The Project Gutenberg EBook of A Casa dos Fantasmas - Vol II, by 
Lus Augusto Rebelo da Silva

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: A Casa dos Fantasmas - Vol II
       Episodio do Tempo dos Francezes

Author: Lus Augusto Rebelo da Silva

Release Date: September 13, 2008 [EBook #26605]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOL II ***




Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net






     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

                                                 Rita Farinha (Set. 2008)




OBRAS COMPLETAS

DE

LUIZ AUGUSTO REBELLO DA SILVA

XII




VOLUMES PUBLICADOS


    I--Russo por homizo
   II--Odio velho no cana (1.^o)
  III--Odio velho no cana (2.^o)
   IV--A Mocidade de D. Joo V (1.^o)
    V--A Mocidade de D. Joo V (2.^o)
   VI--A Mocidade de D. Joo V (3.^o)
  VII--A Mocidade de D. Joo V (4.^o)
 VIII--A Mocidade de D. Joo V (5.^o)
   IX--Lagrimas e thesouros (1.^o)
    X--Lagrimas e thesouros (2.^o)
   XI--A Casa dos Fantasmas (1.^o)
  XII--A Casa dos Fantasmas (2.^o)
  XVI--Othello--As redeas do governo
 XVII--A mocidade de D. Joo V (drama).
XVIII--O amor por conquista (comedia)--O Infante Santo (fragmento).
  XIX--Fastos da Egreja (1.^o)
   XX--Fastos da Egreja (2.^o)
  XXI--Fastos da Egreja (3.^o)
 XXII--Fastos da Egreja (4.^o)




OBRAS COMPLETAS DE LUIZ AUGUSTO REBELLO DA SILVA
REVISTAS E METHODICAMENTE COORDENADAS

XII

ROMANCES E NOVELLAS--V


A CASA DOS FANTASMAS

EPISODIO DO TEMPO DOS FRANCEZES


2.^a EDIO

VOLUME II




LISBOA
Empreza da Historia de Portugal
_Sociedade editora_

LIVRARIA MODERNA | TYPOGRAPHIA
_R. Augusta, 95  | 45, R. Ivens,_ 47

1908




A CASA DOS FANTASMAS




I

Quando Deus queria... do norte chovia


A procisso do Corpo de Deus, em Lisboa, era talvez a festa religiosa
mais solemne da cidade. Nossos avs, e sobre tudo nossas avs,
preparavam-se para ella mezes antes, e nas vesperas do grande dia as
costureiras, os alfayates, e os cabelleireiros viam-se doidos com as
impertinencias, recados, e instancias.  que todas as sumptuosidades da
mobilia, toda a prata mareada das baixellas, todo o recheio das arcas e
armarios tinha de apparecer e luzir n'aquella bem vinda festividade, que
abria as portas das casas e o seio das familias a uma verdadeira
inundao de visitas, de conhecidos, e de curiosos. As janellas das
ruas, por onde passava o prestito do bemaventurado S. Jorge, santo
cavalleiro e general ao servio de Portugal desde os tempos heroicos de
el-rei D. Joo I, em odio a Castella e como pirraa ao senhor Santiago,
convertiam-se em outros tantos camarotes armados de sanefas e listes de
purpura nas vergas e ombreiras, forrados de colchas da India e de
cobertas de seda da China.

O copo de agua, que era costume offerecer aos convidados, despejava as
lojas mais sortidas dos confeiteiros e conserveiros da moda. O jantar,
ao qual se assentavam os hospedes mais aceitos, s com a vista fartaria
a gula mais faminta. As galas devotas espertavam a emulao, e as bolsas
mais discretas e apertadas no se negavam por excepo aos maiores
sacrificios para que vestidos, joias, e toucados brilhassem ao menos uma
vez no anno com esplendor digno da vaidade e ufania de seus donos.

Instituida por Urbano IV, em 1264, na primeira quinta feira depois da
festa da Trindade, afim de solemnizar o culto particular do Santissimo
Sacramento, confirmada e ampliada por muitos Papas, a procisso do Corpo
de Deus fra sempre feita em Portugal com fausto e invenes notaveis
nas terras principaes do reino. O brutesco acompanhamento, que a seguia
na meia edade, e ainda no seculo XVI, tornava-a ao mesmo tempo um acto
religioso e um espectaculo profano. A imaginao popular de nada se
esquecia para que ella fosse unica e singular pela extravagancia das
figuras e pela riqueza ostentada pelas corporaes mechanicas em
competencia e rivalidade umas com as outras. As naus e gals dos
carpinteiros e calafates da Ribeira das naus, os anjos e gigantes dos
merceeiros e boticarios, a torre e a serpe dos alfayates, o sagitario
dos armeiros, uma nuvem de demonios de todos os feitios, e mil outras
representaes entresachadas de danas e folias, no meio das musicas
mais desvairadas e dos instrumentos mais oppostos, como gaitas de
folles, tambores, pandeiros, violas, cros de donzellas, flautas, e
doainas pastoris, tudo isto compunha, variava, e confundia o cortejo, o
qual consumia quasi o dia todo nas ruas apinhadas de povo, e alegradas
de alecrins e rosmaninhos.

O senhor D. Joo V, o Salomo portuguez, creando a patriarchal em 1717,
no omittiu em sua liberalidade a festa mais pomposa da crte, e com
espiritos regiamente devotos modificou o plano e accessorios da famosa
procisso. Este grande acto inspirou a um dos mais respeitosos
admiradores do prodigioso genio de sua magestade, a um dos eruditos
irmos Barbosas, um volume em folio de 240 paginas, obra monumental, que
attesta ao mesmo passo a importancia do assumpto e a profunda
philosophia do auctor. N'este livro, curioso em muitos trechos pelas
noticias, que encerra cerca da capital nos principios do seculo XVIII,
veem narradas com escrupulosa miudeza as circumstancias, que mais
preocuparam o augusto reformador e os seus conselheiros _circa sacra_.
El-rei com mo firme supprimiu do solemne acto as figuras, e as danas,
mas empalideceu talvez com o arrojo. O golpe era temerario. O povo a
tudo indifferente, em materia de recreao ao Divino era zeloso e
irritavel como um tribuno da plebe dos nossos dias.

As chacotas, os andores, o baile das espadas, e a folia dos moleiros,
por entre as visagens dos diabos sarapintados, e os uivos e bramidos das
fras de papello, serviam-lhe de opera comica, e foi necessaria grande
firmeza de vontade, e toda a sabedoria de sua magestade, instruida pela
sua larga experiencia das confrarias e irmandades, para o obrigar a
contentar-se com os arcos, medalhas, columnas e louros, que ornavam o
pao e as ruas do transito, e com a magra e dolorosa substituio de um
anjo vestido de brocado, com suas azas de cambraia tesas de gomma e
chapins altos, unico personagem, que sobreviveu de todos os vistosos e
engraados momos, que distraam d'antes a procisso com seus esgares e
jogralidades.

A ausencia da crte e da nobreza, a tristeza impaciente causada pelo
jugo estrangeiro, e o receio, que vozes vagas faziam conceber de alguma
exploso popular, no diminuiam, apesar d'isso, o alvoroo, nem a
concorrencia.

No palacio do governo as apprehenses eram mais vivas. Lagarde recebia
de momento para momento avisos assustadores, e lia-os sobresaltado aos
collegas. Herman meneava a cabea com ar incredulo. Junot sorria-se e
encolhia os hombros. A frivolidade do seu espirito e os arrebatamentos
do seu genio no lhe offuscavam todavia a penetrao natural. Conhecia e
despresava as murmuraes do vulgo, e confiava no seu valor, e no das
tropas que lhe obedeciam. Sabia que as linguas e as ameaas eram mais
intrepidas, do que as aces. Alm d'isto o plano innocente dos honrados
conspiradores de toga e rabicho tinha ferido o seu amor proprio, e por
nenhum caso admittia que se julgasse, que elle queria furtar-se s
ciladas e assaltos theoricos do Conselho Conservador. O perigo,
exclamou, depois de larga discusso, vem do mar com os inglezes; est
nas serras e desfiladeiros do norte com os camponezes armados! O que
rosnam, ou vociferam aqui mercieiros obesos, frades apopleticos, e
desembargadores tropegos, no vale uma escorva. O galope de um esquadro
seria de mais para os metter pelo cho abaixo. Lisboa no  Paris.

Lagarde suspirava, o ministro da guerra e da marinha limpava os vidros
dos oculos, e o conde da Ega affectava ar heroico para no desmentir o
elevado conceito, que suppunha merecer ao duque de Abrantes. O conselho
dilatou-se, e terminou j pela noite dentro, dois dias antes da
ceremonia, com uma transaco digna da prudencia insidiosa do intendente
geral da policia. No podendo alcanar que a procisso no saisse,
Lagarde obteve ao menos que Junot a no acompanhasse, pegando s varas
do pallio, mas que se resignasse a vel-a passar da varanda do palacio da
inquisio para, dizia o astucioso magistrado, no estimular a saudade e
o ciume dos portuguezes, os quaes de certo se aggravariam se elle
occupasse o lugar do principe regente e os ministros francezes o dos
fidalgos expatriados!

O general em chefe resistiu, porm cedeu. Receando que o accusassem de
um rasgo de vaidade nescia, e que a ostentao da sua pessoa dsse armas
aos inimigos, no podia negar, egualmente, que, fra do cortejo, lhe
seria mais facil accudir para atalhar qualquer emoo provocada entre as
multides, que se acotovellavam, riam, e chasqueavam nas praas, e
travessas da capital.

Dispostas assim as cousas, amanheceu o appetecido dia. Os regimentos
francezes s quatro horas da madrugada formaram no Passeio publico, e a
alegria marcial das musicas annunciou  cidade a grande solemnidade. Os
raios do sol principiavam a beijar as grimpas dos telhados e as cruzes
dos campanarios. As senhoras, que mal tinham repousado, sentadas em
cadeiras, para no arrepiarem a symetria laboriosa dos toucados,
comeavam a enfeitar-se com as ricas modas escolhidas para esta
occasio. As janellas, armadas como templos, guarneciam-se de damas e
cavalheiros, mais curiosos ainda de se mostrarem, e de serem vistos, do
que de gozarem o espectaculo, que servia de pretexto  reunio.

Nas ruas, areadas e cobertas de espadanas e flores, enxameiava com
zumbidos cada vez mais fortes a primeira irrupo de abelhas matutinas,
sada do cortio popular com os arreboes da aurora. A vstia de abas e o
calo curto do saloio contrastavam tanto com a jaqueta de ramagem do
campino, como o leno e a capa das mulheres da cidade com as roupinhas a
saia vermelha, e a carapua das matreiras filhas de Friellas e
Alcabideche. A pouco e pouco os enxames engrossaram, as mangas de povo
cresceram, os zumbidos converteram-se em borborinho, e por entre as alas
de tropas postadas desde S. Domingos at ao Terreiro do Pao, entrou a
avultar, colleando similhante a serpe gigantesca e monstruosa, o immenso
concurso, que esperava a procisso, e cujo sussurro perenne era cortado,
ou avivado a miudo, por vaias brutescas, por estridulos preges, e pelas
corridas e contendas de algum Ado menos soffrido, que os gritos e
queixas da sua Eva expunham aos apupos e sorriadas da plebe.

Os repiques festivos dos sinos nas torres das parochias e conventos
despenhavam sobre a cidade um verdadeiro alarido de notas metalicas,
imitando com arte mais, ou menos boal os cantos e melodias em voga nas
serenatas e nas operas. A esta matinada pouco harmoniosa, e asss
impertinente, rebate estrondoso do sagrado alvoroo das freguezias e
communidades, respondiam as salvas do castello, dos navios, e das
fortalezas. O jubilo espiritual da populao traduzia-se em pragas,
exclamaes, e algazarras, em que no eram poupados pelo patriotismo
escandecido dos zelosos os soldados de Napoleo, firmes e silenciosos
como estatuas em seus pedestaes. Rebentaram gritos de alegria, moveu-se
maior tropel de povo, e ondas encontradas, impellindo-se e remoinhando
no adro de S. Domingos e no Rocio, deram o signal de que o prestito
transpunha, emfim, os umbraes do templo.

As bandeiras dos officios, na figura de grandes paineis suspensos de
cordes de seda em compridas varas, tremulavam na testa do cortejo,
representando entre ricas bordaduras a ouro e preciosas tarjas as
imagens dos santos, que em sua vida haviam exercido o trabalho manual,
de que eram advogados e protectores no paraizo. Atraz das bandeiras,
oscillando sobre um formoso cavallo branco, vinha o vulto equestre de S.
Jorge, precedido de trombeteiros montados e de tambores a p, entre a
furia sonorosa dos clarins e atabales. Um homem d'armas, robusto
comparsa alugado para queimar dentro de uma pesada casca de ferro o
sangue e a corpulencia, erguia o guio do cavalleiro santo sobre a
lana, capitaneando, meio suffocado e tonto de vertigens, o vistoso
apparato dos cavallos da casa de Bragana ricamente ajaezados, e levados
 mo pelos moos das cavalharias reaes. A imagem de S. Jorge vestia
arnez, coxotes e grevas, e trazia na cabea o gorro de velludo, que em
tempos mais ditosos adornavam os diamantes do duque de Cadaval. Um pagem
enfeitado de vistoso cocar de plumas, quasi to alto como elle, acabava
de figurar a fico das emprezas militares do glorioso general, que
nunca vira os campos de batalha portuguezes, por que nunca pelejou
contra os inimigos da f, ou da independencia na Peninsula.

Seguiam-se as irmandades de Lisboa e do termo, os servos das diversas
confrarias, e os farricoucos, amortalhados em hollandilhas da cabea at
os ps, todos sequiosos de alardearem sua compunco anonyma. Eram perto
de cem as irmandades e confrarias, que desfilavam em passo grave com
suas tochas na mo e suas opas de variadas cres, trocando em voz baixa
de umas para outras censuras e chascos nada caridosos cerca do numero,
ou negligencia de seus irmos em Jesus Christo. No couce d'estes
virtuosos auxiliares do altar, com os olhos baixos, e ademanes
reverentes, caminhavam as communidades, Franciscanos, Ordens Terceiras,
Trinos descalos, Agostinhos, Carmelitas, Capuchos, Capuchinhos,
Arrabidos e innumeros outros ramos da frondosa arvore monastica, cujo
tronco brotado da piedade e munificencia dos soberanos era alimentado
pela devoo, ou pelos remorsos dos fieis. Transparecia o orgulho beato
da santidade no rosto de muitos d'elles. Os religiosos de S. Domingos
fechavam a rectaguarda da sacra milicia.

Depois dos monges e mendicantes comeava o clero regular, e apoz elle,
debaixo da cruz patriarchal, todo o clero secular, os padres da
congregao de S. Filippe Nery, os das Misses, e os parochos, curas, e
presbyteros das freguezias de Lisboa, conegos, e as dignidades, e a
curia ecclesiastica. Rematavam o longo e estendido sequito os conselhos
e tribunaes da crte, os fidalgos que residiam em Portugal, e os
cavalleiros das ordens militares. As varas do pallio pegavam as pessoas
mais nobres e conspicuas por sangue, empregos, e representao.

Havia tres horas, que a procisso andava fra, e ainda nenhum tumulto,
ou perturbao justificra os presentimentos sinistros da policia. O
povo olhava com enlevo para tudo, ajoelhava e batia nos peitos, e
limitava a maldies abafadas a sua averso aos francezes. Junot, que
assistia da varanda do palacio do Rocio ao religioso acto, e cujos olhos
indagadores no cessavam de espreitar o menor indicio de agitao, vendo
tudo sereno e socegado, e os maus prognosticos desmentidos, ria-se j
sem disfarce dos receios do intendente Lagarde, e perguntava-lhe em ar
de mofa pelo nome dos malsins assustadios, que tinham inventado a
conspirao, talvez para os promover na falta de concorrentes ao logar,
ainda vago, apezar da sua proclamao, de Cames do reino do Algarve!

De repente o duque de Abrantes suspendeu-se. O riso gelou-se-lhe nos
labios. Herman, que estava  sua direita, enfiou; e Lagarde, crescendo
sobre os aprumados collarinhos, dilatou o pescoo fra da gravata. Um
olhar, em que se retratava ao mesmo tempo o receio e o triumpho fez
comprehender em sua muda eloquencia ao general em chefe, que se rira
cedo de mais da infallibilidade da policia. O que succedia, porm,
n'este momento para assim mudarem de subito as scenas e as phisionomias?
Estlara a revoluo promettida? Tinham os conspiradores denunciados
deixado cair a um signal, como no theatro do Salitre o imperador Jos
II, as becas, as capas, os habitos, ou as sotainas, e appareciam
metamorphoseados em actores de novas e segundas vesperas sicilianas?
Ninguem podia dizer ainda. Da varanda de pedra, Junot e o seu cortejo
viam e ouviam o tumulto, sentiam-n'o avultar, mas ignoravam as causas e
os incidentes.

As bandeiras dos officios dobravam j com todo o socego da rua Augusta
para a rua do Ouro, dando a volta pelo Terreiro do Pao, e o pallio e o
Sacramento saam da egreja de S. Domingos, quando uma furiosa vaga de
povo, encapellando-se inopinadamente, investe com o corpo da procisso
na rua Augusta, envolvendo e afogando em suas ondas loucas as confrarias
e communidades, derruba tudo no impeto irresistvel, corre infrene como
inundao despenhada, como furaco vertiginoso, e por cima de todos os
obstaculos galga invencivel at ao Rocio, aonde, similhante a rio
caudaloso que se precipita, rasga por entre milhares de vultos o seu
caminho!

No meio da praa esta onda, repellida pela corrente opposta, golfada das
portas de S. Domingos, v-se entalada sem poder avanar, ou recuar,
lucta com esforo desesperado, e por fim, semeando o terror e o espanto
por toda a parte, vae acabar de se desfazer em redemoinhos, ou em pinhas
oscillantes, que se quebram, e renovam  entrada das ruas e travessas
por onde as multides se escoam, fugindo feridas de demencia.

Os clamores, os gritos de angustia, as interjeies de pavor cortam os
ares, e ensurdecem os ouvidos. Mulheres e crianas arrastadas no tropel,
meio suffocadas, pallidas e quasi moribundas, alam em vo os braos
supplicantes, e desapparecem perdidas depois nos rolos, que se
ennovellam e arremessam a cada passo.

A tropa, cujas alas vergam e se rompem com o embate da plebe,  cortada
em todos os sentidos, e debalde tenta reunir-se. Os artilheiros
desordenados cedem e desamparam as carretas.

Colhida no centro do bulco popular, a procisso rota e dispersa em mil
fragmentos, que vozeam e se revolvem, como troos semi-vivos de um
reptil, alastra as ruas de cruzes, de tochas, e de insignias, calcadas
por milhares de ps. Frades, padres, magistrados, cavalleiros, irmos, e
penitentes bradam, imploram, atropellam-se, e ora dobados no ar, ora
estatelados em terra, lividos, moidos, e descompostos pelejam por se
arrancarem a este pelago tempestuoso, em que abafam, buscando por
similhante forma refugio contra o perigo.

O prelado, que trazia a custodia, e o pomposo sequito que rodeava o
pallio, v de repente a praa tornada um mar procelloso, e ouve sobre o
clamor geral as vozes dos officiaes francezes mandando carregar as armas
 guarda de granadeiros, e accender os morres aos artilheiros da
bateria postada junto do adro. Attonitos e paralyzados um instante, o
medo presta-lhes azas depois. Luctam, repellem-se, volvem a traz, e
rompendo, como cunha viva, por meio da multido, que transborda do
templo, vo cair uns sobre os outros de roldo na sacristia, deixando o
pavimento juncado de thuribulos, de capas de asperges, de roquetes
dilacerados, de chapus de plumas, e de mantos das ordens militares.

A cavallaria de Junot une as fileiras. As largas espadas dos soldados
reluzem por cima das cabeas com lampejos terriveis. O povo agglomerado,
entre a muralha que o atira sobre os cavallos, e o terror das armas, que
o ameaam, solta horriveis clamores, peleja por abrir passagem, e
augmenta o ruido, o sossobro, e a confuso do tumulto immenso.

No ha pincel, nem tintas que possam desenhar quadro to medonho! Os
gemidos, os choros, as quedas, contrastam a cada minuto com os lances
comicos e os episodios risiveis. O medo inspira os ardis mais burlescos.
O desespero suggere os arbitrios mais violentos.

As ruas e travessas proximas, similhantes a canaes rotos  furia das
aguas, engolem e despejam incessantemente os bandos variegados dos
fugitivos, entre os quaes a egualdade do terror acotovella os
commendadores e os togados com o operario, o frade e o farricouco pelo
judeu transido, ou pela collareja to veloz nos passos, como solta de
lingua e prompta de gestos.

Capotes, cabelleiras, chins, sapatos, abas de fardas e de casacas,
canhes e gollas bordadas, lenos, cintos, farrapos, de todas as telas e
de todos os matizes em fim, coalham este campo de batalha, aonde os
mortos, felizmente, isto  os que baqueiam, resuscitam logo ao beijarem
o cho, e se levantam para disputar celeridade aos mais ligeiros. No
meio dos alaridos e dos estrepitos, do centro d'este cahos ruidoso de
furias, bramidos, e uivos bestiaes, vozes tremulas e roucas de susto, em
perguntas e replicas instantaneas, exclamam confusas e lugubres: O
terremoto! Os inglezes! As ruas minadas!




II

De um argueiro um cavalleiro


As vozes, o espanto, o terror, e o tumulto das ruas, todas as
apparencias, em fim, inculcavam a cidade sublevada e as apprehenses de
Lagarde confirmadas.

O denodo e a presena de espirito de Junot no o atraioaram n'este
lance. Descendo os degraus da escadaria  pressa, emquanto o intendente
da policia se emparedava e calafetava no gabinete secreto, o duque de
Abrantes atravessa intrepido por meio das ondas revoltas do povo, rompe
pelo centro d'ellas at  egreja, corre  sacristia, e  fora de
estimulos e persuases consegue arrancar d'aquelle asylo pouco seguro o
prelado e os sacerdotes, que tremem de medo, e que julgam chegada a sua
ultima hora.

Chamando depois os padres, os fidalgos, e os cavalleiros das ordens
militares e animando-os com as palavras e o exemplo, diz-lhes:

--De que se receiam? O que temem? No estou eu aqui? No vem os meus
soldados firmes? Continuemos a procisso.

Recompondo, do modo possivel depois, o prestito disperso manda sar o
pallio, e acompanha-o a p com o seu estado maior.

Patrulhas fortes circulam ao mesmo tempo, e dispersam os mais pequenos
ajuntamentos. O regimento 86.^o marcha com tanta precipitao, que leva
o po espetado nas bayonetas por carecer de vagar para comer o rancho!

Qual fra, porm, a origem do estrondoso successo? Nascra de planos
concertados pelos amigos da independencia, como cuidaram os francezes,
ou rebentra espontaneo da agitao e do odio comprimido dos habitantes
de Lisboa? Nem uma, nem outra cousa. Um gro de areia fez parar a roda.
Um sopro desenfreou o temporal. A verdadeira causa do arruido colossal
do dia 16 de junho de 1808 foi uma imprudencia policial do honrado
sargento Cabrinha, e um esquecimento de lingua do seu virtuoso assessor
Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_. Estes dois personagens, que no
cabiam em si de vaidade, desde que os louvores do intendente geral da
policia inflammaram o seu zelo pelo servio da sua magestade o imperador
e rei, succumbiram um instante  fraqueza dos grandes homens, e
estiveram a ponto de fazer nadar a capital em sangue. Eis como se passou
o notavel episodio.

J sabemos que o Antonio da Cruz, o Manuel Simes da Aramanha, e o Joo
da Ventosa, obedientes como bons patriotas s instancias do morgado de
Penin, capito de milicias de Rio Maior, tinham feito a jornada de
companhia, e por um triz no apanharam em Villa Franca o sargento e o
seu ajudante, que partiam para os denunciar a Lagarde. Os tres em Lisboa
alojaram-se em uma casa conhecida do lavrador da ponte da Asseca,
regalaram-se de bom vinho e de bons boccados, e esperaram resignados que
a causa nacional lhes pedisse o auxilio do brao ou do cajado.

Na madrugada do dia da procisso, muito antes do sol fra, j o
triumvirato ribatejano palmilhava as ruas com a curiosidade mais
inoffensiva, e apenas se abriu a primeira taverna uma copiosa libao
desjejura os tres vastos estomagos, montados em diamante.

Comeou a concorrer gente, acabou a parada no Passeio publico, e
desfilaram as tropas. Davam nove horas, e o fazendeiro da Aramanha,
interpellando o Joo da Ventosa, perguntou alto aonde era o almoo, e se
teriam tempo de o engulir antes da procisso? A resposta foi sumirem-se
por uma travessa escusa, entrarem para uma especie de furna escura,
immunda, e humida, e sentarem-se em mochos vacillantes  roda de uma
mesa, cuja toalha bem mostrava nunca haver deixado os lenoes de vinho.
Chiavam as appetitosas iscas de figado, e o cheiro exhalado das
enfumadas frigideiras convidava o olfato dos freguezes.

Quando os tres se levantaram d'este banquete plebeo, a procisso andava
j no Rocio, e o Deus Baccho tambem lhes fazia a elles mil travessuras
na vista e no equilibrio. Metteram hombros ao aperto, foram rompendo a
murro e a calcadellas, mas  esquina da travessa da Assumpo
encontraram resistencia tal, que se viram obrigados a ceder.

As bandeiras dos officios fluctuavam nos ares, e uma linha cerrada de
bayonetas, pouco condescendentes, no consentiu que os provincianos a
atravessassem. O lavrador e seus amigos rosnaram algumas pragas, mas
tiveram de as engulir em scco e de ficar.

Antonio da Cruz, guapo e decidido, trajava bem suas galas domingueiras,
e dava-se ares de moo mui desempenado debaixo das abas do chapu novo
de Braga. Vendo-o assim alegre e pimpo, meio encostado ao cajado, uma
saloia, fresca e viosa como as rosas do campo, pediu-lhe licena de
passar para deante afim de ver melhor, e o moleiro officioso fez-lhe
logar immediatamente, acto de cortezia recompensado por um sorriso, que
descobriu indiscretamente as trinta e duas perolas, que escondiam uns
beios mais vermelhos, do que bagos de rom. Ao mesmo tempo o Joo da
Ventosa e o Manuel Simes, encontrando-se hombro a hombro com um
marchante conhecido, homiziavam-se com elle a furto no retiro de uma
tasca chamada loja de bebidas, para onde os iniciados se introduziam por
um corredor estreito, disfarado no fundo da entrada da casa, deante da
qual se achavam.

At aqui corrra tudo admiravelmente, mas o demonio depressa as arma. O
sargento, o _Sapo_, e uma quadrilha de beleguins da policia seguiam de
longe o triumvirato innocente, desde as portas do Passeio publico.
Haviam-n'o perdido de vista, quando  voz do almoo o robusto lavrador
capitaneou a evoluo, que levra os convivas ao sujo templo, aonde o
Comus enfarruscado das iscas os detivera duas horas.

Cabrinha recebra ordem expressa de Lagarde de se apoderar dos tres
amigos, e de os hospedar na cadeia, mas fra egualmente admoestado para
obrar com finura e sem ruido. Era a razo porque no se atrevra a
empolgal-os na rua, e no meio do povo, que seus gritos podiam alvorotar.
Quando lhe desappareceram, como se a terra se tivesse sumido com elles,
scismando um instante, disseminou logo depois a quadrilha em duas
mangas. Uma partiu para o Rocio e foi postar-se  esquina do arco do
Bandeira. A outra conservou-se na rua Augusta, vigiando-a. O _Sapo_,
trepado em um frade de pedra, servia de vedeta.

O Antonio da Cruz estava todo embebido nos colloquios e requebros de seu
galanteio com a saloia, quando sentiu de repente, que lhe batiam no
hombro. Virou-se, e deu de rosto com um sujeito magro e grelado, de
chapu arrombado, cales espigados, casaca de cr cambiante, e sapatos
risonhos, que lhe disse muito manso ao ouvido, travando-lhe do brao.

--Est preso! Venha commigo. No faa bulha!

Ao mesmo tempo outro escudeiro, baixo, rolio, olhos encarnados e
chorosos, e nariz expansivo, cravejado de rubis assanhados,
deitava-se-lhe ao outro brao, ao brao do cajado, pendurando-se quasi
n'elle. N'um rapido relancear o moleiro descobriu a poucos passos,
cozidos com as hombreiras da porta, por onde se tinham escoado os seus
amigos, o sargento, o _Sapo_, e um terceiro quadrilheiro. Esta appario
revelou-lhe que era serio o caso.

Soltando um assobio forte e prolongado, signal aos companheiros para se
juntarem e accudirem, o Antonio, sem accusar a inteno na physionomia,
sem levantar voz, ou grito, por um movimento secco dos hombros saccudiu
de si os dois malsins, e empunhando-os j no ar pela gola asss madura
das casacas cossadas e transparentes, cuspiu-os das mos, colhidos em
flagrante, cada qual para sua direco. Ao arremesso momentaneo, o homem
esguio e grelado, por ser mais leve, subiu mais alto, e veiu car por
elevao sobre as costas de um massio prebendado, com os olhos
escudados de oculos e palla verde, o qual estava explicando a duas
sobrinhas boqui-abertas a lenda aurea de S. Crispim, pintado na bandeira
dos sapateiros. O agarrador, grosso e baixo, mais pesado, voou rasteiro,
deixando metade da gola, as costas, e uma aba da casaca no punho do
moleiro, e foi bater, como pella despedida, no vulto enorme de certa
dona viuva e namoradeira, notavel pelo toucado impossivel e alteroso, a
qual occupava os ocios em tiroteio amoroso com um alferes da brigada da
marinha, pessoa corpulenta, forosa, e de maus narizes, cuja carranca um
par de bigodes hirsutos e alastrados tornava ainda mais temerosa.

O prebendado com a pancada afocinhou o cho, no sem trazer comsigo
tambem de golpe o tambor mr de um dos regimentos, que por acaso seus
braos extendidos empolgaram na ancia de se amparar. O militar francez,
verdadeiro Alcides, arqueava n'aquelle instante o corpo com donaire, e
dobrado para traz, firme nas pontas dos ps, aparava com a palma aberta
o couto do basto volteado com graa. A dona, impellida pelo
esbirro-tortulho, soltou um grito agudo, desabando de chofre sobre o
peito do seu Adonis. O volume era colossal, e o alferes desapercebido,
no podendo suster de p posto o pezo d'aquella montanha de ternura, que
em cima d'elle o alluia, apalpou a calada com as costas, mastigando uma
blasphemia por entre as guias dos bigodes.

O drama complicou-se ento. Advertido pelo signal, o Joo da Ventosa
deixra em meio o monstruoso caneco de vinho de Torres, que saboreava, e
saltou da tasca vermelho e inflammado. A primeira figura, com que a
fortuna o obsequiou, foi a figura patibular do sargento Cabrinha, o qual
primeiro se offereceu s iras do lavrador. Um murro capaz de fulminar um
touro prostrou o espio sem sentidos sobre o lagedo. Nem o sacrificador,
nem a victima tiveram tempo de proferir palavra. Ao mesmo tempo o
marchante, que vinha atraz, colleando os beios com a lingua, esbarrando
com o quadrilheiro entufado em defeza do seu superior, despediu-o nos
bicos dos sapatos, e remetteu-o ao meio da rua, aonde se espalmou sobre
os ps gotosos de um frade arrabido, mestre e prgador, cujas rezas
nasaes paralyzou o baque repentino.

Finalmente, o Manuel Simes da Aramanha, que sara em ultimo logar, como
homem de consciencia, porque no quizera deixar o copo cheio, encarando
com o _Sapo_, que se fazia pequeno como um verme a ver se escapava,
calado, mas terrivel de gesto, alongou o brao com a rapidez e a fora
irresistivel da mola de ao, que resalta, e aferrando o aborto pela
nuca, com um murro metteu-lhe os dentes e os queixos pelas guelas, e
metade a rastos, metade por seu p, seguiu com elle atordoado e alagado
em sangue o rasto dos companheiros. Os tres cortaram depois intrepidos
pelo meio da procisso alvoroada, por entre as alas de tropa
baralhadas, e pelo centro dos magotes de povo em remoinho, e
entranhando-se por travessas e bccos desertos esquivaram-se
modestamente aos justos applausos de suas proezas.

Cabrinha tornando a si, e os beleguins moidos e estirados, soltavam
gritos espantosos, bradando pelo soccorro da justia. Respondeu-lhes a
bengala magistral do tambor mr, e a bainha de ferro da espada do
alferes, vingando com raiva incansavel o riso e as vaias da queda
desastrada no dorso dos delinquentes. O mais agil dos dois, o
homem-grelo, fulo de dor, e cego de medo, para se furtar ao chuveiro de
bastonadas, que no cessava de lhe afagar as costellas, atirou-se de um
pulo, ao meio do prestito, abalroou um desditoso cruciferario banhado em
suor, e encontrando-o em cheio, rolou com elle. Amotinou-se o vulgo,
ferveram juras, ameaas, e punhadas, e um patriota, que espreitava a
occasio, lembrou-se de aular a desordem, exclamando: Fujam! fujam!
Ahi vem os inglezes! No foi preciso mais. O espanto e o terror obraram
prodigios. A multido precipitou-se, e o tumulto tomou as propores,
que sabemos.

Em quanto nos quarteires da cidade baixa se representavam estas scenas,
corriam os tres auctores do motim direitos ao caes hoje chamado da
Areia. Chegados em poucos minutos viram uma falua do Riba-tejo de verga
de alto, e o arraes, seu conhecido, metteu-os dentro sem mais perguntas.
D'ahi a pouco navegavam rio acima, e o _Sapo_, sempre hypocrita e vil,
estorcia-se aos ps dos inimigos triumphantes, chorando e supplicando,
com prantos mulhers! Mas o Manuel Simes apontava-lhe para a cicatriz
da bala, com que o ferira na cabea, o Joo da Ventosa encolhia os
hombros, e o Antonio da Cruz, grave e conciso, como um juiz do crime,
mandava-o calar, jurando-lhe que a arvore e a corda estavam promptas, e
no podiam esperar, e que a sua palavra, uma vez dada, havia de ser
cumprida. O arraes e os marujos, um ao leme, e dois  proa, assobiavam
como se no vissem, ou no ouvissem nada.

O vento soprou de feio, e s dez horas da noite a falua atracava a
Villa Franca.




III

Um conciliabulo politico no anno de 1808


Voltemos  ponte da Asseca, de que ha tanto estamos ausentes.

Vamos saber se o palacio arruinado conserva a sua reputao diabolica, e
se o Joo da Ventosa, depois do faanhudo murro, que esboroou quasi a
cabea ao sargento Cabrinha, se recolheu so e salvo a seus lares, ou se
a vingana do espio punido o obrigou a tomar ares mais fortes no
exercito nacional do general Bernardim Freire. Avisinhemo-nos com certo
resguardo.  noite, e ainda com o luar claro podem tomar-nos por
francezes, e pescar-nos com alguma bala patriotica.

Deram onze horas. Provavelmente o patro e os creados dormem a somno
solto esfalfados do trabalho da eira e dos carretos do celleiro. No! Ha
luz no quarto terreo. Espreitemos! L est o lavrador sentado com o
sabido caneco ao lado, o bojudo cangiro defronte, e o eterno Manuel
Simes a fazer-lhe a segunda. Estes pelo menos no emigraram para o
Porto, nem mudaram de costumes.

A opinio de que os tumultos do Corpo de Deus tinham sido obra de uma
conspirao mallograda salvou das perseguies da policia os tres
camponezes. Uma das pessoas, que podia denuncial-os, o sargento
Cabrinha, agonizava no hospital accommettido de uma congesto cerebral,
e com a perna esquerda partida e amputada, tudo fructos amargosos do
funesto dia, que o cu destinra para castigo de seus crimes. Mesmo que
escapasse da amputao e  febre, o que os facultativos duvidavam, todos
prognosticavam que acabaria demente, ou nescio.

