The Project Gutenberg EBook of S de Miranda e a sua Obra, by Dcio Carneiro

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Title: S de Miranda e a sua Obra

Author: Dcio Carneiro

Release Date: January 10, 2009 [EBook #27762]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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S DE MIRANDA E A SUA OBRA



DECIO CARNEIRO

S DE MIRANDA E A SUA OBRA


LISBOA
_Antiga Casa Bertrand--Jos Bastos_
73, Rua Garrett, 75
1895


_Tiragem especial de vinte e cinco exemplares em papel superior,
numerados e rubricados pelo auctor._


LISBOA
Barata & Sanches (antiga casa Adolpho, Modesto & C.)
_Rua Nova do Loureiro, 25 a 39_




AO DISTINCTO ADVOGADO

_Aureliano de Mattos_

_Como tributo de considerao e amizade_

O ESPIRITO D'ESTE TRABALHO.




                                Para o completo, universal triumpho:
                                                  _Almeida Garrett._
                                        (O retrato de Venus--c. 3.)


So tres os principaes trabalhos publicados cerca de S de Miranda.

Em ordem chronologica, o primeiro e indiscutivelmente o mais valioso  a
_Vida_, que acompanha a segunda edio das suas obras poeticas, datada
de 1614. A _Vida_, em puro estylo quinhentista, de auctor anonymo,
apresenta-se como _collegida de pessoas fidedignas que o conhecero_--ao
poeta--_e trataro e dos livros das geraes deste Reyno_.

Barbosa Machado attribuiu essa biographia-critica de S de Miranda a Dom
Gonalo Coutinho mas no adduziu provas para fundamentar a sua
affirmativa. Todos os escriptores, porm, lh'a acceitaram como
demonstrada. Apenas o sr. Theophilo Braga, em sua _Historia dos
Quinhentistas_, lhe pesou o valor e reforou a allegao do illustre
auctor da _Bibliotheca Luzitana_ com as relaes havidas entre D.
Gonalo Coutinho, poeta tambem da escola classico italiana, e os
individuos a quem elle recorreu para a sua biographia.

Seja ou no de D. Gonalo Coutinho, e no obstante a sua lamentavel
pobreza de datas historicas, a _Vida_  um documento preciosissimo. Tem
servido e servir sempre de base a todos os trabalhos reconstruitivos da
biographia da poderosa individualidade a quem se deve o movimento que
to alto levantou a litteratura portugueza e a fez attingir culminancias
nunca alcanadas posteriormente. E tanto mais apreciavel  a _Vida_ que
a sua veracidade se comprova facilmente pelas _Cartas_, verdadeira
autobiographia do poeta.

Foi a _Vida_ o fio porque se guiou o sr. Theophilo Braga, em sua
_Historia dos Quinhentistas_, em a parte particularmente referente 
_Vida de S de Miranda_. Este o segundo trabalho de mr valia que temos
sobre o grande poeta. Trabalho apreciavel e erudito, mas mais
propriamente parte do estudo de uma escola litteraria, como , que
destinado a pr em relevo, em toda a viveza de suas cres, a biographia
de S de Miranda e o seu valor como philosopho e poeta.

Obra por egual notavel em erudio e em critica, a da ex.ma sr. D.
Carolina Michalis de Vasconcellos. Tambem a sua edio das _Poesias de
Francisco de S de Miranda_, feita sobre cinco manuscriptos ineditos e
todas as edies impressas,  a mais valiosa de todas, a mais
importante.

Um dos manuscriptos de que a illustrada senhora, benemerita das lettras
portuguezas, se serviu habilitou-a a conhecer quaes foram as poesias, ou
melhor, quaes os grupos de poesias, os _mss._ separados, que S de
Miranda enviou, por tres vezes, ao principe D. Joo. Esse _ms._ ,
demais, preciosissimo porque representa uma redaco primitiva,
original, feita com cuidado e com o intuito da offerta. D'ahi,
indubitavelmente, uma coordenao subordinada a certos principios e que
denuncia a mo do proprio poeta. As edies, at ento feitas, haviam-o
sido sobre manuscriptos distribuidos a amigos e discipulos.

A ex.ma sr. D. Carolina Michalis de Vasconcellos, corrigindo
rigorosamente aquelle _ms._ fundamental da sua edio, deu-lhe no o
caracter de diplomatica, sim de normal. Esse codice vem representado no
texto pelas tres primeiras partes, reproduco integral, livre de
restauraes e renovaes arbitrarias, mas emendada onde havia erros
visiveis e inilludiveis e systematicamente orthographada, em harmonia
com os principios do escriba, com alguma, pouca, pontuao, pouquissimos
accentos e resoluo de todas as abreviaturas. Acompanha a edio um
extenso corpo de variantes.

Esplendido trabalho de erudio, o da ex.ma sr. D. Carolina Michalis
de Vasconcellos,  ainda enriquecido com uma _vida_ e _commentario_
notabilissimos. Como estudo de profundo saber ficar considerado
monumento perduravel e guia indispensavel para obras futuras.

A ex.ma sr. D. Carolina Michalis de Vasconcellos e o sr. Theophilo
Braga, apoiando-se na _Vida_, investigaram e esgotaram, por assim dizer,
quanto a respeito de S de Miranda se pode escrever. No que hajam
aclarado todos os pontos duvidosos da obscura biographia do nobilissimo
auctor das _Cartas_. Isso, todavia,  assumpto para futuras e demoradas
investigaes.

Comprehende-se, pois, que o presente trabalho no  positivamente novo.
Tomando por base a _Vida_, aproveita todos os resultados adquiridos por
os anteriores, comparando opinies desencontradas e procurando projectar
a mais intensa luz sobre a biographia e a obra do grande S de Miranda.
Tudo documentado, tanto quanto possa ser, por citaes das cartas e
eclogas do poeta, pois que, das suas produces, as mais d'ellas
respeitam _sobre casos particulares que succederam na crte em seu
tempo_.

O intuito primordial do presente estudo  tornar conhecida a vida d'esse
vulto sympathico da nossa historia litteraria, mostrar a estreita
relao que ha entre ella e a sua obra, e restituir, ante a gerao
actual, o poeta ao logar a que tem direito pela independencia do seu
caracter, pela auctoridade indiscutivel que lhe dava esse mesmo
caracter, e pelo alto valor de sua poesia, toda conceituosa e
philosophica. Isto apenas desejava conseguir o auctor para poder
justificar a si proprio a audaz tentativa que emprehende.


Lisboa, agosto de 1895.




Escreveu o mallogrado Pinheiro Chagas, referindo-se ao director
espiritual e mestre dos lyricos do seculo XVI, ou da escola chamada
classico-italiana, que--se Cames, como os Jeronymos de Belem, significa
a resistencia do estylo nacional e da tradio nacional  Renascena
classica, S de Miranda representa o enxerto da litteratura classica em
um vigoroso rebento nacional. Nenhum outro juizo, como o do nosso grande
historiador contemporaneo, poderia assignalar melhor o logar de S de
Miranda no movimento litterario nacional portuguez. Cultor fervoroso da
tradio portugueza em seus primeiros tempos de poetisao, o illustre
solitario da Tapada, ao dedicar-se ao estudo e  imitativa dos classicos
da antiguidade grega e romana, no quebrou, talvez porque o no quizesse
fazer, os laos que o prendiam ao espirito que lhe guiara os primeiros
passos.

S de Miranda, como nota o sr. Theophilo Braga, fez uma revoluo
profunda na poesia portugueza, foi a alma da boa litteratura e o poeta
que mais propagou a tradio classica entre ns, no seculo XVI. Comtudo,
o classicismo n'elle no passa de um enxerto, mera tentativa no sem
valor, mas destituida de vida. E a sua gloria est toda, exactamente, em
o que a sua obra tem de genuinamente portuguez. As suas _Cartas_,
satyras admiraveis, so em todos os sentidos verdadeiras perolas da
nossa litteratura.

 certo que o classicismo, a brilhante Renascena, auroreava j no
horisonte do Portugal litterario. Encontrra mesmo alguns adeptos
apaixonados, mas que, faltos de talento, lhe no tinham dado impulso. Se
algumas tentativas houve antes de S de Miranda, to fracas foram que
no tiveram seguidores. Elle seu principal e verdadeiro propulsor.

Em sua educao primeira, S de Miranda recebeu necessariamente uns
laivos de classicismo pelo estudo das obras dos poetas gregos e latinos.
Nem de outro modo se poderia explicar a sua inclinao manifesta em esse
sentido. A _Vida_ d conhecimento de que, em 1584, um fidalgo de Lamego,
Gonalo da Fonseca de Crasto, possuia um _Homero_ com notas  margem
feitas em grego pelo douto S. Prova de que S de Miranda recebeu uma
educao classica.

Esclarecer tudo, talvez, o saber-se que S de Miranda nasceu em
Coimbra, que vem sendo de seculos o mais importante centro intellectual
do paiz. Centro que tem inspirado a poesia desde S de Miranda at
Garrett e, posteriormente, at Joo de Deus, Guerra Junqueiro, Anthero e
Eugenio de Castro. Coimbra, a cidade das melancolicas margens do
Mondego, a que as lagrimas de Ignez tornaram lendario e querido dos
poetas, a Coimbra dos estudantes... Antiga e nobre cidade, como S de
Miranda lhe chamou em uma das suas _Cartas_, a dirigida a Pero de
Carvalho.

    Da antiga e nobre cidade
    Som natural, som amigo.

Cidade cuja belleza maravilhosa sempre amou e louvou com o carinho de
filho amantissimo.

      Cidade rica do santo
    Corpo do seu rei primeiro
    Que ainda vimos com espanto
    Ha tam pouco, todo inteiro,
    Dos annos que podem tanto.

A nobre e leal Coimbra.

      Outro rei, tanto sem mal
    Que lhe empeceu a bondade,
    O quarto de Portugal,
    Qual teve ele outra cidade
    Tam constante e tam leal?

Do nascimento de S de Miranda affirma a _Vida_ que o poeta viu a luz em
_o mesmo dia em que el Rey Dom Manoel tomou posse do governo destes
Reynos_. Sobre qual tenha sido esse dia levantou-se divergencia de
opinies. Uns pretenderam que fosse fixado a 24 de outubro de 1495, como
o admittiu o sr. Theophilo Braga, em sua _Historia dos Quinhentistas_,
livre da supposio de, pela logica dos factos, ser levado a crer que o
poeta tivesse nascido muito antes d'esse anno. Outros escriptores
attribuiram-lhe a data de 27 de outubro, para a qual se inclinaram a
ex.ma sr. D. Carolina Michalis de Vasconcellos e Pinheiro Chagas.

A logica dos factos no mentiu ao sr. Theophilo Braga. S de Miranda viu
a luz necessariamente muito antes do anno admittido geralmente.
Demonstra-o, irrefutavelmente, um precioso documento recentemente
encontrado, em a Torre do Tombo, pelo incansavel investigador e erudito
escriptor, sr. dr. Sousa Viterbo:--nem mais nem menos do que a carta de
legitimao do grande poeta, datada de 1490, em que apenas se faz
referencia a Francisco, filho do conego Gonalo Mendes, que, no resta
duvida,  o nosso poeta. Ha pelo menos, portanto, a recuar uns cinco ou
seis annos a data de seu nascimento, o que no deixa de ter importancia
para a comprehenso da sua vida.

Da filiao de S de Miranda apenas se conhece o nome do pae, o conego
Gonalo Mendes de S, embora o sr. Theophilo Braga o diga filho de D.
Filippa de S. Errada interpretao, como o apontou Camillo Castello
Branco, da noticia-attribuida a D. Gonalo Coutinho. A _Vida_  bem
expressa dizendo que o poeta _foy filho de Gonalo Mendes de S e neto
de Joo Gonalves de Miranda, que viveo junto a Buarcos e de Dona
Phelippa de S sua molher_. Clarissimo, pois, que S de Miranda era
neto, e no filho, de _Dona Phelippa de S_. Quem fosse a me, se plebea
ou nobre,  mysterio que a alludida carta de legitimao vem desvendar.

Descendia, portanto, S de Miranda, da antiga gerao dos Ss, gerao
que deu a Portugal muitos filhos illustres, cavalleiros, prelados e
escriptores de renome e dos quaes um irmo do nosso poeta, Mem de S, 
um nobilissimo exemplo. Mas, essa gerao tambem legou ao mundo alguns
scelerados de marca. Um dos proprios filhos de S de Miranda demonstrou
exuberantemente quanta bilis corria entre o sangue generoso d'essa
illustre familia.

A av do nosso poeta. _Dona Phelippa de S, era filha de Rodrigues de
S, e neta de Joo Rodrigues de S, o primeiro que chamaro das Gals
assas conhecido em tempo del Rey Dom Joo de boa memoria._ S de Miranda
estava assim aparentado com as mais nobres familias do paiz e mesmo com
a illustre familia Colonna de Italia. Era-o, tambem, com a fidalguia de
Hespanha. A origem hespanhola dos Mirandas explica, como quer o sr.
Theophilo Braga, os versos em que o poeta se d por parente do fidalgo
asturiano Garcilaso de la Vega.

Os primeiros annos de sua vida, parece, S de Miranda passou-os nas
poeticas margens do Mondego, em Buarcos, em casa de seu av paterno Joo
Gonalves de Miranda. Deve ter estudado as _primeiras letras de
humanidades_ em Coimbra. So, porm, completamente desconhecidas as
primeiras impresses de sua mocidade e nem se pde conjecturar cerca
dos seus primeiros professores e estudos.

Desconhecem-se, egualmente, quaes as relaes em que estava a familia de
S de Miranda para com o monarcha. Devem ter sido cordeaes, pois que a
_Vida_ affirma que o nosso poeta veiu para Lisboa estudar Leis em a
Universidade, no que _por inclinao que tivesse aquella maneira de
vida mas obedecendo a seu pay que lha escolhera_ e, tambem, _em obsequio
ao gosto del Rey Dom Joo o Terceiro_.

Em 1516 devia ter concluido a sua formatura. Isto se deprehende de, por
essa epoca, j ser tratado por doutor. No _Cancioneiro geral_, colligido
por Garcia de Resende, encontram-se varias glosas e cantigas de S de
Miranda com a rubrica--_Do Doutor Francisco de Saa, grosando esta
cantigua de Jorge Manrrique_.

S de Miranda seguiu os seus estudos com _felices porgressos e sahio
grande letrado_. D'ahi, decerto, tendo um curso distincto, o ser
escolhido para ficar em a Universidade, professando as disciplinas que
frequentara. Pelo menos, a _Vida_ affirma que o poeta _tomou o grao de
Doutor e leo varias cadeiras daquella faculdade_.

Ento, os poetas eram geralmente jurisconsultos, phenomeno este que hoje
se d como maravilha. Ferreira, que egualmente reunia as duas
qualidades,  primeira vista incompativeis, de doutor e poeta,
defendendo essa alliana, dizia:

    No fazem damno s musas os doutores,
    Antes ajuda a suas letras do.

A passagem de S de Miranda pelo professorado da Universidade foi
rapida. A _Vida_ diz que o poeta, _conhecendo os perigos que o uso desta
sciencia tras consigo em materia de julgar, tanto que lhe faltou seu pay
no s deixou de todo as escollas, mas engeitou os lugares do
Desembargo, que por muitas vezes lhe foro offerecidos_.

O doutor Francisco de Sa tinha, certamente, alguns bens que lhe
permittiam custear a vida embora modestamente, e, d'ahi, o desprezar os
empregos da crte. Caracter altivo e independente no queria ceder da
sua liberdade. Assim, poude dedicar-se completamente ao _estudo da
Philosophia Moral e Estoyca a que sua natureza o inclinava_, e em que se
tornou consummado.

Pela familia illustre a que pertencia, pelas estreitas relaes em que
ella estaria com o pao real e pelas recommendaes especiaes que
traria, S de Miranda, ou, como era conhecido, _Francisco de Sa_,
encontrou um cordealissimo acolhimento no palacio do faustoso monarcha
D. Manoel. No intervallo das lies, nos ocios que lhe deixava a sua
applicao ao estudo, frequentava os seres da crte portugueza, em
pleno esplendor ento que Portugal attingia as culminancias do poderio
moral e material. Era a bandeira portugueza desfraldada por todo o
mundo, os reinos caindo ao embate das armas do pequeno povo das costas
atlanticas da peninsula hispanica, o nome de Portugal acatado com
respeito, tanto que o Rei Venturoso sentiu os primeiros assomos da ida
avassalladora da monarchia universal.

A realeza procurava reunir em seu torno, em o palacio real, os espiritos
mais cultos do paiz. Entoava-se como que um cro de louvres, de
canticos de alegria, em volta do feliz monarcha de um povo que to
extraordinarios paizes desvendra e dera  civilisaao. E como poderia
deixar de o ser, se a epopa era maravilhosa. Andava-se em ethereo
paraizo. Tudo era fausto, tudo gloria, tudo um sonho infindo como
infindo o horisonte que o nauta persegue.

Notabilissimos os seres d'essa crte faustosa que comeava a
effeminar-se na ociosidade da victoria e no goso das inexgotaveis
riquezas conquistadas, e que, assim, preparava proximos desastres. A sua
pompa e sumptuosidade excedia tudo quanto se poderia conceber. A
imaginao mais viva e ardente luctaria por os descrever em todo o
brilho. A sua fama foi em um crescendo continuo, passou as fronteiras e
repercutiu-se l fra, at se tornar universal. Os no menos famosos da
crte pontificia de Leo X ficaram-lhe sempre quem e muito.

O doutor Francisco de Sa, elle proprio, tomou parte em os certamens
poeticos realisados n'essa crte esplendida. Ahi se encontrou em
contacto com os homens notaveis da epoca, sobretudo poetas. Em a crte
se relacionou S de Miranda com o bucolista Bernardim Ribeiro a quem
tomou amizade sincera e por quem sempre foi dedicado. De ento datam,
egualmente, as estreitas relaes que manteve em toda a vida com o
principe Dom Joo, filho de el rei D. Manuel, relaes que se
sustentaram atravez de todos os acontecimentos, pois que o mesmo D.
Joo, quando j no throno, jmais deixou de patentear a sua estima ao
poeta, de o proteger e de lhe apreciar as produces.

A estrella de maior brilho da crte de D. Manuel era ao tempo ainda a
to formosa quanto esquiva D. Leonor de Mascarenhas, diz-se que dama da
rainha D. Maria. Senhora de dotes e qualidades pouco vulgares,
constituia ella o alvo das attenes dos mais galantes cavalleiros a par
de inspirados poetas, como D. Joo de Menezes, Fernam da Silveira e
outros. A espada que galhardamente lhes pendia do cinturo, emquanto
trovavam _ sua dama_, e que matava o audaz rival, era, tambem, a lusa
espada pelejadora pela patria e pela religio.

Em o _Cancioneiro de Resende_ encontram-se muitas referencias a essa
illustre senhora. A fidalguia porfiava em agradar-lhe, cercava-a de
galanteios para lhe merecer os sorrisos. No consta que ella se tenha
rendido a qualquer d'elles. A tradio d-a como um modelo de
esquivana.

Mais tarde, quando a fumarada das primeiras fogueiras do Santo Officio
ennegrecia o azul alegre e puro do nosso admiravel ceo, a suspeita e o
temor invadiam as consciencias, S de Miranda relanceava os olhos pela
estrada do seu passado, revia os tempos da sua mocidade e recordava-se
com profundissima saudade d'esses seres. No que ao poeta seduzisse o
fausto, mas a fina e intelligente companhia que n'elles havia,
n'aquelles seres de subtis e delicados motes.

