The Project Gutenberg EBook of O presbyterio da montanha, by 
Antnio Feliciano de Castilho

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: O presbyterio da montanha

Author: Antnio Feliciano de Castilho

Release Date: September 24, 2012 [EBook #28127]
First Posted: February 19, 2009

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRESBYTERIO DA MONTANHA ***




Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)






     *Nota de editor:* Devido  existncia de erros tipogrficos neste
     texto, foram tomadas vrias decises quanto  verso final. Em
     caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original.
     No final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.

                                               Rita Farinha (Fev. 2009)



Obras completas de A. F. de Castilho

XIX

O Presbyterio da Montanha

VOLUME I

[Figura]


LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
95, Rua Augusta, 95
1905





OBRAS COMPLETAS

DE

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

VOLUME 19.^o




VOLUMES PUBLICADOS:


I--Amor e melancolia.
II--A chave do enigma.
III--Cartas de Ecco e Narciso.
IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.)
V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.)
VI--A primavera (1.^o vol.)
VII--A primavera (2.^o vol.)
VIII--Vivos e mortos--Apreciaes moraes, litterarias, e artisticas.
IX--Vivos e mortos (2.^o vol.)
X--Vivos e mortos (3.^o vol.)
XI--Vivos e mortos (4.^o vol.)
XII--Vivos e mortos (5.^o vol.)
XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.)
XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.)
XV--Vivos e mortos (8.^o vol.)
XVI---Excavaes poeticas (1.^o vol.)
XVII--Excavaes poeticas (2.^o vol.)
XVIII--Excavaes poeticas (3.^o vol.)
XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.)


NO PRLO:


XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.)





OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

XIX

O PRESBYTERIO DA MONTANHA

VOLUME I

[Figura]

LISBOA

Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_


LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA
Rua Augusta, 95  || 45, Rua Ivens, 47


1905




Advertencia dos Editores


Em 1846 principiou Castilho a colligir, entre os seus manuscritos
antigos, alguns dos que lhe tinham nascido na estudiosa solido de mais
de sete annos de homisio na serra do Caramulo. A esses manuscritos, que
ia publicar com o titulo de _O Presbyterio da montanha_, escreveu um
prologo extenso, descriptivo, altamente pittoresco, onde, a dze annos
de distancia, desafogou as lembranas d'aquelles logares, e as saudades
de um irmo, o melhor dos irmos, o j ento fallecido Abbade de S.
Mamede da Castanheira do Vouga, no Bispado de Aveiro. O prologo
concluiu-se, imprimiu-se na sua maxima parte, mas no chegou a
publicar-se.

O natural desleixo do Poeta a respeito do que era seu, as vicissitudes
da sua atormentada vida, a sahida para S. Miguel, e outras causas,
fizeram com que as folhas impressas se sumissem, nem sabemos dizer como;
e os pouquissimos exemplares que existem, e se apontam a dedo, so hoje
considerados especies bibliographicas de primeira raridade.

Castilho possuia um, que vimos, e desappareceu; a Bibliotheca Nacional
de Lisboa possue outro; o distinto colleccionador, bibligrapho, e
escritor, o snr. Annibal Fernandes-Thomaz, outro; a fallecida snr.^a D.
Maria Peregrina de Sousa, poetisa portuense, possuia outro, que parece
ter levado caminho; Innocencio no Tomo I do Supplemento do seu immortal
_Diccionario_, no declara se era dono de algum; menciona a obra,
apenas.

Quanto  parte poetica do livro projectado, essa, no impressa,
desappareceu em parte. S algumas poucas peas encontrmos, umas
inteiras outras incompletas; materiaes truncados da colleco. Salvando
esses versos, cumprimos um dever moral, e outro literario.

O prologo de Castilho  pois o brilhante prtico de um edificio ainda em
construco, e j em ruinas;  inquestionavelmente uma das obras mais
curiosas e instructivas que elle deixou. A chorographia, a fauna, a
historia, a lenda, os costumes, a paizagem, as antigualhas, o
_folk-lore_, d'aquella regio alpestre, to portugueza, mas to
desconhecida, tudo isso  tratado com amor, com o cuidadoso amor de um
archeologo-poeta.

Appareceu tambem uma _Introduco_ em verso slto a certo poema
intitulado _O Sepulcro, historia de uma noite de S. Joo_, projectado
pelo nosso autor; poema original, muito vivido, muito phantastico,
infelizmente por concluir. Entendemos no menos intercalar essa curiosa
Introduco, no seu logar chronologico, por varios motivos: d-nos
Castilho sob uma feio poetica diversa da sua habitual, e pinta-nos o
estado da sua alma aos trinta annos, quando absorvia soffregamente o ar,
a vida, os usos populares da montanha. O _Sepulcro_  pois optimo
contribuinte d'este truncado banquete literario, e fra imperdoavel,
apesar de incompleto, despresal-o aqui. Do borro original, que
possuimos pela letra do amoravel secretario Augusto Frederico, para esta
lico actual, ha leves divergencias, que foram pelo proprio autor
ditadas em 1864.

Alm do _Sepulcro_, outras peas, portuguezas e latinas, j impressas
nas _Excavaes_, teriam logar aqui, pelo seu nascimento, pela sua data,
pela sua indole; mas o autor preferiu collocal-as n'aquelle seu volume.
Facil  ao leitor intelligente o procural-as.




 MEMORIA

DO

EXEMPLAR DE IRMOS

AUGUSTO FREDERICO DE CASTILHO

PRIOR DE

S. Mamede da Castanheira do Vouga

_Em testemunho publico e perenne_

_DE_

AFFECTO E GRATIDO

Offerece

_Antonio Feliciano de Castilho_




PREAMBULO


I

O livro que apresento, havia de ser difficil de classificar, se o
classifical-o podesse por alguma via valer a pena.

No  historico, nem ficticio; no  didactico, philosophico, nem
descriptivo; no  prosa, nem poema, nem ainda poemas; e, sem ser nada
de tudo isso, de tudo isso participa.

Nem sequer  um livro;  uma congrie de pequenas coisas, todas mais ou
menos obscuras, e quasi todas desconnexas, e de pensamentos no
procurados, se no tomados como elles quizeram vir, sem nenhum bem
determinado fim moral, social, ou literario; em summa: um d'aquelles
banquetes de aldeo, engenhados  pressa do que ha em casa,


  _...dapibus mensas oneramus inemptis,_


para hospedar a cortesos que lhe passaram pela porta. No procura
enganal os]: com mos limpas e corao lavado lhes pe diante o que s
para si tinha tratado na sua horta, ceifado no seu cho, cevado no seu
pateo, ou colhido do seu pomar. Porcelanas e pratarias, no as tem;
algumas flores, j pode ser que as apresentar em vasos de barro; mas
como vos assoalha com bom rosto quanto possue, no se vos alardeia de
abastado, nem se compara com os visinhos de casas altas e balces
envidraados. Como quer que vs d'elle o fiqueis, no ficar elle
descontente de si mesmo  despedida.

       *       *       *       *       *

Foi o geral d'esta colleco, parte escrito de carreira, parte apenas
esboado ou apontado, ha hoje doze, treze, quatorze, quinze, e dezasseis
annos, sem pensar no Publico; para mero desenfadamento de horas
abhorrecidas; para ajudar a correr mais depressa, em sitios tristes e
ermos, uns tempos muito ermos, muito tristes, e para mim, que nunca bem
atinei com o futuro, muito desconfortados de esperanas.

Como todo o meu fim em fazer versos no era outro seno o fazel-os, de
todo o modo me nasciam bem. No tinham de apparecer entre gente; no os
educava; no os corrigia; no lhes punha galas e arrebiques. Assim
sahiram, assim ficaram, e assim os esqueci.

Revi-os depois de tornado ao mundo, aonde j cuidei que no tornasse;
achei-os os mesmos que os tinha deixado: sinceros, mas incultos e
semi-silvestres, como nados e creados que eram por entre troncos e
penedos, longe de olhos e de ouvidos, que fazem por fora o mesmo que por
dentro faz a consciencia.

Vieram-me tentaes de os enjeitar; mas... eram filhos; contavam j
annos: recordavam-me tempo de saudades; eram me saudades elles proprios;
reconheci-os; dei-lhes o meu nome; com elle os apresento.


II

Todos os autores, ainda os que mais intimos se nos figuram, cuido eu que
_se compem_ para o Publico; e, bem hajam elles!: no levam  praa
seno o que teem averiguado que por l se deseja e se procura; pem de
parte, quanto podem, a sua pessoa, para servirem ao interesse ou gosto
alheio.

Nada d'isso tenho eu n'estas paginas.

No sou eu que vou para os leitores; so os leitores que teem de vir
para mim, se as quizerem ler. Ho-de deixar a sua cidade, pelo meu ermo;
as suas occupaes, pelo meu ocio; a sua polidez, pela minha rudeza; os
seus, pelos meus costumes; a historia ou o romance da sua vida, pelo
recantinho domestico onde a minha correu, como uma fonte desconhecida e
pura, que mana gotta a gotta n'uma cova, s vista de cima pelo ramo de
tojo que a sombreia, ou pela nuvem, ou pela andorinha cujo ventre branco
ella retrata no seu vo. Pelo que, bem entendido deve ficar desde aqui
(a fim de que no venham depois obrigar-me por divida que eu no
contraio), que a unica deleitao que esta leitura pode dar, se pode dar
alguma, ser a que naturalmente se tem, penetrando no interior da casa
alheia, e nos segredos do visinho.

 o que faz com que, por mais futeis que paream as memorias, que alguns
escrevem de suas vidas, e as correspondencias epistolares, quando por
acaso vo dar ao prelo sem terem sido ordenadas para elle, commummente
so lidas com interesse.

 o que faz, tambem, ser muitas vezes mais aprasivel que as achadas de
antigos monumentos publicos, o desenterro fortuito de uma antiga vivenda
particular ou casa rustica, onde os vasos e utenss do viver quotidiano
veem logo suscitar na phantasia os costumes, o trato, e o ser intimo, da
gente que ali houve.

Os monumentos s dizem do povo; mas a pedra da lareira, ou o ladrilho do
forno, o gancho da candeia, ou a aza da amphora vinaria dos banquetes,
dizem da familia. Em de redor de cada coisa d'estas ressurgem tambem uns
eccos de vozes enterradas ha muitos seculos; confusos, mas a todos
intelligiveis e suaves, de donas, de donzellas, de velhos e meninos, dos
animaes caseiros, dos passarinhos e viraes do ceo, do sussurro das
plantas, dos sons, em summa, de tudo que n'esses tempos apartados foi, e
feneceu, deixando de si menos vestigio, que a humilde talha do vinho, e
a lampada que allumiou calada os prazeres ou os somnos de seus senhores.

Os monumentos so artificiaes, e artificiosos; so estudados, e
emphaticos; a historia que elles resam  fria. Mas c, o romance que
engenhamos, ageitado s memorias e saudades do nosso mesmo passado, 
todo perfumado de Natureza; a mentir nos diz verdades.

       *       *       *       *       *

As _impresses de viagens_ esto sendo ao presente um genero de
Literatura mixta mui usado e mui querido.

No admira: para os autores  facil; para os leitores, recreativo quando
menos. Satisfaz-se o humor cosmopolita, que todos temos muito ou pouco;
sem canasso nem ms poisadas por terra; sem enjo nem temporaes por
aguas do mar; sem desabrimento de estaes; sem saudades do que l fica
para traz; ou, havendo-as, com bom remedio para desandar, que  repetir
algumas paginas; e emfim, sem o aborrimento, que a pessoa a viajar em
corpo e alma tantas vezes deve de sentir em chegando aonde ninguem a
espera, nem festeja, nem conhece, e onde no ouve pelas ruas palavra nem
som da sua creao.

A viagem escrita, sem custo de nenhuma especie se faz por uns caminhos
atmosphericos to suaves, que a todas as partes nos levam, com a nossa
casa e familia, sem at nos demovermos do nosso quarto nem da nossa
cama, se como Ovidio somos, que punha entre os regalos da vida o de ler
deitado.

       *       *       *       *       *

Ora digo eu: se o attractivo commum de taes viagens  o gosto de
conhecer sitios, gentes, e costumes, que nos so extranhos, e no medir
as distancias que nol os apartam, que esse, pelo contrario,  o maior
desconto do peregrinar, por que se apeteceriam mais as viagens 
Frana,  Inglaterra,  Suissa,  Italia, s margens do Rheno,  Russia,
ao Egypto,  China, ou ainda  Lua, do que a um qualquer monte da nossa
terra, s conhecido de seus moradores e visinhos?

Que sabeis vs mais da serra do Caramulo, em cujas faldas est
assentado S. Mamede da Castanheira do Vouga, como um neto no regao de
sua av triste e taciturna, que do monte Ararat, em cujo cume parou e se
abriu a arca depois do diluvio? Nem mais, nem por ventura tanto.

Viris pois s raizes do Caramulo conversar montanhezes, agrestes porm
bons; e to bons, que, d'entre os seus oiteiros mal sombreados e mal
productivos, nos seus pauprrimos tugurios cobertos de loisa ou colmo, e
pendurados  laia de ninhos pela escarpa dos precipicios, entalados nos
crregos, ou inclinados a scismar tristezas sobre algum rio fundo e
triste, nunca se lembraram de vos invejar a vs outros as vossas cidades
opulentas e festivas.

Estes, com falarem portuguez, so para vs estrangeiros, ou quasi. Como
taes, no vos despraza conhecel-os, despendendo algumas poucas horas com
quem por entre elles demorou annos, e de boa-mente l iria agora
enterrar os restos canados da vida ao-p do sepulcro de um Pae, que lhe
l ficou em quieto desterro para todo sempre.[1]


III

A 23 de Outubro de 1826, entrava por aquella serrana regio o novo
Prior, meu sempre e em tudo irmo, e agora saudade minha continuada e
sem remedio, Augusto Frederico de Castilho, com a sua pequena familia,
de que era eu parte inseparavel.

Coimbra, d'onde iamos, fra a terra dos nossos annos mais flordos;
Lisboa, a do nosso bero e da nossa infancia. Uma e outra me chamariam
pelos affectos em qualquer parte do mundo em que eu estivesse; e no
houvera eu valdo a resistir-lhes. Mas para aquelle ermo, que ento
cuidavamos nos durasse a vida toda, entranhavamo-nos elle e eu, por nos
sentirmos um como o outro to encantados com o nosso futuro, j palpado
e colhido s mos, que alegres, sobre resignados, esqueciamos todos os
outros sitios por aquelle, renunciavamos quaesquer outras delicias, mais
amenas ou mais vvidas, por aquellas gentilezas incultas e mais poeticas
de uma natureza quasi primitiva.

       *       *       *       *       *

Passmos n'uma bateirinha remada por uma velha moleira da margem, o
vioso rio de Bolfiar, a que deu nome, hoje corrupto, segundo a
tradio, o _bom fiar_ de certa moa mui santa, que junto d'elle vivia
n'uma choupaninha pobre, e esmolando a todos os pobres com o trabalho da
sua roca; se no quizerdes antes que dos Moiros lhe viesse o appellido,
significando _pepinal_, ou _rio das terras dos pepinos_; pacifico rio,
que ento ia grosso e desmandado por entre as suas duas ribas altas e
verdejantes, em cujos cimos nenhum passageiro deixou nunca de se deter
enlevado na amenidade de tal painel.

Comeam a estender-se-nos diante, profusas e desmedidas para um e outro
cabo, arripiadas gndaras de carqueja e urzes, s de longe a longe
interruptas de um sovereiro torcido e mal posto, ou de um rebanho;
terreno boleado e ondeado como um lago, que em meio de tempestades se
houvesse petrificado por encanto. So j fronteiras do Caramulo.


IV

A freguezia de S. Mamede no se v em parte alguma;  dispersa, e
emboscada. A magreza da terra no d para grandes espessuras de
povoao.

O aspecto do paiz, para quem s o atravessa  de inhospedeiro. Mas que
se detenham, e o tratem; acharo a hospitalidade espontanea e
desinteressada, em todas as falas, em todas as mos, e em todos os
coraes.  porque a solido  de si mais affectuosa, e a pobreza mais
liberal e larga, que o rico povoado.

Esta differena e vantagem que os moradores levam  sua terra,
experimentmol-as ns ainda antes de chegarmos  egreja e residencia,
sahindo a receber o seu Pastor novo no s os maioraes, se no quasi
todo o Povo com os seus trajos de festa, e repicando por cima das
cerejeiras e nogueiras do adro os tres sinos do campanario, d'onde
quelle som se dispartiu pelos ares uma nuvem de pombas brancas.

A egreja, alva, com o seu largo porto vermelho aberto para o seu adro
muito verde, apresenta-se solitaria. Das povoaes em que a freguezia se
divide, nenhuma lhe  contigua nem visinha. O presbyterio, ou residencia
parochial,  o unico edificio que a acompanha, mas por de traz, como
serva humilde e boa, e no descobrindo mais, por entre os pltanos, que
o portal do seu pateo toucado e semi-velado das mais espssas, crespas,
e lustrosas heras, onde jmais se esconderam e cantaram melros.

Ambos os edificios ficam no meio do _passal_, antiga quinta das
Limeiras, dos Condes da Feira, como o passal fica no meio do sinuoso
deserto, por onde se disseminam as aldeias, povoas, e casaes, que ali
teem o seu foco espiritual.

Um grande silencio rodeia largamente a casa da orao. O presbyterio no
lh'o quebra.

Baixo, de um s andar, e retirado para o fundo do seu pateo rustico mas
espaoso, a olhar pelas quatro janellinhas da sua frontaria principal
unicamente para o ceo, e para umas formosas e corpolentas laranjeiras,
que dentro do mesmo recinto vegetam, como elle clausuradas, o modesto
domicilio, proporcionado pelo que sempre dever ser o pastor de tal
rebanho, no se retrahiu para mais longe, por traz da sombra do
santuario, porque no poude: porque lh'o embargou a longa e cada vez
mais precipitosa descida, que desde os seus calcanhares comea para alm
a esconcear, descer, e afundir-se, at  borda do estreito, rumoroso, e
espumifero rio de S. Mamede.

Uma ponte de madeira, arremessada e trmula nos ares a grande altura,
por cima das aguas escuras e raro alcanadas do sol, communica esta com
a ribanceira ulterior, no menos carrancuda, fragosa, arripiada, e a
pique.

Da residencia, cora de um dos dois alcantis, at ao moirisco logar de
Falgozelhe, seu visinho na fronteira crista da penedia d'alem-rio,
entremeia apenas distancia, que, pela calada das noites, deixa ouvir de
parte a parte os ladridos dos ces de gado, as cantigas do sero, e os
alertas dos gallos a deshoras. E comtudo, aquelle _quasi-nada_ para os
ouvidos e olhos,  para os ps caminho dilatado, fadigoso, e no sem
perigos.

As duas veredas, que levam s duas extremidades da ponte, giram enleadas
e perplexas, torcendo-se e refugindo, ora para a direita ora para a
esquerda, como espavoridas do abysmo l em baixo; descendo, tornando a
subir, e redescendendo de novo por entre brutescos de penedia negra.

Pouco matto ressequido, e alguns medronheiros silvestres, so os unicos
entes vivos, que por ali se affoitam a tomar p. Os seus frutos
vermelhos, quando o vento lh'os despega maduros, vo sumir-se entre as
espumas arrebatadas.

Aquella ponte, vacillante sobre tal pgo e entre taes escarpas, com
poucas braas de ceo por cima, e por baixo de si o rugir de tantas
aguas, d as sensaes de um bello horror.

Muita vez me deleitei de as colher, debruado horas esquecidas para
aquelle inferno liquido; e este pensamento algumas vezes ahi me veio por
tardes de Junho, em quanto, calado e estendido sobre as tboas, gastadas
e rtas da humidade, me gosava da virao transpirada pela corrente.
Foi a simples providencia do acaso, ou uma inspirao de religiosa
poesia no fundador, a que fez reunir n'um ermo, e em to pequeno espao,
como tres cantos de um poema, esta corrente, esta casa, e esta egreja?
Esta corrente, emblema da vida terrestre, to escura, to angustiada,
to clamorosa, e com to pouco de azul por cima das suas ribanceiras
inaccessiveis, d'onde insperado vem, cada dia, algum novo penedo
ferir-lhe o seio! Aquella egreja, to serenamente alegre, to aberta, o
dia inteiro, ao generoso sol dos campos, to gorgeada a ambas suas
portas de passarinhos, to garrida de espadanas sobre as campas do
pavimento, e nos seus cinco altares to ridente de flores silvestres,
symbolo da alma refugida das tormentas do mundo para o ineffavel asylo
da F e das Esperanas! E entre o santuario e o rio, como intermedio e
transio dos dois extremos, a casinha do Pastor, alva como a confiana,
verdejante e florida como as promessas, recatada como a esmola,
inexhaurivel no seu celleiro como a Providencia, tcita como a
meditao, com as suas portadas bem abertas como a paz, com as costas
para a torrente, o rosto para a arca santa, os olhos atravez das arvores
de Deus para o firmamento.....

O mesmo nome de S. Mamede, com que se appellidam o santuario, a
torrente, e o albergue,  uma nova harmonia. Mamede, ou Mamante, foi um
humilde e obscuro pastor de gado na Capadcia, e do qual toda a Egreja
do Oriente prega virtudes e milagres. Sendo ainda mancebinho, acabou
martyr, por volta do anno 274 da nossa era.

O logar santo, para o Santo; o medonho e vertiginoso, para o Martyr; o
vigilante e benfico, para o Pastor; o tudo, e os silvestres e pacificos
arredores, para o Menino, j moo na valentia, ou para o moo, ainda
menino na innocencia.

No poude ser o acaso, quem tantos acrtos concertou.


V

Era a residencia, quando a ella chegmos, decrpita e caduca: apparencia
de choa fabricada de pedra ensssa, escura e descommoda no interior;
por fora negra, com alpendres a aluir-se para o pateo apoquentado de
inuteis e desgraciosos compartimentos. A velhice do derradeiro possuidor
a havia em parte feito, em parte deixado, chegar quelle estado.

A transformao foi rapida e completa. Os alpendres desappareceram. Na
casa remoada entrou por vidraas abundancia de luz. O pateo
desafrontado foi revestido, como a frontaria do edificio, primeiro de
cal bem candida, logo de roseiras e limeiras bem viosas. Um cedro
n'elle plantado comeou de levantar-se animoso e gentil; e sei que
n'esta hora, em quanto de seus dois plantadores um j no existe na
terra, o outro declina para o occaso, elle, medrando ainda,  j, como
lh'o eu augurra nos meus versos, braso do presbyterio; tem no seu
tronco cinco palmos de circumferencia, e perto de quarenta de altura.[2]

O novo Prior, o Rev.^{do} snr. Padre Antonio Jos Rodrigues de Campos, a
quem Deus dilate a vida para felicidade do rebanho, varo de virtude, e
espirito cultivado por Letras, filho d'aquellas boas terras, e amigo
nosso que sempre foi, como ainda hoje o  do nosso nome, conserva e zla
tudo aquillo com amor.

 para mim delicia o considerar, que  sombra grande d'aquelle cedro,
que eu regava todos os dias, quando um menino de tres annos o poderia
ainda arrancar sem custo, ler talvez, depois do seu Breviario, este
livrinho das minhas memorias, em que deposto o seu nome mollemente
reclinado entre tantas outras saudades minhas.


VI

J os leitores conhecem, como quer que seja, o asylo que me escondeu
sete annos, desde Outubro de 1826 at Fevereiro de 1834, o ninho em que
nasceram, sem pensarem em abrir o vo que hoje abrem para o mundo, estas
poesias montesinhas.

Mas, como todo o seu assumpto se no limita ao que deixo esboado,
peo-lhes ainda um pouco de indulgencia, para lhes dar a conhecer, por
alto, os arredores.

       *       *       *       *       *

O passal rodeia por todos os lados a egreja e a residencia, correndo por
traz d'ellas at onde lh'o consente o pendor do terreno, a escoar-se
cada vez mais rapido para o rio de S. Mamede.

Por essas lombas inclinadas, fronteiras  encosta alta e erma de
Falgozelhe, se boleiam melancolica mas graciosamente as suas hortas, os
seus pomares, a sua fonte, as suas parreiras, e as fraldas das seras,
que at ali chegam descendo pela direita e pela esquerda, depois de
povoarem toda, com o seu oiro sussurrante, a larga esplanada horizontal,
por onde, ao sahir da egreja, folga a vista de se espraiar, at ir
bater, l ao longe, na capellinha e matta de S. Sebastio, que lhe
servem de limite.

Seras eram os atrios, que os Romanos pelas suas aldeias folgavam de
avisinhar aos templos de Ceres, e mais divindades protectoras da
Agricultura. Que mais proprio, para um povo agricola como este, do que
achar a casa do Creador, e a do seu dispenseiro, no centro da abundancia
das messes, e saudal a com a invocao de um Pastorinho santo?

O caminho publico atravessa desde o sobreiral de S. Sebastio, por entre
duas grinaldas de oliveiras e vinha, o meu passal at ao adro; costeia a
egreja e a casa pela direita, e, em demanda da serra alta, l se vai
mergulhando para a ponte, deixando n'uma de suas orlas a frescura
sombria da fonte sobre as hortas, na outra os remanescentes da egreja
antiga, um altar de pedra n'uma capella, meia de pedra meia de silvas,
assoberbada com um S. Jorge de marmore, a cavallo, a brandir ainda um
troo de lana enferrujado de musgo.


VII

Detenhmo-nos poucos minutos, se vos apraz, ao-p d'este altar, onde j
ninguem ajoelha, sobre sepulturas que hoje so tremoos, e recordemos a
obscura historia d'este sitio.

Por que razo s as grandes ruinas se ho-de haver por merecedoras de
atteno? Todo o passado  poetico; todo o evocar imagens humanas de sob
a terra que pisamos,  proveitoso para alguma coisa. Nas solides,
mormente como esta, consola o saber que nem sempre a brenha foi brenha,
e que onde hoje, por entre o rugir das folhas, s algum pipilar de ninho
quebra a mudez da Natureza, houve outr'ora actividade, affectos bons, e
at festas.

Cabe pois saber, que, em tempos mui afastados, viveu na povoasinha da
Talhada, logar emboscado, de pouco sol, pouca terra, e achegado pela
margem de c s aguas do S. Joo do Monte, que logo a diante troca o
nome no de S. Mamede, um moo por nome Jorge, humilde de gerao como
tudo quanto por ali nasce e se cria, mas de corao alto e espiritos
levantados.

Namorra-se Jorge (me contou n'um sero do Natal uma velha, que o ouvira
em pequenina a seus paes, que o tinham recebido no sabia de quem)...
mas emfim, namorra-se, que o sabia ella, de certa moa de alem-rio,
guardadora de cabras, mas filha de um Capito, e sobrinha em primeiro
grau de um snr. Vigario. L de baixo, perto da sua vivenda entre
penedos, levava, os dias com os olhos sempre iados aos cabeos de
Falgozelhe, na outra banda,  caa da sua saia de serguilha, ou do seu
sombreiro preto; e ainda no de todo malcontente, quando, por entre os
penedos pardos e as urzes cr de fogo, a enxergava, pendurada  borda do
precipicio, e pascendo descanadamente uma das cabrinhas que obedeciam 
sua voz melodiosa.

A voz da serrana era em verdade um dos seus dotes. Quando a esperdiava
cantando n'aquellas solides, parecia-lhe a elle, que l de baixo lh'a
estava captando com ambas as mos, escutar um Anjo de amor escondido
entre as nuvens; e quereria mal at ao rouxinol que lh'a interrompesse,
porque no sabia de coisa mais de molde para o seu corao.

Vel-a  sua vontade, no a via se no aos domingos na egreja; e nem
ento, que para esses dias tinha ella umas roupinhas muito scias, meias
muito alvas, e tamancos de galo de oiro, que o aterravam, mostrando-lhe
que maiores obstaculos ainda haviam posto entre os seus affectos a
fortuna e o nascimento, do que entre as suas vivendas a corrente das
aguas. Fazem-se pontes para os rios; no se fazem que prestem para
communicar dois estados to diversos.

       *       *       *       *       *

Amor verdadeiro pode ser platonico algum tempo; mas  poesia; e poesia
no  vida. Ousou, e declarou-se a medo  sua formosa; no foi
repellido. Affoitou-se a mais: ao impossivel. Abriu-se com o tio Vigario
em confisso. O que entre elles se passou, no se sabe; taboas de
confessionario no so carvalhos dodnios que chocalhem tudo. O que se
sabe,  que a moa no tornou a apascentar para aquella banda, e que
elle, pouco depois, deixou a terra, onde tinha me e irmos pequenos,
sem dizer nada a ninguem, e no levando seno o fatinho que tinha no
corpo, o seu cajado, o seu espirito, que segundo dizem, era grande, e o
seu amor, que no era pequeno.

Constou, ao cabo de annos, que se tinha ido embarcar em um navio d'el
Rei, e que se abalra por esses mares de Christo, sabe Deus para onde, e
para qu.....

No meio de uma furiosa tormenta, correndo grande perigo de perdimento,
assim a fazenda que andra moirejando, como a propria vida, apegou-se
com o Santo do seu nome, e lhe prometteu que, se o levasse com tudo seu
a terra de salvamento, lhe mandaria fundar, e lhe dotaria, uma capella
da sua invocao com duas Missas por semana, defronte de Falgozelhe,
onde vivia a noiva do seu corao, por cima da Talhada, onde tinha os
irmos e a me, e pegada com a egreja onde o baptisaram a elle, e onde a
avistava todos os domingos.....

Mas de crer  que n'essa imagem se no demoraria muito em semelhante
lance, em que as ondas formavam, por instantes montanhas to altas e
escarpadas, porm mais temerosas e feias que ess'outras, entre cujas
quebradas, e por cujos visos, elle varira a sua infancia.

Acudiu-lhe o Santo; e Jorge cumpriu o promettido.

Tornou  Talhada, erigiu a capella, comprou fazendas em Angeja, que em
boa e devida forma lhe adscreveu para o seu culto, e nunca mais tornou a
aventurar-se sobre aguas do mar.

Reliquias so pois da sua obra a Imagem e as pedras que ainda ali se
divisam. O de mais, j desgastado do tempo, foi demolido, para ir servir
como materiaes na edificao de parte da residencia, e da egreja nova,
que j sabeis lhe esto visinhas.

       *       *       *       *       *

--Mas o fim de seus amores?--me perguntareis vs.

Memoria  essa que eu tambem procurei, porm no consegui desencantal-a.

O que s pude desenterrar da tradio, foi: que este mesmo Jorge viera a
casar-se na freguezia; que tivera um filho nascido na pvoa da Talhada;
que este se ordenra de Clrigo, fra a Roma, e arribra a Cardeal; em
memoria do que, ainda na actual egreja se conserva, herdada da antiga, e
mandada por elle de Roma para aquellas suas brenhas muito amadas, uma
Cruz de quatro palmos de altura e um de largura, com braos em baixo e
em cima, oleada de verde, doirada nas pontas, e n'ella pintados tres
cravos, duas chagas, e uma cora de espinhos.

V se, venera-se, e commenta-se, como o acabamos de dizer, pendente na
parede do arco cruzeiro da banda direita; e affirma-se, que na capella
de S. Jorge permanecra com egual honra em quanto ella durou.

Agora, se este em Roma purpurado, filho da rustica humildade de uma
pvoa, em que o maior personagem que descobri foi um fuzeiro velho, e
onde o que s fazia bulha no meu tempo era um pequeno moinho, rto por
todos os lados aos ventos e chuvas, foi, ou no, nascido do consorcio a
que o Padre Vigario e seu irmo se tinham opposto, eis ahi o que eu no
alcancei; e no quero invental-o. Provavel me parece que sim, quando me
lembro do que a minha velha me contava d'aquelles amores, e o combino
com a ideia que formei da constancia no bem querer dos moradores da
minha serra.

A moa deveu de conservar-se donzella, e fiel. Quanto a Jorge, qualquer
apostaria que o foi sempre. A fortuna entulhra com riqueza o abysmo que
os separava; e S. Jorge, que no  Santo para meias victorias, havia
forosamente de pagar com bizarria o obsequio do seu devoto.

Piamente podemos portanto acreditar, em que, diante d'aquella Imagem de
pedra, muitas vezes o marinheiro e a sua formosa de esquecido nome
ouviriam juntos a Missa; e talvez diante d'aquelle mesmo altar os
recebesse o proprio Padre Vigario, indo depois jantar com elles, e beber
 sade da futura gerao algumas malgas de vinho verde na sua casa da
Talhada, ao rouco murmurinho das aguas de S. Joo do Monte.


VIII

A egreja velha, de que foi parte esta capellinha, fra o antigo oratorio
dos Condes da Feira; e a residencia, j depois duas vezes transformada,
albergue do feitor que elles ahi tinham para lhes receber os fros, e
lhes tratar d'aquella sua quinta, chamada, como j tocmos, das
Limeiras.

Cederam tudo elles mesmos, concitados de sua piedade; por quanto,
havendo sido a primeira freguesia d'estes povos no Guardo, do Bispado
de Viseu, por de traz da serra da Alcoba, e a tres leguas de distancia
da que ao presente , d'ali a haviam achegado para Alcafaz, pertencente
agora  freguezia de Agado, sitio ainda desfavoravel pelo estirado e
descommodo dos caminhos; o que moveu os ditos fidalgos a darem ermida,
casa, e quinta, com largas rendas e fros para a sustentao de Parochia
sobre si.

N'esta sua quinta, pois, senhorilmente cercada de cedros, de que poucos
hoje permanecem para memoria, costumavam elles vir passar com seus
amigos algum tempo do anno na montaria dos javals, que a espessura das
moitas ento creava, segundo parece, como ainda hoje cria lobos. Folga a
phantasia comparando e contrapondo aquelles tempos a estes, e reanimando
o actual silencio com um reflexo e ecco da vida estrepitosa de outra
edade.


IX

Explormos as convisinhanas do templo e residencia. Estendmos agora os
olhos at s fronteiras da terra por onde se dilata o seu pacifico
senhorio.

       *       *       *       *       *

D'este centro, a meio quarto de legua a nor-noroeste, esconde-se o logar
das Maadas, com cincoenta almas, sua ermida de S. Joo Baptista, e sua
fonte muito fresca.

Para o norte, a outro meio quarto de legua, a antiga villa da
Castanheira, com as suas entradas, cobertas de parreiral, vangloriosa
com os seus cento e oitenta e sete moradores, e com a sua capella do
Espirito Santo, mas dando-se-lhe pouquissimo com o telegrapho, que desde
as ultimas guerras lhe ficou at hoje a pantomimar no alto do seu
oiteiro. Pelos gestos d'aquelle activo surdo-mudo passam, de extrema a
extrema do Reino, quantas noticias o revolvem, sem que a boa da villa,
nem outro algum dos logares que entram na sua abenoada confederao de
rustica ignorancia, as adivinhem, nem suspeitem, nem cubicem.

A tres quartos de legua para nor-nordeste, d-se com a humilde pvoa de
Falgarinho, de no mais que oito visinhos.

Subindo d'ali mais um quarto de legua contra o nordeste, encontra-se,
n'uma quebrada da mesma crista, a Serra-de-cima, com vinte e tres
pessoas.

Descendo para o sul pelo seu ameno valle bordado de frutiferas arvores,
e a pequena distancia, se d de improviso com a vistosa e agradavel
quinta da Serra-de-baixo, de sete almas, e sua capella de Nossa Senhora
do Livramento.

Nas faldas d'estas fragosas montanhas, junto ao rio de S. Joo do Monte,
que a seus ps corre, est em amphitheatro o Avelal-de-cima, de vinte e
quatro almas, a tres quartos de legua a les-nordeste da egreja.

Voltando pela direita ao tortuoso rio por caminhos pouco transitaveis, a
meio quarto de legua est para o nordeste o Avelal-de-baixo, logarejo de
quarenta e sete almas, e uma capella de Nossa Senhora da Conceio.

Deixando a margem do rio, atravessando um desfiladeiro, e subindo
bojudas lombas, reverte-se ao nosso ponto fixo de observao.

Para o nascente, descendo at  Cruzinha, e d'ahi toda a costa dos
Ferreiros, passa-se o rio de S. Joo do Monte, junto ao seu confluente
Alcafaz (nome arabe, que significa o salto) nome que para ali est, ha
mais de setecentos annos, soando em bocca de christos sem renegar a sua
origem, nem se corromper.

Para a esquerda do S. Joo do Monte, se descortina a nossa Talhada, de
honrada memoria, bero de um Cardeal, de um fundador de capellas, e de
um namorado de lei; tres celebridades para um ninho hoje de quatorze
almas, coberto de loisas e colmo, e coroado de saras e medronheiros;
dista-nos um quarto de legua para nordeste.

Vadeando segunda vez o rio, e a pouca distancia d'elle, o S. Mamede (que
toma este nome na junco dos dois afluentes) se atravessa na ponte de
pau que j sabeis, e onde eu agora, 30 de Julho ao meio dia, me tomra a
apanhar  fresca.

Subindo um pouco espao a costa, atravez de alcantiladas rochas, toma-se
a les-nordeste, seguindo tortuosa e mal aberta senda, que em travessia
da montanha, sobre a esquerda do rio, leva at ao casal do Fonto, de
onze almas, sito na margem do Alcafaz, na raiz do cabeo de Santa-Cruz,
a quarto e meio de legua para ns.

Revertendo-se onde se largou o caminho, se continua serpeando a encosta;
e no cimo se encontra a povoao de Falgozelhe, de setenta e uma almas,
posta a um quarto de legua da egreja, a les-sueste, quasi na extremidade
occidental de um ramo do Caramulo. O nome da sua casa de orao  o que
 sua altura melhor convinha: Santa-Cruz.

Tomando-se o rumo do sul, e atravessando o rio Agado por outra ponte de
pau, e serpeando ingreme ladeira, no cimo est o pequeno e vistoso logar
da Falgarosa, de trinta e seis moradores, com uma sua ermida da Senhora
da Boa-Morte, a tres quartos de legua ao sul; terra que se ufana com o
delicioso de seus pomares de caroo e de espinho, com a annosa matta de
sobreiros que a abriga pelo nascente, norte, e noroeste; e sobre tudo,
com ter dado  luz o instruido e virtuoso Pastor, que hoje rege aquelle
rebanho.

Voltando para o rio, passa-se n'uma bateira um pouco a baixo, depois de
se terem abraado os dois afluentes Agado e S. Mamede.

Subindo-se at ao vizo, est o logar da Redonda, de cincoenta almas, com
sua capella de S. Gonalo, a quarto e meio de legua a sudoeste da
egreja. Redonda se chama, por estar  borda de um leito semi-circular.

       *       *       *       *       *

Fechemos a topographia do nosso pequeno reino, com as suas confrontaes
externas.

Parte a freguezia de S. Mamede: pelo norte, com a do Prstimo; pelo
poente, com a de Agueda; pelo sul, com as da Aguada de cima, e
Balazaima; pelo nascente, com a de Agado, filial, ou annexa, que anda
ento era,  de S. Mamede, e parochia hoje sobre si; paiz ainda por
ventura mais serrano e variado, mas que eu no cheguei a descobrir.


X

O territorio de S. Mamede  o extremo occidental de um corpulento ramo
do Caramulo, ramo appellidado serra de Alcoba, que em voz de Moiros quer
dizer abobada, ou montanha boleada  feio d'ella.

Do Caramulo, como tronco d'onde bracejam dispartidos este e outros
ramos, alguma coisa quizera eu dizer,  conta do muito que merece. Mas,
sobre que nunca o visitei, apesar de to visinho, recearia apoucar-lhe a
veneranda majestade, apertando n'um ou dois paragraphos as vagas
noticias que d'elle tive.

Em summa:  uma bizarra montanha rude e silvestre, dominando d'entre as
nuvens meio Portugal, larga em fontes e penedias, poderosa em
tempestades, em frutos magra, mas opma em homens e mulheres de antiga
tempera: activos, pacientes da penuria, do frio, da fome, e da nudez; 
um paiz de selvagens christos, para o qual as rudes terras do meu S.
Mamede esto, em polidez e florescencia, como para os Lacedemonios
poderia estar a antiga Attica.

       *       *       *       *       *

Dois monumentos accrescentam venerao ao Caramulo, quanto o podem
mesquinhas obras humanas s grandiosas moles naturaes.

N'um dos seus cabeos mais alterosos foi erguido, nos principios d'este
seculo, uma especie de zimborio de doze palmos de altura, pouco mais ou
menos, de pedra muito bem lavrada e argamassada. Para qu, no dizem;
mas dizem que por um engenheiro francez; raso por que, os povos da
circumvisinhana, por occasio da guerra peninsular, commetteram
demolil-o; mas s lhe poderam fazer pelo norte um pequeno estrago. Dura
em p, e s  accessivel do nascente por uma vereda estreita e tortuosa.

O outro monumento no  menos enigmatico, e deve estar farto de ver
passar seculos e desfazer-se geraes.

N'uma arremeada crista, a duzentos passos da egreja do Espirito Santo
de Arca, se alevanta elle, com o titulo immemorial de Pedra de Arca. 
uma desconforme loisa inteiria, horizontalmente aguentada nos ares por
esteios de pedra; quatro em numero a principio, hoje s tres, havendo
sido um arrancado para as obras da visinha egreja.

Tem esta lgea de comprido vinte palmos, e de largura dezasseis; de
grossura, pelo nascente tres polegadas, pelo norte quatorze, pelo poente
onze, e outras onze pelo sul. Os pilares contam de altura doze palmos,
s da flor da terra para cima; de largura, um que fica para o poente
apresenta nove palmos, tendo de grossura pelo poente palmo e meio, e
pelo nascente um palmo. Um, que diz para o sul, tem de largura, por
baixo quatro palmos e meio, e por cima tres, e de grossura um palmo de
cada lado. O ultimo, que est para o norte, tem de largura, por baixo
cinco palmos e polegada, e por cima quatro palmos e polegada.

