The Project Gutenberg EBook of A philosophia da natureza dos naturalistas, by 
Antero Tarqunio de Quental

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Title: A philosophia da natureza dos naturalistas

Author: Antero Tarqunio de Quental

Release Date: October 4, 2008 [EBook #26776]

Language: Portuguese

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A PHILOSOPHIA DA NATUREZA

NATURALISTAS

1894




HOMENAGEM POSTHUMA

A

ANTHERO DE QUENTAL


(MICHAELENSE)



ANTHERO DE QUENTAL

A PHILOSOPHIA DA NATUREZA

DOS

NATURALISTAS


1894
Typ. Editora do CAMPEO POPULAR
S. Miguel--PONTA DELGADA--Aores




EXPLICAO PREVIA


Digam o que disserem, Anthero de Quental foi indubitavelmente, um dos
mais fecundos escriptores do seu paiz e da sua epocha.

Raros, muito raros, foram as theorias ou problemas da actualidade,
ventilados com interesse nos dominios da Sciencia, da Politica ou da
Arte que deixassem d'exercitar a penna sempre prestigiosa e sempre
elegante do grande Mestre.

Na sua obra em prosa cabe, porem, um logar proeminente aos copiosos
artigos de critica ou de polemica, que, durante quasi trinta annos,
appareceram estampados em diversos orgos da imprensa periodica
portugueza, tanto da capital como da provincia, e nos quaes, 
semelhana de Littr e de Taine, elle connotou, como n'um diario intimo,
no smente as suas opinies pessoaes sobre os homens e os successos
contemporaneos, mas ainda as correntes de influencias estranhas que
actuaram no seu espirito e as impresses que d'ahi resultaram.

Como critico e polemista, Anthero de Quental no teve em Portugal
competidor; foi unico na energia fogosa da polemica e nos processos
technicos da analyse critica.

Os seus escriptos de critica bibliographica so exemplares de methodo e
de bom senso, de finura e de erudio, de escrupulosa imparcialidade e
d'aquella serena comprehenso dos multiplices aspectos das cousas e dos
homens que d ao critico a maxima authoridade e valor.

N'este particular, pertence-lhe a gloria de ter sido entre ns o
verdadeiro creador d'um genero litterario descurado, para no dizermos
falseado, na sua applicao.

At elle a critica, aberrando diametralmente do seu papel objectivo,
fazia-se pela antipathia ou sympathia do critico para com o nome do
author; o louvor ou a censura previam-se justamente, dadas as relaes
de sentimento d'um para com outro.

Foi Anthero quem iniciou a critica impessoal, a critica objectiva,
desapaixonada, fria, inspirada por um sentimento de equidade e de
justia--critica, em summa, que  uma lio; porque ensina, e que pode
fazer do criticado um adversario, mas nunca um inimigo--e do critico um
juiz, mas nunca um louvaminheiro nem um delator.

Os artigos criticos do grande Mestre teem todos estes caracteres
acentuadamente impressos: no so exclusivamente laudatorios nem
exclusivamente aggressivos; so justos e por isso mesmo verdadeiros.
Teem authoridade; porque fallam sinceramente uma linguagem que no  a
do odio nem a dos affectos; mas que  a voz d'uma consciencia honrada
para a qual os Homens so o menos e a Verdade o mais.

Se alguns d'esses trabalhos perderam j aquelle cunho de novidade que os
fez circular vertiginosamente d'um a outro canto do nosso paiz, e se por
isso no movem ao interesse e enthusiasmo que suscitaram aos primitivos
leitores,  certo, que ainda assim, constituem documentos de summa
valia, quer sob o ponto de vista meramente litterario, quer como
subsidio para quem no futuro pretenda historiar as differentes phases do
movimento das idas em Portugal, na ultima metade do seculo XIX.

Taes elementos so, portanto, indispensaveis para o estudo de Anthero e
da sua epocha. Sem elles mal se poder comprehender a obra do grande
Mestre na sua extenso, valor, influencia, e mal se poder explicar
tambem a filiao ou dependencia das diversas partes d'essa obra
complexa e vastissima.

V-se, pois, que quem quizer formar uma ida cabal do irrivalisavel
escriptor e da sua actividade productora, ou procurar comprehender a
aco exercida sobre os seus contemporaneos, ha de necessariamente
recorrer s colleces das Revistas e Gazetas, que o contaram entre os
seus collaboradores, onde elle deixou archivado pelo seu proprio punho
aquillo que bem pode chamar-se a sua _autobiographia mental_.

Infelizmente, porm, so numerosos e pouco accessiveis esses
repositorios, muitos dos quaes teem desapparecido (como succede  maior
parte das revistas academicas, publicadas em Coimbra) e outros tornam-se
cada dia mais raros, dada a procura dos collecionadores.

N'estas condies, dentro em breve, poucos sero os estudiosos que
tenham a dita de ler e consultar os escriptos jornalisticos d'Anthero.

Esperar-se-ha que um editor tome sobre si o encargo de recolher essas
numerosas especies dispersas?

E no ser isso, por assim dizer, sacrificar a obra do grande Mestre,
deixando de recolher muitos dos escriptos da maior raridade?

A edio definitiva das obras completas d'Anthero s poder levar-se a
cabo, quando primeiro se publiquem as reproduces d'esses escriptos
avulsos.

Aos amigos e discipulos do immortal escriptor impende, pois, um grande
dever de gratido:-- o dever de cada um de per si ou associados, salvar
do olvidio e da destruio os trabalhos do Mestre, colligindo-os
systematicamente e por ordem chronologica,  semelhana do que fez o sr.
Oliveira Martins para os Sonetos e restantes composies poeticas.

 urgente comear. Talvez mais tarde no seja possivel reconstituir a
serie d'aquelles trabalhos ou por terem desapparecido os jornaes em que
foram originalmente publicados, ou por muitos d'elles serem anonymos e
terem tambem desapparecido as pessoas que poderiam reconhecer a sua
paternidade.


II

No diario portuense--_A Provincia_--inseriu Anthero de Quental, em 1886,
uma serie de cinco artigos, a proposito da obra de Vianna de Lima,
intitulada--_Exposio summaria das theorias transformistas_.

A questo versada era e  ainda das mais importantes e das mais
disputadas, tanto no terreno propriamente especulativo, como no terreno
das sciencias naturaes.

Anthero de Quental, methaphysico de profisso, no podia entrar no
debate como naturalista, embora os seus estudos tivessem fundos
alicerces nas Sciencias da natureza. Discutiu e argumentou como
philosopho;--philosophou; porque na materia tinha opinies originaes
definidas e razes peculiarmente suas.

D'ahi a importancia e renome dos artigos que o publico illustrado
victoriou, como modelos acabados de analyse critica, collocando-os do
mesmo passo a par das melhores paginas de prosa portugueza.

Tinha razo.

So com effeito obras primas no seu genero e em que no se sabe qual
mais admirar, se a belleza incomparavel de forma, se a genial pujana e
superioridade do pensamento que anima aquella solida construco
especulativa, communicando-lhe a maxima potencia de suggesto e de
interesse.

Mostremo-lo, embora de relance.

Anthero de Quental, partindo do principio de que a _sciencia no pde
ser para a philosophia mais que uma materia prima_, impugna a pretenso
de fundar uma philosophia da natureza com a a simples generalisao dos
dados d'um grupo de sciencias, e sem ter em conta o indispensavel
criterio das ideias.  este o thema principal que elle se esfora para
estabelecer fundamentalmente.