      Os momos, os seraos de Portugal,
    Tam falados no mundo, onde so idos?
    E as graas temperadas do seu sal?
      Dos motes o primor, e altos sentidos?
    Ums ditos delicados cortesos,
    Que  d'eles? Quem lhes d smente ouvidos?

E com que energia fustigava a decadencia miseravel que levra a essa
desolao!

      Lanou-nos a perder engenhos mil
    E mil este interesse que haja mal,
    Que tudo o mais fez vil, sendo ele vil!

Os ultimos trovadores do _Cancioneiro de Resende_, S de Miranda ainda
os conheceu ou ouviu as suas poesias. Em comeo de frequentar a crte
repercutiam-se n'ella os ultimos echos dos cantares do mimoso D. Joo de
Menezes, um dos mais afamados d'aquelle tempo, e que devia a sua nomeada
ao chiste,  graa arrebatadora,  facilidade com que glosava os motes
apresentados pelas damas do pao. Cavalheiro amabilissimo, eximio na
arte do galanteio, D. Joo de Menezes fizera-se adorado. As suas
canes, foram ouvidas e estimadas ainda muito tempo aps a sua morte,
revestindo a sua memoria lendaria uma aureola de consagrao.

Particularmente bem acceito, amimado mesmo, o dr. Francisco de S de
Miranda, espirito engenhoso, talento a desabrochar, deixou-se
influenciar pela maneira e pela frma das poesias dos ultimos trovadores
da crte manuelina. Foi em sua corrente, poetando como elles, tomando-os
como modelos e seguindo-os na esteira. Sobretudo, as poesias de D. Joo
de Menezes mereceram-lhe especial considerao e estudo.

D'esse tempo a maior parte dos seus _vilancetes_ e _cantigas_.
Composies faceis, de estructura simples e superficiaes, algumas
d'ellas so, entretanto, como as aprecia a ex.ma sr. D. Carolina
Michalis de Vasconcellos, perolas de raro valor e flores de delicioso
perfume. S de Miranda cultivou, assim, n'esse primeiro periodo de seu
labor, a tradio da chamada _escola velha_. Pode-se affirmar, sem
receio de contradicta, que o fez com notoriedade. Muitas das suas
poesias de ento apparecem no _Cancioneiro geral_.

Tem-se levantado grande celeuma sobre um pretendido sentimento de acerbo
desgosto, de profunda tristeza, manifestado n'essas primeiras
composies poeticas, desgosto a que se pretende ligar uns infelizes
amores por uma tal _Celia_. Que estes amores sejam ou no fico, 
ponto hoje controverso e sel-o-ha, talvez, por muito tempo. A verdade 
que a taciturnidade do nosso poeta no era extemporanea. Vinha do
temperamento proprio de S de Miranda, um pouco do caracter ethnico da
regio de sua naturalidade e a evidencial-o est a inclinao
philosophica de toda a sua vida.

 provavel que o moo dr. Francisco de S se no esquivasse a qualquer
intriga amorosa em palacio. No verdor dos annos, em uma crte a
corromper-se, com as facilidades que de per si se proporcionavam, como
poderia deixar de se prender pelo donaire de qualquer gentil dama?
Envolver-se-hia em algum caso mais serio e escandaloso, e d'ahi o
dizer-se, posteriormente, que a sua viagem  Italia tivera por causas
primordiaes questes na crte.

A _Vida_ sustenta que, levantando-lhe a philosophia _o pensamento ao
desprezo de todas as cousas de c quis peregrinar pollo mundo, porque no
repouso a que determinava recolher-se o no inquietassem as novas do que
no vira_. Pode-se d'aqui deprehender que esse

    Homem de um s parecer,
    de um s rosto, e d'[~u]a f,
    d'antes quebrar que torcer,

comeava a profundar a base falsa da sociedade em que vivia? Ser dado
inferir-se que era a decadencia que elle antevia imminente, que o levava
a despresar os folguedos e a aborrecer _as cousas de c_? Talvez.




S de Miranda era um espirito observador e comparativo. De temperamento
taciturno, _grave na pessoa, melancolico na apparencia, mas facil e
humano na conversao, engraado nella com bom tom de falla, e menos
parco em fallar que em rir_, fatigar-se-hia, por vezes, dos passatempos
frivolos da crte estouvada e procuraria em o estudo um refugio para
retemperar a sua actividade. De mais, illustrado e laborioso, no
pensaria apenas em folgar e poetar. Applicava as suas faculdades
intellectuaes, analysava e produzia. Ninguem melhor do que elle
conheceria o trabalho espiritual de sua poca.

O movimento litterario tornara-se essencialmente palaciano no reinado do
feliz D. Manoel. Natural attraco da realeza esplendorosa. Tambem, o
soberano venturoso iniciara a politica de unidade monarchica com as
celebradas _Ordenaes Manuelinas_, cujo pensamento capital, traduzido
pela reforma dos foros, era a concentrao, em o poder real, dos
privilegios locaes e a extinco das antigas tradies feudaes.

A poesia cessra, portanto, de ser puramente popular, nacional, de se
inspirar directamente nos actos da vida do povo, para se converter em
graciosa e cortez. No que aquella desapparecesse de todo, pois,
felizmente, no deixara de se manifestar a reao. As formas palacianas
tinham conquistado, porm, o predominio sobre as classes mais
illustradas.

Admiravel e prestadia manifestao poetica, o trovadorismo acabara por
se estagnar nas superficialidades da crte, ao contacto dos costumes de
uma nobreza propensa  ociosidade e  fatuidade pelo saciamento do oiro.
Reduzira-se a um lyrismo artificioso e destituido de sentimento pela
carencia absoluta de motivos emotivos, de actos inspiradores. O seu fim
era, sobretudo, o bom dito, a impresso sobre os presentes, impresso,
est bem de ver, muito pessoal e passageira.

E decaira tanto o trovadorismo que se pozera servilmente a imitar os
hespanhoes e at a adoptar a lingua d'aquelles para as composies
poeticas. Precaria, ento, a existencia da portugueza, nobre e bella
como nenhuma outra. O melhor testemunho d'essa decadencia encontra-se no
_Cancioneiro geral_ de Resende, archivo da fina flor da poesia palaciana
do tempo, como ironicamente lhe chamou um conhecido escriptor.

Essa poesia, falta de ideal, de um motivo emocionante, sem uma unica das
qualidades que constituem a obra d'arte, recorria aos artificios da
forma, a um exagerado abuso de allegorias metaphysicas para se fazer
valer. Carecendo de sentimento verdadeiro, pedia vida  casuistica
amorosa que apresentava ao mais elevado refinamento.

Privilegio das classes elevadas, como o aponta o sr. Theophilo Braga,
ella servia de passatempo nos ocios da guerra, era a expresso da
galanteria com as damas e o meio de dar celebridade aos casos
anedocticos que se passavam detraz dos pannos de Arras. Mero
entretenimento, como tal, descambava quasi sempre para a banalidade.
Futilissimos, assim, os themas de inspirao, umas _grandes barbas_, um
_pelote de peludo_, um _macho ruo_ e quejandas cousas.

Felizmente, a Renascena abrira novos horizontes e os seus fulgurantes
clares vinham j alumiando at Portugal. Para isso concorria, sem
duvida, as estreitas relaes em que se estava com a Italia e o
acolhimento que entre ns encontravam os que d'ahi chegavam. Ninguem
melhor do que Oliveira Martins, em sua _Historia de Portugal_, assignala
o ponto de partida d'esse movimento revivificador, dizendo que os filhos
de el-rei D. Joo I, abrindo as portas da nao  cultura da Renascena,
chamando sabios, viajando, fundando bibliothecas, tinham lanado  dura
terra do velho Portugal as sementes italianas.

A transformao, porm, no se operou de momento, em um convulsionismo
rapido. Seguiu lenta, infiltrando-se pouco a pouco, tanto que, como o
sustenta a ex.ma sr. D. Carolina Michalis de Vasconcellos, na
litteratura como nas artes e nas sciencias, os vestigios da influencia
italiana foram quasi insensiveis at 1520, vesperas da partida de S de
Miranda para o estrangeiro. Mas, nem o proprio creador do theatro
nacional, o talentoso, embora inculto, Gil Vicente, to aferrado 
escola da tradio nacional, escapa  sua influencia. Manifesta-o a
ironia de suas faras, aquella mordacidade que nada poupava e ia at
desrespeitar as crenas religiosas, ironia que annunciava o proximo
advento da Reforma, o despertar da razo humana escravisada pela esteril
escolastica.

L fra rompera j acirrada a lucta entre as duas escolas litterarias.
Uma procurava manter intransigentemente as tradies da edade media e da
poesia nacional e a outra ia inspirar-se em os monumentos da litteratura
classica, tendendo a imital-os, se no seguil-os servilmente. Havia-se
ferido os primeiros combates em forma entre os partidarios de uma e os
sectarios da outra, combates que tinham tido uma natural repercusso em
nosso paiz. So os eruditos conjurando-se contra Gil Vicente, cuja
originalidade contestam, e considerando as suas obras de rasteiras e
ordinarias. Com que fino tacto epigrammatico, porm, o auctor de _Ignez
Pereira_ os apodou de _homens de bom saber! De bom saber!..._

S de Miranda, de uma instruco variadissima, innegavelmente conhecia
desde a infancia os livros dos escriptores gregos e latinos. A _Vida_
offerece a preciosissima noticia de que elle _soube tanto da lingoa
grega, que lia a Homero nella, e anotava de sua mo em grego tambem_.
Devia ter seguido com interesse a evoluo da poesia italiana que a to
grande altura se estava levantando.

Approximando as produces dos poetas italianos das dos seus
contemporaneos, S de Miranda media bem a inferioridade da nossa poesia.
Comprehendia e avaliava a necessidade de a vitalisar egualando-a com a
grandiosidade epica que estava attingindo o espirito guerreiro dos
portuguezes. Tomou-o o desejo de exaltar o pensamento revestindo-o de
novas e vigorosas formas. Em seu animo de patriota, concebeu a vontade
ardente de fazer vibrar a mentalidade nacional com scintillaes
desusadas a par dos coriscantes raios despedidos pelas espadas vibradas
por braos energicos.

      Um vilancete brando, ou seja um chiste,
    Letras s invenis, motes s damas,

    [~U]a pregunta escura, esparsa triste!
    Tudo bom! quem o nega? mas porque,
    Se alguem descobre mais, se lhe resiste?

A renovao litteraria e artistica, importante e fecunda de resultados
immediatos, que se operava em Italia, devia attrahir o sonhador poeta
como o luzir do dia chama a passarada chilreante. S de Miranda, votando
ao desprezo _as cousas de c_, sentir-se hia tomado de um vehemente
desejo de ir verificar de perto, avaliar de _visu_, por assim dizer, a
intensidade d'esse grande movimento intellectual que comeava a ter echo
em toda a Europa, visitar esse meio que a tuba da Fama dizia o mais
culto.

Estamos, assim, de accordo com a ex.ma sr. D. Carolina Michalis de
Vasconcellos em que a viagem de S de Miranda  Italia no teve origem
primordial em questes da crte. No. Tudo  porque o seu motor foi--a
anciedade espiritual do poeta, o desejo de estudar a arte, de pr em
concordancia a elevao do pensamento com a heroicidade das aces
portuguezas que o expatriou. Altamente patriotico, pois, e proprio do
seu nobre caracter, o emprehendimento que se propozera o poeta.

S de Miranda demorou-se l por fra bastantes annos. Viagem larga e que
lhe permittiu, _visitando primeiro os mais celebres lugares de Espanha_,
percorrer com _vagar e curiosidade Roma, Veneza, Napoles, Milo,
Florena e o milhor de Cicilia_. Verdadeira misso de estudo a que no
escaparam as cidades ento mais em evidencia e onde se encontravam os
homens mais illustres da Renascena.

    Vi Roma, vi Veneza, vi Milo
    Em tempo de Espanhoes e de Franceses,
      Os jardins de Valena de Arago
    Em que o amor vive e reina, onde florece,
    Por onde tantas rebuadas vo.

A sada do poeta para a Italia deve ter-se effectuado por 1521 e o
regresso ao reino por 1526.  o que se conclue do verso

    Em tempo de Espanhoes e de Franceses

Era a epoca em que o imperador Carlos V, de Hespanha, andava em guerra
com Francisco I, de Frana, por este haver, tambem, aspirado ao throno
da Allemanha. Exactamente n'esse anno de 1521 encetou Carlos V as
hostilidades contra o rei de Frana, abrindo o primeiro periodo de
guerra que teve por campo de batalha, sobretudo, a Italia, e que veiu a
terminar, depois da batalha de Pavia (1525), em que Francisco I caiu
prisioneiro dos hespanhoes, pelo tratado de Madrid que deixou a
peninsula italica em poder dos ultimos (1526).

A viagem de S de Miranda deve, portanto, ser collocada entre os annos
de 1521 e 1526. Esta data est completamente de accordo com a indicao
de seus proprios versos, alm de que todos os factos a que elles se
referem a confirmam. Quando o poeta se tornou ao reino, _j avia muito
que reynava_ el-rei D. Joo III.

A peninsula italica encontrava-se, ento, em plena febre de
renascimento. Seus povos, escravisados successivamente por allemes,
francezes e hespanhoes, sem foras para se libertarem dos dominadores,
procuravam em o engrandecimento do passado o esquecimento das desgraas
que soffriam, da decadencia do presente. A imagem de Virgilio, cantor
das glorias nacionaes, apparecia-lhes como um protesto patriotico e, o
que era mais, como um balsamo fortificante das energias abatidas.

As recordaes dos tempos idos incutiam os estimulos para a lucta que a
Italia sustentava. Por isso principiou ali a Renascena bafejada pelas
lembranas sempre vivas de uma tradio patriotica jamais extincta, na
phrase elegante e justa do sr. Simes Dias. E foi assim que ella
conseguiu engrandecer-se como nunca, levantar-se  maior altura da arte,
em concepes grandiosas, com artistas que attingiram a um renome
perduravel.

Em meio de uma actividade assombrosa, a Italia caminhava para
conquistar, entre as naes neo-selticas, a posio intellectual
dominante que posteriormente gosou. Palmo a palmo, alcanava um triumpho
to glorioso quanto indelevel. Aos genios de Dante, Petrarcha e
Boccacio, iniciadores d'esse movimento extraordinario e inegualavel, em
o periodo em que as trovas provenaes ainda eram o divertimento das
classes patricias, e de Leonardo de Vinci, succedera uma gerao toda
illustre. Ao tempo de S de Miranda, a Italia era o campo de gloria de
Ariosto, Sanazarro, Bembo, Tasso, Machiavello, Vittoria Colonna,
Raphael, Miguel Angelo, etc.

Em seus versos, S de Miranda refere-se, por vezes, aos diversos homens
illustres dessa vicejante Italia. O conhecimento que d'elles mostra
auctorisa a affirmativa de que tratou pessoalmente com os mesmos. A
posio que occupava na crte portugueza, o prestigio do nome da familia
a que pertencia, para mais ainda aparentada com a opulenta casa Colonna
por seu av paterno Joo Rodrigues de S, pol-o em estreitas relaes
com homens notaveis como Giovanni Ruccellai, Lattanzio Tolommei e
outros. Ao excellente lyrico e notavel bucolico da _Arcadia_ chama o bom
velho Sanazarro.

Floresciam, ento, com o mais vivo esplendor, os talentos mais insignes.
De um a outro extremo da formosa peninsula, o genio irrompia audaz e
scintillante. A Italia foi, d'esta sorte, um verdadeiro deslumbramento
para S de Miranda. Affirma a _Vida_ que o poeta viu Roma, Veneza,
Napoles, Milo e Florena, os centros d'essa admiravel elaborao
intellectual, _com vagar e curiosidade_. Assim deve ter sido.

No houve homem notavel que o nosso poeta no conhecesse ou de que no
indagasse o merito artistico. Em Roma, encontraria o celebre cardeal
Bembo, intimo do magnificente Leo X, imitador acerrimo de Cicero a
ponto de aconselhar os seus amigos a no lerem as epistolas de S. Paulo
para no macularem o estylo e que, ao celebrar o sacrificio da missa,
recitava odes de Anacreonte, em vez das oraes do ritual. Ao visitar
Veneza, a bella rainha do Adriatico, ouviria fallar do implacavel poeta
satyrico Aretino, verdadeira lingua viperina, que vendia publicamente os
seus terriveis epigrammas a quem mais lhe dava.

S de Miranda cita, outrosim, Ariosto, em pleno florescimento na crte
de Ferrara, e que introduzira em a poesia o sensualismo elegante e a
phantasia pura. Machiavello, o famoso secretario da republica de
Florena, preparava tres seculos de acerrima controversia com o seu no
menos celebre livro _Principe_, apologia emphatica do poder absoluto.
Era, ainda, Trissino, grammatico e lyrico, mais conhecido pela tragedia
_Sophonisba_, escripta  maneira grega; o cardeal Sadoleto, esse outro
secretario de Leo X, insigne latinista e poeta lyrico; Guicciardini,
jurisconsulto notavel e Julio Scaligero, hellenista de fama. Seria
necessario quasi um volume para enumerar todas as individualidades
d'essa gerao illustre.

As relaes de S de Miranda com os artistas e eruditos italianos
abriram novos horisontes ao seu espirito e este insensivelmente foi
recebendo a direco que devia dar ao genio da Renascena em Portugal.
Mas no era apenas o contacto com esses homens de talento, sim, tambem,
a observao d'essas maravilhosas obras de arte disseminadas por toda a
Italia, em palacios, monumentos e templos grandiosos, as incomparaveis
telas de Raphael, espirito todo luz, harmonia e amor, a branca viso do
Thabor, como lhe chamou Henri Martin, e de Miguel Angelo, o austero e
solitario pintor, o anjo das trevas divinas. Era a acquisio dos mais
bellos trabalhos da brilhantissima litteratura italiana, que relia e
estudava com sofreguido e cujas excellencias saboreava com dce
embriaguez, mais tarde, em sua quinta da Tapada, longe do bulicio da
crte.

      Liamos os Assolanos
    De Bembo, engenho tam raro
    Nestes derradeiros anos
    Os pastores italianos
    Do bom velho Sanazaro.

S de Miranda teve egualmente occasio de vr em scena a comedia
classica em prosa, moldada pela da antiguidade. Observador como era, no
lhe escapou a importancia d'esse novo germen litterario e analysou-o
cuidadosamente para o introduzir e adaptar em sua patria. A par da
comedia manifestava-se uma outra especie nova, o dilettantismo musical.
Para mostrar o agrado com que o veria o poeta, bastar dizer que elle
_tangia violas darco e era dado  musica_.

Nos palacios, outros tantos fcos de Renascena, discutiam-se todas as
questes de arte e de litteratura. As festas n'elles celebradas no eram
puramente de distraco como as da crte portugueza, mas essencialmente
productivas. Em casa do marquez de Pescara reuniam-se os talentos mais
em evidencia. Comprehende-se bem o que seriam os seros ali realisados.

S de Miranda, de natural perscrutador, no deixaria, certamente, de se
interessar pelas questes politicas e religiosas, que tambem agitavam a
esse tempo a Italia e que constituiam os grandes factos da Reforma
attingindo o seu extremo, na Dieta de Spira, com a proclamao da
liberdade de consciencia. Provavelmente, como catholico devotado e
ardente, lhe no seria em principio sympathica a Reforma, mas nem por
isso escapou  influencia d'ella, nem deixou de votar a mais profunda
repugnancia ao excesso de intolerantismo da reaco.

