The Project Gutenberg EBook of Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba, by 
Antnio de Trueba

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Title: Contos escolhidos de D. Antonio de Trueba

Author: Antnio de Trueba

Commentator: Incio de Vilhena Barbosa

Translator: F. de Castro Monteiro

Release Date: May 25, 2008 [EBook #25593]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA

CONTOS ESCOLHIDOS

DE

D. ANTONIO DE TRUEBA

TRADUZIDOS LIVREMENTE

POR

F. DE CASTRO MONTEIRO

com uma introduco

POR

I. DE VILHENA BARBOSA


PORTO
Imprensa Portuguesa--Editora
1872




PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA

CONTOS ESCOLHIDOS

DE

D. ANTONIO DE TRUEBA




PRIMORES DA LITTERATURA HESPANHOLA

CONTOS ESCOLHIDOS

DE

D. ANTONIO DE TRUEBA

TRADUZIDOS LIVREMENTE

POR

F. DE CASTRO MONTEIRO

com uma introduco

POR

I. DE VILHENA BARBOSA


PORTO
Imprensa Portuguesa--Editora
1872




AO SEU PREZADO AMIGO

I. DE VILHENA BARBOSA

SOCIO CORRESPONDENTE DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS

Como testemunho de gratido

Offerece

                                     _O traductor._





_Meu querido Vilhena Barbosa._[1]

A grata recordao das lies que de ti recebi, quando no meu espirito
comeava a desenvolver-se o gosto pelo estudo da litteratura; os salutares
conselhos, que me dispensaste, nos primeiros annos da minha adolescencia,
apontando-me a escolha dos auctores, que deveriam formar o meu estylo, e
robustecer as minhas tendencias litterarias; aquellas nossas conversas, de
tamanho interesse para mim, em que as luzes do teu illustrado entendimento
tentavam dissipar as trevas da minha ignorancia, conversas que, pouco a
pouco, e no decurso d'alguns annos de convivencia intima, iam subindo
d'alcance,  medida que, pelo estudo, eu me habilitava a comprehender-te e
a discutir comtigo, seriam j, de per si, sobejo motivo para que eu te
dedicasse este livrinho, se no houvesse ainda razes de entranhadissimo
affecto, razes todas do corao, e completamente alheias  cultura das
letras, que a isso me obrigam, com fora de irresistivel encanto.

A minha vida est, desde os mais verdes annos, ligada, por laos
indissoluveis, a essa dedicao illimitada que sempre me votaste.

Era eu bem creana, e j tu me franqueavas os arcanos da tua vasta
erudio. No sei que confiana era a tua na mediocridade da minha esphera
intellectual. Eram horas esquecidas d'instructiva palestra, em que a
historia patria, a philosophia da historia, as sciencias naturaes, e a
litteratura constituiam um thema variado, que me deleitava e instruia,
animando-me a procurar nos livros cabedal de conhecimentos com que podesse
corresponder ao teu paternal intento de me tornar util a mim e  sociedade.

Oh! que saudosos tempos, de feliz memoria, so esses para mim!

Quando nos separavamos, continuavas tu, de longe, a indicar-me os bons
modelos, e a apontar-me um futuro, que a tua cga amisade antevia para mim,
mas que, _erat scriptum_, eu no deveria attingir.

Nunca me abandonaste; e, se foi baldado o teu intento, ao menos da
constancia do teu affecto tiro eu motivo de muito orgulho, e isso basta
para me consolar.

Nos primeiros mezes de 1860, poca de terrivel amargura para o meu corao,
revelou-se a tua amisade por mim pela prova mais grandiosa, que pde
aquilatar os sentimentos d'alma.

Em dezembro, tinha eu vindo de Coimbra ao Porto, a frias. Entrava em casa
com aquelle alvoroo, que tu por vezes presenciaste, e que sempre me
dominava, ao acercar-me de meus paes e de minha irm. Minha me chorava de
alegria, cingindo-me n'um amoroso e prolongado abrao, e eu correspondia ao
seu carinho com todo o affecto, que me inundava o corao. Sabes como eu a
amava. Por mais d'uma vez te achaste ao nosso lado, no momento de nos
separarmos.

Eram os transportes de duas almas enamoradas, em presena da amarga e
tyrannica necessidade da ausencia.

Assim tambem, quando as ferias se avisinhavam, contavamos ambos as horas e
at os instantes, que faltavam para a nossa approximao, com frenetica
impaciencia.

N'essas emoes encontradas, por entre riso e lagrimas, se deslisaram os
primeiros annos da minha mocidade.

Punge-me recordar esse tempo de to acerba saudade; enlucta-se-me a alma,
quando se me retrata na mente a imagem de minha piedosa me; e a ti sei eu
que hade offender-te a notavel modestia, que  um dos ornamentos do teu
nobre caracter, este publico testemunho, que te offereo, da minha
gratido.

Mas ainda que o corao se me despedace ao escrever estas linhas, e a
despeito da contrariadade, que possa levantar no teu espirito, proseguirei
no meu intento.

Tem paciencia, e ouve o que talvez a tua consciencia nunca te mostrasse em
relevo, por causa d'esse sentimento elevadissimo, que esconde aos olhos do
homem a nobreza das suas proprias aces.

Poucos dias depois da minha chegada ao Porto, adoeceu minha me; e com tal
violencia se apresentou a molestia, que foram infructiferos todos os
esforos, que a medicina fez para a salvar.

A 22 de Janeiro voou aquella alma angelica, a abrigar-se no seio de Deus.

Passarei um vo por sobre o abysmo de insondavel martyrio, em que esse
angustiosissimo lance me sepultou!

Decorrido um mez, lembrou-me meu pae a necessidade de voltar para Coimbra.

Acordei ento do lethargo em que cara, depois do fatal acontecimento;
comprehendi quanto havia de justo e paternal n'aquella indicao, e parti.

Quando me encerrei no meu quarto escolastico, e que meditei na
transformao, que, em to breve lapso de tempo, se operra na minha vida
moral, senti-me succumbir; arrastei-me para junto da janella, que olhava
para o Mondego, e alongando a vista por aquelle formoso quadro, to poetico
e to melancolico, deixei-me dominar completamente pela vehemencia da
saudade, que me opprimia, e assim permaneci por espao de muitas horas.

Nos dias que se seguiram, foi sempre calando, mais e mais, no meu
corao, aquella profunda tristeza, que nada podia dissipar.

Os meus companheiros de casa, moos distinctissimos, os quaes ainda hoje
amo como irmos, envidavam todos os seus recursos para me fazer sar
d'aquelle estado de depresso de espirito, que me senhoreava; mas nada
podiam conseguir.

Por espao de muitos dias, quando chegava o correio, erguia-me de subito,
machinalmente, para correr ao seu encontro; mas logo, lembrando-me que j
no existia aquella santa, que diariamente me confortava e fortalecia o
espirito, com o balsamo salutar do seu carinhoso affecto, caa novamente na
minha tristeza habitual.

To dolorosa e renitente enfermidade moral, no podia deixar de
transmittir-se ao corpo.

Adoeci.

Os progressos da doena foram rapidos e assustadores!

Eu delirava, e no meu delirio, evocava o nome de minha me.

A sciencia deu  molestia um nome; mas o meu corao dava-lhe outro.

Os mdicos chamavam-lhe pneumonia... mas eu chamava-lhe _Saudade_!

Todos os meus companheiros,  porfia, se esforavam por me provar a sua
amisade. D'elles porm havia um, a quem todos respeitavamos, que logo se
collocou  cabeceira do meu leito, servindo-me regularmente de enfermeiro.

No referirei aqui o seu nome por lhe no ferir a modestia, que a tem,
em to subido gro como tu, e a qual eu no ouso devassar.

Recordo-me d'elle com muita saudade e muito reconhecimento.

E nunca mais nos encontramos!

Uma noite acordei e vi um vulto ajoelhado junto do meu leito;
sobresaltou-me, porque me parecia um padre! Era elle, vestido de batina,
e que resava no seu livro de oraes!

Ergueu-se rapidamente e disfarou para me no assustar.

Eu dissimulei; fingi que o no vira, e nunca lhe fallei d'esta scena
edificante, que ha de sempre permanecer gravada no meu corao.

Este livro deve chegar um dia s mos d'esse nobre mancebo, de quem o
destino me separou; que elle se recorde de mim com saudade, ao lr estas
palavras, e veja n'ellas a expresso do muito reconhecimento, que tambem
lhe consagro.

A molestia aggravara-se, e ao terceiro dia, apresentava-se temerosa!

Eu sentia-me isolado,  mingua do conforto da familia; mas prohibira
expressamente, que avisassem meu extremoso pae da gravidade da minha
situao.

Este, ignorando a verdade, e presa de muitos trabalhos domesticos, no
foi ter commigo a Coimbra; mas escreveu-te para Lisboa, avisando-te de
que eu me achava enfermo.

No dia em que recebeste a sua carta, dirigiste-te a um dos meus
companheiros de casa, e este fallou-te com franqueza.

Isto soube-o eu mais tarde.

Vinte e quatro horas depois de teres lido a resposta, a que alludo,
dispertava eu d'um somno angustioso, e vi-te ao meu lado.

Quiz erguer-me e lanar-me nos teus braos, mas no pude.

Fizeste por me serenar o espirito, sobreexcitado pela tua presena alli,
e comeaste a dispensar-me os thesouros do teu acrisolado affecto.

A molestia teve-me baloiado entre a vida e a morte; e por fim, graas 
bondade do Altissimo, que me julgou talvez novo para deixar o mundo, e
que me proporcionou os desvelos do teu carinho, comeou a declinar.

Foi longa a convalescena.

Quando, no decurso d'ella, eu me conservava ainda de cama, tu, sentado 
minha cabeceira, lias alto para me distrahir, ou divagavas sobre
aquelles assumptos, que sabias me eram mais gratos.

Ministravas-me cuidadosamente os remedios e as comidas, temperadas pela
tua propria mo, e informavas diariamente a minha familia das
progressivas melhoras, que eu experimentava.

Afinal, ergui-me da cama, e, poucos dias depois, comecei a dar alguns
passeios, pelo teu brao.

Ficava a minha casa proxima ao Jardim botanico, e era para ahi que
sempre nos dirigiamos.

Estavamos ento entrados na primavera, essa estao encantadora, em que
o corao se retempera no ar embalsamado que nos rodeia; essa _giovent
del anno_, como lhe chama o poeta, em que toda a natureza nos sorri, com
ineffavel magia.

Eu sentia-me _renascer_; parecia-me participar da qualidade dos arbustos
e das plantas, que nos cercavam; corria-me nas veias uma nova seiva, e
impressionava-me em extremo o grandioso espectaculo, que se offerecia a
meus olhos.

Depois de darmos algumas voltas por aquellas frondosas avenidas,
sentavamo-nos n'um banco do jardim, e um ao outro communicavamos as
impresses, que recebiamos d'aquelle panorama encantador das saudosas
margens do Mondego, que d'alli se observa em todo o esplendor da sua
belleza.

Depois, quando o sol, declinando, nos aconselhava a regressar a casa,
levantavamo-nos e deixavamos vagarosamente aquella manso deliciosa.

Os extremos da tua amisade tinham-me furtado talvez a uma prematura
morte, mas no lograram desanuviar-me o corao da magoa, que o suffocava.

Deixava-me por vezes dominar de profunda tristeza, e assim me conservava
por largas horas, alheiado completamente do mundo exterior, e s
entregue a amargas cogitaes.

Um dia entraste no meu quarto, e disseste-me que era preciso sar de
Coimbra; que tinhas conversado largamente com o medico, e que este fra
de parecer de que a distraco era o unico remedio que podia completar o
meu restabelecimento.

Sobresaltou-me a lembrana de que teria de me separar logo de ti.

Era uma injustia que fazia  devoo do teu affecto; mas confesso-te
que no suppunha que tu levasses a tua generosa dedicao por mim, at
entrares commigo na casa paterna.

Sabia que a ausencia de Lisboa era em extremo prejudicial aos teus
interesses, e por isso imaginava que tu darias por terminada a tua
caridosa misso, com a minha partida para o Porto.

Quanto me enganava!

Eu estava ainda muito falto de foras e mal podia entender nos aprestos
da viagem; tu porm a tudo proveste com paternal cuidado.

Afinal, por uma aprazivel manh, samos de Coimbra.

Alugaramos uma carruagem, a melhor que se pde encontrar, e por essa
bella estrada, que o mau fado da nossa administrao publica, devia,
poucos annos depois, tornar quasi deserta, admirando o formosissimo paiz
que ella atravessa, formosissimo pela luxuriante vegetao que o cobre,
e pela extenso dos seus variadissimos panoramas, seguimos
agradavelmente at  primeira paragem, onde deviamos pernoitar.

Se bem me recordo era a estalagem d'Albergaria, esse covil immundo, da
qual ainda hoje me no lembro, que no sinta logo pelo corpo, um certo
prudo, que me excita horrorosamente os nervos.

No dia immediato continuamos a nossa jornada, mas no com tanta
felicidade como na vespera.

Levantra-se muito vento, e parece-me que te estou vendo, meu bom
Ignacio, receioso de que o frio prejudicasse o regular andamento da
minha convalescena, repartindo-me em mil cuidados, para me pr a salvo
d'uma recada!

E agora me lembra um episodio d'essa saudosa jornada, que tem relao
com o que levo dito, e que  mais um attestado do conforto e da
commodidade das taes locandas da antiga estrada coimbr.

Quando chegamos a S. Joo da Madeira, samos da carruagem, e entramos na
hospedaria, para jantar.

Depois que dmos as nossas ordens, na cosinha, subimos para a sala, onde
deviamos esperar que nos servissem; mas era tal a _ventania_, que
entrava pelos buracos dos vidros, e pelas fendas do telhado, que, no
querendo voltar logo para a carruagem, de que j estavamos fartos,
tomamos o partido de nos sentarmos a um canto, e abrir os chapos de
sol, a vr se d'este modo podiamos afrontar a intemperie.

Pouco tempo porm estivemos n'essa posio caricata; afinal entendemos
que o mais acertado era jantarmos dentro da carruagem, e assim o fizemos.

Ainda hoje me rio, quando me acode  ideia essa scena de comedia, que
acabo de descrever.

D'ahi por algumas horas chegavamos aos Carvalhos, onde nos esperavam,
meu pae e minha irm, e todos juntos seguimos para o Porto.

Com a viagem, que descrevi com leves traos, termina esse episodio da
nossa vida, em que se patenteia bem a elevao do teu caracter, e a
dedicao que te devo; mil annos que eu vivesse, nunca esta pagina da
minha mocidade, se me apagaria da memoria.

Sei, e j o disse no principio d'esta carta, que vou offender a tua
modestia, tornando publico esse exemplo que dste da nobreza dos teus
sentimentos.

No importa. s tu geralmente apreciado como homem de letras, quero que
todos te apreciem tambem como homem de corao;--como exemplo do amigo
dedicado.

Porto, 12 de janeiro de 1872.

                                                     F. de Castro Monteiro.

    [1]Vilhena Barbosa s ter conhecimento d'esta carta, quando lhe chegar
     mo o meu livro. O respeito que me merece a sua proverbial modestia
    obriga-me a deixar aqui esta declarao.




INTRODUCO


I

As letras e as artes tm muitos pontos de affinidade. Ambas filhas
predilectas da civilisao; caminhando a par na via dos progressos
humanitarios; auxiliando-se e concorrendo mutuamente para o seu commum
desenvolvimento e esplendor; cabendo-lhes egual quinho de gloria nos
aperfeioamentos, grandeza e prosperidade de qualquer nao; tem
identico valor e significao para se aquilatar por ellas a cultura de
um povo; e, finalmente, ambas so um como espelho em que a humanidade se
retrata, tal qual , segundo as epochas da sua historia.

Nas artes , principalmente, a architectura, pelas intimas relaes que
tem com a sociedade, a que resume em si, com maior exactido, as idas,
as crenas, as aspiraes, as necessidades, em fim, a vida moral e
physica dos povos.

Nas letras o romance, a meu vr, como nas artes a architectura,  qual
lamina em que se espelham, com fidelidade, os pensamentos, a indole e os
costumes da sociedade para a qual foram escriptos.

Na traa mesquinha ou grandiosa de um monumento; nas suas frmas
acanhadas ou esveltas; na ornamentao pesada e mal disposta, ou ligeira
e graciosamente distribuida; na esculptura dos ornatos grosseiros e sem
significao ideal, ou delicados e expressivamente symbolicos, escreveu
o architecto, sem attentar em tal, uma pagina da historia dos seus
contemporaneos, eloquentissima na sua mudez, e cheia de verdade, porque
a mo do seu auctor era dirigida, no por paixes ou respeitos humanos,
mas unicamente pelo amor da arte. E julgando o artista que a movia em
cega obediencia aos preceitos da mesma arte, a sua dextra seguia tambem
os impulsos da sua imaginao, que no podia eximir-se  despotica
influencia das idas e costumes dominantes; e alm d'isso, no desempenho
da sua misso, tinha de satisfazer as exigencias e necessidades
publicas, que so sempre determinadas pelo movimento intellectual e pela
successiva modificao dos costumes.

O romancista quer que o seu livro corra mundo, e seja lido com prazer.
Para alcanar este _desideratum_, procura deleitar, e para este fim tem
de vasar a sua obra nos moldes do gosto publico; isto , tem de a
accommodar s idas e costumes em voga n'essa epocha. E ainda que
consideremos o escriptor, pegando da penna, sem que o mova o interesse
pecuniario, forosamente ha de escrever sob a mesma poderosa influencia
das idas e costumes publicos.


II

Quando as cruzadas, minando pela base o feudalismo, crearam o espirito
cavalleiroso, que, d'envolta com o sentimento religioso, foi adoando
pouco a pouco a fereza da edade media, e, ao mesmo tempo, abrindo a
porta  illustrao do seculo, surgiu o romance, como guarda avanada
das letras; cruzada no menos santa, preparada no remanso do gabinete
pelos primeiros chronistas, annunciada e apregoada pelos antigos
trovadores.

O romance mostrou-se desde logo o retrato fiel da sociedade, em todas as
phases da sua vida moral e physica.

Pois que n'essas eras se manifestavam e expandiam o sentimento religioso
em guerras contra os infieis, e o do prazer em justas, torneios e
caadas, ou em saraus, onde os trovadores cantavam, ao som do alade,
amores e guerras; pois que a justia humana chamava amiudadas vezes os
delinquentes ao campo dos combates judiciarios; pois que as moradas da
nobreza eram castellos, cercados de fossos, e eriados de ameias; as
espadas, as lanas e as armaduras os melhores ornamentos das suas salas;
a montearia, a diverso predilecta das illustres castells; o romance,
reproduzindo todas estas feies sociaes, tomou a frma de novellas de
cavallaria. Amores e guerras constituiam, portanto, o assumpto obrigado
d'essas composies. A honra, o valor, a coragem, a dedicao
desinteressada, a f e a esperana estreitamente unidas, todos estes
dotes de um perfeito cavalleiro, todas estas idas, que ento occupavam
os espiritos quasi exclusivamente, at dos que no possuiam to nobres
qualidades, sobresaam e brilhavam com tanto fulgor nas paginas d'essas
novellas, como as estrellas que scintillam no manto negro da noute.


III

Em quanto as cruzadas, attrahindo a um campo commum as differentes
naes da Europa, e pondo em contacto o Occidente com o Oriente, faziam
raiar a aurora de uma nova civilisao, travavam encarniada lucta a
realeza e o feudalismo. Aquella, soccorrendo-se ao principio popular,
acabou por triumphar do seu poderoso adversario. Porm, durante a pugna,
o poder real teve de arcar com o poder theocratico, o qual, a seu turno,
alcanra victoria sobre a propria realeza.

A influencia dos pontifices no regimen dos estados, que to benevola e
providencial se ostentou, em quanto serviu de medianeira entre os
opprimidos e os oppressores, estendendo sobre os mais fracos a gide do
poder espiritual, veiu a tornar-se oppressiva e intoleravel, desde que,
abusando da sua interveno nos negocios temporaes das naes, converteu
em tyrannia aquella misso paternal.

A supremaca dos papas, actuando na politica dos governos e nas idas e
costumes populares, imprimiu uma grande modificao no viver da
sociedade. Essa modificao no tardou a estampar-se no romance,
despojando-o dos esplendores e galanteria, com que at alli se atavira,
e fazendo-lhe vestir a roupagem, modesta e singela, mas no falta de
poesia, das lendas religiosas, que l foram aninhar-se nas chronicas
monasticas, parecendo fugir s impurezas do seculo.

