Project Gutenberg's Hamlet: Drama em cinco Actos, by William Shakespeare

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Title: Hamlet: Drama em cinco Actos

Author: William Shakespeare

Translator: Lus I Rei de Portugal

Release Date: June 1, 2008 [EBook #25667]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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HAMLET

DRAMA EM CINCO ACTOS


WILLIAM SHAKESPEARE


HAMLET

Drama em cinco actos


Traduco Portugueza

Segunda Edio


LISBOA

Imprensa Nacional

1880




INTERLOCUTORES


  CLAUDIO--Rei de Dinamarca.

  HAMLET--Filho do defunto Rei e sobrinho do Rei reinante.

  POLONIO--Camareiro mr.

  HORACIO--Amigo de Hamlet.

  LAERTE--Filho de Polonio.

  VOLTIMANDO    }
                }
  CORNELIO      }
                }
  ROSENCRANTZ   } Cortezos dinamarquezes.
                }
  GUILDENSTERN  }
                }
  OSRICO        }

  UM OUTRO CORTEZO.

  UM PADRE.

  REINALDO--Creado de Polonio.

  MARCELLO E BERNARDO--Officiaes.

  FRANCISCO--Soldado.

  UM EMBAIXADOR.

  A SOMBRA DO REI HAMLET.

  FORTIMBRAZ--Principe de Noruega.

  GERTRUDES--Rainha de Dinamarca, me de Hamlet.

  OPHELIA--Filha de Polonio.

Senhores, damas, officiaes, soldados, actores, padres, coveiros,
marinheiros, mensageiros, creados, etc.


A scena passa-se em Elsenor




ACTO PRIMEIRO


SCENA I

Elsenor, a explanada do castello

FRANCISCO de sentinella, BERNARDO vem encontrar-se com elle

BERNARDO

Quem vem l? viva quem?

FRANCISCO

Responde tu primeiro, faze alto, deixa-te reconhecer.

BERNARDO

Viva o rei.

FRANCISCO

Bernardo?

BERNARDO

Eu mesmo.

FRANCISCO

s pontual.

BERNARDO

Acaba de dar meia noite; vae descansar, Francisco.

FRANCISCO

Agradeo-te de me teres vindo render; faz um frio glacial, e comeava a
sentir-me incommodado.

BERNARDO

No houve novidade emquanto estiveste de sentinella?

FRANCISCO

Nem sequer ouvi correr um rato.

BERNARDO

Ento boas noites; se vires Horacio e Marcello, que tambem esto de
guarda, dize-lhes que se aviem.

Chegam HORACIO e MARCELLO

FRANCISCO

Creio ouvil-os, faam alto, quem vem l?

HORACIO

Amigos da patria.

MARCELLO

Subditos do rei de Dinamarca.

FRANCISCO

Santas noites.

MARCELLO

Viva, meu valente soldado, quem te rendeu?

FRANCISCO

Bernardo est agora de sentinella. Boa noite. (Retira-se.)

MARCELLO

Ol, Bernardo?

BERNARDO

No  Horacio que eu vejo?

HORACIO

Elle mesmo em corpo e alma.

BERNARDO

Bemvindo sejas, Horacio, e tu tambem, amigo Marcello.

MARCELLO

Dize-me, j viste a appario esta noite?

BERNARDO

Ainda nada vi.

MARCELLO

Horacio diz que  effeito da minha imaginao, e nega-se a acreditar na
viso temerosa, de que j por duas vezes fomos testemunhas; pedi-lhe
portanto que viesse comnosco, para que se o phantasma de novo apparecer,
elle possa testemunhar a verdade do que afianmos e dirigir-lhe a
palavra.

HORACIO

Historias, qual apparecer!

BERNARDO

Sentemo-nos um instante, e vamos repetir-te a narrao do que temos
presenceado duas noites consecutivas e a que prestas to pouco credito.

HORACIO

Com todo o gosto, e deixemos fallar Bernardo.

BERNARDO

A noite passada,  hora em que esta estrella que vem ao poente do polo
descreve o seu giro e vem illuminar esta parte do firmamento, em que ora
brilha, no momento em que na torre soava uma hora, Marcello e eu...

MARCELLO

Silencio, eil-o que apparece.

Apparece a sombra do REI

BERNARDO

Assimilha-se ao defunto rei.

MARCELLO

Tu que estudaste, Horacio, falla-lhe.

BERNARDO

No  verdade que se parece com o defunto rei? Observa bem, Horacio.

HORACIO

A similhana  espantosa; a surpreza e o terror paralysaram-me.

BERNARDO

Parece esperar que lhe fallem.

MARCELLO

Falla-lhe, Horacio.

HORACIO

Quem quer que s, que a esta hora da noite usurpas a frma magestosa e
guerreira, debaixo da qual se mostrava o meu defunto soberano, em nome
do cu, falla, ordeno-to eu!

MARCELLO

Parece descontente.

BERNARDO

Eil-o que se afasta, caminhando lenta e gravemente.

HORACIO

Detem-te, falla, falla, intimo-te a que falles. (A sombra afasta-se.)

MARCELLO

Foi-se sem responder.

BERNARDO

Ento, Horacio, que  essa tremura e pallidez; no haver alguma cousa
mais do que um effeito de imaginao, que dizes agora?

HORACIO

Pelo Deus do cu, no o acreditava sem o testemunho positivo e
irrecusavel dos meus proprios olhos.

MARCELLO

No se parece com o rei?

HORACIO

Como tu te pareces comtigo mesmo, era a armadura que usava quando
combateu o ambicioso norueguez; tinha aquelle ar ameaador, no dia em
que no seu proprio carro, atacou, por causa de uma acalorada porfia, o
guerreiro polaco, e o prostrou no glo para nunca mais se levantar. 
assombroso!

MARCELLO

Assim  que elle j duas vezes passou pelo nosso posto de observao com
o seu caminhar grave e marcial.

HORACIO

Com que designio, ignoro-o, mas em minha opinio  um presagio para o
estado de alguma grande catastrophe.

MARCELLO

Pois bem, sentemo-nos, e aquelle d'entre vs todos que o souber, diga
porque fatigam, com guardas vigilantes e rigorosas, os subditos d'este
reino; para que esta fundio diaria de canhes de bronze, estas compras
de armamentos e munies no estrangeiro; para que se enchem de operarios
os nossos arsenaes maritimos; porque este augmento de trabalho, que nem
os dias santos so respeitados; para que esta actividade de dia e de
noite? O que ser? Qual de vs m'o poder dizer?

HORACIO

Posso eu, ao menos, referir os boatos. Nosso ultimo rei, cuja imagem
ainda ha pouco vimos, foi, segundo dizem, convocado a campo fechado por
Fortimbraz de Noruega, que um cioso orgulho tinha levado a esse acto.
N'esse combate o nosso valente Hamlet, e era justa a sua reputao,
matou a Fortimbraz. Ora em virtude de uma declarao authentica,
sanccionada pelas leis da cavallaria, se Fortimbraz succumbisse, todos
os seus estados pertenceriam ao vencedor. Por sua parte o nosso rei
tinha empenhado da mesma frma a sua palavra; e no caso de elle ser
vencido, uma igual poro de territorio pertenceria a Fortimbraz. Assim,
em virtude d'este pacto reciproco, a successo do vencido pertencia de
direito a Hamlet. Comtudo o joven Fortimbraz, ardente e sem experiencia,
reuniu nas fronteiras de Noruega um exercito de aventureiros, promptos e
resolvidos pela soldada aos mais audaciosos commettimentos. O seu
projecto, segundo o nosso governo est informado,  nada menos do que
retomar  viva fora e de mo armada esse territorio que seu pae perdeu
com a vida: eis-aqui, na minha fraca opinio, a raso principal dos
preparativos que fazemos, das guardas a que somos obrigados, e d'esta
actividade tumultuosa que se nota em todo o paiz.

BERNARDO

Tambem eu julgo ser esse o motivo; isto explica-nos porque vemos passar
diante dos postos de guarda a sombra do rei, com a sua armadura e com o
seu porte magestoso, d'esse rei que foi e  o causador d'esta guerra.

HORACIO

 um argueiro nos olhos da intelligencia para lhes perturbar a vista.
Nos tempos mais gloriosos e florescentes de Roma, pouco antes da morte
do grande Julio, abriram-se os tumulos, e os mortos, nas suas mortalhas,
divagaram pela cidade, soltando gritos ameaadores; viram-se estrellas
deixar aps si rastos luminosos, choveu sangue, desastrosos signaes
appareceram no cu, e o astro humido, sob cuja influencia est o imperio
de Neptuno, eclipsou-se; todos julgavam ser o fim do mundo. Estes mesmos
signaes precursores de acontecimentos terriveis, correios de maus
destinos, preludios de grandes catastrophes, o cu e a terra os fizeram
apparecer nos nossos climas, aos olhos impressionaveis dos nossos
compatriotas.

A sombra reapparece

HORACIO continuando

Mas silencio, olhem, eil-o que volta. Vou interpellal-o, embora elle me
fulmine. Pra. Illuso. Se tens o dom da palavra, se pdes articular
sons, falla; se ha alguma boa aco cujo cumprimento te possa alliviar e
contribuir para a minha salvao, responde-me: se s sabedor de alguma
desgraa que ameace a tua patria, e que um aviso opportuno possa
desviar... Oh falla! ou se em tua vida confiaste s entranhas da terra
riquezas mal adquiridas; e a maior parte das vezes  por isso que vs,
os espiritos, divagaes depois da morte, dil-o. (O gallo canta.) Detem-te
e falla. Veda-lhe o caminho, Marcello.

MARCELLO

Devo servir-me da minha partazana?

HORACIO

Serve-te se no parar.

BERNARDO

Para c?

HORACIO

Por acol. (A sombra afasta-se.)

MARCELLO

Partiu!--que presena magestosa!--so desacertadas estas demonstraes
violentas!  invulneravel como o ar, e os nossos golpes no so seno o
ridiculo esforo de uma colera impotente.

BERNARDO

Ia fallar quando cantou o gallo.

HORACIO

Estremeceu como um culpado que uma intimao subita aterra. Ouvi dizer
que o gallo, que  o clarim da aurora, acorda o Deus da manh com a sua
voz sonora e penetrante, e que a esse signal todos os espiritos errantes
no mar, no fogo, na terra ou no ar se apressam em voltar aos seus
respectivos dominios. A prova est no que acabmos de presencear.

MARCELLO

O gallo cantou, e elle desappareceu. Algumas pessoas dizem que na
vespera do dia em que se celebra a natividade do Salvador do mundo, o
arauto da manh canta toda a noite sem interrupo; pretendem ento que
nenhum espirito ousa sar da sua manso, que as noites so salubres, que
nenhuma estrella exerce influencia maligna, nenhum maleficio surte
effeito, que nenhuma feiticeira exercita os seus feitios, tanto esse
dia  bento, e est sob o imperio de uma graa celeste.

HORACIO

Assim o ouvi dizer, e acredito-o. Mas eis que no oriente, acol no
fundo, por detrs dos outeiros, surge a manh, vestida de purpura por
entre o orvalho. Demos fim  nossa vigilia, e vamos dar parte ao joven
Hamlet do que vimos esta noite; porque, por vida minha, creio que este
espirito, mudo para todos, lhe fallar. Approvam esta confidencia, que
nos impe o nosso dever e a nossa affeio?

MARCELLO

Vamos sem detena; sei onde o acharemos, e onde lhe poderemos fallar sem
constrangimento. (Retiram-se.)


SCENA II

Uma sala apparatosa no castello

Entram o REI e a sua comitiva, a RAINHA, HAMLET, POLONIO, LAERTE,
VOLTIMANDO, CORNELIO e CORTEZOS

O REI

A morte de Hamlet, nosso amado irmo, ainda  to recente, que pareceria
justo, que nossos coraes estivessem immersos na tristeza e saudade, e
que uma nuvem de dor cobrisse o solo d'este reino; comtudo, a raso
combateu os impulsos da natureza, tanto que enfremos a nossa dor, e
embora ainda esteja bem viva a recordao, pensmos tambem em ns.
Portanto, com um prazer incompleto, confundindo os sorrisos com as
lagrimas, a alegria com o luto; unindo o dobrar dos sinos aos canticos
nupciaes, tommos por esposa aquella que outr'ora era nossa irm, e
fizemol-a compartir comnosco a cora d'este bellicoso paiz. N'esta
conjunctura ouvimos primeiro os vossos illustrados conselhos, livremente
enunciados. Somos-lhes gratos. Quanto ao joven Fortimbraz, fazendo
seguramente uma fraca ida do nosso poder, ou imaginando que a morte de
nosso chorado irmo lanasse o estado na dissoluo e na anarchia,
embalando-se em chimerica esperana, ousou mandar-nos mensagem aps
mensagem, intimando-nos a restituir-lhe o territorio perdido por seu
pae, e legalmente adquirido por nosso valoroso irmo; isto por o que lhe
respeita. Fallemos agora de ns e do motivo d'esta reunio. O motivo 
este. Pelas presentes escrevemos ao rei de Noruega, tio do joven
Fortimbraz, que jazendo enfermo n'um leito, mal conhece os projectos de
seu sobrinho, pedindo-lhe que ponha o seu veto  empreza, porque  de
entre os seus subditos que se fazem as levas de soldados e os
alistamentos. Encarregmo-vos, Cornelio e Voltimando, de apresentar as
nossas saudaes ao idoso monarcha norueguez, e  nossa vontade, que nas
negociaes vos conformeis adstrictamente s instruces que junto com a
nossa carta recebereis. Adeus; a celeridade do resultado prove a
dedicao dos negociadores.

CORNELIO e VOLTIMANDO

Senhor, a nossa dedicao e obediencia no tem limites.

O REI continuando

Nem o duvidmos. Recebam um cordeal adeus. (Cornelio e Voltimando sem.)
Agora, tu, Laerte, que pretendes? Disseram-nos que nos querias fazer uma
supplica? Qual ? Tu no podes fazer ao monarcha dinamarquez um pedido
que no seja rasoavel, e no recorres a elle em vo. Que poderias
desejar, Laerte, a que no estejamos promptos a annuir, mesmo antes de
conhecer a pretenso. A cabea no  mais sympathica ao corao, a mo
no  mais prompta em servir a bca do que o throno de Dinamarca 
dedicado a teu pae. Que desejas pois, Laerte?

LAERTE

Meu augusto soberano, a vossa licena e o vosso consentimento, para
voltar a Frana. Gostosamente vim a Dinamarca para assistir  vossa
coroao, mas, cumprido esse dever, confesso-o, os meus desejos e a
minha vontade me chamam a Frana, e supplico a vossa magestade que me
conceda partir.

O REI

J alcanaste o consentimento de teu pae? o que diz Polonio?

A RAINHA

Arrancou-me o meu consentimento, tanto me importunou; acabei por ceder,
mau grado meu, aos seus desejos. Supplico-lhe, pois, senhor, que lhe
conceda a licena pedida.

O REI

Podes partir quando te aprouver, Laerte; deixo-te a liberdade de
dispores do teu tempo e da tua pessoa. Ento, Hamlet, meu primo, meu
filho?

HAMLET  parte

Aindaque mui proximos parentes no somos primos.

O REI

Porque essas nuvens que pesam sobre a tua fronte?

HAMLET

Engana-se, senhor, como pde haver nuvens, quando brilha o sol.

A RAINHA

Querido Hamlet, despe essas roupas de d, e lana um olhar amigavel para
o rei de Dinamarca. Descrava os teus olhos do cho; pareces procurar as
pegadas do teu glorioso pae. Sabes bem que  um destino invariavel; tudo
quanto vive ha de morrer, e este mundo  uma ponte para a eternidade.

HAMLET

Sim, senhora,  um destino commum.

A RAINHA

Se  assim, o que te parece a ti to extraordinario?

HAMLET

Senhora, no me parece, -o na verdade. O parecer para mim nada vale.
Minha me, no so nem esta capa negra, nem estas vestes obrigadas nos
lutos solemnes, nem os suspiros que mal pde soltar um peito opprimido,
nem torrentes de lagrimas, nem o semblante macerado, nem todas as
manifestaes de uma dor pungente, que podem exprimir e revelar o que eu
sinto. Todos estes signaes podem parecer dor;  um papel facil de
representar, mas no so verdadeira dor, so como o fato para o
comediante; mas eu (pondo a mo sobre o corao) sinto aqui, o que no
ha palavras que o expressem.

O REI

Nada ha na verdade, Hamlet, mais commovente e louvavel do que os deveres
funebres prestados  memoria de um pae. Mas lembra-te que teu pae j
perdra o seu, e que esse tambem j perdra o pae. E para o sobrevivente
um dever de piedade filial, dar durante um certo praso provas de uma dor
respeitosa; mas perseverar n'uma afflico obstinada,  mostrar uma
teima impia;  uma dor cobarde,  a prova de uma vontade rebelde aos
decretos da providencia, de um corao sem energia, de uma alma incapaz
de resignao, de uma intelligencia pobre e limitada. Porque nos deve
impressionar a tal ponto um acontecimento, que sabemos ser uma
necessidade, e que se repete to frequente, quanto as occorrencias mais
vulgares;  uma triste indocilidade. Que!!  uma offensa a Deus, uma
offensa aos finados, uma absurda offensa  natureza, que no tem em seus
fastos mais vulgar acontecimento, que a morte de um pae; a qual, desde o
primeiro cadaver at ao homem que hoje se finou, nunca deixou de nos
clamar: Assim estava escripto. Supplico-te, portanto, abandona essa
afflico impotente, e v em ns um segundo pae; porque queremos que
todos saibam que tu s o mais proximo ao nosso throno, e que a affeio
mais terna que um pae tem a seu filho, tenho-a eu a ti. Quanto  tua
inteno de voltar a Wittemberg, para continuares os teus estudos, nada
ha mais opposto aos nossos desejos; conjurmos-te que fiques aqui, s o
prazer de nossos olhos, o primeiro da nossa crte, nosso sobrinho, nosso
filho.

A RAINHA

Hamlet, far-te-ha tua me uma supplica baldada? peo-te fica comnosco,
no vs para Wittemberg.

HAMLET

Farei o que podr, para em tudo vos provar obediencia.

O REI

Eis emfim uma resposta affectuosa e comedida. Sers na Dinamarca um
segundo _Eu_. ( rainha) Venha, senhora, este acto de deferencia de
Hamlet, cumprido to naturalmente e sem esforo, enche de jubilo o meu
corao. Para o celebrar o rei de Dinamarca no libar uma taa, sem que
a voz do canho o transmitta s nuvens. A cada taa quero que o cu o
annuncie, repercutindo o estrondo dos raios da terra. Vamos agora.
(Todos sem excepto Hamlet.)

HAMLET s

Ah! porque no poder esta carne to solida fundir-se e tornar-se
orvalho. Ah que se o Eterno no tivesse fulminado como reprobo o
suicida... Senhor Deus, meu Deus, como so insipidos, fastidiosos e vos
os gosos do mundo. Que pena! Elle  um jardim inculto que s tem plantas
grosseiras e maleficas. Pois ser possivel que ousassem tanto? Morto ha
dois mezes! que digo? Nem dois mezes ainda. Um rei to bom, que tanta
similhana tinha com este como Hyperion com um Satyro, todo ternura para
minha me, a ponto de no querer que uma brisa mais fresca aoutasse o
seu rosto! Cus e terra! e deverei eu recordar-me? Parecia que a vida de
um era a vida do outro! Comtudo, passado apenas um mez--no posso nem
quero pensal-o--, fragilidade  synonymo de mulher. S um mez, sem ainda
ter gasto o calado que usava acompanhando o feretro do marido, banhada
em lagrimas como uma Niobe, ella mesma, essa mulher, oh cus! um animal
privado do soccorro da raso teria prolongado o seu luto; essa mulher
desposou meu tio, o irmo de meu pae, mas que tem tanto de meu pae como
eu de Hercules. No fim de um mez, antes que seccassem as suas hypocritas
lagrimas, casou. Oh criminosa precipitao! Voar com tanto afan a um
leito incestuoso,  horrivel! E ser possivel que o cu o tolere?
Despedaa-te corao, j que foroso  calar.

Chegam HORACIO, BERNARDO e MARCELLO

HORACIO

Deus guarde a Vossa Alteza.

HAMLET

Quanto folgo de te ver de boa saude. s tu, Horacio, no me engano.

HORACIO

Eu mesmo, o vosso servo fiel at  morte.

HAMLET

Queres dizer _amigo_; de hoje em diante dar-te-hei este nome. Mas que
fazes tu longe de Wittemberg, Horacio? Marcello.

MARCELLO

Meu principe!

HAMLET

Alegro-me de te ver, bons dias. (A Horacio.) Mas, francamente, que
motivo te obrigou a voltar de Wittemberg?

HORACIO

Tudo dissipei.

HAMLET

Nunca consentiria que um teu inimigo assim fallasse a teu respeito; e
no me obrigars a forar a minha raso a crer no que o meu corao se
nega a acreditar. Accusares-te d'esta maneira a ti mesmo... tu no s
dissipador. Que motivo to forte te pde pois trazer a Elsenor, tu m'o
contars mais tarde, entre dois copos de vinho generoso, antes da tua
partida.

HORACIO

Senhor, vim prestar a ultima homenagem a seu augusto pae.

HAMLET

Peo-te, meu camarada de estudos, que no zombes; creio antes que vieste
assistir ao casamento de minha me.

HORACIO

Verdade  que no houve quasi intervallo.

HAMLET

Por alvitre economico, Horacio. O banquete funerario ainda subministrou
as iguarias e as viandas para o festim nupcial. Antes quizera encontrar
no cu o meu mais encarniado inimigo, do que ter visto despontar um tal
dia, Horacio. Meu pobre pae, parece-me que o estou vendo!

HORACIO

Onde, senhor?

HAMLET

Na minha imaginao, Horacio.

HORACIO

Recordo-me de o ter visto, era um grande rei.

HAMLET

Era um homem que, bem considerado, no tinha rival na terra.

HORACIO

Julgo tel-o visto a noite passada.

HAMLET

Viste, quem?

HORACIO

Alteza, vi o rei seu pae.

HAMLET

O rei meu pae?

HORACIO

Senhor, acalme esta agitao e espanto, e preste atteno, emquanto eu,
fundado no testemunho ocular d'estes senhores, vou relatar esse
prodigio.

HAMLET

Falla, pelo amor de Deus, sou todo ouvidos.

HORACIO

Durante duas noites consecutivas, no meio das trevas e do silencio,
emquanto estes senhores estavam de sentinella, eis o que lhes aconteceu.
Uma figura parecida com seu pae, armada da cabea aos ps, lhes
appareceu caminhando lenta e magestosamente. Tres vezes, atemorisados e
attonitos, o viram passar  distancia do basto de commando que
empunhava, emquanto elles, fulminados pelo terror, ficaram mudos, nem
ousaram fallar. Confiaram-me, debaixo de segredo, tremulos ainda, o que
tinham presenceado. Na noite seguinte entrei com elles de sentinella, e
confirmando a verdade das suas palavras,  hora por elles indicada,
debaixo da frma por elles descripta, voltou a appario. Reconheci seu
pae; as minhas duas mos no so mais parecidas.

HAMLET

Mas em que sitio appareceu?

MARCELLO

Senhor, na explanada, onde estavamos de sentinella.

HAMLET

Fallaram-lhe.

HORACIO

Fallmos, mas no respondeu. Comtudo uma vez pareceu-me que movia a
cabea, como quem quer fallar; mas n'esse momento cantou o gallo
matinal; ao som do canto afastou-se o espectro apressadamente, e ns
perdemol-o de vista.

HAMLET

Na verdade  incomprehensivel.

HORACIO

Senhor, juro-lhe pela minha vida que  verdade, e julgmos nosso dever
informar Vossa Alteza.

HAMLET

No posso dissimular a minha inquietao! Esto de guarda esta noite?

TODOS

Sim, Alteza.

HAMLET

Armado, disseram?

TODOS

Armado, meu senhor.

HAMLET

Da cabea aos ps?

TODOS

Tal qual.

HAMLET

Viram-lhe as feies?

TODOS

Vimos, tinha a viseira levantada.

HAMLET

Tinha physionomia carregada?

TODOS

A expresso era antes triste que colerica.

HAMLET

Pallido ou crado?

TODOS

Muito pallido.

HAMLET

O seu olhar fixou-se em algum de vs?

TODOS

Constantemente.

HAMLET

Queria l ter estado.

HORACIO

O seu espanto teria sido igual ao nosso.

HAMLET

 mais que provavel. Demorou-se muito?

HORACIO

O tempo necessario para contar at _um cento_, sem parar.

MARCELLO e BERNARDO

Muito mais, muito mais.

HORACIO

No a vez que o vi.

HAMLET

A barba era grisalha, no  verdade?

HORACIO

Era, como em sua vida, de um negro prateado.

HAMLET

Velarei tambem esta noite, talvez que volte.

HORACIO

Sem duvida alguma.

HAMLET

Se se me apresentar debaixo da figura de meu pae, fallar-lhe-hei, embora
o inferno me ordenasse o silencio, pelas suas horrendas fauces.
Peo-vos, portanto, que se at hoje tendes guardado um segredo tal a
respeito da appario, de hoje em diante sejaes ainda mais cautelosos em
conservar o sigillo; e acontea o que acontecer esta noite, reflexo e
silencio: serei grato a esta prova de affeio. Assim, pois, adeus,
encontrarme-hei comvosco na explanada entre as onze horas e a meia
noite.

TODOS

Os nossos respeitos, principe.

HAMLET

Sempre amigos, adeus. (Horacio, Marcello e Bernardo sem.)
(Continuando.) A sombra de meu pae, porque apparece armada? Haver algum
perigo. Suspeito alguma traio. Espero impacientemente a noite. At
ento, socega corao. No ha crimes to occultos, que o homem no possa
descobrir. (Se.)


SCENA III

Um quarto em casa de Polonio

Entram LAERTE e OPHELIA

LAERTE

J embarcaram os meus creados e roupas. Adeus, minha irm; quando ventos
propicios encherem as vlas ao navio que me leva, espero que com a minha
ausencia no esfriar a tua amisade, e que me dars novas tuas.

OPHELIA

Duvdas porventura, irmo?

LAERTE

Quanto ao que respeita a Hamlet e  sua frivola amisade, considera-a
como uma moda ephemera, um capricho dos sentidos, uma violeta da
primavera, precoce mas passageira, suave mas fenecendo ao desabrochar, e
cujo perfume dura um minuto apenas.

OPHELIA

S um minuto?

