creia. Sabendo-o, ver
como...

--Teu pae conhece-me, Magdalena. Teu pae conhece-me, e ha muito. No
julgues que pode errar, calculando o effeito d'este golpe. Mas que
queres tu? ensinaram-lhe j a avaliar em pouco as venetas de um velho
quasi tonto. Homens que trazem o pensamento em interesses to altos, no
teem vista para estas pequenas desgraas.

Magdalena sentia-se possuir de uma profunda tristeza, ao ouvir falar o
herbanario. Era uma dolorosa provao para o seu amor de filha vr assim
uma nuvem de desconfiana offuscar a ideal concepo que ella formra do
pae, e no ter fras para a afugentar. s vezes uma dvida cruel
fazia-lhe, a seu pesar, suppr que o herbanario tinha razo. Agora s
conseguia oppr um gesto supplicante quellas acerbas accusaes, que
por muito tempo ainda desattenderam esta supplica muda.

A final serenou a violencia da irritao do velho; succedeu-lhe, porm,
uma commoo profunda, dominado por a qual disse a Magdalena:

--Socega, Lena; manh eu receberei teu pae sem a menor aspereza.
Fizeste bem em vir primeiro, filha. Se o no esperasse, talvez no
soubesse conter-me. Agradecido. Uma noite  bastante para me preparar.
Agora vae, deixa-me s; deixa-me... chorar.

E cobrindo o rosto com as mos, deixou-se cair, soluando, sobre a mesa,
junto da qual se achava.

Magdalena correu para elle, commovida.

--Ento, tio Vicente, ento! Socegue! manh meu pae vir. Fale-lhe, e
eu espero que ainda ser tempo de evitar... o mal.

--Pode ser, pode ser...--respondia o velho.--E se no pudr, Deus me
acudir, para no viver por muito tempo fra da casa em que nasci.

Magdalena j no tinha que lhe dizer.

--Eu pedirei tambem, e Christina, e todos pediremos, como j pedimos.
Tenho esperana.

--No, filha, no peas tu. Deixa-me s com teu pae manh. Disseste que
tinhas vindo, sem ninguem saber?--continuou elle.--Olha que te no dem
pela falta. Vae, que  tempo.

--Mas...

--Vae, filha. Eu estou j tranquillo. Bem vs. Deus te recompense a
bondade que tiveste. Vae. Queres que te acompanhe?

--No  preciso. Vim pela porta das prezas, que deixei aberta. So dois
passos e estou na quinta. Mas, tio Vicente...

--Vae ento; e Deus te abenoe.

E o velho pousou a mo sobre a cabea de Magdalena, que saiu commovida.

E elle caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o pranto que lhe rebentava
dos olhos.

 sombria a saudade n'aquellas idades, porque as esperanas so j muito
debeis para lhe darem luz.

Saindo de casa do herbanario, perturbada ainda pelos sentimentos que
alli a tinham agitado, a morgadinha dirigiu-se  pressa para a porta da
quinta, por onde saira. Ao impellil-a para entrar, a porta resistiu.
Este facto surprehendeu e inquietou um pouco Magdalena. Quem poderia ter
fechado a porta? E se effectivamente estava fechada, tornava-se-lhe
necessario um longo rodeio pela aldeia para chegar a outra, que pudesse
encontrar aberta.

N'esta hesitao impelliu outra vez instinctivamente a porta, que lhe
oppoz a mesma resistencia.

Cdo, porm, sentiu o rodar da chave na fechadura e viu mover-se
lentamente a porta, e no vo, que augmentava, desenhar-se uma figura de
homem.

Antes que pudsse, atravs da obscuridade da noite, reconhecer a pessoa,
que assim to a proposito lhe acudia, deram-lh'a a conhecer estas
palavras:

--Muito boas noites, prima Magdalena. Espero que pelo menos me conceder
licena para exercer, junto de si, as humildes funces de porteiro.

Era Henrique de Souzellas.

Magdalena no foi superior a um vago sentimento de receio, ao
encontrar-se ahi com o hospede de Alvapenha; comtudo esforou-se por
dominar-se e respondeu, com apparente presena de espirito:

--Ah!  o primo Henrique. Muito boas noites. Ahi temos um requinte de
galanteria, que eu estava muito longe de esperar.

--E de desejar, no?

--E de desejar tambem; confesso-o. Por mais diligente que seja um
porteiro, nunca o  tanto como uma porta aberta.

--Mas  mais discreto.

--Duvido. Em todo o caso, agradeo o incmmodo.

E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem mais explicaes.

--Uma palavra, prima Magdalena--disse Henrique, retendo-a por o brao e
com certa expresso nas palavras e no gesto, que redobrou o sobresalto
da morgadinha.--No ha mais accommodado terreno para um dialogo solemne
do que o limiar de uma porta. Ordinariamente no limiar das portas o
homem muda de mascara; depe a que apresenta na sociedade e afivela a
que traz na familia, e vice-versa. Ora n'estas mudanas  facil
surprehender o verdadeiro rosto da pessoa.

--Ser tudo o que quizer o limiar de uma porta, primo; menos um logar
muito confortavel para seres n'uma noite de dezembro.

E Magdalena tentou de novo seguir para deante.

Henrique susteve-a outra vez.

--Um momento s, prima Magdalena; tenho necessidade de saber se me quer
para alliado ou para inimigo.

--No vejo a necessidade da alliana que prope, nem as razes para a
lucta.

--Sejamos francos. A prima deve confessar que a minha presena aqui foi
um desagradavel contratempo. Uma certa altivez e consciencia de
invulnerabilidade, de que tinha o incmmodo de se revestir, sempre que
tratava commigo, depois d'esta importuna occorrencia ter de se
modificar.

--No havia dado por essa... _revestidura_ que diz; mas, se ella
existiu, far-me-ha o favor de dizer: por que no pode continuar?

--Essa  boa! porque eu fao a justia  prima de suppr que no vae to
longe a sua hypocrisia.

--Hypocrisia!--disse Magdalena, com accento mais severo.

--Perdo; no tive tempo para inventar outro termo mais... brando.
Dissimulao talvez lhe agrade mais. Seja dissimulao. Mas depois do
occorrido...

--Agora exijo eu que se explique, senhor.

--Ora vamos. Seja razoavel. Poder-me-ha dar uma explicao...
edificante... d'esta sua excurso nocturna?

--Obsta apenas a que eu lh'a d, sr. Henrique de Souzellas, a falta de
uma pequena formalidade: a de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.

--Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha ideia. A prima  uma mulher
admiravel, uma mulher superior, educada na alta escola de uma sociedade
distincta, sobranceira por isso a pieguices provincianas. Tanto mais me
encanta! E creia que me envergonho s ao lembrar-me do que ter pensado
de mim, vendo-me tomar a srio as suas profisses de f, to cheias de
franqueza e de candura. Devo ter-lhe parecido bem ridiculo, no 
verdade?

--Agora  que me est parecendo bem enygmatico!

--Sim? N'esse caso eu me decifro. A prima no ignora que eu a amo.

--Pois ignorava!--atalhou Magdalena, com ironia.

--E sabe de certo, por experiencia do mundo, que para homens como eu, a
indifferenca, a frieza e os desdens redobram o ardor da paixo.

--Sim; j li isso n'um romance.

--A prima tem sido para commigo de uma crueldade revoltante, mas pouco
sincera. Eu resignava-me a soffrer, porque um resto de ingenuidade que
me ficou dos quinze annos, illudia-me na interpretao de taes
resistencias. Tive a puerilidade de a suppr uma mulher de excepo;
pouco me faltou para a divinisar. Estava reservado para esta memoravel
noite de Natal o desengano.

--Ah! ento parece-lhe...

--Que a prima representa admiravelmente o seu papel. Pode gabar-se de
ter illudido um homem habituado s scenas da comedia social.

Magdalena respondeu, com um tom de voz cheio de severidade e de nobreza:

--Tenho-o estado a escutar, sr. Henrique de Souzellas, sem que eu
propria bem saiba o que me retem aqui: se  a compaixo que me inspira a
profunda doena moral de que o vejo tomado, se a curiosidade de saber a
que tendem todos esses arrazoados. Vejo-o inclinado a imaginar que por
um facto, que a sua pouco delicada indiscreo preparou, eu ficarei de
hoje em deante  merc da sua generosidade. Conhece-me muito pouco, sr.
Henrique! Ainda quando esse facto no pudsse ter uma explicao
natural, e que me no repugnar declarar quando quizer, saiba que tenho
orgulho de mais para arrostar com tudo, at com a calumnia, de
preferencia a resignar-me ao menor predominio que me seja odioso.

--Bravo!

--Saiba mais, sr. Henrique de Souzellas, que se eu no lhe fizesse a
justia de acreditar que d'esses seus actos e palavras no 
absolutamente irresponsavel talvez a m influencia da ceia d'esta noite,
bastariam elles para me inspirarem por si e pelo seu caracter o mais
completo desprezo; e ento seria, como nunca, manifesta a minha
independencia, porque eu nunca temi os seres que desprezo.

Henrique principiava a ser de novo subjugado pelo tom de severidade e de
energia, com que a morgadinha lhe falava; ainda assim um resto de
scepticismo obrigou-o a replicar:

--Santo Deus! prima Magdalena; no d um colorido to pavoroso s minhas
supposies. Despojal-a de uma crueza deshumana, para a dotar de uma
sensibilidade, verdadeiramente feminil,  uma justia feita ao seu
corao. E o facto que o acaso me revelou a nada mais me auctorisa. O
pequeno e natural despeito por me haver deixado illudir desvaneceu-se
j, creia; e agora s me resta invejar a sorte de quem tem a
felicidade...

--Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem mais um instante o
escutarei; poupar-lhe-hei assim os remorsos, que manh teria da sua
infamia...

E animada por uma resoluo mais energica, Magdalena caminhou
soberanamente para a porta.

Henrique collocou-se-lhe outra vez deante.

--Um momento mais.

--Deixe-me passar, senhor.

--No, sem que me oua antes.

-- uma violencia?

-- uma supplica.

N'este momento saiu da obscuridade da rua fronteira um vulto que avanou
para elles.

--Sr.^a D. Magdalena, se fr preciso reter o insolente, que se lhe
atravessa no caminho, ponho um brao  sua disposio.

E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio collocar-se entre
Henrique e Magdalena.

Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu de clera. O olhar que
fixou no recem-chegado trahiu a vehemencia da impresso recebida. Depois
succedeu-se-lhe no espirito outra ordem de ideias. Olhou para Magdalena,
em quem no era menor a surpreza causada pela inesperada presena de
Augusto, olhou outra vez para este e soltou uma risada cheia de
malignidade e de ironia, que a ambos fez estremecer.

--Ahi est uma appario tanto a tempo, prima Magdalena, que aos mais
incredulos infundiria f na interveno da Providencia. Que foi sem
dvida providencial o acaso, que trouxe por aqui, a estas horas mortas,
um to generoso e intrepido salvador. No  verdade, prima? O que vale
estar de bem com Deus!

Estas palavras mostraram a Augusto que a sua interveno, ainda que
generosa e devida a um espontaneo impulso da alma, no fra porventura
das mais convenientes.

--Senhor!--exclamou elle, indignado, dando um passo para Henrique.

--Socegue--tornou este, com dobrado sarcasmo.--O senhor  um perfeito
heroe de romance; enthusiasta, cavalheiresco, mas, em certas occasies,
incmmodo de candura, por isso mesmo. Se soubesse o transtorno que veio
causar a um bello dialogo que eu sustentava aqui com a sr.^a D.
Magdalena! No v como a deixou embaraada? Perdeu com a sua vinda o fio
da comedia, que desempenhava com perfeita sciencia de actriz. As almas
ingenuas e generosas, como a sua, sr. Augusto, so s vezes de uma
impertinencia! Vamos, sr.^a D. Magdalena; no descoroe. Assim exgotou
todos os recursos da sua imaginao? Vamos, introduza mais este elemento
de appario de um heroe no enredo, e organise a comedia com o superior
talento que tem! Eu por mim acceito todos os papeis que me distribuir.

Augusto ia responder, quando Magdalena o atalhou, dizendo com voz firme:

--Perdo; vejo n'esta noite em todos uma notavel disposio para
usurparem direitos, que no possuem! O sr. Henrique, o de me interrogar;
o sr. Augusto o de me defender. A um repetirei o que j ha pouco lhe
disse; se algum dia tiver necessidade de explicar as minhas aces,
fal-o-hei deante de outros juizes, em quem reconhea o direito de o
serem. Ao outro peo licena para lhe lembrar que, se o titulo de
hospede e de parente no fsse bastante para me assegurar da parte do
sr. Henrique de Souzellas os respeitos que me so devidos, tinha ainda
na minha familia defensores legitimos e no seria por isso obrigada a
recorrer  proteco de um estranho. Meus senhores...

E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha passou por entre elles e
entrou para a quinta, sem que nenhum a procurasse reter.

--Se esta senhora acceitasse a sua proteco e eu teimasse n'aquillo que
chamou a minha insolencia, qual seria, pouco mais ou menos, o seu
procedimento? Poder-se-ha saber?--perguntou Henrique, logo que a
morgadinha desappareceu.

Augusto, em quem a fria altivez da resposta d'ella deixra o desespero
no corao, respondeu acerbamente:

--Procuraria ensinal-o a ser cortez. Bem v que no me esqueo
facilmente do meu programma de mestre-escola.

--Vejo;  a segunda tentativa de lio que lhe mereo. Permitte-me que
manh o procure para dar principio a um curso de educao mais regular?

Augusto respondeu, sorrindo:

-- um cartel em frma? No sei se estarei ensaiado para essa comedia.

--Se o genero tragico lhe agrada mais, dar-se-lhe-ha esse sabor.

--Bem ouviu que se me negou o direito de tomar partido por esta causa.
Qualquer scena d'essas entre ns seria pouco delicada... manh.

--Pois bem, contemporisemos; e at l  de esperar que algum motivo
occorra que a explique melhor... aos olhos dos outros.

--Como queira; a minha porta no se fecha a quem me procura.

E separaram-se depois de se cortejarem.

--Se me no engano--dizia comsigo Henrique, em caminho do quarto-- um
verdadeiro desafio o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me
parecer que estou sendo bem ridiculo, desafiando um mestre-escola. Se
lhe deixo a escolha das armas, decide-se pela frula. Tem graa! Veremos
o que manh,  luz do dia, eu penso d'isto tudo. Eu j no fico por mim
esta noite. Estou a querer convencer-me de que tenho andado
estouvadamente e com no demasiado cavalheirismo. Que diabo!  que esta
mulher e este creancelho so irritantes. Ella com a sua altivez, elle
com os seus brios. Mas, na verdade, ser este o Endymio d'esta esquiva
Diana? Caprichos feminis...  o tal primo ingenuo e timido... A
ociosidade da aldeia para alguma coisa ha de dar. Mas da maneira por que
ella lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias... O que 
certo  que estou em lucta com uma mulher superior... Pois luctemos,
priminha, mas com armas leaes. No me prevalecerei do segredo que o
acaso me revelou, se segredo existe... Veremos como ella manh me
trata...

Esta scena deixou em Augusto uma perturbao de espirito mais profunda.

As operaes mentaes, que o preoccuparam toda a noite, eram d'aquellas a
que repugna chamar pensar.  mais uma febre intellectual, um succeder de
imagens sem ordem nem filiao, que no conduz a nenhum resultado, que
no aconselha nenhum partido, que no esclarece, offusca.

Como se explica esta differena entre os dois? Por um apparente
parodoxo; porque Augusto tinha mais habitos de reflectir. Quando n'uma
vida de episodios uniformes e apparentemente vulgares, o espirito exerce
demasiado a analyse, habitua-se a estudar factos que para outros passam
por insignificantes, e descobre-lhes faces novas e desconhecidas.
Costumado assim a ligar valor a tudo, quando succede que no decurso da
vida se lhe depara um facto de maior vulto, a confuso do primeiro
momento  inevitavel. Assim como a balana de preciso, apropriada para
oscillar com pesos tenuissimos, no  a que pode servir para os grandes
pesos, tambem a intelligencia costumada a pesar subtis accidentes, de
que se compe o drama habitual da vida, no  a que de subito pode
avaliar algum mais complexo e importante.

A resoluo n'estes espiritos, depois de formada,  mais tenaz; mas,
emquanto se no frma, vae n'elles um tumulto de ideias, que se no
podem analysar.

No analysemos, pois, as de Augusto.

Magdalena no socegou emquanto no viu Henrique voltar ao quarto, pelo
mesmo caminho por que sara.

--Que resultar d'isto?--pensava ella.--Que far elle manh?... 
preciso no me acobardar, ou estou vencida... Mas que se passaria depois
que os deixei?... Veremos manh.

No meio d'esta serie de pensamentos, Magdalena sorriu.

 que lhe occorrera ento este pensamento:

--Dizem que ns, as mulheres, temos filtros subtis para nos tornar
amadas. Pois ser mais difficil fazer-se aborrecida? Como o conseguirei?


FIM DO PRIMEIRO VOLUME




BIBLIOTHECA ESCOLHIDA

XXIII

ROMANCE

III


A MORGADINHA DOS CANNAVIAES

Vol. II




CENTRO TIPOGRAFICO COLONIAL
LARGO BORDALO PINHEIRO, 27 E 28
TELEPHONE 2337




JULIO DINIZ


A MORGADINHA DOS CANNAVIAES

(CHRONICA DA ALDEIA)

DECIMA-SETIMA EDIO



LISBOA
J. RODRIGUES & C.^a, EDITORES
186--Rua Aurea--188
_1920_




A MORGADINHA DOS CANNAVIAES




XVII


No havia mentido a grande scintillao das estrellas na noite de Natal.

A manh do dia seguinte correspondeu ao augurio meteorologico, rompendo
pura, desennevoada, com um co azul sem manchas, e um sol de fundir os
glos dos montes e os glos da velhice.

O frio intenso convidava a sair, e desde pela manh aldees de ambos os
sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam os campos,
saltavam sebes e cancellos, desembocavam das azinhagas e quelhas na
direco da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas da
Natividade.

Era dia santo entre os que mais o so; e os dias santos na aldeia teem
uma feio solemne e festiva, que mal avaliamos ns, os que passamos a
vida nos apertados horizontes das cidades, phantasiando o campo por meia
duzia de pardaes, que chilram ruidosamente nas cpas das enfezadas
arvores das nossas praas e jardins.

Desde que a moda estabeleceu a lei de no solemnisar o domingo nem o dia
santo, com um vestuario mais asseiado, com um prato mais exquisito na
lista do jantar, com uma diverso excepcional, que todos deram em
vestir-se, comer e trabalhar n'esses dias, exactamente como em todos os
da semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a feio typica e
interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quizer
apreciar tem de ir n'um sabbado pernoitar ao campo, para amanhecer no
domingo ao som do sino, que chama para a missa matinal.

Dir ento se no parece que at o sol tem outra luz e que as arvores e
as plantas se toucaram de flores novas, que guardam de reserva para os
dias de festa.

Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manh sentindo
Henrique de Souzellas, encostado  varanda do quarto em que pernoitra,
e emquanto esperava que o chamassem para o almoo.

De vez em quando a recordao das scenas nocturnas da vespera
desviava-lhe para outra ordem de reflexes o pensamento; acudiam-lhe
todos aquelles incidentes  memoria, mas vagos e confusos, como se
tivessem sido sonhados; chegava quasi a duvidar da realidade d'elles.

Agora estava experimentando certa curiosidade e tambem receio de saber
como seria recebido pela morgadinha, e que posio deveria tomar na
presena d'ella.

Formava a este respeito varias conjecturas, sem se fixar em nenhuma.

D'estas cogitaes veio por fim arrancal-o o toque da campainha
annunciando o almoo.

--Vamos,--disse Henrique--preparemo-nos para o primeiro embate. Apuremos
a vista para n'um relance julgar do estado das coisas, e por elle
regular o meu plano de tactica.

E depois de uma rapida consulta ao toucador, desceu para a sala do
almoo.

J alli encontrou reunida toda a familia do Mosteiro, e a morgadinha
presidindo  mesa e preparando o ch.

Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que
elle tinha passado a noite.

Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente; e, falando,
desviava o olhar para Magdalena, que o encontrou do modo mais natural,
sem timidez nem audacia.

Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de
cumprimentar Magdalena.

--Bons dias, prima Magdalena,--disse Henrique, estendendo a mo e
fixando-a com olhar investigador.

Magdalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada tinha de
affectado nem de constrangido:

--Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer horrorosos estes nossos
habitos matinaes. Foi uma indiscreo mandar tocar a campainha.
Esqueci-me de prevenir que respeitassem a indolencia cidad.

--Eu  que no consentia:--disse o conselheiro--na aldeia como na
aldeia. Em Lisboa tambem as minhas alvoradas so mais tardias.

--Tem razo, sr. conselheiro. Eu proprio no esperei que me acordasse o
toque da sineta. Ha muito que eu namorava a manh da janella do meu
quarto.

--Eu no pude dormir toda a santa noite--disse D. Dorotha.--Estranhei a
cama e a casa. Eu c sou assim, quem me tira do meu ninho!...

-- prima, no v sem resposta--disse D. Victoria--que tambem eu no puz
olho, e mais sou de casa. E por signal que sempre hei de querer saber
quem foi o criado que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram
que horas e eu ainda ouvia ps nas escadas de pedra.  verdade; o primo
Henrique no ouviu? Era mesmo junto do seu quarto.

--No, minha senhora; eu no senti rumor.

E dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que
justamente n'aquella occasio lhe servia uma chavena de ch, e que de
novo o fixou sem perturbao nem affectada indifferena.

Henrique sentiu-se embaraado com isto. Custava um pouco  sua vaidade
este nenhum vestigio de resentimento ou de receio, que encontrava em
Magdalena.

No entretanto D. Victoria continuava a commentar com D. Dorotha o facto
das passadas que ouvira de noite.

--Deixe-se d'isso, prima.  porque no sabe o que vae. So coisas
d'estes criados. No faz ideia!  uma pouca vergonha!  preciso
paciencia de santa para os aturar.

--Angelo,--disse a morgadinha ao irmo--entretido como ests a conversar
com as creanas, esqueces-te de servir a Christe, que tambem se esquece
de se fazer lembrar. Que distraces por aqui vo!

Angelo reparou para a prima, que em todo aquelle tempo estivera calada e
caida em uma d'aquellas abstraces, a que ultimamente era sujeita.

--Eu no sei que tem hoje esta Christe--disse Angelo.--Julgo que lhe fez
mal o frio na noite de hontem.

-- verdade, at est falta de cr! Ora queira Deus que no seja coisa
de cuidado. De-te alguma coisa, menina?--perguntou D. Victoria,
apprehensiva.

--No, mam--respondeu Christina.

-- meninas, vocs tambem so umas desacauteladas. Eu bem te dizia
hontem, Christe, que levasses mais roupa. Tudo  no faz mal, tudo  no
tem dvida, e depois  que vem o queixarem-se.

Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais n'este sentido.
Estas reflexes fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era
objecto d'ellas.

Christina estava effectivamnte pallida e pensativa; e d'esta cr e
d'esta expresso recebia uns ares de poesia melancolica, que a tornava
mais graciosa.

Henrique notou pela primeira vez a belleza d'esta creana, em que mal
fixra a atteno at alli, e pela primeira vez se demorou a observal-a
com alguma insistencia.

-- interessante esta pequenita--pensava elle comsigo.

Christina ia a levantar os olhos para responder a D. Dorotha, quando
encontrou os de Henrique a fital-a. Assomou-lhe ento s faces um mal
pronunciado rubor, a palavra resolveu-se n'um sorriso e os olhos
baixaram-se de novo.

--Ha de ser adoravel esta mulher--pensou d'esta vez Henrique, vendo-a
sob novo aspecto.

O conselheiro disse, sorrindo:

--Ora, que esto a dizer? A Christe at est com umas cres muito
bonitas. Triste? Melancolias dos dezoito annos nunca me deram cuidados.
Provavelmente est agora n'algum episodio sentimental no romance da sua
imaginao. No sondemos aquelles mysterios, mana. J no  para ns
comprehendel-os, prima Dorotha.

Todos riam do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Christina.

A morgadinha, a quem no passra despercebida a impresso, que a prima
d'est vez parecia ter causado a Henrique, quiz aproveitar o ensejo que
havia tanto procurava, e para isso propoz que se dsse uma volta pela
aldeia antes da missa do dia. Esperava ella que as attenes de
Henrique, durante o passeio, seriam para Christina, se no decorresse o
tempo preciso para que se dissipasse no espirito do voluvel rapaz a
impresso que o dominava.

A manh convidava  excurso campestre. A proposta da morgadinha foi
acolhida com applauso. O conselheiro prometteu acompanhal-os at  casa
do herbanario, a quem tinha de visitar aquella manh.

Levantaram-se todos da mesa, e  excepo de D. Victoria e D. Dorotha,
todos saram.

A morgadinha, sob no sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco atraz
para dar tempo a Henrique de offerecer o brao a Christina, o que
effectivamente aconteceu.

--Bem,--disse Magdalena comsigo ao vl-os--agora que os anjos bons de um
e de outro se convenam da obra meritoria que fazem entendendo-se.

E, approximando-se do pae, Magdalena apoiou-se-lhe no brao.

Angelo ia com as creanas adeante.

Approximemo-nos ns de Henrique e de Christina, para vr se os anjos
bons d'elles ambos accederam ao convite de Magdalena.

--No ha prazer que se compare ao de um passeio assim pelos campos,
n'uma manh como a de hoje, e em companhia to amavel--dizia Henrique,
procurando aquilatar o espirito da sua _partner_, n'um certame de
galanteria, fra do qual no concebia que se pudesse temperar uma
paixo.

Pobre rapariga! Que eloquentes e apaixonadas respostas lhe estava
porventura ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava-lhe os
labios, no lhe deixando formulal-as; apenas pde responder:

--Est muito agradavel a manh, est; nem parece de inverno!

--Pelo que vejo, no gosta do inverno?  natural em uma senhora isso.
Faltam-lhe as flores e as aves, suas irms. Eu prefiro o inverno, porque
prepara a vida intima, as scenas ao canto do fogo, as leituras em
commum, e traz-me  ideia as imagens de um viver a que a phantasia de
todos sorri; de todos os que teem um resto de corao; refiro-me s
imagens de uma familia.

No ha quem sustente mais tremendas luctas do que os timidos. A alma
revolta-se n'elles, com toda a violencia dos seus instinctos, contra no
sei que mysterio de temperamento, que lhes reprime as expanses. Na
apparencia  fraqueza e serenidade, mas no intimo ha esforos
realisados, que os fortes nem concebem sequer.

Christina encobria no seu enleio uma d'estas luctas. Os labios s
puderam responder:

--Na cidade o inverno  mais facil de passar, julgo eu; porm na
aldeia...

--Na aldeia e em toda a parte se pode gosar a felicidade que eu imagino.
No  fra das portas de casa que devemos procurar os elementos para
instituir a nossa ventura, e por isso... Mas a prima ha de estar
admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e
sete annos sem familia. No  verdade?

Christina s pde sorrir:

--Mas que quer? Quem muito idealisa arrisca-se a morrer apaixonado do
ideal e abraado  peor das realidades.  a consequencia legitima e
triste do aspirar demasiado. At hoje tenho encontrado na vida mulheres
formosas, amaveis, interessantes; porm nenhuma que satisfizesse s
necessidades do meu corao, de quem me affirmasse a consciencia poder
esperar a realisao do meu sonho. Perde-me falar-lhe n'isto, priminha;
 uma ousadia que tomei, porque um instincto me disse que possue no
corao bastante bondade para m'a perdoar.

--Est a gracejar?--disse Christina, em quem redobrava a turbao, e
que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava vr interrompida a
sua felicidade: contradices proprias dos timidos.

--A prima  muito moa--continuou Henrique, que no desesperava ainda de
animar esta Galatheia--e talvez por isso lhe causar estranheza este meu
modo de falar. Um dia vir, porm, em que o comprehender melhor. Se
ento encontrar um desconfortado como eu, peo-lhe que tenha
misericordia d'elle e o salve do desalento, em atteno a quem a
conheceu n'uma poca, em que s podia vr em si, priminha, a aurora de
uma esperana que j no tinha de luzir para elle.

--Mas... salval-o!... como salval-o!...

--Como as mulheres salvam; amando.

--Bem digo eu que est a gracejar--balbuciou Christina, com voz trmula.

--Tem o defeito da innocencia--disse Henrique para si.--No se lhe tira
uma resposta de geito.

N'isto chegaram defronte da porta, por onde Magdalena tinha sado da
quinta na noite passada.

--Agora deixo-os por aqui--disse o conselheiro--irei encontral-os 
igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao proprio covil.

--Meu pae, lembre-se do que lhe recommendei--disse Magdalena.

--Socega, filha; serei de cera. At logo.

--At logo.

E o conselheiro tomou a direco da casa do herbanario.

--Era tempo!--disse Henrique comsigo.--A minha eloquencia arrefecia na
proximidade d'este glo.

A morgadinha havia quasi adivinhado tudo; estudando as physionomias de
Christina e de Henrique, conheceu que se no haviam entendido.

--Ainda no!--murmurou ella.--Pobre Christe! como se deve estar odiando
a si mesma! Como ha de esta creana vencer este obstinado? Mas no perco
ainda as esperanas.

Henrique, na presena d'estes sitios, recordou-se da scena da vespera e
tentou outra vez experimentar Magdalena.

--Esta porta  da quinta do Mosteiro, no , prima?

----respondeu Magdalena, imperturbavel; e voltando-se para Angelo:--O
que te faz lembrar esta porta, Angelo?--perguntou ella.

--Que muitas vezes por aqui samos, eu e vs ambas j de noite, e sem a
tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que voltava da caa das
borboletas.

--Fica perto a casa d'elle?--perguntou Henrique.

-- alli, logo ao dobrar d'aquella esquina--respondeu Angelo.

Henrique pensava:

--Seria para provocar uma explicao que ella fez a pergunta? Esta
mulher  admiravel! No lhe sei resistir.

E j lhe no restavam vestigios da impresso causada por Christina.

--Este herbanario--continuou elle em voz alta--deve, pelos seus habitos
excentricos e at pelo solitario do sitio em que vive, ter aqui na terra
certa famazinha de feiticeiro.

--E tem,--affirmou Magdalena--mas de feiticeiro bem intencionado.

--Devem correr muitas fabulas a respeito d'elle, do seu viver.

-- certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar de todo o
bem que elle faz de dia.

--Ah! Ento temem-se de passar aqui de noite!... Pobre homem!... O que
lhe valer  algum espirito forte que ainda por ahi haja, na aldeia. Que
diz, prima Magdalena? haver?

Antes que a morgadinha respondesse, Angelo disse:

-- excepo de Augusto, que ahi vem quasi todas as noites, ninguem mais
o visita.

--Ah!... O sr. Augusto vem ahi quasi todas as noites?!

Magdalena luctava para reprimir a impaciencia.

--L me parecia que havia de existir algum de coragem. Para tanto no
chegava o seu animo no, prima?

--Tanto chega, que j muita vez alli tenho ido s, e a altas
horas--respondeu Magdalena com a maior firmeza.

--Sim?! E no tem mdo?

--De qu? De almas do outro mundo? no tenho crena para tanto. De
malfeitores? no os ha aqui. N'esta terra todos me respeitam, nem com
uma suspeita me offendem--disse a morgadinha, accentuando com expresso
as ultimas palavras.

Henrique acudiu immediatamente:

--Longe de mim duvidal-o.

E calaram-se por muito tempo.

Pela sua parte proseguia o conselheiro no caminho para casa do
herbanario. Cruzou-se com varios homens, mulheres e creanas de aspecto
doentio e soffredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos
seus males; eram mancos, ictericos, escrofulosos, creanas de aspecto
rachitico e enfezado, os mais melancolicos exemplares do infortunio
humano.

--So os peregrinos que veem de Meca--disse comsigo o conselheiro.--Pelo
que vejo a clientela do meu velho amigo herbanario mantem-se fiel, como
d'antes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor no trata com muito
respeito o codigo.

Entrou emfim a porta do quintal.

Poucos passos andados encontrou-se com o Z P'reira, que vinha virando e
revirando nas mos um papel e monologando, segundo o costume:

--Ora! ora! ora!... Estragar o vinho de nosso Senhor com esta
mexerofada! Isso at era um peccado. N'essa no caio eu!

O conselheiro interrogou-o sobre as causas d'aquelle aranzel.

O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe
dera o herbanario no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho,
causa dos seus males. A receita era extrahida da _Polyantheia_, e tinha
por ingredientes uma cabea e sangue de carneiro, cabellos de homem e
figado de enguia; mas o doente ia pouco disposto a experimentar-lhe a
efficacia.

Depois de se separar do Z P'reira, o conselheiro seguiu por uma rua de
limoeiros, e como homem a quem era familiar a topographia do quintal.
Cdo chegou  vista do herbanario, que dera audiencia _sub tegmine
fagi_.

Estava sentado  borda de um tanque, a que uma d'essas arvores dava
sombra.

O conselheiro saiu emfim de traz dos limoeiros e veio ter com elle.

Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabea, e, depois de reconhecer
quem era, retomou a sua primeira posio e ficou silencioso.

--Bons dias, Vicente--disse o conselheiro com familiariedade e parando
defronte d'elle.

--Bons dias, Manoel--respondeu o herbanario, deixando-se ficar sentado.

--Saa agora d'aqui um homem, que julgo ser rebelde a toda a tua
medicina. Padece de mal que se no cura.

--Os vicios so enfermidades mais rebeldes do que os achaques do corpo,
so.

--J que tu no appareces no Mosteiro, como d'antes, para solemnisar
comnosco as festas do Natal, vim eu vr-te.

--Obrigado.

--A tua misanthropia vae-se azedando, Vicente--continuou o conselheiro,
sentando-se  beira do tanque.--Cada vez te ests a sequestrar mais dos
homens, cada vez mais os aborreces.

--Eu no aborreo os homens, enganas-te. No os aborrece quem passa a
vida a procurar os meios de alliviar os padecimentos dos seus
semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro j no mundo
pouca gente com quem me entenda. As ideias do meu tempo passaram. Por
isso deixo-me ficar em casa a pensar n'elle.

--s um homem singular; um verdadeiro philosopho. Ora dize-me: e em que
cogitas tu, quando assim passas uma manh inteira, sentado n'esse banco,
com os joelhos ao sol, os braos cruzados, e os olhos no cho?

--No passado. Pois no t'o disse j? O domingo reservo-o eu para me
recordar. Ahi est que ha pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os
repiques na igreja, lembrei-me de que era, dia de Natal, e o meu
pensamento voltou quarenta annos atraz a um dia igual ao de hoje.
Lembras-te d'elle, Manoel?

--Do dia de Natal de ha quarenta annos? No.

--Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois annos que, mais cdo do
que estas horas, vieste ter commigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou
menos a idade que hoje tem teu filho Angelo. Meu pae sara; julgmos ns
ambos boa a occasio de levar a cabo um projecto que havia muito tempo
traziamos na cabea. Crescia a um canto do muro, alm,  beira do poo,
uma pequena faia que alli no podia durar muito tempo; meu pae todos os
dias a ameaava com a enxada e a custo a tinhamos defendido. Resolvemos
transplantal-a. Deitmos mos  obra essa manh, e, no fim de alguns
segundos, estava a faia mudada. Trouxemol-a para onde a deixassem em paz
os horteles, e para junto da agua que ella j tinha procurado. Conheces
a arvore hoje?

--No--disse o conselheiro, olhando em roda, como  procura de algum
pequeno arbusto.

--Olha que ha quarenta annos; a planta  hoje arvore.  esta a que me
encosto.

O conselheiro levantou ento os olhos para os ramos vigorosos da arvore,
como se lhe parecesse impossivel ter sido removida para alli por suas
mos.

-- singular como os annos correm, e as arvores crescem depressa--disse
elle, distrahidamente.

--Depois da nossa tarefa, sentmo-nos--proseguiu o herbanario.--Tu
ficaste, exactamente como ests agora,  beira d'este tanque. Ento,
lembra-me bem; olhando para os ramos tenros d'este arbusto, que ainda
no sabiamos se viveria, tu disseste: Fizemos uma obra que durar mais
do que ns. E eu respondi: Quem sabe? O machado vem, quando menos se
espera.

--Como te lembras bem d'essas coisas!--disse o conselheiro, sorrindo
constrangidamente, porque no agourava bem do exordio que abrira a
entrevista.

--Ai, eu tenho boa memoria!

Houve um momento de silencio, que Vicente interrompeu subitamente,
dizendo:

--Mas a final o que te trouxe hoje aqui?

O conselheiro respondeu com resoluo:

--Vr-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave.

--Sim? E commigo  que vens tratar os objectos graves?

--Por que no? sempre foste homem de bom conselho.

--Nem sempre, Manoel, ou nem sempre pensaste assim.

--No poders dizer que deixasse alguma vez de te respeitar. Os nossos
genios differem, os nossos diversos habitos da vida ensinaram-nos a
pensar diversamente a respeito de muitas coisas. D'ahi procedem
divergencias naturaes, que comtudo nos no obrigam a deixar de nos
estimarmos, julgo eu.

--Bem, ento dizias tu que vinhas?...

--Trata-se de um negocio de muita importancia, Vicente.

--Dize.

--Responde-me primeiro: tens ainda animo para sacrificios?

--Pouco tenho que sacrificar.

--Tens, e  um sacrificio doloroso.

--Acaba.

--Trata-se de te desapossar d'esta casa e d'este quintal, para abrir por
aqui a estrada em projecto.

O herbanario, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpreza
estas palavras, e respondeu, com certa ironia:

--E para que me vens consultar? Posso eu oppr-me a isso? Avisas-me para
eu me arredar a tempo da sombra d'estas arvores, mais velhas do que eu,
a fim de que no me esmaguem ao carem decepadas? s generoso, Manoel,
em teres ainda em conta a vida de um homem inutil.

--Ahi ests j com as tuas recriminaes. Acredita que eu...

--No mintas, Manoel, no mintas. Ias dizer que no tinhas tomado parte
n'este projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e dize tudo. Entre
mortificares o corao de um velho e pobre amigo e offenderes os
interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro
partido; e, como os differentes habitos de vida te ensinaram em muitas
coisas, como dizes, a pensar differente de mim, no dste a isso o nome
de ingratido.

--Ouve.

--S franco, que eu te ouvirei.

--Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t'o; era indispensavel que esta
estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava n'isso empenhada a minha palavra
e a minha honra. Ha muito que os meus adversarios me fazem guerra por
causa d'ella. Trabalhei e consegui, apesar d'esta situao politica me
ser contraria. Tres traados se offereciam. Um sacrificava uma grande
parte dos bens de meus filhos, de Angelo que no  muito rico, que est
no principio da existencia e que s Deus sabe se no decurso d'ella no
teria occasio de maldizer a imprevidencia de quem devera olhar por os
seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos,
vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo,
convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querias
que o fizesse? ou no me desculpas por o no ter feito?

--Fizeste bem--respondeu o herbanario.

--O outro traado cortava os bens do brazileiro Seabra. Conheces este
homem? Um elemento que, nas mos de quem lhe saiba lisonjear e conduzir
a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra; mas tambem uma cabea
que, entregue a si, no faz coisa de geito. O homem oppunha-se
formalmente a esse traado; se o no attendesse, declarava-se, por
despeito, no campo contrario ao meu. Se vencia (e algumas armas tem para
luctar), imagina a calamidade que seria para este circulo o confiar
quellas mos os seus destinos; vencido, era perder a esperana de tirar
dos bem fornecidos cofres, que o homem possue, alguma coisa mais util do
que um sino para a igreja ou vestimentas novas para as imagens dos
altares. Eu ando a catequisar o homem, para vr se consigo d'elle uma
casa para escolas, melhor do que esse albergue que ahi temos, e um
estabecimento sericicola; se o desattendesse, l iam as esperanas
d'estes melhoramentos to uteis, e que o mais que nos podero custar 
um diploma de visconde ou uma commenda. Sei que te no agradam estes
meios, porm olha que em politica so dos mais innocentes que podem
empregar-se. J vs pois que o segundo traado tinha desvantagens para o
circulo, por cujo interesse me empenho devras; podes crel-o. Resta pois
o terceiro traado que, lealmente o confesso, no era o melhor, nem
scientifica nem economicamente considerado; eu sabia de mais o que valia
para o teu corao o sacrificio que se te vinha exigir; eu mesmo possuo
memorias ligadas a estas arvores, e no ha homem que, aos cincoenta
annos, veja sem repugnancia desapparecerem os vestigios dos seus tempos
de infancia e de juventude; mas sabia tambem que tu eras uma alma
generosa e heroica, e que no duvidarias comprar,  custa das tuas dores
e saudades, um melhoramento para esta terra, que tanto amas. Esta
estrada, promettida ha tanto, e concedida ainda agora de m vontade,
corre risco de se no fazer, se, quanto antes, no principiarem os
trabalhos; a menor opposio dos proprietarios, o menor embargo
dilatorio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura indefinido.
Por isso tambem me animei, porque contava comtigo, Vicente. Enganei-me?

O herbanario estava cada vez mais pensativo.

--Pensaste bem. A velhice  assim; e eu queria dar mais importancia a
dois annos de vida que me restam, do que  vida nova que vae haver para
esta terra. Fizeste bem.

--Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Alm de que, dissipa as
apprehenses com que ests; em toda a parte ters arvores...

O herbanario interrompeu-o:

--Se no entendes o amor que eu tenho a estas, no faas por
consolar-me, Manoel, porque me affliges mais.

--Porm deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em qualquer das
nossas propriedades, tens sempre um logar vago  tua espera, tanto 
mesa, como ao canto do fogo, e amigos que te recebero com prazer.

--No receio ficar sem abrigo, Manoel. Em cada choupana de pobre teria
tecto e po. Conto com a colheita de algum bem que semeei.

--Eu farei com que o contracto da expropriao seja o mais favoravel
possivel. Vejamos, em quanto avalias...

--No falemos n'isso. A avaliar por o que eu lhe quero, ninguem m'o
pagaria; a no attender a isso, tudo ser pagal-o bem.

--Mas...

--No falemos n'isso, homem. Tenho medo de que estas arvores me ouam
propr o preo por que as vendo. Se alguma coisa posso pedir-te,
ento...

--Tudo. Dize em que te posso servir.

--Peco-te que decidas a preteno d'aquelle pobre rapaz, de Augusto; que
te lembres um dia de que aqui na aldeia ha um homem, que tem vinte
annos, um corao e uma cabea como tu sabes, e que de ti e dos teus, da
gente que d e vende graas, honras e empregos, s quer um favor... mais
uma justia: lembra-te d'isso.

--Falas do despacho effectivo para professor?  uma coisa facilima; mais
que elle queira... E antes elle quizesse mais; esse rapaz perde por
modesto. Acredita, s vezes  mais facil servir os ambiciosos. Nem eu
sei o que tem empatado esse negocio.  certo que ha um competidor, por
quem alguem trabalha; mas no importa; conta com isso, como negocio
concluido.

--Emquanto no vir...

--Hoje mesmo escrevo para Lisboa.  s isso que pedes? V l.

--E que me deixes agora s.

--E no me ficas querendo mal, Vicente?

--No. Estou a acreditar que tiveste razo, ou pelo menos que suppes
que a tens. Basta-me isso para te perdoar.

--Vr-te-hei no Mosteiro antes de partir? Depois do dia de Reis volto a
Lisboa, e s tornarei para a campanha eleitoral.

--No prometto.

--Adeus.

O conselheiro estendeu a mo ao herbanario, que no retirou a sua, e
partiu.

--Est feito!--ia pensando o conselheiro  sada--no foi to difficil
como julgava. Est razoavel o homem. Quem o viu e quem o v! O que faz a
idade! Bem! Agora  apressar os trabalhos para antes das eleies, a vr
se acalmam algum fermentosito de opposico, que por ahi possa haver, que
pequeno ser.

N'estas cogitaes chegou  igreja. Magdalena esperava-o no adro.

--Ento?--perguntou ella, com anciedade.

--Tudo est remediado; entendemo-nos perfeitamente--respondeu o
conselheiro, com manifesta satisfao.

--Devras! Eu logo vi que o pae havia de ceder!--exclamou Magdalena, com
alegria.

--Como ceder?--tornou o pae.--Elle  que foi mais condescendente do que
eu esperava. No oppz a menor resistencia, nem se queixou muito
amargamente.

--Pois consentiu?!

--Sem grande custo, ao que parecia.

-- meu Deus! meu Deus! agora  que eu temo devras. Pobre tio Vicente!
assusta-me isso que diz, meu pae!

--Ora vamos; a tua imaginao  que te illude. Mas deixa-me aqui falar
com o morgado das Perdizes e com o brazileiro, que julgo que teem que me
dizer. Vae para a igreja, que eu vou j ter comvosco.

E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, em que
estavam aquellas duas notabilidades.

--Dou-lhes uma boa nova, meus senhores--disse o conselheiro, depois de
cumprimental-os--dentro em pouco temos os alvies a trabalhar c na
terra. Estive agora com o Vicente; receei resistencias da parte do
homem, que nos obrigassem a expropriaes judiciaes, sempre demoradas.
Mas no, achei-o nas melhores disposies; e assim, dentro em poucos
dias...

--Mas, para deante da casa d'elle, talvez os outros proprietarios no
sejam to doceis--lembrou o brazileiro.

--Bem sabe que so terras insignificantes, cujos possuidores com pouco
se contentam.

--Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco--disse o
brazileiro, sorrindo velhacamente--mas os modernos...

--Pois mudaram de senhorio?

--Por contracto de venda assignado e legalisado hontem mesmo.

--E quem os comprou?

--Este seu criado.

O conselheiro teve vontade de o esganar; conteve-se, porm, dizendo:

--Tanto melhor; quero-me antes com proprietarios illustrados e
independentes, que comprehendam a importancia dos melhoramentos
publicos, do que...

--Isso historias, meu caro amigo; em primeiro logar esto os
melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.

--De certo que no ha de querer pr estorvos a uma empreza como esta.

--Estorvos, no, mas emfim... Amigos, amigos, negocios  parte.

O conselheiro sorriu, emquanto que interiormente mandava ao diabo o
espirito mercantil e interesseiro do seu antigo condiscipulo.

--Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro?--requereu do lado o sr.
Joozinho das Perdizes.

--Mil que pretenda--acudiu o conselheiro; e tomando o brao do morgado
afastou-se do grupo.

--Eu tenho a pedir-lhe um favor--principiou o morgado.-- Eu, como sabe,
interesso-me muito pelo mestre-escola do Cho do Pereiro, que quer vir
ensinar para aqui. Este negocio est empatado, como sabe; por isso
queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito.

--Pois sim, mas...--fez-lhe notar o conselheiro--no sabe que  Augusto
o outro concorrente?

--Ento que tem isso?

--No lhe parece que seria uma injustia? Um rapaz de merecimento, como
elle , aqui da terra, que j exerce o emprego ha tres annos e com tanta
intelligencia? e haviamos de...

-- verdade,--atalhou o outro--pois isso  verdade, mas... Emfim, elle
que passe para outra parte.

--Mas se o rapaz quer isto?

--Quer! quer!... tambem o outro quer. Ora essa  fresca. E vamos, sr.
conselheiro, a gente tambem no ha de estar s a fazer favores, sem os
receber quando os pede. Com este j so tres. Pedi-lhe para o meu tio
abbade ser conego; foi tanto conego como eu. Pedi umas caudelarias l
para a freguezia... estou  espera d'ellas... Ora isto no se faz. O
senhor sabe que eu lhe tenho vencido as eleies com a gente da minha
freguezia, que vae para onde eu a levo. Pois agora no sei o que ser. A
no se decidir este negocio depressa...

--Ora no ser isso motivo para tanto.

--Com certeza que --insistiu o sr. Joozinho.--Ento digo-lhe mais: a
mim j me falaram. Ha ahi alguem que no desgostaria dos votos de que eu
disponho, e votar pelos que j esto no poleiro no sei se lhe diga que
no  peor.

O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo:

--No posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por
qualquer causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em relao ao que
me diz, eu verei.

--Mau! No  eu verei. Ento falo-lhe claro. Se d'aqui at s eleies
no estiver feito o despacho, no conte commigo.

--Mas quem lhe diz que no ha de estar?

--Pois l isso...

--Socegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.

--Bem.

O sino tocava a chamar para a festa.

Terminou o dialogo.

--O peor--ia pensando o conselheiro--o peor  que prometti ao Vicente
que apressaria o despacho de Augusto. No tem dvida;  to magra a
posta, que no vale a pena disputal-a. Para Augusto arranjarei alguma
coisa melhor.  preciso ter ambio por elle. Se elle quizesse ir para
Lisboa?... Mas, pelo que me disse este basbaque, j se maquina no campo
contrario! Hei de sondar o Tapadas, a vr o que sabe.

Estas conferencias com o brazileiro e com o morgado tinham mortificado o
pae de Magdalena a ponto de no conter um movimento de impaciencia,
assim que viu que o Pertunhas se approximava d'elle, e,  fra de
cortezias e cumprimentos, lhe pedia um momento de atteno.

Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o
latinista com tanto ardor namorava.

O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor
que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente:

--Ora adeus! O senhor  uma sanguesuga que se no farta de chupar.
Contente-se com o que tem; v conjugando o _laudo, laudas_, que outros,
com mais merecimentos, nem isso conseguem; e deixe-me.

O mestre Pertunhas ouviu com humilde sorriso a admoestao, e curvou-se
para deixar passar o conselheiro.

Mas l comsigo dizia:

--Sim? Elle  isso?! Pois veremos se a sanguesuga te no pica.

E entrou tambem para a igreja, com no muito christs disposies de
espirito.




XVIII


Do dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em
visitas s freguezias e aos influentes d'aquelle circulo eleitoral,
visitas a que o acompanhava Henrique de Souzellas, que tomava parte, com
gsto, n'estas excurses politicas.

Em casa do sr. Joozinho das Perdizes, na freguezia de Pinches,
passaram elles um dia. Nos solares do morgado tudo era desordem e
desmazelo; a cada passo se tropeava n'um podengo ou se trilhava a cauda
a um perdigueiro. Henrique sustentou uma verdadeira lucta com o
proprietario, para esquivar-se a engulir todas as enormes dses de carne
de porco e de vinho, com que elle,  viva fra, o queria regalar.

No quarto em que os hospedes pernoitaram estavam amontoados no meio do
cho uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos ps dos
leitos dormiram enroscados dois galgos, que elles no conseguiram
desalojar, e que toda a noite os incommodaram com latidos ao menor rumor
que escutavam fra.

Henrique lamentou a influencia eleitoral do morgado das Perdizes, que o
obrigava a esta noitada.

Outro dia jantaram em casa do brazileiro, que lhes mostrou toda a sua
propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloquencia a esgotar-se em
affectadas exclamaes, deante dos prodigios de mau gsto reunidos alli.

As estatuas de loua, os alegretes de azulejo, os arcos feitos de cana,
por onde se entrelaavam magras trepadeiras; um pequeno modelo de
fragata brazileira com tripulao de altura dos cestos de gavia,
fluctuando n'um tanque circular; uma gruta estucada de azul e com
assentos de palhinha, para onde vinha ler as folhas o sr. Seabra, eram
as principaes maravilhas do jardim. Nas salas mobilia rica, mas vulgar;
lithographias coloridas em custosas molduras douradas; bordados,
diplomas de socio de no sei quantas sociedades brazileiras; tudo
encaixilhado, e no logar de honra a estampa das capellas do Bom Jesus de
Braga.  impertinencia de admirar estas preciosidades accrescia a de
ouvir e de ter de achar graa a um papagaio que cantava o hymno
brazileiro.

Henrique sau de l exhausto de paciencia.

Com estas visitas politicas, passou, como dissemos, todo o periodo das
festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa historia
occorresse coisa que merea nota.

Entre Magdalena e Henrique mantinha-se a mesma lucta moral; nem um nem
outro recordavam declaradamente a scena nocturna, em que to acerbas
palavras se haviam trocado. Augusto no voltra ao Mosteiro desde ento.
Era tempo de frias para as creanas, o que fazia natural esta ausencia,
contra a qual Angelo em vo protestava. Magdalena nunca porm alludia a
ella. Christina passava o tempo, querendo-se mal por a sua timidez, e de
quando em quando amuando de ciumes com Magdalena, que ria d'elles e os
dissipava com uma palavra.

Chegou emfim o dia de Reis, aquelle em que devia realisar-se no pateo do
Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.

Henrique e D. Dorotha vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para
assistir  solemnidade popular.

J por vezes temos ouvido falar n'este auto, que promettia ser coisa
memoranda nos annaes dos festejos publicos da terra. Havia mezes que o
sr. Pertunhas esgotava os thesouros da sua sciencia dramatica a
ensaial-o, e vimos com antecipao andar Ermelinda decorando a parte da
Fama, que lhe competia desempenhar.

Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, so como os
restos grosseiros que da nossa arte primitiva a varredura estrangeira
deixou ficar pelo cho.

No obstante as extravagancias e as modelaes toscas e risiveis de
muitos,  certo que nos mostram que a Euterpe rustica tem conservado
mais fiel a indole peninsular, do que sua irm, a civilisada musa das
cidades, a cujo paladar j sabem mal as popularissimas redondilhas, to
apreciadas ainda na Hespanha.

Em occasies de festa levanta-se em qualquer terreiro ou pateo de quinta
um tablado; veem adornal-o as mais vistosas colchas de chita, das quaes
tambem se formam os bastidores; alugam-se nos depositos mais modestos da
cidade ou villa proxima vestidos de reis, de principes e de guerreiros,
em que se combinam os elementos de pocas e de nacionalidades
disparatadas, e perante uma plateia rustica, ao ar livre, como no
theatro antigo, desfiam-se em cantada choradeira as sentimentaes
peripecias da vida de qualquer santo, ou, entre gargalhadas, os
episodios comicos do algum enredo popular.

A circumstancia de ser o auto d'esta vez desempenhado no pateo do
Mosteiro, e que fra em parte por deferencia ao deputado do circulo, em
parte por conveniencia dos emprezarios, pela apropriao do terreno a
todos os effeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em taes casos
recebiam de s. ex.^a, essa circumstancia, dizemos, augmentava o numero
de espectadores.

Das janellas do Mosteiro gosava-se, como de um camarote de frente, do
espectaculo popular.

O terreiro era destinado para o povo, em grande parte attrahido tambem
pela pipa de vinho, que o conselheiro n'estes dias mandava pr 
disposio dos seus representados.

Desde a vespera havia grande agitao e azafama no pateo do Mosteiro. Os
artifices levantavam o tablado scenico; pregavam e despregavam taboas;
serravam barrotes; os directores, e  frente d'elles o infatigavel e
imaginoso Pertunhas, davam ordens contradictorias; e os curiosos
estacionavam em magotes, difficultando tudo, censurando o que viam
fazer, e aventando alvitres absurdos.

Herodes, o pae de Ermelinda, andava em brazas. Approximava-se a hora dos
seus triumphos. O genio dramatico palpitava n'elle, cheio de, vida e de
enthusiasmo.

Ia mais uma vez pousar nos hombros o manto da realeza judaica; brandir a
espada infanticida, carregar aquelles sobrecenhos com que fazia chorar
as creanas e estremecer as mes; ia resuscitar Herodes, o dspota
legendario.

Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tyranno e
insensivelmente fazia gestos e esgares promettedores de effeitos
scenicos futuros.

Os seus collegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava-os com
a sobranceria de um Talma, e muitas vezes lamentava sinceramente a
ausencia de vocaes dramaticas que auxiliassem a d'elle.

E no sorriam os leitores a esta velleidade artistica do recoveiro; alli
havia fundamentos para ella. O Cancella era o minerio de um tragico,
deixem-me assim dizer. No meio de uma escoria de rusticidade continha
abafado mineral de lei.

Tivessem sido outras as contingencias da sua vida, vl-o-hiam porventura
arrebatar plateias inteiras com as revelaes do genio, que s vezes
n'um grito, n'um sorriso, n'um gesto se manifesta; mas ainda assim
inculto, no mentia n'elle o verdadeiro enthusiasmo, o sentimento da
arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava o gesto no
calor do desempenho; no mentia aquella embriaguez que lhe causavam os
applausos da multido. No ha verdadeiro genio artistico, que se no
namore do publico, embora o saiba caprichoso, inconstante e ingrato. O
homem, indifferente aos applausos das turbas, nunca ser poeta nem
artista de verdadeira inspirao. O amor vivo da gloria adeantou a meio
caminho os emprehendedores d'esta nova conquista de vellocino.

Ermelinda, essa tremia com a commoo de artista novel,  lembrana do
espectaculo, em que pela primeira vez ia entrar.

As senhoras do Mosteiro, ou antes Magdalena e Christina, tinham querido
encarregar-se da _toilette_ da Fama.

Logo de manh fra pois a pequena Linda para o Mosteiro, e passava das
mos de Magdalena para as de Christina e das d'esta para as d'aquella, e
sempre com recato preciso para que ninguem mais lhe puzesse os olhos,
pois que pretendiam reservar para a occasio a surpreza toda. Contra a
curiosidade de Angelo  que mais tiveram que luctar.

Logo depois da uma hora da tarde comeou a povoar-se o pateo de
espectadores e, os actores a reunirem-se na parte do tablado, occulto
por as colchas de chita aos olhares da multido.

Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da philarmonica,
dirigida por mestre Pertunhas, cuja trompa celebre servia tambem de
batuta.

Chiava j o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, uivava a
flauta, e todos promettiam aos ouvidos a mais inharmonica das torturas.

Mestre Pertunhas, distribuidas as partituras, e vendo todos a postos,
deu o signal de principiar.

Um, dois, tres; um, dois--dizia ou fazia elle com os olhos e com os
movimentos da cabea e ps, porque a bca, essa j estava applicada 
embocadura da trompa. O segundo tres era o tempo fatal. Os musicos,
porm, ou por distrahidos, ou por a commoo propria dos actos solemnes,
no corresponderam ao signal, e a nota furiosa, extrahida da trompa do
mestre Pertunhas, achou-se s no espao, e fugiu envergonhada a
esconder-se na concavidade dos montes vizinhos, deixando na passagem os
ouvidos quasi em sangue.

Este successo foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando
as notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota
chefe e reconhecendo a falta, saram alvoroadas atraz d'ella, cada uma
por sua vez. Foi uma debandada musical de indescriptivel effeito.

O auditorio, o sempre implacavel auditorio popular, apupava. Henrique e
o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detraz da cortina a
vr o que era aquillo. Mestre Pertunhas barafustava por entre os da
banda, berrando, ralhando, cheio de clera e de razo.

Uma symphonia com quatro mezes de ensaios! A falar a verdade!

Ordenadas as coisas, rompeu emfim a symphonia.

Os typos dos artistas, marcialmente uniformisados com fardas que fram
de um corpo de infanteria, eram para tentar o lapis de um Cham ou
Gavarni. Alli um gordo e rubicundo merceeiro, que ameaava estalar todas
as costuras da farda, primitivamente feita para um individuo de metade
das dimenses d'elle, com as faces insufladas, a testa contrahida e os
olhos injectados para extrahir de um obsoleto serpento, que embocava
com arreganho assustador, as mais destemperadas notas; acol um flautim,
de braos compridos e tibias esquinadas, com meio brao fra das mangas,
com meia perna de fra das calas, figura em que havia no sei o que de
onomatopaico, to bem se casava com os silvos, horripilantemente agudos,
que arrancava do exiguo instrumento. O artista pratilheiro era um velho
recurvado, de nariz adunco, faces escavadas, olhos de coruja, suissas em
tufos no meio das faces, e oculos na ponta do nariz. Um zarolha evacuava
os pulmes dentro de um figle; um corcovado e semi-ano repicava os
ferrinhos com uma prodigalidade assustadora; as baquetas da caixa
estavam confiadas s mos callosas de um moo de lavoura, de rpas
hirsutas a cobrir-lhe a testa, olhos esbogalhados e labio pendente. E,
no meio d'estas e analogas figuras, a alma de tudo, o sr. Pertunhas,
torcendo-se, batendo com o p, suando, arregalando os olhos,
piscando-os, marcando o compasso com a cabea armada de enorme trompa,
que lhe dava ento no sei que apparencias de proboscidiano.

Tal era a philarmonica da terra, que Henrique, o conselheiro e toda a
familia do Mosteiro escutavam das janellas, e  qual tiveram de
dispensar elogios, que o regente acceitou com a modestia de artista que
se conhece. Henrique foi quem mais sublimes esforos fez para soffrer
com paciencia aquellas torturas acusticas. Elle que nem  orchestra de
S. Carlos perdoava uma desafinaco, obrigado a escutar com um sorriso
aquella banda pandemonica!

