The Project Gutenberg EBook of Jos Estevo, by Eduardo de Souza

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Jos Estevo
       (Edio do centenario)

Author: Eduardo de Souza

Release Date: February 15, 2008 [EBook #24620]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JOS ESTEVO ***




Produced by Pedro Saborano





Eduardo de Souza

Jos Estevo

(Edio do centenario)

Livraria Moreira-Editora

Porto--1909




Eduardo de Souza

Jos Estevo

(Edio do centenario)

Livraria Moreira-Editora

Porto--1909


_Typographia a vapor de Arthur Jos de Souza & Irmo_

66. Largo de S. Domingos, 67




QUINZE ANNOS DEPOIS


Passa o primeiro centenario de Jos Estevo e a sua terra natal
celebra-lhe com festivaes a commemorao de gloria. Era do seu dever. Era
de honra sua.

Eis porque tambem sahe agora a lume a reproduco--segunda--d'essas
sinceras e desataviadas palavras que uma vez, por occasio das ultimas
festas commemorativas do grande tribuno, o signatario d'este opusculo
teve ensejo de pronunciar no Theatro Aveirense. Foi no radioso e, para
elle, inolvidavel sarau de 13 de agosto de 1894, to cheio de galas e
d'esplendores, e em que a unica nota discordante, gentilmente perdoada
pela benevola assistencia, foi precisamente devida  palavra pallida e
sem louanias do ephemero e arrojado orador que alli appareceu--nem elle
j se lembra bem como!--a dizer de Jos Estevo e da sua grande
eloquencia.

, pois, esta reedio, agora que passa o centenario do tribuno, do
mesmo passo que uma opportuna homenagem, como que tambem uma especie de
publicao posthuma feita por quem, como orador, ha muito j se deu por
definitivamente morto. Sobre o seu nome oratorio, fruste e fugaz, cahiu
com justia e, porventura, com piedade, a irremovida, a grossa, a pesada
terra do esquecimento. Felizmente para elle! Felizmente para os outros!

Todavia, se requintes litterarios e movimentos oratorios, como
conspicuamente se dizia nos bons tempos em que o ominoso e erudito
Figueiredo coimbro dos Logares Selectos empunhava com gravidade a
frula didactica de canonista supremo em coisas de eloquencias e de
rhetoricas, no caracterisam nem valorisam a parlenda que adeante se
reproduz, tem ella, no emtanto, o merito--unico--da sinceridade na
emoo e do desassombro nas affirmaes que contm. Porque, se para o
orador foi um acto de audacia, s desculpavel pela temeridade da
juventude, apresentar-se a fallar em publico no logar e nos termos em
que fallou, no foi menos um ousado gesto de coragem civica abalanar-se
a dizer o que disse e quando o disse--em plena dictadura
Hintze-Franco--com a aggravante de pouco tempo ser volvido ainda sobre o
sangrento e mallogrado movimento politico do Porto que o arrastara ao
pretorio, e do pretorio  priso. Demais era elle um alumno militar e,
como tal, sujeito a regulamentos especiaes, alis ento bem mais
benignos do que esses outros, verdadeiramente draconianos, que ora para
ahi vigoram como doutrina legal.

Eis aqui os titulos pelos quaes essas paginas que adeante vo impressas
ainda hoje so muito gratas ao auctor, e o principal motivo porque elle
as reedita, concorrendo assim mais uma vez com o seu modesto tributo
para a glorificao do portentoso tribuno liberal.

Publicadas pouco depois em opusculo, completamente esgotado e esquecido
j, essas paginas, desvaliosas como so e como desvalioso ao tempo
era--e ainda hoje --o seu auctor, nem por isso a dictadura d'ento
deixou de procurar molestal-o, _sob a falsa denuncia official_, d'elle
haver proferido o seu discurso, se assim se lhe pde chamar, n'um...
comicio republicano!

Por esse motivo foi elle chamado a Lisboa  presena do Commandante
Geral da Armada,--era assim que ento se dizia--o vice-almirante
Baptista d'Andrade que, depois de o ouvir, o mandou tranquilla e
amavelmente em paz, quando se inteirou de que o feroz tribuno para o
qual se lhe insinuavam as fulminaes das suas reprimendas ou
procedimento mais grave ainda, se limitara, no pleno uso do seu direito
e sem aggravo da disciplina, a tomar parte n'um sarau litterario-musical
promovido por uma commisso de que era presidente o governador civil de
Aveiro e ao qual este mesmo presidira, sendo at, por signal, o primeiro
a felicitar calorosamente o orador pelo seu discurso, sem duvida
impulsionado n'esse acto cortez mais por um requinte de benevola
gentileza, do que por quaesquer problematicos meritos oratorios que
n'elle vislumbrasse...[1]

Os tempos eram ainda ento um pouco diversos dos de hoje, como se v, e
os homens em evidencia nos meios politicos, algo mais toleraveis, em
regra, na sua estatura mental e moral do que a grande maioria dos
d'agora.