Restava o Gaspar Preto, o _Sapo_, do qual nos despedimos a ultima vez,
deixando-o entre as garras de dois inimigos resentidos e inexoraveis, o
Antonio da Cruz e o fazendeiro da Aramanha. O que  feito d'elle?

Tres dias depois as mulheres que iam ceifar ao campo, passando pelo alto
do Valle, viram de longe balouado pelo vento nos galhos da figueira do
Jos Lopes, a mais elevada e formosa arvore dos contornos, um vulto, que
 luz incerta e na meia treva do alvorecer, tomaram por espantalho
pendurado para assustar os passaros.

Palraram, discorreram, entre si as comadres e as visinhas cerca
d'aquella novidade, e acabaram por decidir, como verdadeiras pgas
curiosas, que o caso merecia exame. Subiram a encosta. Quando chegavam
acima, rompia ainda pallido o primeiro raio de sol. Soltaram um grito de
susto, e ataram as mos na fronte! O espantalho era um homem enforcado!

Quizeram fugir, mas o peccado de nossa me Eva deteve-as. Antes das
linguas paroleiras tocarem a rebate no logar e nos arredores era
indispensavel conhecer o infeliz. As mais velhas e resolutas armaram-se
de valor, e approximaram-se. Outra exclamao, em que o espanto se
revelava mais, do que o d, chamou em volta d'ellas as raparigas. O
padecente, que em vida fra assaz feio, apparecia-lhes medonho n'este
patibulo repentino com a cabea pendente, a lingua fra da bcca, e os
olhos esbugalhados e saidos das orbitas. Tinha as mos amarradas atraz
das costas e um rotulo no peito, que dizia: Justia de Deus! Por
Judas!

As mulheres benzeram-se em silencio, e olharam umas para as outras. O
medo curou-as por um instante da loquacidade. Apezar das contorses, que
desfiguravam o rosto da victima, e que a morte como que immobilizra,
petrificando-as com sua rigidez, aquella cara, tantas vezes vista, no
podia enganar a memoria das matronas e donzellas. Era o _Sapo!_ o _Sapo_
garrotado!

Satisfeito este ultimo instincto de sua indole, as mulheres
dispersaram-se como um vo de gralhas ao tiro do caador, e esquecendo a
ceifa e o jornal, correram, como loucas cada uma para sua parte, a fim
de espalharem a noticia. O primeiro, que avistaram, e a quem a deram,
foi ao Antonio da Cruz, que acharam assentado  porta do moinho, com o
cigarro acceso na bcca, e a espingarda ao lado. Escutou-as sem se
alterar, saccudiu o lume com um piparote, e erguendo-se vagaroso e
sereno, respondeu-lhes:

--Ento! So coisas! Deus escreve muitas vezes direito por linhas
tortas! O velhaco no merecia uma, mas cem forcas.

Fechou depois a porta, metteu a chave no bolso da vestia, e partiu
direito a Santarem pela Ponte da Asseca sem olhar para traz. A isto se
reduziu da sua parte a orao funebre do desgraado malsim!

O povo commentou, como costuma, o successo, repartiram-se os votos sobre
a causa e os auctores da execuo, porm nem um s dos patriarchas da
aldeia se lembrou de boquejar no Antonio da Cruz. Os contrabandistas,
como tinham os hombros largos, carregaram com todas as culpas, e a
verso mais seguida foi que o desditoso _Sapo_ recebra de alguns
d'elles com capital e juros o premio de suas espertezas e denuncias.

No emtanto os acontecimentos politicos adeantavam-se. A revoluo do
norte crera foras, e os francezes, acossados e repellidos de toda a
parte pelas populaes iradas, j no chamavam seu, seno ao terreno que
pisavam. A derrota dos insurgidos do Alemtejo por Loison em Evora, o
saque e o martyrio da cidade levada de assalto, longe de acalmarem os
animos, exaltaram-n'os com a narrao exagerada dos horrores perpetrados
pelos francezes. O nome de Loison, j odioso, tornou-se execravel; e a
sde de vingana accendeu-se em todos os peitos, ardente e implacavel.
Lisboa principiou a agitar-se. Os moradores mais abastados, fugindo ao
jugo detestado dos estrangeiros, accolhiam-se s provincias sublevadas.
A cidade tornou-se um deserto. Em pleno dia as ruas eram silenciosas,
como se a peste as houvesse despovoado. A falta de communicaes com o
norte e o sul do reino, e com o mar, elevou o custo dos generos a preos
fabulosos, e a escacez do trabalho assentou a miseria e a fome no
albergue do pobre e do operario. Os proprietarios no recebiam suas
rendas, nem os empregados seus ordenados. Mais de vinte mil pessoas
decentes, que viviam dos salarios da crte e dos lucros do commercio,
pediam agora esmola! Os habitantes ruraes, intimados para entregarem as
espingardas, evadiam-se em grande numero com ellas, e iam engrossar a
insurreio. Ninguem podia sair as portas de Lisboa sem passaporte. As
bombas, os foguetes, e os fogos de artificio, alegria e paixo das
festas e arraiaes, foram prohibidos. Emfim todas as oppresses e
violencias se accumulavam para apressar as horas de dominio, que o
governo francez ainda havia de contar, quasi reduzido  capital do reino
e suas cercanias.

Leiria, vendo o Porto, Braga, e Coimbra levantadas, quiz imital-as com
mais zelo, do que prudencia. Os vaticinios patrioticos do morgado de
Penin, excellente portuguez e pessimo soldado, no se tinham cumprido,
seno na parte mais facil. O resto, o peior da empreza, encarregou-se o
brigadeiro Margaron de o concluir por ordem de Junot. O ex-coronel de
cavallaria e alcaide mr Rodrigo Crespo, e o coronel do regimento de
milicias Isidoro Pinto Gomes, com um punhado de soldados
indisciplinados, unidos ao capito mr das ordenanas do termo, Manuel
Carranca, sonharam uma restaurao temeraria, decidiram o bispo a cantar
um _Te Deum_ na egreja matriz, e passeiaram em triumpho entre
acclamaes estrepitosas o estandarte de Portugal.

Vimos com que leviandade o major Alvaro e o morgado de Penin discutiam
os seus planos de rebellio, como se os veteranos de Bonaparte fossem
soldados de chumbo, ou de papelo. As avanadas inimigas, entrando em
Rio Maior, despertaram os dois velhos crianas de suas illuses. O
galope de seus cavallos, reputados os melhores da Extremadura, salvou-os
de ficarem prisioneiros e trouxe-os j meio desenganados a Leiria, aonde
a sua presena sobre-excitou as paixes, em vez de as aplacar. Todos
juraram morrer defendendo os muros derrocados e o castello da terra
natal; anoiteceu porm, e os heroes, conversando com o travesseiro,
sentiram esfriar repentinamente os brios. O prelado recordou-se de que,
ministro de um Deus de paz, devia abominar o sangue, e, cavalgando a
mula episcopal, apartou-se a bom andar do sitio da tentao. Muitos dos
granadeiros da independencia, que na vespera rachavam ainda os cus com
fros brados, lembrados de que  noite todos os gatos so pardos,
aproveitaram o escuro, e eliminaram-se sem ruido, mais cuidadosos da
saude do corpo, do que do esplendor de suas armas. Ficou o povo, gente
quasi inerme, alvoroada, e inconstante. A primeira descarga inimiga
varreu, como p, essa plebe, e abriu as portas aos francezes. Como
Achilles os lidadores de Leiria sobresaram na ligeireza dos ps!

Mas at os triumphos de Junot conspiravam a sua ruina. Cada derrota dos
portuguezes levantava em favor da independencia milhares de braos.
Quando um povo inteiro se torna inimigo, o seu nome  legio, e a fabula
de Cadmo realiza-se. Evora e Leiria volveram logo a si, e Loison e os
generaes estrangeiros recuaram. A ambio de Bonaparte cansra a
fortuna, e Deus tinha designado a peninsula para theatro das primeiras
lices dadas ao seu orgulho, e dos primeiros revezes experimentados
pelas suas aguias. Encarando o bello sol das Hespanhas, a estrella do
imperio sentiu esmorecer o brilho, e comeou a declinar.

Os adversarios irreconciliaveis, aos quaes o novo Cesar imaginou cerrar
para sempre nossas praias, saltaram n'ellas como libertadores, e
romperan essa guerra, alternada de victorias e revezes, que s havia de
findar s portas de Pars. Sir Arthur Wellesley  frente dos soldados
embarcados em Cork, seguidos de perto pelas tropas de Sir John Moore,
transportadas do Baltico, combinando as operaes com o almirante Sir
Charles Cotton, e com os generaes, que dirigiam a insurreio de
Portugal, havia de pisar em breve a terra, aonde o esperavam tantos
tropheos, marchando direito sobre Lisboa, decidido a arriscar em um s
lano a sorte de toda a lucta.

O duque de Abrantes era uma alma bem temperada. Se as prosperidades
entorpeciam a sua indole um pouco frivola, o infortunio, ou os perigos,
encontravam-o sempre intrepido. As ms noticias no o desalentaram.
Decidido a disputar at  ultima escorva a capital do paiz, que por
momentos julgra esquecido dos seus reis e da sua autonomia, no
trepidou um momento, empregando todos os esforos para conservar
Portugal engastado como joia inestimavel no diadema do conquistador.

Para que a heroica deciso no desmentisse to audaciosas esperanas,
era necessario reunir em Lisboa todas as foras activas. Kellerman
expelliu de Alcacer do Sal os bandos de guerrilhas, que a infestavam,
evacuou Setubal, e veio coroar com suas tropas as eminencias de Almada.

Todos os preparativos, ditados com vigor, correram rapidos. As
prevenes compativeis com o pequeno numero de bayonetas, que lhe
obedeciam, foram adoptadas a tempo. O general Graindorge defendeu a
margem esquerda do Tejo. O regimento 47.^o guarneceu o forte da
Trafaria, a torre do Bogio, e os navios fundeados. O regimento 66.^o
occupou Cascaes. A legio do Meio Dia a torre de S. Julio da Barra. O
regimento 26.^o cubriu Belem, o Bom Successo, e a Ericeira. O 15.^o
Lisboa e Sacavem. O marechal Travou foi nomeado governador das armas da
capital; o general Avril governador do castello de S. Jorge; e o conde
de Novion,  testa da guarda da policia rareada pelas deseres, e quasi
limitada ao seu estado maior, auxiliava a conservao da cidade,
reputada por Junot como base essencial de todos os seus projectos.

No dia 15 de agosto, anniversario do nascimento de Napoleo, o duque
logar-tenente reuniu ainda nas salas do palacio da sua residencia, a
nobreza, o clero, os magistrados, e os officiaes superiores, e
recebeu-os com um rosto to alegre e prazenteiro, como se Catilina no
batesse quasi s portas de Roma, ou como se o trovo dos canhes
britannicos, j bem proximo, no acordasse os echos dos campos de
batalha, aonde se ia jogar esta partida, que deu o signal a tantas
tempestades na Europa!

Eis o estado dos negocios, e pedimos venia ao leitor de o ter demorado
tanto na Ponte da Asseca com esboo to informe de noticias politicas e
militares. Voltando atraz, e penetrando com elle discretamente no
corredor, meio alluido do andar nobre do palacio _maldicto_, pedimos
licena para o guiarmos pelo som das vozes, que parecem altercar em uma
sala proxima, at o seio mesmo do congresso dos conspiradores, que alli
pleiteiam competencias, e apuram alvitres afim de coadjuvarem as armas
nacionaes e os progressos dos alliados.

Era noite, j o dissemos, e noite adeantada. A lua alta nos ceus
espalhava o seu claro sobre as aguas dormentes da villa, e prateava de
luz branca, franjando-as, as copas das oliveiras, trepadas pela encosta
fronteira. Tinham dado onze horas, e havia duas que os oradores
patriotas exgotavam toda a sua eloquencia sem se entenderem. A casa
vasta, arruinada, com os tectos a cair, e os sobrados a desfazer-se de
podrido, estava mais de metade mettida na escuridade quasi clara, que
fazia a sombra das paredes luctando com a lua e as estrellas. Todas as
janellas, que abriam para as hortas, sem vidraas, nem portas, deixavam
coar livremente o ar, e os ruidos de fra, to sensiveis na solido e no
silencio nocturno.

Na parte mais reparada, entre duas portas quasi penduradas das couceiras
carcomidas pela ferrugem, via-se uma comprida mesa de pinho allumiada
por enorme candieiro de lato de tres bicos, cuja chamma enfumada a
aragem saccudia e ondeava.  roda da mesa, ornada apenas de um tinteiro
de pau immenso, de pennas resequidas, e de papel em branco, sentados em
mochos toscos, viam-se alguns homens, to diversos nos trajos e
maneiras, como na physionomia e expresso.

Na cabeceira, com a face recostada no punho, as palpebras quasi
fechadas, e certo ar de imperio indolente, estava um ancio, que a farda
de panno azul escuro com abotoadura e guarnies brancas, e dragonas de
cachos, denunciavam como official superior de um dos corpos de milicias.
Era o coronel Isidoro Pinto Gomes, que a espada do general Margaron no
podra alcanar em Leiria, e que o zelo attrahia a todos os
conciliabulos patrioticos. O major Alvaro  direita d'elle, e o morgado
de Penin  esquerda, ambos de uniforme, e com os capotes, com que se
encobriam apezar da estao, abertos, ou derrubados para traz, compunham
o que hoje diriamos a mesa da presidencia.

Mais abaixo a farda verde comprida com vistas brancas e o chapeu armado
de outro personagem accusavam com evidencia egual o seu cargo de
capito-mr de ordenanas. Manuel Carranca, tambem salvo por milagre do
conflicto de Leiria, inflammava-se em um debate violento com uma pessoa,
que o habito e o cordo, as bochechas redondas, a triplice rosca da
barba, e o ventre empinado proclamavam logo como um dos mais
apopleticos, irasciveis, e facciosos filhos de S. Francisco. Este padre,
conhecido e respeitado como orador sagrado, pertencia ao convento de
Santarem, e chamava-se fr. Joo Salgado. O segundo interlocutor, com o
qual repartia os thesouros da dialectica, ainda moo, pallido,
melancholico, e esbelto, sem lhe ceder uma pollegada de terreno,
sorria-se dos clamores freneticos do reverendo, e parecia atial-os
mesmo com prazer maligno, lanando no meio de suas apostrophes uma
interjeio, ou uma exclamao repentina, que tinham a virtude de fazer
saltar o theologo aos ares como uma mina carregada. Os outros conjurados
ouviam calados, trocando apenas algum relancear de olhos, como no circo
os espectadores comtemplam as vicissitudes da lucta entre dois campees
afamados, contentando-se com o espectaculo, e abstendo-se de o perturbar
com os seus applausos, ou com a sua reprovao.

--Os laos da prudencia humana no me prendem! exclamava o padre com o
barretinho de seda arregaado para a nuca, a calva purpurea, e o
sobrolho franzido... Mais poderoso e forte do que todos os artificios
mundanos  o Senhor dos exercitos!... Para vencermos os jacobinos basta
a candura da pomba.

--Cuidado com as garras do milhafre!... interrompeu pela terceira vez o
mancebo pallido com um sorriso ironico.

--Ao milhafre atira-se, sr. Mannel Coutinho, gritou o bellicoso servo de
S. Francisco, ferindo a mesa com o punho cerrado. Bons caadores temos,
e se for preciso, Deus pela sua infinita misericordia far um milagre em
nosso favor.

--Nada de milagres! accudiu o capito-mr de ordenanas, Manuel
Carranca, o qual, rouco de gritar, aproveitava o incidente para
locupletar com duas valentes inspiraes o pulmo estafado. Nada de
milagres! Se v. s.^a rev.^{ma} julga, que os francezes fogem com
estolas, hyssopes, e caldeirinhas de agua benta, engana-se redondamente.
V a Leiria, e l lhe diro de que serviu o bello cantoxo do bispo e
dos clerigos!... Safa! Tenho ainda nos ouvidos os brros das peas de
artilheria, e os alaridos d'aquelles malditos granadeiros... Pareciam
gatos a marinhar e lees a arremetter...

Esta apostrophe, sem desmaiar a resoluo dos ouvintes, tornou mais
grave o rosto de alguns. Houve at quem applaudisse com um aceno de
cabea assaz expressivo a rustica e quasi impia declarao do
capito-mr. As momices bellicosas e varias do franciscano comeavam a
aborrecel-os. Veremos no capitulo seguinte a verdade do adagio: Pela
fructa se conhece a arvore!




IV

Reina a confuso no campo de Agramante


Fr. Joo era o mais irado, ou antes, era o unico irado. O seu labio
superior, extendido como tromba cresceu, e a barba de tres andares
descau-lhe com o beio de baixo quasi at o peito, signal manifesto de
seu despreso. O suor da colera, colera de frade, oleosa e leveda,
inundou-lhe a testa. As pupillas faiscavam.

--Santo Deus! que ouo!... atalhou pondo-se em p, hirto e furioso, e
alando os braos como se afagasse a perorao do melhor de seus
sermes.  o sr. Manuel Carranca quem profere taes blasphemias, ou 
algum inimigo de Deus e da patria?!...

--Padre mestre! accudiu no menos irritado e furibundo o arguente
interpellado, j tambem de p. No me tente a paciencia! Eu digo a
verdade e no solto blasphemias. Po po, queijo queijo! Nunca tive
trato com mouros, judeus, ou herejes, nem consinto que ponham nota na
minha religio, entende?...

--Se no quer ser lobo no lhe vista a pelle. Sou ministro de Deus, e
no adulador de poderosos. Castigo os que erram! replicou o orador com
um gesto inimitavel de desdem olympico.

--Castiga? Diz que ha de castigar-me?!... bradou o capito-mr livido e
convulso de raiva.

--Digo-lhe que j o castiguei, e que hei de continuar!... retorquiu o
frade no menos rascivel crescendo dentro dos habitos.

--A mim! Manuel Carranca, morgado e capito-mr de ordenanas de Leiria,
pae de familia, e homem de sessenta annos de edade?!... insistiu o outro
suffocado, roxo, e com os punhos cerrados.

--Quem o ouvisse no lhe faria doze annos! Uma criana no fala mais
loucamente; concluiu fr. Joo encolhendo os hombros, limpando o suor, e
sentando-se de golpe.

--Sabe que mais, sr padre? gritou quasi em delirio o aggredido. Tenho
pena de o ver de saias. Seno!... Juro-lhe por alma de Eufrasia, minha
santa companheira, que Deus tem, que deixava metade da pelle agarrada
aos ns da corda, com que o havia fustigar!...

S o pugilato podia terminar a contenda, chegada a estes termos. Fr.
Joo parecia possesso. Sentava-se, erguia-se, estorcia-se, clamava, e
accusava, defendia-se, ameaava, enternecia-se, e elle s fazia mais
ruido, do que cem mendigos implorando voz em grita a caridade dos fieis.
O seu adversario ria-se com despreso das contorses do prgador, e
repetia entre gargalhadas nervosas, quando uma pausa nos accessos do
reverendo lh'o consentia:

--Juro-lhe! Se os frades como as mulheres, no vestissem saias, o padre
mestre saa esta noite d'aqui em carne viva!

O auditorio escutava calado e neutro as imprecaes dos contendores,
ria-se das interjeies e dos trejeitos, e murmurava, porque se perdia
em puerilidades similhantes um tempo precioso.

A algazarra dos dois subiu, porm, a tal ponto, que o coronel de
milicias, que dormitava talvez encostado ao punho, como insensivel ao
ruido, que o cercava despertou meio sobresaltado, abriu metade das
palpebras preguiosas, e articulou em tom pausado smente estas
palavras:

--Que vozeria  esta, senhores? Estamos  porta de algum aougue, ou em
uma casa honesta, deliberando a bem da patria? Peo socego.

No foi preciso mais. Tudo emmudeceu. Isidoro Pinto Gomes era um ancio
veneravel, nobre pelo sangue, exemplar pelas virtudes, e acatado
geralmente.

--Vamos! Proseguiu. No  j cedo, e  preciso sem demora concluir! E
correu a vista serena pelos collegas, detendo-a um pouco severa sobre o
frade e o capito-mr, que, sentados um defronte do outro, ainda se
ameaavam com os olhos. O sr. fr. Joo Salgado propunha que montassemos
a cavallo, e partissemos d'aqui a levantar Santarem, Villa Franca,
Leiria...

--Todo o reino, sr. coronel.  facil! interrompeu o padre.

-- fcil de fazer e difficil de sustentar, redarguiu Manuel Coutinho.
Os francezes ainda esto em Abrantes e Lisboa...

-- para os lanar fra que eu queria que todos esses povos armados...

--E vossa reverendissima conta acompanhar-nos e combater ao nosso lado?
interrogou o coronel sempre com a mesma gravidade.

--Certamente! exclamou o prgador menos enthusiasmado j. Com as minhas
oraes, com as armas espirituaes...

Uma risada estrondosa de escarneo, desatada com insolencia pelo
capito-mr, estrangulou-lhe entre os dentes o resto do discurso.

--Sr. Manuel Carranca, observou Isidoro Pinto, risadas no so razes.
Queira reportar-se. Estamos em acto serio, e que pde custar a cabea a
todos ns... Continuemos! As armas espirituaes de grande auxilio nos
podero ser, porm infelizmente no bastam. Junot e os seus soldados
pelejam com valentia, e no se dispersam com exorcismos. Sr. Manuel
Coutinho, o seu voto? Vem de Lisboa,  militar, e tem prudencia. O que
entende?

--Que novos levantamentos nos atrazam em vez de nos adeantar. Os
francezes so soldados, e bons soldados, fora  confessal-o, e s por
outros soldados podem ser vencidos. O povo tem desejos e vontade, mas
falta-lhes disciplina...

--_Deus super omnia_! exclamou o incorregivel fr. Joo. No lhes queria
estar na pelle se de Leiria at s abas da capital toda a gente se
levantasse contra elles. S os nossos campinos e guardadores, que
formoso esquadro! De mais Lisboa est  primeira voz. Sei-o com
certeza. O Conselho Conservador na primeira occasio atira pelos ares os
inimigos de Deus e de el-rei...

--Vossa reverendissima est enganado! respondeu o mancebo inalteravel,
em quanto o frade rubro e arquejante esponjava com o leno de algodo o
suor da eloquencia, e sorvia uma apoz outra tres pitadas triumphantes de
esturro.

--Estou enganado?! bradou. Queira dizer em que?

--Em tudo. Primeiro o povo no se levanta assim de repente e todo.
Depois os campinos e guardadores no aturam uma carga de cavallaria ou o
fogo da artilharia, a qual alcana longe, e mette medo. Por ultimo a
cidade de Lisboa no se move!...

--Ora essa! Muito mal nos iria ento!...

--Porque? No marcham os inglezes de Montemr, ao p de Coimbra? Confie
mais n'elles, que sabem fazer a guerra. O general Bernardim Freire com
as milicias e voluntarios tambem avana. O que queria de Lisboa? Uma
revoluo de paizanos? As baterias do castello e as bayonetas de Junot
depressa a venceriam. Ninguem deseja mais a capital liberta, do que eu,
como portuguez, como militar, e... Os outros motivos so s meus. Mas
conheo a necessidade e resigno-me. A nossa causa ha de triumphar nos
campos de batalha, e no nas ruas, e com tumultos. As victimas j no
tem sido poucas.

--Qual  ento a sua opinio, sr. Manuel Coutinho? observou o coronel,
calando com um volver de olhos imperioso a loquacidade do prgador, que
abria a bcca para replicar. O que devemos fazer?

--A minha opinio  que montemos a cavallo, recrutemos o maior numero
possivel de homens valentes, e que sem ruido nos vamos unir ao exercito
de operaes. O nosso posto  l.

--Muito bem! Sou do mesmo voto. O que dizem os senhores?

--Que estamos promptos, disse o capito-mr de ordenanas. Ardo em
impaciencia de tirar uma desforra mestra da grande sova de Leiria...

--E ns todos de tirarmos desforra da invaso! atalhou Isidoro Pinto com
dignidade. Partiremos esta madrugada, e se Deus quizer seremos mais
felizes d'esta vez.

--Que gloria, senhores, para ns e para nossos descendentes! exclamou o
morgado de Penin, cujo enthusiasmo facil de inflammar se exaltava
n'estas occasies. A patria libertada, Portugal triumphante!...

--O que no rir sua alteza real o principe regente, quando souber como
ns por c tractmos os francezes! Para mim o melhor dia da minha vida
ha de ser o ditoso momento em que possa beijar os augustos ps do meu
rei... Oh, se elle voltar, e ha de voltar, apezar de indigno filho de S.
Francisco, irei com o povo puchar aos varaes da sua carruagem!

E espraiando o zelo monarchico n'esta jaculatoria servil, o frade corria
os olhos, de que j saltavam as lagrimas de uma alegria antecipada, pela
assembla soffrivelmente fria, ou quasi hostil  demonstrao.

--Sr. fr. Joo, disse o coronel de milicias, levantando-se, e alando a
cabea com ar magestoso, se o principe D. Joo voltar, e Deus o traga
depressa, deixe s mulas de Alter, cujo , o peso do seu coche. Essas
mos sagradas so para os officios divinos, e no para as tarefas dos
cocheiros...

--Mas! replicou o frade interdicto e atalhado com a lico. No estamos
todos aqui ajuramentados para verter at  ultima gota de sangue pelo
principe e pela familia real?... Se no fosse isto e a santa religio
tanto fazia Bonaparte como qualquer outro.

--Eu lhe digo! redarguiu Isidoro Pinto. Sou portuguez e sou catholico.
Como portuguez quero morrer livre aonde nasci; como catholico detesto os
que adoram o meu Deus s com os labios, roubando e profanando os
templos, prendendo e espoliando em Roma o vigario de Christo. Depois de
Deus e da patria--mas s depois-- que vem para mim a restaurao do
throno de nossos reis...

--Depois?!  singular! murmurou fr. Joo contrariado e aggressivo.

--Pois no devia achar singular, redarguiu o coronel serenamente. E
seno diga-me: Para que so os reis?...

--Essa  boa! Para que so?!... Deus instituiu-os...

--Como pastores, guardas, e defensores dos povos. E o que defendeu, ou
guardou o principe regente? A sua pessoa, as suas alfaias, a sua
segurana. A ns mandou-nos abrir as fronteiras, e entregou-nos
manietados por uma ordem sua aos inimigos, de que fugia.

--Nunca tal ouvi! clamou o prgador attonito. O que queria o sr. coronel
que sua alteza fizesse em to grande aperto?

--O que fez D. Joo I e D. Joo IV. Que ficasse! Era a sua obrigao. Os
reis no esto acima de todos para se esconderem dos perigos atraz dos
ultimos vassallos, ou para esperarem que elles combatam e venam na sua
ausencia.

--Que importa isso? No estamos ns?

--Importa muito!  verdade que estamos, mas elle falta; e em quanto sua
alteza, que Deus guarde, saboreia a duas mil leguas d'aqui os ananazes e
bananas da sua xacara de S. Christovam, choramos ns a liberdade perdida
mettidos no captiveiro, em que nos deixou...

--Mas sua alteza no se esqueceu de ns. O seu manifesto declarando a
guerra  Frana!...

--Ah sim! Bem sei! Declarou-lhes a guerra! Quem a sustenta? Ns e nossos
filhos com o sangue vertido no campo e nos patibulos, com as casas
saqueadas e reduzidas a cinzas, com os bens e a saude arruinados. A
crte festeja de longe o nosso valor. A Gazeta do Rio chama-nos heroes;
porm!... Uns comem os figos, e aos outros arrebenta-se-lhes a bcca.
Acha isto justo, nobre, e bem feito? Se acha, faz mal, se concorda,
calo-me. O principe e os titulares ho de voltar, quando lhes abrirmos
as portas; em quanto houver perigo, no! Se os cavalheiros de provincia,
se o clero, se o povo imitassem tanta ingratido--tamanha
vergonha--deixe-me chamar as cousas pelo seu nome, Portugal seria de
Napoleo, de Junot, do principe da Paz, da Hespanha, de todos, emfim,
menos de quem o desamparou para cuidar de si. Louvado Deus, se o rei
fugiu, e desertou do throno, ns lembrmo-nos da nossa historia, dos
nossos brios, e do nosso juramento. Esqueceremos apenas... que estamos
combatendo ss! Quando o senhor D. Joo e os fidalgos se recolherem,
ns, pobres e mutilados, mas honrados, iremos dar-lhe os parabens, e
tornaremos logo para casa a ver se ainda salvamos do naufragio o po de
nossos filhos... Peo desculpa d'estas palavras, meus senhores! ajuntou,
cortejando os conspiradores, que o tinham ouvido silenciosos, porm
sympathicos. Sou velho, e os velhos tem o defeito s vezes de falarem
muito. Prometto emendar-me, porque a occasio  de aces, e no de
palavras. Amanh de madrugada partimos. Boas noites! So horas de
descano.

Fr. Joo mettia d. A sua filaucia oratoria, punida pelas sinceras e
sisudas reflexes do coronel, tinha-se convertido em humildade, em mais
do que humildade, em consternao. A verdade e a justia das queixas,
que ouvia, eram to evidentes, que no lhe consentiam replica.
Arrependido de as ter provocado, apertou com expressivo ardor a mo do
velho cavalheiro, e com os olhos baixos e modos contrictos encaminhou-se
ao aposento, em que o aguardava a cadeira, em que havia de repousar. Os
seus amigos no tinham melhor leito.

Os outros cavalheiros iam separar-se egualmente, quando os assustou o
tropear de muitos cavallos caminhando a trote largo. Manuel Coutinho por
uma fresta das tabuas, que tapavam uma das janellas rasgadas sobre a
estrada, espreitou com precauo, e ao claro do luar viu reluzir os
cascos, e peitos de armas dos drages francezes. Ao mesmo tempo uma voz
forte dava a ordem de alto, e por um instante tudo caiu em silencio. Os
conspiradores olharam uns para os outros e instinctivamente levaram a
mo ao punho da espada. O mancebo continuava entretanto o seu exame sem
se sobresaltar.

-- uma escolta de seis homens, e acompanha dois officiaes! disse elle
retirando-se. Somos doze, e os nossos creados que dormem na granja
muitos mais e decididos. Apaguemos j a luz, vamos para o outro lado do
palacio, e demos tempo ao lavrador de nos avisar. Naturalmente os
francezes pedem hospedagem, e passam aqui a noite...

--Se assim for! E a nossa jornada?! atalhou o capito-mr de ordenanas.

--A nossa jornada est primeiro do que elles! accudiu sorrindo-se Manuel
Coutinho. Simplesmente o que pde acontecer  apresentarmo-nos com
alguns prisioneiros ao exercito.

--Excellente! Excellente! gritou a voz de trovo do morgado de Penin.
Vamos a elles. Que nenhum escape!

--Mais baixo, senhor morgado, mais devagar! No acorde o leo que dorme.
Os soldados  facil apanhal-os aonde ficam. Os officiaes ainda mais. O
Joo decerto os mette nos quartos, que sabemos, e pela porta de
espelho... Entretanto por causa das suspeitas, e porque esta casa ainda
pde ser-nos util, sou de voto, que os assustemos e afugentemos com uma
representao de fantasmas... e que  sada lhes demos a voz de presos.

--L est o Joo da Ventosa com elles  fala! observou o major, que
espreitava  janella: Apeiam-se! A ceia que os espera ha de custar-lhes
a digerir.

--Deram-nos to mau almoo em Leiria, atalhou rindo o coronel, que lhes
devemos esta ceia. Vamos ensaiar os nossos papeis.

D'ahi a um momento estava deserta a vasta sala. Os conspiradores tinham
desapparecido por uma porta falsa, aberta na parede com tal arte, que
ninguem seria capaz de a descobrir.




V

Francezes  meia noite


Em quanto Manuel Coutinho e seus amigos traavam  pressa o plano, que
acabmos de escutar, os dois officiaes francezes batiam, chamando o
lavrador com a auctoridade de quem mandava.

Joo da Ventosa e Manuel Simes conservavam-se ainda na mesma posio,
mas os canecos tinham ido tantas vezes  fonte do cangiro, e o summo da
cepa fra to seductor, que, apezar de suas dimenses respeitaveis, o
alentado vaso estava quasi no fundo. A lingua comeava a pegar-se ao cu
da bcca dos dois bebedores, e os olhos a piscarem-se. Ambos cabeceavam
a compasso com aquelle sorriso beatifico e petrificado, proprio da
embriaguez mansa, quando as pancadas rijas dos militares os despertaram
em sobresalto.

Saltaram de um pulo para o meio da casa. O baralho sebento e coado do
uso quotidiano, com que haviam jogado a bisca voou das mos ao
fazendeiro espavorido, e as cartas espalharam-se ao acaso pelo cho. As
proezas contra os agentes de policia de Lisboa, e a execuo summaria de
Gaspar Preto, (o _Sapo_), eram dois espinhos, que no lhes deixavam a
consciencia tranquilla. A todas as horas tremiam de ver a justia 
porta, sem animo todavia para fugir, o que acontece varias vezes.

--O que ser? balbuciava o robusto camponez da Aramanha. A modo que
sinto patas de cavallos l fra. Arrastam espadas. Com mil cobras!
Estaremos cados na esparrella, sr compadre?

--Valha-o um milheiro... de lacraus, homem! retorquiu o companheiro de
copo, affectando serenidade, porm mais morto, do que vivo tambem.
Sempre se lembra de cousas!... No  nada, aposto! No ha de ser nada...

--Deus queira! Mas olhe: no gosto nada de francezes  meia noite!...

--Nem eu com a breca! Caluda! Batem como quem se despede. Os
excommungados, se no abro, pregam-me com a porta dentro! Vamos! Alma
at Almeida!... O que fr soar. Voc ouve? Fique-se ahi para esse
canto, estire-se, durma, ou finja que dorme, e nem tugir, nem mugir.
Deixe-me c a mim com elles! Muito finos ho de ser se metterem os ps
pelas algibeiras ao Joo!... Ahi vae! Ahi vae! Isto aqui no  nenhuma
estalagem!...

E rosnando, e gritando, o lavrador accudia o mais devagar, que lhe era
possivel, contando os passos, tropegos das libaes e do susto.

A porta desaferrolhou-se por fim, as trancas rangeram e cairam, e o
pobre Joo da Ventosa esteve quasi perdendo os sentidos, quando viu
deante de si os dois officiaes francezes apeiados, e a escolta ainda a
cavallo. Um tremor invencivel apoderou-se-lhe dos membros, e um suor
frio, acompanhado de arrepios suspeitos pela espinha dorsal, acabou de o
paralyzar. Em um instante passaram-lhe pela mente todas as conjecturas
lugubres, que o medo podia forjar. Sentiu os ossos dos dedos estalados
com os anginhos e os braos cortados com as cordas. Viu-se na enxovia
comido de miseria, nas garras do escrivo e do carcereiro, dois abutres
insaciaveis. Ouviu e respondeu aos interrogatorios; e, convencido do seu
delicto, escutou a sentena de morte, entrou para o oratorio, e com os
cabellos hirtos e a lividez do terror encarou o espectro pavoroso da
forca...

Olhava, e no via, movia os beios, e no falava, procurava arrastar os
ps, e elles parecia que tomavam raiz no cho! Foi um minuto de delirio
e anciedade, mas um minuto de tal agonia, que a outro qualquer toda a
cabea se poria de certo branca. Entretanto era animoso, e recobrou-se.
O sangue quasi gelado aqueceu, os espiritos acovardados restauraram-se.

--Assim como assim, disse comsigo, melhor  acabar aqui de uma bala, ou
de uma cutilada, do que nas mos do carrasco. Vivo no me levam elles de
casa, e muito inteiros no ho de ficar tambem. Veremos.