--Coragem! coragem!--murmurava-lhe o conselheiro, impassivel como
perfeito politico.--Nas occasies  que os homens se conhecem! Coragem.

-- em extremo forte a provao!--respondia-lhe, gemendo, Henrique.

--Firmeza; que a pallidez do susto nos no atraioe--continuava aquelle.

Isto obrigava Henrique a nova lucta; d'esta vez para manter a seriedade.

A final calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido
tocar. Succedeu-lhe um intervallo de silencio. Passou pela assembleia o
estremecimento que precede as occasies solemnes. Os olhares de tantos
espectadores fixavam-se na coberta de chita que j se via ondular.
Ouviu-se um surdo rumor, significativo de anciedade, como se fra a
resultante do palpitar de tantos coraes.

Appareceu emfim a primeira personagem do auto. Era o Herodes.

A alta e membruda figura do pae de Ermelinda, com os seus hombros
largos, as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabellos e barbas
negros e espessos, o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as
juncturas do tablado, o timbre volumoso de voz e certo arreganho
selvatico, com que falava e gesticulava, imprimia na multido um quasi
pavor, que nem o conhecimento intimo que tinha do homem conseguia
dissipar.

Herodes trazia manto real e turbante musulmano, borzeguins vermelhos,
corpete de velludilho azul, cales golpeados. Pendia-lhe  cinta um
alfange e uma pistola; ao peito algumas condecoraes.

Apparencia geral, a dos prophetas nas procisses.

O auto rompe com um monologo de Herodes.

O tyranno da Juda, sobresaltado e meditabundo, faz consideraes
substanciosas sobre a condio dos reis em geral e a sua em particular.
Principia elle assim:


  No ha vida mais inquieta,
  Nem mais cheia de cuidados,
  Do que a de um rei que pretende
  Conservar os seus estados.


O Cancella dizia isto em tom pausado, com os braos cruzados, medindo o
palco a passos largos.

Continuavam varias proposies de physiologia do throno, e, do caso
generico baixando ao particular, da these  hypothese, principia a falar
de si. Cancella, conhecedor dos segredos da arte, comeava aqui a dar
mais vida  recitao, como para mostrar o maior empenho que tomava a
alma n'este capitulo da especialidade. Referia-se aos annuncios da vinda
do Messias, e inquietava-se; a mar das paixes subia; a voz
traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se um como reflexo de
desalento, para com mais violencia se exaltarem os affectos. Nos
paroxismos da furia, o Cancella, dando toda a fra  sua voz potente,
soltava berros, que participavam da natureza dos do tigre.


  Comearei desde logo
  A publicar leis tyrannas,
  Que aterrem os meus montes,
  Os palacios e as choupanas.

  Ser tal o meu furor,
  Tal a minha indignao,
  Que ninguem se atrever
  A conquistar meu brazo.


O interesse do espectaculo augmentava. Os olhos do publico principiavam
a fixar-se. A excitao de animos a que os transportes de Herodes,
inquieto pelo seu brazo, levra o publico, foi serenada por um chorado
cro de anjos que cantavam atraz da cortina:


  No temas,  rei cruel,
  Que te conquiste o docel.


Herodes pra aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe afianarem
a segurana do docel, pela qual elle parecia receioso. Vacilla,
entra-lhe o mdo no corao, mdo que procura afugentar com bravatas, em
que ameaava pr tudo por terra. O Cancella exprimia tudo isto com
abundancia de gestos e de movimentos.

Aqui  que subia a toda a altura o genio dramatico do Herodes. Para este
final do monologo reservava todos os segredos da arte; apoderava-se
d'elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos olhos os
espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da individualidade
propria; suppunha-se Herodes; e at...  fra da arte!
offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi chegava
a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era dominado
por o artista, e n'um d'estes silencios que todos prevem se
desencadeiar em brados de enthusiasmo e phrenesi, escutava-lhe as duas
quadras finaes:


  Porm o furor me incita!


Dava, ao dizer isto, tres passos  frente, desembainhava o alfange e
abria os braos. Tinha o que quer que era de Adamastor, visto assim.


  O brio d-me ousadia.


Levantava os braos acima da cabea, espalmando a mo esquerda.


  Para defender o sceptro
  A favor da tyrannia!


Aqui agitava os braos como azas de moinhos.


  Ser cada lana um raio!


E, dizendo isto, tinha nos olhos o fulgurar do relampago.


  Cada espada um corisco,


E o brao, armado do alfange, baixava com a rapidez do simile.


  Cada soldado um trovo,


E trovejava-lhe a voz.


  Cada golpe um basilisco!


E na posio e gesto em que ficava, no era menos terrivel e pavoroso do
que a fera da comparao.

Uma tempestade de applausos rompeu de todos os lados; s as mulheres e
as creanas ficaram silenciosas e immoveis, porque lhes parecia um
peccado applaudirem Herodes. E no sei se, o que fizera menos
escrupulosa n'este ponto a parte masculina, fra o exemplo partido das
janellas do Mosteiro; porque  certo que em geral os tyrannos no palco
so admirados, mas raras vezes applaudidos.

Herodes, depois de agradecer os applausos publicos, senta-se e segue o
auto.

Dariamos de bom grado na integra to importante pea dramatica ou pelo
menos circumstanciada noticia d'ella, se no receiassemos o recheio
excessivo para esta ordem de alimentos litterarios, que se querem leves.
No podemos comtudo resignar-nos a passal-a por alto inteiramente.

Alm do Herodes, so figuras do auto: o caixeiro do dito--assim se lhe
chama pelo menos no folheto, o que d a entender que Herodes era homem
de escripturaco regular,--o capito das tropas reaes, os tres reis
magos, o anjo, a Virgem, S. Jos e o menino Jesus, a criada de Santa
Isabel, dois cidados de differentes cidades, o criado de um d'elles, a
Fama e duas creanas, chamadas Giraldinho e Amorzinho.

As scenas passam-se successivamente nos paos de Herodes, na lapa de
Belem, e em diversas paragens da estrada do Egypto.

A imaginao do espectador era a encarregada da mudana do scenario.

O poeta corre toda a clave das paixes humanas, vibra todas as cordas do
corao.

Ao terror despertado por Herodes e suas ameaas, succede a sympathia
pelos tres reis, personificados d'aquella vez por tres moos de lavoura,
de manto, luvas de algodo e turbante, os quaes, em lamuria nasal e com
profuso de _xes_, cantarolavam as quadras do seu papel, em uma das
quaes, patrioticamente anachronica, pediam aquelles bons magos ao Deus
nascido a proteco para Portugal.

Excitava a piedade a familia sagrada. O velho S. Jos, como carpinteiro
que era, apparelhava um madeiro a enx e plaina, emquanto a Virgem
dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem principiava a
despontar o buo da puberdade. O anjo apparecia, como nas procisses,
carregado de cordes de ouro.

No transe da fugida para o Egypto ha uma scena da mais que homerica
simplicidade. Quando os sagrados esposos esto para partir, chega a
elles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro moceto em
trajes femininos, e da parte da ama offerece aos foragidos algum
dinheiro e refrescos; pedindo desculpa por no poder dar quanto queria,
o que tudo a Senhora agradece com as phrases da tarifa, recommendando-se
muito a sua prima.

O comico caminha ao lado do pathetico, como no drama moderno. Ha
personagens, reflexes e scenas sempre apreciadas e j aguardadas pelo
publico, que as sada com sinceras gargalhadas. D'estas a principal 
evidentemente a que se passa entre um cidado, de quem a sacra familia
recebe gasalhado, e o criado do mesmo.

 uma scena de disputa domestica, cheia de alluses satyricas  classe
dos criados de servir, a qual era sempre applaudida. O cidado, depois
de mostrar ao criado, de relogio em punho--anachronismo shakspeareano--a
demora excessiva que elle tivera fra de casa, diz para o auditorio:


  No se pode ter criados
  Hoje em dia, n'esta vida,
  Ou quem houver de os ter
  No lhes deve dar guarida.


N'este ponto do auto houve aquella tarde um pequeno, mas gracioso
episodio.

D. Victoria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa
de toda a pea, de afinada que estava pelo seu modo de sentir, no pde
conter-se, que no exclamasse:

--Aquillo  que  uma verdade!

A espontaneidade da reflexo fez rir a familia do Mosteiro, riso que
teve ecco em baixo, entre o povo, que enchia o pateo.

A scena comica prolonga-se, mandando o patro distribuir pelo caixeiro o
rap ao auditorio; outra liberdade que produzia sempre o maior effeito.

O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro bahu, e offerecia
pitadas ao publico, dizendo:


  O meu amo, com ser rico,
  Gosta d'estas patuscadas.
  Nunca os senhores tiveram
  As pitadas to baratas.


Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo
a regularidade do espectaculo. Todos tiravam pitadas, todos falavam,
riam e guinchavam, todos fingiam espirrar e no se ouvia seno: Dominus
tecum e Deus te salve no meio de toda aquella confuso. Porm a um
signal de mestre Pertunhas, que deixou por um pouco folgar o espirito
das massas, tudo entrou na ordem.

Preparava-se nova transio dramatica. O criado, que vae a sar, volta,
dizendo com gesto espantado e tom exclamatorio:


  Jesus, Jesus, que  isto?
  Jesus do meu corao!
  O signal da cruz me livre
  De to terrivel viso.


Era a Fama que apparecia.

Ermelinda entrava em scena.

No meio d'aquellas figuras rusticas, e mais ou menos grosseiras, que
entravam no auto, a figura delicada e angelica de Ermelinda produzia to
completo contraste, que um murmurio significativo de profunda sensao
correu o auditorio.

Ermelinda estava surprehendente de formosura. Haviam-se associado ao que
era n'ella dotes naturaes os cuidados de Magdalena e de Christina, para
lhe darem a apparencia superior.

O proprio Henrique, que at alli estivera commentando maliciosamente o
espectaculo, no pde reter uma exclamao de surpreza, que foi
secundada por o conselheiro.  que parecia que um verdadeiro anjo
occupava agora a scena.

A simplicidade do vestir concorria para esse effeito.

Ermelinda trazia uma longa tunica alvissima e de amplas mangas, que lhe
descia solta dos hombros sem sacrificar a menor belleza dos graciosos
contornos e esbeltas propores d'aquella creana, que promettia ser uma
mulher esculptural. Os cabellos, cuja cr loura era de uma pureza rara,
caam-lhe desatados e profusos sobre os hombros, brilhando como fios de
ouro, na alvura dos vestidos; a fronte ficava-lhe livre, e o oval das
faces sobresaa n'aquella moldura natural. Com os braos descados, os
dedos encruzados, e a cabea ligeiramente pendida, em expresso de
melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem os de Magdalena e de
Christina nas janellas do Mosteiro, mas que de longe parecia procurarem
o co, Ermelinda adeantava-se vagarosa, serena, tendo no gesto o encanto
da innocencia, tendo nos passos a hesitao da timidez. Havia tanto de
sobrenatural no vulto candido, franzino e melancolicamente suave
d'aquella creana, que o actor que estava em scena no teve de simular
espanto, porque o sentia real, e no podia desviar os olhos d'aquella
appario.

O silencio era profundo; parecia que em todos estava actuando a fra de
um encantamento.

Como na antiga tragedia, o facto principal da aco, a carnificina dos
innocentes, passava-se fra de scena.  Fama competia narral-o.

Ermelinda, a meio do palco, parou. Com uma voz argentina e leve tremor
de commoo, principiou lentamente e no meio de um religioso silencio a
recitar os versos da narrao, os quaes, como o leitor j sabe, no eram
os do auto, que mestre Pertunhas se estafra a ensaiar.

Os versos que Ermelinda recitou diziam assim:


  Desci dos celestes cros,
  Por Deus mandada a escutar
  Da infancia as queixas e os choros,
  Para lh'os ir confiar.

  Desci. Na terra, nos mares
  Tanta miseria encontrei.
  Que os meus magoados olhares
  Da terra e mar desviei.

  Desci. E tantos gemidos,
  To dolorosos ouvi!
  Que, turbados os sentidos,
  Quiz recuar... mas desci.

  N'esta colheita de dres
  Pelo mundo todo andei,
  No pranto dos peccadores
  As minhas vestes molhei.

  Vagueando dias e dias,
  Chegra  Juda emfim,
  Quando um clamor de agonias
  Veio de longe at mim.

  O sol, o sol inflammado
  D'estas terras orientaes,
  Tinha no disco afogueado
  No sei que estranhos signaes.

  Soavam menos distantes
  Sinistros brados de dr,
  Choros de mes e de infantes,
  Cantos de morte e terror.

  Vi anjos de azas nevadas
  Em bandos subir ao co,
  Quaes pombas amedrontadas
  Fugindo  voz de escarco.

  Onde des? Quem vos persegue?
  A que tormentas fugis?
  Um, que triste o bando segue,
  Estas palavras me diz:

  Somos as almas de infantes
  Mortos em guerra feroz;
  Inda das mes delirantes
  Nos chama a sentida voz.

  S a materna saudade
  Nossa carreira detem,
  Embora no co, quem ha de
  Esquecer, o amor de me?

  Disse e o semblante formoso
  Com as azas encobriu,
  E ao bando silencioso
  Silencioso se uniu.

  Eu segui. Na impia cidade
  Aterrada penetrei...
  Ai, da fera humanidade
  Os meus olhos desviei!

  Que scena! Corre nas praas
  Sanguinaria multido,
  Como nuvem de desgraas
  Semeando a desolao.

  Cem por terra sem vida
  Tenras creanas s mil,
  E uma turba enfurecida
  Corre  matana febril,

  As mes pallidas, chorosas,
  Supplicam, pedem em vo!
  N'essas feras sanguinosas
  No palpita um corao.

  Outras tentam em delirio,
  Os seus filhos disputar,
  E com elles no martyrio
  Gostosas se vo juntar.

  Sobre a terra ensanguentada
  Eu soluando, ajoelhei,
  E de intensa dr magoada,
  A Deus piedade implorei.

  Findava a prece, e uma estrella
  No horisonte despontou,
  Pura, scintillante, bella
  O caminho me traou.

   humilde e escondida estancia
  Da venturosa Belem
  Cheguei; vi um Deus na infancia
  Nos ternos braos da me.

  Minha colheita de dres
  N'aquelle bero depuz,
  Da humanidade aos rigores
  Pedi remedio a Jesus.

  No olhar do divino infante
  Raiou a luz e fulgor,
  Foi a aurora radiante
  Que annuncia um redemptor.


No se descreve a impresso causada por estes versos, que assim
transformavam a Fama do auto no Anjo da guarda da infancia. Muitas
causas concorriam para produzir este effeito: a figura, a voz e o gesto
de Ermelinda, que lhe davam uma apparencia verdadeiramente angelica, e
depois aquellas palavras inesperadas, aquella exposio desconhecida e
em versos a que a melancolia da toada, em que eram recitados, parecia
augmentar a cadencia metrica. Emquanto debaixo da impresso d'aquella
voz sonora e infantil, ninguem procurava explicar o mysterio. Milagre
lhes parecia e quasi como milagre o acceitavam, e de ouvidos attentos,
collos estendidos e bcas semi-abertas parecia recolherem, uma a uma,
aquellas palavras, como se de um verdadeiro emissario celeste as
escutassem. O tablado enchera-se pouco a pouco de gente, e ninguem dera
por isso. Os actores que estavam atraz da cortina tinham sido feridos
pelos primeiros versos, differentes dos que elles esperavam; isto
obrigou-os a espreitar. Depois, como arrastados pela magia d'aquella voz
e d'aquelle gesto, vieram adeantando-se, adeantando-se, e cdo formaram
circulo  volta de Ermelinda. O primeiro da frente era o Herodes. O
espanto, os affectos, o orgulho de pae, a exaltao de artista
combinavam-se para dar-lhe ao rosto uma expresso quasi de extase.
Olhava para a filha como se a visse animada de inspirao divina.

Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobr'olho, prevendo
trapalhada aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de bca
aberta, era de todos o mais espantado. No Mosteiro s Angelo sorria,
elle s interpretava o milagre. Todos os mais escutavam silenciosamente
aquella voz de creana, que, em campo descoberto e no meio de tantos
espectadores, soava distincta e vibrante como se effectivamente tivesse
alguma coisa de sobrehumana.

Depois que ella terminou, persistiu por algum tempo o silencio, sem que
os espectadores pudessem voltar logo a si, nem os actores se lembrassem
de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro rompeu este quasi
encantamento. Profundamente impressionado tambem por aquella scena,
exprimiu n'um bravo todo o enthusiasmo que sentia. Foi o signal.

O silencio degenerou na mais altisona ovao.

O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a
sustentar, a logica da situao, e tomando nos braos musculosos o corpo
debil e franzino da filha, levou-a em triumpho para a beira do palco; os
outros actores disputavam-lh'a; do pateo estendiam-se centenas de braos
para a receberem; das janellas do Mosteiro acenavam-lhe, victoriando-a,
os lenos das senhoras; os homens applaudiam-a com palmas. Herodes
parecia devorar a filha com beijos, afagal-a com lagrimas de enthusiasmo
e de paixo; e Ermelinda foi de braos em braos, entre beijos e afagos,
transportada do tablado para a sala do Mosteiro, onde no foi menos
calorosa a recepo.

Do auto ninguem mais se lembrou, e, apesar dos esforos do mestre
Pertunhas, todos o deram por terminado alli e prescindiram de vr as
restantes scenas, com grande desgosto dos actores que entravam n'ellas.

O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do
Mosteiro. Seria para rir aquelle enthusiasmo, se no fsse bastante
pathetico para commover.

--Mas como foi isto, meu Deus? Como foi isto? Que milagre foi este? Ai
que versos, Maria Santissima! Que versos! E como ella os
dizia!--exclamava elle, quasi convencido da milagrosa natureza da scena
que vira.

Magdalena, chamando Angelo de lado, perguntou-lhe:

--Foi Augusto que fez aquelles versos?

Angelo sorriu.

--Por que me perguntas isso a mim?

--Porque o deves saber.

--Ento no crs no milagre?

--Responde.

Angelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para o
conselheiro:

--Se eu digo a v. ex.^a que o Bernardim existe.

--Mas quem ?--perguntou o conselheiro.

--No sei; porm posso afianar a v. ex.^a que no so estes os
primeiros vestigios que encontro d'elle. As paredes das capellas dos
montes so as suas confidentes. No est certa, prima Magdalena, de umas
quadras sentimentaes, que lemos na ermida da Senhora da Saude?

--Sim; recordo-me.

--No acha entre essas e as do auto analogia de estylo, que a levem a
attribuil-as  mesma pessoa?

--Estou pouco habituada a analysar estylos, primo.

--Mas talvez este lhe seja habitual.

Magdalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a
accrescentar:

--Por muito o vr por ahi desperdiado por paredes de capellas e ruinas,
e nos troncos das arvores.

Ermelinda foi de uma discreo impenetravel. Quando lhe perguntavam quem
lhe ensinra os versos, sorria, respondendo que no sabia, ou que no
podia dizel-o.

--Apostemos que n'isto entra Angelo?--disse o conselheiro.

O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fra pura inspirao.

Henrique, aproveitando uma occasio em que estava proximo da morgadinha,
disse-lhe ao ouvido:

--Parece-me que ia pr o dedo no rouxinol silvestre, que to bem canta
sem se mostrar.

--Sim?

--No ha muitas noites que eu o vi vaguear n'estas immediaes. Estas
aves melancolicas amam as inspiraes nocturnas.

--Pois as noites nem sempre so boas conselheiras, primo.  a hora
favoravel  espionagem e s... calumnias... Mas se sabe quem , diga-o.
Aqui em minha casa e no seio de minha familia,  sempre bem recebida a
verdade. No ha quem se tema d'ella.

E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.

--D'esta vez foi de uma severidade!!--pensou Henrique.--Cada vez me
conveno mais de que o idyllio existe e que vae j muito adeantado. Mas
agora me lembro; e o meu duello com o Romeu, que nunca mais vi? No foi
m tolice aquella minha! Preciso de procurar o homem para lhe dizer que
o caso no vale a pena.

O despeito de Magdalena pelas palavras de Henrique fra d'esta vez mais
intenso; quasi chegou a fazel-a desesperar da teno que alimentava
ainda, pois disse a Christina:

--Ai, filha, que no sei se deva curar-te antes a ti do que a elle.

--Que dizes?!

--Nada. Ha doenas que fazem desesperar os medicos.

Era j noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram no
pateo do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos proprietarios, fram
dispersando pouco a pouco.

A banda de mestre Pertunhas saiu tambem com o fim de se preparar para as
serenatas a casa do brazileiro e de varias personagens da terra, a quem
era devido o cantar os Reis.

Angelo sara da sala. Fra para o fim da rua de sobreiros, anterior ao
pateo da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus.

 medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras 
fronte e ao corao do pobre rapaz.

Era a noite de Reis, a ultima dos dias de frias; na manh seguinte
devia partir com o pae para Lisboa.

Que amarguras as d'estas ultimas horas! que intensas saudades no se
amontoam no corao das creanas ao expirar o termo d'esse feliz espao
de tempo, que viveram para os carinhos da familia e para os folguedos
despreoccupados!

Percebe-se em ns mesmos aquella imminencia de lagrimas, que  menor
palavra rebentam.

Quem no ter recordaes de infancia a falar-lhe d'isto?

O pateo despovora-se de gente; atravs das vidraas da casa viam-se j
brilhar as luzes interiores. Com o olhar fito no cho, a cabea
inclinada, Angelo permanecia immovel. Cortejavam-o, ao passar, homens e
mulheres, sem que elle dsse por isso.

De repente voltou-se, porque ouviu atraz de si uns passos conhecidos.
Era Ermelinda, que voltava para casa. O pae ficra atraz a pr em ordem
as roupas e mais objectos que serviram no auto.

--Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus--disse Angelo.

--Ento vae-se embora?

--Vou manh--respondeu Angelo, com a voz presa de commoo.

--Muito cdo?

--De madrugada.

Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado.

--E agora quando volta?

--Eu sei l? agora... s para agosto.

Novo silencio.

--Ento... adeus...

--Adeus, Ermelinda.

E com a voz quasi sumida e os olhos ennevoados de lagrimas, Angelo
estreitou contra o peito aquella que de pequena tratra como irm, e que
chorava ainda mais do que elle.

Que melancolico fim de dia to alegre!

A este tempo uma sombra escura passou por elles e estacou.

--Ermelinda--disse logo a voz esganiada e colerica, que saiu d'aquelle
vulto.

Ermelinda estremeceu ao ouvil-a.

Era a mulher do Z P'reira que voltava das suas devoes e ficra
surprehendida com o espectaculo que vira. A assustadia castidade
d'aquella matrona toda se alvoroou com a tocante despedida das duas
creanas.

Ermelinda approximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou
pelo brao e a levou comsigo.

Angelo esteve quasi resolvido a ir tirar das mos d'aquella harpia a
innocente victima; mas a chegada de Herodes estorvou-o.

A sr.^a Catharina do Nascimento de S. Joo Baptista ia dizendo, ao levar
comsigo a afilhada:

--Que tero ainda de vr meus olhos, meu Divino Pae do Co? Que mundo
este de abominao, meu doce Jesus!  Virgem das Dores, isto  para se
vr e no se crer! Uma creanca, uma creanca de dois dias, se pode dizer,
e j assim com a alma perdida!  meu Jesus crucificado!...

--Minha madrinha--dizia Ermelinda, chorando.

--Anda, anda, anda, minha amiga, que j os demonios saltam e riem de
contentes. Teu pae  que tem a culpa. Isto so l modos? trazer-te por
entremezes, que so artes do demonio, e arredar-te da igreja, que  a
casa do Senhor!  a missa dos domingos, e acabou-se. Os resultados so
estes!... Ai, filha, que muita penitencia te  j precisa para salvares
a alma!

--Minha madrinha, minha madrinha, por as almas no me diga
isso--exclamava Ermelinda, aterrada.

--Os tres inimigos da alma te faro guerra, creatura, assanhados como
ces raivosos... Eu previa isto...  o lucro de andar por essas casas de
Satanaz, onde no ha religio nem temor de Deus...  meu divino Jesus, e
para isto tanto padeceste por ns! E ns to pouco caso fazemos dos
vossos preceitos, meu doce Jesus, filho de Maria Virgem... Depois
queixamo-nos da vossa justia, quando j ardemos nos fogos do
inferno...!

A pequena Ermelinda tremia cada vez mais.

A velha proseguiu, em todo o caminho, n'estas exclamaes, bramando
contra o peccado, contra a familia do Mosteiro, que acoimava de herejes,
contra o pae de Ermelinda e contra esta, e, no seu fervor religioso,
desenvolvia sobre o thema do peccado dissertaes no em demasia
apropriadas aos ouvidos de uma creana.

O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das
palavras da madrinha, que nem bem entendia, ficra-lhe uma horrivel
convico de que tinha a alma perdida, e com lagrimas ardentes pagava a
pobre creana bem caro as alegrias d'aquella tarde, de que j tinha
remorsos. Este desalento e pavor quasi a fizeram doente.

Quando o pae voltou, estranhou-a. Elle, que vinha orgulhoso com os
triumphos proprios e com os da filha, sobresaltou-se ao abraal-a,
Interrogou-a; pediu, ordenou; nada pde saber que explicasse os
vestigios de lagrimas que descobria n'ella; se instava, provocava-lhe o
pranto; desistiu pois.

Pobre pae! no pde dormir aquella noite! Logo de madrugada teve de
levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em recovagem.

Deixou Ermelinda a dormir; no a quiz acordar; beijou-a na fronte
desmaiada, abenoou-a e saiu.

--Comadre,--disse ao passar por casa do Z P'reira--ahi lhe deixo a
pequena. Olhe-me por ella, que no est l muito boa.

--V com Deus--disse uma voz de dentro.

Era a sr.^a Catharina.

O recoveiro partiu, silencioso e triste.




XIX


No dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava
determinado, o conselheiro e Angelo, o que deu logar no Mosteiro a
muitas saudades. O conselheiro devia voltar smente por occasio das
eleies geraes que estavam proximas.

Alguns dias depois, n'um domingo em que se festejava na aldeia o
padroeiro Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de janeiro, estava
Henrique de Souzellas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia
e Maria de Jesus, que ambas o entretinham com longas conferencias de
coisas de pouco interesse e s quaes elle ligava a minima atteno.

Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava-se ainda
posta; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da
cadeira; D. Dorotha, de mos cruzadas deante da cinta, falava; Maria de
Jesus que, depois de pr em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume
patriarchal, tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a
memoria da ama sempre que esta emperrava, corrigia-lhe as involuntarias
e frequentes inexactides em que a via cair.

Henrique habitura-se j a estes placidissimos habitos; e apesar de no
ligar atteno  conversa, ou por isso mesmo que lh'a no ligava,
achava-lhe certas virtudes estomacaes, que lh'a tornavam agradavel.

Depois de muitas voltas a conversa cau sobre as occorrencias do auto
dos Reis.

--Eu ainda estou para saber como aquillo foi!--dizia D.
Dorotha.--Quando me lembro! Como aquella rapariga falava!

-- senhora; olhe que j me disseram que a pequena tinha espirito--disse
Maria de Jesus, com ar de mysterio.

--Olhem o milagre!--respondeu D. Dorotha.--Por essa estou eu.

--Diz que desde aquelle dia anda amarella e triste, que nem parece a
mesma.

--Ento  mais do que certo.

--Ai, a tia Dorotha tambem com crendices!--disse Henrique,
rindo.--Ento parece-lhe que traz espirito aquella creana?

--Pois, menino, aquillo a falar a verdade!

--E no  mais natural suppr que alguem lhe ensinou os taes versos?

--Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e at que
aquelles no calhavam bem nas las?

--O Pertunhas  um parvo. Houve alguem que ensinou aquillo  pequena e
at suspeito com que fim.

--No, sr. Henriquinho, olhe que alli anda coisa ruim. Tambem o filho do
Ceboleiro, quando trazia o espirito, dizia coisas to bonitas, que nem
um livro. A senhora no se lembra?

--Ora se lembra!

--Digam-me--insistiu Henrique.--Quem ha aqui na aldeia que faa versos?

--Versos!--repetiu a D. Dorotha, admirada.--Ninguem, que eu saiba.

-- senhora! Ento o Joo do Trolha? No deita to bonitos versos nos
desafios?

--Sem ser o Joo do Trolha--tornou Henrique, sorrindo.

--Ai, no se ria, sr. Henriquinho; olha que os deita muito bem! Ainda no
outro dia, na noite de Janeiras, no se lembra, senhora, dos versos que
elle botou?


  Viva a senhora D. Dorotha,
  Raminho de bem-me-queres,
  Quando pe a sua touca
   a rainha das mulheres.


--E depois a mim:


  Viva a senhora Maria,
  A perola das criadas,
  Quando se chega  janella
  Ficam as estrellas pasmadas.


--Ora com o que voc vem, mulher! No tinham as estrellas mais que fazer
do que pasmarem--disse D. Dorotha.

--Isso  por dizer, senhora; j se sabe que... sim... como o outro que
diz...

--E alm do Joo do Trolha, quem ha mais que faa versos?--perguntou
Henrique.

--Que eu saiba...--disseram as duas.

--E aquelle Augusto?

--O Augustito do doutor? O filho! Coitado do pobre rapaz. Elle sim!
Credo! No, aquillo  um rapaz de muito juizo.

--Isso no tira. Ento a tia julga que s os tolos fazem versos?

--Tolos no digo, mas...

--Mas um pouco feridos na aza, no  verdade?

--Ora pois ento dize-me tu, menino, se um homem srio... sim... um
homem de respeito, faz versos?

--Por que no?

--Versos?!

--Versos, sim, senhora.

D. Dorotha fez um gesto de incredulidade.

Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da
entrada e aps algumas pancadas  porta da sala.

--Abra, tia Dorotha--disseram de fra as vozes de Magdalena e de
Christina, que fram logo reconhecidas.

E cdo depois entravam alegremente na sala, em companhia de D. Victoria,
que vinha mais retardada.

D. Dorotha levantou-se para recebel-as.

--Bons dias ou boas tardes, tia Dorotha, porque me parece que j
jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Victoria, que
no nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do
missionario--disse a morgadinha.

--Eu no; para apertos e barafundas  que no estou.

--E tu vaes, Lena? perguntou D. Dorotha.

--Ento? No quero passar por impenitente. Ainda o no ouvi. Pode crer?
Alm de que percebi na Christe um fervor, com o qual quiz condescender.

--Dizem que prga to bem--atalhou Christina.

--Pois prgar, mas eu  que j no estou para sermes--ponderou D.
Victoria.

--Vou eu tambem ouvir o missionario--disse Henrique, levantando-se.--J
m'o mostraram ha dias. Se os dotes oratorios do homem corresponderem 
figura...

--Ento?--interrogou D. Dorotha.

-- um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral, typo da
grossura do pulso.

--Pois bom  que vs, menino--disse D. Dorotha--para acompanhares as
pequenas.

--Como quizer, primo,--acudiu Magdalena--mas no se constranja. O
Torquato tambem vae.

--Que quer dizer? Que me dispensa?

--No; mas que se  s por condescendencia que...

-- por prazer.  por devoo.

--N'esse caso...

E Henrique foi procurar o chapo para acompanhar as duas primas 
igreja.

O Santo Amaro fra festejado com espavento na freguezia da sua
invocao. Vesperas, missa cantada, duplo sermo, e procisso  volta da
igreja, nada faltra para solemnisar a festa.

O sermo da manh fra prgado por o abbade; o da tarde havia sido
concedido ao missionario, que o aproveitra para uma das suas
catechses.

A procisso j tinha recolhido, quando chegaram  igreja a morgadinha e
Christina, na companhia de Henrique e de Torquato. Havia no adro muita
gente, e algumas barracas de doce e de caf, como n'um arraial.

Pela porta principal da igreja engolfava-se a multido, como em bca de
sorvedouro, subitamente aberto no leito de um rio, se precipitam as
aguas impetuosas.

A fama, que pelas aldeias circumvizinhas apregoava o nome do
missionario, attrahira immensa gente a escutar o sermo.

As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa
popular, que se amontoava  porta da igreja, e conseguiram, por
deferencia excepcional dos mesarios, entrar pela sacristia para a
capella-mr.

Tinha um aspecto melancolico o interior da igreja n'aquella occasio.
Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e lugubre parecia com a
extraordinaria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres
de roupas escuras e em que s alvejava o leno branco que usavam 
cabea.

Apesar da quadra ir fria, como de janeiro que era, respirava-se alli
dentro uma atmosphera quente, abafadia e pouco salutar.

Um surdo murmurio formado por centenares de vozes rezando, a meio tom,
oraes e ladainhas, contrastava com as altas vozes de festa, que se
escutavam l fra, e requintava a triste impresso que se recebia ao
entrar. Alli um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam a leitura de
pias oraes, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam em cro com
Padre-Nossos e Ave-Marias; alm viam-se outras com as faces rojadas no
cho, batendo no peito e desentranhando exclamaes, para commoverem a
Divindade; outras em extase, como Santas Therezas, de braos abertos
deante da imagem da Virgem; outras amortalhadas, em cumprimento de
promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das paredes havia uns
pequenos cubiculos, que serviam de confessionarios. s portas d'estes
nichos, munidas de um crivo de folha, adheriam, como as lapas nos
rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro a
circumstanciada exposio dos peccados da semana, e recebendo de l
regras de bem viver, preceitos de devoo, s vezes exaggerada e
inspirada de certa moral de conveno, com que a ignorancia ou a m f
porfiam em falsificar os simples e luminosos dictames da moral, que a
consciencia reconhece e que o Evangelho aprega.

s vezes despegava d'aquelle crivo de peccados uma das confessadas; e
exhausta de fras, abatida de animo, descrendo da misericordia divina,
ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo
cego, seno hypocrita, lhe pintra inexoravel verdugo. Quando outra se
no succedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena porta d'estes
cubiculos, e sair de l um padre de batina, scos e capote de cabeo,
satisfeito de si, e revendo-se n'aquelles corpos prostrados, n'aquelles
gemidos surdos, n'aquellas lagrimas humedecendo o pavimento do templo,
tristes indicios de desalento moral, com que conseguira quebrantar os
ingenuos espiritos que dirigia pela intimidao cruel.

De tudo isto vinha o aspecto sombrio e lugubre  igreja, que nem as
luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta
arte dispuzera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.

Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.

Olhava com desgosto para aquelles signaes de um terror supersticioso, e
sentia exacerbarem-se-lhe as prevenes que nutria contra o clero, cuja
influencia moral, alis justa e vantajosa,  cada vez mais diminuida por
aquelles dos seus membros que pretendiam augmental-a por meios
improprios da sublimidade da sua misso e at dos preceitos da religio,
de que se dizem ministros.

Henrique fez algumas reflexes n'este mesmo sentido a Magdalena, que no
pde deixar de apoial-as, tanto mais que sabia o animo de Christina, que
os escutava, no de todo superior a este apparato terrorifico.

A hora marcada para o sermo approximava-se; haviam-se j evacuado os
differentes confessionarios, e o povo cada vez se apertava mais em todos
os pontos da igreja e trasbordava para fra das portas do templo. Quem
de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande distancia,
na rua, se prolongava a multido.

Apenas um confessionario permanecia ainda occupado. Havia mais de uma
hora, que alli estacionava de joelhos uma penitente com a cabea coberta
por a capa de panno, com que rodeava o crivo do confessionario.

Nem o menor movimento revelava animao n'aquelle vulto.

Henrique notra essa immobilidade, que ao principio o fez sorrir; depois
causou-lhe espanto e acabou, emfim, por o indignar. Qual, porm, no foi
a sua surpreza e a de Magdalena, quando, ao terminar a confisso,
reconheceram as feies da penitente por as de Ermelinda, a filha do
Herodes, a formosa e amoravel creana, que, dias antes, tanto
enthusiasmo causra, agora pallida, abatida, sem aquelles sorrisos nos
labios, que tanta graa lhe davam!

E era esta creana que to longos peccados tinha a narrar, para assim
ficar tanto tempo aos ps do confessor?

Ermelinda, vagarosa, trmula, tendo claros os vestigios de lagrimas, e,
como que enleiada de vergonha, caminhou por entre os grupos de mulheres
ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos ao lado da madrinha e cdo
rojava com ella a fronte no cho, que regava de lagrimas ferventes.

Pobre creana! Que negros crimes lavariam aquellas lagrimas? Que culpas
teria a expiar aquella inconsolavel dor?

O confessionario d'onde ella se afastra, abriu-se, emfim, e s vistas,
que para alli se voltaram, mostrou um padre gordo, crado, de olhos e
fronte pequenos, cabellos grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das
sobrancelhas. O homem parou algum tempo a fitar o auditorio.

Espalhou-se no templo um sussurro particular; um movimento commum animou
aquellas cabeas todas, quando este homem appareceu.

Era o missionario.

A sua passagem para a sacristia foi uma passagem verdadeiramente
triumphal. Curvaram-se at ao cho as beatas, beijando-lhe a mo ou as
borlas da batina, e pedindo-lhe a beno, que elle distribuia com
profuso.

Mas a meio caminho da sacristia, para onde se dirigia, surgiu-lhe quasi
do cho um estorvo.

Z P'reira, o desconfortado marido, estava deante d'elle, gesticulando e
realisando um triplice e admiravel esforo para firmar as pernas, para
abrir os olhos, e para desembaraar a lingua.

Dizia o homem:

-- sr. aquelle...  sr. padre, ou missionario, ou l o que ... eu
quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse... sim, Deus disse... A
religio manda... Quando um homem se casa...

O missionario no esperou pelo fim da inesperada interpellao; com
modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo de
clera:

--Ento que desafro  este? Deixam um homem n'este estado vir ter
commigo?!

E com maneiras e palavras igualmente asperas impoz silencio ao povo, que
rira do desengano do Z P'reira. Os mordomos acudiram logo para
afastarem o Z P'reira d'alli para fra. Elle deixou-se ir, limitando-se
a dizer mansamente:

--Ora, senhores, que  forte desgraa a minha! Ento uma pessoa no pode
dizer o que sente?

Ia elle j fra da igreja e ainda se lhe ouvia a voz repetir:

--Ora, senhores, que  forte desgraa a minha!

Quando depois d'esta scena, o missionario passou por Henrique, murmurou
este em voz perceptivel, ao ouvido da morgadinha:

--Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas no  mais de magarefe
do que de pastor?

O missionario ouviu estas palavras, pois que se voltou como se uma
vibora o picasse, e faiscou-lhe no olhar o fulgor de um odio pharisaico.
Henrique arrostou-o com audacia provocadora.

O padre entrou para a sacristia.

No entretanto o auditorio dispunha-se para escutar o sermo, o mais
commodamente que era possivel n'aquelle pequeno recinto.

No fim de alguns minutos apparecia no pulpito a figura bem nutrida e
pouco attrahente do famigerado educador dos povos.

Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insistencia fixou em
Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que elle sustentou com
firmeza.

Esta tacita provocao durou alguns minutos, no fim dos quaes poderia
talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos labios do padre um
sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabea quasi ameaador:

Emfim soltou o texto latino do sermo.

Seguiu-se nova pausa, e principiou.

Apesar do exemplo de Sterne, que no duvidou entresachar nas paginas
humoristicas da _Vida e opinies de Tristam Shandy_, um sermo sobre a
consciencia, eu no ouso transcrever para aqui o modelo de eloquencia
sacra, recitado pelo missionario n'aquelle dia.

Ainda se eu pudsse transmittir aos leitores o tom rouco de voz, a
extravagancia de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador
acompanhava a recitao dos descosidos periodos d'aquella indigesta
prtica, talvez me animasse  empreza, para lhes dar um exemplo da
vigorosa eloquencia, com que se anda atrazando a civilisao do povo e
prejudicando a verdadeira religio, a despeito dos bons sacerdotes, cuja
voz  abafada por aquella gritaria.

As mais tetricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.

Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as
fornalhas ardentes, innumeras torturas, a que o menor delicto, tal como
um jejum mal guardado, uma confisso mal feita, uma involuntaria falta 
missa, uma penitencia esquecida, uma orao supprimida, arriscava as
almas por toda a eternidade. Para cada peccado venial uma perspectiva de
tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal de Santo
Officio, onde os autos de f, os ptros, e cavalletes aguardavam os
delinquentes arrastados at alli; eis o resumo da orao. A fatal e
desesperadora sentena, que o poeta florentino esculpiu no portico do
inferno, traava-a este sobre os umbraes do tribunal do Eterno.

Na esculptura de Christo, obra rude do buril popular, mostrava o vulto
de um accusador, surgindo alli a pedir vingana, e no o do Redemptor
sublime a implorar e prometter perdo. E tudo isto de mistura com
imprecaes contra as modernas instituies sociaes, contra a obra do
seculo, contra os descobrimentos, contra a sciencia, contra tudo em que
se descobrisse o cunho da poca e que tendesse a modificar os costumes e
as ideias em sentido menos favoravel  propaganda reaccionaria.

 medida que a orao progredia, animava-se a voz do orador; augmentava
a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens.

Ao mesmo tempo os gemidos, os soluos e os ais do auditorio, e
principalmente da parte feminina d'elle iam crescendo em choro
manifesto, em gritos e alaridos. Cdo era j um angustioso clamor em
toda a igreja. Magdalena, que se sentia, ella propria, um pouco
impressionada por este espectaculo de desolao, voltou os olhos para
Christina. Viu-a trmula, pallida, com as faces banhadas em lagrimas,
tendo no gesto todos os signaes de um intenso pavor.

Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez notal-o a Henrique, e
tacitamente lhe communicou as apprehenses que sentia.

Henrique comprehendeu a necessidade de dissipar a funesta influencia que
se estava exercendo no animo timido de Christina.

Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a distrahil-as
com commentarios satyricos s palavras do sermo e  figura do orador,
que ambas offereciam farto alimento para elles.

D'ahi a pouco Magdalena instava j com Henrique para que se calasse.

Previa o perigo que poderiam correr, persistindo n'aquelles commentarios
improprios do logar.

Effectivamente no tinham passado despercebidos, do padre os
commentarios de Henrique, nem os sorrisos mal disfarados de Magdalena;
e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflammava mais o orador,
exacerbando-lhe a virulencia da phrase.

J no podia tirar os olhos d'aquelle grupo, e por vezes a clera,
estrangulando-lhe quasi a larynge, interrompera-lhe o discurso.

Alguns ouvintes, seguindo a direco d'aquelles olhares faiscantes,
haviam attingido j a causa d'elles.

D'ahi algumas murmuraes que principiaram a sussurrar pela igreja.

No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, fram ellas mais acerbas
do que nenhumas. A sr.^a Catharina e as suas companheiras fartaram-se de
anathematisar a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no corao
da filha do Cancella, dominado pelo terror que o sermo levra ao
cumulo, calavam aquelles dizeres, que a faziam quasi olhar, como se
fssem j prezas do inferno, para Magdalena e Christina, a irm e a
prima de Angelo, do seu amigo de infancia, em quem j no se atrevia a
pensar.

N'uma occasio em que o missionario fulminava com mais vehemencia os
progressos da industria moderna e chamava redes do demonio e caminhos do
inferno aos telegraphos electricos e s vias-ferreas, Henrique
approximando-se dos ouvidos das duas primas, fez no sei que reflexo
tanto a proposito, que a morgadinha no conteve o riso; a propria
Christina sorriu tambem.

Era de mais! O padre pulou no pulpito. Com os olhos em chammas, as faces
apopleticas, os labios espumantes, os punhos cerrados e os braos hirtos
e estendidos na direco de Henrique, rompeu n'estes violentos termos:

--Fra do templo, pedreiros livres, que vindes aqui escarnecer da
palavra do Senhor! Fra do templo, impios libertinos, que no respeitaes
os ministros de Deus, nem o seu altar! Andam lobos no povoado e vieram
esconder-se entre as ovelhas na casa do Senhor! Escorraae-os, irmos,
se no quereis que se vos pegue a lepra do peccado e que Deus arraze
esta aldeia, como arrazou Gomorrha e Sodoma. So esses os que trazem das
cidades a peste para as aldeias; so estas as pragas que nos veem com as
estradas e com a civilisao. Fugi d'elles, que trazem o demonio na
alma! Homens sem religio, mulheres sem temor de Deus, maes, pedreiros
livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos
requeiro! Vade retr, Satanaz, vade retr! vade retr!...

E de cada vez que repetia a frmula exorcista, o missionario estendia o
brao na direco de Henrique.

Este, desde que viu que a imprecao lhe era dirigida, levantou-se e
fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder
alli mesmo.

Quando o missionario concluiu, o sussurro da igreja degenerou em
desordem. Das beatas transmittiu-se a revolta aos homens do campo, cuja
m vontade, para com a gente das cidades, cresce sempre que se suspeitam
alvo dos desdens ou zombarias d'esta. As ameaas soavam j distinctas,
os varapaus mexiam-se pouco pacificamente, o escandalo tomra propores
assustadoras.

Christina quasi desfallecia; Magdalena, pallida, mas sem perder a
presena de espirito, que nunca a abandonava, segurou o brao de
Henrique e queria obrigal-o a retirar-se da igreja.

Henrique resistia e procurava falar.

O velho Torquato, trmulo e enfiado, puxava tambem por elle como podia.

O alarido, a confuso, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido a
cabea, e do pulpito animava a anarchia, berrando e bracejando.

Alguns homens prudentes, e entre elles o santo homem de um cura que
havia na freguezia, obrigaram, quasi  fra, Henrique a sair da igreja
por a porta da sacristia.

Ao vl-o retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou-se em
confuso para a porta principal, para os vir esperar  sada da
sacristia, e correu clamando atordoadoramente.

E de feito, quando alli chegaram, viram-se em frente de uma impenetravel
parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de
braos que os ameaavam, e de bcas d'onde partiam gritos de morte aos
pedreiros livres, aos libertinos e aos herejes.

Magdalena recuou; Christina encostou-se-lhe ao hombro, quasi desmaiada.

Henrique parou  porta, pallido, mas sem recuar deante d'aquella gente
furiosa e ameaadora.

--Que querem de mim e d'estas senhoras?--perguntou elle, com voz firme.

Em vez de responder-lhe, berraram com mais violencia:

--Morra o pedreiro livre!

--Ensinem esses senhores da cidade!

--Pouca vergonha!

--Isto no fica assim! Isto  de mais!

--Mao!

--Hereje!

--Quero passar!--repetiu Henrique, no mesmo tom imperioso.

--Havemos de ensinar estes fidalgos.

--Excommungados!

--Havemos de lhes dar os risinhos na egreja.

Henrique no podia j reprimir a impetuosidade do genio; deu um passo
para elles, levantando o chicote que trazia na mo.

Era uma imprudencia perigosa. N'um momento uma verdadeira nuvem de
varapaus cruzou-se sobre a cabea d'elle.

E os gritos de morra! mata! abaixo os pedreiros livres e herejes!
levantaram-se mais ameaadores do que antes. Magdalena susteve, a
tremer, o brao de Henrique.

E o tumulto crescia cada vez mais e cada vez mais augmentava o perigo.

Uma grande pedra, impellida de longe, veio bater na verga da porta da
sacristia, e na quda ameaava ferir a cabea de uma creana que,
entremettendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira collocar-se junto
de Magdalena, e de olhos espantados assistia quillo tudo com infantil
curiosidade, emquanto a me afflicta a chamava em altos gritos,
procurando-a no adro. A morgadinha, estendendo as mos para proteger a
cabea da creana, foi ferida nos dedos pela pedra. Com gesto sereno, e
em tom desaffectadamente reprehensivo e ao mesmo tempo placido, disse
para toda aquella gente:

--No vem que iam matando esta creana?

Esta simples aco, e estas palavras da morgadinha, produziram mais
effeito do que todos os arrazoados e todas as resistencias. Havia
n'ellas claros indicios de uma indole generosa, e a generosidade foi e
ser sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e commover as
massas. Sabem-o os especuladores politicos, que tanto se esforam por
simulal-a, quando precisam do povo.

--Quem foi que atirou a pedra?--perguntou um.

--Temos tolice!

--Nada de pedra, ol!

--Ento isto  coisa de garotos!

Estava a quebrar-se a furia da onda popular. Os que antes gritavam
morra achavam j reprehensivel a primeira tentativa de lapidao. E
comtudo era a pedra a arma mais prompta para executar a sentena. Era
evidente que o maior perigo passra e que um pouco de prudencia
resolveria a crise.

O peor era que Henrique possuia em pequeno grau essa qualidade, e,
irritado pelo insulto, ia commetter talvez algum acto irreflectido,
apesar dos esforos de Christina e de Torquato para o reprimirem.

Uma circumstancia, porm, veio inesperadamente em auxilio d'elles, e
concorreu para dissipar a tempestade.

Foi o caso que, depois de ser posto fra da igreja o Z-P'reira, que,
pelas razes que o leitor j sabe, e inda mais depois do mallogro da
interpellao ao missionario, no olhava com bons olhos para este, veio
desconsoladamente sentar-se no adro, sobre os degraus de um cruzeiro,
tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento das suas glorias, e que
ainda n'aquelle dia servira  frente da procisso.

Ahi se conservou em quanto durou o sermo. Junto do artista deitra-se a
dormir o seu satellite, o rapaz do bombo, o que, a passadas compassadas
e valentes, secundava os rufos rapidos e febris que o outro executava na
caixa--pancadas que eram, por assim dizer, as virgulas d'aquelles
floridissimos periodos acusticos.

Em posio de cansao e desalento o Z P'reira monologava, como era
habito seu, sempre que tinha o cerebro repassado do espirito familiar.

Lamentava comsigo, o bom do homem, o desmazlo domestico da sua cara
metade; a influencia funesta dos missionarios na paz das familias, e
sobre tudo a indifferena que principiava a perceber nas massas para as
maravilhas do predilecto instrumento, que elle conhecia a preceito.

Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortelo.

Desde que, por influencia do mestre Pertunhas, se instituira a
philarmonica na aldeia, Z P'reira andava triste e desassocegado.

N'aquillo viu elle a morte da sua arte. Um _ceci tuera cela_, como o que
preoccupava e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris,
analogamente inquietava o nosso homem. O espirito e gsto publico
entravam em nova phase, preparava-se uma revoluo na arte. O reformador
era o mestre Pertunhas; instituindo a banda marcial, verdadeira
extravagancia romantica comparada  simplicidade e nobreza classica dos
portentosos rufos do Z P'reira, o mestre de latim realisou um
commetimento digno de meno na historia da arte.

Pobre Z P'reira!

Estas reflexes estavam-lhe acudindo todas, e mantinham-o, havia perto
de uma hora, em uma posio contemplativa deante do tombado instrumento
de seus ruidosissimos triumphos. Lia-se n'aquelles olhares fixos uma
melancolia quasi poetica.

N'esta contemplao o surprehendeu a tumultuosa e subita sada do povo
pela porta da igreja, e as scenas de motim que se lhe seguiram. A
intelligencia prra de Z P'reira no achou logo a explicao do que
via. Pouco a pouco porm os varapaus no ar, os gritos, a confuso,
principiaram a dar-lhe uma vaga consciencia da desordem popular.

Os instinctos ordeiros e pacificos de Z P'reira acordaram, e o homem
ergueu-se.

Olhou algum tempo para o logar do maior tumulto, e em seguida passou ao
tiracollo a ala do tambor.

Olhou outra vez, e com um pontap acordou o seu satellite, que,
estremunhado, tomou automaticamente para si o bombo do acompanhamento.

Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Magdalena. Ento o Z
P'reira no esperou mais nada, tomou uma resoluo, fez um signal ao
rapaz, e...

_Pom_--fez a baqueta d'este, caindo com toda a fra sobre a retesada
superficie do bombo.

_Taplo, taplo, rataplo, rataplo_...--responderam as baquetas movidas
pelas amestradas mos do Z P'reira.

Muitas cabeas de amotinados voltaram-se na direco do som.

O Z P'reira proseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo das
baquetas; comeava a ganhal-o o vapor do enthusiasmo.

Principiou a acudir o povo para junto do artista.

Este tomra-se j do _raptus_, do phrenesi musical. J no eram s as
mos, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabea que rufavam. De
olhos fechados, dentes ferrados nos labios, ventas offegantes,
contrahidos quasi tetanicamente os musculos do pescoo, a vergal-o para
traz, Z P'reira parecia endemoninhado. No via, no ouvia, no sentia,
no tinha consciencia de si, nem dos seus actos; todo elle era fogo,
delirio, convulso, febre, loucura. Parecia que poderosas correntes
electricas se transmittiam do tambor ao cerebro, e do cerebro ao tambor,
desafiando aquelles movimentos choreicos, aquelles grunhidos surdos,
aquellas visagens extravagantes, aquellas contraces geraes, que o
torciam, desconjunctavam e desfiguravam.

Vencera-o completamente a febre; sangue, nervos, musculos, cerebro, tudo
era dominio seu; congestionado, allucinado, louco, rufou, rufou, rufou
com desespero, rufou at as baquetas se no avistarem, de rapidas que se
moviam; rufou at o ouvido quasi no perceber a descontinuidade dos
sons; rufou finalmente at cair por terra exhausto, no collapso que
succede s convulses do espasmo. Se tinha de ser aquelle o declinar de
uma gloria, todos os astros lhe invejariam to esplendido crepusculo.

O povo inteiro applaudiu o artista.

E quando voltaram a si do extase em que elle os tivera, acharam j
fechadas as portas da sacristia e nem vestigios da familia do Mosteiro.
O povo dispersou pacificamente.




XX


Passados dias voltava o Herodes do Porto, quando nas proximidades da
aldeia encontrou alguns homens a cavallo, que lhe eram desconhecidos.

O leitor que tenha sempre vivido n'uma cidade populosa, onde lhe 
impossivel conhecer todos os que com elle habitam na mesma terra, mal
pode fazer ideia da sensao que produz no habitante de uma aldeia,
villa ou cidade pequena, a presena de uma cara estranha.

Formam-se-lhe logo no espirito mil conjecturas, e a mais inquieta
curiosidade instiga-o a decifrar a significao d'aquelle apparecimento.

Isto aconteceu com o Cancella.

Desde que avistou os desconhecidos, que dissemos, no tirou mais os
olhos d'elles. Eram tres em numero, traziam grandes botas, e largos
chapos, mantas ao hombro, usavam bigodes e lunetas escuras.

--Passaros de arribao...--pensava o Herodes comsigo--que vento traria
isto para aqui?

E, chegando-se mais de perto, saudou-os cortezmente.

Um d'elles dirigiu-lhe a palavra:

--Ol,  amigo, onde ha por aqui uma casa habitavel, em que nos
alojemos?

--Por pouco ou por muito tempo, meu amo?

--Por o tempo que levar a construir uns quinze kilometros de estrada.

--Ah! ento v. sr.^{as} so engenheiros?

--Julgo que sim.

--Ento, visto isso, as estradas sempre vo principiar?

--Antes de arranjarmos casa em que fiquemos, de certo que no.

--Ai, sim, querem uma casa... Eu lhes digo, no tem nada que saber; os
meus amos vo por ahi sempre a direito, e l adeante, chegando ao p de
uma oliveira, tomam  sua mo esquerda por um caminho estreito, que tem
uma cancella no fim; depois, logo que virem uma nora, carregam 
direita, seguem sempre ao lado de um muro branco, at chegarem  eira;
ahi tomam por um outro atalho, que est ao lado e vo dar a um
larguinho... Depois no tem que saber, deitam pela rua em frente e
perguntando alli pela estalagem da Mouca, logo lhe dizem.

Os tres cavalleiros olharam uns para os outros, consternados com a
explicao.

Iam a dirigir mais algumas perguntas, quando passou por alli uma
rapariguita, guardando porcos, que parou pasmada a olhar para os
engenheiros.

--Se v. s.^{as} querem, esta pequena vae ensinar-lhes o caminho.

Acceitaram contentes, e cdo partiam, precedidos por a pequena cicerone.

--Grande novidade!--ficou dizendo o Cancella comsigo--sim, senhor; com
que vo principiar as estradas! Pois nunca cuidei que fsse nos meus
dias. Ento... querem vr que sempre sae certo o que eu ouvi dizer, que
vae abaixo a casa e o quintal do tio Vicente?... Pois se querem vr... O
pobre homem estala de paixo, se isso assim ; isso  com certeza...
Pois, senhores... isto de estradas...  bom, ; pois no ? Sempre 
outro arranjo para quem tem de ir  cidade...

Nova surpreza esperava o Herodes n'este regresso aos lares. De longe
ainda, divisou affixado  porta da igreja um edital. Outra circumstancia
que nas cidades nem nos obriga a desviar a cabea, porm que nas aldeias
toma as propores de um grande successo.

--Ui! Temos novidade--disse o Herodes ao vl-o.--Edital  porta da
igreja!--e approximou-se para ler.

Proclamava o chefe do concelho aos seus administrados que, por ordens
terminantes do governo, eram, desde aquella data, expressamente
prohibidos, sob as mais severas penas, os enterramentos no interior da
igreja, e que todos se fariam no cemiterio, para esse fim j construido.
Havia no logar um grupo de populares commentando a ordem e murmurando
contra o governo e contra o conselheiro, e falando de opposio e motim.

--Bom, mais outra!--dizia o Herodes, ao apartar-se do logar.--Grandes
coisas se passaram c na terra, emquanto eu andei por fra! O peor  que
no sei se a coisa ir assim s mos lavadas; ao que j ouo por ahi
rosnar!...  o diabo!... Eu digo, no sei se  do costume em que uma
pessoa se pe... mas... lembrar-se, a gente de que fica assim  chuva e
ao sol... Mas  do costume, ... Bem sente l uma pessoa o frio depois
de morta.

E fazendo estas reflexes proseguiu no seu caminho.

Passou por uma pequena capella, erecta  borda de um pinheiral, sob a
invocao da Virgem da Esperana, e reteve-se a fazer orao. quella
imagem costumava encommendar a filha, sempre que saa da aldeia, e no
regresso pagava-lhe em fervorosas oraes a proteco obtida, e
separava-se d'alli mais consolado e tranquillo. D'esta vez, porm, ficou
triste e sobresaltado. Porqu?

 que se lembrra de que tinha, ao partir, deixado Ermelinda doente, e
estremecia agora na incerteza de como a iria achar.

Esta ideia fel-o apressar o passo, como se quizesse, quanto antes,
tirar-se d'aquella incerteza; mas desde que avistou os telhados e muros
da casa parou irresoluto.

Parece que os objectos inanimados nem sempre teem para ns um mesmo
aspecto. Ha occasies em que as casas, as arvores, os muros, as portas,
se nos mostram com certos ares melancolicos, e quasi direi pensativos,
que nos enchem de sombras o corao; outras em que umas apparencias de
sorrisos lhes do uns ares de festa que alegram e convidam.

Ao Herodes apparecia-lhe triste d'esta vez a casa, que de ordinario, ao
avistal-a, lhe enviava um sorriso a dar-lhe as boas vindas.

Seria o effeito das tintas desmaiadas, que d aos objectos o sol
crepuscular? Seria o reflexo dos presentimentos proprios, que lhe
estavam confrangendo o corao? Mas como lhe acudiram to de subito
esses presentimentos, a elle, ainda pouco tempo havia to
despreoccupado! Como lhe occorrera de repente a memoria d'aquelle dia em
que, voltando tambem de fra, viera encontrar quasi morta a mulher, que
chorava ainda, a me de Ermelinda? Phenomenos que se perdem na parte
obscura da vida moral, da qual ainda a analyse no conseguiu devassar as
sombras.

Crescia o sobresalto do pobre homem ao pousar os ps nos primeiros
degraus da escada de pedra. Ao passar pela porta do compadre, no tivera
coragem de perguntar; receiou sair da incerteza.

Foi quasi a tremer que empurrou deante de si a porta da casa, que
encontrou aberta.

Logo ao entrar, recuou espantado e no reprimiu uma exclamao de
surpreza.

Fra a causa o achar novidades na primeira sala.

Deu com os olhos n'uma fileira de pequenas cruzes de pau preto que
cercavam as paredes, e em alguns caixilhos com imagens de santos, que
no deixra alli ao partir. E ninguem a recebel-o.

--Crdo!--disse o Cancella, desgostoso.--Para longe o agouro! Cruzes
negras  chegada! So coisas da comadre. Maldita velha! Jurou metter-me
scisma em casa e na cabea da rapariga, e se no lhe
acudo...--Ermelinda!--exclamou, chamando por a filha.