Com que possantes machinas, por que mos, em que eras, e para que fim,
se alevantou ali aquella, que  phantasia se figura bruta meza de
gigantes silvestres? Sera obra de fortificao n'um systema de guerra
desconhecido? Quasi que nem possibilidades o abonam. Uso agrcola,
industrial, ou civil, nem a imaginao mais inventiva lh'o rastreia.
Memoria de algum varo ou feito insigne, j a poderia ser. Mas ento, a
que rudes tempos a no havemos de referir, visto como nem data, nem
letra, nem escultura tsca, nem vestigio algum de arte nem de
architectura, mas s uma bruta mechanica, ali se admira!

Religiosa fabrica de alguma gentilidade parece logo aquella; e mais,
quando se adverte na semelhana que tem com os altares druidicos, ainda
hoje conservados em varias partes do que foram Gallias e Germania.

Verdade , que por estas nossas terras no rezam as Historias, que se
estendesse aquella abominavel seita de sacrificadores de humanas
victimas; mas nenhuma repugnancia ha, em que, perseguidos, como o vieram
a ser, pelos Imperadores romanos, alguns druidas se refugiassem para
este Occidente, e aqui, em retiros montesinhos, menos accessiveis a
pesquizas e perseguies, professassem e mantivessem o seu culto, do
qual (se duas coisas mal conhecidas podem ser sem temeridade comparadas)
no muito discreparia talvez a religio do Endovlico lusitano.

Este ponto, porm, outros mais sabedores que o investiguem, se vale a
pena, como cuido; que eu me torno do Caramulo para o centro dos meus
affectos.


XI

Nada concita aos logares venerao, como a antiguidade.

Bem quizera eu poder historiar d'estes meus sitios para alm de Moiros,
Normandos, e Romanos; mas, por mais que a procure, no rastejo noticia
d'essas edades, com que fazer obra.

Se por ahi passaram em algum tempo successos grandes, se houve
memoraveis edificios, se vares insignes pisaram aquellas terras, nem
ruinas o attestam, nem documentos o declaram, nem tradies o denunciam.
O solo enguliu tudo; e nenhum acaso lhe fez ainda restituir uma pedra ou
letra para enigmas.

S ao sudoeste de Falgozelhe, j fra da sua lavoira, na primeira
valleira que se encontra  direita do caminho indo para Agueda, se v
uma fiada de umas como torrinhas, que se estende por mil e quarenta
palmos; das quaes torrinhas, s duram hoje em dia os alicerces, e
algumas pores deseguaes de muros esboroados a delir-se.

E descendo esta valleira duzentos e vinte e cincos palmos, se d em uma
furna chamada a buraca da cerejeirinha, aberta a pico em rocha viva;
a qual tem na bocca oito palmos e meio de altura, quatro e meio de
largura, e cento e vinte e cinco de comprimento. Da furna  geral fama
que fra aberta pelos Moiros.

       *       *       *       *       *

Em tempos de mais abuso do que estes nossos, acreditou se, dizem os
netos, que morava ali Moira encantada, que, todas as madrugadas de S.
Joo, sahia muito pontual e ritualmente, a assoalhar os seus thesoiros
por cima dos penedos, entre os mattos orvalhados.

N'esses seculos, entendido est que o terror lhe velava a estancia, e
que ninguem se affoitou nunca a ir l dentro.

Algum Principe afortunado deveu de desencantar a Moira, que actualmente
j no ha novas d'ella. As pastoras levam sem medo os rebanhos para a
sua visinhana; cantam aos seus hombraes trovas muito christans; e quem
quer, lhe devassa (como eu fiz) o seu palacio subterraneo.

A opinio dos modernos tem, que fra aquella mina aberta, pelos Moiros
sim, mas no para tirar oiro, que  sempre a primeira conjectura, nem
para serventia militar, que  sempre a segunda, se no s, e
prosaicamente,  busca de agua, que em verdade de l mana, muito fresca
e saborosa, mas em pequena copia.

       *       *       *       *       *

Sobre as fortificaes engenha cada um a sua hypthese.

Ha quem as supponha posteriores  inveno da artilharia, por se lhe
figurar que s a taes armas podiam ser apropriadas; e ha quem aos Moiros
as attribua, fundado em que, posto no ficassem d'elles por ali outros
vestigios, o arabigo de alguns e muitos nomes de logares demonstra, que
elles por l viveram. E se por l nasceram e se crearam, no podiam
deixar de fortificar-se e defender-se contra commettimentos de inimigos,
que  esse um instinto natural a todos os homens, mas nos homens das
montanhas mais energico.

       *       *       *       *       *

Falgozelhe, em verdade se cr ter sido d'elles povoada, posto que o seu
nome, se christo no  (como de certo no ), tambem por arabe se no
reconhece. Ser-lhe-hia imposto por gente ainda mais antiga?

Mas, sem nos extraviarmos para essas novas brenhas de fabulas, o em que
podemos ficar por mais que verosimil  que, por toda aquella serrana
regio, estanciaram Moiros em seu tempo; e, se ahi deixaram menos rasto
que em muitas das terras visinhas, seria porque a bruteza do monte era
j ento como hoje, que no dava meios nem licena para grandes obras.
Pequenas pvoas, que eram o mais a que podiam chegar, muito faziam em
tirar da terra po com que se manterem; quanto mais, erigirem
castellos, pontes, ou mesquitas, de que se podessem admirar fragmentos
depois de sete seculos!

Rebanhos moiriscos pasceram portanto por aquellas encostas. Por baixo de
outros tectos rusticos semelhantes a estes, e por ventura no logar
d'estes, se acalentaram creanas com versos do Alcoro. Outras arvores,
de que estas so remota descendencia, viram passar  sombra das suas
copas esvoaadas da ventania albornozes de lan grosseira e parda, e
turbantes retintos; e bois, que sulcaram com o arado o que hoje  talvez
poisio, entendiam as vozes do lavrador arabe, e ficariam confusos e
immoveis se revivessem para ouvir as da nossa lingua.

Eis aqui o unico perfume antigo que podemos dar a estes povoados ermos,
que eu desejaria fazer to amados de meus leitores, como de mim o so e
sero sempre.

       *       *       *       *       *

No digo bem. O falar, e os pensamentos, e os costumes, manteem-se ainda
antigos. As novidades das civilisaes so como a escravido, e os
diluvios: tarde chegam a engulir as serras.

A Linguagem  ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucidez. Se
os diccionarios e livros mestres da nossa Lingua se perdessem, pela
conversao corrente d'aquellas aldeias e pvoas se poderia restaurar.

Troca-se mais portuguez de lei, mais riqueza de vocbulos, phraseado, e
construco, n'uma seroada de inverno, ou n'um palrar de ssta de
segadores entre carvalheiras rusticas, ao estridor das cigarras amadas
de Anacreonte, do que entre o ranger dos prelos e o resfolegar das
balas, n'um anno inteiro da melhor typographia de Lisboa.

Muitos dizeres classicos, de que por ahi chacoteiam por affonsinos, como
o _nanja_ o _bof_, o _cant_, o _qui_, e mil outros, sam por l sem
extranheza em boccas de mocinhos de doze annos nos seus folguedos, ou de
namoradas de dezoito nos seus desabafos mutuos em vespera de romaria.

Com a honesta herana da Linguagem, veio dos avs aos netos a das
crenas e praticas piedosas, e com esta a de muitos seus erros e
abuses. So os insectos e musgos parasitas da arvore robustissima da
F. Abenoada a Philosophia quando acode a limpal-a sem lhe esgalhar os
ramos ou cerceal-a pelo p.

O tempo vai fazendo a pouco e pouco o seu officio. No ha curas nem
reformaes mais prudentes e certas do que as suas, quando  fora lh'as
no ajudam ou contrariam.

Era por essas terras, poucos annos ha, geral e profunda a credulidade de
apparies, phantasmas de almas do outro-mundo, Moiras encantadas,
thesoiros escondidos e lobis-homens; e ainda hoje a mr parte dos
moradores acredita nos esconjuros, feitios, bruxarias, adivinhaes, e
virtudes de certas praticas e frmulas, para curar ou empecer.

Estas abuses, sem deixarem de ser males muilo innegaveis, do comtudo
sua cr poetica muito particular ao Povo, cuja simplicidade primitiva no
viver e trajar harmonisam com taes simplezas da intelligencia.

       *       *       *       *       *

Os figurins parisienses, esses idolosinhos multiformes, a cujo culto
vivem adstrictas as gentes das cidades, e muitissima dos campos, so por
ora totalmente incognitos na serra. A moda no exerce por l as suas
costumadas devastaes de cabedaes, bons costumes, e saude. Os
vestuarios e galas de ambos os sexos reproduzem-se com a mesma
uniformidade, com que nas suas moitas e arvoredos cada especie vegetal
renova as suas folhas e flores.

Os homens vestem de burel, ou saragoa caseira, creada s costas das
suas ovelhas, tosquiada por elles, fiada e tecida por suas mes,
mulheres, e filhas, apizoada e tinta (quando o ) sem sahir da
freguesia. Trazem grandes chapeos pretos desabados, grande bordo
ferrado, menos para defensa, que para arrimo pelo resvaladio das
ladeiras, e tamancos cravejados.

As mulheres trajam, sobre camisa de linho ou estopa da terra, sia de
burel de meio pizo, cr de pinho ou preta, collete comprido justo, sem
aprto, e mandil; isto , obra de vara e meia de burel mais apertado no
tear, e sem pizo, que lhes serve de capa, lanado ao desgarre por sobre
os hombros. A cabea, cobrem-n-a, ou com o mesmo mandil, ou com um
chapeo como o dos homens. As suas tamancas so menos grosseiras. O leno
de seda ao pescoo , como as arrecadas e o cordo de oiro, o ultimo da
magnificencia, e as flores da urze ou da carqueja o mais galante enfeite
dos seus sombreiros.

So luxos de toucador para dias de festa, feiras, ou romagens, quando
calam, com meias brancas, tamanquinhos de pregaria doirada com sua meia
palla de marroquim vermelho, vestem roupinhas de pano burel fino, ou
chita, pem gorjetes de fil, ou lenos de cassa bem pregados, e
capoteiras de pontas compridas debruadas de fitas. Para a egreja, as
mais ricas e senhoras teem mantilhas e sapatos.


XII

A educao apenas desbasta. Parca e imperfeita como a cultura do solo
ingrato, s pe mira no essencial: em desenvolver os sentimentos
naturaes e religiosos, o afferro  justia e  verdade, os differentes
amores de que se tece a paz das familias e a harmonia dos visinhos, o
respeito  velhice e ao infortunio.

As polidezes requintadas do trato so lhes desconhecidas. Esses
discursos de cortezos, mosaicos de phrases brilhantes, que ora
deslumbram, ora entreteem, ainda quando nada representam,
inspirar-lhes-hiam compaixo. Pensam o que dizem, e dizem-n-o como o
pensam.

Das artes de seduzir, no cultivam nenhuma. Aprendem para ser bons
lavradores, boas pastoras e tecedeiras, e bons paes, e boas mes, depois
de terem sido bons filhos e boas filhas; e n'isso limitam a sua ambio.

Se ha festas, cantam e dansam como sabem; e sabem quanto basta para
folgarem, mais de veras que damas e cavalheiros ao som de orchestras, em
saraus esplendidos.

No falam extranhas Linguas, como ns, mas falam a nossa, que  melhor.

Fora da casa de algum Ecclesiastico, no se desencantaria um s livro em
toda a freguezia; mas os louvores da sua moralidade dariam com que
encher mais de um livro para nos envergonhar.

A egualdade quasi fraternal por ali reina, por um modo, que a todo o
corao bem nascido dar gosto. A _merc_ e o _vs_ de nossos maiores
so tratamentos para os raros casos em que no cabe o _tu_.

Os logarejos so todos amigos, e em grande parte parentes um dos outros.
O mais pobre vai sentar-se festejado ao sero ou  meza do mais rico;
isto , do que na sua tulha tem centeio ou milho para todo o anno; e o
abastado interrompe a sua lavoira, para ir fazer com os seus bois a
geirasinha do indigente que a no pode pagar; e lhe leva pendurado na
canga do arado o sacco da semente, para que elle tenha tambem, l para o
vero, que ceifar para seus filhos; porque toda esta boa gente sabe, por
instinto, que as lagrimas, no meio da alegria geral, so mais amargosas
para quem as verte, e auspiciam mal o contentamento a quem as
presenceia.

 um povo agricola, que ainda no aprendeu a envergonhar-se do seu
parentesco chegado com a terra. Entre elles se diz lavrador, e
trabalhador, como em Londres fabricante, ou lord, em Roma
cardeal, ou monsenhor, em Paris sabio, ou homem de Letras, e em
Lisboa deputado, ou millionario.

As Armas da sua nobreza poderiam ser a charrua e o podo, com o seu
paquife de pmpanos e espigas, e a letra _Ut operaretur terram, de qua
sumptus_.

       *       *       *       *       *

Que impresso, a principio de espanto, logo de respeito, e a final de
amor, me no fez o presenciar, como, ao revz da pragmatica das cidades,
o trabalho das mos era ali ennobrecimento, e a ociosidade a maior
vergonha!!

Conheci, entre estes montanhezes, quem, havendo em outro tempo vertido o
sangue pela Patria, e cingido uma banda, madrugava (como as andorinhas
do seu beirado para o trabalho do ninho), para se ir, em pernas e mal
roupido, carrear o adubo para a sua fazenda, ou levar do enxado na
roa dos mattos entre os seus operarios. A estes, que os poderia
admirar na vida dos Cincinatos, dos Curios, e dos Camillos, se alguem
lh'a lesse, a no ser a admirao dos historiadores?

       *       *       *       *       *

As irmans, as esposas, e as filhas de taes homens no poderiam deixar de
ser mais varons do que os homens de muitas outras terras, e de todas as
deliciosas.

Para a maioria d'ellas, o fuzo, a lanadeira, e a agulha, com o seu
costumado cortejo de cantigas, rezas, e contos tradicionaes, que vo
formando semelhante  precedente a gerao seguinte, s so passatempos
do sero,  luz da candeia, das pinhas bravas, ou da fogueira, que
allumia e alegra os penates afumados. Madrugam como a aurora para os
trabalhos fortes. Os bois conhecem a sua voz, e se deixam pacificamente
jungir e guiar pelas suas mos. Na vindima, carregam  cabea cestos,
que seriam inamoviveis (como as pyramides do Egypto) para as mos alvas
e beijadas de uma duzia de senhoritas. Nas ceifas, transportam  cabea
montanhas de espigas, to leves e ufanas sob o pezo como uma cortesan
sob o seu chapeo de flores de seda chegado de Paris, ou sob a sua
grinalda de brilhantes, cada polegada da qual se poderia resolver em
bemaventurana para dez familias. Nas renques dos saxadores e dos
roadores, vel-as-heis brandindo um alvio no mais leve, deixal-os
muitas vezes para traz, e envergonhal-os com seu riso de triumpho.

No ha fadiga, nem sol, nem vento, que as quebrante. O exercicio, Anjo
custodio da innocencia e virtude feminil, lhes infiltra ao mesmo tempo
no sangue a saude, que do sangue se ca ao leite, e do leite aos filhos.
Seriam as amasonas da paz, se no tivessem ambos os peitos muito bem
inteiros, e se os homens seus eguaes as no acompanhassem em todas as
lidas.

       *       *       *       *       *

Uma usana patriarchal, ou homrica, d'este paiz, que moralmente parece
distar do nosso duas mil lguas,  a sujeio da mulher; facto que eu
no moraliso, mas s historio.

As mais graves, tanto como as mais somenos, no s  laia das Penlopes
e Nausicaas, intendem no tear e na lavagem das roupas, mettidas no rio
at meia-perna; no s no trfego de porta a dentro, na cosinha para a
familia e para os animaes domesticos; mas no se correm nem desdenham de
ministrar de p, como servas,  meza de seus maridos e filhos, nem em
dias de festa ou bodo, quando a assistencia de hospedes mais poderia
assoprar-lhes o recacho, e empavezal-as. So sempre aquillo: sempre
passivas, boas, e contentes.


XIII

Bem estou eu pressentindo, que a muitos parecero j minuciosas e pueris
estas noticias; mas hei-de j agora continual-as, e seja com vnia sua.
A outros, sei que prazem; a mim, regalam-me; e para d'aqui a alguns
annos, quando o nivel da civilisao tiver tambem renteado as asperezas
das serras, alguem festejar encontrar estas antigualhas, nas folhas j
por ventura rtas e descosidas d'este livro.

Por antigualhas vivas poderiam ellas agradar j hoje ao commum da nossa
gente; mas ento ho-de ser antigualhas fosseis, e portanto com
venerao duplicada venerandas.

       *       *       *       *       *

A indole da gente  de si commedida e pacifica.

De todo o genero de vicios e desconcertos se podero entre ella achar
amostras, que emfim, terra , e no paraiso; mas nem tantas
proporcionalmente, nem to feias e monstruosas em geral, como em outras
partes, e em quasi todas.

Para isso conspiram diversas causas: todos conhecem a todos; todos com
todos se encontram cada dia. Cada um vive, por assim dizer em publico;
ninguem  to abastado, que possa eximir-se de trabalhar contnuo, para
se despender em vida de enredos, corrupo e maleficios; nem to
extremadamente destituido da fortuna, que a miseria, a inveja, o
despeito, o despenhem de salto em salto at ao fundo da depravao.  o
_inter utrumque_, a _aurea mediocritas_.

Conservam inteira a F religiosa.

No lem, nem conhecem, nem levariam  paciencia, jornaes que
desorientam, desencantam, e pem o genero humano em guerra viva comsigo
mesmo.

E muito menos lem, conhecem, ou soffreriam, esta Literatura toda
novella, toda sophismadora de tudo, toda florda e venenosa, que por c
nos trabalha, e de cujos herpes adoecem at as familias, que a maldizem,
e a repulsam da sua porta.

Por l, no; o mal que se fizer, ha-de s provir da fragilidade, ou dos
impulsos subitos da natureza; e, depois de consumado, ha-de deixar na
consciencia remordimentos.

Uma apologia, uma deificaco para cada crime, nem possivel a julgam;
quanto mais, feita, impressa, corrente, elogiada, e seguida como
aphorismo, onde e quando com algum nosso pressuposto interesse se
conchava.

D'estas varias causas, negativas e positivas, e talvez de outras mais,
resulta que tanta vantagem nos levam elles em bondade pratica e
innocencia, quanta a que lhes ns levamos em polidez, em graas
exteriores, em tactica, em egoismo infernal e assolador. Nos amores
ponhmos o exemplo:

       *       *       *       *       *

Os seus amores se limitam no que a Natureza concita, requer, e persuade:
tendem  unio, de que se originam as familias, e por onde a especie se
mantm.

Como lhes falta o ocio, pelo qual muito bem disse Ovidio ser a maior
arte do amor, e o culpado nos seus peores desatinos, e alm do ocio lhes
fallecem tambem sobejides de cabedaes, que estimulam e irritam as
phantasias, para o casamento se namoram, e no por alardo; para goso do
corao, e no da vaidade. Pem no merecer as diligencias que outros
pem no conseguir; no reter, a felicidade que outros imaginam encontrar
no repellir e despresar depois de saciados.

No vivem os sexos n'uma guerra perptua de seduces, de emboscadas,
enganando-se e sacrificando-se um ao outro.

A mulher no lavra registo dos seus adoradores; nem o homem se ufana em
desenrolar diante dos seus conhecidos, nos corredores de um theatro, ou
no vo de uma janella de club, em noite de baile, um copioso canhenho,
meio historico meio fabuloso, dos seus triumphos. Ali, ali  que as
mulheres se podem gabar de ser amadas, pois o so sem disfarces nem
encarecimentos; so-n-o pelas suas proprias graas, pois nem modistas,
nem cabelleireiros, nem cosmeticos, nem perfumadores, nem mestres, nem
lisonjeiros, nem romances, as transformaram. So-n-o pelo que so, e no
pelo que possuem ou representam, pois nem representam nem possuem nada.

Palacios, creadagem, diamantes, no lhes vo l supprir lindezas do
corpo, graas do animo, ou preciosidades do corao.

No  entre prestigios deslumbradores, n'um ambiente de calor
artificial, estimuladas ou vencidas do exemplo, da occasio, do medo ao
ridiculo, e da audacia emprehendedora, no  ao abrigo do estrondo e
confuso de um baile, que ellas recebem e fazem as suas primeiras
declaraes;  ao sero, com a sua roca na cinta, na presena de suas
mes; ou, quando muito, na romaria, sentadas na relva com as parentas e
amigas, em derredor da merenda,  sombra das carvalheiras.

So amores que se no escondem, porque no teem de qu; amores que se
exhalam debaixo do ceo azul; que se juram pelo Santo da illuminada
capella do festejo, ao som folgaso da _Mirontella_ roncada pela gaita
de folle, rainha, alma, e feiticeira ambulante do arraial.

No progresso de taes inclinaes  sabedora e consentidora toda a
visinhanca; e esta mesma notoriedade defende os nossos namorados, tanto
de se deixarem arrastar de seus mutuos desejos, como de se desvairarem e
cahirem em infieis.

Ao consorcio da Egreja, antecede o dos coraes, no menos obrigado a
lealdade e observancia. Nenhum Lovelace de vstia commetteria galantear
a conhecida por _emprgo_ de outrem, certo em que nenhuns lucros lhe
surtiria o empenho, seno s motejos e descredito.

D'este modo se estende s vezes por annos, com uma constancia
verdadeiramente biblica, at ao dia da posse, o bem-querer d'estes
Jacobs e d'estas Rachis.

Quantas Lisboetas de sarus, se quizerem ser sinceras, ho de confessar
que a escolha que n'um baile fizeram... s durou at que veio o baile
seguinte! Quantas, quantas, cujo numero de arrojados (concedendo que
pelas duas orelhas que Deus lhes dra no ouviam dois ao mesmo tempo) se
poderia contar, perguntando  sua modista franceza quantos vestidos
novos lhes havia feito!

No assim l. A que foi vista, na ceifa do anno passado, demorar-se mais
a encher a malga para certo segador que para todos os outros, e
pedir-lhe sempre a elle que lhe ajudasse a pr  cabea a gavella das
espigas, essa continuar a fazer o mesmo na colheita d'este anno;
continual-o-ha na dos futuros, at que, tornada sua mulher, os cuidados
dos filhos e da casa a impidam de seguir, como antes, por passos
contados, o seu gosto.

Observao to curiosa como verdadeira:

Com toda esta liberdade, com os frequentes encontros a ss, que a
variedade dos servios rusticos to a miudo lhes depara, rodeadas da
Natureza por todas as partes, vendo livre o amor nas aves e nos
rebanhos, favorecidas pela solido selvtica e pelo silencio, e pelas
moitas, e pelas quebradas do solo, e por dois crepusculos em cada dia, e
em cada semana de inverno por tantas tempestades improvisas, como
aquella que rendeu e debellou a vidual constancia de Dido e a piedade de
Enas, quando o hymeneu deu com o relampago o signal de suas bdas, e as
nymphas pelos altos dos montes ulularam; com tudo isto, os exemplos de
fragilidade como a de Dido por phenmeno se apontam; e annos e annos se
devolvem, sem que um s se realise.

Quando porm se d, e vem a lume filho no de beno, o peccado de amor
no se carrega de crueldade. O innocente no se faz victima expiatoria
dos culpados, perdendo a vida entre as mos de quem lh'a deu; horror
nefandssimo, inteiramente desconhecido d'aquelle horizonte para dentro;
nem to pouco  enviado, como um roubo, pelas trevas da noite,  porta
l ao longe de um desconsolado asylo, aberto pela misericordia em
lagrimas s lagrimas dos filhinhos sem me, nascidos em signo de rigor
para se crearem sem beijos nem carinhos, viverem sem nome nem parentes,
e se finarem sem heranas, nem lamentos, nem memorias.

No, no. Nem pelo infanticidio physico, nem pelo infanticidio moral,
mereceria qualquer das minhas serranas um falso titulo, que ainda mais a
faria corar, que a tcita confisso da sua culpa. Sabe renunciar os
louvores com que d'antes a coroavam; ousa desherdar de antemo o seu
cadaver do palmito, symbolo psthumo do feminil triumpho; tudo ousa;
tudo... como lhe fique para consolao da sua queda o encanto ineffavel
de apertar nos braos o seu filho. Se o mundo todo, se o proprio amante,
a desamparasse, tudo tudo esquecra vendo-o rir; sorrira, e sentira-se
afortunada. De no ser donzella, nem esposa, harto a compensa a
consciencia de preencher inteiro, a espinho e espinho, a flor e flor, o
sublime encargo, o natural sacerdocio da maternidade.

Estas resignadas victimas, immoladas por um amor, por outro amor
ressuscitadas mais interessantes, estas victimas, em quem a virtude,
produzida pelo arrependimento, excede talvez em quilates, e eguala quasi
em lustre a virgindade, so poucas; so rarissimas; custar-nos-hia a
encontrar uma. Quando porm a desencantasseis, lembrando vos do que
sabeis d'estas nossas grandes terras, fio-vos que bastante commiserao
e respeito vos infundira.

       *       *       *       *       *

Casas de perdio para a mocidade, como nos povoados grandes se alinham
em ruas e ruas, e at j por villas e aldeias vo surdindo, no se
conhecem l, nem se podero to cedo conhecer.

Como leprosa seria evitada, e pereceria  mingua, e de vergonha, a que
se proposesse esse culto venal de praseres falsos, em que as
sacerdotisas, coroadas de flores e mascaradas de sorriso, so victimas
das victimas que ellas sacrificam.

Por isso tambem, a saude, o vigor, e a energia, se manteem, e se
transmittem de paes a filhos, juntamente com a harmonia e serenidade dos
casaes.


XIV

Dos amores vinhamos falando; falemos do que em outros sitios lhes serve
de sepulcro, mas no l; falemos do casamento.

       *       *       *       *       *

Os casamentos no so nunca determinados por consideraes de haveres ou
de jerarchia. O clculo rala pouco os pensamentos d'estas gentes,
acostumadas a viver com pouco, e a confiar muito na Providencia. As
palavras _dote_ e _escrituras_ apenas seriam entendidas.

Como um dos dois namorados chega, a poder de fortuna, ou de trabalho e
economia, a ajuntar para _uma cama de roupa_, uma teia de estpa, outra
de linho, uma pea de burel, dois escabellos e uma banca de pinho, uma
panella e dois pratos, uma candeia de folha, um bcoro, seis alqueires
de milho, e outros tantos de centeio, tem agarrado as melenas da
fortuna, e trata logo de a jungir com o hymeneu ao carro do Amor.

O noivo d  sua futura um presente, o qual, pelo commum, consta de um
anel, meias, e sapatos; e a noiva ao seu futuro uma camisa para o dia
grande.

Mal que este desponta, v j de p os dois afortunados, garridos e
bizarros com o seu _aceio_ dos domingos: ella, sobretudo, flammante como
uma Imagem, com arrecadas, cordes, e alfinetes sobre leno de seda,
mantilha lustrosa, ou chapeo de feltro novo com enfeites.

As que para tanto no teem guarda-roupa, teem amigas e visinhas, que de
boa-mente lhes acodem, cada uma com o seu _melhorado_, convencidas como
esto (especialmente as solteiras) de que alguma coisa da beno
matrimonial poder vir apegada aos diches e galas que figuraram no
apertar das mos.

Muitas noivas, crentes na sabedoria de suas avs, se preparam de vespera
para este acto, banhando-se em agua de alecrim, que sendo flordo tem
mais efficcia, e mettendo antes de adormecer debaixo do travesseiro
(suppondo que em tal noite se possa adormecer) uma roca e um fuzo bem
liados entre si, e recobertos com alguns armos de linho e lan; no que,
vai grande condo de conformidade de animos, perfeio de ajuntamento, e
dura do bem-querer; com tanto que o mesmo fuzo e roca, assim maridados,
no faltem debaixo do mesmo travesseiro na primeira noite do consorcio.

O pretendente, com os seus apaniguados, espera j  porta da noiva a sua
sahida. Esta apparece emfim, como uma aurora da serra, incendida de
pejo, e orvalhada com as lagrimas da me; e segue com o rancho, a p,
caminho da egreja, levando s costas as benos do pae, em que ainda por
l se cr, a turbao no seio, e nos ouvidos os votos e resas de bom
agoiro, recitadas com f por alguma velha mais sabida.

......................................................................

A egreja est j  sua espera aberta, juncada de espadana, com o altar
enflorado de fresco, e a alampada atiada.

A ceremonia tem ali o que quer que seja de tocante, de mais bom que nas
cidades. Em quanto o Pastor, a quem todas suas ovelhas amam, e que a
todas as sauda por seus nomes, profere as palavras rituaes do
sacramento, ou improvisa apz ellas um affectuoso discurso sobre os
deveres mutuos e a felicidade dos casados, o silencio profundo do templo
no  interrompido com preges de vendedores, rodar de seges, marchas de
tropa, brados de mendigos, assobios de rapazes, martellar de artifices,
zabumbas de arlequins.

Nenhum d'esses disparatados sons, discorde symphonia das cidades, vai
profanar a mystica poesia d'aquellas reminiscencias patriarchaes, e
afugentar as evocadas memorias de Lia, de Rachel, e de Rebecca.

O que unicamente chega l de fra,  o chilrar de algum passaro sobre
alguma cerejeira do adro, o amoroso carpir de alguma rla na matta de S.
Sebastio, ou a voz de algum lavrador estimulando os bois perguiosos no
trabalho do passal; tudo fragmentos e despertadores das alegrias da
Natureza, ou dos innocentes e primitivos exercicios da prognie de Ado.

No sei como isto diga: mas parece-me que assim se casa com mais clara e
muito mais formosa beno.

       *       *       *       *       *

 um dia solemne da vida aquelle, em que duas almas votam a Deus no ser
mais que uma, fazer de duas vidas uma vida, de dois nomes um s nome,
como de duas metades distinctas se forma um todo inseparavel.

 um dia, sem duvida, para quem bem o pondra, solemnissimo, e que, por
isso mesmo, se deveria por todos os modos pintar com indelveis e suaves
tintas na memoria, para que a sua imagem no meio das tentaes podesse
acudir como Santelmo resplandecente no meio das tempestades.

Quem se recordar de que proferiu o seu voto, e escutou com jubilo outro
egual, onde tudo era pacifico e risonho, onde nenhumas congries de
obras humanas encobriam as maravilhas da Mo Divina, onde com o sol
entravam sombras de arvores, e descantes de aves livres, e fragrancias
naturaes com as viraes, quem, repito, de tudo isto se recordar,
ha-de-lhe parecer que Deus percebeu melhor as suas palavras; ha-de
alguma vez devanear em si (mas que o no diga) que bem poderia ser que
alguns Anjos estivessem ali, em to donoso tabernculo, a bafejar a
priso de seda e oiro, que para sempre unia o homem e a mulher...

       *       *       *       *       *

Desde que saem da egreja, por baixo de um repique de sinos alvoroados,
e por entre os parabens e vivas dos assistentes, encontram, comeando
logo no adro, de praso a praso, por toda a extenso do caminho at 
casa, arcos, engenhados  pressa, de loiro, ramos de pinheiro, oliveira,
roble, canas verdes, e quantas hervas e plantas bravas menos espinhosas
ou mais floridas brota o monte.

Ao-p de cada arco, sobre um tamborete coberto com a sua toalha, e
ladeado de duas cadeiras para a heroina e heroe da festa, esto, postos
de antemo pelos muchachinhos que formam a primeira frente do prstito
triumphal, um prato de bolos, e frutos verdes ou sccos para quem os
quizer tomar; outro vazio, para a gratificao voluntaria, que ninguem
deixa de lhe lanar.

Entre estes arcos alguns ha, de maior pompa, e industria mais esmerada;
foram esses prevenidos pelos padrinhos, ou pelas proprias familias de
seus afilhados. Nos primeiros rescendem sobre urna meza dois ramalhetes
naturaes, que enchem uma salva ou prato grande, e que os mesmos
padrinhos offerecem, com palavras de sincero affecto o mais bem
concertadas que podem, um  moa, outro ao mancebo; os quaes, logo a
diante, de ordinario entre si os trocam; e junto  salva dos ramalhetes
se v um abundante refresco de bebida e comida para todo o
acompanhamento, sendo o acepipe obrigado s filhs de mel.

Em cada uma d'estas _estaes_ chove de todas as partes a saraivada dos
confeitos; bebe-se  sade dos bem empregados e de quem d'ahi a nove
mezes ha-de vir.

       *       *       *       *       *

O jantar d'este dia  copioso e demorado, com tantos convivas quantos
admitte a sala; e as portas abertas; e os copos e as boas vontades
prestes para quem se quizer apresentar.

Entre a madrinha e o padrinho ficam assentados, na cabeceira da meza, e
o mais proximo que se pode, o desposado e a desposada. Primeiro disse o
desposado (contra a regra do nosso falar galanteador), porque o logar
da direita se lhe d a elle. A dignidade varonil em nenhum lance esquece
entre aquellas gentes primitivas.

N'um d'estes banquetes, a que assisti, comiam ambos no mesmo prato, e
com um s talher, e bebiam pelo mesmo copo; o que, no obstante fazer
durar a refeio dobrado tempo, no deixava de ter graa pelo seu
bonissimo sentido, que no podia ser outro seno representar a
communidade e harmonia intima, em que esperavam e professavam de viver.

       *       *       *       *       *

 noite ha saru rasgado, com concerto de violas, rabecas, e ferrinhos,
dando se a rdo comer e beber aos tangedores.

Em quanto danam, algumas moas donzellas se furtam subtilmente 
companhia, para irem enfeitar de flores o leito nupcial, desfolhar entre
os lenoes rosas de cheiro (se a estao as d), e guarnecer a roca e
fuzo symbolicos de amores perfeitos.

Tudo isto vai ligeiro; e quando o gallo, unico relogio da terra, grita
da quinta que  meia-noite, ha j muito que os obsequiadores bondosos
teem deixado a casa em socego e liberdade. Horas de calmaria de certo
suavissimas, apz um dia todo por fora e por dentro to festejado e to
revlto.....


XV

O nascer de cada filho  uma festa.

Como teem robusta f na Providencia, crem (e mostra a experiencia que
se no enganam), crem e repetem, que filhos ainda em casa pobre so
riqueza; que por taes penhores se obriga Deus, que  o Pae commum, a
lhes acudir com mais larga mo; e que a meza, por ter mais Anjinhos ao
p de si, se no ha-de fazer mais escaa, se no medrar  proporo de
to bons hspedes.

E em verdade: se a descendencia nas cidades  tantas vezes um onus, um
sorvedoiro, e um terror; se to commummente se ouvem mes e paes
deploral-a como castigo e praga; l na serra, onde ha trabalho
proporcionado a cada edade, l na serra, onde, como em enxame bem
regido, todos os consumidores so productores; l, onde s so
necessidades as necessidades, e onde, em fim, os paes so os mestres, o
exemplo lio, a laboriosidade e sobriedade herana; ninguem se
atormenta sorteando na phantasia empregos ou futuros novos para a sua
prognie. L os filhos so rebentes, que alegram, remoam, e espcaro
a seu tempo a velhice decadente de quem lhes deu o ser, seiba, e sombra.

       *       *       *       *       *

Vinda a lume a creanca, entre um cro de mulheres experimentadas em taes
lances, que supprem a falta de parteiras e doutores, tem-se j prompta a
canastra que lhe ha-de servir de bero.

Por todos os oito dias e noites que precedem ao Baptismo, 
escrupulosamente velada, para que no venham bruxas malfazejas a
chuchal-a. Para esse fim se mantm de sol a sol candeia bem experta; e
ao claro d'ella, com os olhos fitos no innocente, e quasi sempre em p
para que as no tome o somno, se revezam a uma e uma, fiando na roca, as
amigas da casa.

Algumas sabem versos muitos bons contra maleficios, que vo entoando com
a sua cantilena propria, em quanto com a ponta do p embalam brandamente
o bercinho. Algumas folhas de oliveira ou palma, que figuraram no altar
em Domingo de Ramos, queimadas n'esta occasio, diz-se que tambem provam
muito bem, assim como seus borrifos de agua benta pelas portas e
janellas.

       *       *       *       *       *

No sei eu, se todos acham n'estas reliquias vivas de romanas crenas a
graa, a fragrancia poetica, o saudoso de innocente boa-f, que lhes eu
sinto.

Cuidar que ainda agora as mulherinhas de uma serra nossa, e to
christan como ella , praticam o mesmo que os legionrios romanos
provavelmente ensinaram a nossas avs ha mil annos, e mais, pelo terem
visto fazer nas aldeias da sua terra a suas mes e mulheres! Cuidar que
estamos vendo, com pequena degenerao, o que o mais rico poeta da
Antiguidade se deliciou em cantar das crenas da sua gente! E se no,
oimol-o, e julgareis:


  Negreja ao rz do Tibre annoso Helerno,
santo bosque, onde levam sacrificios
inda agora os Pontfices romanos.

  Ali nasceu outr'ora, ali vivia
a que nossos avs chamavam Grane,
casta Nympha, de excelsos pretensores
pedida vezes mil e em vo pedida.
Era seu exercicio errar nos campos,
as feras perseguir com dardo agudo,
e as redes emboscar nos fundos valles.
Inda que aljava ao lado no trouxesse,
criam-n-a irman de Phebo; o parentesco
no poderia,  Phebo, envergonhar-te.

  Quando algum namorado a requestava,
tinha prompta a resposta.--Aqui,--dizia--
ha nmia luz, e a luz dobra a vergonha...
Se preferes entrar n'aquella gruta,
sigo-te.-- gruta o crdulo voava;
ella torcia o passo, ia  carreira
das moitas na espessura homisiar-se;
d'ali desencantal-a era impossivel.

  Viu-a Jano, e de a ver ficou perdido;
combateu lhe o rigor com brandos rogos,
e a slita resposta obteve em prmio:
que entrasse alm na gruta. Obedeceu-lhe;
segue-o a principio a Nympha... eis pra... eis foge.
O que lhe fica apz v Jano.  louca,
no usado esconderijo em vo confias;
olha como t'o observa, e t'o devassa.
No ha que resistir-lhe... eis-te em seus braos;
eil-o comtigo a ss na cava penha,
onde havias buscado o teu refugio.

  Saciados os sffregos desejos,
--Em paga d'este goso--exclama o Nume--
dos qucios a tutella eu te confio;
pela honra perdida esta conserva.
Assim falando, candida varinha
lhe entrega, com que os ttricos asares
das protegidas portas afugente.

  Existem de brutal voracidade
umas infames aves; no j essas
que de Phineu a meza espoliavam,
mas da mesma rel: cabea grande,
fito olhar, bico audaz, grizalhas plumas,
garra adunca; esvoaam pela noite;
onde encontram creana ao desamparo,
que a ama deixou s, prestes a emplgam,
arrancam-n-a do bero, e a dilaceram.
Diz que as lactentes vsceras co'os rstros
lhes picam, lhes devoram; teem as fauces
sempre repletas de sorvido sangue.
Do _estridor_ com que as trevas alvortam,
lhes vem o nome: _estriges_ se nomeiam.

  Estas pois, quer de si nascessem aves,
quer em aves, de velhas que antes foram,
fatal conjuro marso as encantasse,
penetraram de Proca no aposento.

  Com cinco soes de edade, o innocentinho
era ao bando ferino egregio pasto.
J co'as gulosas linguas ferem, sugam
o tenro peito nu; sam do infante
os consternados trmulos vagidos,
com que,  falta de voz, auxilio pede.

  Corre a ama assustada; acha nas faces
do caro alumno seu lavado em sangue
das brutas garras os crueis vestigios.
Que far? v-lhe o rosto exangue, murcho,
que na cr arremeda as tardas folhas
j do rgido inverno bafejadas.

  Corre a Grane; o successo lhe relata.
--Cobra valor--a Nympha lhe responde;--
viver teu alumno.
                    Entrada ao bero,
acha a me, acha o pae, sltos em pranto.

  --Eis-me; enxugae as lgrimas--exclama;--
vou tornar-vol-o so. Diz, e tres vezes
de medronheiro com frondosa vara
fere da estancia as portas; outras tantas
co'a mesma vara o limiar sinla;
rega o dito; as aguas com que o rega
encerram salutifera mistura.
Entranhas cruas de bimestre porca
toma nas mos, e diz:
                      --Aves da noite,
-vos, deixae as puers entranhas.
N'esta pequena victima tenrinha
o tenro pequenino aqui resgato;
 corao por corao; tomae-o;
por visceras so visceras; redima
esta existencia immunda outra mais nobre.

  Finda a sacra oblao, corta o deventre,
e esmiunado o vai pr aos ares livres,
prohibindo do rito s testemunhas
olhal-a ento ninguem; por fim colloca
a vara de oxiacanta, o don de Jano,
na janellinha que d luz ao quarto.

  Consta que desde ento no mais volveram
ao bero aves ruins; saude, cores,
tudo refloresceu no innocentinho.[3]


       *       *       *       *       *

O padrinho presenteia a comadre no dia do Baptisado com dois cvados de
bata encarnada ou verde, vinho, assucar, arroz, um cabrito, ou peixe,
conforme o dia em que acerta. A madrinha d um vestido, duas camisas, e
uma touca. Cada um dos convidados, um pichel de vinho, segundo o seu
brio.

Este dia  quasi to festivo como o do casamento, pois n'elle se cumpre
a beno que no primeiro dia se recebra, e est salvo o interessante
pimplho para a outra e para esta vida; sendo averiguado, que as bruxas
nada querem com sangue a que a agua e o sal tiraram o saibo do peccado.


XVI

Alm d'estas duas festas, domesticas e privadas, casamento e baptisado,
cada povoao celbra a sua, pblica, no dia do Orago da sua capella.
Tem fogo do ar e salva de morteiros  Missa cantada; banqueteiam-se uns
aos outros; e, se o anno correu prspero, e as posses o consentem, andam
j desde a vespera  tarde pelo adro, viellas, e azinhagas, a gaita e o
tambor, e despova-se a visinhana com o chamariz do fogo de vistas
nomeado de _armao_, ou _parreira_.