Tomada esta prompta resoluo, socegou mais, levantando os olhos para os
recem-chegados. Os officiaes tinham-se arredado um pouco, e falavam a
meia voz com o sargento. Quando voltaram, um d'elles, cujo ar aberto e
espirituoso, rosto juvenil, e vista maliciosa no promettiam na
apparencia nenhum executor de ordens severas, tocou-lhe ento no brao,
e na aravia arrevesada, com que os estrangeiros arremedam e estropiam de
ordinario o idioma portuguez, exclamou:

--Ah! Ah! O sr. lavrador  que  o dono da casa dos fantasmas? Venho
fazer-lhe uma visita de proposito, e pedir-lhe que me arranje um quarto,
aonde possa falar  vontade com os seus inquilinos, as almas do outro
mundo. Mal sabe as curiosas cousas, que desejo perguntar-lhes...

--A quem? bradou o Joo ainda vexado de receios.  escusado. No sei
nada. Pde prender-me, matar-me...

--Prendel-o! Matal-o!... Quem lhe metteu essas loucuras na cabea?...
Sou capito, e chamo-me Armand d'Aubry. Ouvi falar d'este palacio e dos
fantasmas, que do bailes e concertos  meia noite, e jurei convidar-me
com este meu amigo para assistir a um d'elles... Diga-me senhor, tem
bastante valimento na casa para me alcanar dos seus espectros o favor
de se no incommodarem por amor de mim, e de me tractarem como pessoa da
familia?...

O lavrador no sabia se estava sonhando, se estava acordado, ou se
aquelle homem era doido. No o entendia, e fitando n'elle os olhos
espantados contemplava-o boqui-aberto e quasi nescio de estupefaco.

--A proposito! proseguiu o militar. Andmos um bom par d'estas suas
leguas portuguezas, que so eternas e canativas, e estamos caindo de
fome e de somno. Pde dar-nos sem demora um pedao de po, um gole de
vinho, e uma cama? Aonde poderei alojar os meus soldados?...

--V. s.^a est em sua casa! redarguiu por fim o lavrador, respirando
mais desafogado. Queira entrar. Eu chamo j a velha e os creados, que
esto dormindo.  um instante em quanto se lhes fazem as camas e se
arranja alguma cousa para ceiarem. Sem ceremonia entrem camaradas!
Tragam os cavallos  redea e venham commigo. Graas a Deus temos aonde
aquartelar um regimento... Safa! accrescentou limpando depois o suor da
testa com as costas da mo. A gente no ganha para sustos! Sempre
cuidei!... Ah! E os outros l de cima? E os creados d'elles que esto na
granja da encosta? Com a breca! Se do com a lingua nos dentes vae tudo
por ares e ventos. Valha-me Deus!... Se eu nunca hei de acabar de ser
tlo! J minha av me dizia: Joo, para que te mettes tu a dobar meadas
alheias?! No ha remedio.  preciso fazer das fraquezas foras.

E juntando o exemplo ao preceito, a sua voz taurina fez saltar em um
momento, e pr de p os moos e a governante, accender o lume, e
preparar tudo para que a hospitalidade promettida aos drages francezes
correspondesse  fartura e largueza, de que se prezava.

--Sabeis que este palacio negro e a car faria a fortuna de um auctor de
novellas tragicas? observou em francez o companheiro de Armand, o
tenente Lassagne. Se os espectros o vexam, como se diz, devmos
confessar que escolheram scena propria para seus terrores.

--Espero antes de nos separarmos, atalhou d'Aubry na mesma lingua, que
d'esta vez as almas do outro mundo  que ho de ter medo e fugir. Sei de
uma excellente receita para isso.

--Ah! Ah! E o nosso sargento, curtido em trinta campanhas, o que diz do
demonio e seus saquazes?

--Roberto?!... Ri-se e encrespa os bigodes. Tanto lhe faz combater os
austriacos e os prussianos, como os mamelucos, ou os subditos de sua
magestade infernal Satanaz I.  capaz de disparar  queima-roupa sobre
Asmodeu em pessoa.

--Ha de ser curioso! O meu receio unico  que os phantasmas se recolham
aos bastidores e addiem a representao. N'esse caso os logrados
seriamos ns....

--De certo!... Mas tenho motivos para crer que a noite de hoje entra no
programma diabolico. A demora em abrir a porta, a perturbao d'este
lavrador que me parece um contra-regra soffrivel de vises e espectros,
certo ar de mysterio e de desconfiana, tudo me faz suppor, que apenas
deitarmos a cabea no travesseiro... teremos logo de a levantar para nos
entendermos com as almas do outro mundo. Aposto que l em cima os
ensaiadores andam j a tombos com o averno, ou com o purgatorio?!

--Talvez! Ento este casaro  o quartel general?...

--De todos os conspiradores, desertores, e foragidos, que nos fazem a
honra de detestar o nome francez como estrangeiro, como jacobino, e como
herege! Podeis estar seguro! Se dessemos busca s salas e corredores
arruinados do andar nobre, punhamos a mo, juro-vos, sobre o ninho ainda
quente d'esses escandecidos patriotas, que se tornam invisiveis, sempre
que podem, para nos darem detraz dos muros e vallados os bons dias e as
boas noites com as balas das espingardas. Meu tio, o intendente Lagarde,
no hesitava, e a esta hora j tinha uma nuvem de beleguins e soldados a
cercar tudo, e a farejar e aforoar os cantos e desvos... Eu... creio
mais nas minhas pistolas e na minha espada, do que nos laos e ardis da
policia, e ha tres noites que sonho a fio com delicias na probabilidade
de um duello, ou de um combate com uma legio de fantasmas...

Entrou n'este instante o Joo da Ventosa, e os creados,
multiplicando-se, pozeram a mesa, interrompendo o dialogo dos dois
officiaes. A ceia no tardou, e o lavrador, por calculo, ou por
generosidade, viu-se claramente, que desejava estimular por todos os
modos a sde dos hospedes, convidando-os a libaes repetidas, que a
natural sobriedade de Lassagne, e a prudencia de Armand tiveram o
cuidado de conter dentro de limites rasoaveis. Apezar dos louvores
encarecidos, com que o rustico Amphitryo encarecia os productos da
colheita ribatejana, e a despeito da qualidade fina e capitosa do licor,
os dois militares honraram o Baccho portuguez com summa circumspeco. O
amigo de Manuel Simes, pouco satisfeito, ao que parecia, e forado nos
ultimos entrincheiramentos, ergueu-se para ir pessoalmente escolher na
adega duas garrafas, uma de Madeira, e outra do Porto, capazes,
affianava elle, de vencer o jejum de um cenobita, a immobilidade de um
morto, e a frieza de um velho.

--Sentido! murmurou d'Aubry quasi ao ouvido do tenente. Os espectros,
segundo noto, so eruditos. Leram Virgilio, Horacio, e Vegecio. Este
aldeo medita uma nova edio do cavallo de Troia em formato reduzido. O
que elle vae buscar no  vinho,  somno para nos ter  sua
disposio...

--Nos meus dias de taful e de rapaz talvez se arrependesse, porque me
atreveria a beber o mar! disse Lassagne sorrindo, e retorcendo entre os
dedos as guias do bigode louro.

--Ah! Leo! Meu querido Leo! Muito verdadeiro  o adagio que diz: viaja
para aprenderes. Quem havia de suppor, que, sem sermos Samso, vinhamos
encontrar em umas ruinas da Ponte da Asseca esta parodia dos artificios
biblicos de Dalilla?

--Oh! accudiu o tenente rindo. Dalilla de vestea, cales, e varapau?!

--Porque no? O habito no faz o monge. lerta! Ahi vem o nosso homem, e
suspeito que a adega, como a famosa caverna de no sei que santo, ha de
ter uma bcca aberta para o inferno. Deus me perdoe, se o calumnio,
porm creio firmemente, que elle foi saber a senha dos fantasmas para o
espectaculo d'esta noite.

As duas garrafas continham na realidade o licor precioso das colheitas
rivaes das vinhas do Douro e dos cachos insulanos, e tinham sido
escolhidas por um entendedor emerito. Os officiaes festejaram-as com o
alvoroo, que mereciam suas qualidades e seus annos, simulando mesmo
certa turbulencia, que a um observador mais habil, do que o Joo da
Ventosa, pareceria mais do que suspeita, se attentasse para a expresso
maliciosa dos olhos de Aubry, e para o sorriso ironico engatilhado nos
labios de Lassagne. Tudo tem comtudo um termo, e davam tres quartos para
a meia noite, quando os dois francezes, entre bocejos, e dando mostras
de excessivo peso na cabea, pediram treguas, e manifestaram o desejo de
descanar das fadigas da jornada e dos effeitos narcoticos da campanha
bacchica. O lavrador accendeu dois castiaes de casquinha, e mais
vacillante, do que elles, porque no se poupra durante o combate para
os estimular, guiou-os pela escada interior aos dois quartos, aonde,
como sabemos, j tinha aquartellado Leonor e seu pae na famosa noite,
immortalizada pelas proezas do sargento Cabrinha e de seus milicianos.

--Viva Deus! exclamou Aubry, rindo, depois de corresponder s boas
noites e offerecimentos encarecidos do patro, de fechar logo a porta a
duas voltas de chave, e de ouvir o ruido dos passos do rendeiro a descer
a escada. Viva Deus! Estamos nas covas de Salamanca, e aposto que
separados apenas por uma parede da sala regia aonde os fantasmas do as
suas audiencias. Lassagne! Ha mezes passaveis por ser a primeira pistola
e a mais fina espada do regimento. No deixeis ficar mal a destreza
n'estas ruinas, porque vos affirmo, que, vivos ou mortos, os que
entrarem n'este quarto, pela janella, pelo sobrado, pelo tecto, ou pelos
muros, no saem d'aqui sem dizer d'onde vem, e para onde vo.

--Viro elles? replicou o outro official, encolhendo os hombros com o
usal sorriso. Receio que algum diabrete os avise...

No receieis. No faltam. Diz-m'o o corao. A fortuna tem sido madrasta
commigo, e deve-me tanto, que de certo no me nega o gosto de ver e
apalpar um espectro, e de lhe perguntar noticias dos... inglezes, do
general Bernardim Freire, ou de algum guerrilha emboscado perto d'aqui!
Se vos parecer deixaremos para depois o itinerario do purgatorio e os
fogachos do inferno....

--Impio! respondeu o seu interlocutor em tom jovial. E no quereis que
nos chame esta gente jacobinos e herejes?! Em que acreditaes?

--Em Deus, que nos ouve; em Jesus, que nos remiu; na immortalidade, que
ha de unir-nos em espirito aos que ammos e chormos n'este desterro
chamado vida! retorquiu o mancebo de repente serio e quasi melancholico.
Mas!... So horas de apreciarmos os colches das camas, e de dormirmos
um instante com os olhos abertos. Lassagne tendes o somno pesado?...

--Leve como um aor! Um nada me desperta.

--Bello! Eu tambem. Por esse lado no ha que temer. Agora as pistolas.
Optimo! As escorvas esto seccas e ardem bem. Tende sempre as armas 
mo. Boas noites! Deus permitta que os fantasmas se no arrependam.
Estou ancioso de os conhecer.

E o estouvado, rindo e espreguiando-se, apertou a mo do amigo, pousou
as pistolas  cabeceira sobre um velador, e deitando-se vestido em cima
do leito, cerrou os olhos. Lassagne imitou-o. D'ahi a um momento
resonavam ambos.

Teria passado uma hora, e jazia tudo em profundo socego, quando Aubry,
que na realidade tinha o somno esperto de uma ave, accordou ao ruido
lento dos gonzos enferrujados da porta falsa, que abria sobre o seu
quarto, disfarada com o velho espelho porta pela qual vimos verificada
a evaso de Paulo de Azevedo mezes antes. O mancebo tinha conservado a
vla accesa, e ao primeiro som esfregando os olhos, e reassumindo os
espiritos perturbados, sentou-se na cama, correndo a vista por todo o
aposento afim de perceber d'onde partia o assalto.

Um instante bastou para formar exacta ida d'elle. A porta resistia de
velhice, mas, gemendo, cedia sempre, e o espelho recuava.

O sobrinho de Lagarde saltou de manso  casa, engatilhou as pistolas, e
com ellas nas mos, e a espada na debaixo do brao, p ante p,
encaminhou-se  entrada do quarto, em que repousava Lassagne.

Achou-o erguido tambem, e armado. Com o dedo sobre os labios
recommendou-lhe silencio. Os dois apenas trocaram um gesto. No era
preciso mais. Estavam entendidos.

Aubry encobriu-se com o cortinado do leito; Lassagne atraz do vo da
porta, e ambos aguardaram que os espectros acabassem de vencer os
obstaculos. Queriam desenganar-se finalmente por seus olhos da
verdadeira significao das mysteriosas apparies, que vinham
visital-os. No esperaram muito!




VI

Uma viso pouco sobrenatural


O espelho continuava a desviar-se, girando de vagar, descobrindo a porta
secreta. De repente dois vultos embuados apontaram  entrada, e com
passos subts adeantaram-se cautelosos. Atraz d'elles, como sentinella
no seu posto, ficou uma terceira figura com meio corpo na escurido e
meio corpo frouxamente allumiado pelo escasso claro da lanterna, que
trazia, a qual aclarava os tres personagens enroupados de mais para a
estao e asss pesados e volumosos para passarem por espiritos.

--Dormem! Esto apanhados! disse o primeiro em voz submissa.

--A luz?! respondeu o segundo. Aonde est o outro francez?...

--Ahi! Segure-o sem bulha. Este fica por minha conta!

--Bem!

Deram algumas passadas surdas, abriu o primeiro as cortinas da cama de
Aubry, correu o segundo com a vista o leito deserto de Lassagne.

Recuaram. Os officiaes, no s no dormiam, como tinham desapparecido!

--Fugiram! exclamou o vulto mais alto, levantando a voz.

--Manuel Coutinho! Sr. Manuel Coutinho! gritou o mais baixo. Fomos
sentidos. Os jacobinos pozeram-se ao fresco!

--Por onde? No pde ser! Procurem bem! accudiu o amante de Leonor, que
era quem guardava a porta falsa.

-- verdade! Os nossos vlam! Fra tudo est quieto!...

--De certo, sr. morgado! atalhou o capito-mr. A esta hora os drages
esto apanhados como coelhos na rede. Mas aonde se sumiram ento os
homens?!...

N'este momento ouviu-se um silvo forte e prolongado da banda da estrada,
e dispararam-se dois, ou tres tiros quasi debaixo das janellas.

--Que  isto? bradou Manuel Coutinho. Estaremos vendidos?

--No, meus senhores, no esto! accudiu Aubry, soltando-se de repente
das cortinas, que o escondiam, e cortejando com extrema urbanidade os
conspiradores.

Ao mesmo tempo Lassagne apparecia aos umbraes da entrada do quarto grave
e silencioso. As armas, que os officiaes traziam nas mos, provavam, que
vinham apercebidos e dispostos para um encontro.

Houve um momento de pausa, durante o qual os cinco personagens reunidos
por modo to singular se mediram e encararam sem proferir palavra.

--Conversemos, senhores! disse por fim o sobrinho de Lagarde. No
imaginam a impaciencia, que tinha em os encontrar aqui. Andei doze
leguas a cavallo, sem resfolegar, e que leguas, santo Deus! para ter o
gosto de conversarmos cinco minutos!...

--Talvez se arrependa! bradou o morgado, carregando o sobrolho, e
fazendo o gesto de buscar no cinto as pistolas.

--Nada de imprudencias, por quem !... atalhou Aubry, de repente serio,
e apontando as suas, aco que Lassagne imitou serenamente. No
comecemos a narrao pelo epilogo, erro crasso de rhetorica, segundo
affirmava o padre Laly, sabio professor do meu collegio. Tambem trazemos
com que responder, e menos mal. Deixemos, porm, as explicaes de
polvora e bala para o fim se no nos entendermos.  melhor!...

--Pois bem, seja! redarguiu Manuel Coutinho. Camos em uma emboscada,
e...

--E no sabe se o feitio se virou contra o feiticeiro? interrompeu,
rindo, o official. Parece-me que sim. Queiram sentar-se, meus
senhores...

--Estamos bem! O que temos a dizer em duas palavras se acaba!...
exclamou o capito-mr, que as maneiras polidas, mas zombeteiras d'Aubry
irritavam excessivamente.

--Quem sabe?! tornou o mancebo, fitando-o com ironia, e torcendo entre
os dedos e com graa as guias do bigode. A mobilia no  opulenta, mas
as cadeiras chegam. De mais soldados com pouco se contentam. Queiram
sentar-se. Muito bem! proseguiu depois de os ver sentados. Posso saber o
motivo a que devo a felicidade d'esta visita? O meu nome  Armand
d'Aubry, capito do 1.^o de drages da guarda...

--Ah! exclamou Manuel Coutinho com certo sobresalto, Armand d'Aubry?!...

--Exactamente. O meu companheiro chama-se o sr. Leo Lassagne, tenente
do mesmo corpo, conhecido dos austriacos, prussianos e hespanhoes pela
firmeza dos golpes e certeza do tiro...

Aqui o morgado e o capito-mr enfadados da prolixidade dos cumprimentos
olharam um para o outro encolhendo os hombros. Manuel Coutinho, frio e
reportado, ouvia, sem desafinar a expresso intrepida do rosto, este
prologo cerimonioso de Aubry, no se dignando mesmo patentear o menor
indicio de impaciencia.

O official francez percebia maravilhosamente tudo o que passava pela
mente dos interlocutores, porm, simulando ingenuidade maliciosa,
divertia-se em ter suspensa aquella anciosa curiosidade.

--Ser-me-ha licito, agora, que dei conta de mim e do meu amigo,
perguntar o nome dos cavalheiros, que nos honram com a sua presena?...

--De certo! redarguiu Manuel Coutinho, inclinando-se levemente. Se nos
cobrimos com as trevas da noite  porque somos opprimidos, e ainda no
soou a hora de combatermos  luz do dia. Este senhor  o morgado de
Penin, administrador de uma das casas mais nobres e ricas da provincia.
Aquelle  o senhor capito-mr de ordenanas de Leiria, Manuel Carranca,
pessoa distincta e estimada pelo nome e qualidades... Eu chamo-me Manuel
Coutinho, appellido no de todo obscuro, e fui desligado do regimento,
aonde servia como capito... Bem v, sr. d'Aubry, que est em excellente
companhia, e que, apezar da hora, no entrou em nenhuma caverna de
salteadores...

--Oh! Pelo amor de Deus! Quem se lembrou nunca de tal?!... Seria
importuno se insistisse em perguntar ainda a razo, porque tres
cavalheiros to amaveis nos fizeram o favor de perturbar o nosso somno,
roubando aos espectros d'este palacio o segredo das vises theatraes?

--Nada mais justo! retorquiu o amante de Leonor. Precisavamos da casa
para ns, e no queriamos ser vistos, nem seguidos...

--E ento, como o sr. Aubry muito bem disse, occorreu-nos roubar aos
espectros o segredo d'esta porta. Vinhamos...

--Prender os dois officiaes que julgavam adormecidos, na boa f da
hospitalidade portugueza?!...

--Hospitalidade forada!  verdade, vinhamos, deplorando que a guerra
nos coagisse a incommodar duas pessoas, que tanto careciam de repouso.
Felizmente d'esse remorso estamos absolvidos. No interrompemos o somno
de viajantes cansados; encontrmos a vigilancia de militares affeitos a
todos os rebates dos campos...

--Mil vezes obrigado por tanta benevolencia! replicou Aubry, pagando
ironia com ironia n'este duello cortez, que espantava o morgado e o
capito-mr, mais propensos aos argumentos de ferro e pau, do que aos
tiros dos epigrammas.

--E agora? interrogou Aubry, cuja alegria se apagou, convertida
subitamente a expresso risonha em aspecto quasi severo.

--Agora?! redarguiu Manuel Coutinho, levantando-se com os seus amigos, e
cortejando-o em ar resoluto. Agora, como no podemos espaar mais a
partida, e decidimos vencer todos os obstaculos, offerecemos ao sr.
d'Aubry e ao sr. Lassagne as nossas desculpas pelo incommado, que lhes
causmos, pedimos-lhes que no nos disputem a passagem, e como seria
mais do que imprudencia deixar na rectaguarda inimigos to valentes 
testa de uma fora, vemo-nos constrangidos a rogar-lhes, que nos
entreguem as suas espadas...

--Ah! atalhou o official com um sorriso amargo. No pede pouco. Pelo que
vejo chegmos...

--quellas explicaes mais vivas, accudiu o mancebo, de que nos falou
no principio da nossa conversao... Creia que sinceramente o sinto...

--Oh! No se afflija, por quem ! Estamos mais longe d'isso, do que
cuida. Pois, na realidade suppoz, que dois officiaes armados e
apercebidos haviam de ceder deante de tres homens?...

--Somos dez e quas todos militares. No ha deshonra. Veja!

De feito os outros conspiradores attrahidos pela demora acabavam de
apparecer  porta secreta, e, entrando, rodearam em um instante os dois
francezes, socegados e pacificos, como se tudo fosse pura fico
theatral.

--Agora ns!... Oua! observou d'Aubry. Lassagne no so os passos do
sargento Roberto? Abri a porta!

D'ahi a um momento assomava  entrada o vulto colossal e herculeo do
novo protogonista, o qual parou aprumado e hirto, com a mo na palla da
barretina, e o rosto invadido quasi todo por bigodes e suissas enormes,
aguardando de p, respeitosamente, que o interrogassem. Os conspiradores
eram todos olhos e ouvidos.

--Quantos prezos Roberto? perguntou o official.

--Doze! Meu capito!

--Armados?

--At aos dentes.

--O meio esquadro?

--Parte crca o palacio, parte est na ponte e  bcca da estrada do
Cartaxo.

--Houve resistencia?

--Dois tiros, mas no feriram ninguem.

--Aonde est o lavrador d'esta casa?

--Fugiu pelas vinhas com outro paizano.

--Que ordens dstes aos drages?

--As vossas. Fogo sobre quem tentasse fugir pelas janellas, ou pelas
portas. Quartel a quem se rendesse.

--Bem! Desembainhae a espada. Vigilancia! Prompto  primeira voz! Meus
senhores ouviram? accrescentou, virando-se para os cavalheiros
portuguezes, e cruzando os braos.

--Tudo! respondeu o coronel de milicias Isidoro Pinto Gomes,
adeantando-se, e fitando no mancebo os olhos placidos e firmes.

--E o que fazem?

--O mesmo que o senhor official de certo contava fazer... Passmos!
retorquiu o coronel sem elevar a voz, e to manso de gesto e de
physionomia, como se estivesse tractando de cousas indifferentes.

--Por entre as balas e as espadas dos meus drages?!...

--Tanto vale aqui, como mais adeante! replicou intrepidamente Manuel
Coutinho. Principimos vinte e quatro horas mais cedo.

--Muito bem! Mas de que serve verterem tantas pessoas illustres o sangue
debalde? A honra fica salva, e o sacrificio...

-- inutil, ia dizer? Perde-me a interrupo, sr. d'Aubry! A honra do
soldado talvez ficasse salva perante o numero, porm a de portuguezes,
que juraram pelejar pela patria, de certo no! Viemos aqui para morrer
por ella!... Se tivessemos por ns a fora usavamos d'ella sem
escrupulo... Faa o mesmo. A fortuna traiu-nos aos primeiros passos. Que
importa? Estas armas empunhadas para sermos livres no ho de ser-nos
arrancadas seno com a vida...

-- a sua ultima resoluo?

--!

--E a de todos ns! ajuntou o coronel, apertando a mo do mancebo,
animado assim como o morgado, o capito-mr, e os outros portuguezes
pela eminencia do perigo.

--Muito a meu pezar sou obrigado a oppr-me. Lassagne! Roberto! Firmes!
nem um passo, senhores! exclamou. Queiram atirar primeiro! Damos-lhe o
partido que nossos avs deram aos inglezes em Fontenoy!...

--Talvez houvesse meio de evitar!... murmurou ao ouvido do coronel a voz
tremula de fr. Joo, cujo rosto apopletico convertra de repente em
pallidez suspeita as assanhadas cres.

--Nenhuma! respondeu scco e irado Isidoro Pinto. Se tem medo retire-se,
entregue-se, faa o que quizer, mas deixe-nos! Vamos! Abram-nos caminho,
senhores francezes! Esta  a nossa terra, e havemos de passar, ou acabar
n'ella!

E o velho official, venerando pelos cabellos brancos e pelo ardor nobre,
que lhe restituia os brios juvenis, com a espada na direita, e uma
pistola engatilhada na esquerda, seguido dos companheiros, avanou
contra Lassagne e Roberto, em quanto Manuel Coutinho por calculo, ou por
acaso, se achava deante do capito d'Aubry. O conflicto parecia
inevitavel.

--Logar! bradou o mancebo portuguez com um gesto de ameaa.

As pupillas do official francez despediram dois relampagos; o seu rosto
tomou terrivel aspecto. Foi s por um instante. Inclinando a espada, e
reprimindo a colera, disse ao adversario pasmado da mudana:

--Agradea a Deus! A lembrana de um anjo suspende-me o brao! Alto!
accrescentou em voz sonora e cheia. Um momento! Senhor Manuel Coutinho
sabe quem eu sou?

-- o sobrinho do intendente Lagarde, do homem que...

--No diga mais. Sei que est offendido e que tem razo de o estar.
Mas!... A roupa suja lava-se em familia.  o noivo de D. Leonor? Aquelle
a quem ella prometteu e jurou amar?...

--Sou, porque?...

--Porque fui sem o saber causa innocente de suas lagrimas. Sinto
encontral-o aqui. Podia, se fosse vil, prevalecer-me do acaso. Quero que
me fique conhecendo. Quero mostrar-lhe que sou digno do honrado nome de
meu pae. Se o deixar sar para onde vai?

--Para o exercito de sir Arthur Wellesley.  l o meu posto. Replicou
Manuel sem hesitar.

--Adivinhava a resposta. Pode ir! L nos encontraremos como inimigos,
mas como inimigos que se estimam.

--E os meus companheiros? perguntou o mancebo pasmado de tanta
generosidade.

--Os seus companheiros?! Bem!  justo! Que se recolham com os espectros,
e que esperem. Deixem-me partir a mim e aos meus drages. Lassagne e
Roberto so discretos e fieis. Se for preciso diro que no viram nada.

--A sua mo sr. d'Aubry!? insistiu Manuel Coutinho commovido e com os
olhos humidos. Quero apertal-a cheio de admirao pela grande alma, que
se nos acaba de revelar. Em todas as occasies, succeda o que succeder,
lembre-se de que tem um amigo, um irmo em mim!

--Menos no campo de batalha? accudiu o official sorrindo.

--L mesmo! Se as armas lhe forem contrarias....

--Obrigado, mas!... E quem sabe?! A fortuna pde cansar-se um dia. Uma
pergunta. Paulo de Azevedo!?...

--Continua preso e vae ser julgado.

--Meu tio enganou-me ento?  o mesmo! Ainda estamos a tempo. Hei de
cumprir a minha promessa. Sr. Manuel Coutinho, se no tornarmos a
ver-nos, diga aos seus amigos, diga a D. Leonor... que fiz o meu dever.
Agora adeus. Os seus amigos que se retirem j! A scena dos espectros,
ajuntou volvendo ao gracejo proprio da indole jovial, ia-se tornando
tragica. D'aqui a duas horas parto. Siga depois a sua sorte, e no se
ria muito de mim, quando se recordar dos lances d'esta noite. A
proposito, aquelle reverendo que vejo tremulo entre os seus,  o
capello da guerrilha? Parece-me pouco bellicoso!

E voltando-se para Lassagne e para o sargento, immoveis assim como os
conspiradores, em quanto durra a conversao com Manuel Coutinho,
d'Aubry disse-lhes com o seu ar de riso habitual:

--Meus amigos, estes senhores, que por muito enroupados no vero
tomavamos por homens friorentos, so na realidade espectros, e vo
desapparecer. J lhes agradeci o favor da visita, e depois da
explicao, que acabo de ter, creio que se convenceram de que era
perigoso passeiar fra de horas por este mundo. Lassagne! Logo vos
explicarei o enigma. Roberto! Mandai soltar os presos da granja.
Partimos dentro de duas horas. Senhores fantasmas! A sua visita
causou-me o maior prazer, mas espero que seja a ultima. Muito boas
noites! Queiram dar recados da minha parte s almas de meus parentes,
que encontrarem no purgatorio!

Um momento depois Lassagne e d'Aubry achavam-se outra vez inteiramente
ss nos quartos, o tenente abraava o seu companheiro d'armas pelo nobre
rasgo, que ennobrecia mais o seu caracter, do que uma victoria. A
magnanimidade  a mais alta e a mais sublime das virtudes do guerreiro.




VII

Primeiros clares de um grande dia


A Gran-Bretanha entrou por fim em campo. Sir Arthur Wellesley, cujo
nome, conhecido ento apenas pelas campanhas da India, em breve os
revezes de Napoleo haviam de tornar famoso, avanava das praias do
Figueira, pela estrada de Coimbra e de Pombal, com treze mil infantes,
duzentos cavallos, e dezoito canhes. As foras nacionaes, organizadas,
s ordens do general Bernardim Freire, no excediam de seis mil
bayonetas e de seiscentos homens de cavallaria. Nos dias 10 e 11 de
agosto os alliados occuparam Leiria, e no dia 12 descansavam em Pombal
as tropas portuguezas.

Mas se os nossos e os inglezes eram ainda poucos, atraz d'elles vinha a
nao inteira.

Os casaes e aldeias despovoavam-se; os povos accudiam  beira das
estradas, saudando com suas acclamaes os libertadores. A capital,
ainda sujeita ao jugo, tremia de raiva entre as armas que lhe tolhiam
resgatar-se. As proclamaes de Wellesley e de Cotton, apezar da
severidade vigilante de Lagarde, zombavam da policia, penetravam em
todas as casas, e lidas com avidez e enthusiasmo inflammavam o
patriotismo. Os olhos voltavam-se sofregos para o Tejo, esperando de um
momento para outro ver ondear o estandarte britannico nos topes dos
mastros. Os ouvidos credulos transformavam a cada instante o mais leve
rumor longiquo nas sonhadas descargas, que haviam de annunciar a
catastrophe  usurpao. A victoria do marechal Bessires em Rio Scco
pouco avivra o prestigio offuscado pela derrota e capitulao de Dupont
em Andujar. O rei Joseph, como j dissmos, apenas entrado com a sua
crte em Madrid logo se vira constrangido a retroceder at as margens do
Ebro.

A posio de Junot no podia ser mais precaria nem arriscada. Os seus
vinte mil soldados, repartidos pelos presidios e hospitaes, entre o paiz
irado, que no lhes concedia quartel, e que os assaltava de todas as
partes, entre os treze mil inglezes, que seguidos de perto por outros
vinte mil de sir John Moore e de sir Hew Dalrymple, entre o bloqueio das
esquadras britannicas, no mar, e a aggresso violenta, em terra, do odio
armado de tres milhes de habitantes, achavam-se limitados  capital e
ao territorio, que pizavam, sentindo fugir tudo debaixo dos ps, sem
esperana de auxilio, sem caminho aberto  retirada.

O duque de Abrantes mostrou-se digno dos feitos heroicos, que
ennobreceram a sua carreira.

Adoptando as providencias, que o aperto aconselhava, e tomando Lisboa
por base de operaes, cuidou logo em concentrar o numero necessario
para arremessar as tropas britannicas vencidas e escarmentadas outra vez
s aguas.

No lhe sobrava outro recurso!

Havia de atravessar duzentas leguas por terrenos montanhosos, com alguns
rios caudaes a vadear, e populaes insurgidas a disputar-lhe o passo,
renovando a temeridade de Xenophonte e dos dez mil, ou tinha de sair ao
encontro dos inimigos, feril-os de espanto pela rapidez dos golpes, e
anniquilal-os, tornando-lhes funestas pela grandeza do desastre, as
praias que buscavam! Junot optou pelo ultimo arbitrio. A execuo,
porm, no correspondeu ao que exigiam imperiosamente as circumstancias.

Mandou sair o general Laborde para observar os inglezes, e atalhar o
progresso de sua marcha. Chamou de Almeida Loison, e determinou-lhe o
itinerario. Finalmente reuniu e organizou na capital todas as reservas,
disposto a confiar a sorte da invaso ao atrevido lance de uma batalha.
Accusam-n'o entretanto de no ter sabido attrahir a victoria.

Laborde partiu a 6 de agosto  frente do regimento 70.^o, de dois
esquadres do 27.^o de caadores a cavallo, e de cinco peas. Thomires,
que defendia Obidos e Peniche com o 2.^o ligeiro, e um batalho do 4.^o
de suissos, havia de unir-se-lhe em Alcobaa no dia 11. N'esse mesmo dia
chegava Loison a Thomar, contando-se que a 14 ou a 15, o mais tardar, se
acharia em Alcoentre para coadjuvar seus companheiros de armas.[1]

Laborde era official distincto pela intrepidez e aptido. Avisado de que
as tropas britannicas e portuguezas estavam em Leiria, a poucas horas
smente das suas, retirou a 14 sobre a Rolia, legua e meia atraz,
reforando a guarnio de Peniche com o 4.^o batalho de suissos,
postando em um moinho sobre a esquerda do Arnoia outro batalho, e
estendendo at ao Cadaval e Bombarral tres companhias do 62.^o para
darem as mos a Loison, o qual no devia demorar-se.

Sabendo os francezes do outro lado da Serra de Minde, conservou-se o
exercito do general Bernardim Freire em Leiria apezar das instancias de
sir Arthur. Este, no recebendo dos nossos mais do que o auxilio de mil
e quatrocentas bayonetas e duzentos e sessenta cavallos, proseguiu
apezar d'isso o movimento offensivo. No dia 14 aquartelou-se em
Alcobaa, e no dia 15 dormiu nas Caldas. Um combate entre as suas
avanadas e o batalho francez postado junto do moinho sobre o Arnoia,
advertiu-o da proximidade dos soldados de Napoleo. Fiel ao seu caracter
circumspecto, deteve-se at ao dia 16, talvez indeciso por falta de
informaes.

Da Rolia s Caldas medem-se tres leguas de distancia. As duas povoaes
campeiam nos extremos, norte e sul da vasta bacia, rasgada ao oeste, no
meio da qual se ergue a villa de Obidos, notavel pelo aqueducto e pelo
castello mourisco. A estrada de Lisboa cortava uma planicie arenosa at
 Rolia, aonde um ramal de collinas se destaca da serra principal,
correndo limitado por um ribeiro at  Columbeira. Ao primeiro volver de
olhos dir-se-hia que findavam alli todas as communicaes. A estrada
perdida em um desfiladeiro sinuoso e estreito quasi que desapparecia da
vista, no principiando a alargar-se, seno passada a Azambujeira dos
Carros. Laborde occupava a planicie desde a Rolia at poucos metros
adeante da Columbeira.

No dia 17 de agosto, s nove horas da manh, um tiroteio nos postos da
direita deu o primeiro rebate da visinhana dos inglezes. Eram elles, de
feito, marchando em numero de perto de onze mil, com a disciplina e
serenidade que lhes grangeou os louros depois festejados em toda a
guerra da Peninsula.

As tropas de Laborde, na maior parte recrutas quasi imberbes, nunca
tinham entrado em fogo. A vista marcial d'aquelle exercito, que avanava
silencioso, detendo-se a espaos para reformar as filas rotas pelos
obstaculos do terreno, e continuando depois, firme e ordenado, como se
houvesse de figurar em uma parada, por fora havia de commover e
sobresaltar soldados bisonhos, que apenas contavam dois mil e quinhentos
homens, comprehendidas as tres companhias destacadas sobre a direita.

Laborde no esmoreceu. A planicie, attendida a desegualdade de foras,
no podia defender-se. Cedendo  necessidade mandou ento guarnecer as
fortes posies situadas nas costas da Columbeira pelo regimento 70.^o,
em quanto  testa do 2.^o ligeiro da artilheria, e da cavallaria, cobria
a entrada do desfiladeiro, transportando assim o theatro da lucta com
mais favoraveis condies.