LAERTE

S, acredita-me, porque o teu desenvolvimento no  s nos musculos e no
corpo;  medida que o templo toma propores mais vastas, tambem se
expande o espirito e a alma.  possivel que te ame agora, que nenhuma
macula, nenhuma deslealdade offusque a pureza dos seus sentimentos; mas
acautela-te, porque na posio que occupa -lhe vedada a propria
vontade,  escravo do seu nascimento. No pde, como os outros homens,
escolher s por affeio, porque  sua escolha esto ligados o bem-estar
e a salvao do estado; por isso deve subordinal-a ao voto e 
approvao da nao de que  chefe. Se, pois, te fallar de amor,
assisadamente usars, no acreditando seno o que a sua posio lhe
permitte offerecer, vistoque a sua vontade deve ser a vontade da nao.
Pensa bem, que mancha para a tua reputao, se prestasses ouvidos por
demais credulos, ao encanto das suas fallas, se envenenasses tua alma,
se abrisses o cofre da castidade s suas audaciosas instancias.
Acautela-te, Ophelia, acautela-te, querida irm, luta com a tua affeio
para vencer as settas e os perigos dos desejos. A virgem prudente j 
asss prodiga se patenteia a sua belleza aos raios lunares; a propria
virtude no escapa aos golpes da calumnia; o verme roe as filhas
predilectas da primavera, antes das flores desabrocharem; e  na aurora
da vida, regada pelo puro e limpido orvalho, que ha mais perigo para a
flor da castidade. S, pois, circumspecta, a melhor proteco  o receio
do perigo; a juventude  para si mesma um perigo, se no trava luta com
outros maiores.

OPHELIA

Em meu corao encerrarei, como um preservativo, a tua salutar lio.
Mas, querido irmo, no sejas tu, como certos pastores sem virtude, que
indicam s suas ovelhas o caminho escarpado e espinhoso que conduz ao
cu, emquanto elles, libertinos, fogosos e sem pudor, trilham o caminho
das flores, da licena, e so a antithese das suas palavras.

LAERTE

De mim no te arreceies: j devia ter partido; eis meu pae.

Entra POLONIO

Uma dupla beno  um beneficio duplo; abeno a occasio de me despedir
segunda vez de ti.

POLONIO

Ainda aqui, Laerte? para bordo, para bordo. No te envergonhas? Teu
navio s te espera para velejar. Recebe a minha beno, e grava na tua
memoria os seguintes preceitos. Guarda para ti o pensamento, e no ds
execuo apressadamente aos teus projectos; medita-os maduramente. S
lhano sem te esqueceres de quem s. Quando tomares um amigo cuja
affeio tenhas experimentado, liga-o a ti por vinculos de ao; mas no
ds confiana irreflectidamente. Faze por evitar questes; mas se o no
podres conseguir, conduze-te de maneira que fiques sempre superior ao
teu adversario. Ouve a todos, mas s avaro de palavras; escuta o
conselho que te derem, forma depois o teu juizo. No teu trajar s to
sumptuoso, quanto t'o permittam os teus meios, mas nunca affectado;
rico, mas no offuscante; o porte d a conhecer o homem, e n'esse ponto,
as pessoas de qualidade em Frana revelam um gosto primoroso, e o mais
fino tacto. No emprestes, nem peas emprestado: quem empresta perde o
dinheiro e o amigo, e o pedir emprestado  o primeiro passo para a
ruina. Mas sobre tudo s verdadeiro para a tua consciencia, e assim como
a noite se segue ao dia, seguir-se-ha tambem, que o teu corao jamais
abrigar falsidade. Adeus, que a minha beno selle em teu corao os
meus conselhos.

LAERTE

Despedindo-me, humildemente vos beijo a mo, meu pae.

POLONIO

No tens tempo que perder, teus creados esperam-te.

LAERTE

Adeus, Ophelia, recorda-te das minhas palavras.

OPHELIA

Fechei-as no meu corao; dou-te a chave, guarda-a.

LAERTE

Adeus. (Se.)

POLONIO

Que te disse elle, Ophelia?

OPHELIA

Com licena de meu pae, fallou-me a respeito de Hamlet.

POLONIO

Folgo que o fizesse. Disseram-me que ultimamente Hamlet tem tido comtigo
frequentes entrevistas, e que tu no te esquivas s suas frequentes
visitas. Se assim , e creio na informao que me deram, devo dizer-te
que no encaras a tua posio com a lucidez que convem a minha filha, e
que a tua honra exige. Dize-me a verdade, o que ha?

OPHELIA

Protestos de amor.

POLONIO

De amor! como inexperiente fallas, conservas as illuses todas. Ds tu
porventura credito aos seus protestos, como tu lhe chamas?

OPHELIA

Nem sei, senhor, o que devo pensar.

POLONIO

Pois bem, eu t'o digo.  necessario que sejas bem creana para crer uma
realidade os seus protestos, de cuja sinceridade devras duvido. No te
deprecies assim; seria uma loucura.

OPHELIA

O seu respeito foi inseparavel das suas phrases de amor.

POLONIO

E tu acreditas, pobre louca.

OPHELIA

Firmou as suas palavras com os juramentos mais sagrados.

POLONIO

Assim arma o caador os laos  avesinha innocente e incauta. Sei que,
quando o sangue ferve, a nossa bca nunca se nega a protestos e
juramentos. Minha filha, estes lampejos que do mais luz que calor, e
cujo brilho  ephemero, nunca os tomes por verdadeira chamma de amor. A
datar de hoje, no malbarates tanto a tua presena virginal; difficulta
mais as entrevistas, que no baste pedir para as obter. Quanto ao sr.
Hamlet e  confiana que n'elle podes ter, considera que  joven, e que
pde tomar liberdades de que depois tenhas que te arrepender. N'uma
palavra, Ophelia, descr dos seus juramentos, porque no so
verdadeiros; interpretes de desejos profanos, revestem-se da linguagem
da mais santa sinceridade. Uma vez por todas, e franqueza, filha,
prohibo-te toda e qualquer conversa com o sr. Hamlet. Pensa bem.
Ordeno-t'o.

OPHELIA

Obedecerei, meu pae. (Sem.)


SCENA IV

A explanada do castello de Elsenor

Chegam HAMLET, HORACIO e MARCELLO

HAMLET

Que frio horrivel, glo.

HORACIO

O ar est devras glacial.

HAMLET

Que horas so?

HORACIO

No deve tardar a meia noite.

MARCELLO

Est dando meia noite.

HORACIO

J! no ouvi, em todo o caso approximmo-nos da hora a que costuma
apparecer o phantasma. (Ouvem-se ao longe tangeres de instrumentos, e o
troar de artilheria.) Que rumor  este?

HAMLET

O rei consagra esta noite ao prazer, est bebendo, e a cada copo de
vinho do Rheno, os timbales e clarins proclamam o brinde que levantou.

HORACIO

Isso  costume?

HAMLET

Sim , mas apesar de eu ter nascido n'este paiz, e estar acostumado a
estes usos, ha emquanto a mim mais gloria em infringil-os, do que em
observal-os. Estas orgias abjectas trazem-nos, do oriente ao occidente,
o desprezo das outras naes, que nos qualificam de ebrios, e juntam aos
nossos nomes os epithetos mais grosseiros. Este defeito embaa as nossas
mais brilhantes qualidades, e tira-lhes todo o valor. O mesmo acontece
aos individuos. Se ao nascerem, receberam da natureza alguma macula
original, de que no so culpados, poisque o nascimento  independente
da nossa vontade; se os afflige algum vicio de temperamento contra o
qual todos os esforos da raso so impotentes, algum costume que
desagrade nos seus modos destruindo-lhes o encanto; acontece a esses
homens, tendo o estigma de um defeito unico, libr da natureza, sllo da
sua estrella, acontece, digo, que todas as suas virtudes, fossem ellas
puras como a graa celeste, infinitas quanto comporta  humanidade,
ficariam manchadas na opinio, publica por esse defeito unico. Basta uma
mollecula de liga para depreciar esse metal.

Apparece a sombra

HORACIO

Senhor, eil-o.

HAMLET

Anjos do cu, poderes misericordiosos, protegei-nos. Genio bemfazejo, ou
demonio infernal, que exhalas os perfumes celestes, ou as emanaes do
averno; que sejam sinistras ou caridosas as tuas intenes, appareces-me
debaixo de uma frma to grata que te quero fallar. Interrogo-te,
Hamlet, senhor, meu pae, rei de Dinamarca, oh! responde-me, no me
deixes, na ignorancia, morrer de emoo; mas dize-me, porque teus bentos
ossos encerrados no ataude romperam os sellos; porque te levantaste do
tumulo em que te haviamos depositado; porque se ergueu a lapide
sepulchral para te lanar a este mundo? Como, cadaver inanimado,
vestindo a tua armadura de ao, vagueias tu  duvidosa claridade da lua,
imprimindo  noite um caracter de horror, lanando-nos, fracos ludibrios
da natureza, nas ancias do terror; e fazendo surgir em nossas almas
pensamentos que excedem o nosso alcance? Responde. Porque? Com que fim?
Que exiges?

HORACIO

Faz-vos signal de o seguir, como se quizesse fallar-vos a ss.

MARCELLO

Veja, principe, o gesto cheio de cortezia e dignidade, com que o convida
a seguil-o a logar mais remoto; mas no v.

HORACIO

Senhor, pelo amor de Deus.

HAMLET

Quer-me fallar, pois bem, seguil-o-hei.

HORACIO

No faa tal, senhor.

HAMLET

Porque? que tenho eu a receiar, importa-me tanto a vida, como se fosse
um alfinete; quanto  minha alma, nada pde contra ella, porque 
immortal, como elle . Repete o signal, vou seguil-o.

HORACIO

E se elle vos attrahisse ao Oceano ou ao pincaro escarpado de algum
rochedo saliente e sobranceiro ao mar; e se tomasse alguma frma
horrivel, cuja vista vos varresse a raso tornando-vos demente? Pensae
bem, senhor, no receiaes alguma vertigem ao contemplar de alto a
immensidade debaixo de vossos ps?

HAMLET

Continua a fazer-me signal. Caminha, sigo-te.

MARCELLO

No ha de ir, senhor.

HAMLET

Ninguem me detenha.

HORACIO

Seja rasoavel, principe, no v.

HAMLET

Ouo a voz do meu destino; brada alto, e cada um dos meus musculos
adquiriu o vigor dos do leo de Nemea. (A sombra faz-lhe signal de a
seguir.) Chama-me outra vez, deixem-me, senhores (escapa-se-lhes dos
braos.) Por Deus, que no viver, quem ousar oppr-se-me. Afastem-se,
j disse. ( sombra.) Caminha, sigo-te. (A sombra e Hamlet afastam-se.)

HORACIO

Apoderou-se d'elle o delirio.

MARCELLO

Sigamol-o; desobedecer-lhe  foroso n'estas circumstancias.

HORACIO

No o abandonemos. Qual ser o resultado!

MARCELLO

Algum vicio ha na constituio da Dinamarca.

HORACIO

O cu prover o que for melhor.

MARCELLO

Sigamos o principe. (Sem todos.)


SCENA V

Uma parte mais afastada da explanada

Chegam HAMLET e a SOMBRA

HAMLET

Onde pretendes conduzir-me; mais adiante no irei.

A SOMBRA

Encara-me, Hamlet.

HAMLET

Que queres?

A SOMBRA

Approxima-se a hora em que me devo recolher s chammas sulphureas e
ardentes.

HAMLET

Pobre alma!

A SOMBRA

No me lastimes, mas presta atteno ao segredo que te vou revelar.

HAMLET

Falla,  meu dever escutar-te.

A SOMBRA

Dever tambem  vingar-me depois de me teres ouvido.

HAMLET

Que ouo!

A SOMBRA

Sou a alma de teu pae, condemnada a penar durante um tempo certo, a
jejuar n'um carcere de chammas, at que as culpas que mancharam a minha
vida estejam completamente expiadas e purificadas pelo fogo. Se no me
fosse defezo revelar os segredos do meu carcere, far-te-a uma narrativa
de que cada palavra encheria de terror a tua alma, gelaria o teu sangue,
os olhos quaes estrellas brilhantes sariam das suas orbitas, os anneis
do teu cabello desfazer-se-am em completa desordem, e cada cabello
ficaria hirto como as cerdas do javali; mas estes mysterios eternos no
so para ouvidos profanos de carne e de sangue. Escuta, escuta, oh
escuta-me! se alguma vez amaste teu carinhoso pae...

HAMLET

Oh cus!

A SOMBRA

Vinga a sua morte, causada por um assassinio, cobrde, infame e nefando.

HAMLET

Um assassinio?

A SOMBRA

Infame! todos os assassinios o so, mas nunca houve nenhum mais infame,
inaudito e horrendo do que este.

HAMLET

Apressa-te em desvelar-m'o, para que prompto, como a meditao, ou como
o pensamento de amor, possa saciar a minha vingana.

A SOMBRA

Grato sou ao teu empenho, Hamlet; era preciso que fosses mais apathico
do que a planta grossa e crassa que immovel e inerte apodrece nas
margens do Lethes, se no sentisses n'este momento commoo alguma.
Agora, ouve-me. Espalhou-se que emquanto dormia no meu jardim, uma
serpente me mordra;  assim que uma fallaz narrativa enganou a
Dinamarca sobre a causa da minha morte. Sabe tu pois a verdadeira, nobre
mancebo: a serpente cujo dardo matou teu pae, cinge hoje a cora d'este
reino.

HAMLET

Oh meus propheticos presentimentos, meu tio!

A SOMBRA

Sim, esse monstro, incestuoso, adultero pela magia das palavras, pelos
dotes insidiosos. Oh loquela perversa, oh dotes nefarios, poisque tem
tal poder de seduco, e conseguiu inspirar essa vergonhosa paixo a
minha mulher, apparentemente to virtuosa. Oh! Hamlet, que degradao!
Descer de mim, cujo amor nobre e digno no tinha desmentido um instante
o juramento prestado junto ao altar, a um miseravel, entre cujas
qualidades naturaes e as minhas havia um abysmo! Mas assim como a
virtude resiste inabalavel s tentaes do vicio, aindaque debaixo da
frma da Divindade lhe apparecesse, assim tambem a impudicicia, embora
associada a um anjo celeste de luz, cansa-se da santidade do leito
conjugal, para ir habitar o mais desprezivel prostibulo. Mas j sinto a
frescura da aurora, foroso  que eu termine. Emquanto dormia no meu
jardim, era esse o meu costume todas as tardes; teu tio, aproveitando a
minha inconsciencia, approximou-se de mim, munido de um frasco de
meimendro, e lanou-me n'um ouvido o contedo.  um veneno to activo
para o sangue humano, que com a subtileza do mercurio corre e se
infiltra em todos os canaes, em todas as veias, coalhando e alterando o
sangue pela sua aco energica: o mais puro e limpido no lhe resiste, 
como uma gotta de qualquer acido n'uma taa de leite. Tal foi o seu
effeito, que uma lepra instantanea cobriu meu corpo de uma crosta impura
e infecta. Eis como durante o meu somno, tudo me foi arrebatado de uma
vez, e pela mo de um irmo, vida, cora e consorte. A morte
surprehendeu-me em estado flagrante de peccado; sem sacramentos, sem me
reconciliar, nem com Deus, nem com a minha consciencia; tinha que
comparecer perante o Juiz Supremo vergando sob o peso das minhas
iniquidades. Horror, horror, cumulo de horror! Se em teu corao vibra a
fibra da sensibilidade, no o toleres. No consintas que o leito do rei
de Dinamarca se transforme em manso da luxuria e do incesto. Mas seja
qual for a tua vingana, conserva-te moral e puro, e poupa tua me.
Entrega o seu castigo ao cu, e aos espinhos do remorso que lhe
dilaceram o corao. Adeus, cumpre-me deixar-te; a luz do perilampo,
cujo fogo sem calor comea a esmorecer, annuncia a approximao da
aurora. Adeus, adeus, adeus. Recorda-te sempre de mim. (A sombra
retira-se.)

HAMLET

Oh! santas legies do cu, oh! terra, que mais? Invocarei o inferno? Oh!
opprobrio; contm-te, ah! contm-te, meu corao, e vs, meus musculos,
no percaes o vigor, e redobrae de fora e energia para me suster.
Recordar-me de ti? Sim, sombra infeliz, emquanto a memoria no abandonar
este meu cerebro desordenado. _Recorda-te de mim_; sempre! quero varrer
da minha memoria todas as recordaes frivolas, todas as maximas
colhidas nos livros, todos os vestigios, todas as impresses do passado,
tudo quanto a juventude e a observao coordenaram, e em sua vez dar s
lugar, sem rivaes, juro-o pelo cu, aos teus preceitos. Oh! mulher
perversa, oh infame e damnado monstro! oh memoria, grava bem o seguinte,
que nos sorrisos do homem se pde occultar um crime; assim  na
Dinamarca (escreve n'uma carteira). Meu tio, espere-me. A minha senha
ser de hoje em diante. _Adeus, adeus, adeus. Recorda-te de mim._
Jurei-o.

HORACIO ao longe

Senhor, senhor?

MARCELLO ao longe

Senhor Hamlet?

HORACIO

Que o cu o proteja.

HAMLET

Assim seja.

MARCELLO ao longe

Ol, ol, senhor!

HAMLET

Pousa meu falco, pousa. (Imita o canto do falco e o chamamento do
falcoeiro.)

Chegam HORACIO e MARCELLO

MARCELLO

O que se passou, senhor?

HORACIO

Que novas, senhor?

HAMLET

As mais extraordinarias.

HORACIO

Conte-nol-as, principe.

HAMLET

 um segredo.

HORACIO

E no sou eu capaz de o guardar? O principe conhece-me.

MARCELLO

E eu?

HAMLET

Que me diro quando o souberem: que corao humano o teria pensado.
Juram-me segredo?

HORACIO e MARCELLO

Jurmos.

HAMLET

No ha em toda a Dinamarca um scelerado igual.

HORACIO

Era necessario que um espectro sasse do tumulo para nol'o dizer?

HAMLET

 verdade, tem raso. Basta de palavras, um aperto de mo, e cada um
volte onde o chamam os negocios e as suas inclinaes, porque todos tem
inclinaes e negocios, sejam quaes forem: eu, pobre pria do mundo, vou
orar.

HORACIO

So palavras incoherentes e sem sentido, alteza.

HAMLET

Peza-me que te offendesses, peza-me devras.

HORACIO

Em que, senhor?

HAMLET

Por S. Patricio, que te offendi e gravemente. Quanto  appario de inda
agora,  um phantasma honesto, digo-t'o eu. Quanto ao desejo de
conhecerem, senhores, o que entre ns se passou, reprimam-n'o. E agora,
meus bons amigos, em nome da nossa amisade, da nossa camaradagem de
estudos e de armas, faam-me um favor.

HORACIO

Qual ? No hesitmos.

HAMLET

Nunca digam o que viram esta noite.

AMBOS

Conte com a nossa palavra, principe.

HAMLET

Quero um juramento.

HORACIO

Prometti o segredo.

MARCELLO

J jurmos.

HAMLET

Mas jurem sobre a minha espada.

A SOMBRA (debaixo da terra)

Jurem.

HAMLET

Ah! ah! meu camarada, s tu que fallas; ests ahi, meu valente,
approxima-te; ouvem a sua voz, prestem o juramento.

HORACIO

Diga-nos a formula, principe.

HAMLET (afastando-se um pouco com elles)

Jurem sobre a minha espada, que guardaro sigillo do que viram e
ouviram.

A SOMBRA (debaixo da terra)

Jurem.

HAMLET

_Hic et ubique._ Vamos para mais longe. (Afastam-se um pouco.)
Approximem-se, e estendendo a dextra sobre a minha espada, jurem por
este gladio nunca revelar o que viram e ouviram.

A SOMBRA (debaixo da terra)

Jurem pela sua espada.

HAMLET

Bravo, velha toupeira, como caminhas depressa subterraneamente, que
bello mineiro! Afastemo-nos mais uma vez, meus bons amigos.

HORACIO

Por vida minha,  prodigioso!

HAMLET

Acolhmol-o como se acolhe um estrangeiro. O cu e a terra encerram mais
mysterios, que os conhecidos pelos philosophos; mas venham. Notem o que
notarem nos meus modos, se eu julgar necessario affectar maneiras
extravagantes, jurem-me pela sua salvao que nunca cruzaro os braos,
meneando a cabea, nem lhes escaparo palavras ambiguas, como por
exemplo: _Muito bem, muito bem_--_j sabemos_--ou--_se quizessemos
fallar_--ou--_ainda ha pessoas que se ousassem_--ou outras expresses
equivocas, dando a perceber que esto na confidencia; jurem que nada
faro; e possa, quando mais precisarem, no lhes faltar a graa divina.

A SOMBRA (debaixo da terra)

Jurem.

HAMLET

Acalma-te, alma penada. Assim, senhores, recommendo-me  vossa affeio,
e tudo quanto um homem to debil como Hamlet possa fazer para lhes
provar o seu affecto, fal-o-ha com a ajuda de Deus. Retiremo-nos juntos,
e silencio; peo-lh'o eu. Ha no mundo alguma grande perturbao.
Maldio. Porque serei eu o eleito para a terminar? Vamos, partmos
juntos.


Fim do acto primeiro




ACTO SEGUNDO


SCENA I

Uma sala em casa de Polonio

Entram POLONIO e RINALDO

POLONIO

Rinaldo, entrega a meu filho este dinheiro e estas letras.

RINALDO

Sim, meu senhor.

POLONIO

Mas antes de o procurar, obrars assisadamente tomando informaes a seu
respeito.

RINALDO

Era essa a minha inteno.

POLONIO

Bem, muito bem; toma antes todas as informaes pelos dinamarquezes que
esto em Pars, v as suas relaes, e com quem se do, quaes os seus
gastos; depois de te assegurares pelas tuas perguntas que conhecem meu
filho, procura colher informaes mais exactas, sem comtudo o dar a
entender. Dissimula que o conheces perfeitamente, dizendo, por exemplo:
Conheo o pae e a familia, mas d'elle no tenho conhecimento algum.
Entendes, Rinaldo?

RINALDO

Perfeitamente, senhor.

POLONIO

De todo no me  desconhecido, pdes acrescentar. Conheo-o pouco 
verdade, comtudo aquelle de quem fallo  um dissipador com todos os seus
defeitos; imputa-lhe ento todos os vicios que te parecer, excepto
aquelles que podem deshonrar um homem, toma conta n'isso; s as loucuras
e imprudencias proprias de um joven que se sente livre de todo o
constrangimento paterno.

RINALDO

O jogo, talvez?

POLONIO

Bem, e as bebidas, a esgrima, as pragas, o genio bulioso, a convivencia
do prostibulo,  at onde te auctoriso que chegues.

RINALDO

Actos so, na verdade, que no deshonram.

POLONIO

Sabes bem como te deves haver fazendo estas imputaes. No aggraves os
factos accusando-o de devassido continua e habitual; no pretendo tal;
censura-o mas com discrio; exprime-te como se attribuisses as suas
faltas aos defeitos inherentes  mocidade, ao abuso da liberdade, ao
arrebatamento de um espirito fogoso,  effervescencia de um sangue
ardente.

RINALDO

Mas, senhor?

POLONIO

Porque ser conveniente obrar assim.

RINALDO

Para lh'o perguntar estava eu.

POLONIO

 onde eu queria chegar, e na minha opinio  um ardil sem igual. Depois
de teres imputado a meu filho esses ligeiros defeitos, que se podem
considerar quando muito como imperfeies n'uma bella obra; se o teu
interlocutor, aquelle que queres sondar, notou no joven a que te referes
algum dos vicios mencionados, est certo que responder immediatamente:
Meu caro senhor, ou _meu amigo_--ou _meu cavalheiro_--segundo o costume
do individuo, ou o uso do paiz...

RINALDO

Prosiga, senhor.

POLONIO

Ento... que estava eu dizendo? pela santa missa--que queria eu dizer? o
que era?

RINALDO

Fallava da resposta...

POLONIO

Que te daro,  isso, e no deixaro de responder: _Conheo esse
mancebo, vi-o ainda hontem, ou outro qualquer dia, em tal epocha, com
estes ou com aquelles, surprehendi-o jogando, ou n'uma orgia ou numa
rixa_, ou ainda, _vi-o entrar n'uma casa suspeita_; ou outras cousas
similhantes: agora vs como com a mentira se colhe a verdade.  assim
que ns, as pessoas entendidas, empregmos a miudo o embuste e a
falsidade para descobrir a verdade. Ahi est o caminho que seguirs para
saber o comportamento de meu filho. Percebes agora?

RINALDO

Sim, meu senhor.

POLONIO

O Senhor seja comtigo, boa viagem.

RINALDO

Meu amo!

POLONIO

Observa tu mesmo as suas inclinaes.

RINALDO

Fal-o-hei, senhor.

POLONIO

Mas no o distrias da sua vida.

RINALDO

Bem entendo.

POLONIO

Adeus. (Rinaldo se.)

Entra OPHELIA

POLONIO

Que te traz por aqui, Ophelia?

OPHELIA

Meu pae, meu pae, ainda tremo.

POLONIO

Porque? Falla por piedade.

OPHELIA

Querido pae, estava no meu quarto trabalhando em costura, quando de
repente deparo com o sr. Hamlet, mas em que estado! as vestes em
desordem, o cabello em desalinho, as meias cadas arrastavam pelo cho,
pallido e branco como uma mortalha, tremiam-lhe as pernas, o rosto tinha
a expresso do desespero, qual profugo do inferno mensageiro de novas
horriveis.

POLONIO

Enlouqueceria por tua causa?

OPHELIA

No sei, meu pae, mas receio-o devras.

POLONIO

Que te disse elle, Ophelia?

OPHELIA

Tomou-me os pulsos, apertando-os convulsivamente, depois afastando-se 
distancia do seu brao, levando a mo  testa, fitou os olhos no meu
rosto, como se me quizesse retratar. Assim se demorou por largo tempo,
por fim saccudindo-me levemente o brao, levantando e baixando por tres
vezes a cabea, suspirou to profundamente, que todo o seu corpo
estremeceu, parecia o prenuncio da morte. Feito isto, deixou-me, partiu
e desviando a cabea, como um homem que para achar caminho no precisa o
auxilio da vista, transpoz a porta; mas ento o seu olhar estava fito em
mim.

POLONIO

Segue-me, filha, vou procurar o rei.  o delirio do amor; a sua
violencia mata-o, e impe  sua vontade actos de desespero, que nenhuma
outra paixo humana excitaria. Peza-me sinceramente. Dize-me,
ter-lhe-as tu dirigido ultimamente alguma palavra cruel.

OPHELIA

No, meu pae; mas obedecendo s suas ordens, recusei as suas cartas e
evitei a sua presena.

POLONIO

Eis o que perturbou a sua raso. Doe-me de o no ter conhecido melhor:
receiei que as suas intenes no fossem serias, e que s pretendesse
consummar a tua ruina. Arrependo-me do fundo de alma das minhas
desconfianas. Parece que o confiar cegamente na previdencia  o
apanagio da minha idade, como o contrario  o defeito da mocidade. Vem,
dirijmo-nos ao rei, convem que elle nada ignore; porque o sigillo
d'este amor poderia acarretar mais desgraas do que a sua revelao
resentimentos. (Sem ambos.)