Se at os proprios rapazes das escolas--os do _Ultimatum_, os d'essa
gerao academica a que o auctor pertenceu--eram todos mais ou menos
como elle, desinteressados, desempennados, enthusiastas, irreverentes,
saccudidos por fremitos generosos, susceptiveis dos mais ousados
movimentos, como dos mais tresloucados disparates. Se at pensamos muito
a serio em organisar um batalho academico que fsse expulsar os
inglezes do Chinde, comeando mesmo a fazer-se uma inscripo especial,
que mais vante no foi pela sensata interveno do governo... Sem
duvida, que eramos todos ingenuamente patriotas e candidamente
democratas!

Novos, muito novos que ento eramos, seguramente! Mas j tinhamos
devorado todos os grandes Romanticos; e, se na nossa alma vibratil
encontrara um echo apaixonado a inspirada cano alacre de Mimi, tambem
o nosso corao palpitara ardentemente com os stos inflammados
d'Enjolras, soberbo e loiro, juba ao vento, trepando por entre fumo e
balas ao alto da barricada...

Novos, muito novos que ento eramos, seguramente! Mas conheciamos todo o
movimento litterario, scientifico e artistico contemporaneo. Poderiamos
ignorar, por ventura, no poucas vezes, as lies estopantes dos
compendios da aula; mas o que, com certeza no ignoravamos, eram as mais
modernas estrophes de Moras e Verlaine, toda a obra poetica dos
_parnasianos_, os poemas marmoreos de Leconte de Lisle, e as rimas
acirrantes e esplendidas de Baudelaire. Os nomes de Flaubert e dos
Goncourt no sahiam das nossas boccas, n'uma encantao perenne; e era
com uma anciedade viva, com um fervor religioso, que aguardavamos os
volumes mais recentes de Bourget e Daudet e da galeria gigantesca dos
Rougon-Macquart. _Germinal_ desabrochara e florira para ns n'um Sinai
de fulguraes e assombros...

Novos, muito novos que ento eramos, seguramente. Mas entre ns havia, e
em no pequena cpia, quem folheasse febrilmente todo o pensamento
contemporaneo--os philosophos, os sociologos, os naturalistas... A
anthropologia e a prehistoria tinham, nos nossos grupos, ferventes
cultores. Fundavamos associaes scientificas, como essa que se formou
sob a invocao do nome glorioso de Carlos Ribeiro. Tinhamos revistas
litterarias e revistas de sciencias; e redigiamos jornaes de combate.
Eram da nossa _souche_--para s fallar dos mortos--poetas como Antonio
Nobre, publicistas e ethnographistas como Rocha Peixoto, jornalistas
como Hygino de Souza...

Por isso o brusco advento da Republica Brasileira fra para quasi todos
ns uma revelao e uma iniciao, gerando a esperana que nos inspirou
e acalentou quando a affronta do _ultimatum_ inglez nos feriu at ao
corao e nos pungiu at s lagrimas e... at  clera. E vibramos, e
protestamos, e actuamos to intensamente que seduzimos e attrahimos at
ns, como guias e como balses de redempo e luz, poetas e pensadores
formidaveis, como Anthero e Junqueiro...

Novos, muito novos que ento eramos, seguramente. Mas j as Farpas
haviam sido a nossa biblia. Com ellas aprenderamos a zombar dos nossos
_grandes homens_ que ento ainda davam as cartas na sociedade e na
politica. Com ellas haviamos lobrigado, dentro dos seus vultos
magestosos e imponentes, a estopa misera e ridicula que os enchia e
atufava...

O Ea tinha-nos modelado e descoberto j tambem, com a sua subtil arte
incomparavel de ironia e belleza, o conselheiro Accacio--esse
symbolo!--que ns viamos irreverentemente em toda a parte e em todos os
grandes logares, perseguindo-o com a nossa troa implacavel, com a nossa
galhofa insultante e cruel--no parlamento, na burocracia, na cathedra e
no jornalismo...

