The Project Gutenberg EBook of O Inferno, by Auguste Callet

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Title: O Inferno

Author: Auguste Callet

Translator: Camilo Castelo Branco

Release Date: April 22, 2009 [EBook #28584]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O INFERNO ***




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                                 O INFERNO


                               AUGUSTO CALLET

                                 O INFERNO

          TRASLADADO PARA PORTUGUEZ E PRECEDIDO DE UMA ADVERTENCIA

                                    POR

                          CAMILLO CASTELLO BRANCO




                                   PORTO

                      TYPOGRAPHIA DA LIVRARIA NACIONAL
                          2, Rua do Laranjal, 22

                                    1871




                         ADVERTENCIA DO TRADUCTOR


N'este memoravel anno de 1871, o sacerdocio militante da christandade
lusitana subiu aos baluartes mais desamparados, aos pulpitos de grande
parte do reino, e desembestou certeiras frchadas ao rosto da impiedade.

No pulpito da egreja de S. Martinho de Cedofeita, d'esta cidade do
Porto,--que no  a mais peccadora, porque  a menos ociosa,--discorreu
apostolicamente um padre italiano, que eu no ouvi.

No fui ouvil-o, porque j tenho muitissimos annos e bastante leitura
para conhecer que direitos tem Deus e o proximo ao meu amor.

No o fui ouvir pela mesma razo que evito alguns livros prohibidos,
receoso de que elles estremeam os alicerces da minha f.

No fui ouvil-o, emfim, porque ha um sermo que eu sei de cr, e repito
quando tenho sde de f, ancias de misericordia, tibiezas de
esperana:  o sermo da montanha, prgado aos pobres por nosso Senhor
Jesus Christo.

Este sermo ainda meus filhos o no sabem; mas ho de aprendel-o quando
as primeiras lagrimas lhes tiverem delido as manchas escuras do
intendimento.  preciso ter chorado para comprehender a bem-aventurana
dos que choram. Jesus Christo, se houvesse dito aquellas divinas
palavras aos felizes, no seria intendido no apostolado, nem seguido na
vida, nem chorado na morte, nem confessado no martyrio.

Levantei, pois, o pequenino e fragil oratorio das minhas preces humildes
sobre a confiana do divino Pae; e, se em minha alma sinto o desejo de
no ter nascido para dres deseguaes ao alento de cada homem, reconheo
que o oratorio do peccador est tanto  vista de Deus que o anjo da
paciencia abre as suas luzentissimas azas sobre os meus abysmos escuros.

Ora eu sei de triste experiencia que os discursos do missionario em
Portugal me desataviam o espirito das vestes graves com que costumo
entrar nos templos.

Na minha mocidade estudei grammatica, fui examinado em logica, decorei a
inutilissima cousa chamada rhetorica, cursei muito pela rama algumas
aulas de theologia; finalmente, poli quanto pude a razo para que se
espelhassem n'ella os preceitos e conceitos dos oradores sagrados.

Pois acontecia que todos aquelles predicados, desde a grammatica de
Lobato at  theologia do bispo de Leo, c no meu interior despiam a
casaca e a dalmacia venerandas, para galhofarem d'uns certos padres que
se imaginavam favorecidos da infuso scientifica, uma s vez
milagrosamente concedida pelo Espirito Santo aos santissimos ignorantes
do Cenaculo.

Arguiam-me de indiscreto os bons amigos que me ouviam deplorar a
decadencia da oratoria sacra, justificando o proposito pelos resultados,
a unco do prgador pelo soluar do auditorio, a fertilidade da palavra
pela emenda das culpas.

O soluar do auditorio era to acceitavel e prestadio como as lagrimas
no theatro, que denotam, quando muito, coraes sensiveis; aquillo,
porm, de emenda das culpas  que vinha desconceituar a argumentao dos
meus amigos.

As culpas! o desconcerto da vida, a irreverencia a Deus, o desamor ao
proximo, as intranhas descaroadas do rico, a rebellio cubiosa do
pobre, a mo que se esquiva em levantar da lagem o orpho--estas e
outras ms fibras do corao humano poder retemperal-as a consciencia
illustrada; mas a consciencia espavorida pelo medo dos castigos eternos,
essa no.

E os missionarios, que ludibriavam a minha devoo ou curiosidade,
demonstravam a preciso de sermos continentes, sobrios, humildes,
caritativos, christos emfim, para no sermos eternamente refervidos no
lago de sulphur candente.

Eu nunca ouvi dizer na casa da orao que a providencial justia tem o
seu tribunal em meio dos vivos; que o vicio deshonra, infama, e tolhe o
goso dos bens d'esta vida; que a repulso do delinquente  um castigo;
que a sociedade pune primeiro que a lei; e que, se a justia dos codigos
algumas vezes erra, a justia complexa da opinio publica mantm
a disciplina do supplicio, invisivel mas exulcerante na consciencia do
culpado.

Nunca ouvi missionario que me parecesse mais illustrado que a maioria
dos seus ouvintes, nem vi espectaculo onde reluzissem mais vivos e
tristes reflexos da edade-media. Historias horrendas e s vezes
esqualidas de castigos infernaes; immerses em caldeiras rubidas das
lavaredas; corpos espedaados por drages e logo recompostos para nova e
eterna dilacerao; imborcaes de peonha na bcca dos gulosos;
amplexos de serpentes escamosas de brazas n'aquelles que lubricamente
deleitaram os corpos n'este mundo: era isto, no era o penetrante pejo
do vicio que chamava aos olhos do auditorio as lagrimas restauradoras.

Mas, ao fechar da misso, o peito oppresso do peccador atterrado
desafogava-se na esperana de illudir o diabo com uma confisso geral e
um profundo pesar na hora da morte, visto que o missionario promettia o
co aos que, nos ultimos instantes, se sentissem vivamente magoados de
terem sido perversos.

O co!

E que promette o padre aos justos, aos que desde a juventude at 
decrepidez apenas prevaricaram venialmente? o co.

E aos apostolos que vo  fogueira offerecendo ao divino martyr o
tributo de suas agonias? o co.

O co para o facinora contricto no ultimo momento, e o co para o santo
de toda a vida! O co para o martyr e o co para o algoz que houve
remorso de o haver matado!  f, revrbero de Deus, estarias apagada, se
no fosses divina!

Em compensao, porm, que profusa prodigalidade de infernos
alm-tumulo! Infernos legendarios, imitaes do grego, do egypcio, do
indostanico, todos os infernos, excepto o verdadeiro--o inferno d'esta
vida, a corrente do remorso ao pelourinho da consciencia, e a desgraa
implacavel ainda para os que no tm consciencia nem remorso.

Pois esta doce e misericordiosa alliana de Jesus com os attribulados,
com os frageis por compleio e por mal dirigidos na mocidade, comporta
em si a hypothese de Satanaz, que nos espia o ensejo favoravel e nos faz
cambap s suas voragens? Comprehendem acaso que Deus se no amerceie de
homens fraquissimos, vencidos por um gigante que no coube no co? No
vm que Lucifer se atreveu com o Creador, e, depois de vencido, teve por
homenagem o reinado de um mundo, e o generalato de legies immensas,
todas a manobrarem na terra para vencerem... a quem? um descendente de
Ado, do logrado do Eden, Ado, que tinha em si a plenitude da fora, da
sciencia; a fora do corpo ainda aquecido da mo de Deus; a fora da
alma iriada dos reflexos do seu Creador! E o homem, debilitado pelo
attrito de seis mil annos, que querem que elle seja? Porque lhe decretam
a elle--ao fraco--o inferno, se Deus apenas condemnou o forte a viver do
suor do seu rosto?

Estas e outras meditaes, dignas de que Deus m'as perde, se a palavra
no friza bem com a lisa inteno, me preoccupavam, quando li este livro
de Callet, com certo medo de violar o meu salutar costume de no lr
livros prohibidos, tirante os uteis, os desenfastiados e principalmente
os instructivos.

O auctor, comquanto excommungado, usou a christ bem-querena de
prevenir-me de que a sua obra estava condemnada. Decidi logo que o livro
no seria de todo mau. E, depois que o li, reflexionei que os cardeaes
seriam mais discretos esquivando-se a dar voga a escriptos que andariam
menos procurados sem a chancella da prohibio.

A mim me quer parecer que o _Inferno_ de Callet sahiria com fros de
orthodoxo da assembla dos primitivos christos, quero dizer, dos
seguidores de Jesus Christo anteriores quella pestilencial sciencia
chamada Theologia: tal  a pureza, luz, amor e christianissimo espirito
que ungem as paginas d'este consolativo livro.

Augmenta-lhe o valor o encontrar-se com os missionarios portuguezes,
cada vez mais attidos  rhetorica ardente do inferno, como se elles e
ouvintes no houvessem dado ainda um passo desde que  dia, desde que a
razo fez pazes com a f illustrada.

 to verdade que este systema de moralisar nada aproveita, quanto 
certo que nas aldeias, onde mais trovejam as ameaas do missionario,
encontrareis o demonio da corrupo fazendo tregeitos ao padre s portas
das cabanas, onde o vicio avulta mais esqualido com a hediondez dos seus
farrapos.

No melhorareis a sociedade a prgar. E todavia, serodios apostolos, na
vossa sinceridade, creio eu, por no ter grande confiana na vossa
illustrao, e me ser muito custoso suspeitar que sois hypocritas.

Ora lde este livro que se vos offerece em portuguez correntio, e dizei,
se, apagado o inferno, no ser possivel accender pharol mais humano e
mais divino pelo qual se norteie a posteridade da peccadora Eva,
esta immensa familia d'hoje, estygmatisada seis mil annos antes!


Julho de 1871.

                                            _Camillo Castello Branco._




                                 PREFACIO

                            DA SEGUNDA EDIO


Aos 20 de Junho de 1862 a sagrada congregao do Index condemnou em Roma
este livro cerca do inferno. Caridosamente advirto a leitoras e
leitores que temos aqui fructo prohibido.

Perguntam-me o que vem a ser a congregao do Index? Eis-aqui o pouco
que sei d'isso: o papa Paulo III publicou em 1539 um catalogo de livros
cuja leitura prohibiu aos fieis sob pena de excommunho. Este catalogo,
chamado Index, foi approvado pelo concilio de Trento, enriquecido de
numerosos artigos, e por elle, antes de dissolver-se, recommendado a Pio
IV. O papa Sixto V, que no tinha vagar para lr, creou, mais tarde, uma
commisso permanente de cardeaes encarregada de examinar e condemnar
livros. Esta commisso de cardeaes  o que se chama a sagrada
congregao do Index.

Convm saber que Paulo III, velho amigo de Alexandre VI, e tanto, como
elle, muito desacreditado por seus vicios, desmembrou dos
dominios de S. Pedro as cidades e territorios de Parma e Placena que
elle deu com plena soberania, e com titulo de ducado, a Pedro Luiz
Farnezio, um dos seus filhos naturaes. Este tal fundou a inquisio,
instituiu a ordem dos capuchinhos, exercitou a astrologia, fomentou e
applaudiu a carnificina dos vandezes. No discuto similhantes actos;
recordo-os porque elles se ligam  mesma ida que creou o Index.

Pio IV, a rogo dos Jesuitas, acrescentou algumas contas ao rozario,
augmentando-lhe as virtudes; fez estrangular o cardeal Caraffa, sobrinho
do seu predecessor Paulo IV; fez decapitar o duque de Palliano, irmo
d'aquelle cardeal, e outros muitos personagens cujas cabeas
ensanguentadas, por sua ordem, foram expostas sobre a porta do castello
de S. Angelo; abafou o processo instaurado em Espanha contra o clero
accusado de libertinagem; mas em compensao accendeu por toda a parte a
guerra contra os herejes. Accuzam-no de haver beneficiado mais a sua
familia que ao povo romano. Eu por mim no lhe contesto as virtudes, e
menos ainda a orthodoxia. Na famosa bulla de 24 de Abril de 1564
declarou excommungados, _ipso facto_, quem quer que no futuro imprimisse,
vendesse ou lesse algumas das obras inscriptas no Index pelo concilio ou
por elle mesmo; e bem assim quem, no as tendo lido, as emprestasse ao
visinho, ou, sem as ler ou communicar a alguem, as fechasse na sua
bibliotheca ou n'algum esconderijo da sua casa. Urgia, pois, queimar os
livros prohibidos quem quizesse evadir-se  excommunho, e em seguida 
condemnao eterna. Como no podesse queimar os auctores, Pio IV
desforrava-se fazendo-lhes queimar as obras.

A vida de Sixto V  bastantemente conhecida, no tem que vr com a de S.
Pedro; mas sobejavam-lhe intelligencia e indole sufficientes ao
exercicio do poder absoluto. Era manhoso e cruel este grande papa, cujo
systema de governar compendiou em duas palavras: po e po.

Dispensam-se pois os povos de pensar, como coisa perigosa:  bastante
que elles no morram de fome e que tremam sempre diante do algoz. Depois
erijam-se obeliscos e edifiquem-se templos.

Este papa mandava decapitar os padecentes debaixo das suas janellas,
antes de sentar-se  meza, dizendo que isto lhe abria o appetite. As
cabeas dos suppliciados, que elle expunha e deixava apodrecer aos olhos
dos caminhantes, ameaavam de peste a cidade. Apezar dos juizes, fez
enforcar um mancebo de 16 annos por haver resistido aos quadrilheiros
que o prenderam. Ordenou que cortassem as mos e que traspassassem a
lingua d'um auctor epigrammatico. Excommungou a rainha Isabel,
desquitando a nao do juramento de fidelidade; excommungou o rei de
Navarra, o principe de Cond e o rei de Frana, exaltando at ao delirio
o fanatismo dos partidarios da Liga; e depois do assassinio do
desgraado Henrique III, elogiou em pleno consistorio Jacques Clement,
comparando-o a Judith e Eleazar, debeis mas fieis instrumentos do Deus
dos combates. E como signal sensibilissimo de sua terna solicitude pela
salvao das almas, restabeleceu ao mesmo tempo o santo officio e
cumulou de indulgencias a confraria do Santo Cordo. Era proprio d'este
grande e devoto papa continuar a guerra declarada por seus predecessores
 razo humana e  liberdade da consciencia, instituindo de par com o
santo officio a congregao do Index.

No cuideis, porm, que os livros condemnados por esta congregao
fossem lidos pelo papa ou sequer pelos cardeaes encarregados d'isso. Por
via de regra os cardeaes nada lem.  laia de Sixto V, encarregavam
outros d'esse officio.  volta da congregao do Index formigavam monges
e obscuros theologos de toda a parte, chamados consultores, a quem
incumbia o encargo quasi sempre fastidioso de lr obras novas. As
formidaveis sentenas do Index, mediante as quaes uma familia inteira
era excommungada e condemnada, promanavam do relatorio d'estes
consultores: tal era a sorte de quem recusasse queimar um cartapacio
jansenista, herana de av piedosa, ou as _Maximas dos Santos_ de Fnelon,
ou os _Pensamentos_ de Pascal, ou as _Reflexes moraes_ de Quesnel, embora
approvadas pelo cardeal de Noailes, arcebispo de Pariz, ou a _Theologia_
de padre Lequeux--primeira edio--ou a _Philosophia_ de Cousin. Pelo que
me toca, julguei que o inferno  uma concepo immoral, profunda e
forosamente immoral pelas razes que adduzi. Tambem mostrei, a diversas
luzes, o perigo de similhante crena para o genero humano. Por isso fui
condemnado em Roma. Optimamente! Agora exijo que me respondam. Graves e
leaes so as minhas objees: o decreto do Index as deixou subsistir em
todo o seu vigor.

Quando a soberania temporal do papa, que no  dogma, deixar de absorver
os esforos todos dos defensores da f, espero que elles tenham vagar de
cuidar no inferno, que  um dogma, e dogma tanto em perigo e to
vacillante--fiquem-no sabendo--como o throno de Paulo III, de Pio IV, e
Pio V.




                                INTRODUCO

                             DOGMAS HEBRAICOS


 crena anterior  prgao de Christo, quanto ao texto, mas diversa do
espirito do Evangelho, a eternidade das penas. Prende esta crena com
outros dogmas rabbinicos, to obscuros quanto descaridosos, que a Egreja
nascente adoptou e que ainda hoje formam o essencial da theologia
christ. Podemos reduzir aquelles dogmas a cinco, consubstanciados todos
no Inferno. Vem a ser: a Rebellio de Satan, o Castigo de Satan, o
Paraiso terreal, a Maldio dos homens, o Povo de Deus.

No intento esquadrinhar o sentido philosophico de taes dogmas: tal
canceira, superflua para leitores instruidos, seria insipida e
inutil para os ignorantes. Que Satanaz, inferno, peccado original,
etc., sejam ou no horrendos symbolos do antigo pantheismo
asiatico,--expresso viva d'um systema de methaphysica mais terrivel que
especioso, onde liberdade e mal se confundem, e o nada divinisado tem
consciencia de si, e Deus quasi deixa de ser--questes so essas
proprias de academias. Taes dogmas para mim so o que  letra
significam; sei d'elles o que nos ensinam; vejo-os como nos mandam
vl-os, como a multido os v, coisas reaes, pessoas verdadeiras, e no
chimeras. Considero-os pois sob a frma com que elles, ha muitos
seculos, influem no genero humano: e no ha mais seguro modo de lhes
apreciar o valor moral.

Entremos na exposio, clara quanta fr possivel, d'estes dogmas
mysteriosos.


                                     I

                           Rebellio de Satanaz

A historia de Satanaz no se encontra na Biblia nem no Evangelho. Passou
tradicionalmente da synagoga  Egreja. No Thalmud e nos Padres  que vem
escripta.

Satanaz era um anjo--como quem diz um espirito incorporeo, um spro de
Deus. Pureza, fora e beno eram o principio e constituio de sua
essencia. Estava elle no ceo resguardado de exemplos e conselhos
maus. Creado para o bem alli vivia em condies em que no  possivel
conjecturar-lhe intenes ms, contemplando Deus rosto a rosto, actuando
e reclinando-se em seu seio, testemunha intelligente d'aquella
superlativa sabedoria, bondade e omnipotencia que transpe espao e
tempo.

Infelizmente Satanaz era livre e peccou.  obra sua o mal que antes
d'elle no existia. Concebeu-o elle, e--caso estranho!--produziu-o alli
mesmo no ceo, em meio dos resplendores increados, e eternas
bem-aventuranas, e depois quiz-lhe como a seu, e propagou-o por entre
os anjos.

Este peccado, alis inqualificavel, visto que lhe no conhecemos a
especie, , como vou demonstrar, o verdadeiro peccado original.  a
primitiva e inexhaurivel fonte de dores do genero humano, posto que
ainda no houvesse genero humano na desconhecida poca em que elle
perturbou o co. Todos os transtornos do universo, mal physico e mal
moral,  aquelle peccado que os explica.

Saibamos como Satanaz foi castigado.


                                    II

                                O Inferno

Deus no quiz anniquilar Satanaz nem perdoar-lhe. Creou o inferno, e
precipitou-o l com os seus cumplices.

Fogo, frio, esvahimentos de fome, tedios da saciedade, golpes de ferro,
trances de agonia, inveja, remorsos, tudo isso no basta a dar-nos muito
em sombra ida dos tormentos d'aquelle abysmo. Cora-lhe o horror no
ser ahi conhecida a morte. Se a morte l podesse entrar, a esperana
iria com ella, deixando entrever o nada como acabamento de to enormes
penas.

Se, porm, foi recusada a Satanaz esta miseravel consolao, goza-se de
outra em desforra. Deus, que o reduziu  desesperao, deixou-lhe a
faculdade de o molestar, atravessando-se-lhe nos intentos,
contrariando-lhe as leis, multiplicando e perpetuando o mal por toda a
parte, salvante o ceo.

 o inferno o senhorio de Satanaz; mas no cabe l. -lhe toda a creao
campo franco para a sua malfeitora actividade. Verdade  que leva
comsigo, onde quer que v, a sua immortal tristeza, e, pelo tanto, toda
a parte lhe  inferno. No obstante,  incomprehensivel que elle de l
sahisse, se lhe no fosse algum hediondo regalo n'isso de fazer tudo
quanto quer, excepto o bem--poder singular que Deus lhe concedeu, e elle
exercita incansavelmente, seu prazer unico, necessidade propria da sua
desgraa, e que hade durar tanto como elle.

Tal  o castigo de Satanaz. Crime e castigo so por egual espantosos e
inintelligiveis.

Agora, vejamos o que d'ahi resulta.


                                    III

                              Paraiso terreal

No segundo e terceiro capitulos do _Genesis_, refere Moyss a creao e
queda do homem. Esta breve passagem foi diffusamente glossada por
hebreus e padres da Egreja, e raro haver quem a no haja ouvido
explicar do pulpito, como eu brevissimamente a vou explicar,
acrescentando-lhe reflexes minhas.

Ado e sua companheira tinham recebido no Eden uma lei moral simplissima
e muito clara: era-lhes licito saborear todos os fructos d'aquella
manso de delicias, tirante o fructo d'uma s arvore: feito isto, a sua
felicidade seria perfeita. Conta-se que elles estavam alli mais
innocentes que os recemnascidos e ao mesmo tempo mais instruidos que os
ancios d'hoje em dia. Obedecia-lhes a natureza e elles
comprehendiam-lhe a voz. Cuidados nenhuns, nenhumas lagrimas, primavera
eterna, e a mocidade immorredoira em todo o seu ser. Deus folgava
descer-se do ceo para n'elles contemplar a sua viva imagem; e ento lhes
mostrava seu rosto e lhes fallava.

Entretanto Satanaz foi esperal-os debaixo da arvore da Sciencia, cujo
fructo lhes fez comer. No se corromperam per si mesmos como Satanaz;
mas eram livres e o tentador estava alli. Quem tinha seduzido os anjos
como deixaria de seduzil-os a elles? Que consideraes o reteriam?
No receia Deus por que Deus lhe no pde aggravar o supplicio, pois que
esse supplicio  eterno, e o inexprimivel horror de tal castigo consiste
na eternidade d'elle. Pelo que respeita  piedade,  sentimento que
Satanaz no conhece, pois que Deus lh'a no mostrou a elle, o primeiro
de todos os seres que a necessitra.  semelhana das outras creaturas,
tem smente aquillo que recebe; e o que brilha em si no  o amor
divino,  a divina colera que o conserva devorando-o.

Quaes foram as consequencias da queda?


                                    IV

                                A maldio

No aceitou Deus as desculpas de Ado e Eva. De tal modo o irritou a
desobediencia, que, no auge da sua ira, amaldioou-os e com elles a
terra que os continha: dupla maldio que abrange alma e corpo, espirito
e materia, eternidade e tempo--o homem todo na intimidade de seu ser
immortal e nas condies exteriores da sua existencia transitoria.

De feito, foi Ado condemnado  morte. O corpo reverteu ao p e a alma
cahiu no inferno. Esperando, porm, este ultimo castigo, foi-lhe forado
soffrer outro n'este mundo. Cahiu sob o poder de Satan. Os miraculosos
conhecimentos, que elle tinha, perdeu-os para sempre.

Repulso do Eden, nada sabia do que tinha sabido n'aquelle lugar; e, como
a terra tambem se havia transformado, caminhava elle inexperiente
atravez dos estorvos d'uma vida nova. Precises, lavor ingrato,
enfermidades, padecimentos de toda a natureza, desconfianas, medos,
saudades inuteis, desejos inquietos acompanhavam o vagabundo par.
Satanaz seguia-os, julgando-os ainda bastante felizes sobre a terra
maldita, onde, se elle no fosse, o soffrimento seria expiao, e a
morte resgate.

Penetremos mais dentro n'este mysterio, e consideremos com os theologos
quaes foram e ainda so hoje as deploraveis consequencias d'aquelles
successos.


                                     V

                         Consequencias da maldio

Os filhos de Ado que ainda no eram nascidos no momento da culpa, e os
filhos de seus filhos at  derradeira gerao foram condemnados com
elle, como se tivessem peccado. Comprehende-se que elles no fossem
melhores que seus pais: peiores  que elles se tornaram. O mais velho
d'esses reprobos matou seu irmo, e a impiedade humana foi crescendo at
ao diluvio para recomear, ao sahir da arca, durante o somno de No.

Uma tal punio no podia gerar outros effeitos.

Considerai que nascemos aviltados, pervertidos, embriagados do
vinho que outros beberam, escravos d'um poder occulto e maligno, odiados
de Deus, odiando a Deus, s bastantemente livres para praticar maldades
e merecer por isso novos castigos; incapazes todavia de praticar o bem.
Est Satanaz no manancial onde bebemos a vida; est nas fontes que a
nutrem, no seio de nossa me e no seu leito; a si nos attre,
encorporando-se na luz, na agua, nos alimentos, no ar que respiramos, na
voz que nos encanta o ouvido, na fragrancia que as auras nos trazem, no
amigo que nos abre os braos. Comnosco se identifica e nos enche de seus
cavilosos e insaciaveis appetites.

De fra chama-nos com uma doce voz, e com um interno aguilho nos
espora para onde nos chama. Ento nos cerca, invade-nos, possue-nos, e
isto no  ainda seno parte do nosso castigo. O inverno que nos
engorgita os membros, a fome que nos prostra, a trovoada que arrebata as
sementeiras, a febre paludosa que nos mata os filhos, as foras que se
vo quando a experiencia chega, estes flagellos todos da natureza contra
ns desenfreados, estas necessidades inexoraveis, amargas privaes, e
exulcerantes desenganos so tambem parte do nosso castigo. Mas ainda no
 tudo: a nossa insanavel ignorancia, orgulho, fraqueza, toda a
corrupo do nosso ser  parte integrante do mesmo castigo, no do
peccado original, cumpre notar, mas do castigo, pois que a transmisso
do peccado original  j de si um castigo. E no pra aqui a maldio;
pelo contrario, quando ella se nos mostra mais terrivel  n'este
estado a que nos reduziu, manietados pelas cadeias que nos forjou,
porque as culpas que resultam d'esta corrupo natura e involuntaria que
 um castigo, d'esta possesso diabolica que  um castigo, e de tantas
dores accumuladas que so castigo--taes culpas chamam sobre ns outros
castigos. Qualquer lapso  reprehensivel; o menor deslize  espiado e
marcado; o minimo murmurio  uma offensa.

Taes so, consoante a theologia dos hebreus, adoptada e assignada pelos
padres, as relaes do homem com Deus e de Deus com o homem.

Detestam-se. Desde a sahida do Eden que se digladiam em duello sem fim,
posto que desigual. Um primeiro crime gerou a colera divina; mas do
primeiro acto da colera divina surtiram outros crimes, os quaes geraram
novas coleras, e continuamente, em face um do outro, a colera e o crime
se fecundam e reproduzem sem descanso. Os homens n'esta lucta so
incansaveis como Deus, e, posto que trespassados e sanguinolentos e
esmagados, ameaam e conspiram ainda.

De semelhante espectaculo no ha nome condigno! Est o odio por toda a
parte, na terra, no inferno, no ceo, nas creaturas e no Creador.

Accrescentemos que o que melhor se comprehende neste systema  a
rebellio do homem, porquanto a nossa sorte  mais miseravel que a sorte
de Ado, e cem vezes mais miseravel que a de Satanaz. Mas faz-se mister
esclarecer este ponto, antes de passar alm.


                                    VI

          Comparao da nossa sorte com a de Ado e de Satanaz

Em verdade nenhuma similhana temos com os habitantes do paraiso
terreal; no lhes herdamos o saber adquirido sem trabalho, nem a pureza,
nem a liberdade, que se agitava a bel-prazer em um to vasto circulo,
tendo um s limite perfeitamente distincto; nem to pouco lhes herdamos
a tranquilla felicidade. Para ns  tudo trevas, servido, limite,
trabalho e dr. Apezar do peccado, outra vantagem nos levavam. Puniu-os
Deus d'uma maneira que nos espanta; mas puniu-os pelo mal que
propriamente fizeram. Comnosco no  assim. Primeiramente, aquelles
actos, que Deus to severamente castigou n'elles, continuam-se em ns,
que no temos conhecimento d'elles seno por este proseguimento
vingativo; depois, sem attender  nossa infermidade nativa, nos faz elle
expiar nossas proprias faltas com tamanho rigor como se as ns
tivessemos commettido na liberdade, na sciencia, e nos jubilos do Eden.

Se podeis, comparae agora a sorte do homem n'este mundo maldito  de
Satanaz no ceo; e os peccados d'aquella creatura debil, ignorante,
decahida, envolta em carne e sangue, cercada de precipicios e trevas,
criminosa porque nasceu, e em perigo porque vive;--comparae isto,
se podeis, ao inexplicavel peccado do anjo. Similhana no ha ahi
nenhuma. Entre ns e aquelle espirito bemaventurado vae a differena de
noite a dia, e entre a sua culpa e a nossa a distancia da terra ao ceo.
Sem embargo disso, as penas so iguaes. Espera-nos o mesmo inferno. A
unica desegualdade que se nota n'este logar de soffrimento  que o homem
ahi ser a eterna victima, e Satanaz o eterno algoz.

 evidentissimo que  a mesma a pena applicada a seres que prevaricaram
em to oppostas condies de actividade. Esta pena infinita s tem
relao com o poder infinito do juiz offendido; no tem alguma com as
faculdades diversamente limitadas dos culpados, e augmenta de gravidade
 medida que desce sobre peccadores d'uma natureza mais fragil, de
Satanaz sobre Ado, de Ado sobre a sua posteridade.

Quando procuramos n'isto a justia, dizem-nos que ella ahi est, mas
escondida. Oh! sim, meu Deus! Bem escondida, e a razo tambem, e a
piedade tambem!


                                    VII

                              O povo de Deus

Entretanto parece que a piedade se manifesta na formao do povo de
Deus, e em verdade ahi se denota, mas como excepo, privilegio e favor.

Havia no Egypto uma raa de escravos; toma-os Deus pela mo, e atravez
de mil obstaculos os leva ao paiz de Chanaan; d-lhes leis,
ministros e prophetas; illustra-os, defende-os, castiga-os, restaura-os,
disputando a Satanaz, com successivos milagres, essa nesga de terra onde
quer ser adorado. No obstante, estas revelaens e sobrenatural
assistencia no impedem que os judeus idolatrem, que se prostituam, que
usurem e se precipitem numerosissimos em todas as voragens do mal. Por
aqui se avalie a desgraa dos povos que occupavam o resto da terra e a
quem faltavam taes soccorros. Pezava n'elles sem contrapezo o peccado
original. Os que a maior grau de perfeio tinham levado artes e
sciencias estavam to remotos da verdade como o selvagem mais
embrutecido. No porque uns ou outros fossem atheus--pelo contrario, em
seus soffrimentos, levantavam olhos ao ceo; mas como procuravam a
divindade nas estrellas, nas altas montanhas, no concavo dos bosques, e
nas mil imagens compostas de materia impura, debalde rogavam, e
inutilmente sacrificavam. Salvante a de Moyss, todas as religies eram
engodo de Satanaz e conductoras d'almas ao inferno, similhantes s
lumieiras que as hordas assalteadoras accendem  beira das restingas,
durante as noites tempestuosos, afim de que os navegantes se percam. E
Deus abandonava os gentios  sua ignorancia; detestava-os em tanto
extremo que prohibia o seu povo de os tratar, sobretudo de misturar ao
d'elles o seu sangue, excepto nas batalhas. Occasionado o ensejo, era
obra piedosa exterminal-os; mas attrahil-os ao seu corao, era,
em todos os lances, um acto abominavel, por maneira que o leproso
de Jerusalem recearia manchar-se, se recebesse na sua enxerga infecta a
mais pura donzella de Sidon.

Tal  substancialmente o ultimo dogma que nos convm estudar.  certo
que elle nos revela a bondade de Deus; mas  similhana de pallida
restea de luz em espessa treva. O que nos ella esclarece  um ponto
imperceptivel do espao. Est meio velada no ponto onde brilha, e tanto
ahi, como no restante do mundo, razo e justia de Deus jazem de todo em
todo escurecidas. Sobre a terra foi Jacob o unico justo? Se houve mais,
porque no fez Deus alliana com elles e seus descendentes? Por que
adoptou smente os judeus, por que liberalisou a estes luzes que negou
aos outros? Se lhe aprazia dar  humanidade cabida e obcecada pelo
peccado meios de salvao, porque abenoou o sangue e a carne de um s
homem, amaldioando o sangue e a carne dos mais homens? Se isto 
verdade, fora nos  exclamar com os theologos:--Razo impenetravel!
Impenetravel justia!--Sendo que tudo isto essencialmente diverge das
idas que podemos formar da pura razo e da verdadeira justia.

A lei do genero humano, em toda esta historia,  a lei ditada pela
colera, e, ainda quando a bondade ahi reluz, d ares de um capricho.

Os primeiros christos, judeus de origem, no adoptaram menos estas
idas por mais avessas que fundamentalmente sejam, no s 
revelao interior, s luzes da consciencia, mas tambem a tudo que mais
luminoso do ensino de seu divino mestre nos transmittiram. A Egreja,
dilatando-se fra de Jerusalem, conservou o sinete da sua educao
rabbinica[1], permanecendo meio judaica. No mudou um til aos dogmas
sombrios e crueis da synagoga, mas transformou o dogma do povo de Deus;
ampliou-o espiritualisando-o, sem tirar ainda assim  clemencia divina,
como logo veremos, aquella mystica e excepcional indole que tinha entre
os judeus. Admittiu os gentios ao beneficio das graas de que Moyss os
excluira, e tornou judeus, mediante o baptismo, os que de sangue o no
eram. Ao mesmo tempo, repulsou do seu gremio os que s por sangue eram
judeus, e o no eram por baptismo, formando, com tal excluso, outro
povo de Deus, e ficando o antigo a representar a figura carnal do
novo. Em summa, a Egreja moldurou quanto em si coube, o espirito
christo nas frmas antigas, que ella sempre venerava e considerava
expressamente feitas para o receber. Consoante a parabola, envasilhou o
vinho novo no tonel velho, onde ferve at estalar as aduelas; cuidado,
porm, que a velha vasilha pde fender-se; o vinho contheudo  o sangue
de Christo; e o genero humano, em prol de quem tal sangue ha manado, no
deixar que uma gotta se perca.

Ha pouco disse eu que a egreja, adoptando as crenas da Juda, no havia
modificado a indole estranha e excepcional que taes crenas argem 
bondade de Deus. Por egual razo deixou ella condensarem-se as mesmas
trevas sobre a sua justia.  facil demonstral-o.

    [1] No concilio feito pelos apostolos em Jerusalem, questionou-se
    sobre se se devia circumcidar os judeus. Muitos pensaram que esta
    operao fosse indispensavel  salvao, por isso que Moyss a
    ordenra; Paulo e Bernab no foram d'esta opinio; a duvida, porm,
    era tamanha que sahiram deputados para Jerusalem, afim de combinarem
    com os apostolos e os padres. O concilio discutiu longo tempo. Pedro
    fallou de harmonia com Paulo; mas as duvidas subsistiram. Thiago
    fallou por sua vez, no invocando a palavra de Christo, mas
    repetindo algumas palavras dos antigos prophetas; o que fechou a
    pendencia. Decidiram que a circumciso era desnecessaria  salvao.
    Todavia, logo adiante, Paulo, que contribuira para este accordo,
    circumcidou Timotheo, em razo de estarem judeus n'aquelle logar, e
    saberem que seu pae era gentio. Vid. _Actos dos Ap._, cap. XV e
    XVI.


                                   VIII

                      A egreja e o novo povo de Deus

Hoje em dia faz-se mister nascer em paiz catholico para ainda se crr na
possibilidade de no ir infallivelmente ao inferno. Contra o espirito do
mal inda l se encontra aquella miraculosa assistencia que outr'ora
protegia apenas o districto no grande do Oriente. Alargou-se o
territorio da clemencia, mas ainda assim no mede a quarta parte do
globo. Alm d'isso entre os novos, do mesmo modo como entre os antigos
judeus, perdem-se muitos, porque Satanaz est sempre comnosco, na
carne de Ado, e a maldio sobranceia-nos sempre.

Se o baptismo destre esta maldio, no o faz completamente, salvo
quando o baptisado morre ao sahir do baptisterio; seno, nem nos
dispensa das penas eternas, nem nos arranca das prezas da necessidade
das affeies, das tentaes, dos enganos innumeros que so os effeitos
temporaes da maldio.

Cresce, pobre creana, e se podes, cerra os ouvidos s alegres
cantilenas da tua ama; foge s caricias de tua me e a todas as
seduces que j te rodeiam. No toques no bello fructo que a tua fome
anceia. Na tua edade, sem que o saibas, j Satanaz te falla; na bebida e
na comida esto venenos d'elle; com o mal te familiarisas, e perdida
est a innocencia baptismal. Feito o primeiro peccado, desluziu-se a
graa; a maldio meia delida revive inteira; a Egreja vem ainda com
outros mysteriosos meios em nosso auxilio; porm, como n'este mundo no
ha destruir attraco e inclinao e a liberdade do mal, muitos dos seus
filhos se perdem, apesar d'ella, e para, melhor o dizer, em seus braos.

Attendendo aos perigos a que esto sujeitos ainda os filhos da luz
n'esses paizes favorecidos, considere-se em que estado de desesperao
vivem os filhos das trevas, isto  a maxima parte do genero humano. Em
mil milhes de homens, pouco mais ou menos, que actualmente soffrem na
terra, o mais que pde haver  duzentos milhes de catholicos. O
remanescente vive sem confisso, e o maior numero sem baptismo, na
ignorancia ou no odio da Egreja, e d'aqui vo como vieram sob o poder de
Satanaz. Tem elles culpa? Nasceram no abysmo e longe de soccorros.
Familia, tribu, cidade, patria, protectores naturaes, primeiros guias,
ultimos amigos, lies, exemplos, leis e costumes, tudo os engana. Quem
 que pde escolher o seu bero? Pois a nossa salvao pde depender de
circumstancias e successos que no dependem de ns? A nossa raso
corrompida absolve-os; o velho Ado encontra sempre alguma desculpa ao
peccado; mas a f essa no. A f decreta a reprovao final dos gentios,
dos infieis, dos hereticos e at a reprovao final e eterna d'um
grandissimo numero de catholicos; cr n'isto como no peccado original,
como na hereditariedade do crime e do castigo, bem como na graa da
salvao--coisas correlativas e de todo o ponto inseparaveis. Adora em
silencio todas estas apparentes iniquidades, convicta de que ellas so
smente apparentes, e que um dia vir em que os proprios gentios ho de
confessar que Deus fez bem amaldioando-os: to profundamente justo,
equitativo e rasoavel  na essencia aquillo que exteriormente to pouco
.

No ha pois duvidar que milhes de milhes de creaturas humanas esto no
inferno. As almas despenham-se ahi de todos os lados, densas e rapidas
como a chuva, chuva que dura ha mais de seis mil annos, e no
acabar nunca. Todos ns temos no inferno uma immensa familia: todos os
nossos antepassados pagos, durante quatro mil annos, e Deus sabe
quantos avs christos!

Os parentes e amigos de quem nos apartamos a chorar, o que fazem  ir
adiante de ns; os netos d'elles e os nossos, pela maior parte, l vo
ter comnosco, e para to horrivel fim  que ns nos reproduzimos.