Analysando as duas noes que formam a base da doutrina Haeckeliana--_o
movimento e a evoluo_--mostra que a primeira  insufficiente, e 
segunda falta a generalidade scientifica; visto como no intervem, seno
_onde o elemento historico representa um papel proeminente_.

Por outro lado demonstra que ha contradico flagrante entre a ida da
espontaneidade da materia, como a admitte a escola monista, e a theoria
da conservao do movimento, que domina nas sciencias physicas e em
grande parte nas sciencias da organisao.

E sobre estas premissas logicas, conclue que a doutrina da evoluo,
formulada por Haeckel, longe de ser, como se pretende, uma doutrina
positiva, baseada nas sciencias e fluindo d'ellas como sua consequencia
natural, implica, pelo contrario uma _extenso abusiva da induco
scientifica e a illegitima generalisao d'uma hypothese, que, se 
perfeitamente fundada no terreno de determinadas sciencias, s ahi e s
n'esse ponto de vista tem authoridade scientifica_.

A _ida da finalidade_, combatida pela escola monista,  sustentada por
Anthero d'um modo superior e original.

_A evoluo_, diz elle, _implicando a ida d'um typo, que as formas
evolvendo, tendem a realisar, implica por isso mesmo uma finalidade.
Quem diz evoluo, diz progresso. Ora progresso que no tende para cousa
alguma que no tem um typo e um fim, no se comprehende._

No  preciso mais para se ver a importancia e o valor do trabalho que
se segue.

Poderiamos fazer aqui algumas approximaes entre as doutrinas d'Anthero
e as doutrinas de Hartmann, Lang e Stallo--seus authores predilectos e
mais compulsados.

Poderiamos tambem mostrar que os bellos artigos sobre as tendencias da
moderna philosophia, dados a lume na _Revista de Portugal_, so o
desenvolvimento logico do pensamento dominante nas paginas adiante
reproduzidas.

Mas fallece-nos a authoridade e competencia para tanto, e demais, o
trabalho d'Anthero no carece nem de criticas, nem de commentarios
elucidativos:--impe-se por si e tem em si a necessaria lucidez para
convencer a uma simples leitura.

Reproduzindo-o hoje temos apenas em vista render, no anniversario do seu
passamento, uma derradeira homenagem de respeito e estima ao filho
d'esta ilha que  uma das maiores glorias das letras patrias, e ao mesmo
tempo facilitar aos estudiosos a leitura d'um dos trabalhos
philosophicos d'elle em que mais claramente se patenteiam o seu subtil
engenho dialectico, a originalidade das suas concepes especulativas e
as maravilhosas qualidades didacticas da sua prosa expositiva e
analytica.

E d'est'arte fica explicada a presente publicao.


       Ponta Delgada,
               11 Setembro de 1893.

                               _Eugenio Vaz Pacheco do Canto e Castro_




PRIMEIRO ARTIGO[A]


Um livro sobre as modernas theorias transformistas, publicado em Paris e
em francez, e firmado por um nome portuguez,  facto to extraordinario,
que por si s bastaria para attrahir as attenes. Mas no livro do snr.
Vianna de Lima, no  s a extranheza do facto que deve chamar a nossa
atteno:  ainda o seu valor intrinseco. Esta _Exposio summaria das
theorias transformistas_ , como o titulo indica, uma especie de _summa_
das doutrinas professadas sobre a philosophia da natureza por uma escola
consideravel, cuja cabea, E. Haeckel,  um dos nomes mais illustres, e
justamente illustres, da Allemanha intellectual, na segunda metade do
nosso seculo: e a obra do adepto no  indigna, nem pela intelligencia
nem pelo saber, da escola nem do mestre.

No sou naturalista e, tendo a consciencia da minha incompetencia, no
me atreveria a escrever sobre a obra do sr. Vianna de Lima, se o seu
livro fosse propriamente um livro de sciencias naturaes, e se os quatro
estudos, de que se compe, se conservassem escrupulosamente nos limites
rigorosos do campo scientifico. O livro, porem, do snr. Vianna de Lima,
apezar da modestia do titulo, aspira de facto a ser um livro de
philosophia da natureza, e, n'esse terreno, creio poder, sem temeridade,
emittir algumas opinies fundamentadas. Prestarei, assim uma homenagem
ao moo portuguez (portuguez pelo nome e pelo sangue: ouo que 
brazileiro) que to galhardamente nos representa no grande mundo da
intelligencia, aproveitando ao mesmo tempo o ensejo para dizer alguma
cousa sobre uma escola philosophica, cujos chefes respeito e cuja
importancia no desconheo; mas cujas tendencias esto muito longe, em
meu entender, de serem satisfactorias.

Alexandre de Humboldt, o naturalista encyclopedico e quasi legendario do
primeiro quartel d'este seculo, costumava dizer causticamente,
referindo-se  philosophia da natureza puramente especulativa, que ento
deslumbrava com os clares do genio de Schelling e Hegel, no s a
Allemanha pensadora, mas ainda a Allemanha scientifica, _que achava
singularissimos aquelles naturalistas que pretendiam fazer chimica sem
molhar a ponta dos dedos_.

Tinha razo.

Hoje, ns outros metaphysicos, podemos com igual razo dizer que so
singulares estes philosophos, que, com os dedos mais que ensopados em
chimica, pretendem fazer philosophia sem nunca se terem dado ao trabalho
de reflectir.

Com effeito, a philosophia , de sua natureza, especulativa, e a
sciencia no pde ser para ella mais que uma materia prima.

Um homem de sciencia, por encyclopedico que seja, se no tiver ao mesmo
tempo reflectido muito e profundamente sobre as questes puramente
racionaes, que a sciencia suscita e no pde por si resolver, reflectido
sobre as ideas abstractas, que so, umas, postulados para as differentes
sciencias, outras, principios ordenadores d'uma explicao geral das
cousas, um tal homem de sciencia, apesar do seu encyclopedismo, no
poder nunca aspirar ao titulo de philosopho. Pode dizer que _sabe_, mas
no que _entende_, porque o problema do universo, como problema total e
concreto, ser para a sua intelligencia, alis opulenta de factos, to
obscuro, como  para a intelligencia d'um simples e ignorante. A
philosophia no  o mero ajuntamento ou ainda o quadro empiricamente
ordenado dos factos do universo:  a comprehenso e explicao racional
e total d'esse grande quadro. Ora, uma tal explicao s  possivel no
ponto de vista das ideias ultimas e fundamentaes da raso (_substancia_,
_causa_, _fim_) e essas ideias teem por isso de ser tomadas em si,
pesadas e analysadas. No faz outra cousa a metaphysica, e sem
metaphysica no ha philosophia, porque no ha verdadeira comprehenso
racional, nem verdadeira e total explicao. Metaphysica (ou
especulao) e sciencia (ou observao) so duas series convergentes,
que partem de pontos oppostos e com leis de desenvolvimento diversas;
mas, como so convergentes, encontram-se: o ponto onde se encontram e,
sem se fundirem, reciprocamente se penetram,  que  a philosophia. A
philosophia tem pois por materia a sciencia, por forma a metaphysica; ou
ainda, a philosophia  a observao (quero dizer, os seus resultados)
considerada no ponto de vista absoluta da raso.