Por esta occasio, nas casas principaes, isto , nas menos apertadas,
saltam-se at a meia-noite as danas, pela mr parte cantadas, do bom
Portugal velho; danas, das quaes, para fra d'aquelle vivente archivo
de antiguidades, nem j, quasi, os nomes se conservam. So o _caracol_,
o _Senhor da serra_, o _lund_, ou _landum_, o _escalhabardo_, a
_ribaldeira_, o _Francisco bandalho_, etc.

A excitao do saltar, a virtude inspiradora do vinho verde, e um
poucochinho o natural desejo de brilhar diante das raparigas e dos
rapazes, fazem s vezes com que ahi appaream, como nas romarias, como
nos seres dos lagares, escamisadas de milho, e outros ajuntamentos de
gosto, poetas e poetisas que trovam de repente, e  porfia, por espao
de horas, ao som da flauta de canna, ou da viola.

       *       *       *       *       *

Por de mais seria querer dar ideia de taes improvisos.

Os cantores, quer sejam homem e mulher, quer homem e homem, esto em p,
um diante do outro, no meio da roda dos ouvintes. A toada de que se
ambos servem,  sempre das mais populares, e vai toda remanada, para
que as ideias e rimas tenham lazer de acudir. s vezes, por desgarre ou
desfastio, se deixa degenerar de cantoria n'uma especie de declamao
accentuada.

O seu verso  o de sete syllabas; o seu periodo, quatro versos,
correspondendo-se o segundo e o quarto com toantes ou consoantes; isto
: usam das quadras correntes em todo o Reino.

Alternam-se de quadra em quadra, ou de duas em duas quadras, conforme
lhes convm.

Principiam ( obrigado) por uma especie de elogio, ou vnia, ao dono da
casa, se  em casa que se tem o descante, ou aos assistentes, se  em
terreiro. Passam logo a tratar do objecto da festa, ou dos seus proprios
amores; e d'ahi, muitas vezes sem transio, saltam para um genero entre
elles muito saboroso, que se poder chamar o rustico fescenino, se, de
envlta com as chufas salgadas, fossem tambem como entre os Antigos, os
dizeres e entenderes licenciosos. Um ao outro se empulham e desempulham,
como os dois pastores virgilianos, com surriadas de improprios sempre
ao galarim, sem que o fogo das palavras prenda nunca nos coraes. Com a
mesma feio com que dizem, com a mesma ouvem; e to avindos saem da
contenda, como n'ella entraram.

Um primor d'este chancear consiste em tomar cada um, para urdimento da
sua trova, o verso, phrase, ou palavra final, da do seu adversario, por
mostrarem assim que no vinham aparelhados para o duello, e que tudo
quanto esgrimem lhes acudiu, extemporaneo.

       *       *       *       *       *

Uma coisa faz extranheza a quem assiste pela primeira vez a taes
porfias, e em geral a todo o cantar aldeo; e : que a primeira metade
de cada quadra tem frequentemente um sentido diverso, e desconnexo do
sentido da segunda metade.

Os primeiros dois versos conteem uma sentena geral, uma verdade vulgar,
uma imagem campestre, a exposio succinta de qualquer facto, mas sem
relao alguma com o assumpto que se versa, o qual s nos dois versos
ultimos apparece.

Vo exemplos, visto no estar em academia, mas em pratica de amigos com
meus leitores:


O loireiro bate bate,
que eu bem o sinto bater.
Para comigo cantares
has-de tornar a nascer.

 couve se come a folha;
come-se a raiz ao nabo.
S te espero ver casado
sendo mulher o diabo.

Navio d'el-Rei  grande,
 grande e chega ao Brazil.
Se namorares alguma,
no seja  luz do candil.

Sequido cria o centeio,
frescura cria os repolhos.
Quem me estrera comtigo,
menina, os lenoes de folhos!


J se v, por estas amostras, que a improvisao no  to difficil
coisa, nem para tantos encarecimentos, como a teem feito alguns
viajantes, d'estes que s viajam no seu quarto, embarcados na sua
poltrona.

 por c o mesmo, que provavelmente ser por toda a parte, sem exceptuar
a Italia, com que tanta bulha se nos faz.


_Al porto di Livorno
 giunto un bastimento.
Cara, morir mi sento!
mi sento, o Dio, mancar!_



XVII

Muito, porm, se enganra, quem inferisse que toda a poesia dos meus
serranos  de egual teor; porque, sobre conservarem muita xcara de bons
tempos, com as suas lacrimosas cantilenas to singelas, to simplices e
aprasiveis como ellas (o que j no seria pequeno cabedal), cantam, e s
vezes engenham com singular felicidade, quadras repassadas de amoroso
affecto e graa natural, que um poeta de nome no enjeitaria.

E que muito? Por que no haviam de nascer estros por ali, onde ha
tanta Natureza, tantos sitios inspirativos, to bons ocios na solido,
tantos amores (e amores to bem empregados!), e to largos horizontes
para a saudade!

Por que no haviam elles de nascer, quando at pelas nossas
encruzilhadas mal cheirosas e escuras, pelos nossos botequins fumosos e
azoinados, pelas casas d'essas ruas feias, onde olhos e ouvidos se
perdem e afogam em prosidade vil, rebentam, viam, e no raro florejam,
talentos de estimao e de valia?

Mas a cada qual a sua boa dita, e o seu fadario: aos das cidades, muitas
coisas lhes empecem (no falando no desamor que os esfria, e nas parvoas
invejas que os matam); aos montanhezes, afra a Natureza, que lhes
abunda, tudo mais lhe minga. So poetas, sem adivinharem que ha poesia,
como de Hesodo se conta, a quem, sendo humilde pastor, appareceram as
Musas, no invocadas, para o bemfadarem.

       *       *       *       *       *

Oh! Que de Hesodos se no esperdiam, e, por falta de um prodigio que
os desencante, fenecem desconhecidos ao mundo, e a si mesmos!

......................................................................

De uma pobre mocinha ovelheira posso eu dizer; que por tardes de vero
muita vez a ouvi sem que me ella visse; eu reclinado nos degraus da
capella de S. Sebastio; ella ali perto, cantando e fiando em p 
sombra de um sobreiro, no meio dos balidos do seu fato; ella e eu, como
bem se pode crer, enfeitiados com a placidez de to livres horas em
logares to fugidos, to sobranceiros ao mundo todo!

De amores eram os seus versos, e amorosa a sua fala. Brotavam-lhe todos
corados, no da memoria se no do espirito; e o espirito d'ella,
estava-se conhecendo que lhe residia no corao, to bem, to bem, tanto
a seu grado, como em estufa bem quente uma planta mimosa, que um ameao
de frio mataria.

No sabia ler; raro teria visto a quem o soubesse. Nunca ouvira de obras
de poesia seno as cantigas da sua terra, o murmurinho dos seus rios; de
madrugada a cotovia perdida pelos altos do ceo; ao meio-dia as porfias
das cigarras; ao descahir da tarde o badalar longinquo das Ave-Marias;
ao cerrar da noite o regosijo da aldeia, que torna a ajuntar os seus
moradores, os seus rebanhos, os seus carros, as suas creanas, os seus
rafeiros, toda a sua orchestra to bem temperada para a alma; de noite
os grilos e o rouxinol; e em sonhos... a fala talvez do seu namorado.

Por aqui se resumia a sua bibliotheca; e comtudo, no ha encarecer o que
ella improvisava para as suas ovelhas, que a no entendiam; para mim,
que me occultava com mil cuidados para no afugentar to melodiosa ave;
e para o ecco, para o ecco sobretudo, unica voz que podia levantar-se
ao-p da sua.

Era a inspirao lyrica mais formosa, se no a mais remontada. Eram os
objectos do seu limitado universo a mirarem-se na limpidez dos seus
affectos, virginaes e namorados ao mesmo tempo. Eram as palavras
destillando-se cada uma da sua ideia com a propria cr, com a propria
fragrancia que lhe competia. Era o metro a correr, sem quebra nem
extravasamento, a flux, sereno, sonoroso como a fonte do passal. Eram as
rimas a vir poisar espontaneas, faceis, afinadas, uma de fronte da
outra, como em dois arbustos diversos no mesmo valle se respondem dois
passaros gorgeando. Era tudo, emfim, quanto a Arte requer, e s a
Natureza pode dar aos seus mimosos

......................................................................

Pobre mocinha! Dezasseis primaveras!... At j as suas ovelhas se
esqueceriam d'ella. Dissipou-se como um sonho de poesia. No deixou mais
vestigios sobre a terra, do que aos eccos haviam deixado os seus poemas.
Se ainda canta... j no  a terra quem a ouve. Remontou o vo muito
mais alto que o da cotovia sua mestra; engolfou-se por entre as
scismadoras estrellas, que tantas coisas em segredo lhe ensinavam; e
virgem entre os Anjos, irman entre seus irmos, entretece a sua voz
immortal no cantico sem limite

......................................................................


XVIII

Com a Poesia da montanha, releva fazer tambem meno da sua Musica.

 esta quasi toda antiga; antiquissima podramos dizer de muita; e
conserva puro e extrme o primitivo sabor. Condiz com a Linguagem, com o
trajar, com os costumes; seria excellente orculo para consultarem os
modernos compositores de operas nacionaes. Assim se temperariam para os
nossos ouvidos, os quaes, posto que affeitos de annos para c a
peregrinas melodias de muito mais altos quilates, ainda comtudo se
ageitam e conchegam melhor com as toadas sentidas e singelas da nossa
creao.

Nas boas horas fique a musica italiana, pois que entrou, e nos cahiu, e
o merece; mas, porque bizarros agazalhamos a digna hspeda, no se diga
que aposentmos nos stos a parenta velha, bondosa, e amiga, por trazer
vasquinha e falar cho.

Rossinem, Bellinem, e Donizettem quanto quizerem; faam-n-o at (se j
no pode ser por menos), faam-n-o a frouxo e a granel por essas
comedias e faras, em que fala gente do nosso sangue e dos nossos nomes.
Mas uma vez ou outra (_al de menos por cortezia_, como dizem os meus
serranos), deixem-nos ouvir em boccas patricias coisa que nos alembre
das cantilenas de nossas amas, cantilenas que, ainda depois de apagadas
da memoria, l se ficam algures no corao, com quanto basta de vida
para ressurgirem ao primeiro aceno.

Ponha-nos alguem degradados em terra extranha, entre mil arvores e
arbustos exticos da mais admiravel louania; mostre-nos l,
emboscadinho na herva, o malmequer da nossa primeira adolescencia, a
papoila retinta, que nos ria d'entre o verde da sera, quando meninos; a
papoila e o malmequer muito mais nos ho-de conversar com o corao um
s minuto, que todas ess'outras flores mais soberbas em toda uma
primavera.

Se  vergonha... seja; curtil-a-hei; mas sempre digo que muita vez
n'esses theatros, por ahi, me esto lembrando com saudades os descantes
da serra.

Uma ria opulenta, refeita de sciencia, espinhada de difficuldades, a
dominar o temporal desfeito da orchestra que se lhe revolve aos ps, a
sumir os seus pncaros flordos e trmulos pelas nuvens, admiro-a,
applaudo-a, e esqueo-a. Abalou-me tudo, a fora o corao.

Porm certas cantigas que eu sei... no as applaudi, no as admirei
quando as ouvi, mas senti-as repassar-me at s fibras intimas;
assimilaram-se-me com os humores; converteram-se-me para logo em
substancia propria; ficaram-se-me cantando per si, sem voz, no meio do
silencio.

Eram faceis e pobres; seriam; mas eram do meu Portugal, dos meus ares,
da minha terra. Conheciam-me, e conhecia-as eu, ainda antes de as ter
encontrado.

E tambem, que melodiosas, que engraadas no so algumas, at para
orelhas forasteiras, quanto mais para as do seu molde!

       *       *       *       *       *

Oh! se a penna fra varinha de condo! Se, em vez de vos falar do que
por vocbulos se no exprime, podesse apresentar-vos l de subito, a
beberdes com aquelles ares bonissimos aquellas cantorias agrestes, sem
cultura, sem enxerto, luxuriantes de natureza, macias, avelludadas,
rescendendo a amor e contentamento!

Comigo ficreis todos, que eram minas, as quaes, lavradas por mos
pertas, nos podiam abastar de muito oiro, que a Arte, batendo-o e
cunhando-o a seu modo, poria em facil giro com geral proveito.

O Musico portuguez de alma, que se fosse vagabundo por essas solides,
edificaria como Amphio novas Thebas, attrahindo e congregando com a sua
lyra penedias e florestas.

Mover-se-ha algum a tental-o? mover a final. Mas por ora, o
thermmetro do patriotismo assignala graus para baixo de zero.

Para a Poesia nacional antiga e popular j alguns olhos se teem voltado;
e viu-se o proveito. Na Musica ha de ser o mesmo, querendo Deus; mas
quando? sabe-o Elle.

Dos que por ahi a professam, nenhum d visos de querer levantar-se.
Fizera-o eu, se tivera a sciencia, o engenho, o fogo, que se admiram em
alguns d'elles. Oh que o fizera! e com bem pequeno custo, bem farta
cora grangera.

Que digo custo? Onde ha ahi delicia como  o viajar caador de
Artes, por toda a parte bem vindo, banquetear-se  farta com
agradecimento dos que o regalam, e deixar saudades e fama em desconto
dos thesoiros que se tomam?

       *       *       *       *       *

Uma qualidade que eu notei muito notada no cantar frequente pelos meus
espaosos ermos, e que lhe dava uma particular feio de melancolia mui
suave, era a extenso das notas, o prolongamento, sobretudo, das finaes
a perder de flego.  donosa coisa; mrmente pela noite, e ao longe...

A explicao d'esta singular maneira deve ser, segundo me parece, o
costume de cantarem muitas vezes a ss por lombas descampadas e cumes de
oiteiros, d'onde a voz tem de correr, e correr, primeiro que tope com
ouvido em que se hospde. Outras vezes  ao-p de estrpito de aguas,
que a afogariam a lhe faltar perseverana. Outras, em paragens de eccos,
nas quaes uma fala aprasivel folga de se estar a si mesma namorando.

       *       *       *       *       *

De cabeo para cabeo, bem arredados um do outro por estirado valle,
ouvi eu muita vez estarem duas guardadoras conversando por cantoria; e,
graas a este methodo de irem fiando cada syllaba... comprida...
comprida... entendiam-se (podendo apenas enxergar-se), como se estiveram
assentadas mo por mo, e muito manas,  soalheira no seu aido.

Sustentam-se estas entoadas conversaes, em prosa inteiramente desatada
de rithmo, e no obstante rimada, rimada por um modo to inslito como
facil.

Exemplo:

Quer uma convidar a outra? dir-lhe-ha:


-- ia, eu te digo  Maria,
 iga, que se tu s minha amiga,
 , botes as cabras para c,
 enda para me ajudares a comer a merenda,
 eijo, que tenho aqui bra e queijo,
 as, e umas maans muito bas.


E remata-se com um repenicado, que serve de ponto final, com que a outra
interlocutora fica advertida, de que pode tomar a mo no colloquio por
ter chegado a sua vez.


XIX

Mas assaz e de sobejo nos temos demorado sobre a Poesia e Musica.
Retomemos o fio que traziamos, que eram as festas.

       *       *       *       *       *

As geraes mais notaveis (pois at agora s vimos as de cada familia e as
de cada aldeia) so: o Anno-bom, o Carnaval, a Paschoa, Maio, S. Joo, e
o Natal.

       *       *       *       *       *

O Anno-bom no  ao presente seno um rebate para comesaina rasgada, e
se deitar uma can fora.

As pagans Janeiras, que ainda alguns se lembram de ter cantado, j l
vo.

Consistiam (archivemos, archivemos, pois que at as serras ao cabo se
desmemoram) consistiam em sahirem, logo ao romper do primeiro sol do
anno os cachopinhos de cada povoao, todos em bando, o mais bem
arreados que podiam, com suas saclas, ou alcfas, s costas, a cantarem
de porta em porta, e, percorrido o logar, de aldeia em aldeia, at se
lhes acabar o dia, umas trovas de parabens e boa estreia, atuchadas de
campanudos louvores  bizarria do pae ou me de familias, e desfechando
sempre em requerer alguma chouria, gallinha, ou po branco, para a
ajuda do _refestllo_; contribuio com fora de Lei, mas de que todos
se desempenhavam  boa-mente.

       *       *       *       *       *

O Carnaval,  como ainda ns por aqui o conhecemos nos seus dias aureos,
trduo de folia desatada, guerra porfiada e bem rida de todos contra
cada um, e de cada um contra todos.

So as pulhas, as peas, os esguichos, os ps, a laranja


  .....que derruba o chapeo,


de que o bom Filinto com tanta saudade se lembrava l em Pars, o
rabo-leva de tripas entufadas, a mo de ferrugem da chamin com azeite
pelos fucinhos, as estpas apegadas s costas e incendidas, o vinho com
sal, as filhs com trapos, e todos os mais adminiculos, que no ritual
classico se conteem.

Por qualquer parte que ento se caminhe, ainda que se no veja povoa nem
viva alma, duas coisas se ho-de ouvir infallivelmente: uma  rir e
apupar; toda a serra parece estar florejando gargalhadas; a outra so
descargas de espingardaria. Ninguem tem caadeira velha em termos de dar
fogo, que no saia com ella a salvar.

N'esta occasio (no sei por qu) o rio de S. Mamede parece marcar
fronteira entre duas naes inimigas; a metade cterior, e a metade
ulterior da freguesia, formam dois exercitos, que, disposto cada um na
sua banda pelos altos mais patentes e convisinhos aos seus adversarios,
para l lhe atira por cima da torrente, sem folga nem misericordia,
turbilhes de chascos, de apupos, de rugidos de buzinas, de buxas
accezas, e fumarada. Estremece a terra sob os ps; retumbam pelo ouco
dos valles, pelas refolhadas e sinuosas lapas das ribanceiras, os
rolantes troves centuplicados...

O Entrudo brio, que vai, titubante cavalleiro em derreado asninho,
visitando as povoaes, com barbas brancas em faces avinhadas, e canna
em punho para se abordoar, facil, prasenteiro, com squito de rapaza a
abuzinar, e de mascarados saltes, satyricos, e brutescos, bem poder
ser o prprio Sileno das bacchanaes, metamorphoseado pelo tempo,
constante parodiador das suas mesmas obras, pois no  necessaria grande
perspiccia para reconhecer como, n'uma boa entrudada, se conciliaram
diversas reliquias herdadas do paganismo: por fundo, as saturnaes; por
embutidos e matiz, as bacchanaes, as floraes, e quejandas (o numero era
folgado).

As pastoras, que no podem deixar por tres dias o gado nos reds e
apriscos, para se estarem regalando ao banquete da familia, teem um
Carnaval particular, um Carnaval nmada e silvestre, cosinhado e comido
ao ar livre, e a que ellas chamam o seu grdo.

O _grdo_, para o qual de tempos se andam aparelhando,  feito por
varias d'ellas em commum, convidadas e admittidas outras amigas, e
algumas vezes tambem alguns moos seus parentes.

Sem o ser de nenhuma d'ellas, consegui eu assistir a um grdo; e ainda
agora me est sabendo.

Estava um dia Real. A sala do festim era n'uma gruta, ou amplo recesso
de penedia, com uma alpendrada de arbustos silvestres, e um vestbulo de
areia parda e fina,  borda da agua.


  Nympharum domus.....


no lhes faltando os competentes


  .....vivo sedilia saxo.


O matto deu a lenha para a cosinha; o rio deu a agua; os vasos e os
comestiveis, traziam-n-os ellas, e por mustarda e salsas a sua alegria
folgasan, a lida, e as cantigas. Nada faltou; nem o arroz doce, de leite
recem-mugido.

Terminaram com uma dana no areal, por no haver melhor, e debandaram,
cada uma atraz do seu gado, quando j l por cima branquejavam
estrellas. A fogueira servial l ficou sosinha, remirando-se ainda na
corrente soturna, e olhando com saudades a quem d'ella egualmente as
levaria.

Innocentes leviandades so todas estas, e, mais ou menos, parecidas com
o que por toda a parte vai n'esse praso do anno. Mas, travada com ellas,
uma usana ha ali, que s ali ha, e que eu aponto, no s porque me
ajuda no retrato d'aquella gente optima, se no porque dar luz para se
entender o poema que a diante vai, com o titulo de _Domingo gordo dos
montanhezes_.

N'este dia, pois, logo de manhan, acodem  matta de S. Sebastio, que j
sabeis orla o passal pela banda do poente, todos os moos solteiros da
freguesia, a plantar cada um um sovereiro, ou carvalho novo; findo o
qu, e bebida sua malga de uma talha de vinho verde, que j para isso a
Confraria do mesmo Santo ali lhes tem prevenida, se tornam para suas
terras a folgar.

Nem o introductor, nem o tempo da introduco d'esta pratica, so j
hoje conhecidos.  uma tradio piedosa, uma lei moral, sem nenhum
genero de comminao, mas to  risca obedecida, como se as tivera.

, mormente em tal dia, e para gente em flor de annos, um bello exemplo
de desinteresse; pois na plantao quem s ganha  a selva, que se
dilata, e o Santo, a quem se engrossam os rendimentos.

Se de S. Gonalo ou Santo Antonio fra a capellinha, ou de algum outro
Bemaventurado, com fama de boa-mo para casamentos, ainda se aventaria
um motivo pessoal para o obsequio; mas S. Sebastio, que s da peste 
advogado!...

Seja o que fr: o amavel instituto persevra, e oxal dure sempre! e
oxal por muitas partes o imitassem!

       *       *       *       *       *

Para que a Paschoa dos montanhezes deixe a perder de vista a de ns
outros, bastam duas consideraes: a d'elles  festa do espirito, e mais
do corpo; a nossa nem do corpo o , nem do espirito.

Digo que  do espirito a sua, porque a F viva lhes faz estar vendo
ressurgido do sepulcro o Divino Amigo da especie humana; e do corpo
tambem, porque o brodio paschal, opparo, rescendente, de viandas
succulentas e escolhidas, lhes d mate  longa e bem jejuada quarentena.

Move suavemente os coraes acompanhar a procisso, que da egreja sai
depois da Missa cantada, com os seus cirios accezos, cantando as
aleluias, atravessa o amplo adro alcatifado de bordada relva, sombreado
das suas cerejeiras j revestidas, atravessa o passal por entre as alas
das pacificas oliveiras, vai pela matta de S. Sebastio, e se espairece
ao longe, como uma piedosa exultao, por entre os mattos
rejuvenescentes.

O aroma do incenso ama casar-se com a fragrancia agreste das moitas. As
arvores figuram ensoberbecer-se de estender o seu pallio verde recamado
de sol por cima do Filho de David. Cada hervinha pz por fora todas suas
galas para ver passar o seu Creador. Como elle, toda a Natureza parece
ressuscitada, vivaz, e gloriosa. Os passaros lhe entam canticos, como
os homens, as mulheres, e as creanas. A aleluia ressa em toda a parte;
lagrimas involuntarias aljofram todos os rostos; em todos os coraes
ferve o amor de Deus, o amor da Natureza, e o amor mutuo.

Oh! que bem que se chegam ali a entender os arroubados requebros do
Esposo e da Esposa dos Cantares! Oh! que permutar de boas-festas! Mal
o presumem, os que todas as cifram em cinco ou seis letras gothicas n'um
carto alvibrunido, com uma das quatro pontas bem dobrada.

Recolhida a procisso, tornam-se todos correndo a suas casas, a acabar
de as pr prestes para a proxima visita do seu Parocho. Atapetam-se de
ramos os pavimentos; guarnecem-se as mezas com as melhores baixellas;
crepta o lume na cosinha revlta; idia-se um simulacro de altar, ou se
enroupa uma cama de lavado para aposentar o Santo Christo, emquanto o
senhor Prior, com a sua pequena comitiva, lhes der o gosto de provar
(quando mais no seja) dos seus guizados e do seu vinho. Ninguem da
familia falta  porta para receber a asperso de agua benta, que elle ao
entrar lhes liberalisa risonho, com as palavras rituaes da beno: Paz
a esta casa, e a todos que n'ella moram.

Tal visitao, que (j se v) se no conclue no primeiro, nem muitas
vezes, no segundo dia, paga bem o seu pequeno custo; no pela moeda de
prata, de meio tosto ou seis vintens, recebida em cada fogo; no pelos
saccos de folares que se ajuntam; mas pelo muito que assim de novo se
apertam os vinculos mutuos do Pastor e do rebanho.

       *       *       *       *       *

No 1.^o de Maio pem,  entrada das habitaes, _maias_, que so ramos
de sabugueiro e giestas flordas; e nos linhares, rocas com seus fuzos,
carregadas de linho e enramalhetadas de flores. Com aquillo se fadam a
terra e a casa: a terra, para que d linho comprido e sedoso; a casa,
para que se guarde e mantenha prspera.

Quem no v n'estas maias outra degenerada herana dos nossos antigos
senhoreadores? No principio de Maio, faziam os Romanos o festejo
domestico dos seus _Lares_, deuses protectores da poisada, e cujos
idolos se tinham junto ao fogo da cosinha, ou em nichos por de traz da
porta principal. Revestiam-n-os de pelle canina; e em monumentos antigos
se v ao p d'estes deuses representado o animal symbolo da fidelidade,
e guarda nocturno do domicilio, pelo mesmo modo como Ovidio nos seus
_Fastos_ nol-o descreve. Brindavam-n-os com libaes de bom comer e
beber, e tambem com ramilhetes e grinaldas, j de flores, e j de lan.

Deveu ser entre elles o culto dos Lares o mais querido, pois acreditavam
que eram os espiritos dos bons mortos da familia, que se compraziam de
habitar e proteger os logares onde foram vivos, e onde vivia gente do
seu sangue.

Por isso tambem a pouco e pouco chegaram a dar zeladores divinos do
mesmo nome a todas quantas coisas lhes requeriam, e mereciam amparadas.
Vieram Lares _viaes_ (dos caminhos), _compitaes_ (das encruzilhadas),
_urbanos_ (os padroeiros de cada cidade), _publicos_ (os mantenedores
dos publicos edificios), _rusticos_ (os custodios do campo), _hostis_
(os amparadores contra inimigos), _marinhos_ (os guardies dos navios).

 portanto evidente, que, onde quer que se estabelecesem Romanos, se
haviam os Lares de estabelecer; e tenho, que nenhuma de suas religiosas
praticas pegaria melhor, nem mais depressa, entre estrangeiros; e bem
boa, bem moral que ella era, no meio d'aquelle cahos de poeticissimos
desatinos e devassides. Fazia venerar e amar a casa; com a casa, a
familia; com a familia, os sos costumes da creao. Ainda por cima,
fazia resplandecer luzeiros de esperana na cerrao das adversidades; o
que d corao e brios para as resistir.

Pressupponhmos como verisimillimo, e certo, que na romana provincia
Lusitania se veneravam os Lares como na Italia; do que, alis, podem ser
documentos, alm de outros, o nome de _lareira_, geralmente conservado
ao lastro da chamin, e o proprio de _lar_, com que em Traz-os-Montes se
chama a corrente de ferro, de que pende na cosinha o caldeiro sobre a
fogueira.

J cada um inferir que as _maias_ dos meus serranos, festejo que s 
casa se refere, coroando-lhes de flores a porta, e lustrando-lhes, como
quer que seja, o seu linhar (linho por lan), teem, e no podem deixar de
ter, aquella origem.

Na cola d'esta semi-gentilidade, garrida e innocente, vem o rito
christo, ainda mais poetico, chamado das Rogaes ou Ladainhas de Maio.

Os lavradores seguem, com as cabeas descobertas, e acompanhando em
chusma as entoadas preces da Egreja, a procisso, que l se vai,
humilde, atravez dos campos desatados em flor. Imploram as benos do
Ceo para os trabalhos da agricultura; que insectos damninhos no devorem
a vinha ou sera; que intempries do ar e trovejados granizos no
derribem mortas as benevolas esperanas dos pomares.

       *       *       *       *       *

O S. Joo por larga vespera de semanas se annuncia: cantado de dia pelos
oiteiros, de noite pelos seres.

Nada ha mais affectivo, que a toada, entre melancolica e leda, com que
se vo lentamente deduzindo as trovas (sem arte, embora, no sem graa),
que por ali em louvor do Baptista se exhalaram outr'ora do seio de
poetas desconhecidos.

A medo me rendo  tentao urgente de as mostrar; que, despojadas da sua
melodia, desquitadas das vozes to frescas e juvens das suas cantoras,
e nuas dos seus accessorios de silencio e ruido selvatico, de calma e
sombras em pino de vero, trovas taes aqui mal podero parecer-se
comsigo mesmas.

Do que ides ler, ao que eu ouvi, posto no haja differena na
substancia, vai tanto, como de uma formosa donzella podra differir o
seu cadaver.

Sem mais precaues, eis aqui alguns trechos, que no fundo da alma se me
esto ainda cantando, por entre simulacros de figueiras, que entretecem
sobreceo verde  fonte crystallina do passal. As syllabas dos metros,
no as contem; basta que todos elles acertem na cantoria s mil
maravilhas. To pouco embiquem na confiana, com que umas rusticasinhas
de roca  cinta tratam o Santo Precursor. So amores velhos; no ha que
lhes dizer.


--San-Joo das barbas doiradas,
onde foste ter as orvalhadas?
--Fui as ter quellas hortas,
recordar aquellas cachopas.

Recordae, recordae, perguiosas,
que da fonte j veem as formosas,
com as talhas cheias de cravos,
que lh'os deram os seus namorados,
com as talhas cheias de flores,
que lh'as deram os seus amores.

San-Joo, rico cavalleiro,
companheiro de Nosso Senhor,
acompanhae a minha alma
quando d'este mundo fr.

--Por que tendes, San-Joo,
esses sapatinhos brancos?
--Para passear s moas
domingos e dias santos.

--D'onde vindes, San-Joo,
que assim cheirais  macella?
--Venho da serra da Estrella,
de fazer uma capella.

--D'onde vindes, San-Joo,
pela calma sem chapeo?
--Venho beber agua fresca,
que faz calor l no ceo.
...................................


Basta, basta, que j pressinto ali  esquina os aferidores e malsins da
Literatura, que, se me tomam, com isto nas mos, do comigo do avsso.

Na vespera do Santo, pela tarde, hasteiam bandeirolas nas fontes. 
noite accendem fogueiras, danam, cantam, namoram, e galhofeiam em de
redor d'ellas.

 meia noite, quebram ovos para os exprem ao sereno, que lhes ha-de
n'elles estampar a jerogliphica prophecia do seu futuro, e chamuscam as
hervas e flores, que sabem de constancias e inconstancias.

Vo nadar nos rios, que todos n'esta noite encerram grandes virtudes e
preservativos; mas especialmente o de S. Joo do Monte,  conta do seu
nome bento.

Sobre a madrugada vo lavar seus gados, e  volta colhem ramos
orvalhados, os quaes, se nas trovoadas os queimam, livram de raio;
trazidos no seio, defendem de mau olhado; e facilitam os partos,
apertando-se nas mos.

A agua da fonte da manhan de S. Joo  como a primeira que chove em
Maio: torna o caro formoso.

       *       *       *       *       *

Nos Santos, fazem o seu magusto de tarde, no aido ou em campo
descoberto, no correndo o tempo de invernia. So rebordans a granel,
entre grande larada de brazido, a estoirarem e a acerejar-se, em quanto
um farto lombo de cevado rechna e fumega em vergante espeto de pau, a
pingar n'uma telha ou frigideira.

 dia j de longe apetecido pelos velhos, pelos rapazitos, e pelos
visinhos menos folgados, que todos ento se convidam.

Bebe-se, como requer a quadra, que assaz  j ento arripiada. Mas...
quanto mais se vai o repasto allongando dia em fora para o crepusculo, e
para a noite, mais se vo pendendo com scismadora tristeza os animos dos
convivas.

 f que lhes no falta por qu. O dia que apz vem,  o dos finados;
dia de saudades e receios, de desconforto e arrependimentos, para todos
quantos, com F ou sem ella, possuem um entendimento, e meditam.

E que mais meditabundo que as montanhas! E quem mais devaneador e
recolhido, que homens acostumados a solido, curtidos nas duras
realidades da vida, remotos do corteso bulicio, embotador pessimo de
toda a sensibilidade!

       *       *       *       *       *

Mal soaram as Ave-Marias, comea dobre funebre, que toda a noite no
quieta.

Pela escurido pasmada se devolvem, a longe, a longe, at se esvaecerem,
os tons afflictos, que a nenhuma de tantas poisadas deixam de dizer
algum segredo de dor, e de encommendar algum suffragio. Oh! se no se
elevaro elles, e bem ferventes, exhalados pela voz do sangue, pelo
amor, pela amisade, pela caridade!

Quando tudo jaz, a deshoras, no silencio mais fundo, nenhuma luz
bruxuleia de nenhuma fresta, e j nenhuns olhos por ventura se
descerram, acorda a subitas uma sepulcral melodia, que dissereis cro de
Anjos desterrados e saudosos. Vagarosa se adianta, pelo meio da
povoao, a supplicar em nome dos penados de alem mundo, que para si no
podem requerer, esmola de oraes, refrigerio para os ardores que l
padecem.

No ha seio to escudado, que um santo horror o no estremea; egoismo
to empedrenido, que sustenha as lagrimas.

...At que o solemne prego transpe e se esvai; e na calada se torna a
perceber o dobre longinquo da egreja.

Quanto a mim, confesso que nunca ouvi coisa, que assim me abalasse o
interior.

Estes devotos cantores, que ninguem v, mas que vo de aldeia em aldeia
_amentando_ as almas, arrastavam d'antes grilhes aos ps, o que ainda
augmentava o pavor do seu prego.

Com grilhes ou sem elles, despertadores taes quem entre ns os
soffreria? Por l querem-se, quer-se-lhes, escutam se, e obedecem-se,
como exactores que so de um tributo da outra vida.

Desde o romper d'alva no descana a egreja de absorver povo. Todos os
caminhos, todas as asinhagas, todos os bosques, todas as ladeiras, todos
os valles, todos os oiteiros, o brotam e expedem  porfia.

Vem o ancio alquebrado, atido ao bordo; o moo em flor de annos; a
donzella; os irmos, pequeninos e j orphos, pela mo de sua me; todos
graves, cuidosos, taciturnos; todos l por dentro orando; todos
anhelando irem-se ajoelhar sobre uma sepultura bem estremada, para d'ali
assistirem ao incruento Sacrificio.

Todos os confessionarios n'este dia esto apinhados, e o semi-festim da
vespera  quasi geralmente descontado pelo jejum mais rigoroso.

       *       *       *       *       *

Emfim vem o Natal.

Essa festa, a fundamental, a maxima, a ridentissima, a de todas
christianissima (quizera eu dizer) do Christianismo, nenhures cabe to
em cheio, nem tanto com os animos e coraes se coaduna, de veras crida
e com veras amada, como nos descampados bravos e alpestres.

Vreis o Prespio de Belem, no j por caprichosas artes remedado, mas
em to cabal transumpto, que pelo proprio e verdadeiro vos invidaria a
adoral o.

Dissreis que ao soar da ave da meia-noite, desferiu vo d'entre as
estrellas, de que se cora a montanha, cro de Anjos a dar rebate aos
pegureiros com o prego de Gloria e Paz, com a nova de ser nascido o
Desejado das gentes.

Tanto  o ruido de alegres passos e falas, que de toda a parte confluem
pelo escuro em demanda do Menino!

Cada qual lhe traz nas mos o seu presente, e o mais valioso dentro
n'alma.

O templo enramalhetado, oloroso, esplendido de luzes, par em par aberto,
 a santa Gruta.

L no tpo, sobre a pedra bemdita, jaz a rir o Divino Infante.

O adro v danar as rondas de camponezes  roda de um monte de arvores
accezas, ao som da gaita e do tamboril.

Os sinos doidejam de alvoroo na torre illuminada.

Sob o tecto religioso se alternam em dois cros feminis as cantigas da
benta noite. Cada um d'estes cros  exclusivamente composto das
moradoras de cada margem do rio que biparte a freguesia. Vai entre ellas
a mesma rivalidade, que j descobrimos entre os homens, quando no
Carnaval travam com as suas espingardas innocentes um estrepitoso
arremdo de combate.

 a qual dos bandos trar mais formosas quadras para entretecer com as
antigas, mais argentinas falas e melhores requebros para as gargantear.
Cuida-se ouvir musica de Seraphins; exulta o corao; e, sem vergonha,
se esto sentindo as faces humedecer-se.

Por meio d'estes cros, cujos enthusiasmos devotos como que se esto
vendo lutar nos ares estrugidos, passeia em braos do Parocho o Menino,
a fazer colheita de beijos e louvores, de supplicas e offertas. Ento 
que surdem vangloriosos de baixo de cada capa os mimos, que de longe e 
porfia se lhe andaram apercebendo; sobre-sahindo de ordinario, a todos,
os mui primorosos artefactos de pinhes e frutos sccos.

Oh! que invejas para as creanas, que ali pendem ao collo de suas
mes! vo-se-lhes os olhos, e os sorrisos, e as mosinhas, apz lindezas
to guapas; mas, vendo chegar o Menino a quem se destinam, com os seus
olhos to azues, a bocca to amorosa, as faces to coradas como as
maans que se lhe offerecem,  j a Elle que s cubiam; e s choram,
porque o no deixam acompanhal-o.

       *       *       *       *       *

Taes so as mais notaveis festas d'esta singela gente.

Que inventariam philosophos para lhe dar, quando chegassem a
destruir-lh'as com lhe tirarem a F?

 uma pergunta simples, mas vale a pena pensar longo na resposta.

       *       *       *       *       *

Assim crem, assim folgam, assim vivem, ricos de desavareza, nobres de
humildade, e pela rudez ainda sos, os moradores de S. Mamede da
Castanheira do Vouga.


XX

Que eu por l versejasse, j a ninguem ficar sendo maravilha; antes,
sim, a podra ser, que de tal assumpto s tal volume se estillasse; mas
as rases d'isso de si mesmas se confessam.

J eu disse, que os annos que por l sumi, me foram totalmente
desprophetisados; e que nunca esperei, nem cri possivel, que houvessemos
jmais, eu nem coisa minha, de reparecer no mundo.

Assim, s por desabhorrimento  que poetava de longe em longe; isto :
poetava por fra, e no papel, que no corao e no animo estava eu comigo
a fazel-o a toda a hora; e a melhor poesia (de leve me acreditaro os
que d'isto sabem) no foi a que se escreveu, se no a que deslizou
suave, entre sonhada e sentida, na profundez dos ermos, onde tudo canta,
suspira e medita.

Escrever s para si, no sei que ninguem escreva;  trabalho suprfluo,
e que, se d fruto, o d ruim, que de pco e descorado nos desconsola.

Pois qual , em boa verdade, o pensamento, ou affecto, que no trabalho
de se corporificar para sahir a lume e correr por mos e olhos, no
perde muito do seu primitivo ser, ou da sua energia, ou da sua graa, ou
do seu calor, ou do seu brilho, ou do seu aroma, ou do que quer que seja
que era seu, e que era elle mesmo em grande parte?

Isto dos livros no so seno uns retratos mortos, umas toadas,
reflexos, e sombras, de festas que se fazem n'um interior, e de que os
passageiros, por mais que se lhes abram as janellas, e que elles
appliquem os olhos e ouvidos, s podem perceber a totalidade, e
conjecturar as circumstancias.

O escrever, o material, sujo, e ronceiro escrever, cede tanto em foros
de expressivo ao falar precipitado e caudaloso, como a palavra (ainda
para os maiores mestres e senhores d'ella) cede, e ha de sempre ceder,
s concepes e aos affectos.

       *       *       *       *       *

Outra explicao da exiguidade, e tenuidade (que peor ) do livrinho,
est em que a maior e melhor parte dos condes e feitios da montanha,
que ora c ao longe me apparecem to inteiros e gentis, ento que eu os
tratava e d'elles vivia colmado, me no faziam os effeitos, que atravz
dos vidros da saudade me produzem.

Para bem apreciar aquillo (como tudo) foi mistr havel-o perdido; que j
por isso dizia Rousseau, que nunca to bem falaria da liberdade, como
entre ferros da Bastilha.

Onde  que nos ri a imagem da primavera a abrolhar?  no meio do outono
a desvestir-se. A do vero, que tressa afogueado? no inverno, que
tirita e se encanece de geada.

A meninez, com todas suas lagrimas e captiveiros, no  paraiso, para
onde todos, todos, nos quizramos tornar?

Que bem que o Poeta cantava: Aventurados em summo extremo os
camponezes, se acabassem de entender os bens que logram!

Quanta poesia eu aspirei, e para mim vivi, sem me sentir nem o cuidar, 
este prosaico e glacial viver, quem agora de instante a instante m'o
explica.

 saudade me acodem as delicias de jazer sobre feno, peito e collo
descobertos, ao phantasioso ramalhar da nogueira velha, quando
importunas obrigaes me veem ripar e consumir as semanas a dia e dia,
os dias a hora e hora, as horas a minuto e minuto.

Pela conversao pacifica das moitas e torrentes me definho, quando, no
mais fortuito, no mais leve, tratar com homens me aguardam sempre
desencantamentos, desconsolos, rases para os desprezar, ou para
fugil-os.

L, volta-se sempre para a poisada mais alegre, ou melhor. Aqui, pelo
contrario, ou sempre peor, ou sempre mais triste.

L, a benevolencia  semente de benevolencia, para dar cento por um.
Aqui,  gro que sempre degenra, ou no germina, ou brota villans
ingratides, que envergonham at a quem as ouve.

L, o folgar  franco, e as festas so festas. Aqui, o folgar  escao e
fingido; as festas, tumulto, ou, mais de pressa, encoberto circo de
gladiadores, que armados com a verdade e com a mentira se acutilam uns
aos outros, e aos ausentes, e aos amigos, e aos finados.

O mais dextro no pungir e envenenar, esse se pavonear pelo mais
corteso e de maior donaire; far-lhe-ho roda; e em vez de o
esbofetearem, e de o compellirem a se enforcar como o Iscariotes por sua
mo, para escarmento a sevandijas e lio a paes que esto creando feras
bravas para andarem sltas no povoado, ho-de applaudil-o por medo,
apertar lhe a mo dissimulando o nojo, e recebel-o muitos em suas salas,
com sabel-o expulso de muitas portas.