SCENA II

Uma sala no castello de Elsenor

Entram o REI, a RAINHA, as suas comitivas, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

O REI

Sejam bemvindos, caros Rosencrantz e Guildenstern. Independentemente do
gosto de os ver, a necessidade do seu prestimo me obrigou a chamal-os a
esta crte sem demora. Ouviram seguramente fallar da transformao de
Hamlet; digo transformao, porque j no  o mesmo homem, nem moral nem
physicamente. S a morte do pae pde ser a causa do transtorno da sua
raso, no posso conceber outra. Educados com elle desde a infancia,
sympathisando entre si pela idade e pelo caracter, peo-lhes que
permaneam algum tempo na crte, procurem inspirar-lhe o gosto e prazer
da sua convivencia, aproveitem todas as occasies para descobrir se a
sua afflico no tem alguma causa desconhecida, cuja revelao nos
permittisse dar-lhe remedio.

A RAINHA

Bastante tem fallado nos senhores, e estou convencida que ninguem no
mundo lhes  mais affeioado. A liberalidade do rei compensar
largamente os seus servios e os seus incommodos. Espermos dos senhores
esta prova de affeio.

ROSENCRANTZ

Vossas magestades so nossos soberanos, e os reis no pedem, mandam.

GUILDENSTERN

Estamos promptos a obedecer; disponham de ns, senhores. Depondo aos ps
dos reis os nossos servios e a nossa dedicao, pedimos-lhes s que
ordenem.

O REI

Obrigado, senhores.

A RAINHA

Obrigada tambem eu; vo ter com meu filho: infelizmente mal o
reconhecero. ( sua comitiva) Alguns d'estes senhores conduzam estes
cavalheiros junto de Hamlet.

GUILDENSTERN

Praza a Deus, que a nossa presena lhe seja agradavel e os nossos
cuidados um lenitivo.

A RAINHA

Deus queira. (Rosencrantz e Guildenstern sem seguidos de alguns
cortezos.)

Entra POLONIO

POLONIO

Senhor, regressaram de Noruega os embaixadores, satisfeitos com o
resultado da sua misso.

O REI

s sempre correio de boas novas.

POLONIO

Senhor! esteja vossa magestade certo que a minha alma pe a par a
dedicao ao meu rei e o respeito e amor ao meu Deus. A menos que a
minha sagacidade habitual me enganasse, descobri a verdadeira causa da
loucura do senhor Hamlet.

O REI

Estou ancioso por conhecel-a.

POLONIO

Primeiro os embaixadores, depois eu.

O REI

Recebe-os, e encarrego-te de os introduzir  nossa presena. (Polonio
se.) ( rainha.) Annunciou-me, querida Gertrudes, que conhece a causa
da doena de seu filho.

A RAINHA

Receio bem que a morte de seu pae e o nosso precipitado consorcio sejam
as causas unicas.

O REI

Sabel-o-hemos em breve.

Entram POLONIO, VOLTIMANDO e CORNELIO

O REI

Bemvindos sejam, amigos. Falla tu, Voltimando; que novas trazes de nosso
irmo de Noruega?

VOLTIMANDO

Envia-vos seus cumprimentos e sauda-vos cordealmente. Mal nos ouviu,
ordenou ao sobrinho que pozesse fim aos seus preparativos guerreiros.
Julgava-os dirigidos contra a Polonia; mas convencido por um detido
exame que eram contra vossa magestade, e indignado por Fortimbraz se
prevalecer do estado precario, a que a idade e a doena o tinham
reduzido, ordenou-lhe que comparecesse na sua presena. Fortimbraz
obedeceu  ordem intimada, e depois de severamente reprehendido pelo rei
de Noruega, prestou nas mos de seu tio o juramento de nada emprehender
contra vossas magestades. O idoso monarcha, para provar o seu jubilo,
concedeu-lhe uma penso annual de tres mil escudos, e licena para
combater os polacos com as tropas alistadas. Ao mesmo tempo pede-vos
pelas presentes (entrega as cartas), que concedaes s suas tropas livre
passagem pelo vosso territorio nas condies estipuladas n'este
escripto.

O REI

Este resultado enche-nos de satisfao; quanto ao pedido, lel-o-hemos, e
depois de maduramente examinado, responderemos. Agradecemos-lhes os seus
valiosos servios. Descansem agora; juntos ceiaremos logo. (Voltimando e
Cornelio sem.)

POLONIO

Felizmente est terminado este negocio. Senhor e senhora; discutir o que
constitue a auctoridade, e em que consiste a obediencia dos subditos,
porque a noite  noite, o dia  dia, e o tempo  tempo, seria perder sem
proveito a noite, o dia e o tempo; por isso, visto que a conciso  a
alma do espirito, emquanto que a prolixidade  s o corpo ou o involucro
exterior, serei breve: Vosso nobre filho est louco, digo louco, porque
haveria falta de raso em querer definir o que constitue verdadeiramente
loucura. Passemos adiante...

A RAINHA

Menos estylo, Polonio.

POLONIO

Senhora, no fao estylo, juro-o. Seu filho est louco;  triste, mas 
verdade.  verdade que  uma lastima, mas  uma lastima que seja
verdade;  uma estulta antithese, mas tal qual  acceite-a; no emprego
arte. Est louco; resta-nos procurar a causa d'esse effeito, ou antes
defeito, porque forosamente a deve ter. Siga bem o meu raciocinio:
Tenho uma filha, tanto a tenho, que me pertence. Minha filha, fiel ao
dever e  obediencia que me deve, note bem, entregou-me este escripto.
(Mostra um papel.) Reflicta e depois tire a concluso. (L.) _Ao idolo
da minha alma,  celeste Ophelia,  belleza personificada..._  uma
desgraada e estulta expresso. _Conserva preciosamente estas linhas, no
teu seio alabastrino..._

A RAINHA

 de Hamlet a Ophelia.

POLONIO

Espere um momento, senhora, cito textualmente. (L)

  Duvida que do cu a abobada azulada
  Tenha espheras de luz de um magico esplendor,
  Duvida seja o sol o facho da alvorada,
  Duvida da verdade em tua alma gravada,
  Mas no duvides nunca, oh! nunca, d'este amor.

_Querida Ophelia, no sou poeta, no sei modular suspiros com arte, mas
podes acreditar que te amo, mais que tudo n'este mundo. Adeus, a ti,
para sempre minha vida, a ti emquanto esta machina mortal me
pertencer._==Hamlet.==Eis-ahi o que, por obediencia, minha filha me
entregou. J antes ella me tinha confiado as tentativas de Hamlet, 
proporo que renovava as suas instancias amorosas.

O REI

Como pde ella acolher este amor?

POLONIO

Em que conta me tem, senhor?

O REI

Na de um homem leal e honrado.

POLONIO

Farei por merecer sempre esse conceito a vossa magestade; mas que
pensaria o rei de mim, se vendo despontar esse amor, e j o tinha
adivinhado antes da confisso de minha filha, que pensariam o rei e a
rainha, se me calasse, e me tornasse mudo confidente do seu amor; se,
testemunha da sua paixo, tivesse imposto silencio ao meu corao, ou se
a considerasse com indifferena? m ida por certo fariam de mim. No
perdi um momento, disse a minha filha: _O senhor Hamlet  um principe
collocado fra da tua esphera; isto no pde ser._--Ordenei-lhe ento
que evitasse a sua convivencia, e que nunca mais recebesse nem mensagens
nem dadivas. Seguiu o meu conselho, e para abreviar a minha narrao, o
principe, vendo-se assim repellido, cau primeiro n'uma profunda
tristeza, em seguida repugnaram-lhe os alimentos, mais tarde teve
insomnias, depois abatimentos e fraqueza intellectual, finalmente, e
sempre gradualmente, chegou  demencia e ao delirio. Deplormol-o todos.

O REI

E pensas ser essa a causa?

A RAINHA

 muito provavel.

POLONIO

Quizera me dissessem, se aconteceu alguma vez affirmar eu alguma cousa
que no fosse certa.

O REI

Nunca que eu saiba.

POLONIO

Se no  verdade o que disse (mostrando a cabea), que esta role a seus
ps. Basta-me a mais simples circumstancia para descobrir a verdade,
aindaque estivesse occulta nas entranhas da terra.

O REI

Por que modo nol-o poders tu provar.

POLONIO

Vossa magestade no ignora que o sr. Hamlet algumas vezes passeia quatro
horas consecutivas n'esta galeria.

A RAINHA

 certo.

POLONIO

Quando ali estiver, enviar-lhe-hei minha filha, e ns, occultos por
detrs d'esta cortina, seremos testemunhas da entrevista. Se no a ama,
se no foi o amor a causa da sua loucura, deixe eu de pertencer aos
conselhos de vossa magestade, e faa de mim um quinteiro, um hortelo ou
um abego.

O REI

Tentemos a experiencia.

HAMLET entra lendo

A RAINHA

A leitura  a unica distraco d'este infeliz.

POLONIO

Retirem-se ambos por piedade. Vou fallar-lhe. Confiem em mim. (O rei e a
rainha sem) Como se sente o sr. Hamlet?

HAMLET

Bem, Deus louvado.

POLONIO

Conhece-me, principe?

HAMLET

Se conheo, s um vendilho de peixe.

POLONIO

Engana-se, senhor.

HAMLET

N'esse caso, queria que ao menos fosses to honrado.

POLONIO

Honrado?

HAMLET

Sim; pelo caminho em que vae o mundo, custa achar um homem honrado entre
dez mil.

POLONIO

 uma triste verdade.

HAMLET

Ora o sol gera vermes no animal putrefacto, e embora divindade, acaricia
o cadaver. Tens uma filha, no  verdade?

POLONIO

Sim, meu senhor.

HAMLET

No a deixes caminhar ao sol, a concepo  um beneficio do cu, mas
como tua filha pde conceber, cuidado... meu caro.

POLONIO

Que quer dizer, principe? ( parte) minha filha  a sua constante
preoccupao, mas no me reconheceu logo, tomou-me por um vendilho de
peixe. O seu cerebro est gravemente atacado; verdade , que na minha
mocidade o amor algumas vezes me reduziu a um estado similhante a este.
Dirijmos-lhe de novo a palavra. Que est lendo, senhor?

HAMLET

Palavras e mais palavras, s palavras.

POLONIO

De que se trata, senhor?

HAMLET

Quem, o que?

POLONIO

Pergunto o que contm o livro que est lendo.

HAMLET

Calumnias, nada mais. O satyrico auctor tem a impudencia de dizer que
nos velhos a barba  grisalha, a pelle rugosa, e que seus olhos
distillam ambar e gomma em fuso; que o espirito est caduco, as pernas
no os sustem; tudo cousas que creio em minha consciencia, mas que se
no devem escrever. Quanto ao senhor, poderia ter a minha idade, se
podesse andar para trs como os caranguejos.

POLONIO ( parte)

Aindaque louco pde coordenar as idas. (Alto.) Quer vir tomar ar, meu
senhor?

HAMLET

Que ar? o do tumulo?

POLONIO ( parte)

Que agudeza e que verdade na replica. s vezes as palavras dos loucos
tem mais conceito que as dos sos. Vou deixal-o, e preparar a sua
entrevista com minha filha. Senhor, tomo a liberdade de me retirar.

HAMLET

Nada podia tomar, que eu dsse com mais gosto; excepto a vida, excepto a
vida, excepto a vida.

POLONIO

Adeus, meu senhor.

HAMLET ( parte)

Que imbecil e fastidioso velho.

Entram ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

POLONIO

Procuram o sr. Hamlet, eil-o.

ROSENCRANTZ (a Hamlet)

Deus seja comvosco, senhor. (Polonio se)

GUILDENSTERN

Meu nobre senhor.

ROSENCRANTZ

Querido principe.

HAMLET

Meus bons e queridos amigos, como esto, tu Guildenstern e tu tambem
Rosencrantz, meus caros, como passam.

ROSENCRANTZ

Nem bem, nem mal.

GUILDENSTERN

No nos peza demasiado a nossa felicidade, e no tocmos o ponto
culminante da fortuna.

ROSENCRANTZ

Nem temos tambem rases de queixa.

HAMLET

No meio est a virtude,  quando chovem as graas.

GUILDENSTERN

Vivemos familiarmente com ella.

HAMLET

Esto pois na intimidade da fortuna; no me admira,  uma cortez. Que
novas ha?

ROSENCRANTZ

Nenhumas, senhor, a no ser que este mundo se tornou virtuoso.

HAMLET

Em tal caso o seu fim est mui proximo, mas o que dizes  falso.
Permittam-me uma pergunta que lhes diz respeito. Digam-me, que mal
fizeram  fortuna para ella os enviar para este carcere?

GUILDENSTERN

Carcere, senhor?

HAMLET

A Dinamarca tambem  carcere.

ROSENCRANTZ

Ento -o o mundo todo.

HAMLET

Sim, uma vasta priso que em si encerra um grande numero de carceres,
dos quaes o peior  de certo a Dinamarca.

ROSENCRANTZ

No somos da mesma opinio, principe.

HAMLET

Para os senhores no ser uma priso a Dinamarca, porque o bem ou o mal
no existem seno quando assim o julgmos. Para mim .

ROSENCRANTZ

A ambio faz parecer a Dinamarca uma priso a vossa alteza, no cabe
n'ella a sua alma.

HAMLET

Acharia vasto reino uma casca de noz, se no fossem os meus terriveis
sonhos.

ROSENCRANTZ

So justamente esses sonhos que constituem a ambio, porque toda a
substancia do ambicioso  a sombra de um sonho.

HAMLET

Assim os mendigos so corpos, e os monarchas e os heroes ambiciosos no
so seno a sua sombra. Querem que vamos  crte? porque sinceramente
no me sinto disposto a discutir.

AMBOS

Estamos s suas ordens, principe.

HAMLET

No o comprehendo eu assim, no o quero confundir com o resto dos meus
creados; porque, para lhes dizer a verdade, sou pessimamente servido.
Mas, com franqueza, amigos, o que os trouxe a Elsenor.

ROSENCRANTZ

Unicamente visitar a vossa alteza, nenhum outro motivo.

HAMLET

Estou to pobre, to alheio ao reconhecimento! mas recebam os meus
agradecimentos pelo preo que valem. No os mandaram chamar? Foi por
motu proprio que vieram?  a affeio que aqui os trouxe? Vamos, sejam
francos, vamos, fallem.

ROSENCRANTZ

Que quer que digmos, senhor?

HAMLET

Tudo quanto lhes aprouver, mas respondam  minha pergunta. Mandaram-os
chamar? Leio nos seus olhos uma confisso, que a sua candura no sabe
dissimular. Sei que o nosso bom rei e a nossa excellente rainha os
mandaram chamar.

ROSENCRANTZ

Com que fim, senhor?

HAMLET

Os senhores  que o podero dizer; mas imploro-lhes, pelos direitos da
nossa amisade, pelas sympathias da nossa idade, pelos deveres que nos
impe a nossa verdadeira affeio, emfim por todas as rases as mais
convincentes que podesse allegar o mais habil orador, sejam francos e
sinceros commigo; mandaram-os chamar? _Sim_ ou _no_.

ROSENCRANTZ (a Guildenstern)

Que devemos responder?

HAMLET ( parte)

No os perderei de vista. (Alto.) Se devras me tem affeio,
expliquem-se com franqueza.

GUILDENSTERN

Pois bem, senhor, mandaram-nos chamar.

HAMLET

E eu dir-lhes-hei porque; d'est'arte a minha confisso preceder as suas
investigaes, e o segredo promettido ao rei e  rainha, no ser nem de
leve violado. Ultimamente, nem sei por que, perdi toda a minha alegria,
renunciei a toda a especie de exercicio; e sinto na alma uma tal
tristeza, que esta maravilhosa machina, a terra, me parece um esteril
promontorio, este esplendido docel, o cu, esse magnifico firmamento
suspenso sobre nossas cabeas, essa abobada sumptuosa, onde brilha o
oiro de innumeras estrellas, tudo me parece um infecto monturo de
vapores pestilentes. Que obra prima dos homens! que elevao na sua
intelligencia! quanto so infinitas as suas faculdades! como a sua frma
 imponente e admiravel, como os seus actos approximam os homens dos
anjos, e a sua raso os approxima de Deus! so a maravilha do mundo, os
reis da creao animada, e comtudo o que vale a meus olhos essa quinta
essencia do p? Aborreo os homens e as mulheres, embora os seus
sorrisos incredulos, senhores, digam o contrario.

ROSENCRANTZ

No tinhamos em nosso pensamento tal inteno.

HAMLET

Ento porque se riram quando disse que aborrecia os homens?

ROSENCRANTZ

 que eu pensava que, se os homens lhe so odiosos, triste acolhimento
receberiam os actores que encontrmos no caminho e que vem offerecer a
vossa alteza os seus servios.

HAMLET

Bemvindo ser o que representa os reis; tributarei a sua magestade as
minhas homenagens; o cavalleiro andante manejar adaga e escudo, debalde
no suspirar o namorado, o comico declamar em paz a sua parte; o bobo
provocar o riso aos mais hypocondriacos, emfim a namorada estropiar os
versos para no deixar de dizer o que cumpre sinta no corao. Que
actores so?

ROSENCRANTZ

So os tragicos da cidade, que lhe agradavam tanto.

HAMLET

Porque se tornaram actores ambulantes? Com a permanencia na cidade,
auferiam de certo maior honra e lucros.

ROSENCRANTZ

Innovaes recentes foram a causa d'isso.

HAMLET

Ainda gosam da mesma reputao que tinham quando eu habitava a cidade?
As suas representaes ainda so muito concorridas?

ROSENCRANTZ

Pouco, senhor.

HAMLET

Porque ser? Tero elles desmerecido no seu modo de representar?

ROSENCRANTZ

No, meu senhor; o seu zlo no arrefece: mas vossa alteza de certo
saber, que appareceu um enxame de creanas, apenas sadas da primeira
infancia, que declamam o dialogo o mais simples, no tom o mais elevado,
e por isso so calorosamente applaudidas. So moda, e lanaram um tal
desfavor sobre os actores ordinarios, como ellas lhe chamam, que muitos
homens valentes no campo da batalha, mas que temem as pennas aguadas,
no ousam frequentar o verdadeiro theatro.

HAMLET

Como? pois so creanas? Quem as protege? quem lhes paga? querero
unicamente seguir a sua profisso emquanto conservarem a sua voz
aflautada? E se um dia pela fora das circumstancias se tornarem actores
ordinarios, no tero direito ento de se arrependerem, de terem
acceitado os encomios das pennas que bem mau servio lhes prestaram,
quando se voltarem contra elles as armas de que se serviram para mal dos
outros.

ROSENCRANTZ

No luctaram pouco entre si, e a nao inteira animou a contenda. Houve
um momento em que a receita do emprezario dependia de brigarem os
actores e auctores.

HAMLET

Ser crivel?

ROSENCRANTZ

Houve mais de uma cabea quebrada.

HAMLET

E foram as creanas que venceram?

ROSENCRANTZ

Sim, meu senhor. Venceram o proprio Hercules com o seu globo.

HAMLET

Nada me admira, sendo meu tio rei de Dinamarca. Os que o evitavam em
vida de meu pae, pagam agora o seu retrato em miniatura, por vinte,
cincoenta e cem ducados. Por vida minha que ha alguma cousa sobrenatural
em tudo quanto presencemos, e que em verdade a philosophia devia
esmerar-se por descobrir. (Ouve-se o som de uma musica de clarins ao
longe.)

GUILDENSTERN

Chegam os actores.

HAMLET

Senhores, bemvindos sejam em Elsenor. As suas mos que eu as aperte. O
que distingue um bom acolhimento so os cuidados e as attenes polidas;
deixem-me recebel-os assim para no parecer que a cortezia para com os
actores, com os quaes  minha inteno ter a maior, ultrapassa a que
lhes testemunho pessoalmente aos senhores. Bemvindos sejam, mas o tio
que tenho por padrasto, e a me que tenho por tia esto completamente
enganados a meu respeito.

GUILDENSTERN

Em que se enganam elles?

HAMLET

S estou louco quando o vento sopra do nor-noroeste, em soprando do sul,
distingo uma gara de um falco.

Entra POLONIO

POLONIO

Saudo os senhores.

HAMLET

Escuta, Guildenstern, (a Rosencrantz) e tu tambem: a bom entendedor meia
palavra basta; esta creana que vem ainda usa coeiros.

ROSENCRANTZ

Talvez que os torne a usar; a velhice , segundo dizem, uma segunda
infancia.

HAMLET

Aposto que me vem fallar nos actores; vo ver. Tem raso, senhor, foi
effectivamente na manh de segunda feira.

POLONIO

Trago uma nova para vossa alteza.

HAMLET

Tenho tambem uma para o senhor. Quando Roscio era actor em Roma...

POLONIO

Os actores acabam de chegar.

HAMLET

No  verdade.

POLONIO

Palavra de honra.

HAMLET

Cada actor vir montado n'um jumento.

POLONIO

So os melhores actores do mundo para a tragedia, comedia, drama
historico e pastoril, pastoral comica e historica, pastoral
tragico-comico-historica, com ou sem unidade do logar da aco. Para
elles no ha difficuldades, so tristes com Seneca, folgasos com
Plauto. No tem rivaes quanto ao estylo e  expresso.

HAMLET

 Jephth, juiz em Israel, que thesouro possuias!

POLONIO

Que thesouro possuia elle, senhor?

HAMLET

Mas...

  Uma filha, uma s, mas essa encantadora
  Que era da noite sua a celestial aurora.

POLONIO ( parte)

Ainda minha filha.

HAMLET

No tenho eu raso, velho Jephth?

POLONIO

Se me chama Jephth,  porque tenho uma filha que estremeo.

HAMLET

No  consequencia.

POLONIO

Ento qual  a consequencia?

HAMLET

Eil-o.

  Mas Deus sabe porque o conto  memoravel!

Conhece o seguimento?

  Um dia aconteceu... o que era mais provavel.

Para o final recorde-se da primeira parte d'estas trovas, porque eis
quem me obriga a terminar.

Entram tres ou quatro ACTORES

HAMLET (continuando)

Bemvindos todos, bemvindos sejam. Estou encantado de te ver de boa
saude, bemvindos sejam, amigos. Ah, meu amigo, que mudana! j com
barba! Querers tu fazer-me sombra em Dinamarca? Ah eis-vos tambem aqui,
minha menina! Por nosso senhor, depois que vos vi, subistes apenas um
degrau para o cu. Deus queira que a vossa voz, moeda de liga mutavel,
no se deprecie de mais com o tempo. Senhores, para mim so todos
bemvindos; mas vamos direitos ao assumpto, como os falcoeiros francezes,
que largam o falco  primeira pea de caa que se apresenta, mostrem-me
a sua pericia; vamos, um trecho bem pathetico.

PRIMEIRO ACTOR

Que trecho preferis, senhor?

HAMLET

Ouvi-te um dia declamar um trecho de uma pea nunca representada em
scena, ou quando muito uma unica vez, porque, se bem me lembro, a pea
no agradou a todos; era _caviar_ para o geral do publico: mas, segundo
a minha opinio e das pessoas que n'este assumpto tem voz mais
auctorisada do que a minha, era uma pea excellente, bem conduzida e
escripta com tanta decencia como arte. Pelo que me lembro, diziam que os
versos no eram bastante picantes para compensar a insipidez da aco,
seu estylo na verdade nada tinha de affectado, mas que quanto ao resto a
pea, escripta com tanta simplicidade como methodo, era natural,
agradavel, e sem pretenso. Havia sobretudo um trecho que me agradou,
era, na falla de Eneas a Dido, o ponto em que lhe refere a morte de
Priamo. Se ainda te recordas, comea n'esta phrase, espera, deixa-me ver
se me lembro.

  Pyrrho, Pyrrho feroz como o tigre da Hyreania

No  isso--comea por Pyrrho.

  Este ouriado Pyrrho havia uma armadura
  Que, bem como a alma, tinha a cr da noite escura
  Quando elle era a dormir no cavallo sinistro.
  Mensageiro do mal, de Belzebut ministro,
  No corpo traz agora, em rubros caracteres,
  Mais sinistro brazo; da fronte aos ps o cora
  O sangue d'ancios, d'infantes, de mulheres,
  E por mil bcas, mata a sde que o devora
  No sangue recosido aos raios d'essa chamma
  Que Troia, em fogo ardendo, em torno a si derrama.
  Tisnado pelo fogo e pela raiva ardente
  Aps Priamo corre...

Contina tu agora.

POLONIO

Boa declamao na verdade, com as medidas e intonaes proprias.

PRIMEIRO ACTOR

                       O velho, j cansado,
  Mal vibra um frouxo golpe; aquella espada, outr'ora
  Como o raio veloz, l onde cae descansa,
  Indocil  vontade, e  mo rebelde agora,
  Oh lucta desigual! lucta sem esperana,
  Pyrrho de raiva acceso, investe em frente e ao lado!
  E, s do gladio ao spro eil-o no cho prostrado
  O guerreiro senil! Ento, Troia abatida
  Parece haver sentido, os golpes derradeiros:
  Ao ver prostrado o rei exhaure-se-lhe a vida,
  Desabam sobre a base em chammas os outeiros,
  E o som cavo e profundo a Pyrrho fere o ouvido.
  Eis de repente o gladio, a grande altura erguido,
  J prestes a immolar a fronte alva, nevada,
  Do venerando rei, detem-se l na altura.
  E Pyrrho assim parece um tyranno em pintura,
  Suspenso entre a vontade e a obra comeada!
  Mas como, muita vez, pouco antes da procella
  Se faz como que ouvir um silencio que gela,
  Pra a nuvem no cu, o vento no retumba,
  E a terra a nossos ps  muda como a tumba;
  Subitamente aps se v no fundo bao
  Um raio que illumina e rasga o immenso espao,
  Assim de Pyrrho a furia, instantes mal contida,
  Irrompe a completar a obra interrompida.
  Dos Cyclopes jamais caram retumbantes
  Com remorso menor os malhos flammejantes
  Para forjar de Marte a gravida armadura,
  Que sobre o nobre velho, ensanguentada, impura,
  De Pyrrho a espada ardente!...  finda a horrenda lucta!
  Atrs, fortuna, atrs, atrs, vil prostituta!
  Vs, deuses immortaes, em synodo sagrado,
  Roubae-lhe o audaz poder, quebrae todos os raios
  s rodas do seu carro, e l do cu lanae-os
  To baixo que o demonio os veja sempre ao lado.

POLONIO

Parece-me demasiado longo.

HAMLET

Para o encurtar manda-se a um barbeiro ao mesmo tempo
que a tua barba. (Ao actor.) Contina, peo-to eu; se no lhe
apresentam um bailado grutesco, ou uma scena immoral adormece
logo. Contina, pois, chegmos a Hecuba.

PRIMEIRO ACTOR

  Mas quem visse, oh, quem visse a rainha embuada!

HAMLET

A rainha embuada.