O desconhecimento d'estas verdades e o desdem pela metaphysica, filho em
grande parte da reaco, alis justissima, provocada pelos excessos e
intoleravel dogmatismo da especulao, na Allemanha, e pela sua
insignificancia e convencionalismo, em Frana; e, por cima d'isso ainda,
o maravilhoso desenvolvimento das sciencias naturaes, durante os ultimos
40 annos, deram de si o apparecimento d'uma pseudo-philosophia da
natureza que se pretende positiva e puramente filha das sciencias e que
julga ingenuamente poder resolver os intrincados problemas das idas,
sem ter o incommodo de reflectir e s com grande somma de physica,
chimica e physiologia.

D'estes naturalistas philosophos o mais eminente, tanto pelo saber como
pelo genio,  o apostolo de Darwin na Allemanha, o illustre autor da
_Historia natural da Criao_, Ernesto Haeckel.  entre os discipulos de
Haeckel que vem tomar logar, com o seu livro, o snr. V. de Lima.

Profano, no me  dado conhecer e dizer at que ponto a rigorosa verdade
e o rigoroso methodo scientificos tem sido violentados pelo sabio e
engenhoso, mas no menos phantasioso e temerario professor de Munich[B],
para se dobrarem e acommodarem s suas doutrinas geraes. Sei s que
outros mestres eminentes, como Virchow, Helmholtz, Huxley e Du
Bois-Reymond esto longe de se darem por inteiramente satisfeitos com a
orthodoxia scientifica de muitas das affirmaes do padrinho do _monero
batybio_. A mim s me  permittido occupar-me com as ideias e tendencias
propriamente philosophicas da escola monista-evolucionista, cuja cabea
 Haeckel; e o livro do discipulo, que se propoz resumir a doutrina,
ser-me-ha occasio para fazer sobresahir (embora s em dois pontos, mas
capitaes ambos) a confuso e deficiencia na analyse das ideias, que
impedem, a meu juizo, que a pretendida philosophia da natureza
monista-evolucionista, apezar da imponente massa de sciencia sobre que
assenta, attinja a verdadeira altura d'uma philosophia da natureza.

Monismo e evoluo so as duas noes que formam a base da doutrina
Haekeliana. Comecemos por indagar que ideia precisa envolve esta
palavra--_monismo_. Parece-me que a palavra  que  nova, no a ideia.
Tanto valeria dizer pantheismo, ou ainda materialismo, pois no encontro
no fundo d'aquella expresso nada mais do que n'estas duas outras; a
saber: uma concepo unitaria da substancia.

Esta concepo, porem, (na sua simplicidade e em quanto no fr definida
d'uma maneira particular)  propriedade commum de muitas escolas antigas
e modernas e precisa sahir d'essa generalidade e indeterminao para
poder caracterisar uma maneira especial de comprehender as cousas: assim
o atomismo, assim o pantheismo de Spinoza, assim o idealismo realista de
Hegel etc. Ora,  justamente essa falta de definio precisa, essa vaga
de generalidade e indeterminao, que eu noto no _monismo_ de Haeckel.
_Monismo_ parece-me apenas uma palavra nova (e muito dispensavel) e no
a mais.

Com effeito, affirmar abstractamente a unidade de substancia , no
terreno da philosophia da natureza, pouca cousa: o que importa 
definil-a. Definil-a  apresental-a nas suas relaes com a realidade, 
caracterisal-a na sua maneira de ser positiva,  mostrar, no como a
concebemos _em si_ (pertence isso  metaphysica), mas como a concebemos
_realisavel_.

Uma materia abstracta, una e simples, apenas vagamente susceptivel de se
manifestar por omnimodas modalidades,  uma base insufficiente para a
philosophia da natureza; porque  uma base insufficiente para a
sciencia. O que a sciencia exige e o que  preciso  philosophia da
natureza  determinar n'essa infinidade de moralidades, qual  a
fundamental ou elementar, aquella a que se reduzem todas as outras. Ora
 isso justamente o que as sciencias da natureza teem feito, reduzindo
todas as modalidades da materia ao elemento primordial _movimento_. Os
monistas, sempre que fallam como homens de sciencia, adoptam (e no
podiam deixar d'adoptar) esta concepo. Mas, como philosophos, em vez
de receberem das mos da sciencia este resultado, para o elaborarem e
desenvolverem, caem no vago e em inextrincaveis confuses.

 assim que o nosso auctor comea por se declarar anti-materialista e
pretende repellir o atomismo. affirmando que a materia no pde ser
definida per esta ou aquella propriedade, mas que para o monismo, a
materia  o que  _in situ_....  aquillo que se manifesta aos nossos
sentidos e ao nosso entendimento por modos diversissimos, sob forma de
phenomenos infinitamente variados.... pretender isolar (d'este
conjuncto) certas propriedades, abstrahir certas qualidades,  grande
erro.... para elle (o monista) qualidades, propriedades especificas ou
funccionaes, funces, etc. so inherentes  materia em que se
manifestam e formam com ella um todo indissoluvel. Entretanto, meia
pagina abaixo, d a entender que todas as propriedades da materia so
frmas do movimento e se reduzem a movimentos elementares: a fora  a
propriedade ou a maneira de ser mais geral da materia.... todas as
foras so reductiveis a movimentos.... uma fora no  mais do que
materia em movimento. Mas, se isto  assim, a materia no  j tudo o
que  _in situ_ as suas propriedades no so j inisolaveis e
indissoluveis, nem  grande erro abstrahir do conjuncto d'ellas certas
propriedades, visto que, de facto, a materia  caracterisada por uma
propriedade fundamental, o movimento, da qual todas as outras no so
mais do que modalidades, ou, mais terminantemente, grupos e combinaes
de movimentos simples elementares. Seriamos assim levados ao dynamismo,
concepo j mais precisa e mais pratica do que o vago e indeterminado
monismo, e que, depois de Leibnitz, cada vez mais tem ido penetrando, ou
antes, impondo-se  philosophia das sciencias.

J por aqui comeamos a ver quanto a concepo monista da materia 
confusa e mal definida e, por conseguinte, pouco philosophica. Mas no o
 s por isto. A confuso primeira faz-se sentir em todos os aspectos da
ideia de materia.  impossivel, com effeito, passar-se naturalmente da
noo d'uma substancia una, simples e apenas virtualmente susceptivel
d'omnimodas modalidades, para a rica e quasi infinita variedade dos
seres e qualidades de que se compe a universal realidade. Que importa
que essa doutrina sibyllina nos diga que a sua substancia una e simples
 virtualmente susceptivel de toda a variedade de formas e qualidades? A
questo est justamente em se saber como  que, sendo una e simples, tal
substancia pde effectivamente dar de si o movimento e a variedade.

Sobre isto (e isto  justamente o n vital da questo)  muda a
doutrina.

Como  que essa substancia una e simples se determina? como  que, sendo
una e simples, se pde dar n'ella opposio, diversidade, movimento?

A concepo monistia implica continuidade--e tudo no universo 
descontinuo; implica simplicidade--e tudo no universo  complexo:
implica inalterabilidade e indistinco--e tudo no universo  perpetua
mudana, differenciao e instabilidade.