Executou-se a evoluo com celeridade e na melhor ordem. As novas
posies dos francezes, quasi inaccessiveis, offereciam aos inimigos
cinco barrancos em rampas asperas, afogadas em murtas, sargaos e
arbustos alpestres. Wellesley, da sua parte, tambem no hesitou,
mandando atacal-a formando em cinco columnas. O combate feriu-se e durou
quatro horas. O valor das duas naes, travadas afinal corpo a corpo no
continente, ostentou n'elle todos os brios. Trepando as encostas debaixo
de uma chuva de balas deixando em cada passo vestigios do sangue
vertido, e semeando de cadaveres o terreno conquistado, os inglezes
chegaram a coroar uma vez de seus estandartes a crista das alturas; mas
a furia guerreira dos legionarios de Bonaparte, avivada pelo exemplo dos
chefes, depressa transformou para os soldados de Wellington o meio
triumpho em desastroso revez. Precipitados nas pontas das bayonetas pelo
impeto irresistivel dos contrarios, atropellados uns sobre os outros na
descida, ou antes na queda, os alliados despenharam-se, como torrente
que maior torrente impelle, at  planicie, espiando os jubilos
momentaneos e o ardor temerario.

Assim mesmo o leopardo britannico, recuando, levou nas garras provas
palpaveis das perdas irreparaveis dos adversarios. Mais de quinhentos
francezes, prostrados no campo, mortos ou feridos, attestavam qual fra
de parte a parte a braveza do encontro. Ao mesmo tempo a vista
penetrante de Laborde, seguindo a marcha das duas columnas, que sir
Arthur tinha enviado desde o comeo da aco para lhe tornear as
posies divisou a do major-general Fergusson j proxima da Azambujeira.
Fra loucura insistir mais. A retirada principiou.

 testa dos melhores soldados, Laborde repellia os inglezes, detendo-os
por meio de descargas  queima roupa, soltando sobre elles o galope
fogoso dos caadores a cavallo, ou arrancando nos gumes dos ferros de
seus recrutas, tornados veteranos, os atiradores britannicos, a cada
instante dispersos, e quasi acossados at debaixo do fogo das grandes
massas, que os protegiam. O terrivel estampido e os pelouros dos dezoito
canhes de Wellesley no calaram seno tarde o fogo das cinco peas do
general francez. Nem um instante o passo firme e seguro de seus
batalhes se accelerou deante do perigo a cada instante mais terrivel.
Fazendo alto para reunir as tres companhias destacadas sobre a direita
s entrou em Runa depois de as unir a si, conservando at ao fim a mais
inabalavel firmeza.

Foi um nobre e formoso espectaculo este prologo curto, mas heroico, da
guerreira epopeia, cujas paginas a gloria havia de inscrever nos muros
voados e nos campos assolados de Portugal e da Hespanha. Armand d'Aubry,
sempre ao lado de Laborde, de Brenier, ou de Arnaux, assimilhava-se
quelles semi-deuses de Homero, que petrificavam legies inteiras pelo
terror do seu brao. Voando na frente dos mais ousados por entre os
clares das bccas de bronze a vomitarem ondas de metralha, envolto em
fumo, e cuspindo de si invulneravel os pelouros dos fuzis, como o leo
africano cospe as frechas encrespando a juba, o mancebo,
multiplicando-se, apparecia em toda a parte, e em toda a parte a sua
presena, similhante ao furaco das batalhas, rasgava largas brechas nas
fileiras contrarias.

Mil vezes a morte, desafiada em poucas horas, no se atreveu a tocal-o;
e contemplando o sorriso, que lhe brincava nos labios, quando a um grito
d'elle o esquadro levantava comsigo tempestades de ferro e de fogo,
dir-se-hia, que, para este homem, verdadeiro centauro, as rapidas e
pungentes commoes, e a brava alegria das pelejas eram um prazer, uma
sensao deliciosa, um enlevo!

Manuel Coutinho, que as ordens de Wellesley prendiam junto do
estado-maior, admirando de longe a valentia radiosa do moo official,
invejou-lhe em mais de um rasgo a galhardia, tremendo ter de lhe chorar
a queda.

Quando a noite, descendo, envolveu em seus veus a agitada scena, em que
gemiam tantas dores, e em que tantas victimas agonizavam, o amante de
Leonor ainda por entre as sombras avistou na ultima carga o sobrinho de
Lagarde, rodeado do relampaguear de cem fuzis, arremessando contra elles
o peito do cavallo. Como se a fadiga de um dia inteiro fosse repouso
para elle, invencivel nos ares, d'Aubry assignalava o cruento caminho
da retirada com o afuzilar tremulo da espada por entre clamores dos que
o fogoso corsel calcava aos ps!

As aguias feridas principiaram alli a encolher as azas e os vos. O sol
ardente da Peninsula, cegando-as, precipitou-as palpitantes dos ninhos
sobre as rochas vivas da terra, que suppunham escravizar para sempre!

Em quanto a guerra erguia na Rolia o primeiro padro de uma lucta, que
havia de ensanguentar por annos as Hespanhas, Junot procurava realar
com as pompas officiaes os derradeiros dias do seu dominio.

O anniversario de Napoleo foi solemnizado pomposamente, e os cortezos
da fortuna, um pouco desmaiados com as noticias do desembarque dos
inglezes e da sublevao das provincias, ainda ouviram da bcca do
general em chefe promessas e illuses de conforto, que, se no os
tranquillizaram, lhes minoraram ao menos as apprehenses. Herman engulia
o sorriso, parecendo despedir-se com os olhos da bella capital, pela
qual j ia quasi esquecendo a patria. Luyt, preoccupado, expedia ordens,
meneando a cabea com tristeza. Finalmente, Lagarde, sombrio e
taciturno, recolhia-se como Pythagoras atraz da cortina mysteriosa do
seu antro, e, prevendo a catastrophe, arrependia-se de no deixar aos
portuguezes ainda mais pesadas memorias da sua administrao. Assim
mesmo o pao de Queluz lembra-se bastante d'elle!

O duque de Abrantes partiu para o exercito, depois de concertar com o
general Thibault, seu chefe de estado maior, as ultimas disposies da
breve campanha, que iam encetar. O rosto de Junot disfarava mal o
receio de que a sua ausencia apressasse a exploso dos sentimentos mal
comprimidos da capital. Desguarnecida a cidade, podiam as naus
britannicas forar a barra, e os habitantes vingar em uma hora a averso
e offensas de muitos mezes. Aos cuidados do governo juntavam-se no animo
do general em chefe outras magoas, talvez mais pungentes. Os formosos
olhos, que lhe sorriam no meio do esplendor, ser-lhe-iam fieis na
adversidade, ou bastaria um revez para lhe roubar com os prestigios do
poder coraes, que tinham jurado amal-o sempre at  morte?!...

Mas a voz do dever chamava-o; foi obrigado a obedecer. A 15 de agosto, 
noite, marchou  testa do regimento de granadeiros, de um batalho do
82.^o, do 3.^o provisorio de drages, e de uma bateria de dez peas.
Parou em Villa Franca, e a 17 seguiu vagaroso na direco do Cercal,
quatro leguas distante da Rolia, aonde o despertou o echo amortecido do
canho disparado no primeiro campo da batalha d'esta guerra.

Deixemol-o rodear-se de exploradores, e estimular com suas ordens cheias
de instancias a marcha de Loison e de Thibault, para no arriscar a
lucta seno com todas as foras reunidas contra sir Arthur Wellesley.
Transportemo-nos no emtanto e sem demora do Cercal e Torres Vedras ao
palacio do Rocio, e entremos na sala do conselho, aonde deliberam os
membros do governo. O que ento se passava alli no era menos curioso e
importante, do que o que occorria debaixo da barraca do quartel general
nas vesperas da aco decisiva, que se planeava.

Em ambos os theatros o dedo da Providencia escrevia em lettras de fogo a
sublime palavra de Deus, suprema consolao dos que padecem, terror
infinito dos oppressores!




VIII

Ralham as comadres descobrem-se as verdades


Voltemos  mesma sala, onde assistimos ha dias nos paos da Inquisio
ao conselho de governo, presidido pelo duque de Abrantes. As figuras,
que vamos encontrar, so ainda as mesmas. S falta o general em chefe j
a caminho para se collocar  testa do exercito.

 direita da sua cadeira vazia, senta-se o conde da Ega, nomeado
conselheiro do governo, e encarregado da pasta da justia por decreto de
1 de julho, em virtude da demisso do Principal Castro.  esquerda, mas
de p, e com indicios evidentes de summa agitao, est Lagarde, no s
pallido, mas verde de bilis concentrada, todo convulso, e amarrotando
com grande ira um papel entre as mos. Francisco Antonio Herman, sempre
apurado no trajo e primoroso nas joias e galas pessoaes, corre pela
vista, quasi sem a ler, uma folha coberta de algarismos, resumo pouco
agradavel do ultimo balano do erario. Luyt, com a barba quasi em cima
da mesa, e os oculos assestados, faz voar a penna em linhas miudas,
enchendo varios diplomas e interrompendo-se com frequencia para menear a
cabea em ar de hesitao, ou para espreitar por baixo dos oculos a
posio e os modos das pessoas, que o rodeiam.

Dois personagens mais completam o quadro. O primeiro  o capito
Magendie, de grande uniforme, passeando silencioso, e medindo o aposento
em largas passadas de um a outro extremo. O segundo, que apresentmos ao
leitor pela primeira vez, chama-se mr. Juffr, merece a reputao de
estelionario, que o flagella, passa com razo pela harpia mais vida de
todo o bando de abutres, que espicaam o corpo quasi moribundo de
Portugal, e honra-se e faz vida essencialmente de ser cunhado de um
general.

No momento, em que entrmos, a discusso, acalorada, tinha-se
interrompido de salto com a chegada de Lagarde, o qual rebentra do
antro da policia grvido de cuidados, de apprehenses, e de pessimas
noticias. Apenas acabou de balbuciar o prologo da elegia dos infortunios
consummados e das desgraas imminentes, alguns dos ministros, como
petrificados, sumiram-se nas cadeiras, pozeram a vista no cho, ou
cairam n'aquellas sombrias meditaes cerca da fatalidade, de que o
vulto dramatico de Hamlet  a personificao sublime.

O menos sensivel na apparencia aos revezes e receios era Herman. O
sorriso,  verdade, tornou-se-lhe contrafeito, as faces desmaiaram um
pouco, e o brilho das pupillas esmoreceu visivelmente; porm nenhum
outro symptoma accusou n'elle enleio, ou perplexidade. Magendie,
official intrepido, mas pouco affeito a dissimulaes diplomaticas,
tinha exhalado a primeira exploso de colera, descarregando uma punhada
furiosa sobre o bofete, e ornando o gesto violento de uma rajada de
pragas maritimas de sabor alcatroado excessivamente forte para o paladar
e delicadeza nervosa do auditorio. Partiu depois direito  parede de
fundo da casa, encetando o passeio peripatetico, annotado de murmurios
surdos, em que viemos colhel-o.

O ministro da guerra e da marinha, o incomparavel Luyt, vivia em um
resfriamento perenne, e era quasi impossivel concluir cousa alguma da
expresso apathica e insignificante, por calculo, do seu rosto immovel e
descorado. Escrevia, olhava, tornava a escrever, sacudia o arieiro, e
sobretudo no perdia palavra, nem movimento dos collegas. Dir-se-hia um
automato funccionando em quanto lhe durava a corda. Quem no queria, nem
sabia enganar o observador menos perspicaz era de certo o conde da Ega.
O honrado fidalgo retratava no semblante, sem o menor disfarce, a
tragedia do partido, que tinha abraado. Ignormos se comera j para
elle o arrependimento, e se lamentava a docilidade, que o fizera mais
francez, do que alguns ministros de Napoleo; mas ousmos asseverar que
as faces jaspeadas de malhas lividas, o luto das feies contradas, e o
profundo desalento, que respirava a sua mudez glacial, exprimiam uma
grande agonia moral, e equivaliam a um bilhete de pesames aos
protectores, e a uma certido de obito passada  causa imperial na
Peninsula!

Finalmente mr. Juffr, especie de peo fidalgo da crte do duque de
Abrantes, verdadeira, mas rachitica estatua de Nabuco invertida, com
bases de prata, e cabea de barro, ora sobre um p, ora sobre o outro,
recuava, pulava, e adeantava-se em saltinhos de pulga industriosa, com o
chapeu na mo direita, a bengala na esquerda, e dois lenos ricamente
bordados e almiscarados a rebentarem pelos bolsos da casaca cr de
pinho.

Um risinho amarello, meio enfiado, tremia-lhe nos cantos dos labios,
delgados e sumidos, revelando indiscretamente, que aquella bcca voraz,
era rasgada, como a do tubaro de orelha a orelha. O nariz expansivo e
recurvo, como bico de ave da rapina, quasi que arremettia com os beios,
invadindo-os; e os dentes finos, juntos, e agudos, assimilhavam-se a
duas serras parallelas.

Ano de estatura, enfeitado como uma imagem, recendente a aromas como um
pivete, dir-se-hia a alma do Judeu de Veneza no estojo dourado de um
pintalegrete de quarenta annos! As luvas estalavam-lhe nas mos, os
cales modelavam o algodo que chumaava as coxas, e a meia de seda
exgotava os poderes da elasticidade para no trahir, abrindo-se, o
segredo da perna artificial d'este Nemorino em edio correcta.

A testa immensa e esguia, como que escorregava para a nuca, acabando
aonde principiava o chin, que, forcejando por ser louro, sahira,
comtudo, quasi alaranjado, arqueando as sanefas graciosas do mais
vistoso topete. Os olhos azues, da tinta das ms porcelanas japonezas,
volviam-se cheios de vivacidade, armando ciladas quasi constantes 
formosura, ou  riqueza, duas conquistas em que seu dono os empregava
com summo gosto. N'este momento, um vu de inquieta tristeza assombrava
a sympathica physionomia de mr. Juffr. A vista penetrante e obliqua do
homunculo estava de sentinella  leitura, de que o ministro Herman se
distraa a miudo, e inculcava ao mesmo tempo a desconfiana, e a cubia
luctando com o medo e a avareza.

--Emfim! exclamou por fim Herman, sorvendo com pausa uma pitada. At que
temos os inglezes  porta!...

--Diga dentro de casa, e quasi senhores d'ella, que diz a verdade!
redarguiu Lagarde meio suffocado. Ouam o resto. Ainda no li tudo.
Vejam como Wellesley e Cotton rematam a proclamao: O nobre esforo
contra a tyrannia e usurpao da Frana ser sustentado pelas foras
unidas de Portugal, Hespanha e Inglaterra; e para o exito feliz de causa
to justa e gloriosa os designios de sua magestade britannica so eguaes
aos que nos animam... Ah! proseguiu animando-se, os traidores sabem que
nos achmos sobre um barril de polvora, e lanam fogo ao rastilho,
calculando pelo relogio a hora de nos fazerem voar!...

--Mas a policia apanhou de certo os agentes, e arrancou as proclamaes?
accudiu Luyt sem levantar a cabea, nem a penna do papel, e com a
accentuao fria e nasal, que lhe era propria.

--A policia, senhor Luyt, atalhou o intendente colerico, fulminando o
ministro com a vista accesa em chammas, a policia no possue o dom de
ubiquidade, nem os cem braos de Briareu... Esta madrugada todas as
esquinas amanheceram forradas de pasquins e de impressos incendiarios.
Arrancaram-se muitos. Pois bem!  tarde j l estavam outros!...

--Se no serve ao menos para isso, de que vale ento a policia? repetiu
o fleugmatico ministro da marinha, continuando a escrever.

--De que serve?!... Serviu, bradou Lagarde enfurecido, para no cairmos
umas poucas de vezes nos laos dos conspiradores! Inaudita pergunta! De
que serve a policia! De accordar os que dormem, de velar pela ordem, de
conter e reprimir os maus sentimentos de uma populao que nos detesta.
Achais pequeno milagre conservarmos ainda Lisboa, quando o reino todo se
levanta e os inglezes marcham contra ns?!... De que serve a policia?! 
boa! Serve para isto!...

Ao mesmo passo mr. Juffr, vendo Herman pousa a folha coberta de
algarismos, interpellava-o em tom meio submisso, meio agastado.

--Ento?! O que diz?...

-- exacto. Esto escripturados e dados em entrada por emprestimo, a
trinta dias, vencendo juro de 15 por cento os seus cento e trinta
contos...

--Bem! Agora a ordem para os receber do erario?...

-- inutil.

--Inutil! Porque?! interrogou o argentario sobresalto.

--Porque no erario no ha real. Todo o dinheiro, que existia, levou-o o
duque na caixa militar...

--Ah! Malditos inglezes! Mas! E o penhor? A prata da egreja de S. Roque,
que est na Moeda, e que s. ex.^a o general meu cunhado me affianou?...

--Por ordem do duque restituiu-se outra vez  egreja. Pde ir l
buscal-a... se lh'a derem.

--Mas n'esse caso estou roubado, despido, e n! Ca nas garras de uma
quadrilha de salteadores! berrou o uzurario, ao qual as palavras mansas
do ministro quasi arrancavam a alam aos pedaos com tenazes em braza.

--Modere-se sr. Juffr. Veja aonde est e a quem fala...

--Falo ao salteador que me espoliou! O sr. Herman rouba-me e
escarnece-me.

--Engana-se. Est fazendo a satyra do duque de Abrantes. So d'elle as
ordens de que se queixa. Eu obedeci.

--Pois ento clamo e juro, que s. ex.^a o duque  to bom, ou peior do
que o sr. Herman.

--Olhe, atalhou o ministro, muito sereno, monte a cavallo e v
dizer-lh'o a elle. Fica alm d'isso mais perto dos seus cento e trinta
contos de ris. O que no lhe prometto, se o duque lhe ouvir metade das
palavras, com que me est regalando a mim,  que no lhe pague capital e
juros com um chicote na cara s vergalhadas...

--Que insolencia! Ousa dizer-me?! exclamou Juffr fulo e convulso.

--Um conselho! No torne a falar aqui em ladres. No acorde o co que
dorme. Observou Herman, olhando de revez para Lagarde, e apunhalando o
uzurario com o sorriso.

--Porque?  capaz de insinuar? atalhou o outro j em voz baixa.

Sou capaz de me lembrar, sim senhor, e muita gente commigo. Fazem-lhe
hoje trezentos contos, e quando veiu para aqui no trazia treze francos.
Quem o ignora? Cuida que todos so esquecidos? O sr. Juffr e outros
similhantes foram a vergonha e o opprobrio do nosso governo. Deus queira
que no sejam tambem os instrumentos da sua ruina. Adeus! O conselho tem
cousas srias de que tractar, e a mesa dos publicanos  l fra. V!

--Miseravel! Salteador! gritou o homunculo roxo de ira, cerrando os
punhos, e crescendo contra o ministro, cuja frieza motejadora o
exasperava.

Mas a raiva converteu-se-lhe logo em susto, quando sentiu a larga e
pesada mo de Magendie a ferral-o pela gola e pelo fundo dos cales,
leval-o pelos ares at  porta, abril-a com o p, e despedil-o como um
fardo, accrescentando no fim de todo este drama em aco:

--Desprezivel sanguesuga! Se aqui voltas protesto cortar-te e salgar-te
as orelhas, a unica cousa que no  postia em ti!

O argentario calado e tremulo ergueu-se moido, reparou  pressa os
ultrajes das roupas amarrotadas, e desceu as escadas rabiando como
buscap acceso em arraial.

Depois d'esta proeza, pouco heroica pela qualidade da victima, o capito
Magendie approximouse da meza, e fitando Lagarde, disse-lhe com a
conciso militar, que lhe era usual:

--Quem espalhou as proclamaes?...

--No se sabe. Ha indicios... replicou Lagarde assumindo o seu ar
mysterioso.

--Quem as trouxe de bordo da nau ingleza? insistiu o official,
continuando o interrogatorio.

--Ignora-se ainda, mas suppe-se! respondeu o intendente um pouco
turvado.

--Quaes so os agentes dos sublevados do norte em Lisboa?...

--Tracta-se de os descobrir, porm!...

--No sabeis nada ento?

-- verdade. Nada certo.

--Muito bem! Se no sabeis nada certo, se para vs tudo so trevas e
ignorancia, tinha razo mr. Luyt. De que serve a policia? De engulir
dinheiro e denuncias, e de fazer render os servios que no faz. No nos
quebreis, pois, mais os ouvidos com os vossos malsins surdos, cegos,
immundos, e famintos, e fazei-nos o obsequio de nos deixar discutir em
paz.

--Oh! exclamou Lagarde livido e convulso de ira. Tractas-me como se
fosse um verme. Sois acaso Napoleo o grande!? Cuidais que hei de
supportal-o? Sou magistrado independente, e no recebo ordens, nem
censuras seno dos superiores...

--De mais tendes recebido dos inferiores, mas peitas e dinheiro. At nas
enxovias e prostibulos se diz que bateis moeda! Olhai bem para mim! Toda
a minha riqueza consiste n'estas dragonas, em cem francos que trago no
bolso, e nos copos de prata da minha espada. No levarei de Portugal
seno mais alguma cicatriz, e um nome honrado. Se vos atreveis a
asseverar o mesmo, aqui est a minha mo, apertai-a, estou prompto a
pedir-vos mil desculpas. Se no ousais!... Sumi nas trevas com os vossos
morcegos toda a historia da policia de Lisboa, e no faleis de collo
alto aos que vos conhecem e se envergonham de vos tr por compatriota.

Lagarde espumava. Immovel de colera e espanto cada phrase do capito
feria-o no rosto e na consciencia como um aoute. A sua posio era to
falsa e dolorosa, que Herman compadecido quiz pr-lhe termo.

--Vamos, senhores, exclamou, deliberemos e no questionemos. Hoje os
minutos valem horas. Lagarde! Receiais algum tumulto na capital?

--No. Apezar de contar com pouca fora respondo sobre minha cabea pela
tranquillidade de Lisboa, se os inglezes no entrarem.

--E eu respondo sobre a f e honra de meus canhes, que os inglezes no
passam as torres! acudiu Magendie. As minhas proclamaes de polvora e
bala agradam-lhes menos ainda, do que as suas de papel nos lisongeam a
ns.

--Excellente! tornou o ministro do reino. Ento por esse lado podemos
estar descanados. Mas os inimigos,  provavel, que no queiram perder
de todo o lano, e ho de trabalhar. Do-me cuidado os inglezes to
proximos, e os odios vivos de toda esta gente.

O general partiu com o melhor das tropas. Novion avisa-me de que a
guarda da policia j desertou quasi toda. S hontem fugiram sessenta
soldados. Se acaso se levanta um tumulto repentino, e  facil, com que
havemos de contar?!...

Lagarde encolheu os hombros e calou-se. O conde da Ega estremeceu e
fez-se mais pallido. Luyt, com a penna suspensa, e os olhos parados
atraz dos vidros dos oculos, respondeu a meia voz:

--Com umas segundas vesperas sicilianas!...

--Em que todos seremos assassinados?! interrogou Herman affectando
serenidade, porm um pouco tremulo. Meus senhores, parece-me que o caso
merece ser examinado. Estou prompto a verter o sangue no campo,
pelejando como soldado, mas a ida de uma affrontosa morte, dos ultrages
e supplicios, de que nos ameaa a vingana de uma plebe de canibaes,
aterra-me, no o encubro. Confesso mais. Falta-me o valor para a encarar
com intrepidez! Lagarde, vamos! Reanimai-vos. Os homens so para as
occasies. Que imaginastes para conter e enfrear o populacho, que
murmura, e que o canho de Wellesley, ou de Cotton pde dispertar e
enfurecer?...

--O terror! O reinado do terror! S o medo pde salvar-nos! redarguiu o
intendente sombrio e fitando os collegas.

--O terror?! Renovar as scenas de 1793 em Lisboa? Levantar o patibulo em
permanencia?!...

--Sim! O estado de sitio em todo o seu rigor! No foi j decretado? O
verdugo e o cadafalso so a razo extrema da autoridade contra o povo.

--Mas as horrorosas execues de partidos inteiros, de classes adversas
quasi em massa, que nos propondes o que salvaram em Paris? J vos
esqueceu o famoso dia de thermidor?...

--No! Salvaram a Frana das armas dos alliados, cobriram as fronteiras
de recrutas, que luctaram como veteranos, assegurando o triumpho e
unidade da republica. Achais pouco? Reparais nas manchas de sangue?!...

--Dizei nas torrentes,  mais exacto...

--Sim! Mas esse sangue, embora jorrasse innocente muito, confirmou a
liberdade, e tornou a Frana grande, invencivel e temida. Robespierre,
Saint Just, e Carrier, os chefes e os proconsules succumbiram afinal, e
foram arrastados no rolo furioso da tempestade, desenfreada por elles? A
expiao do systema foi o mesmo patibulo aonde o tinham architectado?
Que importam tres, ou quatro cabeas mais no cesto da guilhotina, quando
tantos resultados abonam a logica inexoravel, que o dictou? Estamos
quasi ss no meio de uma nao insurgida e irritada, que a saudade da
independencia e de seus principes subleva, que a dor e a ira das
offensas exaspera!... Os inglezes bloqueiam-nos por mar, e
accommettem-nos por terra! A nossa sorte  vencermos, acabar aqui, ou
passarmos por cima de montes de ruinas e de cadaveres. No temos
quartel a dar, nem a receber! Na falta de foras seja o terror a nossa
espada! Na falta de todo o apoio seja o cadafalso a nossa fora!...

--Para que o sangue das victimas nos afogue? Para que o luto de um povo
assassinado macule de eterno opprobrio o lustre de nossas armas?!...
exclamou Hermam erguendo-se com impeto, severo, e indignado. No! mil
vezes no! Esse crime inutil, porque apressaria s a nossa queda, fra a
sentena de morte da honra franceza. A civilizao, que representmos,
esconderia o rosto de vergonha. O imperio teria de crar deante d'esse
anachronismo sanguinario. O anno de 1808 no  o anno de 1793. Podem
tental-o; mas eu no lanarei essa grande nodoa sobre mim e sobre a
patria. Os vencedores de Austerlitz por meu voto nunca ho de vestir a
opa vermelha do carrasco...

--Veremos como os guerrilhas e os sicarios do principe regente vos
agradecem! Quando virdes o punhal sobre o corao, ou o trabuco apontado
ao peito...

--Poder tremer no homem o que  fragil, por ser barro e limos,
redarguiu o ministro com um gesto de suprema elevao moral, mas a
consciencia, ao menos, no ha de accusar-me n'essa hora suprema! Alguns
mezes menos de vida no valem o sangue de milhares de innocentes, a
infamia do meu nome, o opprobrio da minha memoria.

--N'esse caso, accudiu Lagarde, lavo as mos de tudo, e no respondo...

--Respondo eu! interrompeu Magendie, que escutava o dialogo havia
minutos, e que de p e silencioso, mas cheio de impaciencia, a custo
reprimia a colera. Respondo eu! As taboas de proscripo no ho de
aviltar-nos. Somos soldados e temos armas. Se Lisboa se insurgir, os
canhes dos meus navios e os machados dos meus marinheiros chegam ainda
para varrer, como p levantado, as espumas da plebe enfurecida e
indisciplinada, sr. Lagarde! O reinado do terror, o arremedo das
carnificinas de 1793, no se ha de fazer em Lisboa, em quanto uma bala
me no varar o corao. Nunca o sangue dos patibulos, que eu saiba, que
eu consinta, salpicar as aguias, que beijmos como symbolo da honra...
Sei porque lhe occorreu exhumar do arsenal infamado dos dias mais
funestos da revoluo o cadafalso de Robespierre! Tem mais sede de ouro,
do que de sangue, a sua ida  mais de vingana, de cubia, do que de
medo! Se fossemos agora ao castello de Lisboa, talvez achassemos a
explicao do plano, que nos prope!...

--Sr. Magendie!  a terceira vez que hoje me affronta n'esta casa!
bradou o intendente enraivecido, mas pallido de susto deante dos
relampagos, que despediam os olhos do capito.

--Acha? Uma j devia ser de mais! Quer a reparao? Est a minha espada
s suas ordens...

--A sua espada?! Desafia-me?! A occasio podia ser mais opportuna.

--Creia que nunca lhe fiz a injuria de suppor, que podia encontrar um
homem no sr. Lagarde. Estava zombando quando falei na minha espada; 
arma que no conhece. Se fosse uma mordaa, e fossem algemas?!...

--Senhores! Senhores! Por quem so! accudiu o conde da Ega
interpondo-se.

--A minha paciencia, atalhou o intendente, limpando dos labios a escuma,
e empregando vos esforos para vencer a convulso nervosa, a minha
longanimidade no se altera com estas provocaes grosseiras proprias de
uma educao de tarimba...

--Agradecido pela clemencia, meu fidalgo! redarguiu Magendie,
inclinando-se ironicamente. Mas o plebeu, que se levantou da tarimba, e
poz estas dragonas prsa os brios como um ducado. Quereis saber porque
este homem de bem queria fazer de todos ns assassinos, e dos soldados
da Frana verdugos? Eu vol-o digo em duas palavras! Machinou casar a
filha de um cavalheiro rico de Mafra com Armand d'Aubry seu sobrinho. A
donzella resistiu, e o sr. Lagarde vingou-se accusando falsamente o pae,
sepultando-o em um carcere, e dando a escolher  filha a morte d'elle,
ou um resgate infame a troco da sua mo e dos seus bens! Encontrou duas
almas nobres; Aubry rejeitou o pacto; a filha no se quiz vender para
salvar a velhice de um militar, deshonrando-lhe os cabellos brancos... O
sr. Lagarde no se deu por vencido, e trabalhou para si. A esta hora
achar-se-ha um agente seu na priso do cavalheiro, que se chama Paulo de
Azevedo, e ha de j ter-lhe intimado a deciso final de pagar trinta
contos de ris at manh, ou de ouvir a sentena de um conselho de
guerra, e de aparar no peito as balas de um peloto na praa do
castello! Eis o verdadeiro motivo do santo zelo que o inflamma. O
reinado do terror sera para elle uma chuva de ouro, ou de sangue,
segundo a docilidade das victimas!...

--Calumnia! Infame calumnia! exclamou Lagarde branco e tremulo de
colera.

--A accusao  grave, sr. Magendie! observou Herman, que se poz em p
assim como os collegas, e que leu no rosto demudado do intendente,
apezar de todo o cynismo d'elle, vehementes indicios da culpa. Veja o
que acaba de asseverar! Allude a um magistrado, a um homem que mereceu a
confiana do imperador. Provar o que affirmou?

--Se houver alguem que ouse repetil-o deante de mim, interrompeu Lagarde
suffocado, consinto que me condemnem!

--Acceito! disse Magendie. Ouvir a confirmao da verdade, e de uma
bcca insuspeita. Aubry!...

A porta abriu-se, e Armand appareceu aos umbraes, pallido e resoluto.

--Meu tio, disse depois de saudar o conselho com uma cortezia, jurei-lhe
que seria punido se no remediasse o mal, e aqui estou para cumprir a
promessa. Na presena de Deus e dos homens, por alma de meus paes,
assevero e juro que o capito Magendie disse a verdade e s a verdade!
Agora, que deante de vs, e de todos os que me escutam prestei
testemunho  consciencia, curvae a cabea, e arrependei-vos, porque, por
vossa propria bcca estais condemnado!

O tom, em que Aubry falou, inculcava maior tristeza, do que ira. Lagarde
petrificado deixou pender a fronte e murmurou:

--Tambem tu, Armand!...

--Fiz o meu dever. Sois irmo de minha me, mas da herana de meu pae, o
que acima de tudo prso  a honra do nome, e essa, j vol-o tinha dito,
hei de sepultal-a commigo pura no campo da batalha, aonde posso car e
morrer hoje, ou manh! Meus senhores, adeus. Ped a Deus que exalte as
nossas armas!

Ditas estas palavras sau sereno e grave, deixando todos pasmados e
silenciosos.




IX

O pae e a filha


--Trinta contos!  um sacrificio grande, bem sei, mas a vida e a
liberdade valem mais. As provas esto em nossas mos. Se as abrirmos, o
conselho de guerra manh...

--Condemna-me  morte?!...

--Sem duvida nenhuma. O capito de mar e guerra Magendie, nomeado para o
presidir, passa por severo e intractavel. Os outros officiaes, sobre
tudo mr. Etienne, esto resentidos, e entendem que um exemplo 
indispensavel...

--Bem! E o capito Magendie e os outros officiaes sabem o que me prope?

--Deus nos accuda! Pois isto so segredos de chocalheiros?! O que lhe
estou dizendo ficar entre tres pessoas. O senhor Lagarde, o senhor
Paulo de Azevedo, e eu. Vamos! Decida-se. O tempo va. O conselho
reune-se manh s nove horas do dia, e esta noite ho de ser-lhe
presentes, ou negados os documentos.

--Uma palavra ainda! Leonor sabe?...

--Para que a haviamos de affligir? A sr.^a D. Leonor, como boa filha, ha
de achar tudo justo e rasoavel; mas se for preciso...

--Pois senhor... Quer dizer-me o seu nome?

--Simo... Simo basta.

--Pois, sr. Simo, a minha resposta  simples. No acceito. Estamos em
Portugal, e no nas roas do Brazil. Sou innocente, nunca tive medo da
morte, e no compro por nenhum preo esses curtos e attribulados dias,
que ainda posso viver. Diga isto a quem o mandou.

--Veja! Medite! Olhe que depois no tem remedio.

--Vejo a infamia, e no me admira. Tractam-nos como captivos, e
pedem-nos o resgate? O meu, ao menos, no ho de leval-o d'aqui. Antes
as balas dos inimigos da minha patria no peito, do que atirar um real s
mos immundas dos falsos magistrados, que vendem o sangue.

--Ha de arrepender-se.

-- commigo. No se incommode a convencer-me.

--Mas a sr.^a D. Leonor?!...

-- filha de soldado. Poupe-lhe a sua piedade. No gaste mais em vo um
tempo precioso; talvez ache em outra parte alguem mais docil. Lance a
derrama, colha na rde o que apanhar, mas, por Deus! livre-me da sua
presena e das suas propostas. Est-me fugindo a paciencia por
instantes!...

--A sr.^a D. Leonor vem ahi...

--Minha filha?!...

--Sim. Vem vl-o, e despedir-se talvez. Sabe o que o ameaa. Foi
avisada. Dou-lhe uma hora para a abraar e falarem. Pde revelar-lhe a
minha proposta. Aqui volto logo...

-- escusado. Tenho uma palavra s.

--No importa. Deixe! A firmeza inspira-me interesse. Gosto dos homens
da sua rijeza. Seria pena se!...

--Se eu me no quizesse comprar por trinta contos?...

-- verdade. O que so trinta contos para um cavalheiro rico?

--Nada! So smente uma infamia e uma covardia. O senhor Simo acha
natural, e no era de esperar outra coisa; eu unicamente sinto ter as
mos atadas, e no poder estampar a resposta nas faces do villo que me
suppoz capaz de tal deshonra. Queira sair!

--No tenha esse genio! No lhe levo a mal o desafogo. A gente quando se
entala doe-lhe e grita, mas depois vem a reflexo...

--Saia! No v que me faz horror e asco?

--Jesus! Que palavras! Eu saio, eu saio! No se escandea. Socegue! O
que lhe estou dizendo  para seu bem. At logo! Abrace sua filha,
lembre-se de que tudo tem remedio, menos a morte, e caia em si. Acha
cara por trinta contos a proteco que lhe offerecemos?!  a vida,  a
liberdade!...

Estas palavras foram j ditas de fra da porta chapeada da priso. Um
impeto de Paulo de Azevedo apressou a retirada do mellifluo procurador
das veniagas da policia. O agente, cujos modos e indole de certo
denunciou logo ao leitor o dialogo, que acabmos de escutar, seria homem
de cincoenta annos. Baixo, livido, e anafado, com uma cabelleira cravada
at  testa, uma pala verde deante dos olhos, e um tom aflautado e
mavioso, pertencia quella especie de algozes, que abraam a victima com
o riso nos labios, e que a dilaceram, consolando-a com phrases
dulcissimas.