POLONIO

Optimo, _embuada_  bom.

PRIMEIRO ACTOR

  Correndo, nus os ps; com lagrimas que chora
  As chammas, apagando; a fronte coroada
  Por um farrapo vil, a fronte onde ainda agora
  Brilhava um diadema; apenas mal vestida
  Por coberta alcanada  pressa na fugida;
  Quem visse tanto horror, acaso concebra
  Que a fortuna s tem entranhas de uma fera;
  Mas se os deuses do Olympo houvessem escutado,
  Quando ella vira Pyrrho entregue ao estranho goso
  De cortar membro a membro, o corpo ao morto esposo,
  De seu peito fremente, o grito amargurado
  A no ser que da terra ao cu no suba a magua
  Sentiriam como ella os olhos rasos d'agua!

POLONIO

Vejam, empallidece, o pranto inunda-lhe os olhos. Basta, peo-to.

HAMLET

Est bem, o resto m'o recitars n'outra occasio; (a Polonio) queira
prover que estes actores sejam bem tratados, percebeu? que nada lhes
falte, porque so a chronica resumida e viva da epocha. Mais lhe
valeria, Polonio, um mau epitaphio depois da sua morte, do que o seu
vituperio em vida.

POLONIO

Tratal-os-hei segundo os seus merecimentos.

HAMLET

Melhor, meu caro, melhor; se se tratasse cada um segundo os seus
merecimentos, de poucos se faria caso. Trate-os como o deve  jerarchia
e  sua propria dignidade. Quantos menos titulos tiverem  sua
benevolencia, mais se deve esmerar no seu tratamento. Agora pde-se
retirar com elles.

POLONIO

Venham, senhores.

HAMLET

Sigam-o, meus amigos, manh teremos a representao, (Polonio se com
os actores, menos um a quem Hamlet faz signal que fique.)

HAMLET (continuando)

Dize-me, meu caro amigo, poderias representar a morte de Gonzaga?

PRIMEIRO ACTOR

Com mil vontades, senhor.

HAMLET

Ento manh. Dize-me mais, poderias tu aprender de cr, sendo preciso,
doze ou dezeseis linhas que eu desejava intercalar na pea? pdes, no 
verdade?

PRIMEIRO ACTOR

Posso perfeitamente, meu senhor.

HAMLET

Fica pois ajustado, segue aquelle senhor, e s te peo que no zombes
d'elle. (O actor se.)

HAMLET (a Rosencrantz e Guildenstern)

Meus bons amigos, at  noite, estimei vel-os em Elsenor.

ROSENCRANTZ

Meu senhor. (Se com Guildenstern.)

HAMLET

Finalmente estou s. Que miseravel eu sou! Pois no ser monstruoso que
este actor, n'uma fico, na expresso de uma dor simulada, podesse
elevar a sua alma, identificando-se com a sua parte, exaltando-se a
ponto de empallidecer, de lhe borbulhar o pranto nos olhos, de se lhe
pintar o desespero nas feies, entrecortada est a sua voz, e o seu
todo faz uma verdade, de que no  seno uma situao fingida! E tudo,
por quem? por Hecuba; que  Hecuba para elle, ou elle para Hecuba, para
que a sua memoria lhe arranque lagrimas to sentidas? Que faria elle no
meu logar, se tivesse tantos motivos de dor, quantos eu tenho. Inundava
de pranto a scena, aterrava os espectadores pela sua expresso terrivel,
fulminava o culpado, atemorisava o innocente; attonitas ficavam as almas
simples, e a commoo aos sentidos da vista e do ouvido seria geral. E
eu, alma tibia, intelligencia confusa, fico n'uma estupida inaco,
indifferente  minha propria causa, e nada acho que dizer, nada, mesmo
nada a favor de um rei que perdeu a cora e a vida pelo mais inaudito
attentado! Ah como sou cobarde! Infame me deveriam chamar,
esbofetear-me, arrancar-me as barbas, lanar-m'as ao rosto com o
desprezo; insultar-me deveriam todos, dizer-me que pela gorja menti, e
obrigar-me a soffrer calado todos os vilipendios possiveis. Quem quer
fazel-o. Por vida minha que era justo;  foroso que eu seja inoffensivo
como uma pomba sem fel, para levantar uma offensa, para no ter feito
pasto dos abutres as entranhas d'esse miseravel, sanguinario e impudico
scelerado. Monstro de perfidia, juntas ao assassinio o adulterio! Como
sou estupido!  bello na verdade ver-me, a mim, o filho de um rei e pae
assassinado, a quem cus e terra instigam  vingana, gastar a minha
indignao em palavras e vs imprecaes, como a mais vil e desprezivel
prostituta. Que vergonha!! Procuremos Uma ida... (depois de uma pausa
prolongada) Eil-a, achei. Ouvi dizer que criminosos, assistindo a
representaes dramaticas, de tal modo se perturbaram vendo a sua culpa
em scena, que espontanea e immediatamente fizeram confisso do seu
crime, porque o assassino embora mudo trahe-se e falla. Quero que os
actores representem, na presena de meu tio, a morte de meu pae,
observarei as suas feies, sondarei as suas impresses; se se
perturbar, sei o que me cumpre fazer. O espirito que me appareceu talvez
seja um demonio, porque pde revestir-se da frma de um objecto amado,
tem poder sobre as almas melancholicas, e quem sabe se na minha fraqueza
e dor acha os meios para me perder, condemnando-me para sempre. Quero
ter a certeza completa; o drama em questo ser o lao armado 
consciencia do rei. (Se.)


Fim do acto segundo




ACTO TERCEIRO


SCENA I

Uma sala no castello de Elsenor

Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

O REI

Ento ainda no poderam, nas suas conversas com elle, descobrir a causa
da desordem da sua intelligencia; d'aquella perigosa e turbulenta
demencia que se apoderou do seu espirito e lhe rouba o descanso?

ROSENCRANTZ

Confessa sentir esvar-se-lhe a raso; mas no conseguimos que elle nos
revelasse a causa.

GUILDENSTERN

Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos. Na sua
loucura no o abandona um resto de sagacidade; conserva-se na defensiva
todas as vezes que tentmos encaminhal-o a uma confisso tocante ao seu
estado.

A RAINHA

Recebeu-os bem ao menos?

ROSENCRANTZ

Com toda a affabilidade de um homem bem educado.

GUILDENSTERN

Mas evidentemente constrangido.

ROSENCRANTZ

Perguntando pouco, mas respondendo s nossas perguntas com a maior
naturalidade.

A RAINHA

E experimentaram algum divertimento para o distrahir?

ROSENCRANTZ

O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; fallmos-lhe
n'elles, esta nova pareceu agradar-lhe. Esto aqui no palacio, e creio
j terem recebido ordem para representarem esta noite na sua presena.

POLONIO

 verdade, e pede a vossas magestades que assistam  representao.

O REI

Com o maior prazer; estimo vl-o assim disposto. Queiram estimulal-o,
senhores, e dirigir a actividade do seu espirito para estes
divertimentos.

ROSENCRANTZ

Assim o faremos. (Se com Guildenstern.)

O REI

Deixa-nos tambem, querida Gertrudes. Mandmos chamar secretamente a
Hamlet, para como por acaso o pr na presena de Ophelia. Seu pae e eu,
legitimos espias, collocar-nos-hemos de maneira que, sem sermos vistos,
assistamos  entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se  um
amor infeliz que assim o faz padecer.

A RAINHA

Obedeo retirando-me. Quanto a ti, Ophelia, desejo ardentemente que os
teus encantos sejam a feliz causa da demencia de Hamlet; porque terei
ento esperana que as tuas virtudes o restituiro, a contento de ambos,
ao primitivo estado.

OPHELIA

Quanto o desejo, senhora.

POLONIO

Ophelia, passeia aqui n'esta sala; (ao rei) vamo-nos collocar, senhor;
(a Ophelia) l n'este livro; esta leitura simulada servir de pretexto 
tua solido. Enganmo-nos tantas vezes, e quo frequentemente acontece,
com uma capa de santidade e attitude reservada conseguirmos fazer um
santo do proprio demonio!

O REI

Oh  bem verdade; que pungente dor esta observao inflige  minha
consciencia! O rosto da prostituta no  mais asqueroso debaixo da
mascara do seu arrebique, do que o  o meu crime debaixo do falso verniz
do meu discurso. Oh peso terrivel!

POLONIO

Hamlet approxima-se, retiremo-nos, senhor. (O rei e Polonio occultam-se
atrs da cortina.)

Entra HAMLET

_Ser ou no ser_, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ella supportar
os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um diluvio de
dores, ou pr-lhes fim, combatendo-as? _Morrer, dormir, mais nada_, e
dizer que por esse somno pomos termo aos soffrimentos do corao e s
mil dores legadas pela natureza  nossa carne mortal; e ser esse o
resultado que mais devamos ambicionar? _Morrer, dormir, dormir, sonhar
talvez_; terrivel perplexidade. Sabemos ns porventura que sonhos
teremos, com o somno da morte, depois de expulsarmos de ns uma
existencia agitada? E no deverei eu reflectir?  este pensamento que
torna to longa a vida do infeliz! Quem ousaria supportar os flagellos e
ultrages do mundo, as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso,
as ancias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos
imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente,
quando basta a ponta de um punhal para alcanar o descanso eterno? Quem
se resignaria a supportar gemendo o peso de uma vida importuna, se no
fosse o receio de alguma cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual
jmais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade;
eis o que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que
procurar outros males que no conhecemos. Assim, somos cobardes todos,
mas pela consciencia; assim a brilhante cr da resoluo se transforma
pela reflexo em pallida e livida penumbra, e basta esta considerao
para desviar o curso das emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder
at o nome de aco. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade,
lembra-te dos meus peccados nas tuas oraes.

OPHELIA

Como tem vossa alteza passado estes dias ultimos?

HAMLET

Bem, agradeo-te do corao.

OPHELIA

Senhor, tenho dadivas e lembranas suas que ha muito lhe desejava
restituir. Permitta-me que lh'as devolva.

HAMLET

Eu! de certo que no, nunca te dei nada.

OPHELIA

O principe sabe perfeitamente que me fez essas dadivas, e as doces
palavras que as acompanharam ainda lhes realaram o valor; agora que
perderam todo o seu perfume, tome-as, principe, porque para uma alma
nobre, as mais ricas dadivas perdem o seu valor, no momento em que
aquelle que nol-as fez s nos mostra indifferena. Receba-as, pois,
senhor.

HAMLET

Ah, ah, s virtuosa.

OPHELIA

Meu senhor.

HAMLET

s bella.

OPHELIA

Que diz vossa alteza?

HAMLET

Digo que se s virtuosa e bella, deves evitar toda a communicao entre
a tua virtude e a tua belleza.

OPHELIA

Que melhor commercio ha para a belleza que o da virtude?

HAMLET

A influencia da belleza ser mais prompta em metamorphosear a virtude em
vil cortez, do que a fora da virtude em transformar a belleza  sua
imagem. Antigamente seria paradoxo, hoje  um facto provado. Amei-te
n'outro tempo,  verdade.

OPHELIA

Vossa alteza bem m'o fez acreditar.

HAMLET

Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule na nossa
primitiva natureza, sempre nos ficam restos d'ella. Nunca te amei.

OPHELIA

Maior foi o meu engano.

HAMLET

Professa, Ophelia, encerra-te n'um claustro. Para que queres continuar
uma raa de peccadores; quanto a mim julgo-me ainda asss honesto; e
comtudo podia formular contra mim taes accusaes, que melhor teria
valido, que minha me me no tivesse dado  luz. Sou orgulhoso,
vingativo e ambicioso; gero no meu cerebro tantas aces ms, que o meu
pensamento no basta para as distinguir, nem a minha imaginao para
lhes dar uma frma, e falta-me o tempo para as executar. Que vantagem
haver pois que seres como eu se rojem como reptis entre o cu e a
terra? Todos somos infames, no te fies em nenhum homem; vae, recolhe-te
a um claustro. Onde est teu pae?

OPHELIA

Em casa, meu senhor.

HAMLET

Que lhe fechem as portas para impedir que represente de louco fra de
casa. Adeus.

OPHELIA

Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet.

HAMLET

Se alguma vez te casares, dar-te-hei como dote esta triste verdade. S
tu fria como o glo; se fores pura como a neve a calumnia no te
poupar. Entra para um claustro, professa, adeus. Mas se absolutamente
precisas um marido, ento escolhe um louco, porque os homens assisados
sabem em que monstros vs as mulheres os tornaes. Professa, recolhe-te a
um convento, mas avia-te. Adeus.

OPHELIA

Poderes celestes, restitui-lhe a raso!

HAMLET

Tambem ouvi fallar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um porte e vs o
transformaes por vossa culpa. Saltitaes, requebrae-vos; gestos e
affabilidade so artificio, zombaes das creaturas de Deus, e fazeis
passar por ignorancia o que  simples e pura affectao. Nem quero
pensar em vs, mulheres; foi o que me enlouqueceu. Digo que no teremos
mais casamentos, todos que esto casados vivero, excepto um, os outros
ficaro como esto. Professa, entra para um convento, vae. Adeus.
(Hamlet se.)

OPHELIA (s)

Oh que nobre intelligencia est ali desthronada. A perspicacia do homem
de crte, a espada do guerreiro, a palavra do sabio, o futuro d'este
reino, o espelho do bom tom, o typo dos modos nobres, o modelo em que
todos fictavam os olhos, tudo destruido e destruido sem esperana; e eu,
a mais afflicta e infeliz das mulheres, eu que saboreei a inebriante
ambrosia dos seus juramentos de amor, estou condemnada a ver essa
potente e elevada raso, similhante ao bronze fendido, no dar seno
sons falhos e dissonantes; e tanta belleza e juventude crestadas pelo
spro da demencia! Oh infeliz, oh desgraada, que vi o que vi, e vejo o
que vejo!!!

Sem de trs da cortina o REI e POLONIO

O REI

O amor! no  a ella que elle dedica a sua affeio; alem d'isso o seu
fallar, aindaque um pouco falto de logica, no tem cunho de loucura. Ha
na sua alma alguma dor secreta. Receio algum perigo que nos seja fatal.
Para prevenir esse resultado, eis o plano que formei e no qual assentei.
Quero que Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o
tributo a que esse paiz se nega e a que  obrigado. Talvez que o mar, a
mudana de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam a raso,
expulsando do seu corao aquella obstinada preoccupao. Que lhe
parece?

POLONIO

Parece-me acertado. Comtudo persisto na minha ida, que um amor
desprezado  a causa unica da sua dor. (A Ophelia) No precisas
referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos. (Ao rei) Senhor,
faa o que lhe parecer conveniente, mas se me quer dar ouvidos, diga 
rainha, que, depois da representao, o chame a ss e inste para
conhecer d'elle a causa da sua mgua; porm cumpre que lhe falle
severamente: com o vosso assentimento ouvirei escondido toda a
conversao. Se a rainha no podr penetrar aquelle espirito rebelde a
toda a confidencia, ordene-lhe ento a partida, e desterre-o, senhor,
para o logar que a prudencia lhe dictar.

O REI

Concordo plenamente comtigo; nos grandes  que a demencia deve ser mais
vigiada. (Sem todos.)


SCENA II

Uma sala no castello de Elsenor

Entram HAMLET e differentes actores

HAMLET (a um dos actores)

No esqueas de dizer aquelle trecho, tal qual o declamei na tua
presena; mais que tudo fogo e energia; mas se o recitares como a maior
parte dos actores, mais me valeria ouvir a minha prosa na bca de um
pregoeiro. No movas descompassadamente os braos, acciona
moderadamente; no meio mesmo da torrente, da tempestade, do tufo, da
paixo, procura ser comedido. Nada impressiona mais desfavoravelmente,
do que ver homens robustos reduzirem a p uma paixo e escorchar os
ouvidos dos assistentes, que, pela maior parte, no merecem seno uma
declamao absurdamente arrebatada e uma aco desordenada. Aoutados
mereciam esses actores, cujo accionado mais parece renhida batalha, e
que mais crueis se fingem que um Herodes de comedia. Peo-te que evites
esses defeitos.

PRIMEIRO ACTOR

Pela minha parte, prometto-lh'o, senhor.

HAMLET

No vs tambem car no excesso contrario, sirva-te de guia a tua
intelligencia. Accommoda a aco s palavras, as palavras  aco, tendo
sempre em vista a naturalidade; s  proprio da scena intelligente, que
foi e  o espelho em que se deve reflectir a natureza, mostrar a virtude
tal qual , a vaidade sem vu, e cada tempo e cada idade com a sua
physionomia propria e com o cunho de verdade. Se se excede, ou se fica
quem do fim proposto, poder excitar-se a hilaridade do homem
ignorante, mas afflige-se o sensato, cujo juizo vale mais que o
suffragio de uma sala inteira. Oh! vi representar e ouvi elogiar
actores, que, Deus me perde, nada tinham de christo na voz, nada de
christo, pago ou mesmo humano no porte, e que se estorciam e bramavam
de tal modo, que sempre os julguei obra de algum aprendiz da natureza,
que, querendo fabricar homens, errou a vocao, e no tinha produzido
seno uma desgraada imitao da humanidade.

PRIMEIRO ACTOR

Espero em Deus, que vossa alteza no nos poder notar taes defeitos;
entre ns, senhor, esto banidas de todo as exageraes.

HAMLET

Mas que o estejam na verdade; que os bobos no digam mais do que ao que
so obrigados pela sua parte; alguns ha que introduzem alguma facecia
para excitar o riso dos espectadores ignaros no ponto em que mais
atteno se reclama da parte do publico.  um desacerto, e o bobo que
recorre a esses expedientes, mostra uma pretenso desgraada. Vo-se
agora preparar. (Os actores sem.)

Entram POLONIO, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

HAMLET (a Polonio)

Ento o rei est decidido  nossa pea?

POLONIO

Com certeza, e a rainha tambem. No tardam.

HAMLET

Diga ento aos actores que se aviem. (Polonio se.)

HAMLET (continuando, a Rosencrantz e Guildenstern.)

Querem fazer-me o favor de tambem ir apressar os preparativos.

AMBOS

Sim, meu senhor. (Sem.)

Entra HORACIO

HAMLET

Ah, s tu, Horacio?

HORACIO

Estou sempre s suas ordens, meu senhor.

HAMLET

Meu caro Horacio, s a flor dos homens, cujo trato tenho cultivado.

HORACIO

Meu querido senhor.

HAMLET

No julgues que te lisonjeio; que posso eu esperar de ti, cujas unicas
rendas so a jovialidade e a honestidade. Quem lisonjeia um pobre? No,
que a lisonja roja-se aos ps da opulencia estupida, e o servilismo
curva o joelho,  espera do comprador. Escuta, depois que a minha alma
pde livremente escolher e soube distinguir os homens, marcou-te com o
sllo da predileco, porque reconheceu em ti um homem que no se abate
pelos revezes; um homem que acceita com a mesma indifferena os favores
e os rigores da fortuna; felizes os mortaes em quem o juizo e as paixes
tem igual imperio, e no so um joguete nas mos da fortuna. Mostrem-me
um homem que no seja escravo das paixes, e ter conquistado, como tu,
o meu corao, e abrir-lhe-hei o santuario da affeio mais ntima.
Basta sobre o assumpto. Deve-se hoje representar na presena do rei um
drama, no qual ha uma scena, que  a historia da morte de meu pae, cujos
pormenores j em tempo te contei. Quando se approximar a scena, observa
meu tio, com toda a vigilancia que auctorisam as minhas suspeitas; se o
segredo do seu crime se no revelar por alguma palavra, ento era a
appario obra do demonio, e as minhas imaginaes so mais negras que
as lavas e cinzas de um vulco. Tu observa-o attentamente, eu no o
perderei de vista; depois, juntando os nossos juizos, concluiremos
conforme ao que virmos.

HORACIO

Muito bem, senhor, to firme estarei no meu posto de observao, que
juro por Deus, que me no escapar um movimento, uma impresso da sua
alma.

HAMLET

Eil-os que chegam para a representao; agora, cumpre-me ser espectador
indifferente. (Ouve-se a marcha real e clarins.)

Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e a
CORTE

O REI

Como passa nosso sobrinho Hamlet?

HAMLET

Melhor no pde ser; em verdade passei a viver como os camalees,
nutro-me s de ar, e alimento-me de promessas, as iguarias mais finas
no me satisfariam melhor.

O REI

A tua resposta -me inintelligivel; no  de certo a mim que ella 
dirigida.

HAMLET

Pois nem a mim. (A Polonio.) No me disse que j tinha representado uma
vez, quando cursava a universidade?

POLONIO

 verdade, senhor, e era reputado um habil actor.

HAMLET

Que parte representou?

POLONIO

A de Julio Cesar; assassinaram-me no capitolio; Bruto apunhalava-me.

HAMLET

Que brutalidade apunhalar, e n'aquelle logar, um to excellente bezerro.
Os actores j esto promptos?

ROSENCRANTZ

Sim, meu senhor, esperam s as ordens.

A RAINHA

Vem, meu Hamlet, sentar-te a meu lado.

HAMLET

No, minha me; (mostrando Ophelia) este metal tem mais fora de
attraco.

POLONIO

Que me diz agora, senhor?

HAMLET

Ser-me-ha permittido estar a vossos ps, senhora? (Senta-se no cho aos
ps de Ophelia.)

OPHELIA

No, meu senhor.

HAMLET

Queria dizer, recostar a cabea sobre vossos joelhos.

OPHELIA

Sim, meu senhor.

HAMLET

Pensaveis talvez que tivesse outra ida?

OPHELIA

Nada pensava.

HAMLET

 um pensamento este digno de um corao de donzella.

OPHELIA

O que, senhor?

HAMLET

Nada.

OPHELIA

Vejo-o hoje alegre, senhor.

HAMLET

Quem, eu?

OPHELIA

Sim, vossa alteza.

HAMLET

Sou o seu bobo e nada mais. Cousa alguma ha melhor para o homem do que a
alegria. Repare, veja como minha me est hoje muito alegre, e ainda no
ha duas horas que meu pae morreu.

OPHELIA

Vossa alteza engana-se por certo; ha mais de duas vezes dois mezes.

HAMLET

Tanto tempo!! n'esse caso use o demonio o lucto, eu quero vestir-me de
arminhos. Oh cus, morto ha dois mezes, e ainda no esquecido, no 
ento de estranhar que a recordao de um grande homem dure mais de seis
mezes; mas, pela Virgem Santa, deve ento ter edificado igrejas, alis
arriscava-se a que o esquecessem, como aquelle a quem lavraram este
epitaphio:

_Aqui jaz esquecido um cavallo de pau._

Soam os clarins, comea a pantomima

(Um rei e uma rainha entram em scena, o seu aspecto  de namorados,
abraam-se. A rainha ajoelha aos ps do rei, mostrando pelos seus gestos
que lhe protesta o mais vivo amor. O rei levanta-a, e inclina a cabea
sobre o seu hombro; depois deita-se n'um banco coberto de flores. A
rainha vendo-o adormecido, se. Apparece um personagem que lhe tira a
cora e a leva aos labios, lana veneno n'um ouvido do rei, e se em
seguida. Volta a rainha, acha o rei morto, e d mil signaes de
desespero. O envenenador seguido por duas ou tres pessoas, chega e
parece lamentar-se com a rainha. O cadaver  levado da scena. O
envenenador requesta a rainha, d-lhe presentes. Ella mostra a principio
repugnancia, mas acaba por acceitar o amor offerecido. Sem.)

OPHELIA

Que significa esta scena, senhor?

HAMLET

Nada que seja bom,  um lao armado ao crime.

OPHELIA

Esta pantomima indica sem duvida o entrecho da pea?

Entra o PROLOGO

HAMLET

Vamos sabel-o, os comediantes no podem guardar um segredo, tem por
costume fallar sempre.

OPHELIA

Explicar elle o que significa a pantomima?

HAMLET

Sem duvida, no s essa, mas todas as que lhe quizer apresentar,
qualquer que seja a sua especie, e ter a explicao prompta.

OPHELIA

O principe  mau, deixe-me seguir a pea.

O PROLOGO

  Pedimos, para ns, toda a vossa indulgencia;
  Para a nossa tragedia, attenta paciencia.

HAMLET

Parece antes divisa de annel do que prologo.

OPHELIA

To curto, senhor.

HAMLET

Como o amor de uma mulher.

Entram um REI e uma RAINHA

O REI DA PEA

  Trinta vezes de Phebo o carro luminoso
  De Tellus e Neptuno, o largo giro ha feito,
  E trinta vezes doze a lua, astro saudoso,
  De refrangida luz,  terra ha dado o preito,
  Desde que as nossas mos, com mutuo amor se deram,
  E as benos d'Hymeneu o sacro n teceram.

A RAINHA DA PEA

  Possamos lua e sol, ver outras tantas vezes,
  Antes que d'este amor se rompa o doce lao;
  Mas seguem-se  ventura as maguas, os revezes,
  E vejo-vos cado, ha pouco, em tal cansao,
  To triste, meu senhor, to triste e to mudado,
  Que no posso esconder mais tempo o meu cuidado.
  Mas que no se perturbe o vosso animo forte
  Porque inquieta eu sou, e ousei pensar na morte.
  De affecto e de anciedade igual medida temos,
  Ou nullos um e o outro, ou um e o outro extremos.
  Se  grande o meu amor, demais senhor o vdes,
  Que a par anda o receio, em minha fronte o ldes.
  Sempre que o amor  grande, as apprehenses mais breves
  Transformam-se de prompto em maximos temores;
  Quando  grande o receio, os affectos mais leves
  Ascendem de repente aos mais grandes amores.

O REI DA PEA

  Bem cedo  fora, amor, que d'este mundo eu parta,
  Bem vs, d'esta alma a luz j quasi que se aparta.
  Tu vivers sem mim, sob este cu formoso,
  Querida, idolatrada e sempre honesta e casta.
  Depois, talvez depois, quem sabe? um novo esposo...
  Um homem justo e bom...

A RAINHA DA PEA

                           Oh! basta, senhor, basta!
  Seria um novo amor perfidia negra e infame.
  Amaldioado seja o dia em que outro eu ame!
  Embora justo e bom, segundo companheiro
  No n'o acceita ninguem, sem ter morto o primeiro.

HAMLET

Isto  absintho, e que absintho!

A RAINHA DA PEA

  Poisque motivo arrasta a viuva ao casamento?
  Acaso um novo amor? um nobre sentimento?
  Um sordido interesse: e eu cravra no peito
  De meu morto senhor a ponta de uma espada,
  Cada vez que, olvidando a antiga f jurada,
  Compartisse outro ser commigo o mesmo leito.