                                    IX

            Como se prova a verdade dos dogmas hebraicos, e com
                  especialidade a eternidade das penas

Todos estes dogmas esto ligados; porm, quando surge uma duvida, no
basta um para demonstrar o outro. Prvem-nos que Satanaz foi expulso do
co, e o homem do Eden; e, quando o tiverem provado, nem por isso lhes
cabe o direito de concluir que Deus nunca perdoar a Satanaz nem aos
homens. Um castigo que tira aos pacientes a esperana, e ao divino juiz
a piedade,  mais incomprehensivel ainda que a fragilidade dos anjos:
por consequencia, um tal castigo carece de ser justificado por pessoas
eguaes, seno melhores. Estes antigos mysterios no derivam um do outro
naturalmente; e, seja qual for o castigo que Deus reserve em sua justia
s prevaricaes das creaturas livres,  certo que ns o soffreriamos,
ainda que Satanaz e Ado no tivessem peccado. A principal questo
 saber se este castigo ser eterno, e a tal respeito a corrupo
original, a reversibilidade das culpas, o poder do tentador augmentam
nossas duvidas em vez de diminuil-as.

O que ahi ha para ns no so provas, so objeces. O inferno poder
ainda sem isso no satisfazer nossa razo; mas no a offender tanto. 
urgente, pois, provar que elle existe.

Prova-se pela revelao, isto , pelas escripturas santas e pela
auctoridade da Egreja, interprete infallivel d'ellas. Porm revelao
biblica e infalibilidade de Egreja so j de si outros dogmas a favor
dos quaes se escrevem todos os dias grossos volumes; e seria desviar-me
grandemente do meu assumpto suscitando aqui similhante discusso. O
pouco que a tal respeito hei de dizer vem no appendice que est no fim
d'esta obra, sendo tanto para o leitor como para mim grande a pressa que
temos de sahir d'este labyrintho de mysterios. Investigo provas d'outra
ordem, mais especiaes, mais directas, mais apontadas ao bom senso, ao
corao,  intelligencia, e que se prestam facilmente a ser entendidas e
livremente discutidas. Se taes provas no existissem, no emprehenderia
eu similhante trabalho; mas sustenta-se que existem, e em todas as
apologias so invocadas como auxiliares das provas sobrenaturaes, e do
ensinamento da Egreja, argumentos puramente philosophicos, dos quaes
parece que a f mesmamente est carecida. Dir-se-hia de vontade a
respeito do inferno, o que Voltaire disse de Deus: que se elle no
existisse, mister seria invental-o. Pois que podemos em verdade provar a
existencia de Deus pela necessidade moral d'esta crena, pelo mesmo
theor se intenta provar a existencia do inferno perpetuo: intenta-se
fazer d'isto uma necessidade moral to clara e evidente, quanto 
evidente e clara a necessidade moral da crena em Deus, e  usual
fundamentar tal raciocinio sobre o testemunho de todos os povos, que
tanto importa a tradio chamada universal.

A mim me basta a primeira prova; d'ella pende a meu vr a questo
capital. Se o inferno, ou smente a ida do inferno  moralmente util,
existe o inferno,  necessario, e  divino. Porm, como quer que a
evidencia d'esta utilidade no seja dogma, assiste-nos o direito de
examinar com plena liberdade. Tal  a tarefa que me impuz. A tradio
universal de que tratarei depois,  apenas a primeira face do
problema.




                                 O INFERNO


                               PARTE PRIMEIRA

               O INFERNO CONSIDERADO QUM DA CAMPA, OU O HOMEM
                    E A SOCIEDADE EM PRESENA DO INFERNO




                             CAPITULO PRIMEIRO

                                 TRADIES


                                     I

                A tradio universal  a prova do inferno?

Quando nos querem fazer comprehender a necessidade da revelao christ,
esforam-se em requintar phrases aviltantes, para bem caracterisar o
estado do mundo sob os reinados de Augusto e Tiberio.

No peo que se suavisem as pinturas. Todavia, se se tracta de nos
incutir algum antigo dogma hebraico tenebrosissimo, repellentissimo, tal
como o peccado original, a malicia dos diabos, o eternal inferno, ento
 vr como esse genero humano to vilescido se transfigura subitamente
em oraculo. Claro  que a moral se lhe varrra de todo; mas a theologia
ficou. Eil-os a cavar no lodaal das supersties orientaes, as mais
putridas de quantas ahi houve, e querem entrever n'ellas uns certos
vestigios de l se haver conhecido Ado e No. Se se trata
simplesmente do inferno, isso ento acha-se em toda a parte. Um paria
vagabundo, um pago abjecto, um negro, um hottentote tremente em face
d'um fetiche, eis as testemunhas, os consultados, os doutores.  mais
que certo que taes miseraveis haviam perdido as noes todas do bem;
dormiam com as servas e at com as irms; vendiam na feira as filhas e
s vezes as mes; profanavam os hospedes; eram ladres, eram
antropophagos; adoravam pedras, serpentes, sapos, e, peor que tudo,
homens, facinoras ensanguentados; mas criam no inferno. Claro de
consciencia no lampejava n'elles s um; no estremavam raia entre
virtude e vicio; e, posto que taes distinces lhes houvessem sido
reveladas, tinham-nas esquecido. Vde, porm, o prodigio: quanto ahi
havia incomprehensivel para ns e ainda mais para elles; tudo que
transcende a alada da experiencia; tudo quanto a simples razo no pde
revelar--tudo, em fim, que, pelo conseguinte, mais facilmente se desluz
da memoria, oh! tudo isso lhes ficou na lembrana!

Que argumento a pr do inferno!

Quem ousa impugnar verdade to de fundamento provada? Cafres, Papus,
Saabs, Bushmans creram no inferno! Patages, Muskogis, Algonquinos,
Chipperrais, Sioux creram no inferno! Hunos, Alanos, Ostrogodos,
Gepidas, Vandalos creram no inferno! Tambem creram n'isso Cananeos,
Philisteos, Ninivitas e Babylonios! Sodoma e Gomorra tambem!
Sardanapalo, Balthazar, Herodiada, Cleopatra, Nero, Attila,
Gengiskho, Tamerlo creram tambem no inferno! Querem prova mais
concludente?

Eu no sei se semelhante demonstrao do inferno  bem feita para
edificar uma assembla de fieis; receio muito que os incredulos se riam.
Quer-me parecer que, se tentassem insinuar-nos reverencia a tal dogma,
deveriam contentar-se com dizer-nos que aquellas raas degeneradas,
aquellas naes estupidas, aquellas hordas faccinoras, aquelles
sacerdotes embaidores, aquelles reis devassos, em fim, todos esses
selvagens e monstros, nem criam na eternidade das penas, nem d'isso
tinham vislumbres. Tal argumento, se fundado fosse, figurar-se-hia
melhor que nenhum. Presumir-se-hia que esses homens, se tivessem  mo e
perante os olhos barreira tal, no se infamariam tanto. Mas, da laia que
elles so, darem-no'l-os como crentes no inferno,  mandar-nos descrer.
Horrorisa-nos a immortalidade d'elles. Vo l trazer taes arbitros para
uma questo de altissimo interesse moral! Dizeis que elles creram no
inferno? Oh Deus meu!  por isso mesmo talvez que elles to mal
comprehendiam a justia, e tal vida viveram!


                                    II

        Explicao natural das tradies pags cerca do inferno

Que monta recorrer a revelaes miraculosas?  facilima coisa explicar
naturalmente as tradies pags cerca do inferno.

Este social estado que conhecemos, no qual o direito de cada um 
definido por lei, e protegido por fora publica, no  o primitivo
estado do genero humano. No principio, a unica sociedade foi a familia,
e, por extenso, a tribu. Cada homem se protegia a si, e sahia em
desaffronta propria; parentes e servos bandeavam-se na pendencia, e a
menor tentativa contra o direito privado espadanava ondas de sangue.
N'esses remotos tempos, vingana e justia eram uma s cousa.

Ora,  verdade que a vingana procede do sentimento de justia, mas
ultrapassa a justia sempre, porque  egoista, cega, orgulhosa,
colerica, no mede, no se compadece, d mal por mal, e usurariamente o
d. A mais antiga das leis judaicas, a lei cruel de talio, foi lei
misericordiosa; abalisou as retaliaes; cabea por cabea, olho por
olho, dente por dente, e mais nada. A vingana queria mais: arrancava os
dois olhos, e no se saciava. Na Thracia, em Grecia e Roma, nas Gallias,
na Germania, em toda a terra houve tempo em que os inimigos captivos
eram sacrificados aos deoses, e estrangulados pelos sacerdotes do
altar. Os que o ferro poupava eram ainda mais dignos de compaixo:
condemnavam-os  escravido com a sua posteridade--ao trabalhar sem
proveito, e  miseria infinita. Entre as familias, tribus e raas ardiam
odios hereditarios; pagava o innocente pelo culpado, porque era commum
dever o assassinal-o.

E tudo isto se figurava justo, e hoje ainda entre as naes christs,
aqui e alli, subsistem vestigios d'estes antigos costumes.

Se insistem em que os pagos conheciam o peccado original, a maldio do
genero humano e as penas eternas, fora  confessar que elles, segundo
procediam, procuravam incitar a justia divina. Que melhor modelo lhes
sahiria a ponto?

Para lhes condemnar o procedimento  mister conceder que elles de Deus e
da sua justia apenas tinham falsa ida. Phantasiavam Deus  sua
similhana, vingativo, descaroado. D'ahi, a ida das raas malditas, dos
crimes e castigos hereditarios. D'ahi os pavorosos sonhos do inferno sem
fim, dos mos abrazados e espedaados vivos, dos algozes enfurecidos
sobre as suas pras immortaes, o chorar incessante, o suspirar sem echo,
e os engenhosos supplicios todos do Naraka, indostamio inferno que ainda
flammeja, e do Amenthi, egypcio, e do Tartaro grego, antigos infernos j
agora apagados e que ha tantos seculos no mettem medo a ninguem.


                                    III

               Como o sacerdocio perpetuou estas tradies

A par e passo que a humanidade se illustra, vemos adoarem-se por toda a
parte as leis e os costumes; as religies, porm, essas no: antes
querem morrer que mudar; conservam como deposito precioso e inviolavel
doutrinas antiquadas sem parentesco com as idas e as necessidades das
sociedades novas. Continuam a prgar aos povos policiados deoses
ferozes. Faz-se mister um dia arrancar ao cutello sagrado as victimas
humanas. Na Gallia foi foroso derruir as ras e immolar os sacerdotes
para acabar com os sacrificios abominaveis. D Moyss aos judeus a lei
de talio, mas reserva a Jehovah a vingana, como os poetas gregos a
reservavam a Jupiter. Querem homens bons e um Deus cruel, homens justos,
e um Deus iniquo; e, sendo isto repugnante, fazem da justia divina um
mysterio, com a declarao de que o no podemos perceber. Prga Jesus
exclusivamente a caridade, e morre em um madeiro perdoando a seus
algozes. Tratam de conciliar a sua doutrina com os rabbinos, e logo nos
figuram um Deus de duas faces: a doce face do Christo que contempla a
terra, e no inverso d'esta face augusta e ungida de lagrimas, a face
irritada de Jehovah, o Deus exterminador, o Deus inexoravel que persegue
os filhos pelos crimes dos paes.


                                    IV

            Exemplo de um povo que permanece fiel a todas as suas
                             antigas tradies

 a tradio a memoria do genero humano. Cumpre no menosprezal-a 
conta das verdades que ella propaga; todavia no devemos escutal-a de
joelhos,  feio de oraculo, por causa dos erros que a deturpam atravez
de todas as edades e naes.

Que nos faz a ns que os antigos crssem nas penas eternas? No ser
isso que as tornar eternas, se ellas o no so. Mais antiga que todas
as opinies dos homens  a bondade de Deus; e as verdades moraes bem
como as physicas dispensam o nosso consentimento para subsistirem.

Pois no girava a terra quando a julgavam immovel? No era odiosa a
escravido quando a julgavam justa? Ha na profundeza do ceo estrellas
que nossos paes no viram e ns vemos; e ha outras cuja luz no
alcanamos e nossos netos vero brilhar.

Cumpre ver o ceo com os nossos olhos, e no com a vista dos que j so
mortos. No seria blasphemia crr n'um Deus vingador, quando em seu
proprio corao o homem no tinha discriminado entre justia e vingana,
e por isso a Deus se concediam sentimentos e aces que n'este mundo
eram honrosos. Attribuir-lhe, porm, aces que passariam por
injustas, se commettidas fossem, seria arrogar-se o homem direitos
de fazer-se melhor que Deus; e fra verdadeira impiedade imaginar um
Deus tal que envergonharia quem o imitasse. O passado l vai. Os antigos
deram suas contas; ns temos de dar as nossas. Quando um caminheiro ce
na estrada, quem se levanta cxo  elle e no seu pai. Qualquer crime
que perpetreis servos-ha imputado a vs. Desquitar os homens, em nome
das tradies, da responsabilidade da sua f, seria remil-os da
responsabilidade das suas obras. Ha quatro mil annos que os
hindostanicos so escravos dos mesmos prejuizos, acorrentados nas mesmas
castas, vinculados s mesmas praticas, rojando e palpando no mesmo
circulo d'erro e miserias,  similhana dos seus condemnados, no dedalo
tenebroso e sem sahida do seu inferno. N'aquellas regies morre o homem
na condio em que nasceu: representa servilmente seu j morto pai,
pensando e operando como elle. , quanto menos pde ser, pessoa
distincta e nova; -lhe quasi inutil a razo; a memoria lhe basta; nem a
consciencia vive em 'si; est fra nas tradies oraes ou escriptas que
reverenceia cegamente, porque antes de vir ao mundo j eram veneradas.
Se ha verdade  o que essas tradies dizem; bem,  o que ellas ordenam;
mal,  o que ellas prohibem.

Investigar para que? Que mais quer elle? Bello reclinatorio para a
preguia! Excellente desculpa para vicios! Valente obstaculo para
virtudes!

Uma das glorias de Christo, um dos espinhos da sua cora santa,
foi contrapr o direito da consciencia individual  tyrannia das
opinies, tradies e escripturas judaicas. Ensinou-nos elle a sobrepr
o juiz intimo sobranceiro a todos os juizes da terra, e responsabilisou
perante Deus o homem por seus actos, ao mesmo passo que os
responsabilisou por seus pensamentos e sua f.


                                    V

                 Effeito d'estas tradies na edade media

As tradies judaicas e pags consubstanciavam-se profundamente na edade
media, acerbando-lhes as suas leis penaes com supplicios e torturas. As
prises no tinham ar nem luz; o adorno das masmorras era palha podre,
po e agua. Havia prises subterraneas, tumulos onde o homem entrava
vivo e no sahia mais. At os mosteiros as tinham. O furto era punido
com a morte; a morte punia a transgresso da lei sobre a caa. Em cada
encruzilhada uma forca. Para os hereges fogueiras. E frequentemente uma
familia inteira era castigada pelo crime do chefe, bens confiscados,
casa arrazada, o nome proscripto. Nada digo sobre a servido, degradao
hereditaria, especie de mancha original e quasi universal em cada paiz,
horrenda reliquia da escravido antiga, e das supersties do Oriente.

Havia crena na efficacia d'aquelles horrendos castigos. E seriam
por isso menos raros os crimes? O terror governava o mundo. E seria o
mundo melhor governado? Ia n'isso a antiguidade das tradies. Dava-vos
pena que ellas se abolissem? Quem ha ahi saudoso das torturas,
masmorras, confiscaes, fogueiras, escravido? E quem ousaria pedir,
por interesse da justia e da moralidade, o restabelecimento das
instituies da edade media?


                                    VI

          Como a sociedade christ se desvia progressivamente
                       d'aquellas antigas tradies

No ha muito que ns ainda tinhamos o nosso inferno: eram as gals onde
as condies peioravam. Destruiram-nas, e crearam as colonias
penitenciarias. Antes de ns, se deram bem com isso os inglezes.
D'aquelle antigo inferno terreal, paraizo em comparao do outro,
resta-nos como terrivel vestigio a perpetuidade do castigo para certos
culpados. Quiz o homem copiar o antigo Deus das vinganas, e infligir
aos seus similhantes penas infinitas, tendo elle apenas um dia de seu.
Taes penas se acham nos nossos codigos. A sabedoria humana  to
limitada como o seu poder. Mas, apezar de limitadissima,  admiravel!
Com que arte a sociedade concilia os mais oppostos deveres--a proteco
aos justos, e at a proteco aos culpados que ella extrema dos justos!
No os esquece nas suas prises, no renunciou ao direito de
perdo; no desentranhou de si o sentimento da piedade. Sobre essa
paragem de miserias est sempre fixo um olhar de d, e attento um ouvido
que escuta os gritos do arrependimento. E acaso se enfraquece por amor
d'isso a lei penal? E se o perdo salva um d'esses prezos que a justia
ferira com perpetua pena, cuidaes que esse acto robustea o mal, e d
nas prizes ou fra d'ellas um exemplo funesto?

Ainda mais: a sociedade amnistia algumas vezes propriamente o crime,
derroga a sentena do juiz e restitue o criminoso em todos os direitos
do innocente. Os crimes que ella amnistia quaes so? Os mais
ultrajadores de sua authoridade, das suas leis, do seu repouso e
existencia: amnistia os crimes de lesa-magestade, e contenta-se com
perdoar os outros.

Este  o espirito das legislaes novas em toda a christandade, nas
quaes a misericordia se abraa com a justia.

Inferno que nunca muda  s o theologico.  sempre o inferno da edade
media, inferno de judeus e pagos, os mesmos supplicios, os mesmos
gritos, a mesma impiedade crescente, os mesmos horrores. No querem que
Deus tenha o direito de perdoar no outro mundo. C em baixo pde
fazel-o, se lhe apraz, como qualquer rei da terra. Mas l no seu reino
no ha perdo nem amnistia! Colera infinita! Vingana perpetua!
Inexoravel furor! Tal , consoante o pintam, o Rei dos ceos.

Ditosos os povos cujos principes se no modelam por elle!

Quem quizer encontrar hoje imitadores do Deus terrivel dos antigos, ha
de ir procural-os no novo mundo e entre as tribus negras da Africa, e
nas hordas barbarescas da Asia. A sociedade christ, com maravilhoso
instincto, sequestrou-se d'essas idas de outra edade; e, com os olhos
postos na cruz, prosegue e anhela realisar em suas instituies e leis
um ideal menos imperfeito da soberana justia.




                             CAPITULO SEGUNDO

                                A F NOVA


                                     I

                                Pater noster

Chamamos a Deus nosso pae e nos consideramos seus filhos. Um pae
condemnaria seus filhos a supplicios eternos? Que a questo seja de
ingratos e desobedientes, de rebeldes e de mos, embora: Deus  Deus, e
ns somos homens.

O mais sabio ancio n'este mundo  perante o Pae celestial o que diante
d'esse velho mortal, curvado ao pezo dos annos,  uma criancinha no
bero. Perante o Pae do ceo somos todos crianas balbuciantes que apenas
caminhamos com andadeiras. E a comparao  ainda muitissimo ambiciosa!
Ha mais proporo entre o menino que balbucia e os maximos doutores
theologos, do que entre os maximos doutores em theologia e o eterno Pai.
Cobertos de seus circumspectos barretes, aquelles doutores
tartamudam, gaguejam, balbuciam freneticamente, no se entendem a si
proprios, descambam a cada passo, e movem  compaixo, se os compararmos
a Deus. Dado que elles ainda durassem e crescessem em saber, ao mesmo
passo que envelhecessem, nem por isso deixariam de estar como em
perpetua infancia confrontados com Aquelle que tudo sabe, porque 
infinito em sabedoria, em poder e bondade. Mas, d'outra frma, a
criancinha hontem nascida podeis j affoitamente comparal-a quelles
graves doutores;  um doutor que se aleita e entra em dentio: alguns
dias mais, e vl-a-heis defender these e supplantar os professores.

Comprehendeis, pois, que, se o velho doutor em theologia fosse pae,
mettesse o filho em um carcere cheio de serpentes e ahi o deixasse para
sempre? Qualquer que houvesse sido a culpa do menino, julgareis justo e
discreto similhante castigo? No vos pareceria o mestre mais louco do
que o discipulo, e o pae peior que o filho? O vosso primeiro empenho no
seria pr o algoz no logar da victima? No se levantaria toda a
sociedade contra esse sabio sem corao? Nossas leis, nossos tribunaes
consentil-o-hiam? Ah! castigos, sim, mas castigos que corrijam, e o
perdo a final: eis o que  justia de pae. No entendemos outra. Ao
chefe de familia no se consente poder arbitrario sobre os seus: a
esposa tem direitos; tem-os o filho, o servo, protegidos pela sociedade,
que para esse fim especialmente se constituiu. Se isto repugna s
antigas tradies, nem por isso  menos racional, equitativo e
moral.

Ainda assim, por mais que fizesse este doutor atroz, seria menos cruel
que o Deus prgado por elle. Se a morte no viesse rapidamente
arrancar-lhe a victima, o officio de algoz canal-o-hia.  difficil de
supportar, ainda mesmo a um mau pai, o aspecto das torturas que elle
exercita na pobre creatura que gerou. No corao humano tudo  mudavel,
tanto o amor, como, por feliz compensao, o odio. Um principe
morovingiano, chamado Charmne, revoltou-se contra Clotario; Clotario fez
queimar vivos seu filho, a nora e os netos; mas diz a historia que elle
se arrependra. Se tal supplicio durasse uma semana smente, de certo
elle os teria salvado. Que bom pai! Que excellente rei!

Que amavel  este Clotario de par com o Deus que nos pintam! Este Deus
quer que pensemos no inferno, mas no que se morra ahi;  imitao do
algoz das prizes feudaes, deixa viver os pacientes torturando-os e
disvela-se em lhes protrahir a agonia! Manda-os soffrer, ouve-os gemer
durante a eternidade, e procede sua vingana, sem fechar olhos, sem
tapar ouvidos, e por isso mesmo  que n'elle reconhecemos no um homem
variavel, mas o que elle , um Deus.

 Deus dos antigos, Bel, Teutates, Pluto, Eolin, seja qual fr teu
nome, Deus das batalhas, Deus do gladio, Deus dos fortes, guerreiro
feroz, senhor irascivel, juiz sem entranhas, Deus dos eternos
rancores, tu no s o meu Deus! O Deus que adoro, o unico e
verdadeiro Deus,  o melhor dos Paes; apezar das minhas culpas, no me
trata como inimigo nem como escravo; conhece melhor a minha fraqueza do
que eu a sua fora; e, at quando me castiga, no esquece que foi elle
quem me creou e que eu sou seu filho.


                                    II

                              O purgatorio

 o purgatorio o logar incognito em que os mortos esperam, soffrendo, o
perdo das culpas commettidas na terra. Ha ahi o chorar e o padecer; mas
no se amaldia Deus: bemdiz-se. Os soffrimentos ahi supportados so
salutares porque se comprehende a justia d'elles; e corrigem porque a
esperana no  anniquillada.

Se tal logar existe, de que serve o inferno?

Deixar dizer que a eternidade  que apavora e refra o peccador. O
peccador no sabe o que seja a eternidade; porque  impossivel
absolutamente formar-se uma clara ida do que seja isso. Se recuamos
perante ns um pouco que seja as balisas do tempo, a nossa imaginao e
razo se perdem; e cahimos nas prezas das mesmas angustias que
sentiriamos, se vissemos a verdadeira eternidade.

Para que o homem se aterre lhe basta imaginar o soffrimento de que 
capaz a sua natural sensibilidade, e qual o podem comprehender as
faculdades do seu entendimento. Para que iremos mais longe? No 
bastante ameaar os maus com castigos proporcionados s suas faltas,
durante um espao de tempo desconhecido ou incalculavel n'este mundo? O
que fr mais do que isto  inintelligivel. Para l d'estes limites, a
ameaa nada importa; a alma est refarta de justia, oppressa de terror,
extenuada de padecer, dobra-se, ce, aniquilla-se, adora, supplica
perdo, no pde comprehender seno a piedade, est surda e insensivel a
tudo o mais. O remate da justia para ns  o perdo; e, se n'essas
extremas alturas onde a imaginao pde chegar, e onde o peccado roja
gemente, se em vez de perdo, nos mostraes o odio ainda flamejante, l
vai tudo: o terror tocou o apogeu; turva-se a razo, ida de justia e
de bondade tudo se desfaz; a alma, que cahira crente, levanta-se
atheista.

Se o tal inferno existe, no outro mundo coisa comprehensivel ha uma s;
 o blasfemar dos condemnados.

Mas se tal inferno existe, de que serve o purgatorio? Pois os
protestantes no o aboliram discretamente? Para os que podem crr em tal
inferno, que  cem mil annos de purgatorio? Este acaba e o inferno no;
seculos e milhes de seculos de penitencia no se contam, esquecem-se.
Em vista d'este sinistro inferno em que a misericordia  desconhecida,
inutil o soffrimento, e a justia um enigma, o purgatorio  um paraizo.
Quem nos dera a certeza de l ir! que os castigos ahi soffridos,
por mais demorados e rigorosos que sejam, no ha temel-os: desejam-se.
Por maneira que o mais terrivel castigo que imaginar se pde, o mais
equitativo e rasoavel, deixa de impressionar as almas pervertidas pelo
espectaculo d'uma punio sem siso nem justia apparentes.

As pobres almas aterradas, aturdidas, estupefactas so impellidas
involuntariamente a offender a Deus de dois modos; primeiro temendo-lhe
a vingana, segundo no lhe temendo a justia. A ida dos castigos
inefficazes e dres infructiferas, por muito monstruosa, odiosa e falsa
que seja, se humanamente a consideramos, torna inutil a ida dos
castigos poderosos e dres salutares, por muito bella, clara, natural e
divina que ella seja.


                                    III

                        Necessidade do purgatorio

Quem quer que sejaes, senhor ou servo, rico ou pobre, esposo ou pai,
viuva ou noiva, no negueis as expiaes da vida futura. No conheceis
maus em prosperidade, cercados de respeitos, inaccessiveis  lei, e que
se deitam e levantam sem remorsos? No conheceis innocentes opprimidos,
ancios abandonados, orphos desbalisados, pessoas honradas cuja vida 
toda padecer e que nenhuma lei feita ou por fazer defenderia de homens
ingratos e perversos? Se sois feliz hoje, sl-o-heis amanh?
Convencei-vos de que negar a vida futura, seria o mesmo que negar a
immortalidade da alma, e logo sua liberdade e responsabilidade; e, por
consequencia, o mesmo seria negar virtude, direito, Providencia, e
constituir este baixo mundo um verdadeiro inferno, um sonho, um
pesadlo, onde tudo seria horror e abominao, excepto o nada, tudo
injusto, excepto o crime victorioso, tudo absurdo, excepto a inveja, o
egoismo, a violencia, e a astucia que se roja. Ah! crde na vida futura,
com suas expiaes e recompensas. E, se ha quem exclua do ceo a piedade,
no vades vs, por uma irracional desforra, excluir tambem do ceo a
justia.


                                    IV

                                 Mysterios

No nos accusem os theologos de negarmos acintemente os mysterios.

Os theologos referem o que vae no inferno como se tivessem por l
viajado. Pelo que elles dizem  paiz dos mais conhecidos: sabe-se o
caminho, quaes so os seus productos, e qual o modo de viver dos seus
moradores, bem como a origem, nomes e a gerarchia dos principes que l
reinam. Em outro capitulo estudaremos as edificantes descripes que
fazem d'elle j physica, j moralmente.

cerca do purgatorio tem havido mais prudencia quasi nada se sabe
do que la se passa:  portanto mais mysterioso que o inferno. Todavia,
sem impedimento de ser mysterioso, que differena! Quanto mais
profundamos a eternidade penal, menos se acredita; ao invez, quanto mais
pensamos no purgatorio, mais nos sentimos compellidos a crl-o.  o
inferno mysterioso como o diabo, como a noite, como a contradico, a
confuso e o chaos.  o purgatorio mysterioso como Deus, como a alma,
como a consciencia, como a vida, como a luz que nos alumia, como a
materia impenetravel, como toda a natureza, como a verdade, como tudo o
que existe e de que ns apenas conhecemos em sombra a existencia e
apenas percebemos atravez de um veo, mas o bastante para no poder
duvidar.  elle to certo como tudo o mais do mundo; assenta no intimo
de nossa alma sobre as mesmas bases da moral, do direito, do dever, do
respeito a outrem, piedade, liberdade, amor, e sentimento do infinito. 
por tanto o purgatorio, quanto  razo, o verdadeiro mysterio da justia
divina, assim como a Incarnao e a Paixo, quanto  f, so o mysterio
do Amor divino;--mysterio de justia que, de mais a mais, se concilia
maravilhosamente com aquelles mysterios d'amor, dos quaes o inferno
perpetuo seria a negao.

Muitissimo nos espanta que os protestantes o no vissem. Quando tinham
que escolher entre dous dogmas inconciliaveis, um velho e outro novo,
sacrificaram, tanto em nome do Evangelho como da razo, um dos
dois que mais se harmonisava com as leis da razo e a moral do
Evangelho.


                                    V

                                O paraiso

Os protestantes no conhecem termo medio entre paraiso e inferno; os
catholicos, porm, acreditam-no, e segundo elles  o purgatorio ceo
nubloso e triste, inferno onde se ora e espera, e que deve acabar.
Infelizmente os catholicos no enviam todos os mortos ao purgatorio,
crendo que se pde transpor aquelle meio entre ceo e inferno, sem ainda
l pr o p.  similhana dos protestantes, ensinam que muitas almas,
apenas despidas do seu involucro mortal, so despenhadas para sempre no
eterno abysmo, ao passo que outras almas, logo que despedem da terra,
alam-se direitas ao paraiso. Ensinam tambem, uns e outros, que o mais
abominavel patife, convertido  ultima hora, pde morrer contente: eil-o
vai absolvido como o bom ladro; no tem mais que fechar os olhos e
acordar entre os anjinhos.

 isto possivel?  isto verdadeiro? Que  pois o paraiso, e que ida
fazemos d'elle?

Pois que! verei eu do seio da bemaventurana, e na inalteravel
tranquillidade dos justos, verei sem remorso e sem afflico,
encadearem-se a meus ps, j na terra, j no inferno, as tristes
consequencias das minhas iniquidades? Nas minhas noites de
libertinagem, matei; durante o somno de homens que valiam mais do que
eu, assassinei um avro para o roubar, um amigo da minha infancia para
entrar no seu leito, uma mulher que eu havia seduzido e que morreu
beijando-me as mos, pensando em mim, a louca, mais do que em Deus!
D'entre elles os peores que eu feri eram innocentes comparados comigo, e
eil-os mortos intempestivamente, sem terem tempo de se arrependerem;
eil-os engolphados na gehenna, com o corao roido pelo verme que no
morre, gementes, chorosos, amaldioando-me; e eu, seu assassino; eu,
peccador envelhecido na impiedade e agraciado por um milagre, louvarei
Deus eternamente, por me haver feito instrumento da condemnao
d'aquellas pobres almas!

Com as minhas delapidaes, reduzi  miseria e a todas as tentaes da
miseria, e a todos os desvios da desesperao aquella familia que l
vejo em baixo: o irmo vende a irm, a irm vende a sobrinha, o pae
vende os seus juramentos, os seus amigos, o seu paiz; a me arranca-se
os cabellos; todos choram, todos soffrem, todos me accusam, e os seus
gemidos chegam at mim; e eu hei de vr imperturbavel, sem remorsos, sem
dr, aquelles fructos de meus crimes, aquellas ulceras, aquelles
prantos, aquelles opprobrios, aquellas perfidias, aquelles escandalos em
que eu tenho parte; e, pois que Deus se apiedou de mim, eu no terei
piedade dos outros, e o que na terra me affligia, quando eu
agonisava, no me ha de affligir depois da minha morte. Este deploravel
espectaculo, bem visivel a meus olhos, no impedir que eu me saboreie
na felicidade dos escolhidos; convencer-me-hei que vae n'isso o influxo
dos designios do Altissimo, e que o homem, faa o que fizer, no tem que
vr com o resultado das suas obras; e em vez de bater no peito a cada
sobresalto dos meus proprios crimes, a cada repercusso das minhas
proprias blasphemias, a cada reflorecer das venenosas sementes--vestigio
unico que eu deixei da minha passagem na terra--vestirei a alva tunica,
e beberei na taa dos anjos, das virgens, dos heroes, e dos martyres,
como se eu fosse um d'elles.

Na verdade  uma egregia doutrina esta da justificao do peccador, pelo
reconhecimento e pezar de suas culpas; levada porm quelle grau,
similhante doutrina  to incomprehensivel como a do inferno. De uma
demasia nasceu outra: n'uma parte encareceram a justia; na outra
exaggeraram a piedade. Comtudo, entre o castigo infinito por um s
peccado, e o immediato perdo apezar de mil peccados, havia o que quer
que fosse que parece desconhecer-se: a justia sem colera, a
misericordia sem pusillanimidade.

Salvam-nos como nos condemnam, com pouco custo ordinariamente, pois que
se com facilidade nos abrem as portas do inferno, com a mesma nos abrem
as do paraiso.

Considerem entretanto o purgatorio, no como meio entre o paraiso e o
inferno, mas entre a terra e o ceo, ponto que certas almas atravessam
rapidamente e quasi sem soffrer, e onde outros so condemnados a
padecimentos mais ou menos extensos e variadissimos, consoante a
natureza de suas culpas, e disposio no ultimo momento. Este purgatorio
com as suas penas indefinidas, proporcionaes, rigorosas, purificantes,
e, cedo ou tarde, coroadas pelo perdo, no seria um freio moral mais
rijo que o medo das penas eternas, temperado pela esperana da
misericordia na ultima hora, e pela reforma de vida na ultima edade?
Convenho que no haveria medo de ser condemnado sem remisso; assim ;
mas tambem ninguem presumiria de fugir ao castigo com um momento de
contrico, depois d'uma longa cadeia de crimes. D'esta arte, Deus
mostraria melhor o que , justo, mas no cruel; bom, em vez de
tolerante. Que mal lhe viria d'ahi? Commisravos o lastimavel ancio
coberto do sangue das extorses e o tyranno abjecto que sopesou e
corrompeu milhares de homens; tendes d'elles piedade, quando morrem
chorando? tendes razo; mas apiedae-vos tambem de suas victimas ainda
palpitantes, d'essas creanas que elles definharam e ceifaram em flor, e
que vs condemnaes. Piedade e justia para todos. No desespereis os que
vagarosamente caminham sobre os abrolhos da penitencia, mas no lhes
encurteis a escada para os subir ao ceo. Sabei que na outra vida se
chora amargamente o mal feito ao proximo que n'este mundo nos sobrevive,
as desordens que se motivaram, as existencias que se transtornaram, as
quedas moraes que se occasionaram, e que o arrependimento na hora
extrema, posto que grandemente salutar,  apenas o principio, e no o
fim, das expiaes d'uma vida culpada.

 de crer que na Biblia e nos padres da Igreja isto se no encontre
escripto; mas est escripto nas consciencias. Limpem os oculos e leiam.




                            CAPITULO TERCEIRO

                          OS FRUCTOS DO INFERNO


                                     I

                                   O bem

                  (BEM NEGATIVO, MONGES, ANACHORETAS, ETC.)

Se a morte vos sobresalta antes da penitencia, diz-se que sois
condemnado por erro de espirito, por fraqueza dos sentidos, por um lance
d'olhos, por um desejo culposo, e condemnado, sem esperana, tanto como
se houvesseis sido um ladro calejado, um parricida, um atheu. L vos
est esperando o Senhor da vida; e ahi ides enredado em vosso peccado
como ave cahida no lao. E tudo se acabou; tudo, sem que os vossos
longos servios ao genero humano contrabalancem o peccado final!

Se, no entanto, comparaes tudo que se ha mister fazer para ganhar o ceo
ao pouco que basta para cahir no inferno, sereis forado a reconhecer
que as probabilidades so dissimilhantes, e que o mais certo,
faa-se o que se fizer,  a condemnao.

D'onde procede nas imaginaes vivas a dominante preoccupao de evitar
o inferno; e d'ahi, pelo conseguinte, e desde os primeiros seculos, uma
especie de singulares virtudes, mais espantosas que bellas, mais
extravagantes que insinuativas: virtudes falsas, sem utilidade do
proximo, bem que os theologos no'l-as inculquem por ideal da perfeio
christ. Tal  o retiro ao deserto, a renunciao propria, o morrer
antecipado, o fugir combates da vida, o desquite de deveres da familia e
da cidade, a ociosidade contemplativa e penitente, a macerao, o jejum,
o perpetuo silencio, a insulao, o odio ao mundo, a orao entre quatro
paredes. , tambem, a santificao do celibato, como se a fecundidade
dos sexos houvesse sido amaldioada, como se fosse culpa continuar a
filiao de Ado, e virtude esterilisar em si os embries da vida
humana.

E certo  que, admittido o inferno, e a queda original, e o ensinamento
que lhe anda annexo, que outra concluso se colhe? Multiplicar os
homens, para que? para multiplicar os peccados? Se  to duvidosa a
salvao! Se a condemnao  to facil! Para que nos enlaaremos  orla
d'um abysmo onde o esposo pde despenhar-se com a esposa e o pae com os
filhos? Bastantissimos mentecaptos se casam, e povoam terra e inferno de
desgraados. No seria melhor deixar acabar o mundo? Bemaventurados os
celibatarios! Os sabios so os reclusos, os anachoretas, os
eremitas. So como os viajantes que, em navio a pique, desamparam os
companheiros, e salvam-se a nado. Cuidam s do seu salvamento; cada qual
por si; soccorrer o irmo tem o risco de naufragio. Fazei como elles,
navegantes; deixae no navio em sossbro mercadorias, thesouros, e vossas
mulheres, e mes, e vossos filhos, e fazei-vos ao largo: recresce a
borrasca; rasga-se a vela; quem poder salve-se.

Bemditos sejam pois esses foragidos do mundo, mortos ao mundo e seus
modelos, Simeo sobre a columna, Joo no muladar, esses desvariados
todos macillentos, sujos, comidos de insectos. Grande vantagem levam:
no tem que vr com a terra, e j esto meios mettidos no ceo: o diabo
j mal os pde aprezar.

No , todavia, a perfeio dos ascetas aquella que o Filho do homem nos
exemplificou. Trinta e tres annos habitou Elle a terra, e quarenta dias
smente ermou no deserto, no para nos l attrahir; mas, a meu vr, para
nos distancear, pois que foi no deserto, e ahi tam smente, que o
espirito das trevas o tentou. Anteriormente havia Elle vivido trinta
annos com a sua familia; e viveu o restante entre peccadores.  para
notar que nas suas modestas occupaes, sob o colmado do carpinteiro, e
mais tarde nos campos, nas cidades, nas tavernas, em meio do povo que
ensinou, curou e nutriu, no ousou o diabo tental-o!

Mal imita Christo quem foge o mundo que Elle procurava. O
sepultar-se um homem nos antros, a jejuar e a rezar por longo tempo, o
sequestro da sociedade, o silencio, corpos macerados mal enroupados em
pelles, exorcismos furiosos, luctas no vacuo, intrepidez baldada, e
tantissimos outros piedosos desatinos no recordam exemplos do Salvador,
mas sim as aberraes dos sectarios do oriente. No pde ser isto a
perfeio que Jesus veio ensinar aos homens; que tal chamada perfeio
muitissimos seculos antes d'Elle j era conhecida dos pagos idolatras,
que tinham seus corybantes e vestaes, e bem assim dos judeus, mormente
dos Essenios que a tinham aprendido dos magos da Chalda. Tal perfeio
praticavam-a na India fanaticos sem numero, cuja raa ainda subsiste.
Importamo'l-a dos mesmos paizes que nos mandaram a doutrina dos anjos
rebeldes e a da reprovao dos homens--doutrinas cujo natural fructo 
tal casta perfeio. Se o ideal da perfeio humana fosse isto, inutil
seria o christianismo; pois que j os brahmanes a tinham ensinado dous
mil annos antes do presepio, e os bouddhistas a tinham realisado mil
annos antes dos monges da Thebaida.

 certissimo que os bouddhistas no visam exactamente ao mesmo scpo que
os monges catholicos: aquelles buscam em suas austeridades a morte
absoluta, a destruio de sua personalidade, o serem absorvidos no ser
universal, ao mesmo tempo que os monges, se renunciam ao seu _eu_ neste
mundo,  para o retomarem n'outra vida. , comtudo, egualmente
certo que, sem embargo da diversidade dos fins, vigora em ambas as
seitas um principio commum, sendo que por identicas vias e praticas
procuram a eterna bemaventurana uns, e outros o perpetuo dormir, a
eterna insensibilidade. S de per si o desejo do ceo no bastaria a
inspirar a uns o mesmo proceder que inspira aos outros o desejo da
anniquilao: pelo que, no  o desejo, seno o medo que pova os
desertos. Os bouddhistas, por egual com os christos transviados, temem
os soffrimentos infindos, os males sempre a renascer, se n'este mundo
no attingirem a vida perfeita; e tanto para elles como para os nossos
monges, vida perfeita  o absterem-se da vida,  a virgindade, o jejum,
a penitencia, a soledade, o extasis, o antecipar a morte, um complexo de
estereis virtudes, no filhas do amor, seno do mdo.