O nosso auctor levanta se desdenhosamente contra o atomismo. Entretanto
o seu monismo, ou  cousa nenhuma, ou tem de se resolver na ideia de
atomo. Pois o que est no fundo da concepo atomista? A ideia da
descontinuidade da materia. E tal ideia impe-se: impe-se como um facto
 sensao; impe-se como um postulado  sciencia, que, sem presuppor a
descontinuidade,  incapaz d'avaliar e exprimir por numeros (e  esse o
typo e a forma perfeita do conhecimento scientifico) seja o que fr na
successo dos phenomenos; impe-se finalmente  especulao, que no
pde conceber movimento onde no ha distinco, opposio e successo, e
no pde pensar a distinco sem pensar _ipso facto_ a descontinuidade.

Foi precisamente esta objeco que encontrou deante de si e contra a
qual veio desmanchar-se a physica cartesiana com a sua ideia da
materia-extenso.

Como se concebe o movimento numa tal materia? perguntava-lhe o atomista
Gassendi. E Boileau, com o seu solido bom senso, resumia a questo nos
dois versos celebres:

      C'est en vain que Rohault sche pour concevoir
      Comment, tout tant plein, tout a pu se mouvoir

O snr. V. de Lima, levantando-se, com os seus mestres, contra o
atomismo, e acceitando ao mesmo tempo, com as sciencias physicas, a
reduco da ideia de materia  de movimento, mostra mais uma vez a
inconsistencia do monismo no terreno das ideias geraes da natureza e a
falta de analyse segura que patenteia a concepo fundamental sobre que
assenta.

Declamar contra o atomismo  facil: evitar com uma palavra vaga e ao
mesmo tempo pomposa as difficuldades que envolve a concepo da materia,
 mais facil ainda: mas no  isso o que se espera de verdadeiros
philosophos; e uma tentativa de philosophia da natureza, s merecer
este nome, quando sobre a analyse das ideias de substancia, fora e
movimento se assente uma doutrina da materia que satisfaa ao mesmo
tempo s exigencias puramente racionaes da especulao e as mais
praticas da indagao scientifica. Nada d'isto encontro no monismo de
Haeckel e seus discipulos: o terreno sobre que pretendem construir est,
quanto a mim, muito longe de ser solido.




SEGUNDO ARTIGO[C]


Falta-me ainda encarar, n'esta esphera da ideia de materia, a concepo
monista, sob um outro ponto de vista.  o da espontaneidade da materia.

O snr. Vianna de Lima affirma, por assim dizer, dogmaticamente, nas suas
_Observaes preliminares_, essa espontaneidade e protesta contra a
physica da inercia: entretanto, todo o seu livro, toda a sua maneira de
comprehender a evoluo presupe a inercia da materia.  que d'uma
affirmao a uma theoria vae uma certa distancia, e no me consta que
algum dos mestres do monismo tentasse ainda formular essa theoria. O
assumpto envolve com effeito uma difficuldade, que me parece exceder a
capacidade especulativa dos doutores monistas.

A ideia da espontaneidade da materia (ideia puramente especulativa, em
que peze s pretenses do positivismo dos nossos naturalistas
philosophos) parece estar em contradico com a theoria da conservao
do movimento, que domina nas sciencias physicas e j em grande parte nas
sciencias da organisao.

No vejo que a doutrina monista resolva, como ella pde ser resolvida,
n'uma esphera superior, esta contradico. Pelo contrario, no livro do
sr. V. de Lima, pela maneira por que o principio da conservao do
movimento  applicado, sem a menor reserva ou explicao, desde a
physica at  psychologia, e a evoluo apresentada como o exclusivo
resultado do puro mechanismo, a espontaneidade da materia, praticamente
e apesar das affirmaes preliminares,  constantemente desconhecida, ou
antes,  negada implicitamente a cada instante. De facto,  como se o
livro todo no tivesse outro fim seno destruir a these estabelecida nos
prolegomenos--these que todavia , philosophicamente, o seu fundamento.
Com effeito, se havemos de entender que todo o movimento, seja de que
ordem fr,  no s condicionado por um movimento anterior, mas
realmente e exclusivamente uma transformao d'esse movimento anterior,
 claro que tal concepo do movimento exclue _in limine_ a ideia de
espontaneidade. A condio passa a ser causa: o effeito, mera prolao
da causa,  uma apparencia sem ser proprio, sem autonomia.

Consideremos mais de perto a contradico que d'aqui resulta. Se, por um
lado, a materia em geral  dotada d'espontaneidade, isto , se o
movimento lhe  inherente; mas se, por outro lado, qualquer movimento
particular e todo e qualquer movimento se reduz no fundo, a uma simples
transformao das aces anteriores que o condicionam; pergunta-se: como
se consegue ento a espontaneidade geral e theorica da materia? Se o
movimento *A* se reduz a uma simples transformao do movimento *B*, que
o condiciona e no ** por isso espontaneo, o movimento *B* est para
com o movimento *C*, que por seu turno o condiciona, exactamente na
mesma relao, assim como o movimento *C* para com o movimento D, o
movimento *D* para com o movimento *E* e assim indefinidamente--de sorte
que em parte alguma se encontra movimento espontaneo. O que significa,
pois, a espontaneidade attribuida theoricamente  materia? E, sobre
tudo, como se explica o proprio facto do movimento, que d'este modo est
em toda a parte sem estar em parte alguma? que  por toda a parte
effeito, sem ter causa em parte alguma? como se concebe esse modo de
ser, que, no tendo autonomia em nenhum dos pontos onde se realisa e
realisando-se universalmente, parece ser e no ser ao mesmo tempo?

Ainda por este lado, se me no engano, a ideia da materia, segundo os
monistas, est muito longe de apresentar a definio e consistencia
necessarias. Ora essa ida tem de ser a pedra mestra de toda a
construco philosophica na esphera da natureza. A final de contas bem
apertada e espremida, a doutrina da materia, segundo a philosophia
monista, reduz-se, como creio ter mostrado, s noes correntes, nas
sciencias physicas, de atomo e fora. No s no ha n'ella originalidade
alguma, mas o que  peior, apresentam-se nos aquellas noes envolvidas
nevoentamente n'uma concepo vaga, d'onde  necessario extrahil as e,
no fim de tudo, em vez de esclarecidas e aprofundadas, obscurecidas por
forma tal que nada ha de lucido e fecundo a tirar d'ellas para uma
comprehenso superior e verdadeiramente philosophica dos phenomenos da
natureza.

Com as observaes que acabo de fazer no pretendo de modo algum
contestar o valor e a legitimidade, na esphera das sciencias physicas,
das noes de materia, atomo, fora e movimento, nos limites em que a
sciencia emprega estas noes: ellas no so, com effeito, para a
sciencia mais de que hypotheses, restrictas a um determinado campo e no
tendo por fim seno a coordenao racional d'uma determinada ordem de
phenomenos, d'um determinado aspecto da phenomenalidade. A sciencia,
usando d'estas noes, no pretende impol-as fra da sua esphera, nem
dal-as em absoluto, como explicao ultima e irreductivel das cousas. A
conservao do movimento, scientificamente,  um facto: um facto, que
pela sua generalidade, envolvendo a explicao de innumeros outros
factos, tem o valor d'uma theoria, mas d'uma theoria puramente
scientifica. Se a conservao do movimento implica o determinismo,
implica-o s nos limites e no ponto de vista do puro mechanismo, no
ponto de vista da realidade como systema de movimentos--sem que a
sciencia possa ou pretenda concluir d'ahi para um outro ponto de vista,
que no  o seu, e em que o mechanismo j no apparece como o limite e
termo ultimo do conhecimento.