Intelligencia altamente lucida, S de Miranda sentiu-se tomado de uma
intensa fascinao por esse extraordinario movimento intellectual que
tinha a felicidade de observar de perto, de apreciar pessoalmente,
tratando com os seus principaes corypheus. Como o seu corao de
patriota, ardente, no pulsaria actuado por uma forte vontade de tirar a
sua patria do profundo marasmo a que decaira para a levantar  maior
altura do culto da arte! Avalia-se e d-se razo ao enthusiasmo com que
se tornou a Portugal.

      Aqueles cantares finos,
    A que _liricos_ dissero
    Os Gregos e os Latinos,
    Digo me donde os houvero
    Salvo dos livros divinos?
    Quantos que d'ahi ao seu
    Trouxero auguas  mo.
    Regou Pindaro e Alceu,
    E em mres prados Plato!

      Mas  a que ora aprendo
    Ler por eles de giolhos.
    De que sei quam pouco entendo.
    Mas fossem dinos meus olhos,
    De cegar sobre eles lendo!
    Que, dos seus misterios altos
    Assi lubrigando vejo
    Que no so pra tais saltos:
    Gemo smente e desejo.

Em 1526, S de Miranda encontrava-se, sem duvida, de volta a Portugal.
Reinava, _avia muito_, o seu nunca desmentido amigo, el rei D. Joo III.
Passava dos trinta e cinco annos. A sua mentalidade achava-se
enriquecida com os preciosissimos conhecimentos adquiridos em sua
excurso por Italia.

Seu animo retemperado e energico casava perfeitamente com a firmeza de
seu caracter. Traara os seus planos e estava resolvido a executal-os.
Como sustenta a ex.ma sr. D. Carolina Michalis de Vasconcellos,
tratava de dar novas sendas s lettras patrias, de estimular os poetas
com o exemplo, de provar a possibilidade de um aperfeioamento ou antes
renovamento fundamental da poetica portugueza, de fazer, emfim, a
transplantao das formas e dos metros italianos.

S de Miranda lanou-se afoitamente  lucta, contando com uma facil
victoria. Enganou-se. A resistencia foi mais porfiada do que certamente
esperava e morreu mal tendo chegado a vr os primeiros fructos de seus
esforos.

Desde a sua volta a Portugal, S de Miranda foi decididamente o chefe da
escola classica, da escola que, como disse Pinheiro Chagas, pautava as
suas obras comicas pelos modelos de Plauto e de Terencio, as suas
eclogas e cartas pelas de Horacio e de Ovidio, a que substituiu a
redondilha popular, at ento quasi exclusivamente usada, pelo verso
hendecasyllabo jambico italiano e as pastoraes ainda trovadorescas de
Bernardim Ribeiro pelos idyllios virgilianos e pelas imitaes de
Theocrito. Quebrou o grande poeta o encanto e as velhas frmas gastas do
_Cancioneiro_ de Resende, com a futilidade da poesia palaciana, foram
completamente abandonadas.

O douto e grave poeta, porm, no foi apenas o propulsor da escola
classica em Portugal, mas tambem verdadeiramente o reformador da chamada
_escola velha_, a que deu novos dias de gloria. Os rhythmos nacionaes, o
grupo das singellas quintilhas e decimas, levantou-os elle  maior
perfeio em suas celebres _Cartas_ satyricas. Longe de romper
fundamentalmente com a tradio, continuou a empregar os antigos metros
nacionaes, voltando com frequencia s graciosas redondilhas e at s
esparsas, vilancetes e glosas, de uma ligeira improvisao. Em o ultimo
periodo de sua existencia deixou-se dominar mais absolutamente pelo
classicismo que, em todo o caso, apparece em suas produces atravez do
renovamento italiano.

Pena  no haver sido S de Miranda um poeta genial, inspirado como
Cames. Com as qualidades de estudo e de observao de que era dotado
ter-se-hia tornado uma poderosa individualidade.

Innegavelmente so relevantissimos os servios por elle prestados 
litteratura portugueza.  o que a ex.ma sr. D. Carolina Michalis de
Vasconcellos pe em relevo ao affirmar que o illustre poeta provou que a
lingua portugueza era capaz de se elevar at s concepes mais bellas
do lyrismo moderno com o soneto e a cano de Petrarcha, os tercetos de
Dante, enlaados em elegias e capitulos segundo o estylo de Bembo, a
oitava rima de Policiano, Boccacio e Ariosto, e as ecloglas de Sanazarro
com os seus _versos encadeados_ e a variao melodica dos rhythmos e,
finalmente, introduzindo o _hendecasyllabo jambico italiano_.

Propriamente a S de Miranda nada se deve em o que respeita a frmas
metricas. O poeta da Tapada, admirador enthusiasta dos modelos
estrangeiros que estudara, imitou, em geral escrupulosamente, a
estructura das estrophes, introduziu frmas novas, reformou e
aperfeioou, mais nada. Podia ter ido muito longe, variar os typos por
meio de leves modificaes no encandeamento da rima, e no agrupamento
dos septenarios na _Cano_, mas no ousou arcar com essas
responsabilidades. Unicamente quanto ao assumpto e  linguagem se
reservou uma completa e perfeita originalidade e d'esse modo concorreu
bastante para o aperfeioamento da lingua portugueza, ainda rude e pouco
melodiosa, alm de que poude legar  posteridade as suas sempre
apreciadas _Cartas_. Isso o salvou, tambem, do fiasco de algumas mal
succedidas tentativas de innovao.

Tem-se pretendido negar a S de Miranda a iniciativa quanto ao emprego
de novas frmas metricas. Faria e Sousa foi o primeiro que contestou a
actividade e influencia do illustre poeta como reformador,
ridicularisando-o e rindo-se de suas pretenses. O satyrico e faceto
Diogo Camacho de Sousa, que nem o grande epico, o immortal auctor dos
Lusiadas, poupou, chamava-lhe

    poeta at o embigo.

Tolera-se ou desculpa-se que Faria e Sousa e Camacho aquilatassem por
essa forma o merito de S de Miranda. No se podia esperar outra cousa
de seu engenho satyrico.

De outra ordem  a affirmativa, feita por criticos respeitaveis, de que
os proprios versos que se dizem italianos e introduzidos por S de
Miranda j eram conhecidos na peninsula do uso dos provenaes que os
imitaram dos arabes. Jos Maria de Andrade Ferreira, em seu _Curso de
Litteratura Portugueza_, vae at declarar cathegoricamente que, no
tocante a artificio metrico e variedade rhythmica, nada se pde produzir
que no fosse adoptado por aquelles poetas.

Assim, na opinio de certos escriptores, e para mais auctorisados, foram
os portuguezes os inventores da medida grande, limitando-se os italianos
simplesmente a seguir o trilho dos poetas lusitanos. Querem esses que o
infante D. Pedro, o das _sette partidas_ e que desastradamente encontrou
a morte em Alfarrobeira, haja escripto os primeiros sonetos portuguezes.
Segundo esses, ha hendecassyllabos e septenarios italianos, como tambem
muitissimas oitavas rimas, no smente em o _Cancioneiro_ de Resende, em
Bernardim Ribeiro e Christovo Falco, mas at no poema do _Cid_ e no de
_Alexandre_ e em muitas coplas dos Cancioneiros da Vaticana, Collocci
Brancuti e de Ajuda. Portanto, como pretende Andrade Ferreira, pouco
deveria o parnaso portuguez aos chamados quinhentistas.

O erudito Dias Gomes foi mais commedido e mais sensato em sua
apreciao. Attribuindo a introduco do soneto, em Portugal, ao famoso
infante D. Pedro, concedeu, todavia, que S de Miranda o aperfeioou e
estabeleceu da maneira que ao presente o vemos. Admitte, egualmente, que
o poeta da Tapada nos ensinou a estructura da _cano_, da _oitava rima_
e do _terceto_. O sr. Theophilo Braga, em sua _Historia dos
Quinhentistas_, cita a opinio de Dias Gomes e accrescenta que foram
essas formas quasi exclusivas que abraaram depois os poetas da escola
italiana, do que se deprehende que a partilha.

Mais recentemente, deve-se  ex.ma sr. D. Carolina Michalis de
Vasconcellos o relevante servio s lettras patrias de verificar at que
ponto eram fundadas as criticas dirigidas contra a obra de S de
Miranda. D'esse estudo resultou tomar aquella senhora a peito a defeza
de haver elle iniciado--a escola nova italiana, introduzindo o
_hendecasyllabo_, ensinando a estructura do _soneto_, dos _capitulos_
(ou elegias) em tercetos, as frmas fundamentaes da _cano_ e a _oitava
rima_ italiana, e mostrando tambem como estas tres formas estrophicas se
podem combinar na _ecloga_. No que to conscienciosa escriptora queira
negar a filiao historica, a origem commum do _decassylabo_ limosino e
do _hendecasyllabo_ italiano, ou antes, a relao de dependencia do
segundo para com o primeiro, mas, em vista da pouca clareza com que os
dois metros tm sido classificados, em Portugal, accentuar a sua
differena.

Exactamente  confuso resultante da falta de methodo no contar e medir
das syllabas e  pouca clareza na terminologia dos versos portuguezes,
attribue a ex.ma sr. D. Carolina Michalis de Vasconcellos a
contestao de que fosse S de Miranda um innovador. Uns, attendendo
unicamente aos sons, aos agudos, contam por syllabas de um metro as que
se preferem at  ultima aguda, metrica, ou seja pausa, desprezando as
breves que se lhe sigam. Outros, pelo contrario, tomando por norma do
verso portuguez o _grave_ ou _inteiro_, contam as syllabas accentuadas,
grammaticaes realmente, alm da pausa. D'ahi que uns chamaram ou chamam
_hendecasyllabo_, ou de onze syllabas, ao verso que outros denominam
_decasyllabo jambico limosino_, inventado pelos trovadores da Provena e
imitado em Italia, Catalunha, Castella e Galliza. Ainda segundo prova a
illustrada senhora, as oitavas rimas que os mesmos criticos descobriram
na antiga poesia portugueza so, em realidade, estrophes de oito linhas
ou oitavas, mas estas estrophes ou se compom de duas quadras
peninsulares ou so oitavas hespanholas em versos de arte maior.

A nosso vr, a argumentao da ex.ma sr. D. Carolina de Vasconcellos
resolve satisfatoriamente a questo. Pode-se d'ella concluir a
affirmativa cathegorica de que, antes da viagem de S de Miranda 
Italia, no existiam, em Portugal, a _oitava rima_, o _soneto_, a
_elegia em tercetos_ e a _cano_ italiana. To pouco se compozera
qualquer poesia em _hendecasyllabos e septenarios, com accentos fixados
 maneira toscana_. S de Miranda bebeu na nascente, inspirou-se
pessoalmente em a propria Italia, com seus grandes e immorredoiros
artistas, e, quando de l voltou  patria, poz-se a seguir as formas ali
em uso, o que, de resto, elle proprio confirma e confessa ingenuamente
nas rubricas de suas poesias.

Fizera-se, realmente, sentir o classicismo na peninsula hispanica, mas a
sua influencia poetica havia sido fraca e desapparecera quasi sem deixar
vestigios. E mesmo se limitara a um vago conhecimento da escola
dantesca, inaugurada por Imperial e em que se enfileiraram Joo de Mena,
o Marquez de Santilhana e D. Fradique de Vilhena. O Marquez de
Santilhana, antes de 1458, escrevra j alguns sonetos. Outros poetas
metrificaram em tercetos. Imperial, em seu _Dezir a las siete virtudes_,
imitou o verso de onze syllabas.

Essas innovaes foram, porm, prematuras. No fructificaram por falta
de meio apropriado e em breve cairam em o mais completo abandono. Quanto
no custou a S de Miranda implantar as suas! No ha provas, de resto,
de que aquellas tenham sido conhecidas em Portugal, ou, pelo menos, de
que se lhe haja ligado a minima importancia. Apenas em o _Cancioneiro
geral_ se nota uma tendencia accentuada para o symbolismo e allegoria e
uma forte inclinao para o didactismo, em um gosto de eruditismo
escolastico.

S de Miranda , pois, incontestavelmente, seno o fundador, o propulsor
da escola classico-italiana em Portugal. Visitando a Italia, quando esta
peninsula attingia o maximo de sua elevao intellectual, preso de um
santo enthusiasmo, dedicou-se com alma a reformar a nossa poetica
segundo os modelos que l fra vira to apreciados. No quiz classisar a
litteratura patria exclusivamente, mas levantar a poesia de sua
decadencia por meio dos modelos italianos que estudara. Com justia,
pois, o nome de S de Miranda abre um novo periodo na historia
litteraria portugueza, que com Ferreira e Cames se ergue s maiores
alturas.

Para as imperfeies metricas e rhythmicas de S de Miranda, perdoaveis
em quem, como elle, tinha a luctar com as difficuldades da amoldao e
com as rudezas de uma lingua ainda no desbravada de todo, j a _Vida_,
verdadeiro espelho do pensamento dos seus contemporaneos, teve a
attenuante de que foi elle o primeiro _que compos versos grandes neste
Reyno, bastante desculpa das miudezas que se tacho em alguns seus desta
medida pera aquelles homens, ao menos que attendendo ao que se diz, no
curo muito do modo_. A _Vida_ considera os defeitos do poeta como
_accidentes de nenhuma importancia_, attendendo a que elle _no somente
foy inculpavel na gravidade das sentenas, na agudeza dos conceitos, na
propriedade dos termos, na moralidade das figuras, na imitao dos
Poetas, na observao das regras, seno inimitavel tambem na pureza com
que fallou em materias amorosas_.

 pouco de estranhar que S de Miranda no tivesse em suas obras a
inspirao de Cames, porque devia luctar com grandes difficuldades para
amoldar o portuguez duro e rude dos heres da Africa e da India ao
espirito philosophico das suas idas e  harmonia das novas formas
poeticas que pretendia introduzir em Portugal. D'ahi a sua inferioridade
manifesta e incontestavel na parte em que mais se inclina para os
modelos da escola classico-italiana, inferioridade que ainda mais pe em
relevo o brilhantismo das suas redondilhas to nacionaes.

Innovador convicto, preoccupava-se com a imitao dos modelos
estrangeiros que o deslumbravam e aos quaes desejava egualar, seno
exceder. Estudava constantemente procurando seguir com o maior rigor as
regras da arte. Fel-o to a contento dos partidarios de sua escola, que
a _Vida_ chega a sustentar que _os que attentamente o passarem no lhes
ficar necessidade de lr em as Poeticas de Aristoteles e Horacio, que
elle, parece, no largaria da mo_.

O poeta, em sua sde de perfeio, no se dava nunca por satisfeito com
a sua obra. Continuamente refundia os seus trabalhos, cortava aqui,
accrescentava alm e, pode se dizer, morreu sem deixar uma forma
definitiva de sua enorme produco poetica. A grande quantidade de
variantes tem sido a maior difficuldade para as edies de suas obras.

S de Miranda desejava hombrear com os extraordinarios talentos que
admirara em Italia e cujos livros eram os seus ocios de todos os dias.
Sentia-se fraco de foras e no se canava em procurar aperfeioar-se. O
proprio poeta o confessa lealmente em o soneto com que fez acompanhar a
remessa do seu terceiro manuscripto de versos ao principe D. Joo, filho
de D. Joo III, espirito culto prematuramente apagado.

    Tardei, e cuido que me julgo mal,
    Que emendo muito e que emendando, dano.
    Senhor, que hei grande medo ao desengano,
    D'este amor que a nos temos desigual.

      Todos a tudo o seu logo acho sal:
    Eu risco e risco, vou me de ano em ano.

E este mal contido suspiro pela sua impotencia:

      Ando cos meus papeis em diferenas!
    _So perceitos de Horacio_, me diro.
    No posso em al, sigo o em aparenas.

A sinceridade de S de Miranda  a melhor justificao das imperfeies
que se lhe possam notar.




Ao voltar a Portugal, S de Miranda observou com profundo desgosto a
completa transformao que se operava na crte. Os symptomas da
decadencia moral da fidalguia tornavam-se evidentes, salientavam j como
manchas negras. Dominada pela febre do ouro que se fizera contagiosa, a
nobreza esquecia o proverbial cavalheirismo e atirava-se desatinamente 
mercancia para obter a todo o preo dinheiro e muito dinheiro.

A sede do ouro e dos prazeres, sede desenfreada e que nada saciava,
substituira a elevao culta dos seres do tempo de D. Manuel. Quo
mudados andavam os tempos! Da poesia j poucos queriam saber. E o mal
augmentava em um resvalar pavoroso que ia trazer a Inquisio e levar
at  infamissima cobardia que entregou Portugal a Castella.

Posteriormente, j em o retiro a que resolvera recolher-se, em carta
dirigida ao seu amigo Antonio Pereira, S de Miranda descreve
admiravelmente a situao deploravel em que caira o paiz. As causas so
bem apontadas e a comparao com as eras passadas no pode ser mais bem
feita.

      No me temo de Castela
    Donde guerra inda no soa,
    Mas temo me de Lisboa,
    Que o cheiro d'esta canela
    O reino nos despovoa,
    E que algum embique ou caia!
    O longe va, mao agouro
    Falar por aquela praia
    Na riqueza de Cambaia,
    Narsinga das torres de ouro.

      Ouves, Viriato, o estrago
    Que ca vai dos teus custumes:
    Os leitos, mesas, os lumes,
    Tudo cheira: eu olios trago,
    Vm outros, trazem perfumes.
    E aos bons trajos de pastores
    Em que sastes s pelejas
    Vencendo tais vencedores,
    So trocados os louvores,
    So mudadas as envejas!

       entrada polos portos
    No reino crara peonha
    Sem que remedio se ponha.
    Ums doentes, outros mortos,
    Outro polas ruas sonha.
    Fez nos a ousada avareza
    Vencer o vento e o mar,
    Vencer caje a natureza.
    Medo hei de novo a riqueza
    Que nos torne a cativar,

S de Miranda, que j se sentira aturdido com a desenvoltura, a
dissoluo dos costumes que presenciara em Italia, ficou apavorado ao
conhecer o avassalador mercantilismo da crte portugueza. Com que
energia a invectiva depois:

      Escravos mais que os escravos,
    Por rezo e por justia
    Deixai-vos dos vossos gabos,
    Que vos vendeu a cobia
    A mar bravo e a ventos bravos!

Homem recto, consciencia impolluta, S de Miranda no se poude ter que
se no retirasse logo para Coimbra, a sua querida, a sua adorada terra
natal. Mas, quando fugia  crte, esta, escorraada pelos horrores da
peste, que fazia de Lisboa um horrivel cemiterio, seguia-o ahi, a
acolher-se temporariamente  hospitaleira cidade.

S de Miranda possuia em Coimbra, ou em seus arredores, alguma
propriedade situada junto ao Mondego e com a vista sobre a serra,
certamente deixa de seus paes.  o que se tira de seus proprios versos,

    No lugar onde me vistes
    De agua e do monte cercado

N'essa propriedade, pensaria o poeta encontrar um refugio contra as
tentaes com que ainda o poderia seduzir a crte. Ahi contaria, com
effeito, mais dias

    De ledos que no de tristes.