A f viva, sugeitando a razo alm do dogma; a esperana vivissima em
uma eternidade de gloria e de suprema ventura na outra vida, como
recompensa do refreamento das paixes e das abstinencias, e como
compensao das grandes dres; o curso geral das cogitaes e
controversias dos sabios para as materias theologicas; as diverses
populares restringindo-se, quasi exclusivamente, s procisses, nas
quaes eram admittidas dansas, e toda a sorte de exhibies phantasticas
e burlescas, aos arraiaes e outras festividades religiosas, e,
finalmente, aos autos sacros, que constituiam o theatro na infancia,
depois do seu renascimento; as provas do fogo, do ferro em brasa, e da
agua fervente, denominadas _juizo de Deus_, aceites nos tribunaes de
justia como testemunhos irrecusaveis da innocencia ou da culpabilidade:
todo este pensar e este viver reflectiam-se nas lendas religiosas com a
mesma exactido e vigor, com que o sol reflecte na superficie das aguas
a sua fronte luminosa.


IV

No  meu intento traar a historia d'este ramo de litteratura. Direi,
todavia, que d'aquelle modo continuou o romance, em todos os tempos, e
sob todas as frmas, a reproduzir em si, com mais ou menos naturalidade
e viveza de cres, as mudanas que se vo operando nas idas e nos
costumes.

D'est'arte se revestiu das frmas classicas, quando, sob a influencia
dos sabios e dos artistas, foragidos de Constantinopla, ao desmoronar do
imperio do Oriente, se operou nas letras, nas artes, e no proprio viver
da sociedade, a grande revoluo denominada _renascena_, a qual foi
inspirar-se nas obras grandiosas da antiga Grecia.

Do mesmo modo assumiu o romance a gravidade philosophica, quando
Voltaire, Rousseau, e outros grandes pensadores do seculo passado,
proclamando verdades, que faziam estremecer em seus thronos os monarchas
despoticos, convidavam os estadistas a meditarem nos problemas sociaes,
cuja semente assim lanavam  terra; e excitavam os povos a reflectir na
significao e importancia dos direitos do homem.

Assim o romance se tornou historico, logo que a sociedade, sentindo o
mal estar de uma organisao que os progressos da civilisao iam
fazendo caducar, recorria ao passado, como que procurando nos archivos
da historia o elixir para se rejuvenescer; isto , estudando nas antigas
sociedades as frmas governativas, que mais lhe quadrariam sob a
revoluo que se preparava.

Quando, em nossos dias, a applicao do vapor  locomoo e s machinas
industriaes, bem como a telegraphia electrica, pondo em facil e rapida
communicao todos os povos do globo, estabeleceram novas condies de
existencia social, que ho de operar forosamente, em maior ou menor
espao de tempo, uma transformao completa, no s no modo de viver,
mas tambem na organisao da sociedade; quando a atteno dos homens
pensadores comeava a fixar-se na grande revoluo prevista, e a meditar
nos difficeis problemas que ella em breve deveria offerecer  resoluo
dos philosophos e dos estadistas; quando a atteno geral dos povos,
desapegada das tradies do passado, se absorvia inteiramente na
contemplao do presente, admirando as maravilhas do progresso, anciando
saciar-se dos gosos, que elle gera com mo fecunda e prodiga, o romance,
deixando tambem em repouso os archivos da historia, comeou a
inspirar-se nas scenas da vida actual. E ao passo que retratava a
sociedade, dando colorido e relevo a cada uma das suas feies, lanava
 arena da discusso as novas e grandes questes sociaes.

Porm, partindo do mesmo ponto, movidos por egual impulso, os
romancistas contemporaneos, que se dedicaram a descrever os costumes e
praticas da actualidade, dividiram-se em duas turmas, seguindo caminho
differente. Uns, impellidos por uma ida elevada e generosa, pintaram
com cres negras, mas verdadeiras, todas as angustias e miserias da
sociedade moderna, estudando-lhes as causas, apontando os perigos
futuros, fazendo avultar os defeitos e defficiencias das instituies;
chamando, em fim, a solicitude dos poderes publicos para o horrivel
cancro, que vae corroendo o corpo social.  frente d'estes illustrados
romancistas colocra-se Eugenio Sue.

Infelizmente, muitos discipulos d'esta eschola, esquecendo ou
despresando os intuitos philosophicos do mestre, trataram smente de
deleitar; e reconhecendo as tendencias do seculo para os gosos sensuaes,
e para os grandes sobresaltos do espirito e do corao, puzeram em aco
todas as paixes violentas, e todos os instinctos ferozes da humanidade.
Compozeram d'est'arte,  bem certo, quadros grandiosos, cheios de vida e
de animao, scintilantes de fogo e de energia, em que se succedem uns
aos outros os episodios dramaticos, e as scenas tragicas. Mas, atravez
das galas da poesia, com que os adornaram, e sob o brilho seductor dos
ouropeis com que se esforam por atenuar, seno santificar, a hidiondez
de torpezas e devassides repugnantes, transparece o virus da corrupo
da alma, ministrado em taa de ouro  mocidade inexperiente e vida de
commoes fortes.

A outra turma de romancistas tem trilhado mais nobre senda, no
desempenho de uma misso civilisadora e santa.

Os seus romances no deslumbraro, talvez, o espirito com o esplendor
das imagens; no o sobresaltaro com a rapida successo de casos
extraordinarios; no subjugam a razo, nem expem o corao a contnuo
tremor com o longo encadeamento de commoes violentas.

Como o prado, que, sob o sol da primavera, se veste de verdores, que vae
matisando pouco a pouco de flores singelas, mas rescendendo de suaves
aromas, resplandecentes e encantadoras pela viveza e variedade das
cres; e que no inverno troca as alegrias em tristezas, as galas em
miseria, para outra vez folgar e enriquecer-se sob o novo sceptro de
Flora; assim nas produces d'estes romancistas alternam-se as scenas
meigas e suaves da familia com os tristes acasos da sorte, com as
tribulaes da desventura, emfim, com as tempestades da vida. N'estes
quadros avultam tambem os contrastes, como na natureza; os toques de luz
e de sombra, colhidos nas vicissitudes da fortuna e no tumultuar das
paixes. Figuram ahi alguns dos vicios e crimes, que so no mundo moral
a imagem das foras destruidoras no mundo physico. Mas apresentam-se,
no com o semblante vellado, embora por vo transparente, que mal deixa
distinguir-lhes a fealdade; no com as feies embellesadas e
disfaradas com arrebiques e louainhas, que fascinem e lhes conciliem
as sympathias das almas ingenuas e credulas, mas sim taes quaes so, na
sua completa nudez, em toda a sua asquerosa deformidade.

Finalmente, d'esta lucta entre o bem e o mal, figurada n'estes romances,
se a virtude ou o arrependimento coroado pela felicidade, e o crime ou
o vicio punido pela justia dos homens, ou pela de Deos, que dos
proprios vicios e crimes fez gerar o castigo que os pune na terra.

A esta turma de romancistas, a que pertence a eschola allem, veiu
associar-se uma outra, ainda mais singela e modesta, talvez, mas tambem
guiada pelo mesmo impulso generoso de deleitar, moralisando. Compe-se
esta de um certo numero de auctores de contos e tradies populares,
entre os quaes occupa logar de honra D. Antonio de Trueba.


V

Nascido na Biscaya em 1821, uma das provincias da romantica e
cavalleirosa Hespanha, to original no curso e transformaes do seu
longo viver; nascido na Biscaya, repetimos, onde se tem conservado mais
arraigado o respeito s tradies do passado, o amor aos antigos fros
populares, e o apego aos velhos costumes, D. Antonio de Trueba no podia
eximir-se a essa triplice e poderosa influencia. Bebendo com o leite
aquelle respeito; bafejado desde o bero por aquelle amor; preso
quelles costumes pelas mais doces recordaes da infancia, o seu
espirito difficilmente poderia deixar de revoltar-se contra o progresso,
que tudo nivela, abatendo o que era grande, e exaltando o que era
humilde; contra as idas do seculo, que mofam das crenas do passado;
que despojam de poesia as tradies; que parecem tender a materialisar a
vida  fora de commodidades e gosos, creados para deleite dos sentidos.

Resuscitando, pois, as tradies das antigas eras, empenhou-se em fazer
reviver, com todo o brilho d'outr'ora, as santas crenas de seus maiores.

Pondo em parallelo, em alguns dos seus contos populares, os costumes da
velha sociedade com os que se vo modificando e surgindo no meio do
desenvolvimento do espirito humano, insurge-se,  certo, contra o
progresso, e, apontando para a corrupo que elle gera e alimenta, deixa
expandir-se a sua indignao.

Mas, quando se pensa em que o auctor d'esses contos e tradies foi
creado no remanso e singeleza da vida campestre; quando se considera em
que os dias da infancia e da adolescencia se lhe deslisaram tranquillos
e alegres no seio da familia, sem que viessem perturbar-lhe o repouso,
desvairar-lhe as idas e corromper-lhe o corao, o bulicio das cidades,
o tumultuar das paixes e a seduco dos vicios; quando se reflecte em
que os verdores, e as suaves harmonias, e os contrastes pittorescos do
seu valle natal lhe infundiram n'alma a doce poesia da natureza; e que
os carinhos e maximas moraes de uma extremosa me e virtuosa perceptora
lhe fizeram o espirito meigo, franco, recto e eminentemente religioso;
quando se attenta em tudo isto, comprehende-se, acha-se natural, e
desculpa-se aquella insurreio contra os progressos do seculo.

Qual mimosa sensitiva, que se contre e desfallece ao simples contacto
da mo indiscreta ou bemfazeja, como se a ferisse duro e traioeiro
golpe; assim Trueba se confrangiu logo que, transpondo as montanhas do
seu pacifico valle, e achando-se de improviso face a face com a
sociedade, que desconhecia, viu, como que offuscando o brilho das
grandes idas do progresso, os sentimentos nobres e patrioticos, e as
aspiraes elevadas e generosas do corao humano, luctando por toda a
parte, e quasi sempre vencidas pela ambio do poder e das honras, pela
cubia do ouro, pela sde dos gosos e dos prazeres, pela fortuna dos
mais atrevidos, e pela inveja dos menos felizes. Irritou-se, vendo as
conveniencias partidarias e individuaes supplantarem muitas vezes o
interesse publico; vendo as leis severas e inexoraveis para com os
fracos e desvalidos, e frouxas e flexiveis para com os poderosos ou
protegidos; vendo elevaram-se homens, que a falta de merito condemnava 
obscuridade, emquanto ficavam esquecidos e occultos, nas sombras da
modestia e da humildade, muitos cidados dos mais prestantes; ouvindo
apregoar maximas e alardear virtudes e servios, que os exemplos e os
factos desmentiam; indignou-se, reconhecendo no curso da civilisao as
tendencias do seculo para converter nos gelos da descrena e do egoismo
o ardor da f, a luz benefica da esperana, o fogo santo da abnegao,
do amor do proximo e da patria!

Na confrontao do presente com o passado o seu juizo no podia deixar
de ser desfavoravel ao primeiro, porque tudo o que via e ouvia,
annuviando-lhe os verdadeiros resplendores do progresso, contrariava as
suas idas e os seus habitos, e derrocava pela base os poeticos e
formosos castellos, que phantaseara nos sonhos dourados da adolescencia.

E a sua rapida passagem da estreiteza de apertado valle, segregado por
assim dizer, do resto da Hespanha, para a amplido dos grandes centros
industriaes, para o seio da turbulenta e voluptuosa Madrid,
offuscando-lhe a vista, como se sahira de improviso das trevas para a
claridade, forosamente lhe havia de obstar a que visse n'essa anarchia
das ideias, n'esse desenfreamento das paixes, n'essa relaxao dos
costumes, emfim, n'essa corrupo moral, que tanto o escandalisavam, as
consequencias naturaes da grande e inevitavel revoluo social, que
estamos presenceando.

No lhe deixaria attentar em que este acontecimento  o resultado dos
maravilhosos descobrimentos do seculo XIX, os quaes acabando com as
distancias, pondo em intimas e faceis relaes todos os povos do globo,
e na presena uns dos outros todos os cultos religiosos, as locubraes
dos sabios de todo o mundo, todos os productos da terra e da industria
humana, haviam de produzir, por effeito de uma fora irresistivel, o
duro embate das velhas idas e dos interesses  sombra d'ellas creados,
com as idas e interesses, que os progressos humanitarios iam gerando e
desenvolvendo. No lhe permittiria reconhecer que d'aquelle embate havia
de nascer a lucta a todo o transe; da lucta o exacerbamento das paixes;
d'estas o affrouxamento dos vinculos sociaes e dos proprios laos de
familia; e de tudo isto a desordem nas idas e a corrupo geral nos
costumes.

 este o triste apanagio das revolues, que tendem, no a derrubar um
throno, ou a mudar uma ou outra instituio, mas sim a assentar em bases
inteiramente novas o edificio social. A nossa poca , infelizmente, um
d'esses periodos de desmoronamento, e por conseguinte de transio, que
apparecem de seculos a seculos na historia geral das naes, como
gigantescos e temerosos marcos, erguidos no caminho por onde a
Providencia impelle a humanidade, para assignalarem e separarem as
grandes phases da civilisao.

Portanto essa condemnao dos progressos do seculo, que apparece em
alguns dos contos de Trueba, em raso dos motivos que lhe do origem,
no deslustra, antes pelo contrario honra o seu corao bondoso e o seu
caracter justo e leal. Mas se alguem, mais severo, ou menos attento ao
que expendi em seu abono, quizer lanar-lhe em rosto as suas opinies
reaccionarias, leve-lhe em conta a belleza dos quadros que traa com
suavissimo pincel; a singelesa e elegancia do estylo, com que d relevo
e vida s meigas scenas de familia e aos risonhos paineis da natureza,
e, finalmente, a moralidade que ressumbra de todas as paginas dos seus
livros.


VI

D'este juizo das obras de Trueba, que se me affigura imparcial, deduz-se
naturalmente um pensamento de louvor a quem promove entre ns a
vulgarisao d'estas boas produces. Em uma quadra, como esta, em que a
litteratura portugueza est sendo a todo o momento, no enriquecida, mas
sim invadida por traduces de romances que, na maior parte dos casos,
no a honram pela pureza da linguagem, e a desauthorisam pela
licenciosidade dos costumes, que pem em seductora exposio; presta o
traductor um bom servio s letras e  moral publica.

Auctores como Trueba illustram e ennobrecem a litteratura que os adopta
e perfilha. Livros, como os seus, podem ser offerecidos  mocidade por
leaes conselheiros e guias seguros nos escabrosos caminhos da vida.

Na verso prestou o traductor verdadeiro culto aos preceitos e
exigencias da lingua materna, conservando aos pensamentos e s imagens
originaes toda a sua elevao e vigor, todo o seu brilho e poesia.

A litteratura hespanhola  to rica e variada em todos os ramos do saber
humano, quo mal conhecida, infelizmente, em o nosso paiz, n'estes
tempos modernos. Desde o principio d'este seculo temo-nos quasi
restringido a cultivar a litteratura franceza, dedicando-lhe a nossa
exclusiva admirao, em prejuizo de outras no menos opulentas e
brilhantes. Por conseguinte tambem por este lado o distincto traductor
dos contos de Trueba bemmerece dos seus concidados. O seu talento, j
provado nas lides de escriptor publico, apresenta agora n'este ensaio a
amostra do que vale no difficil genero, que encetou; difficilimo, sem
duvida, quando se quer verter em linguagem de lei os pensamentos de
auctor estranho com toda a belleza e vigor da inspirao original.

                                                     I. DE VILHENA BARBOSA.




CONTOS DE TRUEBA




NOSTALGIA--O MADEIRO DA FORCA--A NECESSIDADE--A PORTARIA DO CEU--O
PRESTE JOO DAS INDIAS




NOSTALGIA


I

Mes que tendes filhos e que fundaes a sua felicidade e a vossa em
mandal-os para Madrid ou para a America; lde este conto, que para vs o
escrevo.

No penseis que  inveno minha o que vou narrar-vos; comea esta
historia no dia 10 de novembro de 1836, poca em que Madrid era, _peor_
e _melhor_ do que hoje. Quem no entender o que deixo dito lembre-se do
que succede com a baixella de prata, que, quanto mais a esfregam, mais
brilha e menos peza.

Havia em Madrid um frio intensissimo: nevra na vspera, e antes que a
neve tivesse tido tempo de derreter nas ruas, sobreviera uma geada
fortissima, o que junto ao vento de Madrid, que mata um homem e no
apaga um _candil_, dava  temperatura d'aquella heroica cidade o
caracter e a temperatura da Siberia.

D. Joo Quijano, rico banqueiro que morava na rua de Toledo, estava no
seu escriptorio, situado nos baixos da casa, com seu sobrinho D. Lucas,
e n'uma sala contigua trabalhavam em silencio, sentados s suas
carteiras, dois caixeiros encarregados da contabilidade e da
correspondencia. O gabinete do banqueiro tinha um postigo com vidraa
que dava para o escriptorio geral, e pelo qual o tio e o sobrinho
espreitavam amiudadas vezes, no intuito de se certificarem se os
caixeiros cumpriam as suas obrigaes; phrase de que D. Lucas se servia
para os fazer trabalhar, quando os ouvia fallar em cousas alheias aos
assumptos commerciaes da casa.

D. Joo era homem de cincoenta annos, pouco mais ou menos, crado,
robusto, de nariz grande e cabelleira to bem arranjada e composta, que
os proprios caixeiros no teriam dado por ella, se no fra o genio de
sua mulher D. Joanna, que, nos seus accessos de clera, lh'o lanava em
rosto, chamando-lhe tio _cabelleira_.

D. Lucas devia ter os seus vinte oito a trinta annos; era pouco mais
alto que um co sentado, e nem a sua phisionomia, nem as suas palavras
revelavam talento ou bondade de corao. No obstante isso tolerava-lhe
o tio os defeitos, e at sentia estima por elle, no s por ser
empregado antigo da casa, mas tambem porque podia dizer-se que era D.
Lucas quem carregava com todo o peso do estabelecimento.

--Veja l, tio, disse D. Lucas a D. Joo, levantando os olhos para um
relogio, que estava collocado na parede, em frente da escrevaninha do
banqueiro,--se tem de ir  Bolsa, no se descuide que so quasi duas horas.

--Parece-me que no vou l hoje, respondeu D. Joo; quem ha de sar de
casa por um tempo d'estes? A vida  curta, e se eu morrer... tocam os
sinos a defuncto, e est tudo acabado... Demais deve estar por ahi a
chegar o pequeno e tenho desejos de o vr. Recebi pelo correio uma carta
de meu irmo Martinho, na qual este me diz que o rapaz sau de l no
primeiro do mez, na carroa de Chomin, e segundo o meu calculo, temol-o
por ahi hoje. Talvez no fosse mau mandar o Toribio  estalagem.

--No sei para que; quando elle chegar, c vir ter.

--O pobre pequeno deve vir tolhido de frio.

--No lhe d isso cuidado; no inspira compaixo quem vem como elle para
Madrid, comer bom po e boa carne, em vez de comer bra e batatas n'uma
aldeia da Biscaya.

--Pois apesar d'isso estou bem certo de que preferiria encontrar hoje,
ao apear-se da carroa, a cosinha de seus pes, com a sua priguiceira e
um bom fogo de rama de pinheiro, a entrar n'esta habitao ricamente
mobilada e com chamin  franceza.

--Parece-lhe que o empreguemos em compras e recados?

--No foi essa por certo a ideia de seus paes quando resolveram mandal-o
para Madrid.  preciso collocal-o no escriptorio a fim de que, pouco a
pouco, se v instruindo e orientando no negocio.

--Pouco a pouco! Ver como antes de um mez o fao saber mais do que
Merlin. _A letra com sangue entra_...

--No concordo comtigo, Lucas. Toma conta, no lhe ponhas sequer a mo;
no quero que acontea com este o que aconteceu com outros, que  fora
de maus tratos, os entonteceste, e tive que os mandar para a terra...

Dispunha-se D. Lucas a tomar a defesa do seu barbaro systema d'educao,
quando tocou a campainha;--calaram-se de subito, tio e sobrinho,
applicando o ouvido na direco do portal.

--Elle ahi est! exclamaram ambos a um tempo, ao ouvirem no patamar a
voz do pequeno que saudava o creado que fra abrir-lhe a porta.

--Senhor, disse este com sorriso d'escarneo, apparecendo  entrada do
escriptorio, est aqui Chomin com o _rocim-chegado_.

D. Joo franziu as sobrancelhas como descontente de que o creado se
atrevesse a proferir o estupido equivoco que vae escripto em italico, ao
passo que o sobrinho soltou uma estrondosa gargalhada em honra da graa
de Toribio, que era um asturiano tonto com pretenes a faceto:

--Que entrem, respondeu D. Joo.

Com effeito Chomin, que era um dos recoveiros das provincias
Vascongadas, entrou no escriptorio, acompanhado d'um menino de doze a
treze annos.


