The Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by 
Antnio da Costa Couto S de Albergaria

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Title: Os Filhos do Padre Anselmo

Author: Antnio da Costa Couto S de Albergaria

Release Date: February 15, 2008 [EBook #24625]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ***




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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Fev. 2008)




S D'ALBERGARIA


OS FILHOS DO PADRE ANSELMO

ROMANCE


PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE
*Lello & Irmo, Editores*

1904




Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica

178, rua de D. Pedro, 184




OS FILHOS DO PADRE ANSELMO




I

Os irmos da mo negra


O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze
badaladas da meia noite.

O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes
rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos
casacos e as mos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado,
recolhendo a casa, sob a ameaa de um temporal desfeito.

Era em fins do outono.

As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima,
despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e
sussurrante protesto de espoliadas.

Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria,
encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praa
do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella
noite agreste e frigidissima.

Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio
da torre, levou a mo ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da
illuminao publica, consultou o seu relogio.

--Aquelle anda adiantado cinco minutos--murmurou.

E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.

Agora, que o podemos vr ao reverbero do lampeo, notaremos que  um
rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presena, no
obstante as feies finas e delicadas quasi lhe desapparecerem
encobertas pela aba larga do seu chapo  Mazzantini.

Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do
lado da rua do Calvario avanou a trote rasgado um trem, que parou em
frente d'elle.

--s tu, Paulo?--disse de dentro uma voz.

--Sou.

--Entra depressa, que a noite est agreste!

E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a
entrada.

O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola
fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da
Restaurao e subindo a da Liberdade at ganharem a rua do Rosario.

Sigamos aquelle trem e ouamos o dialogo que se trava dentro d'elle.

Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28
a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu
joven companheiro:

--Meu amigo, como j te expliquei, isto so negocios em que se requer a
maior circumspeco e escrupulo na observancia das praxes. Has-de
consentir que te vende os olhos.

--Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?

--De modo algum. Mas  uma obrigao que o regulamento me impe, e eu
no posso faltar a ella sem trahir o meu dever.

--Pois bem, seja!

O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou ento do bolso um leno e
vendou com elle os olhos do companheiro.

--Has-de dar-me a tua palavra de honra que no tentars arrancar a venda
sem que para isso recebas ordem...

--Dou. Mas se o fizesse?

--Poderia isso custar-te a vida, meu caro.

--Apre!--fez o outro, sorrindo--vocs so intransigentes!

--Est n'isso a nossa fora. No violentamos ninguem a seguir-nos, damos
ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associao, mas defendemos
a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.

-- justo.

--Assim, tu podes, at  hora de prestares o teu juramento, reconsiderar
e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecer por
isso, a tua vontade ser respeitada, a tua independencia mantida. Mas
no sabers dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.

--Poderei dizer que fallei comtigo...--gracejou o outro.

--Que importa? Eu no sou uma associao. Comigo pde fallar toda a
gente...

--Fallemos srio!--tornou o moo que dava pelo nome de
Paulo.--Asseveras-me que os intuitos d'essa associao em que vou entrar
so em tudo dignos das justas aspiraes de um homem de bem?

--Assevero-te que os irmos da _Mo-negra_ comprehendem e cumprem 
risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as
prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as
differenas de gerarchia e de dinheiro. No ha pobres, porque todos
somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmos.

--Poderei ento contar com o auxilio da Associao na conquista da
mulher que amo?

--Decerto--volveu o outro.--Tanto como amanh qualquer de nossos irmos
poder contar com o teu auxilio para a realisao dos seus desejos. Isto
 apenas uma associao de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher
que amas ser tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que
toda a aco da _Mo-negra_ se resume em tornar felizes e ricos os seus
irmos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a
fora, o poderio, a importancia.

O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo,
entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida.

--No emtanto--accrescentou ainda Jorge--os fins e intuitos da Associao
vo sr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais
competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo,
poders renunciar ao teu intento, com a unica condio de no tirares a
venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...

--Conheces-me, e sabes que isso so processos indignos do meu
caracter!--protestou o mancebo.

O trem parou em frente de um porto largo, que dava accesso a uma vasta
quinta murada.

Jorge apeou-se e deu a mo ao seu companheiro.

--Chegmos!--disse elle.

Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o porto, que
se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido.

--E o cocheiro?--perguntou o mancebo.--No receias a sua indiscreo?

-- um dos nossos irmos--respondeu simplesmente o outro.

--Apre!--tornou o mancebo alegremente.--Eis aqui o que se chama um
servio bem montado!

Jorge no lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de
ramadas at o fazer entrar n'um corredor ao rez do cho, pelo qual foram
seguindo em silencio.

--J estamos em casa!--disse Paulo.

--Porque?--perguntou o outro.

--Sinto-o pela differena de temperatura.

--Ainda no... Vamos entrar agora...

E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e
prolongado.

Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um
pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete.

--Pdes tirar a venda--disse Jorge.

O mancebo levou a mo aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se
ssinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta
de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas.

Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre
quadro que se lhe offerecia  vista, o mancebo empallideceu e recuou um
passo, aterrado. Porm, reflectindo e com uma coragem superior  que
seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lanou um
olhar de glacial indifferena para a caveira.

-- singular!--pensou comsigo.--Entro na vida pela viso da morte!

Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa
resoar na sala:

--Medita!--disse aquella voz.

O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vr quem lhe fallava.

No viu pessoa alguma.

Passeou ento os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e no
descobriu a porta por onde tinha entrado.

Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre recinto, no o
poderia fazer, por no encontrar sahida.

Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.

--Medita!--tornou a voz a repetir.

Como resposta muda quella intimativa, o mancebo cruzou os braos sobre
o peito e ficou encarando fito a caveira.

N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo.

Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associao secreta da
_Mo negra_, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel
fora de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham
de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado.
Elle, no obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores
perigos com animo sereno e tranquillo.

--Principiou a prova!--pensou--julgam-me uma creana assustadia, capaz
de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creana
 um homem, que pde disputar primasias de coragem aos mais fortes.

E n'esta resoluo avanou para mesa, estendeu o brao e ia a tocar no
funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando:

--Detem-te! O que ias fazer?

--Tocar n'esta caveira--respondeu o mancebo com voz tranquilla.

--Com que fim?

--Com o fim de provar que a ideia da morte me no apavora.

--Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano?

--Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria...

--E depois?

--Depois, que a Morte  a niveladora implacavel do genero humano.

--Assim, crs que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e
impuros?

--Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podrido.

--Materialmente, disseste?

--Disse.

--Crs ento que vicio e virtude so coisas indifferentes, visto que
tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo
do Nada?

--No.

--Explica-te.

--Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de
toda a sua vida. Esses no tem a Morte o poder de os anniquillar.

--Pois bem; visto que assim , dize-me: De quem  esse craneo?

--De um meu irmo.

-- vaga a resposta. Dize-me: Ser d'um sabio? Ser de um ignorante?
Ser de um homem honesto? Ser d'um criminoso? Ser d'um nobre? Ser
d'um plebeu?

--Ignoro.

--Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?

--No! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito
dos vivos.

--Porm, essa theoria  contradictoria. Se todos devem confundir-se no
mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus?

--Pelo que d'elles fica no mundo e no morre. Dize-me o nome d'aquelle a
quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um
litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem
assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te
recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus
livros, os seus versos, as nobres aces e exemplos com que se perpetuou
na humanidade emfim.

--Tens religio?

--Tenho.

--Qual?

--A do Bem.

--A que vieste?

--Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal.

--Sabes o sacrificio a que isso obriga?

--A todos os sacrificios me sujeito.

--Repara bem. A abnegao, o desinteresse, a obediencia cega e passiva
s ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condio
para seres admittido entre ns.

--Acceito-a.

--Ters que resistir s tuas proprias paixes, ters que dominar os mais
irresistiveis impulsos do teu corao, para s obedeceres  lei da nossa
Sociedade; ters, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos,
familia--tudo, ao bem de teus irmos, quando isso te fr reclamado.

--Obedecerei.

-- preciso que o brao execute o que a cabea ordena. Tu sers o brao.
O chefe invisivel da nossa Associao  a cabea. Se fr preciso
derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fr mais caro, uma
vez que a cabea t'o ordena, obedecers?

--Sem a menor hesitao.

--Attende que vaes ligar-te a ns por um juramento que no pde ser
quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fr
a posio social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um
logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associao seguir-te-ha por
toda a parte. A _Mo-negra_, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente,
vingadora e terrivel, como a propria mo da Providencia, impedir teus
passos e guiar o teu destino. No mais te pertencers a ti; pertencers
aos teus irmos. Senhor liberrimo das tuas aces at agora, vaes
reduzir-te por um juramento s condies d'um escravo, mais que d'um
escravo--d'um simples automato. O teu cerebro no mais pensar para ti;
o teu corao no mais sentir por ti. Cerebro e corao teem de
emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes,
da nossa Associao. Ters fora para tanto?

--Terei--respondeu firmemente o mancebo.

--Pareces corajoso--observou a voz mysteriosa--pareces ter em pequena
conta a propria vida.

--Estou prompto a sacrificl-a para um fim justo.

--A ideia da justia  relativa. O que para uns  justia para outros 
iniquidade. Os irmos da _Mo-negra_ no teem o direito de discutir e
apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem s o dever
de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu
corao, no ters o direito de discutir a justia do sacrificio; apenas
ters que obedecer.

--Experimentem.

--Lembra-te, porm, que, se o sacrificio da propria vida te  fcil,
outros sacrificios te pdem ser mais penosos. Ests em tempo: se no te
sentes com animo e coragem para te prenderes a ns por toda a
vida,--vae, ests livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde
vieste.

--No!--respondeu o mancebo com energia--Eu no sou dos que recuam.
Quero ser dos vossos.

--Estende a mo sobre essa caveira e jura que queres ser submettido 
_prova_!--ordenou a voz.

Paulo estendeu a mo sobre a caveira:

--Juro--disse elle--que desejo ser um dos irmos da _Mo-negra_ e estou
prompto a submetter-me  prova que me for imposta!

Quando acabou de proferir este juramento, sentiu que lhe tocavam no
hombro. Voltou-se e viu diante de si um vulto athletico, sinistramente
vestido de preto e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos
aguazis do Santo Officio.

Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de novo os olhos. Em
seguida disse:

--_ prova!_

Pegou-lhe na mo e conduziu-o por um extenso corredor at parar em
frente de uma porta, a que bateu de maneira mysteriosa e symbolica.

--Quem sois?--perguntou de dentro uma voz, sem abrir.

--Irmo--respondeu o mysterioso guia de Paulo.

--D'onde vindes?

--Da Ala negra.

--Que trazeis?

--Um novo brao.

--Que busca elle?

--A mo.

--Quem vos guia?

--S. Miguel.

A porta abriu-se.

--Passae!--disse um homem, igualmente envolto n'um habito preto e o
rosto coberto pelo capuz.

Os dois seguiram vante e entraram n'uma sala ampla, abobadada, de
paredes escuras e illuminada apenas por um globo enorme de vidro, seguro
por uma phantastica _mo negra_, que pendia do tecto.

 roda d'esta sala, viam-se de p, hirtos e impassiveis, n'uma
immobilidade de estatuas, muitos vultos negros, com o rosto inteiramente
occulto sob o capuz do habito.

Em cada uma das paredes avultava uma grande mo negra, sustentando
punhaes e espadas, em panoplia.

Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se uma especie de throno,
assente sobre quatro formidaveis drages e todo coberto de crepes.
Occupando esse logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava uma
figura mysteriosa como as suas companheiras e como ellas silenciosa e
immovel.

O _irmo_ introductor de Paulo avanou, silenciosamente, com o mancebo
pela mo, at curta distancia do throno, parou, levou a dextra ao peito,
movendo o pollegar rapidamente, de modo a descrever com elle uma cruz, e
ficou de cabea curvada, em attitude respeitosa.

--Que quereis, irmo?--interrogou o vulto que se sentava no throno e que
era sem duvida o chefe da seita.

--Que escuteis e recebaes sob vossa proteco este meu companheiro, que
pretende entrar na _ala_ como combatente.

--Fiaes d'elle?

--D'elle fio, senhor!

--S. Miguel vos proteja!

--O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar o seu logar junto 
parede, em fila com os seus companheiros.

Paulo ficou s, junto ao throno, com os olhos vendados.

--Que pretendeis, mancebo?--interrogou o chefe.

--Combater.

--Que armas trazeis?

--A submisso, a energia e a lealdade--disse Paulo.

--Boas armas so essas quando temperadas ao fogo vivo do sentimento do
Bem e da Justia. Que vos falta?

--A fora da _Mo-negra_.

--A _Mo-negra_ s dispensa a sua fora e o seu amparo aos que tudo lhe
sacrificam com coragem, valor, e brio. N'este gremio no se admittem nem
os timidos nem os cobardes.

--No o sou.

--Dizer  facil; provar  difficil. Quereis sujeitar-vos  prova?

--Estou prompto!

--Reparae que podeis perder a vida na jornada aspera que ides
emprehender.

--A vida de nada me serve, se no posso dar-lhe applicao util.

-- facto. No emtanto,  meu dever prevenir-vos de que, sem perderdes a
vida, podeis perder a esperana da felicidade, que  a vida do corao,
o objectivo da existencia.

--Tudo sacrificarei aos meus irmos.

-- melhor recuar, mancebo. Na longa estrada que tendes a percorrer
antes de chegardes  _Mo-negra_, encontrareis mil perigos e mil
precipicios terriveis, que sereis obrigado a transpr ou a morrer.
Avanado o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, recuar 
impossivel; a menor hesitao  a morte. S uma coragem admiravel e uma
fora de vontade rara pdem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.

--Irei e hei-de chegar.

--Pois bem, vinde!

Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mo, abriu uma porta ao lado da
parede e, empurrando-o para dentro d'ella, disse:

--Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro subterraneo at ao
fim. Tereis que luctar com o fogo, com a agua, com os homens e com as
feras, antes que chegueis  porta santa do asylo que buscaes. Ide e que
S. Miguel--que venceu o drago--vos d fora e coragem.

O mancebo levou as mos aos olhos, arrancou a venda e embrenhou-se n'uma
escura e estreita galeria subterranea, que foi seguindo com estranha
ousadia.

A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde punha os ps.

Algumas duzias de passos andados, um subito claro illuminou o
subterraneo. Paulo, deslumbrado, levou as mos aos olhos. Na sua frente,
erguiam-se as chammas pavorosas de um incendio, que avanava para elle
em linguas de fogo, ameaando devoral-o. Dir-se-hia que uma enorme
represa de alcool ou de petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia
inundar o subterraneo, transformando-o n'um immenso forno crematorio.

O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na face o calr das chammas,
nem por isso se deteve. Caminhou audaz e resoluto para o perigo,
disposto a deixar-se queimar vivo antes que retroceder.

Ao aproximar-se das chammas, porm, estas apagaram-se subitamente,
tornando mais densa a treva do corredor.

Seguiu vante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso e sinistro de uma
enorme queda d'agua, que se despenhava em catadupas de uma rocha que
obstruia a passagem e que parecia o remate d'aquelle medonho e tenebroso
subterraneo transformado n'um lago.

A agua despenhava-se de tal altura e com tal fragor que, batendo nas
pedras, resaltava, esparrinhando com tanta violencia, que algumas gottas
vinham aoitar o rosto de Paulo.

 primeira vista, parecia impossivel transpr aquelle enorme pgo sem
perecer afogado. Uma dubia luz, coada por uma pequena abertura na
abobada do subterraneo, esclarecia o medonho passo.

Paulo, tomado da raiva febril de transpr todas as barreiras ou morrer,
avanou corajoso, fechou os olhos e atirou-se  agua. Com grande
assombro seu, achou-se em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e
com ella o ruido pavoroso da corrente.

A treva tornara-se mais densa. No obstante, elle caminhava afoito,
quando, de repente, se sentiu agarrado e preso por duas fortes e
vigorosas mos que o levantaram ao ar deixando-o cahir.

Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que o terreno lhe faltava
debaixo dos ps e se precipitava n'um abysmo.

No soltou um grito. Esperava morrer como um homem, e assim chegou a um
segundo subterraneo, onde se encontrou de p, illeso e sem que soffresse
a menor contuso.

Continuou o seu caminho corajosamente, embora sob o peso das commoes
soffridas. Foi andando na treva por alguns minutos, quando um rugido
terrivel lhe despertou a atteno.

Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, defendida, por dois
enormes lees, que punham n'elle os olhos de fogo, escancarando n'uma
ameaa a guella hiante.

Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram novo rugido atroador.

Pallido, os cabellos eriados, as faces contrahidas de susto, o mancebo
pensou em retroceder, mas envergonhado d'esta cobardia, exclamou,
avanando para as fras:

--Antes morrer que recuar!

Rapidamente, os lees sumiram-se na parede e Paulo pde bater  porta,
levantando e deixando cair o pesado batente em forma de mo negra.

A porta abriu-se.

--Entrae!--disse o mesmo chefe que o havia introduzido no subterraneo,
recebendo-o de novo na sala d'onde havia partido.

Paulo entrou.

--Ides dar-nos a ultima prova--propoz o chefe.--Aqui tendes este punhal.
N'aquelle gabinete est, sob a aco de um narcotico, uma mulher, que 
preciso _eliminar_... Ide! Cravae-lhe este punhal no corao.

Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avanar, quando recuou
espantado, soltando um grito terrivel:

--Ella!--bradou o pobre rapaz afflictivamente.

 que diante dos seus olhos admirados apparecera uma bella e gentil
figura de mulher, estendida sobre um ptro de torturas, os ps e as mos
amarradas, a face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou
morta, e essa mulher, essa viso inesperada, era nem mais nem menos do
que a sua amada, a aspirao querida da sua alma, a mulher por quem o
pobre moo ia filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da _Mo negra_!

--Hesitas?--perguntou o chefe com um accento de desprezo e sarcasmo na
voz.--No prestaste ainda juramento, mancebo; no ests preso a ns por
nenhuns laos. Se o teu corao se entibia, se o teu brao treme e se
recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere apenas uma palavra e sers
restituido  liberdade.

No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia profunda. Os cabellos em
desalinho, a face pallida, a fronte banhada de um suor frio, no
desfitava os olhos d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que
tinha presa toda a sua existencia, todas as esperanas da sua juventude,
todas as nobres aspiraes da sua alma e que alli via, sem saber como
nem porque, semi-morta, amarrada quelle ptro fatal, e prestes a cahir
aos golpes de uma justia occulta, que a mandava apunhalar!

E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o executor da fatal
sentena, elle, que por ella sacrificaria a vida, a honra, a familia,
tudo o que um homem pde sacrificar  mulher amada!

Era horrivel!

--Decide-te, mancebo!--tornou o chefe--Ou cumpres corajosamente os
mysteriosos designios da _Mo-negra_, ou recusas e vaes em paz com a tua
cobardia!

Como se lhe tivessem vergastado o rosto,  palavra _cobardia_, o mancebo
apertou na mo o punhal e, voltando-se para o seu mysterioso
interlocutor, disse, rangendo os dentes:

--Cobarde no o sou, no o serei jmais! Que posso eu fazer para
resgatar a vida d'aquella mulher?

--Nada!

--Offereo-vos a minha vida, senhores! Pegae em mim, amarrae-me quelle
ptro onde a tendes manietada, sujeitae-me  tortura mais cruel, mais
horrenda,--no soltarei uma queixa, no me ouvireis um gemido! Mas
libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, concedei-lhe a vida, e eu
bem direi a vossa generosidade, a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo
alento ser ainda um protesto, de gratido para comvosco!

--Nada podemos fazer-te. Essa mulher est condemnada, e nada poder
libertal-a da nossa justia. Queres executar a sentena ou preferes
retirar-te em paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?

--Cobarde nunca!--bradou o moo, luzindo-lhe nos olhos uma colera
terrivel--Bem vdes que no  o meu brao que treme-- o meu corao que
lucta!

--Vence-o!

--Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: no tem preo aquella vida? Quantas
vidas quereis que vos entregue em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu
vos juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda que para
isso eu tenha de descer to baixo, que me confunda com os mais infimos
sicarios, ou haja de subir to alto, que chegue a transpr os degraus de
um throno! Reparae que esta  a mulher que amo!  o mundo que vs me
mandaes anniquilar com aquella existencia!

--Est condemnada. Decide-te!--tornou a voz--Partes ou ficas?

--Pois bem, fico!... para partir com ella!

Avanou desvairadamente para a sua amada, que, immovel, amarrada ao
ptro, parecia cahida em profundo lethargo.

--Beatriz, perdoa-me!--murmurou elle.--No  a ti que eu apunhl-o,  a
mim proprio... Seguir-te-hei no teu resgaste!

Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no corao. O sangue espadanou
do peito da victima, que no soltou um gemido.

O mancebo, com as mos tintas de sangue, veio  sala e disse
serenamente, encarando os seus lugubres e mysteriosos companheiros que
se conservavam mudos e immoveis:

--Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos ao mesmo tempo
como se mata e como se morre!

E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que o detivessem, alou o brao
e cravou o punhal no corao.

A lamina, porm, no penetrou a carne e o mancebo, admirado de que o
ferro lhe no tivesse produzido a menor dr, examinou espantado a arma
homicida.

Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de lato, se embebe e
desapparece no cabo quando se descarrega a punhalada, voltando a
apparecer impellida por occulta mola desde que deixa de ser premida de
encontro ao corpo.

--Mas o que  isto?--disse elle indignado, quasi sem
comprehender.--Estamos ns representando uma fara?

--No, meu amigo!--respondeu amavelmente o chefe--estiveste dando-nos a
prova da tua rara coragem, do valor e lealdade do teu caracter, e ns
todos, bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um _irmo_ de tanto
valor!

Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia inanime a _amada_
de Paulo, continuou:

--Como j deves ter comprehendido, alli no est a tua amada, porm a
sua imagem to perfeita e semelhante, que a tomaste por ella propria.

O mancebo, aturdido, punha no manequim os olhos, recusando-se a
acreditar o que ouvia.

--Foi, pois, uma simulao de morte--proseguiu o chefe--O valor moral da
aco fica em p, visto que a tua inteno era obedecer aos preceitos da
_Mo-negra_...

--E matar-me em seguida!--accrescentou o mancebo.

-- a unica porta que resta aberta aos nossos _irmos_ para se separarem
de ns. A sahida por esse lado, posto seja uma fraqueza, no  nunca um
crime. De resto,  tambem por ella que fazemos sahir os que se tornam
indignos de pertencerem  nossa Associao.

--Espero que no tereis o incommodo de me ensinar o caminho, se algum
dia me arrepender de haver buscado a vossa camaradagem--disse Paulo.

--Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, lealdade e valor do teu
caracter, de que dste prova. Sers um bom _irmo da Mo-negra_ e
auguro-te uma brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares
em conservar puras e immaculadas as apreciaveis qualidades a que deves a
tua admisso. Queres prestar juramento?

--Sim!

--Irmo Golias!--ordenou o chefe--vendae os olhos ao neophyto!

Destacou-se da parede o _irmo_ que j havia sido o apresentante do
mancebo, e cumpriu as ordens do chefe.

--Vendam-se-vos ainda os olhos--disse este--no porque esteja no nosso
animo guardar para comvosco novos mysterios ou admittir-vos com fins
reservados, mas to smente porque a venda que se vos pe agora
representa a confiana cega, illimitada, que deveis ter nos vossos
irmos e nos nobres e justos fins para que todos trabalhamos, unidos
como um s homem, guiados pela mesma potente e mysteriosa _Mo-negra_.

Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. Os vultos que, de p
e immoveis rodeavam a sala, encostados  parede, avanaram
silenciosamente e formaram um circulo  roda de Paulo.

--Irmo Golias!--disse o chefe.

--Eis-me, senhor!

--Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?

--Do fundo da minha alma.

--Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.

O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se ao lado do mancebo, tendo
na mo uma salva de prata coberta por um crepe.

O chefe subiu ento ao throno e passou-se n'aquelle recinto uma scena
deveras surprehendente.

De p sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio de pau santo com
embutidos de prata e marfim representando uma caveira com dois fmures
em cruz, carregou em um pequeno boto, e o escrinio abriu-se,
transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo carmezim em que
assentava um craneo alvissimo, seguro por dois punhaes em tropheu.

Estendeu para a assembleia o brao sustentando esta estranha _reliquia_,
e immediatamente os vultos, levando as mos  cinta, desembainharam
luzentes floretes que traziam occultos debaixo dos habitos e que
apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um circulo de ferro.

Ao mesmo tempo uma voz resoou:

--Est aberto o templo!

Tres portas abriram-se e por ellas comeou entrando uma verdadeira
multido de capuzes negros, trazendo na mo esquerda uma tocha accesa e
na dextra um punhal.

Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e ao travs do _templo_,
abrindo em alas, voltados todos para o centro, onde se agrupavam, como
j dissemos, os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes
desembainhados.

Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi sem deixar perceber o
ruido dos passos.

Ento o chefe, erguendo a voz, disse:

--Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a todos os irmos da _Mo
negra_? Juras no revelar a alguem os segredos da nossa agremiao?
Juras sacrificar por ella todos os dias da tua vida, todas as horas da
tua existencia, o vigor do teu brao, os pensamentos do teu cerebro, os
sentimentos do teu corao?

Paulo estendeu a mo e disse solemnemente:

--Juro!

Immediatamente, o irmo Golias, entregando a outro a salva que tinha na
mo, voltou-se para o neophyto, dizendo:

--Irmo _David_, pois que sou teu padrinho, vou impor-te o habito de
_Mo-negra_!

Enfiou-lhe ento pelos hombros um habito igual ao que os outros vestiam,
deixando-lhe apenas a cabea a descoberto, sem lhe deitar o capuz.

--Tirae a venda, irmo--ordenou o chefe--para que toda a luz se faa aos
vossos olhos!

O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado e surprehendido ante o
estranho quadro que se apresentava  sua vista.

Os irmos haviam atirado os capuzes para as costas e descoberto os
rostos, conservando-se, porm, na mesma attitude severa e hostil, com os
flortes apontados ao novo irmo.

Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo ficou
surprehendido de vr muitos rstos conhecidos  volta de si.

O irmo Golias, pegou-lhe na mo e fl-o subir os degraus do throno.

O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braos e osculou-o na
testa.

--Bem vindo sejas, irmo, a augmentar a nossa ala!--disse elle.

A estas palavras, todos os flortes se abaixaram, entrando na bainha.

Em seguida tomou-lhe a mo e acompanhou-o at ao degrau inferior do
throno, dizendo:

--Recebe o abrao de teus irmos e faze por te conservares sempre digno
d'elles.

Os irmos que o haviam rodeado com os flortes vieram todos um a um
abral-o e beijl-o na testa.

--Irmos!--disse o chefe do alto do throno--vae reunir o sublime
capitulo. Est encerrado o _templo_.

As luzes apagaram-se, e os vultos comearam a sahir pelas differentes
portas do recinto, sumindo-se mysteriosamente sem que alguem pudesse
dizer que caminho levavam.




II

Amr e esperana


Deixemos os mysteriosos irmos da _Mo-negra_ seguir o caminho que os
havia de reconduzir ao mundo do qual por algum tempo semelhavam ter-se
apartado, e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que acaba de
iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.

Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em companhia do seu amigo
Jorge, agora convertido em seu _irmo_, regressou  cidade no mesmo trem
que o conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro em uma rua
proxima da de Cedofeita.

Eram tres horas da manh e o vento continuava soprando rijo da barra,
pondo negrumes de tempestade n'aquella noite desabrida.

O mancebo seguiu pela rua deserta at parar junto de uma casa de luxuosa
apparencia, e que denunciava pelo exterior severo e pelo amplo jardim
gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos seus habitantes.

Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mos, imitou o canto da
perdiz.

Era evidentemente um signal, porque algum tempo depois, uma das janellas
do rez do cho, vedada por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz
feminina disse, tremula e quasi sumida:

--Como vens tarde, meu amigo!

--Beatriz, perda, mas um assumpto do mais alto interesse e de que
depende a nossa felicidade futura impediu-me de vir  hora costumada.
Hesitei em vir despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia de
estar sem te fallar e talvez sem te ver at amanh  noute, obrigou-me a
procurar-te, Beatriz.

--Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha tambem que te dizer... Oh!
se soubesses como estou afflicta!

--Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...

--Paulo...--gemeu a meiga voz que fallava do lado de dentro da
grade--no sei como t'o hei de dizer... meu Deus!

--Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o peo!--supplicou o
moo--No me tenhas por mais tempo n'esta cruel espectativa... Tu
choras, tu pareces afflicta... Meu Deus! o que  que motiva a tua dr?

Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra do aposento,
occultava o rosto entre as mos buscando afogar os soluos.

--Paulo,--disse ella--meu pae... quer casar-me!

O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem descarregado uma violenta
pancada no peito.

--Quer casar-te!--exclamou.--E com quem?

--Com um rapaz que eu mal conheo... um rapaz que tem vindo duas ou tres
vezes de visita a nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais
intimos amigos de meu pae...

--Dize-me o nome d'esse rapaz!--intimou desvairadamente o moo.

--Eugenio de Mello--soluou Beatriz.

--Eugenio de Mello!--repetiu o mancebo.--Esse nome  completamente
estranho para mim. Nunca t'o ouvi pronunciar.

--Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes de visita a nossa casa,
apresentado por um amigo de meu pae...

--Mas, emfim, como  que surge agora essa ideia de te casarem com elle?
Acaso esse rapaz alguma vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de
amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo que por uma bem
entendida delicadeza da tua parte para comigo, julgasses dever
occultar-me os galanteios d'esse rapaz, se porventura elles te eram
indifferentes... Mas no comprehendo como teu pae pudesse ter a ideia
subita de te casar com elle, sem mesmo tentar indagar se o teu corao
no repelliria um semelhante enlace.

--No! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz ouvi uma palavra que
pudesse dar-me a perceber o mais tenue sentimento de amor por mim. Fra
dos cumprimentos e ceremoniosas attenes que as pessoas de boa
sociedade usam ter para com uma senhora, no se trocaram entre ns
quaesquer amabilidades que justificassem o pensamento d'este enlace que
me surprehende!

-- extraordinario! E como  que teu pae pretende impor-te um casamento
em que tu nem sequer tinhas pensado?

--Sabes que meu pae--volveu Beatriz--habituou-se a contar com a minha
obediencia cega e passiva em todos os seus desejos, que para mim so
ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen de ferro em que a sua
vontade  a unica que predomina...

--Isso, porm, no  raso para que elle se julgue no direito de
sacrificar o teu futuro de mulher aos seus caprichos de... pae.

--Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga o meu corao desprendido
de qualquer affecto e cr que no me repugna a ideia de unir o meu
destino ao de um homem que elle julga digno de mim.

--E se de facto te no repugna... obedece-lhe!--bradou o mancebo n'uma
voz estridente em que ia todo o fel do seu desespero.

--Paulo! s injusto para comigo! Sabes que te amo, que no posso amar
outro homem que no sejas tu; e quando me vs afflicta, atormentada ao
peso da cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a minha dr, de
me animares com o teu conselho a resistir  fatal imposio que me 
feita, ainda me torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das tuas
palavras! No te mereo isso...

As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, se realmente possue um
rosto to meigo como as suas palavras, de linhas to suaves e puras como
 doce o accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora,
pareceu abrandar um pouco o irritado animo do mancebo.

--Mas o que queres tu que te diga, minha querida, se eu noto que era vez
de pensares em repellir a despotica imposio de teu pae, ainda tentas
desculpal-o?

--No o desculpo... digo apenas o que elle pensa.

--Mas que tenho eu que saber o que pensa teu pae? O que desejo saber  o
que pensas tu, minha querida! O que  que tencionas fazer? Que
respondeste a teu pae? Qual  a tua inteno?

Beatriz pareceu hesitar na resposta.

--Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava que me dissesses o que
devo fazer...

--Eu?! Pois  a mim que compete dirigir os teus actos?  a mim que
compete dictar a tua resposta? Consulta o teu corao, Beatriz... Elle
que te responda e te diga a resoluo que deves tomar...

--Paulo! O meu corao diz-me que s a ti perteno, que s a ti eu
desejo ter por marido... Mas, bem vs, quando eu disser a meu pae que te
amo, e que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, por
mais vantajoso que se apresente, meu pae ha de perguntar-me quem s...

--E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que eu seja. Ou vae to longe
a tua piedade por mim e o teu despreso por ti que, tendo-me na conta de
indigno do teu amor, assim mesmo m'o concedes?

--Oh! no, no, Paulo!

--N'esse caso, o que receias?

-- que eu julgo-te com o corao; meu pae, porm, ha-de julgar-te com a
cabea; e entre o corao da filha e o cerebro do pae existe uma
distancia to grande, que eu receio bem que no possamos transpl-a...

--Se essa  a tua convico e te faltam foras para resistir e luctar,
submette-te e... adeus! Adeus para sempre, Beatriz!...

Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo d'este adolescente de
18 annos, que tinha j a energia e a vontade de ferro de um homem feito,
no podia supportar sem protesto os timidos receios e as hesitaes
offensivas da mulher que adorava.

--Paulo!--tornou a chamar a joven.--Escuta-me! Que singular prazer tens
em me atormentar, quando eu tanto preciso da tua compaixo e da tua
piedade!

--Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde que aqui cheguei outra
coisa no tens feito seno revolver-me n'um perfeito inferno de
torturas! Acabemos com isto, e vamos direitos ao fim sem tergiversaes
nem rodeios. Teu pae impz-te o casamento com esse... rapaz, que deve
ser por fora rico, distincto... amavel, emfim. E tu acceitaste?

--Eu...

--Hesitas na resposta e a tua propria hesitao me responde: acceitaste
e vens dizer-me que est tudo terminado entre ns...

--Oh, no!--accudiu a joven, com impeto.--Eu no acceitei nem respondi
como desejava. Pedi que me deixassem reflectir, porque o meu primeiro
pensamento foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo o que devo
fazer...

--O que deves fazer no seja eu quem t'o diga. Teu pae  rico, Beatriz;
tu mesma s j herdeira de uma avultada fortuna, e eu sou pobre.
Separa-nos, portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia contar
comtigo solteira e livre at ao dia, que no viria longe, em que eu
pudesse apresentar-me a teu pae, a solicitar a tua mo, sem que o pedido
revestisse o caracter humilhante para mim de uma tentativa de penetrar
no sanctuario da riqueza pela porta do corao de uma mulher. Vejo,
porm, que o destino quer o contrrio; que outro pretendente se
apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do que eu, e que da
firmeza e constancia do teu amor nada tenho a esperar, se eu no me
resolver a prestar-te o amparo incompativel com a minha dignidade de
homem e com o programma que me tracei de s a mim dever o meu triumpho.
Paciencia!

--Paulo, tu no me conheces! ou, se me conheces, ests sendo para mim de
uma injustia que mais tarde te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu
amigo, escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas palavras.

E Beatriz, com voz tremula de commoo, principiou dizendo:

--No conheces o caracter de meu pae e no admira por isso que julgues
sr-me coisa facil o contrariar-lhe os propositos... Eu, porm, que o
conheo, que por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo do
seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis amarguras e horriveis
tormentos a sua colera me prepara na lucta que vou ser obrigada a
sustentar, recusando-me a acceitar por esposo o homem que elle me
escolheu. No me intimida, porm, a perspectiva do soffrimento. Morrerei
de bom grado na defesa dos sagrados affectos do meu corao e
conservar-me-hei fiel ao juramento tantas vezes repetido do meu amr. O
que quero  ter a certeza de que a tua confiana me no abandona, Paulo;
que quaesquer que sejam as mudanas que se operem no nosso modo de viver
e de nos relacionarmos--mudanas que eu no posso prevr por emquanto
quaes sejam, mas que certamente ho de sr as mais dolorosas para o
nosso corao--eu terei no teu espirito e na tua lembrana o logar a que
o meu amr me d direito...

--Beatriz!--exclamou o mancebo--quando se ama como eu te amo; quando se
sente no peito a chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que de
todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, lucta-se,
soffre-se, morre-se, mas no se esquece jmais o nome d'aquella que nos
inspirou to fervoroso culto!

--Pois bem, meu Paulo!  possivel que o destino nos reserve dias bem
sombrios de uma ausencia crudelissima, que ha-de retalhar-nos o corao
e quasi volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as
circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes forem as apparencias
que me condemnem, no duvidars nunca da lealdade do meu affecto como eu
no duvidarei, jmais da sinceridade da tua alma, no  verdade?

--Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto exaggeras o pavoroso
quadro dos nossos infortunios...--disse o mancebo, pallido de commoo.

-- que tu no conheces meu pae!

--Que poder elle fazer, se tu recusares tenazmente esse enlace como uma
violencia imposta ao teu corao? Antes de tudo, tu s sua filha; e um
pae, por muito severo e rispido que parea, no se transforma por
simples capricho no algoz d'aquella a quem deu o sr.

--No sei... no posso dizer-te nada por emquanto, seno que tudo espero
d'este funesto designio manifestado por meu pae... Mas seja como fr,
jura-me que no duvidars nunca da mim, que has-de sempre confiar na tua
Beatriz como n'aquella que mais te ama no mundo.

--Juro-te, meu amor, que sers minha e que no te has-de encontrar s na
lucta e no soffrimento. Tenho amigos--continuou Paulo--amigos poderosos,
contra os quaes no  facil nem prudente luctar... Com elles conto como
_irmos_ e n'elles espero encontrar o auxilio de que ambos carecemos.
No te assustes nem te deixes dominar pelo terror. Hontem, ainda
desprotegido, poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza
contra inimigos to poderosos como  teu pae; hoje, conscio de que os
brados intimos do meu corao ameaado de morte encontraro ecco
n'outros coraes que me so dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo do
teu amor, e digo-te: No succumbas, anjo da minha alma! Tem confiana
em mim, que havemos de vencer.

O tom de absoluta segurana com que Paulo proferiu estas palavras
pareceu transmittir novo alento  joven.

--Luctarei--disse ella--e agora com mais energia, desde que nas tuas
palavras tenho o penhor de que no ser perdido o meu sacrificio. Nada
mais te pedia e nada mais te peo do que essa confiana inabalavel na
constancia do meu amor. Ama-me como eu te amo, Paulo! e d'este
sentimento, que  a vida, hauriremos foras para resistir aos embates de
uma sorte cruel e adversa!

Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia e amor sem fim,
despedindo-se, e promettendo tornar a ver-se na noite seguinte.

O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente est sorrindo do crte
romanticamente amoroso e piegas d'este dialogo dos dois namorados.

Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto brunida e lustrosa das
heroinas dos romances d'outras eras, o que d um tom de inverosimilhana
ao lance ingenuamente sentimental.

Mas o romancista, se copa do natural como ns o estamos fazendo, no
tem remedio seno acingir-se  verdade e reproduzir os seus personagens
com os aleijes que a natureza, as condies do meio ou os acasos do
nascimento e da educao lhes imprimiram no corpo ou no caracter.

Esta menina, assim romanticamente apaixonada, exprimindo-se em termos de
um antiquado sabor litterario, no nos est revelando uma assidua e
ingenua leitora das novellas de Camillo?

Claro est que ella reproduz incorrectamente o que de peor podia haurir
na leitura do genial escriptor--a emphase, o arredondado do periodo, a
declamao cantante, sem os esmros da dico, sem a impeccavel belleza
e elegancia de frma do grande Mestre. Mas o facto  que ella, em
assumptos de corao, no podia exprimir-se de outra maneira, visto que,
como mais tarde teremos occasio de averiguar, foi nas paginas
soluantes do Amor de Perdio que aprendeu a traduzir as primeiras
balbuciaes do seu amoroso corao de creana.

Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas mesmas leituras,
correspondia-lhe no tom e no gosto do seu arrasoado. Se, porm, esta
linguagem pde ser capitulada de falsa, o mais espantoso  que ella
exprimia um sentimento profundamente verdadeiro.

Os dois amavam-se com entranhado ardr, e isso  o que mais importa
saber ao leitor inimigo de divagaes.

Ponhamos, pois, de parte a preoccupao de responder a reparos que a
grande maioria certamente no far e digamos em poucas palavras o que
foi feito de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, teve que
retirar-se a passos apressados para que a chuva, que comeava a cair em
grossas gtas, o no surprehendesse na rua tristemente deserta.

O mancebo era estudante. Tinha completado o curso do Lyceu e
matriculara-se no primeiro anno da Academia.

O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem se dizia encarregado de
lhe fornecer os meios de subsistencia e de estudo.

No o tinha, porm, na sua companhia. Incumbira-o aos cuidados de uma
familia honesta, onde era tratado como filho, e limitara-se apenas a
exigir que o _seu estudante_ o fosse visitar duas vezes por semana, nas
quintas e nos domingos,  casa que elle habitava, na rua Ch.

Paulo no conhecera outra familia, alm d'aquella em casa de quem o
hospedaram aos doze annos. At ahi, que se lembrasse, fra alumno
interno d'um instituto religioso, onde umas irms piedosas o trataram
com o carinho de mes, ficando-lhe d'esse internato uma recordao to
saudosa que, ainda agora, ia a meudo visitar a abbadessa, madre Paula,
que tinha no seu corao o primeiro logar.

Recolhendo a casa na manh d'aquella noite accidentadissima, o mancebo
no pde dormir.

Agitadissimo, recordando o seu passado, em que parecia haver um ponto
escuro que o mortificava, Paulo resolveu erguer uma ponta do veu
mysterioso que encobria o seu nascimento.

No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa do seu protector, e
sem mais preambulos, disparou-lhe esta pergunta  queima roupa:

--Diga-me, padre: quem  meu pae?

O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto da pergunta, pz no
mancebo os olhos espantados e ficou-se a consideral-o em silencio por
alguns momentos.

--Porque me fazes essa pergunta, Paulo?--disse por fim.

--Porque sou um homem, porque tenho j dezoito annos, e desejo saber
d'onde venho, para poder destinar para onde vou, ou para onde devo ir...
respondeu o mancebo com firmeza.

O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do moo e continuou a
olhal-o fixamente.

--Paulo--disse elle afinal--se dizes que s um homem, como pde influir
no teu destino o saberes ou deixares de saber o nome d'aquelles a quem
deves a existencia? s um homem; e todos os homens devem ser guiados
pelo mesmo sentimento do bem, todos devem caminhar para o mesmo fim:
serem uteis a si e  humanidade. Creio que o facto de cada um saber ou
ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada deve influir no destino
que lhe est traado.

--Perdo, meu bom amigo!--objectou Paulo--Todo o homem tem o direito,
creio eu, de conhecer a sua origem, de saber o nome dos seus
progenitores, no s para os respeitar e bemdizer pelo beneficio da vida
que lhe concederam, mas ainda para nortear os seus actos pelas tradies
da sua familia. Por isso insisto na pergunta: quem  ou quem foi meu
pae?

--Teu pae--tornou o padre placidamente e agora de todo reposto do
sobresalto que lhe causra a pergunta--teu pae  ou foi um homem. D'isso
no te deve restar duvida, pois que homem te dizes j e como homem te
apresentas.

--Mas no tinha nome esse homem?

--Se o tinha, no chegou nunca ao meu conhecimento.

--Nem o nome de minha me?

--Nem o nome de tua me.

--Como , pois, que eu me chamo Paulo de Noronha?

--Naturalmente porque aquelles que te deram o sr assim quizeram que te
chamasses.

--Assim quizeram! A quem manifestaram elles essa vontade? So ainda
vivos? Se o so, porque se occultam e me no apparecem? Se morreram,
porque motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?

--A nenhum filho  licito discutir e muito menos censurar os actos de
seus paes.

--Mas eu no censuro, nem sequer discuto!--obtemperou Paulo--eu apenas
pergunto.

--Ha perguntas que envolvem censura, se no para aquelles a quem se
fazem, pelo menos para aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo,
que estranha curiosidade  essa que assim te move a querer saber o que
por emquanto deves ignorar?

O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim disse:

--Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com franqueza e lhe exponha
as duvidas que ha tempo a esta parte me obcecam o espirito e me fazem
reflectir na minha estranha situao...

--Falla, meu amigo, falla!--animou o padre bondosamente--e cr que, a
no sr madre Paula, ninguem no mundo merece tanto como eu a tua
confiana.

--Pois bem!--tornou Paulo--ha muito tempo que eu dirijo a mim mesmo
estas perguntas: Quem sou eu? De que familia descendo? Como se chamam ou
se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos dizem de quem so
filhos, todos repetem com orgulho o nome dos paes ou relembram com
saudosa ternura o nome das mes. Todos dizem: a minha casa, a minha
familia, s eu no posso dizer--_meu pae_, _minha me_, porque so
entes que no conheo, de que nunca ouvi fallar, de quem no tenho a
menor noticia. Dar-se-ha caso que eu no tivesse pae, que no tivesse
me? Mas ento a quem devo eu a minha existencia, o amparo e proteco
que at agora tenho recebido? Sou um orpho? Sou um engeitado? Vivo e
alimento-me do que por direito de nascimento me pertence, ou recebo a
esmola de nobres almas compassivas? No primeiro caso, se tenho direitos,
reclamo-os, porque esses direitos impem-me deveres que eu quero
respeitar e cumprir. No segundo, como sou j um homem e tenho o brao
bastante robusto para ganhar o po da existencia, no devo por mais
tempo acceitar criminosamente a caridade que me trouxe at aqui e que
pde fazer falta a outro desgraado como eu!

--Paulo!--disse o padre Filippe, fundamente commovido--s ainda muito
novo para te preoccupares com assumptos que, por emquanto, devem
permanecer envoltos no vo do mysterio que os encobre aos teus e aos
meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.

-- ento  caridade de vossa reverendissima e de madre Paula que eu
devo o po que at agora me tem alimentado, no  assim?--perguntou o
mancebo, extraordinariamente commovido e pallido.

--No! No!--atalhou padre Filippe.--Eu recebi de um meu superior, a
quem assisti nos ultimos instantes, o encargo de velar por ti e de
applicar s despezas da tua sustentao e educao a quantia que
mensalmente me  enviada por pessoa que desconheo e que j antes a
enviava ao santo sacerdote que me legou este encargo. A mim nada me
deves, meu filho, seno a grande estima que tenho por ti e o grande
desejo que sinto de te vr conquistar uma posio digna e honrosa na
sociedade.

Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas de suavidade e
doura, impressionaram-n'o profundamente.

--Estou ento condemnado--disse elle, passados instantes--a ignorar toda
a vida o nome de meus paes?

--E de que te valeria o sabel-o?

--De que me valeria! Valer-me-hia de no ter que crar diante de quem me
interrogar a esse respeito! Valer-me-hia de no ter que recuar
envergonhado e confundido diante de uma familia honesta que, antes de me
admittir como filho em seu seio, ter que perguntar-me o nome de meus
paes! Valer-me-hia, emfim, de no me encontrar n'esta horrorosa situao
de no saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, se o vil
e abjecto fructo de uma aco indigna, de um amor bestial e criminoso!

Ouvindo esta retumbante tirada do moo, o padre Filippe sorriu ainda
amoravel e observou-lhe:

--Os tempos mudaram e com elles a orientao da sociedade moderna, meu
Paulo. J nenhum homem se impe hoje pela familia, pelas tradies dos
seus antepassados, pelas chimericas e phantasticas illuses de uma
arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentes inuteis pelos
seculos fra. Nenhum homem vale hoje pelo que valeram seus paes e seus
avs... Hoje, cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios,
pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes manifestaes
da sua intelligencia. A tendencia democratica dos nossos tempos de ha
muito que pz de parte as falsas convenes de uma sociedade que se
desmoronou...

--Mas no pz de parte, creio eu, os dictames da honra!--retorquiu o
mancebo.

--Decerto. E alguem te impede de te affirmares sempre um homem honrado,
Paulo? A honra est nos nossos actos, est no uso que fazemos das
faculdades com que a natureza nos dotou, est na firmeza e altivez com
que, atravs de todas as vicissitudes, cumprimos intemeratamente o nosso
dever; no est nos acasos do nascimento, nos brios de passados
avoengos, nos appellidos pomposos dos que nos deram o sr. Faze, pois,
por merecer a estima e o respeito dos teus concidados, Paulo, e no te
preoccupe a ideia de no saberes de quem vens. Basta que apenas conheas
para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do dever.

O mancebo guardou silencio por alguns instantes.

--, pois, um mysterio impenetravel o meu nascimento? Mas com que
direito se me occulta o nome de meus paes? Com que direito me condemnam
a esta lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que me do o devo
receber como meu, se o devo considerar como uma esmola?

--Paulo! Por duas vezes j, desde que aqui entraste, proferiste a
palavra _esmola_. As esmolas do-se aos desgraados, aos invalidos, aos
que se encontram impossibilitados de, por esforo proprio, provrem aos
meios de subsistencia. Tu no ests n'esse caso. Quando muito, o que
recebes de mo ignota que no precisas conhecer,  um adiantamento, uma
divida que contrahes e que te ser facil solvr, correspondendo
dignamente s esperanas que em ti depositaram os que quizeram fazer-te
um bom cidado, um homem util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto,
meu amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me--continuou o padre
Filippe--tens ido visitar madre Paula?

--Ha mais de quinze dias que a no vejo.

--s ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter estranhado a falta da tua
visita... Como  que pdes esquecer assim por tanto tempo quem tantas
provas de carinhoso affecto te tem dado?

--Padre--disse Paulo, ruborisado--eu no esqueo, nem poderei esquecer
nunca quanto devo a essa bondosa e santa senhora, que tem tido para mim
desvelos e ternuras de... de me. Na minha vida, porm, comeam a surgir
to imprevistas luctas, incidentes de tal modo inquietadores, que no
sei se deva perturbar com a minha presena o suave remanso d'aquella
existencia para mim to cara!

--Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...--O que  isso, Paulo?
Falla-me com franqueza, dize-me tudo, rapaz! O que  que te acontece de
estranho e de ameaador? No te esqueas de que deves considerar-me o
teu primeiro e mais sincero amigo, meu filho! Creio que tenho direito 
tua confiana... Ou no?

--Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o com assumptos que
lhe parecero talvez pueris...

--Bem sei!... Negocios do corao... Temos amores no caso... So os
primeiros rebates da virilidade no corao de um adolescente. Vamos!
quem  a tua Virginia, meu Paulo?--perguntou jovialmente o sacerdote.

--A minha Virginia--disse o mancebo, com enthusiasmo--chama-se Beatriz,
e no  menos formosa nem menos adoravel do que a immortal inspiradora
do Dante.

--Bravo!--exclamou rindo o padre Filippe.--Temos, pois, em perspectiva
uma _comedia divina_, para fazer confronto com a _Divina Comedia_...

--Se no tivermos antes um drama extraordinario, at agora indito na
historia dos soffrimentos humanos...

O padre encarou-o gravemente.

--Fallas serio, Paulo?

--To serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre Filippe, sobre a
historia do meu nascimento.

--Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, pedir-me a chave do
enygma da tua existencia? Eu devia tel-o adivinhado... S as mulheres
so curiosas por indole...

--No, no!--atalhou Paulo.--A mulher que eu amo ainda no me fez a
menor pergunta que me difficultasse a resposta. Eu, porm,  que desejo
saber quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.

--Pois no  sufficiente o corao do homem que ama para a mulher amada?

--Padre, a mulher que eu amo no  livre; tem pae, que se julga com
direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a
alliana de um homem de origem... desconhecida.

--Foi essa menina quem t'o disse?

--Disse-m'o a minha propria razo.

--Queres um conselho, Paulo?--perguntou inopinadamente o padre Filippe.

--Os conselhos de vossa reverendissima so para mim leis sabias e
justas, que eu no posso deixar de acatar com o respeito e gratido que
lhe devo.

--Pois bem; refreia os impetos da tua paixo por essa menina e busca
antes de tudo fazer-te digno do seu amor.

--J o sou.

--Pelos dotes do corao, concordo, mas no pela posio social
alcanada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando
souber que lhe pretendes a mo da filha,  com que recursos contas para
proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem
direito. Querer saber que posio  a tua, que profisso exerces ou de
que meios de fortuna dispes para poderes dignamente apresental-a na
sociedade ao respeito e  considerao das pessoas de bem. E
comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas no se responde com uma
certido de baptismo que nos d avs illustres de quem no herdmos um
palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedio apaixonada dos mil
juramentos de amor constante que enviamos  filha em perfumadas
cartinhas que l esto, em mao, amarradas com fita de seda...

O mancebo no pde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe,
que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio.

--Os paes no se contentam com to pouco, exigem mais alguma
coisa--continuou o sacerdote--Ora esse _mais alguma coisa_  que est na
tua mo offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho
honesto uma posio que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a
ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que no
s inferior  mulher que amas, vae pedil-a e no receies que o pae te
no encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia.

--Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!--exclamou o mancebo,
dando largas ao desespero que lhe ia na alma.

--O pae d'essa menina sabe que ella te ama?

--No sabe.

--, pois, natural que, julgando o corao da filha desligado de
qualquer affeio, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece
vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse no o
seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o
corao e a impor-lhe  fora um casamento que ella rejeita, vae uma
distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes,
recusar o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que
para todos os paes deve ser sagrado--a ausencia absoluta de sympathia
pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por
ti no  to vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e
com o facto s tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de
vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder s
nobres aspiraes da tua alma. No creio, pois, que isso seja
contrariedade de maior, que te d motivos para os sobresaltos e
inquietaes que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz...
Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e vers como nas
suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietao que
precisas... Isto no  desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no
accidentado caminho a que o corao te propelle--accrescentou o
padre--Mas  que as mulheres, em questes do corao, teem mais
auctoridade, so mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia
do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuaso que a ns
outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo,
escuta as suas palavras e vers que has-de sentir-te bem, meu filho.

--Procural-a-hei--disse Paulo--mas creio bem que no poder
aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem
as palavras da santa e virtuosa senhora podero trazer mais funda ao meu
espirito a convico que vossa reverendissima me deu de que preciso
engrandecer-me, fazer-me _homem_ para conquistar a posse da mulher que
amo!

--Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras,
Paulo. Cr que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu
bem estar. Se fosses meu filho, no te aconselharia de modo differente
nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posio culminante.
D'isso pdes estar certo.

--Trabalharei e empregarei todos os esforos para realisar os desejos de
vossa reverendissima--que so tambem os meus.

--E conseguil-o-has, porque s intelligente, s energico, e revelas
nobreza de caracter. Com taes predicados, s no alcana uma posio
distincta na sociedade quem no quer.

Agora, reanimado pela esperana que as palavras do padre Filippe lhe
incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca
resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das
nobres aspiraes do seu amoroso corao de rapaz.




III

Pae e filha


Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de
realisar os dourados sonhos da sua imaginao juvenil, queira o leitor
acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o
sombrio progenitor da encantadora menina.

No tendo ns os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as
relaes com a filha, justo  que busquemos o conhecimento de ambos e
entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter
de cada um e apreciar os acontecimentos que vo desenrolar-se aos nossos
olhos.

 hora a que entramos, est o sr. Custodio de Jesus sentado  secretria
do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe
so muito uteis, pela atteno e minuciosidade com que os examina e pelo
cuidado com que em seguida os guarda emmaados e rodeados de uma larga
cinta de papel branco, em que se l n'uma excellente letra garrafal, a
palavra--Hypothecas.

--Estas bem esto--murmura elle coando distrahidamente com a mo
direita a vasta suissa grisalha, talhada em frma de foucinha e
franzindo o labio superior completamente rapado  navalha, talvez para
facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas
pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente
apresenta a configurao e o aspecto de um capacete de alambique--Estas
bem esto... O peor so as outras...

Passou a examinar segundo mao, mostrando no rosto evidentes signaes de
mau humor.

--Aqui est!--disse elle, batendo com a mo espalmada sobre os
papeis--Mais de cincoenta contos em hypothecas que no pagam ha um anno
um real de juro! Ladres! E agora so capazes de ainda vir fazer questo
para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu no fique com as
propriedades pelo preo da louvao...

Como correspondendo a estas reflexes, que accusavam no sr. Custodio de
Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas at as espoliar
em leilo, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por
ella um homem alto, espadaudo, porm excessivamente magro, usando uma
comprida barba que quasi lhe chegava  cintura e que lhe dava 
physionomia um aspecto carregado, ameaador, capaz de apavorar o mais
remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes.

Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si,
dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretria, e
sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapo que lhe
ensombrava o barbudo rosto.

Ao vl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo
contentamento e exclamou:

--Estava agora mesmo a pensar em voc, amigo Belchior!

--Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasio... No vim mais cedo
porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanh tenho
outro... Isto  um nunca acabar de caloteiros, que s gostam de comer e
no pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar,
amola-se! Deixo-o expremido que nem um limo.

-- o que eu preciso que se faa a estes tratantes que aqui esto com o
juro por pagar!--exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as
escripturas que tinha diante de si.

--No se afflija, que isso  negocio de pouca demora... Qualquer dia
tratamos d'isso. Sabe ao que eu c venho?

--Voc o dir, amigo Belchior.

--O rapaz, pelas informaes que tenho d'elle, e um partido!

--Sim?

--No imagina!  mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos
a fazer  no perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.

--Voc bem sabe que o caso no  para pressas, amigo Belchior... Eu
mesmo tenho receio do rapaz... Diz voc que elle tem uma grande fortuna,
e eu mesmo no duvido que assim seja, mas quem  que me assegura que
elle no tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que no possa
vir a compromettel-os?

--Quanto  primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido
estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem
finalmente pago o seu tributo  mocidade... Mas todas essas rapaziadas
no teem desfalcado o rendimento, que  grande... Quanto  segunda
hypothese,  provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de
feitio e comece a portar-se como homem srio... Mas se o no fr, tanto
melhor...

--Tanto melhor, como?--interrogou o sr. Custodio de Jesus,
indignado.--Ento  melhor que minha filha case com um valdevinos, um
dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu,
meu amigo, desde j lhe declaro que o que tenho me custou muito a
ganhar, e no  para o vr dissipado em patuscadas e ceias s actrizes!

--O meu amigo Custodio de Jesus saber muito bem como  que se ganha
dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca;
mas o que no sabe  nada de jurisprudencia--disse o Belchior com
emphase.-- preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha
mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho
adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que  meu e o que 
dos meus constituintes...

--No digo que no, mas essa theoria, com franqueza, no me agrada... L
que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, no  bom precedente, mas
desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo
se lhe pde perdoar e esquecer com a condio de mudar de vida e de
costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha.
Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipaes e
loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso  que me no entra
c!

-- o que eu digo!--volveu o procurador com desdem--no sabem nada da
lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos!

--Os codigos, amigo Belchior, pdem dizer o que quizerem, mas o que
elles no pdem  metter-me em cabea que um marido estroina  muito
melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher.

-- porque o amigo e sr. Custodio de Jesus--respondeu o procurador,
formalisado--no sabe que a lei faculta uma aco de interdico contra
o marido prodigo, e confere a administrao do casal a uma ou mais
pessoas de familia.

O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.

--O qu? O que  isso? Explique l, homem, que eu no percebi bem.

--No tem que explicar. No se fazem escripturas, de modo que a noiva
tem a meao nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres
da mulher. Ora a administrao do casal pertence de facto e por lei ao
marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega
a dissipaes e patuscadas escandalosas,  mulher assiste o direito de
requerer a interdico do marido e pr-lhe uma tutela que, n'este caso,
poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus...
Ora percebe agora a razo por que eu digo que mais valer que elle
continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca?

--Realmente voc, amigo Belchior,  uma cabecinha privilegiada! exclamou
enthusiasmado o pae de Beatriz.--Porque no estudou voc para doutor?

O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso:

--No me faz falta--disse.--Conheo to bem a lei como aquelles que
fram a Coimbra. Por isso lhe digo, no deixe perder esta bella occasio
de apanhar uma fortuna, que decerto lhe no voltar to cedo a bater 
porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se
lhe offerece, e deixe o caso por minha conta.

--Eu j disse  minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella
acceitasse por marido este rapaz...

--E ella, o que respondeu?

--Como o meu amigo pde bem avaliar, minha filha, que at agora no tem
pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.

--Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe prope?

--Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja
consultar o seu corao, e isso no se lhe pde levar a mal...

--Bem! Mas supponha que ella recusa...?

--Que motivo ter para recusar quando sabe que a minha vontade  que
este casamento se faa e quando o noivo  realmente uma bella figura,
capaz de captar as sympathias da menina mais exigente?

--Mas supponhamos que recusa!--Insistiu ainda o procurador.

--No posso suppr tal cousa, porque no estou habituado a que, em minha
casa, alguem tenha vontade differente da minha.

--Nas pequenas questes da vida domestica, d'accordo... eu creio que o
meu amigo tenha sido e continuar a ser completamente obedecido... Mas
n'este caso talvez no encontre a mesma cega obediencia que suppe...

--Por que?

--Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeies para um lado,
no ha diabo que as faa voltar para outro, amigo e sr. Custodio...

--O que quer dizer com isso, amigo Belchior?

--Quero dizer que se a Beatrizita j tem por ahi namoro que lhe faa
andar a cabea  roda, ao meu amigo no lhe ser to facil como julga o
fazer que ella obedea  sua vontade...

--Namoro! A minha Beatriz  uma creana de dezeseis annos e no pensa
n'essas tolices!--protestou o sr. Custodio de Jesus encrespando o
sobr'olho.--Isso  bom para aquellas raparigas que so educadas  redea
solta e que no teem paes que lhes saibam dar educao... Namoro! Eu
admittia l que uma filha minha tivesse namoro!

--As filhas nunca pedem licena aos paes para essas coisas...--commentou
o outro.

--As filhas que no respeitam os paes ou que no teem paes que se faam
respeitar, d'accordo. Mas em minha casa no se d isso...

--E se se desse?

--Se se desse! Voc sabe alguma coisa, Belchior?

--Se se desse,  o que eu pergunto?--retorquiu o procurador com um
sorriso mysterioso.

--Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos! Fechava a rapariga
n'um quarto, que no tornava a vr sol nem lua, emquanto no fosse 
egreja casar com quem eu dissesse!--bramiu o sr. Custodio de Jesus,
assentando furioso murro sobre as escripturas das hypothecas em
divida.--Mas voc sabe alguma coisa? Homem, seja franco!

--Pois ento fique o amigo Custodio sabendo que temos moiro na costa e
que a pequena... mas voc no v agora fazer asneira... estas coisas
levam-se com prudencia...

--Diga, diga, homem!--insistiu o capitalista afflicto.--Sabe que a minha
filha...

--Tem um namoro. E ento?  a coisa mais natural d'este mundo.

--Voc falla serio?

--No costumo brincar com coisas d'estas. Quando eu lhe digo que sua
filha se corresponde com um rapaz a quem vae fallar da janella para a
rua todas as noites,  porque tenho d'isso a certeza.

Custodio de Jesus levantou-se de um salto como mordido da tarantula.

--Voc no me repita isso nem a brincar!--bramiu elle--porque eu vou-me
quella desavergonhada e racho-a!

--Mau! assim no fazemos nada!--reprehendeu o procurador--Aqui o que
convem  saber o que se passa e tratar de encaminhar as coisas de modo
que o projectado casamento com o nosso rapaz se realise o mais breve
possivel...

--Mas quem , quem  esse outro que ella namora?

-- um estudantito... um rapaselho.

--Rico?--interrogou o Custodio arregalando os olhos.

O procurador soltou uma gargalhada.

--Voc, amigo Custodio, cuida que os rapazes ricos andam por ahi aos
pontaps! Isto hoje  tudo uma pelintrice, voc bem o sabe... Quando
apparece um como o Eugenio,  um milagre! Porisso  que eu digo: vamos a
deitar a unha a este, porque se o deixamos escapar no apparece outro
to cedo...

O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, quasi sem prestar
atteno s palavras do procurador.

--Mulheres! Raa maldita! Nasceram s para enganar!--blasphemava
elle--At esta, de 16 annos, creada com todo o recato, longe das
sociedades, retirada das ms companhias, at esta, que parecia uma
innocente, me sae  ultima hora a corresponder-se com um namoro, sem que
eu, que sou pae e ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe
os menores movimentos, tenha dado por isso!

--Amigo Custodio--obtemperou o procurador--no vale a pena affligir...
No  caso de morte de homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse
isto porque entendo que a voc, como pae, convem saber o que se passa
para saber como ha de proceder...

--Como hei de proceder sei eu!--rugiu colerico o pae de Beatriz--Ponho-a
de p descalo a fazer o servio da casa, a varrer, a lavar a loua, a
cosinhar, para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada de
servir, que seja criada de servir em tudo!

--Homem, eu desconheo-o!--reprehendeu severo o Belchior--Tinha-o na
conta de um homem de juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem
e que respeita os seus interesses, e voc sae-me a querer fazer tolices
e disparates que no lembram a ninguem!

-- que voc no sabe o odio que eu tenho s mulheres!--explicou o
Custodio--Esta filha veio para meu castigo!

--No veio para seu castigo nada! Apparece-lhe um casamento bom para
ella, um casamento de primeira ordem? Aproveite-o, trate de a casar por
bem ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper no excesso de a pr
a fazer de servilheta, isso  dar murros em si proprio, amigo Custodio.
Ora imagine que voc faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... E
depois? Voc desherdal-a no pde, porque ella  sua filha. Alm d'isso;
j no tem me e mais tarde ou mais cedo tem que entrar na posse da
herana materna... Homem, prudencia!... levemos as coisas por bem, que 
melhor...

--Tem razo!--concordou por fim o Custodio--Mas olhe que  para um homem
arreliar! No ha ninguem mais infeliz com as mulheres do que
eu!--desabafou com o desespero de quem tocou a mta do soffrimento--Eu
fui casado duas vezes... A primeira mulher, a Carlota, sahiu-me uma
bebeda, uma desavergonhada que toda a vida me atraioou com um padre em
quem eu tinha toda a confiana e que at por ultimo me roubou,
levando-me tudo, deixando-me a pedir uma esmola!... Veja l voc! Eu era
um bolas que no sabia nada do mundo, via Deus no co e a mulher na
terra, tudo o que ella dizia era o que se fazia, e afinal o pago que me
deu foi aquelle! Tambem a levou o diabo, que l se envenenou em Lisboa,
e to infame que at  hora da morte deixou um bilhete a dizer que se
matava por minha causa! Isso foi uma coisa muito fallada, at andou nas
gazetas...

--Espere l!... D. Carlota? Tenho ideia de lr isso...

--Foi ha dezoito annos...

--Sim... ha de haver esse tempo, ha de...

--Pois, meu amigo, o ladro do padre arranjou-me uma tramoia de umas
letras que eu acceitei a um outro maroto como elle, um tal Joo
Ignacio...

--Bem sei! Conheo perfeitamente. Esse homem tambem parece que deu com
tudo  costa. At esteve doido, e a sua mania  que tinha sido roubado
por um padre...

--Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladro, um malandro com capa de
santo, que foi a minha desgraa! Se no fosse elle metter-se-me com a
mulher e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de quatrocentos
contos!

--Vamos l!--observou sorrindo o procurador--Parece que ainda lhe no
levou tudo, porque voc, amigo Custodio, est possuidor de capitaes
muito avultados.

-- custa de muito trabalho e depois do segundo casamento para
c--explicou o Custodio.

--No sei como voc, depois de ser to infeliz com a primeira mulher,
ainda caiu em casar segunda vez.

--Que remedio tive eu! No foi por minha vontade, no... Mas eu fiquei,
como o outro que diz, sem eira nem beira nem ramo do figueira.
Appareceu-me uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e que por l
arranjou uns contos de reis e esta filha com que voltou a Braga...

--Ah! ento Beatriz...

--No  minha filha, mas eu perfilhei-a no acto de casar com a me, e
ahi  que eu quero chegar... A bebeda, a grande desavergonhada
enganou-me!

--Enganou-o... quem?

--A minha segunda mulher. Disse-me que trazia para cima de cincoenta
contos, e afinal vae-se a vr, entre joias, dinheiro e papeis, pouco
passava de vinte!

--Est feito!

--Est feito, diz voc! Mas eu perfilhei-lhe a filha, tenho trabalhado
como um burro, aturei-a a ella at  hora da morte--que ella vinha
arruinada da saude, escangalhada, um caco velho em summa--tive de sahir
de Braga, porque l toda a gente lhe sabia a vida e era uma vergonha, e
agora, depois de tudo isto, ainda no sou senhor de deixar o que  meu a
quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta rapariga  que  a
minha herdeira.

--Por esse lado, tem o meu amigo razo--concordou o procurador--mas
tambem, se no tem parentes ou outra pessoa que melhor lh'o merea,
pouco desarranjo lhe pde fazer... O amigo para a cova no o pde
levar...

--Mas podia deixal-o s Ordens ou a quem eu muito bem
quizesse!--recalcitrou o Custodio, indignado.

--As Ordens no lh'o agradeciam melhor do que esta
pequena...--philosophou scepticamente o Belchior, com um sorriso
desdenhoso.--No havia Ordem nenhuma que fosse capaz de lhe metter em
casa uma fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se casar
com o Eugenio de Mello...

--Fortuna... para ella!

--E voc no  pae? E sendo pae, no fica sendo sogro do rapaz? E sendo
sogro do rapaz, desde o momento em que elle no d carreira direita no
lhe vem a administrao do casal parar s unhas?

--Isso ainda est em _vl-o-hemos_... Se o rapaz ganhar juizo...

--Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questo  que voc queira...

--Mas faz-se-lhe perder como? Como  que eu hei-de querer?--perguntou o
Custodio de Jesus, arregalando os olhos, sem comprehender.

--Homem! o rapaz  estroina, a doidice est-lhe na massa do sangue... E
os estroinas so como os alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem
se continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande esforo para se
habituarem  agua, mas se um dia entram n'uma patuscada e vem uma
garrafa que lhes desperta o appetite, perdem o mdo atiram-se a ella,
bebem e morrem victimas do vicio que o instincto da conservao no foi
sufficiente para debelar. Ora o rapaz est n'este caso. Ha-de querer
portar-se bem, emendar-se, ser um homem exemplar, mas, se lhe apparecer
um amigo que o leve a uma ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo
de cara regular, no tenha voc mdo que elle ahi ir de vento em ppa
pelo caminho da dissipao e da prodigalidade, e ento  que  dar-lhe o
golpe de misericordia... Percebe-me agora?

O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife que tinha sobre elle
a enorme vantagem de conhecer os _escaninhos da lei_, segundo a phrase
pittorsca do procurador.

--Voc--disse elle por fim, encarando sorridente o Belchior-- dos de
estrella e bta e p calado!

--Meu amigo, um homem tem obrigao de no ser tlo, de no andar no
mundo por vr andar os mais... As patifarias da vida  que pem um homem
fino...

--Voc havia de me ter apparecido em Braga, aqui ha vinte annos antes...
No era comsigo que o ladro do padre Anselmo mettia dente... E voc no
me tinha deixado roubar!

--Estava bem arranjado o padreca! Que viesse para c... Comigo nem elle
nem o mais pintado fazia farinha!--blasonou basofiento o
procurador.--Tenho dado com elles d'aqui... detrs da orelha; mas eu
atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles veem buscar l
mas vo tosquiados!

O Custodio suspirou:

--Aquelle ladro!--exclamou n'um surdo rancr--roubou-me por eu o no
conhecer a voc!

--Meu amigo, com aguas passadas no mem moinhos... O que no tem
remedio remediado est... Agora vamos a vr mas  se se trata de
arranjar outro... Disponha as coisas de modo que o casamento se faa
quanto antes, porque a fatia  boa e no se pde perder...

--A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio tem ella seno
obedecer-me e fazer o que eu disser!

--Se ella estiver deveras encarriada com o tal franganote, ha de
custar-lhe a resolvl-a...

--Por isso no seja a duvida... A questo  saber se o negocio convem...

O procurador assobiou, acompanhando o assobio com repetidos estalos
produzidos pelos dedos maioral e pollegar.

--Se convem!--disse elle-- uma pechincha!  um negocio de costa acima!
Queira elle noventa contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e
ainda metto para cima de cincoenta no bolso.  um caso!

--Bom! pois ento fique descanado, que a rapariga eu c me encarrego de
a domesticar...

--Mas veja l; voc no lhe falle no namoro, que  peor...--aconselhou o
procurador.

--Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de lhe partir os ossos...
Nada! eu resolvi ir c por outro caminho...

--E se fr preciso que o rapaz apparea para lhe fazer o seu p de
alferes...

--Por ora no... Deixe estar, deixe vr como as coisas se preparam...

--Arranje l... E adeus, que devo ter l em casa os constituintes 
espera.

Despediu-se, estendendo dois ddos protectores ao Custodio.

--Mas voc apparece por c?--disse o pae de Beatriz, apertando e retendo
na mo os dedos do Belchior.

--Sim, amanh...

E dirigiu-se para a porta.

--Olhe l: voc v dando esperanas ao rapaz, hein?

--No tem duvida... Disponha voc a pequena.

Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao andar superior e chamou
a filha.

Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, doceis e
submissas por indole e por temperamento, na apparencia faceis de
dominar, mas que, depois de terem tomado uma resoluo, primeiro se
deixaro matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos e olhos
castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu gracioso vulto, de uma
distinco rara, captivava pela belleza e impunha respeito pelo suave
perfume de innocencia e bondade que respirava.

Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu tremula, como se o
corao lhe presagiasse a tortura que a esperava.

--Aqui estou, meu pae--disse ella.

O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, e, contrafazendo o
semblante n'um risinho agradavel, chamou a filha para o pe de si, fel-a
sentar ao seu lado, e perguntou-lhe:

--Ento, j pensaste no casamento em que te fallei, minha filha?

--J, meu pae... j pensei...--tartamudeou a pobre pequena, commovida.

--E decidiste acceitar o partido que se te offerece, no  assim?

--No, meu pae...

--No?!--exclamou o sr. Custodio, fingindo-se surprehendido e mudando
rapidamente d'aspecto.--E porque?

--Porque no me sinto ainda com disposio para casar...