A ida de D. Joo III a Coimbra constituiu verdadeiramente uma simples
visita. De todas as supposioes que se tem feito cerca da sada do
monarcha de Lisboa, por causa da peste, a mais verosimil  que essa
epidemia deu logar a pequenas excurses. A estada da crte, em 1527, em
a Athenas portugueza foi to rapida, que el-rei passou o Natal em
Lisboa, encontrava-se a 15 de fevereiro de 1528 em Almeirim e achava-se
de volta a Lisboa de fevereiro a junho de 1530.

S de Miranda, que estava em suas terras nas margens do Mondego, ao
saber da viagem do seu excellente amigo o monarcha e da joven rainha,
que pela primeira vez ia a Coimbra, correu  cidade a recebel-os, a
promover festas em sua honra e elle proprio pronunciou o discurso de
recepo dos regios personagens. E, com vontade ou sem ella,
restabeleceu, ento, as suas relaes com a crte. Consolou-se, talvez,
por ver que se lhe offerecia occasio de iniciar a propaganda a favor
das idas e formas poeticas que trouxera de Italia, de as defender
calorosamente e de mostrar as bellezas dos seus grandes vultos
litterarios, Sanazarro, Dante, Petrarcha, Ariosto, Bembo e Dante, cujas
obras possuia.

Certamente, a conversao com S de Miranda devia ser procurada pelos
fidalgos mais illustrados que faziam parte do sequito do rei. A
considerao que gozava pelo respeito que infundia a sua rectido de
caracter, a longa viagem feita pelo estrangeiro e de onde ainda ha pouco
regressara, o muito que devia ter visto e aprendido durante sua
excurso, tornavam-o, sem duvida, reclamado em a crte. O poeta
aproveitou este seu predominio para pugnar pelo triumpho dos grandes
mestres de Italia, estimulando a curiosidade dos espiritos mais
illustrados e intelligentes, patenteando-lhes as perfeies litterarias
dos seus trabalhos, emfim, preparando-os para bem receber as suas
projectadas obras. Ao mesmo tempo, ia desassombradamente atacando com
vigor as produces dos escriptores nacionaes, apontando e condemnando
os defeitos que lhes encontrava.

No foram baldados os esforos de S de Miranda. A crte teve que se
render ante o seu talento e a sua erudio. Como diz a _Vida_, _co as
colidades de sua pessoa e boas partes que nelle concorrio, sem outra
alguma ajuda das que costumo levantar ainda os indignos, se fez
tamanho lugar, que foy sem controversia, seno o mayor hum dos mais
estimados cortesos de seu tempo, concorrendo cos milhores que este
Reyno teve por ventura, e isto no s dos companheiros, mas del Rey e
dos Principes, e o que he mais dos vallidos com quem ordinariamente nam
adianto os amigos de antes quebrar, que torcer (como elle diz) tomando
em desprezo proprio a estimaam alhea e sentindo como injurias
particulares a detestaam que os judiciosos e discursivos fazem dos
vicios em geral_. Com effeito, S de Miranda atou e sustentou relaes
de estreita amizade com alguns dos mais nobres fidalgos, como D. Luiz da
Silveira, D. Manuel de Portugal, Pero Carvalho e outros.

S de Miranda no se limitou, porm, a propugnar pela divulgarisao dos
modelos classicos. Foi mais alm e comeou a atacar com energia os
vicios do tempo, a corrupo que alastrava sem dique. A renovao de seu
trato com a crte permittiu-lhe estudar a fundo os novos costumes dos
principes e dos aulicos e analysal-os com olhos de ver para melhor lhes
applicar o ferro candente.

Em Coimbra, os cortezos, e a cohorte de parasitas que os seguira at
ali, foram de uma insaciedade fora de commum. A nobreza da cidade
exhauriu-se at de recursos para proporcionar uma vida regalada aos
exigentes fidalgos, mas nada os contentou. Acostumados s montarias
aventurosas da graciosa Almeirim e  vida regalada da farta Santarem,
no cessaram de clamar contra a existencia atribulada e parca que
levavam na soturna cidade. Sentiram-se bem quando a deixaram, voltando
para o sul do paiz.

S de Miranda, que fra dos que promoveram a mr parte das festas em
honra dos famelicos cortezos de seu amigo D. Joo III, conteve a custo
a indignao. Mas, quando a crte d'ali retirou, a sua ira rompeu
caustica como um ferro em brasa. Dirigiu, ento, a Pero Carvalho, guarda
roupa do rei, essa famosa carta, coriscante diatribe que foi ferir
certeiramente os alvejados.

N'essa carta, o poeta comea por exprobrar a maledicencia da fidalguia e
lanar-lhe em rosto a sua ingratido para com uma cidade que toda se
esmerara em bem recebel-os. Fal-o, no por um exclusivo sentimento de
amor  terra natal, mas por um acto de justia, homenagem  verdade.

      Que teno todos tomastes
     terra que me criou
    De que tanto praguejastes?
    Por que? Que vos acoutou
    Da peste com que i chegastes.
    Fostes mal agasalhados?
    No, certo, que t as fazendas,
    Vos davo parvos honrados.
    Pois, por que? Porque os privados
    Tinheis longe vossas rendas?

      O que eu por parcialidade
    Nem outros respeitos digo:
    Da antiga e nobre cidade
    Som natural, som amigo,
    Som porm mais da verdade.

Aps a retirada dos famelicos, a cidade sente-se aliviada de um grande
peso. O proprio poeta viu-se desafrontado.

    Como vos partistes de i,
    Logo abrigados achei
    Em que me desencolhi.
    Seguramente dormi,
    Seguramente velei.

Para envergonhar os cortezos ingratos que lhe preferiam a
insignificante Almeirim, pe em relevo a honra de Coimbra possuir o
corpo de D. Affonso Henriques.

      Cidade rica do santo
    Corpo do seu rei primeiro
    Que ainda vimos com espanto,
    Ha tam pouco, todo inteiro
    Dos anos que podem tanto.

E diz-lhe que aquella cidade  tradicionalmente a mais nobre e leal.

      Outro rei, tanto sem mal
    Que lhe empeceu a bondade,
    O quarto de Portugal,
    Qual teve ele outra cidade
    Tam constante e tam leal?

A nobreza ociosa e interesseira.

      Homens que sempre aos proveitos
    E a vosso interesse andais,
    Vestidos de falsos peitos,
    Quam pouco que nos lembrais
    Dos sos, dos comuns respeitos.
      Pr esta causa se ve
    Diferena nos conselhos
    E chega inda o mal at
    Desacreditar nos velhos
    A s prudencia e a fe.

A crte  magnificamente pintada.

      Essa Circes feiticeira
    Da corte tudo trasanda;
    Um faz [~u]a ona ligeira,
    Outro faz lobo que manda,
    Outro co que a caa cheira.
    Canto  passar sereas
    Que fazem adormecer.
    Correndo todas as veas
    De sono e tal sabor cheas,
    No se pode homem erguer.

A ociosidade nociva a que se entregava a fidalguia recebe uma
condemnao severa. S de Miranda, para revestir da maior auctoridade as
suas palavras, poe-a em confronto com a sua vida toda de trabalho e de
estudo.

      O nome da ociosidade
    Soa mal, mas se ela  s,
    Bem empregada em vontade,
    Socrates da liberdade
    Sempre lhe chamou irm!

      Dou vos Enio por autor:
    _Quem no sabe usar do ocio
    Cansa e anda d'arredor,
    Que vem a tr mais negocio
    Que um grande negociador._
    Que  menos sabe apos que anda,
    Estoutro a si no se entende,
    Quanto anda, tanto desanda,
    No se obedece nem manda,
    Ora se apaga, ora acende.

      Ve-lo ir, ve-lo tornar,
    Ve-lo cansar e gemer
    E em busca de si andar,
    Cobrar a cor e perder.
    Que se no pode topar!
    Mas eu, porque passa assi,
    Que seja muito, direi:
    Dias ha que me escondi,
    Co que li, co que escrevi,
    Inda me no enfadei.

Satyra directa e violenta, a carta a Pero Carvalho provocou uma surda
irritao de despeito, mal contida pelo temor do valimento do poeta
junto do monarcha. Os fidalgos attingidos no poderam tirar
immediatamente o desforo, tiveram que ouvir e calar, mas, d'ahi em
diante, poude S de Miranda contar com alguns inimigos que deviam
aguardar com anciedade o momento da vingana.

O unico passatempo da crte era, ento, as diverses scenicas, os autos
ou comedias representadas perante a nobreza. Gil Vicente, emquanto a
crte esteve em Coimbra, ia ahi propositadamente, de Santarem, onde
habitualmente residia, segundo se infere de suas produces, divertil-a
com suas faras. Com esse fim compoz a _Comedia sobre a Divisa da Cidade
de Coimbra_, a _Tragicomedia Pastoril da Serra da Estrella_, a _Fara
dos Almocreves_ e o _Dialogo sobre a Resurreio_.

Talento dramatico genial mas inculto, viva encarnao do espirito
popular, satyrico e motejador, Gil Vicente arremettia audaciosamente com
todos e com tudo, no respeitando sequer as coisas divinas. Seus autos e
faras eram um tanto grotescas, por vezes excessivamente livres, algumas
extraordinariamente louvaminheiras dos cortezos. O dialogo no era dos
mais apurados nem a aco muito cuidada.

S de Miranda, que assistira, em a scena italiana, a representaes de
comedias classicas em prosa, originaes, com um fino dialogo, limadas de
alluses factas, aco escolhida, no poupava censuras nem criticas
aceradas s produces de Gil Vicente. Sobretudo, condemnava asperamente
a liberdade com que o creador do theatro nacional tirava das sagradas
escripturas os elementos de todos os seus autos hieraticos. Catholico
fervente, no lhe perdoava que tratasse coisas serias em estylo
chocareiro, zombeteando escandalosamente de quanto lhe era respeitavel.

E, para mais pr em evidencia a elevao da comedia classica em prosa,
para estabelecer o confronto de esta com o theatro nacional, compoz e
apresentou _Os Estrangeiros_, em a opinio da ex.ma sr. D. Carolina
Michalis de Vasconcellos a primeira comedia classica portugueza em
prosa, sendo-lhe posterior a _Eufrosina_ de Jorge Ferreira de
Vasconcellos. Foi acolhida com interesse.

Houve quem applaudisse enthusiasticamente _Os Estrangeiros_ por seu
estylo _sentencioso, muy limado e novo_, que _a tudo excedia em
brevidade, grandeza e decoro e que guardava as regras da arte com summa
perfeio_. Os partidarios do theatro nacional, envolvidos por S de
Miranda nos gracejos do Prologo, sentiram-se attingidos e receberam a
novidade com zombarias. A lucta contra a innovao, acirrada de certo
pelos inimigos de um e outro poeta, parece ter se tornado porfiada,
d'ahi em diante.

Das relaes pessoaes entre S de Miranda e Gil Vicente, o mais fiel
representante da tradio nacional, no se pode, em verdade, mais fazer
que conjecturas.  provavel que S de Miranda no tivesse Gil Vicente em
grande considerao pela liberdade com que usava e abusava dos livros
sagrados, facto que o magoava a elle que, embora no fosse fanatico nem
exaltado, era, todavia, sincero e respeitador. No se encontra, porm,
em suas composies poeticas, uma unica alluso directa, incisiva, sobre
o emerito auctor da _Ignez Pereira_.

Qual o proceder de Gil Vicente para com o acerrimo propugnador dos
modelos classicos? O sr. Theophilo Braga v, no final da _Comedia sobre
a Divisa da Cidade de Coimbra_, em o elogio dos Menezes, um acto de
louvor a S de Miranda, descendente de aquella familia, por parte de seu
antepassado Joo Rodrigues de S de Menezes. Por seu lado, o grande
romancista Camillo Castello Branco viu em a fara _Clerigo da Beira_ uma
satyra a S de Miranda, pessoal de mais para se considerar mera
casualidade.

Em a alludida fara, Gil Vicente refere-se a um filho de clerigo, de
nome Francisco, de ms manhas e peor lingua, com costella de lavrador e
pretenses de cortezo. O proprio pae, parece que com pleno conhecimento
de causa, lhe diz:

      Filho de clerigo s,
    Nunca bom feito fars.

Frei Mendo no anda muito de accordo com o filho,  um continuo
conflicto entre os dois. O clerigo, menoscabando as qualidades d'elle,
invectiva-o:

      Medraria este rapaz
    Na crte mais que ninguem,
    Porque l no fazem bem
    Seno a quem menos faz
    Outras manchas tem assaz,
    Cada uma muito ba:
    Nunca diz bem de pessoa,
    Nem verdade nunca a traz.
    Mexerica que por nada
    Revolver San Francisco
    Que para a crte  um visco,
    Que caa toda a manada.

Realmente, esta alluso aos filhos de frei Mendo, sendo o pae de S de
Miranda o conego Gonalo Mendes, parece tencional. A fara, porm, foi
representada em 1520, em Almeirim, e no se sabe como conciliar essa
data com a do regresso do poeta de sua viagem  Italia. Ou ser
necessario admittir-se que, em fins d'esse anno, elle estaria de volta a
Portugal e j gosava o favor da crte? Pode ser.

Em tal caso, comtudo, essa alluso viria mais da popularidade de S de
Miranda, de sua presumpo pelo muito que vira e ouvira no estrangeiro e
no seria resultante de suas tentativas de innovador, embora logo aps o
seu regresso houvesse comeado a atacar os defeitos que encontrava em as
obras portuguezas. Seria mesmo uma satyra impessoal, caracteristica de
uma entidade do tempo. Quantos conegos Mendes haveria ento? como hoje
Marias e Manueis.

Indubitavelmente, as innovaes de S de Miranda deviam encontrar
opposio e as suas obras detractores. Sim, que o poeta era um
severissimo censor, um caracter immaculado. S de Miranda no recuou e a
breve trecho lanou um novo desafio  escola do theatro tradicional
portuguez com a bella _Fabula do Mondego_, em forma de _cano_ e que,
ao que resulta de algumas de suas passagens, foi representada em a crte
na estao calmosa, em um certo e determinado dia festivo, talvez o
anniversario de el-rei, 6 de junho. A seguir, appareceu a ecloga
_Aleixo_ e varios sonetos que mais vieram augmentar a reputao de S de
Miranda e, tambem, os seus rivaes.

A ecloga _Aleixo!_ Foi a melhor arma que S de Miranda poude collocar em
as mos de seus inimigos.




De varias formas tem sido explicado o abandono definitivo da crte por
S de Miranda, entre 1533 a 1534, para se retirar  Commenda das Duas
Egrejas. As causas d'esse exilio voluntario, a par de forado, foram,
decerto, complexas e multiplas, ao que se pode ler em as entrelinhas de
suas poesias e nas do seu anonymo biographo, muito prudente para com uma
alluso directa fazer reviver rancores mal apagados.

A _Vida_ d como motivo immediato da saida de S de Miranda da crte o
odio de _hua pessoa muito poderosa d'aquella era em desprazer de quem se
interpretava mal polla mesma enveja hum lugar de sua Egloga de Aleyxo_.
Temos por to auctorisada a _Vida_, que no ousamos duvidar da
veracidade de sua noticia, alm de que a interpretao da ecloga Aleixo,
como perfeitamente o provou a ex.ma sr. D. Carolina Michalis de
Vasconcellos, explica cabalmente o obscuro successo. Porm, nem todos os
escriptores tm interpretado o caso como vem evidenciado em a _Vida_.

Indo de encontro  cathegorica affirmativa do desconhecido biographo, o
sr. Theophilo Braga quer que tenha sido a ecloga _Andrs_ e no
_Aleyxo_, a causadora immediata da intriga que provocou o exilio de S
de Miranda. Ora, exactamente essa ecloga foi escripta quando j o poeta
se encontrava em a Tapada, aps o seu casamento e annos depois da morte
de todos os que se podiam offender com as alluses n'ella contidas,
alluses que S de Miranda dava, de resto, como uma simples recordao
de annos passados. No podem, pois, as referencias ao caso escandaloso
do casamento do infante D. Fernando, que arrancra D. Guiomar Coutinho
ao marquez de Torres, com quem secretamente se desposara, para casar com
ella, ter concorrido em cousa alguma para que S de Miranda se visse
compellido a abandonar a crte.

To pouco satisfaz o espirito ou resolve o problema, a hypothese
avanada por Camillo Castello Branco. O facto de seus primos e amigos, a
par de companheiros de infancia, Simo de Miranda Henriques e Gonalo de
Miranda da Silva, haverem sido iniquamente esbulhados dos seus haveres,
devia, certamente, feril-o profundamente em seu corao, indispr ainda
mais seu animo contra a torpe fidalguia, azedar o seu caracter, mas no
impr a sua saida da crte.

O erudito escriptor Manuel Pinheiro Chagas attribuiu exclusivamente o
rompimento definitivo de S de Miranda com a crte ao seu amor ao
retiro, inclinao propria do temperamento melancolico e um pouco
misanthropo do poeta, aggravado pela morte de uma mulher que amara
profundamente e que apenas seria conhecida pelo pseudonymo pastoril de
Celia. Parece demasiado accesso de romanticismo quando este ainda no
estava em voga.

No foi nenhuma d'estas circumstancias isolada, mas sim todas juntas a
causa do exilio de S de Miranda. Os successivos escandalos da crte,
que se multiplicavam prodigiosamente, o constante accrescendo da
attitude aggressiva de seus inimigos, cujos desvarios no poupava, o
convencimento de que, por ento, no podia levar por diante o seu ideal
de reforma litteraria e de engrandecimento da poesia portugueza, haviam
chocado muito o animo forte e persistente de S de Miranda. O espirito
do poeta, de si propenso para a solido, foi-se aggravando.

Haviam terminado os bons tempos. Emquanto os chronistas, attentando
unicamente em o brilho das exterioridades, continuavam a entoar hymnos
ao engrandecimento do paiz, S de Miranda profundava em todo o seu
horror a enorme decadencia moral, analysava a corrupo que to
intensamente lavrava e divisava em o sombrio horisonte os pavores de um
futuro de aniquilamento. Ningum quiz ouvil-o. Desilludiu-se e pouco a
pouco foi radicando-se em sua mente a ida de abandonar para sempre a
vida turbulenta e miseravel da crte, tanto que comeou a solicitar de
seu amigo D. Joo III a commenda das Duas Egrejas.

Deu-se, ento, o successo da ecloga Aleixo. Veiu elle epilogar o
conflicto travado em a consciencia do poeta.

A antiga amizade de S de Miranda por Bernardim Ribeiro mantivera-se,
seno avigorara, atravez das vicissitudes de um e outro poeta. Em a
ecloga _Aleixo_, ao que parece composta e representada por 1530, S de
Miranda referiu-se ao desterro de seu amigo, defendendo-o com palavras
dedicadas.

        _Juan_

      No s como no llorava.
    Sabes porque sospirava?
    Porque aqui canto Ribero,
    Aqui nuestro amo escuchava,
    Rodeavan lo pastores,
    Colgados de la su boca
    Cantando el los sus amores.
    Gente de firmeza poca
    Que le di tantos loores,
    I aora ge los apoca!

        _Anton_

      Eso falta, Juan pastor!
    Soncas, porque sospirar?
    I a que se pueden alzar
    Ia los ojos sin dolor?
    Ni a que se pueden bajar
    Donde los porns enjutos?
    Adelante, o cara atras?
    Las tierras niegan sus frutos:
    El sembrar es por demas,
    Los aires andan corrutos,
    Los hombres cada vez mas.

    De aquel gran pino a la sombra...
    Ia ves quanto que ensanch!
    Que el prado i zarzas cobri
    I los vezinos asombra.