Acobertam-se l e ufanam-se as terras com os linhares, para o que Deus
os fez: para vestido das familias, para faixas da infancia, para maco
agazalho nas horas do somno ou da doena, para gala candida dos altares,
e a final para curativo de feridas.

Ora, que mulher de montanhez poria n'um linhar, ao alvorecer de Maio, a
sua roca enfeitada, se adivinhasse que o pobre do seu linho, a cabo de
to bons servios, poderia vir ainda a converter-se em papel para a
nossa Imprensa, isto , em pregoeiro e depositario de quanto erro, e
absurdo, a ignorancia ou maldade podrem delirar, em ventilador de
descredito e odios, em disseminador de todos os principios de
dissoluo, j moral, e j politica?! Pr-lhe ella a sua roca para
beno! ella, a boa filha das serras, fmea sincera e verdadeira,
corao lavado, animo propenso em tudo para o bem! Pr-lhe ella
encamisada e florda a sua roca, a sua casta e alegre companheira, a que
to santas maximas e to formosos exemplos ouviu sempre!... Antes deitar
 sementeira o fogo, ou amaldioal-a n'uma sexta feira ao meio dia, que
vale o mesmo.


XXI

Que de vantagens para o ermo no so todas estas!

E no gosal-as, que assumpto inexhaurivel para um engenho bem nascido!

Sim; mas, torno a dizel-o,  em distancia de espao e tempo, e pela
contraposio, que se conhecem. E eu malbaratei quasi tudo isso!...


  ........ munera nondum
  Intellecta deum!....


Havia de ser agora, depois de to prolixo, de to quebrantador martyrio
da experiencia,


  ..... Oh ubi campi!


Como me no agarrra, com raizes mais fundas e tenazes que o meu cedro,
ao cho da vida facil, innocente, e obscura! Como no borbotra em
hymnos o meu jubilo! Como no saudra com lagrimas de gratido a
aurora, tornando a encontral-a! Que no palrra com as torrentes! Que
noites desveladas sob o pavilho estrellado e vastissimo da montanha!

Em vez de rebuscar (como agora me foi forado) para esboar este painel
noticias de logares, e at de usos, tudo eu mesmo visitra com devoo
de peregrino; tudo revolvra; com tudo me identificra.

As saudades, que de l para aqui me esto salteando, d'aqui para l j
no atinariam seu caminho; e se o atinassem alguma vez, na primeira
sara onde papeasse um ninho eu me soubera esconder, que me perdessem
logo.

       *       *       *       *       *

--O abdicar--dizia o Imperador Diocleciano tornado Diocles, fazendeiro e
hortelo de Salona--o abdicar  o comeo do viver.

Quantos dos que desaprenderam no regao espinhoso da fortuna o rir, o
dormir, e o comer, tudo isso recobrariam na primeira hora que
empunhassem, com animo feito, uma rabia ou um foicinho!

Se no ha-de ser inefavel o abdicar muito, e at imperios romanos, como
elle, quando renunciar o pouco, o quasi nada, que se tem de cidade....
s de o cuidar, tanto namora a phantasia!

Se jamais vir tempo de eu poisar em torro meu, debaixo de sombras
minhas, a cabea encanecida e regalada!

Uma barraca de poucas braas, mas revestida de rosas e limas, como o
presbyterio.  roda d'ella, tanto de fazenda, quanto o filhinho mais
pequeno atravessasse correndo de um flego. Mas isto em solido bem
solido, onde s os astros me enxergassem, s as estaes me visitassem,
e da banda do mundo nada me chegasse, seno o vento, j expurgado e
esquecido de humanas vozes.

Tal casa, e tal quinta, ser-me-hiam mais que morgado, mais que palacio e
reino: paraizo terreal, digno vestibulo de outro melhor.

Ahi me reverdecram o corao e mais o espirito, que me elles por c
trazem to lastimosamente desfloridos e murchos.

Por si se retingiriam os cabellos, com o franco sol remoador de quanto
existe.

A lyra interior volveria a cantar espontanea, como harpa elia entre
jasmineiros, pendente em hombral de gruta s viraes da primavera.

Ainda  farta me vingra dos tantos annos, que em tarefas ephmeras e
sem gloria, posto que no sem consciencia e diligencia, se me
desbarataram na gal da Imprensa periodica, ou (com mais propriedade)
nas palhas d'essa doidinha, que a si mesma se venra por soberana do
Universo; doidinha com diadema de papel e sceptro de lapis.

S me no rira d'ella, quando me lembrasse que me enguliu, com os annos
que me tomou, outros tantos da minha existencia para diante; pois em
cada tomo de periodico, sincera e honradamente redigido, se podia
escrever este epitaphio: _Aqui jaz um anno de fadiga e dois de vida
de.... Orae por elle_.[4] Vendem-se ainda primogenituras por menos que
prato de lentilhas.

Vingra-me (oh! se me vingra!) de to bons dias mallogrados; e ainda
por ventura alguns livrinhos, menos maus que todos os meus precedentes,
appareceriam de novo, mas sem mim, no povoado. Como Ovidio aviava os
seus do desterro, aviara eu os meus do meu eden.


  Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in Urbem.


       *       *       *       *       *

--A que vem tomar-nos tempo com a fabula pueril dos teus gostos e
desejos?--dir (e ha-de dizer) algum d'estes que sabemos, que nunca
faltam, escoimadores _ex-officio_ do alheio.

--Senhor meu,--lhe respondo eu j:--pois  por isso mesmo, de no
passarem de fabula os meus gostos e desejos, que se me ha-de relevar o
dar-lhes eu largas no papel.

Se eu vira agora cahir-me do ceo o meu tugurio e o meu quintal, coroados
de ermo, como o Evangelista nas praias de Pathmos viu baixar do Empyrio
a sua Jerusalem abraada de muros de oiro, o tempo que n'estas palavras
gasto aproveitara-o melhor, em correr para o meu refugio, beijal-o,
replantal-o, aformosental-o. E em l vindo o flordo Maio, ride-vos de
pago que brindasse os seus lares com mais f ou egual amor.

       *       *       *       *       *

A liberdade!... Onde ha hi liberdade, que nem por longe se parea com
a de um viver remanado, em casa sem numero, nem espias, ao som da
Natureza,  lei da propria inclinao; sem ouvir horas que nos chamem,
sem encontrar com glosadores que nos aboquem no ar aces e palavras,
para nol-as tingirem de branco em preto; nem cahir nas garras de
ociosos, que vos emprazaro para toda uma tarde de Junho, ou toda uma
noite de Dezembro; isento da praga de utopistas e reformadores, que so
a peor salada que o diabo temperou e mecheu em hora de abhorrimento;
seguro, emfim, de ser pisado nas ruas por soberbias de quem vos no
vale, tremulando-lhe, na botoeira do vestido, refulgente epigramma de
esmalte contra meritos e virtudes; e de noite, interrompido na
meditao, ou cortado no melhor do somno, pelo retroar de carroagens,
que em fluxo e refluxo continuo levam e trazem, sempre a correrem para
nada, pygmeus, histries, da fara sria d'este mundo?

Se algures ficou sobre a terra a liberdade, que irmana, segura,
ennobrece, e concila os homens, na montanha encontrareis mais depressa
coisa a ella parecida, do que no por estas almotaadas metrpoles, onde
se blasona que ella tem o seu templo, e n'elle as suas festas. Sempre
so festas acompanhadas de vinte orgos, a entoarem solfas diversas ao
mesmo tempo: este, o _Te Deum_; aquelle, o _De profundis_; um, o
_Quomodo cecidit civitas plena populo_; outro, o _Cantemus Domino_;
qual, o _Miseremini mei_; qual, o _Ecce sacerdos magnus_.

Se alguma vez se incensou presente n'este orbe a Liberdade,
derrubaram-n-a do seu pedestal as aguas do diluvio de No, quando
arrojavam cada coisa para seu cabo. Ao que havia de ser cidades, ficou o
pedestal razo, com o formoso nome d'ella em letras de oiro. Ao que tinha
de ser ermo pertenceu, mas sem nome nem titulo, a figura quasi inteira.
Aqui, pregam-n-a; l a disfrutam. Assim vai tudo.

       *       *       *       *       *

E quando no, mettei bem por dentro a mo na consciencia; e, deixado o
palavrrio que no sa muito seno por ser vazio (como tambor de
folies), dizei-me, ou dizei-o a vs mesmos: Quem mais livre, que homem
que desperta recobrado ao romper d'alva, por se lhe ter o somno acabado,
e no porque ruins pesares lhe repiquem, ou o estremunhem alvoroto de
praas, e rebolio de vizinhos, pois diante de suas janellas o que s se
meneia e conversa so arvores, e por cima do seu tecto no moram seno
hervas, que mal ciciam, e s recebem de visitas passarinhos ou
borboletas?

Quem mais livre?

Acordado, encommenda a Deus o dia novo, veste o que na vespera despiu,
sem ter de consultar a ventoinha do figurino, o camareiro, o
cabelleireiro, o espelho, o gosto da namorada, o rol das visitas e dos
convites. Quem mais livre?

Talha para si, para sua mulher, para cada um de seus filhos, as
occupaes de todo o dia. Quem mais livre?

Entre o trabalhar, que lhe grangeia foras, saude, bons somnos, po, e
para conduto um apetite desenganado, entre o trabalhar, repito, canta,
ou traz o espirito a monte, a sabor de suas chymras (que tambem as tem
como qualquer outro); e  este o mais invejavel privilegio do trabalho
corporal, sobre tudo do que tem por materia prima a terra: no captivar
seno os braos; cavando, podando, ceifando, se podem, sem prejuiso da
obra, estar armando doiradas torres no ar, ou conversar rasgado e rir
com os companheiros, ou cevar em silencio a tristeza que se ama, ou a
alegria que se esconde.

Este _deus in nobis_, unica das divindades campestres em que se pode
crer, perguntae se no ser para muitas invejas aos taciturnos enxames
que pejam escritrios e secretaras; perguntae-o a quasi todos os que
remam  consciencia o seu remo na gal baloiosa do Estado. Quem mais
livre?

Posto o sol, pregoadas as treguas das lidas pelo sino das Ave-Marias, o
meu rustico se recolhe, sem golilhas de seda no pescoo, para folgar
entre eguaes, em quanto a ceia bem mercada se lhe acaba de coser ao lume
que o aquece. No tem de ir fazer sala a ninguem; respira a peito cheio;
no ha que ciar se de mulher e filhas, que no d a terra operas nem
bailes; filhas e mulher  roda lhe seram, to satisfeitas como elle.
No se levanta ali jogo, que, por tentao ou falso pondonor, o obrigue
a pr n'uma carta o casal, a vergonha, e mais a vida. No o compellem a
ajudar com desatinos seus os alvitristas regedores do mundo em scco;
nem mesmo a ouvir ler, n'uma coisa mal-cheirosa chamada periodico
(especie de cogumellos da Imprensa, em que entre os no malficos tantos
ha de sapo), o artigo famoso, no qual, sem qu nem para qu, lhe
levantam falsos testemunhos para entretenimento de vadios na hora do
chylo. Quem no tem com que incite invejas, seguro est de vis
praguentos. Quem, finalmente, mais livre?

Deita-se em cama barata, mas de bons sonhos, com as janellas e portas
destrancadas, sem medo a malfeitores, que, sobre no creal-os o sitio,
nada reluz na poisada que os attria.

Entretanto lhe vo caladamente amadurecendo os pes para a tulha, o
vinho para a adega, o azeite e os frutos para a dispensa, a hortalia
para a panellinha de barro, as filhas para o casamento, os rapazes para
lhe pagarem na velhice a divida da infancia, e elle e sua mulher para o
Ceo, onde crem de f que os esto seus parentes esperando.

Ento, ser, ou no ser, este um viver dez vezes mais livre e
afortunado que o nosso? Pois no disse eu d'elle tudo que poderia, nem o
direi, ainda que j talvez me hajam de arguir de prolixo, que no deixei
na matria udo nem miudo; como se miudos houvera no que so condies
de boa ventura!

Se n'isto me dilatei (e confesso que sim) um tanto fora do meu
proposito, foi por ver se dava uma aldrabada de mansinho ao corao de
alguns d'estes, que vivem na Crte por fadario, por vezo, ou por
inercia, sempre mal-contentes, pesarosos, abetumados; possuindo, ou
podendo, se uma hora olhassem por si, adquirir, sem nenhuma
difficuldade, o que eu, e outros taes, to baldadamente supplicamos 
fortuna: uma vivenda campestre, uma existencia natural, serena, commoda,
florescente, risonha para a pessoa, dadivosa e exemplar para os
visinhos, manancial de riqueza privada e publica, abonadora de bons
costumes, e de afortunada descendencia; uma existencia, em summa, que, a
de mais de retemperar corpo, animo, e corao, para se n'ella
saborearem, at aos renunciados praseres da Cidade refina o gosto,
quando por acaso, de longe a longe, e de passagem, se volve a elles.

       *       *       *       *       *

Toda a gente, e os abhorridos mais que todos, deveriam ler e meditar o
medicinalissimo _Livro da Solido_ do Doutor Zimmermann. Aprenderiam a
perder-lhe o medo e ganhar-lhe amor, a embellezarem-se n'ella, a serem e
a fazerem venturosos, quanto  dado havel-os n'este mundo to instavel,
to fugidio, to calabreado de bens e males.

O homem na sociedade  um instrumento, que se gasta e quebra servindo;
na solido  um homem. Na sociedade,  uma partcula irresistivelmente
arrebatada n'um redemoinho; na solido um todo quieto.

Puericia, edade de oiro da vida, no torna jamais por onde uma vez
passou; mas na solido se esconde ainda uma sombra d'ella; porque o
homem, redimido dos cepos do mundo, e frro das humanas tirannias, se
faz em algum modo semelhante  creana; readquire o que quer que seja da
sua innocencia, da sua simplicidade, dos seus gostos, dos seus brincos.

Quem se lembraria de pr um barco de cortia (ainda que de seu natural
tivesse o ousal-o) n'um tanque do Passeio publico, cercado dos fumantes
do Marrare, e dos collaboradores dos periodicos? quem o ousaria, mas
que fosse para entreter a seus filhinhos? E no campo, uma pessoa, at s
para si, faz d'isso; e mais se encanta em o fazer, que um ricao em
torrear palacios.

Em quanto d tempo aos passaros para irem picar no cvo das armadilhas
que lhes andou dispondo, edifica  borda de um arroio uma azenha de dois
palmos, com seu rodizio de canna a espadanar. S no vl-o voltear,
respingando aljfares pelos ares, tem entretenimento para horas.

Alevanta ao p uns paos nobres, que se encheriam com a familia de um
coelho, estira-se a espreitar para dentro da relva, como Werther e Hugo
se embebem nas maravilhas d'aquellas selvas e reinos de animlculos, em
que s o mancebinho muito pequeno, ou o muito grande homem, se poderiam
enlevar.

A solido! a solido!... provae-a, sequer, affligidos do mundo, e
pregoareis d'ella o que eu me no affoito a encarecer-vos.

       *       *       *       *       *

Um s achaque hei-de eu impr  boa da solido,  gentil namorada de
Rousseau, de Petrarca, e de todos os espiritos grandiosos; e vem a ser:
que, pois nos descalleja o corao, banhado nas suavidades da me
Natureza, e para a sensibilidade nos ajunta o que do egoismo nos detrai,
assim nos deixa mais expostos ao pungir de alheias penas, quando no as
podemos extirpar. No ermo ressam mais alto os gemidos, como na calada
da noite se do a ouvir mais claras as vozes.

Quizera-se, ao ver a penuria de muita casa, o escasso de muita colheita,
o mal roupido de innocentinhos, o desagasalho de velhos enfermos,
quizera-se ter mos de Midas para acudir a tudo aquillo; e o corao,
que no tem para dar seno suspiros, no fundo do peito se confrange
todo, e se espedaa.

Cada uma d'aquellas curas dependeria de to pouco! sera to
festejada! tantos effeitos afortunados produziria! deixaria, por cora
de beneficios, to sinceros, to duradoiros agradecimentos!

       *       *       *       *       *

Numerosas, numerosissimas, so as coisas das cidades, que d'aquellas
alturas se no percebem; mas a que menos de todas se percebra  o
corao metallico dos Cresos, os seus olhos diamantinos sempre enxutos,
os seus ouvidos que s vibram ao som do oiro. Possuem a omnipotencia
terrestre, e ferrolham-n-a a sete chaves. Podiam ser adorados como
deuses propicios, conquistar a unica invejavel gloria, emendando os
erros da fortuna, espargindo felicidade, e felicidade enthesoirando.

Ento sim, que haveria que se lhes invejar.

Dr d'alma , na verdade, no poder homem na solido pagar por estes, e
por si mesmo, dividas grandes e urgentes da Humanidade. Entretanto, l
estende os braos valedores at onde lhe  dado. Onde no chega a
remediar com obras, ajuda com o bom conselho, com as recommendaces
poderosas, com as esperanas, com a presena, com a unco da palavra
amigavel, com o deixar correr sobre a ferida o balsamico das lagrimas.
Assim, se ter sempre que dar; sempre, em quanto houver no proximo
trabalhos, e no seio corao.


XXII

Isto presenciei eu:

O espiritual Pastor do rebanho de S. Mamede do Monte, de quem natural
pejo me veda transladar louvores, que por l se lem em todos os peitos,
contava entre as primeiras de suas ditas a beneficencia, que no pra
onde se lhe exhauriu a bolsa; que, depois de dar a capa, como o Santo
Bispo Martinho, e a coberta, como Frei Bartholomeu dos Martyres, tem
ainda para dar a pessoa, como S. Vicente de Paulo.

Era para ver (se elle no posra tanto em recatal-a) a alacridade, a
sffrega alacridade, com que ia levar aqui um po, que se devorava como
vida que em realidade era, ali o remedio para a doena; aos mal avindos,
a reconciliao; ao ocioso, o convite para trabalho; ao orphanado, a
paciencia; ao errado, a luz para atinar com a senda, e o bordo para a
seguir; ao moribundo, o conforto e a alegria; a todos a moeda aurea,
cunhada de uma banda com a effigie do corao, da outra com a da Cruz
florida; a moeda riquissima, que por nenhuma outra se camba; o affecto
fraternal.

Ali, sim, que  o ser Parocho.

Oh officio divinamente instituido, como te ho degenerado annos frios
de descrena e desamor! Com que maravilhoso lao no cifravas o que de
mais nobre, o que de mais amavel, se abrange nas ideias da eternidade e
nas do mundo!

O rei dos sacrificios era ao mesmo tempo o servo dos indigentes. Vaso de
eleio, elle diffundia ao povo ajoelhado os mysterios, os preceitos, os
exemplos, as ameaas, os anthemas, as absolvies, os confortos, e os
jubilos. Todos os destinos terrestres se formavam, ou passavam,  sombra
d'elle.

Entrados  vida, encontravamol-o, resplandecente de F,  nossa espera
diante da fonte da Graa, para n'ella, com a bocca cheia de riso, nos
purificar.

Arribados  edade da raso e dos delirios, tornavamol-o a achar na
piscina da penitencia para nos restituir, com eloquencia affectiva de
Apstolo, a foragida paz do interior.

No consorcio, eram as suas mos castas as que nos entregavam, com
benos d'alma e sincera prophecia, a mo tremente da futura me de
nossos filhos.

Nas calamidades publicas, era a sua voz supplice e crente, e afogada em
lagrimas, a que levava, como guia segura, o cro de todas as nossas 
presena do Senhor da Natureza.

Em nossas dissenses domesticas, elle o Anjo da concordancia, que
primeiro apparecia.

Nas nossas qudas, elle o primeiro brao que nos alava.

Nas tribulaes, elle o nosso mais previsto conselheiro.

Na enfermidade, elle o medico gratuito e no chamado.

Na agra hora da partida, elle o que nos apercebia para a alma confusa e
aterrada o po, o oleo, e o fardel das esperanas para o caminho.

Elle o que ainda nos seguia, depois que j todos os outros medicos iam
longe, e at nossos paes e nossos filhos nos deixavam ss. Com preces
fervorosas nos acompanhava, at que a terra nos submergisse; e ainda
ento nos no largava, seno para ir instaurar novas preces por ns
sobre os altares.

Solitario na sua vivenda, elle tinha por familia o seu rebanho, com
quem, por quem, e para quem, vivia; sempre lhano, sempre dadivoso da sua
pobreza, sempre paschoas-flordas para grandes e pequenos, s temido dos
maus, ainda que tambem d'esses respeitado.

Se carecia de prognie, se no tinha uma esposa, elle, que to amenos
quadros do casamento sabia apresentar aos noivos ao recebel-os, contava
por irmos e filhos todos os seus parochianos; tinha o seu thlamo de
oiro a aguardal-o no paraizo, regio que todos os dias entrevia atravz
das folhas do seu brevirio; e, se ainda no corao lhe podia alguma
ternura sobejar, tinha a sua egreja, que elle amava como esposa; em quem
se reva; que se recreava em ataviar, em enriquecer, em lhe adquirir
galas de roupas, de sedas, de joias, de flores, de perfumes; em cujas
festas se remoava; em cujos canticos se desvanecia de misturar a sua
voz.

No seu sacerdocio se acreditava a pleno, porque elle mesmo acreditava
tambem. Se, perante a ara santa a F via n'elle um representante da
Divindade, nenhum lance da sua vida desdizia esse caracter augusto e
sobrehumano.

A hora em que elle expirava, hora de consternao e alaridos para todo
um povo, era a unica, talvez, em que pelos espiritos fuzilavam alguns
relampagos de duvidas sobre a justia e a misericordia do ENTE SUPREMO;
duvidas, que a bocca do velho emmudecida, que a reprehenso dos seus
olhos fechados, j no podia fulminar, mas que a sua presena, mal
chegavam a beijar-lhe os ps como a bemaventurado, promptamente
desvaneca. Bem se adivinhava, ao olhal-o, que a sua morte no era mais
que somno; e bem se entendia como, ao cabo de to prolixo, de to zeloso
trabalhar, era raso colher descano e premio, como s l em cima os
pode haver.

       *       *       *       *       *

Taes eram, pelo commum, pastor e grei, nas eras cheias e prosprrimas da
Christandade.

De taes greis, e taes pastores, ainda hoje ha, mas raro; mas to raro,
que a dedo se apontam; e ainda se no ho-de crer, se no frem vistos
bem por miudo, e contrasteados bem de espao.

De ninguem  a culpa, sendo de todos a desgraa.

No; de ninguem  a culpa. O genero humano curte sempre algum achaque
principal; e quasi sempre maleitas. Passou-lhe a febre da superstio;
est agora no frio da incredulidade Que lhe ha-de fazer? jazer-se com
elle, at que do alto lhe venha o remedio.

       *       *       *       *       *

Existe um phantasma de altar, um phantasma de sacerdocio, um phantasma
de vulgo fiel, um phantasma de culto; mas de F intrinzeca, nem um
phantasma.

A pseudo-philosophia, de que a mean classe engafecra, pegou-se d'ella,
pelo contacto, primeiro  superior, depois  infima.

Ha doenas que teem os seus periodos determinados; esta entra na conta.

A classe que primeira a padeceu, por primeira e por mais illustrada j
quer ir convalescendo; j convalesce em muitas partes, se em nenhuma se
acha ainda san; mas a que mais tarde cahiu, por isso mesmo, e por ser a
mais rude e numerosa, labora no auge da enfermidade, e ainda muito longe
(segundo todos os symptmas) de se restaurar.

Hoje o materialismo  especialmente plebeu.

Dos cumes da ordem social podia-se ir desferindo a raio e raio, e
descendo manso e manso, a luz, que adelgaasse, que por derradeiro
desfizesse, essas trevas humidas e frias, que nada criam, e afogam tudo.

Mas nem de l baixa, porque por l faz ainda noite, nem se derrama da
Imprensa, de que a mean classe  representante.

O Poder, fingindo _proteger_, apenas _tolera_ os escassos restos da
crena. Se alguma vez lhes d considerao,  quando se lhe antlha que
os poder empregar, por material, para obras politicas a seu modo.

A Literatura, ou por especulao de popularidade, ou por extravagancia
de muito joven, ou porque o seculo XVIII do Paiz modelo s poude
chegar c no XIX; a Literatura, figurando tributar a sua homenagem 
unica Religio civilisadora, to decepada e desgeitosa se avm, que, por
entre as suas expremidas lagrimas de compunco, se lhe est vendo
voltear por dentro dos labios o seu lembrado sorriso de septicismo.

A sua religiosidade  um clculo; grande mal!  um clculo
transparente; mal ainda muito mais funesto!

Reconhece-se que, se de alguma coisa est convencida, no  da verdade
real e absoluta que diz, mas da utilidade (ou necessidade) de que seus
ouvintes a acreditem.

Forceja para reaccender na ara um pouco de lume santo, que allumie e
aquea; aconselha que se lhe cheguem; mas ella fica fria e s escuras
por de traz da nave, olhando com ar sobranceiro para a turba.

Nunca dobra tanto o joelho e a cerviz perante o _Christo_ (como lhe
ella sempre chama), que a sua cabea ennastrada de loiros no fique,
mais ou menos, sobre-sahindo  pendida fronte coroada de espinhos.

Que poder jamais conseguir para verdadeiras aleluias da F e da Moral,
este vaidoso e vanissimo apostolado da eloquencia e poesia, que de baixo
do falso nome de Christianismo prega d'elle uma, ou outra, ou muitas,
paginas desconnexas, reformadas, e adulteradas?

Quanto entre si concordavam as inspiraes dos quatro Evangelistas,
tanto discrepam uns dos outros (e no raro de si mesmos) os novos
evangelhos d'estes missionarios sem misso.  prima-vista se averigua
que lhes fallece a convico, a coherencia, a logica, e a unidade. Quem
se ir apz taes innovadores? Ninguem.

Pelo contrario: as suas diligencias para reedificar s valeriam para
acabar de destruir, se podesse ser destruida a Religio de Jesu-Christo.

A F  uma obra celeste, que nem a sciencia, nem a fora, nem o poder da
terra tem a minima jurisdico para alterar.

Ou a F toda completa, cabal, absoluta, sem um tomo de menos, sem um
tomo de mais... ou nenhuma F. Fraccional-a, decompl-a, temperal-a
cada um para o seu paladar,  pregar-se o homem estupidamente n'uma cruz
desbenzida, revirado com a cabea para a terra, e os calcanhares contra
o Ceo. Em tal caso o indifferentismo, e at o atheismo, seria menos
descommodo e mais logico dobradamente.

       *       *       *       *       *

Em quanto a Literatura assim acode  obra de Christo, como o poderia
fazer n'uma hora de ebriedade o proprio anti-Christo, como  que a
trata a autoridade mundana?

Como se fra obra sua, ou sua propriedade: estende-lhe, protectora
desdenhosa, a barra do seu terrestre manto sobre a cabea despojada do
diadema luminoso, diz-lhe que se apegue, para no cahir, ao sceptro que
a diante lhe caminha. Elle, o Christianismo, elle, que ainda ha pouco
roborava os thronos com a sua beno, permitte, quasi, que os seus
inimigos o ludibriem!

A blasphemia, que vai picar, verme peonhento, a raiz da arvore da vida,
d'onde se colhe a moral, a blasphemia pode qualquer derramal-a sobre as
multides pelo crivo immenso da Imprensa, e ficar impune; ou o seu
castigo, se por erro lhe cahir o da Lei, orar apenas pelo dos crimes
leves, e indifferentes ao Estado.

       *       *       *       *       *

No  ainda tudo.

Aos ministros do culto, j de si por ventura tibios, como filhos e
herdeiros de uma edade desfervorosa, sal da terra j meio derretido, luz
do mundo j mortia, deixam-n-os, ou fazem-n-os enfraquecer-se e
relaxar-se ainda mais, desautorisando-os, dessangrando-os, infundindo os
nas temporalidades odiosas.

Repitmol o: no  isto culpa de ninguem, sendo de todos desaventura. 
uma calamidade providencial, que l se encaminha para fins certamente
gloriosos, que no podemos enxergar.

Em Religio, como em Politica, somos ns, enfatuada gerao de hoje,
mesquinho adubo n'um cho semeado, que outros ho-de ceifar em vindo a
quadra.

Chegaro tempos (dil-o o instincto da raso) em que os direitos e os
deveres tenham egual pezo; em que o bom e merecido nome no seja, como
pomba timida, empolgado por abutres ferozes logo ao abrir o primeiro
vo; em que todas as causas santas e uteis se conheam e respeitem; em
que nem a rgia tribu de Jud seja, como outr'ora, apesinhada pela de
Levi, nem a tribu sacerdotal de Levi, como hoje, mercenria, captiva, e
escrava da de Jud.

Ento quando o lenho scco da Cruz, reflorir, e frutear (como a vara do
Propheta) frutos de suavidade, de concordia, de alimento, de foras, de
esperana, e de felicidade, de felicidade para abarcar dois mundos,
ento os pastores, quasi espancados agora pelos seus rebanhos, quasi
mendigos, e cuja fronte perdeu o sello da eleio, tornaro a assentar
ao-p da arca santa a sua tenda humilde e venerada, no opulenta mas
dadivosa, tenda pobre e rta, para que pelas aberturas penetrem melhor
at ao velho os gemidos do mais necessitado que elle, e para que os
olhos d'elle entrevejam as estrellas.

Oh! como volvero a ser bellos os dias da Egreja acrisolada pelo fogo!
Mal venha por quem, de imprudente, pretendesse retardal os.

       *       *       *       *       *

O autor d'este livrinho (que ainda, apesar de tudo, no acredita em
malignidades gratuitas) apressa-se de inculcar, de recommendar aqui, uma
verdade, que a sua posio d'elles lhes no deixou talvez ainda
perceber; verdade importante para applicaes, verdade a cujo
escurecimento se pode imputar j muito e muito damno:

O officio pastoral tem, ou pode ter, especialmente fora das cidades, uma
importancia para a felicidade das familias, para o bom regimento e
prosperidade do Estado, a que nenhuma instituio humana poderia
confrontar a sua.

Nas cidades  talvez licito o ignoral-o. O Parocho urbano  quasi um
pastor sem rebanho; no conhece as ovelhas, nem as ovelhas o conhecem. A
ellas, falta-lhes o tempo e a vontade para o rodearem; a elle, se para o
officio entrou com zelo e propositos magnanimos, tudo se lhe veio a
acabar com a esperana, e logo a caridade tambem; e a final talvez
tambem a f, mal se inteirou de que todos seus esforos se haviam sempre
de quebrar no indifferentismo publico, e de que a sua voz, se lograsse
vencer o estrpito circumfuso, s serviria para lhe atrahir escrneos e
motejos, ou de fanatico, ou de tartufo.

Nas freguesias ruraes, nas mais remotas, nas serranas e abscnditas
sobre tudo, ainda no  totalmente assim.  entidade abstracta _Parocho_
se conserva, no respeito e benevolencia dos subdtos, um resto da sua
antiga majestade, da sua benfica influencia, das suas altissimas
prerogativas.

Ainda  um parente proximo e autorisado de todas as casas, uma especie
de maioral de tribu (como entre os Hebreus do tempo dos Patriarchas, e
os Arabes do deserto); um juiz de paz insuspeito; um magistrado sem
appellao para as consciencias; um censor, no em nome da Lei (como os
de Roma), porm em nome, e com delegao, e por inspirao, do Espirito
de Verdade, com quem se cr ter commercio no fundo do santuario.
Qualquer que seja a sua sciencia,  a ella que se recorre como 
principal.

Tal , repito, a entidade _Parocho_ em abstracto.


XXIII

Isto posto, e acceito por certo, como , pergunto: se no devero
empregar-se as mais incessantes, as mais efficazes diligencias, para que
o provimento das parochias (das rusticas ao menos) recaia sempre em
homens de cultivado e provado entendimento, de sincera e illustrada F,
humanos e caritativos, desambiciosos, modestos, e de facil e aprasivel
trato.

Ninguem o negar, pois so elles as fontes, que, segundo sua qualidade,
teem de dessedentar e fertilisar, ou de esterilisar e consumir, a terra
que os rodeia.

N'estes agros tempos de contnua revoluo e peleja, ou porque to
momentosa ponderao no occorresse, ou porque a vista, de dentro da
cidade, no traspassa os muros d'ella, ou porque conveniencias pessoaes
e ephmeras, mas urgentes, mas gravissimas, tenham feito postergar
consideraes de maior utilidade, mas de effeito mais tardo; as egrejas
ruraes, como as urbanas, jazem, pelo commum, peor que ao desamparo:
entregues, no como egrejas, a homens de orao e de esmola, mas, como
torres e castellos, a alcaides e capites eleitoraes, que no dia do
conflicto arvorem e defendam o estandarte do seu bando.

Oh! que no sem raso se collocou a rixosa urna dos suffragios
politicos na extranhada manso dos serenos suffragios religiosos. A um
clero secularisado, competia um templo secularisado tambem.

       *       *       *       *       *

E no ha aqui arguir esta ou aquella parcialidade;  peccado, que todas
ellas peccam; ou, para falar com mais justia,  aoite que Deus mette
na mo de cada uma, quando lhe chega a sua hora de ephmero triumpho.

Se ellas bem considerassem n'isto (suppondo-as a todas, at s mais
illusas, como as devemos suppr, cordealmente empenhadas na civilisao
e no progresso), deixariam o uso d'esta arma, que para servir a revzes
a favor de todas e contra todas, vem a ser, a final, para todas e para
cada uma, como se de feito no existira.

O direito mesmo da Guerra, com ser to largo e licencioso, nem tudo
permitte. Porque no ha-de logo, nas suas pelejas, a Politica
reconhecer limites, onde o Ceo e a raso os teem marcado?

Combatam se os adversarios; mas no se envenenem as aguas; e se a
desavena  entre consanguineos, e em solo commum, no cortemos, para
aquecer o rancho dos nossos soldados, as oliveiras centannarias, que j
deram oleo, sombra, e paz a nossos avs, e que ainda podem liberalisar o
mesmo a nossos netos.

Por que  trazer aos festins profanos os vasos do Templo?

Se  chymra a Religio, se Jesus no  em realidade seno o Christo,
vo fra tartufas, que no deshonram menos a uma nao que a um
individuo; acabe-se de uma vez com _supersties_ importunas e
dispendiosas.

Mas se o Christo foi o Verbo; se o Verbo foi o sol; se o sol  ainda
agora a vida do genero humano; se a Cruz  o unico pezo que faz crescer
a quem a soffre; se na terra no ha luz seno a que vem de cima; se toda
a negao expira nos labios de quem chega a ouvir como se amiudam os
anhlitos do estertor, forcejae, forcejae para restituir,  vs que
ainda o podeis, ao santuario do Deus vivo os unicos sacerdotes que elle
conhece, ao Povo os unicos orculos em que elle pode crer, s miserias o
seu antigo e to amado refugio, aos vicos e aos crimes o dique onde j
tantas vagas suas rebentaram em flor, e refugiram.

No  assaz amplo o thesoiro que entre as mos tendes de destinos
humanos?

Os exercitos e as armadas, os tribunaes, os governos, todas as
magistraturas, todos os magisterios, todas as exaces, todas as
administraes, no vos do de sobejo com que pagar ou empenhar
amisades, zelos, e servios, sem ser mistr que o povo de Deus venha,
escravo e deshonrado, desde a sua Jerusalem deserta e muda, carregar a
pedra e a areia para o vosso arco de triumpho?

Rachel chorosa chora os seus filhos, e no quer consolada porque elles
no existem para ella. Os moradores de Sio no entam os seus
inspirados canticos, porque os trasladaram para a beira dos rios de
Babylonia. Ressuscitae para Rachel os seus filhos; reponde em Sio os
seus moradores.

A voz grande que se ouve em Rama prantear pela noite muda, calar-se-ha.
A Cidade santa restaurar as suas festas.

No vos arreceeis de que, feriando os levitas, e despedindo-os das
vossas tendas para a da Arca santa, o exercito da vossa parcialidade,
qualquer que ella seja, se torne mais fraco.

Pelo contrario: ento  que a victoria, filha das benos da terra e do
Ceo, ha-de poisar para sempre, como uma aurola, sobre a hasta do vosso
estandarte, porque se dir de toda a parte: Eis ali os fortes, os que
bastam per si para se defenderem. Eis ali os justos, a quem o Senhor
outorgar dominao, porque elles lhe ho restituido os sacrificios.


XXIV

Mas redescendmos o estylo  lhaneza do nosso assumpto.

       *       *       *       *       *

Logo que na legislao entrar mais _bom-senso_ que _politica_, mais
realidade que fico, mais pensamento de semear que de ceifar, mais amor
do homem que de homens, o recrutamento e a disciplina da milicia sagrada
devolver-se-ho inteiramente, francamente, sem restrices mesquinhas e
nocivas, das mos profanas para as dos seus superiores e arbitros
naturaes: os Prelados.

O Governo se gloriar de haver se desembaraado de uma tarefa, de pouca
importancia aos olhos mundanos, e todavia cheia de incerteza, e de
responsabilidade incommensuravel. Gloriar-se-ha ainda mais, de haver
facultado com a sua restituio o incremento da religiosidade; por ella
o das virtudes domesticas; por ellas, o das virtudes politicas; por
tudo, o da prosperidade do Estado.

Quando cada Bispo, maioral responsavel e zeloso de uma profusa grei,
podr escolher por si mesmo, affeioar de espao, collocar por sua mo,
os vigias de cada um dos seus rebanhos parciaes, quem duvda de que
ento os desacertos nas ponderadas escolhas ho-de ser to raros, como
os acertos o so no actual systema, em que so as casualidades, quando
no as affeies ou os interesses, que predominam?

       *       *       *       *       *

Quanto aos Bispos (honra a quem a merece, e justia a todos), as
eleies do poder temporal teem merecido a geral approvao; teem
recahido, pelo commum, em vares de mui notoria sciencia e prudencia,
equidistantes dos dois oppostos fanatismos, concertados nos costumes, e
zelosos discretamente.

Graas, graas ao poder temporal, que j deu o primeiro passo, passo de
gigante, para a suspirada reformao. Agora os restantes ho de
seguir-se, porque so consequencia.

Logo que soube, e quiz, prepr ao Episcopado vares taes, logo que
manifestou ao mundo que n'elles a todos os respeitos se fiava,
tacitamente se obrigou a lhes repr... (estas suas usurpadas regalias,
ia eu dizer, e era um erro) estes seus onus, estes cahidos galhos da sua
cruz, este accrescimo de trabalhos e mortificaes, este para uma
consciencia melindrosa martyrio das horas todas.

Seriam elles, elles mesmos, os Bispos, os que poderiam furtar os hombros
a to duro redobramento de carga, se a caridade, obrigada nos do seu
officio, os no forra a beijal-a com lagrimas, tomal-a com exultao,
e seguir via pelas asperezas do Calvario para o Ceo.

       *       *       *       *       *

E que so em verdade os Parochos, ou antes: que foram os Parochos
desde os antigos seculos da sua instituio, que foram, se no uns
coadjutores dos Prelados maiores, para fazerem chegar at aos minimos e
mais obscuros recantinhos das Diocses a sua doutrina, a sua caridade, e
os seus exemplos?

Pois que os olhos, os ouvidos, os passos, e as mos, de um s, e quasi
sempre velho e canado, no podiam alcanar to longe como o seu
espirito; medicos de populosos hospitaes de almas (e de corpos tambem),
no lhes chegando as foras para estarem dia e noite a todas as
cabeceiras, contarem todos os gemidos, ministrarem todos os remedios,
estudarem todos os symptomas, limparem todos os suores, padecerem em
todos e com todos, segundo a maravilhosa expresso do Apstolo das
gentes; distribuiram em cada enfermara quem os supprisse, quem os
fizesse sempre estar presentes, quem em seu nome, e segundo a sua
sciencia, receitasse e administrasse, e nos casos duvidosos os fizesse
de subito acudir.

Como pde portanto, quando militam as mesmas rases que presidiram 
creao dos Parochos, consentir-se uma praxe, em que tudo vai
falsificado?

Dar ao medico, para seus ajudantes, homens escolhidos por homens
inexpertos e ignaros da sua arte, no pode ser; e no ha-de ser sempre;
e cabe nos esperar que nem continuar a ser por muito tempo.

O Episcopado vai reassumir a sua autoridade imprescriptivel, o
indispensavel respeito e obediencia dos seus primeiros subditos. Os
presbytrios civis, hoje de tantos corvos e abutres, vo ser como essas
torrinhas, que se branqueiam e se perfumam de incenso para morada de
pombas. As parochias reverdecero: e florescero, at ao possivel auge,
em creanas innocentes e instruidas, em adultos pios e laboriosos, em
mulheres castas e amantes do seu lar e dos seus deveres, em velhos
pacientes, resignados e conselheiros, em slo bem cultivado e bem
festivo; e o Throno se alegrar com os novos reflexos de ventura, que
lhe viro de cada palmo da terra comprehendida no seu horizonte.


XXV

No venha agora, no processo d'esta santificao, intrometter se o
_Cardeal-diabo_ do ciume, com mscara de amor da Liberdade. Ainda que a
mscara  de vidro, j d'aqui lh'a havemos de quebrar nas mos,
batendo-lhe em cheio com tres nomes todos presados: Frana, Italia,
Inglaterra.

       *       *       *       *       *

Que nao mais ciosa das suas immunidades, que a franceza? Que nao
menos para consentir  Egreja o que de jus estricto lhe no compita?

Nenhuma.

Ora em Frana, bem sabemos todos que so unicamente os Prelados os que
formam o seu Clero. Educam-n-o longamente. Instruem-n o copiosamente,
por livros no escolhidos (como entre ns) pela Autoridade civil, ainda
que (de si se entende) sujeitos  sua inspeco. Acostumam n-o s
praticas do seu no facil ministerio. Estudam, provam, e contraprovam, a
aptido e especial prstimo de cada um. Aproveitam s os que n'esse
crivo pertinazmente bandejado sobrenadaram; e outra vez os escolhem 
mo, para os irem repartindo pelas Parochias do modo que mais
aproveitem; pois de ver est, que, differindo em indole e circumstancias
as povoaes como os individuos, tal individuo, que em tal povoao
quadrar  justa, a afortunar afortunando-se; n'outra, que menos lhe
molde, valer menos, trabalhando e padecendo mais.