Tal , na sua mais elevada expresso, o bem que a crena do inferno
produz n'esta vida. Causa espanto que os protestantes hajam conservado
este dogma! , porm, mais para espantar que elles, ao mesmo tempo que o
conservam, destruam os mosteiros e inpugnem o celibato. No ha ahi
imaginar maior inconsequencia! A primitiva Igreja, que elles pretendem
resurgir, cria sem duvida nas penas eternas,  isto mais que muito
verdadeiro; mas pelo menos, operava em conformidade com sua f.
N'aquelle tempo, os esposos, ainda em vigorosa mocidade, guardavam
continencia, sob pena de peccarem, durante o advento e quaresma, e nas
festas e dias de jejum, pouco mais ou menos tres quartas partes do
anno. D'elles alguns, para maior perfeio, no usavam nunca os direitos
conjugaes, e envelheciam sob o tecto nupcial, em voluntario celibato,
denegando-se as frias caricias que o irmo faz a sua irm. Os ricos
empobreciam-se, despojando-se espontaneamente de seus haveres, e os
pobres lidavam para viver, mas descuidosos de amontoar, nem como
previdencias para a velhice e infermidade, nem para legarem a filhos.
Conta-se que desadoravam empregos publicos, e evitavam, como escolhos da
alma, as emprezas lucrativas nomeadamente as commerciaes. Nunca
espectaculos, nem jogos, nem dansas, nem folias. Sobriedade extrema,
vestidos nem apontados nem de preo, jejuns em barda, orar dia e noite,
lucta incessante e pertinaz contra a natureza. O seu distinctivo de
christos era aquelle. Uma leve falta, acareava-lhes a excommunho; e,
antes de absoltos, eram experimentados em seu arrependimento, por espao
de mezes e annos, quando o no eram at morrerem. Em quanto durava a
penitencia, eram apontados, no s nos templos, durante os mysterios,
seno tambem no exterior e nas relaes da vida civil; e, por cima de
ninguem os querer  sua meza, at as esmolas lhes regeitavam.

Diz com raso Fleury que a vida dos nossos monges regulares corre
parlhas com a do commum dos fieis da Igreja nascente, cuja continuao
[2]. E accrescenta[3] que j entre aquelles fieis havia ascetas
d'ambos os sexos vivendo reclusos. Eram os mais perfeitos, e exemplares.
Taes ascetas, verdadeiros ascendentes dos monges contemplativos,
trappistas, cartuchos, carmelitas, claristas, etc., esforavam-se por
imitar a vida de Joo Baptista no deserto e a de Elias no Carmelo.

Curavam elles pois, como j dissemos, uma perfeio diversa da de Jesus:
anhelavam a perfeio negativa, qual os judeus e os orientaes a
preconisavam; judaisavam sem darem d'isso tento, e os christos seus
imitadores continuavam inadvertidamente a tradio, no j de Jesus, mas
de Joo Baptista e Elias, tradio congruentissima com o inferno. J no
tempo das perseguies era povoada a Thebaida; no tinha ento a Igreja
um tecto debaixo do ceo; e s depois que principiou a erguer templos 
que edificou mosteiros, sua primeira obra depois que sahiu das
catacumbas.  pois evidentissimo, em que peze aos protestantes, que o
catholicismo no se apartou do espirito dos tempos apostolicos, nem das
praticas de ento, e que a vida monachal detestada por elles,  ainda
hoje em dia o que outr'ora foi, a mais bella flor, e o mais mimoso
fructo dos dogmas hebraicos, que elles to piedosamente tem
conservado.

    [2] _Costumes dos israelitas e christos_, tom. II, cap. 53.

    [3] _Costumes dos israelitas e christos_, cap. 26.--Citei esta
    excellente obra por que ella  manuseada por todos, e facilima de
    consultar. De mais a mais, depara-nos a indicao das fontes onde o
    auctor bebeu, dispensando-nos assim de as indicarmos n'este livro.


                                    II

              A carmelita ou o ideal da perfeio theologica.

Comvosco admiro as religiosas que, sob diversos nomes e com diversos
habitos, assistem ao genero humano, tanto com suas oraes, com o seu
trabalho quotidiano, com toda a celeridade de seus ps, com toda a
agilidade de suas mos, como com todas as foras de seu ser. Credes que
no  possivel seguir mais do que ellas os divinos vestigios do
Salvador. Ah! quanto vos enganaes! Quanto so baixas e eivadas de
heresia as vossas idas! A perfeio no consiste na vida activa e
benefica das irms da caridade; onde ella est, segundo o ensinamento
dos theologos,  na vida contemplativa.

Se procuraes, senhora, o modlo para vs e vossos filhos,
encontral-o-eis na carmelita, com preferencia  irm da caridade.
Aquella morreu para o mundo, jaz no seu cubiculo como em um tumulo. V
quem quizer agasalhar orphos, ensinar ignorantes, restaurar peccadores,
curar doentes, ensinar officios a servos, dar voz a mudos. Affronte quem
quizer o contagio de nossos vicios! Quem quizer que cure a nossa lepra!
Esses cuidados vulgares no os quer a carmelita para si. Aos ps do
altar, com os braos levantados ao Senhor,  o seu posto. No se bulir
d'alli, ainda que todo o paiz arda ensanguentado. No lhe digaes: vosso
irmo est a morrer; vossos sobrinhos vos esto chamando. No lhe
digaes: arde a peste na cidade;  vossa porta est a maca. Ha muito que
ella concebeu tedio do mundo; no lhes leveis novas d'elle, que
perturbarieis o seu socego. Quanto menos ella se inquieta d'essas
transitorias miserias, mais os theologos a admiram. N'isso
mesmo,--crl-o-eis?-- que est, segundo elles, a sua superioridade
sobre a irm da caridade, cujo corao virginal arfa como corao de me
ao grito da criancinha[4].

A carmelita no pensa, nem tem que pensar seno em sua propria salvao,
e tal pensar  um manancial das commoes que unicamente lhe so
permittidas. Bem que ella viva dez, vinte, cincoenta annos sob o
veo, far todos os dias,  mesma hora e da mesma maneira, a mesma coisa
sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo. So-lhe pautados os
movimentos, e contados os passos. Em todo o curso de sua vida no ha a
menor surpreza, o minimo abalo, o imprevisto, a menor liberdade, ou
elevao espontanea das faculdades moraes. Esto definidas e immutaveis
as suas relaes com todas as coisas animadas ou inanimadas que a
cercam: no se afeioa, no escolhe, no se decide. -lhe prohibido
ganhar affecto a coisas e a pessoas. A abelha  mais livre do que ella
em sua colmeia, e menos inflexivel que as regras monasticas  o
instincto que a dirige. Uma communidade de freiras parece-se a um povo
de automatos e no a um enxame de seres viventes. E essa  que  a
condio pela qual a harmonia subsiste. N'estas sociedades contra
natureza,  prudente que a natureza seja algemada; pois, se lhe dessem
folga, ella se revoltaria; e por tanto  foroso esmagar a liberdade
como cautela para que a licena no vingue.  pois a carmelita em todos
os seus actos mera machina. Tem alma para obedecer e trabalhar na sua
interior perfeio, destruindo em si, cada vez mais, vontades, desejos,
e individualidade at s raizes. Onde est a lucta est a vida. N'esse
immutavel centro, solitario e silencioso, onde se caminha sem mudar de
piso, passa a adolescencia sem curiosidade, e a velhice sem experiencia
nem memoria. Ahi nada se renova; o dia que chega nada promette; o dia
que finda nada deixa;  a vida um livro, cujas paginas em vo se
folham: sobre essas paginas brancas ha uma s phrase, do comeo ao fim,
sempre a mesma: pensa em ti, pensa na eternidade.

Ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro.  mingoa de grandes
e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade, isto , da vida
real qual Deus a fez, a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua
razo, contra seus sentidos, imaginao, e faculdades inactivas. Cr
resistir ao diabo, resistindo  necessidade de operar, de amar, de
saber, e ser util: estafa em puerilidades a sua virtude. Se durante o
officio, uma mosca lhe pousa no nariz,  um caso,  uma provao. Se
est distrahida, assalteam-na remorsos; se impaciente, vai confessar-se
d'isso. Uma pulga  outro inimigo terrivel, outra occasio de grande
queda ou de grande victoria! Um alfinete mal pregado, um vo
descomposto, uma lembrana, um gemido, um pensamento clandestino, o
rastilho d'um rato atraz do armario, um _Ave_ esquecido,  cathastrophe! 
remorso! ruina de Sio! prantos de Job! brados de Rachel! transportes de
Jeremias! Qualquer bagatella a alvoroa como materia de peccado mortal;
qualquer futilidade lhe avulta com propores monstruosas; pesa gros de
areia, e mede os atomos.

Pois se ella conseguiu esquecer sua familia, seu paiz e o mundo, no a
cuideis completamente impassivel como se vos figura: o que ella fez foi
concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros.
Idolatra-se, no ao modo dos sybaritas, mas por um theor que, posto no
seja sensual, no  menos egoista: absorve-se em contemplao de sua
alma; no proprio corao preenche o vacuo de familia e de amigos, e de
quantas creaturas de l expulsou. Contempla-se ssinha, entre o inferno
e o co, a tremer perante um tal espectaculo, e sempre fluctuando entre
estes abysmos, ora nas alturas, ora nas profundezas, passa de um delirio
a outro, e das palpitaes do terror ao extase dos seraphins.

Eu por mim no sei se Deus sorri a taes futilidades, a tal vida que no
 viver, e a tal morte que no  morrer; mas os theologos affirmam que 
n'isto que a perfeio consiste.

E foroso  concordar que elles tem razo, se ha inferno. Se ha inferno,
a irm da caridade  imprudente, e ns, os admiradores d'ella, somos
sandeus. O sequestro mais rigoroso  a consequencia legitima, natural,
necessaria e fatal d'este dogma selvagem. O alicerce, a porta e o tecto
do mosteiro  aquelle dogma, que desata as sociedades naturaes e
viventes avinculadas pelo amor;  elle o occulto liame d'aquellas
sociedades de automatos que no permaneceriam um dia, nem hora, nem
momento, se tal dogma fosse proscripto. Sem inferno, a vida claustral
no se percebe; com inferno, no ha imaginal-a mais a ponto, e 
obrigatorio confessar que, de feito, a perfeio est n'ella, visto que
a razo est com ella.

No obstante, filhos do seculo, no renuncieis afogadilho de
seculo, que vol-o prohibem os theologos.

Ficai entre peccadores, no foco das tentaes, dos escandalos, dos
erros, e das ciladas que vos tramam. Razoavel coisa seria fugir para o
porto seguro que vos offerecem; mas no vades; continuae a navegar entre
restingas,  merc dos tufes, aos clares dos relampagos. O convento
no vos quadra; porque no foi feito para muitos.

Entendo, direis, que o convento se abriu para os entes mais debeis, para
os incapazes no s de ajudar a outrem, mas tambem da mesma mente se
salvarem, sem se arriscarem s tempestades. Faz-se mister s almas
frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro, a proteco
das gradarias, a escravido, as regras, o vo sobre os olhos, a mordaa
nos labios; sem o que se perderiam. Em quanto os valentes combatem, vo
ellas esconder-se longe do inimigo.

No seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos, fallidos de
animo, cahidos por terra, feridos de suas proprias armas, e quem sabe se
alguns heroes alanciados no corao! Entendo, direis, que o claustro  o
refugio dos pusillanimes, o porto dos naufragados, o hospital dos
infermos, e aqui se mostra a apparente razo porque nem toda a gente l
pde entrar.

Est enganado o duro leitor, que nada percebe dos mysterios theologicos.
Saiba pois que o claustro  o asylo dos fortes; e que s l so
recebidos os athletas a primor, mais puros e intrepidos, a flr da
juventude christ. No soffre a menor duvida que  mil vezes mais de
perigo a sociedade onde os soccorros so muito menos do que os retiros
abenoados. Que nos faz isso! De logar abrigado e onde a graa
superabunda  que os poucos so repulsos, com quanto, ao primeiro
intuito, nos parea creado para elles; ao mesmo tempo que do baluarte
das luctas angustiosas se retiram os fortes, com quanto parea tambem
este o seu logar proprio.

Os coxos, os cegos e os inermes so postos na lia sanguinosa; os mais
aguerridos soldados enclaustram-se. Espantem-se e riam-se, que a coisa 
assim; e, seno, perguntem-no  Sorbonna.

E assim  preciso que seja, pois que a perfeita vida  a claustral, que,
no entender dos theologos, vem a ser a mais avssa s inclinaes de
nossa natureza viciosa, e, por conseguinte, a de mais difficil
observancia; mas, porque  impraticavel na sociedade, no se lhe
dispensa de ser exemplo  sociedade; e, sem presumpes de l chegar,
devemos propender para ella continuamente, visto que estamos tanto mais
 beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita.

Que se hade fazer, pois? Eis o problema. Cada qual tem no mosteiro um
trilho feito, e o futuro certo, portanto est quite de cuidados que fra
d'ahi seguem a pobreza, o trabalho, e at a riqueza, alm das
responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade
livre, n'um viver sempre fluctuante.

No mosteiro  tudo exemplos edificantes; e, posto que seja defezo ahi
grangear um amigo, em compensao no se adquirem inimigos.

Nem impeos, nem disputas, nem conflictos, males que a liberdade produz,
sendo que a servido lhes esmaga os embries. No exterior  tudo
recolhimento, paz, ordem, silencio, e esforo; perturbaes, se as ha
l, vem do intimo e do recondito do nosso ser. O unico inimigo que ahi
ha que recear  o diabo, tal invisivel e impalpavel adversario que todos
trazem comsigo, fracos e fortes, mundanos e frades; porm tal inimigo
perde no claustro boa parte das suas prerogativas; porque alli no est
elle como em sua casa, e no seu reino: so-lhe menos os ministros, os
vassallos, e os recursos. O recluso, afra a pessoal energia de que 
dotado e lhe assignala a vocao, topa ahi de todos os lados conselhos e
amparos; e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo,
soccorre-se de mil auxilios, que faltam ao homem do seculo, e, mo grado
a sua fraqueza original, vence-os. Que fazemos pois n'este misero mundo
em que a infermidade nos algema? Ha aqui o rir, o chorar, o renhir, o
disputar, o abraar-mo-nos, o odiarmo-nos, perseguirmo-nos, e o
aniquillar-se o homem contra homem:  uma reluctancia sem fim, e sem
regra, um retinir de espadas, um estrondear de martellos, de carros, de
machinas, de cantares, de gemidos, um chos, uma desordem, da qual a
clausura no poderia dar-nos sombra de ida. Aqui, so mil os objectos
em que a alma anda repartida; as diminutas foras que temos
dispersam-se. Acol o inimigo identificado comnosco, traz escolta de
auxiliares, e a lucta interna de que ninguem se izempta, complica-se com
as luctas externas e inevitaveis. Cada homem tem de bater-se com uma
legio. Quantos cuidados! Quantos deveres! Quantas incertezas e
anciedades! Quantas encruzilhadas sem nome, sem pharol, sem sahida! Que
poeiras, e que sombras!

Considerae aquella me de familia a quem encareceis as virtudes da
carmelita.

 pobre, todos os seus parentes so pobres, os filhinhos rotos,
famintos, quasi sempre doentes, o marido alquebrado do trabalho, ou que,
desanimando, se envileceu e a espanca, um patro, um proprietario,
credores, mestres, amos, amigos, e que amigos! conselheiros, mas
conselheiros de Job! Se tal me  rica, tem uma casa que reger, creados
a dirigir, os quaes nem fizeram voto de pobreza, nem de obediencia;
filhos a educar, sagrados interesses que defender, relaes que receber,
um marido a contentar, quer seja honrado ou no, quer seja piedoso ou
impio. Com vontade ou sem ella est continuamente a braos com as
paixes alheias, com caprichos, interesses, vontades e affectos
contrarios; de continuo em face de circumstancias imprevistas, casos
litigiosos e incertos, onde lhe  foroso resolver-se quando qualquer
resoluo  perigosa, no o sendo menos os perigos, se se absteem. 
preciso que ella, se quer salvar-se, seja a um tempo economica e
caritativa; communicativa, mas discreta; umas vezes branda, e outras
inflexivel; expedita, mas reflexiva; previdente, mas conformada a todos
os sobresaltos da fortuna; que viva ao mesmo tempo em si, e nos outros,
para si, e para todos: misso indefinivel, cheia de contrastes, de
atravancos, de cruzes, mais ardua e mais difficil que a misso da
freira.

Digam embora que esta me de familia tem na sua miseria satisfaes,
tranquillidade e jubilos que no goza a carmelita: depende isso de saber
se os jubilos de que fallam so comparaveis s dres que a freira
ignora. De mais, esqueceis que esses prazeres so um engodo e que se
prendem n'elle sem o conhecer, e se prendem tambem quando o conhecem. A
saciedade, o desgosto, e o cansao so as naturaes barreiras da
voluptuosidade. Chegar at ahi a mulher christ? No o permitta Deus.
At onde ir?  ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito;
e, quando o limite se procura, onde fica elle j? Raras vezes estamos a
ss com a serpente como Eva no Eden, e a freira na cella.  mesa e em
toda a parte ha quem vos distraia, seduza e arraste; bebemos sem sde;
est a bocca repleta, mas os olhos famintos; o gozo que satisfaz a
preciso aguilha o desejo. Quem houver de parar a tempo na ladeira onde
o aventurarmo-nos  permittido, ha de ter mil vezes mais vigilancia,
cuidado e poder sobre si, do que lhe seria preciso para l no pr o p.
Conceder alguma coisa  natureza  contiar o fogo que quizeramos
extinguir;  alimentar o leo que desejaramos estrangular. Das
delicias menos carnaes, toucador, conversao, emprego de teres e do
tempo,  ainda mais desconhecido o limite, maior a liberdade, e mais
temivel a responsabilidade.

No me fallem de umas satisfaes mentirosas que o terror empeonha
quando se pensa n'ellas, e que o inferno cora, quando se no pensa no
inferno. Por certo que  duro, mas o mais prudente  regeital-as. A
absteno  uma lei simples, clara, e breve:  bastante que haja coragem
para a praticar sobretudo nos votos conventuaes. A freira, com o andar
do tempo, afaz-se  lucta; curva-se ao jugo; os sentidos privados de
excitaes amortecem, at que, por fim, a coragem se torna to inutil
quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder. Mas, se a
lucta intima se prolongasse, a freira para evitar os desvios e as
fugitivas rebeldias do corpo e da vontade, careceria de ter at ao seu
derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos, o cilicio na cintura, e o
terror na alma. Assim , mas que importa? Comparado aos soffrimentos de
uma me, o que  o cilicio de uma virgem? Quem ousar comparar essas
duas existencias? Comparar receios pessoaes com receios generosos?
Combates sem testemunhas a combates exemplares? Trabalhos infructiferos
a fecundos suores? E fallando sisudamente, e na melhor f, se uma
d'essas duas pessoas devesse copiar a outra, no  de certo a me que
deveria servir de modelo? A irm da caridade no  j de si me? E
a esposa de Jos que trouxe em seu seio, e nutriu com seu leite o Filho
do Homem, e ao p da cruz lhe recebeu o ultimo alento, no foi ella, em
sua amargura, a me adoptiva de Joo, o amigo d'Aquelle por quem
chorava?

Que jactancia  essa ento d'um desprendimento de affectos e vontades?
Para que querem insinuar em nossos lares taes inquietaes, terrores e
escrupulos, unicas occupaes do claustro? E para que , em nome do ceo,
sobrecarregar de jejuns e abstinencias a jornaleira, a camponeza, a me,
que j vacillam sob o fardo do padecer e trabalhar?

V-se que theologia e bom siso so coisas infelizmente contradictorias.
V-se que seria preciso abolir o inferno para que depois viesse a
renuncia das maceraes, terrores e falso ideal que um claro
entendimento reprova.

Mas porque no se apaga o inferno? Extincto elle, brilharia o purgatorio
com luz mais viva e salutar. O inferno  que faz odiosa a liberdade,
rebaixando-a e vilecendo-a; o purgatorio volve-a estimavel,
realando-lhe bellezas, dignidade e grandeza, sem lhe dissimular os
perigos e as penas. Quem cr no castigo eterno, enterra o talento para
que o Senhor lhe no toque. Quem melhor conhece o Senhor e sua justia
faz render cinco talentos em casa do banqueiro, arriscando-se a
perdel-os. O purgatorio actualmente de que vos serve? Dizem que a pobre
carmelita se abalana a l arder milhares de annos, por causa de
algum secreto estremecimento do seu corpo que ella tanto
disciplinou; por causa do captivo espirito que to enfreado trazia, ou,
emfim,  conta do corao generoso, cujas pulsaes tantas vezes
abafra.

O purgatorio deve aterrar principalmente a freira e os que vivem como
ella; ora os mundanos no tem razo de se affligirem, antes devem
consolar-se, pensando n'aquelle logar de supplicio. A ns, filhos do
seculo, no nos  racionalmente permittido aspirar quella dolorosa
felicidade, que  castigo dos sanctos e o seu primeiro galardo ao mesmo
tempo. Em vez, porm, de o desejar, e desejar em vo, como ns o
temeriamos, se elle fosse a unica estancia em que se cumprisse a justia
de Deus! Que mudana se faria em tudo d'este mundo! A perfeio e a
salvao no estaria na ociosidade em joelhos, no terror em orao, no
fugir ao proximo, no entregarmo-nos a algumas privaes e dres
corporaes, arbitrariamente substituidas s dres e sacrificios de uma
vida proveitosa. Ento se entenderia que ha dous modos de abusar de
nossas faculdades, uma que est no desprezo d'ellas, com receio de as
usar inconvenientemente; outra que consiste em nos servirmos d'ellas
indiscretamente e ao avesso das intenes da Providencia que nol-as deu.

A doutrina do Evangelho no  doutrina de absteno;  doutrina de
aco: causa porque o purgatorio lhe quadra melhor que o Evangelho.
Carecemos menos de frades que de christos. Se o inferno refreia o mal,
tambem impede o bem. A ameaa seria salutar; mas ella faz mais que
ameaar, empedra como a cabea de Meduza quem a encara a fito. Tende a
supprir com uma especie de passibilidade estupida a livre e intelligente
actividade da alma. No derime o egoismo, exalta-o a mais no poder, e
tal exaltao devidamente localisada no deserto, n'uma gruta, no
claustro,  medonha de vr-se no seio das familias.

    [4] Elles comparam as irms da caridade quella mulher de Bethania
    chamada Martha, a qual, vendo entrar Jesus em sua casa, se deu
    pressa em lhe servir a ceia; e comparam a carmelita  Magdalena que,
    em vez de ajudar Martha nas suas diligencias, lavava e perfumava os
    ps do divino hospede, enxugando-os com os seus cabellos. Diz porm
    o Evangelho que Jesus estava  meza quando Magdalena lhe abraou e
    ungiu de lagrimas os ps. No ha palavra na relao dos apostolos,
    d'onde possamos colher que  melhor orar pelos famintos do que
    alimental-os. O contrario  que l se diz; e quando Jesus nos faz
    assistir de antemo ao julgamento do dia final, exclama: tive fome,
    e vs me alimentastes; tive frio, e me vestistes. A scena de
    Bethania, e o louvor dado a Magdalena, no desluz o claro ensino do
    Evangelho. Este episodio prova smente que no basta alimentar os
    pobres, mas que tambem  mister instruil-os como filhos de Deus, os
    melhores amigos de Jesus, e sua visivel imagem na terra: o que
    rigorosamente fazem as irms da caridade, e no fazem as
    contemplativas.


                                    III

            Discurso de uma mulher de sociedade que havia tocado
                     a perfectibilidade theologica

De que serve amar-se a gente n'este mundo? Acaso nascemos uns para os
outros?

Somos apenas companheiros de viagem que uma eventualidade ajuntou por
momentos, mas que breve se ho de apartar, e talvez para sempre.
Prestemo-nos de passagem alguns servios, mas por amor de Deus, sem nos
ligarmos reciprocamente. Por que ha de a gente amar-se? Vs que me
ouvis, sabeis quem sou? E eu que vos fallo sei quem vs sois? Tendes um
ar angelical,  meu irmo, mas o interior de vossa alma no o vejo; o
semblante do homem  enganador; a sua lingua  atraioada, as suas
proprias virtudes so perfidas.

N'este mundo  tudo armadilha e mentira. Que demencia o amar, quando,
com certeza, ninguem pde fiar-se d'outrem! Que injustia querer um que
o amem, quando nem a si mesmo se conhece alguem, e a cada hora se
altera o genio, e ninguem pde fiar mais da durao de seus sentimentos
que da durao de sua vida! Viajamos mascarados, s conhecidos de Deus,
mas to occultos a ns mesmos quanto aos outros. A que propendemos? Mal
o sabemos, to fluctuante  a nossa razo. Se melhor nos conhecessemos,
a maior parte de ns se mutuaria rancores; em vez, porm, de se odiarem,
os homens se entre-buscam no seio das trevas, attrahidos pelo mysterio
que os innubla, e que devra, se elles fossem discretos, afugental-os
uns dos outros.

Ah! no nos amemos, no nos amemos! Ai d'aquelle que d seus amores 
creatura! Ai dos que se amam sobre a terra!  sombra que abraa a
sombra,  o nada que se une ao nada. Amavel  s o bem: o restante 
detestavel. Meu pai, honro-te e sirvo-te, por que vai n'isso um dever
meu, e porque podes ser, sem que eu o saiba, um santo; amar-te, porm,
no posso, porque, se n'este instante morresses, ninguem me certificaria
de que Deus te perdora. Eu devo amar em ti, smente o bem occulto que
ahi pde estar, e o amo em ti como nas outras creaturas, sem predileco
por alguma; porque esse bem occulto no provm d'ellas; e, se em ti
existe--o que eu no sei, mas muito desejo--no procede de ti. No te
julgo, meu pai. Se eu escutasse o sangue, creio que te amaria at
culpado, unicamente porque s meu pai, e eu me lembro de ter dormido em
teus braos. Mas estes momentos da natureza corrompida j eu
venci. Nada me s. Tracto da minha salvao servindo-te e
honorificando-te; mas amar-te seria perder-me, por que amar o homem em
si mesmo  amar o peccado. Na outra vida no ha maridos, nem esposas,
nem paes, nem filhos, nem familia. Pais e filhos, mes e filhas, irmos
e irms sero separados no dia do juizo, desatados todos os vinculos.
No amemos ninguem, ninguem! J pde ser que o inferno se esteja
escancarando para aquelle que amarmos, e quem sabe se ns no cahiremos
l tambem empurrados pelo nosso amor? Nada de sentimentos cegos; nada de
sentimentos corruptores. A ternura do homem  um disfarce de odio; e
mais valera que elle nos odiasse francamente. No amemos ninguem!
ninguem! Pde ser que por ao p de ns andem condemnados, cujos nomes
ignoramos. No amemos alguem, que nos no v sahir algum reprobo.

Sou tua serva,  meu esposo; servir-te-hei, obedecer-te-hei; e para te
agradar o dever me forar a cumprir o que me pedires do corao, que
no  teu.

So doentes os nossos filhos? Por que te assustas? So hospedes que te
foram confiados, e que tu deves esperar vr irem-se ao primeiro aceno de
quem t'os mandou. Eu que os trouxe no seio e os criei, vel-os-hei ir,
sem lagrimas. Quem sabe onde iro quando nos deixarem? Cumpria que lhes
vissemos o fundo d'alma para os amarmos. Praza a Deus que elles morram
na sua divina graa!  o meu mais ardente voto; e, se mais alm eu
fosse, a minha ternura seria fraqueza. Se elles vo ao co, hei de
eu chorar-lhe tamanha dita! E se so condemnados.... No amemos ninguem,
ninguem, nem os nossos filhos sequer! Familia temos s uma:  Deus com
os seus anjos, e confessores e santos. Tudo mais no merece uma lagrima
nem um sorriso. Roguemos, por tanto, uns pelos outros, filhos do
peccado, mas nada de nos amarmos.


                                    IV

             Discurso de um mundano, aps bastos estudos cerca
                        da perfeio theologica

Em continuo pavor do inferno viveram os santos: oraes, jejuns,
cilicios, meditar nas escripturas, vigilias ao p da cruz, benos de
pobres soccorridos por elles, perpetua immolao, indigencia de cella,
ninhos de palha, alimento a po e agua, nem com tudo isto socegavam.
Viviam como anjos, e temiam. Tremiam guerreiros, padres, doutores,
pontifices--Mauricio  frente da sua legio; Gregorio, o Grande, sob a
tiara; Agostinho, no pulpito; Jeronymo, em suas estudiosas viagens;
Antonio e Pacomio no reconcavo das penedias. Noites alvoroadas de pavor
passava Thereza no claustro. Nem a innocencia da vida, nem a adoravel
castidade das almas, nem a tunica immaculada, nem as mos impollutas,
nem o acerbo arrependimento dos penitentes, com o rosto sulcado de
lagrimas, nada, nada lhes aquietava o medo da colera divina.
Redobravam cada dia austeridades e sacrificios, persuadidos de que
no mereciam a misericordia que to precisa lhes era.

Ah! se a alma s assim se salva, perdidos estamos todos,  meus amigos!

Bem ouo o theologo que nos diz: No  assim; a salvao ganha-se com
menores trabalhos. Deus no exige que todos os seus filhos sejam
egualmente perfeitos. Mas ao theologo respondo: Ests perdido como ns,
tu e tambem os teus mestres, e os teus discipulos, estaes perdidos
todos. Os exemplos que nos cumpre seguir so os dos santos, no so os
vossos. Mostrae-nos na Legenda um s santo que subisse ao co pelo
caminho commodo que descobristes. Debalde hei buscado, com fim de o
imitar, um homem meio santo e meio peccador, servindo Deus e o mundo,
temendo, como eu, a miseria, a dr, as humilhaes, condescendente
comsigo proprio, almejando viver no corao de outra creatura, chorando
sobre as illuses esmaecidas como Pedro sobre o seu peccado. No
encontrei tal homem. O mais que vi foi milagres de stoicismo, maridos
que deixavam as mulheres, mulheres que deixavam os maridos, filhos que
fugiam ao abrigo dos paes, ricos que todos seus haveres dispendiam,
bispos que fallavam verdade aos reis da terra,  custa da vida at;
ninguem que se contentasse de cumprir no rigor da palavra os preceitos
de Deus e da Egreja; por toda a parte almas ardentes de zelo
super-natural, tendo apenas de humanas os incanaveis escrupulos, os
inquietos terrores; justos sem socego, penitentes sem repouso,
virgens lagrimosas e anachoretas angustiados.

Vs, porm, que vos quereis salvar e salvar-nos com menos custo; vs,
que viveis regalados em quanto o Christo mendiga  vossa porta; vs que
tendes riquezas ao sol e riquezas  sombra, quando na vossa parochia
tantas familias laboriosas carecem do mais urgente; vs, que cubiaes a
estola, a mura ou mitra; e achaes nas Escripturas louvores para outrem,
alm de Deus, oh! quanto differentes sois d'aquelles heroes christos
cujas imagens campam nos nossos altares! Sois o que somos: haveis mais
pavor das praticas dos santos que do proprio inferno; espanta-vos e
desespera-vos a perfeio d'elles; a pesar vosso, amaes o que elles
aborreciam, e aborreceis o que elles amavam; as vossas virtudes so
mesmamente humanas, taes quaes as nossas, que no vem do alto, que se
enroscam nos nossos vicios e nos acorrentam ao demonio.

Ai! que perdidos estamos,  meus amigos! Que lucramos em fechar os
olhos? Estamos todos condemnados! Que monta o desprezo proprio pregoado
pelos labios, se no intimo do corao tendes a propria estima sempre
desvelada? Que aproveitam as momentaneas converses, seguidas de quedas
mais desastrosas? Que vos fazem certas privaes associadas a tanto
regalos? Em verdade vos digo que estamos perdidos!

Ora pois, se assim , se o abysmo est aberto e o cahir  irremediavel,
cerremos os olhos e no cogitemos mais em tal. Entre o co inacessivel e
o inferno d'onde no ha mais sahir, resta-nos um momento s: gozemol-o,
 meus amigos. Que  isto de estar a gente a empeonhar, com terrores
vos, prazeres, to raros quo fugitivos? No pensemos no que ser;
pensar n'isso e desesperar  a mesma coisa: desesperar de entrar no co,
e desesperar de sahir do inferno. Saboreemos o presente. Vivamos
terrenamente: aqui ha creaturas ridentes que nos alegram, fragrancias
que nos deliciam, e licores que atrophiam a memoria.

Quem  ahi o sandeu que falla em inferno? No ha inferno, minha me!
Conclue em paz os teus dias extremos. No contristes com vises
pavorosas essas creancinhas que te escutam, e que talvez falleam antes
de ns. Ride,  meus filhinhos: a vida vos ser breve e repleta de
miserias, quando crescerdes.

Eu desejo, senhora, que a minha casa seja manso de jubilos e no de
tedios: quero ser amado pelo que sou e no por caridade; quero ser
obedecido amorosamente e no com submisso de escrava; alis, buscarei
quem me ame, e me corresponda. Engrinalda-te de rosas, minha bella! No
ha inferno, e o paraizo tem-l'o ahi  mo. Enche-me o copo, e dorme
placidamente nos meus joelhos. Amar! amemo'-nos, at  morte; que da
morte para alm comea o odio!

Ah! que bizarra inveno no foi esta do inferno! Um abysmo para onde
naturalmente nos inclinamos, attrahidos, impellidos por quanto ha,
cahidos em fim, e depois, o abysmo... fechado para sempre! Oh! primorosa
perspectiva para que faamos da terra uma estancia de delicias
peccaminosas!


                                     V

                                 O rebanho

Se no fosse preciso crr na eternidade do inferno, e no pequeno numero
dos escolhidos, e na inevitavel condemnao da maior parte dos homens,
eu odiaria como vs os prazeres da vida; o sermo de Jesus na montanha
se me figuraria mais bello e intelligivel; eu entenderia a felicidade
das lagrimas, as delicias da pobreza e a doura de todos os sacrificios.

Quando, porm, se me diz que no  bastante haver chorado e soffrido
muito n'este mundo para ganhar o perdo divino; quando se me diz que
nada vale affrontar a ira dos tyrannos, defendendo, a verdade que os
fere, ou o direito que elles avexam; quando me dizem que nada monta
morrer no patibulo pela liberdade da patria ou no campo da batalha pela
sua independencia; quando me dizem no importa nada envelhecer na
miseria por haver preferido a honra s honras, o estudo  opulencia, o
trabalho aos prazeres; quando me dizem que tudo isto  fumo, que estas
dores, esta coragem, privaes, heroica vida, heroica morte, no podem
resgatar minha alma d'um peccado mortal, e aos olhos de Deus no
valem o cilicio d'um frade, ou a confisso de um salteador agonisante;
ah! confesso que, ao dizerem-me estas cousas em todos os pulpitos
christos, no entendo o sermo da montanha, e pelo contrario comeo a
comprehender os prazeres d'esta vida.

Vdes aquelles pescadores que em fragil barquinha vo arrostar as ondas
do oceano, e vogar, por dias, semanas e mezes, longe da praia,  merc
das tempestades para ganharem,  custa de mil perigos, o po de seus
filhos?

Vdes aquelles telhadores na aresta do vigamento? aquelles mineiros
sepultados nas entranhas da terra, longe dos raios beneficos do sol?
Vdes o lavrador curvado sobre o sulco? o pallido tecelo diante das
machinas devoradoras? tanto operario sem nome avergado ao pezo de um
trabalho ingrato e sem descano? Pois a maior parte d'aquelles 
condemnada, por modo que os seus soffrimentos n'esta vida so preludios
dos que l os esperam na outra. Aquella me que no pde vestir seus
filhos, e que relana olhares invejosos ao palacio visinho, onde os
cavallos medram mais fartos que os filhinhos d'ella;--aquelles mendigos
que vagamundam nos campos; os orphos que se recolhem aos hospitaes; os
soldados que marcham para as fronteiras; os proscriptos esquecidos no
solo estrangeiro, condemnados, quasi todos condemnados, meu Deus! Um
repleto conego, risonho e bochechudo, sem familia nem cuidados,
repastando-se quatro vezes por dia, mas sem escandalisar ninguem,
baixando a vista em presena das mulheres, pontual nos officios, est
mais visinho do co que todos aquelles desgraados; e mais perto ainda
do co est um sancto anachoreta. Chorar, soffrer, trabalhar no  nada.
Se choram, no choram as suas culpas,  a miseria dos filhos; se
trabalham no  por penitencia, mas sim para grangear commodidades.
Lagrimas de Babylonia, diz S. Agostinho. Avidos suores, vs angustias!
Muitos seculos ha que d'est'arte se lhes explica o sermo da montanha, e
elles nem o comprehendem nem jmais o entendero.  bem de ver que no
vivem  maneira dos santos legendarios, nem dos conegos prebendados. Os
que sabem lr pouco lem,  falta de tempo. Muitos no vo  egreja, e
os que l vo sahem como entraram. So profundamente ignorantes. A dura
necessidade dobrou-lhes a cabea sobre o torro que regam com o seu
suor; e a natureza, que lhes brada das entranhas da terra, diz-lhes
cousas que elles percebem mais a preceito que os sermes. O estridor e o
vapor das materias da sua obragem cega-os e ensurdece-os. No sentem
fome nem sde da palavra divina, qual lh'a ensinavam algum dia.
Digam-lhes que um eremita vae melhor do que elles, por que abandonou
officio, casa e parentes, e todo se vagou  salvao da alma, e que ha
vinte ou trinta annos resa, jejua e se disciplina, dizei-lhes isto que
elles vos desfecharo uma gargalhada; mas, se ao mesmo tempo passar um
soldado de bigodes brancos, ou algum recruta aleijado em Africa ou
Italia, ou algum repatriado do desterro, em vesperas de para l voltar,
se a occasio o exigir, elles o saudaro respeitosamente. Que apparea
um velho sem occupao, uma viuva com filhos maltrapidos, e elles se
fintaro para soccorrl-os. Contae-lhes casos de bemfazer e lanos de
gratido, vl-os-heis commovidos. As virtudes d'esses infelizes so,
para assim dizer, selvaticas, probidade orgulhosa, amizades humanas, mas
apuradas at  abnegao, instinctos lucidos do que  grande e formoso,
mas formoso e grande pela craveira das coisas d'este mundo. De par com
isto ha falhas, e at crimes. Impacientam-se, praguejam, largam a redea
aos desejos, porque, no seu modo de pensar, se no ganham, tambem no
perdem. Vivem  beira das charruas, das crtes, das forjas, e nas
abegoarias. Este viver influe-lhes na linguagem e nos costumes. No tm
alma que se ale longo tempo e ao alto sem que as azas lhe falleam: 
que pezam n'ella os cuidados terrestres. Ventilam problemas que no
podem resolver. Desconsolados do seu destino, perguntam porque ha ricos
e pobres, e porque, no outro mundo, sero condemnados, depois de tanto
haverem trabalhado e gemido n'este?