O REI DA PEA

  Creio bem, que pensaes o que dizeis, se creio?!
  Mas quanta, oh! quanta vez, se quebra a aco no meio,
  Nasce a resoluo escrava da memoria,
  Producto da violencia,  curta a sua historia.
  A fructa emquanto verde em qualquer ramo atura
  Mas, sem abalo algum, tomba apenas madura.
  Fatalmente olvidando o que a ns nos devemos
  No pagmos jmais, a divida esquecemos.
  O que durante a dor parece a eternidade,
  Mal extincta a paixo, cessa de ser vontade.
  O jubilo e o martyrio, ainda os mais completos,
  Destruindo-se a si, destroem seus decretos.
  Onde o prazer mais ri, mais chora a dor pungente;
  Entristece a alegria, alegra-se a tristeza,
   causa mais subtil, ao mais leve accidente,
  E este um dom fatal da vria natureza.
  Passmos pelo mundo, e nada aqui tem dura
  Que at o proprio amor muda com a ventura;
  Porque  problema ainda occulto aos pensadores
  Se d o amor fortuna, ou se a fortuna amores.
  Um principe dece? somem-se os que os adulam;
  Um mendigo se eleva? os amigos pullulam.
  At aqui o amor seguiu sempre a fortuna;
  Quem no precisa encontra em toda a parte amigos,
  E quem precisa e pede,  lepra que importuna,
  Todos transforma e muda em feros inimigos,
  Mas para concluir, escuta o corollario:
  A vontade e o destino, andam tanto ao contrario
  Que o mais leve projecto  sempre letra morta.
  Assim crs, no ters jamais outro marido;
  Pois abra-me o sepulchro a sua eterna porta
  E tudo ir sumir-se em um perpetuo olvido.

A RAINHA DA PEA

  Negue-me a terra o po, e a luz o firmamento!
  O meu goso maior transforme-se em tormento!
  Minha esperana e f tornem-se em negro inferno!
  Seja a fome em priso o meu futuro eterno!
  No tenha eu, viva ou morta, o mais curto repouso,
  Se, viuva uma vez, tomar um outro esposo!

HAMLET

E se lhe acontecer violar o juramento?

O REI DA PEA

  Solemne juramento!... Amor, deixa-me agora;
  Exhausta sinto a fronte, e bom grado entregra
  Os restos d'este dia  paz consoladora
  Dos braos de Morpheu. Adeus! Oh! sempre cara. (Adormece.)

A RAINHA DA PEA

  Que um somno brando e doce embale a tua mente
  E a desgraa jamais entre ns dois se assente!... (Se a rainha.)

HAMLET

Senhora, como acha esta pea?

A RAINHA

A rainha parece-me que faz demasiados protestos.

HAMLET

Mas dada a palavra, no pde faltar.

O REI

Conhece a pea? no contm nada reprehensivel?

HAMLET

Absolutamente nada; tudo quanto contm  s gracejo, at se envenena por
gracejo.  a pea mais inoffensiva que pde haver.

O REI

Que titulo tem?

HAMLET

O _Lao_, j se sabe, por metaphora. O assumpto da pea  um assassinio
commettido em Vienna. O rei chama-se Gonzaga, sua mulher Baptista. Vae
ver, um crime horrivel. Mas que importa a vossa magestade e a mim, que
temos a consciencia pura e que nada temos a receiar! O peior  para
aquelles a quem punge algum espinho, a ns nada nos pesa na consciencia.

Entra LUCIANO

HAMLET (continuando)

 este um chamado Luciano, sobrinho do rei.

OPHELIA

Vossa alteza faz o servio do cro.

HAMLET

Podia at servir de ponto n'uma conversa sua com o seu amante; o caso
era eu ver manobrar os dois titeres.

OPHELIA

Sois na verdade mordaz, principe; sois bem mordaz.

HAMLET

A sua pena seria que eu deixasse de o ser.

OPHELIA

De bem para melhor, de mal para peior.

HAMLET

 a sorte que a espera na escolha de um marido! Comea, assassino. Pe
de parte esses horriveis tregeitos, avia-te, comea.

        Eis o corvo que avana,
  Chamando em seu grasnar a lugubre vingana.

LUCIANO

  O pensamento negro, o brao bem disposto,
  A droga preparada, a hora favoravel,
  Cumplice a occasio, a ver nem um s rosto.
  Mistura infecta e immunda, extracto abominavel
  De peonhenta sara  meia noite achada,
  Tres vezes polluida e tres envenenada
  D'Hecate  maldio, possa a tua virtude
  Fechar uma existencia, e abrir um atade.

(Deita veneno n'um ouvido do rei adormecido.)

HAMLET

Envenena-o no jardim, para se apoderar da cora. O nome do rei 
Gonzaga;  uma historia authentica escripta no mais elegante italiano.
Vero como logo o assassino obtem o amor da mulher de Gonzaga.

OPHELIA

O rei levantou-se.

HAMLET

Qu!! um pequeno claro apenas, j o assusta?

A RAINHA

Que tem, senhor?

POLONIO

Cesse a pea.

O REI

Tragam luzes. Saimos.

POLONIO

Luzes, venham luzes, luzes. (Todos sem, excepto Hamlet e Horacio.)

HAMLET

  Sim! que fuja e que chore o cervo mal ferido,
  E o que ao golpe escapou, gose um prazer profundo.
  Quando um chora, outro ri. Oh! sempre assim ha sido,
        E assim  feito o mundo.

Se alguma vez a fortuna me maltratar, no bastaria uma scena de effeito
como esta, acrescentando-lhe um chapu ornado de pennas, e duas rosas de
Provena nos laos dos sapatos, para que me admittissem n'uma companhia
dramatica.

HORACIO

Talvez o admittissem, mas com meia paga.

HAMLET

Ou inteira.

  Porque sabes, Damon, bem sabes tu que outr'ora
  Mandava n'este reino, que vs hoje aviltado,
  Qual Jupiter no Olympo, um grande rei... agora
        Governa aqui... um chavo.

HORACIO

Foi pena no rimar.

HAMLET

Meu querido Horacio, aposto mil libras esterlinas, em como a sombra
fallou s a verdade. Reparaste?

HORACIO

Em tudo reparei, senhor.

HAMLET

Quando se tratava do envenenamento?

HORACIO

Tudo observei.

HAMLET

Ah! ah! ah! quero musica, tanjam as charamelas.

  Porque, se da comedia o rei no gosta nada,
  Sei eu dar a raso... no gosta, est dada.

Venha a musica, quero muita musica. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)

GUILDENSTERN

Senhor, permitta-me que lhe d uma palavra.

HAMLET

Mil at, se n'isso fizer gosto.

GUILDENSTERN

Senhor... o rei...

HAMLET

Que ?... que me vem dizer d'elle?

GUILDENSTERN

Retirou-se aos seus aposentos, estranhamente indisposto.

HAMLET

Pelo vinho?

GUILDENSTERN

No, senhor, mas pela colera.

HAMLET

Mais assisado seria terem chamado um medico. Eu no faria seno
exacerbar a sua colera com a minha presena.

GUILDENSTERN

Queira, senhor, ter mais nexo nos seus discursos, e no se afastar assim
to bruscamente da questo.

HAMLET

Escutal-o-hei tranquillamente. Falle.

GUILDENSTERN

A sua rainha e me me envia a vossa alteza.

HAMLET

Bemvindo seja.

GUILDENSTERN

Senhor, essa polidez  mal cabida n'esta occasio. Se me promette
responder rasoavelmente, executarei ento as ordens de sua me, quando
no, retiro-me pedindo desculpa a vossa alteza.

HAMLET

No posso.

GUILDENSTERN

O que, meu senhor?

HAMLET

Responder rasoavelmente; a minha intelligencia enfermou, no emtanto
dar-lhe-hei uma resposta, ou antes como ordena a minha me, a melhor que
podr. Diga-me agora, que pretende de mim a rainha?

ROSENCRANTZ

Encarregou-nos de lhe dizer, principe, que o seu comportamento lhe
causou espanto e dor.

HAMLET

Ah! sou pois um filho to extraordinario que causo espanto e dor a minha
me! Nada mais lhe disse? Fallem.

ROSENCRANTZ

Deseja fallar-lhe, alteza, no seu quarto, antes de o principe se deitar.

HAMLET

Obedecer-lhe-hemos, aindaque fosse dez vezes nossa me. Tem mais alguma
cousa a dizer?

ROSENCRANTZ

Houve tempo em que o principe era meu amigo.

HAMLET

Ainda hoje o sou, juro-o por estes dez dedos.

ROSENCRANTZ

Senhor, qual  a causa da sua dor profunda?  impor-se um
constrangimento inutil, guardar esse segredo para comnosco, que somos
to seus amigos.

HAMLET

Inquieta-me o meu futuro!

ROSENCRANTZ

Como pde isso ser, pois o rei j o escolheu para successor ao throno de
Dinamarca?

HAMLET

 verdade; mas guardado est o bocado... o proverbio  antigo.

Entram differentes actores cada um com uma charamela

HAMLET

Ah! chegam as charamelas, d-me uma. (Tira a charamela a um dos
actores.) Quer que o acompanhe? ento deixe de me perseguir como o
caador persegue a caa.

GUILDENSTERN

Se o meu zlo, senhor, me faz obstinado,  porque a affeio me torna
importuno.

HAMLET

No o posso comprehender, faz-me favor de tocar n'esta charamela.

GUILDENSTERN

Senhor, eu no sei!

HAMLET

Peo-lhe.

GUILDENSTERN

Creia-me, senhor, no posso.

HAMLET

Supplico-lhe.

GUILDENSTERN

Se nunca soube tocar tal instrumento!

HAMLET

Pois mais difficil  mentir. Com os quatro dedos e o pollegar tapam-se e
destapam-se por sua vez os orificios; sopre, e ver que encantadora
harmonia produz. Vamos.

GUILDENSTERN

Mas, senhor, eu no posso nem sequer tirar um som d'este instrumento;
falta-me o talento.

HAMLET

Que especie de imbecil me julga ento? Sou a seus olhos um instrumento
de que pretende tirar sons, e que parece conhecer to bem. Pretende
sondar at ao fundo da minha alma, para descobrir o meu segredo; queria
ento fazer vibrar todas as cordas do meu sentimento. D'este pequeno
instrumento (Mostrando-lhe a charamela) tiram-se sons e notas as mais
melodiosas; e comtudo nas suas mos no pde fallar. Pela Virgem santa,
sou ento mais facil de tocar do que uma flauta? O que lhe asseguro 
que se me julga um instrumento nas suas mos, nunca conseguir fazel-o
fallar. Est muito enganado commigo.

Entra POLONIO

HAMLET (continuando)

Guarde-o Deus.

POLONIO

Senhor, a rainha deseja fallar-lhe immediatamente.

HAMLET (approximando-se de uma janella)

V acol aquella nuvem que tem quasi a frma de um camello?

POLONIO

No ha duvida, dir-se-ia effectivamente um camello.

HAMLET

Parece-se mais com uma doninha.

POLONIO

 verdade! tem o feitio da doninha.

HAMLET

Ou de uma baleia?

POLONIO

Realmente, com o que se parece  com uma baleia.

HAMLET

Agora vou ter com minha me, ho de acabar por enlouquecer-me devras.
Vou j.

POLONIO

Vou communical-o  rainha. (Polonio se.)

HAMLET

J!  facil dizel-o. Deixem-me ss, meus amigos. (Sem todos excepto
Hamlet.)

HAMLET (s)

 esta a hora da noite propria dos mysterios da magia, a hora em que os
tumulos se abrem, em que o inferno exhala sobre a terra o seu sopro
contagioso; agora sinto-me capaz de beber sangue ainda fumegante, e
commetter actos que o dia consternado no poderia presencear sem terror!
Prudencia! Vamos ao quarto de minha me. Oh! meu corao, no dispas o
teu vigor; firmeza agora, mas que o corao de Nero nunca entre em meu
peito. Sejamos inflexiveis, mas no filho desnaturado; seja a minha
lingua um punhal, mas minha mo esteja desarmada; e n'esta occasio
sejam a minha bca e o meu corao obrigados pela raso a dissimular.
Por mais violentas que sejam as minhas palavras, dae-me fora, meu Deus,
para que sejam sempre comedidas, assim como os meus actos. (Se.)


SCENA III

Um quarto no castello de Elsenor

Entram o REI, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

O REI

Ha n'elle alguma cousa que me desagrada, e creio que haveria perigo para
ns em no vigiar a sua loucura; faam pois todos os preparativos de
viagem. Vou dar as ordens, e quero que parta sem demora para Inglaterra
acompanhado pelos senhores. O interesse da nossa cora me veda o
expor-me aos continuos perigos com que a sua demencia me ameaa.

GUILDENSTERN

Vamo-nos preparar.  um receio santo e salutar o que tem por objecto
assegurar a salvao de innumeras existencias, que depende da vida de
vossa magestade.

ROSENCRANTZ

 um dever que toca a cada um na sua esphera individual, o applicar
todas as suas foras e toda a energia para defender a propria vida
contra qualquer ataque; quanto mais obrigado a fazel-o  aquelle de cuja
vida dependem tantas existencias! Quando um rei morre, no morre s, 
um turbilho que attrahe tudo quanto encontra no caminho, ou lhe fica
proximo: roda colossal fixada no cume de uma elevada montanha, cujos
gigantescos raios esto carregados de innumeros accessorios, e cuja
quda os impelle forosamente a um desastre commum. Quando o rei padece,
padecem todos.

O REI

Preparem-se, peo-lh'o, para uma partida immediata, porque estamos
resolvidos a pr um termo s causas de inquietao que demasiado
livremente se do n'este paiz.

AMBOS

No nos faremos esperar. (Sem.)

Entra POLONIO

POLONIO

Senhor, Hamlet entrou agora para o quarto de sua me; occultar-me-hei
cuidadosamente para ouvir a sua conversa. Asseguro a vossa magestade que
a rainha o vae reprehender severamente.  conveniente, como el-rei muito
bem disse, que outros ouvidos que no sejam os de me, naturalmente
propensos  indulgencia, ouam o que se disserem mutuamente. Adeus, meu
senhor; virei aos seus quartos antes que vossa magestade se recolha, e o
rei ser sabedor de tudo quanto se passou.

O REI

Obrigado, Polonio. (Polonio se.)

O REI (s)

O meu crime j no tem perdo no cu, est marcado pelo estigma da
maldio divina, como o foi o primeiro fratricida. Apesar de todos os
meus desejos, no posso orar; pareo um homem que duas occupaes
reclamam, e que, no sabendo por qual optar, no escolhe nenhuma.
Poisque, quando sobre esta mo maldita se formasse uma crosta de sangue
mais espessa que a propria mo, no teria o cu bastante misericordia
para que a onda da sua graa a purificasse e a tornasse branca como a
neve? Para que serve a bondade divina, seno para remir as nossas
culpas? De que vale a orao, se no tem a dupla virtude de prevenir a
nossa quda, ou obter o perdo depois d'ella? Dirijmos as nossas
supplicas ao cu, j que no podemos evitar o crime consummado. Mas,
infeliz, como hei de orar? Perdoae-me, Senhor, o meu crime nefando. No
posso, poisque possuo os objectos que me induziram ao assassinio, cora,
throno e consorte. Poder-se-ha obter o perdo, quando se conservam os
fructos do crime? N'este mundo corrompido, a iniquidade pde a preo de
oiro desviar o curso da justia, e com o producto do crime comprar a
impunidade; mas o cu  justo, todo o subterfugio  inutil; ali os
nossos actos so justamente avaliados e os nossos crimes conhecidos. Que
devo fazer? Nada me resta. Tentemos o arrependimento. Grande  a sua
efficacia; mas que pde n'aquelle a quem mesmo o arrepender-se  vedado?
Oh! deploravel condio, oh! consciencia negra como a morte, oh! minha
alma, no tens perdo, e quanto mais te esforares por obtel-o, mais
aggravas a tua situao. Anjos do cu, vinde em meu auxilio, tentae um
esforo supremo. Dobrae-vos, joelhos rebeldes. E tu, meu corao, que as
tuas fibras de ao voltem ao estado primitivo das do recem-nascido.
Ainda me resta esta ultima esperana. (Retira-se a um lado da scena,
ajoelha e ora.)

Entra HAMLET

HAMLET (vendo o rei)

A occasio  propicia, est orando. Coragem, Hamlet. Sim, mas
salvar-se-a a sua alma, e no  essa a minha vingana desejada.
Reflictmos; um scelerado assassina meu pae, e eu, seu filho unico, abro
as portas do cu a esse infame! Seria uma recompensa e no um castigo.
Assassinou meu pae, entregue s preoccupaes da carne, quando seus
peccados mais vivazes estavam, como as flores na primavera; e quem sabe,
a no ser o cu, que contas daria ao Creador? as penas eternas, de
certo, no o pouparam. Seria uma vingana immolar este scelerado, quando
a sua alma deve estar pura, quando est preparado para a sua ultima
viagem? No! Entra na tua bainha, minha espada, e espera para ferir,
golpe mais terrivel e justo. Quando estiver ebrio ou adormecido, ou
encolerisado, ou immerso nos prazeres de um leito incestuoso, ou
absorvido pelo jogo, ou blasphemando, ou praticando algum acto contrario
 salvao da sua alma, ento fere, que as penas do inferno sero poucas
para um tal crime. (Olhando para o rei.) Prolonga ainda os teus dias
enfermos: adiar no  desistir. (Se.)

O REI

Sobem as minhas palavras, o pensamento no, e as palavras sem o
pensamento no chegam ao cu. (Se.)


SCENA IV

Um quarto no castello

Entram a RAINHA e POLONIO

POLONIO

O sr. Hamlet no tarda. Reprehenda-o asperamente; diga-lhe que os seus
atrevimentos excedem os limites da paciencia, e que vossa magestade j
teve que se interpor entre elle e a colera do rei. Nada mais digo,
senhora, peo s que falle com firmeza.

A RAINHA

Fallar-lhe-hei com firmeza, esteja descansado. Afaste-se, ouo os seus
passos. (Polonio esconde-se.)

Entra HAMLET

HAMLET

Que me quer, minha me?

A RAINHA

Hamlet, offendeste gravemente teu pae.

HAMLET

Minha me offendeu gravemente meu pae!

A RAINHA

Como insensato fallas.

HAMLET

A rainha falla como culpada!

A RAINHA

Que queres tu dizer, Hamlet?

HAMLET

O que , senhora?

A RAINHA

Esqueces quem eu sou?

HAMLET

Pela cruz do Redemptor, que no. Rainha , foi esposa do irmo de seu
marido, e prouvera a Deus que no o fosse, mas  minha me!

A RAINHA

Mandar-te-hei alguem que melhor do que eu te saiba fallar.

HAMLET

Vamos, sente-se, minha me. No se mover, no sar d'aqui emquanto eu
no tiver posto diante dos seus olhos um espelho em que possa ver at s
profundidades da sua alma.

A RAINHA

Que pretendes de mim? queres tu porventura assassinar-me? Acudam 
rainha, acudam!

POLONIO (por detrs do reposteiro)

O que ! ol, soccorro!

HAMLET (desembainhando a espada)

Que  isso? Um rato? (Dando-lhe uma estocada.) Aposto um ducado em como
o matei!

POLONIO (atrs do reposteiro)

Mataram-me, eu morro. (Ce para fra do reposteiro e morre.)

A RAINHA

Que fizeste, infeliz?

HAMLET

Ignoro-o; seria o rei? (Levanta o reposteiro e puxa pelo cadaver de
Polonio.)

A RAINHA

Que acto de crueldade e de sangue!

HAMLET

De sangue; quasi to reprehensivel, minha me, como assassinar um rei e
desposar o irmo!

A RAINHA

Assassinar um rei?

HAMLET

Sim, um rei, foi o que eu disse. (A Polonio.) Quanto a ti, pobre diabo,
louco, temerario e indiscreto, as nossas contas esto ajustadas,
aprendeste  tua custa o perigo que corre quem se intromette nos
negocios dos outros. ( rainha.) Cesse de estorcer-se. Silencio,
sente-se, quero torturar o seu corao, e fal-o-hei, se ainda possue
alguma sensibilidade, e o habito do crime no a bronzeou a ponto de ser
insensivel a toda a especie de emoo.

A RAINHA

Que fiz eu, Hamlet, para que me falles n'esse tom ameaador?

HAMLET

Uma aco que mancha o rubor e a graa do pudor; que transforma a
virtude em hypocrisia; que arranca  fronte innocente do amor a sua
cora de rosas, e a substitue por uma chaga asquerosa; que torna os
juramentos do hymeneu to falsos como os do jogador! Oh! uma aco que
rouba ao corpo dos contratos a santidade, que  a sua alma, e faz da
religio uma rapsodia de palavras. Indigna-se o cu, contrista-se o
globo solido e compacto, l-se-lhe nas faces a consternao como se
fosse o ultimo dia do mundo.

A RAINHA

Qual  pois a aco que denunciam este ameaador preludio e esta
expresso fulminante?

HAMLET (mostrando dois retratos em p que ornam as paredes)

Veja bem esses dois retratos, so as imagens de dois irmos. Veja que
graa impressa n'estas feies: o cabello annellado de Apollo; a fronte
do proprio Jupiter; o olhar de Marte, onde se l a commando e a ameaa;
o porte de Mercurio, o mensageiro celeste, quando apenas pousa o alado
p sobre o cimo das nuvens; uma to feliz reunio das frmas perfeitas,
que cada um dos deuses parecia ter contribuido com o seu quinho, como
se quizessem mostrar ao mundo o modelo do verdadeiro homem! Esse era o
seu primeiro esposo. Volva agora os olhares para este lado. Eis o que 
o seu segundo esposo! que, similhante  espiga mangrada, pelo seu
contacto causa a morte a sua irm a espiga s. E saber ver? Como pde
ento abandonar as ferteis e salubres collinas, para se immergir n'este
immundo paul!! Se ainda tem olhos, senhora, no pde imputar ao amor o
seu comportamento; na sua idade j se acalmou a effervescencia do
sangue, e a paixo obedece  raso. E qual seria a creatura racional,
que ousasse trocar o seu primeiro marido por este segundo?  sem duvida
dotada de sensibilidade, alis no seria um ser animado; mas na senhora
esto paralysados todos os sentimentos, porque no ha demencia que no
deixe ao que verga sob o seu peso uma poro bastante de discernimento,
para saber escolher entre objectos to dissimilhantes. Que demonio a
perturbou a ponto de lhe vendar os olhos? A vista sem o tacto, o tacto
sem o auxilio da vista, o ouvido sem o uso das mos e dos olhos, o
olfato s por si, uma poro mesmo alterada de um verdadeiro sentido,
no podiam ter-se enganado to estultamente. Oh! vergonha! onde est o
teu rubor? Inferno rebelde, que assim pdes atear a revolta nos sentidos
de uma mulher, ha muito esposa e me. Que admira que, para a ardente
juventude, a virtude seja como a cera, que se derrete  chamma que
alimenta; que no seja vergonha ceder quando nos arrasta a paixo,
poisque o proprio crystal se funde e a raso prostitue aos desejos os
seus vergonhosos servios.

A RAINHA

Oh! Hamlet, cessa por piedade, obrigas o meu olhar a volver-se todo para
a minha alma, e n'ella descubro mculas to negras e to profundamente
impressas, que nada j as pde lavar.

HAMLET

Viver no suor impuro de um leito infecto, sobre o esterco da corrupo,
revolver-se no lodaal de um asqueroso amor.

A RAINHA

Cala-te, Hamlet, as tuas palavras so outras tantas punhaladas. Piedade!
querido filho!

HAMLET

Um assassino, um scelerado, um miseravel, que no vale a centesima parte
do seu primeiro marido, um rei de comedia, um ladro, que empalmou o
poder, e que achando a cora debaixo de mo, a roubou e a metteu no
bolso!

A RAINHA

Hamlet!

HAMLET

Um palhao!

Entra a SOMBRA

HAMLET

Protegei-me e abrigae-me sob vossas azas, anjos do cu. ( sombra) Que
pretendes de mim, sombra querida?

A RAINHA

Infeliz! enlouqueceu.

HAMLET ( sombra)

Vens tu reprehender a tibieza de teu filho, que, deixando passar o
tempo, arrefecer a sua indignao, no se apressou em cumprir os teus
terriveis preceitos? Falla!

A SOMBRA

Recorda-te que o unico fim d'esta minha appario  atear em ti o fogo
da resoluo. Mas v, tua me est succumbida, interpe-te entre ella e
os seus remorsos;  nas mais debeis organisaes que mais estragos causa
a imaginao. Falla-lhe tu, Hamlet.

HAMLET

Como se sente, minha me?

A RAINHA

Eu  que te devia fazer essa pergunta! Por que est teu olhar fito no
espao? por que conversas com seres immateriaes? Teu olhar indefinido
revela a lucta da tua alma; como um soldado acordado em sobresalto; teus
cabellos, como se a vida os animasse, levantam-se e ouriam-se sobre a
tua fronte. Oh! meu querido filho, apaga a chamma da tua colera, com as
tranquillas e limpidas aguas da paciencia! Mas para onde olhas tu?

HAMLET

 elle! Elle! Como est pallido! O seu aspecto, e o motivo que aqui o
traz, commoveriam as proprias pedras. ( sombra) Descrava de mim os teus
olhos, receio que me fenea a resoluo, vendo teu triste e commovente
olhar; que se transforme o caracter dos meus actos talvez em lagrimas em
vez de sangue.

A RAINHA

Mas, filho, a quem fallas assim?

HAMLET

No v nada, minha me?

A RAINHA

Nada, seno tudo quanto existe n'esta camara.

HAMLET

E nada ouviu?

A RAINHA

Cousa alguma, a no ser as tuas palavras.

HAMLET

Mas olhe, minha me, no v como elle se afasta, triste e pensativo? 
meu pae, vestido como trajava em sua vida. Eil-o, transpe agora mesmo a
porta. Sau. (A sombra se.)

A RAINHA

  exaltao da tua imaginao e ao delirio que de ti se apoderou, que
so devidas estas creaes phantasticas.

HAMLET

O delirio! Senhora, apalpe o meu pulso, e conhecer que no est menos
tranquillo que o seu. No fallei influenciado pelo delirio.
Interrogue-me; em vez de divagar, repetir-lhe-hei textualmente as minhas
palavras; no estou louco; engana-se, minha me. Por Deus, no se
embale, no pensamento falso, que  o meu delirio e no a sua culpa que
me faz fallar! Seria cicatrizar exteriormente a chaga, que a consciencia
nunca deixaria de augmentar interiormente. Confesse-se ao cu,
arrependa-se do passado, premuna-se para o futuro, e no d pasto ao
verme do remorso, que acabar por totalmente corroer o seu corao e
obliterar a sua consciencia. Perdoe  minha virtude, porque n'este mundo
sordido e venal a virtude deve implorar o perdo do vicio e pedir o
favor de poder fazer o bem.

A RAINHA

Oh! Hamlet! Dilaceras-me o corao.