A alluso, o _gran pino_, entendia-se com o valido de el-rei, o conde de
Castanheira D. Antonio de Athaide. Este, como todos os favoritos
poderosos, orgulhoso e despotico, abusava com frequencia de seu
prestigio e, no caso a que se referia a ecloga, elle no deixaria de
concorrer grandemente para o desenlace que se deplorava.

Embora franca e rude, a alluso era, comtudo, digna e no deprimente. Os
inimigos de S de Miranda aproveitaram-a para tecer uma habilissima teia
e afastarem para longe o atrevido poeta, implacavel para com os seus
desmandos. Intrigando na sombra, torceram a interpretao da ecloga e
deram ao trecho incriminado um sentido que, certamente, no tinha.
Apresentaram-o como um ataque directo. O conde de Castanheira, cioso de
seu valimento, comprehende-se bem, no poude levar  paciencia a
interveno do poeta e muito menos tolerar o que considerou atrevidos
insultos.

Quaes as consequencias da torpissima intriga e do furor do valido, eis o
que no  precisamente conhecido. Dos versos de S de Miranda pode-se
inferir que foi cruelmente perseguido, correndo talvez mesmo grave risco
de, quem sabe, ser assassinado. Com effeito, mais tarde, quando j em
seu retiro, escrevia a seu irmo:

    Agora, por que vos conte
    O que vi, tudo  mudado:
    Quando me acolhi  monte,
    Por meus imigos de fronte
    Vi lobos no povoado:

e tambem:

      Polo qual a este abrigo,
    Onde me acolhi cansado
    E ja com assaz perigo,
    A essas letras que sigo,
    Devo que nunca me enfado,
    Devo a minha muito amada
    E prezada liberdade
    Que tive aos dados jugada.
    Aqui smente  mandada
    Da rezo boa e verdade.

A bella _Cano a Nossa Senhora_ parece ter sido escripta quando o poeta
soffria duro captiveiro. Pelo menos, se se tomar  lettra estes versos:

                         ao meu destroo,
    Assi tam perseguido como vedes,
    D'antres tam altas, tam grossas paredes,
    De ferro carregado,

Note-se que essa cano, como o proprio S de Miranda declara, foi
_feita por aquela de Petrarcha: Virgine bella_. Longe de constituir
uma vaga reminiscencia,  uma imitao positiva, embora livre, e que se
pode acompanhar com o modelo. Se no houvesse a confisso do
consciencioso poeta em seu _ms._, bastaria a simples confrontao para o
provar. Dias Gomes, que a analysou com uma minucia de grammatico
estrophe por estrophe, verificou que o poeta portuguez at lhe deu o
mesmo numero de estancias e versos, a mesma disposio metrica e
simulcadente, comeando, como retrarcha, cada uma d'aquellas pela
palavra _Virgem_.

No ha duvida em que a factura da _Cano_ seja posterior ao regresso do
poeta ao paiz. Mas seria composta por esta epoca? A ex.ma sr. D.
Carolina Michalis de Vasconcellos julga que sim.

A illustrada senhora, reconhecendo que o assumpto foi tratado
magistralmente e que a _Cano_ de S de Miranda excede em muito o seu
modelo, quanto  profunda expresso e intensidade do sentimento, no
concorda com Dias Gomes em que ella seja a produco mais sublime que se
encontra nas composies do illustre poeta da Tapada. A nosso ver, a
_Cano_, realmente admiravel pelo sentimento que a vivifica, tem o seu
tanto ou quanto de artificiosa.

Se no, veja-se:

    ...............................
      Virgem, seguro porto e emparo e abrigo
    s mres tempestades; ah que tinha
    s ventos esta vida encomendada
    Sem olhar a que parte ia ou vinha,
    Vmente descuidado do perigo,
    Surdo aos conselhos, tudo tendo em nada,
    No vos seja em despreo [~u]a coitada
    Alma que ante vos vem,
    Por rezis que tem,
    De imigos grandes mal ameaada.
    E que eu tam pecador e errado seja,
    Vena vossa piedade
    Minha maldade grande e assi sobeja.

      Virgem, do mar estrela, neste lago
    E nesta noite um faro que nos guia,
    Pera o porto seguro um certo norte;
    Quem sem vos atinar, quem poderia
    Abrir smente os olhos vendo o estrago
    Que atras olhando deixa feito a morte?
    Quem proa me daria com que corte
    Por tam brava tormenta?
    De toda a parte venta,
    De toda espanta o tempo feo e forte.
    Mas tudo que ser? coa vossa ajuda
    Nvoa que foge ao vento
    Que num momento s'alevanta e muda.

    .....................................
      Virgem, nossa esperana, um alto poo
    De vivas aguas, donde a graa corre
    Em que se mato pera sempre as sedes;
    No de Nembrot, mas de David a torre,
    Donde socorro espero ao meu destroo,
    Assi tam perseguido como vedes,
    D'antre tam altas, tam grossas paredes,
    De ferro carregado,
    Um corao coitado
    Chama por vos envolto em bastas redes.
    Esse que eu som, sinais inda algums tenho
    De ser do vosso bando,
    Que a vos bradando por piedade venho.

      Virgem do sol vestida, e dos seus raios
    Toda cuberta e ainda coroada
    De estrelas, e debaixo o sol, a lua,
    So vindas minhas culpas d'assuada
    Sobre mim tantas; valei-me s meus desmaios!
    De tantas que possa ir chorando alg[~u]a!
    No me deixro desculpa nenh[~u]a
    Os meus erros sobejos;
    Levaro me os desejos
    O milhor das idades [~u]a e [~u]a.
    Quem tromenta passou por toda a praia
    Cos ventos contrastando,
    Saia nadando, ja coa vida, e saia.

      Virgem, horto cercado, alto e defeso,
    Rico ramo do tronco de Jess
    Que milagrosamente enflorece,
    Custodia preciosissima da fe
    Que toda junta tivestes em peso
    Quando um e o outro sol sua luz perdeu;
    Rompo os meus sospiros o alto ceo,
    E a vos cheguem, senhora,
    Que assi voa de ora em ora
    Envolto n'este cego e basto veo;
    De dia em dia, vou me de ano em ano,
    A minha fim chegando
    Dessimulando a vergonha e o dano.

No ser exactamente a referencia  priso artificio poetico? A _Vida_
assevera que S de Miranda viu com desgosto a errada e malevola
interpretao do _Aleyxo_, mas que, _nem querendo declarar-se milhor,
nem esperar  vista os effeitos da ira declarada, tendo-lhe el Rey dado
hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamo as duas Igrejas_,
preferiu retirar-se voluntariamente da crte. Isto afasta, portanto, a
ida da perseguio.

Como se poderia explicar que o poeta soffresse duros tratos se contava
com a amizade provada do seu bom amigo D. Joo III e com a terna
affeio do herdeiro da cora que lhe mandava pedir suas poesias! 
natural que se tenha manifestado acceso, a pretexto da _Aleyxo_, o odio
dos inimigos de S de Miranda, mas no parece provavel que o soberano
consentisse em o ver perseguido como um animal damninho a que fosse
necessario encurralar. Vamos mesmo porque se metteu de permeio
agraciando S de Miranda com a Commenda de Santa Maria das Duas Egrejas,
conhecedor de sua grande vontade de se recolher  solido.

O facto  que S de Miranda abandonou a crte para nunca mais voltar a
ella. Deixou _o mimo da Corte, a conversaam dos amigos, a esperana de
mayores merces assegurada no favor do Principe Dom Joo, que em muito
tenra idade, comeava a fazer lhe grande, e do Cardeal Dom Henrique, que
com mostras de particular affeio assistia a suas cousas_. Tudo pz de
parte preferindo-lhe o socego corporal e espiritual.




O Minho, com a sua verdura de esmeralda, o seu azul purissimo, a
fertilidade de seu solo, a simplicidade encantadora de primitiva de seus
costumes, prendeu o philosophico poeta. A Commenda das Duas Egrejas, a
que se retirara, ficava perto do Pico de Regalados, na margem esquerda
do Rio Neiva, margens deliciosas como todas as do norte portuguez
accidentado e exuberante de vegetao.

Por l se deixou ficar S de Miranda, no encanto e socego da paisagem, a
descanar das agitaes da crte e a inspirar-se em o doce decorrer de
uma tranquilla existencia. Ali, que at a natureza  tocante de candura,
que tudo encanta a alma e enleva o espirito, se fortaleceu o seu animo
abatido pelos desgostos experimentados na crte e foram produzidas as
suas melhores composies poeticas.

Proximo da Commenda das Duas Egrejas vivia, em propriedades suas,
Antonio Pereira Marramaque, senhor de Basto, homem tido por mui douto e
versado em humanidades. Antonio Pereira entregava-se  vida placida dos
campos, no sem que votasse os seus maiores ocios ao estudo,
acompanhando com vivo interesse o movimento intellectual da Europa.
Seguia os resultados do conflicto provocado pela Reforma e defendia-a
com calor. Poetava tambem.

Entre S de Miranda e Antonio Pereira estabeleceram-se relaes que
rapidamente se estreitaram e tornaram das mais intimas. Os dois poetas
foram mesmo quasi inseparaveis durante cerca de dois annos, sendo S de
Miranda hospede assiduo e considerado da casa de Basto, onde passava a
maior parte do anno.

Das mos de Antonio Pereira recebeu S de Miranda o primeiro exemplar
das obras de Garcilaso e isto antes de 1536. Foi talvez esse
offerecimento o ponto de partida da amizade que os dois sustentaram.
Esse exemplar era, sem duvida, manuscripto, pois que a primeira edio
d'aquellas obras appareceu em 1543.  certo que para o primeiro
anniversario da morte de Garcilaso, em 1536, compz S de Miranda a sua
ecloga _Nemoroso_ em que evidencia o mais intimo conhecimento no s das
poesias do grande lyrico hespanhol como de sua propria vida.

Apraziveis dias passaram os dois poetas. Gozaram a pulmes cheios o
encanto dos prazeres campezinos. S de Miranda, _era inclinado  caa
dos Lobos_. No faltaram egualmente festas caseiras nem representaes
de comedias improvisadas a que vinham assistir os mais nobres dos
arredores. s vezes, como era amigo de musica, S de Miranda tangia
viola de arco.

Assim foram os primeiros annos que S de Miranda passou em o campo. Tudo
tem fim n'este mundo e essa magnifica existencia da casa de Basto
terminou por haver Antonio Pereira _partido para a crte com a sua casa
toda_, como o poeta diz em a carta que lhe dedicou.

No  precisamente conhecida a causa nem a data da partida de Antonio
Pereira para Lisboa. Ha escriptores que affirmam ter-se ella realisado
depois de 1540, isto , em epoca em que o senhor de Basto comeava a
preoccupar-se com o futuro de seus filhos, nascidos por 1530, e entendia
dever apresental-os na crte. Parece a outros que Pereira pensava em os
levar a frequentar a Universidade, o que no  possivel admittir-se pois
que aquella, reformada por iniciativa de D. Joo III, voltou para
Coimbra em 1537.

Seja qual fr a causa que a determinou, a ida de Antonio Pereira para
Lisboa deve ter-se effectuado antes de 1536. Accusam-o diversos
indicios, entre outros os versos da carta que lhe dirigiu S de Miranda
e pelos quaes se conclue que, ao tempo em que era escripta, viviam ainda
Garcilaso e Gil Vicente. De resto, no se encontra n'ella a minima
alluso a seu casamento, o que era natural dar-se sendo, como eram, os
dois to intimos amigos e constituindo aquella por assim dizer, um
precioso inventario da feliz temporada que elles haviam levado em sua
convivencia.

S de Miranda assistiu com immenso desgosto  partida de Antonio
Pereira. A proposito, escreveu a esplendida carta em que lhe faz
amarissimas reflexes e reprova as enormes despezas que a mudana
exigia. Depois, o perigo de seu bom amigo se perverter ao contacto com
essa crte de que elle fugira!

      Como eu vi correr pardaos
    Por Cabeceiras de Basto,
    Crecer em cercas e em gasto,
    Vi por caminhos tam maos
    Tal trilha, tamanho rasto,
    Nesta ora os olhos ergui
     casa antiga e  torre
    Dizendo comigo assi:
    Se nos deus no val aqui.
    Perigoso imigo corre!

S de Miranda recorda saudosamente, em sua carta, o bello periodo de
convivio doce e sereno que tivera com Antonio Pereira, convivio simples
e puro em que a conversa attrahente e erudita do respeitavel poeta que
viajara por Italia era apreciada como o merecia. Confronta bellamente
esse viver de provincia,  antiga, com o dos cortezos sempre famelicos.

      Os bons convites antigos,
    Antes de se tudo alar,
    Ero pera conversar
    Os parentes e os amigos,
    Que no pera arrebentar.

Os mezes mais calmosos do anno, julho e agosto, passavam-o os dois em a
fonte da Barroca. A meza era frugal, a remir dias, placidamente, em
suave conversao.

       vossa fonte tam fria
    Da Barroca em julho e agosto
    (Inda me  presente o gosto)
    Quam bem que nos i sabia
    Quanto na mesa era posto!
    Ali no mordia a graa,
    Ero iguais os juizes,
    No vinha nada da praa,
    Ali da vossa cachaa,
    Ali das vossas perdizes!

      Ali das fruitas da terra,
    (Que d cada tempo a sua)
    Colhida  mo cada [~u]a!
    Nunca o sabor a vista erra,
    Cheirosa, formosa, e nua.
    Oh ceas do paraiso
    Que nunca o tempo vos vena,
    Sem fala da nossa ou riso,
    Nem carregadas do siso,
    Nem danadas da licena!

Os dois poetas liam, saboreavam e discutiam as melhores produces dos
poetas antigos e contemporaneos d'elles. Falavam de Ariosto, de Bembo,
de Sanazarro, de Laso e de Boscan, e S de Miranda apontava as bellezas
dos modelos que procurava introduzir, advogava colorosamente suas
innovaes.

      Des i, o gosto chamando
    A outros mres sabores,
    Liamos pelos amores
    Do bravo e furioso Orlando,
    E da Arcadia os bons pastores.
    Se eu isto estimado agora
    Vira como d'antes era,
    Por meu conto avante fora,
    Mas no diz ora com ora:
    Vo se como  fogo a cera!

Ou como se l em uma outra variante de sua carta;

      Liamos os Assolanos
    De Bembo, engenho tam raro
    Nestes derradeiros anos,
    Os pastores italianos
    Do bom velho Sanazaro.
      Liamos ao brando Lasso
    Com seu amigo Bosco
    Que honrro a sua nao
    Ia me meu passo a passo
    Aos nossos que aqui no vo,

Desejando pr Antonio Pereira a coberto das tentaes da crte, S de
Miranda descreve-lhe o mo estar do paiz, aponta-lhe os perigos que
corre e condemna energicamente os desvarios de uma perdida nobreza. O
seu amigo, assim prevenido, decerto se acautelaria e prudentemente havia
de resistir ao refluxo da absorvente mar.

       entrada polos portos
    No reino crara peonha
    Sem que remedio se ponha.
    Ums doentes, outros mortos,
    Outro polas ruas sonha.
    Fez nos a ousada avareza
    Vencer o vento e o mar,
    Vencer caje a natureza.
    Medo hei de novo a riqueza
    Que nos torne a cativar.

Em torno de S de Miranda como que se fez um vacuo enorme aps a partida
de seu inseparavel companheiro de estudos litterarios. Para bem avaliar
a grandeza daquella amizade bastar apontar o logar que o nome de
Antonio Pereira occupa em as poesias do cantor do Neiva. A elle
communicou as impresses de suas viagens em cartas infelizmente perdidas
e a elle dedicou as eclogas _Nemoroso_ e _Aleixo_. Ao irmo Nunalvarez
offereceu a sua esplendida _Basto_.

Ento, tambem por 1536, parece ter S de Miranda passado a habitar a
Tapada, vasta e magnifica vivenda com quinta e bosque que demandava a
pequena distancia da Commenda. Esta transferencia de habitao tem sido
mal comprehendida por alguns escriptores, inclusiv pela ex.ma sr. D.
Carolina Michalis de Vasconcellos que acha de todos os casos muito
menos provavel que S de Miranda possuisse a Quinta da Tapada antes de
obter a merc da Commenda e que D. Joo III escolhesse Duas Egrejas
exactamente como a mais proxima do retiro que o poeta havia preferido.

O anonymo biographo da _Vida_ affirma expressamente que S de Miranda,
_tendo-lhe el-Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamo as
duas Igrejas... recolheu-se a hua quinta que tambem tinha ahi perto
chamada a Tapada_. Indiscutivel, pois, que a quinta no fazia parte da
Commenda e ainda mais indiscutivel que o poeta a possuia antes e
independentemente de receber Duas Egrejas. L est o desconhecido
contemporaneo a attestal-o por uma forma cathegorica.

, por isso, racional admittir-se que a quinta fosse propriedade do
poeta, talvez de familia, e tanto assim que continuou na posse dos seus
descendentes, ao passo que a Commenda j por 1607 havia passado a outras
mos. Admissivel, tambem, que S de Miranda solicitasse a Commenda por
se encontrar situada proximo da Tapada que _j possuia_. Provavel,
finalmente, que a moradia em a Commenda tivesse em vista, apenas, dar
tempo a realisarem-se na casa da Tapada as adaptaes necessarias para
receber o poeta.  de tudo o mais logico.

S de Miranda nem um unico momento afrouxou em sua actividade desde que
se retirou ao Minho. A ociosidade foi para elle sempre uma palavra v.

    O nome da ociosidade
    Soa mal, mas se ela  s,
    Bem empregada em vontade,
    Socrates da liberdade
    Sempre lhe chamou irm!

As obras dos poetas contemporaneos andavam em constante leitura. Ellas o
estimulavam a proseguir.

      Co que li, co que escrevi,
    Inda me no enfadei.

Depois, com a auctoridade de seu nome e de seu caracter, principiava a
ganhar adeptos sinceros. A sua musa , ento, vigorosa como nunca. A
acuidade do poeta desenvolve-se extraordinariamente.

S de Miranda acompanhava do Minho, com o mais vivo interesse, os
menores acontecimentos politicos. Preoccupava-o o destino do paiz e no
lhe era indifferente nem as prosperidades nem as desgraas que gosava ou
soffria a existencia dos homens que dirigiam os destinos da patria. Esta
parecia agora renascer brilhante como em os tempos aureos do venturoso
D. Manuel. O movimento litterario renovava-se fazendo esperar novos dias
de radiosa gloria. Na crte, as boas lettras, a poesia, os estudos
classicos, patrocinados pela familia reinante, prosperavam. A
Universidade, reformada em 1537, passava a Coimbra, para que o bulicio
da capital no fosse estorvo ao estudo, e para a dirigir vinham do
estrangeiro professores dos mais illustres.

Sempre coherente de pensamento com as aces, esperanado em melhores
epocas, S de Miranda escreve as suas Cartas a el-rei D. Joo III e ao
seu velho amigo e parente Joo Rodrigues de S e Menezes. O patriota
emerito mostra n'ellas o mais profundo conhecimento do que se passava na
crte e ataca com o seu costumado vigor as ambies dos aulicos. Em seu
dizer sentencioso, severo mas commedido, tenta accordar as consciencias,
arrancar a nobreza aos deleites de uma vida capuana e trazel-a ao
estricto cumprimento do dever.