O inferno no os apavora muito mais que a morte. Affizeram-se desde a
infancia  vaga ida de que ho de ser condemnados, seguindo a trilha
commum da vida; todavia, apezar do proposito feito, nem por isso um
terrivel pezo deixa de lhes aggravar o fardo das dres quotidianas. O
sino que dobra, o sahimento que passa, o doente que vae para o hospital,
o pedreiro que cae da parede, o obreiro apertado entre o encaixe de uma
roda e triturado nos dentes d'ella, os terraplenadores sotterrados nas
saibreiras aluidas, os marinheiros comidos pelas vagas, o typho que
devasta um bairro inteiro de operarios, mulheres sem maridos, paes sem
filhos, filhos sem mes, tudo isto por vezes lhes relembra o Deus
rancoroso que lhes prgam, e as surprezas da morte, e os perigos de sua
precaria existencia, e com as miserias que findam outras que principiam,
para nunca mais acabarem. Este povo assim  como um rebanho que se leva
ao matadouro, aguilhoado pelos pastores, lacerado pelos ces,
atormentado pelas moscas, canado, sanguento, sequioso, abatido,
estupido.

Compadecei-vos, pois, d'esses que nunca vos daro bons ermites. No ha,
por ventura, um ideal mais aceitavel e ao mesmo tempo mais puro que lhe
mostreis? No ha seno esse a que aspira o ente sem familia, sem
ligaes e cuidados d'este mundo? Se, ao menos, podesseis annunciar-lhes
a justia de Deus sem os assombrar! No so j de si que farte
mysteriosas e raladoras as dres d'esta vida? No ser de mais
rematal-as com o terribilissimo mysterio do inferno? Pois se tendes a
certeza que sero condemnados no trem de vida que levam, deixae-os
respirar, e beber, e rir e danar, em quanto o animo e tempo lhes no
faltam; que a desesperao poder leval-os a peores excessos.

 pobre genero humano! Ser preciso que o Christo desa segunda vez do
co para te instruir, e que outra vez seja vindo e crucificado para
salvar-te?




                             CAPITULO QUARTO

                        OUTROS FRUCTOS DO INFERNO


    O mal que produz o inferno.--Incredulidade, desalento, desesperao

Esquadrinhando o bem que procede do inferno, j divisamos o mal que
produz. Bem negativo e limitadissimo; mal positivo mas profundo,
extensissimo, apenas por em quanto entre-vimos. Faz-se mister examinal-o
mais pelo miudo. No perderemos o tempo.

 facto incontestavel que a maior parte dos homens se occupa menos de
co e inferno que das precises, interesses, prazeres e dres da terra.
A Egreja o confessa admirada e lacrimosa. Por que se admira? Que remedio
seno ser assim? Pois acaso pde toda a gente retirar-se ao deserto?
Pois todo o encanto da vida se apagou? Os direitos da natureza foram
abolidos?

Na sociedade cuja moral se funda sobre o medo das penas eternas,
todo movimento paralysaria, se instinctivamente, e por necessidade de
viver, no viesse o esquecimento d'esse tremendo futuro. A esperana do
ceo no bastaria a contrabalanar os effeitos de tal susto, mormente
quando nos affianam que a porta do ceo  estreita, e que o inferno tem
milhares de portas sempre abertas.  medida que esta crena se incutir
nas turbas, assim ellas ho de lidar por esquecel-a, abafando-a no seio,
sem querer sequer meditar n'isso. Quanto mais pura, exigente, austera e
angelica fr a vossa moral, tanto mais impraticavel vol-a ho de
considerar; e, se a fundamentaes no inferno, fechar-se-ho os ouvidos ao
vosso apostolado, e ninguem querer sequer aproximar-se d'aquella
perfeio immaculada, que smente florece em estufas claustraes, que se
desbota ao leve bafejo do homem, e s est ao alcance de ociosos.

Se no inferno to smente fossem castigados certos crimes monstruosos e
excepcionaes, mas claramente definidos, taes como o assassinio, o
incesto, o estupro, poder-se-hia ainda examinar a justia de to
exorbitante penalidade: ao menos cada qual sabia quando lhe era
applicada a pena. Porm, se vo s chammas eternas o avro, o gloto, o
preguioso, o prodigo, o orgulhoso, o invejoso, o impaciente, o
maledico, o voluptuoso, o incontinente, o ambicioso, o calumniador, o
usurario, o mentiroso, o hypocrita, o lisongeiro, o ingrato, o
philosophante, o rebelde, etc., etc., etc., congela-se o sangue nas
veias; ninguem ousa vender, comprar, emprestar, traficar, fallar,
pensar, beber, comer, respirar; por quanto, quem sabe onde comea a
avareza? o orgulho? e a lisonja, reverendissimos senhores, onde comea a
lisonja? e a usura? e os limites da temperana quem os abalisou?
Occasies, tentaes e perigos em tudo!

A questo no  saber se ahi ha crimes hediondos e puniveis: ninguem
nega que os haja;--o que se tracta  de saber se  racional e discreto,
e se os bons costumes lucram, que nos ameacem com eternos castigos, por
peccados que mal podem definir-se. Quem ha ahi isempto de seu tanto ou
qu de orgulho? Quem se presume bastante sobrio, bastante comedido nos
prazeres licitos, menos egoista em suas legitimas affeies, menos
desinteressado em seus lavores e mercantilismo, bastante paciente nos
revezes e resignado nas desgraas? Quem se cr assaz justo, caritativo e
perfeito? Ao parecer dos theologos, uma tal presumpo seria peccado
capital, at nos conventos, at para os anachoretas envelhecidos em
abstinencias e oraes. Ninguem sabe ao certo o momento, o ponto em que
um acto licito descahe no illicito; que dse de alimento quadra  sua
saude, e onde no rico principia o superfluo, que  o necessario do
pobre. Para que vem seis pratos  meza? Se um basta, para que so dois?
A regra onde est?

Cautela! esse copo que chegaes aos beios risonhos, em vez de vos apagar
a sde, vae abrazar-vos em sde eterna. Cautela! Theologo nenhum
poder dizer-vos exactamente o que vos cumpre dar, o que vos
cumpre no dar; e o caso  que, se vos enganaes com tal incerteza, folga
o diabo. Um padre da Egreja, um papa, um santo, Gregorio o Grande, no
disse que Deus nos arguiria de peccados que antes de morrer no
conhecemos?

Estas e outras mais terriveis cousas podeis lr no _Quotidiano do
Christo_, livro approvado e recommendado por todos os bispos, e que anda
em mos de creancinhas. Portanto, verdadeiras ha s duas cousas: a
condemnao, se nos enganamos, e a absteno para nos no enganarmos.

Mas a absteno no  viver. Viver  a actividade inteira, incessante, e
arriscada a peccar.  lei do genero humano viver e perpetuar-se. No
nega, mas esquece os dogmas oppressores que lhe pesam na alma, e a cada
passo lhe apontam aberto um alapo do inferno. Vivem os homens n'uma
especie de indifferena religiosa que os avilta, movidos unicamente por
suas paixes, e apenas enfreados pela justia temporal. Fra com isso do
futuro! fra com remorsos! Fechemos olhos a todos os clares, e os
ouvidos a todos os rumores do outro mundo, e concentremos n'este a nossa
inteira vida, todos os desejos e pensamentos.

 effeito imprevisto, porm real, d'esta medonha crena induzir ao
materialismo, no theorico, mas pratico, a maior parte dos que no leva
ao ascetismo: attasca na lama os que no transvia nas nuvens; faz que se
rojem durante o dia breve da existencia, grandes e pequenos. Os
philosophos accusados d'este miseravel estado das almas, esto
innocentissimos: no ha em tudo isso faisca de philosophia; raciocinio 
coisa que ahi no vislumbra. O instincto  que desde tempos esquecidos,
e no de ha pouco, nos propendeu quelle cego materialismo:  a
necessidade de arrostarmos com uma crena mortifera;  a vida que
resalta d'entre as mos desvairadas que intentam comprimil-a, e d'este
desbordar de toda a frma surdem os excessos.

J no lhes abasta esquecerem o inferno. Quem o esquece so os fracos;
os fortes vo mais alm: escarnecem-no. Anda j por ahi o diabo cantado,
e do mesmo feitio o inferno, e o co com os seus moradores. E de taes
canes vendem-se tantos exemplares como dos _Canticos de S. Sulpicio_:
antiquissima impiedade, de que ha vestigios, no s na Grecia pag, mas
tambem nas fabulas da edade mdia, e at nas paredes das vetustas
cathedraes onde os artistas zombeteiros esculpiram, ha mais de
seiscentos annos, o _Inferno_ de Branger. A ironia mascarava-se ento com
tregeitos beatificos; o impudor, porm, no se disfarava nem se
constrangia.

Os lamuriantes da edade mdia talvez digam que, apezar das galhofas
audazmente esculpidas nos portaes e cros das egrejas, esses antigos
imaginarios criam no inferno, e que, no leito da morte, no foliavam,
tremiam; que os fabulistas tambem tremiam, e que os castellos e
castells, plebe e burguezia, quantos se haviam regalado com as
taes caricaturas, tremiam tambem. Sim, meu Deus,  verdade. Mas
circumvagae a vista, e dizei-nos se, a tal respeito, a sociedade mudou.
A mesma educao religiosa no produz continuamente identicos
phenomenos? Acreditam no inferno os epicuristas, os trampolineiros, os
usurarios, os prodigos e os ladres, os famintos e os repletos, os
invejosos e os ingratos, os indifferentes e os chasqueadores? No intimo
da alma guardam elles as supersties das amas: que farte o denotam na
vida, e principalmente na morte. Em quanto so moos, ageis, febris de
saude e esperana, repulsam uma crena que lhes tornaria maldita a
mocidade, a saude, a fora, a razo de todas as dadivas do co. Quando
caducam, infermam e agonisam, espantam-se de haver ardido em desejos que
j no tem, e haver motejado praticas que se lhes agora figuram
facilimas.  chegada ento a hora e situao conveniente para intender a
moral do inferno, que  a privao em tudo e por tudo,--a morte na vida.

Singular crena que no infra o maior numero de homens, quando o freio
lhes  mais preciso; e quando o retl-os  j inutil, e mais necessaria
lhes seria a esperana, ento,  entrada da sepultura, lhes sahe
espantadora! Levado por ella vae o anachoreta ao suicidio, e o mundano
ao embrutecimento. Esteril em verdadeiros dons, fertil em verdadeiros
males, a crena no inferno bestialisa, desalenta, desespera, endurece.
Melhor  esquecel-o  maneira das turbas, que pensar demasiado
n'ella, que tanto monta sentir vertigens, sentir estontecida a cabea 
roda d'esse abysmo que vos attrahe e sorve. Mais algum prazer ou menos,
defendido ou no, que faz? L no inferno no estaremos melhor nem
peormente; a eternidade no ter hora menos ou hora mais.
Constrangermo-nos para qu? No ha termo medio entre o bem e o mal
absolutos. Tudo que  humano  mau:  foroso ser anjo ou demonio:
seja-se diabo, que  mais comezinho. Vde-me uns frades, padres,
devotos, freiras, que a desanimao avassalou: no ha peores peccadores;
rolam cada vez mais ao fundo, e vo-se consolando com as delicias que
topam na sua queda. Um peccado de menos, que  na conta que ho de dar?
Chegados a tal extremidade, qualquer boa aco lhes ser v. Como no
podessem abster-se de tudo, os desgraados j agora no se abstem de
nada. Esta desesperada crena precipita-os abaixo do homem. D'ahi tem
surdido mais libertinos que ermites, mais blasphemos que santos, mais
loucos que ajuizados; e, em verdade,  mister que o christianismo
entranhe vivacissimos embries, esplendorosissimas luzes, e
poderosissimas verdades para resistir, como ha resistido,  influencia
de taes doutrinas.

Tirae-nos, por favor, esse inferno to fatal aos que o recordam como aos
que o esquecem.  verdade que teremos menos monges com o purgatorio; mas
teremos mais christos. No purgatorio ser util pensar, comprehender-lhe
a justia, e sentir-se o homem melhor, ainda a pesar seu; se 
facil sacudir o jugo de uma revelao sobrenatural e inintelligivel, por
mais beneficente que ser possa, no  facil desprendermo-nos de idas
excellentes e razoaveis, por mais importunas que nos sejam.




                             CAPITULO QUINTO

                             OS CINCO GRUPOS


                    Diviso da sociedade em cinco grupos

Examinemos as coisas mais  beira. A sociedade no  toda formada de uma
pea. Divide-se naturalmente em differentes grupos no discutir de seus
interesses em este e no outro mundo. Religiosa e moralmente observada,
podmos dividil-a em cinco grupos.

1. O grupo dos philosophos, ou livres-pensantes como hoje se
chamam--sugeitos que systematicamente regeitam a revelao, e por
consequencia o inferno sem fim; todavia, desinteresseiros, estudiosos,
graves e tractaveis com honra e confiana.

2. Longe d'estes a infinita distancia, e sem sombra de liga com os
philosophos, est o grupo dos biltres professos, individuos relaxados,
bandidos convictos, corruptos, desesperados.

3. Entre aquelle grupo de espiritos selectos e o das almas depravadas,
mas entre si equidistantes, est o grupo immenso e indecomponivel dos
indifferentes, dos tibios, dos duvidosos, dos espiritos futeis, dos
espiritos inertes, dos espiritos acanhados, dos fura-vidas, dos
pachorrentos--turba sem piedade nem philosophia, sem prtica de casta
alguma, vivendo de seu trabalho, das suas rendas ou officios, mais ou
menos descanados--guardas nacionaes, jurados, eleitores, conselheiros
de districto, e o mais. Estes so uns christos que s vo  egreja
quando ha enterro, casamento ou baptisado, ou ainda em dias de _Te Deum_,
quando a posio official os obriga.

4. Ao lado e um tanto superior a este, est o grupo menos numeroso dos
devotos; no dos hypocritas, que se ha de classificar no dos patifes,
mas dos esforados em praticar e que praticam, assim, mas com
desinteresse, os mandamentos de Deus e da egreja. Estes vo  missa nos
domingos, confessam-se s vezes, e do do seu gremio as irmandades e as
confrarias.

5. Finalmente, o admiravel grupo dos justos, dos perfeitos christos,
dos santos, dos continuadores e verdadeiros imitadores da vida de Jesus.

Vejamos se o dogma das penas eternas aproveita s pessoas que formam
aquelles differentes grupos.


                                     I

                          O grupo dos philosophos

Os philosophos crem em Deus, crem na liberdade e immortalidade da
alma, na justia, em todas as noes moraes derivativas d'aquellas
primaciaes verdades. Em revelaes sobrehumanas  que no acreditam.

Ora, ameaas de inferno convertero tal gente? De quantos mysterios
regeitam, o inferno  o mais incrivel; e tanto que irrita a propria f,
que, s abdicando o uso da razo, se submette. Dos philosophos no ha
que esperar similhante sacrificio.

Se o dogma do purgatorio vos aproxima d'elles, o inferno, barreira que
vos separa de tudo que raciocina, alonga-os de vs.


                                    II

                           O grupo dos corruptos

Que lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno? Est
com isso a sociedade mais segura? E tal crena de que lhes serve a
elles? O que os incommoda no  o diabo,  a policia; inquieta-os mais o
degredo que o inferno.

V l!--dizem elles--venha o inferno que no nos ha de faltar boa
camaradagem! Quantas pessoas toparemos l d'umas que n'este mundo se
empavonavam todas, e no queriam rossar-se por ns! Havemos de vl-os
l, mais apoquentados e castigados do que ns, esses patetas condemnados
por pensamentos e palavras, por coisa nenhuma. Quanto  pessoa d'elles,
tanto monta como a nossa, pois que ho de ser to condemnados como ns.
No ha dois infernos, parceiros; ha um. L nos esbarraremos com
capitalistas, com fidalgos, com duquezas, com comicas. Andaremos 
ilharga dos juizes, dos quadrilheiros, dos escrives, dos jurados e
melhor ainda--viva a patuscada!--com deputados, com camaristas reaes,
com bispos, com abbadessas, com principes e princezas, reis e rainhas.
Venha o inferno!  tentador l ir com tal sucia.

Tal  o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles
aquella extravagante justia, que nenhuma proporo gradua entre
delictos e crimes, condemnando para sempre quem peccou uma hora, e o
scelerado de toda a vida.


                                    III

                       O grupo dos indifferentes, etc.

Estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade; pelo
qu, se abstem do mal que o codigo define. Pelo que respeita aos sete
peccados mortaes, no se preoccupam d'isso. Dizer que todos sejam
invejosos, avarentos, luxuriosos, e o mais, seria mentir. N'esse
innumeravel grupo abundam negociantes honrados, meninas castas, esposas
fieis, pobres sem inveja, ignorantes modestos, ricos bemfazejos, e
muitas abelhas para cada zango; mas perfeito ahi no ha ninguem;
ninguem ahi vive em graa; o melhor do rancho  aquelle a quem Deus, no
dia do juizo, s accusar de ter violado sem escrupulo todos os
mandamentos da Egreja. Mas, com esse s peccado na consciencia, o melhor
do rancho ser condemnado.

Se o roubo e o homicidio so raros n'essa assembla, no procede isso do
medo do inferno. Ahi  bastante motivo para condemnao uma folha de
papel escripta, um sim apenas balbuciado e ouvido, um lance d'olhos,
uma flor murcha, e essa, onde entra amor--amor no peccado, meu Deus!--
de todas as condemnaes a que mais piedade desperta. Porm, n'esse
immenso circulo, onde tudo pecca, cada qual se condemna  sua vontade:
um por fastio; outro por vaidade, este por curioso, aquelle por
pusillanime; condemna-se um por um casal, outro por uma venera,
por um acepipe, por um prato de lentilhas, por um penacho, por uma
fitinha, por um trapo, por trinta contos, por trinta reis. Condemna-se
este a trabalhar, aquelle a passear, um a comer, outro a jejuar, a ler,
a dansar, a palestrar, a meditar, a vestir, a despir, desde a aurora at
ao escurecer, desde a noite at ao dia, todos se condemnam a bel-prazer.

Distinguem-se l os peccados que Deus pune indistinctamente.
Permittem-se os que Deus castiga at com eternas penas, quando  elle s
quem pune; recua-se, porm, dos que Deus castiga e a sociedade tambem.
No se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes.
Tambem ahi  manifestamente esteril similhante crena. O que se teme  o
vigia, a patrulha, o commissario da policia, essas personificaes
vulgares, mas terriveis da opinio e da lei. Temem-se as algemas, o
carcereiro, a masmorra, e ainda mais  mistura com os scelerados. Por
muito dura e inevitavel que se figure, a pena material no os conter
sempre quando a paixo os espora. Do mesmo modo que affrontam o
inferno, affrontariam a cada e at a forca, se a forca estivesse s
escuras; porm a vergonha, o estrondo da queda,  para o maior numero a
pena intoleravel. Seriam capazes de desafiar carrascos e diabos; e no
ousariam encarar o desprezo do amigo, do visinho, do estranho, do
transeunte, do mendigo; no lhes faz grande mossa a ignominia diante de
sua me ou de seus filhos, e tremem de se vr baralhados com
creaturas devassas que so mos sem repugnancia, e medram no mal como em
seu nativo elemento.

Ha d'elles, porm, que se forram ao mal, contidos por sentimento ainda
mais nobre que o medo da opinio. Esquivam-se, no do peccado mortal,
mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova: afasta-os d'isso
com asco um natural sentimento, sem esforo. Educao e habitos
fortaleceram esses bons instinctos. No so perfeitos, mas so probos,
sinceros, generosos, capazes de grandes sacrificios occasionalmente. Com
certos deveres nunca especulam. Denotam que a si se respeitam, que a
propria estima se lhes faz precisa, ainda mais que a da sociedade, facil
de transviar-se. E bem que no sejam philosophos nem devotos, sentem
vivamente a dignidade de seu ser.  certo que este sentir lhes seria
mais delicado e firme, se abrangessem as perspectivas da vida futura, em
vez de concentrar-se c; mas  foroso aceitar os indifferentes quaes
so; e tanto entre os peores como entre os melhores, a vida futura no 
movel nem empo:  uma coisa esquecida.


                                    IV

                            O grupo dos devotos

Ser medo do inferno que impede os devotos de matar, de roubar, de se
retoiarem, como javardos, no lamaal dos sentidos? Crer-se-ha que elles
de per si sejam insensiveis  honra, ao opprobio, e aos mais
freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das
sociedades temporaes? Ririam elles das gals e at da forca? Seriam
elles, em verdade, infames da ultima ral, se no receassem a
condemnao?

Se ha ahi tal raa de christos, confesso que eu no confiaria d'elles
nada, nem a minha bolsa, nem minha mulher, nem o meu segredo, nem eu
mesmo adormeceria socegado entre elles. D'um scelerado a um devoto
d'esta laia a distancia  to curta que os meus pobres olhos no na
enxergam. Dizem que ha uns pessimos soldados que,  vista do inimigo,
olham para traz e s marcham para a frente com a bayoneta nos rins. E,
se os no vigiaes, eil-os que desertam; e, at quando se batem, albergam
a perfidia no corao. Pois bem: aquelles devotos so peores que os
soldados tredos, por que destemem os homens e os juizos humanos, e os
supplicios que os homens inventaram. O que elles smente receiam  o
fogo eterno, uma pena  qual se foge mediante a confisso. Ageitado o
ensejo, roubam-vos, atraioam-vos, matam-vos, com a certeza de serem
absolvidos occultamente, por uma _ma culp_. Desgraadamente  certo que
a crena no inferno ha gerado monstros assim; a europa barbara tem
milhares d'elles; ha bastantes para l dos montes, e bem pde ser que
mesmo c; seno vejam aquelle devoto padre, cuja historia as gazetas
contaram ha pouco: era um padre que matava todos os seus filhos no
bero para se forrar ao incommodo de os crear; mas  provavel que os
baptisasse, com o receio de que se perdessem. Eu de mim no quero chamar
christos, nem sequer homens, a taes feras. Deus nos livre de encontrar
similhantes christos em uma serra por noite de luar.

A honestidade d'estes meus devotos custa-lhes pouco; so creaturinhas
que podem ver a felicidade dos outros sem sentirem cocegas de lh'a
empalmar; no roubam nem matam por que a forca os embaraa, e a opinio
dos homens ainda mais; pessoas, em fim, que tem mais mdo ao crime que
aos castigos correspondentes. Taes so os meus devotos. Devotos denomino
eu todos os leigos que no duvidam, nem so indifferentes, nem se
esquecem de ir  missa, nem deixam de confessar-se _ao menos uma vez cada
anno_.  verdade que eu no os incampo a ninguem como anginhos j
cosinhados para a canonisao. Se elles no andassem por igrejas com
tanta regularidade, no sei bem como estremal-os, quanto ao seu
proceder, do bando dos indifferentes. No so elles os derradeiros a
informar-se d'onde sopra o vento, onde aquece o sol, e onde est o idolo
do dia para o saudarem, nem tambem so os ultimos a apedrejar o idolo da
vespera. Quantas villanias sobre-douradas e quantas villanias bem nuas e
patentes lhes no attrahem as barretadas, e os cumprimenteiros sorrisos!
Como elles se curvam deante do que desprezam! Que impio acatamento
prestam  fora, e at, com medo de se enganarem, s apparencias
da fora! Que vulgares mexericos, que vulgares ambiezinhas, que
exemplarissimas ingratides!

No os accuseis de hypocritas, que elles so sinceros, no fazem
momices, vo s procisses com a melhor boa f, assistem s festas do
Mez de Maria, tem rosario, agnus-Dei, e penduram no pescoo medalhinhas
de cinco reis carregadas de indulgencias. E, assim mesmo apezar da sua
boa f em medalhas,  bonito vl-os, em sua casa, evitar o escandalo com
melhor exito, e mais vigilancia que o peccado. E nem assim o evitam. Se
sois curiosos, apanhai-m'os no ultimo degro da escada, ahi por perto do
altar: vereis o conego s ms com o deo; o sineiro bate na mulher; o
sacristo tem m lingua; um juiz de irmandade casa a filha violentada
com um velho, e d cabo d'ella; outro,  sobre-meza, faz-se truo de
chalaas de ebrio; e  de natureza tal, que a mulher por certas razes
no admitte em casa creadas que no tenham edade e figura bastante
canonicas, capazes de edificarem um mosteiro de bernardos; l est um
que  rico, mas economico, e d'isso esto os pobres tristemente
convencidos. Ora, a esses peccados habituaes ajuntem, se quizerem, os
peccados de occasio, e digam-me como se distinguem, por suas obras, o
commum dos indifferentes do commum dos devotos.

Quereis subir ao primeiro degro da escada? Luiz XI era devoto; Diana de
Poitiers era devota; Brantme devoto era; tambem era devota aquella
regente de Frana que empregava as suas damas a seduzir, quero
dizer, a converter os jovens huguenots e os velhos tambem. Todo o seculo
XVII foi devoto, incluindo os cavalleiros farolas, os bandidos, os
abbades galans e os abbades demoniacos, os avros e os glotes, os
orgulhosos e os abjectos, as marquezas adulteras e os duques
medianeiros, os magistrados venaes e as princezas aventureiras. Todos
esses tinham bancada na egreja, iam aos sermes e discutiam ardentes
sobre a materia da graa. Os amantes arrufavam-se na quaresma e faziam
as pazes depois de Pascoa. Madame de Montespan, na crte, cuidava em
salvar-se, e ninguem quizesse obrigal-a a comer,  sexta feira, uma aza
de borracho; o que ella ento comia era salmo, lagostins, esperregado e
pastelinhos de leite. Madame de Svign, uma das mais honestas e amaveis
senhoras d'aquelle tempo, tambem devota, lia os _Contos de La Fontaine_, e
ficava-se a rir com elles e mais a filha. O inferno era como se nada
fosse n'essas coisas. Quem desgraadamente pensava muito n'elle,
enterrava-se no claustro, como Mr. de Ranc e M.elle de La Vallire;
mas, pelo ordinario, havia pouco quem se debruasse a espreitar o tal
abysmo; e quem se desse a esses exames sahia impertinente, misanthropo e
jansenista. Fallava-se do inferno; mas sem reflectir grande coisa;
encaravam-no pela casca. O grande caso era rir, cortejar o rei, agradar
a todos, inclusiv a Deus, dando-lhe a vr com infinita habilidade,
espectaculos de devoo, de jogo, de ambio e... do mais.

O tempo e as revolues que tantas mudanas tem feito, no mudaram o
corao humano. Os devotos no so tantos como d'antes, mas so da mesma
estfa, e tanto montam estes como os outros, vistos a vulto. Relaxao
extrema em fidalgos e populaa; sde ardentissima de enriquecer;
sordidissimos orgulhos; amores desatinados; paixes eriadas de
remordentes espiritos e blandiciadas de prazeres! Deus me defenda de
calumniar peccadores a cheirarem ao incenso das igrejas! Bourdaloue, que
os conhecia, e os demais prgadores assim antigos que modernos, disseram
d'elles mais mal do que eu. O que sei  que o medo no faz bons aquelles
que o bem, s de per si, no convida. O pejo do peccado poder restaurar
os cahidos; mas o medo, depois do peccado,  de todo o ponto inutil.

No esqueamos, porm, que ha devotos quasi irreprehensiveis, os quaes,
sem serem heroes nem se destinarem a tanto, cumprem, sem desfallecer, a
modesta misso que lhes quadra sobre a terra. So bemfazejos em pequena
escala; restringem-se a pouco mais de sua casa; quanto muito, chegam at
 visinhana; e, se por vezes, a mo caridosa ultrapassa estes limites
proveitosamente, de novo se retrahe ao seu limite, onde est a maior
formosura e grandeza de sua misso. Estes devotos no se distinguem dos
outros por grande assuidade nos templos; o que os differenca  o serem
esmoleres; e mais visivelmente se estremam por se absterem do mal. No
so rixosos nem maldizentes: tem ainda mais caridade na lingua do
que nas mos, por que ella os serve com inexhauriveis riquezas.
D'aquelles peccados mortaes que a sociedade chama fraquezas, e em que
diariamente as pessoas piedosas resvalam sem morrerem d'isso, fogem
elles como d'um grande delicto. Amam a verdade, a ordem, a continencia,
o pudor, a sobriedade, como vs amais a justia. E, comquanto no
descream do eterno fogo, a luz que os guia no esplende do inferno, vem
de cima; no ceo  que elles a buscam em seu peregrinar; e assim vo
alentados pela esperana e no pelo medo.


                                     V

                             O grupo dos santos

Chegados somos aos bemfeitores dos homens, verdadeiros imitadores de
Jesus, entes mortaes mais proximos da perfeio, as irms da caridade,
os padres virtuosos, quantos se consagram a servir pobres, infermos,
ignorantes; quantos sacrificam, no esterilmente, mas s nossas
precises, seus teres, belleza, juventude, affeies domesticas, vigor,
saude, esperanas e quantas venturas terrenas ahi ha. Bem sei que todos
esses crem no inferno; mas no so regidos por tal crena; nada tem que
vr o seu proceder com ella; temem-se de offender Deus, no por que Deus
 vingativo, mas antes por que Deus perda; e esta crena
verdadeiramente salutar  uma das mais affectivas maneiras de
amar.

Se o temor leva ao deserto, o amor conduz aos homens; se o temor se
fecha  chave para dentro de grades, o amor quer sempre abertas as
portas. Quem envia ao martyrio os missionarios  o amor; quem d me a
orphos, filhas aos ancios, irms aos soldados feridos, mestres aos
aldeos, amigos aos penitentes, tutores aos innocentes, guias aos
transviados,  o amor. Todo bem feito n'este mundo  o amor que o faz; e
este amor, que transborda da alma dos santos, em si mesmo haure sua
fecundidade e bemfazeja energia.

Permittam-me uma hypothese.

D-se que um Concilio ecumenico se ajunta manh, e declara, depois de
haver invocado o Espirito Santo, que o inferno no  perpetuo, e que a
palavra eternidade, applicada ao castigo dos peccadores, significa to
smente pena de infinita durao. Que ha de seguir-se a similhante
proclamao? Imaginam que a irm da caridade se retira logo do grabato
do infermo, e se engolpha nas suas delicias mundanaes? Pensam que o
benedictino, sacudindo o p dos livros, se precipita na Bolsa? Que o
joven lazarista, repatriando-se de regies remotas, venderia o cajado e
o breviario para ir ao theatro? Imaginam de boa f que as irms da
caridade se acabariam para logo? Se pensam isto, que ida formam dessas
bonissimas almas que os anjos e os homens admiram?

Consoante ao vosso modo de as julgar, a irm da caridade diria: Ah! Deus
no  implacavel? Ento fui louca em amal-o. Deus no condemna
irremissivelmente os peccadores? Louca fui em servil-o. Pois que!
n'aquella bemaventurada eternidade, que eu tanto anhelava, no hei de
ouvir os gritos da raiva e o estridor dos dentes dos condemnados? Que 
d'ento dos encantos do paraiso? Meninos, procurem quem os eduque;
ancios, procurem quem os alimente. Orphosinhos desamparados, vs
pensaveis que ns eramos vossas mes e irms; cuidaveis que vos amavamos
por causa de vosso infortunio, e por vos termos em conta de membros
soffredores de Jesus Christo, nosso modlo e nosso Deus. Desenganai-vos!
desenganai-vos! No era por amor que vos amparavamos, era por medo que
vos serviamos como lividas escravas, covardemente flexiveis a todos os
caprichos de um senhor imperioso. Mas agora, visto dizerem-nos que o
inferno acaba, buscai quem vos ame e sirva. Cada qual por si. Acabou-se
o medo; nada de mais sacrificios. Abaixo, tunicas de burel; abaixo, veos
que nos escondieis volupias da terra, mas no as dres, abaixo! A pureza
no  enlevo que nos contenha; gemidos de pobres no nos engodam;
queremos ter vez na taa do peccado; bebamos, que a vida  curta e o
inferno ha de acabar.

No ha conjunctura em que eu ousasse attribuir similhante linguagem s
irms da caridade. Nunca! ainda quando, em um nefasto dia, fosse abolido
o dogma salutar da justia divina; ainda quando pregoassem que
tudo acaba no cemiterio, e que a sanco da moral est nos gosos e dres
deste mundo, as irms da caridade no fallariam assim. Se um concilio
sahisse com aquellas decises, regulal-o-hiam ellas.

Como  que o dogma do purgatorio, com seus flagellos de durao
ignorada, sempre consoantes  natureza e circumstancias do peccado, s
luzes e costumes do peccador,--como  que este dogma to racional,
certo, mysterioso e terrivel, poderia enfraquecer a virtude, e a virtude
principalmente d'aquellas almas livres, viris e modestas, nas quaes o
amor tem mais dominio que o medo?

Crde-me que  isso um demasiado aviltar a lama humana, que mostraes no
conhecer; crde-me. Se a Igreja manh proclamasse a temporalidade das
penas, nenhuma irm da caridade deslisaria da sua fileira, nem um
verdadeiro sacerdote abandonaria a sua grei, nem algum missionario
acharia o Evangelho desataviado de excellencias que ensinar aos
selvagens, nem a cruz radiaria menos, nem a palma dos martyres seria
menos de invejar. Vr-se-hia, ao invez e instantaneamente, encherem-se
todas as igrejas, e justos e peccadores reunidos ao p do altar, em um
mesmo consenso de aco de graas, cantarem do fundo da alma:

_Te-Deum, laudamus, in te, Domine, speravi; non confundebar in ternum._


                          FIM DA PRIMEIRA PARTE.




                             SEGUNDA PARTE

       O INFERNO CONSIDERADO LM-TUMULO, OS CONDEMNADOS NA PRESENA
         DE DEUS, NA PRESENA DOS SANTOS, E NA PRESENA DOS HOMENS.




                           CAPITULO PRIMEIRO

                          O INFERNO DE PLATO


At agora consideramos o inferno smente em relao aos resultados
moraes que a crena de sua existencia tem produzido, produz e produzir
sempre n'este mundo. J demonstramos que esta crena, fatal a quantos se
compenetram d'ella,  inerte para os demais:  inutil aos verdadeiros
virtuosos, por que no tem que ver com o bem que praticam, e tambem ao
mal que no fazem;  inutil aos devotos e indifferentes, por que no os
estorva de commetter basta dse de peccados mortaes; e pelo que toca aos
peccados que no commettem, tal absteno explica-se em louvor d'elles,
por motivos totalmente independentes das penas infernaes;  inutil para
os philosophos, visto que estes a no acceitam; , emfim, inutil aos
scelerados, por que os no impede de ser scelerados; e, de mais a
mais concorre, umas vezes, a precipital-os no crime, outras a
empedernil-os na perversidade.

Falta agora considerar o inferno, no em referencia  terra, mas pelo
que elle  em si, qual os padres, doutores e mysticos o pintaram, isto
, nas suas relaes com Deus, com os predestinados e com os reprobos.
Mas, antes d'isso, cumpre-nos dizer alguma coisa das opinies de Plato
cerca da justia divina e do inferno. Ser isto, a um tempo, entrar no
assumpto, e responder aos theologos que,  mingua de razes, invocam de
vontade, n'esta materia, a auctoridade de Ovidio, de Horacio, de
Lucrecio, de Virgilio, de Hesiodo, de Orpheo, e d'outros escriptores de
costumes sobre modo extravagantes que, a tal respeito, repetiram as
idas do antigo paganismo e nada mais.

A opinio de Plato, que elles mais acintemente allegam, deriva da mesma
fonte; mas, alumiada pela indole e pura vida d'aquelle philosopho,
ostenta-se mais respeitavel e seductora.

 mister, no dizer de Plato, que um castigo seja razoavel para ser
justo; e para que seja razoavel, uma de duas clausulas  precisa: ou que
o castigo aproveite ao castigado, ou s testemunhas d'elle.

Partindo d'este principio, Plato no prodigalisa,  feio dos nossos
theologos, as penas eternas, por quanto, a seu parecer, falta n'ellas a
grande virtude das penas temporarias. So estas, em verdade,
dobradamente prestadias, pois que ao mesmo tempo corrigem o
culpado e admoestam os espectadores; pelo contrario, as outras no
corrigem o culpado e podem apenas admoestar os vivos que as conhecem:
logo so menos prestantes e universaes e completas; falta-lhes aquella
bemfazeja efficacia com que os deuses folgam de dulcificar as obras da
sua justia; digamol-o em pouco: so menos divinas.

Eis-ahi porque Plato  avro das penas eternas e perdoa ao maximo
numero de peccadores, descontando-lhes os gemidos, lavando-os e
purificando-os em suas proprias lagrimas,  excepo dos oppressores dos
povos, de seus cumplices e louvaminheiros que expressamente exclue da
lei commum. Para estes  elle durissimo; eternisa-lhes as dores;
todavia, os deuses no podem ser accusados por isso de inutilmente
rigorosos.

De feito, se a tyrannia  o maior dos crimes, e o unico expiavel, 
porque a liberdade, que ella anniquila,  o maior bem que os deuses nos
doaram, unico impossivel de substituir;  porque, na sociedade
escravisada, cessam os prazeres honestos, a verdadeira gloria, sabedoria
e virtudes.

Tal  o senso intimo do castigo excepcional que Plato applica aos
tyrannos. Bastantemente est explicado a superioridade do terrivel
castigo; mas o que no se explica  a razo da sua perpetuidade. Plato
suppunha-o eterno porque no sabia, como ns, que a humanidade tem que
percorrer no tempo um circulo limitado, e que este universo ha de
acabar. Eternisava elle, por tanto, o supplicio dos tyrannos, por
suppr que o seu exemplo devia ser eternamente util na terra. No ha
outra maneira de lhe justificar o inferno no seu systema.

Foi, porm, esta justificao do inferno destruida por Christo, o qual
nos annunciou que todo o genero humano , como cada homem, um passageiro
na terra, e que um dia vir em que esta esphera que habitamos, e estes
astros que nos alumiam, se sumiro no espao como a poeira que o vento
da noite espalha. Quem utilisaria com o supplicio dos condemnados,
quando as testemunhas, em vez de fracos mortaes, fossem santos
impeccaveis?

O inferno dos theologos no , pois, identico ao inferno de Plato: o de
Plato devia ser util sempre; o dos theologos, por fructificar um dia,
ficaria esteril para sempre. Essa esterilidade j lh'a ns presentimos.
Indagamos a razo d'uns padecimentos improficuos  victima, ao juiz, a
todos. O corao protesta contra tal crueldade sem intento e sem
effeito. Cra a gente s de o crr. Como que o homem se sente melhor do
que essa divindade absurda, sedenta sempre de torturas, ebria sempre de
ira, insensivel sempre, peior que o abutre do Prometheo, que s vezes,
ao menos, adormece sobre a preza. S pensar n'isto gera o atheismo na
alma.

Erradamente, pois, se invoca, em pr de similhantes castigos, o
testemunho de Plato, que se horrorisaria d'elles. Plato no condemnava
o pobre pegureiro por algum roubo desconhecido ou tentativa
malograda; mas bem pde ser que elle condemnasse inflexivelmente S.
Clotario, S. Constantino e S. Carlos Magno. Alm de que, elle tinha,
para admittir um inferno sem fim, razes que no temos; e ns, para o
rejeitarmos, temos razes que elle ignorava.