Sciencia e especulao (volto a repetil-o) so cousas muito diversas,
embora dependentes uma da outra, e o que basta  sciencia no 
sufficiente para a especulao. Ideias, que no terreno scientifico
bastam e so por isso, n'esse terreno, muito legitimamente consideradas
irreductiveis, no bastam j nas regies da especulao, onde com
effeito so reductiveis a categorias mais transcendentes. Se o conjunto
das sciencias no pde, como todos os verdadeiros pensadores reconhecem,
supprir a philosophia ou substituir-se a ella,  justamente porque o
conjuncto das ideias geraes das sciencias, no inclue em si a totalidade
dos elementos racionaes da comprehenso do universo, mas apenas o
conjuncto d'esses elementos no ponto de vista da phenomenalidade. Ora o
monismo, attribuindo ao ponto de vista das sciencias physicas um
caracter absoluto, arvorando as ideias geraes d'um grupo de sciencias em
ideias ultimas e irreductiveis, exorbitou da sciencia sem ao mesmo tempo
fazer acto de philosophia.  o que talvez consiga mostrar ainda mais
claramente, fazendo a critica da ideia de evoluo segundo os monistas.




TERCEIRO ARTIGO[D]


A theoria geral da evoluo, diz o snr. Vianna de Lima (e so estas as
primeiras palavras do seu livro) no  _um systema_;  a synthese
comparativa, a concluso que sae do conjuncto de todos os factos
positivos que o espirito humano tem podido at agora abraar....  a
unica concepo racional e verdadeiramente scientifica do mundo.

 necessario fazer aqui uma distinco importante. A evoluo no , com
effeito, um systema no dominio circumscripto de cada uma d'aquellas
sciencias onde esta ideia, por assim dizer, se impe, onde mil factos a
confirmam e onde fra d'ella seria impossivel encontrar-se um principio
geral de coordenao. Ahi, sem duvida, a evoluo no  um systema, mas
propriamente uma theoria scientifica.

Mas estaro n'este caso todas as sciencias? De modo algum.

A ideia de evoluo no intervem seno onde o elemento historico
representa um papel proeminente, isto , acima de tudo, nas sciencias da
organisao (incluindo n'este grupo a anthropologia e fazendo participar
d'elle as sciencias sociaes, nos limites em que estas teem um caracter
biologico) e depois ainda, mas d'uma maneira menos necessaria e menos
definida, na astronomia, ou propriamente, astrogenia.  s ahi que a
diviso do trabalho se exerce, differenciando gradualmente e como que
analyticamente as formas contidas virtualmente e, por assim dizer,
envolvidas n'um germen ou facto primeiro, que  o ponto da partida de
toda a serie. A physica e a chimica, porem, esto completamente fra dos
dominios da ideia de evoluo. A chimica parece reduzir-se toda 
atomicidade, e a maior ou menor complexidade de composio no foi nunca
considerada como um desenvolvimento, assim como a irredectubilidade dos
corpos chamados simples, se no  um dogma,  certamente um facto que se
impe  sciencia e que, emquanto assim se impozer, obstar a toda a
theoria geral evolucionista dos phenomenos chimicos. Por outro lado,
entre as foras physicas, no ha hierarchia, mas parallelismo, e a
reductibilidade d'umas s outras implica unidade, mas no evoluo,
cousas bem distinctas.

Onde est, pois, a generalidade scientifica da ideia de evoluo? A
verdade  que uma theoria positiva da evoluo, como o sonham os
monistas, _essa synthese comparativa que sae do conjuncto de todos os
factos positivos_ s seria possivel se se dessem duas condies
capitaes: 1.^o que a ideia de evoluo se impozesse a toda a ordem de
phenomenos, ou (o que para ns vale o mesmo) presidisse superiormente a
todas as sciencias: 2.^o que alem de explicar, dentro do districto de
cada sciencia, os factos n'elle comprehendidos, explica-se tambem a
passagem evolutiva de cada uma d'essas ordens para a sua immediata, sem
ter de recorrer a nenhuma ideia nova e superior.

Ora, nenhuma d'estas condies se realisa.

A ideia d'evoluo (como j indiquei, e por isso no insisto n'este
ponto) s impera em certas sciencias e, por conseguinte, n'uma esphera
limitada da phenomenalidade.

Em segundo logar, a passagem d'uma determinada ordem de phenomenos para
outra no se pde explicar evolutivamente, no terreno rigorosamente
scientifico, porque, n'esse terreno, o elemento commum d'essas varias
ordens  s um elemento abstracto, o movimento, que pela sua mesma
abstraco, no  capaz de dar razo do que ha de especial em cada uma
d'ellas e a caracterisa, isto , a forma ou funco especial que
representa.  assim, por exemplo, que embora os phenomenos vitaes se
reduzam, em ultima analyse, ao movimento, isto , a grupos e combinaes
complexas de movimentos elementares, nem por isso a vida pode ser
satisfactoriamente definida como um modo de ser do movimento; porque uma
tal definio, pela sua mesma abstraco, nada define; nem o quadro de
todos esses movimentos pde ser dado como equivalente  ideia synthetica
da vida; nem, finalmente, a concepo mechanica da vida representar
outra cousa mais do que um aspecto da phenomenalidade da vida e nunca a
concepo mesma da vida.

Parece-me claro, em vista d'isto, que a doutrina de evoluo formulada
por Haeckel e seus discipulos no  de modo algum, como se pretende, uma
doutrina positiva, fundada nas sciencias e sahindo d'ellas como a sua
natural consequencia. Creio ter mostrado que essa doutrina implica uma
extenso abusiva da induco scientifica e a illegitima generalisao
d'uma hypothese, que se  perfeitamente fundada no terreno de
determinadas sciencias, s ahi e s n'esse ponto de vista tem
authoridade scientifica.

A doutrina monista tem, pois, em despeito das suas pretenses de
positividade, um caracter especulativo e  propriamente _um systema_,
uma construco philosophica em que o _a priori_ representa um papel
preeminente: n'uma palavra, apezar dos elementos scientificos que
contem, no  uma doutrina scientifica, mas uma hypothese philosophica.

Resta agora ver se, como hypothese philosophica, a ideia d'evoluo, tal
como a concebem os monistas, apresenta aquella definio e consistencia
sem as quaes a mais ampla e brilhante hypothese  muito mais um producto
da imaginao, do que da razo.

Creio que no apresenta.

Especulativos inconscientes, os monistas especulam mal. Tal como a
concebem, a evoluo, destituida de todos aquelles elementos de analyse
racional, que s lhe poderiam dar um verdadeiro cunho philosophico, no
 um principio: seria apenas (se as suas pretenses de positividade
fossem fundadas) um facto; facto culminante e universal, mas simples
facto e no principio.

Ora os factos so apenas a materia prima da philosophia: so aquillo que
se pretende explicar, em quanto que s os principios fornecem o criterio
e o ponto de vista d'essa explicao; e a doutrina monista da evoluo,
que, como doutrina positiva, como generalisao scientifica dos factos
da natureza, est muito longe de ser rigorosa e fundada, pecca por outro
lado gravemente, como hypothese philosophica, como doutrina
especulativa, pela falta d'analyse das ideias sobre que, para merecer o
nome de philosophia da natureza, se deveria apoiar.