Ai de ns! ai de ns! que vamos envelhecendo e que todos pouco mais ou
menos ento assim fomos, vibrantes e combativos, vivendo no azul dos
grandes ideaes, nutrindo-nos, cheios de crena, de todas as espirituaes
curiosidades luminosas! Ai de ns! ai de ns! que assim fomos, quando
eramos novos, mas que nada tinhamos de mesquinhos e de subservientes,
tendo feito da rebellio um culto e da irreverencia uma catapulta! Ai de
ns! que, se temos de chorar hoje a nossa mocidade que l vai, de
revivl-a com os olhos humedecidos d'agua, e--como diz o poeta--

    _...volver para traz o nosso olhar plangente,_
    _Para traz, para traz, para os tempos remotos,_
    _To cheios de canes, to cheios de embriaguez,_
    _Porque, ai! a juventude  como a flr do lotus_
    _Que em cem annos floresce apenas uma vez!_

ai de ns! que, se assim temos de carpir esses dias cheios, bellos e
irradiantes, no temos felizmente de amaldioar, n'um arrependimento, os
nossos ideaes d'ento, as nossas crenas, os nossos odios e mesmo as
nossas loucuras. Da sua memoria ainda hoje vivemos, no seu enlevo ainda
hoje nos consolamos, a sua saudade ainda hoje nos inspira. Porque, se
somos ainda hoje intransigentemente liberaes e firmemente democratas, 
porque muito grande foi a nossa esperana e muito vivo o nosso ardor. E
ante as geraes que nos succederam, creadas, como ahi se est vendo,
precisamente no culto do conselheiro Accacio--o conselheiro Accacio, o
nosso supremo odio!--timoratas, respeitadoras, tementes a Deus e 
Ordem, genuinas filhas da lei escolar do snr. Joo Franco e do
aambarcamento didactico de Loyola e S. Thomaz, ns, que nos
consideravamos to pequenos j em face das duas geraes egregias que
immediatamente nos haviam precedido, forados somos agora  amarga
decepo de termos de nos considerar comparativamente grandes, ao
conspecto da miseria que por ahi vai d'uma mocidade de velhos precoces e
calculistas, sem alres, sem norte, sem vertebras, conselheiros _in
herbis_, archeiros por vocao e sachristes ingenitos, irmos de
confrarias e confrades de Ligas conservadoras, deixando-se arrastar at
 ignominia suprema de acatarem como mentor um velho beato como o snr.
Samodes e de seguirem docilmente, como a um cornca, ao festejado e
festeiro meu caro Lencastre--dos vivas e das viajatas...

Que enorme distancia moral entre 1890 e 1909!

      *      *      *      *      *

Mas agora reparo que j vae longa esta prefao, bem mais longa do que
minha inteno era ao traar-lhe as primeiras linhas. Prolixidades e
rabujices, sem duvida, de quem comea a envelhecer e que s
verdadeiramente ainda sente e vibra, ante a desconsolao do presente,
com a emotiva saudade do passado que, a cada dia que foge, mais e mais
se afunda no occaso. O leitor benevolo desculpar, porm, o
comprehensivel e perdoavel desabafo, tanto mais que, quando os _novos_
hoje se apresentam degenerescentemente velhos, no deve ser d'estranhar
que, ao menos _por honra do convento_, aquelles que j attingiram a
altura da vida d'onde comea a avistar-se a declinao do poente, como
que se sintam obrigados a lembrar-lhes o quanto e como fram moos e a
mostrar-lhes o quanto ainda de mocidade lhes resta nas bastantes
energias.

E a opportunidade do centenario de Jos Estevo  flagrante para o
proposito. D'ahi a resurreio d'esse discurso que adeante se estampa.

Como ha quinze annos, na carta ao dr. Mello Freitas, posso e devo ainda
hoje repetir, por minha parte, na actual consagrao centenaria de Jos
Estevo e perante o movimento liberal que se define e ella testemunha, o
que eu ento dizia, concluindo:--No defino a minha
attitude--confirmo-a.


Porto, 17--XII--1909.

                                                       _Eduardo de Souza._




AO DOUTOR

Joaquim de Mello Freitas

Synthetisando a commisso organisadora do sarau

                                                                Homenagem.