--No te sentes com disposio! Essa  ba! Mas para casar ninguem est
 espera de disposio... Aproveita-se o noivo quando apparece, e a
disposio vem depois...

--Eu no poderia unir-me a um homem por quem o meu corao no sentisse
a menor sympathia...

--Sympathia!--bramiu o sr. Custodio furioso, dando largas ao seu
desespero.--Que vem a ser c isso? Temos frioleiras de romance? Com as
sympathias no  que os casados fazem sopa e compram os chapos e os
vestidos s modistas. O noivo  rico?  o essencial. Ora este tem uma
grande fortuna,  novo,  uma ba figura, no  cego, no  aleijado--e
ainda que o fosse, no se perdia nada--porque  que elle no te hade ser
sympathico?

--Ser para outras, mulheres, no para mim...--atreveu-se a dizer
Beatriz.

Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol em que o sr.
Custodio tinha accumulado toda a polvora dos seus rancores de ha muitos
annos contra as mulheres.

--Que pouca vergonha  essa?!--berrou elle, levantando-se e encarando a
filha, rubro de colera--Quem  aqui o pae: sou eu ou  vocemec?

A ira dementava-o a ponto de no o deixar reparar no burlesco e
incongruente disparate da pergunta, que faria rir a pobre menina, se o
horror da situao em que se encontrava no a tivesse afogado em pranto.

--Meu pae! Meu pae!--bradou ella supplicante, caindo de joelhos com as
mos postas--pelo amor de Deus, perdoe-me! mas eu no posso... no
posso!

--Deixemo-nos de comedias!--rugiu o Custodio n'um recrudescimento de
ira--Ou casa ou metto-a nas irms da caridade!

Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:

--Meu pae, por alma de minha me lhe peo que no me force a este
casamento que o meu corao no pde acceitar!

--Sua me! No me falle em quem j morreu! Quem l vae, l vae, no 
aqui chamado!

A esta brutal e grosseira reprehenso, Beatriz ergueu-se. No rosto
pallido as lagrimas seccaram-se-lhe como por encanto, e nos olhos,
fulgurantes de indignao, lia-se-lhe agora uma resoluo inabalavel.

--Minha me--disse ella em voz calma e firme--no me responderia assim,
se eu, de joelhos, lhe invocasse a memoria de meu pae morto.

Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.

--Cale-se!--no me falte ao respeito!

--No sabia que a lembrana de minha me era para meu pae uma offensa.

Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos d'edade, fra
educada na crena de que este homem era seu pae e ignorava por completo
a historia do seu nascimento.

Notava que o homem a quem chamava pae a tratra sempre com grande
severidade e rispidez, e lamentava-se intimamente de no achar no
corao do auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem direito uma
filha obediente e submissa, como ella era.

Esta severidade recrudescera, quasi degenerando em tyrannia, depois que
a me se lhe finara.

A pobre pequena habituara-se quelle tratamento, e, crescendo na edade,
sentira mudar-se-lhe o terror infantil n'uma repugnancia instinctiva,
porm soffredora e paciente, que mais e mais a afastava do pae.

Evitava a sua presena o mais que podia; e nos curtos instantes em que
era obrigada a aproximar-se d'elle e a ouvir-lhe as reprehenses
grosseiras e injustas, era sempre com os olhos no cho que o escutava.

Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes dois sres, que o
destino cruel pussera em face um do outro, ligados pelos laos de um
parentesco ficticio, mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do
mundo e da propria victima.

A attitude do senhor Custodio, que sempre fra mau para com a filha,
tornara-se desde este momento odiosa.

Ferira a pobre creana no que ella tinha de mais santo e mais sagrado no
fundo do corao e que fazia objecto do seu culto:--o respeito pela
memoria de sua me e o seu amor por Paulo.

O despreso amargo com que seu pae acolhera a supplica que ella lhe
dirigira humildemente, de joelhos, em nome da me, revoltou-a, e onde a
revolta comea o respeito acaba.

Aquella phrase altiva, serena e scca com que respondeu ao pae, que a
mandava calar, era o prenuncio da lucta que ia travar-se, era como que o
grito de revolta chamando em seu auxilio todas as energias da sua alma
de mulher para resistir  violencia com que queriam esmagar-lhe o
corao.

--J disse!--volveu o descaroado pae.--Quem manda aqui sou eu. Este
casamento ha de fazer-se por vontade ou por fora.

--Viva no me levaro  egreja!--respondeu firmemente a pequena.

--Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? Esquece que sou
seu pae?

--No esqueo. Mas lembro-me tambem de que no devo ser tratada como
escrava.

--Quem  que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a ao quererem
fazer-lhe um casamento rico, com um rapaz de ba familia, educado e que
pde dar-lhe respeito na sociedade?

--O meu corao no se vende a pezo de dinheiro, meu pae! Se esse homem
quer comprar affectos, que os busque onde elles se vendem.

--Est muito adeantada! Quem  que lhe ensinou tanto?

--A minha razo e a consciencia dos meus deveres de mulher digna.

O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. A sua vontade seria
estrangulal-a. Mas conteve-se.

--Isso so frioleiras de romances!--gritou elle--. A menina no sabe o
que diz. A culpa tenho-a tido eu em consentir que certas leituras lhe
ponham a cabea  razo de juros. Mas no tem duvida... Eu a mandarei
para onde lhe ensinem os seus deveres de filha.

--Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei como filha que no
necessita que lhe ensinem os seus deveres. Mas no exija que acceite por
marido um homem que o meu corao no estime, porque a isso
recusar-me-hei.

--Veremos!

O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi direito ao escriptorio.

-- Que tal est a _bisca_?!--rosnova elle, no auge da furia.--Bem se v
que no  minha filha!

Passeou com as mos ora mettidas nos bolsos, ora coando nervoso a
suissa, o que n'elle denunciava sempre ou uma profunda meditao ou um
violento desespero.

--E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas com
prudencia!--regougou por fim.--A prudencia era dar-lhe com um cacte at
o diabo dizer _basta_! Amanh estava ahi macia como um velludo e ia
casar com quem eu quizesse...

De repente parou como ferido por ideia subita.

--E talvez... quem sabe? Esta ideia no  m e pde dar resultado...
Vamos l a experimentar se, levando as coisas por bem, conseguimos o
nosso fim.

Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.

A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e perguntou:

--O pae deseja alguma coisa?

--Desejo, minha filha. Anda c... senta-te aqui. Quero que me escutes
com atteno e que vejas que no sou to mau como pareo...

O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os olhos baixos, no
respondia, pegou-lhe na mo e puxou-a docemente para junto de si,
fazendo-a sentar ao seu lado, e principiou dizendo:

--Ora anda c, minha filha!  preciso que saibas que ninguem  mais teu
amigo n'este mundo do que teu pae... Eu estou velho... estou com os ps
na cova, e, com estes desgostos que me ests dando, no posso ir muito
longe.

--Mas em que  que eu o desgostei, meu pae?

--Desgostaste-me com o teu procedimento de ha pouco...

--Perdo! eu fui humilde e submissa, eu implorei de joelhos e mos
postas que no me forasse ao casamento com um homem que o meu corao
no pde acceitar...  isto desobediencia?

--Filha! mas tu matas-me com essa recusa!--exclamou o sr. Custodio,
afflicto, simulando uma enorme contrariedade.

--Mato-o porque no me quero casar, porque prefiro viver ao lado de meu
pae?!

--Matas-me porque o teu futuro e o meu est dependente d'esse casamento,
filha! Matas-me porque recusando a mo d'este rapaz lavras uma sentena
de morte contra mim!

Beatriz empallideceu.

--No o comprehendo, meu pae--balbuciou ella.

--Eu te explico, minha filha...

E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para tomar alento, passou o
leno pelos olhos para enxugar uma lagrima ausente, suspirou fundo e
proseguiu:

--Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, fui rispido, fui
mesmo, injusto para comtigo; mas tudo isto era no s o resultado do
muito amor que sinto por ti, porque todo o meu desejo  vr-te feliz,
mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero da minha
horrorosa situao...

Suspendeu-se a olhar para a filha, a vr o effeito que n'ella produziam
estas palavras. A pequena permanecia com os olhos baixos, immovel, na
attitude de quem escuta pacientemente uma historia que no lhe
interessa.

--Ouves, Beatriz?

--Ouo, meu pae.

--Da minha horrorosa situao!--tornou o sr. Custodio a dizer, com um
suspiro ainda mais fundo. E abraando-se na pequena, a soluar,
exclamou: --Ah! filha! filha! teu pae est perdido! Se tu o no salvas,
ficas orph... orph e pobre, porque eu a esta dr no resisto!

Beatriz, surprehendida, porm de modo algum commovida com esta dr
ficticia, perguntou, como se apenas cumprisse um dever:

--Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? Porque  que assim se
afflige?

--Filha!--tornou o senhor Custodio, com a voz entrecortada pelos soluos
e sem desprender dos braos o corpo franzino de Beatriz--estou pobre...
estou arruinado e s tu me pdes salvar!

--Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu auxilio?

--Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te primeiro... Os meus
negocios teem corrido mal... Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos
importantes que me teem reduzido  miseria... Este procurador, este
Belchior que aqui vem e que, coitado,  meu amigo...--no o posso negar,
 meu amigo!...--tem-me valido com a sua amizade, abonando-me
importantes quantias que me teem sido precisas para solvr compromissos
creados... Mas agora nem j elle tem, nem eu... Este rapaz  rico,
possue uma importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha filha...
Elle promette pagar todas as minhas dividas no momento em que tu
consintas em ser sua esposa... Portanto, v l: ou ficamos reduzidos 
miseria, sem um bocado de po, e sem abrigo, porque tudo quanto est
n'esta casa  dos credores, ou tu acceitas este casamento e voltam para
o nosso lar os dias felizes, a paz e a abundancia, como at aqui.

E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos no cho, sem responder,
o sr. Custodio fitou-a anciosamente e perguntou n'um tom supplicante:

--Ento, Beatriz, o que dizes?

A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou:

--Digo que  uma grande desgraa, meu pae...

--Sim,  uma grande desgraa, no ha duvida... Mas, graas a Deus, temos
o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha.

--Todas as desgraas teem remedio, meu pae, e esta tambem o ter, sem
nos ser preciso buscar uma desgraa ainda maior...

--No te comprehendo, Beatriz!--exclamou o sr. Custodio--O que queres
dizer?

--Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae,  uma
grande desgraa, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria
mais...

--Porque, minha filha?

--Porque eu no o amo.

--Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo
tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um
marido que te estime e que satisfaa todos os teus desejos, ainda os
mais insignificantes, vers que breve te affeioas a elle.

--Mas eu no necessito de coisa alguma!--protestou vivamente Beatriz.

--No necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...

--Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho--acudiu corajosamente a
nobre menina.--Darei lies pelos collegios e pelas casas particulares,
e se no pudermos viver com ostentao, o que no d a felicidade,
viveremos remediados e livres de maiores privaes...

--Tu ests doida!--berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel
de carpidor de desgraas, para assumir a attitude grosseiramente
petulante da sua indole m, irritada pola teimosia da filha.--Bem se v
que tens instinctos baixos e que no te repugna fazer m figura!

--O que me repugna, meu pae,  illudir e enganar alguem, seja por que
preo fr...

--Mas a quem  que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize l!

--Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um
affecto que eu no posso sentir por elle!

--Historias! Affecto no  coisa que se coma!

E recahindo nas lamentaes primitivas:

--Que infeliz eu sou! Velho, com os ps na cova, reduzido  ultima
miseria, e no achar na minha propria filha amparo nem compaixo para a
minha desgraa!

Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.

Toda aquella dr, manifestada assim em lamentaes to improprias de um
homem que sempre se mostrara altivo, scco e intractavel,
afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo
d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como
que um secreto remorso de no poder amar o auctor de seus dias.

O sr. Custodio percebia esta indifferena da filha, e emquanto se
lamuriava, dizia comsigo:

--Grande desavergonhada! Bem se v que no s minha filha!

Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:

--E se esse rapaz no tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae
no teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio?

--Como havia de eu remedil-os? O remedio era entregar tudo aos credores
e ficarmos sem nada!

--Mas haviamos de viver...

--Viver como?--interrogou o sr. Custodio impaciente.

--Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria...

D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e no descambou no repello
habitual.

--Sabes l o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua
pobresa so os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram
miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento
nem pesar. Mas quem est na nossa situao, filha, quem experimentou a
abundancia e depois se v reduzido  penuria pde l conformar-se com
isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso
de teres causado a morte de teu pae!

Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a
pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora no
sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido
e severo d'aquelle homem no soubera inspirar-lhe, a sua razo dizia-lhe
que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses no queria ella faltar.

--Mato-me!--continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero
que lhe ia na alma--mato-me, porque no tenho animo para soffrer os
horrores da miseria que me esto reservados, e antes quero dar cabo de
mim do que vr a minha filha exposta a todas as desgraas que a pobresa
traz comsigo!

--Por mim, no se mate, meu pae! Eu tenho fora e coragem para resistir
aos golpes da adversidade.

--Tu ters foras, minha filha, mas eu  que j no as tenho! Dize-me
terminantemente que no casas com esse rapaz, que no salvas teu velho
pae da miseria, e tu vers o que eu fao... No tenho animo para vr os
credores entrar por aqui dentro e prem-me l fra a mim e mais a ti!
No! quando elles entrarem, ho-de vir j encontrar-me cadaver!

Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resoluo inabalavel,
perguntou:

--O que resolves, Beatriz? Nas tuas mos est a minha vida, a vida de
teu pae!...

A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e
supplicante em que o pae se lhe dirigia, no tinha foras para recusar
abertamente.

--Meu pae--balbuciou por fim--deixe-me ainda reflectir at amanh.

O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e no quiz abandonar
a victoria.

--Amanh ser tarde--disse elle--A resposta tem de ser dada hoje ao
Belchior impreterivelmente, sob pena de amanh os credores entrarem por
aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu no te quero forar a um
casamento que te repugna. Bem reconheo mesmo que no tenho direito ao
teu sacrificio, porque eu no sou d'esses paes que andam sempre a
acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por
ti... Tenho este genio assim... pareo severo, pareo um homem que no
sabe o que  amor de pae, mas o que o meu corao sente s eu  que o
sei!...

Interrompeu-se para abafar os soluos e enxugar as lagrimas, que no
chorava, ao leno tabaqueiro e proseguiu:

--Paciencia! Tinha de ser assim... seja!

E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mo, exclamando:

--Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o no tornas a vr vivo!

--Meu pae!--disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela
commoo--Pelo amor de Deus, no tome qualquer resoluo desesperada sem
que eu falle primeiro com esse rapaz!

--Com quem?--interrogou o sr. Custodio, fixando a filha.

--Com esse... sr. Eugenio.

--Queres fallar com elle para lhe dizeres que no? Dize-m'o antes a mim,
filha!

--No, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a
declarao de que me quer por mulher.

--E casars?

--Casarei, se no houver outro remedio.

O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braos com frenesi.

--Deus te abene, minha filha! Pdes dizer que salvaste teu pobre pae!
Vou mandar avisar o Belchior.

E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento.




IV

Dois patifes


O procurador Belchior est no seu escriptorio, sentado  carteira,
conversando animadamente com um rapaz alto, pallido, elegantemente
vestido, de maneiras distinctas, e bastante desenvoltas, que
frequentemente o interrompe com uma gargalhada de intima satisfao. No
rosto d'este rapaz, que poder contar, quando muito, vinte e quatro ou
vinte e cinco annos, ha os traos indeleveis do bohemio que passa a
mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres e para quem a vida
tem apenas uma difficuldade sria: arranjar dinheiro para gastar.

Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro que lhe baila
constantemente nos labios, meio disfarado pelo bigode fino, lustroso e
petulantemente encaracolado nas guias, do-lhe  physionomia uma
expresso velhaca que poria de sobreaviso um observador experimentado,
mas que ao sr. Belchior no parece inspirar a minima desconfiana.

Este rapaz  Eugenio de Mello, o pretendente  mo de Beatriz.

Ouamos a conversa travada entre os dois, a vr se por ella podemos
conhecer melhor o personagem com quem vamos travar conhecimento.

--O velhote est enthusiasmado--diz o procurador--e o meu amigo apanha,
alm de uma linda mulher, uma ba maquia--uma maquia de se lhe tirar o
chapo!

--Pois  o que se quer--responde o outro--o que se quer  _massa_.
Quanto calcula voc, amigo Belchior, que viremos a apanhar?

--Homem, j lhe disse, ao certo no sei, porque o Custodio  manhoso...
Depois que foi roubado por um padre, no descobre a sua vida a ninguem.
Mas, pelos documentos que me teem passado pela mo, aquella besta deve
ter para mais de setenta contos.

--Menos mau!--considerou o bohemio, piscando o olho.--Mas isso est
ainda tudo nas unhas do velho, que pde ter a m lembrana de no morrer
estes dez annnos mais chegados...

--E os vinte contos que couberam  rapariga, no inventario por morte da
me?--accudiu o procurador.--Esses  que lhe passam j para as unhas
assim que o casamento se fizer...

--Vinte contos... que diabo!--tirando-lhe as commisses, o que  que me
fica?--considerou o outro, encolhendo os hombros com desprezo.

--Sim, que voc agora tem mais!--contraveio o procurador
sarcasticamente.--Que diabo! vocs so todos assim! Quanto mais teem
mais querem!

--No  isso, amigo Belchior.  que eu penso e vejo as coisas como ellas
so... Afinal de contas, este negocio vem a ser bom mas  para voc...

-- bom para ambos! Ou voc queria que eu trabalhasse de graa para lhe
encher os bolsos de dinheiro e ficasse a fazer cruzes na bocca?

--No, no queria... Mas vamos a saber: a pequena tem vinte contos?...

--Para j. Mas a bolada maior ha-de-vir por morte do velho.

--No esperemos por sapatos de defuncto, e faamos calculos positivos.
Por agora e para j, realisado o casamento, podemos contar com vinte
contos, no  isso?

--Perfeitamente.

--Voc quanto leva de commisso?

--Trinta por cento, por sermos amigos.

--Obrigado!--respondeu o bohemio zombeteiramente--trinta por cento sobre
vinte contos, so seis contos de ris...

--Muito justos.

--E venho eu a ficar s com quatorze!...

--E acha pouco? Para quem no tem presentemente quatorze vintens,
parece-me que quatorze contos de mo beijada e uma mulher ba, 
dinheiro...

--No ha duvida,  dinheiro... Mas tome voc conta da mulher, dos
encargos de a sustentar, de a vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e
de pagar aos meus crdores antigos, tudo por quatorze contos, e d-me
para mim os seis que voc recebe limpinhos e sccos... Quer?

O procurador fez uma carta.

--Voc est a fazer-se de manto de sda!--disse elle descontente.--Se
acha que  mau o partido, no o acceite, que no faltar quem lhe pegue.

--O partido no  mau, mas no  to bom como voc me quer fazer
acreditar...

--Com os diabos!--gritou o procurador arreliado.--E os setenta contos do
velho no  nada? Voc acho que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me
l n'este negocio por seis contos de ris, se no fosse a certeza de vir
a apanhar mais, logo que o velho _estique o pernil_? No que o meu tempo
 dinheiro e eu no ando a trabalhar para o bispo!

--Bem sei--tornou o Mello--mas eu  que tambem no estou para perder a
minha liberdade e ficar toda a vida com o trambolho da mulher preso 
perna, a troco de quatorze contos que os crdores me ho-de vir buscar,
logo que saibam que tenho por onde pague...

--Mas voc pde arranjar uma coisa.

--O que ?

--Faa uma concordata com elles antes de casar...

--Mas eu no sou commerciante, no posso lanar mo desses meios que so
privilegio do commercio honrado...--considerou epigrammaticamente o
estroina.

--Agora no pde! Cace-lhes voc o recibo em como esto pagos, e veremos
depois se elles lhe pedem alguma coisa.

O Mello pareceu meditar.

--Effectivamente, voc tem razo... Se quelles a quem devo seis pagasse
com dois, a coisa ainda no iria muito longe...

--Menos a mim!--protestou o procurador--a mim  que voc me ha-de pagar
tudo por inteiro.

--Isso, comnosco,  outra coisa... Mas vamos a saber: como  que eu
hei-de propr esse negocio aos meus crdores, se no tenho dinheiro para
liquidar de prompto antes de casar?.

--No lhe d cuidado. Traga-me a lista dos crdores, que eu c
arranjarei isso da melhor maneira...

--Abona voc o dinheiro?

--Certamente. Voc acceita-me letras na importancia do que eu pagar e
depois ns c nos entenderemos.

--Pois bem, arranje l isso.

--Ora agora--tornou o procurador--temos ainda uma questo a decidir...

--Diga l.

--O velho est persuadido de que voc  um homem riquissimo... Metti-lhe
essa _caraminhola_ em cabea, porque, de outra forma, elle no lhe dava
a filha...

--Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico...

--A questo no  dizer-lh'o, a questo  provar-lh'o. Voc no me disse
que ha um Eugenio de Mello no Alemtejo, possuidor de uma riqueza
immensa?

--Disse e ha.

--Bom. Pois ento  pedir ao escrivo de fazenda respectivo uma certido
das decimas e contribuies pagas por esse sujeito ao estado...

--Para que?

--Para que!  boa! Para podermos provar ao Custodio que voc  um
importante proprietario do Alemtejo e que pde dar-lhe a filha, porque
no ho de faltar-lhe porcos nem cortias para os netos.

O bohemio soltou uma gargalhada.

--Voc  o diabo, Belchior!--disse elle.

--E se for preciso provar que voc tem quarenta ou cincoenta contos de
reis representados em letras, tambem se arranjam com _acceites_ valiosos
e de muito credito...

--Como?

--Tenho constituintes ricos que lhe acceitaro letras na importancia que
se quizer, acceitando-lhes voc outras de igual importancia.
Comprehende?

--No comprehendo muito bem...

--Expliquemos: eu acceito-lhe a voc letras no valor de oitenta contos e
voc, na mesma data, acceita-me letras d'igual importncia. Voc quer
_provar_ que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites por
mim... Mas ellas realmente no valem nada, porque se voc vier
recebel-as, eu apresento os seus _acceites_, que voc tem igualmente de
me pagar, e portanto estamos quites... Percebe agora?

--Agora, percebo!

--Bem. Pois este  tambm um expediente de que podemos lanar mo quando
nos fr preciso. Mas obra mais limpa  certamente essa da confuso dos
nomes, que nos permitte fazer a prova com um documento official... Em
que terra do Alemtejo existe esse tal Eugenio de Mello?

--Em Borba.

--Est muito bem! E ento eu que conheo o escrivo de fazenda que l
est agora. Vou j escrever-lhe, e na volta do correio temos c a
certido.

--Olhe l, no ser conveniente eu amiudar as minhas visitas ao
Custodio?

--J lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por ora no... que o
deixemos primeiro resolver a filha a acceitar o casamento, e depois
fallaremos...

--E essa delambidita porque  que me hade recusar Eu no valerei mais do
que o franganito que lhe anda a arrastar a aza?--disse o bohemio.

--Mulheres, meu amigo! As mulheres so caprichosas...

--E escolhem sempre o peor...

-- a unica probabilidade que voc tem a seu favor!--exclamou o
procurador rindo--Porque peor do que voc, com franqueza, no conheo!

--Obrigado, amigo Belchior! Voc  muito modesto!

Os dois patifes encararam-se e desataram a rir.

--Ora agora--disse por fim o Mello--no se esquea de que estou a
precisar de dinheiro.

--J?

--Pudera! Este Porto  o diabo! Com os seus ares pacatos de terriola de
provincia, tem sorvedouros terriveis!

--Mas ainda no ha oito dias que lhe dei duzentos mil reis.

--E o que vem a ser isso para um homem relacionado como eu? Duzentos mil
ris gastam-se n'uma ceia com tres amigos e outras tantas mulheres...

--Mas voc, que diabo! est hospedado no _Francfort_, um hotel de
primeira, onde o tratamento  magnifico, no tem necessidade de comer
fra...

--Amigo Belchior, voc sabe muito bem como o dinheiro se arranja, mas
no sabe como elle se gasta. No falle, portanto, d'aquillo que no
sabe, e chegue-me c mais duzentos mil reis, que  o essencial.

--Assim, por esse andar, quando chegar o dia do casamento, j os haveres
da noiva esto espatifados...

--No diz voc que temos ainda a reserva dos setenta contos do velho?

--Sim, mas isso, como voc considerou ha pouco, so sapatos de
defuncto...

--Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se quando nos
convier...

--Voc seria capaz d'isso?--interrogou o procurador com um sorriso
indescriptivel de cynismo.

--Ns somos capazes de muito mais--respondeu o Mello, frisando
intencionalmente a palavra _ns_.

--Voc  o diabo! Mas olhe l, no se alargue muito, que eu agora estou
sem dinheiro...

--Pois sem _massas_ no se faz nada! Voc bem sabe, que sendo eu um rico
proprietario do Alemtejo, que fao quinze contos de cortia de tres em
tres annos, afra os porcos, no devo deixar de gastar em harmonia com
os meus rendimentos. As mulheres, aqui no Porto, no so de grande luxo,
mas comem como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle _Suisso_
teem uma lista reduzida, mas cortante como uma navalha de barba! Alm
d'isso, ha sempre uns amigos _depennados_, que se _encostam_ e que no
ficam baratos...

--Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!--aconselhou o Belchior,
indignado.

--Bem digo eu! Voc no sabe o que diz! Estes amigos so os comparsas da
grande comedia que eu preciso de representar. So elles os que fingem de
_povo_ e apregoam aos quatro ventos, pelas tubas da fama e das notas de
cinco mil ris que lhes empresto, a minha grandeza e opulencia de rico
proprietario. Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a _pastilha_
que me pedem emprestada no fim, porque a carteira lhes esqueceu em casa,
e manh eu serei o pelintra, o intrujo que realmente sou, e toda a
gente saber, at o Custodio, que eu no tenho nem cortia, nem porcos,
nem sequer bolota para comer como elles...

--Voc tem razo!--disse o procurador--Mas, com os diabos, gaste menos.

--Que gaste menos! Eu tenho at gasto mais, e decerto no chegaria o que
voc me d, se no tivesse tido umas noites de sorte  batota. Meu
amigo, todo o negocio requer capital para poder dar lucros... Este
negocio do casamento  bom, mas  preciso empatar capital... Eu sou o
socio d'industria; voc  o socio capitalista: chegue-me c as _massas_,
porque eu preciso de mostrar quem sou.

--Deus nos livre! se mostra quem , est o caldo entornado!--clamou o
procurador, levando as mos  cabea n'um gesto tragico.

O Mello riu com vontade.

--Voc nasceu para mim, e eu nasci para voc!--disse
elle.--Difficilmente se encontram e se juntam dois como ns. Ande, v
buscar o dinheiro.

O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao canto do
escriptorio, contou duzentos mil ris em notas, e voltou com ellas e com
um livro na mo.

--Ande! ponha aqui por sua mo que recebeu este dinheiro--disse.

--Quanto?

--Eu dou-lhe duzentos mil ris. No foi isso o que voc pediu?

--Mas aqui no livro esto duzentos e cincoenta!

-- isso. Os cincoenta mil ris so de juros.

--Ladro! Roubar ao inferno!--clamou o Mello em tom de amigavel censura.

--E o risco? Voc no tem onde cahir morto. Se este casamento se no
fizer, ou se a voc o levar o diabo d'hoje para manh, quem perde sou
eu!

--No leva, que eu sou c preciso para animar as artes e as
industrias!--retorquiu risonho e senhor de si o bohemio.

--O que me anima  que o gado ruim no tem perigo--disse Belchior
gracejando.

O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo procurador, metteu o
dinheiro ao bolso e preparou-se para sahir.

--Voc ande-me com o velho!--disse elle.--No o deixe resfolegar, e elle
que obrigue a filha por geito ou por fora a casar comigo.

--Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um tal marido!

--Eu lhe digo... pde ser que me apaixone por ella... s vezes o diabo,
quando lhe parece, faz das suas...

--Quem! Voc apaixonar-se? Se ella fosse uma dama de copas... talvez!

--Eu supponho-a uma dama d'oiros... J v que a differena do naipe no
 tamanha como parece...

Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, emquanto o Belchior,
rindo, arrumava o livro das suas contas com o bohemio.

--Isto  que  um mariola!--murmurava o procurador satisfeito.--No ha
dinheiro que lhe chegue... O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de
acabar mal este patife!




V

Madre Paula


Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella
espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da _Irm Dorotha_
certamente no tero esquecido e com quem aquelles que porventura a no
conheam d'ahi, acharo prazer em travar conhecimento.

Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de
velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha
no tem j aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.

A sua conversa, porm,  ainda adoravel d'encanto pelas scintillaes do
seu espirito gracioso e fino, que s vezes se desata em torrentes de bom
humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e
constante director espiritual.

 hora a que vamos encontrl-a, est ella sentada em fofa poltrona,
escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece,
traz novidades importantes a communicar-lhe.

A conversao intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter
familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois
coraes que se amam e que se acham ligados pelos laos indestructiveis
da mais solida confiana.

--Sabes, minha querida amiga?--disse-lhe o padre Filippe depois de a
beijar carinhosamente nas faces--tive hoje a visita do nosso Paulo, do
filho da irm Dorotha...

--Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me no apparece! Senta-te e
conta-me: como est elle?

--Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto _ bla_, o rapaz tem-n'a
um pouco transtornada...

--O que! que dizes tu?--perguntou madre Paula com visivel
interesse--Notaste n'elle qualquer alterao?

--Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramticos
e dispara-me esta pergunta com que eu no contava: Diga-me, padre, quem
 meu pae?!

--Elle fez-te essa pergunta?

--E queria por fora que eu lhe dissesse de quem era filho e por que
razo se lhe occultava o segredo do seu nascimento.

--Mas isso  extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante
coisa?

--Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educao livre
que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. No nos
suppe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginao que tudo
quanto  o deve a ns. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os
paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos
inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes
que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o
fez.

--E o que lhe respondeste? Como satisfizeste  curiosidade d'essa
creana?

--Comprehendes, minha amiga, que eu no podia seno tomar o partido de
me fingir to ignorante como elle cerca dos mysterios do seu
nascimento; e foi isso o que fiz.

--Mas que motivo o levou a querer saber quem so os paes?

--Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso no o
quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario
n'aquella alma juvenil...

--E indagaste?

--Indaguei e soube.

--O que , pois?

--O nosso Paulo ama!

--Ah! mau prenuncio! Cdo comea esse pobre pequeno!

--Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanas passam cdo a
considerar-se homens feitos, e a no guardarem para os trinta annos os
prazeres do corao, que lh'os reclama aos dezoito...

--Isso  uma doena muito sria, a meu vr, e que pde causar graves
prejuizos de futuro ao nosso protegido...

--Ha doenas que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma
d'ellas...

--Sempre optimista, sempre!--disse madre Paula com um sorriso de leve
censura.--No creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma
affeio que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as
attenes do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa
paixo nascente, e de todo o ponto intempestiva, comea a produzir
perniciosos effeitos,  que j despertou n'elle o desejo de penetrar o
segredo do seu nascimento...

--Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanh--replicou o padre
Filippe--No era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de
Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber
quem so ou quem fram seus paes...

Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes.

--Creio que fizemos mal--disse ella--em dar a esse rapaz a educao
livre que os modernos philosophos preconisam... Uma creana entregue aos
imprudentes impulsos do seu corao juvenil, sem uma voz amiga que a
aconselhe, sem a presena de preceptor austero cuja voz auctorisada lhe
indique o caminho do dever, ha de necessariamente cahir no deploravel
desvario de Paulo.

--Os homens formam-se na adversidade; o corao retempera-se nas
amarguras para as grandes luctas da vida--retorquiu o padre Filippe.--A
educao moralisadora de um preceptor austero corta os vos ao espirito,
e perniciosamente contribue para deformar a indole e perverter o
caracter do um adolescente. A violencia imposta pelos preconceitos de
uma conducta regrada, sujeita a methodos e convenes oppostas ao sentir
individual, d em resultado a falsificao de um caracter. O individuo
assim creado no  nunca um producto apreciavel da natureza,  o
producto artificial de uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu
espirito. No  mais um homem so--bom ou mau-- um hypocrita; isto ,
um aleijado que se arrasta miseravelmente deformado pela vida fra,
tanto mais perigoso aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a
disfarar as suas intenes e os seus instinctos. Deixemos a este rapaz
ampla liberdade de manifestar a sua indole. Se  ba, avigorada pela
liberdade da educao, ella bracejar frondescente como arvore de bons
fructos; se  m, no haveria destra mo de habil podador capaz de
extirpar a seiva ruim que a natureza lhe pz na raiz.

--Elle  filho do padre Anselmo!--disse madre Paula--e se herdou a
indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com
certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade ter que
arrecear-se.

-- tambem filho da irm Dorotha--atalhou o padre Filippe--e  possvel
que haja herdado da me os sentimentos de singela bondade que a fizeram
cahir nas rdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais
tornmos a vr!

-- um caso que ainda hoje no sei explicar, o desapparecimento subito
d'essas tres creaturas!--exclamou madre Paula.--Parece incrivel que at
hoje no tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irm
Dorotha, nem ainda do padre Hilario!

--Como sabes, minha amiga--ponderou o padre Filippe--nas congregaes
jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e  esse at o processo
adoptado por muitos dos nossos irmos e irms, para apagar os rastos
compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. , pois,
de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da
Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a
irm Dorotha e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudana, afim de
que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas
grandezas...

--Assim ser. No emtanto, Helena  ingrata! Sabendo quanto eu a
estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma
amizade sincera de irm,  imperdoavel o esquecimento a que me votou!

--Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. No ha peor
inigma da amizade do que  a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o
padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe
impozesse silencio como condio indispensavel de seus beneficios...

--Oh! no! Custa-me a crr que a irm Dorotha tranzigisse com esse
homem, que to profundamente detestava agora!

--Mas no dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o
joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capello no
convento da Covilh, de que ella era abbadessa?

--Ella propria m'o confessou.

--Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e
a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e
resignados como ns o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na
santa vinha do Senhor.

--Se tudo se passou como suppes--ponderou madre Paula--se realmente o
padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou
comsigo o filho e a amante d'elle e do filho,  impossivel que a estas
horas Helena ignore quanto temos feito por esta creana que ella
cruelmente engeitou...

--Decerto. Ella pde ter noticias nossas. Ns  que no as temos nem
podemos obtel-as d'ella...

--Mas  ingrata!--repetiu ainda madre Paula.--Por quanto procederia eu
de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial
e inconstante nos meus affectos?

--Minha querida amiga--volveu risonho o padre Filippe--eu sempre fiz
justia ao teu corao; e se me queixava da tua cabea,  porque era
ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar
penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraa,
succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala
commum das affeies triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes
com quem me acotovelava e cuja presena me indispunha e fazia soffrer...

--Sabes que foste sempre o preferido do meu corao!

--Suspeitava-o. No tinha, porm, a certeza. E essa duvida torturava-me.

--E agora?

--Agora, minha ba e querida Paula, tambem eu me no queixo. Devo-te os
mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes
prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolaes da minha
velhice. Bemdita sejas!

E enlaou-a nos braos, beijando-a com um ardor ainda no de todo
extincto n'aqueile organismo gasto pela edade.

Madre Paula deixou-se enlaar n'um suave e doce abandono, murmurando com
os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer:

--Agora, e de ha muito tempo, s tu o unico senhor absoluto de todo o
meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu corao. Se me
faltasses, morria!

--Se o amr  a vida--tornou-lhe o padre Filippe--se  a grande lei
universal que rege todos os sres; se o amr  a suprema aspirao dos
novos, e ainda a unica fora que ampara os velhos, como poderemos ns,
minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fgo
do seu juvenil corao a mulher que o destino pz no seu caminho?

--No  precisamente esse o meu desejo, mas to smente guiar e dirigir
esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixo o no precipite nos
abysmos da desgraa irremediavel.

--O corao apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia,
talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dce voz persuasiva, influir
no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da
experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que vir. A
ti incumbe, pois, a difficil misso de dirigir os seus passos e vigiar
pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se no escutar a tua voz,
ninguem n'este mundo poder fazer-se obedecer por elle.

--Pois bem; se at amanh aqui no apparecer, mandal-o-hei chamar e
ouvirei o que me diz. No emtanto, convm saber quem  a mulher que elle
ama, a que familia pertence, e no caso que a unio dos dois no seja uma
d'estas inconsequencias absurdas que a razo repelle e as conveniencias
sociaes condemnam, espero que no duvidars unir os teus esforos aos
meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz.

O padre Filippe sorriu.

--Queres arvorar-me em casamenteiro  ultima hora!--acquiesceu
elle--Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os
segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixo
sria e no d'uma d'essas velleidades to frequentes e to perigosas na
adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficuldades e
conduzil-o triumphante  realisao dos seus desejos.

--Eu devo-lhe proteco e carinhos de me--disse ainda madre Paula--No
posso esquecer-me de que fui cumplice, embora forada, na grande
desgraa do seu nascimento. Essa creana  o fructo das milagrosas
apparies do Christo  desvairada Helena de Noronha. Se no fosse eu,
talvez que o padre Anselmo no realisasse a infame burla por esse
processo to suave... A minha consciencia accusa-me, se bem que a
inteno com que procedi fosse mais humanitaria que criminosa. Eu quiz
poupar a essa desgraada os horrores de uma desilluso brutal, de uma
violencia monstruosa como aquella de que foi victima a pequena Candida,
immolada no Sardo aos instinctos bestiaes do padre Anselmo.

--No recordemos, minha querida, esses horrores que a miseria da nossa
situao subalterna nos tem obrigado a presenciar e at a proteger com o
corao confrangido de dr, com a alma revoltada de nojo. Vinguemo-nos
da crueldade da sorte praticando o bem espontaneamente, em desconto dos
males que temos sido forados a fazer. Paulo  para todos os effeitos
nosso filho. Faamos por elle todos os sacrificios compativeis com a
nossa consciencia e com a nossa posio, e que Deus nos leve em conta o
bom desejo que temos de proceder sempre bem e de harmonia com os
dictames do nosso corao, que no  mau, mas que a fatalidade
acorrentou a uma vida de torpezas e de immoralidades.

Despediu-se de madre Paula promettendo voltar no dia seguinte.

A abbadessa, ao vl-o partir, ficou immersa n'uma profunda tristeza.

-- o unico que a alma negra da seita no perverteu de todo!--murmurou
ella.--Que adoravel esposo e que exemplar cidado se no perdeu n'este
homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado na sotaina da
hypocrisia que elle proprio odeia! Pobre amigo! morrers como eu na dr
e na saudade cruciante da liberdade que te roubaram!




VI

 hora da morte


Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a madre Paula, bateram
violentamente  porta do sacerdote, era uma hora da noite.

O padre Filippe no se tinha ainda deitado.

Muito dado  leitura de velhos classicos, o amante de madre Paula
passava grande parte da noute a folhear poeirentas chronicas e a fazer
annotaes curiosas, no intuito de esclarecer varios pontos obscuros da
nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem duvidas aos mais
persistentes e lucidos investigadores. Ouvindo bater  porta com a
violencia propria de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente possivel,
o padre Filippe levantou-se, marcou com um papel em branco a pagina em
que interrompia a leitura e veio  janella indagar quem batia.  porta
estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabea para se resguardar
do frio cortante da noite.

-- aqui que mra um senhor que  padre e que vae dizer todos os dias
missa aos Grillos?--perguntou ella.

-- aqui. O que deseja?

-- que est alli uma velhinha, que  minha visinha, a morrer, e a pobre
de Christo no faz seno pedir que lhe chamem um padre, porque se quer
confessar; e eu venho c vr se v. s.^a faz a esmola de a ouvir de
confisso...

--Onde mra essa mulher?

--Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor!  pertinho...  d'aqui a dois
passos, e se v. s.^a fizesse a esmola de vir comigo, chegava l n'um
instante!...

--Espere ahi, que eu deso j.

Embrulhou-se n'um capote  hespanhola, pz na cabea o seu chapo alto,
pegou da bengala, e pouco depois estava na rua.

--Vamos l!--disse elle.

Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, que fica a curta
distancia, nas proximidades do pao episcopal. A mulher que viera chamar
o padre Filippe caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar a
tempo com o soccorro espiritual que a moribunda reclamava.

--Seja pelas almas!--lamuriava ella.--Est a pobresinha a appellidar por
um confessor desde o resto da tarde, que parece que nem pde morrer sem
se confessar, e no havia uma alma de Christo que se _arresolvesse_ a
vir chamar v. s.^a ou oitro qualquer que lhe deitasse a _assolvio_!

--No tem familia essa mulhersinha?--inquiriu o sacerdote.

--Ella no tem ninguem, meu senhor!  velhinha como as serpes, e no tem
filhos nem parentes. Vive l n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou
por cinco tostes por mez, e ds que caiu emprgadinha, o que vale  a
gente ir olhando por ella, por caridade, seno morria p'r alli, sem ter
quem lhe chegasse uma sde _d'auga_!

--Coitada!--lamentou o padre Filippe.

--Mas que!--tornou a mulher--a gente _tmem smos probes_... _tmem_
temos de olhar pela nossa vida, que, se a gente o no ganhar, ninguem
nol-o vem trazer... De sorte que a _probesinha_ tem passado muita
necessidade...

--Logo que ella assim adoeceu, porque a no mandaram para o hospital?

--No _isprital_, meu senhor, no na acceitaram, porque l diz que no
curam a velhice... Nem ella queria... Eu s vezes inda lhe _dezia_: 
sr.^a Maria do Carmo, e se vocemec pedisse a alguem p'ra vr se a
_arrecolhiam_ no _Azylio_ das velhas? Mas ella: que no, e que no,
nem queria que lhe fallassem n'isso!

Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel aspecto, com a porta da
rua escancarada.

A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras do portal, e chegando
ao fundo de uma estreita e perigosa escada, que dava accesso aos andares
superiores, gritou:

-- sr.^a Izabelinha, _alumeie_, que vae aqui o sr. padre!

No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se uns chinellos a
arrastar, e na balaustrada do corrimo luziu a mortia e fumarenta luz
d'uma candeia de petroleo.

-- vocemec, sr.^a _Barbora_?--perguntou uma voz l do alto.

--Sou eu, sou, alminha do Senhor! _Alumeie_, que no v este senhor
cahir...

A sr.^a Barbara investiu com a escada como quem de ha muito estava
familiarisada com os perigos d'aquelles desconjuntados degraus.

E voltando-se para o padre Filippe:

-- melhor v. s.^a agarrar-se ao corrimo, que no v por ahi cahir e
partir alguma perna... Isto, quem no est costumado, nada mais _facel_
do que aleijar-se...

O padre Filippe j havia, por instincto, adoptado o expediente que a sua
cuidadosa guia lhe aconselhava.

Segurando-se com a mo esquerda ao sujo e gordurento corrimo da escada,
e tacteando os degraus com os ps e com a bengala, revestira-se de
coragem e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima
asceno.

Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde uma velha esguedelhada, de
cabea estopenta e candeia na mo o aguardava, o amante de madre Paula
parou offegante e canado.

-- c muito em cima!--disse elle.

--E as escadas so ruins _d'assobir_, meu senhor!--accrescentou a
velha.--Eu _tmem_, quando venho de l de baixo e chego c arriba, fico
que, se me puzessem uma mo na bocca, arrebentava!

--Onde est a doente?--interrogou por fim o padre Filippe.

--Est aqui dentro, meu senhor... Ella est mesmo a _espedir_,
coitadinha! J desde _honte_ que no lhe foi nada  bocca, e no faz
seno pedir _auga_... Parece que est mesmo abrasadinha l por dentro! O
que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu mandar chamar o
confessor!

--E vocemec porque no lhe satisfez a vontade?

--Eu j mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. s.^a ha de conhecer, mas
como a gente _semos probes_, fez  de conta que no era pressa e inda
_int_ agora c no appareceu...

-- que vocemecs no lhe mandaram talvez dizer que se tratava de uma
pessoa em artigos de morte...--desculpou o padre Filippe.--Ora vamos
l... vamos l ouvir essa creatura de Deus...

A velha, com a candeia lanando de si um enorme pennacho de fumo negro e
suffocante, allumiou o padre Filippe at ao escuro e ftido cubiculo
encravado no interior do misero pardieiro, que era um genuino
representante da miseria suja do Porto, a mais repellente e odiosa de
todas as miserias.

Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes de
honestidade, de honra, de civismo e de labr persistente, que fariam o
orgulho de todos os povos do mundo. Os seus habitantes so generosos,
hospitaleiros, leaes, podendo servir de lio e exemplo a quantos se
presam de possuir em elevado grau estas raras e nobilissimas qualidades.
Mas a par d'isto, quantos defeitos de educao, deprimentes da dignidade
de um povo que podia e devia ser o primeiro a marchar na vanguarda da
civilisao do seu paiz!

Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, na sua grande maioria,
sujas, andrajosas, repellentes de immundicie, mos e cara accusando uma
ignorancia absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente e
honesto precisasse d'estes ascorosos attestados da porcaria para se
fazer respeitar!

Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra terra de Portugal,
percorrem as ruas, descalas, esmadrigadas, as repas soltas, estrelladas
de lendeas, e os ps e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das
fraldas, escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!

E todavia era to facil mudar os gordurosos e sujos andrajos nas limpas
e asseiadas vestes da gente pobre que se lava! Uma pouca d'agua--e o rio
Souza, e os poos dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes offerecem
tanta!--e dez reis de sabo bastavam!

 talvez esta, a diffuso das ideias de limpeza nas classes proletarias,
uma das mais sympathicas e civilisadoras misses que esto reservadas 
imprensa periodica dos nossos dias.

Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam tantas doutrinas
salutares e tantas noticias perniciosas s classes humildes, que por
elles se guiam e norteiam,--quando se no desnorteiam--no poderiam, com
um bocadinho de boa vontade e persistencia, encetar efficazmente a
propaganda da limpeza publica e particular dos cidados como base
primaria de toda a hygiene social e moral?

Valha-me Deus! Pois no ia eu agora descambando da facil e comesinha
aco do romance para as consideraes sabias e profundas de um sabio e
profundo auctor de originaes opusculos?

Desculpe-me o leitor a divagao e acompanhemos, visto que no ha outro
remedio, o padre Filippe atravs dos corredores defumados e mal
cheirosos, resumando das paredes e do soalho podrido e esterco, at ao
humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, quasi uma
mumia, enterrada sob um monto de farrapos.

 a sr.^a Maria do Carmo.

Ao vr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou para elle os olhos, em
que perpassou um lampejo de alegria, e disse com voz debil e quasi
extincta:

--Graas a Deus! No morrerei sem que v. s.^a me oua de confisso!

O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou,  luz de uma candeia
de azeite, espetada na parede, do lado da cabeceira, o rosto enrugado e
magro da pobre creatura.

--Ento deseja reconciliar-se com Deus, no  verdade, minha irm?

--Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... A morte avisinha-se e
eu quero... preciso de alliviar a minha consciencia do peso de...
peccados que no sei se Deus m'os perdor!--balbuciou a enferma, com voz
entrecortada e de cada vez mais debil.

--Deus  infinitamente bom, infinitamente misericordioso--aquietou o
padre Filippe--e est sempre prompto a perdoar  creatura que, humilde e
contrita, sente na alma o arrependimento da culpa e para ella implora o
divino perdo!

Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se  cabeceira do leito e,
fazendo signal s duas mulheres que o conduziram para que o deixassem a
ss com a enferma, continuou:

--Aqui estou, pois, minha irm, para ouvir em nome de Deus, cujo humilde
ministro sou, as vozes do seu arrependimento e absolvel-a... De que se
accusa?

A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em que se lia o pavor do
inferno, e principiou com voz lenta e abafada a seguinte narrativa:

--Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia todos os dias ouvir missa
e confessar-me, e Deus ajudava-me sempre com a sua divina graa, porque
desde que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca me faltou nada, e
havia muitas almas bas que me soccorriam, compadecidas da minha
pobreza...

--Ahi tem, pois, uma prova de que Deus no recusa nunca o seu divino
amparo quelles que na sua infinita misericordia depositam inteira f e
confiana...

--Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de S. Bento da Victoria
conheciam-me todos... e faziam o favor e esmola... de serem muito meus
amigos...

-- porque reconheciam em vocemec verdadeira devoo e temor de Deus...

--L isso... eu na egreja... portei-me sempre com muito respeito... E
at quando via certas beatas fingidas--Deus me perde!--a fazerem da
casa do Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia um peso na
consciencia e ia-me logo confessar d'isso, como se fosse eu que tivesse
commettido o peccado... E aonde no chegava mandava... que era para
ellas terem vergonha!

O padre Filippe sorriu indulgente:

--E  talvez d'esse excesso de zelo, em verdade pouco edificante aos
olhos do Altissimo, que se arrepende agora e quer pedir perdo a Deus?
Tem razo, minha irm! A moral do evangelho, a religio santa do
Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas do proximo e no
faamos d'ellas objecto de escandalo e de aggravo, com perda e offensa
da reputao d'aquelles que peccaram...

--No  d'isso que eu me accuso, meu padre!--accudiu a velha reanimada
um pouco pelo prazer da confisso--Isso at os meus santos padres
confessores me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que os avisasse
de tudo o que visse e ouvisse, que era para elles no andarem a ser
enganados... e saberem quem tinha religio e quem no tinha...

O padre Filippe dissimulou um gesto de repulso e de enfado, e
perguntou:

--De que  ento que se accusa, minha irm?

--Eu... de mim... no me accuso de nada, meu santo padre! Eu... o que
fiz... foi sempre com os olhos em Deus... e tudo para bem da santa
religio...

--Pois se no tem de se accusar de faltas proprias, as dos seus
semelhantes tambem no so as que ho-de fazer-lhe carga aos olhos do
Altissimo, se para ellas no concorreu nem estava na sua mo
impedil-as... Portanto, como onde no ha culpa no ha perdo, eu nada
tenho de que absolvl-a... Feliz de quem pde como vocemec apparecer no
tribunal divino com a alma limpa de macula.

Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se para sahir,
quando a velha, estendendo para elle as mos convulsas, bradou com
indizivel accento de pavr:

--Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, meu padre, oua-me!
Oua-me que eu quero... confessar-me!...

--Pois o que tem vocemec estado a fazer, seno a confessar-se, creatura
de Deus?

--Como v. s.^a ainda me no perguntou nada...

--Nada tenho que perguntar-lhe, minha irm... Vocemec consulta a sua
consciencia, e se n'ella encontra escrupulo ou duvida de falta
commettida, confessa-a sinceramente e d'ella pede perdo a Deus, em nome
de quem eu a estou escutando...

A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse em voz sumida:

-- que eu... criei como se fosse meu filho uma creana... que era
filha... de um padre e d'uma mulher casada...

--E vocemec concorreu d'algum modo para que esse padre e essa mulher
casada incorressem na falta que originou o nascimento d'essa creana?

--No, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo de me confessar a
elle, na egreja de S. Bento, no tempo do sr. padre Couto, que era um
santo...

--S Deus sabe quem  santo!--murmurou o padre Filippe, surprehendido ao
ouvir fallar no padre Anselmo.

--E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me a Braga para eu
tomar conta d'aquella creana debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe
devia muitas obrigaes, trouxe-a e tratei a creana como minha... E o
sr. padre Anselmo  que pagava as despezas...

--Que nome tinha essa creana?--perguntou o padre Filippe, agora
interessado na estranha narrativa da velha.

--Chamava-se Hilario, meu senhor...

--Esse rapaz ordenou-se e  ecclesiastico--disse o padre Filippe.

--V. s.^a conhece-o? Sabe d'elle? Onde est?--perguntou a velha.

--Conheci-o, em tempo, capello da casa conventual das irms Dorothas,
na Covilh...

-- esse mesmo!  esse mesmo!--bradou a velha--E onde est agora?

--Ha muitos annos que o no vejo nem ouo fallar n'elle... Supponho que
talvez haja partido para as misses ultramarinas ou viva em alguma casa
religiosa do estrangeiro...

--Oh! no... no! Mataram-n'o... mataram-n'o!

--Quem? Quem suppe vocemec que pudesse ter interesse na morte d'esse
obscuro sacerdote?...

--O mesmo que lhe matou a me... a D. Carlota...

E a velha juntou as mos n'uma visivel angustia, murmurando:

--Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter salvo... o meu pobre Hilario,
coitadinho!

E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em fio.

--Socegue, minha irm, que o padre Hilario no foi victima de nenhum
attentado como suppe--disse o padre Filippe--A morte de um sacerdote
no  coisa que passe despercebida na sociedade, mormente se essa morte
 resultante de um crime. Ora eu no me recordo de ter lido a noticia do
fallecimento do padre Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que
leio todos os dias.

--Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!--murmurou
afflictivamente Maria do Carmo.

--Vive decerto--affirmou o padre Filippe, no intuito de serenar a
doente.

--Mas ento porque no me escreve elle ha tantos annos? Eu que o criei
com tanto amor... eu a quem elle chamava me...

--Julgar que vocemec j no  viva...

--No... no!--tornou a velha--Mataram-n'o para o roubar!...

O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio nas palavras da velha
beata, perguntou:

--Como pde vocemec ter semelhante suspeita? Pareceu-me ouvir-lhe ha
pouco que a me d'esse rapaz foi assassinada...

--Foi... foi...

--Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraioava?

--No... o marido no... Foi o outro... o proprio amante...

--Quem?

--O padre Anselmo!

--O padre Anselmo!--disse o padre Filippe com espanto.

--Foi em Lisboa...--continuou a velha enferma--D. Carlota, a me do meu
Hilario... separada do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito
testamento, deixando-me todos os haveres, para eu fazer entrega d'elles
ao filho...

--E entregou-os?

A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.

--No... porque o sr. padre Anselmo fez-me assignar um papel de divida a
um homem... um tal Joo Ignacio, da rua de S. Sebastio, que me levou
tudo, tudo!

O padre Filippe esforava-se por comprehender a confusa narrativa da
velha.

--Mas como diz vocemec que o padre Anselmo matou a me do proprio filho
d'elle?

--Foi em Lisboa... Elle levou-a para l a ella e mais a mim, promettendo
a ambas que o nosso Hilario iria l ter comnosco, para vivermos todos
juntos... Depois, elle... uma noite... foi tomar o ch no quarto da D.
Carlota e... envenenou-a!

Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente torturada pela
recordao d'aquelle crime.

--Como o soube?--interrogou o padre Filippe.

--Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o quarto d'ella o bule do
ch com duas chvenas... Desconfiei e fui espreitar  porta do quarto...
Presenceei tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a dizer-lhe que
a matava por ella lhe faltar  obediencia... Depois, no outro dia, veio
a justia e achou um bilhete que, no sei como foi, o sr. padre Anselmo
tinha arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou por causa do
marido...

--E vocemec calou-se com o conhecimento d'esse crime?

--Eu.. tive mdo que elle me fizesse o mesmo a mim, e calei-me...

--Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?

--Eu nunca mais o tornei a vr... O sr. padre Anselmo disse-me que ia
ter com elle  Covilh e nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu
digo que elle o foi matar!...

A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:

--Quando eu voltei para o Porto, o Joo Ignacio veio c com os da
justia e tomou conta de tudo o que era da sr.^a D. Carlota... Acho eu
que tomou conta, porque a mim no me chegou nada s mos...

--E quem era esse Joo Ignacio?

--Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...

--Sabe se elle ainda vive?

--Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram no hospital dos doidos...
Foi bem feito! Foi o castigo de Deus!...

--Como conheceu vocemec a D. Carlota? Foi em Braga, quando tomou conta
da creana?

--Nada! Ella nunca viu o filho... e eu s a conheci quando o sr. padre
Anselmo a _trouve_ p'rs Sereias e depois a levou p'ra Lisboa
enganada... E como ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era
muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu deixar tudo ao
pequeno... At me deu uma carta muito grande p'ra eu lhe entregar s
depois d'ella morrer... Porque ella no queria que o Hilario soubesse
que era filho d'ella...

--E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre Anselmo?

--Essa carta...--fez a velha--tenho-a aqui... guardada... como ella m'a
deu... Nunca mais tornei a vr o meu Hilario... nunca lh'a pude
entregar...

Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.

-- por isso...--proseguiu a velha--que eu me queria confessar a quem
contasse isto... e confiasse esta carta... para a entregar ao meu
Hilario... se elle algum dia apparecer vivo...

Dizendo isto, a velha introduziu a mo descarnada e tremula debaixo do
travesseiro e tirou de l uma sacca de chita, surrada do attrito das
mos e dos farrapos, e apresentando-a ao padre Filippe, disse com a voz
estrangulada pelo esforo:

--Aqui est a carta e mais um dinheirinho que eu fui ajuntando das
esmolas dos bemfeitores para lhe dar a elle... se um dia apparecesse...
Tome v. s.^a conta de tudo, e se elle fr vivo... entregue-lh'o... Se
elle tiver morrido... diga-o de missas por minha alma...

--No tem filhos, vocemec?--perguntou o padre Filippe, acceitando com
repugnancia o thesouro da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.

--Tenho... Mas esses... esto arrumados... Nunca quizeram saber de
mim... Mil contos que eu tivesse... haviam de ser todos para o meu
Hilario... coitadinho!

--No seria melhor distribuir pelos seus filhos este dinheiro, de que o
padre Hilario talvez no precise?

--No! No! exclamou a velha anciadamente, arregalando os olhos, onde a
vida comeava a extinguir-se. Se elle no apparecer... missas pela minha
alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religio... para a religio torna!
So tres centos de libras... Tres centos!

--Est bem! Socegue. A sua vontade ser cumprida--aquietou o padre
Filippe.

--Graas a Deus! Morro descanada... E agora, meu padre... deite-me a
sua absolvio... para que Deus me perde!

O padre murmurou em latim as palavras da absolvio.

--E elle... se fr vivo... que se acautele do padre Anselmo... que no
lhe mostre esse dinheiro... O padre Anselmo  pae d'elle... mas
envenenou-lhe a me... para o roubar!...--murmurou ainda a velha,
deixando descair a cabea no travesseiro e entrando logo na agonia
ultima.

O padre Filippe, impressionadissimo com as revelaes que ouvira dos
labios da moribunda, guardou no bolso o legado da velha e sahiu do
lobrego cubiculo em que aquella vida se extinguia.

Chegado ao patamar, respirou com fora e disse para a outra velha que o
aguardava com a fumarenta candeia de petroleo na mo.

--Essa pobre mulhersinha est agonisante. Logo que ella expire d-me
parte, porque o enterro fica por minha conta.

--Sim, meu senhor!--disse a velha--No seria bom dar-lhe ao menos a
Santa Unco, j que no pde tomar o Senhor?

-- tarde--respondeu o padre Filippe--Quando c chegasse esse ultimo
soccorro espiritual, encontraria um cadaver.

--Seja pelas almas!--lamuriou a velha--No _smos_ nada n'este mundo!

--Somos realmente bem pouco, quando presumimos ser tanto!--concordou
philosophicamente o sacerdote--Vocemec faria uma obra de caridade, indo
assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraada...

--Sim, meu senhor... eu vou--concedeu a velha.

Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fra chamar e que tambem
viera ao patamar n'uma curiosidade agradecida, pediu:

--E vocemec, santinha, no poderia fazer-me o favor de me alumiar at
ao fundo da escada, que  to cheia de precipicios para a minha idade?

--Eu vou, meu senhor... Ento no hei-de ir?

E tirando da mo da outra a candeia:

--V vocemec pr par da creaturinha de Deus, emquanto eu _alumeio_ 
sr. padre...

A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:

--Estes _carlas_ do inferno, em no sentindo dinheiro a uma creatura,
pem-se logo a _avoar_ e dizem aos oitros que se _aguantem_ co'as
massadas... Se lhe cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se
ahi a alanzoar os officios da agonia e no arredava d'aqui p emquanto
ella no fechasse o olho... Assim, vae a correr metter-se no _quente_ e
tanto se lhe d que a _probesinha_ de Christo v p'r co como que v
p'r inferno!

O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara ao fundo da
terrivel escada com as costellas direitas.

--V. s.^a quer que o v acompanhar _int_ casa?--offereceu a mulher.

--No, no  preciso... D'aqui at l  perto e no ha escadas a subir
nem a descer. Amanh procure-me para se comprar um caixo  pobre
creatura. Boa noute!

--V v. s.^a na graa de Deus, meu senhor!




VII

Tres miseraveis


Depois da scena que representou com a filha, o Custodio de Jesus correu
a procurar o seu amigo Belchior.

O agiota ia radiante de satisfao.

--Beatriz--disse elle ao procurador--est no caminho!

--No caminho de qu?

--No caminho de acceitar o casamento com o Eugenio de Mello.

--Srio?

--Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez cara feia, e ia-me
fazendo sahir fra dos eixos, porque eu no sou para graas... Mas
depois...

--Conseguiu intimidal-a?

--Isso sim! Aquella sonsinha que voc alli v tem figados! Ameacei-a com
as irms da caridade para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de
me dizer que podia matal-a, mas que no podia fazer com que ella fosse 
egreja dizer o _sim_!...

-- o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe volta ao juizo, e as
mulheres so assim... so peores que cabras... Em encarreirando para um
lado, no ha diabo que as faa voltar para trs!

--Mas consegui eu que ella voltasse...

--Como?

--Com bons modos... Voc, afinal, foi quem me ensinou o segredo... Mas
eu tambem discorri alguma coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que
se desejava que ella acceitasse o casamento era para interesse d'ella,
porque eu estava pobre, estava desgraado, tudo quanto tinha j no
chegava para pagar aos credores, e portanto que s havia a escolher: ou
casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro nos miolos e arrumar
com isto por uma vez. Chorei, que se voc visse at se admirava!

--E afinal?

--Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer que no e que no,
poz-se a considerar um bocado e por fim disse-me que queria fallar com o
noivo...

--Com o Eugenio de Mello?

--Pois ento com quem? Quem  o noivo?

--O noivo  aquelle com quem ella estiver para se casar...

--Bem! pois esse  o Eugenio de Mello. No se trata de outro.

--Que diabo lhe querer ella?--commentou o procurador.

--Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe diga que lhe tem muito amor,
que est a morrer de paixo por ella, que no sonha com outra coisa
seno com o momento ditoso, _et coetera_... coisas que todas as
raparigas gostam de ouvir aos namorados.

O Belchior pz-se a rir.

--V l a gente fiar-se em mulheres!--disse elle.--Muito amor ao outro,
capaz de se deixar matar antes que trahir a f jurada; mas assim que lhe
cheirou a que o negocio era de _cobres_ e que sem elles no teria mais
vestidos, nem mais luxo nem mais commodidades,--venha de l o _homem da
massa_ e atire-se com o querido do corao s ortigas! Ah! mulheres,
mulheres! quem no as conhecer que se fie n'ellas!...

--Pois por eu saber isso--retorquiu o Custodio--por ter a experiencia de
que no ha amor que resista  perspectiva da miseria,  que eu me
lembrei de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... Agora
elle que lhe _cante_ umas cantiguinhas bem cantadas... que lhe falle
d'amor, de paixo e de todas essas frioleiras que as raparigas apreciam,
e d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais no outro!

--Quando entende voc que deve ir fallar-lhe o Eugenio?

--O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca ha tempo a perder...

--Est bem. N'esse caso, vou l hoje  noite com elle tomar o ch...

--Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... A pequena toca
piano, voc gaba-lhe a habilidade para a musica, o rapaz rende-lhe
finezas, e s duas por tres a rapariga est ensarilhada, e no ter
remedio seno dizer que sim.

--Vou ento mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo voc no vir mais cdo,
porque elle ainda ha bocado sahiu d'aqui... Veio c para eu lhe adiantar
um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que de dois em dois annos
rende seis contos de ris, s em cortia!  um doidivanas... No sabe o
que tem de seu e anda sempre a _pillar_ por dinheiro!

--Afinal--considerou o Custodio de Jesus--este casamento at  uma
providencia para elle... Porque se ns no lhe puzessemos uma tutella,
por esse andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...

O Belchior disfarou um sorriso velhaco.

--Quem duvida que  uma obra de caridade casal-o e tomar-lhe conta dos
haveres? Mas  preciso que voc saiba, amigo Custodio, que eu  que fico
em peores lenoes...

--Porque?

--Porque este diabo  maluco, e depois, quando voc e sua filha lhe
moverem um processo de interdico, quem paga as favas sou eu... Contra
mim  que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta ratoeira de
proposito para lhe apanharem a fortuna...

--E a voc que se lhe d? A sua consciencia diz-lhe que praticou uma
aco ba... que importa l que elle grite?

--Pois sim, mas a minha consciencia tambem me diz que eu escuso de me
metter em _alhadas_ sem interesse, e que se elle, por fim, como 
maluco, me quebrar a cabea,  bem feito... Portanto, logo que este
casamento esteja combinado, ns temos um pequeno negociosinho a fazer...

--Que negocio?--interrogou o Custodio franzindo o sobr'olho.

--Que diabo!  justo que eu leve rasca na assudura... Eu pratico uma
aco ba... ba para si e ba para elle... Parece que tambem no ser
fra de razo que a pratique ba para mim...

--Mas o que  ento que voc quer dizer com isso?--tornou o Custodio
desconfiado.

--Quero dizer que o negocio  negocio, e que se eu lhe metto a voc para
cima de noventa contos de reis no bolso,  de justia que leve n'isso
uma pequena commisso...

--Uma commisso! Mas que commisso quer voc?

O Belchior sorriu:

--Socegue! eu no sou d'aquelles que comem a sardinha e deixam para os
outros s a espinha... Ahi uns _dezitos_ por cento sobre a fortuna do
rapaz, no  coisa que empobrea ninguem...

--Dez por cento! Voc est doido!--exclamou o Custodio de Jesus, fazendo
uma careta terrivel--Dez por cento sobre noventa contos, atirava l para
nove contos. Isso era melhor do que fazer meia!

--...  melhor do que fazer meia... E oitenta contos por uma filha que
est em vesperas de casar com um rapaz que no tem de seu oitenta reis,
o que ?  barro!

--No que eu no a deixo casar seno  minha vontade!--barafustou o
Custodio.

O Belchior teve um sorriso desdenhoso.

--Voc no a deixa casar seno com quem muito bem entender, e ella no
casar seno com quem muito bem quizer--replicou por fim.--Mas o nosso
caso  muito outro, amigo Custodio... Se voc arranjar o casamento da
pequena com outro rapaz, sem ser por minha interveno, ainda que o
noivo tenha mil contos de reis, descance, que eu no vou l metter-me no
negocio nem reclamar para mim a mais insignificante parte nos lucros...
Ora agora, fazendo-se o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo eu o
principal agente d'este negocio que lhe mette a voc para cima de
noventa contos no bolso, tenha paciencia, mas a minha commisso  justo
que se pague...

--Com os diabos! eu ainda lhe no disse a voc que queria o seu trabalho
de graa!--prorompeu o Custodio.--Mas  preciso ter consciencia... 
preciso que voc no queira a melhor parte para si...

--A melhor parte! Ento nove contos de reis  a melhor parte de noventa?

--Limpinhos e sccos, sem mais incommodos, sem ter que aturar a noiva a
choramigar e sem ter que andar s testilhas com o noivo para o fazer
entrar na ordem, acha voc que no  nada!

--E a minha responsabilidade? E ter depois de me haver com o rapaz, que
 um touro de fora, e que, se lhe der na cabea,  muito capaz de me
lanar as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso no representa
nada, no?!

--Se elle fizer isso, voc arma-lhe um processo... Tem a justia de
casa, fica-lhe barato...

--Mas o corpo  meu, e depois de eu as c ter, do lombo  que ninguem
m'as tira!--berrou o procurador.--Homem,  preciso que voc veja que
isto  negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me em folias, sem
ao menos ter garantidos os pontos que depois hei-de levar nas feridas...
no me serve!

E n'um repello:

--Ento acabemos com isto, no se falla mais em tal e voc case l a
pequena com quem quizer.

O Custodio amaciou um pouco.

--Ora venha c...--disse elle.--Voc sempre tem um demonio d'um genio!

--Mas pela razo!... pela razo  que eu tenho genio!--contestou o
Belchior.--Voc, se fosse outro, dava o valr s coisas e no estava a
fazer questo de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu entro
n'isto por ser seu amigo...

--Bem sei, Belchior, bem sei que voc  meu amigo; e por isso mesmo 
que eu esperava que voc fosse mais rasoavel...

O procurador descarregou violento murro sobre a escrivaninha.

--Mais rasoavel!--exclamou elle.--Pde-se ser mais rasoavel do que isto?
Voc, que empresta dinheiro a vinte e a trinta por cento, acha caro
noventa contos de reis comprados a troco de nove?!

--Pois sim, mas isso no  d c, toma l... O dinheiro  do rapaz e
elle  que continua sendo senhor d'elle...

--No me venha com cantigas! Eu j lhe disse a voc como  que as coisas
se arranjam... Mas se acha que  prejudicado ou que o negocio no vale a
pena, eu lavo d'ahi as minhas mos e arranje voc casamento melhor para
a pequena.

Era a segunda vez que o Belchior ameaava desmanchar o negocio. O
Custodio de Jesus tremeu com a ideia de que o procurador tivesse j
posto a mira n'outra noiva para o seu cliente.

--Homem!--disse elle--a gente no est aqui a jogar facadas. Nem voc
quer o meu prejuizo nem eu o seu... Voc faz um abatimentosinho... fica
a coisa reduzida a seis por cento...

--Sete tenho eu quem me d!--volveu o procurador.--E  porque eu no
quiz entrar em transaco, seno a coisa chegava aos oito. Mas a mim
aborrece-me regatear... Isto no  negocio de cebolas. Disse que ho de
ser dez, e ho de ser dez, ou o rapaz no casa no Porto. Ento dou um
passeio com elle at Lisboa, e voc ver como at apanho l uma
viscondessa para elle. Aquillo  que  terra! Aquillo sim! Ali d-se
valr ao dinheiro e ao trabalho de cada um...

--Bom! Voc  teimoso... tambem no quero que diga que, sendo eu seu
amigo, estou a fazer questo por pouca coisa... Est tratado.

--Ora at que, emfim, chegou-se  razo!--disse o procurador, como quem
se alliviava d'um grande peso--Eu bem sabia que voc no deixava fugir o
blo, ainda que tivesse de partir um bocado maior para mim... Mas eu no
gosto d'abusar com os amigos...

--Vamos l!--suspirou o Custodio.--Para amigos, voc carregou um
bocadito na mo... Mas acabou-se! Est tratado, est tratado. No volto
com a palavra atrs.

--Sim, senhor!--tornou o Belchior.--Ora agora temos a regular a forma do
contracto... Eu recebo os nove contos no dia do casamento, antes dos
noivos irem para a egreja...

--O que! Ento voc pe-me assim as facas ao peito?!--exclamou o
Custodio de Jesus muito admirado.

--Homem, negocio  negocio. Eu comprometto-me a levar o noivo at sua
casa no dia do casamento, sem escripturas, para a noiva poder entrar na
meao dos bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que eu
ganhei  meu, voc passa-m'o para a mo e estamos quites. Pois como
queria voc?

--Isso no podia ser depois do casamento realisado?

--Pde, acceitando-me voc letras...

--Voc sabe-a toda!--fez o Cutodio sorrindo, como quem acaba de
effectuar um bello negocio.--V l! No dia do casamento entrego-lhe o
dinheiro e est a conta arrumada.

--Antes dos noivos partirem para a egreja...

--Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem para a egreja.

--Pois ento esta noite l estamos. Vou mandar prevenir o rapaz para no
faltar.

O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao _Francfort_ a prevenir
Eugenio.

N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio de Jesus era theatro
da odiosa fara que os tres miseraveis se dispunham a representar  roda
do corao de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como quasi sempre
acontece quando tres patifes de grande marca se encontram unidos pelo
mesmo pensamento de interesse commum.

O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passra pela casa de D.
Barbara, viuva d'um general reformado e me de tres filhas feiissimas
que o Monte-pio militar sustentava, e pediu-lhes para irem  noite tomar
o ch e fazer um bocado de companhia  Beatriz, que j tinha fallado
n'ellas e estranhado que estivessem tanto tempo sem lhe irem fazer uma
visita.

O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar da mulher, a D.
Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, ambas vermelhuscas e adiposas,--a D.
Rosalia queixando-se sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus flatos.

Eram estas as relaes mais intimas do Custodio que, usurario e forrta,
detestava reunies e convivencias que o forassem a incommodos e
despesas.

Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento proviera de serem as
filhas companheiras de Beatriz no collegio, porque lhe rebatia as
penses com extraordinaria usura; e quanto  familia do Belchior, est
bem patente o interesse que lhe advinha das suas relaes.

Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite viriam visitas,
preparou-se para as receber.

A candida menina preferiria antes a solido do seu quarto  enfadonha
conversao de to estolidas creaturas; mas como era a ella que cumpria
desempenhar os deveres de dona da casa, no teve remedio, sacrificou-se
s leis da boa educao e foi com risonho, embora contrafeito, semblante
que veio  sala.

Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se gentil e muito
correcto no seu trajo elegante de rapaz rico, affectando uns ares
superiores, de bom tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e
attencioso em extremo para com as damas.

Conversaram estas de modas, do tempo, dos theatros, dos mil nadas que
preoccupam o espirito das senhoras finas, ou que de taes se presumem;
emquanto Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos
acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores ao futuro de
Portugal.

Veio o ch. Servido elle, o Belchior perguntou:

--Ento no temos um bocadinho de musica? V, sr.^a D. Rufininha, d-nos
um bocadinho de piano.

Rufininha era a filha mais velha do general.

-- verdade! apoiou Custodio--e a sr.^a D. Therezinha canta aquella
cano

    _Murmura, rio, murmura!_

que  to bonita.

A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, morta por cantar,
comeou a fazer caretas e a desculpar-se, que estava sem voz, que no se
sentia ba da garganta, que hoje no, para outra vez cantaria.

Mas o Belchior e o Custodio insistiram,--que cantasse, que eram
desculpas de mau pagador, que quem tinha uma voz to bonita no devia
ser to avara do seu thesouro.