       *       *       *       *       *

O exemplo da Italia, tenho eu que ainda aprta melhor; porque, se l os
Bispos so independentes, como em Frana, para o provimento de suas
egrejas, no  porque em mos leigas esteja o sceptro do Estado. Ali o
Sceptro  Bago juntamente.

       *       *       *       *       *

Documento, porm, sobre todos frisante nos offerece por ultimo a Gran
Bretanha.

Ali a Egreja Catholica, sem ser a do Estado, no protegida se no
tolerada, no acarinhada se no temida pelo seu progressivo, cada vez
mais rapido, mais assombroso, engrandecimento, gosa se, no obstante,
por longa e pacifica posse, d'este seu no _privilegio_, se no
_direito_ essencial; e os seus Bispos so pelo menos to independentes
no tocante  cura de almas dentro de suas Diocses, como dentro nas suas
os proprios Bispos protestantes.


XXVI

Ora pois: logo que entre ns se houver perfeito d'este modo a
regenerao do Clero pelos seus principes (unicos legitimos em tudo que
ao seu ministerio se refere) cabe esperar que a optima parte das nossas
populaes ruraes se ha-de ir tambem insensivelmente regenerando, e que
a minha gente de S. Mamede do Monte ser querida, e comprehendida at
por cortesos, quando sahirem a folgar no campo algum estio.

Para ento  que este livrinho, semelhante aos frutos que amadurecem em
casa e s escuras, ha-de ter para mais alguem o sabor que eu j lhe
tomo.

       *       *       *       *       *

Se elle consegue, para alm das raias da minha expectao, fazer com que
um s captivo da Cidade cobre amor  vida solitria, ou que um unico
solitrio aprenda a conhecer alguma parte da sua encoberta
bemaventurana, j no trocarei o pobre gosto de o ter escrito, pelos
maiores triumphos literarios.


FIM DO PROLOGO





Notas de Castilho a este Preambulo


NOTA I

Fontes de estudo


Como, durante a minha estada na serra, me no passava pela mente que
houvesse algum dia de bosquejar esta humilde Odyssa dos sitios e gente
d'ella, nada trouxe apontado a tal respeito. Revolvendo as minhas
memorias no escritas, achei n'ellas consideraveis lacunas, mormente no
tocante  topographia, que eu desejava (quanto dado me fosse) completar.
N'esta pressa me soccorri  officiosa amisade do actual Prior de S.
Mamede da Castanheira, o Rev.^{do} Padre Antonio Joz Rodrigues de
Campos, a cujo zelo devo o ter podido apresentar menos imperfeito o meu
painel, em que faltar tudo,  excepo de verdade nas coisas, e nos
retratos parecena.


NOTA II

Parochos

Na generalidade que estabeleo, por muito convencido, caber fazer
algumas gloriosas excepes; e, sem ir mais longe, o meu Parocho, n'esta
freguesia de Santa Isabel[5], o Rev.^{do} Padre Joz Jacintho Tavares, 
varo de copiosas Letras, tanto sacras como profanas, de sos costumes,
sobredoirados de indole sociavel e amena, e incanavel na caridade. As
reparaes e embellezamentos, com que se tem remoado o templo em que
elle serve, nada so comparados com os soccorros de po, de letras, e de
instruco christan e civil, que j comeam a disfrutar os indigentes da
sua freguesia. Largos so ainda os seus projectos; ajude-o a
Providencia; deixar formoso exemplo aos do seu officio, e muita saudade
filial de mulheres e homens prestaveis, em que elle haver transformado,
pela educao, creancinhas ainda hontem desamparadas, e a pique de
perdimento. No quiz perder este lano de ajudar com um pequeno brado o
clamor da gratido popular, que algum dia ha-de ser alto.


FIM DO PRIMEIRO VOLUME




Notas:

[1] O Doutor de capello Jos Feliciano de Castilho Barreto falleceu na
Castanheira do Vouga a 6 de Maro de 1827, e foi enterrado na capella
mr da egreja parochial. Foram em 6 de Outubro de 1872 transportados os
seus restos mortaes para o jasigo da sua familia no cemiterio dos
Praseres em Lisboa, onde se conservam.

                                                            Os Editores

[2] Existe ainda este cedro que tem alcanado descommunal corpulencia.
Chamam-lhe por l _o cedro do poeta_, ou _do Castilho_.

                                                           Os Editores.

[3] Ovidio--_Os Fastos_--Liv. VI.

[4] Alluso aos amargores da redaco da _Revista Universal Lisbonense_,
minuciosamente narrados _nas Memorias de Castilho_.

                                                           Os Editores.

[5] Castilho morava ento na rua de S. Maral.

                                                           Os Editores.







EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

Sociedade editora

Livraria Moderna

95--RUA AUGUSTA--LISBOA




Obras completas de A. F. de Castilho

XX

O Presbyterio da Montanha

VOLUME II

[Figura]


LISBOA
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
95, Rua Augusta, 95
1905


OBRAS COMPLETAS

DE

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

VOLUME 20.^o




VOLUMES PUBLICADOS:


I--Amor e melancolia.
II--A chave do enigma.
III--Cartas de Ecco e Narciso.
IV--Felicidade pela agricultura (1.^o v.)
V--Felicidade pela agricultura (2.^o v.)
VI--A primavera (1.^o vol.)
VII--A primavera (2.^o vol.)
VIII--Vivos e mortos--Apreciaes moraes, litterarias, e artisticas.
IX--Vivos e mortos (2.^o vol.)
X--Vivos e mortos (3.^o vol.)
XI--Vivos e mortos (4.^o vol.)
XII--Vivos e mortos (5.^o vol.)
XIII--Vivos e mortos (6.^o vol.)
XIV--Vivos e mortos (7.^o vol.)
XV--Vivos e mortos (8.^o vol.)
XVI---Excavaes poeticas (1.^o vol.)
XVII--Excavaes poeticas (2.^o vol.)
XVIII--Excavaes poeticas (3.^o vol.)
XIX--O Presbyterio da montanha (1.^o v.)
XX--O Presbyterio da montanha (2.^o v.)


NO PRLO:


XXI--O Outono.





OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

XX

O PRESBYTERIO DA MONTANHA

VOLUME II

[Figura]

LISBOA

Empreza da Historia de Portugal _Sociedade Editora_


LIVRARIA MODERNA || TYPOGRAPHIA
Rua Augusta, 95  || 45, Rua Ivens, 47


1905




I

A PRIMEIRA NOITE NA SERRA



     ... Ibi haec incondita solus montibus et silvis studio jactabat
     inani.


Vlo? Sonho? Deliro?! Em solitario monte,
que se espanta de ver-me, e cuja austra fronte
nada avistou jamais, no amplissimo horizonte,
de mundo a tumultuar, de cidades a rir...
    n'este ermo ignaro, frio, mudo...
aqui... (deliro? ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo!
    o meu presente e o meu porvir!

    Genio invisivel da montanha,
    de astros, de sol, o ceo te banha;
    o mar de longe te acompanha
    no livre cantico sem fim.
Escada de Jacob da terra ao firmamento,
    a manso tua  monumento
da potencia, do amor, das glorias d'Elom.

Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
se volve, se transforma, e sua angustia exprime
n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
    a variedades sobranceiro
mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
    e do diluvio assolador.

    Silencio e paz comtigo habita;
    o ermo  como o eremita;
    loucas vaidades no cogita;
    ama o seu rustico trajar;
em apparente inercia ama que ferva occulto
    de seus affectos o tumulto,
seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.

Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
pde ouvir de tua harpa a casta melodia,
e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
    sim; mas eu, frivolo, profano,
 solido extranho, affeito ao mundo insano,
    que hei-de esperar? que tenho aqui?

    Toda a minh'alma se entristece,
    e se confrange, e se ennoitece,
    ao ver que a sorte lhe destece
    de um sopro os aureos sonhos seus.
Sonhava applausos, gloria... em desterro desperto!
    sonhava mundo... acho um deserto!
sonhava inda illuses... e escuto-lhes o adeus!

Nufrago, perco a lyra em meio da viagem.
Deso vivo ao sepulcro! Em ti, fatal paragem,
quem me resurgir? Dos montes a linguagem...
oio... escuto... medito... e em vo quero entender
     como uns sons de ignota fala;
qual s penhas o mar, me inunda e me resvala,
    sem me abalar, nem me embeber.

    Oh!  minh'alma taciturna
    que importa,  montanha soturna,
    que de perfumes sejas urna
    da terra erguida sobre o altar?
que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
    que o sol doirado, ao teu deserto
mais cedo suba, e  tarde o desa com pesar?

Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
s ouvindo os tufes e os corvos no arvoredo,
bramirei:--Cresce o tempo! oh! supplicio cruel!
    so mais pesares, mais saudades,
mais estro a arder em vo, mais vises de cidades,
    mais tentaes a dar-me fel!...

    Ai! mundo! ai! eccos seductores!
    Tanto vate a ceifar louvores!...
    Tanto moo a colher amores!...
    Tantos loireiros e rosaes!...
E eu n'esta solido a torcer-me arraigado,
    qual roble que geme indignado,
vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!

Assim ruge, baldo de vingativo nume,
esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
assim, nos gelos sua, agrilhoado ao cume
do caucseo alcantil, seu cadafalso atroz.
    S o abutre de eterna fome,
que o grande corao algoz sem fim lhe come,
    responde em ais  sua voz.

    Fenece o dia. Hora jocunda,
    que eu tanto amava! hora fecunda
    dos cantos meus! por que me inunda
    nova amargura o corao?
Sino crepuscular, tas funreo dobre?
    a serra em luto se me encobre;
a nocturna mudez duplica a solido.

Nenhuma luz scintilla; humana voz no sa.
De estrellas a accender-se o Empyrio se pova;
tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
    de luzeiros um labyrinto.
Ceos! No oio eu troar... seus coches!... O que sinto
     vento em selvas a rugir.

    Calae, fugi, ventos agrestes;
    sumi-vos, lampadas celestes;
    n'um seio a delirios j prestes
    no susciteis mais tentaes.
Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
    vs, astros, cifras de diamantes,
o arcano me aclarae l d'essas regies.

Oh! se  minha razo, contradictoria, altiva,
que s trevas sente horror, e  clara F se esquiva,
de vs, faroes do Ceo, baixasse a crena viva,
que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
    se me volvesseis as ditosas
esp'ranas que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
    com que se enfeita e esconde a Cruz!...

    Tornar-se-me-hiam de improviso
    a solido, em paraizo;
    a magua, em perenne sorriso;
    em alto cantico, a mudez;
a mallograda lyra, o no colhido loiro,
    em harpa augusta, em palmas d'oiro;
e o monte, solio ento, veria o mundo aos ps.

Delirios sempre vos, fugi de um peito enfermo;
tu, s tu, negra morte, has-de ao meu mal pr termo;
ermo para ambies,  inferno, e no ermo;
para a humilde piedade  que elle espelha o Ceo.
    Gentis phantasmas de cidades,
vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
    como um esquife em aureo veo.

    Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
    (embora em saudades me eu queime)!
    O somno, as vigilias enchei-me
    da vossa esplendida vizo.
Val o riso choroso as festas da loucura?
    vinde, guiae-me  sepultura,
crente no amor, na gloria, e rindo  solido.

Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
nem ecco respondeu n'estes coves ignotos.
No, cumes glaciaes, to outros, to remotos
dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
    no, no silvestre seio vosso,
nem de amenas fices apascentar-me posso,
    nem menos as posso esquecer.

    Valor! valor! Quem do futuro
    sondou jamais o abysmo escuro?
    Apenas chego e j murmuro!
    O de que tremo acaso sei?
Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
    aqui me aguardem, recatados,
dias de estro e de paz, quaes nunca disfrutei.

Se alm, no presbyterio, humillima choupana,
(Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
mais que fraterno amor sollcito se afana
em me affar o ninho, a vida em me inflorar;
    se n'um retiro verde e mudo,
por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
    sombras no estio, o inverno ao lar;

    se a solido que me apavora,
    smente o fr vista de fra;
    se em seus recncavos demora
    gente feliz, povo de irmos;
se do antigo viver, das crenas de outra edade,
    vestigios guarda a soledade;
se poesia se vive entre estes aldeos;

se a alegria, serena, isenta de pesares,
como a fresca saude, habita os puros ares;
se em toda a parte ha Deus, em cos, em terra, e mares,
se Deus em toda a parte  Natureza ri...
    corao meu, no desanimes,
gozos que no prevs, e cantos mais sublimes,
    encontrars talvez aqui.

    Ah! sendo assim, que importa a fama!
    Tambem philomla derrama
    sua harmonia s selvas que ama
    longe de ouvintes e do sol.
Cantarei. Meu cantar mais ambies teria
    que a viva, a lustrosa poesia,
de perolas que a flux borbta o rouxinol?



     Castanheira do Vouga

     Outubro de 1826.





II

O SEPULCRO OU HISTORIA DE UMA NOITE DE SAN JOO (POEMA)


INTRODUCO

(QUE  MELHOR DORMIR, QUE LER)


     (Ermo alpestre entre cabeos de rocha e pinheiros, na serra do
     Caramulo.  noite escura como breu. O autor e um arrieiro, ambos a
     cavallo, transviados na montanha.)



I


--Bem lh'o disse eu, perdemos o caminho;
a velha era por fora alguma bruxa.
Logo eu zanguei co'a cara e mais co'a touca!
--Bom; a pobre mulher (que mais querias?)
tres vezes t'o ensinou.
                        --Nem trinta vezes
que eu passasse por elle, o aprenderia;
a no ser pelo rasto que deixasse
esmurrando o nariz por essas lapas.
J levo sem ferrage ambas as mulas;
perdeu-se o norte; no descubro casa,
nem gente, nem caminho, e  quasi noite.
Patro, por meia legua mais ou menos,
no se deixa uma estrada como aquella,
que costeava o monte  beira da agua.
A velha era uma bruxa, e ns dois asnos.
--Dize um que vale dois, mas dois no digas.
Se tommos o atalho em vez da estrada,
toda a culpa foi tua; eu no queria,
porem teimaste; e eu no me opponho a teimas.
--Mas eu por que teimei? pois se a maldita,
com ar de santa, e palavrinhas manas,
nos rabiscou co'o pau no p da estrada
to claramente as idas, as venidas
d'esta serra sem fim, no lhe escapando
lomba, moiteira, torciclo ou brenha,
que a mula mesma entenderia o mappa!
Quem no cahia em tal? cahiam todos.
E de mais quem nos diz que aquelles riscos
no tinham diabrura ou nigromancia
capazes de encarchar um Santo em carne?
E quem me diz a mim que a grenha russa
no vai ao p de ns? talvez sentada
na anca da mula!... _fgite_, demonios!
  Meu Doutor, pelo mundo ha muita coisa;
quem mais anda, mais sabe; e eu no sou tolo,
nem creancinha de honte. Olha o diabo!
bem digo eu; a azinhaga aqui poz ponto;
caminho... era uma vez! M raio a parta!
que havemos de fazer nestas alturas?
--Tornarmos para traz.
                      --Por este escuro?
quer dar cabo das mulas, e estoirar-me?
co'um milho de diabos!!...
                            --Pois fiquemos.
--E as mulas comam terra, como os sapos,
e ns carqueja.
                --As noites so bem curtas.
--Se ao menos se avistasse alguma venda...
--Em rompendo a manhan teremos tudo.
Por agora apeemo-nos.

(_Apeiam-se._)

       *       *       *       *       *

                        --No inferno
estoire entre um milho de Satanazes
o que inventou primeiro andar de noite;
era o maior ladro... Que bulha  essa?
--No  nada; uma pedra que rebola.
--Que rebola!? e sem mo! ser bonito,
mas nem por isso engrao. E aquelle bruto
l em cima no pinhal, que guincha tanto!
--Algum mocho.
              --Ms balas o atravessem,
e lhe acabem co'a casta antes de um'hora;
cuidei que era outra coisa. Eu na taverna
valho por cinco ou seis; mas c perdido,
e ento de noite, um pisco me pe medo.
--Pois dorme.
      --O qu? dormir! co'a bruxa s barbas!
s se eu fsse algum bbado. Esta noite
nem pregar olho, nem largar das unhas
dois penedos; e ao p j est reforo.
--Golgan, j que no foi por nossa escolha,
busquemos contentar-nos co'a poisada,
que inda no  to m como o parece.
Quantos ha menos bem acomodados
por esse mundo agora! uns em cadeias,
outros entre ladres, nufragos outros,
estes em luto, aquelles em doena.
Bastantes em colxes de plumas ffas
revolvem entre hollanda, e sedas, e oiro,
cuidados tristes, asperos remorsos.
Quantos at nas salas mais alegres,
entre as luzes, e as muzicas, e as danas,
mas em face de um sffrego banqueiro,
padecem mais que um reo chegando  frca
No ha mal sem peor; qualquer estado
se se compara,  bom; com cara alegre
suavisam-se os incommodos; um fardo
n'um hombro impaciente  fardo e meio.
Quem no soffre um descommodo pequeno
nos grandes morre; um leve desagrado
d realce ao prazer quando nos volta.
Qualquer estado, e pessimo que seja,
tem seu lado risonho; e  da prudencia
d'entre os picos da silva achar a amora.
_Amen_.--Brava o latim; d ceia e cama.
--A falta d'esta ceia  novo adubo
do almoo de amanhan; e emquanto  cama,
que outra melhor do que esta em mez de Junho?
Nem paredes nem tectos, que nos roubem
a virao da noite apoz a calma;
por entre essa quebrada dos penhascos
l em baixo o mar co'os seus murmurios frescos;
sobre ns, e por baixo das estrellas,
pendendo como um lustre, este carvalho
cravejado de insectos que entre-luzem;
dois rouxinoes ao longe; as lageas, mornas.
V; que soberba camara!; que leitos
desde a origem dos seculos nos guarda
no seio d'esta brenha a Natureza!
--Ao menos no tem pulgas. X, canalha!
leva rumor!  bom pregar de coices.
No durma, Sr Doutor.
                      --No tarda muito
que eu no entre a sonhar Que bellos sonhos
no devem ser os de uma noite d'estas!
--Tenha l mo com isso; o que eu prometto,
para espalhar-lhe o somno,  uma enfiada
de casos que eu passei na minha vida;
to rara, que podia ir  _Gazeta_!


       *       *       *       *       *


Uma vez ia eu s; era em Novembro;
chuviscava e fazia um tal escuro
que era metter os dedos pelos olhos.
(Lembrou-me esta a proposito da mula
escoicinhar sem causa.) E era bom tempo
aquelle; andava Christo pelo mundo;
tinha eu mais duros, que patacos hoje,
e andava o oiro aos pontaps da gente;
tambem... j c no torna! O grande caso
 que n'aquelle tempo era eu solteiro,
e rapaz bonitote; e havia muitas
que me fizessem fogo; eu cuido, e  certo,
que no pelos vintens; nem pela cara;
mas isto de casar co'um almocreve,
seja elle o diabo dos infernos,
parece a todas bem:  uma delicia
ter o seu homem s de vez em quando,
em logar do espio de um pegamao
com residencia fixa em ar de abbade.
Mas... no  bom falar na vida alheia.


       *       *       *       *       *


Como lhe ia contando, era almocreve;
chamavam-me o _Chupista_. Oh! que bolaxa
que eu pespeguei na cara do cocas
que me inventou a alcunha em certa venda!
qualquer creana lhe moia os queixos;
j l est onde o pague Onde ia o ponto?
ah! sim; era almocreve e recoveiro;
e andava com dez machos todo o anno
a correr quanto valle e monte havia
para cobrar o fro aos Frades Cruzios.
Que isto do fro  bom, nem que parea;
uns pagam-lhe borel, outros centeio,
queijos, presuntos, lan, cevada, vinho,
gallinhame por arte do diabo,
ovos, e at o musgo onde se empalham.[1]
No ha n'um pardieiro um desgraado
que no deva pagar alguma nica.
J v donde me vinha a minha alcunha;
mas sem raso;  porque andava s ordens.
Tambem j tenho ouvido alguns autores,
tal como o meu cunhado, e mais uns certos,
que  coisa bem mal feita a tal derria;
Mas bem feito ou mal feito, eu no sou Papa.
Vamos c co'o meu conto.


       *       *       *       *       *


                              Era uma noite,
cuido que j lh'o disse, ali por Maio,
e fazia um luar... que era um consolo.

  Eu saio a meu av; se  boa a estrada,
gsto de andar de noite havendo lua;
c pelas brenhas no, que no sou lobo.
Vinha eu mui fresco em mangas de camisa,
em cima de uma carga de presuntos,
pela estrada real, co'os sete machos
a dormitar ao som da chocalhada.
Vinhamos caminhando em certo passo
de quem gosta da noite, ou vem sem pressa,
ou de quem traz comida a gente farta.


       *       *       *       *       *


Que lhe digo, em abono da verdade,
que servir Santa-Cruz no d desgosto:
pagam bem, fazem festa ao gallinheiro,
vendo os machos no pateo  uma alegria!...
aquillo at os olhos se lhes riem!
do pinga, e de cear, e muitas vezes
vi eu estar vai no vai a dar-me um beijo
o Frade gordo que recebe o saque.
Bom tempo! bom de lei! j c no torna.
No durma Sr Doutor.
                      --No durmo; acaba.
--Acabar! no acabo em toda a noite,
nem que estoire a barriga do diabo.
Inda eu no comecei. Lembra-me um Frade
que havia em Santarem; tinha um cachao,...
por tal signal que at revia enxundia;
e era um demo, o maldito, a beber vinho!...
Mas aquillo! a prgar era uma joia;
um sermosinho d'elle atarantava
e punha tudo azul. Tinha a constancia
de arrumar prgaes de duas horas.
N'um que eu lhe ouvi, depois de falar muito...
(e olhe, foi tanto, que eu, e muita gente,
j tinhamos dormido  regalada)
disse muito pausado: Eu principio.

  Assim fao eu tambem. Todos devemos
tirar das prgaes algum proveito.
Ora pois, no me durma, e ahi vai a historia;
porm tenha l mo, que a levo errada.


       *       *       *       *       *


Nesse dia  tardinha, na estalage
tinha entrado uma velha; era um diabo,
que isso... s visto! pequenina, magra,
muito preta; era um bilro de pau santo.
Tinha pela cabea um leno pardo
atado pela barba, um manteo ruo,
e uma mantinha exotica e de agoiro.
Tinha ento uma cara no sei como;
nem parecia cara; era um n cego
que fazia azoar a toda a gente;
mas muito experta; e uns olhos como um bixo.
Tambem aquella rez tinha no corpo
muita pipa de sangue de creanas!


       *       *       *       *       *


Cheguei eu  estalage, e ia com fome;
vou-me  carga do fro, agarro uns ovos,
mando os frigir com mel, que  papa fina;
e ento para quem tem de andar de noite
dizem que  bom, que livra do catarro,
j se sabe com quatro pingarolas.
Ia se preparando o meu guizado,
e era um cheiro to bom pela cosinha,
que isso no ha dizer. J dois gallegos,
e mais, tinham ceado; andavam tolos
a cochichar, e s voltas pela casa,
um olho em mim, outro olho na tigella,
e eu muito concho a rir, e a pescar tudo.
Basta dizer que me pediram ambos
que vendesse um quinho; e isto em gallegos!


       *       *       *       *       *


  Emfim, cheirava bem, e estava d'alma.
Mas o monstro da velha era uma estaca
ali muito direita ao p dos ovos,
com cada olho aberto, que te parto!
Era mesmo um olhar de inveja e zanga.
Logo eu tive m f co'a tal menina
quando ella perguntou quem era o dono.
Porm quem mal no usa mal no cuida;
sentei-me  meza a codear nos ovos.
Ora agora o vereis: a minha amiga
ama-se n'um canto, mais vermelha
que um pimento, e eu sempre a observar n'ella.
Ferra os olhos em mim com tal quezilia,
que a no ser por temer a Deus e a ella,
batia-lhe co'o prato pelas trombas.
Botava cada lagrima... de punho!
dava cada suspiro, a excommungada,
que punha medo! accendo o meu cigarro,
pago, monto a cavallo, e sigo a estrada.

  Era j noite escura, e um vento frio
como o gran Satanaz.


       *       *       *       *       *


                          Que diabo  isso?
ressona?; ou j na costa anda algum moiro?
--Avante; so as ramas que sussurram.
--Pois deixe-as sussurrar. Vinha eu picando
pela estrada real por ser j tarde,
e a assobiar ssinho o _tiroliro_.
Vai seno quando, estacam-se-me as bestas.
 esquerda, como ahi, ficava um monte;
d'esta banda um pinhal muito fechado;
de sorte que o caminho (e ento mui longe
de todo o povoado) era um soturno,
que nem Roldo o andava quellas horas.
Entrei logo a suar e a arripiar-me;
e as mulas n'um inferno de pinotes
sem qu nem para qu; davam taes rinchos,
que se fundia o cho; pregavam coices,
que assoviavam no ar; que contradana!
era uma groza de diabos doidos,
e eu mais doido, no meio,  bordoada.[2]
Aqui digo eu como dizia o Frade
n'outro sermo de um Santo; _no lh'o pinto
por no ter um pincel_. Mas faa ideia
que tal eu ficaria lobrigando
(eu te arrenego diabo!) uma luzerna
a ir e a vir,  roda, e acima e abaixo,
l longe no pinhal. Que era bruxedo
tive eu logo de f; muitos que m'o ouvem
riem-se, e tal; deixal-os rir; ha bruxas;
que isso sei eu; e ento ali! to tarde!
Por fora era algum sabbado l d'ellas,
que as taes amigas juntam-se de noite
a fazer os seus sabbados, o mesmo
como ns no Natal  meia noite...
Ha muita comezana de creanas,
sarrabulhos de sangue, cambalhotas,
e umas rizadas..... que at Deus se admira.
No meio anda um pretinho muito gordo,
que  o proprio diabo em carne e osso.
Diz ento muita coisa a todas ellas,
d-lhe l seus conselhos, toma contas
do que teem feito, e..... acaba a tal comedia.
Untam-se co'uma untura que l sabem,
transformam-se em corujas e mosquitos,
o diabo e o lume sorvem-se na terra
dizendo boa noite at tal dia,
e ellas voltam-se a casa a armar j outras.
Isto sabia-o eu como os meus dedos.
Lembrou-me a tal gulosa da estalage,
e ento  que dei tudo por perdido.
Deitei fra o cigarro, e entro em voz baixa
(sempre isto do pavor faz muita asneira!)
entrei eu co'as mos postas para as mulas
a pedir-lhes co'as lagrimas nos olhos,
pelas Almas Bemditas, que deixassem
todo aquelle motim, que me perdiam;
que fugissem d'ali, que andavam bruxas,
e que p ante p viessem vindo;
que eu promettia uma rao dobrada.
Partimos. De repente desembsta
d'ao-p da tal luzerna um certo vulto
direito para ns como uma xra.
Com seis milhes de grozas de diabos!
quem havia de ser, seno a velha?
Salta n'um pulo a estrada, atrepa ao monte,
chega ao cimo, e de l muito sizuda
entra a dizer-me adeus, e (t'arrenego!)
a fazer-me uma cara dos infernos...
--E tu viste-lhe a cara em tanto escuro?
--Certo  que lembrou bem; tambem agora
l me faz confuso ter visto a cara.
Escuro? isso era escuro como um prego;
no sei como isso foi, mas vi-lh'a, e vi-lh'a;
assim eu visse Deus! trago-a ainda hoje
to bem encasquetada no juizo,
que a podia pintar, e era pintura,
que urrariam os bois se lh'a mostrassem.
Quer escuro quer no, vi-a, e est dito.


       *       *       *       *       *


Mas o bom no foi isso; o mais bonito
foi entrar de repente o gallinhao
nas canastras da carga em cantarolas,
a romper, a fugir, e eu pila pila
para aqui, para ali, correndo s cegas
sem as poder juntar. Foi se-me a noite
n'esta labutao; de cada canto
sentia um cacarejo, ia s carreiras,
gallinha... por um oculo. J rouco,
moido e desesp'rado, ao romper d'alva
vejo as minhas senhoras mui contentes
todas juntas n'um bando ao p das mulas.


       *       *       *       *       *


Mas alto; esta  peor. No v? repare:
um claro para ali!! d'esta nos trincam;
meu Deus! onde diabo eu tinha a morte!!
--Alegra-te, Golgan; que noite  esta?
--Para ns ambos de Fieis defuntos.
--De San Joo.
              --Ah! sim; pois  fogueira,
e no  outra coisa. Ora o diabo!
sempre tive uma colica soffrvel.
Mas vamos ns a andar, se lhe parece.
Dizia um Padre Mestre ali do Algarve,
n'umas rases que teve com meu tio,
que era barbeiro ento, e o Padre Mestre
era o Vigario d'elle; e elle, o meu tio,
ia fazer-lhe a barba e mais ao preto,
que era um tio que s  bofetada;
mas muito presumido! e ento por moas
dava o grande magano um cavaquinho!!...
Com que emfim, tinha o Padre este ditado:
aonde ha lume ha fumo; e eu ento digo
que por fora onde ha lume ha-de haver gente;
e que onde ha gente ha casa; e toda a casa
tem a sua cosinha, e ento cemos.
E  partir de repente em quanto ha lume.
.........................................
.........................................



II


Eis aqui um dialogo de ensanchas
sem geito, sem sabor, sem fim, sem nexo--
grita o leitor perdendo as estribeiras.
Onde foi isto? ou quando? quem so elles?
onde vo? d'onde veem?


       *       *       *       *       *


                            Leitor amigo,
ha duas horas que soubras tudo,
se o cruel arrieiro o permittisse;
mas vais sabel-o em quanto enfreia as mulas.
Quanto a elle, presumo que o conheces;
o nome do outro autor dir-t'o-hei n'um verso
no peor que outros muitos portuguezes:
Antonio Feliciano de Castilho.
Venho do Minho de assistir a bodas;
recolho me outra vez  Castanheira[3]
a casa do Prior, a fazer versos,
beber-lhe o vinho verde, e dormir muito.
O theatro da scena  certo monte
de que me esquece o nome; o anno, e o dia,
Mil oitocentos e vinte e oito,  noite,
vespera de S. Joo. Se mais desejas,
 perguntar, que eu te respondo a tudo.


       *       *       *       *       *


Mas o melhor (se queres um conselho)
 fazer-me um favor, ao qual protesto
ser toda a vida grato: anda comnosco;
a noite est bellissima; podemos
ir co'o nosso vagar pataratando,
e conduzindo as mulas pela redea.
Mas tens medo ao Golgan; pois boas noites;
fica-te em paz, regala te, que eu juro
que estando em teu logar fazia o mesmo.
Se queres, faze s paginas seguintes
onde vai mais Golgan (porque j agora
hei-de contar a historia por miudo)
faze, digo, a taes paginas o mesmo
que eu, tu, e elle, e ns, e vs, e elles,
fazemos s dos _Martyres_ do Padre,
que so apezar d'isso uma obra prima.
Passa-as em claro, e dize que j leste.
Quem fala assim no quer suor alheio.
E adeus; at mais ver que vou com pressa.
.........................................
.........................................



III


--Olhe l, Sr Doutor; diz um livrito,
que a gente sem falar  como os burros;
e eu digo que diz bem. Quero contar-lhe,
para ver se se encurta este caminho,
o mais que se passou depois da historia.
Mas v picando a mula; olhe a fogueira!


       *       *       *       *       *


Com que, como eu j disse, ao outro dia
vi as gallinhas ao redor das bestas;
torno-as a pr na carga, e digo logo:
A Santa-Cruz no vo vocs de certo;
nem vocs, nem a carga dos presuntos,
nem nada que aqui vai, com trinta infernos!
Servos de Deus to bons, to meus amigos,
haviam comer tal! metter no corpo
talvez quanto bruxedo ha neste mundo!
Deus me livre do mais, que de encarrgos
posso-me eu bem livrar. Corto co'as mulas
direito  Hespanha, e vendo-as a uns ciganos,
com carga e tudo.
              --As mulas!
                          --Pois as mulas
tinham tantos diabos na muchilla
como as gallinhas, os boreis, e os ovos.
Mas eu era rapaz; se fosse agora,
no digo que o fizesse. O divertido
foi andar eu trez annos para quatro
a correr Portugal e Hespanha toda
a buscar confessor; tudo ignorante!
Padre douto, nem um que me absolvesse.
Por fim achei o filho de um cigano,
dei-lhe trez duros, e botou-m'a logo.
Mas ento penitencia no falemos;
se a quizesse rezar, nem toda a vida!
Tudo se arranjou bem; dei-lhe outro duro,
e elle por ter vagar, se incumbiu d'ella;
mas disse-me que havia at ser velho
mortificar o corpo co'um vergalho,
e com muitos jejuns. Se eu fra pato!
Sabe ento o que fiz inda algum tempo?
era correr de chto os meus pedaos,
e depois descanar.


       *       *       *       *       *


                        Deixemos isto,
que no lhe importa muito, e a mim nem nada;
vim para a minha terra apenas pude,
muito pimpo, e cheio como um ovo.
Namorei, namoraram-me bastantes;
por encurtar rases, casei com uma
que era filha do irmo de um primo ou tio
de um meu compadre Abreu, que era cunhado
da sogra d'esta mesma rapariga,
e enteado do irmo do Cura velho;
tudo gente limpinha, muito boa,
e temente ao Senhor, que  todo o caso.
Gastei para impr Bulla os meus tanturrios,
e no foi l to pouco! Veja agora:
para a gente casar largar dinheiro!
 como ir para a India ou para a frca,
e pagar inda em cima aos da sentena.
Perguntei ao Banqueiro a causa d'isto,
disse me elle que a causa era ns termos
quatro humores no corpo, e d'aqui vinha
haver os quatro gros na parentela;
que ella era minha prima, e que entre primos
havia os quatro gros todos inteiros.
No se riu, nem me eu ri; paguei-lhe em peas
no s os quatro gros que se no viam,
mas ainda mais c certa brincadeira.


       *       *       *       *       *


Deixar; fosse o que fosse; emfim, casei me.
Aquelle mez primeiro  uma delicia;
foi todo elle um _cantate_; muito amigos,
muito beijo, e comer; muita broega,
muita romage, e tudo muito e muito.
Nunca houve um par assim to contentinho;
nanja na aldeia e na comarca em roda;
era at amizade escandalosa.
Tanto assim, que o Prior, mais era amigo
de fazer a vontade a toda a gente,
n'um dia santo  pratica da Missa
deu-me um foguete caspite! Disse elle
que marido e mulher com tal namoro
era coisa mais vil que mil diabos.
Fizemos-lhe a vontade antes de muito;
ella entrou-me a azoar com trinta coisas,
e eu a dar-lhe a matar. Por fim de contas,
o asneiro do Juiz, que era vizinho,
tomou isto em trambolho, e ameaou-me
de me encaixar no fundo dos infernos.


       *       *       *       *       *


E ento que lhe parece a entaladella?
Vivia em paz, ralha o Prior; dezanco-a,
vem o Juiz, promette-me a enxovia.
 como o conto de um palerma velho
que ia a p co'um rapaz e mais um burro.
--Bem sei.
    --Pois sim senhor. Com que, tivemos,
no digo bem; teve ella oito ou dez filhos;
e sempre a dois e dois; forte coelha!
Entrei a dar  bruta; acudiu povo,
ella fugiu, mas eu fugi sem ella.
E d'ento para c desandou tudo.
E hoje ando aqui por moo de arrieiro,
a perder noites, e a estrompar as ventas.
Aqui est por que eu digo que este mundo
 coisa muito celebre! uns ovitos
e uma pinga de mel fizeram tudo.
........................................


       *       *       *       *       *


Brava! no ouve uns sinos que repicam?
olhe um foguete! truz! Viva o Vinagre!
e viva a ceia e a cama que esto perto!



IV


Com effeito, assim era; a poucos passos
j se ouvia tambor, gaita de folles,
risadas, bombas. Apressando as mulas
na direco dos sons e da fogueira,
descemos uma encosta, a cujas abas,
entre uns poucos de antigos castanheiros,
uns cinco ou seis pastores se occupavam
a abobadar de murta uma fontinha.
Interromperam logo o seu trabalho
para nos vir saudar; mostraram pena
de ouvir que nos perdramos no monte,
off'recendo  porfia os seus albergues.
No findara a benevola contenda,
se um d'elles agarrando o freio  mula
me no posesse a andar; agradecendo
os desejos dos mais que inda ficavam,
segui affoitamente o nosso guia.


       *       *       *       *       *


Uma ponte de pau que atravessmos
coberta de chores, nos poz  borda
de um trigo j maduro e sussurrante,
contiguo ao seu casal. Quanto eu folgara
de descrever tudo isto! Uma casinha
plantada ahi como risonha ilhota
n'um vasto mar de tremulas searas,
e clara como a neve, ou como a lua
que a espreitava do ceo por entre as folhas
de um esquivo parreiral. Junto s paredes,
de rosas e limeiras revestidas,
canaps de cortia apresentavam
a imagem do descano e a do convite.
No era necessario entrar a porta,
para j conhecer o domicilio
da hospedage e da paz; que as proprias auras,
como que em to poeticas folhagens
se ouviam sussurrar: Bemvindo o estranho!


       *       *       *       *       *


  No longe lhe ficava a sua aldeia
na c'roa de um oiteiro; pensarieis,
vendo-as to perto, e um bosque a separal-as,
a aldeia to brilhante de fogueiras
e esta casa to s mas to alegre,
pensarieis, como eu, ver n'uma festa
moa ausente e feliz, amante e amada,
que entre o prazer commum no quer nem deve
ir desfazer seus pensamentos doces.


       *       *       *       *       *


  Visinho seu mui proximo era o templo,
aos valles do arredor alardeando
na sua torre branca um Anjo de oiro,
e a um lado a Residencia, occulta em parte
n'um ramilhete de altas cerejeiras.


       *       *       *       *       *


  Nunca mo de pintor juntou n'um quadro
objectos mais simpathicos. Tal como
trpido arroio em tacita espessura
das copas bebe a sombra, e envia s copas,
do sol reflexo voadores raios,
do casal a presena alegra o templo;
a presena do templo est lanando
sobre o casal o srio da virtude.
Tudo isto sob um ceo de fertil beno,
sobre um cho de abundancia, e no ar mais puro!
--Meu Pae,!--grita o pastor entrando  pressa--
minhas irmans! um hospede!--


       *       *       *       *       *


                          A tal nome,
como se fosse  voz de alguma fada,
com repentina luz nos apparecem
creanas folgasans, esbeltas moas,
um ancio, e uma velha. Imaginreis
ver Graas, ver Amores, ver Napas,
trajados de aldeos, e honrando os lares
de Baucis e Philmon, que o parecem
na edade e na virtude os meus dois velhos.


       *       *       *       *       *


No mora entre seras a etiqueta;
mas sobre herdada meza de pinheiro
em troco adeja a cordeal franqueza,
o bom desejo adubo da abundancia,
e a amisade dos bons, filha do instincto,
que nasce qual relampago, mas dura.
Deu-se o primeiro instante ao comprimento,
logo o segundo aos commodos; o resto
 conversa, e ao bulicio de tal noite.


       *       *       *       *       *


Vem-nos do forno, envolto co'as risadas,
vital perfume de mellifluos bolos,
que em molles viraes traz a alegria.
Aquella vai e vem compondo a meza;
esta afervora a ceia, e a cada instante
corre  janella que descobre a aldeia.
Juntam-se  bulha os sinos da parochia,
que o sacristo na vespera do Orago
jurou provar seu zelo aos Ceos e  terra.
O festivo repique exalta as mentes,
os meninos no param, correm, gritam,
repartem bombas, furtam-se valverdes,
e rindo ameaam fogo  pipa velha.
A boa annosa me ralha do estrondo,
e o faz inda maior; o esposo enfia
uma sobre outra historias do seu tempo.
O avito candieiro de tres lumes
cobre da meza o centro, e chama  ceia;
a slta sociedade eis se lhe aggrega.
No foi longo o festim, mas cada copo
lhe augmentava o praser. Salve tres vezes,
 dos tres lumes candieiro avito!
quanto amor, quanta paz, que bens, que festas
no tens visto florir em tua casa!
quantas mos to felizes como puras
te ho accendido em noite igual! quem sabe
que de memorias para ti conservas!
Em premio da hospedage aqui te accendam
longas eras em noites semelhantes
dignos de seus avs contentes netos!


       *       *       *       *       *


Iria a muda apostrophe adiante,
mas ouviu-se o zabumba.--Ahi veem! so elles!--
dizem todos, e todos saem pulando.
--Olhae; olhae; nem uma luz na aldeia!
este anno veio tudo. Que alegria
ter o nosso Parocho!
                        --Maria,
d c o meu chapo.
                        --Corre, Pedrinho!
--Onde est meu irmo?
                        --No se demorem!
--Vamos danar.
                --Perdi as alcaxofras.
--Vinde por c; passemos-lhes adiante;
que rancho que l vem!................
..........................................
.................... Golgan, que eu fosse,
no pintara a estrondosa miscellanea
que va do cazal ao Presbyterio.
Lavra nos proprios velhos o alvoroo;
vo co'os mais quasi a par; lavra em mim mesmo,
estranho  festa. O pateo illuminado
nos recebe, e comnosco a aldeia em pezo.
--Viva o nosso Prior!...
                        --Viva!!!...
                                      Mil vozes
restrugem o ecco apenas avistaram
rindo  janella o velho gordo e alegre.
--Viva o Senhor San Joo! viva a alegria!



V


Bate o zabumba; a muzica rebenta;
fogem foguetes pelos ares livres
estrepitando; o campanario ovante
de jubilo endoidece; repentina
por dez partes acceza alta fogueira
dentro de um vasto circulo purpureo
mostra o prazer brincando em cada rosto.
Bello  ver n'este lance as raparigas
compondo mais o leno, alevantando
o chapeo, que o semblante lhes encobre,
dando, como a descuido, um toque leve,
mas gracioso, s flores que lh'o adornam,
e  flor do seio, e ao lao do collete.
Quantos ns ata amor n'esses instantes!
quantos outros aperta! em quantos outros
embebe o espinho de um sutil ciume!