                                                              _Meu amigo:_


_Se a memoria de amabilidades e attenes que no mereci, mas que
penhoraram a minha gratido, no impuzesse acima de todas as
consideraes esta dedicatoria, bastariam a justifical-a o seu nome to
popular e to querido em Aveiro, a sua limpida tradio de democrata
intransigente e os seus incontestaveis talentos de periodista illustre._

_Bem sei que, se quizerem apreciar as palavras que adiante seguem
atravez do prisma de merecimentos litterarios que totalmente as
desguarnecem, ellas nada valero; todavia em algum conceito as podero,
acaso, conservar as consciencias honestas e os leaes coraes, se, por
ventura, em parlendas d'esta natureza, de alguma cousa valem sinceridade
e desassombro. Proferidas ha apenas quatro mezes, em periodo franco de
dictadura, talvez que ellas nunca mais sahissem  publicidade se a
reaco politica se no accentuasse agora, dando-lhes, portanto, uma
opportunidade nova._

_Circumstancias especiaes, que todos os que me conhecem podem apreciar
devidamente, impr-me-hiam talvez a conveniencia de me acingir a um
palavroso e esteril discurso academico, se para isso as minhas apoucadas
foras dessem; mas, fallando-se de Jos Estevo, o grande tribuno da
Liberdade, o meu corao de patriota impunha-me o dever, que
singelamente cumpri, de lavrar um vibrante protesto contra essa
regresso triumphante que, dia a dia, se vae affirmando._

_Felizmente que, no momento em que escrevo estas linhas, so chamados
todos os liberaes a definir a sua attitude na defeza das liberdades
esmagadas... Eu no defino a minha--confirmo-a._

_Creia-me sempre, caro doutor,_

_Porto, 11--XII--94._

                                                 _Seu am.^o m.^to obg.^do_

                                                       _Eduardo de Souza._




                                        _Minhas senhoras e meus senhores:_

Ha cinco annos, n'este mesmo logar, mergulhado na obscuridade de onde
talvez o meu nome nunca devra ter sahido, assistia eu  brilhante
glorificao do filho mais illustre d'esta terra,  apotheose magnifica
de uma das mais nitidas e mais crystallinas glorias da nossa patria.
Aveiro pagava ento a Jos Estevo a sua divida de honra e de gratido,
levantando-lhe essa estatua que, l fra, n'um amplo e arrojado gesto,
parece atirar aos espaos alguma d'essas apostrophes de lava que faziam
a maravilha e o assombro de uma eloquencia como outra ainda no houve
mais.

Para aqui, para o logar em que me encontro agora, destacara ento o povo
dous dos seus mais queridos e mais ardentes tribunos, de um dos quaes
Aveiro se honra e se orgulha, tambem, por certo, de ser adoptivo
bero[2]; a tribuna parlamentar enviara uma das suas mais firmes e mais
bem merecidas reputaes, lustre do fro, mestre na jurisprudencia[3]; e
a arte inimitavel da palavra, a fina e perturbante eloquencia que seduz
e domina como os canticos magicos e traioeiros das sirenas, aqui puzra
a voz mais captivante da moderna oratoria portugueza. Em Antonio
Candido, meus senhores, na sua attica eloquencia, repassada d'um mundano
e amavel scepticismo, infelizmente desgarrada dos magnos principios em
que os grandes coraes e os fortes espiritos se robustecem e se
retemperam, encontrou a grande, a extraordinaria voz de Jos Estevo,
to repassada de corao, to espontanea de sinceridade, to consciente
de justia, a consagrao mais encantadora que palavra de artista pago
entretecer pudera com o nectar dulcissimo dos deuses e as notas mais
harmoniosas que lhe trouxessem os echos perdidos da j longiqua gora
hellenica. Ao enorme orador-prodigio o magico orador-artista thuribulava
ento a gloria. A Demosthenes morto, mas redivivo nos espiritos e nos
coraes, dir-se-hia que Eskines porfiara em levantar o monumento mais
magnificente na orao a mais offuscante... Aqui tambem, meus senhores,
o filho de Jos Estevo, como se j lhe no bastasse a lyra; como se o
romance ainda pouco fsse para lhe realar o nome feito de poeta; como
se a imprensa se lhe antolhasse ainda campo em demasia estreito para o
seu querer sempre inquieto; procurando novos horisontes  sua
intelligencia insatisfeita, arcando com o peso incommensuravel d'uma
gloria herdada, ousou por um momento remexer nos paternos loiros; e da
sua orao opulenta ainda eu guardo, senhores, ainda guardaes vs
outros, por certo, a recordao do frmito enthusiastico com que lhe
saudamos o arrojo no deslumbramento da victoria.