E agarrando-lhe cada um por seu brao, arrastaram-n'a at junto do
piano, onde j a irm pingava notas preparando-se para o acompanhamento.

Assim instada, a Therezinha comeou esganiando-se terrivelmente, a
pedir ao rio que murmurasse, em meio do silencio e da forada atteno
dos circumstantes.

Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se da filha do
Custodio e, sentando-se n'uma cadeira proxima, encetou com ella este
dialogo:

--D-me licena, sr.^a D. Beatriz, que lhe faa uma pergunta?

--Queira v. ex.^a dizer, sr. Eugenio de Mello--respondeu Beatriz, sem
poder reprimir um movimento de terror instinctivo.

--Parece-me vl-a triste, como que sob o peso de um desgosto intimo...
Acaso devo eu attribuir  minha presena a melacholica expresso do seu
rosto?

--Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de Mello?

--Perdo, se fui indiscreto!--tornou o mancebo.--Mas, em primeiro logar,
interessam-me as dres e as alegrias do seu corao mais do que talvez
pde imaginar... Depois... creio que lhe no deve ser estranho o desejo
ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver
feliz da sua felicidade...

Beatriz baixou os olhos.

--Creio que quer referir-se--disse ella--a um projecto de casamento de
que j ouvi fallar meu pae...

--No me atrevi a patentear a v. ex.^a o sentir intimo do meu corao, e
dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no
peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e
obediente, no hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse
interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.^a.
Fiz mal?

--No logar de v. ex.^a, eu no teria procedido assim...

--Porque? Quem melhor pde ser fiador dos puros e santos affectos da
minha alma, das delicadas e nobres intenes que me animam, do que o
proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.^a
no fosse uma d'aquellas paixes abrasadoras, violentas, em que fazemos
consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do
auctor dos seus dias?

--V. ex.^a esqueceu ou no contou para nada com o meu corao. Era no
emtanto a elle que v. ex.^a devia dirigir-se primeiro, creio eu...

--Supponho-a to ba, to pura, to santa, que no duvidei um momento da
bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo
que eu, infeliz, morro por v. ex.^a.

--Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppr-me tanto
que me julgasse capaz de sacrificar o meu corao  sua felicidade, sr.
Eugenio de Mello.

--Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo
julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu
corao?

--Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e
franqueza que devo a v. ex.^a e  minha dignidade de mulher. Se depois
de me escutar, ainda persistir no seu proposito...

--Consentir em ser minha esposa?

-- possivel.

--Pois bem; falle! Diga-me v. ex.^a o que tem a dizer, porque eu anceio
pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do
meu amr!

--O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,--respondeu friamente
Beatriz-- por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexo
que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas
que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.^a dar-lhe peso e eu
exprimir-me como desejo. Se lhe no fr demasiado o sacrificio, rogo-lhe
que venha manh de dia, e ento fallaremos. J expressei a meu pae a
necessidade que tinha de me entender com v. ex.^a sobre o assumpto em
questo, e portanto a sua vinda a esta casa est perfeitamente
auctorisada por elle.

--Virei ento manh--disse Eugenio.--Mas, por Deus, no me roube a
esperana de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo
sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.

Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.

--Amanh!--disse ella.

Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e
Custodio, que ambos, fingindo prestar grande atteno s filhas da D.
Thereza, no perdiam de vista Eugenio e Beatriz.

Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da
retirada.

A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem.

J na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou:

--E ento?

--Ento... nada!

--Pois voc no lhe fallou em amor, no lhe disse que morria de paixo
por ella?

--Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu no vim c para
outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me
quer fallar amanh, porque tem coisas muito srias e muito graves a
dizer-me...

--J sei. O que ella quer  namoro. Quer que voc lhe cante a ss as
lindas cantigas da sua paixo por ella e lhe jure mil vezes que a ha de
amar at  morte...

--Isso no so as coisas srias e graves que ella tem para me dizer...
Se me chama, no  para que eu lhe falle,  para ella me fallar a mim...
Que querer dizer-me?

--Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim
que souber que ella est para casar com outro,  capaz de se ir deitar
da ponte abaixo--disse rindo o procurador.

--Emfim, seja o que fr. Amanh virei fallar-lhe e saberemos o que ella
quer...

--Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortia toda da
sua quinta--porque julga que o pae est pobre e que no pde continuar a
dar-lhe vestidos de seda... As mulheres so todas assim, meu amigo!

--No parece que seja isso--volveu Eugenio--Pelo contrario, supponho
outra coisa...

--O que?

--Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente
confessar-m'a antes de casar...

--Pois voc suppe?...

--No sei... Mulheres so mulheres...

--Mas voc, ainda que isso seja, no faz caso!...--preveniu o
procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice.

--Bem me importa c a mim! Perdo... fao de generoso... O que se quer
c so os vinte contos...

--E que o Custodio morra breve para vir a _maquia_
completa!--accrescentou o Belchior.

--Nem mais nem menos!

Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do
Custodio.

O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de
negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois.

Beatriz, pallida de commoo, saiu  sala de visitas a receber o
mancebo.

--Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello--disse ella gravemente,
indicando-lhe uma cadeira--Pedi-lhe a fineza de me escutar a ss por
alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe no deve ser conhecido de
mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saber
guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir...

--Oh, minha senhora!--exclamou o mancebo--Amo-a tanto que, mesmo sem
essa preveno, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as
suas palavras como um inestimavel thesouro!

--E devem realmente valer para v. ex.^a um thesouro pela franqueza e
lealdade que revestem. V. ex.^a, segundo creio, manifestou a meu pae o
desejo de me tomar para sua esposa...

--De novo peo perdo, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor
do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v.
ex.^a... Nos tempos que vo correndo  to frequente vr-se um seductor
abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha,
que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem to
generosamente me acolhia as nobres e puras intenes do meu corao
apaixonado! Se errei, v. ex.^a saber perdoar-me o inconsiderando passo
com que pude contrarial-a, em atteno aos honestos sentimentos que me
moveram.

-- v. ex.^a um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e
avaliar os justos melindres que me foraram a uma explicao clara,
franca e leal da minha situao...

--Dos labios de v. ex.^a est dependente a minha sorte, o meu futuro, a
minha vida. Peo-lhe que falle como  pessoa que mais a ama e que mais
ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiana!

--Pois bem; em primeiro logar, o meu corao j no est livre--disse
Beatriz--Amo e sou amada com o sincero e vehemente amr de duas almas
irms que desejam unir-se no mesmo destino...

Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoo.

--Beatriz!--disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mos da
joven--no posso crr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o
santo e fervoroso culto que o meu corao lhe tributa!  possivel que
haja, e creio bem que haver, quem renda o merecido preito  sua
belleza, s suas virtudes,  nobre e graciosa distinco de sua gentil
figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita
o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar
constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe
dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha
existencia... oh, no! no  possivel! Diz-me que o seu corao no 
livre... Creio bem que o seu corao a engana e toma como sincera
expresso de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz,
passageiro, como so em geral todas as affeies que nascem de um olhar,
de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de
simples palavras murmuradas a mdo no redomoinhar de uma walsa ou na
mysteriosa entrevista de uma janella para a rua!

--Engana-se, sr. Eugenio de Mello!--retorquiu Beatriz--Este amor que me
prende o corao a outro corao, no  um d'esses caprichosos
sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no
outro; , pelo contrario, uma paixo verdadeira, profunda, sinceramente
sentida e a que est indissoluvelmente presa para sempre a nossa
existencia, o nosso destino...

--Todavia--observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso--essa
declarao de v. ex.^a harmonisa-se bem pouco com as esperanas que me
pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.^a a seu pae e que elle me
transmittiu cerca do nosso enlace...

-- justamente por isso que desejei fallar-lhe--volveu Beatriz, com
altiva dignidade.--Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretenses
de v. ex.^a  minha mo, recusei terminantemente, dispensando-me de
declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae
insistiu e eu reagi, pois no reconheo  auctoridade paterna o direito
de dispr do corao dos filhos para os obrigar a um enlace que s uma
sentida affeio determina. Ameaou-me com rigores, com violencias, com
a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou
nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com
franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta unio se realise
 o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento
para o outro ameaa deixar-nos sem tecto e sem po. Chorou, lamentando a
sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperana
de salvao n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os
miolos com um tiro na cabea e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter
causado a morte. Foi ento que, para o socegar, prometti annuir aos seus
desejos com a condio de que prviamente me seria permittido fallar com
v. ex.^a. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe:
Querer v. ex.^a acceitar por esposa uma mulher cujo corao pertence a
outro e que unicamente,--unicamente, tome v. ex.^a nota--por salvar a
vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor,
acceitando o enlace que v. ex.^a lhe prope?

Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada
pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a to apregoada
dignidade dos seus sentimentos.

--E v. ex.^a no meu logar o que faria?--disse elle por fim, respondendo
com esta pergunta  pergunta que lhe fra feita.

--Pois que lhe fallo d'esta maneira,  porque no julgo acceitavel uma
unio em taes circumstancias.

--N'esse caso, o que  que v. ex.^a exige de mim?

--Tudo o que pde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.^a, guardando
absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expr-lhe, simule
reconsiderar e d como irrealisavel a unio que projectou.

--Oh! isso nunca!--protestou vivamente o bohemio--Com que pretexto diria
eu a seu pae que lhe rejeitava a mo da filha? Isso envolveria no s
uma violencia cruel ao meu corao, como uma affronta gravissima  honra
de v. ex.^a. E eu que a amo, eu que fao consistir toda a minha ventura
na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lanar na
reputao de v. ex.^a o stygma affrontoso de um repudio aviltante?!
Repare v. ex.^a que isso  exigir-me mais que a propria vida!

--Pois bem; no diga v. ex.^a que desiste inteiramente das suas
pretenses a esta unio impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto
para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraos
emprevistos, uma viagem longa, demorada...

--Quer v. ex.^a dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar,
de viver na mesma terra em que v. ex.^a vive, de frequentar os mesmos
logares que v. ex.^a frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.^a
respira!--exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada
eloquencia--E emquanto eu, distante, na solido e no abandono da minha
retirada terra de provincia, curto as dres e as amarguras de um amor
sem esperana, fica um _outro_, um _outro_ a quem v. ex.^a ama, na posse
feliz do seu corao, gosando tranquillo as suaves delicias do amor
correspondido!  por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, no
lhe mereo o atroz supplicio a que quer condemnar-me!

Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignao e amargura
tal, que Beatriz no pde deixar de crar, pensando que tinha sido
demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.

--Peo perdo--balbuciou ella--mas propondo isto, eu parto do principio
de que v. ex.^a, como homem digno, no pde pensar mais em que eu seja
sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre
banido da sua lembrana...

--Oh, minha senhora! Como conhece mal o corao do homem que ama com o
ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.^a!--exclamou cynicamente o
bohemio.--Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para
querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e
perfeies que fazem de v. ex.^a a creatura mais adoravel do Universo,
agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu
corao a amal-a doidamente! V. ex.^a est pobre. Eu sou rico. Do meu
casamento com v. ex.^a depende no s o seu futuro tranquillo e feliz,
mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me
prendem tantos laos de sincera affeio. J no fallo de mim, do meu
corao para sempre morto aos golpes crueis de uma desilluso sem
esperana... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar 
pobreza e aos horrores do desespro a mulher que amo e a vida do amigo
que tanto prso? E tudo isto para qu? Para que um desconhecido, um
homem que eu nunca vi, que no estimo, que no sei quem , no seja
perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que no tem nem
pde dar!

A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por
uma commoo indescriptivel.

--Sr. Eugenio de Mello--disse ella com os olhos brilhantes de
indignao--o homem de quem falla no pediu nada a v. ex.^a, nem eu quiz
com as minhas palavras collocal-o sob a alada dos seus juizos
temerarios. No se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de ns. V.
ex.^a persiste na ideia d'este casamento, no obstante saber que amo
outro homem e que s por salvar a vida de meu pae  que eu poderia
consentir em conceder-lhe a mo de esposa?

--Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que  fora de dedicao e
de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.^a!

--Nunca! Nunca!--protestou Beatriz--Mulheres como eu, amam uma s vez na
vida e s podem pertencer d'alma e corao ao homem a quem se dedicaram.

Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.

--V. ex.^a  livre, minha senhora--replicou elle--Pde impunemente matar
seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que no
conseguir  fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu
acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto
amor que lhe consagro.

Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma
d'estas condemnaes terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre
dois sres.

--Tenho entendido, senhor--disse ella em tom breve e secco--Preciso de
meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae
o informar da minha resoluo.

Inclinou a cabea ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da
sala com altiva serenidade.

--Tens cabellinho na venta--disse comsigo o bohemio, descendo as escadas
que conduziam ao escriptorio do Custodio--mas, se me caes nas mos, eu
te porei macia que nem velludo!...

No escriptorio estavam j o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem
o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio.

Quando o mancebo appareceu  porta, os olhares dos dois patifes
cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio.

--Ento?--perguntaram ao mesmo tempo.

--Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.

--Mas o que disse ella?--insistiu o Custodio.

--Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em
cabea; disse-me que amava outro homem, e que s pelo receio de que o
meu amigo se matasse  que condescendeu em dar esperanas d'acceitar o
casamento. Queria que eu desse o dito por no dito, que desistisse de a
querer para esposa...

--Mas voc nem _nentes_!--atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de
tudo.

--Est visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e voc
amigo Belchior bem sabe se isto  verdade...

--E ella?--interrogou o Custodio.

--Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria
resposta definitiva...

--Amigo Custodio!--disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do
usurario--o caso agora  comsigo... Aperte-me a pequena... torne a
representar a scena da pobreza at ella dizer que sim... Tenha pena
d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!...

--No tem duvida!--aquietou o Custodio--Ella ha de ir... O que eu quiz
foi apanhar-lhe o _fraco_... Se fr preciso, at dou um tiro para o ar,
a fingir que me mato... E ella ha de ir!...




VIII

Entre irmos


Paulo de Noronha, depois que se filiara na _Mo-Negra_, no obstante
saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a
esperana bem fagueira de conquistar em breve uma posio que lhe
permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mo da filha.

Preoccupava-o, porm, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um
mysterio que elle no sabia explicar e que o havia de collocar em
terriveis embaraos, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe
perguntasse o nome de seus paes.

O pobre rapaz no conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto,
buscando para a filha uma alliana _limpa_, e o sigillo que o padre
Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar cerca d'aquelles a quem
devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que
no podia responder.

Elle ignorava que Beatriz tambem no tivera nascimento legitimo e que,
se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse
homem no era seu pae.

O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos
do seu corao e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse
dever dar-lhe.

Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em no o elucidar cerca do
seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razo, que madre
Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito.

No procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o
mesmo que o inicira nos mysterios da _Mo-Negra_.

--Posso fallar-te com franqueza, no  verdade, Jorge?--perguntou-lhe
elle.

--Como se fallasses a um irmo--replicou o outro--Desde hontem que nos
achamos ligados indissoluvelmente pelos laos de uma associao secreta
em que  condio essencial que os filiados se considerem e se amem como
verdadeiros irmos.

--Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmo e espero que como tal
prestars atteno ao que vou dizer-te.

--Falla.

--Como te expliquei, amo uma mulher que  todo o meu pensamento, todo o
meu sonho, toda a grande aspirao da minha vida!

--J m'o disseste.

--Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento
affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario
que busca para a filha uma alliana vantajosa, alliana de dinheiro, e
que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu,
simples academico, apenas rico d'esperanas no futuro, lhe pretendo a
mo da filha...

--Mas--objectou Jorge--que necessidade tens de que elle o saiba antes de
haveres conquistado a posio que te ha de permittir constituir familia?

--A necessidade est bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz
com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente  sua mo.

--Ah! ah!--fez Jorge--E a pequena?

--Tenciona oppr a mais tenaz recusa. Mas o pae  rispido, severo, chega
mesmo a ser brutal...  capaz de querer impr pela violencia este enlace
e, comquanto eu no receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio
comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae  capaz de lhe
inffligir...

--No estamos em terra de selvagens--replicou Jorge sorrindo.--Como se
chama esse _amavel_ progenitor?

--Custodio de Jesus....

--Mora?

--Na rua do Principe.

--E o outro?

--Qual outro?

--O teu pretendido rival?

--No o conheo. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello.

--Eugenio de de Mello...  do Porto?

--No; supponho que  um rico proprietario na provincia.

--J _entrado_ na edade, no?

--Pelo contrario.  novo ainda. Bem vs que lhe chamei um rapaz.

--Os homens ricos so sempre _rapazes_ em questo de casamento... A
mocidade tem para elles a durao do seu dinheiro...

--Mas este, mesmo pobre que fsse, seria ainda rapaz.

Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.

--Muito bem!--disse elle--Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios
com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informaes e veremos
depois o que convem fazer...

--Mas poderei ao menos alimentar esperanas?...

--Dou-te a certeza de que esse casamento no se far e de que Beatriz
no ser maltratada pelo pae...

--Obrigado, meu amigo, meu irmo!--exclamou Paulo, cahindo-lhe nos
braos.--Escuta ainda,--continuou. --Preciso de te dizer tudo. Entre ns
no deve haver segredos...

--Falla, meu irmo!

Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha.

--Chamas-me _irmo_--e comtudo eu creio que no posso ser irmo de
ninguem.

--Porque?

--Porque no tenho pae nem me, porque eu mesmo, sabendo o que sou,
ignoro quem sou!

Contou-lhe ento o desespero em que se debatia por no conhecer o
segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula
como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias
se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a
proteco e amparo.

--V tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me
encontro!--concluiu elle desalentado.--Ainda que me encontrasse de um
momento para o outro em circumstancias de pedir Beatriz, como poderia eu
fazel-o no sabendo o nome de meus paes?

--Os irmos da _Mo-Negra_--disse Jorge gravemente--so todos filhos do
mesmo pae--o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma
me--a Associao Invencivel que os protege e lhes d fora. Com
semelhante parentesco qualquer de ns pde considerar-se
sufficientemente nobilitado para aspirar  mo da mais nobre e rica
princeza do mundo, quanto mais  de uma simples burguesinha, filha de um
rico burguez chamado Custodio de Jesus!

--No duvido da grandeza e poder da nossa Associao, meu amigo; mas,
pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe no
constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da
origem honesta do nosso nascimento...

--O homem--volveu Jorge--creatura de Deus, no pde ser jamais
responsavel por actos que no praticou nem estava na sua mo impedir.
Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladro, como gloria
em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou
filho de um rei, elle  sempre um homem _igual aos outros_ e d'elles s
pde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes
inferior pelas suas abjeces e pelos seus crimes.

--Ah! meu amigo! que bella e s doutrina seria essa, se todos os homens
a comprehendessem assim!

--Para isso trabalhamos e nem outro  o pensamento que nos une. Temos de
luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos
seculos, contra a _rotina_--que  a famosa trincheira erguida a impedir
a marcha do aperfeioamento moral da humanidade. Mas se no houvesse
lucta, no seria to glorioso o triumpho nem teria tanto valor a
conquista.

Dizendo isto, Jorge apertou a mo a Paulo e despediu-se, deixando o
mancebo mais tranquillo e confiado no futuro.

Sigamos Jorge e vejamol-o bater  porta de uma casa de modesta
apparencia, na rua de S. Bento da Victoria...

 um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se
confunde na linha de casas modestas, seno pobres, que se erguem do lado
nascente d'aquella rua, em frente  Relao, desde a esquina dos
Martyres da Patria at  travessa de S. Bento da Victoria.

Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada.
Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem.

Todavia, no portal no appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de
Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a
impellisse.

Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa,
penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lano das
escadas at ao primeiro andar.

Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o
lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim:

--_Licet?_

--Entrae!--disse de dentro uma voz.

Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma
ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava
sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba
grisalha que lhe descia at ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca
biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se
encontrava na sua presena.

Rodeado de livros que se viam espalhados pelo cho, em cima das cadeiras
e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o
soalho at ao tecto, no era preciso grande esforo de intelligencia
para desde logo comprehender que se estava em presena de um homem de
estudo, sabedor e profundo.

Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de
livros, da porta at  mesa, fazendo prodigios de equilibrio para no
pr os ps sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem.

-- preciso estar na graa de Deus e ter azas como os cherubins--disse
elle rindo--para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos ps a
sciencia, Mestre!

O homem dos oculos verdes ergueu a cabea, fitou-o por trs dos oculos e
respondeu grave e pausado:

--S a sciencia v cahe por terra e desapparece esmagada pelo p
inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a
Justia. A verdadeira sciencia, porm, no sente mais o pezo de um p
que se lhe pe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma msca
que v pouzar-lhe no pra-raios.

Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao
recem-chegado:

--Sentae-vos, meu amigo. J c vos esperava e estava estranhando a vossa
demora...

--Mestre--respondeu o outro--teria vindo mais cdo, se um caso novo, de
que urge tratar, me no tivesse tomado o tempo.

--Um caso novo! O que temos, pois?

--Uma injustia grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende
fazer victima um dos irmos da _Mo-Negra_.

--A _Mo Negra_ tem j fora e poder bastante para desviar de sobre a
cabea de seus _irmos_ a iniquidade e a injustia dos homens, por muito
alto que elles estejam collocados. De que se trata?

--Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha...

--Ah! O que lhe succede?

--Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O
pae d'ella, porm, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um
herdeiro rico, que ella no deseja nem estima.

--E sabe elle dos amores da filha com Paulo?

--No o deve saber, pois que este nosso _irmo_, movido de honestos e
nobres intuitos, no se julga auctorisado a tornar ostensivos os
sentimentos amorosos do seu corao, emquanto no houver conquistado uma
posio social que lhe permitta pedir a mo da mulher que ama.

--O que deseja elle ento? Que lhe conquistemos a posio de que
precisa?

--De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforo proprio. Simplesmente
o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a
sua ventura no fosse compellida a unir-se a um outro.

--Est na mo d'ella. Que recuse.

--Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e  isso o
que Paulo pretende evitar.

--Pois bem. A _Mo-Negra_ cumprir o seu dever. Como se chama o pae
d'essa menina?

--Custodio de Jesus?

--E o pretendido noivo?

--Eugenio de Mello.

--Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens;
conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram
a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.

--Assim entendo que deve ser; e se vs, Mestre, no ordenaes o
contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos.

--Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos
os _irmos_ que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas
as informaes, procederemos como fr de justia.

Jorge inclinou-se.

--Temos ainda mais--disse elle.

--O qu?

--Paulo no conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu
nascimento...

--Que pde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sr o repudiaram,
que tem o filho que vr com os paes que o no quizeram ser?

--Perdo, Mestre!  essa a grande duvida e portanto o grande tormento do
pobre rapaz... Paulo no pode dizer-se um _abandonado_... A sua infancia
correu sob a proteco carinhosa de dois religiosos, um padre e uma
freira, e ainda agora so elles os que occorrem, como sempre, a todas as
despezas da sua educao scientifica.

--Conhece elle esses protectores?

--Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeio filial!

--N'esse caso, porque no pensa esse rapaz que pdem ser elles os seus
proprios paes?

--No so, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe no usa
o appellido Noronha...

--Madre Paula e padre Filippe, dizeis?--interrogou o homem dos oculos
verdes com um leve tremr na voz.

--Sim. So estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha.

O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de _Mestre_, cruzou os
braos, inclinou a cabea sobre o peito e ficou por algum tempo immerso
em profunda reflexo.

Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham
despertado tristes recordaes, porque, ao levantar a cabea e
reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarado ainda o
tremor da voz:

--Pensaremos n'isso, veremos se ser conveniente indagar a verdadeira
origem d'esse rapaz.

Depois accrescentou:

--Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que s vezes
mais vale no querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me s, meu
amigo.

Jorge levantou-se.

--Amanh--disse elle--deve reunir o capitulo e l nos encontraremos 
hora do costume.  possivel mesmo que d'aqui at l eu tenha podido
obter os esclarecimentos que desejamos cerca de Custodio de Jesus e de
Eugenio de Mello.

--Se assim acontecer--replicou o homem dos oculos verdes--poderemos
deliberar em capitulo o que convir fazer.

Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precaues com que havia entrado
para no calcar com os ps os livros dispersos pelo sobrado.

Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa,
encostou a fronte s mos e ficou assim por largo tempo, engolfado em
profundo scismar.

--Madre Paula e padre Filippe!--disse elle por fim.--Porque
extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados  existencia
d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da _Irm Dorotha_?

Pegou de uma penna e traou algumas palavras em um papel que dobrou por
fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida.

Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume
encadernado a preto, que abriu e comeou folheando.

As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o
mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe
os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um
pensamento negro.

Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha
uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um
tinteiro em frma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou
n'esse tinteiro, e comeou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porm,
que a penna ia traando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente;
retomando o papel a sua brancura immaculada.

 que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica.

Que mysteriosos pensamentos lanaria elle n'aquelle papel que os
guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as
perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina
superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle
occulta no seio?




IX

Amores faceis


Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de
Cedofeita, subiu  rua dos Bragas, desandou  rua da Sovella e, passando
o Campo da Regenerao, entrou na rua da Rainha.

O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio
parou em frente de uma casa de um unico andar, construco moderna, em
que se notava decencia e bom gosto.

Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a na fechadura, abriu a
porta e entrou. Subiu os quatro degraus de pedra que davam accesso ao
corredor, sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse dever
chamar a atteno do dono ou dona da casa.

Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque a meio do corredor
abriu-se uma porta e appareceu no limiar uma gentil figura de mulher,
trazendo na mo um castial de prata em que ardia uma vela.

--s tu, Eugenio?

--Sou eu, minha querida!

O bohemio aproximou-se da formosa dama que assim lhe fallava,
acariciou-lhe amorosamente os longos cabellos louros, esparsos sobre o
fino roupo de velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a
longamente nos labios.

--Demorei-me, no  verdade?--perguntou elle, lanando-lhe um brao 
roda da cintura e conduzindo-a para o interior da saleta d'onde ella
havia surgido.

--Principiava a desesperar-me... Imaginei que j no virias e pensava na
maneira de te castigar bem castigado pelo teu abandono!

--Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao teu Eugenio, que tanto te
quer, que tanto te adora?!

--Que queres! O ciume comeava a atormentar-me! Lembrava-me que estavas
talvez nos braos de outra, esquecido da tua Leonor, que s  feliz
quando te v, quando te tem a seu lado!

A formosa creatura que Eugenio chamra Leonor, pousou o castial sobre
um velador de pau bano que ficava ao lado do marmore do fogo, e
lanando os braos ao redor do pescoo do mancebo, sorveu-lhe nos
labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, mais lento e
voluptuoso que o primeiro.

--Mas tu no estiveste com outra, no?--disse n'um gemido em que havia
receio e esperana, supplica e perdo.

--Que ideia! Estive com uns amigos, de quem no pude ver-me livre...

-- que eu amo-te tanto que, quando no te vejo, penso sempre que te
perco, que no voltas mais ao p de mim, que me esqueces, que foges com
outra para nunca mais!

Eugenio ria.

--Descana, meu amor... Quem  que me ha de querer? No vs que eu sou
to infeliz, to desgraado, que no tenho ninguem no mundo que devras
me estime seno tu?

--E tambem de ninguem mais precisas!--disse com vehemencia a dama
loura.--No estou eu aqui para te rodear de carinhos, de ternura, de
affectos que s eu sei tributar-te? No preencho eu todas as
necessidades do teu corao, todas as ambies da tua existencia? No
fao eu por adivinhar os teus pensamentos, por satisfazer os teus
desejos, as tuas mais caprichosas phantasias? De quem mais precisas para
ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho d'amor?!

--Decerto, decerto, minha querida amiga!--fez Eugenio, suspirando.--Eu
seria feliz, muito feliz comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...

E interrompeu-se suspirando.

--Se qu? Anda, acaba!

--Se fosses minha smente... se eu fosse rico bastante para no
consentir que outro partilhasse os teus affectos...

--Mas eu no o amo!--protestou a dama loura.--Bem sabes que o no amo,
Eugenio! Recebo-o com desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle
me vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que elle me d do seu
amor, cada manifestao da sua ternura, mais accrescenta o meu tedio e o
meu despreso por elle!

--Ah! se eu fsse rico--tornou a suspirar o bohemio--com que prazer eu o
correria a pontaps d'esta casa para fra, e com que deliciosa furia eu
quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, reduzindo tudo a
cacos, tudo a farrapos, para s salvar de todo este monto de ruinas,
puro e intacto, o adorado corao da minha pobre Leonor!

Levantou-se agitado, passando frenetico as mos pelos cabellos, n'uma
attitude de heroe de melodrama.

Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mos alvas e pequeninas,
em cujos dedos lusiam brilhantes, supplicando:

--Ento! V! No sejas louco!... Isto ha de acabar um dia... Bem sabes
que elle  velho... no pde durar muito... E como promette
contemplar-me no testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...

--Dias muito felizes!--repetiu o bohemio com desanimo, deixando-se cahir
de novo sobre o estofo do sof.--Antes d'isso hei-de eu morrer de
desespero!

--Morrer!--exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos beijos.--No me
falles em morrer, se s meu amigo, Eugenio! s novo, forte e vigoroso e
receias que um velho dure mais que tu?!

--No! eu no temo que a morte me colha antes do tempo... Mas tenho um
vago presentimento de que serei eu que hei-de ir ao encontro da morte...
s vezes, para certos desgraados como eu, a unica felicidade possivel
n'este mundo s existe na paz da sepultura!

--Jesus! que funebre vens hoje! No tens dinheiro, aposto!

--O no ter dinheiro  o menos... Desde que rompi com a minha familia,
que quiz por fora tolher o meu destino, anniquilar o meu futuro,
habituei-me s privaes inevitaveis que resultam de uma mezada, que
minha me me manda s escondidas de meu pae... Mas o peor no  isso...
o peor so as decepes, os desenganos que todos os dias um homem nas
minhas circumstancias est recebendo de amigos que o conhecem e que
nunca deviam ser os primeiros a humilhl-o.

--Mas o que foi? Conta-m'o, filho!--supplicou Leonor com interesse.

--Para que hei-de eu affligir-te com coisas que no pdes remediar?
Fallmos antes de ti, do nosso amor, to puro e to ardente que, se no
fra elle, j ha muito eu teria acabado com este negro fadario!

--No, no! quero saber... Anda, falla!--insistiu ella amorosamente.

Eugenio passou a mo pelos cabellos, sacudiu a cabea com um fundo
suspiro e principiou contando, em tom de confidencia:

--Quando eu vivia ainda em casa de meus paes e dispunha de todo o
dinheiro que me era preciso para satisfazer todos os meus caprichos,
todas as minhas loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e
todas as horas me protestavam uma eterna dedicao, uma amizade sem
limites... Oh! como eu os tenho conhecido agora, na adversidade, esses
falsos e indignos amigos, esses canalhas, esses biltres, esses
miseraveis!

O bohemio interrompeu-se para verberar indignado com estas apostrophes
violentas uns amigos que nunca teve.

--Vamos! No te afflijas!--aquietou em voz dce a carinhosa e ingenua
Leonor.

--Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em valer a um pobre rapaz,
nosso novo companheiro de rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil
reis, que o infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia como
empregado, achando-se na dura contingencia de entrar para a cadeia, se
no apresentasse esta quantia. O pobre moo apaixonara-se por uma actriz
e, arrastado pelo amor, alcanara-se n'aquella importancia. Veio ter
commigo afflicto, contando-me a sua desgraa e pedindo-me que lhe
valesse. N'essa occasio, infelizmente, eu no podia dispr do dinheiro,
porque tinha perdido em uma s noite perto de um conto de ris. Mas como
a todo o custo queria salvar a reputao e o futuro do pobre rapaz,
lembrei-me de escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que
abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.

--Generoso corao!--exclamou a loura, envolvendo-o n'um olhar
ternissimo, em que havia um mixto de sensualidade e de respeitosa
venerao.

O bohemio continuou:

--Valeu-se ao rapaz, que continuou desempenhando o seu logar, sem que
nunca ninguem, suspeitasse a sua falta, at que um dia, poucos mezes
depois, foi colhido pela febre typhoide e morreu... Tive muita pena
d'elle!

--Coitado! Esse rapaz era infeliz,--commentou ingenuamente a loura, mais
por comprazer ao amante do que por se sentir movida  compaixo.

--Era! Era muito infeliz!--suspirou o bohemio.--Como elle morreu, 
claro que no pode pagar...

--No deixou nada?

--Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, meu pae queria
obrigar-me ao casamento com uma minha prima de que te fallei e que eu
detestava e detesto! Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me sahir de
casa. Sahi. E calculas que eu, que at alli era o _menino bonito_ da
familia, fiquei de repente reduzido a uma magra mezada que minha pobre
me me manda s escondidas de meu pae, porque elle, de cada vez mais
enfurecido contra mim, teima em no me dar um real...

--Cruel pae!

--Retirei ento para o Porto, para esta terra onde ninguem sabe quem
sou, para no dar s pessoas que me conheciam o desagradavel e triste
espectaculo da minha decadencia, da minha, triste e apertada situao...

--Era o destino que te chamava e te impellia para mim, meu amor!

--Pois sim... era! Mas por essa ventura que a sorte me deparou, quantas
amarguras, quantos dissabores, quantos crueis desenganos! Este amigo de
quem te fallo, este indigno, que  rico, que est altamente collocado, e
que sabe a difficil situao em que me encontro, tem-me escripto mais
que uma vez a pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle sabe
que eu no utilisei, que no foram para mim e que no posso pagar n'esta
occasio! Escrevi-lhe a expr-lhe a minha m situao e a pedir-lhe que
no me apertasse por uma divida que, por emquanto, me  impossivel
solver. Pois este miseravel, este infame ameaa-me com os jornaes, se eu
no lhe mandar na volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o
canalha! E  capaz de o fazer, desacreditando-me, cobrindo-me de
opprobrio e de vergonha aos olhos de todo o mundo, sem ter em
considerao que eu um dia hei de ser rico e que basta que de hoje para
amanh morra minha tia Quiteria, que  doida por mim, e que me deixa
tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe de contos de reis a
guela ignobil!

Dito isto com o calor e a convico que pem nas mentirosas phantasias
todos os intrujes que fazem officio de o ser, o bohemio tornou a
levantar-se de repello, passeando agitadamente pela sala.

--E  que, se elle cumpre a ameaa, eu sou um homem perdido! Sou um
homem perdido, porque vou ter com elle, metto-lhe uma bala na cabea e
depois acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!

--Eugenio! meu Eugenio!--exclamou afflicta a loura Leonor--no penses em
fazer tolices...

--Como queres tu, meu anjo, que eu continue a viver depois de ter
soffrido este horroroso ultraje? Homem honrado, antes morto do que
injuriado! E eu no posso... no posso com esta ideia de me vr
offendido por um homem que se dizia meu amigo! Ah! eu s queria ter os
trezentos mil reis para lhe atirar com elles  cara e dizer-lhe: Ahi
tens, miseravel! Eugenio de Mello  mais nobre na sua pobreza, do que
tu, infame, em todo o teu fastigio de homem rico!

--E assim lhe dirs, meu amigo!--exclamou fremente de indignao a
apaixonada loura.--No ser por trezentos mil reis que esse canalha,
quem quer que elle , ha-de desacreditar o meu Eugenio... Os trezentos
mil reis tel-os-has amanh.

--Oh! mas eu no posso acceitar...--recusou o bohemio, em cujos olhos
fulgiu um raio de alegria.--Tens feito tantos sacrificios por mim...
Devo-te j tantas provas de ternura e carinhosa dedicao, que no devo
consentir em que te sacrifiques mais...

--Cala-te, no sejas creana!--interrompeu Leonor, pondo-lhe a pequenina
mo na bocca para o impedir de continuar.--O meu maior prazer, a minha
maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para te ver contente e
feliz!

--Como s boa e como eu te adoro!--exclamou Eugenio, cingindo-a
ardentemente nos braos com amoroso impulso.

No devemos nem  justo deixar mais tempo o leitor sem a explicao que
esta scena extraordinaria requer.

Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia d'estes abjectos e
sujos amores.

Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, que um velho
commendador--o sr. commendador Garcia--encontrra um bello dia  sahida
da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos afilados e bonitos,
a preo de tres tostes por dia.

O commendador Garcia, picado tambem pela belleza provocante da rapariga,
comeou a sentir-se apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu
envolvel-a em sdas e velludos, recamal-a de perolas e brilhantes, se
ella lhe cedesse a elle, commendador, os graciosos encantos da sua
mocidade e da sua gentileza em vez de os desperdiar no provavel
matrimonio com algum pobre operario faminto e honrado.

Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre experimentada em
varios lances d'esta natureza e ao cabo de poucos dias, sentindo-se
abalada nos seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro do
generoso commendador.

Deslumbrou ento o Porto e a sociedade elegante do Palacio de Crystal
com o rico esplendor dos seus vestidos caros e com a phenomenal belleza
da sua figura gentilissima.

O commendador deu-lhe mestra de francez e professora de piano, que
passaram um tenue verniz de educao por sobre aquella rudeza nativa do
bero humilde da linda Leonor; e ento era vl-a, esquecida da sua pobre
origem, affectar modos de duqueza, desdenhosa e altiva, quando passava
nas ruas, fazendo gala do seu impudr.

Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito tempo Leonor o appetecido
pomo, tanto mais cubiado quanto era difficil colhel-o, tal era a altura
em que o commendador bizarro e dadivoso a collocra.

Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado por uma sorte rara 
roleta, que em tres dias successivos o favorecera com quatro contos de
reis em uma das nossas praias mais concorridas.

O bohemio, de origem pobre e plebeia, porm, naturalmente fino e
intelligente, educara-se na convivencia dos rapazes estroinas da capital
e d'elles copira as maneiras elegantes, a linguagem culta e at--oh
supremo instincto de imitao!--o apparente despreso pelo dinheiro que
os outros desperdiavam s mos cheias, porque eram ricos e que elle
raras vezes possuia, porque era pobre.

Com taes predicados e n'uma sociedade para a qual as apparencias so
tudo, e que abre sem escrupulos os braos e as portas ao primeiro
adventicio que lhe mostra uma mo-cheia de libras, sem dizer de que
maneira as adquiriu, Eugenio foi, como no podia deixar de ser, logo
recebido como uma das primaciaes figuras da elegancia portuense.

Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, habituado, alm
d'isso, a explorar o vicio dourado da capital, comprehendeu desde logo
que estava alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia
facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a conquista. Ora como
as mulheres do mau sempre escolhem o peor, Leonor, que rejeitara
desdenhosa as homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os
rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que no podia seno
diminuir-lh'os.

Comeou ento entre os dois um doce idylio, em que para Leonor havia
apenas o travo do commendador Garcia a empecer-lhe as noites at s dez
horas e a impedir-lhe a expanso franca do seu corao amoroso.

Eugenio,  claro, apresentou-se como um rico herdeiro do Alemtejo,
futuro senhor de porcos e cortia que chegariam para pagar a divida
externa, mas, por desgraa, victima imbelle dos rigores de um pae
protervo e sem corao, que o condemnara  pobreza por elle no querer
sacrificar o seu corao de rapaz brioso  cortia e aos porcos de uma
prima com quem pretendiam casal-o.

Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o corao rebelde de um moo
que to impavidamente resistia ao despotismo paterno e  cortia de uma
prima detestada, puzera  disposio do amante numero dois, o seu
corao virgem de affectos e todo o dinheiro que lhe sobrava das
despezas a que occorria o amante numero um.

Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a hora da entrada:  noite,
depois das dez. De dia, a toda a hora.

Eugenio, porm, hospedara-se no _Hotel Francfort_ como convinha e era
prudente, para que estas relaes, que deviam conservar-se clandestinas,
no chegassem a escandalisar o commendador Garcia.

Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia seguinte lhe facultaria
os tresentos mil reis para atirar com elles  face estanhada do amigo
indigno, o bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem restrices e sem
sombra de melancholia  mais carinhosa e enthusiaetica adorao que um
corao de mulher louca e linda jamais recebeu do seu amante.

--Sabes?--disse-lhe elle.--De ti recebo estas provas de affecto e
orgulho-me dos sacrificios que fazes por minha causa, porque te amo,
porque o meu corao todo te pertence e, assim, vejo que entre ns no
ha meu nem teu, tudo  commum, tudo  igualmente compartilhado pelos
dois. E de minha prima... v tu l!--ainda que viesse de rastos
lanar-se a meus ps, pedir-me que recebesse d'ella a salvao da minha
vida, a salvao da minha alma, eu repellil-a-hia, morreria, iria para o
inferno, mas no acceitava d'ella um real que fosse!

-- porque no a amas...

-- porque te amo, Leonor!  porque s tu n'este mundo tiveste poder
para quebrantar o meu orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um
dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as mos!

--Como s bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! S queria ser bem rica
para te fazer o mais rico dos homens! Nenhum havia de fazer melhor
figura que tu, nenhum havia de poder collocar-se ao p de ti!

--Quando eu fr senhor d'aquillo que  meu, ento, Leonor, o que tu hoje
desejas fazer-me,  justamente o que eu te hei de fazer a ti! Hei de
pegar n'essas joias todas e atiral-as pela janella fra! Hei de
trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, que  outra terra, e
ento vers o que  vida, o que  gosar! Havemos de ir a Paris, 
Italia, a Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois noivos que
se amam, que se adoram e que fazem a inveja do mundo inteiro! Queres?

--Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver contigo ssinha, sem
estorvos, sem impecilhos, ainda que fosse num canto bem retirado do
mundo, numa casinha bem pobre, onde s eu e tu coubessemos!

--Amor e uma cabana!--disse rindo maliciosamente o velhaco, beijando-a
com enthusiasmo.--Graas a Deus, havemos de ter melhor do que isso...

E suspirando com tristeza:

--Para isso bastava s que morresse meu pae!

--Deixa-o l, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua loura.

--Deixo, deixo... Eu no lhe desejo a morte... Mas acredita que, s
vezes, Leonor, at chego a pensar que no tenho pae!

O velhaco tinha razo.

Ele no s j o no tinha, como nunca fizera caso d'elle, desde que pde
abandonar o pequeno cubiculo em que o desgraado vendia, como adelo,
botas e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, alli pelas
immediaes da travessa dos Fieis de Deus.

Me, uma esfregadeira que a miseria tinha levado na sua onda negra para
o hospital de S. Jos, onde falleceu, nunca elle a conhecera.

Portanto, esta exclamao: s vezes at chego a pensar que no tenho
pae, ficaria verdadeira, horrivelmente verdadeira, se dissesse que
desde criana se habitura a pensar que o no tivera.

No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador Garcia os tresentos
mil reis que o bohemio devia levar, no para o phantasiado amigo, mas
para o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde o miseravel no
s afundava o dinheiro que podia obter  custa de tranquibernias e
abjeces, mas ainda a sua propria saude e robustez de homem vlido.

O commendador, capitalista opulento, mandou o dinheiro pedido, no sem
notar de si para comsigo a frequencia com que taes exigencias se
repetiam.

No emtanto, como a sua paixo por Leonor era violenta como um incendio
n'uma casa velha, ainda d'esta vez no se atreveu a fazer a menor
objeco.

Foi com extremo contentamento que Leonor passou para as mos do seu
_anjo mau_ o dinheiro extorquido  imbecilidade senil do commendador.

--Aqui tens--disse ella--paga a esse canalha, a esse falso amigo, e
lembra-te que no mundo ninguem te ama tanto como a tua amiguinha!

--Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, que ninguem no mundo adora
to ardentemente os teus encantos como eu!--replicou o bohemio, radiante
de contentamento, guardando na algibeira a generosa dadiva da amante.

Almoou e sahiu, pretextando que ia enviar aquella quantia ao seu
destino.

Eram onze horas da manh quando entrou no escriptorio do Belchior.

--Olhe l--disse elle--esta noite posso dispr de mim, ou teremos nova
estopada?

--No sei... Deixe vr o que diz o Custodio. Elle l ficou encarregado
de tecer os pausinhos...

--O diabo da sirigaita  dura da bocca... Mas no tem duvida que, se me
entra para a _loja_, eu saberei applicar-lhe a espora e obrigal-a a
tomar andadura regular.

--Isso, depois,  l comsigo e com ella--respondeu rindo o
procurador.--Mas eu sempre lhe darei de conselho que a leve por bem,
emquanto o Custodio no esticar o pernil...

--Isso  dos livros! Mas sabe voc que j me vae enfadando tanta
difficuldade?

--Meu amigo, no se agarram trutas a bragas enxutas... N'estas coisas, 
preciso muita paciencia, porque de outro modo no se faz nada.

--Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos convidar alguns amigos para
uma ceia?

--Pde... Se tem dinheiro, pde. Quem  que o ha de impedir?

--Quem me impediu hontem. Voc  sempre o meu _desmancha prazeres_,
amigo Belchior!

--Para seu bem.

--E para seu...

--Claro! Para o bem de ns ambos. Mas muito mais para voc do que para
mim.

O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu e appareceu o Custodio
de Jesus.

--E ento?--interrogaram os dois.

--Ento, sabem o que ella me disse?

--O que foi?

--Adivinhem!

--No somos bruxos!--replicou o procurador--Falle para ahi, com
seiscentos diabos! Sim ou no?

--Pois bem--no!

--Hein?!--fizeram os dois espantados.

-- verdade! Disse-me agora muito terminantemente que no.

--E voc no voltou  historia do tiro na cabea?--observou o
procurador.

--Espere ahi, que o mais bonito est por dizer. A pequena no s me
declarou abertamente que no queria casar com o sr. Eugenio, mas fez
mais. Pediu-me que visse eu quanto me era preciso para solver as minhas
dividas e que lhe apresentasse uma nota dos credores, porque ella se
encarregaria de resolver a questo de modo satisfatorio e que nos
puzesse a coberto da miseria que eu tanto temia...

--E voc o que respondeu a isso?--perguntou o Belchior.

--O que havia de eu responder? Fiquei entalado com esta sahida... Sim,
porque voc bem v que, depois d'uma resposta d'estas, eu j no podia
dizer que ia dar um tiro na cabea...

--Mas o que pensa ento fazer?--interrogou Eugenio.

--Esperar, a ver o que sae d'aqui...

--D'ahi o que sae  ella perceber que voc no est arruinado como diz,
e no s recusar-se a casar aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas
ainda pr-se a _chuchar_ comsigo!--exclamou o Belchior
furioso.--Segue-se que voc representou mal a scena e no  por esse
modo que ns conseguiremos nada.

--Espere, homem, espere!--interrompeu o Custodio.--Eu tenho uma ideia.

--Que ideia ?

--Ella hontem, depois que vocs sahiram, foi ainda  janella fallar ao
tal rapaselho que a namora...

--Voc viu?

--Vi, porque eu, como j estou prevenido, ando desconfiado, e quando eu
desconfio ninguem me faz o ninho atrs da orelha... No ouvi o que
disseram, mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se passava, e
elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me das difficuldades
financeiras em que me encontro, para evitar que o casamento se faa...

--Isso  l possivel! O rapaz  pobre, e se prometteu isso, com certesa
temos intrujice no caso, porque elle no pde arranjar cem mil reis,
quanto mais uns poucos de contos.

--Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa:  apresentar-lhe a nota dos meus
crdores e deixar que elle confesse que no pde fazer nada. Ento eu
torno a ameaar que me mato e ella no ter remedio seno ceder.

--Mas isso ento quer-se para breve!--objectou o procurador--Aqui o sr.
Eugenio de Mello tambem no pde estar na contingencia da pequena querer
ou no querer... Porque  pessoa respeitavel e tomaram-n'o muitas
meninas em to boas ou melhores condies de fortuna do que sua filha...

--Eu  porque devras a amo!--explicou o bohemio--Sinto-me loucamente
apaixonado pela senhora D. Beatriz e estou disposto a todos os
sacrificios para conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa.
Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse rapaz conseguir offertar
generosamente a quantia que o meu amigo disser carecer para reconstituir
a sua fortuna... o que far o sr. Custodio de Jesus?

--O que farei? Essa  boa! Fao o que deve fazer todo o homem de juizo:
pego no dinheiro com as mos ambas, e depois no dou o consentimento
para a pequena casar.

--Ande-me assim, seu Custodio!--bradou o procurador.--Essa  de
mestre... Mas n'esse bolo havemos de ir feitos...

--Est dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho que no havemos de ter
questes por causa da partilha...

Os tres desataram a rir.

--Vamos a ver o que sae d'aqui!--disse por fim o Belchior.--Tinha graa
se o rapazote nos sahia  ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque
d'uma varinha magica, tal qual como nas peas de theatro!

--Amigo Belchior--expz o Custodio--parece-me que andei bem em no
apertar o fiado... O melhor que temos a fazer agora  preparar uma
relao dos crdores e apresental-a  rapariga...

--Qual relao de crdores!--protestou o procurador.--Voc no tem seno
um credor... Esse credor sou eu. Voc deve-me cincoenta contos, e elle
que venha entender-se comigo...

--Justamente!--apoiou Eugenio.--E assim ficaremos sabendo os recursos de
que o tal menino dispe...

--Est dito!--decidiu o Custodio.-- claro que cincoenta contos no se
arranjam como se fossem cincoenta reis; e logo que o tal badamco oua
fallar em tanto dinheiro, pe-se a andar e no torna a apparecer. Ento
ficaremos com o campo livre para continuar a representar a scena do tiro
na cabea, se a pequena teimar em no querer este casamento.

--Se se dr o caso do rapaz, assustado com tamanha quantia, passar o p,
a propria pequena, por despeito e por vingana, ser a primeira a dizer
que pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe prope--opinou o
procurador.

--Fiquemos ento n'isto. Voc  meu credor, com letras acceites por mim,
e impe que ou este casamento se faa, ou eu pague no dia do vencimento,
que est para breve--concluiu o Custodio, voltando-se para o Belchior.

--Exactamente--respondeu este.--E mandemos para c, que eu me
encarregarei de resolver a questo.

O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe um signal para que
sahisse.

O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava
irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos
dois, afim do que envidassem os seus esforos em defesa da sua causa.

Logo que o Belchior se viu a ss com o Custodio, abriu a gavta da
escrivaninha e, tirando de dentro uma certido do escrivo de fazenda de
Borba; apresentou-lh'a, dizendo:

--Veja voc, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o
nariz!

O Custodio pegou na certido das contribuies pagas por Eugenio de
Mello  Fazenda Nacional.

--Com os diabos!--disse elle--para pagar tudo isto, perto de dois contos
de reis,  preciso que tenha uma fortuna enorme!

--Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda voc est com pannos
quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este?

--Pois, amigo Belchior--affirmou o Custodio com resoluo--ainda que
saiba de a levar pelos cabellos  egreja, esta fortuna  que eu no
deixo perder.

--Mas  preciso que isto no demore muito tempo a decidir.

--Isto por esta semana rebenta! Deixe-me c manobrar  vontade e voc
ver como a coisa se arranja...

Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar
a conta do seu debito para apresentar  filha.




X

Para os grandes males...


Custodio de Jesus no se enganara quando dissera aos seus dois cumplices
em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o
pedido da relao das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de
as solver.

Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre
Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de
esperana que ouvira da bcca do seu amigo Jorge, fra n'essa mesma
noite fallar com Beatriz.

A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as
instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio,
pretendera impr-se-lhe, e afinal a dolorida confisso em que cahira das
suas desgraas financeiras e do funesto designio em que estava de
recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso
salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha.

Mais contou a apaixonada creana o expediente de que lanara mo para
retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaava, pedindo uma
entrevista com Eugenio de Mello, afim de expr a este, com lealdade e
franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laos de
inquebrantavel affeio que j tinha contrahido com Paulo de Noronha.

--E o que respondeu esse homem?--interrogou Paulo.

--Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais
apaixonado e declarou no desistir da sua pretenso, com o fundamento de
que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu corao lhe
impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza.

--E tu?...

--Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no
meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com
que me ameaou.

--E se no encontrares esse meio?

--Succeder o que Deus quizer, mas eu no serei jamais mulher de outro
homem que no sejas tu, meu Paulo!--exclamou Beatriz com firmeza.

O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas
palavras.

--Ouve, Beatriz--disse elle.-- possivel que sejamos victimas de uma
d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos s vezes preparam 
ingenua affeio de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace
de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o
nosso dever  tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos
de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre,
no tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella
pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer
de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho
amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para
remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso
sacrificar o meu e o teu corao, prendendo-te a um homem que no
estimas e que no duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae
uma nota das suas dividas, e eu verei se me  possivel libertal-o da
responsabilidade d'ellas.

--Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?--interrogou Beatriz commovida,
quasi adivinhando a nobre inteno de mancebo.

--Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa
quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e
conquistado a posio a que tenho direito na sociedade. Tu s filha
unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae.  o teu dote que
asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu,
um dia, quando te encontrares senhora da herana paterna, restituirs
aos meus crdores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, no
prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae.

--Ah! meu Paulo, como tu s um grande e nobre corao! Como tu s digno
do santo amor que te dedico!--exclamou a donzella.

Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de
uma nota dos credres, declarando ao mesmo tempo que recusava
terminantemente o enlace com Eugenio de Mello.

O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de
pae tyranno, como  que uma menina de dezenove annos ousava pensar em
remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na
usura, no podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos
seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha,
em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos
os seus actos.

Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhra em manha o
que perdera em dinheiro e no em honra--porque essa nunca elle a
tivera--achou prudente e de bom aviso levar a fara at ao fim,
apparentando uma inteira e absoluta submisso  vontade da filha.

O secreto plano que formra, j ns lh'o ouvimos no escriptorio do
procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o
dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o
casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a
grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mo de Beatriz,
desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a
acceitar a mo de Eugenio sem repugnancia.

Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta
corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a
favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do
crdor e com vencimento em curto praso.

Eram estas letras que o Custodio declarava no poder pagar, se o
casamento com Eugenio no se realisasse, devendo seguir-se o protesto e
a execuo em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e
deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma,
exigindo immediato embolso.

Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e,
apresentando-lhe o papel, disse:

--Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraa! Por
elle vers que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio
unico da nossa salvao!

--No fallemos n'isso, meu pae!--retorquiu mansamente Beatriz--Vamos a
vr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos,
conseguimos fazer face  adversidade que nos persegue.

--Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes--observou o snr.
Custodio--Supponho que no pde haver nada mais digno do que o casamento
com esse rapaz, que  rico, que  de ba familia e que te ama
loucamente...

--Mas no o amo eu, e  n'isso que estaria a indignidade, se eu
consentisse em me vender a elle por dinheiro...

--Vender! Tu no ias como escrava, ias como mulher recebida  face da
egreja e ficarias senhora de metade do que  d'elle.

--Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma
venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu corao o
repudia...

--O corao!--fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de
hombros--O corao, minha filha, est sempre bem, desde que o estomago
no est mal...

--Essas theorias no se comprehendem na minha idade, meu pae...

--Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... S no as
comprehendes tu, porque at agora, graas a Deus, no tens sentido falta
de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a
miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita
festa, ento comprehenders que teu pae tem raso no que diz.

O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria
gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu corao amoroso ante a
horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o
espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como
unico recurso que se lhe offerecia.

Beatriz no respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe
relancear a vista.

--Eu verei isto--disse ella--e pde ser que Deus me inspire alguma ideia
salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr.
Eugenio de Mello.

--Deus te oua, minha filha, mas duvido bem...

E depois de um curto instante de silencio:

--Emfim, pensa e repara que no  brincadeira... So cincoenta contos.
Ha muito que isto teria dado um estoiro, se no fosse o Belchior,
coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora  que est l
embirrado com a historia do casamento e j me disse que, se tu no
acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas
malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil
arrazaram-me!--suspirou por fim.

--E foi s o pae que teve prejuizos com ellas?--perguntou Beatriz.

--No. Ficaram muitas familias redusidas  miseria... Mas cada qual
sente o seu mal...

--E Deus o de todos.

--Pois  verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o
remedio  creatura e ella o no acceita, tambem se offende e no sente
nada...

--Ser o que Deus quizer.

O Custodio notou que a filha comeava a impacientar-se e fazia visiveis
esforos para respeitosamente disfarar o seu enfado.

Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da
vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo:

--S te peo, minha filha, que no me sujeites  vergonha de me prem
fra d'esta casa por justia. Eu, j agora, estou velho, pouco se me d
da vida... O que quero  ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer
um tal desgosto...

--No se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor...

N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cdo aos seus aposentos,
conservou-se  espreita, para vr se a filha fallava da janella com
Paulo.

Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu
conta de que Beatriz descia ao rez-do-cho para ir fallar atravs da
janella gradeada com o mancebo.

--Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de
ti!...--resmoneou escarninho o velho, esfregando as mos de
contente.--Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais
rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que no tem cincoenta vintens.

E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama.

D'ahi a pouco, ressonava.


Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe:

--Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela m escolha que fizeste do
homem que ha-de ser teu sogro.

--Ento?--interrogou o mancebo.

--Segundo as informaes que acabo de obter, o pae da tua Beatriz  um
usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de
deixar sahir com pelle o desgraado que lhe ciha nas garras
implacaveis.

Paulo encarou o amigo:

--Tens bem a certeza d'isso?--perguntou.

--Se tenho a certeza! No me resta a menor duvida. Esse homem empresta a
vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. No larga
das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e  assim
que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem
contos de reis.

--Como  ento que elle diz dever cincoenta contos ao procurador
Belchior e que est perdido porque no lh'os pde pagar?

--Esse procurador Belchior--disse Jorge-- tambem um refinado patife.
No trata seno de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa
srie de revoltantes ladroeiras. No seria para admirar que o Custodio
de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para
se deixar roubar por alguem. Mas no. O Belchior e o Custodio
entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre
humanidade, e no se mordem um ao outro. V-se, pois, que os dois esto
combinados para roubarem um terceiro, que  esse tal Eugenio de Mello, a
quem pretendem casar com a tua namorada.

--E elle quem ?

--Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos
sobre esse figuro, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se
sabe  que  um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas
suas liberalidades e extravagancias. Suppem-n'o rico e  de crr que o
seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha.

--De maneira que--observou Paulo--essa divida dos cincoenta contos...

--No  mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o
casamento se faa e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe
offerece.

--Eu j tinha suspeitado isso mesmo!--redarguiu Paulo indignado--Mas o
que precisamos agora  provas d'essa infamia.

--Descana que ho-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a
certeza de que o pae da tua amada no se matar por falta do dinheiro
d'elle--que esse est bem garantido. O que pde  matar-se por no poder
apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que pde
recusar a mo do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae no
pensa em deixar este mundo, que  muito do seu gosto emquanto n'elle
houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca...

--Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae no transige com a deciso da
filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro...

--E ns c estamos!

--Pois sim, estamos... Mas no impediremos que elle empregue a
violencia, visto que os meios suasorios lhe no deram resultado...

Jorge poz-se a rir.

--Desde que a _Mo-Negra_ protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o
procurador no teem seno que tremer pelas consequencias do seu
procedimento, se no fr correcto.

Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informaes
obtidas por Jorge cerca das verdadeiras condies de fortuna em que se
encontrava o sr. Custodio de Jesus.

--Teu pae no deve coisa algum ao procurador Belchior--disse-lhe o
mancebo--Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, no passa de
um pretexto para te mover a acceitar a mo d'esse rapaz...

--Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?--perguntou Beatriz admirada.

--Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de
reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. No tenhas, pois,
receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria.

--Mas se isso  assim, como  ento que o procurador Belchior exerce
sobre meu pae um tal ascendente?

--So alliados. Quem apresentou em vossa casa Eugenio de Mello?

--Foi o Belchior.

--Pois bem; logo, o Belchior  que planeou este casamento. Conhecia
Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu
pae e os dois, d'accrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a
pedir a tua mo. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae
emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes
casos  quasi sempre inutil, quando no  contraproducente... Portanto,
qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado
da compaixo e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse
material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar
invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaas
de pr termo  existencia. Mas com o que elle no contava era comigo.
Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes
por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe
apresentarei quem realise a transaco. Prope-lhe isto, minha amiga, e
ouve o que elle te diz.

-- extraordinario!--disse Beatriz--Suppunha meu pae um homem de genio
rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de
descer a representar comigo uma comedia to aviltante da dignidade
paternal!

--Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, smente por ti, e
no por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei
de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as
circumstancias me obrigaram a fixar a minha atteno sobre tal assumpto,
e Deus sabe com que boas e generosas intenes. Mas, visto que tanto te
admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio  o de
teu pae?...

--No sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos
commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns
carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta
casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de
negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha
mo e eu recusei...

--Ento sabers, minha ba amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro
de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente
representam o dbro do valr emprestado. V tu se, em taes condies,
teu pae, que tem dinheiro para emprestar, pde dever cincoenta contos ao
procurador Belchior e encontrar-se na situao desesperada que diz.

--O que entendes que devo ento fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu
no queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe
abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira...

Paulo reflectiu por alguns instantes.

--Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, seno que ests pensando no
que melhor convir fazer em face da grave situao em que ambos vos
achaes...

--No emtanto, elle no deixar de insistir por uma deciso rapida...

--Muito bem; e tu dizes-lhe que no tens duvida em acceitar o marido que
se te prope, desde que esse casamento seja a unica soluo que se te
apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porm, no te dispensas de
estudar o assumpto com o cuidado e a reflexo que elle requer.

--Mas esta situao  insustentavel por muito tempo, meu Paulo...

--No te d cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta
definitiva, tenho esperana que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae
a mudar de resoluo.

--Oxal que assim seja!

O sr. Custodio de Jesus, que no perdia o menor movimento da filha,
ancioso como estava de saber que soluo daria ella ao intrincado
problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz
viera mais uma vez  janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no
dia seguinte, depois de almoo, pondo os olhos enternecidos na pobre
menina, perguntou-lhe com fingido carinho:

--Ento, minha querida filha, j pensaste na nossa terrivel situao?

--J, meu pae--respondeu Beatriz baixando os olhos.

--E o que resolves?

--Por emquanto, nada.

--Nada!--exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto.--Pois 
possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta
questo de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao
que pde succeder? Para que me pediste ento essa conta que te
apresentei?

Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente:

--Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer.

--O que! Pois no sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta
contos de reis e o crdor os exige, o que cumpre  pagar.

--Pagar ou casar...--replicou Beatriz com amarga ironia.

--Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impr
a minha auctoridade paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na
escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar
a vida...

--No lhe ser preciso sacrifical-a, meu pae.

--Isso tudo so palavras, Beatriz... Mas as dividas no se pagam com
palavras... Prometteste-me resolver a questo, e afinal j l vo uns
poucos de dias e to adiantados estamos hoje como hontem.

--Alguma coisa temos j adiantado...

--O que?

--A resoluo em que estou de salvar meu pae...

--Srio, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te prope, minha
filha?

--Se outro recurso no houver, acceital-o-hei.

--Pois olha que no tens outro recurso, cr!

--Veremos.

--Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaa por outra forma?

--Talvez.

--Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das
pessoas nossas amigas, desde j te digo que nada conseguirs... Os
amigos fogem da desgraa como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes
fallamos em dinheiro,--emigram!

Beatriz meneou a cabea e respondeu com voz submissa, porm firme e
serena:

--Quando se  leal e sincero para com todos; quando se no abrigam no
peito sentimentos de egoismo e de torpe m f, a Providencia, que vela
pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos
lances mais desesperados da nossa vida...

--Pois sim!--tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarado motejo--
bom a gente confiar na Providencia, mas  muito melhor conhecer o mundo
e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A
Providencia j no faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para
esposa...

--Pois se ella se no manifestar por outra forma, acceitarei o casamento
que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe
pensar reflectidamente sobre o caso...

--Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor,
comtanto que no parea, pela demora em dar uma resposta decisiva, que
estamos a caoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que
, como sabes, nosso crdor...

--Ninguem pde tomar como caoada o facto de eu querer reflectir
maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino...

--Sim, isso  justo...--tornou o Custodio com brandura--Mas quantas no
teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mo, lhe estenderiam
logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!

--No vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale
que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento
me no sobrevenha,  que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de
me decidir...

--Faze l como entenderes. Para mim, como j pouco posso durar, a
questo est resolvida:  mais mez, menos mez, mais dia, menos dia...
Quando se chega  minha idade, a vida j pouco prende... Preferiria
morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e no ter eu
que pr termo  vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver
determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade...
Acredita que, se me afflijo, no  tanto por mim como por ti, a quem eu
no queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada!

--Sim, meu pae...--respondeu Beatriz levemente ironica--Eu conheo
quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas
no se afflija por mim como eu no me afflijo por meu pae, pois que Deus
ha de valer-nos...

--Tens essa f, Beatriz?

--Tenho a certeza, meu pae. Pois no lhe disse j que, se outro remedio
no houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello?

--Deus te abene, minha filha, pela grande consolao que me ds! E
has-de ser feliz, cr, porque o Eugenio  bom rapaz e est perdidamente
apaixonado por ti.

-- pena que eu no possa apaixonar-me por elle...

--Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de
vr que no encontras outra soluo melhor do que esta para nos tirar de
difficuldades: casar e deixar de tolices...

Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o
seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado
casamento que sonhava para a filha.

--Naturalmente--ia dizendo comsigo--l o tal franganito mostrou-se
desanimado e ella vae perdendo a esperana que tinha n'elle...  questo
de mais dois dias ou tres, e ella ahi est a dizer que sim, que se
resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se
quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes
dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria
que as espera, no se via tanto casamento desgraado como se v!

E esfregava as mos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha.

Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle!




XI

Joo Lazaro


Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao _Suisso_ tomar caf, depois
de jantar.

Alli passava uma hora em palestra amena com os amigos, se os encontrava,
ou a lr os jornaes estrangeiros que o criado lhe punha diante--para
matar tempo.

N'estas rapidas leituras encontrava coisas que pareciam interessantes,
porque s vezes puxava do seu livro de lembranas e tomava notas a lapis
nas folhas em branco.

Foi n'uma occasio d'estas que sentiu bateram-lhe amigavelmente no
hombro e ao mesmo tempo uma voz dizer-lhe:

--Ests a copiar alguma receita para te lembrares dos amigos?

Jorge levantou a cabea e encarou o recem-chegado.

--s tu, Joo!--exclamou levantando-se com impeto e estendendo os braos
para elle.--Como estava longe de te ver agora aqui!

Os dois abraaram-se effusivamente e sentaram-se em seguida.

--Ora o meu Joo Lazaro!--tornou Jorge com alegria--Com que, voltaste ao
Porto!

-- verdade!--disse o outro recostando-se na cadeira com importancia e
tomando uma attitude de principe que regressa do exilio--O bom filho 
casa torna...

--E o bonito  que encontras a casa como a deixaste...

--Infelizmente. Isso, porm, no me admira nem espanta. No era de
esperar outra cousa desde que eu faltava c para a reformar.

--Quando chegaste?

--Hoje de manh.

--Que tempo te demoras?

--No sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre assumpto importante,
e no posso calcular o tempo que isso me levar...

--No tencionas fixar residencia no Porto?

--No. Isto  pequeno demais para mim...

--Bravo, seu Joo! Voc est crescido!--disse Jorge galhofeiramente.

--Pois tu comprehendes um vulto politico de certa importancia a viver no
Porto? J Lisboa  uma deprimente miseria, meu caro! Mas, emfim, como
no ha outra terra maior, no ha remedio seno resignarmo-nos com
ella...

Lanou em volta de si um olhar superior, de desdem, mordeu a ponta do
charuto caro, com affectao, e exclamou:

--Que mal servido est este caf! No ha aqui um criado que venha
receber as ordens?...

Jorge bateu as palmas, chamando o criado.

--O que tomas?--perguntou ao amigo.

--Vou tomar cerveja.

--Cerveja a este senhor--disse Jorge ao criado que se aproximara.

Este relanceou um olhar curioso para o freguez que dava pelo nome de
Joo Lazaro, e perguntou:

--Ingleza?

--Ingleza, sim!--respondeu o Joo Lazaro.

E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se afastava a cumprir a
ordem:

--Unica coisa em que transijo com esses bebedos inglezes!

--Pagas-lhes assim a affeio que manifestam pelo nosso vinho...

--Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!--disse o Joo Lazaro com olhar
torvo.

--Pela _nossa_! Pois o Brazil tambem tem Africa?--interrogou motejador o
amigo de Paulo--Porque tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, s
brazileiro...

--Mas portuguez pelo corao!--respondeu o outro com emphase.

E accrescentou:

--Ah! se no fosse o corao, cuidas tu que eu teria posto a minha
mocidade, a minha energia, o meu talento, ao servio de um paiz to
pequeno como este?...

--Effectivamente, meu rapaz, tu s grande de mais para uma terra to
pequena como esta... E ella assim o comprehendeu expulsando-te do seu
seio por duas vezes... Porque no vaes tu servir o Brazil, que  a tua
patria, com a grande vantagem de encontrares l j realisado o teu ideal
politico?

--J te disse: sou portuguez pelo corao...

--E ninguem  propheta na sua terra. Ah! velhaco! sabe-te melhor o po
_negro_ das terras brancas, do que a farinha branca das terras negras...

A conversao foi interrompida n'este ponto pela aproximao de Eugenio
de Mello que, tendo avistado Joo Lazaro, dirigiu-se a elle
familiarmente:

-- Joo--preveniu o bohemio--no te compromettas para amanh  noite,
porque temos ceia de rapazes em tua honra...

--Oh, diabo!--replicou o Lazaro, sempre com ares de grande senhor--Para
amanh no ser possivel, porque tenho negocios importantes a resolver e
no sei se de dia ficaro concluidos...

--No sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada resolveu isto e 
uma semsaboria se tu no appareces... Demais a mais, o elemento
feminino, o elemento galante, faz-se representar, e tu no pdes deixar
de ser gentil para com as damas.

--Est bem: irei.

E voltando-so para Jorge:

--No se conhecem?

--No tenho essa honra--disse Jorge.

Joo Lazaro ento apresentou:

--O meu amigo Eugenio do Mello...

E para este:

--O meu amigo Jorge de Gusmo.

Os dois cortejaram-se.

--Estimo conhecer v. ex.^a--disse um.

--Igualmente--disse o outro.

E apertaram-se as mos.

--Como se trata de uma festa intima, de amigos pessoaes do Joo--disse
Eugenio de Mello, dirigindo-se a Jorge--V. ex.^a, que  tambem amigo
d'elle, dar-nos-ha muito prazer, comparecendo.  no Palacio, s 10 da
noite.

--Agradeo, mas -me absolutamente impossivel, o que muito sinto,
associar-me a essa homenagem de estima ao nosso amigo, porque amanh de
tarde devo partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes e
inaddiaveis--respondeu Jorge.

--Creia v. ex.^a--tornou Eugenio amavelmente--que teria immenso prazer
em o vr l...

Jorge agradeceu com uma inclinao de cabea.

O bohemio, que no se sentara  mesa, despediu-se, dizendo ao Lazaro:

--V l! Se no nos virmos antes, s 10, l te esperamos. Fui
encarregado de te dirigir o convite e agora no queiras collocar-me mal
perante a rapaziada.

Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, reconhecera n'elle o
rival de Paulo, perguntou:

--Quem  este rapaz?

O outro sorriu desdenhosamente.

--Um aventureiro!--respondeu.

--A classificao  pouco lisonjeira para ti e menos ainda para elle...

--De accordo. Mas  verdadeira. De resto, sabes que um homem politico
tem por vezes a dolorosa e imprescindivel necessidade de se relacionar
com a gente da mais baixa especie.

--Mas este rapaz ...?

-- um typo como ha muitos. Apresenta-se bem encadernado, insinua-se na
confiana da gente fina e  util para muita coisa que ns outros no
podemos fazer.

--E vive d'isso?

--Vive de tudo. A sua existencia  uma srie de expedientes engenhosos.

--Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a melhor roda de rapazes e
passa entre elles por ser possuidor de grande fortuna...

--Essa  a sua grande habilidade. Explora o jogo e o amor com tanta arte
que, em vez de explorador, parece elle o explorado. Agora, por exemplo,
gasta sommas enormes que lhe do uma apparencia de rapaz rico,  custa
de uma loura, que  a _sanguesuga_ deliciosa do commendador Garcia...
Conheces?

--Conheo o commendador Garcia perfeitamente.

--E a loura?

--Poderei tel-a visto, mas no estou certo.

--No sabes nada!--volveu o Joo Lazaro desdenhoso.

--Mas como  que tu, chegando hontem ao Porto, j pudeste saber tudo
isso?

--Disse-m'o elle, porque o conheo de Lisboa, e comigo no tem reservas.
Conta-me tudo.

--Ento, devia contar-te tambem que tem o casamento ajustado com uma
rica herdeira...

--Elle!?

--Elle, sim!

--Oh, diabo! No me disse nada a esse respeito. Fallas srio?

--Absolutamente srio. E o mais interessante  que o pae da noiva
suppe-n'o um rapaz riquissimo...

-- boa! E no me disse nada! Que grande patife!

--Pois  verdade.

--Tens bem a certeza?

--Conheo a noiva...

--Ella quem ?

-- filha de um capitalista, chamado Custodio de Jesus...

--No conheo.

--Anda n'isso mettido um procurador chamado Belchior... Esse deves
conhecer...

--De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores referencias, j do
tempo em que vivi no Porto.

--Pois mantem ainda hoje a boa reputao que j gosava no tempo em que
ouviste fallar d'elle. O que ou no sabia era que especie de relaes
podiam ligar o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me
que elle  um cavalheiro d'industria, est explicado o caso. Os dois
combinaram-se para roubar o capitalista, apanhando-lhe a filha...

-- bonita essa pequena?

--Creio que sim.

--Crs?

--Nunca a vi, e por isso no a conheo pessoalmente. Mas tenho d'ella
informaes que a do como uma belleza indiscutivel.

-- pena, porque, se  formosa, merece outro marido que no um
_escroc_... Mas que imbecil progenitor  esse, e demais a mais
capitalista, que entrega assim a filha a um typo como  o Eugenio de
Mello?