HAMLET

Expulse a parte corrompida, e com a outra metade viva tranquilla e pura.
Boa noite; evite meu tio, e se no podr ser virtuosa, ao menos
parea-o. O habito, esse monstro, que destroe e neutralisa em ns toda a
sensibilidade, esse demonio do habito,  anjo n'isto, porque consente 
virtude e s boas aces as suas vestes proprias. No veja hoje o seu
esposo, tornar-lhe-ha mais facil a absteno futura; o habito tudo pde,
muda a natureza individual, doma o demonio, e expulsa-o com o seu
maravilhoso poder. Boas noites mais uma vez! e quando sentir a
necessidade da beno divina, ento pedir-lhe-hei a sua. (Mostrando
Polonio.) Quanto a este homem, arrependo-me do que fiz; mas obedeci ao
cu; assim o quiz tornando-me instrumento das suas vinganas, punindo-o
por mim, a mim por elle. Sepultem-no, eu responderei pela morte que lhe
dei! Adeus, pois. Cumpre-me ser cruel por humanidade; o primeiro mal
est feito, o maior ainda ha de vir. Uma palavra ainda.

A RAINHA

Que devo fazer?

HAMLET

Nada do que eu lhe disse! Receba as caricias do avinhado monarcha,
preste as suas faces aos seus osculos, oua-lhes as palavras de amor;
ento n'um diluvio de ardentes osculos, entre as mais lubricas caricias,
confesse-lhe, revele-lhe tudo, diga-lhe que nunca estive louco, que o
fingi, faa-lhe essa confidencia. Qual seria a rainha, bella, sensata e
honesta, que hesitasse em confiar quelle animal immundo e repellente,
asqueroso reptil, to importantes segredos? Quem guardaria silencio?
Ninguem. Depois, olvidando o bom senso e a discrio, abra a gaiola e
deixe voar as avesinhas, e seguindo o exemplo do bugio da legenda, por
simples experiencia, introduza-se na gaiola e rompa o pescoo cando!

A RAINHA

Acredita, Hamlet, que se as palavras se compozessem de flgo e o flgo
de vida, eu no teria vida para articular as que tu me disseste.

HAMLET

Devo partir para Inglaterra; sabe-o sem duvida, minha me?

A RAINHA

Infeliz! Tinha-me esquecido; pois isso est definitivamente determinado?

HAMLET

Ha cartas selladas, e os meus dois companheiros de estudos, nos quaes me
fio tanto como na innocencia dos envenenados dardos das viboras, so os
portadores da ordem! So elles que me ho de aplanar o caminho, e se
encarregaro de me conduzir ao lao armado pela mais negra traio.
Deixemos caminhar os acontecimentos. Causa devras prazer ver rebentar
nas mos do proprio artifice a bomba que para outrem preparava. Nada ha,
senhora, que nos d mais gosto do que combater a traio,
contraminando-a pela sagacidade. A morte de Polonio apressar a minha
partida. Levemos o seu cadaver para a camara vizinha. Boas noites, minha
me. Este conselheiro est agora verdadeiramente a sangue frio, discreto
e grave; em vida era dotado de estupida garrulice. Agora basta, acabemos
por uma vez. Boas noites. Adeus, minha me. (A rainha se por um lado,
Hamlet pelo outro, arrastando o cadaver de Polonio.)


Fim do acto terceiro




ACTO QUARTO


SCENA I

Um quarto no castello de Elsenor

Entram o REI, a RAINHA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN

O REI

Esses suspiros, esse difficil arfar do peito, tudo deve ter uma causa.
Queremos conhecel-a e pelos senhores. Onde est nosso filho?

A RAINHA (a Rosencrantz e Guildenstern)

Deixem-nos ss um momento. (Os dois sem.) (Ao rei) Ah! senhor, que
noite esta!

O REI

Que ha de novo, Gertrudes; em que estado achaste Hamlet?

A RAINHA

To revolta est a sua raso, como o mar e o vento, quando entre si
luctam, disputando a sua fora. N'um dos seus arrebatamentos do delirio,
ouvindo mexer atrs de uma cortina, exclamou: _Um rato, um rato_, e
desembainhando a espada, cravou-a no peito d'aquelle excellente ancio.

O REI

Oh! triste acontecimento! Igual sorte teria tido se ali me achasse;
livre, corremos o maior risco, mesmo tu; todos, emfim. Que rases
daremos para explicar este acto sanguinario? Taxar-nos-ho de
imprevidentes, a responsabilidade toda car sobre ns; diro que
deviamos ter isolado esse insensato, mas era to grande a nossa
affeio, que no comprehendemos o que a prudencia nos aconselhava.
Obrmos como um homem atacado de um mal vergonhoso, que para guardar
segredo deixa enraizar-se esse mal e destruir toda a seiva vital. Onde
est Hamlet?

A RAINHA

Pondo em logar seguro o cadaver d'aquelle a quem deu a morte. No meio
mesmo da sua demencia, conserva-se pura e intacta a sua intelligencia,
como um metal precioso encravado em rocha bruta. Rebenta-lhe o pranto ao
lembrar-se da aco que commetteu.

O REI

Saimos, Gertrudes. Quando o sol tocar o cume das montanhas, j Hamlet
dever ter embarcado; logo em seguida partir para Inglaterra. Quanto a
esta odiosa aco precismos achar na nossa auctoridade e no nosso
engenho alguma desculpa que a releve aos olhos do mundo. Ol,
Guildenstern? (Entram outra vez Guildenstern e Rosencrantz.)

O REI (continuando)

Meus amigos, procurem pessoas que os ajudem e auxiliem. Hamlet, na sua
demencia, matou Polonio, cujo cadaver levou para fra da camara de sua
me. Tratem de descobrir onde o occultou, encarrego-os d'esta misso.
Nada digam que possa irritar Hamlet, e levem o corpo do infeliz Polonio
para a capella; peo-lhes s que se aviem. (Sem Rosencrantz e
Guildenstern.)

O REI (continuando)

Vamos, Gertrudes, convoquemos os nossos mais doutos amigos, demos-lhe a
conhecer o nosso designio e a desgraa acontecida. Precavendo-nos d'este
modo, talvez a calumnia, que arremessa o seu dardo envenenado de uma
extremidade do mundo  outra, e cujos tiros so to certeiros, como os
do mais perfeito canho, poupe o nosso nome, perdendo-se na immensidade
do espao. Saimos d'aqui. Na minha alma no sinto seno perturbao e
terror! (Sem.)


SCENA II

Outro quarto no castello

Entra HAMLET

HAMLET

Duvido que o encontrem.

VOZES DE FRA

Hamlet? senhor Hamlet?

HAMLET

De vagar. Que rumor  este? Quem ousa chamar Hamlet? Ah! eil-os que
chegam. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)

ROSENCRANTZ

Senhor? que fez vossa alteza do cadaver?

HAMLET

Entreguei-o ao p de que sau.

ROSENCRANTZ

Mas em que logar para o podermos levantar e depositar na capella?

HAMLET

No pensem em tal.

ROSENCRANTZ

Que devemos, pois, pensar?

HAMLET

Que pouco me importo com a sua cabea, mas muito com a minha.
Interrogado de mais a mais por uma esponja! Que resposta lhe pde dar o
filho de um rei?

ROSENCRANTZ

 a mim que chama esponja?

HAMLET

A quem havia de ser? sim a ti, que bebes os favores, as recompensas e o
poder real. Mas, no fim de contas, taes officiaes prestam ao monarcha
relevantes servios, so para elle como o fructo que o bugio conserva na
bca para depois o engulir; quando necessitar do que tem arrecadado,
espreme-os como uma esponja, e ficaro completamente enxutos.

ROSENCRANTZ

No comprehendo, senhor!

HAMLET

Estimo muito. As palavras do traficante s tem por domicilio os ouvidos
do tonto.

ROSENCRANTZ

Diga-nos onde est o cadaver, e siga-nos  presena do rei.

HAMLET

Onde est o rei existe um corpo, mas o rei no est n'esse corpo. O rei
 uma creatura.

ROSENCRANTZ

Uma creatura, senhor?

HAMLET

Uma creatura que nada vale! Conduzam-me  sua presena. Vamos jogar as
escondidas. (Sem todos.)


SCENA III

Uma sala no castello

Entra o REI com a sua comitiva

O REI

Mandei chamar Hamlet e procurar o cadaver. Que perigo deixar livre um
tal homem; mas no podemos fazer pesar sobre elle todo o rigor das leis.
A multido insensata estima-o, decidindo-se mais pela vista do que pela
raso; n'estas circumstancias o que devemos pensar  o castigo dos
culpados, nunca o crime s por si. Para prevenir qualquer
descontentamento  foroso que este precipitado exilio parea
consequencia de madura reflexo. Para males desesperados remedios
energicos, ou nenhuns. (Entra Rosencrantz.) Ento que aconteceu?

ROSENCRANTZ

Nada podemos saber da sua bca relativamente ao cadaver.

O REI

Onde est Hamlet?

ROSENCRANTZ

No quarto vizinho, esperando debaixo de segura guarda as ordens de vossa
magestade.

O REI

Que venha  nossa presena.

ROSENCRANTZ

Ol, Guildenstern. Conduze Hamlet a este aposento. (Entram Hamlet e
Guildenstern.)

O REI

Hamlet, onde est Polonio?

HAMLET

N'um banquete.

O REI

N'um banquete?! onde?

HAMLET

Onde no come, mas  devorado. Uma multido de vermes politicos disputa
o seu cadaver. O verme  o monarcha dos comedores. Engordmos todas as
creaturas para nos engordarmos, e engordmo-nos para pasto dos vermes.
Um rei gordo e um mendigo magro so duas iguarias differentes, comtudo
ho de ser servidas  mesma mesa. Esta  a verdade.

O REI

Infelizmente assim !

HAMLET

 possivel que se pesque, com um verme creado em cadaver real, um peixe,
e que se coma depois o peixe que enguliu o verme.

O REI

Que significam as tuas palavras?

HAMLET

Nada; apenas as transformaes pelas quaes pde passar um rei para
penetrar nos intestinos do pobre.

O REI

Onde est Polonio?

HAMLET

No cu. Mande ali o seu mensageiro procural-o, e se no o achar,
procure-o ento o rei no sitio opposto. Em todo o caso se no o acharem
at d'aqui a um mez, o olfato o denunciar junto  escada da galeria.

O REI ( sua comitiva)

Procurem-o j.

HAMLET

Esperal-os-ha com certeza. (Se a comitiva do rei.)

O REI

Hamlet, no interesse da tua saude, que nos  to cara, quanto dolorosa a
aco que commetteste,  foroso que partas com a maior brevidade; vae,
pois, preparar-te. O navio est prompto e o vento sopra propicio; os
teus companheiros esperam-te, e tudo est disposto para a tua viagem a
Inglaterra.

HAMLET

A Inglaterra?

O REI

Sim, Hamlet.

HAMLET

Est bem.

O REI

O mesmo dirias conhecendo todos os meus projectos.

HAMLET

Descubro um anjo que os v. Mas partmos para Inglaterra. Adeus, minha
querida me.

A RAINHA

E teu pae que te estremece?

HAMLET

No, minha me; pae e me so marido e mulher, marido e mulher so uma e
mesma carne. Assim, pois, adeus, minha me. Vamos para Inglaterra.
(Se.)

O REI (a Rosencrantz e Guildenstern)

Sigam-o passo a passo, faam-o embarcar promptamente, no ha tempo que
perder. Quero que j esta tarde esteja afastado d'estes sitios. Vo!
Tudo quanto respeita a este negocio foi j expedido e sellado com as
nossas armas. Aviem-se, peo-lh'o. (Sem.) (Continuando) Rei de
Inglaterra, sabes at onde chega o meu poder; as feridas infligidas pelo
ferro dinamarquez ainda sangram, e teu respeito nos presta livre
homenagem. Se, pois, prezas a minha benevolencia, no recebers
friamente as ordens soberanas contidas nas minhas cartas e que exigem a
morte de Hamlet. Obedece-me, rei de Inglaterra, porque Hamlet  febre
que requeima o meu sangue, e tu  que me deves curar d'ella. No terei
um dia de prazer e descanso emquanto no souber a completa execuo das
minhas ordens, acontea o que acontecer. (Se.)


SCENA IV

Uma planicie na Dinamarca

Chega FORTIMBRAZ  frente das suas tropas

FORTIMBRAZ (a um dos seus officiaes)

Capito, sade da minha parte o rei de Dinamarca e diga-lhe, que, em
conformidade com a sua promessa, Fortimbraz lhe pede livre passagem pelo
seu territorio; sabe o ponto em que nos devemos encontrar. Se sua
magestade desejar fallar-me, irei prestar-lhe as minhas homenagens.
Diga-lh'o da minha parte.

O OFFICIAL

As suas ordens sero cumpridas, meu senhor!

FORTIMBRAZ (s suas tropas)

Avancemos em attitude pacifica. (Fortimbraz e as suas tropas afastam-se.
O official fica.)

Chegam HAMLET, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e mais pessoas

HAMLET (ao official)

Que tropas so essas, meu amigo?

O OFFICIAL

 o exercito norueguez, senhor!

HAMLET

Qual  o seu destino?

O OFFICIAL

Um ponto do territrio da Polonia.

HAMLET

Quem o commanda?

O OFFICIAL

Fortimbraz, sobrinho do rei de Noruega.

HAMLET

 contra a Polonia toda, ou s contra um ponto determinado da fronteira
que marcham?

O OFFICIAL

Se quer que lhe diga a verdade, marchmos contra uma parte da Polonia,
cuja conquista ser para ns gloria, sem proveito algum. Estou certo que
a sua renda no vale cinco ducados, e se se vendesse ninguem daria mais.

HAMLET

Se assim , os polacos no devem offerecer resistencia?

O OFFICIAL

Pelo contrario, at j o guarneceram.

HAMLET

Duas mil almas e vinte mil ducados chegaro apenas para to futil
empreza;  um d'estes abcessos que resultam de uma demasiada e
prolongada prosperidade que rebenta internamente, sem que nada indique
exteriormente a sua aco mortal. Obrigado, amigo.

O OFFICIAL

Deus seja comvosco, senhor. (Afasta-se.)

ROSENCRANTZ

O principe quer que continuemos o nosso caminho?

HAMLET

Pde ir indo, em breve o alcanarei. (Sem Rosencrantz e Guildenstern.)
(Continuando.) Como sempre tudo me accusa e me excita  tardia vingana.
O que  o homem, se o seu primeiro bem, o maior negocio da sua vida,
consiste em comer e dormir!  um animo brutal, nada mais. Seguramente,
que aquelle que nos dotou com essa vasta comprehenso, capaz de abraar
o passado e o futuro, no nos deu essa intelligencia, esse admiravel
raciocinio, para que ficassemos ociosos e sem emprego. Quer seja estulto
esquecimento, quer cobarde escrupulo, medito demasiado na aco que
tenho que commetter, pensamento composto de uma quarta parte de siso e
tres quartas partes de cobardia. Como me espanto a mim mesmo quando
repito: _Eis o que devo fazer_, j que me sobram os motivos, tenha eu ao
menos vontade, fora e energia para o executar. Incitam-me os mais
irrecusaveis exemplos; testemunho este numeroso exercito, capitaneado
pelo seu joven principe, cujo genio intrepido, soprado por uma ambio
divina, affronta, rindo, as eventualidades de um porvir invisivel,
expondo uma vida mortal e incerta, a tudo quanto podem ousar a fortuna,
a morte e os perigos, e tudo por nada, por uma bagatella. A verdadeira
grandeza consiste, no s em commover-se com grandes e poderosas rases,
mas tambem em achar n'uma bagatella rases de conflicto, cuja verdadeira
causa  o pundonor. Que posio pois a minha, eu que tenho um pae
assassinado, uma me deshonrada; eu que tenho tantos motivos de colera e
que tudo deixo adormecer, emquanto que para minha vergonha vejo vinte
mil homens, por uma louca esperana de gloria exporem-se  morte,
caminharem para o tumulo, como caminhariam para o leito; irem combater
para conquistar um quinho de terra insufficiente para caberem n'elle, e
cujo terreno seria uma sepultura acanhada para os mortos. Ah! quanto se
revelam sanguinarios os meus pensamentos, ou ento nada. (Afasta-se.)


SCENA V

Uma sala no castello de Elsenor

Entram HORACIO e a RAINHA

A RAINHA

No lhe quero fallar.

HORACIO

Pede-o encarecidamente. Verdade  que ella perdeu a raso; o seu estado
 digno de compaixo.

A RAINHA

O que pretende ella?

HORACIO

Falla sempre no pae, pretende terem-lhe dito que n'este mundo se
commettem bem ms aces, suspira, bate no peito, exaspera-se sem
motivo. Profere palavras equivocas e sem sentido. Nada diz, comtudo quem
ao ouvil-a no teria vontade de a comprehender. Aquelles que a ouvem
procuram adivinhar o sentido, e preenchendo as lacunas, tentam completar
o sentido das suas fallas. Vendo os movimentos que faz, acompanhando as
palavras, todos lhe suppem um pensamento, um sentido, e provavelmente
tem-no, mas de certo bem sinistro.

A RAINHA

 conveniente fallar-lhe, porque poderia impressionar malevola e
perigosamente os espiritos. Que venha. (Horacio se.) (Continuando) Ah!
minha alma enferma! Ser uma condio do crime, que a menor bagatella
parea sempre a precursora de alguma grande calamidade? Tal  a
desconfiana em uma consciencia culpada, que se trahe a si mesma com o
receio de se trahir.

HORACIO entra com OPHELIA

OPHELIA

Onde est a bella rainha de Dinamarca?

A RAINHA

Ophelia?

OPHELIA

  Como hei de eu conhecer o bem amado
        Por entre a multido?
  Pelo chapu de conchas enfeitado
        E pelo seu bordo.

A RAINHA

Infeliz Ophelia! Que significam esses versos?

OPHELIA

Pergunta-mo? Escute ento...

  Levaram-no bem morto ao cemiterio!
        O que tu foste e s!...
  Sob a fronte senil myrto funereo,
        E fria pedra aos ps!

Ai de mim! (Chora.)

A RAINHA

Ophelia, querida Ophelia?

OPHELIA

Oua mais, peo-lh'o...

  Branca de neve a frigida mortalha...

Entra o REI

A RAINHA

Veja, senhor!

OPHELIA

         como um prado em flor
  Baixou  campa a fronte e no a orvalha
        Com lagrimas o amor!!

O REI

Como est bella, Ophelia?

OPHELIA

Bem, louvado Deus, dizem que a coruja fra outr'ora filha de um padeiro.
Meu Deus, ns sabemos o que somos, mas nunca o que poderemos vir a ser.
Que Deus abene a sua mesa.

O REI

Recorda-se do pae?

OPHELIA

No fallemos mais n'isso, mas se me perguntam o que significa,
dir-lhes-hei o que . Respondam.

  So Valentim! dizes-me a minha sina?
        A p j todos so.
  Queres que eu seja a tua Valentina?
        Sou virgem, sim ou no?
  Ergueu-se elle e vestiu-se; mansamente
        Do quarto a porta abriu;
  E virgem ella entrou... mas to smente
        Mulher quando sau.

O REI

Encantadora Ophelia!

OPHELIA

Em verdade vou terminar sem juramento.

  Por Jesus! pela santa caridade!
        Quem vale  infeliz?!
  Ai! so todos assim na mocidade,
        A sorte  quem n'o quiz!
  Antes da minha quda prometteste
        Conduzir-me ao altar:
  Por Deus o houvera feito... no quizeste.
        Quem te mandou entrar?

O REI

Ha quanto tempo  que este infeliz estado se apoderou d'ella?

OPHELIA

Tudo vae bem!  preciso ter paciencia; no posso reter o pranto,
pensando que est debaixo da terra fria e humida. Meu irmo ha de
sabel-o, obrigada pelo conselho. Chegue a minha carruagem. Boa noite,
minhas senhoras, boa noite, bellas senhoras, Adeus, boas noites! (Se
correndo.)

O REI (a Horacio)

Siga-a, no a perca de vista, vigie-a cautelosamente, peo-lh'o eu!
(Horacio se.) (Continuando) Oh!  aquelle o veneno de uma dor profunda,
causada pela morte do pae. Ah! Gertrudes, Gertrudes, quando as dores nos
assaltam, nunca  isoladamente,  como se viessem em tropel. Primeiro a
morte do pae, depois a partida de Hamlet, que to violentamente decretou
o proprio exilio; o povo alvoroado e descontente, commenta malevola e
insidiosamente a morte de Polonio, e ns obrmos pouco assisadamente
ordenando o prompto enterro; a infeliz Ophelia, inconsciente do seu
estado, est privada da raso, sem a qual somos simples estatuas,
creaturas brutas. Para cumulo de desgraa esta vale todas as outras, seu
irmo voltou secretamente de Frana, embrenha-se no labyrintho de
noticias, e mantem-se occulto. No deixar por certo de haver bcas
malevolas, que por occasio da morte de seu pae, envenenem seus ouvidos
com insinuaes perfidas, e a calumnia, na carencia de outro assumpto,
no nos poupar com os seus dardos envenenados e mortiferos. Ah! querida
Gertrudes; tudo isto, similhante a um instrumento de morte, vibra-me
mais golpes que os necessarios para pr termo  minha vida. (Ouve-se um
grande rumor fra da sala.)

A RAINHA

Que rumor  esse?

O REI

Ol, venha alguem. (Entra um official do palacio.)

O REI (continuando)

Onde esto os meus suissos? Que defendam as portas. Dize-me j o que ha.

O OFFICIAL

Fuja, senhor; o oceano, rompendo os diques, no invade com mais
violencia a campina, do que o joven Laerte,  frente da rebellio,
derruba a resistencia dos vossos officiaes. O povo chama-lhe soberano, e
como se fosse no comeo do mundo, sem tradies, nem passado, nem usos,
sobre que tudo se firma, ou as tivesse esquecido, exclama: Elejmos um
rei! Laerte ser o nosso rei? Todos se descobrem e agitam os gorros,
todas as mos applaudem, todas as vozes repetem: Laerte ser rei. Viva o
rei Laerte!

A RAINHA

Com que prazer esta matilha segue uma pista falsa! Enganam-se!
Dinamarquezes ingratos!

O REI

Entraram  fora. (Redobra o rumor. Entra Laerte seguido por muito povo
dinamarquez.)

LAERTE

Onde est esse rei? Senhores, retirem-se para fra.

O POVO

Nada! Queremos todos entrar.

LAERTE

Faam o que lhes peo.

O POVO

 justo!  justo! (Sem.)

LAERTE

Obrigado, senhores; guardem as portas. (Ao rei.) Infame! entrega-me meu
pae.

O REI

Socegue, meu caro Laerte.

LAERTE

Se uma s gota do meu sangue no fervesse, essa gota proclamar-me-a
bastardo, attestaria a deshonra de meu pae, e imprimiria na casta fronte
de minha adorada me um estigma indelevel de infamia.

O REI

O que deu azo, Laerte, a uma rebellio, que assumiu propores to
colossaes? Est tranquilla, Gertrudes, por ns nada receies; graas ao
caracter sagrado que protege os reis, a traio no lana seno um olhar
timido e incerto para o resultado que anhelam os seus desejos, e os
effeitos esto longe de corresponder  sua esperana. Dize-me, Laerte, o
motivo d'esta irritao violenta. Nada receies, Gertrudes. Falla,
Laerte.

LAERTE

Onde est meu pae?

O REI

Morreu.

A RAINHA

Mas o rei est innocente.

O REI

Deixa-me interrogal-o  minha vontade.

LAERTE

Como morreu elle? No admitto duvidas, dispenso juramentos; leve o
demonio a f jurada, sepultem-se no abysmo a consciencia e a fidelidade.
Affrontarei a condemnao, declaro-o formalmente; renuncio a tudo n'este
e no outro mundo, acontea o que acontecer, comtanto que vingue de um
modo bem patente a morte de meu pae.

O REI

E quem t'o impede?

LAERTE

A minha vontade s e no a do universo inteiro; quanto aos meios de que
disponho, empregal-os-hei de modo que com recursos limitados tire
d'elles o maior proveito.

O REI

Comprehendo, querido Laerte, que queiras saber a verdade toda a respeito
da morte de teu estremecido pae. Mas ests tu resolvido a confundir
amigos e inimigos, aquelles que perderam e aquelles que ganharam com a
sua morte?

LAERTE

Unicamente os inimigos quero punir.

O REI

E queres conhecel-os?

LAERTE

Quanto aos seus amigos, abro-lhes os braos com alvoroo; e similhante
ao pelicano que rasga o seio, para com o sangue alimentar os filhos,
estou prompto a por elles dar o meu sangue todo.

O REI

Ainda bem; fallas agora como bom filho e homem honrado. Sou innocente na
morte de teu pae, e deploro-a amargamente; demonstral-o-hei  tua raso
com provas to claras como a luz do dia.

O POVO (de fra)

Deixem-a entrar.

LAERTE

O que ? Que rumor  esse? (Entra Ophelia estranhamente enfeitada com
flores na cabea e palhas entranadas nos cabellos.) (Continuando.) Meu
pobre cerebro! Sequem-se as minhas lagrimas, que, sete vezes corrosivas,
queimam meus olhos e afastam d'elles o sentido da vista! Por Deus! A tua
demencia ser paga com usura, at que o nosso peso faa baixar uma das
conchas da balana. Rosa de primavera, filha querida, carinhosa irm,
boa Ophelia! Oh! ceus! pois ser possivel que a raso de uma jovem
mulher seja to fragil como a vida do ancio! A natureza tem no seu amor
um perfume subtil e raro, cujas emanaes se infiltram no objecto amado.

OPHELIA

  Levaram-no em mesquinha padiola
      E foram-no enterrar!
  Mas chove-lhe na tumba, ai! grata esmola
      De lagrimas um mar.

LAERTE

Possuisses tu toda a tua raso, animasses-me tu  vingana, no
conseguias crear em mim uma emoo.

OPHELIA

Foroso  que eu cante e tu tambem:

  Abaixo! Abaixo!
  Lanae-o abaixo!

Devias ouvir cantar s fiadeiras;  a cano do intendente desleal, que
raptou a filha de seu amo.

LAERTE

Estes nadas tudo me dizem.

OPHELIA (a Laerte, dando-lhe uma flor)

Toma,  rosmaninho a flor da lembrana. Lembra-te de mim, peo-t'o, meu
querido; estes so amores perfeitos,  para que sempre viva no teu
corao de irmo.

LAERTE

Ha sentido no seu delirio. Acaba de distinguir acertadamente a lembrana
e o pensamento.

OPHELIA (ao rei)

Aqui tendes, senhor, estas symbolicas flores. ( rainha) Para vs,
senhora,  arruda e tambem para mim; para vs ser a herva da ventura,
para mim a da dor. Eis um malmequer. Queria dar-vos violetas, mas
feneceram todas quando meu pae morreu; dizem que teve o fim do justo.

  Porque era o bom Robim minha alegria

LAERTE

A melancolia, a afflico, a colera, o proprio inferno, tudo  divino
proferido por ella.