Com effeito, se o universo evolve porque  que evolve? Se a sciencia
nada tem que vr com esta questo, a philosophia  que tem muito e
tudo--e j mostrei que  smente como tentativa philosophica de
explicao que o evolucionismo monista deve ser considerado.

Uma theoria geral philosophica do desenvolvimento das cousas implica,
pois, uma theoria da razo de ser d'esse desenvolvimento. Sobre esta
questo essencial o monismo  peior do que mudo;  absurdamente
negativo.

A ideia de evoluo implica necessariamente a de finalidade; esta contem
a explicao racional d'aquella, que, s por si,  inintelligivel e at
contradictoria. Se o movimento, acto essencial da materia,  autonomo (e
 esta a these monista fundamental) tal movimento no pde ser concebido
seno como um impulso espontaneo, por conseguinte, como uma verdadeira
determinao voluntaria: ora onde ha determinao voluntaria sem mobil,
sem fim? Pois no  precisamente o fim que determina a vontade, e que
explica o acto? Um movimento autonomo, que no tende a um fim, 
perfeitamente inconcebivel: pois se no ha fim porque e para que o
movimento? A ideia de finalidade  a pedra angular de toda a construco
philosophica no terreno da natureza.

Assim o comprehendeu Leibnitz na sua Monadologia, assim o comprehenderam
Schelling e Hegel, os verdadeiros paes da moderna philosophia da
natureza.

O horror pueril  metaphysica e a pretenso chimerica de fundar uma
philosophia da natureza positiva e exclusivamente architectada no
terreno da sciencia levou Haeckel (e muitos outros atraz d'elle e com
elle) a desconhecerem a importancia capital da ideia de finalidade e a
minarem aquillo que justamente lhes deveria servir de primeiro
fundamento para o edificio que levantavam.  o que espero deixar
suficientemente provado no meu proximo artigo.




QUARTO ARTIGO[E]


O Snr. Vianna de Lima consagra as ultimas 100 paginas do seu volume a
combater a ideia de finalidade nos dominios da natureza e triumpha
facilmente dos theologos ou simili-theologos, que, despojando a materia
das suas propriedades espontaneas e da sua infinita virtualidade, veem
em tudo os effeitos d'uma direco exterior e se extasiam diante das
harmonias intencionaes da Criao.

Era facil o triumpho. Smente, o snr. Vianna de Lima tomou a nuvem pela
deusa, tomou a concepo infantil e anthropomorphica da finalidade pela
propria ideia metaphysica de finalidade.

Se o snr. Vianna de Lima se despojasse por algum tempo dos seus habitos
de pensamento de puro naturalista e estudasse um pouco os to
abominaveis metaphysicos, no s Leibnitz e Hegel, mas ainda o
representante nosso contemporaneo da alta especulao, Hartmann (que ,
no menos do que foram aquelles dois, profundamente versado nas
sciencias da natureza) veria que a ideia de finalidade no se reduz,
como lhe parece, quella concepo anthropomorphica, que com to facil
felicidade refuta no seu livro. Veria que a finalidade pde ainda ser
concebida como immanente  materia e como aquelle segundo elemento que
vem integrar, juntando-se ao movimento, a noo da realidade; que,
n'este caso, longe de ser contradictoria com a espontaneidade do
movimento,  justamente a explicao do movimento; que o que parece
effeito, no ponto de vista do puro mechanismo,  causa no ponto de vista
da finalidade, sem que uma cousa repugne  outra, porque so duas
espheras do conhecimento, que ao mesmo tempo que se oppem,
reciprocamente se completam.

Perceberia ento uma cousa, e  que, no s o movimento em geral (o
movimento em si, independentemente de qualquer ideia de desenvolvimento)
 racionalmente inexplicavel e, por conseguinte, inconcebivel sem a
ideia de finalidade ou de causa-final, mas que mais particularmente a
evoluo, isto , o movimento como hierarchia ou desenvolvimento,
implicando a ideia d'um typo, que as formas evolvendo, tendem a
realisar, implca por isso mesmo uma finalidade.

O typo  realisado na serie, no  um producto d'ella: pois, se fosse um
producto, como se explicaria a serie? Quem diz evoluo diz progresso.
Ora, progresso que no tende para cousa alguma, que no tem um typo e um
fim, no se comprehende. Se no ha typo, no ha medida ou termo de
comparao na serie, no ha, por conseguinte, hierarchia: ha variedade
de formas parallelas e equivalentes; mas no desenvolvimento.

No meio d'essa multido de formas inexpressivas, tudo ser igualmente
perfeito ou imperfeito: haver ainda transformismo; mas no haver
evoluo progressiva.

 assim que o ultimo capitulo do livro do snr. Vianna de Lima deita por
terra a doutrina estabelecida laboriosamente nos que o precedem.  assim
que metade da doutrina de Haeckel deita por terra a outra metade. 
assim que uma philosophia da natureza que pertende no ser uma
philosophia especulativa, acaba por no ser cousa alguma.

Que concluiremos de toda esta critica? Concluiremos em primeiro logar,
que os naturalistas, quando no so ao mesmo tempo philosophos, no
podem construir uma philosophia da natureza que se sustenha de p.
Concluiremos, em segundo logar, que no pde haver, por muito que se
apregoe, philosophia da natureza positiva (puramente scientifica), assim
como em geral no pde haver philosophia positiva. O erro commum em que
laboram os positivistas das differentes communhes (so varias, e todas
egualmente positivas)  este: que o conhecimento scientifico  o typo do
conhecimento, o conhecimento ultimo e perfeito; e que, por conseguinte,
esgotando o ponto de vista scientifico a comprehenso da realidade,
basta reunir em quadro as concluses de todas as sciencias, ou
generalisar as ideias fundamentaes communs a todas ellas para se obter a
mais alta comprehenso das cousas, a que nos  dado aspirar. D'aqui a
chimera d'uma philosophia positiva.

No seria chimera, se com effeito o conhecimento scientifico
representasse o conhecimento supremo e definitivo, e no apenas uma
determinada esphera do conhecimento. Nesse caso a generalisao dos
dados scientificos corresponderia a uma verdadeira synthese e a
abstraco suprema dos elementos da realidade tomaria o logar das ideias
da razo. Infelizmente ou felizmente (que isso importa pouco) a razo
subsiste e com ella o ponto de vista das ideias metaphysicas de
_substancia_, _causa_ e finalidade_ s quaes tem de ser referidas, em
ultima instancia, as concluses da sciencia. E porque? Porque essas
concluses, ainda nas suas mais vastas e deslumbrantes generalisaes,
no se explicam a si mesmas e, representando apenas as grandes linhas e
como que a estructura abstracta do mundo phenomenal, precisam ellas
mesmas de ser explicadas. Com o seu caracter abstracto so ainda factos,
e os factos precisam do reflexo da razo para se tornarem intelligiveis.
O conhecimento scientifico constitue apenas a regio media do
conhecimento, entre o senso commum, d'um lado, e o conhecimento
metaphysico, do outro.  pois a raso que tem, em ultima instancia, de
se pronunciar sobre o valor e o logar, na comprehenso total do
universo, dos dados quer do senso commum quer da sciencia. Essa
comprehenso total  que  a philosophia: edificio sempre em
construco, sempre renovado nos seus materiaes (que o progresso dos
conhecimentos positivos lhe vae fornecendo dia a dia) sempre instavel e
ao mesmo tempo sempre de p, e que sendo sempre incompleto nunca se pode
dizer insufficiente, porque, tal como , corresponde s mais altas
faculdades do espirito humano, abriga as mais sublimes aspiraes,
tormento e gloria ao mesmo tempo, d'este mysterioso animal racional
chamado homem.