--No sei. Naturalmente suppe-n'o rico, como toda a gente.

--Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, avisa o pae da
cilada em que o querem fazer cahir.

--Eu!--replicou Jorge--No tenho nada com isso... Deixemos l o rapaz.
Pde ser que a fortuna o regenere.

--A quem? quelle?  impossivel! Jogador, bebedo, extravagante, s est
bem quando gasta ouro s mos cheias. Em Lisboa explorava o amr de
varias Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue o mesmo
caminho, e com bastante felicidade pelo que vejo, pois que o encontro
levando vida do principe e bellamente relacionado...

--E melhor estar d'aqui por alguns dias, porque o casamento, segundo se
diz, est para breve...

--Os jornaes j deram noticia?

--No. Este negocio trata-se no maior segredo. E  natural, porque elle
no deve desejar que a formosa lourinha o saiba e lhe transtorne os
planos...

-- curioso!--tornou o Joo Lazaro--Como as mulheres so estupidas nos
seus amres! Essa loura a que te referes teve a audacia de me resistir.
Assediei-a durante muitos mezes, nos primeiros tempos da sua ligao com
o commendador Garcia. Eu era incapaz de a explorar pecuniariamente...
Contentava-me em que no me fizesse exigencias de dinheiro, porque para
isso l estava _o outro_. Escrevi-lhe cartas apaixonadas no meu
estylo... tu sabes! todo litterario, que at era mal empregado n'aquella
couoeira de frmas divinas, incapaz de me comprehender... Pois, meu
caro, entrincheirou-se na sua fidelidade ao commendador e no houve de
qu! Por fim, apparece este idiota, sem instruco, sem elegancia, sem
espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!

-- sempre assim, meu amigo. As mulheres teem uma tendencia especial
para escolherem o peor.

--No so s as mulheres. Toda a humanidade  assim. Segues uma estrada
que se bifurca em dois caminhos, um dos quaes te conduz e outro te
afasta do sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a certeza
de que o que escolheste  sempre o peor. Mas o que me irrita  a fortuna
estupida d'esse imbecil. No vale a pena um homem ter talento, ser
distincto, ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis que para
ahi enxameiam, porque as mulheres, meu caro, ho-do ser sempre pela
materia contra o espirito!

O Joo Lazaro atirou fra o charuto com affectado desdem e levou o copo
da cerveja aos labios com a solemnidade de quem estivesse dando exemplos
de suprema elegancia n'um salo aristocratico.

Jorge Gusmo disfarou um sorriso de motejo e disse:

--Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz com as damas...

--No; no tenho sido. Muito pelo contrario, tenho sido alvo do
carinhoso interesse de mulheres finas, elegantes, da primeira roda. Mas
essas, impede-me a minha posio politica de lhes corresponder, porque
se tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam logo de lanar
sobre mim a suspeio, accusando-me de me deixar subornar pela
aristocracia.

--Sacrificas o amor  politica...

--Ao meu ideal sacrifico tudo!... E s assim, cr,  que um homem pde
affirmar-se capaz de salvar um paiz  beira do abysmo...

--Mas,  Joo, tu seriamente pensas em salvar os outros ou em te salvar
a ti? Porque afinal, sejamos francos, tu que diabo tens sacrificado ou o
que  que pdes sacrificar ainda? Tu s pobre, tu nunca possuiste dez
reis, tu no passavas de um anonymo perdido na massa dos anonymos, dos
obscuros, dos humildes. Chegou uma occasio em que julgaste poder
especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, sem
criterio, sem f, sem consciencia, armando  popularidade, muito
disposto a sacrificar os que te escutavam ao teu interesse pessoal...
Erraste no calculo, porque, na hora em que julgavas ter triumphado,
cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de ambio, e tambem
porque te era impossivel retrogradar, visto que no tinhas adquirido
valr que te desse direito a uma cotao rasoavel no campo adverso,
seguiste vante, simulando convico onde s havia m f.

--No  tanto assim, meu caro--protestou o Joo Lazaro frouxamente.

--Que diabo! sabes que te conheo e porisso de nada te vale o fingimento
para comigo... Tu s um especulador politico, como o teu amigo Eugenio
de Mello  um especulador amorso... Vives dos _kalenderes do ideal_
como elle vive das infelizes sonhadoras do amr. As tuas fontes de
receita so to occultas e to inconfessaveis como as d'elle.

--Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!

--Sincero, sincero e leal  que eu sou. No admitto que os amigos,
porque o so, vo julgando que me illudem e que no os conheo
cabalmente.

--Eu no quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado na tua amizade
para no ser sincero comtigo. Mas que demonio queres tu que eu faa
n'estas circumstancias? Eu bem sei que foi um mau passo o que dei
misturando-me com esta canalha... Mas agora que remedio tenho seno
proseguir no caminho mau em que me lancei?

--Tambem no  to mau como dizes. Que poderias tu esperar dentro das
velhas normas? A manga d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com
papel dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais nada,
porque as reparties esto atulhadas de ociosos e mais um importa j um
verdadeiro attentado oramental. Assim, ds-te ares de martyr, de
principe desthronado, diante dos papalvos que vem uma aureola de gloria
a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro emprestado para poderes
sustentar o prestigio da causa...

--Oh! mas esto j desmoralisados... So uns verdadeiros biltres!
Imagina tu que, para vir ao Porto onde preciso de me mostrar, porque
quem no apparece esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais
fanaticos para, espremidos e quotisados, poderem dar-me duzentos mil
reis!

--Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que nem tudo sejam rosas no teu
caminho. Mas tu em certo modo tens tido a culpa.

--Eu?

--De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como um principe, o que no
custa a fazer quando se tem s ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos
tambem s vezes ganham juizo...

--Que queres tu que eu faa? Nas circumstancias em que me encontro, se
deixo de honrar a minha posio, apresentando-me em harmonia com o meu
nome, sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...

--E o que vens tu fazer ao Porto?

--Venho arranjar dinheiro...

--Para quem?

--Para mim.

--E suppes que t'o dem?

--Ainda aqui ha gente de muito ba f...

--Mas da outra vez no deixaste a vinha vindimada?

--Isso j esqueceu. Agora o processo  outro...

--Bem; anda l!

Joo Lazaro levantou-se.

--E tu, sempre o mesmo?

--O mesmo sempre.

--s um homem singular!

--Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, que  realmente
o livro mais curioso e mais difficil de lr.

--Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia e com a tua
fortuna podia ir longe, se quizesse, n'este paiz onde s os audaciosos
vencem.

--No sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. Conheo-os to bem!

Joo Lazaro consultou o relogio.

--Ainda posso tornar a vr-te antes de partir?

--Pdes. Sabes a minha casa. Encontras-me l todos os dias at  uma
hora da tarde.

--Irei dizer-te adeus.

--Pois sim.

Apertaram-se as mos e despediram-se.

Joo Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando um olhar de
despreso pelos frequentadores abancados s mesas.

J na rua, ia murmurando:

--Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se com a filha de um
capitalista!

Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um sorriso mau.  que ao
cerebro accudira-lhe um pensamento terrivel.

--Ba occasiao de lhe empalmar a loura e de me vingar d'elle pelo
cuidado com que occultou de mim o seu projecto de casamento!--rosnou por
entre dentes--Decididamente, eu sou um homem de genio e no devo
consentir que este idiota me passe adiante e se me avantage em amr, em
fortuna e em posio social.

Joo Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raa de preto e branco,
minado de inveja, roido d'ambies, irritava-se e agitava-o um rancor
profundo quando algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, por
esforo proprio, por acaso, ou por capricho da fortuna, melhorava de
posio e subia mais um furo na escala das consideraes sociaes.

A perspectiva de vr Eugenio de Mello casado com a filha de um
capitalista, pompeando grandezas e vivendo a vida feliz que o dinheiro
d, acendera-lhe um inferno de invejas na alma parda como um ceu de
maio, prenhe de troves, e como a propria _parda_ brazileira de quem era
filho e cujas feies retratava na cr bronzeada, nos labios grossos,
nos dentes brancos, no nariz de ventas largas e acachapadas e no
cabello, onde havia ainda uns longes de carapinha.

De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e um tanto gingado, de
preto _capoeira_, tinha o quer que era de elegante e distincto, e
chegaria mesmo a ser attrahente e sympathico, se no fra a pretenso
ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de grande senhor.

Tal era physica e moralmente Joo Lazaro, que o leitor ter occasio de
apreciar melhor em capitulos subsequentes.

Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano de anniquilar o amigo
que o convidava para uma ceia em sua honra, e vamos ns travar relaes
com outros personagens importantes d'esta complicada mas veridica
historia.




XII

Velhos conhecimentos


Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e no longe da
casa de Norberto de Noronha, que os leitores da _Irm Dorothea_ j
conhecem, havia uma outra casa de ba apparencia,--_casa nobre_, como l
se diz,--mas de severo e melancholico aspecto.

Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as
suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria
e de festa.

 que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhes, tendo casado
e perdido marido e filho no curto espao de quinze dias, ao cabo de
cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e
encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solido do seu viver
tornava ainda mais profunda.

Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha
criada que fra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas
quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta
propriedade murada e inaccessivel s vistas exteriores.

Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes
que a no viam, nem mesmo ao domingo  hora da missa, na capella da
casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do cro que communicava
com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista  celebrao do
santo sacrificio.

O irmo d'esta senhora, Gustavo de Magalhes, o sensato academico que na
_Irm Dorothea_ vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como
amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha,
doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fra abrir banca
de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputao
brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel.

Quando soube que a irm enviuvra, quiz leval-a a viver comsigo na
capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do
esposo e do filho mortos na solido de S. Martinho do Campo, a abafal-as
no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.

Gustavo de Magalhes, respeitando a dr da irm, no insistiu, e como
tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam,
reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao bero natal, e
alli se demorava de junho a setembro.

Era ento, quando elle chegava com a mulher e os filhos--e j contava
nada menos de tres--que a vida entrava na casa, e ao silencio e 
tristeza succediam o ruido e a alegria.

Os amigos vinham de Braga e Guimares visital-o, demoravam-se dias,
havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na
casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo
campo.

E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dr e no seu luto,
acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros.

--Aurelia--dizia-lhe o irmo--se vivesses um anno em Lisboa, verias como
isso te fazia bem.

--No, Gustavo, no--replicava a dolorida viuva.--Aqui nasci, aqui vivi
feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na
saudade dos que me fram queridos.

--Mas este ruido, esta alegria de que ns te cercamos contraria-te, no
 verdade?

--No, meu irmo! De modo nenhum. A vossa alegria  a minha alegria, a
unica que pde ser-me suave alem da que sinto na recordao dos entes
que perdi.

No emtanto, D. Aurelia, quando o irmo se retirava para a capital,
sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao
silencio e  solido dos seus habitos, silencio e solido que eram um
linitivo s amarguras do seu espirito.

Ora  justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo  sua aldeia que ns
vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhes em festa.

Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao
saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o.

Vamos encontral-os reunidos no vasto salo,  noite, com as janellas e
sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a
gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas
composies mais em voga.

A noite estava bella, de luar--d'esse luar sereno e calmo das noites
claras do estio.

Em volta do velho palacete, reinava a dce paz silenciosa das aldeias,
apenas quebrada pelo rumr dos mil insectos que, n'um admiravel
concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos,
symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestrao nenhum grande maestro
pde ainda devassar.

Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhes,
attrahidos pela belleza da noite, vieram debruar-se nas sacadas
continuando as conversaes em que estavam entretidos.

-- verdade, sabes, Gustavo?--disse D. Aurelia--vende-se outra vez o
palacete que foi de Norberto de Noronha.

--Vende?--respondeu o advogado--Ento o Pinho, o brazileiro para onde
vae?

--Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro 
Mathilde,  minha criada de quarto.

-- singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande
fortuna e no tencionava tornar para o Brazil.

--O Pinho--esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fra
substituir o Negro, fallecido ha annos--tem soffrido, ao que me consta,
prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle no  um homem
economico... tem dispendido.

--Pois parece que no deveria ser assim--objectou Gustavo--Um homem, com
uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, no tem rases
para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse
no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo!

--Pois  verdade!--tornou o doutor--Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo,
o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em
dez annos.

Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio.

--No pde ser!--insistiu Gustavo--Elle comprou a casa que foi de
Norberto de Noronha, por um preo inferior; gastou alguma coisa em a
reformar, mas no foi muito, porque no lhe alterou a planta e apenas se
limitou a uma simples questo de limpesa... No me consta que tenha dado
bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado
de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe
attribue.

--Pois ahi  que est a desgraa!--retorquiu o medico--Soube ganhal-o e
no o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde
que chegou...

--A todo o mundo!?

-- um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do
Porto; offertou um pallio novo  junta de parochia; mandou fazer um
painel  irmandade das almas; mandou construir  sua custa a torre que
faltava na egreja, pz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que
tem feito  sua custa a festa a Santo Emilio... Tudo isto parece que
no  nada, mas bocado hoje, bocado amanh, no fim vae-se a vr e somma
contos de reis...

--Isso  verdade!--concordaram alguns do grupo.

--Mas cincoenta contos, doutor, olhe que  muito dinheiro!--contestou
ainda Gustavo.

--Mas no se teem limitado s a isso as despezas do Pinho... Tem
protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre c dos sitios,
tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda
a gente e d'onde se tira e no se pe...

--Bem sei! Em todo o caso...

--Em todo o caso--concluiu o doutor--se no fossem os ultimos revezes
soffridos l no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda
aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle
no tem remedio seno ir acudir ao resto, para no ficar litteralmente
sem nada.

--Pobre homem! Tenho pena.

--O Pinho  um bello corao. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impr
pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de c
conheceram-lhe o fraco; comearam a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho
isto, o sr. Pinho aquillo... Se at o metteram em folias de eleies! A
ultima no lhe ficou por menos de dez contos...

--E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!

--A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo
estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava,  ultima hora, precisou
de uma somma importante... O Pinho soube-o e no se lembrou de a
offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser
titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para
elle...

--Que miseria!--disse Gustavo enojado.

--E at foi bom para o Pinho--tornou o doutor.--Porque, se lhe tivessem
dado o titulo, agora a sua situao era muito mais difficil. Imaginem:
um homem sem dinheiro e com um titulo s costas...

--Deve ser horrivel!

--Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem...

--E quanto quer elle agora pela casa?

--No sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle no ficou com todas
as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam
o predio e que pdem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem
feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se
apparecer quem lhe d oito, o homem no diz que no...

N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao porto da
casa de Gustavo.

--Quem nos honra?--disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo
claro e franquear o porto de entrada, depois de fallar ao criado.

--Querem vocs vr que  o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio
at c para se distrahir um pouco?

Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando
Sebastio, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo:

--Senhor doutor, saber v. ex.^a que est l em baixo um senhor que diz
que deseja fallar ao sr. doutor....

--A qual de ns?--disse rindo Gustavo.--Aqui ha uns poucos de
doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da
jurisprudencia, esse estranho recemchegado?

--Elle diz que  ao sr. doutor Gustavo.

--Ah! ento  comigo... No disse o seu nome?

--No quiz _dezer_...  um senhor de barbas...

--Bem! Vamos l ver as barbas d'esse senhor.

E voltando-se para os hospedes:

--Meus amigos, deem-me licena... Isto  por fora gracejo de algum
amigo de ns todos... A esta hora, no  natural que um desconhecido me
procure... Eu volto j.

Gustavo de Magalhes passou  sala onde o aguardava o desconhecido
visitante.

Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos,
estatura regular, barba loura em que se entremeavam j muitos fios
brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma
vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo
escuro apesar da estao calmosa ser mais propria ao uso das cres
claras.

Ao vr entrar Gustavo, caminhou para elle de braos abertos, n'uma
expanso de velha amizade, dizendo:

--J me no conheces, no  assim, Gustavo?

--Julio! Pois s tu?

--Sou eu, meu amigo!

E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos
braos o seu amigo e companheiro de infancia.

--Mas o que  feito de ti?--perguntou Gustavo--Ha quantos annos no
tenho tido noticias tuas!

--Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz...

--Singularissima ausencia!

--Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoes
do imprevisto, porque precisava de esquecer...

--E esqueceste, afinal? Ainda bem!

--No, no esqueci nem esquecerei jamais... E a prova  que, ainda
agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e
d'onde partiu para no mais voltar, dar  minha alma o supremo lenitivo
de contemplar os logares que a viram creana, pura, innocente, feliz, e
onde tudo me hade ainda fallar d'ella!

Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessra-lhe o cerebro a
suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam
desgraadamente transtornadas.

Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo:

--Julgas-me doido, no  verdade?

--No, no julgo...--replicou o irmo de Aurelia de
Magalhes--Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens
e o tempo no pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixo.

--Nada a desvaneceu nem desvanecer, meu amigo. Ama-se uma vez na vida,
uma unica; e aquelle que pde esquecer a mulher que uma vez disse amar,
 porque sinceramente no a amou.

--Mas no tiveste mais noticias de Helena de Noronha?

--Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para
Pariz, transferida para uma casa de _irms Dorotheias_ e pedindo-me que
a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas.
Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra
que me tirasse da infernal situao em que me encontrava e me dsse uma
esperana, ainda que longinqua, de a tornar a vr...

--E como pudeste esperar tanto tempo?

--Esperaria at ao fim do mundo se, pelas indagaes a que procedi,
pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os
jesuitas, apparentei uma crena profunda, fiz-me beato, frequentei as
egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os
collegios jesuiticos e no a encontrei. Ento tive a suspeita de que
talvez houvessem descoberto a inteno em que aquella infeliz estava de
se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei  Hespanha,
percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam
permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da
investigao, segui para a Belgica, passei  Italia, familiarisei-me com
toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui
 Africa Oriental, percorri as misses onde me seria facil encontral-a,
e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela
familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado,
velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal,
convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela _irm
Dorotheia_, j no existe!

--Meu pobre amigo!--disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda
compaixo--que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua
existencia!

--Bem pensado, no foi--volveu Julio--Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas
tambem lhe devo alegrias intensas, esperanas dulcissimas que outra
mulher jmais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me
sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que
doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que
se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o.

--Comprar a casa de Norberto de Noronha!

--Sim.

--Com que fim? O que pretendes fazer?

--Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que no ser longa...

--Mas vens s, no tens familia?

--Minha me morreu ha mais de dez annos. Minhas irms casaram,
constituiram familia, e eu encontro-me s... s com as minhas
recordaes!

--Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmo, hoje como
sempre. s meu hospede, e espero que me dars o prazer da tua companhia
emquanto me demorar por estes sitios.

--J sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua
interferencia n'este negocio.

--Estou ao teu dispr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus
amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta
triste solido. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos,
que j te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha
irm, essa j t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vr,
porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella
com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua
ingratido... Vem!

Deu-lhe o brao e conduziu-o at  sala onde j todos os esperavam com
grande curiosidade.

A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impresso nos
circumstantes.

Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o
elegante moo bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades--Braga
e Guimares--pelo apurado esmro no trajar e pelos distinctos primres
da educao.

Feitas as apresentaes, todos quizeram ouvir da bca do recemchegado a
relao das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva,
scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o
secreto motivo de to longa e demorada permanencia em paizes estranhos.

--De modo que--disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos
condiscipulos de Julio--eis-te de novo entre ns, qual filho prodigo que
regressa  casa de seus paes!

-- verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que
desperdiou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa
velho, canado e cheio de achaques, a pedir  terra em que nasceu um
canto onde possa morrer descanado.

--Morrer! Quem falla aqui em morrer?--atalhou Gustavo alegremente--Tens
ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de
saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e canado por uma vida
inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que
reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam
a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, at os fazer
homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha
experiencia e do meu amr de pae? E, no emtanto, no penso em morrer sem
ter cumprido a minha misso...

-- justo--respondeu Julio--Ha um objectivo na tua existencia, que te
faz amar a vida e te d fora e coragem para a no perderes: so os
filhos,  a esposa,  a familia,  toda essa inquebrantavel cadeia de
affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos,
das dres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, atravs a
velhice como o viajeiro atravs os areaes do deserto, com os olhos fitos
no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu,
abandonado e s, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que
tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar seno
a morte redemptora dos grandes desgraados?

--Casa-te, meu amigo, casa-te!--aconselhou o commendador Seabra n'um tom
de convicta auctoridade.--Olha que no ha como o casamento para fazer um
homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas
estroinices, as minhas excentricidades... No andei l por fra, porm,
c dentro mesmo, no meu paiz, e at sem sahir de Guimares, fiz o que
pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que comeava a
aborrecer-me da vida, disse commigo: Nada! isto no est bem... Preciso
ter alguem a quem me dedique de alma e corao... alguem a quem eu
estime e que me estime tambem, porque um barco s no faz carreira...
Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que  um anjo, um
genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado
muito bem... No  assim, Gracianinha?--rematou, pondo os olhos na
esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme caro vermelhusco,
toda cheia de requebros e denguices, mais do que  permittido a uma
mulher que passa dos quarenta.

-- assim, meu amigo!--suspirou a D. Graciana, revirando para o marido
os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma
paixo confessada.

--No temos tido filhos--tornou o commendador, muito rolio, muito
gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso--mas no  por falta de
amr...  que ella no  de qualidade de os ter... Mas v tu que eu era
um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vs!
Gordo e forte, que nem pareo o mesmo!... E tudo isto foi depois que
casei... No ha nada como o casamento para dar saude a um homem!

E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete,
e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibio grotsca
das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o
rotundo abdomen.

Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo
commendador que, segundo resavam as ms linguas, soffria uma cruz em
casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.

--Ora agora o que  preciso--propz o juiz de direito, um velhote de
oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades
nervosas-- no deixar passar despercebido este feliz acontecimento do
regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua
provincia e aos braos dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela
sua prolongada ausencia!

E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:

--Isto  mais do que um regresso, isto  uma resurreio! Propunho,
pois, uma Paschoa _inter amicus_, uma festa alleluitica, em que se
celebre condignamente o _resurrexit_ d'este illustre cavalheiro, que eu
no tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem j estimava e de
quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e
gentilezas, que a tradio oral tinha trazido at mim!

Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvao e logo
alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido
viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as _sete partidas_ do
mundo, como o _infante D. Pedro_.

O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commisso
que havia de proceder aos festejos.

Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de
mais um dia de grossa pandega.

--Livra-me d'esta gente, meu amigo!--segredou Julio a Gustavo.--Tu, que
conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria
me mortifica!

--Nem eu, nem poder algum da terra poder livrar-te d'estas honras, que
s aos _eleitos_ da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a m
lembrana de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser
clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte,
agarram-te e no te deixam partir sem gramares a festa!

--Meu Deus! Em que m hora eu vim a tua casa!--murmurou Julio.--Venho a
fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e
eis-me o alvo de alegrias, quando mais devra ser um objecto de
tristezas!

--Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te
esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que
ainda no mudaram. O portuguez, especialmente o minhoto, no perde
occasio, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir s melancholias
do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo
que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fra
d'ahi,  sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma
d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel
bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles
no  d'aquellas que magoam o corao dos que soffrem...

No dia seguinte, Julio levantou-se cdo e, n'um curto passeio,
dirigiu-se ssinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.

O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos
no Brazil, todo vestido de linho cr e na cabea um bonnet de gorgoro
preto, debruava-se no caramancho erguido em um dos angulos do jardim.

Respirava a longos haustos o ar fresco da manh, tendo cravado no
horisonte um vago olhar de tristeza.

Pensava talvez nas fundas saudades que j curtira longe da patria, e
n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e
quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia,
era outra vez obrigado a expatriar-se.

Julio, ao vl-o, parou na estrada e cortejou:

--Bons dias!

O Pinho levou a mo ao bonnet e correspondeu, saudando:

--Muito bons dias!

-- o proprietario d'esta casa?

--Um seu criado!

--Li que ella se vende. Posso vl-a?.

--Pois no! Eu lhe vou mandar abrir a porta...

E chamando pelo criado:

-- Manca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein!--ordenou.

O _Manca_, um labrego de jaqueta, chapo braguez e suissa talhada em
frma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio
escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sr mandado e
obedecer.

Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este
dialogo:

--V. s.^a vende esta propriedade, no  assim?

--Me rslvi  vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra
tornar no Brazil...

--Esta casa--disse Julio--era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui
morreu, o sr. Norberto de Noronha...

--No conheci elle, mas tenho ouvido fllr... Ba pssa, pelas
informaes que do-me d'elle, hein!

--No foi, portanto, ao velho fidalgo que v.^a s.^a comprou a casa?

--Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que
lembrou-me foi comprar casa ba, que tivesse commodos ella... Mas eu a
queria j feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella,
j viu? Depois meu compadre Damio me escreveu um dia para o Porto,
dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender
este palacete... Vim vr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a
comprei...  uma rica pea, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas
como vou no Brazil outra vez e no sei o tempo que demorarei-me por
l...

--Norberto de Noronha--tornou Julio--tinha uma filha... Foi a essa
senhora que comprou esta casa?

--O ngocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava
ella, dizem, nas irms da caridade e tinha passado procurao a esse tal
Joo Ignacio para vender elle todos os bens, j viu? Mas eu lhe fiquei
s com a casa e com estes campos de ao p da porta... As outras
propriedades si venderam a differentes... Vossa excllncia conheceu a
familia de Norberto, j vejo...

--Conheci. A casa soffreu modificaes?

--No altrei-lhe a planta, a ella, no... Lhe mandei botar papel e
pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divises todas... O mesmo
jardim ainda  do risco que estava elle no tempo do fidalgo...

O Pinho, muito amvel, convidou Julio a vr a casa para certificar-se de
que era uma vivenda _muito ba ella_ e que se conservava quasi no mesmo
estado em que o fidalgo a deixra.

Julio, ao entrar na sala onde fallra pela primeira e ultima vez a
Norberto de Noronha, j paralytico, cerrou um momento os olhos,
commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo,
que alli jazra por tanto tempo ainda, na esperana de tornar a vr a
filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraada, por quem
morria.

Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de
explicar, no merecra as attenes do brazileiro para o mandar reparar.
Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposio em que Julio o vira
a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de
Norberto, inclusiv a cadeira de rodas em que to longamente agonisara,
achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.

--Isto qui me tem srvido para arrumaes--explicou o brazileiro.--Aqui
encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pr
ella fra, nunca rsolvi-me, hein! e ahi ficou, j viu?

--Quanto pretende v. s.^a pela casa?--perguntou Julio.

--Com mobilia ou sem ella?

--Tal como est, excepto os objectos de seu uso pessoal...

--Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e
concertos, anda isso por doze, hein! Ms se v. ex.^a me quizer comprar
ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, j viu?

--No, senhor!--acudiu Julio.--Se por doze contos lhe ficou, doze contos
lhe darei por ella.

O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgra que elle iria
regatear o preo, achar caro, desfazer no valor da propriedade e
reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reduco de um ou dois
contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria
embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a
somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.

--Quer assim?--interrogou Julio.

--Mas...--objectou honradamente o brazileiro consciencioso--eu tenho
vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que j no valem elle
gora...

--Pequenas coisas! No compro isto para negocio, e por isso no penso em
o adquirir por menos do seu justo valor.

--Mas ento a casa  de v. ex.^a!--decidiu o brazileiro com uma profunda
cortezia.

--V. s.^a no me conhece--disse Julio--mas eu dou como fiador  validade
d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhes, aqui seu vizinho.
Quando quizer, faremos a escriptura!

--O sr. doutor Gustavo! Pois no! Conheo elle muito bem. V. ex.^a 
hospede d'elle, j vejo...

--Sou. V. s.^a dir agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo
dar-lhe de signal.

--Signal!--protestou o brazileiro--no  priciso elle... Os homens se
conhecem pelas palavras, j viu?

--Como queira.

--Me d v. ex.^a oito dias para tratar de minha mudana, e iremos no
tabellio fazer a escriptura, hein!

--No lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. No tenho pressa de
vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.

--Lhe pde chamar desde j. Minha palavra vale uma escriptura! Mas no
ha priciso de mais demora, no... Homens de bem se entendem sempre
elles... Quando v. ex.^a quizer, vamos no tabellio...

Julio offereceu-lhe a mo e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.

--J comprei a casa de Noberto de Noronha--disse elle ao amigo, logo que
chegou.

--O que!--exclamou Gustavo.--Pois logo de manh, to cedo, foste tratar
um negocio d'essa ordem?

--Se eu tinha resolvido compral-a, no vejo motivo para protelar a
compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha
uma realisao legal.

--Por quanto a compraste?

--Por doze contos, tal como est.

--Podias tel-a adquirido por oito ou nove!

Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario
da casa que pertencera a Noberto de Noronha.

O brazileiro Pinho, tendo recebido o preo da venda, apressava agora a
sua partida, no intuito smente de no occupar por muito tempo a casa
alheia.

Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio
comprra a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos
proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebrao dos festejos
para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova
propriedade.

Esta deliberao fra tomada em segredo e mantinha-se discretamente
guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo
de Gustavo de Magalhes.

--Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os
absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto
tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o
emocionar e lhe causar alegria--dizia o magistrado de voz aflautada,
presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberraes do
espirito humano.

--Fatalmente--commentava o medico--alli ha desiquilibrio de
faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento
systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave
enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob
a impresso dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de
diversos e oppostos costumes...

--Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do corao... amres mal
succedidos...--aventou um dos menos theoricos e mais praticos.

--No, alli o que ha  tedio, cansao, o _spleen_ dos inglezes--opinou o
juiz.--O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo--menos a amizade dos
amigos e o amr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado.
Nas viagens--accrescentou com grande auctoridade e emphase de
sabedor--perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitao
dos sentidos. O espirito habitua-se  contemplao dos espectaculos
grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e
dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irms,
prazeres que so a vida do corao... Amres mal succedidos, como diz
aqui o nosso amigo Gilberto, no creio... Mais me inclino a crr que
seja o desdem pelos demasiados amres bem succedidos, pelos amres
faceis que no faltam nunca aos viajantes ricos e que so, por via de
regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que
este homem sente  justamente a falta de um amr srio, verdadeiro, como
 o de uma esposa por seu marido?...

--Pelo menos, quando no seja isso--disse o commendador--o casar devia
fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que s vezes apparecem na
vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa
alguma se satisfazem quando esto a ss com os maridos, elle buscaria a
convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da
esposa!

Todos se riram a esta indiscreta confirmao dos rumres que corriam
acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro,
com a D. Graciana.

--Que eu por mim--emendou logo com solicita dissimulao--com bem o
diga, no sei praticamente o que isso ... Mas tenho ouvido varios
maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e
fao ideia do petisco que ha-de ser...

--Ns tambem fazemos ideia...--atalhou o juiz sarcasticamente, na sua
voz de assobio.

--Meus amigos--interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversao sem
tomar parte n'ella--no se cancem em conjecturas sobre os motivos que
pdem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje . A vida
d'este homem  um mysterio que no seria facil decifrar nem mesmo aos
que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais quelles que s
agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos
a sua tristeza, se no est na nossa mo o dissipar-lh'a. Querer  fora
fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa to insensata
e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas
risonhas manhs da primavera. Cada qual  como ; e nem me parece que a
ns nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um
homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha
soturnidade dos seus habitos. O que para ns  tedio pde ser para elle
distraco; o que para ns  dr pde muito bem ser para elle um grande
prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por
caracter, se comprazem, desde a infancia, na solido mais absoluta,
achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma
verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?

--Isso  verdade!--accudiu o commendador--eu j tive uma epocha na minha
vida em que todo o meu prazer era agarrar mscas para as dar a comr a
um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas,
sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que
sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o
caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distraco n'uma coisa to
simples...

--No tanto!--replicou o juiz--Quem no tem que fazer caa mscas, diz o
vulgo. Ora se o meu amigo no tinha mais que fazer, acho acertado que se
distrahisse por esse modo... e no estranho que ainda agora se entregue
ao divertimento...

--Agora no!--tornou o commendador.

--Por falta de pisco?--perguntou o medico.

--Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente...
Agora no me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com
passaros em casa.

A conversao proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta
ingenua confisso do commendador que, sem o querer, veio desviar as
attenes do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.

A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhes
e travava-se entre os dois este dialogo:

--Ento, j sei que vou tel-o por vizinho, no  verdade, sr. Julio de
Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.^a j comprou a casa de
Norberto de Noronha.

--A casa de Helena, minha senhora...  verdade, comprei-a.

--Na inteno de a habitar?

--Sim, minha senhora. Fao teno de passar n'ella os ultimos dias da
minha vida.

-- muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia
de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmo
retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe
n'um silencio e n'uma tristeza que s pde agradar s almas tristes...

-- justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...

--A solido e a tristeza so um lenitivo para a alma quando nos prendem
recordaes saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos
felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui
passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi
desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.^a, snr. Julio de
Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem
luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...

--E para o meu corao, minha senhora! Quando se  verdadeiramente
desgraado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um
prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais
soffremos, em que o nosso corao sentiu mais profundos e mais
lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que
hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes
espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito
annos volvidos, pareceu-me vr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na
mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos
fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla
dilatada e immovel, as palavras de animadora esperana que ento
proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle
infernal martyrio! E esta evocao terrivel, bem longe de augmentar o
meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho
soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me
julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos
dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vos e de anhelos de
felicidade, at que a negra mo da desventura a veio empolgar...

--Pobre Helena!--murmurou D. Aurelia--se v. ex.^a a conhecesse n'esse
tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave
candura d'aquelle nobre corao! Eu, que fui sua amiga, sua companheira
de infancia, eu que to de perto privei com ella e conheci todos os
primres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e no sei
como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, seno pela loucura.
Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes,
antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados
deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma
religiosa pontualidade!

--V. ex.^a nunca mais teve noticias d'ella?

--Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu
a raso antes do fatal passo que havia de custar-lhe no s a propria
ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.

--Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um
taberneiro da Serra do Carvalho...

-- certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de
que encontraria Helena, l conseguiu matal-o e roubal-o. A principio,
suppz-se que a morte fra obra de malfeitores que o tivessem assaltado
em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia
anonyma, enviada s auctoridades e confirmada mais tarde por um
sapateiro de Braga, por alcunha o _Tomba_, que foi testemunha no
processo, pz a justia na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e
condemnado a gals por toda a vida.

--O _Tomba_!--disse Julio--Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o
agora no meu regresso a Braga, esperanado em obter d'elle
esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha
muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser
at que j tenha morrido...

--No sei, no conheci o _Tomba_. Ouvi fallar muito n'esse homem por
aquella occasio e sei que veio depr como testemunha no tribunal de
Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.

--Se o _Tomba_ esclareceu a justia e depz como testemunha, ento o
assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingana a que no
foi estranho o raptor de Helena...

--O padre Anselmo?

--Justamente. Como conhece v. ex.^a esse nome?

--Pois no sabe v. ex.^a que elle andou por aqui missionando e que foi
com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que
conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a
casa paterna?

--E v. ex.^a era sabedora das intenes de Helena?

--Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a
d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu
lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que
cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, no me
preoccupei muito com isso, por suppr que, retirando os missionarios,
breve retomaria a sua habitual despreoccupao de espirito. Enganei-me!
O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha no passar de um
momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos
os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a
accusal-a de ingratido pelo seu procedimento para comigo, porque,
apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmo
Gustavo, julgo-a irresponsavel.

-- esse o juizo que v. ex.^a forma de Helena de Noronha?

--. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso
assegurar a v. ex.^a que no havia mais nobre alma, corao mais terno e
cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa f
e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.

--O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...

--Sim, essas eram as supremas aspiraes de Norberto.

--E Helena amava o primo?

--No o amava. Mas tambem no tinha preferencia por outro homem. Muitas
vezes fallmos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse
indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me at
que, de uma das ultimas vezes em que ns fallmos a tal respeito, ella
me affirmou: Meu primo  para mim um homem como os outros. Caso com
elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo no
succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum
rapaz a quem quizesse mais...

--No foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a
abraar a vida religiosa....

--Decerto no foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha
para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse.
Em Helena, o que houve foi a imaginao excitada pelas perigosas e
seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa,
fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.

Os dois calaram-se por instantes.

--Sabe v. ex.^a--disse Julio de Montarroyo por fim--que me tem sido
immensamente grata ao espirito esta conversao a respeito de Helena?

-- natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.^a ignorava...

--Por isso, e porque no ha para mim felicidade igual quella que
experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse
conhecido. Com effeito, v. ex.^a acaba de me contar pormenores que me
eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso no  tudo:  que
sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de
Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi
esse, e no outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu,
onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me
hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dar como que uma
recordao d'aquella creatura, que o destino pz no meu caminho para
logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um
meteoro no espao, em noite calmosa de estio!

--V. ex.^a, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma
paixo que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido
apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!

--Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...

--Sabia e no lhe correspondeu a esse amr que preencheria as mais
ardentes aspiraes de um corao sedento de affectos?

--Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o
permittia, a esta paixo que me inspirou. E se no abandonou o convento
para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, 
porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.

Ento Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas
entrevistas com Helena no convento do Sardo; que ahi combinra com ella
a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar
todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir
para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias
d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos
mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fra possivel
ouvir sequer fallar d'ella.

--Conclue portanto que Helena...

--Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...

--Se Helena tinha alguma vez pensado sriamente em abandonar a vida
religiosa, creio bem que no seria facil impedil-a de realisar o seu
pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia
de caracter sufficiente para no se deixar prender e illaquear por outra
vontade que no fosse a sua.

--Eu creio que Helena de Noronha j no vive... Procurei-a por toda a
parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais
achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me
leva a crr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua
evaso.

--Seria possivel?

--Nos antros jesuiticos tudo  possivel, minha senhora.

--Mas no sabe v. ex.^a que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a
professar?

--Sei muito bem.

--Pois esse padre no poderia dar noticias de Helena, se lh'as
exigissem?

--O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do
destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas  homem de quem
tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez
dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era
uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos
os esforos que empregmos para libertar Helena do convento,  ultima
hora nos trahiu, reatando as suas relaes com o padre Anselmo...
Regressando a Braga, alimentava ainda esperanas de a encontrar; mas a
morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve
tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para
sempre  familia e  sociedade.

--Pobre Helena!--suspirou D. Aurelia--que negro destino foi o seu!

--Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha
creaturas assim dotadas d'este fatal condo de trazerem o soffrimento e
a desgraa comsigo.

--E no emtanto as suas intenes eram sempre nobres e puras. Ninguem
conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que
eu pde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle corao!

--V. ex.^a que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.^a D.
Aurelia, e permittir-me que alguma vez pea s suas recordaes o dce
lenitivo de me fallar de Helena...

--A minha vida  tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas
n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e
soffri todas as alegrias e todas as dres da existencia... Posso dizer
que hoje vivo, como v. ex.^a, s de tristes recordaes...--replicou D.
Aurelia com um fundo suspiro.

A conversao foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do
commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das
festas em honra de Julio.

Ao vrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois
entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:

--Quer vr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?

--Pde ser...--replicou o commendador--A D. Aurelia est ainda muito
fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer  casar com ella para
se distrahir.

Assim dizendo, fram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou
nas palavras a impresso. que aquelle encontro lhes causra.

Mais tarde veremos se o juiz tinha razo.




XIII

Denuncia


Joo Lazaro fra pontual em comparecer  hora marcada para a ceia que os
amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal.

O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta
demonstrao de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos
lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferena por tudo quanto
o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma
honra quando recebe um favr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos,
no tom canado e aborrecido de quem se v obrigado a aturar importunos:

--Estes idiotas massam-me, no me largam e offerecem-me banquetes para
terem a honra de se sentarem ao meu lado!

--No ser bem isso--replicou o outro delicadamente, para no o
ferir--Devemos conceder que a amizade, a justa admirao pelos teus
talentos e, acima de tudo uma certa communho de ideias, mais que a
vaidade pessoal, so as determinantes d'estas manifestaes de que s
alvo...

--Communho de ideias!--tornou o Joo Lazaro desdenhoso--Que communho
de ideias pdem elles ter comigo, se so uns idiotas, uns cretinos
incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que no seja
arroz cosido em vez de miolos?

--Talvez tenhas razo, talvez...

--Com toda a certeza que a tenho! Se eu no fosse um homem notavel, se
no tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura
do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a
generosidade de me pagar um caf, quanto mais uma ceia? Eu conheo-os.
Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de
immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro,
querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu,
quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com
admirao o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se
aproximarem de mim.

O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, no pde conter-se
que no dissesse:

--Agora, depois de te ouvir, conveno-me de que realmente os idiotas so
elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com
franqueza?

--Dize l.

--Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o
idiota s tu!

Joo Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo
com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente:

--Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na
apreciao d'esses sujeitos, que pdem ser muito bas pessoas, e
animados das melhores intenes, mas que me irritam profundamente,
vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito
para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvao de todos.
Porque  preciso que tu o saibas, eu no vim ao Porto unicamente para os
amigos me darem de cear...

--Para que ento?

--Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvao
publica...

--J lhes expuzeste o teu plano?

--O meu plano  to vasto que no pde ser resumido n'um discurso para
se repetir a cada um em particular; e  de tal modo melindroso, que
tambem no pde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de
duas uma: ou ha confiana em mim, ou no ha. Se ha, faa-se o que eu
digo, facultem-se-me os meios de que careo e mais tarde se ver a obra
grandiosa que projecto e para cuja realisao todos devem concorrer. A
gloria, porisso, ser de todos. Eu no a quero s para mim... Se no ha,
 inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o
plano  discusso, admittindo emendas e correces, ento o plano deixa
de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabea pensante para
me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso no me
sujeito. Sinto aqui dentro--e batia na testa com impeto--alguma coisa de
grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas
vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razo
de que no nasceram para dirigir, nasceram s para serem dirigidas. Ora
ahi tens a razo porque eu sou s vezes injusto com aquelles mesmos para
quem o no devo ser...  que queria vr mais ardor, mais enthusiasmo e,
sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me
rodeiam!...

--Bom! Mas, a final, o que queres tu?

--Dinheiro!

--Oh, diabo! isso  o mais difficil de obter, porque  isso precisamente
o que todos querem...

--Pois se o querem, que m'o ponham s ordens, que o semeiem, que eu lhes
volverei cem por um!--exclamou o Joo Lazaro, convicto.--No me falta
mais nada. O meu plano est completo. Para o realisar, apenas careo de
dinheiro. Dem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a
face do paiz.

--Mas bem vs, meu caro, que isso depende de circumstancias...

--Quaes circumstancias?

--Se o dinheiro que tu pedes para a realisao do teu plano fr uma
somma to importante que no esteja nas foras dos nossos amigos...

--Nas foras dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que
depende a salvao da patria. Quando se trata de um caso d'estes,
ninguem est a medir e a calcular o que pde fazer. As foras medem-se
pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar.

--No  tanto assim. Convencido ests tu da excellencia e efficacia do
teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o
realisar. E, no emtanto, tropeas na difficuldade suprema de o pr em
aco e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento
no fique na cathegoria das coisas irrealisaveis...

--Certamente. E creio que todos teem obrigao de me ajudar. O bem no 
s para mim, o bem  para todos.

--Perfeitamente d'accordo. Isso no se discute. O que se discute  se as
sommas que a realisao do teu plano exige esto nas foras dos nossos
amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde no ha...

--Pois sim, mas aqui no  o rei que perde,  o povo.

--E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o
impe, o que havemos de fazer?

--Assim o impe, dizes tu! N'esse caso, j sabes que no ha
dinheiro!--exclamou Joo Lazaro n'um tom de amargo despeito.

--Eu no sei nada!--volveu-lhe o interlocutor.--Isto so apenas
consideraes que eu fao sobre o que pde succeder. Ainda no me
revelaste o teu plano, ainda no me disseste de quanto carecias... Como
queres tu que eu saiba se  realisavel ou no a somma que desejas?
Simplesmente, o que me parece  que, se essa somma fr avultada, haver
difficuldade em a conseguir.

--Onde est ento o amr d'esses patriotas  ideia?

--Est no corao. Mas tu bem sabes que o corao sem dinheiro  uma
fora to fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um
casamento, quanto mais as difficuldades da salvao de um povo.

Joo Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.

--E  por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale
bem a pena, realmente, expr-se um homem a todas as violencias, a todos
os odios e todas as perseguies, para melhorar a sorte de um povo que
no est ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente
que encontra ao seu lado crenas profundas, dedicaes sinceras, homens
capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e d mas  com um bando de
egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra  casca, incapazes de
soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do
_Deve_ e _Haver_! Raa ignobil de bacalhoeiros ignaros, que esto a
pedir Joo Branco e Pita Beserra!

Depois d'esta violenta exploso de colera, por no achar abertos os
cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos
quaes agora malsinava de _bacalhoeiros ignaros_, visto que no lhe davam
o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o Joo
Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo.

--Bem!--disse elle--tenho entendido. No se arranja nada. O peor mal 
d'elles. Ho-de arrepender-se, mas ha de ser tarde...

E consultando o relogio:

--So horas. Vou ao Palacio,  tal ceia, mas recolherei cedo, porque no
estou para os aturar. Amanh, se quizeres, apparece. Mas vem de dia,
porque  noite talvez retire para Lisboa.

--O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos?

--Se me dizes que elles no esto dispostos a sacrificar-se...

--Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto no  nem pde
ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido...

--No, que eu no peo!--exclamou Lazaro com enfatuada altivez--Eu
proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o
meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o
favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui
estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dem o dinheiro preciso
para o pr em execuo. Se, pelo contrario, preferem ser escravos
abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem
consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravido, que eu por
mim no darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha!

Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado.

--Vaes para a ceia dos teus amigos, no  isso?--perguntou o outro
despedindo-se.

--Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio  popularidade de um partido
que me no merece.

--Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vr o que se pde
arranjar... Tu, porm, tens de ser ouvido...

--No terei duvida em fallar e expr as coisas com as reservas precisas,
se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a srio. Se,
porm, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples
devaneio, peo-te que no me incommodes, obrigando-me a descer at esses
bilhostres.

Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu
a metter-se na carruagem de praa, que o esperava  porta do hotel.

--Para o Palacio!--ordenou ao cocheiro.

Pelo caminho, ia monologando:

--Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que
vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se no fr assim,
 valentona, por boas palavras no se se faz nada... Preciso de lhes
apanhar dinheiro para ir at Hespanha.

E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica
reminiscencia da tanga:

--Oh! as hespanholas... as hespanholas so um encanto!

Quando entrou no Palacio, passava j da hora marcada. Os amigos, com
Eugenio  frente, vieram recebel-o n'uma doida expanso de alegria.

--Cuidei que no vinhas!--disse-lhe Eugenio.--Seria um grande desgosto
para ns todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas
damas, que nos honraram com a sua presena e que estavam anciosas por te
conhecer.

O aventureiro saudou gravemente, com um forado sorriso de polidez e,
respondeu n'um tom de pedantesca superioridade:

--Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a
esta hora, e tanto que me vi forado a transferir para amanh uma
reunio importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos,
que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia,
insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e no
protelasse a reunio que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder
aos seus desejos, pois no quero que se diga que sou menos amavel com os
velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os
acompanham.

Seguiram-se as apresentaes:

--Senhorita Lola...

--Senhorita Dolores...

--Senhorita Consuelo...

O Joo Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a
cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor.

Abancaram  mesa e principiou o festim.

A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que
havia entrado s sete, vinha debruar-se  janella, na anciosa
espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moo de
recados parou  porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois
de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava.

A criada desceu a vr quem batia o pouco depois voltou com uma carta.

--Um moo de fretes com esta carta para a menina...

A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador,
usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se
achava a ss com Leonor.

--D c!--disse a loura, pegando na carta e examinando o
sobrescripto.--Queres vr que  algum massador a seringar-me com uma
declarao?

--O portador no esperou _reposta_.

--Bem sei que no esperou. Eu estava  janella e vi-o partir logo que
entregou a carta.

E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.

-- singular! O papel no vem perfumado--disse ella, mostrando o papel
vulgar em que a missiva vinha escripta.

-- de homem de dinheiro!--commentou a velha, muito pratica em negocios
d'amr.--Os _cheiros_ so para os pelintras que s querem agradar com
bugigangas e a respeito de _loua_... nem um pires!... Homem srio,
homem de _massas_, no est l com essas coisas... Confia no seu
dinheiro e  bastante...

Leonor, sem prestar atteno ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma
agitao crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente
pallida, amarfanhando o papel entre as mos:

--Oh! mas isto  impossivel! Isto  uma infamia!

--O que , menina?--perguntou a velha servial, n'um movimento de
curiosidade.

--Dizem-me aqui--tornou Leonor com voz rouca de commoo--que Eugenio
vae casar.

--Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso ho-de ser ditos
de gente que lhe quer mal... Que isto , eu direi... nos homens no ha
que fiar... Elles prgam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal
cuida, parece que esto muito seguros e pem-se a _avoar_!

Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que no tinha
comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte:

Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser
agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir
em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista
muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito
breve.

Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento  muito commentado,
discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o
procedimento de Eugenio.

Uns affirmam que elle, canado da amante, aborrecido de uns amres que
j no lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma
menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente,
libertar-se de umas relaes que considera despreziveis e improprias da
sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio,
receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro,
escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro, _suspenda
pagamentos_, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria
provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a
receber d'elle o preo dos seus amores como agora o recebe do
commendador Garcia.

Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor  vilmente
atraioada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto,
afim de evitar que a sua reputao, continue a ser infamemente
enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante.

Se fr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da
veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estar
amanh s 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do
meio estiver aberta, a sla illuminada e no piano se ouvir a valsa
_Leonor_,  signal de que deseja recebel-a e ento essa pessoa
apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar.

At l, silencio e discreo  a unica coisa que se recommenda.

Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha
confidente, exclamando:

--Se  verdade isto que aqui se diz, mato-o!

--Crdo, menina!--bradou a velha benzendo-se--Isso so tentaes do
demonio! Deixe l, no faa isso, que no vale a pena uma pessoa ir
pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um _b_! Homens ha muitos,
to _bs_ e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma
carinha d'essas, que parece mesmo uma _image_, no achava homem que lhe
dsse o merecimento seno aquelle! Crdo! andam ahi rapazes como uns
soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes dsse
atteno... Era s a menina abrir a bcca e veria!... Eu  que no quero
dizer nada, mas tenho _osservado_ muita coisa... S eu  que sei!

--Que e o que voc tem observado, Joanna?--interrogou Leonor roida da
curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de
Eugenio.

--Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a
menina lhes d atteno... Mas eu c... como a via virada p'r sr.
Eugenio... mal haja elle, se  certo o que diz a carta!

--E voc nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse
outro namoro?

--No, l isso, na minha salvao se eu ouvi boquejar nem tanto como
isto!

E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o trmo da comparao.

--Mas ser verdade?--tornava a loura passeando agitadamente na
sala--Elle ter animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto
o amo, quanto me tenho sacrificado por elle?

--O amor dos homens  como a flha do olmo... ora vira para um lado, ora
p'r oitro, menina...

--Oh! mas isto  impossivel! Eu no lhe mereo um tamanho despreso, uma
tamanha perfidia!  preciso que um homem seja muito infame para abusar
assim do amr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando
um golpe de morte ao meu corao!

E irritada, anhelante de desespro torcia as mos, com frenesi.

A velha apaziguava:

--s vezes _tmem_ se diz mais do que ,..

--Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta no
pde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me
esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma
coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus!
que mal te fiz eu para me fazeres to desgraada?!--exclamou por fim,
rompendo em soluos.

--Desgraado  o diabo!--consolou a velha Joanna--Quem conta um conto
sempre lhe accrescenta um ponto... Isso s vezes pde ser que no seja
tanto assim... Mas se fr, o que a menina deve fazer  botar o corao
ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador _Graca_
dar por ella e no tornar c... _Anto_ sim, _anto_  que a menina se
devia affligir, porque o amr  muito bonito, mas sem dinheiro no se
arranja nada...

--Cale-se, Joanna, cale-se!--bradou Leonor n'um impeto de
desespero--Voc pensa como elle, que tambem vae atrs do dinheiro, sem
se lembrar que eu, para o amar, no estive a fazer calculos nem a
perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que no chegara a
gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu
alguma vez todo o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo
unicamente da proteco de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar
todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha
posio--o proprio amor do homem que me sustenta--s suas necessidades,
aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando
casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu corao, o meu
socego, a minha tranquillidade! E expe-me aos ditos e s chufas dos
seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam
capaz de me associar a elle na infame explorao de uma mulher! Oh! a
ser verdade, mil vidas que elle tivesse no chegariam para pagar esta
affronta!

No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixes que pdem agitar um
peito de mulher: o amr despresado, o amr proprio offendido, a vaidade
irritada, o odio, o ciume, emfim.

A velha encarava-a receosa, sem j se atrever a proferir palavras de
prudencia ou de banal consolao.

De p, a um canto, com as mos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a
suspirar, murmurando em voz lamurienta:

--Seja pelas almas! Ninguem diga que est bem... Nossa Senhora do
Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia!

Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla,
pareceu tomar uma resoluo.

--Joanna--disse ella--de tudo isto que aqui se passou, voc no d uma
palavra ao sr. Eugenio.

-- menina! Crdo!--protestou a velha--a minha bcca no se abre para
nada! No diga a menina coisa nenhuma, que eu _tmem_ fao de conta que
nada _assucedeu_... Mas a menina  capaz de no ter mo em si e
comear-lhe por ahi com _climas_, que elle logo desconfia...

--Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso no convem
que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa...

--Por mim, no  que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina
fizer isso, anda s horas!... Ao menos, assim, no d logar a que elle
se encubra. E depois de se _infirmar_ da verdade, j fica sabendo quem
tem...

-- justamente isso o que eu quero.

--Porque s vezes--commentou a velha--_tmem_ so _malquerencias_...
Pobre do rapaz! pde ser que s vezes nem lhe passe pela cabea nenhuma
coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, s p'ra
amr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo _tmem_ ho
muitas _invejidades_!...

--Pois  por isso...--tornou Leonor dominando-se--Eu vou-me deitar...
No desejo que elle me encontre a p quando vier... E como isto  contra
o meu costume, vocemec, amanh, quando eu a chamar ao meu quarto, a
primeira coisa que tem a fazer  perguntar-me se estou melhor...

--Bem sei; a menina quer-se _infingir_ doente esta noite p'ra elle no
desconfiar...

-- isso mesmo. Vocemec no esquece isto que lhe digo?

--Ora essa! A'gora esqueo!...

--Bem! Ba noite! Pode-se ir deitar...

--Ento, com bem passe a noite, menina!... Se fr preciso alguma coisa,
no tem seno chamar...

Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a
alegre companhia das hespanholas tivera o singular condo de fazer voar
as horas com a rapidez de minutos.

No foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, s quatro
horas da manh, no quarto da amante.

Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da
ceia offerecida a Joo Lazaro, esperava uma scena de ciumes,
recriminaes e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar.

Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer,
tranquilla.

--Deitaste-te?--disse elle--Fizeste bem, minha querida. A ceia
prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui,
anecdota d'acol, quando demos conta de ns eram estas horas que vs!

Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura:

--Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada...
Deitei-me por no poder estar de p, mas no tenho dormido...

--Ests doente, meu amor! O que foi isso? O que sentes?

--Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dres
de cabea... E creio que tive uma ponta de febre...

--Foi constipao, com toda a certeza! s uma descuidada, no te
agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi  janella, a vr
quando eu chegava, e deu-te esse resultado!

--No! Como sabia para onde tinhas ido, no te esperava seno mais
tarde... No sei, no posso calcular do que isto fsse...

--Mas ests melhor, no  verdade?

--Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena
de ch bem quente, as dres abrandaram-me um pouco...

--Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu
sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria
immediatamente.

--No valia a penna ir incommodar-te por uma coisa to ligeira... Isto
passa.

A conversao proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor
occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma.

O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doena da
formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte
lhe notou nas feies.

Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dce e carinhosa, mais
ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio
teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um
transporte de ternura infinita que lhe disse:

--Peo-te que no venhas tarde, mas tambem no desejo que sacrifiques a
companhia dos teus amigos  ideia de que estou mal, porque, felizmente,
sinto-me melhor...

--No, eu venho cdo...

--A que hora?

--Depois da meia noite. Mas tu deita-te, no me esperes a p,
filhinha...

--Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres,
servir-te-ha a ceia, se ainda no tiveres ceiado...

--N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fra para no dar trabalho
 criada quando recolher. E tu no me esperas a p... Valeu?

--Pois sim.

Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim.

Pelas onze horas da noite, e tendo j sahido o commendador Garcia,
Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao
piano e comeou executando a walsa _Leonor_, conforme o seu anonymo
correspondente lhe havia indicado.

Quando mais no fosse seno a natural curiosidade de conhecer quem lhe
escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, j era motivo mais
que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia
e dsse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no
espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel
desejo de conhecer toda a verdade.

Ainda a walsa no tinha chegado aos ultimos compassos e j  porta da
rua carregava no boto da campainha electrica um homem, embuado n'uma
ampla capa  hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um
chapo de feltro.

A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada
ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella,
para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.

Leonor, tendo descido a vidraa e corrido o store, esperava o
denunciante, de p, na sala, com o corao palpitante de anciosa
curiosidade.

O desconhecido entrou desembaraadamente, fechou a porta sobre si e,
parando em frente de Leonor estupefacta, desembuou-se, tirou o chapo e
disse, inclinando-se em garboso cumprimento:

--No esperava que fosse eu, no  verdade?

--O senhor!--disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuado as feies
de Joo Lazaro.

--Eu mesmo,  verdade!--replicou Joo Lazaro n'um tom meio grave, meio
galanteador;--julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido
d'esse rosto lindo... Bem v que se enganou e que o interesse que uma
vez despertou na minha alma no desappareceu, antes mais se fortaleceu e
acrisolou com a ausencia.

--Mas, perdo!--tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de
impaciencia--creio que no foi para insistir nos seus protestos de
estima que aqui veio...

--Bem sei! Est impaciente por conhecer toda a negra perfidia de
Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expr-lhe
quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem
recebeu...

--Mas no esto elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os
factos n'ella relatados so verdadeiros, basta a existencia d'esses
factos para explicar o seu procedimento...

--Perdo, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas
perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem
censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em
favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira,
porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traio,  moeda corrente;
e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer
so em geral creaturas pelas quaes o meu corao no se interessa. Ora
com a gentil Leonor no estamos no mesmo caso. Creio que j em tempo lhe
declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e
quanta dedicao a sua estonteante formosura despertava na minha alma...
No me quiz attender, ou melhor, no tive a fortuna de lhe merecer a
mais ligeira estima. Outro mais feliz, porm immensamente menos digno e
mais ingrato do que eu, teve a dce ventura de tocar o seu corao. Fui
preterido. Paciencia! O que n'essa preterio houve de injusto e cruel
para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora
Leonor sabl-o...

--Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, no me occulte nada!

-- ento certo que o ama muito?--perguntou o aventureiro com um sorriso
ironico.

Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel
desespro:

--No sei se o amo, se o aborreo; sei que desejo saber quem , como se
chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa
Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me
haver ultrajado, fazendo suppr que eu e elle entramos de sociedade e de
intimo accordo n'um casamento de explorao infame. Estas accusaes so
gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu
corao de mulher.  preciso que o senhor justifique perante mim, sem
subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, alis...

--Alis?--interrogou Joo Lazaro, sorrindo.

--Alis terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabea.

E, n'um arrebatamento de justa indignao, os olhos faiscantes, os
labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um
pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a Joo Lazaro.

-- justo!--disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel
galanteador.--O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu no
mereceria outra punio se calumniasse de maneira to infame o homem que
a senhora ama e que, alm d'isso,  meu amigo... Mas, vejamos: se a
mentira merece ser punida, a verdade no tem direito a ser premiada?

--O que quer dizer?

--Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto,
mata-me... Se eu fallo verdade, no  justo que me d vida? Porque 
preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amr por esse esquivo e ingrato
corao, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo!

Leonor encarou-o com altiva dignidade:

-- o meu corao o que me pede ou... a minha belleza?

--Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto pde dar-me a vida, a felicidade, que
sem o seu amor no existe para mim, e que outro ingrato indignamente me
tem usurpado! Prometta-me que no me recusar a esmola que lhe imploro
do seu affecto, e ter de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da
negra perfidia de Eugenio!

Leonor ficou um momento perplexa, fitando o Joo Lazaro attentamente,
como se quizesse lr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim,
respondeu:

--O meu corao, por emquanto, no est livre.

--Mas se aquelle que n'este momento o occupa fr d'elle expulso, como
merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado
recanto do seu peito, Leonor?

--No costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicao e
estima sincera.

--No o ser ento para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova
mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo!

A loura indicou uma poltrona a Joo Lazaro e recostou-se no sof que lhe
ficava proximo.

--Assim entendidos--disse ella--queira dar-me as explicaes que me
prometteu.

--Perdo, minha querida!--tornou o aventureiro, sorrindo
amavelmente--Por emquanto ainda no passamos de promessas vagas, que a
nada obrigam...

--O que deseja ento?

--Que me prometta, que me jure duas coisas...

--Dir.

--A primeira que ser discreta, que obedecer em tudo e por tudo s
minhas indicaes, para chegar a obter a certesa absoluta da
infidelidade de Eugenio.

--Prometto.

--A segunda  que, confirmada a minha accusao e adquirida a certeza
completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de
felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar
que, n'esta casa, occupava Eugenio...

A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que
mercadejava infamemente com a paixo terrivel que abrasava o seu corao
de mulher ciumenta.

--E se eu recusar essa ultima condio?--perguntou.

--Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que
pde ficar sabendo desde j.

--Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!

--V que confio na sua promessa e que no lhe peo como penhor a mais
leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...

-- de mais!--bradou Leonor, colerica e impaciente.--Se veio aqui, para
se divertir  minha custa, fez muito mal, porque pde sahir-lhe cara a
brincadeira!

--Ora vamos, minha querida... socegue!--volveu o Lazaro com um sorriso
cynico.--Bem v que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade,
submettendo o seu corao a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas
estes casos, porisso mesmo que so graves e srios, querem-se meditados
e reflectidos. Temos obrigao de os encarar com serenidade e sangue
frio, para procedermos com acerto e prudencia.

--Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, 
apenas a de ouvir as revelaes que me interessam e que certamente me
vae fazer.

--Ora muito bem!--principiou o Joo Lazaro.--Disse-lhe na minha carta
que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a
verdade.

--Como se chama essa menina?

--Beatriz.

--Onde mora?

--Na rua do Breyner e  filha do capitalista Custodio de Jesus.

--Diz ento que o casamento est projectado para breve?

--Digo.

--N'esse caso, essa menina ama-o?

--Tanto no sei, mas  de suppr que sim, visto que est disposta a
recebel-o por marido. O que, porm, no offerece duvida  que Eugenio a
ama, pois que pediu a sua mo.

--Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?

--Eugenio nada me disse. No atraio, portanto, o amigo, descobrindo o
seu segredo...

--Como o soube ento?

--Se  publico e notorio! Se nos cafs no se falla de outra coisa!

--No ser isso uma inveno de rapazes levianos, que gostam de se
divertir  custa alheia?

--Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Alm d'isso, a pessoa que mais
particularmente me elucidou d'este caso no conhecia Eugenio e veio
pedir-me informaes a seu respeito.

--O que lhe disse?

--O que no podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que
Eugenio  muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.

--Mas  foroso impedir esse casamento!

--Talvez no seja impossivel.

--Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?

--De vista apenas. No tenho com elle relaes pessoaes; mas conheo
amigos intimos seus. O que deseja d'elle?

--Informal-o de que Eugenio mantm relaes comigo e fazer comprehender
que no deve dar a filha a um homem que tem uma amante...

--Est doida! E o commendador Garcia?

--Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio no
case!--bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sof em que se
achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitao
indescriptivel.

--Venha c, socegue!--disse Joo Lazaro, tomando-lhe a
mo.--Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicaes, e  foroso
que cumpra o que prometteu.

--Pois sim... Diga ento o que devo fazer...

--Em primeiro logar, certificar-se de que  verdade o Eugenio trahil-a.

--Como?

--Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiana...

--Merece...

--Pois a sua criada procurar travar relaes com alguma das criadas de
Custodio de Jesus, e por esse modo saber o que ha de verdade cerca do
que se diz. Os criados sabem tudo e so os melhores informadores d'este
mundo.

--E obtida a certeza?

--Obtida a certeza, nada diz a Eugenio at ao momento que eu lhe marcar.
Faz isto?

--Fao.

--Que Eugenio no suspeite que lhe est no rasto da perfidia.

--No suspeitar.

--E eu voltarei a informl-a.

--Quando?

--Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.

--E at l nada devo dizer nem fazer?

--Nada, seno isto: pr a sua criada em relaes com as criadas do
Custodio de Jesus.

--Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com
o inferno no corao, guarde silencio e me sujeite s dilaes de uma
informao to morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente!
No est no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...

--As circumstancias impem-lhe dissimulao e prudencia.

--As circumstancias! Qual  a mulher que no meu caso attende s
circumstancias?

--Todas. No seu caso, todas--replicou Joo Lazaro com reflexiva
gravidade.

E amaciando a voz, n'um tom de convico profunda:

--Ora venha c!--disse elle--Deixe-me pensar pela senhora e defender os
seus interesses, o seu futuro, a sua posio, uma vez que essa cabecinha
transtornada no se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto.
E, creia, foi principalmente por isso que no quiz logo dizer-lhe tudo
na minha carta... Calculei que faria escandalo se no tivesse ao seu
lado alguem que a dirigisse, e procedi de frma a obrigal-a a ouvir-me e
a attender-me...

--Pois sim... j o ouvi e j o attendi... Mas o que no posso, o que os
meus nervos no consentem , obtida a prova da perfidia de Eugenio,
remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os
seus torpes intentos!

--No seja creana e vamos a vr se consigo convencel-a de que um
escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica seno 
senhora...

--S a mim, diz?

--Sim, s  senhora. Ora oua, Leonor: Imagina que se se apresentar em
casa de Custodio de Jesus e disser: eu sou amante ostensiva do
commendador Garcia, e o Eugenio de Mello  o meu amante clandestino,
essa declarao pesar no espirito do abastado capitalista o bastante
para impedir o casamento?

Leonor baixou os olhos e no respondeu. Joo Lazaro continuou:

--O mais que com isso poder fazer,  provocar explicaes da parte de
Eugenio que, bem longe de negar, confessar essas relaes, que nada
affectam a reputao de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade;
pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amres que
sempre se calculam do durao ephemera e que, por isso mesmo, ninguem
toma a srio.

A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe
de colera, n'uma indignao suprema.

--Ninguem toma a srio o amor de uma mulher como eu!--exclamou ella--E
porque? Acaso o meu corao vale menos do que o d'outra mulher? Acaso
sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada
a no sentir no meu corao os dces affectos que so a vida e a
felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? No terei eu o
direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o
terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus
juramentos?

Joo Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignao, sem perder um s
instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe
brincava nos labios.

--Tem razo--disse elle por fim--Mas que quer, minha querida? A
sociedade  quasi sempre cruel e iniquia nas suas decises; e ahi est
precisamente um caso em que ninguem, da boa f, poder attribuir-lhe
rectido e justia. No emtanto, como a sociedade  que dicta a lei pela
qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu
favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a
razo, que ninguem attende.

--Ha de pelo menos attendel-a elle!

Joo Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.

--No o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos  razo, se
ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse corao que elle
esmaga, por esse amor que calca aos ps, no teria pensado em casar-se.
Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmao do que lhe
assevero, o Eugenio pensa, em se _fazer homem srio_ por meio de uma
alliana vantajosa e respeitavel, e est disposto a romper os laos de
uma affeio que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.

--Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que
!--bradou Leonor completamente dementada.

--Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de
impedir, porque a amo, porque a estremeo, Leonor, e porque nunca
poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande
loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo
cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafs e
a ultrajassem nas conversaes particulares, como a uma mulher
despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade  assim,
minha querida amiga! No perda aos vencidos. E depois, o ruido d'este
escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por
muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos
impetos do seu temperamento e do seu corao de mulher galante, bem v,
Leonor, que seria crear-lhe uma situao que nenhum homem, nem mesmo o
commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este
seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraa e mais um motivo de
prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem
n'isto, Leonor, olhe que  um amigo sincero e verdadeiro que lhe est
fallando.

--Mas o que devo ento fazer, santo Deus!--clamou a formosa Laura,
estorcendo as mos em desespero.

--Ter prudencia e esperar.

--Ter prudencia! Esperar... o que e como?

--Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingana  o prazer dos deuses? Pois
tenha prudencia e vingue-se, Leonor...

--Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porm, como? Como  que eu
hei-de levar a cabo essa vingana tremenda que o meu corao anhela?

--Primeiro, convena-se serenamente do delicto. Depois, julgue com
provas  vista, e fulmine a condemnao que o seu corao lhe ditar.
Para a auxiliar na execuo da sentena, c estou eu. Faamos uma
alliana, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu
ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha
a...

--A que?

--A realisar grandes emprezas que premedito...

Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.

--E que emprezas so essas?

--Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta s que saiba que podemos
auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos.
Posso contar com a senhora?

A loura hesitou. Por fim respondeu:

--Pde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou,
pelo menos, a vingar-me d'elle.

--Isso mesmo  o que eu lhe estou propondo.

--Est bem!--disse a loura estendendo-lhe a mo--pde contar comigo.

Joo Lazaro embuou-se no capote, carregou o chapo sobre os olhos e
dispoz-se a sahir.

--manh voltarei  mesma hora--disse elle  sahida.--E o signal
convencionado para eu saber que me recebe, pde ser o mesmo de hoje.

--Espere!--reflectiu a loura--Se s vezes, por qualquer motivo, no me
fr possivel recebel-o...

--Claro est que no d o signal.

--Mas se me fr preciso prevenil-o de que pde vir mais tarde...

--Toque ento a marcha da _Cadiz_.

--Est bem.

--Ainda mais--tornou o Lazaro--se quizer prevenir-me de que no venha no
dia seguinte, substitua. a marcha da _Cadiz_ pela _Cavallaria
Rusticana_. Ouvindo-a, j fico sabendo que s poderei vir dois dias
depois.

--No se dar esse caso, mas sempre  bom prevenir...

--Comprehendeu-me perfeitamente. At amanh.

--At amanh.

O aventureiro tomou a mo de Leonor, depositou n'ella galantemente um
beijo, e sahiu.




XIV

Miseravel!


Joo Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte batia  porta de Jorge.
Era uma casa modesta, de homem s, em que se notava o natural desarranjo
de quem no tem os cuidados intelligentes de uma mulher a dirigir o
servio domestico.

--Venho fazer-te a promettida visita--disse Joo Lazaro ao amigo que
estava j sentado  banca no seu gabinete de trabalho.

--Bem vindo sejas, meu caro!--volveu-lhe Jorge, interrompendo a escripta
e indicando-lhe uma cadeira.

--Sempre a trabalhar!--disse Joo Lazaro com um sorriso de
curiosidade.--Em que diabo te occupas agora?

--Tomo apontamentos para um bosquejo historico... Bem vs, a historia 
a minha paixo...

--Bonito entretenimento para quem no tem que fazer...

--Que queres? Em alguma coisa se hade matar o tempo...

--Olha l, porque no collaboras tu no jornal que eu dirijo em Lisboa?

--Eu!

--Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me de immensissima utilidade.
Ha to pouco quem escreva bem, e tu ests ahi a desperdiar talento n'um
trabalho obscuro que ninguem ler, que a ninguem importa, quando podias
brilhar entre os primeiros, tornares-te lido, popular... Queres?

--Eu no! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes, e principalmente os
da tua cr.

--Mas, homem, eu no te peo a collaborao politica, posto que ella me
fosse extremamente agradavel e vantajosa... Mas, ao menos, a
collaborao litteraria. A litteratura pertence a todos os campos e no
impe solidariedade de principios, nem sequer afinidade de ideias
politicas. O meu jornal est a precisar de sangue novo... Eu esforo-me
por fazer d'elle um jornal moderno, mas sou s e todo o meu esforo se
perde por no ter uma penna vigorosa, uma penna brilhante que me
secunde. Alm d'isso, o publico no est educado, o publico no
comprehende o que  bom nem o que  mau, e d'ahi resulta preferir o mau
a que est habituado, deixando no olvido e na indifferena o que  bom!

--Por esse lado, tenho eu a certesa de que no me havia de escassear
publico...--disse Jorge rindo.--Mas no, meu caro, eu no estou
resolvido a collaborar em jornaes...

--Fazes mal! O jornal  ainda hoje uma arma formidavel, a unica que a
sociedade respeita, porque  a unica que a faz tremer.

--Mas eu no pretendo amedrontar ninguem--tornou Jorge impassivel.--No
tenho ambies, no alimento a vaidade de querer tornar-me celebre por
nenhum titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade do meu
gabinete e a suave alegria de um estudo que me no cana  lucta
violenta do jornalismo diario, famulento Minotauro, que consome vida,
actividade, talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o sacrifica.
Deixemos isso, meu Joo, e dize-me: sempre partes hoje para Lisboa?

--No. Demoro-me ainda por c uns dias, no sei quantos...

--Bem! Folgo com a tua permanencia entre ns...  signal de que tiveste
bom acolhimento por parte dos teus amigos...

Joo Lazaro fez uma carta de despeito.

--Uns pulhas, os taes meus amigos!

--O que! Acaso no ests contente com elles?

--Queres que te falle com franqueza? A ti posso dizer tudo, porque s
meu amigo...

--Bem sabes que no tenho o menor interesse em revelar as confidencias
que me fazes.

--Pois bem; declaro-te que estou arrependido de me haver sacrificado por
um partido de verdadeiros bilhostres!

--Ai, j?!

--J! E, com franqueza, agora no me fica bem recuar... seria um
escandalo compromettedor da minha popularidade, do meu nome... Mas,
acredita, que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas vistas,
fazia-o sem a mais leve hesitao.