II

No se tinha enganado D. Joo, suppondo que a pobre creana chegaria
gelada.

Angelo (era assim que se chamava o novo caixeiro dos snrs. Quijano e
Sobrinho) estava a tiritar com frio; tinha as mos e a cara lividas e os
seus olhos indicavam que, na noite antecedente, em vez de se terem
fechado para o somno, se tinham aberto para o pranto. O pobre rapazinho
parou  porta do escriptorio, com o chapu na mo, de cabea baixa, e
mal pde articular um cumprimento.

--Ora aqui o tem, disse Chomin, depois das saudaes do estylo. Desde
que samos da aldeia, ainda no cessou de chorar com saudades das suas
vaccas e das suas cabras.

--Pobre pequeno! exclamou D. Joo, afagando Angelo.

--Deixe l, atalhou o almocreve, que o po trigo de Madrid faz esquecer
de prompto a bra de Biscaya. Bem diz o provrbio que _de Madrid s
para o co_.

D. Joo acercou-se de Angelo, e disse-lhe, correndo-lhe a mo pela cabea:

--Vamos, homem, ento, que tal achas Madrid? Parece-te melhor que a tua
aldeia?

--No, senhor, respondeu o pequeno com os olhos arrasados de lagrimas.

--Dizes bem, dizes! exclamou D. Joo, pondo-se a rir e fazendo uma nova
caricia ao rapazinho. Devem ser assim os homens; a melhor terra  sempre
aquella que nos viu nascer.

--Sim, sim, ria-se tio, disse D. Lucas, fazendo um gesto de enfado;
ria-se da sandice d'esse bruto. No ha duvida, o rapaz promette! Mas
deixa estar que caste em mos de quem te sabe ensinar!

--No se afflija, snr. D. Lucas; o _rapazelho_ pe-se fino com um bom
par de aoites todos os dias.

--Isso fica por minha conta, respondeu D. Lucas.

--Valha-me Deus; no sejam assim, replicou o banqueiro; que admira que o
pequeno tenha saudades de seus paes, se nunca se separou d'elles? E
accrescentou, dirigindo-se a Angelo: deves trazer vontade de comer?

--No, senhor, respondeu o menino, lavado em lagrimas.

--No chores, disse D. Joo; chega-te para o lume e aquece-te, emquanto
no chamam para o jantar, e logo tomars conta do teu servio e vers
como antes de um anno te tornas um verdadeiro negociante.

O pequeno approximou-se da chamin com o chapu na mo; mas como o
cegavam as lagrimas, tropeou n'uma cadeira e lanou por terra uns
papeis que estavam sobre ella.

--Desastrado! no vs por onde andas? exclamou D. Lucas, agarrando-lhe
n'um brao e sacudindo-o com violencia.

De repente effectuou-se no animo do menino uma reaco inesperada. Elle
que, um momento antes, mal se atrevia a levantar os olhos, ou a
pronunciar uma palavra, ergueu a fronte com altivez, e virando-se para
D. Lucas, disse-lhe:

--Expulse-se-me de sua casa, mas no me maltrate. Aqui maltratam-me,
emquanto na minha aldeia me choram. Como quer ento o senhor que eu
goste mais d'esta terra do que da minha?! E accrescentou, dirigindo-se
ao almocreve:

--J no quero aqui ficar; volto comsigo para a Biscaya.

Estas palavras, bem longe de commoverem D. Lucas e o almocreve, fizeram
rir este e encolerisar aquelle, que murmurou, levantando o punho fechado
sobre a cabea da creana:

--Se fosses meu filho abria-te a cabea com um murro!

D. Joo, porm, sau em defeza do pobre rapaz, arredando d'elle com
violencia seu sobrinho, e exclamando:

--Lucas, j te disse que no consinto que lhe ponhas a mo. Se o achas
rude e acanhado, se est commovido e saudoso, recorda-te de como eras
tambem, e do modo como te apresentaste quanto vieste para Madrid. E
Vm.^ce, snr. carroceiro, fique sabendo que no se tratam os racionaes
como as mulas.

--No faa caso, snr. D. Joo; isto em mim no passa de um gracejo, e
seno elle que diga a maneira como eu o tratei pelo caminho.

--Carregando-me de lenos de contrabando! O que me valeu foi no me
revistarem  entrada das portas; do contrario estaria a estas horas na
cadeia!

--No est mau modo de cuidar da innocente creana, que foi confiada 
sua guarda! exclamou D. Joo, olhando com indignao para o almocreve.
Retire-se j da minha presena, que me esto dando tentaes de dar uma
parte de si  policia.

--Ora, snr. D. Joo!... Ento o senhor faz caso do que dizem creanas?

--J lhe disse que se retire da minha presena.

--Est bem, snr. D. Joo; mas...

--No ha aqui mas, nem meio mas. Tenho dito, ponha-se no andar da rua.

O carroceiro no se atreveu a replicar e retirou-se murmurando no sei
que insolencia.

D. Joo arrastou uma cadeira para junto do fogo, e sentou-se ao lado de
Angelo que tinha cessado de chorar. O pobre pequeno estava j um tanto
mais satisfeito por ver que nem todos n'aquella casa o tratavam com
aspereza, e que se havia ali quem o maltratasse, tambem tinha quem o
defendesse e lhe proporcionasse consolaes e affagos, que lhe faziam
lembrar os que deixra no lar domestico.

D. Lucas despeitado por vr que o tio tomava as dres pelo
recem-chegado, a ponto de o reprehender a elle pela sua falta de
humanidade, tinha-se retirado para o escriptorio, e por conseguinte
ficaram ss, Angelo e D. Joo.

Era este natural da aldeia do pequeno, e posto tivesse ido para a crte
de tenra edade, e absorvessem de ordinario todos os seus pensamentos e
aces os assumptos commerciaes, nem por isso havia renegado o paiz
natal, nem esquecido os seus parentes.

--Vamos, Angelo, disse elle ao rapazinho com modo carinhoso, dando-lhe
uma palmada no hombro; conversemos um bocado cerca da nossa aldeia;
venham de l algumas noticias frescas d'aquella boa gente. Ento de quem
te despediste tu antes de partir?

--Despedi-me de todos os meus parentes e vizinhos.

--Muito bem! N'esse caso havias de vr meu irmo, no  verdade?

--Sim, senhor, recommendou-me que lhe dsse muitas lembranas, e bem
assim  senhora D. Joanna, e a D. Lucas... mas a este  que eu as no dou.

--No sei porque no, filho.

--Porque me trata muito mal.

--No faas caso, homem. Com que ento deram-te lembranas para mim?

--Sim, senhor, e especialmente o snr. abbade.

--Deve estar muito velho, o bom do padre! coitado!

--No, senhor; se o visse andar por aquelles montes ficava admirado.
Ninguem dir que tem mais de quarenta annos. Como no ha, l na aldeia,
quem no reze a Deus todos os dias para que lhe d saude, no tem nem
uma dr de cabea.

O colloquio de D. Joo e Angelo, interessantissimo para ambos elles, foi
interrompido logo em comeo pela entrada do asturiano, que tinha chamado
ao menino _rocim-chegado_.

--Senhor, disse o creado, manda dizer a senhora que est a _mesa na spa_.

O banqueiro riu-se d'esta troca de palavras e encaminhou-se para o
primeiro andar.


III

No estava a mesa na spa, mas estava a spa na mesa, e D. Joanna, a
esposa de Quijano, aguardava com impaciencia a chegada do marido, no
porque tivesse o estomago vazio, mas sim porque o seu caracter irascivel
e dominador no supportava que a fizessem esperar.

D. Joanna, que entrra como creada e acabra por ser ama em casa de D.
Joo Quijano, tinha o relogio atrazado, pois assegurava ter trinta
annos, ao passo que a sua physionomia, e o que ainda  mais, a certido
do baptismo, lhe davam quarenta.

Deter-me-hei pouco na descripo dos seus dotes physicos; direi apenas
que as creadas, que despedia todas as semanas, a mimoseavam, ao descerem
pela ultima vez as escadas, com os epithetos de: _dentes de cavallo_,
_estafermo_, e _olhos de gato_.

Quanto ao moral era D. Joanna a personificao da antithese;
alternavam-se n'ella a vaidade e a modestia, a avareza e a liberalidade,
a crueldade e a compaixo, a elegancia e a falta de gosto no vestir.

Se um dia fazia gala, em uma reunio de pessoas distinctas, de no ter
gasto at a edade de quatorze annos, outro calado que no fosse o do
seu _proprio coiro_, despedia, no dia seguinte, uma creada por a pobre
rapariga pedir, na sua innocencia, ao carteiro, que lhe lsse uma carta
do seu noivo, por isso que sua ama no sabia lr; agora despedia um
mendigo com a seguinte blasphemia: V pedir a S. Bernardino, que na
bca dos que podem e no querem dar, substitue a _supplica_--queira
perdoar, irmosinho, no pde ser agora--que costumam usar os que
querem e no podem; e logo, sabendo que qualquer vizinho estava doente e
precisado de meios, era muito capaz de lhe mandar uma boa esmola. Pela
manh dava uma _tara_ ao co por este ter mordido o gato, e de tarde
dava outra ao gato por ter arranhado o co; na quarta feira ia passear
ao Prado, de vestido de velludo, e na quinta apresentava-se no mesmo
sitio de vestido de chita.

Se sou to minucioso e at prolixo,  porque no quero que alguem
critique e censure no pintor as inconsequencias do original.

D. Joanna dominava por tal arte o marido, que a vontade d'elle estava
sempre subordinada  sua. D. Joo tremia diante d'um gesto ameaador da
mulher, e por mais d'uma vez teve ella um accesso medonho de clera s
porque o honrado banqueiro entrou em casa s dez horas em vez de se
recolher s nove.

--Ora, com effeito, disse D. Joanna, quando D. Joo entrou na sala do
jantar, j julgava que seria preciso metter-lhe empenhos, e dirigir-lhe
algum requerimento para que o senhor se resolvesse a vir jantar. Se se
persuade que eu estou para aturar as suas grosserias, est muito enganado.

--Sempre tens muito mau genio, Joanninha! disse o banqueiro, esfregando
as mos e com um sorriso affavel nos labios.

Sentou-se D. Joo  mesa, encheu um prato de sopa e passou-o a sua
mulher; esta porm empurrou-o com tal violencia, que todo o seu contedo
se entornou na toalha.

--Tambem tenho mos para me servir.

--Como gostares mais, Joanninha, disse D. Joo humildemente.

Principiaram a jantar, e por mais que o banqueiro dirigisse a palavra a
sua mulher, em tom agradavel e risonho, no foi possivel quebrar-lhe o
silencio.

Por fim resolveu-se D. Joanna a fallar, perguntando ao marido:

--Ento que negocios to importantes foram esses que o obrigaram a
deixar-me esperar por si meia hora?

--Meia hora! No sei como no disseste uma, filha!

--Faa o favor de me no contradizer! exclamou D. Joanna, com um gesto
terrivel. Eu fallo mais verdade do que voc e toda a sua gerao.

--Ento! No vale a pena alterares-te por to pouco! A dizer a verdade,
nem por isso eram l muito grandes os negocios que me prendiam;--estava
conversando com o pequeno.

--Com que pequeno?

--Com Angelo.

--Pois elle j chegou?

--Chegou, sim. Ainda o no sabias?

--No, senhor, ninguem me disse nada. N'esta casa sou eu sempre a
_ultima palavra do credo_... Pois no devia ser assim, e d'hoje para o
futuro, eu lhe protesto que no tornar a acontecer uma coisa d'estas,
porque, no fim de contas, eu  que sou a dona d'esta casa; entende o
senhor?

E dizendo isto, D. Joanna atirou o trinchador com tal furia, que fez um
prato em pedaos.

--Oh! menina!... por quem s, Joanninha.

--Deixe-me... no me diga uma palavra, quando no...

O banqueiro fez um movimento para traz, porque a mulher tinha pegado
n'uma faca e agitava-a convulsivamente.

A final o silencio e a humildade do marido desarmaram aquella megera.

--Ento, quando veiu o pequeno? perguntou ella.

--Haviam de ser duas horas, filhinha; eu suppunha que o creado t'o teria
dito.

--No me disse nada. Aquelle Toribio  um bruto, que ha de ir hoje mesmo
para o meio da rua. E que me diz tambem ao mono do rapaz, que no soube
subir para me vir cumprimentar?!

--Bem vs que elle, coitado, no sabe...

--Pois tem obrigao de saber que sou eu a dona d'esta casa.

--Em primeiro logar o pobre pequeno chegou meio morto de frio, e depois
aquelle excommungado de Lucas comeou a embirrar com elle, de modo que a
creana ficou logo sem saber de que freguezia era.

--Eu me encarrego de o pr fino com umas correias que al tenho.

--No digas isso, Joanninha; para o pr fino, como tu dizes, requerem-se
carinhos e no correias. J disse a Lucas, que comigo tem de se haver,
se lhe puzer a mo. A ti no  preciso repetir a mesma coisa, porque
tens melhor corao do que o meu sobrinho, e estou at convencido de que
has de ser para Angelo uma segunda me. Afiano-te que est morto por te
vr; a primeira coisa que fez, quando chegou, foi perguntar por ti.

Esta mentira do banqueiro foi o bastante para reconciliar Angelo com D.
Joanna, que disse:

--Mas o que faz essa creatura no escriptorio? Porque o no mandaste
subir, logo que chegou, para tomar alguma coisa? Provavelmente est
ainda em jejum, molhado, cheio de frio...

--Nada, no, elle disse-me que no tinha vontade de comer; e quanto a
aquecer-se, est no meu gabinete, sentado ao fogo.

--E porque foi, ento, que Lucas o tratou mal?

--Que queres? coisas d'elle! Por ter dito que gostava mais da sua terra
do que de Madrid.

--Santo Deus! Pois isso era motivo para ralhar com a creana? Aqui estou
eu a quem, graas a Deus, no falta nada, e no entanto, morro pela minha
aldeia...--Toribio! accrescentou D. Joanna, chamando pelo creado dos
trocadilhos, dize ao rapazinho, que est no gabinete do senhor, que suba.

--Quem, o _rocim-chegado_? perguntou o asturiano com um sorriso malicioso.

--Atrevido! exclamaram, a um tempo, D. Joanna e o banqueiro; se tornares
a divertir-te  custa d'Angelo, vaes immediatamente para o andar da rua.

O asturiano baixou a cabea, pouco satisfeito com o exito do seu
gracejo, e um instante depois subia com o pequeno.

Angelo saudou D. Joanna com bastante desembarao, e depois que ella lhe
chegou um prato de bolos, acabou de perder todo o seu acanhamento, e
respondeu com vivacidade s mil perguntas que por largo espao de tempo
lhe dirigiram os dois esposos.

--Tens muitas saudades de tua me? lhe perguntou D. Joanna.

--Muitissimas, respondeu o pequeno.

--Pois, se fres bom rapaz, hei-de estimar-te e cuidar tanto de ti, como
se fra ella propria.

--Muito obrigado, minha senhora!... disse o menino; e arrazaram-se-lhe
os olhos de lagrimas... lagrimas d'alegria e de agradecimento.

O banqueiro e sua mulher levantaram-se da mesa.

--Deixa-te estar aqui, filho, disse D. Joanna a Angelo; espera que vaes
tu agora tambem comer e os teus companheiros.


IV

Pouco depois entraram na sala do jantar D. Lucas e os caixeiros e
sentaram-se  mesa. Angelo porm conservou-se n'um canto, de cabea
baixa, receioso, e sem se atrever a levantar os olhos para D. Lucas.

--Chega-te para a mesa, selvagem, disse-lhe o sobrinho de Quijano.
Parece-me que seria melhor ires outra vez guardar cabras l para a tua
terra.

Alegrou-se o menino e sentiu-se ao mesmo tempo ferido no corao, ao
ouvir estas palavras; regosijou-o a lembrana de voltar para a sua
aldeia e enluctou-se-lhe a alma com o novo insulto que acabava de lhe
ser dirigido.

Approximou-se timidamente da mesa, mas no se chegou tanto, como devia,
segundo a opinio de D. Lucas; este dando-lhe um murro nas costas exclamou:

--Chega-te mais, bruto! A culpa tem quem no deixa ficar estes animaes a
pastar no campo, ou os no faz comer, quando muito, n'uma manjadoura em
logar de mesa!

Todos os caixeiros do banqueiro desataram a rir em honra do chiste de D.
Lucas.

O pobre Angelo derramava entretanto uma torrente de lagrimas, e
comparava as caricias da sua familia com aquellas offensas barbaras e
grosseiras.

--Ento, comes ou no comes? perguntou D. Lucas.

--No tenho vontade, respondeu Angelo.

--Tanto melhor; d'esse modo no corres perigo de agarrar alguma
indigesto, e ho de abater essas bochechas de _frade Bernardo_.

Por unica resposta continuou Angelo a chorar e a suspirar pelos paes,
pelos irmos, pelos seus companheiros d'infancia e pelas queridas
montanhas de Biscaya, onde at ali tinha vivido to livre, to estimado
de todos e to feliz!

E os caixeiros de Quijano a escarnecerem-n'o, a rirem-se d'elle, sem a
mais leve sombra de compaixo, como se a pobre creana fosse um corpo
sem alma, como se a considerassem sem corao para sentir!

 na verdade uma coisa que indigna e irrita as pessoas sensiveis, e que
at revolta o animo, a falta d'humanidade com que so, de ordinario,
tratados nos grandes centros, e particularmente em Madrid, os rapazes
que para ali so mandados das aldeias!

Chega uma pobre creana, que nunca sau do seio da sua familia, onde, se
a no cercavam riquezas e commodidades, lhe sobravam carinhos e ternos
cuidados; chega ordinariamente cheia de frio, extenuada de fadiga,
muitas vezes at com fome, e sempre saudosa e triste, e em logar de a
confortarem e de lhe proporcionarem carinhos, de que necessita ento
mais do que nunca, todos a escarnecem, todos zombam da sua innocencia e
da sua humildade, das suas lagrimas e da sua linguagem.

Ai! no accuseis o auctor d'este livro de se entregar a falsas
declamaes; a justificao d'essas palavras conserva-a elle impressa na
sua memoria propensa a recordar, e no intimo do seu corao sempre
disposto a perdoar, para nunca mais sar d'ali.

Durante a primeira tarde, que passou em casa de D. Joo Quijano, foi
Angelo victima da selvageria, que estou condemnando. Abusaram
indignamente da sua natural simplicidade e prudencia, obrigando-o a
praticar um certo numero de coisas, que repugna enumerar; por ultimo
fizeram-n'o persuadir de que todas as pessoas que entravam pela primeira
vez em Madrid, careciam de ser pesadas a fim de pagarem uns certos
direitos proporcionaes ao peso que tivessem.

Puzeram-n'o em cima d'uma balana, e ali o conservaram por tanto tempo,
que a pobre creana j tinha o corpo quasi desconjuntado; quando
terminou aquella experiencia de martyrio, que faz lembrar os tormentos
inventados por Diocleciano e Torquemada, teve elle de soffrer outro
talvez mais doloroso ainda, qual o das mofas e zombarias dos seus
verdugos, que desapiedadamente lhe retalhavam o corao!

E os caixeiros do banqueiro, homens barbados, que, como taes, estavam
constituidos na obrigao de proteger o fraco e de consolar o triste;
que eram chamados a desempenhar graves e sagrados deveres na sociedade,
mostravam-se contentes com a sua obra, e imaginavam-se, talvez, cheios
de talento e de graa por haverem illudido e martyrisado uma creana,
que, pela primeira vez na sua vida, vertia lagrimas de desespero, longe
de seus paes que a idolatravam, e das queridas montanhas da sua patria!

Tudo soffreu a pobre creatura em silencio; nem sequer lhe restou o
linitivo de se queixar a D. Joo dos barbaros tratos de que foi victima;
prohibiram-lh'o os seus verdugos com ameaas que lhe infundiram novo
terror e novo desalento.


V

Dormia toda a familia de Quijano no andar nobre da casa,  excepo do
caixeiro mais moderno e dos ces, que se acommodavam no pavimento
terreo, destinado quasi exclusivamente ao escriptorio e suas dependencias.

Os dois ces, Moiro e Pomba, dormiam no gabinete do banqueiro, que
estava ricamente mobilado, ao passo que o caixeiro se alojava n'um
quarto pequeno e humido, alumiado apenas por uma especie de fresta ou
gateira aberta na parede, situado n'um patamar constantemente varrido
pelo vento que entrava da rua e pelo que vinha d'um pateo que havia nas
trazeiras da casa; a mobilia d'esse mesquinho aposento consistia toda em
um leito de pinho com colcho, dois lenoes, um cobertor, um travesseiro
e um lanceiro ou cabide tsco para pendurar o fato e... grandes
cortinados de teias d'aranha pendentes do tecto.