Chiton! temos o Parocho na frente;
e as cangalhas vem mais do que parece.
A _alegria decente_, eis o estribilho
com que recheia as praticas. Se cantam,
co'a cabea e co'o p bate o compasso;
se pulam boa dana em honra ao Santo,
bota fora uma can. Por isso o baile
circula agora a estridula fogueira;
por isso o San Joo vai toda a noite
injuriado em canticos devotos.



VI


Meia noite. Que som mysterioso!
interrupo no baile e nos descantes.


       *       *       *       *       *


Fada das amorosas prophecias,
tu, tu passaste agora em concha aerea
tirada pelo zephyro; sentimos
todos ns tua magica presena.
Boa viagem, Fada, e boa noite!
Salve, hora duodecima; bateste,
e descerrou-se a porta do futuro.
Sua nevoa desfeita em orvalhadas
vai nas plantas eleitas, vai nas flores
mal chamuscadas, vai filtrar nas sortes
beno, certeza, amor, felicidade.
J se interrompem bailes e descantes.
Embebida em potentes nigromancias
toda esta multido por modos varios
exerce escrupulosa altos mysterios.
Mas renasce o alvoroo;  porque os copos
dos bilhetes fatidicos chegaram
da ama nas mos com riso de importancia.

--No falta aqui rapaz nem rapariga--
diz ella;--o senhor Padre escreveu todos,
mesmo  vista do rol dos confessados.
Meia noite j deu; quem quer casar-se,
pode vir vindo.

                        Ao grande rebolio
succedeu a atteno, que a cada sorte
outra vez se converte em gargalhadas.
Por cada par que amor approvaria,
veem disparates comicos s duzias,
e do rebate s palmas e epigrammas.
O proprio bom do velho applaude a tudo,
e por primeira vez da sua vida
encontra em si chorrilhos de finuras.
J pede a uma o bolo do noivado;
quer ser padrinho de outra; e s mais bonitas
quer baptisar de graa os pequerruchos.

Muito custa no mundo o ser discreto
sem descambar o p! coisas escapam...
que  por Deus no haver o Santo Officio,
como esta ao nosso padre:
                        --Olhae, rapazes,
vai n'estas sortes o que vai no mundo:
o acaso e a Providencia, ao que parece,
ambos lem pelo mesmo Breviario.

No foi dos mais christos o epiphonema,
mas fez rir. O Golgan neste comenos
chega, furta uma sorte, e diz abrindo-a:
--Esta, seja quem fr,  c p'ra nostri.

Pede que a leiam; l-se-lhe:--O coveiro.--
Mudo o povo se entre-olha; e de repente
co'as pragas do Golgan destampam risos,
como os que o padre Homero encaixa aos deuses;
inextinguiveis risos! Mas no cede
a chufas nem a agoiro o varo forte;
e com mo bem segura extrae sublime
do outro copo outra sorte:--Ambrosia Trcula.

Ento do pateo o riso clamoroso
deveu-se ouvir no Artabro e Guadiana,
e retumbou nos ceos: Trcula... Trcula.

--Quem diabo  esta Ambrosia?--o heroe pergunta.
--Sou eu--responde a ama.
                       --Est brincando!
 talvez sua neta ou titrineta.
--V-se, tolo.
                --Olhe c, senhora tia,
no vai a arrenegar; no lhe pergunto
por cara, corpo e modos, que so lindos;
mas tem fazenda ou bois, ou oiro, ou chelpa?

Com o desdem mais dramatico, a matrona
voltou costas; e o bbado prosegue:
--S Reverendo, no lhe aceite os banhos,
que eu sou casado, e ponho impedimentos.

Obriguei-o a calar-se. Eis que me off'recem
tirar tambem; tirei; quem tiraria?
uma das filhas do meu bom Philmon.
Recebi parabens de todo o povo;
deixei-o bem disposto a divertir-se,
e tornei co'o o meu _sogro_ ao nosso albergue.
Instou que me deitasse; respondi-lhe
que em noite de San-Joo ninguem se deita;
que alem d'isso a jornada fra curta,
e sem nimia fadiga; ultimamente
que, pois que elle esperava a mais familia,
esperava eu tambem; no sendo airoso
faltar  noiva no primeiro dia.
--Cedo, mas s co'a clausula--disse elle--
que inda amanhan sois nosso.
                      --Assigno.
                            --Bello!


       *       *       *       *       *


Ento toca a palrar at que venham.
Saimos, que faz calma; alem, na eira,
sobre a alta palha do centeio novo
tomaremos a fresca e as orvalhadas.


       *       *       *       *       *


Disse, e fez se. Que ceo! que paz! que noite!
na molle aragem das fagueiras horas
meu corao feliz desabroxado
me enchia de um perfume egual ao vosso,
nocturnas flores, que o gosais sosinhas.
Quem podesse apanhar, prender na vida
estes momentos lubricos, momentos
que s caem do ceo durante a noite,
e s na solido! Temi perdel-os
co'a triste distraco de mutuas falas.
Lembrou-me haver notado no meu velho
um genio amigo de contar historias;
pedi-lhe uma qualquer, bem decidido
a deixal-o  vontade espanejar-se
sem lhe dar atteno; mas enganei-me,
Pondo o rosto na mo, nos cos os olhos,
entra a buscar pela memoria antiga
algum caso mais raro; e como desse
casualmente co'a vista em certo lume
n'um cabeo remoto,


       *       *       *       *       *


                   --Ouvi--me disse;--
por aquella luzinha l ao longe
lembra-me um caso, e um caso que foi certo,
passado ali no Minho ha largos annos.
Inda eu conservo em casa uns Breviarios
de um Padre irmo da minha av materna,
que podero servir de documento.
Elle mesmo o escreveu nas folhas brancas
do principio e do fim dos quatro tomos.
E era um clerigo honrado, o que escrevia;
merece tanta f como a Escritura.
Diz elle ento ali (nem  s elle;
minha Av sua irman dizia o mesmo):
que esta nossa familia inda descende
da Rosa de quem fala a dita historia.
A minha av foi Rosa, e tinha o nome
de sua me; a minha me foi Rosa;
a vossa _noiva_  Rosa; e n'esta casa,
querendo Deus, sempre ha-de haver o nome.


       *       *       *       *       *


Depois d'este preambulo de Rosas,
veio a historia, e encantou-me; ou fossem causa
hora e sitio, ou a amavel singeleza
com que narrava o historiador das medas,
ou j disposio com que eu me achasse.
Creio que sim: do espirito do ouvinte
vem mais de meio o merito das obras.
Por exemplo: da Eneida o livro quarto
dias ha que me enfada; ha tambem dias
em que se atura o _Italico_ do Padre;[4]
e em que se entende um pouco a plrea bruta
que aos brutos deu do amavel Lafontaine.[5]
Nada parece mal, trazido a tempo;
fora de tempo, tudo. A mesma coisa
entre obras e leitores acontece,
que entre os garfos e as arvores: se enxertam
quando o no pede o tronco e o veda a lua,
adeus ramo bastardo! e se ao contrario,
penetra a seiva toda, e pula o ramo.

Fosse o que fosse, ouvi com tanto gosto,
que protestei contar-vol-o a meu modo;
e o poema seguinte  o desempenho.
Tivesse elle, o que em vo lhe hei procurado,
da prosa do meu sogro o tom singelo,
talvez, leitores meus, o relerieis.

Inventar, descrever, compor os versos,
so os tres ps, da trpode de Apollo.
J sabereis do Reverendo Kinsey
que eu no tenho inveno; que nada pinto
co'a verdadeira cr da Natureza;
que os versos meus so bons, mas que aborrecem;
o que no tira que um pota eu seja
digno de ser notado entre os que vivem.
Ora, quanto  inveno d'este poema,
bem vedes que a no ha, ou se a ha que  d'outrem.
E quanto s descripces, fiz o possivel
para no metter mais que as do meu _sogro_.
Mas faltava o melhor, e o mais difficil:
versificar  moda. Atirei fora
o Virgilio, o Racine, e o Metastasio,
gebos todos montonos, que enfiam
os versos bons e os optimos aos centos;
atirei-me ao Filinto e aos Filintistas;
estudei, fiz ensaios, compuz paginas
de embrxados velhissimos e esdruxulos,
e no foi sem proveito o estudo acerrimo.


       *       *       *       *       *


Perdoae se este livro inda vai falho
d'esses donaires que travssos fogem
de mal expertas mos; soffrei-o em quanto
vou destilar sobre outro o _Elucidario_,
qual se espreme um limo sobre um guizote.


Abril de 1831.

FIM DA INTRODUCO[6]




III

EPISTOLA

A JOO EVANGELISTA PEREIRA DA COSTA

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)



Da paz de um ermo ao turbilho da crte
a Musa de Castilho  do seu Costa
saude e amor. J outra primavera
se enflora, a seu pesar, desde que ausente
pede aos montes a irman, que a no suspira,
e dorme ao lado de um feliz ingrato.


Em quanto a minha, ignota, emprega os ocios
em cantos cujo ecco alm no passa
....................................


1831--Abril, 21.




IV

O PRESBYTRIO



Salv, principio e fim dos meus passeios!
Salv,  tu, cujo tecto, alva casinha,
cobre ha perto de um lustro os meus autores,
meus castellos no ar, meus faceis versos!
Salv, co'o teu rosal; co'as tuas limas,
festivo ornato das paredes brancas;
co'o teu porto patente oppresso de heras;
e co'a tua nogueira; e co'o teu cedro,
braso futuro do obumbrado pateo!
Salv outra vez, meu presbytrio! Salv!


       *       *       *       *       *


Hoje, que o caprichoso do meu estro
(bem sabes se elle o ) deixa inconstante
versos nda no chco, outros que apenas
vo da casca a sahir, outros que breve
teem de fugir do ninho em vos livres,
entrou, mal veio a aurora esclarecer-te,
a doidejar-te em roda, a namorar-te,
qual borboleta ociosa ou leve abelha.
Pois que elle o quer.... cantemos-te; e perda
se o canto falador, transpondo os cumes
das tuas cerejeiras, fr mais longe
revelar tua humilde obscuridade.


       *       *       *       *       *


A antiga mediania, a segurana,
a paz, o amor dos Ceos, o amor dos homens,
genios foram, que em benos presidiram
aos alicerces teus. De Prio monte
no foi mistr que entranhas te enviassem
cho, columnas, e abbadas, e estatuas;
tuas portas sem chave no cresceram
l nas florestas do hemisphrio opposto.
Foi visinho pinhal teu slho e tecto;
deu-te paredes mais visinho oiteiro;
portes e meza um cedro bom da extrema.
No custaste nem lagrimas a pobre,
que  fora te cedesse a choa avita,
nem odioso suor; e no se dormem
somnos melhores em Belem nem Mafra.


       *       *       *       *       *


Que importa que no centro d'estes ermos
vivas to s, que apenas descortines
n'um dos altos d'em torno esquiva aldeia?
Tu e o templo co'as messes que vos cingem
bastais no quadro agreste; em vs affluem
(como em sua Queluz) nos festos dias
ondas e ondas de amaveis saudadores.
Os rebanhos ociosos no desdenham
tjo em flor, que te doira o cho das mattas,
d'onde envltos co' os trmulos balidos,
veem cantos de amorosas guardadoras
endoidecer teu ecco.
                   Os caminheiros
abenam-te a sombra; aqui teem fonte,
que em tua relva, ao fresco das parreiras,
detm, dessedentando-as, caravanas
que vo ou veem no alpestre Caramulo.


       *       *       *       *       *


O anjo das flores liberal te arqueia
de bordada verdura as rescendentes
claras janellas.
                 Um bulicio manso
de amigas vozes teu recinto alegra.
Na sua tpida choa os bois ruminam
ante o feno em montes; dorme no pteo
farto esquadro lanigero; ao sol psto,
co, dos lobos terror, te vela as noites;
teus gallos as demarcam vigilantes.
Co'a luz primeira arrulha-te alvejando
cypria nuvem plumosa; e apenas saltam
da dextra mo mesquinha os gros doirados,
em torno da gentil madrugadeira
de toda a parte os hospedes revam.
Bicam por entre as pombas  porfia
a gallinha de filhos rodeada,
o manso grasnador do aquoso tanque,
o vaidoso per, que ri cantando,
e vs, e vs, mais vivos do que todos,
no chamados, mas sempre a ns bemvindos,
passarinhos do ceo, turba sem dono.

       *       *       *       *       *

Singelo presbyterio, oh! como te amo,
co'o teu ar casaleiro! Amo o teu forno,
to social  noite; a simples sala,
quasi sempre deserta; a livraria,
deserta rara vez; estas alcvas,
que enche um s leito; e a adega, assoviada
do alvo spro do Norte; e o fuso, e a pia
da cheirosa vendima; e o teu celleiro,
alto, arejado, e to patente aos pobres,
como as portas do templo convisinho.


       *       *       *       *       *


Floresas para o Ceo e para a terra
nos inconstantes seculos! floresas,
feliz, co'o feliz dono, edade longa!
E se, l no futuro, algum amigo,
scio dos dias bons, saudoso e triste,
torcendo a estrada, a te pedir viesse
novas do teu cantor,--Amou me, e amei-o--
lhe dirias mostrando-te; e--Seus ossos--
juntaria o teu velho--aqui descanam.

       *       *       *       *       *

Sim; apraz-me cuidar que inda os meus restos,
gratos aos bons d'este recanto obscuro,
onde escapei no seculo de sangue,
c ficaro n'este ocio, inda alguns dias
do simples montanhez talvez chorados.

       *       *       *       *       *

Oh santa perseguida Liberdade,
onde te achei!.... Onde no vivem homens;
n'um torro bravo que no chama invejas.

       *       *       *       *       *

Em quanto, ora que a noite o ceo regela
humida e turva, tantos ricos enchem
de bocejante enjo as assemblas,
e tantos, tantos miseros, sem lares,
sem conslo, sem po, sem voz de amigo,
s reos de patrio amor, dormem nas furnas,
pelas praias do Oceano, e pelas rochas
(sublimes troncos pelo p cortados)...
tua clara fogueira nos aquece;
graas, graas a um Deus!
                              Assim vagava
sobre o universo undoso a arca do justo.

       *       *       *       *       *

Ns, depois de annos tres, inda espermos.
Ainda do trovo eccos retumbam.
Ainda os escarceos assoladores
remugem l por fra. Ainda a pomba
co'o ramo de oliveira inda no volve.

       *       *       *       *       *

Oh santa perseguida Liberdade!
Oh! Se eu podesse, a trco dos meus dias,
restituir-te  minha Patria!....

       *       *       *       *       *

                           Basta.
Esperemos ainda. Oremos sempre;
e talvez que no tarde a grata aurora,
em que, a adejar da serra pelos pincaros,
venha de longe a nuncia das venturas,
a pomba com o seu ramo de oliveira!...

Castanheira de Vouga

    Maio de 1831.





V

A LYRA DO DESTERRADO

(Fragmento encontrado entre os manuscritos de Castilho)



Era a noite dos finados;
sombria noite de outono.
Entre sinos acordados
l jaz Roma entregue ao sono;
seus luzeiros apagados.

Do ceo pelo rto manto
s brilham frouxas estrellas;
sai a custo o claro santo
dos templos pelas janellas;
e Petrarcha vela emtanto.

Vla Petrarcha, e suspira
no leito amoroso e ermo;
olhos na vla que expira;
saudades no peito enfermo;
nem gloria sonha, nem lyra.

Qual raio slto de lua
por mveis aguas vibrada
n'um bosque inteiro fluta,
tal adeja no passado
a saudosa mente sua.

Quem dir seus pensamentos?
a douta lingua est muda.
Que paixes, que sentimentos,
no rosto, que aspeitos muda,
veem transluzir por momentos!

Ora  dor, ora  sorriso,
esperana, amor, transporte;
queixas, ternuras diviso;
desce aos abysmos da morte,
va areo ao Paraizo.

No falar o Vate agora
co'os labios que move apenas!
Que torrente abrazadora!
que amor! que incendidas penas!
quo nova a paixo no fra!

Vai a noite adiantada;
humido vento assovia;
treme a luz quasi apagada.
Do gro Cantor que vigia
ferve a mente a sonhos dada.

--Es o templo conhecido
que os meus destinos encerra.
A me terna, o pae querido,
c m'os tem no seio a terra.
C vi Laura, e fui perdido...
...............................

Castanheira do Vouga
    1830...(?)





VI

EPISTOLA

(Fragmento achado entre os manuscritos de Castilho)



A minha primavera emfim renasce.
T n'este horror selvatico dos montes
roupas traja nupciaes a Natureza.
O ceo azul, o ar morno, as aguas puras,
tudo nos diz amor; dizem-n-o as aves
chalreando ao florir das alvoradas;
bala o rebanho alegre; armento o muge;
na folha nova zphiro o cicia;
a camponeza em meio de mil flores,
que lh'o exhalam balsamico, o suspira,
e ao vioso tapiz,  sombra vasta
macia e tentadora lana os olhos.

Em quanto o rouxinol, Orpheu plumoso,
enleva a fonte e as arvores nocturnas,
cantando amor, da lua ao raio incerto,
lies que mais de um ente ao longe estuda
(e pratica talvez); em sons de lyra,
solitario eu tambem, lies de affectos
de c te envio ao centro da cidade.
N'esse ruidoso vrtice de povo,
de vos praseres, de negocios futeis,
a geral rotao te arrasta s cegas;
 dever da amisade erguer-te aos olhos
luz, salvadora luz. Nufrago entre ondas
pode no ver a tboa s vezes perto;
pode a praia ignorar, e tel a em face.
Tboa amor te lanou da praia firme;
ledo e fausto Hymeneu te est chamando.
.......................................





VII

A ROMARIA



L vem Maio rosado. J floreja
nas planicies, verdeja pelos montes;
 o mez de Amor,  o mez de Philomla.

Aureo amanhece o dia suspirado
da romaria annual; lguas em roda
j tudo  festa, esp'rana, e regosijo.
As povoaes, desertas. Por estradas,
por torcidos atalhos, por oiteiros,
correm de toda a parte ornados bandos.
L retra nos eccos aturdidos
a matinal girandola ruidosa;
acorda ao longe a torre com repiques;
um povo de cem povos misturado
enche a vozeada selva, a acceza ermida,
e de ondeado matiz cobre o terreno.
Arfa ao sol, no alto mastro volteando,
triumphante bandeira alvi-cerlea.
Vai e vem, ora chega, ora se allonga,
no est em nenhum sitio, e assoma em todos,
a alma da festa, a gloria do Gallego,
a aguda gaita tmida e franjada,
que ao rufado tambor scia, repete
a moda velha e alegre, amor dos campos.
Em vidrado alguidar reluzem n'agua
os doirados tremos, que afadigam
com compradores a afrontada tia.
As navalhas e anis, o apito, o espelho,
se assoalham mais alm; na alva toalha,
alva e folhuda, esto chamando o exul.
Em cima de seus carros triumphantes
os laureados tonis, reis da alegria,
do n'um fogo perenne a vida a tudo.

Aqui se ouve o descante ao desafio,
que a viola ora segue, ora acompanha.
Ali se apinham para ver as danas,
que a discorde rabecca entorta s vezes.
L, se entorna o licor em puros vidros;
ao p se adoa a fresca limonada.

Aqui se comprimentam; alm chamam;
um se perde, outro se acha, outro convida.
Este corre; esta pra a ataviar-se,
por mostrar o cordo e o leno novo.
Estirados na relva os velhos palram;
grita o rapaz. O amante, recostado
ao pu, por onde um brao lhe serpeia,
faz longa crte  tmida futura,
que em resposta de amor lhe d tremos.

N'isto va o foguete, e atra as nuvens.
L sai a procisso; l foram todos.
Ah! depois do jantar comido s sombras,
cada um levar, volvendo a casa,
gratas lembranas para o anno inteiro.





VIII

O DOMINGO GORDO DOS MONTANHEZES

OU

A MATTA DE S. SEBASTIO


     Versos na plantao de uns carvalhos junto  egreja de S. Mamede da
     Castanheira do Vouga pelos rapazes solteiros da freguezia no
     Domingo do Carnaval de 183...



I


N'este dia, em que o povo tumultuando
nos casaes, nas aldeias, nas cidades,
troca a enxada, o tear, o livro, a agulha,
por copos, danas, mscaras, e risos
nas saturnaes christans; quando se espraia,
desde o seio de Roma aos fins da terra,
de um praser contagioso alta vertigem;
por que retreme ao golpe das enxadas
sob os meus ps a solitaria encosta?

       *       *       *       *       *

Saude a vs, a vs louvor. Bemvindos,
montanhezes, fieis aos priscos usos!
O cntaro do estylo ahi est coroado,
risonho e prestes a inundar os copos;
o prmio  vista vos redobre as foras.


       *       *       *       *       *


Rasgae co'o duro ferro a terra dura;
de vossos paes a matta veneranda
em torno de seu santo antigo dono
se accrescente por vs. Plantae, que  tempo,
no cho, sagrado de suor devoto,
 presente annual, que o Ceo prospre.


       *       *       *       *       *


Onde quer que elle jaz, abenoemos
as cinzas do homem bom, l d'essas eras
que a pia usana introduziu primeiro.
Quanto a sua virtude era risonha!
--Cada solteiro plantar n'este ermo
mais uma arvoresinha de anno em anno,
que l em cima encontrar seu premio.
Oh! estes rogos, sim, este pedido,
doce e desint'ressado, unco respira;
manda mais do que as Leis; morrer no deve.


       *       *       *       *       *


Produz, produz a miudo,  Natureza,
por teu bem, por bem nosso, homens como esse.
Haja quem diga ao joven par, que s aras
sobe apenas amante, e desce esposo:
--Hoje, que so j fruto esp'ranas de hontem,
entrae sorrindo pelo cho da vida;
plantae, plantae um'arvore que o lembre.


       *       *       *       *       *


Quando a cabana festival se enrama,
se enflora a meza, e os aldeos visinhos
veem festejar na casa um filho novo,
a mo paterna, de praser tremendo,
orne de um novo tronco o prdio avito.


       *       *       *       *       *


Depois de suspirada e curta ausencia
volve um irmo das terras estrangeiras?
Convalesce um parente? Em bem se acaba
suado, volumoso, eterno pleito,
que empobreceu o av, o filho, e o neto?
Fizestes o adversario amigo vosso?
Sorriu-vos a ventura?  farto o anno?
A srdes Reis, alreis monumentos;
que vale um monumento? O homem dos campos
melhores pode erguer a menos custo:
plante sobre o caminho arvores frteis.
Por elle o passageiro ardendo em calma
ache a sombra hospedeira que o recreie.
Por elle o pobre, que seu po mendiga
de casal em casal, de monte em monte,
que no v ceo, nem lar onde se aquea,
nem feno onde descance, e em todo o mundo
s tem por patrimnio a caridade,
ache a fruta a pender em curvos ramos,
a acenar-lhe, a off'recer-se-lhe, a sorrir-lhe.
Assim, do bem de um s germinariam
mil bens communs; e do praser de um homem
o publico praser, publicas benos.



II


Se tendes de nascer, nascei mui breve,
sensiveis coraes a quem Deus guarda,
a gloria de influir eguaes costumes.
Desde j nossas lagrimas de affecto
correm por vs; ao seio do futuro
ns vos lanamos desde c louvores.



III


Sentemo-nos, em quanto os vossos filhos
aqui se embebem na tarefa honrosa,
sentemo-nos  sombra, a vs bem grata,
do carvalhal que as vossas mos plantaram,
homens das cans, antigas testemunhas
dos tempos que no so.


       *       *       *       *       *


                          Vs, deputados
das mortas geraes aos vivos de hoje
como preges propheticos; thesoiro
de saudades, de dor, de experiencia;
bons velhos,  vossa alma taciturna
aprazem mais que a festa os pensamentos.


       *       *       *       *       *


Falae: d'onde vos nasce essa tristeza
profunda a um tempo e vaga, amarga e doce?
Ser de enfeitiada sympathia
que nos attrai  terra, ao cho da vida,
cho sempre cubiado e sempre ingrato?


       *       *       *       *       *


O corao, zeloso da existencia,
compara os dias seus do tronco aos dias,
e a conta desegual o opprime e o fecha.
Annos a ns, e seculos aos bosques!...
Planta o pae, mas a sombra hospda os filhos;
netos, que no ver, gosaro d'ella;
e indiff'rentes incgnitos vindoiros
riro contentes ao folhudo abrigo.


       *       *       *       *       *


Mas, velhos, mui ditoso o que em seu predio
dispe arvore frtil de esperanas,
que ir legada aos filhos de seus filhos.
Prophecias de amor lhe expande o seio,
sorri, e ama o que  seu, na esp'rana ao menos.
Mas feliz egualmente o que em seu predio
possue vaidoso um tronco hereditario.


       *       *       *       *       *


Na rga, e ao vir da flor, e ao dar do fruto,
como ha-de no pensar em seus maiores?
Um lh'o plantou, os outros lh'o trataram;
Como ha-de recusar-lhe uma saudade,
um suspiro, um suffragio, um elogio?
A gratido medita  mesma sombra
onde j meditra o amor paterno.
Esta arvore mortal  o santo marco,
em que se juntam, se entrelaam, crescem,
dos idos o interesse e o dos vindoiros;
n de affeio, que os seculos reune.


       *       *       *       *       *


Vedes vs essa me, que ha tantos annos
chora um filho alem-mar, em longes terras?
Mostrae-lhe um passageiro a dar  vella
para o porto feliz; com que ternura
lhe no dar, chorando, um longo abrao,
que leve, que lh'o entregue, ao seu querido,
e todo o amor de me lhe exprima n'elle!...
E com quanto alvoroo o desterrado
no cingir o amavel mensageiro!...
Eis o emblema da arvore, cruzando
viva e lembrada o Oceano das edades,
mensageira de int'resse aos paes e aos filhos.



IV


Qual de vs, repoisando n'esta cama
de folhas mortas, qual de vs, no meio
d'esses troncos musgosos, seculares,
no viaja com o espirito espraiado
por esse mundo antigo e antigos homens?
Sim, vossa alma se apraz, phantasiando
de lhe restituir quanto houve d'elles:
uma vida, uma choa, herdade e patria.
Deslembram cans; rugosas faces riem;
reviveis n'um minuto annos de infancia
sob a affeio de um pae, de um pae nos lares;
sem cuidados, sem prole, e sem temores,
entrais folgando o limiar da vida.
Podesse n'este ponto o pensamento,
como ave em ramo flrido e viscoso,
deter-se a recordar, ficar pregado!
Vs suspirais?!... desfaz-se-vos o sonho,
e a extincta gerao recai nas campas.


       *       *       *       *       *


Mas qu? d'esses antigos plantadores
nada mais resta alm de uns troncos mudos
n'este universo movedio e instavel?
nem uma s lembrana, um dito, um nome?
Tudo passou sem mnimo vestigio,
como os sons leves de um descante ao longe.
...........................................



V


Bons aldees, estas sombras regaladas
vos falam nos avs; porm comigo,
comigo, extranho, e novo em meio d'ellas,
conversam no aureo tempo a que assistiram;
recordam-me as edades do Universo,
e os varios povos, e os paizes varios,
contemporaneos do nascente mundo.


       *       *       *       *       *


Intonsas, invioladas, venerandas,
outras selvas, como esta que nos fecha,
fecharam do homem a primeira origem.
Sob as verdes abbadas immensas
as velhas tradies nol-os descrevem
pobres e alegres, ns e satisfeitos,
saboreando em ocio a glande e a fonte,
dormindo sobre a folha, e sem pedirem
outra casa, outro templo, outra cidade.


       *       *       *       *       *


A pouco e pouco o numero crescia,
minguando a pouco e pouco a singeleza.
Infecta o vicio  terra; os ceos se mudam;
a um Maio eterno as estaes succedem;
o ar se gela e accende, alaga e silva;
j bravejam lees, j bramam tigres;
o homem se acoita ao seio das cavernas.


       *       *       *       *       *


Vs, troncos, at ali seus companheiros,
acuds a servil-o; e em quantos modos!
l, crepitais em rtila fogueira;
aqui, das feras prohibs a entrada;
dais uma clava ao caador valente;
na servial cortia um bero aos filhos;
leitos a amor, assentos  velhice,
aos enxames um lar, um copo s festas.


       *       *       *       *       *


Das precises ao grito, o engenho acorda;
l surgem povoaes, curraes, tugrios,
e uma capella s rusticas deidades.
L rompe o novo arado a terra dura;
l geme, a transportar enormes pezos,
o carro, e sulca atnitos caminhos.
O genio excita o genio; o exemplo, o exemplo;
a rudeza se pule; as artes crescem;
a especie racional das mais triumpha.


       *       *       *       *       *


As geraes do ceo, do mar, da terra,
tudo  j seu; os campos lhe obedecem;
faltava o Oceano; affoita quilha o rasga.


       *       *       *       *       *


Ento foi, que estas arvores, to uteis
no patrio continente, abriram vo
sobre o liquido abysmo a novos climas.


       *       *       *       *       *


E em que parte do globo, arvore excelsa,
te podes presentar, que no recordes
uma faanha, um culto, um gro successo?


       *       *       *       *       *


Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
que foste invicta clava em mo de Alcides;
v-te, suspira, bate o cho raivando
de achar-se escravo, e de no ter-lhe as foras.
Na Grecia? Mas o Grego inda hoje conta
do arvoredo Dodnio as mil respostas,
o passado e o porvir patente a todos,
e o livro do destino aberto ao mundo.


       *       *       *       *       *


Na Ausnia? Mas Cybelle amou teus ramos;
Roma os sagrou a Jove; e, fulminada,
eras tremendo agoiro a todo o Imperio.
Em Roma? E a c'ra civica?


       *       *       *       *       *


                              Nos campos?
E Phlmon, o justo, o caro aos deuses?


       *       *       *       *       *


Nas Gallias? em seus barbaros oiteiros
tu, s, eras o altar, o deus, e o templo.


       *       *       *       *       *


Na Caledonia, em Morven, junto aos lagos,
sobre os cumes,  beira das torrentes?
L tu viste Tremnor, Fingal, e os bravos,
reunidos na vespera do sangue
em nocturno festim que allumiavas,
quando na harpa dos bardos reviviam
os feitos dos heroes do antigo tempo.


       *       *       *       *       *


Salve, eleito Israel! Eis-nos em campos
de Sichem. Vejo os principes e os velhos,
os juizes, as tribus, apinhar-se
em torno ao tabernculo de Sila.
Por cima d'este mar ondeado e vivo
reina de praia em praia alto silencio.
Sublime como o cedro do deserto,
se levanta Josu, brao do Eterno,
em nome do Senhor, que o manda e inspira;
os favores do Ceo recorda ao povo;
renasce a F; os idolos se arrazam;
--Gloria ao Deus de Israel!--vozeia a turba--
ao Deus dos nossos paes, dos nossos netos!
--Erga-se um monumento,--exclama o chefe--
que, se infieis um dia os esquecerdes,
vos envergonhe, e acorde os votos de hoje.
E a monumento pe no logar santo
enorme pedra  sombra de um carvalho,
que abrigava co'a copa o santurio.[7]
Despede o Povo, e em paz contente expira;
em paz, que j no v perjrios novos.


       *       *       *       *       *


Escrava de Madian a plebe expia,
na miseria e no opprobrio, os males torpes
que fez ante o Senhor. Mas inda existe
um justo, a quem Deus fie o libertal-a:
 Gedeo,  o Josu segundo.[8]
Este, em quanto seu pae lana aos caminhos
medroso olhar  espera do inimigo
para fugir com elle, ajunta  pressa
o trigo que limpou.
                    V de repente
um Anjo, que debaixo do carvalho
se assenta, e lhe repete a lei do Eterno.
Esse mesmo carvalho  testemunha
da belleza do alado mensageiro,
da voz de salvao mandada ao Povo,
e do holocausto acceito e posto em cinzas,
e do altar, a quem _Paz_ foi dada em nome.


       *       *       *       *       *


E este, que to frondoso opca os valles,
por que o rodeia um bando taciturno
dos fortes de Galaad? as suas armas
jazem quebradas; sua dor vai funda;
dos olhos tristes para o ceo voltados
pelo rosto amarello lhes escorre
grosso pranto, que alaga as f'ridas frescas.
Choram Saul, e a rgia descendencia,
que mortos no combate aqui descanam.
Para o Monarcha agigantado e invicto
nenhuma esttua se erguer na campa.
Sua columna e funebre palacio
preparou-lh'os com tempo a Natureza:
o tronco, rei da selva, o est cobrindo.


       *       *       *       *       *


Mas quanto  mais tocante o que se eleva
nas faldas solitarias da montanha!
Ali Dbora jaz; ali Rebecca
chora na morte a que a nutriu na infancia,
ama no corao, me nos extremos,
de seus primeiros e ultimos segredos
confidente fiel no lar paterno,
querida socia na feliz viagem,
e no lar conjugal seu doce allivio.
Arvore a tanto affecto consagrada
na affectuosa Biblia ir sem nome?
o _carvalho das lagrimas_ lhe chamam.



VI


Que uso to doce aos coraes piedosos!
Reverdecei, costumes do bom tempo,
quando o Rei, o pastor, o chefe, a virgem,
tinham sob um ceo livre a sepultura.
A Morte, menos barbara do que hoje,
com avarenta mo no ferrolhava
sob um tecto pezado, entre altos muros,
as prezas, c de fra em vo pedidas.
No era um templo um crcere de mortos.
Dormiam mollemente em terra franca,
em jardins frescos, em copadas selvas.
Esta esp'rana adoava um pouco o amargo
do ultimo trago aos labios moribundos.
Este bem, to pequeno em mal to grande,
quanto valor no tinha aos que ficavam!
O irmo, o pae, o filho, o amigo, o esposo,
podiam livremente, a toda a hora,
ir regar de seu pranto amadas cinzas,
fartar saudades, inflammar lembranas,
delirar doce a noite, e o dia inteiro,
e de praser a um peito onde palpitam
supersties de amor ou de amisade,
dizer:
          Este tapiz relvoso o cobre;
esta ave lhe gorgeia; esta aura slta
o refresca; esta lua apraz-lhe aos manes;
a primavera m'o visita, e espalha
tambem por cima d'elle o seu regao;
esta violeta  sua, hei-de colhel-a;
d'est'arvore a raiz sente-lhe a fronte,
nutre-se do seu p, vive por elle,
 elle mesmo em parte; arvore amiga,
recebe o nome caro, hoje sem dono,
toma os abraos que no posso dar-lhe.


       *       *       *       *       *


Sim, sim, convm um bosque s sepulturas.
A arvore, Deus a fez como passagem
do mundo que respira ao mundo inerte;
commum co'os animaes, commum co'a terra,
vive e no sente; habita e ignora o mundo,
sympathisa co'a morte e co'a existencia,
 grata s cinzas,  saude  grata.


       *       *       *       *       *


Que frreos somos ns, que a um como vago
atiramos sem d perdidos, mixtos,
o detestado, o amigo, o estranho, e o nosso!
Se alguem da voraz Sylla aos sorvedoiros
arrojasse o que os seculos pouparam,
bronzes, escritos, marmores romanos,
ou, derrotando porticos, columnas,
theatros, colliseus, palacios, templos,
em serra inutil amontoasse as pedras,
quem no vertra em lagrimas o sangue?
E ante a nossa affeio teem menos pezo
que as ruinas de Roma as que so nossas?!...
D-se tanto aos ditosos, aos contentes,
espectaculos, jogos, aureas festas,
jardins, parques!... e aos miseros que gemem,
e aos peitos melanclicos, viuvos,
ha-de negar se um canto onde pranteiem!?...
De tanto mundo que pertence aos vivos
nada dareis aos seus antigos donos?
nem um torro perdido, e uns troncos nullos?!...


       *       *       *       *       *


Quando vir um dia, em que estes bosques,
semeados de tumulos no altos,
de lugubres saudades se povem?
Ento, a propria Morte, hoje to scca,
ter sua grinalda; a dor, seu gosto;
e visitas o p, e cultos o ermo.


       *       *       *       *       *


Pelas noites mui placidas do estio,
ao duvidoso alvor da lua incerta,
bello ser, sentado n'este sitio,
ver vir, d'aqui, d'ali, frouxos, dispersos,
o do casal, o morador na aldeia,
entrar chorando, e procurar seus mortos.
Aqui duas irmans resam de joelhos
sobre o seio materno sepultado.
Aqui o velho attento as contas passa
pelos dedos convulsos, e se encosta,
sem o saber, na fallecida esposa.
O filho aos ps da me co'os mais solua
o Padre-Nosso apenas aprendido.
Deitado ao lado do submerso amigo,
o amigo devaneia antigos annos.
Por toda a parte, as lagrimas e affectos,
memorias doces, oraes e esp'ranas.


       *       *       *       *       *


E a quem no conviria egual retiro?
N'elle a tristeza encontraria um pasto;
a sciencia, reflexes; o vicio, escolhos;
a leviandade, assento; a desventura,
consolao; o amor, silencio e pranto.
Ensaira-se o infante para a vida;
o velho, para a morte; o moralista
viria achar unco para a verdade;
o orador, persuases, ternura, encantos.


       *       *       *       *       *


 filhos da montanha, oh! libertae-vos
de um preconceito vo;  toda a terra
a terra do Senhor; afora o vicio,
debaixo d'este ceo nada  profano.
A beno do Pastor consagraria
vosso asylo feliz; e a Cruz em meio
todo de um santo influxo enchra o bosque.



VII


Mas, em quanto esses dias vos no raiam,
bons velhos, vigiae que, de anno em anno,
aos juvenis futuros plantadores,
em vez de se afrouxar, se inflamme o zelo.
Cresa com seu favor por estas serras
a gerao dos vegetaes gigantes.
Com todos vs conversam todos elles
sem cobrir campas; guardam-vos saudades,
so parentes de todas as aldeias,
e o braso da montanha  o vosso parque.
Sobre tudo influi que a vossa raa
trema ao s nome do brutal machado
que ouse violar a veneranda herana.
O que s Deus medrou, s Deus derribe.


       *       *       *       *       *


Crde-me (eu j vi outras) vossa terra
 descrida, enteada  Natureza.
Cumpre a vs adoar-lhe o aspecto agreste,
amiudar-lhe no oceano ermo dos ares
estas ilhas, virentes, graciosas,
que espalhem primavera pelos montes,
que attriam as volantes caravanas
do rouxinol, da rla, e da andorinha.



VIII


L em baixo a casa humilde que branqeja,
entre os alegres pltanos e o templo,
quasi que pasma, e se entristece e encolhe,
de ver em torno a solido to vasta.
Como que est pedindo... ao menos bosques;
no tem outros jardins, outros passeios,
que offerea a seu dono, o Pastor vosso.
Preparae desde j para o futuro
sombras novas aos novos successores,
e refrigrio estivo s cans do velho.
Casae co'o vosso int'resse o int'resse alheio.
Mil vezes sua voz reconhecida
rogar paz ditosa aos vossos netos,
quando, serena a mente, e slta a vista
l frem divagar, ora embebidos
nos psalmos, nos poeticos arrojos,
ora admirando o Autor e o N dos mundos,
no largo azul dos ceos, no alto dos troncos
e no zumbir e no voar do insecto.


       *       *       *       *       *


Surgi! surgi! L jazem as enxadas.

  Velhos, surgi! La voltam triumphantes,
findo o novo trabalho, os vossos filhos.
Agora espumem copos, sem risos,
exulte a dana, alonguem-se os cantores.
Conquistastes o inculto  Natureza:
forstel-a a sorrir, a ornar-se em festas.
Toda a vasta planicie, hontem to erma,
que povoada vai j! como promette
lembrar ao vosso gado, s vossas filhas!


UM VELHO

Sim, dar sombra e vai povoado o valle:
mas fosse eu rico, e lhe dobrra encantos.


SEGUNDO VELHO

E como, irmo?


O PRIMEIRO

                    No alto d'este oiteiro,
d'onde se avista o mar, o ceo, a terra,
poria uma capella, e um San-Mamede
co'o rosto de um menino, e o rir de um Anjo;
nas mos o cajadito, o alforge ao lado,
e o seu rafeiro ao p todo soberbo
co'a colleira escarlate, e todo amigo
a lamber o seu Santo.  bom que os altos
se c'rem de capellas, que levantem
o pensamento aos Ceos, no campo espalhem
devoo e piedade, e aos peregrinos
ensinem o caminho e a vista alegrem.


UM PASTOR

Sim, co'o santo pastor de guarda aos bosques,
que haviam de temer, nem ces nem gado?
Nos degraus da capella,  sombra inquieta,
longas sstas sonhramos de amores.


TERCEIRO VELHO

J l vo o bom tempo e os bons costumes;
foi-se a abundancia e os coraes piedosos.
Esses fundavam templos, como o nosso,
n'um rido deserto; e hoje.... se estala
no campanario um sino, em ocio eterno
fica mudo a pender dos braos podres.



IX


Bem, bem. Mal que a fortuna me sorria,
serei eu quem consagre o vosso oiteiro;
no a Mamede, no ao pastor martyr,
mas  contrita amavel Peccadora.
No valem mais as lagrimas que o sangue?
Mais que heroico valor no nos commove
doce humildade e penitencia longa?
E de mais: se s asprrimas proezas
vos no destina o Ceo, todos nascestes
captivos frgeis de amorosas culpas.
Muita virgem no monte solitario
tentada pelo amor e pelo amante,
s com ver a capella ha-de livrar-se,
e pela salva flor dar lhe-ha mil flores.
E quando aqui errantes missionarios
vierem dar, e  sombra dos carvalhos,
as turbas apinhadas instruirem,
que persuases, que lagrimas, que exemplos
ho-de tirar da veneranda Imagem!....


       *       *       *       *       *


Qual me ri j na mente o gro projecto!
Eu serei pois o fundador de um culto
que aos frutos da moral reuna flores.
Sim; quem tolhe o prazer puro e innocente?
...........................................