Mas a physionomia abjecta e repugnante no podia enganar ninguem. A
providencia traduzira fielmente em suas feies ignobeis a perfidia e a
traio. Aguazil promovido por mil torpezas  jerarchia de espio em
chefe e de confidente de Lagarde, vociferava contra sua maldade at a
plebe dos malsins, seus humildes subditos. As lagrimas e os tractos eram
para elle um prazer suave; e armado de dentes at o umbigo, a sua avidez
insaciavel, mas inventiva, achra artes de devorar at a pobreza e a
miseria, tornando suas tributarias as enxovias, as gals, e a
prostituio.

Nunca Paulo d'Azevedo alcanra sobre si maior victoria, do que
reprimindo os accessos de colera, em que por vezes o sangue lhe subiu ao
rosto, e abstendo-se de corrigir, alli mesmo, e por sua mo, o emissario
descarado da venalidade do intendente geral da policia. A lucta
custou-lhe, porm, esforos, que depois lhe quebraram o animo. Leonor,
entrando, assustou-se de o ver sentado, ou antes prostrado, com o rosto
entre as mos, e a alma e o corao to trespassados, que de
desfallecimento quasi havia perdido todo o accordo. Para o despertar do
lethargo doloroso foi necessario, que a mo delicada e a voz affectuosa
da filha despertassem a ternura em seu peito quasi insensivel  fora de
oppresso.

--Meu pae! Meu querido pae! exclamou a donzella, cingindo-lhe os braos
ao collo, e beijando-o extremosa e arrebatada.

--s tu Leonor! Minha Leonor! Ai filha! Que saudades e que tristezas
desde que nos separmos!

--Ento! So trabalhos com que Deus quer provar a nossa resignao.
Louvemos a sua bondade e confiemos na sua justia.

--Nunca duvidei d'ellas. Submisso e conforme com a vontade do Altissimo
espero que Elle disponha de mim. J sabia que vinhas, que te davam
licena...

--Disse-lh'o aquelle homem de preto, que saiu, quando entrei?...

--Disse. E nunca os ferros me pesaram tanto como ha pouco. No imaginas
o que elle me propoz?!...

--Da parte de Lagarde? Adivinho! Um casamento para mim?!...

--Um casamento para ti?! bradou Paulo erguendo-se convulso. Pois o
infame atreveu-se a pedir a tua mo?...

--Tranquillize-se, meu pae, no era para elle. N'esse ponto ao menos
fez-me justia, accudiu a donzella sorrindo.

--Ento para quem?

--Para um sobrinho seu, Armand d'Aubry, militar, moo, e digno de estima
pelas qualidades.

--E tu? interrogou o pae, fitando-a.

--Respondi que no! redarguiu Leonor serenamente. Como a minha mo era o
pretexto de um resgate, e o que Lagarde cubiava eram os meus bens,
offereci-lhe os que herdei de minha me em troca da vossa liberdade.

--Fizeste mal! disse o cavalheiro severo, mas commovido. E o sobrinho,
esse Aubry, to vil como o tio, extendeu logo a mo, e acceitou o preo?
Vens pedir o meu consentimento?!

--O sobrinho, meu pae, alma grande e nobre, tudo, rejeitou a minha mo e
os meus bens, redarguiu a donzella.

--Ah! Tanta generosidade em um francez!... Espanta-me! Acaba!

--Tenho concluido. Aubry pediu-me perdo da vileza do tio, e jurou
proteger-nos...

--De graa? Duvido! Vers que no! insistiu Paulo, meneando a cabea com
ar incredulo. Representou um lance de theatro, talvez ensaiado em casa
para figurar de homem de brios, e a esta hora estar rindo-se com
Lagarde da tua simplicidade em o acreditar.

--No julgo, meu pae, que se ria de mim com Lagarde, porque rompeu com
elle.

--Apparencias!

--Verdades! E a prova  que se Manuel Coutinho, o coronel de milicias de
Leiria, e muitos outros no gemem hoje em uma priso,  generosidade de
Aubry o devem.

--Ah! Conta-me essa historia. Quero sabel-a.

Leonor expoz-lhe ento os successos, que o leitor j conhece, e terminou
manifestando a sua confiana nas promessas do official francez.

-- um procedimento nobre! Quasi que tenho pena que a aco fosse de um
francez. No gosto de dever a inimigos. No importa. De hoje em deante
esse mancebo  sagrado para ns como um parente. Agora, Leonor, chega-te
mais para mim. Quero ver-te mais de perto. Ests pallida, muito pallida,
mas fica-te bem. Cada vez mais linda! E havia de um estrangeiro levar-me
a joia da minha alma por uns mezes mais, ou menos de velhice cansada?!
s o retrato de tua sancta me--no nos olhos!--os teus so mais pretos
e formosos e os cabellos tambem! Senta-te aqui nos meus joelhos. Agora
um beijo, muitos beijos!... Ha tanto tempo que te no via, filha! No
imaginas como a tua falta me fazia velho! Dize-me, ajuntou com um
sorriso humido das lagrimas, que estavam a saltar, e os amores, como vo
os nossos amores? Manuel Coutinho adora-te como tu mereces, no? 
sempre escravo dos caprichos da sua noiva? Quero saber tudo!...

--Meu pae! accudiu ella crando cheia de rubor, e escondendo a face no
hombro do ancio.

Por isso mesmo, porque sou teu pae,  que pergunto. Bem! Bem! Se Deus
quizer ho de ser muito felizes ambos! Mas disseram-me que vinhas
despedir-te...

--Despedir-me?! exclamou a donzella sobresaltada. Despedir-me porque?! A
condessa da Ega alcanou-me licena para entrar aqui, e vim logo. Sabe
as noticias, as grandes noticias que ha, e que j so certezas?

--No sei nada, filha. No falo seno com os guardas, que so francezes,
e bem vs...

--Que ho de encobrir tudo. Pois oua. Tenho muito que lhe contar.
Alegre-se, e diga se no tenho razo de lhe pedir alviaras.

A narrao feita pela donzella com as mos entre as do pae, com os
lindos olhos accesos em enthusiasmo, e fitos nos d'elle, e com o rosto
inflammado nas risonhas cres da esperana, a pouco e pouco foi
communicando a Paulo de Azevedo o ardor e o jubilo, que exaltavam
aquelle animo juvenil. Suspenso dos labios queridos da filha, quando
ella lhe pintou a insurreio de Traz-os-Montes, o cavalheiro no poude
conter-se, que no exclamasse:

--Ah! Sepulveda! Que invejas ho de ter muitos mancebos aos teus oitenta
annos!...

Quando lhe descreveu o Algarve, Coimbra, Leiria, e o Alemtejo
sublevados, e desafiando com as armas na mo a pericia dos francezes, o
antigo official, levantando-se, e crando de prazer, bradou:

--Portugal! Julgavam-te morto, e at queriam rasgar e repartir entre si
a tua mortalha?! Bom  que lhes mostres que vives, como viveram nossos
antepasados. Aljubarrota, Valverde, o Canal, e Montes Claros foram a
lico dos invasores de hontem, assignala o teu valor em novos campos de
batalha para terror e castigo dos invasores de hoje! Contina, Leonor!

A amante de Manuel Coutinho, proseguindo, contou-lhe a chegada e o
desembarque de sir Arthur Wellesley, a marcha do exercito nacional s
ordens de Bernardim Freire, o combate da Rolia, e a sada de Junot ao
encontro das tropas britannicas.

--Louvado sejaes, Senhor, pela grandeza insondavel de vossa justia!
exclamou o ancio, inclinando reverente a fronte, e erguendo as mos. Do
gro de areia formaste a montanha, que se levanta contra os soberbos,
dos fracos e desamparados compes a fora, que ha de subjugal-os.
Leonor! Junot ser vencido! Diz-m'o o corao, diz-m'o a vontade do cu
manifestada em tantos prodigios. Ditosos olhos os que virem romper a
aurora do grande dia da nossa liberdade, que j sinto proximo!

--Ento, meu pae, no lhe dizia eu, que o nosso captiveiro estava a
findar por pouco?!

--O teu, filha, o da patria, e ainda bem! O meu!...

--O vosso tambem. Porque no?! accudiu ella, abraando-o.

--Talvez acabe mais cedo mesmo! Quem sabe! No importa. No fim de tudo?!
murmurou comsigo. Possa o meu sangue, como expiao, lavar as ultimas
nodoas da culpa, por que este reino foi castigado!

--Senhor Paulo! Passou a hora! O que me diz? Est mais socegado. Volveu
 serenidade que to bem lhe fica?

Era a voz aflautada do agente de Lagarde, cuja cabea de reptil se
arriscava, toda olhos e ouvidos, por entre a porta aberta sem ruido. O
cavalheiro estremeceu e descrou. Cresceu-lhe a ira, e investindo contra
elle obrigou-o a desapparecer. Um claro sombrio, que faiscou ao mesmo
tempo de suas pupillas, exprimiu toda a sua raiva.

--Ah! bradou elle. Ainda este homem aqui!...

--Quer que entre? perguntou o delator sempre escudado com a porta.

--Entre! Leonor, s filha de militar. Tens animo e constancia, bem sei.
Ouas o que ouvires, no te assustes, no digas uma palavra.

Voltando-se para o confidente da policia, cujo sorriso oleoso parecia
grvido de mysterios e de insinuaes, accrescentou depois:

--Veiu propor-me ainda agora, que eu comprasse a minha vida por trinta
contos. J lhe respondi, e repito deante de minha filha: se estivesse
solto, seu amo pagaria a affronta, a que teve a covardia de se atrever
contra um preso! Captivo, e em poder de inimigos, tenho s livre a alma
para protestar, e para dizer que prefiro mil vezes a morte  infamia de
pesar o meu sangue a ouro nas balanas iniquas de um salteador e de um
espio. Pde sair!

--Sr.^a D. Leonor, gritou Simo, no deixe seu pae assassinar-se por uma
teima! E o agente, simulando compunco hypocrita, quasi se lanra de
joelhos aos ps da donzella, que se desviou enojada. O sr. Paulo no lhe
disse nada, agora vejo! O conselho de guerra julga-o manh s dez
horas; e a sua sentena...  de morte! Offereci-lhe salval-o por uma
quantia. Quer  fora sacrificar-se! Commetter um crime, um suicidio!
Diga-lhe!...

--Que o meu corao se despedaa de o perder, mas que a minha alma se
arrebata de admirao com a sua nobre recusa?  isto o que quer que eu
diga? Para qu?! Ha muito que meu pae e eu nos conhecemos!...

--Oh! minha senhora! Cuidei que amava mais seu pae, do que trinta contos
de ris! observou o espia ferindo todos os alvos.

--Meu pae fez o seu dever. Rejeitou o pacto infame. Eu cumpro o meu,
dizendo-lhe que nunca tive tanto orgulho em me chamar sua filha.

--Mas! A sentena  infallivel e executa-se logo. manh  tarde ter de
orar sobre um cadaver! Veja que est matando seu pae!

--Silencio! clamou o cavalheiro indignado e terrivel de aspecto.
Assassino s tu, mas da honra dos homens, e at da fraqueza de uma
senhora. Vai-te! Perdes aqui o tempo, no achas compradores, e podes
encontrar... Por Deus! No me tentes mais!

--Tenha d de si! insistiu o agente, recuando deante do ancio, mas
orando sempre em nome dos trinta contos. No se fie em vans esperanas.
Ninguem o salva seno ns, minha senhora! O capito Magendie, conhecido
pela severidade,  o presidente do conselho de guerra, e a vida de seu
pae...

O honrado Simo aqui estacou com o resto da phrase estrangulado na
garganta. Uma larga mo, desabando-lhe sobre o hombro com o peso de um
rochedo, acachapou-o debaixo do seu vigoroso impulso. Ao mesmo passo uma
voz aspera e imperiosa dizia-lhe com ironica inteno:

--Chamavas pelo capito Magendie, creio eu. Aqui est o capito
Magendie! Repete deante d'elle o que dizias nas suas costas! Quero saber
se ousavas fazer-me cumplice do infame pacto de sangue, que vieste
propor! Fala!

Paulo de Azevedo e sua filha contemplaram attonitos e cheios de assombro
a subita interveno d'aquelle homem, que um erro de officio do espia,
deixando a porta da priso aberta atraz de si, introduzira no momento
mais interessante do drama, de que eram auctores e personagens.

--Fala que mando eu! repetiu o capito, saccudindo o delator livido,
tremulo, e mudo de terror.

O cavalheiro e Leonor comeavam j a compadecer-se do infeliz Simo,
muito parecido n'este instante a um chacal colhido nas garras do leo.

--Fala, ou morres aqui mesmo! bradou pela terceira vez o capito de mar
e guerra. Quero ouvir e saber tudo!

N'este momento as faces de Leonor afoguearam-se do mais vivo carmim. Uma
figura nova acabava de entrar em scena. Era Armand d'Aubry. O mancebo
approximou-se d'ella com um sorriso, cortejou Paulo de Azevedo,
disse-lhe o seu nome, e beijando a mo  donzella com respeito,
disse-lhe:

--No  verdade, minha senhora, que j me accusava de vanglorioso, ou de
esquecido?...

--Eu, senhor d'Aubry! Que direito tinha para isso?

--A minha palavra dada.

--Sei que  escravo d'ella; mas s vezes ha razes...

--Nenhuma pde desculpar um descuido, que eu confesso, e que podia ter
sido fatal. Fiei-me na palavra... de um homem que a trahiu, e descancei
de mais. Felizmente chego ainda a tempo!

Um grito agudo de dor arrancado ao virtuoso Simo pelos dedos de ferro
de Magendie interromperam n'este ponto a conversao.

D'Aubry, adeantando-se, interpoz-se entre a victima e o militar
irritado.

--Magendie! disse meio serio, meio a sorrir-se, quereis esmagar esse
verme debaixo dos taces das botas?!...

--No! Fra vergonha e opprobrio! Mas o miseravel invocava o meu nome,
quando entrei! Quero saber o que ousou inventar!

--Deixe-o! accudiu Leonor, dando alguns passos para o capito. O que
elle propunha no deshonra o sr. Magendie.

--Espero que no se atrevesse a implicar-me nas torpezas, que vinha aqui
negociar. Se o fez... juro pela minha espada que lhe arranco a lingua
mentirosa...

--No! No! atalhou a donzella. Falou s da severidade do sr. Magendie,
e da sentena de morte que ha de proferir manh contra meu pae.

--Eu! Ah! Pois tiveste a insolencia de fazer de mim carrasco? Sers
punido! E arremettendo contra o espia, inerte e transido, serviu-lhe as
costellas de tres, ou quatro pranchadas, que retiniram, seguindo-se umas
s outras com a velocidade do raio.

--Magendie! Basta! Deixa esse desgraado! clamou Armand, sustendo-lhe o
brao j alado para repetir a correco.

--Se! ajuntou arrastando o delator quasi pela gola da casaca, e
lanando-o fra. Se te demoras... no levas um osso inteiro.

Simo desappareceu, lastimado do corpo, e dorido da alma, pelo exito
pessimo da sua misso.

--Minha senhora, disse d'Aubry com nobreza. Os instantes so preciosos.
O general Junot, que no  to mau, como o odio dos portuguezes o cr,
informado de tudo--porque no lhe occultei nada--assignou a ordem de
soltura de seu pae sob palavra smente, de que o sr. Paulo de Azevedo
no ha de pegar em armas contra as tropas de sua magestade o imperador e
rei n'esta ocasio. Fui talvez temerario, mas obriguei-me em nome do
preso. Se me excedi, como s eu respondo...

--Meu pae! Meu querido pae! Livre! Solto!... exclamou Leonor apertando o
ancio nos braos. Obrigada sr. Armand! Obrigada!

--Sr. d'Aubry! redarguiu o cavalheiro, vencendo a custo a commoo, e
no soltando do corao a filha amorosamente cingida ao peito, a
palavra, que deu,  como se fosse minha. No abusarei da sua
generosidade. Verei de longe os successos, mas no estranhe, no me leve
a mal, que suspire pela victoria dos meus compatriotas...

-- to natural! O que hei de estranhar? Sr.^a D. Leonor! Se lhe
disserem que Armand d'Aubry ficou no campo, lembre-se d'elle, lembre-se
do homem, que, no podendo merecel-a, quiz ao menos eximir-se ao seu
despreso.

--Despreso!? Porque nos fez Deus nascer to separados, sr. d'Aubry!

--Paciencia, accudiu o mancebo com um sorriso contrafeito. Seja minha
irm! E se em suas oraes no pde pedir a Deus que faa triumphar a
minha causa, rogue-lhe ao menos que me d a morte gloriosa do soldado.
Adeus! Lembre-se alguma vez de mim sem odio. Magendie so horas! Se
quereis ser dos primeiros na batalha... a cavallo, e a galope!




X

Antes de se levantar o panno


Junot sobresaa no valor heroico. Era a imagem viva dos paladinos
cantados pelo Ariosto. O peso das responsabilidades acurvava-lhe, porm,
o animo, e as complicaes do governo afrouxavam-lhe a vontade. Soldado
sem emulo na intrepidez facilmente se offuscava no gabinete, ou no
conselho, aonde a sua estrella esmorecia com frequencia. Grande, quando
no era o primeiro, sentia vacillar nas mos o leme do Estado no
exercicio da suprema auctoridade.

Accrescentemos, para sermos justos, que a culpa das infelicidades foi
menos sua, do que filha das ordens que o subjugaram de longe, e das
circumstancias que o opprimiram de perto. A invaso de Portugal e a
usurpao da Hespanha, dois attentados agravados por meios ardilosos,
assignalaram os primeiros passos de Napoleo I para o precipicio, d'onde
se despenhou poucos annos depois.

A casa de Bragana e a dynastia dos Bourbons, duas realezas
desamparadas, dois cadaveres (na opinio do conquistador), uma fugida na
America, outra expiando em Vincennes as scenas de Bayonna, apenas lhe
mereceram que lanasse sobre ambas o seu manto de abelhas para as
sepultar! Riscadas do livro de ouro dos soberanos pela espada, suppoz
erradamente o moderno Cesar, que tambem acabariam de se extinguir no
amor dos subditos, como tinham desapparecido a um aceno seu do theatro
agitado da epocha. Cegueira! Captivos os principes ou ausentes, a
saudade e os brios das naes armaram contra elle adversarios mais
terriveis. Pela primeira vez se encontrou com os povos, e a sua fortuna
comeou a empallidecer desde ento. Com estes novos adversarios a
tactica e a disciplina quasi que eram vans; as victorias consumiam os
vencedores; e cada gotta de sangue, que tingia a terra, levantava uma
legio de inimigos.

A alliana das revolues populares com a causa dos monarchas
proscriptos mudou todas as condies da lucta. As derrotas no provaram
nada em favor dos invasores; pelo contrario os revezes anniquilavam
exercitos completos. O exemplo de Bailn viera demonstral-o. O duque de
Abrantes via tremer em Portugal pelos alicerces o edificio da dominao
franceza, e apprehenses rasoaveis diziam-lhe que, desabando elle de
repente, podia colhel-o debaixo das ruinas, e aos seus companheiros de
armas. D'este receio se originaram os maiores erros, que lhe censuram
n'esta campanha.

Se no contrahiu a tempo as foras repartidas pelos presidios do reino,
 porque temeu, aos primeiros rebates do canho inglez, que Lisboa lhe
escapasse, e que as praas, chaves, de provincias populosas, lhe
cerrassem as portas, obrigando-o a escolher entre a morte do soldado e a
capitulao affrontosa de Dupont. De dois males inevitaveis optou pelo
menor. A furia guerreira de seus granadeiros podia talvez supprir a
inferioridade do numero; mas, sublevada a capital, e perdidas as
fortalezas, todas as esperanas de retirada se desvaneciam. Foi o que o
decidiu.

Sir John Moore abicra com o seu corpo de tropas s praias da Figueira.
Sir Harry Burrard, Clinton, e Murray com suas brigadas j avistavam as
costas de Portugal. Demorar-se em repellir Wellesley equivalia a deixar
engrossar pela junco a vaga ameaadora dos contrarios. Junot
lembrou-se, de que no era costume seu recuar, e arremessando a luva aos
inmigos com tantas probabilidades contra si, confiou talvez, em que um
dos ultimos raios do sol de Austerlitz viria illuminar mais um dia de
triumpho para as armas francezas.

Calculadas pelos mappas, as tropas francesas no dia 15 de julho
ascendiam a vinte e seis mil homens; porm, um mez depois, quando se
contaram as praas presentes para as metter em linha, apenas appareceram
dez mil soldados effectivos! As marchas foradas de julho pela
Extremadura e Alemtejo, as fadigas e ardores do clima tinham devorado
quasi tres mil prostrados nos leitos dos hospitaes. Cinco mil e
seiscentos occupavam Almeida, Elvas, Palmella, Peniche e Santarem. Dois
mil e quatrocentos guardavam Lisboa; mil continham a bordo dos navios os
prisioneiros hespanhoes: e os tres mil restantes vigiavam os fortes, as
baterias, e as torres levantadas nas duas margens do Tejo.

O duque, partindo para abrir a campanha, j tarde conheceu, que em vez
de conservar sobre os inglezes a superioridade indispensavel para os
ferir e arrancar no momento dado, sacrificra ao proposito secundario de
assegurar a defeza do rio e das fortificaes do reino a sorte das
aguias imperiaes, avistando-se com Wellington na proporo de um contra
dois, ou peior ainda, depois do desembarque das quatro mil e duzentas
bayonetas dos brigadeiros Anstruther e Ackland, desembarque operado
durante o dia e parte da noite de 20 de agosto. Apezar d'isso, resolveu
Junot, no s pelejar, mas sahir ao encontro de sir Arthur, e combatel-o
aonde o encontrasse. O astro do imperio resplandecia ainda sobre a
Europa, e as victorias, companheiras fieis dos capites de Buonaparte,
apenas em Hespanha lhe negavam um, ou outro sorriso. Mas a fortuna
principiava j a cansar-se, e o genio de Napoleo, unico digno de a
dominar, faltava n'este instante critico aos batalhes desterrados no
extremo occidente pela sua ambio.

Foi em Torres Vedras, que o duque de Abrantes concentrou todo o
exercito, e que, passando-lhe revista, encontrou s onze mil e
quinhentos soldados, mesmo arrolando os no combatentes. Duas divises
de infanteria commandadas por Delaborde e Loison, uma reserva de
granadeiros, e uma diviso de cavallaria s ordens de Margaron, em fora
de mil e duzentos homens, caadores a cavallo, e drages, em quatro
regimentos de dois esquadres cada um, com vinte e seis bccas de fogo,
regidas pelo general Taviel, compunham todo o poder militar, de que
dispunha o logar-tenente de Napoleo I na vespera da batalha, em que se
iam travar brao a brao as duas naes ha tantos annos emulas, e cada
dia mais implacaveis no designio de se supplantarem, como se uma devesse
necessariamente offuscar a outra, ou como se a Europa no offerecesse
espao sufficiente a ambas para existirem e prosperarem.

Sir Arthur Wellesley, nos exordios da sua carreira na Peninsula, logo
revelou as qualidades que o habilitavam a competir com os mais illustres
capites sem desafiar um d'aquelles immensos desastres, que immortalizam
nas paginas da epopeia napoleonica o infortunio de tantos generaes.
Concedendo pouco, ou nada, ao acaso, e no estribando as combinaes nos
rasgos duvidosos de temerarias emprezas, concebra o seu plano com a
prudencia fria, que sempre em tudo caracterizou seus calculos. Prevendo
que, senhores de Lisboa, os francezes podiam atravessar o Tejo sem
obstaculo, assoberbar as provincias do sul, e communicarem, por via
d'ellas, com a fronteira hespanhola, e no querendo arriscar-se a um
revez possivel no ataque de Torres Vedras, determinra tornear o
exercito do duque de Abrantes por um movimento audaz, cortando a marchas
foradas pela estrada de Mafra, e chegando adeante d'elle s portas da
capital. A sir John Moore cumpria ao mesmo passo descer de Coimbra e
occupar Santarem, vedando tambem por este lado a retirada dos
contrarios.

Estavam expedidas as ordens n'este sentido, e marcados o dia e a hora,
em que haviam de principiar a executar-se. Mas sir Harry Burrard,
tenente general mais antigo, e segundo commandante das tropas
britannicas, afferrou no dia 20 de agosto a enseiada de Maceira, e
Wellesley foi immediatamente a bordo conferenciar com elle, e expor-lhe
o verdadeiro estado das operaes. Sir Harry no formava exacto juizo
das foras de Junot, nem sabia apreciar as difficuldades, que podiam
oppor-lhe. Ignorava tudo. A tenacidade da resistencia de Laborde na
Rolia infundia-lhe receios, e antes de se medir com os francezes quiz
ter proximos os onze mil auxiliares de sir John Moore, ordenando a sir
Arthur, que se sustentasse no terreno, aonde acampra, e expedindo
avisos sobre avisos aos navios fundeados no porto da Figueira para que o
desembarque de suas tropas se realizasse nas proximidades da Lourinh.

As posies occupadas por Wellesley eram seguras e pouco accessiveis. O
Vimeiro assenta-se no regao de um valle banhado pelas aguas do Maceira.
Ao norte altea-se em seios sinuosos um ramal de collinas, cortado da
parte de leste por uma quebrada rota em largo barranco. A estrada da
Lourinh atravessa por cima dos cabeos d'esta cordilheira passando
pelos casaes de Fontanel e da Ventosa. Nas costas do Vimeiro, ligadas
quasi as primeiras casas da povoao com suas faldas, ergue-se uma
montanha, meio vestida de arvores e matas, meio nua e escalvada. De seu
topo annuviado descobriam-se os caminhos e sendas, torcidas em diversas
direces para Torres Vedras. Sobranceira a esta elevao, enlaando-se
os montes, e empinando-se uns por cima dos outros, corre a serrania, a
qual em ondulaes, mais ou menos asperas, se prolonga quasi a beijar o
mar, abraando do lado de oeste todo o espao comprehendido entre a
margem esquerda do Maceira e a orla da costa.

Seis brigadas s ordens de Hill, Crawford, Ackland, Nightingale e
Fergusson, com as avanadas sobre a estrada de Mafra, guarneciam as
alturas com oito peas de artilheria, em quanto as brigadas Anstruther e
Fane, com meia bateria de 9 e meia bateria de 6 defendiam a montanha. A
cavallaria guardava as bccas do valle, e um piquete de portuguezes e de
_riflemen_ observava a estrada da Lourinh.

Eis a disposio do acampamento inglez antes das vedetas dispararem os
primeiros tiros.

O duque de Abrantes no mandra reconhecer o exercito inimigo, e sabia
apenas pela noticia dos destacamentos de cavallaria, que tinham batido o
terreno como exploradores, que elle estava reunido no Vimeiro, e que de
noite se tinham visto arder tres linhas de fogueiras. A impaciencia
natural e a necessidade no lhe consentiram maior informao. Instava
com elle tudo para que precipitasse o encontro decisivo. Lisboa, agitada
e descontente, podia libertar-se de um momento para outro, sopeando a
pequena guarnio que a refreava. Os inglezes tinham tudo a lucrar, e
elle tudo a perder com a demora. Em circumstancias assim apuradas, o
melhor conselho era combater logo, sem escolher o campo, sem contar o
numero.

Suas instruces foram promptas e audazes. A cavallaria com o grosso da
infanteria marchou no dia 20  noite pelo desfiladeiro, que de Torres
Vedras desemboccava no ponto, aonde se bifurcavam as estradas do Vimeiro
e da Lourinh. Aos primeiros clares do dia 21 Armand d'Aubry, e o
capito Magendie, os quaes em poucas horas de trote rasgado tinham
vencido as sete leguas, que os separavam do campo francez, encontraram
j os corpos em descanso a legua e meia dos postos avanados de sir
Arthur, o qual no inculcava haver-se apercebido ainda de sua
visinhana.

Do sitio, aonde as tropas respiravam da rapidez de marcha, s eminencias
por cima da povoao do Vimeiro, encoberta com relevo do terreno,
alargava-se uma charneca, toda areia e rochas, que em ingremes pendores
baixava por uma parte at ao barranco no fundo do qual se apinhavam os
tectos da aldeia de Toledo, e pela outra vinha quasi tocar as bordas do
Maceira, cuja corrente preguiosa scintillava no seu leito, illuminada
dos raios nascentes do sol, que j em todo o seu esplendor dourava os
cumes dos montes, recortados no celeste azul e transparente, inundando
de jorros cada vez mais vivos de luz os terraos e as encostas das
montanhas, os valles e os desfiladeiros, aonde as sombras mais tempo
luctam com a claridade matutina.

Junot avanou direito s alturas, com a cavallaria na vanguarda, com a
infanteria formada em columnas de duas brigadas, e com a artilheria nos
intervallos. D'Aubry recebeu ordem ao mesmo tempo de avisar o coronel do
3.^o provisorio de drages para que, atravessando a quebrada perto da
aldeia de Toledo, se elevasse at ao moinho de vento de Fontanel, e ahi
extendesse as filas brilhantes de seus cavalleiros pela cora dos
serros, cortando a estrada do Vimeiro  Lourinh.

A vista do bello regimento, campeando descoberto no posto, que lhe fra
designado, deu o primeiro signal da batalha.

A manh rompia serena e clara. Sir Arthur Wellesley, que n'este dia
principiou a sar da meia obscuridade para as paginas luminosas da
historia, rodeado de um luzido estado maior, mettia o p no estribo,
quando chegaram as primeiras noticias do inimigo. A physionomia do
general, placida e firme, no denunciava em nenhuma nuvem os cuidados do
commando. D'ahi a pouco a cavallo, silencioso, e attento, todos o viram
consultar com o oculo os horizontes nas direces d'onde deviam surgir
os contrarios, enviando de curtos em curtos espaos a todo o galope um
ajudante encarregado de suas ordens. O socego profundo da natureza, o
riso das plantas ainda frescas dos orvalhos nocturnos, os vos rasteiros
das aves, e os murmurios brandos da corrente, contrastavam com os ruidos
do campo, nuncios e precursores da procella, de que a ira dos homens
inflammaria em breve aquelles pacificos contornos.

Entre o primeiro sobresalto da presena dos inimigos, e os primeiros
rebates interpoz-se longa pausa. De parte a parte os exercitos, como
dois luctadores antes de entrarem no circo espreitaram os movimentos um
do outro, calculando todas as vantagens.

Antevendo o ataque pela frente e a esquerda de suas posies, sir Arthur
destacou para as alturas da estrada da Lourinh a brigada Fergusson, e
logo atraz as de Nightingale, de Ackland, e de Bowes. Em breve a
montanha do Vimeiro, em que ha pouco se accumulavam reunidas as foras
de seis brigadas, appareceu quasi desguarnecida, no conservando mais
que os tres regimentos de infanteria de reserva, confiados  pericia do
general Hill.

As tropas portuguezas, s quaes se tinham aggregado recentemente
sessenta soldados de cavallaria da policia, capitaneados por Manuel
Coutinho, duzentos artilheiros de Valena, fugidos da praa de Peniche,
o coronel de milicias de Leiria, o morgado de Penim, e outros
voluntarios, postados a principio no valle, foram logo mandados subir
tambem a encosta, para formarem na planura do monte com a brigada
Crawford.

O duque de Abrantes acompanhou estes movimentos da esquerda dos
inglezes, ordenando as manobras correspondentes.

A brigada Brenier, por ser a mais proxima, adeantou-se em auxilio do
3.^o de drages, e a brigada Solignac, que seguia em columna a de
Brenier, carregou egualmente sobre a direita com seis peas de
artilheria. Assim, antes de ferida a peleja, metade das foras
britannicas operava na estrada da Lourinh, opposta a um tero pouco
mais, ou menos, do exercito francez; mas a differena era notavel. O
movimento de Junot, inopinado e fortuito, deixra grande distancia entre
a direita reforada e o principal corpo do exercito, em quanto os
inglezes, pelo contrario, se ligavam concentricamente, no aproveitando
menos os cinco regimentos de Bowes e Ackland ao general Fergusson, do
que  defeza do Vimeiro, cujo aspecto infundia respeito at aos
veteranos pela sua apparencia marcial.

O espectaculo dos dois exercitos, avisinhando-se um do outro, era bello
e grandioso. A infanteria ingleza com os seus uniformes escarlates,
dragonas brancas de l, e barretinas largas de couro ornadas de
pennachos de varias cres, desfilava a marche-marche cerrando filas, e
mettendo em frma. Duas linhas, cujas oscillaes, cessando de repente
se converteram na immobilidade da firmeza, postadas nos contrafortes e
terraos da montanha, dominavam em amphitheatro as ladeiras aprumadas
por onde os soldados de Junot haviam de avanar. Por cima d'ellas, mais
atraz, e na rectaguarda das posies, ainda os serros se coroavam de
bayonetas. Era a terceira linha extendida pela brigada do general Hill!
Os canos luzentes das espingardas, e os ferros de lana dos estandartes
scintillavam; as chapas douradas dos capacetes da cavallaria, os peitos
de ao e as espadas nuas dos soldados, faiscavam, deslumbrando. De
intervallo a intervallo, no cume de um pico mais alto, na cabea de uma
collina mais elevada, reluziam as peas de bronze assestadas, e ainda
silenciosas.

O galope dos esquadres, ennovellando-se a distancia entre rolos de p,
a brava alegria dos clarins, o desafio das trombetas, o rufar dos
tambores juntos s harmonias guerreiras das musicas, ao ondear das
bandeiras soltas ao vento, e ao galope dos corseis dos ajudantes e
generaes, cruzando a paizagem em todos os sentidos, compunham um quadro
animado e vvido, que levava apoz si os olhos e a vontade, incendiando
de enthusiasmo os animos mais timidos e indifferentes.

Ia romper-se a batalha. Armand d'Aubry, rodeando com a vista todo o
campo, como o falco paira dos espaos sobre a presa, disse para
Lassagne, cujo sorriso parecia convidar os perigos:

--Julio! Dias como este nunca mais esquecem! Olha como os inglezes nos
aguardam! Faz gosto vel-os assim de marmore em suas linhas, e saber que
a nossa espada far calar em breve os rugidos d'aquellas bccas de
bronze em que Wellesley confia para nos deter!... Logo ver de que lhe
valem!

--Se as calarmos! redarguiu o tenente. Os soldados que alli temos, no
se afugentam como guerrilhas.

--Melhor! Quanto mais cara, mais gloriosa ser a victoria! Quando
mandar o duque romper o baile?! Sinto uma impaciencia!...

--Escutai! Eil-o que principia! atalhou Lassagne. Se a fortuna proteger
as armas da Frana, este dia pde ser um grande dia!

E largando as redeas, os dois partiram a bom correr para o posto, que
haviam de occupar, e aonde Magendie e outros officiaes esperavam j por
elles.




XI

A batalha


Deram oito horas da manh. Um silencio profundo afogou de repente todos
os estrepitos e todas as vozes nos dois campos. Similhante  pausa
abafada, que precede os gemidos da procella, em breve iam rebentar
d'este silencio momentaneo, todas as tempestades, que o odio e as
paixes encerram.

A fortaleza das posies do Vimeiro, e a valentia dos defensores
promettiam aos soldados de Junot disputada lucta. Apezar d'isso as
massas accumuladas nas eminencias, nem suspenderam, nem paralysaram, o
seu esforo. A diviso Laborde comeou o ataque. N'esse momento, como se
 ira dos homens se antepozessem as consolaes do ceu, ouviu-se o
repique longiquo, mas claro, de uma sineta, na capella da aldeia,
convidando os fieis  orao. Logo apoz reboou, immensa e prolongada,
acclamao festiva dos batalhes francezes. Era a brigada Thomires, que
a passo ordinario, e com os estandartes desenrolados, partia intrepida a
escalar as escarpas da montanha, d'onde tres linhas inabalaveis juravam
repellil-a.