--No pdes... isso com certeza no pdes--tornou Jorge.

--Pois esse  todo o meu desespero! Tenho de permanecer atrelado a estes
imbecis que n'uma hora de irreflexo surprehenderam a minha camaradagem,
e no posso tirar d'elles a vingana que merecem!

--Mas de que te queixas? Qual  o motivo do teu desgosto?

--So uns miseraveis! No ha quem lhes apanhe dinheiro para nada...
Estou compromettido, cheio de dividas, porque tenho gasto sommas
enormes, tudo para honrar o partido e sustentar o brilho do meu nome,
unica coisa que ainda d importancia a esse agrupamento de idiotas...

--s modesto, Joo!--interrompeu Jorge rindo.

--Que diabo! entre amigos no ha necessidade de estarmos com cerimonias.
A verdade  esta...

--Tens razo. _Inter amicus non est gerigona_, dizia-se no meu tempo.
Continua.

--Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto que no passava de
um plano bem combinado para arranjar uma somma de que preciso para me
livrar de apuros. Bato  porta dos correligionarios mais endinheirados
de Lisboa e digo-lhes que preciso de vir ao norte combinar com os nossos
amigos um golpe decisivo, mas que no posso vir sem dinheiro, porque
elle , ainda hoje como sempre, a grande arma, a suprema fora. Claro
est, eu no pedia para mim, pedia para o servio do partido, para o
triumpho da causa... Calcula l as difficuldades que tive de vencer para
lhes arrancar os magros cobres com que fiz a viagem?

--Calculo, calculo... o dinheiro  sangue!...--disse Jorge com sarcasmo.

-- sangue... mas no teem elles obrigao de dar o _sangue_ pela
patria?

-- que elles no esto talvez bem convencidos de que a patria s tu...

--Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira imagem, pelintra e cheio
de necessidades como ella! Dar-me dinheiro a mim  dal-o  patria,
porque ella tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre misso o
salval-a! Pois os grandes burros no se capacitam d'isto!

--Mas, afinal, de que tens tu vivido?

--D'elles. Hoje um, amanh outro, todos teem ido largando os cobres,
persuadidos uns de que a coisa estava para j, outros pela simples
vaidade de se aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria... Mas
agora comeam a retrahir-se, e sei que alguns at j teem dito que lhes
sou pesado em demasia! V tu l, acham pesado o mais brilhante ornamento
do seu partido!

--O mundo est cheio de ingratos, meu caro!

--Agora chego ao Porto, appello para o seu esforo, reclamo dinheiro 
ordem para a realisao do meu plano, e contra a minha espectativa, em
vez de prem  minha disposio os seus cofres, torcem o nariz e
perguntam-me quanto  preciso, como se isto fosse uma sacca de arroz ou
um costado de bacalhau que convm regatear!  inaudito, no achas?

--Acho... acho que vieste sem dinheiro e que voltas sem elle... Meu caro
Joo, sejamos francos, tens levado uma vida de expedientes, uma vida de
explorao politica que no podia durar sempre... Tu devias pensar que
no ha minas inexgotaveis e que o mais vigoroso organismo no resiste a
sangrias repetidas...

-- certo, mas eu no vim ao mundo para viver de ar e de esperanas...
Tenho trabalhado, tenho sacrificado a minha mocidade, a minha vida, 
justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio...

--Mas, que diabo! o teu auxilio  perfeitamente inutil, improficuo, e os
factos demonstram que, em vez de prestares auxilio, o verdadeiro
auxiliado s tu...

--Ests muito enganado! Eu tenho segredos que valem dinheiro... Se eu
quizesse fallar, se eu quizesse reduzir a dinheiro tudo o que sei, no
teria difficuldades...

Jorge sorriu.

--Isso tambem eu creio--disse elle.

--E afinal  o que eu venho a fazer, se vir que elles no correspondem 
sinceridade e dedicao com que eu os tenho servido...

--Queres dizer, se no continuarem a corresponder...

--Pois est claro! Eu no tenho obrigao de respeitar mais os
interesses d'elles do que os meus...

Houve um silencio de alguns minutos.

-- verdade, ainda te ds com o Avioso?--perguntou o Lazaro.

--Continuamos a ser amigos como sempre fomos.

--Esse homem  meu adversario politico, dos mais ferrenhos e
intransigentes, mas eu pessoalmente sympathiso com elle.

-- um bello e generoso caracter. O peor defeito que lhe conheo  o de
ser politico.

--Talvez me convenha aproximar-me d'elle...

--Quando quizeres, estou ao teu dispr.

--Por emquanto no. Deixa ver no que isto pra... Mas, se me fr
preciso, conto comtigo, com a tua discreo, com a tua amizade...

--J sabes que estou sempre ao teu dispr...

--Bem; havemos de fallar.

N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento intimo do
aventureiro, e disse comsigo:

--Temos o chefe mudado em espio...

Joo Lazaro accendeu um charuto e passado um instante, expellindo uma
fumaa:

--A vida est para os vadios, para os valdevinos, para os impostores...
Olha aquelle rapaz por quem na dias me perguntaste no _Suisso_, o
Eugenio de Mello, como vae casar-se com uma herdeira rica, hein!

-- verdade... Elle deu-te parte do seu projecto de casamento?

--Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a respeito d'esse negocio,
nem pio! Os amigos, em geral, so assim... guardam o melhor para elles.

-- que no estar ainda definitivamente resolvido o enlace...

--Mas tu disseste-me que sim...

--Foi o que constou. Mas tu sabes o que so os homens de dinheiro.
Primeiro que se resolvam a consentir no casamento de uma filha, tratam
de indagar se o noivo tem bens que correspondam  fortuna que vae
adquirir... E como tu dizes que elle no tem nada de seu...

--No tem onde cia morto, essa te posso eu jurar!

--Ento ahi est! talvez que no sejas tu o unico a saber essa
particularidade com respeito ao teu amigo, e d'ahi sobreviessem
difficuldades... Apesar de que o procurador Belchior affirma, segundo
ouvi, que elle possue importantes propriedades no Alemtejo.

--O procurador Belchior? Que sabe o procurador Belchior cerca do
Eugenio?

--No sei... talvez indagasse.

--Pois se indagou e diz que elle  rico, mente! Ahi ha de haver por
fora grande embrulhada.

--Talvez. No emtanto, o Belchior  muito amigo d'esse tal Eugenio, que,
no obstante, gasta dinheiro a rodos e sustenta bisarramente a fama de
rapaz rico...

-- custa do commendador Garcia...

--Ser, no contesto. Mas para ser dinheiro fornecido por uma mulher
n'essas condies, parece-me demasiado... Salvo se ella tambem  rica...

--No , mas o commendador dispende muito com ella.

--Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte de receita para tamanha
dissipao...

--Elle tambem joga, e s vezes a sorte favorece-o.

--O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza e nunca uma fonte de
receita, tu bem o sabes...

--Pois  verdade; mas como tem cambiantes, permitte a illuso...

--Nada! Com to pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel viver como vive,
dispender como dispende, e, sobretudo, conquistar a amizade do
procurador Belchior... Alli deve haver mais alguma coisa...

--A no ser que o procurador v feito com elle para embarrilar o
capitalista...--aventurou Joo Lazaro.

--Tambem pde ser. Julgo o Belchior muito capaz d'isso.

--Hei de averiguar!--tornou o Joo Lazaro.

--Que interesse tens tu em o saber?

--O interesse que tem todo o homem em conhecer as patifarias do seu
semelhante... Imagina tu que este Eugenio de Mello manh me apparece
rico, senhor de grandes capitaes, personagem importante na politica e
que, por uma d'estas reviravoltas to frequentes no homem que muda de
posio para melhor, acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama
amigo e offerece ceias?...

--E se tal acontecer, que te importas tu com isso?  mais um biltre que
ficas conhecendo...

--Pois sim, mas  um biltre que me offender impunemente, se eu no
tiver o cuidado de ir archivando as notas das suas patifarias d'hoje,
para lhe dar com ellas na cara manh, quando elle se fizer fino...

--Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese, nem mais me
lembrava d'elle... O meu despreso seria castigo sufficiente  sua
canalhice...

--Nada, nada, menino!--protestou Joo Lazaro--Quem o inimigo poupa nas
mos lhe morre...

--Elle, porm, no  teu inimigo...

--Mas pde ainda vir a sel-o... E a experiencia tem demonstrado que o
homem previdente est sempre a coberto dos maiores perigos...

--Tu s extraordinario, Joo! Se procedes assim com os amigos, como
proceders com aquelles a quem odeias?...

--Queres ver? Olha!

Joo Lazaro metteu a mo no bolso e tirou d'elle uma carteira que abriu.

--Tenho aqui--disse elle--uma relao dos meus inimigos--a quem hei-de
um dia dar lembranas minhas...  uma espcie de lista da loteria em que
s esto os nomes dos individuos _premiados_... V!

Apresentou a Jorge uma longa relao de nomes conhecidos.

--Para que  isto?--perguntou Jorge.

--Para que? So _crdores_ meus a quem tenciono _pagar_ um dia... Ha-de
ser uma _liquidao_ completa!

E fez um gesto de quem aperta um lao.

--Serias capaz d'isso, Joo?--disse Jorge n'um tom sombrio.

--Oh! os candieiros no se fizeram para outra coisa! Has-de vr...
Hei-de dar-te o espectaculo duma _illuminao_ como nunca viste.

--No dars...

--Porque?

--Porque se a _festa_ se preparar, eu j sei que, para evitar o
espectaculo de uma semelhante _illuminao_, tenho de te procurar e
metter-te uma bala na cabea antes de mais nada.

--Tu!

--Eu.

--Mas o caso no  comtigo. Tu no s meu inimigo.

--Mas posso vir a parecl-o, e com um homem como tu,  preciso estar
sempre prevenido...

Joo Lazaro estremeceu. Cobarde at ao extremo, teve mdo de Jorge.

--Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que no posso nunca duvidar da
tua amizade. Alem d'isso, eu estava gracejando...

--E a gracejar confeccionaste esta lista...

--Para apavorar simplesmente.  uma frma inoffensiva de
vingana--aterrar os que so meus inimigos, os que me fizeram mal!...

Jorge sorriu com despreso:

--Mau processo  esse de apavorar os inimigos com ameaas que no
tencionas realisar...--disse elle.

--Ao menos sobresalto-lhes as noites...--replicou o Joo Lazaro.

--Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que compromettes os teus
dias... Queres um conselho, Joo?

--Dize l?...

--Rasga essa relao de nomes, que  o mais infame documento que pdes
dar do teu caracter... e se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a
leviandade de a mostrar, pede-lhe que esquea tamanha indignidade.

--Jorge, vejo que levas muito mais longe do que eu suppunha um caso de
mera brincadeira da minha parte!--disse Joo Lazaro, verdadeiramente
compromettido.

-- que a mim revoltam-me os actos de cobardia, mesmo quando no passam
d'uma inveno absurda e idiota.

Fez-se um silencio constrangido entre os dois.

--A prova de que nem sequer houve ou ha da minha parte a inteno de
realisar a vingana quo te disse contra os individuos cujos nomes
figuram n'esta relao, est em que t'a mostro justamente no momento em
que mais afastado vou ficar do campo que lhes  hostil..

Jorge encarou-o.

--Vaes ento mudar de campo de aco politica?--perguntou.

--No vou mudar, mas vou conservar-me inactivo, indifferente. No me
entendo com semelhante canalha!

--Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem dinheiro para a
realisao do teu decantado plano, o que fars?

--Ao dinheiro? Gasto-o.

--E ao plano?

--O plano vou realisal-o para Hespanha; e  possivel que eu por l fique
e mais elle...

Jorge riu-se.

-- ento ainda uma mystificao que projectas?

--Mystificao, propriamente dita, no ... Estreitarei relaes com os
principaes vultos da peninsula, darei importancia ao meu partido, farei
que se falle n'elle e se julgue uma fora muito mais consideravel do que
... Isto creio que  servio de algum valor e que bem vale o dinheiro
que me derem...

--E se no conseguires que te dem coisa alguma?

--Terei que pedir emprestado aos adversarios--que, mais avisados, no me
recusaro o que os meus correligionarios me negam...

--Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste se eu estou ainda em
boas relaes com o Avioso?

--Foi.

--Mas tu sabes que o Avioso no confiar em ti, se eu no te apresentar.

--E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso?

--Conforme. Se te comprometteres comigo a no abusar da boa f do
Avioso, estou ao teu dispr. Do contrario, no.

--At fao mais... Isto para tu veres a minha lealdade...

--Dize l!

--Eu no me aproximo do Avioso, para no dar nas vistas nem despertar
suspeitas... Fao-te as communicaes a ti para tu lh'as transmittires.
J vs que assim assumo a responsabilidade inteira para comtigo.
Acceitas?

--Est combinado. Acceito.

--Mas... tu comprehendes... a minha situao financeira  difficil...

--J sei. Quanto?

--Por uma vez s?

--No. Por mez.

--Diabo! Eu no sou um espio vulgar...

--O que  bom paga-se bem. Quanto?

--Duzentos mil reis ser muito?

--No sou eu que hei-de dizel-o...

--Pois quem?

--Tu e mais ninguem. No se compra o homem, compra-se o servio...

--Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis por mez e eu prestarei
servio que valer muito mais.

--Tl-os-has.

--Mas--observou Joo Lazaro com uma certa hesitao--ha ainda uma
coisa...

--Dize.

--Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos serios que no posso
protelar por mais tempo.

--Bem sei, precisas de um adiantamento...

-- isso.

--Quanto calculas que te seja preciso?

--N'esta data, seiscentos mil reis no era tudo, mas era um grande
auxilio.

--No ha duvida. Eu creio que o Avioso far o adiantamento. Mas, tu bem
sabes, elle  curioso, excessivamente curioso mesmo...

--Comprehendo.

--Ento, se comprehendes, no perderei tempo a explicar-te qual a
maneira de obteres do Avioso a somma que desejas.

--Olha l: uma relao completa dos que mais se salientaram nas ultimas
reunies secretas e das resolues n'ellas tomadas bastar por emquanto?

--Basta.

--Nesse caso, manh, se, como eu supponho, as minhas difficuldades no
forem removidas por outra frma, trarei tudo isso.

--Est bem.

--Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso?

--Fallo.

--Mas recommenda-lhe o maior segredo e discreco. Que isto no
transpire por modo algum.

--A quem mais interessa guardar segredo  a elle. Bem vs que,
inutilisado o agente, de nada serviria gastar dinheiro com elle.

-- precisamente isso.

--No ha, pois, que recommendar-lhe um segredo que a elle proprio convem
guardar.

Joo Lazaro accendeu outro charuto.

--S a tua grande amizade e dedicao me poderia levar a isto!

Jorge sorriu.

--A minha amizade e a sovinice sordida dos teus amigos...

-- claro. Mas se no confiasse tanto como confio em ti, eu no
acceitaria uma aproximao de semelhante natureza com o Avioso.

--E eu, se no fosse to teu amigo como sou e no sentisse um grande
desejo de te auxiliar na situao difficil em que te encontras, tambem
no tomaria sobre mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te dinheiro.
A proposito: sempre partes breve para Lisboa?

--J, j, no. Demoro-me aqui ainda alguns dias. Mas quando partir para
Lisboa, de l mesmo nos entenderemos.

--Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas indagar a especie de
relaes que existem entre Eugenio de Mello e o procurador Belchior?

--Estou resolvido a tratar d'isso.

--No me disseste que esse Eugenio tem uns amores inconfessaveis,
occulta fonte de receita que equilibra o largo oramento em que esto
representados todos os vicios com as respectivas verbas de despeza?

--Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais: essa loura, ciumenta
como um demonio e apaixonada como uma gata, j sabe que Eugenio projecta
casar-se.

--Sabe? Quem lh'o disse?

--Eu. Tu no me pediste segredo.

--Nem me interessa que ella o no saiba.

--Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu me propuz, e tomou amores
com Eugenio de Mello. A hora da minha vingana havia de chegar, e
chegou. Accendi-lhe um inferno de ciumes no corao, e a esta hora est
ella esperando impaciente que eu lhe leve as minhas informaes e as
minhas ordens.

--Eu j sabia isso.

Joo Lazaro encarou o amigo com espanto.

--J?!--perguntou.

--J.

--Como o soubeste?

--Eu sei tudo.

--No suppuz que te interessassem os meus actos a ponto de me mandares
espionar.

--No fui eu. Bem sabes que alguem mais do que eu se interessa em saber
a tua conducta.

--Ah! sim...--fez Joo Lazaro reflectindo.--Mas esta visita que eu fiz
no tinha caracter politico--e no acho correcto que me espionem e me
sigam n'uma aventura galante com o mesmo encarniamento com que me
perseguem quando eu conspiro...

--Vamos a saber--disse Jorge.--Tens interesse em que Eugenio de Mello
no realise o casamento com a filha do capitalista?

Joo Lazaro fez uma carta.

--No me importo absolutamente nada com isso. O meu empenho  s
castigl-o pela sua falta de franqueza e lealdade para comigo. Devia
ter-me dito que ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto pelo
que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita a Leonor, vingo-me
e preparo o terreno para occupar a praa, que vae ficar abandonada.

--Se Eugenio casar...

--Quer case, quer no, Leonor no lhe perdoar. Convencida do que o
amante quiz trahil-a casando com outra, cortar immediatamente as suas
relaes com elle, e, para se vingar, tratar de o substituir pelo maior
amigo do perfido. Ora ella sabe que o maior amigo de Eugenio sou eu...

--E portanto, s tu o que reune as maiores probabilidades de vir a ser
admittido ao logar vago...

--Justo!

-- curiosa essa aventura!

-- curiosa, mas muito vulgar entre amigos.

--Ser, mas entendo que deves proceder com cautela...

--Porque?

--Porque no te fica bem que se torne publico o teu papel nada invejavel
n'essa intriga. Queres fazer uma coisa?

--Dize.

--No envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer aventura sem me
consultares primeiro. Valeu?

--Est dito. Mas no te esqueas de fallar ao Avioso. Estou immensamente
precisado de dinheiro...

--No me esqueo.

O aventureiro estendeu a mo a Jorge, despedindo-se.

--Adeus--disse elle--Amanh procuro-te.

--Pois sim. Adeus.

Quando Joo Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou com a vista at elle
transpr a porta da sala, murmurou:

--Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel!




XV

Conluio infame


No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente o dono da
casa e o seu amigo e confidente, o procurador Belchior.

--A coisa  esta:--dizia o procurador--com pannos quentes no se faz
nada.

--Ai, j? Voc j  da minha opinio?--replicou o Custodio,
triumphante.--Pois, meu amigo, se eu, contra o meu genio, tenho usado de
pannos quentes, a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar da minha
auctoridade de pae e levar a rapariga  fora  igreja, voc no
deixou... Segui o seu parecer, tentei levar as coisas pela brandura, e
agora  tarde para tomar outro caminho...

--Qual outro caminho?

--O caminho d'onde eu nunca devra ter sahido... o caminho da
auctoridade e do rigor paterno... Mas agora, depois de eu ter descido
at ao ponto de chorar diante da rapariga e de a deixar levantar a
crista, a julgar que estou dependente da sua proteco, como  que eu
hei-de chegar ao p d'ella e dar-lhe dois safanes e quatro berros que a
faam entrar na ordem?

--Mas no  preciso nada d'isso, homem!

--No  preciso? Pois voc diz que com pannos quentes no se arranja
nada e acha que no  preciso empregar a fora?

--Acho que se pde empregar a fora, sem que voc passe por ser um pae
cruel...

--Pois est claro que eu tambem no vou empregar a violencia diante de
gente. O que se passa em minha casa escusa de se saber no meio da rua.
Mas no posso... a rapariga perdeu-me o respeito, agora... boas noites!

--Homem, deixe-se de tolices... Ha uma fora que ns podemos empregar
muito bem e a que a pequena no ter remedio seno obedecer...

--Mas que fora  essa ento?

-- a fora das circumstancias, homem! Quem  que no se dobra  fora
das circumstancias?

-- demonio, mas essa fora j eu empreguei; j disse  pequena que as
nossas circumstancias no podiam ser mais desgraadas e nem assim
consegui convencl-a.

--Pois bem; mudemos de systema--disse o Belchior, piscando um olho.

--Mudemos do systema como?--perguntou o Custodio, sem comprehender.

--Se ella no quer largar o tal namorico, obriga-se o namorico a
largal-a a ella...

--Quer voc dizer que lhe mande eu dar uma carga de pau, qualquer noite
quando elle c vier  porta... Mas isso o que faz? A rapariga  capaz de
tomar o freio nos dentes e ento  que no haver foras humanas que a
obriguem a acceitar este casamento...

--Ninguem falla em empregar esses meios violentos...

--No?

--Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado pratico. Aqui o
caso  outro...

--Mas ento diga l.

O Belchior fitou demoradamente o Custodio e disse:

--A questo  voc querer...

--Pois eu quero! Tomra eu... Diga l, homem!

--O processo  um bocado exquisito, mas d resultado...

--Se d resultado, vamos a elle!--concordou o Custodio--Ento como 
isso?

-- d'uma maneira muito simples; rapta-se a pequena...

--Hein! O que? Rapta-se?

-- claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo e conduzem-se as coisas
de modo que a rapariga no tenha remedio seno casar com o Eugenio...

--Mas...--obtemperou o Custodio indeciso--torne a dizer, que eu no
percebi bem?...

--Isto no tem que perceber: combina-se um passeio ao campo... Vae voc
com a pequena, vou eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos por
l, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada afasta-se para mais
longe com a Beatriz, a admirar a paisagem...

--Sim... E depois?

--Depois, o Eugenio, que est emboscado com dois amigos, salta de l,
agarra na Beatriz, mette-se n'uma carruagem e parte com ella a todo o
galope. Minha cunhada grita, tem um desmaio, ns acudimos, mas j 
tarde--no lhe podemos valer... O resto segue-se depois naturalmente...

--O resto... Mas qual resto?

--Ora qual resto! O casamento. Pois que quer voc que se siga seno o
casamento depois d'isto? Beatriz, depois de raptada, no ter remedio
seno acceitar por marido o homem que a raptou...

--No sei... Ella  muito capaz de ainda assim recusar...

--Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade de casar com
esse pintalegrete que lhe endoideceu a cabea ou com outro qualquer que
no seja o Eugenio, no ter remedio seno resolver-se...

--E voc sabe l se o rapaz, ainda mesmo assim desiste?

--Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E depois d'ella
desacreditada, s se elle no tiver vergonha.

--Desacreditada! Ento a rapariga ha de ficar desacreditada? Isso no...
isso  que eu no consinto! No  por mais nada... Mas emfim... ella usa
o meu nome, passa por minha filha, e eu no estou para me sujeitar e
andar fallado nas bccas do mundo!--recusou honestamente o marido de D.
Carlota.

--Que diabo! Voc no sabe que tudo isto  uma _planta-frma_ para
obrigar a pequena a casar? Que diabo tem que a rapariga seja raptada,
uma vez que o raptor a receba por mulher?

O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns instantes como que
ruminando o plano do seu amigo Belchior.

--A coisa--disse elle por fim--talvez desse bom resultado... Mas isso
era um escandalo de seiscentos diabos!

--Pois era... era um escandalo bastante grande, e isso mesmo era o que
convinha...

--O que! Convinha o escandalo--interrogou o Custodio
escandalisado--Ento voc quer que eu, como pae--porque afinal ella no
tem outro--goste e ver uma filha minha ou que passa por isso mettida em
escandalos?

--Voc no comprehende, Custodio, voc no comprehende... Isto era
escandalo e no era escandalo... E como naturalmente fazia barulho, a
cidade alvorotava-se com a noticia do rapto e isso era justamente o que
convinha...

--Mas convinha porque?--insistiu o Custodio.

--Convinha por todos os motivos. Em primeiro logar, Beatriz, depois
d'este escandalo, comprehenderia que no podia casar com outro homem,
seno com o Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella teimasse em
alimentar no corao essa paixoneta pelo tal estudantelho que a namora,
no teria remedio seno curar-se, porque o rapaz, depois d'ella
desacreditada, no a queria e no lhe tornava a apparecer... Depois da
_praa_ abandonada, que remedio ter a pequena seno render-se?

--Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, emfim... como  rapaz e
estroina, depois de a ter raptado, no se resolve a tomal-a por mulher,
seno debaixo de certas condies?

--Quaes condies?

--Por exemplo... exigir que eu augmente o dote  rapariga e querer que
se faam escripturas, de modo que o que  d'elle fique perfeitamente a
coberto...

--O Eugenio no  capaz d'isso!--protestou o Belchior.

--Eu sei l! A gente v caras e no v coraes... Depois da rapariga
perdida, eu no terei remedio seno sujeitar-me s condies que elle
impuzer... Nada, isso no  bom plano.

--Pois ento, meu amigo, o melhor  desistirmos do negocio, porque no
vejo outro meio...

--Desistir tambem no... Talvez que, se eu a mettesse n'um convento com
ordem de a tratarem com rigor e de no a deixarem fallar nem escrever ao
namoro, isso desse bom resultado.

--No d resultado nenhum. Que diabo! Voc  um homem desconfiado com
quem se no pde tratar nada a srio...

--O mal dos meus burricos  que me tem feito alveitar--volveu o Custodio
coando a suissa--Por eu ter confiado demais nos amigos  que aquelle
ladro do padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... Depois  que
eu vim a saber tudo... Mas era tarde, j lhe no podia dar remedio...

--Pois sim, mas agora no se trata de lidar com gente de sotaina... Voc
conhece-me ha muito tempo e sabe que tenho sempre zelado os seus
interesses como se fossem meus...

--Bem sei isso, mas o caso no  propriamente com voc, Belchior. Se
fosse voc que tivesse de casar, eu acceitava o plano com os olhos
fechados, porque bem sei que voc no era homem capaz de faltar ao que
promettesse... Mas com esse rapaz o caso  outro...

--No  outro nada...--replicou o Belchior.--Se elle se comprometter
comigo a casar com a pequena nas mesma condies em que est tratado,
cumpre com toda a certeza.

--E se no cumprir?

--Isso no pde ser... Mas se elle cahisse na asneira de faltar ao
contracto, eu cahia-lhe em cima com uma querella, que elle havia de ir
por uma barra fra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para a
justia...

--E o que lucrava eu com isso?--perguntou o Custodio com um sorriso
velhaco.

--O que lucrava?

--Sim, o que lucrava eu, se a justia lhe apanhasse todos os haveres
pela maroteira feita a mim?

--Homem, ninguem quer metter-se em assados... Logo que elle visse que o
caso era srio, chegava-se  razo... Voc no comprehende?

--Comprehendo... isso comprehendo eu...--mascou o Custodio indeciso.

--Ento, se comprehende, que mais quer?

--E voc compromette-se a fazel-o cumprir?

--Est claro que comprometto! Eu fallo com elle, percebe? Fallo com elle
e proponho-lhe o expediente do rapto como coisa minha... No lhe digo
que voc est feito comnosco, porque, emfim, voc  pae e  preciso
salvar as apparencias...

--Sim, isso  bom... Mesmo para elle me no perder o respeito.

--Justissimo!  isso mesmo!--apoiou o procurador.--Offereo-me a
proporcionar-lhe ensejo para a obra, mas imponho-lhe a condio de que
ha de casar sem mais preambulos e sem mais contratos, logo que seja
encontrado com ella.

--Justo!--disse o Custodio.

--Porque, se assim no fizer, compromette-me e ento ser comigo que
elle ter de se haver... Est bem assim?

--Est optimo!--apoiou o Custodio radiante.

--E o dito dito--tornou o Belchior--eu levo a percentagem combinada...

--Isso est sabido. Arranje voc as coisas de modo que o casamento se
faa nas condies combinadas e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas.




XVI

O rapto


Dois dias depois da conferencia entre o procurador e Custodio, Beatriz,
que fra convidada pela mulher e a cunhada do Belchior para as
acompanhar n'um passeio ao campo, levantou-se de manh muito contrariada
por no poder furtar-se ao convite que lhe no proporcionava o minimo
prazer.

O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se levantado muito
cdo, resmungava de modo que a filha o ouvisse, maldizendo a lembrana
de o convidarem para um passeio que alterava os seus habitos e talvez
lhe puzesse a saude em risco.

--Ora a minha desgraa!--clamava elle--No basta ter tanta coisa que me
afflija, seno ainda agora obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo
campo, a apanhar sol e a aturar senhoras!

--Mas se o pap no quer--propoz Beatriz--manda-se dizer que est doente
e no vamos...

--Isso no! No pde ser. O Belchior ficaria desgostoso...

--Mas se  um caso de fora maior...

--No, j agora, estou a p, sempre vou... No quero que o homem
supponha que no tenho desejo de lhe acompanhar a familia. Mas isto
custa-me muito, porque a minha idade j no permitte estas folias...

A este tempo parava um trem  porta e o Belchior e a familia subiam
aodadamente, gritando:

--Ento vamos?

--Vamos l... estou prompto!--disse o Custodio ao Belchior--A pequena
tambem j est preparada, acho eu...

A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se aos aposentos de Beatriz
n'uma grande alegria:

--Vamos, avie-se, sua preguiosa! Ento ainda n'esse estado?

--Estou prompta.  s levar para o carro um pequeno cesto com umas
coisas que mandei preparar...

--O qu! Mandou fazer de comer? Que tolice! Ns levamos alli comida que
chega para um regimento!...

--Por demais no perde...--apoiou o procurador--Vamos embora que so
horas... O bonito  sahir cedo para andarmos por l todo o dia...

Entraram no carro, um _char--bancs_ enorme, e seguiram as duas familias
aos solavancos em direco  quinta da Lavandeira.

A mulher e a cunhada do procurador no faziam seno soltar exclamaes
de admirao e alegria, encantadas com a paisagem.

A tudo achavam graa, tudo achavam muito bonito.

Obtida a permisso de entrarem na quinta, n'essa epocha ao cuidado dos
caseiros, seguiram os passeiantes por baixo do copado arvoredo,
dividindo-se em dois grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro
pelos dois homens.

O procurador, allegando que para baixo todos os santos ajudam, despediu
o cocheiro, dizendo-lhe que no voltasse, porque regressariam a p para
a cidade.

--Vamos indo devagar por ahi fra e at  mais pittoresco... no acha,
amigo Custodio?

--A distancia, realmente, no  grande...

--Em chegando  Bandeira, estamos em casa... A rua do General Torres
desce-se bem...

--Eu cuidei que o passeio era para mais longe--disse a mulher de
Belchior.

--Mais longe para que? Aqui estamos muito bem... A quinta  bonita e 
muito grande, d bem logar para passearmos... E quando nos sentirmos
canados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o que faz bem  o ar...

Passou-se o dia como no podia deixar de ser n'uma horrivel monotonia
para Beatriz, que de modo algum podia achar-se bem n'uma companhia que
no lhe offerecia o menor sentimento de agrado.

O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, repisando o
assumpto. As duas senhoras que constituiam a familia do procurador,
esgotado o reportorio da m lingua contra a vizinhana e varias outras
familias conhecidas, calaram-se e, sentadas  sombra de uma arvore
frondosissima, comearam a cabecear com somno.

Haviam-se levantado cdo e resentiam-se do longo passeio.

Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia entregue a um
aborrecimento cruel, que a punha de muito mau humor.

Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de que talvez no lhe fosse
possivel vel-o, fallar-lhe na noite que ia seguir-se a um dia to
horroroso.

No pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o mancebo havia duas
noites que no apparecia a fallar-lhe.

Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia o futuro dos dois o
deviam ter afastado do Porto por alguns dias, mas no se affligisse
ella, porque elle voltaria com boas novas.

--Mas o que vaes fazer?--perguntara-lhe interessada em tudo o que o
mancebo intentava.

--Permitte-me que por ora t'o no diga, meu amor. Breve sabers tudo e
tenho bem fundadas esperanas de que has-de applaudir o meu
procedimento.

Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre os seus designios,
quando Paulo no tinha tido at alli um unico pensamento que lhe no
communicasse, impressionou-a.

E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento do seu bem
amado que a pobre Beatriz se encontrava n'aquelle dia, um dos mais
aborrecidos e tristes de toda a sua vida, porque, alm das mgoas
intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a e a aggravar-lhe o
soffrimento a presena de pessoas que, se no lhe eram odiosas, eram-lhe
pelo menos antipathicas.

Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram enthusiasmar-se n'uma
grande polemica a proposito de uma questo commercial palpitante; e com
grande profuso de gestos e de berros, interrompiam-se frequentemente um
ao outro, sem chegarem a accrdo. De modo que, esquecidos da distancia
que os separava do Porto, foram deixando-se ficar at ao cahir da tarde.

A noite estava de luar, serena e calma, convidativa de longo passeio
pela fresca.

--So horas de nos irmos chegando a casa...--advirtiu a mulher de
Belchior, quando notou que a conversa se ia demorando.

-- verdade, vamos indo...--disse o procurador, travando de brao de
Custodio para continuar na discusso acalorada em que estava
interessado.

E voltando-se para as senhoras:

--Andem l adiante...

Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e deserta.

As damas, levando Beatriz cada uma por seu brao, tomaram a dianteira, e
muito alegres, muito lepidas, iam cantarolando por entre dentes alguns
numeros mais populares de uma revista em voga.

--Ah! que dia to bem passado!--exclamava a cunhada do procurador--No
ha nada para abrir o appetite e dar saude  gente como  um passeio ao
campo!

--E a noite est linda!--accudiu a mulher do Belchior--d mesmo gosto
passeiar por uma noite assim! No gosta do campo, Beatrisinha?

--No desgosto...--volveu a namorada de Paulo com o corao oppresso de
ignoto receio.

O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniados na controversia,
paravam de vez emquando, falando muito, gesticulando, adduzindo
argumentos sem tom nem som.

Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem a distancia a que
queriam encontrar-se no momento do assalto.

--Deixe-as ir... deixe-as ir...--murmurava o Belchior--Quanto mais longe
estivermos d'ellas, mais facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva
 pequena.

Assim foram caminhando, at que, n'uma volta da estrada, as damas deram
de frente com um trem parado, quasi obstruindo a passagem.

Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na direco que ellas
levavam, para poderem continuar o seu caminho. Mas rapidamente dois
homens mascarados saltaram  estrada e, sem darem tempo  mais leve
resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a para dentro do
carro, que partiu em carreira desabrida.

--A mulher e a cunhada do procurador, industriadas pelo marido e
perfeitamente conhecedoras do que havia de succeder, quando viram partir
o carro, desataram a gritar por soccorro, simulando uma grande
afflico.

Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram para ellas muito
aodados, perguntando:

--O que ? O que aconteceu?

--Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram a Beatrizinha e fugiram
com ella dentro d'aquelle trem!

E apontavam a carruagem que desapparecia n'uma curva da estrada.

--E ella no gritou?--disse o procurador.

--Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe a voz, de modo que a
pobresinha no se tornou a ouvir!

--Talvez a amordaassem...--aventurou o Belchior.

--Ou talvez perdesse os sentidos...--concluiu a mulher.

O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, e levando as mos
 cabea, no fazia seno gritar:

--Oh! minha filha! minha filha! desgraado de mim, que me roubaram a
minha filha!

--Um rapto!--gritava o procurador--O crime foi praticado de noite, e de
noite bastam os indicios... Vamos j ter com a auctoridade da freguezia
e apresentemos-lhe a queixa...

--E quem diremos que foi o raptor?--perguntou o Custodio.

--Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois quem havia de ser?

-- Sim... foi elle...

--Est visto que foi--tornou o procurador--Elle queria, ella no
queria... raptou-a!

E em tom mais baixo:

--Convem affirmar desde j que o vimos e o reconhecemos perfeitamente,
que  para o entalarmos logo desde o principio, de modo que no haja
outro remedio seno fazer-se o casamento sem escripturas.

--Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... Eu bem o reconheci... Isto
no  coisa que se faa a um pae!

--Mas que coisa! que coisa!--dizia a mulher do procurador, simulando a
maior consternao.--Ainda no estou em mim!

--Ai, meu Deus!--accrescentava a cunhada--Em que perigo ns nos
mettemos! Olhem se aquelles malditos se lembravam de me raptar tambem a
mim!

-- senhora?!--disse inconvenientemente o Custodio, com um sorriso
escarninho.

--E ento?--retorquiu a cunhada do Belchior, offendida--Eu sou solteira,
e elles eram dois...

--Ahi est a prova!--affirmou o procurador--Vinham dois e raptaram s
uma... Logo, provar que o reu premeditou o crime, porque escolheu a que
lhe fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, no ha que ver... Vamos ter com
o regedor para perseguir os fugitivos!

Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho que conduzia ao
largo da Bandeira, em Villa Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois
das nove horas da noite.

Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, e
contaram-lhe o succedido.

--E para onde fram elles?--perguntou o funccionario.

--Ns ainda os seguimos um bocado gritando; mas ninguem nos accudiu, e
afinal perdemol-os de vista...

--Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam quem fossem?

--Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles descobriu-se sem querer,
deixando vr o rosto, e todos ns reconhecemos um rapaz que vive no
Porto e que se chama Eugenio de Mello.

--Bem!--concluiu o regedor--Eu vou mandar os meus cabos indagar, a vr
se descobrem os criminosos... E amanh dou parte para a administrao.
Mas sempre ser bom os senhores apparecerem l para formularem a queixa.

E preparando-se para tomar nota n'um papel:

--Os seus nomes, fazem favor?

O Belchior declinou os nomes de todos, figurando elle, a mulher e
cunhada como testemunhas e o Custodio de Jesus como queixoso.

--Vou j mandar proceder a rigorosas pesquizas na minha freguezia--disse
o regedor--a vr se se encontram os delinquentes. Mas, amanh, o sr.
administrador ter conhecimento do facto e tomar as providencias
precisas...

--Veja v. s.^a, sr. regedor, a situao em que me encontro com uma filha
roubada nas minhas barbas!...--lamuriou o Custodio.

--E demais a mais, menor!--declamou o procurador-- crime de casamento
ou penitenciaria!

--Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem as tem!--Concluiu o regedor.

--E agora--disse o Belchior muito solicito--em chegando  cidade, vamos
direitos ao commissario de policia, apresentar a queixa...

--Est visto...--apoiou o regedor--Ninguem sabe o caminho que os
fugitivos tomaram, e a policia, telegraphando para todos os concelhos,
pde muito bem fazel-os capturar...

--O que vale  que ns conhecemos o raptor...

--Sim, isso  meio caminho andado--disse o regedor--e se tivessem
photographias, ainda melhor...

--A verdadeira photographia  o nome--accudiu o procurador--Elle 
conhecido.

--Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles esto na minha freguesia, mas
no me parece... Amanh, amanh na administrao do concelho, o snr.
administrador dar as ordens.

Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido no trabalho de
empacotar prgos para a Africa, voltou  sua tarefa, logo que os viu
sahir.

--E d'aqui para a policia!--bradou o Belchior j na rua.

Metteram pela rua do General Torres abaixo, em direco  cidade.

--Tudo correu bem!--segredava o procurador ao Custodio--Agora, na
policia,  que a coisa vae dar echo... Talvez amanh saia nos jornaes...

-- diabo! mas isso  uma vergonha... fica-me a rapariga perdida!

--E voc a dar-lhe! Ella fica mas  achada, porque no ter outro
remedio seno casar com o Eugenio...

--Sim... isso  verdade.

--Pois ahi est! Quanto maior fr o escandalo, melhor. Deixe fallar os
jornaes... Tomaramos ns que elles berrassem bastante... At nos
convinha...

--Mas os jornaes s depois d'amanh  que se occuparo do caso, porque
j hoje no vo  policia...

--Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto  preciso no deixar
arrefecer... Precisamos de lhe tapar todas as sahidas... Ella ha-de
casar, quer queira, quer no!

Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, e vejamos o que foi
feito de Beatriz, a essa hora seguindo caminho desconhecido na companhia
dos dois mascarados que a raptaram.

Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles dois homens, Beatriz
quiz resistir e gritar, mas vendo-se cingida por uns braos possantes e
atirada para dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal a
commoo que soffreu, que perdeu os sentidos.

Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida vertiginosa, um dos
mascarados quiz naturalmente serenal-a, porque disse n'uma voz repassada
de ternura, pegando-lhe na mo:

--Beatriz!

Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos lados do trem, no se mexeu.

--Beatriz!--tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe levemente a mo fina e
delicada.

O mesmo silencio e a mesma immobilidade.

Esto o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe sobre o rosto,
poz-lhe a mo na fronte, que estava banhada de suor frio, e notou que a
filha do Custodio no respirava.

--Perdeu os sentidos!--disse elle visivelmente commovido.

-- natural--replicou o companheiro.--Compleio franzina e delicada,
assustou-se e desmaiou.

--E agora?--perguntou o que primeiro fallara.

--Agora  caminhar... caminhar sempre at chegarmos a casa... O trem vae
em boa carreira e no devemos demorar muito a chegar l.

E vendo que o companheiro se mostrava de cada vez mais inquieto e
afflicto:

--No te assustes--tranquillisou.--Isso passa.  um ligeiro deliquio,
que at nos favorece o bom exito da empreza.

--Parece-me que no somos seguidos.--tornou o outro, inquieto.

--Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava to bem combinado e
tudo correu to de molde ao nosso desejo que os que podiam impedir-nos
foram os proprios que nos auxiliaram?...

-- verdade. Elles conservavam-se a distancia, mandando as senhoras
adiante...

--J esperavam o lance, os patifes!

--Pois  claro. O que eu queria era vr a cara d'elles quando souberem
que a raptada seguiu caminho differente d'aquelle que lhe haviam
assignalado...

--Era para Villar do Paraiso, pois no era?

--Era.

O trem havia descido a rua do General Torres e parara  entrada do
taboleiro inferior da ponte D. Luiz para pagar a portagem.

--Estamos na ponte--disse o primeiro dos dois desconhecidos.

--Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade.  questo de meia hora.

Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou o seu caminho, sem que
alguem reparasse na veloz corrida que levava. Andou assim meia hora, at
que a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em frente de um
largo porto de ferro.

--Eis-nos, emfim!--disse um dos dois raptores.

E levando um apito aos labios, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.

Immediatamente o porto se abriu e a carruagem entrou n'um largo pateo,
seguindo por uma extensa alea de frondosos castanheiros, at junto de
uma casa de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os vastos
campos que a circumdavam.

Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo nos braos Beatriz,
ainda em deliquio, para uma sala interior ricamente mobilada.

Depositaram a pobre creana sobre um sof, e rapidamente, correndo-se um
reposteiro, appareceu na sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez
aspirar a Beatriz um frasco de saes.

Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras ao ouvido da dama e
retirou-se; o outro, tirando a mascara, ficou com os olhos pregados em
Beatriz, sem preferir palavra.

Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, abriu os olhos e
circumvagando um olhar pela sala, soltou um grito d'alegria.

--Paulo! s tu?--disse ella.

--Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se da namorada, pegou-lhe
na mo e beijou-lh'a com transporte.

--Paulo!--tornou a filha de Custodio, visivelmente intrigada--o que 
isto? Como me encontro eu aqui?

--Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te salvei de um grande, de
um enorme perigo...

--Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram na estrada... Meu
Deus!--disse ella, recordando-se da scena estranha que se dra.--Mas
como pudeste tu saber?

--Pude saber que te queriam raptar, d'accrdo com teu pae e com o
procurador Belchior--esclareceu Paulo:--Era uma cilada infame que te
estava armada e em que te queriam fazer cahir...

--Com o consentimento de meu pae?!--gritou Beatriz horrorisada.

--Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que fui advertido da
desgraa a que semelhante infamia ia condemnar-te, resolvi substituir os
raptores e, em vez d'elles, apresentar-me eu a raptar-te.

--Ah! ento os dois homens que me assaltaram no caminho e me lanaram
dentro do carro...

--Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior ficaram persuadidos de que
foi Eugenio de Mello quem effectuou o rapto, porque tinha de se
realisar, estava combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a
esta hora que, em vez de cahires nas mos do noivo que te queriam impr,
ests ao lado do escolhido do teu corao!...

Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama desconhecida que, junto
d'ella, o estava fitando com expresso de ternura maternal.

--E esta senhora--disse ella--quem ?

Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois que era ella, respondeu 
pergunta:

-- uma amiga que muito a estima e que s deseja a sua felicidade, minha
filha.

-- minha me!--accrescentou Paulo, beijando carinhosamente a mo 
religiosa, mais elegante e sympathica nos seus trajes seculares.

Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz:

--Este louco--disse ella--teima em querer impr-me um titulo que me no
pertence e a que de forma alguma tenho direito...

--No diga isso, minha me!--protestou Paulo--Pois quem me acalentou na
infancia, quem protegeu e amparou os meus primeiros passos, quem tem
tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras e carinhos de
uma me por seu filho? Conheci eu outra me? Ouvi alguma vez palpitar
junto do meu bero outro corao que no fosse o seu, grande e generoso?

--Mas, meu filho...--ia a dizer madre Paula commovida.

--Meu filho! vs?--interrompeu o mancebo voltando-se para Beatriz--Diz
que no  minha me e chama-me seu filho!

Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade e doura:

--Meu filho,  a formula terna, cariciosa do meu tratamento para
comtigo... Mas se me deves affeies e cuidados que outra qualquer no
meu logar te dispensaria,  todavia bem certo que outra tem direito 
funda venerao e aos ternissimos affectos do teu corao de filho...

--Outra!--exclamou Paulo indignado--Quem quer que ella seja no a
conheo, nunca a vi nem desejo vel-a! Se tive outra me, aquella de quem
a natureza ou a fatalidade se serviu para me lanar a este mundo,  to
pouco o que lhe devo em affeio e tanto o que d'ella me veio em dres e
soffrimentos, que j fao muito no a odiando, para smente sentir por
ella indifferena.

--Paulo, no digas isso!--reprehendeu madre Paula--Sabes que me
mortificas fallando assim. No te aconselhei e no busquei sempre
incutir no teu corao o sentimento do amor e respeito que se deve aos
paes?

--Perde-me, minha boa me! Os seus conselhos no foram esquecidos nem
os seus esforos baldados. E a prova  que a amo e a respeito com todas
as vras da minha alma, com todas as foras do meu corao. Mas como
quer que eu tenha os mesmos affectos, os mesmos ternos sentimentos de
respeitosa venerao por uma outra que no conheo, que nunca vi, que me
abandonou e me deixou entregue  generosa caridade de seu nobre corao,
minha boa e santa me? A ella devo os soffrimentos, as angustias da vida
que eu lhe no pedi e que de bom grado dispensava. A madre Paula devo
tudo o que um filho deve a sua me: devo-lhe o amparo, o carinho, a
proteco o amor que uma boa me tem sempre por seu filho. Quem , pois,
minha me? A quem devo eu todo o respeito, toda a obediencia, toda a
estima e gratido que constituem a obrigao de um filho para com seus
paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos que me deram o sr e me
abandonaram?

E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa e commovida a esta
scena:

--Responde tu, minha amiga! Tu, que tens sido tambem victima da
crueldade e dureza de um pae descaroado e egoista, que a todo o momento
te torturava, consulta o teu corao e dize-me se sentes por elle o
mesmo enternecido affecto que sentias por tua me, de quem me tens
fallado com to viva saudade?

Beatriz corou e disse:

--Se  um crime no amar os paes, que, depois de nos terem lanado ao
mundo, se julgaram dispensados de ter por ns disvellos e amoravel
compaixo para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou tambem
uma grande criminosa... Por meu pae no senti nunca o suave e dce
affecto que me inspirava minha pobre me. Ella era meiga, terna e
bondosa para mim. Elle, rispido, austero, scco, intratavel. Nunca me
dispensou um affago, nunca teve para mim um sorriso, a no ser agora,
nos ultimos tempos, quando, representando commigo uma comedia...
inclassificavel, queria sacrificar o meu corao ao dinheiro de um homem
que eu no podia amar. At ahi, porm, s teve para mim arremessos,
gestos bruscos, despotismos de senhor que se v compellido a tolerar um
escravo de que deseja desfazer-se. Depois da morte de minha me, esse
mau tratamento accentuou-se de cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar
que, se eu morresse, a minha morte seria motivo de grande alegria para
meu pae. No ia vr-me ao collegio, no me escrevia uma carta, no
buscava saber de mim, nem mesmo quando uma ligeira doena me prostrava
no leito. Contentava-se em pagar todas as despezas mas ternura paternal,
este dce sentimento que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade
de um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem que no existia
n'elle... Chorei muito a minha orphandade, cheguei mesmo a pedir a Deus
a morte. E quando via o alegre alvoroo das minhas companheiras ao
receberem noticias dos paes que adoravam, perguntava a mim mesma porque
 que a lembrana de meu pae no despertava em mim o mesmo sentimento, e
o meu corao ficava frio e indifferente.

Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida com o tom de
sinceridade e candura que ella punha n'estes dizeres.

--Minha filha--disse-lhe a abbadessa--eu creio bem que, apesar de no
sentir por seu pae os extremos de ternura que seriam para desejar, no
sentiu nunca por elle indifferena e muito menos odio...

--Oh, no, minha senhora! Meu pae inspirava-me receio e temor pelo seu
genio desabrido, pela rispidez e quasi rancor com que me tratava. Mas eu
no pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha obediente... E
ainda mesmo quando elle falsamente allegava que dependia de mim a sua
velhice socegada e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por
elle, tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade e com os
sentimentos do meu corao.

E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar caricioso e apaixonado.

--E todavia--observou Paulo--esse homem no tem o minimo direito 
obediencia e ao affecto de Beatriz! Um pae que desce  ignominia de
consentir no rapto violento de sua filha para a obrigar a casar com o
homem que ella detesta,  um miseravel, um monstro despresivel, no  um
pae!

--Paulo! Paulo... ento!--supplicou Beatriz.

Madre Paula interveio:

--O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, no ha duvida; mas
a Providencia encarregou-se de o punir, fazendo voltar contra elle as
proprias armas da perfidia que queria empregar contra a filha.

E dirigindo-se a Beatriz:

--Minha menina--accrescentou--agradea ao co o havel-a protegido e
amparado contra a odiosa cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem
praticar nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se
liberta do homem a quem queriam entregal-a com manifesta repugnancia do
seu corao e grave offensa da sua reputao e da sua honestidade. Aqui
se conservar em minha companhia, se assim o deseja, em quanto no puder
livremente dispr do seu destino, unindo-se pelos laos conjugaes ao
escolhido do seu corao. Servir-lhe-hei de me e serei uma garantia
segura da rectido e honestidade de seu comportamento. Quer assim?

--Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto a minha alma se sente
agradecida por tanta bondade e to valiosa proteco!

--Paulo vir vl-a--continuou Madre Paula--mas fallar-lhe-ha sempre na
minha presena, para que a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e
correco com que ambos procuram unir os seus destinos. Espero, pois,
que d'este modo concorrerei para a realisao dos seus mais vivos e
ardentes desejos, sem que uma leve sombra de suspeita possa macular a
honra e a reputao dos meus queridos filhos.

Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente a mo da gentil
abbadessa.

Esta, sorrindo com um carinho e uma doura verdadeiramente maternal,
disse para Beatriz, levantando-a nos braos:

--Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar servir-lhe uma leve
refeio e acompanhal-a em seguida ao seu quarto.

E dirigindo-se a Paulo:

--Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a
estima e o affecto que tens encontrado no meu corao.




XVII

Quem semeia ventos...


O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao
commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de
Mello, accusando-o do rapto de Beatriz.

O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos
declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores.

A policia pz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio,
esfregando as mos de contente, recolheu a casa  espera dos
acontecimentos.

--Agora, amigo Custodio--disse-lhe o Belchior--como tudo correu  medida
dos nossos desejos, v descanado, que o casamento no leva oito dias a
fazer-se...

--Como o rapaz no tenha ainda gasto toda a cortia da
quinta...--respondeu o Custodio com um sorriso velhaco--o casamento vem
em ba occasio.

--Deixe l, que por falta de cortia no  que o negocio ha-de ir ao
fundo...

Despediram-se, promettendo voltar a vr-se no dia seguinte.

Ao chegar a casa, porm, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um
bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o
procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manh, para,
saber que novidade tinha havido.

-- ba!--disse o procurador  mulher--Este maluco rapta a rapariga e
quer que eu lhe diga a novidade que houve!

--Mas--observou a esposa--quando te deixou elle esse bilhete?

--No sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o
por algum portador de confiana, depois do rapto.

--Mas elle diz que veio procurar-te e que no te encontrou...

-- verdade! Confesso que no percebo isto... Elle no iria com ella
para Villar do Paraiso como haviamos combinado?

--No sei... no estaria o dono da casa prevenido para os receber?...

--Qual! estava tudo prevenido.  uma casa isolada no fundo de uma quinta
e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido...
Nada, aqui houve tolice do rapaz...

Intrigado com o bilhete de Eugenio, que no sabia como explicar, o
Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que
levava o negocio do casamento a bom caminho.

No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio
entrou:

--Ento?--disse-lhe o procurador.--Voc j aqui, em vez de estar a
convencer a pequena!

--Qual pequena?--interrogou Eugenio, sem comprehender.

--Qual pequena?  boa! Ento voc no sabe o que fez?

--O que fiz? Eu no fiz nada, e no sei de quem me falla...

--Essa agora! Pois voc quer-me metter em cabea que no raptou a
Beatriz?

--Eu?!

--Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?!

--Mas se lhe digo que no pratiquei rapto nenhum...

--Mau!--disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava
gracejando.--Isto so negocios muito serios e eu no gosto d'essas
brincadeiras!

--Que diabo! mas se lhe estou dizendo que no brinco... Voc mandou-me
um recado, prevenindo-me de que no fosse, que o rapto no podia
effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois
d'isto, fosse raptar a pequena?

--Com os diabos!--berrou o procurador, desesperado.--Mas eu vi! Voc,
quer-me negar uma coisa que eu presenciei?!

E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira
grossa:

--Olhe que isso no  digno, ouviu? Eu bem sei aonde voc quer chegar...
Mas comigo  preciso vr como se fazem, porque eu no sou menino que se
deixe enganar!

O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio
zombeteiro, meio ameaador:

--Voc est doido, amigo Belchior?

--No estou doido nem voc  capaz de me tirar o juizo, percebeu? 
preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e voc ha de
cumprir tambem, ou ento temos muito que vr!

--O que quer voc dizer com isso, Belchior?

--Quero dizer que escusa voc de vir negar o rapto que eu presenciei,
com a ideia de se furtar a entregar-me a commisso que tinhamos
combinado... Eu sei qual  a sua ideia... A sua ideia  fazer-se com o
Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a
chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mo... De
voc, descubro tudo, digo quem  e quem no , fao vr que no tem onde
cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio no prefere
mandal-o por uma barra fra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer
fino e me quizer ser falso, tenho c uns certos segredos que o
compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo  preciso
muito cuidado, ouviu? Eu no me deixo ir assim na rde, ainda que a voc
lhe parea o contrario!...

O procurador punha tal indignao nas suas palavras, que Eugenio
comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer.

--Homem, no se zangue e fallemos srio--disse elle, procurando serenar
o Belchior.--Eu no percebo uma palavra do que voc est para ahi a
dizer...

--No percebe? Ah! voc agora no percebe, mas eu sou muito capaz de o
fazer preceber...--tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que
o aventureiro o queria enganar.-- preciso que se lembre de que eu
estava l, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mos 
pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim no
se me nega e bem pde voc vir com um santo Christo dizer-me o
contrario, que eu no o acredito.

--Pois no fui, amigo Belchior, creia que no fui!--protestou Eugenio,
verdadeiramente espantado das affirmaes do procurador.

--No foi! Ento quem foi?

--No sei. Eu  que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que no
entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que voc me mandou recado a
dizer que o rapto ficava transferido para outro dia...

--Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?

--Certamente. Eu estava no _Suisso_, eram quatro horas da tarde,
conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem,
que me chamou de parte e me disse: O sr. Belchior manda dizer que tenha
a bondade de no ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o
passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe
explicar os motivos. Ouvindo isto, perguntei-lhe:--Onde est o sr.
Belchior?--Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e no
regressa a casa d'elle seno  noite. Ora, depois d'isto, como queria
voc que eu fosse raptar a pequena?

O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.

Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos
de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do
bohemio.

--Sim... tudo isso est muito bem--disse elle.-- Mas o peor  que a
rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada
viram, e ninguem podia ter sido seno voc...

--Mas voc no est gracejando, amigo Belchior?--interrogou por sua vez
o bohemio.--Realmente Beatriz foi raptada?

--Essa agora! Ento no sabe que o foi?

--Ah! sim... ento foi raptada por outro!... No tem duvida.. Voc
indemnisa-me dos prejuizos e est o negocio arrumado...

--Dos prejuizos... Que prejuizos?

O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convico:

--Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois,
entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me
arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra unio
mais vantajosa. Tudo isto so prejuizos que eu no estou disposto a
soffrer; e voc, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso...

--Com seiscentos diabos!--gritou o procurador desvairado--Ento j o
ladro  o roubado, hein! Ento a voc no lhe basta raptar a rapariga e
negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu
no saiba, para me no darem nada, seno ainda por cima quer que eu lhe
d dinheiro, a titulo de indemnisao? Diz que gastou mundos e fundos! E
de quem era esse dinheiro, no faz favor de me dizer? A conta est alli,
e o preto no branco falla como gente!

E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio.

-- verdade!--replicou o rapaz com soberano despreso--E esse preto no
branco, que voc alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente
que voc  o maior ladro que a roda do sol cobre!

--Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa!--berrou o
procurador n'um gesto de ameaa.

--Esta casa no  sua,  dos desgraados que voc tem esfollado, seu
malandro! A sua casa  a penitenciaria, e l  que voc devia estar.

--Pulha!--regougou o Belchior, rouco de colera--Ponha-se l fra!
ponha-se l fra!

O bohemio avanou para elle com o punho estendido. O procurador, livido
de medo, foi recuando at  parede.

Ento ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mo vigorosa
sobre o hombro, disse:

--Amigo Belchior, voc escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu
no tenho que perder, e s posso ganhar... Tome bem conta no que lhe
digo: eu no sou homem de quem se escarnea impunemente. Voc fez raptar
a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu no tinha
empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differena e eu no posso
perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisao e ou voc m'a d ou lhe
mando a vida para o inferno.  um ladro que fica de menos no mundo e os
tribunaes, se no me absolvrem, tambem no ho-de dar-me grande pena.
Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque
no tenho nada que fazer c fra... Pense n'isto e no seja tlo. Eu no
sou exigente. Receberei mesmo em prestaes. Adeus!

O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se
apressado a casa de Custodio.

No podia crr no que ouvira da bcca do bohemio, e parecia-lhe, em face
de tamanha audacia, que havia j combinao feita entre Eugenio e o pae
de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commisso que ambos
haviam combinado dar-lhe.

-- incrivel--murmurava elle--a desfaatez com que aquelle maroto nega
uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisao! Agora o
que falta  que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise...
Ah! mas no tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo no brincam elles!

Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no
momento mesmo em que este se preparava para sahir.

--Ia agora mesmo a sua casa--disse-lhe o agiota.

--Sim? Ento o que ha de novo?--perguntou-lhe o Belchior, que tivera
tempo de serenar e recobrar o sangue frio.

--Que eu saiba, no ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos
de ir  administrao de Villa Nova de Gaya ratificar as declaraes que
fizemos hontem ao regedor e  policia...

--Pois est claro que sim!--tornou o procurador--Agora  carregar-lhe
com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo
que elle no possa negar ainda que queira...

--Voc julga-o capaz d'isso?--perguntou o Custodio em sobresalto.

--No... eu no o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe d o
diabo na cabea para se arrepender e dizer que no foi elle?  preciso
que a gente tenha fora nas declaraes para o obrigar.

--Mau! Mas voc no fallava assim antes do rapto...--observou o Custodio
desconfiado.

--Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu no sou homem de
duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse  que ficava
por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar.
Mas para isso  preciso que voc me ajude e puxe certo...

--Eu estou prompto!--volveu o Custodio--Diga voc como quer que puxe...

O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda
nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, no estava combinado
com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame
negocio.

--Trabalha por conta propria--pensou--e quer vr se faz jus a mais
dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas est
enganado.  mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder
tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!

E voltando-se para o Custodio de Jesus:

-- teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci,
porque deixou vr a cara na occasio em que raptava a pequena... Minha
mulher e minha cunhada juram a mesma coisa... e voc, j se sabe, tem de
dizer comnosco... no nos pde contradizer...

--gora contradigo! N'essa no caio eu...

--E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que no foi, ou
casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de l...

--Mas a voc palpita-lhe que elle seja capaz de negar?--insistiu o
Custodio de cada vez mais apprehensivo.

--A mim no me palpita nada... Mas voc nunca ouviu dizer que o seguro
morreu de velho?  preciso a gente prevenir sempre o peor...

--Bem; pois ento vamos l para o administrador de Gaya.

Chegaram  praa de Carlos Alberto, tomaram um trem  hora e partiram
para Villa Nova.




XVIII

Revelao


O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de ter assistido aos
ultimos momentos de Maria do Carmo, tirou da sotaina a sacca das libras
e o manuscripto que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para dentro
da gaveta da sua secretria, sem se dar pressa em observar de perto o
estranho legado.

Vinha fatigadissimo e como a idade j lhe no permittia prolongadas
vigilias, recolheu-se ao leito, reservando para o dia seguinte o exame
do mysterioso manuscripto.

A confisso da velha, porm, impressionara-o.

Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem, pelo que lhe dissera
madre Paula, que o novel capelo da Covilh era filho do padre Anselmo.
O que de todo o ponto ignorava eram as particularidades que a velha lhe
revelra nos ultimos momentos.

Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem d'aquelle filho que o
padre Anselmo parecia querer encobrir, no obstante a grande proteco
que sempre lhe dispensra e que era o que afinal trahira o seu segrdo.
Mas, comparando os relativos cuidados havidos para o padre Hilario com o
abandono a que Paulo fra votado, o padre Filippe no sabia explicar a
differena, seno pelo grau de affecto que separava aquellas duas mes
no corao do padre Anselmo.

Todavia, madre Paula suppunha a _Irm Dorotha_ vivendo em paiz
estrangeiro, protegida pelo seu seductor, a essas horas talvez elevado
ao cargo de Provincial ou Assistente, com outro nome diverso do que a
principio tivera. E n'este caso, como  que os dois esqueceram Paulo,
deixando-o entregue aos cuidados de duas pessoas amigas, de quem mais
no quizeram saber?

Emaranhado n'esta ordem de consideraes, o padre Filippe adormeceu,
reservando para o dia seguinte a leitura do manuscripto, que talvez
viesse fazer luz em to escuro labyrinto.

Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos ns avaliar pela
conversao que, na tarde d'esse mesmo dia, se travou entre elle e madre
Paula, na casa das Sereias.

--Sabes, minha amiga--disse o padre Filippe, entrando na cella da
abbadessa--que tive noticias do padre Anselmo?

--Sim?--perguntou madre Paula com curiosidade.

-- verdade. Noticias bastante retardadas, mas em todo o caso novas para
mim e creio que tambem para ti...

--Decerto. Ha muitos annos que no tenho noticias do padre Anselmo. 
ainda vivo?

--No sei. A pessoa que d'elle me fallou  j morta, e, ao expirar, no
soube dizer-me se elle ainda vivia.

--Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo?

--Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura muito d'elle...

--Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a vi duas ou tres vezes
procurar o padre Anselmo, quando elle se demorava n'esta casa.

--Eu no a conhecia, mas fui chamado hontem  noute para a ouvir de
confisso, porque a pobre creatura no queria morrer sem fazer
revelaes importantes.

Contou ento toda a conversao que tivera com a moribunda e o legado de
que ella o fizera depositario.

--E o manuscripto o que diz?

--O manuscripto--replicou o padre-- uma sentida e commovente narrativa
feita pela me do padre Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu
nascimento e dando conta dos funestos amres que, desde muito nova
ainda, a ligaram ao padre Anselmo...

-- singular!

--Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa mulher no vira mais o
filho desde o momento em que o dra  luz. O padre Anselmo
arrebatara-lh'o da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua
educao, conservando no mais rigoroso mysterio as circumstancias do
nascimento d'aquella creana. Chamava-se Carlota a me, e por suggestes
do padre Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado Custodio de
Jesus...

--Custodio de Jesus!--repetiu madre Paula, sobresaltada.

--Sim, Custodio de Jesus--tornou o padre Filippe--Porque te sobresalta
esse nome?

-- porque Custodio de Jesus se chama tambem o pae de Beatriz, a
namorada de Paulo; e creio ter ouvido dizer que esse homem residira
primitivamente em Braga.

-- extraordinario!--exclamou o padre Pilippe--Dar-se-ha caso que
Beatriz seja filha da amante do padre Anselmo?

--No sei.  possivel, como  possvel que a propria Beatriz seja...
irm de Paulo.

--Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo que no transpire a menor
suspeita do que se trata.

Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa.

--Chamava-se D. Carlota--disse--a me do padre Hilario?

--Chamava.

-- ella mesma quem se declara casada com Custodio de Jesus, no
manuscripto que te veio s mos?

--. E posto no diga claramente que as suas relaes intimas com o
padre Anselmo continuaram, bem o deixa perceber nas differentes
passagens em que se refere s supplicas que frequentemente lhe fazia
para que a deixasse vr e beijar o filho, seu unico amor, sua unica
aspirao.

--De modo que--tornou ainda madre Paula--se Beatriz  filha de D.
Carlota...

--No haver remedio seno impedir por todos os modos o casamento
d'essas duas creanas, ainda mesmo que no tenhamos a certeza moral do
impedimento dirimente.

--E teremos ento que revelar a Paulo o segredo do seu nascimento?

--No me parece que o devamos fazer emquanto no tivermos esgotado todos
os outros meios ao nosso alcance.

--Paulo ama loucamente essa menina e  correspondido com igual
vehemencia por parte d'ella... Creio bem que ser empreza difficilima
arrancar ao corao dos dois um sentimento que alli tem creado to
fundas raizes.

--Buscaremos convenientemente empregar os nossos esforos no sentido de
suavisar o melhor que pudermos o golpe que talvez sejamos obrigados a
vibrar-lhes... E se queres que te diga, minha querida, acho
extemporaneas quaesquer consideraes a esse respeito... Primeiramente,
devemos informar-nos acerca da identidade d'esse Custodio de Jesus. Pde
muito bem acontecer que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos,
se trate apenas de um homonymo do marido de D. Carlota.

--Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias do convento.

--O que no convem--recommendou o padre Filipe-- que Paulo tenha
conhecimento d'estas nossas indagaes que no devem perder o caracter
do mais intimo segredo...

--Descana, meu amigo. Paulo nada saber.

N'essa mesma tarde, madre Paula chamou  sua cella uma das serventuarias
do convento e incumbiu-a de averiguar e saber de certeza certa quem era
Custodio de Jesus, que pessoas compunham a sua familia, qual o seu
estado, e como se chamava a me de Beatriz.

--Quero saber isto com a maxima exactido e a mais breve possivel--disse
madre Paula.

--Isso  uma coisa que eu vou j tratar de saber... Alli perto tenho uma
alminha do senhor, muito devota e que sabe a vida de toda a gente da
vizinhana... Ella diz-me tudo assim que eu l fr...

--Veja l, olhe que tenho o maximo interesse em saber tudo...

-- minha senhora! Fique vossa maternidade descanada que lhe trago aqui
tudo sabidinho, sem faltar nada... Eu parece-me que essa familia no 
l de grande religio, porque no tenho ideia de a vr muito pelas
igrejas...

--Saiba se esse Custodio de Jesus  de Braga e se vive c no Porto ha
muito tempo.

--Sim, minha senhora.

--Saiba tambem se a me da menina que  filha d'elle, e que se chama
Beatriz, tem o nome de D. Carlota...

--Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso...

Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava com tudo sabido.

--J aqui estou de volta com tudo na ponta da lingua!--disse lpida a
cuscuvilheira.

--Ento, o que soube?

--O homem  de Braga, chama-se Custodio de Jesus e j c est no Porto
ha muitos annos. Empresta dinheiro sobre _hybotcas_ e pelos modos leva
coiro e cabello... Tem m fama, mas  home de dinheiro...

--E a familia?

--A familia  s elle e mais a filha e mais a creada--uma _focinho de
co_ que primeiro que se lhe _arrinque_ uma palavra do bucho  um dia de
juizo!

--E a mulher? Elle no  casado?

--J  viuvo duas vezes. A primeira mulher morreu-lhe ainda elle estava
em Braga... Chamava-se D. Carlota e d'essa no teve filhos. A segunda
chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama de trazer mundos e
fundos, mas acho que eram mais as vozes do que as nozes...

--E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem?

--Pois j se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro muito rico...

--Ento esta menina Beatriz  filha da segunda mulher, da tal snr.^a D.
Anna?...

-- como diz, minha senhora! Ella  um palminho de cara muito bonito...
E parece que no ha de ter mau interior; mas o pae, que  m farda, no
a deixa pr p em ramo verde... Veja l como aquella alminha ha de estar
carregada de peccados!

--Tem vocemec bem a certeza de que essa menina Beatriz  filha da
segunda mulher do Custodio de Jesus?

--Ento no tenho, minha senhora?! Aquillo foi chegar a casa d'aquella
santa Maria do Rosario e ella contar-me tudo p-a-p Santa Justa, nem que
estivesse a lr n'um livro aberto! E olhe que ella no me engana, porque
quem lhe disse tudo, como era e como no era, foi a criada do seu
_prscurador_ chamado o _snr. Mlchior_, que  l todo da casa do
Custodio de Jesus e mais as senhoras d'elle, que so as que contam estas
coisas todas diante da criada... Inda ella honte l esteve, porque
agora, pelos modos, vae l um inferno em casa p'ra amr do
namorico--Credo! Santo nome de Jesus!--que a pequena traz com um
estudante que se chama Paulo... E o pae quer mas  que ella case com
oitro, que diz que  pdre de rico.

--Est bem!--disse madre Paula.

--Veja l a senhora as _desgracias_ que vo por esse mundo, tudo causado
pela falta de religio e temor de Deus!...

--Est bem!--repetiu madre-Paula, despedindo a devota onzeneira.--V na
graa de Deus e escusa de dizer a alguem que eu a incumbi d'este
servio...

Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre Paula disse jubilosa:

--J sei tudo. O pae de Beatriz  o mesmo Custodio de Jesus, marido da
D. Carlota do padre Anselmo... porm, esta pequena  filha do segundo
matrimonio... A me era uma tal D. Anna, que tambem j morreu, pois que
o Custodio de Jesus  viuvo duas vezes...

O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula:

--As tuas informaes condizem perfeitamente com aquellas que eu pude
obter...

--Ah! tambem indagaste?

--Tambem. Ha, porm, um ponto escuro que eu ainda no pude aclarar...

--Qual ?

-- que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada em Lisboa pelo
padre Anselmo, e esta pequena Beatriz, se no tem mais, deve ter pelo
menos uma idade que regula por esse tempo...

--D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo, dizes?

--Morreu.

--Como o sabes?

--Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora extrema.

--De modo que essa desgraada no chegou a vr o filho?

--No.

--E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda  vivo, deve ignorar quem
foi sua me?

--Decerto.

--Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor especie!--disse ainda
horrorisada a bella abbadessa.

--O padre Anselmo, que ns conhecemos, era um facinora como tantos
outros que se acobertam com a religio santa do Crucificado... Ambicioso
e profundamente perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo 
sua desmedida ambio...

--Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha? Quem sabe?

--Para isso, bastaria s que ella lhe fosse um leve estorvo na sua
carreira de crimes...

--No terias meio de indagar se ella ainda vive?

--Como? Se  hoje Provincial ou Assistente e usa de outro nome, como
poderei descobrir-lhe o rasto? Mas nem isso agora nos serviria de nada.
Paulo  para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua tomamos
sob a nossa proteco essa creana devemos proceder para com ella como
se foramos seus unicos e verdadeiros paes... De que serviria sabermos
que o padre Anselmo e a irm Dorothea so ainda vivos? A me renegou-o
ao nascer, e o pae nem talvez tivesse noticia do seu nascimento. Dizer
ao filho o nome dos que lhe deram o sr era ensinar a Paulo o nome dos
que devia amaldioar... No, minha amiga... Sejamos caridosos para com a
pobre creana. Uma vez que no tem fundamento o nosso receio de que
Beatriz seja irm de Paulo, deixemol-os amarem-se e unirem-se
livremente. Concorramos na medida das nossas foras para a sua unio e
que sejam felizes amando-se como ns nos temos amado sempre.

O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta a despeito da idade,
sellou estas ultimas palavras com um delicado beijo na face de madre
Paula, que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante de
alegria.

--Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre o mesmo generoso e nobre
corao!--disse ella commovida.

--Esse Custodio de Jesus--continuou o padre Filippe retomando a sua
attitude grave--, ao que me consta, um sordido usurario que sonha um
casamento rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o d'este
proposito, que seria desculpavel se elle no tivesse a certesa de que
vae assim sacrificar o corao de duas pobres creanas.

--Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer a dar o seu
consentimento...

--J me lembrou isso. Mas se elle alguma vez veio a ter conhecimento dos
amores da sua primeira mulher com o padre Anselmo, a presena de um
homem de sotaina no deve ser-lhe muito sympathica... E talvez mesmo
que, em vez de o demover a favor de Paulo, isso o irrite e de cada vez
mais o mantenha no proposito de contrariar o casamento...

Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se fra da porta da cella a voz
de Paulo:

--D licena, minha me?

--Ah! s tu? Entra, entra, meu filho!--exclamou a abbadessa correndo ao
seu encontro.

O mancebo beijou-lhe a mo com respeito filial, e vendo o padre Filippe
dirigiu-se a elle, de braos abertos, dizendo com sincera alegria:

--Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos quando tanto precisava de
os consultar e pedir o seu conselho e o seu auxilio!

--Tu dirs, meu amigo, o que desejas--disse, bondoso, o padre Filippe--e
se fr, como creio, coisa compativel com as nossas foras, pdes dispr
de ns...