Infelizmente, os appellos do poeta foram completamente perdidos e o
cataclysmo, que havia de afogar as consciencias em ondas de sangue,
vinha annunciado j pelas nuvens negras que appareciam da banda de
Italia. A 20 de setembro de 1539 realisava-se o primeiro auto da f. As
chammas das sinistras fogueiras, elevando-se para o ceo com esgares
satanicos, eram como maldies que arrastavam Portugal at ao
anniquilamento de 1580.

A ecloga _Basto_ e as _Cartas_ a El-rei, a Joo Rodrigues de S e
Menezes e a Antonio Pereira, este esplendido grupo de poesias pertence,
em o parecer da ex.ma sr. D. Carolina Michalis de Vasconcellos,
parecer com que nos conformamos, ao curto espao de tempo que mediou
entre a retirada da crte e o casamento do poeta com D. Briolanja, em
1536.

Scintilla n'essas composies a quintilha, admiravel de vivacidade,
sublime de causticidade sentenciosa. Como muito bem considera a
illustrada escriptora, sr. D. Carolina Michalis de Vasconcellos, a
ecloga _Basto_ e as _Cartas_ representam o que ha de mais original e de
mais valioso entre todas as composies poeticas de S de Miranda. So
essas as que ainda hoje mais captivam as attenes. Lm-se com agrado,
prendem o espirito pela sua graa e dominam pela forte convico que
respiram.

O sr. Theophilo Braga estima, egualmente, as _Cartas_ de S de Miranda
como o que ha de melhor na poesia dos quinhentistas. E diz com razo que
a quintilha, em o verso de sete syllabas, popular, torna-se facil e to
engenhosa que se presta a todas as descripes, a todos os dizeres e
locues particulares da lingua, aos apophtegmas j metrificados pela
tradio. Como _satyras_, as _Cartas_ em nada desmerecem s de Horacio
ou de Tolentino. De resto, S de Miranda era, sobretudo, um moralista e
a poesia prestava-se, principalmente na redondilha, para os dizeres
conceituosos.

Das _Cartas_ destaca-se, pela energia, pela hombridade e rectido de
caracter com que se affirma o poeta, a dirigida a el-rei. Como
bellamente assignala a ex.ma sr. D. Carolina de Vasconcellos, no se
sabe que admirar mais n'ella, se a nobreza da linguagem, se a alma do
patriota, se o grande caracter do fidalgo, se a ironia aguda do
moralista. Antes deve admirar-se, essa carta, por todo esse conjuncto de
predicados raramente reunidos.

A _Carta a El-rei_ foi, por assim dizer, a despedida do poeta a D. Joo
III, o seu adeus  crte. S de Miranda dirige-se ao monarcha como
vassallo leal, cuja confiana lhe permitte fallar com desassombro, no
como cortezo lisongeiro. Tem em vista expor a verdade, no a intriga. E
fal-o empregando uma frma aphoristica e sentenciosa que mais impe a
severidade de seu caracter.

S de Miranda relata ao rei o estado de degradao a que o paiz chegara,
aponta-lhe o servilismo enganador dos fidalgos que o rodeiam, indica-lhe
os perigos de que precisa defender-se e incita-o a uma aco energica
para limpar e purificar a corrupta sociedade que o cerca. A consciencia
do poeta, a sua grande amizade ao monarcha, o convencimento que lhe d o
conhecer intimamente os males de que enferma a crte, a auctoridade do
seu caracter, emfim, o sentimento do dever e um sentimento rigoroso e
inabalavel que, de resto, se nota em todas as suas poesias, leva-o a
nada encobrir ao rei. A carta a D. Joo III  filha de uma convico
profunda, clara e persuasiva.

No ha duvida que a humanidade de si esconde vicios. Mas a falsidade  o
peior mal e que mais irreparaveis damnos pde causar.

    Onde ha homens, ha cobia,
    Ca e la tudo ela empea,
    Se a santa igual justia
    No corta ou no desempea
    Quanto a malicia enlia.

S de Miranda experimentara os maiores desenganos n'essa crte corrupta
e enganadora que repugnava ao seu caracter franco e leal e que o levara
a retirar-se para o Minho. Dando satisfao d'esse passo ou
antecipando-se a solicitaes a que no desejava acceder, justifica-se
cabalmente de seu procedimento.

      Quem graa ante o rei alcana
    E i fala o que no deve,
    (Mal grande da m privana!)
    Peonha na fonte lana
    De que toda a terra bebe!
    Quem joga onde engano vai,
    Em vo corre e torna atras,
    Em vo sobre a face cai.
    Mal hajo as manhas ms
    De que tanto dano sai!

      Homem d'um s parecer,
    Dum s rosto e d'[~u]a fe,
    D'antes quebrar que volver,
    Outra cousa pode ser,
    Mas de corte homem no .
    Gracejar ouo de ca
    Dos que inteiros vm e vo
    Nem se contrafazem la:
    _Como este vem aldeo!
    Que corteso tornar._

A famelica crte, astuciosa e matreira, ria-se da rudeza do _aldeo_.
Demais o sabia S de Miranda. Elle, porm, no se ri, mas com a sua
penna acerada fal-os sangrar e enraivecer. Anima-o a ser franco a
bondade com que, espera-o, el-rei se dignara acolhel-o.

      Senhor, hei vos de falar
    (Vossa mansido me esfora)
    Craro o que posso alcanar:

El-rei estava rodeado de uma camarilha infame, mansos cordeiros
apparentemente, mas por dentro lobos robazes. Espinha de vime e falas de
assucar, lisongeiros emeritos, os cortezos no curam de mais que dos
interesses proprios e, explorando torpemente a bondade do rei, pensam
unicamente em servir o seu vil egoismo.

    Ando pera vos tomar
    Por manhas, que no por fora.
    Por minas trazem suas hazes,
    Os rostos de tintoreiros.
    Falsas guerras! falsas pazes!
    De fora mansos cordeiros,
    De dentro lobos robazes!

    Tudo seu remedio tem;
    Que  assi, bem o sabeis,
    E o remedio tambem.
    Querei-los conhecer bem:
    _No fruito os conhecereis._
    Obras que palavras no!
    Porem, senhor, somos muitos,
    E entre tanta obrigao
    Trasmalhamos nossos fruitos
    Que no saibais cujos so.

    Um que por outro se vende,
    Lana a pedra, a mo esconde,
    O dano longe, se estende.
    Aquele a quem doi, se entende,
    Com ss sospiros responde.
    A vida desaparece;
    Entretanto geme e jaz
    O que caiu! e acontece
    Que d'um mal que se lhe faz,
    Mr despois se lhe recrece.

    Pena e galardo igual
    O mundo em peso sostem.
     [~u]a regra geral
    Que a pena se deve ao mal,
    O galardo ao bem.
    Se alg[~u]a ora aconteceu
    Na paz, muito mais na guerra,
    Que d'esta lei se torceu,
    Faz se engano s leis da terra,
    Nunca se faz s do ceo.

So saccos sem fundo os miseraveis, exploradores ignaros dos fracos.
Nomes e rostos honrados encobrem bandidos consummados. Desgraados dos
pequenos que nem sequer podem fazer chegar seus clamores at ao rei.
Esteja o monarcha vigilante e atalhe com firmeza o mal.

    No tm fundo aqueles sacos.
    Inda mal com tantos meos
    Pera viver dos mais fracos
    E dos suores alheos.

      Que eu vejo nos povoados
    Muitos dos salteadores
    Com nome e rosto de honrados
    Andar quentes e forrados
    De pelos de lavradores.
    E senhor, no me creais
    Se no as acho mais finas
    Que as dos lobos cervais,
    Que arminhos nem zebelinas.
    Custo menos, valem mais.

      Ah senhor, que vos direi
    Que acode mais vento s velas?
    Nunca se descuide o rei,
    Que inda no  feita a lei,
    Ja lhe so feitas cautelas.
    Ento tristes das molheres,
    Tristes dos orfos cuitados,
    E a pobreza dos mesteres!
    Que nem falar so ousados
    Diante os mres poderes.

Esplendido caracter o de esse homem de uma franqueza verdadeiramente sem
egual. Se os reis tivessem sempre conselheiros assim leaes, quantas
desgraas no evitariam aos seus subditos, quantas injustias no lhes
poupariam! E, necessariamente, essa admiravel carta encerra alluses
directas a acontecimentos conhecidos de D. Joo III, mas que hoje so
difficeis de traduzir.

A ex.ma sr. D. Carolina de Vasconcellos, considerando particularmente
a _Carta a El-Rei_, aprecia-a como um desforo contra a injustia com
que trataram o poeta, porque s ouviram seus inimigos e no lhe
concederam sequer o direito de pedir satisfao pelas armas ao poderoso
que o calumniou. No iremos to longe, mesmo porque no est ainda
averiguada a certeza da perseguio de que se diz ter sido victima S de
Miranda, mas, dado que a escrevesse com uma inteno de desforra, nem
por isso se deixar de avaliar em seu justo valor a famosa carta.

Em a dirigida a Joo Ruiz de S de Menezes, o poeta insiste em os
perigos que teme para o paiz. O bom patriota, l do seu retiro do Minho,
nem um s momento esquece o que devia  patria.

      Estes mimos indianos
    Hei gram medo a Portugal
    Que venho fazer os danos
    Que Capua fez a Anibal.

S de Miranda curava-se, agora, com a philosophia. Temia mais os
inimigos de casa que os de fra. Eram aquelles que estavam promovendo a
ruina de Portugal.

      Cura me filosofia
    Que me promete saude;
    Dei lhe a mo, ela me guia,
    Ouo falar da virtude;
    Se a visse, sarar me hia.
    Diz Plato, que  dos milhores,
    _Quem posesse os olhos nela,
    Que verdadeiros amores
    Sempre traria com ela._

      Como digo, eu s de ouvir
    Ando como homem pasmado,
    Desejoso de a seguir,
    Chorando todo o passado,
    Temendo todo o porvir.
    De fora ha muitos perigos
    A cuja lembrana temo,
    Em casa aqueles imigos
    Que eu mais que os de fora temo.

E, mais que nunca, votava a sua atteno para os grandes modelos da
litteratura classico italiana. Lia-os e relia os com admirao, no se
canando de os estudar e de procurar desvendar os mysterios de sua
inspirao.

      Aqueles cantares finos,
    A que _liricos_ dissero
    Os Gregos e os Latinos,
    Digo me donde os houvero
    Salvo dos livros divinos?
    Quantos que d'ahi ao seu
    Trouxero auguas  mo.
    Regou Pindaro e Alceu,
    E em mres prados Plato!

      Mas  o que ora aprendo
    Ler por eles de giolhos,
    De que sei quam pouco entendo.
    Mas fossem dinos meus olhos,
    De cegar sobre eles lendo!
    Que, dos seus misterios altos
    Assi lubrigando vejo
    Que no so pera tais saltos:
    Gemo smente e desejo.

Indubitavelmente a carta a Joo Ruiz de S de Menezes foi, tambem,
escripta antes de S de Miranda se casar. Indica-o as alluses que faz
ao amor e as duvidas com que mostra luctar antes de se resolver a esse
passo decisivo.

      Fui posto em gram diferena
    Se casaria, se no?
    Houve de sair sentena
    Que a s [~u]a desse a mo,
    s outras boa licena.

A composio que mais absorveu os cuidados de S de Miranda foi a ecloga
_Basto_, cheia de intimas confidencias. O poeta, parece, levou toda a
sua existencia a depural-a, chegando mesmo a refundil-a. Conhecem-se
d'ella umas quatorze variantes mais ou menos desiguaes, das quaes as
mais antigas so escriptas em decimas e as mais recentes foram reduzidas
a estrophes de oito versos.

Encantadora essa ecloga em que S de Miranda deixou correr a sua penna
livremente, sob o impulso da inspirao popular.  a _Basto_ um dos
monumentos mais bellos de nossa litteratura e um dos melhores quadros de
nosso viver intimo em o seculo XVI, frisando admiravelmente o contraste
entre a sociabilidade urbana e a insociabilidade rustica, ou melhor,
entre a vida palaciana, toda de prazeres, e a do campo, entre ares e
caracteres puros. Formosa descripo de costumes minhotos,
originalissima, os episodios simples e graciosos tocam pela ingenua
candura de um verdor e transparencia de agua corrente. O dialogo 
sereno, mas vivo.

A _Basto_ seduz tanto pela elegancia da phrase e pelo subtil do
descriptivo, que se  tentado a consideral-a como a melhor composio
poetica de S de Miranda. As suas bellezas, incontestaveis, passaram
indifferentes a muitas geraes que n'ella achariam um modelo digno de
estudo cuidado. O que prova quo transviados da tradio nacional, to
rica de primores, tm andado quasi todos os nossos poetas.

Um dos episodios mais admiraveis pela sua simplicidade expressiva aqui o
reproduzimos, segundo o _ms._ enviado ao principe D. Joo.

      O moo que entra em terreiro
    E no toca o cho de leve,
    Polo ar voa o pandeiro,
    E a toda a festa se atreve
    Ele s com seu parceiro,
    Este tal baile, este cante,
    Este seus jogos ordene,
    Corra, va, pase adiante,
    Este voltee, este espante,
    Este d penas e pene!

      Mas quem j se vm das pontas,
    No acha o que soa em si,
    Comea entrar noutras contas:
    _Ouvi ja milhor e vi_,
    Suar e passar afrontas.
    Vai se o tempo, tudo foge,
    Corre o dia aps o dia;
    Queres que homem no se anoje?
    Que me no conheci hoje
    N[~u]a fonte em que bebia.

Este interessante descriptivo ou episodio, como queiram chamar-lhe, foi
posteriormente aperfeioado pelo poeta. Em a variante que passa como a
melhor da ecloga, apparece elle posto na bocca de _Bleito_ assim:

      O moo que entra em terreiro
    E no toca o cho, de leve.
    S ele co seu parceiro
    A toda a festa se atreve,
    Este tal jogos ordene,
    Este nas aldeas more,
    Este balhe, este namore,
    Este d penas e pene;

      Este os seus contentamentos
    Diga em cantares nas vodas,
    Este nos ajuntamentos
    D mil voltas, no ar todas,
    Este quando lhe acontea
    Que em Filipa ou em Marta sonha,
    s domingos feitos ponha
    Ou das malvas na cabea;

      Deixe o gado s no monte
    Em perigo, e corra a terra
    Por saber quem vai  fonte
    Depois que a noite se cerra;
    Este tenha e perca arrufos,
    Este logre abril e maio,
    Este d golpes no saio
    E todo se empole em tufos!

      Mas quem cuida e lana contas
    Que tanto e tanto relevo,
    Que far? tu no te afrontas
    Coa pressa que as vidas levo?
    Passa pera sempre o dia,
    Passa o ano, tudo foge.
    Que me no conhecia hoje
    Vendo me quando bebia;

      Antes, quando ia beber
    Sequioso e mui cansado,
    Houvera d'esmorecer
    Vendo me assi tam mudado.

Responde Gil com uma esplendida apologia da vida simples do campo,
vivendo livre, entregue aos cuidados da previdente natureza. As
vantagens e os encantos d'essa existencia feliz so deliciosamente
expostos, salientando-se pela convico que lhe imprime o poeta.

      Andando assi no me empecem
    Maos olhos nem mas palavras,
    Nem me temo se engafecem
    Entre nosoutros as cabras,
    Nem menos que o meu cabrito
    Me furte o vezinho e coma;
    Aqui, se paixo me toma,
    Posso cantar voz em grito,

      Com estas aves, que tais
    Duas aventagens tm
    D'esses outros animais,
    Voar e cantar tam bem,
    Ou ao som d'agua que cai
    Rompendo polos penedos,
    Eles que sempre esto quedos,
    Ela que a gram pressa vai.

      D me de que me mantenha
    Este meu gado com leite,
    Acho polo monte lenha,
    Acho abrigo onde me deite
    E faa quanto quiser.
    E a noite tras a fogueira
    Trago isca e pederneira,
    Vinho no-no hei mester.

      Ves tu a minha cabana?
    Como o tempo acode, assi
    A mudo. Nem Guiomar nem Ana
    No do voltas por aqui,
    Que me faam merecer
    Muitas d'estas varapaos
    Com seus olhos vaganaos
    Bons de dar, bons de tolher.

      Passado o frio e a neve,
    Quando  gado  cousa s
    Andar trosquiado e leve,
    Visto me da sua l.
    Abasta me o seu sobejo
    Pera tudo que hei mister;
    Assi como o ano quer,
    Assim com ele me rejo.

      Para cousas que acontecem,
    Trago comigo rafeiros
    Que outras suas mis parecem
    Das mis dos seus cordeiros.
    Inda que se a ovelha esquea
    A trasparida e maltreita,
    O co cab' ela se deita
    T que eu em busca aparea.

      Deixa me ver este ceo
    E o sol como vai fermoso.
    Que gram caminho correu
    Desd'hoje e quam espaoso,
    Vai seguindo a outra prte,
    Ir ver gente estranha,
    Outra terra, outras montanhas
    Que de nos no sabem parte.

      Deixa me ver estas flres
    Tantas que nacem de seu!
    Que este  o meu mal d'amores,
    Ou de fora, ou de sandeu,
    E mais, se inda mais quiseres,
    Sicais que ser verdade.
    Porem tenha eu liberdade!
    D vos deus muitos prazeres!

      Aqui no sou com vezinhos
    Cada ora aos empuxis,
    Nem sei smente o caminho
    Da vila e seus so Juis,
    Que, em vez de matar, avivo
    Outra vez as diferenas.
    Que te aproveita que venas
    Se vencendo te cativo?

S de Miranda, como moralista eximio que era, pois a sua poesia visava
sempre a instruir, a educar, no a simples distraco, servia-se
frequentemente da allegoria e da fabula. Na ecloga _Basto_ demonstra a
forma brilhante como sabia applicar as velhas fabulas classicas, ou
ainda as que corriam entre o povo, ao seu intuito conceituoso. A lico
dellas tirada  sempre a mais apropriada.

Ha em a _Basto_ duas bellas fabulas: a de _Gil Ratinho_ e a do _Bacoro
Ovelheiro_. Engraadissima a primeira.

      Fui um dia a vila, Gil,
    E logo,  sair da casa,
    Mais verde que um perrexil
    Cuidei que matava a brasa
    De galante e de gentil.
    Bem passei cos viandantes
    Mas despois la, quando cheas
    Vi ruas de outros galantes,
    Se eu viera ufano de antes,
    No tornei tal s aldeas.

      Dezia um vendo me assi:
    Bom vai o do barretinho!
    Outros dar os olhos vi,
    Outros chamar me ratinho,
    Tanto t que me escondi.
    Finalmente por acerto
    Vi algums nossos de ca,
    Deixei os chegar mais perto,
    Meti me antre eles por certo.
    Que tarde me acolhem la!

No menos conceituosa a do _Bacoro Ovelheiro_.

      Um bacorote orgulhoso
    Deu vista  gado ovelhum,
    De quexiquer espantoso
    Trombejava ele um e um,
    Andava todo bravoso.
    Vem o lobo um dia e apanha
    Polo pescoo o doudete,
    Abrandou lhe aquela sanha,
    Brada _ai dos meus_; em tamanha
    Pressa ninguem arremete.

      Vinho os porcos da aldea
    Mais atras, grunhir ouviro;
    Cada um d'eles esbravea,
    Estes si que lhe acudiro:
    Perde o lobo a sua cea,
    Ele solto, viu que o gado,
    Da l branca estava olhando
    De longe, ainda amedrontado.
    _Antes_, disse, _ser mandado,
    Que a tal perigo tal mando_.

Esta preciosa allegoria?