Como no recebesse resposta, passou para os aposentos interiores.

 entrada do corredor descobriu uma pequena pia de loua cheia de agua
benta, em que mergulhava um ramo de alecrim.

--Mau!--disse o Herodes, cada vez mais descontente.--Vou vendo que a
minha comadre fez por aqui das suas. Ora queira Deus... queira Deus...
Ermelinda!

E correu toda a casa, que no tinha muito que correr, e explorou o
quintal, e sem achar a filha; j inquieto, chegou a um quarto mais
retirado, o unico que ainda no revistra. A porta estava fechada por
dentro, porm a pquena cravelha fraca resistencia oppoz  presso que
na porta exerceu o Herodes.

Franqueando assim a passagem, parou no limiar.

Moveu-se, ao ruido que elle fez, um vulto que parecia ajoelhado n'um
canto escuro do quarto.

--s tu, Linda? Ests ahi?--perguntou o Cancella, affirmando-se
n'aquelle vulto, sem ainda o reconhecer,

--Meu pae... respondeu com voz fraca.

--Que fazes tu aqui mettida e fechada n'este quarto, filha? no quarto
mais escuro e mais abafado de toda a casa? Chega-te c, rapariga,
quero-te abraar e beijar... Ento que  isso?... Tens hoje to pouca
pressa de abraar teu pae?... D'antes, at ao caminho me vinhas
esperar... Vem c, minha filha, vem c... Se soubesses como me
consola...

E estendia os braos para a filha, que lhe viera emfim ao encontro.
Quando, porm, a viu mais perto da luz, calou-se subitamente e
principiou a examinal-a com inquieta anciedade. Depois, como se lhe no
bastasse a luz d'aquelle recinto para desvanecer no sei que suspeitas
assustadoras que o devoravam, trouxe, silencioso ainda, a filha para o
corredor, e continuou ahi a fital-a com os olhos eloquentes de paixo e
de espanto, bradando emfim, com voz consternada:

--Que  isto!... Que tens tu, filha?... Ests doente? Estas no so as
tuas feies... Os olhos pisados... as faces abatidas... sem cr... sem
risos... sem saude!... Linda, tu que tens? Dize: choraste, filha? Ests
doente? Fala! Anda, fala!... por piedade!... por amor de Deus, Linda,
fala!

A rapariga, em vez de responder, desatou a chorar.

--Meu Deus! Isto que , meu Deus?--exclamava, mais assustado, o
pae.--Choras ainda mais? Que te fizeram, filha?  Linda, tu no tens
pena de mim? no chores!... Ou chora, chora, se te faz bem chorar;
mas... fala, dize-me o que tens, dize-me por que choras, filha... Ento?

E com voz trmula, com as mos unidas e o susto no gesto, como no
corao, o pobre homem quasi ajoelhava a implorar da filha a explicao
d'aquelle doloroso mysterio.

Como ella no respondesse ainda, continuou o afflicto pae, cada vez mais
commovido:

--Ai os presentimentos do meu corao! No sei o que me dizia isto! No
sei! Meu Deus, meu Deus! E como te pareces com tua me n'aquelle dia em
que... Nem quero imaginar...  filha, filha, no vs que me matas assim?
Fala!

E beijava-a e afagava-a, e cobria-a de lagrimas ardentes, que mais
lagrimas desafiavam  creana, sem que a fizessem falar.

Nos movimentos desordenados que fazia, o desgraado parecia louco. Elle
apertava as mos da filha, levava-as aos labios, abraava-a, tomava-a ao
collo, pousava-a no cho; ora a attrahia a si, ora a afastava, sem saber
o que fizesse, n'essa incoherencia de actos que produz um espirito
inquieto.

Como para melhor examinar aquellas feies queridas, cujo abatimento e
pallidez tanto o assustavam, afastou da fronte da creana, com as mos
trmulas, o leno que lhe envolvia a cabea; mas de repente retirou-as,
soltando um grito medonho, ergueu-se e recuou com terror.

Depois, fitou a filha com olhar desvairado, e, sem pronunciar uma
palavra, quasi que a arrastou para mais perto da luz, que entrava no
corredor pela porta aberta do quintal; ahi, arrancou com impeto febril o
leno da cabea de Ermelinda; um novo grito, mas d'esta vez rouco,
abafado pela dor, cortado pelos soluos, sau-lhe do seio, e elle, o
desgraado pae, desatou a chorar como uma creana.

 que aquelles formosos cabellos louros de Ermelinda, que com tanto amor
beijava, que com tanta soberba lhe desatava pelos hombros, o orgulho, o
enlevo do seu corao de pae, aquelles cabellos louros haviam cado aos
golpes de uma tesoura desapiedada e quasi irreverente.

S quem fr pae pode conceber toda a desesperadora afflico em que esta
descoberta lanou o corao d'aquelle.

Ermelinda caiu-lhe aos ps, de joelhos, chorando tambem.

Por algum tempo, nada mais se ouviu alli dentro seno os soluos de
ambos.

A reaco no se fez, porm, esperar muito no animo violento do
Cancella.

Afastou com vivacidade as mos do rosto, ergueu a cabea, e, com os
olhos inflammados de raiva e de clera, disse para a filha, tremendo e
gaguejando, tal era a impetuosidade dos sentimentos que se lhe
amontoavam no corao:

--Quem foi?!... Responde! De quem foi essa mo atrevida que fez isto?...
Fala! No ouves? Quero sabel-o, para cortal-a mais rente do que te
deixou os cabellos... E tu, desgraada, tu, consentiste! M filha, filha
desagradecida e sem corao, que assim deixas que me roubem as minhas
riquezas e alegrias! A teu pae!...  assim que pagas o amor com que te
tenho creado?... a adorao com que de pequenina te tratei?  assim? 
com este desamor?! e com esta ingratido?!

--Meu pae! meu pae!--implorava Ermelinda, suffocada pelo
pranto.--Perde! No se affiija assim, meu pae, que me mata! No v?...
Escute... Para servir a Deus... foi para servir a Deus que eu os
cortei... A vaidade  um peccado grande.

--Quem te ensinou isso?... Quem te aconselhou a que os cortasses?
Fala!...

--Por alma de minha me, no me fale assim, que me assusta!

--V! Pois j no falo... Eu estou socegado... Mas ento? eu no hei de
saber?... Bem vs que eu precso de saber!... V!... Eu sou teu pae.
Ordeno... Peo... Dize, filha, quem foi?

--O missionario...--ia a dizer Ermelinda.

O pae no a deixou proseguir.

--Ah! J sei! O missionario!  isso! Os padres... as beatas... tua
madrinha! A bruxa a quem eu confiei a filha e que m'a entrega assim!
Vendeu-m'a s mos d'esses malvados sem d, sem consciencia, sem
religio, sem Deus...

--Meu pae, no diga isso! No fale assim, que  peccado.

--Cala-te que grande, maior peccado fizeste tu, affligindo assim teu
pae! Os missionarios! Quem lhes deu o direito? Quem lhes ordenou...
Deus? Se Deus  assim, se Deus quer estas crueldades... Deus no  Deus,
e eu no o reconheo nem adoro!

Ermelinda tremia de terror, ouvindo estas palavras, que a irritao e o
desespero estavam dictando ao pae. A timida e nervosa creanca
horrorisava-se, ouvindo aquellas phrases audaciosas, e quasi blasphemas,
e a cada momento esperava vr cair um raio fulminador a castigal-as.

--Por amor de Deus--murmurava ella, com a voz chorosa e quasi
sumida--por alma de minha me!...

--Cala-te! no fales em tua me, que no mereces dizer esse nome! Tua
me! Aquella sim, que sabia como eu lhe queria; que sempre lidou para me
no causar penas, e que s com a sua morte me fez chorar lagrimas, to
amargas e tantas, como eu choro agora!

E chorava cada vez mais, chorava, como um fraco, aquelle homem forte e
valente, chorava, porque tinha um corao de pae.

Ermelinda lanou-se-lhe nos braos, cobrindo-o de afagos e beijos.

--Perde-me, meu pae! perde-me!--dizia ella.--Se soubesse... Fui eu que
pedi... Fui eu que sonhei... No chore assim, meu pae! No culpe
ninguem, fui eu, eu que pedi a minha madrinha!... Foi por a salvao da
minha alma, porque...

--E foi tua madrinha que t'os cortou?

--Foi, mas...  que o missionario tinha dicto... O missionario  um
santo!... No olhe para mim d'esse modo, meu pae, que me faz mdo.

E cobria os olhos com as mos, para no ver a expresso do rosto do
Cancella.

--Querem matar-me a filha--bradava elle.-- meu Deus! pois no  isto um
grande peccado? fazer da creana, linda e alegre, que eu deixei aqui,
esta desgraada rapariga, sem cr, sem risos, sem alegria! No  isto um
crime, meu Deus? No se vos pode amar e servir, Senhor, seno com
lagrimas, com penitencias e com tristezas? No! Mentem elles! mente esse
missionario! mente essa mulher! mentes tu, filha! e maldicto seja quem
traz assim o desespero ao corao de um pae.

E o Cancella levantou-se exasperado, sacudindo rudemente de si a filha,
cada vez mais gelada de terror e afflico. Deu alguns passos no
corredor, e voltou ao quarto onde a encontrra. Ella seguiu-o de mos
postas, chorando, pedindo-lhe que se no affligisse assim. Mas o
Cancella era dominado pela impetuosidade do seu genio. Nem a ouvia. De
repente, parou, fitando os olhos no registo do Corao de Maria, que
alli fra introduzido por a mulher do Z P'reira. Estava adornado com
jarras de flores e vlas de cra; era a esta imagem que Ermelinda fazia
orao, quasi extatica, quando o pae entrou.

--Corao de Maria!--disse o Cancella, quasi desvairado, conservando a
vista fixa na imagem, e como falando para si.--Corao de me, e de me
extremosa, que foi esta, e bem lanceada de dores. Soube o que  querer a
um filho, o que  vl-o padecer... o que  perdel-o... E ser ella a que
deseja as lagrimas, as tristezas e a morte d'esta creana?... as
desventuras de um pae?... Ella! No! E se tu o queres--continuou
allucinado, voltando-se para a imagem--e se no podes ser adorada seno
assim,  porque s falsa, falsa como a mo que ahi te pintou, falsa como
as bcas que te prgam os milagres. Vae-te!

E no accesso de raiva, que cada vez mais crescia n'elle, fez voar o
caixilho, as jarras e os castiaes pelo ar, e tudo veio fazer-se pedaos
no pavimento.

Ermelinda soltou um grito dilacerante e agudissimo ao vr aquillo. O
terror seccou-lhe as lagrimas. Com o olhar espantado, as faces quasi
lividas, as mos juntas, quiz falar, mas no pde; moviam-se-lhe os
labios descrados, mas no lhe saa a voz da garganta.

Cada vez mais cego pelo desespero, o pae j no a attendia. Passou outra
vez ao corredor, derrubou, em igual accesso de furia o vaso da agua
benta, bradando:

--Vae-te, que ests empestada tambem pelo bafo maldicto da impostura.

Ermelinda lanou-se-lhe aos ps, abraou-o pelos joelhos para o reter,
mas elle no a sentia, e, continuando a caminhar desorientado, quasi a
levou de rastos  outra sala.

Ahi, imagens, cruzes, esculpturas, tudo lanou por terra, tudo
despedaava ou rasgava.

N'este impeto de loucura, n'esta cegueira de raiva, no viu a filha que,
como se galvanisada pelo terror, ergueu-se arquejante, com os braos
estendidos, fazendo esforos para falar, e caindo por fim no pavimento
inerte e fria como um cadaver.

Attrahida pelos gritos e rumor que partiam da casa do Cancella, a
madrinha de Ermelinda acudiu a vr o que era aquillo.

Chegando ao limiar da porta, assistiu ainda ao final da scena que
descrevemos; ia a gritar, mas o olhar e gesto com que a fitou o Cancella
cortou-lhe a fala na garganta.

Era de facto um olhar selvagem e sinistro.

A sr.^a Catharina parou.

--Que vem fazer aqui, mulher?--dizia-lhe o Cancella com voz cavada.

--Eu...

--Vem acabar de matar-me a filha, serpente? Vem empeonhar estes ares,
onde metteu a tristeza?

E, a cada pergunta que fazia, dava para ella um passo e ella recuava
outro.

Crescia outra vez a impetuosidade nas paixes e nas palavras do Herodes.

--Saia! saia da minha vista, se no quer que eu lhe faa como fiz a
esses feitios com que me enfeitiou a filha, com que m'a quiz matar.

A velha ganhou animo ao vr-se fra da porta e por isso disse:

--L se v quem a matou. Repare e diga se no tem remorsos, carrasco!

Estas palavras fizeram quebrar a vehemencia do desespero do Cancella.

Voltou-se, e vendo a filha estendida no cho, quasi como morta, com a
pallidez, com a immobilidade, com a apparencia de um cadaver, correu
para ella, soltando um grito angustioso, e principiou a chamal-a pelo
nome, beijando-a, chorando, pedindo misericordia a Deus, pedindo perdo
a ella, soltando palavras sem nexo, arrepellando-se, ferindo-se.

A velha, que j no o temia, ao vl-o assim, vingava-se agora
chamando-lhe impio, hereje, malvado, assassino da filha, condemnado de
Deus... e elle, o desgraado, tudo escutava humildemente, com remorsos,
e implorando misericordia.

--No! ella no ha de morrer-me assim... Deus no pode consentir n'isto.
No deixar que eu tenha assassinado minha filha. Ah! senti-lhe o
corao!... vive!... senti-lhe o corao bater... Olhe! venha vr...
pouse aqui a mo, comadre, no peito d'ella, aqui... No sente?  o
corao, no ? No lhe parece que no morreu? Ar, ar,  do que ella
precisa.

E erguendo-se, correu, com a filha nos braos, para o meio da rua.

Ermelinda ainda estava sem accrdo. Juntaram-se algumas mulheres,
attrahidas pelo espectaculo e pelas arguies da beata, que no cessra
de falar.

Foi voz unanime que a pequena estava a expirar. O Cancella tremia e
pedia por amor de Deus que lhe no dissessem aquillo.

Subitamente, soltou um grito de triumpho e poz-se a rir como doido.
Ermelinda tinha aberto os olhos.

Mas, ao fital-os no pae, instinctivamente desviou a cabea, como se o
aspecto d'elle lhe causasse terror.

--Filha! disse o Cancella, tremendo de interpretar aquelle gesto e com
maior consternao na voz e no olhar.

Ermelinda, sempre com os olhos fechados, comeou a tremer
convulsivamente e n'uma anciedade extrema.

--Deixe a pequena!--disse a beata--no v que lhe faz mdo? E com razo,
pobre creana! depois do que viu!

--Pois eu hei de fazer mdo a minha filha?--repetiu timidamente o
pae.--Eu?!  Ermelinda... pois tu...

Um estremecimento, que correu pelos membros da rapariga, fel-o calar.
Commovido, consternado, passou-a para os braos da velha, e sentou-se a
soluar como uma creana, dizendo entre gemidos:

--Perdi o amor de minha filha! perdi o amor de minha filha! Ai que
desgraado que eu sou!...

A scena era bastante commovente, para que se no sentissem
impressionadas todas as pessoas que ella attrahira alli.

Houve um longo silencio, s interrompido pelos roucos soluos do
infeliz, em quem entrra o desespero no corao.

Este silencio permittiu ouvir-se um vago som, como de musica longinqua,
que, a pouco e pouco, se percebeu ser um cro de vozes femininas; cdo a
toada e depois da toada a lettra, principiou a tornar-se distincta.

Ouviram-se perfeitamente estas palavras:


  Vinde, vinde,  missionarios,
  Com a palavra de Deus
  Libertar-nos do peccado,
  Encaminhar-nos aos cos.


O Cancella ergueu a cabea e poz-se a escutar.

As vozes continuaram:


  Minha alma por vs anceia,
   ministros do Senhor!
  E o meu peito em chammas arde,
  Em chammas do vosso amor.


O Cancella principiou a abanar a cabea, e os olhos animaram-se-lhe de
um fulgor extranho.

O cro soava cada vez mais perto, e dentro em pouco desembocou na rua,
em que se passavam estas scenas, um singular cortejo.

O missionario, que ns j conhecemos, por o termos visto em pleno
exercicio de suas funces predicatorias, vinha seguido por uma cohorte
de mulheres de roupas escuras e cabellos cortados, que cantavam em
chorada cantilena estas e analogas quadras, que os missionarios ou os
agentes seus teem quasi sempre o cuidado de vulgarisar como
preparatorios dos animos impressionaveis das mulheres e das creanas.

Ia em meio uma d'estas quadras, quando se approximava a procisso da
casa do Cancella.

Este j estava em p no meio da rua,  espera d'ella.

O missionario viu aquelle homem grande e immovel no meio do seu caminho,
aquelle agigantado vulto que, virado de costas para o poente, se lhe
apresentava escuro como um phantasma, e no conjecturou bem do que via.
Por isso parou tambem, olhando para elle. O cro suspendeu-se.

O Cancella fitou por algum tempo em silencio o padre, e perguntou-lhe:

--Sabe quem sou?

O padre fez um signal negativo com a cabea.

--Sou um homem desesperado, um homem que, n'este momento, nem ouve Deus.

O padre olhou inquieto para traz de si e para os lados, como quem
procurava uma sada para caso de necessidade, pois dizia-lhe a razo que
um homem que no ouve Deus no estaria muito disposto a escutal-o, a
elle, humilde creatura.

--Sabe o que lhe quero? Perguntar-lhe por a alegria e por a saude de
minha filha; perguntar-lhe por o amor d'ella, que me roubou;
perguntar-lhe a que demonio offereceu os cabellos d'aquella creana sem
culpa nem maldade; perguntar-lhe com que veneno lhe envenenou o corao,
e depois... depois matal-o.

O padre enfiou; ia a abrir a bca para falar, mas viu caminhar para elle
o Cancella, viu no ar aquella mo musculosa e larga, e, calculando a
violencia do embate pelo volume do brao, julgou-se de antemo esmagado,
e s pde encolher os hombros, fechar os olhos, contrahir comicamente as
feies, e suspender a respirao, aguardando n'esta postura o golpe,
que no podia evitar.

Este de facto no foi suave. A mo do Cancella cau em parte sobre o
cabeo, em parte sobre o pescoo do padre, e com tal fra, que este
foi constrangido a ajoelhar.

--Anda, meu impostor do inferno!

E uma forte sacudidela o impelliu para deante e restituiu de novo 
primeira posio. O chapo rolou a alguns passos de distancia.

--Anda, meu envenenador de almas!

Nova sacudidela seguida de iguaes resultados; e os oculos seguiram o
caminho do chapo.

--Anda, meu calumniador de Deus!

E d'esta vez o Cancella principiou por collocar o padre em p, e aps,
dando-lhe um forte impulso e soltando-o das mos, deixou-o ir  merc da
fra transmittida.

O padre estendeu os braos instinctivamente para se amparar na quda
provavel, e, p aqui, p acol, a passos descommunaes, escapou
miraculosamente de cair, porm no conseguiu parar seno a muitos metros
de distancia.

Escusado  dizer que esta scena no correu entre o silencio dos
espectadores. Mal o Cancella levantou a mo sobre a cabea do padre, as
beatas ergueram um alarido de atroar co e terra.

--Aqui d'El-rei!

--Aqui d'El-rei sobre o Herodes!

--Aqui d'El-rei, que matam o sr. fr. Jos!

--Quem acode ao sr. fr. Jos?!

--Ai, que matam o santinho do missionario!

E estas e outras vozes pipilavam, uivavam e chiavam aquellas esganiadas
mulheres, sem que o zelo religioso as decidisse, porm, a intervir mais
activamente.

A celeuma attrahiu gente, e, no numero, alguns cabos de policia, que, em
cumprimento de seus deveres, se acercaram do Herodes, mas com respeito.

Este, porm, no oppoz resistencia.

Tinha-lhe passado a furia e voltou-lhe o desalento.

Assim deixou-se levar em priso, acompanhado das imprecaes das beatas
e dos gritos de indignao dos homens.

As devotas mulheres correram para o missionario.

Umas levavam-lhe o chapo, outras os oculos, outras o capote.

--Magoou-se, sr. fr. Jos?

--Doe-lhe alguma coisa?

--Feriu-se?

Mas o padre no se demorou a informal-as. Limitou-se a abanar com a
cabea negativamente e deitou a correr, como se visse atraz de si ainda
a mo espalmada do Cancella, prompta a cair-lhe outra vez sobre a
cabea.

Quando o Cancella chegou a casa do regedor, j a multido engrossra e
em altos gritos pedia o castigo do criminoso.

O regedor tinha a precisa finura para saber condescender com a multido.
In continenti, redigiu um officio ao administrador, no qual foi to
feliz que escreveu tres palavras com boa orthographia; e, falando s
turbas, disse que estavam dadas as providencias, e que o crime havia de
ser punido com todo o rigor das leis.




XXI


O acto violento do Cancella, contra a pessoa do missionario, foi
assumpto das conversaes geraes de toda a aldeia. Era com indignao
que se commentava a faanha. Dizia-se que o Cancella fra apenas o
instrumento de que se servira a gente do Mosteiro para se vingar do
padre, pela occorrencia da tarde do sermo.

Os adversarios do conselheiro aproveitaram o ensejo que se lhes
offerecia para lhe alienarem sympathias e tentarem um cheque, pelo qual
havia muito suspiravam.

O missionario e os seus ardentes sequazes fram dos mais acerbos
propugnadores d'estas ideias, que reforavam com muitas accusaes, de
hereticos e de impios, contra todos os membros da familia do
conselheiro.

A politica viu n'isto uma arma favoravel para combater o adversario, e
no a desprezou; depois, veio a portaria a respeito do cemiterio,
manifestamente devida  iniciativa do pae de Magdalena, e
impopularissima na aldeia, augmentar a irritao dos animos e servir de
thema a uma violenta diatribe do missionario contra a impiedade da
poca, que nem aos fieis concedia a santa consolao de repousar 
sombra dos templos.

Tudo isto comeou pois a fomentar uma reaco contra o conselheiro, a
qual ameaava o resultado da sua candidatura.

No pequena parte n'esta guerra surda, que principira a lavrar, tomava
o seu companheiro de infancia e particular amigo o brazileiro Seabra.

Nunca elle sentira entranhada no corao metade da bem-querena que
apparentemente ostentava para com o conselheiro: mas depois de uma
conferencia que tivera com mestre Pertunhas tornra-se mais manifesta a
sua hostilidade e menos observadora de etiquetas e rebuos.

Foi elle, por exemplo, quem teve o cuidado de lembrar que a familia do
conselheiro estava de posse de bens religiosos; circumstancia que o
missionario attendeu, clamando do pulpito contra os delapidadores dos
bens da Igreja.

Foi tambem o brazileiro quem trouxe  flor de agua os antigos excessos
demagogicos, que caracterisaram o principio de carreira politica do
conselheiro, e referira, com modos de horrorisado, a substancia dos
exaltados discursos que elle proferira nas camaras, advogando ideias
cuja s exposio ferira de pavor a imaginao dos povos.

Finalmente, at o principio dos trabalhos para as estradas, cujo
protrahido adiamento fra at aquelle tempo um capitulo de accusao
contra o pae de Magdalena, servia agora de arma  opposio.

O brazileiro, em atteno a quem se adoptra o traado que ia ser posto
em execuo, era o que provava  saciedade com grande exhibio de
cifras e de razes economicas, ser esse traado, sobre dispendioso,
irracional.

E cumpre advertir que estes argumentos ouvira-os elle ao proprio
conselheiro, quando este os allegava para vr se conseguia demovel-o do
empenho que mostrava em que o traado em questo fsse preferido aos
outros. Tal era o estado das coisas publicas na terra no dia em que
principiaram os primeiros trabalhos de campo.

Tinham-se passado alguns dias depois da priso do Herodes.

A aldeia vira-se invadida por um bando de sres desconhecidos, que
vieram alterar a perenne serenidade de animo de uma populao habituada
a considerar como occorrencias de maximo interesse a reforma dos muros
ou das cancellas de qualquer proprietario da localidade.

A cohorte de engenheiros, conductores, apontadores, cantoneiros e mais
operarios vinha, com seus habitos e costumes novos, fazer tantas ou
maiores mudanas na vida moral da aldeia do que nas condies physicas
d'ella as bandeirolas, os niveladores, as enxadas, as ps, alvies,
picaretas, carros de mo e padiolas, de que era armada essa cohorte.

Por isso corria uma verdadeira romagem para o logar onde com a maior
actividade tinham comeado os trabalhos. Era como j dissemos, na casa
do herbanario. Pela demolio d'ella, e do quintal que a rodeava,
principiaram as obras.

O velho Vicente assignra dias antes o auto de expropriao e recebera o
preo da venda, estipulado, o qual, por influencia do conselheiro, no
lhe foi muito regateado.

Elle, porm, o desconsolado velho, recebeu-o comovido. Por as arvores
nada quiz; no podia resignar-se a vendel-as. Podia vl-as cair, como
amigos sacrificados no cadafalso, mas mercadejar-lhes com os restos,
isso no.

O desinteresse e o escrupulo do herbanario serviu  Fazenda Nacional de
compensao ao excessivo preo por que fram expropriados os bens de que
o brazileiro se apossra, com o patriotico intuito de promover os seus
melhoramentos particulares, preo que por empenho do conselheiro no foi
litigado.

Ao principiarem os trabalhos, alguns grupos populares tentaram resistir,
mas refrearam-se, em parte pelo respeito devido  cohorte de operarios
melhor armados do que elles, em parte cedendo s imperiosas ordens do
herbanario, que, ao sair pela ultima vez da casa, onde envelhecera, lhes
disse, com voz irritada e severa:

--Quem lhes pediu que defendessem estas arvores? Que amor lhes tendes
vs, para vos amotinardes por causa d'ellas? Para traz!

Os instigadores das massas conheceram que no era aquella a occasio nem
aquelle o pretexto proprio para os seus projectos, e adiaram, em vista
d'isso, a empresa prudentemente.

Era ao fim da tarde de um dia ennevoado e frio, de um d'esses dias em
que os animos mais fortes se deixam dominar de uma melancolia profunda.

Na baixa em que ficava a habitao do herbanario, ia uma azafama
extraordinaria.

O machado demolidor e a alavanca principiaram a sua obra de destruio;
desconjuntavam-se as pedras dos muros, desfazia-se em p a argamassa
secular, caam a golpes de machado as vigas dos tectos e os troncos das
arvores, alastrava-se de tijolo e calia a verdura dos taboleiros, e
cdo, de toda aquella vivenda to amena e virente, s restavam ruinas.

Numerosos grupos de j pacificados espectadores seguiam com curiosidade
as operaes de devastao; mas, longe d'alli, a maior distancia do que
os indifferentes, assistiam ao espectaculo os unicos olhos que elle
orvalhava de lagrimas, o unico corao que elle devras apertava de dor.

O herbanario foi sentar-se na encosta de um outeiro vizinho, d'onde se
divisava toda a scena. Com a cabea pousada na mo e o brao apoiado
sobre o joelho, com voz commovida, dizia adeus a cada arvore, que d'alli
via vacillar e cair, como se fsse um amigo que o precedesse no tumulo.
Parecia ter fugido para longe, para pelo menos no lhes ouvir o estertor
da agonia.

Ao lado do velho estava Augusto.

No era tambem sem tristeza que elle seguia os progressos da demolio.

Mais do que uma vez tentra arrancar o herbanario d'aquelle sitio. O
velho, porm, resistiu; queria estar alli at vr cair a ultima arvore.

Ao pinheiral d'onde assistia  scena, chegava em confuso o alarido dos
trabalhadores, o rumor do manobrar dos instrumentos, e at o da quda
das arvores cortadas.

O herbanario sempre que via brilhar o machado sobre uma nova arvore,
recordava sentidamente algum episodio do seu passado, a que ella estava
ligada.

--L vae aquella faia!--dizia elle, com intensa melancolia--pobre velha!
Era  tua sombra que meu pae me ensinava a ler! Encostava-se quelle
tronco sobre a grossa raiz que elle tem  flor da terra e pegando em mim
ao collo, guiava-me nas primeiras lies! E viver eu para te vr cair!

E, ao perceber-lhe balanar as sumidades, o velho fechou os olhos
instinctivamente. Cdo ouviu um estrondo... Quando os abriu, estava por
terra a faia.

--Agora  a tua vez, pobre carvalho!--dizia algum tempo depois--muito
queria minha me quella arvore! Por suas mos a plantou bem tenra.
Nunca me sentei quella sombra, que me no lembrasse da santa mulher!
Parecia que eram vozes tuas, que m'a recordavam, infeliz! Barbaros! Olha
com que desamor a decepam! Perda-me, meu velho amigo, mas bem vs que
te no posso valer.

E o carvalho cau.

--Eil-os agora comtigo, cerdeira. Mal adivinhavas tu, quando o anno
passado te enfeitavas com aquellas cerejas escarlates, que tanto
cubiavam as creanas, que pela ultima vez o fazias!... Adeus, pobre
amiga, adeus.

E caa a cerdeira tambem.

E caam, uma aps outra, todas as arvores do quintal, os limoeiros, as
nogueiras, os salgueiros e toda a familia vegetal do velho Vicente, que
sentia ir-se-lhe com ella a alma. Memorias de infancia, sonhos de
juventude, e reminiscencias de velho, como aves invisiveis, occultas nas
copas d'aquellas arvores, surgiam agora, espavoridas e desnorteadas, a
procurar o refugio que no encontravam fra dalli.

Por outro lado os delicados sentimentos do herbanario eram dolorosamente
feridos, ao desmoronarem-se as paredes d'aquella pequena casa, onde elle
envelhecra e contava morrer, e ao patentear-se indiscretamente aos
olhos irreverentes e curiosos do povo aquelle recatado asylo.

A demolio proseguia com ardor e actividade. Em pouco tempo, s
restavam da casa os muros, meio derrocados; e, no quintal, a serra e o
machado principiavam a exercer no tronco da ultima arvore a sua obra
destruidora. Era o castanheiro da entrada, gigante de outro seculo, que
desafira os raios de muitos invernos successivos.

A exaltao do herbanario cresceu n'aquelle momento. Ergueu-se, pallido
e trmulo, apoiou-se no hombro de Augusto, murmurando:

--Tambem o castanheiro! J era arvore quando eu nasci! Como elles se
encarniam contra elle! Mas no te parece, Augusto, que no soffre muito
o castanheiro?... Sabes?  que elle j no agradeceria a vida, porque
tinha de viver assim desamparado dos seus outros companheiros, que v
cados no cho... Tarda-lhe talvez o deitar-se ao lado d'elles...  como
eu.

O castanheiro principiou a oscillar.

--Repara--disse o herbanario, cada vez em tom mais baixo, e apertando o
brao de Augusto.--Elle j treme! No vs!... L lhe deitam a corda...
Vae cair!... Parece-me que estou a sentir aquelle estalar de fibras...

E a arvore cau com fragor no cho, que por tanto tempo cobrira de
sombras.

Estava ultimada a obra.

O herbanario encostou a cabea ao hombro de Augusto e rompeu em soluos.

--Ento, tio Vicente, tenha animo--dizia-lhe Augusto, igualmente
commovido.

--Se tu soubesses, Augusto, o que eu estou sentindo! Olhar para acol e
no ver em p uma s das arvores que eu conheci em pequeno! Parece-me um
sonho isto, um sonho de afflico! Sinto-me to s no mundo! Ai! se a
morte me ferisse agora!

A dor, a saudade e o desalento davam uma unco de poesia elegiaca 
figura, ao gesto e s palavras do velho, que desvanecia tudo o que
n'elle pudsse haver, nas situaes ordinarias da vida, capaz de
desafiar um sorriso nos labios de quem o observasse friamente.

Conceda-se uma lagrima a estas obscuras victimas dos progressos
materiaes, lagrima que no importa uma ironia  civilisao. Exalte-se
embora a rapida carreira da locomotiva, que atravessa, como meteoro, as
povoaes e os rmos; mas no seja isso motivo para condemnar a
compaixo pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagada 
beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a
cumprir, e o seu triumpho seja uma obra de redempo, o vencido, desde
que ce, tem direito a um olhar compassivo, a uma lagrima de saudade.
No tenteis a louca empresa de anniquilar o sentimento, espiritos ridos
que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida  vossa alma scca
e esteril. Quem devras confia nos destinos da humanidade no tem mdo
das lagrimas. Pode-se triumphar com ellas nos olhos.

Passado algum tempo, e quando j as sombras da noite se condensavam nos
valles e subiam lentamente as encostas dos outeiros, o velho disse para
Augusto:

--Agora que no tenho casa, d-me por alguns dias o abrigo da tua.

--Por alguns dias?--repetiu Augusto, admirado.--Pois quer deixar-me
depois!

--Quero. Vou com ellas.

E apontou, ao dizer isto, para as arvores derrubadas.

Atravessaram a aldeia  hora a que vibravam nos ares os sons
melancolicos das Av-Marias.

Em silencio chegaram a casa de Augusto, agora commum para os dois.

--Mettes em tua casa um triste hospede, pobre rapaz!--disse o
herbanario, ao transpor o limiar.--M companhia te far a minha velhice.

--Boa companhia me faz sempre a sua amizade, tio Vicente. Nem a sua
presena podia desalentar quem na mocidade  mais fraco e desalentado do
que ninguem o pode ser na velhice.

--Custou-me muito este golpe de hoje! No contava com elle! Desde hontem
envelheci muitos annos. Podes crl-o.

Quando Augusto ia a replicar, interrompeu-o uma voz que dizia de fra da
porta:

--Do licena?

E no limiar appareceu a figura do mestre Pertunhas, animada de cordiaes
sorrisos.

O herbanario e Augusto no reprimiram um gesto de impaciencia.

O homem entrou.

--Ora Deus seja aqui! To grande  o dia como a romaria, sr. Augusto!
Ainda ninguem o viu hoje!... Disseram-me que tinha ido de manh para
casa do tio Vicente; vou l... estava um mundo de gente no sitio... Mas
qual sr. Augusto, nem tio Vicente! Ento com que escorraaram-n'o do seu
ninho?... Pobre homem! A falar verdade, n'essa idade! J sei que vem
para casa do nosso Augusto. Hontem vi para ahi entrar os fardeis. Ainda
bem que o temos por vizinho... Faremos boa camaradagem... Olhe que
tambem fizeram-n'a fresca com o tal projecto de estrada! Uma coisa
assim!... Coisas c do sr. conselheiro! Vae-se fundir um dinheiro na
tal estrada! E j por ahi se rosnam coisas! Emfim, politicos! politicos!
Todos so os mesmos... Vae por ahi uma poeira dos meus peccados com a
ordem a respeito do cemiterio; e com a historia do Herodes! Sabem que
elle esteve hontem para matar o missionario?... E valha a verdade, dizem
que por ordem de alguem do Mosteiro... Que eu no acredito, mas emfim,
aquella historia no sermo do outro dia... E o tal sr. Henrique, que 
unha e carne com elles... Elle ser muito boa pessoa, mas no me
calha... L feliz, isso como no sei de outro, com dinheiro e sem
cuidados! E sempre se faz o casamento d'elle com a morgadinha?... Ouvi
dizer que sim.

O herbanario levantou os olhos para fitar Augusto; a apparente
impassibilidade d'este no illudiu o velho.

O Pertunhas no se exgotra ainda:

--Ora agora, quem anda fulo  o brazileiro, o Seabra. Pelos modos, eu
no sei o que ahi houve; o conselheiro no o tratou muito bem, dizem,
n'uma carta que escreveu ao ministro, ou creatura do ministro. Umas
historias muito complicadas, que eu no entendo, mas que promettem dar
de si... Veremos em que ficam as eleies este anno... O conselheiro bem
pode trabalhar, seno... Elle cuidava que era s apresentar-se, e
emquanto a fazer vontades... Que me dizem do sr. Joozinho das Perdizes?
Ser fiel esse? J me disseram tambem que...

-- sr. Pertunhas,--atalhou o herbanario, enfastiado--antes queremos no
saber. Importa-nos pouco a politica.

--Esto como eu... Isto tambem no  politica, mas emfim... Pelo que
vejo esto canados? Eu tambem no os mao mais... E antes que me
esquea, ha muitas horas que estou de posse de uma carta para vossemec,
tio Vicente.  de Lisboa, veio por o correio de hoje. No lh'a mandei a
casa, porque... no sabia o que era feito d'ella. Eh, eh, eh... Mas como
o vi passar, conjecturei que viria para aqui, e por isso...

O herbanario recebeu a carta, que o mestre Pertunhas lhe deu, e olhando
para o sobrescripto, disse com indifferena:

-- do Manoel.

E abriu-a lentamente.

O mestre de latim deixou-se ficar, na esperana de ouvir novidades.

A meio da leitura o herbanario ergueu-se com impeto e exclamou, cheio de
indignao e de colera:

--Mentiu-me como um vil! Mentiu-me aquelle homem sem dignidade nem
sentimentos! Aquelle homem importa-se menos com a felicidade dos amigos,
com a justia das causas e com a voz da propria consciencia, do que com
os caprichos e interesses dos poderosos com quem vive!

--Mas que ?--perguntou Augusto, sem atinar com a significao
d'aquellas palavras.

--L.

E passou a carta para as mos de Augusto.

O conselheiro participava n'esta carta ao herbanario que se vira
obrigado a ceder, na questo do despacho de Augusto, a fortes
influencias que se empenhavam n'isto muito mais do que elle julgava; que
mais tarde lhe explicaria tudo. Quanto a Augusto, accrescentava elle,
talvez fsse isto at uma vantagem; que o logar que pedia era a sua
annullao perpetua, e que elle, conselheiro, havia de luctar contra a
grande modestia do rapaz, trazendo-lhe  luz os merecimentos reaes,
dando-lhe melhor collocao, e que esperava ainda empregal-o na capital.

Era uma carta toda de homem politico, que tudo espera da diplomacia.

Ao acabar de ler, Augusto disse, com um sorriso amargo nos labios:

--Eu sou pouco ambicioso; contento-me com morrer aqui.

--A mim me deu elle, ao partir, a sua palavra de que te faria despachar,
e breve; e quebrou-a como um prro! Oh! o que fizeram d'aquelle homem!

--Qu?! Pois  possivel?--perguntou, exaggerando a sua consternao e
espanto, o officioso Pertunhas.-- possvel que o sr. Augusto no fsse
despachado?!

E dizendo isto, passou a desfiar uma srie de consolaes, qual d'ellas
mais tla e sem cabimento.

At que emfim, tendo j novidades para contar, e almejando communical-as
aos frequentadores da taberna do Canada, onde devia estar reunida grande
e luzida assembleia, o Pertunhas saiu, a pretexto de no ser mais tempo
incmmodo, e deixou-os outra vez ss.

--Esto-me guardados para o fim da vida todos os desenganos! todas as
amarguras! todos os desesperos!...--disse o herbanario momentos
depois.-- para se odiar o mundo e os homens vr um, que conhecemos
generoso e innocente, contaminado tambem!... Pobre Augusto! No basta
que sejam modestos os teus desejos... nem assim t'os deixam realisar.

Guardados alguns momentos de silencio, continuou, com amargo sarcasmo:

--Por que te no fazes politico? Por que no vaes tambem para a taberna
do Canada dizer tolices sobre a governana do paiz? Talvez levasses
comtigo alguns tlos, e tinhas n'isso uma recommendao poderosa. Olha
para aquelle basbaque do morgado das Perdizes... ahi tens um
influente... Imita-o... Mas dize: o que tencionas fazer?

--Ficar--respondeu Augusto, com firmeza.

O herbanario fixou-o com um olhar penetrante.

--Ainda?... Mas... no te vae ser suave agora a vida, rapaz. Para se
viver no basta uma... uma loucura. Repara bem. Se quizeres... O Manoel
 leviano, mas creio que ainda no perverso; eu lhe escreverei... talvez
que em Lisboa...

--No lhe escreva. Sabe que no partiria para Lisboa...

--Mas... repara!... Ests muito novo, Augusto... Tens um longo futuro
deante de ti. E, ficando, o que te espera?...

--A morte que fsse, a morte de miseria e de fome, ficava. Mas resta-me
ainda o trabalho. Tenho coragem para acceital-o.

O herbanario baixou a cabea, pensativo.

Soaram n'isto  porta da sala duas pancadas lentas.

O herbanario fez um gesto de enfado.

--No abras sem eu sair,--disse elle a Augusto, que se erguera--no
estou de animo para aturar importunos.

E passou para uma sala contigua.

Augusto foi abrir ao novo visitante.

Achou-se na presena do brazileiro Seabra.

A grave personagem entrou pausada e sisuda, como homem que sabe fazer
valer a honra que dispensa, visitando um rapaz sem dinheiro.

Augusto offereceu-lhe cadeira para se sentar, sem inquirir do motivo de
to inesperada visita. O brazileiro sentou-se e principiou:

--Acabo agora mesmo de saber da injustia que lhe fizeram. Senti-a como
se fra propria, e venho aqui declarar-lh'o.

Augusto curvou-se, em signal de agradecimento.

--Mas ento que quer?--proseguiu o homem.--Hoje em dia  tudo assim.
Padrinhos e mais padrinhos, e o mais so historias. Estamos n'uma poca
de corrupo e de immoralidades, e ninguem sabe onde isto ir parar.

Augusto ouviu em silencio os threnos do capitalista, que proseguiu:

--Tlo  quem no faz como os mais. O mundo est para os velhacos.

Parou, assoou-se, tossiu, e puxando a cadeira para mais perto da de
Augusto, continuou, em tom differente e mais baixo:

--Quando um homem tem uma gotta de sangue nas veias no pode receber as
offensas e ficar-se com ellas assim. O perdo evangelico  muito bonito,
mas no  para homens. No lhe parece? Eu por mim no gsto de genios de
lama. Falemos como amigos. Ns ambos somos victimas de um mesmo homem. O
sr. Augusto foi enganado e escarnecido por o conselheiro, que se
apregoava seu protector. Ahi temos a proteco que elle lhe deu. Eu
tambem lhe devo finezas.

--V. s.^a?--perguntou Augusto, que no podia saber o que lhe queria no
fim de tudo o brazileiro.

--Eu, sim, senhor. Eu lhe digo como isto foi.

E o brazileiro, puxando a cadeira, approximou-se mais de Augusto, e deu
principio  exposio dos seus aggravos:

--O conselheiro, que joga em politica com pau de dois bicos, andou-me a
causticar, para que eu acceitasse um titulo qualquer... Queria fazer-me
visconde por fra. Coisas de que eu me estou rindo... Mas... emfim,
para me livrar d'aquelle importuno, disse-lhe que... fizesse l o que
quizesse... Pois, senhores, no teve o petulante o atrevimento de
escrever ao ministro, com quem, apesar de se dizer da opposio, mantem
aturada correspondencia; no teve a audacia de lhe dizer que eu andava
sonhando com viscondados, e que a minha mania era attendivel, pois
promettia ser uma fonte de melhoramentos locaes muito baratos ao Estado,
visto que com to pouco me contentava, e outras coisas n'este gsto? O
petulante!...

Augusto, apesar dos pensamentos pouco alegres que o preoccupavam,
luctava para se conservar srio perante aquella indignao do sr.
Seabra.

--Mas tem a certeza d'isso?--perguntou elle.--s vezes so calumnias...

--Eu vi a carta do ministro em resposta a esta; do ministro no, mas do
secretario, que  o mesmo... Um acaso fez com que ella me chegasse 
mo... O ministro fazia-me o favor de me conceder o titulo; mas era de
parecer que, por cautela, se tirasse antes de mim tudo quanto eu pudsse
dar, porque... porque... por umas tolices de que eu me lembrei a
tempo... Ora ahi tem como elles so!... Que venham para c com os seus
melhoramentos... Eu lh'as cantarei; prometto-lhes que se ho de
arrepender.

--Mas... talvez haja equivoco.

--Equivoco? Ora essa! Pois eu no li a carta? Ella ha de apparecer em
publico; oh! se ha de! Isto , no a parte que me diz respeito,
porque... porque emfim so negocios particulares, que no interessam a
terceiros; mas umas ultimas linhas d'ella, umas promessas do ministro,
que pem a calva  mostra a este Cato, que nos anda aqui a prgar
liberdade e independencia! Isso ha de apparecer, e ha de ser lido com
muita vontade.

--Acaso tenciona?...

--Se tenciono?! Pudra no! Eu lhe afiano que o homem ha de saber com
quem se metteu. Deixe vir as eleies, deixe-as vir. J ha de achar o
caldo azedado, quando quizer comel-o; isso lhe prometto eu... A lio ha
de leval-a breve.

--Vo guerrear a eleio do conselheiro?

--Fao essa teno.

--E quem lhe oppem?

--O candidato que a auctoridade propuzer; um individuo de Lisboa.

--Que nem o circulo conhece?

--Que importa?  uma lio. Aqui no ha politica nem meia politica. Eu
no morro pelo governo, porque eu tambem fui offendido pelo ministro.
Mas  preciso aproveitar tudo. E assim temos por ns a auctoridade, alm
dos padres.

Augusto no se sentia com disposies para discutir esta questo
politica; por isso nada mais lhe replicou.

O Seabra proseguiu:

--O que eu quero saber  se o amigo quer entrar na nossa alliana e
acceita uma proposta que eu lhe vou fazer. A vingana  o prazer dos
deuses, e visto que foi tambem offendido...

--No, senhor, no acceito--acudiu com vivacidade Augusto.

--Escute. Deixe-me concluir. No sabe do que falo. Pouco se exige. A
coisa  esta: na carta a que me referi, e que por acaso me chegou s
mos, fala-se n'uma outra, ou em outras anteriores, em que se tratava,
mais por miudo, de uma curiosa transaco politica que n'esta se revela
claro. O conselheiro  pouco acautelado; haja vista ao extravio d'esta,
e por isso...

Augusto olhava admirado para o brazileiro, como se no pudsse
comprehender onde elle queria chegar.

O Seabra proseguiu:

--Ora, a mim lembrou-me... como o senhor vae muito pelo Mosteiro... sim,
porque julgo que contina a ensinar os pequenos, e, j se sabe... como
mestre, entrando a qualquer hora no mais intimo da casa, sim... demais
como a D. Victoria ... um tanto descuidada, como todos ns sabemos...
No sei se me percebe?... Dizia eu... sim, que se s vezes, por acaso,
encontrasse coisa que valesse...

Augusto levantou-se, indignado.

--Sr. Seabra!--exclamou, cheio de clera.

--Valha-me Deus, eu no quero dizer... No me entendeu... Bem v que se
o senhor devesse obrigaes ao conselheiro, eu no ousava... Mas...

--Obsequeia-me muito, sr. Seabra, se no insistir...

--Entendamo-nos. O senhor est no principio da vida. Precisa do auxilio
de alguem. Offerece-se-lhe occasio para fazer servios ao governo, que
 finalmente quem pode pagal-os; e que se lhe pede para isso? Quasi
nada... O senhor sabe perfeitamente que se no trata aqui de desgraar
ninguem, de levar ninguem  forca.

--Visto que v. s.^a insiste, sou obrigado a retirar-me.

--Espere, sr. Augusto--acudiu o brazileiro, segurando-o.--Repare no que
faz. No seja precipitado. Eu estou prompto a fazer alguns sacrificios,
se vir que nas suas circumstancias...

--Visto que v. s.^a no se cala, nem quer que eu me retire, oua ento o
que tenho para lhe dizer. A sua proposta seria para mim o maior dos
insultos, se no fsse tal a baixeza d'ella, que at despe de toda a
imputao a pessoa que a faz. Os homens, faltos de sentimentos de honra,
no offendem, quando insultam; no se lhes pode pedir razo da infamia,
porque no a conhecem como tal; identificaram-se com ella. Por isso, s
me resta um partido,  convidal-o a sair.

O brazileiro fra erguendo-se  medida que Augusto falava. Estava
espantado por vr que um rapaz, sem um vintem de seu, ousasse falar com
tal irreverencia a um homem que tinha dinheiro e crdito em tantos
bancos! A ordem do mundo estava perturbada!

--Ora esta!--disse elle no fim.--Ento o senhor ordena-me?...

--Que saia!--respondeu Augusto, indicando-lhe a porta.

O brazileiro estava pasmado. Olhou para Augusto como se duvidasse do que
ouvia; deu dois passos para a porta e tornou a olhar, seguiu outra vez,
e, no limiar, parou para dizer:

--Veja l o que faz! Eu s lhe digo que me no convem dar a minhas
filhas um mestre de soberbas.

--Decerto que lhe no poder convir a educao que eu dsse a suas
filhas;  natural no querer educar consciencias que sejam juizes da sua
corrupo. Deixe-as ignorantes, para no ser castigado pelo desprezo
d'ellas.

--Quer ento dizer...

--Que lhe desejo muito boas noites, sr. Seabra.

O brazileiro saiu, bufando.

Augusto, que ficra s, sentiu-se apertar nos braos de alguem que
entrou, sem elle sentir.

Era o herbanario.

-- assim,  assim que te vingas de todos, rapaz! Esmaga-m'os com a tua
nobreza!

Augusto sorriu-se tristemente.

--O peor , meu amigo--disse elle--que  a segunda subtraco que hoje
se opra no meu oramento, e... a nobreza no nutre!

--Mas consola!--replicou o velho.




XXII


Dias depois das scenas descriptas no anterior capitulo, estava a
morgadinha occupada a escrever n'uma das salas do Mosteiro, quando ouviu
atraz de si correr o reposteiro da entrada.

Julgando que era algum criado, nem se voltou e proseguiu na escripta.

--Retiro-me, se sou importuno--disse a pessoa que entrra, e que ficra
no limiar da porta.

Magdalena voltou-se ento e reconheceu Henrique de Souzellas.

--Ah!  o primo Henrique? Pode entrar.

--Eu sei? Ha correspondencias to delicadas, que demandam a applicao
de todas as nossas faculdades, e a presena de um importuno...

--Mas no se d agora esse caso; nem quanto  delicadeza da
correspondencia, nem quanto  importunidade do visitante.

--Ento utiliso-me da concesso.

--Occupava-me a escrever quelle pobre Cancella, para o tranquillisar em
relao  filha. Pobre homem! Ainda se lhe no pde obter fiana, apesar
de meu pae tratar d'isso, a pedido meu. Ha quem trabalhe contra elle. E
como ha de ter padecido na cadeia na incerteza em que est? Quem ha de
dizer que n'aquelle corpo, robusto e forte, se aloja uma alma de to
delicados sentimentos? Inda lhe hei de mostrar a carta que elle escreve
a pedir-me que trouxesse para o Mosteiro a filha, e a tirasse de casa da
madrinha, que com o seu fanatismo a perdeu...  um modelo para seguir.

--E como vae a pequena?

--Mal. Estou aqui a mentir, fazendo conceber quelle pobre homem
esperanas, que eu mesma no tenho.

--Que disse o cirurgio?

--Nada animador.

--Como capitulou a molestia?

--No sei qu de cerebro; nem eu quiz saber. Nunca pude comprehender a
necessidade que tem certa gente de conhecer a natureza da doena que
lhes ameaa roubar uma pessoa querida. Perdel-a ou salval-a,  a questo
que me interessa. Tudo o mais me  indifferente. N'uma pessoa doente
vejo um espirito que hesita entre deixar-me e permanecer. Aos medicos
peo que removam, se podem, aquillo que o faz partir, mas no quero
saber o que . Julgo natural ao sentimento o considerar assim a molestia
e a morte.

-- maneira da arte, ainda que hoje o diagnostico entrou na litteratura,
prima. Mas a proposito do Herodes; deixe-me dizer-lhe que est sendo
muito commentada na aldeia a violencia d'elle contra o missionario. 
voz constante que fizera aquillo por influencia nossa, e as honras
d'aquella bem empregada sva so-nos tambem concedidas inteiras. Imagine
o clamor que por ahi vae!

--Deixe clamar--respondeu Magdalena, encolhendo os hombros.

--Deixo, deixo. Eu sou odiado como um Lucifer, feito homem; seguem-me,
quando eu passo, uns olhos rancorosos, e adivinho que na ausencia no
sou muito bem tratado.

-- bom acautelar-se. No os irrite. Viu que no era prudente.

--No receie. Esta gente a final  cobarde.

--Tanto peor. O inimigo cobarde  mais para temer. Bem sabe. Foi uma
desastrada ideia aquella da nossa ida ao sermo do missionario.

--Parece-lhe? Eu no estou arrependido. Bastava-me, como recompensa, o
ter presenciado o accesso de furor rabico do homem.

--Vamos, primo Henrique; confessemos que a situao no foi das mais
agradaveis.

--Sinto-a, principalmente por o incmmodo que tiveram as senhoras e
talvez por esse episodio dar vigor  opposio, que alguem por ahi se
interessa em organisar contra o sr. conselheiro.

--Ah! pois trata-se d'isso?

--Se se trata?! E muito sriamente. A portaria a respeito do cemiterio,
a historia do sermo, e agora o episodio do Cancella, teem feito um
grande mal.

--Oh! se meu pae perdia!...

--No entendo essa exclamao, prima Magdalena. Ia jurar que era a
expresso de um desejo.

--E por que no? Se isso fsse motivo para meu pae abandonar de uma vez
para sempre a politica, pedil-o-hia a Deus.

--Conhece pouco ainda o corao humano, prima. Seu pae est votado 
politica para toda a vida. Desengane-se. E se o prendesse n'esta aldeia,
aqui mesmo faria a mais deploravel, impertinente e inutil de todas as
politicas, a politica local.

A morgadinha suspirou, como se reconhecesse a verdade que Henrique
dizia.

Henrique proseguiu:

--Est organisado um club opposicionista na taberna de um tal Canada. O
brazileiro capitaneia a phalange, os padres so os tribunos e a
propaganda estende-se assustadoramente.  preciso olhar por isto e
sobretudo no perder de vista o sr. Joozinho das Perdizes, cujo voto
seu pae tinha em grande conta, porque representa o de uma freguezia
inteira.  de suppor que o requestem muito e... o homem  fragil. J v,
prima, que eu tomo muito a srio os preceitos hygienicos, que me deu o
meu medico, quando parti de Lisboa, e que a prima approvou. Estou a
interessar-me pelas questes locaes, como se aqui estivesse, ha annos.

--E  um bom indicio de cura, pode crer.

--E ainda tem empenho de me curar?

--Empenho, todo; esperana  que menos.

-- meu Deus! que sinceridade de medico to cruel! Seja; escutarei a
sentena com coragem. Diga-me o que pensa de mim. Ha muito que no
falamos n'isto. A ultima vez que o fizemos, um tanto categoricamente,
foi n'uma occasio bem critica. Julgo que o meu procedimento de ento
at hoje lhe ter feito conceber do meu caracter um no muito
desfavoravel conceito. Bem v que no abusei...

--De qu?--perguntou Magdalena, contrahindo a fronte, n'um gesto de
altivez.-- certo que tem em todo esse tempo dado provas de discreo,
no que se mostrou mais contricto que generoso. Pelo menos  assim que eu
interpretei o seu silencio, e approvo-o em vez de agradecel-o.

--Seja contrico, visto que assim o quer. Mas no lhe merecer ella
alguma misericordia para com o peccdor?

--Escute. Sinto sincera misericordia de si, pode acredital-o. Ella s me
obriga a perdoar-lhe algumas impertinencias, nem sempre demasiado
delicadas, com que me mortifica.

--Est sendo to amavel!...

--Perde, mas a sinceridade tem d'estas exigencias.

--Curvo-me perante as exigencias da sinceridade. Continue, prima
Magdalena.

--Vae mais longe ainda a minha misericordia, porque apesar da rebeldia
do mal, inda no desisti de cural-o.

--Inda bem. E como? Ser-me-ha licito penetrar no segredo do tratamento?

--Ha j agora uma unica maneira de o salvar.

--E ?...

--Apaixonal-o.

--Ah! n'esse caso estou salvo!--exclamou Henrique, n'um impeto, que no
pde passar sem um sorriso da morgadinha.

--Oua.  preciso andar com tento na escolha do objecto d'essa paixo,
sob pena de aggravar o mal em vez de minoral-o.

--E como hei de escolher?

-De modo que lisonjeie a opinio que o primo tem de si proprio.

--A opinio que eu tenho de mim! Se pudsse ser mais clara...

--De boa vontade. O primo Henrique tem uma forte necessidade de
persuadir-se de que representa no mundo um grande papel, uma misso
heroica e generosa, quasi providencial. Exigencias de uma vaidade de boa
indole, que se lhe no pode levar a mal. Repugna-lhe a ideia da
inutilidade, da insignificancia da sua existencia. No se resigna ao
papel de comparsa, ambiciona o de protector. Se o acaso, ou uma
inconsiderao de momento, o associasse, por toda a vida, a um caracter
igualmente forte, que, em constante opposico, pretendesse provar-lhe
que prescindia da sua proteco, grandes desgostos e amarguras o
esperavam no futuro. Uma indole branda, docil, fraca, um d'estes seres
nervosamente delicados, que tremem ao verem-se ss, cheios de poeticas
supersties, que tenha a dissipar; que se lhe apoie ao brao, como se
n'elle encontrasse a coragem que no sente em si, e que, ao mesmo tempo,
domine pela fraqueza e pela doura, domine sem consciencia do imperio
que exerce e sem vaidade, portanto; um caracter d'estes  que deve
procurar para salvar-se; s d'elle pode esperar a realisao da vaga
ideia de felicidade, que todos concebem na vida.

--E se essa theoria engenhosa fsse verdadeira, parece-lhe que poderia
encontrar  mo o tal anjo salvador, que precisa do meu brao para se
apoiar?

--Julgo que pode, e que j o teria encontrado, se pensasse sriamente
nas necessidades do seu corao.

Henrique ia a responder, quando entrou na sala um criado com as cartas
do correio.

--Trgoas  nossa conferencia, emquanto eu leio a carta de meu
pae--disse Magdalena, examinando a carta recebida.

--Concedidas, e eu aproveito-as para correr a vista pelos periodicos que
chegaram.

E emquanto Magdalena lia a carta, Henrique passava pelos olhos as folhas
de Lisboa.

No tinham decorrido muitos instantes, quando a morgadinha interrompeu a
leitura, exclamando:

-- meu Deus! mas de que se trata? Que quer dizer isto?

Ao ouvir estas palavras, Henrique desviou para ella os olhos.

Viu-a agitada e lendo com vivacidade e commoo a carta do conselheiro.

--Ha alguma m nova?--perguntou Henrique, ferido por aquella expresso.

Antes, porm, de responder-lhe, a morgadinha seguiu com ardor a leitura
at o fim.

Henrique continuava a observal-a e cada vez mais evidentes descobria
n'ella os signaes de uma funda agitao. Ao findar a leitura, passou a
mo pela fronte como para desviar uma ideia amarga.

--Por amor de Deus, prima Magdalena, que diz essa carta, para assim a
perturbar?--perguntou Henrique, j assustado tambem.

--No sei bem; no posso ainda dizer a que se refere meu pae; mas
sinto-me interiormente sobresaltada, como se o adivinhasse.

--Mas a final o que se diz ahi?

--Leia, e veja se, melhor do que eu, pode comprehender esse enigma, por
certo doloroso.

Henrique examinou a carta, que a morgadinha lhe passou para as mos.

N'esta carta queixava-se o conselheiro  filha de ter sido victima de um
abuso de confiana commettido por alguem, que elle ainda no sabia dizer
quem fsse. N'um periodico de Lisboa fra publicada por aquelles dias
uma carta dirigida tempos antes ao conselheiro por no menor personagem
politica do que o secretario intimo do ministro.

O proprio conselheiro confessava ser esta carta demasiado
compromettedora, e assim tambem o demonstrava a excepcional irritao
que transparecia em todos os periodos, da que escrevra  filha. O
periodico que, para fins politicos, fizera a publicao, havia occultado
os nomes, porm muitas circumstancias referidas tornavam inutil a
discreo; e em Lisboa ninguem hesitou em aprontar as personagens entre
quem se passara o facto. Durante uma das suas demoras na aldeia,
recebra o conselheiro essa carta; alli, no seio da familia, a confiana
que depositava em quantos o rodeavam impediu-o de ser previdente, como
por hbito o era; facil foi portanto o extravio. O conselheiro dizia 
filha que era preciso descobrir o traidor, para evitar futuros abusos; e
por isso, que se lembrasse de que o alcance da carta no era para todos
comprehendel-o, e portanto no se limitasse a indagar entre os da baixa
classe. A vingana, concluia o conselheiro, de uma maneira mysteriosa,
como de quem deseja e receia, ao mesmo tempo, fazer uma alluso--a
vingana, bem ou mal fundada, obriga s vezes os mais nobres caracteres
a uma aco baixa e vil; entre os que por mim se possam julgar
offendidos,  natural encontrar o criminoso.