                             CAPITULO SEGUNDO


    Opinio dos pagos sobre a situao e vista interior do inferno

Os antigos situavam o inferno no centro da terra que habitamos, e
pretendiam ter a este respeito pormenores muito satisfatorios. Os gregos
e os romanos possuiam um mappa minucioso d'estas regies subterraneas, a
ponto de lhes conhecerem os rios, taes como o lodoso Cocyto, o ardente
Phlegeton, e o invadiavel Acheronte; sabiam at que havia l fetidas
lagas, em uma das quaes estava Tantalo atascado at aos queixos sem
poder apagar a sde; sabiam d'uns bosques medonhos em que certas almas
se lamuriavam, debalde anciando o alvor do dia; conheciam montanhas, que
outros condemnados, perseguidos pelas furias, em vo se esfalfavam por
galgar. Contavam a historia de alguns desgraados assim, e as
particularidades do seu supplicio. Comtudo, apezar da indole
inteiramente physica d'aquelles diversos castigos, diziam que os
pacientes no tinham corpo, que os mortos eram apenas sombras
intangiveis, bem que animadas, e que o seu maximo tormento era no
poderem jmais viver vida carnal  luz do nosso sol. Isto contavam-no
elles com toda a certeza, fiados em pessoas que tinham descido ao
Tartaro, e de l tinham voltado. Era conhecida a estrada por onde essas
pessoas tinham viajado; havia cavernas que os pastores conheciam, poos
d'onde sahiam vapores lethiferos e por onde se descia ao inferno.

No eram menos instruidos os egypcios. Em assumpto de horrores visiveis,
o Amenthi havia emprestado ao Tartaro pavorosos quadros. N'este Amenthi,
que, segundo consta, quer dizer _paiz da noite_, esto o co de sete
cabeas e outros deuses de feitios monstruosos. Ahi se encontra o
Acheronte e o seu batel, os marneis e as aridas gndaras, e todas as
figuraes do mundo devastado.

Tem setenta e cinco circulos, e  entrada de cada circulo um genio
armado. Giram as almas d'um circulo n'outro, algumas em frma humana,
outras com frmas immundas, com cabeas de aves de rapina, pellagem de
fera, e garras de reptil. O pavimento  sangue. Estrondeiam os gemidos.
Pendem os condemnados dos ganchos  maneira de carneiros no aougue, ao
passo que outros, ainda palpitantes, so mergulhados em caldeires
ferventes. Uns vo fugindo, com os braos estendidos, e a cabea
quasi separada do tronco, outros levam nas proprias mos o corao que
lhes arrancaram do peito que mostram lanhado.

Conforme nos vamos aproximando das primitivas civilisaes, e, por
consequencia, do primitivo barbarismo, mais o genero humano parece
deliciar-se no repasto espectaculoso de seus proprios soffrimentos, e o
mundo invisivel  para elle um espelho de augmento das miserias e
torturas do mundo visivel.

Cada povo se espelha na imagem que nos deixou de seu inferno, com as
suas idas moraes, leis, necessidades, com seus costumes, temperamento e
clima.

Nas serranias do Thibet, onde rapidamente se passa do mais rigoroso frio
ao mais suffocante calor, ensinam os lamas que o inferno, situado em
determinado logar da Asia umas tantas legoas da superficie da terra, 
formado de dezeseis circulos: oito onde se arde, oito onde se gela.

Nas esplanadas da India, onde no ha inverno, e onde as populaes,
languidas de calor, corruptas pelas liberalidades da terra, apenas tem
phantasia para inventar prazeres e supplicios, dizem os brahmanes que
certos sitios do Naraka esto cheios de mosquitos, de serpentes
venenosas, de escorpies horriveis, de tigres, de abutres e de todos os
flagellos proprios d'aquellas regies ardentes; e que os outros circulos
so o theatro das mais requintadas torturas que ainda pde conceber a
malicia d'um rajah arrojado. Ahi os glotes so condemnados a
comer calhos asperrimos de puas agudas; os luxuriosos so apertados nos
braos de estatuas de ferro em braza.

Contam pelo miudo todas as circumstancias d'estes infinitos martyrios, e
taes narrativas fariam impallidecer Ixion sobre a sua roda, Sizipho
debaixo do seu penedo. Sabem os hindostanicos pelos livros e pela
tradio em que ponto da sua terra est situado o Naraka e a que
profundeza se encontra. Mas no podem os mortos encerrados ahi achar os
limites e as portas d'aquelle inferno.

No inferno dos scandinavos, chamado Nifleim, no ha fogo. Essas antigas
naes do norte gostam tanto de calor, que no poderam consideral-o um
supplicio; pelo que o seu inferno  de neve, onde ha o tiritar, a fome,
a febre, a velhice tremente, as torrentes glaciaes, as tempestades, o
uivar dos lobos, o pavor que estaleja os dentes, e os cobardes, unicos
condemnados que ahi vo.

Concluamos esta historia, que daria assumpto para um livro. As reflexes
moraes que ella suscita vo breve ser applicadas na descripo do nosso
proprio inferno, que na essencia no se distingue dos infernos pagos.
Porm, sendo elle procedente do inferno judaico, paremos diante
d'este.




                             CAPITULO TERCEIRO


         Opinio dos judeus cerca da vista interior do inferno.

Sabido  que o Antigo Testamento  muito sobrio de revelaes do
inferno. Com muito custo se rebuscaram n'elle alguns versiculos
tendentes a estabelecer aquella crena entre os hebreus, antes da
destruio do primeiro templo. Os saduceos, que juravam smente pela
Biblia, negavam absolutamente a vida futura. Ora, bastantes sabios
tinham os saduceos em conta de melhores interpretes da Biblia. Dizem
elles que os judeus, durante as tristezas do captiveiro, souberam da
bcca dos magos a immortalidade da alma e a sciencia demonologica.
Todavia, Abraho era chaldeo; os filhos de Jacob haviam longo tempo
estanciado no Egypto;--isto d a crer que os seus descendentes deviam
possuir, antes de exilados em Babylonia, parte dos conhecimentos
que os escripturistas registavam. No exerciam os prophetas um ensino
mystico, e no conservava o povo tantas tradies grosseiras
contemporaneas de Moyss e talvez anteriores? As passagens respigadas na
escriptura e nomeadamente em Isaias, relativas ao inferno, seriam
inexplicaveis, se no se lhe referissem; mas seriam egualmente
inexplicaveis se o povo no tivesse, para intendel-as, mais luz da que
lhe do essas passagens. Estes trechos no encerram doutrina secreta dos
prophetas, respeito  vida futura; contm mais referencias que
revelaes  crena vulgar e formalissima do inferno.

O nome Ghenna que l do  paragem das expiaes futuras, no era
estrangeiro; era o nome de um vale ao poente de Jerusalem, onde, desde a
origem de sua historia, iam os hebreus adorar Molock, e sacrificar-lhe
no fogo victimas humanas, e, s vezes, seus proprios filhos. N'este
sitio, tambem denominado _Trophet_, ou logar horrendo, eram lanados os
cadaveres dos justiados e os despojos dos animaes. Este valle maldito,
sagrado pela superstio aos deuses sanguinarios, juncado de carnes
putridas e ossadas alvejantes, assombrado de larvas sinistras, resonante
de gemidos e rugidos, converteu-se para os moradores da cidade santa,
no j em verdadeiro inferno, mas no symbolo exterior e synonymo de
inferno. No inferno verdadeiro, ardiam Moloch e os seus idolatras na
mesma fogueira; os mos eram roidos pelos vermes; e estes vermes eram
immorredouros como as suas pras:--idas positivamente exprimidas
por Isaias, cap. LXVI, ultimo verso.

 egualmente certo que os rabbinos e tambem o povo, to pouco iniciados
at ento andavam na mystica philosophia, que, se alguma vez discutiam,
davam azo a que os prophetas se rissem ou indignassem; porm, depois que
os rabbinos e o povo se recolheram do captiveiro, as suas noes eram
mais amplas, e talvez as mesmas que se escondiam nas esclas do Carmelo
e de Galgala.

Vamos vr quaes so as noes no contidas no Antigo Testamento, mas
traadas manifestamente no Novo, as quaes, quando S. Paulo, S. Mathias,
S. Joo e outros apostolos escreviam, j se haviam derramado na Judea,
quinhentos ou mais annos antes.

Era dividido o Scheol, ou mundo futuro, em duas regies, que
comprehendiam o paraiso e a ghenna. A ghenna, objecto d'este estudo,
era contada no numero das sete creaes anteriores ao nosso universo. 
similhana do Amenthi egypcio e do Naraka indiatico, era formada de
diversos circulos, mas s tinha sete, correspondendo aos sete dias do
Genesis, e aos sete ceos ou sete circulos do paraiso. Havia ghenna
superior e ghenna inferior. A superior abrangia os seis primeiros
circulos: era uma especie de purgatorio onde baixavam, depois da morte,
os peccadores dignos de perdo: uns ficavam no sexto, outros no quinto,
outros no quarto circulo, outros no primeiro, conforme a gravidade ou
leveza dos seus peccados. Trezentos e sessenta e cinco degros,
correspondentes aos trezentos e sessenta e cinco peccados assignalados
pelos doutores, formavam escaleiras d'um circulo a outro, e em cada
circulo era mister passar trezentos e sessenta e cinco dias. Porm, os
grandes criminosos, abatidos sob o gravame de suas culpas, atravessavam,
sem poder parar e com a rapidez de pedra arrojada por funda, os seis
primeiros circulos da spiral, e cahiam no setimo, no fundo abysmo, na
ghenna inferior, d'onde no ha mais sahir.  frente de suas legies ahi
os recebia Samael, e ento lhes comeava o perpetuo supplicio, o insulto
dos diabos, a saudade da vida, o fogo interno e externo, o tormento da
sde, e a miragem cruelissima que scintilla aos olhos dos peregrinos
agonisantes no deserto[5].

Taes eram, em resumo, as opinies da synagoga cerca do inferno.
Entretanto os essenios, seita monastica celibataria que vivia em commum
para espiritualmente se reproduzir, professavam outra. O inferno
d'elles, coisa notavel, similhava ao dos monges thibetanos; os
soffrimentos ahi eram calor e frio, e todas as intemperies das estaes
em climas deseguaes.

Agora vejamos o inferno dos nossos theologos.

    [5] O inferno mahometano  copia do judaico, mas copia singularmente
    alterada. O anjo Trakek  quem l governa. Ha l chuva de peonha.
    Chama-se Ghenna e divide-se em sete circulos. Porm, exceptuado o
    primeiro circulo, reservado exclusivamente para os musulmanos, e o
    ultimo, destinado aos hypocritas, cada qual dos outros  pertencente
    a cada uma das religies diversas que precederam o islamismo. Estes
    hereticos esto portanto em andares sobrepostos, quasi por ordem de
    sua antiguidade: os christos no segundo, os judeus no terceiro, os
    sabeos no quarto, os guebros no quinto, os idolatras no sexto.
    D'estes seis ultimos ninguem sahe: ahi  o verdadeiro inferno; mas o
    primeiro, o circulo de honra dos crentes,  purgatorio, no dizer dos
    doutores.




                              CAPITULO QUARTO

                          O INFERNO DOS THEOLOGOS

                  POR DUAS FACES VAMOS VER O NOSSO INFERNO;
                    PRIMEIRA A MATERIAL, DEPOIS A MORAL


                                     I

                           O inferno material

So puros espiritos os demonios, e tambem puros espiritos devem
considerar-se os condemnados no inferno, por quanto s a alma d'elles l
desceu, e os ossos restituidos  terra se transformam continuamente em
hervaaes, plantas, fructos, mineraes, liquidos, desfigurando-se nas
continuadas methamorphoses da materia.

Tanto, porm, os condemnados como os santos ho-de resuscitar no dia
final e reassumir para nunca mais o deixar um corpo carnal, o mesmo
corpo com o qual passaram entre os vivos.

A distinco d'uns a outros  que os eleitos ho de resurgir em corpos
purificados e radiosos, e os condemnados em corpos poluidos e afeiados
pela culpa. E de ento ao diante no haver smente puros
espiritos no inferno; mas sim homens como ns.  por consequencia o
inferno uma localidade physica, geographica e material, visto que ho de
povoal-o creaturas terrestres, dotadas de ps, mos, bcca, lingua,
dentes, orelhas, olhos como os nossos, veias com sangue, e nervos
sensiveis  dor.

Onde est situado este inferno? Alguns doutores situam-no nas entranhas
da terra; outros em certo planeta que eu no sei; mas a questo nenhum
concilio ainda a resolveu. A este respeito  tudo conjecturas; o mais
que se affirma  que o inferno, seja onde fr,  um mundo composto de
elementos materiaes, mas no tem sol, nem lua, nem estrellas, e  mais
triste e inhospito, e mais ermo de todo o germen e apparencia de bem, do
que todos os pontos inhabitaveis do mundo em que peccamos.

No se arriscam os discretos theologos a pintar,  similhana dos
egypicos, indostanicos, e gregos, o immenso horror d'essa manso;
limitam-se a dar-nos como amostra o pouco que a escriptura denuncia, o
lago de fogo, e o enxofre do Apocalypse, e mais os vermes de Isaias,
aquelles vermes eternamente enxameando sobre as carcaas de Thophet, e
os demonios atormentando os homens que perverteram, e os homens chorando
e ringindo os dentes, segundo a expresso dos evangelistas.

Santo Agostinho no concede que aquellas penas physicas sejam simples
imagens das penas moraes; contempla em um verdadeiro lago de
enxofre vermes e serpentes verdadeiras encarniadas sobre todas as
partes dos condemnados, exacerbando com as suas mordeduras as ulceraes
do fogo. Quer, conforme um verso de S. Marcos, que este estranho fogo,
posto que material como o nosso, e actuando sobre corpos materiaes, os
conservar como o sal conserva a carne das victimas sempre sacrificadas
e sempre viventes, sentiro a dr d'aquelle fogo que queima sem
destruir, e lhes filtra aos musculos, saturando-lhes os membros, desde a
medulla dos ossos e as pupillas dos olhos at as mais occultas e
sensiveis fibras do seu ser.

Se elles podessem submergir-se na cratera d'um vulco, sentir-se-hiam
ahi refrigerados e consolados.

D'esta arte fallam com toda a segurana os mais timidos, os mais
discretos e reservados theologos; no negam, porm, que no inferno haja
outros supplicios corporaes; smente dizem que no tem d'elles um
sufficiente conhecimento, ou pelo menos to positivo como aquelle que
receberam cerca do horrivel supplicio do fogo, e do afflictivo
supplicio dos vermes. Ha no entanto theologos mais audazes e illustrados
que nos do descripes mais miudas, variadas, e completas do inferno;
e, bem que no saibam em que local do espao tal inferno esteja,
consta-lhes que alguns santos o viram.

De certo que estes santos l no foram com a lyra em punho, como Orpheo,
ou com a espada na mo,  similhana de Ulysses: baixaram l
arrebatados em espirito. D'este numero  Santa Thereza.

Quem l a relao d'esta santa cuidar que no inferno ha cidades. Pelo
menos l viu ella uma especie de viella longa e estreita como ha tantas
nas cidades antigas; entrou caminhando horrorisada sobre um terreno
lamacento e fetido onde rastejavam reptis monstruosos; mas foi retida em
seu transito por uma parede que atravancava a viella; e n'esta parede
havia um nicho onde Santa Thereza se metteu sem saber como. Disse ella
que este logar lhe estava destinado, se abusasse emquanto viva das
graas que Deus difundia sobre a sua cella d'Avila. E, bem que ella se
anichasse com maravilhosa facilidade n'aquella guarita de pedra, no
podia nem assentar-se, nem deitar-se, nem estar de p, nem safar-se; que
estas horriveis paredes, apertando-a, envolviam-na, angustiavam-na, como
se fossem animadas. Parecia-lhe que a abafavam, que a estrangulavam, e
ao mesmo tempo a estripavam e a faziam pedaos.

E sentia-se arder, e no havia genero de afflio que no
experimentasse. Esperana de soccorro, nenhuma.  volta d'ella tudo
escuro; mas ainda assim, atravez d'essas trevas, entrevia, com grande
espanto, a hedionda rua por onde tinha passado com toda a sua immunda
visinhana: espectaculo que lhe era to intoleravel como as intalladelas
da priso.

Ora isto de certo era apenas um cantinho do inferno.

Outros viajantes espirituaes foram mais obsequiados. Houve tal que viu
no inferno grandes cidades a arder, Babylonia e Ninive, e at Roma, com
os seus palacios e templos abrazados, e os habitantes acorrentados,
mercadejando no balco, padres misturados com meretrizes nas salas dos
festins, hurrando nas suas poltronas d'onde no podiam arrancar-se, e
levando aos beios, para apagar a sede, copos que golphavam lavaredas;
validos em joelhos sobre almadraques ardentes, com as mos postas, e
principes vertendo sobre elles devorante lava d'ouro fundido. Outros
viram no inferno descampados sem limites, cavados e semeados por
lavradores famelicos. E d'essas plantas fumegantes de suor, como nenhum
fructo vingasse, os lavradores devoravam-se uns aos outros; e, depois,
tantos quantos tinham sido, magros e famintos do mesmo modo,
dispersavam-se em bandos pelos horisontes fra em cata de terras mais
ditosas, e eram logo substituidos por outras colonias errantes de
condemnados.

Houve quem visse no inferno serranias cavadas de abysmos, de florestas
gementes, poos sem agua, fontes de lagrimas, regatos de sangue,
turbilhes de neve em desertos de gelo, barcos desesperados vogando em
mar sem praia. Em fim l viram quanto os pagos tinham visto, o reflexo
lugubre da terra, uma sombra incommensuravelmente augmentada de suas
miserias, os seus naturaes soffrimentos eternisados, entrando
n'isto masmorras, forcas, e os instrumentos de tortura que as nossas
proprias mos forjaram.

Ha com effeito l n'essas profundezas demonios que se fazem corporeos,
para mais a preceito atormentarem os homens em suas carnes. Uns tem azas
de morcego, pontas, coiraas escamosas, griphos e agudissimos dentes.
Temol-os visto pintados, armados de espadas, de forcados, de tenazes
ardentes, de serras, de grelhas, de folles, de clavas, empregando tudo
isto durante a eternidade n'uma especie de aougue e cosinha da carne
humana. Ha outros transformados em lees, e viboras enormes, arrastando
as pras em solitarias cavernas.

Alguns desfiguram-se em corvos para arrancar os olhos a certos
padecentes, em quanto outros se transformam em drages volateis, e vo
carregados d'almas sanguentas e lastimosas atravez de tenebrosos
espaos, e as precipitam no lago de enxofre. Alm se v nuvens de
gafanhotos, e de agigantados escorpies, cuja vista arripia, cujo cheiro
enoja, cujo menor contacto convulsiona. Acol esto os monstros
polycephalos abrindo vorazes fauces, sacudindo as crinas formadas de
aspides, triturando os condemnados entre os seus queixos sangrentos, e
vomitando-os logo mastigados, mas ainda vivos, porque so immortaes.

Estes demonios de frma sensivel, recordando to ao vivo os deoses do
Amenthi e do Tartaro e os idolos que os phenicios, os moabitas e outros
gentios visinhos da Judea adoravam, estes demonios no funccionam
 toa; cada qual tem seu officio e sua tarefa: o mal que fazem no
inferno corresponde ao mal que elles inspiraram e fizeram commetter
n'este mundo. So os condemnados punidos em todos os sentidos e orgos
porque offenderam Deus por todos os orgos e sentidos. Os comiles so
punidos de certa maneira pelos demonios da intemperana, e d'outra
maneira os calaceiros pelos demonios da preguia, e ainda d'outra
maneira os lascivos pelos demonios da sensualidade; em fim, so tantas
as maneiras quantas as variedades de peccar. Dizem que elles at na
fogueira tero frio, e no gelo se sentiro arder; estaro vidos de
descanso e irrequietos; sempre com fome, sempre com sede, e mil vezes
mais cansados que o escravo no fim do dia, mais doentes que os
moribundos, mais lacerados, mais escalavrados, mais lazaros que os
martyres, e assim para todo o sempre.

Nenhum demonio se desgosta nem desgostar jmais do seu terrivel
officio; n'esta parte so elles disciplinados a ponto, e fidelissimos na
execuo das ordens vingativas que receberam. Se no fosse isso, que
seria do inferno? Se os demonios tivessem rixas entre si ou se
fatigassem, os pacientes descansariam. Mas nem uns descansam, nem os
outros se desavm; e posto que sejam mos e muitissimos, os demonios
harmonisam-se d'um cabo a outro do abysmo, por tanta maneira que nunca
na terra se viram naes mais submissas a seus principes, exercitos mais
doceis a seus generaes, communidades fradescas mais obedientes a
seus prelados. Nada se sabe da ral dos demonios, d'essa canalha de
espiritos villos que formam legies de vampiros, de sapos, de
escorpies, de corvos, de hydras, de salamandras e outra bicharia sem
nome que constituem a zoologia das regies infernaes; mas so conhecidos
de nome muitos principes que commandam aquellas legies, entre outros
Belphegor, o demonio da luxuria, Abbaddon ou Apollyon, o demonio da
carnificina, Beelzebuth, o demonio dos desejos impuros, ou o principe
das moscas geradoras da podrido, e Mammou, o demonio da avareza, e
Moloch, e Belial, e Baalgad, e Astaroth, e outros mais, e sobre todos o
chefe universal, o sombrio archanjo que no co se chamava Lucifer, e no
inferno se chama Satan.

Eis aqui, em summa, a ida que se nos d do inferno, observado em sua
natureza physica, e nas penas corporaes que l se padecem. Lde os
escriptos dos padres e antigos doutores, interrogae as piedosas
legendas, examinae as esculpturas e paineis das nossas egrejas, attentae
o ouvido no que se diz em nossos pulpitos e sabereis muitas outras
coisas.


                                    II

            Reflexes sobre as penas materiaes dos condemnados

De qualquer modo que as figuremos, e quando mesmo por piedade ou
qualquer outra razo se reduzissem s  aco do fogo, estas penas
materiaes no poderiam ser eternas, porque, se a alma  immortal e pde
soffrer sempre, no succede o mesmo ao seu involtorio terrestre: corpos
de carne,  feio dos nossos, so de seu natural incapazes de resistir
a similhantes agentes de destruio.

 um milagre a resurreio dos corpos; mas faz-se mister um segundo
milagre para dar a estes corpos mortaes, j usados pelos transitorios
attritos da vida, e de mais a mais aniquillados, a virtude de subsistir,
sem se dissolverem, na fornalha onde metaes se evaporassem. Diga-se
embora que a alma  algoz de si mesma, que Deus a no persegue, mas que
a desampara pelo estado desgraado que ella escolheu: isso ainda pde
rigorosamente comprehender-se, posto que o desamparo eterno d'um ser
desvairado e padecente parea pouco conforme  bondade do Creador; porm
o que se diz da alma e das penas espirituaes no pde por modo algum ser
dito a respeito dos corpos e das penas corporaes; que para eternisar as
penas corporaes no basta que Deus retire a sua mo; pelo
contrario,  foroso que elle a mostre, que intervenha, que opere, sem o
que o corpo succumbiria.

Conjecturaram, pois, os theologos que Deus effectivamente opera, em
seguida  resurreio, o segundo milagre de que fallamos. Primeiro,
exhuma do sepulchro os corpos de argila que l se haviam desfeito;
tira-os taes quaes l tinham entrado com as suas nativas infermidades e
as degradaes successivas da idade, da doena e do vicio, decrepitos,
infesados, gotosos, cheios de precises, sensiveis  ferroada d'uma
abelha, cobertos das maceraes que lhes fizeram o rossar da vida e da
morte: eis o primeiro milagre. Depois, a estes corpos alquebrados,
prestes a reverter ao p d'onde surgiram, inflige uma propriedade que
no tinham: a immortalidade, o mesmo dom que n'um lance de colera, ou,
se o quereis, n'um lance de misericordia, elle tinha subtrahido a Ado
quando o expulsou do Eden: eis o segundo milagre. Quando Ado era
immortal, era invulneravel; e, quando cessou de ser invulneravel,
tornou-se mortal.  dr seguiu-se o morrer.

A resurreio, portanto, nem nos repe nas condies physicas do homem
innocente, nem nas condies physicas do homem culpado;  uma
resurreio das nossas miserias smente; mas com sobrecarga de novas
miserias, infinitamente mais horriveis; , at certo ponto, uma
verdadeira creao, e mais maliciosa que imaginao alguma ainda
concebeu. Dir-se-ha que Deus reconsidera e varia, quando
accrescenta aos tormentos espirituaes dos peccadores tormentos corporaes
de durao infinda, e muda de repente as leis e as propriedades por elle
prescriptas s composies da materia desde a origem d'ella. Resuscita
carnes doentes e corruptas, e, atando com indesatavel n elementos que
tendem a separar-se, mantm e perpeta, contra a ordem natural, aquella
podrido vivente, que  posta no fogo, no para se depurar, mas para ser
conservada qual , sensivel, padecente, ardente e immortal.

Por amor d'este milagre  Deus arvorado em um dos algozes do inferno;
por que, se os condemnados s a si podem imputar seus males espirituaes,
tambem no tem a quem imputar os outros seno a Deus. J no era pouco
abandonal-os, depois de mortos,  tristeza, ao remorso e a quantas
agonias sente a alma que perdeu o bem supremo; mas ha ahi peor: ir
Deus, no dizer dos theologos, procural-os nas trevas do seu abysmo;
chamal-os-ha por instantes  luz, no para allivial-os, mas sim para
vestil-os d'um corpo horrido, chammejante, immorredouro, e n'este acto
os abandonar definitivamente. Mas no ser isso ainda abandono, pois
que co, terra e inferno no subsistem seno por um acto permanente da
divina vontade sempre activa.  fora, ento, que Deus os tenha sempre
de sua mo, para obstar que o fogo se apague e os corpos se consumam, a
fim de que esses desgraados immortaes contribuam, com a
perennidade de seu supplicio,  edificao dos predestinados.

Vem a ponto um episodio da historia da Egreja, que, mo grado nosso, nos
veio  lembrana. Seja-me permittido recordarvo-lo.


                                    III

                           Os martyres de Nero

Foi Nero um poderoso imperador. Galardoava esplendidamente os escravos
que o serviam; e, ao mesmo tempo, incutia-lhes medo salutar com o seu
systema de tratar inimigos. Queimando Roma a fim de a reedificar mais
formosa, assacou o crime aos christos, gente indocil que o no
bajulava, e cria em justia mais amavel que a d'elle, e por esta e
outras razes desagradava  plebe idlatra. O processo foi summario; a
sentena de morte, e a execuo espantosas, como vai vr-se.
Embrearam-os de resina, amarraram-os a postes de ferro, cravados
distantes entre si nos bellos jardins de Sallustio, onde eram celebrados
ento os jogos nocturnos. Era j noite, quando as portas foram abertas 
multido. Eis que sa o clangor das trombetas, e logo os verdugos
infileirados chegaram lume s tunicas dos christos. Callam-se as
trombetas; restrugem de todos os lados gritos estridentes. A subitas,
arvores, flres, estatuas, escadozes marmoreos, tanques, repuxos,
tudo resplandeceu. Chega Cezar na sua carroa, escoltado de vistosa
crte, derramando, por sobre as turbas aterradas e jubilosas do seu
sorriso, ouro e perolas. Servem-se banquetes. Danam as filhas do
oriente, em quanto os tocadores de alaude e cantores confundem a dce
melodia de seus concertos com os applausos do povo fiel e os derradeiros
arrancos dos christos que vasquejavam em suas tunicas ardentes.

Pouco durou aquelle instructivo espectaculo. N'este mundo, as festas
mais bisarras so curtas. Felizmente para os martyres, Nero no era
Deus. Diz-se, porm: eil-os, os confessores de Christo apremiados, 
volta de um Deus que d ares de Nero, e como contemplando,  maneira do
Cezar, em festa sem fim, milhares de creaturas humanas, estorcendo-se e
clamando nas lavaredas, tochas ullulantes, fachos inextinguiveis,
testemunho asss consolativo da superioridade do rei do co sobre os
regulos da terra.

Haja paciencia, que ainda falta o mais essencial. Aquellas penas
corporaes so quasi nada. Repugnantissimas que ellas se nos figurem, so
essas, ainda assim, a menos repugnante cousa que o inferno
encerra.


                                    IV

                          O inferno espiritual

Em que meditam esses pobres entes atormentados? Que sentimentos os
dominam? Que fazem elles, durante as suas inexpremiveis torturas, n'esse
tempo illimitado em que os segundos so seculos, e os seculos menos que
segundos? Os theologos tem investigado estas cousas; e, presupposto
perpetuo o inferno, no ha dous modos de resolver aquellas perguntas.
Uma breve reflexo vos dar a resposta que os theologos tem dado
perfeitamente conforme a todas as tradies.

Imaginai um lupanar de embriagados, um hospital de loucos, um covil de
assassinos, uma caverna de ladres, um bordel immundo; soltai ao mesmo
tempo todos os moradores d'esses abominaveis logares, e tereis uma
optima pintura do inferno espiritual, isto , o estado mental dos
condemnados. Novos e velhos, homens e mulheres, embaralhados todos,
apostrophando, jurando, blasphemando, eternamente ebrios, eternamente
vorazes, eternamente lascivos, eternamente invejosos e crueis,
eternamente impios, eternamente sandeus.

Como as sombras do Tartaro, choram o nosso sol, as sombras, as frescas
ribeiras, os pampanos dos nossos vinhedos, e todos os prazeres sensuaes
de que vidamente esto sequiosos e privados. Os demonios, que os
castigam por seus passados prazeres, alimentam n'elles inuteis saudades,
e insensatos desejos, dos quaes nada pde distrahil-os, nem sequer as
dres corporaes, e agudissimas de que so atormentados todos os seus
membros. N'isto, de mais a mais, os demonios o que fazem  executar as
sentenas do soberano juiz--sentena promulgada no co, pela qual so os
reprobos intellectualmente torturados; pois diz Santo Agostinho no seu
_Commentario aos psalmos_: faz-se mister que tudo quanto deliciou os
homens, quando peccaram, se converta em instrumento do Senhor quando
castiga. O desejo saciado , pois, punido com o desejo insaciavel.

No imaginem que no inferno haja uma s alma que deplore a sua
innocencia baptismal, e o co promettido que ella perdeu, e a companhia
dos anjos, e a bemaventurana dos eleitos. Os precitos fogem de Deus,
no o procuram; viram-no no dia do juizo, tem-no presente sempre nos
tormentos que soffrem. De certo os angustia estar to longe d'elle; mas
 angustia de raiva que no tem nada que vr com as saudades e anceios
do amor.

No pensem que entre as alegrias cuja perda l nos dilacera o corao,
estejam os castos prazeres do lar, a pratica dos ancios, as meiguices
das creanas, a ternura dos irmos, a dce confiana dos amigos, as
consolaes do trabalho e as recompensas do estudo. Verdadeiras alegrias
eram aquellas de certo para os peccadores; mas os condemnados nem
as desejam, nem d'ellas se lembram; abasta-lhes a sciencia que tem; e,
pelo que toca s affeies terrestres, mortas so todas: resta-lhes o
odio smente. A me que est no inferno, se tem um filho no paraizo,
abomina-o, e elle a ella; se o tem no inferno, abomina-o tambem e 
correspondida por igual, e, se o tem vivo no mundo a choral-a, da mesma
sorte o abomina. Filhos, pae, marido, irmos e irms, amigos, tudo lhe 
igualmente odioso.

O que os condemnados mais ardentemente desejam  coisa que se beba e se
coma, e alm d'isso as delicias sensuaes e a bruteza do coito carnal.
So de tal sorte as suas disposies em meio de tantos soffrimentos que,
se um s d'esses condemnados podesse por um momento voltar  vida,
escandalisaria um alcouce. Entretanto, confessam a justia da
condemnao que os fere; mas  para amaldioal-a; e, bem que no sejam
atheus, por que tal no podem ser em similhante lugar, so mais
scelerados, ignobeis, impudentes e perversos do que poderia sl-o uma
nao de atheus. Uma nao de atheus, no sendo composta de immortaes,
temer-se-hia do nada como d'um objecto de medo ou esperana, e tiraria
d'ahi certas regras de proceder que bastariam a tornal-a menos miseravel
e brutal; mas no inferno no ha que temer nem que esperar. Ha ahi um
retouar-se na dr, em horrendos sonhos, que exulceram os appetites sem
os satisfazer. Ahi  tudo obscenidade, egoismo, opprobrio,
hediondez, a humanidade disforme, depravadissima, impudentissima,
sem piedade, sem consciencia.

A blasphemia  a unica distinco que separa os condemnados das feras
assanhadas, e que os levanta algum tanto acima dos porcos, dos lobos,
dos macacos, dos toiros, dos bodes e dos reptis.  logo a blasphemia o
unico symptoma de razo que se lhes deixa, a sua unica e ultima
grandeza! Os irracionaes nem quando soffrem blasphemam: a blasphemia 
um acto intellectual que n'este mundo degrada, e no inferno exalta. Um
condemnado que louvasse a Deus seria um santo, cujo supplicio cedo ou
tarde acabaria; mas, sendo interminavel o supplicio d'elle e impossiveis
os santos n'este abysmo, o condemnado que no blasphemasse seria um
bruto infecto.

 portanto de justia que os faam blasphemar; d'isso inferimos que
elles tem alma; e d'esse modo a mostram na unica maneira que podem; e,
se no podem satisfazer a vil concupiscencia que os devora, desforram-se
saboreando a pleno peito o agro prazer de insultar o Deus que os pune
por to singular maneira.


                                     V

                     Continuao do inferno espiritual

Havendo s o inferno, j se v que n'esta infame companhia os theologos
misturam, como iguaes, qualquer homem honrado que morra na incredulidade
dos mysterios. Isto lhe basta para ser condemnado. E com esse vae tambem
a viuva pobre, que, em vez de ir  egreja no domingo, remenda os
fatinhos das suas creanas: tambem no  preciso mais para ser
condemnada.

Tambem l vo,  conta de no jejuarem, nossas mes e irms, mulheres e
filhos: pois no  bastante razo para ir ao inferno quem come um bocado
de po com certo prazer?

Este inferno, povoado de patifes incorrigiveis,  uma escla: ninguem
ahi se corrige, mas aprende cada qual a conhecer-se, e j no  pouco.
Quem quer que ahi desce, logo que ahi est,  igual aos devassos, aos
parricidas e aos traidores. Quem ahi se v to diverso do que se
imaginava n'este mundo, aterra-se de si proprio. O bom que cada qual
tinha em si quando vivia, com a vida se desvaneceu; e o mal que era
apenas uma imperceptivel mancha, lavrou como a gangrena, de tal arte que
alma e corpo  tudo uma chaga.

Que o homem se perdesse por um pomo ou por um imperio, por um beijo ou
por um homicidio, o resultado  o mesmo: ninguem  condemnado com
attenuantes. No procureis no inferno um companheiro menos corrompido do
que os outros, que se respeite ou que seja respeitavel por qualquer
motivo;  coisa que l no ha; ninguem conserva ahi vislumbre das
qualidades que na terra se respeitam. Ou vades para a direita ou para a
esquerda, para cima ou para baixo, girai em todas as direces d'esse
abysmo, que no achareis germen, relampago, sombra de virtude. Aquelles
sabios cujas vigilias opulentaram os homens, e no deixaram dinheiro com
que os enterrassem; aquelles philosophos estoicos, legisladores,
magistrados, guerreiros illustres, e soldados obscuros mortos nas
fronteiras; aquelles rigidos protestantes que psalmodeavam nas
lavaredas, aquellas esposas extremosas, e as noivas cuja sepultura 
juncada de rosas brancas--todos esses que no morreram em graa--de
qualquer modo que pensassem e procedessem n'este mundo, os seus costumes
e pensamentos so forosamente os do outro. Os que lhe sabem a historia,
e os amaram e lamentam, no ho de reconhecel-os. Eil-os preza de todos
os vicios, paixes, e desejos dos condemnados. Grandes homens, sabios
heroes, martyres, mes veneradas, donzellas castas, artistas sobrios e
modestos, eil-os em cro de impios, fallando como ebrios, cynicos e
assassinos. Abandonou-os Deus todos a um tempo, a um tempo os pune
todos; o mesmo ferro lhes abrasa os corpos e a mesma febre lhes
alanceia as almas.

Ahi est o inferno espiritual.


                                    VI

             Da immortalidade das penas espirituais do inferno.

 pois o inferno um mo logar, trescalando ao vicio e ao crime. Os
demonios, guardas d'este mo logar, e professos na corrupo, usam do
imperio que sobre os hospedes lhes  permittido, corrompendo-os
incessantemente e sem lucta nem obstaculo.

 propriedade d'elles a alma dos condemnados. Deus, entregando-lh'a para
que elles faam d'ella o que poderem, no lh'a disputa e bastantemente
sabe o que elles faro.

Se as adies espirituaes dos condemnados fossem smente crueis, seria
isso bastante para nos auctorisar a duvidar da eternidade d'ellas; mas,
alm de crueis, impuras,  um direito,  at um dever negal-as.  certo
que a natureza algumas vezes inflige ao homem esses impuros
soffrimentos; mas so transitorios: uns morrem, alguns curam-se, e
outros endoidecem:  outro genero de morte. Mas no inferno os furores
sensuaes, os appetites phreneticos no matam nem remedeiam, no so
venenos nem balsamos, so penas sem fructo e sem fim.

Que condemnao, diz S. Bernardo, a da vontade amarrada  preciso de
crr o _mal_ e no crr o _bem_; por tal modo que de qualquer maneira
que se mova,  sempre _criminosa_ e miseravelmente! No ha de gozar
jmais os prazeres _culpaveis_ que deseja; e as _privaes_ que ella no
quer  as que ella ha de ter por toda a eternidade.

Crr o mal e no crr o bem,  logo o resultado d'aquella condemnao.
Por sentena do juiz, e de que juiz!  que l eternamente se anceiam
impudicos prazeres, ao mesmo passo que o espirito soffre a privao dos
sentidos. Montesquieu, que, a fallar verdade, no era padre da Igreja
nem monge, formava outra ida da natureza moral das penas destinadas a
servir de sanco aos accordos da justia da terra propriamente. Lde
no _Espirito das leis_ certo capitulo intitulado: _Da violao do pudr,
no castigo dos crimes_. Assim comea o capitulo: Ha regras de pudr
observadas em quasi todas as naes do mundo: absurdo seria violal-as no
castigo dos crimes, o qual deve sempre ter em vista o restabelecimento
da ordem.

Ainda que Montesquieu m'o no dissesse, a cousa  evidente por si.
Satrapas em delirio, Cezares devassos, tyrannos corruptissimos, pde ser
que alguma vez enviassem uma rapariga desobediente mas honesta a um
bordel, e que, ajuntando calculadamente a indecencia ao castigo,
convertessem a excitao dos sentidos em supplicio legal, deshonrando a
lei para deshonrar o inimigo. Em todos os paizes civilisados
castiga-se para restabelecer a ordem material e a moral quanto
pde ser.