E hoje, meus senhores, hoje... estou eu aqui, na oratoria mesquinho,
modesto na intelligencia, e, com um nome obscuro, ouso enfileirar-me ao
lado de collegas meus que, em Coimbra e no Porto, conseguiram j
aureolar seus nomes n'um diluculo brilhante promettedor das mais
esplendidas manhs no talento e no trabalho. E porque vim eu aqui?
Porque me pareceu que esta era uma festa da Liberdade, e, como n'uma
epocha em que as liberdades vo sendo cerceadas,  perigoso saudar a
Liberdade e pugnar pelos seus direitos, eu vim aqui! Vim aqui, senhores,
porque nos termos penhorantes, impressivos, instantes com que me honrou
o immerecido convite de collegas meus nas escolas e vossos conterraneos,
eu quiz vr a indicao de um arduo dever a cumprir. E, se nos talentos,
se nos meritos, eu me reputo dos derradeiros, na sinceridade, na
dedicao, com orgulho reclamo um dos primeiros logares para mim. Por
isso  que eu estou aqui.

      *      *      *      *      *

Meus senhores:  nos periodos mais agitados da historia dos povos,
quando os principios se degladiam mais rudemente, quando as paixes
desencontradas se precipitam na mais accsa lucta, ou quando as
nacionalidades perigam n'alguma d'essas crises agonicas de onde surgir
a sua morte ou a sua revivescencia que os grandes oradores, as vozes
extraordinarias que dominam e arrastam, que captivam e seduzem, que
subjugam mais do que convencem, estrugem tambem sobre as multides
incertas, levando-as  deciso suprema que determinar a orientao
futura. N'essas vozes sem par, que ainda ficam resoando atravez dos
tempos, quaes clanglres heroicos de trombeta, mais altos, mais sonoros
na amplificao formidavel das eras que sem cessar se desdobram e
continuam, sente-se palpitar a carne viva das ideias, sente-se correr
impetuoso, o quente, o rubro sangue da patria.

E assim, na Grecia,  a voz severa de Demosthenes que se ergue deante da
politica absorvente de Filippe. E s bellas cidades gregas, s perolas
da Hellade, onde pela primeira vez floriu a Liberdade; onde o mel divino
escorria suavissimamente dos labios encantados de Plato; onde a frma
attingia a sua mais sublime essencia no cinzel perdido de Phidias, e
onde Phryna, a belleza suprema, prostrava a seus ps, vencida e
deslumbrada, a fria e severa justia;--s bellas cidades gregas que as
primeiras foram que inspiraram, que ouviram e que cantaram as rhapsodias
sublimes de Homero errante;--s bellas cidades gregas, queridas dos
deuses, banhadas pelos mares azues que viram passar as velas enfunadas e
aventurosas dos argonautas, e de cuja branca espuma, fina como as
rendas, suave como os velludos, se formou o corpo fresco e bello e vivo
da Venus Amphytrite;--s bellas cidades gregas, desunidas e descuidadas,
immersas nos requintes e na molleza da mais refinada civilisao,
scepticas, epicuristas, sensuaes, o verbo flammejante de Demosthenes,
sobrio, implacavel de razo e de justia, impetuoso e ardente, chama 
lucta pela Liberdade e pela Independencia, acorooando as energias
abatidas, pregando a religio do dever civico, da honra e da dedicao 
patria. E, quando em Cherona as hostes do macedonio abateram por fim a
democracia hellenica, a sua voz resurge no desastre, mais vigorosa, mais
ardente, mais sublime, encontrando na dr e na indignao a sua mais
excelsa nota, e, por toda a Grecia, perante a victoria de Fillippe,
perante o dominio omnipotente de Alexandre, por todas as cidades, por
todas as ilhas, por todos os recantos do continente e por todos os echos
dos mares onde outr'ora resoara a voz do rhapsodo sublime, o verbo do
orador resoou tambem, sublimemente, resumindo a alma moribunda da
Grecia, fazendo  liberdade da patria as exequias mais portentosas e
dando ao espirito grego o mais assombroso epitaphio--o unico digno dos
hexametros de Homero...