--Esclarea-me este mysterio! disse Magdalena, consternada.--De que se
trata aqui?

--Alguma correspondencia politica extraviada. Seu pae diz bem; 
necessario descobrir o traidor por cautela. Alm de que, para todos os
que, como eu, teem entrada n'esta casa,  isto um mysterio em que a
nossa honra est empenhada, porque v. ex.^{as} teem direito a alimentar
suspeitas.

-Por amor de Deus!--acudiu, interrompendo-o, a morgadinha.--No
pronuncie essa palavra! Suspeitas! Esse envenenamento moral, que eu at
aqui no conheci, quer meu pae que voluntariamente o contraia.

--Seja envenenamento, muito embora, mas  um envenenamento salvador,
prima, como o da vaccina;  um preservativo de traio.

--Viver para desconfiar! procurar nas palavras que se ouvem um sentido
occulto! nos gestos uma expresso denunciadora! nos affectos uma
inteno egoista! Oh! isto  horrivel! Mas... que carta  essa, meu
Deus? Que correspondencia pode ter meu pae, que no deva vr a luz do
dia? Meu pae!... Ha por fra illuso n'isto! Meu pae no tem crimes;
meu pae no tem aces que o envergonhem; meu pae pode franquear a todos
as portas da sua casa sem receiar-se de indiscrees. Pois no  assim?

--Por certo, prima; mas... na politica ha actos que... sem serem
criminosos...

--A politica! Sim,  isso! Eu devia prevr que essa palavra viria para
explicar este mysterio! Por politica -se cruel, por politica
sacrifica-se um amigo, por politica fora-se a consciencia, e depois...
ella justifica tudo. Que obras so as obras politicas que precisam da
sombra e do mysterio para se fazerem? Pois para dirigir ou salvar uma
nao, pois para se tratar dos interesses de um povo,  sempre
necessario o disfarce, a dissimulao, o mysterio?

--Quando se no pode contar com a boa f dos outros, perde sempre quem
fr escrupulosamente fiel  sua.

--Mais valeria ento abandonar por uma vez essa carreira cruel... Oh!
ainda agora reparo... Tem ahi as folhas de Lisboa... deixe-m'as vr...
quero saber que carta  esta.

Henrique procurou dissuadil-a. Um numero avulso de um periodico, que no
costumava vir ao Mosteiro, havia-lhe j feito suspeitar que era esse o
que publicava a carta em questo. No fazendo do conselheiro to subido
e ideal conceito como a morgadinha, achava muito natural que
effectivamente o comprometesse a carta alludida. Conhecendo bastante
Magdalena, sabia quanto seria cruel para o seu extremoso corao de
filha, e para o seu caracter apaixonado por tudo quanto era idealmente
nobre, generoso e justo, o descobrir no pae uma d'essas mculas
frequentes na vida dos homens politicos, por minima e desvanecida que
fsse. Por isso quiz evitar-lhe a leitura. No o conseguiu, porm.
Magdalena, com aquella firmeza de resoluo que energicamente se lhe
revelava na voz e no gesto, disse, estendendo a mo para receber os
periodicos:

--Deixe-me vr, primo Henrique. No  possivel que de meu pae se diga
ahi alguma coisa que no devam ler os olhos de uma filha.

E quasi arrebatou das mos de Henrique a folha, justamente aquella de
que elle mais receiava.

E, abrindo-a, examinou-a com anciedade quasi febril.

Henrique observava com curiosidade os movimentos e a physionomia de
Magdalena.

Viu-a tornar-se de repente mais attenta  leitura; os olhos, que at
alli vagueavam por diversas seces do periodico, fixaram-se n'um ponto;
contrahiu-se-lhe a fronte; um ligeiro tremor correu-lhe os labios; crou
e empallideceu alternadamente; e no fim, afastando de si a folha com um
movimento nervoso e apaixonado, exclamou, sob o dominio de uma commoo
profunda:

-- meu Deus! E no ter um corao, como o d'elle, a fra precisa para
fugir d'estes enredos! Isto  de enlouquecer!...

Henrique pegou na folha, que ella arrojou de si com impeto, e
examinou-a.

Tinha conjecturado bem.

O caso devia consternar Magdalena, para quem o conselheiro era um homem
to perfeito na vida politica e na vida social, como na vida de familia.
Para Henrique, em quem havia muito se inoculra o scepticismo da poca,
impedindo-o de divinisar os homens, por mais rodeados de prestigios que
lhe apparecessem, no tinha o facto de que se tratava grande
significao nem gravidade. O caso era o seguinte:

Tempos antes havia-se agitado nas camaras uma importante questo
politica; uma d'estas questes que servem para estremar os campos e
descriminar os programmas dos partidos. Vacillar n'ellas  j trahir os
principios fundamentaes de uma causa, e abjurar um credo politico
inteiro. O pae de Magdalena, militando no partido de mais avanadas
ideias liberaes, tinha de antemo traado por elle o caminho a seguir
n'esta conjunctura, o circulo, fra do qual no poderia combater sem
apostasia; mas, como j atraz dissemos, o conselheiro no era j o homem
que fra nos primeiros tempos da sua carreira publica; perdera a f nas
utopias e nos principios abstractos, e trocava-os de barato por qualquer
pequena vantagem positiva que pudsse obter, se no para si, para a
localidade de que era representante. A logica partidaria sacrificra-a,
sem remorsos, mais do que uma vez, ao que, em linguagem no sei se
parlamentar, se chama conveniencias politicas.

Dra-se mais um exemplo d'esta flexibilidade de principios no
conselheiro.

Comquanto membro da opposico, e dos mais temidos pela sua eloquencia,
variados conhecimentos e vigor de discusso, no era elle de to
espinhosa moral que no tivesse amigos no seio da maioria, sendo at o
proprio ministro um dos mais intimos. No tempo da discusso, de que
falamos, o ministro, que desejava afastar das camaras todos os
adversarios de importancia, no duvidou entrar em ajustes com o
conselheiro. Este, que j no era homem para repellir com indignao
taes factos, teve a astucia precisa para se aproveitar das
contingencias. Entenderam-se.

Chegada a poca da discusso, o conselheiro, que sempre se mostrou
ardente adversario da medida ministerial, e de quem se esperava uma
opposico vigorosa e efficaz, pretextou subitos negocios a chamal-o 
provincia, e partiu, promettendo voltar a tempo ainda de discutir a
questo.

Depois de chegar ao Mosteiro escreveu para os amigos, lamentando que
inesperados negocios de familia o retivessem alli mais tempo do que
contava, e alentando-os de longe  lucta. No entretanto, a questo foi
apresentada nas camaras: oradores tibios e mal escutados acharam-se ss
a combatel-a; apagadores officiaes e officiosos abafaram a tempo a
discusso; e, quando o conselheiro voltou a Lisboa, s pde protestar
nos circulos politicos contra o resultado da votao e expender as
razes que deveriam fazer repellir a medida.

Em recompensa eram concedidos melhoramentos para o circulo que o elegia;
e entre elles a estrada que vimos principiar. Tal fra o preo d'ella.

Tudo isto trazia agora  luz a carta desencaminhada, que era do
secretario do ministro, e que no seu contedo deixava vr claramente as
condies do pacto.

Esta publicao causou profunda sensao em Lisboa. A importancia
politica do conselheiro soffreu com isso.

Atacavam-n'o os partidarios do governo, para declinarem d'este, quanto
possivel, a responsabilidade do facto; atacavam-n'o os opposicionistas
declarados, para com o mesmo golpe ferirem o ministerio.

Os influentes politicos teem sempre no proprio partido, a que pertencem,
invejosos que s almejam o primeiro pretexto para os derrubarem, embora
caia com elles o partido a que se filiam.

Aquella carta foi, durante algum tempo, uma arma poderosa nas mos dos
taes; originou discusses e ataques violentos; e o conselheiro correu
risco de se malquistar por causa d'ella com gregos e troyanos.

Tudo isto se revelava ao espirito de Magdalena e tudo isto a
consternava. O seu muito amor filial fazia-lhe achar no facto uma
significao dolorosa e triste que s desilluses, como as de Henrique
de Souzellas, velhas desilluses de sceptico impenitente, poderiam
attenuar. O conselheiro expiava cruelmente o seu delicto.

A leviandade e doblez do homem politico pagava-a caro o homem de
familia.

 que a moral  uma. O homem no pode dividir-se; os peccados sociaes de
quem  virtuoso nos lares domesticos, pagam-se, expiam-se n'esses mesmos
lares. Os filhos que creou e educou segundo os preceitos da honra e da
virtude, sero mais tarde os seus proprios juizes, e que cruel
julgamento para o corao de um pae!  justo que a patria pea contas
dos crimes de familia e desconfie dos tribunos que no sabem ser paes,
filhos, irmos e esposos;  justo que a familia exija que se seja fiel 
prtica e s crenas que se professam, e castigue, pelo menos com
lagrimas, como as de Magdalena, as culpas do homem que julgou poder ter
duas consciencias: uma para responder por os actos civicos, outra para
os actos domesticos.

Henrique procurou minorar o effeito que esta leitura tinha produzido no
animo da morgadinha por meio de algumas consolaes, que uma indulgente
moral, muito do uso da sociedade, lhe inspirava.

Percebeu porm, que, embora as manifestaes do sentimento tivessem
cessado j em Magdalena, no se lhe tinha ainda dissipado a profunda e
penosa impresso que lhe ficra da leitura.

Como para fazer cessar aquelle genero de consolaes, a que Henrique se
julgava obrigado, e que a ella eram custosas de ouvir, Magdalena disse,
em tom j apparentemente sereno:

--Bem; visto que  necessario precavermo-nos, vejamos de quem e quaes as
cautelas que temos a adoptar. Meu pae parece suspeitar de alguem, mas
no se pronuncia claramente.

N'isto entrou na sala D. Victoria, carregada de roupa como para uma
viagem aos plos, e queixando-se do frio, cuja intensidade attribuia em
grande parte aos criados, por se terem descuidado de accender logo de
manh os foges da casa.

Quando D. Victoria foi informada do contedo da carta do seu cunhado,
levantou um alarido desolador. Por sua vontade ordenava logo alli um
interrogatorio e uma devassa geral a todos os criados da casa, aos
quaes, segundo o costume, attribuia a culpa toda. Magdalena e Henrique
tiveram muito que fazer para a convencerem da inutilidade e
inconveniencia d'esse alvitre e para lhe mostrarem a necessidade de usar
de toda a prudencia e dissimulao n'esta pesquisa.

--Aqui entre ns--dizia Henrique--vejamos em quem se pode, com
plausibilidade, fazer recahir as suspeitas. O sr. conselheiro diz bem;
um criado boal pode roubar uma joia, subtrahir qualquer objecto de
valor intrinseco; porm os ladres de cartas como estas, so de outra
especie e de intelligencia mais apurada. Ora entre a gente que frequenta
o Mosteiro...

E parando subitamente, Henrique disse para D. Victoria, que olhava para
elle com um gesto espantado:

--Porm, minha senhora, eu mesmo no me devo excluir da lista dos
indiciados, e n'esse caso deixo v. ex.^{as} livres para me instaurarem
processo.

--Ora essa, primo Henrique!--exclamou D. Victoria.--Era o que faltava!
Nada, nada; no se cance; no tem que vr. Aquillo foram os criados.

Magdalena estava to abatida de animo, que nem deu atteno a este
episodio.

Henrique proseguiu:

--Nada de magnanimidades, minha senhora; quem quer ser juiz a ninguem
deve excluir da possibilidade de ser ro. O sr. conselheiro, porm,
alguns indicios nos aponta. Fala, por exemplo, vagamente, de alguem que
n'estes ultimos tempos se pudesse considerar offendido por elle, e que
por vingana... Ora actos capazes de trazer estas animadverses a seu
pae, prima Magdalena, s a questo do cemiterio, mas essa no importa a
ninguem que tenha entrada aqui... Ha tambem as das expropriaes,
porm...

Henrique parou, como se lhe tivesse acudido uma ideia, que examinava,
antes de enuncial-a.

--Tive agora um pensamento diabolico; nem quero attendel-o.

--Diga, primo, diga--acudiu logo D. Victoria.

--A expropriao da casa do herbanario... O muito amor que o velho tinha
quella vivenda... A repugnancia com que viu cortar aquellas arvores
velhas...

--Ento julga que foi o Vicente?--perguntou D. Victoria.--Mas elle no
vem ao Mosteiro ha muitos annos, primo.

--No digo que fsse elle, minha senhora--disse Henrique, cujo embarao
augmentava, sentindo que a morgadinha o fitava com um olhar penetrante,
como se lhe estivesse lendo o pensamento.

--Ento?--insistia D. Victoria.

--Mas--proseguiu Henrique--o velho exerce certa fascinao na gente da
terra; um verdadeiro prestigio; e certas intimidades entre elle e... e
alguem que tem aqui entrada a todo o momento... Emfim... eu no quero
seguir mais adeante este antipathico pensamento, que talvez fsse
rejeitado com indignao por quem me escuta e attribuido a mesquinhos
resentimentos da minha parte.

--Faz bem em o abandonar, primo Henrique--disse Magdalena, com
severidade.--Entre ser victima de uma traio e culpada de uma suspeita
injusta, cruel e maligna, prefiro arriscar-me  primeira sorte. Se um
passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas mais
tentadoras situaes da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio,
no so garantias bastantes para proteger um homem contra os ataques da
suspeita, no quero entrar n'essa pesquisa inquisitorial que nada
respeita, que  capaz de lanar sacrilegamente a dvida entre paes e
filhos, entre irms e irmos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia;
culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n'esse tribunal impio que quer
arvorar.

--Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento
sinceramente ter j perdido no uso do mundo uma to sympathica e
adoravel boa f nos outros, que  a maior prova de candura que se pode
dar do proprio caracter.

D. Victoria no percebeu nada d'este rapido dialogo; por isso exclamou:

--Mas que esto vosss ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo!
Quanto a mim, foram os criados, e d'isto  que ninguem me tira.

Abriu-se n'este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora
das lies dos pequenos.

Comquanto, desde o termo das frias, Augusto viesse todos os dias ao
Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e
com Henrique, depois da scena que entre elles se passra na noite de
Natal.

A morgadinha fitou por momentos n'elle os olhos; pareceu-lhe mais
pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porm, como se at
sentisse remorsos de ter escutado as alluses de Henrique sobre o
caracter de um homem que ella se costumra a respeitar. Porque o leitor,
cuja intelligencia , sem lhe fazer favor, mais perspicaz do que a de D.
Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos
termos trocados entre Henrique e Magdalena.

--Muito bons dias, sr. Augusto,--disse D. Victoria affavelmente--ento
so horas de me vir aturar a pequenada? No lhe invejo a vida. Sabe? De
manh at  noite a aturar creanas! Deus me livre!

--Agora j no succede assim, minha senhora. Estou dispensado de parte
das minhas obrigaes--disse Augusto, depois de cortejar as senhoras e
Henrique.

--Como?

--Pois v. ex.^a no sabe que j foi nomeado outro professor para o meu
logar?

--Que me diz?

Em todas as pessoas presentes produziu sensao esta noticia.

D. Victoria e a morgadinha fixaram em Augusto um olhar interrogador. O
gesto de Henrique tinha uma expresso particular.

--Recebi ha dias a participao official--continuou placidamente
Augusto.

--Mas--proseguiu D. Victoria--o mano tinha aqui dito que o seu despacho
estava seguro, que, alm de ser de toda a justia, elle o tomaria a seu
cuidado. E ento agora... Olhem, sabem que mais? eu cada vez me entendo
menos com esta gente. Isto de politicos...

Magdalena inclinou a cabea, suspirando.

--Bem v v. ex.^a--disse Augusto, com leve tom de amargura--que s vezes
ha grandes interesses sociaes dependentes do despacho de um modesto
professor de instruco primaria da aldeia, e portanto no se deve
extranhar que um homem politico attendesse a elles antes de tudo.

Magdalena que, ao ouvir estas palavras, levantra os olhos, encontrou os
de Henrique, que parecia procurarem os d'ella com inteno.

A morgadinha desviou os seus com impaciencia e desgsto, que se lhe
manifestou na contraco da fronte.

--V. ex.^a d-me licena que principie os meus trabalhos?--disse
Augusto.

--Ai, quando quizer--respondeu D. Victoria.--Os pequenos esto na sala
verde.

Augusto saiu.

D. Victoria entrou no panegyrico do mestre de seus filhos, e no se
fartou de exaltar-lhe os talentos e as virtudes, apregoando o muito que
aproveitavam os pequenos sob to intelligente direco.

--Olhe que o Eduardito j escreve e j l manuscripto como um
homem--dizia ella.--Quer vr? O sr. Augusto deixou aqui ficar a pasta;
ha de ter alguma escripta do pequeno. Ora tambem vou vr.

E D. Victoria, cedendo aos impulsos do seu enthusiasmo de me, foi
buscar a pasta de Augusto e pz-se a procurar n'ella a escripta do
filho.

--No vejo ...--disse ella, remexendo os papeis.--Isto que ?... Ai,
isto  uma escripta de Marianna... Ora veja.

Henrique fingiu examinar com atteno a escripta.

--Aqui esto os themas francezes d'elle. Quer vr? Eu d'isso no
entendo, mas ho de estar bons.

E passava tambem os themas para Henrique, que os examinava com a mesma
atteno.

--Ora onde estar a escripta de Eduardo? Eu sempre queria que a visse.
Isto... isto ... Ha de ser alguma carta, que elle anda a ler. Ora veja,
primo; olhe que a lettra ainda no  das mais faceis... Eu por mim no a
leio... Quer vr?

Henrique recebeu, com a maior condescendencia, o novo documento que lhe
ministrava D. Victoria, no sympathico intento de provar a habilidade dos
filhos.

Voltou distrahidamente a primeira folha da carta e pz-se a ll-a no
fim; cdo, porm, comeou a examinal-a com grande curiosidade; leu uma e
outras das faces escriptas, e, ao acabar a leitura, estava-lhe nos
labios um sorriso entre de ironia e de triumpho.

Offerecendo  morgadinha a carta que lra, disse-lhe, com um modo que a
impressionou:

--Veja se comprehende a significao d'esta carta, que estava na pasta
do sr. Augusto, do amigo de seu irmo. A mim parece-me que as creanas
no a comprehenderiam bem.

Magdalena olhou para Henrique e depois para a carta, que principiou a
ler.

Succedeu-lhe como a Henrique; cdo a dominava uma anciosa curiosidade,
que a obrigou a ler com rapidez at o fim.

Ao acabar, amorfanhou-a com raiva, arrojando-a ao cho; escondeu o rosto
entre as mos e no pde reter o pranto que lhe rebentava dos olhos.

D. Victoria parou a olhal-a, estupefacta.

--Que  isso, Lena? Santo nome de Deus! tu que tens, menina?

-- que ha momentos, minha tia,--respondeu Magdalena, fitando-a com os
olhos arrazados de lagrimas--em que eu no sei como se resiste 
loucura; em que, para no duvidarmos de ns mesmos,  necessario duvidar
da Providencia, que dizem que protege os bons.

E levantando-se n'esta agitao nervosa, saiu da sala, suffocada pelos
soluos.

D. Victoria interrogou Henrique a respeito da causa d'este episodio, que
ella no podia comprehender.

Henrique respondeu simplesmente:

--Succedeu, minha senhora, que a carta encontrada na pasta do sr.
Augusto parece-se muito com aquella de cujo extravio o sr. conselheiro
se queixa e que foi publicada nos periodicos de Lisboa.

D. Victoria esteve algum tempo a pensar na verdadeira significao da
resposta.

--Mas... n'esse caso... visto isso...

--Visto isso, s o sr. Augusto pode explicar o mysterio que inda ha
pouco nos preoccupava a todos. Os meus presentimentos malignos tinham
infelizmente um fundo de verdade.

D. Victoria, tendo a final comprehendido, exclamou:

--Pois seria elle! Era d'elle que o primo ha pouco falava? Por esta no
esperava eu! Ora fie-se uma pessoa n'estes santos! Uma coisa assim! Ora
deixa estar que eu vou... Ahi est o pago que se tira de bem fazer! Ahi
est! Veremos a cara com que elle me responde. Ora deixa...

--Eu retiro-me--disse Henrique, pegando no chapo para sair.

--Fique, primo, fique... At  bom que oua...

--Perdo, minha senhora.  melhor que eu no fique. Ha razes para
isso... Tudo deve passar-se entre v. ex.^a e elle, e, se me  licito um
conselho, bom ser que no seja demasiado violenta.

Apesar dos pedidos de D. Victoria, Henrique retirou-se.

No ia satisfeito comsigo o hospede de Alvapenha. E por qu? No tinha
feito o seu dever? Por acaso no era flagrante o delicto de Augusto e
irrecusaveis as provas que o acaso contra elle ministrra?

Mas em ns todos se deve ter j passado um phenomeno moral, comparavel
ao que se estava dando com Henrique. Occasies ha em que, apesar de
todos os argumentos da razo, apesar da conspirao de todas as provas a
justificar-nos, persiste em ns uma voz instinctiva a avisar-nos de que
commettemos um mal, formulando uma accusao.

Isto smente no succede a quem tenha adormecidos os mais generosos
escrupulos da consciencia; e este caso no se dava com Henrique.

D. Victoria ficou s na sala, meditando na maneira de confundir e
castigar o criminoso. Passeiava agitada, elaborando comsigo o dialogo
que se ia seguir, encarregando-se ella propria de responder por Augusto.

No se passou muito tempo que Augusto no viesse procurar a pasta que
lhe esquecra na sala.

--Que procura?--disse D. Victoria, que, ao vl-o, parou junto da mesa.

--Uma pasta que deixei aqui!

--Ser esta?--disse D. Victoria, mostrando-a.

-- essa mesma--respondeu Augusto, indo para buscal-a.

--Como vo na leitura do manuscripto os meus pequenos, sr.
Augusto?--perguntou D. Victoria, retendo a pasta.

--Muito bem, minha senhora.

--J entenderam esta carta?

Augusto pegou na carta, que examinou, superficialmente.

-- provavel que j, minha senhora; ainda que no me lembro de haver
escolhido esta entre as que v. ex.^a me deu.

--Pois escolheu por certo, visto que a tinha na pasta; mas como lhe
pareceu difficil de mais para os pequenos, teve o cuidado de mandal-a
imprimir para elles lerem melhor. No posso consentir que entre n'esses
gastos por causa de meus filhos; por isso queira dizer a despeza que
fez, para se mandar pagar.

D. Victoria tirava da raiva, que se apossra d'ella, uma ironia superior
aos seus habituaes expedientes de espirito.

Augusto ergueu para ella os olhos, admirado, porque no podia
comprehender aquellas singulares palavras.

--Diz v. ex.^a que...

Em vez de lhe responder logo, D. Victoria pegou no periodico que
Henrique deixra sobre a mesa, e mais exaltada j, accrescentou:

--Veja se saiu exacta. Compare. Talvez precise de fazer alguma emenda.

Augusto olhou para o periodico e para a carta, sem bem saber o que fazia
nem o que queria dizer tudo aquillo.

--Mas, por amor de Deus, minha senhora,--disse elle, j
sobresaltado--que quer dizer tudo isto?

--Quer dizer, sr. Augusto, que, quando para outra vez se lembrar de
atraioar mais alguem que o tenha favorecido, seja mais cuidadoso em
esconder as provas da sua villeza.

--Minha senhora!--exclamou Augusto, fazendo-se pallido.

--Fez mal em no nos ter prevenido antes do que tinha descoberto; ns
ainda tinhamos bastante dinheiro para cobrir o lano e ficarmos com a
carta.

--Oh, meu Deus! pois suspeita-se...

E Augusto, quasi como louco, arrancou das mos de D. Victoria a folha, e
comeava a lel-a; mas as nuvens que lhe passavam pelos olhos, a vertigem
que lhe turbava a cabea no o deixavam comprehender o que lia.

Emquanto Augusto assim luctava comsigo mesmo, D. Victoria dizia:

--Agora  que eu entendo o que queria dizer o primo Henrique. Sempre 
um homem que sabe o que  o mundo...

Ao ouvir estas palavras, Augusto arrojou de si o periodico, e
scintillou-lhe o olhar de clera:

--Ah! Foi elle? Sim... Havia de ser. Devia suspeital-o. Era de esperar
que o fizesse.  o pretexto. Minha senhora, ha aqui uma traio infame,
uma traio que eu no ousaria suspeitar de ninguem! Mas juro-lhe que...

--Ha de dar-me licena de ir accommodar meus filhos--disse D. Victoria,
interrompendo-o friamente. E encaminhou-se para a porta.

Augusto viu-a afastar-se, e disse-lhe em tom sereno, mas commovido:

--V, minha senhora, v; mas se tem a essas creanas amor de me, no
lhes ensine por ora a suspeitar de um homem que ellas se tinham
habituado a amar e a venerar. Peo-lhe por ellas, mais do que por mim. 
uma triste e prematura experiencia que lhes vae dar; vae-lhes envenenar
para toda a vida o corao e talvez que contra si mesma veja voltar-se a
desconfiana que lhes semeia to cdo.

D. Victoria saiu da sala sem lhe responder;  certo, porm, que no
ousou dizer aos filhos coisa alguma em desfavor do mestre. Sob as
singularidades do genio d'aquella senhora havia um fundo de bom senso,
onde perfeitamente calaram as reflexes de Augusto.

 singular; ao entrar na sala immediata, ia a limpar os olhos,
commovida.

Augusto permaneceu abatido e desalentado, como se n'aquelle momento
tivesse visto dissiparem-se todas as esperanas da sua vida. Lagrimas
inflammadas e amargas assomaram-lhe aos olhos ao vr-se humilhado no
seio de uma familia que elle respeitava, da familia d'aquella a cujos
olhos mais desejaria nobilitar-se, engrandecer-se, revestir-se de todos
os prestigios.

Era uma dor para enlouquecer, a sua! Ao desalento succedeu, porm, a
reaco; n'aquelle caracter havia latente uma energia de homem.

--Agora, mais do que nunca, preciso de alento para no
succumbir;--exclamou elle, erguendo a cabea e vindo-lhe s faces o
rubor da exaltao--obriga-me a isso o nome honrado de meu pae, a santa
memoria de minha me. A consciencia me dar foras para luctar com a
intriga e com a calumnia, onde quer que ella esteja. Ir-lhe-hei ao
encontro, a descoberto, sem disfarce, nem artificios, como luctador
leal. E se ha justia no Co, hei de vencer! No voltarei mais a esta
casa, sem ser com a cabea erguida; no pensarei mais em ti, Magdalena,
unica, suave imagem que ainda me offerecia vida, emquanto no saiba que
no teu pensamento o meu nome no  o de um infame.

Ao voltar-se para sair descobriu Magdalena, que o observava da porta.

Augusto estremeceu, mas, fazendo por dominar a turbao, curvou-se
respeitosamente perante a morgadinha, e ia a retirar-se.

--Espere,--disse-lhe ella, estendendo-lhe a mo, e com profunda
melancolia--no saia sem se despedir de uma amiga que, apesar de tudo, o
reputou sempre innocente.

Augusto parou, como se aquellas palavras o ferissem no corao.

Magdalena, com as faces pallidas e as lagrimas nos olhos, continuava a
estender-lhe a mo.

Augusto apoderou-se d'ella e cobriu-a de beijos e de lagrimas.

--Oh! obrigado, minha senhora, obrigado!--exclamou elle--precisava
d'essas palavras para no enlouquecer.

--V, Augusto, v. Dentro em pouco tempo todos lhe pediro perdo.
Creio-o firmemente.

--E eu no procurarei tornar a vl-a, seno quando pudr justificar essa
generosa confiana. Juro-lh'o.

As lagrimas de Magdalena no podiam mais tempo conter-se-lhe nos olhos;
iam soltar-se e j ella, para as occultar, desviava o rosto, quando
Christina entrou na sala.

Christina, a quem a me acabra de contar o acontecido, parou a ver a
scena e a commoo dos dois.

Augusto no se demorou, saiu sem pronunciar uma palavra.

Magdalena deu largas  tristeza, que lhe pesava no corao, deixando
correr livremente o pranto.

Christina correu a abraal-a.

--Meu Deus! meu Deus! Lena, isto que quer dizer?--exclamou Christina.

E, approximando os labios do ouvido da prima, murmurou, com adoravel
ingenuidade:

--Pois tu... amaval-o?

Por unica resposta Magdalena apertou-a apaixonadamente ao seio.

E ambas por algum tempo confundiram as suas lagrimas.




XXIII


Dominado por os mais energicos e encontrados sentimentos Augusto saiu do
Mosteiro, ainda sem plano formado, sem teno definida, mas
comprehendendo vagamente a necessidade de abraar uma resoluo
qualquer.

As palavras que D. Victoria inconsideradamente soltra, tinham-lhe feito
conceber a suspeita de que Henrique no fra alheio  calumnia que
pesava sobre elle. D'ahi a attribuir-lhe todo o plano da intriga no ia
longe, e justo  confessar que no era destituida de plausibilidade a
ideia.

A especie de averso reciproca que, desde o primeiro encontro, os
dividira, a maior vehemencia da entrevista na noite de Natal, em que
ficra pendente entre elles uma provocao, s  espera de pretexto,
concorriam para dar vigor a esta supposio.

Por isso, depois de por muito tempo percorrer  ta os caminhos dos
campos, sem consciencia nem destino, Augusto encaminhou-se resolutamente
para Alvapenha.

Estava ainda pouco senhor de si para meditar nas circumstancias que
occasionaram a sua accusao. Mal poderia at dizer de que era accusado.
Percebeu que se tratava de um abuso de confiana, de uma infamia, mas a
impresso recebida fra tal que no o deixra investigar os pormenores
do facto. Previa em tudo isto uma traio, e, para a esclarecer,
dirigiu-se  unica pessoa de quem lhe parecia provavel que ella
partisse.

Quando chegou a Alvapenha j tinha alli passado a hora de jantar.

Henrique retirra-se para o quarto, D. Dorotha e Maria de Jesus,
aquella dobando, esta fiando, aproveitavam o tempo a rezar parte das
suas longas oraes quotidianas.

Quando Augusto bateu  porta, estavam ellas de volta com a ladainha, que
D. Dorotha dizia em latim, a seu modo, e a que Maria de Jesus respondia
no mesmo idioma.

--_Turris e burris, fedilisarca, espeque da justia, Joannes
asellis_--dizia D. Dorotha.

--_Or pr ns_--respondia invariavelmente a criada.

A reza interrompeu-se ao entrar Augusto na sala.

Poucas situaes se podem conceber mais exasperadoras de animo do que a
de Augusto n'aquelle momento.

Vir com o espirito dominado por as mais violentas paixes, trazer no
corao uma verdadeira tempestade affectiva, e de subito achar-se na
presena de duas indoles essencialmente pacificas, de dois coraes a
que a paixo nunca alterou o rithmo, de duas consciencias de que nunca a
dvida, o remorso, ou o odio turbaram a celeste serenidade,  um
martyrio cruel.

Augusto teve desejos de recuar, porque previu a tortura que o esperava.

--Ditosos olhos que o vem!--disse D. Dorotha, arredando deante de si a
dobadoura, para mais  vontade contemplar o recem-chegado.--No sei que
mal lhe fizeram n'esta casa!

--As minhas occupaes...--balbuciou Augusto, sem saber o que dizia.

Maria de Jesus veio de reforo  ama.

--Isso! fale-nos nas suas occupaes, nem que se no soubesse c que
todos os dias d o seu passeio ao fim da tarde; sem falar nas
quintas-feiras e domingos...

Augusto no respondeu.

--Pois olhe que todos aqui lhe querem bem--disse D. Dorotha.

--Assim o creio, minha senhora.

--Eu fui muito amiga de sua me, que era uma santa creatura. Inda me
parece que a estou a vr ahi sentada, com aquella capa rxa que trazia.
A alegria d'ella, quando o Augustito veio de Lisboa! Vi-a chorar e
agradecer a Deus o filho que lhe tinha dado... Todo o seu desejo era no
morrer antes de o vr padre; queria pelo menos uma vez commungar das
suas mos... Coitada!... No lhe concedeu isso o Senhor, que bem cdo a
chamou a si.

E continuou para Augusto:

--Quando morreu a morgada, a madrinha da Lenita, e que me contaram aqui
do legado que ella deixra, eu disse logo: Ora a alma tem ella no Co
por isto, quando por mais no seja. Porque, emfim... s quem no
conheceu sua me  que no diria outro tanto. Verdade  que elle no
chegou a aproveitar... mas... Emfim cada um sabe o que lhe convem e o
que lhe no convem. E eu digo, a vida de sacerdote  muito bonita, isso
, mas... no havendo inclinao...

Augusto estava impaciente com a loquacidade da senhora de Alvapenha.

--O sr. Henrique de Souzellas est em casa?--perguntou elle, logo que
pde.--Desejava muito falar-lhe.

--Ai, sim? quer falar com elle? Eu acho que... Parece-me... Sim, elle
deve estar no quarto... Ha de estar a ler. No tem outra vida aquelle
rapaz! Uma coisa assim! Por mais que eu lhe diga: Henriquinho, olha que
isso faz-te mal...  o mesmo que nada. S ler, ler, ler, que  uma
coisa por maior. Ao principio ainda por ahi dava alguns passeios...
Agora, tirando l as suas visitas ao Mosteiro, elle para ahi fica. L ao
Mosteiro sim, para ahi ainda elle vae.

-- que os ares so por alli muito saudaveis--disse maliciosamnte Maria
de Jesus.

--Adeus! ahi vem voss com as suas coisas. E ento que tem? Pois est
claro que um rapaz, como elle, d-se com a gente nova.

--Pois sim, senhora, eu no digo...

--E as raparigas de l j no esto bem sem elle... Ora eu confesso,
quando elle est de mar,  um gsto ouvil-o. Sempre s vezes tem coisas
que fazem rir as pedras.

--E pondo-se a contar historias? Ih! isso ento  que ! Eu no sei onde
elle as vae buscar!--accrescentou a criada.

--Com esta--continuou D. Dorotha, apontando para Maria de Jesus-- s
vezes um passo. Eu ainda queria que o Augustito os ouvisse a ambos. 
perdido em pouca gente. Elle pe-se l a inventar patranhas, e ella a
tla, que sabe j como elle , ouve tudo muito sria e fiada, e no fim
ento  que so os escarcos. Emfim, uma coisa  dizer, outra  vr!

E D. Dorotha ria, com aquelle rir meio tossido de velha, em que ha no
sei que indicios de uma existencia placida, que consola ouvir.

Augusto forava-se a sorrir quellas narraes das duas velhas, a que
elle mal attendia.

--Eu digo--continuou D. Dorotha--que j nos havia de fazer falta se
saisse d'aqui; quando c no est parece-me a casa morta.

--Deixe l, senhora, que este j d'aqui no sae.

--Ora bem sabe voss d'isso.

--Pois a senhora ver. Ora! Os passeios ao Mosteiro so muito bonitos.

Augusto ergueu-se, devras resolvido a cortar a conversa por uma vez.

--Se me d licena, eu vou procural-o ao quarto. Desejava falar-lhe,
quanto antes, para um negocio de urgencia.

Depois de mais algumas reflexes, resignaram-se a deixal-o partir.

Augusto transpoz rapidamente os corredores, que o separavam do quarto de
Henrique, e bateu  porta d'este.

--Entre quem --disse de dentro Henrique.

Augusto entrou.

O sobrinho de D. Dorotha estava sentado junto da janella, lendo uma
folha e fumando.

Ao vr Augusto levantou-se.

A lembrana das scenas d'aquella manh no Mosteiro, e a expresso de
physionomia de Augusto, fizeram-lhe prevr a indole da entrevista que se
ia seguir.

Evitando porm o menor indicio, que pudesse revelar a preveno em que
estava, disse naturalmente, estendendo a mo a Augusto:

--Oh! por aqui! A que devo o prazer d'esta visita?

Em vez de lhe corresponder ao cumprimento, Augusto disse-lhe friamente:

--Assim estende a mo a um miseravel? Ou  tibieza de pundonor, ou
excesso de magnanimidade!

Henrique retirou logo a mo e respondeu com orgulhoso desdem:

--Nem uma coisa, nem outra; simplesmente o juizo bastante para no me
arvorar em superintendente de negocios que me no dizem respeito;  um
sentido especial, que se chama delicadeza.

-- um pouco sujeito a adormecer em si esse precioso sentido--replicou
Augusto no mesmo tom.--Nem sempre so to observadas pelo senhor, essas
delicadas abstenes, como agora. Sei-o por experiencia.

--No o so desde que os interessados me ordenam que intervenha, e desde
que a minha interveno pode ser util a amigos.

--Pois bem; como, por qualquer d'essas causas, se deu o facto em relao
ao objecto que me traz aqui, espero que me explique a natureza da sua
interveno.

--Mas com que direito me vem o senhor pedir aqui explicaes?

--Com o direito que me d a consciencia, senhor!--respondeu
energicamente Augusto, despojando-se de toda a apparencia de
ironia.--Com o direito que tem todo o homem, calumniado cobarde e
infamemente, como eu fui, de provocar uma accusao aberta e leal.
Direito?  mais ainda do que direito,  dever.  um dever para com a
moral,  um dever para com a consciencia,  um dever para com a memoria
d'aquelles que nos transmittiram um nome honrado.

--Muito bem; mas, admittindo que seja esse direito ou esse dever, e no
lh'o contestarei, por que singularidade acontece que seja eu a pessoa
que tem de responder por tudo isso? Por acaso ser este o pretexto, para
depois do qual tinhamos adiado uma entrevista que suppuzemos
necesssaria?

--Se houve pretexto para ella, foi da sua parte, e escolheu-o bem infame
e vil. No lh'o invejo. Da minha no  pretexto;  uma interrogao bem
positiva e terminante. Todos os motivos anteriores, que podiam
auctorisar-me a procural-o, cessaram ante a impreterivel exigencia
d'este. Preciso de justificar-me, e por isso preciso de conhecer e de
ouvir os meus accusadores.

--E imagina que sou eu quem deve auxilial'o na tarefa? Pelo menos devia
escolher uma hora mais cmmoda. Sabe que na Alvapenha se janta
patriarchalmente ao meio dia.

--No julgue que com essas ironias de mau gsto, se esquivar a
responder-me. Juro-lhe que hei de obrigal-o a falar com seriedade.

--E tem meios para isso?

--Fao-lhe a justia de acreditar que sim; creio que ainda no estar
to envilecido que receba com um sorriso cynico o insulto que lhe
infligir...

-- provavel que no risse, no caso que diz; mas tambem no falava,
acredite. Ha, para interrogaes d'essas, respostas mais adequadas e
discretas. No tente; aconselho-o... Mas, valha-me Deus, quem lhe disse
que eu no queria dar-lhe todas as explicaes que souber? Sente-se,
conversemos placidamente, que  a melhor maneira de vr claro nas
coisas. No fuma?

Augusto, indignado com este frio sarcasmo, respondeu com vehemencia:

--Est-me causando tedio e compaixo ao mesmo tempo, senhor. Deve ter j
uma alma bem corrompida para me receber assim. Ainda quando eu fsse um
criminoso, se no seu caracter houvesse brio, dignidade e sentimento
moral, devia a minha presena ser-lhe um espectaculo demasiado abjecto,
para o no deixar sorrir, ainda que de sarcasmo; mas na incerteza em que
est, em que deve estar por fra, a s ideia de que pode calumniar um
homem innocente, devia bastar para lhe fazer sentir toda a gravidade
d'esta entrevista e obrigal-o a attender-me como eu exijo ser attendido.
Para no comprehender isto, para no respeitar esse sagrado direito, que
tem todo o accusado de se defender,  necessario estar corrompido at o
fundo da alma. O scepticismo e a irreverencia para com os outros, s se
d em quem duvda de si proprio, e a si proprio se no respeita, porque
se conhece. O senhor soube insinuar a calumnia no seio de uma familia,
cujos amigos generosos no a receberam sem dor; e quando o calumniado
lhe vem pedir explicaes, porque se trata da sua unica riqueza, porque,
sem familia e pobre, e manh talvez na miseria, precisa de defender o
unico bem que lhe resta, o senhor recebe-o com um sorriso ultrajante,
para occultar talvez a cobardia, que no ousa repetir na face do
accusado as insinuaes que contra elle fez na ausencia. Se a
consciencia lhe no exprobra esta infamia, teve razo ao dizer-me que me
enganei procurando-o. A caracteres d'esses no se pede a explicao da
calumnia;  a sua manifestao natural.

E terminando estas palavras, que a mais violenta paixo lhe dictra,
Augusto caminhou para a porta do quarto.

Henrique deteve-o.

No espirito do leviano hospede de Alvapenha passra-se n'este curto
intervallo de tempo uma profunda revoluo moral.

Na voz, no gesto e na indignao de Augusto pareceu-lhe perceber
vestigios de sinceridade, em que at alli no acreditra, e desde esse
momento, alm dos remorsos pelos desdens com que o recebra, sentia viva
a necessidade de uma reparao.

Magdalena tinha razo.

No meio de todos os seus defeitos, havia n'este rapaz um no exgotado
fundo de pundonor e de moralidade.

--No saia--disse elle para Augusto, j sem a menor sombra de
ironia.--Se para isso fr necessario pedir-lhe perdo, pedir-lh'o-hei.
Que mais quer?... Reconheo-lhe o direito que tem de ser escutado.
Fique. E creia que, apesar das apparencias lhe serem desfavoraveis, eu,
que em bem pouco concorri para ellas, sinto-me j movido a no lhes dar
f.  j um convencimento to intimo como o que at agora tinha da sua
culpa, confesso-o. Se na minha mo estiver esclarecer o mysterio, conte
commigo. Fale.

Augusto fitava-o ainda com desconfiana.

Henrique percebeu-o e continuou:

-- justa a dvida que lhe leio no olhar, mas, como smente o meu
procedimento futuro a pode desvanecer, peo-lhe que no deixe por isso
de falar.

--Antes de mais nada: de que me accusam?--perguntou Augusto.

--Pois no sabe?!--exclamou Henrique, admirado.

--Vagamente apenas. Sei que ha uma carta extraviada, mas a concluso em
que fiquei, mal me deixou comprehender...

Henrique contou ento tudo o que se passra no Mosteiro, e terminou
dizendo:

--J v que eu no fiz mais do que faria outro qualquer em meu logar.
Pesava sobre todos quantos frequentavam aquella casa uma desconfiana
odiosa: esclarecer o mysterio, dissipar as suspeitas, lanar aos hombros
do culpado toda a responsabilidade da traio, era o natural empenho de
todos. A descoberta da carta na sua pasta accusava-o. Essa descoberta
foi occasionalmente feita por D. Victoria. Eu no o conhecia bastante
para que o seu passado me obrigasse a recusar o testemunho das
apparencias. Os motivos de despeito, que as suas mesmas palavras por
aquella occasio confirmaram, explicavam muito bem certas tentaes de
vingana... Nada mais natural do que suppr...

Augusto cobriu o rosto com as mos, murmurando:

--Accusado!... accusado de uma infamia, e deante de...

Aqui reteve-se, como se a tempo comprehendesse a indiscreo da sua dor.

Henrique cada vez se sentia mais modificado nas suas disposies para
com Augusto; por isso, quando este cortou assim em meio a expresso do
pensamento, elle, que lh'o percebeu, disse-lhe, sorrindo:

--D'ella? Socegue. Tem junto d'esse tribunal, de que se receia tanto,
advogados eloquentes.

Augusto levantou para Henrique um olhar interrogador.

--Diz que...

--Que no deve temer da impresso produzida, por todas as provas d'este
mundo, no animo de quem, atravs de tudo, acreditar sempre na sua
innocencia.

--Refere-se a...

--Ao seu segredo, que ha muito o no  para mim. Veja como eu estou
virado! Acho-me quasi disposto a sympathisar com elle, quando ha pouco
tempo ainda, sinceramente o confesso, era esta a causa occulta de tal ou
qual antipathia, que sentia pelo senhor... que sentiamos um pelo outro,
digamos assim.

--Mas...

--Vamos, vamos... eu sei que  discreto; nem esta era occasio para
entrar em confidencias. Tratemos do que mais importa... No sei como 
que iria jurar agora a sua innocencia em toda esta desastrada intriga, e
com o tempo... porque francamente lhe declaro que me  necessario algum
tempo para desvanecer em mim todos os restos de despeito e de...
paixo... porm, com o tempo, talvez venha a ser seu verdadeiro amigo...
sem a menor preveno.

E depois de um momento de silencio, proseguiu, mudando de tom:

--Mas, com os diabos, sendo o senhor innocente, deve ter grandes
inimigos aqui na terra para o enredarem assim!  preciso esclarecer
isto.

--Inimigos?!... No os conheo, nem vejo motivos...--disse Augusto,
pensativo. Mas de repente, como se lhe acudisse um pensamento luminoso,
fez um gesto que Henrique percebeu.

--Que ?--perguntou este logo.--Descobriu?... Diga... Uma suspeita  j
um rasto precioso... guia os primeiros passos... Diga... E eu o ajudarei
a seguil-o.

--Lembro-me agora de uma notavel visita, que ha dias recebi.  isso...

E Augusto contou toda a entrevista que tivera com o brazileiro.

--E ainda agora se lembra d'elle?--exclamou Henrique, ao ouvil-o--e inda
hesita?! O senhor  de uma boa f!... Temos o fio!

--Mas como pde elle...?

--Isso depois; o mais vir a seu tempo. Agora trata-se de vigiar esse
senhor... E agora me lembra; elle  um dos oradores do club do Canada...
Sondarei esse antro tenebroso... Eu j devia suppor que andava aqui
miseria politica... Estou a achar razo quella adoravel Magdalena...
Perdo... inda no perdi o habito de a adorar... Tambem, desde que o
consiga, serei seu amigo sem restrices. At l, porm, no ser isso
motivo para de corpo e alma me no dedicar  sua causa... Eu posso ter
todos os defeitos, menos o de collaborar de boamente n'uma velhacaria;
e, fsse o meu maior inimigo que eu visse victima d'ella, creia que
procuraria desfazel-a.

--Agradeo-lhe essas palavras, que acredito so sinceras; no posso,
porm, acceitar a interveno que me offerece. Eu sou que devo
justificar-me. Est empenhada n'isso a minha dignidade.

--Como queira. Em todo o caso espero que uma m preveno o no
constranja a no recorrer lealmente a mim, se o meu auxilio lhe puder
servir. Agora peo-lhe perdo, se alguma vez o offendi de mais; mas
vamos l, o senhor tambem no est de todo isento de culpa... E quanto
ao pretexto... adiado mais uma vez, no lhe parece?

Augusto no podia fechar-se quelle caracter, que se lhe estava
mostrando agora sob uma face nova e sympathica; por isso respondeu,
sorrindo:

--Adiado para sempre.

E estenderam as mos um ao outro, apertando-as j sem o menor
resentimento.

Eram duas almas generosas, que acabavam de se comprehender.

-- notavel;--pensava comsigo Henrique--estou sympathisando  ultima
hora com este rapaz! Mas como se combina isto com a minha paixo por
Magdalena, a quem elle ama igualmente? Dar-se-ha que ella acertasse, e
que no fsse paixo o que eu senti! Isto de mulheres teem uma vista to
apurada para estas discriminaes!




XXIV


O processo instaurado contra o Cancella seguiu os seus tramites normaes;
porm, graas ao empenho do conselheiro, a quem a morgadinha escrevra a
favor do prso, e apesar da perseguio que lhe moviam os padres,
contava-se que elle fsse slto, e era esperado na aldeia dentro em
poucos dias.

Magdalena no se descuidra de mandar todos os dias ao pobre homem
noticias da filha, a qual, depois de ter por algum tempo inspirado
srios cuidados  medicina da terra, parecia haver entrado n'um periodo
de convalescena.

Magdalena assim o participou ao Cancella para o animar, mas, sem saber
por qu, ella propria no sentia as esperanas que dava.

Ha espiritos to instinctivamente sensiveis e perspicazes, que, 
maneira dos medicos experientes, presentem a gravidade ou a approximao
do mal, ainda quando os symptomas tenham perdido toda a feio
assustadora.

J os sorrisos fluctuam nos labios do doente e um desmaiado rubor de
saude principia a tingir as faces, at ento pallidas, e elles sentem-se
ainda estremecer de secretas apprehenses.

Assim acontecia a Magdalena ao contemplar as feies da pequena
Ermelinda.

A frequencia e intensidade dos accessos diminuira; certo colorido de
vida principira j a animar-lhe o rosto infantil, havia pouco gelado de
terror e pela doena; s vezes at um sorriso, ainda que melancolico,
distendia-lhe os labios desmaiados, e s de quando em quando raras
nuvens de tristeza, evocadas por uma recordao penosa, parecia
assombrarem-lhe o olhar limpido e meigo; os somnos eram tranquillos, as
vigilias serenas, e apesar de tudo a morgadinha entristecia ao reparar
n'ella.

O facultativo da localidade, apalpando com os dedos robustos o delicado
pulso da creana, assegurra que ella estava j livre da febre; e apesar
d'isso, Magdalena quasi sentia remorsos, quando escrevia ao Herodes a
dar-lhe a boa nova.

E  certo que mais do que justificadas tinham de ser estas apprehenses
da morgadinha.

Na tarde d'aquelle mesmo dia, em que Ermelinda acordra mais tranquilla
e animada, renovaram-se subitamente, e assustadores como nunca, os
indicios do mal profundo.

Um delirio violento, caracterisado por vagos e mal definidos terrores,
gritos angustiosissimos, contraces espasmodicas, que parecia
despedaarem aquelle corpo fragil e delicado, surgiram de novo, e, ao
dissiparem-se, deixaram, como rastos, uma prostrao extrema, uma quasi
completa insensibilidade de funesta significao.

Magdalena, assustada, tomou nos braos a debil e emmagrecida creana, e
trouxe-a para junto de uma janella, d'onde ainda se avistava o sol, j
quasi a esconder-se por detraz de uma collina distante.

Dir-se-ia querer pedir, aos frouxos raios de um quasi crepusculo de
inverno, um pouco de calor para fundir os glos da morte, que
principiavam a invadir os membros delicados d'aquella formosa creana;
ao claro levemente afogueado do horisonte, um pouco das suas tintas
para aquellas faces morbidamente pallidas;  amenidade da paizagem, um
reflexo de sorriso para aquelles labios, onde elle se apagra.

Os olhos de Ermelinda fitaram-se tristemente no sol j vacillante, com a
expresso, cheia de saudade e de poesia, de uma alma joven que se
despede da vida, e, quando o sol desappareceu, desviaram-se lentamente
para o rosto de Magdalena, que a observava com anciedade.

Ermelinda sorriu; um sorriso mais triste do que as mais tristes
lagrimas.

A morgadinha apertou-a ao seio, commovida.

--Que tens tu, minha filha?--disse-lhe com meiguice, afagando-a.

Ermelinda no respondeu, mas continuou a fitar Magdalena com a mesma
expresso de affecto e de tristeza.

A morgadinha approximou os labios dos d'ella para beijal-a.

A pequena doente correspondeu-lhe ainda ao beijo e continuou a fital-a
como d'antes. E durou, e durou este olhar at que pareceu a Magdalena
haver n'elle no sei que estranha fixidez, que a inquietou.

Palpou as mos da creana; estavam frias; o corao, parado; chamou-a
pelo nome... a mesma fixidez no olhar, a mesma immobilidade nas
feies... estava morta.

Foi assim que se despediu da vida aquelle candido espirito. Foi como o
adormecer de uma alma, que algum anjo invisivel, namorado d'ella,
arrebatasse nas azas para o throno de Deus.

A morte de uma creana como Ermelinda  um facto de ordinario
indifferente na vida social; alguns sorrisos de menos no mundo; uma voz
que emmudece nos festivos cros da infancia; algumas sentidas lagrimas
de me sobre um bero vazio; algumas flores sobre um tumulo; e 
superficie das ondas sociaes nem sequer a leve vibrao que a rosa
desfolhada imprime  agua tranquilla do lago... eis tudo.

A multido segue no delirio das festas, na lucta das paixes, na febre
da ambio e das glorias, e o perfume da flor pendida no lhe affecta os
sentidos embriagados.

s vezes, porm, no succede assim, e assim no devia succeder com
Ermelinda.

As paixes humanas, que ante o cadaver de uma creana, coroada de flores
candidas e cingida da alva tunica da pureza, deviam abrandar-se, como
deante de uma viso do Co, tomam-n'o s vezes por estimulo para mais
furiosas se desencadearem, e proclamarem a lucta, a sedio e a
vingana.

Desde que fra publicada a portaria, prohibindo expressamente os
enterramentos na igreja, medida to adversa ao espirito do povo, no
tinha havido na terra uma morte que obrigasse a pr a medida em
execuo.

A ira popular, exacerbada de contnuo pelas secretas instigaes de
alguns padres fanaticos ou hypocritas, e dos adversarios politicos do
conselheiro, rugia, havia muito, surdamente, mas no rompra em exploso
por falta de pretexto.

Notava-se apenas uma maior affluencia de gente na taberna do Canada, um
maior calor nos discursos dos tribunos, e a tendencia  formao de
magotes nas encruzilhadas e nos largos.

Quando porm se espalhou a noticia da morte de Ermelinda, augmentou a
effervescencia dos animos. Era chegado o momento.

A morgadinha, que chorou com lagrimas sinceras a filha do Cancella, quiz
que ella fsse sepultada no mausolo da casa do Mosteiro. Cumprindo
assim a lei, prestava-se tambem culto  affeio que todos sentiam pela
creana, companheira de brinquedos de Angelo, que lhe queria como irm.

Sabendo-se d'esta resoluo, rebentou a indignao popular.

No dia seguinte ao da morte de Ermelinda, e n'aquelle, no fim da tarde
do qual devia realisar-se o enterro, havia na taberna do Canada
extraordinario ajuntamento.

O brazileiro, o sr. Joozinho das Perdizes, o latinista Pertunhas,
alguns padres e lavradores, caseiros e camaradas do sr. Joozinho,
falavam, berravam e gesticulavam a um tempo.

O morgado das Perdizes, cujo animo fluctuava indeciso entre favorecer e
guerrear o conselheiro, mas que, depois do despacho do professor que
pedira e conseguira, como que sentia remorsos de o atraioar, achava-se
agora muito abalado, porque na questo dos cemiterios era intolerante,
no podendo levar  paciencia que quizessem enterrar um homem, como
elle, n'um logar onde chovia e fazia sol, como n'um campo de centeio.

O brazileiro, conscio do valor do voto eleitoral do sr. Joozinho, no
se canava de o catechisar, usando para isso de todas as armas e
atacando-o por todos os pontos vulneraveis que lhe conhecia.

Era assim, por exemplo, que sabendo da sympathia e gratido do morgado
para com o herbanario, insistia muito sobre a dureza do corao do
conselheiro, que privra cruelmente o pobre velho da sua propriedade,
golpe fatal, que dentro em pouco o levaria ao tumulo; e a proposito
contava como o herbanario pedira de joelhos ao conselheiro para lhe
poupar a casa, e como este se rira das lagrimas do velho, porque tinha
interesse em que no fsse adoptado o outro plano, que lhe cortava uma
grande poro dos proprios bens.

Ouvindo estas coisas, o sr. Joozinho, que tinha mais de grosseiro e
bestial do que de perverso, dava punhadas sobre a mesa, despejava copos
de quartilho e dizia pragas sacrilegamente eloquentes.

Outras vezes era no tpico do cemiterio que ardilosamente o espirito
tentador do brazileiro insistia. Fazia avivar a ideia ao morgado de que
elle proprio tinha de ser alli enterrado, porque na freguezia de
Pinches iam tambem ser prohibidos os enterros na igreja, o que este
negava, berrando; e todos affirmavam o mesmo que o brazileiro dizia, o
que dava logar a novas punhadas, novas irritaes e a novas pragas do
sr. Joozinho.

No dia que dissemos, multiplicra o morgado, mais que de costume, as
suas libaes de vinho; e com as faces injectadas, os olhos meio
fechados, ouvia com irritao os commentarios dos circumstantes e
distribuia com profuso pragas e murros.

--Com os diabos!--berrava elle, acabando de despejar um copo de
quartilho.--Se me chega a mostarda ao nariz... sou homem para ir 
igreja e obrigal-os a enterrar l a pequena.

--Isso no se faz assim com essa facilidade e arreganhos--disse
velhacamente o brazileiro, de proposito para o irritar ainda mais.

--Eu lhe diria se se fazia ou no, se se tratasse de coisa que me
dissesse respeito!... Mas, l com a filha do Cancella... no tenho eu
nada... l se avenham.

--A questo no  ser filha do Cancella ou deixar de ser;--tornava o
brazileiro--a questo  do exemplo; enterrado o primeiro, enterram-se os
outros.

--Menos eu--exclamou o morgado.

--Se Deus quizer tambem vmc. se ha de l enterrar.

--Diabos me levem se...

--Pelos modos--disse um padre do lado--elles enterram a rapariga no
tumulo da familia do conselheiro.

--Pois vdes; se elles so todos da mesma confraria!--ponderou o
Pertunhas.

--E se no,  vr no outro dia o que o Herodes fez ao missionario! Ento
julgam que aquillo no foi combinao?--disse o padre.

--Dizem que o Herodes ganhou vinte soberanos para lhe
bater--accrescentou um lavrador.

--A mim me disseram que trinta.

--Sempre uma pouca vergonha como aquella!

--E vero que no lhe succede mal.

--Pois no, no; elle est alli, est na rua.

--Diz-se que o soltam  fiana.

--No pode ser; aquelle crime no tem fiana--ponderou um fazendeiro,
que se tinha por muito visto em demandas e coisas de justia.

--Ora adeus! com o que voss vem! Querendo elles...

--Aquillo parece uma seita.

--E ainda ahi est? Pois j se sabe que elles so pedreiros-livres.

--E o tal lisboeta?

--Esse, ento,  que  d'aquelles!

O sr. Joozinho pestanejou, ouvindo falar de Henrique.

--Ah!  do tal petimetre que falam? No tal que foi para a igreja caoar
com o missionario? Sempre vosss so uns homens de lama, tambem! 
Cosme--continuou, voltando-se para um alentado camarada que estava ao
lado d'elle--olha aquillo comnosco, hein? Onde estaria o amigo?

O valento sorriu modestamente, encolhendo os hombros.

--Pois, senhores--proseguiu o brazileiro, que no queria deixar
arrefecer o enthusiasmo e a irritao do publico--hoje decide-se a
coisa... D'aqui a uma hora est enterrada a pequena e depois... o uso
faz lei.

--Isso  que  verdade--secundou o Pertunhas.

--Faz lei emquanto eu me no lembrar de ir desenterral-a--respondeu,
cada vez mais azedado, o sr. Joozinho

--No; isso l mais devagar--acudiu o brazileiro--vossemec bem sabe
que, estando ella no mausolo do conselheiro...

--Importa-me c o mausolo? O senhor est a ler. Eu com um empurro
arrumo aquella platafrma a terra.  Cosme, olha ns, hein?

O Cosme tornou a fazer o mesmo gesto expressivo.

--Ahi est quando era preciso que houvesse n'esta terra um homem de
vontade, que no deixasse fazer o enterro--disse o padre.

--Era bem feito, para elles saberem tambem que se no brinca assim com o
povo.

--L isso era!--repetiram algumas vozes.

--Eu por mim... se alguem fr...--aventurou um.

--E eu, eu--ouviu-se dizer de alguns pontos da sala.

--Deixem-se de contos,--continuou o padre--elles fazem o que querem,
porque sabem que no ha um homem de coragem, que se ponha  frente do
povo...

--L isso  que  verdade.

--J no ha homens para as occasies.

O morgado das Perdizes, que tinha presumpes de valente, e se gabava de
ter varrido feiras a varapau, espinhou-se com estas palavras, e
protestou dizendo:

--Ento julgam vosss que eu, se me der para ahi, no vou ao cemiterio,
eu s, e ponho tudo aquillo em cacos? hein?

--Isso no se faz com essa facilidade--disse o brazileiro
impertinentemente.

--A quanto aposta voss?--bradou, cada vez mais afogueado, o sr.
Joozinho.

--Ora vamos--continuava o brazileiro com os mesmos modos--no que a
auctoridade...