Cobria-lhe a frente uma nuvem de atiradores. Os reparos dos canhes,
rodando nos flancos, abalavam o cho, confundindo com o tropear da
marcha o seu rolar soturno. O espao, que separava os contendores,
depressa se encurtou; o vulto da columna depressa se estreitou tambem, e
diminuiu na distancia. Uma orla de fumo alvacento, franjada de
relampagos, elevou-se lentamente da testa da linha no meio de detonaes
repetidas. Ao mesmo tempo os tambores, as trombetas, as gaitas
escocezas, as cornetas, e os cheios sonoros dos instrumentos bellicos
romperam em harmonia guerreira do centro das brigadas inglezas.
Encostando as coronhas ao hombro, com os murres accesos junto ao ouvido
das peas, os soldados de Wellesley acceitavam resolutos o desafio das
aguias francezas.

D'ahi a um momento ao trovo da artilheria juntava-se o estampido de
milhares de fuzis. A montanha, silenciosa e fria at ento, vestiu-se de
clares lividos, e uma densa nuvem de fumo, baixa e quasi immovel, vu
sinistro, escondeu os combatentes da vista anciosa dos espectadores. De
instante em instante novas exploses atroavam o campo, e por entre os
rolos de p e as fumaradas dos tiros faiscaram como fitas tortuosas de
lume as descargas dos batalhes. Os pelouros, bastos como granizo,
silvaram, varejando as fileiras. As balas de artilheria, cortando o ar,
e zumbindo, vinham enterrar-se, escarvando o solo aos ps das
companhias, ou, rasgando-lhes e esmigalhando-lhes as filas, abriam por
meio d'ellas cruentas e largas brechas, assignalando no cho juncado de
cadaveres e moribundos o seu rasto destruidor.

Pendurados das ingremes ladeiras, ouvindo por cima das cabeas estourar
a voz de bronze dos canhes, sentindo debaixo dos ps retremer e
escorregar a terra, no meio de uma atmosphera ardente, ora atropellados
pelos que a morte despenha adeante das pontas dos alcantis, ora
impellidos pelo tropel impaciente dos que atraz d'elles bramem e se
apinhoam na subida, os soldados do regimento 26.^o, respondendo com a
audacia do silencio  tempestade vomitada das cristas das alturas,
alcanam por fim a aresta da montanha, conquistam a beira da planura, e
arremessam-se como lees raivosos, em linhas crespas, contra a muralha
de ao, que lhes oppem o 5.^o regimento inglez. Foi como o encontro de
duas nuvens carregadas de electricidade. A meia distancia uns dos
outros, os canos das espingardas inclinam-se, dois relampagos immensos
lambem a face das columnas, e o ruido de duas descargas quasi unisonas
ribomba de cerro em cerro at aos valles.

As vozes dos chefes por cima dos mil rumores da peleja, e o tinir do
ferro nos pelotes calando bayonetas soam distinctamente durante a curta
pausa, que se segue. Depois, violentos estremees sacodem os membros
convulsos dos dois corpos gigantes, e n'um abrir e fechar de olhos ambos
se precipitam um contra o outro, esperando suffocar-se n'este abrao, em
que toda a sua colera ruge frenetica.

A cortina de fumo, que os encobre, adelgaando, rarea-se um pouco, e o
duello temeroso dos dois regimentos, arcando peito a peito, com os
ferros apontados ao corao, brilha por momentos em toda a sua
magestade!

Loison e Charland, com os batalhes 32.^o e 82.^o j a esse tempo
estavam travados com tres dos regimentos de sir Arthur, o 97.^o o 43.^o
e o 52.^o. As linhas britannicas, abaladas pelo furioso embate,
vacillam, encurvando-se. O impetuoso encontro das companhias francezas,
sulcando-as, e mutilando-as em partes, cuida um momento tel-as
arrancado, desordenadas e vencidas, do solo a que a disciplina parece
arraigal-as. Mas a confuso dura apenas minutos! As filas confundidas
reconstruem-se, e os assaltos vertiginosos dos guerreiros de Thomires e
Loison quebram-se em vo contra a firmeza admiravel d'aquelle rochedo
humano!

O sangue ensopa o cho, amortecendo o ruido dos carros e reparos, e o
estrupido medonho dos ps dos combatentes. A chamma das bccas dos
canhes e fuzis cresta o rosto dos mais avanados. Fileiras sobre
fileiras, minadas pelo bater incessante dos pelouros, escorregam no solo
humido de carnificina, e prostram-se depois para no se levantarem,
conservando apenas, aqui, e acol, de p, um ou outro soldado,
sentinella perdida, que sobrevive ao estrago commum.

De lado a lado mordem o p os mais valentes. O coronel Pillet e o
general Charland, feridos, multiplicam as ordens e o esforo. O tenente
coronel Peytavy adormece do somno dos fortes. Os inglezes pelejam com
pouco enthusiasmo, mas com tenacidade indomita. Sem retirada, a derrota
equivale para elles a um desastre sem nome. Nas suas costas aprumam-se
despenhadeiros a pique; a seus ps ronca o mar enfurecido! Wellesley
sabe-o, mas conta com os obstaculos naturaes, e com o valor e o numero
de suas tropas. As columnas de Junot no so asss profundas para
varrerem na ponta das bayonetas as tres linhas, que tem defronte.

Kellermann desdobra os batalhes da reserva a dois tiros de pea do
Vimeiro. O duque d'Abrantes, perto d'elle, contempla o progresso dos
ataques de Delaborde e Loison. Uma ordem sua manda marchar em auxilio
dos dois generaes o 2.^o de granadeiros, commandado pelo coronel
Sainte-Claire. Avanando em columna, e em pelotes, o regimento costa a
quebrada, que baixa  direita para o barranco, aonde passa a estrada do
Vimeiro a Toledo. Os inglezes, desopprimidos das foras de Delaborde,
constrangidas a recuar, respiram por instantes, recuperando-se  pressa
dos golpes precedentes.

Avistando os inimigos, que se adeantam, so suas disposies promptas e
decisivas.

Os artilheiros assestam contra elles as bccas de dezoito canhes e
obuzes, e dando-lhes fogo a um tempo cobrem o terreno de projectis. As
balas ccas dos obuzes, enfiando filas inteiras, vem rebentar como
bombas e granadas no centro dos segundos pelotes. Cuidam que o espanto
e o terror dissiparam o ataque, e que os francezes cedem sem entestar
com suas linhas! Illuso! Mal protegido pelos frouxos tiros das baterias
da primeira diviso e da reserva, investindo por baixo de uma chuva de
balas, que o consome, o regimento, como se entrasse em parada, prosegue
inalteravel, semeando de mortos e feridos todo o caminho, e pagando com
torrentes de sangue cada passo adeantado. Os que se aprestam a
rechaal-o, sentindo-o acercar, sem o ver, pelo som cada vez mais forte
da marcha, vencem a custo o sobresalto inspirado por aquelle silencio
ameaador, grvido da vingana de tantas perdas.

Finalmente as pontas das bayonetas relampejam sobranceiras s cristas da
montanha, e as companhias, desfilando a cincoenta toezas da planura,
principiam a formar-se em batalha. De repente, espectaculo doloroso,
porm cheio de grandeza(!), um mar de fogo irrompe de todos os lados, e
envolta em chammas a pequena columna oscilla, arqueja, relucta ainda,
mas em vo e alue-se por fim, crivada pelas descargas convergentes da
mosquetaria de seis regimentos! As exploses das peas acompanham o
trovo rolante das descargas, os clamores do combate, e as ameaas dos
tambores e cornetas. Os cavallos de trem da artilheria franceza
extendem-se uns aps outros, deixando os reparos desmontados. Os
coroneis Foy e Prost pugnam debalde, e salpicam de sangue os canhes
emmudecidos. Os primeiros pelotes de infanteria varridos pelo tufo de
metralha desapparecem fulminados, e quando o fumo, que cega o campo, se
desvanece, do bello e soberbo regimento, cujos brios os contrarios mesmo
haviam applaudido, apenas restam reliquias, que em troos dilacerados se
derivam fugitivas pela encosta, golfando de todos os membros o sangue de
mil feridas!

Kellerman, que segura o 2.^o de granadeiros com o 1.^o regimento, s
ordens do coronel Morancin, atravessado o barranco, fra encontrar-se de
rosto com a brigada de Ackland. Sir Arthur, notando cuidadoso este
movimento contra o centro, e receando pela povoao do Vimeiro, tractra
de anniquilar sem demora o novo ataque. As tropas britannicas baixaram
em foras duplas sobre a columna de Kellermann, e flanquearam-n'a. No
contente ainda com a fuzilaria cerrada, que dizima as fileiras
contrarias, o general inglez arroja sobre ellas o impetuoso choque de
quatrocentos cavallos do 20.^o de drages ligeiros, da guarda de policia
portugueza, e dos voluntarios da Beira Alta e Extremadura.

Os granadeiros, colhidos no meio de um verdadeiro furaco de ferro,
antes de poderem formar quadrado, vem reluzir sobre as cabeas os
sabres dos drages e as espadas da cavallaria portugueza,  qual a voz e
o exemplo de Manuel Coutinho, do coronel de milicias de Leiria, do
morgado de Penin, e dos outros cavalheiros, que dias antes encontrmos
no palacio da Asseca, infundem animo superior a maiores emprezas. As
aguias rojam no p pela primeira vez, e o amante de Leonor, alcanando a
preo de ferimento leve a gloria de tomar um dos estandartes fadados at
ento pela victoria  saudado com vivas e felicitaes pelos soldados,
ebrios de enthusiasmo.

Os granadeiros acutilados dispersam-se deante dos cavalleiros, que os
perseguem, alastrando o terreno de victimas, destroos, e captivando
quasi a cada passo os que fogem, arremessando as armas.

--Safa com a calma! brada um dos officiaes portuguezes, que a farda, a
estatura herculea, e a voz atroadora denunciam de longe ser o bellicoso
patriota, o major Alvaro. Trago os miolos assados dentro d'esta
barretina, d'esta maldita panella. Forte asneira! Prem  cabea da
gente um cantaro que peza arrobas! Trago a camisa pegada ao corpo de
suor!

--Que dia, meu amigo, que grande dia! disse o capito-mr de ordenanas
de Leiria, Manuel Carranca, limpando junto d'elle a testa com a aba
verde da farda, e restabelecendo o equilibrio ameaado pela carreira do
cavallo, um pouco fogoso de mais talvez para a sua pericia equestre. No
sinto j o brao de jogar cutiladas a estes ces, sr. Alvaro! Respiremos
um instante!

--Pouco os aca! No me estejam a fazer de um agreiro um cavalleiro!
accudiu o alcaide-mr Rodrigo Crespo com a serenidade de um veterano
callejado. Isto de que os senhores se admiram no  nada em comparao
do que foi pelo Roussillon! Se cassem sobre um quadrado a espirrar fogo
por todos os lados, e crespo de bayonetas como um ourio, ento veriam.
Mas estes granadeiros, que se derretem como alcrce mal os cavallos lhes
fungam s barbas?! Historia!... Olhe, sr. Isidoro Pinto! ajuntou,
voltando-se para o coronel de milicias, que acabava de sofrear o ginete,
e que o escutava. Olhe como Manuel Coutinho, vae guapo na frente. Corre
que desapparece! Ah, rapazes, rapazes!

--Bom sangue no mente! redarguiu o velho cavalheiro, resguardando a
vista do sol com a mo curva, e contemplando o espectaculo terrivel e
variado, que se descortinava no campo por todas as partes.

--Ah, meu coronel! exclamou o major Alvaro escarlate de fadiga e de
regozijo. Tenho engulido mais de dois alqueires de terra, ando todo n'um
lago, mas juro-lhe por todos os sanctos da crte do ceu, que no trocava
por um condado a alegria d'esta hora... Como elles fogem! Parecem gamos!
Ah senhores francezes, cheira-lhes a esturro a nossa polvora? Bravo! L
apanharam os inglezes um peloto quasi inteiro! Fortes covardes!...

--No diga isso, senhor Alvaro! atalhou o coronel Isidoro Pinto.
Agradea a Deus o que estamos presenciando, e antes de tempo no cante
victoria! Os francezes so valentes soldados, e aqui mesmo o esto
mostrando. Fogem estes, e quem sabe, talvez d'aqui a nada tenhamos de
fugir tambem. Agora por elles, e logo por ns. So sortes da guerra.

--Qual fugir, nem meio fugir! gritou Rodrigo Crespo, rindo
desentoadamente. Mas espera! Que  aquillo l em baixo!

E alando-se nos estribos apontava para a linha de arvores de um pequeno
bosque, copado sobre a esquerda, d'onde principiavam a enrolar-se certas
ondas suspeitas de poeira, avultando, como nuvem que desponta e se
desdobra, em corpo numeroso.

--Aquillo?! O que  aquillo? berrou o major Alvaro depois de fitar por
um pouco a vista de lince no ponto designado. Aquillo so francezes. 
uma emboscada de cavallaria jacobina. Estamos lambidos, com mil
diabos!...

--Fale mais devagar, observou o experimentado alcaide-mr. Noticias
d'estas no se gritam por cima dos telhados.  verdade, so francezes, e
com peas montadas e atiradores na frente! Formam em columna e em
pelotes  sada do bosque! Temos festa!... Rapazes! Alto! accrescentou
virando-se para o meio esquadro de voluntarios que o seguia. Apparece
um grosso de cavallaria inimiga pelo flanco! Sentido! Toca a reunir ao
tenente coronel Taylor.

E o alcaide-mr, collocando-se  testa do meio esquadro, ajuntava
friamente voltado para o major e para o capito-mr:

--O sr. Isidoro Pinto tinha razo. Vamos receber uma carga a fundo, e
receio que a nossa gente a no supporte. A confuso desordenada, em que
a cavallaria ingleza corre no alcance dos granadeiros, pde ser-nos
fatal. Em todo caso... somos portuguezes. Aqui havemos de vencer ou
morrer!

--Viva o principe regente! Viva a santa religio! bradou o major
floreteando a pesada espada, e atirando a barretina ao ar.

--Viva Portugal, e sejamos homens! exclamou o coronel sereno e
intrepido, mettendo o cavallo ao lado do do alcaide-mr.

--Eil-os comnosco! gritou Manuel Carranca. Deus me perde! Como vem
feros! Se no fosse vergonha dizia, que mettem medo... de longe!

--Pde dizer, que no lhe fica mal. Mais d'estes lances tenho eu visto
na minha vida, e confesso-lhe que estimaria achar-me agora em outra
parte... So ossos do officio, no ha remedio seno roel-os. Paciencia!

A conjectura do velho official era exacta. Vendo disperso pelo fogo das
brigadas e pelo ferro dos drages inglezes e da guarda da policia o
bello regimento de Morancin, o general Margaron, emboscado desde o
romper da manh com toda a diviso de cavallaria franceza, deu por fim o
signal do ataque, signal, que Armand de Aubry, Lassage, e muitos outros
officiaes, no menos impacientes do que elles, aguardavam cheios de ira,
e mordendo os beios.

O formoso quadro, que offereciam  vista os pelotes, desfilando a trote
de entre as arvores, cobertos por uma linha de atiradores, e trazendo
nos flancos as bccas de fogo chamadas da reserva, ao passo que enlevava
os olhos, confrangia o corao. De momento para momento apertava o
perigo dos alliados soltos em carreira desenfreada aps os vencidos.

Avanando em duas columnas, uma composta da guarda do general em chefe e
do regimento 26.^o de caadores a cavallo, s ordens do principe de
Salm-Salm, a outra formada dos regimentos 4.^o e 5.^o de drages, na
frente dos quaes galopavam Margaron, os majores Leclerc, Theron, e todo
o estado maior, os esquadres francezes, desenvolvendo-se, arremettem
com os estandartes altos, e as espadas nas, no meio da brava alegria
dos clarins, direitos a uma eminencia, que precisam vencer para dominar
o campo.

Similhantes a duas serpes monstruosas, suas columnas enroscam-se,
colleando pelas veredas da encosta, e subindo, ora entumecem, ora
estiram os anneis luzentes pelas voltas sinuosas, precedidas dos
relampagos, que fuzilam as bccas das peas, do trovo, com que a
artilheria annuncia a sua presena, e da cortina de fumo, que ondeia e
paira sulcada de coriscos, sobre a ladeira opposta pela qual j se
precipitam os atiradores, investindo-a.

Vendo-os accommetter assim vistosos e intrepidos, o tenente coronel
Taylor olhou em redor de si, e apontando para elles exclamou:
_splendid_! Soldado applaudia a bizarra apparencia de outros soldados
dignos do seu valor! Firme deante da ameaa d'aquelle golpe sua voz
resoa em brados viris superior a todos os ruidos. Indifferente aos
perigos, va, ora a um, ora a outro lado, ordenando e confortando os
seus.

Os clarins britannicos e portuguezes respondem altivos ao desafio
guerreiro do inimigo. As nossas bandeiras tremulam com orgulho deante
das bandeiras oppostas. Retrocedendo em ondas loucas do alcance, que os
attrara, os portuguezes e os drages britannicos entram nas fileiras
uns aps outros, e a ordem de batalha reconstrue-se sobre o terreno j
cavado pelas balas dos francezes. Manuel Coutinho e os officiaes unem os
esforos aos do valente capito inglez e acodem  confuso inevitavel
d'este momento de sobresalto.

--Eil-os partem! exclama o amante de Leonor, vendo a cavallaria
contraria arremessar-se a todo o galope.

--vante! A elles, drages! Bradou Taylor, largando as redeas, e
soltando o fogoso ginete, cujas crinas ondeantes aoutam o ar.

Foi como o encontro de dois vulces rolando ennovelados por cima da
terra, que parecia gemer e vergar opprimida com a tempestade de homens e
cavallos, cujo estrondo abafado recresce  medida, que as duas muralhas
de ferro se approximam.

O cho embebe-se rapido debaixo dos ps dos corseis. J no  seno uma
estreita orla entre dois rolos de p.

O sol bate de chapa sobre a planicie. As armas scintillam despedindo
clares sinistros. A distancia desapparece! As primeiras filas topam em
cheio. Um grito, uma exploso, um estrondo horrendo, assonancia de mil
clamores e de mil estrepitos, acompanha o medonho choque!

As fileiras baralham-se, e a peleja individualiza-se. Os pelotes
atiram-se uns contra os outros como vagas furiosas e encapelladas,
estourando no meio d'aquelle mar agitado. Com as redeas nos dentes, os
cavallos empinados, e a pistola, ou o sabre em punho, n'este duello
immenso composto de mil combates parciaes, cada qual busca um contendor
e logo o esquece, derrubado e nas ancias da morte, ou distrado no ardor
da nova provocao. Ao fuzilar das espadas juntam-se as detonaes, a
chamma fugaz dos tiros disparados  queima roupa, e os jorros de fogo
que illuminam a frente das baterias.

A atmosphera suffoca. Ao alento fumegante dos cavallos, nitrindo de
colera, une-se a respirao abrazada dos homens, cujos olhos relampejam,
cujo odio encanecido em momentos devora o adversario alado deante
d'elles. O sangue gotteja das armas e dos uniformes. Gemidos e brados
acompanham a agonia e a vingana. Por meio d'esta scena de furia e
delirio feroz atravessam ginetes sem dono com as crinas soltas, e cruzam
esvaindo-se pelas feridas corseis arrastando presos dos estribos os
cavalleiros moribundos. A lucta  toda de fora e destreza. Deslumbra a
vista o faiscar incessante dos golpes. As fileiras raream-se. As vozes
dos chefes retumbam por cima do concerto horrendo dos combatentes
travados como feras no circo.

D'Aubry, fiel  sua palavra, mais parecia buscar a morte, do que a
gloria. O seu brao fere infatigavel; o seu peito offerece-se descoberto
s balas e ao ferro. Por onde passa, os mais fortes e audazes, recuam,
ou caem. Manuel Coutinho, ao lado de Taylor, viu-o atirar o cavallo ao
encontro do coronel, sar intacto e invulneravel do arremesso de cem
contrarios, e avisinhar-se com a espada alta sobre o commandante inglez.

Sentindo fugir-lhe o campo, e divisando rotas, ou desordenadas suas
fileiras, Taylor accommette quasi s os inimigos com aquelle supremo
desdem do perigo, feio heroica do seu caracter. Poucos drages e
alguns portuguezes ainda o rodeam, porm j desfallecidos. Os esquadres
britannicos recuam e fazem j meia volta, retirando-se surdos s ordens
e  desesperao dos capites.

Lassagne e o coronel inglez encontram-se um defronte do outro por um
d'esses acasos, que a guerra tantas vezes arrasta. D'Aubry luctava perto
por abrir caminho, mas se podia ver o combate, no podia soccorrer o
companheiro de armas. De subito a espada do tenente francez faiscou
baixando a cravar-se no hombro esquerdo de Taylor, que a dor faz
vacillar nos ares, mas ao qual a ira, restituindo o alento, presta
novas foras. Um golpe terrivel depressa o vinga, e Lassagne, varado de
uma estocada pelos peitos, baqua do cavallo em terra.

--Adeante! clama a voz do coronel, apertando os joelhos ao cavallo, e
floreteando o sabre.

No poude dizer mais. Uma bala suspende-o na carreira. A mo inerte
solta as redeas, a espada na escapa-lhe dos dedos, e o corpo seguro na
sella por segundos oscilla e prostra-se afinal sem vida. A bala
tinha-lhe atravessado o corao!

Manuel Coutinho olhou e empallideceu. Na mo de Armand d'Aubry fumegava
ainda a pistola, que disparra o tiro. A queda de Taylor acabou de
abalar os soldados j vacillantes. Alguns d'elles comtudo, cercam
d'Aubry, accesos em raiva e esquecem tudo para saciar o odio, que os
abraza. Triste com a perda do amigo, insensivel  propria morte, o
mancebo quasi que mal lhes disputa a existencia. J o sangue lhe corre
de largas feridas, j a espada lhe treme na guarda, j um vu principia
a turvar-lhe a vista, quando de repente v a larga folha de um sabre
ameaar-lhe a fronte, outro ferro antepor-se e aparar a golpe, e uma voz
conhecida bradar-lhe:

--Rende-te!

Entregou a espada j sem ver a quem, e fechou os olhos.

Quando tornou a abril-os, achou-se debaixo do tecto de uma barraca de
lona ingleza, com o cirurgio-mr de um corpo britannico ao lado, e
Manuel Coutinho  cabeceira.

A batalha tinha terminado. A brigada Solignac na estrada da Lourinh, e
a brigada Crenier na assomada da Ventosa haviam tentado tambem de balde
a ventura das armas. A fortuna de Wellesley foi mais poderosa. As
posies do Vimeiro, immortalizadas pela firmeza dos alliados,
repelliram todos os ataques. No fim de duas horas e meia de fogo, os
francezes contaram fra de combate mil e oitocentos homens entre mortos
e feridos, bastantes prisioneiros, entre elles o general Brenier, e
treze peas de campanha perdidas, com vinte e tres carros de munies. O
duque de Abrantes, salva a honra, inclinou-se deante da adversidade, e
ordenou a retirada.

Restava-lhe morrer, capitular, ou abrir pelo meio dos inimigos a
retirada. A sorte compadecida no quiz que elle encontrasse um tumulo em
Portugal, aonde quasi possuira um throno. Por mo dos proprios
adversarios lhe franqueou as portas da patria.




XII

Sol entre nuvens


Voltemos quella casa to risonha do campo do Ourique, aonde ouvimos as
imprecaes de Manuel Coutinho, as palavras prudentes do bispo de
Malaca, e a resposta de Leonor s propostas de Lagarde. Apenas
decorreram algumas semanas, mas os successos precipitaram-se, e tudo
mudou de aspecto.

Entremos sem ruido pela alcova, cujas portas de vidraa, recatadas pelo
reposteiro de seda, abrem sobre a sala, aonde vimos a filha de Paulo de
Azevedo jurar ao seu amante eterno amor. Os moveis e o adorno do
aposento so ainda os mesmos. Os raios do sol afagam de luz dourada as
avezinhas, que saltam nas gaiolas, e beijam as corollas das flores,
cujos variados matizes sobresaem, marchetando os bellos ramos, que
enfeitam as antigas jarras japonezas em cima do marmore dos trems.

O gato valido dormita enrolado sobre o seu coxim de l. A agulha
contina esquecida, picando a tela na folha comeada mezes antes no
bastidor. L est aberta a Imitao de Christo na pagina, que Leonor
lia, quando a entrada de Manuel Coutinho a veiu interromper. Alm se
descobrem, junto do espelho de talha alta, os outros livros, fieis
companheiros da donzella, nas suas horas de tristeza e solido! Tudo
parece o mesmo, e, todavia no sei que invisivel e indiscreto delator
logo revela aos olhos, que o infortunio e as magoas j no humedecem de
suas lagrimas aquellas paredes, aonde j se respira conforto e alegria.

Soam passos e vozes na rua mais proxima do jardim. A areia range debaixo
dos ps de tres pessoas, que se encaminham lentamente para a meia
laranja rasgada deante da escada de pedra.

Todas tres so nossas conhecidas. No meio, mais grave e preoccupado, do
que o vimos nos dias de oppresso e de risco, vem o veneravel bispo de
Malaca. Conserva ainda o bondoso sorriso e a serena expresso do
semblante, mas um vu de melancholia lana-lhe algumas sombras sobre o
rosto.  sua direita Manuel Coutinho com o brao esquerdo ao peito
parece escutar com impaciencia as phrases, que Paulo de Azevedo solta
com vehemencia, todo inflammado em ira.

--No, Manuel, no me convence! exclamava o velho cavalheiro colerico. A
capitulao de Cintra  um opprobrio para ns, e uma infamia para quem a
assignou! Se foi para nos tractarem como conquista sua, para nos
venderem a honra e a fazenda a retalho, excusavam os inglezes de vir a
Portugal. Estrangeiros por estrangeiros c tinhamos o Junot. Ladres por
ladres c estavam Lagarde e Juffr. No era necessario encommendarem-se
os Trant, os Dalrymple, e os Ackland!...

--No v to longe, sr. Paulo de Azevedo, no seja injusto! accudiu o
bispo, interpondo-se mansamente. Louve a Deus pelas maravilhas da nossa
restaurao, e no se afflija tanto com o mais. Tudo tem remedio.

--De mais, observou Manuel Coutinho, estou certo de que os alliados j
conhecem o seu erro, e ho de cedo emendar o mal. Sir Arthur Wellesley
disse...

--To bom  elle, como os outros! interrompeu Paulo, levantando a voz.
Manuel Coutinho  muito moo. Conto mais annos e mais experiencia.
Lembre-se de que tambem os francezes entraram aqui com ps de l, e
depois...

--Pois cuida?!  impossivel!...

--Cuido, sim, senhor. No sei o que acham os estrangeiros n'esta tira de
terra, mas a verdade  que todos a cubiam, hespanhoes, francezes e
inglezes! Mas se estes de agora imaginam representar ao vivo a fabula da
ostra e dos litigantes talvez se arrependam. No ho de comer a polpa e
dar as cascas a Bonaparte e ao principe regente! Em Portugal ainda ha
fouces roadouras e espingardas caadeiras por essas choupanas para
exterminar hereges e traidores!...

--Socegue! Pois julga que o governo inglez havia de cair na loucura de
querer apoderar-se do reino!? atalhou o bispo sorrindo-se. Os generaes
alliados no nos tractaram bem, concedo. Faltaram ao respeito devido 
rainha, nossa senhora, dispondo sem audiencia nossa, do que pertence 
sua cora; mas suppor que o fizessem com o ruim sentido de substituir a
sua usurpao  de Frana, no posso crel-o!

--Creia o que quizer, senhor bispo; mas saiba que o illude a sua bondade
natural. Seno diga-me: Estamos hoje a dez de setembro. Ha oito dias,
que o Tejo se v coalhado de navios de transporte e de vazos de guerra
inglezes. Que bandeira tremula em S. Julio, nos fortes, em Pao
d'Arcos, e em Belem? Uma commisso de estrangeiros, em que s figura por
esmola um portuguez, abriu balco no largo do Loreto n.^o 8, para tomar
conta das mobilias dos paos reaes, das reparties publicas, e dos
objectos furtados dos arsenaes, como de cousas inteiramente suas! Os
francezes acampam nas praas com as peas carregadas! Os inglezes esto
quasi ao lado d'elles! Pode dar-me noticia de Bernardim Freire e do
exercito portuguez? Sabe aonde pra? No o pozeram fra, a elle, que era
de casa, para se metterem a si de dentro?!...

-- verdade! respondeu Manuel Coutinho um pouco enleiado, porque a
amisade e respeito ao velho cavalheiro o prendiam por um lado, em quanto
pelo outro se lhe figuravam exageradas suas queixas e apprehenses. Mas
a capitulao foi negociada e assignada entre Junot e os alliados!
Talvez seja essa a causa da falta do nosso general n'este momento.

--E essa falta, attestada pelo protesto, que elle de certo ha de fazer
como bom portuguez e bom soldado,  a maior accusao, que existe,
contra a insolencia, com que somos tractados! bradou Paulo de Azevedo
com os olhos scintillantes. Pois dispe-se assim da soberania, da
independencia, da honra, dos interesses, e da segurana de um reino
amigo sem chamar s conferencias o general, que o representa, e que
empunha as armas para os sustentar?! Aonde estariam a esta hora
Wellesley, Dalrymple, Beresford, e Moore, se as nossas villas e cidades
se no sublevassem, e se o nosso exercito lhes no cobrisse a marcha
sempre? A bordo dos navios, ou vencidos e afogados no mar! So muito
esquecidos estes senhores inglezes!

--E aonde estariamos ns, tambem, accudiu Manuel Coutinho, por fim
irritado, se esses inglezes, que o sr. Paulo de Azevedo quasi amaldia,
como inimigos, no combatessem pela nossa liberdade na Rolia e no
Vimeiro? Julga que as milicias de Bernardim Freire, e os Teros
tumultuosos eram capazes de desalojar De Laborde, ou de vencer Junot?
Quer que sejamos injustos? Todos viram o que succedeu. Foi ainda hontem!
O sangue vertido pelos estrangeiros em nossa defeza est vivo e fresco.
No lhe parece cedo para comearmos a ser ingratos?!...

--Ingratos?! Ah! Manuel Coutinho no esperava similhantes palavras da
sua bcca! Pois j se namorou tanto dos estrangeiros n'estes poucos
dias, que lhe esqueam as offensas da patria escarnecida,
vilipendiada?...

--Ajudei a vingal-as no campo, sr. Paulo de Azevedo! redarguiu o mancebo
com alguma altivez. O que digo vi-o por meus olhos. O meu sangue correu
tambem alli! Se defendo os inglezes  porque os admirei como soldados, e
juro que no receio d'elles, que se nos convertam em inimigos. Acredite!
Agora podemos confessar a verdade. As sublevaes das provincias no
expulsavam os francezes de Portugal!

-- tambem o meu voto! disse o bispo, pondo a mo no hombro do velho
cavalheiro, e persuadindo-o mais pela amenidade do sorriso e dos modos,
do que com as palavras. Ns ss contra tropas firmes e disciplinadas
podiamos ennobrecer de victimas o martyriologio nacional; mas vencer
parece-me que no. Vamos, meu amigo. Melhor o far Deus! Estamos em suas
mos, e Elle por sua infinita misericordia no ha de levantar de cima
d'este reino a proteco visivel, com que nos est soccorrendo. No vae
tudo to bem como devia ir? Fomos offendidos e aggravados? Paciencia! Do
mal o menos.

--Paciencia! exclamou o pae de Leonor j mais brando. Paciencia?! Sinto
arder o sangue nas veias, e o pejo nas faces, quando leio as
proclamaes e editaes d'esses libertadores, que mandam como se no
tivessemos patria, rei, e independencia! Os francezes riem-se de ns
como de crianas enganadas. Lagarde entrouxa e enfarda as riquezas de
Queluz. Junot tracta do Castello de S. Jorge, e embarca caixotes e
caixotes cheios de preciosidades. Os traidores, que nos venderam, vo
sar com elle ricos e impunes, e no nos levam amarrados com
gargalheiras de ferro ao pescoo para nos venderem, como negros, talvez
porque no tem navios para tanta gente!...

N'este momento os tres chegavam defronte da escada. No alto, entre os
humbraes da porta, despontava, pallida e graciosa, a figura delicada de
Leonor, envolta em um penteador de rendas, com um meigo sorriso nos
labios.

--Alli est a nossa irm da caridade, a nossa fada! Leio nos seus olhos
melhores noticias dos enfermos! accudiu o bispo, acenando risonho 
donzella, que esperasse, e comeando a subir os degraus com a pausa da
edade.

Manuel Coutinho crou de alvoroo, e a sua vista, em um relance, disse
tantos segredos amorosos ao corao palpitante, que voava para elle, que
as faces de Leonor se avivaram de instantaneo rubor.

Paulo de Azevedo, no peito do qual principiavam a applacar-se as iras
murmurando ainda, apenas fitou a filha, sentiu de repente o animo de
todo sereno, e as mais grossas nuvens dissipadas. A alegria intima
espraiou-se-lhe pelo rosto, e com a bcca cheia de riso, exclamou ainda
do meio dos canteiros de flores:

--Ah! Ah! Pelo que vejo levantmo-nos com a aurora e samos fresca e
viosa com ella?! Manuel, que fizeste  tua noiva, que no te fala?
Temos amuos, ou estaes hoje deveras mal, filhos?

Os dois amantes, sorrindo-se, trocaram um volver de olhos to suave e
enlevado, que os anjos custodios de ambos, se no fossem to puros
espiritos, teriam inveja s felicidades da terra.

Paulo percebeu e sorriu-se tambem, offerecendo o brao a Manuel ainda
ferido no brao esquerdo, e contuso em uma perna, para o ajudar a subir.
Ao mesmo passo ameaava com o dedo a Leonor, accrescentando:

--Bem! Muito bem! Entendo! Esto apostados para enganar o pobre velho,
que j no sabe de si, nem dos outros? Pois sim! Quer saber, sr. bispo?
Estes dois innocentes, que no pestanejam deante de ns, que no dizem
uma palavra com medo de que o ar os toque, vou jurar, que j se viram e
se falaram hoje da janella?! Adivinhei? Sim, ou no, Manuel Coutinho?

--Adivinhou metade. J nos vimos,  verdade. Agora falarmos no. Para
que?

--De certo! atalhou o cavalheiro rindo com malicia. Se no me esqueci do
meu tempo de rapaz, para que deu Deus olhos aos amantes, seno para
dizerem tudo callados? Vamos! So mais do que horas de almoo. O passeio
e a disputa abriram-me o appetite! E d'Aubry? Passou melhor a noite? O
accesso no voltou?

--No, meu pae. Graas a Deus, est salvo. Disse-o o medico ainda ha
pouco.

--Ah! o doutor Thomaz esteve por aqui? No me chamaram?! Com que ento
temos homem? Estimo immenso. D'Aubry, apezar de jacobino,  uma perola,
e sou seu amigo verdadeiro. Aquelle corao...

-- um nobre e grande corao, sr. Paulo, um corao de ouro! atalhou
Manuel Coutinho. Devemos-lhe muito, e ainda bem que o acaso me trouxe
pela mo ao sitio em elle de proposito se estava deixando matar!...

--E o outro francez, o tenente Lassagne? observou o bispo depois de
beijar Leonor na testa com paternal carinho. Tenho por elle tanta
sympathia!...

--Est livre de perigo tambem, disse-o o doutor, redarguiu Leonor.

--Podem pezar-se ambos a cra, que no estado, em que os vi entrar aqui
nas macas, no cuidei nunca que escapassem.  verdade, que reis no eram
tractados com mais desvelo. Leonor! Nasceste mesmo para mulher de um
capito. Foste uma enfermeira exemplar.

--Devia-o ser, meu pae. No foi d'Aubry quem abriu as portas da sua
priso e enxugou as nossas lagrimas? Manuel lembrou-se, e, salvando-o,
verteu por elle o seu sangue. Eu! Havia de fazer menos e ser ingrata?
Quando voltar a Frana, no ha de dizer, que a nossa memoria foi mais
curta, do que o beneficio. Achou em Manuel um irmo...