OPHELIA

        E nunca mais vir?!
  Morreu! morreu! morreu! ai! que agonia!
        No mais! no voltar!
  Era a barba to branca como a neve:
        Partiu! foi para os cus.
  Perdida, inutil dor! Breve, at breve,
        Tem d d'elle, meu Deus!...

Assim como de todas as almas christs, assim o peo a Deus, e elle seja
comvosco. (Se.)

LAERTE

Vem? Meu Deus!...

O REI

Deixa-me, Laerte, fallar-te no teu infortunio;  um direito que me
pertence e que me no pdes negar sem injustia. Reune em particular os
teus amigos mais assisados; elles nos ouam, e depois julguem entre ns
dois. Se culpado me acharem, directa ou indirectamente, entrego-te, em
expiao da minha culpa, reino, cora e vida, e tudo quanto possa dizer
meu; no caso contrario, peo-te s paciencia, e de accordo obraremos
para te alcanar uma completa satisfao.

LAERTE

Consinto. As circumstancias da sua morte, o seu funeral obscuro, em que
nem trophus, nem espada, nem brazo figuraram, a ausencia de toda a
ceremonia funebre no samento do seu corpo, so como um aviso do cu,
que me clama pela voz celeste: Indaga como foi.

O REI

Faa-se pois um inquerito, e o cutelo do algoz puna o culpado. Agora
peo-te, Laerte, que me sigas. (Sem ambos.)


SCENA VI

Um quarto no castello de Elsenor

Entram HORACIO e um CREADO

HORACIO

Quem  que me pretende fallar?

O CREADO

Marinheiros... e dizem que tem cartas que lhe so dirigidas.

HORACIO

Que entrem pois; (o creado se) (s) no percebo de que canto do mundo
se lembraram de me escrever. S se for Hamlet.

Entram os MARINHEIROS

PRIMEIRO MARINHEIRO

Guarde-o Deus, senhor!

HORACIO

Igualmente a ti!

PRIMEIRO MARINHEIRO

Fal-o-ha, se for da sua vontade. (Entrega uma carta) Aqui tem esta
carta,  do embaixador que foi mandado a Inglaterra; o senhor, segundo
me asseguraram, chama-se Horacio, no  verdade? (D-lhe outra carta.)

HORACIO (abrindo a carta, lendo)

_Horacio, quando receberes esta carta, proporciona a estes homens o
fallarem ao rei; tem cartas para lhe entregar. Mal tinhamos dois dias
de viagem, um corsario armado at aos dentes deu-nos caa; vendo ns que
elle era mais veleiro, fizemos das fraquezas foras, e encetmos
combate. Na abordagem, saltei-lhe na tolda, mas n'aquelle momento
afastaram-se os dois navios, e eu achei-me s e prisioneiro.
Comportaram-se commigo como corsarios humanos, mas sabiam o que faziam,
porque contam pedir avultado resgate. Faze chegar s mos do rei a carta
que lhe envio, depois vem ter commigo, com a celeridade que porias em
evitar a morte. Tenho que confiar aos_ _teus ouvidos palavras que te
emudecero de espanto, e comtudo ainda so fracas para a gravidade do
assumpto que devem exprimir. Estes marinheiros te conduziro ao sitio
onde me acho. Rosencrantz e Guildenstern navegam para a Inglaterra.
Tenho muito que te contar a esse respeito. Adeus. Aquelle que sabes ser
teu do corao==Hamlet._ Venham, vou facilitar-lhes a entrega das
cartas, depois conduzam-me o mais prompto que podrem junto d'aquelle
que lh'as entregou. (Sem todos.)


SCENA VII

Outro quarto no castello

Entram o REI e LAERTE

O REI

Devo estar illibado aos teus olhos, e deves ver em mim um amigo sincero,
agora que j deves ter percebido que o assassino de teu pae tambem
queria a minha morte.

LAERTE

Parece-me evidente! Mas diga-me porque, depois de actos to graves e
criminosos por sua natureza, no perseguiu o auctor, como era obrigado a
fazel-o, por sua dignidade, pela sua salvao, pela sua prudencia, por
tudo emfim?

O REI

Ah! por duas rases, que provavelmente achars sem valia, mas que a meus
olhos tem toda a gravidade. A rainha sua me idolatra-o,  a existencia
d'ella esse filho; eu por minha parte no sei se deva considerar isto
como virtude ou como desgraa; mas ella est to intimamente ligada 
minha alma, qual satellite ao seu planeta, que s por ella e para ella
vivo. O outro motivo que me impede de formular contra elle uma accusao
publica,  a immensa affeio que o povo lhe consagra; affeio que
desculpa todas as suas faltas, e similhante a essas fontes que
transformam em pedra a madeira, converteria as suas cadeias em aureola
de gloria. N'estas circumstancias, pois, as minhas frechas demasiado
tenues para romperem to forte vento, em vez de tocarem no alvo,
voltando-se, feririam s o que as despediu.

LAERTE

Assim perdi meu nobre pae, e vejo minha estremecida irm na mais
desordenada demencia! Mas se  permittido elogiar o que j passou, ella
excedia em perfeies as creaturas da sua idade, e no me hei de eu
vingar?

O REI

Essa mgua no te perturbe o somno; no me julgues de um caracter to
pusillanime e estulto, que um perigo, que tanto me impressionou, seja
por mim tratado de bagatella. Brevemente sabers ainda mais. Eu
estremecia o teu pae; ns somos devras amigos, agora deves acreditar
que...

Entra um MENSAGEIRO

O REI

Que queres? que ha de novo?

O MENSAGEIRO

Senhor, cartas de Hamlet; esta para vossa magestade, est'outra para a
rainha.

O REI

De Hamlet!! quem as trouxe?

O MENSAGEIRO

Disseram-me que uns marinheiros, eu no os vi. Estas cartas foram-me
entregues por Claudio, que as recebeu do portador.

O REI (pegando na carta)

Ouvirs, Laerte, o seu contedo. (Ao mensageiro) Retira-te (o mensageiro
se) (abre a carta e l): _Alto e poderoso monarcha, depozeram-me em
territorio vosso, n; manh solicitarei o comparecer na vossa presena,
e ento se me for permittido referir-vos-hei o que deu causa ao meu
estranho e inesperado regresso.==Hamlet_. Que significa isto? voltariam
todos, ser engano, ser tudo falso?

LAERTE

Conhece a sua letra?

O REI

 a letra de Hamlet. _N_, e n'um post-scriptum acrescenta _s_. Poders
tu dizer-me o que tudo isto significa?

LAERTE

Nada sei responder; mas que venha. Sinto renascer a chamma no meu
corao abatido, pensando que lhe poderei dizer cara a cara: Foste tu o
assassino de meu pae.

O REI

Se assim , Laerte, no pde nem poderia ser de outra maneira; queres tu
seguir um meu conselho?

LAERTE

Sim, comtanto que no me aconselhe a paz.

O REI

Pois que faas pazes com o teu corao  que eu quero: se  verdade que
regressou, o que indica que Hamlet reca diante da viagem e renuncia a
ella, suggerir-lhe-hei uma aventura, cujo plano est maduro no meu
espirito, e em que no poder deixar de succumbir, e sem que a sua morte
possa ser attribuida a pessoa alguma intencionalmente; tanto que sua
propria me limitar-se-ha a lastimar o occorrido, vendo s uma
fatalidade.

LAERTE

Seguirei gostosamente os seus conselhos, e ainda de melhor vontade, se
podr combinar de modo que eu seja o agente principal.

O REI

Vejo que os nossos desejos se combinam completamente. Frequentemente,
desde as tuas viagens, tem-me gabado por excederes a todos no exercicio
de uma arte. Todas as tuas qualidades reunidas excitaram em Hamlet menos
ciumes do que esta s;  comtudo talvez a menos importante.

LAERTE

E qual  essa qualidade?

O REI

Um lao de fitas no chapu da juventude, mas um enfeite necessario;
porque no lhe fica menos bem um ornamento um pouco frivolo mesmo, do
que convem  idade madura as vestes encorpadas e serias que lhe impem a
saude e a gravidade. Ha dois mezes esteve aqui um cavalleiro normando;
tenho visto francezes e combatido com elles, e so devras habeis, mas a
habilidade d'esse homem parecia ter o poder da magia. Parecia arroscado
 sella, e guiava o cavallo to prodigiosamente, que pareciam um s e o
mesmo animal intelligente. Excedeu tudo quanto se pde imaginar na arte
de cavallaria e volteio, to perfeita era a execuo.

LAERTE

Um cavalleiro normando, disse?

O REI

Um normando.

LAERTE

Ento era Lamond; no pde ser outro.

O REI

Elle mesmo.

LAERTE

Bem o conheo,  a phenix, a perola da sua patria.

O REI

Fallou de ti vantajosamente, fez os maiores elogios da tua pericia no
manejo das armas, sobretudo da espada, declarando ser impossivel achar
outro igual, e jurando que os jogadores de espada francezes perderam
agilidade, posio e golpe de vista depois que comtigo se mediram. Estes
elogios que elle te dispensava, de tal modo exasperaram o ciume de
Hamlet, que anhelava s pelo teu regresso para comtigo combater, e
transformaram o ciume em furia. Tirando pois partido d'estas
circumstancias...

LAERTE

Que partido poderemos ns tirar?

O REI

Laerte, amavas tu realmente teu pae, ou no era a tua dor seno um
simulacro, toda exterior e nada interior?

LAERTE

Porque esta pergunta?

O REI

Longe de mim o pensar que no amavas teu pae; mas a affeio  um
sentimento que se gera em ns, e a experiencia de todos os dias nos faz
ver que o tempo destempera a sua vivacidade e o seu ardor. Mesmo na
chamma do amor ha s vezes uma mancha que a amortece, e cousa alguma se
conserva permanentemente bella, porque o bom, pelo crescimento degenera
em plethora, e parece abafado pela demasiada nutrio. O que pretendemos
fazer, devemos fazel-o na occasio propria, porque a vontade tambem
muda; tantas so as suas mudanas, quantas as linguas, mos e outros
accessorios que se cruzam no seu caminho, e ento a execuo no  mais
que um dever, cujo cumprimento, similhante aos demasiado frequentes
suspiros, nos maga, alliviando-nos. Mas entremos francamente na
questo. Hamlet regressa. Que ests tu disposto a fazer, para te
mostrares digno filho de teu pae, no com palavras, mas com obras?

LAERTE

Assassinal-o-a mesmo no templo do Senhor.

O REI

Effectivamente o assassino no reca perante o santuario, quando
pretende saciar a vingana. Mas, querido Laerte, queres seguir o meu
conselho? Encerra-te nos teus aposentos. Hamlet, regressando, saber da
tua estada n'estes logares; farei com que exaltem na sua presena os
teus talentos, e que encaream os elogios mais que os francezes o
fizeram; por este meio seguir-se-ho um desafio e apostas sobre a
pericia dos contendores. Elle que est desprevenido e  generoso e de
nada desconfia, no examinar os floretes; de modo que, com alguma
habilidade da tua parte, poders escolher um florete sem boto, e por
meio de uma bem dirigida estocada fazer-lhe pagar a morte de teu pae.

LAERTE

Como o rei disse, Laerte o far; mesmo envenenarei a ponta do meu
florete. Comprei a um empirico uma droga mortal. Por pouco que a ponta
de um punhal esteja n'ella banhada, por leve que seja o ferimento, no
ha balsamo precioso, embora composto dos mais energicos contravenenos,
que possa salvar da morte inevitavel e rapida o ferido. Assim,
prepararei a ponta do meu florete, para que mesmo leve arranhadura lhe
seja fatal.

O REI

Tornaremos ao assumpto, e combinaremos o momento e maneira mais facil e
favoravel para a sua execuo. Se tivesse que falhar este nosso plano,
mais valeria nada tentar. Mas  necessario que esta primeira combinao
se firme n'uma segunda, que a substitua, no caso da arma se quebrar no
primeiro encontro. Um momento... Vejamos. Faremos apostas importantes
sobre a respectiva pericia de ambos. Quando, no calor do combate,
estiverem afogueados e sedentos, para conseguir o intento no poupes o
teu adversario, ataca-o com vigor. Hamlet, sem duvida, pedir uma
bebida; ser-lhe-ha ento apresentada uma, de antemo preparada, e uma s
gota bastar, se a tua espada te trahir, para conseguirmos o fim
desejado. Mas silencio! Que rumor  este? (Entra a rainha.) Que ha de
novo, querida Gertrudes?

A RAINHA

Accumulam-se as desgraas, e repetem-se com assustadora rapidez. Laerte,
tua irm suicidou-se, afogando-se.

LAERTE

Onde?

A RAINHA

Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja prateada folhagem
se reflecte nas aguas crystallinas. Tua irm approximou-se d'aquelle
sitio, sempre tecendo grinaldas de rainunculos, ortigas, malmequeres, e
d'essas flores a que os nossos pastores do um nome bem grosseiro, mas
que as nossas castas donzellas denominam poeticamente _dedo da morte_.
Quando procurava ornar com as suas innocentes grinaldas as argenteas
frondes do salgueiro, oh! desgraa! descuidosa foi envolvida na
corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam como de cora virginal.
Algum tempo suspensa pelas vestes sobre a corrente, assimilhava-se 
sereia, cantando incoherentes trechos, inconsciente do proprio risco,
como se estivesse no seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em
breve, sossobrando pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e
tornou-se cadaver levado pela corrente.

LAERTE

Oh! desgraada! afogada!!

A RAINHA

Sim, Laerte!

LAERTE

Sequem-se as minhas lagrimas; j tiveste agua em demasia, infeliz
Ophelia! Mas porque? Mais fora tem a natureza do que a vontade; todos
lhe devemos obediencia. Para que uma falsa vergonha? Rolem, pois pelas
faces lagrimas santas, e arrebatem na sua corrente a minha ultima
fraqueza. Adeus, senhor! As minhas palavras de fogo tornar-se-am
embravecido vulco, se as lagrimas do corao o no apagassem. (Se.)

O REI

Sigmol-o, Gertrudes. Quanto me custou a serenar a sua colera! Receio
bem que estas novas desgraas lhe despertem em toda a sua plenitude a
sanha da vingana. Sigmol-o, pois.


Fim do acto quarto




ACTO QUINTO


SCENA I

Um cemiterio

Entram DOIS COVEIROS com enxadas

PRIMEIRO COVEIRO

Dever-se-ha enterrar em cho sagrado aquelle que voluntariamente
procurou a sua salvao no suicidio?

SEGUNDO COVEIRO

Eu c digo que sim; avia-te em cavar a cova, o magistrado viu e decidiu
que aqui fosse sepultada.

PRIMEIRO COVEIRO

Isso no pde ser, a menos que no se afogasse involuntariamente.

SEGUNDO COVEIRO

J est reconhecido e decidido.

PRIMEIRO COVEIRO

As probabilidades todas so que pereceu _se offendendo_. Ninguem  capaz
persuadir do contrario. V tu como eu o provo. Se me afogar
voluntariamente existe um acto; ora, um acto subvide-se em tres ramos: a
aco, o cumprimento e a execuo; ergo, afogou-se voluntariamente.

SEGUNDO COVEIRO

Assim ser, mas escuta-me ao menos.

PRIMEIRO COVEIRO

Ouve-me ainda; a agua est aqui, o homem est acol; muito bem, o homem
vae encontrar a agua e se afoga; forosamente morre por seu motu
proprio; nota isto bem. Mas se, pelo contrario,  a agua que vem
encontrar o homem, e elle se afoga, ento j no  elle que procura a
morte; ergo, aquelle que no  culpado na sua morte, no poz termo
voluntariamente  vida.

SEGUNDO COVEIRO

Mas ser lei?

PRIMEIRO COVEIRO

 a lei que preside ao inquerito do magistrado.

SEGUNDO COVEIRO

Queres que te diga o que penso? Se a defunta no fosse senhora de
qualidade, de certo no a enterravam em cho sagrado.

PRIMEIRO COVEIRO

 bem verdade o que dizes;  triste que as pessoas de qualidade tenham,
a mais dos outros christos seus iguaes, o direito de se afogarem e de
se enforcarem. Vamos sempre cavando! No ha nobreza mais antiga que a
dos jardineiros, lavradores e coveiros; seguem a profisso de Ado!

SEGUNDO COVEIRO

Pois Ado era nobre?

PRIMEIRO COVEIRO

O primeiro que usou armas!

SEGUNDO COVEIRO

Deixa-te d'isso, no consta que as tivesse!

PRIMEIRO COVEIRO

Sempre s um pago! como comprehendes tu ento a escriptura sagrada? A
escriptura diz que Ado trabalhava o solo; como poderia elle trabalhar
sem p ou enxada? Essas eram as suas armas. Vou fazer-te outra pergunta,
se no me responderes com acerto, no s mais que um....

SEGUNDO COVEIRO

Asno! contina.

PRIMEIRO COVEIRO

Quem  que construiu mais solidamente que o pedreiro, carpinteiro e
constructor de navios?

SEGUNDO COVEIRO

O constructor do cadafalso, porque sobrevive a innumeros hospedes.

PRIMEIRO COVEIRO

Boa resposta, palavra de honra. Cadafalso  bem achado; mas para quem se
fez o cadafalso? para os que fazem o mal; ora, tu fizeste mal em dizer
que o cadafalso  mais solido que a igreja, logo merecias o cadafalso.
Vamos, procura e responde.

SEGUNDO COVEIRO

Agora eu! Quem  que construiu mais solidamente do que o pedreiro,
carpinteiro e constructor de navios?

PRIMEIRO COVEIRO

Dize tu primeiro, eu c j sei.

SEGUNDO COVEIRO

Tambem eu.

PRIMEIRO COVEIRO

Vejamos.

SEGUNDO COVEIRO

Nada, no atino.

HAMLET e HORACIO apparecem ao fundo

PRIMEIRO COVEIRO

Basta de tratos ao teu cerebro; escusas de pensar mais, ficas sempre na
mesma. Quando alguma vez te fizerem essa pergunta, responde:  o
coveiro; as moradas que construe duram at ao dia de juizo. Agora vae a
casa de Vaughan e traze-me um copo de licor.(O segundo coveiro se,
cantando.)

  Quando eu era mancebo e quando amava
        Tudo era para mim rapido goso,
  Smente noite e dia andava ancioso
        Por o tempo matar que me matava.

HAMLET

Pois este homem no ter consciencia do que est fazendo, cantando
assim, quando cava uma sepultura?

HORACIO

O habito tudo pde.

HAMLET

E verdade, a mo pouco afeita ao trabalho tem o tacto mais delicado!

PRIMEIRO COVEIRO (cantando)

  Mas a idade chegou, passo furtivo
  Nas gastadoras garras me ha tomado,
  E assim, mau grado meu, me ha condemnado
  A viver entre a morte, morto-vivo. (Desenterra uma caveira.)

HAMLET (apontando para uma caveira)

Houve tempo em que esta cabea tinha uma lingua e cantava; agora este
rustico fal-a rolar pelo solo, como se fosse a mandibula de Caim, o
primeiro homicida. O craneo que este imbecil trata com to pouco
respeito, era talvez de algum profundo politico, que se julgava at
capaz de impor a sua opinio ao proprio Deus, no  verdade?

HORACIO

Tudo pde ser, senhor.

HAMLET

Ou talvez de algum cortezo cujo prestimo unico fosse repetir: Deus
seja comvosco, como est, meu senhor?  talvez o craneo do sr. fulano,
que gabava o cavallo do sr. cicrano, com a ida que este lh'o dsse, no
 verdade, Horacio?

HORACIO

Sim, meu senhor!

HAMLET

Deve assim ser! Agora pertence aos vermes; no tem nem pelle, nem
sangue, nem carne, e este coveiro fende-o com a sua enxada. Eis uma
estranha revoluo, assim a comprehendessemos bem. Joga-se a bola com
esses ossos, como se nada tivessem custado a formar. Sinto estalar os
meus s pensando-o.

PRIMEIRO COVEIRO (cantando)

  Uma enxada e uma p logo em seguida,
  Um lenol que amortalha o corpo todo,
  Um buraco depois feito no lodo,
  Eis ao que se reduz a humana vida. (Desenterra outra caveira.)

HAMLET

Eis um outro craneo; quem sabe se no seria de um jurisconsulto. Agora
acabaram as trapaas, as distinces subtis, as causas, as auctoridades
legaes e as finuras. Em vida, de certo no consentia sem um processo que
este imbecil lhe percutisse o craneo com a enxada. Porque no lhe
intenta agora uma aco por vias de facto e sevicias? Quem sabe, talvez
fosse um nedio comprador de bens immoveis, com os seus direitos, rendas,
privilegios, hypothecas e contratos. Eil-o agora elle mesmo hypothecado,
tem o privilegio commum a todos os mortaes, de ver a sua cabea coberta
de p e terra. Pois que! todas as acquisies to bem garantidas, no
tero outro complemento seno assegurar-lhe um espao apenas igual 
superficie de dois contratos de venda? Todos os seus titulos mal
caberiam n'este cofre, e comtudo  hoje a sua unica propriedade. Ah!

HORACIO

Unica, senhor!

HAMLET

Horacio, o pergaminho faz-se de pelles de carneiro, no  verdade?

HORACIO

Tambem de bezerro.

HAMLET

So pois os carneiros e bezerros que fazem f em taes titulos. Vou
interrogar este rustico. A quem pertence essa cova?

PRIMEIRO COVEIRO

A mim!

(Cantando)

  Um buraco depois feito no lodo,
  Eis ao que se reduz a humana vida.

HAMLET

Effectivamente, creio ser tua, pois que ests dentro d'ella.

PRIMEIRO COVEIRO

O senhor est fra, logo no  sua; mas apesar d'ella no me ser
destinada,  comtudo minha.

HAMLET

Mentes,  para um morto, e no para um vivo.

PRIMEIRO COVEIRO

Eis um desmentido prompto e que no admitte replica.

HAMLET

Para que homem cavas essa cova?

PRIMEIRO COVEIRO

Senhor, no  para um homem!

HAMLET

Para que mulher ento?

PRIMEIRO COVEIRO

Nem to pouco para uma mulher!

HAMLET

Quem ser pois depositado n'esta cova?

PRIMEIRO COVEIRO

Uma pessoa que foi mulher, hoje  defunta; Deus se compadea da sua
alma.

HAMLET

Que agudeza no seu positivismo!  preciso fallar-lhe com toda a clareza,
para no ser por elle enredado. Por Deus, Horacio, que noto ha tres
annos que o mundo se torna retrogrado, e o rustico se approxima tanto do
cortezo, que quasi se confundem. Ha quanto tempo s coveiro?

O COVEIRO

Dei-me a este officio desde o dia em que o defunto rei Hamlet venceu a
Fortimbraz.

HAMLET

Quanto tempo haver?

O COVEIRO

No o sabe? Pois no ha imbecil que lh'o no diga. Foi no mesmo dia em
que nasceu o joven Hamlet, aquelle que enlouqueceu, e foi mandado para
Inglaterra.

HAMLET

 isso; e porque o mandaram para Inglaterra?

O COVEIRO

Ora, porque? porque estava louco; talvez l recupere a raso, e se no a
recuperar, tambem no se perde muito.

HAMLET

E porque?

O COVEIRO

No ser visto aqui, e l todos so to loucos como elle.

HAMLET

Como enlouqueceu elle?

O COVEIRO

De um modo bem estranho, segundo dizem.

HAMLET

Mas de que modo?

O COVEIRO

 claro, perdendo a raso.

HAMLET

E qual foi o motivo?

O COVEIRO

Um motivo dinamarquez, um motivo d'este paiz em que sou coveiro desde a
infancia, ha trinta annos.

HAMLET

Dize-me, quanto tempo pde um homem estar enterrado, antes de apodrecer?

O COVEIRO

Se no est j podre antes de morrer (porque temos n'esta epocha muito
corpo gangrenado, que mal supporta a inhumao), pde conservar-se de
oito a nove annos; um surrador conserva-se nove annos.

HAMLET

Porque mais tempo que os outros?

O COVEIRO

O exercicio da sua profisso cortiu-lhe de tal modo a pelle, que fica
impermeavel por muito tempo, e de certo sabe que a agua  o mais activo
destruidor dos cadaveres. V esta caveira? Ficou vinte e tres annos
debaixo da terra.

HAMLET

De quem era?

O COVEIRO

De um typo original; ora, quem lhe parece que seria?

HAMLET

Como posso eu sabel-o?

O COVEIRO

Leve-o o diabo. Lembro-me ainda do dia em que me vasou sobre a cabea um
frasco de vinho do Rheno. Esta caveira, senhor, era de Yorick, o bobo do
rei.

HAMLET

Este craneo?

O COVEIRO

Sim, este mesmo.

HAMLET (pegando na caveira)

D-m'o, deixa-me vel-o. Pobre Yorick! Conheci-o, Horacio, era uma mina
inexgotavel de ditos engraados; tinha uma imaginao viva e fecunda!
quantas vezes me levou aos hombros! agora ao pensal-o annuvia-se-me o
corao. Aqui estavam os seus labios, em que tantos osculos depuz. Onde
esto agora os teus sarcasmos, as tuas replicas, as tuas canes, esses
rasgos de alegria, que promoviam a hilaridade de todos os convivas? Que!
pois ninguem j pde rir com as tuas facecias? Descarnadas esto as
faces. Vae, entra como agora ests, na alcova de alguma beldade da moda;
dize-lhe ento que arrebique e enfeites nada lhe valem, porque um dia
ser igual a ti. Fal-a rir, dizendo-lh'o. Dize-me tu, Horacio...

HORACIO

O que, meu senhor?

HAMLET

Julgas tu que Alexandre, depois de enterrado, se parecesse com Yorick?

HORACIO

De certo!

HAMLET

E que tivesse to mau cheiro? Fra! (Deita fra o craneo.)

HORACIO

Sem duvida alguma, senhor.

HAMLET

A que destinos grosseiros  possivel baixarmos, Horacio? Quem sabe se,
proseguindo nas suas successivas transformaes, as cinzas de Alexandre
no esto hoje empregadas em tapar um barril?

HORACIO

Seria entrar n'um exame demasiado minucioso.

HAMLET

No concordo. Podemos seguir seriamente esse exame, e com probabilidades
de obter um resultado. Por exemplo, Alexandre est morto, Alexandre est
sepultado, Alexandre tornou-se p; o p  terra, da terra tira-se
argilla, e quem impede que esta argilla, ultima metamorphose de
Alexandre, seja empregada como batoque n'um barril de cerveja? O
imperial Cesar, morto, tornou-se p, e serve talvez para vedar uma fenda
e interceptar a passagem do ar; e essa argilla, que espalhava o terror
sobre o universo, vae calafetar um muro para impedir que o vento passe.
Mas, silencio: afastemo-nos, chega o rei: (Entram processionalmente
padres, levando  mo o caixo de Ophelia; segue-se Laerte e o cortejo
funebre, mais atrs o rei, a rainha e a crte) e tambem a rainha! toda a
crte! A quem prestaro os ultimos deveres? De quem ser este funeral
incompleto? Tudo denuncia um suicidio. Deve porm ser pessoa de
categoria! Occultemo-nos e observemos, Horacio. (Afastam-se um pouco
Hamlet e Horacio.)