--A auctoridade! Para mim  que elles veem! Olha o regedor! O regedor
commigo! E os cabos?  Cosme, hein? Que te parece? Os cabos comnosco?

O Cosme sorriu e resmungou por entre dentes:

--Se queres tentar...

--Com mil demonios!--disse o morgado, exgotando mais um copo--vamos a
isto! anda d'ahi,  Cosme!

O Cosme levantou-se.

--Nada de imprudencias--aconselhou o brazileiro, de um modo que tinha a
significao contraria ao pensamento que exprimia.

--Quem tiver mdo, que fique em casa. Ora quero mostrar a esta gente se
ha ou no ha um homem para as occasies.

E estavam no meio da sala o sr. Joozinho e os seus arrojados camaradas,
e o brazileiro j conferenciava com o padre, que lhe respondia com
signaes de intelligencia, como quem tinha projectos filiados n'aquelle
movimento, quando entrou na taberna uma nova personagem que, por no
habitual alli, e por outras circumstancias faceis de conjecturar, causou
geral extranheza.

Era Henrique de Souzellas.

Tendo sabido da morte de Ermelinda, e encontrando no Mosteiro todos
occupados com os aprestes do funeral da pequena, Henrique montou a
cavallo e deu um longo passeio pelos arredores.

Na volta achou-se defronte da taberna do Canada.

Chegou-lhe aos ouvidos o rumor das altercaes e das pragas que iam l
dentro, e isto resolveu-o a entrar, cumprindo assim a promessa que
fizera a si mesmo de estudar aquelle terreno, a vr se encontrava
vestigios que o levassem a provar a innocencia de Augusto.

Apeou-se, prendeu o cavallo ao peo da porta e entrou.

Ao entrar, percebeu que havia causado sensao a sua presena, e at,
pela expresso com que o fitavam, suspeitou que talvez no fsse
demasiado prudente o passo que dera.

Era tarde, porm, para recuar, e o orgulho impedia-lhe a menor
manifestao de receio.

Sentou-se tranquillamente n'uma banca vazia.

O Canada, como taberneiro attencioso, veio informar-se pressurosamente
do que desejava o recem-chegado.

Henrique pediu vinho, para pedir alguma coisa, e no obstante estar
firmemente resolvido a no lhe tocar.

O Canada trouxe-lhe um copo largo para deante d'elle, e de motu-proprio
associou-lhe algumas azeitonas, que recommendou como excitadoras da
sde.

Henrique pediu lume para accender um charuto, e pondo-se a fumar correu
a vista pelos grupos que enchiam a sala. A effervescencia dos animos
havia abatido com o chegar de Henrique, como a da agua em que se
lanasse uma pedra de glo.

Reinava, porm, um rumor surdo, um cochichar pouco tranquillisador, e
que ameaava degenerar em maior tormenta.

O brazileiro escondia-se por detraz de uns homens do povo, para no ser
visto; o sr. Joozinho olhou para Henrique, como se o no conhecesse, e
conversava em voz baixa com o seu camarada Cosme, o qual fitava no
recem-chegado olhares sombrios e ameaadores.

Henrique, ainda que interiormente no tranquillo, sustentava-os sem
desviar os seus, e continuava fumando quasi provocadoramente. Pouco a
pouco subiu de tom a conversa dos dois, assim como a dos outros grupos.

-- preciso ensinar estes espies--dizia uma voz audivelmente.

--Que querer d'aqui este figuro?--perguntava outro.

--Era bem feito que lhe ensinassem a no se metter com a nossa vida...

O morgado, cada vez mais excitado pelo vinho, cruzou os braos sobre a
mesa, e com o corpo inclinado para deante e os olhos abertos para
Henrique, principiou a dizer, retardando-se-lhe j algum tanto a voz nas
fauces:

--Eu se sei que ha alguem que me anda a seguir os passos e a espiar,
sempre lhe dou uma lio, que lhe ha de lembrar toda a vida! No, que
isto aqui no  Lisboa! Eu no admitto que se olhe para mim com falta de
respeito... J disse! Eu no gosto de repetir as coisas... Tenho dicto!
O senhor no ouve?

Henrique continuou a fumar, sem desviar os olhos do morgado.

-- senhor l... Faz favor de no olhar para mim d'essa maneira?

Henrique exhalou uma baforada de fumo e sorriu.

--Voss ri-se!... Elle riu-se,  Cosme? Pois elle riu-se de mim? Espera!

E o sr. Joozinho executou um movimento para levantar-se.

O Cosme imitou-o, e os camaradas puzeram-se a postos.

Susteve-os o brazileiro e outros igualmente pacificos.

--Ento! ento! isso o que ?

--Quero perguntar quelle senhor de que  que se ri--bradava o morgado,
furioso.

--Para isso no se incommode--respondeu Henrique--eu mesmo d'aqui lhe
respondo. Rio-me da ridicula figura que est fazendo.

--Ah!... ouvem-n'o? Larguem-me, deixem-me, deixem-me...  Cosme!...

E o morgado barafustava entre os braos debeis que o retinham. No povo
principiou a subir a mar das murmuraes contra Henrique.

--O senhor vem para aqui armar desordens?

-- para espiar?

--Depois queixe-se...

--No se metta com a gente.

O morgado bracejando, espumando, e largando por pouco a jaqueta nas mos
que o retinham, conseguiu, graas aos seus musculos robustos, sacudir de
si todos os obstaculos, e correu para Henrique, que por preveno se
collocou a p.

O sr. Joozinho, cego de embriaguez e de raiva, berrava, voltado para
elle:

--O senhor conhece-me?... O senhor sabe com quem fala? Olhe bem para
mim... Quero vr agora se ainda se ri.

--Por que no? Se cada vez est mais ridiculo!

O morgado deu um urro selvagem e fez um movimento como para se atirar a
Henrique.

Este recuou um passo, e pegando no copo que ainda tinha intacto deante
de si, despejou-o todo sobre aquella figura j avinhada, dizendo
motejadoramente:

--Ahi tem;  isso provavelmente que vem buscar.

O rosto, as mos e a camisa do sr. Joozinho ficaram litteralmente
tingidas. Soltando um rugido de fera, levou a mo  faxa da cinta, como
a procurar uma arma. Henrique, percebendo-lhe o movimento, antecipou-se
a segural-o pela garganta, para o reter e afastar de si.

O morgado torcia-se e espumava sob a constrico de Henrique, e j
congestionado e rouco bradou:

-- Cosme!...  Cosme!... Mata esse maldito!...

A phalange do sr. Joozinho correu em soccorro do chefe. O varapau do
Cosme girou no ar, produzindo um zunido como o de um enorme zango.

O brao diligente do Canada, movido pelo empenho de salvar o crdito do
estabelecimento, afastou a tempo Henrique do terrivel embate, que
infallivelmente lhe seria fatal.

A pancada caiu sobre a mesa, que lascou ao comprido.

Henrique estava inclume, e o morgado slto.

Mas o perigo no passara para Henrique. O morgado preparava-se com os
seus para nova investida, quando se ouviu a voz do brazileiro e do padre
bradarem:

--J est a tocar o sino! Ao cemiterio emquanto  tempo!

E no entanto o brazileiro, chamando de lado o Cosme, convencia-o, por
varios generos de argumentos, da conveniencia d'este partido, e to
convencido o deixou, que elle berrou d'ahi a pouco:

--Deixa o homem para outra vez, Joo, deixa-o e vamos a elles ao
cemiterio!

--Ao cemiterio, ao cemiterio! repetiram algumas vozes.

--E queime-se a papelada da camara!

--E mate-se o escrivo de fazenda!

--E quebrem-se os vidros do Mosteiro!

--E pegue-se fogo  casa!

Eram de bastante fra estes argumentos para convencer o sr. Joozinho.

--Pois v l, rapazes! Com este faremos contas depois. Ao cemiterio!
Atiremos a terra com o tal mausolo!

E prepararam-se para sair tumultuariamente. Henrique, ouvindo isto,
percebeu do que se tratava, e prevendo srios riscos para as senhoras do
Mosteiro, desembaraou-se dos braos do Canada, que teimava em segural-o
e em dar-lhe conselhos de prudencia, e correu a montar a cavallo para se
anticipar aos desordeiros. Effectivamente assim o fez; mas, ao passar
por entre o grupo d'elles, o varapau do Cosme, floreteando outra vez no
ar, caiu sobre a cabea do cavallo. O animal, atordoado por a pancada,
partiu em galope desenfreado, e apesar de toda a arte de Henrique,
acabou por o arrojar a terra com tal violencia, que o deixou como morto.

Os desordeiros seguiram, capitaneados pelo morgado, o caminho do
cemiterio. O brazileiro, o padre e o Pertunhas, acolheram-se
pacificamente aos lares.

O sino da igreja continuava a repicar.




XXV


Era uma perspectiva profundamente melancolica a do cemiterio da aldeia
por aquella tarde de inverno!

Imagine-se um campo plano e raso, onde vegetavam algumas roseiras de
toda a estao, e a murta e a alfazema, vivendo a custo n'aquelle solo
ingrato, que havia pouco alimentava apenas urzes, tojeiras e pinheiraes.
No centro d'este espao elevava-se, singello, mas elegante, o tumulo da
familia do Mosteiro, sobre o marmore do qual pousavam tristemente os
ramos flexiveis de um salgueiro choro, e nos cantos principiavam a
erguer-se, como obeliscos funerarios, quatro jovens cyprestes
ponteagudos. Para alm do muro, que circumdava este terreno, estendia-se
um vasto pinheiral, atravs de cujos troncos, confusamente cruzados, se
podia ainda divisar ao longe uma ou outra casa da aldeia, e o verdor dos
campos e pomares. A igreja parochial erguia, a pequena distancia d'alli,
a grimpa do campanario, e o sussurrar dos desfolhados lamos do adro,
agitados pelo vento, ainda chegava quella estancia mortuaria.

A tarde tinha um d'estes aspectos ameaadores, que deixam presentir a
tempestade; d'estas serenidades insidiosas, interrompidas, de quando em
quando, por uma subita virao, que faz revolutear na estrada as folhas
sccas como em espiraes phantasticas. O co pintra-se do colorido
melancolico e triste, que em alguns quadros de Annunciao to fielmente
se v reproduzido. Estava quasi todo coberto; s muito para o occidente
uma estreita zona se conservava limpa de nuvens, mas n'ella mesmo o azul
recebia, do contraste das cres vizinhas, um cambiante quasi esverdeado.
As nuvens inferiores, acima das quaes passavam os raios do sol, tinham o
aspecto rxo-livido, que o avizinhar da noite ia tornando mais
carregado; no mais alto da abobada, as superiores, illuminadas ainda,
apresentavam reflexos amarellados que cada vez se afogueavam mais.

Para o oriente haviam-se fundido os nimbos em uma massa unica, uniforme,
cerrada, como uma abobada metallica, cujo livor imitava. De quando em
quando cruzava os ares uma ave de vo rapido, soltando pios angustiosos.

Era a esta hora que devia effectuar-se o enterro de Ermelinda.

Estava j aberto o jazigo da familia do conselheiro, aguardando a
infeliz creana.

Os padres cantavam na igreja, e o sino repicava, como de festa, saudando
a entrada de mais uma alma sem culpas no gremio dos anjos.

 porta da igreja, no adro e no cemiterio estacionavam alguns ociosos;
muitos acercavam-se do sepulcro, movidos pela curiosidade que a nova
frma de enterro lhes suscitava.

As murmuraes, comquanto menos manifestas aqui do que na taberna do
Canada, nem por isso faltavam.

At da porta da igreja para dentro, at de joelhos, at de contas na mo
e olhos fitos no altar, os murmuradores existiam. Velhas beatas clamavam
assim a justia celeste sobre os impios do seculo, que no queriam
enterrar-se no cho sagrado da igreja. Junto da pia da agua benta,
aspergindo-se, persignando-se sobre a bca, para que Deus livrasse de
peccar por palavras, n'essa mesma occasio, ellas entoavam os seus
threnos e maldiziam dos reformadores, sobre quem chamavam as penas do
inferno.

Havia tambem no grupo alguns que conferenciavam em voz baixa e se
entreolhavam de maneira mysteriosa, fitando s vezes os caminhos
proximos, como se d'alli aguardassem alguma coisa.

A morgadinha viera junto ao tumulo despedir-se da filha do Cancella.

Christina ficra a fazer companhia a D. Victoria, que se achra
adoentada.

Segundo o costume de algumas aldeias, Ermelinda devia ser acompanhada 
campa por creanas quasi da mesma idade, vestidas como para festas. Uma
d'ellas era a pequena Marianna, a irm mais nova de Christina; as
outras, raparigas das vizinhanas, que as senhoras do Mosteiro tinham
por suas proprias mos vestido e enfeitado. O enterro fazia-se com
extraordinario apparato, no s em honra da familia do Mosteiro, mas
para desvanecer a m impresso dos animos populares por meio da pompa
religiosa.

Era digno do pincel de um artista, a quem a poesia das scenas campestres
ainda inspirasse, o cortejo ao mesmo tempo melancolico e risonho, que,
saindo da igreja, se encaminhava lentamente para o tumulo onde Ermelinda
devia ser sepultada.

O sol quasi a desapparecer sob o horisonte, entrava na estreita zona,
que as nuvens no toldavam.

A paizagem inundava-se agora de luz, mas de uma luz froixa, amarellada,
que d ao verde da relva e das frondes das arvores uma maior
intensidade.

A cruz de prata que arvorada por um homem de opa, abria o cortejo,
reflectindo aquelles raios amortecidos, brilhava como cingida de uma
verdadeira aurola. Seguiam-se alguns padres de sobrepeliz e batina,
recitando as oraes da occasio; entre estes havia um de aspecto
venerando, curvado pelos annos, de physionomia bondosa e pensativa. Era
o cura, santo e respeitavel ancio que, em vez de exacerbar os
preconceitos do povo contra os enterros, no cemiterio, antes
energicamente os combatia e censurava.

Depois vinha em caixo aberto, e no meio de uma numerosa companhia de
creanas, Ermelinda, a quem a pallidez da morte no dissipra a
formosura. Dir-se-ia apenas adormecida. Trazia nos labios o sorriso da
innocencia. As mos cruzavam-se-lhe naturalmente sobre a tunica
alvissima que a cingia, a mesma com que apparecra no auto, e a cabea,
cercada por uma singella cora de flores, conservava a graciosa
inclinao que lhe era habitual em vida.

As creanas do acompanhamento tinham sido escolhidas, por Magdalena e
Christina, entre as mais gentis da aldeia.

Era uma cohorte de cherubins humanados, qual d'elles mais louro e mais
formoso.

A morgadinha precedra o cortejo e viera esperal-o junto do tumulo. Com
o brao apoiado na pedra sepulcral, e a fronte encostada  mo, seguindo
melancolicamente com a vista a vagarosa procisso que entrra no
cemiterio, dissera-se uma estatua primorosa, cinzelada por mo de
inspirado artista, para symbolisar junto do tumulo a saudade pelos que
morrem.

Cada vez se ouvia mais perto o latim dos padres; o coveiro viera j
occupar a posio que lhe competia; estreitou-se o circulo dos curiosos
em volta da campa. A cruz parou junto dos degraus do tumulo; os padres
abriram alas e as creanas encaminharam-se, por entre elles, para a
borda da sepultura.

O abbade molhou o hyssope na caldeira, para aspergir a cova.

Uma imprevista occorrencia mudou, porm, o aspecto da scena.

Havia j alguns momentos que comera a ouvir-se um vago rumor, que
tanto podia ser do vento na rama dos pinheiraes, como de multido que se
approximasse em tropel.

As conferencias solapadas de algumas personagens dos grupos tinham-se
activado ao ouvil-o. Pouco a pouco principiou a mover-se alguma coisa
por entre os troncos do pinheiros; tornaram-se distinctas uma, duas,
tres e muitas figuras de homens, correndo em direco ao cemiterio,
gesticulando, berrando, soltando ameaas, algumas das quaes j a
distancia a que elles vinham permittia ouvir claramente.

No era difficil adivinhar a significao d'aquillo. A questo vital do
dia era, para todos os espiritos, a dos enterros, em campo descoberto; a
cada momento se falava em motim prompto a organisar-se e a rebentar.
Ficava pois evidente que tinha chegado a ocasio da crise popular j
antevista.

Cdo invadia o cemiterio um bando de furiosos, desorientados, de aspecto
feroz, berrando e brandindo ameaadoramente paus, fouces, chuos, e
todas as peas do extravagante arsenal, a que o homem do povo recorre
sempre ao chamamento da arruaa ou da sedio.

Era o bando dos influentes da taberna do Canada, de cujo proposito
estavamos prevenidos; agora, porm, j engrossado, como a corrente a que
no caminho se incorporam as aguas dos algares.

Entre os primeiros vinha o sr. Joozinho das Perdizes, e ao seu lado o
_factotum_ Cosme.

Estes, enraivados, correram para o logar onde parra o enterro, bradando
em confuso:

--Alto l! alto l! Ninguem se enterra aqui!

--Esperem! Isso no vae assim!

--No faam a festa sem ns!

--Fra com os do cemiterio!

--Morram os pedreiros-livres!

--Para a igreja!

--Enterre-se na igreja!

--Ol, sr. abbade, espere por ns!

--Aqui vamos para abenoar a cova!

E n'um momento o cortejo funebre viu-se rodeado de figuras avinhadas,
gesticulando e vociferando pouco tranquillisadoramente.

O cruciferario e os padres,  excepo do velho que dissemos,
abandonaram o posto; as creanas, pousando no cho e abandonando o
esquife de Ermelinda, correram a acercar-se de Magdalena, amedrontadas e
chorosas.

A morgadinha conservou-se junto do tumulo da me, olhando com serenidade
para os revoltosos, mas intimamente sobresaltada. E no meio do grupo o
cadaver de Ermelinda, com aquelle sorriso nos lbios, como de anjo que
j de longe estivesse vendo o desencadear das paixes humanas, e rindo
de piedade.

O velho cura foi quem interrogou com voz firme e severa os amotinados.

--Que querem d'aqui?--perguntou elle, fitando-os--com que fins vieram
perturbar, com desordens da taberna, as cerimonias religiosas?

--No queremos que ninguem se enterre no cemiterio--respondeu o sr.
Joozinho.

-- verdade!  verdade! ninguem se enterra aqui!--confirmaram
differentes vozes.

--Por qu?--continuou o padre--julgam que Deus no receber as almas,
cujos corpos no estejam l dentro, a apodrecer sob os telhados da
igreja e a envenenar o ar que se respira l?

--No queremos saber de contos. No queremos. J disse!

--Eu no lhes reconheo o direito de querer.

--Ora o padre mestre tem vagares!--disse o faanhudo Cosme--e tu
pachorra para escutal-o, Joo. Para isso no foi que viemos. Sermes
para a quaresma. Vamos! cante l os seus reponsos e latinorio, e ande-me
para a igreja. Vamos ns fazer o enterro.  Manoel coveiro, traze a
enxada e vem d'ahi.

E dizendo isto, o Cosme j se abaixava para levantar o caixo em que
jazia Ermelinda.

--A justia de Deus caia sobre o impio, que com as mos impuras tocar
n'esse cadaver, que est abenoado pela Igreja!--exclamou o velho,
indignado e com um metal de voz vibrante e terrivel.

Na aldeia os homens mais endurecidos no so superiores  intimao
religiosa. O Cosme retirou a mo, como se receiasse que a imprecao do
padre se cumprisse alli mesmo.

Houve uma momentanea quebra no furor popular; um d'estes momentos de
hesitao, que to fataes so ao exito das revolues democraticas;
ninguem se sente com coragem de erguer o novo grito, e quasi todos
procuram esconder-se, como envergonhados j do primeiro impeto.

Mas a primeira onda no  a mais temivel; os primeiros bandos populares,
que sem  rua, soltando o grito de revolta, so ingenuos no meio da sua
quasi selvagem ferocidade; entregues a si, cdo espontaneamente se
dariam por vencidos; facil seria subjugal-os. Mas, quando esses poucos
momentos, em que tumultuam sem pensamento que os dirija, no so os
precisos para ficarem esmagados sob a represso do poder; quando o grito
sedicioso, em vez de sacrificar estes revolucionarios, quasi candidos,
mandados por os cautos para tentar a opportunidade da occasio,
apparenta sortir effeito, ou porque satisfaz uma aspirao legitima das
massas, ou porque lisonjeia um falso preconceito d'ellas, vem ento a
segunda onda, mais ordenada, mas mais terrivel, porque no  a
embriaguez do motim que a impelle,  a ideia fixa, o pensamento
reservado, o plano de antemo traado e urdido no mysterio e na sombra.
Vem ento reforar-a primeira, insufflar-lhe o alento que esta no tem
de si, e amparar-se com ella dos golpes dos inimigos. Se a tentativa no
vinga, retiram-se antes que, derrubada a vanguarda, fiquem a descoberto;
mas se a sorte os favorece, deixam cair os primeiros como victimas, e no
campo da victoria adeantam-se ento a colher os trophos conquistados.

Foi assim que, no momento em que o bando capitaneado pelo morgado das
Perdizes, ia ceder, um pouco subjugado pela figura solemne e a palavra
severa do venerando cura, saiu da igreja uma singular procisso.

 frente vinha o estandarte da confraria erecta pelo missionario; este
seguia-o, e atraz d'elle os seus confrades e sequazes, no numero dos
quaes se encontravam padres e mulheres.

A hoste do sr. Joozinho sentiu-se reanimar com este refro.

Um grito unisono saiu dos labios de todos ao ver a procisso.

--Viva o missionario!

--Viva o santo!

--Abaixo os pedreiros-livres!

E os do bando do estandarte correspondiam a estas saudaes, dizendo:

--Abaixo os maonicos!

--Morram os jacobinos!

--Viva a santa religio!

Mais uma vez este brado augusto, que deveria proclamar o perdo das
injurias, o amor reciproco, a caridade indistincta, era profanado por o
fanatismo e por a hypocrisia, e manchado pelo sophisma de seculos, o
mesmo sophisma que maculou os feitos de armas dos passados guerreiros da
christandade.

A embriaguez da revoluo apoderou-se de novo do morgado das Perdizes.
Duas influencias inebriantes lhe disputavam agora o cerebro, que no
fra nunca dotado, de grande fortaleza contra as paixes.

Palpitava-lhe o corao, quando se imaginava caudilho de um movimento
popular.

Sentia a necessidade de se fazer notavel por um feito heroico.

--No se consentem aqui enterros, e principiemos j por deitar abaixo
estas pedras--bradou elle, apontando para o tumulo da familia do
conselheiro.

-- verdade!  verdade! Abaixo! abaixo!

--So invenes dos pedreiros-livres!

-- isso,  isso... Pois no vem que so de pedra!

--Abaixo! Abaixo!

O sr. Joozinho, arrojando de si o chicote, tirou um machado das mos de
um homem que lhe ficava proximo, e deu alguns passos para o tumulo.

Magdalena collocou-se deante d'elle.

J no estava pallida; tinha nas faces o rubor, nos olhos o lampejar da
indignao.

--Afaste-se, senhor!--bradou ella, estendendo a mo para o brio, que
parou a fital-a com olhos espantados. Nem sequer pouse os ps nos
degraus d'esta sepultura. Aqui repousa minha me. Atraz!

A figura, o olhar, a voz, as palavras de Magdalena exprimiam uma das
resolues energicas e potentes d'aquella indole sympathica, que aos
affectos e branduras de mulher sabia combinar a firmeza e energia quasi
varonis.

O morgado sentiu uma vaga consciencia da sublimidade d'aquella scena, e
ficou enleado.

Porm o Cosme, o seu genio mau, no sei que lhe murmurou ao ouvido, que
elle desatou a rir a mais alvar gargalhada que ainda escancarou bca
humana.

Estendendo para Magdalena a mo callosa e grosseira, disse-lhe, com um
sorriso que tinha tanto de cynico como de estupido:

--Est dito! Toque! Gosto d'esse desengano! Toque!

Magdalena repelliu-o com despreso e averso.

--Ah! ah! Faz-se fidalga!--disse o sr. Joozinho, despeitado.--Pois no
anda bem.

O missionario inclinou-se ao ouvido de um homem do povo que, depois de
escutal-o, bradou:

--Abaixo com o tumulo dos pedreiros-livres.

--Abaixo!...--repetiram muitas vozes.

--Pois v abaixo!--repetiu tambem o sr. Joozinho, adeantando-se com o
machado.

--Para traz!--exclamou outra vez Magdalena, j trmula de exaltao.

O cura, enfiado e convulso, correu para o lado d'ella.

O sr. Joozinho sorriu.

--Isso  que  mandar! Socegue que no fazemos mal a sua me; s lhe
queremos tirar essas pedras de cima d'ella. Devem-lhe pesar!--e soltou,
ao dizer isto, uma gargalhada, que echoou no grupo que o rodeava.

--Abaixo, abaixo!--repetiram ainda as vozes, e o morgado preparou-se
para cumprir o feito. Magdalena sentiu que a razo se lhe perturbava.
Era-lhe preciso defender de uma profanao as cinzas de sua me, ainda
que fsse  custa da propria vida.

Ia para supplicar, para ajoelhar deante d'aquelles homens; j as
lagrimas lhe brilhavam nos olhos, e os labios principiavam a murmurar a
palavra piedade.

O morgado viu-a assim, e como homem em quem as lagrimas de mulher ainda
achavam caminho para chegar ao corao, hesitou, resmungando:

--Mau! se temos chro, nada feito.

Mas j no podia hesitar; a onda impellia-o, os gritos redobravam, e
outros braos se agitavam ao seu lado, preparando-se para a obra de
profanao.

O sr. Joozinho cedeu outra vez e levantou o machado.

Imitaram-n'o muitos.

Magdalena ento correu a abraar-se ao tumulo da me para o proteger da
violencia.

Antes de o abater haviam de a ferir a ella.

Os machados, que j se brandiam no ar, suspenderam-se. Alguns
baixaram-n'os, como arrependidos.

O morgado formulou n'uma jura a impresso que lhe estava causando a
scena.

Desviando os olhos, disse, com modo desabrido:

--Tirem essa mulher d'ahi.

Deus sabe que scenas de violencia se seguiriam a esta ordem, se um novo
facto no viesse desviar as attenes e modificar diversamente o animo
popular.

Um homem, que parecia chegar de longa jornada, approximra-se do
cemiterio, cada vez mais pressuroso  medida que se affirmava nos grupos
alli reunidos.

Entrou justamente quando a furia popular crescia mais impetuosa.

A figura da morgadinha, em p sobre os degraus do tumulo, abraada a
elle, dominava toda aquella multido.

Ao descobril-a a distancia, o homem que dissemos soltou uma exclamao,
como de quem tinha comprehendido ou adivinhado a significao d'aquella
scena; e apressando ainda mais os passos achou-se, dentro em pouco, no
logar do motim.

Era tempo.

A populaa allucinada ia talvez exercer algumas d'essas irreflectidas
violencias, que tantas vezes maculam e deshonram a causa do povo nas
luctas em que elle toma parte.

--Que  isto aqui?--disse o homem, rompendo com os braos potentes a
onda que se lhe antolhava.

 rudeza do impulso ninguem resistiu; em pouco tempo abriu caminho at
ao meio do circulo.

Uma s voz correu por as differentes pessoas do grupo dos amotinados.

--O Herodes...  o Herodes!...--diziam, afastando-se.

Effectivamente era o Cancella o homem que tinha chegado.

Obtendo fiana, graas  interveno do conselheiro, voltava  terra,
ancioso por ver e beijar a filha, cuja ausencia fra a unica dor que o
atormentara.

O desgraado no sabia ainda da sorte d'ella.

Uma carta que Magdalena lhe escreveu, noticiando-lh'a, j no o
encontrra na priso, para onde fra dirigida.

Vinha cheio de esperanas o pobre homem, porque eram para animar as
ultimas noticias recebidas.

Vendo de longe o ajuntamento no cemiterio, ouvindo os gritos sediciosos,
conjecturou que havia algum motim popular por causa dos enterros no
adro, que elle sabia serem antipathicos aos espiritos da terra.

Quando descobriu a morgadinha, envolvida pelo tumulto, e no tumulo da
me, previu que ella estava correndo perigo, e apressou-se logo a
acudir-lhe.

Ao chegar, porm, ao meio do circulo, que conseguiu romper, e quando ia
a dirigir a palavra a Magdalena, reparou para o cadaver da creana do
esquife, o qual continuava ainda pousado no cho; fitou os olhos
n'aquella pallida e serena physionomia, ainda animada pelo mesmo sorriso
de innocencia, e, apesar da debil claridade da hora, reconheceu a filha.

Nem um s grito de dor lhe saiu dos labios, nem um s movimento de
surpresa; ficou mudo, immovel, com os olhos fitos n'aquella creana
morta, com as mos juntas e com as faces extremamente pallidas.

Perante esta terrivel manifestao de dor, que toda se concentra, para
n'um momento gastar mais vida do que o perpassar de muitos annos,
calmaram todos os outros sentimentos que dominavam os coraes.

Fez-se um profundo silencio. O Herodes, n'uma especie de recolhimento
fervoroso, ajoelhou junto do caixo de Ermelinda, e trmulo, opprimido,
quasi sem alento para chorar, approximou a mdo as mos das mos
cruzadas da creana.

Ao primeiro contacto retirou-as rapidamente por achal-as de glo; mas,
tomando-as outra vez, murmurava:

--Jesus, meu Deus! Est morta!... Ermelinda!... Filha!... Isto no pode
ser, Senhor!... Pois minha filha est morta?

A paixo principiava emfim a manifestar-se mais tumultuosa; mas havia no
tom de voz, com que estas palavras fram pronunciadas, no sei qu to
intimamente doloroso, que presentia-se que, no curto espao de tempo que
as precedera, se tinha operado n'aquelle peito uma revoluo tremenda,
como se uma intima dilacerao o tivesse destruido. Adivinhava-se l
dentro j um desalento mortal, um mal de que se no convalesce nunca.
Aquelle homem estava perdido.

--Mataram-me a minha pobre filha! A minha Ermelinda... Que mal lhes
tinha eu feito para m'a matarem?...  anjo do Co! viver eu para te vr
assim!

E, tirando-a do esquife, cingiu-a contra o peito, cobrindo-a de beijos,
que no conseguiam aquecer o glo d'aquellas faces.

Raros olhos ficaram enxutos ante aquella sincera dor. Desvanecera-se a
ira popular; como que uma nobre vergonha, uma vergonha de boa indole,
fazia j renegar aos mais atrevidos os seus excessos passados.

O Cancella continuava:

--Esta frialdade da morte! esta brancura das faces!... isto mata-me,
despedaa-me o corao!... No me morras assim, filha! No me morras
antes de dizer-me uma palavra de amor... de perdo. Sim, tu tinhas que
me perdoar antes de morrer! Por que no esperaste ao menos?... Pensar eu
que hei de vr-te partir, sem que me ds um beijo de despedida!... que
te no hei de ouvir falar! S! s! Ficar s! S n'este mundo, Senhor!...
Em que tanto vos offendi, meu Deus, para me castigardes assim!? Em qu?

Magdalena chorava, commovida, ao ouvir estas palavras dolorosas.

O Cancella voltou para ella os olhos j marejados de lagrimas.

-- menina Magdalena, pois Ermelinda morreu?... Fale, diga-me. Minha
filha morreu? A que horas?... como?... Falou em mim? pensou em mim?...
Perdoou-me?... Chora, e no responde... Ento no me perdoou? Pois minha
filha no me perdoou?

Magdalena respondeu a custo:

--Que tinha ella a perdoar-lhe?

--No  verdade que eu lhe queria muito? no  verdade que eu vivia por
ella? Agora... que me importa o viver? Como posso eu viver! Ai, se Deus
me matasse agora, assim! abraado a este anjo! Se Deus me matasse!

E outra vez a estreitava nos braos.

Depois, voltando-se para o povo que se conservava alli, perguntou com
voz alterada:

--Que procuram?... Que querem?... o que fazem ahi armados, ao p de
minha filha morta?

--Queremos que elles a enterrem na igreja--responderam, j tibiamente,
algumas vozes.

--Na igreja?... Isso  que no! Sabem quem me matou a filha? Foram
elles... Esses que m'a tolheram de mdos, que lhe roubaram as
alegrias... que fizeram d'ella isto que ahi vdes... Pois no a
conheciam? No a tinham visto ahi nos campos, nas novenas e nas
festas?... Viram-n'a nunca com estas cres desmaiadas? viram-n'a sem
aquelles cabellos louros, que to bem lhe ficavam? e que elles cortaram
sem piedade? E querem-te ainda guardar, desgraadinha! No, no te
entregarei. No, no irs l para dentro. Quero-te aqui, minha filha;
aqui, debaixo dos olhares de Deus... Eu mesmo te vou deitar como tantas
vezes o fiz quando dormias no bero, que ficar sempre vazio!  meu
Deus, que vida vae ser a minha, se te no compadeces de mim, Senhor!...

E suffocado de pranto, que rompia agora abundante, o desesperado pae
ajoelhou junto do esquife, onde depoz com cautela o corpo da filha.

--Obrigado, menina Magdalena, por dar  minha pequena um logar ao p de
sua me; obrigado. Junto d'aquella santa parece-me que dormir em
socgo... A minha pobre filha!

E pousando nos labios frios da creana um beijo prolongado, cheio de
paixo e saudade, levantou o esquife nos braos para, por suas proprias
mos, o descer ao jazigo. Antes, porm, de fazel-o, beijou ainda uma vez
aquella de que mal podia separar-se.

Cdo baixou sobre o pequeno esquife a pedra tumular.

Nem um s movimento, nem uma s voz tentou oppr-se quelle acto, contra
o qual momentos antes se erguia irreprimivel a resistencia popular.

Os influentes mais insoffridos tinham abandonado o campo.

O primeiro que o fizera fra o missionario. Desde que vira assomar a
figura do Cancella, vieram-lhe ao espirito umas memorias pouco
agradaveis, e julgou avisado retirar a tempo.

Ao terminar esta scena o proprio morgado e o inseparavel Cosme j no
estavam presentes. Sairam desde que viram os animos pouco dispostos a
secundal-os.

Os circumstantes quasi faziam j cro com as arguies do Cancella
contra os excessos do fanatismo e do beaterio.

--A falar verdade--dizia um--este pobre homem tem alguma razo. Isto de
metter scismas s creanas!...

--E a Rosita do Gaudencio olha que vae por a mesma.

--Tambem  de mais.

--Eu por mim se fsse a elle... No sei o que faria.

N'estes e n'outros dizeres se iam retirando do cemiterio.

No seria difficil a um especulador aproveitar aquelles mesmos braos e
armas para organisar uma sedio sobre uma divisa opposta  que primeiro
os convocra.

Ao vr cerrar-se a campa sobre o corpo da filha, o Cancella caiu de
joelhos, suffocado em pranto.

As creancas presentes, por contagio da commoo, a que  to sujeita
aquella idade, choraram tambem.

Magdalena ia a consolal-o, mas o sentimento proprio no a deixou falar.

S pde pousar-lhe em silencio a mo no hombro.

O Cancella apoderou-se d'ella e, levando-a aos labios, rompeu em mais
desafogado pranto do que nunca.

A noite crescia; cada vez era mais cerrado de nuvens o firmamento.

Os sons das Av-Marias vibraram nos ares, prolongados e tristes.

O padre velho pronunciou em voz alta a saudao angelica.
Responderam-lhe as creancas!

Tudo concorria para augmentar a extrema melancolia do quadro.

O Cancella a muito custo se resignou a arrancar-se d'alli.

A morgadinha voltou a casa com o corao oppresso de tristeza.




XXVI


Quando Magdalena voltou ao Mosteiro encontrou a casa em completa
agitao.

Momentos antes havia sido para l transportado, quasi sem accrdo,
Henrique de Souzellas, que um criado de lavoura se encarregra de trazer
da taberna, onde o Canada o recolhera, at o Mosteiro, sobre um carro de
herva que vinha guiando.

Ao vr n'aquelle estado o sobrinho da senhora de Alvapenha, D. Victoria
perdeu totalmente a cabea, e em vez de tomar as providencias que o caso
pedia, deu em ralhar, em fazer exclamaes, em andar de sala em sala, de
corredor em corredor, sem teno formada, sem methodo, sem direco.
Levava as mos  cabea, ajuntava-as consternada; dava uma ordem ociosa;
mandava logo suspender a execuo d'ella; impacientava-se; chamava a
toda a pressa um criado e no sabia depois o que tinha para dizer-lhe;
extranhava a tardana de outro que no mandra chamar, e sem dar a final
expediente a coisa nenhuma, nem saber o que fizesse.

Os criados resentiam se d'esta falta de intelligente direco; paravam
embaraados, ou corriam sem saber para onde, nem para qu, e sem
adeantarem servio.

As creanas concorriam tambem para esta desordem, porque, cheias de
susto, andavam agarradas s saias de D. Victoria, que nem sequer dava
por ellas.

Christina foi a unica pessoa que conservou a presena de espirito
n'aquella occasio.

Nada do que fazia era inutil: nem uma s ordem dava que pudesse dizer-se
ociosa; graas ao methodo com que procedia s instruces que ordenava,
a tudo se providenciou convenientemente, sem que D. Victoria o
percebesse at.

Christina tambem, ao vr chegar Henrique n'aquelle estado assustador,
sentira-se desfallecer; mas disse-lhe a consciencia que lhe era precisa
toda a firmeza, visto que estava ausente Magdalena, em quem smente
poderia descanar, e logo achou na necessidade valor, e, com serenidade
apparente, s trahida pela extrema pallidez das faces, a tudo attendeu,
tudo previu, tudo providenciou.

Sem uma exclamao, sem uma palavra de desespero ou de susto, sem nem ao
menos erguer o tom de voz, ou modificar a inflexo affavel, que lhe era
natural, preparou um quarto para Henrique e n'elle todos os aprestes que
o seu grave estado pedia, dirigiu os primeiros soccorros com
intelligencia e efficacia, mandou chamar o cirurgio, enviou a Alvapenha
parte do succedido, e ordenou que procurassem Magdalena, occupando
n'isto a menor gente possivel, e deixando a outra toda como alimento 
impaciencia de sua me.

A indole de Christina tinha d'estas energias essencialmente feminis e
sympathicas. No era para o salo que se formra e educra o ingenuo e
meigo caracter da prima de Magdalena. Ahi tomava-a um acanhamento, que
j no conseguiria vencer, mas nas lides domesticas, na vida do lar era
d'essas corajosas luctadoras, a quem a desventura no derruba, cuja
intelligencia por tudo se reparte; d'estes genios providenciaes, que
pairam sobre o estreito horisonte da familia, activos, laboriosos,
achando nas fadigas um prazer, nos sacrificios estimulos para mais amar,
nos sorrisos que provocam, nas dores que alliviam, nas lagrimas que
enxugam, premio bastante para compensar as penas que soffrem.

Mulheres so estas nascidas para serem esposas e mes, o que  quasi o
mesmo que dizer: nascidas para serem mulheres.

A chegada de D. Dorotha, que acudiu apressada logo que soube o que
succedera ao sobrinho, no dispensou Christina d'estes cuidados, que
voluntariamente tomra.

Comquanto a senhora de Alvapenha fsse mais razoavel do que D. Victoria,
e de temperamento menos susceptivel d'aquellas inuteis effervescencias,
em que esta se deixava arrebatar, no era tambem mulher para casos
d'estes.

Na sua longa vida de celibataria sem familia, D. Dorotha perdera ou
embotra a faculdade preciosa de acertar bom caminho em qualquer
imprevista occorrencia.

Facto que destoasse dos monotonos habitos do seu viver de muitos annos
j a lanava em srios embaraos. Ella propria confessava que inda havia
pouco tempo principira a afazer-se  estada de Henrique em Alvapenha, e
a fazer o que era seu costume fazer antes de elle vir.

 pois evidente que D. Dorotha pouco mais podia fazer do que rezar, e
para isso ninguem estava mais habilitado do que ella. Em relao  crte
celestial era a boa senhora como esses almanachs vivos, que nos sabem
dizer todos os canaes por onde os differentes negocios podero ser
melhor conduzidos nas crtes... terrestres... Conhecia a especialidade
de cada santo e para cada um tinha uma frmula de requerimento
particular.

Christina no a consentiu por muito tempo no quarto de Henrique, onde,
com as melhores intenes, mais embaraava o servio do que auxiliva;
usando de uma debil violencia foi-a levando para a sala do oratorio,
onde ella encetou uma reza sem fim.

Quando a morgadinha chegou, ainda perturbada com as scenas do cemiterio,
e soube do succedido na taberna, correu, assustada, para verificar a
realidade do que lhe diziam.

Nos corredores encontrou um criado caminhando, apressado, n'um sentido,
uma criada em sentido opposto, emtanto que, na sala proxima, D. Victoria
tocava freneticamente a campainha a chamar por ambos.

Magdalena dirigiu-se para l.

Quando entrou estava D. Victoria pronunciando uma d'aquellas
interminaveis e arrevezadas objurgatorias, de que s a fecunda
verbosidade feminina  capaz. Em geral as mulheres, seja dito antes em
honra do que em censura do sexo, so oradoras de muito mais folego que
os homens que blasonam de eloquentes. O assumpto mais simples, uma
colhr que se perdeu, uma pea de loua que se quebrou, por exemplo,
fornecem-lhes thema para uma prdica de duas horas.

Encaram o assumpto por todos os lados, paraphraseiam-n'o de mil frmas e
estendem milagrosamente por muitos periodos aquillo que a um homem a
custo daria para uma magra orao.

--Mas onde estavas tu? Sim, eu quero saber onde  que tu estavas. Faa
favor de me dizer onde  que estava?

Isto dizia D. Victoria a um criado, estatelado deante d'ella com a cara
e postura de ro.

--Eu... senhora...--ia elle a dizer.

--Eu senhora... eu senhora... eu nada. Ora  o que . Um desafro
assim!... Eu s quero saber se vossemec ganha soldada para andar l por
onde muito bem lhe parece. Por as tabernas... por as vendas... Porque
elle no ha mais... Como o dinheiro se vae roubar  estrada... O que tu
merecias... Estou eu aqui a chamar ha mais de duas horas e vossemec
apparece-me l quando  muito do seu gsto? Isto atura-se? A culpa tem
quem eu sei... Tu cuidas que mandriar no  roubar?

--Mas...

--Cale-se! Oua e cale-se. Tens a lingua muito prompta para responder.
Ora toma-me cautela, seno vaes j, j pela porta fra. Pouca vergonha!
Uma pessoa aqui afflicta, com as coisas por fazer, a querer mandar onde
 preciso e no apparecer um criado n'esta casa! A pagar-se aqui umas
soldadas por ahi alm, e, quando se quer o servio feito, tem uma pessoa
de o fazer por suas mos!... Tu cuidas que isso no  peccado tambem?
Deixa, meu amigo, que tens boas contas a dar de ti. Quem  que lhe deu
licena para sair sem ordem de seus amos? Faz favor de me dizer?

--A sr.^a Christininha...

--Eu no quero saber da sr.^a Christininha, quero saber quem lhe deu
licena para sair?

--Mas  o que eu estou dizendo  senhora.

-- muito padre-mestre. Ora no seja confiado, e veja como responde.

Emfim, este dialogo promettia ser eterno, no obstante a urgencia do
servio de que falava D. Victoria, servio que ella propria adiava com
este importuno sermo.

A entrada da morgadinha operou uma diverso. D. Victoria esqueceu-se do
criado, o qual pde retirar-se sem ser percebido e sem receber as ordens
urgentes para que fra chamado.

D. Victoria principiou a contar a Magdalena o succedido, conforme ella
propria o soubera do moo do carro em que viera Henrique.

--Andam desaforados--concluiu ella.--J nem attendem a uma pessoa de
respeito.  porque no ha justia n'esta terra. Esto para ahi uns
patetas de umas auctoridades, que so outros que taes. Era preciso um
exemplo. Ahi est quando eu, se fsse rei, no tinha pena nenhuma: havia
de os esquartejar e era bem feito!

Cumpre dizer que D. Victoria no era capaz de bater n'um gato.

A morgadinha contou tambem rapidamente o que succedera no cemiterio.

Ento  que trasbordou a indignao da tia.

--Tu que dizes, menina?... Tu ests a falar srio?... Pois elles?... Em
nome do Padre... Que mais teremos ainda de ver?... Oh meu Deus!... E
esses malvados ainda esto na rua?... Deixa que teu pae ha de ainda
saber... No, isso no fica assim... D'aqui a pouco pem-nos o p no
pescoo. Nada, nada; para os malvados  que se fizeram as forcas... Ora
deixa que... Isto aqui anda trama.

--No falemos mais n'isso. Agora vou vr o estado do ferido.

--Vae, e v se encontras por ahi alguns criados. Eu no sei onde elles
se metteram. Ha de ser preciso ir  botica, e muitas mais coisas, e no
vejo nenhum!

Magdalena deixou sua tia a tocar outra vez a campainha.

Encontrou-se na sala immediata com Christina, que ia em direco ao
quarto de Henrique, com um copo de agua acidulada.

--Que ha, Christe?--perguntou-lhe Magdalena.

--Que ha de haver, Lena?--respondeu Christina com tristeza, mas com
serenidade ao mesmo tempo--uma desgraa, mas que Deus ha de permittir
que no seja sem remedio.

--Como est elle?

--Estonteado ainda, mas um pouco mais tranquillo do que quando chegou.
Os balanos do carro fizeram-lhe mal. Com as bebidas calmantes que lhe
tenho dado, achou-se bem.

--E ainda no mandaram chamar o cirurgio?

--J mandei, j veio, j o sangrou, j...

--Mas tua me no o sabe e ia mandar...

--Deixa-a l, Lena. Deixa-a l com os criados, que por ora no convem
que venha. Elle precisa de socgo. J mandei sair d'aqui a tia Dorotha,
que no adeantava servio. Queres vir vl-o?

Magdalena seguiu a prima, e entraram ambas no quarto de Henrique.

Mantinham-se ainda em Henrique as consequencias da profunda commoo
cerebral, que lhe produzira a quda. A tendencia ao estado comatoso, que
apresentava, tornava incerto o resultado e melindrosissimo o caso.

Voltra-lhe a razo e os sentidos; mas tardia aquella, e estes sem
possibilidade de longa fixao em qualquer objecto. Sobretudo, o que
n'elle se notava pouco de tranquillisar, era uma indifferena morbida
pelo seu estado e por tudo quanto o cercava.

Acceitou das mos de Christina a bebida refrigerante, que ella mesma
preparra, com os movimentos quasi instinctivos do somnambulo.

No fim, como se o prazer que o frescor do liquido lhe causra lhe
avivasse por instantes a consciencia, fitou em Christina um olhar de
gratido, sorriu-lhe, e, pousando a cabea outra vez no travesseiro,
fechou os olhos para dormir. Esta somnolencia era habitual.

Christina no ficou inactiva; preparava um remedio, arrumava um movel,
desviava os raios da luz da fronte do enfermo; ia ao corredor mandar
calar os irmos ou os criados, ou desfazer alguma dvida suscitada por
os ultimos sobre o cumprimento de qualquer ordem; outras vezes parava a
espiar o aspecto do doente e a escutar-lhe o rhythmo do respirar. E
sempre movendo-se agil e sem ruido, diligente e sem confuso.

Magdalena, que se sentra a um canto da sala, quasi subjugada pelas
muitas e violentas commoes d'aquelle dia, contemplava a actividade da
prima e extranhava-a.

Ella propria, que melhor do que ninguem conhecia Christina, nunca a
suppuzera capaz d'aquella firmeza de animo e d'aquelle espirito
methodico e providencial de que estava dando agora irrecusaveis provas.

Aprecira-lhe at ento os dotes de creana, a bondade do corao, os
extremos de affecto que possuia; mas ainda a no tinha visto tomando
assim tanto a srio a sua misso de mulher e desempenhando-se d'ella to
dignamente.

Esta ordem de reflexes conduzia naturalmente a outras o espirito da
morgadinha. Reparando para Henrique, assim derrubado no leito, e como
que sob a proteco de uma timida e debil creana que, mais do que elle,
parecia carecer de amparo, Magdalena no pde reprimir um sorriso
benigno e pensou:

--Sim; aquella cabea estouvada pde at hoje passar por este anjo sem o
conhecer; mas  preciso no ter corao para que, ao erguer-se d'aquelle
leito, no seja o seu primeiro movimento o de ajoelhar deante d'ella
para a adorar. E Henrique no  falto de corao. Lida, lida, minha boa
Christina, que para a tua felicidade lidas. Foi a Providencia que quiz
que tu vencesses com as mais abenoadas armas que concedeu  mulher.
Confio em Deus que vencers. Deixar-te-hei todas as fadigas, para te
pertencer todo o prazer.

E em harmonia com esta resoluo, a morgadinha absteve-se de intervir no
tratamento de Henrique.




XXVII


Foi opinio do facultativo, que tratou de Henrique, que a vida d'este
correra srios riscos durante a primeira semana, por no sei que
complicao que se lhe manifestou no decurso da molestia. Se se enganou
o prtico, no nos compete a ns decidir; acceitemos-lhe a opinio, como
de legitima fonte, e no profundemos materia alheia ao nosso intento.

Ao fim dos oito dias, porm, comearam a manifestar-se melhoras
evidentes, e o proprio facultativo foi o primeiro a assegurar s
senhoras, que sempre o vinham consultar  saida com anciosa curiosidade,
que o homem estava salvo.

De facto, nos primeiros periodos da doena, Henrique caira, como j
dissmos, n'um d'aquelles estados de indifferena para tudo e para
todos, de que se no pode agourar nunca bem. Agora, porm, comeava j a
manifestar atteno para os cuidados de que era objecto, e a agradecer,
com palavras de sincera gratido, o tratamento affectuoso que recebia
n'aquella casa e especialmente os desvelos de Christina.

Esta fra effectivamente sempre incanavel, solcita e carinhosa
enfermeira.

Os cuidados de que o rodeava, como a um irmo, absorviam-lhe todos os
instantes; prevr-lhe os desejos, adivinhar-lhe as penas, procurar-lhe
allivio s dores physicas ou moraes, era agora para ella a tarefa de
cada momento, a preoccupaco permanente de todos os seus pensamentos.

Henrique costumra-se a vr mover-se no seu quarto aquella meiga e
delicada figura de mulher, creana de hontem, a ouvir-lhe o timbre suave
e ainda um pouco infantil da voz, a cruzar o olhar com aquelle olhar
brando que o fitava com sympathia e meiguice; j se no sentia bem,
longe d'ella, e a cada momento, se estava ausente, dirigia as vistas
para a porta  espera de a vr apparecer.

Magdalena espiava estes symptomas, notava a influencia crescente de
Christina sobre o animo do rebelde, que at alli fra insensivel, e
exultava. Muito de proposito a morgadinha afastava-se o mais possivel da
cabeceira do enfermo, por uma razo analoga  que obriga os pintores a
deixar em meias tintas os accessorios de um quadro, para que a atteno
se fixe no objecto principal.

Magdalena estava tambem dispondo uma obra de arte, na qual Christina
devia ser a figura principal.

N'este intento a morgadinha conservava s visitas que vinha fazer a
Henrique um ar cerimoniatico, que contrastava com a insinuante
familiaridade da prima. Para isso teve Magdalena de suffocar os impulsos
da sua indole de mulher, e de mulher que to bem comprehendia os deveres
da sua misso, ao mesmo tempo carinhosa e heroica. Apresentava-se o mais
extranha que lhe era possivel a estes pequenos cuidados, que to
irresistivel influencia exercem no corao do homem que experimenta a
ventura de ser objecto d'elles.

De dia para dia crescia o ascendente de Christina sobre Henrique, e
crescia  custa de Magdalena.

Esta percebia-o e no cabia em si de contente com a descoberta. 
necessario ser dotado de um grande fundo de generosidade, para que um
corao de mulher faa d'estas descobertas, com o intimo contentamento
que Magdalena sentia.  to natural defeito a vaidade! No se exprime o
prazer que Henrique experimentava a cada pequeno incidente da vida
domestica, que punha em relvo o predominio de Christina.

Havia uma hora no dia em que Henrique gosava um d'estes prazeres
placidos, de que to pouco abundante era todo o seu passado.

Ao fim da tarde, D. Victoria, Magdalena e toda a familia do Mosteiro, e
a propria tia Dorotha, reuniam-se no quarto do doente para tomarem o
ch. No era, porm, a presena de nenhuma d'ellas, nem a de Magdalena,
que o consolava e obrigava a suspirar por aquella hora, mas uma pequena
circumstancia, que far sorrir um homem de sensibilidade embotada,
emquanto o facto se no der com elle. Era que Christina, que em outra
qualquer occasio cedia sempre a Magdalena a direco dos trabalhos
domesticos, alli dentro no resignava em ninguem essas funces. Tomava
naturalmente as maneiras de dona de casa, e recebia a me, a prima e
todas as outras como visitas de intimidade, sim, mas em todo caso,
visitas.

No se imaginam os encantos que Henrique achava quillo. A elle proprio
parecia j que de facto o prendiam a Christina laos mais intimos, laos
mais de familia, do que s outras senhoras. Era assim que qualquer
pedido, que tinha a fazer, o dirigia sem hesitar a ella, como o faria a
uma irm; emtanto que naturalmente custava-lhe a incommodar outra
qualquer pessoa, e no o fazia sem as desculpas e cumprimentos do
estylo, que para ella no usava j.

Outra particularidade o enleiava tanto como esta. Era a maneira
despotica por que o governava Christina, fazendo-o cumprir  risca as
dietas e as prescripes do facultativo, recusando-se obstinadamente a
deixal-o lr, e at ralhando-lhe s vezes com severidade quasi maternal:
apparencias de dureza, que occultavam thesouros de sensibilidade e de
affecto.

O pobre rapaz, que no conhecera familia, que nunca vira do seu leito de
doena, nas vezes que caira n'elle, o vulto suave e consolador de uma
me, de uma irm ou de uma esposa sorrir-lhe ao despertar, interrogal-o
com essas entonaes carinhosas, que nos provocam o cobrir de beijos a
mo que nos estende a taa do mais amargo remedio; elle, que no sabia
ainda o que era sentir-se amparar a fronte, que escalda de febre, pelo
apoio de uma debil mo de mulher, a que o amor d fras
extraordinarias, commovia-se at s lagrimas agora, e quasi no pensava
sem tristeza na convalescena, que havia de o privar d'aquelles cuidados
affectuosos.

O olhar com que fitava Christina, todas as vezes que ella se lhe
approximava do leito, era mais eloquente de reconhecimento, do que todas
as palavras que lhe dizia, do que todas quantas lhe poderia dizer.

Agora o enleiado e timido era elle, Christina a corajosa.

Um dia em que Henrique parecia soffrer mais do que de costume, e em que
se agitava no leito com a inquietao da febre, Christina, depois de lhe
dar a beber o calmante que lhe prescrevera o medico, perguntou-lhe, com
a mais adoravel candura:

--No sabe rezar?

Henrique sorriu, respondendo:

--Julgo que desapprendi j as oraes que minha me me ensinou.

Christina calou-se e ficou tristemente pensativa.

Aquella alma innocente perguntava a si mesma que consolao encontraria
nas provaes da vida um espirito que no soubesse recolher-se na
orao.

Henrique, que a viu sorrir, disse-lhe:

--Quer-me ensinar a rezar, Christina?

Christina fitou n'elle um olhar perscrutador, como para sondar a
inteno d'aquellas palavras.

--Juro-lhe que recitarei com o fervor, de que ainda fr capaz a minha
alma, as oraes que me ensinar.

Christina respondeu-lhe gravemente:

--Reze, reze e ver como n'isso acha consolao. Vou emprestar-lhe o meu
livro de oraes, quer?

--Por que me no ha de antes ensinar, como minha me o fazia?

Christina ouviu com seriedade a proposta.

E o certo  que um dia, em que Henrique passra peor, Magdalena ouviu,
na sala proxima, Christina, recitando uma singela prece  Virgem, e o
doente repetindo-a com docilidade de creana.

Como se ririam d'elle os seus amigos da capital, se n'aquelle momento o
vissem! Mas rir-se-iam de um phenomeno naturalissimo, de uma d'estas
modificaes a que todos os caracteres esto sujeitos, quando se do a
actual-os dois elementos to poderosos, como se davam em Henrique: a
doena, que quebra a inteireza das indoles mais rijas, e abre o corao
s doces influencias; e a catechese feminina, a mais poderosa, efficaz e
irresistivel de todas.

No direi que fsse com inteira f que o doente orava; talvez que
houvesse mescla de sentimento profano no prazer suave que experimentava
ao orar assim.  certo, porm, que, desde ento, frequentes vezes se lhe
desviavam os olhos para o pequeno crucifixo, que Christina trouxera do
seu quarto para a cabeceira do leito de Henrique.

Outra vez, quando Christina acabava de fazer-lhe tomar um remedio,
Henrique, obedecendo aos impulsos da sua gratido, beijou-lhe,
commovido, a mo, que ella ia a retirar.

--Que faz?--disse Christina, crando e afastando-a.

--Deixe-me beijar a mo piedosa que me prendeu  vida,  vida que s
agora comecei a amar.

--Ora vamos--acudiu ella, com um meigo tom de reprehenso.

--Como no quer que a adore, Christina, depois de se fazer anjo para me
salvar? No costuma rezar ao seu anjo da guarda?

--Repare que eu no tenho azas de anjo.

--Mas va mais alto ao co, quando desce assim a velar por um pobre
doente como eu, que nenhuns titulos possue para lhe merecer essa
dedicao, pobre menina! Que vida tem sido a sua ha tantos dias?

--Nenhuns titulos! que diz?--tornou Christina, com um sorriso adoravel.

--Pois quaes?

--Ento no somos primos? disse ella, jovialmente.

E saiu do quarto, com aquelle andar ligeiro e facil, que tanto enlevava
Henrique.

Estava j Henrique em convalescena, e o facultativo permittira-lhe
alguns passeios pela quinta, mas ainda no a sua transferencia para
Alvapenha. O logar favorito de Henrique n'estes passeios era  sombra de
umas laranjeiras, que havia a pouca distancia de casa. Das janellas do
quarto de D. Victoria descobria-se o logar. Quando as manhs estavam
serenas, Henrique ia para alli, com um livro que no fazia teno de
ler, e apoiando-se ao brao de Christina, que levava a costura para
junto d'elle, para lhe fazer companhia.

D. Victoria seguia-os da janella com as suas recommendaes.

--Por ahi no, Christe!... Olha que  muito humido... D antes a volta
pela nora... Assim... Cautela com essas hervas, que ho de estar
molhadas... V l que no esteja frio... Olha se esses troncos esto
molhados...

Henrique tornava-se melancolico e sombrio n'estes momentos, a ponto de
uma manh Christina o interrogar, n'aquelle tom de familiaridade
affectuosa, que principira a poder ter para com elle, desde que o vira
fraco e doente e a carecer do seu auxilio e proteco.

--Que  isso! Por que est sempre triste, agora que vae melhor?

--Estou triste, porque estou melhor--respondeu Henrique.

--Que est a dizer?!

--A verdade. A poucos doentes ter succedido o que succede commigo. Este
renascer para a vida, este sangue novo que sentimos circular nas veias,
este vigor que de instante para instante conhecemos accumular-se em ns,
que tantos gsos d aos convalescentes, a mim fazem-me entristecer; como
que estou presentindo j as saudades d'este tempo, que passei prostrado
no leito da doena, Christina.

--No diga isso.

--E admira-se? Se elle foi o tempo mais feliz da minha vida! No sabe
que me eram desconhecidos inteiramente os ineffaveis carinhos de familia
que me fez experimentar? Com a saude vo voltar para mim os dias da
solido, do desconforto, d'aquella vida gelada e inutil que abomino,
desde que principiei a conceber outra... desde que m'a fez conceber,
Christina! Quando penso em voltar para Lisboa...

--E tenciona voltar?

A esta pergunta, feita com a maior naturalidade, Henrique sentiu uma
intima commoo. Ha d'estes effeitos. s vezes o olhar menos
significativo, a palavra menos pensada,  pelo corao interpretada de
maneira tal que elle proprio se sente estremecer.

--E queria que eu ficasse, Christina?--perguntou Henrique, sob o dominio
d'essa impresso.

Christina no respondeu logo.

--Deixe-me acreditar que sim;  bastante generosa para isso, para no
vr partir sem saudade o homem a quem salvou com os seus extremos de
irm. Esta ideia ser a minha consolao; deixe-me partir com ella.

--Partir?... mas... para que ha de partir?

--Ento quer que me fique perpetuamente com aquella boa tia Dorotha,
cuja vida placida vim alterar com os meus habitos cidados?