E eis ahi porque uma philosophia positiva  uma chimera. Quem diz
philosophia diz idealismo. S o systema das ideias contem inteira a
explicao do systema das cousas. O movimento no esgota o ser: o ser
implica movimento e ideia. Os naturalistas, desprezando ou ignorando as
ideias, ignoram metade das cousas e a sua philosophia  s meia
philosophia, ou antes,  s um arremedo da philosophia. _Tudo quanto ,
 racional_, disse Hegel.

Pretender amputar a razo  pretender amputar a realidade.

 dentro da razo, no fra d'ella, que teem de ser marcados os limites
do conhecimento. S no ponto de vista total da razo se resolvem as
contradices que a realidade apresenta, como outras tantas esphinges 
intelligencia indagadra.

Materia e espirito, determinismo e liberdade, evoluo e finalidade, no
so ideias contradictorias seno na apparencia: de facto, so s duas
espheras differentes da comprehenso, these e antithese, cuja synthese 
a razo.

Assim, uma philosophia da natureza, tal como a concebo, uma philosophia
da natureza  altura, no s do grande seculo das sciencias naturaes,
mas do grande seculo de Kant e Hegel, no tem que regeitar o
determinismo universal e a evoluo como uma forma mechanica d'esse
determinismo: mas o que no pde  ficar ahi.

Determinismo e evoluo sero apenas o seu ponto de partida, a forma
universal da phenomenalidade, que a generalisao scientifica lhe
fornece e que ella, a philosophia, ter d'analysar e interpretar  luz
das ideias. S assim ter satisfeito no s  raso especulativa, mas s
exigencias no menos imperiosas da consciencia humana.

Digo da consciencia humana; e  este um outro aspecto, e aspecto capital
da questo que  necessario por em evidencia. Muitos diro:--que tem que
ver a philosophia com a consciencia humana? Responder-lhes-hei:--tem
tudo. Por uma singular aberrao, so justamente os que mais falam de
positivismo e factos positivos os que parecem esquecer ou ignorar que a
consciencia humana  um facto, que a sua actividade, expressa e
objectivada em milhares de manifestaes, desde os codigos at  poesia,
e atravez de milhares d'annos, constitue uma ordem de factos to
positivos e to irrecusaveis como os da physica ou da astronomia. E
estes factos no so s positivos e evidentes: so ainda culminantes,
pois os phenomenos sociaes e moraes, tendo atraz de si todas as outras
ordens de phenomenos e apoiando-se n'ellas, constituem o ponto mais alto
da serie evolutiva das cousas.

Os factos da consciencia humana so, pois, no s factos positivos, mas
os factos positivos culminantes.

Ora que diriamos d'uma philosophia, que no podesse explicar, mais, que
estivesse em contradico com os factos da physica, por exemplo, ou de
chimica? Diriamos ser uma philosophia no s incompleta, mas falsa. E
que pensaremos ento d'uma philosophia, que no s consegue explicar,
mas est em flagrante contradico com factos to positivos como
aquelles, e, alem de positivos, superiores e culminantes?

A consciencia humana , pois, verdadeiramente um criterio philosophico,
n'este sentido que uma philosophia incapaz de explicar
satisfactoriamente os phenomenos da consciencia, ou em contradico com
elles,  uma philosophia incompleta, ou errada, por deixar de fra, ou
contradizer, uma parte e justamente a parte mais importante da
realidade.

Este criterio bastaria s por si (alem de tudo que atraz fica dito) para
condemnar toda a philosophia puramente materialista, sob qualquer forma
em que se apresente:--mecanismo atomico, determinismo scientifico,
monismo ou pantheismo naturalista. Sob qualquer destas formas, o
materealismo envolve, o que  a sua essencia, a reduco de toda a ordem
de phenomenos a foras elementares, sujeitas a uma determinao cega,
mechanica e sem fim intelligivel: envolve a negao de todo o elemento
racional nas cousas, reduzindo ao mesmo tempo as affirmaes da
consciencia a puras illuses subjectivas.

A critica do materialismo, n'este ultimo ponto de vista, tem sido mil
vezes feita e no preciso reproduzil-a aqui.

O que quero  fazer sentir quanto o monismo evolucionista da escola de
Haeckel (que no  mais do que uma forma do materialismo) cuja maior
pretenso  ser uma philosophia positiva da natureza, ainda por este
lado no  positivo, por no poder explicar uma ordem inteira e a mais
importante dos factos do universo.

Declarar que a liberdade e o sentimento moral so meras illuses
subjectivas, e que os mais intimos e mais autonomos phenomenos da
consciencia resultam apenas d'aces mechanicas e so a transformao
d'essas aces-- facil. Agora o que no  facil, porque  simplesmente
impossivel,  explicar e fazer comprehender (como ha poucos annos ainda
Du Bois-Reymond perguntava a Haeckel) como  que o movimento, um grupo
de movimentos por mais complexo que o supponhamos, pode produzir, no j
os factos superiores da vida do pensamento, mas o mais elementar, a
simples sensao? Deante d'esta simples pergunta desaba todo o edificio
do monismo. A vida moral no  cousa que se decomponha em retortas, nem
se descobrir jmais o equivalente mechanico do genio ou da virtude:

      _There are more things in heaven and earth, Horatio,
      Than are dreamt off in your philosophie_




QUINTO ARTIGO[F]


Pretenderei eu accaso com esta critica, contestar o valor dos trabalhos
da escola monista, ou ainda a sua importancia philosophica?

De modo algum.

O que eu contesto  o valor do seu systema, como systema, o que eu
censuro  a pretenso de fundar uma philosophia da natureza com a
simples generalisao dos dados d'um grupo de sciencias, e sem ter em
conta o indispensavel criterio das ideias. Mas abstrahindo d'estas
pretenses, a tentativa de Haeckel, considerada em si, tem um alto
valor. Tem-no, sobre tudo, como symptoma da tendencia, que cada vez mais
se manifesta na esphera da sciencia para uma unidade de comprehenso,
que assentando rigorosamente no terreno scientifico, saia ao mesmo tempo
da analyse e abstraco inherententes  sciencia, procurando como
formula, uma ideia de caracter synthetico, isto , uma ideia
propriamente philosophica.

Esta tendencia  sem duvida alguma, o facto intellectual mais importante
do seculo actual e um d'aquelles em que mais se traduz d'um lado, a
influencia d'ora em deante cada vez mais predominante do criticismo de
Kant, e do outro, a feio eminentemente positivista do espirito
moderno. Se uma philosophia positiva  e ser sempre, como j mostrei,
uma chimera, a aco e authoridade directa da sciencia na philosophia
ser d'aqui em deante (quero dizer depois da _Critica da Raso pura_) um
facto que tem de se impor a todos os pensadores.