Em tempo dormia o caixeiro mais moderno (rapaz de tempo) n'um quarto
excellente do andar nobre; D. Lucas porm havia disposto as coisas por
outra frma, muito antes da poca a que me refiro; tinha l umas ideias
_suas_ d'hygiene, em virtude das quaes dizia que muitas vezes os
caixeiros adoeciam por passarem repentinamente d'uma vida incommoda para
uma vida commoda, d'um colcho duro para um colcho molle, d'um quarto
mau para um quarto bom.

Quiz o tio oppr-se quella estupida innovao, ponderando que o que
fazia adoecer os rapazes que entravam para sua casa no era seno o
pessimo tratamento que recebiam de D. Lucas; este porm, taes argumentos
empregou em defesa da sua theoria, que, para se livrar de polemicas,
teve o pacifico banqueiro de concordar com elle. Os rapazes continuaram
a adoecer, mas D. Lucas afirmava ao tio que tudo aquillo era fingimento
e impostura para que os deixassem dormir no andar de cima, e o bom do
banqueiro, que j no tinha pequena cruz nas teimas e ralhaes de sua
mulher, no quiz continuar em divergencia com o sobrinho, e acabou por
admittir o seu barbaro systema penitenciario.

Patres e caixeiros ceavam quasi simultaneamente, sendo as sbras da
mesa dos primeiros servidas aos segundos. D. Lucas comia de ordinario
com estes, excepto porm nos dias sanctificados e  noite, que fazia
companhia aos tios. No podia o sobrinho do banqueiro tolerar que os
caixeiros fumassem, e no obstante tinha uma paixo desmedida pelo
tabaco; mas diante do tio no era capaz de fumar, e isto explica-se
facilmente. D. Lucas comeou a fumar quando, pela sua pouca edade,
carecia para o fazer de occultar-se do banqueiro; e mais tarde, quando
j eram escusadas essas precaues, continuou a matar o vicio s
occultas, talvez por habito, e talvez tambem por no dar o seu brao a
torcer, por isso que em tempo tinha jurado e tornado a jurar ao tio que
bastava o cheiro do tabaco para o transtornar completamente.

Erguia-se da mesa, ainda com o bocado na bocca, e entrando na cosinha,
onde comiam os caixeiros, apertando o seu cigarro, que se no atrevia a
accender, com medo de que na sala se presentisse o cheiro, pegava n'um
castial e dava a voz de _deitar_ ao _rapaz de tempo_. Achava-se este
ainda em meio da ceia, por isso que os outros lhe levavam sempre um
prato de vantagem, mas D. Lucas estava desesperado por fumar, de maneira
que o pobre rapaz no tinha outro remedio seno levantar-se da mesa, dar
as boas noites a toda a familia, comeando pelos caixeiros, e seguir a
D. Lucas, que j pelas escadas abaixo tirava cada fumaa que valia bem
um dobro.

Em quanto o pequeno se deitava, alumiado pela vela collocada no
corredor, em frente da porta do quarto, acabava D. Lucas de fumar o seu
cigarro, pegava no castial, fazia quatro festas aos ces, deitados n'um
colchosinho muito ffo, e em seguida subia as escadas a fim de passar
um bocado da noite na companhia dos donos da casa.

Se D. Joo tivesse um hospede e este lhe perguntasse a razo porque o
sobrinho descia ao escriptorio, ainda bem no tinha acabado de cear,
seria esta a resposta do banqueiro:

--Vae deitar os ces e o pequeno, dar uma vista d'olhos l por baixo,
vr se est tudo bem fechado, e demora-se at poder trazer para cima a
luz, porque aqui em Madrid  preciso muito cuidado com os fgos. Como
estes rapazes so em geral muito _dorminhocos_ e Lucas entende que por
ns gostarmos de palestrar o nosso bocado, no se segue que o pequeno
esteja para ahi a turrar com somno, d-se pressa em o levar para a cama.

Succedeu a Angelo nem mais nem menos do que aos seus antecessores, com a
differena, porm, de que  pobre creana lhe foi dobradamente mais
custoso deitar-se a meia rao, por isso que todo o dia estivera fazendo
cruzes na bocca, e quando o chamaram para a ceia tinha fome canina.

Uma pessoa adulta, oppressa pelo peso de to profundo desgosto como era
o d'elle, teria olhado para a comida com repugnancia, ainda que
estivesse a car de fraqueza; mas  que uma pobre creana, se acontece
perder o appetite por espao d'algumas horas, prompto o recupera, por
mais acerbos e cruciantes que sejam os seus desgostos.

Angelo deitou-se e Dom Lucas despediu-se d'elle do seguinte modo:

--Ora queira Deus que pela manh no haja preguia! Aqui no se trata s
de comer e dormir. s seis horas _varrer_ bem o escriptorio.

Dom Lucas, como temos visto, usava muito d'essa especie de linguagem
impessoal inventada pelos lacaios com o fim de se esquivarem a dar
tratamento.


VI

Angelo, com a solido do seu aposento, deu-se por compensado da parte da
ceia de que a maldade de D. Lucas o privra. Al podia sequer chorar
desafogadamente, podia rogar a Deus que o restituisse s suas montanhas,
invocar o nome de seus paes, e execrar at os seus algozes, sem que uma
gargalhada de despreso, um dito humilhante ou uma pancada fossem
perturbal-o nas suas cogitaes.

Ai! muito chorou a pobre creana, n'aquella noite!

--Como  triste viver em Madrid! pensava elle. E dizerem na minha terra
que--_de Madrid s para o co!_--As pessoas que dizem isso de certo
nunca estiveram aqui! As ruas e as praas esto convertidas em lodaaes
immundos; a gente anda toda aos encontres; as carruagens e os cavallos
atropellam e cobrem de lama os transeuntes; as goteiras alagam os
individuos que seguem pelos passeios; e o vento que sopra das portas faz
rebentar o sangue nas mos e na cara!

 bem differente d'isto o meu querido paiz, os campos amenos da Biscaya!

L alveja a neve lisa e pura por sobre a relva e as penhas, nas arvores
e nos telhados, e quando o sol ou a chuva a derretem no  em lodo que
se converte, mas sim em cristallinos arroios; l no se apinha,
confunde e atropella a gente, o gado e os carros, que a todos Deus
concedeu campo e largueza por onde se espalhem  vontade; e se tambem
ali sopra o ar frio do inverno,  ar que d saude em vez de tiral-a.

Ai! quo differente teria corrido para mim o dia, se o passasse na minha
aldeia! Se l estivesse, andaria no campo a patinhar no gelo; teria
feito grandes blas de neve no alto da montanha, para as vr
despenhar-se no valle; em seguida voltaria a casa, e depois de ter
almoado junto do lume, subiria  trapeira para apanhar os passaros, que
ali vo abrigar-se do mau tempo e procurar o sustento que no encontram
nos campos cobertos de neve; e  noite, em quanto minha me estivesse
preparando a ceia, contar-me-hia meu av as suas faanhas da guerra da
independencia. No fim da ceia iria para a cama acompanhado por minha
me, que depois de me cobrir e agasalhar cuidadosamente, se despediria
de mim, como de costume, com um dce beijo. Ai! que differena! assim
no estaria, como agora estou, acordado e a chorar, mas dormiria
tranquillo e socegado at que, com outro beijo, fosse despertar-me pela
manh!

Entregue a to saudosos pensamentos passou Angelo em claro quasi toda a
noite. J se ouviam na rua os preges dos vendilhes e fornecedores da
cidade, o barulho dos carros e os passos dos transeuntes, quando,
vencido pela vigilia, e tomado do cansao do corpo e do espirito, cau
n'um benefico somno.

Adormeceu profundamente; rosaram-se-lhe as faces, e a posio em que
ficra e a sua respirao serena e plcida, revelavam uma dulcissima
tranquillidade d'espirito; entreabria-lhe os labios aprasivel sorriso,
e, de vez em quando, soltava d'elles os nomes de _pae_, _me_, e outros
como estes saudosos e gratos ao corao da desventurada creana.

Agora sonhava que se achava na aldeia, cercado da sua familia ou
brincando com os seus companheiros de infancia; depois, que trepava ao
cimo das arvores em busca d'um ninho de rla, ou de pombo torcaz;
derribava s pedradas as mas e as nozes; corria ao bosque a fazer
assobios da casca do castanheiro, ou ao ribeiro para construir moinhos
de junco; logo subia ao alto da montanha, coroada por uma ermida, em
roda da qual andava o tambor chamando para a romaria. Por ultimo sonhava
que era noute de S. Joo, que todo o valle estava illuminado pelas
fogueiras accesas nos oiteiros, e o inundavam d'alegria o repique dos
sinos, os morteiros, as cantigas e os gritos de jubilo, que acompanham
sempre aquella festa classica e essencialmente infantil!

Embalado n'estes sonhos deliciosos, que lhe representavam todos os
encantos do seu paiz natal, sonhos que melhor do que ninguem pde
adivinhar o auctor d'este livro, porque tambem chorou e sonhou como
Angelo, no ouviu o pobre menino as sete horas que bateram compassadas
no relogio do escriptorio.


VII

Manoel e Marianno (eram estes os nomes dos dois caixeiros do banqueiro)
desceram as escadas, e vendo que Angelo se no tinha ainda levantado,
dirigiram-se para o seu aposento.

-- melhor acordal-o, dizia Manoel, porque se chega D. Lucas e o
encontra a dormir no deixa de lhe fazer a operao do costume.

--E que tem l isso? replicou Marianno, para ns  at um divertimento.
A pena que me resta  no haver aqui  mo um bom molho de ortigas.

--No tenhas mau corao. J no soffreu pouco hontem o pobre pequeno,
principalmente com a historia da balana.

--E que tem que soffresse?! Tambem ns soffriamos quando eramos como elle.

--Pois por isso mesmo que a ns nos trataram mal  que eu entendo, que
devemos tratar agora bem os que se acham em identicas circumstancias.

E dizendo isto, approximou-se da cama de Angelo, e principiou a abanal-o
e a chamar por elle; mas o menino estava to ferrado no somno, que
continuava a dormir profundamente.

--Que  l isso, perguntou D. Lucas, apparecendo  porta do quarto.
Ento esse estupido ainda est na cama?!

--Est, sim, senhor, respondeu Marianno.

D. Lucas proferiu uma praga e accrescentou, dirigindo-se a Marianno:

--Vaes vr como esperta n'um instante. Traz-me l de cima, da talha, uma
bilha d'agua para se lhe applicar o remedio.

Marianno, que parecia feito  similhana de D. Lucas, obedeceu de
prompto, e largou pelas escadas acima, esfregando as mos de contente.
No primeiro andar, e debruado n'uma varanda de ferro que dava para o
pateo interior da casa, coberto por um tolde, estava Toribio, escutando
o que se passava em baixo, pois d'alli se ouvia tudo perfeitamente.

--Que temos, snr. D. Marianno, perguntou elle ao caixeiro.

--Vou buscar uma bilha d'agua para fazermos a _operao_.

--Ao _rocim-chegado_?

--Nem mais nem menos; vem d'ahi, se te queres rir.

--Isso j a mim me palpitava, que se lhe havia de fazer o _remedio_. Mas
a agua no deve ser da talha; essa est pouco fria por causa da
proximidade do fogo. Temos aqui um bom jarro d'ella, que, de proposito,
deixei ficar de noite sobre o alpendre.

--s um rapaz de talento, Toribio! exclamou, rindo, Marianno, em quanto
o bruto do creado pegava no jarro da agua.

--Deve estar excellente! accrescentou, vendo-a coberta d'uma espessa
crusta de gelo, que foi quebrando com os ns dos dedos,  maneira que
descia os degraus da escada.

Toribio no quiz privar-se do barbaro goso de assistir ao martyrio que
ia soffrer a pobre creana, e correu, todo alvoroado, atraz de Marianno.

Dom Lucas pegou no jarro, e afastando para o lado a roupa que cobria o
menino at ao pescoo, despejou-lhe de golpe toda a agua por sobre o
peito, com grande satisfao de Marianno e Toribio. Manoel, esse,
coitado, estava compungido da sorte do rapazinho. Angelo soltou um grito
e ergueu-se de subito, ao sentir no corpo a agua gelada.

--Isto  para vr se acordas! disse D. Lucas, e completou a phrase com
uma nova praga.

O menino no replicou, nem tratou sequer de desculpar-se. Atirou
immediatamente comsigo da cama abaixo, e vestiu-se sem proferir uma
palavra. Os seus olhos no derramavam lagrimas, mas derramava sangue o
seu corao! Tinha  cabeceira da cama uma estampa, j enegrecida pelo
tempo, representando Jesus crucificado. Ergueu os olhos para a divina
imagem e exclamou no intimo de sua alma afflicta:

--Senhor, levae-me j para o co ou para as minhas montanhas!


VIII

Do seio d'aquella nuvem de tristeza que o cercava, luziu para o pobre
Angelo um raio de esperana. Pelas conversas que ouviu, de D. Lucas e
dos seus companheiros, veiu no conhecimento de que os caixeiros do
banqueiro tinham licena de sar nos dias santificados e para logo
concebeu a esperana de gosar tambem d'esse prazer, libertando-se da
tristeza e da oppresso de toda a semana, n'aquelle dia de folga e de
liberdade.

De quantas necessidades experimentava era por certo a maior a de
respirar por algum tempo livremente, vendo o co e o sol, as arvores e
os campos.

Manoel era o unico que dirigia a palavra a Angelo sem aquella aspereza e
zombaria com que sempre lhe fallavam D. Lucas e Marianno. Por isso,
depois de dois dias de hesitao, abalanou-se o menino a perguntar-lhe
se tambem lhe dariam, a elle, licena para sar ao domingo para o campo..

--De certo, isso nem se pergunta, respondeu Manoel.

Esta resposta, que a outro qualquer pareceria em extremo laconica, fez
verter lagrimas de agradecimento e de alegria a Angelo; de agradecimento
porque encerrava em si um thesouro d'indulgencia, comparada com as que
todos os dias recebia n'aquella casa, e de alegria por lhe vir confirmar
as fagueiras esperanas que nutrira.

As palavras de D. Lucas j no pareciam  innocente creana sccas e
desabridas, nem to pouco se lhe afiguravam crueis os motejos de
Marianno e de Toribio; j no julgava insupportavel o trabalho a que o
submettiam desde pela manh at altas horas da noite, e at o quarto em
que dormia, humido e frio, triste e isolado, lhe parecia confortavel e
alegre desde que n'elle sonhava com os prazeres do domingo, embalado nas
risonhas esperanas de disfructar, ao menos um dia na semana, gosos
similhantes quelles, que diariamente o deleitavam nos campos do seu
paiz natal.

--Se os bosques e os prados da minha terra so to formosos, pensava
elle, como no ho de ser encantadores os d'aqui, se at por elles
passeiam os reis e a sua crte? E quando as caadas, l nos meus sitios,
so to divertidas, o que no acontecer em Madrid, onde tudo deve
participar da grandeza da capital?

E os aprestes de caa de D. Lucas! Como so ricos! a espingarda e o
polvarinho marchetados de prata, e as polainas e os correes bordados a
sda! Muito me hei de divertir! Parece-me que j estou a atravessar
espessos bosques de carvalhos e castanheiros seculares, a passar regatos
cristallinos, e torrentes espumosas, e a vr, a meu salvo, do alto d'uma
fraga, do cimo d'uma collina ou da copa d'uma arvore, o javal e o veado
perseguidos pelos ces. Por fim, ao car da tarde, quando tivermos
reunido uma boa poro de formosas rezes, iremos descanar debaixo das
ramadas ou das nogueiras que fazem sombra aos casaes, onde no deixaro
de nos offerecer excellente leite e fructa saborosa. E quando entrarmos
na cidade! Com que orgulho, com que alegria no atravessaremos ns essas
ruas, com grandes enfiadas de perdizes s costas, e trazendo  arreata
uns poucos de burros carregados de javals e lebres!

Chegou finalmente o domingo to desejado. O co appareceu limpido e
puro; despontou o sol mais formoso que nunca, e um vento forte, que
soprra toda a noite, tinha seccado completamente o solo. Tudo
contribuia para aformosear e revestir de galas o dia destinado a
compensar Angelo dos desgostos e maus tratos que soffrera at ali.

Na vspera  noite tinha dito D. Lucas aos caixeiros, em presena dos
donos da casa, que eram fieis observadores dos preceitos religiosos:

--Amanh _levantar_ cedo para ouvir missa antes de partir para o campo.

Os caixeiros, e bem assim D. Lucas, levantaram-se effectivamente muito
cedo, mas no foi para ouvir missa.

Bem se importava D. Lucas com a missa, quando se tratava de caa que era
o seu divertimento favorito!

O sobrinho de Quijano marcou tarefa a cada um dos rapazes. Angelo foi
encarregado de fazer varetas de junco, Manoel de encher de polvora os
polvarinhos e de chumbo as bolsas dos correes, e Marianno de fazer
proviso de fulminantes.

Soou finalmente a hora da partida; D. Lucas, Manoel e Marianno calaram
botins muito grossos, afivelaram vistosas polainas bordadas a seda de
differentes cres, lanaram s costas grandes saccos de caa e
armaram-se no s de espingardas de dois canos, como tambem de facas de
matto; por ultimo tiveram o cuidado de metter para os bolsos um bom
punhado de balas.

Angelo olhava para aquelles preparativos com indizivel satisfao, e
dizia com os seus botes:

--Estas polainas, estes enormes saccos de caa, estas facas de matto e
estas balas indicam que vamos correr montes espessos e escabrosos, que a
caa deve ser abundante e que de certo nos temos de haver com javals
ferozes, e talvez at com ursos e lobos.

O que porm dava que entender a Angelo era vr que D. Lucas se dispunha
a levar comsigo os dois cesitos de casa do banqueiro, que no podiam
ter foras para arrostar com os perigos e fadigas d'uma caada como a
que elle phantasiava na sua infantil imaginao.

Saram a final, e tomaram pela rua abaixo; muito barata ha de estar
manh a caa! diziam algumas pessoas ao verem-n'os passar.

E Angelo, que no comprehendia a ironia que se continha n'estas
palavras, cada vez se confirmava mais na ideia que tinha formado da caada.


IX

Quando avistaram a porta de Toledo, ficou Angelo a pular de contente;
mais alguns passos apenas e estavam no campo, onde ia recrear a vista na
contemplao d'uma perspectiva encantadora; era esse o juizo que
formava, e que tinha como certo.

Se tanto o deleitavam as ridentes paisagens do seu paiz, com mais razo
entendia a pobre creana que o haviam de captivar as dos arredores de
Madrid, a capital da Hespanha onde tudo devia ser magnifico e admiravel.

L, na frente, pensava elle, ho de avistar-se talvez grandes montanhas
cobertas de frondoso arvoredo; a um lado elevar-se-ha uma verde colina
coroada pelas ruinas d'um castello mysterioso e sombrio; do lado opposto
erguer-se-ho s nuvens penhas alcantiladas, por entre as quaes se
despenharo com rouco bramido impetuosas torrentes, e pelas faldas dos
montes ha de estender-se por certo uma veiga deliciosa, semeada de
casinhas brancas, e regada por um rio caudaloso, em cujas ribas estaro
collocados, destacando no horisonte, inumeros monhos, completando a
paisagem com os seus tectos elegantes e pittorescos...

 este o espectaculo grandioso, que vae, n'um momento, offerecer-se aos
meus olhos!

E vendo que estavam quasi a chegar  porta, desceu Angelo a vista com o
proposito firme de a no levantar, em quanto no sentisse debaixo dos
ps a herva do campo, para assim poder abranger a um tempo e de repente,
o formoso panorama, que se lhe desenhava na mente.

A areia e a brisa subtil do Guadarrama, e no esse tapete de mimosa
relva, que sonhra, lhe fizeram conhecer que j se achava fra de Madrid.

Ergueu de subito os olhos e abarcou ancioso com a vista a paisagem, que
tinha diante de si.

Ai! que differena entre o panorama, que se lhe apresentava e aquelle
que phantasira na sua pueril imaginao!

Em frente limitavam o horisonte os crros escalvados e agrestes de Santo
Izidro, coroados no de arvores formosas e de castellos mysteriosos, mas
sim de telhados denegridos pelo fumo e de lugubres cemiterios,
circumdados de muros de terra. Do lado esquerdo uma planicie estril e
montona, da qual os accidentes mais bellos so o crro dos Anjos e o
crro Negro.  direita as vendas ou retiros miseraveis e as aridas
encostas, que dominam a ponte de Segovia; e em baixo, na planicie, o
triste Manzanares, arrastando-se penosamente por entre muladares e
lavadouros!...

Um cruel desalento e uma profunda melancholia se apoderaram para logo de
Angelo; comtudo no perdeu de todo a esperana de deparar com o paraiso
dos seus sonhos.