--Pois no lhe custaria a ella mesma vl-o partir! E depois... que vae
fazer para Lisboa? Adoecer outra vez, ou scismar que est doente, que 
quasi a mesma coisa.

--E dar-me-ha sempre a sua amizade se eu ficar?

--Por que havia de lh'a negar?

--Tempo vir em que outros me disputaro a menor poro de affecto que
me conceder, Christina... e ento... ento  que eu ficarei mais s do
que nunca... ou mais do que nunca sentirei que o estou.

--Anda s, por que quer... No ha tanta gente por esse mundo?

--Ento a menina no sabe que se est s mesmo em companhia? Quem est
s  a alma. Ai, a alma est s quasi sempre!

--Por que quer.

--Por que desconfiou das companhias que se lhe offereciam, e por que no
obteve a que desejava. Alm de que, ha almas to tristes, que intimidam
outras. E a minha  d'essas. Ora diga, se eu lhe pedisse para fazer
companhia  minha alma, a esta alma melancolica e sombria com que nasci,
no hesitaria? Confesse.

Depois de um momento de silencio e hesitao, Christina respondeu:

--Se a companhia da minha fsse bastante para desfazer essa tristeza...

--Concedia-m'a?

--E por que havia de negar-lh'a?

Henrique tornou-lhe a mo, apaixonado.

--Christina, sabe que essas palavras podem fazer-me conceber loucuras?
Se o meu corao  to ousado...

Christina, crando, retirou a mo de que Henrique se apoderou, e
levantando-se, sobresaltada, disse:

--Julgo que so horas do seu remedio. Vou preparar-lh'o.

E fugiu, correndo em direco de casa.

Scenas mais ou menos analogas a esta reproduziam-se todos os dias
durante a convalescena de Henrique. Reinava o idyllio e uma como
perfumada atmosphera, que exercia profundas revolues no caracter de
Henrique e de Christina. Elle ia perdendo de dia para dia aquellas
exterioridades artificiosas, que Magdalena por tanto tempo combatera em
vo; ella, Christina, ganhando vida, actividade, soffrendo uma d'essas
metamorphoses analogas s da vida de borboletas, da infancia, estado de
chrysalida para a imaginao, passava  verdadeira juventude, ao periodo
em que a imaginao ganha azas, em que o corao se completa.

Desde que Henrique se achava em estado de passeiar, no havia razo
possivel para permanecer no Mosteiro; portanto tornou-se inevitavel a
mudana para Alvapenha.

J se no fez sem lagrimas a despedida.

Choraram as creanas, chorou D. Victoria e a propria Magdalena se sentiu
commovida; s Christina no se achava na sala em que se passou a scena.

Encontrou-a Henrique no patamar da escada por onde tinha de sair.

Seria casual esta circumstancia?

Henrique no perguntra por Christina; dizia-lhe o corao que a
encontraria alli.

--Volto  minha solido, Christina--disse-lhe, commovido.--No lh'o
tinha eu dicto?

A pobre menina quiz sorrir, mas do esforo que para isso fez s lhe
resultaram lagrimas.

--No diga mais nada--disse Henrique, levando aos labios a mo que ella
no retirou.--Essas lagrimas bastam-me.

Escusado  dizer que estas palavras mais lagrimas produziram.

E Henrique desceu do patamar com a vista ennevoada por ellas.

Christina ficou a chorar na varanda.

A morgadinha veio, sem ser sentida, abraal-a, dizendo:

--Pago-te hoje o abrao que me dste no outro dia; mas eu escuso de te
perguntar... Pois tu amaval-o?

--Ai, Lena!...--exclamou Christina, cada vez chorando mais.

--Faltava aos vossos amores este arremdo de infelicidade, e imaginaram
uma separao de duzentos passos para poderem representar a scena das
despedidas, e chorarem como Paulo e Virginia. Impostores!--dizia
Magdalena, para consolal-a.

Em Alvapenha Henrique passou horas de intensa melancolia.
Impacientavam-n'o as conversas de sua tia e de Maria de Jesus, a qual
taes mudanas notava n'elle, que chegou a aventar  ama a ideia de que a
doena tinha transtornado o juizo ao rapaz, opinio que D. Dorotha
levou muito a mal.

Outro symptoma que se manifestou em Henrique foi a indignao que lhe
causou a carta de um amigo que, com o maior scepticismo, lhe perguntava
novas dos seus habitos pastoris e das Tirces e Galatas que o traziam
enlevado. Henrique revoltou-se d'esta vez, com todo o fogo do corao,
contra aquelle tom frio e sarcastico da epistola, e nem lhe respondeu.

Depois teve Henrique uma viso.

No se assustem os leitores que antipathisam com o maravilhoso. Nada ha
aqui que se parea com as vises picas; foi uma viso como muitas, que
ns todos, uma ou outra vez na vida, experimentamos; um d'esses
espectaculos, que nos prepara de quando em quando a imaginao, esta
fertil e poderosissima creadora, que nos acompanha incessantemente. A
quem no ter de facto succedido vr transformar-se pouco a pouco uma
perspectiva, desvanecerem-se os effeitos da viso exterior,
enfraquecerem as impresses dos sentidos, e avultarem, tomarem frma,
realidade, vida, as imagens de uma mais intima, espontanea e mysteriosa
viso?

Estava Henrique  janella do quarto que habitava em Alvapenha. Sabemos
j que se gosava d'alli um panorama extenso e amenissimo. A tarde
parecia de primavera. Henrique corria com prazer a vista pelos
differentes logares da quinta de Alvapenha, com as suas noras e mdas,
colmeias, eiras, cabanas e sebes. Era uma verdadeira quinta rural,
resentindo-se, porm, um pouco de ser a proprietaria d'ella uma senhora
velha, e com pouca actividade para tratar da lavoura.

Pouco a pouco deixra Henrique de vr a quinta como ella era.

Principiava a viso interior.

As arvores copavam-se de folhagem; messes aloiradas ondulavam nos
campos; numerosos rebanhos cobriam os lameiros extensos; atulhavam-se de
cereaes os celleiros; alastrava-se de gro o cho das eiras; gemiam as
noras e os lagares; soltavam-se s prsas os diques, e uma verdadeira
rede liquida envolvia em suas malhas a vegetao dos campos; alvejavam
as camisas dos ceifadores e echoavam nos montes e arvoredos as
cantilenas aldes; e os mais caracteristicos e poeticos episodios da
vida agricola desenrolavam-se aos sentidos, deleitosamente allucinados,
do sobrinho de D. Dorotha. Era uma perfeita georgica! E elle a dirigir
todos os trabalhos, a regular o servio, verdadeiro patriarcha ao modo
antigo; e ao seu lado, e em toda a parte,  sombra de uma arvore, 
borda do tanque, debruada no muro, por entre os silvados das sbes
vivas, uma figura suave, casta, adoravel... a figura de Christina!

Quem mezes antes adivinharia que Henrique de Souzellas, o homem
elegante, o homem da moda, em quem estavam encarnadas todas as
qualidades boas e ms da sociedade que frequentava, havia de ter uma
viso como esta!

No quasi extase, em que a imaginao o lanra permanecia ainda, quando
soube que o procuravam de mando das senhoras do Mosteiro.

Apressou-se logo a receber a visita.

Era o velho Torquato que vinha saber d'elle, de mando de D. Victoria e
das meninas.

O pobre homem era um dos que ficra com affeio a Henrique depois que
estivera no Mosteiro.

Henrique ouvia-o com uma paciencia, que elle j em poucos encontrava,
contar as longas historias dos seus tempos passados, e isso era o
bastante para o velho lhe querer bem.

--Diga s senhoras que eu mesmo irei ralhar com ellas, pelo incmmodo
que esto tendo commigo. E voss tambem, Torquato, na sua idade, estes
passeios.

--Ai, no tem dvida! Isto faz bem...  exercicio a final... Pois 
verdade. Eu d'antes corria a aldeia toda n'um minuto... agora... Olhe
que eu j tenho os meus annos! Veja l, se no tempo dos francezes eu era
j homem feito... Inda me lembra...

Seguiu-se um episodio da poca, e depois, sem transio sensivel:

--Mas l emquanto s senhoras... Isso sempre devo dizer que teem tomado
um cuidado!... Todas!... At a Christininha!

--Sim? Tambem essa?

--Ora se tambem!... Pois a sr.^a D. Victoria?

--Mas... mas... Christina... a sr.^a D. Christina, ento...

--Isso  um corao de pomba. Inda ha pouco, ao sair, j vinha no pateo,
e ella veio ter commigo a correr, e disse-me: Olhe,  Torquato, ha de
reparar-lhe para a cara e vr se tem ar mais triste.

--Ella disse-lhe isso?

-- verdade. E eu l lhe vou dizer que o encontrei alegre como...

--No, no; no lhe diga isso, homem--atalhou Henrique.

--Ento por qu?!

--Porque... porque... porque no  verdade... Ento eu estou assim to
alegre como isso?

--No digo que esteja, mas para a socegar...

--Diga que me achou com saude, mas triste. E no lhe disse ella mais
nada?

--A sr.^a D. Victoria...

--Falo de Christina.

--Nada... Ai... Agora me lembro... mas isso  segredo.

--Diga, diga.

--No  nada;  uma promessa que...

--Uma promessa? Que promessa?

--Sim, olhe, eu digo-lhe, mas guarde segredo! Quando o senhor esteve
muito mal, que nem o cirurgio dava nada por si, a Christinita prometteu
rezar na capella dos Cannaviaes as estaes da meia noite...

--As estaes da meia noite?

--Sim; as estaes rezadas  meia noite  Senhora que est na capella da
casa dos Canaviaes;  to milagrosa que, dizem, nunca recusou favor que
se lhe pedisse assim. Contava meu pae...

E vinha um caso comprovativo da tradio popular.

--Sim, lembra-me que j me falaram n'isso--disse Henrique, pensativo.

-- verdade. O peor  que  este seu criado quem tem de a acompanhar at
 quinta, depois d'manh  meia noite...

--Ento depois de manh  meia noite?

--Sim, mas no diga nada, que isto  segredo da pequena.

--Esteja descanado.

E depois de mais algumas historias contadas por Torquato, e a que
Henrique no ligou atteno, aquelle retirou-se.

Ao ficar s, Henrique caiu em nova e profunda abstraco.
Elaborava-se-lhe na ideia um projecto. O de ir aos Cannaviaes para
presenciar aquelle acto de fervorosa devoo de Christina, que
supplicra por elle, enfermo, com o ardor da mais pura crena, com a
effuso do mais generoso affecto.

N'este intento tratou de se informar a respeito dos caminhos que
conduziam  quinta, que elle ainda no visitra, e sobre como penetrar
at  capella da casa, onde devia ser cumprida a promessa.

D. Dorotha, D. Victoria e Magdalena deram-lhe os esclarecimentos
precisos sem que suspeitassem das intenes com que elle lh'os pedia.




XXVIII


A casa e quinta dos Cannaviaes, deshabitadas depois da morte da velha
morgada, madrinha de Magdalena, era uma sombria residencia, situada n'um
dos mais rmos e melancolicos logares da aldeia.

O tempo, cuja aco no contrastada se exercera livremente n'ellas,
viera augmentar o aspecto soturno que desde a origem apresentava esta
casa, ennegrecendo-lhe as paredes, revestindo-lhe de hervas os telhados,
de musgo as padieiras e as junturas de pedra, e povoando-lhe de morcegos
e de corujas os buracos dos muros. Emfim a superstio popular terminra
a obra fazendo divagar as almas do outro mundo por aquellas salas e
corredores vazios, e nas ruas d'aquella quinta, entregue  natureza.

A defuncta morgada, que no se recolhera  aldeia seno depois de ter
gosado na capital de todos os esplendores da vida das cidades, e
brilhando nas mais concorridas e elegantes salas do seu tempo, gosava
n'esta pequena terra, onde passra o resto da vida, de uma fama de
espirito forte, que em grande parte concorrera para generalisar a
opinio de que a sua alma andava ainda penando por c.

Contavam-se entre o povo anecdotas absurdas, em relao aos annos da
mocidade da morgada. A imaginao popular fazia a biographia d'aquella
senhora, colorindo-a com as tintas maravilhosas com que costuma
phantasiar a vida dos grandes centros, de que vive afastada.

A morgada, que s renunciou ao mundo quando os espelhos comearam a
falar-lhe da vaidade das glorias que repousam nos encantos da belleza,
passou, como succede muitas vezes, de um extremo a outro extremo, e da
vida elegante s prticas de devoo.

Nos Cannaviaes ouvia missa todos os dias, confessava-se todas as
semanas, commungava todos os mezes, sem comtudo resignar absolutamente
os habitos de elegancia de que j fizera uma necessidade natural.
Trajava sempre com distinco e esmero, e ao corrente das modas.

Tudo isto e as proprias devoes da morgada, acabaram por convencer o
povo de que havia grandes culpas no passado d'ella, as quaes procurava
remir  fra de missas. Dizia-se que a morte a viera tomar antes das
contas saldadas, e que por isso a sua alma voltava  terra penando.

J se v que o logar era para apavorar as imaginaes timidas, e de
noite pouca gente da aldeia gostava de passar por l.

Henrique depois de ter dicto em Alvapenha que ia passar a noite ao
Mosteiro, d'onde voltaria tarde, saiu mais cdo do que a hora devida, e
fazendo obra pelas informaes da morgadinha, dirigiu-se para os
Cannaviaes para escolher posio d'onde pudesse, sem ser visto, observar
Christina, no tendo ainda resolvido se lhe appareceria ou se a deixaria
imperturbada na sua piedosa tarefa.

A noite fizera-se escura e ameaava chuva.

Henrique, alumiando-se com uma lanterna de furta-fogo, j um pouco
habituado aos caminhos estreitos e escabrosos do campo, atravessou a
aldeia, examinando com atteno todos os objectos que lhe deviam servir
de indicadores da estrada.

Pouco passava das dez horas, quando se achou em frente de uma casa que
por apparencia, julgou ser a demandada propriedade.

Era uma casa escura, crivada de pequenas janellas e peitoril, tendo a um
lado um alto porto da quinta, do outro a capella, cuja porta Henrique
achou ainda fechada.

O sussurro dos cannaviaes agitados pelo vento era uma garantia de haver
acertado.

Principiavam a cair algumas grandes gottas de chuva e a escurido a
fazer receiar grandes aguaceiros.

Henrique achou prudente procurar um abrigo onde pudesse resguardar-se.
N'este intento approximou-se do porto. Com grande espanto seu, achou-o
aberto.

J teria chegado Christina?... Enganar-se-ia elle na casa?... Estaria
habitada a quinta?

Estas tres explicaes do inesperado facto debatiam-se-lhe no espirito,
sem que elle soubesse qual adoptar.

Transpoz o porto e entrou na quinta. Nenhuma apparencia de vida.

A chuva caa com mais fra. Para se abrigar, Henrique subiu os degraus
de pedra, no tpo dos quaes havia um patamar lageado e convenientemente
toldado.

Ao chegar alli achou tambem aberta a porta da primeira sala, e ao fim de
um corredor pareceu-lhe divisar luz.

Henrique parou indeciso.

--Decididamente enganei-me. No  aqui a casa dos Cannaviaes. Sempre
perguntarei.

E bateu as palmas.

Ninguem lhe respondeu.

Bateu outra vez; o mesmo resultado.

Aventurou-se a entrar, deu alguns passos pelo corredor e bateu.

O mesmo silencio; seguiu at o fim do corredor em direco  luz; chegou
a uma sala mobilada com antigas cadeiras de alto espaldar, e alumiada
por um candieiro de metal, pousando na pedra da chamin, em cujo fco
brilhavam ainda uns carves candentes.

--Parece uma historia de fadas!--pensava Henrique.--Dar-se-ha que a alma
da morgada goste ainda das commodidades?

Ia a dirigir-se a uma porta para chamar, quando se abriu outra do lado
opposto, e appareceu-lhe uma mulher velha, com um vestuario meio do
campo, meio da cidade, e trazendo uma luz na mo. Henrique voltou-se e
preparava-se para lhe dirigir a palavra, quando ella primeiro lhe disse:

--Procurava alguem, o senhor?

--Peo perdo pelo meu atrevimento. Bati muito tempo  porta, e emfim
como a visse aberta, decidi-me a entrar. Desejava saber onde  aqui a
casa dos Cannaviaes.

--A casa dos Cannaviaes  esta mesma.

--Mas... eu julgava... suppunha ter ouvido dizer, que no morava aqui
ninguem.

--E no o enganaram. Hoje por acaso  que est c a sr.^a morgada.

--A sr.^a morgada?--perguntou Henrique, sem bem saber o que devia pensar
da resposta e de tudo que via.

--Sim, senhor; a sr.^a morgada, e no tarda aqui. Ella esperava-o.

--Ah! A sr.^a morgada esperava-me?

-- verdade--disse a mulher, sorrindo.--Adivinhou que o senhor vinha
aqui. E o que  que ella no adivinha?

Henrique dava tratos  imaginao para comprehender esta scena.

--Ento  a sr.^a morgada em pessoa que...

--Que o convida para tomar uma chavena de ch--disse uma voz por traz
d'elle.

Henrique julgou conhecer o timbre d'aquella voz.

Voltou-se, viu a morgadinha que entrava na sala, com o sorriso nos
labios e a mo estendida, com aquella habitual franqueza de maneiras,
que de tantos encantos a revestia.

Henrique exclamou, admirado:

--A prima Magdalena!

--A morgadinha dos Cannaviaes, se faz favor. Competia-me fazer as honras
da minha propriedade, que pelos modos est para ser muito visitada hoje.
Chamei, para me acompanhar, a Brizida, que viveu muitos annos aqui com a
minha madrinha, e hoje vive em casa sua do rendimento do legado que
aquella senhora lhe deixou. A Brizida  quem se encarrega de vir, de
quando em quando, abrir as janellas d'esta casa, para que os ratos no a
destruam de todo, e os tortulhos lhe no enfeitem as paredes.

--Mas como soube que eu?...

--Isso  um segredo. No o esperava, porm, to cdo, nem imaginei que
nos viesse ter assim ao intimo da casa. Fiquei embaraada quando o vi.
Ao principio quasi julguei que era a alma de minha madrinha. Mas fez bem
em recolher-se... Ouve?

E com o gesto indicava a chuva, que j batia com fra nas vidraas.

--O peor  se isto no espalha e a Christina muda de teno.

--O vento  do mar, menina; isto so aguaceiros--notou Brizida, como
para desvanecer aquelle receio.

--Pois sabe que Christina vem?

--Eu sei tudo. Ora sente-se ao fogo, que deve vir muito frio. Accendi o
lume, porque estava aqui dentro um ar humido e mofento, muito pouco
hospitaleiro.--Brizida, olhe que se no percebam l fra as luzes, que
podem amedrontar Christina. E feche a porta da sala. Abra o cro da
capella e prepare ch para quatro. Aqui mesmo, Brizida, aqui mesmo,
porque a cozinha est pouco habitavel.

Emquanto Brizida cumpria as ordens que a morgadinha lhe dava, esta,
chegando uma cadeira para o fogo, sentou-se defronte de Henrique de
Souzellas.

--Agora conversemos amigavelmente, primo Henrique. E antes de mais nada,
responda-me a uma pergunta! O que o trouxe aqui?

--Pois no diz que sabe tudo?

--At certo ponto, entendamo-nos. No vo to longe as minhas faculdades
que cheguem a devassar intenes, que por ventura  propria consciencia
de quem as frma, repugne acceitar.

--No  esse o meu caso; as minhas intenes so reconhecidas e
approvadas pela minha consciencia. Vim para assistir ao espectaculo
commovente de um anjo que ora por mim.  um espectaculo a que ainda no
assistira, prima. Admira-se da minha curiosidade?

--Acho-a natural e at... louvavel. O ponto est que a sua convalescena
esteja bastante segura j. Porque o primo Henrique convalesceu ha dias
de duas doenas.

--De duas?

--Sim; e a mais rebelde no foi a de que o cirurgio o tratou.

--Ento?

--A peor, aquella de que eu havia chegado j a desesperar, era a que lhe
tinha descoberto logo na sua chegada aqui, uma doena moral; revelava-se
por uma maneira de vr as coisas, de pensar e de proceder
verdadeiramente doentia.

--Estou curado d'isso.

--Estar? eu sei!...  certo que j  bom signal admittir que era
doena.

--Dou pelo seu diagnostico, prima, e at pelo tratamento que me
aconselhou em tempo; falou-me na vida campestre, no interesse pelos
negocios locaes... e sobretudo em uma paixo sincera.

--Ah! e experimentou a receita?

--Experimentei e curei-me.

--Ou tomou por fras de saude o que era apenas o falso vigor da
convalescena? Convem no abusar; ouo dizer aos medicos que so
perigosas as recaidas.

--Pois teme que eu recaia?

--Por que no? Esta sua vinda aos Cannaviaes a horas mortas... comquanto
motivada por louvaveis intenes... tem ainda assim uma certa feio
romantica... que era bom vigiar... Sempre vim para acudir a algum
accidente.

-- um perfeito medico da poca; no tem f na efficacia dos remedios
que prescreve.

--Tenho; mas no desacompanho a aco d'elles, isso no. Agora fale-me
com franqueza: ao recordar-se de certas ideias com que veio de Lisboa
no se lhe figuram algumas extranhas e inacceitaveis j?

--Confesso que algumas...

--E comprehende agora o que eu lhe dizia? o remedio para o mal do
corao que o minava, tinha-o a seu lado, desde o primeiro dia em que
puzera os ps no Mosteiro, e teimava em ser cego para o no vr.

--Desde o primeiro dia? Pois Christina...

--Christina deixou de ser creana desde aquelle dia.

--Querido anjo!

--Querido anjo?... Diz bem; deve adoral-a, tal como ella  ingenua,
timida, supersticiosa at, se quizer; mas bondosa, mas adoravel, mas uma
indole talhada para acalmar as paixes demasiado violentas de um
caracter como o seu; para lhe fazer ter mais esperana na vida, mais
coragem e mais f no futuro.

Henrique, depois de instantes de silencio, disse, sorrindo, para
Magdalena:

--Diga-me uma coisa, prima Magdalena; comprehendendo to bem as
necessidades do corao dos outros, no pensou ainda nas do seu?

--E quem lhe disse que as tinha?

--Conceda-me tambem um pouco da sua admiravel perspicacia, e no se
julgue to impenetravel, que no offerea leitura aos olhos que a
observam.

--Ah! Ento leu?

--Uma pagina eloquente de sentimentos generosos, prima; uma pagina que
eu s agora estou habilitado para a apreciar como merece; pagina, porm,
to recatada, que julgo que ainda a no leu bem o principal interessado
n'ella. Cego, como eu fui.

--No leria?--perguntou Magdalena, sorrindo.--Est certo d'isso?

--E pode ser que lesse, pode; ou pelo menos que por inspirao a
adivinhasse. Ha casos d'esses.

Magdalena tornou, mudando de tom:

-- ainda cdo para tratar de mim. Quando me resolver a isso, ver que
sou um doente modelo. No hesitarei ante a violencia do remedio.

--E por que demora o tratamento?

--Pois parece-lhe que ser urgente o caso?

--Prima Magdalena, o que vejo  que ha mais fortaleza da sua parte do
que....

--Silencio!--disse a morgadinha, escutando.--Pareceu-me ouvir...

N'este momento a Brizida, que fra a uma sala immediata, voltou, dizendo
em voz baixa:

--Parece-me que abriram as portas da capella. Devem ser elles.

--Ento depressa--disse Magdalena.--Abra-nos o cro; mas antes apaguemos
as luzes. Teve uma feliz lembrana em prevenir-se com essa lanterna de
furta-fogo. Traga-a e siga-me; mas occulte a luz. No faa barulho.

Apagadas as luzes da sala, Magdalena e Henrique entraram, por um
corredor estreito, no cro da capella, d'onde a morgada costumava ouvir
missa, emquanto mandava patentear ao povo o pavimento inferior.

Quando alli chegaram, com as precisas precaues para no fazer estalar
as tbuas do soalho, havia j em baixo uma luz escassa, que desenhava
longas no pavimento as sombras de duas pessoas, ainda occultas sob a
varanda do cro.

Cdo se adeantaram para o altar, e claramente se reconheceu serem
Christina e Torquato.

Caminharam silenciosos at ao altar principal. Torquato subiu os tres
degraus, sobre que este ficava elevado e accendeu duas vlas de cera
que, em ennegrecidos castiaes de madeira dourada, ornavam uma imagem da
Virgem da Soledade. Espalhou-se no recinto uma frouxa claridade, que no
dissipou as sombras dos recantos, nem as que se condensavam no tecto.

Christina fez signal ento a Torquato, para que se retirasse; e o velho,
com os passos arrastados e tossindo, caminhou para a porta, que dentro
em pouco se ouviu gemer sobre os gonzos e fechar-se com estrondo.

Tudo ficou depois em silencio.

Christina ento ajoelhou deante d'aquella imagem, que era a de que a
tradio popular contava milagres, e em profundo recolhimento ficou
immovel a rezar a devoo promettida.

Henrique de Souzellas sentia-se enlevado por esta scena. Aquella
angelica creatura viera alli agradecer  Virgem o tel-o salvado! Aquelle
anjo amava-o? Havia pois no mundo quem o amasse com um amor puro e
candido, em que elle j nem acreditava. E cabia-lhe a suprema ventura de
gosar um amor assim!

Magdalena via com alegria a commoo de Henrique.

A orao de Christina prolongou-se por alguns minutos.

Henrique murmurou, ajuntando as mos:

--Deus te recompense, anjo, a consolao que me ds.

--No pea a Deus o que est na sua mo--respondeu-lhe em voz baixa
Magdalena.

--Que diz?

--Est ou no sinceramente apaixonado?

--Como nunca imaginei que fsse possivel estar.

--Cr na pureza d'aquelle corao?

--Como na dos anjos.

--Est convencido de que o pode salvar, ella?

--No ha crdo que professe com mais f.

--Por que no vae ento ajoelhar ao lado d'ella e jurar-lh'o?

--E consente?

A morgadinha respondeu-lhe, conduzindo-o ao principio de umas estreitas
escadas que pela espessura da parede iam do cro para a capella-mr.

--Aqui tem o caminho--disse ella.--Siga-me. E, servindo-se da lanterna
de furta-fogo, foi descendo com precauo. Henrique seguiu-a.

No fim da escada, Magdalena occultou de novo a luz, e, dados mais alguns
passos, parou junto de um reposteiro.

--Agora faa o que lhe dictar o corao--disse ella para Henrique.

Este correu o reposteiro com precauo, e achou-se na capella.

Christina rezava ainda, e como a porta por onde Henrique entrra ficava
por detraz d'ella, no o viu chegar.

Henrique ficou a contemplal-a todo o tempo que ainda durou a orao.

Ao levantar-se, Christina, voltando a cabea, descobriu-o, e soltou um
grito de susto. A obscuridade que havia na capella no lhe deixou
perceber logo quem fsse, o que mais lhe augmentou o terror.

Henrique caminhou para ella, dizendo-lhe:

--No tenha receio, Christina. Sou eu.

Reconhecendo-o, a timida rapariga ficou espantada. Como se explicava a
presena de Henrique n'aquelle logar? Nem tempo teve de imaginar
explicaes. Henrique accrescentou:

--Sou eu, Christina: eu a quem a menina salvou e por quem com tanto
fervor veio rezar aqui. Obrigado, mais uma vez lhe digo, obrigado,
Christina. Quiz fazer-me comprehender todos os castos e abenoados
prazeres da familia; depois de me dedicar as suas vigilias, dedicou-me
as suas oraes. Deixe-me beijar-lhe a mo com todo o affecto, com toda
a paixo que pode haver na minha alma.

E dizendo isto, levou aos labios a mo, que ella, de enleiada, nem
ousra retirar das suas.

--Agora peo-lhe, Christina, que, j que me fez antever as delicias do
viver da familia, no me condemne para sempre ao supplicio de no as vr
realisadas. Lembre-se de que no conheci me, de que no tenho irms, de
que tenho vivido s, e de que cdo voltarei a essa vida solitaria e
gelada, que me ser agora uma tortura. Compadea-se de mim. Quer vir
occupar no meu corao o logar vago que ha n'elle para as affeies de
me, de irm, e de...

--Henrique!...--murmurou quasi inintelligivelmente a sobresaltada
creana.

-- deante d'esta Virgem, a quem orava com tanto fervor,  pousando a
mo sobre os Evangelhos d'esse altar, que eu lhe prometto mais do que
uma paixo ephemera de rapaz, prometto-lhe a constante adorao, rodeada
de respeito, do homem que as suas virtudes reconciliaram com o mundo.
Acceite, Christina, acceite o offerecimento do meu corao.

Christina tremia sem poder responder.

Magdalena entrou por sua vez na capella.

--No se pode exigir assim uma resposta directa, primo Henrique--disse
ella.

Christina, cada vez mais surprehendida por estas successivas e
inesperadas apparies, correu para a prima.

--Tu, Lena! Tu tambem aqui?!

--Ento no me competia receber em minha casa as visitas? Mas vamos,
dize-me aqui ao ouvido a resposta que queres que eu d por ti ao sr.
Henrique de Souzellas, que me parece acaba de te pedir, muito
terminantemente, a tua mo.

Christina no respondeu, seno cingindo-a mais intimamente ao seio.

--No responderam os labios, primo,--continuou a morgadinha--mas falou o
corao ao meu na linguagem das pulsaes. Estou-o sentindo.

--E disse?...

--Que havia de dizer? Que sim.

E Magdalena, que tinha a mo de Christina na sua, extendeu-a a Henrique,
que a apertou apaixonadamente e a beijou de novo.

Parece-me poder affirmar que d'esta vez j houve correspondencia.

O velho Torquato, farto de esperar de fra da capella, e achando que as
rezas se prolongavam de mais, resolveu chamar Christina.

Ao entrar divisou porm tres pessoas em logar de uma s, que esperava, e
recuou estupefacto e aterrado.

Suppz que almas penadas andavam na capella.

O bom do homem no ousava approximar-se.

Magdalena, que o ouvira entrar, animou-o, dizendo:

--No tenha mdo, Torquato. A alma de minha madrinha encarregou-me de
fazer esta noite as suas vezes. Sou eu.

O espanto do feitor no era agora menor. Esfregava os olhos, como se
receiasse estar dormindo, e no passava de olhar para Magdalena, para
Henrique e para Christina, sem entrar na explicao do que via.

Custou a fazel-o voltar da sua estupefaco.

Momentos depois entravam todos quatro na sala onde Henrique fra
recebido por Magdalena, e ahi a velha Brizida lhes serviu o ch.

A antiga criada da morgada fez muita festa a Christina, e, como j
percebera a casta de sentimentos que havia entre esta e Henrique, soltou
algumas insinuaes, que a obrigaram a crar, e a rir Magdalena.

Passou-se uma bella noite, conversando-se e rindo-se em perfeita
intimidade.

--Que longe estava eu hoje de pensar n'este delicioso sero!--disse
Henrique.--Decididamente  de maravilhas esta casa; o povo tem razo. A
morgada defuncta foi decerto quem se encarregou de fazer os convites.

-- verdade, como foi que vieram aqui?--perguntou Christina, j mais
desenleiada.--J sei, foi este Torquato que me no guardou segredo. O
que merecia!...

--Eu, menina?! Ora essa! Eu at...

--N'este Torquato ha alguma coisa mais para receiar do que a
indiscreo--disse Magdalena.

--Que ?--tornou a prima.

-- a discreo.

--Ento por qu?

--Torquato  discreto, com umas meias palavras, que exprimem mais do que
a verdade.

--Eu...--ia a dizer o velho, justificando-se, quando Henrique o
interrompeu.

--Mas emfim, expliquemos mutuamente a nossa presena aqui.

--N'esse caso  justo que fale primeiro Christina.

--Que hei de eu dizer?

--Explica a tua presena aqui. Ento no ouviste o primo Henrique?

--Ora, j o sabem.

--Mas talvez no lhe seja desagradavel ouvil-o outra vez da tua bca.

--No, no, a minha vinda, essa no tem que explicar.

--Que diz, primo Henrique?

--No tenho coragem para pedir mais do que tenho pedido j.

--Pedido e obtido, pode accrescentar. Bem, Christina veio aqui trazida
por um sentimento de piedade e de...

--Lena!

--Assim mesmo sempre seria curioso ouvir a narrao dos sustos que ella
sentiu por o caminho desde o Mosteiro at aqui. O Torquato no era
decerto bastante para lhe limpar a estrada de vises e malfeitores.

Christina poz-se a rir.

--Mas vamos s explicaes da presena dos mais. A Christina avisou o
Torquato, o Torquato avisou o primo Henrique...

--Eu?!

Christina olhou para o velho com um meigo gesto de reprehenso.

--Se eu o soubesse!...

--Eu... eu no disse... eu... s disse...

Henrique tomou a palavra.

--Torquato no  de todo o culpado. Pois acha que no haveria em mim
alguma coisa que me ajudasse a adivinhar? Torquato atraioou-se
involuntaria, inconscientemente. Mas quanto  prima...

--Eu? Soube-o tambem do Torquato.

--Pois tambem a ti o disse? Olhem que homem de segredo!

--Isso  que no. Eu no disse  sr.^a D. Magdalena... Ella  que...

--Foi o que eu disse ha pouco. A discreo do Torquato  que revelou o
segredo.

--Como?

--O Torquato falou com o seu velho amigo herbanario.

--Eu a esse no disse.

--No, a esse quiz occultar, e d'ahi  que veio o mal.

--Ora, ora...

--O que eu sei  que Vicente veio procurar-me  porta do Mosteiro, e
ralhou-me com uma severidade e uma aspereza, como ainda lhe no tinha
merecido nunca. Estava o homem convencido de que eu era a heroina de
umas aventuras romanticas que se verificavam de noite n'esta minha
propriedade dos Cannaviaes. E to irritado estava, que me no quiz
ouvir, quando eu procurava esclarecer o que para mim era um perfeito
enigma. Ao retirar-se, porm, disse-me que no lhe quizesse occultar a
verdade, porque do Torquato soubera tudo.

--Eu no disse...

--E depois a prima...

--Eu ento chamei este senhor, armei-me de toda a minha gravidade, e
exigi que falasse e me dissesse tudo o que havia e tudo o que sabia a
respeito de uns passeios aos Cannaviaes; elle estava prro, mas a final
falou.

--Mas sabia tambem que eu vinha?--perguntou Henrique.

--Pois no se lembra de que pela manh me tinha canado com perguntas a
respeito do caminho para a casa dos Cannaviaes? Eu j extranhava a
insistencia; depois do que soube, tive uma suspeita. Perguntei ao
Torquato se lhe falra n'isto. A resposta d'elle, apesar da sua
hesitao e ambiguidade, habilitou-me a concluir que teria o gsto de
receber o primo em minha casa.

--E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste?

--No. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. Bem me viste
sair. Viemos ambas para aqui ainda com dia para pr a casa em arranjo.

--So mesmo coisas tuas--disse Christina, rindo.

--Mas eu no disse nada--insistiu Torquato.

--Porm, por que motivo se irritou tanto o herbanario?--perguntou
Henrique.--Que imaginava elle a final?

-Ah!...  porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as suas meias
palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de arranjar as coisas
de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se de que havia aqui
um romance em que entrava eu... A discreo do Torquato  das que
respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura fram-me todas
attribuidas... N'este mesmo romance parece que entrava tambem o primo
Henrique...

--Ah! percebo agora--disse Henrique, rindo.--O velho  ciumento por
procurao.

Magdalena abanou a cabea, sorrindo tambem.

Christina, que j estava habilitada para entender a alluso de Henrique,
sorriu com elles.

O Torquato foi o unico que nada percebeu.

Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de
voltarem a casa.

--Chover?--perguntou Brizida.

--Julgo que no--respondeu Magdalena, e como para assegurar-se correu a
vidraa da janella e examinou o firmamento.

Henrique acompanhou-a.

--A noite est serena--disse ella.--So horas de voltarmos.

--Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estas
horas--disse Henrique, debruando-se  janella, e continuou:--Mas que
agradavel noite! No poder prolongal-a por toda a eternidade!

--Vamos, vamos,--respondeu Magdalena--o dia d'manh deve ser feliz
ainda, porque...

N'isto, como se alguma coisa tivesse observado na rua que lhe attrahisse
a atteno, calou-se, mal podendo reter um leve grito.

--Que foi?--perguntou Henrique, que o percebeu.

--Nada--respondeu ella, correndo a vidraa e afastando-se da janella.

--Viu a alma da morgada?--perguntou jovialmente Henrique, vendo-a
preoccupada.

--No--respondeu Magdalena, meio a sorrir e meio sria.--Pode porm
haver apparies peores.

--Que , Lena? Que viste tu?--perguntou Christina, assustada.

--Socega, filha, nada que possa transtornar o nosso regresso. Vamos.

E, passados poucos minutos, sairam todos os que at alli animavam
aquella habitao solitaria, e ella permanecia outra vez em trevas, em
silencio e na sua quasi desolao.




XXIX


No dia seguinte, pela manh, recebeu-se na Alvapenha noticia da chegada
do conselheiro e de Angelo. A impresso profunda que a este ultimo
causra a morte de Ermelinda, tinha resolvido o pae a trazel-o comsigo
para a aldeia a distrahir e robustecer com ares livres do campo. D.
Dorotha apressou-se, segundo o costume, a visitar o conselheiro;
Henrique acompanhou-a e de caminho pl-a ao facto do estado do seu
corao, e encarregou-a de communicar isto mesmo a D. Victoria e de
fazer-lhe, em seu nome, um formal pedido da mo de Christina.

D. Dorotha ficou a principio admirada. Ainda se no desacostumra de
considerar Christina como uma creanca. Havia to pouco tempo que usava
ainda vestidos curtos!

Reflectindo porm, acabou por achar a coisa natural, vantajosa e
agradavel, e felicitou o sobrinho pela boa escolha que fizera.

Henrique, com o prazer pueril de um verdadeiro namorado, no se fartou
de fazer falar a tia nas qualidades de Christina, e d'esta vez as
habituaes prolixidades da boa senhora no conseguiram enfastial-o.
Estava devras apaixonado!

Chegaram ao Mosteiro.

O conselheiro recebeu-os com ar de satisfao e apparente tranquillidade
de espirito; mas um exame attento conseguiria descobrir-lhe no sorriso o
que quer que era forado a revelar certa preoccupao interior.

 que, desde que chegra, tinha sondado melhor o animo do publico da
terra, ou dos influentes que o representavam, e reconhecera que estava
muito arriscada d'esta vez a sua candidatura.

No lhe sobrava muito tempo para trabalhos; porque d'ahi a dois dias
realisavam-se as eleies. Tudo estava por fazer, emquanto que os seus
adversarios havia muito que tinham tudo feito. Algumas das personagens
politicas, com que contava, falharam-lhe, e at nem o visitaram. As
auctoridades locaes eram-lhe manifestamente hostis, desde o
administrador at o cabo de policia.

Henrique percebeu a violencia que sobre si estava fazendo o conselheiro
para conversar em assumptos alheios  questo que o interessava, para
sorrir e prestar atteno ao que se dizia.

De quando em quando lia ou relia uma carta, tomava um apontamento,
escrevia um bilhete, retirava-se por momentos para receber algum agente
eleitoral que o procurava, despachava um emissario; finalmente no podia
socegar.

Foi na occasio em que elle consultava mais uma vez a lista dos
recenseados d'aquelle circulo eleitoral, emquanto Henrique e Magdalena
faziam por distrahir Angelo, conversando em varios assumptos, que entrou
D. Victoria, a quem acabava de ser formulado por D. Dorotha, e em nome
de Henrique, o pedido da mo de Christina. D. Victoria trazia bem
visivel na physionomia todo o jubilo que a nova lhe causra. Era muito
amiga de Magdalena, mas desculpem-lhe esta vaidade maternal, o que mais
que tudo a lisonjera, fra a preferencia dada por Henrique a sua filha
sobre a morgadinha.

--Tenho muito que lhe ralhar, sr. Henrique--dizia ella.--Estou mesmo
muito arrenegada comsigo.

--Por qu, minha senhora?--perguntou Henrique, sorrindo.

--Pois ento isso  coisa que se faa? J precisa de embaixadores para
se dirigir a mim?

--Perdo, minha senhora! Era meu dever deixar completa liberdade a v.
ex.^a para fazer todas as reflexes que a proposta lhe suggerisse e
discutil-a  vontade, e, por delicadeza, podia v. ex.^a s vezes, sendo
eu mesmo quem a fizesse, cohibir-se...

--Ai, eu havia de pr muitas dvidas! Na verdade um rapaz de to m
nota! Ora sempre tem coisas!

--Visto isso, posso esperar?

--Da minha parte uma guerra de morte--disse D. Victoria, no resistindo
a dar um abrao a Henrique, j com familiaridade de me; abrao que
Henrique retribuiu com affecto.

O conselheiro no dava atteno  scena.

--Ento, mano!--bradou-lhe D. Victoria.--Deixe l essas politicas que
temos negocios srios em casa.

--Sim?--disse o conselheiro, dobrando os papeis que lia, e simulando um
ar de interesse, que realmente estava muito longe de sentir.--Ento de
que se trata?

--De um negocio importante, em que  preciso que seja ouvido.

--Ah! Ento  um caso de consciencia?

--E no o diga a rir, que . Aqui o sr. Henrique de Souzellas acaba de
me fazer um pedido... Isto , a prima Dorotha foi que m'o fez.

--Mas por ordem d'elle--acudiu esta.

--Pois sim, o que era escusado.

--Mas ento que pede de ns este caro sr. Henrique?

--Nem mais nem menos do que uma das nossas pequenas.

O conselheiro relanceou um olhar para Magdalena. J, por mais de uma
vez, a hypothese do casamento da filha com Henrique lhe tinha passado
pela ideia, e de modo algum lhe era antipathica. Henrique tinha um bom
nome, rendimentos sufficientes, e, se quizesse, um futuro na sociedade,
e o conselheiro tudo isto invejava para seus filhos.

Magdalena, que percebeu no gesto do pae a ideia que elle tivera, quiz
tiral-o quanto antes da illuso e disse:

--Quem mais razo tinha para protestar era eu. Ha de fazer-me falta a
amizade de Christina.

--Ah!--disse o conselheiro, com um sorriso um tanto contrafeito.--Ento
quer-nos roubar a nossa Christina, sr. Henrique?

-- apenas uma restituio que peo, sr. conselheiro, porque no me
posso resignar a viver sem corao.

--Faz madrigal? Est ento apaixonado devras, j vejo--disse o
conselheiro.--Pela minha parte folgo de o vr assim associado  minha
familia, por to bom caminho. Mas onde est a thaumaturga, que fez o
milagre de converter este celibatario emerito, que eu conheci em Lisboa
a rir-se do casamento?

--Por piedade, no me recorde esses peccados deante da prima Magdalena,
que  to rigorosa nos castigos!

--Diga antes, que sou to excessiva nas recompensas.

--Mas o mano tem razo--disse D. Victoria.--Onde est a Christe?
Admira-me no a vr aqui!

--Admirar, no me admiro eu--tornou o conselheiro.-- provavel que
soubesse do que se tratava, e eclipsou-se discretamente. Porque isto foi
decerto discutido por as partes interessadas, antes de subir ao nosso
tribunal.

Henrique e Magdalena sorriram.

--Ora se foi! E parece-me que tu, Lena, fizeste d'esta vez de S.
Gonalo. Deus queira que te no queimes ainda no fogo ao ateares d'estes
fachos.

--Eu vou buscar a Christe--disse a morgadinha, rindo das palavras do
pae; e saiu da sala como para evitar que a conversa seguisse a direco
que elle lhe deu.

O conselheiro voltou n'este intervallo a consultar papeis e cartas,
emquanto D. Victoria falava com Henrique, e D. Dorotha tentava
distrahir Angelo, contando-lhe vrias historias de creanas, que elle
mal escutava, e que ella tinha a candura de julgar alimento accommodado
 intelligencia d'elle.

Passados momentos voltava Magdalena, trazendo Christina comsigo, a qual
j vinha com o rubor nas faces e com os olhos no cho.

--Aqui est a accusada--disse a morgadinha ao entrar.

O conselheiro tornou a guardar os papeis e disse jovialmente para a
sobrinha:

--Ora venha c, venha c, que temos muito que falar.

E passando-lhe a mo por baixo do queixo, para a obrigar a fital-o,
continuou:

--Ento assim se trama uma conspirao s caladas? Surprehender a gente
com uma noticia de tal ordem! Ainda ha pouco demittido um ministerio de
bonecas, e j um golpe d'estado d'esta natureza! Sim, senhora, 
energia. Nunca o esperei. Ora d c um beijo, emquanto no tenho quem me
pea explicaes por os que lhe roubar.

E o conselheiro, com perfeita galanteria e affecto, beijou-a nas faces
tingidas pelo pejo e pela alegria.

Depois, voltando-se para Henrique, accrescentou, sorrindo:

--So os penultimos.

--Os penultimos?--disse D. Victoria, rindo.--Ora essa! Ento para quando
ficam os ultimos?

--Para quando a vir com a grinalda de noiva.

--O que eu nunca esperei  que fsse a nossa Christe que dsse o exemplo
 prima. No tens vergonha, Lena--disse D. Dorotha para a morgadinha,
em quem esta reflexo fez nascer um gesto de contrariedade, que trouxe
aos labios d'Angelo o primeiro sorriso d'aquella manh.

O conselheiro e Henrique sorriram tambem.

--Eu prometto casar-lhe a prima Magdalena, dentro em pouco, tia--disse
Henrique com inteno.

--No prometta. Esses negocios deixe-os ao meu cuidado. Bem sabe que sou
teimosa e tenho a ingenuidade de acreditar que ainda ha coisas no mundo
que se devem decidir pelo corao smente.

--E Deus me livre de o no consultar. Seria abjurar os meus proprios
actos.

--O _smente_  que veio de mais, filha--disse o
conselheiro.--Attende-se ao corao, embora. Mas s ao corao? Isso era
bom se vivessemos em um mundo de coraes.

A chegada de novas personagens desviou a direco da conversa e
modificou a scena.

Eram influentes politicos, que obrigaram as senhoras a retirarem-se.
Henrique ficou, a pedido do conselheiro. O mestre Bento Pertunhas
entrava no numero dos recemchegados. O papel que alli desempenhava o
latinista era de suspeitosa natureza.

Vinha tambem a alma politica do partido do conselheiro, o Tapadas, que
n'estas pocas no comia, no dormia, no respirava, por assim dizer,
seno eleies, e desenvolvia uma miraculosa actividade, correndo a
todos os pontos perigosos, conquistando votos, um a um, e lidando por
desenredar as meadas politicas dos adversarios e enredar as suas.

--Ento que novas temos da campanha, meus senhores?--perguntou o
conselheiro, puxando cadeiras para os seus constituintes, e affectando
um tom de confiana que no sentia.

--Ms, sr. conselheiro,--respondeu o Tapadas--muito ms. Vejo isto muito
feio.

--Ora a coisa ainda no ha de ser to m como diz.

--Nada, nada; no me agrada. V. ex.^a descuidou-se. Tenha paciencia, mas
eu bem lh'o disse. Eu sei como estas coisas so.  preciso no as
desacompanhar. V. ex.^a devia vir ha mais tempo.

O Pertunhas acudiu:

--Deixe l, sr. Tapadas, o sr. conselheiro tem amigos decididos, e os
servios que fez  terra...

--Ora com o que vmc.^ vem!--replicou o Tapadas, com modo azedo.--Ento
no sabe como  esta gente? Ento no os ouve ahi berrar j contra as
estradas, quando at agora berravam por no as terem?

--Meia duzia de garotos--tornou o Pertunhas.

--No, senhor, no  assim; no estejamos a enganar-nos. Os que no
dizem mal das estradas, sabem muito bem dizer que ao ministerio as
devem, e estamos na mesma. A coisa vae mal.

--Ento decididamente o Seabra?...--perguntou o conselheiro.

--Esse  o chefe de todos elles--disse um merceeiro.-- porta da minha
loja o ouvi eu estar a dizer ao cunhado do administrador que o traado
da estrada era o peor que podia ser, que se gastava alli um dinheiro
louco, sem utilidade para o povo.

O conselheiro olhou para Henrique, dizendo:

--Lembra-se do que eu lhe disse na noite do Natal, a respeito d'este
traado e dos pedidos do brazileiro para elle se adoptar? Admire agora o
velhaco.

Henrique sorriu, encolhendo os hombros.

--Arremedos do que se faz em terras maiores--disse elle.--No extranho.

--E tem razo--respondeu o conselheiro.

--Mas, a final--continuou o conselheiro--o homem no tinha na freguezia
grande influencia. Como  que...?

--Tem-se popularisado ultimamente um pouco mais. Deu em franquear vinho
por ahi a toda a gente, e depois os padres esto bem com elle e de mal
com v. ex.^a.

--Mas como se lhe desenfreou to de repente esse odio contra mim?
Deixmo-nos em janeiro nas melhores disposies um para com outro...

--Pelos modos que ahi se falou de uma carta do ministro ou ao
ministro...--disse o Tapadas, com maneiras de quem no dera grande
importancia ao objecto a que se referia.

O conselheiro mudou logo de assumpto.

--E os padres? os padres? Que heresia disse eu, que peccado grande
commetti, para me terem esse odio?

--Dizem que v. ex.^a  mao--respondeu um lavrador.

--O diacho da questo do cemiterio...--acudiu o Tapadas.

--Isso acalmou j.

--No acalmou, no senhor. O povo no est contente.  certo que lhe
passou a furia do principio, depois d'aquella historia com o Cancella,
mas...

--Quando me lembro de que aquella canalha se atreveu a insultar minha
filha!

-- melhor no falar n'isso--aconselhou prudentemente o Tapadas.--O que
l vae, l vae. Os homens esto meio arrependidos, e at o missionario
perdeu um pouco entre o povo, porque o Herodes tem por ahi berrado que
foi elle quem lhe matou a filha, e o pobre homem mette pena. At me
dizem que por causa d'isso o padre j se retirou da aldeia. O que era
bom era vr at se se falava ao Herodes; porque talvez elle possa agora
ainda arranjar alguns votos--accrescentou o Tapadas, disposto a
servir-se da dr de um pae como arma eleitoral.

E continuou-se fervorosamente na edificante obra de combinar tramas
politicos. Discutiram-se os diversos processos de angariar as potencias
eleitoraes do circulo. Estudaram-se as ambies de cada uma;
ponderaram-se as exigencias feitas por uns, os desejos adivinhados em
outros, para este o emprego de um afilhado, quelle o bom exito de uma
demanda, a outro o pagamento de uma divida, ou o resgate de uma
hypotheca, e a alguns at nua e descaradamente o dinheiro. N'esta
empresa de subornar consciencias e sophismar a urna entreteve-se o
conciliabulo, sem que nenhum dos membros d'elle sentisse remorsos por o
que estava fazendo alli.

Entre os discutidos foi o sr. Joozinho das Perdizes um dos principaes.

--Ento sempre  certo que me roeu a corda esse basbaque?--perguntou, ao
falar-se n'elle, o conselheiro.

-- dos mais assanhados--responderam-lhe.

--Mas quem diabo lhe virou a cabea? Um velhaco a quem tantas vezes
tenho tirado de apuros!

--Tanto lhe atordoaram os ouvidos com a historia dos
cemiterios...--disse o Pertunhas.

--Deixe l, alli andou tambem um presente que lhe fez o brazileiro. O
morgado est muitas vezes com a corda na garganta--explicou malignamente
o Tapadas, cujo scepticismo, robustecido no uso das demandas e da
politica, no achava explicaes to plausiveis como a corrupo.

--E depois o homem tomou as dores pelo Vicente herbanario--insistiu o
tendeiro.

--Ora adeus!--disse o Tapadas.--Bem me fio eu n'essas compaixes. Quem
no os conhecer...

--E que tem o tlo com os negocios do herbanario?--insistiu o
conselheiro, de mau humor.

--Ento? Deu-lhe para alli.

--Qual historia! Para mim  que vem com isso?!--teimava o sceptico
Tapadas.

--Tambem uma coisa que buliu com elle foi aquillo no outro dia na
taberna com este senhor--disse o Pertunhas, designando Henrique.

--Sinto, sr. conselheiro--disse este--se de alguma maneira concorri...

--De modo nenhum. Aquelle selvagem vae para onde o empurram.  ultima
hora  capaz de mudar de teno. E por causa d'elle  que ficou
despachado professor um pateta em vez de Augusto.

Depois de dizer estas palavras, o conselheiro accrescentou, com
despeito:

--Mas at certo ponto foi bom para me desenganar a respeito do caracter
de certos homens. Ha vinganas to torpes e mesquinhas, que nenhum
aggravo as justifica.

Henrique procurou defender Augusto; achou porm o conselheiro obstinado
na sua crena.

Henrique alludiu ao brazileiro Seabra, como o mais plausivel promotor da
intriga.

--Embora o fsse--respondeu o conselheiro--mas que tem isso? O Seabra
no veio a minha casa, no suspeitava da existencia de tal carta. Alguem
houve que a leu primeiro e que lh'a foi entregar depois, e j  ser
muito indulgente suppr que fram s cegueiras de vingana e no a
sordidez da cubia quem o moveu a essa infamia.

Henrique viu que perdia o seu tempo em defender Augusto; comtudo jurou
pela innocencia d'elle.

O conselheiro ia a responder-lhe, quando o distrahiu uma altercao
travada entre Pertunhas e o Tapadas.

Aquelle estava sendo fertilissimo em alvitres para vencer resistencias
eleitoraes. O Tapadas, que desconfiou d'elle, disse-lhe subitamente:

--Ol,  sr. Pertunhas,  melhor parolar menos e fazer coisa que se
veja; ou deixa s as obras para o seu amigo Seabra?

D'aqui protestos energicos do Pertunhas, e a altercao virulenta, que o
conselheiro teve de apaziguar.

A conferencia durou at s horas do jantar.




XXX


Chegra o prazo e dia assignalado de se dar perante a urna a batalha
eleitoral.

A azfama politica activra-se n'estes ultimos dias consideravelmente.
De parte a parte tinham-se posto em campo todos os influentes e em
exercicio todas as armas. Promessas, alliciaes, presso de
auctoridades, exigencias a dependentes, subornos, ameaas mais ou menos
declaradas; de tudo se lanava mo.

s vezes at o calor das discusses degenerava em pugnas menos
pacificas; os argumentos physicos, que figuram no catalogo das razes
mais convincentes, haviam j sido invocados a pleitear ambas as causas,
berrando-se depois, de um lado contra a violencia e o despotismo do
governo, do outro, contra os manejos sediciosos e anarchicos da
opposio.

Em algumas freguezias que entravam n'este circulo eleitoral, eram os
padres que arvorando a cruz e o estandarte, prgavam a cruzada contra o
conselheiro e instavam com o povo para que no elegesse para
representante um atheu e um pedreiro-livre; em outras eram os agentes do
brazileiro e os da auctoridade, fazendo promessas aos caudilhos
populares, resgatando penhores, levantando hypothecas, remindo dividas,
empregando afilhados, e conquistando assim para o seu partido.

O conselheiro e os seus parciaes no desprezavam tambem nenhum d'estes
mesmos meios, e grossas quantias circulavam a combater as do brazileiro
Seabra.

Os periodicos do Porto e de Lisboa recebiam os echos d'esta batalha.
Havia muito que em longas e diffusas correspondencias os gladiadores dos
dois campos se mimoseavam com as mais descabelladas verrinas,
assignando-se: o _Amigo da verdade_; o _Epaminondas_; o _Vgilante_; a
_Sentinella_; o _Alerta_, etc., e pondo ao soalheiro as mculas da vida
privada uns dos outros, e todas as bisbilhotices da terra,
correspondencias que, felizmente para crdito da humanidade, por ninguem
mais, alm dos interessados e dos que j os conheciam, eram lidas.

O brazileiro era um dos mais activos e fecundos collaboradores d'esta
seco periodistica. Os seus communicados eram estirados, compactos,
obscuros e enrevezados tanto ou mais do que os seus discursos. Perdia-se
em minuciosos incidentes; em labyrinthos de oraes secundarias, d'onde
a grammatica da principal saa frequentemente maltratada, deixando ficar
por l o sujeito, o verbo ou qualquer complemento necessario. Mas o
brazileiro imaginava que o paiz inteiro aguardava com ancia os seus
escriptos. Era frequente abrir uma resposta a alguma zargunchada de um
seu adversario, por estas palavras: Os leitores ho de ter notado o meu
silencio, depois das calumniosas asseres... Os leitores no tinham
notado nada.

Finalmente a aldeia achava-se em plena fermentao politica.

Eu tenho a fraqueza de a no amar debaixo d'aquelle aspecto.

A vida politica tem isso comsigo. Quanto mais estreito e mais apertado 
o circulo social onde se manifesta, quanto mais vizinhos e conhecidos
so os que vivem d'ella, tanto mais acanhada, mexeriqueira e antipathica
se torna. Se a politica do nosso paiz  j pequena, como elle, e
degenera em desavena de senhoras vizinhas, que far das terras pequenas
d'este paiz, em que muito acima dos principios e dos partidos esto os
mexericos e as vaidadesinhas que brotam como tortulhos  sombra das
arvores do campanario?!

Que desconsoladora distancia da realidade ao ideal da vida dos povos!

Henrique de Souzellas no ficra indifferente ao movimento politico da
aldeia. Pegra-se-lhe a febre eleitoral. Impedido de votar, auxiliava,
porm, os parciaes do conselheiro com os avisos da sua experiencia. Um
dia lembrou um _meeting_. O conselheiro poz-se a rir.

--Que utopia! Com que especie de eleitores imagina que est tratando? Um
_meeting_, para qu? No se esquea de ir domingo  igreja e l se
desenganar por os seus olhos. O espectaculo no  muito para alegrar,
porque mostra como em geral o nosso paiz est ainda pouco educado no
regimen constitucional. Mas em todo o caso  instructivo.

Os manejos dos amigos do conselheiro e principalmente do infatigavel
Tapadas, conseguiram ainda resultados importantes em relao ao tempo em
que principiaram a operar com mais energia. Algumas freguezias havia com
que j se podia contar.

A eleio, porm, estava muito arriscada ainda. O sr. Joozinho das
Perdizes devia decidir a contenda. Para onde se inclinasse o morgado,
com todo o peso dos seus comparochianos, desceria o prato da balana.

Contra elle assestou, pois, o conselheiro toda a artilharia; mas sem o
menor resultado. O homem evitava subtilmente encontrar-se com elle, e
aos seus emissarios respondia com insolencia. O Seabra pela sua parte
nunca o largava, vigiava-o como um precioso thesouro, no se descuidava
de o manter nas disposies hostis contra o conselheiro. A todo o
momento fazia-lhe sentir o insulto que recebera na taberna, e a
necessidade que tinha, para se desaffrontar, de infligir uma lio ao
conselheiro, com quem Henrique estava ligado. Depois disse-lhe que o
conselheiro se gabava de ter dinheiro para comprar o morgado e toda a
freguezia.

O morgado, sob estas e analogas instigaes, praguejava e jurava
despejar na urna ministerial o suffragio da sua freguezia.

Assim, pois, todas as probabilidades eram a favor do candidato do
governo, homem desconhecido d'este povo, o qual tambem era desconhecido
para elle, um empregado de secretaria, que nunca saira de Lisboa e que
era o primeiro a rir-se do campanario obscuro de que se propunha a ser
representante; creatura dos ministros, que o desejavam eleger a todo o
custo, por terem n'elle um voto complacente e um parlamentar de boa
feio.

Logo pela manh do domingo, marcado para a grande solemnidade civil, o
adro da igreja parochial apresentava uma animao fra do costume.
Grupos formados aqui e alli conferenciavam, entreolhando-se com
desconfiana, ou correspondendo-se por signaes de intelligencia,
conforme pertenciam  mesma ou a opposta parcialidade. Os agentes
eleitoraes, os influentes dos dois campos acercavam-se d'este, apertavam
a mo quelle, segredavam com um, batiam no hombro a outro, discutiam
com um terceiro, e, sempre que era possivel, distribuiam listas ao maior
numero.

O brazileiro era a alma do partido governamental. O Tapadas capitaneava
a phalange do conselheiro. Pertunhas falava com todos, esfregando as
mos e sorrindo. O regedor passeiava com importancia por entre os
grupos, recommendava ordem e respeito s auctoridades, e dava de olho
aos cabos, seus subordinados, para que se no esquecessem de cumprir as
instruces recebidas, votando no candidato ministerial.