      Do leite e sangue empolado
    O bezerrinho vioso
    Corre e salta polo prado,
    Despois lavra perguioso,
    Tira o seu carro cansado.
    Cos dias e co trabalho
    O brincar d'antes lhe esquece,
    No  ja o que era almalho,
    Venda se pera o talho
    Que este boi velho enfraquece!

Ainda nenhum escriptor portuguez tratou com tanto engenho o fabulario,
ainda nenhum o applicou to bem e lhe deu to bello relevo. S de
Miranda allia delicadamente a grandeza com a graa, a par de uma maneira
simples e primorosa de contar.

Em a carta que posteriormente dedicou a seu irmo Mem de S, o poeta
utilisa admiravelmente a fabula de _o rato do campo e o rato da cidade_.
S de Miranda conta-a em referencia  sua situao, convencido de sua
verdade que tanto ao vivo sentira. Realmente no valeria mais o pouco a
par das alternativas das grandezas? O poeta podia responder afoutamente.

Essa linda fabula, de origem grega diz-se, mas verdadeiramente anterior
aos hellenos, espalhada na antiguidade sob o nome de Esopo, tem tido
enumeras imitaes. O Arcypreste de Hita tratou-a com grande relevo. La
Fontaine tambem lhe deu um certo brilho e a sua frma  das mais
espalhadas entre ns. Pois, de todas as imitaes modernas, a mais
valiosa  a de S de Miranda. Isto, como o reconhece a ex.ma sr. D.
Carolina de Vasconcellos, sob o ponto de vista da espontaneidade, da
graa natural e da travessura ingenua.

Quem as confrontar deve reconhecer a justeza da nossa apreciao. Para a
vulgarisar a reproduzimos, embora seja um pouco extensa.

      Um rato usado  cidade
    A noite o tomou por fora;
    (Quem foge  necessidade?)
    Lembrou lhe a velha amizade
    D'outro rato que ahi mora.
    O qual assi salteado
    De um tamanho cidado
    Por lhe fazer gasalhado
    D mil voltas o coitado
    Que no pi os ps no cho.

      Faz homem a conta errada,
    (Que mil vezes acontece)
    Cresceu me muito a jornada,
    Diz, entrando na pousada
    O cidado que aparece.
    Estoutro poendo lhe a mezinha,
    Pi lhe nela algum legume;
    Mesura quando ia e vinha,
    Deu lhe tudo quanto tinha,
    Pede perdo por custume.

      Cumpre muito aquela mesa
    Mais da fome que da gula;
    Faz claro a fogueira acesa;
    Mostra bom rosto  despesa.
    Vem o outro e dissimula.
    E est dizendo consigo:
    Este no foi pera mais!
    Que vai de Pedro a Rodrigo!
    Bem diz o enxempro antigo
    Que os dedos no so iguais!

      Ora despois de comer,
    Jazendo detras o lar,
    Comea o rico a dizer:
    Dous dias que has de viver
    Aqui os queres passar?
    Na secura de um deserto
    Que no sei quem o soporte,
    De urzes e tojos cuberto,
    Sendo tudo tam incerto
    E tam certa s a morte?

      Vive, amigo, a teu sabor;
    Mais  que cousa perdida
    Quem por si escolhe o pior.
    Vai te comigo onde eu for,
    La vers que cousa  vida.
    Des que um e outro provares,
    (Que eu de outrem no adevinho)
    Quando te no contentares,
    Aqui tens os teus manjares
    I tambem tens o caminho.

      Assi disse! Eis o villo,
    Em alvoroo e balana,
    Ia e vinha o corao
    Ora si, e ora no.
    Venceu porem esperana!
    E que deve i al fazer?
    Vive de tanto suor!
    Inda no pode viver,
    No pode o ano vencer,
    Sempre a saida  milhor

      E diz: Quem no se aventura,
    No ganha! Rezis contadas,
    Escolhem ora segura,
    Entro por [~u]a abertura;
    O rico sabe as entradas.
    Vo se por paos dourados,
    Todos cheirosos da cea,
    Tristes dos casais coitados
    Do sol e vento torrados!
    Pobre e faminta da aldea!

      Vou me por meu conto avante:
    Amostra o cidado tudo
    Que traz no bucho um infante;
    Vo os seus gabos diante.
    Pasmado o outro anda mudo,
    Que tam smente em provar
    Das cousas que i mais lhe aprazem,
    Ja comeo de engeitar;
    Fartos pera arrebentar
    Sobre bons tapetes jazem.

      Nisto o despenseiro chega
    (Que estes bens no duro tanto);
    Ve os ele, a pressa o cega,
    Um lano e dous mal emprega,
    Corre os de canto em canto,
    Os cis  volta se erguro,
    Ladro, (que  alto o sero)
    As casas estremecro,
    Ums e outros i corrro;
    Foi dita que os gatos no!

    Sabia o maior da manha,
    Sabia a casa, e fogiu;
     ratinho da montanha.
    s ps em pressa tamanha
     corao lhe caiu.
    Mas espaado o perigo
    E a morte que ante si vira,
    O coitado assi consigo,
    Por seu asessego antigo
    Que mal deixara, sospira:

    Minha segura pobreza,
    Se chegarei a ver quando
    A vos torne? e esta riqueza,
    Mal que tanto o mundo preza,
    Fuja (se poder) voando?
    Ai baldias esperanas!
    Meu entendimento fraco!
    Que al temos das abastanas?
    La guardai vossas mostranas,
    Deus me torne ao meu buraco!

Das composies poeticas de S de Miranda pode-se destacar um fabulario
do mais alto e inapreciavel valor. Ainda ninguem soube fazer-lhe a
merecida justia de uma edio condigna. No devem os nossos editores
curar unicamente de propagar a litteratura de alm Pyreneus, sendo para
desejar que as suas boas escolhas recaiam especialmente em o muito que
ha das boas lettras em Portugal.




Em 1536, S de Miranda casou com D. Briolanja de Azevedo, irm de Manuel
Machado, opulentissimo senhor de Entre-Homem e Cavado, em o alto Minho,
e muito da amizade do poeta da Tapada. O enlace parece ter sido
resultado de amor mais do que de desejo de gosar o viver modesto e
socegado da familia.

A analyse de algumas das poesias de S de Miranda leva a inferir que D.
Briolanja era uma senhora formosa e que elle, por a ver, concebeu paixo
por ella. Seus cabellos brancos, mais causados pelos desgostos que pela
edade, ainda que o poeta andasse pelos cincoenta annos, far-lhe hiam
receiar ser repellido.

E o poeta no hesitaria tambem em perder a sua liberdade varonil ao
casar-se? Camillo Castello Branco, com o seu conhecido humorismo, diz
que o haver sido S de Miranda marido exemplar no far deprehender que
fosse descaroavel para com as demais mulheres. Como homem bem morigerado
pelos annos dra  esposa o corao estreme, escreveu o grande
romancista, excluindo d'essa entranha arisca todas as mulheres a quem
apenas concedia licena--uma concesso assaz agradavel, qualquer que
fosse.

 o poeta que o declara na carta a Joo Ruiz de S de Menezes,
evidentemente escripta antes do casamento.

      Fui posto em gram diferena
    Se casaria, se no?
    Houve de sair sentena
    Que a s [~u]a desse a mo,
    s outras boa licena.
    Isto assentado, Amor deu
    Claro sinal que era ali;
    Eu o som do coldre, eu
    O som das setas ouvi,

      Amor, que ests sempre avindo
    E junto  propria verdade,
    Sejas por sempre bem vindo
    Ao entregar da vontade,
    Que entrego em te aqui sentindo,
    Pi do teu fogo a esta casa!
    Ara sempre e nunca abrande,
    Que deus  fogo que abrasa:
    Sei o de um privado grande!

Da fora do amor diz S de Miranda em o soneto seguinte:

      Mas que no pode Amor? Fez me engeitar
    Tam levemente a mim por quem me engeita.
    Castelos de esperana e de sospeita
    Faz, e no sei que faz!  tudo um ar.

      Fez me pedras colher, fez mas lanar.
    A alma, apertando as mos, toda encolheita,
     fora que far e  lei estreita
    Que em fim, queira ou no queira, ha de passar?

      Como, e to cego era eu que da vontade
    Fiei tudo, que tudo a traves guia,
    Tam gram contraira minha e da verdade?

      Que al se podia esperar d'[~u]a tal guia?
    Cai onde ora jao; oh crueldade!
    No sei quando  noite ou quando  dia.

A lenda, porm, pretende que a D. Briolanja era to feia de rosto como
de nome e, para mais, velha e tropega. A _Vida_ refere at uma engraada
historia a respeito d'esse consorcio. Conta que estando o poeta em a
Tapada, _logrando quietamente o fruto de seus estudos e peregrinaes,
casou com Dona Briolanja Dazevedo filha de Francisco Machado senhor da
Lousa de Crasto Darega, e das terras de entre Homem e Cvado e de Dona
Ioana Dazevedo sua molher, com a qual viveo annos em grande conformidade
sendo ella to pouco fermosa exteriormente e de tanta idade que quando a
pedio a seus irmos Manoel Machado e Bernaldim Machado, por ser seu pay
j morto, no quisero elles differir-lhe ao casamento, sem que primeiro
visse bem a noyva, e sendo-lhe mostrada pollos irmos, disse para ella,
castigay-me senhora com esse bordo, porque vim tam tarde_...

Camillo Castello Branco, achando, e com toda a razo, exquisito que a
noiva do dr. Francisco de S recebesse o noivo de aggressivo bengalo
alado, viu um erro typographico n'aquelle adjectivo articular _esse_,
que deveria ser _este_. Quem levaria o bordo seria o poeta que, ao
cumprimentar graciosamente a linda noiva, diria:--Castigai-me, senhora,
com este bordo porque vim to tarde.--Significava assim que entrara em
o declinar dos annos por haver passado os quarenta e cinco, ao passo que
D. Briolanja estava em pleno brilho da mocidade.

O sr. Theophilo Braga cr que da m comprehenso do dito a que allude a
_Vida_ e que ficou em proverbio se formou a tradio de ter S de
Miranda casado com uma senhora velha e feia. Em verdade, no se pde
acceitar semelhante lenda, visto que da leitura das composies do
poeta, dos parabns com que se felicita, se deprehende tratar-se de uma
senhora, muito pelo contrario, nova e formosa. Que, ao mesmo tempo, o
poeta frisa bem a sua edade avanada. O dito do castigae-me deve antes
ser olhado como uma galanteria bem comprehensivel em um cavalheiro de
trato to esmerado como era o poeta.

Foi em extremo venturoso esse enlace. D. Briolanja era senhora de
elevadas qualidades moraes, de preclaras virtudes e animo levantado. S
de Miranda, _estimando sobretudo os dotes dalma daquella matrona, que
foram excellentes... do descano de seu marido, da criaam de seus
filhos, da doutrina de seus criados e do provimento de sua casa_,
dedicou-lhe uma affeio to sincera quanto intensa.

Vida santa, vida amantissima a d'aquella familia exemplar. _Sobrio e
austero comsigo_, S de Miranda era _largo com algum excesso cos
hospedes que indifferentemente agasalhava com gosto particular,
costumando a dizer que o livravam de si o tempo em que os conversava_.
As festas familiares eram distraces para o seu melancolismo, cujas
causas tem resistido a todas as investigaes. Essas visitas
proporcionavam ao poeta horas agradabilissimas de um convivio doce e
terno. Vieram depois os filhos e com elles novos cuidados a S de
Miranda que sempre procurou dar-lhes uma educao primorosa, fazer
d'elles cavalleiros esforados e honestos. Ao mais novo, Jeronymo, _com
nam ser muy rico_, mandou-o aprender musica tendo em sua casa _mestres
d'ella custosos_.

Aps seu casamento com a irm de Manoel Machado, S de Miranda voltou
novamente e com afinco  propagao dos metros italianos. Animou-o
talvez o exito alcanado em Hespanha por Garcilaso e Boscan que acabavam
de triumphar impondo-se. A grande reforma litteraria vencera ali
finalmente.

As poesias dos dois poetas hespanhoes exerceram sobre elle, n'este
ultimo periodo de sua actividade poetica, uma influencia decisiva,
influencia que foi at passar a escrever quasi todas as suas eclogas de
metro hendecasyllabico em hespanhol.  que a harmonia meiga e suave
d'aquellas poesias o seduziu a ponto de considerar a lingua castelhana
como mais melodiosa, mais euphonica que a portugueza, que difficilmente
se ia pulindo e abrandando.

A influencia do grande lyrico hespanhol, de Garcilaso, dominou esta nova
serie de produces do famoso poeta quinhentista. Falto de espirito de
originalidade, o unico e verdadeiro defeito que se lhe pde encontrar,
S de Miranda mais uma vez se acostou aos espiritos que se evidenciavam
pelo talento e serve-se quasi das mesmas formas metricas e dos mesmos
artificios. Comtudo, vae alm do que Garcilaso e Boscan ousaram,
intercalando redondilhas,  laia de coplas cantadas, em meio dos versos
de onze syllabas.

Muitas passagens encantadoras, de uma vaga magia, se encontram nas
eclogas em hendecasyllabos hespanhoes. Rescendem ellas um sentimento
profundo e tm uma rara vivacidade. Mas, como o faz notar a ex.ma sr.
D. Carolina Michalis de Vasconcellos, no agradaro a todos por haver
n'ellas, por vezes, transico abrupta de certos dialogos em estylo
simples,  moda de Theocrito, para canes de um idealismo, de um
platonismo indeciso. Fluctuao immotivada, embora rara, entre as formas
cultas italianas e os metros da velha escola peninsular, mistura de uma
philosophia ideal com uma serie de traos realisticos tirados da vida
dos pastores portuguezes e promulgados em um tom intencionalmente rude e
energico, esta desigualdade faz desmerecer muito a belleza d'essas
composies que a tm innegavelmente. O poeta, ainda pouco seguro dos
modelos que procurava egualar ou muito aferrado  tradio nacional para
romper completamente com ella, como que hesita, titubia em suas
innovaes.

Por essa poca e at 1538, escreveu as eclogas _Celia_, _Andrs_, o
_Epitalamio Pastoril_, o _Encantamento_ e, em o outomno de 1537, a
ecloga _Nemoroso_, destinada a commemorar o anniversario do fallecimento
de Laso. D'estas produces, em que uma critica desapaixonada e rigorosa
poder encontrar meritos dignos de louvor, destacam-se a _Andrs_ e a
_Celia_.

A ecloga _Andrs_  uma sentidissima referencia a tristes acontecimentos
passados, a que o poeta assistira certamente com a mais cruciante magoa.
Descreve as peripecias do casamento do infante D. Fernando, irmo de D.
Joo III, com D. Guiomar, conhecida na ecloga pelo nome de Pascuala. Ha
n'ella passagens vvidas de sentimento. A bella alma do poeta
manifesta-se com um suave e palido brilho de lua de maio.

Da frescura deliciosa, da admiravel simplicidade d'essa excellente
composio, dir esta passagem, uma das capitaes n'ella:

      Aun las fieras salvajes quantas son
    Vencer se dejan de humanidad buena;
    El toro bravo, el mas bravo leon
    Con tiempo muestran que pierden la pena,
    El uno en iugo, el otro en la prision.
    Si la voz conocida al aire suena
    Del halconero, abaja desde el cielo
    A prender se el halcon mas que de vuelo.

      Todo lo vience el tiempo i la porfia:
    En marmol duro si el agua desciende,
    Ella tan blanda cava todavia;
    Es duro el hierro, gasta se por ende;
    Lo que no puede un dia, haze otro dia.
    A las sus fuerzas, quien se le defiende?
    Durisima Pascuala quanto en ti
    De amor, trabajo, fe, tiempo perdi!

      Vemos la golondrina vuelto el pecho
    Al viento como un raio ir se volando,
    Ora en cielo, ora en tierra, a trecho a trecho,
    Que la vista la va mal devisando.
    Contra la vena de agua por derecho
    Van truchas las azudas trespasando.
    Con quantas aves de entre dia vuelan,
    Otras la noche escura se desvelan.

      Ha i animales que a los nuestros fuegos
    Se acogen, constreidos del mal frio,
    Otros no vence estonces, como juegos;
    Aves del cielo biven por el rio,
    Otros se esconden por la tierra ciegos;
    Biven del fuego, biven del rocio:
    No s de condicion que eres Pascuala
    Pero no de mujer, no de zagala,

      Mas antes de zagala i de mujer!
    Que debajo de aquella vista hermosa,
    Tan llegada al divino parecer,
    Escondi la natura artificiosa
    El maior mal que pueden ojos ver,
    Engao que haz la pena deleitosa,
    Ponzoa de gran fuerza! mata el vel-las,
    Mata el oil-as, mata el oir d'elas!

      Oh que haias mucho de mal grado, Amor
    Que ansi nos turbas el entendimiento?
    Al maior dao diste mas sabor,
    Errado el peso, la medida, el cuento,
    Donde se sigue que de tal error
    Se vengan recreciendo ciento a ciento,
    Qual fuente avelenada perenal
    Donde mana despues tanto de mal!

      Suerte mucho cruel que tal consiente?

Logo abaixo da _Basto_, embora em verdade muito inferior, pode ser
collocada a _Andrs_. A _Celia_, dedicada ao infante D. Luiz, no  to
mimosa, porm quasi lhe eguala em sentimento. O poeta canta uma mulher
desapparecida, o amor querido do alludido principe.

      Ai Celia! quantas lagrimas devidas
    Te son! i quantas, si remedio diesen
    A cosa alguna de mas a las vidas
    Por quien costumbre quiso se vertiesen
    En vano tantos tiempos, si no havidas
    De los mas sabios por flaqueza fuesen.
    No digo mas de si ni mas de no
    Son que causa tern quien nos las di.

      Aquel dolor que va turbando dentro
    De cuerpo i d'alma todos los sentidos,
    Pasando al corazon que es el su centro,
    Las lagrimas de alla manda i gemidos
    Que abran camios a aquel duro encuentro;
    Sino, que es fuerza, siendo detenidos,
    Con el fuego encerrado i las centellas
    Ardan las casas i el seor con ellas.

    .........................................
      Ests por siempre, buena Celia, en gloria
    I siempre en fama qual dejaste aqui;
    Deve se tal corona a tal vitoria
    Del enemigo, del mundo, i de ti,
    Duros contrarios que en nuestra memoria
    No s vencidos quien los haia ansi;
    Derechamente corriste a la palma,
    Dejaste el cuerpo atras, avante el alma.

Em 1538, apresentou o poeta a sua segunda comedia classica _Os
Vilhalpandos_, escripta em prosa como a primeira. Esta e os
_Estrangeiros_, o Cardeal D. Henrique que depois foi Rei, _tam pio, tam
zelador da F, e dos bons costumes, reformador das Religies, Legado 
Lattere, Inquisidor-Mr, no s lhas mandou pedir pera as fazer (como
fez) representar diante de si por pessoas que depois foram grandissimos
ministros... seno pouco despois de Francisco de S morto, porque se
ellas nam perdessem as fez imprimir ambas em Coimbra na forma em que
andam e as tinha e lia muitas vezes_.

O visconde de Almeida Garrett, traando um pequeno esboo da _Historia
da lingua e da poesia portuguesa_, mostrou-se da opinio que as comedias
de S de Miranda eram para admirar e constituiam um notavel monumento
para a historia das artes pela feliz imitao dos antigos e pelo que
excedem quanto at ento se tinha escripto. Justo n'esta apreciao,
Garrett deixou-se, comtudo, levar pelo pessimismo de considerar funesto
o impulso dado por S de Miranda ao theatro portuguez, funesto e como
tendo-o destruido ao nascer. N'esta mesma direco, Andrade Ferreira
acha que a influencia italiana no deu de si mais que a memoria de
varias tentativas eruditas.