Paulo principiou dizendo:

--O que venho pedir-lhes  realmente um sacrificio... Mas sacrificio de
que est dependente a minha vida, mais que a minha vida, toda a minha
felicidade futura, e porisso espero bem que o no recusaro ao seu
filho, a este filho que no conheceu nunca outros paes nem tem no
corao logar para outro affecto igual...

--Falla, falla, meu Paulo!--animou com doura a bondosa abbadessa.

--O caso  este--continuou o mancebo--Beatriz, de quem lhes tenho
fallado, est em risco de ser victima de uma monstruosa infamia com a
cumplicidade de seu proprio pae!

--O que! O que dizes tu, meu filho?--interrogou madre Paula.

--A verdade, minha me!

O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo, parecia observal-o
com atteno.

--Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem uma accusao terrivel
para o pae da tua amada, o que  sempre uma coisa grave e digna da maior
censura, quando se no tem a certeza do que se affirma...

--Mas eu tenho a certeza!--protestou Paulo--E porque a tenho  que venho
pedir-lhe o auxilio no sentido de obstar a que tal infamia se realise.

--Falla!--disse o padre Filippe.

O mancebo prosegniu:

--Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de ter inutilmente
envidado todos os esforos para coagir a filha a casar com um tal
Eugenio de Mello, que se diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu,
de combinao com o pretendente e com o procurador Belchior, que tem
sido o agente d'esta ignobil negociata, proteger o rapto da propria
filha, com o fim de, por este meio, a violentar a acceitar o noivo que
se lhe impe e que ficar sendo o unico que em taes condies no duvide
recebel-a por esposa.

--Isso  impossivel, Paulo!--bradou madre Paula, indignada--No ha um
pae que pense em realisar uma tal monstruosidade! Tu s por fora
victima de um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem que deseja
vr at que ponto vae a tua cegueira por essa menina, que no te recusas
a acceitar invenes de tal ordem!

--No, minha me!--volveu Paulo--O que lhe digo  absolutamente certo e
vae realisar-se, se eu o no impedir como me cumpre. Um amigo intimo de
Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na miseravel aventura
foi quem o declarou diante de mim.

-- o que eu digo! gracejo de rapazes.

--No  gracejo como suppe, minha me. Quem isto revelou fel-o em taes
circumstancias que no podia nem lhe era permittido gracejar. O rapto
est combinado e deve effectuar-se amanh, durante um passeio ao campo
que as duas familias--a do Belchior e a de Beatriz--teem preparado.

--E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem armar?

--Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a.

--O que tencionas ento fazer?--perguntou o padre Filippe.

--Castigar o miseravel pae que assim malbarata a honra da propria filha
n'um trafico infame, aproveitando-me das circumstancias por elle
preparadas, para lh'a raptar eu.

--Tu?!

--E porque no? Se ella me ama e eu a adoro e a quero para minha mulher,
heide deixar que m'a roubem e levantem entre mim e ella uma barreira
impossivel de transpor--a barreira da deshonra? Tenho tudo prevenido e
tudo preparado para arredar sem escandalo, e at sem suspeita do que vae
passar-se, os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro meu amigo o seu
logar. Falta-me apenas uma coisa.

--O que ?--interrogou madre Paula.

--A salvaguarda de uma mulher honesta para garantir a reputao de
Beatriz que eu no quero vr maculada, com a sombra de uma suspeita,
antes de a receber por esposa perante o altar do Deus Vivo.

O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido olhar.

Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua origem e saber a quem
devia a vida, teria traduzido n'esse olhar esta phrase que estava no
pensamento dos dois:

--No parece filho do padre Anselmo!

--Desejas ento...?--interrogou madre Paula dirigindo-se ao mancebo.

--Que minha ba me, de cuja virtude ninguem ousar suspeitar, se digne
receber a minha noiva em sua companhia durante todo o tempo que ella
seja forada a conservar-se occulta...

--Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu filho,  um passo muito
grave, que pde pr em risco a ba ordem e segurana d'esta santa
casa... Imagina que as auctoridades so obrigadas a intervir, e por
qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina, que, de mais a mais,
no consultaste ainda sobre se consente em acolher-se  nossa proteco?

-- tal a confiana que tenho no amr de Beatriz, minha me, que no
duvido asseverar que ella dar por bem feito tudo quanto eu haja
deliberado, logo que conhea os motivos que me obrigaram a raptal-a...

O padre Filippe, que durante esta conversao guardra absoluto
silencio, resolveu-se afinal a intervir.

--Parece-me que tudo se pde conciliar muito bem--disse elle. Paulo
deseja salvaguardar a reputao da sua noiva, o que  de todo ponto
justo e nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua me adoptiva,
porque sob a gide da virtude da madre Paula, ninguem se atrever a
julgar menos licitos os intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula
deve intervir com a sua presena, porque  um acto de verdadeira
caridade evangelica o que se lhe pede. Mas surge uma difficuldade, que 
o poder comprometter por esta frma os interesses d'esta santa casa, se
a trouxer para aqui...

-- justamente esse o inconveniente que j apontei--interrompeu a
abbadessa.

O padre Filippe fez um gesto e proseguiu:

--Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel, de obviar a esse
inconveniente...

--Qual?

--Paulo buscar uma casa profana para onde conduzir a sua noiva; e ahi,
madre Paula, vestindo trajos seculares, receber a pobre menina e
conserval-a-ha em sua companhia durante os primeiros dias. Se depois de
Beatriz conhecer do que se trata, manifestar desejos de acompanhar madre
Paula para esta santa casa, poderemos ento, com as devidas cautelas e
resguardos, internal-a aqui at que as circumstancias lhe permittam
legalisar a sua unio com Paulo. No acha acceitavel este alvitre, minha
amiga?--concluiu interrogando a abbadessa.

--As opinies do padre Filippe teem para mim o valor de leis
indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou madre Paula.

Paulo abraou n'uma expanso de reconhecimento o padre Filippe.

--Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo com as lagrimas nos
olhos.

--Vamos, vamos!--replicou o padre Filippe commovido, procurando
furtar-se s demonstraes de reconhecimento do pobre rapaz--Trata de
procurar uma casa em condies de abrigar por alguns dias tua me
adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos so minguados--concluiu--Sou um
pobre sacerdote que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso
dispr... Mas at onde as minhas magras economias o permittam, tudo est
 tua disposio, porque tudo  teu, meu Paulo.

--Oh, meu pae!

--Essa menina deve ser tratada com a decencia e conforto a que
certamente esta habituada...

--Eu tenho amigos, meu pae!--affirmou Jorge.

--Os teus primeiros amigos somo ns, eu e madre Paula. No tens, pois, o
direito de recorrer ao auxilio monetario dos segundos emquanto existirem
os primeiros. A minha casa irs buscar todo o dinheiro de que careceres.
V bem a casa que escolhes para receberes n'ella a tua familia.

--Tenho um amigo, quasi um irmo, que no s me acompanha e auxilia na
aventura do rapto, como pe  minha disposio a sua casa, onde no tem
mais familia e onde nada falta.

--Muito bem. Se entendes que ahi pdem acolher-se sem perigo, deves
acceitar.

--J acceitei, meu pae!

O leitor j conhece como o rapto se effectuou e como madre Paula recebeu
com os extremos e carinhos de me a gentil Beatriz, salva das garras do
aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, o procurador Belchior,
por maneira to original como inesperada.

Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, encontra na doce
convivencia da abbadessa os affectos maternaes que a morte lhe roubra e
os tres sujos heroes d'esta repellentissima, porm veridica, historia se
empenham n'uma lucta de desconfianas e malquerenas, que so o seu
verdadeiro castigo, voltemos a S. Martinho do Campo, onde novos e
interessantes episodios se esto dando.




XIX

Um velho amigo


Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe deu por desoccupada a
casa que pertencera a Norberto de Noronha, tomou posse da sua nova
propriedade e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo esperar que
se fizessem os convenientes e indispensaveis reparos.

Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e amigos de Gustavo de
Magalhes com um jantar lauto, em que houve discursos, brindes e
poesias, como estava combinado muito tempo antes.

O amigo de Gustavo, que tinha adquirido fros de excentrico, supportou
como pde toda a ruidosa alegria d'aquelles amigos e passada a
_glorificao_, como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual
tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo a convivencias
affectuosas.

No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e qualquer recepo festiva
em sua casa, dando como desculpa a falta de pessoal habilitado para bem
servir n'um banquete de cerimonia.

O caso, porm, no era esse.

Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame fazer resoar os
risos da alegria n'aquellas salas onde morreram abafados os gemidos de
tamanha desgraa, de to profunda e inconfortavel dr.

Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a sua grande tristeza,
o lucto eterno do seu corao.

No podia por isso, ainda que o desejasse, converter aquelle tumulo, em
que queria encerrar-se vivo com as suas recordaes e os seus
desalentos, n'um logar de festivas alegrias, de expansivos affectos.

Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus, comprehenderam-n'o e no
se offenderam.

-- um excentrico--dizia o juiz--No ha que vr,  um excentrico...

-- um paranoico com a tendencia romantica!--affirmava o
medico.--Aquillo desanda n'um volume de lyricas mais hoje, mais amanh.
E talvez esteja ahi a sua salvao.

--No  nada d'isso, meus amigos--contrariava Gustavo--Este homem  um
de tantos incomprehendidos que teem atravessado a vida como o viageiro
atravssa os areaes do deserto, sem jmais encontrar o appetecido oasis.
O maior beneficio que lhe podemos fazer  deixal-o entregue  sua grande
tristeza,  sua enorme e insanavel dr.

Julio de Montarroyo comeou, pois, a ser uma figura estranha s alegrias
ruidosas d'aquella vida campesina, passada em convivencia intima de
amigos.

Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha decorriam-lhe n'uma
taciturnidade de espirito aterradora.

Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira e ultima vez
fallra a Norberto de Noronha e parecia experimentar um cruel prazer em
recordar, em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e dolorosa
entrevista.

Mandra collocar todos os moveis que serviram a Norberto na sua
disposio primitiva. L estava a cadeira de rodas, onde o desgraado
agonisou por tanto tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas a
monologar as suas recordaes e os seus desgostos.

Um dia, viera ao jardim e sentra-se no caramancho que olhava sobre a
estrada.

Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o depois a irm de
Gustavo, que Helena de Noronha vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos
felizes da sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle preferido
para as suas meditaes ao ar livre.

De repente ao porto chegou alguem que fez vibrar a sineta. Julio de
Montarroyo debruou-se na grade do caramancho e olhou.

Viu um pobre mendigo, um _ermito_, de longas barbas brancas, vestindo
um garnacho remendado e encostando-se a um bordo. Trazia ao peito,
pendente de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em que se via a
imagem de um Santo Antonio, cercada de flres artificiaes.

--O que deseja?--interrogou Julio.

--Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!--supplicou de baixo o
pobre, tirando o chapo e indicando o santo.

Julio de Montarroyo no reconheceu aquella figura, mas ficou
estranhamente impressionado com o metal de voz do pedinte.

Parecia-lhe que j a tinha ouvido em qualquer parte, e como toda a sua
vida, n'aquelle ermo, se compunha de recordaes, aventurou uma
pergunta.

--Voc  d'estes sitios?

--No, meu senhor... Eu sou de Braga.

--De Braga?!

--Sim, meu senhor, mas j l no vou ha muitos annos...

--Vem ento de muito longe?

--Venho, meu senhor!

--Espere ahi.

Julio desceu ao porto e franqueou a entrada ao pedinte.

--Entre!--disse elle.

O pobre entrou.

--Voc  de Braga?--tornou a perguntar Julio.

--Nascido e baptisado, meu senhor!--confirmou o pobre.

--Ha que tempo sahiu da sua terra?

--Ha muitos annos, meu senhor...

--Olhe l; voc conheceu l um sapateiro chamado _Tomba_?

--Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom _home_, amigo do seu amigo...
E eu _tmem_ era muito amigo d'elle!

--Ah! voc ento era amigo do _Tomba_?

--Oh, senhor! pois se ns eramos da mesma creao... Eu e mais elle
eramos como a unha e a carne...

--E o que foi feito d'elle? No sabe?

--Se no morreu... ha-de estar vivo por fora, meu senhor...

Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco do antigo sapateiro.

--Diga-me: o que  feito de D. Carlota e do padre Anselmo?--interrogou
Julio a meia voz.

O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor e de repente, como
se a memoria se lhe tivesse avivado, exclamou:

--Ora espera! Vossa _incellencia_  o sr. Julinho de Montarroyo, pois
no ?

--Sou.

--C me queria a mim parecer!

E batendo na testa desesperado:

--Ah! grande cabea de burro, que nem j conheces quem te deu tanto po
a comer!... Ah, sr. Julinho, vossa _incellencia_ perdoar, mas eu estava
agora bem longe de o _topar_ aqui! Anto _cumpassou_?--perguntou o
_Tomba_, lisonjeiro e carinhoso.--Vossa _incellencia_ est fro! Est
que  uma bisarria!

--Estou velho, amigo _Tomba_, estou velho!

--Qual velho! Velhos so os farrapos! Mais velho estou eu e olhe que,
graas a Deus e a Santo Antonio, que est aqui e que bem me ouve, ainda
as pernas me levam p'r'a onde eu quero.

Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado este homem, que podia
talvez elucidal-o cerca de factos que elle tinha interesse em conhecer
minuciosamente, conduziu o _Tomba_ atravs do jardim, at ao interior da
habitao.

--Venha c, _Tomba_, venha c, homem, que temos que fallar...

--Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui topal-o! Isto foi milagre
de Santo Antonio, que eu trago aqui comigo... Foi elle que me _trouve
int_ aqui, por sua infinita _mesericordia_!

Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para o sapateiro e
disse-lhe:

--Arrume o santo, mestre _Tomba_, e diga-me se tem vontade de comer...

--Oh, meu senhor! Vontadinha, graas a Deus, ha sempre...

--Bom! Vou mandar que lhe dem alguma coisa.

Julio ordenou que dessem de almoar ao _Tomba_ que, fiel ao seu costume,
honrou a cosinha do seu generoso amphytrio.

Depois, mais animado, e dando parabens  sua fortuna por ter encontrado
aquelle grande e rico amigo, passou  sala onde o aguardava o dono da
casa.

--J matei quem me matava!--disse elle satisfeito.--Ora agora aqui tem
vossa _incellencia_ um _home_ p'ra tudo que fr preciso!

--Conte-me c, mestre _Tomba_, o que  feito de voc? O que foi feito de
D. Carlota, do padre Anselmo e d'aquelle doidivanas do Alvaro de
Noronha?

--Pois vossa _incellencia_ no sabe?--disse o sapateiro admirado.

--Nada! No sei nada.

--Pois j tudo isso l vae!

--Tudo?

--Tudo ou _acaijo_ tudo... _Int_  de _inorar_ o sr. Julinho no saber
as _desgracias_ todas que se dram logo assim que o sr. Julinho
_arretirou_ p'ra Braga.

--No! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco depois de sahir do
Porto e por l andei muitos annos sem ter mais noticias de Portugal.

--Pois ! O sr. Julinho  que fez bem... Foi-se int Paris de Frana e
no deu mais cavaco s tropas... Pois a sr.^a D. Carlota, coitada! l
deu ao penagal em Lisboa... O padre _Inxelmo_--_rais_ o parta!--l teceu
taes indrominas com o _Custoido_ a dezer-lhe que ella que lhe tinha sido
falsa com o sr. Julinho...

--Comigo!--exclamou Julio admirado.

--Pois _anto_ no sabia?

--Eu no sabia de nada...

--Bem digo eu! _Anto_ j vejo que no sabe nem da missa a metade!...
Pois o maroto do padre _Inxelmo_, emquanto ns estavamos no Porto a ver
se lhe deitavamos a luva, _vo_ a Braga dizer  _Custoido_ que a sr.^a
D. Carlota andava l pelo Porto mettida c'o sr. Julinho de Montarroyo...
E vai elle, o malandro, que nunca se importou emquanto ella lhe
desfeiteou as barbas c'o padre, comeou a dar por paus e por pedras,
_assubiu-lhe_ a honra  cabea, e quando ella vinha p'ra tornar p'ra
casa, pl-a fra e pouco faltou p'ra lhe bater...

--Isso  extraordinario!--disse Julio.

--E l em Braga toda a gente se _acuarditou_, porque demais a mais, como
o sr. Julinho se prantou na _planta-giria_, todos _dixeram_ que foi
verdade, porque quem se _cia alhos come_...

--Mestre _Tomba_,  impossivel que voc no esteja doido! Isso que voc
est a dizer  tudo quanto ha de mais absurdo!

--Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo  o que por l se constou
n'aquelle tempo...

--E voc no podia desmentir esses boatos, no podia desmascarar os
calumniadores?

--Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado no Sardo, mais morto que
vivo, _estrelicadinho_ com fome, porque aquellas carochas de seiscentos
diabos tinham-me a jejum de po e _auga_, que eu cuidei que no tornava
mais a ver sol nem lua, e que, a respeito de petiscos, no se fariam
mais para os queixos do _Tomba_!

E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo o encerrara no convento
do Sardo e aquella outra mais ardilosa ainda como elle conseguira
escapar-se da priso, depois de ter pregado uma sova mestra na freira
que o guardava quasi  vista.

--Eu s queria que vossa _incellencia_ visse, sr. Julinho... Aquillo foi
uma trpa co'as correias, que _int_ o _sengue_ lhe esguichou pelo sitio
da tripea, salvo seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga a
saber novidades... A sr.^a D. Carlota tinha morrido em Lisboa, o sr.
Alvarinho--Deus lhe perde!--l tinha o _Perneta_ dado cabo d'elle...
Raios o parta! Se quer  menos, inda fui testemunha escontra elle, que o
enterrei!

--Ah! voc foi testemunha no processo contra o _Perneta_, mestre?

--Pois ato no havia de ser? Eu tinha a veridica certeza de que o sr.
Alvaro tinha ido p'ra casa do _Perneta_, porque arrecebeu uma carta da
sr.^a D. Carlota--Deus a chame l p'ra bem, que eu no a chamo c p'ra
nada!--a dezer-lhe que a prima d'elle, a sr.^a D. Helena de _Laronha_
estava l mettida com vossa _incellencia_...

--Comigo?!--tornou a exclamar Julio de Montarroyo, de cada vez mais
espantado.

--Tal e qual como eu lhe estou a _dezer_, sr. Julinho! Pode-se
_acuarditar_ em mim, porque eu ouvi lr a carta e _escorda-me_ como se
fosse hoje tudo quanto ella dezia...

--E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me e tendo
convivido comigo por algum tempo, pde acreditar em semelhante carta,
pde julgar-me capaz de uma semelhante infamia?!

--Eu bem lhe dizia que no se fiasse, que aquillo era tramoia que lhe
queriam armar... Mas elle, que tinha aquelle genio de espirra-canivetes,
comeou logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer que ia matar sete e
esfolar quatorze e nem  mo direita de Deus Padre fui capaz de ter mo
n'elle! L foi e se eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou l
e aquelle ladro do _Perneta_ e mais dois que elle l arranjou deram-lhe
tamanha carga de paulada que o deixaram _cadable_ no meio da estrada!
Eu, j se sabe, n'essa mar estava preso no Sardo e nem tal coisa me
passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a Braga, _ato_  que
eu soube tudo... E disse comigo: Ai o alma do diabo do _Perneta_ que
deu cabo do _probe_ rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...
Fui-me  Povoa, fallei com o sr. _amenistrador_, contei-lhe as coisas
como foram e como no foram, e o _Perneta_, que inda estava preso, mas
no confessava nada, assim que o _acarinharam_ comigo, no teve mo em
si, comeou a _entoar_ e _dixe_ tudo! L foi por uma barra fra, que o
levou seicentos diabos!

Julio ouvia espantado estas revelaes do _Tomba_.

--Mas como --disse elle--que D. Carlota pde escrever uma carta d'essas
a Alvaro de Noronha na mesma occasio em que eu recebia uma carta de
Helena, dizendo-me que partia para Frana? Se D. Carlota vivia com o
padre Anselmo, como podia ella ignorar que Helena seguia para Paris?

--Vossa _incellencia_ quer que eu lhe diga uma coisa, sr. Julinho?

--Diga l, mestre.

--A mim ninguem me tira da _pinha_ que a sr.^a D. Carlota no escreveu
carta nenhuma... Aquillo foi o maroto do padre _Inxelmo_ que mandou
escrever a carta em nome d'ella para arranjar a trempe  probe rapaz!
Vossa _incellencia_ no se _escorda_ do sr. Alvaro dizer muitas vezes
que o patife do padre _Inxelmo int_ uma vez escreveu uma carta muito
bem _escrevida_, co'a letra da sr.^a D. Helena, a dizer  pae d'ella que
estava em Coimbra com um sujeito com quem se queria casar, e no fim de
contas vae-se a vr e estava mas era _agachada_ em casa do _Perneta_!

Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. S ao ouvir estas palavras
do _Tomba_  que pensou na possibilidade de ter sido victima de uma
infame mystificao.

--Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me a seguil-a, pois
que ia partir para uma casa religiosa de Paris. Seria essa carta
escripta por Helena, ou seria ainda uma trpe cilada do padre Anselmo?

--Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, se tiver
verga e tempo... O padre j tinha feito uma e porisso _tmem_ era capaz
de fazer a outra...

Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso e pensativo. Estava
recordando o singular e extraordinario mutismo de Helena, a qual tendo-o
solicitado a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe mandra
aviso nem recado. Porque no teria D. Carlota revelado ao padre Anselmo
o interesse que elle tomava pela libertao da filha de Norberto e
suggerido por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois ao
mesmo tempo, matando um e expatriando o outro?

Mas, n'esse caso, Helena no teria sahido do paiz, e ao passo que elle a
procurava pelo mundo, morria ella ignorada no mesmo convento onde a
deixara.

--Mestre _Tomba_--disse elle--sabe o que foi feito do padre Anselmo?
Tornou a ter noticias d'elle?

--O padre _Inxelmo_, depois que roubou o _Custoido_ nunca mais tornou a
pr os ps em Braga,  menos que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se
como o fumo, que nunca mais vi raa d'elle!

--Diz voc que o padre Anselmo roubou o Custodio?

--Pois roubou! O _Custoido_, p'ra no dar nada  mulher, assignou letras
a fingir ao Joo Ignacio, que era p'ra ella lhe no poder pegar em
nada... E quem metteu o probe do _home_, coitado! n'essas fofas foi o
patife do padre... Vae _spois_ a D. Carlota _esticou_ o _pernil_ em
Lisboa... diz que se matou... Tanto sei eu se ella se matou como se foi
o padre que lhe deu cabo da casta... E vae n'isto, assim que se constou
a morte d'ella, o Joo Ignacio salta em riba do _Custoido_ co'as letras
e leva-lhe tudo, que o deixou sem um fio! O _Custoido_ barregava
_escontra_ o padre a _dezer_ que foi elle que o metteu co'aquelle
ladro, que era uma coisa por demais! Mas o padre _esguipou-se_ que
ninguem soube mais d'elle!

Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos estes factos e
procurava o fio mysterioso que devia explical-os.

-- singular!--disse elle--E o Custodio? Morreu?

--Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um _b casorio_... Foi co'uma
brazileira... co'a Anninhas das Travessas, que tinha ido p'r Brazil ha
um _rr_ de annos e que _vo_ de l rica que no sabia o que tinha de
seu... O _home_, como em Braga todos o conheciam, pegou e foi co'ella
p'r Porto, e acho que l esto na santa paz de Deus... _Porfilhou-lhe_
a filha que ella _trouve_ e inda apanhou uma riquesinha bem ba!

--De modo que--tornou Julio--voc, mestre, no voltou mais a saber de
Helena de Noronha?

--Eu, como a sr.^a D. Carlota e o sr. Alvaro tinham morrido... e o sr.
Julinho _tmem_ no dava rumor de si... tratei mas foi de governar a
minha vida... Os freguezes, como eu andei por l todo aquelle tempo, sem
dar nova nem recado, foram  aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a
oitro... O senhorio, como eu no paguei o aluguer, tomou-me conta da
_farramenta_ do officio e poz-me o rapaz na rua! Veja l o alma do
diabo, que _int_ co'a tripea me ficou! Vi-me _desauriado_! P'ra me
tornar a estabelecer, eu j no tinha _farramenta_ nem freguezia...
estava _desacuarditado_! Peguei e fui-me _int_ Villaverde,  tia do sr.
Julinho, contei-lhe a minha _desgracia_ e ella teve dr de mim e deu-me
uma libra d'esmola!

--E voc contou a minha tia tudo o que se tinha passado com respeito a
Helena de Noronha?

--Eu no disse nada! N'estas coisas, antes carta de menos do que carta
de mais... Peguei na libra que ella me deu, mandei arranjar este Santo
Antonio e botei-me a pedir por essas terras de Christo fra, tal e qual
como o meu compadre _Longuinhos_ que _tmem_ se arranjou muito bem
co'este modo de vida... Tenho corrido todas essas _Europias_ de
Portugal, e louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre tenho
tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!...

--Diga-me uma coisa, mestre: voc seria capaz de dar conta de uma
incumbencia que eu desejo fazer-lhe?

-- sr. Julinho! que me pedir vossa _incellencia_ que lhe eu no faa?!

--Bem! Desejava eu que voc fosse ao Porto e indagasse nas _Sereias_ ou
no _Sardo_, se ainda l est como abbadessa uma senhora chamada madre
Paula...

--Madre Paula... disse o sapateiro procurando reter na memoria este
nome.--Eu vou l e trago-lhe isso sabido, que  um regalo... O diabo  o
_Sardo_ que se l me conhecem fazem-me pagar os aoites que preguei na
freira velha... Mas da raa do diabo ser ella se no estiver j a fazer
tijolo!

--No tenha receio, que l ninguem o conhece... Eu mesmo, que to de
perto lidei comsigo, j quasi o no reconhecia, como ho-de conhecel-o
pessoas que nunca lhe fallaram?...

--Bem! eu vou--decidiu o sapateiro--mas no levo o santo, porque se a
policia do Porto me apanha l com elle,  capaz de ferrar comigo no
_Asylio da Mendecidade_, que, aquillo, pelo que me tem zoado c pelos
ouvidos,  peor do que estar nas profundas do inferno a arder!...

--Pois no leve o santo...

--Eu deixo-o c ao sr. Julinho, mas faa favor de ter cautela, que m'o
no estraguem, que  o meu ganha-po...

--V descanado, mestre _Tomba_. O santo fica a meu cuidado... Ninguem
c lhe bulir n'elle...

--_Ato_ quando quer o sr. Julinho que eu v?

--O mais depressa que possa...

--Eu vou j hoje, se fr preciso...  verdade: e se ella l estiver, o
que quer que lhe diga?

--Nada. Saiba s se ella est em qualquer d'essas duas casas.

--E se l no estiver?

--Saiba se  viva e em que casa religiosa da provincia se encontra.

--Est bem! Vamos a vr se ainda tenho geito para estas coisas--disse o
_Tomba_ radiante.

E n'esse mesmo dia partiu para o Porto.




XX

Alma negra


Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia,
apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganas nas
mos de Joo Lazaro.

O commendador Garcia retirra  hora habitual, dez da noite, muito
desconsolado, porque o _seu peccado_--que era assim que elle chamava 
endiabrada creatura que o tinha preso nos laos de uma affeio
insensata--havia tempos que o recebia desabridamente, com repelles de
histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porqu, n'uns
accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do
encarquilhado protector.

Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico,
consultal-o, podia ser que aquillo s vezes fosse _sangue alvoroado_,
que podia subir-lhe  cabea, e ento o melhor era tratar-se com tempo,
porque todas as molestias em principio teem cura e depois de tomarem
posse do corpo  que custam mais a debellar.

Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella
no tinha sangue na cabea; o que l tinha era a ideia de se vr s por
algum tempo, sem aquelle _caustico_ do commendador a importunal-a, a
fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babo. E dizia-lh'o
com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar
com aquella vida que no podia continuar assim.

--Mas o que queres tu?--perguntava-lhe lacrimoso o commendador--Falta-te
alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha
filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os
teus caprichos, comtanto que no falles em me deixar! Bem sabes que eu
sem ti no podia viver...

E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente,
a loura era a sua incuravel mania. Tambem, no tivera outra em toda a
sua vida, seno a de ser commendador.

A principio alugra os affectos da loura como quem adquire um animal de
luxo, um cavallo de preo. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era
o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubia de todos e a
inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado
quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe
batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto:

--Ah! magano, voc  que a sabe toda!... _Aquella pessoa_ est de cada
vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer
desfazer, endosse-me a letra...

Depois, o commendador,  fora de habito, foi affeioando-se. Em cada
dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia
prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que
mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraioava com
outro.

Julgando-se sinceramente amado e no ignorando que o corao d'aquella
mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais
dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeio ao
amor profundo e d'este  paixo louca. A loura era o seu idolo. Mais
depressa renunciaria  commenda do que  posse d'aquella bella e
extraordinaria mulher.

E era feliz, depositando uma confiana illimitada na fidelidade e
constancia de Leonor--que para elle tinha sempre carinhos e meiguices
que nenhuma outra saberia fazer-lhe.

Desde, porm, que Joo Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a
negra traio de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido
amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabea innocente
do infeliz commendador.

E isto trazia-o afflicto, apprehensivo cerca da saude do _seu peccado_!

Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a.
Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do
medico que, no seu entender, devia pl-a boa.

N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a
suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava
doente, e s vezes as doenas vo com qualquer coisa.

A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaou de lhe fugir,
deixando-lhe o _ninho_, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe
fallar em medicos.

Teve o pobre homem um trabalho para a serenar, e retirou depois de lhe
prometter que no mais se pensaria em remedios de botica.

Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com
impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta.

Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o psinho breve no
tapete, pz se a mordiscar as unhas.

--O Joo Lazaro--murmurava ella--prometteu de vir hoje fazer-me
revelaes importantes, e ainda no veio... O que ter elle que me
dizer?

Que provas ter elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de
Eugenio?

N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e
appareceu a figura de Joo Lazaro.

Tirou logo o chapo e lanou sobre uma cadeira o capote  hespanhola em
que vinha embuado.

--Tardei, no  verdade?--disse elle.

--Esperava-o com anciedade--respondeu a loura febrilmente, levantando-se
para o receber--Diga-me: que noticias traz de Eugenio?

--Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o
auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus...

--Pois sim, bem sei--disse a loura impaciente--Mas Eugenio jurou-me que
era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle no
tivera a menor cumplicidade n'esse rapto.

Joo Lazaro sorriu.

--No emtanto--disse elle--a policia procura-o, porque sobre elle recahem
todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a
cunhada so unanimes em declarar que o reconheceram na occasio em que
arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima 
concorde com estas declaraes, affirmando que tambem o reconheceu.
N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que no
poderia defender-se de to grave accusao e tomou o expediente de se
homisiar...

--At que a luz se faa e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o
que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que
partiu...

--Sem lhe dizer para onde...--tornou o Lazaro com um sorriso de mfa.

--No m'o podia dizer porque elle mesmo no sabia ainda para onde ia...

--E se o sabia, no lhe convinha dizer-lh'o...

--O senhor  terrivel! faz gosto em me torturar!--exclamou a loura
irritada.

--No, minha querida, fao apenas diligencia para que veja as coisas
como ellas so. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime
de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, no obstante saber
que elle diligenciava casar-se com Beatriz...

--A propria accusao destroe a suspeita de uma tal inteno por parte
de Eugenio...

--Porque?

--Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse
enlace no se oppunha seno a noiva,  claro que o rapto s seria um
pretexto para a forar a acceitar o noivo; e ento no teria Eugenio a
necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria to
aodado em perseguio do raptor da filha.

Joo Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria.

-- bem deduzido--disse elle--Ahi ha logica.  pena que o raciocinio
esteja muito longe da verdade...

--Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!--exclamou Leonor com
impeto--tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o
que hei-de pensar!

--Prometti trazer-lhe revelaes importantes, e  isso justamente o que
venho fazer.

Avanou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com
abandono em um sof, indicou uma cadeira a Leonor como se fra elle o
dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o
accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos
n'elle:

--Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o
casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e
isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagaes a que procedeu, veio
a conhecer que eu a informra da verdade.

--Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento--objectou
Leonor.

--Devagar! Peo-lhe que no me interrompa para me recordar minucias,
porque eu ainda no me esqueci...

E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:

--Beatriz recusava-se a acceitar a unio com Eugenio de Mello porque
tinha o corao preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porm,
influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de
agiotagens sordidas, empregava todos os esforos para convencer a filha
a realisar o enlace que se lhe propunha...  isto ou no o que lhe
disseram as suas informaes?

--.

--Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se
recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si
jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia
nos braos do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o
recusado enlace como a unica soluo redemptora da sua honra. Esse lance
era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto
que se effectuou como se havia projectado...

--Por Eugenio?

--Pois por quem? Por mim  que no foi nem podia ser, pois que nada se
combinou comigo.

--Mas  isso o que Eugenio nega...

--Deixe-o negar. A verdade  s uma e isso est averiguado de modo que
no admitte duvidas.

--Mas ento, se  assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o
que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais
depressa realisaria o casamento?

-- esse o ponto escuro da questo, que eu j consegui esclarecer... A
rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue
mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as
dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem j adiantado sommas
enormes  conta d'este casamento...

--Mas como pde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a
Eugenio?...

--Vejo que no conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos
de dissipao e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario
do Alemtejo, quando elle no possue em parte alguma do paiz um palmo de
terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem
dispendido com elle no lhe chegaria sequer para o caf e para os
charutos...

--Que exaggero!--disse Leonor com desgosto.

--Minha querida amiga--tornou Joo Lazaro com modo affavel--no  isto
desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio
lhe tem custado:  que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil
desperdicios de vaidosa ostentao, mais talvez de dez contos de reis
nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente no lhe tem abonado todo
esse dinheiro...

--Tanto, no...

--Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que
devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia
combinado entre os tres, levou-a para outra parte at agora desconhecida
e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do
rapto...

--Mas para qu! meu Deus! para qu?--exclamou a loura de cada vez mais
aturdida.

--Para qu! Pois ainda no comprehendeu? Para forar o pae de Beatriz a
augmentar o dote da filha...

--Mas isso  uma infamia!

--Infamia  tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a
senhora. O certo  que o mariola evadiu-se e l est com a sua gentil
raptada, sabe Deus onde, at que o Custodio se resolva a accrescentar o
dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha.  questo de mais
mez, menos mez, at o Custodio chegar ao preo...

--Mas o senhor tem bem a certeza de que isso  assim?--interrogou Leonor
com os olhos chammejantes de colera.

--Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado
em confidencia pelo proprio Belchior.

--Mas o Belchior  ento complice de Eugenio n'essa projectada extorso
ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, no deve ignorar onde
elle se encontra...

--No! O Belchior no sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e
est por isso furioso. O que elle imagina  que Eugenio pretende
ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao
pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o
reembolsar logo depois do casamento.

--Que sucia de miseraveis!--bradou a loura enojada.

--Verdade, verdade--observou Joo Lazaro, rindo--a partida foi bem
pregada. V-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura
e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada,
emquanto esta questo se no dirime em casa do tabellio e vae ter o seu
natural desenlance na egreja da freguezia.

--Nunca! Nunca!--protestou Leonor levantando-se enfurecida.--Antes
d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame
perfidia!

--O que quer fazer?--perguntou Joo Lazaro fleugmaticamente.

--O que quero fazer? Procural-o at o encontrar.

--E depois?

--Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.

Joo Lazaro soltou uma gargalhada.

--A escolha est feita, minha amiga!--disse elle.--Pois ainda tem
duvidas?

Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito Joo Lazaro.

--Est feita! Como  que o senhor sabe que est feita?--perguntou.

--Foi  senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em
casar?

--s vezes rapta-se uma mulher por capricho...

--E casa-se com ella por amor.

--Se elle a amasse, no prolongaria uma situao que lhe retarda o
casamento...

--Mas que no lhe impede a posse do objecto amado, visto que  elle hoje
o unico senhor de Beatriz... Alm d'isso, a demora no cumprimento da
formalidade... social s representa para elle interesse e no prejuizo,
pois que o velho acabar por se submetter a todas as condies que elle
impuzer.

Leonor bateu o p furiosa.

--O senhor tem um modo de vr as coisas que irrita os nervos 
gente!--disse ella.

--Oh, minha querida amiga, a culpa no  minha em as vr assim: a culpa
 das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu
conheo Eugenio, sei do que elle  capaz, e a paixo no me cega a ponto
de no me deixar vr o que  mais claro do que o sol.

Houve uns momentos de silencio.

--No ser possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa
rapariga?--perguntou por fim.

--A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio  fertil em
expedientes para se esquivar  perseguio da policia...

--Mas o senhor... o senhor no ser capaz de lhe achar o rasto?

--Que juizo frma de mim?--perguntou Joo Lazaro encarando-a com
desdem--Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero,
julga-me to imbecil que v buscar-lhe o amante que lhe fugiu?

--Mas no foi isso o que o senhor me prometteu!--bradou Leonor
indignada.--O senhor disse-me que me informaria de tudo...

--E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa,
seno por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade
de Eugenio, e creio que essas provas esto bem patentes...

--Mas disse-me tambem que elle no casaria sem que eu fosse previamente
prevenida...

--Elle ainda no casou...

--Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, est a esta hora fazendo-lhe
mil protestos, mil juras de amor!

--Tudo isso, porm, no  casar--tornou Joo Lazaro com placidez.

--Mas  amar outra,  esquecer-me,  ultrajar-me!--gritou Leonor n'um
despedaamento do corao.

--Bem! E o que quer a senhora?

Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de
colera:

--Pois ainda no comprehendeu?--rouquejou ella--Quero vingar-me!

--Para isso no precisa procural-o nem saber onde elle est... Pena de
Tallio, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um
momento de compaixo, e a sua generosidade para com elle  tanta que
ainda no pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de
vingana... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de
desespero, por ver que a formosa Leonor no tinha perdido na troca...

--Cale-se!--intimou ella, repellindo com desespero e asco o Joo Lazaro,
que tentava tomar-lhe as mos para lh'as beijar--Essa no  a vingana
que me satisfaz, a vingana que eu sonho!

Joo Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse:

--Pois que outra vingana pde tirar uma mulher nas suas circumstancias?

A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em
cheio uma bofetada na face.

--Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?--disse ella tremula
de colera.

--Perdo, minha querida Leonor, mas no supponho ter-lhe feito um
insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se
encontra, no lhe conviria sacrificar as relaes do commendador Garcia
 vingana ruidosa contra Eugenio...

--Cuidei que no se referia smente  situao, mas tambem  _qualidade_
da mulher... Julguei que no me suppunha moralmente em condies de
tirar uma desforra digna do miseravel que me atraioou!

--Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos
seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de
uma grande e excepcional dedicao para Eugenio. O sentido das minhas
palavras era muito outro. A senhora no  a amante declarada de Eugenio
de Mello. A sua ligao com elle tem um caracter clandestino... Como
poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforo publico, impedir o
casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do
commendador Garcia?

--E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir
quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu corao?

--Punir, disse?

--Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria
mulher para deixar nos braos de outra o homem que amei e que me pagou
com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vr se
Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de
outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo
cercada dos respeitos e das consideraes de todos, emquanto que eu,
ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras
da minha humilhao, todos os desesperos do meu amor escarnecido! No!
Eugenio de Mello no casar, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o
por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fr to habil que
se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, ter o desgosto
de ficar viuva...

Joo Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e
calculando at que ponto ellas podiam ser tomadas como a expresso de
uma ameaa realisavel.

--Minha querida--disse elle--socegue e veja bem que n'esse estado de
excitao nada podemos fazer...

--Mas se eu j no quero fazer nada!--bradou Leonor.--O que eu quero
unicamente  saber onde posso encontrar Eugenio...

--Venha c, Leonor!--exclamou Joo Lazaro pegando-lhe na mo e
obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e
conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por
coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe
desgraa irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, no  assim?

--Oh! sim! sim! quero!--respondeu anciosamente Leonor, n'um
estremecimento nervoso.

--Diga-me: que genero de vingana desejaria tirar?

--A unica que elle merece e a unica que me pde satisfazer: matal-o!

--Bem sabe que no se mata um homem sem se assumirem graves
responsabilidades perante a justia--ponderou Joo Lazaro.

--E que me importa a mim a justia?  justia direi: Matei-o porque me
ludibriou, porque me trahiu!

--A justia no se contentar com essa explicao e punil-a-ha com todo
o rigor da lei...

--Embora! Mas eu ficarei vingada.

--No! Ficar perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua
sorte, atirada para o fundo de uma priso, de parceria com outras
criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multido
avida de escandalos e de crueldades que assistir ao seu julgamento e
aplaudir com uivos de alegria a sua condemnao? Calcula o atroz
supplicio que a espera desde a hora do seu crime at  hora da sua
partida para o degredo, no poro de um navio, empilhada com outros
condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e
ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o
miseravel que a trahiu e to infamemente a explorou no seu dinheiro e
nos affectos do seu corao?

--Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braos de outra, a
rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o brao 
mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me
humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! no! no! Antes a
priso, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo
e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim!

--Mas, minha amiga--tornou Joo Lazaro com a voz mais doce e
persuasiva--no  isso tambem o que lhe estou dizendo...

--O que  que me diz ento? Explique-se, por Deus! que no tenho cabea
em estado de perceber coisas que no sejam ditas bem claramente!

--Oua, Leonor; toda a vingana se pde tirar de duas formas: uma
publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem
por consequencia a morte de um homem, chama-se _crime_ e  punida
rigorosamente pela lei. A outra  premeditada, occulta, sem ruido e sem
provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem,
chama-se _desastre_, _doena_, _fatalidade_, e a justia no tem alada
para a punir.

--No entendo!--disse Leonor.

--Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de
modo que s elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria
assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas 
justia?

--De certo no. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no
peito de uma mulher como eu, se existe _o amor que salva_, tambem ha o
_amor que mata_.

--Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingana
que deseja?

--Como poderia eu recompensal-o?

--Amar-me-hia?

--O amr  um sentimento que nasce do corao, no  um objecto material
cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz
amar-me comprehende assim o amr?

--Pois bem; no tomemos a palavra na rigorosa significao que lhe est
dando... Mas, diga-me: depois da sua vingana realisada,
pertencer-me-hia?

--Em espirito, no. Materialmente, sim.

-- quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum to ligados
que  difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma no acompanhe o
corpo...

--Imponho uma condio, porm--objectou Leonor.

--Diga.

--Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro
permaneam desligados n'este contrato, o senhor no tolher nunca a
minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer,  hora que eu bem
quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia
s minhas complacentes attenes...

--Tambem no exijo mais, tal  a certeza que eu tenho de que ha-de
chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor.

-- possivel. No emtanto no me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o
senhor onde est Eugenio?

--Talvez...

--Talvez no  certo, e eu no gosto de incertezas quando se trata de um
assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha
tranquillidade...

--Diga antes--de que depende a satisfao do seu orgulho ferido...

--Seja! Onde est Eugenio?

--N'este momento no poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero
bem que amanh poderei dar-lhe indicaes seguras...

--Amanh! E quem lhe assevera ao senhor que amanh no ser j tarde?

--Nunca  tarde para a vingana.

--Mas eu no desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar
vingana do amante de Leonor trahida e ludibriada!

--Tiral-a-ha amanh, porque amanh Eugenio de Mello estar aqui a
pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha.

--Como o sabe?

--Disse-m'o elle.

--Ah! o miseravel! Pois se vier no sahir vivo d'esta casa...




XXI

Tal vida, tal fim


Leonor, prevenida na vespera por Joo Lazaro, ficou sabendo que Eugenio
iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandra mudar a
fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater.

No emtanto, no se deitra. Espreitando pela janella, vira-o
aproximar-se, vira o espanto que lhe causra a mudana da chave,
traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar
as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e
de que tudo l dentro estava em silencio.

Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resoluo,
encostar-se  parede fronteira com os olhos cravados nas janellas,
voltar  porta tentando vr se a chave seria a mesma, e por ultimo
afastar-se a passo vagaroso como homem que no sabe bem o que pensar
d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros,
na escurido da sala, com os dentes cerrados pela colera, ia murmurando
com rancr profundo:

--Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima,
roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a
trocaste! Vae! vae e no voltes... Porque se voltas, sabers ento
quanto custa ludibriar uma mulher como eu!

E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em
desalinho, cahiu sobre um sof e desatou n'um choro convulso e abafado.

Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre
escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme
excitao, mais lh'a exacerbavam. De manh, aos primeiros fulgores da
aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feies
transtornadas pela vigilia. Teve ento um accesso de furor invencivel.
Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os
affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a
tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingana
seria terrivel!

Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.

Logo que a velha criada abriu a porta da rua  hora habitual para fazer
as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que j espiava os
arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.

Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto
de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro.

Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:

--Faa o favor de no bater, que a senhora passou mal a noite e
recommendou que a no acordassem.

--Essa ordem no pode entender-se comigo--volveu Eugenio, admirado do
modo como lhe coarctavam a liberdade que at alli usara.

--No se entende com o senhor, porque ella no o esperava. Mas deu-me
esta ordem e a minha obrigao  cumpril-a.

Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho
atrevimento, a que no estava habituado.

--Marianna--disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel--o que se
tem passado n'esta casa, que encontro tudo to mudado?

--O que se tem passado, diz o senhor? No se tem passado nada. Est tudo
na mesma.

--Tudo na mesma, no. A chave da porta da rua foi mudada. Agora  outra.
Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a
precauo de se fechar por dentro. Porque  isto?

--Porque ha de ser?--respondeu a criada fazendo uma careta
inexpressiva.--O senhor bem sabe que, em casa onde no ha homem, no
pde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se
embora, a menina no o esperava... Eu ando c na minha vida, e assim
como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi
dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz
muito bem... E ento agora que andam por ahi tantos ladres!

--Foi ento por causa dos ladres que a sua ama mudou a chave da porta
da rua e se fechou no quarto, por dentro?

--Olhe, senhor, eu no sei!--rematou a velha.--Ella no me d contas nem
_estifaes_ do que manda fazer... Ella  que d as _ordes_,  a
senhora, e eu c d'essas coisas no sei.

O bohemio tirou o chapo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e
aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz:

--Marianna, quem est alli n'aquelle quarto?

--Quem ha de estar? Est a senhora...

--S?

--Quem queria o senhor que estivesse l com ella? O sr. _encommendador_,
no fica c, o sr. Eugenio est ahi... Parece-me que aqui no vem mais
ninguem....

--Parece-lhe? No tem a certeza...

--Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma 
hora da morte se j c veio mais alguem depois que o senhor se foi
embora, tirante de ser o sr. _encommendador_... Ento ella, coitadinha,
que no se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam
aqui estas rodilhices...

--Rodilhices de quem?

--Eu sei l de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu
respeito. A senhora l a folha todos os dias e afflige-se... Pudera!
Outra qualquer faria o mesmo.

Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fra
noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes
diarios. Eugenio sabia-o e no estranhou por isso que a leitura do caso
tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava.

--Leonor tem-se ento affligido muito?--perguntou elle.

--Oh, Senhor! No faz outra vida seno chorar e affligir-se... E anda
ruim que no ha quem a ature... O pobre do _encommendador_ anda parvinho
de todo, que ella d-lhe cada sarabanda por d c aquella palha, que 
uma coisa por demais!

O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio
comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a
gente, at o homem que a protegia, tudo por sua causa.

-- doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes--disse
elle--principalmente quando sabe que tudo isso no passa de uma sucia de
ptas.

--So ptas, so ptas--retorquiu a velha com um sorriso de
incredulidade--mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe no v
ella deitar a mo...

E depois n'um tom de reprehenso amigavel:

--O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a
senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as
outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens so a coisa peor que ha!
Quem se fia n'elles est perdida.

--Pois voc tambem acredita, Marianna?

--Cale-se, cale-se! Eu no digo nada... mas estes olhos teem visto muito
e estes ouvidos teem _ouvisto_ inda mais--disse ella, levando
alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos.

--O que  que voc tem visto e ouvido, Marianna?

--Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade...
O sr. Eugenio cuida que se no sabem as coisas... mas eu j ha muito que
ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra
amor de quem agora andam estas _questes_...

E muito persuasiva, como quem d conselhos bons de sensatez e de
prudencia:

--P'ra que diacho a quer? Ella poder ter mais dinheiro, mas nunca 
capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver
mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, ento antes
co' esta, que se quer ao menos j sabe quem tem...  s dezermos no 
uma menina capaz, mas em bom panno cem as nodoas... E olhe que ella no
lhe dizia que no... que o que ella lhe quer de bem s eu  que o sei...
E dinheiro _tmem_ no lhe havia de faltar, que se no fosse o
_encommendadr_, no faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella
querer.

--Est bem, Marianna, acabe com o sermo!--ordenou o bohemio, de mau
humor.--Visto que Leonor est dormindo, esperarei que ella acorde.

E estirou-se ao comprido sobre um canap, resolvido a esperar.

 hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura
appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante.

Eugenio, ao vl-a, correu para ella com os braos estendidos, n'um
amplexo carinhoso.

A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou:

--Tu por c! Que novidade  essa?

--Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor!--exclamou o bohemio
com artificial commoo.

Leonor no respondeu. Encaminhou-se para um sof e sentou-se, indicando
a Eugenio que a imitasse.

--O que  ento que desejas?--perguntou.

--A policia persegue-me de cada vez mais encarniadamente--principiou
dizendo o bohemio--de modo que no s me  impossivel continuar a viver
no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal...

--E d'ahi?

--D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu corao o
pensamento de te deixar...

A loura esboou nos labios um sorriso de cruel desdem.

--Fao ideia!--disse ella friamente.

O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante,
proseguiu:

--Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes
no perdem occasio de me perseguir e de instar com a auctoridade para
que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que no commetti!
Mas o que mais me afflige e perturba  o ver accumularem-se contra mim
provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia
que um genio infernal tomou a peito a minha desgraa e quer a todo o
custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvao!

--Foi talvez feitiaria que te fizeram!--disse a amante com um
aggressivo sorriso de sarcasmo.

O bohemio encarou-a espantado.

--Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraa?--lamuriou
elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes.

--Eu? Que lembrana!--casquinou nervosamente a loura.--Eu posso l
escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que
affronta impavido os perigos e os rigores da justia para possuir por
fora a mulher que por bem no quiz amal-o?!

Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignao e
de odio mal reprimido.

Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume,
e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece
querido:

--Mau! ahi ests tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido
sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que
no commetti. Mas agora peo-te, Leonor, que te moderes e repares bem na
injustia que me fazes...

--Injustia?!

--Sim!  uma injustia que te no mereo o suppres-me, como toda a
gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheo, que no amo,
que nunca amei e que a esta hora se est rindo nos braos de outro da
partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura
escandalosa dos seus amores, a que sou--juro-o!--completamente estranho!

Leonor abanou a cabea em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez
mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro,
continuou:

--Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto no foi obra minha.
Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que  filha de
um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua
honra e do seu bom nome...

--Como  ento que o acusam ao senhor?--disse Leonor, cravando n'elle um
olhar que o gelou.

--Tudo obra dos meus inimigos!--balbuciou o bohemio,
desconcertado--Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as
invejas d'essa canalha endinheirada que no pde perdoar-me a maneira
como a affronto com a minha distinco e a minha maneira de viver... E
eu sei l se n'esta perseguio surda que agora se me move entra tambem
o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a
esta hora sabedor das nossas relaes?

--Basta!--bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de
salto--basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu corao para me
illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de
calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua
causa, no lh'o consinto!

--Bravo!--tornou o bohemio sarcasticamente--Vejo que o commendador tem
feito progressos no teu corao durante a minha ausencia!

E encolhendo os hombros com desprezo.

--Afinal,  de justia... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de
direito lhe pertencia,  obra de caridade restituir-lhe o que se lhe
tirou.

Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapo e o
capote.

Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o
effeito desejado, esperava elle abrandar a irritao da amante.

--Adeus!--disse, j da porta da sala, como quem se preparava para sahir.

Leonor avanou para elle:

--Foi para isso que o senhor c veio?--rugiu indignada--Foi unicamente
para fazer uma accusao to insensata como absurda a um homem que nem
sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguio que a justia
lhe move no  tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo
para essas distraces...

O bohemio retrocedeu.

--No foi para isso precisamente que eu c vim. Mas ainda quando no
viesse seno para isto, no dava por mal empregado o meu tempo, que 
sempre curioso e interessante vr como as mulheres amam os que atraiam
e atraiam os que dizem que amam...

--O que! O que  que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faa
favor!

--Digo--volveu o bohemio--que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso
unico na historia da humanidade que a desgraa me perseguisse e o
corao da amante me restasse firme... Peo-lhe perdo se vim
importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres s amam o
prazer, as alegrias da vida facil e que no podemos contar com ellas
para as horas negras da desgraa.

Leonor, tremula e excitadissima, lanou-lhe a mo ao brao e arrastou-o
para junto do sof. O bohemio deixou-se conduzir.

--Venha c!--disse ella.--A accusao que o senhor acaba de fazer  mais
uma infamia sobre tantas! A que  que o senhor veio aqui?

--Vinha despedir-me da mulher que amava e...

--E...?

--E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da priso. Mas
isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino...

--Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio
c? Vamos! explique-se! O que desejava?

O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os
conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstraes de affecto,
sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido.

--Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre ns acabou?

--Talvez se engane... talvez ainda no acabasse _tudo_ como o senhor
suppe...

Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos ps de Leonor,
tomou-lhe as mos e cobriu-lh'as de ardentes beijos.

--Se  certo que conservas ainda no teu corao um terno sentimento de
affecto por mim, para que me torturas na minha desgraa, para que me
lanas no desespero quando venho pedir-te consolao e amparo?--bradou
elle.

--O que desejas de mim? Dize!

--Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro,
est tudo na tua mo!

--Como? O que posso eu fazer?

--Vaes ouvir. No posso continuar a viver em Portugal sem entrar na
cadeia. , pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha
e por l me demore at se apurar a minha innocencia. Presentemente no
posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. S tu me pdes valer,
emprestando-me a quantia necessaria para eu por l no morrer de fome...
Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvao que todos os outros me
recusam...

Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da
perfidia do amante.

Joo Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima explorao,
arrancar  sua boa-f o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha.

Confirmada a denuncia de Joo Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura
sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaar-lhe o desejo da
vingana.

--Quinhentos mil reis...--disse com voz tremula.--No  isso o que
precisas?

--Sim,  isso mesmo!--exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente
sarcasmo em que a pergunta lhe fra feita--Quinhentos mil reis  quanto
eu tenho calculado que me sero precisos para os primeiros tempos...

Leonor sorriu e disse:

--E se eu fosse comtigo?

O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras.

--O que!--exclamou--querias ir comigo para Madrid?

--E porque no?--tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante.

Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura
ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia
para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispr
das suas joias e pouco mais.

Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador
Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda
ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um
encargo pesado, seno odioso, em meio da sua desgraa.

Alm d'isso, elle no podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz
onde as mulheres so as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o
genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande
exportao para as principaes capitaes da Europa e at para o Brazil.

Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal
passo, respondeu:

--Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia
n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepr ao meu
egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forada a
romper com o commendador, a perder a sua proteco... E esgotados os
primeiros recursos, o que havia de ser de ns, dois ou tres mezes depois
de havermos d'aqui partido? No, eu no posso consentir que faas por
mim esse sacrificio, porque  verdadeiramente o sacrificio do teu futuro
e do teu bem estar o que um tal passo importa!

O bohemio era, seno sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas Leonor 
que no traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao
desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como Joo Lazaro lhe
fizera crr, irrompeu n'uma exploso de ciume e de colera mal contida.

--Eu j esperava a resposta, miseravel!--bradou ella enfurecida--Eu bem
sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque,
indo comtigo, no poderias levar na tua companhia a mulher por quem me
trocaste, vil!

--Leonor!

--No tentes negar! Sei tudo, canalha!

--Leonor! Juro-te...

--No jures, biltre, que as tuas juras so mentidas, so a hedionda
expresso do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de
mulheres!...

E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado
a seus ps, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma 
fronte direita e disparou.

O desgraado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido.

Ento Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada,
a face livida pela commoo do momento, levantou-se e comeou clamando
por soccorro em brados afflictivos.

A primeira que acudiu foi a velha Marianna.

--Meu Deus! o que foi, senhora?

--Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! V chamar um medico... ande, v
depressa!

E com as mos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dr angustiosa, a loura
debruou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chro
lancinantissimo.

O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da
sua joven ama, attrahiram as attenes da visinhana e das pessoas que
iam passando.

Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu
tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declaraes,
participando o caso para o commissariado.




XXII

Mysterio


Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando o rasto de madre Paula,
passavam-se em S. Martinho do Campo acontecimentos extraordinarios e
verdadeiramente inesperados, tanto para o leitor como para os
personagens d'esta singela narrativa.

Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhes, propellidos ao natural
desafogo de suas mgoas intimas, encontravam-se a miudo, quer em curtos
passeios, quer em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, sem
ultrapassarem jamais os limites de uma estricta e rigorosa observancia
das leis do decoro e do respeito devido  posio de cada um.

D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de seu irmo, quando um
ligeiro incommodo o retinha no leito, ia sempre acompanhada da sua
criada de quarto e era recebida na presena da velha governante de
Julio; e este, pela sua parte, quando visitava a amiga de Helena, tinha
sempre todo o cuidado em escolher os dias em que D. Aurelia recebia
algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria com o excesso do
rendimento de sua casa.

Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que ambos punham em no dar
pasto  maledicencia da aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa
do que a das grandes cidades, no faltava quem esperasse, como coisa
mais ou menos natural e proxima, a noticia de um enlace matrimonial
contrahido entre os dois.

Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhes e Julio de
Montarroyo se estabelecera esse mutuo e invisivel lao de sympathia que
une e impelle irresistivelmente uns para os outros todos os grandes
desgraados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento de inquebrantavel
fraternidade, as dres intimas que os dilaceram.

Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo  sua magoa quando
podia referir  irm de Gustavo toda a grande chaga incuravel que Helena
de Noronha lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem no se sentia
menos feliz quando podia recordar, na presena de quem bem a
comprehendia, todo o enorme thesouro de venturas que perdra com o
marido e com o filho, prematuramente mortos.

Julio de Montarroyo no occultara de D. Aurelia o encontro com o _Tomba_
e a misso de que o encarregara na esperana de poder descobrir, com a
existencia de madre Paula, qualquer indicio do destino que tomara a
_irm Dorotheia_.

--Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa e mortifica,--dizia
elle--no  tanto a ingratido de Helena como  este mysterio que pesa
sobre a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal no resta duvida,
pois que nem minha prima Lucilia nem nenhuma das educandas e novias que
com ella estiveram no Sardo ouviram mais noticias suas. Mas, sendo
assim, como  que nem em Pariz nem em nenhuma das casas religiosas do
estrangeiro, que todas percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da
sua passagem?

--As congregaes religiosas--observou sensatamente Aurelia de
Magalhes--ao que me consta, parece que teem o costume de mudar
frequentemente o nome das _irms_; de modo que a que aqui se chama irm
Dorotheia, alem chama-se irm Ephigenia, n'outra parte irm Sophia, e
assim por deante, tornando por esta frma impossivel estabelecer a
identidade de cada uma d'ellas. Quem nos diz a ns que, com Helena, no
ter succedido o mesmo?

--Sim; e creio bem que succederia. Porm, ainda quando assim fosse,
Helena no teria deixado de me reconhecer, se se encontrasse em qualquer
das casas que percorri. Porque no me limitei a simples informaes.
Apparentando decidido amor pelas instituies jesuiticas, consegui, 
custa de donativos, captar a confiana e a estima de todos os superiores
e superioras, sendo em toda a parte recebido como um verdadeiro amigo e
auxiliar valioso; isto , como um jesuita de casaca.

D. Aurelia sorriu tristemente.

--E quem lhe assevera que, sob essa apparencia de estima e confiana, o
senhor no era rigorosamente vigiado e a sua verdadeira individualidade
absolutamente conhecida?

--Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se ninguem estava na posse do
meu segredo?

--Isto  apenas uma supposio que eu fao--apressou-se a dizer D.
Aurelia.--Tenho ouvido attribuir aos jesuitas tanta sagacidade e astucia
na defesa dos seus intimos interesses, que no seria para estranhar que
elles pudessem illudir e annullar todos os esforos empregados pelo sr.
Julio para encontrar Helena...

--No, no! Helena morreu. Do contrario, eu teria tido noticias
d'ella... Se o _Tomba_ encontrar madre Paula, ella confirmar, estou
certo, esta minha funesta previso...

--E se, pelo contrario, Helena viver ainda?

Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica.

--Oh! se fr viva, tornarei a vel-a, ainda que para isso tenha de
sacrificar os ultimos dias da minha vida!

Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, ao cahir da tarde. A irm
de Gustavo, no intuito de proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de
seu irmo, uma distraco que lhe aligeirasse as horas tristes das
pesadas e longas noites de inverno, costumava tambem receber o parocho
da freguezia, que no era j aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de
Norberto de Noronha.

Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, de trato simples e
affectuoso, tendo sempre um sorriso para todas as tristezas, uma palavra
de consolao para todas as amarguras.

Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraados, ora visitando
Julio, ora visitando D. Aurelia, succedendo que raras vezes deixavam os
tres de encontrar-se juntos e de, em commum, trocarem impresses sobre
os acontecimentos que se succediam, quer na localidade, quer mesmo
n'outros pontos do paiz, e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes.

D'esta vez, o padre Manoel faltra  hora habitual da visita e entrava
na sala, j tarde, com o ar de quem trazia um acontecimento grave a
noticiar.

--Ho-de ter a bondade de me desculpar a demora--disse elle com o seu
eterno sorriso bondoso--mas no foi culpa minha...

--J c estavamos sentindo a sua ausencia, sr. padre Manoel...--disse
amavelmente D. Aurelia.

--Que quer v. ex.^a, minha senhora? Esteve em minha casa o Joaquimsinho
de Thayde contando-me um caso extraordinario...

--Sim?

-- verdade. Imagine v. ex.^a que ha oito dias que se v todas as noites
na Senhora do Porto uma mulher desconhecida, prostrada com a face no
cho, resando em frente  porta principal do templo e passando assim as
longas horas da noite n'uma orao muda. De manh, aos primeiros alvres
do dia, some-se e ninguem mais a v!

--Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas phantasias dos
invencioneiros das nossas aldeias--disse D. Aurelia sorrindo-- l
crivel que uma mulher possa passar assim oito dias prostrada  porta
d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, sem que se saiba o
caminho que toma e o destino que leva?

--O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu de longe; mas no se
atreveu a aproximar-se, apavorado pelo mysterio que cerca a desconhecida
e que j vae formando lenda.

--Ento ninguem se atreve a aproximar-se d'ella e a interrogal-a?--disse
Julio.

--Ninguem. Como v. ex.^a sabe, esta nossa gente do Minho  temivel com
um cacte nas unhas, fazendo frente ao adversario que se lhe apresenta
de cara levantada, n'uma arremettida franca. Porm, desde que a sombra
de um mysterio extraordinario lhe excita a phantasia, torna-se
supersticiosa, fraca, timida, e foge do rugir de uma folha scca com a
precipitao de quem foge do diabo. Por isso, no admira que, oito dias
volvidos, sobre a extraordinaria appario que a todos apavora, ainda
at agora ninguem se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio.

--Mas o que julgam elles que seja?

--As verses variam. Uns querem que seja a alma penada da D. Rita de
Briteiros que anda pela Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que
eram muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso vulto
apresente frmas humanas,  comtudo um enviado do espirito das trevas
para attrahir alli algum dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em
corpo e alma para o inferno...

--E vossa reverendissima o que diz?--interrompeu Julio.

--Eu digo que, se no  a sombra de alguma arvore, transformada pelos
olhos medrosos dos aldeos de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural,
ento  alguma desgraada a quem o remorso afflige e que busca na
solido da noite e no balsamo da orao o allivio e perdo de suas
culpas.

Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, com grande
curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma voz secreta o avisava de que
aquelle facto extraordinario, apparentemente absurdo e inacreditavel,
como tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho nas
noites interminaveis do inverno, ao fogo da lareira, tinha relao
intima com a sua triste historia, feita de amarguras e de esperanas
perdidas.

--E acredita, padre Manoel--disse elle por fim--que a orao, por tal
modo, constitua balsamo efficaz para as tribulaes de uma alma
alanceada de remorsos?

--Creio que a orao  sempre um balsamo consolador de
afflictos--respondeu o padre.--Quando nas angustias do soffrimento
volvmos os olhos  roda de ns e no encontramos em nada do que os
cerca um lenitivo  nossa dr, ento volvemos os olhos ao co e, pondo
em Deus toda a esperana, achamos o conforto e o allivio que nenhuma
fora humana pde dar-nos.

--Mas n'essa mulher, que os aldeos de Thayde phantasiaram ou realmente
viram na Senhora do Porto, no ha apenas uma alma crente, buscando na
orao o balsamo suavissimo da esperana, que as coisas terrenas j no
pdem dar-lhe: ha uma expiao, ha um rigor de penitencia, que revela a
existencia de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrana aterra e
apavora a propria creatura que os commetteu...

--Por isso eu disse a v. ex.^a--volveu o padre, com bondoso sorrir--que,
a ser verdade o que se diz, no ha duvida que se trata de uma
desgraada, atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdo de
suas culpas...

--Se a expiao corresponde s faltas commettidas, devem estas ter sido
muito grandes para que a propria culpada busque expial-as por semelhante
modo.

--S Deus l no corao da creatura e s Elle pde julgar com justia
dos erros de cada um... Em todo o caso, o que  evidente  que estamos
em frente de uma creatura desgraada e como tal merecedora da nossa
compaixo...

Julio calou-se por alguns instantes, parecendo meditar nas palavras do
sacerdote.

--s vezes--concluiu por fim--a imaginao exagera em ns a gravidade de
erros commettidos, avultando-os at os fazer tomar as propores de
crimes horrorosos que nos apavoram e mortificam... Pde ser que essa
pobre creatura seja uma d'estas allucinadas que, por um excesso de
sensibilidade doentia, se julgam culpadas de crimes que no
commetteram...

--Tudo pde ser--tornou o sacerdote--Na minha opinio, toda a penitencia
significa arrependimento e todo o arrependimento affirma a existencia de
uma alma ba, embora um momento transviada do recto caminho pelo
diabolico poder das paixes... Alma feita para o mal e endurecida no
crime no experimenta arrependimento. Pde simulal-o,  certo, por mdo
ao castigo, mas, em tal caso, no busca as sombras da noite nem a
solido dos logares desertos para exercitar o seu fingimento... Pelo
contrario, ostenta-se publicamente  luz do dia, prostra-se nos templos,
em face dos altares, aos olhos de todos aquelles a quem quer illudir...
derrama lagrimas fingidas, bate murros no peito, grita que tudo, espera
de Deus e tem o diabo a rir no corao. No  d'esta natureza a
mysteriosa penitente que traz sobresaltados os habitantes de Thayde,
creio eu, porque desapparece e esconde-se, aos primeiros clares da
aurora, nas covas do monte, sem que ninguem conhea onde se occulta.

--O que  estranho--ponderou Julio-- que ninguem at agora se lembrasse
de verificar se realmente se trata de uma creatura humana, ou se tudo
isso no passa de uma absurda fico de espiritos broncos... Porque no
ir o proprio regedor com os seus cabos proceder a uma diligencia n'esse
sentido?

--Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor  o primeiro a
recolher a casa ao cahir da noite, tomado de um terror supersticioso...
Para aquella gente,  ponto de f que se trata da D. Rita de Briteiros,
morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado o irmo e a cunhada para
lhes herdar os bens. E o regedor de Thayde no quer nada com almas do
outro mundo..

--O que me parece--opinou D. Aurelia-- que tudo isso no passa de uma
grosseira inveno d'algum malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo
depois de morta quer deixar-lhe o descano da sepultura... O sr. padre
Manoel no ignora quanto  m e s vezes profundamente perversa esta
gente da aldeia, perseguindo com os seus odios, ainda alm da campa,
aquelles que em vida lhe no mereceram sympathias...

--Sim,  certo--concordou o padre Manoel--e creio bem que a sr.^a D.
Aurelia tem razo em pensar assim, tanto mais que a D. Rita--Deus lhe
perde!--era geralmente odiada, e supponho que com algum motivo...

--Devemos perdoar aos mortos--tornou D. Aurelia n'um tom de suave
recriminao--pois no  justo que vamos revolver-lhes o p da sepultura
para desenterrar crimes de que a justia humana lhes no tirou contas e
que, affectos ao tribunal da justia divina, s a Deus pertence
julgar...

--Eu tambem concordo, minha senhora--replicou o padre Manoel--que
devemos perdoar aos mortos e deixal-os repousar na eterna paz do
sepulchro. Todavia, no deixo de reconhecer que esta deshumana e talvez
impiedosa crueldade do povo para os que se finaram e que em vida no
seguiram as normas do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador,
qual  o de dizer aos que ficam que os seus crimes nem mesmo depois da
morte obteem o perdo e o esquecimento do mundo...

--Mas quantas abuses, quantos erros, quantos absurdos e quantas
injustias lanadas sobre a memoria de pessoas erroneamente julgadas
pela opinio, sempre fallivel, do vulgo ignaro?--interrompeu Julio--O
sr. padre Manoel no ignora decerto que, por via de regra, no so os
peores aquelles que o povo aponta como maus...

--_Vox populi, vox Dei_... A voz do povo  a voz de Deus--argumentou o
padre Manoel, repetindo o proloquio latino.

--Mas tambem _vox populi, vox diaboli_...--retrucou Julio--E mais vezes
 a voz do povo a voz do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa
reverendissima bem sabe, argumentar com supersties absurdas, com
apparies sobrenaturaes de almas penadas,  uma cobardia to abjecta e
repugnante, que s tem desculpa na estupidez do vulgo semelhante frma
de castigo infligido aos mortos!

O padre Manoel no insistiu, limitando-se a responder:

--Isto j vem assim do principio do mundo...

--E porque vem assim, devemos ns consentir que assim continue? No me
parece justo. Illustremos o povo, desfaamos-lhe erros e abuses em que
vive. Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia do dever
e no por principios erroneos de superstio absurda. E, pois, que em
Thayde no ha alguem sufficientemente sensato e honesto para dar um
exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite mesmo  Senhora do Porto
investigar o que ha de verdade na mysteriosa appario.

--Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a ir d'aqui  Senhora
do Porto!--observou D. Aurelia, espantada.

--E porque no?--respondeu Julio--Conheo o caminho e o meu cavallo 
seguro. Dentro de uma hora, estarei l.

-- uma imprudencia!--reprovou o padre Manoel--V. ex.^a sabe que as
nossas estradas so mal frequentadas de noite...

--Estou habituado a toda a especie de encontros. Na minha mocidade fiz
muitas vezes o caminho, de noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo
do Papa Assucar...

--A mysteriosa appario--tornou o padre Manoel--pde mesmo no ser mais
do que o pretexto para uma cilada.

--Uma cilada, a mim!--exclamou Julio--No ha nada menos provavel... Quem
poderia esperar que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse
com o que se passa de noite na Senhora do Porto?

--No digo que seja uma cilada propositadamente armada para v. ex.^a.
Mas  sempre um perigo ir a gente metter-se nas ratoeiras armadas para
outros--aconselhou prudentemente o padre.

Julio sorriu desdenhoso.

--Seja como fr--decidiu elle--irei certificar-me do que se trata. Se 
um conluio de malfeitores que pretendem por esta frma espalhar o terror
no sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde, para mais 
vontade effectuarem o assalto e o roubo, a auctoridade ficar sabendo
com quem tem de se haver. Se, pelo contrario,  uma creatura infeliz,
uma existencia desgraada que busca na penitencia e na orao o remedio
para as dres da alma,  uma obra de caridade levar-lhe o balsamo da
piedade e da compaixo como lenitivo a tanto soffrer.

E consultando o relogio d'algibeira:

--So 10 horas--disse elle--Vou partir. Se antes da meia noite no
estiver de volta, amanh de manh poder vossa reverendissima ouvir em
minha casa a narrao fiel do que tiver acontecido.

--Repare, meu amigo--tentou impedir D. Aurelia--que a noite est
tempestuosa e que vae pr em perigo a sua saude, bastante abalada.

--A minha existencia--replicou Julio com amargura--ha muito que decorre
batida pelos vendavaes do infortunio. Que importa uma noite de chuva a
quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite de tempestuosas
desgraas? At amanh! Nada receiem por mim, que eu vou preparado para
tudo.

E sahiu, na resoluo inabalavel de cumprir o que dizia.




XXIII

Allucinao


No dia seguinte de manh, D. Aurelia e o padre Manoel, movidos da
extraordinaria curiosidade de saberem o resultado da audaciosa aventura
de Julio de Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o
interrogarem.

O excentrico apaixonado de Helena de Noronha estava no leito ardendo em
febre.

Ao vr entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu os braos para
elles, exclamando:

-- horrivel, meus amigos,  horrivel!

--Como assim! Viu alguma coisa?--interrogou o padre com espanto.

--Vi... vi!...

--E ento?

--Ento... oh! no posso dizer-lhes o que vi...

--Malfeitores por certo...--aventurou D. Aurelia--teve de bater-se com
elles...

--No... no!--contradisse o doente com vehemencia--No se trata de
malfeitores... Ha effectivamente alli uma creatura extraordinariamente
desgraada, um ser mysterioso que tem alguma coisa de sobrenatural e
phantastico, impossivel de reconhecer...

Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido olhar como se quizessem
significar um ao outro que havia talvez motivo para duvidar da
integridade mental do seu interlocutor.

Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada pela febre, n'uma
grande agitao, proseguiu:

--Fui. A noite estava realmente tempestuosa e horrivel. Atravessei
Quintella sob uma chuva violenta e, quando cheguei a Thayde, o temporal
desencadeou-se n'um vendaval desfeito. Ainda assim, no parei. O meu
fito era ganhar a Senhora do Porto e surprehender o mysterioso vulto no
extasis da orao. Chegando ao sop do sanctuario, apeei-me, prendi o
cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com o revolver
engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio, at  crista do monte
onde se ergue o templo da Senhora... A treva era profunda e eu mal
poderia divisar quem quer que fosse, por muito perto que estivesse de
mim, se a luz dos relampagos, fendendo a miudo o espao, me no
illuminasse o caminho. No alto, tudo estava em silencio e tudo
deserto...

--No viu, portanto, pessoa alguma?--interrogou o padre Manoel.

--Quando cheguei, no vi. Mas, pensando que talvez a tempestade tivesse
retardado a vinda  penitente, resolvi-me a esperar alli, at de manh,
para poder testemunhar com verdade at que ponto os terrores da gente de
Thayde tinham fundamento, ou ento que todas essas atoardas de uma
phantastica appario no passavam de grosseira patranha de torpes
invencioneiros. Passei assim mais de uma hora, encostado  porta
principal do templo, sem fazer um movimento, quasi sem respirar.

--Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de Montarroyo!--no pde
deixar de exclamar a irm de Gustavo.--Se no estava ninguem no local,
como pde permanecer tanto tempo encostado ao templo, debaixo d'um
temporal desabrido, provocando um arrefecimento que podia prejudicar-lhe
a saude?

--Morrer hoje ou morrer amanh, que importa, minha senhora, quando no
sentimos o menor apgo  vida? Eu tinha ido alli para desvendar um
mysterio ou desfazer uma illuso de espiritos ingenuos e credulos. O meu
dever era ficar e fiquei... Ainda bem que fiquei, porque, uma hora
passada, os meus olhos, habituados  escurido, viram mover-se na treva
da noite um vulto que se aproximava lentamente do portico a que eu me
encostava.

--Ento sempre era certo!--exclamou o abbade triumphante.

--Certissimo. O vulto, que no suspeitava a minha presena alli, a
semelhante hora, chegou junto do primeiro degrau do templo, ajoelhou e
n'um grito lancinantissimo, implorou a morte  Senhora do Porto!

--A morte!--exclamaram a um tempo D. Aurelia e o padre Manoel.

--A morte, sim!--confirmou Julio--Era uma voz de mulher, lamentosa e
dce, e de tal modo parecida com... com outra voz que eu j tinha
ouvido, que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado  porta
do templo! Essa voz repetia por entre gemidos, com a face collada no
degrau da egreja:--Senhora do Porto! Me Misericordiosa! ouve a minha
supplica, d por terminado o martyrio da minha existencia, leva para ti
esta miseravel creatura!--

Depois soluos e gemidos abafados seguiram-se a estas palavras...

-- singular!--disse D. Aurelia.

--E extraordinario!--accrescentou o padre Manoel.

--No posso dizer-lhes, meus amigos, o que se passou em mim... Tomado do
sagrado respeito que inspiram os grandes desgraados que s ao co
dirigem as suas supplicas, permaneci por alguns minutos mudo e immovel
como uma estatua. Todavia, cada um d'aquelles gemidos penetrava no meu
corao como uma lamina de ao. Identifiquei-me de tal modo com aquella
dr, que cheguei a pensar que conhecia de ha muito tempo a infeliz
creatura que alli jazia prostrada e que a minha presena devia ser-lhe
como que o apparecimento de um irmo querido. Ento, sem pensar no que
fazia, recordei um nome, o nome de uma mulher que eu conhecia e que
devia ser aquella mesma: Helena!--bradei-lhe--Helena!--e
desloquei-me da porta do templo descendo um degrau. Ao ouvir este nome,
a mysteriosa creatura soltou um grito de terror, levantou-se espavorida
e fugiu... Corri em seu seguimento, mas a escurido da noite e a
incerteza do caminho no me permittiram alcanal-a... Sumiu-se.
Procurei-a toda a noite chamando-a em altos brados, dizendo-lhe o meu
nome, porm tudo foi baldado!

--No pde ento conhecer quem fsse a estranha penitente?--aventurou-se
a dizer D. Aurelia.

--Os meus olhos no puderam distinguir-lhe as feies, mas o meu corao
reconheceu-a. Era Helena, era a filha de Norberto de Noronha, a antiga
herdeira d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta noite em Nossa
Senhora do Porto!

--Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse ella, para que fugiria
ouvindo que a chamavam pelo seu verdadeiro nome e que quem assim a
tratava era por fora uma pessoa amiga?--retorquiu D. Aurelia.

--De noite todos os gatos so pardos--philosophou plebeiamente o padre
Manoel--J uma noite, vindo eu das Caldas, vi debruado sobre o muro da
estrada um homem com uma fouce roadoura na mo, como quem se preparava
para me abrir a cabea de meio a meio quando eu fosse a passar.
Suspeitando que fosse algum ladro, sustei a egua e disse ao meliante
que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto no respondeu e agitou
com mais fora a fouce roadoura n'uma silenciosa ameaa. Eu ento era
rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia, puxei de um revolver
e intimei tres vezes o meu aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe
mandar uma bala. No obedeceu e eu ento dei ao gatilho--pum! pum!
pum!--e mal vi que elle deixara cahir a foice com que me ameaava, metti
esporas  egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro dia fiquei muito
admirado de no ouvir fallar do caso de apparecer algum homem morto na
estrada e, depois do meio dia, montei a cavallo e l fui eu muito
disfaradamente estudar o sitio onde tinha tido o terrivel encontro...
No lhes minto se lhes disser que fiquei envergonhado ao reconhecer que
o malfeitor contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo
que bracejava para fra do muro uma das suas vergonteas, a tal que eu
tomra por uma foice roadoura e que l estva cahida na estrada,
cortada pela bala do meu revolver... De noite, a gente v coisas
extraordinarias, que no passam de ordinarissimas coisas, observadas de
dia,  luz do sol...

--Sr. padre Manoel--protestou Julio, agitado pela febre e deveras
irritado pela incredulidade insultuosa do padre--faa-me a fineza de
acreditar que eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no espirito
o mdo deprimente de uma foice roadoura, quando vi aproximar-se de mim
a penitente de que se trata. Estava tranquillo como v. s.^a o est agora
e tinha o entendimento to claro como v. s.^a o pde ter--logo de manh,
em jejum, quando vae para o altar dizer missa.

O padre Manoel, que no era tolo, inclinou a cabea n'um sorriso bondoso
e apressou-se a dizer:

--No foi meu proposito pr em duvida a veracidade da sua narrativa, sr.
Julio de Montarroyo... Creio que v. ex.^a visse e ouvisse tudo o que
diz, mas podia muito bem acontecer que, por uma illuso que a noite
favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto de Noronha uma outra
pessoa bem differente... Era simplesmente n'este ponto que a confuso
podia dar-se...

Julio aquietou-se um pouco com esta explicao do padre.

--Tambem no affirmo que fosse ella--disse--mas tenho a convico
intima, profunda, de que no  outra.

--E agora o que tenciona fazer, sr. Julio?--perguntou D. Aurelia.

--Voltar l. Procurei-a durante a noite at de manh. Bati o monte em
todas as direces, observei-o em todos os recantos, e no pude atinar
com o sitio em que ella se occultou. Todavia,  certo que ella se
escondeu alli, porque nem teria foras para me fugir n'uma longa
caminhada a p, nem a vereda que seguiu lhe permittiria poder andar
muito tempo a descoberto, sem que eu a encontrasse.

--Mas--observou D. Aurelia--se a mysteriosa penitente, surprehendida por
v. ex.^a, fugiu,  que no quer ser vista; e sabendo que  conhecida a
sua frequencia n'aquelle sitio, quella hora, certamente no voltar l
com receio de ser novamente surprehendida... Mrmente se v. ex.^a
acertou chamando-lhe pelo nome verdadeiro...

--Sim,  certo..--concordou Julio--mas eu tenho de cumprir o meu dever
que me manda procurar vl-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto
possivel para pr termo quelle soffrimento.

--Tenciona, pois, voltar l esta noite?

--Tenciono.

--Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado.

--Porque?

--Pelas razes que j lhe disse. Se  realmente Helena de Noronha e no
quer tornar conhecida a sua presena, esta noite evitar apparecer junto
do templo onde sabe que  esperada pela pessoa que a reconheceu e lhe
chamou pelo nome...

--O que devo fazer ento?

--Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer regularmente, e
tomar todas as medidas para a seguir de longe at lhe descobrir o
paradeiro.

-- o que se me afigura mais prudente e mais acertado--approvou o padre
Manoel.--Demais, o sr. Julio de Montarroyo est n'um estado tal de
excitao febril, que uma segunda noite passada como a primeira pde
alterar-lhe profundamente a saude. Eu me encarrego, se v. ex.^a quer, de
mandar vigiar o local, e saber se a penitente continua a apparecer l...

--Com a condio, porm, de que no ho de perturbal-a na sua orao nem
afugental-a d'aquelle sitio.

--A recommendao  inutil. Descance v. ex.^a que tambem eu e a sr.^a D.
Aurelia estamos com verdadeiro interesse em saber quem  a mysteriosa
creatura de que se trata. Prometta-me que no sahir esta noite a expr
a saude a um verdadeiro perigo, e amanh ficar sabendo com certeza se a
penitente voltou ao templo.

Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se os dois do doente,
recommendando-lhe socego e promettendo voltar no dia seguinte a
informal-o do que tivesse occorrido.

J c fra, disse o padre Manoel  D. Aurelia:

--E que lhe parece a v. ex.^a este caso extraordinario que acabamos de
ouvir?

--Parece-me--respondeu a irm de Gustavo--que o nosso pobre amigo tem
razo para estar bastante sobreexcitado com o que lhe succedeu.

--E v. ex.^a acredita que elle visse l alguem?

--Acredito... Porque no hei de acreditar, se o que elle conta  a
confirmao dos boatos de que v. s.^a se fez echo?

--Oh, minha senhora! mas repare v. ex.^a que: eu apenas contei como
extravagante phantasia dos habitantes de Thayde o rumr que corria entre
elles de que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro mundo.. a
alma da D. Rita de Briteiros.

--Mas v. s.^a no cr nas almas do outro mundo; e certamente no
recusar acreditar que a estranha appario tenha realmente um fundo de
verdade, e que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura em
corpo e alma, como tantas que, batidas pela desgraa irremediavel, fogem
dos povoados para habitarem os logares desertos, entregando-se  orao
e  penitencia!...

--Custa-me muito menos a crr que o nosso amigo, allucinado pela febre e
pela estranha situao em que se encontrava, quella hora e em
semelhante local por uma noite to tormentosa, foi victima de uma
allucinao e julgou vr o que no viu nem podia, vr... No reparou v.
ex.^a que elle tinha as faces afogueadas e os olhos brilhantes da febre?
Quem nos diz a ns que tudo aquillo no ser o delirio da doena? O mais
acertado parecia-me chamar o medico...

--Conhece Julio de Montarroyo e sabe a organisao nervosa e irritavel
que elle ... Se lhe mandamos o doutor sem elle o reclamar,  muito
capaz de no o receber e de se offender comnosco...

--Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos ao doutor o que se passou
e elle simular um motivo qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da
doena... Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para qualquer obra de
beneficencia... ou pedir-lhe informaes sobre qualquer instituto medico
das grandes cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve. O que
no devemos  deixal-o abandonado dos soccorros medicos, porque o pobre
homem, se j tinha _falha_ antes d'este caso, agora, com a mania de que
viu a filha de Norberto de Noronha,  muito capaz de ensandecer de
todo...

D. Aurelia intimamente revoltada contra esta apreciao do padre, teve
bastante fora em si para responder apenas:

--Durante o tempo que tenho tratado com o sr. Julio de Montarroyo, ainda
no pude colher elementos que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez
de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades mentaes... Se
agora me pareceu n'um estado de excitao febril, acho natural que assim
succeda depois da noite tempestuosa que passou e do violento abalo que
devia ter-lhe causado a appario falsa ou verdadeira da estranha
penitente que elle diz ter visto... Como quer que seja, sr. padre
Manoel, a doena de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo
no  d'aquellas que se curam com synapismos e xaropes receitados pelo
medico.

--O que quer ento v. ex.^a que se faa?

--Que v. s.^a cumpra o que prometteu... Que encarregue alguem de sua
confiana para vigiar o templo da Senhora do Porto e vr se realmente
Julio de Montarroyo tem razo e os habitantes de Thayde tambem...

O padre Manoel encolheu os hombros:

--Pois v. ex.^a julga...?

--Julgo que ha de haver um motivo para que tal boato se espalhasse, como
creio que o sr. Julio de Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas
que no tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe no tivessem
affigurado... O nosso dever, pois,  tirarmo-nos de duvidas e esclarecer
quanto possivel este mysterio.

--Est bem! Se v. ex.^a assim o deseja, mandarei o Joo Mil-homens, que
 arrojado e valente, e no cr em almas do outro mundo, rondar a
Senhora do Porto, esta noite e todas as outras que se lhe seguirem, at
no restar duvida de que no apparece l viva alma...

--Porm, que isso se faa em segredo, com a maxima prudencia e cautella,
para no causar alarme na povoao nem dar logar a que a mysteriosa
penitente se afaste d'estes sitios.

--Fique v. ex.^a descanada, que o Mil-homens  fino como uma raposa e
tem o faro de um co de caa para descobrir o esconderijo da tal
creaturinha, onde quer que ella se occulte. Vou j d'aqui prevenil-o e
estou bem certo que no ha nada, ou, se ha alguma coisa, no levar
muito tempo que no saibamos tudo.

O aldeo encarregado pelo padre Manoel de vigiar durante muitas noites
seguidas o templo e immediaes da Senhora do Porto nada pde observar
que confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem sequer os boatos
que corriam entre os aldeos de Thayde.

O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao relatar  D. Aurelia os
baldados esforos empregados pelo Mil-homens para descobrir a penitente
e dizia:

--So tudo imaginaes, minha senhora, so tudo imaginaes... Eu j sei
o que isto : um v uma sombra e diz que  um homem; outro olha e v um
gigante. Vem um terceiro e affirma logo que  um gigantarro e jura at
que o ouviu fallar! Sabidas as contas, vae-se a vr e no  nada... Eu
sempre disse que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas tinha
qualquer propenso para visionario...

D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena.

-- certo--dizia ella--que o sr. Julio de Montarroyo  dominado por uma
paixo violenta que quasi constitue n'elle uma doena incuravel. Mas no
creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por tal modo as
faculdades, que o faa imaginar coisas que no v nem ouve... Isso seria
a loucura, e o seu entendimento  por demais lucido para o supprmos um
allucinado...

--Valha-me Deus! no digo que elle esteja doido varrido... Elle conhece
as pessoas e sabe o que diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v.
ex.^a paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente como eu vi
os milagres de Santo Antonio...

--Mas acredita n'elles!...

--Acredito, que  o meu dever...

--Pois ento acredite tambem o sr. padre Manoel nos factos narrados pelo
sr. Julio de Montarroyo, por muito inverosimeis que elles lhe paream...
Note v. s.^a que elle no diz que prgou aos peixinhos e que elles o
ouviram devotamente com muita atteno, nem affirma que fez levantar
Norberto de Noronha da sepultura para dizer quem o matou... Conta
simplesmente que viu uma pobre mulher prostrada nos degraus de um
templo, invocando a Senhora do Porto para que lhe dsse a morte... Isto
no  to inverosimil, acho eu, que repugne acreditar-se...

--Minha senhora--volveu o padre Manoel fungando uma pitada--o sr. Julio
de Montarroyo no  santo Antonio nem tem como aquelle santo
reconhecidas auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade dos
casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe succedido. Demais, minha
senhora, S. Thom tambem precisou de vr para crr... Ora eu j me
contentava, para crr, com o testemunho do Joo Mil-homens, que no 
nenhum doutor da egreja, mas que  homem capaz de averiguar se uma coisa
que v  pau ou  pedra. Mas o Joo Mil-homens diz que no viu nada na
Senhora do Porto... Ora se elle no viu nada, como  que os outros podem
ter visto?

-- possivel e at provavel que a estranha creatura cuja existencia real
o sr. padre Manoel pe em duvida, ao vr-se surprehendida na sua orao
pelo sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente encontrada
e reconhecida e resolvsse mudar de sitio e fugir para bem longe...

--Pde ser--acquiesceu o padre Manoel, incredulo.

--No emtanto, e seja como fr, v. s.^a faz-me o obsequio de continuar a
mandar vigiar o local. Eu me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo
trabalho que lhe est incumbido.

--Para l vae todas as noites. Mas creia v. ex.^a que tanto faz ir como
estar na cama... O homem, no pde vr l pessoa alguma, pela simples
razo de nunca l ter estado de noite essa tal penitente imaginaria que
se diz... Os tempos de f acabaram, minha senhora, e quem reza gosta de
o fazer com ostentao,  luz do dia, diante de toda a gente... no se
vae pr de noite, como os mochos e as corujas que chupam o azeite das
lampadas, a piar miserias  porta dos templos desertos...




XXIV

Estranho encontro


D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu a casa, scismando
nas palavras do sacerdote.

--Ser realmente Helena de Noronha?--dizia comsigo--Julio de Montarroyo
affirma que sim; mas o seu estado febril justifica em certo modo uma
allucinao, que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma sombra, talvez
uma phantastica viso dos seus sentidos excitados... Emfim, o Manoel
Mil-homens, que  arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar at
que ponto so verdadeiras as affirmativas de Julio.

Ia deitar-se, quando no porto da casa soaram violentas pancadas.

Estranhou que assim batessem quella hora, e calculou que no podia ser
seno um estranho desconhecedor de que o porto tinha uma sineta que
facilitava a chamada.

--Batem ao porto--disse ella para a criada.--Diga ao Francisco que v
vr quem ...

D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando:

--Est l em baixo um homem que pede para fallar  senhora com toda a
urgencia.

--Que qualidade de homem ?

--Parece una homem do povo, minha senhora; mas no  d'estes sitios.

--No disse como se chama, nem de mando de quem vem?

--O nome no disse. Diz que j foi a casa do sr. Julio de Montarroyo,
mas que no o deixaram fallar com elle por estar doente, e por isso que
deseja dar s uma palavrinha  senhora.

--Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, que no v ser algum
mal intencionado.

--No me parece... S se fr algum desgraado que use d'este meio para
pedir abrigo por esta noite...

--Bem; vejamos o que elle quer.

Pouco depois, apparecia  porta da sala o mestre _Tomba_.

D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo e reconheceu-o
logo.

--Ah!  vocemec, mestre _Tomba_?

--Sou eu, minha... Vossa _incelencia_ perdoar eu vir _trupar_  porta a
esta hora, mas ha um _causo_ que no pde deixar de ser...

--Diga, mestre, diga!--exclamou D. Aurelia assustada com as attitudes e
gestos solemnes do velho sapateiro--Occorreu alguma desgraa?

--Uma grande _desgracia_, minha senhora! E se vossa _incellencia_ no
acode e manda alguem comigo, a _probe_ de Christo est aqui, est a dar
o ultimo suspiro!... J fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar o
_assucedido_.., Mas l _dixeram-me_ que elle _tmem_ estava de
_catrambias e ato_ eu lembrei-me de vir ter co' a senhora p'ra esta
obra de caridade...

--Mas de que se trata, mestre? Falle.

--Trata-se de uma _probe_ creatura, uma triste mulhersinha que eu topei
alli adiante, cahida na estrada sem dar por burro nem por albarda!

--Uma mulher!?

--Sim minha senhora... Eu vinha p'ra c e dava  canello com toda a
fora, porque se me tinha feito escuro mais cedo do que eu pensava, e
estava morto por chegar a casa do sr. Julinho, porque _tmen_ j trazia
uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, no sei como reparo e vejo
estirado ao canto da estrada um _burto_ preto que me parecia coisa
viva... Cheguei-me, sempre com cuidado, que no fosse ser algum alma de
cantaro que estivesse a _infingir-se_ morto, p'ra me deitar as unhas e
alimpar-me o que eu _trouvesse_, e vi que o dito _burto_ no mexia com
p nem com mo... Accendi um _phrophe_, cheguei-lh'o  cara, e era uma
mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, mas, qual qu! a _probe_
de Christo mal resfolegava... estava sem sentidos! Inda me lembrou de
pegar n'ella s costas e trazel-a comigo; mas a caminhada era mui bem
grande e eu _tmem_ j vinha estafado, sem poder comigo... de modos que
deitei a correr p'ra vir  sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe que
mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... Mas elle tmem est
doente...

D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta narrativa, no deixou que
o sapateiro terminasse.

Chamou os criados e mandou que fossem com o sapateiro buscar a infeliz.

--Levem um lampeo para se alumiarem... Deitem roupa bastante na padiola
e tragam n'ella a pobresita com cuidado. De caminho, um que venha por
casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. V, no se
demorem... lembrem-se que  uma vida que vo salvar!

Estas ordens puzeram em movimento toda a gente da casa, e poucos minutos
decorridos, seguia o _Tomba_, pela estrada,  frente do grupo, em
soccorro da infeliz creatura.

Uma hora depois regressavam o _Tomba_ e os criados de D. Aurelia,
conduzindo na padiola o corpo quasi inanimado da desconhecida que o
sapateiro encontrra abandonada no caminho.

A irm de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens que entravam o porto,
acudiu  sala de entrada, e sem attentar na pessoa que elles conduziam,
deu ordem para transportarem a enferma para um quarto onde j havia uma
cama preparada.

A esta hora chegava tambem o medico que acudia solicito ao chamamento,
julgando que se tratava de algum familiar da casa ou talvez mesmo da
propria D. Aurelia.

--Ento, quem temos por c doente?--disse elle ao encarar D. Aurelia--J
vejo que no  v. ex.^a. E antes assim.

--Felizmente, doutor, no sou eu a que preciso dos seus soccorros.
Trata-se de uma pobre creatura que foi encontrada cahida, sem accordo,
na estrada, e que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados.

--Onde est ella?

--L dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe uma cama.

--Vamos vl-a.

E encaminhou-se para o interior da casa, guiado por D. Aurelia.

A infeliz estava j mettida no leito, mas ainda sem dar accordo de si.

Informou a criada que a despira, que a desgraada trazia os vestidos
rotos e sujos da terra da estrada.

Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porm, desusado asseio nas roupas
brancas, humildes e pobres, mas em que havia o cuidado proprio de pessoa
que est habituada  limpeza--que  o primeiro indicio de uma boa
educao.

O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e examinaram a desconhecida.

Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada e pallida havia os
vestigios profundos de mil soffrimentos e privaes.

Com os olhos cerrados e a respirao quasi imperceptivel, a desditosa
similhava um cadaver.

No era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice precoce sulcavam-lhe o
rosto triste.

D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade e no se recordou de
ter visto entre os innumeros mendigos, que todos os dias lhe batiam 
porta implorando a esmola da sua caridade, uma figura que se lhe
assimilhasse.

--Esta pobre mulher--disse ella--no deve ser d'estes sitios.

--Tambem me parece--affirmou o doutor--Pelo menos, no  d'estas aldeias
proximas onde exero a clinica e onde conheo quasi toda a gente.

--O que tem ella, doutor?--perguntou D. Aurelia ao medico, que acabava
de auscultar a doente.

--Frio e fome, talvez...--respondeu o homem de sciencia, fazendo uma
careta--Esta mulher tem sido mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria
esta com certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.^a a no
amparasse. Vamos tratar de a restituir  vida, e encetaremos depois o
tratamento que julgarmos conveniente... Creio, porm, que no teremos
grande necessidade de recorrer  botica... Afigura-se-me que bastar
apenas recorrer  cosinha...

--Vou mandar-lhe j matar uma gallinha!--acudiu D. Aurelia.

--Sim--approvou o doutor.--E tenha v. ex.a a bondade de mandar-me c a
criada, a Brigida, para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a
doente.

--Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que  preciso fazer...

--No, no! A Brigida que traga um pouco de vinagre, para lhe dar uma
fomentao nos pulsos e nas fontes, a vr se assim conseguimos
restituir-lhe os sentidos.

D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem para que tratassem a
infeliz com todo o desvelo, seguindo as indicaes do medico.

Pouco depois, a criada vinha annunciar  D. Aurelia que a pobresinha
voltra a si, olhara espantada  roda do leito sem reconhecer pessoa
alguma e sem soltar uma palavra; que o doutor lhe receitra um cordeal e
que, tomado elle, cahira n'um somno profundo e reparador.

O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, promettendo a D.
Aurelia voltar no dia seguinte.

--Deixem-n'a socegar--aconselhou elle--e amanh veremos o tratamento a
que temos de submettel-a.

--Parece-lhe, doutor, que o seu estado  de inspirar cuidados?

--De certo, minha senhora. Convem no lhe fallar nem obrigal-a a grande
esforo de memoria. A pessoa que lhe servir de enfermeira deve apenas
limitar-se a ministrar-lhe o que fr necessario, sem a obrigar a fallar
mais que o indispensavel. Mas por esta noite no acordar nem
necessitar de outra coisa mais que o descano. Amanh voltarei. Boa
noite.

--Boa noite, doutor, e peo-lhe que tome a seu cuidado esta infeliz que
no conheo. Seria para mim um grande desgosto que ella viesse morrer a
minha casa...

--No morrer, minha senhora, a no ser que outra doena mais grave
sobrevenha. Por emquanto, o mal  este: frio e fome.

--Coitadita!--murmurou compungidamente a irm de Gustavo--E pensarmos
que ha gente que morre pelas estradas abandonada de toda a caridade!

--Minha senhora--volveu o medico philosophicamente, encolhendo os
hombros--o mundo compe-se de tudo... Ha gente que morre de fome e ha
gente que morre de fartura... Os extremos tocam-se.

E sahiu, embrulhado no seu capote  cavallaria, e com um _cache-nez_
enrodilhado desde o pescoo at  ponta do nariz.

--Que _barbeiro_!--disse elle, ao sentir no rosto a aragem cortante da
noite, para o homem que  porta o esperava com o lampeo acceso afim de
o acompanhar no trajecto at casa--Este _barbeirinho_  o tal das
pneumonias!

No dia seguinte voltou. A doente recuperra os sentidos, mas
apresentava-se n'um estado de abatimento e de fraqueza extraordinaria.

A febre consummia-a. Delirava.

Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe dos labios, n'uma
confuso que no deixava perceber-lhes o sentido.

O medico observou-a longo tempo e por fim receitou um calmante,
prohibindo que dessem de comer  enferma.

--Ento, doutor?--interrogou D. Aurelia.

--Enganei-me, minha senhora--disse o medico--julguei que um caldo de
gallinha e algum socego reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que
o remedio no est s na cosinha, est tambem na botica.

-- ento grave o estado d'essa infeliz?

--Gravissimo. A febre  muito violenta e desconfio bem que tenhamos de
nos vr a contas com uma pneumonia...

--Pobre mulher!

--Se v. ex.^a quer, e isso parece-me o mais sensato,  pregar com ella
s costas de dois homens que a levem ao hospital de Guimares.

--Oh! isso no!--fez D. Aurelia com vehemencia.--Acaso o doutor no ter
recursos na sua sciencia para valer a essa desgraada?

--Oh! minha senhora! no se trata de mim, que estou prompto a
soccorrel-a conforme sei e posso: o alvitre tem por fim unicamente
evitar a v. ex.^a os incommodos e cuidados que taes casos sempre
acarretam...

--Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher fosse recolhida em minha
casa. Aqui ser tratada com os cuidados que o seu estado requer.

--Faa-se a sua vontade, minha senhora.

D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente a velar a
enferma a sua criada de quarto, que era uma enfermeira distincta.

--Que no falte nada a essa infeliz--disse a irm de Gustavo--No lhe
faam perguntas indiscretas, no inquiram coisa alguma do seu passado, e
faam-lhe comprehender que est entre pessoas amigas que se interessam
pela sua saude e que desejam vl-a restabelecida.

Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo de tres dias, tendo
diminudo a febre, a doente encontrava-se sensivelmente melhor.

--Est salva--disse o medico a D. Aurelia--Agora o que precisamos  ter
muito cuidado com a alimentao.

--Tel-o-hemos.

Prescreveu o regimen a seguir e to rigorosamente foi obedecido que,
oito dias passados, a desconhecida entrava em franca convalescena.

Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos os dias informar que o
Joo Mil-homens no lobrigava viva alma na Senhora do Porto.

-- escusado!--dizia o bom do parocho--aquillo foi tudo sonho do nosso
Julio. E quem sabe mesmo se foi viso da febre que o consummia. Pobre
homem! Eu bem lhe disse que no cahisse na asneira de se metter a
caminho com uma noite d'aquellas... No quiz attender, ainda  dos que
do credito a tolices e invenes da gente rude do povo, e o resultado
foi cahir de cama e ficar para alli entre a vida e a morte ha uns poucos
de dias...

--Disse-me o doutor que o encontra muito melhor...

-- verdade. At j lhe deu ordem para receber o _Tomba_, que esteve
hontem mais de uma hora em conversa com elle... E o que  mais curioso 
que o doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, appareceu muito
melhor, mais animado e com um semblante alegre e risonho.

--No pude ir vl-o n'estes dois dias, mas talvez v logo visital-o.

--O que eu no sei  que diabo de intimidade  a do _Tomba_ com elle. Um
homem ordinario, de baixa esphera, gosa de uma tal considerao em casa
d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio por fora!

--No ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. Os humildes tambem teem
direito  estima e considerao das pessoas superiores, quando possuem
qualidades de honradez e honestidade que os recommendam...

--Sim, sim... Mas no se v isso muito frequentemente... A no ser que
v. ex.^a queira attribuir ao _Tomba_ qualidades unicas e at hoje nunca
vistas e apreciadas em remendo portuguez.

--No lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. padre Manoel... Acho
natural que o sr. Julio de Montarroyo proteja e estime um pobre homem do
povo, e nada mais.

O padre fez uma carta significativa.

--Sim, sim, minha senhora... V. ex.^a  uma santa, acha tudo muito
natural porque no conhece o mundo... O _Tomba_  bom homem, no digo
que no, mas ha muitos bons homens como elle, e no encontram o
acolhimento de que este se pde gabar...

--Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, por exemplo, recolhi em
minha casa uma pobre mulher que foi encontrada moribunda a um canto da
estrada... Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos compativeis com os
recursos de que disponho e nem sequer sei ainda quem ella ...

--Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, alguma desgraada sem eira nem
beira... Ha tantas por esse mundo!

--Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo  esta a primeira que,
em taes circumstancias, encontra abrigo em minha casa.

A este tempo, appareceu a creada encarregada de tratar a desconhecida.

--Minha senhora--disse ella--a nossa doente...

--O que tem? Peorou?

--No, minha senhora. At est muito melhor. Mas ha pouco perguntou-me
onde estava, que casa era esta e quem  que a tinha trazido para aqui...

--O que lhe respondeu?

--Cumpri as ordens de v. ex.^a, disse-lhe que estava em casa de pessoas
amigas e que no se affligisse, que no lhe havia de faltar nada... Mas
ella quiz por fora saber como se chamam os donos da casa... e eu
disse-lh'o.

--E ento?

--Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar  senhora...

--Para me fallar a mim!--disse D. Aurelia--Pois bem; diga-lhe que vou j
vl-a...

E voltando-se para o padre Manoel:

--Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma parte das attenes que
lhe devo... Bem v, a enferma est melhor, alis teria pedido antes o
seu soccorro espiritual...

--Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor--replicou o padre
Manoel gracejando.--Realmente, v. ex.^a com a sua extrema caridade faz
que os infelizes esqueam que s aos ministros do altar devem
confessar-se... Porque ninguem me tira da cabea que a sua protegida
quer fazer-lhe revelaes intimas...

--Talvez. E se assim fr, creia o sr. padre Manoel que serei to
escrupulosa em guardar rigoroso sigillo como v. s.^a o costuma ser...

--Quer dizer com isso que escuso de tentar saber o que ella vae
confiar-lhe.

--Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com certeza que o guardarei...

--N'esse caso, minha senhora, no quero fazer esperar a sua
confessada... E se o caso fr de consciencia, estou bem certo que v.
ex.^a lhe aplacar os escrupulos to bem ou melhor do que o mais
auctorisado mestre de casos...

--O sr. padre Manuel  sempre demasiado lisonjeiro para mim--replicou D.
Aurelia sorrindo.--No tenho pretenses a arvorar-me em sacerdotisa.
Fao o bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que elle precisa
do meu soccorro, quer temporal quer espiritual.

--V. ex.^a  inquestionavelmente uma santa!--affirmou o padre sahindo.

D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vl-a entrar, a desconhecida
fitou n'ella os olhos marejados de lagrimas.

A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade do quarto no lhe
permittia analysar as feies da enferma.

--Ento, como est?--perguntou a irm de Gustavo com voz doce e
carinhosa.

--Muito obrigada, minha senhora... sinto-me melhor--replicou a doente
com voz debil. O som d'aquella voz, porm, impressionou a dona da casa.
Parecia-lhe que j a tinha ouvido alguma vez, que o seu timbre lhe no
era estranho.

Voltou-se para a criada e disse-lhe:

--Deixe-nos ss--ordenou.

--Sim, minha senhora--replicou a criada. E sahiu.

--Disseram-me que queria fallar-me...--interrogou D. Aurelia com os
olhos fitos na doente--Poderei ser-lhe util em alguma cousa?

--Queria--tornou a doente--que tivesse a bondade de abrir um pouco
aquella janella e attentar no meu rosto...

D. Aurelia satisfez o desejo  doente e ficou-se fitando-a, sem poder
reconhecel-a.

--No me conheces, Aurelia?--balbuciou a infeliz por entre
lagrimas.--Tens razo! Estou to mudada que nem meu proprio pae me
reconheceria, se fosse vivo e me visse agora!

E escondendo o rosto entre as mos, desatou n'um choro convulso e
abafado.

Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa lhe tivessem
levado um raio de luz ao espirito, D. Aurelia gritou n'um indescriptivel
alvoroo de espanto:

--Helena de Noronha! sers tu?!

--Sou eu, minha amiga! sou esta desgraada, rta e faminta, que vem
receber, como supremo castigo de seus crimes, a esmola da tua compaixo!

Estas ultimas palavras foram j proferidas nos braos de D. Aurelia, que
estreitava a sua infeliz amiga ao corao, cobrindo-lhe o rosto de
beijos e orvalhando-lh'o de lagrimas.

--Vamos! no chores, minha querida--disse por fim D. Aurelia.--Quiz Deus
que viesses a esta casa que  tua e onde encontrars a mesma amisade
sincera de sempre.

--Obrigada... obrigada!--murmurou Helena de Noronha--Peo-te apenas que
me deixes morrer aqui, ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a
miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego do teu lar
bemdito, da tua santa caridade!...

--No, minha amiga, no! Tu vivers, tu achars ainda n'esta casa, que 
tua, no meu corao que  sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e
os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos te fazem to
digna.

--Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei importunar-te...
Mandei-te chamar e quiz que me reconhecesses e me ouvisses, porque no
desejo levar para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de tantos
crimes, ainda mais este cruciante espinho de uma ultima ingratido...

D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a sua amisade, com seu
carinho.

--O medico disse-me que ests melhor... Agora, o que  indispensavel, 
muito socego, muita tranquilidade de espirito... e o restabelecimento
far-se-ha breve e por completo.

Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios de Helena de Neronha.

--Para que eu me encontre aqui, na tua casa, minha amiga, foi preciso
que as foras me fugissem e a vida estivesse proxima a abandonar este
misero envolucro... por tal modo desfigurado que nem tu mesma o
reconheceste... No te illudas, Aurelia... eu no poderei viver mais que
alguns dias, e durante elles, deixa que eu te confie a historia das
minhas desgraas, afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma lagrima
de compaixo para a memoria da tua desditosa e infeliz amiga d'infancia.

--Eras tu a penitente da Senhora do Porto?--interrogou de repente D.
Aurelia.

--Era! Como soubeste que eu estava alli?

--No o soube. Alguem tinha a fundada suspeita de que eras tu, se  que
no possuia a intima certeza...

--Esse alguem era...?

--Julio de Montarroyo...

A enferma soltou um grito.

--Ah! tu conhecel-o? Ento sempre  certo que era elle... no foi uma
allucinao dos meus sentidos?

--No, minha amiga, no! Julio de Montarroyo, ouvindo dizer que na
Senhora do Porto apparecia alta noite uma penitente desconhecida e que
ninguem lograva ver de dia, teve o presentimento de que essa penitente
eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, e alli te surprehendeu, ou
antes, adivinhou-te nas trevas da noite...

--Sim... sim... eu vi um homem encostado  hombreira do portico, e
quando eu, julgando-me s, elevava quella imagem, a minha fervorosa
prece, ouvi uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida e durante muito
tempo ouvi repetir o meu nome... E a voz que o repetia parecia-me a
d'elle...

--No te enganaste... Era elle, era Julio de Montarroyo que te chamava.

--Como veio elle para aqui, para esta terra, que no era a d'elle e onde
no me recordo de o ter visto nunca, nos tempos da minha mocidade?

--Trouxe-o para aqui o corao, o desejo ardentissimo de se vr rodeado
de tudo o que pudesse fallar-lhe do passado da mulher que to infeliz e
desditosamente amou... Viver na mesma terra em que ella viveu e foi
feliz, respirar o mesmo ar que ella respirou out'rora, amar os mesmos
sitios que ella amou. O desgraado julga viver assim mais perto d'ella,
mais identificado com o pensamento e com as saudades da mulher que foi
toda a sua esperana e que  todo o seu martyrio. 
impossivel--disse-me elle um dia--que ella algumas vezes no pense com
saudade n'estes sitios, que foram o bero da sua infancia descuidosa e
feliz. E n'esses instantes de dolorosa recordao, consola-me a ideia de
que os nossos pensamentos se unem no mesmo objecto, atravs a distancia
que os separa.

Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando com ambas as mos o
corao, que parecia querer saltar-lhe fra do peito.

D. Aurelia proseguiu:

--Assim, o desditoso adquiriu por todo o preo a casa que foi de teu
pae,--que foi tua,--e n'ella vive, ou antes n'ella vae morrendo
lentamente, ralado de dr e de saudade...

--Meu Deus! quantas victimas eu fiz!--bradou Helena de Noronha
angustiadamente, estorcendo-se n'uma dr incomportavel.

--Vamos, minha amiga!--tornou-lhe D. Aurelia, querendo
confortal-a.--Quiz Deus que viesses ainda a tempo de reparar o mal que
fizeste quelle desgraado. A maior felicidade para elle ser o tornar a
encontrar-te.

--Ah! no! no!--bradou Helena de Noronha, pondo as mos
supplicante:--Pelo amor de Deus, por tudo quanto mais tens amado n'este
mundo, no lhe digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, se me
encontrasse na sua presena... Eu no sou digna d'elle... Deixa-me
morrer ignorada de todos, minha querida Aurelia!

A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga os olhos turvos de
lagrimas.

--Morrer! No falles em morrer, minha amiga... Cobra alento e pensa que
a tua vida  ainda precisa, porque pdes ser util a alguem. Julio de
Montarroyo ama-te com um amor que s as almas essencialmente delicadas
conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu na Senhora do Porto,
sem poder fallar-te, porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por
febre intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperana de poder ainda
encontrar-te. Todas as noites tem sido enviado, por sua ordem, um homem
 Senhora do Porto, a vr se pde lobrigar-te e seguirte de longe at ao
sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada manh que o vigia
regressa sem dar novas da penitente,  para elle uma cruel angustia que
o approxima da sepultura. Querers tu condemnar  morte uma vida que to
nobre e desinteressadamente se te devotou? Se est na tua mo minorar
tamanho soffrimento, se com a tua presena pdes fazer voltar a
felicidade ao corao d'aquelle desgraado e banhar de luz e de alegria
os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, porque o no has de
fazer?

--Oh! no! no!  impossivel! Eu estou condemnada, minha amiga!
Existencia maldita foi a minha em que, sem o querer, e guiada, por um
genio infernal, s pude semear a dr, a desolao e a morte em toda a
parte por onde passei!... Se tu soubesses que horroroso plago de
crimes, de atrocidades e de infamias tenho atravessado desde que, filha
ingrata, abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias com asco e
nojo! No! no! eu no posso mais aproximar-me de quem quer que seja sem
que o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto impuro das
minhas mos, manchadas de sangue e de crimes, deixem em tudo o que tocam
uma nodoa indelevel de corrupo e de infamia!... Oh! o miseravel! O
maldito persegue-me sempre com o seu olhar de fogo, que me abrasa... com
o seu infernal sorriso de demonio, percuciente como um punhal...
corrosivo como um veneno! Oh! vl-o?... vl-o? L est elle, envolto na
sua negra sotaina esfarrapada... as faces congestionadas... a bocca
espumante de raiva... e os olhos, como carbunculos, sempre fitos em
mim!... Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... Oh!
salva-me! salva-me!

E n'um estranho accesso de delirio, Helena de Noronha agarrou-se
convulsivamente  sua amiga, tombando em seguida sobre o leito, sem
sentidos...

Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente chamar o medico,
a quem contou que a doente, commovida com o caridoso acolhimento que lhe
dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento e cahira em
deliquio.

O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente ao seu estado de
extrema fraqueza.

--Devmos evitar a menor commoo, o menor abalo--disse elle.

Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, de tal modo fra
violento o abalo produzido pelas revelaes que lhe fizera a sua amiga.

A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a dois passos, vivendo na
mesma terra, habitando a casa que fra d'ella e sempre alimentando-se
das recordaes de um amor impossivel, sem remedio e sem esperana,
matava-a.

A pobre filha de Norberto de Noronha tremia s com a lembrana de que
havia de supportar os olhares de Julio, to franco, to leal, to amante
e apaixonado e to cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores.

Porque no lhe teria ella confessado francamente a sua situao, a sua
desgraa, a sua queda irremediavel, quando no Sardo o mancebo lhe
implorava de mos postas que salvasse seu velho pae e confiasse no puro
e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia?

No quiz. Receou confessar-se indigna do nobre affecto que aquelle
corao lhe tributava. E comtudo, n'esse tempo, ainda ella no passava
de uma victima innocente, sem sombra de culpa, immolada  torpeza
jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar agora, quando
j no era s uma desgraada a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua
cora de innocencia, mas tambem um sr ascoroso e repugnante, manchado
por toda a especie de crimes, semeando desolao e morte por toda a
parte?

Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte de seu pae. Mulher,
leviana e perversa, lanara-se imbecilmente nos braos de um monstro de
sotaina, sacrificando o corao e a vida de seu primo, que a adorava, e
deixando que, na embriaguez de um mysticismo absurdo, abusassem da sua
innocencia e a convertessem na incestuosa e infame barreg de um
jesuita. Me, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente e, peor que
as feras, relegara-o  fome,  miseria e  morte talvez. Amada
sinceramente por Julio de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lanara
aquella alma no desespero, na tortura de todas as horas.

Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera essa paixo
n'um instrumento de morte. Fizera d'elle um parricida e ella propia
manchra as mos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado
pelas monstruosas infamias e torpesas de que o miseravel a fizera alvo.
Mas um crime no auctorisa outro e, seja qual fr o sentimento que o
dite, o remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no corao do
criminoso.

Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas recordaes de
tantos crimes e reconhecendo-se perdida para a rehabilitao n'este
mundo, pedia a Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta fosse
seguida da condemnao eterna para a sua alma.

As penas do inferno pensava ella que no podiam ser-lhe mais tormentosas
e afflictivas do que o peso d'esta existencia amaldioada que arrastava
havia j dezeseis annos.

Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua amiga.

--Aurelia--disse-lhe ella--tu no sabes a grande desgraada que acolhes
em tua casa e a quem nos ultimos dias da sua tormentosa existencia ds a
esmola da tua compaixo.

--Helena!--volveu-lhe a irm de Gustavo--peo-te que no voltes a
atormentar-te com as recordaes do passado. Fui tua amiga e tua
companheira de infancia, e se isto merece recompensa, d-me ao menos a
consolao de te poder chamar minha irm.

--Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida os thesouros da tua
bondade nas curtas horas que me restam de vida...  isso um signal
evidente de que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas e o
arrependimento de tantos crimes...

--Helena! socega, minha irm... Tem esperana na misericordia divina que
ha de ainda conceder-te dias venturosos.

--Fazes-me um favor que te peo, Aurelia?

--Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, no pedes.

--Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do
Sardo ou no das Sereias existe ainda uma superiora chamada Madre
Paula... E se ella existir, que lhe entreguem uma carta minha...

--Madre Paula!--replicou Aurelia--Existe, minha amiga, sei que existe.

--Como o sabes?--interrogou alvoroadamente Helena de Noronha.

--Porque Julio teve tambem interesse em o saber e mandou ao Porto
informar-se um homem de sua confiana, o mesmo que te encontrou
desfallecida na estrada e que aqui te conduziu.

--E esse homem viu-a, fallou-lhe?

--Fallou.

--Sers capaz de fazer com que elle volte a procural-a, minha amiga?

--Porque no!?

Fez-se um instante de silencio.

--Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me?

--No. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu nome.

--No o digas a ninguem, por ora.

--Socega. Cumprirei a tua vontade.

Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu algumas linhas, que
fechou em seguida n'um _enveloppe_.

--Que parta sem perda de tempo!--disse ella, entregando a carta a D.
Aurelia--Desejo que a resposta me encontre viva.

O _Tomba_ partiu n'essa mesma noite para o Porto.




XXV

Pobre Helena!


Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre intensa que o
acommettera. O restabelecimento, porm, fazia-se to lentamente, o seu
estado de fraqueza era tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do
quarto e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse de longas
conversas com quem quer que fosse.

Todavia, o _Tomba_ lograra fallar-lhe e informal-o de que madre Paula
era viva e podia ser encontrada no Porto.

--Fallou-lhe, mestre _Tomba_?

--Fallei, snr. Julinho... saber vossa incellencia que fallei... Fui s
Sereias _prscural-a_ e no estava l... Mas eu taes intrujices armei,
que me mandaram  Carvalhido ter co'ella... E est ainda fresca que nem
parece a edade que tem... Aquellas bochechas no se criam s com _auga
benta_, essa lhe juro eu!--commentou o sapateiro.

--Fallou-lhe de Helena de Noronha?

--A esse respeito nem pio... Tive medo que ella soubesse  que eu l ia
e se espantasse... Nada! Eu _infingi_ que ia de mando da prima de vossa
_incellencia_, a snr.^a D. Lucilinha de Villaverde...

--Ah!

--Ella ficou toda _estifeita_ e tratou-me com muito b agrado, mas a
respeito de comer e beber... nem _burro queres tu auga_?! Eu tmem no
precisava--accrescentou--e indas que ella me offerecesse, no era o
filho do meu pae que acceitava... Emquanto me lembrar a arriosca que me
armaram no Sardo, no cmo nada da mo dos frades e das freiras nem que
me matem... P'ra lio, bonda uma vez... Mas  menos queria que ella
tivesse um migalho de cortezia commigo...

Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia aos queixumes do
sapateiro escandalizado.

--Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas estou to fraco, to
abatido, que no posso por emquanto fazer a viagem--murmurou.

--Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar co'ella?

--Sim... unicamente para fallar com ella...

--Mas, o snr. Julinho, porque no lhe escreve uma carta, que eu
levo-lh'a?

--O que desejo dizer-lhe no  coisa que se escreva em carta...

--Deixe l! O preto no branco falla como gente... Sendo uma carta bem
notada e com quatro cantigas que lhe eu cante, a mulher responde...

--No, no...  preciso ir eu...

O _Tomba_ encolheu os hombros, n'um protesto mudo e disse por fim:

--O snr. Julinho l far como entender... Eu c estou p'r que fizer
_minga_. E se v que  coisa que no se pde arranjar sem vossa
_incellencia_ l ir, sabe o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as
paixes p'ra traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se rijo
e teso, que a freira faz o mesmo, e ella l est  espera...

--V, v, mestre _Tomba_--despediu Julio.--Deixe-se andar por ahi, que
pde ser-me preciso de um momento para o outro...

--Eu c estou, sr. Julinho... Os amigos so p'rs _incasies_...

E sahindo dos aposentos do doente:

--Este, se no trata de metter p'r bucho alguma coisinha de sustancia,
est aqui, est prompto... E foi o ladro do padre _Inxelmo_ que o pz
assim!...

De repente bateu na testa, exclamando:

--Ai, a minha cabea! E eu que no lhe dei novidades d'aquelle ladro!

Voltou atraz, bateu  porta do quarto e perguntou:

--D licena, snr. Julinho?

--Entre, mestre _Tomba_--respondeu o enfermo, da cadeira em que se
achava sentado.

--Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito de padre _Inxelmo_, 
raa de patife de que ninguem me soube dar relaes...

--J sei... j sei que esse homem ha muito que no reside no
Porto--volveu Julio com um fundo suspiro.

--Pois eu ia com meu receio de o topar l por aquellas casas de
_santidade_--disse o sapateiro, grifando a palavra com um sorriso--Que
eu, se o apanhasse na rua, era _home_ p'ra lhe rachar a cora de meio a
meio, como quem racha cinco tostes falsos... Mas l dentro da _seve de
pedreiro_  que eu no queria topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle.

-- natural--respondeu Julio.

O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia que Julio dera 
descoberta.

--Parece que j no se importa muito com o padre...--resmungou--_Tmem_,
n'aquelle estado, ainda que o visse e lhe quizesse chegar duas
_galhetas_, no podia...

Quando o medico soube que o _Tomba_ se demorra em conferencia com o
doente, exasperou-se e ameaou de no voltar a receitar, se no fosse
obedecido.

 que notra no enfermo um novo accesso de febre.

Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor.

--Era um favor--dizia elle--deixar que a doena acabasse com isto!...

Passaram ainda uns dias, e o _Tomba_ faroleiro e mettidio, no podendo
ser admittido  presena de Julio, vingava-se indo para casa de D.
Aurelia, a informar-se do estado da _probesinha_. Quando D. Aurelia o
incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre Paula, o sapateiro no
pde ter-se e, transgredindo os preceitos do medico, foi ter com Julio.

--O sr. Julinho quer alguma coisa para madre Paula?--perguntou.

--Porque? Vae fallar com ella?

--No, senhor...  que eu vou ao Porto fazer umas mercas p'r senhora D.
Aurelia, e se vossa _incellencia_ quizesse, eu, de caminho, levava
qualquer recado para Madre Paula.

Julio ficou pensativo.

--No... no quero nada--disse por fim--Tenho immenso desejo de fallar
com ella; mas no posso pedir-lhe que venha do Porto aqui, ouvir-me.
Alem de indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que tenho a
dizer-lhe representa antes uma impertinencia da minha parte do que um
servio a prestar-lhe...

E dizendo isto, Julio cruzou os braos e deixou descahir desalentado a
cabea sobre o peito.

O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e depois rompendo na sua
natural expansibilidade, exclamou:

--_Ameno_, sr. Julinho! O que no se faz em dia de Santa Luzia faz-se ao
oitro dia... O sr. Julinho inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer
ir... Mais velho sou eu, que j c tenho _acaijo_ carro e meio d'annos,
e inda, sendo preciso, vou d'aqui  cabo do mundo a p...

E concluindo:

--E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira e a _arresolvesse_ a
vir por ahi arriba, assim como coisa minha?

--Como  que voc havia de fazer isso, mestre _Tomba_?--interrompeu
Julio com um sorriso de quem achava disparatada a hypothese do
sapateiro.

--Como? Isso agora no sei eu... Mas se fosse eu que lhe pedisse como
coisa minha... sem lhe dizer quem  que lhe quer fallar... A mim, j se
sabe, que no me fica mal pedir uma coisa que no seja assim l muito de
grande inducao... Eu sou p'r aqui um _probe_ sapateiro, fazem  de
conta que eu no sei o que digo... e s vezes pegam as bichas.

--No, no, mestre _Tomba_, no pense n'isso, que  uma coisa que no
pode fazer-se...

--Est b! Vossa _incellencia_ que o diz, l sabe a _rezo_ porqu...

O _Tomba_ partiu para o Porto muito resolvido a envidar todos os
esforos para conseguir que madre Paula visitasse Julio de Montarroyo.

--Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo--pensava elle.--Entrego-lhe
a carta da snr.^a D. Aurelia e logo vejo na cara os _himores_ de que
ella fica... Estas freiras so amigas de saber e de tirar nabos do
pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a pta de que a Lucilinha
est muito mal e que lhe manda pedir de bocca--porque no pde
escrever--se ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque tem
umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e no queria morrer sem a
vr alli  par d'ella... A freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra
Villaverde, ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois digo que me
enganei no caminho e passe por l muito bem...

E contente d'esta esperteza, o _Tomba_ achava impossivel que a sua
lembrana no produzisse resultado.

--Coitado do snr. Julinho, que est p'ra alli, que  mesmo uma dr de
corao, morto por desabafar, e no v meio de fallar c'oa madre Paula,
seno indo elle aonde a ella... Pois vamos a vr se eu tenho labia p'r
trazer c... Ella inda est bem rija e fera, pde melhor andar do que
elle... Ora deixa que eu sempre quero vr se uma coisa que se me mette
em cabea hade ficar assim em _augas_ de bacalhau!

Chegado ao Porto, o _Tomba_ encaminhou-se  Bandeirinha, bateu  porta
da casa conventual das Sereias, e pediu para fallar a madre Paula.

A madre porteira informou-o de que a superiora estava no campo, a ares;
e que no era esperada ainda por aquelles dias...

Atravessou a cidade em direco ao Carvalhido onde j fallra com a
madre Paula dias antes, e disse ao criado que veio abrir-lhe a porta:

--Faa favor de dizer quella senhora com quem fallei oitro dia que est
aqui o homem de Villaverde com uma carta para ella.

O criado foi e voltou pouco depois.

Na mesma sala em que j fra recebido uma vez, estava madre Paula. O
sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a festivo e humilde, com grande
profuso de zumbaias.

--Ora ato vossa reverendissima e incellentissima madre como passou?
Passou bem?

--Obrigada, passei bem--respondeu madre Paula com risonho semblante.

--Pois eu tmem passei bem, muito aguardecido  senhora... A menina de
Villaverde manda muitas _bugitas_  senhora madre e mais esta
cartinha...

E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre Paula abriu-a e com
grande surpresa leu:


                                              _Minha querida Paula_:


Lembras-te ainda d'aquella desgraada _irm Dorotha_ que no seculo se
chamou Helena de Noronha? Se da tua memoria no se deliu ainda o nome da
tua pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, vem depressa,
antes que a morte lhe gele nos labios as revelaes que deseja fazer-te
e que s tu poders receber.

No te demores, minha querida! Sinto que a vida me foge, e, se no vens
immediatamente, receio bem que apenas possas abraar o cadaver da

                                                                 Tua
                                                            _Helena_.


--Minha pobre Helena!--murmurou attonita madre Paula, fixando na carta
os olhos turvos de lagrimas.

E voltando-se para o sapateiro:

--Onde est ella?--perguntou.

--Quem? A menina de Villaverde? Est em S. Martinho de Campo, que  alli
adiante da Povoa de Lanhoso...--principiou o _Tomba_, pondo em prtica o
seu plano de arrastar a religiosa  presena de Julio.--Ella deu-me essa
carta muito afflicta p'r vir trazer  senhora madre, porque ella foi
p'ra l tratar de uma _probe_ senhora que est l a morrer... E
_dxe-me_ de bcca: Diga  madre Paula--e senhora na _presencia_--que
lhe mando pedir se ella me pde fazer o favor de c vir fallar commigo,
que eu pago todas as despezas de _camboio_ e de carro p'ra c e p'ra l,
que  um negocio de muita circumstancia e de muito interesse p'r santa
religio, o que lhe eu quero dizer... Agora a senhora madre l ver...
Mas ella _dixe-me_ isto co'uma cara to afflicta, que eu int lhe
dixe:--_Esteje_ descanada, menina, no se _affleija_, que a snr.^a
madre Paula no tem _caratle_ de dezer que no a uma coisa d'essas...

--Sim... sim, eu vou!--exclamou madre Paula sensibiliaada--A que horas
temos comboio?

--Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro horas... Se a senhora
madre quizer, inda hoje chegamos l, porque a gente vae d'aqui _dereito_
a Guimares e de l mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas e quando
forem oito ou nove horas da noite, estamos l...

--Pois bem; vocemec demore-se. Eu vou mandar que lhe deem de comer e...

--Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, mas  minha bocca  que
no vae nada, seja pelo que fr!--interrompeu o _Tomba_ horrorisado, ao
lembrar-se da cilada do Sardo.

--Porque? Vocemec jantou?

--No, minha senhora... eu c no jantei nem janto...  costume que no
tenho... j estou desafeito...

--O que! est desafeito de comer!?

--Quero dezer, minha senhora, eu jejuo...  uma _promessia_ que fiz de
jejuar dia sim, dia no... e hoje  o dia do sim...

Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria carta que acabava de
receber, no prestou atteno  estranha physionomia do sapateiro
recusando a refeio que se lhe offerecia.

--Pois ento, se jejua, no quebre o seu jejum, meu irmo. Mas tem de
esperar que eu me aprompte para a partida...

-- reverendissima madre, eu espero o tempo que fr preciso... L p'r
amor d'isso, no seja a duvida.

--Sente-se ento ahi ou v at l fra,  quinta.... Como quizer.

Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior onde se encontrava
o padre Filippe conversando familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge
de Gusmo.

--Sr. Padre Filippe--pediu ella--vossa reverendissima faz-me a fineza de
me conceder alguns minutos de atteno em particular?

--Pois no, minha senhora!--respondeu o padre gentilmente.

Paulo e Jorge levantaram-se.

--Dem-me licena, meus amigos--disse-lhes a abbadessa--que lhes roube
por um curto instante a interessante conversa do snr. padre Filippe.

E dirigindo-se a Paulo:

--Vae, meu filho, vae at  bibliotheca com o teu amigo a quem pedirs
desculpa da minha impertinencia...

Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se para o Padre Filippe,
exclamou:

--Helena de Noronha, a _irm Dorotheia_, vive ainda!

--Como o sabes?--perguntou o padre Filippe surprehendido.

--L!

E apresentou-lhe a carta de Helena.

O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta e disse:

-- a letra d'ella!

--, no ha duvida... Minha pobre Helena!

--E o que tencionas fazer?

--O portador est l fra... E, pois que ella est a morrer, quero
pedir-te, meu bom amigo, que me acompanhes a ir visital-a...

O padre Filippe, com a despreoccupada bondade que lhe era natural,
respondeu sem hesitar:

--Do melhor grado te acompanharei, minha querida Paula. Quando queres
partir?

--Hoje mesmo.

--Porm, Beatriz?...

--Beatriz ficar em companhia de madre Angelica das Sete Dores, que ,
como sabes, austera e de so conselho.

--Pois sim.

--Vou mandal-a chamar j e dar-lhe as instruces precisas... De resto,
a nossa demora ser curta, porque a pobre Helena acha-se moribunda, como
ella propria o diz...

--Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e pedir-lhe que se abstenha de
vir visitar Beatriz emquanto ns no regressarmos...

Madre Paula sorriu.

--E porque no ha de vir?

-- preciso confiarmos nos sentimentos de nobre lealdade d'esse rapaz, e
no o prevertermos com a suspeita que uma tal prohibio traduziria...

--Dizes bem.

--Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia de soffrimentos a conduziu
at ao leito de morte d'onde agora me chama na agonia do traspasse?




XXVI

Um amigo dos diabos


Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente
disfarados sob os trajes seculares e guiados por mestre _Tomba_,
tomavam na estao do Pinheiro, em Campanh, bilhetes para Guimares,
por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de
Campo.

O sapateiro, persuadido de que fra elle quem conseguira resolver a
superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o
conthudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua
astucia.

A principio observou com desgosto e desconfiana o padre Filippe, em
quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porm,
em breve se lhe desvaneceu, em presena da attitude lhana e amavel do
secerdote.

--Este parece que  vinho d'outra pipa!--commentou comsigo o
sapateiro--Mas _tmem_ se o no fr, o que eu quero  l pilhal-o,
porque, depois, quem manda  o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer
fino, l ainda ha de haver quem lhe troque a cora em mindos p'ra lhe
metter juizo  fora na cachola...

Passadas as primeiras estaes, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador.
Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informaes
pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades
e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito _b_ sujeito; aquelle
_tmem_ no era mau, mas andava em demanda com os cunhados  conta das
partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de
tudo dava relao exacta e minuciosa.

Quando chegaram a Guimares, o _Tomba_ perguntou se queriam descanar um
pouco no _hotle_ ou se queriam seguir logo para S. Martinho.

-- muito longe d'aqui l?--? perguntou o padre Filippe.

-- alli logo _adiente_ das Taypas... Se o cocheiro bater bem, chegamos
l em tres horas.

--Ento  melhor que partamos j.

O _Tomba_, solicito, fretou um carro em que entraram os tres, com
recommendao ao cocheiro de que urgia chegar breve.

s 9 horas da noite, o carro parava  porta de Julio de Montarroyo.

O _Tomba_, sempre movido do pensamento de surprehender agradavelmente o
seu amigo e protector apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle
menos o esperava, em vez de parar  porta de D. Aurelia, guiou os seus
companheiros para a antiga casa de Norberto de Noronha.

O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe na primeira sala,
pedindo-lhes que se demorassem, que elle ia dr parte  senhora. E quasi
sem esperar resposta e desrespeitando todas as prescripes medicas,
entrou impetuosamente no quarto de Julio de Montarroyo, exclamando:

--Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas _incasies_, e o _Tomba_,
com um raio de diabos! p'ra servir um amigo  capaz de dar uma volta no
inferno! C est ella!

--Ella, quem?--interrogou Julio de Montarroyo.

--A madre Paula, com seiscentos livros de missa!

Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, suspeitando que elle
tivesse endoidecido.

--Mas est onde, mestre?--perguntou.

--Alli fra, sr. Julinho, alli fra na sala... Vem acompanhada com um
padrca, mas no tem _duveda_... Quer que os mande entrar p'ra aqui?

--Voc falla serio, mestre Tomba?

-- sr. Julinho, isso no so coisas que vossa _incellencia_ me diga a
mim na minha cara!--exclamou o sapateiro escandalisado--Pois eu ando por
l a dar voltas ao miolo p'ra lh'a trazer,--que suei e tornei a suar
primeiro que a _arresolvesse_--e o snr. Julinho, chego aqui, e no me
quer _acuarditar_?! Eu serei capaz de lhe _dezer_ uma coisa por oitra,
sr. Julinho?

--Est bem, mestre...--tornou Julio--No vale a pena zangar. Eu vou
immediatamente cumprimentar essa senhora...

--Olhe l,  sr. Julinho--observou o sapateiro detendo-o quando elle ia
j a transpr a porta do quarto--eu enganei-a!

--Enganou-a?

--Disse-lhe que estava c a _irm Dorotheia_, muito doente e que lhe
mandava pedir p'ra ella c vir v-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje
l as coisas de modo que no me deixe ficar por mentiroso...

--Voc est doido, mestre? Como quer que eu sustente essa mentira, se
Helena no est aqui nem eu tenho noticias d'ella?

--No sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella j morreu e que se enterrou
_honte_  noite... Eu c por mentiroso  que no hei-de ficar, seno
ellas, em me apanhando l outra vez, so capazes de me dar uma coa...

--Descance, mestre; eu vou fallar com madre Paula.

E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se encontravam a religiosa e
o seu companheiro.

Padre Filippe, que o no conhecia, limitou-se a observal-o com
curiosidade.

--V. ex.^a certamente no reconhece n'este velho o moo que ha desoito
annos teve a honra de admirar na gentil superiora do Sardo uma das mais
austeras religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar?--disse
Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre Paula, ao mesmo tempo que
saudava com uma reverente inclinao de cabea o padre Filippe.

--Est v. ex.^a enganado, sr. Julio de Montarroyo--replicou madre Paula
recobrando a serenidade--Reconheo-o perfeitamente, e  com verdadeira
satisfao que torno a vel-o, se bem que estava longe de o encontrar
aqui.

--A surpreza, portanto,  para ns dois, pois que eu tambem, apezar do
vivo desejo que sentia de fallar a v. ex.^a, no podia esperar a subida
honra que me d da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque
visitar um enfermo nas minhas condies  verdadeiramente uma obra de
caridade, que s as almas sinceramente religiosas como a de vossa
excellencia sabem comprehender e praticar.

Madre Paula escutava-o sem o comprehender.

Julio de Montarroyo offereceu o soph aos seus hospedes.

--Dignem-se v. ex.^{as} sentar-se, e, pois que me do a honra da sua
visita, permittam-me que os considere meus hospedes por alguns dias.
Esta casa  pobre. Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia
que no teem a direco intelligente de uma mulher a governal-as.

No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel habitao da
subida honra de abrigar sob o seu tecto a superiora do Sardo: o
primeiro vem a ser o soccorro espiritual prestado a um enfermo que
ardentemente o deseja e implora; e o segundo o facto de ter sido esta,
outr'ora, a casa de uma das amigas mais intimas de v. ex.^a, a _irm
Dorotheia_, conhecida no seculo por Helena de Noronha.

--Helena!--bradou madre Paula--Onde est ella? Peo-lhe que me conduza
sem demora at junto do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri
immediatamente ao seu chamamento, e tenho f que a minha presena ha de
fazer-lhe bem, ha de melhoral-a...

Julio de Montarroyo encarou com insistencia a abbadessa.

--V. ex.^a no sabe onde est Helena de Noronha?--perguntou elle.

--Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu a chamar-me e onde
me disseram que estava.

--D'onde lhe escreveu, diz v. ex.^a?

--Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi pelo homem que aqui nos
conduziu.

E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, estupefacto, a carta de
que o _Tomba_ fra portador.

-- a lettra de Helena!--exclamou Julio n'um brado de alegria
extrema--No ha duvida, Helena escreveu esta carta... Mas onde est
ella?--perguntou por sua vez tambem.

--Pois deveras Helena de Noronha no est aqui?--interrogou ainda madre
Paula, tomada de estranha surpreza.

--No, minha senhora--volveu Julio--e at eu ignoro como e de que
maneira esta carta pudesse ser-lhe enviada por Helena, de quem no tenho
noticias ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.^a, compadecida do meu
estado de doena e do muito que tenho soffrido no esforo inutil de
encontrar a filha de Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer
indicaes que me permitissem fallar-lhe ou escrever-lhe ainda antes de
morrer.

E com uma eloquencia febril, contou em rapidas palavras tudo o que lhe
succedera nos desoito annos decorridos e que o leitor no ignora, por j
lh'o ter ouvido contar a Gustavo de Magalhes.

--Agora--concluiu--alquebrado, doente, com poucos dias de vida, todo o
meu empenho era procurar v. ex.^a e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama
no mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive ainda ou se devo
procural-a no mundo dos espiritos...

--O homem que aqui nos guiou  que foi portador d'esta carta. Elle
portanto, poder dizer quem lh'a entregou e onde se encontra quem a
escreveu...--explicou madre Paula, de cada vez mais attonita e
surprehendida.

--Tem v. ex.^a raso. Vou mandal-o chamar  sua presena, e elle
explicar...

Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou ao criado que appareceu
 porta da sala:

--Diga ao mestre _Tomba_ que venha c.

Pouco depois apparecia  porta o sapateiro com o ar petulante de quem
est resolvido a dizer tudo sem rodeios, e a assumir inteira
responsabilidade dos seus actos.

--O sr. Julinho, chamou?

--Chamei, mestre. Venha c...

--Prompto!

E o sapateiro avanou dois passos na sala, de cabea erguida e olhar
firme.

--Ento como  isto?--ia Julio a dizer.

Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir.

--Ento como hade ser? Fui eu que armei esta _trempe_, p'ra fazer que
aqui a nossa reverendissima madre e mais este reverendissimo sr. padre
viessem  _presencia_ do sr. Julinho... Vossa _incellencia_ estava todos
os dias a appellidar por ella, que a queria vr, que lhe queria fallar e
que morria sem _estifazer_ o seu desejo... Vae eu _ato_ disse comigo:
Se eu, armar uma pta bem arranjada e disser  nossa reverendissima
madre que  a sr.^a D. _Helenia de Laronha_ que est a dar a alma a
Deus, ella larga barcos e redes e vem por ahi fra atrs de mim, que 
um ar que lhe d... Ponto  que ella me _acuardite_... Vamos a vr se as
bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella aqui est... Agora o sr.
Julinho diga o que tem a _dezer_, e se eu fico por mentiroso,  o
mesmo... Se quer  menos, _intrujei_, mas foi p'ra _estifazer_ a ultima
vontade a vossa _incellencia_... Agora j pde morrer descanado.

--Mas venha c, _Tomba_, como arranjou voc a carta de Helena de
Noronha?

O sapateiro arregalou os olhos:

--A carta da sr.^a D. _Helenia_? A carta no  d'ella!

--Como no  d'ella?

--No  d'ella, j lhe disse! Assim um raio venha que nos parta aqui a
todos, se eu vi a sr.^a D. _Helenia_ ou sequer alguem me boquejou a
respeito d'ella!

--Mas esta carta--disse madre Paula--foi-me entregue por vocemec...

--Isso  oitra coisa...--tornou o sapateiro--Mas as cartas so papeis...
Essa carta no  da sr.^a _D. Helenia_.

--No !--exclamou Julio--Mas a lettra e a assignatura so d'ella. Como
arranjou voc esta carta?

--So d'ella!?--disse por sua vez o _Tomba_ muito admirado.

--Se esta carta no  escripta por Helena--tornou Julio de
Montarroyo--ento alguem lhe imitou a lettra e a assignatura. O mestre
dir quem foi...

--E a carta o que diz,  sr. Julinho?--interrogou o sapateiro com grande
interesse.

--Pois voc no o sabe, mestre?

--Eu no, senhor! Cego seja eu e o meu Santo Antonio, que est l
dentro, permitta que eu no arranje mais cinco ris d'esmola em toda a
minha vida, se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, no a abri
para a mandar lr, como hei-de eu adivinhar o que ella diz?

Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e de cada vez mais
surprehendido pela ignorancia do mestre sobre o contheudo da carta,
resolveu-se a esclarecel-o.

--Esta carta  assignada por Helena de Noronha e pede  virtuosa madre
Paula que venha junto ao seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus...

--Ella diz que est doente?

--Diz que est a morrer...

O sapateiro bateu uma palmada na testa com expanso:

--Quer vossa _incellencia_ vr que  ella!?--exclamou--Pois no  oitra
coisa.  ella! Oh! com um raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem
o saber! Que grande cabea de burro eu sou! Pois  ella, no ha que vr!

--Ella quem?--interrogou anciosamente Julio.

--A doente que est em casa da sr.^a D. Aurelia! Ora... ora esta! E fui
eu que dei co'ella na estrada, como morta, sem dar por burro nem por
albarda...

E depois, n'um movimento de duvida:

--Mas olhe l,  sr. Julinho, a carta diz isso?

--Sem duvida, mestre, a carta  de Helena... Diz que est doente e pede
a madre Paula que venha vl-a...

--Agora... agora! Por isso vossa reverendissima se pz to prompto para
me acompanhar... C me queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a
trazia ao engano!... Sou esperto, no tem duvida! Posso ir p'r diabo
que me carregue e mais a minha esperteza!

--Mas venha c, mestre _Tomba_... explique-nos que doente  essa de que
est fallando... Eu no sei nada!

--Pois se vossa _incellencia_ tem estado s portas da morte, vae hoje,
vae amanh, e todos me _deziam_ que no lhe dissesse nada nem lhe
_trouvesse_ novidades, que podia ser s vezes dar-lhe uma coisa pela
cabea e alimpal-o ainda mais depressa... como  que eu havia de lhe vir
contar o que era passado? Mas agora  que eu percebo a _tramoia_...
Anto l vae!

O sapateiro contou como encontrra inanimada no caminho, quando
regressava, do Porto, uma pobre mulher desconhecida e andrajosa, que
fra recolhida por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se
encontrava.

--E ato agora est tudo explicado.--concluiu--A snr.^a D. Aurelia foi
que me mandou ao Porto entregar essa carta aqui  snr.^a madre, mas sem
me dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a carta foi
escrevida pela snr.^a D. _Helenia_, _ato_ a coisa est bem clara: a
doente que l est e que eu topei na estrada  ella!

Julio ouvira com extraordinaria commoo a narrativa do sapateiro.

--Ah! meu Deus!--exclamou--at que emfim a encontro!

E voltando-se para madre Paula:

--Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, cumpre-me conduzil-a 
casa onde ella se encontra.

Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e Julio de Montarroyo,
acompanhados por mestre _Tomba_, entravam em casa de D. Aurelia.

A irm de Gustavo veio recebel-os ao salo d'entrada, e no ficou pouco
surprehendida quando Julio de Montarroyo lhe disse:

--Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar madre Paula, virtuosa
superiora da casa conventual das Sereias, no Porto, amiga intima de
Helena de Noronha, que, segundo creio, se hospeda na casa de v. ex.^a...

E indicando o padre Fillipe:

--E este cavalheiro  o sr. padre Filippe, respeitavel sacerdote que
teve a amavel complascencia de acompanhar esta senhora na visita  sua
amiga.

D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando um olhar de censura
ao _Tomba_ que, interdicto, coava na orelha, como quem comprehendia que
tinha feito asneira.

-- verdade--disse por fim D. Aurelia--que tenho em minha casa Helena de
Noronha; e se d'isso no informei immediatamente, como desejava, o snr.
Julio de Montarroyo, foi devido a duas consideraes imperiosas: a
primeira foi o facto de Helena, que recolheu doentissima e em perigo de
vida a minha casa, me haver supplicado que no divulgasse, fosse a quem
fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia do snr. Julio
de Montarroyo se achar gravissimamente enfermo e haver especial
recommendao do seu medico para que lhe no dessem noticia que pudesse
causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso poria em perigo a sua
existencia.

--Oh!--protestou Julio--pois se toda a minha doena era no ter noticias
de Helena!