--E em ti uma irm! Muito bem! Elle merece-o. Sabes a minha pena? 
aquelle maldito Lagarde! Porque ha de Aubry ser sobrinho de similhante
velhaco?! Se no fosse isso! Antes do senhor intendente nos dizer adeus,
havia de ajustar com elle as minhas contas! Entremos. Com aguas passadas
no moem moinhos.

Os tres entraram, e em quanto elles almoam e conversam, informaremos
ns o leitor em duas palavras dos acontecimentos a que alludiram no
jardim, quando os encontrmos.

A batalha do Vimeiro provou ao duque de Abrantes, que lhe escasseavam as
foras para arrancar os inglezes de Portugal. Kellermann, acompanhado de
dois esquadres de cavallaria, apresentou-se no quartel general inglez,
e aproveitando habilmente a timidez e a falta de tacto de sir Hew
Dalrymple, negociou com elles a famosa capitulao de 30 de agosto, que
tomou o nome de villa Cintra, aonde foi assignada, e que feriu ao mesmo
tempo o orgulho britannico e o amor proprio nacional, murchando metade
dos louros da victoria, e esmorecendo o enthusiasmo, com que Portugal
abria os braos aos alliados, e os acclamava restauradores da sua
independencia!

Os francezes por ella obrigaram-se a evacuar o reino com armas e
bagagens, no como prisioneiros, mas como tropas em armas, que os navios
britannicos haviam de desembarcar em Rochefort, podendo servir na guerra
apenas entrados na sua patria. As praas de guerra deviam ser entregues
aos soldados inglezes! Ao exercito era livre transportar comsigo, alm
da artilheria e do trem, a caixa militar, e tudo o que pertencesse aos
corpos e aos chefes! Os feridos e doentes ficaram entregues ao cuidado
do governo inglez. Junot prometteu concentrar as suas divises a duas
leguas de Lisboa, e o general em chefe sir Hew a tres leguas. A
conveno affianou de mais a segurana e a impunidade das pessoas
addictas ao dominio dos invasores, e a troca de todos os prisioneiros
desde o comeo das hostilidades. Dos portuguezes, do seu rei, dos seus
direitos, nem uma palavra! Foi como se no existissem! Nem os ouviram,
nem os attenderam!

O general Bernardim Freire de Andrade, aggravado do completo
esquecimento ou antes do desprezo, com que viu omittida a sua patria
n'estas memoraveis estipulaes, protestou contra ellas em 14 de
setembro, e suas justas queixas, inseridas nas folhas de Londres,
exacerbaram ainda mais a indignao do povo inglez. A capitulao,
condemnada como um acto vergonhoso, mereceu o stygma, de que a flagellou
a soberba imprecao de Byron em um dos cantos de _Child Harold_.

O duque de Abrantes affrontou a adversidade com valor, e houve-se com
destreza antes, e depois do revs. Escarneceram-o por mandar illuminar
Torres Vedras na vespera da batalha, festejando antecipadamente o
triumpho! As luminarias eram para illudir e conter as iras da capital.
Recolhido de novo  crte,  testa de suas tropas, a impaciencia dos
habitantes, por mais que o desejasse, no poude ler o annuncio do
desastre no seu rosto impenetravel. Sereno e intrepido conservou seguras
at ao ultimo instante as chaves!

A anciedade attribulou muitos dias o animo dos moradores. Lagarde e a
Policia, caso raro (!) alcanaram entreter as incertezas, encobrindo a
noticia da conveno. Os primeiros signaes da liberdade proxima
deu-lh'os smente em 2 de setembro a entrada dos navios britannicos no
Tejo. O exercito francez principiou a embarcar por divises, e com elle
se abrigaram egualmente debaixo dos estandartes estrangeiros os
portuguezes compromettidos, que o odio publico apodava de jacobinos. A
bandeira dos alliados hasteava-se em S. Julio e nos fortes das margens
do rio, em Pao de Arcos, e em Belem! Os inglezes acampavam em Arroyos e
no Campo de Santa Anna, tomando posse dos quarteis,  medida, que os
regimentos de Junot os despejavam.

Todos estes movimentos, e a vigilancia militar e hostil, com que os
francezes se guardavam nas praas com as peas carregadas  bcca das
ruas e os murres accesos, despertavam as esperanas dos nossos,
inflammando o seu zelo, reprimido do maior impeto pelos avisos de sir
Carlos Cotton, enviados de bordo da nau _Hybernia_, e pelos conselhos
prudentes de alguns patriotas respeitados.

Ao povo tudo isto se representava um sonho. Aos homens sisudos doiam no
orgulho nacional as condies da capitulao, mas temperava-se a magoa
d'ellas com a ida de estar por um fio a queda da usurpao.

D'Aubry e Lassagne, perigosamente feridos no Vimeiro, salvos por Manuel
Coutinho, e transportados para a casa hospitaleira do bispo de Malaca,
graas aos disvelos do mancebo, tornando a si do agudo padecimento,
souberam que veriam de novo a Frana em breve. Seria sem saudade da
terra que iam deixar?




XIII

Concluso


--Ento ainda duvida? Somos livres. No lhe dizia eu que estavamos nas
mos de Deus?!..

--Ainda bem que acabou assim, sr. bispo, ainda bem! Mas sou teimoso. Os
inglezes portaram-se mal. No os defenda. Do ao cu o que o demonio no
quiz...

--Valham-me os Santos Martyres de Marrocos, sr. Paulo de Azevedo! Nada o
contenta. Nem este dia de gloria e de jubilo, em que todos parecemos
loucos!?...

--Olhe! Quem vai de certo contente  o Junot. Leva ao seu imperador um
exercito que devia ficar prisioneiro...

--Se o derrotassemos!...

--Derrotavamos de certo. No tinha retirada. E o traficante de Lagarde,
que sae a barra cheio, como um ovo, de tudo o que roubou com as garras
da policia. A proposito, viu d'Aubry? Como supportou elle a noticia?...

--Da capitulao? Como um homem de brios e de grandes espiritos.

--E conta partir, e deixar-nos? Que remedio! Sabe que ha de fazer-me
falta. Estava costumado aos seus ditos joviaes, e agora!...

--Sente a separao? Tambem eu e elle a no sentimos pouco. Lassagne foi
com Manuel Coutinho ao quartel general inglez apresentar-se, e tirar
guia para o enbarque. Est muito pallido, mas fica-lhe bem. Excellente
rapaz!

--Vamos ns dar tambem uma volta pela cidade. Apezar de tudo...
accrescentou sorrindo, a alegria do povo, mais ou menos, sobe sempre 
cabea dos que no se illudem com as apparencias. O dia 15 de setembro
ser por muito tempo um dia memoravel nas recordaes da patria.

--Ora ainda bem que o ouo falar assim. Vamos.

E os dois saram pela porta do jardim.

D'Aubry ao mesmo tempo achava-se no vo de uma janella da sala, onde
vra Leonor pela primeira vez. Mais desmaiado e mais consumido de
physionomia, do que antes dos ferimentos, os olhos conservavam, todavia,
o antigo brilho, offuscado n'este momento por um vu de contemplativa
melancholia.

Tinha na mo um volume aberto, estava de p, e julgando-se s fugia-lhe
a vista com o pensamento das paginas mortas do livro para as paginas
vivas das ultimas semanas da existencia. Duas lagrimas furtivas, e a
magoada expresso do rosto, revelavam, que, se o corpo convalescia da
molestia, a alma traspassada de occultos espinhos ainda continuava
enferma.

De repente uns dedos melindrosos, tocando-lhe no hombro ao de leve,
fizeram-o estremecer. Sem ver adivinhou que era Leonor. A cr
afogueou-lhe as faces subitamente, e um sorriso contrafeito passou-lhe
pelos labios, mais triste, do que a propria dor immobil.

--Que  isto?! accudiu a donzella, fitando-o compassiva e carinhosa. O
meu doente aqui, e s, com os olhos no cu, e, Deus me perdoe (!) ainda
humidos de pranto!? O que teve Armand? Que mal lhe fizemos para estar
assim magoado? Offendi-o sem saber, offendeu-o alguem d'esta casa
innocentemente?!...

--Offender-me, sr.^a D. Leonor! Os anjos deixam saudades e no aggravos!
Estava-me lembrando dos ditosos dias que passei aqui...

--Ditosos?! Entre dres, e moribundo?!

--Ditosos sim. Que eram as dres para mim, quando a tinha a meu lado,
imagem suave da consolao e do affecto? O corpo parecia morto, estava
quasi morto, mas se soubesse o que o espirito vivia e sonhava ento!...
Delirios de enfermo! Illuses que a realidade cura... cruelmente, 
verdade, ou que s o tumulo acaba muitas vezes!...

--No diga isso. O que chama illuses so realidades, todos aqui
dariamos a vida, que lhe devemos, para o vermos salvo e satisfeito.
Creio que apesar de se ver entre estranhos...

--Estranhos?! No me faa ingrato, que no lh'o mereo. Nunca houve mais
extremosos amigos! Deus, compadecido da minha solido, quiz dar-me antes
de morrer, porque me diz o corao que o primeiro campo de batalha ser
a minha sepultura, a alegria de possuir no seu affecto o que a morte de
meus paes me roubou na infancia desamparada. Leonor! Consinta que repita
assim o seu doce nome. Disse-me um dia que era minha irm!...

--Acha que o no fui, que o no sou j?! atalhou ella com um sorriso
meigo.

--No! Porque me salvou da morte, quando a eu buscava e ella vinha?
Minha irm! Que distancias, que inimigos, e que esquecimento dentro em
dias a vo apartar para sempre do triste ferido!  noiva, manh ser
esposa! Pde caber no seu peito com o amor... de outro, a memoria do
estrangeiro, que lhe passou deante apenas como sombra, que lhe deu
occasio de provar os thesouros admiraveis da mais piedosa
compaixo?!...

E, proferindo estas vozes apaixonadas, o mancebo, pallido, e quasi
desvairado, suffocava-se em cada phrase, porque a dr lhe cortava o
peito. Leonor entristecia-se de o ouvir. Aquelles gemidos eram mais do
que amisade, eram gritos de uma ternura delirante, que a vontade em vo
luctava por conter. Em cada suspiro, em cada palavra gottejava o sangue
da alma.

A donzella commovida fez-se de repente pallida, como elle; e afogando em
um sorriso superficial os sentimentos, que principiavam a combatel-a,
respondeu, affectando a serena innocencia da ignorancia:

--Somos irmos, no o disse j? Devo-lhe tanto, que nas oraes, nas
supplicas, que elevo ao cu, no posso, no sei, separar do nome de meu
pae, do nome e do extremo... do que ha de ser meu marido, o nome
estimado de Armand d'Aubry! A minha alma  maior do que suppe. Cabem
n'ella amor de mulher, affecto de filha, e amisade de irm!...

--Leonor! Se eu ousasse!... Se quizesse adivinhar? atalhou o sobrinho de
Lagarde, em cujas pupillas faiscou momentaneamente um claro de
esperana.  um segredo, que o meu corao calla e recolhe em si, mas
que o devora como alguns venenos corroem o vaso que os encerra...

--E envergonha-se de o confessar? accudiu ella tremula do estado, em que
o via, e receiosa da palavra imprudente, proxima a saltar dos labios do
mancebo. Cuida que no adivinho o motivo da sua tristeza, a razo das
lagrimas, que esconde, e que so o orgulho da nossa amisade?!...

--Ah! Calle-se, Leonor. Calle-se! No v que se me espedaa o corao de
ouvil-a falar assim!...

--Das saudades, que leva d'aqui, e que nos deixa?! proseguiu a filha de
Paulo de Azevedo no mesmo tom, mas fria e tremula por dentro da dr e
anciedade comprimida de Aubry. No se envergonhe d'ellas! Tambem eu as
sinto como irm...

-- to pouco! mumurou Armand quasi desfallecido e a meia voz.

Depois, cobrindo o rosto com as mos, e suspirando, conservou-se por
algum tempo mudo. Quando ergueu por fim a fronte, a vista era j mais
firme e socegada, e o sorriso doloroso menos cortante.

--Perdoe-me, Leonor, affligi-a, bem sei. Somos irmos, s irmos, nada
mais! No podemos ser seno irmos!... O que disse--o que pensei um
momento--foram sonhos, foram delirios. Esqueamol-os. No conheci minha
me. Apenas se inclinou sobre o meu bero para se despedir de mim com um
beijo e voar ao seio dos anjos. Nunca amei do corao seno agora! 
falso! Nem agora! A minha paixo, a minha esposa, foi sempre a gloria,
no quero, no devo ter outra, e ha de ser. O tumulo  o leito nupcial
que ella abre aos que a adoram. Se lhe disserem breve, que este amor, o
da gloria, me custou a vida, d-me uma lagrima e uma memoria! Manuel
Coutinho no o pde estranhar. Os mortos no causam ciume aos vivos!...

--Jesus! Aubry! Que tristes idas! Magoam-n'o os festejos populares? Se
quer vamos para outra casa, aonde se ouam menos!

--No! No! A maior dor passou. Veja! Quero outra vez ser o estouvado,
que a obrigava a rir-se de suas eternas distraces! Sae? Mal conto por
minutos as horas que tenho de a ver ainda! No v que roubar-m'os 
quasi um delicto? Reca nos galanteios francezes, pasto usual de suas
ironias. D'esta doena  que me no curo!...

Leonor meneou a cabea. A voz e o gesto desmentiam as palavras. Armand
amava-a, e fiel  lealdade jurada e  amisade de Manuel Coutinho,
arguia-se do sentimento invencivel como de um crime.

A entrada de Lassague, do seu amante, e do cavalheiro de Mafra trouxe
diverso salutar  violenta coaco dos dois.

Nem um, nem outro podiam j dissimular.

--Bravo! gritou da porta Paulo de Azevedo. No sabes Leonor? A bandeira
branca, a bandeira sem mancha, j tremula no castello e nas fortalezas!
Os vivas nas ruas da baixa atram tudo. Os foguetes em girandolas sobem
e estalam nos ares. Os repiques dos sinos, as salvas de artilheria no
rio, coalhado de navios e botes, e nas torres, ensurdecem. Os montes da
cidade esto negros de gente.  um delirio, uma loucura! Deram-me mais
de cem abraos, e no sei ainda a quem os devo! Somos livres. Temos rei
e patria!... Manuel Coutinho dentro de tres dias quero que seja meu
filho. Temos a dispensa concedida e o padre de casa, o nosso santo
bispo. D'Aubry! Deixe rir e cantar os rapazes! No faa caso. Quando
vier a paz geral... venha comer comnosco a Lisboa as broas do natal!...

Armand, ouvindo anunciar para to breve o casamento de Leonor, tinha-se
tornado livido como um cadaver, e vacillra. A vista cobriu-se-lhe de
nuvens, e se Lassagne o no amparasse, no se sustinha de p. A
donzella,  qual Manuel Coutinho apertava a mo com namorado enlevo, leu
a desesperao nos olhos do official francez, e sentiu quasi remorsos do
amor que o matava a elle. Silenciosa e pallida inclinou a fronte, e
sepultou no peito o suspiro, que ia j a soltar indiscretamente. D'Aubry
venceu-se de pressa.

Tornando-se a si, adivinhou o que encerrava de affectuoso e nobre o
silencio da noiva, e resolveu corresponder-lhe com generosidade egual.
Pegando na mo de Manuel e de Leonor, e unindo-as, disse ao velho
cavalheiro com um sorriso:

--Sr. Paulo de Azevedo! Este dia de jubilo para Portugal no me
entristece. Ns o vingaremos, como soldados, em outros campos. Consinta
que na hora de partir, e de lhe dizer adeus para sempre, eu beije a mo
de minha irm, e que estreite nos braos o irmo que me salvou!...

E depois de abraar Manuel, os seus labios tocaram por instantes a bella
mo de Leonor. A donzella, sentindo car sobre ella uma lagrima ardente,
que lhe escaldou a alma, refugiou-se confusa e anciosa contra o peito do
esposo promettido.

--Aubry! No acceito desculpas. Ha de ser dos nossos, assista ao
casamento de minha filha!

-- impossivel! redarguiu Armand com tristeza, logo dissipada pelo
impeto affectado do seu genio jovial. As nupcias de Manuel fizeram-me
lembrar, de que tambem tenho uma noiva, a gloria, noiva que espera por
mim para consumar o meu destino. Leonor, adeus.  melhor despedirmo-nos
j d'aqui... at  eternidade! ajuntou em voz sumida.

--Armand! respondeu ella no mesmo tom. Fique! No v que a morte, que
deseja,  um suicidio?!

--No.  um dever. Adeus. Lassagne! Quando em Frana nos recordarmos de
Portugal... a doce imagem do anjo, que nos salvou, sempre gravada no
peito, ser a companheira e a consoladora de nossas saudades. Manuel
Coutinho! A sua felicidade com a esposa, que vae ter,  para ser
invejada at do cu. No importa, merece-a. Nunca encontrei maior alma,
nem corao mais puro. Sr. Paulo de Azevedo! Ficam-lhe dois filhos para
amparo da sua velhice. Quer lanar uma beno sobre o terceiro, que no
tornar a ver talvez, mas que jura amal-o sempre?

O cavalheiro commovido apertou-o nos braos, beijou-o como filho, e
arrancando-se a custo ao doloroso enlace, exclamou:

--D'Aubry! Se Deus me tivesse dado um filho assim?! Adeus. No se
demore. Faltar-me-ia o animo. No quero... vel-o partir.

Um momento depois Lassagne e Armand volviam para aquella casa um
derradeiro e sentido olhar. O primeiro levava s vivas as saudades; o
segundo deixava n'ella para sempre metade da sua alma e a alegria de
toda a vida.

Silenciosa e triste, Leonor seguiu-os com a vista at desapparecerem.
Depois enxugou as lagrimas a furto, e suffocou os suspiros.

Teria receio de amar de mais o irmo que fugia d'ella para no
entristecer a sua felicidade!?

Quem se atrever a decifrar os mysterios do corao feminino?


A guerra da independencia prolongou-se. Armand e Manuel Coutinho,
pelejando debaixo de bandeiras oppostas, no se encontraram. Paulo de
Azevedo e sua filha falavam a miudo do official francez, que o seu
corao no sepultra com a ausencia, e o av, fazendo saltar nos braos
o primeiro neto, fructo mimoso do afortunado enlace, muitas vezes
repetia com os olhos humidos: Deus te faa um homem, como teu pae, ou
como Armand d'Aubry!

Quando a batalha de Waterloo encerrou a ultima pagina da epopeia
maravilhosa do primeiro imperio, Manuel, que subra por suas proezas a
um posto elevado no exercito, e que teve a gloria de no assistir
obscuro quelle derradeiro feito de armas, levantou do campo o coronel
d'Aubry, moribundo e varado de balas nos quadrados da velha guarda. A
morte d'esta vez quizera accudir, mas vagarosa e incerta, ao chamamento
do mancebo. Tres mezes depois Armand pelo brao do esposo de Leonor
batia de novo  porta da casa, de que se despedira sem esperanas de a
tornar a ver.

A sua presena, festejada por Paulo de Azevedo e pela filha, como
verdadeira ventura domestica, avisou a serena alegria, em que se
escoavam os ditosos dias dos seus amigos. D'Aubry mostrava ter esquecido
na lucta de gigantes da pocha o louco amor, que lhe apressra annos
antes a sada de Portugal. Nem um gesto, nem uma palavra revelaram da
sua parte a menor fraqueza! Smente, ao apartar-se, j na vespera de
embarcar para Londres,  que o segredo foi revelado por um gemido mais
alto do corao. Leonor, sempre discreta, simulou no o entender, mas
percebeu que o francez partia para no voltar! A antiga ferida
continuava aberta, seria sem remedio d'esta vez?




FIM DO SEGUNDO E ULTIMO VOLUME DA CASA DOS FANTASMAS




NOTAS AO SEGUNDO VOLUME


I


     As chacotas os andores, o baile das espadas etc. pag. 7


A festa do Corpo de Deus, instituida em 1264 pelo Papa Urbano IV, para
dar a Jesus Christo culto particular, era solemnizada nas villas e
cidades principaes do reino com exquisitas invenes de figuras, danas,
e folias. A procisso saa na primeira quinta-feira, depois da festa da
Santissima Trindade, attraindo os olhos, e enlevando a imaginao do
povo pelo esplendor e pompa, de que se rodeava.

As noticias impressas mais antigas, que sobrevivem cerca d'ella,
encontram-se nas _Dissertaes Chronologicas_ de Joo Pedro Ribeiro, e
no _Novo Regimento para o governo da mesa da bandeira de S. Jorge,
fundada nas cartas, alvars e lembranas do antigo regimento, que se
queimou pelo terremoto de 1755_, publicado pelos habeis archivistas da
camara municipal de Lisboa, em cujo cartorio se guarda.

No seu romance intitulado o _Monge de Cister_, com tanta raso admirado
como primoroso modelo da novella historica, descreve o sr. A. Herculano
(tomo II e pag. XVII) a procisso de corpus referida ao anno de 1384;
reinado de D. Joo I; e o quadro do poeta, desenhado do natural,  to
perfeito e verdadeiro, que vemos resuscitadas e vivas n'elle as feies
do grande espectaculo religioso da meia edade n'este dia.

Joo Pedro Ribeiro, no tomo III das _Dissertaes Chronologicas_, doc.
LII pag. 153, insere um alvar datado de 16 de agosto de 1630, pelo qual
o rei ordena, que os tribunaes do Porto acompanhem de futuro a procisso
do Corpo de Deus da mesma frma, que a tinham acompanhado n'este anno.
No tomo IV das _Dissertaes_ (doc. XIII a XVI.) publica duas cartas da
rainha regente D. Catharina, uma datada de 30 de maio de 1560, e a outra
de 13 de maio de 1561, nas quaes dicta alguns preceitos cerca do modo e
frma de reger a procisso na cidade do Porto, e de cohibir as
representaes deshonestas e escandalosas, introduzidas n'ella.

Outras duas cartas, uma de el rei D. Filippe III, escripta em Aranjuez
em 15 de maio de 1607, outra dirigida ao juiz, vereadores e procurador
da camara da cidade do Porto, pelo marquez de Castello Rodrigo em 18 de
maio de 1608, (doc. XV e XVI), tractando do mesmo assumpto, respondem s
queixas do bispo D. Fr. Gonalo de Moraes, e providenceiam cerca
d'ellas. Finalmente o _Regimento feito pelos officiaes da camara da
cidade do Porto para a procisso de corpus com o parecer do Dr. Antonio
de Cabral, chanceller da Relao_, regimento approvado pelo alvar de 15
de julho de 1621, encerra o plano de distribuio das figuras, cros,
danas, folias, monstros, chacotas, imagens, anjos, demonios, andores,
charolas, communidades, clero, e tribunaes, que haviam de acompanhar o
prestito, determinando o logar, que lhes cabia n'elle, e a ordem em que
tinham de caminhar.

No _Regimento Novo_ de Lisboa, que j citmos, diz-se que a primeira
vez, que o sr. S. Jorge saiu com o seu estado na procisso foi no anno
de 1387 por ordem expressa de D. Joo I. No reinado de D. Joo III, em
1538, o prestito era to vistoso e variado pela singularidade e
invenes das figuras, e pela opulencia e riqueza que ostentavam as
corporaes mechanicas, que no admirava que se despovoassem os
arrabaldes e at as provincias para assistir a to sumptuosa festa. Em
tempos mais proximos havia toirada no dia da procisso.

D. Joo V, instituindo a Patriarcal em 1717, decretou nova frma 
procisso de corpus, tornada menos profana e mais devota. A grande pompa
e o immenso cortejo, que a ennobreceu no anno de 1719, proporcionou
fecundo thema  eloquencia do incansavel irmo Barbosa Machado, auctor
da obra a que se refere o texto.


II


     O resto, o peior da empreza, encarregou-se o brigadeiro Margaron de
     o concluir por ordem de Junot, etc., pag. 29.


Coimbra sublevou-se contra os francezes no dia 22 de junho, formando
logo para sua defeza a legio academica, composta dos estudantes s
ordens do vice-reitor. O Porto tinha-se levantado no dia 18, dando o
exemplo a toda a provincia do Minho. O Algarve insurgiu-se a 16. A
provincia da Beira no se demorou tambem. Dentro de poucos dias o
incendio tinha-se extendido a todo o reino, tornando-se geral.

Os francezes conservavam guardas avanadas em Pombal e Leiria. Quinze
estudantes e um cabo conceberam o projecto de desalojar, e sairam com
esse intento de Coimbra no dia 28 de junho. Perto de Leiria foram
accommettidos por vinte e dois drages de Junot; travou-se a peleja; a
cavallaria inimiga cedeu, e communicou o panico ao resto da fora
postada  entrada da ponte. Esta, recuando, dispersou-se, ferida de
terror.

O governo francez, offendido do atrevimento, decidiu dar um exemplo
severo, castigando Leiria. O general Margaron partiu de Lisboa  frente
de dois batalhes, de quatro companhias escolhidas, e de seis peas de
artilheria, incumbido da execuo marcial decretada contra a cidade.

A columna provou logo em Alcoentre o seu ardor de vingana. Tomando o
innocente cirio da Ameixieira por um tropel de guerrilhas, Margaron
manda armar uma embuscada por traz de um pinhal, e o chefe de esquadro
Salm-Salm investe, intrepido e implacavel, os aldeos devotos, como se
fossem lees embravecidos. Aos primeiros tiros caem por terra banhados
em sangue o gaiteiro e o prgador. Depois so assassinados
indistinctamente homens, mulheres, e crianas. A fuga salva o maior
numero da furia dos vencedores, cujos despojos n'esta batalha incrivel
so duas bandeiras de Nossa Senhora, expostas como tropheus no quartel
general. O boletim de 7 de julho teve a ingenuidade de commemorar como
derrota de um exercito de rebeldes esta carnificina do povo inerme!

No dia 5 uniu-se o general Thomires com 800 homens a Margaron, e
marcharam ambos contra Leiria A cidade passou, como  de crer, dos
fogosos arrebatamentos de jubilo patriotico a uma sombria apprehenso
dos males, que a ameaavam. No contava para se defender, seno com os
brios j desalentados de algumas companhias de ordenanas, que haviam
principiado a organizar-se sob o commando do coronel de cavallaria
Rodrigo Barba Allardo, alcaide mr. O capito mr, Manuel Trigueiros,
auxiliava-o com mais zelo, que pericia, e o coronel de milicias Isidoro
dos Santos Ferreira procurava reanimar o esforo de todos com seus
discursos. Era pouco para arrostar em fortificaes, nem meios solidos
de resistencia o valor disciplinado dos soldados do exercito da Gironda.

A noite, e a noticia do que occorrra em Alcoentre, acabaram de
arrefecer o enthusiasmo amortecido dos moradores. Rodrigo Barba, os
magistrados, e o bispo, no julgando prudente, desarmados, como se viam,
affrontar as iras dos inimigos, evadiram-se sem ruido durante a calada
das trevas. Quando rompeu o dia, apenas oitocentos homens da plebe, e
duzentas ordenanas de espingardas e chuos se atreveram com temeridade
louca a disputar sem chefes a entrada da cidade aos francezes. Margaron
deu-lhes as honras de guerreiros consumados, tomando as disposies, que
poderia exigir uma fora regular e numerosa. Avanou contra Leiria com
as tropas divididas em duas las e a artilheria no centro. Disparados os
primeiros canhes, e dadas as primeiras descargas de mosqueteria, o povo
fugiu em confuso, e os francezes apoderaram-se da cidade com perda de
um homem morto e de dois feridos!

Os vencedores despregaram ento toda a crueldade contra velhos,
mulheres, e crianas, que imploraram debalde a sua misericordia, e
metteram toda a povoao a ferro e saque. O principe de Salm-Salm
sobresaiu com ferocidade n'esta campanha contra prisioneiros inermes. O
palacio episcopal, a S, e os templos foram roubados; as egrejas
desacatadas; as casas particulares invadidas e despojadas. O resultado
foi incenderem-se mais os odios, e recrudescer a resistencia nacional.
(Vid. general Foy tomo II liv. VIII).


III


     O duque de Abrantes mostrou-se digno dos feitos heroicos, que
     ennobreceram a sua carreira etc. pag. 68.


A vida de Junot comporia quasi um romance.

Nascido em 23 de outubro de 1771 contava trinta e sete annos em 1808.
Estudante do collegio de Chtillon, quando rebentou a revoluo, alistou
se como voluntario em uma companhia de granadeiros, e combateu com
denodo em defeza da patria. O valor temerario e arrebatado grangeou-lhe
no quartel a alcunha do _Tempestade_; mas a sua elevao comea em
Toulon. Bonaparte conheceu-o e apreciou-o alli, e nunca mais deixou de o
proteger.

As proezas com que sobresaiu nas campanhas de Italia e do Egypto, e a
dedicao pessoal, que sempre votou a Napoleo I, apressaram a sua
carreira. Nomeado governador de Paris depois do dia IX thermidor, e
casado com Mademoiselle Permon, cuja casa frequentra com Bonaparte em
dias menos felizes, subiu rapidamente os postos. Em 1804 achava-se
coronel general dos hussards. Embaixador em Lisboa e condecorado por D.
Joo, principe regente com a gran-cruz de Christo, saiu da crte
portugueza em outubro de 1805 sem licena, e veiu apresentar-se a
Bonaparte nas vesperas da batalha de Austerlitz, aonde realou a antiga
valentia em mais de um rasgo brilhante.

Em julho de 1806 foi nomeado governador de Paris e commandante da
primeira diviso militar. Prodigo e singular nos appetites, no havia
ouro que o saciasse. Os excessos repentinos e fulminantes da sua ira
assustavam at os amigos mais intimos. Napoleo escolheu-o para
capitanear o exercito, que invadiu Portugal em 1807, e a principio no
teve raso de se arrepender. A sua marcha rapida sobre Lisboa pelas
montanhas da Beira mereceu os louvores dos militares, e justificou o
titulo de duque de Abrantes, com que o imperador o recompensou.

A conveno de Cintra no interrompeu a carreira de Junot. Na Hespanha,
na Allemanha, e outra vez em Portugal, mas s ordens de Massena, a sua
espada no ficou ociosa. Ferido gravemente no rosto durante a guerra da
Peninsula recolheu-se a Paris. Depois da campanha de 1812, em que o
imperador o censurou de irresoluto em um dos seus boletins, a raso do
duque de Abrantes principiou a vacillar, e em Veneza acabou de se
abysmar nas sombras da demencia. Transportado para casa de seu pae, em
Montbard, falleceu a 22 de julho de 1813 de um accesso violento de febre
depois de uma dolorosa amputao.

Junot no era soldado rude e grosseiro. Gentil e urbano, sabia attrahir
pelas maneiras, e era susceptivel de sentimentos elevados e de aces
nobres. Intrepido e intelligente, se os perigos e a morte o no faziam
recuar, o pezo das responsabilidades acurvando-lhe com frequencia o
animo, tornava-o inferior a si proprio nas posies eminentes. Nascra
para ser o segundo e nunca para ser o primeiro nas arriscadas funces
do governo. Os erros, que lhe estranham mais, derivaram-se todos d'esta
incapacidade natural. Cultor das boas artes, e dotado de gosto e critica
judiciosa, a sua bibliotheca encerrava os mais bellos exemplares das
edies de Bodoni e Didot impressas em velino. Em Lisboa, entre as
cousas raras, que tomou para si, figuravam a famosa Biblia ornada das
miniaturas de Julio Clovio e alguns quadros preciosos.

Junot morreu aos quarenta e dois annos, tendo vivido por seus vicios e
fadigas quasi tres edades de homem. Os costumes dissolutos, que, longe
de encobrir, parecia alardear, a avidez pouco escrupulosa, com que se
maculou em diversos lances, o fausto e as prodigalidades, de que se
rodeava, e as furias momentaneas de um genio assomado, raiando quasi em
demencia empanaram e diminuiram a gloria conquistada pelo seu valor de
paladino em campos de batalha memoraveis.

Sua mulher, a duqueza de Abrantes, no foi menos celebre como escritora
e como dama espirituosa.




DOCUMENTOS


N.^o 1

*Tratado secreto concluido em Fontainebleau entre o imperador dos
francezes e el-rei de Hespanha*


Napoleo por graa de Deus, etc., etc., etc., havendo lido e examinado o
tractado concluido e assignado em Fontainebleau em 27 de outubro pelo
general de diviso, Miguel Duroc, nosso mordomo mr, etc., etc., em
virtude dos plenos poderes que para esse fim lhe dmos, com D. Eugenio
Izquierdo de Ribera y Lesaun, conselheiro d'estado honorario de sua
magestade el-rei de Hespanha, egualmente munido de plenos poderes de seu
soberano, cujo tractado est concebido na frma seguinte:

Sua magestade o imperador dos francezes, rei de Italia, etc., etc., e
sua magestade catholica el-rei de Hespanha, desejando de sua livre
vontade regular os interesses dos dois estados, e determinar a sorte
futura de Portugal de uma maneira congruente com a politica de ambas as
naes, nomearam para seus ministros plenipotenciarios, a saber: Sua
magestade o imperador dos francezes ao general de diviso Miguel Duroc,
mordomo mr de sua imperial casa, etc., e sua magestade catholica el-rei
de Hespanha a D. Eugenio Izquierdo de Ribera y Lesaun, seu conselheiro
d'estado honorario, etc., os quaes, depois de haverem trocado seus
plenos poderes, convieram em o seguinte:

Artigo 1.^o As provincias d'entre Douro e Minho com a cidade do Porto
sero dadas com toda a sua propriedade e soberania a sua magestade
el-rei de Etruria, com o titulo de rei da Lusitania septentrional.

Art. 2.^o A provincia do Alemtejo e reino do Algarve sero dados com
toda a sua propriedade e soberania ao principe da Paz, para os possuir
com o titulo de principe dos Algarves.

Art. 3.^o As provincias da Beira, Traz-os-Montes e Extremadura
portugueza permanecero em deposito at  paz geral, em que d'ellas
ento se dispor, conforme as circumstancia, e pela maneira que for
determinada pelas altas partes contratantes.

Art. 4.^o O reino da Lusitania septentrional ser possuido pelos
descendentes, herdeiros de sua magestade el-rei de Etruria, conforme as
leis de successo observadas pela familia reinante de sua magestade
catholica.

Art. 5.^o O principado dos Algarves ser hereditario na descendencia do
principe da Paz, segundo as leis de successo, vigentes em a familia
reinante de sua magestade el-rei de Hespanha.

Art. 6.^o Por falta de descendente, ou legitimo herdeiro de el-rei da
Lusitania septentrional, ou do principe dos Algarves ser a investidura
d'estes dois paizes garantida a sua magestade catholica, com a condio
porm de que nunca ficaro reunidos em a mesma pessoa, nem  cora de
Hespanha.

Art. 7.^o O reino da Lusitania septentrional e o principado dos Algarves
reconhecem tambem como protector a sua magestade; e os soberanos d'estes
paizes nunca podero fazer a guerra, ou a paz sem o seu consentimento.

Art. 8.^o No caso que as provincias da Beira, Traz-os-Montes, e
Extremadura portugueza, conservadas como em sequestro, forem pela paz
geral restituidas  casa de Bragana por troca de Gibraltar, Trindade, e
outras colonias, que os inglezes ho conquistado aos hespanhoes e a seus
alliados, o novo soberano d'estas provincias contrahir para com sua
magestade el-rei de Hespanha as mesmas obrigaes, que ligam  sua
augusta pessoa el-rei da Lusitania septentrional e o principe dos
Algarves.

Art. 9.^o Sua magestade el-rei de Etruria cede com toda a sua
propriedade e soberania o reino de Etruria a sua magestade o imperador
dos francezes, rei da Italia.

Art. 10.^o Logo que se leve a effeito a occupao definitiva das
provincias de Portugal, os principes respectivos, que d'ellas tomarem
posse, nomearo entre si commissarios para demarcar os convenientes
limites.