Comprehende-se que o publico preferisse o theatro tal como o apresentava
a musa negligente e faceta de Gil Vicente e Joo Prestes, em que havia
sido creado e que o interessava porque o divertia. Natural que antes
quizesse as jocosidades por vezes grosseiras dos autos populares a
conservar a sua grave compostura ante as subtilezas da arte e correco
das comedias ao gosto classico, a que no estava habituado e que o no
deixavam  vontade, acabando por o fazer bocejar. Parece-nos, exagero,
porm, inferir d'ahi a funesticidade da obra de S de Miranda.

Seriam as comedias de S de Miranda faltas de caracter nacional e
improprias para dar uma boa direco ao theatro portuguez? S um estudo
profundo e demorado o pode decidir. Foi, todavia, essa corrente de
reforma do theatro pela imitao da comedia classica que produziu essa
obra immortal de Ferreira, a _Castro_, a primeira composio dramatica
moderna, que reproduz o que existe de mais sublime e pathetico em um
quadro de historia nacional, como escreve Andrade Ferreira.

O final de este periodo de actividade litteraria de S de Miranda foi
assignalado por uma nova carta em redondilhas, dirigida a seu irmo Mem
de S. Esta carta deve datar-se de pouco depois de 1543 porque allude 
morte de D. Duarte e de Boscan.

Mem de S, ao contrario de seu irmo, procurava elevar-se pelas
honrarias da crte e alcanava ascender aos mais altos cargos do estado.
Como governador geral do Brazil, o seu nome cobriu-se de uma gloria
immortal. S de Miranda, em sua carta, aconselha-o a evitar os escolhos
da ambio e da vaidade para no ver a sua carreira naufragar
inopinadamente. Para mostrar quanto mais valia a modestia do pouco em
socego ante as incertezas inherentes s maiores grandezas utilisa
bellamente a celebre fabula do rato do campo e do rato da cidade.

S de Miranda confirma suas palavras com o exemplo de seu passado.
Explica-lhe porque abandonou a crte e descreve-lhe a vida tumultuaria
que n'ella se passa e contra a qual se no podia j ir.

      Polo qual a este abrigo,
    Onde me acolhi cansado
    E ja com assaz perigo,
    A essas letras que sigo,
    Devo que nunca me enfado,
    Devo a minha muito amada
    E prezada liberdade
    Que tive aos dados jugada.
    Aqui smente  mandada
    Da rezo boa e verdade.

      Nas cortes no pode ser!
    Vedes os tempos que correm!
    E ass vemos t morrer
    Irem muitos a correr
    Por fugirem d'onde morrem.
    Ora pr peito  corrente,
    Que sejais foroso e so,
    E de sangue inda fervente,
    Gram nadador, claramente
     quebrar braos em vo.

Que valem as riquezas comparadas com a liberdade? Ambies que passam
com a edade!

      Buscar e sonhar privanas,
    Dar de entrada a liberdade
    Logo por vs esperanas,
    Esses jogos, essas danas
    Passem coa mocidade.

Da fraqueza propria vem o medo  pobreza.

      Fracos de fe! e de fraqueza
    Vm estes nossos suores,
    Estes medos  proveza.

E que desgraada existencia a d'aquelles que s vivem da ambio e para
a ambio.

      Andando assi neste enlheo
    Em quantos erros caimos
    Sem conto, sem fim, sem meo;
    Dormimos o sono alheo
    O nosso no o durmimos;
    Queremos o que outrem quer,
    O que no quer engeitamos!
    Estamos smente a ver,
    Rimos o alheo prazer,
    E s vezes quando choramos.

A carta a Mem de S foi a ultima composio notavel do poeta da Tapada.
S de Miranda nada voltou a produzir que se possa destacar e os seus
trabalhos poeticos posteriores limitaram-se a moribundos clares de um
sol no poente. Emmudeceria ante a decadencia que escancarava a sua
terrivel guella hiante com os primeiros horrores da Inquisio ou
preoccupava-o em extremo o futuro dos filhos j homens ou, ainda, seria
absorvido pela sua occupao mais constante de rever as obras antigas
para as polir e aperfeioar, sobretudo a famosa e esplendida _Basto_,
objecto dos seus mais dedicados cuidados e a que deu o maior realce?
Talvez todos esses motivos concorressem para afrouxar a actividade do
poeta.

Por 1551, o principe D. Joo, joven herdeiro do throno e que bem novo se
declarava um decidido protector das lettras, mandou pedir a S de
Miranda uma colleco de suas poesias. O poeta satisfez com empenho o
pedido, sentindo-se n'elle no s honrado, como apreciado. Era aquella
solicitao confirmativa de seu triumpho.




As composies poeticas de S de Miranda s em 1595, annos depois de sua
morte,  que foram pela primeira vez impressas. Nem por isso sua
influencia se exerceu menos accentuada, pois corriam manuscriptas de mo
para mo amiga. Aquelle cenaculo da Tapada cedo se tornou o foco de onde
irradiou a luz que trouxe a restaurao da poesia portugueza, o centro
do movimento poetico do paiz. O nome de S de Miranda foi sempre
augmentando at se impr aos outros quinhentistas com um predominio a
que lhe dava jus a sua vasta e solida erudio, a auctoridade de seu
caracter e a sua obra admiravel.

Em torno do venerando moralista e brilhante poeta comearam a
agrupar-se, quer pela communho de idas, quer pelas relaes pessoaes,
os espiritos esclarecidos do tempo, como Ferreira, Diogo Bernardes, D.
Manuel de Portugal, Francisco de S e Menezes, Pero de Andrade Caminha e
outros. Soccorriam-se  sua experiencia, consultavam-o, ouviam-o e
submettiam-lhe as suas produces.

Diogo Bernardes, ao tempo em que ainda se conservava em sua terra natal,
Ponte de Lima, visitava a miudo a Tapada onde S de Miranda o recebia
com a mais carinhosa intimidade. Em sua primeira carta, escripta em
tercetos  maneira italiana, confessa que  a elle que toma por mestre.

      O dce estylo teu tomo por guia,
    Escrevo, leio e risco; vejo quantas
    Vezes se engana quem de si se fia.

    ....................................
    No te deram os cos graas tamanhas,
    Para s as lograres, mas por seres
    Bom mestre de artes boas, boas manhas.

S de Miranda recebeu com enthusiasmo essa estreia do novel poeta. Com a
sua benevolencia paternal, dirigiu lhe este mimoso soneto:

      Neste comeo d'ano em tam bom dia,
    Tam claro, porque no falea nada,
    Me foi da vossa parte apresentada
    Vossa composio boa a porfia.

      De que espanto me encheu quanto ali via!
    E mais em parte ca tam desviada
    Sempre at gora da direita estrada
    De Clio, de Caliope e Talia.

      Oh que enveja vos hei a esse correr
    Pola praia do Lima abaixo e arriva
    Que tem tanta virtude de esquecer,

      O que estes tristes corais aliva,
    Do pesar igualmente e do prazer
    Passado, que no quer que inda homem viva.

Caminha teve tambem, muito cedo, amizade com S de Miranda. O sr.
Theophilo Braga attribue mesmo a essa circumstancia uma parte da
celebridade de que aquelle gosou.

A Ferreira nunca S de Miranda viu. Pois no era dos que menos o
adoravam pela sua vida integra e caracter austero e admiravam pela sua
grande obra de renovao litteraria. Mais tarde, Ferreira lamentou
acerbamente nunca se haver encontrado com o poeta da Tapada.

      Ah meu bom mestre, ah pastor meu amigo,
    Como minha alma e os olhos se estendiam
    Por ver-te, e o duro tempo foi-me imigo!

    Mas inda que os meus olhos te no viam
    C te tinha minha alma, e teus bons cantos
    L me levavam, e de ti todo enchiam.

A gerao, que se vinha manifestando exuberante de talento, encarava com
a mais commovida venerao e respeito o grande poeta que tanto
trabalhara pelo florescimento das lettras patrias. Conhecia que muito e
muito se devia a esse homem verdadeiramente nobre e justo. Da forma como
o considerava, d ida o admiravel retrato que Ferreira d'elle traou.

    Chamar-te-hei sempre bem aventurado.
    Que tanto ha que em bom porto co essas santas
    Musas te ests em santo ocio apartado.

    No esperas, no temes, no te espantas;
    Sempre em bom ocio, sempre em sos cuidados,
    A ti s vives l, e a ti s cantas.

    Os olhos soltos pelos verdes prados,
    O pensamento livre, e nos cos posto,
    Seguros passos ds e bem contados.

    Trazes hua alma sempre n'um s rosto,
    Nem o anno te muda, nem o dia,
    Um te deixa Dezembro, um te acha Agosto.

    Quam alta, quam christ philosophia,
    De poucos entendida nos mostraste!
    Que caminho do co, que certa guia!

    De ti fugiste, e l de ti voaste,
    L longe, onde teu sprito alto subindo
    Achou esse alto bem que tanto amaste.

    Novo mundo, bom S, nos foste abrindo
    Com tua vida, e com teu doce canto,
    Nova agua e novo fogo descubrindo.

Particularidade digna de mencionar-se e que o sr. Theophilo Braga nota:
todos os poetas que se filiavam em a escola italiana e se dirigiam a S
de Miranda, comeavam por contar-lhe a sua vida, como para mostrar que
era immaculada e que merecia a amizade delle. Tanta respeitabilidade
infundia esse homem de um caracter integro e puro.

S de Miranda sentia um vivo prazer ao observar o triumpho de seus
esforos. Quasi immediatamente surgiu uma serie de cataclysmos que veiu
matar o poeta _logo tambem pera todas as cousas de seu gosto e antigos
exercicios_.

A deploravel catastrophe de Ceuta, em 1553, em que pereceu a flr da
cavallaria portugueza, custou-lhe a preciosa vida de seu filho
primogenito Gonalo Mendes, ambio risonha de seu futuro, enlevo de sua
alma, carinho de seu corao amantissimo. O poeta sentiu-se ferido
rudemente por esse desabar de toda a sua esperana, de toda a sua
felicidade futura.

Os vates da nova escola procuraram consolar a dr de S de Miranda com
sentidas elegias. Ferreira dirigiu-lhe uma suavemente melancolica,
vvida, procurando mitigar a dr do attribulado pae pela ida da morte
gloriosa do filho que caira combatendo pela patria.

      Oh alma bem nacida, que em tal guerra
    Ganhaste uma tal vida, honra e gloria
    Quem morte lhe chamar contra ti erra.

S de Miranda respondeu a Ferreira com outra elegia, vibrante da dr
mais profunda que pode exacerbar o corao de um pae extremoso. A sua
magoa no lhe impede, porm, de admirar o talento do joven adepto da
nova escola e de o incitar a continuar na vereda encetada.

      Vem um dando  cabeza e conta ufano
    Cousas do seu bom tempo, ardendo em chamas
    Polas que fez: todo al lhe  claro engano.
      Ando se s razis frias polas ramas
    Um vilancete brando, ou seja um chiste,
    Letras s invenis, motes s damas,
      Ua pregunta escura, esparsa triste!
    Tudo bom! quem o nega? mas porque,
    Se alguem descobre mais, se lhe resiste?
      E como, esta era a ajuda? esta a merc?
    (Deixemos ja as mercs) este o bom rosto?
    De menos custa em fim que este tal ?
      E logo aqui tam perto, com que gosto
    De todos Bosco, Lasso, erguro bando,
    Fizero dia, ja quasi sol posto!
      Ah que no torno mais! vo se cantando
    De vale em vale de ar mais lumioso
    E por outras ribeiras passeando.

A ida de que a sua obra seria continuada por uma gerao cheia de
talento mitiga o pezar de S de Miranda. Desejava, porm, no ter de
lamentar esse filho perdido em to tenra edade: dezeseis annos. Como
invejava a sorte d'aquelle Mestre Dom Rodrigo, chorado por seu filho
Jorge Manrique!

    Nos sonhamos aqui, tu vas te ao ceu.
      Ditoso aquele mestre dom Rodrigo
    Manrique, a quem em seu tempo louvou
    O filho e deu ao corpo em morte abrigo.
      Era ela conta igual que quem entrou
    Antes  vida, saisse primeiro?
    Eu sou que devera ir! quem nos trocou?
    ......................................
      Vai te a boa ora; no tens de que devas
    Temer; la tudo  paz, tudo assossego!
    Quem leva um tal seguro qual tu levas?

No se apagara ainda a saudade do filho querido e j uma nova desgraa
feria o corao do poeta. A esposa virtuosissima, D. Briolanja,
faltou-lhe em 1555. S de Miranda entregou-se a extremos de sentimento
_senam dignos do animo de hum tam grande Philosopho, devidos pollo menos
 estimaam que com seu profundo juizo fez daquella perda_.

S de Miranda sobreviveu ainda tres annos ao desapparecimento d'esse
ente querido e, como affirma a _Vida_, por testemunho de pessoas que
conheceram o poeta, _nunca mais sahio de sua casa, seno pera ovir os
officios Divinos, nem apparou a barba, nem cortou as unhas, nem
respondeu a carta que lhe alguem escrevesse at que acabou de todo_.

Vivendo _ainda tres annos despois_ de sua mulher, _nam se acha que
composesse mais que hum Soneto que fez  sua morte_. Foi digna cupula
posta  sua obra poetica.

      Aquele esprito, j tam bem pagado
    Como ele merecia, claro e puro,
    Deixou de boa vontade o vale escuro,
    De tudo o que ca viu como anojado.

      Aquele esprito que, do mar irado
    D'esta vida mortal posto em seguro,
    Da gloria que la tem de herdade e juro
    Ca nos deixou o caminho abalisado.

      Alma aqui vinda nesta nossa idade.
    De ferro que tornaste a antiga de ouro
    Em quanto ca regeste a humanidade,

      Em chegando ajuntaste tal tesouro
    Que para sempre dura! Ah vaidade!
    Ricas areas d'este Tejo e Douro!

Como se no fossem poucos os desgostos a abrirem-lhe a cova, os ultimos
dias de S de Miranda ainda passaram amargurados com a noticia da morte
do principe D. Joo, uma promessa para o paiz, quasi a seguir a do
infante D. Luiz e, por ultimo, a de el-rei D. Joo III, o seu grande e
nobre amigo, em 1567. S de Miranda sobreviveu apenas oito mezes a esta
ultima e fulminante desgraa que vinha mergulhar o reino em as
dissenes de uma funesta regencia.

O poeta da Tapada, o grande auctor da ecloga _Basto_, falleceu a 15 de
maro de 1558, com mais de sessenta e oito annos de edade. Recebeu
modesta, mas digna sepultura, ao lado de sua mulher em a capella de
Santa Margarida da egreja de S. Martinho de Carrezedo, em o arcebispado
de Braga.

Muito sentida a morte do grande poeta por todos os adeptos da nova
escola litteraria a que S de Miranda servia, por assim dizer, de elo.
No fosse o espirito do respeitado mestre que se apagra. Tinha-se bem
presente aquelles versos de Ferreira em que to bem se synthetisa a
grande obra de S de Miranda:

      Novo mundo, bom S, nos foste abrindo
    Com tua vida, e com teu doce canto,
    Nova agua e novo fogo descubrindo.




_Terminando_


A _Vida_, o precioso documento anonymo que acompanha a segunda edio,
de 1614, das obras poeticas de S de Miranda, serviu de guia e de base
ao nosso estudo biographico-critico. Como tivemos occasio de ver, no
que respeita a fixao de factos, ella nem sempre  veridica, deixando
muito a desejar. Erra assim na data que attribue ao nascimento do poeta
e em dizer que elle _estudou leys mais em obsequio ao gosto del Rey Dom
Joo o Terceiro... que por inclinao que tivesse quella maneira de
vida_, phrases que reproduzimos atraz para accentuar as boas relaes em
que estava a sua familia com a casa real, no por as tomarmos  lettra.

Essas faltas do anonymo biographo, a nosso ver, em nada desmerecem o
valor do documento que nos legou sobre a vida do glorioso solitario da
Tapada. Ha grandes lacunas na _Vida_, erros de vulto, mas ella  bem
realmente _collegida de pessoas fidedignas que o conhecero_--ao
poeta--_e trataro e dos livros das geraes deste Reyno_. Tivemos
occasio de o verificar notando a concordancia dos seus dados com os
offerecidos pelos diversos nobiliarios e genealogias manuscriptas a que
precisamos recorrer.

Uma d'essas genealogias, a _Nobresa de Portugal e Espanha_, de Manuel
Faria e Sousa, em seu titulo dos _Ss de Francisco de S de Miranda,
senhores da quinta da Tapada_, teria poupado a muitos escriptores o
engano de dar ao poeta como me a av, se fosse consultada. Ella diz
expressamente:--_Gonalo Mendes de S, filho 2. de Felipa de S e de
seu marido Joo_...

Como deixamos dito, a carta de legitimao do poeta d o nome da me de
S de Miranda.  obsequiosa amabilidade do erudito investigador sr.
Sousa Viterbo, devemos o saber que ella se chamava Ignez de Mello.
Pertenceria esta senhora  gerao dos Mellos de Coimbra? Seria nobre?
Occuparia elevada posio social? So perguntas que suggere a particula
_de_ anteposta ao nome de familia e que resta averiguar. Que era _uma
mulher de bem_ affirmam-o os nobiliarios.

No esto estes de accordo sobre se S de Miranda foi o filho
primogenito do conego Gonalo Mendes. Haja sido ou no,  incontestavel
que o poeta possuia bens proprios. A familia dos Ss era das mais ricas
e importantes do paiz.

Como se sabe, Garcilaso falleceu em 1536. S de Miranda compz para o
primeiro anniversario da morte do grande lyrico hespanhol a ecloga
_Nemoroso_ em que evidencia o mais intimo conhecimento no s de suas
poesias como de sua propria vida. Das poesias tomou conhecimento pelo
manuscripto com que o brindou o seu querido amigo Antonio Pereira. O
saber de sua vida devia-o decerto a relaes pessoaes, achando o sr.
Theophilo Braga, natural que durante a sua viagem na Italia tivesse S
de Miranda encontrado Garcillaso.

Uma ultima nota.

Attribuimos o casamento de S de Miranda a resultado de amor mais do que
a desejo de gosar o viver modesto e socegado da familia e procuramos
proval-o. Ainda como demonstrativo do que dissemos ha um soneto do poeta
que vamos citar na forma porque o reproduziu o sr. Theophilo Braga, em
sua _Historia dos Quinhentistas_.

    Como? e ser to cego e sem sentido
    Amor, que umas rases claras, to chs
    No oua? _e que no veja tantas cans_,
    Tanto tempo baldado e no vivido?




DO MESMO AUCTOR


Em preparao:

Bernardim Ribeiro e Christovo Falco.

Sobre os joelhos (_artigos e estudos_).

Povos e Civilisaes (_Historia da Civilisao_)--Os Seltas.

O seculo XIX.




Notas de transcrio.

No texto original existem alguns caracteres que no tm representao no
sistema iso-8859-1 e que foram substituidos por marcadores especiais.
Os marcadores usados nesta verso electrnica foram os seguintes:

[~u] Resprenta um u com um til(~) por cima e que parece ser uma
abreviatura dos caracteres "um".






End of Project Gutenberg's S de Miranda e a sua Obra, by Dcio Carneiro

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1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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