Approximava-se a hora, e principiavam os trabalhos para a constituio
da mesa. O parocho, o administrador e o regedor foram occupar o seu
logar. Ficou presidente o brazileiro, e o resto da mesa formou-se
d'entre as duas parcialidades.

Emquanto se organisavam assim os trabalhos, eram discutidas no adro as
probabilidades da victoria.

N'um dos grupos formados, junto da porta da igreja, por os partidarios
do brazileiro, dizia-se:

--Vencemos por uma maioria de mais de duzentos votos; vero!

--S a freguezia de Pinches enche-nos ahi a urna.

--E estar bem seguro o morgado?

--O sr. Joozinho!? Ora! Est de ferro e fogo contra o conselheiro.

--Pois se te parece! Depois d'aquelles mimos que lhe fizeram na taberna,
e do que d'elle se tem dicto no Mosteiro!...

--No  s por isso. Elle j estava do nosso lado, desde que soube
tinham deitado abaixo a casa do herbanario, e que o pobre homem estava
succumbido de todo.

-- verdade! ahi temos mais um a votar contra o conselheiro d'esta vez.

--Quem? O Vicente? Esse sim. Ento no sabes que o pobre velho j se no
levanta da cama?

--Ai, no?

--Andava j muito fraco e doente; mas ha tres dias, sobretudo, tem ido
de peor a peor, e com uma pressa, que, segundo ouvi dizer, aquillo est
por pouco tempo: nem deita a semana fra.

--Coitado!

--Ahi vem quem ainda hoje o viu. No  verdade, sr. Pertunhas?

--O qu, meus amigos, o qu? o que  que  verdade? o que  que
dizem?--perguntou o mestre de latim, esfregando sempre as mos.

--No  verdade que o Vicente herbanario est a ajustar contas?

--Oh! pobre de Christo! Aquillo corta o corao! Sempre eu digo que uma
crueldade assim, como a do conselheiro!

--Muitos do povo d'aqui veem votar contra o conselheiro, s por causa do
mal que fez quelle santo velho.

--E com razo.

--E ento para qu? senhores, para qu?--continuava Pertunhas.--Para
fazer uma estrada em que se gastam rios de dinheiro, e que a final no
presta! Pois eu passei por a casa do herbanario ha pouco, quero dizer,
por a casa do Augusto, que  onde vive agora o Vicente. O rapaz estava 
porta. Ento, sr. Augusto, disse-lhe eu,  urna! vamos  urna! Elle
encolheu os hombros como quem diz: bem me importa a mim com isso.

--Ahi est outro, que tambem no  pelo conselheiro.

--Por que no? Pois no  elle todo do Mosteiro?

--Foi, foi--replicou o Pertunhas.--Ento vmc.^ no sabe que o
conselheiro, depois de lhe fazer a fineza de lhe arranjar a demisso,
inda por cima o poz fra de casa, porque pelos modos o rapaz... fez
publicar umas certas cartas... que compromettiam o homem? A falar
verdade, tambem no foi bonito.

--Fez elle muito bem.

--Mas, como eu dizia, puzemo-nos a falar, e eu estava-lhe dizendo que o
povo o vingaria da affronta que lhe fizera o conselheiro, porque ia dar
a este um cheque de que elle se havia de lembrar toda a vida; quando o
Vicente, que me ouvia de dentro, chamou-me e mandou-me entrar. Foi ento
que eu o vi... Parecia-me outro!... Imaginem vosss, outro tanto de
magro e outro tanto de velho... Mettia d! Poz-se a perguntar-me muitas
coisas, o que havia, o que no havia, por quem estava este, por quem
estava aquelle... Eu disse-lhe tudo; que o conselheiro, por mais que
fizesse, j no podia vencer; que no arranjaria os votos precisos para
cobrir a freguezia de Pinches. O velho ficou admirado quando eu lhe
disse que o sr. Joozinho era dos nossos. E l o deixei a remoer a
noticia. Ao menos resta-me a consolao de lhe ter adoado com ella os
ultimos momentos.

N'este ponto da conversa viram passar por elles Henrique, que ia ter com
um agente eleitoral, a suggerir-lhe uma ideia para vencer no sei que
eleitor recalcitrante.

--Ahi anda este--disse um dos do grupo, seguindo-o com a vista.--Era bem
feito que lhe dessem outra lio, como a da taberna do Canada.

--Ordem, ordem e prudencia!--disse o Pertunhas.-- preciso manter a
liberdade da urna, senhores, e as garantias constitucionaes!

--Mas que tem este senhor com as nossas eleies?

--Quem o manda metter-se c n'estas coisas?

--Ora  boa! Ento no sabem que elle casa no Mosteiro?--disse o
Pertunhas, que andava sempre informado das vidas alheias.

--Sim?!

-- verdade. Ha pouco, quando eu estava falando com o Augusto, veio a
ns o Jos Barbeiro, que nos deu essa novidade, que lh'a dissera o
Manoel da Quinta, que a ouvira  Gertrudes, criada do Mosteiro.

--Casa com a morgadinha, j se sabe?

--Pois vdes! no que a bolada convida! A mim logo me farejou isso,
quando vi chegar esse figuro c  terra. Mas querem vosss saber uma
coisa engraada?... Pareceu-me que o Augustito do doutor no gostou da
novidade.

--No? Ento por qu?!

--Vi-o fazer-se de mil cres quando a ouviu... Pois ter-se-lhe-ha
mettido na cabea... Hein?!

--Tinha graa. Mas olha o milagre!...

--Ah! ah!... Este mundo  muito divertido!

N'isto saiu a correr da igreja um influente politico, e principiou a
olhar para todos os lados, como procurando alguem.

--Que temos ns l,  sr. Luiz?--perguntou-lhe o Pertunhas.

--Onde diabo esto os de Pinches?--perguntou o interpellado.

-Inda no vieram.

--Diabos os levem! Vae-se principiar a chamada, e elles no apparecem. O
morgado  homem para se esquecer a catar os ces.

--Mas vamos ns principiando, e no emtanto elles viro--disse o
Pertunhas, que fra nomeado para revezador do secretario da mesa.

--Mas a primeira freguezia que vota  justamente a d'elle. O sr. Seabra
est como uma bicha!

E, dizendo isto, o homem voltou para dentro.

A mesa eleitoral, instituida no meio da igreja, com grande escandalo do
beaterio, que pela voz dos padres chamava quillo artes do demonio, ia
principiar a funccionar. O conselheiro, que viera mais tarde, de
proposito para no formar parte da mesa, requereu, com o relogio na mo,
que se abrisse a urna aos eleitores, visto ser a hora marcada no edital.

Este requerimento, simples e justo como era, suscitou discusso.

O brazileiro allegou que, sendo os de Pinches os primeiros a votar, em
virtude do artigo 62.^o do decreto eleitoral, que manda votar primeiro a
freguezia mais distante, e no estando na assembla ninguem d'aquella
freguezia, convinha esperar.

O conselheiro insistiu, dizendo que a lei no mandava esperar por os
eleitores, mas apenas indicava a ordem da chamada, e que portanto
votassem os presentes, e que na segunda chamada, ou nas duas horas de
espera, votariam os ausentes que depois viessem.

Esta questo no se resolveu de prompto. Trocados alguns alvitres, lida
a lei, discutidos os artigos d'ella, consultados os recenseamentos e
mappas, pedidos esclarecimentos ao regedor, ao administrador, e ao
parocho,  que se approvou a proposta do conselheiro e principiou a
chamada.

A freguezia de Pinches faltou em pso.

O brazileiro estava perturbado; olhava para a porta, olhava para a lista
dos recenseados, olhava para os amigos, olhava para os adversarios, e
sobretudo para o conselheiro, em cuja insistencia em principiar a
votao julgou descobrir cavillao. Na urna no tinha entrado uma s
lista. Pregoou-se o ultimo nome dos eleitores de Pinches. Ninguem
ainda!

Passou-se a outra freguezia.

O brazileiro j no estava em si.

Os primeiros votos recolhidos mal os pde introduzir na urna, de trmulo
e sobresaltado que estava.

O homem suppunha que lhe tinha sido roubada  ultima hora uma freguezia
inteira. No estava muito longe de acreditar que os agentes do
conselheiro a haviam arrasado completamente.

A freguezia que se seguia na votao era uma das que se conservavam
fieis ao conselheiro, circumstancia que augmentava a indisposio do
Seabra.

A votao ia, porm, correndo, interrompida apenas por algumas
questiunculas sobre a identidade de um ou de outro eleitor e sobre a
regularidade d'esta ou d'aquella lista, graas aos futeis pretextos de
que os contendores lanavam mo para disputarem, voto a voto, o
suffragio popular.

Ia adeantada a votao, quando correu na igreja uma voz, que veio
infundir alento no animo desfallecido do brazileiro.

-Veem ahi os de Pinches!... Ahi esto os de Pinches... Ahi vem o sr.
Joozinho e toda a sua gente!--dizia-se de toda a parte.

Esta nova passou de bca em bca, a ponto de produzir um sussurro na
assembla.

Muitos sairam para ir receber ao adro os annunciados.

Chegra de facto alli o sr. Joozinho das Perdizes,  frente da sua
freguezia.

Leitor, se tens, como eu, esperana e sincera f no systema
representativo, perda-me o obrigar-te a assistir a uma scena que faz
subir a cr ao rosto de quem, como ns, abena os sacrificios por cujo
preo nossos paes nos compraram a nobre regalia de intervir, como povo,
na governao do Estado, as franquias que nos emanciparam da caprichosa
tutela de um homem, revestido de direitos impiamente chamados divinos,
contra os quaes o instincto e a razo igualmente se revoltam. A scena,
porm, humilhante como , no envolve a minima censura  excellencia do
systema; mas apenas aos que nos quarenta annos que elle quasi tem de
vida entre ns, no souberam ou no quizeram ainda fazer comprehender ao
povo toda a grandeza da augusta misso que lhe cabe executar.

Depois das nossas luctas civis, j muitas creanas se fizeram homens; se
a escola fsse entre ns o que devia ser, j haveria sobra de eleitores
com perfeita consciencia dos seus direitos civis.

O atrazo e ignorancia d'elles, contristando, smente devem impellir os
homens de intenes sinceras e puras a applicar os esforos de
intelligencia e de aco para ministrar com a educao a moralidade, e
para acordar a consciencia d'esta entidade social.

Era o sr. Joozinho das Perdizes  frente da sua freguezia, disse eu.

E  justamente este o espectaculo humilhante de que falava.

Tendes visto um guardador de cabras  frente do seu rebanho, conduzindo
com acenos e assobios todas as barbudas cabeas d'aquelle regimento
quadrupede? Pois vistes o mais perfeito simile da scena que se
presenciava agora no adro da igreja matriz.

O povo, o povo soberano, que n'aquelle dia tinha nas mos o sceptro da
sua soberania, no era menos docil do que os irracionaes que recordamos.

O dia em que devia mostrar-se orgulhoso, era quando mais se humilhava;
quando podia dispr dos destinos dos seus senhores, era quando mais
vergava a cabea sob o pso que estes lhe assentavam.

No  similhante esta fra inconsciente do povo  do boi robusto e
vlido, que uma creana dirige e subjuga? Forte como elle, como elle
docil, como elle laborioso, como elle util, no v que a mesma fra que
emprega no trabalho lhe poderia servir para repellir o jugo. Ou quando o
v,  quando o desespero e a furia o cegam e o impellem a revoltas
tremendas.

Mas o povo de Pinches, o povo do sr. Joozinho, estava muito longe
d'esses excessos.

O morgado vinha, como j disse,  frente.

A barba por fazer, as melenas despenteadas, o leno do pescoo slto,
sem botes o collarinho da camisa, com as mos mettidas no cs das
ceroulas, o chicote no bolso da jaqueta de pelles, as botas enlameadas
at o joelho, a ponta do cigarro ao canto da bca, o palito atraz da
orelha, o chapo sobre o occiput, dois galgos adeante de si, e o
inseparavel Cosme quasi _ latere_. Entrou no adro com ares
triumphantes, sorrindo e piscando os olhos para os seus amigos e
partidarios, como para lhes fazer notar a numerosa procisso que o
seguia e a docilidade dos membros d'ella.

Atraz vinham os eleitores de Pinches, velhos e moos, ricos e pobres,
mas todos com o olhar timido e estupido, todos com movimentos enleados,
todos com os olhos no caudilho, para saber o que deviam fazer. Se elle
parava a cumprimentar um amigo, paravam todos com elle; a direco que
tomava, tomavam-n'a todos a um tempo; apressavam ou demoravam o passo,
segundo a velocidade que elle dava aos seus; se ria, sorriam; se
praguejava, tudo ficava srio. O cortejo parou  porta da igreja.

O morgado passou revista  sua tropa,  qual deu instruces.

Os homens, com os cabellos para deante dos olhos, os braos estendidos e
a cabea baixa, no ousavam fazer um movimento, e conservaram-se
enfileirados at nova ordem do sr. Joozinho.

Pareciam envergonhados de serem precisos a alguem.

No bolso de cada um d'estes homens havia um oitavo de papel almao
dobrado, no qual estava escripto um nome; o nome de um homem que elles
nem sabiam se existia no mundo. No momento devido, cada um d'elles,
chamado pela voz do escrutinador eleitoral, responderia: presente;
approximar-se-ia da urna, entregaria ao presidente da mesa aquelle
papel, e retirar-se-ia satisfeito, como se descarregado de um pso que o
opprimia.

Se lhes perguntassem o que tinham feito, qual o alcance d'aquelle acto
que acabavam de executar, no saberiam dizel-o; se lhes perguntassem o
nome do eleito para advogado dos seus interesses e defensor das suas
liberdades, a mesma ignorancia; se lhes propuzessem a resignao do
direito de votar, acceitariam com jubilo; se, finalmente, lhes dissessem
que n'aquelle dia estavam nas suas mos e dos seus pares os destinos do
paiz, abririam os olhos de espantados, ou sorririam com a desconfiana
propria dos ignorantes.

Innocente povo!

Querem-te assim os ambiciosos, a quem serves de cmmodo degrau.

Quando disseram ao sr. Joozinho que j tinha passado a sua vez de
votar, o homem rompeu pela igreja dentro, berrando, bracejando,
ameaando cos e terra, sem attender a quantos lhe clamavam que tinha de
se proceder a nova chamada, e que portanto socegasse.

O Cosme seguia-o, prompto a ser executor de suas justias.

Custou a serenar o morgado, e no o fez seno depois de duas pragas
contra as pessoas dos senhores da mesa, pragas que razes politicas
fizeram engulir ao brazileiro, sem nem sequer lhe tirarem dos labios o
sorriso com que saudra a vinda do morgado.

Caindo em si, o sr. Joozinho deu ordem  sua gente para que entrasse
para a igreja, e ahi a enfileirou a um dos lados d'ella, promptos 
primeira voz.

A chamada proseguia, e a votao no ia j muito favoravel ao
conselheiro, a julgar pelos indicios, que no escapam aos olhos
amestrados dos mirones.

O brazileiro exultava comsigo mesmo, principalmente quando, por sobre as
cabeas dos que se agrupavam em volta da urna, divisava as phalanges do
morgado, compactas e decididas.

O conselheiro ainda tentou uma investida com o sr. Joozinho, indo
cumprimental-o affavelmente; este, porm, grunhiu-lhe um monosyllabo
scco, e voltou-lhe as costas, envolvido n'uma nuvem de parciaes do
brazileiro.

Era caso desesperado.

Passra j a votar a ultima freguezia, que era justamente aquella onde
estava constituida a unica assembla de que se compunha o circulo
eleitoral, e onde o leitor tem passado commigo todo o tempo que dura a
nossa narrao.

Foi ento que votou o conselheiro e os outros conhecidos nossos, entre
os quaes o Z P'reira.

Com este deu-se um episodio comico, que merece meno.

O brazileiro ao receber a lista que elle lhe offerecia, sabendo-o
parcial do conselheiro, recusou-a, allegando que estava marcada, o que
era contra a expressa determinao do artigo 61.^o,  unico, da lei
eleitoral.

Sabidas as contas, a supposta marca era de natureza de que seria quasi
impossivel isentar papel ou objecto qualquer saido das mos do Z
P'reira. Era uma ndoa de vinho.

Discutiu-se, ainda assim, se a ndoa era marca ou no era marca, e se
lhe deviam ser applicadas as disposies do  unico do artigo 61.^o.

A discusso intrincada foi cortada por o Z P'reira, que disse com a
maior candura:

--Se essa est suja, sr. Tapadas, eu tenho aqui mais d'aquellas que
vocemec me deu.

O proprio conselheiro desatou a rir.

O brazileiro resmungou:

--Ento ha suborno aos eleitores? Como se entende isso?

-Ora, no bula na chaga, seno temos muito que ouvir--disse o Tapadas, e
accrescentou:--ande para deante; deite a sua lista, sr. Z.

Os governamentaes, que iam de cima, mostraram-se tolerantes, e a lista
caiu na urna.

Estava a findar a primeira chamada.

J se liam os ultimos nomes, segundo a ordem alphabetica.

A gente de Pinches,  voz do sr. Joozinho, apromptava-se para breve
entrar em aco na segunda chamada, que ia principiar.

Faltavam uns doze nomes, quando muito, e dos ultimos era o do
herbanario, cuja inicial era um V.

At alli a victoria podia ainda talvez questionar-se, porque a
actividade do Tapadas tinha expremido as freguezias, que lhe eram
affectas, at deitarem o ultimo eleitor; velhos, doentes, mancos e
paralyticos fram transportados em cadeiras e em padiolas at a urna
para votarem. Mas a freguezia de Pinches ia abafar a eleio
inevitavelmente.

O conselheiro perdeu as esperanas, e o proprio Tapadas sentiu-se
desfallecer. O brazileiro estava vermelho e febril de contentamento.

O escrutinador chamou finalmente pelo herbanario.

--Vicente Rodrigues da Fragosa--disse elle, preparando-se j para voltar
o caderno.

--Adeante. Esse vae votar a uma assembla mais longe--disseram alguns.

E ia-se proceder a segunda chamada, quando se ouviu do fundo da igreja
uma voz trmula, mas sonora ainda, responder:

--Presente.

Voltaram-se todos ao escutar aquella palavra.

Adeantava-se lentamente, pallido, curvado, acabrunhado como nunca, o
velho herbanario, a quem o brao de Augusto servia de apoio.

Dir-se-ia um cadaver resuscitado do tumulo.

Com as faces pallidas, o olhar amortecido, os passos incertos, o
herbanario adeantava-se e trazia j de longe o brao estendido,
segurando a lista que vinha lanar na urna.

Apoderou-se de todos os circumstantes um sentimento quasi de pavor,
perante aquella figura anci e alquebrada, que se dissera erguida do
tumulo para responder  voz que a evocra. Todos se lhe afastavam do
caminho com respeito, seno com supersticioso terror.

Fez-se alli dentro o maior silencio, silencio s interrompido pelo som
dos passos arrastados do Vicente sobre o lagdo da igreja.

O conselheiro no pde mais desviar os olhos do vulto venerando do
herbanario; n'aquelle velho, que fra seu companheiro de infancia,
parecia-lhe estar vendo agora um severo accusador da sua insensibilidade
politica, a personificao de um remorso pungente, a primeira appario
de um espectro, que devia perseguil-o no futuro.

Todos os da mesa se levantaram instinctivamente, e, immoveis, viam
approximar-se o velho eleitor, que j suppunham  borda da sepultura.

Aquella assembla, erguendo-se silenciosa e reverente,  chegada de um
pobre velho, trmulo e enfermo, que seguia apoiado ao brao de um
pallido mancebo, tinha uma apparencia profundamente solemne.

O morgado das Perdizes, devras affeioado ao herbanario, no teve mo
em si, ao vl-o assim doente e enfraquecido, que lhe no viesse ao
encontro, dizendo commovido:

-- tio Vicente! pois n'esse estado?!...

O velho fez um gesto energico para afastal-o de si.

--Arreda-te!--disse com severidade--deixa-me, serpente, que mordes a mo
do teu bemfeitor! No me appareas, que no quero ter-te na ideia,
quando estiver a expirar!

O morgado ficou transido de espanto e de consternao ao ouvir estas
palavras.

-- tio Vicente!...--exclamou, ajuntando as mos--pois eu que lhe fiz?

--Cala-te. Deixa-me passar, quero, como homem d'esta terra, protestar
contra a iniquidade que tu e os teus praticam hoje, apedrejando aquelle
a quem deveis tudo. Vendei-vos como ces, e ficae-vos com esse remorso:
eu no o quero para mim.

E, caminhando para a urna, parou defronte d'el-la, fitou o brazileiro,
que no pde sustentar-lhe o olhar com firmeza, e disse-lhe:

--Ahi tem o voto do herbanario, sr. presidente.

O brazileiro recebeu-lhe a lista, e introduzia-a na urna.

Ento o herbanario, cada vez mais anciado, correu os olhos pela
assembla a procurar alguem. Viu o conselheiro que no ousava
approximar-se, olhou-o algum tempo com uma expresso singular e no fim
estendeu-lhe a mo. O conselheiro apertou-a nas suas, commovido.

--Manoel,--disse-lhe o velho em voz sumida--no me cegava tanto o
resentimento, que te negasse esta justia. Eu era ainda teu amigo.

--E sel-o-has sempre, Vicente.

--Sempre que o seja... por pouco tempo ser--respondeu o velho, sorrindo
tristemente.

--Que dizes?... Mas... que tens tu, Vicente? Que sentes?

--Tio Vicente!... exclamaram tambem Augusto, o morgado das Perdizes, e
outros mais.

A physionomia do herbanario transtornra-se assustadoramente; parecia
luctar energicamente para falar ainda, mas a voz embargava-se-lhe na
garganta.

--J no posso...--murmurou elle.--Queria dizer-te...

E apontando para Augusto, e olhando para o conselheiro, disse-lhe ainda:

--Era... d'este... Elle ... elle est...

Os braos de Augusto, do conselheiro e do morgado das Perdizes,
ampararam-lhe o corpo que ia a cair por terra.

Foi nos braos dos tres que expirou o herbanario, porque estava devras
morto, quando o fram a erguer.

O alvoroo foi geral na igreja. Todos a abandonaram, correndo para o
adro, para onde foi levado o velho, a vr se era possivel reanimal-o.
Todos,  excepo do brazileiro, que ficou a vigiar a urna, e de um
agente do Tapadas, que ficou a vigiar o brazileiro.

Os soccorros prestados ao herbanario fram inuteis.

Todos se convenceram depressa de que era de facto um cadaver.

Os indifferentes voltaram a continuar a eleio.

Ia principiar a segunda chamada.

O morgado das Perdizes, impressionado devras por a scena, andava
desconsolado por o adro, e s de m vontade entrou na igreja.

O conselheiro, Augusto e Henrique, e mais alguns homens do povo,
acharam-se ss junto do cadaver.

A commoo tirava a Augusto a frieza de animo para dar as ordens
precisas. Henrique tomou isso a seu cuidado. Houve assim um momento em
que o conselheiro esteve s com Augusto.

N'aquelle instante o corao do homem politico era superior ao
resentimento.

--Augusto--disse elle a meia voz--a morte no deixou este infeliz
completar a ultima recommendao, que parecia querer fazer-me. Eu
adivinhei-lhe porm o sentido, e para prova offereo-lhe a mo de amigo.

E, dizendo isto, estendia-lhe a mo.

Augusto no lhe correspondeu, e disse-lhe, ainda com a voz commovida:

--A mo que v. ex.^a me estende  a mo do homem que esquece e perda as
injurias, e eu no posso ser perdoado, porque me no julgo criminoso.
Desde que uma vez v. ex.^a formulou a accusao e se fez juiz, prefiro,
a ter de ser julgado sem provas, uma condemnao a uma absolvio. Fico
mais em paz com o meu orgulho.

A presena de alguns curiosos obrigou a interromper este curto dialogo.

Henrique voltou com os aprestes para a conduco do cadaver.

Augusto acompanhou a casa o herbanario.

O conselheiro, impressionado pelas ultimas scenas, sentia-se pouco
disposto a permanecer alli.

--Fique se quizer--disse elle para Henrique.--No estou em estado de
receber  queima-roupa a noticia da minha derrota; haviam de attribuir a
mortificao que estou sentindo a essa causa, e eu no lhes quero dar
esse gsto. Vou para casa; l me levar a noticia, e no me dar grande
novidade. Adeus.

E, apertando a mo de Henrique, retirou-se para o Mosteiro.

Causou grande pesar alli a nova da morte do herbanario, e das varias
circumstancias que a acompanharam.

No houve quem fsse indifferente ao successo, que o conselheiro narrou
ainda sob a oppressiva influencia que elle lhe deixra.

A morgadinha absteve-se da menor alluso  causa que apressra o fim da
vida do herbanario, e evitou sempre que D. Victoria ou Christina
alludissem a ella tambem. Presentia que a consciencia do pae lh'o estava
exprobrando e por um delicado instincto abstinha-se de se applaudir das
suas previses, infelizmente realisadas.

Passada a primeira commoo, que a lembrana d'aquella scena produzira,
o conselheiro principiou de novo a sentir pungente e vivo o despeito
pela derrota que se lhe preparava na urna.

Fazia o possivel por se mostrar indifferente a isso; mas a affectao
era demasiado transparente, para at nem D. Victoria se illudir.

Assim, por exemplo, dizia elle  filha:

--Ora vo realisar-se os teus votos, Lena; aqui me vaes ter a viver uma
vida patriarchal. Se queres que te diga a verdade, est-me a appetecer;
a vida politica ia-me canando j.

Mas como dizia elle isto! Com que sorriso contrafeito, com que mal
simulada satisfao!

Pouco a pouco, porm, a impaciencia comeou a apossar-se d'elle e nem
estas exterioridades lhe permittia j.

quella hora devia estar a proceder-se na assembla ao apuramento de
votos.

Esta ideia lanava o conselheiro em um d'aquelles estados febris, que s
pode conceber quem j alguma vez soube o que  ter a sorte dependente de
uma votao, e aguardar a cada momento a noticia do resultado d'ella.

Devora-nos uma impaciencia insupportavel; tudo o que ouvimos nos
afflige; as conversas sobre assumptos indifferentes, irritam-nos; se nos
tentam alentar com esperanas, revoltamo-nos contra ellas; se procuram
preparar-nos para um desengano, prevenindo-o, repellimos com energia a
ideia d'elle. O silencio no nos  mais agradavel; as apprehenses
ganham corpo no meio d'elle; falam os presentimentos do mal. Tentamos
sorrir, gela-se-nos o sorriso nos labios. A quietao -nos to
intoleravel como o movimento. Anciamos sair da incerteza, e de cada
individuo que chega, trememos de saber a nova fatal. Vae mais longe o
effeito moral d'este estado do espirito; chegamos quasi a querer mal a
todos quantos esto assistindo n'aquelle momento  deciso lenta da
sorte. O nosso egoismo, exacerbado em taes momentos, irrita-se com a
ideia de que os nossos amigos tenham corao para assistir quillo; e
comtudo no lhes perdoariamos se se retirassem. Sensaes d'aquellas
exgotam mais vitalidade, em cada instante, do que annos de vida isenta
d'ellas.

O conselheiro luctava comsigo mesmo para dominar-se; procurava
preparar-se para receber o golpe, que bem podia dizer infallivel. Que
esperava elle! No lhe era quasi possivel contar, um por um, os votos de
que dispunha? No ficava, por mais alto que elevasse o clculo, uma
grande maioria a esmagal-o? Tudo isto era assim, mas o convencimento
prvio recusava estabelecer-se-lhe no espirito, para lhe dar a
tranquillidade da certeza.

 um vivedouro sentimento o da esperana! No succumbe seno perante um
desengano inevitavel. Por que lhe chamam verde, seno talvez por, como
as plantas exuberantes de seiva, resistir s mutilaes e renovar os
ramos cortados?

O conselheiro, dominado por todos estes tumultuosos pensamentos,
passeiava agitado na sala, olhando s vezes para a janella,  espera de
vr assomar ao porto do pateo um dos seus partidarios, cabisbaixo e
melancolico, e armando-se de coragem para lhe dar o desengano.

Apesar de todas as prevenes, o que  certo  que a nova, quando
viesse, feril-o-ia como imprevista.

Sempre assim succede.

No meio de um d'estes passeios agitados que dava em todas as direces
por o meio da sala, ouviu-se a detonao de algumas duzias de foguetes.

O conselheiro parou e fez-se excessivamente pallido.

Os coraes de Magdalena, de Christina, de D. Victoria e de Angelo
bateram precipitados.

A causa estava, emfim, decidida.

A girandola apregoava uma victoria, mas no proclamava o nome do
vencedor; porm, que dvida podia haver a respeito d'elle?

O conselheiro sentiu fraquearem-lhe as pernas; sentou-se, e, com um
sorriso amargo, disse para a familia:

--Estou desautorado pelos meus antigos mandatarios!

--Quem sabe, mano? s vezes...

Isto principiava a dizer D. Victoria, para dizer alguma coisa, quando
Angelo que ficava mais proximo da janella, exclamou:

--Ahi vem um homem a correr a toda a pressa!

--A correr?!--disse o conselheiro, em quem esta simples noticia
infundira novo alento a todas as esperanas, e dissipra a sombra das
pesadas apprehenses; e caminhou pressuroso para a janella.

As senhoras seguiram-n'o alli.

O homem que Angelo vira de longe, divisava-se ainda por entre os
silvados de um atalho, que vinha dar  avenida da entrada do Mosteiro.

--Parece o Domingos, o criado do Tapadas...--disse o conselheiro,
affirmando-se.

--Mas que pressa elle traz!--notou D. Victoria.

--J nos viu--disse Angelo.

--L acenou com o chapo--exclamaram todos.

--Que quer elle dizer com aquelles signaes?--tornou o conselheiro,
nervoso.

--Querem vr que  o que eu digo! Olhe que venceu, mano.

--Qual!  impossivel. Pois eu no sei como a votao correu? 
boa!--disse o conselheiro com certo tom irritado, como de quem no quer
que lhe descubram uma esperana.

Passou-se um pouco de tempo, em que o homem se perdeu de vista. Subia
n'aquelle momento a ladeira dos sovereiros.

Os olhos fitavam-se todos no porto do pateo  espera de o vr surgir
alli. Mal se respirava.

--Eil-o--disseram instinctivamente todas as vozes, quando elle
appareceu.

--Viva! sr. conselheiro, viva!--bradou elle de l, apesar de esfalfado.

O conselheiro teve quasi uma vertigem.

--Elle que diz?... Como pode...

No o deixaram continuar as senhoras, que j o beijavam e abraavam com
frenetico enthusiasmo.

Magdalena, a propria Magdalena, cujos mais ardentes votos eram vr o pae
desistir da vida politica, deixava-se tomar pela febre do triumpho e
celebrava-o como se n'elle fundasse a sua felicidade.  que, na occasio
da lucta, no ha animo to indifferente a estimulos, que no abrace um
partido; ao principio frouxamente talvez, mas a incerteza augmenta o
ardor com que se esposa a causa; os glos da indifferena fundem-se nos
momentos decisivos, e a anciedade que precede a victoria augmenta a
commoo que esta produz, se se realisa.

O conselheiro queria acalmar aquellas effuses, mas em vo bradava:

--Esperem! esperem! Deixem ouvir! Isto no pode ser... Ha engano...

Mas o animo feminino no entra facilmente na ordem, se chega alguma vez
a sair d'ella.

S a entrada do mensageiro na sala,  que serenou o tumulto.

O conselheiro interrogou o.

--Ento que dizes tu? Que vivas so esses?

--Digo que vencemos--respondeu o moo, usando ingenuamente o verbo na
primeira pessoa do plural.

--Ests a sonhar?

-O sr. Tapadas, o meu amo, foi quem me mandou aqui a toda a pressa para
lh'o dizer. Quando eu sa da igreja tinha vmc.^... tinha v. s.^a mais
cento e cinco votos do que o outro, e s havia na caixa uns trinta por
junto. No caminho ouvi a girandola...

--Mas  impossivel! Cem votos!... ahi ha engano. No pode ser!

--Cento e cinco!

--Ests bem certo no que te disse teu amo?

--Ora se estou. E l vi a cara do brazileiro. Mettia mdo.

O conselheiro perdia-se em conjecturas. Agora parecia-lhe irrealisavel
aquillo que lhe annunciavam.

No pde mais tempo conter-se. Sobresaltado, ancioso, preparou-se para
ir por seus proprios olhos averiguar do facto.

Mas antes que o fizesse, uma onda popular, trazendo  frente a bandeira
nacional e a philarmonica da terra, invadia o pateo e atordoava os ares
com vivas, hymnos e foguetes.  frente da musica estava radiante mestre
Pertunhas, embocando a trompa com mais arreganho que nunca!

O conselheiro chegou  janella, e ento  que as acclamaes fram
estrondosas.

A desafinao da banda chegou a roar pelo sublime.

O conselheiro agradeceu ao povo aquella manifestao.

Passados momentos entravam na sala Henrique, o Tapadas, e outros chefes
eleitoraes, e com elles o Pertunhas, sobraando a trompa.

--Que quer dizer isto?--perguntou o conselheiro, abraando-os.

--Cento e trinta e cinco votos a maior, sr. conselheiro, nem mais nem
menos--respondeu o Tapadas, rindo s gargalhadas.

--Cento e trinta e cinco--repetiu o Pertunhas.

--Mas d'onde vieram!

--Ora essa  boa! De Pinches.

--De Pinches--repetiu o Pertunhas.

--Como?... Pois o morgado?...

--Votou comnosco como um homem. Ora pudra!

-- verdade... votou... comnosco--dizia mestre Pertunhas.

--Mas no se viu ainda ha pouco...

--Que estavam com metralha inimiga?--concluiu o Tapadas.--Que tem l
isso? Mas vo l  igreja e vero as buxas que esto pelo cho.  um
destro! Parece a loja de um farrapeiro.

--Mas explica-me isso, Tapadas.

--Ento no ouviu a rabecada que aquelle santo do herbanario, que inda
que no fsse seno por isso deve estar assentadinho no Co, deu ao
morgado? Pois aquillo l resentiu o homem. E quando, depois do Vicente
expirar, elle voltou para a igreja, vinha a dizer: Diabos me levem, que
se tivesse aqui listas  mo, havia de ensinar os tratantes que me
metteram n'esta dana. Vieram-me dizer isto, e eu que, para o que dsse
e viesse, sempre levava um sortimento de listas, cheguei-me por a calada
ao morgado... Hein?... e metti-lh'as assim  cara. Hein!... Ora! Foi um
momento! Emquanto a mesa se senta e abre cadernos, sim, senhores, e se
pe tudo em ordem, estava armada a freguezia de Pinches  nossa moda.
Agora se se queria rir, era vr o brazileiro! Como elle encafuava para a
urna as listas que eu tinha trazido no bolso, e com que fogo! E eu a
vl-o enterrar at s orelhas e a fazer-me carrancudo! No fim ento 
que fram ellas, quando principiaram a apparecer as nossas listas s
cargas cerradas. O homem enfiou! cuidei que lhe dava alguma coisa no
fim. Berrou, protestou... fez coisas do arco da velha. Agora chia contra
o morgado, e se o encontra  capaz de o comer... Para coroar a festa, 
girandola, que aqui o mestre Pertunhas tinha preparada para elles,
pegamos-lhe ns o fogo e, estourou que foi um gsto!

E o Tapadas terminou com outra gargalhada.

O Pertunhas quiz protestar contra a accusao, mas o Tapadas voltou-lhe
as costas, dizendo:

--Ora adeus, meu amigo! O melhor  calar-se.

E elle seguiu o alvitre, limitando-se a dizer a meia voz para os que
estavam proximos:

--Este Tapadas tem cada graa!

Assim pois a victoria do conselheiro era devida ao herbanario.
Tinham-lhe falhado todos os seus clculos politicos, transigira com
exigencias, nem sempre justas, o que de nada lhe servira, e salvra-o o
elemento que desprezava. Acontece s vezes d'isto aos homens que muito
calculam.

As senhoras, que estavam sabendo de Henrique o succedido, renovaram as
suas demonstraes de alegria.

O conselheiro, porm, ficou preoccupado no meio das festas de familia e
das festas populares que se faziam no pateo.




XXXI


A morte do herbanario deu muito que falar na aldeia, no s pela
qualidade de homem que era aquelle, como pelas circumstancias, no meio
das quaes o facto succedra.

O resultado da eleio, comquanto momentoso, no distraa do assumpto as
attenes; pois que, tendo sido successos simultaneos, associavam-se
naturalmente nas conversas e discusses, e um chamava o outro.

O herbanario no fra colhido desprevenidamente pela morte; havia muito
tempo que fizera as suas disposies e por ellas legra a Augusto tudo
quanto possuia, isto , alguns livros, entre os quaes a _Polyanthea_, e
o preo, quasi intacto, que recebra pela casa expropriada.

Logo que estas disposies fram sabidas, no faltou quem achasse
n'ellas a explicao da amizade desvelada com que Augusto sempre tratra
o velho, e do piedoso acatamento com que o recebra em casa, assim que
da sua o expelliram.

Ns que, por um direito legitimo e inauferivel, podemos julgar a fundo
do caracter de Augusto, asseguramos que eram inexactos taes juizos.

 uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma f que se tem no
desinteresse dos outros!

No ha explicao mais difficil de ser recebida do que a que se
fundamenta n'um sentimento nobre de abnegao ou de generosidade.

 preciso que duvidemos muito de ns mesmos, para assim desconfiarmos do
proximo. Porque a final o que  verdade  que a mais exacta e infallivel
sciencia do corao humano s se adquire pelo estudo do proprio corao:
esse  o unico que nos est bem patente.  por isso que as melhores
almas so de ordinario as mais crentes.

Um homem, a quem a desconfiana tenazmente escuda contra todas as
apparencias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem j to inquinado
o corao como suppe o dos outros.

O enterro do herbanario verificou-se no dia seguinte ao da morte e foi
muito concorrido.

Fez-se no cemiterio, e, por expressa determinao do fallecido, em campa
rasa, e no no tumulo da familia do Mosteiro, como o conselheiro
desejra.

Tudo se passou sem o menor signal de opposio.

No se explicam bem estas versatilidades da opinio publica. Uma medida
que hoje ateia uma revoluo, manh executa-se no meio do
indifferentismo geral, e sem apostolado prvio, sem providencias
repressivas, nem castigos. Mysterios das massas, que mais convem ao
legislador estudar, do que tentar destruil-os; offerecem a resistencia
das leis naturaes.

O conselheiro e toda a familia tomaram lucto como parentes do
herbanario, e receberam as visitas de psames, que em parte eram tambem
de parabens pelo exito do suffragio popular.

Ao fim da tarde em que se realisou a cerimonia funebre, quando soavam na
igreja matriz as badaladas das Av-Marias, Augusto entrou no cemiterio,
j deserto, e approximou-se lentamente da sepultura, inda coberta de
pouco, como o denunciava a terra revolvida.

Elle, cujo corao era decerto o que a morte do herbanario mais
dolorosamente ferira, no recebra psames de ninguem. Passra a tarde
s com o seu pensamento, o qual, como o leitor prev, lhe no devia ser
muito jovial companheiro.

Quem observasse Augusto n'aquelle momento, seria decerto impressionado
pelo ar abatido, revelador de uma profunda prostrao de animo, que lhe
quebrra as fras.

Que era feito d'aquella energia, com que se revoltra contra as
perseguies da sorte, e que lhe animra os primeiros passos para obter
a justificao devida ao bom credito do nome que lhe haviam legado sem
mancha? Vimol-o sair do Mosteiro resolvido a luctar, vimol-o repellir
nobremente as ironias de Henrique, vencel-o, obrigal-o a pedir-lhe
perdo; vimol-o recusar o auxilio que este j lhe offerecia, e
considerar-se moralmente obrigado a conquistar elle proprio as provas da
sua innocencia.

Que  feito d'essa energia?

O que  feito d'ella? leitor, talvez o teu corao te possa responder
por mim, se s uma d'essas victimas, para quem a sorte parece
personificada em um espirito malfazejo, que se compraz nos martyrios
lentos.

Quando, uns aps outros, se repetem os golpes da adversidade, quando
todos os males parece cairem sobre uma existencia, como uma maldio de
Deus,  raro encontrar-se tmpera de alma to rija que resista e no
ceda, quasi convencida, como o Jacob dos livros sagrados, de que lucta
com um poder superior.

A razo mais clara deixa-se tomar ento da cegueira do fatalismo, e
eivado d'esta grave doena dissipa-se a fortaleza do espirito, como se
extinguem as fras do corpo, quando gira no sangue um veneno enervador.

Ento encontra-se quasi um d'estes prazeres paradoxaes, a que  to
sujeita a natureza humana; sente-se uma especie de gso em succumbir sem
lucta. Experimenta-se, por assim dizer, o orgulho da extrema
infelicidade.

Em poucos dias Augusto conheceu as maiores provaes da vida: a miseria
em perspectiva, a ingratido, o insulto que avilta, a calumnia que
ennoda, e o infortunio de um verdadeiro amigo. Repellira com dignidade
o insulto e a calumnia: sorrira  miseria e  ingratido, e dera 
amizade as consolaes que a amizade lhe inspirra.

Mas no desfallecra com tudo isto.

Maior provao lhe estava reservada, porque ha maiores provaes para a
alma humana, do que todas estas adversidades juntas. Apagae-lhe de
subito a estrella que a guiava; acordae-a do sonho em que se esquecia,
dormindo no meio de uma desencantada realidade; privae-a da ideia
querida, que havia muito concebra, que comsigo vivia, que para si
guardava, ciosa dos olhares extranhos, e vl-a-heis desnorteada,
perdida, louca, contorcer-se em desespero e succumbir.

Se resiste e sobrevive, se no desfallece, nem vacilla,  porque  de
essencia mais elevada do que a humana.

s vezes aquella ideia era to irrealisavel, aquelle sonho to
chimerico, que a pobre devia estar prevenida para o perder um dia, e
julgou que o estava.

Mas illudira-se. Se nos dermos de corao a uma chimera, se ella, nas
frmas vagas e aereas que reveste, nos sorrir e namorar, em vo julgamos
tl-a por o que verdadeiramente ; ha sempre um ou outro momento em que
a acreditamos realisavel e at realisada.

E, ao convencermo-nos devras da sua impossibilidade, sentimos a dor
profunda que nos causa a perda de um objecto querido.

Como certos deuses do paganismo, que nos seus amores com os mortaes
vestiam a frma humana, assim o impossivel, quando nos apaixonamos
d'elle, apparece, para nos seduzir, sob a feio da realidade aos nossos
olhos namorados.

E ao revelar-se como impossivel, destre o corao que o abraa, como
Jupiter sacrificou a imprudente Semele, ao apparecer-lhe em toda a sua
gloria de deus.

Qual fsse a ideia constante, o pensamento recatado de Augusto,
sabem-n'o os leitores: era o amor de Magdalena. A natureza d'esta paixo
dizia elle conhecel-a. No tinha outra aspirao alm de existir, era
como o culto pela Virgem do Christianismo, era que se adora por adorar,
em que na mesma adorao se acha o premio do culto, em que o deixar-se
adorar  o mais que pode pedir-se ao objecto d'elle.

De tudo isto estava sinceramente convencido Augusto.

Mas por que foi que, desde os primeiros momentos em que viu Henrique,
sentiu quasi averso para elle? por que foi que, amavel e bondoso para
com todos, s para com um desconhecido se mostrou frio e irritante? por
que foi emfim que, ao persuadir-se, por certos indicios, de que
Magdalena e Henrique se amavam, caiu no desalento, em que tantas causas
de infortunio o no tinham lanado ainda? Porque a verdade era que foi
este o golpe que o venceu.

Por qu? porque amava Magdalena, porque este amor no tinha nada
excepcional; era inconscientemente apprehensivo, ambicioso, devaneador e
ciumento, como todos os amores verdadeiros; porque era aquelle o seu
sonho mais querido, e desde que era obrigado a convencer-se de que no
passra de um sonho, no se sentia de animo para fitar a realidade;
porque era aquella a luz da sua alma, e ao vl-a apagar, vacillou nas
trevas e parou. Desde que no avistava um alvo, no havia para elle
retrogradar nem progredir; era um movimento sem fim, que no valia mais
do que a quietao.

Esta fra a causa do desalento de Augusto, que s ento conheceu que se
illudira com o estado do seu corao, que o que em si se passava era o
verdadeiro amor.

Desde que teve de renunciar a elle, no fez mais um esforo para
justificar-se da calumnia que pesava sobre si. Sentia-se indifferente 
condemnao do mundo. J nem lhe importava justificar-se para com
Magdalena; era quasi uma vingana, que tirava d'aquella por quem
soffria, obrigal-a a ser injusta.

E a sua consciencia quasi achava voluptuosidade n'isto!

O herbanario fra victima da mesma illuso de Augusto, e concorrra
involuntariamente para o levar a este estado moral.

Das explicaes dadas por Magdalena na casa dos Cannaviaes, sabemos como
das meias palavras e meias revelaes de Torquato, o herbanario
acreditra que a morgadinha combinra imprudentemente com Henrique uma
visita nocturna  quinta dos Cannaviaes. O velho, que suspeitra sempre
da natureza dos sentimentos de Henrique para com Magdalena, julgou vr
n'aquillo a confirmao das suas suspeitas, e encontrando Magdalena,
reprehendeu-a, e, de irritado que estava, nem escutal-a quiz.

Voltando a casa, o velho lidou por muito tempo com a dvida, se deveria
ou no revelar tudo a Augusto.

A noite cerrou de todo e deslizou com a lentido de uma noite de
inverno, sem que elle tivesse resolvido o que faria. O dia seguinte
passou-o na mesma indeciso. Mas a inquietao do herbanario crescia;
desassocegava-o a ideia do perigo a que suppunha exposta Magdalena, cuja
confiana em Henrique a podia perder.

O herbanario continuava a desconfiar de Henrique.

Chegra a noite, aquella em que Torquato lhe dissera ter com uma das
meninas de visitar  meia noite, por causa de Henrique, a casa dos
Cannaviaes. O velho no pde mais tempo conter-se e disse a Augusto,
depois de muito luctar comsigo:

--No devo calar-me.  preciso coragem, meu filho. Arranca do corao a
loucura que l tens ainda, embora o deixes em sangue, ou ests perdido.

Augusto estremeceu, olhando-o com sobresalto.

O velho proseguiu:

--Tu vaes sair para te desenganares por teus proprios olhos, e se o que
vires te no curar, se  sem remedio esse mal, ao menos s generoso, e
acode e salva, se fr possivel, quem, perdendo-te, se perde tambem.

E aps estas palavras vagas, cujo mais claro sentido Augusto tremeu de
investigar, o velho mandou-o aos Cannaviaes, n'aquella mesma noite,
recommendando-lhe que fsse preparado para receber uma grande dor.

Augusto seguiu as indicaes do herbanario, e foi.

Era d'elle o vulto que fizera estremecer Magdalena, quando na noite da
piedosa devoo de Christina, a vimos chegar  janella dos Cannaviaes.

A morgadinha reconhecra Augusto atravs das sombras nocturnas, e tivera
um presentimento do que significava a presena d'elle n'aquelle logar e
n'aquella occasio.

Por concentrada e discreta que fsse a paixo de Augusto, no era um
mysterio para Magdalena.

A extranhar alguem esta penetrao de vista no ser decerto nenhuma das
minhas leitoras.

Magdalena adivinhra havia muito Augusto, e no lhe fra difficil
explicar at a instinctiva hostilidade com que elle sempre acolhra
Henrique.

Por isso, ao vl-o alli, previu que pesava sbre ella uma suspeita, que
era victima de uma illuso, e que as apparencias a podiam condemnar.

De feito Augusto chegra tarde aos Cannaviaes, porque s tarde o
herbanario vencra a hesitao que experimentra ao dizer-lhe que fsse.
Por isso s pde reconhecer a voz e a figura da morgadinha e de Henrique
no curto dialogo, que entre os dois se trocra, quando vieram examinar 
janella o estado da noite.

As palavras que escutou prestavam-se a ser interpretadas de uma maneira
cruel para o seu corao. Assim as entendeu Augusto, e, sem mais querer
vr nem ouvir, retirou-se como um louco.

Foi n'essa occasio que Magdalena o viu.

Quando voltou a casa, o herbanario que, ainda acordado, o esperava,
viu-o pallido, e com uma expresso singular no rosto.

--Ento?--interrogou-o anciosamente o velho.

--Tinha razo, tio Vicente. Tem sido uma longa e m loucura a minha.
Verei se me curo d'ella.

E, sentando-se, encostou a cabea s mos e permaneceu silencioso.

O velho no lhe perguntou o que se tinha passado.

D'ahi em deante foi em rapido progresso a prostrao de animo em
Augusto.

A doena do herbanario que se exacerbou consideravelmente tambem, era o
unico motivo de uma fra ficticia que ainda o sustentava. Os seus
desvelos pelo enfermo tornavam-lhe todos os instantes.

A unica voz, echo da vida exterior que lhe chegava aos ouvidos, era a do
cirurgio que tratava do herbanario.

Falador por indole e por clculo profissional, o facultativo contava 
cabeceira do leito as novidades do dia. Entre essas trouxe uma das que
mais vogavam, que era a de que Henrique casava no Mosteiro com a
morgadinha.

Um equivoco dizer do Torquato, na presena dos criados do mosteiro, uma
das meias discrees do velho, mais perigosas do que a propria
indiscreo originra esta verso.

Augusto escutou a nova sem que o gesto o trahisse: mas o herbanario, que
o fitou com olhos interrogadores, leu claro n'aquelle rosto impassivel.

No dia das eleies, o estado do velho Vicente era mais grave ainda. O
cirurgio prolongou a sua visita e falou da campanha eleitoral.
Assegurou que era certa a derrota do conselheiro, desde que contra elle
se manifestra o sr. Joozinho das Perdizes.

O herbanario escutou-o com admirao e sobresalto.

Porque a verdade era que o herbanario sentia pelo conselheiro uma
predileco que a tudo sobrevivia, que nada podia destruir. Similhava o
affecto que alguns paes sentem pelos filhos, de quem s teem recebido
desgostos, affecto que parece robustecer tanto mais, quantos mais
motivos ha para a esfriar.

Pouco depois mestre Pertunhas confirmou a noticia do facultativo.

Foi ento que o herbanario, dominado por energia febril, quiz erguer-se
do leito, e, apoiado no brao de Augusto, que em vo tentou dissuadil-o,
se dirigiu  igreja para votar. O resultado sabem-n'o os leitores.

Todas estas causas, e a ultima, a morte do amigo, acabaram por quebrar o
alento a Augusto. Facil , pois, de conceber qual o estado do seu
espirito ao entrar no cemiterio.

Orao ou meditao, por muito tempo durou aquelle tributo de saudade,
que o aspecto sombrio da tarde e a melancolia do logar e da hora mais
solemne faziam.

Passados alguns momentos, sentiu Augusto que alguem se approximava
d'elle. Voltou-se. Era o Cancella, que tambem viera rezar junto do
tumulo da filha.

No era o Cancella j o mesmo robusto e alegre aldeo que vimos,
dominado pelo enthusiasmo, sobre o tablado rustico, representar com
applauso o tyranno perseguidor do Messias. Desde a morte da filha
parecia outro. Triste, avelhentado, emmagrecido, nem tinha fras para o
trabalho, nem corao para alegrias.

Dir-se-ia que a filha lhe partira com a alma, e que era um cadaver o que
se movia alli.

--Ah! logo vi que era o sr. Augusto--disse o pobre homem, estendendo a
mo, que Augusto apertou com affecto.--S ns temos amigos aqui.

-- verdade, Cancella. Ou s ns, fra d'aqui, no temos outros, pelos
quaes esqueamos estes, que ahi dormem.

--Eu decerto que no! Est-me toda a alegria, est-me todo o corao
debaixo d'aquella pedra--disse o Herodes, apontando para o tumulo da
filha.--Com mais de quarenta annos, que nova vida se pode principiar?

--Ha quem aos vinte j no tenha coragem para principiar outra!

O Cancella olhou fixo para Augusto ao ouvir-lhe estas palavras.

--Fala de si, sr. Augusto?... No tem razo. Que so as suas dores ao
lado da minha? Se ainda no experimentou o amor e as alegrias de pae,
como ha de imaginar a dor, que a morte de uma filha unica nos traz ao
corao?... A minha pobre Ermelinda!... Parece-me ainda impossivel o
tl-a perdido!... Queria a esse velho, sr. Augusto!... E com razo, que
era seu amigo e quasi um pae para si... mas no  sem remedio a sua
saudade, ver... A minha porm...

Augusto sorriu amargamente.

--Tu sabes l, homem, o que eu tenho no corao?

N'isto chegou-lhes aos ouvidos um vozear distante, com um rumor de
acclamaes e applausos. Eram os clamores dos grupos populares,
celebrando a victoria do conselheiro.

Os sons da trompa do mestre Pertunhas dominavam todos os mais.

--Uns riem, emquanto outros choram--disse o Cancella.--Ha alegria acol.

E designou com o dedo o Mosteiro, cujos telhados se avistavam d'alli.

--Ha...--respondeu Augusto, pensativo.--Somos de mais n'esta terra, meu
pobre Cancella; ns, os infelizes.

--Por isso parto manh.

--Partes?

--Se eu no posso viver aqui! Se tudo isto me est falando na filha!...
A cada passo estou  espera de vl-a...  como se a todo o instante me
morresse. Vou para a cidade; dizem que esto engajando por l
trabalhadores para o Brazil... Quero vr se o trabalho me mata, antes
que o desgsto me no tente a morrer de outra sorte.

--E dizes que partes manh?

--De madrugada. J tenho tudo prompto.

Augusto reflectiu por algum tempo.

--Far-te-hei companhia.

O Herodes olhou-o, admirado.

--O sr. Augusto?! Pois quer?...

--Quero que me batas  porta, quando passares.

--Mas que tenes so as suas, sr. Augusto?

--As mesmas talvez que as tuas. No dizes,que queres vr se o trabalho
te mata? Por que no hei de eu tentar o mesmo tambem?

--Mas... no lhe morreu uma filha.

--E cuidas tu que s um amor de filha nos pode prender  vida? que s a
morte de uma creana nos pode ferir no corao?...

O Herodes esteve algum tempo calado, com os olhos em Augusto; depois
disse, com hesitao ainda:

--No  por certo a morte d'este santo velho que o faz falar assim, sr.
Augusto. Se quizesse desabafar commigo... talvez que lhe fizesse bem.
Bem v que eu sou infeliz e... havia de entendel-o...

Augusto apertou-lhe a mo, commovido.

--Pobre amigo! No, no me entenderias; porque no basta ser infeliz
para me entender.  necessario ter sido louco como eu fui.

--Louco?!...

--Sim, louco, meu bom Cancella, louco. No te lembras d'aquelle
desgraado do P do Monte, que se suppunha rei? Como ria n'aquelle
tempo! Um dia voltou-lhe o juizo, mas ficou to triste at morrer, que
parece que tinha saudades da loucura! Talvez que lhe devesse os unicos
instantes de felicidade que sentiu na vida.

O Herodes j no comprehendia Augusto, o que lhe fez crr que o no
entenderia se elle o tomasse por confidente.

Augusto mudou de tom, dizendo-lhe:

--Promettes passar por minha casa esta madrugada?

--Pois sempre quer?...

--Se no partir comtigo, partirei s.

--N'esse caso...

--Espero-te. Aonde vaes agora?

--Ao Mosteiro.

--Ah!... vaes ao Mosteiro?...

--Vou despedir-me d'aquella santa familia, que to bem me tratou da
filha, e de Angelo, d'aquella alma de cherubim, que ainda se no
consolou tambem da morte da minha pobre Linda.

--Angelo?...  um nobre corao... Espera... No quero partir sem lhe
dirigir algumas palavras... Devo-lh'as.

--S a elle?

--S elle m'as agradecer.

E Augusto approximou-se do tumulo da me de Magdalena, e  frouxa
claridade d'aquella hora escreveu com um lapis em um quarto de papel
estas palavras:


     Angelo.--Escrevo-lhe sobre a pedra do tumulo, em que repousam sua
     me e Ermelinda, duas imagens que sero sempre para o seu corao
     rodeadas de todo o prestigio da saudade. Oua-me, que em nome
     d'ellas lhe falo. Dentro de algumas horas deixarei para sempre
     estes sitios. Se as memorias da infancia me prendiam aqui, as
     sombras de grandes soffrimentos as offuscaram. Parto quasi sem
     custo. No o tornando talvez a vr, Angelo, tinha um dever a
     cumprir para com a sua generosidade. Ho de ensinal-o a
     desprezar-me, Angelo. O seu nobre instincto de creana
     recusar-se-ha a isso ao principio talvez: mas a razo do
     adolescente talvez venha a ser mais docil. No podendo
     justificar-me, deixe-me ao menos jurar-lhe que parto com a
     consciencia tranquilla. No  por mim que fao este protesto, 
     para lhe evitar, se fr possivel, a dvida no caracter dos homens.
     Para um corao, como eu lhe conheo, deve ser um martyrio. Os mais
     que me condemnem; nem necessidade sinto j de me justificar. Parto
     com um desalentado como eu. O que vou procurar no sei. Tudo
     acceito com indifferena.--Seu amigo, _Augusto_.


Fechando a carta, entregou-a ao Cancella, e ajustando outra vez a hora a
que deviam encontrar-se, separaram-se.

O Cancella dirigiu-se para o Mosteiro e ainda a pensar nas palavras que
ouviu a Augusto, e sem que atinasse com os motivos d'aquelle desalento.

No pde, porm, chegar to depressa ao Mosteiro como esperava;
distrahiu-o no caminho o seu compadre Z P'reira.

A harmonia do par conjugal de que constituia a parte masculina o nosso
Z P'reira, estava cada vez mais transtornada.

A beatice azedra o animo da sr.^a Catharina do Nascimento de S. Joo
Baptista.

A saida precipitada do missionario, que no se sentiu seguro na terra
depois da scena do cemiterio, e do desespero do Herodes, com quem elle
imaginava a cada passo esbarrar, rodera aquelle santo varo do
prestigio dos martyres perseguidos; e as saudades por elle e devoo
pela sua memoria augmentaram consideravelmente na aldeia.

Se mal corria ha muito a casa e o governo domestico da familia Z
P'reira, peor se tornou depois d'essa poca.

A mulher passava todo o tempo em devoes na igreja. O marido,
desconsolado, procurava lenitivo na taberna.

Descuidou-se cada vez mais de trabalhar. A embriaguez era n'elle estado
habitual, e j menos inoffensiva e pacifica do que nos primeiros tempos.

A miseria ameaava invadir aquelle lar, at alli remediado.

Tudo isto exacerbra a acrimonia das discusses conjugaes.

Marido e mulher fustigavam-se com os menos amaveis epithetos e
attribuiam-se reciprocamente as honras da ruina do casal.

De noite desencadeiava-se a tempestade domestica e cada vez mais
ameaadora.

Um dia, o marido, excitado pelo vinho, foi mais alm do que a sua
timidez habitual o permittira at alli, e a sr.^a Catharina soube, pela
primeira vez, que o osso de que ella era osso no tinha a brandura que
lhe suspeitava.

Deu-se uma scena escandalosa, em que interveio a vizinhana. D'ahi por
deante fram frequentes iguaes espectaculos.

Na noite em que o Herodes o encontrou, o Z P'reira, em completa
embriaguez, acabra de fazer sentir mais uma vez a sua mulher toda a
fra da auctoridade marital. Ella revoltou-se e abandonou os penates,
jurando que nunca mais voltaria a elles.

O pobre do homem andava agora perdido nas ruas  procura d'ella,
arrepellando-se, chorando, praguejando, que mettia d. O Cancella
condoeu-se d'elle, e dando-lhe o brao, para lhe firmar os passos
cambaleantes, conduziu-o a casa, promettendo restituir-lhe a mulher
fugida.

E n'esta tarefa de reconciliao passou grande parte da noite,
conseguindo a final harmonisal-os, mas convencido de que no seria muito
duradoura a paz.

E tinha razo o Cancella em pensar assim. Ao lar domestico, onde uma vez
se passa uma scena d'aquellas, nunca mais volta o anjo da concordia.

O pobre do Z P'reira estava condemnado a levar assim o resto da sua
vida de familia.

Esta occorrencia demorou o Herodes, que s tarde entrou no Mosteiro a
despedir-se da familia que tanto lhe estimra a filha.