 tambem nos ultimos periodos da Republica Romana, quando a velha, a
barbara cidade de Romulo; a republica severa dos Cincinnatos e dos
Cates, senhora do mundo; tendo levado as suas legies victoriosas de
norte a sul, de oriente a occidente, destruindo imperios, subjugando
povos, escravisando reis; vencedora de Hannibal e de Carthago; opulenta,
magnificente, faustosa; apopletica de riquezas e anemica j de virtudes;
quando os famintos, os rotos, os miseraveis, os ns se levantavam
reclamando o seu magro quinho nos thesouros fabulosos dos Crassos e dos
Lucullos; quando Sylla havia j raivado n'uma furia de perseguies e de
sangue, e Mario, desterrado, fra acabar nas solides de Minturno; 
ento que a voz de Cicero, cheia de finura e de encantos, d'uma subtil
argucia posta ao servio de uma obra de justia, rendilhada, fina,
irresistivel echoou pela primeira vez no Forum, encadeiando nas suas
graas a vingana impendente do Dictador.--E, quando a liberdade romana,
prestes a succumbir perante as machinaes da tyrannia, se defendia
n'uma lucta derradeira; quando o espectro do cesarismo se erguia j
ameaadoramente, levado de roldo nos borbotes da anarchia pleba, essa
voz encantadora, para prolongar a existencia da Republica agonisante, do
fundo da sua alma, arranca no Capitolio a objurgatoria mais vehemente
que os annaes do Lacio proclamam.

 pela voz de Mirabeau que a Revoluo troveja, n'um cyclone pavoroso de
eloquencia, destruindo, arrastando, subvertendo pelas suas bases
seculares toda a sociedade velha. Nas suas phrases torrentuosas, cheias,
em catadupa, alargando-se n'um estuario caudaloso de reclamaes e de
protestos, sente-se penetrar finalmente o povo em vagalhes escumantes
na posse dos seus direitos, rtos os diques dos preconceitos e das
castas. No  um homem, no  um povo que falla,--diz um poeta
enorme,-- um acontecimento.

E quando a Republica periga; quando os conluios dos reis ameaam de
todas as partes as conquistas do direito; quando por todas as fronteiras
da Frana o inimigo invade o territorio, numeroso e terrivel; no meio da
anciedade publica, dominando os pavores, confortando os animos,
levantando os coraes, empolgando tudo, do alto da tribuna da
Conveno--esse assombro!--energico, heroico, sublime, Danton proclama e
decreta a victoria, e d  Frana, d  Republica, d  Liberdade, o
mais maravilhoso exercito que o mundo viu!

 tambem, entre ns, depois que os combatentes pela Rainha e pela Carta
depuzeram as heroicas armas triumphantes, que apparece esse orador
extraordinario, o artilheiro _sans peur et sans reproche_ das linhas do
Porto, que havia de levar aos mais altos cimos, nunca depois ainda
attingidos a gloria da tribuna portugueza.

      *      *      *      *      *

Eu no quero de frma alguma, meus senhores, apresentar-vos aqui a
biographia d'esse varo notavel, o mais illustre d'entre todos os vossos
conterraneos de todos os tempos, aquelle que tanto amou a sua terra
natal que pde afoutamente dizer-se que  a Jos Estevo que Aveiro deve
ainda hoje a importancia que logra entre as outras cidades do paiz.
Trabalho escusado e impertinente seria esse, pois que a sua vida todos
vs a conheceis, pois que os echos das suas oraes formidaveis ainda
hoje soam aos ouvidos de todos vs, pugnando sempre pelo direito e pela
justia, pela liberdade e pelos principios democraticos, combatendo
incessantemente todos os privilegios e todas as oppresses,
constituindo-se o homem ligio, a sentinella sempre viva, sempre
vigilante, sempre lerta das reclamaes do povo contra as tentativas
sempre incansaveis, pertinazes e incessantes dos inimigos da
Civilisao, na sua obra de treva e de retrocesso.

E assim era preciso que fsse; assim era preciso que elle se inspirasse
nos grandes sentimentos collectivos, nas profundas catastrophes
nacionaes, nas justas e imprescriptiveis reivindicaes de todas as
franquias populares para que a sua voz soasse to alto e to
longinquamente que ainda hoje os nossos applausos, os nossos
enthusiasmos, as nossas admiraes a vo seguindo na sua asceno
luminosa e crescente aos pramos azues e sem termo da posteridade.
Porque  preciso que se no esquea, porque  preciso que fique mais uma
vez bem gravado nos espiritos, que s so verdadeiramente
extraordinarios, que s teem direito a merecer e a conquistar os
suffragios implacaveis e justiceiros do futuro, aquelles que applicam
desinteressadamente a sua intelligencia, a sua palavra, a sua vontade e
o seu corao  defeza de uma obra de Bem e de Verdade.