Cuida-se em esquivar o culpado s seduces que o perderam; impedem-no
de ser nocivo a si e aos outros; privam-no de satisfazer as paixes, no
com o intento de lh'as irritar, mas de enfraquecel-as; sequestram-no da
companhia das pessoas de bem, no para que as odeie, mas para que as
chore; deseja-se que a sua maior afllico consista em havel-as
offendido, e que o arrependimento o rehabilite para tornar ao seio
d'ellas; protegem-no contra a injuria; enviam-lhe a visita de caridade
que o instrue, consola e s vezes restaura. Estas converses so raras
certamente; quasi todas as nossas prises so infectas; ahi a soledade
corrompe; e a promiscuidade  contagiosa. Sabem-no os legisladores, e os
juizes tambem. No se diz, porm, que assim o querem juizes e
legisladores? E, na verdade, querem-no assim!? Que se nos depara ahi
seno o stygma da imperfeio das nossas obras, e a pequenez de recursos
em comparao dos desejos? Mas nem por isso nos sentimos descrer dos
intimos anhelos que nos incitam a buscar nas penas meio de restaurar a
ordem perturbada, onde quer que seja, e at na alma do criminoso. O que
a mesma imperfeio nos aconselha  que prosigam sem descanso no
intento, que ser completamente realisado no mundo em que a justia 
perfeita, e o poder do principe igual  sua justia.

No nos mostrem, pois, no inferno, uma gal immensa, repleta de
impudentes scelerados, porque vos ser perguntado se Deus no pde, mais
que os homens, vencer coraes rebeldes, ou se mais lhe praz exercitar
sua omnipotencia a perpetuar um feio espectaculo que ns, philosophos e
christos, bem quizeramos que fosse banido.

Esta concepo do inferno, to ignobil quanto atroz, data visivelmente
de tempos barbaros, em que a vida physica afogava a moral, e a justia
no transparecia aos olhos propriamente do sabio seno atravez da nuvem
sanguinosa da vingana.

Punir eternamente o vicio com o vicio, a immoralidade com a
immoralidade! que projecto! e, na execuo d'elle, que prodigio! Pois
no basta justiar o homem no corpo? Ser preciso que o avro, durante a
tortura, arda de saudades dos thesouros que tantos cuidados lhe custaram
e tantas dres grangearam? Ha de o comilo, deitado sobre grelhas em
brasa estar a pensar sempre na cosinha e na garrafeira? O voluptuoso,
comido de chammas e de bichos, ha de estar sempre a lagrimar pelas
parceiras? Acham isto possivel? Sendo assim, no inferno sabe-se melhor
do que na terra o que valem riquezas, prazeres, divisas, veneras,
medalhas, sceptro e arminhos. Ahi, ser-se-ha, de facto, blasphemo, e
intencionalmente devasso, adultero, usurario, despota, valido, mas tudo
isto sobre brasas? Havemos de confessar que o local no  dos melhores
para taes desejos, e que s por milagre, em tal sitio e por muito tempo,
possa haver similhantes delirios. Ora ahi vedes que se attribue a
Deus o milagre de fixar a alma dos condemnados sobre impuras imagens,
immobilisando-as em appetites que o offendem.  o peccado eternisado, e
eternisado por Deus. No cabe a responsabilidade d'isso aos condemnados.
No os accuseis; lamentai-os; que esses infelizes no so viciosos de
vontade propria:  a lei que os obriga.


                                    VII

            Ultimas consideraes cerca do inferno theologico

Affirmam os theologos que a liberdade  um mero accidente da nossa vida
mortal, e que, alm da campa, se perde, tomando-nol-a Deus que nol-a
dera, e quebrando entre nossas mos, no momento da morte, aquelle
instrumento de nossas provaes. Os justos so esbulhados d'ella para
permanecerem justos, e os mos tambem para ficarem mos. Diz-se que
Satan prevaricou por que era livre; e, depois da queda de Satan, no co
no houve mais creaturas livres, nem to pouco no inferno, onde o
proprio archanjo est acorrentado ao peccado.

No so, por isso, livres os condemnados. Pensam, amam, desejam; mas no
lhes  concedido meditar, amar e querer seno maldades. Soffrem e sabem
o porqu; mas no podem aproveitar-se do que sabem e do que soffrem.
Conhecem os seus crimes; porm, no se arrependem, porque o
arrependimento  um bem, e o bem no podem elles sentil-o. Se peccam
sempre,  que a tanto so obrigados por sentena. Conservam razo e
sentidos; mas consciencia no a tem, no discernem entre justo e
injusto; no so senhores de seus actos; soffrem avassalados pelos
sentidos, apezar da razo.

Esta escravido absoluta, irremediavel e eterna, explica
superabundantemente a immoralidade e o odioso de suas penas. Pois se de
todo em todo lhes  impossivel a converso, inutil e deshumano  o
castigo corporal que os tortura.

Se no fosse a perpetuidade d'esta escravido, seriam intelligiveis a
fome, a sede, o lago de sulphur, a cama d'espinhos, o cavalete, a roda,
os tractos a fogo e ferro. V d'exemplo: eis aqui um criminoso
impenitente, que ha folgado com os soffrimentos alheios e calcado todas
as leis da terra. Morre. Acabou-se tudo para elle? No. Que v, n'outro
mundo, saber  sua custa o que  dr, e que piedade merecem os que
soffrem. Deus  bastante poderoso para o castigar a ponto de o fazer
bradar por misericordia;  justo que o no poupe; exige-o a humanidade,
com a condio de que esse peccador castigado seja ainda homem, isto ,
um ser no s intelligente e sensivel, mas livre, e, por consequencia,
susceptivel de emenda. Mas, se antes de o ferir, lhe tira o recurso do
arrependimento; se, em vez do homem, o que temos  vista  um mero bruto
sobrenatural, monstruoso, ignobil, a quem a dr nada ensina, e a
razo nada presta, mo por necessidade, torturado, sangrento, nojoso,
gemente... ah! quem falla ahi de justia? desfaam por piedade esse
monstro; basta de padecer; logo que lhe tirastes a liberdade, restituida
lhe foi a innocencia.

Quando uma creana brinca  beira de um poo, e cahe apezar dos avisos
da me, a pobre me no respira em quanto a no salva; corre logo sem
attender  desobediencia, porque a v mais carecida do soccorro quanto
maior  o perigo; para castigo lhe basta a quda. Que diriam os
theologos, se aquella me, em vez de tirar do poo o filho, lhe fosse
quebrar braos e pernas, e cobril-o de pedras? O que elles theologos
imaginam que Deus faz,  aquillo mesmo. Aviltam-no quanto podem.




                             CAPITULO QUINTO

                              SURSUM CORDA


                                     I

Fujamos d'este lamaal. Lavemos ps, mos, cabea e vestidos.
Cauterisemos os beios com um carvo acceso. Demonios, chammas impuras,
espiritos malfeitores, odios, vinganas, carnificinas, ferozes alegrias,
estupidos terrores, sonhos do homem primitivo adormecido em antro 
ourela de lagas turbidas, com o estomago regorgitado de carnes
sanguentas, com a mo sobre a clava, e a alma ainda fremente das paixes
do dia; mystagogia antiga; sapiencia idolatra; delirios renovados dos
barbaros orientaes e occidentaes; confuso acervo de subtilezas
methaphysicas e torpes fabulas e aspiraes, sublimes e baixos erros,
inferno velho e inferno novo, palacios oscillantes edificados com
ruinas, Naraka, Amenthi, Tartaro e Ghenna, sumi-vos! O tempo
avana;  j dia; a calhandra j cantou, vamos  serra vr o repontar do
sol. Acima, ainda mais para o alto, subamos s espigas da montanha, onde
o ar  mais sadio e o horisonte mais amplo. Azas, azas! vamos admirar o
sol que regenera a vida e a fecundidade da terra, e a todo o ser a sua
vera frma, e aos homens, que desperta do somno fundo, a consciencia de
si mesmos e o sentimento das realidades que o rodeam. Mais ao alto! Mais
ainda! azas, azas,  minha alma! Voemos at  origem da luz, de que este
pallido sol  apenas sombra!


                                    II

Deus  uno, com infinita variedade de attributos, cuja manifestao lhe
no lesa a unidade. Conhecemol-o n'este mundo por f unicamente, porque
o no vemos qual , e no temos d'elle, em nossos coraes, seno uma
imagem imperfeita, e, para assim dizer, mutilada. Por tanto, aquelle
sagrado nome exprime o que sabemos realmente, mas tambem o que no
sabemos, e o que saberemos de Deus, no dia derradeiro. Encerra Deus
todas as perfeies, cujo complexo, de que apenas concebemos parte
minima,  o mysterio que adoramos atravez d'um vo, que a morte
levantar, assim para santos como para pecadores.

Sem duvida que os mais obdurados peccadores ho de vr Deus; e
ho de vr no smente alguns attributos seus, mas todos; no ho de vr
smente a sua eternidade, por quanto a eternidade est em Deus, mas a
eternidade no  Deus; no ho de vr smente a sua justia e infinita
omnipotencia, por quanto a justia infinita e omnipotencia so em Deus,
mas no constituem toda a sua essencia; no ho de vr smente a sua
justia, por quanto a justia est em Deus; mas s ou unida ao poder
eterno a justia no  Deus: seno seriam tantos os deuses quantos so
os attributos e virtudes distinctas na unidade divina.

Quando os peccadores virem Deus, ento ho de vr quanto ha em Deus, sua
bondade, misericordia e justia; vel-o-ho a toda a luz, d'um s lance
de olhos, por que tudo o que a nossa lingua separa  inseparavel em
Deus; e, se elle retrahisse dos peccadores um s resplendor de sua face,
ficaria sendo o Deus abscondito que a nossa f adora, e no o Deus
visivel perante o qual toda a incredulidade se dissipa. Pelo que, ao
mesmo tempo que sua justia encher de medo as almas, a sua bondade as
consolar mediante a confiana e arrependimento.


                                    III

Grandes e pequenos, doutos e ignorantes, todos os peccadores sero
castigados, cada qual  medida de suas culpas. Nenhuma ser esquecida;
mas, por isso mesmo, todas as virtudes sero lembradas. Ao
pessimo peccador que em sua vida teve um bom sentimento, um bom desejo
sequer, isto lhe ser como torcida ainda fumegante a qual o sopro de
Deus accender em flamma. O pouquinho bem que praticou lhe ser contado,
at ao ceitil, at ao pucaro de agua dado ao caminheiro, at ao gro de
paino dado  avezinha, at ao movimento do dedo mendinho em que a
creana vacillante se amparou, at ao olhar compadecido psto na face do
attribulado. Estas so as unicas aces que elle quereria recomear e
multiplicar n'esta vida, se lhe fosse dado aqui voltar, por que  esse o
sagrado lao que o une ainda, posto que de longe,  assembla dos
justos; e o mal que fez, esse ainda subsiste, mas s na dr que sente de
havl-o feito, e no arrependimento com que o recorda. Prazeres torpes,
revezados de inquietaes amargas no os cubia. Deplora o ceo, e no a
terra. Smente saudades do ceo pdem enternecer a lagrimas entes
racionaes, desempeados das trevas d'este mundo.


                                    IV

Os mortos que Deus pune viram a Deus, e, a um tempo, se sentiram
attrahidos para elle, e repulsos e como repuxados para longe pelo iman
de seus peccados. Abriu-se o abysmo e cahiram, mas com a vista sempre
fita n'aquella ineffavel luz que lhe foge, e os braos estendidos para o
Deus misericordioso que os exila temporariamente por causa de
suas offensas. Cahem levando comsigo a indelevel memoria d'aquella
formosura e sabedoria infinitas que s instantaneamente viram, e ao
baquearem-se, exclamam: Havei piedade de mim!

Os mortos que Deus castiga viram Deus; e para logo o amaram, que 
impossivel vl-o sem o amar. Viram-o e esqueceram a terra; viram-o, e
arderam em sede inextinguivel de tornar a vl-o e possuil-o. Verdadeiro
castigo! Expiao dolorosa, mas efficaz! Ardentes lagrimas, mas
salutares, que o amor derrama, e o amor enxugar.


                                     V

Blasphemar que ?  negar Deus ou algum dos seus divinos attributos ou
alguma das eternas e infinitas propriedades do seu ser.

Negar-lhe a existencia  blasphemia; negar-lhe o poder  blasphemia;
negar-lhe a immensidade, a eternidade ou a sabedoria  blasphemia.

A blasphemia  somente praticavel n'estas regies de duvida e mysterio
em que Deus escassamente se deixa entrever atravez d'um veo. Mas o veo
cahiu na presena dos mortos.

Os cegos viram; os paralyticos andaram; os mudos fallaram. Confessam
todos que Deus existe, que  eterno e poderoso e justo. Negar-lhe a
justia como poderiam elles, se sentem at ao amago de seu ser a
claridade ardente e purificante? E, se no podem negal-a, como ousariam
affrontal-a? Mas, se querem que elles blasphemem, digam-nos qual das
perfeies divinas elles negaro?

Ai! aos theologos aprouve que os condemnados negassem a que mais valiosa
lhes seria. Os condemnados negaro a bondade de Deus; injuriando-o de
mo, de cruel, de implacavel, de escarnecedor de suas agonias, de
vingativo, de carrasco, e no juiz. Isto, com effeito,  que 
blasphemar.

Mas estes impios discursos no os vociferam os mortos castigados por
Deus; sois vs, scribas e doutores, que lh'os inventastes; e o que a
isso vos levou foi o imaginardes um inferno perpetuo, e, pelo tanto, o
effeito que o castigo esteril devia produzir sobre soffredores
immortaes. Entrai mentalmente n'essa catacumba infecta, tomai por
instantes o logar das victimas, e ousai fallar em bondade de Deus. No
acreditareis em tal. Mo grado vosso, a blasphemia vos fugir da bcca.

Os primeiros blasphemadores so, logo, os inventores d'aquelle
imaginario supplicio.  maneira dos idolatras, fraccionaram Deus,
extremando entre justia e bondade--attributos indistintos. De modo que
essas presumidas blasphemias do inferno so smente um ecco das que
esbravejaram nas almas d'elles, ao contemplarem a sua obra.


                                    VI

Deus  justia e misericordia conjuncta e indivisivelmente. Nos actos da
sua justia ha sempre um fundamento de misericordia; e, nos actos em que
smente a sua misericordia reala, ha um fundamento de justia. 
offendel-o dizer que  misericordioso sem justia para uns, e justiceiro
sem misericordia para outros. Isto  falso quanto ao tempo e quanto 
eternidade.  justo Deus com os justos coroando-os, por que se a
salvao d'estes fosse gratuita e mera complacencia particular, favor e
no recompensa, o castigo dos peccadores seria iniquo. Na gloria, pois,
dos bemaventurados reina tanta justia quanta misericordia.

Mas, se Deus, no outro mundo,  justo para os eleitos, por que no ha de
ser misericordioso com os peccadores?

Mostrais-me a sua misericordia no ceo; e eu tambem l vejo a sua
justia.

Mostrais-me a sua justia no inferno, e eu tambem l procuro a sua
misericordia.


                                    VII

A condemnao do vosso inferno est na necessidade logica e invisivel
que l obriga a offender e amaldioar Deus.  isso possivel? Deus quer
ser injuriado eternamente? No querer antes ser adorado e
abenoado por todas as creaturas? Adoram-no os santos em jubilo, e os
mortos, que pune, adoram-no em penas, por que sabem que ellas ho de ter
fim.

Seja-me testemunha o Evangelho.




                              CAPITULO SEXTO


                        A parabola do rico avarento

                                                _Lux in tenebris._

Lde no Evangelho de S. Lucas, capitulo XVI, a parabola do rico
avarento.

Do fundo do inferno, o rico avarento levanta a voz para seu pae Abraho:
Compadece-te de mim, e manda c a Lazaro, para que molhe em agua a
ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a lingua. Lazaro no se bole,
em quanto o patriarcha lembra ao padecente a pena de talio; cabe agora
ao opulento mendigar, e ao pobre fartar-se.

O rico avarento baixou os olhos, e no pediu mais agua: resignou-se, no
murmurou, no blasphemou, renunciou a gottinha d'agua como renuncira as
vestes purpureas e as regalias da meza. Todavia, ainda outra vez se
dirigiu ao pae Abraho: Eu te rogo que o mandes a casa de meu
pae, pois que tenho cinco irmos, para que lhes d testemunho, no
succeda virem tambem elles parar a este logar de tormento. E Abraho
lhe disse: Elles l tem Moyss e os prophetas: ouam-os. Ainda assim,
o padecente insiste: Mas, se algum morto l fr, elles faro
penitencia.

Ahi est mudada no s a fortuna do rico avarento, mas o corao tambem.
Eil-o humilde, supplicante, submisso. Recebe as recusas sem irar-se; e,
em meio de suas dres, lembra-se enternecido de cinco irmos que deixou
na terra. No lhes inveja os haveres; pelo contrario, quer incutir-lhes
caridade, e s por amor d'elles importuna o seu ascendente Abraho.
Porm, Lazaro e Abraho sahem-lhe to rijos como elle tinha sido para
com as dres alheias. O tal Lazaro, cujas chagas os ces lambiam,
tornou-se menos piedoso com o proximo do que haviam sido com elle os
ces. Refocila-se nas delicias do ceo, como o rico avarento se
refocilra nas da terra, e esqueceu o que era penar, e o que se deve a
quem pede. No tocante ao patriarcha, esse, em vez de consolar o neto
supplicante, desespera-o; e, a segunda vez que o desgraado ousa
pedir-lhe um milagre de bondade, no para si, mas para os irmos, que
lhe responde o outro? Responde seccamente que os irmos l tem as
escripturas to dignas de credito como os mortos, pelo menos.

Admiravel, mas, para theologos, incomprehensivel parabola! Eis aqui o
inferno converso, repso, enternecido, o rico avro deplorativo e
caridoso, e por cima, um ceo de bronze, uns santos descaroados.
Este no  o inferno judaico,  christo; mas o paraiso esse  que 
judaico, e no christo.




                              CAPITULO SETIMO


                            Terra, inferno, ceo.

            DESVIRTUAR O INFERNO  DESVIRTUAR A TERRA E O CEO.
           NO  OUTRO O SENTIDO LATENTE DA PARABOLA DE LAZARO


                                     I

                                   TERRA

As affeies d'esta vida continuam na outra. Mesmamente no ceo, a Virgem
 Me de Christo. Todos esperam reconhecer, alm-tumulo, as pessoas que
na terra estremeceram. Reconhecer-se-ho os esposos, pois que ho de
reconhecer os filhos. Esta esperana  a maior consolao d'esta vida, e
uma das foras que nos attrahem para o ceo. Mas o perpetuo inferno nos
escurece aquella esperana e nos esfria os mais santos affectos.

Eis um pae de familia que morre subitamente ou de violenta morte, ou na
sua cama, sem padre, sem sacramentos, ao cabo de uma vida devota.
Imaginem a incerteza da viuva e dos orphos quanto  salvao d'esse
ente que os amou, educou, nutriu, instruiu e consolou. Se ha
coisa verdadeira no ensino dos theologos, podemos apostar mil contra um
que este homem cahiu no inferno para sempre.

Que afflico para acrescentar s angustias d'aquella familia! Se elles
tivessem a certeza de amar um peccador penitente, a quem rogos e boas
obras podessem levar refrigerio, que supplicas, que piedosas obras no
fariam! Mas amar um condemnado! suffragar um condemnado! amarrarem-se 
memoria de um condemnado! guardar-lhe as reliquias, as cartas, o
retrato! Choral-o, suspirar por ir vl-o! De repente, morrer para
odial-o! Saber, e pensar estas coisas! Seja embora uma duvida;  duvida
que gela a orao no peito; quebra o animo para o bem-proceder; espanca
a piedade do lar; e aconselha o estontecer-se e esquecer-se um
homem--coisa to natural ao mundano egoismo--; ou ento, o outro egoismo
feroz e sombrio do frade que immola  sua propria salvao todos os
affectos humanos.


                                    II

                                   Ceo

Haver no ceo familias que se encontrem; mas tambem no ceo haver
orphos eternos, e viuvas eternas, e mes eternamente sem filhos. Se
isto  motivo para amarguras, ahi est o agro das douras do ceo; mas,
se  motivo para alegrias, que horriveis alegrias!

O rico avarento do Evangelho seria em verdade melhor do que os eleitos.
Sem duvida, mais caridade haveria no inferno que no ceo.




                              CAPITULO OITAVO

                           HISTORIA DE UM SONHO


                                     I

Ganhou um medico,  cabeceira de um pobre, doena mortal. Chegou to
depressa a morte que no lhe deu tempo de chamar o padre. Chegou o
padre, quando elle era j morto. Circumvagou os olhos pelos assistentes,
disse que o chamaram tarde, e sahiu dando aos hombros.

As poucas palavras e o gesto impressionaram vivamente a viuva, que se
quedou a pensar n'aquillo todo dia.


                                    II

E eu velava  sombra do funebre leito. A viuva estava ali orando,
soluando, e sempre preoccupada, a pezar seu, com as palavras do
padre. A intervallos, olhava ella para mim chorando, invocava-me como
testemunha da virtude de seu marido, e dizia-me com anciedade: No se
salvar elle?--No duvide, senhora--dizia-lhe eu; porm tristemente eu
via que as minhas respostas a no socegavam.

Ao cahir da tarde, como ella desde a vespera no comesse nem dormisse,
fiz que seu filhinho lhe offerecesse algum alimento. Debalde se esforou
por engulir. Ento pediu um livro de oraes. Abriu ao acaso um que lhe
deram, esperando achar ali algum alivio, que no achou; pelo contrario,
com a leitura cresceu-lhe a inquietao. Vi-lhe ento no rosto uns
tregeitos involuntarios, e um crispar de mos, e por fim um grito e logo
cahiu desmaiada nos braos de quem a levou d'ali.


                                    III

Apanhei o livro cahido de suas mos. Denominava-se _Quotidiano do
christo_, e facilmente conheci nas paginas avincadas as passagens que
ella tinha lido: eram os _Pensamentos christos para todos os dias do
mez_, pelo padre Bouhours, da companhia de Jesus. Tinha ella desmaiado
quando lia no _quinto dia_ uma meditao cerca do _Juizo final_. Acontece
sempre que o ferido ao cahir bate sempre na chaga. Alguns trechos do
capitulo, cujas margens estavam laceradas, diziam assim: Quo terrivel
 o dia da ira do Senhor! Os justos escassamente sero havidos
como taes: que ser dos peccadores? Que sentena pde esperar o peccador
impenitente de um Deus inexoravel? Oh! que terribilissima sentena! _Ide,
malditos, arder em fogo eterno!_ Ai! onde iro, Senhor, esses desgraados
que amaldioaes? Para que ponto do mundo quereis que se afastem,
distanciando-se de vs? Onde  que est paragem to funesta?


                                SEXTO DIA

                                O INFERNO

I. Que horror ganhariamos ao inferno, se podessemos ouvir os
lamentaveis gritos dos condemnados! Suspiram, gemem, urram como
bestas-feras em meio de lavaredas. Accusam-se de seus peccados,
chorando-se, detestando-os; mas  TARDE. _O chorar no lhes faz seno
augmentar o ardor do fogo que os queima sem consumil-os._ Penitencia dos
condemnados! quanto s rigorosa, e _inutil_!

II. No vr Deus nunca, arder em fogo de que o nosso  apenas sombra;
soffrer ao mesmo tempo quantos males ha ahi, _sem allivio, sem repouso;
sempre com os olhos postos nos demonios, sempre com o corao raivoso e
desesperado_, que vida!

III. Esses desgraados _enfuriam-se_ por terem desprezado tantas
occasies de salvarem-se. _O recordarem os prazeres passados -lhes um de
seus mais penosos tormentos_; mas o tormento superior a todos  a
lembrana de terem, por sua culpa, perdido Deus.[6]

Pobre mulher!--disse eu entre mim lendo aquelle capitulo--vr seu
marido, to bom homem, alcunhado de besta-fera! E topar em livro de
piedade, onde procurava consolar-se, esta cruel sentena que de manh
ouvira da bcca d'um sacerdote:  MUITO TARDE!... Quiz fechar o livro;
mas o titulo do _Dia_ seguinte, impresso em versaletes, susteve-me.


                                SETIMO DIA

                    DA ETERNIDADE DAS PENAS DO INFERNO

I. Poder ir mais adiante a clera de Deus _que castiga prazeres que to
pouco duram com supplicios sem fim_? Que desgraa no  isto! No bastar
que os males d'um condemnado sejam extremos?  foroso que sejam
eternos? Uma picada de alfinete  mal bem leve; todavia, se este mal
durasse sempre, tornar-se-hia insupportavel. Ora, os tormentos do
inferno que sero?

II.  eternidade! _Quando um condemnado podesse derramar lagrimas
bastantes para fazerem quantos mares e rios tem o mundo, ainda que
vertesse uma s lagrima em cada seculo, elle no estaria mais adiantado,
depois de tantos milhes d'annos, como quando comeou a penar._

_Ser-lhe-ha foroso recomear como se no tivesse nada padecido; e,
quando tiver recomeado tantas vezes quantos so os gros de areia nas
praias, os atomos no ar e as folhas nos bosques, nada d'isso lhe ser
contado._

III. No s por toda a eternidade os condemnados soffrero; _mas, a cada
instante, soffrem a eternidade inteira_. Est-lhes sempre  vista a
eternidade; em todas as dres se lhes ca a eternidade. _As penas
infinitas continuamente lhes esto no espirito._ Cruel ida! deploravel
situao! _Arder por uma eternidade! chorar eternamente! Raivar sem fim!_

Esta meditao corresponde ao _Setimo dia_, que  aquelle em que o
Senhor entrou em descanso para admirar suas obras.

    [6] O padre Bouhours foi um solerte engenho, bastante mundanal, que
    distillava a frio no seu gabinete aquella rhetorica medonha, cuja
    leitura, se lhe dessem valor serio, seria capaz de fazer abortar uma
    mulher gravida. Acintemente abastarda elle n'este livro a verdadeira
    doutrina cerca do inferno, doutrina em que se aprende que os
    condemnados amam o peccado, pois que amar o peccado  odiar Deus;
    conhecendo, porm, a desmoralisao de tal pena, o padre Bouhours
    presume que os condemnados abominam o peccado, mas que os seus olhos
    se abriram _j tarde_, por maneira que substitue  pena immoral, mas
    apparentemente justa, uma pena de apparencia moral, mas para isso
    mesmo horrivelmente iniqua, por que detestar o peccado  amar o que
    ha mais avsso ao peccado, isto , a virtude, ou, mais ao claro,
    Deus. Segue-se que Deus deixaria infernados os que o amam e se
    arrependem de o haver offendido. N'outro capitulo da mesma obra o
    mesmo padre  de parecer que os condemnados no podem amar Deus.
    Mas, se elles no amam o bem nem o mal, nada amam; e ento que vem a
    ser as penas espirituaes? Que soffrem? por que soffrem? por que se
    afflijem do perdimento d'um bem que no amam? e por que os afflige a
    perda dos prazeres que abominam? Tudo isso dispra n'um apontoado de
    sandices.


                                    IV

Acabava eu de lr, agitado, aquella pagina, quando a viuva recuperou os
sentidos; mas quasi mentecapta. Exclamava ella que tinha a certeza de
seu marido ter sido condemnado, por que no acreditava em tudo que a
egreja ensinava, e morrra sem confisso; accrescentava que o marido era
bom para ella e para todos; que, ainda mesmo que a houvesse offendido,
lhe perdoava pelo muito que elle estava padecendo, e que desejava ir
juntar-se-lhe e consolal-o no inferno. Fallava em matar-se para mais
depressa o vr; e, dizendo isto, aconchegava o filho do seio,
sorria-lhe, beijava-o convulsivamente, em duvida se devia matal-o; por
quanto, dizia ella, o menino iria ao paraizo, se morresse ento; e no
se veriam mais, desejando ella leval-o ao pae.

Assim que ouvi os gritos, sahi do quarto mortuario para soccorrer, se
fosse preciso, aquella afflicta gente, sobrecarregada com outra
desgraa. Cercamos a joven viuva, vigiando angustiosamente os seus
menores movimentos, por medo de que ella no praticasse algum acto de
desesperao, de que dera mostras. Quizemos tirar-lhe o filho; mas ella
dava ares de querer afogal-o antes que lh'o tirassem. Parecia j mais
tranquilla que todos ns. Desfigurou-se-lhe cadavericamente o
semblante; os olhos porm brilhavam, e o sorrir tinha um ar celestial.
Fallava sem cessar do marido, e do prazer que ella teria em acompanhal-o
no soffrimento. A me ajoelhou-se diante d'ella, que a levantou
amorosamente, rogando-lhe que no pedisse a Deus pela sua alma.

Conseguimos em fim separal-a do filho, e levamol-os um apoz outro, elle
j adormecido, e ella luctando comnosco, desgrenhada e rota. Seguiram-na
os parentes, e eu fiquei ssinho  beira do cadaver.


                                     V

Bem desejava eu tambem sar: carecia de distrahir-me. Piedade, clera,
f, duvida, terror, mil contrarios sentimentos me agitavam, dos quaes eu
no podia defender-me ao p do esquife, e depois de similhante
espectaculo! Encostei-me  banca onde estava deitado sobre uma alva
coberta um crucifixo de marfim, e, contemplando aquella divina imagem,
recolhi-me no mais intimo retrahimento d'alma. Perguntava eu a mim
mesmo, com o corao apertado, o que devia crer-se da vida e morte de
Christo, e se era certo que elle descesse do co, como se dizia, para
assombrar os justos, desesperar os peccadores, e conturbar a razo dos
fracos. E a mim me quiz parecer que Jesus estava ali, e pensei vl-o
chorar, e que uma de suas lagrimas resvalou sobre o _Quotidiano do
christo_, e tudo que eu havia lido n'aquelle livro subitamente se
desfez.

Estava ainda comtudo a minha alma perturbada. Interroguei o Christo. No
me respondeu. Ento entrei em duvida se eu estava adormecido ou
desperto. Vi--seria sonho?--um oceano de trevas alcantilar-se  volta de
mim, e no seio d'essa escurido immensa lampejava um frouxo raio de luz.
E esta luz saia das fendas de um sepulchro, e Jesus estava deitado vivo
n'esse sepulchro. Eu quiz levantar a pedra que o cobria, mas uns
verdugos envoltos em trevas me deceparam as mos; eu quiz balbuciar, e
arrancaram-me a lingua; e assim mutilado, cego e mudo senti-me
arrebatado e precipitado s entranhas de um abysmo, e comprehendi que
estava no inferno. O meu unico soffrimento ahi era a cegueira, e a
espectativa anciadissima dos supplicios que me esperavam. E, como s
tivesse ouvidos para entender, escutei, e comprehendi o seguinte.


                                    VI

Ao principio ouvi um rumorejar estranho, que rolava prolongando-se ao
travez dos espaos infinitos, e depois decrescia at ao ciciar da
folhagem que a brisa da tarde acaricia, e por fim augmentava em estridor
at exceder o roncar das vagas cavadas pela borrasca. Estas
comparaes tiradas da terra no do ida da tristeza, do pungente e
solemne d'aquelle immenso rugir de seres sem nome que eu no podia vr e
ouvir gemer. De toda a parte, suspiros, brados, soluos, gritos
exhorativos, mas tudo distincto, conglobando-se sem confundir-se, e
formando um brado unisono. Debaixo do sol no ha ahi espectaculo to
variado como o prantear d'aquellas almas, ressoando em choro universal
quasi claro ainda, e mais afflictivo. Ao ouvir estes estrondos
figurava-se-me que o sangue me escorria dos pulsos cortados, e o suor da
fronte, e as lagrimas dos olhos, e tanto eu como tudo em redor
soffriamos e supplicavamos.


                                    VII

E uma voz exclamava: Oh! quanto eu soffro, Deus meu! Isto no ter fim?
Vs, Senhor, que me atirastes ignorante a um mundo escuro, no me
julgaes, apoz tantos seculos, bastante castigado dos meus desvios d'um
dia?

E outra voz exclamava: Quando os meus peccados aqui me abysmaram, vossa
mo,  Deus, me amparava, e me ampara ainda; e, assim mesmo, em logar de
diminuir, o meu supplicio augmenta. Soffro com quantos de longe
molestei: tenho fome com os que eu poderia fartar; tenho frio com os que
eu poderia vestir; peza sobre mim a cada hora e cada vez mais
esmagadora a carga de males que fiz pezar sobre outros. Multiplicaram-se
as minhas offensas como a herva sobre a minha campa esquecida, e as
minhas feridas sangram sempre, e as minhas chagas lavram sem cessar.
Isto  justo, meu Deus! Poderia eu ser feliz no co, se visse o effeito
de minhas obras? Em quanto fructifica a arvore fatal que plantei na
terra, puni-me, Senhor! Mas no me tireis a esperana! O pouquinho bem
que fiz na vida no germinar nem cobrir, se o permittirdes, os
vestigios das minhas iniquidades? Oh! quando nenhum ente vivo, n'algum
logar do mundo, j no podr imputar-me seus soffrimentos, tende ento
piedade de mim, meu Deus!

E todas as almas peccadoras, unindo-se em um brado de misericordia,
repetiram juntas, l das reconditas profundezas: Tende piedade de mim!
Tende piedade de mim!

Esta supplica em commum era a um tempo to suave e dilacerante que eu
imaginei que o ceo se abriria. Mas a noite que me envolvia espessou-se
mais glacial; e o abysmo emmudeceu; e, apoz um instante de esperana,
continuou a lamentar-se, correndo como o oceano nas fragarias da costa.

Ai! ai!--conclamavam os gritos que se extinguiam soluando-- surdo o
co!  surdo o co!

Nunca! nunca!--diziam outras vozes--Nunca! nunca! Meu Deus, que resposta
 dr! Nunca! nunca!

Descanai, filhos!--bradou um condemnado, que se me figurou, no tom de
voz, ser um dos patriarchas do abysmo--No profirais essa palavra
horrida. Ahi sa em vossos pobres seios um ecco das maldies da terra,
e no palavra descida do co. Ha mais de mil annos que padeo, e oro, e
escuto o co, e no ouo a resposta. Oremos, oremos sempre!

E o ancio entoou um cantico; e, ao primeiro versiculo, parou e
debulhou-se em lagrimas.

Ai!--ressoavam ao longe milhes de almas gementes--Ai! o co  surdo! o
co  surdo!

N'este lance, uma voz sobrelevou a todas, dizendo:--Ensinai-nos, ao
menos, Senhor, a utilidade dos padecimentos. Se nos perdoasseis, acaso a
vossa gloria padeceria com isso? A felicidade dos justos soffreria
diminuio? Revoltar-se-hiam elles contra vs? Logo que as creaturas
entraram  vossa presena, no se lhes acrisolaram os sentimentos de
piedade? O padre que me estendia a mo quando era mortal e sujeito ao
peccado, a esposa que eu amava, a me que me gerou, os amigos que me
trahiram e aos quaes perdoei, os pobres que soccorri, e uma filha
ingrata e amada a quem eu daria a comer o meu corao em ancias de fome,
nem essa, ninguem vos intercede por mim? Hontem oravam elles quando eu
me rejubilava nas culpas; pranteavam-me vivo e oravam por mim; e hoje
esquecem-me, pendem para o crime, fogem da dr; o amor a quem soffre e
geme  sentimento ephemero, que vai mal para entes bemaventurados.

E a voz que fallava assim ergueu-se ainda para amaldioar, mas
falleceu-lhe a fora, e  maneira do vagalho que rossa a nuvem
rugindo, subita recaiu e expirou em prolongado gemido.

Mas logo um brado novo retumba mais estridente ainda, e, eu, ouvindo-o,
no distinguia se era orao, se blasphemia.

E bradava:--Creio na vossa justia, meu Deus; mas deixai-me crr na
vossa misericordia. No  ella to infinita como a vossa justia? No 
eterna? Se me perdoaveis quando eu estava na terra, porque no me
perdoais aqui? Se eu sou o mesmo peccador, no sois vs o mesmo Deus? E,
se a morte me mudou, pde a morte d'um ente como eu mudar a vossa
immutavel natureza? Cansou-se acaso a vossa bondade? Exhauriu-se? Sois
vs susceptivel de cansao? E, se alguma de vossas virtudes 
transitoria, de circumstancia e occasional,  foroso que seja a
bondade, aquella ineffavel bondade que ns ignorantemente consideravamos
l em cima a mesma essencial e inalteravel virtude vossa! Se assim
--proseguiu a voz desesperada--anniquilai-me, Deus Omnipotente! Esta
existencia  inutil; sou de mais no universo. Que lucraes com as minhas
dres? Tendes preciso d'ellas? Retomai esta vida de que sem duvida
abusei, e esta intelligencia que perverti; apagai em mim esta luz, visto
que principiam a rasgar-se os veos que a escurentavam.

Tirai-me a lembrana do co, a ancia de ser feliz, a necessidade d'amar,
a necessidade de saber; tirai-me, sobre tudo, por piedade, o sentimento
da justia, porque eu no sou Deus, e a vossa justia  um
mysterio, e contra minha vontade, a blasphemarei. Deixai-me morrer, 
Deus! Deixai morrer quem soffre! Matai o peccado incuravel e a dr
esteril, a fim de que na creao no haja um s atomo que no palpite de
reconhecimento e alegria, ao ouvir o vosso nome santissimo.

E um clamor horrendo abafou a voz que fallava; e, d'um angulo a outro do
abysmo, todas as almas em tortura escabujavam, rogando a Deus que as
deixasse morrer. E pediam a morte como os famintos mendigam po;
chamavam-na com os gritos da mulher em angustias de parto do seu
primogenito, com a dr da victima na fogueira, com o rugido da lea que
perdeu os cachorros, com o balido do cordeirinho que procura a me. E eu
tambem a chamava, e me pareceu vl-a aproximar-se, e beijei-lhe a mo
glacial; e, quando me sentia morrer, despertei.




                              CAPITULO NONO

                             JUDAS ISCARIOTE


                                     I

Eu escolheria d'entre os condemnados o mais desprezivel, se no inferno
existisse um miseravel maior do que Judas.

Este vivia na amisade de Jesus; ninguem lhe conhecia mais de perto a
innocencia; e, como elle fosse o particular distribuidor das esmolas
(_Joo_, c. 13, v. 29), ninguem lhe conhecia melhor a bondade. No
obstante, vendeu-o; e, depois de o atraioar, voltou, ceou com elle, e,
ao escurecer, guiou os soldados que o prenderam; e, como os soldados o
no conhecessem, deu-lhes signal, abraando-o. Eis aqui o crime
circumstanciado. Premeditao, cubia, villeza, tem de tudo. Judas vende
o mestre e o amigo, o sabio e o justo. Vende-o sem colera, sem paixo,
por bom dinheiro de contado, como venderia na feira um jumento ou
um boi. Sabe que desejam matal-o; no importa! vende-o. E que ser
depois da Me de Jesus? e dos doentes que elle curava? e dos ignorantes
que ensinava? Ah! que tem Judas com as lagrimas de me e com a
ignorancia e lastimas do povo? Negociou com todas essas dores como
mercadejou com a amisade, com a sabedoria, com a innocencia, com tudo
que ahi ha divinal n'este mundo. Embolsou o preo; e, a fallar verdade,
nem os phariseus nem elle avaliaram cara a mercancia: trinta dinheiros!
dez vezes menos que a libra dos perfumes de Magdalena.


                                    II

Um dos primeiros effeitos da perfidia de Judas foi a defeco dos
apostolos. Em vez de seguirem o Mestre, falsamente accusado de sacrilego
e seductor, dispersaram-se: Thiago, Simo, Thadeu, que elle chamava seus
irmos, Joo, o seu amigo dilecto, todos por egual covardes, no
cuidaram seno em salvar-se. Conheces este homem? perguntaram a
Pedro.--No,--diz Pedro, o chefe, o mais corajoso de todos--no o
conheo.--Renegou-o trez vezes; trez vezes mentiu; trez vezes
testemunhou de falso em face dos accusadores: depois, chorou na
escurido, e calou-se. Todos deixaram injuriar, calumniar, chibatar e
morrer Jesus, sem erguerem brado em sua defeza e duvidando que
fosse Deus, duvidando-lhe da misso, das promessas; bem que, para grande
opprobrio d'elles, certos de sua amisade, pureza de vida, e excellencia
da moral. Para se reanimarem foi preciso o milagre que o pae Abraho
recusou ao rico avarento; nada menos que resuscitarem os mortos, e que
propriamente Jesus sasse do sepulchro, e que elles o vissem, e
conversassem e comessem em sua companhia, e que Thom lhe tocasse as
chagas. Desde ento  que prgaram com inabalavel f a divindade de
Jesus.