X


Partiram. E eis-me s. Todos partiram.
O alvoroo do entrudo os chama aos lares.
Oh! Bemdita a ignorancia d'estas serras!
O rustico inda ri na Patria em luto,
e eu finjo o riso por dobrar-lhe o erro.
Bem sabe elle que lagrimas aos mares
d'este horizonte em roda esto correndo!
Sabe elle que o atro dia  menos atro?
A paz, a confiana, as alegrias,
a abundancia, a unio de antigos Lusos,
no deixaram, fugindo, um s vestigio.
No vaivem das faces, que se entrevencem,
tudo se perde e esquece, afora a raiva.
Os bons usos, as festas populares,
a romaria alegre, as patrias danas,
vo-se apagando... Aqui, mesmo na brenha,
a pastora, esquecendo os seus amores,
canta a questo dos Reis, o hymno da guerra,
sons novos, que o seu gado e o ecco extranham.


       *       *       *       *       *


 Patria, bella Italia do Occidente,
tu que egual a Parthnope repoisas
debaixo da invejada laranjeira
e do mirto florido, ao deleitoso
ruido de aguas limpidas, no abri
de um ceo inspirador to proprio ao genio,
 bella Italia do Occidente,  Patria,
era pois fado teu lidar sem fruto
para seres a inveja, a flor das gentes?....
A guerra, sim, te coroou co'as palmas
das quatro partes do orbe, e as naus do mundo
trouxeram a teus ps thesoiros, sceptros.
Mas as flores das artes, mas os frutos
das sciencias, no cho dos outros povos
com tanto custo e com suor medrados,
espontneos no teu medraram nunca?...
Tiveste nunca os dons, que em paz florentes
ornam e absolvem da conquista os loiros?
Que imperios teem cahido! e tu, tu ousas,
hoje ainda, aspirar  eternidade!!...
Talvez bem perto os seculos se cheguem,
que ho-de ver cego arado andar lavrando
tuas cidades de esquecido nome,
e o rebanho indiff'rente apascentar-se
sobre os teus tribunaes, theatros, praas.


       *       *       *       *       *


V-te o sol com praser; deixa-te a custo,
Lusitania, que  borda do Oceano
brilhas qual deusa em majestade e em graa.
Deusa, e immortal, te crram; mas tu jazes
entre tropheos em p, lavada em sangue.
Deshonrada Clepatra, inda s bella,
mas j nas veias te circula a morte.
Ai de quem nutre as spides no seio!...


       *       *       *       *       *


 Patria,  Patria, com que voz to baixa,
com que pejo te exprbro! Ah! se podres,
perda meu furor, v s meu pranto;
 Patria,  me,  misera querida!...


       *       *       *       *       *


Que ouvi? longinquo estrondo! que seria?
Som de espingardas!... Sim, talvez... so homens
que nos matam irmos... Alerta!... oimos...

..............................................





IX

O SAN JOO NAS FALDAS DO CARAMULO


     Dia em que o Poeta plantou por suas mos um cedro no pateo da
     residencia parochial da Castanheira do Vouga


(FRAGMENTO)



..........................................

  Se, de teus annos na madura fora,
a mo que te ora planta inda fr viva,
essa mesma, j trmula e caduca,
no tronco te abrir, com pio exforo,
graciosa capellinha, onde sorria
um San-Joo, o Santo alegre do ermo,
trajo de pelles, juvenil frescura,
olhos nos Ceos, aos ps cordeiro branco.


       *       *       *       *       *


N'essa noite poetica e devota,
em que o praser, centuplicando aspectos,
pova, anima, encanta o mundo inteiro,
agua e terra, ar e ceo, tudo  macio,
em que a velhice, a mocidade, a infancia,
sympathisam no vago da alegria;
quando n'alma insaciavel de delicias
se juntam, com mistura inexplicavel,
ao saudoso passado, aos bens presentes,
as mil vises do esplendido futuro;
quando em lao phantastico se aggregam
da vida e eternidade os pensamentos,
gosos, supersties, fraquezas, cultos,
qual ramalhete de cipreste e rosas
na caprichosa mo das feiticeiras;
n'essa noite, das noites invejada,
a ti concorrero por toda a parte,
t das aldeias do horizonte extremo,
danantes bandos que a viola guia.


       *       *       *       *       *


Vers girar seus bailes clamorosos
em redor das estrdulas fogueiras;
ouvirs os seus cnticos em cro
devoto e ennamorado. A bomba foge,
zune fugindo, e sollapada estoira;
o buscap no ar caracolando
morde n'um, morde n'outro, ameaa a todos,
dispersa os grupos, gasta-se raivando,
e entre os risos rebenta atroando os ares;
ali circula em vrtice perenne
a roda leve espadanando incendios,
chovendo oiro luzente e estrellas alvas;
aqui floreia o flgido valverde,
vesuviosinho que arremette s nuvens;
arranca o vo e vai rugindo aos astros
o ignvomo foguete estrepitoso.


       *       *       *       *       *


E a musica entretanto! e as doces falas!
e os protestos de amor! e a prece occulta!
e essa mo dada a furto e a furto acceita!
e esse olhar falador! e essas virtudes
da meia-noite em ponto! e a flor crestada!
e as sortes que a fortuna extrai s vezes,
e muitas mais a prvida malicia!
e a fonte que amanhece entre descantes,
e pasma rindo de se ver coroada
de festes verdes e entranadas flores!
Que noites, que alegrias, que triumphos,
te aguardam no porvir, me esto na mente![9]
............................................





X

O MOSTEIRO



Vs, que sois do amavel sexo
ardentes adoradores,
que girais de bella em bella,
qual leve abelha entre as flores,

que sabeis n'um s momento
a mil deusas incensar,
e pareceis de ternura
no poder-vos saciar,

mancebos, o mundo  vosso;
mil bellas o mundo tem;
mas no choreis as que  sombra
repoisar das aras veem.

Se um jardim, flordo, immenso,
encontrais na sociedade,
que importa que poucas rosas
lhe furte a mo da piedade?

poucas rosas, que dispostas
vo depois na solido
lanar mais doces perfumes,
seguras de extranha mo.

Vagae, vagae livremente
nos jardins da Idlia Venus;
segui as Nymphas e as Graas
pelos seus bosques amenos;

os prazeres vos rodeiem,
os jogos em torno vem;
a mocidade vos ria;
espssas rosas vos c'rem;

que falta aos desejos vossos?
ah! soffrei, sem murmurar,
ver d'entre os vergis flordos
poucas pombas desertar,

poucas pombas, que innocentes,
e temendo o caador,
vo nos ermos solitarios
buscar um fado melhor.

Do Libano opacos cedros,
de Sio bosque tranquillo,
vs, palmeiras de Iduma,
prestae-lhes seguro asylo.

Estranhas vistas no turbem
os seus piedosos segredos;
contentes  sombra vivam
dos sagrados arvoredos.

Silencio, paz, e ternura,
alva estrella de innocencia,
e a vista de um ceo risonho,
lhes doirem toda a existencia.

Murmrio de castas fontes,
perfume de simples flores,
lhes paguem jardins que infestam
os abutres e os aores.

Eu vos lamento e vos chro,
insensiveis coraes,
que de um mosteiro entre os muros
no vdes seno prises.

Crae da vossa loucura.
Correi a ver de mais perto
o Eden recatado ao mundo
no seio d'este deserto.

Modestas virgens o habitam,
que s no teem liberdade
de colher em frutos de oiro
as festas da sociedade.

Segui-me, segui-me affoitos,
entremos. Abriu-se o templo.
Seus ermos, ao mundo ignotos,
inteiros d'aqui contemplo.

No vdes sobre os altares
com graa engrupadas flores
lanar torrentes de aromas,
brilhar co'as mais vivas cores?

N'esses prados invisiveis
tambem pois se eleva a aurora;
sol, e zephyros, e fontes,
lhes do sorrisos de Flora.

Essas pois, que vs julgaveis
desgraadas prisioneiras,
teem praseres, teem delicias,
teem jardins, so jardineiras.

Vde ornar formosa Imagem
rico manto que fulgura,
de oiro e sedas matizado
com vistosa bordadura.

Vde a grinalda florida;
vde o ramo; estes jasmins,
estes lirios, estas rosas,
no so j de seus jardins.

No devem sua existencia
nem  terra nem ao Ceo,
e nem zephyros nem fontes
serviram no augmento seu.

Formou-as arte engenhosa;
poude mais que a Natureza;
deu mais vida s suas flores;
prestou-lhes egual belleza.

Sabeis, que mos feiticeiras
obraram prodigios taes?
eis o trabalho e os recreios
d'essas piedosas Vestaes.

Ellas no cro apparecem;
e, ao som dos orgos divinos,
de sua alma aos Ceos se elevam
devotos brilhantes hymnos.

Innocentes e macias,
d'estas vozes a mistura
sem perturbar os sentidos
infunde n'alma ternura.

Em seus canticos no reina
terreno vulgar affecto;
 mais puro,  mais sublime
de seus amores o objecto.

O pensamento que as ouve,
sai da trrea habitao,
deixa os ares, das esphras
atravessa o turbilho,

v do Empyrio as portas de oiro
abertas  humanidade,
rompe audaz, vai submergir-se
no fulgor da Divindade.

Cessa a musica, e de novo
volve a mente ao patrio mundo;
mas dos virgineos desertos
primeiro se arroja ao fundo.

L divisa, em liberdade,
nas livres tranquillas horas,
dadas a cantos diversos
estas formosas cantoras.

Na sombra d'aquelles bosques,
n'aquelles molles passeios,
tambem pois das Musas entram
os aprasiveis recreios.

Olhae por fim seus aspectos,
No vedes vs a bondade,
a alegria da innocencia,
as virtudes da piedade?

Eis os Genios que lhes tornam
encantadora a existencia:
as virtudes da piedade,
os praseres da innocencia.

A amisade entre ellas reina;
os encantos da amisade
no prestaro, por ventura,
delicias  soledade?

Mas basta, insensatos, basta;
 scena se corra o veo;
no profanem vossos olhos
mais tempo os trios do Ceo.

Ide no mundo esquecel-as,
em vez de as irdes chorar;
e o vosso mundo vos baste,
como lhes basta um altar.

Mas esperae; respondei-me;
consultae vosso interior:
sois ditosos co'os sorrisos
de um falso inconstante amor?

Sabeis vs o que amor seja?
Satisfaz-se o corao
com esses fogos incertos,
e essa eterna agitao?

No vir talvez um dia,
em que, mais sabios, queirais
unir os vossos destinos
 melhor d'entre as mortaes?

Como a haveis de achar no mundo,
no mundo, cujos enganos
vs conheceis, ajudastes,
seguistes, por tantos annos?

Tremereis de um lao eterno.
A vossa pena consiste
em pensardes que a virtude
que no tendes, no existe.

Ento aqui vos espero,
n'estes quietos retiros.
Estes muros que insultaveis,
ouviro vossos suspiros.

Entre estas virgens mimosas,
que severa educao
forma, longe dos humanos,
 sombra da solido,

viris procurar o objecto,
cuja ternura innocente
vos deve tornar a vida
risonha, pura, e contente.

No detesteis um recinto,
onde Amor, onde Hymeneu,
onde um Genio, amigo vosso,
vosso thesoiro escondeu.

Pensae, pensae que ali vive,
cresce em virtude e talentos,
e em graas, aquella que ha-de
doirar os vossos momentos.

Qual arbusto delicado,
que a viosa louania
mostrar em seu proprio clima,
em seu proprio ceo, devia,

mas foi por mo inimiga
trazido a estranhos logares,
onde murcho cederia
a influxos de infestos ares,

se da estufa compassiva
lhe no fosse aberto o seio,
onde vegeta e floresce
de arbustos eguaes no meio;

ali no receia as neves;
no treme da tempestade;
gosa o sol; vive no mundo,
vivendo na soledade;

de extranhos somente  visto;
tem louvor;  cubiado;
mas das flores, mas dos frutos,
no  jamais despojado.

Mil vezes feliz, mil vezes,
quem ousa,  luz da verdade,
queimar a mscara d'oiro
s larvas da sociedade!

Medrae, sagrados mosteiros;
medrae, desprezando a inveja;
jamais fulminar-vos possa
calumnia que em vo troveja.

Brilhae, como ilhas flordas,
no meio do mar profundo
de vicios, crimes, e horrores,
que alaga, que abrange o mundo.

Sde o asylo das virtudes,
do Eden a propria entrada,
o enlace dos Ceos co'a terra,
do Empyrio a sublime escada.


Coimbra--1826 (?)




XI

SANTA MARIA EGYPCACA

(Fragmento de um poema)



.........................................
Prostrada aos ps da Cruz, ante a caveira,
jaz solitaria a Egypcia. Rios descem
de olhos lindos, que os ceos fitar no ousam,


       *       *       *       *       *


To nova, e isenta? Oh! no; mudou de amores.
Dos primeiros s guarda a dor e as penas;
mas os novos, os ultimos, protesta
conserval-os em vida, e em morte havel-os.


       *       *       *       *       *


T aqui, pela alma escura s lhe ardiam
relampagos dispersos; derretido
raio dos Ceos lhe ca pelas veias.


       *       *       *       *       *


Brilhou no mundo como a flor de um dia.
Os soes vivos, os ventos importunos,
lhe ameaavam fim; ruins borboletas
captivas da belleza iam murchal-a.
Imprevisto invisivel jardineiro
a tempo a salva, e a transplantou no ermo.


       *       *       *       *       *


No mundo, sobre o abysmo, hontem folgava
imprvida e leviana; hoje pranteia
na solido, mas sob um Ceo que a espera.
As cidades, em que dolo brilhra,
inda a chamam em vo, e em vo a aguardam.
De um lustro que a houveram, quantos lustros
lhe volveram saudade!


       *       *       *       *       *


                            Em vio de annos,
e mais bella que as flores todas juntas
das dezassete suas primaveras,
qual fugaz sonho de manhan de estio,
foi-se, e no voltou mais, Deus sabe aonde.
Murcharam festas; esmorecem danas;
os banquetes, diffusos pela noite,
j no veem despertar ternura e risos.
Nas roseiras intactas se desfolham
os botes das grinaldas; o alade,
que falou tanto amor nas mos da bella,
discorde jaz, e mudo...


       *       *       *       *       *


                        Ella, entretanto,
co'os mimosos ps ns calcando areias,
desornado o cabello, envlta em pelles,
timida, envergonhada, pesarosa,
vai caminho do Ceo co'a fronte baixa.
Mil vezes  avesinha se compra,
sem famlia, sem lar; corre erradia;
no ha-de ambas manter a paz que  de ambas?
Beija a caverna frgida que a hospda,
e agradecendo este hrrido paraizo
ao Deus que lh'o depra, esquece o mundo,
ou sem saudade e com horror o aviva.


       *       *       *       *       *


Ai corao to amplo, onde estuava
mar de affectos sem conto, escoado agora,
quem o ha de encher? em solido to funda!
quem o ha-de encher? J o enche o que enche tudo,
o que brilha na luz, no sol, nos astros,
corre nos aquiles, anima os troncos.


       *       *       *       *       *


S conversa com Deus, e a Deus s ouve.
Este seio, estas tranas desatadas,
so brinco s do vento do deserto.
Esta mo, to mimosa e to querida,
s procura, excavando a terra ingrata,
a amorosa raiz, ou j se encurva
para dar agua aos labios sequiosos.
A aurora a vem saudar j de joelhos.
No ha um sol, no ha na noite um astro,
que no saiba os seus ais e eternas preces.
Nem que passe o chacal, a hiena, a ona,
foge, ou quebra os devotos exercicios.
Treme a gazella, e encolhe-se aos rugidos;
e a Estrangeira no treme; ora, e descana.


       *       *       *       *       *


Ao fresco desmaiar da extrema tarde,
quando os raios do sol j mal doiravam
da longinqua palmeira o incerto cume,
que vezes, assentada, e sustentando
na eburnea mo o pallido semblante,
atraz do astro fogoso e fugitivo,
mandava o corao, mandava os olhos!


       *       *       *       *       *


--Alm--dizia--alm, n'esse Occidente,
corre o santo Jordo delicias minhas,
que o Salvador banhou, que eu passei mesma.
Talvez aquella nevoa que l brilha,
mudada em rosa, em purpuras, em oiro,
seja da santa veia alegre filha,
Alm... Jerusalem, Sio, Juda...


       *       *       *       *       *


E a taes nomes, enxames de memorias,
de saudades, de affectos, lhe adejavam
pela alma, alegre em parte, em parte escura.
Raro, mas inda s vezes lhe assomavam
no involuntario somno ideias meigas.
Inda, uma vez ou outra, o amor banido
entrava de relance o antigo alvergue,
e apz elle os passeios namorados,
os theatros esplendidos, as galas,
as mezas rindo, os bailes desenvltos;
e as victorias, e as chusmas dos praseres,
como  sua rainha vo saudal-a.
Acordava sorrindo, a Cruz fitava;
e atirando se  terra, e slta em chros,
pagava erros no seus com dor bem sua.


       *       *       *       *       *


Taes se lhe vo no ermo deslizando
dias e annos, sem ver na areia impressos
mais vestigios que os seus.


       *       *       *       *       *


                        De tempo em tempo,
s v talvez, ou ver presume ao longe,
do horisonte nas sombras pavorosas,
o tnue p da immensa caravana,
que vai de Alpo  Mka em certa estrada.
Por ella ora, e entre o orar lamenta
a devota fantica impiedade.


       *       *       *       *       *


Tal vai manando a limpida existencia.
Egual ao ramalhete que desmaia,
e se esflha no altar entre os perfumes,
tal, sem gosto e sem dor, e sem que o note,
perdendo vai co'o tempo a bella Egypcia
encantos, j seu mal, e mal do mundo.
O juvenil das formas exteriores
concentrou-se-lhe n'alma; em cans e em rugas
se esconde um corao de amor no farto.


       *       *       *       *       *


Quem a tivesse visto, e a visse agora,
sentiria o que sente o viajante,
quando, perto d'ali, vai dar co'os restos,
saudosos restos, da gentil Palmyra.
Uma e outra j gloria do Universo;
agora mudas, ss, e deslembradas,
e socias no deserto, e eguaes no exemplo.


       *       *       *       *       *


Meio seculo a viu prantear sosinha
annos ligeiros da fugaz infancia.
Ao fim da gran carreira, o Ceo lhe envia
o solitario Zzimo, como ella
ancio virtuoso, e habitador das covas,
que lhe oia a longa vida, a anime, e exforce;
lhe d perdo e paz de um Deus em nome.


       *       *       *       *       *


Pela primeira vez contente e alegre,
ousando olhar os Ceos,
            --Trareis,--lhe disse--
 pobre peccadora o manjar de Anjos?
--Sim.
       E partiu.
                 Com vista prolongada
ella o segue; co'os olhos no deserto
o espera todo o dia; e este  to longo!...
tarda tanto o bom hspede!...


       *       *       *       *       *


                                  Passou-se
um anno inteiro.  elle agora;  elle;
conheo o fraco andar que o zelo apressa,
e as cans, e a calva, e as faces penitentes...


       *       *       *       *       *


Chega; clama; a caverna no responde;
grita, e s ouve a si. Olha em redondo,
v-a jazer na areia, e a areia escrita
por mo trmula, errante, ao que parece:


Bom Zzimo, por santa caridade
enterra o corpo da infeliz Maria.
Aqui morri no dia em que te fste.
Encommenda-me a Deus, e Deus t'o pague.

............................................





XII

EPISTOLA

Ao meu amigo o Desembargador Manuel Venancio Deslandes

(NO DIA DOS MEUS ANNOS)

FRAGMENTO



Em torno ao teu amigo esto fervendo,
Deslandes meu, na hora em que te escreve,
de uma festa caseira o rebolio.


       *       *       *       *       *


Bem que alveje de neve o Caramulo,
e um frgido suo de l nos venha,
ninguem hoje de frio aqui se queixa.
No descana nem p, nem mo, nem lingua;
o sumptuoso lar arde em tres fgos;
o forno se afogueia; a branca meza
vai-se de loia e vidros alegrando.


       *       *       *       *       *


Uma estuda em compr as sobremezas;
outra enrama de loiro alta ferrugem
das vigas da cosinha; esta, sizuda,
de riscado avental e nus os braos,
com importancia e afan revira esptos;
aquella, anda scismatica, e raivosa
de eu nascer em Janeiro, um mez agreste,
que alm de um alecrim, de umas violetas,
nascidas por engano, alm de rosas,
frgeis, sem cheiro, e languidas, no cria
com que se enflore a meza dos meus annos.


       *       *       *       *       *


Porque , quando a sorrir divagam todos,
quando s para mim se andam tecendo
estas pompas domesticas, agora
que a potente amisade em meu obsequio
para tudo fazer at fez estros;
agora, emfim, que aos raios da alegria
no ha um corao que se no abra...
por que se fecha o meu? Dar (no creio)
da Natureza o luto um certo assombro
s festas do homem? Pensas que enfartado
d'esta patria amargura, a filtre aos gostos,
qual vaso que azedado a tudo azda?...
.............................................

26 de Janeiro
de 1833.


FIM DO PRESBYTERIO DA MONTANHA




NOTAS DOS EDITORES

AO VOLUME I DO

PRESBYTERIO DA MONTANHA


Da villa da Castanheira--No Bispado de Coimbra, e na Provedoria de
Esgueira, 1 legua da villa de Agueda, e 11 da cidade do Porto para o
sul, em logar alto, tem seu assento a villa da Castanheira, que chamam
da Beira, a qual  tambem dos Condes da Feira, e n'ella entra em
correio o seu Ouvidor. Consta de 160 visinhos, com uma egreja
parochial da invocao de S. Mamede, Priorado do Conde da Feira, que
rende 600$000 ris, e tres ermidas. O seu termo tem uma freguezia
dedicada a Santa Maria Magdalena, no logar de Aguado, que consta de 100
visinhos.  curado annexo  egreja de S. Mamede, que apresenta o seu
Prior. Tem este logar muitas fontes de delgadas e salutiferas aguas, que
fertilisam seus campos de po e vinho, e os fazem abundantes de todo
genero de frutas. Assistem ao seu governo civil dois Juizes ordinarios,
Vereadores, um procurador do Concelho, Escrivo da Camara, Juiz dos
Orphos com seu Escrivo, 1 Alcaide, e 1 Companhia da Ordenana.

(_Chorographia portugueza_ pelo Padre Antonio Carvalho da Costa.--T. II,
pag. 176--1708.)


Castanheira do Vouga--Villa na provincia da Beira baixa, Bispado de
Coimbra, Comarca de Esgueira.  da Casa do Infantado; tem 803 visinhos.
Est situada em monte junto da serra do Caramulo.  seu orago S. Mamede.
Tem quatro altares; e o maior  do orago; os outros so do Santissimo,
de Nossa Senhora da Expectao, com sua irmandade, e outro de S. Jorge.
O Parocho  Prior, apresentao da casa do Infantado; tem de renda
400$000 reis. Tem tres ermidas, que so: a do Espirito Santo, a de Nossa
Senhora do Bom-despacho, e a de S. Sebastio. Os frutos d'esta terra so
milho grosso, centeio, e algum vinho. Governa esta villa um Juiz
ordinario, e a Camara. Passam por esta freguezia os rios Aguedo,
Alfusqueiro, e Agueda.

(_Diccionario geographico_ pelo Padre Luiz Cardoso. 1751.)


       *       *       *       *       *


Castanheira do Vouga.--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago S.
Mamede; o Parocho  Prior da apresentao da Casa do Infantado; rende
480$000 ris; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 7; tem 58 fogos.

gado--Freguezia no Bispado de Coimbra; tem por Orago Santa Maria
Magdalena; o Parocho  Cura da apresentao do Prior da Castanheira;
rende 40$000 ris; dista de Lisboa 40 leguas, e de Coimbra 6; tem 102
moradores

(_Portugal sacro-profano_--por Paulo Dias de Niza; cryptonimo do Padre
Luiz Cardoso--Lisboa--1767--8.^o--2 vol)


       *       *       *       *       *


Castanheira do Vouga.--Villa, Douro, Comarca de Agueda, Concelho do
Vouga, 40 kilometros ao N. O. de Coimbra; 240 ao N. de Lisboa; 140
fogos. Em 1757 tinha 58 fogos. Orago S. Mamede. Bispado e Districto
administrativo de Aveiro. Foi do Bispado de Coimbra. Era antigamente da
Comarca de Esgueira.  da Casa do Infantado. Situada em um monte proximo
 serra do Caramulo. A Casa do Infantado apresentava o Prior, que tinha
400$000 ris.  fertil em milho e centeio; produz algum vinho, e do mais
pouco. Tem foral dado por D. Manuel em Lisboa a 16 de Junho de 1514. Era
cabea do concelho do seu nome e tinha Juiz ordinario, Camara,
Escrives, e mais Justias. Passam pela freguezia os rios Agueda,
Aguedo, e Alfusqueira.

(_Portugal antigo e moderno_--por Augusto Soares de Azevedo Barbosa de
Pinho Leal--Lisboa, 1874).


       *       *       *       *       *


Pag. 11 lin. ultima

Dapibus mensas oneramus inemptis


Oneramos as mezas com iguarias no compradas; isto , vivemos, sem
comprar, das nossas lavras proprias.

Citao de Virgilio (_Georgicas_, Liv. IV, v. 133), com uma pequenina
variante exigida pelo sentido. O texto inteiro e exacto :


                   _....Sero que revertens
nocte domum, dapibus mensas onerabat inemptis._


Isso faz parte de uma historieta que Virglio conta, e que vamos ouvir
na traduco de Castilho:


               ......Alembra-me que outr'ora,
l por onde o Galeso arrasta a veia escura
por entre loiros chos de cereal cultura,
junto  Eblia cidade, a de torreados muros,
conheci um corycio em annos j maduros,
dono de uma chanzinha ali desamparada.
O pobre do torro de si no dava nada:
nem pasto para bois, nem para um fato hervinha.
Sumitico de pes, escasso para vinha,
era um saral fechado; e no saral, comtudo,
o bom velho, a poder de diligencia e estudo,
tinha hortalia rara, e emmoldurada em torno
com seve de jardim para maior adorno,
alvos lirios, verbena, e papoilas de prato.
No trocra co'os Reis seu parco haver to grato.
Recolhia ao casal j noite; e, que riqueza
de iguarias de graa a assoberbar-lhe a meza!



Pag. 18 lin. 3

Passmos n'uma bateirinha, remada por uma velha moleira da margem, o
voso rio de Bolfiar.


Todos esses meios de transporte mudaram muito de 1826 para hoje. O
caminho de ferro, as estradas, e todos os aperfeioamentos modernos,
deram cabo da antiga viagem to pittoresca.


Pag. 36 lin. 20

Uma especie de zimborio de doze palmos de altura.


Deve ser talvez alguma pyramide geodesica ali levantada pelos que
primeiro se dedicaram ao estudo da triangulao do Reino.


Pag. 37 lin. 3

Uma desconforme loisa inteiria horizontalmente aguentada nos ares por
esteios de pedra.


Estes antiquissimos monumentos megalithicos ainda se encontram em muitas
partes das Hespanhas, e acham-se estudados  luz da sciencia moderna.


Pag. 42 lin. 6

A Linguagem  ali, como os ares, de uma admiravel pureza e lucdez.


O portuguez que n'aquella serra se falava, e fala, influiu em Castilho o
seu constante amor  vernaculidade. Veja-se nas _Excavaes poeticas_ o
que elle diz do velho camponez Francisco Gomes, creado da casa, e um
dos mais chapados classicos que elle jamais encontrou.


Pag. 58 lin. 7

Lia, Rachel e Rebecca


Lia era filha primogenita de Labo, e irman de Rachel. Achando-se Rachel
ajustada para casar com Jacob, teve Labo astucia de lhe substituir Lia,
apesar de menos formosa. Foi me de Ruben, Simeo, Levi, Jud, Issachar,
Zabulon, e Dina.

Rachel, irman de Lia, tambem foi mulher de seu cunhado Jacob, e teve
Jos, e mais Benjamim, de cujo parto falleceu. Parece que ainda se
conserva e mostra o seu tumulo.

Rebecca, filha de Bathuel, casou aos dezoito annos com Isaac, filho de
Abraho, e teve por filhos Eza e Jacob.

Todas estas figuras biblicas, vivas 17 seculos antes da era christan,
so encantadoras de singeleza e graa nas descripes que d'ellas nos
deixaram os Livros santos.


Pag. 72 lin. 15

Uma pobre mocinha ovelheira


Mais de uma vez se recordou Castilho d'esta pastora, cujo nome era
Antonia. Veja-se o lindissimo retrato que pintou d'ella o nosso Poeta na
sua _Chave do enigma_.


Pag. 80, lin. 9

Filinto e o entrudo


Com o seu espirito essencialmente nacional, recordava-se o bom Francisco
Manuel do Nascimento, com muita saudade, do entrudo brutal da velha
Lisboa.


Viva o meu Portugal! viva a laranja
que derruba o chapeo!


exclamava elle em Pars, ao lembrar-se das grosseiras costumagens dos
Portuguezes, felizmente meio poldas j hoje.


Pag. 82 linhas 6 e 8

Citaes latinas


Essas duas so de Virgilio (_Eneida_, Livro I)


_Fronte sub adversa scopulis pendentibus antrum;
intus aquae dulces, vivoque sedilia saxo;
nympharum domus_.


Isto : defronte, sob uns pendurados penedos, abre-se um antro; e l
dentro correm aguas doces, e apparecem assentos como que talhados na
rocha viva; verdadeira habitao de nymphas.


Pag. 87 lin. 21

As rogaes de Maio

Foram instituidas por S. Mamerto, Bispo de Vienna, no Delphinado,
fallecido no anno 475.


Pagina 99 linha 23

O ubi campi!


Recordao de palavras de Virgilio ao Livro II das _Georgicas_:


_Rura mihi et rigui placeant in vallibus amnes;
flumina amem silvasque inglorius. O ubi campi
Spercheosque, et virginibus bacchata Lacaems
Taygeta!......_


Sejam minhas delicias os campos, e os ribeiros a deslizar nos valles;
encantem-me os rios e os bosques, como obscuro que sou. Onde estais,
campinas? onde ests, rio Sperchio, e tu, monte Taygte, habitado pelas
alegres virgens espartanas?

Castilho traduziu assim este trecho:


Ento amar s quero os rios e arvoredos,
de glorias desquitado. Ai, campos meus to quedos!
ai ribeiras do Sprchio, oiteiros do Taygto,
das virgens de Lacnia s rgias predilecto,
onde, onde me estais vs?....



Pag. 102, lin. 10

Parve, nec invideo, sine me, liber, ibis in urbem


Verso de Ovidio, logo no comeo da elegia I do Livro I das _Tristezas_.
Dirigindo-se ao seu proprio volume, escrito (ou antes chorado) no
desterro, entre os gelos do Ponto, diz-lhe o autor: vae meu pequeno
livro; has-de entrar sem mim na Cidade; nem por isso te quero mal.


Parte,  meu pobre livro; irs sem mim, sosinho,
correr na gran Cidade incognito caminho


traduziu alguem


Pag. 107, lin. 17

Zimmermann


Joo Jorge Zimmermann, nascido em Brug, canto de Berne, a 8 de Dezembro
de 1728, seguiu os estudos medicos, e foi abalisado sabio. Nomeou-o
medico da sua camara em 1768 el-Rei de Inglaterra; el Rei de Prussia
Frederico, o grande, foi tratado por elle na sua ultima doena, e deveu
allivios aos seus cuidados intelligentes. O Principe russo Orloff foi de
proposito com sua mulher consultar Zimmermann ao Hanover; e ao tornar-se
a S. Petersburgo falou d'elle com enthusiasmo  Imperatriz Catherina,
que em 1784 procurou attrahir  sua crte aquelle luminar da sciencia.
Elle pediu excusa, porque a vida mundana no condizia com os habitos que
tinha creado o seu espirito; no se ofendeu a eminente Princeza, e
conferiu-lhe a ordem de Wladimiro. Infeliz na vida domestica, viu
morrer-lhe entre os braos uma filha adorada, e endoidecer-lhe um filho.
Falleceu este notavel homem em 7 de Outubro de 1795. Alm de outras
obras, entre ellas um poema sobre o terremoto de Lisboa, publicou em
1756 o seu _Tratado da Solido_, onde todas as vantagens moraes do
isolamento so defendidas com eloquencia e convico, e sem mysanthropia
exagerada.


Pag. 108, lin. 6

O Passeio publico e o Marrare


Para os habitantes da Lisboa moderna, diremos que o Passeio publico,
riscado em 1764 pelo architecto da cidade, Reynaldo Manuel, nas antigas
Hortas da cera, era o refugio campestre mais delicioso que podiam gosar
os habitantes da Capital. Ia desde a actual praa dos Restauradores at
 extinta praa da Alegria, na altura da rua das Pretas. No sitio exacto
do monumento aos heroes de 1640, espalmava-se um grande tanque redondo
(hoje no jardim da Graa).

O caf Marrare, poiso dos elegantes lisbonenses, era no Chiado.




ADDITAMENTO


Visto ser esta obra de Castilho dedicada  memoria de seu bom irmo,
pareceu-nos acertado juntar aqui um dos tres sermes que ainda restam
d'este. As suas obras ineditas mandou o proprio Doutor Augusto Frederico
de Castilho que lh'as queimassem por sua morte. Salvaram-se, apenas, as
seguintes:


     I--O sermo de S. Pedro, ou da F; II--O sermo da esmola, ou da
     Caridade; III--O sermo nas exequias do senhor D. Pedro IV; IV--A
     pastoral dedicada ao seu rebanho episcopal de Beja; V--Uns versos
     na _Primavera_ de Antonio Feliciano.

-----File: 111.png---\-----------------[Blank Page] -----File:
112.png---\-----------------




SERMO

DA

ESMOLA OU DA CARIDADE


     Prgado na 5.^a dominga da Quaresma de 1839 na S de Lisboa pelo
     Conego Arcipreste da mesma S, o Doutor de capello em Canones
     Augusto Frederico de Castilho



_Jesus abscondit se, et exivit de templo._
Escondeu-se Jesus, e sahiu do templo.



De duas coisas nos fala o texto que propuz: de Jesus escondido, e de
Jesus fra do templo; e nem por sahido do templo, nem por escondido,
deixa Jesus de ser Jesus, ou nos dispensa de seu servio. Jesus vivo, e
na occasio de que trata o Evangelho, estava no mundo, e faltava no
templo. Jesus, hoje, por dois milagres de f e amor, por duas
eucharistias, est no templo, e mais no mundo: no _templo_, encoberto no
Sacramento; no _mundo_, encoberto nos seus pobres. N'uma e n'outra parte
o devemos servir com egual zelo.

Orar todo o dia na egreja, e deixar fra d'ella morrer  fome e ao frio
os necessitados, no  de christo;  f morta. Soccorrer aos infelizes,
sem crer (se tal  possivel) n'Aquelle que elles representam,  caridade
morta; tambem no  de christo.

Vs pareceis christos pela f, pois que vindes  casa de Deus; vs o
pareceis, mas no o sois, porque essa f  morta; cumpre que se
resuscite pela caridade.

Da caridade prgarei portanto hoje, ou antes da esmola, que  a caridade
pratica e activa;  o christianismo na sua parte mundana, o culto do
Verbo humanado aos olhos de todos, a religio de todas as religies, a
philosophia de todas as philosophias, o axioma para todos os
entendimentos, o dogma at para o atheismo. O objecto  o mais
accommodado s necessidades do tempo em que vivemos; offensa faria 
vossa piedade, se vos exigisse a atteno.

       *       *       *       *       *

Alma e corao, discurso e affectos, convencem e persuadem como dever a
esmola. No creou a Natureza irmos privilegiados, e morgados na familia
dos homens: para uns, patrimonio de riquezas, e commodidades; para
outros, encargos de miseria, e lagrimas. Acasos, sagacidades, ou
malicias, estabeleceram essa desegualdade; e andou tambem ahi traa
recndita da Providencia, para estreitamente nos ligar; se uns de outros
no carecessemos, no nos amramos; se tudo a ns mesmos referissemos,
no framos virtuosos, seriamos os mais infelizes dos entes,
desentranhada de ns a beneficencia, origem de toda a sociedade, e
purissima fonte dos verdadeiros prazeres da vida. Egualou-nos, pois, a
Natureza; a Providencia nos desegualou; e n'esta contradico apparente,
 que Deus, supremo Autor de ambas, manifestou toda a sabedoria dos seus
conselhos. Na Natureza, isto , na sua Justia, quiz que tivessemos uma
norma de egualdade; na Providencia, isto , na sua caridade, que
aprendessemos a restabelecer, quanto em ns coubesse, aquella egualdade
primitiva por mutuos soccorros.

O homem caritativo  portanto o homem da Natureza, e o filho mimoso da
Providencia, depositario e executor da Justia de Deus, transumpto e
argumento de sua bondade e misericordia.

O suprfluo de nossos bens constitue rigorosamente o patrimonio dos
pobres, e negar-lh'o  ao mesmo tempo injustia e barbaridade, egual 
do depositario que consome os bens sagrados do deposito, do ecnomo que
converte em proprio uso as rendas do seu senhor, do tutor que devora a
substancia do seu pupillo;  ainda mais:  declararmo-nos inimigos de
Deus, desacreditando, e dando, de certo modo, quebra quella
Providencia, cujos ramos dispensadores e supplementos; quella
Providencia, que no consente que as avesinhas mesmas, que voam errantes
pelo ar, caiam mortas em terra, sem ordenao do Pae Celeste.

Tudo quanto de ns emana, ou em ns ressumbra bello, generoso, heroico,
brota (no duvidemos) da caridade. Deus, para tornar as virtudes caras,
e accessiveis at aos mais faltos de discurso, no creou a caridade,
seno que a tirou de suas proprias entranhas, e orvalhando-a sobre a
terra, lhe deu por beno que de todas as mais virtudes fosse ella
semente e fruto, seiva interior e graciosa florescencia; e ella ahi nos
ficou independente de qualquer reflexo, affecto innato, instinto (por
que o no diremos?), instinto moral.

Ainda mais, senhores: no s a tornou o mais profundo, mas tambem o mais
extenso de todos os affectos, para que, sobre encher-nos o corao de
virtude, ella nol o podesse occupar; sobre constituir-nos felicidade,
nol-a podesse tornar permanente.

Oh! que maravilhosa no  esta caridade, que em todas as edades, e em
todas as circumstancias da vida e do mundo, sempre acha alimento, sempre
lhe renascem objectos, e infinita como o Ceo, d'onde procede, cobre,
como elle, toda a Natureza creada, passa dos homens aos animaes brutos,
d'estes aos proprios entes insensiveis, adivinha infortunios, inventa e
persuade soccorros, at para entes que os no sabem agradecer, que os
no requerem, que os no precisam!

Tem a caridade, como as demais paixes, os seus excessos; momentos em
que se no sabe conter, nem governar; suspiros, lagrimas, e desalentos;
enthusiasmos, impetos, e arrojos heroicos; mas, como tudo lhe nasce do
amor e compaixo, tudo  terno, tudo  mavioso e consolador. Virtude de
virtudes, virtude unica onde no ha excessos.

Pela caridade principalmente nos podemos dizer imagens de Deus, e obras
primas da creao. Ah! que se jamais se podessem tributar ao homem
cultos, que s  Divindade se devem, ninguem tanto os merecra, como
esses que, possuindo os thesoiros dos bens terrestres, os derramam no
seio dos infelizes!

Porm, meus irmos, no  mistr uma brandura de animo requintada, para
nos movermos com os infortunios dos nossos semelhantes, e
procurarmos-lhes o remedio. Qual de ns, vendo padecer um animalsinho,
morto de fome, transido de frio, desamparado s inclemencias de uma
noite de inverno, e invocando a nossa piedade com aquelles gritos
lastimosos, que a Natureza ensinou a todos os viventes para dizerem as
suas dores, qual de ns se no sentiria profundamente condodo, no
correria a abrir-lhe a porta, a agasalhal o, a soccorrel-o? Ah! e
deixariamos no infortunio o homem? o homem, semelhante nosso, nosso
irmo, com quem nos ligam todos os interesses, cujos bens possuimos,
cuja felicidade  to travada com a nossa, e cuja desgraa tem sido
talvez effeito da nossa injustia, da nossa barbaridade?

Oh! ricos do mundo, que cegastes e ensurdecestes o corao... que
digo? que o trazeis defunto no peito, e incapaz de resurgir aos clamores
mais doridos da Natureza, ah! emquanto, ao redor de vs, se esto
sempre a abrir abysmos, que engolem tantos miseraveis, que uso mais
util farieis vs de vossos bens, do que seria o acudir-lhes? Na vossa
avidez insaciavel (semelhantes ao inferno, que, por mais victimas que l
chovam, no cessa de clamar _affer_, _affer_, mais e mais), uns de vs,
 ricos do mundo, se contentam com a viso beatifica dos seus cofres; a
sua alegria, a sua felicidade, o seu proximo, o seu mundo, a sua alma, o
seu Deus, tudo seu ali jaz; ali enterraram o corao, e o conservam mais
duro, mais inerte, mais frio, mais inutil, que esse metal que
amontoaram; em quanto outros, prdigos em excesso, como se os seus
thesoiros os affrontassem, os semeiam e desbaratam por phantasias, por
luxos, por vaidades, sem moderao, sem ordem, sem destino, sem uma s
utilidade real. Mais loucos ainda e mais infelizes, outros emfim,
parecendo arrenegar dos beneficios da Providencia, os cofres que ella
confiou nas suas mos, elles os despedaam e espalham, no s sem
vantagem do proximo, mas ainda com o maior prejuizo, e inteira ruina de
si mesmos. Com essas riquezas franquearam a entrada a todos os vicios,
abysmaram a raso, destruiram as foras, aniquilaram a saude,
anteciparam a morte, e.... ah! meus irmos, que de inquietaes, de
violencias, de trabalhos e de dores, para comprar uma eternidade
desgraada! Com a chave de oiro de um paraiso, abrir um sepulcro e o
inferno!

Maus ricos, vs sois como o discipulo traidor; com esses dinheiros de
maldio, preo dos tormentos e da morte de Jesu-Christo, que todos os
dias se renova nos seus pobres, que vs entregais e desamparais sem
piedade, com esses dinheiros de maldio, ides comprar um arrependimento
esteril, um remorso tardio, uma morte desesperada, o odio dos homens, a
vingana de Deus, os tormentos eternos!