Para receber as honras do Pantheon da historia necessario  que se tenha
mergulhado fundamente, sem segundo sentido, lealmente, nas aguas sempre
vivas e fecundas das aspiraes populares, porque  na beno dos
desherdados, nos applausos dos que labutam incessantemente de sol a sol,
dos que soffrem, e dos que so esmagados sem justia nas luctas
implacaveis da existencia que se vo constituindo as apotheoses do
porvir. E justo  que assim seja, porque seria a verdade uma fico,
porque seria a moral a mais odiosa, a mais cynica, a mais repellente de
todas as mystificaes, se houvessem decisivamente de triumphar aquelles
que tudo sacrificam ao successo ephemero d'um dia e no os que, no culto
sincero dos generosos principios, acham no corao e na consciencia a
fora que os anima a arrostar os embates da adversidade e as
perseguies mesquinhas dos odios desencadeiados e victoriosos...

E Jos Estevo foi assim. Se incandescente foi a sua palavra, se vasta
foi a sua intelligencia, mais incandescente, mais vasto foi ainda o seu
corao. E, d'ess'arte, a palavra sem egual que fez o libello dos
ambiciosos mesquinhos, dos pardos aventureiros que, inspirados nos
conluios das camarilhas, apoiados na fora tyrannica e brutal das
baionetas, protegidos pelos incensorios mysticos das sachristias,
servidos pelo oiro vil illicitamente arrancado s necessidades e s
miserias crescentes do paiz, sempre entre ns conspiraram para,  sombra
do manto regio, firmarem sobre o cadaver das regalias publicas o poderio
d'um throno que se diz de origem popular; aquella palavra que arrancou
ousadamente a mascara a esse sophisma que se chama a _Carta_, apodando-a
justamente de mentira e accusando-a de no ter realisado nenhuma das
condies do systema representativo, o que ns hoje estamos vendo 
saciedade; aquella palavra to prestigiosa e que to nobremente
condemnou aquillo a que tambem chamava a tyrannia mansa exercida em
nome da legalidade; que pedia a liberdade para o jury, a liberdade para
a urna, a liberdade para a administrao local; que queria a imprensa
sem peias, e para os seus exageros, sujeital-a, quando muito,  livre e
desassombrada apreciao dos jurys criminaes; que sempre considerou como
um sagrado direito o mais amplo uso da reunio e da associao; aquella
palavra que sempre se rebellou contra todas as leis de excepo por
perigosas, por iniquas, por levarem sob a capa da justia os rancres
mal disfarados da vingana; que dizia que para sujeitar o paiz ao jugo
estrangeiro mistr  primeiro subjugal-o com leis duras e annular a sua
vontade nos negocios publicos; aquella palavra, to nobre, to
alevantada, to ardente, que , s por si, o mais solemne e vehemente
protesto contra os manejos audaciosos e impudentes d'aquelles que
pretendem amordaar a expresso da livre voz das tribunas populares, e
que bastou para levar um momento de vencida as hostes quasi triumphantes
da reaco clerical; aquella palavra, magestosa como os oceanos
rugidores, que  rica,  poderosa,  insacivel Inglaterra castigou um
dia, levantando a toda a altura a justia do nosso direito contra a
affronta que a _sempre fiel alliada_ dos nossos reis tinha vilmente
inflingido  nossa bandeira, nos mares de Africa, accusando-a de
acobertar a escravatura negra; aquella palavra d'uma to rasgada
envergadura, d'uma colera to sublime, d'uma to tempestuosa indignao,
que conseguiu vingar a honra da patria, respondendo com os raios de
Isaias s imposies iniquas e deshonrosas das aguias do Imperio
Francez, quando, partidas de Cherburgo, criminosas j de terem
estrangulado  traio n'uma emboscada nocturna as patrias liberdades,
vieram ao nosso Tejo, minazes e arrogantes, confirmar a sua deshonra,
roubando-nos a sinistra barca negreira que os nossos marinheiros haviam
apprehendido em incontestavel e vergonhoso trafico; aquella palavra
immensa, to vibrante, to commovida, to ousada, s podia com certeza,
senhores, ser animada por uma alma leonina, s podia, com certeza,
senhores, ser aquecida por um extraordinario corao!

Mas o meu fito, vindo aqui, no foi, como j tive a honra de vol-o
dizer, ensinar-vos o que foi o mais illustre dos vossos conterraneos e
qual o grande papel que elle desempenhou nos recontros da Liberdade; mas
to s o fazer-vos notar bem nitidamente a responsabilidade historica
que a cidade de Aveiro assume n'este momento, commemorando o nome de
Jos Estevo.