XXXII


Augusto, ao voltar a casa, sentiu que estava inevitavelmente votada 
insomnia aquella noite, a ultima que devia passar na aldeia, no porque
os preparativos da jornada lhe impedissem o repouso, mas a lucta de
tantos pensamentos e paixes encontradas, decerto lhe disputaria o
espirito.

Partir  j uma palavra, que quasi nunca se pronuncia com indifferena;
partir para no voltar  uma ideia afflictiva, que mais violenta
commoo desafia; partir sem esperanas no futuro... poucas torturas de
alma se podem comparar a esta!

Experimentava-a Augusto.

Era quasi uma resoluo de suicida a sua. Nenhuma ambio tivera poder
sobre elle para o arrancar d'alli; tivera-o o desespero.

A cada momento, elle proprio surprehendia-se immovel, abstracto, com os
olhos fitos na chamma da vla, com a cabea entre as mos, sem saber em
que pensava, sem consciencia de si.

A noite estava socegada, e apenas o som montono de uma fonte proxima
interrompia o silencio d'aquellas horas adeantadas.

Augusto abria um livro, mas lia como por certo o leitor sabe que se
costuma ler em situaes identicas.

Levantava-se para fazer os aprestes da jornada, mas havia em todos os
seus movimentos uma indeciso, uma falta de consciencia, que no deixava
dvidas sobre o estado do animo que os regia.

Como que a todo o momento estava esquecendo a que fim convergiam as suas
aces; e no meio do cumprimento de uma teno, perdia a consciencia
d'ella.

Parava defronte de um livro, como se irresoluto em saber se o levaria
comsigo; mas cdo afastava-o de si com enfado.

Examinou depois os papeis e as cartas; queimou tudo. Vestigios de
passados devaneios, effuso de uma alma sensivel, fructos da juventude e
da solido, a que a primeira inspirra o enthusiasmo, e a segunda a
melancolia, tudo consumiu; com certo prazer amargo via atear-se a
chamma, desapparecerem as lettras, reduzir-se tudo a cinzas.

Respeitou apenas as cartas de Angelo, que releu commovido. Falava-se em
algumas de Magdalena. O sobresalto do seu corao, ao ler aquelle nome,
era ento mais violento que nunca.

N'estas pesquizas veio-lhe s mos um pequeno masso, que pertencra ao
herbanario.

Ia para as queimar tambem, quando a inscripo, que viu por fra da
cinta que as enfeixava, o fez hesitar.

Liam-se estas palavras:--_Cartas de Magdalena_.

Cartas de Magdalena! Este nome tinha no animo de Augusto o valor de uma
tentao.

Cartas de Magdalena! Era quasi ouvil-a falar, prazer a que j tinha
renunciado; era entrar em communho de pensamentos com ella, e infeliz
de quem no concebe a casta voluptuosidade d'este gso.

Mas ao mesmo tempo hesitava.

Pertencia-lhe tambem aquelle legado? No seria um abuso lel-as? Devia
antes queimal-as, mas... eram cartas de Magdalena. E depois, que mal
poderia vir da indiscreo? No tinha elle um corao que no devia
abrir-se mais a ninguem? Encerrar alli qualquer segredo era encerral-o
quasi em um tumulo.

E que segredos podiam ser os de Magdalena e Vicente?

De que se poderia tratar alli, a no ser de algum affectuoso cumprimento
da morgadinha ao velho, que sempre tratra com intima familiaridade, ou
algumas meigas reprehenses por a sua porfiada ausencia do Mosteiro?

Augusto recordava-se at do velho lhe ter falado na indole d'estas
cartas.

Nas vesperas de renunciar para sempre  felicidade, devia-se perdoar a
tentao.

Abriu-as.

No ia muito adeantado na leitura, quando j todos os signaes de
hesitao cediam o logar aos da mais irreprimivel avidez. E terminada a
primeira, abriu, leu ou devorou outra, e aps outra e outra, at a
ultima; da ultima voltava de novo  primeira, e cada vez mais profunda
commoo parecia dominal-o.

Transcreveremos algumas d'aquellas cartas, para o leitor julgar de
todas.

Dizia uma:


     Meu bom amigo.--Hontem, depois que nos separmos, recebi de Lisboa
     a encommenda que esperava. O Angelo no se esqueceu. Mando-lh'a,
     para que mais uma vez faa de feiticeiro, _adivinhando_ os gostos
     do seu amigo.

     Afiano-lhe que vae acertar com os desejos d'elle. Ha tempos que o
     vejo, emquanto espera na sala por os pequenos, procurar de
     preferencia na estante os livros de historia franceza. Custa-me a
     perdoar-lhe os attractivos que tem para elle a Revoluo, mas emfim
     seja feita a sua vontade. Escuso de lhe recommendar discreo. E,
     quando nos virmos, peo-lhe que me no torne a falar nos laos em
     que diz que eu estou a prender o corao. Mette-me mdo.--Sua
     amiga, _Lena_.


Esta era uma das mais remotas em data. Outras diziam:


     Meu amigo.--Hontem separmo-nos de to mau humor, que hoje acordei
     com remorsos, e no pude socegar emquanto lhe no escrevi para lhe
     pedir perdo. Espero que perdoar a este rebelde genio que tenho.

     Mas tambem para que me est sempre a ralhar? No se assuste pelo
     meu corao; o maior perigo que o tio Vicente receia para elle,
     faz-me sorrir.-- o de me apaixonar?--Ento que tinha? No sonhe
     com nuvens, e v representando o seu papel de _adivinho_, que  uma
     generosa aco que pratica.--Sua arrependida inimiga, _Lena_.


     Meu bom tio.--Ahi vo uns livros, de que eu no entendo nada.
     Augusto falou d'elles ao filho do administrador, que veio de
     Coimbra. Conheci n'elle desejos de possuil-os. Tomei nota. O Angelo
     remetteu-m'os hontem. Para Augusto no desconfiar, finja atraioar
     um pouco o mysterio, e fale no filho do administrador. Do mais, j
     nada digo.


A de mais recente data dizia apenas:


     Tio Vicente.--Pensei no que me disse do estado do corao do
     seu... do nosso amigo. Parece-me que exaggera. Mas, se fsse
     verdade, podia tranquillisar-se. Eu lhe afiano que d'ahi nunca
     para elle vir a infelicidade. No entretanto, discreo por
     ora.--Sua affeioada sobrinha, _Magdalena_.


Por a amostra, que lhe damos, o leitor no deve estranhar que estas
cartas estivessem causando a Augusto o effeito que dissemos.

Cada uma era uma revelao.

Augusto vivera sem o saber, sob a influencia benefica da morgadinha;
d'ella lhe viera pois grande parte da instruco que recebera, alli, na
solido d'aquella aldeia!

O mysterio dos presentes do herbanario, a que to diversas explicaes
dera, esclarecia-se emfim. Havia-os attribuido a Angelo; suspeitra,
pelo menos, que era a elle que o herbanario se dirigia para escolher os
livros.

Nunca, porm, se lembrra de Magdalena; agora, que sabia de que origem
provinham, beijava-os, como sagradas reliquias, venerava-os com
expanses de verdadeira idolatria. J no tinha corao para se separar
d'elles.

Nas cartas em que Magdalena se referia, mais ou menos jovialmente, aos
cuidados que parecia dar ao herbanario esta sympathia manifesta d'ella
por Augusto, no havia para elle menor encanto. Pelo que tantas vezes
lhe dissera o herbanario, conjecturava de que natureza deviam ser as
reflexes a que Magdalena alludia.

O velho Vicente estava, por assim dizer, no meio d'aquelles dois
coraes, estudando-os a ambos, receiando por ambos, lidando por
extinguir n'um e n'outro a sympathia que via crescer e que ameaava
degenerar em paixo. Toda a sua interveno consistia em fazer com que
elles se no revelassem; era o meio isolador que impedia que se ateasse
o incendio. Nas suas mos paravam os dois fios da corrente, s elle a
interrompia.

Esta situao do herbanario era para elle causa de grandes iuctas.

Amando Augusto com sentimento paterno, tinha ambies por o amigo; e, s
vezes, movido d'ellas, sentia-se tentado a favorecer aquella paixo. Por
outro lado, no estimava menos Magdalena, e prevendo as resistencias e
repugnancias com que ella teria a luctar, e os tormentos a soffrer,
hesitava e desejava poder abafar no corao dos dois os germens de
pesares futuros.

Tivemos occasio de o vr sob estas diversos impresses. Umas vezes
reprehendendo Augusto, outras quasi deixando-lhe entrever esperanas. A
chegada de Henrique de Souzellas e os successos subsequentes despertaram
no velho uma especie de ciume, e fizeram-n'o mais ardente partidario de
Augusto.

Tudo isto estava agora transparecendo ao espirito de Augusto.

Beijou as cartas da morgadinha, releu-as, apertou-as ao corao, e to
enlevado estava pelo perfume do affecto que rescendia de todas, que nem
se lembrava j da hora proxima da partida do motivo que a originra.
Motivo que era o desmentido da sua illuso.

Mas esta ideia amarga acudiu a final, e a impresso que produziu foi
dolorosa. Pela primeira vez, n'aquella noite lhe vieram as lagrimas aos
olhos, a fronte pendeu-lhe, quasi desfallecida, sobre os braos, e assim
permaneceu por muito tempo.

Depois levantou a cabea n'um impeto de desesperao, exclamando:

--Para que me haviam de vir  mo estas cartas? Que espirito diabolico
se compraz de martyrisar-me assim? Saber que um anjo me acompanhava com
a sua vista protectora s quando elle me vae deixar para sempre! E dizia
ella que me no podia vir o infortunio d'aqui!... No contava com as
mudanas do proprio corao.

Na vidraa da sala terrea, em que se achava Augusto, soaram algumas
leves e rapidas pancadas que o fizeram estremecer.

--O Cancella j?...  pois certo que vou partir?

Levantou-se para abrir, e os passos vacillavam-lhe como os do condemnado
ao caminhar para o supplicio.

Chegra o momento de romper com todas as esperanas.

--Estou prompto--disse elle, abrindo a porta e voltando para dentro, sem
reparar em quem entrava; e poz-se a reunir e a ordenar os papeis que
tinha dispersos na mesa.

--Cuidei que era mais cdo--continuou elle.--Distrahi-me a ler umas
cartas que estive a pr em ordem, e o tempo correu. Vamos l, meu pobre
amigo, deixemos esta terra para os venturosos.

E, dizendo isto, desviou o olhar para o sitio onde julgava que devia
estar o Herodes; mas, em vez d'elle, achou deante de si Angelo e
Magdalena, que, parados no meio da sala, o fitavam com melancolico
sorriso.

Augusto estremeceu, soltando um grito de surpresa, e com o olhar fito em
Magdalena, ficou por bastante tempo n'essa muda contemplao.

Magdalena foi a primeira que falou.

--Admira-se de nos vr aqui?--disse ella.--Que ha de mais natural?
Angelo recebeu a sua carta e mostrou-m'a. Tivemos ambos o mesmo
pensamento; viemos para dizer-lhe... pelo menos o adeus que lhe
deviamos... visto que vae partir.

E havia n'estas palavras de Magdalena um mal pronunciado tom de
recriminao, que feriu Augusto.

--E  certo que quer partir?--perguntou Angelo.

--Sim... parto...--respondeu Augusto, perturbado.

--Mas por qu? Que significa essa resoluo? Lena contou-me ha pouco
tudo. Eu nada sabia. Disse-me que o offenderam com uma suspeita infame,
e em nossa casa! Mas, j resolvemos; manh, eu e Lena, havemos de
falar, havemos de conseguir...

--No, Angelo.  inutil. Deixe-me com o meu destino.  a elle que eu
obedeo.

--No fala verdade,--acudiu a morgadinha--diga que obedece  sua
phantasia, e commette uma ingratido.

 palavra ingratido, Augusto no pde reprimir um sorriso de
amargura.

--Uma ingratido, sim--repetiu Magdalena, respondendo com firmeza e
serenidade quelle sorriso.--Ha dias, depois de uma scena dolorosa para
todos ns, quando saa do Mosteiro subjugado por uma mysteriosa e cruel
fatalidade, encontrou alguem no limiar da porta, que lhe pediu que no
partisse sem se despedir... de quem atravs de tudo, o acreditaria
innocente. E para esta pessoa no houve uma s palavra na carta de
despedida que mandou a meu irmo! E escreveu-a sobre o tumulo de minha
me!

Estas palavras fram ditas com to sentida commoo, que Augusto esteve
quasi a lanar-se-lhe aos ps, para pedir perdo; reteve-se, porm, e
respondeu turbamente:

--Porm, minha senhora, por essa occasio eu jurei tambem  pessoa de
quem fala, e a quem serei sempre grato, que no procuraria tornar a
vl-a, nem falar-lhe antes de me poder mostrar aos olhos de todos digno
da sua generosa confiana.

--Foi isso que jurou, ou antes que no procuraria ser visto?--perguntou
Magdalena, sorrindo.--Veja qual d'esses juramentos ser mais em harmonia
com os seus actos.

A lembrana da excurso nocturna aos Cannaviaes, para espiar Magdalena,
tirou a Augusto o animo de responder.

Magdalena comprehendeu aquelle embarao, e no insistiu.

--Mas supponhamos que assim foi; visto isso, parte para buscar as provas
da sua justificao?

--No, minha senhora, parto, porque desisto d'ella. Basta-me estar
justificado para com a consciencia.

--No tem direito para o fazer. Uma alma, que  nobre, deve homenagem a
si propria. Resignar-se  suspeita,  como um suicidio moral.

--Justamente, minha senhora; e no concebe que haja casos em que o
suicidio seja natural?

--Meu Deus, Augusto--exclamou Angelo--como eu o estranho! o que o levou
a esse desespero?

A morgadinha sorria, ao responder ao irmo:

-- uma febre que passa, vers. Quer que lhe fale com franqueza, sr.
Augusto? Tenho um secreto presentimento a dizer-me que, apesar d'essa
descrena, apesar d'essa carta, e apesar de estar por minutos o momento
da partida, no s no partir, mas at ha de tomar parte na nossa
primeira festa de familia, a do proximo casamento de Christina.

Estas ultimas palavras fizeram impresso em Augusto, que
instinctivamente repetiu:

--Do proximo casamento de Christina?!

--Pois no sabia que Christina vae casar?-perguntou Magdalena com a
maior naturalidade, mas fitando os olhos em Augusto.-- verdade, o sr.
Henrique de Souzellas teve pressa de legitimar o titulo de primos, com
que arbitrariamente nos tratavamos.

Augusto olhou para Magdalena, com indefinivel expresso, dizendo:

--Qu?... pois  com Christina... pois Henrique vae casar com...

S depois de lhe romperem dos labios estas palavras,  que, reconhecendo
a indiscreo da sua surpresa, accrescentou com mal simulada
indifferena:

--Ah! no sabia!

--Devras? Pois no tinha ouvido falar d'este casamento? Oh... querem
vr que suppunha tambem que era eu a que me casava?... Digo isto, porque
o Cancella tambem estava na mesma crena. Parece que correu essa voz na
aldeia. Estes boatos!... E acham logo quem se fie n'elles!

E, mudando de inflexo, proseguiu:

--So dois noivos exemplares, Henrique e Christina, perdidos um por o
outro. Christina, com a sua timidez, exerce um forte imperio sobre
aquelle incorrigivel da capital. Mas para isso foi preciso encontral-o
doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira a legitimar, de alguma
maneira, aquella sympathia. Fram singulares as circumstancias em que
isto se effectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e noite de chuva, na
capella-mr da minha propriedade dos Cannaviaes, onde Christina fra
rezar, pela saude de Henrique, as estaes da meia noite; onde Henrique
foi para seguir e observar Christina, e onde eu fui, com a Brizida, para
os vigiar a ambos e preparar-lhes o futuro; interveno algum tanto
perigosa, porque podia haver quem me seguisse a mim com menos generosas
intenes de que as de qualquer dos tres, e que, ao vr-me em to
extraordinario sitio, a taes horas, no me concedesse a confiana
precisa para acreditar, atravs de tudo, na minha innocencia.

A alluso era clara, e mais clara a fazia a inflexo com que foi
pronunciada.

Augusto curvou a cabea e murmurou:

--Tem razo, algum miseravel.

--Ou algum infeliz--corrigiu delicadamente Magdalena.--Os infelizes so
tambem sujeitos a perderem a f. Mas quem lhes pode levar a mal isso?

Houve alguns instantes de silencio, no fim dos quaes a morgadinha disse
mais jovialmente:

--Mas afiancei ha pouco que no partiria. Acaso me enganei?

Augusto, como o leitor concebe decerto, j no tinha animo nem razo
para dizer que partia. Calou-se.

Angelo, a cuja prompta intelligencia no tinha ficado latente o
verdadeiro sentido d'este dialogo, graas tambem ao conhecimento que
elle tinha, havia muito, do corao de sua irm e do de Augusto,
respondeu por elle:

--No te enganaste, no, Lena. Tambem eu j digo que Augusto no
partir.

E Augusto sem protestar!

Magdalena tornou-se de subito mais sria e grave do que at alli, e a
mesma gravidade tinha na voz, quando de novo se dirigiu ao irmo,
dizendo:

--Para vir aqui, pedi o auxilio do teu brao de creanca, Angelo, como se
fra o de um homem. Deixa-me considerar-te por mais algum tempo ainda da
mesma maneira, emquanto no termino a minha misso. Ha pouco, depois que
me leste a carta, que a ti tinha sido dirigida, perguntaste-me: Que
tencionas fazer? No  assim?

--Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te
acompanhasse aqui.

--Has de j ter percebido que o pensamento que me obrigou a este passo,
que no sei se me devero censurar, creio at que devem, que esse
pensamento no est cumprido ainda.

--Vejo que no.

--Pois  deante de ti, Angelo, que considero como um homem, como um bom
conselheiro,  deante de ti, como seria deante de quem quer que ahi
estivesse em teu logar a ouvir-me, que eu vou concluir o meu pensamento.

E voltando-se para Augusto, Magdalena accrescentou com firmeza, que s
um demasiado rubor trahiria, se a luz fsse bastante para o denunciar:

--Augusto, est pobre, sem familia, sem amigos, e, para ultima provao,
at as traies e as suspeitas lhe no pouparam o nome honrado que
herdou. Essa posio d-lhe direitos que eu sei comprehender, creia. 
uma especie de nobreza, de que se no pode exigir humilhao alguma. Por
isso, sem hesitar, com toda a lealdade, vim aqui em companhia de Angelo
para estender-lhe a mo e dizer-lhe que se, como tenho razo para crer,
as sympathias de uma alma que ha muito o comprehende, Augusto, se essas
sympathias podem bastar s aspiraes da sua, se, para ganhar coragem,
os meus affectos lhe podem servir, conte com o auxilio da minha alma...
e dos meus affectos.  deante de ti, que fao esta confisso, Angelo.
Ters que me ralhar por causa d'ella?

Ao ouvir aquellas palavras, Augusto esqueceu toda a hesitao, e tomando
entre as suas a mo que Magdalena lhe estendia, cobriu-a de beijos
apaixonados.

Magdalena no teve pressa de retiral-a.

Angelo veio tambem beijar as faces da irm. Era assim que respondia 
pergunta d'ella.

Pobres creanas! Porque a final eram creanas todos tres, creanas a
quem ainda os romances namoram, sem que se lembrem de que, ao
transplantal-os para a vida real, todos os desconhecem e censuram, e s
regando-os de lagrimas  que as mais das vezes se consegue nutril-os.

O olhar de Augusto radiava j com o vivo fulgor da alegria.

--Obrigado, Magdalena, deu-me a vida com essas palavras generosas.
Deixe-me adoral-a, anjo, anjo libertador! Comprehendo os deveres que
tenho a cumprir. Hei de ter fra para conquistar as provas da minha
innocencia. Preciso agora d'ellas; hei de obtel-as, e depois...

Aqui reteve-se de subito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe de novo o
rosto.

Magdalena, como se o comprehendesse, concluiu:

--E depois sou eu quem tem o direito de exigir que no pare. Bem v que,
depois do passo que dei, se algum escrupulo ou orgulho pesasse no seu
corao, Augusto, seria uma dolorosa offensa que me fazia. Acceitou a
mo, que eu com lealdade lhe offereci; a lealdade obriga-o agora a
seguir o caminho do Mosteiro.

Depois de alguns instantes de reflexo, Augusto respondeu outra vez com
firmeza:

--Tem razo, Magdalena. Terei coragem para cumprir o meu dever.

Escusado  dizer que o Herodes teve de partir s.

O bom homem ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto to
inesperada companhia, mas no lhe foi difficil, depois do que viu e
ouviu, conjecturar qual a natureza dos motivos que tinham feito mudar de
resoluo o seu companheiro de jornada.

Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos.

Estes no conseguiram dissuadil-o de partir.

No havia j estimulo para arrancar aquelle corao ao desalento.

Magdalena e Angelo voltaram ao Mosteiro.

O resto da noite de Augusto passou sob a influencia de to violentas
paixes, que desisto de descrevel-as.




XXXIII


Na manh do dia seguinte estava toda a familia de Magdalena, na qual
incluimos j D. Dorotha e Henrique, reunida em uma das salas do
Mosteiro.

As duas primas, Magdalena e Christina, trabalhavam em costura; Angelo e
Henrique jogavam o xadrez; D. Dorotha e D. Victoria conversavam a
respeito do preo de umas meadas de linho, que esta tinha dado a crar,
e da pessima qualidade do fiado, effeito evidente, segundo D. Victoria,
das criadas que tinha, que nem para fiar serviam. O conselheiro
examinava distrahido varios memoriaes e cartas de empenho, que recebera,
j a pedir empregos e graas em paga dos servios eleitoraes, s vezes
hypotheticos.

A cada passo, porm, Magdalena suspendia o trabalho, para olhar para a
porta da sala, principalmente quando nos immediatos aposentos se
escutava algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que no com menor
frequencia os desviava das pedras do taboleiro para encontrar os da
irm.

Henrique tambem, de quando em quando, tinha que perguntar a Christina, e
esta, para lhe responder, julgava-se obrigada tambem a afastar os olhos
da costura.

D. Victoria e D. Dorotha no era raro metterem-se na conversa dos
outros, d'onde facil transio achavam logo para voltarem aos seus
assumptos favoritos: meadas e criados.

O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou fazia
notar alguma mais exorbitante pretenso de tantas que examinava.

Era evidente que todas aquellas cabeas estavam pouco preoccupadas com
os assumptos apparentes das suas cogitaes.

-- Lena!--dizia Christina, que pela terceira vez chamava a prima, sem
conseguir ser ouvida--que tens tu esta manh? Que distraces so essas,
que no respondes quando te chamam?

--Pois falaste-me?

-- o que eu digo!  menina, ha que seculos te estou eu a perguntar em
que tempo  que as laranjeiras teem flor?

--Ah! Christe!--acudiu o conselheiro do lado, sorrindo.--Esse pensamento
 linguareiro; ficamos todos sabendo aquillo em que tens estado a
scismar.

Christina crou intensamente, ao perceber o sentido das palavras do
conselheiro, e tentou defender-se, dizendo:

--Ora, no era isso, tio. Eu perguntava, porque...

--Socega, quando o vo estiver prompto, a laranjeira no nos faltar com
ramos e flores.

--No, mano--disse D. Victoria--olhe que se no trata de vr o que  que
est dando nas laranjeiras, dentro em pouco no ha uma s na quinta. Que
tambem para serem comidas as laranjas pelos criados... Porque quasi que
so s para elles. No que no faz ideia!...

E continuou com D. Dorotha a narrao dos abusos de que os criados eram
culpados.

D'ahi a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar.

--Esta  galante!--disse elle, examinando uns papeis e rindo.--Ora oua
isto, Henrique. Aqui est um homem que deseja que eu lhe empregue nada
menos do que sete sobrinhos que tem. Sete!  uma gerao como a de
Jacob; se estivessemos na crte de Phara!...

--Se se satisfizessem cada um com uma pasta?... Era um ministerio
completo--disse Henrique.

--Oh! oh!--disse o conselheiro, passados alguns momentos.--C est o meu
amigo Pertunhas, teimando com o logar de recebedor.

--Pois o maroto ainda se atreve?

--E que despeza de estylo que faz!  uma ode congratulatoria em prosa.

N'estas entremeadas conversas e dialogos curtos e interrompidos
passou-se o tempo at a chegada do correio, successo que marca poca
n'uma manh passada na aldeia.

N'aquelle dia sobretudo eram esperadas com ancia as cartas e os
periodicos, que deviam trazer noticias do resultado das eleies dos
differentes circulos do paiz.

O conselheiro j por tres vezes consultra o relogio, extranhando que o
correio se demorasse.

Emfim, chegou. O conselheiro poz de lado os memoriaes e requerimentos;
Henrique deu subito desfecho ao jgo com um lano absurdo, e ambos se
precipitaram sobre os periodicos e cartas; Angelo veio encostar-se ao
espaldar da cadeira de Henrique.

O conselheiro principiou por ler uma carta.

Henrique rompeu a cinta do primeiro periodico.

--Oh! oh!--disse o conselheiro, logo s primeiras linhas que leu.--Temos
crise ministerial. As eleies fram pouco favoraveis ao governo;
perderam-se em quasi toda a parte!

--Assim tambem se deprehende do estylo em que vem escripto este artigo
de fundo--disse Henrique.

--Dizem-me n'esta carta que j se fala em que o ministerio vae pedir a
sua demisso.

--Este artigo allude apenas a uma reconstruco do gabinete.

-O governo--proseguiu o conselheiro, lendo,--nem espera pela
constituio da camara e ce por estes dias, infallivelmente. Quando
voss receber esta, j talvez elle pertena aos livros findos.

--Diz-se que ha para esta noite conselho de ministros para resolver
sobre qual o seu procedimento, visto a indole provavel na futura
camara--lia Henrique no periodico, que logo em seguida pz de lado,
para consultar outro.

--No imagina--continuava o conselheiro, lendo a carta--o movimento de
ambies que vae j por aqui. Ora se no imagino!

--Um numero do _Suffragio Nacional_!--exclamou Henrique, abrindo segundo
periodico.--Provavelmente  alguma amabilidade que lhe dirigem, sr.
conselheiro; elles que lh'o mandam!

--Sim, decerto. Como da outra vez. Veja l,--disse o conselheiro,
sorrindo--aos moribundos tudo se perda.

Henrique correu a vista pela folha, para saber o que motivra a remessa
d'ella para o Mosteiro, onde no costumava vir.

--Ah! temos correspondencia c da terra!--exclamou por fim.

--Deve ser isso. J tardava.  communicado do Seabra. Leia, que so
curiosos. O homem a apreciar as eleies de domingo deve ser soberbo.
Isso no se pode perder. Leia, leia.

--Assigna-se _um eleitor indignado_.

--Justo.  o estylo do homem. Vamos l a vr isso.

Henrique principiou a ler em voz alta o communicado do brazileiro.

A pea litteraria, de precioso lavor, em que o sr. Seabra contava ao
mundo os factos eleitoraes da sua terra, muito desejaria eu
transcrevel-a aqui, se, pela sua extenso, no tomasse demasiado espao,
e se, pela sua unidade e estreita ligao logica, se no subtrahisse 
menor tentativa de fragmentao.

Aquelle communicado era indivisivel.

Apesar d'esta forada omisso, espero que os leitores faro a justia de
suppr o escripto digno do distincto economista, que ouvimos discursar
com tanta proficiencia na taberna do Canada.

O homem escrevia recheado de indignao pela serie de illegalidades,
escandalos, subornos e presses de todo o genero, de que, dizia elle,
fra theatro aquella pacifica aldeia do Minho.

Em _linguagem ch e rude_ ia tornar patente, accrescentava, aos olhos de
todos uma _pestifera chaga do organismo social_. _Sophismra-se a urna e
calcra-se aos ps a Carta_. As phrases em italico so d'elle. Depois de
um exordio por esta afinao, em que fazia a conveniente razo de ordem,
entrava o homem na materia. Era um modlo de impertinente bisbilhotice o
escripto; desfiava-se alli a vida de todos os eleitores com uma
minuciosidade esmagadora.

Contava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquillo ao sobrinho
de Sicrano, e como tal individuo fizera e acontecera; e como tal disse
que havia de fazer, e no fez; e como aquelle nem disse nem fez; e como
aquell'outro dissera e fizera, e assim por deante. Um dos mais
maltratados era o sr. Joozinho das Perdizes. Dizia o auctor da
correspondencia que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera
presso sobre os eleitores da sua freguezia; que era homem de pessimos
costumes e moral depravada; jogador, bulhento, beberro cheio de
dividas, amigo de malfeitores, _et coetera_.

O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas.

O communicado passava depois a occupar-se com o mestre Pertunhas.

O brazileiro no lhe perdora a pressa com que este celebrra a victoria
do conselheiro,  frente da philarmonica que regia.

Por vingana chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a raiva lhe
suggeria, inclusiv o de estafador de trompa, e fechava por estas
memoraveis palavras:

Para levar  evidencia o caracter infame e intriguista d'este
sevandija, basta que diga que foi elle que, poucos dias antes, subtrahiu
de uma pasta aquella celebre carta politica, que tanto deu que falar no
paiz. E este homem exerce o cargo de administrador do correio. _Proh
pudor!_

Como o leitor imagina, esta parte da correspondencia produziu sensao
no auditorio.

Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quasi todas as bcas uma
exclamao de surpresa ou de alegria.

--Como ?... como ?...--perguntou o conselheiro.--Diz que...?

-- o mysterio que se explica--respondeu Henrique.--A traio
encarrega-se de a si propria se desmascarar.

--Ento foi o Pertunhas?!... Mas... diz-se que tirou a carta de uma
pasta!

--Era a de Augusto.

--Mas como estava ella ahi?

--L isso sei eu como foi,--disse D. Victoria--fui eu que, por engano,
lh'a tinha dado junta com outras para elle escolher alguma para a
leitura dos pequenos.

Christina celebrou a descoberta, beijando com effuso a morgadinha, e
dizia:

--Venceste, Lena! agora est bem provada a innocencia d'elle, at para
os que mais duvidavam!

--E quem no duvidaria?--acudiu o conselheiro, como para se desculpar da
desconfiana.

--Quem o conhecesse bem, meu pae--respondeu Magdalena, a quem a commoo
recebida dava animao ao olhar e ao semblante.--Eu e Angelo, por
exemplo.

--E ento eu?--accrescentou Christina.--Eu no entro na conta?

Esta reclamao valeu-lhe da parte da prima a paga do beijo que
recebera.

--Olhem o pobre rapaz!--dizia D. Victoria, sinceramente consternada.--E
eu que o tratei to mal! Bem me dizia elle: No tenha pressa de dizer
nada a seus filhos, minha senhora, no lhes ensine a duvidar de um homem
que elles se costumaram a amar e a respeitar. E o caso  que eu, desde
que lhe ouvi dizer aquillo, de um modo to srio e triste, fiquei
resentida, e no disse nada s creanas, que todos os dias me
perguntavam ainda por elle.

--Mas...--dizia D. Dorotha, deveras embaraada--eu no sei ainda bem do
que se trata. Pois suspeitavam de Augusto?... Mas o qu?...

-- tia Dorotha--atalhou Henrique--por quem , no insista na pergunta.
Depois que se sabe que uma suspeita  falsa, no ha nada que mais
escalde os labios do que obrigal-a de novo a passar por elles.

--Tens razo, menino. E que preciso tenho eu de saber uma coisa que no
 verdadeira? Mas na verdade! Suspeitaram de Augusto! Ah! Henrique,
est-me a parecer que tambem tu tens esse peccado a pesar-te na
consciencia. Ora anda l.

--No, tia. Ha muito que lhe fao justia. Ao principio no digo que
no. Mas durou pouco tempo e j estava arrependido. Augusto convenceu-me
pela maneira com que me falou, convenceu-me sem provas: e at se, em
expiao, me no puz em campo a auxilial-o a justificar-se,  porque
elle exigiu que me abstivesse d'isso, e depois, o meu desastre... quero
dizer--emendou, olhando para Christina--a felicidade que me procurou sob
a frma de doena...

Christina pagou-lhe com um sorriso o galanteio.

O conselheiro, que ficra pensativo depois das primeiras reflexes que
lhe ouvimos fazer, disse, suspirando:

--Estou sentindo verdadeiros remorsos pelo mal que por certo causei
quelle rapaz com as minhas suspeitas. Mas que havia eu de fazer? As
apparencias eram-lhe contrarias!... E depois, n'esta vida de politica,
apprende-se tanto e to depressa a duvidar!  sorte minha! Homens, a
quem eu estimava devras, fram exactamente os que mais fiz padecer!
Seno, vejam: o herbanario, meu companheiro de infancia, e que sempre me
teve amizade, apesar das apparencias rudes de que a revestia,
dispuzeram-se as coisas de modo que o privei da casa em que nasceu e
talvez lhe apressasse com isso a morte... E elle, coitado, vingou-se
nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais me sair da ideia aquella
scena da igreja. Augusto, um rapaz que conheci pequeno, e j ento de
viva intelligencia e de sentimentos nobres... pois tudo se conspirou
para o perder, e no s o privei do modesto logar que elle exercia, mas
at levantei contra elle uma accusao infamante, e quasi o expulsei de
minha casa...  triste que a vida politica me tenha obrigado a estas
crueldades! Preciso de compensar de alguma sorte o mal que fiz. De que
maneira lhes parece melhor?

--Eu se fsse--disse D. Dorotha--fazia como a morgada, e o rapaz, em
vez de vir a ser s padre havia de se formar em Coimbra, como o reitor
de Friande...

--Isso era se elle quizesse ser padre;--acudiu D. Victoria--mas
parece-me que no quer. Nada, nada, eu o que fazia era demittir aquelle
velhaco do Pertunhas, e dava a este o logar de mestre de latim, e
arranjava que ficasse tambem com o correio. Ora anda, j que o outro foi
tratante!...

O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e no pde deixar de
dizer:

--N'esse caso deixava s ao Pertunhas a regencia da philarmonica? E tu,
Lena, qual  a tua opinio?

Magdalena respondeu sem vacillar:

--A minha opinio  que o pae deve ir a casa de Augusto, pedir-lhe
humildemente perdo pela offensa que lhe fez.

--Mas involuntaria--ponderou o conselheiro, em tom de despeito, que no
pde bem disfarar.

--Mas offensa--repetiu Magdalena, sem que o sorriso dissipasse
totalmente a fra da expresso.

-- um pouco dura de cumprir a sentena, sobretudo esse adverbio
humildemente... No lhe parece?--perguntou o conselheiro, voltando-se
para Henrique.

--Eu tinha vontade de dizer tambem a minha opinio--respondeu
Henrique;--mas receio certos melindres... Comtudo, parece-me que
encontraria uma recompensa, que poderia fazer esquecer a Augusto a
offensa e dores muito mais pungentes do que as que soffreu em virtude
d'esta desagradavel occorrencia.

--Qual ?--perguntou o conselheiro.

Henrique olhou para Magdalena, respondendo:

--Repito que tenho escrupulos em dizl-o, porque talvez no seja eu o
mais competente para o fazer.

--Tem razo, primo--disse Magdalena.--Elle proprio o dir.  mais
natural.

--Mas sbel-o tambem tu, Lena?

--Sei.

--Ento dize-nol-o. Melhor para mim, se puder prevenir desejos.

Magdalena hesitou.

--Vamos, Henrique--disse Cristina, sorrindo--no esteja com tantos
escrupulos. Diga o que pensa.

--Pois quer? mas se sua prima me no perda?

--Eu o protegerei. Fale.

--Ento, Christe?--tornou Magdalena.

--Bem; n'esse caso... Visto que m'o ordena quem pode.

--Fale, fale--disseram a um tempo o conselheiro, D. Victoria e D.
Dorotha.

--Falarei. A recompensa a que Augusto aspira  a de fazer parte da
familia de... da nossa familia--respondeu Henrique, olhando para
Magdalena, que j no tentava retl-o.

--De fazer parte da nossa familia?--repetiu o conselheiro.--Mas como?

--Como ha de ser? visto eu no estar resolvido a prescindir de
Christina, e Marianna ser ainda creana, facil  de conjecturar o unico
meio que ainda resta de realisar aquella pretenso.

O conselheiro comprehendeu a final, e fitando Magdalena poz-se a rir,
dizendo:

--Pobre rapaz! Pois metteu-se-lhe isso na cabea?

--Mas que  a final? eu no entendo--dizia, embaraada, D. Victoria.

-- uma coisa muito simples--respondeu Henrique.--Augusto sentiu o
effeito dos encantos da minha prima Magdalena, mas sentiu-os a ponto de
ligar a elles a sua felicidade, e de cair em adorao para com a
magnetisadora.

Esta explicao foi recebida com espanto por D. Victoria.

--Ora! est a brincar, primo Henrique? No ouve aquillo, prima Dorotha?

--Mas que , que ?--perguntou esta.

-Diz que o Augusto aspirava...

--Perdo, eu disse que o Augusto adorava e no aspirava. Quem pode tomar
contas a um corao do culto que elle guarda religiosamente em si? A
prima Lena  adorada por aquelle rapaz, isso affirmo eu, porm...

-- possivel!--exclamou tambem D. Dorotha, espantada.--Por essa no
esperava eu. Olhem para o que lhe havia de dar! Pobre Augusto!

O conselheiro ria ainda da noticia que recebera.

Magdalena crou ao ouvir todas aquellas exclamaes de estranheza.
Cedendo ao impulso energico do seu caracter impetuoso e apaixonado,
disse com vivacidade:

--No sei que haja no que diz o primo Henrique nada que merea esses
espantos. Pois quem sou eu a final? Que distancia me separa da
humanidade, para que se tenha por um desacato uma affeio que inspire?
 verdade. Julgo que no se enganou o primo Henrique. Tambem eu descobri
esse affecto em Augusto. Nasceu-lhe no corao e no na cabea, meu pae.
Ha muito que o sei, e nunca a descoberta me causou o espanto que vejo
nos outros. Digo mais, causou-me orgulho. Orgulho, sim, porque  natural
sentil-o por ter inspirado sentimentos d'aquella ordem a um caracter
generoso que, experimentado pelo infortunio, saiu sempre da prova mais
nobre e mais puro do que d'antes.

O conselheiro, que ouvira a filha com impaciencia, acudiu, em tom
profundamente irritado:

--Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias, Lena. V l se me
queres fazer acreditar que a vida da aldeia te estragou o natural bom
senso, at o ponto de tomares a srio phantasias e creancices.

--No  phantasia nem creancice,  uma resoluo de mulher--respondeu
Magdalena, com firmeza.

--Uma resoluo de creana, que est na minha mo remediar--tornou o
conselheiro, como quem desejava cortar o incidente.

Porm para o gnio de Magdalena j no era possivel recuar nem parar;
replicou:

--Talvez no. E deixe-me ento dizer-lhe tudo, meu pae. Augusto nunca me
revelou esse segredo do seu corao. Adivinhei-lh'o eu. Longe de
procurar ser entendido, occultava-se e fugia; ainda hontem estava
resolvido a deixar a aldeia para sempre.

--Mas ficou--notou o conselheiro com ironia.

--Ficou--respondeu tranquillamente Magdalena--porque eu lhe pedi que
ficasse.

O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a
filha com olhar severo e interrogador.

A morgadinha proseguiu com uma serenidade, que occultava um esfro
interior:

--Ficou, porque eu lhe disse que o havia comprehendido e que acceitava a
affeio desinteressada e pura que elle guardava no corao; ficou,
porque eu, que s tarde soube do desespero que o obrigava a partir, e
que o sabia to leal como pobre, to innocente como perseguido pelo
infortunio, eu, que o vi quasi expulsar d'esta casa, sob o pso de uma
accusao em cuja verdade nunca pude acreditar, julguei do meu dever ir
eu propria procural-o para lhe estender a mo e dizer-lhe: fique, e
prometto-lhe que todos lhe faro justia em breve.

Quando Magdalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e exaltao
crescentes, ninguem ousou falar na sala; e os olhos de todos
dirigiram-se quasi instinctivamente para o conselheiro.

Christina tremia; as outras senhoras pasmavam: Henrique e Angelo
sentiram-se profundamente inquietos.

Todos viram passar por differentes cres as faces do conselheiro, os
labios agitaram-se n'um tremor convulso, e com a voz evidentemente
alterada pela clera, disse para a filha, passados alguns instantes:

--Pois, saiba, senhora, que para as leviandades de uma rapariga
estouvada, ha meios mais racionaes do que esses que parecem
naturalissimos  sua razo estragada pelos romances. Eu ainda no
prescindi da minha auctoridade paterna, e ella me servir para corrigir
essas levezas, de que deveria envergonhar-se.

Esta scena de familia augmentava cada vez mais a difficuldade da posio
de todos os que estavam presentes. Ninguem ousava intervir, ou,
desejando-o, ninguem sabia a maneira de o fazer.

Entre as falsas situaes, em que nos achamos s vezes n'esta vida,
poucas se podem comparar no incmmodo que produzem,  de assistir a uma
questo domestica, por qualquer motivo que seja originada.

Quem se conservou d'aquella vez menos inactiva foi Christina, que
prendeu Lena nos braos, no sei se para instinctivamente a defender, se
para reprimir-lhe o impeto de reaco que receiava n'ella.

A morgadinha effectivamente repelliu-a com brandura de si e respondeu ao
pae:

--s vezes aos caracteres levianos esto confiadas tarefas generosas.
Cabe-lhes sanar muitas injustias que por clculo os mais reflectidos, e
por isso mais desconfiados, praticam sem piedade. No me envergonho nem
arrependo do passo que dei. No fiz mais do que salvar do desespro uma
alma nobre e magnanima, que, se se perdesse, talvez um dia a sua
consciencia, senhor, o accusasse de no ser innocente n'essa perda. Quiz
evitar-lhe remorsos, meu pae. Se isto foi leviandade, que os annos m'a
no dissipem, como dizem que costumam fazer, porque prefiro ser leviana
assim, a ser cruel como...

O pae atalhou-a, e cada vez com mais vehemencia replicou:

--Pois siga, se quizer, a sua phantasia, senhora, mas ter de escolher
entre os seus caprichos e a minha approvao. Fique certa que, com o
consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem familia e sem posio,
especular com o estouvamento de uma herdeira rica, que, to esquecida
do que deve a si e aos seus, no hesitou em o procurar na propria casa,
sem reparar que estava sendo victima de uma comedia armada  sua credula
sensibilidade.

Antes do conselheiro concluir estas palavras estava alguem mais na sala.

Era Augusto.

Da sala proxima, onde chegra muito antes, ouvira elle o que o
conselheiro dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu
venceu-lhe toda a hesitao e obrigou-o a entrar.

O conselheiro, reparando de subito n'elle, interrompeu-se e parou.

Augusto, respondeu-lhe ento com dignidade e tristeza:

--Esse rapaz pobre, sem posio e sem familia, tem n'esse triplice
infortunio outros tantos titulos para ser respeitado dos felizes, como
v. ex.^a, e eu no prescindo d'esses direitos.

O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse
responder a Augusto. A irritao dictava-lhe uma violenta resposta, mas
j lh'o no permittia a consciencia.

Augusto continuou:

--Sei que v. ex.^a est j convencido de que as suspeitas, que pesavam
sobre mim, eram injustas. N'esse periodico, que ainda tem na mo, veem
as provas da minha innocencia. Vi-o em casa do Seabra, d'onde venho
agora. Procurei-o, decidido a saber toda a verdade por qualquer preo
que fsse; elle no m'a negou; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui,
sr. conselheiro, ao voltar a esta casa, onde era recebido como amigo,
antes que me expulsassem d'ella como infame, esperava encontrar a
receber-me a justia e a amizade... Enganei-me; em vez d'ellas, foi o
insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro, que eu
encontrei!

--Menos justificado?--repetiu o conselheiro, azedadamente.

--Menos justificado, sim, muito menos; porque v. ex.^a podia julgar-me
criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim, mas no tem o
de duvidar de sua filha; porque a sr.^a D. Magdalena pedindo a seu irmo
que a acompanhasse a casa de um pobre, que ella sabia ser victima de uma
immerecida accusao, e a quem o desalento e o desespro faziam
succumbir, no se esqueceu do que devia a si e aos seus; pelo contrario,
aos seus devia aquelle acto de sublime generosidade, porque das mos dos
seus viera o golpe que me ferira. Eu tinha sido expulso d'esta casa, sr.
conselheiro, como um miseravel e infame; os filhos de v. ex.^a, que
sempre fram meus amigos, a quem v. ex.^a ensinra a sel-o, vieram 
minha dizer-me: No parta, deve  nossa confiana a justia de ficar.

-- verdade--disse Angelo--eu acompanhei Magdalena. O pae diz-me muitas
vezes que no tenha pressa de principiar a duvidar; eu no podia
principiar por Augusto. No duvidei.

O conselheiro respondeu a Augusto com reserva e mal disfarado despeito,
ainda que em tom moderado:

--Sei que fui injusto comsigo, Augusto, e sinto-o do corao, creia.
Ainda que as apparencias o culpassem, arrependo-me de no ter tido mais
fra a minha confiana para no ceder. Peo-lhe por isso...
humildemente... perdo. Iria a sua casa pedir-lh'o se no viesse aqui.
Que mais quer? Acha-se com direitos a exigir mais? Ser isso motivo para
antevr realisadas loucuras de rapaz?...

Augusto no o deixou continuar.

--Oua-me, sr. conselheiro--disse elle placidamente--deante de todas as
pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar, patentearei o meu
corao.  verdade que essas loucuras se apoderaram de mim, que desde
creana at hoje, tenho sido todo d'ellas; mas que importam aos outros,
se eu commigo as guardava? se nunca por ellas regulei os actos da minha
vida? Occorrencias imprevistas me arrancaram este segredo, que eu fiz
sempre por suffocar. Nem ambies me despertou, como meio de realisal-o,
porque nem eu realisal-o pensava. Resignar-me-hia a morrer com elle, sem
o revelar a ninguem; mas adivinhado por quem o fizera nascer, e,
deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado e correspondido, que muito
era que me tomasse a vertigem, e que eu por momentos me deixasse cegar
pelo fulgor de imprevistas esperanas? Perde-se-me a fraqueza. As
illuses duraram pouco; as palavras de v. ex.^a dissiparam-n'as... um
tanto cruelmente, mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro,
que o ser pobre, sem familia e sem nome, impe tambem uma certa ordem de
deveres, a que eu serei fiel. No  o de humilhar-me,  o de manter a
unica dignidade que me resta, a dignidade moral. J v v. ex.^a que se
enganou de duas maneiras: nem da parte do rapaz pobre houve especulao,
nem da parte da herdeira rica estouvamento.

E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se respeitosamente
deante do conselheiro, e ia a sair, depois de lanar a Magdalena um
extremo olhar de despedida.

A morgadinha, porm, ergueu-se, e, apesar dos esforos de Christina para
a reter, veio collocar-se no caminho de Augusto, e estendendo-lhe a mo
disse:

--No saia, Augusto. Em nome de meu pae lhe peo que no saia.

--Magdalena!--disse o conselheiro com severidade.

--Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de
remorsos; sim, em seu nome, porque hei de fazer-lhe ouvir a voz do
corao, que tantas vezes desattende, arrependendo-se amargamente
depois.

--Magdalena!--repetiu o conselheiro com mais fra.

--Minha senhora! disse Augusto.

Porm a morgadinha obedecia agora inteiramente  vehemencia do caracter
apaixonado.

--Sinceramente revelei ha pouco os sentimentos do meu corao; todos me
ouviram; todos ouviram agora Augusto. Fale, senhor, com a mesma
franqueza e lealdade, com que ns o fazemos; poder confessar a natureza
dos escrupulos que o obrigam a essa resistencia? No se envergonharia
d'elles? E quer que lhe obedea! mas obedecer-lhe seria offendel-o,
porque seria acreditar na constancia d'essa m paixo que o domina, e no
seu bom corao no pode ella durar muito tempo.

O conselheiro, no auge da irritao, ia talvez a responder
violentamente. Christina e Angelo tinham-se approximado de Magdalena; as
outras senhoras principiavam a ensaiar em surdina as primeiras
tentativas conciliadoras; Henrique meditava um plano de interveno, que
elle suppunha j indispensavel, quando um incidente veio interromper
esta scena e modificar a feio critica do caso.

O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao servio
de um proprietario da villa proxima. Este criado era portador de uma
mensagem para o conselheiro.

O velho Torquato tinha adormecido na sala immediata; o lacaio
dispensou-se de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar 
presena do conselheiro.

A chegada do lacaio acalmou a tempestade domestica, que principiava a
carregar-se.

O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim d'aquella visita.

O criado respondeu:

--Venho para entregar a v. ex.^a esta parte telegraphica, que chegou a
meu amo logo depois que tinham partido as malas do correio, de maneira
que no pde mandal-a com ellas.

O conselheiro, agitado ainda, pegou no papel, que o mensageiro lhe deu,
e correu-o com a vista.

Immediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos.

Acabando de ler, disse ao criado, que esperava resposta:

--Dize a teu amo que recebi, e que pode responder que sim.

O criado saiu.

N'este meio tempo as senhoras e Christina rodeavam Magdalena e
combinavam um projecto de harmonia domestica; Angelo e Henrique
desempenhavam-se junto de Augusto de quasi identica tarefa.

O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegraphica, emquanto que uma
visivel satisfao se lhe desenhra no semblante.

--Leia e admire--disse elle.

Henrique leu, e no reteve uma exclamao de surpresa.

A parte dizia:

Avise o conselheiro Manuel Bernardo para quanto antes se apresentar em
Lisboa. Estou encarregado de organisar ministerio e quero que elle
acceite uma das pastas.

Assignava-a um dos mais notaveis vultos politicos do paiz.

Henrique, que sabia o valor de certas opportunidades, e a quem a
surpresa da noticia no fez esquecer a crise domestica a que assistira,
disse, logo que acabou de ler, e dirigindo-se a Magdalena:

--Prima Magdalena, compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os
emboras pela sua nomeao.

A palavra ministro produziu sensao na sala. D. Victoria exclamou:

--Ministro! Pois quem  que est ministro? O mano?... Ora, sim senhor!
acertou sua magestade!...

--Mas... valha-nos Deus! O ponto est que no faam por ahi alguma
revoluo para o deitar abaixo--acudiu D. Dorotha, em cujo animo os
factos das nossas dissenes civis tinham deixado sinistras ideias
ligadas  palavra ministro.

Magdalena, Angelo e Christina correram a abraar o conselheiro; Henrique
reteve, porm, os dois ultimos dizendo:

--Primeiro Lena. Talvez tenha a pedir alguma merc a s. ex.^a, e 
primeira no ha caracter de ministro que no ceda.

O conselheiro sorriu j.

Magdalena beijou-lhe a mo, e o pranto, provocado pela violencia das
scenas anteriores, e at alli a custo reprimido, rebentou agora
abundante, banhando as mos do pae.

Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o no deixar sair da
sala.

O corao do conselheiro no era de pedra. Duas causas poderosissimas
conspiravam-se para abrandal-o. Como homem politico, havia a satisfao
da maxima ambio de todos, a noticia de ser chamado ao ministerio. Nos
momentos em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso
corao, abrimo-nos s sympathias para com os desejos dos outros; se de
ns depende realisal-os, cedemos de boa vontade. Como pae, havia as
lagrimas da filha a convencel-o, e a eloquencia d'este argumento das
lagrimas em olhos de mulher,  geralmente sabida: quanto mais se a
mulher  joven e bella! quanto mais se a mulher  filha!

Sem o menor vestigio da irritao anterior, o conselheiro ergueu
Magdalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente:

--Por que choras tu, Lena? Creana! Ento promettes-me ser muito feliz,
se eu te deixar fazer as tuas loucuras?

Magdalena respondeu-lhe, abraando-o affectuosamente, e beijando-o.

Ha argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa
contra as severidades de um pae?

O conselheiro beijou tambem paternalmente nas faces a filha, e
voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de voz quasi
affectuoso:

--Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade, confiando-lhe a
felicidade da minha Lena. Vingue-se da injustia e do mal que lhe fiz,
tornando-m'a venturosa.  a unica vingana  altura da sua alma.

Augusto no teve tempo para responder. Se uns restos de orgulho
tentassem luctar ainda com o amor, suffocal-os-hiam os esforos
combinados de Christina, de D. Victoria e de D. Dorotha, que o
arrastaram quasi para junto do conselheiro.

E toda aquella familia, em que no havia n'aquelle momento um s corao
triste, confundiu-se por algum tempo no mais desordenado, pueril e
pathetico grupo, que pode desenhar um artista.

Para mais tocante confuso ainda, as creanas, que voltavam dos seus
brinquedos na quinta, entraram ento na sala, e de boa vontade se
associaram quella manifestao de alegria, sem querer saber o que a
motivra,

So assim as creanas. Alegres por instincto, saudam as scenas alegres
sempre que as vem, sentem-as antes de as explicarem.

Fram innumeraveis os beijos, os abraos, as palavras de affecto, os
sorrisos, as lagrimas, as exclamaes pueris que se trocaram entre os
diversos actores d'esta scena de familia.

Chegado a este ponto da minha narrao, nada melhor posso fazer do que
deixar  imaginao dos leitores concluil-a.

Haver algum to malfadado, que na sua vida no tenha visto representada
uma scena assim?

Esse mesmo, se existe, obriga-me a no proseguir.

O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-hia o desconsolo da alma, de
que por certo  victima.

Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de
beijos, de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a
narrao, vl-o-hiamos abafado pelos sons revolucionados e anarchicos da
philarmonica da terra, que no tardar a festejar a nomeao do
conselheiro, e sobretudo pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba
verdadeiramente pica, e capaz de mudar a cr ao gesto, como a de que
fala o poeta.

Fechemos pois aqui a historia, dando apenas succinta conta dos
acontecimentos ulteriores.




CONCLUSO


O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na
pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para satisfao de
animo dos meus leitores, que, sob a direco dos talentos e aptides do
novo estadista, se locupletou a fazenda publica, prosperou a agricultura
e a industria, refulgiram as artes e as lettras; e que Portugal, como a
Grecia, sob Pericles, causou o assombro das naes do mundo.

Mas receiei que, phantasiando no nosso paiz um governo fecundo e
prospero, a inverosimilhana do facto prejudicasse no espirito dos
leitores a dos outros episodios narrados, e, lhes entrasse com isto a
desconfiana no chronista. Resolvi pois ser franco, declarando que sob a
direco do conselheiro e dos seus collegas, Portugal regeu-se, como se
tem regido sob as duzias de ministerios, que ns todos havemos j
conhecido.

O conselheiro, j ministro, voltou tempos depois  aldeia, para assistir
aos casamentos de Magdalena e de Christina, que se verificaram no mesmo
dia.

Christina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender com
D. Dorotha, que no podia resignar-se a viver s.

Sob a superintendencia do novo administrador, transformou-se
completamente a quinta, e  hoje uma das mais rendosas e bem geridas
propriedades d'aquelles sitios.

Henrique, o elegante do Chiado, o frequentador do Gremio e de S. Carlos,
est um rico e laborioso proprietario rural. Apaixonou-se pela
agricultura, e promette realisar o typo do antigo patriarcha.

Cumpriu-se a sua viso.

Das mil e uma molestias, com que saira de Lisboa, j nem memoria lhe
resta.

Christina, alm de ser adorada pelo marido, v-se rodeada pelo amor e
carinhos de D. Dorotha e de Maria de Jesus, as quaes, sem o menor
despeito, a viram tomar o sceptro da realeza domestica, que usa com
adoravel brandura, desenvolvendo de dia para dia os seus talentos de
mulher.

No Mosteiro no correm peor as coisas, sob os cuidados de Augusto e de
Magdalena, que ahi ficaram, por exigencias de D. Victoria. Augusto, alm
de se occupar de agricultura, alimenta a imaginao, j no a fazer
versos, mas em outra frma de poesia: a organisar a escola sob bases
mais racionaes, e dotao mais fecunda; a generalisar e educar os
processos agricolas; a implantar industrias novas.

 assim que a sericultura, graas aos seus cuidados,  hoje alli
cultivada com bons resultados, e outras j principiam a ensaiar-se.

Magdalena  sempre a mulher que foi; se  que as nobres qualidades j
reveladas nos seus actos de juventude, no se vo caracterisando inda
melhor,  medida que de mais graves deveres se incumbe a sua misso de
mulher. Intelligencia temperada por um bom senso natural, que a educao
esmerada no estragou, como a tantas acontece, caracter apaixonado, mas
de trato affavel e insinuante, meiga sem indolencia, grave sem
severidade, acompanha-a o encanto que a todos prende, que no faz sentir
a ninguem o peso da obediencia.

 hoje quem tudo dirige no Mosteiro; querida pelos primos, querida por
D. Victoria, adorada pelo marido e abenoada pelo povo, que soccorre com
esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que reina n'aquelles sitios.

D. Victoria resignou na sobrinha todos os encargos domesticos, salvo o
direito de ralhar com os criados, que ella sustenta serem os peores do
mundo; prompta sempre a intervir a favor de qualquer d'elles, quando
despedidos.

Em relao s personagens secundarias d'esta historia pouco teremos a
dizer.

O brazileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que
entrou para o ministerio, mandou lavrar o decreto em que se nomeava
visconde de no sei qu o seu antigo inimigo. Foi este o primeiro acto
politico do gabinete, que o paiz ingrato teve a sem-razo de no
applaudir.

O brazileiro, em paga, entrou com Augusto em competencia de
melhoramentos locaes, com grande proveito da aldeia.

O sr. Joozinho, em vista d'esta fuso de partidos, achou-se encorporado
na liga, e em pouco tempo teve occasio de demonstrar de novo a sua
influencia eleitoral, trazendo compacta  urna a freguezia de Pinches,
para reeleger o conselheiro que, pela sua nomeao, perdera o logar de
deputado. D'esta vez ninguem lh'o disputou, e era edificante vr o
brazileiro ao lado do Tapadas, esquecidos antigos odios, votando de
commum accordo e de boa harmonia.

A reconciliao entre dois adversarios commove sempre a alma.

O sr. Joozinho no mudou de habitos, e cada vez tem mais dividas, mais
ces e mais bebedeiras.

O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturbavel nas suas funces de
ensino e na commisso do correio, odiando os irmos Virgilios e
desafogando as suas mgoas na embocadura da trompa.

O homem queixa-se de ter sido victima de uma vingana. Confessa que por
brincadeira tirra uma carta da pasta de Augusto, mas que a tornra a
collocar no seu logar e por isso...

A familia Z P'reira vae em rapida decadencia; o homem j nem tem fra
para fazer resoar o zabumba.  esta uma das que mais deve  caridade de
Magdalena.

O conselheiro, ainda hoje no gso imperturbado dos votos unanimes
d'aquelle circulo eleitoral, vem de quando em quando retemperar o animo
exhausto nas fadigas parlamentares e nas diverses da capital, no seio
da sua feliz familia, e volta melhor.

Angelo, logo que principiam as ferias dos seus estudos superiores, corre
com alvoroo de creana a gosar na aldeia os dias que elle j presente
terem de ser os mais felizes de toda a sua vida.

A quinta dos Cannaviaes,  qual andam ligadas suaves recordaes dos
dois venturosos pares, que os incidentes d'esta historia reuniram, foi
transformada por Magdalena n'uma habitao de recreio, onde as duas
familias celebram, durante o anno, algumas festas em commum.

Estes melhoramentos vieram confirmar o titulo de que Magdalena havia
muito estava de posse.

E hoje  ella ainda entre a gente do povo conhecida pelo nome de
Morgadinha dos Cannaviaes.


FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  | Volume I |                     |                      |
  |#pg.  144| precipios           | precipicios          |
  |#pg.  162| se se sentem        | se sentem            |
  |#pg.  169| a seu seu vr       | a seu vr            |
  |#pg.  264| uma uma explicao  | uma explicao       |
  |          |                     |                      |
  | Volume II|                     |                      |
  |#pg.   27| glo['r]ia           | gloria               |
  |#pg.   68| examimal-a          | examinal-a           |
  |#pg.   95| encontrassse        | encontrasse          |
  |#pg.  148| coisapor            | coisa por            |
  |#pg.  200| ovialmente          | jovialmente          |
  |#pg.  215| fregrezia           | freguezia            |
  |#pg.  218| principalte         | principalmente       |
  |#pg.  248| saparmo-nos        | separmo-nos         |
  +----------+---------------------+----------------------+





End of Project Gutenberg's A Morgadinha dos Cannaviaes, by Jlio Dinis

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORGADINHA DOS CANNAVIAES ***

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Foundation as set forth in Section 3 below.

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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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