--Quem sabe? pensava elle, talvez que ao transpor aquellas imminencias
se descubra uma paisagem menos arida e triste do que esta que d'aqui se
observa. E seguindo os seus companheiros, atravessou o Manzanares pela
ponte de Santo Izidro. De repente D. Lucas parou, recommendando, por
signaes, aos outros que no fizessem bulha. Todos obedeceram, e elle
ento adiantou-se, nas pontas dos ps, agachando-se cautelosamente, e
com os perros da espingarda levantados.

Angelo suppoz que D. Lucas teria avistado alguma lebre, ou pelo menos um
bando de perdizes. Por fim o grande caador de Madrid disparou a arma, e
exclamou cheio de alegria:

--L cau, l cau! quelle j ninguem lhe vale!

E desappareceu por entre os choupos da margem do rio. Alguns momentos
depois tornou a apparecer, mostrando triumphante um passaro _ribeirinho_
que acabava de matar!

As illuses de Angelo soffreram um novo golpe. Que caada era aquella em
que os caadores se alvoroavam tanto com a morte d'um passarito? Para
que serviam ento tantas balas, tantas facas de matto e tantos saccos e
correes de caa?!

Os caadores treparam aos crros de Santo Izidro, e Angelo dirigiu a
vista para o novo horisonte. Alli, como na porta de Toledo, no via para
todos os lados para onde olhava, seno ridas serranias, collinas
escalvadas, umas poucas d'arvores rachiticas, e alguns silvados e
espinhaes, contornando o regato de Luche.

D. Lucas no desanimava como Angelo. Atravessando campos semeados, atraz
d'um pardal ou d'uma cotovia, foi-se affastando, poupo e pouco, seguido
pelos seus companheiros. Angelo j se sentia fatigado, e outro tanto
acontecia aos dois _improvisados_ ces de caa. Sentou-se por fim n'uma
pedra, e os cesitos, vencidos egualmente de canao, deitaram-se n'um
rego do campo; D. Lucas, porm, vendo isto, deu um empurro  pobre
creana, e affagando os ces, obrigou-a a carregar com elles.--Tu que
no pdes leva-me s costas.

Como D. Lucas seguisse a margem do ribeiro de Luche, saltou-lhe um
coelho de entre os ps. D. Lucas disparou-lhe um tiro a corta-matto,
porm o coelho proseguiu no seu caminho sem ter soffrido o _mais leve
incommodo_.

O caador soltou uma praga e affirmou aos seus companheiros, que o
coelho ia ferido, e que se no tinha morrido logo ali, a culpa no era
sua, mas sim da polvora, que no prestava para nada. E o pobre Angelo
que j no podia com o corpo, e menos ainda com a alma, continuava a
seguil-os, carregado com os ces.

Com estas e outras proezas foi passando o tempo, e os caadores tomaram
por ultimo o caminho de Madrid, levando nos correes meia duzia de
passaritos.

De vez em quando Angelo ficava para traz, e o sobrinho do banqueiro
ajudava-o ento a andar, proferindo uma praga, ou dando-lhe um pontap.

Junto  porta de Toledo, encontraram um caador, que levava quatro coelhos.

--Ol, tio Lobo! disse D. Lucas; pelo que vejo no lhe correu mal, hein?

--Assim, assim, snr. D. Lucas; e o senhor, que tal?

--Ora deixe-me, homem, estou desesperado com esta maldita polvora.

--Ento que tem? est humida, talvez?

--Nada, humida no est; mas no sei o que tem, que no presta para
nada; dei hoje mais de vinte tiros, e vi fugir todas as peas de caa
feridas.

--Pois a mim  que isso no acontece; a caa que me fugir preguem-m'a na
testa. Tenho uma polvora de contrabando, que no quero que haja melhor.

--Homem, vende-me vocemec uns poucos d'arrateis?

--Com muito gosto, snr. D. Lucas; qualquer dia d'estes l lh'os levo a
casa.

--Muito bem. Vamos agora a vr esses _bicharcos_.

--Pde vr  vontade, que so quatro peas de caa aceiadas.

--Isso vejo eu. Provavelmente so para vender na praa?...

--Est bem de ver, nem a gente vive d'outra coisa.

--Pois, n'esse caso, fico eu com os coelhos.

--Esto s suas ordens, snr. D. Lucas.

--E quanto lhe hei de dar por elles?

--D-me aquillo que o senhor quizer.

--Est bom, ahi tem um duro, serve?

--Muito obrigado, snr. D. Lucas. O que eu desejo  que os senhores os
comam com sade. At outra vez, se Deus quizer.

--Adeus, tio Lobo.

O _verdadeiro_ caador tomou a dianteira aos caixeiros de Quijano. D.
Lucas tratou logo de enfeitar o seu correo com os quatro coelhos, e
pouco depois entrava em Madrid, to inchado que no cabia na rua de
Toledo, e causando inveja quelles que ainda pela manh tinham zombado
d'elle.


X

Dois ou tres dias depois da famosa caada, estavam no gabinete de D.
Joo Quijano, palestreando junto do fogo, o banqueiro, seu sobrinho D.
Lucas e quatro ou cinco amigos intimos da casa.

Fra, no escriptorio, trabalhavam em silencio os caixeiros e com elles
Angelo, cujas cres rosadas iam pouco e pouco desapparecendo, e cuja
tristeza era cada vez mais profunda.

--Como vamos ns de caa, D. Lucas? perguntou um dos amigos.

--s mil maravilhas, respondeu D. Lucas.

--Meu sobrinho, acudiu o banqueiro, est sendo o rei dos caadores! Pois
no sabem que, domingo, teve a habilidade de se apresentar aqui com
quatro coelhos, que pareciam quatro bezerros?!

--Que nos diz, homem?

--Nem mais nem menos,  como lhes conto. Aprendam como elle a matar
coelhos onde ninguem os costuma matar, nos suburbios de Madrid.

--Sempre queria saber como isso foi, disse um dos interlocutores.

--Tem pouco que saber, disse D. Lucas. Matei domingo quatro coelhos,
junto ao ribeiro do Luche. Aquillo foi n'um abrir e fechar d'olhos, e 
preciso advertir que a polvora no prestava para nada.

--No sei como isso se faz; eu c, por mais voltas que dou, no sou
capaz de levantar um coelho por estas visinhanas.

-- porque os senhores so caadores das duzias! Eu por mim, nem sequer
preciso de co; havendo coelho, est prompto; fao-o saltar, e depois de
lhe atirar, nem todos os santos lhe valem, porque onde eu puzer a vista
ponho o tiro. Pum! coelho a terra!... Os quatro de domingo foi um
momento em quanto caram.

--Pois, senhor, no tem que vr,  um bom caador!

D'isso est elle convencido. A caada de domingo ha de ser apregoada por
toda a cidade; no falla d'outra cousa a quantas pessoas aqui entram!

Estava ainda o sobrinho do banqueiro narrando, com toda a miudeza, como
matra os quatro coelhos, quando entrou no escriptorio o tio Lobo, que
ia levar a D. Lucas os dois arrateis de polvora de contrabando, que este
lhe encommendra.

--Esta ahi o snr. D. Lucas? perguntou o caador aos caixeiros.

--Sim, senhor, respondeu Angelo.

--Pois faa favor de lhe dizer que est aqui fra o tio Lobo, que o
procura.

O pequeno entrou no gabinete.

D. Lucas, que ainda no tinha acabado de contar como matra os quatro
coelhos, ficou logo furioso por lhe interromperem a historia, e antes
que o pequeno tivesse tido tempo de fallar, perguntou-lhe, com aquella
amabilidade que lhe era propria:

--Que queres tu d'aqui, borrego?

-- que est ali fora o Lobo, respondeu Angelo.

Desataram todos a rir, vendo a relao casual, que havia entre a
pergunta e a resposta.

No era para admirar que Angelo omitisse a denominao de _tio_, que
costumava preceder o nome do caador, porque esse tratamento, que  to
vulgar em quasi toda a Hespanha, no se usava nem se usa, na sua
provincia, seno quando o justificam os laos de consanguinidade.
Julgando por tanto que se riam por no se haver explicado bem, ficou
corrido de vergonha, e tratou de se fazer comprehender melhor.

--Parece-me que  assim que tenho ouvido chamar-lhe; e accrescentou, 
aquelle caador a quem o senhor comprou domingo os quatro coelhos junto
 porta de Toledo.

Estas palavras de Angelo foram acolhidas com uma gargalhada ainda mais
ruidosa do que a anterior, porm menos inoffensiva; uma gargalhada de
mofa, insultante, sangrenta, e isto porque os caadores tm dois grandes
defeitos; so geralmente embusteiros e invejosos, e assim como no
perdem a occasio de mentir, tambem no perdem nunca o ensejo de
humilhar os que caam, ou suppem caar mais do que elles.

D. Lucas ficou por espao d'um segundo immovel, envergonhado e corrido;
porm, de repente, injectaram-se-lhe os olhos de sangue,
engorgitaram-se-lhe as veias, e tornou-se completamente livido e
desfigurado.

Arremeou-se como um tigre sobre a pobre creana, vociferando e
praguejando como possesso, e lanando-lhe as mos ao pescoo, levou-a
d'encontro  parede e comeou a descarregar-lhe furiosas patadas no
estomago, antes que D. Joo e as outras pessoas, que se achavam
presentes, tivessem tido tempo para se interpor entre aquella fera e o
innocente cordeiro, que, por unica defesa, invocava o nome de sua me.

Oh! tu, Fernan Caballero, nobre e generoso cantor do nosso bom povo
hespanhol, amigo dos pobres d'espirito e dos ricos de corao, que tens
cabea d'homem para pensar e alma de mulher para sentir; tu que s o
amigo por excellencia dos meninos e das mes, dos fracos e dos
attribulados; tu que buscas e encontras as dres e as afflices do
proximo, onde as almas vulgares as no descobrem, e que, com tanto
sentimento e caridade, as prantas, dize-me, meu bom Fernando, no achas
que os sabios legisladores da humanidade tem sido extremamente crueis e
ignorantes, pondo os meninos debaixo da salvaguarda do codigo, que
protege os homens, em vez de os acobertar com a gide celeste do codigo
que protege os anjos?!


XI

Alguns mezes haviam j decorrido depois do dia em que Angelo escapou,
por milagre, de morrer s mos de D. Lucas.

Era por uma aprazivel manh de primavera. A sala de jantar de D. Joo
Quijano tinha uma janella, que olhava para o norte. Em quanto o
banqueiro e sua mulher tomavam chocolate na sala, Angelo fra para a
varanda, e ali se conservava, com a vista immovel e fixa na direco do
seu paiz.

O pobre pequeno estava mais alto do que quando chegra das montanhas de
Biscaya, porm tinha emagrecido consideravelmente. Cobria-lhe o rosto
uma pallidez mortal, e nos seus bellos olhos, to meigos e sympathicos,
retratava-se-lhe a profundissima tristeza que lhe ia n'alma.

--O que fazes tu ahi, Angelo? perguntou carinhosamente D. Joanna.

O menino no respondeu.

--Oh! meu Deus! O que ter esta creana?! accrescentou a mulher do
banqueiro, com verdadeira afflico.

--No sei o que elle tem, Joanna, mas ninguem me tira da cabea que est
doente desde que Lucas lhe bateu, apesar do medico dizer, passados
quinze dias, que o considerava completamente restabelecido.

--Queira Deus que Lucas lhe no tornasse a pr a mo.

--No, filha; por isso fico eu. Mas vejo-o to abatido e melancholico,
que receio muito pela sua existencia.

--Ai! Nossa Senhora permitta que te enganes. Angelo se chama e foi elle
na verdade um anjo que trouxe a paz e a harmonia  nossa casa; porque,
desde que para aqui veiu esse menino, ns que sempre andavamos de rixa,
estamos inteiramente mudados, e tenho f em que elle ha de acabar por
abrandar e adoar por uma vez este meu maldito genio.

--Assim , Joanninha, exclamou o banqueiro commovido; sempre esperei que
quando tivesses um filho, se operaria em ti uma grande mudana. No quiz
Deus conceder-nos essa ventura, mas enviou-te em compensao essa
criana, a quem queres hoje quasi tanto como se fras sua me.

--Quem sabe se o que tem o pequeno  um desejo ardente de voltar para a
sua aldeia... suspirava tanto por isso, a principio...

--Tambem me no parece que seja essa a causa do seu soffrimento. Desde
que os paes lhe disseram n'uma carta, que era elle o unico amparo com
que contavam para a velhice, e que, se voltasse para a terra, nada
poderia fazer em beneficio d'elles, no cessa de dizer que est
satisfeito em Madrid, e at quando alguma vez se encontra de bom humor,
costuma repetir o proverbio _de Madrid s para o co_.

--Pois  preciso mandar chamar o medico, porque se no cuidarmos d'elle
ve cada dia a peior. Angelo, accrescentou D. Joanna, chamando novamente
pelo menino.

Este deixou como assustado a immobilidade em que estava, olhou novamente
com ineffavel languidez para o norte, e entrou na sala.

--Que tens tu, meu filho? perguntou-lhe com ternura D. Joanna,
correndo-lhe a mo pela cara.

--No tenho nada, respondeu Angelo.

--O que fazias na varanda?

--Nada; estava a vr o sol.

--Vamos, senta-te aqui, e toma chocolate comnosco.

--No me appetece.

--Mas o que  isso? O que te falta? No te quero eu como se fra tua me?

O menino no respondeu; arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, e os de
D. Joanna tambem.

--Olha, accrescentou esta, no vs outra vez para a varanda que te faz
mal o sol; vae antes um bocado at ao escriptorio, no para trabalhar,
mas para vr se te distrahes com os teus companheiros.

Angelo sau da sala, e desceu a escada.

s tres horas, subiram para jantar D. Lucas, e os dois caixeiros Manoel
e Marianno.

--Onde ficou Angelo? perguntou D. Joanna.

--No veiu c para cima.

--Virgem santissima! Onde estar ento a pobre creana?!

--Talvez se fosse deitar.

--D. Joanna correu pressurosa ao quarto de Angelo, e foi encontral-o na
cama.

--O que quer isso dizer, filho? O que tens?.. Ests doente?

--Sim, minha senhora, respondeu Angelo com voz sumida.

--Ento o que te de?

--No me de nada, mas sinto-me doente.

--Toribio! Toribio! vae, corre chamar o medico, que est o menino
doente, gritou da escada D. Joanna.

Pouco depois chegou o medico. Tomou o pulso a Angelo, e fez um gesto de
mau agouro.

-- coisa grave? perguntaram a um tempo, e com anciedade, D. Joanna e o
banqueiro.

--Gravissima, respondeu o medico... e observando-o novamente,
accrescentou, em voz baixa, dirigindo-se ao dono da casa;--est quasi a
morrer.

Angelo abriu por um momento os seus meigos olhos, cujo brilho estava j
empanado pelo sopro da morte, volveu-os para a imagem do Senhor
crucificado, como querendo expressar-lhe profunda gratido, e fechou-os
logo, para nunca mais os tornar a abrir.

Todos proromperam em amargo pranto,  excepo de D. Lucas.

--E de que morreu? perguntou este ao medico, que tinha antecipadamente
interrogado a familia cerca dos padecimentos de Angelo.

--Morreu, lhe tornou o medico, de uma affeco moral, para cujo
desenvolvimento contribuiram por certo padecimentos physicos. Os meninos
so homens no sentimento, e creanas no vigor; por isso Deus amaldia
os seus oppressores. Este menino morreu da mais santa de todas as
enfermidades; morreu de _Nostalgia_.

FIM DA NOSTALGIA.




O MADEIRO DA FORCA


I

A grande montanha de Colisa, que se ergue entre as Encartaes[2] de
Biscaya, e a demarcao juridica de Castella, era na edade media uma
especie de Thebaida, onde faziam vida penitente alguns anachoretas, aos
quaes se attribue a edificao do santuario que a cora.

Sendo eu creana, e caminhando com minha piedosa me por uma montanha
das Encartaes, paramos a descanar, ao descobrir o valle onde
habitavamos.

Era por uma tarde aprazivel de vero. O sol escondia-se por detraz dos
montes, que recortavam o horisonte, e nas quebradas das serras ouviam-se
os chocalhos do gado, que descia ao valle; em baixo, na planicie, saam
as raparigas das herdades, e pondo  cabea as suas bilhas, dirigiam-se,
cantado,  fonte do _Castanhal_, para que seus paes e irmos achassem em
casa agua fresca, quando, ao soar o toque da orao, lanando ao hombro
as enxadas, e resando as Ave-Marias, se encaminhassem para o logar.

Do cimo do outeiro coberto de fragrantes margaridas, brancas de neve,
onde minha me e eu estavamos sentados, contemplando o nosso querido e
formoso valle, em um de cujos extremos avistavamos, meia occulta por
frondoso arvoredo, a nossa aldeia ainda mais querida e saudosa,
descobria-se o santuario de Colisa.

Entramos a fallar d'aquella ermida, e minha me, que tinha uma f santa
e cega nas tradices religiosas, que brotam e vivem  sombra dos
santuarios das montanhas, sem que possam os seculos alterar-lhes o vio
e a frescura, prendeu-me a atteno, e commoveu-me devras a alma
contando-me o que, a meu turno, vou contar-vos.

Vivia nas solides de Colisa um santo ancio, chamado Cosme, que passava
uma tera parte da sua existencia entregue  adorao e glorificao de
Deus, e o restante guiando e soccorrendo os viajantes, que atravessavam
aquellas montanhas; e isto pela razo de que, n'aquelle tempo, como as
guerras de partidos ensanguentassem de contnuo os valles, fugiam
d'elles os caminhantes, e transitavam pelos montes mais desertos, e
afastados do commercio dos homens.

Sempre que Cosme soccorria algum viandante extraviado, ou extenuado de
fome e cansao, ao soar o toque de Trindades na egreja de Valmaseda, que
se avistava l em baixo, no p da montanha, apparecia-lhe um anjo, que
lhe sorria amorosamente, e que logo se remontava ao ceu, deixando-o
immerso em mystica alegria.

Um dia, de manh, estando os montes cobertos de mui densa nvoa, sau
Cosme da miseravel choa, onde vivia vida penitente, e poz-se a divagar
por aquelles bosques espessos e fragosos, a vr se encontrava alguns
caminhantes, que n'elles se houvessem extraviado, e, de repente, deu de
cara com uns poucos de homens, que levavam outro manietado.

--Porque vae preso esse infeliz? lhes perguntou elle.

--Porque  um grande criminoso, a quem a justia condemnou  morte, lhe
responderam.

--_Quem as faz paga-as_, disse o anachoreta, dando tregoas  sua compaixo.

Os executores da justia de Valmaseda detiveram-se mais acima, n'uma
encrusilhada, pegaram n'um grande madeiro secco, que, havia muitos
annos, estava estendido ao lado do caminho, fixaram as extremidades
d'esse madeiro secco nos primeiros galhos de duas arvores parallelas,
lanaram um lao ao pescoo do criminoso, e suspenderam-n'o d'aquella
forca improvisada, voltando a Valmaseda apenas se certificaram de que
elle tinha expirado.

    [2] _Encartaciones_, as terras de Biscaya, que gosam de fros e
    regalias especiaes.


II

N'esse mesmo dia em que, por sentena do tribunal de Valmaseda, foi
enforcado um grande criminoso, no caminho de Colisa, salvou Cosme da
morte muitos viandantes, que, sem o seu auxilio, seriam devorados pelas
fras, ou se teriam despenhado nos precipicios d'aquelles temerosos
desvios, ento mais temerosos do que nunca, por causa da espessura do
nevoeiro.

Recolheu-se  sua morada, agradecendo a Deus o haver-lhe dado foras
para soccorrer os seus irmos, e, apenas chegou, feriu-lhe o ouvido o
toque da orao, que soou, lento e solemne, na longinqua torre da egreja
de Valmaseda.--O anjo porm no lhe appareceu n'aquella noite!

O santo ermito encheu-se de terror, com a lembrana de que teria
offendido a Deus, visto que o anjo se furtava aos seus olhos; mas por
mais que pesou as palavras, que proferira, as suas obras e pensamentos
de todo o dia, no lhe foi possivel atinar com o agastamento do Senhor.

Aquella noite passsou-a toda em continua orao; chorou, macerou o
corpo, pediu a Deus perdo e misericordia para as suas faltas, e logo
que raiou a aurora, como a montanha se conservasse coberta de d'espessa
nvoa, sau em auxilio dos caminhantes.

De repente achou-se na encrusilhada, e ao vr diante de si a forca, da
qual pendia ainda o cadaver do criminoso, justiado no dia antecedente,
recuou cheio de repugnancia e movido d'espanto; e levantando a vista
acima do cadaver, que estava preso da corda, viu o anjo poisado no
madeiro da forca.