                                    III

O peccado dos apostolos, n'esta lamentavel historia da Paixo, , na
essencia, egual ao de Judas, bem que no tanto odioso. Faltou-lhes a
todos a f; porm, sendo a f um dom sobrenatural, no devemos arguil-os
desabridamente porque no receberam o dom. O que do seu proceder nos
irrita  deixarem ir at final, sem publico protesto, a obra de Judas; 
que abandonassem o innocente amigo que os outros tinham vendido;  que
no dissessem a Pilato ou Herodes: No! este homem no  sedicioso;
quer que se d a Cezar o que  de Cezar, e a Deus o que  de Deus; paz,
desinteresse, e caridade so a sua doutrinao. Isto bem o sabiam
elles, e no o disseram, e deviam tl-o dito, sem medo, e no abafarem,
como fizeram, o grito da consciencia. Este  que  o crime dos
apostolos, crime natural, como o de Judas.

Bem se deixa vr que, se Judas vendeu o seu Deus, no pensava elle que
vendia Deus: vendeu-o sem vl-o, sem reconhecl-o divino. O que elle a
sabidas vendeu e quiz vender era um homem, pelo mesmo theor que os
apostolos desampararam e quizeram desamparar um homem, mas o melhor e
mais sabio homem, e o mais carinhoso amigo.

Vender Deus! renegar Deus!  isso crivel quando se cr em Deus? Tal
crime,  fora de disparatado, ficaria impune, como acto de sandice!
Judas foi ingrato, ladro, egoista, traidor doble, fallacioso,
assassino; tudo isso foi e mais ainda; mas o certo  que, no intimo de
seu corao, Judas no se julgava deicida.


                                    IV

Por mais infame que haja sido, Judas no o era tanto que no
comprehendesse a torpeza do seu acto. Tanto a comprehendeu que no se
pde afazer  sua villania; e, em quanto os apostolos se escondiam, foi
elle--dolorosissimo acto!--confessar sua perfidia no templo, e restituir
o dinheiro aos compradores, dizendo: Vendi o sangue do innocente. Mas
ninguem se desata do seu remorso, como de um dinheiro que encrava
espinhos na consciencia; e, na bcca de um traidor, o testimunho a favor
da innocencia perde muito de sua efficacia. Sentiu-o vivissimamente
Judas quando, apoz confessar-se do crime, os phariseus lhe responderam:
Que se nos d d'isso? L te avm. Sau ento do templo, convicto de
que no estava em sua mo sustar as consequencias do seu crime, corrido,
desesperado, indo ao encontro da morte que merecra, mas que ninguem lhe
dava, para que a sua penitencia fosse maior n'este mundo.


                                     V

Vida de opprobrio e remorsos  expiao. Judas deveria viver. Porque se
matou? Se elle cresse na divindade de Jesus, no se mataria, pois que,
matando-se, a entregar-se nas mos d'Aquelle que atraiora. Por que
se matou? O suicidio nada remedeia, e tira da contemplao dos homens o
salutar espectaculo d'um criminoso contricto. Procurava elle
anniquilar-se? A anniquilao ser-lhe-hia doce refugio: o nada no 
pena. Ora  certo que ninguem disse que Judas fosse atheu. Se elle
descrsse de Deus e da vida futura, como explicar-lhe os remorsos? Que 
crime, quando se cr que tudo acaba comnosco? Se no cresse em Deus,
Judas guardaria os trinta dinheiros. Que temia elle? Como cumplices de
seu crime tinha todo Israel, os padres que o corromperam, os senadores,
Pilato, Caiphs, e a crte de Herodes, e os proprios apostolos que
negaram a victima. Ento por que se matou?


                                    VI

No suicidio de Judas ha terrivel mysterio; mas tambem, n'este mysterio,
ha relance luminoso, e vem a ser que Judas, depois de confessar a
perfidia, na face dos tentadores, calcando o ouro recebido, vagando
loucamente pelas ruas de Jerusalem, valia tanto pelo menos como o senado
judaico que continuava deliberando friamente a morte do justo, como
Pilato que lavava as mos, como Herodes e sua crte que riam de tudo, e
como os covardes amigos cujo testemunho, n'aquella conjunctura, seria
muito mais importante que o d'elle. Tal monstro revertido a homem, de si
mesmo horrorisado, saiu da cidade, entrou aos campos por onde tantas
vezes estancra com o affavel Mestre, viu-se indigno de apertar a mo
d'um amigo, porque havia trahido o mais fiel de todos; viu-se indigno de
piedade por que a no tivera; e, por fim, desejou acabar. Nunca tinha
sentido como ento, nem quando ouvia Christo, o nada das riquezas, a
vaidade do mundo, o desgosto dos prazeres, o horror dos vicios que os
seguem. Oh! se elle podesse retroceder, delir de sua vida aquella nodoa
de sangue, sacudir o pezo que lhe abafava o corao, quo diverso do que
fra no seria! Como agora se lhe figurava formosa a innocencia! Como as
tentaes lhe pareciam boas de subjugar! Ah! se elle podesse quebrar as
prises de Jesus, e banhar-lhe os ps com suas lagrimas! Se
podesse offerecer a vida a trco da que o povo a sacrificar! Com que
prazer se deitaria na cruz, e ahi morreria em paz, se lhe fosse dado
perdo de seu crime com tal condio!... Mas, ao longe, estrugia a grita
da multido enfuriada, bradando: Crucifica-o! Escutava o tropel dos
cavallos, o retinir das armas, e a pancada do martello que cravava os
pregos nas mos bemfazejas do amigo que elle vendra. Iriaram-se-lhe os
cabellos, reumou-lhe suor glacial ao rosto, mal se tinha nas pernas
como ebrio, sentia retrahir-se-lhe o cho debaixo dos ps. Oh! como
Jesus padecia! Mas Judas padecia mais, porque soffria como criminoso, e
no como justo. Os soffrimentos de Judas excedem todo o confronto. No
ha ahi agonia que lhes compareis. Em um dia, n'uma hora soffreu mais do
que cem annos de penitencia no deserto, cem annos de vergonhas e
supplicios entre os homens. A sua alma era uma fornalha em chammas. Os
caminhos abrolhavam-lhe espinhos dilacerantes debaixo dos ps. Com os
proprios dentes lacerava os beios. O sangue estura-lhe nas veias.
Aquelle viver j no era vida de homem. Nem fome nem sede o espertavam
do lethargo horrendo. Fulgurava-lhe um s sentimento: o horror do seu
crime. O que elle levava pelos campos alm era um cadaver j insensivel
 dr; e esse vil cadaver  o que elle estrangulou pendente da arvore.
Fez mal. Melhor lhe fra morrer ajoelhando, supplicando misericordia.
Ah! acaso sabemos como elle morreu? Por ventura, a dr refinada
at aquelle extremo no ser a mais eloquente supplica? Quem o sabe
n'este mundo?


                                    VII

Seja, porm! Prosiga elle na outra vida o medonho supplicio que tentou
abreviar! Que esse incomportavel castigo redobre de hora a hora, de anno
a anno, de seculo a seculo.  justo. _Amen! amen!_

Conte-se e publique-se em todas as linguas da terra que ha dezoito
seculos Judas trahiu o Filho do homem, seu bemfeitor, seu amigo e
mestre, e que o seu castigo dura ainda. Maldito seja elle e todos os
seus similhantes! Maldito seja de pobres e ricos, dos filhos e das mes!
Padres de Jesus Christo, levai esta nova a todas as choas e palacios;
dizei-a a grandes e pequenos, aos que balanceam thuribulos, e aos que
floream gladios, aos que julgam a terra e aos que so julgados! Ai dos
hypocritas! ai dos ingratos! ai dos homens de duas linguas e duas caras!
ai dos servos e dos irmos tredos! ai dos que antepem a amisade 
justia, e vendem sua alma ao sanhedrin, e contam as suas moedas em
quanto o innocente  atormentado.

Dizei isto a toda a terra, padres de Jesus Christo, que no haver ahi
palavra que vos impugne.

Sim! No ha ahi crueza de morte, e mormente voluntaria morte que expie
tamanho crime. Judas soffre ha dois mil annos, e d'aqui a quatro
mil soffrer ainda, e em quanto o genero humano no terminar a sua
peregrinao terrestre, viver em supplicio recrescente de tormentos
inauditos.


                                    VIII

Entretanto, meu Deus, este mundo de provaes, segundo dissestes e tudo
o confirma, ha de acabar. E, quando este mundo fr destruido e renovado,
quando j no houver sol, nem beros, nem sepulchros, nem geraes de
peccadores, no perdoareis ento a Judas? Quando elle apparecer  vossa
presena no dia do juizo, depois de tantos seculos de indescriptiveis
dres, no vos lembrareis de que elle foi vosso amigo? Dar-se-ha caso
que Pedro, esquecido da sua culpa e do perdo que a disfarou, diga
ainda outra vez: No conheo este homem? Joo, Matheus, Thom e
Thiago, voltaro o rosto indignado, como se no houvessem tambem peccado
e duvidado? No vos dir o cro inteiro dos apostolos: Senhor,
apiedai-vos d'elle. Sem a vossa graa, o que no teriamos feito ns?

Apiedai-vos d'elle, Senhor!--diro todos os bemaventurados--que elle,
sem o saber, foi o instrumento e a victima da salvao dos homens. Feliz
culpa! dizia Santo Agostinho do peccado de Ado, feliz culpa que
grangeou para o genero humano situao melhor que a do Eden. Feliz
tambem, meu Deus, a culpa de Judas, pois era mister que, em
cumprimento de vossos decretos, fosseis trahido por um dos vossos
amigos. Horrendo, mas inevitavel crime, predicto muito antes pelos
prophetas; crime salutar, introito mysterioso da paixo; crime que foi
amaldioado e devia sl-o, mas que hoje devemos perdoar e bemdizer, por
quanto, sem tal crime,  dce Jesus, nem vs terieis morrido, nem o
mundo estaria resgatado.

Apiedai-vos, pois, de Judas! Commiserem-vos seus remorsos, tormentos e
lagrimas! Compadea-vos a cegueira d'elle!  bem de crr que fechais os
olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis
 j per si um castigo. Mas tambem os castigareis por peccados e erros
commettidos com vossa licena, no seio d'aquellas vingadoras trevas que
derramastes no seu caminho? No, no, meu Deus, vs o dissestes.
Lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora, quando
pedieis a vosso Pae perdo para os algozes, para os sacerdotes que vos
haviam comprado, para o amigo desleal que vos tinha vendido, para o
soldado cruel que vos cuspiu na face, para o povo desvairado que vos
injuriava no supplicio: Perdoai-lhes, pae, que elles no sabem o que
fazem!

E vosso Pae, que tudo vos concede, perdoou-lhes o sacrilegio, a
blasphemia, e tudo quanto em seu crime entendia com a vossa abscondita
divindade; perdoou-lhes o que a justia e caridade querem que se perdoe
aos insensatos e aos cegos, e a quantos _no sabem o que fazem_. O que
ficou sobre elles pezando  o peccado contra a humanidade, por
que bem conheciam os peccadores a sua culpa no momento em que a
commetteram. Meu Deus, perdoai-lhes! Pedevol-o o genero humano ensinado
por vossas lies e exemplos, e resgatado por vosso sangue.




                             CAPITULO DECIMO


                     Concluso em frma de parabola

O pae de familia dizia aos seus servos: Ide aos meus celleiros; tomai a
flr do gro que eu mesmo escolhi e ensaquei  parte em saco novo, e ide
semear o meu campo. No lhe mistureis o gro do saco velho; porque esse
embriaga o homem e no o alimenta, e s para os cevados  bom.

Cumpriram os servos as ordens do amo; deixaram, porm, por descuido,
cahir no saco novo os gros malfazejos que o amo havia separado, e, logo
que se misturaram, no poderam extremal-os, e cegamente os atiraram 
uma para os sulcos.

Chegado o estio, um caminheiro que passava admirou a belleza das espigas
que medravam na seara, mas reconheceu entre as espigas as plantas
nocivas. Arrancava elle discretamente as que haviam germinado at
 beira da estrada, quando os servos, armados de pos, correram a
prohibir-lhe que tocasse na seara que era de seu amo. Perguntou-lhes o
caminheiro onde estava o amo, e soube d'elles que era fallecido, mas
lhes recommendra que vigiassem a messe preparada para seus filhos.

O caminheiro, ouvida tal resposta, contristou-se, e lhes fez vr a
differena que havia entre o joio e o trigo. E disse-lhes: Acautelai-vos
de os mandar juntos ao moinho, e no faais po que no seja de puro
fermento.

Os servos, no obstante, persuadidos da sabedoria do amo e do
cumprimento fiel s ordens recebidas, desconfiaram do caminhante, e de
seus proprios olhos at, quando lhes apontava a differena das duas
plantas. Se isto  joio, diziam, no fmos ns que o fizemos rebentar.

Certo  que no--disse o passageiro--no fostes vs quem fez germinar o
trigo nem o joio, nem communicastes a cada um dos dois sua diversa
virtude, nem to pouco lh'as podereis tirar; mas, se no sois quem os
fez crescer, fostes vs quem os semeou, depois de misturar os gros que
o pae de familia havia cuidadosamente separado. Se amais os filhos de
vosso amo, fazei o que elle faria: no lhes deis a comer po que
empeonha, porque d'elle adoecero, e outros ho de morrer.

Turbaram-se grandemente os servos com tal discurso. Um disse
entre si: Pde ser que o homem tenha razo: aqui ha plantas que no
parecem eguaes; e  acertado no desprezar bons avisos, venham d'onde
vierem, porque, um dia, quem sabe se nos sero pedidas contas? Outros,
no entanto, diziam: Este homem pde ser um impostor. Quem sabe d'onde
vem ou para onde vai? Quem lhe deu direito de nos ensinar? E porque no
hemos de dar d'este po aos filhos de nosso amo? Ns comeremos tambem
d'elle.

Dizendo isto, abaixaram-se a apanhar pedras, e remessaram-as contra o
caminheiro que se affastou.




                                 APPENDICE




                              CAPITULO PRIMEIRO

                         PROVAS MYSTICAS DO INFERNO


                                     I

                         Da auctoridade da Biblia

Ninguem nega que a Biblia contm brilhantes verdades; mas essas
brilhantes verdades no nos encantam por estarem na Biblia; em qualquer
parte onde as vissemos, as amariamos por seu natural resplendor. Da
natureza d'ellas, as encontrais nos escriptos dos antigos sabios. So
taes verdades como a noiva dos Cantares: a sua belleza  toda sua, e no
reflexa, e todo seu imperio lhes promana da formosura.

Porm, a Biblia tambem encerra pensamentos que, pomposamente vestidos,
nos tocam o espirito por inverso modo. Quanto mais os examinamos tanto
mais os regeitamos. Afra a visinhana, nada tem commum com as
sympathicas verdades, entre as quaes se nos deparam. -nos, todavia,
prohibido de as distinguir, e confiar em uns com desconfiana
d'outros; dizem-nos que tudo  verdadeiro, e verdadeiro com o mesmissimo
titulo, no porque sejam umas cousas mais ou menos persuasivas que
outras, mas porque se acham escriptas n'aquelle livro.

Dispensam-nos de procurar na Biblia o cunho interior que Deus gravou na
verdade para que a reconheamos. Caracteres naturaes e distinctivos do
erro podem guiar-nos em tudo; mas na Biblia no. N'outros livros 
facultativo discernir o justo do injusto; para o qu temos regras
certissimas, e instrumentos agudissimos; mas  peccado querer julgar a
Biblia. Cumpre-nos, lendo-a, desconfiar do nosso corao, do nosso
espirito, de tudo, salvo d'ella. Assiste-nos o direito de dizer, como
Plato que Homero ultraja a divina magestade, quando mistura o Olympo
com as paixes humanas; porm, quando a Biblia glorifica a perfidia de
Jahel, e a cavillao de Judith, e o roubo e carnificina dos chananeos,
e faz collaborar Deus em tantas traies e morticinios, no nos 
permittido o duvidar. Se Isaias nos figura o Salvador de Israel calcando
o povo como o vinhateiro esmaga a uva no lagar, foliando sobre elle e
sacudindo com selvagem alegria os seus vestidos aspergidos de sangue,
no seu, mas dos homens, devemos dizer: _Amen!_ eis aqui o bom pastor, o
cordeiro de Deus, a mansa victima do Calvario, o Christo na sua gloria!
E quando o psalmista comparar o Senhor a um homem embriagado do vinho
que lhe redobra as foras e lhe faz expedir pavorosos gritos,
devemos sem escrupulo responder: Assim seja! Claro  que nenhum de ns
quereria similhar-se ao vindimador sanguinolento nem ao guerreiro ebrio;
ninguem ousaria assim fallar de Atila recolhido  tenda, com receio de
ser ouvido; mas similhantes confrontos que envileceriam Jupiter e
offenderiam o rei dos hunos, prodigalisal-os-hemos ao nosso Deus, em seu
templo, attendendo a que os prophetas sabiam melhor do que ns quaes so
os elogios que lhe prazem. Taes sujeitos nada diziam do seu chefe: tudo
que escreviam era o espirito santo que lh'o ditava, desde os successos
at s expresses significativas d'elles. Ora ahi est por que tudo 
sagrado quanto a Biblia contm, e por que tal pensamento, que n'outro
livro trescalaria a impiedade, , na Biblia, uma adoravel coisa. Ha
n'isso mysterio no menos profundo que o do inferno, se tentarmos
esclarecel-o; e tal mysterio, com que se quer demonstrar outro, promove
discusses que o catholicismo impugnou sempre, servindo-se d'isso como
arma contra os protestantes.

O catholicismo diz aos protestantes: Como sabeis que a Biblia  divina?
Conhecestes Moyss? Quando Deus lhe fallou do cimo da montanha, estaveis
presente? Passastes a p enxuto o mar vermelho, ou bebestes agua da
rocha de Horeb? Quem vos affirmou que aquelle homem era propheta? Que
provas vedes na Biblia de que no  toda ella obra de homens? Milagres?
Outros livros os contam, e vos fazem rir. Verdades? Outros livros as
encerram sem que as imputeis ao Espirito Santo. Obscuridades?
Coisa naturalissima, sendo tantas em todos os auctores, e nos vossos no
menos. Quem sois vs, para que vos acreditemos, quando nos affirmaes
inverosimilhanas? No vos conhecemos. Que cauo nos dais? Sois
inspirados? Fazeis milagres? Vejamol-os. No basta dizer: a Biblia 
divina;  mister proval-o irrefutavelmente. O numero dos vossos
partidarios no faz nada  questo. O livro dos Vedas, que se gosa do
foro de divino na Asia,  to antigo como a Biblia, e no tem menos
sequazes. Se a Deus aprouvesse, communicar-se aos homens por meios
naturaes, como dizeis, fal-o-hia por lances de bondade, com o fim de os
unir, como filhos do mesmo pae, por que, a par e passo que melhor se
conhece Deus, mais se conhecem a caridade e justia. Como  pois que
tantas naes, presumindo possuirem taes oraculos, em vez de viverem
unidas, luctam discordes, erigindo altar contra altar, injuriando-se,
perseguindo-se, e votando-se reciprocamente s chammas eternas! O que as
divide  as obscuridades da Biblia; no  as verdades naturaes que l se
vos deparam. Quem alumiar a escureza em que dizeis est Deus involto, e
no seio da qual os homens se dilaceram, desprezando naturaes e
luminosissimas verdades? Os judeus entendem as prophecias diversamente
do vosso parecer; e, to de boa f as interpretam, que sustentam a sua
opinio em desterros, carceres, fogueiras, durante seculos, fugindo, e
deixando rasto de sangue por toda a parte do mundo. Qual seita
protestante no arrancou da espada contra a sua irm? Todas tem
tido martyres e verdugos. Isso no nos parece prova da divindade da
Biblia. Nem sequer lhe podereis provar a authenticidade. Os originaes
d'esse livro miraculoso onde param? Perderam-se, comeu-os a traa, como
succede por tempo a tudo que  obra de homens. Poro consideravel
d'esse antigo monumento acabou s mos dos hebreus, depositarios d'elle.
O que nos resta so reliquias. Se capitulos inteiros, de que apenas
sabemos os titulos, j no existem, quem vos auctorisa a pensar que os
capitulos subsistentes no foram alterados? Estariam elles a melhor
resguardo? Por quem? Por que? E como? Quem os copiou? Quem os traduziu?
Quem abona a fidelidade de tantos copistas, e a intelligencia e sciencia
dos traductores? Por que signaes se conhece qual  a melhor entre as
copias antigas, e entre as differentes copias antigas? Em qual traduco
confiaremos entre tantas diversas? Reportar-nos-hemos ao livreiro, ao
impressor, ou ao editor? A quem? A mortos desconhecidos, a vivos
ignorantes, ou a sabios sem misso e cuja sciencia nos  ainda
problematica? Pois que venha ahi quem quizer, e mostrando um papel
rabiscado exclame: eis-aqui a palavra de Deus! E sem mais nem menos
ponha-se a gente de joelhos!  vista d'isso ninguem pde ser accusado de
idolatria. Se no tendes  mo outras provas da authenticidade e
divindade da Biblia, todo o homem cordato regeitar a Biblia, sem salvar
o Novo Testamento. O christianismo foi prgado antes da redaco
dos evangelhos, s multides que no sabiam ler. Quando essas prgaes
comearam a correr escriptas, os evangelhos eram aos cardumes;
appareceram logo cincoenta attribuidos aos apostolos e aos discipulos de
Jesus.

Quem se entenderia n'este chos? Quem poderia decidir que o evangelho de
Thiago no era de Thiago, e que o evangelho de Joo era de Joo? Quem
poderia discriminar entre o verdadeiro e o falso? Entre o de Deus e o
dos homens? Quem poderia discernir e acreditar a boa copia entre as
copias falsificadas de Joo? A coisa no era de si to luminosa que
podessemos aceital-a hoje em dia.

No quarto seculo, bem perto dos tempos apostolicos, esta questo enleava
gravissimos doutores, um dos quaes, testemunha de taes incertezas, Santo
Agostinho, dizia que elle sem o testemunho da Egreja no prestaria f ao
verdadeiro evangelho. No achava elle portanto nos escriptos de Joo, de
Lucas, de Marcos, de Matheus e de Paulo a prova intrinseca da sua
divindade; com mais forte razo no acharia a mesma prova intrinseca nos
escriptos de Moyss, de Samuel, de Esdras e outros prophetas.

Se eu no debilitei, resumindo-as, as razes com que os catholicos
intentam reconduzir ao seu gremio as seitas dissidentes, expuz tudo o
que tinha a expor sobre a primeira prova mystica do inferno, extrahida
das Escripturas. Passemos  segunda prova que  o testemunho da
Egreja.


                                    II

                         Da auctoridade da Egreja

Diz-nos a Egreja catholica que  preciso crr o que ella nos ensina como
se Deus nos fallasse. Quando nos annuncia que todos ns peccamos antes
de nascer, e que a Virgem, me de Christo, nasceu sem peccado--o que se
no acha no evangelho--devemos acredital-o como se o evangelho o
dissesse. A Egreja supre o silencio das escripturas, interpreta os
textos, umas vezes prende-se  letra, outras descobre um entendimento
occulto que s ella v, o unico verdadeiro. Como possue, com a Biblia, a
tradio oral dos patriarchas, dos prophetas e dos apostolos, a nova
synagoga contina no tempo e no espao a immortal cada, guardando, diz
ella, o dom de prophecia e o dom dos milagres.

A Egreja catholica  mais que a imagem de Jesus Christo: est
consubstanciada n'elle como sua esposa. Testemunha do passado, luz do
presente e do futuro, legislador infallivel, juiz sem appellao,
devemos consideral-a sempre como viva incarnao do Verbo eterno. Seria
a Biblia um livro duvidoso em seu texto, se ella no asseverasse a
autenticidade d'elle, e duvidoso em seu espirito se no recebesse a
misso de o explicar aos homens. De modo que toda a auctoridade
n'este mundo, j a da razo, j a dos livros sagrados, sme-se
absorvida na soberana auctoridade d'ella.

Esta segunda prova do inferno  de natureza analoga  primeira: 
mysterio. Exponho-o sem o discutir. Mas os protestantes discutem-no;
negam-o, reprovam-o em nome dos prophetas e dos apostolos, e milhares e
centenas de milhares d'elles affrontariam a fome, o frio, a penuria, o
exilio, os carceres, a tortura ordinaria e extraordinaria, o poder de
Cezar e toda a casta de supplicios, com o denodo dos primitivos
martyres, antes de vergar o joelho ante a Egreja--o que elles
qualificariam de idolatria. No posso abster-me de relatar algumas de
suas objeces, as quaes, bem que sejam foradas sobrenaturalmente com
versiculos do Apocalypse ou das Vises de Isaias, nem por isso me
parecem menos debeis.

Temos, dizem, um facil meio de nos certificarmos da infallibilidade da
Egreja. Perguntai-lhe o que deve fazer-se em frequentes circumstancias
da vida, quando os mais doutos homens se bandeam em dous ou tres
arraiaes, dizendo uns: deve fazer-se isto; no,--dizem outros--isso 
pessimo--; e os terceiros sustentam que no se deve fazer nada, ainda
que a inaco parea aos outros criminosa. Pelo facto de nos prohibirem
actos manifestamente culposos aos olhos da razo, j prohibidos por lei
natural, pelo decalogo e pelos philosophos, isso no convence que
possuam luzes milagrosas para regerem almas. O que queremos  que nos
guiem no lance em que os outros conductores nos abandonam, nos
pontos em que elles se desavm, em que se calam; emfim, na conjunctura
em que os homens tem grande interesse em conhecer a verdade que se lhes
occulta. Venha a Egreja n'um d'estes casos. No affrontemos com os
casuistas multido de problemas onde o nosso partido seria grande;
busquemos antes, nas relaes da vida civil, um s d'esses factos
duvidosos, sobre os quaes a sabedoria humana est indecisa. V de
exemplo o emprestar a juro, e exponhamos primeiro a questo muito pelo
alto.

Deve emprestar um homem ao seu visinho, dinheiro ou qualquer outro
valor, gratuitamente? , pelo contrario, licito haver parte dos lucros
da quantia cujo uso se permitte, por tempo marcado, ao visinho? Como
principio, ninguem condemna o emprestimo gratuito, o qual,  maneira da
esmola,  um acto de liberalidade muito para louvar-se, mas que seria
nocivo, sendo praticado sem discernimento. Todavia, alguns philosophos,
e modernamente alguns caudilhos das seitas communistas, defendem que o
emprestimo gratuito  o unico bem consoante  equidade natural, e que a
minima usura  roubo. Estes philosophos tem sido arregimentados na peor
especie de utopistas. Toda a gente sisuda recusa considerar a gratuidade
do emprestimo como obrigao moral. Tal preceito usurparia  mediania
econmica os meios de valer ao indigente laborioso; o pae de familias
no arriscaria as migalhas penosamente poupadas, se o no
acorooasse esperana d'um beneficio adequado ao servio que
presta e aos perigos que corre. Os que nada tem cariam, por
conseguinte, em mais apertada dependencia dos que tem tudo profusamente.
Nas modernas sociedades, similhante preceito multiplicaria os invejosos,
multiplicando os avarentos. Feriria de esterilidade o campo da viuva,
estagnaria o movimento da industria e commercio, e, pelo tanto, o
desenvolvimento da riqueza e vantagens moraes que ella proporciona. O
emprestimo a juro  logo geralmente admittido como justo e fertil em
toda a especie de prosperos resultados. Mas surdem para logo novos
obstaculos. Deve-se limitar a taxa do juro que o devedor pede ao crdor?
Como se ho de avaliar os prejuizos do devedor, e os lucros conjecturaes
do crdor? Ha nada mais hypothetico e variavel! Que differena entre a
qualidade e os productos de duas terras convisinhas, entre tal e tal
mister, entre a capacidade d'este e a d'aquelle! O juro legal, s vezes
pequenissimo, casos haver em que seja pezado; mas, como  legal, pezar
com todo seu pezo sobre os que menos lh'o podem supportar. Ser elle at
motivo a encarecerem os generos, e redundar em incommodo e vexame. Tal
, quando menos, a opinio de celeberrimos philosophos.

Mas deve-se, como elles querem, deixar livre plenamente a vontade dos
contrahentes?

Cuidar-se-ha que tudo isto  mera questo de economia politica: no 
verdade. Aqui, mais que tudo, militam questes moraes complicadas
e de alto melindre, de interesse quotidiano e universal, questes que
enliam elevadissimos espiritos, e sobre as quaes devemos, por isso,
interrogar a Egreja.

Se consultamos os canones dos concilios, e nomeadamente os de Nicea,
d'Arles, de Carthago e de Elvira, achamos que a Egreja condemna, em
theoria, o emprestimo a juro. Na pratica, porm, tolera-o. No
insistamos na contradico. Se  permittido o emprestimo a juro, quaes
so as condies? Tem alguem direito de fixar o beneficio do devedor?
Quem ? O Estado? Se  o Estado que fixa a taxa do juro,  o Estado quem
definitivamente decide do que Deus concede e do que Deus prohibe, do que
 e do que no  peccado, e por tanto a lei divina varia com a phantasia
da lei. Se no  o Estado,  o uso da terra? Ha nada mais injusto e
irregular? Que principio cumpre adoptar? Onde est o direito? Onde o
abuso? Que  da regra? No ha nenhuma? No ha. A tal respeito  tamanha
a desordem entre os theologos como entre os estadistas, e philosophos, e
economistas e jurisconsultos, e entre os confessores e penitentes. Varia
em cada diocese a jurisprudencia: no vamos to longe; varia em cada
parochia. Mudai de confessor, e vereis que o mesmo facto, cercado das
mesmas circumstancias, muda o nome: peccado mortal, injustia,
expoliao no confessionario  direita, acto licito no confessionario 
esquerda, debaixo do mesmo campanario, em nossas opinies, e o seu facho
milagroso vasqueja ao p do mesmo altar. Um parocho vos condemna
e outro vos salva. Parece pois que a infallibilidade ecclesiastica 
aleijada n'esta questo vital em que os ricos a invocam para
tranquillisarem suas consciencias, e os pobres para satisfazerem as
necessidade do corpo e as da alma, porque elles pedem de emprestimo para
trabalhar, para nutrir os filhos, educal-os, casal-os, auxiliar os seus
parentes velhos, e sepultal-os, e para isso  mister que achem quem lhes
empreste.

Quanto a materia politica, reinam as mesmas contradices e incertezas
dos negocios civis. Ha factos criminosos perante a razo, e todavia so
absolvidos e at glorificados por uma parte do clero, sem excepo dos
bispos, ao mesmo tempo que uma outra parte da cleresia os condemna a
meia voz; mas de modo que a ouam. A carnificina chamada de _Saint
Barthlemy_ foi approvada em Roma e celebrada em quasi todos os
pulpitos. A revocao do edito de Nantes foi approvada pelo Papa e pela
maioria dos bispos. Sobejar-nos-hiam exemplos, se os quizessemos, sem ir
to longe. Por outro lado, ha factos legitimos, heroicos, louvaveis,
perante a razo, e esses so malsinados e condemnados como crimes por
parte do clero, sem excepo dos bispos, ao mesmo passo que outra parte
do clero os approva, e s vezes tem parte n'elles. E tambem do clero ha
poro que se abstem de julgar taes actos. As ultimas insurreies da
Polonia e Italia nos do exemplo recente e ainda sanguinolento. Aquillo
que um Papa censurou, e outro Papa stygmatisou, outros padres
applaudiram, alentaram e abenoaram! Estas diversidades de opinies
sobre successos to graves, e culpaveis, se o so, to admiraveis pelo
contrario, se no so culpaveis, manifestam-se no secreto do tribunal da
penitencia como nos escriptos e actos publicos. O confessor de Carlos IX
considerou d'Orther subdito rebelde porque recusou ser assassino.

O bispo de Abranches talvez negasse a absolvio ao confessor de Carlos
IX. Tal italiano, injuriado por um frade, seria festejado pelo seu cura.
De maneira que  vista d'uma auctoridade moral infallivel, bastantes
catholicos, testemunhas d'este espectaculo, vendo para onde Roma pende,
perguntam amargamente se em verdade os povos tem direitos, e meios de
fazerem respeitar os seus direitos; se a desobediencia ao rei  s
permittida em materia de dogma; se a liberdade, o trabalho do
pensamento, da escripta e da voz no merecem ser defendidos, comtanto
que vos deixem a liberdade de rezar; se ha outra patria alm da Egreja;
se o servilismo, j cgo, j illustrado, no  a principal virtude
civica; se, emfim, n'este mundo o belprazer dos poderosos no  a
suprema justia. Estas e muitas outras perguntas tem sido
contradictoriamente respondidas pela Egreja, que no sabe melhor que ns
onde esto bem e mal, virtude e crime, em conjecturas solemnes e
frequentes, nas quaes bem e mal, virtude e crime avultam a propores
enormes. A Egreja hesita comnosco, duvida comnosco, bandeia-se e
apaga-se quando entra nas veredas obscuras em que o genero humano 
forado a entrar, as quaes inevitavelmente conduzem ao co ou ao
inferno. A Egreja sabe que a Virgem foi concebida sem peccado; conhece a
gerarchia dos anjos; dogmatisa onde a incerteza seria talvez prudente, e
a ignorancia saudavel; porm, se procuramos regras de proceder, esteio e
guia nos tempos difficeis em que parece que a infallibilidade vai
resplandecer, activar-se e resolver a questo, a Egreja perturba-se,
balbucia, contradiz-se e desampara-nos  discrio.

Como  ento que ella prova a sua infallibilidade? Prohibe-nos de
esquadrinhar na Biblia as regras da nossa f, allegando que a Biblia 
livro inintelligivel para ns. E, se lhe pedimos a razo d'isto, abre o
livro que incessantemente lemos, esse mesmo livro cuja authenticidade e
sentido s ella garante e explica.  ahi que ella pretende mostrar-nos a
prova que lhe pedimos; mas ns sustentamos que ahi no ha tal prova.
Alm d'isso, se  mister crr primeiro na Egreja quem houver de crr nas
Escripturas e entendel-as, que argumento  esse? Pde qualquer, em um
processo, invocar contra o seu adversario um documento de que elle s se
constitue interprete e juiz? Contente-se pois a Egreja em affirmar que 
infallivel, mas abstenha-se de o provar.

Eu por mim no creio. A infallibilidade  um attributo incommunicavel de
Deus como a eternidade e a omnipotencia. Se o Papa e os bispos fossem
infalliveis, no bastaria respeital-os, seria mister adoral-os.
Disso nos defenda Deus! So homens como ns. E, quando o Espirito Santo
nos illustra, somos como similhantes aos candelabros do templo, e, sem o
querer, confundimos a nossa sombra com a luz que dardejamos em redor.

Assim fallam os protestantes. No digo que taes discursos sejam
concludentes: no me compete a mim julgal-os; mas d'este capitulo e do
anterior inferimos uma concluso cuja justia creio que ninguem
contesta.


                                    III

                        Concluso do que fica dito

A concluso que eu desejaria tirar do que fica dito  que a Biblia e a
Egreja, estas duas auctoridades que se invocam em favor das penas
eternas, no tem o mesmo valor no conceito de toda a gente. Um
protestante renegaria o inferno, apezar dos anathemas dos Concilios, se
a Escriptura lh'o no annunciasse; mas um catholico renegaria o inferno,
apezar da lucidez dos textos biblicos, se aprouvesse  Egreja attribuir
quelles textos, segundo o parecer de Origenes, um sentido visivelmente
conforme  justia e bondade de Deus.

Tanto em Genebra como em Roma cr-se no inferno; mas por diversas
razes; e o que parece argumento decisivo para metade dos christos, no
tm a mesma efficacia para a outra metade. Conformam-se sobre a
verdade d'um prodigio, recusando de ambas as partes uma das duas
testemunhas que o affirmam; os de Genebra considerando a Egreja um
professorado do erro; os de Roma sustentando que a Biblia desencaminha
aquelles que exclusivamente se fiam n'ella.




                             CAPITULO SEGUNDO

                         Resposta a uma objeco


Fallei da multido dos condemnados, e tirei d'esse facto, contra a
eternidade das penas, inferencia que me parece valiosa.  certo que a
maioria dos homens seja condemnada? Os fieis, que estudaram este
assumpto em livros modernamente escriptos, crem que no, e vos dizem
que os philosophos maliciosamente assacaram aquella opinio aos seus
adversarios para os tornar odiosos. No duvidam que ha inferno; no os
inquieta a natureza do supplicio, mas sim a quantidade dos suppliciados.
Mil, cem mil, um milho d'almas a padecerem eternamente parece-lhes
coisa muito de crr-se, moralissima, certissima. No pde suppr-se que
o inferno esteja vasio; alis melhor seria supprimil-o. Um milho ou
alguns milhes d'almas, se Deus as abandona, tambem ellas
abandonam a Deus;  bastante para exemplo,  bastante para justia;
porm metade do genero humano e mais de metade,  excesso,  monstruoso:
no se cr. No  isso, quer-nos parecer, a boa nova que celebraram ha
mil e oito centos annos os magos e os pastores nos caminhos de Bethelem.
Mas os velhos dogmas de Israel por tal arte andam baralhados com as
verdades christs, e tanto a primitiva Egreja com elles se identificou
formando um corpo doutrinal, que um homem instruido no pde hoje, sem
risco de heresia, tentar separal-as.

Sem embargo, opera-se no seio do christianismo um singular trabalho, de
que o clero no d tento, bem que a iniciativa de ha muito proceda
d'elle mesmo. Este trabalho de que as obras de Sanchez, de Escobar, do
padre Annat, do padre Lmoine, e d'outros casuistas, to agramente
invectivados por Pascal, eram apenas indicios, tende a neutralisar cada
vez mais a aco n'outro tempo to vigorosa dos elementos hebraicos do
christianimo. Sentimentos, que debalde quereriamos suffocar, rompem 
luz; o corao reclama, bem que timidamente, seus direitos; a
consciencia, constrangida debaixo do pezo de abafadoras tradies, no
repulsa, mas a tremer levanta do peito o fardo, como para respirar.
Verdade  que ainda nos pregam os velhos mysterios da synagoga; mas, ao
mesmo tempo, cuidam em dissimular-lhes as consesequencias logicas
relativas  vida futura, e--notabilissimo caso!--no insistem nas
consequencias praticas, no tocante  vida presente. Este ultimo
facto, muito significativo, provm dos casuistas. Foram elles quem
primeiro quiz achanar aos homens a estrada do co. Como no soubessem
conciliar as necessidades da vida terrestre com as da f, e no ousassem
embarrar pelo inferno, com medo de torriscar os dedos, derruiram
audazmente a moral. Graas lhes sejam dadas, que isto de peccados
mortaes est por um fio! O assassino, mal lavou as mos, e o perjuro mal
lavou a lingua, so admittidos ao sagrado banquete, O pulpito continua a
fuzilar trovoadas minacissimas;  ainda Isaias e S. Paulo a bradarem;
mas, no tribunal da penitencia, os coriscos apagam-se; quem confessa  o
tolerante padre Lmoine, que perfeitamente percebe que uma duqueza, uma
capitalista, uma burgueza opulenta no podem viver de favas, nem trajar
de serguilha, nem dormir no taboado, nem imitar sequer de longe a
perfeio negativa das santas reclusas, cujas virtudes andam celebradas
nos pulpitos. Descobrir, porm, no complexo dos actos dos homens, o
limite exacto do dever, isso  desvario: ou prohibir, ou permittir tudo
quando se renuncia e dirigir verdadeiramente as peccadoras mundanas para
o antigo ideal da abstinencia ascetica. O theatro, o baile, os hombros
ns, a maledicencia, as prodigalidades do luxo, a parcimonia das
esmolas, a lisonja, a ambio, a cupidez, a ingratido, as desavenas,
tudo passa, tudo  venial, nada impede da desobriga. Nem o juiz nem o
penitente conhecem regra. O mais virtuoso e austero padre pde
ser integerrimo no pulpito; mas, no confessionario, treme, receia
afugentar a alma que o procura; lembra-lhe o Bom Pastor, o co
promettido ao ladro que se accusa, o perdo da adultera, e
involuntariamente contribue a facilitar as quedas, e as reincidencias,
facilitando a expiao. Pois os primitivos christos no tinham ouvido
fallar do bom ladro, e da mulher adultera, e da parabola do Bom Pastor?
Comparem com a disciplina de hoje a de ento que eu j referi. Se o
padre Lmoine lesse nas catacumbas um capitulo da _Devoo commoda_, o
congresso de fieis e martyres surgiria em pezo contra tal innovador, e o
bispo excommungal-o-hia. Tenho minhas duvidas que o proprio S. Francisco
de Salles o tractasse bem.  que os primitivos christos nunca perdiam
d'olho Satanaz, peccado original, inferno, e conformavam o seu
procedimento, no a tal artigo de f ageitada a dar alentos  esperana,
mas ao complexo tremendo da doutrina que aprendiam.