Quantas injustias accumuladas n'esta barbara opulencia! Injustia para
com os infelizes, cujos bens sonegamos, cujos lamentos no queremos
escutar, cuja morte mesmo antecipamos muitas vezes.--Injustia para com
Deus, de quem recebemos esses bens, com a condio da caridade, e cuja
Providencia desmentimos, e a quem devemos continuos beneficios e
esmolas, desde que entramos no mundo.--Injustia para comnosco mesmos, a
quem fechamos as portas de um co de deleites, em quem apagamos todos os
sentimentos de virtude, a quem j n'este mundo excluimos de toda a
felicidade.--Injustia, emfim, para com todo o genero humano, de quem
nos afastamos, a quem no queremos pertencer, de quem at nos declaramos
inimigos.

E para onde fugiro os nossos olhos, que l no v a miseria publica
perseguil-os? Nunca soaram to alto os gemidos dos desgraados, porque
nunca a nossa immoralidade foi to barbara. Realisou-se sobre tantos
irmos nossos parte grande das maldies, com que Deus, por bocca de
Moyss, ameaava os seus inimigos. Explorae por todas as guaridas da
indigencia; visitae os tugurios e choupanas miseraveis das aldeias, das
maiores povoaes, e at das cidades... Grande Deus! que multido e
variedade de miserias! Uns arruinam a saude por comidas dessaborosas e
doentias, mais para brutos que para gente; a outros, nem um boccado de
po negro e amargoso apparece nas vinte e quatro horas; quantas se no
chamam poisadas e casas, que antes so covas, masmorras, ou jazigo de
viventes! de quantos no  cama a terra humida, e vestido o que nem
lhes encobre a nudez! Tantos paes cercados de um bando de meninos,
chorando e pedindo-lhes po! Tantos outros meninos, ainda mais
infelizes, orphos de pae e me, que nada teem na Natureza, alm do sol
que os aquece, e do ar que respiram, e comeam a conhecer to cedo a
dureza dos homens, obrigados, quasi desde que abrem os olhos, a procurar
por si mesmos com que supram as necessidades, ainda to mesquinhas, mas
to pesadas para ns! Tantas viuvas sem proteco, em quem, sobre o
desamparo e dr perptua da viuvez, accresceu verem os seus bens
arrancados por crdores, e quantas vezes por ladres, debaixo do nome de
crdores! Tantos obreiros atirando-se a trabalhos superiores s suas
foras, ou  sua creao, ou aos seus annos, para sustentarem, com o
suor, a vida, que, n'esse mesmo suor, se lhes est derretendo e
mirrando! Tantos enfermos expirando  mingua, sem medico, sem
tratamento, sem remedios, sem enfermeiros, sem alma viva que os console,
que lhes suscite as ideias da Eternidade, e at sem um lenol que os
amortalhe! Tantos privados dos olhos, dos braos, e do uso dos sentidos
mais preciosos, incapazes de trabalhar, arrojados para a borda dos
caminhos, soffrendo dias inteiros os ardores do sol, as chuvas, os
frios, e os ventos do inverno, considerados como monstros de outra
especie pelos homens! Tantos mendigos, emfim, sem lar, sem nada, nem um
amigo, ssinhos em meio de tanto mundo!

Mas que me cano eu a enfeixar o que no tem conta! E quando de taes
miserias conseguisse fazer aqui um piedoso inventario, quantas outras
no ficariam de fra, mais profundas, e mais miserias, porque ellas
mesmas refogem e se escondem! As ruas e as praas, com todos os seus
clamores e penurias, no confessam ainda assim quanto a nossa especie
est padecendo. Ha, em todo este exterior, um no sei que reflexo de
verniz e doirado, um no sei que ruido festivo, um perfume de opulencia
e sabores, um certo sorrir, um raio de sol, um aspecto de co azul, uma
vida e uma esperana, que so disfarce, e mascara da existencia do povo,
real e intima. Pelas ruas corre abundante a vida. Sahindo-se para a rua,
deixam-se  porta as lagrimas, e cuidados verdadeiros, e toma-se na
bocca e faces o contentamento postio. Por fra andam os corpos em toda
a sua gala; mas dentro, por todo esse immenso _dentro_, nas entranhas
d'esse infinito massio de pedras e areia, n'esses fechados labyrintos
sem termo, n'esses apinhados e humanos favos de mel, esto chorando
milhares de coraes, esto-se desesperando milhares de almas.

Oh! se Deus permittisse que, na hora em que o abastado gira para se
recrear, por esses caminhos to lageados de marmores, to ataviados de
vidros de cores, de metaes brilhantes, de todas as espumas mais formosas
do luxo, se Deus permittisse que n'essa hora se lhe revelasse aos olhos
por entre que duas montanhas de infortunio, vai caminhando! oh! como
de repente, semelhante a Phara, na estrada do Mar Vermelho, desabariam
de todas as partes a afogal-o ondas e mares de dor!

Sim, senhores, alem de outros infelizes que tambem precisam da caridade,
quantos pobres envergonhados que abafam soluos e gemidos entre as
quatro paredes da sua casa! Nas horas da noite, quando das dansas, dos
jogos, dos espectaculos, e de peores logares, saem torrentes de
mundanos, em quem parece que o tempo, o dinheiro, a saude e a fama pesam
insoffrivelmente, que de vezes se lhes no atravessam diante uns
phantasmas de penuria, em frma j de mulheres, j de meninos, j de
ancios, a quem a vergonha do sol no consentra sahir dos seus
sepulcros! De um portal, de um recanto, da bocca estreita de uma rua,
nos saem as suas vozes, semelhantes a gemidos, antes que as trevas, de
que no soffrem arrancar-se, nol-os deixem descobrir, estendendo a mo a
receber a esmola, e a abenoar a caridade; algum vos esconde um rosto,
que, em melhores dias, tinheis visto brilhar  luz da prosperidade.

Estes mortos e esquecidos do mundo, espectros pallidos, que temem os
dias, e no temem o aspecto da noite, porque j no podem ser mais
infelizes,  Deus quem nol os envia ao encontro, menos por elles que por
ns, menos para alliviarmos as suas penas que para elles nos inspirarem
algum affecto ao corao gasto, algum pensamento fundo e importante 
alma dissipada. Felizes vs, os que entendeis estes avisos mysteriosos
da desgraa, estas embaixadas solemnes do outro mundo! Felizes os que,
em vez de os repellir com dureza, accudis com o dinheiro  necessidade,
com a esperana ao queixume, e com a commiserao a quem no cuidava que
no mundo a houvesse!

--Mas estes pobres, e a maior parte dos pobres que me accommettem, que
me desatinam, que me desesperam (dizeis vs), quem me abona a sua
pobreza? e concedendo-lh'a, quem me affirma que no  ella castigo da
sua perguia, ou mau proceder?... Que vos importa? Se pde ser uma
coisa ou outra, dae; antes lanar dez vezes, vinte vezes, cem vezes, em
vaso cheio, ou em vaso indigno, do que deixar de accudir uma s vez a
quem do vosso superfluo far o seu necessario, e talvez, se lhe
recusasseis, padecra n'um dia o que vs no padeceis n'um anno, ou,
para o no padecer, commttera crimes, que, depois de o perderem a elle
n'este mundo, vos percam a vs no outro. E demais: vs, que to de
repente sentenciais o desgraado que no conheceis, por que vos no
sentenciar Deus, por esse mesmo facto, a vs?

_Pde no ser pobre o que vos pede._--Sim, e algumas vezes se tem
visto.--_Pde ter merecimentos para muito mais ainda do que
padece._--Sim, que  homem como vs, e com mais razo do que vs para
aborrecer os homens, e ser seu inimigo. Sim: tudo isso pde ser; mas
examinastes vs se era tudo isso, ou se era uma parte? Recusando a
esmola por tal motivo, no tereis muitas vezes accrescentado ao roubo a
injuria? Ah! em quanto sentenciais uma alma que no conheceis, e
condemnais o vosso semelhante para o deixar ir despojado, quanto mais
razo no tem elle para condemnar a vossa alma, que vs mesmos lhe
descobristes inteira com uma s palavra!

Mas ainda vos concedo (perde-me Deus a concesso), que todos esses
andam expiando peccados seus; so at criminosos e facinorosos; que nem
um d'elles tem necessidade; so at abastados e opulentos; que todo o
mendigo  um salteador e um millionario. Estais contentes com a
concesso, ou quereis mais? No podeis querer mais, porque o no ha.
Pois bem: mas que direis, quando eu vos apresentar pobres, de uma
pobreza processada e demonstrada, que vos no importunam nem se queixam,
dos quaes muitos, dos quaes inteiras classes, no mereceram, nem poderam
merecer, o seu estado? Ahi tendes os enjeitados, que no  muito que o
sejam do mundo, e da fortuna, depois de o serem de suas mes; ahi os
tendes, que a Misericordia mesma no basta a amamental-os e vestil-os,
e, de seus pobres bercinhos, caem em cardumes nas sepulturas, e vam a
ir depr na presena de Deus, contra a dureza de tantos, que, tendo-lhes
dado a vida por um peccado, por um peccado ainda mais mortal (se 
licito dizl-o) o da avareza, lhes concorrram para a morte.

Quereis mais? mais vos darei: tambem necessitados, tambem innocentes.
Ahi esto tantos asylos da infancia desvalida, onde se queria educar e
felicitar um seculo novo, e que, por falta de caridade publica,
morreram, depois de to bem nascidos e esperanosos.

Quereis mais? ahi esto os asylos da velhice, tambem e mais desvalida,
onde os soccorros nunca so sobejos, nem sufficientes; porque muitos
mais so sempre os que batem e choram quellas portas de refugio, que os
que a estreiteza das posses consentem sentar-se l dentro  meza do
convite de Deus.

Assim que, por ambos os horizontes da vida, vos est o Senhor chamando o
corao, e por toda a parte vos tem cercado do dever da esmola.

Quereis mais? ahi tendes hospitaes, recolhimentos, cadeias.

Quereis mais? ahi tendes centenares de religiosos egressos, a quem
falta po, lar, vestido, mundo, que o no conhecem, nem elle os conhece;
militares que envelheceram nas armas e morrem  mngua; viuvas e orphos
de servidores do Estado, a quem se no paga, nem com esperanas.

Quereis mais, e mais sem conta? ahi tendes os partidos politicos
vencidos, em quem no  mister longo exame para se reconhecer a
desgraa, porque  corollario evidente de causas notorias. A tera parte
de uma edade do homem, dezanove annos, para no datar de mais longe, tem
sido entre ns consumidos em dissenes e odios. Com successivos
terremotos polticos, teem desabado as mais altas torres de fortuna;
desappareceram abundancias afogadas entre runas; voaram arrancadas de
furaces contrarios e imprevistos, as mais florescentes esperanas; os
caminhos trilhados e sabidos subverteram-se; por onde se descia,
sobe-se; por onde se vingavam as alturas, desce-se precipitado; algum
dos filhos do pobre va dormitando em cche de oiro, e o ancio doirado,
que ainda hontem lhe houvera matado a fome, lhe alonga a mo, da margem
do caminho, clamando esmola. No se cuide, senhores, que eu condemno o
presente e absolvo o passado. Sei os males e os bens do passado; entendo
os males e os bens do presente, ou antes os males do presente e bens do
futuro; mas vejo, de mais a mais, um cardume de males extraordinarios,
que no so, para que assim digmos, nem do homem, nem da Natureza, nem
de Deus, mas sim da mudana, da transformao da fortuna, da fortuna
cega, que, no trocar das mos, quebra sem pejo, nem d, nem consciencia,
o que depois todos choram e ninguem concerta.

Vivemos pois entranhados e afogados n'um mundo de dres, que no vemos,
pela peior de todas as cegueiras, que  o no querer ver. E quando
d'esta somnolencia, d'este lethargo, d'esta morte do corao, acordamos
algum momento a este som _Esmola a este vosso irmo pelas chagas de
Nosso Senhor Jesu-Christo_, j nos reputmos muito generosos, se em vez
do silencio ou de uma injuria, lhe acudimos com um _Deus o favorea_; e
tornmos a atar muito depressa o fio dos pensamentos vos ou
peccaminosos que traziamos; e l deixmos para traz a Jesu-Christo morto
de fome, a Jesu-Christo chorando na pessoa do seu pobre. Ah! que se o
seu estado de abjeco os no obrigasse  humildade nfima, se o uso de
soffrer estas repulsas os no tornasse j meio insensiveis, se elles nos
podessem retorquir, Qu! (nos responderiam) Deus que nos favorea?
Deus nos favoreceu com esses bens que indevidamente retendes; Deus nos
favoreceu com os thesoiros da sua Providencia, que vs nos roubastes.
Que o Senhor nos favorea? Quereis acaso tental-o? que elle obre em
nosso favor um milagre desnecessario? que torne a chover o man do co,
no sobre um deserto rido como aos nossos paes, mas sobre uma terra,
que por toda a parte est cheia dos seus frutos e das suas ddivas? Esse
man vs o possuis, e encerrado inutilmente nos vossos vasos; Deus far
que se corrompa e apodrea. Que Deus nos favorea, deshumanos? Sim,
sim, elle nos favorece na vossa propria dureza; os merecimentos que
terieis na sua presena em serdes misericordiosos, elle os accumula
sobre a nossa resignao; com os infortunios que nos accrescentais, e os
prmios que rejeitais, se juntaro em nosso favor aos prmios de que a
sua misericordia nos achar dignos.

Ah! meus queridos irmos, que se em nossa dureza fossemos capazes de
entender os gritos e lagrimas de tantos paes de familias, cujas familias
podem dizer que no teem pae, tantos orphos de pae e me, tantas viuvas
desamparadas, tantos jornaleiros e camponezes arruinados, tantos
enfermos, tantos cgos e aleijados, tantos mendigos, tantos pobres
envergonhados, achariamos, nas suas lagrimas e gritos, menos a
significao das suas dres e desalento, que uma reprehenso amarga da
nossa barbaridade para com os nossos irmos, da nossa ingratido para
com Deus; acharamos, sim, acharamos at n'esses lamentos, a expresso
propria com que devramos deplorar ns mesmos a dureza, antes
ferocidade, dos nossos coraes.

No s, meus irmos, as nossas liberalidades atalham todas estas
miserias, mas ainda vo precaver muitas desordens. Aqui  uma pobre
rapariga, a cuja honra se preparam violentos ataques. O Co a dotra das
qualidades mais eminentes; mas a fortuna tentou de algum modo desfazer a
obra do Co, juntando-lhe a pobreza com a formosura. Do seio da
opulencia, um libertino j vibrou olhos trpes e vidos para o santuario
da virtude. A belleza o seduziu primeiro, depois a propria honra, e
todas as qualidades que lhe notou, como outros tantos titulos que
exaltaram o seu triumpho, por mais arriscado e difficil. J abriu os
seus cofres com prodigalidade horrivel; deu-se o primeiro ataque;
frustrou-se. No importa; os desejos augmentaram-se na repulsa, o
merecimento da victoria vai subindo de ponto em ponto, e a seduco, de
mos dadas com a indigencia... no vencero cedo ou tarde? Chegou emfim
esse dia; venceu! e com um sorriso infernal applaudiu o seu triumpho, e
a desgraa que consumou. Approximemo-nos agora, e contemplemos a pobre
victima. Ali jaz, n'um arrependimento j tardio e inutil para o mundo;
ali jaz recordando todos os artificios do traidor, que, depois de a
desgraar, chegou mesmo a aborrecel a; ali jaz na mesma indigencia que
d'antes, porm mais infeliz agora; a sua honra fugindo abalou-lhe todas
as outras virtudes. Em odio a Deus e a si mesma, ficou-lhe ao menos um
refugio no mundo? nenhum, porque o traidor, declarando-se seu cruel
inimigo, foi divulgar o segredo, e exigir esses applausos infames, que
tanto mereceu. Pobre infeliz! Se tivesses nascido na abundancia,
seriais sempre um anjo to bello de virtude. Se a caridade te houvesse a
tempo procurado, e descoberto n'esse asylo simples e modesto, onde
vivias to innocente e bemquista de Deus e dos homens, no se teria
afastado ainda o raio que reduziu a cinzas o desambicioso edificio da
tua felicidade?

Alm  um moo, que, canado da dureza dos homens, comea a no conhecer
as leis na sua necessidade. Por toda a parte repellido, julgou direito
prover por si mesmo, e a todos os despeitos,  sua conservao.--Todos
esses a quem recorri (diz comsigo mesmo) so felizes; eu no quero a sua
felicidade; mas tenho, como elles, direito de viver.--Levado assim
pelos raciocinios errados do vicio, ou s por um instinto que lhe
bafejou a injustia dos homens, comeou por pequenos furtos; passou a
maiores; nunca mais reconheceu os titulos sagrados da propriedade;
zombou de todos os respeitos humanos; relaxou de todo a consciencia; e
acabar em salteador e assassino. Uma caridade a tempo o affasta do
precipicio onde o leva de rastos a immoralidade, e lhe tira deante dos
olhos dois futuros que o tero muitas vezes feito estremecer: um carcere
perpetuo, um degredo, uma morte infame n'este mundo, e no outro penas
correspondentes, em si e na sua durao, a crimes de que nunca se
arrependeu, e damnos que nunca tiveram restituio. E quando elle passar
para o patibulo, vs fechareis talvez as vossas janellas, e direis: No
tenho corao para taes espectaculos; como se esse mesmo corao no
fosse o seu peor algoz, o que o conduziu quelle passo affrontoso!

N'outra parte um desesperado, que sonhou alguns momentos a felicidade,
mas que imprevistamente se sentiu naufragado de todas as suas
esperanas, que contou, para segurar a subsistencia, com os amigos que o
atraioaram, com a fortuna que lhe fugiu, que se v precipitado n'uma
desgraa a que no prev termo na sua desesperao, insulta o Co,
blasfema da Providencia, e, se lhe no accudis, quem sabe se ir (como
tantos outros) afiar um punhal, temperar um veneno, ou suspender um
lao, por onde arranque uma existencia que o importuna! E a caridade e
a ternura no podero ainda aqui obrar um novo milagre? fazer-lhe
rebentar as lagrimas, cuja fonte se lhe exhaurira? abrandar-lhe o
corao? obrigl o a bemdizer a Providencia, e abenoar o po com que
lhe sustentamos uma vida que lhe fizemos amar ainda?

Oh! meu Deus! que doces prerogativas no dstes vs s almas
generosas e humanas! Se entre os prprios pagos alcanava uma croa o
que salvava os dias do seu concidado, que honras no merece dos outros
homens o que os arranca a uma morte desesperada, depois de uma vida
infeliz! que os reconcilia com o Co que j suppunham surdo e injusto!
e que at previne com os seus soccorros a desordem e excessos da
miseria que lhes arrancariam os meios de salvao!

Ah! meus irmos, se nos basta ser homens, para reconhecermos como bem
real esta doce obrigao da esmola, segundo a razo e humanidade, que
mais fortes motivos no tem o homem christo, para ser esmoler, segundo
as Escrituras, e particularmente o Evangelho! Os deveres da caridade no
so para ns simplices axiomas, ou preceitos da philosophia; no so o
resultado de um mero instinto moral: as santas doutrinas reveladas
vieram no s confirmar, mas dar ainda, se  possvel, uma extenso
muito maior a tudo quanto n'esta parte a Religio natural nos havia
imposto.

Segundo o systema religioso do Christianismo, por quantos modos, at
indirectos, nos no  persuadida a caridade! O Padre derramou sobre ns
todo o thesoiro das misericordias do Co; creou nos entes os mais
perfeitos de toda a Natureza; a sua mesma divindade foi o typo pelo qual
nos formou (pelas suas proprias mos, dizem as Escrituras); no s nos
adornou de todas as graas que perdemos na desobedincia de nossos paes,
mas todas as suas creaturas contribuiram, e ainda contribuem (mais
parcamente sim, depois do peccado), para nos tornar o mundo uma
habitao commoda e feliz. Esse sol que nos allumia o theatro do mundo,
essas estaes que lhe mudam as scenas, os frutos saborosos e delicados
que rompem da terra, os vestidos que nos cobrem, o ar que respiramos, o
somno que nos restaura as foras, os prazeres que nos lisonjeiam os
sentidos, os prazeres ainda mais puros e doces da consciencia e do
corao, so outras tantas esmolas, com que Deus proveu desde a
eternidade ao homem, sobre fraco e indigente, ingrato a tantos
beneficios.

Na sbia disposio com que de mais o Eterno Padre arranjou todo o
grande systema da Natureza, no nos deu Elle uma grande lio de
caridade, estabelecendo em todas as suas obras uma encadeaco successiva
e mutua de dependencias e soccorros? Olhae, por exemplo, como os mares
liberalisam as suas aguas ao ar em nuvens, o ar as suas  terra em
chuvas, a terra s fontes, as fontes aos rios, os rios outra vez aos
mares; e n'este rodear das aguas, plantas, animaes, homens, o mundo todo
se conserva, se reanima, se restaura.

D'esta mesma sorte, no s as grandes pores da Natureza, mas ainda os
seus minimos individuos, trazem travado um commercio mutuo de esmolas; e
os soccorros de uns, em circulo perpetuo, se tornam essenciaes 
existencia dos outros.  assim que, por toda a parte envolvidos pela
Natureza, do meio da qual nos elevamos, como obras as mais perfeitas,
no s nos no devemos resvalar a uma condio inferior  da propria
materia bruta, mas avantajar-nos tanto mais na mutua caridade, quanto
nos devemos considerar como entes, cuja conservao  mais importante
para a manifestao da gloria de Deus.

O Divino Verbo, por um mysterio da mais incomprehensivel misericordia,
desce ao mundo, demora-se entre os homens, deixa-lhes um thesoiro de
felicidade nas suas doutrinas, d-lhes a esmola de todo o seu sangue,
lava a mancha da nossa origem, e restabelece a paz entre o Co e a
terra.

O Espirito Santo vem tornar effectivos todos os meios de santificao, e
nos accode com esmolas continuas, desde que abrimos os olhos, at que
deixamos o mundo; pelo baptismo assenta os nossos nomes no livro da
vida; confirma-nos e augmenta-nos depois esse perdo; repete-o tantas
vezes quantas offendemos o Co; sustenta-nos com o manjar dos anjos; e
accode-nos at com remedios temporaes,  hora em que as portas do
carcere se vo abrir, e a alma slta reverter  sua origem.

Mas no s pelo seu exemplo e meios to indirectos nos persuadiu Deus a
esmola; no  uma simples recommendao,  um dos preceitos mais
rigorosos:--_Ego proecipio tibi, ut aperias manum fratri tuo egeno, et
pauperi qui tecum versatur in terra_: Sou eu,  o teu proprio Deus, quem
te ordena, que abras a tua mo ao necessitado e ao pobre, que lida
comtigo sobre a terra. Esta lei to clara, to precisa e absoluta na sua
letra, ter acaso todos esses caractres que devem sempre manifestar-se
em todas as leis de Deus? Examinemol-a, e seja o proprio Deus quem nol-a
interprete.

 _justa e necessaria_: necessaria muito mais ainda para o bem
espiritual dos bem-feitores, do que para o commodo temporal do
soccorrido. A esmola, segundo Jesu-Christo,  um acto de Religio,
conjuntamente com a orao e jejuns;  pois rigorosamente um meio
expiatorio;  um commercio que temos com Deus por meio do nosso proximo;
 uma agua copiosa (diz o Espirito-Santo) com que apagamos o incendio
das nossas iniquidades;  uma santa usura, em que trocamos bens
superfluos e temporaes por bens inapreciaveis e eternos; so thesoiros
que ficam depositados no seio do pobre, e que d'ali esto sempre
clamando ao Co em nosso favor; so bolsas que nunca teem de se estragar
nem de esgotar-se, que nunca nos sero roubadas nem podem ser
consumidas;  um seguro para o dia da afflico;  finalmente um arrimo
a que nos soccorremos para no cahir.

Mais:  _util_, considerada mesmo temporalmente para quem a d. O
Espirito-Santo o disse tambem nos Proverbios: _Aquelle que der ao pobre,
de nada carecer; aquelle que desprezar as suas supplicas, cahir tambem
na pobreza._--Eis aqui, meus irmos, eis aqui patente o terrivel segredo
da vingana divina, quando aniquilla tantas fortunas que pareciam to
solidamente estabelecidas: _Dispersit, dedit pauperibus; divites dimisil
inanes_. Sim, porque as maldies,  ricos do mundo, que o pobre vos
lana em segredo, na amargura da sua alma, so ouvidas com todas suas
imprecaes, por Aquelle que o creou, e que nunca d'elle arredar os
seus olhos. Folgae hoje, que, semelhantes ao mau rico do Evangelho,
sereis manhan sepultados no inferno, debaixo do peso de vossos
thesoiros; _et sepultus est in inferno_. E se as vossas riquezas vos so
consentidas, muitas vezes  para que principiem o vosso inferno no
mundo. Se pareceis prosperar,  para que a vossa quda seja mais
espantosa, ou para que os vossos descendentes, que no so culpados nas
vossas iniquidades, no experimentem a punio da vossa dureza, e
recebam juntos esses bens a que iro dar um justo emprego.

Ah! meus irmos, dizei me: vistes vs, pelo contrario, que homem algum
se arruinasse jmais pelas suas larguezas com os pobres? No  antes
uma verdade, confirmada pela experiencia de tantos seculos, que as
familias de mais caridade so as que mais teem prosperado? Sim, sim, o
Espirito Santo o disse pela bocca do mais sublime de todos os prophetas:
Se derramares toda a tua misericordia sobre os necessitados, e encheres
de consolao almas que gemiam na afflico, a tua casa se tornar como
um jardim sempre regado, e a tua prosperidade ser to perenne como a
fonte que a todos offerece os seus licores, e por mais que a bebam nunca
se esgota, nem cessar de correr. E o Redemptor no disse ainda mais
expressamente: _Date et dabitur vobis_? No compara elle a retribuio
com que o Co ha-de corresponder s nossas liberalidades, com uma medida
avantajada, calcada, de cogulo, a verter de todos os lados, que se nos
vasar para o regao? Oh! no duvidemos: os bens do misericordioso,
repartidos pelos infelizes, so o azeite e a farinha milagrosa da santa
viuva de Sarepta. Comeu Elias, diz a Escritura, comeu ella e a sua casa;
e desde aquelle dia nunca lhe faltou a farinha no pote, nunca o azeite
do vasinho se diminuia.

Vde, depois d'isto, que multido de benos as Escrituras no veem
chovendo sobre o homem compassivo e esmoler! O Senhor o conserve, o
Senhor lhe d uma longa vida, o faa feliz no mundo, o livre das mos
dos seus inimigos, o allivie no leito da sua dr. O que dispersar os
seus bens pelos pobres, viver de seculo em seculo na memoria dos
homens, abenoado ser o seu nome, e n'elle se despontaro as settas
envenenadas da calumnia. _Justitia ejus manet in saeculum saeculi.
Exaltabitur in gloria. Ab auditione mala non timebit._ Que significam
tantas promessas, meus irmos, tantos premios, tanta abundancia de
benos, as glorias do Co e da terra, tudo cumulado sobre o homem
benefico? Que sacrificio to importante se vai exigir d'elle? a que
lances heroicos o querem persuadir? que perdas soffrer que cumpra
contrabalanar por premios de to alta valia? Exige-se-lhe a
mendicidade e a miseria, em que viveram os Apostolos e o Redemptor? um
exterminio de todas as paixes? uma abnegao de todos os prazeres? as
mortificaces da penitencia? a constancia e morte gloriosa dos
martyres? No, no. Pede-se-lhe s amor e provas de amor para com seu
irmo; pedem-se-lhe s lagrimas e po para os infelizes. No se lhe
intima que d, com prejuizo seu, at o ultimo boccado d'esse po, mas
empenham-se os titulos mais sagrados da misericordia, e
patenteiam-se-lhe todos os cofres e enchentes da Graa, para lhe pedir
s as migalhas superfluas da sua meza.

Grande Deus! que generosidade incomprehensivel a vossa! Remunerardes
como sacrificio uma virtude, e acceitardes como virtude o que nada custa
ao corao! Accumulardes os vossos prmios sobre os prazeres mais doces
da consciencia! Considerardes em mais do que homem a quem s cumpru
com deveres da humanidade! Avaliardes em tanto um superfluo, que
trasbordamos para o seio do desgraado, quando j nol-o havieis dado com
essa condio! Acceitardes, finalmente, esses bens frageis, temporaes e
caducos, esses bens que s devemos  vossa liberalidade, como moeda
correspondente em valor ao preo inestimavel dos vossos thesoiros
infinitos!

Mas d'estas elevadas contemplaes, em que todos nos deveriamos abysmar,
vs me chamais, meus irmos, vs me fazeis descer s profundezas da
vossa miseria, e surprehender nas vossas consciencias um segredo bem
importante. E no adivinho eu quaes teem sido, desde que enunciei o
thema e objecto do meu discurso, os pensamentos de muitos de vs, da
maior parte, ou antes de quasi todos os que me escutais?--Feliz
(exclama cada um de vs, no seu corao) feliz de mim, se eu podera
soccorrer o meu proximo, que a to bom barato me veria de posse do Co.
Porm Deus no me destinou a mim esses premios e benos; e se a esmola
fra um meio indispensavel de salvao, eu me perderia sem remedio, no
por minha culpa, mas por culpa da fortuna. Todos os meus bens
escassamente chegam para a minha sustentao e da minha casa.--Assim
pensais; assim buscamos pretextos para illudir todos os preceitos at os
mais terminantes e expressos da Religio. Mentis a Deus, aqui, na sua
presena, dentro da sua mesma casa, e, suppondo justificada a vossa
propria crueldade, vos revestis d'aquelle zelo hypcrita do phariseu do
Evangelho, e lanais de travez os olhos para os ricos, que ahi esto
comvosco. Folgais talvez com a sua confuso; e a doutrina da caridade, a
doutrina de tanto amor, s serve de despertar em vs a insolencia, o
desprezo, e o odio. No permitia Deus que a sua preciosa semente se
perca d'este modo; que s a acceite um pequeno torro de terra, e que em
vez de produzir os bellos frutos do Senhor, a maior parte do seu campo,
ou quasi todo elle, continue a s desatar-se em cardos e espinhos.
Afugentemos as aves d'esta preciosa sementeira. Arredemos as pedras, e
no consintmos que fique sem proveito e inculto nenhum pedacinho, por
mais pequeno, da sua terra.

Todos vs podeis dar a esmola, todos, sem excepo, vos achais obrigados
a ella; e esta universalidade constitue, n'aquelle divino preceito, o
seu segundo caracter de lei.

Ha duas especies de esmola (diz Santo Agostinho): uma da bolsa, e a
outra do corao. To longe vai, pois, a esmola como a caridade; e para
podermos soccorrer o nosso proximo, basta-nos possuir um corao. No
tendes dinheiro, mas tendes po com fartura? Reparti-o por tantos
famintos. Escassamente vos chega o po, mas tendes algumas roupas
superfluas? Cobri com ellas tantos ns. Nada tendes hoje? Promettei
para manhan; enchei de esperanas o seio vazio de todas as consolaes.
So a caso insignificantes os bens que vos restam para os frutos da
caridade? Offerecei-os assim mesmo; basta que deis s um copo de agua
fria a um dos mais pequenos do mundo, lembrando-vos de que elle  meu
discipulo (vos diz Jesu Christo); este s copo eu vos affirmo que no
ficar sem recompensa. Nada tendes que dar? Reparae bem: Nada tendes
que dar? Lanae bem os olhos de todos os lados. Sondae bem toda a vossa
fortuna. Nada tendes que dar? Se no mentis ao desgraado, se na
verdade vos achais privado de todo o genero de haveres, ainda possuis
muitos bens em que no reparaveis. So os que existem dentro do vosso
corao. Offerecei-lh'os. Derramae d'elle torrentes de balsamos sobre
todas as feridas dos vossos tristes irmos. Sois ainda mais rico com o
vosso corao, no meio mesmo da miseria, do que os ricos sem elle,
afogados nos seus thesoiros. Consultae esse corao; ouvi como um
oraculo as suas respostas. Que vos demorais? Segui todos os seus
impulsos.

No tendes com que soccorrer o indigente? Correi  morada do rico.
Entrae affoitos.

Pintae-lhe as miserias do seu semelhante. Mostrae que s os interesses
da humanidade vos dirigiram ali. Contae o que presenciastes com os
vossos olhos. Chorae diante d'elle. Desfazei as calumnias. Reconciliae
as eternas inimizades da opulencia com a miseria, e, semelhantes aos
corvos de Elias, voae  choupaninha faminta do deserto, com o po e com
a carne, que vos deu essa Providencia, que assim soubestes interessar.

No tendes que dar! Ajudae o vosso proximo, com o trabalho dos vossos
braos. Advogae perante o poderoso a causa do fraco. Desfazei os enredos
e calumnias, que ennegreceram vosso irmo, que lhe roubaram todas as
proteces.

No tendes que dar! Congraae o homem com o homem, a familia com a
familia.

No tendes que dar! Visitae tantos desgraados, que gemem por esses
carceres; persuadi-lhes a paciencia, e a resignao evangelica;
confortae-os com palavras doces, com esperanas consoladoras.
Approximae-vos ao leito do enfermo; offerecei-lhe, com mo carinhosa, os
remedios; animae-o com os vossos sorrisos, e fazei que troque os
suspiros da sua dr e do seu desalento em suspiros de ternura, em
expresses de confrto; que veja os Cos abertos, e que goze
antecipadamente de premios, que, se no fosseis vs, talvez no tivesse
de possuir.

No tendes que dar! Instrui, na santa doutrina, a tantos meninos, e
ainda a pessoas maiores, que a ignoram. Bemdizei de vosso proximo na
presena, assim como na ausencia. Ajudae-o com as vossas oraes.

Nada tendes que dar! Nada tendes que dar! Ah! ainda tendes lagrimas.
So as perolas e os diamantes da alma; e esse thesoiro nunca se esgota
para um christo. Tomae a vs uma parte do seu infortunio, e elles
ficaro menos oppressos. Que esmolas, tanto ou mais preciosas que as do
oiro! De quantos e quantos modos, no sabe reproduzir-se a
beneficencia!

Bemaventurados, disse o Redemptor, todos os que usam de misericordia,
porque elles alcanaro misericordia.

Eis aqui as benos e os premios do Co, recahindo sobre todos vs, sem
excluso de um s. Ahi vos tendes to ricos, aos olhos do Senhor, como
esses ricos, cuja dureza lamentaveis, a cujos bens vos promettieis dar
um melhor emprego, se os possuisseis. Quem vos detem? por que no
correis a praticar essas obras de misericordia, que podeis? a
merecerdes essas benos e premios, que ha pouco ambicionaveis? Qu!
J se vos affrouxa o zlo! Sim, o zlo, que murmura, que reprehende,
que insulta nos outros a infraco dos deveres, em quanto os julga
alheios, esmorece de todo se esses deveres se tornaram proprios; e, por
mais injusta contradico, as fraquezas, que no perdoamos no mundo,
sendo em ns, j as sabemos desculpar; e quantas vezes no passam de
desculpadas a canonisadas! Pois bem, senhores: se a razo, se a
humanidade, se a justia, se a consciencia, se os interesses do mundo,
se as benos do tempo e da Eternidade, se todos os premios de Deus,
emfim, nada podem comvosco, possam-n-o, ao menos, as suas ameaas,
castigos e maldies, que vo constituir a sua lei perfeitamente
obrigatoria. Eis o seu ultimo caracter.

Recusais a misericordia de Deus? J no tendes que escolher. S lhe
ficaram as vinganas. Affastae-vos,  santa familia de infelizes.
Pobresinhos do Senhor, affastae-vos da terra maldita, onde vai chover
fogo e colera do Co. Para alm, para alm,  o vosso refugio,  dextra
do Eterno Padre. _Venite ad me, omnes qui laboratis, etc._ No vos
tinha elle dito que os vossos gritos lhe chegariam aos ouvidos, que as
humiliaes se lhes converteriam um dia em triumphos? Sim, sim, 
famintos,  sedentos, nus, chorosos, calcados, perseguidos, jubilae!
Vs nunca cessastes de ser os seus filhos muito amados. Eu vou reassumir
todos os thesoiros (vos diz elle) que a minha Providencia repartira
pelos vossos barbaros oppressores. Eu lhes havia dado mais altos meios
do que a vs mesmos de alcanarem a minha gloria, de alcanarem a menos
custo. Os privilegios com que eu os mimosiei, s serviram de os fazer
ingratos e crueis. Frutos mui formosos do meu campo, fostel-o vs, 
meus pobres; frutos que eu vou recolher e guardar para sempre no meu
seio; elles foram arvores estereis, que, dominando toda a sementeira, a
aoitaram com os ramos, a damnaram com a sombra, a devoraram com as
raizes; infecundas e nocivas eu as arranquei em meu furor; eu vou
lanal-as ao fogo. Retirae-vos de mim, malditos. Precipitae-vos no
incendio eterno, que foi preparado ao diabo e aos seus anjos; porque eu
tive fome, e vs me no dstes de comer; eu tive sde, e vs me no
dstes de beber; fui peregrino, e no me recolhestes; nu, e no me
vestistes; enfermo e encarcerado, e no me visitastes. Todas as vezes
que despedistes, que calcastes os pequenos do mundo, a mim, a mim o
fizestes.

Ah! meus irmos, possa esta sentena de maldio estampar-se hoje com
letras de fogo e indeleveis nos vossos coraes. Este Jesus escondido
nos pobres, este Jesus que por ahi vaga fra dos templos, coberto de
remendos, macilento, prostrado debaixo do pso de tantas cruzes,  um
rei de majestade,  um senhor indignado que vos ha-de apparecer em toda
a sua clera, e de cujas sentenas nunca poderis mais appelar. Oh!
compadecei-vos d'elle, soccorrei-o emquanto o-vdes pobre, cahido e
humilhado, para o no experimentardes depois, senhor altivo e vingador.
Oh! pobresinhos do Senhor, parabens! o corao me-diz que esta semente
no ser perdida, e que teris hoje ao menos soccorros e consolaes.

Pois bem, Senhor. A Vs, recorremos hoje, que ainda  tempo. Aqui
promettemos soccorrer-vos com o que  vosso, a Vs,  meu Jesus pobre; a
vs, cahido, a vs humilhado, para vos no experimentarmos depois
accusador, testemunha, vingador e inexoravel. Antes que nos-accendais
esses fogos de maldico, j era nossos coraes temos accezos outros,
que muito mais so vossos: os da caridade.

 modlo do bom pae de familias, ajuntae-nos em trno da meza do vosso
banquete celestial, aonde se assenta o opulento Salomo a par do Lazaro
mendigo, os grandes com os pequenos da terra, o peccador arrependido com
o justo que nunca vos-offendeu. Reclinae-nos sbre o vosso seio; e n'um
abrao de eterno amor nos-apertae a todos sbre o vosso corao
paternal, por todos os sculos dos sculos.

Assim seja.




INDICE


I--A primeira noite na serra      5

II--O sepulchro, ou historia de uma noite
de S. Joo      11

III--Epistola a Joo Evangelista Pereira da
Costa      41

IV--O Presbyterio      43

V--A lyra do desterrado      49

VI--Epistola a      51

VII--A romaria      53

VIII--O Domingo gordo dos montanhezes      55

IX--O S. Joo nas faldas do Caramulo      77

X--O mosteiro      81

XI--Santa Maria Egypcaca      91

XII--Epistola ao Desembargador Deslandes      97

Notas ao 1.^o volume      99

Additamento      107

Sermo da Esmola ou da Caridade      109





EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL Sociedade editora

[Figura]

LIVRARIA MODERNA 95--RUA AUGUSTA--LISBOA




*Notas:*

[1] Verbi gratia na quinta da Domanderes.


                                                         Nota do autor.


[2] Descreva-se aqui n'uma nota o encontro que hoje tivemos com o
gallinheiro de Santa Cruz junto ao Val da Gallega, que quiz descarregar
uma espingarda em mim e no poeta, julgando-nos ladres, pelas muitas
perguntas que lhe faziamos sobre o que levava etc. etc.--Nota do
secretario Augusto.

[3] A Castanheira do Vouga, Bispado de Aveiro, Comarca da Feira, a uma
legua de Agueda.


                                                         Nota do autor.


[4] A traduco de parte de Silio Italico pelo Padre Francisco Manoel do
Nascimento (Filinto Elysio.)


                                                         Nota do autor.


[5] Traduco da escolha das Fabulas de Lafontaine pelo mesmo.


                                                         Nota do autor.


[6] (O poema desappareceu, ou nunca chegou a escrever-se.)


                                                     Nota dos Editores.


[7] Josu--cap. XXIV

[8] Juizes--cap. VI.

[9] Foi este fragmento publicado na _Revista Universal Lisbonense_ de 19
de Junho de 1845--Tomo IV, pag. 582.


                                                           Os Editores.



Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  | Volume I |                     |                      |
  |#pg.   20| a m                | alm                 |
  |#pg.   33| o salto)          | o salto)           |
  |#pg.   56| lnes                | lhes                 |
  |#pg.   69| fescenino,         | fescenino,          |
  |#pg.   94| acompapanhal-o      | acompanhal-o         |
  |          |                     |                      |
  | Volume II|                     |                      |
  |#pg.   45| dextra no          | dextra mo           |
  |#pg.  113| tarrestres          | terrestres           |
  +----------+---------------------+----------------------+





End of the Project Gutenberg EBook of O presbyterio da montanha, by 
Antnio Feliciano de Castilho

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRESBYTERIO DA MONTANHA ***

***** This file should be named 28127-8.txt or 28127-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/8/1/2/28127/

Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License available with this file or online at
  www.gutenberg.org/license.


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation information page at www.gutenberg.org


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at 809
North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887.  Email
contact links and up to date contact information can be found at the
Foundation's web site and official page at www.gutenberg.org/contact

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit www.gutenberg.org/donate

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit:  www.gutenberg.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For forty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