O anjo, longe de lhe sorrir ento amorosamente, como de costume,
olhava-o com semblante severo e carregado.

Cosme parou; e com quanto ignorasse qual fosse a sua culpa, lanou-se de
joelhos, sobresaltado e cheio de terror, ergueu as mos para o anjo, e
implorou perdo e misericordia.

--Cosme! disse-lhe ento o anjo, incorreste no desagrado do Senhor e
precisas fazer grande penitencia para recuperar a sua proteco. Hontem,
em vez de confortar e consolar o desgraado, que est pendente d'esta
forca, escarneceste-o, e olhaste com indifferena para a sua tribulao.
Desprende o seu cadaver da forca, sepulta-o em sagrado, e lanando em
seguida esse madeiro aos hombros, leva-o pelo mundo, e seja elle o unico
travesseiro, em que descances a cabea.

--E poderei eu ainda um dia obter o perdo da minha culpa? exclamou
Cosme lavado em pranto de arrependimento.

--Sim, lhe tornou o anjo. Quando d'esse madeiro brotar um ramo verde, 
que o Senhor te perdoou.

Dito isto, subiu o anjo ao ceu, cercado de musicas mysteriosas e de
brilhantes resplendores.

Cosme acercou-se animosamente do cadaver suspenso da forca, desprendeu-o
e deu-lhe sepultura; pegando em seguida no madeiro, cujos extremos se
apoiavam nos primeiros galhos de duas arvores fronteiras, foi com elle
aos hombros pelo mundo, segundo as indicaes, que o anjo lhe havia dado.


III

Andava Cosme pelo mundo com o madeiro da forca ao hombro, e toda a gente
o escarnecia e fugia d'elle horrorisada.

Uma noite, tendo perdido a esperana d'encontrar asylo entre os homens,
penetrou n'um bosque, esperando encontral-o no meio das fras, e vendo
uma luzinha atravez da espessura, encaminhou-se para ella, e deu comsigo
 porta d'uma cabana, onde uma velhinha dormitava, junto do lume.

--Santinha, disse elle  velha, com voz supplicante, deixe-me, pelo amor
de Deus, passar aqui esta noite.

--No pde ser, lhe tornou a velha, porque tenho dois filhos, que so
bandidos, e que devem chegar dentro d'uma hora; se aqui o encontrassem,
com certeza o matavam.

Cosme confiava piamente na promessa, que o anjo lhe tinha feito de que o
senhor lhe perdoaria, e como visse que o madeiro da forca no tinha
signaes, que indicassem que estava para rebentar, d'onde se deprehendia
que vinha ainda longe o momento da sua morte, insistiu em pedir  velha
que lhe dsse pousada, no que ella, por ultimo, conveiu, esperando
conseguir dos filhos que o no assassinassem.

Estava Cosme exhausto de foras e, retirando-se para um canto da
choupana, poisou no cho o madeiro da forca, e deitou sobre elle a cabea.

Condoida a velha de o vr descanar em travesseiro to duro,
offereceu-lhe um feixe de cheirosa herva do monte, mas Cosme o recusou,
dizendo:--offendi o Senhor, dizendo a um criminoso a quem levavam 
forca: _quem as faz, paga-as_, e para que o Senhor me perde, vou pelo
mundo carregado com este madeiro, que deve ser o unico descano da minha
cabea, at que d'elle brote um ramo verde, que ser o signal de que o
Senhor me perdoou.

--Ai! exclamou a velha, rompendo n'um choro inconsolavel, se  to
difficil para quem se arrepende e unicamente peccou por palavras o
alcanar o perdo do Senhor, quanto o no ser para esses infelizes,
que, como os meus filhos, peccam todos os dias por palavras e obras, e
no tm no corao um vislumbre sequer do arrependimento.

O ancio adormeceu com a cabea deitada no madeiro da forca.

Uma hora depois, chegaram os bandidos, e ao verem-n'o, arrancaram dos
punhaes para o assassinar.

A me, porm, contou-lhes a historia d'aquelle ancio, e pediu-lhes de
joelhos que, longe de o matarem, se arrependessem, como elle, das suas
enormes culpas.

--Pois bem, perde-se-lhe a vida, responderam os bandidos, fazendo
entrar os punhaes na bainha, e accrescentaram, soltando uma gargalhada
d'escarneo:

--Quanto ao arrependimento, havemos de o ter quando brotar o tal ramo
verde d'esse madeiro secco.

Principiaram os bandidos a car. Quando acabaram, dirigiram a vista para
o canto da cabana onde dormia o velho, e viram, com assombro, que do
madeiro secco tinha brotado um ramo verde e mimoso! Romperam ento em
amargo pranto, rogando a Deus que lhes perdoasse as suas culpas.

Ao som de taes vozes acordou Cosme, e ao vr que do madeiro secco tinha
brotado uma vergontea verde e lou, expirou de alegria; e o anjo
baixou, sorrindo amorosamente, a tomar conta da sua alma, e a leval-a
comsigo para o ceu.

FIM DO MADEIRO DA FORCA.




A NECESSIDADE


I

Ainda hoje existe, junto  confluencia de dois rios, um formoso
castanheiro, a cuja sombra eu me sento, sempre que por alli passo, haja
ou no haja calor, e isto pela razo muito natural de que, sendo eu
creana, costumavamos sentar-nos, minha me e eu,  sombra d'aquella
mesma arvore, quando iamos a uma aldeiasinha, que ficava perto da nossa.
A pequena distancia do castanheiro vem-se ainda as ruinas d'um monho,
taes quaes eram nos tempos saudosos da minha infancia; e a lembrana de
minha me, do castanheiro e das ruinas, faz-me recordar d'um conto, que
ella me contou, em uma tarde de vero, ao p da arvore frondosa, a cuja
sombra, graas a Deus! ainda posso sentar-me.

O ultimo moleiro, que habitou o monho, era conhecido n'aquellas
redondezas pelo appellido de Senca; e vejam l, no vo mudar para o
primeiro o accento que puz sobre o segundo _e_ d'este appellido, pois
que o moleiro de quem estou fallando, e que minha me conheceu e tratou,
era to modesto, que ainda hoje no ceu se veria muito afflicto e
contrariado, se o confundissem com o philosopho cordovez.

No tinha Senca pretenes a philosopho, mas era-o at sem querer, e a
isto devia elle indubitavelmente o seu appellido, em cuja applicao no
podemos deixar de reconhecer uma philosophia muito profunda; se no,
reparem os leitores, e digam-me se no  bem admiravel a do povo, que,
com a mudana d'um simples accento, marca o abysmo, que separa o
philosopho da natureza do philosopho do estudo! Tinha eu que fazer, se
quizesse referir os muitos rasgos d'engenho e s philosophia com que
Senca _illustrou_ a sua trabalhosa e modesta vida, e portanto
limitar-me-hei a referir um dos que mais captivaram minha pobre me, de
quem herdei o gosto que tenho pelas recordaes da infancia.


II

Senca no tinha outra familia seno um filho de dez annos, nem outras
cavallarias seno um burro de vinte. Morreu-lhe a mulher, que era quem
ficava no monho, curando das moagens, emquanto elle andava com o burro,
levando e trazendo folles por aldeias e casaes, e o pobre Senca viu-se
ento em graves embaraos, porque os seus ganhos lhe no permittiam
tomar uma creada, que substituisse sua mulher no monho, nem um creado,
que o substituisse a elle no transporte dos folles.

--E como te has de tu arranjar agora? lhe perguntavam os visinhos,
quando o viram viuvo, e sem outro auxilio mais que o do pequeno.

--No me d isso cuidado, respondia Senca, no faltar quem me ajude.

--Isso  bom de dizer; mas quem te ha de ajudar?

--Quem?... A Necessidade.

Os visinhos punham-se a rir do bom humor de Senca, porm sem
comprehender o que elle queria dizer na sua.

Uma certa manh apparelhou Senca o _burrico_, poz-lhe em cima um sacco,
que continha quatro alqueires de farinha, e chamando o pequeno, disse-lhe:

--Rapaz, toma o burro pela arreata, e leva-me esta carga  padaria de
Somorrostro.

O pequeno _desatou_ a chorar.

--Que  l isso, homem? perguntou-lhe o pae.

--Que ha de ser de mim pelo caminho, se o burro cair, ou se espojar no
cho! exclamou o rapazito, sem cessar de chorar.

--No te d isso cuidado, disse Senca; se tal acontecer, no faltar
quem te ajude a levantar o burro.

--E quem  que me ha de ajudar n'essas devezas to solitarias, que no
se encontra por ellas viva alma?!

--Quem? A Necessidade. Se o burro car, ou se deitar no cho e se no
podr erguer, chama pela Necessidade, e vers como logo acode em teu
auxilio.

--Est bem, disse o pequeno, limpando as lagrimas com a manga da
jaqueta; e pegando na corda do burro, tomou pela margem do rio, caminho
de Somorrostro, que distava uma legua do monho.

--Ora, ora, ora! Sempre este Senca tem coisas!... diziam os visinhos,
ao verem o rapazito com o burro atraz de si. Com que ento a
Necessidade, com cujo auxilio contava Senca, para levar e trazer os
folles, era essa pobre creana?!... E o pequeno, quem  que o ha de ajudar?


III

Seguia o filho de Senca com o seu burro  arreata ao longo dos
carvalhaes, que assombram as margens do rio, que corre pelo valle
profundo, que separa Somorrostro de Galdmes e Sopuerta, quando, ao
chegar a um pequeno areal muito suave, fez o burro esta reflexo:

--Ai! que bella cama para eu descansar um pouco!... e ento, se eu
podesse soltar esta maldita carga, que me vae amolando as costellas!

E de repente, antes que o pequeno olhasse para traz, estirou-se ao
comprido no meio do cho.

--Ai! minha me!... exclamou o rapazinho aterrado;--porque convm saber
que em Hespanha, e com especialidade na Biscaya, no s aos pequenos
como tambem aos grandes, o primeiro auxilio que lhes occorre invocar nas
maiores afflices,  sempre o de sua me, ainda mesmo que j a tenham
no ceu.

E pegando n'uma vergasta comeou a zurzir o burro sem dr nem piedade;
porm o animal, por mais esforos que fazia para se levantar, no o
podia conseguir.

Estava j o pequeno quasi a chorar, quando se lembrou do conselho, que o
pae lhe havia dado, e, em vez de dar largas ao pranto, comeou a gritar:

--Necessidade! Necessidade! faz-me o favor de vir aqui ajudar-me a
erguer este burro?!

O pequeno bem olhava para todos os lados, a vr se apparecia a
Necessidade, mas no via ninguem. J cansado de chamar e de esperar pela
Necessidade, desatou o arrocho, que prendia o sacco ao apparelho do
burro, e alliviou-o da carga; em seguida deu-lhe uma vergastada e o
animal ergueu-se d'um salto. Ento o pequeno tomou o burro pelo
cabresto, levou-o para junto d'uma ribanceira, e rolando o sacco at l,
pde, a muito custo, collocal-o em cima do animal; apertou-o bem com o
arrocho, montou-se sobre a carga, atirou uma pancada ao burro, e
proseguiu no seu caminho, mais alegre que umas paschoas.

Passada uma hora chegava o rapaz ao monho, cantando e fazendo trotar o
seu _ginete_.

--Ol, pequeno, disse-lhe o pae, apenas o avistou, como te foi pela tua
viagem?

--Muito mal, meu pae.

--Ento o que te aconteceu, homem?

--Deitou-se o burro no caminho, e, por mais pancadas que lhe dei, no
foi capaz de se levantar.

--E ento o que fizeste?

--Desprendi a carga, levei o burro para o p d'uma ribanceira, fui
rolando o sacco at l...

--Bem, bem, j percebo. Quer isso dizer que chamaste pela Necessidade,
no  assim?

--Chamei, chamei; fartei-me at de chamar; mas no appareceu...

--Rapaz, disse Senca, v como tu te enganas;--quem te levantou e
carregou o burro no foi seno a Necessidade.

Tinha razo Senca, e tambem eu a tenho para dizer aqui que a
necessidade presta tanto auxilio e tamanhos beneficios ao homem, que no
sei como ainda lhe no deram a cruz de beneficencia.

FIM DA NECESSIDADE.




A PORTARIA DO CEU


I

O tio Paciencia era um pobre sapateiro remendo, o qual ganhava
honradamente o po de cada dia, mette que mette a sovella e puxa que
puxa o fio, em um portal de Madrid, e devia o apellido por que era
conhecido  resignao com que sempre tinha soffrido os muitos
trabalhos, que o Senhor lhe havia dado.

Ao tempo da constituio de 1820, era j rapaz dos seus quinze ou
dezeseis annos, mas tinha a innocencia de uma creana de oito, e como
ouvisse a cada passo dizer que todos os homens eram eguaes, perguntou ao
mestre se aquillo seria verdade.

--No acredites n'essas cousas, lhe respondeu o mestre. S no ceu  que
os homens so eguaes.

Sentiu o rapaz que no acontecesse outro tanto na terra, mas consolou-se
com a ida de que o eram no ceu, e quando algum freguez da loja
convidava o mestre para beber uma pinga na taberna proxima, dizia com os
seus botes o pobre aprendiz:

--Pena  que no sejamos todos eguaes na terra, como succede no ceu,
porque se assim fosse, por certo que o freguez me no differenaria do
mestre, e, como elle, iria eu tambem agora  taberna beber a minha
pinga; mas, acabou-se... paciencia... no ceu seremos todos eguaes.

Passados dois annos, coube-lhe a sorte do recrutamento; ento mais do
que nunca teve elle motivo para lamentar que os homens no fossem eguaes
na terra como no ceu, por isso que na sua companhia havia soldados
distinctos, e cabos, sargentos e officiaes, que provavam ser verdade
aquillo que o mestre lhe tinha dito cerca da egualdade humana; porm
consolava-se ainda o pobre rapaz, pensando que no ceu se acabariam as
distinces, e todos seriam eguaes.

Deixou de servir o rei, e aproveitando-se do pouco que sabia do officio
de sapateiro, estabeleceu-se n'um portal, e al passou o resto dos seus
dias, conformando-se com as privaes que soffria, na esperana de ir
para o ceu e gosar ento d'essa igualdade, que no encontrra na terra.

No andar nobre da casa, cujo portal occupava, vivia um marquez, que por
certo muito o houvera magoado com o espectaculo da sua opulencia, se no
fra um excellente homem, e a no ser tamanha a sua paciencia, e sobre
tudo to arreigada no seu corao a esperana de lhe poder dizer um dia
no ceu: meu amiguinho, aqui todos ns somos eguaes.

No era porm s o marquez que lhe fazia sentir, que no fossem todos os
homens eguaes na terra; at os seus amigos mais intimos queriam
differenar-se d'elle. Estes amigos eram o tio Mamerto e o tio Macario,
homens de to boa conducta, que no podia o tio Paciencia viver sem a
sua honrada companhia.

O tio Mamerto tinha uma paixo desenfreada pelos toiros, e passava por
ser muito entendido em materia tauromachica.

Quando, no reinado de Fernando VII, se creou uma escla para ensinar
esta sciencia, esteve o bom do homem quasi a ser nomeado _lente
cathedratico_ da faculdade, e este precedente era o bastante para que
elle se considerasse superior ao tio Paciencia, o qual, reconhecendo
esta superioridade, se consolava pensando que, se o seu querido amigo e
elle no eram eguaes na terra, o seriam por certo no ceu.

O tio Macario era muito feio, mas casou com uma mulher lindissima, porm
levadinha da breca.

Ao cabo de vinte annos d'um viver amargurado, morreu-lhe o demonio da
mulher, e o pobre homem ficou to descanado que lhe parecia ter entrado
no ceu; passados tempos, enamorou-se d'outra rapariga, que no ficava a
dever nada  primeira, e casou segunda vez, apesar de todos os esforos
que o seu amigo, o tio Paciencia, fez para lhe tirar isso da cabea.
Ora, como o tio Paciencia nunca tinha conseguido que as mulheres se
agradassem d'elle, ao passo que do tio Macario se agradavam aos pares,
julgava este ter certa superioridade sobre o primeiro, que, da sua
parte, no deixava tambem de a reconhecer, e que devras se teria
affligido com isso, se no fra a lembrana de que o seu bom amigo e
elle seriam eguaes no ceu, j que na terra o no podiam ser.

O tio Mamerto era capaz de ir at ao fim do mundo para assistir a uma
corrida de toiros; tanto assim, que at costumava dizer: Parece-me que
trocava de bom grado a gloria eterna por uma boa tourada, ao que o tio
Paciencia replicava sempre, agastado: Homem, no digas heresias, que
no v Deus castigar-te.

Um dia em que os passaros caam das arvores, assados pelo sol, havia em
Getafe uma corrida de garraios; o tio Mamerto, foi vl-os, _ pata_,
segundo o seu costume, e, de volta a casa, acamou com uma febre, que o
levou d'esta para melhor vida.

No mesmo dia estava muito mal, na cama, o tio Macario, por causa d'uma
tremenda coa que a mulher lhe tinha dado, porquanto se a primeira
mulher lh'as dava grandes, a segunda no lhe ficava atraz. A mulher, que
nunca perdia a occasio de lhe communicar uma boa noticia, deu-se pressa
em lhe participar, que o tio Mamerto tinha _esticado a canella_, e
ouvindo isto, o pobre Macario, que j no estava para muitos sustos,
_esticou_ tambem a sua.

Como eu j disse, no podia o tio Paciencia viver sem os seus dois
amigos, porque lhes queria muito. Estranhando que, em todo o dia, elles
lhe no tivessem apparecido para palestrar um pouco e fumar um cigarro
na sua companhia, quando  noitinha deixou o trabalho, foi procural-os,
e soube ento que ambos tinham morrido. Essa noticia causou-lhe um abalo
enorme, e, n'aquella mesma noite, tomou atraz d'elles o caminho do outro
mundo, com a grande consolao de que ia finalmente para onde todos os
homens eram eguaes.

Toda a visinhana sentiu muito a morte do tio Paciencia, pois todos
depositavam tamanha confiana na sua honradez e no seu caracter docil e
servial, que, quando careciam de trocar algumas notas do banco
d'Hespanha, encarregavam d'isso o tio Paciencia, que era capaz de morrer
arrebentado, para dar conta da incumbencia.

Na manh seguinte  morte dos tres amigos, o bruto do creado particular
do marquez, quando entrou no quarto, teve a imprudencia de dizer a seu
amo que o sapateiro do portal morrra, ao saber que dois amigos seus
tinham faltado quasi de repente. E como o marquez era um fidalgo muito
apprehensivo, e corriam uns certos rumores de cholera em Madrid,
assustou-se tanto com a sada de sendeiro do bruto do creado, que,
poucas horas depois, era cadaver, com grande desgosto da pobreza do
bairro. E por todas as partes se se ouvia dizer: Estes homens, assim,
nunca deviam morrer.


II

O tio Paciencia emprehendeu a jornada do ceu, muito contente com a
esperana de gosar da gloria eterna, de viver em um mundo onde todos os
homens eram eguaes, e finalmente de encontrar ali os seus queridos
amigos Mamerto e Macario. Com relao porm a este ultimo pensamento no
deixava elle de ter suas duvidas, porque dizia l para os seus botes:

--E se lhe no querem abrir as portas do ceu?! Elles foram sempre homens
de bem s direitas; mas o demonio da paixo de Mamerto pelos toiros, e a
tolice do Macario de casar segunda vez, tendo-se sado to mal da
primeira, fazem-me receiar que lhes dem com a porta na cara.

Para sar um tanto de duvida, perguntou a um viandante se tinha visto
passar por al dois sugeitos, com estes e aquelles signaes; e como elle
lhe respondesse affirmativamente, proseguiu o tio Paciencia no seu
caminho, mais alegre que umas paschoas.

O caminho do ceu era escabroso e spero, e essa era por certo a razo
porque n'elle se no encontrava seno gente pobre e habituada  fadiga.

Impressionado o tio Paciencia por no ver nenhum _figuro_, entre tantos
caminhantes, dizia, de si para si:

--No admira que os homens ricos no faam esta viagem, porque teriam de
fazel-a no cavallinho de S. Francisco. Se podessem emprehendel-a de
carruagem, os diabos me levem, se no viamos por aqui mais trens do que
no Prado e na Fonte Castelhana.

O tio Paciencia interrompeu as suas reflexes ao vr approximar-se,
vindo do lado do ceu, um homem, que chorava como um bezerro, e dava
mostras da maior desesperao. Era nada mais nem nada menos do que o tio
Mamerto.

O tio Paciencia sentiu uma pancada no corao, annunciando-lhe alguma
desgraa, quando reconheceu o seu amigo.

--O que tens tu, homem? perguntou elle ao tio Mamerto.