Art. 11.^o Sua magestade o imperador dos francezes, rei da Italia,
garante a sua magestade catholica el-rei de Hespanha a possesso de seus
estados na Europa ao sul dos Pyrenos.

Art. 12.^o Sua magestade o imperador dos francezes, rei da Italia, annue
a reconhecer sua magestade catholica, el-rei de Hespanha, como imperador
das duas Americas, quando sua magestade catholica se resolver a tomar
este titulo, o que ter logar pela paz geral, ou dentro de tres annos o
mais tardar.

Art. 13.^o Fica entendido entre as altas partes contratantes, que ellas
repartiro egualmente entre si as ilhas, colonias, e mais possesses
maritimas de Portugal.

Art. 14.^o O presente tractado ficar secreto: ser ratificado e as
ratificaes se trocaro em Madrid vinte dias o mais tardar depois da
data em que foi assignado.

Feito em Fontainebleau.


                                                  _Duroc.--E. Izquierdo._


(_E logo por baixo_). Approvmos e approvmos, pelas presentes
ratificaes o antecedente tractado, e todos, e cada um dos artigos que
n'elle se contm. Declarmos que fica acceito, ratificado e confirmado,
e promettemos que ser inviolavelmente observado. Em f do que
assignmos com o nosso proprio punho as presentes ratificaes, depois
de lhe havermos feito pr o nosso sllo imperial.

Fontainebleau aos 29 de outubro de 1807.

                                                  NAPOLEO.


O ministro dos negocios estrangeiros.

                                                  _Champagny._


O ministro secretario d'estado.

                                                  _H. B. Marat._



N.^o 2

EDITAL.


     O principe regente nosso senhor foi servido mandar remetter  mesa
     do desembargo do pao o decreto do teor seguinte.


Tendo sido sempre o meu maior desvelo conservar em meus estados, durante
a presente guerra, a mais perfeita neutralidade pelos reconhecidos bens
que d'ella resultavam aos vassallos d'esta cora; com tudo no sendo
possivel conserval-a por mais tempo, e considerando, outrosim, o quanto
convem  humanidade a pacificao geral: Houve por bem acceder  causa
do continente, unindo-me a sua magestade o imperador dos francezes, rei
de Italia, e a sua magestade catholica, com o fim de contribuir, quanto
em mim fr, para a accelerao da paz maritima. Por tanto, sou servido
ordenar, que os portos d'este reino sejam logo fechados  entrada dos
navios, assim de guerra, como mercantes, da Gr-Bretanha. A mesa do
desembargo do pao o tenha assim entendido e faa executar, mandando
affixar este por edital, e remetter a todos os logares, aonde convier,
para que chegue  noticia de todos. Palacio de Mafra em vinte de outubro
de mil oitocentos e sete.--Com a rubrica do principe regente nosso
senhor.--Para que chegue  noticia de todos, se mandou affixar este
edital.--Lisboa 22 de outubro de 1807.--_Jos Federico Ludovici_.


N.^o 3


     O governador de Paris, primeiro ajudante de campo de sua magestade
     o imperador, e rei, general em chefe, gro-cruz da ordem de Christo
     de Portugal.


Habitantes do reino de Portugal.--Um exercito francez vae entrar no
vosso territorio. Elle vem para vos tirar do dominio inglez, e faz
marchas foradas para livrar a vossa bella cidade de Lisboa da sorte de
Copenhague. Mas ser d'esta vez illudida a esperana do vosso perfido
governo inglez. Napoleo, que fitou seus olhos na sorte do continente,
viu a preza que os tyrannos dos mares antecipadamente devoravam em seu
corao, e no soffrer que ella cia em seu poder. O vosso principe
declarou a guerra  Inglaterra. Ns pois fazemos causa commum.

Habitantes pacificos dos campos, nada receieis. O meu exercito  to bem
disciplinado, como valoroso. Eu respondo, sobre a minha honra, pelo seu
bom comportamento. Ache elle por toda a parte o agazalho, que lhe 
devido, como a soldados de Napoleo o grande. Ache elle, como tem
direito a esperar, os viveres de que tiver preciso; mas sobre tudo o
habitante dos campos fique socegado em sua casa.

Eis o que eu vos prometto. Guardar-vos-hei minha palavra.

Todo o soldado do exercito francez, que fr achado roubando, ser punido
com o mais rigoroso castigo.

Todo o individuo de qualquer ordem que seja, que tiver percebido alguma
contribuio injustamente, ser conduzido perante um conselho de guerra,
para ser julgado segundo todo o rigor das leis.

Todo o individuo do reino de Portugal, no sendo soldado da tropa de
linha, que se apanhar fazendo parte de qualquer ajuntamento armado, ser
arcabuzado.

Todo o individuo convencido de ser chefe de ajuntamento, ou de
conspirao, tendente a armar os cidados contra o exercito francez,
ser arcabuzado.

Toda a cidade, villa, ou alda, em que se derem tiros de espingarda
contra a tropa franceza, ser queimada.

Toda a cidade, villa ou alda, em cujo territorio fr assassinado um
individuo pertencente ao exercito francez, pagar uma contribuio, que
no poder ser menor que tres vezes o seu rendimento annual.

Os quatro habitantes principaes serviro de refens para o pagamento da
somma; e para que a justia seja exemplar, a primeira cidade, villa, ou
alda, onde fr um francez assassinado, ser queimada, e arrasada
inteiramente.

Mas eu quero persuadir-me que os portuguezes ho de conhecer os seus
verdadeiros interesses; que auxiliando as vistas pacificas do seu
principe, nos recebero como amigos; e que particularmente a bella
cidade de Lisboa me ver com prazer entrar em seus muros  frente de um
exercito, que s a pde preservar de ser preza dos eternos inimigos do
continente. Dada no meu quartel general d'Alcantara aos 17 de novembro
de 1807.--_Junot._


N.^o 4

DECRETO


Tendo procurado por todos os meios possiveis conservar a neutralidade,
de que at agora tem gozado os meus fieis e amados vassallos, e apezar
de ter exhaurido o meu real erario, e de todos os mais sacrificios a que
me tenho sujeitado, chegando ao excesso de fechar os portos dos meus
reinos aos vassallos do meu antigo e leal alliado o rei da Gr-Bretanha,
expondo o commercio dos meus vassallos  total ruina, e a soffrer por
este motivo grave prejuizo nos rendimentos da minha cora: vejo que pelo
interior do meu reino marcham tropas do imperador dos francezes e rei de
Italia, a quem eu me havia unido no continente na persuaso de no ser
mais inquietado, e que as mesmas se dirigem a esta capital: E querendo
eu evitar as funestas consequencias, que se pdem seguir de uma defeza,
que seria mais nociva que proveitosa, servindo s de derramar sangue em
prejuizo da humanidade, e capaz de accender mais a dissenso de umas
tropas que tem transitado por este reino com o annuncio e promessa de
no commetterem a menor hostilidade; conhecendo egualmente que ellas se
dirigem muito particularmente contra a minha real pessoa, e que os meus
leaes vassallos sero menos inquietados, ausentando-me eu d'este reino:
Tendo resolvido, em beneficio dos mesmos meus vassallos, passar com a
rainha minha senhora e me, e com toda a real familia para os Estados da
America, e estabelecer-me na cidade do Rio de Janeiro at a paz geral. E
considerando mais quanto convem deixar o governo d'estes reinos
n'aquella ordem, que cumpre ao bem d'elles e de meus povos, como cousa a
que to essencialmente estou obrigado, tendo n'isto todas as
consideraes que em tal caso me so presentes: Sou servido nomear para
na minha ausencia governarem e regerem estes meus reinos o marquez de
Abrantes, meu muito amado e prezado primo, Francisco da Cunha de
Menezes, tenente general dos meus exercitos; o principal Castro do meu
conselho e regedor das justias; Pedro de Mello Breiner do meu conselho
que servir de presidente do meu real erario, na falta e impedimento de
Luiz de Vasconcellos e Sousa, que se acha, impossibilitado com as suas
molestias; D. Francisco de Noronha, tenente general dos meus exercitos e
presidente da mesa da consciencia e ordens; e na falta de qualquer
d'elles o conde monteiro mr, que tenho nomeado presidente do senado da
camara, com a assistencia dos dois secretarios, o conde de Sampaio, e em
seu logar D. Miguel Pereira Forjaz, e do desembargador do pao e meu
procurador da cora, Joo Antonio Salter de Mendona, pela grande
confiana que de todos elles tenho e larga experiencia que elles tem
tido das cousas do mesmo governo; tendo por certo que os meus reinos e
povos sero governados e regidos por maneira que a minha consciencia
seja desencarregada, e elles governadores cumpram inteiramente a sua
obrigao em quanto Deus permittir que eu esteja ausente d'esta capital,
administrando a justia com imparcialidade, distribuindo os premios e
castigos conforme os merecimentos de cada um. Os mesmos governadores o
tenham assim entendido, e cumpram na frma sobredita, e na conformidade
das instruces que sero com este decreto por mim assignadas, e faro
as participaes necessrias s reparties competentes. Palacio de
Nossa Senhora da Ajuda em vinte e seis de Novembro de mil oitocentos e
sete.

Com a rubrica do principe regente nosso senhor.


N.^o 5

*Instruces a que se refere o meu real decreto de 26 de novembro de
1807*


Os governadores, que houve por bem nomear pelo meu real decreto da data
d'estas, para na minha ausencia governarem estes reinos, devero prestar
o juramento do estylo nas mos do cardeal patriarcha, e cuidaro com
todo o desvelo, vigilancia e actividade na administrao da justia,
distribuindo-a imparcialmente, e conservando em rigorosa observancia as
leis d'este reino.

Guardaro aos nacionaes todos os privilegios, que por mim, e pelos
senhores reis meus antecessores se acham concedidos.

Decidiro  pluralidade de votos as consultas, que pelos respectivos
tribunaes lhes forem apresentadas, regulando-se sempre pelas leis e
costumes do reino.

Provero os logares de letras, e os officios de justia e fazenda, na
frma at agora por mim practicada.

Cuidaro em defender as pessoas e bens dos meus leaes vassallos,
escolhendo para os empregos militares as que d'elles se conhecerem serem
benemeritas.

Procuraro, quanto possivel fr, conservar em paz este reino, e que as
tropas do imperador dos francezes e rei de Italia sejam bem
aquarteladas, e assistidas de tudo que lhes fr preciso, em quanto se
detiverem n'este reino, evitando todo e qualquer insulto, que se possa
perpetrar, e castigando-o rigorosamente, quando acontea; conservando
sempre a boa harmonia, que se deve practicar com os exercitos das
naes, com as quaes nos achmos unidos no continente.

Quando succeda, por qualquer modo, faltar algum dos ditos governadores
elegero  pluralidade de votos quem lhe succeda. Confio muito da sua
honra e virtude, que os meus povos no soffrero incommodo na minha
ausencia, e que, permittindo Deus que volte a estes meus reinos com
brevidade, encontre todos contentes, e satisfeitos, reinando sempre
entre elles a boa ordem e tranquillidade, que deve haver entre
vassallos, que to dignos se tem feito do meu paternal cuidado.

Palacio de Nossa Senhora da Ajuda em vinte e seis de novembro de mil
oitocentos e sete.--_Principe._


N.^o 6

*Decreto do Bonaparte impondo uma contribuio de guerra a Portugal*


Napoleo, etc., etc., temos ordenado e ordenmos o seguinte:

Artigo 1.^o Uma contribuio extraordinaria de guerra de cem milhes de
francos[2] ser lanada sobre o reino de Portugal pelo resgate das
propriedades particulares, qualquer que seja a denominao d'ellas.

Art. 2.^o Esta contribuio ser repartida por provincias e concelhos,
segundo os respectivos meios, o que ficar a cargo do general em chefe
do nosso exercito, que dar todas as providencias para ser promptamente
cobrada.

Art. 3.^o Sequestrar-se-ho todos os bens pertencentes  rainha, ao
principe regente, e aos demais principes que disfructarem qualquer
apanagio.

Art. 4.^o Sero egualmente sequestrados todos os bens dos que
acompanharam o principe regente no acto de abandonar o paiz, se no
regressarem ao reino at 15 de fevereiro de 1808.

Dado no palacio real de Milo em 23 de dezembro de 1807.


                                                     NAPOLEO



N.^o 7

*A deputao portuguesa enviada junto a sua magestade o imperador dos
franceses e rei da Italia, protector da confederao do Rheno, aos
compatriotas*

A confiana que depositastes no grande principe, junto ao qual temos a
honra de ser interpretes dos vossos sentimentos, e dos vossos votos, foi
inspirada, menos pelo conhecimento dos interesses da patria, do que pelo
desejo de confiar a deciso da nossa sorte ao poderoso genio, que, tendo
restaurado o seu paiz, deu uma nova constituio  Europa.

O tempo que nos demormos na fronteira do imperio francez, e que
precedeu a chegada de sua magestade imperial e real, cabalmente nos
mostrou o imperio, que o grande monarcha exerce nos coraes de todos.

As acclamaes cada vez mais vivas de seus subditos nos annunciaram o
momento, em que devia completar-se a felicidade d'elles e comear a
nossa.

Sua magestade imperial e real concedeu o primeiro dia da sua chegada a
Bayona aos seus subditos (este  o tributo ordinario do seu desvelo para
com elles), e dignou-se conceder-nos o segundo. Sua magestade imperial e
real conhecia, ainda mesmo antes de lh'as expormos, a vossa posio, as
vossas necessidades e tudo quanto vos interessa. Se alguma cousa pde
egualar o seu genio,  a elevao da sua alma e a generosidade dos seus
principios.

Ao passo, que sua magestade imperial e real se dignava falar-nos das
nossas circumstancias politicas com affabilidade verdadeiramente
paternal, fazia as reflexes mais interessantes cerca da nossa
felicidade, e manifestava os principios mais elevados a respeito do uso
dos direitos que as circumstancias lhe deram. No foi como conquistador
que sua magestade imperial e real entrou no nosso territorio, nem como
tal quer que o seu exercito ahi permanea. O imperador sabe que nunca
tivemos guerra com sua magestade imperial e real. Pela grande distancia,
que separa a nossa patria do seu imperio, no pde sua magestade
imperial e real vigiar sobre ella com a mesma atteno, com que vigia os
outros Estados seus, e com que, satisfazendo a todas as necessidades
d'elles satisfaz tambem o amor que sua magestade imperial e real
consagra aos que tem a fortuna de ser seus subditos: seguem-se muitos
inconvenientes da delegao de uma grande auctoridade em paizes mui
distantes. Sua magestade imperial e real no nutre desejo algum de
vingana, nem mostra rancor ao principe, que, nos governava, nem  sua
real familia. Sua magestade imperial e real occupa-se de objectos mais
nobres, e no tracta seno de nos ligar com as outras partes da Europa
ao grande systema continental, do qual devemos fechar o ultimo annel:
tracta de nos livrar da influencia estrangeira que nos dominou tantos
annos: o imperador no pde consentir uma colonia ingleza no continente:
o imperador no pde nem quer deixar aportar a Portugal o principe, que
o deixou, confiando-se na proteco de navios inglezes.

Sua magestade imperial e real, considerando a vossa situao, houve por
bem declarar-nos que a nossa sorte dependia de ns; isto , do espirito
publico que mostrassemos, com o qual nos unissemos ao systema geral do
continente, e concorressemos para os acontecimentos j preparados, assim
como da nossa vigilancia e da firmeza, com que repellissemos as
sugestes e intrigas que so de esperar, e que, sem proveito real para
os que forem auctores, ou objectos d'ellas s pdem causar a nossa
desgraa. Estes so os signaes por onde sua magestade imperial e real
quer julgar se somos ainda dignos de formar uma nao capaz de sustentar
no throno o principe, que nos governar, e de occupar entre as naes o
logar que nos compete, ou se, devemos ser confundidos com aquella, cuja
posio mais se approxima de ns mas de quem to grandes motivos nos
afastam. Vereis com reconhecimento e admirao nestas sabias disposies
os profundos conhecimentos de sua magestade imperial e real, que no
quer decidir a sorte de um Estado, seno conforme os seus desejos
manifestados por factos. Cumpre aos magistrados e s pessoas mais
auctorizadas que existem entre vs, cumpre a vs todos dar a maior
publicidade s beneficas intenes de sua magestade imperial e real.
Espermos pois que confirmareis os protestos que lhe fizemos em vosso
nome.

Quando um grito unanime, arrancado no fundo dos nossos coraes, mostrou
o desejo que tinhamos de ser uma nao, ento mais do que nunca nos
julgmos dignos interpretes dos vossos sentimentos. O imperador, que
depois de tantas tempestades soube fazer da sua patria o primeiro paiz
do mundo, dever conhecer que a nossa no merece ser o ultimo.

Sua magestade imperial e real conhece as privaes que a interrupo
momentanea do commercio vos faz supportar: vosso estado a este respeito
 o mesmo que o do resto da Europa e que o da America;  consequencia de
uma lucta, cujo futuro resultado vos pde compensar os trabalhos do
tempo actual; tambem no esqueceu a sua magestade imperial e real a
coaco, em que vos poz a entrada de um exercito estrangeiro. O
imperador deseja ardentemente prevenir que esta desgraa se renove.

Affigiu assz seu corao o pezo da contribuio que opprime Portugal: a
sua bondade lhe dictou a promessa de a reduzir conforme fosse compativel
com os nossos haveres. Os portuguezes, que estavam prisioneiros em
Frana, graas  clemencia do imperador, gozam j da liberdade.

Sua magestade imperial e real nos auctoriza para que vos participemos as
suas intenes, certos que ellas excitaro em vs a maior gratido e o
mais sincero desejo de lhe corresponderdes.

Continuaremos a preencher junto a sua magestade imperial e real, e
conforme suas ordens, uma misso que no tem difficuldades, pois que a
bondade do imperador se une  sua sabedoria para simplificar os nossos
maiores interesses.

Bayona, 27 da Abril de 1808==(_assignados_) marquez de Penalva==marquez
de Marialva==D. Nuno Caetano Alvares Pereira de Mello==marquez de
Valena ==marquez de Abrantes==marquez de Abrantes, D. Jos==conde do
Sabugal==Francisco, bispo de Coimbra==conde de Arganil==Jos, bispo,
inquisidor geral==visconde de Barbacena==D. Loureno de Lima==D. Jos,
prior mr da ordem militar de S. Bento de Aviz==Joaquim Alberto
Jorge==Antonio Thomaz da Silva Leito.


N.^o 8

*Representao feita em Lisboa na junta dos tres Estados pelos
pseu-deputados de todas as classes*

Ordenando o general Junot que na junta dos tres Estados se ajuntassem os
deputados de todas as ordens civis para expressarem o voto geral da
nao, em consequencia do que a deputao portugueza havia communicado
na sua carta escrita do Bayonna em 27 de abril de 1808, foram nomeados
por esta conferencia secreta os seguintes:

_Pelo clero_. O principal Miranda, decano. O principal Noronha, seu
immediato.

_Pela nobreza_. O conde de Peniche, que presidia no conselho de fazenda.
D. Francisco Xavier de Noronha, presidente da meza da consciencia e
ordens.

_Pela municipalidade e povo_. O desembargador Joo Jos de Faria da
Costa Abreu Guio, que presidia no senado da camara. O desembargador
Luiz Coelho Ferreira Faria, seu immediato. O juiz do povo. O escrivo do
povo.

_Pela ordem da magistratura_. O desembargador Nicolau Esteves Negro,
chanceller mr do reino. O desembargador Lucas de Seabra da Silva,
chanceller da caza da supplicao.

Estes dez deputados, juntando-se aos da junta dos tres Estados, que
ento eram o conde da Ega, que presidia por ser titulo mais antigo, o
conde de Almada, e o conde de Castro Marim filho, todos elles assim
reunidos, formularam de commum accordo a seguinte representao:

Senhor:--Os representantes da nao portugueza, conhecida nos annaes do
mundo, e celebre, atrevemo-nos a dizl-o, pelas suas conquistas e pela
sua fidelidade, teem a honra de apresentar-se ao throno augusto de vossa
magestade imperial e real.

Os acontecimentos extraordinarios, senhor, que agitaram a Europa toda
comprehenderam Portugal: uma politica mal entendida fez a esta nao
victima innocente dos males que tem experimentado. A considerao dos
interesses e relaes que formam o presente systema federativo da
Europa, e as disposies beneficas de vossa magestade para com Portugal,
nos fazem conceber as mais lisongeiras esperanas de futura felicidade,
accolhendo-nos debaixo da magnifica proteco do heroe do mundo, do
arbitro dos reis e dos povos, que s pde cicatrizar as feridas da
patria, defendel-a do perigo da escravido, e dar-lhe, entre as
potencias da Europa, aquelle logar distincto, que as profundas vistas
politicas de vossa magestade lhe tem desde j, como espermos,
designado. As circumstancias do tempo presente e a probabilidade do que
ha de vir nos faz conceber a causa dos males que temos soffrido e o
unico remedio a que devemos recorrer.

Interpretes e depositarios dos votos da nao, em nome de toda ella
rogmos e aspirmos a formar um dia parte da grande familia, de que
vossa magestade  pae benefico e soberano poderoso, e nos lisongemos,
senhor, que ella merece tal graa. Ninguem melhor do que o representante
de vossa magestade, o general em chefe do exercito de Portugal, e com
elle todo o seu exercito, pde dar maiores testemunhos do espirito
publico, que anima uma nao, que apezar dos maiores sacrificios e
privaes, que as actuaes circumstancias lhe tem feito experimentar,
nada foi capaz de a fazer afrouxar em os sentimentos de admirao, de
respeito e de gratido que todos ns professmos a vossa magestade,
antes pelo contrario a intriga, as insinuaes d'aquelles que se oppem
ao nosso socego, e o pessimo exemplo dos nossos visinhos no fizeram
mais do que augmentar estes mesmos sentimentos, desenvolvendo aquelle
antigo germen de affeio, que sempre subsistiu entre estas duas naes,
lembrando-se os portuguezes de que o seu primeiro soberano fra o conde
D. Henrique, principe francez.

Achmo-nos, pois, plenamente convencidos de que Portugal no pde
conservar a sua independencia, animar a sua energia e o caracter de sua
propria dignidade, sem recorrer s benevolas disposies de vossa
magestade. Ditosos seremos se vossa magestade nos considerar dignos de
ser contados no numero de seus fieis vassallos; e quando pela nossa
situao geographica, ou por outra qualquer razo, que a alta
considerao de vossa magestade tenha concebido no possamos lograr esta
felicidade, seja vossa magestade quem nos d um principe da sua escolha,
ao qual entregaremos, com inteira e respeitosa confiana, a defeza das
nossas leis, dos nossos direitos, da nossa religio e de todos os mais
sagrados interesses da patria.

Debaixo dos auspicios da Providencia, debaixo da gloriosa proteco de
vossa magestade e do governo tutelar, que respeitosa e unanimemente
supplicmos, nos lisongemos esperar, senhor, que Portugal assegurado
para sempre da affeio do maior dos monarchas, e unido por uma mesma
constituio politica aos destinos da Frana, ver renascer os ditosos
dias da sua antiga grandeza; a sua prosperidade ser solida como a vossa
gloria, eterna como o vosso nome.

Lisboa, 24 de maio de 1808.

_Copiada do Correio Braziliense_--Vol. 13.^o fl. 738.


_N. B._ Foi esta mensagem assignada pelo conde da Ega, como presidente
d'aquella commisso secreta, e bem assim por todos os titulares e mais
fidalgos que se achavam em Lisboa,  excepo do marquez das Minas, o
unico que a isso se recusou. Os signatarios de modo algum representavam
a nao, com cujos interesses pouco se importavam; tinham apenas em mira
obter de Napoleo a conservao das regalias e privilegios que Filippe
II e D. Joo IV haviam confirmado a seus antepassados. A _Junta dos Tres
Estados_, de que era presidente o conde da Ega, s tinha attribuies
administrativas, no se parecendo em cousa alguma com as antigas crtes
do reino. O juiz do povo foi obrigado a assignar esta representao
contra a qual havia a principio protestado.


N.^o 9

*Projecto para a constituio de Portugal*


Lembrando-se os portuguezes, de que so de raa franceza, como
descendentes dos que conquistaram este bello paiz aos mouros em 1147, e
que devem  Frana, sua me patria, o beneficio da independencia que
recobraram como nao em 1640, solicitos recorrem cheios de respeito e
gratido  paternal proteco que o maior dos monarchas ha por bem
outorgar-lhes. Dignando se o immortal Napoleo patentear-nos a sua
vontade por orgo de nossos deputados, quer que sejamos livres, e que
nos liguemos com indissoluveis laos ao systema continental da familia
europea, quer as naes, que compem esta grande familia vivam unidas, e
que prestes possam gosar das delicias de uma prolongada paz,  sombra
dos sabios governos fundados nas grandes bazes da legislao e da
liberdade maritima e commercial.  portanto do nosso peculiar interesse,
assim como dos outros povos confederados, que a nossa deputao continue
a ser junto a sua magestade imperial e real a interprete de nossos
unanimes votos e que lhe diga:

Senhor! desejamos ser ainda mais do que eramos quando abrimos o Oceano a
todo o universo;

Pedimos uma constituio e um rei constitucional, que seja principe de
sangue de vossa imperial familia;

Dar-nos-hemos por felizes se tivermos uma constituio em tudo
similhante  que vossa magestade imperial e real houve por bem outorgar
ao gro-ducado de Varsovia, com a unica differena de que os
representantes da nao, sejam eleitos pelas camaras municipaes, a fim
de nos conformarmos com nossos antigos usos;

Queremos uma constituio, na qual,  similhana de Varsovia, a religio
catholica, apostolica, romana seja a religio do Estado; em que sejam
admittidos os principios da ultima concordata entre o imperio francez e
a santa sede; pela qual sejam livres todos os cultos e gozem da
tolerancia civil e de exercicio publico; em que todos os cidados sejam
eguaes perante a lei; em que o nosso territorio europeu seja dividido em
oito provincias, assim a respeito da jurisdico ecclesiastica, como da
civil, de maneira que s fique havendo um arcebispo e sete bispos; em
que as nossas colonias, fundadas por nossos avs, e com o seu sangue
banhadas, sejam consideradas como provincias, ou districtos, fazendo
parte intregante do reino, para que seus representantes, desde j
designados, achem em a nossa organizao social os logares que lhes
pertencem, logo que venham, ou possam vir occupal-os; em que haja um
ministerio especial para dirigir e inspeccionar a instruco publica; em
que seja livre a imprensa, por quanto a ignorancia e o erro tem
originado a nossa decadencia; em que o poder executivo seja assistido
nas luzes de um conselho d'Estado, e no possa obrar seno por meio de
ministros responsaveis; em que o poder legislativo seja exercido por
duas camaras com a concorrencia da auctoridade executiva; em que o poder
judicial seja independente, o codigo de Napoleo posto em vigor, e as
sentenas proferidas com justia, publicidade e promptido; em que os
empregos publicos sejam exclusivamente exercidos por nacionaes que
melhor os merecerem, conforme o que se acha determinado no artigo 2.^o
da constituio polaca; em que os bens de mo morta sejam postos em
circulao; em que os impostos sejam repartidos segundo as posses e
fortuna de cada um sem excepo alguma de pessoa ou classe e da maneira
que mais facil e menos oppressiva fr para os contribuintes; em que toda
a divida publica se consolide e garanta completamente visto, haver
recursos para lhe fazer face.

Queremos egualmente que a organizao pessoal da administrao civil,
fiscal e judicial, seja conforme o systema francez, e por conseguinte se
reduza o numero immenso de nossos funccionarios; mas desejmos e pedimos
que todos os empregados que ficarem fra dos quadros recebam sempre os
ordenados, ou pelo menos uma proporcionada penso, _e que nas vacaturas
tenham preferencia a outros quaesquer_.

Era sem duvida inutil lembrar esta medida de equidade ao grande
Napoleo; mas como sua magestade imperial e real quer conhecer a nossa
opinio em tudo o que nos convem, evidentemente nos prova que  mais pae
do que soberano nosso, dignando-se consultar seus filhos, e prestar-lhes
os meios de serem felizes. _Viva o imperador!_


N.^o 10


     O general em chefe do exercito francez em Portugal, em nome de sua
     magestade o imperador dos francezes, rei de Italia, e em
     observancia das suas ordens, decreta:


Artigo 1.^o O reino de Portugal ser d'aqui por diante administrado todo
inteiro, e governado em nome de sua magestade o imperador dos francezes,
rei de Italia, pelo general em chefe do exercito francez em Portugal.

Art. 2.^o O conselho de regencia, creado por sua alteza real o principe
do Brazil, no momento em que este principe abandonou o reino de
Portugal, fica supprimido.

Art. 3.^o Haver um conselho de governo, presidido pelo general em
chefe, composto de um secretario de Estado encarregado da administrao
do interior, e das finanas, com dois conselheiros de governo, um
encarregado da repartio do interior, e outro encarregado da repartio
das finanas.

De um secretario de Estado encarregado da repartio da guerra, e da
marinha, com um conselheiro de governo encarregado da repartio da
guerra, e da marinha.

De um conselheiro de governo encarregado da justia, e dos cultos, com o
titulo de regedor.

Haver um secretario geral do conselho encarregado dos archivos.

Art. 4.^o Os senhores corregedores das comarcas, juizes de fra, juizes
do crime e juizes ordinarios; os desembargadores dos differentes
tribunaes, o senado da camara de Lisboa, a junta do commercio, as
diversas camaras, o presidente do terreiro pblico, em uma palavra,
todos os encarregados da administraco publica so conservados, 
excepo das reduces que o interesse publico mostrar que  necessario
fazerem-se pelo tempo adeante, e das mudanas nos objectos relativos a
seus cargos, que a nova organizao do governo julgar indispensaveis.

Art. 5.^o Mr. Herman  nomeado secretario do Estado, encarregado da
repartio do interior e das finanas.

D. Pedro de Mello  nomeado conselheiro de governo, da repartio do
interior.

O senhor d'Azevedo da repartio das finanas.

Mr. Lhuitte  nomeado secretario de Estado, encarregado da guerra e da
marinha.

O sr. conde de So Paio  nomeado conselheiro de governo, da repartio
da guerra, e da repartio da marinha.

O senhor principal Castro  nomeado conselheiro de governo encarregado
da justia e dos cultos, com o titulo de regedor.

Mr. Viennez-Vaublanc  nomeado secretario geral.

Art. 6.^o Haver em cada provincia um administrador geral com o titulo
de corregedor mr, encarregado de dirigir todos os ramos da
administrao, de vigiar sobre os interesses da provincia, de indicar ao
governo os melhoramentos que devem fazer-se, tanto a respeito da
agricultura, como da industria; devendo corresponder-se sobre qualquer
d'estes objectos com o secretario de Estado da competente repartio, e
com o regedor, pelo que pertencer  justia, e ao culto.

Haver egualmente em cada provincia um official general encarregado de
manter a ordem, e a tranquillidade: as suas funces so puramente
militares; mas nas ceremonias publicas, ter seu logar  direita do
corregedor mr.

Haver um corregedor mr na provincia da Estremadura, que residir em
Coimbra, e um corregedor mr na cidade de Lisboa, e seu termo, o qual
ser demarcado de uma maneira exacta.

Art. 7.^o O presente decreto ser impresso, e affixado em todo o reino,
para ter fora de lei.

O secretario de Estado do interior, e das finanas, o secretario de
Estado da guerra, e da marinha, e o regedor so encarregados de sua
execuo, cada um pela parte que lhe toca.

Dado no palacio do quartel general no primeiro de fevereiro de
1808.==_Junot_.


N.^o 11


     O governador de Paris, primeiro ajudante de campo de S. M. o
     imperador e rei, general em chefe decreta:


Da data d'este em deante todos os actos publicos, leis, sentenas, etc.,
etc., de qualquer natureza que sejam, que at agora se faziam e
processavam em nome de S. A. R. o principe regente de Portugal,
principiaro pela frmula seguinte: _Em nome de S. M. o imperador dos
francezes, rei de Italia, protector da confederao do Rheno_.

Todos os actos administrativos, e na execuo, relativos a qualquer
decreto, ou ordem, emanados do actual governo, tero, alm da frmula
acima, a seguinte: _E em consequencia do decreto, ou das ordens de sua
excellencia o governador de Paris, primeiro ajudante de campo de S. M.,
e general em chefe do exercito francez em Portugal._

A formula empregada pelo governo, ser: _Em nome de S. M. o imperador
dos francezes, rei de Italia, protector da confederao do Rheno, ouvido
o conselho do governo:_ (quando o conselho tiver sido consultado.)

_O governador de Paris, primeiro ajudante de campo de S. M., general em
chefe do exercito francez em Portugal_, DECRETA.

E quando no tiver havido deliberao no concelho, a frmula ser: _Em
nome de S. M. o imperador dos franceses_, etc., etc..

_O governador de Paris_, etc., etc., _decreta ou ordena_:

O sello do governo ser o mesmo do imperio francez, com esta leganda:
_Governo de Portugal_.

O secretario de Estado do interior, e das finanas, o secretario de
Estado da guerra, e da marinha, e o regedor, so encarregados da
execuo do presente decreto, cada um pela parte que lhe toca.

Dado no palacio no quartel general no primeiro de fevereiro de 1808.




INDICE


   I--Quando Deus queria... do norte chovia             5
  II--De um argueiro um cavalleiro                     17
 III--Um conciliabulo politico no anno de 1808         25
  IV--Reina a confuso no campo de Agramante           36
   V--Francezes  meia noite                           46
  VI--Uma viso pouco sobrenatural                     56
 VII--Primeiros clares de um grande dia               67
VIII--Ralham as comadres descobrem-se as verdades      77
  IX--O Pae e a filha                                  92
   X--Antes de se levantar o panno                    105
  XI--A batalha                                       116
 XII--Sol entre nuvens                                131
XIII--Concluso                                       142
Notas ao segundo volume                               151
Documentos                                            157




*Notas:*

[1] Vid General Foy, _Histoire de la Guerre de la Peninsule_ livro IX.
_Dpeches et ordres du jour du Feld Marechal duc de Wellington_,
(Recueil choisi) N.^o 228-261. _Successos de Portugal, ou Prodigiosa
Restaurao da Lusitania Feliz_. Por um Portuguez. Lisboa 1809 pag. 17 e
seguintes.

[2] Em consequencia da deputao enviada a Bonaparte foi esta
contribuio reduzida a 50 milhes de francos.

Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   18| imperader           | imperador            |
  |#pg.   27| Antonia             | Antonio              |
  |#pg.   27| assentados          | assentado            |
  |#pg.   29| lovantadas          | levantadas           |
  |#pg.   48| asssim              | assim                |
  |#pg.   58| ?adre               | padre                |
  |#pg.   64| Aquella             | Aquelle              |
  |#pg.   64| tanto               | tanta                |
  |#pg.   65| seria               | se ria               |
  |#pg.   75| vagarosa            | vagaroso             |
  |#pg.   78| personagem          | personagens          |
  |#pg.   80| um imagem           | uma imagem           |
  |#pg.   85| ter pr             | tr por              |
  |#pg.   92| entres              | entre                |
  |#pg.   93| preco               | preo                |
  |#pg.   96| reguendo-se         | erguendo-se          |
  |#pg.  100| palavras            | palavra              |
  |#pg.  106| proscripto          | proscriptos          |
  |#pg.  110| meia baterio        | meia bateria         |
  |#pg.  111| guarmio           | guarnio            |
  |#pg.  126| Eil--os             | Eil-os               |
  |#pg.  128| sua                |  sua                |
  |#pg.  128| os alento           | o alento             |
  |#pg.  146| pedemos             | podemos              |
  |#pg.  175| _Itatia_            | _Italia_             |
  +----------+---------------------+----------------------+

Foram mantidas as variaes de nomes prprios.





End of the Project Gutenberg EBook of A Casa dos Fantasmas - Vol II, by 
Lus Augusto Rebelo da Silva

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CASA DOS FANTASMAS - VOL II ***

***** This file should be named 26605-8.txt or 26605-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/6/6/0/26605/

Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