Commemoraes d'estas, ou so ficticias e cahem de per si no ridiculo e
no desprezo do tempo, ou teem, como devem ter, a inspiral-as e a
dirigil-as algum superior e elevado pensamento.

A meus olhos  significativo e solemne o momento em que esta
commemorao se faz.

Quando ha portuguezes nos desterros de Africa e nas amarguras do exilio
que ainda soffrem duramente as consequencias de um corajoso e mal
succedido impulso que os levou a romper as fronteiras da legalidade, a
qual  muita vez a mordaa do direito; quando o pensamento  apenas
tolerado e as liberdades publicas so consideradas como alto favor dos
dirigentes; quando, olhando para a tribuna parlamentar, ella se v
deserta e chega mesmo a parecer que ella  morta; quando a reaco
clerical vae j, ousadamente, dispondo com espavento as suas foras 
plena luz do sol, merecendo at os applausos e as adheses officiaes;
quando a Inglaterra nos enxovalha mais uma vez com o mais cynico
desplante; quando a Allemanha entra tambem pelos nossos dominios
descurados e ahi se estabelece, d'elles aferrando um largo torro nas
suas garras rapaces; quando a Frana, rompendo com as suas tradies de
cortezia, nos trata duramente e com o pungente desdem de crdor poderoso
para com devedores trapaceiros; quando o Brazil, senhores, o Brazil que
ns descobrimos, o Brazil a que tantas tradies de gloria, de sangue,
de affectividade e de interesses nos prendiam e prendem ainda; o Brazil,
ferido na sua hospitalidade, affrontado no seu pundonor, expulsa
summariamente dos seus territorios a nossa bandeira; quando tantas
calamidades e tantas vergonhas se succedem incessantemente n'um
turbilho mais vertiginoso que o dos mortos no celebre _lied_ allemo;
vir commemorar o nome de Jos Estevo implica fatalmente a indicao
para se organisar quanto antes e com a energia das supremas crises o
patriotico movimento que nos redima e arranque a esta apathia miseravel
em que vamos vegetando.

E no se diga que somos um pequeno paiz, fraco e exposto a soffrer
sempre sem protesto os vexames das poderosas naes; como disse Jos
Estevo, nas naes pequenas no se avalia a sua grandeza seno pela
grandeza dos seus ministros; quanto mais pequenos so os seus estados,
mais foroso  que mais importantes, mais honestos, mais dignos sejam os
homens que se encontram  frente dos seus negocios.

 isto que se me offerece dizer agora que se evoca a memoria do soldado
da Liberdade, do sublevado de Almeida, do combatente do Vizo. E se isto
assim no fr, senhores, uma coisa s nos resta--morrer de ignominia...


    [1] Tratava-se d'uma denuncia enviada ao ministerio da guerra de que
    ento era ministro o snr. Pimentel Pinto e que este communicara ao
    ministerio da marinha, cujo titular era Ferreira d'Almeida. Quando o
    auctor d'este opusculo, a esse tempo aspirante a facultativo do
    ultramar e alumno da Escola Medico-Cirurgica do Porto, se retirava
    do Commando Geral, foi chamado ao ministerio da marinha onde o chefe
    do gabinete do ministro, o fallecido Sergio de Souza, ento capito
    de mar e guerra, lhe communicou, por ordem do mesmo ministro,
    aquelle facto, mostrando-lhe a respectiva denuncia, cuja
    assignatura, cautellosamente e como era, alis, do seu dever, lhe
    occultou. Por essa occasio felicitou-o tambem em seu nome pessoal e
    em nome do ministro pelas explicaes dadas ao almirante Baptista de
    Andrade, accrescentando que o ministro no desejava de frma alguma
    que se suppozesse ter partido d'elle a iniciativa do procedimento
    havido.

    E no partira, com effeito, como mais tarde o auctor apurou. A
    denuncia fra enviada do Porto e o denunciante tinha esporas e
    gales de official do exercito. Fiquemos por aqui, como castigo
    bastante, embora generoso, para o villo...

    [2] Os drs. Manoel de Arriaga e S. de Magalhes Lima.

    [3] O conselheiro J. Dias Ferreira.





End of the Project Gutenberg EBook of Jos Estevo, by Eduardo de Souza

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JOS ESTEVO ***

***** This file should be named 24620-8.txt or 24620-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/4/6/2/24620/

Produced by Pedro Saborano

Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