--Que demonio hei-de eu ter! Se eu no fosse um bruto, como no ha
segundo, no me fechavam para sempre as portas do ceu!

--Mas ento como foi isso? explica-te com a brca, que me tens o corao
em talas. Aposto que no foi seno por causa da maldita paixo pelos
toiros.

--Parece-me que concorreu.

--Vamos, por quem s, conta-me o que se passou.

--Cheguei  portaria do ceu, e encontrei al uma poro de gente, que
estava  espera de vez para entregar os passaportes para o outro mundo.
O porteiro, que visava os papeis, com a sua grande calva _ mostra_, e o
seu mlho de chaves na mo, levava a coisa com toda a pachorra, e
moa-os com perguntas, primeiro que permittisse a entrada. Eu, que, como
 bem natural, estava morto por me vr l dentro, disse com os meus
botes:--Este velho, com os seus vagares,  capaz de me conservar aqui
de fra at  noite. Pois deixa estar, que se te pilho distrado, atiro
commigo l para dentro, ainda que depois me cortes uma orelha, como
fizeste ao pobre Malco. Estava eu a pensar n'este expediente, quando
vejo o porteiro armar uma questo com um pobre diabo, a quem no deixava
entrar, com o pretexto de ter sido apaixonado de toiros. Ahi temos ns
os toiros! disse eu, ao vr aquillo. O velhote  capaz de me fazer
esperar uma eternidade, e por fim, se chega a saber que tambem fui
affeioado s toiradas, nega-me a entrada, como aconteceu com o outro. E
que fao eu? Assim que o porteiro deu uma volta: zs! _raspo-me_ l para
dentro. J dava graas a Deus pela minha resoluo, e vae seno quando o
porteiro, d-lhe na cabea contar quantos estavam na portaria, e conhece
que lhe falta um.

--Falta-me aqui um! grita enraivecido, e aposto uma orelha que no 
seno o madrileno. Ou elle no fosse de Madrid, o maroto, que se escoou
l para dentro como um gato: deixa estar que j vamos ajustar contas!

-- meu senhor, disse da banda um adulador, que tinha assim geitos de
cortezo, quer que eu lh'o saque de l para fra por uma orelha?

--Deixemos-nos d'orelhas, respondeu o velhote; e chamando uns musicos,
a quem fallava com muito agrado, porque parece que lhe tinham sido
recommendados por Santa Cecilia: Toquem l a musica da sada do toiro!

Os musicos comeam de tocar, e eu (sempre sou muito bruto!) ao ouvir
aquelle toque, julgo que ha corrida de toiros na portaria, e sio muito
lpido a vl-a; de repente, o porteiro fecha a porta e deixa-me ficar de
fra, com uma cara de palmo e meio, dizendo-me:

--V j para o inferno, seu meliante, que uma paixo por toiros como
essa, no pde Deus perdoal-a.

E aqui tens tu, querido Paciencia, como eu vou caminho do inferno por
causa da minha maldita mania pelas toiradas!

O tio Paciencia prorompeu em amargo pranto ao vr a infelicidade do seu
velho amigo, e esteve quasi a prgar-lhe um sermo, mas no o fez por se
lembrar de que era prgar no deserto; ambos continuaram, por ultimo, o
seu caminho; o tio Paciencia o do ceu, que era costa acima, e o tio
Mamerto o do inferno, que era costa abaixo.

--Querem vr que tambem me acontece alguma na portaria? O tal senhor
porteiro tem um geniosinho endemoninhado!

Isto dizia o tio Paciencia, seguindo sempre o seu caminho, quando
avistou outro homem, que vinha do lado do ceu. Este no se carpia, nem
se arrepellava; trazia porm a cabea baixa, e denotava profunda tristeza.

--Esperem! disse o tio Paciencia. Os diabos me levem se aquelle no  o
tio Macario! Pois que? No  seno elle!

Com effeito, o tio Macario era o da cabea baixa.

Os dois amigos abraaram-se commovidos.

--Tu por aqui, Paciencia! disse o tio Macario. Para onde vaes, homem?

--Ora, para onde hei de eu ir? Vou para o ceu.

--Duvido muito que l entres.

--Ento porque?

--Porque  difficilimo entrar l.

--E em que consiste a difficuldade?

--Consiste em ser o porteiro o velho mais caturra, que eu tenho visto. E
para prova, basta o que se deu commigo.

--Conta depressa.

--Uma frioleira! Chegamos, eu e outro,  porta; chamamos, e apparece-nos
o porteiro, com a sua grande calva e o competente mlho de chaves na mo.

--Que  o que querem? pergunta elle.

--Essa no est m! o que havemos ns de querer seno entrar?

--Voc  casado ou solteiro? pergunta o velho ao meu camarada.

--Casado, responde o tal sugeito.

--N'esse caso pde entrar, que basta essa penitencia para um homem
ganhar o ceu; e isto por maiores que sejam os peccados, que haja
commettido.

E o meu companheiro entrou l para dentro.

--Caspite! disse eu com os meus botes; se aquelle ganhou o ceu por se
ter casado uma vez, com mais razo o devo eu ter ganho por me haver
casado duas. E larguei atraz do meu companheiro.

--Onde vae o senhor? perguntou o porteiro, detendo-me por uma orelha.

--Homem, o senhor deve estar farto de o saber! Vou para o ceu.

-- casado ou solteiro?

--Casado duas vezes  falta d'uma.

--Duas vezes?!

--Sim, senhor, duas vezes.

--Pois v para as profundas do inferno, que tolos d'esse lte no tm
entrada no ceu.

E aqui vou eu, amigo Paciencia, caminho do inferno! So coisas que s a
mim acontecem!...

-- bem feito, disse o tio Paciencia, entre compadecido e indignado da
parvoice do seu amigo. No te dizia eu que no podia obter perdo de
Deus quem duas vezes se casasse?

O tio Paciencia j no ia muito satisfeito e tranquillo, ao aproximar-se
das portas do ceu, porque as noticias que recebera do geniosinho do tal
porteiro, eram, na verdade, para intimidar o mais pintado.

--Vamos, tio Paciencia, dizia elle,  preciso que no desmintas, n'esta
occasio, o appellido que te puzeram, porque, se consegues catechisar o
porteiro, clas-te l dentro, e depois  que j ninguem te d volta. O
velhote  exquisito de genio, caturra e curioso como todos os
porteiros... Mas tambem, deve a gente lembrar-se de que o pobre do homem
 to velho, que j no pde com os cales, e devemos ser indulgentes
para com os velhos como para com as creanas, porque os extremos
tocam-se. Demais, a paciencia  uma virtude, que o proprio Jesus
recommendava ao apostolo S. Pedro, como se v da seguinte cantiga:

    Era S. Pedro na calva
    perseguido do mosquito,
    e o Mestre lhe dizia:
    --Tem paciencia, _Periquito_!

Ao terminar estas reflexes, avistou o tio Paciencia as portas do ceu, e
estremeceu d'alegria, lembrando-se de que estava j a meio kilometro de
distancia do mundo onde todos os homens eram eguaes.

Chegou finalmente  portaria, e viu que no havia l viva alma, o que
devras lhe agradou, porque assim no se expunha a morrer arrebentado,
como quando ia trocar notas ao banco d'Hespanha.

Deu uma aldrabada pequena na porta, e um velho, que no tinha um pello
na cabea, abriu o postigo e perguntou-lhe:

--O que quer voc d'aqui?

--Ora, o Senhor lhe d muito boas noites, lhe tornou o tio Paciencia,
com a maior humildade, tirando o chapeu. Como passou? Passou bem?

--Muito bem, muito obrigado. Mas o que queria o senhor?

--E a senhora e os meninos esto de sade?

--Homem, despache d'a, diga o que quer.

--O senhor no tem seno desculpar... mas... nada... eu... vinha vr se
o senhor me deixaria entrar.

--Sente-se ahi, n'esse banco, e espere que venha mais gente, que no se
pde andar sempre a abrir e a fechar esse maldito porto, que  mais
pesado que um marido jogador.

--Est bem, senhor, essa  boa; faa favor de perdoar.

--No ha de qu.

O velhote fechou o postigo, e o tio Paciencia, a quem as ultimas
palavras, que ouvra, deram alma nova, sentou-se n'um banco, e comeou o
seguinte soliloquio, para passar o tempo:

--O tal senhor porteiro  realmente um grande caturra. Quem diabo podia
suppr que o homem se esquentaria por eu o cumprimentar como Deus manda!
Mas apesar de ter o genio um tanto assomado, bem se conhece que  um
santo. Pois, senhor, esperemos aqui, no banco da paciencia.

Estava o tio Paciencia entretido a apertar um cigarro, quando, ouvindo
uma tremenda aldabrada na porta, que por pouco a fazia em hastilhas,
ergueu a cabea, e viu ento que a pessoa, que com tanta arrogancia
chamava, era nem mais, nem menos, que o seu visinho marquez.

-- melhor bater com a cabea! gritou de dentro o porteiro, ao ouvir
aquelle barulho. Quem  o bruto que chama assim?

--O excellentissimo senhor marquez de Pelusilla, grande d'Hespanha de
primeira classe, cavalleiro de todas as ordens creadas e por crear,
senador do reino, etc., etc.

Mal isto ouviu, o porteiro abriu de par em par a porta, quebrando pelo
espinhao com muitas reverencias, e exclamando:

--Perdoe v. exc.^a se o fiz esperar algum tempo, mas...  que eu no
suppunha, que tivessemos por c tamanha honra. Queira v. exc.^a entrar,
que, pela _balburdia_ que l vae por dentro,  de crr que j tenha
corrido a noticia de que temos por estes bairros o cavalheiro mais
illustre e mais rico de toda a Hespanha.

Com effeito o ceu estava alvoroado com a chegada do marquez, para o
qual comeava a improvisar-se uma recepo esplendida. Repicavam os
sinos, e os foguetes cortavam o ar em todas as direces; j no havia
uma varanda, nem uma janella d'onde no pendesse um cobertor de damasco,
ou quando menos uma colcha de chita, modesta, mas vistosa. As imprensas
vomitavam versos (ih! que nojo!) em louvor do marquez; os gartos
_esganiavam-se_ todos a dar vivas a sua excellencia; as virgens
largavam a costura, e vestindo-se de branco, e pondo na cabea a sua
grinalda de flores, lanavam mo da lyra, e tocavam e cantavam como
desesperadas; desde as charangas das ruas at a orchestra do theatro
real, todas as musicas faziam ouvir as suas harmonias; em summa, era
tudo festa, jubilo e regosijo. At o proprio porteiro, quando voltou a
fechar a porta, deu um pulo de contente, exclamando:

--Bravissimo! Hoje  dia de atirar uma cana ao ar!

--Sim, como no atires a cabea!... rosnou por entre os dentes o tio
Paciencia, indignado com o que estava presenciando.

Repetiam-se l por dentro as manifestaes d'alegria, e o estrondo dos
festejos, e o tio Paciencia, que assistia quelle enthusiasmo,
continuava n'estes termos o seu soliloquio:

--E esta!... Ainda me custa a acreditar o que por aqui vae com a chegada
do marquez! Com que, passo toda a minha vida a soffrer com santa
paciencia os trabalhos e humilhaes da terra, imaginando que no ceu
todos os homens so eguaes, e que, por conseguinte, me verei aqui livre
de todos os meus pesares e apoquentaes, e no fim de contas, chego s
portas do ceu e recebo logo a prova mais irritante de desegualdade, que
pde imaginar-se! Com que ento, aqui, como na terra, a mim, porque sou
um pobre sapateiro, fazem-me estar, como um espantalho,  espera na
portaria, e ao marquez, s porque  marquez e rico, e por vir carregado
de cruzes e _calvarios_, abrem-se-lhe, de par em par, as portas, e
recebem-n'o com repiques de sinos, com foguetes, musicas, versos, e
colchas de seda nas janellas!... Isto realmente  para fazer ferver o
sangue nas veias a um santo!... Porm, paciencia, snr. Paciencia!... Se
consigo a final entrar l para dentro, o que j me vae parecendo bem
difficil, posso reputar-me feliz, porque alli deve passar-se
divinamente, a julgar pelo pouco que vi, quando o velho deu passagem ao
marquez, e pela baforada, que sae, quando abrem ou fecham a porta ou o
postigo.

O barulho que este fez ao abrir-se, tirou o tio Paciencia das suas
meditaes; fez-se vr a calva do porteiro, o qual vinha examinar se j
havia gente reunida,  espera, na portaria.

--O que faz voc ahi? perguntou o porteiro, reparando no tio Paciencia.

--Senhor, respondeu humildemente o tio Paciencia, estava esperando...

--Se as lebres esperassem tanto!...

--Como o senhor no apparecia...

--Tem razo, tem... so tantas as coisas em que tenho que pensar, que de
todo se me varreu da ida... Eu vou j abrir, amigo. Ora!... mas porque
no chamou por mim, homem de Deus?!...

--O senhor bem v que... como sou um pobre sapateiro...

--Qual sapateiro, nem qual cabaa! aqui no ceu todos os homens so eguaes.

--Devras?! exclamou o tio Paciencia, dando um salto d'alegria.

--Pois, ento!... No faltava mais nada seno andarmos aqui com
cathegorias! Isso  bom l para a terra! Vamos, entre c para dentro.

O porteiro nem por isso abriu toda a porta, como quando entrou o
marquez, mas o sufficiente para que podesse passar _um homem_. O tio
Paciencia acercou-se da cancella, lanou um relancear d'olhos l para
dentro, e deteve-se ali, dolorosamente surprehendido. As virgens no
largavam a costura, nem os rapazes saam da escla; no havia uma triste
sineta que tocasse; os foguetes no rasgavam as nuvens; as musicas no
deixavam ouvir as suas harmonias; nem sequer uma pobre colcha de chita
adornava as janellas, nem topouco as imprensas vomitavam versos!...

O porteiro, que no tinha nada de tolo, adivinhou o doloroso espanto do
tio Paciencia, e acudiu a desvanecel-o, dizendo-lhe:

--Que quer isso dizer, homem? Ento fica para ahi pasmado, em vez de
entrar c para dentro?.

--No me disse o senhor, ainda ha pouco, que no ceu todos os homens eram
eguaes?

--Disse, sim senhor, e d'ahi?...

--Ento... como  que ao marquez...

--Homem, voc se no  tolo, parece-o! Pois no leu na sagrada
escriptura, que  mais facil entrar um camello pelo buraco d'uma agulha
do que um rico no ceu?...

--No, senhor, no sabia isso.

--Pois pde acreditar que  a pura verdade. Sapateiros, ferreiros,
lavradores, mendigos, gente, em summa, farta de trabalhar e de padecer,
chega aqui a todo o instante, e no temos que estranhar a sua chegada.
J outro tanto no acontece com os ricos e os fidalgos; passam-se
seculos sem vermos o _focinho_ a um figuro, como esse que veiu hoje, de
modo que, quando algum nos apparece por c, anda tudo n'uma poeira! Ora,
venha, ande l para dentro, que j  tempo de descanar.

O tio Paciencia transpoz o limiar da porta, e no podendo com a alegria,
que o dominava, cau de joelhos, e exclamou, erguendo as mos para o
Senhor, que saa ao seu encontro:

--Senhor! Bemdito sejaes vs, que daes a bemaventurana eterna aos que
padecem na terra!

FIM DA PORTARIA DO CEU.




O PRESTE JOO DAS INDIAS


I

No basta que os contos populares deleitem:  mister que, ao mesmo tempo
que deleitam, ensinem.

Este que vou contar no sei se satisfar  primeira condio; a segunda
porm, ha de por certo preenchel-a, por isso que o leitor, que o levar a
cabo, ficar sabendo quem era o Preste Joo das Indias, do qual todos
fallam, e pouquissimos so os que o conhecem, a no ser de nome.

Pois, senhores, havia nas Indias um rei mui poderoso, cujo unico
successor directo era uma filha de tres ou quatro annos. Como o monarcha
se sentisse muito mal, chamou todos os grandes do reino, e fallou-lhes
do seguinte modo:

--Ando to adoentado, ha tempos a esta parte, que milagre ser no
esticar a canella antes de oito dias, e confesso que essa partida to
repentina para o outro mundo, me penalisa em extremo, por quanto
desejava deixar casada a minha augusta filha; e no emtanto S. A. no
passa por ora d'um _comecilho_. Asseguro-vos que pouco me importa
morrer, porque para morrer todos ns nascemos, e demais, tanto faz
morrer hoje como amanh; porm o que eu no queria era que a pequena se
casasse para ahi qualquer dia, em virtude de altas razes d'estado, com
um principe, que no fosse muito do seu agrado.

--Senhor, lhe tornou um dos homens politicos mais importantes do reino,
faz V. M. muito mal em estar a affligir-se com essas coisas. Quando a
princeza chegar  edade de tomar estado, ha de casar-se com o principe,
que fr mais do seu gosto; e se houver no reino quem se atreva a querer
oppr-se  liberrima escolha de S. A., esteja V. M. certo de que tem que
se haver comnosco.

--Ora, ora! Ento cuidas tu que eu engulo essas _patranhas_? replicou o
rei, traduzindo a sua incredulidade n'uma estrepitosa gargalhada. Nem
que eu no soubesse o que so os partidos politicos! Aquelle que ento
estiver no poder apresentar a minha filha o seu candidato, e a pobre
pequena ter de se aguentar, no com o marido que mais fr do seu gosto,
mas sim com aquelle que mais convier aos seus ministros, os quaes, s
por satisfazerem mesquinhos interesses de partido, sero capazes de a
obrigar a casar ainda que seja com o moiro Musa.

--Mas, senhor, V. M. deve lembrar-se de que este paiz  um paiz
essencialmente monarchico...

--Isso  bom de dizer! No estamos ns vendo, todos os dias, homens
politicos, que nos concedem, a ns os reis, at o direito divino, e que,
se um bello dia lhe no agradamos, nos chegam, inclusivamente, a negar o
direito de pessoas decentes!

--De accrdo, mas  que esses so uns viles que nunca deveram ter parte
na luta dos partidos.

--Mas o grande caso  que a tm no goso dos direitos constitucionaes.

--Em summa, ordene V. M. o que lhe aprouver, e eu lhe assevero, que pde
marchar tranquillo para o outro mundo, e sem o menor receio de que
deixemos de cumprir rigorosamente as suas ordens.

--Pois bem, n'esse caso escutae-me: quando minha augusta filha estiver
em edade do tomar estado (e isso  coisa, que facilmente se conhece),
deveis dar-lh'o a saber, tendo em vista todo aquelle recato com que se
deve fallar d'essas coisas a uma donzella; em seguida fareis apregoar
por todas as naes do mundo, que a vossa rainha e senhora resolveu
casar-se, e dar a sua mo ao principe, que mais fr do seu agrado.

--At ahi estamos bem; mas V. M. sabe que o mundo se divide
principalmente em tres religies, a saber: a religio christ, a
mahometana e a judaica. Devo portanto suppr que V. M. ter j formado o
seu juizo, cerca da religio a que deve de pertencer o seu augusto genro.

--Homem, francamente, ainda nem tal coisa me passou pela cabea.

--Ah! pois isso  coisa muito sria!

--Vae-te d'ahi com esses teus escrupulos de freira! Vs todos sabeis que
no meu reino no ha religio alguma. A fallar a verdade, j por vezes
tenho pensado sobre se conviria ou no que a houvesse, porque ha muito
quem diga, que no pde haver sociedade sem o freio da religio; porm,
no fim de contas, tenho acabado sempre por dizer c para os meus botes:
deixar correr; quem me manda a mim metter a redemptor? Que religio
pde haver n'um paiz to desmoralisado como este, onde todos os dias se
manda gente  forca?! V uma pessoa introduzir aqui, por exemplo, a
religio christ, segundo a qual todos os homens so eguaes: haviam de
marchar bem as coisas, desde o momento em que os escravos, que tiram os
coches, soubessem que valem tanto como os senhores, que vo dentro
d'elles, mui _repimpados_!

--Visto isso, entende V. M. que a melhor religio...  no ter religio
nenhuma, no  verdade?

--No digo isso, homem; nem tanto ao mar, nem tanto  terra. O que eu te
digo  que no tenho querido quebrar demasiado a cabea, pensando em
coisas to delicadas. Que escolha, minha augusta filha, marido do seu
gosto, e ainda mesmo que seja prro judeu...

Assim terminou a conferencia do rei com os prceres da republica, e
avisado andou S. M. em no a deixar para o dia seguinte, porque
n'aquella mesma noite teve um ataque to forte, que esticou a canella,
sem ter tempo sequer para dizer Jesus.


II

Como era natural, apenas o rei morreu, levantou-se a questo da escolha
d'uma regencia, que devia tomar as rdeas do governo, durante a
menoridade de sua excelsa filha, e ento  que foram ellas!