Mas aco e auctoridade da sciencia na philosophia  uma cousa, e
philosophia positiva, outra. As ideias syntheticas da philosophia no
saem das sciencias, no so simples generalisaes scientificas: so um
producto da especulao e quando chegam a apparecer no terreno
scientifico  infiltradas para ali das regies da especulao,  porque
a especulao as forneceu, sob forma de hypothese,  sciencia. No cabe
em escrito d'estas dimenses expor a theoria da hypothese. Bastar
mostrar como a theoria geral da evoluo, hoje com tanto vigor e brilho
formulada por Haeckel e seus concorrentes ou discipulos, longe de ser,
como vulgarmente se imagina, uma _descoberta_ das sciencias naturaes e
um resultado directo da analyse scientifica, , pelo contrario, uma
verdadeira hypothese philosophica, que, producto da elaborao
especulativa de perto de trez seculos, acabou por se manifestar no
dominio das sciencias.

Com effeito so mais fundas as suas raizes, mais longiqua a sua
procedencia.

Essa ideia no saiu das sciencias naturaes, mas penetrou n'ellas pela
influencia (obscura,  certo e indirecta, mas muito real) das noes
metaphysicas lentamente elaboradas, a partir da renascena, dentro da
ideia fundamental de _natureza_. A maneira dynamica, autonomica,
realista, de conceber a natureza  o que mais radicalmente distingue o
pensamento moderno do antigo. A natureza para o pensamento antigo, e
ainda para o mais genial dos seus intrepretes e o mais objectivo,
Aristoteles, era concebida como abstracta, inerte, passiva: longe de
parecer concreta e espontanea, era considerada apenas como um reflexo,
acto ou emanao d'um ser ou seres transcendentes e perfeitos: as
_ideias_ de Plato, a _intelligencia_ de Anaxagores, o _motor immovel_ e
as _formas substanciaes_ de Aristoteles etc.) exteriores a ella e s
verdadeiramente autonomos. Esta maneira de conceber manteve-se pela
Escolastica e pela Theologia christ, at  Renascena. A partir dos
ultimos tempos da Edade-media, com a dissoluo da philosophia
escolastica e as revolues de toda a especie, intellectuaes, sociaes
religiosas, que annunciam a aurora dos tempos modernos, d-se nas
regies mais profundas da intelligencia humana uma fermentao
extraordinaria, que se exprime, ainda com pouca consciencia do seu
proprio alcance, nas creaes da astronomia e da physica modernas
(Kopernico, Keppler, Galileo, Torricelli) e nas reformas philosophicas
de Bacon e Descartes; que se avigora com Leibnitz e Spinosa e com os
primeiros trabalhos de physiologia, botanica e sciencias sociaes
(Gesner, Harvey, Malpighi, Boerhaave, Hobbes, Grocio, Vico, Lessing,
etc.) para acabar, plenamente consciente no seculo XIX, por se affirmar,
no j n'esta ou n'aquella ordem de phenomenos, mas em todas as espheras
da actividade humana, nas sciencias, na philosophia, na sociedade civil
e politica e na propria arte e poesia contemporaneas. O naturalismo 
para os tempos modernos o que foi o racionalismo para a Antiguidade:--a
formula mais geral da sua actividade.

A doutrina da evoluo  apenas uma das determinaes, a mais recente e
porisso a mais intensa, e intima, do naturalismo moderno.

E convir notar que o seu apparecimento  simultaneo na astronomia, na
geologia, na biologia, na linguistica e na historia: Lamarck, Laplace,
Werner, Goethe, Geoffroy Sainte-Hilaire, Herder, Saint-Simon, Bopp,
Adelung, so contemporaneos, ou proximamente contemporaneos.

O evolucionismo dentro das sciencias da natureza no  mais do que a
applicao a uma ordem de factos do principio fundamental do pensamento
moderno, uma das suas determinaes particulares.

Mas esse principio  uma hypothese geral e, como todas ideas
syntheticas, um resultado da especulao, no  um facto positivo. Se
apparece no dominio das sciencias,  como hypothese philosophica, no
como lei scientifica. Se as sciencias da natureza e da sociedade
convergem hoje no sentido da evoluo, convergem movidas pelo influxo
intimo do estado mental-metaphysico que as envolve, no pela fora
exclusiva e independente do seu desenvolvimento proprio. No ha, como se
pretende, a eliminao do elemento metaphysico pelo elemento
scientifico: ha uma mutua penetrao; penetrao da especulao na
sciencia, pela hypothese que a vem fecundar; penetrao da sciencia na
especulao, pelo correctivo imposto, em nome da realidade, dos factos
positivos, ao -priorismo inherente ao pensamento especulativo.

E  por isso que o concurso da sciencia e da especulao  indispensavel
para a constituio definitiva da philosophia moderna (da qual todos os
systemas, desde Bruno e Bacon at aos nossos dias so apenas esboos e
prenuncios), para a organisao systematica do pensamento moderno em
todas as suas determinaes.

Creio com Haeckel, assim como com Schelling, Hegel, Hartmann, Comte e
Spencer, que  no terreno da evoluo que essa grande synthese tem de
ser construida, e que, depois do seculo XVIII e depois de Kant, j no 
possivel uma philosophia que no seja essencialmente uma theoria geral
do desenvolvimento, isto , uma philosophia da evoluo. Mas creio
tambem que a organisao da ideia d'evoluo n'essa theoria geral do
desenvolvimento  problema que excede muito a capacidade especial das
sciencias da natureza, quero dizer, a esphera theorica d'essas
sciencias, porque excede os limites e alcance do puro espirito
scientifico.

A metaphysica do seculo XIX apezar do descredito em que momentaneamente
parece ter caido, no disse ainda a sua ultima palavra, nem abdicou. Se
a concluso final das sciencias tem de ser, como creio, o mechanismo
universal, a concluso final do pensamento metaphysico tem por seu lado
de ser o universal idealismo. Mas j hoje se comea a comprehender que
entre estes dois termos no ha contradico essencial e que esta _these_
e _antithese_  reductivel a uma _synthese_, que satisfaa plenamente
tanto a sciencia como a especulao. Essa synthese em que o idealismo
apparecer com complemento necessario do mechanismo j hoje se deixa
entrever; e creio que nem a todos parecer temeridade e paradoxo,
concebel-a, como eu a concebo, nem idealista nem materialista no antigo
e mais usual sentido das palavras, mas num sentido novo e mais profundo,
como um _materalismo idealista_.

FIM




======================================================================
                   Tiragem de 200 exemplares numerados
======================================================================




TYPOGRAPHIA DO CAMPEO POPULAR

Rua da Graa n.^o 15--Ponta Delgada

*Estabelecimento fundado em 1889*




*Notas:*

[A] _A Provincia_--N.^o 48, II anno--Porto, 1 de maro de 1886.

[B] Alis de Iena. (E. P.)

[C] _A Provincia_--N.^o 49--II anno--Porto, 2 de Maro de 1886.

[D] _A Provincia_--N.^o 50--II anno--Porto, 3 de maro de 1886.

[E] _A Provincia_--N.^o 51--II anno--Porto, 4 de maro de 1887.

[F] _A Provincia_--N.^o 52--II anno--Porto, 5 de maro de 1887.





End of the Project Gutenberg EBook of A philosophia da natureza dos
naturalistas, by Antero Tarqunio de Quental

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and accept all the terms of this license and intellectual property
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the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
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the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

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what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
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States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
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with this eBook or online at www.gutenberg.org

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from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
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and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
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through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
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     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
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     distribution of Project Gutenberg-tm works.

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electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
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liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

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received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
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providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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