LAERTE

Que ceremonias falta cumprir?

HAMLET

Olha,  Laerte, um nobre mancebo.

LAERTE

Ha mais alguma cousa que fazer?

PRIMEIRO PADRE

Fizemos j para o seu funeral tudo quanto nos era licito fazer; a sua
morte tinha um caracter suspeito, e se ordens superiores no tivessem
imposto silencio aos canones da Igreja, teria sido sepultada em cho
profano, onde teria ficado at que a acordasse o clarim do juizo final.
Em vez de orar por ella, teriamos lanado sobre o seu corpo ties,
entulho e pedras; e comtudo coroaram-n'a como virgem, e flores cobriram
a sua campa, e o tanger do bronze sagrado acompanhou-a  sua ultima
morada.

LAERTE

Ento nada mais se pde fazer?

PRIMEIRO PADRE

Mais nada; profanariamos o rito sagrado se entoassemos um _requiem_, ou
se implorassemos para ella o repouso destinado s almas que voaram ao
cu santamente.

LAERTE

Seja pois o seu corpo depositado na campa, e possam d'elle e da sua
carne, pura e sem manha, desabrochar violetas! Sou eu que t'o digo,
padre sem alma, minha irm gosar no cu a bemaventurana eterna,
emquanto que tu extorcer-te-has no inferno nas convulses do supplicio
dos condemnados.

HAMLET

Que?  pois a bella Ophelia?

A RAINHA (lanando flores sobre a campa)

Flores para esta joven flor. Adeus! Esperava ver-te esposa do meu
Hamlet; contava, encantadora donzella, enfeitar o teu leito nupcial;
nunca pensei espargir flores sobre a tua sepultura.

LAERTE

Oh! que uma triplice e dez vezes triplice maldio cia sobre a cabea
do scelerado que commetteu to negra aco, e provocou a perda da sua
raso. Esperem que, antes que a terra a cubra, a estreite mais uma vez
nos meus braos (salta para dentro da cova). Agora enterrem
conjunctamente vivos e mortos, elevem sobre ns uma montanha que exceda
em altura o antigo Plion, ou o azulado Olympo, cujo cimo vem beijar as
nuvens.

HAMLET (adiantando-se)

Quem  que na sua dor se exprime com tanta emphase; cuja voz detem os
astros no seu giro, attonitos de o ouvirem? Sou Hamlet, o dinamarquez!
(Arremessa-se  cova.)

LAERTE (lanando-se a elle)

O inferno se apodere da tua alma!

HAMLET

 um abominavel desejo: larga-me a garganta, retira as mos, abaixo,
aconselho-t'o eu; no sou nem mau, nem arrebatado, mas  perigoso
excitar-me, e obrars assisadamente pensando assim. Abaixo as mos!

O REI

Separem-os.

A RAINHA

Hamlet! Hamlet!

TODOS

Senhores!

HORACIO

Contenham-se.

HAMLET

Por um tal motivo sinto-me capaz de combater com elle at ao ultimo
alento.

A RAINHA

Meu filho, qual  o motivo?

HAMLET

Amava Ophelia, e as affeies juntas de quarenta mil irmos no poderiam
igualar a minha; (a Laerte) e que serias tu capaz de fazer por ella?

O REI

Deixa-o, Laerte, est louco.

A RAINHA

Pelo amor de Deus, no faa caso das suas palavras.

HAMLET

Vamos, dize-me, que tencionas tu fazer? Prantear, combater, jejuar,
rasgar tuas proprias carnes, beber o Issel todo, devorar um crocodilo?
Tudo farei. Vieste aqui para te lamentar, para me desafiar,
precipitando-te dentro da sua cova; enterra-te vivo com ella, outro
tanto farei; e j que fallaste em montanhas, accumulem ellas sobre ns
tanta terra, que o cume da nossa pyramide tumular toque a zona ardente,
e ao p d'ella o monte Ossa no parea mais que uma verruga. Pdes
encolerisar-te, que no me assustam os teus furores.

A RAINHA

 um accesso de loucura que durar algum tempo; depois, similhante 
meiga pomba acalentando os filhinhos, ficar silencioso e immovel.

HAMLET (a Laerte)

Dize-me, porque me tratas assim? Sempre fui teu amigo. Mas no importa.
Aindaque Hercules se oppozesse, se o gato miasse, o co havia de ladrar
(afasta-se).

O REI

Siga-o, peo-lhe, meu caro Horacio. (Horacio segue Hamlet) (a Laerte)
Tem paciencia, lembra-te da nossa conversao de hontem, ( rainha)
Querida Gertrudes, faa com que velem sobre Hamlet; ( parte)  preciso
dar como monumento a este tumulo uma victima humana. Cedo estarei
descansado; at ento, paciencia! (Sem todos.)


SCENA II

Uma sala no castello

Entram HAMLET e HORACIO

HAMLET

Basta sobre esse assumpto; passemos ao outro, recordas-te bem de todas
as circumstancias?

HORACIO

Se me lembro, meu senhor!

HAMLET

Uma especie de lucta apoderra-se do meu corao, vedava-me o somno,
sentia-me peior que um facinora acorrentado! Adoptando comtudo uma
resoluo temeraria, achei na temeridade a minha fora; lembremo-nos
sempre, Horacio, que a imprudencia  muitas vezes o nosso prestante
auxiliar, quando os nossos mais profundos calculos so impotentes, e
isto deve-nos ensinar que ha uma Providencia que aperfeioa e completa
os projectos que imperfeitamente esbomos.

HORACIO

No ha cousa mais certa!

HAMLET

Sa pois do meu camarote a bordo, e coberto com as roupas de viagem
procurei e encontrei pelo tacto, s escuras, a sua mala; abri-a e
revolvi-a toda, em seguida recolhi-me ao meu aposento; ento o perigo
baniu todo o escrupulo, abri o despacho rompendo o sllo real! Escuta o
que li, Horacio. Oh! perfidia real! Apoiando-se em differentes motivos,
a salvao da Dinamarca e da Inglaterra, e o perigo que para elle havia
em eu continuar a viver, o rei ordenava expressamente, que depois da
leitura d'essa carta, sem demora alguma, nem mesmo a necessaria para
afiar o cutello, eu fosse decapitado.

HORACIO

Ser possivel?

HAMLET

Aqui tens a carta, l-a  tua vontade. Mas queres tu saber o que eu
ento fiz?

HORACIO

Diga, senhor; que foi?

HAMLET

Para sar salvo dos laos d'esta infame traio, appellei para a minha
intelligencia, e depressa formei o meu plano. Sentei-me, e redigi um
despacho com a melhor letra que pude fazer. Antigamente, assim como os
nossos homens d'estado considerava uma vergonha ter boa letra; e se
soubesses quanto eu desejei perdel-a! mas n'esta occasio foi-me
maravilhosamente util. Queres saber o que escrevi?

HORACIO

Com todo o gosto, senhor.

HAMLET

Dirigindo-se ao monarcha inglez como seu fiel tributario, dizia-lhe o
rei de Dinamarca, se queria que se conservasse virente a palma da
amisade, a paz se coroasse de espigas e se estreitassem os laos de uma
unio duradoura, lhe ordenava que, finda a leitura da sua carta, sem
outro exame, sem lhes dar tempo de se confessarem, fizesse suppliciar os
portadores do despacho.

HORACIO

Mas com que sllo fechou esse escripto?

HAMLET

A Providencia no me desamparou ainda n'essa occasio; tinha na minha
bolsa o sllo de meu pae, reproduco exacta do sllo do estado. Dobrei
pois o meu despacho na frma do estylo, subscriptei-o e sellei-o, depois
colloquei-o no logar em que estava o outro: o engano no foi descoberto.
No dia seguinte, em vez de combate sabes o que houve.

HORACIO

Assim, Rosencrantz e Guildenstern, vo receber o seu justo castigo?

HAMLET

Procuraram-n'o por suas proprias mos; no me peza na consciencia. S de
si se podem queixar.  sempre uma desgraa para vis subalternos
acharem-se envolvidos nas contendas de dois poderosos adversarios.

HORACIO

E  rei? meu Deus!

HAMLET

O meu dever est agora claramente indicado. quelle que assassinou meu
pae, deshonrou minha me, que se interpoz entre a escolha da nao e as
minhas esperanas, que attentou contra a minha vida traioeira e
perfidamente,  justia que o meu brao o puna. E no seria um crime
digno da condemnao eterna, deixar continuar esta ulcera no seu
trabalho corrosivo?

HORACIO

Mas dentro em pouco saber de Inglaterra o desenlace de todo este
negocio?

HAMLET

Em breve o saber,  verdade, mas o tempo que at ento decorrer,
pertence-me, e o fio da vida do homem corta-se em menos tempo do que o
preciso para contar at dois. O que me peza, meu caro Horacio,  ter
desattendido Laerte, porque eu tambem sinto o que elle deve sentir.
Sempre prezei a sua estima; mas a emphatica exaltao da sua dor
exacerbou-me.

HORACIO

Silencio, principe; approxima-se alguem.

Entra OSRICO

OSRICO

Alegro-me, principe, que tenha regressado  Dinamarca.

HAMLET

Obrigado, senhor. (A Horacio) Conheces tu esse insecto?

HORACIO

No, meu senhor.

HAMLET

s pois um homem moral,  um vicio conhecel-o.  verdade que possue
muitas e ferteis propriedades, mas  um estupido animal, que tem mando
sobre os outros, seguro de achar a sua mangedoura na mesa real;  um
ente desprezivel, mas, como disse,  senhor de vastos dominios.

OSRICO

Meu bom senhor, se no incommodo vossa alteza, alguma cousa tinha que
lhe communicar da parte de sua magestade.

HAMLET

Escutal-o-hei com prazer. Mas cubra-se j, que o chapu foi feito para
estar na cabea.

OSRICO

Obrigado, senhor, mas faz muita calma.

HAMLET

Faz muito frio, no acha? O vento est norte.

OSRICO

Effectivamente, faz bastante frio.

HAMLET

No sei se  effeito de uma predisposio particular, mas acho um calor
abrasador.

OSRICO

No ha duvida, faz tanto calor, que nem posso quasi respirar. Mas, meu
senhor, sua magestade encarregou-me de lhe dizer que fez uma aposta
consideravel, de que vossa alteza  o motivo.

HAMLET (fazendo-lhe signal de se cobrir)

Faz favor.

OSRICO

Perdo, senhor, mas no me incommoda. Vossa alteza de certo  sabedor
que chegou a esta crte Laerte, um joven mui dextro, dotado das mais
raras qualidades, agradavel no trato, um perfeito moo. Para fallar
d'elle como merece, pde-se dizer que  o espelho e o almanach do bom
tom, porque n'elle esto reunidas todas as qualidades que deve possuir
um perfeito cavalheiro.

HAMLET

Senhor, no encareceu o retrato que d'elle fez; no  sufficiente toda a
arithmetica da memoria para redigir o inventario especificado de todas
as suas perfeies, e ainda assim o juizo ficaria quem da verdade.
Fallando conscienciosamente, tenho-o na conta de um cavalheiro distincto
e de raro merecimento; digo-o sinceramente; para achar outro igual,
foroso  que se olhe no seu espelho: os outros no seriam seno a sua
sombra.

OSRICO

O principe falla d'elle com a convico da estima.

HAMLET

De que se trata, pois? Escusmos embaar as suas qualidades com o nosso
juizo.

OSRICO

Senhor!

HORACIO

No seria possivel fallar uma lingua mais intelligivel? -o por certo,
senhor.

HAMLET

Com que fim pronunciou o nome d'aquelle cavalheiro?

OSRICO

De Laerte?

HORACIO

Acabou-se-lhe o cabedal; ignora completamente o que ha de responder.

HAMLET

 verdade.

OSRICO

Sei que no ignora...

HAMLET

Queria que assim pensasse a meu respeito; e se assim fosse, fraco elogio
para mim seria. Continue agora.

OSRICO

Vossa alteza no ignora a superioridade de Laerte?

HAMLET

 o que no affirmo, com o receio de me comparar a elle. Para conhecer
um homem a fundo era necessario vestir a sua pelle.

OSRICO

Quero fallar da sua superioridade em manejar as armas; gosa da reputao
de no ter rival.

HAMLET

Quaes so as suas armas de predileco?

OSRICO

Florete e adaga.

HAMLET

So s duas! prosiga.

OSRICO

O rei apostou seis bellos cavallos da melhor raa, contra seis espadas e
seis adagas francezas de Laerte, sem contar os cintures, talabartes e
tudo o mais. Tres dos accessorios sobretudo so dignos da aposta e de um
trabalho maravilhoso, no estylo mesmo das armas.

HAMLET

Que chama accessorios?

HORACIO

Bem sabia eu que antes de terminar era infallivel algum reparo do
principe.

OSRICO

Os accessorios, senhor, so os enfeites dos cintos e talabartes em que
se suspendem as espadas.

HAMLET

A expresso seria mais exacta se em vez de espada usassemos um canho;
sirvamo-nos pois do termo cinto na generalidade. Prosiga. Seis bellos
cavallos contra seis espadas e seus pertences, incluindo tres cintos,
obra prima da arte franceza;  pois a Frana contra a Dinamarca. Mas
qual  o motivo d'esta aposta?

OSRICO

O rei apostou que em doze golpes, Laerte no tocaria o principe seno
tres vezes. Laerte apostou que seriam nove em doze. A questo ser
promptamente decidida se vossa alteza se dignar responder.

HAMLET

E se eu responder negativamente?

OSRICO

Quer dizer, se o principe convier em combater.

HAMLET

Senhor, vou agora passeiar n'esta sala; costumo todos os dias a esta
hora, entregar-me a esses exercicios: depois estou s ordens do rei.
Tragam floretes com a annuencia de Laerte; e se o rei persistir no seu
empenho far-lhe-hei ganhar a aposta se podr; no caso contrario
restam-me os golpes recebidos e a vergonha.

OSRICO

Deverei dar ao rei a sua resposta?

HAMLET

Disse-lhe o meu pensamento: o seu talento saber completar a resposta.

OSRICO

Um servo dedicado de vossa alteza. (Se.)

HAMLET

Muito agradecido, obrigado (a Horacio); fez bem de o dizer elle mesmo,
ninguem se encarregava por certo de tal misso.

HORACIO

Finalmente, estamos ss!

HAMLET

Estou certo que ao collo da ama, antes de o sugar, elogiava a alvura do
seu seio; similhante a tantas pessoas da sua tempera, que so o encanto
dos ignorantes, abraam as modas do dia, e revestem-se de um falso
verniz de polidez, e, graas a essa mascara, so escutados pelos
sensatos; mas experimentem-os, so como bolas de sabo, que se
desvanecem ao menor sopro.

Entra UM SENHOR

O SENHOR

Senhor! o rei mandou o joven Osrico cumprimentar vossa alteza da sua
parte, o qual lhe disse que o principe esperava n'esta sala. El-rei
envia-me para saber se  inteno de vossa alteza combater j, ou adiar
o combate.

HAMLET

Tomei j a minha resoluo, e concorda com os desejos de sua magestade.
Se Laerte est prompto, tambem eu o estou; immediatamente, ou quando
quizer, comtanto que me sinta sempre to bem disposto como agora o
estou.

O SENHOR

Em breve chegaro o rei e a rainha, e toda a crte.

HAMLET

Bemvindos sejam!

O SENHOR

 pedido da rainha que receba cordialmente Laerte, antes de dar
principio  contenda.

HAMLET

 justo o seu conselho. (O senhor se.)

HORACIO

Receio que o principe perca a aposta.

HAMLET

No creias tal; depois que elle partiu, tenho-me continuamente
exercitado no jogo das armas: com a vantagem concedida a victoria 
certa. Se tu soubesse que dor sinto no corao! No importa.

HORACIO

Comtudo, senhor!

HAMLET

 uma loucura, uma leve apprehenso, que apenas poderia influenciar uma
fraca mulher.

HORACIO

Se sente alguma repugnancia no seu espirito, obedea-lhe. Vou
prevenil-os que no venham, que o principe se sente indisposto.

HAMLET

De modo nenhum! Luctarei com os meus presentimentos; a Providencia tem
j escripto o meu destino. Se tenho de morrer, nada o evitar, foroso 
obedecer aos seus decretos; que seja hoje ou manh, estou prompto;
tenho dito. Poisque o homem no  senhor do seu destino, que importa que
seja mais tarde ou mais cedo? Ser o que Deus quizer.

Entram o REI, a RAINHA, LAERTE, OSRICO, SENHORES e CREADOS trazendo
floretes e luvas e uma mesa com frascos e taas

HAMLET (a Laerte)

Perdoe-me, se o offendi, mas perdoe-me como cavalheiro. Os que nos
cercam, sabem-o, e creio que tambem deve saber, que um terrivel
desvairamento se apossou de mim. Se alguma cousa fiz que podesse irritar
o seu caracter e a sua honra e melindre, proclamo-o bem alto: Loucura!
Seria ainda Hamlet que offendeu Laerte? Nunca, nunca poderia ser Hamlet.
Ento no era elle, e no sendo elle, como offenderia Hamlet a Laerte? 
claro, no era elle; renego todos esses actos. Quem foi ento? a
loucura. Sendo assim, Hamlet abraa o offendido; o verdadeiro inimigo do
desditoso Hamlet  a sua loucura. Senhor, depois d'esta confisso, em
que perante todos renego toda a m inteno, poder ainda a sua
generosidade condemnar-me?  como se inconscientemente despedisse por
cima de uma casa um dardo, e fosse ferir um irmo.

LAERTE

Meu corao est satisfeito; era elle que mais me excitava  vingana;
mas no campo da honra recuso-me a toda a conciliao, at que arbitros
mais idosos e de provada lealdade, me imponham, fundados em precedentes,
uma sentena de paz, que ponha o meu nome ao abrigo de toda a suspeita.
At ento acceito a amisade que me offerece, e nada farei em seu
detrimento.

HAMLET

Acceito francamente essa promessa, e a lucta fraternal que vamos
encetar. Venham os floretes, comecemos.

LAERTE

Dem-me um florete!

HAMLET

Vou ser o seu alvo, Laerte; ao p da minha inexperiencia vae sobresar a
sua pericia, como um astro brilhante em noite escura.

LAERTE

Zomba de mim?

HAMLET

Juro que no!

O REI

D-lhes floretes, Osrico, Primo Hamlet, conheces a aposta?

HAMLET

Perfeitamente, senhor; aposta demasiado vantajosa para o mais fraco.

O REI

Nada receio; j os conheo ambos, e poisque Hamlet  quem mais
avantajado est, a sorte est pelo nosso lado.

LAERTE (examinando um florete)

Este no, que  muito pesado; outro!

HAMLET

Este convem-me; os floretes so todos iguaes, no  verdade?

OSRICO

Sim, meu bom senhor. (Collocam-se.)

O REI

Ponham os frascos sobre a mesa. Se Hamlet o tocar a primeira e segunda
vez, ou se elle aparar o terceiro golpe, que as baterias rompam uma
salva geral; beberei  saude de Hamlet, e lanarei na taa uma perola
mais preciosa que as que usavam nos seus diademas os quatro reis meus
predecessores. Venham as taas. Que os timbales annunciem aos clarins,
os clarins aos canhes, os canhes aos cus, os cus  terra que o rei
brinda por Hamlet. Vamos, senhores, podem comear, e vs juizes,
atteno!

HAMLET

Em guarda!

LAERTE

Em guarda, principe! (Comeam.)

HAMLET

Uma!

LAERTE

No tocou.

HAMLET

Os juizes que decidam!

OSRICO

Tocou, no ha duvida.

LAERTE

Recomecemos.

O REI

Esperem, encham as taas. Hamlet, dou-te esta perola, brindo por ti.
Offeream-lhe a taa. (Clarins e salvas.)

HAMLET

Prefiro acabar a contenda, esperem; depois beberei. Vamos, Laerte. Uma!
que diz agora?

LAERTE

Fui tocado, confesso-o.

O REI

Hamlet ganha.

A RAINHA

Ests fatigado, falta-te o flego. Limpa a fronte com o meu leno. A
rainha bebe  tua victoria, Hamlet.

HAMLET

Minha senhora!

O REI

No bebas, Gertrudes.

A RAINHA

Bebo, senhor, desculpe-me, desejo-o.

O REI ( parte)

Era a taa envenenada, j no ha remedio.

HAMLET

Ainda no bebo, mais tarde, senhora.

A RAINHA

Deixa-me limpar tua fronte, filho!

LAERTE (ao rei,  parte)

Senhor, agora ver.

O REI

J no creio.

LAERTE ( parte)

E, comtudo, diz-me a consciencia que no.

HAMLET

Vamos, Laerte, a terceira prova; no me poupe, peo-lh'o; desenvolva
toda a sua pericia, no me trate como creana.

LAERTE

Que diz? em guarda, pois.

OSRICO

Ainda nada.

LAERTE

Agora toquei. (No encarniado da lucta trocam os floretes, e Hamlet 
ferido e fere Laerte.)

O REI

Separem-nos, esto desesperados.

HAMLET

No, recomecemos. (A rainha ce)

OSRICO

Acudam  rainha; acudam!

HORACIO

Feridos ambos!! que  isto, senhor?

OSRICO

Como est Laerte?

LAERTE

Colhido no meu proprio lao, morro pela minha traio.

HAMLET

Que tem a rainha?

O REI

Desmaiou  vista do sangue.

A RAINHA

No, no! a bebida, a bebida! meu Hamlet, a bebida! a bebida!
envenenada... (Morre.)

HAMLET

Oh! infamia! fechem as portas, traio! quero conhecel-a.

LAERTE

Eu t'o digo,  esta: Hamlet, morres assassinado, nada te pde salvar;
meia hora, quando muito, te resta de vida, na tua mo ainda conservas a
arma da traio afiada e envenenada; tambem sou victima da minha
perfidia. Escuta, j sinto a morte, tua me envenenada... morro, Hamlet!
o rei... s o rei culpado... (Desfallecendo.)

HAMLET

A ponta envenenada! veneno, cumpre o teu dever. (Fere o rei.)

OSRICO e SENHOR

Traio! traio!

O REI

Defendam-me,  apenas leve ferimento.

HAMLET

Bebe os restos d'esta taa, incestuoso assassino, damnado dinamarquez.
Procura a perola, achal-a-has seguindo minha me. (Vasa  fora o resto
da taa pela bca do rei, que ce e morre.)

LAERTE (n'um ultimo alento de vida)

 justo o castigo; morre pelo veneno que preparras. Hamlet,
perdoemo-nos mutuamente, e livres de qualquer reciproco remorso subam
nossas almas abraadas ao cu. (Morre.)

HAMLET

Absolva-te o cu, como eu te perdo; sigo-te, Laerte (a Horacio) morro,
Horacio. Rainha desgraada, adeus. A vs todos, que ao ver esta
catastrophe empallideceis, mudos espectadores d'este drama, se tivesse
tempo ainda, se esta ancia terrivel no m'o vedasse, poderia dizer...
agora, resignao. Eu morro, Horacio, tu vivers, justifica-me, explica
o meu odio aos que o ignoram.

HORACIO

Isso nunca! sou mais romano que dinamarquez, e n'esta taa ainda ha
liquido.

HAMLET

Se s homem, d-m'a; larga-a, por Deus, quero-a. Vive para revelar um
to infame crime. Se alguma vez foste meu amigo, no apresses a tua
felicidade celeste e permanece n'este mundo odioso, conta a minha
historia. (Ouve-se uma marcha) Que rumor marcial  este?

HORACIO

 o jovem Fortimbraz, que regressa victorioso da Polonia, e que sada os
embaixadores de Inglaterra com esta salva guerreira. (Ouvem-se tiros.)

HAMLET

Morro, Horacio, triumpha o veneno poderoso; nem j as noticias de
Inglaterra me  dado saber, mas predigo que Fortimbraz ha de reinar;
morrendo, voto por elle; conta-lhe mais ou menos os pormenores da causa
da minha morte. O resto... ... silencio... (Morre)

HORACIO

Que nobre alma! Adeus, meu adorado principe, os anjos do cu o embalem
com os seus canticos divinos. Mas porque  esta marcha? (Ouve-se uma
marcha militar.)

Entram FORTIMBRAZ, os EMBAIXADORES a outras pessoas

FORTIMBRAZ

Que vejo?

HORACIO

Vae sabel-o. Desgraa ou prodigio, est patente a seus olhos.

FORTIMBRAZ

Que hecatombe, que horror! Oh! morte, que festim cruento preparavas tu,
para precisar de uma s vez tanto sangue real?

PRIMEIRO EMBAIXADOR

Que horrivel espectaculo! tarde chegmos de Inglaterra. J no nos pde
ouvir aquelle de cujas ordens annunciavamos o cumprimento, trazendo a
nova da execuo de Rosencrantz e Guildenstern. Quem nol-o agradecer
agora?

HORACIO

Elle no, que os seus labios agora gelidos nunca o ordenaram. Mas,
poisque vindes de Inglaterra e de Polonia e presenceaes esta crise
sangrenta, ordenae que bem alto,  vista de todos, sejam collocados
estes corpos, e eu lhes direi a causa d'estes factos, poisque a ignoram.
Ento soaro aos seus ouvidos actos carnaes, incestos, sangue,
expiaes, assassinios fortuitos, mortes causadas pela perfidia ou por
fora maior, e para desfecho traies que feriram os proprios auctores;
eis a minha narrao, e juro que  verdade.

FORTIMBRAZ

Oumol-o promptamente, convoquemos os nobres: dolorosamente acceito o
meu novo encargo, pois tenho sobre este reino direitos incontestaveis,
que  meu dever reivindicar.

HORACIO

Misso tenho de lhe fallar a esse respeito, da parte d'aquelle que vivo
teria tido os suffragios do povo. Seja pois rapida a deciso, antes que
os espiritos preplexos sejam dominados por alguma conspirao ou engano
que causem novas desgraas.

FORTIMBRAZ

Sejam por quatro capites levados os restos mortaes de Hamlet:
faam-se-lhe todas as honras militares. Se vivesse teria sido um grande
rei. Quando passar, salvem os canhes. Levem os cadaveres, esta vista 
s propria dos campos de batalha; aqui causa horror! Executem as minhas
ordens, rompam as salvas de canhes e as descargas de fuzilaria, e as
marchas funebres. Morreu o que havia de ser rei de Dinamarca. (Desfilam
todos com os cadaveres: ouvem-se salvas de artilheria, descargas de
fuzilaria e marchas funebres. Cae o panno.)


Fim do quinto e ultimo acto





End of the Project Gutenberg EBook of Hamlet: Drama em cinco Actos, by 
William Shakespeare

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HAMLET: DRAMA EM CINCO ACTOS ***

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