Sobre se a regencia devia ser de tres, ou d'um unico estadista, e se
este deveria ser Pedro ou Paulo, levantou-se tamanha tempestade, que ia
tudo pelos ares. Por ultimo optaram pela regencia _una_, e por ento
terminou a contenda; porm os partidos politicos, para os quaes vr os
seus contrarios no poleiro e vr o diabo  tudo uma e a mesma coisa,
comearam novamente a tecer os pausinhos. Era o regente um soldado
destemido e honrado d'uma vez; porm como homem d'estado no passava
d'um _simplorio_, que entendia tanto de governo como eu entendo de
lagares d'azeite; os seus inimigos, aproveitando-se da inepcia com que
elle dirigia a politica, no descanaram em quanto lhe no deram um
pontap, e o expulsaram do palacio.

Nomeou-se novo regente. Este ento era um passaro que cantava na mo,
porm ao mesmo tempo, to medroso, que apenas ouvia um tiro, era capaz
de se metter cem braas pela terra abaixo; d'ahi resultava que cada dia
havia um pronunciamento.

Por effeito de um d'esses pronunciamentos, cau o regente, e
organisou-se ento uma regencia composta de tres magnates.

At ali era um s a crear nichos para empregar os seus amigalhotes, um
s a querer enriquecer  custa da nao, um s a monopolisar os favores
da joven princeza, e um s a governar mal; multipliquem agora esse um
por tres, e imaginem a poeira, que se levantou com a tal regencia trina!

Conheceu finalmente a princeza que estava em edade de casar-se, e correu
voz, por todas as naes, de que ella punha a sua mo a _concurso_ e a
daria ao principe, que mais lhe agradasse.

Os primeiros, que acudiram ao reclame, foram os judeus, os quaes
trajavam rica e vistosamente, e tinham o cuidado de fazer tinir bem o
dinheiro diante da princeza, suppondo talvez, que o vil _metal_ teria
para ella tantos attractivos como para elles; e, emquanto os que iam 
_mostra_ faziam sua crte  princeza, andavam os rabinos pelos crros
pedindo a Deus, que dsse a algum dos da sua casta aquella boa pequena,
que to bello partido era.

Chegaram em seguida os mahometanos, e era muito para se vr, tantos
moiros montados em cavallos, mais ligeiros que o vento, escaramuando e
jogando canas, a vr se, assim, engodavam a princeza.

Afinal appareceram os christos, que, com suas justas e torneios, e o
seu porte cheio de garbo e gentileza, sabiam encantar o corao das
donzellas.

--Ento, em qual das tres religies escolhe V. M. marido? perguntou o
presidente do conselho de ministros  rainha.

--Homem, nem sei o que te diga, respondeu a rainha. Bem se diz que quem
tem que escolher tem que fazer. Se queres que te falle verdade, gosto de
todos.

--Vamos, mas V. M. precisa decidir-se por um.

--Asseguro-te que sinto realmente devras no poder decidir-me, sequer
ao menos, por tres. Olha, que entre os christos ha alguns rapazes bem
guapos!... mas entre os judeus e os moiros... no te digo nada!...

--Em summa, disse o presidente do conselho, isto no  sangria desatada;
deixe-os V. M. penar, uns e outros, por espao d'alguns mezes, e depois,
ento, poder V. M. escolher, com perfeito conhecimento de causa; isto
de escolha de marido , para as raparigas, operao muito delicada...

O presidente do conselho teve a honra de que S. M. seguisse o seu
parecer, e christos, mahometanos e judeus, continuarem a fazer as suas
_zumbaias_  real moa, cuja mo ambicionavam.

Chegou noticia a Roma do que se passava nas Indias, e o Padre Santo
ordenou que se fizessem preces, para que Deus inspirasse a rainha afim
de que casasse com um christo, coisa que redundaria em gloria e
augmento da christandade.

Havia n'aquelle tempo em Roma um Preste ou sacerdote, ainda moo,
conhecido pelo nome de Preste Joo, o qual era a admirao de toda a
gente, em raso do seu saber e virtudes, zelo religioso e galhardia.

O Preste Joo apresentou-se ao Padre Santo, e disse-lhe:

--Santissimo Padre, o que se est passando nas Indias , quanto a mim,
coisa mais seria, do que parece,  primeira vista. Aquillo  um paiz
desgraado, onde ninguem cr em Deus, nem em Santa Maria; onde todos so
impios e atheus. Se a rainha se casa com algum prro judio, estamos bem
aviados; vae tudo para o diabo. Se porm a rainha dr a mo de esposa a
um christo, corto a cabea, se todos os indios, dentro em poucos annos,
no forem to christos como ns. Posto isto, vou pedir uma graa a
Vossa Santidade.

--Se fr coisa que eu possa conceder-te...

--Que V. S. me deixe ir s Indias, para ver se fao entrar aquella gente
no bom caminho.

--Ests servido, filho; pdes partir quando quizeres.

--Pois, n'esse caso, vou immediatamente tirar passaporte.

--Toma cuidado, filho; v l que esses infieis te no preguem alguma
pea... particularmente os judeus...

--Isso no me mette medo, que por muito que saibam, sempre hei de saber
mais do que elles.

--Pois vae na graa de Deus, e leva comtigo a minha beno paternal.

--Graas, Santissimo Padre!

Foi dito e feito; o Preste Joo, acompanhado d'um luzidissimo squito de
sacerdotes, em cujo numero se contavam os melhores cantores de Roma, e
munido de riquissimos paramentos e decoraes d'egreja, inclusive um
orgo, que era o melhor que, at ento, se tinha visto n'aquelle genero,
tomou o caminho das Indias.

Felizmente os inglezes no eram, n'aquella poca, to philantropicos,
como o so agora, do contrario no teriam deixado de lhe armar alguma
ratoeira, na ida em que esto, de que, para civilisar os cypaios, so
mais eloquentes os seus canhes, carregados de metralha, do que os
hyssopes dos missionarios catholicos, ensopados em agua benta.


III

Os judeus e os moiros souberam que o Preste Joo se dirigia para as
Indias, e estavam atrapalhados da sua vida, porque havia muito tempo que
a fama trombeteira lhes tinha levado noticia do saber, da virtude, do
zelo religioso, e da extremada galhardia do Preste Joo.

Chegou este, a final, com o seu squito, e a rainha ficou enamorada da
graciosa dignidade, com que elle a saudou, a ponto de no poder ter mo
em si, que no dissesse, baixinho, ao presidente do conselho:

--Olha que este christo no  _nenhuma asneira_!...

Vendo o Preste Joo a rainha mui bem disposta em seu favor, aproximou-se
de S. M., e disse-lhe:

--Senhora, vejo que V. M. vacilla sobre se ha de casar-se com um
christo, com um moiro, ou com um judeu. Creia V. M. que a religio de
Christo  a unica verdadeira, grande e salvadora, e que as outras so
umas _religiesitas de tres ao vintem_, que nem com cem varas chegariam
ao ceu, d'onde procede, e onde apoia sua augusta fronte o christianismo.
E se V. M. se quer certificar de que isto que lhe digo  a pura verdade,
no tem mais que ordenar, que nos reunamos, na sua presena, judeus,
mahometanos, e christos, a fim de discutirmos qual das tres religies 
a melhor, e, sobre tudo, qual  aquella, que mais favorece as mulheres,
pois essa  a grande questo, nas circumstancias actuaes.

--Com muito gosto; no tenho a menor duvida em acceder aos teus desejos,
respondeu a rainha. Amanh apresentar-vos-heis todos diante de mim, e
veremos, ento, quem  que leva a melhor.

Com effeito, no dia seguinte, estava a rainha sentada no seu throno, e
as tres religies, representadas pelo Preste Joo, e pelos judeus e
mahometanos mais sabios, dispostos a discutir na sua presena.

--Est aberta a sesso, disse a rainha. E como era o Preste Joo quem
tinha provocado aquelle certame, devia considerar-se como o primeiro, e
por esse motivo que pedira a palavra, a rainha accrescentou: Tem a
palavra o Preste Joo.

Os judeus e os moiros comearam logo a murmurar, accusando de parcial a
augusta presidente; esta porm fel-os entrar na ordem, a poder de muitas
razes, e toques de campainha.

--Senhores, disse o Preste Joo, trata-se de orientar a S. M. acerca
d'um assumpto mui grave, qual  a escolha do homem a quem, de
preferencia, deve ligar o seu futuro. Ora, o que mais interessa a S. M.,
 saber o que mais lhe convm, se um marido christo, se mahometano, ou
judeu; quanto a mim a questo est resolvida, para S. M., desde o
momento em que esta augusta senhora, ou para melhor dizer, _senhorita_,
souber qual  das tres religies aquella, que mais protege e favorece os
fracos em geral, e a mulher, em particular.

Comecemos pela religio judaica.

A mulher, no povo de Israel, era escrava submissa do homem, e no sua
companheira. Quasi nas primeiras paginas, nos testemunha isso o velho
Testamento, pois nos diz que Abraho, marido de Sra, recebeu Agr por
mulher, ainda em vida da primeira, e logo adiante nos conta que Esa
casou, ao mesmo tempo, com duas irms cananas. O Declogo, revelado
mais tarde a Moyss, no alto do Sinai, dizia: no desejars a mulher do
teu proximo; mas no dizia: ters uma unica mulher, e Salomo, que
era o prototypo da sabedoria hebraica, teve milhares de concubinas.
Pergunto eu agora a S. M. se est disposta a soffrer que o seu futuro
marido lhe d uma, ou mais substitutas?!

--Substitutas! a mim!... exclamou a rainha indignada. Tenho bom genio
para isso! Mais facil seria enterrarem-me viva!

--Pois eu contino....

Aqui interrompem os judeus o orador, descontentes do caminho que leva a
sua causa; a rainha porm fal-os entrar na ordem,  custa de repetidos
toques de campainha, e com ameaa de os fazer expulsar do salo.

O orador contina:

--Ficarei por aqui a respeito de judeus, os quaes, em verdade, me causam
d, ainda que no seja seno por os vr condemnados a esperar o Messias,
at  consummao dos seculos; com isso j no esto mal castigados por
haverem crucificado a Christo, porque l diz o rifo: quem espera,
desespera. Passemos agora aos mahometanos. Quem era o tal Mafoma?

--O propheta de Deus! exclamam os mahometanos, pondo a mo no peito, e
dobrando-se reverentemente.

--Qual propheta, nem qual cabaa!...

Aqui  que foram ellas! Dizer isto o Preste Joo, e arrancarem os
_moiraos dos chanfalhos_, rugindo de clera, foi tudo obra d'um
momento; a rainha porm sacudiu a campainha, mandou entrar o piquete da
guarda, e graas a esta energia da presidencia, accommodaram-se os
perturbadores da ordem, e o orador pde, a final, continuar:

--Mafoma era um _sugeito_ que passava por sabio e grande, entre os seus
compatriotas, pela razo muito simples de que na terra dos cgos, quem
tem um olho  rei! Um dia, disse elle com os seus botes: Como hei de eu
arranjar a dominar estes _barbaas_, que no tratam seno de se divertir
com as moas?... como?... esperem l... j sei. Engendro-lhes uma
religio baseada no grosseiro sensualismo, e metto-lhes na cabea, que
ella me foi revelada por um anjo. E dito e feito: arranjou o tal
_alcoro_, segundo o qual, a mulher e o cavallo vem a ser, para o homem,
uma e a mesma coisa, por isso que apenas servem para o divertir; e fez
acreditar aos asnos dos seus compatriotas, que, no outro mundo, haviam
de encontrar moas s duzias, e obra desenganada.

--E  que as havemos de encontrar! gritam furiosos os mahometanos.

--Deixemos-nos de lerias!... que ho de vocs encontrar?! S se forem
alguns ties, que outra coisa no podem l achar uns barbaros como
vocs, que atravessam seculos e seculos, sem dar um passo na senda do
progresso! Vamos porm agora a vr o que  a mulher, segundo a religio
estupida de Mafoma.

--Lancem-se essas palavras na acta! gritam, afogados em clera, os
mahometanos.

--No  da minha real vontade! responde a rainha. Prosiga o orador no
seu discurso, que eu c estou para lhe manter o uso da palavra.

--Pois bem, eu contino:  para cortar o corao, e fazer car a alma
aos ps, a maneira como a mulher  tratada pelos musulmanos. No se
contentam estes senhores com ter duas ou tres mulheres; possuem centos
d'ellas, encerradas em carceres, a que do o nome de serralhos, ou
harns. Atravessa a gente as cidades mais populosas da Turquia, e no
encontra uma mulher siquer para um remedio; e isto porque esses barbaros
at as privam do ar e do sol, as duas coisas mais preciosas, que a
natureza concede  creatura. Horror! cem vezes horror!! Negarem 
mulher, esse formoso ser, todo amor e ternura, a quem todos ns temos
dado o dulcissimo nome de me, o ar e o sol, que no negam aos mais
immundos irracionaes! Maldio sobre essa lei impia, sobre o falso
propheta, que a dictou, e sobre o povo barbaro e fanatico, que a segue!

--Ah! perro christo!... gritam, a um tempo, todos os musulmanos, ao
ouvir a energica apostrophe do Preste Joo; e, rugindo de raiva, mais
furiosos ainda do que da primeira vez, lanam mo dos alfanges, com
ameaa de acabar tragicamente com a discusso; a rainha porm, mandou
entrar novamente o piquete da guarda, que os desarmou e os metteu na
ordem, a poder de muita coronhada d'armas.

Apasiguada que foi aquella rusga, continuou o Preste Joo o seu discurso:

--Que differena entre o que a mulher deve  religio christ, e o que
deve a qualquer das duas religies, mahometana e hebraica! Maria, em
cujas entranhas encarnou o Verbo Divino, senta-se, no ceu, ao lado do
Filho de Deus, e juntamente com Jesus, lhe do os homens o dulcissimo e
santo nome de me. A religio christ glorifica a mulher, destinando-a a
esmagar a cabea da serpente do peccado, e Jesus proclama a egualdade de
todas as creaturas humanas, e diz aos meninos que se acerquem d'elle,
igualando, por tal forma, a mulher ao homem, e exaltando os fracos em
cujo numero se conta a mulher.  pois a religio christ a unica que
favorece a mulher;  aquella que a emancipa da escravido e do
opprobrio, a que a condemnam as religies judaica e mahometana. Tenho
dito; veremos agora se ha ahi alguem, que seja capaz de me contradizer.

--Teem a palavra os judeus, disse a augusta presidente.

--A religio de Moyss, replicou um rabino, j completamente desanimado,
no carece de entrar em discusses, para provar a sua superioridade
sobre todas as outras.

--Ficamos _inteirados!_ disse a rainha, e accrescentou: Teem a palavra
os doutores musulmanos.

--Ns _c_, os verdadeiros crentes, exclamou um turco, no discutimos
seno d'alfange em punho.

--Quer isso dizer,  bruta! exclamou a rainha indignada; e erguendo-se
da cadeira, accrescentou: estando j a hora mui adiantada, e no havendo
mais assumptos a tratar, est levantada a sesso.


IV

Ficou a rainha quasi resolvida a casar com um christo; porm, receiosa
de que houvessem murmuraes e commentarios que lhe fossem
desagradaveis, lembrando-se de que alguem poderia dizer que ella obrra
levianamente, determinou-se a tentar uma outra prova. Consistia essa
prova em fazer com que os apostolos das tres religies celebrassem, na
sua presena, uma das cerimonias mais importantes dos ritos que
professavam.

Christos, musulmanos e judeus, todos, com muito gosto, acceitaram a
proposta de S. M., que logo fixou o dia para as cerimonias, que deviam
verificar-se no mesmo salo, onde se tinha discutido qual era das tres
religies aquella a que mais devia a mulher.

Os primeiros que saram a terreiro foram os mahometanos, os quaes
annunciaram que iam executar a _Zala_.

Tinha a rainha grande curiosidade de presenciar esta cerimonia, que
julgava ser magnifica, e que muito a divertiria; quando porm viu que a
tal _Zala_ consistia to smente em cruzarem aquelles _rates_ as mos
no peito, e fazerem reverencias e mais reverencias, ficou mais fria que
o proprio glo.

--Muito engraados so os taes _moirinhos_! disse S. M., com riso
disfructador; e ordenou, em seguida, que sassem a campo os judeus, a
vr que tal se portavam.

O grande rabino, com o seu barrete _enterrado_ at s orelhas, como usam
os seus correligionarios, sacou d'um livro, e immediatamente appareceram
todos os judeus com os seus ripanos nas mos. Ora, os taes livros
seriam muito edificantes, mas tinham tanta cdea, que s com uma tenaz
se lhes poderia pegar. O rabino principiou a entoar um psalmo, e todos
os judeus o acompanharam; cantavam porm to desentoadamente, e davam
to insoffriveis brros, que a pobre da rainha no teve outro remedio
seno tapar os ouvidos, e mandar a toda a pressa que cessasse tamanha
algaravia.

Cessou com effeito, e os christos dispuzeram-se, por ultimo, a celebrar
o santo sacrificio da missa, para o que o Preste Joo tinha tudo
perfeitamente ordenado.

Collocaram no salo um magnifico altar, accenderam uma grande quantidade
de tochas, que faziam bellissima vista; puzeram o orgo n'um sitio, que
tinha excellentes condies acusticas, tossiram e _aguaram o pigarro_
os cantores que haviam de officiar a missa, e que, como em principio
dissemos, eram os melhores de Roma; e, em seguida, subiu o Preste Joo
ao altar, magnificamente revestido, bem como os dois aclitos, que o
acompanhavam. A missa foi solemnissima, e tanto os celebrantes, como os
cantores e o organista fizeram prodigios, que deixaram de bcca aberta a
rainha e a sua crte.

Os mahometanos e os judeus olharam uns para os outros, e disseram por
entre os dentes:

--Derrotaram-nos em tudo e por tudo estes perros christos!

E na verdade no se enganaram, porque a rainha chamou, pouco depois, o
Preste Joo, e disse-lhe:

--Decididamente caso com um christo.

--Louvado seja o Senhor! exclamou o Preste Joo, cheio de santa alegia.
Agora s falta que V. M. escolha o christo, que deve ter a ventura de
occupar o thalamo de to formosa princeza.

--J est escolhido, disse a rainha das Indias, fazendo-se crada como
uma rom.

--E quem  esse feliz mortal?

--Tu.

--Eu!... V. M. no est em seu juiso!

--Ento! faz-te agora de manto de seda!...

--No, senhora; porm no sabe V. M. que eu sou padre, e que os padres
catholicos no podem casar?...

--Que me dizes, homem?

--Digo-lhe isto, real senhora!

--Pois, amigo; partiste-me o corao!

--Ento, porque?

--Porque estou apaixonada por ti, e se no casar comtigo, no caso com
ninguem.

--Mas, senhora, entre os meus correligionarios ha moos mais bem
parecidos do que eu.

--Asseguro-te que nenhum me pde agradar tanto como tu.

--Sinto isso bem; mas eu  que no posso casar.

--Visto isso, no terei outro remedio, seno dar a mo d'esposa a algum
d'esses moiros... que... diga-se a verdade, entre elles ha rapazes bem
_tirados das canellas_, e o que me no agrada n'elles  apenas a
religio, que professam...

Quando o Preste Joo ouviu estas palavras, tremeu dos ps  cabea,
pensando, e com razo, que, pelo facto de a rainha casar com um
mahometano, todas as Indias, povoadas de milhes e milhes de
habitantes, abraariam a seita detestavel de Mafoma, ao passo que, se
casasse com um christo, toda aquella gente seguiria a religio de Christo.

--Senhora, disse elle, por fim,  rainha, pde ser que consigamos
harmonisar tudo. O Papa, que  o Vigario de Christo na terra,  o unico
que pde auctorisar-me a casar com V. M. Vou j escrever-lhe, pelo
correio d'hoje, pedindo-lhe a competente licena.

--Oh! que feliz ida! exclamou a rainha; e riam-se-lhe os olhos, de
contente. Bem digo eu que s um rapaz de muitos recursos!

O Preste Joo poz logo mos  obra; escreveu ao Papa, contando-lhe,
muito pelo miudo, o que se passava, e, na _volta do correio_, recebeu de
Sua Santidade a dispensa para casar com a rainha das Indias.

Celebraram-se, pouco tempo depois, as vdas, com grandes festas e muito
regosijo (bem entendido, depois da rainha se ter feito christ) e,
passados annos, recebiam o baptismo todos esses milhes de milhes de
indios, que os inglezes, nos nossos dias, se fartaram de metralhar, sem
d, nem piedade.

Eis-ahi a historia do Preste Joo das Indias. Outros a contaro com mais
graa do que eu, porm com melhor inteno por certo que ninguem a conta.

FIM.






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Trueba, by Antnio de Trueba

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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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     https://www.gutenberg.org

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