A harmonia que primordialmente se deu entre a disciplina da Egreja e as
crenas da Egreja, est por tanto desde muito desacorde. Port-Royal
tentou afinal-a. Foi esse o segredo da sua lucta com os casuistas mas os
casuistas venceram. A contenda acabou.

Meditemos agora nas consequencias logicas dos nossos dogmas, relativos 
outra vida, dos esforos que debalde se envidam para lhes amaciar as
asperezas e edulcorar-lhes o travor, com medo de que lhes no atirem
fra copo e remedio.

Em louvor dos theologos modernos, declaro que poucos ha que possam
encarar impassiveis a multido de pagos e hereges que regorgita do
inferno--multido que sem intercadencia augmenta com muitos milhares
d'almas cada dia, muitos milhares cada anno. Elles, pois, escondem as
vinganas divinas, em vez de nol-as mostrarem, no seu trilho aterrador 
maneira dos antigos. Quando cuidam em nos animar, tambem elles se animam
em seus proprios quebrantamentos, sentindo que a piedade desborda e
arrasta a f; e no s a piedade, mas tambem a justia.

S. Thomaz de Aquino, incapaz de ceder unicamente  piedade, estacou
diante d'esse problema de justia, e diligenciou, a seu modo,
resolvl-o, por feio que podesse, sem offensa da f, contemporisar com
a sua razo.

Imaginou um justo fra da Egreja, ignorando as verdades salvadoras, e
predestinado ao inferno por culpa de sua ignorancia. Ora um anjo
celestial, quando este justo agonisava, desceu a revelar-lhe a verdade,
dando-lhe assim entrada na Egreja por uma porta falsa, e mantendo por
este theor milagrosamente a inteireza dos dogmas. Pouco importava a S.
Thomaz, to grande e inflexivel logico, salvar as regras explicitamente
formuladas pelos concilios; e, se taes regras podiam ferir a justia, l
estavam os anjos para concilial-as. O que elle queria era salvar os
gentios.

Mas, hoje em dia, os theologos avantajam-se a S. Thomaz. J no ha
recorrer a milagre. Dizem que, se entre infieis, e at entre os
hereticos, ha pessoas honestas, Deus bem as v: essas pertencem 
Egreja, no corporal, mas espiritualmente; creem implicitamente as
verdades que ignoram, e basta isso: so catholicos l do seu feitio. 
pois prohibido condemnar a esmo gentios e hereges, cegos innocentes,
virtuosos transviados, erros invenciveis[7]. J se diz que ninguem 
condemnado, tirante os mos, qualquer que seja a religio que professem.

Bella  a linguagem, mas tambem  evidentemente illusoria; por onde
vamos vr que tal piedade, bem que sincera, no pde aproveitar a
alguem. Vs no condemnais todos os gentios nem todos os hereges; 
verdade. Os dogmas que nos ensinais  que os condemnam. Ora, se, acaso,
os cinco dogmas tirados do judaismo fossem falsos, bem sabemos que no
estava em vossa alada condemnar, ainda que o quizesseis, um s
idolatra, por peor que houvesse sido; mas, ao invez, se taes dogmas so
verdadeiros, tambem sabemos que no cabe em vossa alada salvar um s
gentio nem um s herege, ainda que o quizesseis. Mais: em virtude de
taes dogmas,  de f que o homem nasce mo, e que o crime que lhe mancha
o bero, explica, mas no lhe justifica os erros da vida.
Irroga-se culpa a quem se liga  religio de sua familia e patria,
quando tal religio no  a genuina. Se assim no fosse, vde bem que
melhor seria ter nascido sarraceno que catholico; que um turco
salvar-se-hia procurando de boa f, como os patriarchas, prazeres que a
ns nos perdem para sempre; e o maximo das benos seria nascer e morrer
selvagem, n'alguma ilha incognita, longe dos formidaveis clares que nos
privam de desculpar com a ignorancia os nossos peccados. Fossem embora
salvas alguns milhares de creaturas apenas entre os billies d'ellas que
morrem em peccado original, uma duzia s que fosse, seria que farte para
argumentar que ha salvao fra da Egreja, e sem algum dos soccorros
extraordinarios de que ella dispe. Estes theologos tolerantes no
reparam que inutilisam a revelao, que despojam a Egreja das chaves do
co, ou, pelo menos, indiciam que ha chaves em duplicado para l entrar,
e que judeu, musulmano, lutherano, philosopho, todo homem honrado tem
uma chave. A opinio assim pelo claro no ousariam elles exhibil-a, e, a
bem dizer, tudo aquillo no  opinio sua; , melhor ainda, expanso de
alma que aspira  verdade e justia;  protesto da humanidade christ
contra o judaismo, protesto mais revelante por no ser voluntario, nem
saber-se a si mesmo comprehender. O raciocinio no  o essencial do
protesto, como em S. Thomaz d'Aquino; quasi que no  parte em taes
discursos, pois que os discursadores no concluem como deviam, se
raciocinam; e no podem fundamentar a sua argumentao sobre ensino
authentico da egreja[8].  mister, por desgraa, renunciar  orthodoxia
ou condemnar despiedosamente mais de tres quartos do genero humano. O
justo, estranho  Egreja, a quem nos prohibem de offerecer a mo, no
existe aos olhos da f:  um phantasma que avulta  vossa piedade. Se ha
ignorancia involuntaria e invencivel, no  a do idiota? Ora ahi est! o
idiota, o cretino, o aborto sem olhos nem ouvidos peccaram no ventre
materno, peccaram mortalmente, e s pelo baptismo conseguiro
justificar-se. Como  ento que ha de subtrahir-se s tentaes e s
sincadilhas de que tanto a custo se escapam os filhos da Egreja, um ente
egualmente viciado em sua natureza, mas mais livre, se envelheceu sem
revelao e sacramentos? Onde ganhar elle amor ao bem e vigor para
pratical-o? Tal hypothese  heresia por atacado; s poderemos aceital-a
como excepo milagrosa; e, n'essa qualidade, no vingaria
dulcificar o sentir que esperta em nossa alma o perpetuo inferno, onde,
ha seis mil annos, se vo acamando as geraes humanas.

    [7] Veja entre outras obras os _Estudos a respeito do Christianismo_
    por Nicolas, tom. III, c. 14. Este livro foi approvado, louvado e
    recommendado pela auctoridade ecclesiastica, e nomeadamente por
    Mons. Cardeal Donnet, Arceb. de Bordeaux. O padre Lacordaire
    protegeu-o assignaladamente, considerando-o a mais completa e melhor
    apologia da f catholica.

    [8] Este ensino multiplicou-se com diversos aspectos: peccado
    original; necessidade do baptismo; ha uma s f e um s baptismo;
    fra da egreja no ha salvao; necessidade dos sacramentos da
    penitencia, de confirmao, etc., como auxiliares de nossas
    enfermidades, depois do baptismo, necessidade e conjunctamente
    insufficiencia da prgao e da leitura; inefficacia das boas obras
    sem os sacramentos; manhas e poderio de Satan; impossibilidade de
    viver e morrer em estado de graa fra da Egreja que  a dispenseira
    das graas, etc., etc. Encheriam um volume os decretos, promulgados
    quelle intento, e os anathemas fulminados contra quem houvesse dito
    ou viesse a dizer o contrario d'esses decretos.




                             CAPITULO TERCEIRO

                    DA DESCIDA DE CHRISTO AOS INFERNOS


                               Descendit _ad Inferos_; terti die
                               resurrexit  mortuis; ascendit ad
                               coelos, sedet ad dexteram Patris,
                               ind venturus est judicare vivos
                               et mortuos.

                               Credo in Spiritum sanctum, in sanctam
                               Ecclesiam catholicam et apostolicam,
                               in communionem sanctorum, in
                               remissionem peccatorum, carnis
                               ressurrectionem et vitam ternam. Amen.

                                                 (_Symb. apostolorum_).


                                     I

O Filho do homem, expedindo sobre a cruz sua vida mortal, desceu aos
infernos. No  o Evangelho que o refere;  um documento no menos
venerado, o qual, com o _Pater_ e _Ave_,  parte das oraes que a Egreja
ensina aos seus filhos: documento, ao que parece, anterior  redaco
dos Evangelhos e resumo da f apostolica:  o _Credo_.[9]

Jesus morto vai annunciar aos mortos a boa nova: Satanaz vencido,
os peccadores resgatados, o co aberto aos que oram, aos que choram, aos
que soffrem. Para estes exclusivamente  que seu sangue aspergiu o cho
do calvario. Jesus no dispensa da penitencia os que morreram culpados;
mas d-lhes a esperana que as antigas crenas deixavam luzir na terra
smente, e apagavam no tumulo.

Sei de sobra que os theologos querem que o inferno, visitado por
Christo, no seja o verdadeiro inferno; mas sim o limbo, o purgatorio,
os seis primeiros circulos da Ghenna, e no o ultimo. Esta distinco,
porm, no est no _Credo_. O inferno ahi diz-se com todas as letras, e,
mais pelo claro, _os infernos_, como quem indistinctamente diz todos os
logares de soffrimento onde podem penar os mortos.

Desceu aos infernos, diz o _Credo_, e ao terceiro dia resurgiu dos
mortos.

Quem eram esses mortos com quem Jesus passou trez dias? A interpretao
natural --todos os homens que, desde o principio do mundo, haviam
desparecido de sobre a terra; no s patriarchas e prophetas, seno
todos os judeus; no s todos os judeus, mas todos os gentios. Eis aqui,
entendidas ao natural, o que dizem as palavras: Desceu aos infernos, e
habitou trez dias com os _mortos_. Quereis dar quellas palavras
uma accepo espiritual? Temos ainda mais. luz na questo. Os mortos
espirituaes so os condemnados, os que eram considerados em perpetua
privao dos resplendores eternos. No so os prophetas, os patriarchas,
os eleitos, os santos, nem ainda alguns d'esses que por peccados haviam
merecido as penas temporarias, por que no estavam espiritualmente mas
s carnalmente mortos, crendo, esperando, amando, vivendo. Seja qual for
a interpretao adoptada, leva-nos a concluir o inverso do que os
theologos affirmam. Do citado trecho do _Credo_ colhe-se que Jesus desceu,
no s ao limbo, mas tambem ao inferno, no s aos patriarchas que
esperavam sua vinda,--explicao acanhada e violenta dos hebreus
conversos e dos christos judaisantes--mas aos mortos de todos os tempos
e paizes, aos peccadores que a lei antiga e antigas crenas haviam
ferido de morte espiritual, eterna, incuravel, da verdadeira morte. O
Redemptor, o Crucificado, o Messias visitou-os, mostrou-se-lhes, e elles
rejubilaram ao verem-no e choraram lagrimas d'amor d'aquelles olhos
aridos. Jesus no destruiu o inferno; converteu-o em purgatorio. Do
inferno judaico e gentilico fez o inferno christo, inferno que corrige,
inferno onde ha o chorar sem blasphemar, onde ha o soffrer sem
desesperana nem rancores.

Outras luzes pde dar o symbolo dos apostolos s almas piedosas. Mais
abaixo, diz: Creio na vida eterna mas no diz: Creio na morte
eterna. Este horrivel dogma no se l no credo apostolico. Se ahi
se falla em infernos  para nos ensinar que Jesus Christo l foi,
e de l sahiu, mas como devia sahir, vivo, glorioso, triumphante e
bemdito.

Diz finalmente o _Credo_ que Christo subiu ao co, onde est sentado 
dextra do Padre, d'onde vir a julgar _vivos e mortos_.

Quaes vivos? os justos? Quaes mortos? os peccadores, os ultimos
povoadores da terra e os antigos habitantes d'aquellas tenebrosas
manses onde a esperana radiou com o Christo quando tudo foi consummado
na Cruz? No  possivel que uma s palavra tenha dois sentidos com to
breve intervallo. Quereis que os mortos d'entre os quaes resurgiu ao fim
do terceiro dia sejam os antigos reprobos? Tambem eu quero. Quereis
antes inferir de taes palavras que os nossos avs judeus e os pagos,
quantos ento eram mortos, viveriam, n'outra parte, jubilosos ou
suppliciados? Tambem eu quero. Adoptai um sentido, ou outro, ou ambos
juntamente, que a mim no se me d d'isso. O que ha de sempre
forosamente reconhecer-se  que a phrase representa a mesma ida
significada uma ou duas linhas abaixo. Ser, conseguintemente, preciso
confessar que os mortos visitados por Christo so os mesmos que elle
vir julgar quando julgar os vivos. Direi pois logo que na descida aos
infernos, Jesus morou trez dias no entre os justos esperanados, mas
entre os condemnados  desesperao para os ungir de seu sangue,
consolal-os e salval-os. E, seno, para que os visitou?

Faz-se mister prescindir de entender qualquer palavra divina ou humana,
se do _Credo_ se colhe o dogma das penas eternas. No est l: o contrario
 que est. O veneravel texto  mil vezes mais luminoso que todas as
glosas dos doutores.

    [9] Conta-se que os apostolos, antes de se apartarem para levar aos
    gentios a boa nova, trez annos pouco mais ou menos depois da morte
    do divino Mestre, se reuniram e compozeram o _Credo_, elenco das
    verdades cujo ensino lhes fra confiado. O Evangelho ainda no
    corria escripto. S depois da separao,  que foi composto o de S.
    Matheus, que antecede a todos. O symbolo da f apostolica tambem no
    andava escripto; mas ensinava-se de cr aos fieis, e por isso longo
    tempo se conservou na Egreja, bem como a tradio egualmente oral da
    sua origem.


                                    II

Viveu Origenes quasi coevo dos tempos apostolicos. Toda a gente ouviu
fallar da santidade de seu viver, pureza de costumes, alento nas
perseguies, vasta sabedoria e raro engenho. Pois ainda assim, aquelle
insigne doutor, e illustre confessor de Christo, negava as penas
eternas. Acaso receberia elle a verdadeira tradio dos apostolos, ou, 
fora de reflectir, atinra com a genuina accepo do Evangelho? No
sei. Todavia confesso envergonhadamente que ainda no li as poucas obras
restantes que to assignalado sujeito escreveu sobre tal materia. O que
mais sei  que foi condemnado, muito tempo depois que morreu, por um
edito do imperador Justiniano, e anathematisado, com a poro da obra
relativa s penas eternas, por o concilio ecumenico de Constantinopla,
anno 553.[10] No se deram os bispos  canceira de provar que
elle era ruim logico; declararam-o herege, que era mais summario, e por
contagem de votos.

 muito para notar que o primeiro concilio ecumenico de Nicea, anno 325,
e o segundo de Constantinopla, anno 381, se abstivessem de decidir sobre
a doutrina de Origenes, ainda nova e florecentissima, e  conta d'isso
mais funesta, se por ventura escondesse perigo. Divergiam sobre o
assumpto as opinies dos padres d'aquelle tempo? Recusariam no se
conciliarem? A questo confundil-os-hia? Inclino-me a crer que sim. O
mais notavel documento que os dois concilios nos deixaram, denota
indeciso de natureza a um tempo estranha e evidentissima:  uma
profisso de f muito particularisada, a mesma que hoje se enta aos
domingos na missa cantada nas egrejas do oriente e occidente.

O concilio de Nicea, ao redigir o symbolo da sua f, desenvolveu em
certos pontos o symbolo dos apostolos; mas, quanto ao mais, abreviou
aquelle antigo symbolo, e o que mais espanta  a suppresso completa do
descendimento aos infernos.

O concilio de Constantinopla, adoptando o symbolo de Nicea,
aperfeioou-o, e additou-lhe alguns artigos, mas no lhe repoz a descida
aos infernos.

Que quer dizer esta eliminao? Desceu ou no desceu Christo aos
infernos? Se desceu, por que o no dizem? Acham que  insignificante o
caso? No merecer a pena relembral-o?

Felizmente o symbolo dos apostolos subsiste, e os de Nicea e
Constantinopla no vingaro desluzil-o.

    [10] No anno 321, Origenes foi denunciado ao Concilio de Alexandria,
    e interdicto do sacerdocio. S. Jeronymo attribue esta condemnao a
    ciumes e invejas que inspirava a eloquencia de Origenes aos Padres
    reunidos n'aquelle Concilio.




                              CAPITULO QUARTO

                             ADVERTENCIA FINAL


                                     I

As idas que empreguei no discurso d'esta obra andam por tantos livros
disseminadas, e prgadas de tantos pulpitos, e to notorias e populares,
que me no temo de que m'as neguem. Diligenciei exprimir claramente os
dogmas, preceitos, maximas, opinies sempre admittidas nas faculdades de
theologia, nos seminarios e conventos: era acto de boa f e tambem de
prudencia; que toda minha argumentao claudicaria, se eu attribuisse
aos propugnadores do inferno linguagem que no fosse a d'elles.

Fui eu quem inventou a queda de Satan, o poder e maleficios da corte
infernal, o peccado do Eden, e a maldio dos homens? Fui eu quem
encerrou no claustro o ideal da perfeio christ? Fui o auctor
das sentenas desesperadoras fulminadas contra o mundo e contra os
affectos e luzes naturaes, contra o bom siso e contra a vida? Inventei
eu as devotas reflexes, azadas para mirrar os coraes das mes e dos
filhos, e uns pensamentos afogueados que calcinam o cerebro como o
alcool, embrutecendo uns, e desvairando outros em devaneios
melancolicos?  culpa minha se o inferno parece coisa atroz? No
suavisei eu em vez de encarecer as pinturas conhecidas? Se  immoral,
estava a meu cargo mudar-lhe a condio? Attribui eu ao padre Bohours
palavras alheias, ou a S. Bernardo coisa que elle no dissesse?

 verdade que eu muitas vezes poderia auctorisar-me com textos, e dizer
em grego ou latim, ou italiano ou allemo, em nome d'outrem, o que expuz
a meu modo. Mas que tinha eu a ganhar com esse systema? Nenhuma das
idas que discuti pertence nominalmente a este ou quelle theologo;
junta ou separadamente todas lhes pertencem:  dominio commum. Seria
apoucar e abater a questo conferir a uma crena tradicional visos de
opinio particular. Acato a virtude, admiro o engenho, onde quer que os
encontro, at nos mesmos que me ameaam com as penas eternas; no
mal-quero por tanto a S. Gregorio, nem a S. Jeronymo, nem ao padre
Nicole, nem a algum theologo morto ou vivo. No me estive a quebrar
lanas com personagens mais ou menos eminentes: que so apenas eccos de
doutrinas que vogaram muito antes d'elles. Se eu tivesse em cada pagina
citado um doutor, julgar-se-hia que os outros doutores, no
mencionados, depunham contra mim. No aconteceu isso a Pascal? Nomeia
elle as suas testemunhas, transcreve-lhes litteralmente as proposies,
e vos remette ao volume e pagina d'onde as trasladou; pois
responderam-lhe que se as proposies que elle combate esto nos livros
d'onde as copiou, a culpa  dos auctores, e no da companhia que os
instruiu. Claro est que eu tenho por mim auctoridades muito mais
embaraosas que os padres Petau, Penterau, Hurtado, Bille, Sanchez,
Suarez, Escobard, Bauny, Molina, Reginaldo, Tannero, Filicitius e Azor.
Tenho-as numerosissimas, a ponto de a mim mesmo me embaraarem. Qual hei
de escolher entre tantas? Que mais vale uma do que outra? Um capuchinho
canonizado vale ou no vale um papa no canonizado, mas fallando
_ex-cathedr_? E de mais um s auctor, por extremo que fosse o gro de sua
respeitabilidade, bastaria a tapar a bcca aos altercadores? Quantos
textos seria preciso adduzir para authenticar certas phrases alcunhadas
de perigosas, levianas, absurdas e escandalosas? Quantos padres, papas,
bispos e doutores teria eu de dispr em batalha a meu favor? Confesso
que no sei. Fui, pois, sobrio em citaes, no por mingua do assumpto,
mas antes por excesso. Convenam-se de que no ha linha n'este livro 
qual eu no podesse cerzir, se me aprouvesse, paginas inteiras, seno
volumes de annotaes justificativas, hauridas nas fontes mais puras,
mais frequentadas e veneradas.

Similhante lavor, porm, ainda que eu o compendiasse  essencia do
debate, cansaria a paciencia dos leitores, que se dispensam de to
barbaro apparato para saberem ao que devem atter-se do que lhe ensinaram
desde o bero. Mas as provas de memoria as sabem; sobejam-lhes nas suas
livrarias; no carecem de folhear concilios, obras de santos padres,
bullarios, constituies de bispados, revelaes de Santa Catharina,
Santa Thereza, e outras bem-aventuradas; no se lhes faz preciso
consultar Bossuet, Bourdaloue, Massillon, nem outros illustrissimos
oraculos que nem sempre nos esto  mo. Mais boas de encontrar so as
minhas provas: acham-se nos labios e nos ouvidos das creanas que
estudam o cathecismo; acham-se em mos de nossas irms, esposas, e mes,
na sua _Imitao_, no _Quotidiano christo_, no _Combate espiritual_, na
_Vida dos Santos_, no _Livro d'ouro_, no _Pensai-o-bem_, e em milhares
de livrinhos d'este jaez, approvados pelos bispos e universalmente
manuseados.

Os paladinos do inferno, se os houvesse, no ousariam, talvez, atacar as
passagens d'este livro, de antemo atalaiadas d'uma guarnio formidavel
de batinas, de chapeos vermelhos e de barretes; mas quem sabe se
atacariam como abastardados, alterados, e erroneos os trechos que eu
desprecavidamente no defendesse? Em tal caso, nada me valeria amontoar
notas. Se m'as pedirem, eu lh'as darei em quantidade que lhes parea de
mais. Convenho, se quizerem, em incommodar com ellas os adversarios; mas
to smente os adversarios; quanto ao publico, a minha inteno no 
adormecl-o; antes eu quizera acordal-o, esclarecl-o e agradar-lhe. Mal
andaria eu se, a proposito de taes polemicas, sacudia aos olhos dos
leitores a poeira dos meus livros traados!


                                    II

Se no podem accusar-me de m f na exposio dos principios que tentei
impugnar, no faltar quem me accuse de mo juiz em tudo o mais. Estejam
certos que no ficar aqui. O inferno tem seus devotos que no
sacrificam s Graas, mas s Eumenides. Bem os ouo gritar: impio!
incredulo! ignorante! detestavel pensador! monstro! scelerado! por que o
no prendem, e mandam s gals! Ousar descrer das penas eternas! Que faz
o ministerio publico? Onde est o carrasco? Em Frana j no h lenha
para uma fogueira? Votamos pelo inferno, queremos que os nossos paes e
os nossos filhos sejam condemnados. Ao fogo com os selvagens, idolatras
musulmanos, judeus, indianos, herejes! Ao fogo com os peccadores
recalcitrantes! fogo eterno com os philosophos impenitentes! No nos
esbulhem d'esta amavel crena. Que havia de ser da moral? Queremos
inferno e diabo, a maldio e o mal. Se muita gente se condemna, peior 
isso, mas a culpa  d'ella. Que ardam para sempre!  vontade de Deus. O
teu debil sopro, ruim pensador, no apagar as chammas salutares
que no corrigem os mortos, que pouco emendam os vivos, mas fazem tremer
as freiras nas suas cellas e alegrar os santos no paraiso. Viva o
inferno! Se se elle apagasse, haviamos de accendl-o com os teus livros.
Queremos o inferno e seus supplicios, embora l vamos cahir com as
nossas mes e com as creancinhas que riem no collo d'ellas. Sem inferno
no ha f, nem Egreja, nem religio, nem lei, nem familia, nem
moralidade, no ha nada. Conservemos o inferno!  absurdo? mais um
motivo. _Crdo quia absurdum._ Parece-te isto injusto, incredulo, impio,
perverso que no queres acreditar que Deus creasse tantos entes fracos
para perdel-os sem misso! Imprudente! que ousas escutar a tua
consciencia, quando a tradio falla! Malvado! corao de pedra que no
ds dinheiro ao Papa para lhe redourar a thiara e vais dal-o a pobres e
proscriptos, e ests ahi a lastimar os billies de creaturas que povoam
o abysmo.  sandeu!  miseravel! Algum proveito colhes atacando verdades
to uteis. s como os malfeitores que quebram os lampees. Se assim
vais, arrasars os carceres.  bem de vr, l tens as tuas razes para
querer destruir o inferno; se fosses de melhor casta havias de crr
n'elle.


                                    III

Advogados do inferno, que sabeis a tal respeito? Sereis acaso mais
innocentes do que eu?  verdade que sou peccador. Se todavia as minhas
aces e as vossas fossem pezadas, talvez eu podesse estar a respeito do
futuro to tranquillo como vs. Mas Deus no me ha de comparar comvosco
para absolver-me ou condemnar-me: ser com o modlo de perfeio que eu
tenho no espirito, e que eu devra ter copiado no decurso de minha vida.
No pratiquei--de mais o sei--todo o bem que podia; condescendi com
fraquezas que vs, por ventura, no conhecestes; mas talvez que eu, sem
que o soubesseis, me esforasse e vencesse nos conflictos em que
succumbistes. Eu no vos julgo,  crentes no inferno, que encaraes sem
impallidecer; eu, porm, que no creio no vosso inferno, no posso sem
pavor meditar no julgamento divino. No desespero na bondade de Deus,
mas creio em sua justia, e nutro viventissimo sentimento da perfeio
evangelica, e por isso mesmo sinto grandissimo pezar de minhas culpas, e
no me considero isento de expiao.

Oxal que eu podesse dar de mim melhor testemunho! Podesse eu chegar
mais confiadamente ao tribunal do soberano juiz! Tivesse eu to socegado
o espirito como inculcais o vosso, ou to puro como vs imaginais
que o tendes! Quem me dera ser santo, no aos meus proprios olhos, como
dir-se-ha que sois aos vossos, mas aos olhos das pessoas de bem e das
multides. Ento impugnaria eu a eternidade das penas, no j com
melhores razes, nem com argumentos de mais justia, mas com a
auctoridade que uma vida santa e reconhecida como tal imprime na palavra
humana. Ha ahi quem se no renda ao vigor de um discurso, e se docilise
 virtude ou ao renome de quem discorre.

No discutamos, pois, a minha vida, que eu no tenho que entender com a
vossa. Em meu soccorro valho-me unicamente do raciocinio; desadoro outro
prestigio, e no me dobro a outro poder. Refutai-me, se podeis, com
razes to claras como as minhas; mas deixemo-nos de insinuaes
calumniosas; nada de injurias. Isso que prova? Quando fosse verdade que
todos sois pessoas virtuosas que vo direitas ao paraizo, e que eu sou
mo, e o peor dos homens, sde francos, seria isso prova de que eu
argumento mal, e vs argumentais bem? Inferirieis d'ahi o que quer que
seja contra a infinita misericordia de Deus? A isto  que  preciso
responder, senhores. Eu por mim digo que a dr, n'este e no outro mundo,
 meio de expiao; digo que a dr, n'este e no outro mundo, acara a
piedade; digo que o castigo mais justo deve ter fim, e que o perdo  o
fim, a cora, a perfeio e explendor das obras da justia; que um
castigo infindo seria um castigo desarrasoado, sem escopo, sem
moralidade, inutil ao culpado, s testemunhas e ao juiz;--um acto de
colera, de odio e furor--um feito sombrio e sinistro como transportes de
demencia incuravel. Digo que tal crena  mal cimentada, e assim funesta
em este mundo, como odiosa no outro; que nem o mal nem o castigo so
eternos; que eterno  s o bem, a omnipotencia, a bondade, a justia e
misericordia de Deus, e que estas coisas, que separais, so inseparaveis
em Deus. Digo, conforme a S. Paulo, que ceo e terra ho de passar; que a
f ha de passar tambem, e tambem ha de passar a Esperana, e que tudo ha
de acabar, salvante a Caridade.

Que vos parece isto? que redargus? Ser-vos-ha mister mudar a
propriedade das palavras, crear linguagem nova, dirimir as leis da
razo, e cuidar em extinguir tanto em vs como nos outros as vivas luzes
da consciencia, se quereis impugnar estas proposies.


                                    IV

Mas ninguem pde desluzir de seu espirito o reflexo que ahi lampeja a
verdadeira luz, se uma vez a entre-viu. Quando houverdes lido este
livro, ser-vos-ha aprasivel fechar os olhos, e injuriar-me; no
obstante, sentir-vos-heis alumiados, crentes na verdade a vosso pezar;
e, embora o negueis,  a vs mesmos que mentis. Negal-o-heis com a
bcca; mas no com a consciencia.


                                     V

Espero resignadamente as insolencias. Se m'as no disserem alto,
dil-as-ho baixinho. Este livro ir ao _Index_, e tal, que o no tiver
lido, se julgar abundantemente auctorisado a prohibil-o aos outros,
como livro pernicioso. Vedar-se-ha ao peccador inveterado, contentissimo
de sua recente converso, de buscar aqui motivos para ser mais humilde;
vedar-se-ha  viuva lagrimosa de procurar consolar-se n'esta leitura.
Divulgar-se-ha que este livro  _tio do inferno_, que queima os dedos
que lhe tocam. E ha de haver muito quem o diga na melhor boa f.

A Egreja no alenta curiosidades de espirito. Porqu? De que se teme?
Profunde-se cada vez mais a moral de Christo; que ella nos irradiar
cada vez mais formosa, mais salutar e verdadeira. Por si mesma se
justifica; dispensa preges; nos labios d'um menino inflora-se to bella
como nos discursos d'um sabio.

As leis moraes no so arbitrarias; no so caprichos divinos nem
tenebrosos decretos cuja sabedoria se esconde  nossa intelligencia. So
perfeitamente adequadas  nossa natureza e necessidades. No ha uma s,
cuja inobservancia no surta graves desordens; uma s que no proteja a
dignidade humana, a liberdade, o direito, o debil contra o forte, o
innocente contra o cavilloso. So freio de paixes, luz e regras
das aces publicas ou clandestinas, particulares ou collectivas,
condio que influe no desenvolvimento de nossas faculdades, cauo de
nosso repouso, e complexamente de todos os nossos actos.

A Egreja, n'este ponto, desconhece a sua fora, se a discusso a
intimida; mas, por outro lado, cumpre confessar que ella desconheceria
sua fraqueza, se tolerasse discusso de certos dogmas, e em particular
do dogma das penas eternas. Se quer que haja crena no inferno com f
egual  crena da redempo; se quer a mesma f para a colera sem fim e
para o amor illimitado, imponha silencio a respeito de tudo, que 
prudente. Mas d'essa imposio de silencio o resultado  este:


                                    VI

Resulta que os fieis creiam cegamente coisas profundamente
contradictorias--a verdade radiosa e o erro inintelligivel, Deus e
inferno. Tambem resulta que as multides sempre a multiplicarem-se
rejeitem cegamente o inferno, e com o inferno os mais idoneos dictames
da moral, indiscretamente sumidos n'esse abysmo. Imaginam uns que a
mesma voz que ensina uma injustia no pde ensinar uma verdade;
imaginam outros que a mesma voz que ensina consoladoras verdades, no
pde ensinar erros. A m educao, que, no rodar de muitos seculos, lhes
deram, torna-os a todos egualmente incapazes de discernir o que 
falso do que  verdadeiro, na mesma ida: encaram-na a vulto, qual lh'a
offerecem, e ou a guardam ou rejeitam  ta, verdade e mentira de
mistura, porque ambas as idas esto identificadas em uma no espirito
d'elles.

Todavia todos os partidos so mos, e nenhum pde, relativamente 
questo presente, socegar a alma. Ainda no encontrei fiel que se me
confessasse impassivel ao horror das penas eternas, quando pensava
n'isso. E tambem no encontrareis incredulo que no haja confusamente
sentido a preciso de sobreviver a si proprio, e no haja suspirado pela
justia do co, vendo as iniquidades da terra. A verdade falla assim ao
corao de todo homem, alvoroando-o at que elle a comprehenda.

O fiel diz de si para comsigo: Deus  cruel; mas, reportando-se 
Egreja, cuida que as inspiraes de sua consciencia so suggestes
diabolicas, e vai aterrado rezar diante da cruz um acto de f em um Deus
sem misericordia. Pelo contrario, o incredulo diz entre si: Deus
existe; os mos sero castigados; e, se em seguida se aturde e apaga no
intimo aquelle presentimento lucido da justia divina,  porque lhe
esto sempre figurando o brazido inextinguivel e as atrocidades sem fim
que enterneceriam tigres e fariam chorar as pedras sobre o destino dos
condemnados.


                                    VII

Tal  hoje em dia o estado das almas relativamente a um dos mais
importantes dogmas da religio. F cega, incredulidade cega, f que
acceita um Deus vingativo e exclue do co a piedade, incredulidade que
busca um Deus compadecido, e, por que no acha piedade no co, exclue de
l a justia. E entre estes dois bandos de almas atormentadas, est uma
corporao docente, que se inculca infallivel, mas que, no intento de
proteger sua infalibilidade, anathematisa a razo humana e excommunga a
consciencia.


                                   VIII

Eu tenho tido parte nas angustias da f que, at de olhos fechados,
conhece que a transviam; e, se, mais tarde, abre os olhos afeitos 
escurido, como os de Saul deslumbrado, nada v, e caminha s
apalpadellas. So passados esses dias de turvao; mas talvez n'este
livro negrejem vestigios d'elles.

No achareis n'esta obra um tratado methodico cujas partes se encadeiam
e deduzem logicamente, desde a primeira at  ultima pagina. Em questo,
a um tempo, to complexa e excitante, ser-me-hia custoso sujeitar-me aos
vagares do methodo. A tal qual ordem que trava as peas d'este
escripto, vem como compendiada no assentamento das reflexes e
meditaes que a formam. Ninguem melhor do que eu sabe quanta
deficiencia desvalia o escripto. No importa. Eu, por mim, rodeei o
alcaar de Satan; e, se lhe no puz cerco segundo as regras da arte, no
lhe deixei parede nem pedra que no soffresse algum abalo. No se faz
mister tempestade para lh'o baquear: um leve spro o far cahir.


                                    FIM




                                   INDICE


                                                                  _Pag._

Advertencia do traductor                                             V

Prefacio da segunda edio                                        XIII

                                INTRODUCO

Dogmas hebraicos                                                     1
      I--Rebellio de Satanaz                                        2
     II--O inferno                                                   3
    III--Paraizo terreal                                             5
     IV--A maldio                                                  6
      V--Consequencias da maldio                                   7
     VI--Comparao da nossa sorte com a de Ado e de Satanaz       10
    VII--O povo de Deus                                             11
   VIII--A egreja e o novo povo de Deus                             15
     IX--Como se prova a verdade dos dogmas hebraicos,
         e com especialidade a eternidade das penas                 18

                              PARTE PRIMEIRA

                                _Tradies_

Capit. I--A tradio universal  a prova do inferno?                21
      II--Explicao natural das tradies pags cerca do inferno  24
     III--Como o sacerdocio perpetuou estas tradies               26
      IV--Exemplo de um povo que permaneceu fiel a
          todas as suas antigas tradies                           27
       V--Effeito d'estas tradies na edade media                  29
      VI--Como a sociedade christ se desvia progressivamente
          d'aquellas antigas tradies                              30

Capit. II--A f nova                                                33
        I--Pater noster                                             33
       II--O purgatorio                                             36
      III--Necessidade do purgatorio                                38
       IV--Mysterios                                                39
        V--O paraizo                                                41

Capit. III--Os fructos do inferno                                   46
         I--O bem                                                   46
        II--A carmelita ou o ideal da perfeio theologica          53
       III--Discurso d'uma mulher de sociedade que havia
            tocado a perfectibilidade theologica                    66
        IV--Discurso d'um mundano, apoz bastos estudos
            cerca da perfeio theologica                          69
         V--O rebanho                                               73

Capit. IV--Outros fructos do inferno                                79
        I--O mal                                                    79

Capit. V--Os cinco grupos                                           87
       I--O grupo dos philosophos                                   89
      II--O grupo dos corruptos                                     89
     III--O grupo dos indifferentes                                 91
      IV--O grupo dos devotos                                       93
       V--O grupo dos santos                                        99

                               SEGUNDA PARTE

    _O inferno considerado alm-tumulo, os condemnados na presena
      de Deus, na presena dos santos, e na presena dos homens_

Capit. I--O inferno de Plato                                      103

Capit. II--Opinio dos pagos sobre a situao e vista interior
           do inferno                                              108

Capit. III--Opinio dos judeus cerca da vista interior do
            inferno                                                112

Capit. IV--O inferno dos theologos                                 117
        I--O inferno material                                      117
       II--Reflexes sobre as penas materiaes dos condemnados      125
      III--Os martyres de Nero                                     128
       IV--O inferno espiritual                                    130
        V--Continuao                                             134
       VI--Da immortalidade das penas espirituaes do inferno       136
      VII--Ultimas consideraes cerca do inferno theologico      140

Capit.    V--Sursum corda                                          143

Capit.   VI--A parabola do rico avarento                           151

Capit.  VII--Terra, inferno, co                                   154
          I--Terra                                                 154
         II--Ceo                                                   155

Capit. VIII--Historia d'um sonho                                   157

Capit.   IX--Judas Iscariote                                       170

Capit.    X--Concluso em frma de parabola                        181


                                 APPENDICE

Capit.   I--Provas mysticas do inferno                             185
         I--Da auctoridade da Biblia                               185
        II--Da auctoridade da Egreja                               191
       III--Concluso do que fica dito                             199

Capit.  II--Resposta a uma objeco                                201

Capit. III--Descida de Christo aos infernos                        210

Capit.  IV--Advertencia final                                      216


N. 423--Porto: Typographia da livraria Nacional, Laranjal, 2 a 22--1871




Erros corrigidos


    Pg.     no original                 correco
     12      divindidade                 divindade
     12      todas as religes eram      todas as religies eram
    199      Espirto Santo               Espirito Santo
    215      particuralisada             particularisada
    217      pupulares                   populares





End of the Project Gutenberg EBook of O Inferno, by Auguste Callet

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O INFERNO ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
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The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

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methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
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concept of a library of electronic works that could be freely shared
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