--Helena, cuja vida continua ainda em perigo--proseguiu D.
Aurelia--pediu-me que fizesse entregar no Porto a madre Paula uma carta
que ella mesma escreveu e cujo contheudo eu ignoro...

--Essa, carta, minha senhora--disse madre Paula--eil-a aqui. Por ella
ver v. ex.^a que Helena reclama a minha presena...

E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou delicadamente com um
gesto.

--Por Deus, minha senhora! Eu no duvido um momento da sua palavra...
Simplesmente o que devo  prevenir v. ex.^a do melindroso estado de
saude da nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer commoo violenta
pde matal-a...

--Mas se Helena espera a visita de madre Paula--objectou Julio.

--Espera a visita de madre Paula, mas no espera a de v.
ex.^a...--retorquio D. Aurelia.--Era justamente essa surpreza que me
parecia bem poupar-lhe por emquanto...

--Decerto!--atalhou madre Paula.--Nem eu creio que o snr. Julio de
Montarroyo, que  to dedicado a Helena, pense em lhe aggravar a
enfermidade apresentando-se-lhe, sem ella estar preparada para isso...

Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de exaltao febril:

--A minha vida pela d'ella! Digam-me que  preciso fazer saltar os
miolos para salvar Helena e eu no hesitarei um instante!

--Socegue, socegue, meu amigo, que no ser preciso recorrer a esse
extremo, para termos a nossa querida doente restabelecida dentro em
pouco. Aqui o que  preciso  evitar-lhe qualquer sobresalto ou commoo
que possa aggravar-lhe a doena... V. ex.^a no imagina o estado em que
a pobresinha se encontra. Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, no a
reconheci... Foi ella que s passados dias se deu a conhecer, porque se
tal no fizesse, ainda agora eu estaria na ignorancia de quem ella
fosse.

--Pobre Helena!--exclamou madre Paula.

--Parece-me, pois, tornou D. Aurelia--que seria bom dispr a nossa
doente para receber a visita da sua amiga. Emquanto ella a espera,
convem prevenil-a com cuidado...

--Sim... sim!...--concordou madre Paula.

D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso amavel:

--Tenha paciencia, meu amigo... J no  pequena felicidade para o seu
corao o saber que Helena vive, est aqui entre ns e que, dentro
d'alguns dias, poder vl-a e fallar-lhe. O que  preciso  que v. ex.^a
mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate de se restabelecer, livre de
apprehenses e de tristezas que j no tm razo de ser.

E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, que se inclinou em
silencio, proseguiu:

--Deem-me licena que eu v junto da minha amiga, tratar de a predispr
para receber sem grande surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso
dizer-lhes que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou tambem
dar as ordens precisas para serem convenientemente installados.

Fez uma ligeira mesura e sahiu.

D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia entrava na sala a
indicar aos hospedes que os seus aposentos estavam preparados.




XXVII

Duas amigas


No dia seguinte, muito cdo ainda, Helena de Noronha que passra a noite
socegada, accordou inquieta e perguntou  creada se j tinha chegado uma
senhora que devia vir do Porto.

--No sei, minha senhora--respondeu a creada que estava j
prevenida--mas eu hei-de dizer que senti ha pouco parar um trem ao
porto...

--Oh! v saber sem demora--pediu Helena--e se fr a pessoa que eu
espero, diga a sua ama que lhe peo para a fazer entrar aqui o mais
depressa possivel...

A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco depois entrava a dona
da casa.

--Veio?--perguntou-lhe Helena.

--D-me alviaras, minha amiga--disse D. Aurelia alegremente--porque,
contra a tua espectativa, madre Paula est n'esta tua casa!

Helena levantou-se a meio no leito.

--Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que entre j!

Madre Paula, que ficra occulta com o reposteiro, penetrou de um salto
no aposento, dizendo:

--No  preciso, minha querida Helena, no  preciso, porque a tua amiga
est aqui!

--Paula!--exclamou Helena, estendendo para ella os braos, n'um alvoroo
de indizivel contentamento.

Estiveram assim as duas amigas por muito tempo abraadas, n'um silencio
apenas cortado pelos soluos que se escapavam do peito de ambas.

D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma terrivel eloquencia na
mudez d'aquellas lagrimas que ambas vertiam ao abraarem-se.

Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando:

--Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela caridade com que
attendeste o meu pedido!

--Minha pobre Helena!--respondeu madre Paula--quantas vezes me tens
lembrado nos longos dezesseis annos da tua ausencia! Procurei por mil
modos saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me dava relao de
ti, ninguem te conhecia, ninguem sabia para onde tinhas partido...

--Fiz uma viagem muito longa, minha amiga... to longa que s devia
terminar no comeo desta outra viagem mais longa ainda, que vou
emprehender...

--O que! pois no ficas ainda aqui? Tencionas partir outra
vez?--perguntou madre Paula admirada.

--Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais voltar... Vou
emprehender a eterna viagem do sepulchro... Por isso te pedi que
viesses...

--Morrer!--exclamou a abbadessa--que extranha fraqueza  essa? A vida
chama-te ainda, minha querida... Tu s nova, s forte, s ainda uma
mulher valida, tens um espirito so, uma alma extraordinariamente
bella... Chama a ti todas as energias, reage contra os soffrimentos,
oppe s violencias da dr que te avassala, a fora suprema da tua
vontade e triumpha do abatimento physico pela energia moral.

Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que no se illudem na
approximao do seu fim.

--Tu  que ests ainda a mesma, minha querida!--disse ella.--No parece
que passaram por ti dezesseis annos desde que nos separmos...

--Os meus cabellos branquearam um pouco, porque ninguem resiste
impunemente  aco do tempo--replicou madre Paula--mas, comquanto um
pouco mais velha que tu, no penso ainda na morte...

D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio entre as duas
amigas, que certamente tinham mais importantes assumptos a tratar,
interveio pedindo que a dispensassem por um instante, pois tinha que
ordenar servios domesticos da maior urgencia.

--Espera!--replicou Helena--deixa-me primeiro dizer  minha Paula quem
tu s...

--No  preciso--accudiu D. Aurelia com meiguice--j nos conhecemos
desde hontem  noite...

--Sim--confirmou madre Paula--j devo a esta senhora a mais amavel e
gentil hospitalidade que ha muitos annos me foi dado receber fra do meu
convento...

--Pois tu j c ests desde hontem?--perguntou Helena admirada.

--Vim acompanhada pelo portador da tua carta e pelo reverendo padre
Filipe, de quem certamente ainda te recordas...

--Oh, decerto, decerto! E como so gratas as lembranas que conservo
d'esse honesto e digno sacerdote! Porque no veio elle ver-me tambem?

--Temos tempo, minha querida--disse madre Paula--Uma das principaes
virtudes christs  a paciencia... E o padre Filippe, que , como
acabaste de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta virtude
como poucos... Elle espera, e  dos que sabem esperar...

Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou fito Helena de Noronha e
perguntou-lhe em voz sumida, n'um tom de mysterio:

--E o padre Anselmo?

--Matei-o!

--O que!--disse a religiosa empallidecendo--Mataste-o... quando?

--Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser superiora da casa
conventual da Covilh...

-- extraordinario! E como pudeste...?

--O miseravel, de quem eu tinha jurado vingana, no soube, no meio de
toda a sua perversa astucia, desconfiar da apparente submisso da mulher
que to infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se
inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo procurar a occultas o
castigo que a sua torpeza e maldade mereciam...

--E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario?

--Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar o pae no subterraneo
do convento. Oh! foi uma vingana terrivel, e esse dia, minha querida
Paula, foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida, desde que
abandonei a casa de meu pae... de meu pobre pae que ingratamente
condemnei  morte!

Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda de furor satanico, ao
recordar aquelle lance supremo em que havia dado morte horrivel ao
jesuita que a perdera.

Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena de Noronha, mal podendo
acreditar no que ouvia.

Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas exprimiam um mundo de
pensamentos.

--Sim...--disse Helena de Noronha como respondendo  pergunta muda que
lhe dirigia a sua amiga--o padre Hilario foi, por assim dizer, o
executor da sentena de morte a que eu havia condemnado o pae... E era
preciso que assim succedesse para que a minha vingana fosse completa...

--Mas no sabia elle os laos de sangue que o prendiam a esse miseravel?

--No o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo patenteou-lhe toda a
verdade do alto da cruz onde agonisava, amarrado como o mau ladro.
Disse-lh'o por entre maldies e injurias, e a voz do sangue no fallou
no meu cumplice. Assistiu impassivel  agonia do pae, que elle immolava
 minha vingana e sacrificava ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa
hora aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude crr em Deus, foi
justamente n'esse instante em que o maior dos criminosos expiava com a
maior das agonias todo o seu passado de negras infamias!

E contou ento como o padre Anselmo, apparecendo-lhe mysteriosamente no
convento da Covilh, desceu  cripta, no intuito, dizia elle, de orar
aos ps da cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal
prazer todas as minucias d'essa scena horrivel; a maneira como,
acompanhada do padre Hilario, o seguiu ao subterraneo e como, quando
elle vinha sahindo, depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido
surdo de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso murro, o fez
cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe a porta pelo lado de fra...
Depois, os tres dias de agonia lenta, torturado pela fome e pela sde,
todas as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingana e de
sangue, que teve a sua aco no medonho _in-pace_ da Covilh.

Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa, chegando por vezes a
suspeitar que Helena de Noronha, tomada de loucura, estivesse
phantasiando uma vingana que no realisra.

--E o padre Hilario?--perguntou por fim.

--Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vr... O pensamento que nos uniu
foi o mesmo que devia separar-nos e... separou-nos.

--Accusou-te depois, lanando sobre ti as culpas do remorso que o
torturava?

--Oh, no! Eu poupei-lhe a desgraa do remorso, semeando-lhe no corao
o odio por mim...

A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos o sentido das palavras de
Helena de Noronha, atreveu-se a inquirir:

--Trahiste o teu novo amante?...

--Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, isso sim... Utilisei o
instrumento da minha vingana emquanto o necessitava e arremesseio-o
para longe de mim quando j me no era preciso... O padre Hilario
amava-me... dizia elle que me amava.. Porm, eu no poderia vr nunca
n'esse homem seno o filho do padre Anselmo... Logo depois que a minha
vingana estava cumprida, tratei de me affastar d'elle...

--Como?

--Enganando-o como o pae me enganou a mim. Disse-lhe que para no
levantar suspeitas, era conveniente que ambos seguissemos por differente
caminho para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos.

Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde passariamos por marido e
mulher, vivendo de algum dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto no
pudessemos voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de que o nosso
crime no havia sido descoberto. Elle tudo acreditou e, obcecado pela
paixo, no duvidou um momento de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu
por um caminho, eu parti por outro, e at hoje nunca mais nos tornmos a
vr...

--De modo que...

--De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se ludibriado, deve ter
sentido mudar-se lhe todo o amor que nutria por mim n'um odio profundo.

Madre Paula, profundamente impressionada com estas revelaes, quasi no
atinava com palavras que dissesse.

Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e ingenua, que ella
recebera na casa das Sereias, pudesse vir a triumphar da maldade
perversa do padre Anselmo, da sua astucia e systemathica desconfiana de
tudo e de todos, tirando d'elle uma vingana atroz, que os mais
poderosos agentes da Companhia no ousariam sequer sonhar.

--O que me contas  por tal modo extraordinario, minha querida
Helena--disse ella, passados instantes--que me deixa muda de assombro!
Se o no ouvisse de teus proprios labios, recusar-me-hia a
acredital-o...

--Oh! minha boa Paula!--replicou Helena, ainda tremendo de ira--pois
acaso no teria eu razo para muito mais? No foi aquelle maldito a
ruina, a miseria e a morte de toda a minha familia? No abusou elle da
minha innocencia e ingenuidade de creana para me aviltar, roubar e
perder, fazendo de mim sua barreg e sua escrava? poderia eu perdoar ao
maldito que to infamemente lanou a desgraa e a deshonra sobre mim e
sobre os meus?

--Tens razo. Mas no  a justia da tua vingana que me surprehende...

--O que  que te surprehende, pois?

--Surprehende-me a habilidade e a coragem com que pudeste levar a cabo o
teu plano...

--Auxiliou-me o acaso, se no foi antes um designio da propria
Providencia que inspirou ao padre Anselmo a ideia de mandar o filho para
junto de mim...

--Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... Naturalmente abandonou a
Companhia.

--Era essa a sua resoluo inabalavel quando nos separmos... Eu no
sahi do paiz, como lhe prometti, e passei uma grande parte d'estes
dezeseis annos perdida e obscura pelas terras de provincia, exercendo
mysteres humildes, improprios da minha educao... Sujeitei-me a tudo,
minha querida... Fui creada de quarto, fui costureira, fui creada de
meninos, e confesso que me era menos amargo o po em casa de meus amos
do que n'esse antro maldito onde, por tua commiserao, fui elevada 
dignidade de abbadessa! Abbadessa! que irrisoria e infame impostura,
minha amiga!...

--Helena--disse madre Paula--pareceu-te assim porque no amaste... Se
tivesses amado o padre Hilario como eu amei o padre Filippe...

--Oh! no! eu no podia amar a sotaina desde que a sotaina me havia
ludibriado e escarnecido. No meu corao s havia odio por essa infame
instituio que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do padre
Anselmo e vive da explorao cruel das suas victimas.

--E no tens, j no digo remorso, mas ao menos pezar, de haveres
sacrificado ao teu odio e  tua vingana esse pobre rapaz que te amava e
que pelo teu amor se fez parricida?

--Era filho _d'elle_. E o meu odio implacavel vae de paes a filhos...
Elle proprio devia ser um monstro como seu pae..

--Todavia, minha querida... ha inda um filho do padre Anselmo que em
nada o parece... nem na figura, nem no corao.  nobre,  digno, 
honesto,  leal,  amoravel e trabalhador...

--Fallas de...?

--De teu filho, Helena de Noronha!

--Elle vive ainda?

--Vive e  um bello e gentil rapaz...

--Padre tambem?

--No.  um academico distincto e espero que ha de ser um homem util a
si e aos seus semelhantes, honrando a sciencia e a humanidade. Eu e o
padre Filippe temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes,
longe de ns e estranho aos funestos exemplos da falsa religio que nos
victimou.

--No te conhece ento?

--Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho e uma ternura que faz
honra aos nobres sentimentos da sua alma.

--Sabe esse rapaz quem foram seus paes?

--Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu appellido, Helena de
Noronha.

--O que! pois tu...--ia a dizer Helena, levantando-se a meio no leito.

--Sim--atalhou madre Paula--quiz que se chamasse Paulo de Noronha, afim
de que sua me um dia pudesse reconhecel-o e amal-o.

--Oh! nunca... nunca!

--Helena!--tornou madre Paula com severo aspecto--o odio que se estende
ate aos proprios filhos das nossas entranhas  perversidade que repugna
 razo e de que nem as bestas feras, na crueza de seus instinctos,
jmais nos deram exemplo. V tu, minha amiga, que nem o padre Anselmo,
esse cynico perverso, de uma ferocidade de chacal, pde resistir ao
amoravel sentimento que Deus poz no corao dos paes pelos filhos. E
querers tu cerrar teu peito ao affecto mais nobre e mais santo que pde
caber no corao de uma mulher? Querers morrer amaldioando teu filho
innocente e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo da indifferena
e do abandono de seus paes? Que triste herana lhe queres legar, minha
amiga! E comtudo, Paulo  digno de que o amem porque nas nobres
qualidades de seu caracter, na sua figura varonil e no porte altivo,
reflecte bem a figura e as nobres qualidades d'esse santo e desditoso
homem que foi teu pae.

--Meu pae!--gritou Helena de Noronha--Paulo parece-se com elle? No tem
na physionomia os traos odiosos de monstro que lhe deu o ser?

--Queres vl-o?--perguntou madre Paula.

--No, no!--recusou Helena tomada de subito terror--Para que has de
pr-me diante dos olhos, na hora extrema, um filho que eu no posso
amar, uma creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela recordao dos
negros crimes que lhe andam ligados? Oh! deixa-me morrer, minha amiga,
no esquecimento d'um dever que eu no tenho foras para cumprir...

Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo mesma:

--E como poderia eu dizer a esse rapaz: Sou tua me! sem ter que lhe
confessar a minha miseria e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de
seu pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu filho para lhe
no dizer: Teu pae era o padre Anselmo, um monstro com figura humana...
Ladro e assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego que
trpemente entenebreceu a minha razo e abusou da religio de Christo
para nos condemnar, a mim e a ti, a uma deshonra eterna! Oh! no...
no! prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, consolada
com a certeza de que elle ignorar o nome da desgraada que foi sua me!

--Socega, minha querida!--tornou-lhe madre Paula suavemente--O que eu te
proponho no  bem isso que tu suppes...

--O que me propes ento?

--Trazel-o at junto de ti para que o vejas e ouas e possas
certificar-te pelo testemunho dos teus proprios sentidos, de que esse
encantador rapaz, bem longe de reproduzir as feies repellentes do
padre Anselmo,  o vivo retrato do teu pae, de quem parece ter herdado
as santas virtudes e os nobres sentimentos. Em vez de ser para ti uma
tortura, a sua presena ser-te-hia um dce allivio e uma grande
consolao. Cr, se eu fosse me de Paulo, sentir-me-hia orgulhosa e
feliz da minha maternidade.

--E no corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe confessar a serie de
monstruosas torpezas que deram origem ao seu nascimento, Paula?

--No me apresentaria como sua me... exactamente como eu te proponho
que o faas... A felicidade seria toda tua em poderes vl-o junto do teu
leito, sabendo que  teu filho e ignorando elle que sejas sua me...

--E a que titulo viria elle aqui, se a verdade no tivesse de lhe ser
dita? No... no! De que serviria isso? Sou pobre... nada tenho que lhe
legar... Os bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes...

--Filha!  impossivel que no fundo do teu corao no esteja o
sentimento mais sublime que pde nascer em peito de mulher--o sentimento
do amor maternal. Tu, que eu conheci to candida, to amoravel e doce,
tu que tiveste affectos para mim e para a pequena Lucilia, ters um
corao insensivel  lembrana de teu pobre e innocente filho? Vamos!
no me recuses a consolao de vr que testemunhaste, ao menos
secretamente e por alguns instantes, toda a grandeza da minha obra de
dedicao e ternura. Puzeste nos meus braos um pequeno sr, debil e
fragil. Restituo-te um moo util, uma alma d'eleio.

Paulo, se eu o mandar chamar, vir immediatamente. Ama-me como filho e
no estranhar que eu deseje tel-o junto de mim por alguns dias...
Queres vr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira o teu filho,
Helena de Noronha e alegra-te com a ideia de que as virtudes da tua raa
vivero n'elle com a mesma intensidade com que brilharam em teu pobre
pae.

Helena guardou silencio.

--Pois bem--disse ella passados instantes--deixa-me recobrar alentos...
e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vr n'esse
rapaz smente o meu filho e no o filho do padre Anselmo. Que tempo
tencionas demorar-te aqui, minha amiga?

--Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescena...

Helena teve um sorriso estranho.

--Pois sim... Convalescerei breve...--disse n'um tom cuja sinistra
significao no escapou a madre Paula.

A freira atalhou:

-- porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que,
conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos
prendem  vida. O mundo, hoje, para ti  um deserto. Morres no
isolamento e no abandono do corao... Nada ha que te estimule o desejo
de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua
existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de
teu filho, ento, minha querida amiga, terias triumphado da morte,
justamente porque a vida te offereceria encantos.

--Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de
primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que,
scca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta,
minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas
illuses e as minhas esperanas pelo rijo vendaval da desgraa, no ha
mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e
socegada. Oh! agora s peo o esquecimento e a morte como suprema esmola
da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenas da minha alma
ingenua, vivi para a vingana. Realisada esta como um justo castigo de
que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiao de
minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servido, de humilhaes e de
miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dres da alma e do
corpo, com a resignao do condemnado que caminha para o patibulo,
conscio da sua libertao pela morte. Remorsos de haver suppliciado o
infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dr horrivel
de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me
abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo
bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no
teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, no assomasse aos
teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual s outras...

--Helena, minha amiga, minha irm... no sejas injusta para commigo! Eu
sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de
aborrecer... A vingana que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi
nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava...
Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu no ousei
pensar sequer em tirar igual desforo d'aquelle que me condemnou a esta
eterna servido em que vivo... E no pensei, porque o meu corao
deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual  o que
tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, no
amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para
aquelle que te perdeu...

--No amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a
mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu no fosse
j indigna da estima de um homem de bem.

--Fallas de Julio de Montarroyo?

--Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as vras da minh'alma. Amei-o e
fugi-lhe para no soffrer a horrivel dr de me ver depresada por elle!

--Tornaste alguma vez a ter noticias suas?

--Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo
e separada do meu cumplice, cuja presena me seria horrorosamente
insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de
Noronha nem _irm Dorothea_ deviam existir jmais... Portanto, a minha
nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras...
Na misera e obscura condio social a que desci, ninguem, nem mesmo tu,
minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha
de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilh...

Calou-se offegante e exhausta.

--Comtudo...--proseguiu passados instantes--comtudo eu poderia ter
trazido do subterraneo da Covilh uma grande riqueza... e no a
trouxe...

--Uma grande riqueza, dizes?

--Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma
noite, exigindo que a sua chegada no fosse conhecida de pessoa
alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no
cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu
correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar
para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte--a noite da rigorosa
justia--elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao
_in-pace_... Mas l, com a porta fechada  chave por dentro em vez de
rezar aos ps da cruz, como promettera, cavou na terra por muito
tempo... Ouvimos-lhe c fra o bater da enxada no solo recalcado... Tive
a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E
essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o
amarraramos, vociferando maldies e insultos sobre mim e sobre o filho
parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas
que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas
porque o seu thesouro ninguem o descobriria...

Madre Paula ouvia com singular atteno esta parte da narrativa de
Helena...

--Talvez isso no passasse de uma allucinao dos ultimos
momentos...--disse ella.

--No... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou
bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o
olhar bao, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais
sombrio do subterraneo... Se algum dia l fres... manda cavar alli...
manda revolver toda aquella terra e encontrars, estou bem certa, o
producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o
inferno confunda!

--E o padre Hilario no manifestou desejo de se apoderar do thesouro do
pae?

--O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado
pelo amor e pelo ciume, no via nem comprehendia outra coisa que no
fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornra parricida...
Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas
horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca
mais... oh, nunca mais voltou  Covilh, estou bem certa d'isso...
Depois de se vr ludibriado por mim, a recordao do seu crime deve
ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de
l...

--E viver ainda?

--No sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o
remorso  um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura,
mas no fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae,  bem certo. Mas
tambem eu matei o meu e no morri... No morri, quando tantas vezes
pedia a morte a Deus! Deve portanto viver.

--Socega, minha amiga...--observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez
mais agitada.--Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e
fraqueza em que te encontras,  isso uma imprudencia grave.

Disse e saiu deixando a doente em repouso.




XXVIII

Corao morto


Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia,
consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.

O encontro d'estes dois desgraados, depois de tantos annos d'ausencia,
foi tudo quanto pde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.

Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.

O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a
amarga lembrana de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam
gozar na plenitude da ventura que sonharam.

No fundo de seus coraes, estava gravada a imagem de cada um d'elles.
Julio de Montarroyo, nas evocaes da sua amada, no via a pobre e
andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre _Tomba_ encontrara
exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora novia que, no
convento do Sardo, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de
incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas
companheiras de f e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os
olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do
louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na
sua retina de allucinada.

E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos
dezoito annos decorridos.

Nem um nem outro jmais havia pensado que o tempo, na sua marcha
destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza quelles
rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia
crudelissima.

Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se
encararam, quasi sem se reconhecerem.

Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda
que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a
reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.

--No esperava encontrar-me to velho, no  verdade, Helena de Noronha?

--Diga antes, meu amigo--volveu-lhe Helena--que no esperava tornar a
vl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria
dos grandes desgraados, onde as dres acabam e a ventura comea...
Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que est
presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, no 
assim?

Julio aproximou-se do leito, tomou a mo descarnada da pobre Helena e,
levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pde murmurar:

--Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua
imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome  a orao
unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a
encontrei viva para lhe dizer que no a esqueci, que, fiel ao amor que
lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua
procura.

--Pobre amigo!--murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos
olhos--Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua m estrella... Era fatal
que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia,
Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais
amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perde-me, Julio! perdoe-me
e creia--agora posso dizer-lh'o, porque me sinto j bafejada pelo sopro
gelido da morte--creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu
pobre corao de mulher...

--Se isso era assim, porque no veio, Helena, porque no veio quando a
chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu
pobre pae? Que desgraas teria poupado, minha pobre amiga!

--No podia... no podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em
semelhante occasio... Ah! se soubesse que horriveis laos me prendiam
ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto no me lanaria agora
em rosto a minha recusa!

--Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em
dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...

--Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o
luto no corao, porque eu, meu amigo, no sou mais que um cadaver.

Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mo, que levou aos
labios respeitosamente exclamando:

--No falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos
tornassemos a vr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para
a felicidade...

--No, no...  inutil toda a esperana. Deus  bom, Deus  justo e
misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse
viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta
confisso sincera e franca do meu amr: Amei-o, Julio de Montarroyo...
amei-o, para maior desgraa e castigo meu!... Se esta declarao feita 
beira do tumulo pde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a
sincera expresso de uma alma que passou no mundo incomprehendida...

--Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu
pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem
as rases que a levaram a faltar  sua promessa de me dar noticias suas
em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por
Deus lh'o peo! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doena e
da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha
desgraada existencia, a esmola bemdita da sua presena!

--Que no cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em
Paris?--balbuciou Helena fazendo visiveis esforos para se recordar--No
tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em
Paris.

--Pois no me escreveu uma carta dizendo-me que partia para l e
convidando-me a que a seguisse  capital de Frana e ahi aguardasse
noticias suas?

--Nunca lhe escrevi tal carta!--bradou Helena surprehendida.

--Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura
a dar-me parte da sua ida para Frana e a pedir-me que a seguisse... No
foi realmente para Paris?

--Nunca sahi do reino! Essa carta  mais uma infamia do miseravel que me
perdeu!

--A letra, porm, era de tal modo semelhante  sua que a tomei como
verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!

--Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa f!

--Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Naes,
aonde ficara de me mandar noticias. Como, porm, a minha espectativa
fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas
religiosas da Frana; e no a encontrando, passei  Hespanha,  Italia,
 Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce
as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da
sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a
encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto
a procurava, vivia da esperana de a encontrar, a sua imagem estava
presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante
pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigaes sem
resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e ento, no
podendo alimentar-me mais da esperana de a tornar a vr, quiz ao menos
cercar-me de tudo quanto fosse uma recordao sua, e comprei a casa de
seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fra a
minha unica aspirao n'este mundo.

Helena de Noronha fitra no desgraado os seus grandes olhos brilhantes
de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.

--Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!--suspirou ella.--Quiz
Deus, para me punir da minha ingratido e desobediencia para com meu
pae, que eu no morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de
affectos que perdi n'essa nobre alma, to digna de melhor sorte e de
mais ventura! .......................................................
.......................................................

Helena de Noronha escutara com uma expresso de profundo assombro, que
mais e mais se lhe accentuava no rosto  medida que ia ouvindo, a
narrativa de Julio.

Quando este chegou ao fim, comprehendeu ento que tinha sido amada por
aquelle homem com um ardr e um enthusiasmo que tocava as raias da
loucura. Um mixto de dr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio
arquejante. Pz as mos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:

--Graas, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me dste, em
expiao das minhas faltas, tambem no  menor a consolao que me
concedeste, permittindo que eu me soubesse to profundamente amada!

E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuao de vidente:

--Meu amigo--acrescentou--uma outra patria nos espera, que no esta em
que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. L
nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque
Deus, to logico e to consequente em tudo quanto fez e creou, seria
monstruosamente absurdo se dsse  creatura humana os horrores de um
martyrio que ella no provocou, para a lanar por fim no aniquillamento
absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. No! no
pde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho
de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, no pde ser. Que
eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me v,
recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mo de uma amiga,
comprehende-se,  justo,  logico que assim succedesse, porque o meu
crime provocou a expiao. Mas o senhor, moo, rico e feliz, sem um
ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu
assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca
de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de
outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na
condemnao do culpado... Porque? Isso  o que no se comprehende, e
resultaria absurdo monstruoso, injustia flagrante, sem a existencia de
uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiao e
os martyres innocentes tero de ser recompensados... Oh! no tenha
duvida, Julio de Montarroyo, isto no acaba, no pde acabar aqui!

Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitao de tal modo
violenta, que bem deixava perceber a excitao febril da doente.

Julio de Montarroyo tentou socegal-a.

--Minha amiga--disse-lhe elle-- bem certo que muito temos ainda que
esperar da misericordia e da justia divina. E  por isso mesmo que eu
lhe peo, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que no
desanime nem descreia de quem tudo pde e tudo ordena. Tenho f que
viro dias melhores para ns n'este mundo... Depois de uma juventude to
tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, no ser licito esperar que
Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na
ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na
companhia d'aquelles a quem mais queremos?

Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a
estas palavras.

Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao corao da enferma
um raio da pallida esperana que j mal o animava a elle.

--Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha,
quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a
encarar a nossa situao por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua
casa  ainda e sempre sua. No dever,  esmola nem  compaixo de
ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peo-lhe s
que melhore; e no dia em que recobrar foras para entrar em sua casa, eu
sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha no achar no
mais intimo da sua alma uma soluo que permitta a convivencia dos dois
no mesmo lar... De qualquer das frmas, o seu corao decidir...

--O meu corao est morto para tudo o que  d'este mundo, meu
amigo...--balbuciou Helena, cahindo agora em profundo
abatimento--Agradeo-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar
no meu espirito um resto de apgo  vida... Mas eu estou morta, creia...

--Pois bem!--exclamou Julio n'um impeto de desespero--se de todo em todo
pretende morrer, morreremos ambos! Se no podemos unir-nos durante a
vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e  mesma hora.

--Louco! Ignora que a vida  um deposito precioso de que no  licito a
nenhum de ns despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a
confiou?

--Se a vida  um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo
que a no pedi. Se  um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me
condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que
me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!

--No falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer at aqui,
deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar at ao fim o
calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanh tornaremos a
vr-nos e tenho esperana de que o hei-de encontrar mais resignado...

Estendeu-lhe a mo descarnada e transparente que elle beijou; e,
extenuada, pousou a cabea no travesseiro, onde se sumiram duas grossas
lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.




XXIX

Confidencias


Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos ns
ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde j
uma vez introduzimos o leitor, e ouamos o dialogo alli travado entre
Jorge de Gusmo e o singular e estranho personagem a quem o amigo de
Paulo dava o tractamento de _Mestre_.

O homem dos occulos verdes est, como da outra vez, sentado  sua banca
de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece
ser o seu discipulo querido.

--E ento--pergunta elle--como vo os negocios do nosso novel irmo?

--Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de
Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do
desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por Joo Lazaro,
persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella
recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha,
inesperadamente disparou um tiro na cabea, declarando n'esse momento
que estava perdido e que s a morte lhe restava como ultimo recurso.

--De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a
suspeita de um crime, no ter remedio seno pr a loura em liberdade.

--Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a
sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, no se descobriu
indicio compromettedor.

--E quem sabe se realmente se trata de um suicidio?

--No creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico
bastante para no pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraas
que o acabrunhassem. Em segundo logar, Joo Lazaro  sufficientemente
preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar
este assassinato por vingana. Tenho, pois, a certeza, quasi iria
jural-o, que Eugenio de Mello no se suicidou.

--O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade no perdeu nada
com a eliminao d'aquella existencia...

--Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo,
partiu hoje para fra do Porto, a juntar-se  sua me adoptiva,  madre
Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a
pretexto de que precisa que elle lhe v fazer companhia.

--Paulo partiu para S. Martinho de Campo?--perguntou o homem dos
occulos, frazindo o sobr'olho.

--Partiu.

-- singular!--disse elle--E que genero de negocio retem madre Paula
n'esse logar?

--No sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que
tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que j no via ha muitos
annos, e que se encontrava perigosamente enferma...

O _Mestre_ ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma
explicao para este facto.

-- extraordinario!--disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo--
extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe
fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva
importa para o pobre moo um verdadeiro sacrificio...

--Tambem me quiz parecer isso.

--Bem!--concluiu o Mestre--o verdadeiro motivo d'esse estranho
chamamento ha de saber-se...

--Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguaes...

--Sim. Convem saber quem  e como se chama essa amiga que retem junto de
si madre Paula.

-- coisa facil. A _Mo Negra_ est de tal modo ramificada, que em toda
a parte encontramos irmos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre
bem o sabe, pois que a obra  sua e  grande energia e profundo saber
com que nos tem guiado deve a nossa Associao o rapido impulso e a
prodigiosa importancia que conquistou.

O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os
olhos no seu interlocutor e disse:

--Jorge, a _Mo Negra_ pde ser um instrumento do Bem, como pde ser um
instrumento do Mal, conforme o pensamento do seu supremo dirigente fr
alevantado e nobre ou mesquinho e vil. As bases em que assenta a nossa
mysteriosa aggremiao permittem concentrar na mo de um s homem a
vontade e as energias de muitos; e d'aqui resulta uma coheso e um poder
de tal modo irredutivel, que fora alguma da terra ousar combatel-o ou
destruil-o. A nossa principal fora est no mysterio em que ella se
exerce. Todos os demais poderes vivem publicamente,  luz do dia; os
seus menores movimentos, as suas mais occultas intenes podero ser
observadas e surprehendidas. Ns, pelo contrario, trabalhamos na sombra,
e a nossa aco, exercitando-se livremente, faz-se sentir sem deixar
conhecer a origem. Isto torna-nos invulneraveis como a propria
divindade. Assim, podemos dizer: Os homens propem e a _Mo Negra_
dispe.

-- certo--confirmou Jorge--Mas que outro cerebro, seno o do Mestre,
poderia conceber e realisar o maravilhoso plano da nossa Associao, de
modo a prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de interesses
communs o destino de todos e de cada um? Confesso, Mestre, que s um
espirito superior e uma sciencia profunda como a sua poderiam levar a
cabo tamanha e to extraordinaria empreza.

O homem que dava pelo nome de Mestre fitou Jorge com interesse, e n'um
tom repassado de extraordinario carinho, disse-lhe:

--Tu, meu amigo, s novo, s forte e s intelligente. A ti est
reservada a alta misso de continuares um dia a minha obra, que 
realmente grandiosa.

--Eu, Mestre--replicou Jorge--tenho os hombros extremamente debeis para
tamanha empreza.

--No. Tu s o unico de entre tantos que dever succeder-me. Como sabes,
eu sou o poder occulto que tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa
Associao. Em meu nome, poders governar, mandar e dirigir, mesmo
depois da minha morte.

--Pensa em morrer? Mestre!--exclamou Jorge surprehendido.

--A ideia da Morte deve estar sempre presente ao homem que, podendo
tanto, s no pde prolongar a vida uma hora, um instante mais alem
d'aquelle que marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito que
eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da Morte continuando a viver na
vida e no pensamento da nossa Associao; e, sendo assim, eu no podia
deixar de pensar em ti como meu continuador...

--Oh, Mestre!--fez Jorge commovido.

--s o unico que ha muitos annos privas particularmente comigo; s o
unico que bem conhece os fios occultos que movem a nossa Associao; s,
portanto, o unico no caso de me succeder e de sustentar com honra e
brio, com dignidade e consciencia, as tradices j gloriosas da _Mo
Negra_. No esqueas, meu filho, que ella  a ingente fora, o supremo
poder, e ter no futuro em suas mos os destinos da humanidade.

--Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador e profundo,
essa intelligencia privilegiada, esse cerebro potentissimo que tudo
pensa, tudo prev e tudo resolve, como poderei eu substituil-o?

O Mestre sorriu.

--Quando eu faltar--disse elle--virs a esta casa, encerrar-te-has
n'esta sala, sentar-te-has n'esta cadeira, tal como eu estou agora, e
consultars o archivo secreto da nossa Associao. Ha
aqui--accrescentou--todos os elementos de que careces para proseguir
desassombradamente o caminho que encetei.

Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme livro encadernado a
preto e com fechos de metal.

--Este livro--disse elle, abrindo-o--est em branco. Quando eu morrer,
basta que lhe passes por cima de cada folha uma lamina de ferro,
aquecida, para que a tinta sympathica em que est escripto se revele e
te permitta fazer a leitura. Ento encontrars aqui a historia d'este
homem mysterioso a quem tanto te affeioaste e cuja origem desconheces.
Este livro que  toda a minha vida e toda a minha sciencia,  tambem
toda a vida da nossa Associao. S prudente, s sabio e s justo, meu
filho; e se a historia da minha vida puder merecer-te uma lagrima de
compaixo, que essa lagrima se crystalise e se transforme na perola dos
nobres intuitos, como symbolo do Bem com que eu quiz redimir tanto mal
feito e recebido da mo da perfidia e da traio humana.

Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas sentia-se singularmente
commovido.

--Mestre!--exclamou elle com voz tremula e repassada de
ternura--afastemos para longe de ns a ideia da morte. No me assusta a
perda da propria vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver
morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o meu verdadeiro e unico
Mestre.

Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos por alguns
instantes.

Evidentemente, uma profunda commoo embargava n'esse momento a voz
quelles dois homens energicos, to fortes e to activos que,
consubstanciados no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar,
dominar e dirigir com superior intelligencia uma das mais poderosas e
terriveis associaes secretas dos nossos dias.

--Meu amigo--disse por fim o mysterioso personagem dos oculos--era
indispensavel que eu te manifestasse a minha ultima vontade, antes de
partir para a grande romagem. No  que eu pense realisal-a breve; mas
como a vida  um thesouro de que apenas somos depositarios, um valor 
ordem que pode ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu dever
 prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro todas as indicaes
precisas para poderes continuar a minha obra. Se eu faltar, repito,
assume a direco suprema da _Mo negra_, e o meu espirito ser comtigo.




XXX

Me


Madre Paula envira o _Tomba_ ao Porto com uma carta a chamar para junto
de si o filho da _Irm Dorothea_, sob pretexto de que precisava da sua
companhia por alguns dias, para suavisar com a sua presena o
aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer alli emquanto
ella velava o leito de uma amiga intima, perigosamente enferma.

No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa approximou-se do leito de
Helena e disse-lhe sorrindo:

--Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um pedao do ceu azul da
tua existencia por entre as brumas do soffrimento que te opprime?

--O que queres dizer?

--Quero dizer que est n'esta casa, debaixo do mesmo tecto que te
abriga, um rapaz que seria o orgulho e a consolao de sua me, se sua
me consentisse em o vr e lhe fallar...

--Meu filho!?--bradou Helena em sobressalto com um afflictivo gesto de
terror--Pois tu, Paula, trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da
minha deshonra?

--Quem o conhece, seno eu e tu? Para todos os effeitos, Paulo  meu
sobrinho, e elle proprio est longe de pensar em que se encontra to
perto de sua me...

--Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme sacrificio, a essa horrorosa
angustia!

--Helena, porque teimas em te mostrar sem corao, quando toda a tua
vida est provando o contrario, filha? Lembra-te de que o mesmo terror
experimentaste quando se te fallou em receberes Julio de Montarroyo. E
comtudo, a sua presena, em vez de te mortificar, alegrou-te, quasi te
restabeleceu... Pois bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada
te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. Se a sua presena
te affligir, se continuares a detestal-o, eu o arredarei para longe de
ti... Se, pelo contrario, te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e
apreciando-lhe as nobres qualidades, ficar e continuar a vr-te, como
uma pessoa amiga, na ignorancia absoluta dos laos que o prendem a ti...

Helena de Noronha guardou um silencio indeciso que era quasi uma
acquiescencia.

As palavras de madre Paula eram de uma to irresistivel persuazo, que a
doente nada tinha a oppr-lhes.

--Comprehendes--disse ella--que nem curiosidade nem affecto podem
mover-me a receber esse rapaz que para mim no passa de um estranho...

--E como estranho se conservar a teu lado... Quem o duvida?--tornou a
religiosa com aquelle meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos
impertinentes e caprichosos.--Aqui, ha apenas da minha parte o interesse
de que conheas teu filho, que revivas nelle os tempos felizes da tua
infancia, recordando nas suas feies as feies de teu pae...

--Pois sim... que venha!--disse por fim Helena, com visivel esforo.

Paulo foi introduzido no quarto da doente.

O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, abeirou-se
do leito; e pois que madre Paula lhe explicra que esta approximao
tinha unicamente por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o espirito
de dolorosas preoccupaes moraes que a obsidiavam, envidou todos os
esforos por tornar alegre e interessante a sua conversao.

--Disseram-me que v. ex.^a--principiou elle por declarar, dirigindo-se a
Helena--ainda por muito tempo reteria junto do seu leito esta boa e
santa senhora que  minha me; e esta alarmante perspectiva obrigou-me a
vir supplicar-lhe que se restabelea o mais breve que ser possa, porque,
em verdade, minha senhora, comeo a sentir-me lesado nos meus sagrados
direitos... de filho.

--No  minha vontade prejudical-o...--replicou Helena fitando-o e
estudando-lhe demoradamente as feies.--Quando escrevi  minha amiga
Paula, pedindo-lhe a esmola da sua companhia, estava bem longe de suppr
que um tal pedido significasse uma contrariedade para alguem...

--Oh, minha senhora! peo-lhe que no tome  lettra as minhas
palavras--atalhou Paulo rindo.--Isto  mero gracejo da minha parte e
tanto mais desculpavel quanto  certo que v. ex.^a se me affigura em via
de um prompto restabelecimento... E como no quero passar tambem sem o
meu quinho de importancia n'este jubiloso caso de a vermos restituida 
saude e  vida, tracto de fazer valer, desde j, os meus direitos a um
louvor que no mereo... De resto, minha senhora, eu felicito-me de a
encontrar n'um estado que est bem longe de ser o que  minha imaginao
se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha na agonia, uma luz
bruxuleante, quasi a extinguir-se; e com grande surpreza e alegria
minha, encontro uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.^a, embora um
pouco abatida pela doena, apresenta um aspecto promettedor de muita
vida... Antes assim!

-- demasiado lisongeiro para com uma pobre doente, sr. Paulo de...

--De Noronha, minha senhora--apressou-se Paulo a dizer, notando a
hesitao de Helena.

--Ah! v. ex.^a usa esse appellido?--no pde Helena impedir-se de
perguntar.

--Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle com franqueza, no sei bem
porqu...

--Naturalmente, appellido de seus paes...

--No os conheci, nunca tive a menor noticia delles... Tanto sei se eram
Noronhas como se eram Silveiras... Podiam ser uma e outra coisa, ou
podiam no ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez dizer-me
alguma coisa com verdade a esse respeito era minha me...

--Sua me!--interrompeu Helena, mal podendo dominar o
sobresalto--Conhece-a?

Paulo indicou rindo madre Paula:

--Pois eu no disse ainda a v. ex.^a que minha me  esta santa senhora
que v. ex.^a tem por amiga?

Madre Paula interveio:

--No te admires, minha amiga. Paulo habituou-se a chamar-me _me_, no
obstante saber que no  a mim que deve a existencia...

--Pois a quem a devo? Que outra me conheci eu, que affectos, que
carinhos, que disvellos e cuidados devo a outra que no seja a nobre e
santa creatura a quem me estou dirigindo?--accudiu Paulo voltando-se
para a superiora,-- bem certo--creio-o e no discuto--que devo a
existencia a um acto physiologico de terceiros, que me produziram, to
independentemente da sua vontade como da minha, e que por isso mesmo se
julgaram desobrigados de me reconhecer e amparar. Mas esse facto no
envolve sentimento impeditivo do meu amor e ternura filial para com
aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus unicos e verdadeiros
paes e que so madre Paula e o padre Fillippe.

--Deve ento odiar muito aquelles que lhe deram o sr...--balbuciou
Helena com os olhos fitos nos do filho.

--No os odeio, minha senhora, lamento-os.

--Por natural instincto do corao talvez...

--No. Por uma tendencia especial do meu espirito para deplorar a sorte
de todos aquelles que se afastaram da linha recta do dever e resvalaram
no crime ou na cobardia.

-- singular! Como explica isso? Se no conheceu seus paes, como pde
saber se elles fram cobardes ou criminosos?

--A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. Eu appareo no
mundo, filho de paes incognitos... isto , filho de pessoas que me
negaram a paternidade ou para se no macularem a si proprias ou para me
no macularem a mim. No primeiro caso, se temeram a macula do meu
nascimento e a ella se furtaram pela vilta do anonymo, esta aco
reflecte a cobardia dos seus sentimentos, porque no tiveram a coragem
de assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo caso, se a sua
situao era de tal modo contraria s leis sociaes que, do chamarem-me
_filho_, revertia para mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida
resta de que meus paes fram criminosos. De qualquer modo, dois
desgraados com os quaes no tenho nem quero nada de commum, a no ser
para os lamentar, como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser
dignos e honestos, o no so, faltando aos dictames da sua consciencia e
ao cumprimento dos seus deveres.

--Ento, se seus paes um dia lhe apparecessem a reivindicar o direito
que teem  sua ternura, repudial-os-ia--perguntou Helena com a voz de
cada vez mais sumida.

--No, minha senhora--replicou Paulo serenamente--no os repudiaria, que
no  do meu animo repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas
se pedissem ao meu corao mais do que o compassivo sentimento que se
tem para com todos os desgraados, responder-lhes-ia que o meu amor e a
minha ternura filial pertenciam exclusivamente quelles que me foram
paes adoptivos na infancia--a madre Paula e ao padre Filippe.

Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe n'uma commoo
facil de explicar.

--Tem razo--murmurou ella--No entanto, talvez que motivos ponderosos
forassem sua me a...

--A no ser minha me?--atalhou Paulo--Perfeitamente de accordo. A mim
cumpre-me respeitar esses motivos que no conheo e que nem sequer tento
conhecer. Mas v. ex.^a comprehende muito bem que, se minha me teve
motivos para me arredar de si como a um objecto incommodo e
compromettedor, eu no posso ter no fundo do meu corao razes que
justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura especial por ella.
De resto, ns estamos apenas formulando hypotheses que esto muito longe
de factos, pois no creio que venha a dar-se o caso de meus paes um dia
apparecerem a reclamar o filho que por tantos annos repudiaram.

--Quem sabe?--observou madre Paula--No admittiste ha pouco a hypothese
de que possam soffrer ou arrepender-se?

--No campo das supposies, tudo pde admittir-se, minha boa me, porque
tudo pde suppr-se... Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos
com um assumpto que no interessa a nenhum de ns, e principalmente a
mim? O facto , minha senhora--proseguiu elle, voltando-se para
Helena--que eu, a despeito da irregularidade do meu nascimento, sou
feliz quanto o pde ser um homem nas minhas circumstancias.

--Deve muito  Providencia, visto isso!--disse Helena suspirando,--ha
to poucas pessoas que, mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!...

-- certo. Porm eu, at agora, e presentemente, posso considerar-me a
mais feliz das creaturas. Abandonado por meus paes...

--Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram?--atalhou,
docemente reprehensiva, madre Paula-- muito avanar, quando nada sabes
a esse respeito, Paulo!

O mancebo sorriu.

--Se eu penso assim, a culpa no  por certo minha, mas to somente
d'aquelles que tenazmente se teem recusado a dizer-me uma palavra unica
que me illucide cerca do meu nascimento.

E voltando-se para Helena:

--Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente do amparo e dos
carinhos do padre Filippe e de madre Paula, que considero meus paes pela
grandeza do beneficio e pela constancia do affecto. No conheci outros,
nunca me fallaram de outros, nunca d'outros me deram noticia. J homem,
tive um momento na minha vida em que senti a necessidade cruel de
penetrar o mysterio do meu nascimento para poder dizer  mulher que
amava e que escolhera para companheira de toda a minha existencia, o
nome de meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me que no os
conhecera, que d'elles no tivera nunca noticia, e que eu fra passado 
sua benevolente e humanitaria tutella, como um _legado_, no espolio de
um padre seu amigo, que morrera e que levara comsigo para a sepultura o
segredo da minha vinda a este mundo. Creio que, n'estas circumstancias,
quer as palavras do padre Filippe exprimam a verdade quer a encubram, o
abandono no pde ser mais evidente nem mais completo. No  v. ex.^a
d'esta opinio, minha senhora?

--De certo--murmurou Helena com voz tremula.

--Mas eu no accuso meus paes do seu procedimento para commigo, nem
quando emprego esta palavra _abandono_ lhe ligo o menor sentimento de
revolta e indignao que ella pde inspirar. Nada d'isso. Elles
procederam assim, porque talvez tiveram motivos para assim proceder.
D'esses motivos, porm, no fui eu o culpado, e isso me basta pensar
para minha completa tranquillidade. Para tranquillidade d'elles, se
forem vivos e souberem de mim, bastar-lhes-ha a certeza de que sou
completamente feliz com o amor de madre Paula e da minha noiva, e com a
estima e paternal affecto do padre Filippe. Aqui est, pois, um drama
que talvez no seu inicio ameaou ser de lagrimas e que, por um
extraordinario desenrolar de circumstancias favoraveis, acaba por
apresentar todos os personagens felizes e contentes comsigo mesmos!

Ao proferir estas ultimas palavras, Paulo ria jubiloso, com aquella
alegria franca do seu temperamento expansivo e sincero.

Helena de Noronha, de cada vez mais encantada com a attitude
despretenciosa e alegre d'aquelle rapaz que reproduzia nas feies e nos
gestos os modos e as feies de Norberto de Noronha, sentiu-se
extraordinariamente feliz ao ouvir da bocca do proprio filho palavras de
compassivo perdo para o criminoso abandono a que ella o votara.

--O senhor--disse ella--possue uma alma nobilissima e um corao dotado
de generosos sentimentos. Merece ser feliz; e uma vez que j o , busque
nortear-se sempre pelos dictames da piedade e da compaixo, mesmo para
com aquelles que o offenderam ou aggravaram...

O tom quasi supplicante em que estas palavras foram ditas no escapou a
madre Paula que, com a sua natural perspicacia, comprehendeu bem o que
se passava na alma da sua amiga.

--Paulo  um bello caracter--interrompeu ella envolvendo o mancebo n'um
olhar de maternal ternura--e sinto verdadeiro orgulho de ter sido eu a
sua educadora... Eu e o padre Filippe--emendou logo--porque  justo no
esquecer que esse exemplar sacerdote tem tido com este filho adoptivo
todos os extremos e disvellos de um pae.

O mancebo comeou ento recordando alegremente passagens esquecidas da
sua infancia, travessuras de creana, brincadeiras, affagos e
reprimendas do padre Filippe e de madre Paula, e n'isto levou algumas
horas, que muito distrahiram e interessaram Helena de Noronha, agora de
todo familiarisada com o filho.

Quando Paulo, pretextando no querer com a sua conversao fatigar o
esprito da doente, se retirou promettendo voltar depois, a religiosa, a
ss com Helena, perguntou-lhe:

--E ento?

--Ento, minha querida Paula--exclamou a enferma-- bem meu filho,  bem
o neto de Norberto de Noronha aquelle rapaz que alli est!

--No te dizia eu que Paulo era um bello e excellente moo, reflectindo
na figura varonil e cheia de nobreza as feies de teu pae? Dize-me, no
ser elle digno de que o ames como filho, e por elle e para elle busques
ainda viver? No seria doce e consolador para ti vr-te, depois de
tantos annos de soffrimentos e amarguras, querida e amada por quantos te
rodeiam?

Helena teve um sorriso e os olhos brilharam-lhe n'um fugitivo anceio de
felicidade.

--Sim... sim!...--disse ella--seria feliz ainda, se pudesse viver na
companhia de meu filho, amada por elle e respeitada por aquelles que me
conhecem... Mas isso  impossivel! E queres que te diga? Agora, depois
que vi meu filho... sinto-me mais desgraada!

--Porque?

--Porque... tu comprehendes... na minha alma comeam a despertar agora
todos os sentimentos do amor maternal, e no posso dizer a meu filho:
Sou tua me!




XXXI

O homem dos oculos verdes


Decorreram quinze dias de suave e doce convivencia entre me e filho, na
casa de D. Aurelia.

Madre Paula e a irm de Gustavo, ambas de intimo accrdo no empenho de
salvarem Helena de Noronha, tinham sabido dispr e conduzir as coisas de
modo que Julio, Paulo e o padre Manoel se encontrassem muitas vezes
reunidos  volta da doente, sem que nenhum d'elles suspeitasse os laos
de sangue que ligavam aquelle mancebo, to cheio de vida e de alegria, 
infeliz victima do padre Anselmo.

A pobre Helena parecia um tanto esquecida das suas mgoas e infortunios,
sentindo renascer dentro em si o desejo de viver, tal era o amoravel
cuidado que todos punham em lhe suavisar a existencia, to attribulada
de dres physicas e moraes.

Infelizmente, o medico constatara que a doente soffria de uma leso
cardiaca em estado bastante adiantado, e que tanto podia deixal-a viver
ainda muitos mezes como dar-lhe a morte em breves dias.

Este diagnostico, porm, reservara-o apenas para si, limitando-se a
recommendar que no expuzessem a enferma a sobresaltos e commoes
fortes, que podiam ser-lhe de funestas consequencias.

O honesto homem de sciencia, reconhecendo quanto a pobre doente era
amada por todos que a cercavam, no quiz destruir no corao dos que
tanto lhe queriam a dce esperana de a verem completamente salva.

Estava-se, pois, n'esta bella illuso de um restabelecimento proximo,
quando um dia, pelo fim da tarde, bateu ao porto de D. Aurelia, pedindo
para fallar  dona da casa, um desconhecido, que a todos causou surpreza
pelo seu extranho aspecto e pelas suas mysteriosas maneiras.

Era um homem alto, de cabellos compridos e longa barba grisalha.

Usava oculos verdes. Vestia um amplo casaco, que quasi lhe descia aos
calcanhares e que, todo abotoado na frente, tomava o aspecto de uma
sotaina. Na cabea, trazia um chapeu de enormes abas que,
ensombrando-lhe o rosto, dava um aspecto mais carregado  sua figura.

Viera a p, encostado a um bordo e, comquanto agil, parecia fatigado da
longa jornada.

D. Aurelia, ao annunciarem-lhe o desconhecido, sahiu  sala de visitas a
recebel-o e ficou extranhamente surprehendida ao vr diante de si
aquelle homem que ao mesmo tempo lhe infundia respeito e mdo.

--Minha senhora--disse elle com voz sonora, mas em que havia uma certa
suavidade--peo desculpa de vir assim importunal-a, apresentando-me a
fazer-lhe um pedido sem para isso estar de forma alguma auctorisado. Mas
a importancia da minha misso  tal, que eu atrevo-me a suppr que v.
ex.^a no me recusar o auxilio de que careo para bem a cumprir.

--No conheo a pessoa a quem estou fallando--respondeu D. Aurelia, com
simplicidade--mas se  o meu concurso para uma obra boa que vem pedir,
rogo-lhe a fineza de me dizer em que posso ser-lhe util.

O desconhecido baixou a voz e disse n'um tom de confidencia:

--Fui amigo intimo de Alvaro de Noronha, e elle, um dia antes de ser
assassinado, constituiu-me depositario de um segredo de familia, que s
deve ser revelado a sua prima, a sr.^a D. Helena de Noronha, actualmente
n'esta casa...

D. Aurelia fitou-o perplexa.

--E como sabe v. ex.^a que a minha amiga Helena est aqui, quando toda a
gente ignora...

O desconhecido sorriu de um modo indefinido e volveu com firmeza.

--Sou um homem de bem, minha senhora, e sei cumprir os meus juramentos.
Jurei ao meu amigo Alvaro que revelaria a sua prima o segredo de familia
que elle me confiou com esse fim, e no me tenho poupado a esforos para
bem cumprir a ultima vontade do moribundo. Tendo a snr.^a D. Helena
permanecido em parte incerta durante muitos annos, comprehende v. ex.^a
certamente o empenho com que eu terei buscado encontral-a, mrmente
achando-me no fim da vida quasi, e no querendo levar commigo para a
sepultura um segredo que me no pertence...

--Quer v. ex.^a, pois, fallar com Helena de Noronha?

-- esse o unico objecto da minha vinda a casa de v. ex.^a, e para isso
ouso supplicar-lhe o favor da sua interveno.

--A minha amiga, no sei se sabe, tem estado muito doente...

--Mas tambem sei que ultimamente tem experimentado sensiveis melhoras.

--O medico recommendou que lhe evitassemos commoes violentas...

--Estou persuadido de que a minha presena no poder causar-lhe a menor
commoo, pois que me no conhece, como eu tambem pessoalmente a no
conheo a ella.

--Mas o objecto da sua visita...

--No pde ser-lhe de modo algum desagradavel--atalhou o
desconhecido--porque o que tenho a dizer-lhe  a coisa mais simples e
mais natural d'este mundo.

--Quem devo, pois, annunciar  minha amiga?

--Dar-lhe o meu nome  inutil, porque lhe ser sempre desconhecido. Se
v. ex.^a tivesse a bondade, dir-lhe-hia que um amigo de seu primo Alvaro
pretende fazer-lhe uma communicao importante e do mais alto interesse
para ella.

D. Aurelia entrou no quarto da enferma, que a essa hora estava
conversando com Julio, Paulo e a abbadessa, todos j conhecidos e
convivendo n'aquella intimidade to facil e to peculiar  gente da
provincia.

Helena, muito animada e, ao parecer, muito melhor dos seus soffrimentos
physicos, inspirava a todos uma grande esperana de a verem em breve
completamente restabelecida.

Chegara mesmo, em conversao intima com madre Paula, a fazer projectos
de viver, como governante, em companhia do filho e da nora, logo que
elles fossem casados.

--Elle no saber nunca que sou sua me--dizia ella--e eu poderei vl-o
e amal-o, como se visse n'elle a cada momento o retrato vivo do meu pae,
quando mais novo... E cada sorriso affavel, cada palavra de bondade que
elle me dirija, ser para mim como que um signal de perdo enviado,
d'alem tumulo e pelos labios do meu filho, por aquelle pobre espirito,
que tanto fiz soffrer!

Madre Paula sorria de satisfao, ao ouvir da bocca da sua amiga Helena
estas palavras que significavam n'ella o desejo de regressar  vida.

--Na tua mo est, minha querida, o realisares o teu desejo... Faze por
melhorar. Que o amor por teu filho te d a fora e a energia
indispensavel para triumphar das reminiscencias do teu passado, e o
futuro, relativamente feliz, ser teu.

D. Aurelia no quiz prevenir Helena, na presena das pessoas que a
rodeavam, da inesperada visita do desconhecido.

Quando todos se retiraram, a irm de Gustavo, approximando-se do leito,
disse-lhe sorrindo:

--Venho annunciar-te, minha querida amiga, uma nova visita...

--Quem?--interrogou Helena.

--Um desconhecido que pretende fallar-te...

--Um desconhecido!--repetiu Helena com instinctivo sobresalto.

--Sim. Um desconhecido para mim e para ti.

--O que quer elle?

--Quer ser-te apresentado para te revelar um segredo de familia...

--A mim?!

--A ti.

--Que segredo de familia pde revelar-me uma pessoa que eu no conheo?

--Este homem diz-se um antigo e intimo amigo de teu primo Alvaro que, na
vespera de ser assassinado e prevendo a desgraa que ia acontecer-lhe, o
incumbiu de te fazer uma revelao importante, se algum dia te
encontrasse ou tivesse noticias tuas...

--Meu primo Alvaro!--balbuciou Helena estremecendo.

--Sim... da parte do teu primo Alvaro  que elle vem.

--Como sabe esse homem que eu estou aqui?

--Diz elle que tem durante muitos annos empregado os maiores esforos
para te encontrar. Sabendo que est doente n'esta casa uma antiga amiga
minha, pensou que talvez fosses tu e veio interrogar-me a esse respeito.
Como se trata de um assumpto que pde ser de interesse e de utilidade
para ti, achei conveniente dizer-lhe a verdade...

--Queres, pois, que o receba?

--No t'o imponho, minha amiga. Mas creio que farias bem em o ouvir...

--Pois bem; faa-se a tua vontade...

--A minha vontade no. Aqui a unica pessoa a resolver e a decidir s
tu...

--Acho estranho esse caso de um desconhecido a procurar-me para me fazer
revelaes!...

--A mim parece-me a coisa mais natural do mundo. Todas as familias teem
segredos que s em determinados momentos julgam opportuno transmittir
aos que lhes succedem... Teu primo era intimo de teu pae, estava para
ser teu noivo... , pois, muito natural que, sabendo o estado gravissimo
em que se encontrava teu pae e perdida a esperana de tornar a vr-te,
encarregasse a um amigo a misso de um dia te esclarecer... E quem nos
diz a ns que este desconhecido vem talvez trazer-te a independencia e a
fortuna, quando tu menos a esperas?

Helena sorriu incredula.

--No creio--disse ella--mas seja o que fr, desde que se trata de um
segredo de familia, devo ouvil-o. Manda entrar esse homem.

D. Aurelia saiu e pouco depois dava entrada na camara da enferma o homem
dos oculos.

Helena, recostada n'uma cadeira de braos, encarou-o fito e no o
reconheceu.

O desconhecido inclinou a cabea n'uma saudao, e pareceu esperar que
D. Aurelia se retirasse.

--Fica!--pde ainda dizer Helena, tomada de subito receio, olhando para
a sua amiga.

--Perdo!--obtemperou o desconhecido.--O que tenho a dizer a v. ex.^a 
to importante segredo, que no pde ser ouvido por mais alguem.

--No tenho segredos para a minha amiga...

--Todas as pessoas teem segredos--insistiu o homem dos oculos--e se a
ninguem  licito devassal-os, menos licito se me afigura revelar os que
nos no pertencem. V. ex.^a no tem o direito de tornar publico um
segredo que lhe no pertence, que no  s seu, porque  tambem de sua
familia...

Estas palavras foram ditas com tal intimativa que Helena baixou os olhos
tremula e confundida.

--Este cavalheiro tem razo--disse D. Aurelia--Eu aguardarei na sala
proxima as tuas ordens, minha boa amiga... Escuta este senhor.

E sahiu.

Ento o desconhecido, avanando alguns passos no quarto, fitou Helena e
disse-lhe em voz soturna:

--No me conheces, Irm Dorotha, abadessa da Covilh? Sou eu, o teu
cumplice!

Helena fez um gesto de horror e soltou um grito abafado. Reconhecera no
homem dos oculos verdes o padre Hilario, o seu cumplice no assassinato
do padre Anselmo.

--No venho accusar-te pela maneira infame e ignobil como abusaste da
paixo ardentissima que a tua presena accendeu na minha alma, e menos
ainda do ludibrio de que me fizeste victima, obrigando-me a esperar-te
baldadamente na fronteira, onde prometteste que irias, reunir-te a mim.
Era justo que ao crime succedesse a expiao, e no haveria decerto
Providencia, se eu pudesse ser feliz comtigo. Fizeste de mim um
assassino miseravel, um perjuro, um parricida, Helena de Noronha. Tudo
isso te perdo. Sabes, porm, o que no te posso perdoar?  que ames
outro e com elle penses viver ainda feliz. Isso no. Julio de Montarroyo
no ser mais venturoso comtigo do que eu.

--Julio de Montarroyo!--balbuciou Helena aterrada--Quem lhe ensinou esse
nome?

--Eu sei todos os nomes que esto ligados  tua existencia, filha de
Norberto de Noronha, amante do padre Anselmo, me de Paulo de Noronha.
Sei tudo, que para outra coisa no tenho vivido ha dezoito annos,
rastejando como a serpente, ao peso do meu remorso. Quiz saber de ti,
quiz conhecer a que qualidade de mulher sacrifiquei a minha posio, o
meu futuro, a minha vida, a minha alma. E soube-o! Nada me resta por
saber. E, pois, que ainda na tua vida ha um lampejo de esperana, e na
tua alma um vinculo de affecto que te prende a alguem, eu venho dizer-te
que chegou a hora de partirmos. Jurei que no pertencerias a outro, que
no amarias outro, que nenhum homem ouviria de teus labios juras eguaes
quellas que de teus labios fementidos ouvi. Eis-me, pois, aqui, prompto
a cumprir o meu juramento. Queres obedecer a elle voluntariamente, ou
preferes o escandalo ruidoso, que nada remedeia e que te acompanhar
alem da morte? Vamos! fomos companheiros no crime;  bem que o sejamos
na expiao. Se tiveste coragem para matar, tel-a-has agora tambem para
morrer.

--Mate-me! mate-me!--soluou Helena, pondo as mos.

Ento o padre Hilario tirou do interior do casaco uma pequena caixa, que
abriu. Depois, tomando entre os dedos uma pastilha, disse:

--Eis aqui um veneno activissimo que dentro em duas horas ter cumprido
o seu dever, matando-te suavemente, sem uma agonia prolongada. At este
beneficio me deves, porque no quero que a morte te seja dolorosa.
Vamos! aqui tens a morte.

E offereceu-lhe a pastilha. Helena, sem a mais leve hesitao, acceitou
o veneno das mos do seu cumplice e tomou-o com assombrosa serenidade.

--Pago-te assim a minha divida--disse ella--Estamos quites. Se para me
ajudares a vingar do monstro que me perdeu tivesses exigido a minha vida
em troca, ter-t'a-hia sacrificado. Pediste, porm, o meu amor... e esse
eu no podia conceder-t'o... Mas era-me preciso vingar-me. Perdoa-me!

--Mas se eu te amo ainda!--exclamou o padre Hilario debruando-se no
leito e beijando-lhe freneticamente as faces e os olhos!--Amo-te e morro
feliz, sabendo que me precedes algumas horas na romagem mysteriosa do
tumulo!

Depois, com voz tremula em que havia toda a expresso de um infinito
amor:

--Irei comtigo, descana! Se no pude fazer que me pertencesses n'esta
vida, buscarei na outra ser teu companheiro de tormentos e penas
eternas! L nos havemos de encontrar.

Beijou-a ainda com louco frenesi e sahiu do quarto da enferma, sem
deixar transparecer na face impassivel a commoo que lhe agitava a
alma.

Duas horas depois, Helena de Noronha, tendo-se despedido de todas as
pessoas que lhe rodeavam o leito, morria tranquillamente, docemente,
como se a morte a fizesse cahir n'um somno doce e reparador.

Este inesperado desenlace surprehendeu a todos; mas ninguem ousou
suspeitar-lhe a verdadeira causa.

Julio de Montarroyo, cahindo n'um mutismo aterrador, velou-lhe o cadaver
e acompanhou-o  sepultura, frio e impassivel, como se fora um cadaver
tambem. Nem aos olhos lhe assomou uma lagrima nem de seus labios sahiu
um gemido, ao vr desapparecer para sempre no p da sepultura a face da
mulher que tanto amara!




Concluso


Um mez depois d'estes acontecimentos, madre Paula e padre Filippe,
regressando de uma mysteriosa visita ao convento da Covilh, mandaram
chamar Paulo de Noronha.

--Meu filho--disse-lhe o padre Filippe, apresentando-lhe um cofre de
ferro quadrado--eu e madre Paula temos at hoje sido depositarios de uma
fortuna que te pertence e que fomos encarregados de te entregar logo que
hajas attingido a maioridade e possas por lei dispr do que  teu. Esto
n'este cofre oitocentos contos que te pertencem. Como deliberaste unir o
teu destino ao de uma menina que desejas fazer tua mulher, julgamos do
nosso dever informar-te d'esta circumstancia, afim de que possas regular
com o pae da tua futura esposa as condies do teu enlace.

Paulo, attonito e mal podendo crr no que ouvia, encarava ora o padre
Filippe, ora madre Paula, sem poder articular uma palavra.

--Oitocentos contos!--balbuciou por fim.--E d'onde vem tanto dinheiro?

--De teus paes--respondeu madre Paula.

--Meus paes! E quem eram elles?--perguntou o mancebo, na esperana de
que, emfim, o segredo do seu nascimento lhe iria ser revelado.

--Nunca o sabers. Essa fortuna que elles te legaram no traz nome.
Designa-lhe tu, meu filho, um bom destino e uma applicao nobre e
justa.

Quando o mancebo retirou, louco de alegria a communicar a boa nova a
Beatriz, padre Filippe, voltando-se para madre Paula, exclamou:

--Como Deus  misericordioso e  justo! Esta fortuna, accumulada  custa
de crimes nas mos do padre Anselmo, vae agora, nas mos d'este rapaz
que  seu filho, ter um destino bem mais nobre e mais digno.

--Que o altruismo do filho possa ao menos redimir as torpezas e os
crimes do pae!--replicou madre Paula.

No dia em que Paulo de Noronha se unia a Beatriz, a contento do sr.
Custodio de Jesus, seu pretenso progenitor, recebeu madre Paula a
noticia de que Julio de Montarroyo se havia suicidado sobre a sepultura
da _Irm Dorothea_, legando uma parte dos seus haveres ao _mestre Tomba_
e a parte restante a D. Aurelia para obras de caridade.

E como os acontecimentos notaveis nunca veem isolados, o procurador
Belchior leu tambem n'esse dia, nas gazetas, a noticia de que Leonor,
que tanto se salientra no tragico suicidio de Eugenio de Mello, partira
para Lisboa em companhia de Joo Lazaro.

Do homem dos oculos verdes, o Mestre fundador da _Mo Negra_, nunca mais
Jorge, o amigo de Paulo, ouviu fallar, substituindo-o porisso na
direco da famosa sociedade secreta, que  hoje a mais florescente e
poderosa de todas as suas irms.

FIM




INDICE


                               PAG.

I--Os irmos da mo negra      5

II--Amor e esperana      23

III--Pae e filha      43

IV--Dois patifes      69

V--Madre Paula      78

VI-- hora da morte      87

VII--Tres miseraveis      103

VIII--Entre irmos      124

IX--Amores faceis      135

X--Para os grandes males      153

XI--Joo Lazaro      168

XII--Velhos conhecimentos      181

XIII--Denuncia      211

XIV--Miseravel!      239

XV--Conluio infame      255

XVI--O rapto      262

XVII--Quem semeia ventos      280

XVIII--Revelao      289

XIX--Um velho amigo      304

XX--Alma negra      317

XXI--Tal vida, tal fim      333

XXII--Mysterio      346

XXIII--Allucinao      357

XXIV--Extranho encontro      369

XXV--Pobre Helena      389

XXVI--Um amigo dos diabos      399

XXVII--Duas amigas      411

XXVIII--Corao morto      427

XXIX--Confidencias      436

XXX--Me      442

XXXI--O homem dos oculos verdes      452

Concluso      461




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.    8| ter fr             | te for               |
  |#pg.   17| a aquella           | aquella              |
  |#pg.   18| danda-nos           | dando-nos            |
  |#pg.   23| algum temdo         | algum tempo          |
  |#pg.   24| pancado             | pancada              |
  |#pg.   25| com                 | como                 |
  |#pg.   35| Na primeiro         | No primeiro          |
  |#pg.   43| pupilllo            | pupillo              |
  |#pg.   70| mefica              | me fica              |
  |#pg.   98| ella                | elle                 |
  |#pg.   99| pabre               | padre                |
  |#pg.  109| palava              | palavra              |
  |#pg.  111| famila              | familia              |
  |#pg.  112| devo ou             | devo eu              |
  |#pg.  127| circumstancios      | circumstancias       |
  |#pg.  140| continou            | continuou            |
  |#pg.  162| aprsentou           | apresentou           |
  |#pg.  164| auctoridado         | auctoridade          |
  |#pg.  169| importaacia         | importancia          |
  |#pg.  190| as as minhas        | as minhas            |
  |#pg.  194| muduram             | mudaram              |
  |#pg.  201| tembem              | tambem               |
  |#pg.  202| risonha             | risonhas             |
  |#pg.  223| dinheiro            | o dinheiro           |
  |#pg.  226| trasnporte          | transporte           |
  |#pg.  235| respendeu           | respondeu            |
  |#pg.  258| dm                  | em                   |
  |#pg.  260| mutio               | muito                |
  |#pg.  263| prepada             | preparada            |
  |#pg.  263| seguiramos          | seguiram os          |
  |#pg.  267| pergunou            | perguntou            |
  |#pg.  271| as sentidos         | os sentidos          |
  |#pg.  288| ciosa               | coisa                |
  |#pg.  310| o gente             | a gente              |
  |#pg.  311| semelhanle          | semelhante           |
  |#pg.  311| qne                 | que                  |
  |#pg.  315| esssas              | essas                |
  |#pg.  317| a molestias         | as molestias         |
  |#pg.  333| pelo colera         | pela colera          |
  |#pg.  344| Lenor               | Leonor               |
  |#pg.  350| desconhcida         | desconhecida         |
  |#pg.  357| horrrivel           | horrivel             |
  |#pg.  357| algnma              | alguma               |
  |#pg.  365| pssou               | passou               |
  |#pg.  366| ssforos            | esforos             |
  |#pg.  430| Juliod e            | Julio de             |
  |#pg.  442| fiho                | filho                |
  |#pg.  450| setas               | estas                |
  |#pg.  450| o reprimendas       | e reprimendas        |
  +----------+---------------------+----------------------+


Ao longo do texto original encontramos "..", num espao onde caberiam
reticncias ("..."): assumi tratar-se de um erro tipogrfico,
substituindo os dois pontos horizontais por trs.

Noberto e Norberto so variaes constantes da mesma palavra, a manter
de acordo com o original. O mesmo acontece para as palavras Laura e
Leonor, que se identificam como sendo a mesma personagem.

Os nmeros dos captulos foram alterados a partir do captulo XIII (no
original captulo XIV da pgina 211), uma vez que houve um erro
confirmado com a ordem correcta do ndice.

Foram acrescentadas aspas de fecho quando estas no existiam e onde
faziam falta, por terem sido iniciadas e no terminadas.

Foram acrescentados travesses quando se mostraram necessrios e
vice-versa.





End of the Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by 
Antnio da Costa Couto S de Albergaria

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ***

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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
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work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
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